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Full text of "Retalhos de verdade;"

liÉ Éli Isfis Pereira 




OBRAS DE GAHILLO CASTELLO BRANCO 



Edição popular das suas principaes obras em 8o volumes 

in-8.°, de 200 a 300 paginas 

impressa em bom papel, typo elzevir 



1 — Coisas espantosas 

2 — As três irmana. 

3 — À engeitada. 

ó — Doze casamentos felizes. 

5 — O esqueleto. 

6 — O bem e o mal. 

7 — O senhor do Paço deNinães. 

8 — Anathema. 

9 — A mulher fatal. 
10 — Cavar em ruinas. 

11» 12 — Correspondência epis- 
tolar. 

13 — Divindade de Jesus. 

14 — A doida do Candal. 

15 — Duas horas de leitura. 

16 — Fanny. 

17, 18 e 19— Novellas do Minho. 
2) t 21 — Horas de paz. 

22 — Agulha em palheiro. 
2$ — O olho de vidro. 

24 — Annos de prosa. 

25 — Os brilhantes do brasileiro. 

26 — A bruxa do Moate Córdova. 

27 — Carlota Angela. 

23 — Quatro horas innocentes. 
29 — As virtudes antigas. 

33 — A filha do Doutor Negro. 

31 — Estrellas propicias. 

32 — A filha do regicida. 

33 t 34 — O demónio do ouro. 
35 — O regicida. 

35 — A filha do arcediago. 

37 — A neta do arcediago. 

38 — Delictos da mocidade. 
33 — Onde está a felicidade? 
49 — Um homem de brios. 

41 — Memorias de Guilherme do 
Amaral. 

42, 43 e 44 — Mysterio < de Lis- 
boa. 

45 • 46 — Livro negro de padre 
Diniz. 

47 • 48 — O judeu. 

49 — Duas épocas da vida. 

51 — Estrellas funestas. 

51 — Lagrimas abençoadas. 



52 
53 

55 
56 

57 — 

58 — 
59- 

60 — 

61 — 

62 — 

63 — 

64 — 

65 — 

66 — 



- Lucta de gigantes 
54 — Memorias do cárcere. 

• Mysterios de Fafe. 

- Coração, cabeça e estorna' 



67 — 

68 — 

69 — 

70 

72 — 

73 — 

74 — 

75 — 

76 — 



77 



78 — 



79 — 



80 — 



ô que fazem mulheres. 
O retrato de Ricardiaa 
O sangue. 

O santo da montanha. 
Vingança 

Vinte horas de liteira. 
A queda d'um anjo. 
Scenas da Foz. 
Scenas contemporâneas. 
O romance d'um rapaz po- 
bre. 

Aventuras de Bazilio Fer- 
nandes Enxertado. 
Noites de Lamego. 
Scenas innocentes da com t- 
dia humana. 
71 — Os Martyres 
Um livro. 
A Sereia 

Esboços e apreciaçõti 
litterarias. 

Cousas leves e pesada.,. 
Thbatro: I — Agostinho de 
Ceuta. — O marquez de 
Torres-Novas. 
Thbatro: II — Poesia ou di- 
nheiro 7 — Justiça. — Es- 
pinhos e flores. — Purgató- 
rio e Paraizo. 
Thbatro : III — O Morga- 
do de Fafe em Lisboa. — O 
Morgado de Fafe amoroso. 
— O ultimo acto. — Aben- 
çoadas lagrimas I 
Thbatro : IV — O condem- 
nado. — Como os anjos ~i 
vingam. — Entre a flauta s 
a viola. 

Thbatro : V — O Lobis- 
Homem. — A Morgadinha 
de VaW Amores. 



CAMILLIANA 



Camillo Castello Branco — Nolas a margem em vários li- 
vros da sua biblioteca, recolhidas por Álvaro Neves. — i vol. 

Camillo Castello Branco — Tipos e episódios da sua gale- 
ria, por Sérgio de Castro. — 3 vols., contendo inúmeras trans- 
crições da obra de Camillo. 

Hcsanna I Por Camillo Castello Branco. Fiel reprodução zin- 
cografi:a da i. a edição de 1852, hoje raríssima. Tiragem 60 exem- 
plares. 

Os pundonores desagravados, por Camillo Casul'o Bran- 
co. Reprodução como acima da i. a edição de 1845. Também ra- 
ríssima. Tiragem 60 exemplares. 

Prefacio da I.» edição do Diccionario de Azevedo, por 
Camilb Castello Branco. 



COLLECÇÃO ECONÓMICA 



VOLUMES PUBLICADOS 



1 — Aventuras prodigiosas de 
Tartarin de Tarascon, se- 
guidas de Tartarin nos Al- 
pes, por A Daudeí. 

-' — Esgotado. 

; — Sérgio Panine, por Jorge 
Ohnet. 

4 — Esgotado. 

5 — Esgotado. 

6 — Esgotado. 

7 — Esgotado. 

8 — Esgotado. 

9 — Esgotado. 

10 — Esgotado. 

11 — Esgotado. 

12 — Esgotada. 

13 — Um coração de mulher, por 

Paul Bourget. 
1 i — Esgotado, 
lò — sEgotado. 



16 — Esgotado 

17 — Esgotado. 

18 — O ultimo amor, por Ohnet. 
19 — Um búlgaro, por Ivan Tour- 

fueneffe. 
lemorias d'um suicida, 
por Maxime du Camp. 
| 21 — Esgotado. 

22 — Esgotado. 

23 — Camilla, por G. Ginisty. 

24 — Trahida, por Maxime Paz. 
I 25 — Sua Magestade o Amor, 

for A. Belot. 
esgotado. 
\ 27 — ísgotado 

28 — Esgotado. 

29 — Mentiras, por Paul Bourget. 

30 — Marinheiro, por PierreLoti. 

31 — Esgotado. 

i 32 — A Evangelista, por Daudet. 



OollecçIo Económica 



J3 _ ATanba vermelha, por R. 

d« Pont Jest. 
34 e 35 — Esgotado. 

36 — Parisienses! . . por H. Da- 

venel. 

37 — Ao entardecer 1. . . por lve- 

hog Rambaud. 

38 — A confissão de Carolina, 

trad. de J. Sarmento. 

39 - - Esgotado. 

40 — Esgotado. 

41 — O abbade de Faviéres, por 

J. Ohnet. 

42 — Esgotado. 

43 — Esgotado. 

44 — A uihilista, por C. Mendes. 

45 — Esgotado. 

46 — Morta de amor, porDelpit. 

47 — João Sbogar, por C. Nadier. 
4g — Viagem sentimental, por 

Sterne. 

49 — O milhão do tio Raclot, 

por Einile Richebourg. 

50 — A confissão de um rapaz do 

século, por Musset. 

51 — Esgotado. 

52 — O castello de Lourps, por 

J. K. Hnysmans. 

53 — Amor de Miss, por J. Blain. 

54 — A sogra, por Laforest. 

55 — Colomba, por P. Merimée. 
56 — Katia, por L Tolstoi. 

57 — Alma simples, por Dos- 

toiewsky. 

58 — Duplo amor, por Rofeny. 

59 — Esgotado. 

60 — A princeza Maria, por Ler- 

montoff. 

61 — Rosa de maio, por Ar- 

roand Silvestre. 



62 — Esgotado. 

63 — O romance do homem ama- 

rello, pelo generalTcheng- 
Ki-Tong. 

64 — A dama das violetas, por 

F. Guimarães Fonseca. 

65 e 66 — Nemrod & C», por 

Jorge Ohnet. 

67 — Prisma de amor, por Paul 

Bonnhome. 

68 — Historia d'uma mulber 

por Guy de Maupassant. 

69 e 70 — Educação stntimen- 

tal, por G. Flaubeit. 

71 — Depois do amor, per Obnet. 

72 — A fava de Santo Jgnacio, 

ͻor Alexandre Potliey. 
4 — berdeiro de Red- 
clyffe, por Mrs. Yongue. 

75 — Uma ondina, por 1 heuriet 

76 — A família Laroche, por 

Marguerite Sevray. 

77 — As grandes lendas da hu- 

manidade, por d'Humive. 

78 e 79 — A filha do Dr. Jau- 

fre, por Mareei Prevost. 

80 — A dama das camélias, por 

A. Dumas, Filho. 

81 — Dezeseis annos..., por F. 

C. Philips. 

82 e 83 — O Desthronado, por 

A. Ribeiro. 

84 — Ninho d'amor, por A. Cam- 

pos. 

85 — Bodas Negras, por Alma- 

chio Diniz. 

86 — Do amor ao crime, por A 1- 

phonse Karr. 

87 — A ilha revoltada, por Ed. 

Lockroy 



COLLBCÇÃO ANTÓNIO MIA PEREIRA — 65." VolBfie 



Retalhos de Verdade 



COMPOSTO E IMPRESSO NA TYPOGRAPHIA 

r>A 

Parceria ANTÓNIO MARIA PEREIRA 

T^iia oAugusta — ã4 a 54 

LISBOA. 



Colleccão ANTÓNIO MARIA PEREIRA 

VULGARISAÇÁO DOS MELHORES LIVROS 

DAS 

LITTERATURAS PORTUGUESA E ESTRANGEIRAS 



Romances, Contos, Yiajens, Historia, etc, etc. 

Volumes in-8.° de 160 a 200 paginas, em corpo S ou 10, 

exçellente edição, em óptimo papel. 

Preço de cada volume 200 réis brochado, ou 300 réis elegantemente 

encadernado em percalina. 

Para as provinoias accresce o porte do oorreio, 20 réis cada vol. 



Eis os títulos dos últimos volumes publicados : 

N.° 34 — O correio de Lyão, por Pierre Zaccone. 

N.° 35 — Vida de Lisboa, por Alberto Pimentel. 

N." 36 — Historia» de Frades, por Lino d' Assumpção. 

N.° 37 — Obras primas, por Chateaubriand. 

N.° 38—0 Kxiluilo, romance "histórico, por Mauricia C. de Figuei- 
redo. 

N." 39 — 1'oema da Mocidade, por Pinheiro Chagas. 

N.°* 40 e 41 — A Tida em Lisboa, por Júlio César Machado. 

N." 42 e 43 — Espelho de Portugueses, por Alberto Pimentel. 

N.° 44 — A Fada d' Au teu II. por Ponson du Terrail, traducção de Pi- 
nheiro Chagas. 

N.° 45 — A volta do Chiado, por Beldemonio (Eduardo de Barros 
Lobo). 

N.° 46 — Seca e Meca, por Lino d' Assumpção. 

N.° 47 — Ninho de guincho, por Alberto Pimentel 

N.* 48 — Tasco, por Arthur Lobo d' Ávila. 

N.° 49 — Leitoras ao serão, por António Xavier Rodrigues Cor- 
deiro. 

N." 60 — Luz coada por ferros, por D. Anna Augusta Plácido. 

N.° 51 — A flor secca, por M. Pinheiro Chagas. 

N. e 52 — Relâmpagos, por Armando Ribeiro. 

N.* 53 — Historias Rústicas, por Virgilio Várzea. 

N. 54 — Figuras Humanas, por Alberto Pimentel, 

N.° 55 — Dolorosa, por Francisco Aoebal, traducção de Caiei. 

N.* 56 — Memorias de um Fura-vldas, por Alfredo Mesquita. 

N.° 57 — Dramas da Corte, por Alberto de Castro. 

N.° 58 — Os Mosqueteiros d'Africa, por J. da S. Mendes Leal. 

N.'" 59 — A divorciada, por José Augusto Vieira. 

N.° 60 — Phntotyplas do Minho, por José Augusto Vieira. 

N.° 61 — Insulares, contos e historias, por Mendo Bem (Moniz de 
Bettenoourt). 

N.°" 62 e 63,— Historia da civlllsação na Europa, por Mr. Guizot, 
versão portugueza do Marquez de Sousa Holstein. 

N.° 64 — Tríplice alliança, romance, de Raul de Azevedo. 

N.* 65 — Retalhos de verdade, por Caiei. 



Requisições & Parceria António Maria Pereira 

LIVRARIA EDITORA 

E OFF1CINAS TYPOGRAPHICA E DE ENCADERNAÇÃO 

Movidas a elecricidade 

Rua Augusta, 44 a 54 — LISBOA 



COLLECÇÃO ANTÓNIO MARIA PEREIRA 



U?or 



\ 



CAI EL 



RETALHOS 



df: 



VERDADE 







1908 

Parceria jAntonio Maria Pereira 
Livraria Editora e Ofíicinas Typographica e de Encadernação 

Movidas a eleett-ieidade 

Rua Augusta — 44 a 54 
LISBOA 



1908 

OFFIC1NAS TYPOGRAPHICA E DE ENCADERNAÇÃO 
Movidas a electricidade 

Da Parceria António Maria Pereira 

Rua Augusta, 44, 46 e 48, 1." e 2.' andar 

LISBOA 



Ao 



f)f. ©e^àídiíio ^Iàcl|àdo 



hti^ uko do -m a i .> eu tta 1 1 IV :i do atít oto 



Caíel. 



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-^B 



A Vida por uiw Pkejuiso 






O pae entrara novo na diplomacia. Já viuvo 
occupara postos de importância representando 
Portugal no estrangeiro. 

Ella era filha única. Os annos viçosos tinham- 
lhe corrido entre os sorrisos leves com que na 
sociedade elegante se preenchem ócios secu- 
lares. 

O pae tinha-lhe mais que amor, adoração fa- 
nática. Era até um quasi nada ridiculo descre- 
vendo a toda a gente o coniuncto de perfeições 
que era a sua Chica. Bastante conservador no 
intimo, estimava-lhe todavia certo arranque que 
ella sempre tivera para ideas novas, indepen- 
dentes, cousa rara para o sexo, para o meio e 
mais ainda para o paiz. Vira até sem desgosto. 
lá por fora, o interesse com que ella se appro- 
xímara de certas mulheres notáveis do feminis- 



10 COLLECÇÃO ANTÓNIO MARIA PEREIRA 

mo, francezas, inglezas e americanas. Attribuía 
a taes relações muito cfaquelle ar nobre, varo- 
nil, que a extremava singularmente entre as se- 
nhoras da sua roda. 

De muito longe viera sonhando para aquella 
filha um marido extraordinário, sangue real tal- 
vez, algum que ella emfim escolhesse e pre- 
miasse, muito por cima do grupo de adorado- 
res banaes, mais ou menos pobretões, que a 
rodeavam nas festas das embaixadas. A cir- 
cumstancia de ser pobre não lhe entibiava os 
voos. Na sociedade cosmopolita em que viviam 
passavam homens de riqueza solida que podiam 
satisfazer o capricho de obedecer a meros im- 
pulsos sentimentaes. Era um d'esses que elle 
esperava com fé inconcussa ainda no anno me- 
morável em que a Chica completou vinte e 
cinco annos. 

Occupava por esse tempo uma legação na 
Europa central. Foram passar a época balnear 
a Gascaes. Quando lá viu a Chica acolher com 
certa condescendência a corte que lhe fazia im- 
petuosamente o António Pinheiro, um sportman 
que tinham conhecido em casa das primas No- 
ronhas, franziu o sobrolho, impacientado. Mas 
não deu uma grande importância ao successo. 
O rapaz dava na vista no meiosinho cascaense. 



RETALHOS DE VERDADE 11 

Vestia á ingleza, tinha um ar muito smart. e 
só deixara o monóculo no dia em que ouvira 
dizer á Chica, com um tom entre grave e es- 
carninho não poder tomar a serio pessoa mu- 
nida de semelhante adminiculo. Era natural que 
o pretendente quizesse ser tomada a serio. Mas 
o provável era que ella se divertisse. 

Quando o nosso hirto e engravatado diplo- 
mata, do alto do seu collarinho inflexível, co- 
meçou a perceber que o caso não era tão sim- 
ples, entrou-lhe certa inquietação e mau hu- 
mor. Mas não podia render-se á evidencia, 
acreditar que aquelle vulgarissimo episodio da 
sua vida veraneante, cultivado no Sporting e 
na Boca do Inferno, seria cousa que viesse a 
tomar corpo e forma social. Nem nisso que- 
ria pensar. 

Um dia, talvez por algum sonho inquieta- 
dor, aquelle homem previdente levantou-se da 
cama com umas grandes fumaças de auctori- 
dade paternal. N'uma grave entrevista com a 
Chica antes da hora do banho, interpoz o seu 
veto. E julgou que ia ter um ataque fulminante 
quando a filha, entre lagrimas de uma senti- 
mentalidade romântica, feminina, muito á an- 
tiga, lhe declarou firmemente que ou casaria 
com o António Pinheiro ou ficaria solteira. 



12 COLLECÇÃO ANTÓNIO MARIA PEREIRA 

Que fazer? A situação apresentava-se quasi 
desesperada. Recorreu á medicina mais acredi- 
tada em taes casos: uma viagem longa. Com 
as suas economias na algibeira, o grave di- 
plomata dispoz-se logo a jogar essa ultima car- 
tada. Ia animado. Tinha em pouca conta a 
firmeza das mulheres. Em qualquer estação, 
suissa, italiana, ou allemã, esperava sempre 
ver surgir o seu principe encantado. 

Ao cabo de seis mezes voltou. Parecia-lhe 
que decentemente não podia estar mais tempo 
fora da embaixada. Vinha agora abatido, com 
o coração retalhado pela mais dura das abdi- 
cações. 

N'aquella guerra surda triumphara o ama- 
nuense de Lisboa. A Chica voltava com alguns 
kilos menos, um fastio pertinaz, e uma tristeza 
muda e cavernosa com todas as tendências 
para tornar- se chronica. 

Consultaram-se médicos. A sciencia poz os 
óculos, auscultou, e não encontrou lesão orgâ- 
nica. Depois de matutar recolhidamente, acon- 
selhou ares pátrios. A sciencia também acerta 
algumas vezes. 

Oraaquelle pae, que era, como todos, um po- 
bre pae, transferiu-se logo a Lisboa e tratou de 
ver como lhe levantariam decentemente na se- 



RETALHOS DE VERDADE 13 

cretaria o ordenado d'aquelle presumptivo gen- 
ro que lhe caia do Inferno, arrasando as me- 
lhores esperanças de toda a sua vida. 

Revolvendo meio mundo, conseguiu elevar 
aquella mesquinha quantia a uns quarenta mil 
réis sem descontos. E simultaneamente resolvia 
apartar cada mez dos seus ordenados uma 
quantia de alguma importância que engros- 
sasse e dignificasse aquella. 

Quando o casamento se eífectuou em Lisboa 
já o genro tinha logrado insinuar-se completa- 
mente no animo do sogro. Os amigos portu- 
guezes. quando o viram partir quasi alegre para 
o seu posto diplomático, entenderam-no con- 
formado. Elle effectivamente ia na idea de que 
a sua Chica encontrara o marido que a Provi- 
dencia lhe tinha destinado. Os pães, quando 
vêem que certas cousas não tem remédio, assa- 
cam toda a responsabilidade á Providencia e 
bandeiam-se com ella. 

As luas de mel são em geral deliciosas. 
Aquella também o foi. Havia amor e dinheiro 
em abundância. Figurava ainda um resto das 
economias paternas, sobrante d'aquella inútil 
viagem de resistência. 

O António também trouxera a sua percen- 
tagem. Possuía, como único património, uma 



14 COLLECÇÃO ANTÓNIO MARIA PEREIRA 

inscripção de um conto de réis. Vendeu a sem 
vacillar. Aquillo, como capital, não valia nada. 
Reduzida a dinheiro corrente, dava-lhe certo 
ar de noivo endinheirado. Queria comprar flo- 
res caras e metter se n'uma carruagem sempre 
que lhe apetecesse, á hora de andarem os ami- 
gos pelas ruas. Gosava muito acenando-lhes en- 
tão n'uma atitude de saboreada commodidade. 

Depois, tivera também a feliz idea de ir até 
ao Minho, participar á tia Amalinha o proje- 
ctado enlace, empregando pacientemente a cor- 
neta acústica. E trouxera de lá outra inscripção, 
outro conto, logo reduzido a metal sonante, para 
pôr com certos toques de luxo a casa, e offe- 
recer á noiva uma jóia com muitas pedras, que 
o Illustrado descreveu minuciosamente. 

Não queria que o casamento rebaixasse a 
sua mulher aos olhos meticulosos dos amigos 
aristocratas. Quiz a ceremonia nupcial com 
muito estadão. Houve muitos convites, muitas 
carruagens de libré, e muitos doces complica- 
dos, servidos pelo Ferrari. 

A noiva desapprovava alguns gastos ; mas o 
António dirigia tudo, com um autonomismo 
que não parecia propenso a concessões. Que- 
ria que n'aquellas cousas apparecessem como 
quem eram — dizia. 



RETALHOS DE VERDADE 15 

Passaram a lua de mel em Cintra, no Nunes. 
Depois estabeleceram-se n'uma boa casa que 
tinham alugado na rua Ivens, muito alindada 
com os primores do corbeille. Tinham cozi- 
nheira, criada de fora de touquinha e avental 
branco, e um gato preto, roliço, com coleira 
encarnada de guiso. Animavam diariamente a 
sala flores frescas dispostas com graça, e va- 
riedade de jornaes estrangeiros, entre os quaes 
La Fronde e Le Journal des Femmes. 

Elle, para estar em tudo á moda, era um 
pouco jornalista também. Andava muito met- 
tido pelas redacções. Publicara alguns artigos, 
assignando-os com o engenhoso pseudonymo 
Toniopi, ultimas syllabas do seu nome e pri- 
meira do appellido. E pensara já varias vezes 
em emprehender uma revista que levasse á 
frente, não o pseudonymo, mas o verdadeiris- 
simo António Pinheiro sem subterfúgios. Entre 
republicanos mostrava-se republicano também. 
Tinha o defeito ou a virtude de contemporisar 
com as opiniões ambientes. Não desgostava de 
comícios e outras reuniões onde oradores fluen- 
tes falavam muito de liberdade com gestos am- 
plissimamente convincentes. 



II 



Um dia. . . Ha dias funestos, com influencia 
decisiva na vida de certas famílias. 

Um dia o nosso bom diplomata influiu cruel 
e inesperadamente nos destinos d'esta. 

De repente cessou a providencial mezada, 
justamente no mez em que o António tinha 
mandado fazer um sobretudo forrado de seda, 
e a cozinheira pedira augmento de soldada, 
alegando a sua comprovada perícia em massas 
e doces delicados. 

A noticia da morte súbita do digníssimo di- 
plomata caiu como um raio na casa da rua 
Ivens. A' pobre Chica não lhe occorreu, em 
taes momentos, deitar contas ao dinheiro ; não 
pensou na mesada. O que logo viu, com uma 
dôr immensa, em que talvez havia parcella de 
remorso, foi que acabava de perder o melhor 
amigo que nunca tivera. 



RETALHOS DE VERDADE 17 

Para maior desconsolo, o António muito 
preoccupado com os gravíssimos problemas 
que aquelle súbito successo lhe acarretava, 
nem um só dia deu áquella immensa angustia 
filial a solicita attenção que ella merecia. 

Não seriam justas e devidas taes lagrimas? 
Pois até parecia que o impacientavam. Demo- 
rava-se então em casa o menos possível. E 
pouco tinha de carinhoso o tom em que elle 
emíttia frios raciocínios philosophicos : Eram 
cousas duras, mas naturaes ; não havia mais 
mais sem remédio que curvar a cabeça. 

E a Chica ia curvando a sua, immersa n'a- 
quella magoa, cada dia mais insupportavel, 
remédio. 

Vieram distrahil-a forçosamente preoccupa- 
ções materiaes. 

O António, por muito favor, ganhava qua- 
renta mil réis na secretaria. Do sogro recebia 
mensalmente sessenta. 

Com a administração zelosa e intelligente da 
Chica, tinham vivido confortavelmente. A falta 
da mesada paterna não podia deixar de ter ali 
o valor de um phenomenal cataclismo. 

Atrás de pequenas difficuldades, depressa 
surgiram as grandes. A passos agigantados a 
situação tornou-se gravíssima. 



18 COLLECÇÃO ANTÓNIO MARIA PEREIRA 

Como sustentar duas criadas ? A cozinheira 
foi despedida. Subido um pouco o ordenado, a 
criada de fora consentiu em fazer também a 
comida, sob condição de que se sugeitassem os 
menus a uma exemplar singeleza. Esta condi- 
ção era também reclamada pelas circumstan- 
cias económicas da casa. 

A Chica arranjou o vestido do lucto n'uma 
modista barata. Fez ella própria o chapéu de 
escomilha. Toda a sua preoccupação agora era 
gastar pouco. Calculou supprimir durante muito 
tempo a conta do sapateiro, não saindo. De co- 
mida, cortava para si todas as cousas caras, 
pretextando, para não ouvir os commentarios 
inúteis do António, que essas cousas lhe faziam 
mal. Não punha em si cousas que tivessem de 
ir á engommadeira. Reduziu o numero de bicos 
de gaz accesos toda a noute. Deixou completa- 
mente de comprar flores. 

E, com todas estas medidas e outras da mes- 
ma indole, não conseguia vencer o terrivel de- 
ficit, nunca inferior a vinte mil réis mensaes na 
conta corrente. 

O António commentava a seu modo os gas- 
tos, mas contribuia pouco para o equilibrio or- 
çamental. Estava muito longe de poder chamar- 
se em nenhum sentido uma pessoa de boa boca. 



RETALHOS DE VERDADE 19 

A' mesa era impertinente e queixoso. Recla- 
mava contra o azeite e a manteiga, se não eram 
de primeira qualidade. Tinha o mau sestro de 
cheirar a comida antes de a provar. Queria 
queijos finos e gostava de doce á sobremesa, 
uns dias por outros, já que não sempre. Só be- 
bia vinho puro. Era apuradissimo no chá e no 
café. Punha camisa limpa todos os dias, engom- 
mada a polimento. Impacientava-se porque a 
criada, que era ao mesmo tempo cozinheira, 
servia á mesa peior do que antes ; e protestava 
o propósito de tomar um criadito para a aju- 
dar. Resmungava, se via o gato tristonho por- 
que lhe não tinham comprado peixe. E era de 
tal calibre o Seraphim que. á falta de carapau, 
havia que comprar-lhe linguado ou pescadinha. 
O cruel problema financeiro, sempre pen- 
dente, punha no ar um constrangimento plúm- 
beo. Raras palavras trocavam os dois, que se 
não referissem ao mesmo thema, irritante, in- 
solúvel. 

O António considerava a mulher uma péssi- 
ma administradora. E dizia-lh'o sem hesitação. 
Punha-lhe exemplos para convencel-a. Um al- 
feres ganhava menos que elle. E essas familias 
viviam. Parecia até que logravam certo desa- 
fogo. Viam-se aos domingos na Avenida, e aos 



20 COLLECÇÃO ANTÓNIO MARIA PEREIRA 

dias de semana entravam nas confeitarias a to- 
mar pasteis. Lá sabiam arranjar-se. E ainda lhes 
chegava para irem tomar ar ate Algés ou ao 
Campo Grande. E alguns, em dias assignala- 
dos, deitavam a Cintra. 

A Chica sustentava que, para taes façanhas, 
ou havia outros rendimentos ou estava a gente 
crivada de dividas. Elle encolhia os hombros, 
sublinhando com um tregeito despresivo dos 
lábios a sua descrença em qualquer dos termos 
do dilemma. 

Acendia-se mais no António a antiga mania 
jornalística. Occorria-lhe agora fundar uma re- 
vista com o Sequeira. O Sequeira tinha pouca 
base, mas era homem avançado, sempre dis- 
posto á diffusão de idéas ; e com dinheiro sem- 
pre disponível, que era o essencial. 

Elle poria o trabalho, — tinha muito tempo' 
livre da secretaria — , e o outro poria o rosto. 
Ideava cousa muito pratica, geneto magasine y 
armazém que alojasse fazenda para todos os 
gostos, para todas as necessidades. Havia de 
metter-lhe muitas secções; variedade, muita 
variedade : politica, modas, sport, chroníca re- 
ligiosa, chronica tauromachica, chronica musi- 
cal, boletim do estrangeiro, receitas de cozinha, 
charadas, folhetins espectaculosos, e uma chro- 



RETALHOS DE VERDADE 21 



nica da caridade, invenção sua de que as mu- 
lheres de certa ordem haviam de gostar. Tudo 
estava em começar com algum tacto. Primeiro, 
certo sacrifício; depois viriam os lucros. 

Os commentarios da Chica, inimiga de mais 
uma revista como tantas, sem ideal, sem obje- 
ctivo elevado, contribuindo a entreter e fomen- 
tar nos espíritos a terrível insignificância por- 
tugueza, não dissuadiam o António. Retorquia - 
Ihe com muita sufficiencia que o espirito pratico, 
que ella não tinha, era absolutamente indis- 
pensável na vida. Era movendo bem aquelle 
negocio da vevísta que elle esperava nivelar o 
seu orçamento desequilibrado por tantas causas 
a que era estranho. Esperava aliás pagar de- 
pressa ao Sequeira — sempre bolsa franca — o 
que já lhe devia. 

Depois, já desafogados, voltariam a viver 
como antes. Queria que ella saísse, que appa- 
recesse, que tivesse vestidos elegantes. Deviam 
convidar os amigos para casa. O Sequeira havia 
de vir jantar pelo menos duas vezes por semana. 
O Sequeira era muito sensível a attenções. 

Continuava a demorar-se em casa o menos 
possível. As expansões carinhosas tinham des- 
apparecido. Pesava sempre no c dois aquella ne- 
gra obcessão do dinheiro : ella cogitando, sem 



22 COLLECÇÃO ANTÓNIO MARIA PEREIRA 

encontral-o. o meio de fazer economias novas; 
elle sustentando que por força havia erro de 
administração em deficit tão considerável. 

Começou no espirito da Chica a lavrar fundo 
um fermento de revolta. Devia acceitar aquella 
situação ? Era isso digno ? Era sequer lógico e 
coherente? Cruzar os braços, curvando a ca- 
beça a tão humilhante sacrifício, mão estendida 
para a esmola como mendiga ? Solteira, não 
teria já procurado sair de difficuldades, traba- 
lhando? Não era natural que casada, procu- 
rasse contribuir ao equilibrio económico da sua 
casa ? E com que gosto trabalharia para o ama- 
do conforto do seu lar ! 

Um dia em que o António lhe repetia, taci- 
turno, que tinham de supprimir despezas, pa- 
gar menos á criada, largar os jornaes que elle 
leria fora de casa, fazer emfim qualquer cousa 
para deitar mão ao implacável deficit, ella com- 
municou-lhe os seus planos já muito pensados 
e debatidos em noutes de mau dormir: conhe- 
cia bastante o Francez, o Allemão. e o Inglez; 
pouco lhe faltava para ser uma pianista. Não 
se lhe impunha que lançasse mão de taes re- 
cursos, contribuindo para os gastos, da casa 
com o fructo de algumas lições ? 

Ao ouvir tal proposta, o António explodiu 



RETALHOS DE VERDADE 23 

na mais violenta objurgatoria. Parecia que a 
Chica queria expressamente atormental-o. Pe- 
las cinco chagas que não tornasse a falar-lhe 
em semelhante despropósito. Bem lhe basta- 
vam já tantas apoquentações da sua vida ! Não 
estavam em Inglaterra ou nos Estados Unidos. 
Viviam em Portugal; tinham que sujeitar-se á 
sua tradição, aos seus costumes. Não discutia 
agora se esses costumes eram bons ou maus. 
Constituíam a lei, que não é afinal o que re- 
sam os códigos, senão o que a nação pratica e 
consente. 

— Que diriam os seus amigos, se elle se su- 
jeitasse a semelhante humilhação ? Porque era 
sobre elle que principalmente cairia o odioso. 
E os parentes d'ella ? e as suas relações da alta 
sociedade ? Com que compungidas phrases la- 
mentariam o seu triste destino! trabalho ain- 
da era considerado em Portugal uma desgraça, 
uma escravidão. E a mulher escrava perdia to- 
do o prestigio. Com surpreza encontraria na 
rua conhecidos que voltariam a cara surratei- 
ramente para a não comprimentar. As amigas 
não tornariam a insistir para leval-a de carrua- 
gem á Avenida ou ao Campo Grande, nem lhe 
dariam lugar no camarote em S. Carlos. Em 
Portugal ainda a mulher não podia fazer con- 



24 GOLLECÇÃO ANTÓNIO MARIA PEREIRA 

correncia ao homem trabalhando para ganhar 
a vida. Perdia em consideração o que ganhava 
n'uns mesquinhos cobres. Ainda a sociedade 
portugueza não estava preparada para esse es- 
tado de cousas. 

— Elle também era, até certo ponto, femi- 
nista. Mas desde que queria viver no seu paiz, 
tinha que sujeitar-se ás imposições d'esta socie- 
dade. Haveria homens que supportassem o ri- 
dículo; elle, não. 

A Chica ouvira impassivel aquella catilinaria 
com os olhos cravados firmemente no chão. 
Quando o marido parou para tomar folgo, ella 
interpoz com decisão — E não seria muito 
mais indecoroso amontoar dividas sem possi- 
bilidade imaginável de pagal-as? Sempre lhe 
tinham parecido os maiores responsáveis do 
atraso de uma sociedade os que por fraqueza 
se submettiam ao dictame de idéas tão erra- 
das, tão completamente absurdas. Se o ganhar 
dinheiro era honra e dignidade para o homem, 
como deixaria de o ser, nas mesmas circums- 
tancias, para a mulher ? 

O António decretou que a Chica estava di- 
zendo desvarios. Ainda não estava Portugal 
maduro para philosophias feministas. Tinham 
que ver o paiz tal como elle estava, não com 



RETALHOS DE VERDADE 25 

lunetas de augmentar. Isso era o que elle cha- 
mava pôrem-se na razão das cousas. Se fosse 
inglez ou norte-americano, obraria sem duvida 
de maneira muito diversa. Portuguez, não po- 
dia prescindir do meio portuguez. 

Com desusada firmeza, a Chica sustentou 
que nunca inglezes nem norte-americanos te- 
riam prosperado nas vias do progresso, sem o 
arrojo e isenção d'aquelles seus compatriotas 
que primeiro se puzeram em brecha contra es- 
tultos preconceitos e imposições rotineiras e 
absurdas. 

O António impoz-lhe então, auctoritario, que 
não voltassem áquelle assumpto. A sua opinião 
firmíssima já a sabia ; pretender levar por dian- 
te semelhante teimosia, seria preparar entre os 
dois uma situação insupportavel . . . 

E não era já tudo aquillo insupportavel ? A 
Chica não formulou a pergunta; mas isso dizia 
o olhar firme, impregnado de tristeza e repro- 
vação, que ella cravou no marido sem pesta- 
nejar. 

Elle então, quiçá no propósito de attenuar 
um pouco o eífeito da rudeza anterior, disse 
após um suspiro fundo: «Para certas cousas é 
preciso ser heroe. . . E eu reconheço que não 
o sou.» Depois, sem olhar: «Ate logo. Tenho 



26 GOLLECÇÀO ANTÓNIO MARIA PEREIRA 

o Sequeira á minha espera. . . E' verrLde. 
Amanhã trago-o cá a jantar. Vê se arranjas 
qualquer doce para a sobremesa. Isso, e qual- 
quer prato a mais. Não é preciso estar com 
grandes cousas.» — E saiu. 

Ella ficou inerte, na cadeira baixa onde es- 
tava sentada, com as mãos apertadas entre os 
joelhos, pasmada. De repente, rompeu n'um 
d'estes choros convulsos, desalentados, enor- 
mes, em que os grandes, sobretudo as mulhe- 
res, tanto se parecem ás vezes com as crean- 
ças. 



III 



Occorreu uma variante em situação de tanto 
apuro. 

Inesperadamente chegou do Minho uma car- 
ta de letra bojuda com muito realce de grossos 
e finos. Era o administrador da tia Amalinha a 
participar que a santa senhora tivera um ata- 
que e estava em artigos de morte. 

O successo vinha importuno porque o Antó- 
nio Pinheiro, de camaradagem com o seu fidus 
Achates, o inseparável Sequeira, tratava por 
aquelles dias de dar á luz o primeiro numero 
da Revista das Famílias, em que elle figurava 
de redactor principal, e o outro de proprietá- 
rio. 

A indecisão foi breve. Resolveu partir im- 
mediatamente. A Revista que esperasse. Pri- 
meiro estavam os seus deveres de sobrinho 
único. 



28 COLLECÇÃO ANTÓNIO MARIA PEREIRA 

Perdera cedo pães e avós. Pertencia a uma 
família extincta. A tia Amalinha, irmã da avó 
materna, era única representante da sua as- 
cendência. A pobre senhora, em tão avançada 
idade — por volta dos oitenta — , não contava 
com outro parente próximo. 

Costumara passar temporadas com a tia 
Amalinha na quinta Mas aquella atmosphera 
de rosários e ladainhas, sempre obrigada á 
convivência das criadas minhotas, não era 
adequada ao seu temperamento, talhado para 
exigências mundanas. 

Agora ia, tinha que ir. Não podia deixar 
de assistir aos últimos momentos da pobre se- 
nhora. 

De mais a mais, lá não tinha gasto nenhum. 
Bastava-lhe pedir mais uns tantos mil reis ao 
Sequeira, para não ir de todo desprevenido na 
viagem. Tinha que tomar primeira classe por 
causa dos conhecidos. Bem sabia que no es- 
trangeiro se viajava em qualquer classe. Mas 
em Portugal, á gente que se presava, impu- 
nha-se a primeira classe. Até os revisores olha- 
vam para as pessoas de outra maneira. Era — 
vocencia para aqui, vocencia para ali. Reco- 
nhecia em tudo que nascera para a vida quin- 
tessenciada. Abominava cada dia mais a mo- 



RETALHOS DE VERDADE 29 

notona secretaria. Se ao menos estivesse no 
ministério dos Estrangeiros, onde se não tra- 
balhava qilasi nada, e se passava a vida entre 
gente de luvas, escrupulosamente engravata- 
da ! Mas no ministério da Justiça ! Um horror! 
gente que não lavava os dentes nem limpava 
as unhas ! 

Até lhe vinha bem aquella viajata que o li- 
vrava das odiosas maçadas da secretaria. Pena 
que a tia Amalinha se não tivesse disposto a 
morrer uma semana mais tarde ! Teria tido 
tempo de dar saida ao primeiro numero da 
Revista. Mas o capricho das cousas puxara 
para outro lado. Só tinha um expediente: con- 
formar se e partir. 

Foi o que tez. levando na algibeira alguns 
mil reis que augmentavam a sua divida ao Se- 
queira, e em todo o systema nervoso uma ex- 
citação inquietante como prurido de brotoeja. 
E' que n'aquella viagem acelerada vinha elle 
pensando quasi desde que tinha memoria. Era 
um acontecimento necessário, esperado com 
impaciência através dos annos, desde o seu 
tempo de estudante. Já n'aquella época, sem- 
pre que recebia um telegramma, cuidava que 
era do administrador a participar-lhe a morte 
ou a doença desesperada da tia Amalinha. 



30 COLLECÇÃO ANTÓNIO MARIA PEREIRA 

Mas a boa senhora obstinara se em ir vivendo, 
vivendo placidamente, entre as orações da ma- 
nhã e o Rosário que entaramelava* ás tardes, 
rodeada pelas criadas e alguns empregados das 
fazendas. 

Quando o António Pinheiro agora chegou á 
Quinta dos Suspiros, encontrou assombrada a 
sciencia minhota d'aquelles contornos. Estava 
esta ali dignamente representada nas pessoas 
de três graves doutores que duas vezes por dia 
rodeavam o leito da enferma. Contra os três 
gravíssimos prognósticos, a tia Amalinha ou- 
sara melhorar consideravelmente. Recuperara 
o uso da fala e o pouco que sempre possuirá 
de faculdades intellectuaes. Na face circums- 
pecta da sciencia notava-se muita estranheza e 
algum despeito. 

O António estabeleceu-se no quarto da tia 
Amalinha como o mais zeloso dos enfermeiros. 
Dia e noute não lhe abandonava a cabeceira. 
E a anciã parecia muito sensivel áquelles cui- 
dados. A's vezes estreitava-lhe a mão entre os 
dedos engelhados e trémulos, e chamava-lhe 
o seu Antoninho. Depois chorava e ria ao mes- 
mo tempo, communicando aos nervos susce- 
ptíveis do António um intenso mal-estar. 

Vieram novos ataques. Entre melhora e 



RETALHOS DE VERDADE 31 

peiora passaram dois longos mezes, em que 
o bom sobrinho persistiu, com tenacidade ad- 
mirável, no seu posto de infatigável enfermei- 
ro As criadas velhas elogiavam muito o meni- 
no, que bem se via ser o que ellas sempre ti- 
nham imaginado — um coração de pomba. O 
director espiritual da boa senhora, frequenta- 
dor assíduo da casa, é que não fazia o menor 
echo a estes gabos. E punha seus reparos. 

O mal ia avançando. Por nm a tia Amali- 
nha soffreu longas crises lethargicas, em que 
parecia que toda a idea de parentesco se lhe 
tinha varrido. Mas o António não fraquejava. 
Esperava tranquillo, com paciência, com fé. 

O seu caso não era um d'estes casos melin- 
drosos, bicudos, em que á viva força se pre- 
tende extorquir um testamento. Nada d'isto. 

Com os seus velhos hábitos de inacção pro- 
vinciana, a tia Amalinha era completamente 
incapaz de meditar e realisar um testamento. 
Mas isso, a elle, que podia importar-lhe ? A 
santa senhora não tinha mais herdeiro que o 
seu Antoninho, herdeiro necessário que sabe- 
ria galardoar os antigos serviçaes, sem que 
fosse compellido por disposições testamentá- 
rias. Essa confiança decerto lhe estava soce- 
gando muito os últimos momentos, a ella. 



32 COLLECÇÀO ANTÓNIO MARIA PEREIRA 



O que o António esperava todos os dias era 
que a tia Amalinha, em algum momento de 
reviviscencia, lhe fizesse certas recommenda- 
ções. Havia de querer pelo menos um cento 
de missas. E talvez lhe occorresse contemplar 
com um donativo especial o administrador. 

Mas a tia Amalinha, quando melhorava e 
estava lúcida, d'aquella luz tibia que fora o seu 
modesto quinhão de potencia intellectual du- 
rante a vida, como que refugia do tremendo 
assumpto da morte. O que ella dizia era que 
ainda esperava pôr-se melhorzinha e ir a Lis- 
boa ver a Chica, aquella sobrinha de quem 
tanto ouvira falar e que ainda não tinha o 
gosto de conhecer. 

E elle vinha-lhe desembaraçadamente com 
a mentira que ideara para justificar a ausência 
da mulher: um adiantado estado de gravidez 
que tornava incommoda e até perigosa uma 
tão longa viagem de caminho de ferro. E, para 
explorar bem este filão sentimental, já tinha 
dito á tia que, se o que estava para vir fosse 
íemea, se chamaria Amália, como a avósinha. 
A ausência da Chica no solar da tia Amali- 
nha era intencional e calculada por parte do 
António. O caracter independente da mulher, 
absolutamente refractário a curvaturas de espi- 



KETALHOS DIí VEKDADE 



nha, as suas ideas modernas de emancipação 
feminina, destoando por completo do meio ar- 
chaico da Quinta dos Suspiros, podiam inno- 
cente ou conscientemente deitar tudo a perder. 
Longe estava bem. 

O peior era que aquella mentira da gravidez, 
aparentemente tão simples, já lhe estava dando 
que fazer. Ao chegar, tinha dito que dentro de 
um mez, o mais tardar dois, seria pae. E as 
criadas velhas interessaram-se logo muito, sem- 
pre importunando-o com perguntas, querendo 
saber todos os dias se a senhora já dera á luz. 
E no oratório tinham dia e noute uma lampa- 
rina á Senhora dos Afflictos, rogando por que a 
companheira do menino tivesse uma hora feliz. 

Isto pesava-lhe. impacientava-o. Elle não 
era um mentiroso inveterado, que folgasse com 
a mentira. Mentia com desemb.iraço notável 
quando lhe era preciso. Mas sustentar a men- 
tira incommodava-o como cousa plebeia, des- 
presivel. Agora trazer envolvidos no embuste 
Deus e os santos, isso desagradava-lhe profun- 
damente. Era um pouco supersticioso; aquella 
graça ia-lhe parecendo já um tanto pesada. 

Não tinha remédio. Havia de sustentar o seu 
papel de presumptivo papá até ao fim. E, para 
esquivar-se a uma importunação diária, com- 



34 COLLEGÇÃO ANTÓNIO MARIA PEREIRA 



municou ás criadas que tinha havido engano 
de um mez. 

Calmava o remordimento supersticioso refle- 
tindo para os seus botões que qualquer homem 
no mesmo caso faria cousa igual ou parecida. 
Elle necessitava absolutamente de estar só em 
campo para ter o jogo seguro. 

Velando as noutes junto á respiração ofe- 
gante da pobre senhora, entre o resomnar 
orchestral das criadas, tinha visões deslum- 
bradoras. Antegosava com. exquisito deleite 
impressões que em breve seriam realidade. 
Encantava-o já a completa transformação que 
ia sotfrer a sua vida. Também a pobre Chica 
ia reviver, coitada ! 

Teriam carruagem e camarote em S. Car- 
los. Ou talvez antes frisa. Preferia as frisas, 
pela animação da plateia. Marcariam um dia 
para receber, á noute. A' tarde, á hora do chá, 
estava ainda na secretaria. Pelo seguro, não 
queria logo ao principio deixar os quarenta mil 
reis da negregada secretaria. O que faria era 
faltar mais alguma vez; isso sim. O chefe era 
amigo ; faria vista grossa, sobretudo desde que 
o soubesse um homem rico. Logo que tivesse 
tomado pulso á situação, veria o que podiam 
todos os annos reservar para viagens. Viajar 



RETALHOS DE VERDADE .H5 



era indispensável. Portugal era uma posilga. 
Também lhe sorria muito ter automóvel, cres- 
tes pequeninos, acco mnodados, urbanos, pró- 
prios para fazer mansamente visitas. 

Mas não queria metter-se em grandes caval- 
garias sem apurar ao certo a quanto montavam 
as rendas da tia Amalinha. Tudo o que sabia 
era que a bem-governada senhora tinha he- 
ctares e hectares de terreno, fertilissimos to- 
ados, alguns prédios de casas ruraes e urbanos, 
tudo o quê corria por conta de um adminis- 
trador de face patibular. 

Casa própria em Lisboa, isso sim ; isso ha- 
via de ser um dos seus primeiros cuidados. 
Podendo, ninguém devia estar nas garras de 
senhorios. Melhorou peor, sempre poderiam ter 
casa sua. 

Outra cousa que não dispensaria era criado 
de mesa. E podia tel-o de casaca, passando-lhe 
as suas um pouco usadas. Assombrava-o como 
alguns companheiros de secretaria, dos que 
usavam annel de solitário no dedo, podiam 
aguentar uma criada chinclenta a abrir-lhes a 
porta. As suas andavam limpamente vestidas, 
e, ainda assim, detestava-as porque lhe pare- 
ciam plebeias. 

Outra necessidade urgentissima era fornecer 



36 COLLECÇÃO ANTÓNIO MAKIA PEHKIRA 



decentemente o seu guarda-roupa. Adoptaria 
vestir-se á ingleza. N'este ponto sempre lhe 
parecera que a Inglaterra andava muito por 
cima das outras nações. 

Provavelmente nem chegaria a collaborar 
na Revista das Famílias. O Sequeira, se tinha 
essa mania, que se arranjasse como quizesse, 
que procurasse outro redactor. Podia convir- 
lhe o João Carneiro, por exemplo, que levava 
um ror de meses desempregado em busca de 
pão para sete bocas familiares. Esse, accom- 
modar-se-ia com qualquer cousa, sem grandes 
exigências. E talvez até se fizesse por fim um 
bom jornalista, apesar de nunca ter estudado 
uma palavra. D'essa massa era que elles se 
faziam. A necessidade material, agravada por 
uma requa de filhos, era necessariamente o 
melhor dos acicates. Agora o seu caso ia ser 
muito diíferente. Rico e sem filhos, para que 
havia de estar com quebradeiras de cabeça ? 
E afinal para quê ? Para dar saida a mais um 
papelucho como tantos. Quem no fim de con- 
tas tinha razão era a Chica. Não lhe faltaria 
em que matar o tempo se quizesse distrahir-se 
com qualquer trabalhinho. 

Todos os seus planos de grandeza eram 
communicados em longas cartas á Chica. EHa 



RETALHOS D li VERDADE 37 



deixava sem resposta essa parte das cartas; e ; 
sem a menor allusão ao assumpto financeiro, 
manifestava sempre o seu desejo de que a tia 
Amalinha ou melhorasse definitivamente ou 
-acabasse depressa o seu martvrio. 

N'uma carta também ella lhe dizia sentir 
muito que elle tivesse encarregado o Sequeira 
de cobrar os ordenados, porque ella o pode- 
ria fazer perfeitamente sem incommodar nin- 
guém. Isto a elle parecera-lhe uma ratice. An- 
dar agora uma rapariga de vinte e cinco an- 
nos, bonita e elegante, mettida pelos minis- 
térios para cobrar uns reles quarenta mil réis! 
Mandou dizer á Chica, terminantemente, que 
não fizesse tal cousa. O Sequeira era um bom 
■amigo e muito amável. Não fazia o menor sa- 
crifício em prestar-lhes aquelle pequeno servi- 
ço. Já lhe deviam tantos ! E até podia pe- 
dir-lhe emprestado algum dinheiro, se me fal- 
tasse. Não valia a pena estar agora com econo- 
mias sujas. Até lhe parecia que ella devia ir 
tratando do lucto. Que não esquecesse como 
as modistas enganavam e faziam perder tempo 
e paciência. Se não fosse pela prisão do lucto 
talvez ella até pudesse ir ter com elle ao Mi- 
nho logo que a tia fechasse os olhos. Havia de 
distrahil-a conhecer tudo aquillo. E elle ia ter 



38 COLLECÇÃO ANTÓNIO M\RIA PIÍHEIHA 



que demorar-se bastante para tomar posse e 
organisar as. cousas a seu geito. O Sequeira 
poderia acompanhal-a em parte do caminho, 
durante a noute por exemplo, que era o mais 
aborrecido. EUe iria esperal-a á estação que 
combinassem. . . 

Mas o António, quando acabara de escrever 
isto, dera de repente um formidável murro na 
mesa. Quasi instantaneamente inutilisava a se- 
gunda folha de papel que levava escripta, ras- 
gando-a, desfazendo-a com raiva. 

Occorrera-lhe o estado interessante da mu - 
lher. Era forçoso renunciar á viagem por causa 
das criadas velhas, cuja lamparina piedosa con- 
tinuava dia e noúte alumiando a Senhora dos 
Afflictos. Maldita idea tivera! 

Poderia arranjar tudo dizendo em casa que 
a mulher tivera um mau successo de que já 
estava convalescente, e em que não quizera 
falar-lhe antes para o não desgostar. Mas que 
cara poria a Chica quando as velhotas, á che- 
gada, cheias de tregeitos compungidos, lhe des- 
sem os sentimentos por aquelle fracasso mater- 
nal de que ella não tinha a menor suspeita ? 
Nem pensar em tal ! 

Contar á Chica o que dera origem áquella 
farça, que tanto o estava desgostando, não po- 



RETALHOS DE VERDADE 39 



-dia, Tinha a peito conservar a estima d'aquella 
mulherzinha a quem por fim, a seu modo. que- 
ria deveras. 

E, como todas estas considerações e o ter 
inutilisado uma folha toda escripta o puzeram 
de muito mau humor, circumstancia em que 
estava acostumado a voltar-se sempre contra a 
mulher, escreveu finalmente uma carta muito 
nervosa, estranhando, com accentuada amar- 
gura, que ella nunca protestasse contra a pro- 
longada ausência, nem lhe dissesse nunca que 
estava morta por vel-o em Lisboa. Seria pos- 
sível que não tivesse saudades? Teria dimi- 
nuído o seu amor ? . . . 

Um dia. repentinamente, houve um grande 
sobresalto na velha casa minhota. A tia Ama- 
linha. que até então nunca falara em morte, 
sentiu de improviso uma angustia enorme e 
julgou que ia acabar. Com voz entaramelada 
pediu o confessor, com quem se encerrou du- 
rante meia hora para a conveniente limpeza da 
consciência. 

Depois, quiz todos os criados á roda do leito 
para despedir-se, em quanto apertava na sua 
mão engelhada a mão do sobrinho chamando- 
Ihe com voz extincta — o seu Antoninho. Veste 
momento solemne António Pinheiro estava-lhe 



40 COLLECÇÃO ANTÓNIO MARIA PEREIRA 

de joelhos á cabeceira, concentrado, como im- 
merso em pensamentos profundos. Estaria aca- 
so pensando de que marca lhe conviria mais 
o automóvel se chegasse a comprai- o. 

Passada uma hora, a tia Amalinha, com as- 
sombro geral, segundo o dizer pinturesco do 
confessor, arrebitou Pediu um caldinho com 
uns baguinhos de arroz e um migalho de peito 
de gallinha. A cozinheira quando tal ouviu, 
saiu correndo, a bater palmas de alegria. A sua 
rica senhora ! — Ella bem sabia que a sua se- 
nhora sempre dizia que comia um migalho de 
tudo, ainda quando se tratava de saborear duas 
perdizes ou uma choruda fatia de presunto. 
Sempre a tia Amalinha fora senhora de muito 
alimento e estômago á prova de bomba. Mas 
sempre vivera convencida de que padecia um 
fastio mortal, e de que em toda a sua vida não 
passara de provar as comidas, comer migalhos 
de tudo. 

Os creados voltaram, tranquillisados, ás suas 
respectivas oceupações. E a tia Amalinha, acol- 
chetando a dentadura postiça, fez honras ao 
peito de uma das mais perfeitas gallinhas da 
sua capoeira, regando o acepipe com uma co- 
lher de Madeira velho. 

Decorreu uma quinzena, em que aquella 



RETALHOS Dli VliKDADE 41 



enternecedora scena da despedida se repetiu 
varias vezes. Por fim, os creados, chamados á 
pressa, entravam já incrédulos no quarto, sor- 
rindo á socapa com uma pontinha de ironia. 

Quando a pobre senhora deveras acabou, 
entregando definitivamente a alma a Deus, nin- 
guém deu credito ao acontecimento. A cria- 
dagem preparava-se para sair alegre do quarto 
quando a tia Amalinha, sentindo no peito uma 
oppressão maior, exhalou o ultimo alento, sem 
agonia, sem estertor, como um passarinho. 

A surpreza engrandeceu o golpe. Quando se 
convenceram de que a boa senhora não respi- 
rava, espalhou-se por toda a casa um alarido 
insurdecedor, desconcerto de soluços, de gemi- 
dos, de exclamações incoherentes. — Tão boa- 
sinha p'rá gente ! E temente a Deus ! Era uma 
santa ! Está no ceo vestidinha e calçada ! Deus 
■lhe perdoe e a livre das penas do Purgatório! 
E limpeza! isso não ha segunda! Mais ami- 
guinha dos pobres ! Uma dona de casa de mão 
•cheia. E p'ra dar conselhos á gente!. . . 

Era uma verdadeira ladainha, resada em 
coro entre uma symphonia de choro. 

O António, envergonhado da própria placi- 
dez em meio do mais estrondoso berreiro a que 
tinha assistido em dias da sua vida, adoptou 



42 COLLECÇÃO ANTÓNIO MARIA PERE1KA 



o decoroso expediente de passar varias vezes 
o lenço nos olhos enxutos. 

E a verdade, apesar da ausência das lagri- 
mas, era que elle se sentia profundamente com- 
movido. Desde aquelle dia tudo ia mudar na 
sua existência. 

A tia Amalinha rendera a alma a Deus ás 9 
horas da manhã. Eram 3 da tarde quando o 
confessor da defunta, padre Segurado, apre- 
sentou a António Pinheiro, como membro da 
familia, o testamento da tia Amalinha feito seis 
annos antes, na presença de tabellião, com to- 
das as formalidades da lei. 

Legava o total da sua casa a diversas congre- 
gações religiosas, com encargo de mandarem 
dizer mil missas por sua alma. Nomeava tes- 
tamenteiro o seu administrador Manuel Feli- 
zardo, e deixava-lhe como lembrança de ami- 
sade uma inscripção de quinhentos mil reis. 

Também como lembrança deixava outra ins- 
cripção do mesmo valor ao seu muito amado 
sobrinho António Pinheiro; e vinte mil reis, 
dados por uma só vez, a cada uma das suas 
criadas e ao caseiro. No dia do seu enterro 
queria que se abonasse o jornal a todos os tra- 
balhadores das suas terras, não se lhes exi- 
gindo n'esse dia nenhum trabalho. 



RETALHOS DE VERDADE 43 



O António ficou varado. Trocou um olhar 
furibundo com o olhar humilde do sacerdote. 
Teria talvez desejado fazer ali nas bochechas 
do padre Segurado um discurso fulminante. 
Era porém tal aquella desorientação que a 
palavra lhe faltou por completo. 

Emfim. dando uma tremenda patada, cousa 
algo parecida ás do género cavallar, atirou ao 
padre boquiaberto um vocábulo terrivel : «Ca- 
nalhas!» Feito isto, saiu do quarto bufando, 
sem a menor consideração pelo cadáver que 
ali estava perto, sereno, de mãos cruzadas, 
com a phvsionomia banhada em suave com- 
postura. Passando ao aposento immediato ati- 
rou a porta com estrondo, berrando: «For- 
tes malandros í» 

As criadas velhas que velavam o corpo da 
senhora persignaram-se assustadas, olhando de 
revez. com ódio, o confessor. Os vinte mil reis 
estremes deviam ter abalado um tanto a de- 
voção confessional d'aquellus boas almas. 

Pouco depois o António expedia á mulher 
o seguinte telegramma : «Tia enterra-se hoje. 
Deixa tudo aos padres. Parto amanhã. Não 
trates nada de lucto.» 



IV 



Esmeraldo Sequeira era homem passante dos 
cincoenta annos, apparentando pouco mais de 
quarenta. Deviam contribuir para este resultado 
Hsongeiro a boa vida que levava e a chimica 
que lhe reluzia no cabello azevichado. 

Não parecia dar-lhe demasiado trabalho a 
casa de commissões que dirigia. Era homem 
que nunca tinha pressa. Vivia no Hotel Cen- 
tral, regaladamente, disfructando a maior inde- 
pendência do celibatário abonado de meios. 

Tinha fauleuil em São Carlos e passava o 
mez de outubro em Cascaes, tão cortejado pe- 
las mamãs que tinham filhas casadeiras, como 
pelas próprias filhas, candidatas ao único des- 
tino que lhes apontavam como dignamente pos- 
sível — o matrimonio. Ali, em Cascaes precisa- 
mente, conhecera o António Pinheiro no anno 



rktalhos.dk vfrdade 45 

em que elle fazia a corte á Francisca de Mello. 

Usava todo o anno flor encarnada na bo- 
toeira e não tinha partido politico. Trazia sem- 
pre varias notas e muita prata na carteira. 
A finura de maneiras a que tinha não vulgares 
pretenções nunca deixava de ser rreste ho- 
mem cousa postiça, a cair por fora, como aliás 
succede a muito boa gente. P>a escrupuloso na 
camisa alvissima. Reparando de perto, podiam 
notar-se-lhe as unhas muito menos cuidadas 
que a camisa. Também não havia n'isto cousa 
extraordinária. Fumava charutos carissimos de 
que atirava fora a ultima metade com ar des- 
denhoso, a desafiar o melancholico fumador 
pobretão que chupava o mesquinho cigarro 
até queimar os dedos. 

Tal era o grande amigo intimo de António 
Pinheiro desde o verão anterior ao casamento. 
Assistira-lhe á ceremonia nupcial e oíferecera 
como prenda aos noivos um lindo estojo, digno 
de figurar nas listas das folhas noticiosas, con- 
tendo doze talheres de vermeil — assim verna- 
culamente dizia o Diário Illustrado — com ca- 
bos de madrepérola finissima. 

Xo dia seguinte áquelle em que o António 
Pinheiro partiu para o Minho, o Sequeira foi 
ao Salitre comprimentar a Chica e pôr-se in- 



46 COLUiCÇÃO ANTÓNIO MARIA PEREIRA. 



condicionalmente á sua disposição para tudo 
em que pudesse servil-a. 

Tinham mudado da casa de São Francisco 
desde a morte do mallogrado diplomata e a 
consequente suspensão das mezadas. Com só 
uma criada, também convinha casa reduzida 
onde a limpeza se facilitasse. 

A casinha da calçada do Salitre era alegre, 
com muito sol, e estava graciosamente ador- 
nada pela Chica. Das variadissimas prendas 
da corbeille só estavam á vista as pouquíssimas 
que revelavam algum toque de bom gosto, al- 
gum fiosinho de arte. 

A criada, acostumada á visita familiar do 
Sequeira, que ia muitas vezes tomar café com 
o António, mandou-o entrar, sem annuncio 
prévio, para o gabinete das sessões intimas, 
onde a Chica n'aquelle momento escrevia a 
primeira carta ao marido depois de casados. 
Nunca se tinham separado. Tinha os olhos 
vermelhos e o lenço na mão. 

Via-se que estivera chorando. E também po- 
dia notar-sc, muito expressivo, o gesto de con- 
trariedade irreprimível á chegada da visita. 

O Sequeira, como se não tivesse dado fé de 
semelhantes minuciosidades, entrou com o des- 
embaraço costumado, refestelando-se com ar 



li ETA LHOS DE VERDADE 47 



satisfeito na cadeira mais commoda, e pediu 
para conservar o charuto acceso. . . se não 
incommodava. 

— Que não. . . Que não incommodava nada. 
— E, contradizendo o protesto a Chica, talvez 
intencionalmente, foi abrir uma nesga da vi- 
draça. EUe pedia-lhe que continuasse, que não 
interrompesse a escripta. — Já sabia que elle 
não era homem que tivesse pressa. 

Ella, porém, deixou falar, e metteu na pasta 
a carta começada, dispondo-se a receber cere- 
moniosamente aquella visita que já adivinhara 
mas que não esperava tão cedo. 

Nunca pudera sympathisar com aquelle ho- 
mem. Limitara-se sempre a ser com elle nimia- 
mente correcta. 

Mais de uma vez lhe estranhara o marido 
aquella frieza. Achava-a caprichosa nos seus 
affectos. — Era para onde lhe dava. O Sequeira 
era o melhor dos homens ; e prestavel e servi- 
çal como poucos. Provara-lh'o já em mais de 
uma occasião dirficil. 

Chegara a convencer-se de que o António 
devia ter razão, e a propôr-se vencer aquella 
injustificada antipathia ao Sequeira. Até áquelle 
dia porém a aversão mantivera-se inabalável. 

Elle explicou ao que ia: pôr o seu limitado 



48 COLLECÇÃO ANTÓNIO MARIA PEREIRA 



préstimo aos pés da sua amiga. Exigia-lhe que 
o mandasse chamar immediatamente, fosse a 
que hora fosse, se occorresse qualquer novi- 
dade. 

O António encarregara-o de receber o orde- 
nado e entregar-lh'o. Alas ella não necessitava 
de estar dependente dos tristes quarenta mil 
réis do Estado. Elle podia não só adiantar-lhe 
o ordenado mas quanto dinheiro quizesse. 
Doía-lhe muito ver um espirito elevado como 
o d'ella preso nas garras da mais feroz econo- 
mia. Quem podia consentir n'um despropósito 
semelhante? Era uma iniquidade; era um cri- 
me. A economia, levada a certos extremos^ 
rebaixava, deprimia as pessoas. Um ser como 
ella viera ao mundo para pairar sobre taes 
misérias. 

— Ninguém melhor do que elle conhecia o 
António. Fazia-lhe justiça inteira. Era no fundo 
um excellente rapaz. Mas também requintada- 
mente egoista, como todos que topam no mun- 
do com almas excessivamente consagradas, de 
abnegação exorbitante. 

Abstendo-se delicadamente de intervir, elle 
tinha assistido a varias ouestões entre os dois 
sobre economia domestica. E — porque não 
havia agora de confessal-o francamente á Chi- 



RETALHOS DE VERDADE 49 



ca ? — saíra d'ali mais de uma vez. incommo- 
dado, profundamente magoado, indignado até. 
Milagres não se podiam fazer. A vida em Lis- 
boa era medonhamente cara. 

— De mais a mais, o António, comsigo, não 
evitava certos refinamentos escusados. Não 
tomava um dia ou outro uma corrida de car- 
ruagem ? E para quê? Não tinha Americanos 
e Ripperts para toda a parte? 

Ella escutava admirada. Não presumia que 
o marido tivesse o costume de andar de car- 
ruagem. 

N'este ponto do monologo o Sequeira parou, 
chupando nervosamente três fumaças successi- 
vas. 

A Chica, pensativa, não dizia palavra. No 
olhar relampejava-lhe como uma indecisão mo- 
lesta. Seria acaso generoso impulso de defender 
o marido ausente? Mas o Sequeira dizia cousas 
tão verdadeiras ! Ia-lhe tanto ao fundo da cons- 
ciência revoltada ! Sondava com tanta penetra- 
ção a fonte das suas mais intensas agonias ! 
E ella nunca soubera mentir. Pela primeira vez 
escutava com aigum interesse aquelle homem 
que era talvez seu amigo sincero. 

O Sequeira trocou com ella um olhar pro- 
fundo que desentranhava com paternal solici- 

4 



50 COLLECÇÃO ANTÓNIO MARIA PEREIRA 



tude as suas dores mais intimas, e proseguiu o 
monologo interrompido. 

— Elle via ali um caso psycologico digno de 
estudar-se a sangue frio. Conhecera já vários 
exemplos análogos: homens vulgares, sem ne- 
nhum attributo excepcional, casados com mu- 
lheres superiores. O elfeito era sempre igual: 
certa espécie de despeito, cousa muito aparen- 
tada com a inveja; um como desejo de abater, 
para levantar-se ; um como instincto de oppres- 
são vingativa. 

— O que elle mais sentia era não merecer 
bastante confiança á Chica. Conhecia-o na sua 
attitude reservada. Quizera inspirar-lhe a con- 
fiança que se tem n'um amigo velho — E, ao 
dizer a ultima palavra, o Sequeira retorcia com 
certa graça maliciosa o bigode azevichado. 

— Queria que ella se resolvesse a dizer-lhe 
ingenuamente todas as suas penas. Dar-lhe-ia 
conselhos, alentos, que melhorariam as condi- 
ções da sua vida. Todo o coração necessita de 
outro coração para expandir-se, para palpitar 
em consonância de idéas e affectos . . . 

Como a Chica n'esta altura levantasse para 
o Sequeira um olhar altivo cheio de surpreza, 
elle, sorrindo, accrescentou tranquilamente : 
«Eu quasi podia ser seu pae, menina. Não es- 



RETALHOS DE VERDADE Õl 

tranhe que lhe fale assim. Vejo-a tão criança.. . 
e tão infeliz !» 

Houve um silencio. Depois o Sequeira, pipa- 
rotando o charuto para dentro de um pratinho 
áo Japão que servia de cinzeiro, proseguiu, 
com o mesmo ar tranquillo: «Em geral os ma- 
ridos preoccupam-se pouco de ser os confi- 
dentes e conselheiros das mulheres. O que 
quasi todos se crêem é no direito de ser os 
oppressores, os tyrannos. Tomam a casa como 
mero centro das materialidades da vida. E isto 
é um erro formidável. O geral das mulheres 
submettem-se a essa tyrannia, desistindo, por 
fraqueza ou por apalhia, das mais naturaes 
aspirações de felicidade. Mas a Chica não pode 
viver assim. Tem que libertar-se de uma tu- 
tela absurda que a opprime, que a tortura, que 
a não deixa viver. . . 

Talvez porque a Chica fizesse aqui um pro- 
nunciado gesto de impaciência, o Sequeira poz- 
se de pé na intenção aparente de concluir a 
visita. Durante elía a Chica não falara. Por- 
quê? Seria que a commoção lhe tivesse embar- 
gada a voz ? Não era estranho que o caso se 
desse. Toda a mulher tem um quê de criança. 
E não ha nada para excitar lagrimas infantis 
como a compaixão por uma dor que se engran- 



52 COLLECÇÃO ANTÓNIO MARIA PEREIRA 

deceu com o apoio alheio. O momento era aliás 
de commoção quando o Sequeira entrara. O 
manancial das lagrimas estivera aberto antes. 
A maior lucta seria talvez agora o represal-as. 
N'este conflicto a voz costuma desaparecer. 

Ao passo que abotoava a luva. da mão es- 
querda, o Sequeira disse-lhe com inflexão cari- 
dosa: tPermitta que a venha ver alguma vez, 
e saber noticias d'aquelle ingrato que decerto 
me não escreve uma letra.» 

Tocando de novo a questão do dinheiro, 
repetiu calorosamente os anteriores offereci- 
mentos, com um escrupuloso cuidado de tirar 
toda a importância ao facto. 

— Em seu juizo o dinheiro não passava de 
um detalhe baixo, secundário, na vida; uma 
vantagem casual. Era uma materialidade reles 
que não valia a preoccupação de cabeças for- 
mosas, ideaes. A vida para a Chica devia ser 
tocar piano, lêr romances e revistas, passear, 
ir á sociedade, numa palavra, gosar a sua es- 
plendida mocidade, fora do alcance de indiges- 
tos algarismos. Não lhe faltaria tempo para ser 
velha e feia, para ter rugas na testa, para se 
materialisar. Agora, a vida do espirito, a vida 
do coração. Quizera vel-a gastar á larga, dis- 
por amplamente de dinheiro, para satisfazer 



RETALHOS DE VERDADE 53 



todos os seus desejos, até todos os seus capri- 
chos... 

Aqui, quasi supplicante, buscou convencel-a 
que lhe permittia ir-lhe fazer um pequeno adian- 
tamento. Até era um beneficio para elle, ali- 
viar- se de umas poucas de notas que casual- 
mente tinha ali e lhe rompiam a carteira. 

Mas ella oppoz se terminantemente, assegu- 
rando ao Sequeira que tinha dinheiro de so- 
bra, que não lhe faltava nada. Em caso contra- 
rio não duvidaria recorrer á sua amabilidade. 
A ausência do marido diminuia muito as des- 
pezas. 

Aqui o Sequeira teve uma expansão melo- 
dramática, passando a mão nervosamente pelo 
cabello. 

«Valha-me Deus! Valha-me Deus!... A 
Chica até é capaz de passar necessidades por 
causa da maldita economia . . . Que horror ! 
Que atrocidade ! ■ 

Ella, ruborisada, aflançou-lhe que não; que 
não havia tal cousa. Sempre elle tinha idêas! 

Sequeira então lembrou que, tendo em 
artigos de morte uma parenta próxima do ma- 
rido, havia de necessitar occupar-se de lucto, 
tratar com modistas. Mas a Chica pediu-lhe, 
magoada, que lhe não falasse em tal cousa. 



54 COLLECÇÀO ANTÓNIO MARIA PEREIRA 



A pobre senhora ainda vivia e podia ser que 
áquella hora estivesse melhorando. 

Elle encolheu os hombros um pouco irónico. 
n'uma fria sentença de morte em que não havia 
apellação. E despediu-se com um eífusivo e 
longo aperto de mão — talvez demasiado longa 
— promettendo voltar breve. 

A Ghica foi direita á cozinha recomendar á 
criada que não tornasse a introduzir-lhe qual- 
quer visita no gabinete sem primeiro annun- 
ciar. Mandasse sempre entrar para a sala e 
fosse dar-lhe aviso. 

A rapariga, em sua justa defeza, allegava 
que o sr. Sequeira tinha aquella balda de met- 
ter-se pela casa dentro sem esperar uma nem 
duas. Para a outra vez havia de ensínal-o Era 
logo: «Voscellencia tenha a bondade de esperar 
aqui na sala qu'a senhora não está vesible* — 
E prontava-se-lhe no meio do corredor a to- 
mar-lhe o passo. Sempre queria ver! — E fi- 
cava preoccupada, talvez a scismar na ma- 
neira de attenuar a dureza d'aquella imposi- 
ção, attendendo ás liberalissimas gorgetas que 
o Sequeira dava em dias assignalados. E sabia 
Deus as que ainda poderia vir a dar-lhe! No- 
tava-lhe sempre um não sei quê na vista quan- 



RETALHOS DE VERDADE 55 



do ellt se punha embasbacado para a senhora 
como quem mirava um painel. 

X'aquella tarde um moço do melhor estabe- 
lecimento de flores da Baixa levou ao Salitre 
um bello, fresquíssimo ramo de flores. Era tam- 
bém portador de um bilhete de visita. Por 
baixo do nome Esmeraldo Sequeira, estava es- 
cripto a lápis — Para suavisar-lhe a solidão. 



V 



Apesar do concentrado mau humor com que 
o António voltava a Lisboa depois de tantas 
commoções excitantes, acabrunhadoras, não 
pôde ser insensível a uma extranha circumstan- 
cia, a uma grande surpreza. Aparecia-lhe a 
Chica como remoçada, com aquelle ar de sa- 
tisfação que sempre tivera em casa no tempo 
do inolvidável diplomata. 

Com jubilo, tornava a encontrar, cuidado e 
graça na mesa, esmero nas flores, uma cor de 
bem-estar e de civilisado conforto em tudo. 

O assumpto dinheiro parecia propositalmen- 
te banido. A Chica nem por acaso alludia a 
assumptos financeiros. Falava agora muito de 
uma T^evista, mas cousa séria, tendenciosa, em 
que ambos collaborassem; talvez uma publica- 
ção para crianças, talvez uma tentativa de 






RETALHOS Dh' VERDADE 57 

construcção feminista. Queria porém que pres- 
cindissem do dinheiro do Sequeira, que de- 
dicassem á empreza os quinhentos mil réis da 
tia Amalinha. 

E sempre havia um coitada!, ou qualquer 
outra expressão de carinho, dedicada á memo- 
ria da boa senhora que não conhecera. 

O António entendia que não deviam estar 
com taes escrúpulos com o dinheiro do Se- 
queira, um intimo, quasi um irmão. Mas não 
sentia já o antigo desejo de contrariar a mulher, 
agora que a via activa e alegre, sem aquella 
insupportavel preoceupação incessante da es- 
cassez de recursos materiaes. 

Ao chegar, elle quizera logo saber como se 
portara o Sequeira. — Que bem; que muito 
amável. Fizera-lhe os mais rasgados olfereci- 
mentos, inclusivamente de dinheiro. Ella po- 
rem não tivera occasião de utilisal-os. . . 

No dia seguinte ao da chegada, o António 
apresentou-se na secretaria. Tinha estado au- 
sente três mezes, íiado em certa condescendên- 
cia do chefe e na herança da tia Amalinha. 
Um herdeiro, ainda que só presumptivo, de 
algumas centenas de contos pôde faltar á se- 
cretaria. Mas um herdeiro gorado passa a con- 
dições muito ditíerentes. O António já não po- 



58 COLLECÇÃO ANTÓNIO MARIA PEREIRA 

dia sensatamente renunciar á sua cathegoria de 
funccionario publico. 

De mais a mais não tinha que esperar que 
lhe aviassem o lacto. Estava resolvido: não 
poria lucto pela tia Amalinha, uma beata que 
tora metter nas algibeiras dos padres um ca- 
pital que era muito seu. Tivesse elle adivi- 
nhado, e não teria aguentado aquella estopada 
de três mezes, entre ladainhas, rosários e ou- 
tras quejandas embustices. 

N'esta abstenção de lucto não encontrara 
opposição na Chica. Elia não dava verdadeira 
importância a este uso convencional do íato 
preto. Parecia-lhe antes uma absurda imposi- 
ção rotineira com marcada tendência a acabar, 
como todos a subversões da liberdade. 

Em tudo notava o António a profunda trans- 
formação que se operara na Chica durante a 
sua ausência. Sob aquella apparencia de ale- 
gria, de despreoceupação, surprehendia até tra- 
ços novos que o inquietavam : frieza que mal se 
escondia, uma decisão tenaz que o sorriso pe- 
renne não dissimulava bastante. Sempre tivera 
a Chica maneiras graves, distinctas; mas o que 
agora ressumava, por baixo de uma aífabilida- 
de talvez excessiva, era certa rigidez, certa in- 
tensão um tanto hirta que o desconcertava. 



RETALHOS DE VERDADE 59 



Sobre a herança da tia Amalinha não tinham 
chegado a atar conversação seguida. Aos com- 
mentarios vulgares, muito materialistas, do An- 
tónio, a Ghica respondia evasivamente evitan- 
do o assumpto, como espinhoso ou falho de 
interesse. 

Evidentemente tinha havido uma mudança. 
A condescendência passiva a humildade, ti- 
nham ficado além Agora, presentia-se em todo 
o ambiente uma força occulta. uma influencia 
extranha. A Ghica estava em tudo. agradavel- 
mente, como nos primeiros tempos de casada. 
Mas o pensamento divagava por outras partes: 
o pensamento não estava ali. 

Que influencia podia ser essa? Uma tal con- 
sideração chegou a sobresaltar intensamente o 
António. 

Seria atraiçoado ? Quando isto lhe occorreu 
pela primeira vez sentiu logo um vivo remorso. 
Duvidar da Chica era duvidar da própria vir- 
tude; negar a existência de todo o bem. Não. a 
vida não podia ser um inferno em que só predo- 
minasse a traição. 

As cousas porém não melhoravam de aspe- 
cto. A cada dia que passava accentuavam-se 
as impressões pessimistas. Resolveu consultar 
o Sequeira. Não era e!le o seu melhor amigo? 



60 COLLECÇÃO ANTÓNIO MARIA PERE1KA 



Tinha-o quasi como um irmão. Depois, o Se- 
queira — não sabia bem porquê — exercia um 
grande ascendente sobre elle. Bem podia ser 
que, como uma só palavra do amigo, se resta- 
belecesse de súbito a calma, a tranquillidade 
da sua vida. 

E foi procurar o Sequeira, como se vae a 
casa do dentista para arrancar um queixai do- 
rido, quasi certo de que, ao voltar, toda a dor 
teria desapparecido. 

Mas o Sequeira, depois de o ouvir cabisbai- 
xo, íicou-se a retorcer o -bigode pintado e não 
lhe pespegou, com ademanes dramáticos, a 
descompostura que elle esperava e desejava. 
Tinha calculado que o menos que o outro po- 
dia fazer era chamar-lhe selvagem, animal, por 
atrever-se a pôr conceitos de desconfiança 
n'uma mulher tal como a Ghica. O Sequeira po- 
rem prolongou cruelmente aquella atitude re- 
servada; e, quando emfim se resolveu a olhar, 
fel-o com tal ar de commiseração que o Antó- 
nio sentiu impulsos de o esbofetear. 

Emfim, o amigo falou. E as suas palavras 
frias, ponderadas, eram settas que se cravavam 
até ao mais-fundo no coração do António. Mal 
podia crer o que ouvia. Transtornado, deixou- 



RKTALHOS DIÍ VEKDADli 61 



se cair no sofá com a cabeça apertada nas 
mãos. 

O Sequeira também vinha desde muito sen- 
tindo apprehensões; também tinha suspeitas. 
A sua intensão fora continuar a frequentar a 
casa do amigo, durante a sua ausência, como 
um familiar, como um irmão. Não pudera lo- 
gral-o, apesar da sua boa vontade e propósito. 

Desde o primeiro momento fora recebido 
com gélida frieza, a breve trecho transformada 
em franca hostilidade. N'essas curtas visitas a 
Chica quasi não descerrava os lábios. Recor- 
dava com desprazer o constrangimento d'aquel- 
les monólogos opprimentes. 

Depois a Chica passou a negar-se-lhe com 
qualquer pretexto; uma dor de cabeça, arran- 
jos caseiros. . . Algumas vezes também dizia- 
lhe a criada que a senhora tinha saido. 

Começou a estar inquieto sem poder expli- 
car-se porquê. Talvez simples palpite. Elle 
acreditava em palpites. Por fim viera uma cir- 
cumstancia fortuita confirmar-lhe a vaga sus- 
peita. 

Sabia que estava causando ao António uma 
dor intensa. ÍVlas cumpria um dever austero 
tratando-se de um amigo. Assim quizera que 
os amigos se portassem com elle em igualdade 



G2 COLLKCÇÃO ANTÓNIO MARIA PEREIRA 



de circumstancias. la expôr-lhe francamente as 
cousas, como as observara, incrédulo a princi- 
pio, assombrado depois. 

O Rocha, um seu amigo dos tempos de es- 
tudante, tivera uma pneumonia que o ia ra- 
pando. Fora vel-o todos os dias durante a se- 
mana de perigo. 

Morava na rua dos Navegantes. Uma ma- 
nhã, inesperadamente, viu a Chica entrar para 
uma casa de bom aspecto, cinco portas adian- 
te da do Rocha, do outro lado. Dias depois, 
viu-a sair da mesma casa ás 2 da tarde. N'essa 
o.casião viram-se e falaram. Ella ficara ex- 
traordinariamente perturbada com o encontro. 
Explicou-lhe que vinha de visitar uma amiga 
doente. 

Aqui o Sequeira tomou fôlego, accendeu um 
charuto e continuou: «Sempre a espionagem 
me pareceu cousa detestável. Mas tratava-sc 
de um negocio sério em que eu via compro- 
mettida a tua honra. Julguei do meu dever es- 
piar, averiguar. A situação da casa do Rocha, 
quasi fronteira á outra, facilitava-me as opera- 
ções. Pude então verificar. . . » 

Um movimento brusco do António, sacudin- 
do violentamente a cabeça, cortara a palavra 
ao Sequeira. 



RETALHOS DE VERDADE 63 



— «Por Deus, homem, continua» — eo olhar 
desvairado do António tinha lampejos de lou 1 
cura. — «Não vês que me estás torturando ?» 

O Sequeira tirou uma forte chupada ao cha- 
ruto e disse friamente: «Se te propões entrar 
pelo melodramático, calo-me. Detesto os Othe- 
los. como ridiculos, como anachronicos. A ver- 
dade, ainda que dura, tem de saber-se. para 
que o publico, a galeria inepta, se não ria de 
nós. Alais nada. Tanto direito tem as mulheres 
a ter amantes como nós. Querer increpar de 
traidora a mulher que se cançou de ti é sim- 
plesmente absurdo. O que o decoro reclama 
n'esses casos é a separação. Em quanto as so- 
ciedades não chegarem ao divorcio com todas 
as naturaes consequências não haverá morali- 
dade. O homem quer para si toda a liberdade, 
e a mulher para sua escrava. E' o ultimo dos 
absurdos. Não tens filhos. Ha casos muito peio- 
res que o teu. Crês que te faltarão mulheres?... ■ 

— «Mas, afinal, o que é que tu averiguaste?» 
— bradou o António, com os braços no ar, tão 
melodramático como se não tivesse ouvido 
uma palavra da exhortação modernista do Se- 
queira. Acaba, por Deus.* 

— ejá lá vamos. . . O que eu averiguei foi 
simples. Ainda que devo dizer-te que me sur- 



64 COLLECÇÃO ANTÓNIO MARIA PEREIRA 



prehendeu, porque tivera a ingenuidade de 
considerar a tua mulher differente de quasi to- 
das as outras. Pude verificar sem a menor dif- 
íiculdade que a Chica ia com frequência áquella 
casa da rua dos Navegantes, demorando-se lá 
horas successivas, saindo sempre com ar es- 
quivo, receioso, usando um veu espesso que a 
tornava quasi desconhecida. O Rocha é um 
solteirão muito original, um tanto ascético. Tem 
uma cosinheira de sessenta annos e uma go- 
vernanta de setenta. Esta é a família. Lá nin- 
guém sabia quem morava umas portas mais 
adiante. Não quiz insistir nas perguntas para 
não levantar suspeitas. Estas minhas pesquizas 
datam de poucos dias. Ainda não pude avan- 
çar mais. F/ um edifício de quatro andares, de 
boa apparencia. Não sei mais nada. Que a tua 
mulher tem um amante, parece-me claro como 
agua. Que podes contar comigo absolutamente, 
para tudo, parece-me inútil dizer-t'o. Agora 
tenho que advertir-te que me penalizaria muito 
ver-te mettido estupidamente n'essas trapalha- 
das de duellos, assassinatos, suicidios e tuti 
quanti, a que arrastou a humanidade, certo em- 
busteiro, certo farçante, de nefanda e ridicula 
memoria, chamado Alexandre Dumas. Fere 
sempre o amor próprio do marido que a mu- 






RETALHOS DE VERDADE 60 

lher lhe pretira outro homem. Mas ha muitos 
remédios enérgicos e promptos para as fendas 
do amor próprio. Mais estúpido e absurdo do 
que matar só ha uma cousa : deixar-se matar. 
Com que direito ? O ponto de honra ? Tudo isso 
tende sensatamente a acabar. Não ha nada mo- 
ral senão a liberdade, o livre arbitrio. Dentro 
de uns annos, não muitos, havemos de rir-nos 
dos tribunaes de honra como hoje nos rimos 
da cabelleira e rabicho dos bisavós. Verás. . . 
A conferencia dos dois amigos prolongou-se 
até tarde. O António não foi jantar a casa nem 
se preoccupou de mandar avisar a mulher de 
que não ia. 



VI 



Passava muito da hora do jantar, e o Antó- 
nio não vinha. Presa de supersticiosa inquieta- 
ção, a Chica, sem deparar com outro partido, 
mandou a criada, correndo, a casa do Sequeira 
perguntar se tinha acontecido alguma cousa. 

Veiu a resposta n'um lacónico bilhete do An- 
tónio. Dizia que o Sequeira tivera uma syncope 
que o assustara, e por isso ficara a acompa- 
nhal-o. Parecia a final que só se tratava de 
uma perturbação de estômago, cousa de pouco 
cuidado. Acrescentava que de manhã, ao sair 
de casa, encontrara um empregado do telegra- 
pho que lhe entregara um telegramma urgente 
do administrador da tia Amalinha, reclamando 
a sua presença na Quinta. Tinha que partir no 
comboio da noute para o Minho, e pedia á 
Chica que lhe tivesse preparada a mala. Pouca 



RETALHOS DE VERDADE 67 



roupa porque não estaria ausente mais que 
meia dúzia de dias. A' hora de sair passaria 
por casa, de carruagem, para levar a mala. 

Tudo aquillo pareceu um pouco estranho á 
Ghica. Como era que o marido se não lembra- 
ra de mandar-lhe antes recado, sabendo que 
ella o estaria esperando para jantar? 

Preoccupada, não se sentou á mesa. Tomou 
de pé uma chávena de caldo que a criada in- 
sistiu em trazer-lhe. 

E poz-se melancholicamente a arrumar a 
mala. 

Melancholicamente, porquê? Dor da nova se- 
paração? Ao contrario; a melancholia vinha 
agora de fonte mui diversa. Recordava os tem- 
pos não longinquos em que uma separação, 
ainda que só de algumas horas, lhe custava um 
aperto do coração. E hoje? O que estava sentin- 
do, desde que lera no bilhete do António a ines- 
perada nova, era como uma sensação de allivio, 
de desoppressão, de resgate. 

A ausência d'elle era o libertar-se da odiosa 
mentira, da pesada responsabilidade da culpa, 
o poder levantar o olhar sem receio de trair-se, 
livre do torturante grilhão do mysterio. 

A sua vida ao lado do António era agora 
um cruciante martyrio. Ella, que sempre odiara 



68 COLLECÇÃO ANTÓNIO MARIA PEREIRA 

a mentira, obrigada a inventar cada dia uma 
nova artimanha, um expediente novo, para re- 
ter, para conservar a fonte da única felicidade 
que lhe seria já possivel. 

A presença do marido era-lhe agora uma 
tacita censura, um espinho doloroso, um tortu- 
rante remorso. 

Havia de arrancar-se áquella situação inde- 
corosa. Mas quando ? Quando cobraria animo 
para contar-lhe tudo, para revelar-lheo pesado 
segredo da sua vida, preparada para todas as 
eventualidades por duras que fossem, disposta 
a não transigir, a impôr-se, a repellir humilha- 
ções, a não deixar nunca mais anullar a sua 
vontade pelas arbitrarias imposições de outra 
vontade ? . . . 

A' ultima hora, o António entrou de afoga- 
dilho em casa, deu um beijo distrahido na mu- 
lher, pegou na maleta, e deitou a correr escada 
abaixo com um lacónico Adeus ! 

Ella, no patamar, pediu-lhe que telegra- 
phasse á chegada. Elle não respondeu nem 
voltou a cabeça a dizer-lhe outra vez adeus, 
como costumava. 

Que teria? — pensava a Ghica quando en- 
trou em casa. passando levemente o lenço nos 
olhos. 



KKTALHOS DE VERDADE 69 

Estaria outra vez absorto n'aquella depri- 
mente idéa do dinheiro da tia AmalinhaT 
Era possível. Que podia querer-lhe o adminis- 
trador, quando tudo estava concluído? Teria 
apparecido algum testamento mais recente ? 
A mera supposição d'esse facto era bastante 
para transtornar completamente o António. 
Conhecia-lhe o fraco. 

Por tudo isto esperou com redobrada impa- 
ciência noticias do Minho. Não veiu telegram 
ma nem carta. 

Aprehensiva, occorreu-lhe mandar saber da 
saúde do Sequeira. Achava estranho que elle 
agora não desse signal de si na ausência do 
marido. As criadas velhas agradeceram muito 
o cuidado da senhora e mandaram dizer que o 
senhor não estivera doente, e continuava de 
perfeita saúde. 

Não encontrava explicação plausivel a tan- 
tas anomalias. 

Ao terceiro dia, a Chica vinha de fora, pou- 
co depois das duas horas, quando á porta de 
casa ficou varada de surpreza. 

Como sempre perguntou á criada se o cor- 
reio tinha trazido alguma cousa. Atónita, ou- 
viu esta resposta: «Veiu mas foi elle, o se- 



70 COLLECÇÃO ANTÓNIO MARIA PEREIRA 



nhor. . . Pr'os modos está como uma bicha. . » 
Não abriu a boca p'ra dizer pio. . . • 

A Chica correu ao gabinete, certa de que ia 
defrontar-se com uma nova desillusão sobre a 
desgraçada herança da tia Amalinha. 

O António estava ali, de pé contra a mesa, 
pallido, hirto, olhos encovados, o cabello re- 
volto. 

— «Que tens ?» — exclamou a alvoroçada 
rapariga, atirando para o sofá o chapéu e as 
luvas. 

Elle olhou-a rancorosamente; e, com gesto 
furibundo e voz exaltada: «Que tenho! Ainda 
m'o pergunta! Que tenho!... Despedaça a 
minha felicidade, o socego da minha vida in- 
teira, e ainda tem a desfaçatez de perguntar-me 
o que tenho!» 

A Chica olhou espavorida em torno, como á 
busca de um dado que fosse explicação a tão 
estranha scena. Nada descobriu. Deus! Estaria 
elle louco? Para que martyrios estava ella ain- 
da guardada ?. . . 

O touro pára um momento antes de arre- 
metter com redobrada fúria. O António tam- 
bém parara ; e, emfim, na ultima corda do tom 
melodramático: «O cinismo d'esta mulher! o 
impudor com que entra na sua própria casa 



RETALHOS DE VERDADE 71 

depois de ter passado horas nos braços do 
amante! O aspecto de dignidade de que sabe 
revestir-se para encobrir o procedimento mais 
ignóbil, a traição mais infame!» 

A Chica caíra sentada no sofá, comprimin- 
do o peito com ambas as mãos, como se a ti- 
vessem ferido de morte. De repente, n'um 
movimento brusco, atirou o rosto livido, trans- 
mudado, para as almofadas, ficando ali quasi 
de bruços, anniquilada, immovel, notando-se- 
. lhe apenas no altear das costas a respiração 
alta, ofegante. 

Elle avançou dois passos e proseguiu em 
crescente exaltação, rouco de fúria: «Vi, vi eu, 
ninguém m'o disse. Espreitei e vi tudo. Quem 
me havia de dizer tal cousa ! Que havia de ver 
esta mulher em dias successivos sair de casa 
do amante, com o ar esquivo de quem tem a 
consciência da infâmia, mas adquirindo logo a 
segurança de quem insiste no delicto sem ar- 
rependimento ! Não quero nem saber o nome 
do infame. Também para esse, se entra a serio 
na aventura, chegará o momento das desillu- 
sões e estarei vingado. Voto esse homem ao 
maior despreso. A sociedade que julgue como 
quizer o meu procedimento . . . Far-se-á sobre 
isto o menor ruido possível. Não daremos pas- 



72 COLLECÇÃO ANTÓNIO MARIA PEREIRA 

to ao escândalo. A senhora entrará n'um reco- 
lhimento onde lhe darei uma mezada modesta, 
dentro dos meus recursos. Já sabe que sou po- 
bre; mas creio que nunca lhe faltou nada. Não 
foi a necessidade, como a tantas, que a desviou 
do caminho da honra. Eu parto para o Brazil, 
a ganhar dinheiro. Se chegar a ser rico, talvez 
ainda possa atordoar-me na voragem do luxo, 
já que felicidade de outra ordem não pôde exis- 
tir para os homens honrados ...» 

O António atalhara-se, talvez pasmado d'a- 
quelle silencio pesado, em meio do qual a sua 
voz retumbava como um secco estampido de 
tempestade assoladora. Esperara que a Chica 
protestasse, que se defendesse, ou que se lhe 
arrojasse de joelhos pedindo perdão. Tinha 
então preparada a mais saborosa vingança, 
arremessando sobre aquella cabeça altiva toda 
a immensidade do seu desprezo. 

Mas ella não se movia, nem parecia disposta 
a encarar-se com elle, sempre com o rosto mer- 
gulhado nas almofadas macias. Devia ser o ani- 
quillamento da vergonha, talvez já um princi- 
pio de remorso. 

E elle, imbecil! Como tinha confiado n'a- 
quella ingrata ! Como lhe tinha querido e como 
lhe queria ainda 1 E o impossivel entre ambos! 



RETALHOS DE VEHDADE 73 



O desmoronar de toda a sua existência! Porque 
elle, sem a Chica, o que era ? para que queria 
a vida ? Fugido d'ella para sempre, onde iria 
parar ? 

Sentiu que lhe vinha um soluço e,impondo- 
lhe uma vontade de ferro, fel-o retroceder. 
Queria ao menos esquivar-se a parecer ridí- 
culo. 

Era insustentável aquella situação em que 
estava sotirendo atrozmente. Até áquelle mo- 
mento tinha conservado a esperança de que 
ella se levantasse altiva a desmentil-o. Puerili- 
dade! Não vira elle tudo, mettido dois dias em 
casa do Rocha ? Não a vira entrar receiosa em 
casa do amante, e sair três horas depois com 
o ar timido do delinquente que busca occultar- 
se ? Oh! era horrível! horrível! Cria ás vezes 
estar sonhando. Ella, apparentemente tão boa, 
tão digna, que até parecera respeitável ao Se- 
queira, desilludido de todas as mulheres! E a 
traidora apartando de casa o amigo, para mais 
livremente poder entregar-se ao amante! Quem 
seria o infame? um aristocrata talvez. . . tal- 
vez algum diplomata, antigo adorador. Segui- 
ria o prudente conselho do Sequeira, não pro- 
curando nem sequer saber-lhe o nome. Para 
quê? N'estes casos o único procedimento ajui- 



74 COLLECÇÀO ANTÓNIO MARIA PEREIRA 



zado era evitar o escândalo. Se fosse d'esses 
maridos que tem valor para matar as mulhe- 
res, talvez pudesse sentir algum desafogo im- 
mediato. Mas o longo colloquio com o Sequeira 
desviara-o completamente d'esse rume; para- 
lysara-lhe a vontade para o desforço. Ainda 
que elle suppunha que nunca poderia ter ma- 
tado a Chica. . . 

E ella sempre com o rosto escondido entre 
as almofadas, só mais serena agora, como se 
tivesse adormecido. 

Era indispensável terminar de qualquer mo- 
do aquella scena ridícula, absurda. 

Erguendo desmedidamente a voz, para dis- 
farçar a commoção, o António resumiu, vio- 
lento : 

«Quanto mais depressa liquidarmos isto, 
melhor para ambos. Prepare as suas cousas 
para entrar amanhã n'um convento. N'essa si- 
tuação, em quanto eu viva, pôde contar com 
uma mezada modesta. Não lhe desejo remor- 
sos equivalentes ao mal que me fez. Guardo 
muito respeito, muita veneração pela memoria 
de seu pae. . . » 

De repente ella ergueu-se hirta, livida, com 
o olhar fulminante. Alteando convulsamente os 
braços n'um gesto imponente: «Oh! não não. . . 



RETALHOS DE VERDADE 75 



Por piedade!... Por Deus!... Não pronuncie 
esse nome sagrado . . . Não consinto que en- 
volva em tamanha ignominia o nome de meu 
pae...» — e, apertando os ouvidos entre as 
duas mãos abertas, saiu da sala correndo, tro- 
peçando nas cadeiras. . . 

Elle ficou estático, atónito. E, não sabendo 
que outro partido tomar, pôz o chapéu, atirou 
com a porta e foi para casa do Sequeira des- 
abafar, contar o succedido. 



VII 



Quando, na manhã seguinte, o António vol- 
tou a casa intimamente sobresaltado com a 
idéa de encontrar-se cara a cara com a mu- 
lher, aguardavam-no ali impressões inespera- 
das. 

A criada, com os olhos vermelhos, lacrimo 
sos, estava só. — A senhora tinha saido na vés- 
pera de tarde, levando uma mala de roupa e 
não voltara. 

«Bruto! Animal!» — vociferou o António, 
aos murros ao peito que parecia desassisado — 
« Claro ! Deixei a livre, fugiu com o amante . . . 
Já não podiam enganar-me ! . . . Mas hei-de 
agarral-os ! Olá ! . . . Mato-os . . . Mato-os . . . 
E depois que me venha o Sequeira cantar phi- 
losophias!» — e sentando-se desesperado, ani- 
quilado — « Ora isto, isto ! . . . O que é a vida 



RETALHOS DE VERDADE 77 



de um homem nas mãos de uma mulher sem 
miolos!» — e voltando-se subitamente contra a 
criada, em crescente exaltação: «Mas ella, essa 
canalha, nem sequer me deixou um recado, 
nada? !. . . Fale, mulher. Não vê como estou? 
Diga tudo o que souber, ande. . . i 

A rapariga enxugou as lagrimas ao aventaL 
Depois. n'um trabalhoso esforço para serenar- 
se, para emittir claras as palavras : «A senhora, 
coitadinha, andou ahi toda a tarde que mettia 
mesmo dó. De comer. nada. Nem á mesa se 
sentou. O que fez foi andar a arrumar tudo. O 
fato do senhor antão foi todo dobradinho nas 
gavetas, todo posto por ordem. . . E lagrimas 
como punhos. Xem quando foi da morte do 
paesinho. . . Aquillo era uma pena mais gran- 
de ! Uma angustia ! . . . Eu, á hora que me pa- 
receu, fiz -lhe chá e prantei-ltio com umas bola- 
chinhas ahi no gabinete. Nas bolachas quem 
diz lá que tocou ! Mas ó despois, quando eu en- 
trei, disse-me assim p'ra mim. com aquella vo- 
sinha de santa : O chá fez -me bem, Flora. Mui- 
to obrigada. — Eu larguei a chorar como uma 
cascata. Coitadinha ! Era a ultima coisa que 
tomava na sua casa. Sempre tão amiguinha do 
chá ! . . . E vae ella antão volta-se p'ra mim e 
diz: Vamos, Flora. . . São coisas que tem de 



78 COLLECÇÃO ANTÓNIO MARIA PEREIRA 



acontecer. . . A gente no mundo nunca sabe 
para o que está. Tenho de me ir embora de 
casa. — E afogou-se com os soluços, que nem 
já podia falar. . . Eu puz-me a modo tonta da 
cabeça. Prantou-se-me aqui um nó» — e indi- 
cava o gorgomilo. — «Éramos ahi duas Manga - 
nelas. . . EUa despois inda me disse assim: Se 
vocemecê ficar com o senhor, trate-lhe bem de 
tudo : já sabe os costumes. — Mas isso lá, falo 
franca. Deus me livrasse ! Ficar em casa, sem 
a minha senhora... Antes a morte !.. . Subiu- 
me cá de dentro não sei quê, e agarrei-me a 
cila a querer-lhe beijar a mão. . . Foi antão 
quando aquella santinha me abraçou e beijou 
na cara. E eu desato a dizer-lhe : E a minha 
senhora para donde é que se vae ? — E ella an- 
tão responde-me por estas palavras : Eu vou 
d'aqui para muito longe, Flora — e correu para 
o quarto, que parecia que estalava. E já a gen- 
te, a bem dizer, não tornou a falar senão quan- 
do foi por via de metter o Saraphim no saco e 
eu descer com elle á carruagem. . . » 

— «Ella então levou o gato?» — perguntou 
o António assombrado. 

— «Diz que o queria porque o seu paesinho 
era muito amigo de gatos e sempre fazia mui- 
tas festas a este . . . Também levou o retrato 



RETALHOS DE VERDADE 79 

grande do paesinho que estava dependurado 
na sala... Foram as duas cousas, tirante a 
roupa do corpo. . . » 

O António quedou-se um momento olhando 
a criada attonito. Depois, n'um Ímpeto: «Você 
já devia ter percebido que a senhora me atrai- 
çoava, que tinha um amante. . . Vocês são to- 
das boas ! . . . » 

A rapariga enxugou as lagrimas ao avental 
com arremesso, com raiva. «Eh, senhor! cale- 
se lá. Isso até e otfender a Deus. . . Ella coi- 
tadinha, que não tinha mais pensamento que 
era para o seu marido. . . Quando o senhor 
esteve na provincia, dia que lhe faltasse carta, 
logo se lhe conhecia na cara. . . O outro bem 
se atirava, lá isso!... A gente faz-se tansa, 
mas inda não é cega de todo. Mais derretido!... 
Mas ella, coitadinha, umas trombas! E é que 
não descançou em quanto não pregou com elle 
de casa o ra fora ...» 

— «Você de quem está ahi a falar, mulher? 
Você endoideceu?. . . Quem diabo vem a ser 
esse outro?» 

— «Com o que elle agora vem! Não querem lá 
ver ! Como se aqui entrasse mais homem que 
aquelle!. . . Pois está de ver. . . O senhor Se- 
queira . . . essa boa firma ...» 



80 COLLECÇÃO ANTÓNIO MARIA PEREIRA 

— «Você perdeu a cabeça, mulher; você 
perdeu o juízo.» 

— «Diga-lhe que* sim e deixe. . . Que, as- 
sim como assim, agora já não tem que guar- 
dar. . . • 

— iOh! mulher do diabo... Cale-se. . . 
Isso é a maior das calumnias. . . Um disparate 
sem pés nem cabeça. . . Oh! senhores! Isto é 
para endoidecer. . . Essa patifaria inventaram- 
na para me desorientar, para occultar melhor 
a verdade. Vê-se que está bem ensinada, você... 
Sua. . . Você não sabia que a senhora saía to- 
dos os dias. e estava fora de casa um ror de 
horas? Você não sabia isto?. . . E porque me 
não avisou, sua desavergonhada?» 

A Florencia levara como uma estocada. Ti- 
nha os olhos cravados testamente no chão. Os 
braços hirtos completavam a attitude do es- 
pasmo. 

— «Ahi está! Ahi está!» — bradou o Antó- 
nio, lançando-se a ella e sacudindo-lhe brutal- 
mente um braço. — «Quanto lhe pagaram, sua 
alcoviteira sem vergonha, para que você se 
calasse ?» 

A rapariga era possante. O António, ainda 
bem não pronunciara as ultimas palavras, tinha 
ido parar a três metros de distancia com o re- 



RETALHOS DE VERDADE 81 



pelíão decidido que ella lhe deu, rosto irado, 
olhos deitando chispas. 

— «Arreda! Nada de pôr mão no púlpito, 
eh?» — e logo, mais fera: «Ah! elle é isso? 
Pois espera, que eu te conto. . . O segredo 
d'ella haverá eu de o guardar até que ella me 
soltasse a lingua,que assim lh'o tinha prometti- 
do. Mas ha casos que podem mais que as leis... 
E, já agora, que importa estar com aquellas ? 
Agora já tudo se tem que saber. . . A minha 
senhora, se saía todos os dias, não era p'ra 
nenhuma vergonha. Ia a casa de uma senhora 
que lhe chamam a viuva Cunha, ali ao cabo da 
rua dos Navegantes. . . Se o senhor quizer, 
lambem lhe ensino a casa . . . Tinha três horas 
de iição a quatro meninas. . . Mais lindas e 
mais bem educadas ! Só a amizade com que 
tratavam cá a senhora! Queriam-lhe mais!. . . 
G ella, coitadinha !... desde que ganhava os trin- 
ta mil réis parecia outra. Já as contas da casa 
andavam em ordem e como devia ser. Acabou- 
se aqueila ralação de virem as contas á porta, 
e ella de mil cores, sem saber aonde havia de 
o ir buscar. . . O senhor era tudo andar por 
ióra, não dava fé de nada . . Com tanto que 
aqui encontrasse boa mesa e boa cama . . . An- 
dava mais estifeita! Ate a mim me augmentou 



82 COLLECÇÃO ANTÓNIO MARIA PEREIRA 



dois mel réis na soldada, sem lh'o eu pedir. Eu, 
Deus me livre! E já me tinha promettido um 
vestido preto para a Semana Santa ...» 

A esta recordação economico-piedosa, as la- 
grimas outra vez affluiram abundantes aos olhos 
da Florencia — Este era o verdadeiro nome de 
baptismo — .Tapou a cara com o avental e 
rompeu em soluços. 

Toda esta scena decorria n'um vestíbulo de 
modestas dimensões, á entrada. 

O António tinha-se sentado. Parecia idioti- 
sado. Olhava n'um espasmo para aquelle pranto 
da criada. Os braços pendiam-lhe aos dois la- 
dos da cadeira, com leve tremor nas mãos es- 
tendidas. 

Expandida a sensibilidade, a rapariga, quan- 
do enxugou os olhos e os abriu á realidade., 
percebeu que a situação tinha mudado de cabo 
a cabo. A fera, em lethargo, jazia subjugada. 
A força estava agora toda do lado d'ella. 

Seria lógico que se abrigasse em Flora um 
animo incapaz de abusar da força ? O que ella 
fez, com o olho a luzir no secreto goso da vin- 
gança, foi atirar-se com unhas e dentes ao ini- 
migo prostrado. 

— «A final de contas, a culpa de tudo quem 
a tem é o senhor» — e as palavras vinham-lhe 



RETALHOS DE VERDADE 83 



soltas, aceradas, mortificantes. — «Claro! Com 
esse geniaço que ninguém lhe pode ir á mão! 
Ella, coitadinha, se andava com estes esconde- 
rijos — e bastante lhe custavam ! — era para ver 
se prantava as coisas a direito, sem o senhor ir 
ás do cabo. . . EUe bem claro estava. . . Em 
que cabeça cabe que se viva como se vivia 
n'esta casa só com o que o senhor ganha? Bons 
vão os tempos para esses milagres-! Tudo cada 
vez mais caro ! Os impossíveis ninguém os pôde 
fazer. Ella bem se consumia, a ver que o rol 
não subisse. Mas qual! Depois, se não lhe pu- 
nha as comidas finas e variadas, era logo o se- 
nhor a queixar-se. E, p'ra mais ajuda, o ou- 
tro sempre aqui prantado a comer do bom e do 
melhor. . . Está visto!. . . para aquella pren- 
da! . . . Olhe, pois o que lhe afianço é que, se a 
minha senhora tivesse querido, lh'a tinham pre- 
gado os dois, ao senhor, que era um regalo...» 

N'um violento estremeção o António levan- 
tou-se. Tinha-se mal nas pernas. Cambaleava 
como ébrio. 

— « Oh ! mulher, pelo amor de Deus, suma-se 
d'aqui . . . Parece que gosa em me atormentar. 
Maldita, maldita creatura!» — e entrou arreba- 
tadamente no gabinete, fechando a porta com 
estrondo. 



84 COLLECÇÀO ANTOMO MAHiA PEREIRA 



Ali deu-lhe logo na vista uma carta deixada, 
sem companhia de nenhum outro objecto, so- 
bre a mesinha em que os dois tantas vezes ti- 
nham tomado chá juntos. Era dirigida a An- 
tónio Pinheiro. A letra era a letra da Chica, 
bastante alterada. 

Com a carta na mão, receioso de abnl-a, o 
António caiu no sofá, exactamente no mesmo 
lugar em que ella estivera na véspera soffrendo 
o ataque brutal que lhe dirigira. E o que devia 
ter soífrido então ! 

Emfim, rasgou o sobrescripto e leu mental- 
mente: 

«António: 

Realisou-se em circumstancias que eu nunca 
podia ter previsto o desenlace que eu via im- 
minente, desde a morte do meu pobre pae. 
Não podíamos entender-nos : era uma triste 
verdade cada vez mais clara. 

Por mim, procurei sempre a tua felicidade 
sem a conseguir. Era uma lucta ingrata. Mas 
a própria lucta se tornou agora impossível des- 
de que deixámos de respeitar-nos mutuamente. 
Pôde ainda viver-se em commum, quando fal- 
tou o carinho, quando desappareceu o amor ; 
não quando se extinguiu o respeito. 



RETALHOS DE VERDADE 85 



A essa desgraça não é applicavel o remédio 
da paciência. Acabaram-se então todos os re- 
cursos. Não ha nada a que apeílar. 

Kscrevo-te serena, resignada com a minha 
vida. Não aceito a mezada que me offereces 
porque quero d'aqui em diante viver exclusi- 
vamente do meu trabalho, crendo que honro 
assim a memoria de meu pae, cujo nome con- 
tinuarei a usar. E' uma resolução inabalável. 
Nunca poderei desistir d'uma independência 
que me custou tão cara e que deve ser d'aqui 
em diante o maior apoio da minha vontade. 

E' lamentável a desordem em que se encon- 
tra o leu espirito. Se esse estado é devido á 
influencia de amigos íntimos, aparta-te d'elles. 
Demais, o mundo encerra tanta traição ! 

O plano de uma viagem parece-me excellen- 
te no teu caso. Outros objectos virão substituir 
os tão desagradáveis que tens agora no pensa- 
mento. Deves aceitar esse recurso com a forta- 
leza com que se aceita o inevitável. 

Francisca de Mello. » 

Anhelante, sem saber o que buscava, o An- 
tónio passou ao quarto de cama, todo cheio de 
memorias d'ella. Era aquillo possivel! Não vol- 



86 collp:cção antonio maria pereika 



taria! Ausente para sempre! E elle como iria 
viver agora? 

Estrebuchando n'uma violenta crise nervosa, 
atirou-se de bruços sobre a cama d'ella, solu- 
çando desapoderamente, beijando com frenesi 
a almofada. 

Tudo acabado! 

Conhecia-a bastante para saber que tinha 
diante de si o irreparável. 

Aquillo fora o desabar completo do seu 
mundo. 






SERRANO 



A patroa puzera-lhe a alcunha muito antes 
de elle chegar. 

Vinha da Serra da Estrella, das bandas de 
Manteigas, e trazia um São Pedro de nome quo* 
nem pelos diachos. Jaliberto, ou lá o que era... 
A D. Plácida não podia com certos nomes. H 
logo declarou á tia do rapaz, a Benta Fornalha, 
que com'assim pegara a chamar-lhe Serrano e 
já não adregava a chamar-lhe de outra ma- 
neira. ■• 

E a Benta logo — que sim, que lhe chamassu 
como quizesse. Que tinha isso que ver ? Se 
aquillo, a bem dizer, nem gente era. 

E uma e outra vez repetia a historia d'aquelie 
sobrinho que nunca vira, informando comprí* 
damente como se o conhecesse por dentro s 
por fora. 



90 COLLECÇÃO ANTÓNIO MARIA PEREIRA 



— Desde que viera para Lisboa servir, não 
voltara mais á terra. Para quê? Para lá ir lar- 
gar o pouco que ia juntando? Figas! Não lhe 
custava pouco ! Bem nova tinha principiado ! 
Nunca tinha pesado á familia. Que se ama- 
nhassem como pudessem !... Mas lá da irmã 
viuva tinha dó. Uma recua de petizada ! Nem 
lhe sabia a conta. Algumas sete bocarras aber- 
tas. . . E pensar que aos ricos era que Nosso 
Senhor! . . . Emfim, calava-se para não peccar. 
Por lastima era que puxava o rapaz para Lis- 
boa. . . Sempre era afilhado. . . Muita pensão, 
bem sabia. . . Mas com as cabras a monte não 
era que elle havia de se fazer gente e ajudar a 
mãe a manter aquella matulla. Certo como 
chamar-se Benta Fornalha que tudo aquillo o 
fazia ella por simples descargo de consciência. 
Que o agradecimento, esse já o esperava. Al- 
gum coice ! Quando ouvira que a D. Plácida 
andava em cata de marçano, mais se tinha ani- 
mado áquelle acto de caridade que o Senhor 
lhe havia de tomar em conta dos seus pecca- 
dos. Só em casa capaz e de muita sujeição. 
Queria-o aperreado. Lisboa era a perdição dos 
rapazes. O seu Gilberto só tinha onze annos; 
snas era gallo de campo que não havia de que- 
rer capoeira. Era sopeal-o com mão de ferro. 



RETALHOS DE VERDADE 91 



De principio era que a;> cousas se levavam. A 
■sua missinha ao domingo e casa. E, quando 
levasse as compras aos freguezes. tempo marca- 
dinho pelo reiogio e puxões de orelhas á volta 
•quando tardasse algum minuto. E nada de 
mandriíce. que era o que deitava a perder a 
^ente moça. Pelo que lhe constava o rapaz 
tinha bom costado para o trabalho. Creara-se 
ao sol e á chuva, duro como as cabras e os 
rafeiros. Nada lhe havia de quebrar osso. . . 

Estas e muitas outras cousas dissera a 
sr. a Benta, do mesmo teor e orientação philo- 
sophica. 

O Gilberto chegou a Santa Apolónia rruma 
manhã de janeiro frigidissima. Trazia calça e 
jaqueta de briche e chapéu desabado. Ao hom- 
bro um potente cajado. Pendente d'este, um 
saquito de ramagens. Era portador de doi^ 
grandes olhos negros, arregalados para tudo. 
Movia-se dirrlcilmente. Parecia estonteado na 
confusão da gente. 

Abeirou-se-lhe uma muiher de chalé e lenço 
e perguntou : «Tu é que és o Gilberto ? 

O rapaz acenou que sim com a cabeça. E 
concentrou n'aquella creatura agreste a atten- 
çáo antes distribuida allucinadamente por to- 
dos os recantos da estacão. 



§2 COLLECÇÀO ANTÓNIO MAKIA PEREIRA 



— * Credo, rapaz 1 Que maneira mais pas- 
mada de olhar pVa uma pessoa ! Parece que 
nunca me vistes ! » 

— «Eu inda nunca a vi a vossemecê» — ar- 
ticulou o pequeno, bravio, com firmeza. 

— «Que nunca viste gente, digo. . . Eu sou 
a madrinha. . . a tua tia Benta. . . Pede-me 
sequer a bençoa. . . Bem podia a tua mãe 
ter-te dado ao menos essa criação. . . » 

O rapaz obedeceu machinalmente. Os dedos 
da sr. a Benta roçaram-Ihe ásperos pelo nariz. 

O da serra não revelou a menor commoção- 
ao ser-lhe notificado que tinha diante dos oihos 
a tia Benta, em cujo lábio superior avultava 
um considerável bigode grisalho. 

— «P'ros modos, de bagage. nicles ?» 

— * Bagage ?» 

— < Pois se quer ó metios uma broa de mi- 
lho, bem podia a tua mãe alembrar-se de man- 
dal-a. . . Estás a modo com cara de frio, ra- 
paz. . . Queres um decilitro? Entramos ahi 
n'uma taverna. . . Queres?» 

— «Um decilitro?» — indagou o pequeno T 
cada vez mais pasmado. 

— «Uma pinga de vinho, home. . . PYa to- 
mares calor. . . Pareces parvo. > 

— «Tenho mas é sede.» 



RETALHOS DE YEKDADE 93 



— «Pois isso. . . pYa matares a sede.» 

— « Vinho nan mata. . . Leite é que sim... 
inda que venha quente e co'a escuma. . . » 

— i Olha o asno ! . . . PYa isso bebes agua . . . 
Ah! rapaz, anda; mexe-me esses p 

Saíram da estação. A dois passos tiritava uma 
velha diante de um taboleiro, onde branqueja- 
vam especiones sediços. 

— «Come» — ordenou com magnânima 
omnipotência a sr. H Benta Fornalha. 

O pequeno comeu avidamente dois bolos, 
com os olhos cravados alem. no rio. onde 
apparecia uma caprichosa floresta de vellas e 
mastros. 

— iTem só este?i — perguntou, por falar, a 
do taboleiro. 

— <E' uma ré^ua d ? elies!» — informou a 
Kenta com ademanes de tédio — iMas são 

nhos.í 

— « Tirado por feições, cuidei que era filho. » 

— «Credo, santinha! Deus lhe perdoe! Inté 
ó dia de hoje inda lá nan fui . . . Que a gente 
nan pode dizer nada. . . Mas st-mpre uma pes- 
soa assim está melhor. . . Poderá ser, poderá 
ser. . . Inda nan estou nenhuma velha. . . Que 
hoje, inda nan tem os dentes todos e já pen- 
dam em casar. . . Dá vontade de gomitar. . . 



94 COLLECÇÃO ANTÓNIO MARIA PEREIRA 



Ha mais que tempos podia eu estar casada. 
Era só querer. . . Esperem lá vocês!... Elle o 
mafarrico do rapaz para doude se me pirou? 
Nan querem lá ver! Ora os meus peccados! 
Aqui n'esta Babylonia, se se me perde, quem 
c capaz de topar co'elle! J Com cedo deita os 
bracinhos de fora! Ora o Iraste!» 

— «Está ali, senhora. . . Alem, entretido a 
ver os barcos. . . Crienças!» 

— s O que eu lh'havia de fazer agora era 
puxar-lhe as orelhas inté ó nariz.» — Atraves- 
sando a rua, esbaforida, a Benta Fornalha des- 
carregou uma valente palmada no hombro do 
sobrinho — «Hades fazer favor de nan sair da 
minha beira. Isto aqui nan é guardar cabras, 
Passa- te um carro nas pernas e morres. . . ó 
t'aleijas pVos dias da vida.» 

A ameaça devia commover seu tanto o mo- 
linho. Em tom humilde, explicou se: «Foi 
pYamor de ver os vapores.» 

A sr. a Benta fez-se escarlate. 

— «Ah! também és dos que mentem? Pois 
hades perder essa balda. . . Por aqui nan pas- 
sam vapores nenhuns... O que elle foi in- 
ventar!» 

O rapazinho arregalou mais os olhos, e, ao 
passo pesado das suas botas ferradas, lá foi 



RETALHOS DE VEHDADE l àÒ 



indo atrás da tia Benta, sem desprender os 
olhos dos humildes barcos a que a sua inge- 
nuidade, pura de todo o propósito de mentir, 
chamava pomposamente vapores. 

Passou um americano que lhe desviou a 
attenção para as cousas da terra. 

— « Saía ! » — bradou, enthusiasmado — « Que 
raio de diligencia! E' quasi tão grande como ç> 
curral do tio Dyonisio. . . Eia!» 

A tia Benta adoptou o expediente lógico de 
tomal-o pela mão, rebocando-o. Senão, quando 
chegariam á rua dos Fanqueiros ? 

Ao mesmo tempo, ia-lhe pespegando o seu 
sermão — «E' tratar de fazer as vontades, ovis- 
tes? Ser humilde e nan fugir ó trabalho. Uma 
pessoa n'ura momento deita a mão a tudo. 
F y ra te fazeres estimado. . . Vens a aprender;., 
a fazer te homem. . . a fazer-te gente.» 

E' possivel que o pequeno lhe não ouvisse 
o martelar da voz áspera, de pasmado que ia 
para tudo: casas, lojas que abriam, carroças,, 
vendedeiras d'isto e d'aquillo, fios eléctricos... 

Estacando, perguntou inesperadamente: — 
«Quantas ruas ha em Lisboa?» 

A tia Benta casquinou uma gargalhada de 
mofa. 

— «Nan querem lá ver o asno! Julgas 4u 



96 COLLECÇÃO ANTÓNIO MARIA PEREIRA 



<£Ue isto aqui assim, que é como Manteigas!» 

— «Bem sei» — acudiu elle com certo ar de 
sufficiencia digna — « Aqui inda é mais grande 
que Gouveia ...» 

— • Upa ! Upa ! » — encareceu eruditamente 
a sr. H Benta. 

— « Mas a Serra inda é mais grande » — tor- 
nou o pequeno com orgulho. 

— < Olha a comparação! Forte palerma! 
Misturas alhos com bugalhos, rapaz!. . . Mas 
tu, mexe-me esses trambolhos d'esses pés, que 
vamos a chegar á noite. . . E vae ouvindo: 
muito juizinho, respeito aos patrões, nada de 
responder, boca calada. E no serviço nades 
ter o pé mais leve, senão... não te queria 
estar na pelle. Quem dá o pão dá o ensino. . . 
Porque paras? que foi: J » 

Passara uma bicicleta como uma setta. Os 
olhos de Gilberto fuzilavam. 

— «Eia! Co'os diachos! Vae mais ligeiro 
qu'ó camboio ! » 

— «Pois não fostes! Não sejas parvo, rapaz. 
Mais ligeiro qu'ó camboio nan ha nada. » 

. — «E antão as águias?» — perguntou elle 
mumphante — «Inda trás d'antehonte ia um 
bando d'ellas p Yas bandas do Poio Negro, 
qu'aquillo. . . !» 



RETALHOS DE VERDADE 97 



— «Deixa-te agora de historias, pequeno; 
e mexe-me esses pés» — e apertava-!he mais a 
mão como se cTella quizesse espremer veloci- 
dade. — «E vae lá óvindo. . . Tu nan me te- 
nhas a balda de pregar mentiras, que a D. Plá- 
cida é bem capaz de te arrancar a lingua ou 
de te encher a boca de pimenta. Na tenda ha 
bastante. Nan tem que a ir mercar. E a D. Plá- 
cida nan é p'ra brincadeiras nem nunca ó foi.» 

— «Quem é a D. Plácida?» — perguntou o 
pequeno com regular interesse, sem vislumbre 
de sympathia. 

— «A patroa, home: a patroa. Pois quem 
haverá de ser !.. . Mas tu agora p'ra donde te 
espantas que nan andas para diente ? Já inte- 
rne doe o braço. Ora o castigo!» 

— «Elle que vae a gritar?» — indagou o Gil- 
berto, indicando um minusclo vendedor de jor- 
naes, que corria apregoando com uma voz 
usada que quasi deixara já de ser infantil. 

— «Elle quem? Forte pasmaceira de rapaz! * 

— «Aquelle cachopo. . . * 

— «São os jornaes, home... Sabes tu o que é 
um jornal?» 

— «Sim senhora... Era assim como o pae ga- 
nhava quando andava a trabalhar na do tio 
Roque. » 

7 



98 GOLLECÇÀO ANTÓNIO MARIA PEREIRA 



— «Não, pateta. Qual historia! Jornaes ca'em 
Lisboa são uns papeis para se lerem, onde vem 
posto tudo dos roubos, e das facadas, e da gente 
que morre. . . ínté os retratos dos ladrões lá 
vem . . . Que alguns não parecem senão uns 
senhores. . . E negar ! isso é inté ó fim. . . » 

— ccCom'0 afilhado da mulher do filho do 
Athanasio. . . aquelle que tinha fugido p'rá 
Covilhan quando furtou a Esmeralda de casa 
do tio Lopes. . . » 

- — «Qual tio Lopes? o da Brígida?» 

— «Esse.» 

— «Bem me fio eu ! Oh ! rapaz. Nan me ve- 
rihas com lampanas. Cada carapetão ! Boas 
jóias havia de ter em casa o pobre do tio Lo- 
pes! Elles nan tem pYa pão, como iam a ter 
p'ra esmeraldas.» ? 

— «Vomecê nan acradita? Pois ficaram sem 
ella. Era a chiba mais linda qu'a gente trazia 
no rebanho ...» 

— «Ai, sim. Já nan digo nada. Uma cabra.» 

— «Criam-se ali... A mim conhecia-me mais 
bem! Era eu gritar-lhe Chibinha! ChibinhaL. 
Vinha logo a saltar por aquellas penhas. . . De 
raiva, ínté chorei ...» 

— «Bem empregadas lagrimas. . . E, se te 
morresse um parente, que fazias?» 



RETALHOS DE VERDADE 99 



Eile não soube responder. Concretisando, se 
morresse a tia Benta, é de suppor que elle não 
fizesse nada. 

— «Ai! Senhora do Carmo! E a gente aqui 
postos á conversa . . . Anda, pequeno, desape- 
ga!» — e ferrava-lhe uma sacudidela de encom- 
menda. 

— «Elle em Lisboa tamem ha-de haver ca- 
deia?» — insistiu o Gilberto, como obedendo a 
uma idea rixa. 

— cE bem boa enxovia! Que também, p'ra 
quem lá vae ! . . . Tu toma mas é sentido no 
que te digo. Deixa o mais que nan é da tua 
conta. Vens aqui é p'ra te fazeres homem. . . 
Hades ter pé leve e cabeça fresca. Vaes óvindo? 
Senão, já te aviso. . . Temos o caldo entor- 
nado. . . A' primeira que me chegue ós óvidos 
vaes logo recambiado p'rá terra. . . P'ra isso 
inda me chegam as posses, louvado Deus!» 

— «Tomara eu!» — Havia tanto calor na 
voz, até ali apagada, que a sr. a Benta estacou, 
varada de espanto. O rosto queimado da 
criança despedia fulgurações selvagens. 

— <t Esta agora ! Cá vou vendo ! . . . Lingua 
nan te falta. . . Nascestes para cabra, nascestes 
para animal . . . Tens as inscripções tiradas . . . 
Mas antão, meu lôrpa, que vens tu cá fazer?" 



100 COLLECÇÃO ANTÓNIO MARIA PEREIRA 



— «Eu nan queria. . . A mãe é que quiz.» 

— «Tu antão, p'ró teu gosto era só serra e 
cabras, hein ?» 

— «Aquillo pVali é mais bonito» — declarou 
elle com o olhar incendido — aínté o ceo é 
mais grande.» 

— «Que besta! Como se o ceo nan fosse 
todo um !. . . Nan me sejas bruto h 

Seguiu-se um silencio pesado e hostil. De- 
correram alguns minutos e tinham chegado. 



II 



A mercearia de Matheus Gonçalves & Irmão 
íicava a meio da rua dos Fanqueiros. Porta de 
avantajadas dimensões e vitrina adequada. En- 
cimando ambas uma vistosa taboleta de gran- 
des letras negras: <£Matheus Gonçalves & Irmão. 
Géneros alimentieios. 

O emblema, como lhe chamavam os pro- 
prietários, tocava quasi nas janellas de cima, 
na sobreloja, residência da família Gonçalves. 

A senhora Benta Fornalha, quando chegou 
á tenda, afogueada como o seu apellido, encon- 
trou um momento de grande asafama. Descar- 
regavam fardos de bacalhau. A carroça monu- 
mental gemia. O cavallo, esquelectico, almo- 
çava pacientemente de uma alcofa que lhe pen- 
dia ao pescoço. 

— tOra aqui lh'o trago» — annunciou, expan- 



102 COLLECÇÃO ANTÓNIO MARIA PEREIRA 



siva, ainda na rua, a senhora Benta. — tiMuito 
bons dias, senhor Matheus... Já vê, corpo 
tem elle. . . O' rapaz, vê lá se entras com o pé 
dereito... Eu, por mim, o que queria era que 
elle nunca mais de cá saisse.» 

O homem a quem a senhora Benta se diri- 
gia era baixo, roliço e vermelho. Não usava gra- 
vata. Trazia fato de panno grosso, nacional, 
cuberto de nódoas também muito nacionaes. 
Um par de chinelas de ourelo, esbeiçadas, pu- 
nha o sello definitivo em tão typico exemplar 
do merceeiro lisboeta popular, por aqueíles tem- 
pos. 

De caderno e lápis em punho, o senhor Ma- 
theus apontava os fardos arremessados da car- 
roça. 

Interrompeu-se um momento com amabili- 
dade. 

— a Ora viva a minha flor! . , . Este então é 
o Serrano?. . . Tostado do sol vem elle!. . . 
O' rapaz, parece que te metteram no forno a 
assar. . . » — e aqui gargalhada estrepitosa. 

— «As cores, logo as perde > — prometteu., 
conciliadora, a senhora Benta — e Posto aqui á 
sombra ...» 

— «Claro!» — conveiu o outro fungando com 
força e passando as costas da mão no nariz em 



RETALHOS DE VERDADE 10-: 



guisa de lenço. — «Anda rapaz, chegas mesmo 
na conta. . . Larga ahi a traparia e põe-te a 
trabalhar. . . Esses fardos ahi arrimados a eito 
por essa parede arriba.» 

Logo que deu militarmente esta ordem, o 
senhor Matheus voltou á faina de contar o ba- 
calhou. — «Doze. . . trese. . , * 
, O rapazinho decerto entendeu por traparia o 
saquito, o chapeo e o cajado. 

Largou tudo aquillo no chão e poz-se, com 
certo ar displicente, a carregar fardos de baca- 
lhau para o fundo da loja. Seguia-o. inflexível, 
o olhar escrutador da tia Benta, empenhado 
em decifrar desde o primeiro momento, se o 
marçano era burro capaz de dar carreira direi- 
ta. Notou-lhe o franzido do apparelho olfactivo 
e agourou mal. Não descontava que o fartum 
do bacalhau devia repugnar a narinas avesadas 
ao aroma agreste das feteiras do Alva, do abi- 
toiro, do sargaço, dos cachos vermelhos das 
tramaseíras silvestres. O contraste era brutal e 
não podia deixar de ser em desfavor do baca- 
lhau. 

O senhor Matheus. em quanto o carroceiro 
ageitava um cigarro, disse, com magestade ca- 
thedratica : «Fique descançada, senhora Benta. 
Hade-se-lhe fazer d'aqui um homem, quer elle 



104 COLLECÇÃO ANTÓNIO MARIA PEREIRA 



queira, quer não. Entre as mãos cá da patroa 
e as do mano Domingos, o rapaz pôe-se logo 
um velludo.» 

— «E' vradade» — exclamou, excitada, a se- 
nhora Benta. — «Elle, o mano Domingos, por 
donde se metteu? Inda le nan puz a vista.» 

— «Esta p'r'á alfandiga... Hoje juntou-se 
tudo. . . Deixe que o rapaz para lidar chega 
em bom dia. Até a Praxedes faltou! Calcule o 
que vae lá por cima! Não lhe hão de morder 
as pulgas, não. Também, assim é melhor. . . » 

— «Tá visto... O trabalho nan mata... O 
que mata são outras coisas» — e tossia com in- 
tenção. 

— «Justo, senhora Benta; justo. . . EUe que 
sabe fazer?» 

A boa da mulher engalfinhou as duas mãos, 
agitando-as verticalmente, n'um expressivo ges- 
to de angustia supina. 

— Que não sabia nada, ao que ella colligia. 
Aquillo fora nascer e atirarem logo com elle 
para a serra a lidar com as bestas. Assim se 
tinha posto de rijo e de forte. Mas sabidoria ne- 
nhuma. Se aquillo nem era, a bem dizer, gente! 

Circumvagando um olhar, a senhora Benta 
• teve a profunda impressão de descobrir o so- 
brinho em flagrante delicio. O Serrano, appa- 



RETALHOS DE VERDADE 105 



rentemente esquecido de que no mundo havia 
obrigações e tia Benta, passava a mão com en- 
levo pelo dorso magrinho de um gato preto, 
encarrapitado inim dos fardos, a sorver com 
delicia o aroma que elle exhalava. Os dois pa- 
reciam contentes e unidos de mutua sympathia. 
P^stoirou uma explosão indignada. 

— «O estafermo do rapaz! Nan querem lá 
ver! Maldito seja o diabo !. . . Assim é que tu 
fazes a obrigação, grandecissimo malandro ! .. . 
Pois lá pVá me envergonhares a cara, isso é 
que não!» — e para o Matheus — «O senhor 
não lh'as perdoe. . . Lá por eu estar presente !. . . 
Quem dá o pão dá o resto. Logo que as me- 
reça é atiçar-lhe a pavana- e fazia o gesto, 

meneando no ar a mão direita, estendida ver- 
ticalmente. — «Em ultimo caso está a casa da 
Correcção.» 

— «Já não topava arriba» — explicou frouxa- 
mente o mocinho, á laia de desculpa. 

— «Arrimas a escada. . . Olha a dificulda- 
de!» — interveiu, com certo ar digno, de ferra- 
brás, o senhor Matheus. — «Mas primeiro en- 
xota para cá o bicho. . . Eh! che! Malandro! 
E bem malandro que elle é! Se te pesca ahi a 
patroa, vaes zenindo para o fundo do Tejo com 
uma pedra ao pescoço. . . » 



106 COLLECÇÀO ANTÓNIO MARIA PEREIRA 



O Serrano pegou delicadamento no Malan- 
dro e pôl-o no chão. Depois, apoiou a escada 
e subiu três degraus cora um fardo ao hombro. 
Levantava o pé para uma quarta ascenção 
quando aquiiio oscillou tudo ameaçadoramen- 
te. Elle então tomou uma resolução enérgica- 
Abondou a carga ao seu peso natural e abra- 
çou-se á escada com quanta força tinha nas 
unhas. 

A tia Benta, já receiosa de que lhe expulsas- 
sem o rapaz, adoptou nova táctica. 

— «São a> botas» — desculpou — «.As tachas 
para a serra é o que se quer, agora para aqui. . 
O' rapaz, vê lá se partes as trombas.» 

Estavam em risco eífec ti vãmente. 

O senhor Matheus apiedou-se. — «. Deixa isso, 
asno. . . Logo o mano Domingos dá-te ahi uma 
mão. Pega-n'essa vassoura e varre d'aqui este 
esterco. » 

Este homem tinha o sestro de empregar ter- 
mos hyperbolicos. em completa opposição com 
o seu temperamento moderado, pachorrento. 
O que elle agora chamara euphaticamente es- 
terco era a palha, muito limpa, de umas garra- 
fas que antes estivera desencaixotando. 

O Gilberto, com muito cuidado, pede chum- 






RETALHOS DE VERDADE 107 



bo, desceu. E foi canhestramente pegar na vas- 
soura. 

— «Tu sabes varrer?» — perguntou descon- 
fiadamente o senhor Matheus. 

O mocinho meneou a cabeça n'um aceno ne- 
gativo. Depois, encolhendo os hombros: «Isso 
é pVás mulheres.» 

A tia Benta deitou-lhe um par de olhos de 
fulminar. 

— «Não me dirá a senhora Benta o que esla 
azemola cá vem fazer?» — perguntou entre fa- 
ceto e formalisado o tendeiro. 

— a Credo! homem de Deus... As coisas 
tamem nanse levam assim. Dê tempo ó tempo. j> 

— «Vem direitinho da Lourinhã... Mais 
bronco ! » 

— «Tamem vocemecê o que cuidava?... 
Se elle viesse ensinado, já lhe haviam de dar 
soldada. . . Que mais nan fosse, p'ra botas... 
Cada um segundo a criação. . . Ponha-lhe vo- 
cemecê um cajado nas unhas e um rebanho de 
cabras á frente e verá se nan é outro cantar...» 

— «Oh! senhora, mas se eu aqui não tenho 
cabras nenhumas! E' boa!» 

— «Bem se cá sabe que as nan tem. . . O 
que eu venho a dizer na minha. . . sim. . . já 
se deixa ver. . . é que o rapaz tem de ser en- 



108 COLLECÇÀO ANTÓNIO MARIA PEREIRA 



sinado. . . E, se vamos a contas, mais vale 
isso. . . Vae tudo de seu principio. . . O ponto 
é elle querer e cá vocemecês armarem-se de 
paciência. . . Dá cá essa vassoura, rapaz. . . 
Vês:' Assim. . . ó direito das tábuas. . . Nan 
vae na força. Geito, geito é que se quer. A pa- 
troa despois logo te ensina mais a preceito. . . 
A coisa e tu puxares por ti. » 

Passou a vassoura ao pequeno com um 
olhar fito que o atravessava. Depois, voltou-se, 
conciliadora, para o sr. Matheus : »Mê'migo, 
d'esta massa é que elles se fazem ... Se elle 
inté os alimaes querem ensino! Ha coisa mais 
ruda que é uma cavalgadura? E o que apren- 
dem em se lidando co'ellas!. . . A propósito, 
que é da D. Plácida ? Inda por 'qui nan appa- 
receu hoje. . . » 

— «Anda lá por cima a trasfegar co'almo- 
ço. . . Não lhe digo que hoje, p'ra sair tudo 
torto, ate faltou a Praxedes? Deu-lhe hoje para 
ir ao Campo Grande, ao asylo. . . E já vão 
sendo horas da paparoca ...» 

Dizia as ultimas palavras tateando o ventre 
com as duas mãos carinhosamente. E, apon- 
tando o ouvido: «Lá está elle a chamar.» 

A sr. a Benta espanejando-se alegre. «Quem? 
o mano Domingos?» 



RETALHOS DE VERDADE 10£ 



— «Não, mulher; o relógio. Está dando as. 
nove. > 

— «Ih! Jasus. . . Deixa-me ir correndo que 
tenho o amo á espera do almoço ... A petiza 
varre as casas, accende o lume, e disse. . . E 
tudo mal e porcamente... E vinha aquillo p'ra 
me dar descanço! PVa me ralar inda mais. . . 
Vocemeces é que nan sei como nan tomam an- 
tes criada afectivel... Sempre é outro arranjo... 
Isto de mulheres a dias ...» 

— «Cante lá isso á minha senhora, se a quer 
ouvir. . . E' falar-lhe em gente de portas a den- 
tro. . . O mesmo que se despejasse a lata do 
petróleo em cima do lume... Olhe, vocemecê, 
chegue lá a cima a levar-lhe o pequeno... Até 
lhe pode ajudar, e vae aprendendo a lidar co'a 
loiça. . . Ella lá anda a assar sardinhas, que o 
cheirete já cá está. . . Cousa rica!» — e dava 
um estalo gastronómico com a língua — «O 
peior é a pitada . . . Leve-lhe o Serrano, leve . . . 
E é que lhe fica o nome ao rapaz ...» 

— «Isso tanto monta. . . O nome é o me- 
nos. . . Oiça lá, ó sr. Matheus. . . Uma coisa 
lhe queria eu pedir. . . Elle ha por ahi umas 
escolas de ensinar a ler á noite. . . Lembrava- 
rae a mim... já sé sabe... despois do serviço 
acabado, que o pequeno lá che-gasse assim 



110 COLLECÇÃO ANTÓNIO MARIA. PEREIRA 



coisa de uma meia hora. . . Elle sempre uma 
pessoa. . . saber assentar o seu nome que mais 
nan seja. . . » 

O sr. Matheus, testa franzida, meditou ensi- 
mesmado. Emfim, n'uma atitude importante, 
pollegares mettidos nas cavas do collete: «A 
sr. a Benta quer que llreu diga, francamente, 
cartas na mesa, a minha opinião a esse res- 
peito» — e meneiava a cabeça sentenciosa- 
mente. 

Elia esperou. 

— «Pois isso de leituras ao rapaz não lhe 
tira nem põe. . . Para o que elle aqui tem que 
fazer. . . » — uma contracção dos lábios signi- 
íicativa de supina incredulidade cerrou a phrase. 

— «Isso lá, meu rico sr. Matheus» — protes- 
tou vivamente a sr. a Benta — «ha de perdoar, 
mas hoje está aqui, amanhã pode estar acolá. 
E sempre se acostuma a dizer que o saber nan 
óccupa lugar. O senhor, se tivesse filhos... » 

Elle apressou-se a atalhar. 

— «Pois não sei, sr. a Benta. . . olhe que não 
sei. . . iMas lá por isso não seja a duvida. Ahi 
bem perto ha agora aula nocturna da Cam- 
bra ... E J de borla . . . Alguma noite que a 
gente o puder dispensar. . . Sempre não digo, 
que o serviço é muito. . . 



RETALHOS DL* VERDADE 111 



— «Pois, claro... Primeiro está a obriga- 
ção... Quando puder ser... Isso lhe agradeço 
eu, que sempre o saber. . . Anda. rapaz, vem 
d'ahi pVamor de veres a patroa ...» 

— «Levo aquillo?» — indagou com voz ca- 
vernosa o Gilberto, indicando o total dos seus 
haveres: chapeo. cajado, saco de chita. 

— t Deixa, deixa isso» — opinou o patrão — 
•'Dormes cá em baixo, já te rica ahi tudo.» 

pequeno espargiu em torno um olhar Sa- 
turno e mergulhou no fundo sombrio da loja, 
levado a reboque pela tia Benta. Esta parou 
um momento no sopé da lobrega escadinha 
por onde descia um acre fartum a sardinha as- 
sada, para dizer cauta e sentenciosamente : 
«Muito cuidadinho, hein P Não esquecer que 
tens que dar o dom á patroa. Entendes?» — e 
como elle não desse o menor signal de intelli- 
gencia — «O' rapaz, tu és mouco ?x> 

— «Eji nan tenho nada p ra dar á patroa» 
— declarou o Gilberto, indifferentc, encolhendo 
os hombros. 

— «Ai. que castigo!» — Aqui a sr. a Benta ia 
a recorrer ao estimulante do puxão de orelhas. 
Mas o mocinho, levantando o cotovelo, n'um 
repelão decidido, baldou-lhe o movimento. 
Ella desistiu por causa do escândalo e, com a 



112 COLLECÇÃO ANTÓNIO MARIA PEREIRA 



voz um pouco tartamuda de raiva, explicou: 
«Venho eu a dizer que sempre á patroa lhe Ha- 
des chamar senhora D. Plácida... » Senão, é 
ella muito competente pVa te arrancar as ore- 
lhas . . . » 

— «Eó patrão? — indagou o pequeno. 
Seria ingenuidade ou ronha? 

— «Não, home, não. . . Forte bruto! Gomo 
ós fidalgos de Manteigas! O dom, tirante os 
íidaldos, é só p'r'as senhoras . . . Que a tua pa- 
troa p'ra senhora inda lhe falta um bocado. . , 
Mas isso nan é da tua conta. . . Puxa-me esse 
cabello p'ra trás. . Nan me pareces senão um 
cão d'agua... Bem podia a mãe, ó menos, 
mandar-te tosquiar essas grenhas. . . » 

E lá foram escada acima. 
Um quarto de hora depois, a sr. a Benta 
descia. 

— «Lá ficou a abanar o lume... Aquillo 
vem-se a acostumar. . . Tudo quer ensino.» 

— «A minha senhora logo o põe direito» — 
prometteu, confiante, o sr. Matheus — «O ho- 
mem nasce bruto de condição. . . Digo, o ho- 
mem e a mulher. A criação é o que doma os 
instinctos.» 

A sr.. Benta aprovou com um profundo me- 
neio de cabeça aquella sentença. — «E adeusi- 



RETALHOS DE VERDADE 113 



nho.» — disse — «que tenho muita pressa... 
£' vradade. . . já me esquecia... Os senhores 
agora um dia vão-me deixar levar o rapaz, as- 
sim obra de umas duas horas. . . E' só p'ra 
lh'eu amostrar o mais importante de Lisboa... 
pVamor de lhe explicar certas coisas. . . Por 
via da gente lá da terra . . . E certas coisas 
deve de vel-as com pessoa de respeito e de 
uno. . . A Praça da Figueira, o mercado do 
peixe, as igrejas mais principaes, o jardim zio- 
logico. . . » 

— tlsso agora de saidas. sr. a Benta... N'um 
Natal, niima Paschoa. não digo . . . Agora as- 
sim, sem mais quê nem p'ra quê!. . . » 

— t Dizia eu ir um domingo... Só agora pVa 
Isso de lhe dar umas luzes . . . PVa nan entra- 
rem a ralhar lá na terra. . . Obra de duas ho- 
ras h'um domingo. » 

— «E ella a dar-lhe com o domingo! Va- 
iha-a Deus, santinha! Ao domingo, a bem di- 
zer, é quando o rapaz cá faz mais falta... 
Bem sei que- anda por ahi uma certa malan- 
dragem com essa leria de fechar ao domingo. 
Bom cacete ! Fechar ao domingo para reben- 
tar de trabalho á segunda feira ! Cá em casa o 
costume, ha muito anno, é sair cada domingo 
um de nós dois, ou eu ou o mano Domingos. 



114 COLLECÇÂO ANTÓNIO MARIA PEREIRA 



Espairecer um bocado. . . Que eu, se quer. que 
lhe fale franco, por mim, nunca saio cPaqui. 
Mas cá a patroa, em passando os quinze dias, 
já parece que estala se não a levo até á Ave- 
nida. Aquillo, lá isso é uma vista respeitável. 
Estou que não ha cousa melhor por essas ca- 
pitães do mundo. Em certos dias é imponente. 
Cá a minha senhora pella se. E então o que 
ella é escripta e escarrada para aquelles quin- 
dins. . . Que d'este lado é da moda, que d'a- 
quelle não é da moda. Tudo tem sem preceito 
e sua pilhéria. Cá por mim, com tanto que oiça 
a musica, tanto se me dá d'aqui como d'ali... 
Já vocemecê vè, essa do pequeno é uma dos 
djacho^s. . . ■» 

— c Bem, bem ... Eu o que quero é que vo- 
cemecês estejam contentes e que elle se con- 
serva cá muitos annos ... Só o descanço ! . . . » 

— iE vae o mano Domingos tem lá aquelle 
génio pela calada ! No domingo que lhe toque 
íicar, se lhe solto o marçano, fica ahi toda a 
semana com umas trombas!. . . » 

— «Antão, sr. Matheus 1 isso lá são gé- 
nios» — defendeu, melindrada, a sr. a Benta — 
«Aquillo não é por mal. . . Vae dos nervos... 
Cada qual é como é. . . » 



RKTALHOS DK VKRDADF. -115 



— Pois, claro. . mas sempre a gente tem de 
contar com isso. » 

— «Pois isto do pequeno lá uma vez na 
vida. . . algum domingo- que lhe toque voce- 
mecê ficar. Estando a D. Plácida já são dois...» 

— «Sim, cá a minha senhora não sae só... 
Com tanto bregeiro por essas ruas . . » 

— «Diz bem. . . Eu cá saio só, por triste re- 
médio, nanja por gosto... Até m*alembra uma 
coisa. . . Se o mano Domingos estivesse de 
maré, ia co'a gente, e melhor abria elle os olhos 
ó rapaz. . . Eu p'ra desmamar crienças já me 
falta a paciência . . . Vocemece diga-lhe cá isso 
da minha parte, faz favor. » 

— «Lá por dizer, digo. . . Mas bate a boa 
■ porta! Elle sempre com uma rolha na boca e 

vocemece a querel-o para explicador !• 

— «Vocemece dê-lhe cá o recado da minha 
parte e deixe. . . Se a casa nan fosse em cas- 
cos de rolhas, inda esperava . . . Mas d'aqui ás 
Amoreiras inda é um estirão.» 

— «Vá de americano, santinha.» 

— «Bom avio p'ra pressas!» 

— «Bem, da saida do rapaz, vocemece trate 
lá isso com a minha serva de Deus. O que ella 
disser está dito. . . » 



116 COLLECÇÀO ANTONMO MARIA PEREIRA 



— eJá agora lá em cima lhe dei uns longes 
da coisa.» 

— «E então?» 

— «Torceu as ventas. . . Emíim, eu no do- 
mingo sempre por cá dou uma saltada. Tamem 
por via da roupa e alguma coisa que seja pre- 
cisa. Bem, adeusinho. . . Recados cá ó mano 
Domingos. . . E o recado que nan esqueça... 
Com o rapaz rédea tesa» — e fechou o punho 
expressivamente — « Vocemecê bem me en- 
tende.» 

Despedindo um cordial ponta-pé ao focinho 
do Malandro que lhe investigava minuciosa- 
mente a roda da saia, a sr. a Benta saiu porta 
fora toda apressada. 

Ainda olhou duas vezes para trás, talvez a 
pensar no regresso eventual do mano Domin- 
gos. 

O sr. Matheus assomara-se á porta para es- 
preguiça r-se á vontade sorvendo um trago do 
ar de fora. 

Ella ainda lhe perguntou de longe : «E ? vra- 
dade... elle este domingo a quem toca sair?» 

Elle, ou não ouviu, ou, possuido da sua es- 
pecial condição de mercador, houve por bem 
fazer ouvidos do dito. 



III 



A divisa Matheus Gonçalves & Irmão so- 
brescriptava uma familia digna de alguma 
attenção. A trindade que a compunha merecia 
um lance de olhos escrutador. 

Matheus Gonçalves, o irmão mais velho, 
tinha representação um tanto honorária de 
chefe. Por indole bonacheirona era pouco 
apto para o mando. O abdómen crescia-lhe na 
proporção da invejável paz de espirito. Sem- 
pre fora homem para comer muito, rir muito, 
e mandar pouco. 

Vivia satisfeito, completamente dominado 
pela vontade rija da companheira, a omnipo- 
tente D. Plácida, estranho composto de touci- 
nho, pólvora e dinamite. 

Ao sr. Matheus não lhe faltava nada para 
ser completamente feliz. Aquelle constante ex- 



118 COLLECÇÀO ANTÓNIO MARIA PEREIRA 



plosivo conjugal, que lhe estrondeava ao lado, 
em nada interrompia o seu imperturbável bem- 
estar. Aquella serenidade não o abandonava 
jamais. De resto, os negócios marchavam. A 
tenda estava bem aíreguezada. No joguinho 
nocturno com o visinho Remigio, a vintém a 
partida, também ganhava quasi sempre, mercê 
das distracções do outro, grande discursador 
em matérias de socialismo. Que mais queria 
elle para achar a vida encantadora ? 

Podia a boa da D. Plácida esbofar-se a cha- 
mar-lhe Não te rales, Pa{ d alma, Papa-moscas, 
D. Pachorra, Aqui me planto, e outros apelli- 
dos que ella inventava consoantes ao caso. 
Aquillo para elle era chuva de maio. O homem 
não saía por cousa nenhuma da sua usual pla- 
cidez. 

D. Plácida Porciuncula Gonçalves era de 
uma psychologia muito mais complicada. No-- 
tavam-se-lhe contrastes interessantes. Dotada 
de nutrição excessiva e de uma saúde á prova 
de fogo, tinha todavia a irascibilidade doentia 
dos magros, dos seccos, dos biliosos. Loquaz 
por sete cotovelos, não podia soífrer gente fa- 
ladora. 

Era avarenta por Índole tacanha e por cal- 
culo. E, não obstante, cada estação havia de 



RETALHOS DK VKRDADE 119' 



estrear vestido novo, sugeito com rigor ás or- 
denanças dos figurinos. 

A economia era sobretudo para a adminis- 
tração interna da casa. Inventava pratos es- 
trambóticos com o olho na reducção dos orça- 
mentos. 

O solido e complacente estômago do sr. Ma- 
theus estava por tudo. Não já assim o mano 
Domingos, achacado de rigado e intestinos, e 
temeroso de mixordias de ignota origem, por 
mais que a cunhada lhe pregasse que do que 
se comia com gosto nada era contrario á 
saúde. 

Tinha outra pecha característica a esposa 
recebida do sr. Matheus Gonçalves. Era o typo 
genuíno do verdadeiro desmancha -prazeres. 
Nada por ella tão saboreado como derramar 
um bom cântaro de agua fria sobre o fogo 
lampejante de qualquer enthusiasmo. Aquella 
ponderosa campânula de carne humana esprei- 
tava com avidez o momento de baixar sobre 
qualquer alegria, apagando-a. Era como uma 
fuligem a cair sempre sobre as cousas claras, 
encarvoando-as. 

■ Os momentos de bom humor eram n'aquella 
mulher como luz fugitiva de relâmpago, se- 
guida de feroz rugido de tormenta. 



120 COLLECÇÃO ANTÓNIO MARIA PEREIRA 



Alegrava-se quando chegava uma carta que 
a tratava de excellencia. E intencionalmente 
deixava por alli o sobrescripto a ventilar-lhe 
aquella honraria. Na inversa, quando algum 
freguez de Matheus Gonçalves & Irmão, en- 
trando na tenda, ihe chamava abreviadamente 
sr. a Plácida, dava meia volta, subia a escada 
batendo muito o chinelo, e ia desabafar lá em 
cima, descompondo a Praxedes aos gritos que 
repercutiam pela visinhança. 

Descia muitas vezes á loja para ver gente,, 
para espairecer — dizia. Trajava saia e roupão* 
á vontade, de chita ou lã, conforme a estação. 
Tinha boas cousas — explicava ás vezes aos 
freguezes — mas queria andar á larga. 

Nos seus domingos é que era vêl-a, pimpona, 
na Avenida, matrimonialmente pendurada do. 
braço de Matheus Gonçalves. 

Retratados os dois assim juntos, dariam um 
excellente cartaz annunciativo de qualquer fa- 
rinha nutritiva. 

Então saiam todos os adminiculos da sua 
feminilidade corpulenta : os tules, os velludos 
de algodão, o pó de arroz, os passarolas de 
grandes asas, a sombrinha vistosa, o regalo, o 
saquinho de seda, o veu, o relógio, as pulsei- 
ras, os brilhantes falsos. Assim, também ella 



RETALHOS DE VEM DA DE 121 



de quinze em quinze dias, era quasi completa- 
mente feliz. 

O quasi vae em homenagem estricta á ver- 
dade. Estava sempre latente, a impedir o mak 
breve momento de desassombrada dita, o pro-- 
fundo desgosto da sua vida : nunca ter conse- 
guido exasperar o marido, por mais artes 
que empregasse na sua já larga vida conjugal. 
Vinte annos de esforços completamente estéreis 
traziam-íhe o sangue requeimado. 

Yalia-ihe, como derivativo, o cunhado. Com 
esse, apesar das poucas falas do adversário, 
tinha travada uma lucta permanente que era o 
seu desafogo. Arrojava-ihe discursos; o outro 
esgrimia monosylabos. Mas a cólera era evi- 
dente de parte a parte. Era um combate de- 
cente, em igualdade de circumstancias. 

Domingos Gonçalves, irmão e associado do 
sr. Matheus, era a quasi todos os respeitos a 
sua cabal antithese. Secco de carnes e de gé- 
nio, irascivel, mettido em si. permanentemente 
casmurro e mai-humorado. 

Havia um ponto único de inalterável har- 
monia entre cunhado e cunhada : índole ava- 
renta ; escandaloso corte no peso dos géneros : 
falsificação dos mesmos tanto quanto cabia na 
ingénua confiança dos freguezes. 



122: COLLECÇÃO ANTÓNIO MARIA PEREIRA 

O mano Domingos era uma natureza esqui- 
nada. O supremo goso d'aquella vida era ir aos 
touros e beber café muito forte sem assucar. 
Duas das suas mortaes antipathias : animaes e 
crianças. Aos animaes chamava sempre bichos, 
desdenhosamente. De ordinários substituia a 
palavra criança por garoto. 

A Sociedade protectora dos bichos era objecto 
dos seus mais acres motejos. 

Tinha um vicio — o das loterias. Contem- 
plado varias vezes com o mesmo dinheiro, so- 
nhava permanentemente com a sorte grande. 

De quando em quando assomava-lhe breve- 
mente ao rosto a nota característica do seu tem- 
peramento moral — o riso satânico. O riso é a ex- 
pressão definitiva do caracter. Quem ria d'aquell.a 
maneira tinha que ser um aleijado de alma. 

Na linguagem resumida do mano Domingos 
havia um bordão pessimista : 

« Pfe ! lampanas ! » Estava ali impressa a 
desconfiança que lhe inspiravam homens e. 
cousas. 

Em corpulência já sabemos que era a com- 
pleta antithese do mano Matheus. O trage se- 
manal approximava-os. Andavam á porfia em 
competência de nódoas gordurosas. 

O mano Domingos era um pouco mais novo. 



RRTALHOS DE VERDADE l'2'ò 



Andava então á volta dos quarenta e oito 
annos. Um calculo feito á priori, podia auri- 
buir-lhe sessenta. homem vivia minado pe- 
tas exigências mórbidas do fígado. 
- O misogynismo chronico de que padecia 
ainda não lograra acalmar uma das ralaçõeS} 
também- chronicas, que mortificavam a previ- 
dente D. Plácida : o temor de que o mano Do- ; 
mingos algum dia viesse a tomar estado. 

Essa hypothese avolumava no seu espirito, 
arithmetico e comesinho, com as proporções 
de insanável catastrophe commercial. Fôra-lhe 
um susto permanente em toda a sua vida de 
casada. O casamento do mano Domingos seriu ; 
a ruina, o descalabro da casa. 

Via com pávida agonia o dilemma: ou o seu 
D. Pachorra, livre da mão de ferro do mano- 
usurario, desbarataria a fazenda ate que ficas- 
sem a pedir esmola; ou teria ella que admittir 
de portas a dentro a nova consorte, outra aucto- 
ridade feminina, por certo Com preíenções a 
diminuir a sua. Nos dois casos um cataclismo 
irreparável. 

Por isso, quando ouvia o mano Domingos 
apreciar as beldades femininas, que entravam 
na tenda, com o seu usual Pfe ! lampanas! toda 
ella se regosijava. 



124 COLLECÇÂO ANTÓNIO MARIA PEREIRA 



Pensava então em dar-lhe o café mais for4e 
para tel-o contente, para premial-o. 

A separação do mano Domingos, alem dos. 
inconvenientes financeiros, tinha outros. Se 
elle saisse de casa, com quem amanharia as. 
suas divergências ? Com aquelle paz d'alma de 
marido que, as mais das vezes, nem resposta 
íhe dava, pondo-a ás portas de uma apoplexia* 
Ficava-lhe como único recurso discutir com a 
estúpida da Praxedes. 

A Praxedes, ou, por extenso, a sr. a Máxima 
Praxedes levava já alguns annos sendo uma 
espécie de fac-totum em casa da firma Matheus 
Gonçalves e Irmão. Fora de portas comprava 
todos os dias zelosamente a carne, o leite, a 
hortaliça, furtando o que podia em género ou 
em dinheiro. De portas a dentro varria, esfre- 
gava, fazia a comida, servia á mesa, lavava a 
louça e tratava do gato. 

A Praxedes também tinha, como toda a 
gente, uma idea-mestra encasquetada na ca- 
beça : metter-S2 no solar de Matheus Gonçal- 
ves & Irmão, como parte integrante, como 
cousa de dentro, de casa e pucarinho. Assim — 
queixava-se — nem era nem deixava de ser. 

Mas esbarravam ferreamente aquellas ac- 
commettidas na tenaz opposição da D. Plácida. 



RETALHOS DE VERDADE 125 



— Tivesse santa paciência, mas gente de 
fora, de noute, na sua casa, isso nunca ! Era 
contra o seu feitio. Bastava o marçano. E esse, 
bem entendido, ficava fechado na loja. 

A Praxedes não se escandalisava. Tinha to- 
mado a discreta e previdente resolução de não 
escandalisar-se nunca. 

A sua politica, eminentemente pratica, con- 
sistia em não impugnar opiniões de ninguém. 
A sua era moldavel como a cera. 

— Sim, senhora. Lá isso! Elia bem o enten- 
dia. . . Cada um com as suas idéas! Apezar de 
que já se conheciam bastante, e bem sabia a 
D. Plácida como ella sempre puxava para a 
casa... Emfim, systemas! Não falaria mais 
nisso. — ^E, na seguinte occasião propicia, vol- 
tava á carga com incansável sangue frio. 



tí O. dia em que o Serrano viu pela primeira 
vez a rua dos Fanqueiros e penetrou assom- 
brado em Matheus Gonçalves & Irmão, era um 
dia excepcional na casa. 

O mano Domingos na alfandega toda a ma- 
nhã ; o mano Matheus sosinho na loja, tomando 
nota do bacalhau recem-chegado e altendendo 
simultaneamente aos freguezes ; a D. Plácida, 
arremangada e bufando, presa á cozinha, pre- 
parando o almoço e dando ao diabo a ter- 
nura maternal da Praxedes, que a abandonava 
n'aquelies transes. 

Quando a Benta Fornalha chegara lá a cima 
com o pequeno, a recepção fora expansiva. 

— «Ora, até que emfiml Custou a chegar o 
tal Serrano! Deus te ponha a virtude, rapaz!» 

— «Sempre a mãe teria que arranjar-lhe uns 



RETALHOS DE VERDADE 121 



trapinhos» — desculpou a Benta. — «Ora aqui 
o tem, D. Plácida. . . » 

- — «Gente que não tem consideração, é o 
que é . . . E eu aqui á espera ha mais que ja- 
neiros ! . . . Chega-te cá, rapaz; deixa ver essas 
trombas. . . » 

O Serrano avançou dois passos na atmos- 
phera ensardinhada e adoptou o expediente de 
coçar a cabeça. 

— «Bem, pois a trabalhar, que as coisas cá 
por casa estão hoje muito más ... E tu não me 
tenhas essa balda de coçar na cabeça, que isso 
cá p'ra mim. . . E toma conta, que não se te 
digam as cousas duas vezes... Yoccmecê 
sr. a Benta, não quer ver esta da Praxedes?. . . 
Abala-me para o Campo Grande muito des- 
cançada ... e eu aqui n'estes avios ! • 

— «Iria pYamor de ver a filha . . . * 

— «Isso diz ella ... A gente sabe lá ! . . . Diz 
que mudaram a visita para a segunda quinta- 
feira de cada mez. . . Vá lá saber!» 

— «Lá isso. . . Coitada da mulher!» 

— «Lavem vocemecê também. . . Está como 
o meu Não te rales. . . Coitada! coitada! mas 
o dinheiro que eu lhe dou para me fazer o ser- 
viço também é bom. E hoje então com sardi- 



128 COLLKCÇÃO ANTÓNIO MARIA PEREIRA 



nhãs ! Põem-se as mãos que é uma vergonha ... 
Nem me cabem os anneis depois. . . » 

A D. Plácida olhou por um momento as mãos 
displicentemente. Depois, caindo de repente na 
realidade pratica das cousas : 

— «Anda, rapaz. Que esperas? Põe-te a aju- 
dar. Para isso é para o que tu vens. . . Põe a 
aquecer essa açorda e dá-lhe volta sem a es- 
bandalhares, emquanto eu estendo a toalha. 
Agora toma sentido. As coisas fazem-se com 
geito. . . A sr. a Benta ha de desculpar que eu 
não esteja agora para conversas. O meu Pa\ 
d'alma já ha de estar deserto pelo almo- 
ço ... » 

— Está, está ... Já m'o disse . . . Eu, se pu- 
desse, ficava-me aqui a ajudal-a, mas tenho lá 
a petiza só, e, já sei, o primeiro em chegando 
a casa é dar-lhe uma tunda. . . Kan faz senão 
parvoices . . . Até me prantava lá em baixo á 
espera do mano Domingos por via de o seu 
home almoçar mais descançado.» 

A D. Plácida saltou como uma pella. 

— - «O mano Domingos! Esse hoje não vem 
Cá tão cedo. Antes d'essas três horas da tar- 
de. . . Olhe lá, e o rapaz que edade tem?» 

— «Vae nos 14. . . Nan é assim, rapaz ?» 
EUe assentiu machinalmente com. a cabeça, 



RETALHOS DE VERDADE 129? 



sem despregar os olhos do tacho, tafvez com a 
vaga impressão de que aquillo não ia bem. 

— «Bem. . . Adeusinho!. . . E tu, rapaz. . . 
juizo e cabeça fresca. . . E' fazer por agradar 
ós patrões. . . Trata de aprender. . . Oh! ra- 
paz!») — e a sr. a Benta correu para a chaminé, 
arredando o tacho do lume — «Tu estás a 
guardar cabras ?. „ . Nan vês que se te esturra 
a açorda ? Quer-se mais lume no olho ...» 

Elle, eífectivamente, ouvindo falar em ca- 
bras, tivera como um lampejo na vista. 

— «Ai, sr. a Benta !» — suspirou a D. Plácida 
melodramaticamente com os olhos em alvo — 
«Parece-me que o rapaz. . . Outro ofificio. .'. 
Lá para a cozinha ! . . . >» 

— «Credo! Senhora! . . . Isto tamem nan vae 
á esparafita ! . . . Boa vontadinha pVa fazer as 
coisas tem elle ! Se o óvisse pelo caminho ! 
Tudo era dizer-me que nan queria senão pa- 
rar muitos annos n'esta casa ...» 

— «Pois para isso, ha de puxar por si» — 
acudiu, em tom de ameaça, a D. Plácida. 

— «Ai, puxa, puxa» — promeíteu, confiante, 
a tia Benta. — «Inda agora elle chegou. . . Isto 
a pratica é o que o ha de desenvolver. . . E a 
senhora nan lh'as perdoe. . . Ninguém nasce 



130. COLLECÇÀO ANTÓNIO MARIA PEREIRA 



ensinado.!. O' despois é quando elle ha de 
dar o agradecimento. . . » 

— «Isso de agradecimentos já não é a filha 
de minha mãe que conta com elles. . . Veja os 
outros que ahi tenho tido ! Corja de ingratos . . 
O que vale é pensar a gente que sempre faz 
uma cai idade... Vocemecê, faz favor, diz ahi 
ao meu homem que se vá preparando p'ra vir 
almoçar?» 

— «Sim, senhora. . . Escute cá, ó D. Pláci- 
da» — e a tia Benta chegou-se á outra, falan- 
do-lhe ao ouvido com muitos tregeitos. 

A D. Plácida, na expressão da physionomia, 
desmentia o nome. Da cor da cereja de saco ia 
passando á do. pimentão. 

— «Isso agora, sr. a Benta» — explodiu por 
fim — «Ainda agora elle entra, já havemos de 
estar com isso!» 

— «Lá por causa dos falatórios na terra, 
nanja por outra coisa. . . Emfim, eu no do- 
mingo sempre por cá dou uma saltada. . . Inté 
por via d'isso da roupa. . . Adeus, rapaz. . . 
nan,vens a pedir-me a bençoa?. . . Vá, cala- 
ceiro. . . O ensino vae em tudo» — e, indo ella 
onde estava o sobrinho, já que elle se não me- 
xia, passou-lhe os dedos no nariz em guisa de 
espanador que não era positivamente de plu- 



RETALHOS DE VERDADE lol 



mas. E lá se foi correndo escada abaixo, di- 
zendo ainda: — tAdeusinho, adeusinho. » 

— «Tu que fazes ahi espantado?» — incre- 
pava ao mesmo tempo a D. Plácida, dando va- 
são ás sobras do mau humor — «Põe me essa 
chaleira ao lume. . . Não vês que se estão a 
perder essas brasas:' Ai, que palonsob 

O Serrano ;ceu com ar soturno. 

— «Vê se tem agua bastante. Acostuma-te a 
reparar para as coisas.*) 

Elle fez um movimento como de espreitar' 
pelo bico, a distancia conveniente, talvez com 
certo medo de queimar o nariz. E declarou 
fleugmatico : 

— «Nan se vê.» 

— «Destapa, bruto, destapa!» — rugiu, con- 
vulsa, a D. Plácida — «Ora os meus neccados! 
Estou servida ! Não querem lá ver o lôrpa ! •> 

O Serrano destapou, com movimentos re- 
ceiosos de gato escaldado, e informou lacó- 
nico : 

— «Está no fundo. y> 

— «Ih! Jesus. Que mostrengo de rapaz! 
Muito compridas te vou eu pôr as orelhas!» 
— e a D. Plácida, fazendo pelo caminho um 
vigoroso gesto de murro fechado, correu a sal- 
var o objecto dos seus cuidados, ameaçando 



132 COLLECÇÃO ANTÓNIO MARIA PEREIRA 



rotundamente : — «Voltas para a terra, tão 
certo. . . !» 

— «Tomara eu U — acudiu o mocinho, com 
uma vivacidade que levou a D. Plácida ao sé- 
timo ceo do assombro. 

— Ainda por cima respondão ! Temol-a tra- 
vada ! Pois cá comigo, já sabes . . . Levas dois 
murros pelas ventas que te ficam a escorrer 
sangue.» 

O rapaz, através da pelle tostada, não mos- 
trou commoção. Ou era idiota ou andava com 
o pensamento em excursão longínqua. 

A D. Plácida continuou, muito arrenegada : 
f Agora vaes para baixo e dizes ao patrão 
que venha almoçar. Está aqui está a dar meio- 
dia. . . » 

— «Aqui nan se conhece a hora» — observou 
o pequeno, enviando ao tecto, muito pintado 
de moscas, um olhar que tinha còr de deses- 
pero. 

— «Não digas bestialidades» — aconselhou, 
sem mudar de tom, a patroa — «Ficas tu lá 
em baixo. Se vier algum freguez, chamas ahi 
á. escada.* 

O Serrano desceu um pouco mais depressa 
do que era de esperar. Seria afan de livrar-se 
de uma companhia odiada? 



RETALHOS DE VERDADE 13o 

Quando realmente deu meio-dia, já elle ti- 
nha devorado com anciã um quarto de pão 
duro e duas sardinhas, e trazia nos pés uns sa- 
patos de ourelo encarnados, grandes como bar- 
caças. 

A's quatro horas da tarde já tinha levado 
dois formidáveis puxões de orelhas do mano 
Domingos, para quem não se atrevia a olhar 
direito, e ouvira dos lábios contrahidos da pa- 
troa os seguintes qualificativos: atrevido, lam- 
bisgóia, estúpido, descarado, estatuía, estafer- 
mo, azemola. mosquinha morta, saramantiga,. 
pantesma. Aquillo era toada incessante de que 
talvez elle nem dava tento. 

Em conhecimentos e habilidades tinha já 
progredido muito. Lavara os vidros do mos- 
trador com relativa mestria, apesar do qualifi- 
cativo de mal e porcamente que a D. Plácida 
applicara ao acto. 

Aprendera o logar de alguns géneros mais 
triviaes na tenda. Em cima, na sobreloja, exer- 
-citara-se a accender o lume, a lavar a louça, a 
esfregar a cozinha e a arranjar o quarto do 
mano Domingos, tudo sob a inspecção minu- 
ciosa e severa da D. Plácida. 

Em guisa de jantar tivera uma sopeira a 
transbordar de caldo chilro com sobras de hor- 



134 COLLECÇÀO ANTÓNIO MARIA PEREIRA 



taliça e um quarto de pão de pataco, um pou- 
co mais duro que o do almoço, porque era da 
mesma data : dois dias. 

Ao serão o mano Matheus jogava a invariá- 
vel partida de assalto com o visinho Remigio, 
dono da colchoaria defronte. O mano Domin- 
gos fazia contas e despachava de má sombra 
os freguezes tardios. A D. Plácida, depois de 
discutir com a Praxedes as compras do dia se- 
guinte, viera para a tenda escabecear e dar fé 
do que se dizia. 

O Serrano, cambaleante, ébrio de somno. 
dobrava e empilhava as serapilheiras em que 
viera enfardelado o bacalhau. Tinham-lhe im- 
posto a obrigação de contal-as. Isto era de cer- 
to o peor, porque o somno e a contabilidade 
são elementos oppostos. A intelligencia, ainda 
que fosse muita, devia estar-lhe n'aquelle mo- 
mento embaciada. 

O medo do mano Domingos espertava-o, 
impedindo-o de estatelar-se ali a roncar. Era 
um milagre de íerror. 

O mano Matheus levava cinco partidas ga- 
nhas. Estava radiante. O colchoeiro era philo- 
sopho. Perdia, pela distracção da conversa ; 
mas ia sempre conversando. Não queria ser 
escravo de nada ■ • dizia. Nem do jogo. 



RETALHOS DE VERDADE 135 






Este Remigio dos gatos, como na rua lhe 
chamavam, tinha suas fumaças de espirito su- 
perior, adiantado. Solteiro, consagrava o me- 
lhor dos seus aífectos aos dois maltezes, o Ga- 
lhardo e o Marechal. Viviam como príncipes, 
na macieza dos colchões, aquelles bons amigo?. 
Como nota característica d'este Remigio Palha- 
res, sei que o homem tinha, por condição na- 
tural, um grande desprezo ao dinheiro. Ora isto 
foi sempre raro em todas as epochas, e em to- 
das as classes, sem excluir a dos colchoeiros. 

— («Pois senhores» — disse o Remigio, ao 
mesmo tempo que meditava uma ousada ac- 
commeítida dos seus soldados — «parece que 
isso de fechar ao domingo, d'esta feita vae 
avante» — e esfregava as mãos contente de em- 
birrar ao mesmo tempo com o mano Domin- 
gos e com a D. Plácida. 

Eila saltou como uma pella. 

— «Que ha-de ir avante! Sempre o senhor 
anda com isso! Havia elle de ter mercearia, a 
ver se lhe quadrava. . . » 

—«O mesmo, visinha... Aguentava -me.» 

— ? Não diga despauterios, creatura... Ao 
domingo é quando mais se vende.» 

— «Que comprassem ao sabbado. . . Em se 
acostumando. . . > 



136 GOLLECÇÃO ANTÓNIO MARIA PEREIRA 

— «Não diga disparates, homem... .Essa 
tolice, por mais que andem, não a conse- 
guem ...» 

— «Olhe que assim mato três» — avisou, 
generoso, o mano Matheus. — «Você joga ou 
dá á lingua ?» 

— «Espere, homem de Deus, espere. Isto não 
vae a matar. > 

— f Obrigarem cada um a perder os seus in- 
teresses!» — -bufou a D. Plácida supinamente 
indignada. 

O mano Domingos tinha interrompido a ope- 
ração algarismica. 

— c< Pfe ! Iam panas !» — disse — < Adiante 
d'essas modernices está o interesse do publico. 
Levantava-se ahi a cidade.» 

— «E os caixeiros, ó seu Domingos? os cai- 
xeiros não hão de descançar? não são de carne 
e osso ? não . . . ?» 

Uma carantonha terrivel da D. Plácida, acom- 
panhada de gestos cabalísticos, cortou-lhe a 
phrase na garganta. 

Aquella senhora considerava altamente des- 
moralisador e anti-educativo aos ouvidos do 
marçano aquelle postulado de que os caixeiros 
fossem de carne e osso. 






RETALHOS DE VERDADE 13? 



Gomo de tácito acordo os olhos de todos ti~ 
nham-se dirigido ao Serrano. 

O pequeno, estendido no sobrado, tinha- 
adormecido. O Malandro tinha-se-lhe enrosca- 
do entre as pernas, ávido do contacto d'aquelle 
corpo em que havia algum calor. 

— c Olha o estafermo !> — vociferou a D. 
Plácida com um brusco movimento de indigna- 
ção. — «Quem lhe assentasse um ponta-pé no 
rabo! Anda, que a Benta sempre nos pregou 



uma ! » 






— «Aquillo é hoje» — defendeu o mano Ma- 
theus, guardando gulosamente o quinto vintém 
que ganhara. — «E' moideira da viagem.» 

— «O pequeno, d'onde vem?» — quiz saber 
o Remigio dos Gatos. 

— «Da Serra da Estrella, ainda para cima- 
de Manteigas. Pfe!» 

Este pfe! do mano Domingos vinha a dizer 
que o rapaz, com aquella procedência, tinh» 
que ser o mais bruto que cabe na bruteza hu- 
mana. 

— « E, que tal ? « — indagou o visinho, olhan- 
do com certo interesse para o grupo da criança 
profundamente adormecida e do gato que agora 
tinha por almofada uma das chinelas de ourelo 
do companheiro. 



188 COLLECÇÃO ANTÓNIO MARIA PEREIRA 



— íUm alarve. Um animal» — informou, 
convicta, a D. Plácida. — «Quem faz nada d'a- 
qiiilló? Se a gente nem acredita que esteja ali 
uma alma christã!» 

— «Quebrado tivesse eu o braço» — prague- 
fou, sanhudo, o mano Domingos — «quando 
escrevi a carta para o mandar vir! A mana não 
se convence que de garotos pequenos ninguém 
faz nada de geito! Tudo uma malta!» 

— «Quem sabe!» — quiz apaziguar o mano 
Matheus, com um bocejo chronometrico, indi- 
cativo das nove horas e meia. — .«A's vezes 
donde não se espera. . . » 

— «Pfe! lampanas!» 

— «Lá com o meu D. Pachorra tudo são 
desculpas... E' quem os deita a perder... 
Que frenesi de homem ! Sobe-me cá uma cor- 
reia!» E, esbofando-se de ira recrudescida: 
«.Olhem, duas prendas de recommendação já eu 
sei que elle tem. . . Ralaço e respondão. . . 
Mas as bofetadas também as tem certas, olá !» 

O tom indicava certa. tendência a generalizar 
bofetadas. O senhor Matheus costumava fazer- 
se desentendido. Foi o que agora fez, accen- 
dendo um cigarro, cousa que sempre elevava 
ao cubo a indignação da irritável D. Plácida. 
Aquelle gasto inútil, que empestava tudo, tinha 



RETALHOS DU VERDADE I3& 



a sua mais inconciliável reprovação. Mas em 
certos momentos um cigarro na mão do marP- 
do tomava proporções de otfensa grave. Esta- 
vam n'um d'esses momentos, em que ella con- 
fessava á Praxedes que de boa vontade atiraria 
á cara lustrosa do sr. Matheus um púcaro de 
agua fria para apagar-lhe o cigarro. 

— «Se o pequeno é da serra, creado ao tem- 
po» — reflectiu o visinho Remigio, abanando 
a cabeça sentencíosamente — «hum ! não aguen- 
ta... Gallinha de campo não quer capoeira...» 

— «Que remédio terá elle!» — commentou 
surdamente o mano Domingos. 

A cunhada obtemperou. 

— «Pudera! E que mais quer isso? iMuito 
favor lhe fazemos ! Para seu bem é. Mas o pago 
já eu sei qual ha-de ser. Com estas bestas* 
quanto mais a gente faz, peor. E então este la- 
puz ! Olhem vocês pVaquillo! Ronca que nem 
uma alimária . . . Não sei se me chegará a pa-* 
ciência para lhe aparar os coices.» 

— «Pois sim, mulher, pois sim* — ponderou 
ò mano Matheus, sorvendo uma fumaça. — * 

Também não lhe pagas soldada... Tudo ter» 
seus prós e seus contras.» 

— «Lá vens tu! Pois ainda em cima lhe ha- 
víamos de pagar, homem ? Não se trata de um 



140 GOLLECÇÃO ANTÓNIO MARIA PEREIRA 



marçano. Ttrata-se mas c de uma besta que 
vem aqui para se fazer gente. . . O caso é 
ter a rédea bem tesa desde o primeiro dia. A 
este já lhe conheci a casta. . . » 

— t A J s vezes, quanto mais se aperrêa, peioi\ 
visinha* — - ousou ponderar o senhor Remigio. 
espreguiçando-se e pondo-se de pe para sair. 

— "Também, maus tratos. . . » 

— « Pfe ! Lampanas!» — discordou, num sus- 
surro, o mano Domingos. 

— «Ninguém fala em tratar mal, homem de 
Deus» — compôz com dignidade a D. Plácida. 

— ti O senhor bem sabe. Aqui não se consente 
que elles tenham fome, nem frio. Mas o ensino 
ha-de-se-lhe dar. Elies é que são uma corja ! 
ingratos, todos. O senhor lembra-se do Valen- 
tim ? Até piolhos. Limpou-se na casa... E de- 
pois? Pernas para que te quero... Lembra-se do 
Chico da Torta P Esse até trocista ! Mais des- 
carado ! Uma pessoa a desancal-o e elle á garga- 
lhada! E então o Agostinho! Não se lembra, 
visinho?» — e aqui a D. Plácida, accommettida 
repentinamente de um accesso de humorismo,, 
dava palmadinhas risonhas no hombro do se- 
nhor Remigio dos gatos — «aquelle que o mano 
Domingos um dia ia matando com a trancada 
jivorta ...» 



RETALHOS DE VERDADE 141 

— «Matando! Pfe!» — interpôz, desdenhoso, 
o presumptivo auctor do attentado. 

— d Sim, senhor. . . matando, matando» — 
carregou, com desengano a cunhada. — «Mas 
deixe iá que era bem morto. . . Um descara- 
do. . . Um alma do diabo! Não se perdia na- 
da. . . Um inferno, isto dos marçanos!- 

— «Todos temos que soffrer, visinha. . . A 
senhora aqui com os marçanos. . . eu ali com 
a minha velhota. . . Iv ir levando a cruz com 
paciência ...» 

—«Boa comparação! A sua Thareza, ho- 
mem, é o seu descanço. . . » 

— «Cale-se lá, visinha. . . Uma enxovalha- 
da. . . E, p'ra mais, aquillo do rapé ! Sabe por- 
que a aturo? Por causa dos gatos. . . N'esse 
ponto, sim, tenho descanço . . . Capaz é ella de 
o tirar da bocca para o dar aos meninos. . . 
Pòe-se á coca do carapau e, emquanto lhe não 
deita o gadanho, não ha Thereza para mais 
coisíssima nenhuma.» 

O mano Domingos arreganhou o seu riso, o 
riso satânico. E entre dentes, com a consciên- 
cia de uma forte superioridade, deixou passar 
desprezivamente o monosyllabo Pfe! 

— «Bem se vê que tem vagar!» — casqui- 
nou, irónica, a D. Plácida. — «Queria-os mas 



142 COLLECÇÃO ANTÓNIO MARIA PEREIRA 



era na lida d'esta casa. .-.' Bem me importa a 
mim o que come aquetlie !» — Aqui, um tregei- 
to dos lábios indicava com rancor o esquálido 
Malandro. 

— «Assim está elle como está, visinha. Pelle 
e osso.» 

— «Ratos não lhe faltam para caçar» — pon- 
derou com severidade o mano Domingos. 

— «E, se não é para os ratos, para que serve 
ter aquillo? — perguntou, impando de apoja- 
dura financeira, a D. Flácida — «Animaes de 
estadão! Isso é lá bom para o senhor. . . A 
gente cá não pôde ter esses luxos ...» 

— eSó a companhia que elles fazem, senho- 
ra. Os animaes, sem offensa, ainda ás vezes 
parece que tem mais entendimento que certas 
pessoas. . . Quer saber o que ainda hontenv 
me passou com o Galhardo ? 

— «Pois cá o de casa» — insistiu a D. Pláci- 
da — «é estúpido como uma porta.» 

— «Pois, vá ouvindo... Hontem estava 
eu ... » 

— «O' visinho, olhe que estão para dar as 
dez. '. . E a gente cá tem que madrugar... Se 
lhe parece, deixe a historia para amanhã.» 

— «Bem, bem. Por isso não seja a duvida. 
Fiquem-se em paz e até amanhã.» 



RETALHOS DE VERDADE 14o 



O colchoeiro transpunha a porta quando de 
dentro vieram as três despedidas que a delica- 
deza pedia. 

— «Boas noites.» 

— «Adeus, visinho. Muito obrigado pelos, 
seus cobres. Já tenho para os cigarros de ama- 
nhã.» 

— «. Saudinha. Recados aos dois meninos.* 
Elle, ao cruzar a rua, ainda disse: «Está 
íriinho. E ha muita humidade. Já o diziam os 
meus calos.» 

E logo o mano Domingos, com uma dura 
imprecação contra a relaxação dos costumes 
em geral e a mandriice dos marçanos em par- 
ticular, se pôz a trancar a porta, fazendo dez 
vezes mais ruido do que era necessário. 

— «O mano é que tem a culpa» — apostro- 
phou, indignada, a D. Plácida- — «Isso é que os 
deita a perder. . . Comecem desde o primeiro 
dia e depois queixem-se» — n'este plurar ia in- 
cluinda a critica ás condescendências do mano 
Matheus. — «O mano não seja tolo. Acorde o. 
Dê-lhe um ponta-pé no rabo e verá como es- 
perta . . . í 

Eu creio que a sentença estava a ponto de 
ser executada com presteza e afan quando o 



144 COLLECÇÀO ANTÓNIO MARIA PEREIRA 

mano Matheus lançou no espaço um alvitre 
<Jue fez sensação. 

— Elle não achava indispensável que o ra- 
paz se mettesse na cama. Optava por que o 
deixassem dormir ali até pela manhã. O can- 
çaso, nas crianças, era como uma bebedeira... 
A'quelle, mais falta lhe fazia o somno que a 
ceia. 

Aquella idéa de economisar a ceia que o mo- 
cinho havia de comer pareceu inspirada aos 
dois cunhados. 

Movidos por tácito accôrdo, fecharam tudo, 
apagaram tudo, e subiram immediatamente a 
ceiar. 

Quando a mão dura do mano Domingos, lá 
em cima, deu volta á chave, o pequeno, so- 
nhando, dizia, com particular acento de ter- 
nura : « Eh ! Castanha. » 



V 



O Serrano acordou altas horas da noute. Es- 
cutou o mordiscar dos ratos e teve medo. Elle 
que nunca temera os lobos da Serra! Soaram 
quatro badaladas n'uma torre próxima. Som 
desconhecido ! Recordou onde estava. 

Doia-lhe muito uma orelha que tivera aper- 
tada contra uma costura das serapilheiras, feita 
a cordel. 

De repente passou-lhe na cara, á laia de es- 
panador, um objecto brando e pelludo. Estre- 
mecendo, deitou-lhe a mão com anciã. Um 
profundo mi-au esclareceu o episodio. Rondava 
por ali o Malandro. Aquella companhia ani- 
mou-o um tanto. Aquelle contacto trouxera-o 
brutalmente á realidade. 

Revia com desesperadora evidencia as abor- 
recidas figuras dos três : ella, sem o largar um 
momento, sempre a ralhar e a chamar nomes ; 

IO 



146 COLLECÇÃO ANTÓNIO MARIA PEREIRA 

o gordo, com aquella tosse que o rebentava, 
sempre a cuspir no sobrado; o magro, sempre 
de olho atravessado, prompto a deitar-lhe a 
mão ás orelhas. E com que força puxava, o 
bruto ! Quem pudesse açular-lhe, atirar-lhe ás 
canelas o Piloto ! — E, a pensar no mastim 
estendeu o braço n'um affago ao Malandro que 
o não largava. 

Raio de gente aquella ! Viverem ali entaipa- 
dos entre cousas que cheiravam mal ! Sem sol 
de dia, sem estrellas á noite ! Peior que a ca- 
deia ! 

Fixou mais a attenção no olor ambiente: 
mescla enjoativa denunciando substancias co- 
mestíveis; e deu-lhe o estômago uns rebates 
formidáveis. Comprehendeu que tinha fome. 

A escuridão era completa. Com um esforço 
da faculdade retentiva recordou o sitio de al- 
gumas cousas. Cauto, ás apalpadelas, dirigiu-se 
a um angulo da prateleira onde lhe dissera o 
magro que estavam os fósforos. Apalpou. Lá 
estavam. 

Accendeu. 

Má raios ! Como tudo aquilio era feio ! E 

nem uma fisga por onde entrasse ar de fora ! 
As cadeias dos presos haviam de ser assim. 
Coitados ! 



RETALHOS DE VERDADE 147 

Co'a breca! Safa! — tinha queimado os de 
dos, e atirou violentamente o morrão. Extin- 
guira-se o pavio, em quanto elle, a seu modo, 
philosophava, sem ter idêa de que havia no 
mundo philosophia. 

Accendeu outro tosforo. Perto, enfileirados 
como carneiros, estavam os pacotes de velas. 
Havia um aberto, de onde ella vendera de tar- 
de uma vela. por algumas moedas de cobre, a 
uma mulher que chorava, dizendo que era para 
alumiar um doente. 

Accendeu uma, sorrindo triumphante quan- 
do lhe contemplou a luz indecisa. 

Lástima que aquillo se não tivesse em pé ! 
Houve um brevíssimo instante de indecisão. 

O mocinho, pelos modos, não era tão estú- 
pido como o fantasiava a hostil perspicácia da 
patroa. Entalar a vela entre um boião de ba- 
nha e outro de calda de tomate foi obra de um 
momento. 

Sacudiu os braços, contente, quando se viu 
livre d'aquella responsabilidade. E agora ? Tra- 
tar do estômago. 

Passeiou a vista em redor a ver o que lhe 
convinha. Prenderam-lhe a attenção com certa 
sympathia as dependuras de chouriços e os 
molhos de cebolas. Indecisão não a houve aqui. 



148 COLLKCÇÃO ANTÓNIO MARIA PEREIRA 



Arrimou a escada, subiu, tirou da algibeira uma 
navalha de respeito e zás ! — abaixo o chouriço 
mais reluzente e mais gordo. Depois, cresta ás 
cebolas. 

Não parecia o mesmo. Agi), foi-se ao canto 
onde tinha o saco e trouxe de lá um pedaço de 
broa, resto do farnel. 

Aquillo sim, era pão — pensava, sentando-se 
perto da vela, no balcão que agora lhe servia 
de mesa. Só o cheiro! 

Raio de fedores os d'aquella casa. Trazia 
mais castigado o nariz ! 

Não tardou que o Malandro se lhe asso- 
ciasse ao banquete. Foi uma orgia. Os dois co- 
meram como ogros. Para que estar com repa- 
ros? Havia ali muito chouriço. Durante um 
bom quarto de hora as quatro maxillas traba- 
lharam com energia certeira e firme. 

Satisfeito o appetite, o Serrano olhou para o 
outro benignamente, um pouco como quem 
olha para um cúmplice. Era sensivel n'aquelle 
momento a uma vaga impressão de delicto. E 
logo lhe veiu o instincto de esconder, de dis- 
farçar; não fossem o magro ou ella capazes 
de lhe dar uma tunda a elle ou matar o outro. 
N'esta altura o Malandro lambia-se deleitosa- 






RETALHOS DE VERDADE 149 



mente, sem tomar a si a menor parte de tão 
alentada responsabilidade. 

O Serrano não perdeu tempo. 

As pelles de chouriço e as cascas de cebola 
entraram -lhe para um dos bolsos das calças. 
No outro entrou um resto de chouriço com- 
promettedor. 

Apagada a vela. escondeu-a atrás do caixote 
dos ovos. Mas, arrependendo se, tornou a ac- 
cendel-a e foi examinar com minuciosidade a 
porta. 

Raio de muralha aquella ! Vários ferrolhos 
a uma grossa tranca. Para levantar tudoaquillo 
fazia-se uma bulha de mil demónios. 

Que inferno! Faltava-lhe o ar. Ai ! o ar livre 
da sua serra ! 

Apagou outra vez a luz, e estendeu-se de 
costas ao pé da porta. Creria assim estar mais 
perto do ar livre e do ceo ? As mãos cruzadas 
por baixo da cabeça serviam-lhe de almofada. 

Olhos arregalados na escuridão, estaria pen- 
sando o mocinho ? Ou seria supor digestivo ? 
Bem podia ser que pensasse! Fora das presun- 
ções da D. Plácida e do mano Domingos, po- 
dia notar-se no olhar do pequeno uma luz in- 
tensa que denunciava um cérebro. 

Ali encurralado, devia estar recordando as 



150 COLLECÇÃO ANTÓNIO MARIA PEREIRA 



madrugadas tão lindas no alto do Poio Negro. 
Mal luzia o sol, manta ao hombro, cajado na 
mão, lá ia por essas penhas arriba com as ca- 
bras do tio Roque. O Piloto, de grande coleira 
de bicos, sempre á frente. E o sol a subir, a su- 
bir.. . Tudo tão alegre! Quem amanharia agora 
as cabras ao tio Roque ? O Piloto, afinal, era 
quem mais valia. Olho mais vivo! 

Com que gosto comia a sua tigela de sopas 
de leite com a cucharra de madeira talhada á 
navalha ! Não tornara a ver leite. Que sede se 
passava em Lisboa! Porcaria de terra! 

Que era grande — diziam. Grande era a al- 
tura dos dois Cântaros, o Cântaro Gordo e o 
Cântaro Magro. 

Bonitas vistas ! — gabava a tia Benta. Que 
haviam de ser bonitas ! Tudo atulhado de ca- 
sas. Comparar isso com a garganta de Loriga '. 

O ceo! um migalho de ceo ! 

Nem o mar era o que lhe tinham dito; im- 
menso, como o ceo de lá, sem fim. O mar que 
elle queria era o outro, esse de que lhe falava 
o tio Custodio, que tinha um irmão no Brasil. 
Um mar onde os vapores andavam dias e dias 
sem ver mais que agua, uma immensidade de 
agua, e o ceo sem fim, todo carregado de es- 
trellas á noite. Que lindo devia ser! 



RETALHOS DE VERDADE 151 



Raio de gente aquella! Nem um buraco, nem 
uma janella que deixasse ver para fora ! 

Apesar do frio. quanto daria para estar agora 
estendido de costas nas alturas do Fragão do 
Corvo, da Cabeça do Preto ou da Carvalheira, 
com os olhos nas estrellas ! Frio por frio, tam- 
bém n'aquelle raio de caverna se tiritava. E 
tudo calafetado como se tivessem medo aos lo- 
bos e ás aves de rapina ! Pois que os comessem 
a todos três e não se perdia nada ! 

As lindas madrugadas na Serra ! Tudo a 
clarear de um lado, e as estrellas ainda a tre- 
merem do outro ! Um ar mais bom ! mais vivo! 
Abria-se a boca e ficava-se lavado por den- 
tro. 

Quem o dera lá na Serra, com um cacho 
de tramaseira no chapeo, das tramaseiras do 
Covão do Jorge, atrás das suas cabras, ao lado 
do Piloto, a assobiar as modas que tinha ouvi- 
do ao pastor dos fidalgos de Manteigas, o João 
da Ucha ! 

Raio de gente ! Trocava aquelle abafamento 
ainda que fosse pelas tempestades de lá, por 
uma travessia de levar coiro e cabello. Tudo 
estava em abrigar-se com o gado ao pé de al- 
guma rocha e esperar que aquillo passasse. 

O que elle ria no meio da ventania diabo- 



152 COLLECÇÃO ANTÓNIO MARIA PEREIRA 

lica ! E a fileira das águias, lá muito em cima... 
res. . . com o ceo todo por seu ! 

Que lindo ver as nuvens em baixo, brancas 
ou cinzentas, enchendo os vales; e lá em cima 
o ceo azul, muito limpo, muito brilhante! 

Quanta belleza ! quanta amplidão ! quanta 
liberdade!. . . 

Estes poderiam ser pouco mais ou menos os 
pensamentos do Serrano quando uns pés muito 
pesados que desciam a escada o trouxeram pa- 
vidamente ás realidades tristes da sua vida. 



VI 



No domingo a tia Benta não faltou. 

A D. Plácida tinha um ror de queixas contra 
o pequeno, que lhe pespegou logo em tom es- 
braseado. 

— Estava farta até aos olhos. Tinha enten- 
dido, e mais que entendido, que d'ali não se 
fazia nada. Era malhar em ferro frio. Tinha 
visto brutos, mas d^aquella casta, nenhum. E, 
pela calada, fazendo sempre a sua. O que 
sabia era metter-se no que não estava da sua 
conta. Se até ás escondidas dava de comer ao 
gato! Depois, calaceiro até ali. Se ia a um 
mandado, lá ficava. Já. por duas vezes, o mano 
Domingos, á volta da alfandega, fora dar com 
elle no Terreiro do Paço, espantalhado para o 
rio. E tanto fazia dar-lhe como não lhe dar. 
Parecia de borracha, o demónio. A única cousa 



154 COLLECÇÂO ANTÓNIO MARIA PEREIRA 



que tinha era não ser ladrão. Entregava até o 
ultimo cinco reis. . . Mas era a única cousa. 
Quem estava encantado com elle era a Praxe- 
des. Pudera ! O bandalho, em lugar de fazer o 
serviço, punha se a contar-lhe mentiroias lá da 
Serra, combates de cães e lobos; e a tansa en- 
gulia tudo e, estava nas suas sete quintas. Ella 
que o que queria era ter com quem dar á ta- 
ramela ! 

A tia Benta, ouvindo aquelles alardes de testa 
muito franzida, embatucava. E embatucava em 
attenção ao mano Domingos que lhe declarara 
á entrada da porta, com a mão no peito, onde 
talvez suppunha que devia morar a consciên- 
cia, que o garoto era uma besta de marca. Ella 
bem sabia que a D. Plácida, com o geniaço que 
tinha, havia de pôr as cousas peiores do que 
ellas eram. O seu gosto era pôr- lhe também 
ella os pontos nos i i ; dizer lhe que para aco- 
lher marçano feito e formado havia de pagar- 
Ihe soldada. 

Mas os planos matrimoniaes aconselhavam- 
lhe prudência. Resolveu conter-se, ainda que 
sem mostrar demasiada humildade. Sabia que 
a humildade é, em certos casos, contraprodu- 
cente. 

A sr. a Benta ignorava decerto a palavra; 



RETALHOS DE VERDADE 155 



mas devia ter noção intima do conceito. Em- 
pregou alguns logares communs, afíirmou eru- 
ditamente que Roma e Pavia não se fizeram 
n'um dia, ferrou os pés á parede em como o 
rapaz havia de tomar caminho, recommendou 
paciência e confiança no tempo, e acabou pe- 
dindo com desenfado que lhe deixassem levar 
o sobrinho de passeio. Pretendia — explicou — 
aproveitar o ensejo para pregar lhe um bom 
ioguete a sós com elle. E, contradizendo-se sem 
dar por isso, pedia logo ao mano Domingos 
que se unisse ao grupo indo passeiar com elles. 

Logo que a D. Plácida percebeu que lhe es- 
tavam desinquietando o cunhado, apressou-se a 
dar a licença ao marçano. Queria evitar a todo 
o transe um passeio dos dois sem o pequeno 
de permeio. Entendia, lá de si para si, que a 
companhia de um terceiro podia ser salvadora 
n'aquelles lances de desenfreada provocação. 
O diabo da velha! 

— Que sim, que sim ; que levasse o pequeno 
a dar uma volta — e a D. Plácida affectava um 
expansivo ar magnânimo. 

O mano Domingos ouvira as calorosas soli- 
citações da implacável adoradora no meio de 
uma indiíferença calada e sombria. Por fim 
declarou que farto do garoto andava elle toda a 



156 COLLECÇÃO ANTÓNIO MARIA PEREIRA 

semana ! para ainda o levar de passeio ao do- 
mingo ! Nada ! Ia aos touros. 

E quando a sr. a Benta, n'uns anciados asso- 
mos de viuvez dolorida, lhe recordou que a 
tourada era um divertimento perigoso pelo 
pouco resguardo das trincheiras, elle, cruel, 
despresivo, como costumam ser os homens 
muito amados, franziu o rir satânico, e atirou- 
lhe o mais frio e ingrato : Pfe ! lampanas ! 

Era perto do meio-dia quando tia e sobrinho 
principiaram a calcorrear pelas ruas de Lisboa. 

Primeiro que tudo, ella levou-o á missa a 
S. Domingos. Queria que beijasse o pé ao Se- 
nhor dos Passos, e, posto de joelhos em frente 
da imagem, pedisse humildemente perdão pelo 
mal que estava pagando os benefícios rece- 
bidos. 

Aquelle espectáculo realista do Senhor dos 
Passos de corpo inteiro, com a ampla túnica 
roxa, os cabellos estendidos, a cruz ás costas, 
a cara surcada por grossas lagrimas, impressio- 
nou quiçá profundamente o rapazinho. Co- 
lhendo, muito apertada, a mão da tia Benta, 
notou com voz apagada: «Elle parece que 
abre e fecha os olhos». 

A tia Benta então, matreira ou fanática, ex- 
plicou : « Tá visto . . . Faz assim quando tem 



RETALHOS DE VERDADE 157 



diante algum grande peccador, quando está zan- 
gado ♦ . 

Decorridos breves momentos, o Serrano, 
sem levantar os olhos e com a voz sumida, 
perguntou: «A gente nan nos vamos?» 

A tia orou um pouco mais com os olhos em 
alvo, persignou-se, beijou o chão, levantou-se, 
fez uma profunda reverencia e, tomando o Ser- 
rano pela mão, saiu solemnemente da igreja. 
ia convencida de que lhe dera uma formidável 
iição. 

Foram d'ali á Praça da Figueira, onde a 
sr. a Benta adquiriu a triste certeza de que o 
sobrinho era asno confirmado. Nada do que 
viu parecia interessal-o : nem as carnes choru- 
das, nem os peixes de guelra vermelha, tão 
variados, nem os enchidos, nem a louça de 
barro, nem a fructa, nem a criação, nem as 
hortaliças, nada. 

Foi só quando chegou ás flores que o pe- 
queno pareceu despertar daquella dormência, 
que, no conceito circumspecto da sr. Benta, es- 
tava a pedir bofetadas. Então, de olhos esbu- 
galhados, chegou a parecer um tanto louco. 

— «Eia! co'os diachos! — e, com o braço 
estendido, a apontar as mais formosas, encare- 



1Õ8 COLLKCÇÃO ANTÓNIO MARJA PEREIRA 



cia, nervoso, extasiado: «E aquella ! . . . E 
aquella ali ! . . . E a outra encarnada!» 

Era um deslumbramento ! 

A tia Benta teve bom trabalho para o arran- 
car d'ali. O rapaz parece que tinha telha. Era 
para onde lhe dava. Era a modo um pouco 
maluco. — Isto, lia- se pelo olhar da sr. a Benta 
que era então a matéria dos seus pensamentos. 

— «São caras; senão comprava-te um ramo» 
— disse ella n'um tom que vacilava entre a so- 
licitude e a zombaria. 

O assombro pintado na ingénua physiono- 
mia do Serrano era colossal. 

— Caras! Pois compravam-se flores, como 
quem compra uma navalha ou um par de sa- 
iões! Sempre tinha visto que as flores eram de 
todos, e cada um apanhava as que queria. O 
mesmo que a agua : quem queria beber, bebia. 

Mas logo a tia Benta saiu com o compe- 
tente quinau. Pois nan senhor: em Lisboa ta- 
mém a agua se vendia, tamém tinha o seu 
preço. 

O Serrano, aqui, arregalou os grandes olhos 
de cão fiel, e sorriu incredulamente. O sorriso 
queria dizer pouco mais ou menos: «Pois 
sim. Não é com essas! 

A tia estava empenhada em que fossem ao 



RETALHOS DE VERDADE lf>9 



Passeio da Estrella ver os cysnes. Apesar de 
que essas avens brancas, de enorme pescoço, 
como as descrevia a tia Benta, despertavam 
certa curiosidade no Serrano, elle pediu que 
deixassem essa expedição para depois, e fossem 
primeiro ao Terreiro do Paço ver o mar. 

A tia sacudiu o chalé n'um meneio de impa- 
ciência — Que mania de rapaz! Para onde lhe 
havia de dar! 

Mas, emfim ! Estava cançada, e não deixa- 
vam de sorrir-lhe os bancos de pedra, soalhei- 
ros, que olham o rio. Foram. 

A sr. a Benta julgou dever aproveitar o ensejo 
para uma lição de historia. Mandou-lhe levan- 
tar a cabeça. Disse-lhe que não andasse sem- 
pre como os animaes com os olhos no chão, se 
queria aprender alguma cousa. Que reparasse 
n'aquelle rei, que estava no meio da Praça. 

Elle reparou e perguntou se era o rei que go- 
vernava agora. 

A tia informou que era um que já tinha mor- 
rido e que não era do seu tempo, porque quando 
viera ao mundo já elle ali estava empoleirado. 

O Serrano continuou a olhar com attenção 
pasmada e perguntou, muito grave: «Era 
preto ? » 

— «Ai, que tanso! Antão nan querem lá 



160 COLLECÇÀO ANTÓNIO MARIA PEREIRA 



ver ! . . . Ah ! rapaz . . . Isso é a côr da . . . do . . . 
d'isso de que o fizeram». 

— « E isso que é ? » — indagou o Serrano com 
certo ar desconfiado. 

— t Deixa ver. . . Nan m'alembro agora. . . 
E' do que se fazem as estatuías ... De que 
querias tu que o fizessem, palerma?» 

Podia estranhar a rapidez com que veiu a 
resposta: «Podiam-no ter feito como o Senhor 
dos Passos que é da côr da gente. . . Já nan 
parecia preto ...» 

A tia achou talvez que elle tinha alguma ra- 
zão e não retorquiu. Foram sentar-se nos ban- 
cos de pedra a olhar para o rio. Chegava um 
vapor do Barreiro. 

O Serrano demorou-se em estática contem- 
plação. Depois, n'um repente, apontando o va- 
por: «Tamém se paga para ir ali?» 

— «Nada, não! Tens cada prégunta, rapaz, 
que parece um esquecimento. . . » 

— fN'este vapor até donde se vae?» 

— «A um sitio que se chama o Barreiro». 

— < Muito longe?» 

A tia Benta, a dizer a verdade, não sabia 
onde ficava o Barreiro. Saiu, todavia, da diffi- 
culdade com o aprumo de certos cathedraticos 



RETALHOS UE VERDADE ltíl 



um tanto falhos de sciencia: «Inda fica longe, 
rapaz !» 

— «Cuantos dias se leva para lá deitar ?» — 
insistiu o pequeno, com uma curiosidade lumi- 
nosa que vinha de dentro. 

— «Dias, rapaz!... Quaes dias!... Nim 
um. . . Nim meio. . . » 

— (dsso antáo nan presta» — declarou o Ser- 
rano com a rasoíra de certos críticos que só 
ajuisam por alqueires — «Vomecê já fez uma 
via^e grande ?n 

— «Ah rapaz! secas uma pessoa com pré- 
guntas!. . . As viages san grandes ó piquenas 
conforme está o mar. . . E a ti que te importa? 
Vê mas é se deixas de ser abelhudo. . . Os pa- 
trões bem se queixam ! . . . » 

— «Raio de gente!» — exclamou vivamente 
o Serrano, como para si, sem desfitar os olhos 
do vapor atracado. 

A tia Benta, ou não o ouviu, ou teve por 
bem fazer ouvidos de mercador. 

Deixou passar uns minutos e disse : 

— a Escuta cá. Os patrões, a ti, como te tra- 
tam? Que tal te vaes tu dando co'elles?» 

O Serrano, sempre de cara voltada para o 
vapor, respondeu sem vacillar, como se já ti- 
vesse de antemão preparada a resposta: 



162 C0LLECÇÃ0 ANTÓNIO MARIA PEREIRA 



— «Aquillo nan san patrões, san bestas.» 

— «Ah! rapaz. . . Besta és tu e de marca. 
Nan querem lá ver o descarado ! San modos de 
lalar dos patrões! Grandecissimo ingrato. Inda 
em cima de puxarem por elle! de o quererem 
fazer gente ! O sr. Domingos antão ! uma pes- 
soa de tanto respeito. . . !» 

— «Esse é o peior. . . Má raios o partam!» 
Havia extranho contraste entre a vehemen- 

cia do conceito e certo ar de tranquillidade com 
que o pequeno o expressava. Maneira de falar 
de quem crystalisou n'uma convicção. 

A tia levantou-se, travou- lhe do braço di- 
reito, sacudiu-o brutalmente e disse, irada : 

— «Você sabe donde vae a parar e nan ha 
de faltar munto?» — e, depois da pausa em- 
phatica, respondeu ella mesma com solemni- 
dade tétrica: — a.A Casa da Correcção. . . Ás 
Monicas. . . » 

— «E isso que é?» — perguntou o Serrano 
inexpressivamente. 

— <cE' uma especia de prisão pVós rapazes 
piquenos . . . pVós descarados conva ti . . . Lá 
logo os endireitam» — 'e fazia uma mimica elu- 
cidativa, meneiando a mão direita ameaçado- 
radamente. 

O Serrano continuava a olhar fixamente para 



RETALHOS DE VERDADE 1(33 



o Tejo. Resposta não pareceu que pensasse em 
dar nenhuma. 

Mediou largo silencio. 

Pelo *que depois succedeu, eu creio que a 
tia Benta, reflexionando profundamente, veiu 
a concluir que o rapaz era duro, e que duro 
com duro não faziam bom muro. Importava 
mudar de táctica. 

Tossiu dignamente, acepilhou a garganta, 
assoou-se, tornou a dobrar svmetricamente o 
lenço que levava na mão, compoz com certo 
preceito a roda da saia, e principiou em tom 
moderado, conciliador: 

— 4 Da tua parte é que está tudo . . . Tens 
que domar os instinctos para te fazeres esti- 
mado .. Hades ser humilde, fazer por agradar, 
sugeitar-te á vontade dos patrões... Prateu bem 
é que é tudo. . . E nan responderes nim uma 
nim duas. . . Falar pouco. . . Menos tagarelice 
e mais trabalho. . . E lá co'a Praxedes nim 
pio, qu'a patroa embirra co'isso. . . Abaixares 
essas grimpas é que e preciso . . . Tratar co'as 
cabras nan é o mesmo que tratarcom gente.» 

Durante esta homilia em que, pelo tom da 
voz, parecia haver certa intenção de doçura, o 
pequeno, sempre olhos no rio, não dera signal 
de si. Ouviria ? 



164 COLLECÇÃO ANTÓNIO MARIA PEREIRA 

De repente, voltando-se, n'um movimento 
espontâneo, de intensa vibração : 

— «Tia, vomecê já viu o mar verdadeiro?» 
O primeiro Ímpeto da sr. a Benta foi"dar-lhe 

uma bofetada que o fizesse ver, não o mar, mas 
as estrellas. O descarado! Reconsiderou, porem. 

De si para com sigo ia entendendo que o ra- 
paz não era certo da bola, não tinha o juizo de 
meio a meio. E d'isso não tinha elle a culpa. 
A mal não era que lhe haviam de metter mais 
siso na cabeça. E lá d'essa desgraça tinha muito 
dó. Nem elia nem ninguém estava livre de vir 
um dia a dar na maluqueira. 

Desde aquelle momento pensou que sempre 
lhe notara certo extravio nos olhos, sobretudo 
quando fazia certas perguntas. E lembrou-lhe 
consultar um amigo do patrão que era medico. 
Mas essas cousas não as podia dizer na rua 
dos Fanqueiros, que logo lh'o plantariam na 
rua. Os seus peccados d'ella! 

— «Tu que dianho queres dizer co'isso de 
mar verdadeiro, rapaz ! Que me melem, se eu 
t'intendo.» 

— «Eu cá digo o mar donde nan ha mais 
que agua e ceo» — volveu o pequeno com o 
tal olhar suspeito á tia Benta. — «0 mar muito 
grande, muito grande, sem se ver nim pitada 



RETALHOS DE VERDADE 165 



de terra. . . e o ceo grande, grande como o da 
Serra. . . Assim é como conta lá o tio Custo- 
dio . . . » 

— «Está um bom trapalhão o tio Custodio! 
Tu, antão, engoles tudo. . . Sem ver terra podia 
lá ser! Nim os barcos sabiam por donde iam.» 

— cE antão as estrellas, tia Benta? A gente 
na Serra taménr vá p'ra donde fôr, sabe donde 
está o norte. » 

— «Falas como um livro, rapaz. Aqui tens 
quem tem andado muito sobre as aguas do mar 
sem ver nesga de terra. » 

A tia Benta desconhecia aquella voz. Vol- 
tou- se assustada para trás. e viu um homem 
de meia idade, forte e vermelho, com boné de 
pelles e cachimbo ao canto da boca. 

— «É filho?') — perguntou o lobo do mar, 
que evidentemente o era. 

— c:Nan senhor^ — apressou-se a negar a 
tia Benta, sacudindo-se pudibundamente, como 
se, sobre a sua pureza tivesse caído uma cha- 
miné de fuligem. — «E' sobrinho. . . Veiu inda 
ha poucos dias da Serra. Por isso está assim 
pelludo. De tudo taz um espanto. i 

O Serrano já estava junto do desconhecido, 
metralhando-o de perguntas. As respostas vi- 
nham promptas e benévolas. 



166 COLLECÇÃO ANTÓNIO MARIA PEREIRA 



— Era piloto de um vapor mercante. Pouco 
passava em terra. A estreiteza das ruas oppri- 
mia-o. Queria-se com a immensidade, seu cos- 
tume. Queria muito espaço para respirar. De- 
pois, a monotonia de terra matava-o. Nunca 
uma tempestade formidável ! nunca a ancie- 
dade dos perigos ! Na tolda, um copo de aguar- 
dente por noute gelada sabia-lhe a gloria. Em 
Lisboa, mettido n'uma taverna, abafava, falta- 
va-lhe o ar. 

— «E que idade tinha vomecê quando foi 
pYó mar?» — perguntou o pequeno, excitado* 

O marinheiro mediu o Serrano de alto a 
baixo : 

— a Pois olha, havia de ser assim um coto- 
miço como tu.» 

— «E nan lhe batiam?» 

. — «Bater! Isso mais devagar!. . . O ponto 
era andar direito. . . O commandante, Deus lhe 
fale n'alma, sempre foi bom para mim ...» 

A voz d'aquelle homem queimado velara-se 
um pouco. O Serrano olhava de fito para elle, 
esperando sem duvida que seguisse contan- 
do-lhe cousas da sua infância. Como o outro 
se conservasse calado, o pequeno, a querer pu- 
xar-lhe pela lingua, tornou : 

— «Vomecê agora está em terra. . . » 



RETALHOS DE VERDADE 167 



— «Bastante me pesa, rapaz ! Mas já faltam 
poucos dias. . . Para a semana já embarcamos 
para Inglaterra e de lá para a America.» 

Houve um silencio. 

— t O mar da America é muito grande, pois 
nan é?» — indagou o Serrano, com os olhos a 
fusitarem. 

— «Ah! rapaz!» — interveiu a tia Benta — 
Nan incommodes a quem está. . . A ti que mais 
te dá? que te importam essas cousas?» 

— «Importam, se senhor» — protestou o mo- 
cinho vivamente. 

— «Sim reposta é que elle nan fica!» — e a 
tia Benta associava ao dito um estalo reprova- 
tivo da lingua. 

— «Deixe-o, senhora» — pediu o marinheiro. 
E punha paternalmente a mão no hombro do 
Serrano — «Se eu até lhe acho graça ao pe- 
queno». 

— cxPois dê-lhe confiença e está aviado. . . 
P'ra préguntar inda nan vi outro. Secca uma 
alma enrista». 

O Serrano, como se quisesse confirmar a 
fama de perguntão, saiu-se logo com esta: «Os 
vapores tamém tem nome com'á gente ; nan 
tem?» 

—«Claro». 



168 COLLECÇÃO ANTÓNIO MARIA P(£HE1KA 



— «E o seu como se chama?» 

— « Vigilante». 

— «Adonde está elle?» 

— «Está defronte de Belém. D'aqui não se vê. 

— «Anda, rapaz, anda» — disse, de repente, 
a tia Benta, levantando-se n'um repelão e agar- 
rando com força a mão do Serrano, como se 
pretendesse salval-o de um perigo — «Vamos,, 
que se faz tarde, e inda quero ver se deitamos 
a Valle de Pereiro a casa de uma amiga que 
ali tenho» — e, seccamente, para o marinheiro: 
«Muito boas tardes». 

O homem levou os dedos ao boné e disse 
para o pequeno, encarando-o com sympathia : 

— «Tu como te chamas P» 

— «Eu cá sou Gilberto. E vomecê P» 

— «João Honorato, piloto do Vigilante*. 
Ficaram por aqui as despedidas, porque a 

sr. a Benta sacudia o braço ao pequeno a mais 
não poder. 

— «Anda, rapaz. . . Que castigo! Mexe-me 
esses trambolhos d'esses pés... Jasus! Credo!... 
Nan sei donde agarrastes esta balda de falar, 
falar. . . Co'as cabras supponho que nan fala- 
vas tu . . . » 

— «A gente lá tamém fala co'ellas» — 
asseverou o Serrano com aquella tranquilidade 



RETALHOS DE VERDADE 109 



firme, que tinha seu quê de imponente. E olhava 
para trás, ou a despedir-se do seu grande fas- 
cinador, o mar, ou a ver outra vez o João Ho- 
norato que, mãos nos bolsos do casaco herme- 
ticamente assertoado, cachimbo ao canto da 
boca, ainda seguiu os dois com a vista. 

A tia Benta corrigiu-lhe o movimento com 
um potente safanão e disse: «Se vaes a andar 
e a olhar para trás, esmurraças as ventas nal- 
gum candieiro». 

Andaram toda a rua Augusta, atravessaram 
o Rocio e o Passeio Publico e metteram pela 
calçada do Salitre. A excursão á Estrella ficava 
para outro dia. A sr. a Benta queria chegar a 
casa da sua amiga Joaquina Morena, que lhe 
devia cinco tostões. Era caso urgente. Não es- 
tava inteiramente resolvida a pedir-lhe o di- 
nheiro; mas queria fazer-se lembrada. 

Por todo o caminho ia pregando; ia dando 
conselhos. Thema e variação, tudo tinha a mes- 
ma monotonia soporifera. — Queria que elle se 
convencesse de que estavam todos trabalhando 
para o seu bem, para fazel-o gente. Havia de 
pôr elle, da sua parte, também. Tinha que ser 
humilde, amiguinho de trabalhar e de fazer 
vontades. 

Se visse que elle tomava caminho, pensa- 



170 COLLECÇÂO ANTÓNIO MARIA PEREIRA 



va dar-lhe um fato, á moda de Lisboa, no 
S. João. Mão na lingua, pé leve, cabeça fres- 
ca, muito cuidado nas contas, e tratar de criar 
amor aos patrões. Quanto mais fizesse por 
agradar, mais depressa começaria a ganhar, 
para mandar alguma cousa á mãe. . . 

Na parte mais Íngreme da calçada do Sali- 
tre, a tia Benta intervalava mais os periodos. 
Soltara a mão do pequeno para evitar trope- 
ções, levantando a saia. 

Elle ia calado. Na ingenuidade commum a 
muitos oradores suporiferos, ella julgava ter- 
ihe feito impressão. 

De repente o Serrano estacou. A' queima 
roupa, com esse quê de impetuosidade selva- 
gem com que sempre fazia as suas perguntas, 
disse: «Tia Benta, que quer dizer piloto?» — 
Era a primeira vez que descerrava os lábios 
desde que, ao sair do Terreiro do Paço, parti- 
cipara á tia, com certa solemnidade, que os 
pastores na Serra também falavam com as ca- 
bras. 

A tia Benta era o typo genuíno d'estas pes- 
soas modera ias e amodorradas que andam no 
mundo por ver andar as mais. Toda a sua cu- 
riosidade, que era muita, se dilluia nos acon- 
tecimentos, nos episódios de enredo vulgar. 



retalhos de verdade 171 



Nunca na sua vida lhe occorrera fazer uma 
pergunta, no intuito de apurar um conheci- 
mento objectivo. Representava assim esta mu- 
lher uma somma de ignorância pouco com- 
mum nos seus annos. 

— «As coisas que te vem á alembrança, ra- 
paz!... a ti que te importa !.. . Piloto... é 
d'isto de coisa de navios. . . Vem a querer di- 
zer o marinheiro mais velho . . . que manda 
nos mais... Jasus! Por este andar a que hora lá 
dêtamos!» 

Mettiam já pela azinhaga de Valle de Pe- 
reiro, entre piteiras e outras plantas bravias. De 
repente o Serrano estacou firme, fitando a ore- 
lha como cão de caça. Foi meio minuto. Dando 
um balanço ao corpo, deitou a correr, azinhaga 
fora, com toda a força dos seus pulmões e toda 
a agilidade das suas pernas esguias. 

A tia Benta ficou para vida não ter. 

— «Valha-me Nossa senhora! Nan querem 
lá ver ! O demónio do rapaz é doido varrido ! 
O' piqueno, p ra donde vaes tu, nan me di- 
rás?. . . Que te perdes. . . Antão aqui n'este 
descampado!... Tan depressa nan torna a 
sair comigo... Nada!... p'ra coidados...» 

N'um recanto da azinhaga perdeu-o de vista» 
E, otfegante, apressou mais o passo. 



172 COLLECÇÃO ANTÓNIO MAHIA PEREIRA 



— «Ora a minha vida!... Nada, nan tem que 
duvidar. . . o rapaz tem aduela de menos. Lá 
que elle nan e certo da bola, isso nan é. . . 
Estou que foi ataque que le deu pola cabe- 
ça. . . E o peior inda é ter que dar contas d'elle 
á mãe . . . Sempre isto, isto ! » 

E cada vez mais correr. 

Quando chegou ao cotovelo onde o perdera 
de vista foi-se-lhe a ultima esperança. A azi- 
nhaga seguia tortuosa e estreita, e do Serrano 
não havia vestígio. 

Parou para respirar. O coração dava-lhe 
baques impetuosos. O suor luzia-lhe no nariz e 
na raiz do cabello. Escancarou a boca e cha- 
mou, com quanta força tinha: iO' rapaz do 
diabo! O' rapaz do di-á-á-á-bo!» 

Resposta, nenhuma. 

Offegante, emprehendeu de novo a marcha. 
Quando emfim chegou ao extremo onde a azi- 
nhaga desembocava n'um campo aberto, teve 
de apoiar-se ao frade de pedra para não cair 
redonda. Latejavam- lhe as fontes e tinha um 
torvelino na cabeça. 

Logo que tomou folgo, passeiou em torno 
um olhar investigador. O que então viu pare r 
ceu-lhe espantoso, inacreditável. 

Um rebanho de umas vinte e tantas cabras, 



RETALHOS DE VERDADE 173 



com os seus chocalhos tilintando, andava além, 
pastando. 

Por meio d'ellas, o Serrano não parava. Afa- 
gava esta, agarrava os paus áquella, abraçava 
aquella outra, colhia nos braços a mais peque- 
na. . . O pastor velho, junto á sua gamelinha 
de lata, repousava ao lado de um cão pequeno 
que dormia. 

A tia Benta, em quanto descançava, com- 
pondo o lenço e o chalé, desmantelados na 
carreira, laborava n'este dilemma excitante: ou 
escavacar o sobrinho ali mesmo, ou recam - 
bial-o immediatamente para a terra. 

A' medida que foi serenando, viu, claros, os 
inconvenientes de qualquer d'aquellas solu- 
ções. Para dar cumprimento á primeira falta- 
va-Ihe a força physica : para a segunda teria de 
metter mãos á bolsa, facto tão doloroso como 
uma operação dentaria. 

Acolheu-se á calmante reflexão de que o ra- 
paz era doido. E julgou prudencial leval-o por 
bons modos. Chegou á conclusão de que o me- 
lhor que tinha a fazer era consultar aquelle 
senhor medico, muito entendido, amigo do pa- 
trão, e que decerto lhe não levaria nada pela 
consulta. 

O pequeno afinal talvez fosse mais doente 



174 GOLLECÇÃO ANTÓNIO MARIA PEREIRA 

que mao. Agora lhe estava elle de lá acenando 
com o chapeo. Aquillo, se não era troça, bem 
podia ser simplicidade de maluco. 

— «Boa carreira me fizestes dar! Que bicho 
te mordeu, rapaz?. . . Anda, já nan quero sa- 
ber de visitas. . . Vamos mas é p'ra casa e nan 
t'arredes mais da minha beira.» 

Isto dizia a tia Benta em tom azedo, che- 
gando a poucos metros do sobrinho. 

. Elle, sem se alterar, com muita naturalidade, 
como se não tivesse acontecido nada, pergun- 
tou, erguendo um olhar feliz: «O' tia Benta, 
vomecê dá-me um vintém ?» 

— «Um vintém? P'ra que quer você um vin- 
tém? Os vinténs estão muito caros.» 

— tEra p'ra beber uma pinga de leite... Aqui. 
tudo se vende ...» — e o pequeno sorria com 
uma expressão que em creatura civilisada po- 
deria chamar-se ironia, e que n'elle não era fácil 
classificar. 

A tia Benta ainda vacillou. Depois n'um ras- 
go: «Pois lá por isso nan seja a duveda. . . 
Ahi está o vintém* — e atirou-lfTo magnanima- 
mente, commentando entre dentes: «Doido 
varrido!» 

Elle foi onde estava o pastor. Os dois trava- 
ram conversa. Depois a tia Benta viu que o ve- 






RETALHOS DE VERDADE 175 

lho se levantava, mungia um pouco de leite 
n'um caneco de folha e o dava ao pequeno. 

O Serrano bebeu de um trago e quedou-se 
um momento a olhar para o fundo do caneco 
antes de devolvel-o. 

Depois, voltou para a tia, afagando as ca- 
bras que encontrava no caminho. 

— «Aqui está» — disse; e apresentava o vin- 
tém na palma da mão estendida. 

— «Nan pagastes!... Ah! rapaz, nan me 
sejas ladrão!» 

— «Nan me levou nada.» 

— «Pois anda! Tivestes sorte» — e a tia 
Benta, arreganhando um sorriso desdentado, 
apressou- se a recolher o vintém. 

Com um movimento de hombros elle expli- 
cou com certo entono: «Disse-lhe que tamem 
era cabreiro. . . » 

Até casa não trocaram mais palavra. Ao 
chegarem, a D. Plácida chamou de parte a tia 
Benta. Queria saber que tal se tinha portado o 
mostrengo no passeio. 

A outra respondeu sem vacillar. 

— Que muito bem. Muito sujeito, muito hu- 
milde. Sempre pela mão d'ella. Ia- lhe desco- 
brindo bons sentimentos. Não queria senão 
conservar-se na casa para não andar conhe- 



170 COLLECÇÃO ANTÓNIO MARIA PEREIRA 

cendo caras novas. Tinha promettido fazer-se 
em postas para agradar aos patrões. 

A sr. a Benta, com um descaramento que to- 
cava quasi no sublime, augurou a Matheus 
Gonçalves & Irmão que tinham marçano para 
largos annos. 






VII 



Quando a Sr. a Benta na quinta feira imme- 
diata recebeu uma carta com letra do mano 
Domingos, o coração deu-lhe um pulo formi- 
dável. 

Ella não sabia escrever, mas conhecia as le- 
tras; sobretudo a do mano Domingos, com umas 
maiúsculas retorcidas, floreadas, cheias de ara- 
bescos. Conhecia-a da conta dos géneros de 
mercearia que todos os mezes apresentava ao 
patrão, banhada n'um doce enleio amoroso. 

B, a sua letra de Benta, tão caprichosamente 
iavrada, era a mesma que ella contemplava, 
no principio de cada mez, com visagens devo- 
tas, na palavra Bacalhau. 

 letra era d'elle. Não havia que duvidar. 
Por fim o mano Domingos sairá da atitude 
reservada ; mandava-lhe uma proposta em for- 



17S COLLECÇÃO ANTÓNIO MARIA PEREIRA 

ma. Já era tempo. A idade de ambos não es- 
tava para esperas. 

Nunca como n'aquella manhã sentira a Sr.* 
Benta a desdita do analphabetismo. O assum- 
pto pedia recato e discreção. Como se atreve- 
reria a pedir ao patrão que lhe lesse aquella 
carta ? 

O tabelião, Sr. Ramiro Viegas, cuja casa a 
Sr. a Benta Fornalha administrava internamente 
ia em bons onze annos, era um convicto sol- 
teirão, abominando tudo o que cheirasse a ma- 
trimonio. 

Se no decurso d'aquelles esperançados onze 
annos se lhe tivesse deparado a Sr. a Benta qual- 
quer partido, teria occultado ao patrão o caso 
sensacional até ao ultimo momento. A prudên- 
cia agora não lhe aconselhava outra cousa. 

Sabendo-a compromettida n'um plano de ca- 
samento, o sr. Viegas era muito capaz de a des- 
pedir. E depois? 

Devia arriscar-se a perder aquella casa, onde 
era ama e senhora, tendo ás suas ordens a pe- 
quena Carolina, de cujos trese annos, rotos 
e desgrenhados, ella tirava uma somma de tra- 
balho brutal, com fins pedagógicos — dizia? 

Nada. Ao sr. Viegas não ia ella com a carta* 
Tinha que considerar que até a porta da igreja 



KETALHOS DE. VERDADE 17$ 



se podiam desmanchar os casamentos. Quantos 
projectos d'aqnelles não ficavam em agua de 
bacalhau ! Comprehendia que a idade do mano 
Domingos, quando elle chegara a dar aquelle 
passo, era para inspirar confiança. Mas, nunca 
fiando. 

A sr. a Benta tinha em geral muito má idéa 
dos homens. E pelas cousas que dizia, não é 
prudente julgar que a tivesse muito melhor 
das mulheres. 

•Assim, mil idéas contradictorias lhe revolu- 
teavam na cabeça em quanto preparava o al- 
moço, com os olhos da mais severa pedagogia 
frequentemente dirigidos á Carolina; que lhe 
areava as facas. 

O melhor que tinha a fazer era esperar que 
o patrão almoçasse e saísse. Depois arranjava - 
se, como pudesse, com a pequena. A Carolina 
pouco sabia; mas ella pelos domingos tiraria 
os dias-santos. 

Já tinha ouvido ao sr. Viegas que- a letra âo 
mano Domingos era muito clara. 

Se aquillo era um homem para tudo! Era 
elle quem tinha a mercearia em pé. 
,. Que lá o paz d'alma âo Matheus e a presu- 
mida da mulher. . . Aquelle, sim, era pau para 
toda a obra. Tanto montava com a penna- na 



180 COLLECÇÃO ANTÓNIO MARIA PEREIRA 

mão como a dirigir o negocio. Olha lá não 
deixasse ir a fazenda pela agua abaixo I Isso 
deixava elle ! Nem a familia lhe sabia dar o ver- 
dadeiro valor. Sabiam lá ! 

Pôr a Carolina a soletrar a carta antes que 
o patrão saisse, n'essa não caia ella ! 
.Se a rapariga levava um anno para juntar 
uma palavra! Nada mais fácil que entrar o sr. 
Viegas de repente na cozinha a pedir fósforos, 
a falar com o papagaio ou a dar qualquer re- 
cado. xMelhor faria esperando, tendo mão na 
impaciência, ainda que cada minuto fosse uma 
tortura. 

Coração que ama sempre tem que penar. 
Mas aqui o amor era de tendência marcada- 
mente optimista. 

A sr. a Benta, em quanto batia a omelette para 
o sr. Viegas, ia fazendo castellos no ar, tão cas- 
tellos e tanto no ar como se tivesse dezeseis an- 
nos. 

. Via-se a passear na Avenida pelo braço ido- 
latrado do manr Domingos, de regalo, luvas e 
chapéu de plumas. E tinha a certeza de pare- 
cer melhor que a outra. 

Aquelle corpanzil! Um odre! Ella ao menos 
tinha cintura. 

E a ver se não haviam os freguezes de do- 



RETALHOS DK VERDADE 181 



brar a língua e acostumar-se também a cha- 
mar-lhe D. Benta! Menos que a outra, issoé 
que ella não havia de ser. IVahi em diante as 
cousas mudariam muito de íigura. Não havia 
de ser elia que envergonhasse o apellido de 
Gonçalves... 

Quando a sr. a Benta n'aquelle dia sentiu o 
estoiro da porta, indicativo de que o sr. Viegas 
tinha partido para o cartório, absteve-se de 
pronunciar o costumado : Arre bruto !, substi- 
tuindo-o por um manso e regosijado : Ora gra- 
ças a Deus ! 

Levantou as cousas do almoço sem dar tempo 
á Carolina de satisfazer cabalmente o apeti- 
te, e limpou a mesa meticulosamente. Depois, 
com solemnidade, tirou a carta da algibeira, 
rasgou-lhe o sobrescripto. verificou que cons- 
tava de pagina e meia e, indicando a assigna- 
lura, ordenou á pequena em tom marcial : «Vê 
que poe ahi.» 

A Carolina, com um dedo estendido para 
cada syllaba, foi-as juntando com esforço: 
«Do. . .mingos, Domingos, Gon. . .çal. . . » 
. — & Gonçalves, mulher, Gonçalves... Se es- 
tá mesmo a dizer!. . . Todas as noites na es- 
cola, nan sei qu'aprendes.» 

— E' qu'a gente lá nan lê letra de penna...» 



182 COLLECÇÀO ANTÓNIO MARIA PEREIRA 



— «Isso vem a dar na mesma . . . Bem, ago- 
ra vê se lês esta carta como Deus manda. 
Anda, rapariga, despacha. . . • 

A Carolina soletrou para si, no propósito ra- 
cional de evitar os acerbos commentarios da 
outra. E conseguiu por fim ler de enfiada : - 

«Sinhora benta não si ademir do" que lhe 
vou a dizer.» 

Aqui a leitora parou para tomar fôlego. Não 
estava menos anhelante a sr. a Benta. A com-, 
moção agita e fatiga como larga caminhada ou 
fragosos trabalhos. 

— «Anda, filha, anda p'ra diente» — pediu 
elía, sem brutalidade, abstenção que muito de-* 
via surprehender a Carolina. 

Concentrou-se a. pequena nos Íntimos arca- 
nos da soletração e leu em voz alta, sem tro- 
peçar: «A' coisas "que se tem que falare tarde ó 
sedo,» — e parou de novo para entregar-se ou- 
tra vez á concentração mental que as diíflcul- 
dades do caso exigiam. 

Com a respiração cortada, a sr. a Benta pas- 
sava a mão febrilmente na testa. 

— «Anda, mulher. . . im nome de Deus e 
dos : santos le. . . » 

— «Espere, senhora, já vae» — e, com mui- 
tas visagens, como quando- carregava com o 



RETALHOS DE VERDADE 183 

cesto das compras pela escada acima, a pe- 
quena leu aos tropeções: cTal. . . vez. . . talvez.,, 
que vose. . .mesê. . . vosemesê... esteja Pre,.. 
pre. . . preparada.» 

Como a pequena parasse a decifrar mental- 
mente o que seguia, a sr. a Benta levantou-.se 
agitada, foi ao pote, encheu um púcaro de agua 
e bebeu-o com anciã. 

'linha zumbidos nos ouvidos como quando 
das sezões, á força de quinino. E levantara- 
se-lhe o estômago. Sentia engulhos. 

Fazendo um esforço para serenar, veiu sen- 
tar-se outra vez junto da pequena e disse: 
«Anda p'ra diente, criatura... Vae ajuntando 
as palavras e nan prestes attenção ó que lês, 
qu'isso qu'ahi está posto nan são coisas da tua 
conta. . . Que mais põe?» 

A pequena laboriosamente repetiu duas li- 
nhas: «Talvez que vose. . . vosemecê es. . . 
te . . . ja pre . . . pa . . . ra . . . preparada. » 

— «Isso já tu dissestes, parva... E despois?» 
A pequena continuou: «Mais sempre lhi ade 

fazer im . . . pre ... im . . . pre ...» 

— ccímpressão, mulher, impressão... Se está 
mesmo a dizer!. . .» — E, com os seus botões 
murmurava em êxtase a sr. a Benta: «Pudera 
nan fazer!» 



184 COI.LECÇÀO ANTÓNIO MARIA PEREIRA 



Tinha-se posto de pé, na anciedade de che- 
gar ao ponto culminante da carta. 

Com as mãos fortemente apoiadas nos hom- 
bros da Carolina, tinha os olhos avidamente 
fincados no papel. «Anda, anda p'ra diente» — 
e sacudia os hombros ponteagudos da peque- 
na, cuja cabeça desgrenhada oscilava n'um có- 
mico movimento affirmativo. 

— «Agora aqui ha uma palavra que nan sei 
o que diz... ma...lan... malandro» — e a 
leitora olhou de revés para a sr. a Benta, sem 
duvida esperando algum bofetão. 

— «Malandro, sim. Malandro. . . Isso é o 
gato. . . Mas tu por força saltastes ahi alguma 
regra... Antes d'isso do gato, que é que está?» 

— «Eu nan saltei nada, nan senhora» — pro- 
testou a Carolina, sempre em guarda contra 
um desforço mechanico da sr. a Benta. E sole- 
trava: «O ma... lan... dro pa... çou as Pa- 
ine. . . palhetas honte ha tarde...» 

Agora é que o assombro da sr. a Benta era 
assombro. N'uma tal confusão de idéas não 
atinava com o mais simples raciocínio. 

— «O' rapariga, isso nem o diabo o inten- 
de... Ahi por força põe outra coisa. Nan sei 
mas é o qu'ensinam n'essas escolas. . . Ora a 
minha vida!» 



RETALHOS DE VEKDADE 18í> 



A pequena, defendendo-se, metteu-se a ex- 
plicadora: «Vomecê nan diz que o gato que é 
Malandro:' Pois nan tem mais qu'intender . .. 
Põe-lhe aqui que o gato que fugiu.. .» 

— «E eu que tenho co'isso, nan me dirás? 
Quero cá saber!. . Anda, acaba tu de ler. . . 
Parece que im lugar de ires p'ra diente vaes 
mas é p'ra trás . . . Pois p 'ra isso nan vale a 
pena faltares 6 teu serviço de casa ...» 

A pequena, que estava mergulhada na dele^ 
treação mental, leu por fim quasi sem interru- 
pção: « Foice a um man...da...do, mandado... 
e lá ficou... Di.. .a. ..bos, diabos o levem !... 
Cuando pu...der, puder .. apare. ..sa a ver si se 
dá par.. .te... parte... há po...li...cia, policia... 
o u que se ias.» 

A sr. a Benta agora, vermelha como lagosta, 
parecia prestes a cair redonda acomettida de 
apoplexia. Não articulava palavra; não podia. 

A pequena houve por bem continuar a lei- 
tura. Depois de concentrar-se uns segundos, leu 
seguido: «Alembranças do mano Matheus i da 
mana Plácida. D'este ceu criado que a vida 
le dezeja. 

Domingos Gonçalves. 

— D'este seu criado que a vida lhe deseja! 



186 COLLECÇÃO ANTÓNIO MARIA PERE1KA 

Que bonito! Que harmonioso! 

. .Aquellas palavras ficaram tilintando doce-. 

mente no ouvido da sr. a Benta, causando-lhe 

uma espécie de embriaguez. Mas que pouco 

cilas diziam a final, para quem tanto esperava! 

Ainda não era chegado o momento definiti- 
vo. Era preciso recomeçar a esperar, a esperar 
com paciência. 

O mano Domingos era acanhado, era biso- 
nho, era mettido comsigo. A sr. u Benta lamen- 
tava que um certo pudor ou temor, que ainda 
não pudera vencer, a impedisse a ella de de- 
clarar-se e propor casamento. 

. Uma voz intima aconselhava-lhe muita cau- 
tela. Bem sabia que, se o apanhasse de mau 
humor, elle era bem capaz de responder-lhe- 
«Pfe! lampanas!» e estava tudo acabado, para 
sempre perdida a esperança. 

N'estas cousas cavilava agora, absorta, a sr. a 
Benta, sem dar. tento de que a pequena se pu- 
zera outra vez a comer. 

Ella, ao caso do sobrinho, não dava impor- 
tância. Lembra va-lhe o que lhe tinha succedi- 
do na azinhaga de Valle de Pereiro. 

Estava certa de que, quando chagasse á rua 
dos Fanqueiros, já elle lá estaria. 



RETALHOS DE VERDADE 1*7 



Aquillo tinha-se perdido. Bastava ter encon- 
trado um rebanho de cabras. 

Puzera-se a andar com ellas e depois não 
soubera voltar para trás. 

Que- o rapaz aparecia, isso não tinha duvi- 
da. Agora ella é que não estava para aqueiie 
desassocego. Nada ! Ia recambiai-o á mãe. Nãò 
tinha obrigação nenhuma de aturar malucos. 

E resumia as impressões n'esta imprecação 
realista, sem se guardar da Carolina : 

«Quem o pariu que o ature !> 



* 



Quando a Benta Fornalha se emeaminhou, 
pressurosa, á rua dos Fanqueiros, tilintava-lhe 
ainda no ouvido, como um repicar alegre de 
sinos, aquella doce phrase «D'este seu criado 
que a vida lhe deseja. • 

Seu criado, elle! que melhor estava para 
amo e senhor. 

E. ao mesmo tempo, ia tomando alento para 
íis duas grandes bofetadas que tencionava pes- 
pegar nas bochechas do sobrinho, logo á entra- 
da, sem dispêndio de palavras. 

Chegou e, com grande assombro e não me- 



188 COLLECÇÀO ANTÓNIO MARIA PEREIRA 

nor contrariedade, teve de recolher as bofeta- 
das, guardando-as intactas para a Carolina. 

O Serrano não tinha apparecido. 

A fantasia do leitor engendra de certo os 
commentarios que tão estupendo caso suscitou 
em Matheus Gonçalves & Irmão. Magna chuva 
de impropérios contra as condições humanas 
em geral, e contra as d'aquelle especial patife 
em particular! 

Eu não tornei a ter mais noticia do Serrano. 
Mas tenho para mim que, em quanto aquelle 
douto e severo tribunal votava platonicamente 
ás feras o rapazinho, elle devia ir cruzando o 
Atlântico, em companhia do João Honorato, a 
bordo do Vigilante. O leitor não é do mesmo 
parecer P 



MARIA DE LOURDES 



Tinha vinte e três annos. Vivia com f? 
sr. a Marcolina ás Amoreiras. 

Era colleteira e trabalhava para um alfaiate. 
O trabalho revoluteava- lhe nas mãos com 
afinco e esmero. 

A sr. a Marcolina lamentava que etla não 
tivesse antes ido para modista. Achava mais 
bonito o officio, mais decente. 
. Mas a Maria de Lourdes melhor se queria 
colleteira. Outra independência. Depois, o tra- 
balhar em casa, de portas a dentro, encanta- 
va-a. E também economia. As da modista 
tinham que puxar-se. Velludos de algodão, pt> 
de arroz, chaspellinho . . . uma risota! Ella era 
lá para aquillo! 

Maria de Lourdes! Preclaro nome em pes- 
soa tão baixa! O nome vinha-lhe de uma se- 
nhora madrinha. 

Ella não era grosseira nemanalphabeta. Na 



192 COLLECÇÃO ANTÓNIO MARIA PEREIRA 

sacristia de uma igreja que cheirava a incenso, 
aprendera maneiras finas e soletrara o livro 
de missa. A' força de o repetir ficára-lhe de 
cor. 

De leitura, depois de mulher feita, tinha tam- 
bém o Século. Comprava-o ao domingo. Aos 
outros dias não podia com o gasto. Nem tinha 
tempo. Fascinavam-na os folhetins — ás vezes 
ires.: — e a narração dos crimes. 

Os romances andavam-ihe baralhados, trun- 
cados. Durante seis dias perdia completamente 
de vista os seus personagens. Mas afinal que 
importava? Ao domingo vinham outra vez. 
Transformados? Paciência! Com um grande 
esforço, de imaginação preenchia lacunas. 

Nas situações mais dramáticas, ficava sem- 
pre a ruminar: Seria aquillo verdade ? E dava- 
íhe um grande dó pelas mulheres, quasi sem- 
pre yictimas, quasi sempre opprimidas. Vi- 
nham -lhe então sempre á idea as ultimas 
.palavras da pobre mãe. 

. Em certos lances patheticos lamentava muito 
não poder comprar o Século ás quintas feiras 
também. Não podia ; era muita despeza. Incrimi- 
nava o António que não lhe promovia esse re- 
galo. Melhor isso que infundil-o todo em zur- 
rapa na taverna .' 



RETALHOS DE VERDADE 193 

O António era aos dezenove annos um ébrio 
convicto e confesso. Era sobrinho e único pa- 
rente da sr. a Marcolina. Dizia elle, em ar de 
chalaça, que era pedreiro — livre. E explicava: 
um pedreiro que só trabalhava quando lhe fal- 
tava dinheiro para a pinga. Maior liberdade! 

A tia dava-lhe bofetadas inúteis que elle re- 
cebia com submissão notável quando estava 
sem vinho. Na ausência ella explicava aquillo 
ás visinhas com seus visos de intuição scienti- 
fka. Era mal de raiz. Vinha do pae, que nunca 
por nunca estava em seu juízo, até que aca- 
bara em doido varrido. — Deus tivesse a sua 
alma em descanço. 

A Maria de Lourdes tinha um grande dó do 
rapaz. Maior miséria! Uma criança e já n'aquillo! 
Demais, se isso vinha lá do pae, pegado como 
doença, que culpa tinha elle? Era para ter dó. 

Mas na cara não lh'as perdoava. Se lhe res- 
peitava o vinho, era só por medo e repugnân- 
cia. Cosida a bebedeira, vinha logo a catadupa 
dos ralhos. Dizia-lhe as ultimas. — Se não se 
emendava acabaria na cadeia, no degredo. 

Elle ia ás nuvens, destemperava, armava 
escândalo. 

— A ella que lhe importava? que tinha com 
isso ? 

i3 



194 COLLECÇÃO ANTÓNIO MARIA PERE1KA 



E ella, soberba — Que sim. . . Que lhe im- 
portava como lhe importavam os cães da rua. 
Se visse algum a comer um bolo de strichnina, 
saltava logo para lh'o ir tirar da boca. 

Disputavam muito. Por rim elle accommo- 
dava-se. Punha-se a assobiar mansinho, sem 
má intenção, ou ia para a janella entreter-se 
com o canário. 

O Bento sabia d'aquellas intimidades, con- 
jecturava outras, e levava- se da fortuna. Aquelle 
arranjinho das Amoreiras não lhe quadrava. 
Queria as cousas tiradas a limpo. 

Encontrava-se com a Maria ao lusco fusco, 
quando ella ia ao alfaiate entregar obra e re- 
ceber trabalho. 

Era todo o caminho a mesma sega-rega. — 
Que entre ella e o malandro do António havia 
historia. Que aquillo não podia continuar. 

Ella protestava: em geral timida mas firme. 
A's vezes, farta d'aquella tutela, tinha um 
assomo de revolta. Censurava-lhe que também 
elle andasse atrás de outras. Já lh'o tinham 
dito a ella. 

Elle bufava. Boa comparação ! — Com os 
homens era outra cousa. Um homem queria 
divertir-se, reinar. Tolas eram ellas. Açora 
lá ella entendesse bem que o íilho do seu pae 



RETALHOS DE VERDADE 19Õ 



não estava para suterfugios. Aqueila tramóia 
do António tinha que acabar por uma vez. Já 
lhe tinha dito mil vezes : era preciso que ella 
saísse de casa da Marcolina. 

E ella resistindo sempre. — Que isso que não. 
Não podia ; não tinha mais ninguém. A mar- 
colina fora amiga da mãe. As duas trabalha- 
vam a dias e tinham-se ajudado como irmãs. 
Agora que a outra era velha. . . 

Então, se não queria juntar-se com elle 
assim, que casassem. Havia maneiras de fazer 
isso sem gastar; ate recebendo dinheiro ainda 
por cima. Uma sociedade de senhoras estava 
á frente d'cssa leria. Ambos tinham ganho 
certo; nunca a miséria seria tanta. A elle não 
lhe fazia aíFronta que a sua mulher ganhasse 
pela agulha — e o Bento assumia uma atitude 
digna, solemne. 

Aqueila proposta deixa va-a sempre a tremer. 
Pensar no casamento era pensar no pae, o 
único homem que conhecera nas intimidades 
da família. ía-lhe então a idea para aquelies 
tempos longínquos em que a triste mãe morrera, 
já viuva e crucificada. E ouvia-lhe sempre as 
palavras terríveis da agonia: «Filha, nunca te 
cases; os homens são muito ruins» — palavras 
que a pobre marte! Iara incessantemente no de- 



196 COLLECÇÀO ANTÓNIO MARfA PlíHIiLKA 

lirio final, até que lentamente se lhe apagara, a 
voz. 

Por isso ás solicitações do Bento ella respon- 
dia sempre com evasivas, tremendo nervosa 
por baixo do chalé. 

— Que mais adiante. . . Ainda era novos... 
Podiam esperar... Ir juntando alguma cousa... 

— E elle sempre na sua — Que os pobres não 
necessitavam enxoval. Os dois ganhavam jor- 
nal. Tinham o pão seguro. 

Vinha ella então com o thema perigoso. — 
Custava-lhe muito deixar a pobre da Marco- 
lina, velha, achacada. 

O Bento chegava a concessões extremas : — 
Pois que ficassem a viver com a Marcolina, 
que, pouco ou muito, também ganhava algu- 
ma cousa. Não era nenhuma entrevada. Mas, 
claro, pondo na rua o malandro do sobrinho 
de uma vez para sempre. 

A Maria protestava com calor: — A Marco- 
lina queria lá 1 Se o desgraçado não tinha mais 
ninguém! Aonde iria parar? 

— Bem lhe importava ao Bento aonde elle 
iria parar. Que fosse para os infernos ! Boa es- 
piga aquella ! 

Separavam-se sem se olharem ; elle de fera 
catadura, ella confrangida, ás vezes chorosa. 



RETALHOS DD VERDADE 197 

Chegava a arrepender-se de ter dado atíen- 
ção ao Bento. Para quê, se não para casar? Boa 
maneira de passar tempo l 

Elle a final tinha razão, coitado ! E a verdade 
era que elia lhe queria de dentro. Nunca tinha 
falado a outro homem ! 

Mas o triste quadro da infância não se des- 
vanecia nunca. Que vida a da pobre mãe, a 
linda Ignacinha do Roque! Assim lhe chamavam 
de solteira quando, filha única do Roque fer- 
rador, era celebre rfaquelle mesmo bairro das 
Amoreiras, por uns lindos olhos negros, que 
enfeitiçavam. 

Triste Ignacinha ! Nos annos de casada o seu 
maior empenho fora abafar gritos na surra diá- 
ria por causa da sua menina. Vinho e ciúmes 
— ahi rodara o seu destino! 

Rememorando aquellas scenas a Maria de 
Lourdes sentia-se presa de um terror invencí- 
vel. A verilidade era para ella uma espécie de 
ferocidade selvagem. 

Certas noutes sonhava com os crimes do Sé- 
culo: homens que esfaqueavam mulheres a 
quem queriam de amor. A Marcolina tinha 
que vir á cama sacudir- a. «Credo, mulher! 
Como berras! E' de estares de barriga para o 
ar. Volta-te de lado». — E ella, submissa, vol- 



198 COLLECÇÀO ANTÓNIO MARIA PEREIRA 



ta-se. Mas já não tornava a pregar olho em toda 
a noute. Um pesadelo assim ! FicaVa-lhe o co- 
ração aos pulos. 

Entrou a não comer, amirrar se. A Marcolina 
já tudo era que se casasse. Não engraçava com 
o Bento, isso não. Mas para aquillo, só lhe dava 
um conselho : banhos corridos quanto antes. 

E el!a a matutar! Banhos corridos! E o ver- 
dugo do pae sem lhe sair do sentido! dia por 
dia injuriando a pobre Ignacia! esmurraçando-a 
até vel-a cair no sobrado, misero fardo geme- 
bundo ! Com que dôr intensa ia ella depois 
beijar e confortar aquelle inerte feixe de penas, 
quando o bruto roncava estatelado pela bebe- 
deira! 

E a recordação mais terrível era sempre a 
do transe finai : o rosto transfigurado, cadavé- 
rico, os olhos infundidos nas orbitas, e a voz 
estertorosa e embrulhada, nas longas horas da 
agonia: «Filha, não te cases. .. cases... ca... 
ses. . . Os homens. . . são. . . mui. . . to. . . 
tu. . . ru. . . ins. . . muito ru. . . » 



Era domingo. A sr. a Marcolina tinha ido á 



RETALHOS DE VERDADE 194* 



missa. A Maria, alfinetes na boca, estendia na 
corda soalheira a sua roupa da semana. Mal o 
viu, arrimado a parede, do outro lado da rua, 
expediu um grito. Surpresa, alegria ou medo? 
Talvez um pouco de tudo isso. 

Os alfinetes cairam no parapeito e d'ali á 
rua, transformados em centelhas de sol que 
faiscavam. 

O Bento nunca vinha áquella hora. Ao do- 
mingo rondava-lhe a porta e falava-ihe uns 
momentos á janella ; mas só de tarde, em 
quanto a Marcolina dormia a sesta, ou andava 
pelas novenas. A manhã era para a pandega 
com os amigos. A espairecer — dizia. 

— « Olá U — saudara a Maria para defronte. 
E as mãos tremiam-lhe a apanhar canhestra- 
mente algum alfinete que ficara em cima. 

Elle veiu de lá sornamente, olhar obliquo, 
ponta de cigarro apagada ao canto da boca. E 
sem rodeios explicou ao que vinha. Queria duas 
palavras claras como agua. — Estava farto e 
cançado de suterfugios. — Quando saia a lume 
briosamente a palavra suterfugio, o caso era 
sempre serio. — Que o deixasse entrar. Fala- 
riam mais á vontade, mais corrente. 

Mas ella — Que não; não se atrevia. Esta- 
vam bispando tudo as visinhas. 



200 COLLECÇÃO ANTÓNIO MARIA PEREIRA 

Com as costas da mão o Bento atirou viva- 
mente o chapéu para trás e passou na testa o 
lenço domingueiro de barra encarnada. E bufou: 

— Com o António, com esse podia Já estar 
mettida. Para isso não se recatavam da visi- 
nhança! Boa intrujice! 

Ella, oífendida, não replicou. 
Então o Bento, com o olhar incendido, ex- 
plodiu. 

— Que não estava mais para aquella tra- 
móia. Dentro de três dias, o mais tardar, ella 
havia de sair de casa da Marcolina. Tomava- 
lhe quarto em casa de uns conhecidos, gente 
capaz, gente de confiança. 

— «Ficamos n'isto, entendes?» — e a mão 
dura do Bento caiu pesada sobre o braço da 
Maria». 

O contacto tinha pouco de amoroso. 

Ella estremeceu. Mas levantou firme a ca- 
beça; e o olhar que lhe atirou não era o seu 
timido olhar de sempre. 

— «Espera» — disse — «Eu volto já» — e cor- 
reu para a alcova. 

Tinha á cabeceira, num quadrito com fita 
de cores, a imagem da Senhora de Lourdes. 
Dera-lh'o a madrinha no dia da primeira com- 
munhão. 



RETALHOS DE VEKDADE 201 



Atirou-se á cama. Beijou a Senhora com fer- 
vor. Também a pobre mãe tivera sempre 
aquella fé! Pedia-lhe agora que a não abando- 
nasse, que lhe conservasse aquella força que 
lhe vinha assim de repente. Parecia-lhe que 
até ali fora criança; que só agora era mulher. 
Vinha-lhe até como um aborrecimento d'elle, 
ao ouvir-lhe agora a voz assobiando ali na rua 
o Pirolito que bate que bate. Havia de deixar-se 
governar rudemente? Porquê ? Não podia uma 
mulher ser independente e senhora da sua von- 
tade ? ganhar com honra o seu pão, sem estar 
sugeita a um homem ? 

Beijou a imagem com renovado fervor e 
saiu da alcova mais forte do que entrara. 

Foi direita á janella e, sem pestanejar, olhos 
fitos no canário que trinava loucamente ao 
sol: «Olha tu,» — disse com voz firme — «o 
melhor é a gente acabar com isto por uma 
vez. . . Nem tu perdes nem eu. . . P'ra estar 
sempre a ralhar. . . » 

O Bento teve um uivo de fera. Descarregou 
no parapeito um murro formidável que fez ti- 
lintar os caixilhos. O canário, interrompido o 
canto, esvoaçava espavorido. 

— «E crês tu que isto fica assim ?» — bramiu 
elle sarcasticamente deitando chispas pelos 



202 COLLECÇÃO ANTÓNIO MARIA PEREIRA 

olhos. — «Boa lição foste aprender lá dentro. 
Parabéns ao mestre. Com quê, tudo acabado ? 
— e a voz tremia-lhe, como a de certos acto- 
res nos momentos trágicos em que engalfi- 
nham os dedos por entre o cabello revolto. 

A Maria olhou-o com os olhos muito aber- 
tos. Que horror de expressão! Havia de pren- 
der-se para sempre áquella tyrannia! Epassou- 
Ihe na vista como uma onda de sangue onde 
se confundiam, em estranho e penoso enlace, 
as maiores impressões da sua vida — leituras 
do Século, pesadelos das suas noutes de so- 
bresalto, ultimas palavras estertorosas da po- 
bre mãe. . . 

— «E' o melhor» — tornou, com voz decidi- 
da, onde apenas se distinguia um leve tremor 

— «Tu pensa-lo bem... PVa isto, vale mais... 
A gente não faz mais que é ralhar . . . » 

N'um movimento inesperado do braço es- 
querdo elle cingiu-a pela cintura. E logo da al- 
gibeira saiu a mão direita armada de luzente 
navalha que entrou três vezes com sanha feroz 
no peito da Maria de Lourdes. 

— «Ai António, que me mataram!» — foi o 
grito com que ella deu logo em terra, em quan- 
to o Bento corria com destreza de gamo rua 
abaixo. 



RETALHOS DE VERDADE 203 



Acudiram em espantoso alarido as visinhas. 
Dentro, na cozinha, o sobrinho da sr. a Marco- 
lina roncava desapoderadamente. 



Faltava muito para a hora da visita. Mas a 
sr. a Marcolina não despregava da porta da en- 
fermaria os olhos vermelhos, inchados. Ao la- 
do, o António soluçava com algum escândalo, 
retorcendo nos dedos angulosos, um lenço es- 
curo de ramagens. 

Empregados de olhar inflexível entravam e 
saíam, sem reparar na multidão mesta dos que 
esperavam. 

Só a face do António, a sua face congestio- 
nada de alcoólico, agora avivada pelo pranto, 
chamava um tanto a attenção. 

Por fim abriu se amplamente a porta. 

Foram os primeiros a entrar. Talvez se re- 
trahisse a concorrência ante manifestações de 
tamanha dor. Foram direitos a cama n.° 1 3, nu- 
mero aziago no entender maduro da sr. a *\lar- 
colina. 

Estava livida. Parecia ter perdido todo o 
sangue. Não podia mover-se. Os doutores ti- 



204 COLLECÇÃO ANTÓNIO MARIA PEREIRA 



nham-lh'o prohibido. Mas a expressão era se- 
rena. A luz do olhar era intelligente e doce 
como nos dias. da saúde. 

Uma enfermeira olheirosa, fatigada, de ex- 
pressão fria e indirterente, preveniu logo a sr.* 
Marcolina : — Era dar-lhe pouca trela, que 
estava muito grave. — E não se precatava, para 
que a não ouvisse a enferma. 

A sr. a Marcolina escutou o aviso de má ca-, 
tadura; e abeirando-se da cama disse conster- 
nadamente : «Em bom estado te prantaram, fi- 
lha!» 

«Então!» — foi a débil resposta. E soava 
aquillo como um suspiro de bestifica resigna- 
ção. 

O António chorava mais alto, mais de den- 
tro; e não dava palavra. 

A Maria fechou os olhos e guardou silencio. 
Duas vezes abriu-os. O olhar adejava-lhe 
como no anceio penoso de uma pergunta. E 
logo caiam as pálpebras languidamente. Por 
fim, quasi num murmúrio imperceptível : «E 
elle ?» 

O olhar da sr. a Marcolina fuzilou. 

— «Filado, filha. . . filado. . . está descan- 
çadinha. O peor é que elles sempre as arran- 
jam para sair bem d'estas façanhas. Os juizes 



RETALHOS DE VERDADE 205 

homens são ! N'estc ponto tanto discorre o 
Bento como a alta magistrança. Uma mulher 
é um esfregão, um trapo, uma rodilha... Inda 
por cima lhe handem dar rezão. . . Maldito! 
Mil forcas!. . . Qu'inda estou p'ra saber como 
isto foi . . . Este que estava em casa não deu 
rezão de nada ! . . . » 

— «Má raios!» — exclamou subitamente o An- 
tónio, dando-se dois valentes murros, com as 
mãos juntas, no peito. 

A sr. a Marcolina, com os olhos cravados no 
rosto livido da Maria, esperou a explicação do 
suecesso com uma espécie de tyrannia infantil. 

Por fim a outra, n'um esforço, explicou de- 
bilmente : «Elles lá entendem que uma mulher 
não tem querer ...» — e fechou os olhos. 

A sr. a Marcolina não podia vel-a assim. Pa- 
recia- lhe morta. Tossiu com força. Depois, 
aquellas palavras demasiadamente syntheticas 
tinham-lhe bólido muito cem a curiosidade. 

— «Não lhe darão grande castigo, deixa. . . 
Maldito! Antão se tu escapas, está aqui está 
na rua.» 

A Maria de Lourdes abriu muitos os olhos, 
admirada. Depois, fazendo um gesto de ca- 
beça para que a outra se approximasse, dis- 
se-lhe, como em segredo: «Eu morro.» — e 



206 C0LLECÇÃO ANTÓNIO MARIA PEREIRA 

uma expressão de triumpho alagava-lhe a phy- 
sionomia. 

Alegria do castigo d'elle, ou antegoso da 
tranquillidade da morte ? Fossem lá adivinhar \ 
O António arrancou o lenço com que se amor- 
daçava e, sacudindo violentamente os dois bra- 
ços, berrou com .subido escândalo: «Pois dei- 
xa que se morreres, ha-des ir de caixão á co- 
va, inda que cá o António Perdigão» — e batia 
no peito para maior afirmativa — «ande arras- 
tado uma porção de semanas!» 

A enfermeira veiu seccamente recommendar 
menos barulho, e voltou logo, talvez para enco- 
brir o riso de mofa com que se afastou. 

Entretanto no rosto livido da Alaria de Lour- 
des pairava um sorriso longo, ineífavel. Veria 
n'aquel!e momento a cadeia de mysteriosa 
sympathia que enlaça superiormente os se- 
res que soffrem ? Também a linda e desgraça- 
da Ignacinha do Roque tivera caixão á cova 
que eíla pagara com a sua agulha. Olhou de- 
moradamente o António que soluçava diante 
d^lla sem consolação, e tornou a cerrar doce- 
mente as pálpebras. 

Novo susto da sr. a Marcolina. 

— »Ai, filha... abre-me esses olhos... Não 



RETALHOS DE VERDADE 207 



te posso ver assim. . . Escuta. . . Tu queres 
que te traga alguma coisa de casa ?■ 

— «Eu, de casa:\ . . Não, nada... Olhe, as 
minhas coisas são para si. . . Vocemecê trata- 
me do canário?. . . Coitadinho!» 

— «Inda não tornou a cantar.» — e a sr. a 
Marcolina rompeu em novo accesso de soluços 
que a afogavam. 

Depois, recobrando-se repentinamente, cur- 
vou-se para a Maria com ar mysterioso : «Que- 
res tu que t'eu traga a tua Senhora ? Pega-te 
com ella, filha. E' uma Senhora de tanto mila- 
gre! A mãesinha, até á ultima, nunca perdeu 
aquella devoção, i 

Tardou a resposta. Emhm : «Não... dei- 
xe... não traga. . . A Senhora a mim não me 
ouve. . . Nem á mãe, coitada!. . . nunca lhe 
valeu. . . Deixe lá!» 

— «Cala-te, filha. . . cala-te. . . Essas coisas 
não se dizem» — e a sr. a Marcolina, unindo as 
mãos começou, apprehensiva, a meia voz. uma 
Ave- Maria. 

A Maria de Lourdes tinha fechado os olhos. 
Parecia dormitar. Acalentavam-na talvez o co- 
chichar devoto da Marcolina e o choro do An- 
tónio, monótono, insistente como chuva de pri- 
mavera. 



208 COLLFXÇÃO ANTÓNIO MARIA PEREIRA 

Quando deu a hora não ousaram acordal-a. 
Entre o ruido geral, os dois saíram cautamen- 
te, pé ante pé, pondo instinctivamente na lúgu- 
bre sala hospitalar como um reflexo d'aquelles 
cuidados que cercam os soffrimentos e os sua- 
visam no tépido ambiente familiar. 

Chegado a casa, o António mudou. Não cho- 
rava. Levou a tarde estendido de costas no 
sobrado, passeando a vista entre a gaiola do 
canário, encolhido e mudo no poleiro, e o 
canto da parede, junto á janella, ainda salpi- 
cado de sangue. 

Ralava-o uma grande paixão : não ter nunca 
sido capaz de ganhar aquelle collete, feito pelas 
suas mãos de santa, que ella lhe promettera se 
elle levasse todos os dias de uma semana, a 
eito, sem se embebedar. 

Quando ao outro dia voltou ao hospital sou- 
be que ella tinha morrido de madrugada. 

Teve uma explosão formidável, e foi logo 
correndo á secretaria, n'um descommunal ala- 
rido de expressões incoherentes. Por fim logrou 
fazer-se entender: queria que a Maria de Lour- 
des fosse de caixão á cova. 

E foi. 

Elle, muito grave, dentro do seu fato sujo 



RETALHOS DE VERDADE 209 

de ébrio, também se encorporou ao cortejo em 
companhia das visinhas e da sr. a Marcolina, to- 
dos com grandes ramos de flores, apertadas 
como vassouras, artefactos estranhos compra- 
dos de manhã cedo na Praça da Figueira. 

A' volta separou-se da tia para entrar na ta- 
verna. Foi uma borracheira monumental a 
d'aquella tarde. Para esquecer — dizia. 



»4 



Antoninbo pljilosoptjo 



Vinha de longe aquella quisilia que toma i 
ao primo Jayme. Talvez só por ser tão difle • 
rente d'elle. 

O Antoninho era o modelo dos meninos 
portuguezes da sua idade. Começara a sommar 
distineções desde o exame de Instrucção Prima- 
ria. Por esse tempo já elle sabia na ponta da 
lingua o rosário dos reis portuguezes com os 
seus cognomes pintorescos; e tinha de cór as 
datas das batalhas gloriosas. Por inspiração do 
mestre professava rancor patriótico a mouros, 
hespanhoes e francezes. Conjugava verbos tor- 
rencialmente, em digna competência como pa- 
pagaio que o tio António, o padrinho, mandara 
do Brasil. «Papagaio real! Quem passa? E 5 o 
rei que vae á caça.» E o outro: «Eu me des- 
nacionalisarei, tu te desnacionalisarás, elle se 
desnacionalisará, etc.» Os dois no seu respe- 
ctivo género uma maravilha. 



214 COLLECÇÃO ANTÓNIO MARIA PEREIRA 

Em cousas de memoria e de lingua sempre 
o Antoninho foi portentoso. Assim também no 
collegio era um dos primeiros. O seu nome 
todo occupava chronicamente o quadro de ouro, 
collocado conspicuamente no vestíbulo — An- 
tónio Fernandes de Figueiredo, vinte valores. 

Só ouvil-o, no tempo do primeiro exame, 
recitar em tom prophetico as enfiadas de po- 
voaçõesinhas banhadas pelos rios portuguezes! 
Um vexame para as gentes crescidas e educa- 
das, que não tem sequer a menor idéa de que 
taes povoaçõesinhas existam. Como não havia 
de ficar distincto o menino, ainda para mais 
fazendo parte do jury de examinadores um pa- 
dre gordo! Os padres gordos tem quasi sem- 
pre uma grande benevolência para estes pro- 
digios de memoria infantil. 

O Antoninho então, que levava a doutrina 
na ponta da lingua! Era pergunta feita, respos- 
ta dada, sem pestanejar. 

Fora preparado pela mamã desde a idade 
mais tenra. Ainda era um tatibitati e já, na sua 
caminha de guardas de ferro, engrolava Padre- 
Nossos pelos que andavam sobre as aguas do 
mar ou sotfriam as penas do Purgatório. Já 
então nas trovoadas resava a Magnifica em 
coro devoto Com a mamã e as criadas. 



RETALHOS DE VERDADE 215 

N'aquella época memorável do exame de 
Instrucção Primaria já sabia ajudar á missa e 
possuia uma capinha encarnada para acompa- 
nhar Nosso Pae. 

Andava sempre com a mamã. A's sextas fei- 
ras iam ao Senhor dos Passos da Graça, a 
quem o Antoninho ia oíferecendo uma vela, 
em cumprimento de promessa, por cada dis- 
tincção que lograva nos exames. Em maio le- 
vava de fio a pavio o mez de Maria em S. Luiz. 
Estava muito acostumado á atmosphera das 
igrejas e ao seu ceremonial. Só lhe não lem- 
brava o acto do baptismo, quando dizia a ama 
palurdia que elle tinha chiado como um baco- 
rinho no momento de levar o sal na boca. Mas 
recordava-se perfeitamente do dia da chrisma 
e do dia da primeira confissão, com muito ca- 
tecismo e um escrupuloso exame de consciên- 
cia ajudado pela mamã. E tinha sobretudo pre- 
sentes as impressões da primeira communhão. 
recentemente, ao completar doze annos, com o 
seu fatinho de homem, negro, severo, o seu la- 
cinho no braço, e o olhar d* mamã, enterneci- 
do, sempre fito n'elle. Nunca .squeceria aquelle 
grande pavor que lhe tirara um poucoosomno 
na ultima noute, pavor de morder a sagrada 
particula sacrilegamente. Na occasião, ao sen- 



216 COLLECÇÃO ANTÓNIO MARIA PEREIRA 

tir nos lábios os dedos quentes do reverendo, 
todo o seu corpinho desatara a tremer. E, den- 
tro, o coração parecia um desatinado badalo 
de sino. Afinal tudo correra normalmente sem 
accidente. 

Era um assíduo frequentador de septenarios 
e novenas, sempre pela mão da mamã, ou com 
o seu mettido no braço d J ella. Na quinta feira 
santa visitavam juntos sete igrejas, e elle ajoe- 
lhava a resar em cada uma sua Estação. Não 
entendia pouco nem muito os latins; mas pelo 
costume já lhe saiam tão expeditos como se os 
entendesse. Na sexta feira assistia a todos os 
dolorosos accidentes da Paixão. Compungido 
vagamente, via então a mamã chorar copiosa- 
mente, a conselho do pregador que pedia lagri- 
mas á christandade prostrada. Aquillo oppri- 
mia-lhe o coração. Mas vinha logo o sábado, 
o grande sábado de Alleluia, radiante de luz, 
oloroso de flores, alegre de pombas que esvoa- 
çavam pela igreja, buscando aloucadamente o 
ar livre, a liberdade azul, no meio do repicar 
festivo dos sinos. E depois em casa a grande 
cesta de amêndoas do Ferrari, compradas pelo 
papá . . . 

O papá fora sempre, n'estas cousas da igreja, 
uma das grandes confusões do seu cerebrosi- 



RETALHOS DE VERDADE 217 

nho. Logo que despertara a curiosidade, fizera 
muitas perguntas. Sempre tinham sido infru- 
ctuosas taes indagações. Nunca conseguira 
apurar porque era que o papá não ia á missa. 
Nunca uma d'essas perguntas encontrara a 
mamã de bom humor. Rispidamente a mamã 
dizia-lhe que as crianças não estavam sempre 
fazendo perguntas que enfadavam os grandes; 
3U ordenava -lhe que se fosse deitar porque era 
tarde; ou saia cila apressadamente do quarto a 
qualquer pretexto. Um dia respondera-lhe : 
«O papá vae logo. mais tarde.» Mas o Anto- 
ninho notara que a mamã se íizera muito en- 
carnada ao pronunciar entre dentes aquellas 
palavras. E ficou apprehensivo. 

Pela fonte directa não tora melhor succedi- 
do. O papá sempre lhe respondia de brinca- 
deira, sem tomar-lhe o caso a sério. — Porque 
não ia á missa? Porque lhe doia uma perna. 
Porque lhe ardia a ponta do nariz ... O Anto- 
ninho voltava costas e punha cara de amuado. 
Por fim pareceu conformar-se com aquella 
ignorância. Não tornou a fazer perguntas. 

Assim foi andando, fazendo os seus exames 
de portuguez, de francez e de geographia. sem- 
pre com a classificação de distincto. A memo- 
ria estava-lhe cada vez mais aguçada. Foi-se 



218 GOLLECÇÀO ANTÓNIO MARIA PEREIRA 



acostumando cedo a ver o seu nome nos jor- 
naes, escoltado pelos mesmos adjectivos — 
distinctissimo, selecto, talentoso — que em Por- 
tugal se applicam com profusão aos homens 
feitos, na politica, nas letras, na sciencia, em 
todos os ramos onde a vacuidade nacional vi- 
ceja prosperrimamente. Quando foi do exame 
de francez, um jornal progressista como o papá 
chegou a chamar-lhe illustre académico Nada o 
tinha captivado tanto. Por aquelles dias a ma- 
mã fez com elle muitas visitas. E era de ver 
o gracioso enleio com que elle corava até ás 
orelhas quando a mamã perguntava ás amigas 
se tinham visto aquelle interessante numero da 
folha progressista. 

A sua antipathia ao primo Jayme era anti- 
ga. Não o podia soffrer. como a mamã não po- 
dia soffrer o cunhado, o tio Miguel, viuvo, úni- 
co irmão do papá. Lamentava a boa senhora a 
triste sorte d'aquelle sobrinho, orphanado de 
mãe em tenros annos, educado por um pae 
obtuso, sem finura e — peior que tudo — sem fé. 

O Jayme era mais velho um anno. Esta su- 
perioridade, só por si, já fazia encavacar o An- 
toninho. Nunca tivera para o primo mais que 
olhares de soslaio, desconfiados. Era a expres- 



RETALHOS DE VERDADE 219 

são de um gato que, sem nós sabermos por- 
quê, se pôe a olhar para outro gato, todo in- 
flado de um ódio enorme, mysterioso, inexpli- 
cável. 

Quasi se não falavam. Falar de quê ? Nas 
suas vidas não havia o menor ponto commum. 

O Jayme não fazia exames. Não tinha no seu 
passado datas gloriosas. Vivia sem galardão e 
sem honrarias. O pae queria simplesmente — 
dizia — mandal-o fora a fazer-se um homem, 
única cousa que também tinha ambicionado 
ser na sua vida. Como preparação dava-lhe 
muito campo, grandes passeios a pé, amando 
a natureza, e algumas lições verdadeiras com 
professores também verdadeiros. De ensino of- 
íicial portuguez não queria que lhe falassem. 
Discutir isso punha-o fora de si. 

Tão desvairado desiquilibrio contristava pro- 
fundamente a cunhada, modelo de composta 
symetria, de equilibrado conservantismo. La- 
mentava até que elle fosse rico. Pobre, trataria 
de levar depressa o pequeno a uma carreira 
lucrativa, fazendo como toda a gente, sem pre- 
tenções a uma originalidade irritante. E era 
lastima! — pensava — O pequeno era applica- 
dito e dócil. A falta irreparável das mães! 

Um dia o Antoninho, com o indicador pro- 



220 COLLECÇÃO ANTÓNIO MARIA PEREIRA 

fundamente mettido pelo nariz — acto de pre- 
dilecto desenfado na sua vida monótona — 
perguntou com certo arzinho mordaz ao pri- 
mo: «Se tu não tens que fazer exame, para que 
estudas?» 

Ao outro veiu-lhe, impetuosa, uma garga- 
lhada de bom humor. Mas logo, já sério, laco- 
nicamente: «Ora essa! Para saber.» — e voltou 
depressa aos Filhos de D. João /.°, obra de Oli- 
veira Martins, que devorava com anciã na li- 
vraria do tio. 

O Antoninho, sempre de dedo no nariz, ficou 
a ruminar n'aquillo, cheio de desprezos. — Para 
saber! Farçola! Boas cousas havia elle de sa- 
ber sem nunca fazer um exame! — E aquelle 
dia ficou memorável na evolução constante do 
seu ódio. — Se o asno do Jayme até aprendia 
a tocar piano como qualquer menina ! 

Correram mezes e o Jayme partiu para uma 
escola de Zurich. 

No primeiro verão não veiu passar as ferias 
a Portugal. Foi lá o pae, e gastaram os dois o 
tempo de sueto em excursões pela Suissa e uma 
fugida a Paris. 

No segundo anno é que constou ao Antoni- 
nho que o primo vinha a Lisboa. 

Esta noticia, caída em casa como um raio, 



RETALHOS DE VERDADE 221 

crispou-lhe os nervos molestissimamente. Elle, 
a completar trese annos, ia levando a sua vida 
muito direitinha, sempre com as mesmas dis- 
tincçóes nos exames, a mesma entranhada aver- 
são aos livros, as mesmas profundas excava- 
ções do fura-bôlos no nariz, as mesmas ladai- 
nhas, as mesmas novenas. . . 

Aquelles dois annos tinham sido muito tran- 
quillos. A mamã louvara a Deus pelo provi- 
dencial afastamento do primo Jayme. Temia-se 
d'aquella influencia nefasta para o ingénuo An- 
toninho. Realmente lhe parecia que, depois da 
separação, o seu filho era mais seu; mais seu, 
e também mais espontaneamente da igreja. 
Agora já elle não tratava de indagar porque o 
papá não punha pé na igreja. Guardava sobre o 
assumpto um discreto e significativo silencio. 

Assim se fora arraigando á piedosa senhora 
a doce convicção de estar modelando, entre as 
suas mãos devotas, um verdadeiro, um puro e 
fervente catholico, d'esses que, no conceito do 
seu confessor, tanto beneficio deviam trazer ás 
energias da nação e aos prestígios da christan- 
dade. 

Estavam á mesa quando o papá disse que o 
Jayme chegaria a Lisboa no dia seguinte. O 
Antoninho teve como um afrontamento. Gorou 



222 COLLECÇÃO ANTÓNIO MARIA PEREIRA 

até á raiz dos bandós que a mamã penteava 
com esmero e primor. Voltavam com mais 
energia as impressões negras do passado. O 
coração outra vez batia com força pancadas de 
ódio. Represado tanto tempo, vinha agora em 
borbotões que afogavam. 

Havia de estar bom o Jayme com mais o 
condimento das viagens! Seria de vulto a ba- 
zofia das suas idéas novas ! E detestou o mais 
do que nunca, entranhadamente. 

Chegou emfim o transe temido. Tremulo por 
dentro, pallido nas feições, dentes cerrados, o 
Antoninho tratou de encastellar-se na sua odien- 
ta reserva. 

O Jayme entrou ruidosamente, expansivo, 
como quem se comprazia de matar saudades 
largas. Abraçou e' beijou a tia; depois o Anto- 
ninho, muito hirto, talvez a esquadrinhar no 
seu bestunto os fundamentos de tanta ousadia. 

Vinha muito mais loquaz o Jayme. Declarou 
que estava muito contente por ter vindo. Já 
tinha muitas saudades da sua terra e da gente 
de cá. Depois contou singelamente, sem preten- 
ções, o encanto dos largos passeios pelos mon- 
tes da Suissa, as lindas excursões alpinas que 
já alguma vez fizera. 

O Antoninho sentia-se estúpido. Os seus pro- 



RETALHOS DE VERDADE 223 

positos de ódio feneciam diante d'aquella ex- 
pansiva alegria do primo, que parecia esbrace- 
jar, querer alcançar e colher a todos. 

Depois elle falou da sua bicycleta. Pensava 
dar com ella grandes passeios nos arredores de 
Lisboa. Queria que o Antoninho aprendesse a 
andar em bicycleta. Emprestava-lhe a sua e 
alugava outra. Achava que nada convinha ao 
Antoninho como o exercício physico; parecia- 
lhe delgadito, falho de musculo. Nos arredores 
de Lisboa havia passeios lindos. Sair de manhã 
cedo era um encanto. Levariam o almoço. Co- 
meriam ao ar livre, como na Suissa. Nada co- 
mo a alegria do campo, o vigor adquirido no 
convivio intimo com a natureza. 

No domingo immediato projectava dar um 
grande passeio a pé. Gostaria de levar o Anto- 
ninho, se os tios dessem licença. E também no 
sábado poderia dar-lhe no Campo Grande a 
primeira lição de bicycleta. 

Nos hombros magros do Antoninho notava- 
se como um tremor de ave implume que anceia 
pelos primeiros voos sob instigações da mãe 
zelosa. 

O Jayme olhava-o com sympathia e certo ar 
protector. Mas a mamã interveiu logo, com uma 
opposição firme, cerrada, irreductivel. Não po- 



224 COLLECÇÃO ANTÓNIO MARIA PEREIRA 

dia ser; não podia. No sabbado tinha muito 
que estudar ; uma infinidade de cousas para 
decorar. No domingo tinham missa de festa em 
S. Domingos e isso acabaria tarde. Não podia; 
não podia ser. 

O Jayme ia talvez a oppôr uma observação. 
O olhar frio da tia gelaria a palavra ao mais ou- 
sado; e elle não o era. 

O Antoninho tinha os olhos pasmados no 
primo. Aquillo era êxtase. Devia estar vendo 
um mundo novo, ignorado até então. Com ar 
timido, voz incerta, atreveu-se emflm a mur- 
murar: «Se fosse o papá, deixava-me.» 

Que feio, terrivel sobrolho carregou a mamã ! 
Accentuaram-se-lhe as olheiras. Carminaram- 
se-ihe vivamente as maçãs do rosto. A voz tre- 
mia ante o insólito acontecimento. 

— «O menino vae onde eu quizer que vá.i 

Seguiu-se um silencio oppressivo. Não havia 
ali reatar conversação. 

O Jayme levantou-se; despediu-se da tia 
friamente, um tanto compromettido. Ella esten- 
deu-lhe para a solemnidade do beija-mão dois 
dedos hirtos onde scintillava profusão de an- 
neis. 

O Antoninho — caso insólito, nunca ainda 
observada — saiu adiante do Jayme, corredor 



RETALHOS DE VERDADE 225 

fóra. Iaabrir-lhe a porta. Nos olhos brilhavam- 
lhe lagrimas — «Adeus!» — disse. E o lábio tre- 
mia-lhe, n'um movimento ingénuo de commo- 
ção infantil, que foi direita ás melhores fibras 
do Jayme. Este não pôde conter-se. N'um im- 
pulso franco e indiscreto, perguntou confiada- 
mente, em voz apagada, em tom de profunda 
incredulidade: «E' verdade que vaes á missa 
de festa em S. Domingos ?> 

O outro olhou para elle de frente, olhos 
muito abertos, illuminados por franca expres- 
são de confiança. E, de repente, corado, tra- 
vando-lhe do braço para leval-o ao patamar, 
disse-lhe ao ouvido, num tom de energia extre- 
mada, empertigando-se com muita importân- 
cia : «Quando for homem, não vou. E' agora. . . 
por causa da mamã.» 

Sellaram este segredo apertando-se as mãos 
com vehemencia. Era calor que vinha de den- 
tro, fluido de sinceridade circulando pela pri- 
meira vez nas relações naturaes de duas crian- 
ças. 



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BAFOpjj DE ARTE 



©^i^r^Sj^^^ 



-•-^S^SIͧ£^ 



Duas horas bem dadas e o José Miguel sem 
apparecer! Bufando irada, a Francisca revol- 
via no tacho o bacalhau com batatas. 

— Uma assim ! A comida a estragar-se toda ! 
Os rapazes damnadinhos com fome! Se não 
fosse por aquella do José Miguel que, á viva 
força, ao domingo, haviam de comer todos 
juntos ! . . . já tinha mas era dado seu prataz a 
cada um. . . Mafarrico do inglez! Que dianho 
quereria elle aos operários ? Forte- descôco ! 

A pequenada, descendo mais uma vez a rua 
das Padarias, espalhava-se na Praça que um 
lindo sol de Cintra alagava, festejado pelo 
hymno da Carta que a guarda do Palácio mar- 
telava a retalhos. 

E escapuliam- se até ao palacete Ficalho, e 
ainda alem, a espreitar se o pae aparecia para 



230 COLLECÇÃO ANTÓNIO MARIA PERE1KA 

o lado dos Pisões. Elle sempre trazia de casa 
do inglez um ramo de medronhos. 

N'isto a Francisca, á porta, berrava, côr de 
açafrão : « Eh ! Artemisa ! Loureano ! Amilcar ! 
Guadalberto!» — Não fosse algum pirar-se e 
ficar por lá s'em jantar! — dizia ás visinhas. 

A boas horas! Laureano montava com fero- 
cidade um burro do Carona que esperava fre- 
guez e pancada á porta da Lawrence. Amilcar 
implorava cinco reis a um inglez vermelho, 
esguio, vestido de branco, que apontava ás 
torres de Mafra um óculo esguio como elle. 
Os outros dois pasmavam diante de um tabo- 
leiro de especiones, porque a velhota, n'um 
arranco generoso, cedera na véspera quatro 
tremoços em favor da irmandade. 

Emfim o José Miguel apontou alem, a beber 
um trago na fonte dos Pisões E logo saltaram 
n'elle os quatro : 

— «O' pae, hoje nan taz med'onhos?» 

— ccO' pae, dá-me agua a mim tam'em ?» 
— «O' pae, o jantar já 'tá ponto.» 

— «O' pae, qu'é isso?» 

E elle a tratar logo de livrar de semelhantes 
galfarros um papel que trazia na mão. Infun- 
diu-o no bolso interno do casaco, levantou em 
braços a Artemisa, e, entre risos : «A modos 



RETALHOS DE VERDADE 231 

que ha por cá muita larica. . . » — E ella, ati- 
rando-lhe os bracitos ao pescoço, mordia-lhe 
uma orelha, chiando muito. 

Passavam pelo correio. 

Um de galão: Vens da festa, José Miguel?» 

— «Ná. . . Venho de casa do inglez». 

— «Boa pachorra!» 

— «Qualquer dia ha-des tu ir comigo». 

— «Se lá nan for otro, o filho de mê pae...» 
Defronte da cadeia pararam. Passava el-rei a 

cavallo. 

O José Miguel tirou o chapéu sôrnamente. 
Os pequenos escancararam olhos e bocas. 

— «O' pae, aquelle lad'ão tam'em ti'ou o 
chapéu ! » 

A observação era do Amílcar, o segundo. E 
apontava a janella lobrega da prisão com o 
dedito muito espetado. 

— «Quem lhe disse a você que aquelle é la- 
drão, seu traste ?» 

— «'Tá ali. . . y> 

— «Isso nan tira. Os mais ladrões andam cá 
por fora á solta». 

— «E antão os policias? Porque é que os 
policias nan nos prendem?» 

Iam outra vez andando. 

— «O' pae, vo'mecê gostava de ser rei?» — 



232 COLLECÇÃO ANTÓNIO MARIA PEREIRA 

O interrogante, Laureano, morgado na família, 
era seu tanto philosopho, já com o peso de oito 
annos ás costas. 

— «Eu sei cá de que gostava, rapaz! Gos- 
tava de ter dinheiro para os tirar da rua a 
vocês». 

— «Eu cá qu'ia mas era ser cavallo» — affir- 
mou, no seu tatibitate, Guadalberto, o dos 
cinco annos. Em quanto trepam a calçada, es- 
cutemos na Praça um dialogo. Interlocutores : 
um caixeiro do Lino e um servente do cate ao 
lado. 

— « Aquelle vem da escola ... » — ar de mofa. 

— «De casa do inglez, hein ?» 

— -«Grande typo!... Já hoje aqui passou, de 
trem. . . ainda bem não tinha saido o sol». 

— « Parece que tem, os dois, bicho carpin- 
teiro A mulher a vi eu já hoje passar na Sa- 
buga a cavallo». 

— «O que elles têm é que avezam muito 
bago. . . Isso a casa diz que está!. . . PVos 
modos, só de pinturas, n'isto de quadros, tem 
enterrado um ror de dinheiro». 

— fVê-se que tomaram gosto cá á terra. . . 
Pelo tempo que ahi estão ! TanVem, belleza 
com'á de Cintra acho que nan na ha em todo 
o mundo». 



RETALHOS DE VERDADE 233 

— * Isso agora ... lá me parece muito . . . 
Olhe você que .o mundo é muita terra ... A 
mim o que mais me dá que entender é esta do 
José Miguel. . . Que farão os gajos de volta 
co'elle aos domingos?» 

— «Vae elle e vão muitos. . . E' a modo 
obra de uns discursos. . . Como se a gente cá 
nan estivéssemos tam'em fartos de cantile- 
nas ! . . . » 

— «Se o gajo fosse portuguez, estavam as 
inscripções tiradas: queria ser diputado... 
Agora sendo inglez. . . e riquíssimo!» 

— «Serão coisas de padres, rapaz?» 

— «De padres? Não digo nada. . . » 

— «E d'ahi, será areia tamem... Ha muita 
areia por esse mundo». 

O José Miguel, subindo a Íngreme rua das 
Padarias, acenava entre tanto aos visinhos, aos 
dois lados. 

— Que entrasse — pediam. 

— Nada, nada. Ia com pressa por causa da 
patroa. Devia estar como a pólvora. 

Chegaram. 

— «Ora, bemdito seja Deus!» — Estas pala- 
vras piedosas, pronunciadas com mais indigna- 
ção que piedade, revelavam muito do vulcão 



234 COLLECÇÃO ANTÓNIO MARIA PEREIRA 

que chispava nos olhos da Francisca. — «Jul- 
gava já que tinhas morrido, home!» 

E elle, de bom humor : «Ná ! Vaso ruim nan 
quebra». 

A chalaça operou de folie soprando brasas. 

— «E o cravão aqui a gastar-se!» — O vapor 
do bacalhau não parecia senão exhalação da 
própria ira que tressuava no nariz abatatado 
da Francisca. 

Logo que apanhou os pequenos todos a 
mastigar com anciã, explodiu: «Tu nan me 
vens agora de casa do inglez . . . Aqui anda 
marosca, olá se anda ! Já nasci ha munto anno. 
Faço-me parva mas nan no sou. Sequer ó me- 
nos manda arranjar o jantar pYás três. Que 
mais nan seja, por via das crienças... E escusa 
de se estar a gastar um ror de cravão ! . . . Sa- 
ber uma pessoa com que hade contar. . . De 
casa do inglez a esta hora ! Quem te nan co- 
nhecer que te compre . . . Pae Paulino ...» — ■ 
e o indicador a esgasear expressivamente o 
olho direito. — «A mim nan m'ingrolas tu... 
Deixa-te ir assim que vaes bem!» — e movida 
por um súbito palpite: «Aposto que já nan 
tens nem cinco reis da feria l . . . > 

Elle, muito sereno, levou a mão á algibeira 
do collete e tirou dinheiro que espalhou sono- 



RETALHOS DE VERDADE 235 

ramente na mesa. Em tom risonho, de muita 
pachorra: «A ver quanto vem a faltar. . . Bo- 
ta-lhe as contas». 

Ella, n'um relance, fez o calculo. E amainou 
instantaneamente. 

— «Os dez reis que faltam dei-os a um cego, 
ali ó cabo de cima da Penha Verde . . . Isso da 
cegueira é um tal diacho!» — e o José Miguel, 
satisfeito de consciência, escancarava benevo- 
lamente a boca a uma poderosa garfada. 

A Francisca, apaziguada, serviu-se também. 
Mas erguendo no ar a colher com uma enér- 
gica intimativa que salpicou a mesa: «Que me 
melem se tu vens de casa do inglez dereito!» 

O José Miguel assoou-se e limpou methodi- 
camente o nariz. Depois, como para si, de olho 
revirado para dentro: «Se a gente nan sabemos 
nada ! se a gente semos uns brutos chapados!... 
uns animaes ! . . . » 

A Francisca largou o garfo, inscrevendo-lhe 
os dentes na toalha pintalgada de nódoas. Ia a 
dizer uma cousa. Mas conteve-se, a observar 
rigorosamente o marido. Seria outra a cara do 
seu homem, se lh'a tivesse pregado — reconhe- 
cia. E poz-se outra vez a comer, já muito 
embrandecida. 

— «Nada. . . E' que nan sabemos mesmo 



236 COLLECÇÀO ANTÓNIO MARIA PEREIRA 

nada. . Somos uns animaes. . . umas bes- 
tas. 

Ella conformou-se sem protestar. Havia na 
cara do seu homem um não sei quê que lhe 
tolhia os ímpetos. Quando o via assim todo 
mettido em si, olhos revirados, falas profundas, 
acobardava-se. Fossem lá espicaçar a criatura 
quando inté parecia que lhe tinham dado 
olhado ruim! 

A. pequenada comia sôfrega e calada. O José 
Miguel saboreou um trago de Collares. Depois, 
limpando o bigode á mão callejada pelo car- 
pinteirar de muitos annos, decretou, solemne : 
«Domingo tam'em tu hades ir». 

A Francisca largou o canto de pão saloio 
que já ia a meio caminho da boca. «Adonde? 
Nan querem lá ver?!» 

— ccOlha o espanto!... A casa do inglez... 
a casa do sr. Morton.» 

— «Home, deixa-me cá! A casa do inglez! 
Ora, ora! Que vou eu lá fazer?» 

— t E^ boa ! O mesmo que eu» — E mais au- 
ctoritario — «Vaes... E' porque ha-des ir.» 

A Francisca já oscilava entre o acanhamento 
e a curiosidade; 

— «Mas a final. . . que vaes tu. . que vão 
os outros lá fazer ?» 



RETALHOS DE VERDADE 237 

— cE ? o rapaz, o sr. Morton filho. . . que 
explica á gente uma data de quadros que elles 
lá tem ...» 

— «Quadros de quê?» 

— tlsto de painéis. . .» 

— «E elle o que diz, entende-se?» 

— «E' portuguez a modo atrapalhado, mas 
percebe-se... Tem dinheiro como milho aquella 
gente. . . Vão-se aos quadros mais catitas dos 
museus por esse mundo fora, e toca a man- 
dal-os copiar. . . » 

— «Copiar?» 

— «Sim, mulher. . . Copiar, copiar. . . Este 
casaco nan m'o fez ahi um official por outro 
do Marcos, feito em Lisboa ? Pois ahi está a 
coisa. Nunca fica obra de tanto preceito . . . 
mas pode-se vestir. Pois é o mesmo caso. Per- 
cebeste agora?» 

Ella evadiu a resposta. 

— «No museu já a gente estivemos quando 
foi do centanairo... ahi p'r'as Janellas Verdes... 
Nunca me ha de esquecer aquelle ladrão. . . 
mais mal encarado ! . . . que ia p'ra matar a 
pobre senhora na cama. » 

— «Esse museu de Lisboa nan presta p'ra 
nada. Despois, a gente põe-se a olhar pVaquillo 
e fiquemos na mesma. . . Se a gente nan sa- 



238 COLLECÇÃO ANTÓNIO MARIA PEREIRA 

bemos nada!... Cá no Palácio é outra coisa... 
Ali dá-se rezão de tudo. . . Tudo na vida quer 
a sua explicação.» 

— «O' rapaz ! tu nan me comas c'os dedos... 
Limpe-me já essas mãos, seu grandecissimo 
porco» — e a Francisca acudiu com o avental 
a praticar a operação citada — «E este nariz 
dos meus peccados! nem um chafariz!» — e 
mais avental acudindo ao fluxo nasal da Arte- 
misa. 

— «Pois aquillo, mulher, por gosto se pode 
óvir o dianho do rapaz ! Até parece que tem 
mandinga. . . Que aquillo é elle a falar, a falar, 
e a gente ali, como uns palermas, de boca 
aberta. . . Aquelle p'ros modos tem visto mais 
mundo que o Vasco da Gama. . . E lá fora é 
outra fazenda . . . nan é com'áqui . . . Aqui so- 
mos uns brutos. . . O povo antão está como 
os animaes. . . Por isso o querem levar a chi- 
cote. . . Elle tamem, quando calha, é coice 
que ferve.» 

— «Agora é que tu acertastes. Nan vás mais 
longe. . . Inda hoje o Joaquim ferrador assen- 
tou um murro na mulher que, se aquillo nan 
valia um par de coices. . . Excommunga- 
do!» 

— «Se a gente aqui nan aprendemos nada !... 



RETALHOS DE VERDADE 239 



nan gosamos nada ! . . . Estamos como as bes- 
tas, amarrados á mongidoira.» 

A matilha, saciado o appetite, levantara-se 
em tumulto. 

— «O' pae, dê cá um vintém p'ra um bolo 
da Ilha.» 

— «Estão muito caros os vinténs. 
Outra voz. 

— iO' pae. . . mas hoje é domingo.» 

— «E amanhã é segunda feira.» 

Terceira voz: «O' pae, vo'mecê promet- 
teu.i 

— «Essa agora é peior!» 

Voz melindrosa da Artemisa : «O pae, olhe 
qu'eu chóo.» 

— «E a mim que me importa que vocemecê 
chore? Quanto mais chora menos. . . > — não 
concluiu porque ella lhe mettia os dedos pela 
boca. 

Í«0' pae, sim.» 
«O' pae, dê.» 
«O pae, ande.» 
«O' pae, vá.» 
O José Miguel tinha as mãos coladas aos 
ouvidos, atordoado. 

A Francisca commentava em tom colérico, 
que o olhar desmentia: «Nem que tivessem 



240 COLLECÇÃO ANTÓNIO MARIA PEREIRA 

fome ! Os pratos bem lembidos ficaram ! . . . E' 
lamborice, é o que é!> 

— «Pois 'stá visto!» — e o José Miguel poz 
trinta réis sobre a mesa com solemnidade : 
«Ahi vae... Os dez réis que sobram são para 
pevides... Agora, muito cuidado... Vejam lá 
o que fazem. . . O bolo é para partirem em 
quatro, ouviram?» 

Sairam de escantilhão, atropelando-se, porta 
fora. E nem pio. A alegria emudecera-os. Só o 
migalho de gente da Artemisa ia gritando em 
tom descommunal : « O maior é p'a mim que sou 
mais piquena.» 

Passava o Joaquim ferrador. 

— «O' seu Zé Miguel, venha d'ahi decilitrar 
um bocado.» 

— «Ná. Estou jantando.» 

— • Tarde é o jantar hoje!» 

— «Demorei-me mais... Se quer uma pin- 
ga ... » 

O ferrador não se fez rogar. 

— «Pois vá iá isso.» — e entrou, sem a me- 
nor attenção para a cara de palmo e meio que 
lhe poz a Francisca. Este ferrador tinha um 
soberbo desprezo antigo pelo ser inferior, a 
mulher. 



RETALHOS DE VERDADE 241 

O José Miguel, também, deitou-lhe vinho e 
não fez mais caso cTelle. 

— «Pois, mulher, o que te digo é que o in- 
glez a falar mette-se pela alma á gente... Fi- 
ca- se assim a modo. . . eu sei lá como!. . . fi- 
ca-se inté consolado por dentro.» 

— «Consolado ! . . . Deixa que inda elles aca- 
bam por te dar volta ao juizo. . . » 

— «Sim, mulher, sim... E' que ali não é só 
explicar os quadros. . . e explicar a iarte. . . » 

— «A iarte !» 

— «Sim a iarte. . . Olha a grande admira- 
ção!... A iarte!» — e elevava muito a voz. 

— «Sim, bem te oiço. . . Eu nan sou mou- 
ca... Mas antão isso de arte que vem a ser?» 

O José Miguel sorriu complacentemente. 

— «Se elle é o que eu digo!. . . Se a gente 
vivemos com os olhos tapados !. . . A iarte, mu- 
lher... » — e coçava a cabeça, preoccupado — 
«Nan cuides tu agora que eu os nan entendo... 
Uma coisa é ouvil-os a gente lá, e outra é pu- 
xar pela lingua para dizer as coisas e pôr o 
nome ós bois.. . A iarte é uma coisa que mette 
assim a modo uma alegria dentro de uma pes- 
soa. . . » 

— «Pois home, antão, mais precisada qu'eu 
estou de lá ir! A ver se ó menos um dia me 

16 



242 COLLECÇÀO ANTÓNIO MARIA PEREIRA 

chega a vontade de rir... Leva a gente aqui a 
vida mais ralada !» 

— «Nan se trata d'isso, mulher. . . Nan vae 
de risota . . . Valha-me Deus e os santos meus ! 
A ver se me entendes ...» 

Rugas profundas indicavam na testa do José 

Miguel um grave conflicto cerebral. Com um 

suspiro largo e alto resfolegar das narinas, ac- 

commetteu de novo o thema: «Tu escuta com 

attenção ... A gente põe-se a olhar muito seria 

para um quadro . . . Co'a breca ! . . . parece que 

já d'ali se nan podem arredar os olhos... E 

põe-se o typo a dizer pVa dentro : Sempre o 

gajo que fe\ isto tinha mais aquella ! Anda que 

pWapôr tudo ahi como vivo, só com pegar ríuns 

pincéis e numa pouca de tinta! ... E é que nan 

vae dos dez dedos, que mãos todos as temos » — 

e o José Miguel mostrava emphaticamente as 

suas, muito escarrapachadas — «Vai de outra 

coisa que está aqui e aqui» — e acceso de en- 

thusiasmo, pespegava duas valentes palmadas 

na testa e na parte esquerda do peito — «E é 

que sae uma pessoa d'ali a matutar n^quillo. 

Ficam-lhe aquellas coisas a modo gravadas no 

miolo. Chega um home a casa e só com pôr-se 

a magicar, parece que se lhe representa tudo 

outra vez tal qual . . . E aqui temos um home 



RETALHOS DE VERDADE 243 

divertido, sin puxar cinco réis da alzebêra p'ra 
fora, sin murmurar da vida alheia, sm pôr pé 
na taverna . . . Pois ahi tens tu... Ahi tens o que 
lá elles chamam a iarte... Percebestes agora?» 

— « Sim, home . . . bem percebo . . . Sim . . . 
vens tu a dizer na tua ...» — e a Francisca, 
atando e desatando inconcientemente o lenço 
do pescoço, buscava em vão palavras que não 
chegavam, 

O José Miguel, como ensimesmado, não dava 
por aquelle contiicto. 

A Francisca notou de relance a atitude do 
ferrador. Estava o bom do sr. Joaquim fazendo 
ali o que pensara fazer na taverna. A garrafa 
de Collares ia em muito menos de meia. 

Economicamente indignada, a Francisca poz- 
se n'uma grande anciã de signaes cabalísticos 
para o marido. Mas elle não deu o menor in- 
dicio de comprehensão. Devia estar todo em 
casa do inglez. 

Súbito, inundando-lhe o rosto uma expressão 
de goso inefável : • Sempre hoje nos explicaram 
um quadro ! Caramba, mulher ! que maravilha! 
Chamam-lhe As meninas. . . Os quadros tem 
nome como as pessoas. . . Aquillo que elles lá 
tem é copia.. O verdadeiro está em Hespanha... 
em Madrid que é lá pVós hespanhoes como 



244 C0LLECÇÃ0 ANTÓNIO MARIA PEREIRA. 

aqui Lisboa p'r'a'gente. Quem o pintou. . . o 
verdadeiro ... foi um tal Velazquez já ha um 
ror de annos. Coisa ahi por 1 656 ou 1657. . . 
Já vês!. . . E pYos modos aquillo tinha umas 
mãos o tal excommungado!.. . Aquillo ali está 
tudo vivo. . . E mais a gente aqui nan vê mais 
que é a copia. . . A mim, o que mais me dá 
que fazer é como o gajo teve arte de se retra- 
tar a si mesmo. . . Pois ahi o tens que só le 
falta falar. . . Elle figura que está a pintar o 
retrato do rei e mais da rainha — já nan m'alem- 
bra que reis são. . . uns reis d'aquelle tempo, 
que in todo o tempo hovéram reis. . . A gente 
sabe d'isto do retrato porque os ve representa- 
dos ambos e dois n'um espelho que está de- 
fronte. Mas o melhor da festa inda nan é isto... 
A' frente do quadro sae uma petiza de seus 
cinco ou seis annos, vestida de branco, com 
um grande balão que era a moda n'aquelles 
tempos . . Coisa mais linda! Chamava-se a 
princeza Margarida. E logo ahi á roda duas 
mocinhas, também d-e balão, assim a modo de 
companheiras ó aias . . . mas o melhor de tudo... 
verás. . . O melhor de tudo inda é o cão. . . 
Um pedaço de cão! . . . um canzanas ali todo 
repinpado que parece que todo o mundo é 
seu ! Com uma grande papada, para ali meio 



RETALHOS DE VERDADE 245 

a dormir como um abbade farto . . . Bem se le 
dá qu'o raio do anão le ponha o pé em ci- 
ma ! . . . Coisa mais natural ! Nan le falta mais 
qu'é falar. . . digo, nan parece senão que está 
vivo. . . Sempre te digo, mulher, que o tal se- 
nhor Velazquez que tinha dedo !» 

A Francisca estava como hvpnotisada. Fe- 
chava e abria lentamente os olhos. O calor da 
comida e a arenga marital tinham-na mergu- 
lhado n'uma espécie de modorra, saccudindo 
a qual, ella perguntou por entre um longo e 
sonoro bocejo : • E a final, tudo isso dos qua- 
dros para o que é que serve P» 

O José Miguel, olhos revirados para o tecto, 
não é certo que a ouvisse. Em tom de crescen- 
te enthusiasmo : «Queres tu ver!» — e mettia a 
mão ao bolso interno do casaco — «Isto não é 
mais que um bilhete postal. . . mas por'qui já 
se faz muita idéa do quadro das meninas» — 
Era aquelle objecto que na fonte dos Pisões o 
José Miguel subtrahira escrupulosamente á avi- 
dez damninha da sua prole. — «Isto dão elles 
lá á gente. . . Olha-me tu aqui a petiza. . . 
Vê-la?. . . Olha-me aqui d'esta banda o can- 
zanas. . . Vê-lo?. . . Este bilhete vou-lhe fa- 
zer um caixilho, e pranto-o mas é ali na pa- 
rede.» 



246 COLLECÇÃO ANTÓNIO MARIA PEREIRA 

A Francisca esfregava os olhos com a pre- 
terição vã de desterrar o somno. 

— «Estas crienças nan parecem senão abor- 
tos, home» — notou por fim com gesto de aver- 
são. 

— «Q'aes crienças nin qual carapuça! São 
mas é anões... Era lá gosto dos reis d'aquelle 
tempo . . . terem aquella tropa em casa para se 
divertirem. ..» 

— «Agora me rio eu!... Nan querem lá 
ver!. . Pois p'ra uma pessoa s^advertir co'el- 
les ! . . . maiores estafermos ! . . . » 

— «Antão, mulher!. . . Quem nan tem que 
fazer faz colheres ; nunca óvistes ?. . . Tu nan 
no amarrotes que o quero prantar na parede» 
— e o José Miguel mirava circumspectamente 
as paredes nuas da sua casa. Por fim, apon- 
tando com resolução para um lado, o do seu 
banco de carpinteiro, decretou : 

— tVae pVali... Mas escapula e saco, tudo 
isso ha-de rodar d'ali para fora ...» 

— Oh home, o saco do pão ! . . . PVamor de 
Deus. . . Ora que mal fará ahi o pão? !» 

— ccBusca-lhe outro sitio. . . » 

— Oh ! home . . . Adonde queres tu que se 
prante o pão? na minha cabeça?» 

E elle, intransigente, com certa pontinha de 



RETALHOS DE VERDADE 247 

ironia: «Em ultimo caso, não havendo onde o 
pôr, vae-se buscar ahi ao padeiro cada vez que 
fôr preciso. . . Para alguma coisa ha-de servir 
estar a gente na rua das Padarias. . » N'essa 
parede cabe muito bem a collecção de bilhetes 
postaes que elles nos vão dar. . . Tudo qua- 
dros dos melhores que ha por esses paizes fo- 
ra .. . As copias, bem entendido. . . Verás tu 
que lindeza!» 

E a Francisca, já mais desempoeirada do 
somno, entre apprehensiva e prazenteira: «Nan 
querem lá ver! Dão-me c'o home in maluco!» 

A pequenada entrou de roldão. 

CORO 



«O' pae . . . diga . . . escute lá» 

•O' pae, o Laureano é mas é um malancTo» 

«O' pae, o Amílcar diz que m ha de dar uma cacholeta» 

«O' pae, eu é que sou mais piquena ná é vedade ?» 



— «Safa! Que ingresia!. . . Que diabo que- 
rem vocês? Fale cada um por sua vez, senão 
vae aqui tudo raso, c'um chinelo.» 

O Laureano assumiu ares de interprete. 

— «O' pae. . . veja lá... Sobejam estas três 
pevides. A quem se dão?» 

— «P'a mim, que sou mais piquena» — sus- 



248 COLLECÇÃO ANTÓNIO MARIA PEREIRA 

tentava a Artemisa, invariavelmente appoiada 
na força cTaquelle argumento. 

Voz do Guadalberto: «Eu é que fiquei c'o 
bocado mais piqueno do bolo.» 

Solução do Amílcar: «S'a tia Maria desse 
mais uma pevide, já estava tudo arranjado.» 

O Laureano, com brios de generosidade fi- 
lial : 

— «Se o pae quer, aqui está... são pVÓ 
pae. . . Agora para esses. . . chó rola!» 

— tSim senhor. . . Pois muito obrigado» — 
e o José Miguel, apropriando-se das três pevi- 
des, destribuiu-as pelos três mais pequenos. — 
«E lá você, como mais velho, tenha vergonha 
n'essa cara e seja home de ordem. . . Ná, nan 
me ponha essa carantonha . . . E' rodar d'aqui 
p'ra fora se nan quer um estalo p'las ventas.» 

Laureano, de viseira caida, foi encostar-se á 
hombreira da porta a coçar uma orelha. 

Os dois do meio sairam disparados para a 
rua. Amilcar passou pelo inimigo derrotado, 
fazendo surriada á socapa. 

— «Deixa estar!» — grunhiu Laureano, agi- 
tando ameaçadoramente a mão espalmada. 

Entretanto o José Miguel sentara a Artemisa 
nos joelhos. O cabellito d'ella, anelado e louro, 
estava arrochado n'uma trancinha muita dura. 



RETALHOS DE VERDADE 249 

O pae, nas pontas dos dedos, desfez aquillo 
com geito. Soltando-lhe os caracoes á volta do 
rostinho, tão mimoso como o da infanta Mar- 
garida, disse regosijado: «Ah! agora, sim!» 

— «Nan parece senão um cão d'agua» — 
apreciou, despeitada, a Francisca, que não le- 
vara pouco tempo architectando aquelle pen- 
teado dominical, tão apreciado das visinhas. 

— tSe tu nan me queres crer, mulher!... O 
bonito é a natureza . . . Qual vale mais : ali os 
lagos da Pena ou o mar que bate na Praia 
da Adraga Pa 

— «O bonito vae ser mas é amanhã desem- 
baraçar-lhe essa grenha... » 

— «Isso agora já é outra questã ...» 

Soou um ronco espesso e profundo. Era o 
Joaquim Ferrador, adormecido na beatitude al- 
coólica. 

O José Miguel, com um gesto de repugnân- 
cia, levou a filha em braços ate á porta. Com 
dois acoites fingidos, expediu-a em busca dos 
irmãos. 

Depois, voltando, poz-se a olhar com inves- 
tigação curiosa para o visinho. Decorrido um 
momento, fechou a mão esquerda, formando 
óculo. Applicou c instrumento ao olho corres- 
pondente e ferrou-o no Joaquim. 



250 COLLECÇÀO ANTÓNIO MARIA PEREIRA 

— «Sempre te digo, mulher, que o tal Velaz- 
quez era um gajo!. . . Pintou um quadro cha- 
mado Os borrachos, como quem vem a dizer 
Os piteireiros . . . Pois o figurão mais pYa es- 
querda é essa besta por uma penna . . . EUe, a 
dizermos a verdade nan ha coisa mais safada 
nem mais suja qu'é a borrachice!. . . » 

E a Francisca, mais sensível á economia que 
á esthetica: «E é que a virou toda!» — e agi- 
tava no ar, com indignado protesto, a garrafa 
vasia. — «Deixa que, inda por cima pagar a gen- 
te quatro vinténs p'ra ter esse estupor ahi a 
roncar como um porco!» — e fez um profundo 
gesto de asco, cuspindo no chão e limpando a 
boca ao avental. 



FIM 



ÍNDICE 



PAG. 

A vida por um prejuro 7 

Serrano. 87 

Maria do Lourdes 189 

Antoninho philosopho 221 

Baforada de arte 227 



OBRAS DA AUTORA 



A's inães e ás filhas. Contos. Lisboa. A. M. Pereira, 1886 
2.' edição, 1888 — 3. a edição, 1900. 

Primeiras Leituras. Lisboa, A. M. Pereira, 1890 — 2.» 
edição, 1899. 

A filha do João do Outeiro. Romance. Lisboa, A. M. Pe- 
reira, 1894. 

Amor á antiga. Romance. 2 volumes. Lisboa, A. M. Pe- 
reira, 1894. 

Madame Renan. Romance. Lisboa, Imprensa Nacio- 
nal, 1896. 

(Genoveva Montanha. Romance. Lisboa, Companhia Na- 
cional Editora, 1897. 

O Tio Victorino. Novella dedicada ás creanças portugue- 
zas em commemoração da festa nacional do quarto centená- 
rio da índia, 1898. (Obra baseada n'um estudo expressamente 
feito sobre Os Lusíadas). 

Reyista Branca. Dedicada aos pequenos e aos novos, 
1899- 1900. 

Testamento de mâe. Novella para a infância. (Narrativa 
de viagem por Hespanha, França, Suissa e Itália). A. M. Pe- 
reira, 1900. 

Primeira Agonia. Episodio dramático em 1 acto, repre- 
sentado pela primeira vez no Theatro de D. Maria II em i3 
de janeiro de 1900. 

Genoveva Montana. Version espanola por Un Lusofilo. 
Madrid, 1901. Libreria de Fernando Fé. 



254 OBRAS DA AUTORA 



Commentarios á vida. Collecção de artigos sobre ques- 
tões sociaes publicados em jornaes portuguezes. Lisboa, A. 
M. Pereira, 1900. 

De Longe» contos illustrados com 110 gravuras. Lisboa, 
A. M. Pereira, 1904 

Dolorosa, por Francisco Acebal (traducção). Romance. 
Lisboa, A. M. Pereira, 1905. 



Relatório da viagem de estudo a estabelecimentos de 
instrucção secundaria do sexo feminino na Inglaterra, Suissa 
e França. (Publicado no ^Diário do Governo. Appendice ao 
n.° 17, 25 de janeiro de 1889. 

que deve ser a instrucção secundaria da mulher.' 
Memoria apresentada ao Congresso Pedagógico Hispano-Por- 
tuguez- Americano. 1892. 

Relatório de uma visita de estudo a estabelecimentos de 
ensino profissional do sexo feminino no estrangeiro. Lisboa, 
Imprensa Nacional, 1893. 

La Femme et la Paix. Appel aux mères portugaises. 
(Quarto centenário do Descobrimento da índia. Contribui- 
ções da Sociedade de Geographia de Lisboa. Imprensa Na- 
cional, 1898. 



Collecçâo ANTÓNIO MARIA PEREIRA 



VULGARISAÇÀO DOS MELHORES LIVROS 



LfTTERATURAS PORTUGUEZà E ESTRANGEIRAS 



Romances, Contos, Viagens, Historia, ele, etc. 



Volumes publicados 



1 — Tristezas á beira-mar, por 

Pinheiro Chagas. 

2 — Contos ao luar, por Júlio 

César Machado. 
3 — Cármen, trad. de M. Levei, 
i — A Feira de Paris, por Iriel. 

5 — O direito dos filhos, por 

George Ohnet. 

6 — John Buli e a sua ilha, 

trad. de P. Chagas. 

7 — Esgotado . 

8 — A lenda da meia noite, por 

M. Pinheiro Chagas. 

9 — A jóia do vice-rei. por P. 

Chagas - 

10 — Vinte anno3 de vida litte- 

raria, por A. Pimentel. 

1 1 — Honra (1'artista, trad. de P. 

Chagas. 
11 — Esgotado. 
13 e '4 — A aventura d'um po- 

laco, trad. de Maria A. Vaz 

de Carvalho. 



15 — Os contos do Tio Joaquim, 

por K. Paganino. 

16 — Esgotado. 

17 — Noites de Cintra, por Al- 

berto Pimentel. 

18 e 19 — Esgotado. 

20 e 21 — A irmã da caridade, 
por Emilio Castellar, trad. 
de L. Q. Chaves. 

22 — Migalhas de historia portu- 

gueza, por P. Chagas. 

23 — Esgotado. 

24 — Contos, por Affonso Botelho. 

25 — Esgotado. 

26 — Esgotado. 

27 — O naufrágio de Vicente So- 

dré, por Pinheiro Chagas. 

28 — Vida airada, por Alfredo 

Mesquita. 

29 — O bacharel Ramires, por 

Cândido de Figueiredo. 

30 e 31 —Esgotado. 

32 — As netas do Padre Eterno, 
por A Pimentel. 



Collecção António ma ria Pereira 



33 — Contos, por Pedro Ivo. 

34 — O correio de Lyão, por 

Pierre Zaccone. 64 — 

35 — Vida de Lisboa, po* Alber- 

to Pimentel. 65 — 

36 — Historias de frades, por 

Lino d'As9umpção. 66 — 

37 — Obras primas, por Cha- 

teaubriand 

38 — O exilado, por Mauricia C. 67 — 

de Figueiredo. 

39 — Poema da Mocidade, por 68 — 

Pinheiro Chagas. 

40 e 41 — A vida em Lisboa, 69 e 

por Júlio César Machado. 
42 e 43 — Espelho de portugue- 
ses, por Alberto Pimentel. 71 — 

44 — A fada d'Auteuil, trad. de 

Pinheiro Chagas. 72 — 

45 — A volta do Chiado, por E. 

de Barros Lobo. j 73 — 

46 — Seca e Meca, por Lino 
d'Assumpção. 

47 — Ninho de guincho, por Al- 74 — 

berto Pimentel. 

48 — Vasco, por A. Lobo d' Ávila, j 75 — 

49 — Leituras ao serão, por A. 

X. Rodrigues Cordeiro. ' 76 — 

50 — Luz coada por ferros, por 

D. Anna A. Plácido. j 77 — 

51 — Esgotado. 

52 — Relâmpagos, por Armando j 78 — 

Ribeiro. 

53 — Historias rústicas, por Vir- 79 — 

gilio Várzea. 

54 — Figuras humanas, por Al- j 80 — 

berto Pimentel. 

55 — Dolorosa, por Francisco j : 81 — 

Acebal, trad. de Caiei. 

56 — Memorias de um fura-vi- 1 1 82 — 

das, por A. de Mesquita. 

57 — Dramas da corte, por Al- 83 — 

berto de Castro. 

58 — Os mosqueteiros d'Africa, 84 — 

por Mendes Leal. 

59 — A divorciada, por José j 85 e 

Augusto Vieira. 

60 — Phototypias do Minho, por i 

J. Augusto Vieira. 87- 

61 — Insulares, por Moniz de j 

Bettencourt. 88- 

62 e 63 — Historia da civilisa- i 



ção na Europa, trad. do 
Marquez de Sousa Holstein. 
-Tríplice alliânça, de Raul 
de Azevedo. 

- Retalhos de verdade, por 
Caiei. 

- A pasta d'um jornalista, 
peloVisconde de S. Boa- 
ventura. 

- Os argonautas, por Virgí- 
lio Varzeu. 

• Fitas de animatographo, 
por Alberto Pimentel. 
70 — Poesias do Abbade de 
Jazente, annotadas por Jú- 
lio de Castilho. 

■ Aspectos e sensações, de 
Raul d'Azevedo. 

• Contos e narrativas, por P. 
W. de Brito Aranha. 
Quadros e letras, historias 
e romanceies, por Sanches- 
de Frias. 

Individualidades, por Hen- 
rique da3 Neves 
Alfacinhas, por Alfredo de 
Mesquita. 

Pátria amada, pelo Vis- 
conde de S. Boaventura. 
Historias e romancêtes, por 
Sanches de Frias. 
Esbocetos individuaes, por 
Henrique das Neves 
Recordações da mocidade, 
por Adolpho. Loureiro. 
Sorrisos, novellas e chro- 
nicas, por A. Campos. 
Lucta de sentimentos, por 
Maria 0'Neill. 
Do Rocio ao Chiado, por P. 
de Vasconcellos. 
A dança do destino, por 
Lutbgarda de Caires. 
Um drama de ciHme, por 
Maria 0'Neill. 
86 — Resumo da origem de 
todos os cultos, por C. F. 
Dupuis 

Vencido, romance por F. A. 
M. de Faria e Maia. 
Elogio da loucura, critica 
de costumes, por Erasmo. 



OUTRAS OBRAS 



Azevedo (Domingos de) 

Diccionario (Grande) contempo- 
râneo irancez-portuguez e v. v. 
2.» edição, muito correcta e 
extremamente augme-' 

Grammatica da lingy 



as 

^ p. 



Liç 

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Arte. 
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Historia de Portugal, 10.» ed. — 

1 vols. br. e ene. 
Inglaterra (A) d'hoje, 3.* ed. — 

1 vol br. e ene. 
1'ortuiral contemnoranpn. 5 a píI 



University of Toronto 
Library 



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