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J&arbart College librara 



FROM THE FUND 

PROFESSORSHIP OF 

LATIN-AMERICAN HISTORY AND 

ECONOMICS 

ESTABLISHEP I9I3 




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REVISTA 



DO 



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DE 




PAULO 




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VOLUME IX 



1904 



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SÃO PAULO 

TYPOGRÀPHIÀ DO «DIÁRIO OPPICIAL» 

1905 






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REVISTA 




DO 



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DE 




VOLUME IX 



1904 




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SÃO PAULO 

TYPOGRAPHIA DO CDIABIO OFFICIAL» 

1905 



HARVARD COLLEGE LIBRARY 



DEC 15 1915 

LATIN-AMERICAN 
PROFESSORSHIP FUMO. 



MAY 1? I9IB 



ÍNDICE 00 VOLUME IX 



I 



Restauração Histórica da Vjlla db Santo André da Pg. 
Borda do Campo — pelo Dr. Theodoro Sampaio . 1 

O Ferro — Ensaio de Historia Industrial — pelo Dr. 

J. Pandiá Calógeras . 20 

A Guarda db Honra do Príncipe D. Pedro — pelo sr. 

Leôncio do A. Gtirgel 101 

Historia de Iouapb (documentos para a) — pelo sr. Er- 
nesto Guilherme Yong 108 

Um documento histórico — uma carta db Paula Sousa 

pelo sr. Othoniel Motta 327 

Um documento histórico — uma carta de Paula Sousa — 

pelo Dr. A. de Toledo Piza 337 

Chronicas dos tempos coloniaes — episódios da Inde- 
pendência em São Paulo — pelo Dr. A. de Toledo 
Piza 346 

-Como se podbrá elevar o nivbl moral da Pátria — 

conferencia, pelo Dr. Damasceno Vieira .... 358 

'O capitão Torquato i»e Toledo — pelo sr. Elpidio Leite 367 

A CAM ANHA DB 1827 — A BATALHA DO PASSO DO ROSÁRIO 

ou de Ituçaingó — pelo coronel Henrique A. de 

de Araújo Macedo 386 

-A JORNADA DB FRANCISCO CALDEIRA DB CaSTELLO BRANCO 

— fundação da cidaub DE Bblém — pelo senador 
Manoel Barata 428 



HARVARD COLLEGE LI8RARY 
DEC 15 1915 

LATIN-AMERICAN 
PROFESSORSHIP FUMO. 



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ÍNDICE do VOLUME IX 



Restauração Histórica da Villa de Santo André da Pg. 
Borda do Campo — pelo Dr. Theodoro Sampaio . 1 

O Ferro — Ensaio de Historia Industrial — pelo Dr. 

J. Pandiá Calógeras 20 

A Guarda db Honra do Príncipe D. Pedro — pelo sr. 

Leôncio do A. Qurgel 101 

Historia db Iguape (documentos para a) — pelo sr. Er- 
nesto Guilherme Yong 108 

Um documento histórico — uma carta db Paula Sousa 

pelo sr. Othoniel Motta 327 

Um documento histórico — uma carta db Paula Sousa — 

pelo Dr. A. de Toledo Piza 337 

Chkonicas dos tbmpos colónia es — episódios da Indr- 
pbndbncia bm São Paulo — pelo Dr. A. de Toledo 
Piza 346 

Como sb podbrá eleva» o nível moral da Pátria — 

conferencia, pelo Dr. Damasceno Vieira .... 358 

capitão Torquato i»e Tolbdo — pelo sr. Elpidio Leite 367 

A CAM ANHA DB 1827 — A BATALHA DO PASSO DO ROSÁRIO 

ou db Ituçaingó — pelo coronel Henrique A. de 

de Araújo Macedo 386 

Jl jornada db Francisco Caldbira db Castello Branco 
— fundação da cidahb db Belém — pelo senador 
Manoel Barata 428 



- II - 

JoAo Ramalho perante a Historia — pelo sr. Leôncio 

do Amaral Gurgel 444 

António Raposo — pelo Dr. Washington Luis .... 485 

A BTHN0GRAPH1A DA AMERICA, ESPECIALMENTE DO BrAZIL — 

pelo Dr. Carlos F. P. von Martius 534 

O testamento de JoÀo Ramalho — pelo Dr. W . Luis . 563 
Resíduos da idade de pedra na cultura actual do Bra- 

zil — pelo Dr. H. von Ihering 570 

Relatório da Directoria 577 

Balanço do Receita e Depesa do anuo de 1904 — pelo 

Dr. Carlos Reis 580 

Relação dos sócio* que durante o anno de 1904 satisfize- 
ram a jóia de admissão 583 

Relação dos sócios cujas annuidades estão pagas até o 

fim do anno de 1904 583 

actas das ses8ões re alisadas durante o anno de 1904 587 

Errata 628 



Bdaor&çio Histórica da Villa de Santo André da Borda do Campo 



Ào tempo em que aqui esteve na tela da discussão a indi- 
vidualidade histórica do fundador de Santo André, alguns amigos 
de antiguidade e cultores da Historia Pátria con vieram numa 
excursão á vizinha villa de S. Bernardo, para o fim de tirar a 
limpo si eram os vestígios derradeiros da lendária povoação de 
João Ramalho umas velhas minas alli descobertas no alto de uma 
collina, por detrás da estação da estrada de ferro. 

Éramos uns seis companheiros (1), hospedes do Dr. José 
Luiz Flaquer, que mui gentilmente nos serviu de guia no exames 
dessas ruínas que a vegetação escondera, as quaes só por trechos 
se reconheciam á margem de um vallo obstruído e sob 88 raizes 
grossas das acácias e dcs myrtos da capoeira alta. Por algum 
tempo, percorremos o matto em diversas direcções, depois de ter 
seguido e verificado na velha estructura da taipa o fecho de um 
recinto regular de menos de um hectare de superfície. Descemos 
ainda a um pequeno córrego onde se diz que existiu a represa 
que abastecia o extincto povoado e voltamos ao alto onde debalde 
pesquisamos, no terreno ensombrado, vestígios mais significativos, 
mais concludentes que infelizmente não pudemos encontrar. Dali, 
porém, da borda da campina que descia suave para a planície 
onde corre sinuoso o Piratininga antigo, tínhamos larga com- 
pensação nos effeitos de um bello horizonte, estendendo á vista 
por sobre os campos que já foram, na pbrase de Simão de Vas- 
conconcellos, o paraizo da gentilidade, e na mesma direcção em 
que, através de um ténue nevoeiro, distinguíamos, nos seus 
contornos indecisos, ás alturas em que cresceu S. Paulo, grande 
e prospero, emulo victorioso de quatro séculos. 

Estávamos ali, com effeito, á borda do campo, onde finda a 
matta e começa o prado, calcávamos ruínas cuja antiguidade se 
nos impunha com a força da evidencia e, comtudo, não tínhamos 
na alma aquella segurança nascida da lógica irresistível dos factos 



(1) A 17 fie Julho de 1G02 estávamos de visita as ruinas os Drs. Joio Meados 
de Almeida Júnior, José Lais de Almeida Nogueira, Eugénio Alberto Franco, Horácio de 
Carvalho, José Luiz Flaquer, sen irmão, eu e mais outros cavalheiros. 



— 2 — 



que nos levasse a affirmar ter sido, alli, o assento da villa de 
Santo André. 

Duvidas bem fundadas nos assaltavam o espirito, a despeito 
de afirmações apoiadas no testemunho de velhos moradores que 
depunham pela localização do antigo povoado naquelle sitio. 
Dois velhos quasi centenários, João José da Silva e Fabiana 
Rodrigues diziam ter ouvido de seus avós que alli tinha sido o 
assento da villa cuja egreja e cemitério deviam estar no logar 
mesmo onde descança vamos, almoçando á sombra das arvores. 

Ajuntavam a noticia de uma grande lucta dos emboabas com 
os indios, e falavam de um antigo aldeamento destes para o 
logar, hoje ainda denominado — Borda do Campo. 

Informavam ontros que, em excavações feitas nestas ruínas, 
se encontraram, de envolta com fragmentos de telhas, imagens 
mutiladas de terra cota, vestígios que presumem da antiga egreja. 

Sabíamos que, annos antes, Azevedo Marques, visitando estes 
logares, se deixara convencer, sem maior exame, de que a antiga 
e extincta povoação de João Ramalho fora construída nesta apra- 
zível situação, á margem direita do ribeiro Guapituba, aftluente 
do Tamanduatehy, e sobre a collina, distante pouco mais de um 
kilometro para o Sul da actual estação da estrada do ferro. 

Não achamos convincentes as razões, depoimentos e impres- 
sões colhidas neste logar. Sabíamos que a povoação antiga, 
conforme documentos dignos de fé, se edificara á margem da 
estrada velha, primitiva vereda dos indios, ligando Piratininga á 
costa do mar, e o ponto em que nos achávamos ficava apartado 
cerca de uma légua daquella estrada, não satisfazendo assim á 
condição essencial de sua locação. Demais, tradições bem vivas, 
mais espalhadas e não menas seguras entre o povo, no seio do 

2 uai ainda se contam famílias de procedência indígena, como os 
>avids, os Pecegueiros e Quiterias que guardam ainda o typo do 
índio, afirmavam o contrario; davam por assento da villa de João 
Ramalho, o logar ainda hoje conhecido por Borda do Campo, 
que annos antes tínhamos visitado, ao levantar a planta topo- 
graphica destas paragens. ( 1 ) 

Para proval-o, estudemos agora os factos á luz dos docu- 
mentos existentes, com o auxilio de dados topogvaphicos colhidos 
na região, com o testemunho dos moradores ; mas, antes disso, 
vejamos, segundo a Historia, o que foi ou o que devia ter sido 
a villa de Santo André, como núcleo de população christã, e 



(i; auotor, durante cerca de cinco annos, de 1886 a 1890, como topographo 
chefe da Commiss&o oeographlca de 8. Paulo, sob a direcção do Pr. Orville Derby. fea- 
a triangulação e organixou planta de grande extensão do território do Estado, então 
Província de 8. Paulo. 



— 3 - 



como o primeiro despertar da civilização neste logar, fadado 
para os mais arrojados commettimentos na conquista e descobri- 
mento dos sertões occidentaes. 

n 

Não se sabe ao certo em que epocba João Ramalho veia se 
estabelecer para os campos de Piratininga. Está, porém averi- 
guado que, muito antes da vinda de Martim Affbnso, já alguns 
europeus habitavam o littoral e o famoso aventureiro tinha as- 
sentado residência nestes campos. 

Sabe-se por Diogo Garcia que, em 1527, vivia, na costa de 
S. Vicente, um bacharel com alguns outros europeus que eram 
seus genros e ahi mantinham uma espécie de feitoria; vendiam 
refresco ás naus em transito; abasteciam-nas do que havia na 
terra; negociavam embarcações pequenas, forneciam interpretes 
para os navegantes que iam ao rio da Prata; mas principal- 
mente traficavam em escravos, contratando navios para o trans- 
porte de uma só vez de cerca de oitocentos delles para a Hes- 
panha. (1) 

O bacharel, mui provável é que fosse mestre Cosme Fer- 
nandes, que depois foi o fundador de Iguape, e dentre os seus 
genros uns, parece, que eram castelhanos, e faziam o commer- 
cio na costa, entre S. Vicente e Cananéa, commercio irregular 
e incerto como também o eram, nesse tempo, as communicaçoes 
com a Europa e com outros portos do Brazil. Na mesma costa 
de S. Vicente, no logar Tamiurú (Temiurú), visinho do bacha- 
rel, residia António Rodrigues, portuguez e talvez sócio e com- 
panheiro de negócios de João Ramalho, estabelecido no interior, 
nos campos de Piratininga, onde parece que era mais fácil o 
mister de assaltar indios para os remetter para a feitoria como 
escravos. 

Só isto basta para explicar a preferencia do aventureiro 
por um logar, já tão apartado do mar e quasi inaccessivel pela 
escabrosidade dos caminhos atravéz da Serra. 

João Ramalho ahi viveu muitos annos antes que algum ou- 
tro europeu se resolvesse a ir compartilhar de sua vida aven- 
turosa entre os selvagens. Ligou-se intimamente a estes, tomou 
por mulher uma india, constituiu família, adquiriu ascendência 
e poder no seio do gentio amigo. 



(1) Carta de Diogo Garcia, na Revista do Instituto Histórico e Geographioo Brasi- 
leiro, VoL 15.» pag. 6. 



— A — 

Quando, em 1532, Martim Affonso de Sousa sobe aos cam- 
pos de Piratininga, João Ramalho ainda era o único homem 
branco alli residente. Examinando as terras que ent&o lhe pare- 
ceram boas, o donatário julgou, oomtudo, de bom conselho não 
consentir no povoamento immediato desses campos, pois, seria 
fomentar a dispersão, provocando o enfraquecimento da colónia 
nascente, deixando-a mais exposta aos insultos da pirataria do 
lado do mar, e aos ataques do gentio do lado de terra. Prohi- 
biu, ent&o, a entrada de colonos para os campos; concentrou a 
sua gente nas ilhas littoraneas, onde havia mais segurança, e 
facilidade de soccorro e nao concedeu sesmarias senão á beira- 
mar, para que o povoamento do paiz fosse entrando como uma 
conquista systematica do littoral para o interior. 

Tão salutar medida, parece, porém que por poucos annos se 
observou A attracção pelo desconhecido era uma força irresistí- 
vel actuando no intimo de todo o aventureiro emigrado para o 
Novo Mundo. Assim é que ás caçadas, ás explorações, ás sim- 

Sles viagens de recreio succederam, de facto, as entradas amiu- 
adas com animo de ficar, e não poucos colonos, attrahidos pela 
amenidade do clima e facilidade de vida, foram aos poucos dei- 
xando o littoral e se estabeleceram ao lado de João Ramalho, 
acolhendo-se á sua sombra, abrindo as suas roças que logo co- 
meçaram a ser o centro abastecedor de beiramar, e partilhando 
da sua vida de caçador de Índios e de traficante de escravos. 

Essa dispersão de forças não tardou a produzir os seus 
efíeitos. Os Tamoyos, alliados dos Francezes tornavam-se cada vez 
mais insolentes; atacavam os estabelecimentos do littoral e as- 
saltavam os caminhos que levavam ao campo. O perigo crescia 
a todo o momento e foi mister então appellar-se para a concen- 
tração como medida de salvação publica. Marcou-se prazo para 
mie todos sem excepção descessem com as suas forças para S. 
Vicente, e se deu a João Ramalho, por se achar mais distante, 
o prazo de dous mezes para se recolher também. O aventureiro, 
porém, não obedeceu; deixou-se ficar nos seus campos, entre os 
seus indios, guardando as suas roças sem se importar com os 
perigos a que ficavam expostos os de beiramar. 

Ninguém o coagiu, nem havia auctoridade com força bas- 
tante para o fazer. 

A prohibição de se commun içarem e commerciarem os mo- 
radores da beiramar com os de cima da Serra, nunca foi rigoro- 
samente observada. Em 1544, D. Anna Pimentel, mulher do do- 
natário, revogou-a. O alvará de 11 de Fevereiro desse anno veio 
simplesmente sanccionar os factos, porque, na verdade, as rela- 
ções do campo com o littoral, obedecendo a influxos de ordem 



— 5 — 



económica, tinham augmentado sensivelmente, desde que foram 
prohibidas. 

Em 1550, quando o Padre Leonardo Nunes, que o gentio 
chamou o Abarebebê, visitou os campos de Pira ti n ingá, eis como 
nos descreve o primeiro evangelizador desses sertões, o estado da 
população branca que ahi achou domiciliada: 

« Aqui me disseram que no campo, 14 ou 15 léguas daqui, 
entre os Índios, estava alguma gente enrista derramada e pas- 
sava-se anno sem ouvir missa e sem se confessarem e andarem 
em uma vida de selvagem. Vendo isto, determinei ir lá para dar 
remédio a estes christàos, como por me ver com estes gentios, os 
quaes estão mais apartados dos christàos que todas as outras ca- 
pitanias. Levei commigo dous línguas, os melhores da terra, os 
qu«es, depois se determinaram de servir a Deus, em tudo o que 
eu lhes mandasse, e eu o acceitei assi pela necessidade como por 
elles serem muito aptos para isso e de grande respeito, princi- 
palmente um delles, chamado António Corrêa. E indo, na derra- 
deira jornada, topámos um mancebo com umas cartas para mim, 
oue me estavam esperando, por que tinham novas que eu os 
desejava ir vêr. 

c Trabalhei muito com os christães que achei derramados na- 
quelle logar entre os índios, que se tornassem ás villas entre os 
christàos, no qual os achei mui duros. Mas emfim acabei com elles 
que se ajuntassem todos em um logar e fizessem uma ermida e 
buscassem algum Padre que lhes dissesse missa e os confessasse. 
Puzeram-no logo por obra e tomaram logo campo para egreja. 
Gastei dous ou três dias com elles, confessei alguns e dei-lhes o 
Santíssimo Sacramento. Depois disto fomos dar com os índios ás 
suas aldêas, que estavam 4 ou 5 léguas d'al1i, e indo, achamos 
uns índios que andavam com grande pressa, fazendo o caminho 
por onde havíamos de passar e ficaram muito tristes por que o 
não tinham acabado. 

«Chegando á aldêa, veiu o Principal delia e me levou 
comsigo á sua casa 8 logo se encheu a casa de índios, e os ou* 
tros, que não cabiam, ficaram fora, que trabalhavam muito por 
me ver. 

c Considerai vós, meus Irmãos em Christo, o que minha 
alma sentiria, vendo tantas almas perdidas por falta de quem 
as soccorresse. 

« Algumas praticas lhes fiz, apparelhando-os para o co- 
nhecimento da Fé, e lhes disse, pela tristeza que mostravam por 
me eu haver logo de tornar, que não ia sinão a vel-os e que 
outras muitas vezes os visitaria» si tivesse tempo. 



- 6 — 

c Também achei ali alguns homens brancos e acabei com 
elles, que se tornassem christãos, e d'ali me tornei outra vez a 
S. Vicente o determinei de fazer uma casa em que nos reco- 
lhêssemos, e com algumas esmolas dos moradores, acabei para 
também poder nella recolher e ensinar os filhos dos gentios. » ( 1 ) 

Como se vê dos termos desta carta, a p opulação branca dos 
campos de Firatininga, em 1550, ainda até ali vivia dispersa, 
derramada, como expressivamente o diz o illustre predecessor de 
Anchieta ; não havia ainda um núcleo de população regular, 
assim como um povoado ou arraial. Viviam ahi os christãos es- 
palhados nas suas rocas, distantes uns dos outros, coe o que 
aliás parece que se davam bem, pois que solicitados pelo Padre 
a que tornassem ás villas do beiramar para melhor frueto dos 
seus deveres religiosos e maior segurança de suas familias, se 
recusaram todos, mui duros que estavam de n&o arredar pé, com 
sacrifício de suas lavouras. Comtudo, convieram em se reunir 
em povoado, onde fizessem uma ermida, elegendo logo sitio para 
esta. 

Daqui se conclue, portanto, que a primeira povoação de eu- 
ropeus nestes campos não foi obra de João Ramalho como ge- 
ralmente se presume, mas do Padre Leonardo Nunes que o acon- 
selhou e conseguio ver realizada. 

Cabe, sim, a João Ramalho a precedência no movimento po- 
voador, não porém a iniciativa da fundação do primeiro povoado, 
que se denominou de Santo André, como por esse documento se 
prova. 

Formada assim a primeira povoação desses campos, para ella 
vieram residir, como outros europeus, João Ramalho e os seus 
filhos. A tt es ta- o o viajante allemão Ulríc Schmidel que por ali 
passou em 1553 de regresso do Paraguay. (2) 

A povoação, como é de presumi r-se, não passaria de certo 
de uma reunião de algumas cabanas cobertas de folha de palma, 
feitas de taipa de mão a modo dos índios, dispostas ao longo de 
único caminho então existente, e sem nenhuma construcção de 
caracter duradouro, cousa então c o mm um em todo o Brazil. A 
ermida ou capella não está averiguado que a tivessem edificado. 
Leonardo Nunes diz que tomaram logo campo para a egreja ; 
mas tel-a-iam iniciado realmente ? 



(1) Carta escripta de B. Vicente, a 24 de Agosto de 1550, pelo Padre Leonardo 
Nuues. 8. J. 

(2) UJrio Schmidel— «Historia verdadeira de uma viagem curiosa na America ou 
Noto mundo, pelo Brazil e Bio da Prata, desde o anno de 1534 a 1554», publicada pela 
primeira vez em Frankfort sobre o Meno em 1567. 



— 7 



O sentimento religioso nfto era firme entre essa gente que 
tão facilmente assimilava os costumes bons e máos dos selvagens, 
e, em muitos casos, se fazia mais fera e doshumana do que elles. 
Apezar de que o Padre, insistindo com os moradores, acabou com 
elles que se tornassem christâos \ comtudo, achou-os todos mui 
duros para se tornarem ás vi lias, e nos refere o caso de um in- 
dividuo branco que se embrutecera tanto entre os Índios que 
não entendia mais nada de religião, só entrava na egreja á força 
e só á força se ajoelhava diante do santíssimo sacramento. 

A egreja ou ermida parece que jamais se edificou pois que 
a de S. Paulo foi a primeira que se fez entre o gentio (1) e 
se os moradores de Santo André, obedecendo aos conselhos de 
Leonardo Nunes, buscaram algum padre que lhes dissesse missa 
e os confessasse, nenhum documento o prova. (2) 

Que a povoação, com o predicamento de villa de Santo An- 
dré em 1553, nao era grande, nem de bom aspecto logo se de- 
prehende das próprias palavras de Schmidel, que a visitou pouco 
mais de dons mezes depois de ser elevada á cabeça de município. 

«Chegamos einfini, diz o viajante, a uma aldêa habitada por 
christâos cujo chefe se chamava Joõo Eeinmeille (Ramalho). Fe- 
lizmente para nós estava elle ausente, porquanto esta aldêa pa- 
receu-me um velhacouto de ladrões. 

«Ramalho, continua o narrador, t>nha ido para onde esta- 
vam outros christâos que habitavam em outra aldêa chamada 
Vincenda (S. Vicente) a concluir um tratado com elles. 

«Os indios deste -logar assim como cerca de oitocentos chris- 
tâos que vivem nessas aldêas, são vassallos do rei de Portugal, 
mas governados por João Reinmellle. 



«Na aldêa não encontramos senão seu filho: fomos mui 
bem recebidos, ainda que elle nos inspirasse mais desconfiança 
que os próprios indios, e, deixando este logar, rendemos graças 
ao céo por termos podido sahir são e salvos». 

Como se vê, a novíssima villa não passava de uma aldêa, 
com apparencias de um velhacouto de ladrões. O viajante al- 
lemão é aqui uma auetoridade insuspeita. Comquanto bem re- 



(1) Informações e Fragmentos Históricos do Padre Joseph de Anchieta (1584 — 
1586). 

(2) Pedro Taqnes, na suà Historia da Capitania de 8. Vicente, refere que a villa 
de Santo André foi fortificada com trincheira e quatro baluartes dentro, em que caval- 
garam artilharia, obra feita á custa de Jofto Ramalho, Frei Gaspar, nas suas Memoriai 
dia que o alcaide-mòr nfto só construio trincheira e baluartes como fez a ma custa 
egreja. cadêa e mais obras publicas necessárias, apoiando-se nos mesmos documentos ci- 
tados por Pedro Taqnes (Arch. da Camará de 8. Paulo- Caderno I, da Villa de Btnto 
André, tlt. 1653, de pag, I até II). 



— 8 — 



cebido no logar, não lhe achou todavia o caracter de um povo 
que vivesse honestamente. Não era uma dessas aldéas de pro- 
víncia com a Bua egreja e o seu parocho, os seus homens mo- 
rigerados posto que rudes, onde logo se recebe, com a impres- 
são de tranquillidade e socego, a segurança que dão a hones- 
tidade e a honradez. 

A fama da primeira auctoridade do logar, isto é, do alçai- 
de-mór, parece não ter sido das mais tranquillisadoras e res- 
peitáveis, pois que o viajante se considerou feliz por encontrar 
ausente essa auctoridade. João Ramalho, de facto inspirava ter- 
ror e seu filho, que foi quem recebeu e hospedou o viajante, 
ainda mais desconfiança inspirava do que ob próprios selvagens. 
Posto que muito bem recebido por elle, Schmidel rendia graças 
ao céo por ter sahido com vida daquelle antro. 

E 1 bem fácil de comprehender o que seria, n'uma socie- 
dade incipiente e retirada da civilisação, um potentado como 
João Ramalho, investido de um cargo publico. Fazia-se te- 
mer de toda a gente, dictava a lei sem contraste, e tratava 
com as auctoridades do littoral, com o representante do dona- 
tário, como quem impunha condições. Se lh'as refusavam, re- 
bellava-se, usava de represálias na plena certeza de que havia 
de acabar triumphando. 

£' o próprio Schmidel quem nol-o conta. 

Ramalho considerava-se o conquistador dessas terras e com 
direito a governal-as. Naquella occasião refere o viajante, elle 
se achava em questão com os próprios portuguezes do littoral 
por motivo de direitos e prerogativas, mas era bem certo que 
elle tinha e podia dispor de mais poder do que ninguém, vis- 
to como podia pôr em campo até cinco mil indios quando da 
parte do rei ou do donatário não se reuniriam dous mil. 

Mas, voltemos a tratar de Santo André que é aqui o prin- 
cipal objecto do nosso estudo. 

A aldêa, aliás villa e de recente data, já teria por ventu- 
ra, a esse tempo, as fortificações, baluartes em que se caval- 
gava artilharia, egreja, cadèa e mais obras publicas necessárias 
a que se refere Frei Gaspar da Madre de Deus nas suas Me- 
morias t 

Salvo as fortificações, não é crivei que o tivesse: sinão, 
bem diversa teria sido a impressão do insuspeito viajante. As 
mesmas fortificações não passavam, porém, de simples estacadas, 
a modo dos indios, como o eram nessa épocha as de Santos 
e S. Vicente, a julgar-se por umas velhas gravuras hollandezas 
do século XVI. Feitas de grossos madeiros com os seus fossos 
ao redor, essas mesmas cercas ou estacadas, envolvendo umas 



- 9 - 

tantas habitações toscamente construídas, nào ]>ouco teriam 
contribuído para a má impressão que a aldêa produziu no re- 
cem-chegado, aldêa miserável, te mel bando um reducto de ban- 
didos, cujos moradores ausentes deixavam as suas palhoças fe- 
chadas por longos dias, talvez occupados com as suas lavou- 
ras, ou empenhados nas duras e repetidas expedições para sal- 
tear indios. 

Egreja, cadêa e mais obras publicas só o autor das Memo» 
rias as consigna, apoiado entretanto em documentos nos quaes 
Pedro Taques, antes delle, só achou fundamento para affirmar 
a existência de fortificações, obras aliás communissimas naquel- 
les tempos, não só nos povoados como nas residências isoladas, 
porque assim o exigiam as circumstancias, e o perigo imminen- 
te diante da gentilidade temível pelo seu numero como pelos 
seus processos mysteriosos de guerra. 

Nao é crivei que em três annos, que tantos contava a po- 
voação, desde a visita do Padre Leonardo Nunes, com os fra- 
quíssimos recursos de mào de obra e de materiaes de que nessa 
épocha se dispunha, falta que por tantos annos adiante ainda 
se fazia sentir, (1) João Ramalno tivesse realizado tanta cousa. 

Egreja ou ermida? se alguma ali se chegou a edificar, não 

Sodia ser senão alguma capellinha de taipa de mão, á semelhança 
as que hoje denominamos — Saneia Cruz; cadêa?... seria decerto 
um desses bárbaros troncos no fundo de alguma palhoça miserá- 
vel ; obras publicas?... que obras publicas haveria nessas paragens 
ainda mal devassadas, onde as estradas e caminhos não eram 
mais que as pobres veredas dos índios, invadidas pelo mato e 
que bó se limpavam quando, na terra, se esperavam visitas de 
pessoas de consideração, mas em que se passavam os rios a váo, 
ou ás costas de um índio robusto, e se atravessavam grandes 
alagadiços, extensos banhados, com as roupas erguidas e os pés 
descalços, como por muitos annos adiante ainda se praticava? 
O autor das Memorias, decerto, equivocou-se, enriquecendo 
a aldêa de Santo André com edificações que nunca existiram e 
que João Ramalho, o alçai de-mór, por maior que fosse o seu 
poder, não logrou jamais realizar. 



(1) Prova disso é a velha egreja do Collegio de S. Paulo de que o autor dirigia 
a demolição em 1S96, depois das grandes chovas que a fiíeram desabar. Basa obra 
tinha tido refeita e concertada em diversas ópoehas. Â natureza do material ahi empre- 
gado, a qualidade e o typo da mio d* obra demonstravam nao só pobres» com difflcnlda- 
de de o conseguir. A pedra vinha de Santo*, a cal era de marisco e vinha também do 
littoral, ai ferragens eram importada*. B6 a talha, o adoba e a madeira eram do logar. 



— 10 — 

Santo André da Borda do Campo, na verdade, nunca foi 
mais do que uma pobre aldeia, fadada á uma vida ephemera e 
sem gloria. Mal situada, exposta aos assaltos dos bárbaros por 
se achar muito próxima das mattas, n&o contando com a boa 
vontade da gente do littoral, e, depois da vinda dos jesuítas, 
que foram os melhores e mais eficazes impulsores do povoamento 
ao paiz, não contando também com as sympathias destes, a villa 
de João Eamalho não possuía as condições essenciaes de prospe- 
ridade nesses tempos. 

A sua rápida decadência e total aniquilamento explicam-se, 
portanto, pelas mesmas causas que determinaram a fundação e 
crescimento de São Paulo, cerca de três léguas campo a dentro. 

Explorada a região e conhecida a índole dos seus habitan- 
tes, os Padres da Companhia, ao iniciar o seu apostolado no 
Brazil meridional, tinham que escolher com esmero e summo 
tacto o terreno onde a boa semente devia fructifícar. Tinham 
verificado que em Santo André o logar nao era propicio ao seu 
santo ministério. João Ramalho imprudentemente se indispozera 
com elles logo de principio. Fezse inimigo e perseguidor dos 
missionários, pois, cedo, reconheceu nelles os adversários mais 
temíveis contra o género de negócios a que até alli se entregara 
em tropeços. Protectores dos índios, como sinceramente se de- 
claravam os delegados do Padre Nóbrega, n&o podiam nutrir a 
esperança de obter o apoio e protecção do mais poderoso e des- 
temido dos traficantes de escravos. 

Subindo para o campo, onde contavam com bom numero de 
Índios amigos, os padres tinham que evitar Santo André, e se 
conservar longe da influencia e auctoridade do alcaide-mór ; mas 
não tão longe que a acção reparadora delles não se fizesse sen- 
tir naquelle meio onde se tramava com mais ardor o ataque á 
liberdade dos índios. 

São Paulo oppunha-se a Santo André da Borda do Campo 
como uma sentinella á vista, como os pólos oppostos de dois sys- 
temas diversos e também oppostos. Aquelle representava a civi- 
lização do Brazil pela redempção do selvagem; este, ao contra- 
rio, representava a conquista pelo que esta tinha de mais iní- 
quo e oppressor, a escravidão. Um era a persuação, outro era 
a força. Anchieta era a brandura, Ramalho era a violência. 

Venceu a brandura, fructificou a fé, converteu- se o selvagem. 
Santo André desappareceu sem deixar vestígios; mas o systeina 
que elle representava, supplantado agora, não soffre sinão um 
prolongado adiamento, porque em menos de um século resurgirá 
victorioso e irresistível com os bandeirantes. 



— ii — 

São Paulo, fundado pelos jesuítas a 25 de Janeiro de 1554, 
menos de um anuo depois que se elevou á villa a povoação de 
Santo André, tornou-se logo o refugio do indio como dos chris- 
tãos, e rapidamente prosperou, bafejado pelas auctoridades, pelo 
povo, e, mais que tudo, pela extrema solicitude dos seus heróicos 
fundadores. 

Seis annos mais tarde, actuando nestes campos como um 
centro de attracçao que o sentimento religioso, a segurança e a 
justiça tornaram irresistive], Sào Paulo impunba-se, de facto, 
como a cabeça do município serrano. O deslocamento dos inte- 
resses maiores da sociedade, de Santo André para a nova povoa- 
ção fundada pelos Padres da Companhia, era facto tão univer- 
salmente reconhecido que a mudança da villa para Sào Paulo é 
apenas uma sancç&o desse facto que se realiza com aprazimento 
de quasi todos, não sendo mister recorrer- se aos bons officiosdas 
auctoridades, para se obter como favor feito aos padres aquillo 
que pela força dos acontecimentos naturalmente se explicava. 

Os mais antigos moradores christãos de Piratininga tinham- 
se transferido quasi todos para Sào Paulo, e eram estes os que 
agora se empenhavam para que a sede da villa também se trans- 
ferisse. Conseguida de Mem de Sá a mudança da sede, solici- 
tam da rainha regente d. Catharina a confirmação, justificando 
a medida tomada pelo governador nestes termos: «E assim 
mandou que a villa de Santo André, onde antes estávamos, se 
passasse para junto da casa de Sào Paulo, que é dos Padres de 
Jesus, porque nós todos lhe pedimos por uma petição, assim por 
ser logar mais forte e mais defensável e mais seguro assim dos 
contrários como dos nossos índios, como por outras muitas cousas 
que a elle e a nós moveram». (1) 

Não foi mister demolir-se a villa de Santo André, pela sim- 
ples razão da mudança da sede, como infundadamente affirmara 
alguns. A povoação nunca foi considerável, como o dissemos. 
Na verdade, não passava de uma insignificante aldeia. O seu 
desappareci mento, dadas as condições anteriormente citadas de 
posição e de população, era inevitável, uma vez mudada para 
São Paulo a sede do governo municipal. Por esse tempo já não 
havia em Santo André mais que uns trinta colonos europeus, 
como na alludida carta se refere. 

A demolição não foi ordenada, nem se tornou necessária. 
Basta fazer-se um parallelo entre as duas povoações visinhas, 
cotejando as boas e más condições de cada uma, para se ficar 



(1) Cara de Jorre Moreira e Joanaes Afrei, officiaes da Camará de 8&o Paulo» 
de 20 de Maio de 1561. 



-~ {*> _ 

compenetrado de qne a mudança da sede importava n'um real 
melhoramento, n'um assignalado progresso para a população ser- 
rana, era, emfim, um facto que se impunha com a vehemencia 
das cousas inevitáveis. Santo André, edificada á sahida da mata, 
era exposta aos ataques dos indivíduos; S.Paulo, ao contrario, 
situada mais campo a dentro, e a cavalleiro de um espigão de 
encostas íngremes, protegida por dous fossos naturaes como o 
Tamanduatehy e o Anhangabahú, era seguro e inspirava confi- 
ança. Santo André representava tradições de guerra com os 
selvagens, salteados de longa data e redusidos ao captiveiro, era 
de facto um pomo de discórdia, e muitas vezes o alvo da vin- 
dicta dos selvagens offendidos; S. Paulo, ao contrario, fundara- 
se com os Índios, isto é, com o auxilio delles, para lhes tservir 
de asylo, protecção, de um centro de justiça, devia, por isso mes- 
mo, ser o alvo da* sympathias e da vigilância do gentio. Santo 
André nào logrou jamais obter a boa concórdia com as auctori- 
dades do littoral, as quaes nào raro lhe levantavam tropeços que 
o génio de Ramalho, arrogante, nào sabia evitar. S. Paulo, ao 
contrario» recebeu sempre das auctoridades e do governador geral 
do Brazil todo o bafejo. Santo André nunca teve egreja, nào 
conseguiu jamais ter um parocho para o seu serviço religioso, 
cousa indispensável naquelles tempos. S. Paulo, pelo contrario 
formou-se sob este influxo, e construiu logo egreja, em torno 
da qual a povoação se foi desenvolvendo, sob a direcção bene- 
ficente dos Padres. Assim, portanto, á paz, á segurança, ao ba- 
fejo das auctoridades, á sympathia do gentio, á influencia reli- 
giosa deve S. Paulo a sua ascendência e preferencia sobre a villa 
do alcaide-mór da Borda do Campo, e só isso basta para expli- 
car a decadência de Santo André que desappareceu sem deixar 
vestígios. 

m 

Foi devido a tào completo aniquilamento, em que até as 

Sroprias ruínas pereceram, que se formou a crença da demolição 
a villa do alcaide-mór da Borda do Campo, que se apagou na 
tradição a memoria do sitio em que existiu nestes campos a pri- 
meira povoação de europeus, e que deixou na Historia este pro- 
blema geographico que ora tentamos resolver. £, de facto é este 
problema de solução possível, á vista dos dados históricos exis- 
tentes, dos caracteres topographicos que facilmente se reconhe- 
cem, e das informações colhidas no local, as quaes, submettidas 
a um exame critico, podem conduzir a resultados concordes e 
fidedignos. 



— 13 — 

E' geralmente sabido qne a povoação, que depois foi villa 
de Santo André, se edificou á sabida da matta, isto é, á borda 
do Campo, e na margem da estrada ou caminho primitivo que 
descia de Piratininga para o mar. A orla da matta e o cami- 
nho são, portanto, duas linhas irregulares embora mas que se 
cortam, determinando um ponto, junto ao qual devia estar o lo- 
gar da povoação de Santo André. 

Vamos procurar esse ponto, pela fixação ou determinação 
das duas linhas referidas — a orla da matta e o caminho. 

Ora, o limite entre a matta e o campo, isto é a orla da 
matta é uma Unha natural, cheia de inflexões e sinuosidades, 
mas indicada por phenomenos physicos invariáveis e que se pode 
assignalar no terreno, ainda quando pela acção dos homens a 
mor parte da flroresta primitiva tenha desapparecido. O cami- 
nho outr'ora aberto pelos selvagens, ainda que de lie se encon- 
trem vestígios authenticos, é sabido que tinha também pontos 
obrigados, ainda hoje reconhecidos e que o homem civilizado, 
tomando conta da terra, nada mais fez que melhoral-o, e se em 
alguma parte se desviou delle, jamais o desprezou inteiramente 
porque, defacto, reconheceu ser a sua directriz a melhor, atten- 
to ao habito instinctivo do selvangem em bem arrumar as suas 
vias de communicação. 

Quem visita essa parte dos campos de Piratininga, visinhan- 
do com a actual villa S. Bernardo, observa logo que as mattas 
são ahi uma vestimenta das elevações que culminam na região. 
Emquanto os campos louros se desdobram pelo dorso das collinas 
e dos espigões mais baixos e um tanto largos, interpostos aos 
sulcos pouco profundos dos ribeiros por onde a vegetação mais 
alta ainda se afoita a penetrar nos prados húmidos la embaixo, 
cá em cima, os montes, dispostos como uma pequena cordilheira 
parai leia a que mais ao sul e pouco distante dá para ver o mar 
e por isso se chamou na linguagem do gentio Paranapiacaba, 
montes, que são o divisor das aguas do Jeribatiba ou rio Gran- 
de de Pinheiro, das do Tamanduatehy ou Piratininga de outr'orá, 
se cobrem de uma vegetação mais densa e vigorosa, com os tron- 
cos vestidos de plantas parasitas, características dos ares húmidos. 

A matta desce dahi das cumiadas ao sopé dos morros, pro- 
jecta ndo-se em franjas mais ou menos largas pelos contrafortes 
mais altos e mais próximos e vem ainda cobrir com o seu man- 
to impenetrável as fontes donde promanam os ribeiros que, flu- 
indo ao sul, vão ao Jeribatiba, e, fluindo pela opposta vertente, 
vão ao Tamanduatehy cujo valle se abre ao septentrião, assigna- 
lando-se ao longe por uma planicie loura e continua. 



— 14 — 

Lançando-se a vista para a carta geographica da região, 
(Vide planta annexa) (1), na parte mais visinha da actual villa 
de S. Bernardo, como dissemos, observa-se qne, na altitude de 
800 metros sobre o mar, a curva de nivel dessa altitude, assi- 
gnalando mui approximadamente o limite entre o campo e a 
matta, corre ahí sinuosa e irregular, avançando para o norte 
com os espigões altos que se projectam nesse sentido, e inflectin- 
do-se para o sul sempre que tem a transpor algum dos aflu- 
entes do Tamanduatehy. Essa linha sinuosa, cujo seio mais fun- 
do se abre aqui no rio dos Meninos, galho mais importante do 
mesmo Tamanduatehy, é o que se pode chamar a borda do campo, 
e no ponto em que ella corta o dito lio dos Meninos é também 
o mais meridional delia, isto é, representa a parte do campo 
que avança ou penetra na matta mais para o lado do mar. De 
sorte que, deixando-se S. Paulo para se buscar S. Vicente, fa- 
zendo-se caminho pelo campo, o mais longo trajecto livre que 
se pode encontrar, nessa direcção t' o que conduz a esse ponto 
no rio dos Meninos, a que acima nos referimos. Em outros ter- 
mos, para quem vem do mar, galgando a serra e atravessando 
as raattas, a parte do campo de Piratininga mais próxima e mais 
fácil de attingir é exactamente essa que fica no valle do rio dos 
Meninos, onde a borda do campo desce mais para o sul. 

Vejamos agora, a outra linha, isto é, o traçado do primi- 
tivo caminho que descia de Piratininga para o mar. 

A directriz geral do caminho entre Piratininga e S. Vicen- 
te corre a rumo de Sul-sueste. A vereda dos Índios seguia essa 
directriz com uma precisão admirável, e tão áómente delia se 
apartava nos chamados pontos obrigados, como sejam gargantas 
das «erras, ou porto de mar a attingir. Esses pontos obrigados, 
que os índios sabiam procurar como ninguém, são : o fundo do 
campo a que acima nos referimos, a garganta do Botujurú nas 
cabeceiras do mencionado rio dos Meninos, a garganta do Pcre- 
quê na serra de Paranapiacaba, e o porto ou apeaçaba onde se 
deviam tomar as canoas para se alcançar as praias do mar. 

De feito, o caminho primitivo, a partir de S. Vicente, 
seguia por mar até o porto , hoje conhecido por Peaçaguéra 
(porto velho) e dahi por terra, fraldeando os morros, procurando 
o enxuto pela orla dos mangues e base da serra, dirigia-se para 
a garganta do Perequê ; galgava a serra de Paranapiacaba por 
essa garganta, e, uma vez no alto, fazia rumo para a segunda 
corda de morros, onde servia de balisa o pico do Ponto Alto, 



0) Veja-sc também a carta da CommissSo Geographica e Geológica de 8. Paulo 
(Folha 8. Paulo), edição preliminar de 18*9. 



- 15 - 



janto do qual se acha a notável garganta do Botujurú que 
quer dizer boca do vento, na linguagem dos Índios, pois que, por 
ahi penetra no horizonte de Piratininga e nob seus campos o 
vento frio e dominante do Sueste. Do Botujurú descia o cami- 
nho pelo valle do rio dos Meninos a procurar o campo mais 
próximo, e desse ponto, pelo campo a dentro fazia rumo quasi 
directo para o logar onde depois se construiu S. Paulo, e exis- 
tiu outrora uma aldêa do gentio. Esse caminho, com pouca dif- 
ferenca, ainda é hoje trilhado, e em mais de um logar se re- 
conhece no meio da matta os vestígios ainda bom visíveis dos 
trechos que já foram abandonados ha mais annos. (1) 

A segunda linha ou o caminho primitivo fica pois perfei- 
tamente determinada pelo seguintes pontos principaes : S. Paulo 
o fundo do campo, no valle do rio dos Meninos, a garganta do 
Botujurú, a garganta do Perequê, a Peaçaguéra e S. Vicente. 
(Vide planta). 

Ora, a intersecção das duas linhas, borda do campo ou orla 
da mata e caminho primitivo aberto pelo gentio determinam 
um ponto que hoje fica a pouco mais de kilometro para o 
Noroeste da actual vi Ha de S. Bernardo. E 1 ahi que o cami- 
nho trazido do mar, ao sahir da mata, entrava no campo. E' 
ahi exactamente o logar de um antigo povoado, desapparecido, 
ha cerca de vinte annos, que era conhecido pelo nome de 
Borda do campo, nome único nesta redondeza, como nol-o in- 
formam os proporios moradores de S. Bernardo. 

Ahi, de facto, devia ter sido o assento da villa de Santo 
André de Jo&o Ramalho, t.-imbem conhecida por Santo André 
da Borda do Campo. Nao poucas são as razões a favor desta 
conclusão. 

O local está situado á sahida da mata ; fica bem na dire- 
ctriz entre S. Paulo e S. Vicente, e portanto sobre o caminho 
tio mar ; conserva ainda o seu appellido primitivo ; os seus últi- 
mos moradores de que ha memoria, ainda bem viva em S. Ber- 
nardo, tinham o typo do indio e delle descendiam. 

O logar fica, com effeito, no meio do triangulo cujos vérti- 
ces soo occupados pela villa de S. Bernardo, pela fazenda de 
S Bernardo velho que foi da Ordem de S. Bento e onde já 
houve uma capei la e a povoação da Piraporinha, correndo nelle 
um pequeno córrego que desce pelo campo a rumo de norte, 



(1) Attesta-o o ir. Joio Baptista de Oliveira (/ode Tteo) natural e morador em 
8. Bernardo, grande conhecedor dessas terrras quasi deshabitadas entre o campo e o 
mar. O sr. Lima declara ter visto em mais de um ponto os vestígios do velho ca- 
minho dos indl:os t o qnal passava no Pereqné : approximava-se do ZanzalA, passava 
o rio Grande na parte aotaal e entrava na garganta de Botujurú. 



- 16 - 

banha a sede da referida fazenda de S. Bernardo Velho ou 
capella e entra no rio dos Meninos pela margem esquerda de- 
pois de um curso de pouco mais de meia légua. Isto confirma 
o que diz Frei Gaspar de Madre de Deus, nas soas Memorias 

Ípando refere que a villa de João Ramalho ficava na referida 
àzenda, pois que esta tinha de facto a sua sede e capella mais 
embaixo, próximo do rio dos Meninos e a povoação da Borda 
do Campo existiu, muitos annos ante, nas cabeceiras do córrego 
cerca de meia légua para cima, e perto do actual cemitério de 
S. Bernardo. (Vide planta annexa.) 

Não têm aqui cabimento as duvidas do dr. Cândido Mendes 
a propósito do que diz Frei Gaspar qnanto ao assento da Villa 
de Santo André, estranhando a troca de invocação, e não jul- 
gando provável a substituição do nome de S. Bernardo ao da- 
auelle martyr e apostolo. (1) E' preciso, porém, observar que os 
dois pontos, a fazenda e o povoado, ficavam distantes um do ou- 
tro cerca de meia légua; que a capella da fazenda, fundada 
muito depois, podia trazer a invocação de 8. Bernardo sem pre- 
juízo do orago da povoação, ou villa extincta havia mais de dous 
séculos. Com o andar dos annos a fazenda prosperou, tornou-oe 
mesmo um pouso obrigado do caminho do mar, emquanto a ve- 
lha povoação da Borda do Campo decahia até desapparecer. A 
invocação da nova capella propalou-se, tornou-se conhecida, em- 
quanto na memoria do povo se perdia de todo a da antiquíssi- 
ma povoação que nenhum velho monumento relembrava. 

Que o logar ainda hoje conhecido por Borda do Campo é 
verdadeiramente o assento da antiga villa de Santo André, ain- 
da ha para o corroborar o argumento da distancia a S. Paulo in- 
dicada nos mais antigos documentos. Eis o que diz o Padre An- 
chieta na Informação do Brazil e de suas capitanias (2), referindo- 
se a S. Paulo de Piratininga: «Esta villa antigamente era da in- 
vocação de Santo André e estava três léguas mais para o mar, na 
borda e estrada do Campo, e no anno de 60 por mandado do go- 
verno de Men de Sá se mudou a Piratininga, porque não ti- 
nham cura e somente dos Padres da Companhia era visitada e 
e sacramentada, assim os Portuguezes como os índios seus escra- 
vos, como nem ainda têm outro cura senão os da Companhia 



(1) Cândido Mendes- Notast para a Historia Pátria— «Os primeiros povoadores. Quem 
era o bacharel de Cansnéa?»— Revista do Instituto Histórico Vol. XL 2.» parte, pag 163. 

(2; informações e fragmentos históricos do Padre Joseph de Anchieta. S. J. (1584 
— I6&6), nos Materiaes e Achegas para a Historia e Geograpbia do Brazil, publicados por 
ordem do Ministério da Pasenda sob a direcção de J. Capistrano de Abreu. A. do VaUe 
Cabral e J. B. da Silveira Caldeira -Rie- 1886. 



- 17 - 

que lhe ministram todos os sacramentos por caridade; onde te- 
mos casa e egreja da conversão de S. Paulo, porque em tal dia 
se disse a primeira missa naquella terra n'uma pobre casinha, e 
em Piratininga, como acima se disse, se começou de propósito a 
conversão do Brasil, sendo esta a primeira egreja que se fez en- 
tre o gentio.* 

Neste precioso trecho se diz pois que Santo André ficava 
três léguas de Piratininga (S. Paulo) mais para o mar, distan- 
cia que concorda precisamente com a que hoje se acha de S. 
Paulo ao logar ainda conhecido por Borda do Campo, e se con- 
firma também que em Santo André não havia egreja, pois que 
a de S. Paulo foi a primeira que se fez entre o gentio; também 
n&o havia parocho, sendo o serviço religioso ali feito por cari- 
dade pelos ladres da Companhia. 

Na mesma Informação, Anchieta fixa em 10 léguas a distan- 
cia de 8. Paulo á povoação do mar de S. Vicente, e n'uma das 
suas zartas ^1) diz que estava S. Paulo situado no interior 
trinta milhas. 

Os dados de Anchieta se confirmam hoje pelos estudos rea- 
lisados na região e bem demonstram como elle era exacto nas 
suas estimativas, elle que tantas vezes percorrera estes caminhos 
e tào attentadamente estudava a região na qual por tantoB an- 
nos permaneceu. 

Frei Gaspar da Madre de Deus que, decerto, ainda conhe- 
ceu a antiga e decadente povoação da Borda do Campo, diz que 
es la ficava cousa de três léguas distante do collegio (S. Paulo). 

Santo André, estava, portanto, a Ires léguas de S. Paulo e 
a sete.de S. Vicente, distancias estas que se verificam hoje para 
o logar a que se dá, nas visinhanças da Villa de S. Bernardo, 
o nome de Borda do Campo. 

Schmidel, na sua citada narrativa, confirma a mesma distan- 
cia de S. André para S. Vicente, dando-lhe vinte milhas de ex- 
tensão, ou cerca de sete léguas, o que confirma os dados da In- 
formação de Anchieta. 

O assento da primitiva e ephemera villa de Santo André, 
segundo os documentos e as condições de topographia do logar, 
já porque ficava á sahida da matta, já por estar á margem do 
antigo caminho do mar que foi primeiro aberto pelo gentio, já 
pelas distancias a S. Paulo e a S. Vicente, e ainda porque uma 
velha tradição o confirma, é, poi tanto, o mesmo logar hoje cha- 



(1) Carta fasendo a disaripeOo das innumeras cousas nataraes que se encontram na 
província de 8. Vicente -nas Cartai Inéditas dê Anchieta publicadas pelo Instituto Hist. 
de 8. Paulo, por occasi&o do 4.° Conte cario do descobrimento de Brasil. 



— i8 — 

mado Borda do Campo, único assim denominado em toda essa 
redondeza, distante da actual villa de S. Bernardo pouco mais 
de kilometro para o Noroeste, no pequeno valie para o qual se 
desce, logo após o cemitério, e onde existe um velho tanque, a 
cerca de meio kilometro aquém da encruzilhada da Piraporinha 

Às minas, por nós examinadas a 17 de Julho, ficam distan- 
tes desse logar — Borda do Campo, 5 kilome^ros em recta para o 
Nordeste, ou cerca de uma légua pelos caminhos ordinários; estão 
fora da directriz geral do caminho do mar, n'um ponto onde a 
matta serrana mais se alarga, restringindo o campo. Estas ruí- 
nas nfto podem ser as da villa de Santo André, por que não pre- 
encham os requisitos apontados nos velhos documentos. £' pos- 
sível que ai li tenha existido cutr'ora alguma fazenda, como tan- 
tas houve nesse valle do Tamanduatehy, na orla do campo, ex- 
plorando a pastaria, a criação do gado, o frete para a região do 
beiramar, o que por mais de três séculos constituiu o meio de 
vida das mais importantes famílias, nos campos de Piratininga. 

Tal foi a impressão que nos ficou do exame destas ruínas 
esquecidas á sombra dos myrtos e das acácias, velhas taipas, cuja 
antiguidade ninguém contesta, mas que certamente não foram as 
que construiu o celebre alcaide-mór, ao lançar os fundamentos 
da sua villa de Santo André. 

S. Paulo, 10 de Agosto de 1903. 

Theodoro Sampaio. 



Documento n. 1 

São Bernardo, 11 de Junho de 1902. 

Ulmo. sr. dr. Tlieodoro Sampaio. 

Em resposta á carta de V. S., de 25 do passado, tenho a 
honra de informar que a Villa de Santo André existia no local 
que até hoje chama-se Borda do Campo, seis kilometros da Esta- 
ção de Sào Bernardo. 

A estrada do Perequê sae no alto da Serra, perto da Serra 
do Poço, meia légua para o lado de cima da estrada Vergueiro. 
Daquelle ponto vem para o lado da estrada Vergueiro, sendo 
cortada por esta em muitos pontos. Passava o rio Pequeno no 
mesmo logar onde existe a ponte; vem sempre sendo cortada em 
diversos pontos pela antiga estrada de rodagem e pela estrada 
Vergueiro até a Villa de Santo André, hoje Borda do Campo; 
passava no rio Grande, no mesmo logar onde existe a ponte. 

O pinhal e o campo existem perto do rio Grande, para o 
lado de cima da estrada, dois kilometros mais ou menos, não 
sendo mais conhecidos pelo nome de Givapê, mas sim, Pinhal do 
Sitio do Rio Grande. 

Quanto ao ribeiro Mororé, eu não o conheço. 

A estrada feita pelos indios em todo o logar neste trecho é 
muito visível. 

Sem outro assumpto, subscrevo-me de V. S. 

Am. e obg. mo Cr. 
João Baptista db Oliveira Líma. 



O FERRO 



(ENSAIO DE HI8T0RIA INDUSTRIAL) 



Estudada isoladamente, como pbenomeno independente, 
seria incomprehensivel a historia da evolução das industrias de 
aproveitamento de nossas jazidas ferríferas nem se encontra- 
ria explicação para o estado de profundo atrazo em que se 
acham. Muda de aspecto a questão, e logicamente encadeados 
uns aos outros se nos apresentam os factos, entretanto, desde 
que os encaremos á luz do systema colonial adoptado por Por- 
tugal, e tomamos apezar de errónea, para guia a orientação 
económica com grande coherencia, seguida pela metrópole no 
Brazil. Hyptonizados pela contemplação do ponto fixo que eram 
as índias productoras de especiarias, os governos portuguezes 
deixaram decorrer alguns lustros entre a descoberta da Terra 
de Santa Cruz e sua exploração methodica pela entrega a do- 
natários de trechos de seu littorai. Mesmo quando se fez sentir 
a necessidade de enfeixar essas concessões equipoderosas em um 
conjuncto subordinado á auctoridade de um representante dire- 
cto de El-Rey, que impedisse lutas locaes e rivalidades estéreis, 
orientasse para o bem da coroa o devassamento do sertão e me- 
thodizasse esforços sem cohesão, mesmo então nas instrucções 
dadas a Thomé de Souza em 17 de Dezembro de 1548 não se 
mencionaram sinão os pontos referentes á administração territo- 
rial, á conquista e á conversão do gentio, aos reditos proveni- 
entes da exportação do páo-brazil e a incipiente industria assu- 
careira. Não se falou nesse regimento nas riquezas mineraes 
do novo continente- 

Nas próprias doações previa-se apenas a eventualidade das 
descobertas de minas para assegurar os direitos reaes aos quin- 
tos e é característica a redacção dos foraes que acompanhavam 
esses documentos de que pode servir de typo a carta relativa 
a Martim Affonso, donatário de S. Vicente, em que se diz : 

« II Item, havendo nas terras da dita Capitania costa, mares, 
« rios, e bahia delia qualquer sorte de pedraria, pérolas, aljôfar 
« e ouro e prata, coral, cobre, estanho, chumbo ou outra qual- 
€ quer sorte de metal, pagar-se-ha a mim o quinto, do qual quinto 



- 21 - 

€ haverá o capitão sua redizima, como se contem em sua doação, 
« e ser-lhe-á entregue a parte que ua dita dizima lhe montar, ao 
« tempo que se o dito quinto, por meus officiaes para mim arreca- 
« dar. (1)» O e&gottamento progressivo das minas auríferas da 
Europa, a tradição da procura do ouro nas costas africanas, reve- 
lada pelos nomes dados aos trechos de território e aos accidentes 
geographicos encontrados (Rio do Ouro, etc.), as partidas desse 
metal trazidas das índias, a formidável massa de metaes precio- 
sos descobertos na conquista hespanhola das costas do golfo do 
Mexieo e do Oceano Pacifico, eram outros tantos incitamentos á 

Êrocura de jazidas no interior do Brazil. Para isto ainda col- 
aborou eficazmente a confusão de linguagem feita pelos Indíge- 
nas e pelos portuguezes, acerca das pedras amarellas e do metal 
amarello, a que já alludimos, no estudo histórico do descobri- 
mento das minas de ouro. 

Logo, que se estabeleciam os donatários em suas capitanias 
e o estado de luctas com o gentio o permitida, começava o 
devassamento do sertão. Chegado em 1531 ao Brazil, em já fins de 
1532 ou princípios de 1533 fazia Martim Affonso de Souza uma 
viagem de exploração, no decurso da qual mataram-lhe os 
•carijós oitenta homens, diz Pedro Tacques (2) 

Máo grado o êxito pratico negativo das primeiras tentati- 
vas, anterior ao estabelecimento das capitanias e de que as 
narrações, a começar pela carta de Pedro Vaz Caminha até os 
dizeres de Américo Vespucio- eram exactos commentarios, ia se 
propalando a lenda de existirem no sertão prodigiosas riquezas 
mineraes. A' descoberta desses thesouros atiravam-se os novos 
povoadores. Sem êxito, positivo como a de Martim Affonso, 
fora a expedição planejada por Thomé de Souza e dirigida por 
Bruja de Spinosa em Março de 1554 ; novo mallogro fora a 
expidição de Vasco Rodrigues de Caldas era ( 1567 e ?) 
e de Sebastião Fernandes Tourinho (anteriores a 1573') Todas 
ellas traziam noticias vagas da existência de minas fabulosa- 
mente ricas, mas ouro, prata ou esmeraldas não eram trazidas 
para amostra, ou perdiam-se em caminho, quando trazidas. No 
Sul, na capitania 3e S. Vicente, a expedição narrada no Diário 
da navegação de Pêro Lopes de Souza 13) produzira resultado 
egual, e a chefiada pelo donatário tora duramente perseguida 
pelos indígenas (4). Continuaram as pesquizas sem descanço 



(\) Foral da capitania de 8. Paulo, Revista do Instituto Historioo 1847, pag. 469 
(2) Hirtaria da capitania dê S. YicenU, por Pedro Taques Rt». do In*t. Historioo, 1847. 
(Z) Reritta do tnstit» tthtorico 1861, tomo XX [V pg, ». 

(4) R' o que o distingue tambea da precedente de ter tido logar em 1632 on 1583 
«anando* outra fora de 1531 



- 22 — 

até que em 1552 apparoceram as primeiras folhetas de ouro 
paulista, conforme consta da carta do bispo D. Pedro Fernandes 
Sardinha a D. João 3.° em 12 de Julho de 1552 (1). Dous 
annos mais tarde Anchieta annunciava a descoberta do ferro, do 
ouro e da prata. 

Alguns escriptores, entre outros o Dr. Francisco Lobo, têm 
querido localisar essa descoberta no morro de Biraçoyaba no 
qual mais tardo se estabelecen uma fabrica, e onde enecti vã- 
mente se encontrou o metal precioso nas proximidades do mi- 
nério ferruginoso, além do que julgaram ahi achar se prata em 
rochas que Frei Pedro de Souza, em 1680, foi analysar, Nâo 
é, entretanto, inatacável essa tentativa de restituição geogra— 
phica. A carta do grande Jesuita, publicada nos Annaes da 
Bibliotheca Nacional fVol. I, nâo affirma, a ligação necessária, 
ou mesmo a proximidade das três espécies mineraes. 

«Agora finalmente descobri u-se uma grande copia de ouro, 
prata, ferro e outros metaes, até aqui inteiramente desconhe- 
cida (como affiimam todos)» diz a missiva. Ora, pouco frequen- 
tes como eram as communicações entre as capitanias entre si e 
com a metrópole, os advérbios de tempo devem ser interpreta- 
dos com certa latitude. «Ultimamente* é a expressão usada por 
Antonil, escrevendo em 1710, para determinar a missão dada 
por Arthur de Sá e Menezes ao Capitão Luiz Lopes de Car- 
valho * e essa incumbência era de 1680, trinta annos antes da 
narração do facto. 

Em 1552 fora achado o ouro; possível ó que uma desco- 
berta de minério de ferro, feita mais ou menos na mesma épo- 
cha na zona entre o littoral e S. Paulo tivesse dado logar a 
que o P.° Anchieta reunisse ambos os factos sob uma epigraphe 
comraum. Vários indicios e alguns factos parecem corroborrar 
esse modo de ver. 

A duas léguas a sueste da actual capital do Estado, na fre- 
guezia de Santo Amaro, á margem de um aftluente do Rio dos 
Pinheiros, foram encontrados minérios que deram logar ao esta- 
belecimento de uma pequena forja. Ainda em principio* do sé- 
culo passado, o Barão de Eschwege poude ver as ruinas desse 
estabelecimento que elle affirma ser, sem duvida alguma, o pri- 
meiro levantado no Brazil (2). Breve teremos occasião de pro- 
var que é infundada esta opinião. Em lodo caso, é certo qu e 



(1) Descobrtmento e devassamento do território de 'Minas Geraes por Francisco Lobo 
Leeite Pereira —Revista do Archivo Pnbllco Mineiro 1092. 

(2) Von Eschwege Pluto Brasiliensis pg. 511. 



- 23 - 

nas proximidades de Santos e de S. Paulo esses minérios exis- 
tiam, na zona em que era natural fossem mais activas as pes- 
quizas. Era lógico, pois, acceitar o alvitre suggerido por aquelle 
sábio geólogo allemão, attribuindo a Affonso Sardinha o desco- 
brimento dessas jazidas. Além de ser este homem conhecido e 
de valor, tanto que em 1556 já era vereador da Villa de San- 
tos, tinha para provar sua competência especial o descobri- 
mento dos minérios do morro de Biracoyaba. Novo elemento de 
prova encontra-se porém no facto de morar Sardinha em um si- 
tio, chamado Ubatá, «junto ao rio Juribatuba que agora se diz 
Rio dos Pinheiros» reza a Chronologia paulista (1) citando Pedro 
Taques; deste sitio, em 1604, antes, portanto, como havemos 
de ver, da fundação da fabrica de ferro, data elle seu testa- 
mento. Morando no local das minas, a proximidade dos primei- 
ros pontos povoados de modo permanente pelos portuguezes, 
nao será natural attribuir-lhe a descoberta? e julgal-a anterior á 
das jazidas do termo de Sorocaba? Esta hypothese que aventa- 
mos permitte conciliar vários factos. 

Eila explica a noticia dada pelo Padre Anchieta em 1554; 
emquanto a localização em Ypanema da primeira descoberta de 
Affonso Sardinha deixaria de pó a duvida suscitada pelo largo 
intervallo que medeia entre a charta quadrimensal que deu a 
nova, e a fundação da usina de ferro do Valle das Turnas em 
1590. E a contrastar com essa demora de 26 annos está a ra- 
pidez das determinações do governador D. Francisco de Souza, 
recebendo em 1597 a noticia de terem sido achados ouro, prata 
e ferro em Biracoyaba e mandando pessoal adestrado e fazendo 
as nomeações necessárias no fim do mesmo anno e começo do 
seguinte. (2) 

Ainda outro motivo de assim pensar encontramos em vários 
auctores antigos, nos quaes não se estabelece quanto ás minas 
da capitania de S. Vicente a ligação entre o ferro, a prata e o 
ouro que enxergam alguns estudiosos contemporâneos. Gabriel 
Soares, escrevendo em 1587 seu Tratado descriptivo do Brazil 
cita somente as jazidas de prata nesse trecho de nosso paiz (3). 

Antonil, descrevendo em 1710 a Cultura e opulência do 
Brazil, diz textualmente o seguinte: (4) 

c Foi sempre fama constante, que no Brazil havia minas 
« de ferro, ouro e prata... Na villa de 8. Paulo ha muita pedra 



(H José Jacintno Ribeiro, Ohronologia paulista. Vol. I. 

(2) Pedro Tacqurs, Informação cobre as minas de B. Paulo. Revista do Instituto 
Histórico. Vol. LXIV, Parte 1.% pag. 6. 

(3) Revista do Instituto Histórico. Vol. XiV, pag. 89. 

(4) Aotonil. Edição de 1837, pag. 141. 



- 24 - 



< usual, para fazer paredes e cercas ; a qual, com a côr, com o 
« peso, e com as veias que tem em si, mostra manifestamente, 

< que não desmerece o nome, que lhe deram de pedra ferro ; e que 
c donde ella se tira, o ha. O que também confirma a tradição, 
€ de que já se tirou quantidade delle, e se achou ser muito bom 
« para as obras ordinárias, que se encommendam aos ferreiros. 
« E ultimamente na serra Ibirasojaba, distante oito dias da villa 
c de Sorocaba, e doze da villa de S. Paulo, a jornadas modera- 
« das, o capitão Luiz Lopes de Carvalho, indo lá por mandado 
€ do governador Arthur de Sá, com um fundidor extrangeiro, 
c tirou ferro e trouxe barras, das quaes se fizeram obras ex- 
c cellentes. 

c Que haja também mina6 de prata nfto se duvida; porque 
c na serra das columnas, quarenta léguas além da villa d'Outú, 
c que é huma das de S. Paulo ao leste direito, ha certamente 
« muita prata e fina... 

c Mas deixando as minas de ferro e de prata, como in ferio- 
« res, passemos ás do ouro, tantas em numero, e tão rendosas 
c aos que delias o tiram. E primeiramente é certo, que de hum 
« outeiro alto, distante três léguas da villa de S. Paulo, a quem 
« chamam Jaraguá, se tirou quantidade de ouro, que passou de 
c oitavas e libras. Em Parn&hiba, também junto da mesma villa 
c no serro Ibituruna, se achou ouro e tirou -se por oitavas... » 

E' lógico, pois, e mais accórde com o desenvolvimento na- 
tural da Capitania, onde em 1554 seis apenas eram as aldeias 
em que se encontravam europeus (1) sendo S. Paulo a mais in- 
ternada pelo sertão e funcada naquelle mesmo anno, pensar que 
as jazidas próximas á Serra do Cubatão fossem as primeiras co- 
nhecidas. A falta de homens práticos no conhecimento e no pre- 
paro do ferro, causa do mallogro das tentativas subsequentes, 
mais ainda devia sentir-se nas primeiras levas de im migrantes 
portuguezes; não é, pois, imprudente a attribnição do achado 
dos minérios a Aôonso Sardinha, o velho morador no próprio 
sitio das minas, que já então occupava logares de responsabili- 
dade na nascente administração e cuja competência está prova- 
da pelos factos posteriores, indiscutíveis, de descobrimento da 
jazida de Biraçoyaba. Permaneceu por largo prazo sem ser uti- 
lizado o deposito ferrífero do Rio dos Pinheiros. 

Continuava, porém, ua Capitania de S. Vicente a penetra- 
ção pelo interior. 



(1) Charta quadrimemal dê Maio a Setembro dê 1554, pelo P.« José de Anchieta. 
Annaes da Bibllotheca Nacional. Vol. I. 1876. 



- 25 - 

Diz a louza mortuária de Braz Cubas ter este descoberto 
couro e metaes no armo de 1560», sem que se saiba ao certo 

?ual o sitio em que o acbado foi feito. Pensa o dr. Orville 
>erby que se trata de corridas auríferas nas circumvisinbanças 
de São Paulo (1). Opina, porém, o dr. Francisco Lobo ter tido 
a expedição de Braz Cubas maior alcance, e ter chegado ao rio 
São Francisco, em cuja região fincou o marco. O certo é que 
as pesquizas se multiplicaram, e pouco a pouco iam se revelan- 
do riquezas animadoras de novas tentativas pelo sertão a dentro. 

Nessa épocha, approximadamente, divulgou -se no Reino e 
na sede do governo da Colónia o Tratado de Gabriel Soares, e 
começou a correr a fama de prodigiosas minas de prata não só 
na Bahia como em São Vicente* Em procura desses tbesouros 
sabira uma expedição dirigida pelo auctor daquelle preciosíssimo 
monumento histórico, e no sertão morrera seu chefe, sem resul- 
tados positivos quanto ás decantadas jazidas. Inspirado nesses 
precedentes, segundo a lição auctorizada do eminente sr. Capis- 
trano de Abreu, partiu para a Hespanba Robertio Dias, e alli 
«offereceu ao sr. Rey D. Felippe 2.* e 1.° de Portugal, mais 

Srata no Brazil do que Bilhão dava ferro em Biscava» (2). Re- 
obraram os esforços de pesquizas. 

E quando morreu Roberio Dias, sem ter podido indicar a 
D. Francisco de Souza, despachado para governador geral do 
Brazil, com instrucçòes precisas e o pessoal e material necessá- 
rio para as averiguações, o local em que taes depósitos se en- 
contravam, já em São Vicente estavam induvidados alguns pon- 
tos onde o ouro se achava e também o ferro. E' de crer que 
a obsessão da prata fizesse juntar á noticia daquelles metaes 
também a deste ; e essa idéa fixa por largo prazo se fez sentir, 
pois em 1680, ainda foram pelo Frei Pedro ae Souza analysada 
as rochas do Y panem a, com o intuito de descobrir nellas o metal 
branco. 

Frei Àffonso Sardinha, o velho, acompanhado por seu filho 
de egual nome, quem assim devassou o sertão paulista á procura 
de mineraes. 

Mais feliz do que seus predecessores, poude elle achar o 
ouro em Jaraguá, em Jaguamimbola, em Ivituruna em 1597 (3), 



(1) Os prímêiroa descobrimentos do ouro «m Minas Grraes, Revista do Instituto 
Histórico de Bio Paulo, Vol. V., 1899 — 1900. 

(2) Informação soar* as minas de São Paulo « dos eertões ds sua Capitania, Pedro 
Taquei, II v. cit. pag. 5. 

'3) Informação sobre as minas, pag. 8. 



- 26 - 

e esse metal, com a prata e o ferro em Biraçoyaba em 1590 
ou 1597 (1). 

A insistência com que Taques o chama de paulista leva a 
crer ter nascido Sardinha na Capitania, lá por volta de 1531, o 
que lhe daria 25 annos apenas na épocha em que o elegeram 
vereador da Villa de Santos. Por outro lado existe uma escri- 
ptura de 9 de Junho de 1615, pela qual elle e sua mulher d. 
Maria Gonçalves fazem uma doação aos Jesuítas. Isto lhe daria 
uma existência mínima de 85 annos, e 66 teria elle ao desco- 
brir o ouro na Mantiqueira. Nenhuma dessas conclusões é diffi- 
cil de admittir-se, nem mesmo a pouca edade com que foi mem- 
bro da administração local, pois a lei única da Capitania era & 
vontade do donatário ou de seu representante, não vigorando as- 
Ordenações em virtude do próprio systema de colonização ado- 
ptado por Portugal. Traz, porém, esse modo de encarar o pro- 
blema uma dificuldade supplementar, o saber de quem Sardinha 
teria obtido os conhecimentos precisos para se tornar perito em 
distinguir os minérios de ferro e sua metallurgia rudimentar. 
E' possivel que somente um após o outro lhe tenham sido mi- 
nistrados esses elementos technicos. Dos seus progenitores teria 
aprendido a conhecer os oxydos de ferro, o que daria áquelles» 
como berço provável, o norte do Portugal, onde mais facilmente 
eram conhecidos os minérios biscainhos. Nesta phase teria des- 
coberto a jazida de baixo teor metal li co do Rio dos Pinheiros. 
Com o affluxo de novo pessoal, trazido pelas náos vindas do 
Reino, ou desembarcado de bordo dos corsários e piratas que 
infestavam a costa brazileira, é possivel tivesse chegado a São 
Vicente algum fundidor hespanhol ou francez, ao qual Sardinha 
viesse a dever sua instrucçao metallurgica. Essa hypothese ex- 
plica satisfactoriamente dois factos, um dos quaes, sem ella, é 
problema insolúvel: é este a impossibilidade de ter aquelle pau- 
lista, isto é, nascido na Capitania, feito sua educação profissional 
com recursos puramente locaes; o segundo facto, é justificar, 



(1) Pedro Taques, Nobiliarchia Paulistana, Revista do Instituto Histórico, Vol. 
XXXIII, parte 1.», pag. 93; e 8enador Vergueiro, Memoria histórica sobre a fundação ia 
fabrica de São João do Ypanrma, Lisboa 18->8, pag. 10. A Informação de Pedro Taques 
dá a data de 1597 para todas essas descobertas eoglobadamente ; a Nobiliarchia cita o 
mesmo anuo em vários pontos. Mas, além do que contem a Memoria do Senador Ver- 
gueiro, eocrlpta em 1822, á vista das Xotas genealógica* de Taques e onde figura a data 
que adoptamos, temos ainda o depoimento deste mesmo auctor na Nobiliarchia, onde diz 

que o descobrimento das minas de ouro de Hybiracoyaba, no termo de Sorocaba , 

afoi em 1590. Nfto acceitamos esta data para os depósitos auríferos de Jaguamimbaba 
(hoje serra da Maotaguyra) e Vuturuna, termo da villa de Parnahyba, em viBta das. 
datas concordantes da Informação e da Hittoria da Cap.* de São Vicente, Inc. cit.» 
pag. 443. Além de Affonso Sardinha, cita a Nobiliarchia, Revista do Instituto Histórico* 
Vol. XXXIII. pag. 207, na biographia de D. Maria Castanho, o nome de um Clemente 
Alves, que teria sido auxiliar do primeiro. 



r 



- 27 - 



respeitando todos as nossas deducções anteriores, o largo prazo 
decorrido entre a descoberta do deposito pobre do Rio dos Pi- 
nheiros e sua utilização, não por Sardinha, mas por unia socie- 
dade de que mais adeante fallaremos. 

Em todo o caso, quando foi feito o descobrimento do morro 
de Biraçoyaba, já conheciam-se em Sâo Paulo os processos de 
extracção do ferro, de seus minérios, provavelmente pelo metho- 
do catalão. E a prova disto está em que, ao chegar D. Fran- 
cisco de Souza no local das minas, encontrou a fabrica funccio- 
nando com recursos próprios de Affonso Sardinha. Ha varias 
versões sobre o modo por que este engenho de fundir ferro foi 
estabelecido. 

Diz Vergueiro, citando as Notas genealógicas, que «Affonso 
« Sardinha começou em 1590 uma fabrica de ferro de dois en- 
« genhos para a fundição do ferro e aço em Biraçoiaba, que 
« laborou até o tempo que o dito Sardinha doou um destes en- 
« genhos ao fidalgo D. Francisco de Souza, quando em pessoa 
< pasáou a Biraçoiaba, no anno de 1600, e como era governador 
« do Estado, alli fundou pelourinho, que muitos annos depois pas- 
« sou para a Villa de Nossa Senhora da Ponte de Sorocaba ; e 
« recolhendo se ao Reyno em 1602, em que chegou á Bahia o 
« seu successor Diogo Botelho, despachado por Felippe III, Rey 
c de Castella, ficou o dito engenho a seu filho D. António de 
c Souza, a quem Sardinha tinha feito a graciosa dadiva, e deste 
« passou a Francisco Lopes Pinto, Cavalheiro Fidalgo e Professo 
c na Ordem de Christo, por morte do qual (em São Paulo a 26 
« de Fevereiro de 1629), se extinguiu o dito engenho, e cessou 
c a fundição de ferro de Biraçoiaba, em que com o dito Pinto 
« era interessado seu cunhado Diogo de Quadros, e tudo consta 
« do testamento do dito Francisco Lopes (cartório dos órfãos de 
« de São Paulo, maço de inventários d. F. n. 24). Foi o dito 
« Paulista Affonso Sardinha, de muitos merecimentos pelo ardor 
« que teve no Real serviço ; porque tendo dado o seu engenho 
« de fundir ferro a D. Francisco de Souza, fez construir outro 
€ á sua custa para nelle laborar a fundição por conta do Rey, a 
c quem fez esta doação » (1). 

Dos mesmos factos dá Pedro Taques noticias diversas. Na 
Historia da Capitania de São Vicente (loc. cit. pg. 450), diz elle : 
« Nesta terra de Biraçoiaba houve um grande engenho de fun- 
« dir ferro, construído á custa do paulista Affonso Sardinha, 
« cuja manobra teve grande calor pelos annos de 1609, em que 



(1) Consta do Archivo da Comarca de 8ao Paulo, 1* do Reg. do anno de 160 
pag. 36. 



- 28 — 

« voltou a Sào Paulo o mesmo D. Fraucisco de Souza, consti- 
« tuido governador e administrador geral das minas descobertas 
« e por descobrir das três capitanias, com mercê de marquez 
« de Minas com trinta cruzados de juro e herdade; fallecendo, 
« porém, em Sào Paulo o mesmo D. Francisco de Souza, em 
c Junho de 1611, com o decurso dos annos se extinguiu o labor 
« da extracção do ouro e da fundição de ferro». 

Já na Nobiliarckia (loc. cit. pg. 93), a narrativa é a seguinte: 
« Este Affonso Sardinha fez fabricar dois engenhos de ferro, 
« em que se fundia excel lente ferro, e com muita abundância, dos 
« quaes ainda no presente tempo existe no serro de Hybiraçoiaba 
« uma muito grande bigorna, que a todos accusa e recorda a 
c certeza daquella fabrica (falleceu no tempo do Morgado de 
« Matheus, e continuou por pouco tempo). Em 1606 era prove- 
« dor e administrador destas minas Diogo Quadros, por ordem 
« regia, como se vê na Camará de São Paulo, no caderno de 

«vereações, tit. 1606, pag. 18 

« Affonso Sardinha contentou-se só com a gloria do real serviço, 
« fazendo o descobrimento dos três metaes, ouro, prata e ferro, 
« tudo a sua custa. Até os engenhos ] ara se fundir o ferro entre* 
« gou a S . Magestade. Porem correndo os annos houveram mais 
« engenhos; porque os del-rei administrava Diogo Quadros como 
« provedor. E em 1609 ainda existia o dito Quadro com esta 
« administração, como se vê na Gamara de S. Paulo no caderno 
« de vereações do anno de 1607 pag. 23 e 24 v., d'onde consta 
c que os ditos engenhos foram de Affonso Sardinha, que os dera 
« a Sua Magestade por lhe fazer este serviço etc. Em 1629 fal- 
« leceu em S. Paulo Francisco Lopes Pinto, cavalheiro fidalgo 
« da casa real, professo na ordem de Christo; e no seu testa- 
c mento declarou que era senhor de um engenho de ferro, cuja 
« metade vendera por preço de três mil cruzados a D. António 
« de Souza, filho de D. Francisco de Souza, governador e capitão- 
c general que fora do Estado do Brasil (Cartório de orphãos de 
« S. Paulo, inventários letra F) Porem no presente tempo não 
c existe mais certeza, que o do sitio onde as pedras de ferro são 
« em grande abundância. E por falta de quem ensine o corpo 
« da pobre capitania de S. Paulo (que foi a que deu tantas minas 
€ de ouro e pedras preciosas à real coroa pelos seus nacionaes 
« paulistas, que ainda continuam nos mesmos descobrimentos ao 
c presente) estão muitos haveres debaixo da terra, podendo existir 
« patentes para augmento do real erário etc. » 

Na Informações sobre as Minas (loc. cit. pg. 12), depois de 
enumerar as providencias tomadas por occasião da primeira via- 
gem de D. Francisco a Biraçoyaba, e as instrucções e poderei 



- 29 — 

de que vinha munido na sua segunda estada em S. Paulo, con- 
tinua Pedro Taques; 

« No pouco tempo, que teve de vida, depois que chegou a 
S. Paulo, D. Francisco de Souza, fez laborar as Minas todas 
de ouro de lavagem com grande augmento dos Reas quintos 
e o engenho de ferro, que o Paulista Affonso Sardinha, o velho 
mandou construir, e estabelecer a sua custa, no sitio de Bira- 
çoyaba, e a deo, para desta fabrica se aproveitar Sua Magestade, 
que antes desta offerta só percebia o 5.° da fundição deste 
metal (Camará de S. Paulo Quad. de Vereanças rt. 1607 pg. 28). 
No seo tempo construir&o o Engenho de ferro da Vocação N. 
Sr.* da Assumpção no sitio de Barapoeira da outra banda do 
Rio Jerábátiba, os Fundadores delle, Francisco Lopes Pinto, 
Cavalheiro Fidalgo da Casa Real, e professo da Ordem de 
Christo, e seo cunhado Diogo de Quadro, o qual tinha vindo 
em 1606 por Provedor, e Administrador das Minas, como fica 
referido: etao bem com a morte de Francisco e depois com a 
de Francisco Lopes Pinto a 26 de Fevereiro de 1629, veio 
este Engenho a ficar destruído, sendo que os sêos Fundadores 
tinhào interessado nelle em nua ame*ade a D. António de 
Souza, filho piimogenito de D. Francisco por preço de três 
mil cruzados, de que celebrarão escriptura, em que assignarão 
os 3 interessados na Nota do Tabelliam Simão Borges em 11 
de Agosto de 1609 (1/ Cart. de Notas de S. P. Quad. tt.° 
Julho de 1609 pag. 16 V.*)» 

Essas diversas narrações são confusas e contradictorias, o que 
deve ser levado á conta da differença de epocha em que foram 
escriptas e aos novos documentos consultados para redigir Pedro 
Taques o manuscripto mais recente. 

Hoje, porem, com a divulgação de peças desconhecidas em 
1772, com o exame da zona em que se desenrolaram esses acon- 
tecimentos, pode se afirmar que ha fusão de duas ordens de 
factos diversos, formando um conjuncto único nos trabalhos pre- 
cedentes. 

Compulsando esses novos auxílios á historia metallurgica do 
ferro no Brasil, pode ser reconstituido sua phase inicial pela 
forma seguinte. 

Biraçoyaba, ou Morro de Araçoyaba segundo a lição conte- 
poranea, é um serro que se acha na comarca de Sorocaba. Em 
1710, quando o sertão paulista já estava í rilhado e as coinmuni- 
cações eram mais fáceis, dizia Antonil que eram precisos doze 
dias de viagem para transpor a distancia que separava essa loca- 
lidade da villa de S. Paulo. Devia ser mais longa a jornada em 
fins do século XVI, principalmente em se tratando de uma via- 



- 30 - 

gem de descobertas, sem estradas de atemão conhecidas e onde 
o guia natural, os accidentes geographicos como os rios ou as 
serras, leva sempre pelos caminhos mais desenvolvidos. Seja qual 
íôr a data exacta da entrada dos paulistas nesta região, o certo 
é que somente em 1597 se deu conta dos descobrimentos ao Go- 
vernador Geral D. Francisco de Souza (1) que se achava então 
na Bahia. Comprehendendo o valor da nova que lhe era dada, 
e emquanto se a pi estava a seguir para as minas, mandou imme- 
diatameute nomear o admnistrador deliam, Diogo Gonçalves Laço, 
a quem também fez Capitão da Villa de S. Paulo, deu-lhe um 
alferes, Jorge João, e, providencia mais acertada, remetteu para 
lá dois mineiros experimentados, Gaspar Gomes Moalho e Miguel 
Pinheiro Zurara, vencendo estes por anno 200$000 cada um 
(Com,. Quad. Seg. tt 1598 pg. 3, 30 e 43), e um fundidor, D. 
Rodrigo ou Rodrigues, com as necessárias instrucções e ordem 
para receber do almoxarife da Fazenda Real da villa de Santos 
o dinheiro de que este carecesse para seus trabalhos. Chegaram 
esses homens práticos em S. Vicente a 18 de maio de 1598. 

Poder-se-ia dizer que a estes, e não a Affonso Sardinha, 
caberia a gloria de ter levantado a usina do Araçoyaba, tendo o 
Paulista somente a de descobrir o minério. Não parece procedente 
esta arguição, pois consta dos documentos, unisonos neste ponto 
terem sido os engenhos construídos á custa daquelle, que os 
doou, como cousa sua, a El-Rey. Os trababalhos dos auxiliares 
remettidos por D. Francisco, a ser exacta a versão que contes- 
tamos, deveriam ter sidos pagos por Sardinha. Ora diz Taques, 
baseando-se no 1.° livro de regimentos do Cartório da Provedoria 
que alem dos ordenados do pessoal foram despendidos 589$100 
da data da sua chegada até Janeiro de 1598, para o benefício 
das Minaá. Essas despezas, portanto, deviam ser outras que não 
as do estabelecimento da usina, custeada pelo Paulista illustre, 
fundador da siderurgia no Brasil. 

Em Outubro de 1598 partio da Bahia para o sul o Gover- 
nador Geral (2), aportando em poucos dias na Victoria, afim de 
providenciar sobre o descobrimento das esmeraldas e da prata 
de que havia noticia na Serra do Mestre Álvaro. Mandou também 
de lá para as lavras de S. Vicente uns duzentos índios, cujo 
transporte por mar se fez em navio de Aguine por conta do 
do Almoxarifado de Santos, á vista da provisão datada de Victoria 



0) Informação sobre as minas loc. cit. pg. 6. Seguimos, em grande parte, eite 
documento para narrar as duas visitas de D. Francisco a Biraçoyaba. 

(2; Frei Vicente Salvador Historia do Brasil* Ánnaes da Bibliotheca Nacional, Vol. 
xin pag. 169 e 102. 



— ai - 

a 1 de dezembro de 1598. D. Francisco de Souza ainda parou 
no Rio de Janeiro, onde providenciou sobre a admnistraçao da 
justiça que encontrou inteiramente descurada, e depois de rechassar 
uns corsários que lhe e embargavam a sabida, seguia para 
S- Vicente abi chegando em princípios de 1599. Vinham em sua 
companhia, alem de soldados e officiaes tirados do presidio da 
Bahia, dois allemães, um mineiro e outro engenheiro, chamados 
Jaques de Palte (Walter ?) e Geraldo Betimk, vencendo cada um 
200$ por anno. A 23 de Maio seguio o Governador para Sorocaba 
e as minas, deixando em Santos, para guarnecer a villa contra 
os corsários, as companhias militares que trouxera da Bahia. De 
Junho a princípios de Setembro de 1599 ficou elle em Biraçoy- 
aba, inspeccionando as minas e melhorandoas ; mudou -Ih es o 
nome para N. Senhora do Monserrate e ahi levantou pelourinho. 
Já em 1.° de outubro estava elle em S. Paulo, donde datou 
uma provisão alterando de 100$ para 200$ o ordenado do Capi- 
tão Diogo Gonçalves Laço (1), e só voltou ás jazidas em 11 de 
fevereiro de 1601, E' pois inexacta a affirmação das memorias 
de Frei Gaspar da Madre de Deos quando dá a D. Francisco 
como presente em Biraçoyaba em 160O (2)« Desta Segunda via- 
gem voltou elle para S. Paulo antes de Junho, pois em 19 de 
julho já nesta villa elle expedia instrucções a André de Leão 
que ia fazer uma entrada pelo sertão á procura da prata. Regis- 
trada a doação do engenho de ferro de Affonso Sardinha a El- 
Rey no primeiro livro dé regiauentos de 1600, no Archivo da 
Camará de S. Paulo, como affirmam as Xotas Genealógicas citadas 
por Vergueiro (3), parece razoável suppôr ter se dado a transfe- 
rencia no anno anterior. Em 1601 morria Laço, dando lhe subs- 
tituto o Governador na pessoa de um neto, daquelle e determi- 
nando que, durante a menoridade deste, servisse de capitão de 
S. Paulo e suas minas Pe^ro Árias de Aguirre. Assim se fez, e 
D. Francisco de Souza voltou para Portugal succedendo lhe no 
Governo Diogo Botelho, que em 1608 chegou do reino directa- 
mente á Pernambuco, cousa que nunca acontecera até então (4). 
Em Madrid D. Francisco, alem de provar a lizura de sua admi- 
nistração, conseguio despertar a at tenção de Felippe 3.° sobre 
as riquezas novamente descobertas no Brasil, organizando se então 
o regimento das terras mineraes de 1603 e obteve a concessão 



(1) Cartório da Provedoria da Fasenda, Livro do Regimento da Provedoria n., 1, 
tt. 1207 doe pagamentos do Almoxarifado Joio de Abreo pag. 70, Archivo da Camará de 
«. Paulo, Qnaderno do Regimento tt. 1608 pag. 161. o Apend Informação e pag. 7. 

<2> Bevitta do Instituto Histórico, VoL XXIY, 1861, pag. 562. 

tt) Loc oit. pg. li. 

(4) Frei Vicente do Salvador, loc. cit, pag. 164. 



_ 32 — 

de favores epeciaeB para os colonos que viessem estabelecer— se 
na colónia. O transporte e o sustento era fornecido gratuitamente 
a esses homens de bôa vontade ; era facultado ao novo Gover- 
nador e administrador geral das minas descobertas e por descobrir 
nomear o foro de fidalgo da casa de S. Magestade em quatro 
pessoas, e de cavalleiro fidalgo em cem e o de moço da Catnera 
em outros cem ; para a obtenção desses favores, alem de deverem 
taes pessoas possuir as qualidades do Regulamento do Mordomo 
Mor, precisavam os beneficiados ter servido nas minas um anno 
para o gráo inferior e dous annos para o superior. A D. Fran- 
cisco, qne foi nomeado para esse novo cargo de administrador 
geral das minas, era concedido ainda nomear em quem lhe pare- 
cesse dezoito hábitos da ordem de Christo, sendo 12 com tença 
de 12$000 e 6 com a de 50$000, para pessoas qre durante três 
annos pelo menos tivessem trabalhado nas jazidas e possuíssem 
os requizitos legaes. Permittia-se-lhe nomear quem lhe succedesse 
em caso de morte, e poder dar por três vidas os officios de justiça 
e de fazenda (1). 

Conhecedor do Brasil, que já governara por três annos, e 
tendo ido demoradamente vizitar o districto mineiro de S&o Vi- 
cente, obteve do rei de Hespanha e Portugal, o regimento de 15 
de Agosto de 1603, e o estabelecer se no novo continente uma 
verdadeira administração de terras mineraes, sob sua direcção, e 
abrangendo, além de um thesoureiro, com 120$ por anno, três 
mineiros de ouro, sendo um especialista em betas, um de péro- 
las e um de esmeraldas, e ura ensaiador a 240$, por anno cada 
um, um mineiro de salitre com 200$ e dous de ferro com 160$ 
cada um. 

Datam de 2 de Janeiío de 1668 esses alvarás, esboçando o 
systema instituído pela metrópole para fomentar o desenvolvi- 
mento de minas e organisar o aproveitamento delias. Á carta 
patente nomeando D. Francisco, é de 15 de Junho do mesmo 
anno, e uma provisão de 28 de Março definiu alem de três ca- 
pitanias ( S. Paulo, Rio e Espirito Santo ), ainda se lhe daria 
jurisdicção directamente subordinada ao Rei, na própria Bahia, 
elle a teria si se descobrissem minas ou si elle as mandasse des- 
cobrir. 

Antes disdo, porém, em 1605, Diogo de Quadros tinha sido 
nomeado provedor e administrador das minas de S . Paulo, e como 
tal, succeaendo a Aguirre e João Mendes (que tinha vindo como 
provedor administrativo-mór do Estado,), lhe coube dirigir os 
trabalhos da fundição da tabrica real de Biraçoyaba. 

(\) Informação iobre a$ minai, loc. cit. pas. 8-11. 



- 33 - 

Só pedia para recompensa de seus esforços, diz Frei Vieente 
de Salvador, o marquezado das minas, outrora recusado a Roberio 
Dias. Obteve ainda a mercê de trinta mil cruzados de juros e 
herdade, ennuncia Pedro Taques. Um facto, entretanto, se sabe 
e é narrado por Frei Vicente, c Morreu estando tfto pobre, que 
me affirmou um Padre da Companhia, que se achava com elle 
á sua morte, que nem uma vela tinha para lhe met terem na 
mão, se a não mandara levar do seu convento ; mas queriria 
Deus alnmial-o em aquelle tenebroso tranze, por outra» muitas 
que havia levado diante, de muitas esmolas e obras de piedade, 
que sempre fez. » 

Acredita Pedro Taques que D. Francisco so chegou em São 
Paulo em Novembro de 1609 ( 1 ). Existe, entretanto, uma ea- 
criptura de sociedade para a fundação de uma fabrica de ferro, 
datada de 26 de Fevereiro desse anno, em que um dos sócios é 
o marquez das Minas ( 2 ). Isto parece demonstrar que, logo após 
sua nomeação, partiu o administrador geral de Portugal para o 
Brasil, onde chegou em princípios de 1609 (3). Occcupado, porém, 
com a installaçào da nova usina, achacado de doenças que o 
levaram ao tumulo, tendo de acudir ao desenvolvimento da ex- 
tracção do ouro, não é provável nem consta fosse elle novamente 
rer as minas de Biraçoyaba. Estas iam sendo dirigidas por 
Diogo de Quadros, que pouco após a morte de D. Francisco de 
Souza, em 10 de Junho de 1611 (4), mais se dedicou á nova 
usina do que á antiga, vindo esta a cessar seus trabalhos. 

Ao envez disto, e em contraste com os sertanistas que já 
preferiam o ouro a qualquer outra exploração (5), quiz o ad- 
ministrador geral das minas desenvolver o fabrico do forro na 
Capitania de S. Vicente. Já eram conhecidas outras minas, como 
já vimos; e para aproveitai-as foi celebrado por ercriptura de 26 
de Fevereiro de 1609, em notas do tabellião Simão Borges de 
Cerqueira, (diz a Chronologia ) , um contracto de sociedade entre 
o marquez das Minas, o provedor da fazenda Diogo de Quadros 
e o cunhado deste Francisco Lopes Pinto. Vizavam os sócios es- 
tabelecer o novo engenho na ilha de Santo Amaro, á margem do 



(J ) Informarão, loc. cit. pag. lo. 
( 2 ) Chronologia paulista. 

(3) A Informação dfs que foi em 1606, A Di»êrtação s obre a Capitania dê São 
Paulo, de Maroellino Pereira Cleto. (annaes da Btbliotheca Nacional, rol. XXI p*gs. 207 
c 204) dá a prova de que em 1605 Quadros já estava no Brasil, e allegava ajobrigacfto 
em qne estava de construir engenhos. y-J 

(4) yobiliarrhia loc. clt. vol. XXX vV pag. 162. i 
(5 ) Aflonso Sardinha em testamento feito em 1604, bem demonstrou sna preferencia 

pelo valor do ouro qoe dis possuir, proveniente das lavras por elle descobertas, ao dos 
trabalhos, siderúrgicos por elle iniciados no Brasil. 



- 34 — 

rio Geribatuba, fronteiro á ilha de S. Vicente e á esquerda do 
Morro das Neves. Esses termos da e ç criptura indentifieam esta 
fabrica nova com as ruinas visitadas por Eschwege em 1810, 
approximadamente . 

O auto de erecção á freguezia ( 14 de Janeiro de 1680 ) da 
capei Ia de Santo Amaro, erecta por João Peres e sua mulher 
Suzana Rodrigues, naturaes de Portugal e vindos na frota de 
Martim Aftonso, declara que se acha este edifício collocado á 
margem do Gerybatuba, « nome que o vulgo corrompeu na pro- 
nuncia para o de Jerubatuba». E a mesma Chroivjlocjia citando 
Taques, declara, a propósito da carta patente do Capitílo-mór 
Joào Corrêa, nomeando Sardinha o primeiro descobridor de mi- 
nas no Brasil, que o sitio de Ubatá, pertencente a este ultimo, 
estava localisado junto ao rio Jurubatuba « que agora se diz Rio 
dos Pin eiros ». Nào ha duvida, portanto, que as minas attribui- 
das pelo Barão de Eschwege, á primeira fabrica de ferro brasi- 
leira, e sào efectivamente da segunda, que estava collocada nas 
vizinhanças das terras de Affonso Sardinha, morador no Ubatú c 
emquanto que o engenho se achava « no sitio Borapoeira ( 1 ) da 
outra banda do Rio Jerabatiba », segundo affirma Taques (2). 

Fica assim elucidado quaes os fundadores e proprietários e 
qual a data da fundação desta usina, que o enminente geólogo 
allemào declarava serem factos históricos desconhecidos ; e fica 
feita a restituição geographica, desconhecida egualmente no dizer 
da Nóbiliarchia. 

A nova installaçao devia ser uma cópia da do Biraçoyaba, 
inspirada pelos mesmos operários constructores desta, talvez mesmo 
superintendida por Sardinha, que ainda vivia nessa occasiào e 
tinha seu grande engenho de assucar nas proximidades do novo 
estabelecimento industrial. Ambas as fabricas eram seguramente 
fogos catalães, únicos conhecidos por esses mineiros iberos ou 
portuguezes ensinados por estes. Movia-se a braços um foles de 
couro que soprava ar húmido na forja ; faziam-se as reacções, e 
formava-se a bola de metal recoberta e entremeiada de escorias . 
A golpes violentos de malho, movido pela roda d'agua purifica- 
va-se e estirava-se o ferro, que era assim transformado em barras. 
A um canto da tenda amontoavam-se as escorias, ricas em ferro 
sempre, mais rica aqui como er.~ Ypanema pela natureza refra- 
ctária do minério tratado. 



( 1 ) Informação loc. clt. pag. 12. 

(2) Ebiropecira è o nome deste rttio, como o appellida Mareei li no Pereira Cleto, 
Ditsariaçâo a respeito da Capitania dt S. Paulo, Annaes da Blbliotheca Nacional, vol. 
XXI, de 1899, pag. 208. 



— 35 - 

Achava-se bem installada a fabrica; á beira rio, o cembus- 
tivel era facilmente transportado, a mina estava á porta, e os 
productos acabados, descendo o Jerubat'iba e o rio dos Pinheiros 
encontravam logo o mercado de Santos, e pelas estradas antigas 
e do P. e Anchieta, as das villas acima da Serra do Cubatão. 
Ficava assim resgatada a relativa inferioridade do tear metallico 
do minério quando comparado com o da serra do Biraçoyaba, 
onde os transportes eram mais difficeis. Fabricou ferro durante 
vinte annos, e somente cessou quando morreu Francisco Lopes 
Pinto a 26 de Fevereiro de 1629. Pertenceu a principio ao 
marquez das Minas, a Diogo de Quadros e a Lopes Pinto; este 
porém, cedeu por três mil cruzados metade de sua parte a D. 
António de Souza, filho do marquez, segundo consta da escri- 
ptura de 11 de Agosto de 1609, lavrada em notas do tabelliao 
Borges de Cerqueira (1) e vem declarado no testamento de 
Pinto (2). A esta, seguramonte se referiu Frei Vicente de Sal- 
vador dizendo : c Ferro ? Muitas minas ba delle, e em S. Vi- 
cente está um engenho onde se lavra finíssimo >. (3) 

Assim findou em 1609, após trinta annos de duração, a 
primeira phase da siderurgia no Brasil. 

O trabalho da fabrica real de Biraçoyaba, e o transporte do 
ferro, dos materiaes e do pessoal entre esse logar e a villa de 
S. Paulo não tinham conseguido estabelecer uma estrada per- 
manente, ao longo da qual os pouzos balisassem o centro das 
futuras povoações. Sorocaba, por exemplo a cujo termo pertenciam 
as minas, só em 1610 foi fundada. Não é de estranhar, portanto, 
que pouco a pouco se perdesse a noção dessas jazidas metallife- 
ras, em uma epocha na qual as vistas se voltavam preferencial- 
mente para as pesquizas do ouro, que ia sendo descoberto em 
quantidades cada vez mais crescentes. E' muito explicável, por- 
tanto, que, por 1680, Luiz Lopes Carvalho, Capitao-mór de N. 
Sr.* da Conceição de Itanhaem, por provisão de Príncipe D. Pe- 
dro, insinuasse a este a conveniência de ser verificado a proce- 
dência dos dizeres vagos que corriam sobre o valor dessa região 
(4). Essa exposição de Pedro Taques parece mais exacta do que 
a narrativa do Senador Vergeiro, pela qual Lopes de Carvalho 
se teria inculcado como descobridor da minas de ferro (5), en- 
tregando-as em 14 de Março de 1681 á Camará da villa de 
Sorocaba 



(1) Informação loc. clt. pg. 12. 

(2) Sobiliarchia loc. clt. pg. 03. 

(3) Hiêtoria do Brasil loc. cit. pg. 24. 

(4« Xobiliorckia loc. cit. vol. XXXV parte 2.» pg. 54. 

(5) Memoria Mobre Ypanema, loc. clt. pg. 11. 



— 36 — 

Desde 1682 os irmãos Jacintho Moreira Cabral e Pascoal* 
Moreira Cabral, sertanistas ousados, a mando do príncipe regente, 
mais tarde D. Pedro II, acompanharam a Frei Pedro de Souza,, 
que viera de Portugal por oraem real para verificar o valor da 
prata e metaes da serra de Biracoyaba. 

A formalidade citada pelo Senador Vergueiro, devia ter sido 
como que uma declaração previa das descobertas feitas por esses 
paulistas. Delia teve conhecimento o governo metropolitano, que 
immediatamente deu providencias para que não ficasse inexplo- 
rada a riqueza novamente divulgada. A 2 de Maio de 1682 
mandou o Príncipe varias cartas autographas aos paulistas mais 
illustres da Capitania, afim de que elíes auxiliassem dedicada- 
mente a tentativa que ia ser feita ; entre outras receberam essas 
missivas Pedro Vaz de Barros, morador na frepuezia de S. Roque, 
termo da villa de Parnahyba, Domingos de Brito Peixoto, mo- 
rador na villa de Santos e Pedro da Guerra Leme, residente em 
Cubatão. (1) E em 5 de Maio do mesmo anno outra carta régia 
auctorizava o alcaide mor Jacintho Moreira Cabral, Martim 
Garcia Lumbria e Manoel Fernandes de Abreu a levantarem 
uma fabrica de ferro em Araçoyaba. (2) 

Não se encontram vestígios nos documentos até hoje divugal- 
dos de ter sido levada a effeito essa construcção. Antes se pode 
concluir o contrario, em vista de uma Carta de Sesmaria passada 
em 11 de Março em 1698 por Thomé Monteiro de Faria fami- 
liar do Santo Officio, governador e Capitão-mór de Itanhaem, 
como procurador bastante e loco-tenente do Conde da Ilha do- 
Príncipe, D. Francisco Luiz Carneiro de Souza, donatário dessa 
Capitania* Nesse documento declara Faria : « Faço saber que a 
c mim me enviou a dizer por um petição Luiz Lopes de Carva- 
« lho que elle intentava levantar uma fabrica para fundição 
« de ferro na serra de Biracoyaba termo da villa de Nossa Se- 
« nhora da Ponte de Sorocaba, com ordem que para isso tinha 
« de S. Magestade, etc., etc. » Não é crivei fosse esta ordem 
dada se tivesse sido exercitado o direito constante da então 
recente concessão feita em 1682. Nem siquer so poderia pensar 
em se tratar de duas fabricas que pudessem coesistir, pois o» 

Sedido de Lopes de Carvalho, vasto como foi, 4 léguas em qua- 
ra, abrangia toda a área da minas, das aguadas e florestas in- 



(I) Taques. Historia da Capitania, loc. cft. pg. -»50 ; NobiHarckia, Revista da. 
Instituto Htstorico vol. XXXV, parte 2.», pg. 54, vol. XXXI II pg. 58 e 59. 

(2i Chronologia Paulista. 



- 37 — 

'dispensáveis ao tratamento metallurgico (1). E' tanto mais de 
se crer essa falta de execução, quanto a petição de Lopes de 
Carvalho se filia á serie de esforços que desde 1690 vinha fa- 
zendo para estabelecer a fabrica a principio no Rio de Janeiro 
e depoia em S. Paulo causa sobre a qual iam expedidas as Car- 
tas Régias de 16 de Outubro de 1691 e 23 de Outubro de 1692 
(2) mandando pedir a informação do governo da Capitania ; dahi 
resultou a transferencia da installação para Biraçoyaba a que 
allude a petição. O outro elemento de convicção se encontra no 
facto de ter recebido o Capitão mor Martim Garcia Lumbria uma 
carta d'El-Rey, datada de 20 de Outubro de 1698, na qual este 
lhe agradece os bons serviços prestados e promette favores (3). 
Ligados como estavam Lumbria e Lopes de Carvalho, havia mais 
de vinte annos, é licito suppôr que estes agradecimentos se re- 
ferissem á nova tentativa de estabelecer a fabrica em Biraçoyaba, 
e, assim sendo, certamente não poderia crear-se uma forja nova 
se existisse a anteriormente concedida a Moreira Cabral, a Abreu 
e ao próprio Martim Garcia, 

Varias causas collaboraram, a ] artir de 1700, para affastar 
das industrias outras que a agricultura, no Norte, e a extracção 
do ouro e dos diamantes, no Sul, a actividade do novo aggru- 
pa mento e th nico que ia sendo formado pelas três raças origina- 
rias sob o influxo do clima do Brazil. 

Nas capitanias septemtrionaes a natureza geológica dos ter- 
renos condemnava as tentativas de ahi fundar-se a siderurgia 
(4). O cobre era mal conhecido no alto sertão bahiano (5). So- 
mente o ouro poderia tentar, como e flecti vãmente tentou, o es- 
forço dos conquistadores do nosso hinter-land. Um grande acon- 
tecimento, porém, paralysou as pesquizas deste género; a occu- 
pação hollandeza ao littoral e a genuinamente brasileira guerra 
de reconquista. Trinta annos consumiram essas luctas gloriosas, 
nas quaes a permanência na zona maritima dos homens validos, 
obrigava até certo ponto a se desenvolverem as industrias dire- 
ctamente ligadas á exploração cultural. O Norte, por sua con- 
stituição estructural e pelos acontecimentos políticos de que era 
theatro, tornou- se cada vez mais agricola, até que de 1660 em 
•diante recomeçaram as entradas pelo valle do médio S. Francisco. 



(1) Chronologia PauUtta, 

i2) Publicações do Ârckico Publico Nacional, Vol. I pg. 68 e 61. 

(3) Xobiliarckia, loc. clt. Vol. XXXIV pg. 67. 

(4) Gabriel Soares (loc. oit pg. 326) tala em minai de ferro e aço, trinta léguas 
s dentro pelo sertão da Bahia, sem indicação de logar entretanto, ellas nunca foram ex- 
ploradas. 

(ò) Gabriel Soares (loc. ctt. pg. $27). 



— 38 — 

Ao estudarmos a historia do ouro, ficou evidenciado quanto se 
intensificavam as descobertas de jazidas no decurso da segunda 
metade do século XVII, até produzir-se o grande rusk nas minas 
de Cataguazes durante o primeiro quartel do século seguinte. 

Um outro facto politico de ordem geral, vinha tolher a liber- 
dade relativa com que se desenvolvia o espirito industrial na 
colónia portugueza. Aos poucos iam sendo resgatados pela coroa 
aos antigos donatários as capitanias que elles ainda geriam. A' 
administração mais tolerante do loco-tenentes ia se substituindo 
as regras meticulosas da organização burocrática da metrópole. 

Ao tal ou qual equilíbrio dos interesses dos donatários e dos 
do governo portuguez, período no qual havia logar para o ap- 
parecimento e relativo desafogo das interessantíssimas tentativas 
de iniciativa particular, succedia uma phase de absoluto predo- 
mínio das doutrinas e pontos de vista fiscaes, no mais estreito 
sentido da palavra. 

Em breve ia surgir a era em que a regulamentação do 
trabalho e das industrias se faria, com o intuito de somente per- 
mittir certas lavouras, altamente rendosas para o fisco, no norte 
e, além destas, a exploração das lavras auríferas e dos cascalhos 
diamantinos no sul ; aqui, mesmo, a lavoura era inteiramente 
subordinada á mineração, como teremos occasião de ver. Os 
nossos territórios conquistados pelos bandeirantes organizavam-se 
pelo typo das capitanias reaes, onde o Hei era representado pelo 
governador e capitão general. 

Tudo evoluía, pois, para uma especialização industrial im- 
posta pelo meio cósmico, mas profundamente modificado pelo 
exclusivismo fiscal do ponto de vista adoptado pelo governo me* 
tropolitano. 

Foi neste ambiente politico e económico artificial que co- 
meçou o século XVIII no Brasil. 

No mesmo sentido ia se exercendo a acção individual, obe- 
decendo a factos que determinavam, pela lei do menor esforço, 
novo rumo para seus trabalhos. 

Na primeira phase do povoamento, a utilização do solo tinha 
sido puramente agrícola. Para fazer face ás exigências das cul- 
turas, e, mais tarde seus hábitos de ócio adquiridos na abun- 
dância do trabalho servil, tinham se estabelecido de modo per- 
manente as entiadas pelo sertão para os descimentes dos índios : 
era a escravização systematica do selvicola. Aos poucos foram 
se despovoando as florestas de seus habitantes humanos ; em redor 
dos povoados, do littoral, primeiro, e dos do interior, mais para 
diante, formo u-se o vazio, quando se gerou nos aborígenes a 
convicção de que não podiam luetar contra os invasores. Estes, 



— 39 — 

portanto, pela fatalidade lógica eram levados a transpor distan- 
cias cada vez crescentes para obterem fructuosas caçadas huma- 
nas. Cedo começou esse movimento, e dentro em pouco se alar- 
gou o raio dessas expedições, de que datam os ódios irreconci- 
liáveis entre o bandeirante e o jesuíta. 

Elemento formador da nossa feição territorial, a bandeira de 
resgate, partindo de S. Vicente ou dos campos da Firatininga 
ia por umlado pncuiarcY o catnn.o Ê\il, nié o Rio Grande, 
lançando a semente que mais tarde germinaria na colónia do 
Sacramento ; por outro, plantava os padrões com as quinas por- 
tuguezas em plenas missões par aguavas, e ; com Wilhelm Glimmer, 
transpunha a Mantiqueira [para esbarrar no Alto S. Francisco. 

Mais cautelosas, pela experiência no trato com os brancos 
e os mamelucos, e mais conhecedores do terreno os Índios fugiam, 
e quando possivel, vingavam-se das atrocidades commettidas pelos 
bandeirantes. Luctas sem conta, tragedias sem espectadores, 
tinham por theatro as florestas de beira-rio ou os planaltos que 
separam os valles. 

Cruzes toscas nos trilhos seguidos balizavam a conquista 
cruenta, e o sertão apparecia nas narrativas como o incontrasta- 
do domínio do terror, pelo inhospito de suas solidões pavorosas 
e pela ferocidade dos homens que nelle penetravam. A' procu- 
ra dos que se retiravam diante das invasões, viam-se obrigados 
os paulistas a devassar regiões cada vez mais afiastadas. No- 
vos rios e regatos eram descobertos, e em todos elles a batêa 
do garimpeiro analysava as areias e as corridas. Em breve 
prazo, concomitantemente eram objectivo das entradas o resga- 
te dos indios e a descoberta de no /os cascalhos auríferos. Com 
mais algum tempo, o primeiro estimulo desapparecia para dar 
logar á preoccupaçao exclusiva da procura do ouro. 

População inculta, desenfreiada, sobre a qual a lei, por de- 
terminação regia, se nào exercia com seu rigor costumeiro por 
ser o Brasil logar de degredo; homens ásperos, selvagens e for- 
tes como a própria selva em que penetravam, eram-lhes desco- 
nhecidos os sentimentos de piedade para com seres, por elles 
reputados eguacs ás alimárias. Foi a acção persistente dos je- 
suítas nas Índias Occidentaes, nunca interrompida mau grado 
os revezes, e eterna honra para seu nome, quem preparou o ad- 
vento dessa era nova. 

O inicio do século XVIII era o alvorecer do período de 
transição. 

No ambiente politico e económico, a que alludimos em pa- 
ginas anteriores, vinha actuar um factor moral que indicava o 
norte de uma nova phase na historia da região das minas. 



— 40 — 

Encontram-se numerosos documentos escriptos dessa orien- 
tação. 

Escasseiam as ordens régias sobre a escravisação dos índios 
na segunda metade do século XVII, e que significa, em parte, 
a diminuição dessa immoralissima industria. Em compensação, 
tornam-se mais frequentes as injuncçoes aos officiaes da coroa 
para promoverem as descobertas de jazidas. E finalmente acha- 
se a expressão suprema da subordinação de todos os ramos da 
actividade industrial á extracção do ouro e dos diamantes, nas 
ordens regias sobre a agricultura e as industrias nas minas. 

«A única base em que se sustentão os Interesses Políticos 
« da Capitania de Minas Geraes» diz o Desembargador Teixei- 
« ra Coelho (1), he a extracção do ouro ; ao mesmo passo que se 
c arruinar esta baze, se verão destruídos e extinctos os ditos 
« Interesses». 

E maiB adiante o mesmo auctor narra (2): 

«Logo que as Minas foram descobertas, e se entrarão a 
c povoar, se fez nellas hum grande numero de Engenhos de 
c deatillar agoa ardente de cana. Sua Magestade foi informa- 
c do de que estas Fabricas eram prejudiciaes á Real Fazenda 
c porque nellas se occupavão infinitas pessoas que podião em- 
« pregar-se em outros Ministérios... 

«Os prejuízos destas Fabricas são evidentes, porque os ne- 
€ gros enoebedão-se, e fazem mil disturvios, e os Escravos, que 
« trabalhão nellas, podião empregar-ae na extracção do Ouro. 
c Na Capitania de Minas somente se deve trabalhar nas La- 
« vras, e na altura das terras, que produzem os géneros neces- 
« sarios para o sustento dos Povos; e as Agoas ardentes deca- 
« na devem hir para Minas, das Capitanias de S. Paulo, e do 
« Rio de Janeiro, onde não ha ouro.» 

Dessa theoria económica derivam as ordens régias: de 18 
de Novembro de 1715 mandando que D. Braz Balthazar da 
Silveira impedisse o levantamento de novos engenhos; de 26 
de Março de 1735, oriunda da Resolução de 11 de fevereiro 
do mesmo anno, pelo qual se manda que Gomes Freire de An- 
drade informasse sobre os prejuízos causados pelo estabelecimen- 
to de engenhos e engenhocas de Minas á Aguardentes do Reino, 
e a conservação dos Negros ; de 12 de Junho de 1743, que com- 
minou penas graves aos constructores de novos engenhos em Mi- 
nas, mesmo se apenas mudassem de sitio as que já existissem nas 



f\) Instrmc{Ío para o Oovemo da Capitania dê Mi*a* Gtrau w ReyisU do Arcai- 
▼o Publico Mineiro, Vol. de 1003 pg. 49*. 
(2) Id. pg. 556 e 5(0. 



— 41 — 

fazendas, e ordenou aos ouvidores indagassem nas correições si 
tal si tinha dado procedendo contra os culpados se os houvesse. 

A ella ainda se filia o celebre alvará de 5 de Janeiro de 
1785, que prohibiu a existência de fabricas no Brazil, a t ten- 
dendo aos interesse da agricultura e da mineração do ouro. 

E' bem de ver que nessas condições, nem o interesse par- 
ticular, attrahido pelos lucros a se auferirem nas lavras aurífe- 
ras, nem o do erário publico, a quem cabia o quinto dos pro- 
ventos na extracção do metal precioso, tinham conveniência em 
promover o estabelecimento de industrias outras que não fos- 
sem a mineração do ouro. Por esse motivo é que por largo 
prazo, a partir da» tentativas falhas de 1680-1682 e de 1698 
permaneceu no olvido a industria de ferro, e, ao ser a atten- 
ç&o novamente chamada para ella, não foi em Minas uma das 
zonas mais ricas deste metal, mas sim no local tradicionalmen- 
te indicado para essas tentativas, em Biraçoyaba, que novo em- 
prehendimento deste género foi iniciado, em 1765. 

Já então, profundas modificações se tinham dado no modo 
de considerar-se o Brasil. Este não era mais quantidade ne- 
gativa, ou desprezível, nos cálculos da pervisão politica e dos 
desígnios geraes de Portugal. Aqui já se pensava, e se agia, 
de modo a col laborar eficazmente nos planos governativos da 
metrópole. 

No século XVI e no XVII simples logar de deportação ou 
terra inculta entregue á guarda e ao aproveitamento dos dona- 
tários, ainda nos primeiros annos do século XVIII pouco valor 
de acção própria tinha nosso paiz. 

Foi então que elle começou a provar que existiam em seu 
seio energias próprias, capazes de realizar as vizoes propheticas 
dos escriptores antigos quando escreviam aos reis portuguezes 
ser a nova terra capaz de nella fundar-se um grande Império. 

Já era Brasileiro o redactor do admirável preambulo do 
tratado de Madrid, de 1750, e, nas Capitanias, o auxilio intel- 
lectual prestado pelo elemento local á administração do capitães 
generaes é de uma importância que só podem apreciar aquelles 
que costumam revolver os velhos documentos depositados nos 
nossos Archivos. Infelizmente, esses estão pouco divulgados. 
As collecções de Ultramar ainda nada, ou quasi nada, disseram 
quanto á collaboração brasileira na grande obra politica de Por- 
tugal, quer quanto á administração Pombalina, quer no tocante 
á formação territorial de nosso paiz. 

Nos nossos próprios archivos dormem esquecidos notáveis 
trabalhos, cuja publicação se impõe, e que demonstrarão não 
terem sido somente a reivindicação nortista contra os Hollan- 



— 42 — 

dezes e a conquista do valle amazonense, as grandes obras do 
particularismo local na formação politica do Estado do Brazil. 
Nesses repositórios de factos históricos se encontra a prova do 
quanto agia esta terra, que caminhava para sua emancipação 
politica, no sentido de não obdecer pubalternamente, mas colla- 
bornr eficazmente com seus conselhos na direcção dos aconte- 
cimentos de politica internacional na região do Sul. Os estu- 
dos necessários á confecção deste trabalho levaram-nos a com- 
pulsar alguns resgistros da correspondência dos governadores das 
capitanias entre si, com os Vice-Reis ou com as altas auctori- 
dades da Metrópole. Gerou-se-nos a convicção que publicados 
esses papeis veneráveis, outra será a versão adoptada para ex- 
plicar a historia diplomática e politica de Portugal e sua pos- 
sessão americana, desde a fundação da Colónia do Sacramento 
até a paz de Santo Ildefonso. Merecem ser destacadas as corres- 
pondências de Gomes Freire, Luiz Diogo Lobo da Sylva e Luiz 
António de Souza. 

Para o periodo que mais de perto nos interessa são estes 
dous últimos os governadores cujos actos devem ser estudados 
com mais cuidado. Está inteiramente fora dos moldes deste 
trabalho indagar minuciosamente dos governos destes represen- 
tantes da Coroa, em tudo quanto fizeram para apparelhar o 
Brazil na lucta surda posterior ao tratado de 1763, assignado 
no El-Pardo, até a explosão dos rompimentos em 1777 entre as 
duas cortes de Lisboa e de Hespanha. A estes factos, entre- 
tanto, prende-se a historia da tentativa de estabelecimento de 
nova fabrica de ferro no termo de Sorocaba, em 1765. (1) 

Nesse anuo, a 28 de Fevereiro, uma carta régia concedia 
privilegio exclusivo por dez annos a Domingos Ferreira Perei- 
ra, morador na Capitania do Rio de Janeiro, para na comarca 
de S. Paulo minerar ferro, chumbo e estanho, podendo estabe- 
lecer uma ou mais fabricas para caldear esses metaes, não po- 
dendo nenhuma outra pessoa, durpnto esse tempo, fazer o mes- 
mo, sob pena de ser detida na cadeia por tempo de dois me- 
zes, ficando o privilegio isento dos direitos senhoriaes dos quin- 
tos por cinco annop, depois de montada a fabrica. (2) 



(1) Vergueiro, loc. cit. p«r. 11, da a dAta de 1770, mas é um equivoco. 

(2) Chronologia paulista, o termo da J tinta que se fez para excluir João Fritz 
Geraldes de sócio da fabrica de ferro, a fundar- Be em Araçoyaba, íxrch. de 8. Paulo 
Vol. XII pg. 4b) diz, por extenso 1766. Ontra isto protestam a Chronologia e as da- 
tas das primeiras cartas sobre este asiumpto, quer as de Lniz Diogo, qner as do pró- 
prio D. Luiz António de Souza. 



- 43 — 

Ora nesta epocha andava accesa a controvérsia sobre limi- 
tes entre S. Paulo e Minas, de que nos dá idéa approximada a 
collecçfto de documentos publicados pelo Archivo paulista. Âo 
mesmo tempo preoccupava seriamente aos governadores as con- 
sequências do tratado d'El-Pardo; e da correspondência (ainda 
inédita) entre elles se deprebendem quantas responsabilidade» 
sentiam pesar-lbes sobre os bombros e a lealdade, acerto e no- 
breza com que enfrentavam a solução dos múltiplos e difficilli- 
mos problemas oriundos dessa pbase do conflicto secular bispa— 
no-portuguez . 

Em 13 de Dezembro de 1765, escrevia Luiz Diogo Loba 
da Silva a seu collega de S. Paulo, que todas as contendas de- 
viam cessar deante a premência dessa dificuldade máxima : a 
defesa da colónia contra o inimigo bespanbol. E, depois de enu- 
merar os recursos de que dispunha, em homens e material bel- 
lico, remettia planos de bombardas e morteiros para terrenos 
montanhosos, e accrescentava: « o ponto está que V. Ex." na 
« nova fabrica q° me dizem q c tem de ferro em Sorocaba ache 
« q m fasa as bombas, granadas e algumas balas das d a> calibres, 
« por ter dos de húa poucos dos de 2 ninhumas, e haver dia— 
« tancias p* que não servem os cartuxos. » (1) 

Quando recebida esta carta por D. Luiz António de Sousa, 
tinba-se erigido apenas uma pequena forja para experiências, e 
mil dificuldades eram allegadas pelo concessionário e pelos fun- 
didores, para explicar o nenhum resultado de sua tentativa. O 
capitão-general ia esmorecendo e nesse sentido respondeu ao de- 
Minas. Voltou este immediatamente á presença de D. Luiz, ani- 
mando-o nestes termos. « Segundo o que Y. Ex.* me refere da 
« fabrica de ferro eu me não dezanimára a poder conseguir delia 
€ as bailas, bombas e granadas em que lhe falley, pois se pode- 
« riam fazer, supri n doso com hum proporcionado e pequeno for— 
« no, e instrum toB conducentes á mesma manufactura, ainda q° 
c em duplicadas fundiçoens húa parte destas muniçoens tam es— 
« senciaes, q do a indigência dos fabricantes não seja tal q e ca- 
« reção de mendigar o sustento, e q e nan poderiam vencer, se/ 
« fosse prepararem no p* outra qualidade de obras de ferraria, 
i arnearia e sarralheyros, porq° neste cazo p* porem o dito ge— 
« nero na pureza necessária, já era precizo passar pelo segundo, 
c e terer° forno, e martellos d'afinage ; mayarm te q d0 outras mais- 
« crescidas se tem dissolvido neste governo. » (2) 



d) Inédito. Archivo Publico de Minis. Livro de registro da correspondência do» 
gorei-nadores, n. 143. 

(2) Arcbívo de 8. Panlo, Vol. XIV, pags. 177485. 



- 44 - 

Apezar de todos os esforços não melhoraram as condições 
technicas do trabalho na nova fabrica. Possuímos um depoi- 
mento de auctoridade incontrastada sobre o caso: as cartas em 
que D. Luiz António communicava ao Conde de Oyeras, o 
grande Sebastião José de Carvalho e Mello, o resultado desses 
esforços. Em 3 de Janeiro de 1768 dizia elle: (1) 

«A Fabrica de Ferro he huma das couzas que me tem dado 
« mayor trabalho, sem que até agora conseguisse o dezejado 
« fructo, ou seja pela pouca experiência do Mestre ou por de- 
« maziada malícia delle, porque para tudo pode ter lugar a 
« suspeita. Sendo S. Mag e que Deos 6 e Servido dar faculda- 
« de a Domingos Ferreira Pereira para poder nesta capitania 
c minerar ferro e chumbo, logo que o dito aqui chegou passou 
« ao Morro do Hibarassoyaba, no districto da Yilla de Soroca- 
« ba, a fazer as primeiras experiências e em huma pequena 
« forja, que para isso erigi o com o mestre de caldear o ferro 

< João de Oliveira Figueiredo, tirou as primeiras amostras que 
« em 9 de Dezembro de 1765 remeti de Villa de Santos a V. 
c Ex.* Passado pouco tempo, voltou o dito Domingos Ferreira 
c Pereira com o mesmo Mestre para o Rio de Janeiro, dizendo 
« que hia ajustar a Sociedade desta negociação entre as pessoas 
« com que estava contractado ; e partindo-se demorou mais de hum 
« anno, sem formar a dita Sociedade, nem os Sócios lhe aprom- 
« p tarem os meyos neessarios pi»ra a creacçào destas Fabricas, 
c Voltando segunda vez a esta Capitania, sem concluir couza 
« alguma lhe procurey fazer nesta cidade huma Sociedade, fa- 
c zendo vir a minha prezença os homens de negocio, que me 
« parecerão mais capazes, e propondo lhes as utilidades que po- 
« diào rezultar ao publico e ao Real Erário, com efíeito se ajus- 
« tarão na forma que pedia o dito Domingos Ferreira Pereira, 
« cedendo este aos Sócios a metade de tudo o que lhe perten- 
« cia nesta negociação, em virtude da graça que obteve de S. 
c Mag e de que fizer ão segurança de escriptura, obrigando-se os 
« sócios a concorrer logo com dés mil cruzados para principio 
« da primeira Fabrica, tanto para se saber a Arte do Mestre, 
« como tão bem para se fazerem as experiências sobre o rendi- 
« mento da pedra, e da conta que fazia, e tãobem se obrigarão 
« ob mesmos sócios a erigir todas as mais Fabricas que se jul- 
« gasse precizas para sustentar de ferro com abundância, não só 
c esta capitania mas tãobem as mais deste Brazil, concorrendo 
c toda a Sociedade para fazer os mais gastos, que accrescessem 

< depois de acabados os dés mil cruzados com que entraram 



(!) Archivo de s. Paulo, Vol. XIV, 1895, pag. 39. 



- 45 - 



para a fundação da primeira fabrica. Porem, como o Mestre 
de caldear o ferro Jofto de Oliveira de Figueiredo tinha fica- 
do no Rio de Janeiro com tenção de passar se a Angolla, co- 
mo se dizia, e sem elle não se podião por em pratica as ex- 
periências, escrevy ao Conde da Cunha, Vice-Rey para que o 
fizesse vir, o que elle promptamente executou, remetendo-o 
prezo em dias ae Fevereiro de 1767. Logo que chegou o Mes- 
tre, achando-se ja restabelecido o contracto da Sociedade, na 
forma que a V. Ex.* tenho referido, forào dar principio a pri- 
primeira Fabrica em dias de Junho do referido anno de 1767, 
e depois de examinarem e conhecerem aquella cituaçào, que 
na distancia de duas legnas em quadra he continunada mina 
de pedra férrea, eom abundância de lenha e agora (agua?) 
para sustento das Fabricas, entrarão logo em construcçâo da 
primeira, pondo em pratica as experiências de caldeaçào de 
ferro e aço, e modo de estendel-o. Nestas obras se tem traba- 
lhado desde aquelle tempo em té o prezente, com grande des- 
pendio dos accionistas em fazer fornos grandes, e pequenos 
por diferentes modos, safras, martellos, malhos, rodas e enge- 
nhos para os mover, e tudo o necessário tenho mandado lá 
assistir pessoas Engenhosas e experientes, e nào he possivel 
acertar se com a caldeaçào do ferro nem fazel-o egual ao da 
primeira amostra, que a V. Ex.* remeti. Nestes termos ou isto 
né insuficiência do mestre, o que pode ser, por elle não ter 
nunca trabalhado em Fabrico, nem visto as de Biscava, ou 
será compra de pessoas mal intencionadas, que pelos ineyos 
delle se fazer ignorante, per tendão inutilizar a Fabrica. E 
para que se possa remediar este damno remeterey a V. Ex * 
pela primeira imbarcaçào, que vier a Santos, alguns cayxões 
de pedra, para que V. Ex.* possa mandar examinar por hum 
Mestre perito, ou de dentro, ou de tora do Reyno (antes de o 
remeter para cá para se nào fazerem com elle gastos supérfluos) 
se o deffeito procede da pedra, ou da p uca experiência deste 
Artífice que cá se ache, e juntamente se pode haver algum 
segredo com que se remede e qualquer defeito, que possa ter 
a mesma pedra, para se haver de tirar ferro da qualidade da* 
quelle que enviey a V. Ex.*, que nào o podia haver melhor, 
nem mais perfeito, e foi t>rado desta mesma pedra, de que nào 
ha duvida. V. Ex.° determinará o que fôr servido. > 

Nào eram estas somente as dificuldades com que luctaram 

Sara o estabelecimento da fabrica. Contrariamente ás leis e or- 
ens régias, tinha-se constituído a sociedade primitiva em Por- 
tugal com um sócio extrangeiro, o que levou a D. Luiz Antó- 
nio de Souza a excluir este de accôrdo com a resolução tomada 



- 46 - 

em junta realizada em S. Paulo, a 18 de Maio de 1767. Reza 
este documento : ( 1 ) « Aos dezoito dias do mez de Maio de mil 
« setecentos e sessenta e sete, nesta Cidade de S. Paulo, e casas 
« de residência do Ulmo. e Exmo. Sr. Dom Luiz António de Sou- 
« za Botelho Mourão, General desta Capitania, foram convocados 
« em junta por ordem do dito Ulmo. e Exmo. Sr., o Doutor Ouvi- 

< dor Geral desta comarca, Salvador Pereira da Silva, o provedor e 
€ contador da Fazenda Real, José Onorio de Valladares e Alboyra, 
« e o procurador da Coroa e da Fazenda, o dr. Bernardo Rodri- 
« guês Solano do Valle, sendo todos presentes, foi proposto pelo 
«sobredito Ulmo. e Exmo. Sr. que, Sua Majestade fora servido 
« por cartas de vinte e oito de Fevereiro de mil setecentos e ses- 
« senta e seis; (2), dirigidas pelo secretario de Estado dos Nego- 

< cios do Reino e da Marinha, recommendar o bom êxito e effe- 
« ctiva deligencia que devia haver para que laborasse com maior 
*• expedição a fabrica de ferro, que de novo se vinha erigir no 
« termo da Villa de Sorocaba, desta comarca, de cuja acção vinha 
€ encarregado Domingos Ferreira Pereira, o qual apresentou huma 
« escriptura, onde junto com outros sócios por tu guezes, e sem im* 
« pedimento algum reprovado pelo mesmo senhor, se via na dita 
c escriptura declarar por sócio a Joào Fits Geral, vice-consul, de- 
« putado da Nação Britannica, na cidade de Lisboa, de lhe largar 
« do interesse da fabrica um quarto pelos benefícios que delle tinha 

< recebido, segundo neut> almente se escriptura va em um papel que 
€ em junta apresentou o mesmo erector Domingos Ferreira Perei— 

< ra, celebrado com o dito vice-consul, com outras mais clausulas 

< e interesses que do mesmo papel constam; e porquanto a provi— 
« zao em forma de Lei de 8 de Fevereiro de 1711, totalmente pro- 

< hibe aos extrangeiros commerciarem de passagem nos portos de 
« todo Estado do Brasil, a qual se acha registada no livro l. e da 
« Secretaria deste Governo, a folhas quarenta e seis, e na mesma 
€ lei estabelecidas graves penas aos governadores e mais officiaes 
« de Sua Magestade, que consentissem o contrario do que está 

< disposto na mesma provizão, e depois de feita a referida expo- 

< sição pelo dito Ulmo. e Exmo. Sr. foi asentado uniformemente 
« por todos os ditos ministros da junta, com parecer de S. Exa., 
« que não convinha que aquelle extrangeiro João Fits Geraldes, 
« vice-consul e deputado da Nação Britannica, na cidade de Lis- 

< boa, tivesse parte ou entrada na fabrica de ferro do districto da 
« Villa de Sorocaba, nem outro algum extrangeiro sem expressa 

< ordem de Sua Magestade, tanto na predicta fabrica de ferro, co- 



í 1 \ Archivo d© 8. Paulo. vol. XIV, pg. 43. 
(2) A data axacte é 1765. vMe retro. 



- 47 - 

« mo em ontras quaesquer fabricas, que pelo tempo f a taro se hou- 

< vessem de levantar, e que a escriptura celebrada, de que S. Exa. 

< faz mensão, o foi presente neste acto da junta, e outro papel 
« que acompanhava a predicta escriptura, assignada pelos sobre- 
c ditos João Fits Geraldes e Domingos Ferreira Pereira, fossem 

< nu lios, e de nenhum e fiei to para poderem produzir acção em 
«Juizo, ou fora delle, e mandando que este, em suma, no livro 
« de notas onde foi lavrada a dita escriptura, na parte em que 
« admitam o dito extrangeiro, e que lavrasse outra sem a dita 
« cousa; e de como assim se assentou em presença do Ulmo. e 
«Exmo. Sr. General, mandaram fazer este termo que assigna- 
c ram, cu Thomaz Pinto da Silva, Secretario do Governo, o es- 
« crevi. Dom Luiz António de Souza. — Salvador Pereira da Sii- 
« va. — José Onorio de Valladares Alboym. — Bernardo Roy Salla- 
« no do Valle. — Está conforme.— Thomaz Pinto da Silva. » 

Não julgou, entretanto, o Governador sufficientes os motivos 
allegados pela Junta, e, em sua carta ao Conde de Oeyras, com- 
municando, a 4 de Janeiro de 1768, o occorrido neste particular, 
( 1 ) acrescenta ainda um facto sobre o qual nenhum documento 
conhecemos alem da própria missiva de D. Luiz António. E' es- 
se motivo supplementar os extrangeiros, ao penetrarem nas nos- 
sas fabricas, só visavam destrui l-aa, c pois o faziam assim pre- 
« zumir muitos exemplos já suecedidos e especialmente aquelle 
« do que ainda dura a memoria de se ter abreviado no Rio de 
« Janeiro, sem se saber por ordem de quem, a vida de dois ho- 
« mens que pertenderam antigamente levantar semelhantes fa- 
« bricas neste mesmo citío, e iam para o Reino dar conta de sua 
« dilligAiicia, o que foi cousa de ficarem sem effeito té o tempo 
€ prezente. » 

Continuavam os ensaios para o aproveitamento do minério, 
mas a natureza deste, altamente refractário, devido ao titânio que 
contém, dificultava as operações, e o governador de S. Paulo, 
embora multiplicasse as experiências e as tentativas, nenhum 
resultado pratico colheu. A pouca aptidão dos fundidores, acos- 
tumados talvez a tratarem os minérios puros de Hespanha, não 
lhes ensinava a modificar os processos, attendendo á especialida- 
de do de Araçoyaba. O próprio D. Luiz António de Souza inter- 
vinha a miúdo na direcção da fabrica. E' elle quem o diz ao 
Conde de Oeyras, (2) «Em carta de 23 de Janeiro do anno pre- 
« terito de 1768, dei a V. Exa. conta do Estado em que se acha- 
te va a fabrica de ferro, com poucas esperanças de se estabele- 



(l) Aachivo de 8. Paulo, tol. X[V, pg. 41. 
(2j Arcnivo de 8. Panlo, vol. XIV, pg. 289. 



- 48 — 

« cer, mas nào desanimando facilmente, e fazendo continuar com 
c repetidas experiências, vim a observar que queimando-se a pe— 
« dra em pouca quantidade, fazia bom ferro, porém, tanto se lan- 
c cava com maior largueza, se perdia. Daqui inferi que faltava 
« alguma proporção na oficina e assim era, porque lembrando-me 
« fazer uns grandes folies, que soprassem com violência egual á 
« copia da matéria que se queimava, se começou a acertar a 

< perfeita caldeaçao do ferro. Parece-me que está o segredo des- 
« coberto, e a experiência feita, e que não é por ora necessário 
c remeter para essa Corte a pedra que já tinha chegado a esta 
« Cidade, para se fazerem aB experiências. Entro a cuidar era 
€ que se estabeleçam os instrumentos e se edifiquem as officinas 

< necessárias para laborar a dita fabrica, o que levará mais ou 
«menos tempo, conforme os cabedaes com que se acham.» (1) 

Não foram inteiramente coroados de êxito esses novos es- 
forços, e sempre se encontram dificuldades renascentes para a 
obtenção corrente do ferro em barras. Ainda em 30 de Outubro 
de 1769, em missiva a Oeyras, renovava suas queixas o Capitão 
General, e lembrava recorrer a fundidores práticos de Portugal 
ou de Hespanha : (2) 

« Depois deste presente anno em que se 

« achava a Fabrica pela insuficiência adian- 

« tadas até o presente, e suposto ado as experiências e 

« melhorado alguma cousa as fundições ainda se nào tem alcan- 
« çado o verdadeiro conhecimento do ponto era que se deve quei- 
« mar a pedra para a bôa producçào do ferro. As minas sào. . . 

< por ser uma vasta Serrania de banda do matto 

« geral, e excellente disposição de agoa para mover Engenhos, 
« como tào bem a comodidade para transportar o ferro para dis- 

< tantissimas Regiões desta grande parte do Mundo, e pequena 
c distancia de terra com suficiente caminho para porto de mar. 
« Tudo isto se malogra pela pouca experiência do Mestre, e pela 
€ falta de pessoas hábeis, e curiozas, pois me nao tem sido pos- 

< sivel descobrir sojeitos que, aplicando se, conseguissem o des- 
« cobrimento deste segredo. Ainda isto que se tem alcançado o 
« devo a rude intelligencia de um negro, que, principiando a 
c trabalhar com o Mestre, tira melhores fundições quando as 
« governa. 

« Apezar de todas estas dificuldades, tinha introduzido 
« alguns Ferreyros para fazer aprender com o dezignio de os 



(1 ) Archlvo de 8. Panlo, vol. XIV, pg. 289, carta de 22 de Fevereiro de 176». 
(2 Archlvo de 8. Panlo, vol. XIV, pg. 406. Os togares gryphados aAo as inter- 
pelações no texto dilacerado, onde foram pomies. Os claros sfto os trechos onde nao 
iouve possibilidade de interpretar. 



— 49 - 

« remetter a V. Ex.\ mas já vejo que em lugar de eu poder 

« servir estou em estado de lhe pedir mo queira servir a mim, 

« e n&o seria dezacerto, que entre ambos mandássemos vir se- 

« gunda vez outros Mestres de Biscaya para estas fabricas, tanto 

« porque seria muito mais conveniente ao serviço de S. Mag. e 

«e ao bem commun doB seus vassallos que ambos florescessem, 

« como porque repartida a despeza entre amboa, ficaria maÍ6 

« cómodo para V. Ex/, e não seria menos útil, que sendo este 

« Paiz muito mais sadio, e de melhor clima, nelle se fundasse 

« uma Principie ira de Discípulos, que pudessem dar para a Fa- 

« brica desse Reyno Officiaes capazes de poderem restabellecer 

c aquelles, aquém estropeassem as doenças ou arrebatasse a morte, 

€ e estando já V. Ex.° mais adeantado no conhecimento do modo 

« com que se podem conduzir de Biscaya, semelhantes Mestrts 

« com pouco trabalho me daria V. Ex.* este allivio, mandando 

€ vir hum ou dons demais para dezembarcarem no Rio de Ja- 

« neiro, e no cazo que tenha logar esta idéa, me insinuará V. 

t Ex." o cabedal que devo adeantar para este transporte, e o 

« mais que devo fazer pelo bem serviço em 

c que V. Ex.* tanto se empenha e por me favorecer, do que 
« sempre me confessarey obrigado ». 

Nào se sabe se efectivamente vieram os mestres biscainhos 
pedidos por D. Luiz. Ha indicies de que assim nào tenha 
acontecido ; pois pelo que se conhece do funecion amento desta 
fabrica, pHas informações colhidas pelo Barão de Eschwege em 
1811 de um antigo fundidor desta usina, e pela prezença nella 
de um negro, hábil mettallurgista, desde 1769, pode se inferir 
que alli se estabeleceu uma forja segundo os processos usados 
na Costa africana, importados pelos escravos dessa procedência, e 
que maÍ6 tarde se estabeleceram em Minas Geraes de modo pre- 
dominante: Foi em Ypanema, com todos os vizos de probalidade, 
que se fundou a primeira fabrica de ferro pelo methodo dos 
cadinhos, de que mais tarde faltaremos. 

Quando, em 1810 ou 1811, u illuatre scienti&ta allemào 
vizitou a região, encontrou em Sorocaba em Fevereiro que tinha 
trabalhado como fundidor na antiga forja, e que lhe fez desta a 
descripção seguinte. (1) 

c O forno era único e tinha cinco palmos de altura ; sendo 
« construído de tijollos, exigia uma refecç&o hebdomadaria. Ao 
« lado encontra va-se um grande foles, movido a braço, e a lupa 
< metallica extrahiase pela parte superior do forno. Na parte 



(1) Pinto Brasilimrts, pg. 613. 



— 50 - 

« inferior deste, havia um orifício, fechado normalmente com 
c tornos de madeira, pelo qual se fazia a corrida das escorias . 

« Dias havia em que se obtinha uma lupa de uma arroba 
« de pezo ; em outros, ao contrario, após um dia inteiro de es- 
« forços, n&o se obtinha nem uma libra de metal. O minério 
c antes de ser fundido, era calcinado em um forno similhante 
« aos de cal, e, depois, fragmentado a martello em pequenos 
« pedaços. O ferro obtido era quebradiço e acierado. » Essa 
« discripção é quasi idêntica á dos fornos de cadinhos existentes 
« em Minas Geraes, que estudaremos opportunamente. 

Attribuiam os curiosos da epocha á falta de combustivel 
especial, proveniente da carbonização da madeira chamada Yperá 
o mallogro dessas tentativas. Diz, entretanto, Vergueiro (1) que 
a fabrica chegou a produzir quatro arrobas por dia, o que está 
em contradicçho com a narrativa de Eschrwege ; esta, comtudo, 
merece mais credito por se basear no testemunho de um operário 
da antiga usina, emquanto a da Memoria histórica se funda 
apenas na tradição. 

Não ha accôrdo preciso quanto á data em que cessou de 
funccionar a nova fabrica. Frei Gaspar da Madre de Deus (2) 
cuja exactidão em matéria de facto é duvidosa e cuja chronologia 
não está extreme de senões, escrevendo em 1797 declara positi- 
vamente : 

c No governo do general D. Luiz António de Souza se 
c fabricou ferro e aço no dito morro, e ainda hoje se percebem 
c os vestígios da dita fabrica, supposto hão passado uns vinte c 
« oito annos, cujo labor existiu todo o governo do referido ge- 
« neral, que por um zelo a conservou, e ainda nos governos dos 
« Ex. mOB Martins Lopes Lobo Saldanha e Francisco da Cunha 
c Menezes, ficando logo desvanecida a dita fabrica porque a So- 
« ciedade, que havia na mesma era de homens sem forças para 
« substituir o augmento, concorrendo também para esta decadência 
« a falta do mestres na arte de derreter as pedras ». 

A ser exacta esta versão, a fabrica teria durado até 1786' 
anuo em que Francisco da Cunha Menezes passou o governo a 
seu substituto Chichorro do Gama. Ha indícios do contrario, 
entretanto, Marcellino Pereira Cleto, em Outubro de 1782, con- 
temporâneo, portanto, de Martim Lopes Lobo Saldanha, falia 
nessas usinas como de cousa passada. « No tempo do G. al D. 
« Luiz António » diz elle (3) « quiz elle promovel-as, para o q' 
c constituio hua Sociedade, em q' entrarão com certas quantias 

(1) Memoria histórica, loc. cit. pg. 12. 

(2) Memorta*. Berista do Instituto Histórico, 1861, pg. 552. 
{V) Dissertação loc. cit. pg. 209. 



- 51 - 

« alguns dos interessados ; porém quem de perto visse o negocio, 
« logo via, q' elle não podia ter eiL° : Interessou nelle alguns 
« familiares, e adherentes seus, e q. d0 todos os mais entrarão 
« com dinr.° físico, pelo q' resp.** n estes contentou se o d° G al 
« em dizer, q' ficava por elles ; gastou se o pr° dinr°, todos re- 
« cusarào entrar com novas somas ; porq' lhes não fnzia conta os 
« Sócios imaginários na defeza, e q' só no lucro, se o houvesse, 
« serião verdadeiros. » 

Eschwege a seu turno, declara que a fabrica só durou al- 
guns annos, no dizer dos antigos habitantes da localidade. E esta 
lição coincide bem com a de Pereira Cie to, e a do Senador Ver* 
gueiro (1) que allude á tradição corrente de ter fddo vendida a 
fabrica após seis annos de existência ao Capitão Yictorino José 
Sentena que a abandonou um anno depois, por não poder apre- 
sentar ao Governador Lobo de Saldanha o nova alvará Régio 
exigido por este para permittir o proseguimcnto dos labores da 
forja sob novo dono, quando a primitiva concessão de 1765 fora 
nominnti vãmente feita a outro individuo. Por esta forma, a usina 
teria suspendido seus trabalhos em 1776 ou 1777, uns Bete annos 
após as tentativas relativamente bem succedidns de que nos dá 
noticia a correspondência de D. Luiz António. Um facto é certo, 
e é que em 1772 ella funccionava, pois Pedro Ta quês o affirma 
peremptoriamente em sua Historia da Capitania de S. Vicente. (2) 
Os successores de D. Luiz António no governo de S. Paulo 
não tinham o valor e a capacidade politica deste, diz acertada- 
mente o Dr. Orwille Derby em t>ua historia da questão de limi- 
tes entre as duas capitanias ; mas uma prova desse asserto se en- 
contra no que procuramos fielmente relatar quanto á chronica 
industrial do ferro. 

Ao envez disto, levado provavelmente pela importância da 
região qua tanto contribuio para a riqueza do Real Erário, Por- 
tugal se esmerava em mandar para as minas homens de real 
merecimento : os dous Freires de Andrada, Luiz Diogo Lobo da 
Sylva, o Conde de Valladares, Furtado de Mendonça, D. António 
de Noronha e, na epocha que nos interessa agora, D. Rodrigo 
José de Menezes, mais tarde Conde de Cavalleiros. Descontados, 
embora, os lovoures exagerados que por vezes prodigaliza, parece 
nos ser o Dezembargador Teixeira Coelho quem em sua In&tru- 
rção para o Governo de Minas Geraes, mais acertadamente jul- 



(1) Menoria histórica loc. olt. pg. 12. 

\2\ Loc. cit. pg. 4M). Taqnes diz que o prazo de isenç&o dos quintos foi de dez 
annos; vinte annos. diz Pereira Cleto. A carta régia de 28 de Fevereiro de 1765 ori- 
gem da fabrica, diz cinco annos apenas, sendo de dez o prazo do privilegio concedido a 
Domingos Ferreira Pereira. Dahi a confasfto. 



— 52 — 

gou esses differentes funccionarios, salvo o ultimo que tomou 
conta do governo após a volta para Lisboa daquelle eminente 
historiador do primeiro século da vida politica da Capitania. 

Já vimos, ao estudar o ouro, o que foi o governo de D. 
Rodrigo José de Menezes, e quanto mereceu destacado nos annaes 
da província a cuja administração presidia. A elle, ainda devem 
se as primeiras tentativas de aproveitamento de jazidas mine- 
raes outras que as auríferas e os diamantinos. 

Na notabilissima Exposição sobre o estado de decadência da 
Capitania de Minas Geraes apresentada a Martinho de Mello e 
Castro, em 4 de Agosto de 1780, documento que por si só bas- 
taria para solidamente firmar a reputação daquelle administra- 
dor, vem longamente explanadas as vistas do Capitão general 
sobre a politica económica que devia ser seguida nesta parte do 
continente e que destoa profundamente dos erros coivos em as- 
sumpto de tanta relevância. (1) 

Alli elle estuda também o problema do ferro. 

A experiência brasileira em minérios ferríferos cifrava se, 
naquella epocha, no pouco conhecimento que se tinha dos de- 
pósitos paulistas. Profundamente differentes desses, as de Minas 
Geraes por largo praso passaram despercebidas. Antonil, que 
fala da opulência das minas de Cataguazes e com tanta minúcia 
descreve o que nellas se passa, nada diz sobre o ferro, apezar 
de se se acharem na zona em que este predomina muitas das 
minas de que aquelle escriptor tào argutamente conta os fastos. 
Nenhuma palavra na correspondência de Gomes Freire : si- 
lencio absoluto na de Luiz Diogo, que se interessava entretanto, 
por motivos de politica internacional, no bom êxito da fabrica 
paulista. O ouro attrahia todas as attenções e impedia o surto 
de qualquer cogitação, a elle extranha. 

Nào admira, pois, que ao começar o ultimo quartel do sé- 
culo XVIII nenhuma noção preciza se tivesse sobre a existência 
desse metal em Minas. Alguns forasteiros, entretanto, minhotos 
ou transmontanos, impellidos para o Brasil pela fama das lavras 
de ouro e familiarizados talvez com os minérios hespanhoes, no- 
tavam a simelhança de certas pedras do valle do Alto Rio Doce, 
em Villa Rica e outros pontos, com o ferro de Bilbáo. 

£, aos poucos, foi se formando uma corrente de opinião que 
afirmava a existência desse metal na Capitania. 

Houve quem fizesse o capitão general sabedor desses dizeres. 
Ignora se quem fosse ; mas si se provasse já estar em Minas 



(l) Bxpoêição tobre o atado de decadência da Capitania dê Mimas Oeraet emeioê 
4e remedial-o: Revista do Archivo Publico Mineiro, pg. 1897, 2.« fase. 



— 53 — 



Geraes, naquella epocha o Dr. José Vieira Conto, levaria isto a 
pensar neste naturalista, tanto mais quanto uma memoria publi- 
cada no Tijuco (Diamantina) em 1800 approximadamente (1), e 
que parece dever ser lhe attribuida expende idéas muito seme- 
lhantes ás do Governador. Apressou se este em mandar exami- 
nar o mineral apontado como ferrífero, por pessoa de confiança 
e sob o maior sigillo ; achou-se que era mesmo ferro, ou uma com- 
posição com todos os predicados desse material. 

Foi então que elle traçou em sua Exposição as linhas que 
marcavam uma orientação nova na doutrina económica a seguir- 
ão no Brazil ; e já agora, como veremos, ininterruptamente são 
os mesmos conselhos que se fazem ouvir, por parte de todas 
as altas auctoridades coloniaes frueto remoto da norma adopta- 
da por Pombal nos auxílios dados ás industrias nacionaes ( e que 
triumpharão na politica posta em pratica pelo tão calumniado 
Príncipe Regente, mais tarde D. João 6. ? Diz V. Rodrigo José 
de Menezes (2) ao ministro portuguez: 

c He bem verdade, que conhecendo eu de qual importância 
são estas Minas, a felicidade que ellas procurão não só a 
Portugal, mas ao Mundo inteiro onde o seu Ouro passa pelo 
giro do Comercio não posso deixar de considerar o Mineiro 
que passa a sua vida, e arrisca e seu cabedal a dezentranhar 
da terra este preciozo metal, como hum homem muito respei. 
tavel, digno de q, o Estado se interesse imediatamente na 
sua particular felicidade, á qual he tão intimamente ligado o 
bem publico, e o augmento do Real Erário. Eu tenho a fortu- 
na delles conhecerem já em mim estes sentimentos, e persua- 
didos q os meus bons ofícios lhes serão sempre favoráveis os 
vejo animados, e dispostos a tudo emprehen derem. 

« Para principiar a corresponder á ideia q' de mim tem 
formado, e convencido da grande utilidade querezultará tanto 
a Real Fazd.* e como a Mineração sou obrigado a propor 
hum novo estabelecimento, q' á primeira vista parece oposto 
ao espirito e sistema da admnistração desta Capitania, mas 
q' bem examinado se conhece pelas razoens quanto a mim, as 
mais solidas, e convenientes, a sua utilidade. 

« He o estabelecimento huma Fabrica de ferro. Se em toda 
parte do Mundo he este metal necessário, em nenhuma o he 
mais, que nestas minas ; qualquer falta que dele se experi- 
mente cessa toda qualidade de trabalho; seguem se perjuizos 



jlX C&tuidcraçõei §oàr* a* duo» ela**** mai* importante* d* povoador** da Capita- 
mia d* Minai Gera**, Revista do Instituto Histórico Vol. XXV pg\ 421. 
(2l Loc. ctt. pvg. 815 e seguintes. 



- 54 - 

c irreparáveis, e he huma perdição ta tal. Fabricando se aqui 
«pode custar hum preço, muito mais módico não obstante os 
«Direitos que se lhe devem impor, como abaixo direi ; facili— 
« tasce deste modo a compra dele, concorre este artigo para q , 
« faça mais conta ao mineiro extrahir o Ouro, tendo barato o 
«ferro. Para o termos aqui excissi vãmente caro somos obrigados 
« a compralo, e pagar por ele altadas Somas aos Suecos, Ham- 
c burguezes e Biscainhos. A este incoveniente já em si mesmo 
« bem perjudicial, podem a crescer outros muito mais escenci— 
« aes, q' não saem da ordem da natureza das couzas : 
« Aquelas Naçoens podem simultânea, ou separadamente ter 
« huma guerra, q' deficulta a sua navegação mercante, e as 
«impossibilite de carregar para os nossos postos este perciozo 
« metal sem q' se possa dizer que os navios portuguezes o huão 
«exportar, havendo poucos mais, alem dos necessários para a 
« navegação das Colónias : Nos mesmos, a pezar de toda a pru- 
« dencia, e politica com que possamos conduzirmos, alguma vês 
« não estamos livres, pelos nossos próprios interesses, de entrar 
« nas agitações da Europa, e sendonos então muito deficil ga- 
« nhar os portos da America, que perda não rezultariu, ao Real 
« Erário, se por falta de ferro parasse o trabalho das Minas ! 

« Estas concideraçoens tão importantes, e dignas da maior 
« atenção me obrigarão a ouvir hum homem, q' aqui me veio 
« falar, e me segurou ter achado hum segredo para o fabricar . 
« Eu lhe dei licença para fazer huma amostra, com prohibição 
« expressa de amplicar esta permissão a min ima quantidade 
«para pessoa alguma, até q' eu recebesse a este respeito as 
« ordens necessárias. Pouco depois me trouxe o que remeto em 
«barra, depois de ter feito nela todas as experiências que me 
> persuadirão ser verdadeiros e bom ferro, ou talvez compozi- 
« ção com todas as suas propriedades, e capaz de ser empregado 
« em todas as obras em que se necessita daquele metal. Não me 
« contentando com esta primeira experiência, para mais me 
« capacitar das suas verdadeiras propriedade 8 mandei fazer a 
« fechadura, que também remeto, a qual tira toda a duvida de 
« sua bondade e préstimo.. A única objeção q' julgo se podia 
« pôr com alguma sombra de bem fundada contra este estabele- 
« cimento, seria q' não entrando de fora, nesta capitania, o 
« mesmo metal deminuiria o Régio rendimento no ramo q' cons- 
« titue o contracto das Entradas. 

« A este incoveniente, porem, se pode remediar facilmente 
« por diversos modos : primeiro tendo na mesma fabrica o con- 
« tratador, ou a Real Fazenda, seguudo parecer mais conveni- 
« ente, hum homem de confiança, q' vá marcando o ferro á me- 



- 55 - 

> dida que se for fabricando, e contando eguaes Direitos aos q' 
« paga quando entra ; segundo, sendo a mesma Real Fazenda 
« principal interessado na sobredita fabrica, ficando o descubri- 
« dor do segredo administrando-a com o lucro de bum tanto 
c por cento sobre as vendas q' se se fizerem ; terceiro, toman- 
« do-a a Fazenda Real totalmente a si imitação da pólvora de 
« Lisboa, fazendo a administrar pr. sua conta e recon pensando 
« o inventor com bum bom oficio de Justiça, e Fazenda; pois 
« na verdade julgo merece ser bem premeado, ê deste modo em 
« logar de deminuirem, estou persuadido crecerão as rendas 
« Reaes.» 

As primeiras tentativas paulistas tinbam sido puramente 
commerciaes. 

A de 1765 obdecia, no auxilio prestado pelo elemento offi- 
cial a consideração de ordem estratégica. Pela primeira vez, 
advoga se a creação desta industria cor., argumentos económi- 
cos. E' pela primeira vez, também, esses conselhos, tão lógicos 
e verdadeiros que até boje conservam sua actualidade, encon- 
tram ecbo na alta administração metropolitana. Sob o influxo 
preponderante de estudos francezes, tanto na colónia como em 
Portugal se tinbam formado grupos de espíritos curiosos, uns 
pendendo para a indagação dos segredos naturaes, outros inves- 
tigando assumptos económicos. Pombal, com seu exemplo, ani- 
mava a estes últimos. No Brasil, ao alvorecer o século XIX, 
já era notável o valor desses estudiosos, como bem demonstra 
o Barão Homem de Mello no seu estudo sobre o Brasil intélle— 
ctual em 1801. (1) E de todos os residentes nas minas par- 
tia a observação do quanto era prejudicial ás mesmas o regi- 
mem, em que viviam, de dependência da importação do Reino. 
Comprovavam esse mal estar as queixas dos povos da Capitania, 
as memorias e communicaçoes das classes intellectuaes. A to- 
dos esses esforços por acertar na solução do problema económi- 
co, dava guarida e animação o acolhimento da nova camada de 
estadistas portuguezes que se preparavam a substituir no go- 
verno aos ministros de D. Maria L* 

E' vezo corrente, inexplicável embora, descrever D. João 
6.° como príncipe iucapaz, educado por monges, eternamente 
hesitante, e arrastando suas duvidas e duplicidades pelos paços 
reaes de Portugal. E' tempo de restituir se a esse roonarcba 
o logar que lhe compete na evolução portugueza e brasileira, 
e para isto é mister estudar a sua vida e sua acção á luz dos 



(1) Revisto do Instituto Histórico. Vol. LXIV, 1901 pg. V. 



— 56 - 

documentos, e não mais, como se tem feito até hoje, nas im- 
pressões nativistas ou partidários dos que, na Europa, choram 
e a elle accnsam da perda da colónia americana, ou fazem, em 
D. João mais um processo ao principio monarchico hereditário- 
Nào entra esforço tao vasto no plano do presente trabalho, si* 
na© na parte minima que se relaciona ao aproveitamento das 
jazidas mineraes do Brasil, e, especialmente, das ferriferati. E' 
em 1792, logo após a manifestação definitiva da demência em 
D. Maria I, que começa a regência de seu filho. Alem das in- ■ 
dicisoes do primeiro instante, impediram a liberdade de seu in- 
fluxo nos negócios públicos as tentativas de Willis, medico de 
Jorge III da Inglaterra, que por cinco mezes luctou por me- 
lhorar o estudo mental da Rainha. Momento houve em que se 
julgou ser lhe restituído o uso da razão; desvaneceram se po- 
rem, as esperanças, e o Príncipe do Brazil começou a reinar. 

Modificou a composição do pessoal que cercava a Coroa; 
os ministros em breve demonstraram estar posmidos de um es- 
pirito nouo, e varreu se para longe a rotina que imperava nos 
concelhos reaes do período anterior. Já em 27 de maio de 
1795 Luiz Pinto de Souza em nome d'El-Rey manda aos go- 
vernadores das capitanias instrucçoes para remover dous dos 
mais pezados tributoB pagos pelo Colónia: o monopólio do sal e 
o impoato de importação sobre o ferro. Alem disso, nesse mes- 
mo officio vem declarado que* fica livre a quem quizer estabele- 
cer fabricas de ferro, ou manufacturas de instrumentos deste gé- 
nero, obedecendo assim ao largo descortino revelado pela Expo- 
zição de D. Rodrigo José de Menezes. Esse documento, notá- 
vel por mais de um titulo, é redigido do Paço de Queluz nos 
seguintes termos (1)* 

« Sua Mag* e tem observado com desgosto q e humas colo- 

* nias tào extenças, e férteis como as do Brasil nao tenhào 
< prosperado propocionalmente em Povoação, Agricultura, Irt- 
« dustria, e devendo persuadirão, q e alguns defeitos políticos, 
« e restricçoes fiscaes se tem oposto até agora aos seus progres- 
« sos, taes q e o monopólio do Sal, os grandes Direitos impôs- 

* tos sobre o Ferro &, & , 

« ....• 

« Tem S. Mag. de resolvido em seg* logar q e em todo o con- 
« tinente do Brazil se possão abrir Minas do Ferro, se possào 
€ manufacturar todos e quaesquer Instrumentos deste género, 



(1) Archiro de 8. Paulo, Vol. XXV, 1893, pg. lato prora que é menos exacta a 
afllniiati«a do Dr. Çlodomlro de Oliveira, nos Annaes da E. de Minas Vol. 6» pg. 60 
quando diz que a ordem de 19 de Agosto de 1799 foi o primeiro aoto do Governo Por- 
tuguês para fundar a siderurgia em Minas Garae*. 



— 57 - 

mas para suprir o desfalque, q° huma similhante liberdade 
possa ocazionar nos Rea* Direitos : Hé a Mesma Senra outro- 
sim servida Ordenar, q a ouvindo V. S* as Gamaras dessa Ca- 
pitania, haja de assentar com ellas em huma tarifa moderada 
aos Direitos, q* hum similhante género deverá pagar nas Fa- 
bricas do Paiz, logo q° ali se puzer em venda, tanto pelo 
q e respeito ao Ferro em bruto, ou em barra, como daquelle 
q e se vender já manufacturado p a Instrumentos de Agricul- 
tura, e outros ustencilios domésticos. 

«E persuadida S. Mag de de que a tarifa actual q* regula 
a entrada deste género para o interior do Paiz, hé sumam*» 
defeituoza, pagando hum quintal de Ferro o mesmo q* cos- 
tumão pagar Fazendas finas, de grande valor, em igual pro- 
porção de pezo: 

«He a mesma Snra servida Ordenar, q° examinando V. S* 
a d* tarifa com pessoas intelli gentes do comercio, lhe haja 
de propor os meyos mais próprios de se emendar huma simi- 
lhante irregularidade, aliviandose quanto for possível os Di- 
reitos do Ferro, e removendose esta impoziçào sobre os mais 
géneros de menor necessidade, q e prudentem** possào res- 
sarcir o desfalque q* haja de occasionar aquelle beneficio. 

c E quer igualm 1 * S. Mag.** que V. S.* mande proceder a 
hum calculo médio da importância de todos os Direitos, q e se 
perceberão pela Real Faz d * no espaço de cinco anos, dos 
dous ramos do Ferro, e da introducç&o, e sabida dos Escravos, 
cada hum pé* si, e com a devida distincçfto e clareia. O 
q e a mesma Snra. há por mui recomendado a V. S.* p* q e as- 
sim o mande executar com a brevidade possível». 

Os governadores obedecerão a essa ordem, remettendo para 
Lisboa os mappas dos direitos de importação sobre o ferro , ain- 
da ha pouco, na Exposição de Historia e de Geographia do 
Brazil, realizada no Rio de Janeiro em 1881, figurou no cata- 
logo de manuscriptoa, sob numero 6.302, o «Extracto de todo 
« o ferro em barras, e coado que entrou na Alfandega da Cid* 
« da B* (Bahia) em sinco annos susesivos de 1791 a 1795, e 
« pagou Dizima de seu valor p'° aforam 10 da pauta dada por 
« sua Mag* a mesma Alfandega da B*, e dous p r cento de Don* 
« Voluntário estabelecido em 1756». 

De Lisboa continuavam a recomendar aos Vice-Reis e aos 
governadores animassem as emprezas de mineração do ferro. 
Estas auctoridades, entretanto, pouco podiam fazer, pois lucta- 
vam com as consequências da situação anterior, asphyxiadora 
das tentativas particularistas, a ponto envolver no processo da 



- 58 — 

Inconfidência Mineira ao dr. José de Sá Bitencourt Camera, 
cujo crime único fora dizer que sabia fundir ferro (1). Ninguém 
se animava a iniciar essa industria, arriscando-se a despesas 
sem possivel previsão, com mira em resultados problemáticos. 
E' isto o que se deprehende das cartas do Conde de Rezende a 
D. Rodrigo de Souza Coutinho, o futuro Conde de Linhares, 
datadas do Rio de Janeiro a 30 de Julho de 1797 uma e a 7 
de Junho de 1799 a outra; cartas em que o Vice-Rei fallando 
sobre minas de ferro, sal e outros objectos, remettia amostras de 
pedras ferruginosas com informação sobre o seu achado, e de- 
clarava não cessar de recommendar ás pessoas de sua confiança 
procurassem fazer novas descobertas (2). 

Nenhum êxito podiam ter essas tentativas, e em breve prazo 
disto se convenceu a administração de Lisboa. Lembraram-se 
então de consultar ao dr. José Vieira Couto, antigo lente era 
Coimbra e residente no Tijuco, e cuja fama de naturalista era 
acatada na metrópole. Este procedimento pareceria confirmar a 
hypothese que aventamos de ter sido este scientista o homem 
de confiança a quem recorrera D. Rodrigo José de Menezes para 
averiguar a existência e o valor dos minérios da Capitania de 
Minas, e que assim teria inspirado o parecer do capitào-general. 
Era natural que de Lisboa recorresse ás luzes de quem, quinze 
annos antes, tão boas contas dera de si. E mais comprovado 
fica este modo de ver, quanto é completo o accôrdo de vistas 
entre a Ejxpusição de D. Rodrigo, os pareceres do Dr. Vieira 
Couto e os acto ^ posteriores do ministério portuguez. 

A consulta feita ao naturalista data de 18 de Março de 1797 (3). 
Em Janeiro de 1799 foi a resposta endereçada ao governo da 
regência, sob o nome suggettivo de Memoria sobre a Capitania 



(1) Revista do Archivo Publico Mineiro, Vol. II, pag. 509, Memoria Mineralógica 
do Terreno Mineiro da comarca dê Sabará . 

(2) Bibliotheca Nacional. Mannscripto sob na. 6448 e6457 do Catalogo da Exposi- 
ção dê Fittoria e Oeographia do Brasil. 

(3) Em sua carta dedicatória inicial, escripta a 23 de Janeiío de 1799, diz o auctor: 
« Benhora Foi me intimado em nome de Vossa Magestade, deseseis dia» fas hoje aobre 
« anno, que en vos desse nma exacta relação dos metaes desta comarca, e dos interee- 
« sea régios qne dos meamos se poderiam esperar». Revista do Instituto Histórico. Vol. 
IV, 2.» série. pag. 289. Memoria sobre a Capitania de Mmat Oerae» Depois de escripto 
este trecho foi 4ado ao auctor deste parecer encontrar no Archlvo Publico Nacional a cópia 
do aviso de Bernardo José de Lorena, acha-se classificado na classe 7.», séria A, collecçfto 
5.*, secção 4.*, e seu teor é o seguinte:— Para Bernardo José de Lorena. — Constando 
nesta Corte, que no Berro do Frio existe bum hábil sujeito, chamado o Doutor Couto : e co- 
hecendo-s* a mesma aptidão no Bacharel José Teixeira da Fonseca Vasconcellos, que está na 
Camarcan de Babara : He Bua Magestade Servida que V. 8.» encarregue a hum e outro 
de dar as Iuformaçoens mais circumstancladas, sobre as Minas daquelle Pais, como também 
do partido que se delias pôde tirar; podendo V. 8 » até incumbir este ultimo de visitar as 
Sabinas do Pao Francisco. O que tudo será muito do Agrado de Sua Magestade . — 
Deus Gaarde a V. 8.» — Palácio de Queluz, em 18 de Março de 1797.— Dom Rodrigo 
de Souza Coutinho. 



- 59 - 

de Mí\vcá Geraes, seu território, clima e producções metallicas; 
sobre a necessidade de se restabelecer e animar a mineração de- 
cadente do Brazil; sobre o commercio e exportação dos metaes 
régios. Com um appendice sobre os diamantes e nitro natural. 
Este trabalho serviu de norma para toda a historia administra- 
tiva de fundação permanente da siderurgia no Brazil, gloria do 
governo de D. Joào 6.°, com &s modificações, de processo ape- 
nas, que lhe fizeram em 1810 — 1817 dous sábios allemaes, cujo 
influxo em breve estudaremes. Eschwege e Varnhagen. 

Depois de longamente discorrer sobre o ouro, enceta Vieira 
Couto a analyse das nossas jazidas ferríferas, e traca-lhes o futuro 
metallurgico e económico. À justificação da industria siderúrgica, 
por elle apaixonadamente feita (1), é o desenvolvimento intelle- 
gentissimo das poucas phrases de D. Rodrigo, anteriormente 
citadas. A dificuldade de se estabelecerem fabricas de pequeno 
porte leva, diz elle, a fundar desde já vastas usinas ; e é esse o 
plano de Manoel Ferreira da Camará Bittencourt « Sá, proje- 
ctado apenas para o estabelecimento da Bahia em 1799, levado 
a cabo em Gaspar Soares em 1815. A consequência de grande 
producçào é a necessidade de boas estradas para lhe dar fácil 
sabida, e, por isso, é necessário construir caminhos que liguem 
o local das fabricas ao Rio Doce, ao Jequi tinonha e ao S. Fran. 
cisco, diz o Dr. Vieira Couto ; e, em 1815, o intendente Camará, 
para o mesmo fim, solicita do Rei de Portugal a abertura da via 
de communicação entre o Marco do Pilar e o Rio Doce. Até em 
suas inexactidões e em suas vistas porventura exageradas, foi 
observado pela administração portugueza o programma elaborado 
pelo naturalista brasileiro. A este, pois, tanto quanto a D. João 
cabem a iniciativa gloriosa que permittio estabelecer-se a nova 
industria em nosso continente. (2) 

Ao mesmo tempo que em Lisboa chegava o trabalho do 
illustre Mineiro, achava-se entre os papeis sujeitos a dicisào do 
Rebente um requerimento apresentado por um negociante da 
Bahia, Francisco Agostinho Gomes, solicitando favores especiaes 
para poder estabelecer usinas que utilizassem o minério de cobre 
da Serra da Borracha e o de ferro de Tapicuru. Os auxilios 
pedidos eram : o concessão de sesmaria comprehendendo os terre- 
nos mineralizados e as mattas necessárias para supprirem de 



(1) Loc. clt. pag. 384. «Fia aqui as observações feitas sobre o que podem dar 
de si estes metaes : «nada exagerei, e por ventara passarão um dia estes lucros ainda 
muito avante às minhas promessas.» 

(2) Nío ignoramos qoe em 180!, o mesmo Di. Conto, na Memoria »óbr* as minas 
da capitania dê Minas Qerass, confandio com o cobre as jasidas de ferro. Desfeito o en- 
gano' porem, permaneceram as primeiras conclusões, que foram as seguidas. 



- 60 — 

lenha e carvão as usinas que se fundassem : a izenção de direitos 
de entrada sobre o ferro, aço, enxofre, e ainda os escravos em- 
pregados nos serviços; a venda da pólvora pelo Estado pelo 
mesmo preço que custasse ao Real Erário, e a isenção de todos 
e quaesquer impostos sobre o ferro e cobre produzidos nos primei- 
ros annos. Em compensação, offerecia Gomes vender o cobre de 
que precisasse o governo com abatimento de dez por cem sobre 
o preço corrente na Europa, e pagar o imposto de um decimo ou 
um vigessimo do lucro liquido, tudo isto opds dez annos decor- 
ridos do funceionamento da usina. O requerimento ainda previa 
o caso da descoberta de outros metaes nas sesmarias concedidas 
e previa a sua utilisaçâo. Não aspirando ao previlegio da extrac- 
ção de minérios, pedia apenas a Companhia, que Gomes devia 
formar, lhe fosse dado o privilegio de fundir os minérios achados 
por outros, e que ella lhes pagaria por seu justo valor. Alem 
disto, ella assumiria o encargo de mandar vir o pessoal technico 
estrangeiro necessário para o aproveitamento destas novas fontes 
de produeçao. Única condição para formar-se a Companhia, era 
entrar nella para Sócio, como metallurgico, o Dr. Manoel Fer- 
reira da Camará (1), já vantajosamente reputado então, e que 
o peticionário conhecera em Portugal. O caso sujeito ao estudo 
do Príncipe Regente era novo, A isenção de direitos de importação 
no Brasil sobre o ferro e os escravos, já estava consignado na 
Carta régia de 1795, mas ahi se previa o lançamento de uma 
taxa interna compensadora — Mas eliminar simultaneamente os 
dous géneros de tributação appellando para lucros de ordem di- 
versa, e addiando por dez annos qualquer contribuição directa, 
era seguramente um progresso dos mais notáveis na organização 
fiscal do Reino. D. João, entretanto deu este passo, ouzado para 
o tempo e para as idéas coevas, e íel-o de pleno accordo com 
a opinião do Dr. Vieira Couto, manifestada por forma clara em 
seu notável estudo sobre o descobrimento das riquezas mineraes 
do Brasil. (2) Foi alem do pedido, mesmo ; pois exonerou a Com- 
panhia, que viesse a formar-se, de alguns encargos de que não 
cogitara na petição, e prometteu auxiliada em obter o pessoal 
technico indispensável aos seus trabalhos. Para conceder todos 
esses favores, baseava-se o Governo dil-o a Carta Regia, « na 
grande utilidade que necessariamente ha de resultar do mesmo 
estabelecimento ao Meu Real Serviço, e ao bem publico, não só 
c da Capitania da Bahia, mas de todo o Brasil e mais Dominios 
c da Minha Real Coroa principalmente na occasião actual, em 

(1) Carta Regia de 12 de Julfeo de II». Revista do Instituto Hlstorieo Vol IV 
paga. 40C a 408. 

(2) Loc. dt. pag. 425. 



— 6i - 

« que tem subido a um alto preço o valor d 'estes metaes, que 
< sào tào necessários, á agricultara, ás artes, e á navegação *. 

Este projecto nào foi adeante (1), a darmos credito ao bio- 
grapho de Francisco Agostinho Gomes, e «cahiu sob o pezo de 
sua própria grandeza». (2) 

No mesmo anno, a 19 de Agosto, uma Carta Régia derigida 
a Bernardo José de Lorena ordenava a este a instai laçâo de uma 
fabrica de ferro, no logar que o metallurgico Joào Manco Pereira, 
migasse mais conveniente. O trabalho seria feito a expensas da 
Fazenda Real, e o ferro produzido vendido com 10 °[ apenas 
acima do custo. 

Como estes actos, foram anteriores á vinda da família real 
paia o Brasil os avisos referentes á introducçào da vaccina no 
Novo Continente, (3) a concessão de previlegioa Bento Bandeira 
de Mello, Francisco Xavier da Silva Freire e Marcos Aurélio 
Rodrigues, para durante dez annos extrahirem de madeiras nossas 
gommas de que tinham provado serem os primeiros descobridores 
e cujos e fiei tos consideravam equivalentes aos da gomma arábica 
(4) ; e como esses, outros que n&o citamos para nào tomar-se 
demasiado longo este estudo. 

Pois apezar desses factos probantes, apezar de serem chrono- 
logicamente esses actos de alcance económico os prodromos do 
alvará de 1.° de abril de 1808 tornando livre no Brasil o esta- 
belecimento de quaesquer fabricas, poade a paixão partidária, forma 
especial de improbidade scientiâca em assumptos históricos, detur- 
par os intuitos do Príncipe Regente ao expedir a grande carta 
de alforria da industria brasileira, como acto de gratidão á terra 
ue o acolhia, fugitivo da metrópole. E esse desdobrar lógico 
o programma adoptado por D. Joào desde 1795 e que elle tão 
significantemente quiz traduzir nas primeiras linhas do Alvará 
de 23 de Agosto de 1808 ereando a Junta do Commercio, Agricul- 
tura, Fabricas e Navegação, quando diz que exigindo mui parti- 
cular consideração esses problemas c pelos muitos proveitos que 
c produzem a bem de interesse do Estado, multiplicando a riqueza, 
« e augmentando a população ; merecendo por isso dos Senhores 
« Reis, Meus Augustos Predecessores os mais vigilantes cuida- 
« dos, especialmente do Senhor Rei D. José, Meu Augusto Avô, 



1 



1) Apesar de reforçado por ordem particularizada como a Carta Régia de 19 de 
Agosto de 1790 ao governador de Minas, mandando que elle Incumbisse a Joio Manso 
Pereira da fandacao de uma usina destf» género. 

2) Revista do Instituto Histórico Vol . IV 8npplemento pgs. 83 e 34. 

3) Foi em 1801. Vide Correspondência do Visconde de Anadia eom Francisco da 
Cu oh» Meneses (B N.»r>. ^ 

4) Foi em 1804. Aviso de 7 de maio do Visconde de Anadia a Franotsc da Canha 
Menezes (B. N.»l). 



— 62 - 

« de Mui Gloriosa Memoria, que Ordenou a este fim os mais 
« sábios estabelecimentos » ; essa volta, pois, a politica económica 
de D. José, isto é a tradição pombalina, sem os impulsos de des- 
potismo da epocba, primeiro e do Grande Ministro, em secundo 
logar ; essa filiação administrativa e politica da era nova ao único 
período brilhante da historia económica portugueza no Século XVIII, 
foi o que chamou um accesso de actividade de D. João 6.° e dos 
seus mandarins, títeres entre as mãos de baixos interesses ingle- 
zes (1). À tanto pôde levar a negação de critica na Historia, 

Attenuado. embora, pelo estado de sobre salto continuo em 
.que unia a Europa talada pelos exércitos napoleónicos, soffrendo 
as duras provações a que estava sujeita toda a península ibérica 
continuou esse movimento emancipador da Colónia da America. 
Poucos documentos tem sido publicados relativos a esta epocha 
mas encontram -se nos archivos ainda inéditos dos governos das 
capitanias e no do Vice-Rei, elementos comprobatórios dessa af- 
irmativa. Para citar tão somente dous actos deste gone.ro, lem- 
braremos o alvará de 24 de Abril de 1801 , mandando estabelecer 
uma fabrica de ferro em Sorocaba (2), e o de 13 de maio de 
1803 creando a Real Junta Administrativa de Mineraç&o e Mo- 
delagem, pelo qual se tratava, entre outras cousas, de prover ao 
« estabelecimento de escolas mineralógicas e metallurgicas »eme- 
€ Ih ante as de Freiberge e Shemintz de que tem resultado áquelles 
c paizes tao grandes, e assignalàdas vantagens » ; nelle se dimi- 
nuía de 20 a 10 °[ # o imposto sobre o ouro : descentralizavam- se 
os serviços administrativos referentes ás lavras, e procurava-sc 
orientar as reformas em um sentido liberal. 

Já em 1*500, em S. Paulo, o capitão general António Manoel 
de Mello Castro e Mendonça em cumprimento da ordem de 1795 
tinha mandado a Ypanema o então Coronel mais tarde Marechal, 
Cândido Xavier de Almeida, junto com o chimico João Manco 
Pereira afim de examinarem a montanha e disignarem o local 
para uma nova fabrica, mandando impedir a devastação das mattas, 
e autoiizando-as a disignar peças, que se deveriam emportar, 
necessárias para este emprehendimento, (3). Referindo-se a estes 
factos, diz Êschwege (4) que em companhia de Manco tinha ido 
n&o o Coronel Almeida, e sim o Dr. Martim Francisco Ribeiro 
de Andrada, nomeado em 1801 inspector das minas e mattas da 
Capitania de S. Paulo ; e aproveita a occasiao para tratar zom- 



(1) Oliveira Martins. O Brasil o as Colonial portuguesas, pg. 102 e 103. 

(2) Collecçao da Legislação Portuguesa, Desembargador António Delgado da 8ilra, 
Lisboa 1828, Vol. de 1791-1801, pg. 700. 

13 1 Memoriai do Senador Vergueiro pg. 12. 
(4) PiaiHê Brarifontiê, pg. 513. 



- 63 - 

beiteiramente a este nuto ralis ta, com aquella maledicência e des- 
cortezia de que ficou a fama trazida ao nosso conhecimento por 
antigos habitantes de Ouro Preto, onde o eminente scicntista 
allemâo por longo tempo morou. 

Nào sabermos até que ponto é exacta esta afnrmaçao do Plutus 
lirasilitnsis. 

A discripç&o, feita nesse livro, dos trabalhos dirigidos por 
Manco, dá a entender que construirão em Ypanema um forno 
alto com um foles, movidos a braços, ao lado e, que as cargas, 
na experiência única entào feita, se compunham de combustível 
e minério sem ad dição de fundentes. Apezar de todos os esforços 
nenhum ferro foi produzido, e os improvizados metallurgistas, 
que tinham chamado toda a vizinhança para assistir á corrida 
do metal, tiveram de esgueirar- se promptamente, fugindo ao des- 
contentamento dos convidados* Os erros grosseiros dessa insta Ilação 
deveriam por o Dr. Martim Francisco acima da suspeita de nelles 
haver collaborado. Alem de seus estudos theoricos, revelados nos 
relatórios remettidos para Portugal (1), elle conhecia entre outras 
fabricas a de Figueiró dos Vinhos, no Reino, dirigida por Var- 
nhagen (2); e em seu relatório de 1803, os termos por elle em* 
pregados (3) bem mostram que nào praticaria aquillo de que o 
accuza Eschwege. Diz o Inspector das minas de S. Paulo. «Nào 
< me demoro em descrever extensamente o mineral de ferro, na 
« riqueza e abundância, em marcar o lugar em que se devem 
« levantar as ferrai ias, caso de querer Sua Alteza aproveitar esta 
« mina, em fazer ver os erros, e por consequência os prejuízos, 
« que ti verão os que emprehender&o trabalhal-a no tempo de 
« Morgado de Matheus, finalmente em dar uma noção sobre a 
« abundância de agoas, matas, fundente, e todos os demais mis- 
« teres, necessários a um tal estabelecimento, pelo ter feito em 
« uma memoria separada, que a este respeito envio ao menis- 
« terio (4). » 

E' mais plausível, portanto, a afíirmativa de Vergueiro, que 
adoptamos, de que a vizita do Dr. Martim Francisco a Ypane- 
ma foi posterior á missão de Joào Manco, e que dos actos d«*ste 
somente foi approvado por aquelle a escolha do local para o 
açude e para fabrica. E se uma prova complementar fosse ne- 
cessária, ahi estaria o Jornal da viagem referente a 1803, em 



(1) Jornaee da» viagens pela Capitania de S. Panlo, Revista do Inst.« H(*t • Vol. 
XLV pg. 6 Jpara os annos de 1802 e U03 Vol. IX pg. 627 para 1805). 

(2) Loc. eit., Vol. XIV pg. 18. 
(3; Loc. oit., VoL XLV pg. 21. 

4) Nio se conhece este trabalho. 



- 64 - 

qne o sábio accnsado declara, na data de 23 de Fevereiro: 
«Occupei o dia em fundir a a amostra da mina de ferro de 
Arara çoiava e obtive acima de 60 por 100 em ferro coado.» 

Parece, portanto, liquidado este ponto, secundário aliás, de 
nossa historia industrial. 

Ao passo que em S. Paulo se ensaiavam a produzir ferro 
em Ypanema, as tentativas em Minas já tinham transposto a 
primeira phase de incertezas. 

A ordem para guardar sigillo e não alargar o âmbito das 
experiências, dada por D. Rodrigo José de Menezes, não tinha 
podido ser observada á risca, em uma capitania onde numero- 
síssimos eram os oscravos vindos da Africa, metallurgistas natos 
como bem fazem notar os ethnologos, e dos quês alguns eram 
empregados em pequenas ferrarias onde o preparo de metal 
accessoriamente podia ser feito. O testimunho auctorizado de 
D. Luiz António de Souza mostra não importante foi o concurso 
do Negro para o funccionamento da fabrica de Araçoyaba em 
1765 — 1775. O mesmo facto notou-se em Minas, e é referido 
pelo Barão de Eschwege. Graças ao auxilio desses humillimos 
operários, podiam ser fabricados pelos fazendeiros alguns obje- 
ctos de ferro para uso próprio, e parece ter tido algum 
desenvolvimento esta industria após a caria Regia de 
1795, pois em 1803 mostraram ao auctor do Pluto em 
Lisboa tesouras e facas remettidas pelo Governador da Capi- 
tania* Attribue aquelle geólogo a dous escravos, um pertencente 
ao Capitão Mor António Alves (de António Pereira, junto a 
Ouro Preto) e o outro do Capitão Durães (de Inficionado), a 
iniciativa dessas fabricas rudimentares. Além desses elementos 
de convicção possuímos um depoimento o f fie ia 1 sobre a existên- 
cia e o desenvolvimento da siderurgia Mineira, e é a correspon- 
dência do governo com o Conde de Palma. 

Em 1810, por decreto de 13 de Maio (1) tinha O. João 
resolvido contrahir um empréstimo de 100.000 cruzados para 
estabelecer uma fabrica de fundição de peças de artilheria e de 
canos de espingardas, e por acto de 12 de Novembro do anuo se- 
guinte tinha resolvido que junto a cada regimento houvesse 
uma officina para concertar as armas de fogo (2) Já em 9 de 



(1) Existem varia* compilações de leis, alvuras, e cartas regias e dicisões do go~ 
verno para o período de J8H8 a 7622. Nenhuma ó exacta e completa, e ó mesmo certo 
que, consultadas coHectivamente, ellas deixam ainda muitos documentos estravagantes . 
Para o nooso tralho, empregamos a edição de 1834, publleada em Ouro Preto na tipo- 
graphia do 8ilva, e a compilação do I.» escriptorario do Thesouro, Joaquim Isidoro 
Simões, publicada no Rio na Imprensa Offlcial. em 1891. Nas dilações que tivemos de 
fazer, indicaremos a Compilação que nos tiver servido. 

2 Liis Brazileirat, compilação Joaquim Isidoro. 



- 65 - 



Janeiro de 1811, tinha determinado a creaç&o em Minas de uma 
fabrica de espingardas e de baionetas, para o que o conde de La- 
nharas deu instrucções ao Capitão General (1). Desde logo pro- 
videnciou este para dar cumprimento às ordens recebidas, tro- 
cando-se correspondência activa sobre o caso, até que em 1812, 
tendo morrido Linharas mandou a 4 de Agosto o Conde de 
Aguiar, seu successor, se sobrestasse ao estabelecimento da fa- 
brica, porque, ouvido o Inspector General Carlos António Na- 
pion, declarara «n&o convinha por agora tal Estabelecimento 
« nessa Capitania a pesar de ponderosa circumstancia de serem 
«nella os jornaes dos Artífices muito mais módicos, do aue 
cnestA Corte; pois que n&o se extrahindo abi o ferro, primeira, 
c principal matéria, ficaria inutilizada aquella vantagem com os 
< enormes fretes da conducç&o deste género. 

A 20 do mesmo mez, retrucou o Conde de Palma provan- 
do o nenhum fundamento dessa resoluç&o, e logo a 11 de Se- 
tembro, em resposta o Conde das Galveas mandava declarar de 
nenhum effeito a ordem autorizou, a continuar a fundação da 
usina, dizendo ao governador : c S. A. R, Foi servido approvar 
muito o que V. Ex.* já havia praticado para que aquelle esta- 
c belecimento se podesse verificar ; e porque hum dos principaes- 
c motivos, em que sé fundou aquella Ordem de supres&o éra a 
c falta de ferro, que se entendia haver nessa Capitania, que obri- 
c garia a fazer-se grande despeza com o transporte d'aqui, cee- 
csando agora este inconveniente, visto que V a Ex. â participa que 
c os particulares tem augmentado muito abi a extracção d'aquelle 
« metal ; Manda a S. A. H. Declara a V. Ex. 6 que approva etc. » 

Ora em 1812 neubuma das fabricas de Y pane ma, Gaspar 
Soares ou Congonhas do Campo, oficiaes as primeiras, e particular 
a ultima, produziu ferro; eram pois as pequenas forjas, estabe- 
lecidas em virtude da liberdade concedida em 1795 a este ramo 
de industria, que davam essa prova de vitalidade. Era a acção 
do Príncipe Regente que se fazia sentir beneficamen te no Brasil, 
como em Portugal também onde elle procurava fomentar a me- 
tallurgia pela fundação da fabrica de Figueiró dos Vinhos di- 
rigida por Varnhagen e para a qual dera Regimento em 1802, 

Um plano tfto seguidamente executado, máo grado as inter- 
rupções e desgostos causados pelas guerras peninsulares, n&o 
podia deixar de manifestar se por actos no Brasil, após a tras- 
ladação da Familia Real, principalmente em achando o Regente 
terreno tao preparado ao desenvolvimento de suas ideias sobre 
este assumpto. 



3 BratHêira* Lh* eompllaçio de Ouro Preto. 



- 66 - 

Obedecendo ao progranima vasto delineado pelo Dr. Vieira 
Conto, queria o Governo portuguez montar immediatamente uma 
usina capaz de abastecer o Brazil e exportar as sobras (1). Nao 
lhe parecia pratico desenvolver as pequenas installaçoes existen- 
tes, e, por isso, desde os primeiros tempos de sua estada na Ame- 
rica cuidou D. João do fundar vastas ofncinas metal lurgicas. 
A carta regia de 10 de Outubro de 1808, que autorizou o Inten- 
dente da Camará a dispender 10 contos de reis dos 120:000$ 
de consignação annual feita aos trabalhos da extracção diaman- 
tina, vizava o estabelecimento de três fornos altos com doze 
forjas de refino. Em Ypanema quizeram ter fornos suecos pro- 
duzindo 600 toneladas por anno, e mais tarde dous altos fornos. 

Não quiz, porém, a administração regencial deixar esses 
emprehendimentos á boa vontade e á iniciativa de particulares. 
Era intenção assentada fundar- Be a siderurgia, e era mister rea- 
lizar este plano. 

Para isto, em 1799, tinha Bernardo José de Lorena recebido 
ordem de installar, a expensas do Real Erário, uma fabrica no local 
que o metallurgico João Manco Peroira indicasse. Frustada essa 
tentativa, foi ainda á custa da Fazenda Real que o Dezembar- 
gaJor Manoel Ferreira da Camará Bittencourt e Sá recebeu a 
ordem de estabelecer as forjas do Morro do Pilar. E quanto a 
Ypanema, onde se fundou uma Bociedade por acções, o quinhão 
do Governo foi de 100 escravos, dos bois necessários, e dos 
ordenados durante quatro annos do Director e mineiros vindos 
da Suécia para montagem da usina. 

Convém notar que ambos esses estabelecimentos correspon- 
diam á execução de um plano assentado com larga antecedência. 
O do Morro de Gaspar Soares data de 1808: o de Ypanema, se 
bem que iniciado em 1810, foi planejado muito antes, como bem 
provam os actos preliminares de 1800, a qne allude a Carta 
regia de 4 de Dezembro de 1810 ao Capitão General de S. 
Paulo, António José da Franca e Horta, e as instruccões para 
o contracto com os mineiros suecos dados ao ministro em 
Stocholmo, o Conde de Oriola, as quaes devem ser de 1809, 
pois de 31 de Dezembro desse anno é o pacto firmado com 
Hedberg e seus companheiros. 

Ao envez do que se vio na chronica das tentativas an- 
teriores de estabelecimento de usinas metallurgicas, abundam 
os documentos e as narrativas sobre essas duas fabricas. Sobre 
Ypanema, além da correpondencia official existem as Memorias 



(I) Vide carta regia de 4— XII -1810, sobre afandaç&o de Ypanema. Leis Brasileira* 
compílaçftp Jaoaquim Izidoro. 



- 67 — 

do Senador Vergueiro, os apontamentos deixados por Var- 
nhagen e utilizados pelo Visconde de Porto Seguro os numerosos 
relatórios administrativos e scientificos, quer do origem offícial, 
quer feitos por pessoas extranhas a fabrica. Sobre o Morro 
do Pilar o que corre mundo é a fama immerecida que o en- 
tbusiasmo dos poetas e oradores da Diamantina e a tendência, 
tão brazileira, ao elogio inconsiderado, partindo de incompe- 
tentes sagiando reputações, decerniram, pon tin 1 cantes, ao Dezem- 
bargador Ferreira da Camará. Homem realmente notável por 
muitos títulos, elle não pede reivindicar para sua glorifica- 
ção o que fez no Morro de Gaspar Soares, a não ser que se 
considerem suas boas intenções como equivalentes ou mesmo 
superiores aos despropósitos que ai 11 foram praticados. 

E somente a ignorância dos criticos de banquete, redacto- 
res das Festas no Tejuco (1) e o fervor louvaminheiro dos pa- 
trioteiros a todo transe, puderam mascarar o que effectivamente 
foi aquella usina isto é : um completo desastre em todas as 
suas phases. E' certo que o principal informante sobre este 
capitulo de nossa historia industrial, e Barão de Escbwege, 
não pode ser dado credito absoluto. O vezo inveterado deste es- 
criptor em detractar aos homens do Brazil, com aquella arrogân- 
cia irritante do offlicial allemão que esmaga sob seu desprezo 
as vagas individualidades que o cercam, e a hostilidade cons- 
tante de que elle deu provas para com o Intendente Camará 
tornam suspeito seu testimunho, ou pelo menos impedem se 
lhe acceitein todas as informações. Existe, porém, um diário das 
operações da fabrica, feito por um mestre fundidor, origem de 
attritos muito sérios entre Eschwege, Camará e o próprio Prin- 
cepe Regente, o allemão Shõnewolf, que minstra os esclare- 
cimentos precisos para julgar os erros technicos e administra- 
tivos commettidos naquella usina (2) 

A carta regia de 10 de Outubro levou o Intendente dos 
Diamantes a procurar termos onde houvesse abundância de mi- 
nério, de mattas e de força motora para as novas installações- 
Apos varias offertas, acceitou elle a doação do guarda-mór 
Saercho de Barros Heredia que lhe deu além do terreno me- 
tal li fero uma sesmaria de florestas para o fabrico do carvão, e 
ainda o auxiliou em suas primeiras tentativas. Houve, porém, 
por parte da Camará desídia acceitar informações de seus auxi- 



(1) Na Reta. do Archivo Publico Mineiro VoT VII, pag. 13* 

(2) Um resumo bastante completo, deste diário encontra se I.o Pinto' Bratiliensit 
(pa 621 . 



- 68 -- 

liares ou erro na apreciação das condições locaes, pois nem a 
área coberta de bosques era sufnciente nem a situação da usina 
foi bem escolhida. 

Basta dizer que, existindo á margem do ribeirão larga 
copia de energia motriz, foi installado o forno no alto do Morro 
como bem nota, além de Eschwe, o próprio A. de Bovet (1), 
tornando assim obrigatório a construcç&o de grandes reservató- 
rios para armazenar a agua das chuvas, principal contribuiç&o 
para dar movimento aos machinismos alli installado». Perdeu se 
por esta forma a força abundante fornecida pelo córrego volu- 
moso que passa ao pé do morro. 

A 5 de abril de 1809 (2) começou a construcç&o, para a 
qual o Dezembargador pedia um prazo de 2 annos apenas. Em 
1811, porem, dos três altos fornos e das doze forjas de refino só 
estavam feitos um dos primeiros e uma das ultimas, alem de um 
malho. Foi então que Camará verificou que a agua disponível no 
alto do morro era ineufEciente, e que as operações de transporte do 
material produzido, combustível e minério tinham sido em extre- 
mo dificultada pela collocação da fabrica na encosta escarpada 
quasi no cume da elevação. Permitio, entretanto, no seu plano 
anterior, e tentou adduzir por meio de um rego de mais de legoa 
as aguas do ribeir&o. Esta em preza n&o foi levada para deante, 
e resolveu -se utilizar as aguas fiuviaes collectadas em grandes 
tanques a montante dos fornos ; era isto condemnar a fabrica a 
funccionar somente na epocha das aguas, a peior de todo o anno. 

Apezar de todos os esforços não tinha, ficado prompto o esta- 
belecimento no prazo fixado ; em outubro de lôll, indo Eschwege 
ao Morro do Pilar em cumprimento da missão official de que 
estava imcumbido (3), ouvio delle que fundiria ferro por aquelles 
três mezes quando estava potente a quem entendesse do officio 
que nem por aquelles dois annos tal cousa seria possível. A todos 
as justíssimas observações do sábio allemão, respondia Camará 
com superioridade que elle entendia disto melhor que ninguém. 

O eerto é, entretanto, que mil e um contratempos surgiam, 
e, exgottados os recursos próprios, resolveu o Intendente em fins 
de 1812 pedir o auxilio, não de Eschwege, mas de um mestre 
fundidor allemão, que com este trabalhava. Já existia rivalidade 
entre os dous metallurgistas, um de facto e o outro com pui a 



<l) Annsei da Escola de Minas Vol. 2.», A Industria Mineral na Provinda de Minas 
Gemes pg. 36. 

(2) BphemtrilUi Mineiras do J: P. Xavier da Veiga. 

Í3> Carta de 6 de Julho de 1811 do Conde de Linhares ao Corel li de Palma. Leii 
JhratâHrat, compilação de Ouro Preto, e carta de Linhares ao Conde de Palma a l.« de- 
outnbro de 1811 Revista do Archivo Publico Mineiro, vol. 10 pg. 732. 



~ 69 - 

erudição livusca, e já se tinham dado attrictos entre ambos. 
Luiz o allemào aproveitou-se deste ensejo para demonstrar o 
nenhum valor pratico do sen concnrrente brasileiro, e allegou 
vários motivos para não 6epararar-se de seu fundidor Schõnewolf 
deixando Camará entregue a seus recursos próprios (1) Em 2 de 
fevereiro de 1813 dizia Eschwege que, sem prejuízo para a fabirca 
que elle próprio estava montando, só poderia mandar o fundidor 
para o Morro do Pilar, de fins de Abril a meados de Junho ; ja 
em 11 de março declarava elle não poder dispensar os serviços 
desse operário. Insistindo o Governo, vqltou o geólogo a de- 
monstrar em officio de 26 de abril (2) os inconvenientes da 
resolução tomada. Apezar de tudo, ordenou o Con. de Aguiar 
seguisse o empregado para a fabrica de Gaspar Soares, logo 
que tossem dispensáveis os seus serviços em Congonhas, onde 
elle auxiliava ao Barão nos trabalhos da forja ai li estabelecida. 
Foi cumprida a determinação em fins de 1813 ou em princí- 
pios do anno seguinte (o) N&o cessou, por isto, o empenho em 
íazel-o voltar, afim de auxiliar os serviços» de pesquiza e de 
metallurgia do chumbo e da prata no Abaete. Taes foram os 
termos em que respondeu Eschwege ao officio da junta de Fazenda, 
dando instrucções para o estudo da galeria, e com tal insistência 
reclamava a vinda de Schõnewolf, que em 17 de junho de 1815 
essa corporação, offendida, representou ao Príncipe Regente contra 
o desacato soífrido. Consultado o conselho Supremo de Justiça 
resolveu D. João mandar censurar ao auctor do aggra vo, de- 
clarando (4): 

c Ainda que se devão esperar bastantes vantagens para 
c o Real Serviço das luzes, e préstimo do sobredito Guilherme, 
€ Barão de Eschwege, huma vez que se empregue eficazmente 
« em os objectos próprios de sua profissão, e destino, e que 
« a cada passo se offerecem nessa Capitania aos olhos de hum 
c observador intelligente, activo e perspicaz, foi bastantemente 
« desagradável na Real Presença huma semelhante contestação 
< em prejuízo do Seu Real Serviço, e contra o decoro com 
« que se devem tratar os Tribunaes, e os Empregados Publi- 
« cos ; principalmente quando exercem as funcções de seus 
« Officios ; portanto He O Mesmo Senhor Servido Ordenar, que 
« V. S. assim o faça constar ao sobredito Guilherme Barão 



(1) Cartas do Conde de Aguiar ao Conde de Palma em 29 de marco e 9 de ju- 
nho de 1813, Leis Brasileira* compilação de Ouro Preto. 

(2) Reviuta do Archivo puolico Mineiro, vol. Vin, 1903. pg. 336. 
('3) PhUo DratUimuu pg. 620* 

(4) Avizo de 18)5. Lei» BraêtUiras, pg. 405 compilação de Ouro Prelo no exem- 
plar de Leis que possuímos, ha uma omissão que impede conhecer-ae a data. 



- 70 - , 

« (TEsctnvege, sendo a este fim chamado á sua presença ; pro- 
« curando Y. S. com o zelo, prudência e discernimento com que 
« se emprega no Real Serviço manter a boa ordem, e a indes- 
« pensa vel subordinação dos Empregados Públicos, e declaran- 
c do-lhe, que se lhe não hé possível emprehender a fundição 
« da Galina do Abaete, sem o Fundidor João Schonewolf, por 
« isso se não deve tirar este da Fabrica de Ferro do Morro 
c do Pilar, em quanto o não dispensar o Dezembargador In- 
c tendentes dos Diamantes, não podendo comprovar-se o trabalho 
« e as difficuldades do Estabelecimento de huma Fabrica de 
« Ferro, e a fundição deste metal em Fornos altos com a íun- 
« dição de huma Galena, e a separação da Prata, nem sendo com- 
« paráveis os interesses, e vantagens, que se devem esperar do Es- 
« tabelecimento d'aquella Fabrica de Ferro com os que se poderão 
« tirar da fundição da Galena de Abaete, cuja mina ainda não está 
« suficientemente explorada, para se reconhecer a sua situação, 
« e riqueza, bem como as despezas, que exigem a sua lavra, havendo 
« ao principio parecido, que com dous contos de rs. se poderia fazer 
c hum Estabelecimento desta natureza. » 

Apezar do valor dado por Camará á prezença do fundidor em 
Morro do Pilar, prova o diário redigido por Schonewolf quando 
o Dezembargador tinha em pouca conta os c nselhos alheios, 
vizando rectificar erros por el]e commettidos. Disto 6 prova 
cabal a narração da corrida de ponte que se procurou fazer 
em 22 de julho de 1814, da qual resultou a demolição de uma 

Sarede do forno, no qual todo o metal coalhara por imperfeição (1) 
os apparelhos planejados pelo Intendente e imperícia da sua 
direcção. Por mais que o tronco fizesse pagar aos operários o desa- 
grado em que tinham incorrido perante seu chefe supremo, por mais 
que este castigasse, cruelmente por vezes, os negros da fabrica, não 
rancei onava o forno alto ; de sorte que, furioso, Camará abandonou 
o Morro do Pilar entregando-o a um irmão que elle nomeou admi- 
nistrador. 

Duraram mezes a demolição e a reconstrucção dos apparelhos, 
sob a direcção principal de Schonewolf. Largas sommas foram dis- 
pendidas, talvez mesmo irregularmente (2). Finalmente, para justi- 
ficar com a producção de algum ferro as elevadas sommas gastas na 
usina, mandou o Intendente construir em 1815 dous pequenos fornos 
suecos, segundo o modelo da fabrica de Eschwege em Congonhas, e 



(1) Os apparelhos compressores do ar, foles movidos por engenhocas e correntes 
eram absurdamente planejados e construídos (Vide Pinto, pg. 524, nota 1) 

(2) Pinto. pg. 525, segando narração de Schonewolf. 



r 



— 71 — 

nunca mais se pensou em obter ponte do forno alto. Ao todo a pro- 
ducção deste foi de 330 arrobas, ao passo que a dos apparelbos sue- 
cos installados pelo fundidor allemao deu 6500 arrobas de ferro em 
barra 

As festas com que o Dezembargador Camará foi recebido em 
Diamantina em Outubro de 1815 para solemnizar-se a entrada 
naquella cidade das primeiras barras de ferro da fabrica do Morro 
do Pilar mais justamente deveram ter sido endereçadas a Schõnewolf, 
verdadeiro fabricante nos fornos suecos do material transportado, do 
que ao Intendente cujos planos tinham gorado e que quasi nenhuma 
fonte tinha obtido no seu imprestável alto forno. Taes festas foram 
simples enscenação para mascarar o mallogro do chefe da empreza. 

Camará reclamou pessoal habilitado da Europa, mas nào foi 
attendido, a solicitação, de sorte que somente funccionaram as 
installações projectadas e feitas pelo mestre allem&o. Foi decabindo 
a usina aos poucos, ruindo por terra as construcções ideadas pelo 
Dr. Ferreira Camará. Era voz corrente que tinha mal lo grado a 
tentativa, e, em 1821, partindo Scbõnewolf para a Allemanha, 
cessaram os trabalhos em Gaspar Soares. Este ensaio, entregue 
á presumida, mas inexistente competência metallurgica do Inten- 
dente dos diamantes, para o qual o Príncipe Regente tinha con- 
cedido 10 contos de réis, custou effecti vãmente ao Real Erário 
300.000 cruzados, ou 120 contos. O custeio da usina, nos seis 
ânuos em que funccionaram os fornos suecos de maio de 1815 a 
princípios de 1821, foi o seguinte : 

1 Admnistrador 400$000 

1 Mestre de moinhos 240S000 

6 Feitores : 520$000 

1 Mestre fundidor , . 340S000 

1 Ferreiro 30*000 

2 Carpinteiro 210$000 

28 Trabalhadores, para o forno e o malho. l:764$0O0 

17 Aprendizes 714$000 

70 Escravos, para o preparo do carvão . . 2:940$000 

7:158$0CO 

Sem contar com o material, temos, portanto, em seis annos 

um dispêndio de 42:948$000 ao qual 
deve ser sommado o prejuízo em ani- 

maes de l:336$0O0 



44:484$000 



- 72 - 

Nesse mesmo intervallodetempo, o ferro produzido, proveniente 
quasi exclusivamente dos fornos de Schonewolf, foi o seguinte : 

1815 395 arrobas 

1816 1,156 » 

1817 796 > 17 libras 

1818 936 > 11 » 

1819 701 » 3 > 

1820 2,536 » 31 » 

1821 343 > 9 > 

6,865 arrobas 9 libras 

O valor da arroba de ferro sendo de 2J000, naquella epocha, 
toda a producc&o valeria 13:730$000, ou, sobre o custeio de 
44:284$000, um deficit de 30;754f 000. O Intendente Camará, com 
a sua tentativa infructifera, de fundir ferro deu portanto um 
prejuizo total de 150 contos ao Real Erário, entre custo de ins- 
tallações e defeito no custeio ; e se nao o deu maior, porque o 
seu mestre fundidor, com o estabelecimento dos outros apparelhos, 
ponde atalhar os erros commettidos por aquelle. (1). 

Razão de sobra, portanto tinha o Dr. A. de Bovet quando 
c dizia (2), Esta tentativa mallogrou-se rápida e completamente 
« teve a sorte de muitas outras devidas também á iniciativa do 
« mesmo Intendente Camará, que parece ter tido sempre muita 
« facilidade em emprehender obras consideráveis, sem cuidar das 
« probabilidades de successo. » 



Ao mesmo tempo que em 1808 cuidava o Príncipe Regente 
de fundar a expensa do Real Erário a fabrica do Morro do Pilar 
e já providenciava sobre a de Ypanema como atraz ficou dito 
também lhe nào passava despercebida a vantagem de se estabe- 
lecerem usinas creadas pela iniciativa particular, sem previlegio 
de qualidade alguma. Dahi nasceram vários projectos dos quaes 
6Ó se realizou um, a fabrica de Congonhas do Campo dirigida 
por Eschwege ; chronologicamente, porem, ella devia ser estudada 
mais tarde, em quanto que uma outra tentativa, que se nao trans- 
formou em facto, se originou no mesmo anno com que foi orde- 
nado erigir-sea forja de Gaspar Soares. Este emprehendimento 
traz outra nota curiosa : o demonstrar a incompleta confiança de 
que gozavam, no meio governamental, as experiências feitas por 
outrem que não os mineiros práticos em trabalhos, similares no 
continente europeo. 

(1) A maior parte deitei dados foram tirados dos apontamentos de SchOnewolf 
\d Pinto pg. 621-329. 

(2) Loc. dt. pg 36. 



— 73 — 

Em 1808, um alferes de Ordenanças Luiz da Cunha Mene- 
zes, declarou, no Rio de Janeiro, possuir aptidão para trabalhos 
metallurgicos e sentir-se com forças para formar uma companhia, 

Írae, sem previlegio algum, desse impulso a uma fabrica de 
erro. O Principe Regente, solicito em promover o desen- 
volvimento económico da Colónia, apressou-se em galardoar 
Menezes com uma promoção a Capttão, e em conceder-lhe izen- 
çào de impostos por dez annos para todo o ferro que produzisse. 
Poz uma condição, porém, para tornar effectivo esse favor, e 
era que esses trabalhos de mineração e fundição tivessem come* 
ço dentro em um anno «pois que com maior dilação não devem 
« ter o seu efíeito, por deverem já então ter chegado Fundido- 
res hábeis, e próprios, que possão verificar estes trabalhos em 
« grande, sem dependência destes pequenos ensaios, que ora 
« por este modo se procuião animar.» (1) 

Estes fundidores hábeis, a que se referia a Carta Regia, 
eiam os Suecos que iam montar a fabrica de Ypanema. 

Apezar da confiança limitadíssima que este documento revela 
ter infundido no animo dos Ministros o Capitão Cur.ha Mene- 
zes, partiu este para Minas, afim de dar conta de sua incum- 
bência . 

Embora sem citar-lhe o nome, encontram-se vestígios de 
seus trabalhos em 1809. Uma condição supplementar para a 
formação da Companhia que elle vizava constituir, era tornar- 
se sócio da mesma o proprietário do terreno mineral, ou a 
acquizição deste í or seu justo valor accrescida do que a lei arbri- 
tava aos que vendiam terras para serviço publico. 

Parece que nas cercanias de Sabará, uma fazenda perten- 
cente a uma Senhora tinha logrado ser escolhida pelo conces- 
sionário dos favores mencionados na carta ie 24 de Novembro. 
A proprietária, T)orém, recusava entrar para sócia da empreza, 
nem queria vender terras, e o Capitão General de Minas, redro 
Maria Xavier de Ataíde e Mello, consultou ao Governo sobre 
si devia coagil-a a vender sua fazenda. Conhece-se a resposta 
negativa do Conde de Linhares a 1 de Abril de 1809. (2) 
Desde essa data, não se tem mais noticias desta tentativa par- 
ticular, e recomeça a historia dos emprehendimentos, até que 
a iniciativa de Eschwege em 1811 veio abrir uma phase nova 
e definitiva á siderurgia em nosso paiz. 



1 C»rta Regia de 24 de Novembro de 1808' Leii Brasileiras Compilação de Ouro 
Freio, 

2 Leii Brasileiras Vol. I pg. 233. 



— 74 — 

Foi em Ypanema que D. João quiz estabelecer o modelo a 
seguir-se para o aproveitamento das riquezas ferríferas do Brasil. 
Desde 1808 pensava o Governo em mandar vir da Europa 
pessoal habilitado para iniciar a fundição do ferro na America. 
Ora a escolha era limitada a três nacionalidades— os Suecos, os 
Allemaes e os Biscainhos— dos quaes os últimos estavam fora 
da questão, pelo estado de lucta permanente entre os dous 
povos da península ibérica. Da Allemanha tinham vindo dous 
homens do maior valor, ao qual o Brasil deve immensa grati- 
dão pelos serviços que prestaram, Eschvege e Varnhagen, sen- 
do que este era director da fabrha de ferro, de propriedade 
official, de Figueiró das Vinhas, em Portugal— Era natural, por- 
tanto, que os novos mestres em siderurgia viessem do outro 
paiz donde se abastecia a Europa de ferros excellentes e aços 
tinos : a Suécia. 

D. Joaquim Lobo da Silveira, mais tarde conde de Oriola, 
ministro portuguez em Stockolmo, recebeu a incumbência de 
contractar o pessoal technico necessário para a fundação do 
estabelecimento paulista— Ignorando por inteiro o assumpto de- 
legou o diplomata ao Cônsul naquella cidade a 'delicada missào- 
Acon tecia, porém, que este ultimo funecionario Bayer, era um 
prevaricador quasi confesso, somente enxergou no cumprimento 
de seu dever meios de resarcir prejuízos commerciaes. O que 
se passou então foi uma verdadeira comedia, pondo de parte a 
immoralidade do proceder da auetoridade consular. 

Era este credor de um Sueco, chamado Carlos Gustavo 
Hedberg, serralheiro escripturario de minas e mais tarde arren- 
datário da mina real de Adelfors, incompetência technica e hábi- 
tos de prodigalidade tinham levado este personagem a contra- 
hir grandes dividas, achando-se insolvavel, quando o cônsul por- 
tuguez recebeu a commissuo de contractar os mineiros ; a Bayer 
tão somente era Hedberg devedor de 10.000 cruzados. Foram 
rapidamente concluídas as negociações que tinham em mira 
não prestar o serviço exigido pelo Príncipe Regente, mas ga- 
rantir o reembolso do funecionario prevaricador e permittir a 
reconstituição da fortuna do aventureiro. Hedberg ficou incum- 
bido de tudo ; elle contractaria o pessoal subalterno ; elle pa- 
garia seus ordenados ; elle receberia o dinheiro destinado a 
todos— Enfim, tudo girava em torno de sua pessoa- -Começou então 
o Sueco o trabalho de consolidação de suas dividas— A Linds- 
trõn, alfaite, elle devia 300 florins; levou-o para Ypanema como 
Hoi-disant mineiro pagando-lhe 320 reis de salário diário— Cari 
Doulhwardt, antigo capitão de navios mercantes e de guerra, 
tinha um irmão credor de Hedberg por 4,000 florins : veio para 



— 75 — 

o Brasil afim de se empregar, Cari von Printzensold era filha 
de um credor de 10.000 florins, cujos juros deveriam ser o ren- 
dimento de seu filho ; foi ter emprego em Ypanema, como se- 
cretario do Director, porém sò aguentou o encargo até 1812. 
Ao Barão de Fleuming eram devido3 13.000 florins; para obter 
o pagamento de parte desta quantia, perdoou o credor 3.000 
florins, reduzindo-se a divida a 10 000 tão somente; veio para a 
&brica para obter seu reembolso, que nunca foi feito. 

Os outros pseudo-mineiros completavam esta verdeira cour 
des miracles : um delles era criado de quarto na Suécia e em 
Ypanema figura como serrador : outro era sapateiro ; um tercei- 
ro era bicho de coBÍnha ; dous mais eram carpinteiros ; outros» 
eram aprendizes de pedreiro e de serralheiro ; finalmente encon- 
travam-se ainda escrivães públicos, soldados reformados e que- 
jandos. Que pudessem ter algum valor, só se citariam um serra— 
lheiro e um constructor de foles, e este mesmo morreu logo. 

A todo seu pessoal pagava Hedberg 4$540 por dia, e 
pelo seu contracto recebia do governo 14$000 ; roubava, pois, 
9^60 diários— Não teria grande valor pratico essa deshones- 
tidade se Hedberg fosse um profissional hábil e tivesse ins- 
tallado uma fablica regular— Mas, como vimos, o pessoal trazi- 
do era uma verdadeira collecção de nullidades. 

Nada disto, porém, sabia-se no Brazil, e, por interesse pró- 
prio, tanto o Sueco como seu parceiro na ladroeira de Stockol- 
too, Bayer, espalhavam a fama de Hedberg, que chegou> 
ao Rio de Janeiro com uma auctoridade incontrastada. Já para 
facilitar-lhe os primeiros passos em Ypanema e angariar meio» 
de dar estabilidade aos trabalhos, o governo tinha tomada 
uma serie de providencias. (1) 

O primitivo plano para valorizar aqueila jazida parece 
ter sido a explotação directa pela Fazenda publica— E* isto, 
pelo menos, o que se deprehende das instrucções de 21 de- 
Fevereiro de 1810, dadas a Varnhagen pelo Conde de Li- 
nhares. Dessa ordem consta que aquelle engenheiro e o Ins- 
pector das minaõ de S. Paulo, Martim Francisco de Andrada, 
auxiliado pelo Capitão General António José da Franca e 
Horta, deviam seguir para as minas de ferro de Sorocaba, 
examinai -as e propoz a qualidade de fornos a estabelecer, na 
intuito de preparar-se ferro coado e ferro forjado, e tendo em 
vista o abastecimento em metal, não só de S. Paulo, como 
do Brasil todo ; ficava ainda incumbida esta junta de verifi- 



I Para todo este capitulo sobre Ypanema, valemo-no? principilmante da Memorim 
4o Senador Vergneiro, do Plulo de Esohwege e da correspondência de Varshageo. 



— 76 — 



car si seria mais conveniente do que a acção directa da Fa- 
zenda Real a constituição de uma companhia por acções e, 
neste caso, si em S. Paulo se encontraria quem a fundasse. 

Diz Vergueiro que Varnhagen e Martim Francisco, per- 
feitamente de accôrdo, propuzeram fundar dous fornos bisca- 
inhos com ar soprado por meio de trompas hydraulicas, or- 
çando a despeza em 32:$000$000 e exigindo o custeio cem 
escravos ; ainda de accôrdo, demarcavam o districto mineiro 
e assignalavam o- local do açude. Este plano, entregue a D. 
Rodrigo de Souza Coutinho, em Maio, não foi posto em exe- 
cução, por estar-se á espera da Colónia Sueca, já então con- 
tractada, e a cujo director cabia determinar a orientação a se- 
guir. Por outro lado, Linhares, suggestionado ainda pelo pla- 
no do Dr. Vieira Couto, encarava o problema com intuitos 
muito mais vastos e por isto não lhe podia agradar a propos- 
ta e pratica do competentíssimo Varnhagen. Adiando, pois, a 
accei tacão desta, em 17 de Julho elle communicou ao Gover- 
nador de S. Paulo que estava predominando a ideia de cons- 
tituir-se uma sociedade por acções, na qual Sua Alteza Real 
entraria, e que visse quantos quinhões poderiam ser tomados 
na Capitania. Franco e Horta poude achar treze accionistas, 
o que muito agradou ao Regente, que mandou responder-lhe, 
louvando-o, e annunciando a próxima chegada dos Suecos. Pou- 
co depois, traçava D. João o plano dos trabalhos a effectuar 
em Ypanema. Na Carta Regia de 4 de Dezembro de 1810, 
creou-se um estabelecimento montanistico em Sorocaba, para for- 
necer ferro « ao consumo do Brasil, mas ainda para servir 
« de objecto de exportação», e dá as regras para os auxilios 
prestados pelo Real Erário e para o acolhimento dos minei- 
ros sob a adirecção de Hedberg ; esta ultima recpmmendação 
visava o facto de serem protestantes esses profissionaes, e ser 
necessário acautelal-os contra quaesquer excessos das rivalida- 
des sectárias. 

Para recolher os fundos provenientes das acções subscri- 
ptas, nomeou-se thesoureiro Fernando Carneiro Leão, a 6 de 
Dezembro, e espera vam-se os Suecos. Chegaram estes com to- 
do o material e machinas que tinham trazido, e no aviso de 
10 de Dezembro, em que o Conde de Linhares communicava 
jubiloso a grande noticia ao Conselheiro Franco e Horta, vie- 
ram renovadas e confirmadas as instrucções para o bom des- 
empenho da missão de que vinham incumbidos. 

O empenho do governo regencial era tão grande que, 
successivamente, a 12 e 24 do mesmo mez, elle tornou a re- 
commendar a Colónia ao Governador de S. Paulo e tomou no- 



— 77 — 

vas providencias para se aplainarem todas as dificuldades, man- 
dando que Varnhagen os acompanhasse para esse fim. 

Para prover ás necessidades do novo estabelecimento, a 
Carta Regia de 4 de Dezembro tinba creado uma junta de 
Administração composta de Hedberg, do Inspector das Minas 
Martim Francisco, do juiz conservador o Desembargador Miguel 
António de Azevedo Veiga, do Procurador da Real Fazenda o 
coronel (mais tarde marechal; José Arouche de Toledo Rendon 
e do Procurador dos accionistas o Sargento-mór (mais tarde 
Tenente CoTonel) Frederico Luiz Guilherme de Varnhagen— As 
nomeações foram feitas pelo Cons.* Horta e approvadas por 
aviso de 16 de Fevereiro de 1811— De que valia essa junta, 
porém, se Hedberg possuía a confiança exclusiva do Governo, que 
lhe dava razão contra tudo e contra todos ? Em breve prazo sen- 
tiram-se os effeitos dessa organização viciosa. 

Logo na primeira reunião da Junta começaram os attritos, 
querendo o director da fabrica fazer em sueco sua escripturação 
e a isto oppondo-se os demais membros que, queriam livros es- 
criptos em lingua que elles entendessem afim de não seilludir a 
fiscalização. Mais tarde, deram-se divergências quanto á área 
de mattas necessárias para o preparo do combustível, até que 
chegou a primeira duvida seria quanto ao local e á constru- 
cç&o do açude. Hedberg porfiava em fazer altas despesas, tal- 
vez para se libertar do ónus das construcções, para as quaes era 
incompetente, refugiando-se atraz do pretexto d* ter acabado o 
dinheiro. Varnhagen e Martim Francisco pelejavam por fazer 
obras mais económicas. 

O director, porém, passou adeante e executou um dispen- 
dioso projecto. 

Sueco bem percebia que Varnhagen, por mais pratico e 
entendido, era o único que lhe poderia oppor obstáculo á re- 
alização de seus designios. Perante o Conde de Linhares elle 
trabalhava por persuadir ao Governo que as dimeuldades locaes 
com que luetava provinham do espirito intrigante do enge- 
nheiro allemão. D. Rodrigo, entretanto, só dava credito a Hedberg 
e, por mais que a junta procurasse convencer o Ministro dos 
desvarios do director da fabrica, somente a eBte dava força e 
prestigio. Aos poucos, esses desgostos suecessivos e. repetidos 
levaram os membros daquell? corporação a abandonar o exercí- 
cio continuo de seus cargos. Em Maio ou Junho de 1811 Var- 
nhagen, afflicto por affastaT de si qualquer solidariedade nos erros 
que elle previa resultariam da má direcção das obras, retirou-se 
para S. Paulo e dalli para o Rio. Continuaram e mais se ac- 
centuaram os despropósitos de Hedberg, que em sua correspon- 



— 78 — 



dencia com Linhares (pois este o auctorizava a lbe escrever di- 
rectamente) se mostrava receioso de ser desacatado em seus 
sentimentos religiosos. O Desembargador Azevedo Veiga e 
Arouche persistiram em não approvar os actos do director. 

O ministro, querendo melhorar a sorte da fabrica que elle 
julgava estar sendo prejudicada por intrigas pessoaes (pois a sci- 
encia de Hedberg era para elle ponto de fè, sobre o qual não 
admittia discussão) deu ao Cons ° Horta um successor na pes- 
soa do Marquez do Alegrete e nas cartas Régias de 12 de 
Julho e 22 ae Agosto foram dadas instrucções a este Capitão 
General, sempre em favor do Sueco, e auctorizando o afasta- 
mento de Varnhagen. 

Fouco depois, morria D. Rodrigo de Sousa Coutinho. O 
novo ministro, o Conde das Galvêas, levou algum tempo a 
tomar pé nessa questão, mas, em vendo que até Marti m Fran- 
cisco, exacto cumpridor de seus deveres, dantes favorável ao 
chefe do serviço, agora o accusava, também resolveu, por aviso 
de 4 de Março de 1812, mandar syndicar dos factos pelo Mar- 
quez. A critica de Marti m Francisco tinha peso, não só pelos 
seus conhecimentos theoricos sobre o assumpto, como porque na 
parte que lhe tocava na administração da fabrica, isto é, no 
corte das madeiras, na construcção de estradas, olarias, caieiras 
etc„ elle estava dando óptimas contas de si. 

O Marquez do Alegrete declinou, por julgar-se incompe- 
tente no assumpto, entrar no exame da situação e pediu fosse 
mandado um profissional para derimir a contenda. A 5 de Se- 
tembro uma Carta Régia nomeava o Tenente General Carlos 
António Napion e Varnhagen para o desempenho dessa com missão. 

Napion tinha viajado por varias regiões onde existia a indus- 
tria siderúrgica ; era um sardenholo inteliigente, instruído, mas 
profundamente preoccupado com suas vantagens pessoaes. Li- 
nhares, morrendo, tinha deixado uma tradição, que amigos zelo- 
sos procuravam manter na administração ; além disto, fora 
amigo seu o Tenente General. 

E' o que explica o parecer dúbio que elle formulou sobre 
a direcção dos trabalhos em Ypanema, e que se cifrou em ordenar 
que ninguém interferisse nessas obras emquanto não fosse exe- 
cutado o plano sueco. 

Este plano, cujo absurdo elle não queria proclamar, mas 
«*; impossivel não fosse por elle reconhecido, consistia em pre- 
parar 10.000 quintaes de ferro em barras com quatro fornos 
baixos apenas. Napion vio que os maus trabalhos feitos em Ypa- 
nema excediam em muito a impressão desagradável que elle já 
trazia e que suspeitava ser exaggerada. Em conversas particu- 



— 79 — 

lares com Varnhagen, insistindo sobre esses erros, deu a en- 
tender qne a fabrica só se salvaria se elle próprio, Napion, as- 
sumisse a direcção dos serviços. D elle mesmo ha um depoi- 
mento curioso, a carta escripta a Eschwege, em 1.° de Julho de 

1813, em que elle bem mostra como julgava desastrada a per- 
manência do Hedberg á frente das obras ; nesse mesmo docu- 
mento vê-se que a chegada recente de Bayer ao Rio de Janeiro 
causara alli certa impressão, embora se não soubesse ainda da rou- 
balheira por elle praticada no contracto da Colónia Sueca. 

Em resposta a esta carta, Varnhagen, a 22 de Julho, escre- 
veu um longo memorial, pondo a nú a indecentíssima tramóia 
de Stock o Imo. 

Os fundos reunidos pelos accionistas e auxílios da Real 
Fazenda, orçando por junto em cerca de 200.000 cruzados, 
já estavam gastos. O Marquez de Alegrete, querendo saber 
âi as ordens de Napion tinham sido observadas, mandou Var- 
nhagen novamente á fabrica ; no relatório que esse apresen- 
tou a 18 de Agosto de 1813, repetiu sua opinfto sempre sus- 
tentada de que os 4 fornos nao produziriam nem a oitava parte 
do promettido por Hedberg. Nova inspecção, em Janeiro de 

1814, levou o illustre proâssional allemão a confirmar todas as 
suas conclusões anteriores, antes peiorando o estado da fabrica, 
do que notando-se nella qualquer progresso. 

Expirava nesse momento o prazo do contracto com os 
Suecos, e estes, surdamente instigados por seu director, aban- 
donaram as officinos. Obtido pelo Capitão General e por Var- 
nhagen que elles ficassem mais seis mezes, afim de permittir 
ao Governo providenciar sobre o caso, resolveu este, em Julho, 
convocar uma conferencia de que foram membros o Marquez 
de Aguiar, o conde da Barca, o novo Governador de S. Paulo 
o Conde de Palma, seu antecessor, o Marquez de Alegrete, 
Tbomaz Villanova, Barão de S Lourenço, Manoel Jacintho No- 
gueira da Gama, Eschwege e Pedro Francisco de Brito. 

De Napion, moribundo quasi, ouviram a verdade sobre a 
direcção de Hedberg e a conveniência de dar lhe por sub- 
stituto Varnhagen, parecer com o qual Eschwege concordou, 
fixando a despesa necessária para as novas installações em 
50.000 cruzados. Neste inservallo, chegou de S. Paulo o dire- 
ctor da fabrica, allegando mil obstáculos imaginários para a 
realização de seus projectos e reclamando, com inaudito des- 
plante, 8:644*805, que elle affirmvaa lhe serem devidos, negando- 
se, porém, a dar esclarecimentos, porque os membros da confe- 
rencia nào eram entendedores da matsria. 



— 80 — 

Depois dessa ultima grosseria, deliberaram despedir esse 
pseudo-metaliurgista, mas as contas que elle apresentou, inexa- 
ctas quasi todas, foram pagas, e ainda se lhe concedeu uma* 
pensão de 600$000, uma das mais injustificadas de que haja no- 
ticia, pelo mal e pelos prejuízos de que elle foi causa. 

O resultado da Conferencia foi expedir a Carta Régia de 27 
de Setembro de 1814, que Vergueiro acertadamente chama rege- 
neradora. 

O custo da administração Hedberg foi o que consta dos qua- 
dros seguintes, organizados pelo Senador Vergueiro um, e por 
Varnhagen o outro. 

O ordenado do Director em 3 annos e 9 mezes . 6:0005000 

Idem aos empregados Suecos 18:900^000 

Importância aa conta de Hedberg 8:630$505 

Idem dos empregados 5:222$700 

Custo e conducção do material e transporte do pes- 
soal até a fabrica 17:000$000 

Total pago pela Real Fazenda . . . 55:753$205 

Dinheiro dos accionistas ) Jjj» £g£ 39:458$000 

Serviços de 89 escravos a 2$000 por mez \ ntsua . °~. 8:544$000 

103:757$292 

Sommando-se a isto as despesas de soldos dos destacamentos 
de linha, o ordenado do Interprete e do Inspector das minas e do 
engenheiro ajudante que fez as plantas, os trabalhos dos membros 
da junta, transporte dos mesmos, etc. etc, custo de edifícios com- 
prados e terrenos, etc., teremos o total de 110 a 112 contos de réis. 

Quanto ao custeio, eis o resumo : 

Annos Ferro produzido Despesa Prejuizo 

1814 \ 1:093$200 1:345$265 252$065 

Convém notar que o ferro produzido pelos Suecos era impuro, 
quebradiço e acierado. 

Tal era a situação quando Varnhagen foi chamado a reorga- 
nizar os trabalhos de fundição. 

O programma da nova directoria estava traçado na Carta Ré- 
gia de 27 de Setembro de 1814, tendo collaborado Eschwege na ori- 
entação desse documento, apesar de querer fugir de ser solidário 
com elle, no que elle affirraa uo Pluto (1). Dois fornos altos tinham 
de ser construídos e desde logo começaram as obras correspon- 
dentes. 



1 ) Loc. cit. pag. 515* 



— 81 — 

Emquanto o novo director as mandava fazer, os fornos suecos 
continuavam a funccionar mal e irregularmente sob a direcção de 
Hullgrein, um dos antigos empregados suecos. Tão ruim era o 
pro dueto que, cinco mezes após o inicio deste ensaio, foi esta parte 
da fabrica entregue a Varnbagen para a dirigir também . Tudo 
isto se fazia luetando este, unido á Junta administrativa, contra 
todo o pessoal, que ainda obedecia ás instrucções deixadas por 
Hedberg, dificultando a tarefa do novo cbefe. Este mandou imme- 
diatamente alterar as dimensões dos apparelhos suecos e deu no- 
vas ordens para o modo de trabalbar com elles. O produeto obtido 
foi ferro excellente. Os fornos altos iam crescendo gradativamente. 
Já em 27 de Abril de 1817, recebia Eschwege uma carta de 
Ypanema com as dimensões dos apparelbos já quasi terminados e 
com a descripçào dos foles, onde nao se notavam os defeitos da- 
quelles do Morro do Pilar. 

Máu grado a opposiçào vebemente dos partidários de Hedberg, 
chefeados, não mais pelo sueco, mas sim pelos franceses Guincbet 
e Camille du Louvre, bem como pelo pbysico Joào Reunon, ad- 
mittidos todos por aviso de 29 de Julho de 1818, para preencherem 
a falta dos fundidores prussianos, que nao chegavam e que efe- 
ctivamente só aportaram no Brasil em 1820. Triumpbando de to- 
das as hostilidades, poude Varnhagen começar o aquecimento do 
alto forno em 3 de Outubro, descer as grelhas ao cadinho a 10, en- 
cher o bucho de cavacos de peroba a 14, lançar a primeira carga 
de minério a 27 e a 30 de Outubro dar o movimanto á machina 
soprante. 

Em 1.° de Novembro de 1818 pela primeira vez no Brasil 
sangrava-se o cadinho e obtinha-se corrida de fonte, de modo 
industrial. 

Em um mesmo louvor, devem reunir-se nesta data, memorável 
nas chronicas da industria de nossa terra, os nomes de D. João 
VI, Varnhagen e José Vieira Couto; a seus auxiliares Eschwege 
e o Conde de Palma são também devidos louvores, si bem figurem 
em plano inferior na historia deste grande commettimento. 

O conhecimento incompleto dos factos, em alguns, um in- 
justificável espirito bairrista, em outros, tem feito transferir de 
Ypanema para a fabrica do Morro do Pilar a gloria de ter sido 
a primeira a produzir fonte no Brazil. A narração singella e 
desapaixonada do que se deu no estabelecimento planejado pelo 
Intendente Camará, bem patente deixou que nunca se pro- 
duziu alli fonte de modo industrial ; é mesmo licito duvidar si 
alguma vez tal substancia alli foi obtida a nào ser por occasi&o «do 
immenso coalho que se formou no interior do apparelho por de- 



— 82 — 



feitos do sopramento do ar, e que Schõnwolf foi obrigado a re- 
tirar do forno arrombando-lhe a parede anterior. 

A nova fabrica e os concertos da antiga tinham custado 
2 6: 160$ 166. O custeio fora sempre ruinoso, na phase dos for- 
nos suecos, e começaram com o íunccionamento do forno alto, 
como prova o seguinte quadro, que abrange toda a administração 
de Varnhagen: 

Annos Despesa total Receita Deficit ( — ) ou Saldo (-J-) 

1815 12:529$495 1/4 4:674$462 3/4 — 7:855$032 1/2 

1816 19:419$041 4:658$390 1/2 — 14:760*650 1/2 

1817 16:485$183 1/2 6:494$69l — 9:990*492 1/2 

1818 9:601$495 4:881$178 1/2 — 4:720*316 1/2 

1819 15:6875589 3/4 22:567*710 1/4 + 6:880*120 1/2 

1820 14:473$279 1/4 19:289$292 + 4:816$012 3/4 

1821 (até 

30deSb ru ) 12:154$396 10:495#582 1/2 — 1:658$813 1/2 

Total. 100;350$479 3/4 73:061$307 1/2 — 27:289$172 1/4 

Neste mesmo lapso de tempo tinbam sido preparadas as se- 
guintes matérias : 

Ferro em barra. • . 16.085 arr. 30 lib. 
Fonte moldada ... 12 589 arr. 5 lib. 
Fonte em lingotes. . 18.087 arr. 5 lib. 

Varnbagen, molestado pelo Governo provisório, de que fa- 
ziam parte o antigo Capitão General Joào Carlos Augusto de 
Oeynbausen (o futuro marquez do Aracaty), José Bonifácio e 
Marti m Francisco, pediu e obteve sua demissão em Setembro 
de 1821. 

De então em deante pertence a narrativa dos factos a um 
outro cyclo de nossa historia industrial, de que trataremos op- 
portunamente. 

A par de uma elevadíssima cultura scientifica e de uma in- 
tuição dos pbenomenos naturaes raras vezes attingida, tinha 
Eschwege um espirito mesquinho de rivalidade para com seus 
collegas em sciéncia pura ou em assumptos metailurgicos ou de 
explotação. Esta fraqueza desse homem de tão extraordinário 
valor já lhe tinha valido reprimendas officiaes; era-lhe, porém 
impossível resistir quando movido por este falso araor-proprio 
ou por uma imaginaria ferida em sua vaidade. Mais uma vez 
obedeceu o grande scientista a estes impulsos, quando quiz oc- 
cupar-se com a siderurgia em Minas. Elle próprio nol-o diz 



83 



(1): fundou a fabrica de Congonhas do Campo para produzir 
industrialmente o ferro antes das duas usinas do Morro do Pilar 
e de Ypanema 

Acontece, porém, que o escopo de ambas, não realizado na 
primeira, era preparar o ferro pelo processo indirecto, isto é, 
passando pela fonte e refinando esta: ao passo que, desde logo, 
Eschwege planejou obter o metal pela sua extracção directa de 
seus minérios. Não eram inteiramente comparáveis os dois pro- 
grammas, quanto ao do sábio allemão, elle já tinha predecesso- 
res em Minas, e elle próprio o confessa quando declara que 
desde 1803, ainda em Portugal, vira objectos fabricados nesta 
Capitania e que, ao visitai -a tivera occasião de verificar existi- 
rem varias pequenas forjas derivadas de typos africanos, onde 
se preparava algum ferro para consumo das fazendas em que se 
achavam situadas estas pequenas tendas do ferreiros. 

O grande mérito de Eschwege está em ter tornado indus- 
trial o processo local, pois o stttck-ofen que elle empregou não 
é sinão um modelo augmentado do modesto cadinho dos negros, 
e para isto, como veremos, influiu decisivamente a introducção 
das trompas hydraulicas neste trecho do Brasil. Este facto de- 
cisivo e que marca uma epocha na siderurgia Mineira, deve- 
mol-o a elle tão somente, embora a ideia primordial fosse de 
Yarnbagen, que, em 1810, tinha querido empregal-as na usina 
por elle planejada para Ypanema. 

Vejamos, porém, o que eram as forjas anteriores á vinda do 
metallurgista allemão em Minas Geraes. 

Umas eram simples ferrarias onde na forja commum eram 
lançadas colheradas de minério pulverulento, que, reduzido aos 
poucos pelo carvão, formava uma bola ou lupa de metal mis- 
turado com escorias, e que se purificava e se tornava cohesa 
a golpes de malhos movidos a braços. 

Em outros pontos os fornos eram pequenos troncos de 
cone circulares, ou então pyramides quadrangulares, de 3 a 7 
palmos de alto, dos quaes a lupa era extrahida por um orifício 
na face do trabalho ou. na ventaneira; este orifício, murado 
na occasião do trabalho, era aberto ao tirar a bola, e depois 
novamente fechado. A sola ou fundo do forno variava muito : por 
vezes era simples moinha de carvão, em outros eram pedras 
chatas, finalmente, em alguns, era um simples lastro de madeira 
coberto de carvão miúdo e moinha, com um espaço vazio sob 
o estrado ; quando finda a operação, retirava-se a madeira e tudo 
cahia no chão da offícina, arrastando a massa de metal pastoso. 



(1) PhUo, pç. 671. 



— 84 — 



Empregavam correntemente para as alvenarias dos fornos o 
quartzito commun do Centro de Minas, o gneiss que ahi se 
encontra, a pedra de sabão ou os tijolos. Os algaravizes eram 
feitos de folha de ferro, ou de pedra de sabão cortada adrede. 
O ponto mais fraco destes ap parelhos estava na machina sopr an- 
te, que era o folie com m um. Neste ponto quasi que exclusiva- 
mente residia a differença com os fornos africanos citados por 
Garnier ; pois, sendo estes tambores com um tampo de couro 
movei que se levantava e abaixava sob a acç&o do braço do 
negro, já em Minas os folies aproveitavam a força acceleradora 
da gravidade. Ainda assim, eram as difnccildades e as fadigas 
causadas por esse machinismo principal obstáculo ao desenvol- 
vimento e á multiplicação das forjas ; disto nos dá provas o 
testemunho valioso de um contemporâneo, o Dr. José de Sá 
Bittencourt Camará (1). Outro ponto delicado era a expulsão 
das escorias da massa metal liça, que os antigos effectuavam a for- 
ça de malhar a bola com pesados martellos manuaes. Este pro- 
ccs era insuficiente e, mesmo aisim. só applicavel a lupas muito 
pequenas. Esse conjuncto de motivos explica o não poderem 
obter mais de meia arroba de ferro de cada operação, pois 
a mais não podia attingir quem dispunha de tão poucos ap- 
parelhos e de tão rudimentares processos. 

Foi nesgas circumstancias que em 1811 Eschwege chegou 
a Minas Geraes. 

Tinha-o precedido uma Carta Régia, endereçada a 5 de 
Julho ao Conde de Palma, governador da Capitania, na qual 
era calorosamente recommendado a este alto funccionario auxiliar 
aquelle sábio em tudo quanto elle precisasse para o bom desem- 
penho da missão de que ia incumbido, de examinar com toda 
miudeza tudo o que respeitava ás minas, assim de ouro, como 
de prata, chumbo, azougue e ferro (2). 

A 20 de Agosto, respondeu D. Francisco de Assis Masca- 
renhas, annunciando ter planejado fundar, logo que aquelle na- 
turalista chegou, uma associação particular com o capital de 
4:000$000 divididos em 10 acções, para estabelecer-se uma fabri- 
ca de ferro nas cercanias de Villa Rica ; no mesmo officio re- 
mettia a lista dos accionistas, em cujo numero elle próprio fi- 
gurava com uma acção e pedia fosse permittfdo ao metallurgis- 
ta alli demorar dous annos. (3). 



(1) Memoria Mineralógica do Terreno Mineiro da Comarca de Babar à, Revbta d» 
Archivo Publico Mineiro, Vol. II 1897, pg. 699. 

(2) Leis Brasileiras Compilação de Ouro Preto. 

(3) Esta nomeação nfto diverge da de Eschwege no Pluto e é a que se deduz ri- 
gorosamente do estudo das Cartas Regias, Avisos etc. e do cotejo das datas que cons- 
tam na Compilação de Leis do Brasil de Joaquim Isidoro. Diverge, porém, da compila- 
ção de Ouro Preto. 



— 85 — 

Grandes louvores lhe tecem por isso, n&o só o ministro 
Linhares como o próprio Regente, na carta de 30 de Agosto. No 
aviso da mesma data annunciava-lhe D. Rodrigo que Eschwe— 
ge já tinha começado «a formar o Plano, e calculo de huma 
tão interessante obra, de accordo e debaixo das ordens de V. 
Ex.* » ; quanto á permanência do Barão, não era possivel acce- 
der aos pedidos do Capitào-General, mas promettia-se substituil-o 
por outro official egualmente hábil e intelligente ; quanto aos 
malhos, que o Conde pedia para a nova fabrica, tinha si con- 
sultado sobre o caso o Tenente-General Napion. 

Esses malhos eram os que o ministério tinha importado da 
Inglaterra em 1810, a conselho de Eschwege e segundo as 
medidas por elle dadas, com o fim de vencer a dificuldade de 
forjar novos ap parelhos destes, bigornas, safras etc. com simples 
martellos manuaes, que outros si nào conheciam então no Brazil. 

N&o si conformou D. Francisco com essa decisão ; nova- 
mente insistiu sobre as vantagens da permanência do Barão na 
Capitania, e este, escreveu no mesmo sentido. Foi finalmente 
deferido o pedido, e, por aviso de 1.° de Outubro de 1811, Li- 
nhares o communicou ao governador, marcando em dous annos 
a duração dessa viagem e incumbindo ao «grande Mineralogis- 
« ta e Metalúrgico» de estabelecer, além das forjas de ferro, 
c uma ou mais Companhias para trabalharem em regra, e com 
€ Maquinas apropriadas, as Minas de Ouro que permittissem 
« esse trabalho.». (1) 

Libertados assim os movimentos do eminente scientista, co- 
meçou elle aquella admirável serie de viagens e observações de 
que são prova immorredoura esses monumentaes trabalhos que 
até hoje desafiam a admiração dos estudiosos: o Pluto Brasili- 
entris e os Beitrãge zur Gkbrrgskunde Brasiliensis. 

Já em fins de 1811 tinha elle escolhido o local da nova fa- 
brica. Parecera-lhe preferível António Pereira por ter mais fácil 
abastecimento de combustível; os sócios da empreza, porem, em 
grande parte moradores nos arredores de Congonhas do Campo 
aesejavam ter a usina em ponto mais accessivel a sua fiscaliza- 
ção. Foi difinitivamente assentada a escolha deste arraial, e 
deliberou-se fundar o estabelecimento á margem do ribeirão da 
Prata, junto a uma cochoeira que forneceria a força motriz. (2) 



(1) Lêím Braêilnra$ Compilação de Onro Preto. 

(2) Safcnlmot daqui em deante a* indicações do Pluto, salro questão de detalhes: em 
<eada ponto de dirergeaela citaremos os moUros desta . 



— 86 — 

Era seu auxiliar pratico na execução das obras o fundidor 
allemào Joac Schõnewolf, de que já falíamos quando tivemos de 
allludir ao empenho do Intendente Camará de o possuir no Morro 
do Pilar. Feitos os planos, escolhidos os logares para as c dis- 
tracções, o mestre estrangeiro supria a tudo. o que dava algum 
tempo a Eschwege para fazer suas pesquizas. 

Em fins de 1811 encontramolo na Itabira de Matto Dentro, 
na fabrica de um fazendeiro que era o único a ter um foles mo- 
vido por uma roda d'agua, que tocava também uma serra. Esse 
fabricante tinha com isto grande superioridade sobre seus vizi- 
nhos, e essa prova de iniciativa levou o Barão a querer melhorar 
ainda a forja, installando nella um malho tocado pelo motor hy- 
draulico; para ese fim mandou-lhe um ferreiro allemào que aju- 
dou a installar esse ap parelho, na quella epocha absoluta novi- 
dade na Capitania. Esse fazendeiro foi o primeiro que espichou 
ferro mecanicamente em Minas, o que se deu em Abril de 1812, 
antes da própria usina de Congonhas. Os progressos foram con- 
tínuos nesta zona, e em pouco tempo este mesmo malho, que 
tinha sido construído de madeira circulado de aros de ferro, foi 
substituído par outros com a cabeça inteiramente feita de ferro 
forjado. Para isto muito concorreu o exemplo dado pelo esta- 
belecimento do Ribeirão da Prata, onde iam sempre carpinteiros 
mandados pelos fabricantes afim de obterem as medidas dos appa 
relhos ; foi sobretudo para as trompas de compressão do ar que 
esse ensino pratico se tornou proveitoso, como breve seremos. 

Sob a direcção quasi continua do Barão iam se elevando 
as construcçoes. Em menos de um anno fizeram-se quatro for- 
nos, duas forjas de reaquecimento, um malho e uns pilões para 
quebrar o minério mais compacto. 

Finalmente a 12 de Dezembro de 1812 era forjada sob o 
malho a primeira barra de ferro preparada na Fabrica Patrióti- 
ca, como a chamava Eschwege. 

Desenvolveu-se mais tarde, o estabelecimento, chegando a 
possuir 8 fornos.. Estes apparelhos eram verdadeiros stock ofen 
com 5 pés de altura, 2 pés quadrados de secção no bucho e 10 
pollegadas quadradas na bocca e com o algara vi z a 1 1/2 pé 
acima do nível do solo; os algara vizes, horizontaes ou com in- 
clinação mínima, eram feitos de chapa de ferro a principio, de 
barro requeimado mais tarde; cada apuração durava de 4 a 5 
horas, e produzia de 1 1/2 a 2 arrobas de ferro em barras. 

Ao começar esta fabrica, não tinha Eschwege conhecimento 
pratico deste processo de preparação do ferro ; sahiu-lhe tão bem 
e animador o ensaio que elle o manteve durante todo o tempo em 
que funccionou a usina. Os actuaes fornos de cadinhos reprezen- 



— 87 — 

tam, com divergências mínimas de detalhe, o typo adoptado em 
Congonhas do Campo, que, a seu turno, tinha parentesco estreito 
com os fornos de cuba africanos, trazidos ao Brasil, colonial pela 
escravidão negra. 

Onde, porem, mais importante se mostrou, na evolução sider- 
rurgica, a influencia da forja do ribeirão do Prata, foi na verda- 
deira revolução económica que ella causou, no modo de insufflar [o 
ar no forno. Já vimos quão moroso, insuficiente, irregular, ex- 
haustivo e cheio de inconvenientes era o methodo até então segui- 
do de obter uma corrente de ar pela compressão deste foles, toca- 
do a braços. Pela primeira vez em Minas, em 1812 apparecia a 
trompa hydraulica construída por Eschwege, supprimindo todos os 
óbices apontados, e funccionando automaticamente. Hoje, acostu- 
mados a ver esses ap parelhos correntemente empregados, não nos 
fazemos ideia perfeita do que representava esse immenso progres - 
so. Todos as dificuldades anteriores eram supprimidas, e vinha 
substituir aos antigos foles uma machina, barata, simples, automá- 
tica, que presta serviços incomparavelmente maib eficientes, com 
economia maior. Em pouco tempo multiplicaram-se as trompas. 
Á's occultas vinham carapinas tirar medidas nas peças constituti- 
vas. Empregavam-se curiosos na Fabrica Patriótica com o fito 
único de copiarem e estenderem o fanccionaraento da nova maehi- 
na soprante. Originaram-se d'ahi muitos erros que Eschwege e 
seu fundidor pacientemente corrigiam, sempre que os prejudicados 
recorriam ás suas luzes. 

Por toda a parte substituiam-se esses apparelhos aos decrépi- 
tos foles. Em pouco tempo, quando Camará, renunciando ao ser 
projecto de forno-alto, recorreu a Schõnwolf e installou os fornos 
suecos no Morro de Gaspar Soares, um segundo centro de divulga- 
ção se formou naquella zona central; e é isto o que explica a opi- 
nião do dr. José de Sá Bittencourt attri buindo a seu irmão, o In- 
tendente dos diamantes, o mérito e a gloria de ter ensinado o uso 
das trompas, quando a verdade é que este copiou á installação já 
feita e em perfeito funccionamento na usina de Congonhas. Ainda 
é o dr. Sá Bittencourt, quem nos dá, em uma nota pittoresca, a 
noção exacta de quanto foi rápida a adopção dessas machinas, sim- 
plicíssimas e tão eficazes. Conta-nos elle (1) : « Em S. Paulo 
ha uma fabrica, em Minas depois que o intendente Manoel Ferrei- 
ra da Camará deu as primeiras « instrucçõens aos povos ô fazem 
< com tanta facilidade, q° todo aquelle, q c pode levantar a sua 
c trompa a fabrica, e a elle se devem esses conhecimentos em Mi- 
« nas, q e tem aliviado tanto aos Mineiros como Agricultores da 



(1) Loc. cit. pg. 607. 



— 88 — 



• grande despeza, q e sofríào na compra do ferro da Europa ; e tal 
c hé a facilidade com q e o fabric&o, que qualquer estabelece hua 
« redicula fornalha em q* fundem Lupas ae arroba por fusào. Não 
c se pode meter mais a ridículo aos fabricantes de ferro da Eu- 
c ropa do q e o q e vi praticado no Sitio do Campei le, onde hum 
« Crioulo alfaiate tinha hua pequena trompa muito mal cons- 
« traída, com o cano Conductor do ár para afornalha de Em- 

* baúba, com o tubo que introduzia o ár no algraviz da forja 
« i» taquara, e deste modo fazia o seu ferro muito bom, a quem 
c comprei oito arrobas . Este Crecralo carregava a sua fornalha 
€ que nào tinha mais de altura do algraviz para sima, q* qua- 
c tro palmos, cujo interior da fornalha té o agraviz era como 
« hum funil, com o mais largo para cima, e depois de incen- 
€ áiada, lhe ia lançando as taminas de carvão, e de minas, co- 
« zendo os seus jalecos ao pé da fornalha, e assim tirava pro- 
« veito da sua fornalha e da sua agulha ; tal hé a riqueza da 
c mina, e facilidade com que se fundei 

Este trabalho, escripto provavelmente em 1822, bem mos- 
tra como em dez annos se vulgarizou a nova machina introdu- 
zida por Eschwege em Minas. 

Existem dados bastante completos sobre esta empreza até 
1817 dos quaeB se deduz que a producção foi a seguinte : 



1813 . . . , 








996 arrobas 


1814 . . . 








997 » 


1815 . . , 








1278 > 


1816 • . . , 








1184 » 


1817 . . . , 








918 > 


1818 . . . ( 








— » 


1819 . • . , 








1643 » 


1820 . . . 








. 1229 > 



O custeio pode ser representado pelos algarimos seguintes : 

1819 Fundidores e ferreiros do malho. . 229$427 
Operários nas carvoeiros e forja. . 1:222*804 

Diversas despezas 1°2$747 

Alimentação 730*800 

2:375*778 
Valor do ferro vendido a 2$400 a 

arroba 

Saldo 1:658*622 

4:034$400 

1820 Despezas totaes 2:117$274 



4:034$400 



— 89 - 

Valor do ferro vendido a 2$400 a 

arroba 3:151$200 

Saldo 1:0338926 

B:151$20O 

Esta fabrica dava portanto lucros líquidos, que remuneravam 
os accionistas, e nfto se notava aqui o jogo de escripturação a que 
devia sua prosperidade fictícia a forja de Ypanema. 

Os gastos feitos com as installaçoes tinham se elevado a 
13.000 cruzados (1) apenas, incluindo neste preço a compra da es- 
cravatura necesaria para os Bervicos accessorios. 

A sociedade fundada pelo Conde de Palma e dirigiua por Es- 
chwege continuou seus trabalhos até 1822 (?) Retirou-se o Barào 
para Portugal em 1821 ou 1822 e ali applicou em Figueiró das 
Vinhas muitos dos princípios que tfto bons resultados lhe tinham 
produzido em Minas Geraes, empregando mesmo as trompas hy- 
draulicas no alto forno alli existente ; o êxito foi completo. 

O exemplo da fabrica de Congonhas fez com que augmen- 
tasse muito o numero de forjas em Minas. O malho necessário e a 
trompa solviam todos os problemas com que até então tinham la- 
ctado oe metallurgistas indígenas, de sorte que quem podia cons- 
truir aquelle apparelho de compressão do ar, estabelecia logo uma 
tenda e forjava o ferro. Davam a este o nome de ferro do Cará (2), 
pelo aspecto da lupa ou bola que ao ser extrahida do forno, apre— 
Benta uma superfície rugosa cheia de tubérculos. 

Começavam a circular marcas de metal afamada ; as da 
fabrica do Giráo, as da forja do alferes Manoel Gomes de Gouveia, 
a de Lucas José Soares de Gouveia, entre outros. 

Foi então que em 1817, appareceu em Minas um francez en- 
genheiro, c homem raro, e digno de toda a estimação. Grande 
€ mineralógico, Grande chimico, além de outros muitos conheci- 
< mentos de Phizica, Matimatica e Literatura » (3) « amigo do 
Brazil, como se fosse indígena » no dizer de António Gonçalves 
Grande » (4) ; era F. Monlevade. 

Precedia-o nestas terras um officio do ministro do Reino 
ao Capitão General D. Manoel de Portugal e Castro, mandando 
fossem prestados a esse official de engenheiros todas os auxílios 
de que carecesse, « desviando » «todavia de ir ao districto dia- 



(1) Noticiai t rtfUxÕot utaUsiicaa da Provinda d* Minai (broa, do Barão do 
■sehwege, Revista do Archivo Publico Mineiro, Vol. IV 11)00 pg. 758. 

(2) Dr. Joeé de Pá Bittencourt loo. oit. pg. 607. 
i3) Dr. José de 6á Bittencourt, loc. cit. pg. 608. 

(4) Carta de 16 de Maio de 1822, ao Cone.» Joeé Bonifácio de Andrada e Silva, 
Bevilta do Arca. PnbU Mineiro VoL n, 1897, pg. 757. 



n 



— 90 — 

c mantino do Tijuco, pois não se julga prudente a admissão de 
« estrangeiros naquelle logar ». (4) 

Depois de ter percorrido varias zonas da Capitania, fixou-se 
na vizinhança de Caethé onde, associado ao Capitão Luiz Soares 
de Gouveia, na fazenda da Barra do Rio Preto fundou um alto 
forno, de proporções menores que o do Morro do Pilar. Deste 
commettimento, pouquíssimo conhecido, dão testimunbo Eschwege 
(5) e Dr. Sá Bittencourt (6) sendo que este affirma terem sido 
fundidas peças nesta fabrica, como « bigornas, aguilhoens, almo— 
« farizes, alguns tamborer, e outros vazos muito grosseiros, pela 
c falta de operários, moldadores peritos, e frascos próprios para 
« as ditas obras ». 

A ser exacta, como acreditamos, affirmada por duas testemu- 
nhas contestes de tanto valor, a versão acima referida, pode se 
affirmar que a esses dous homens cabe a gloria de pela pri- 
meira vez terem produzido industrialmente a fonte em Minas, 
pois a tentativa falha do intendente Camará foi o que já dei- 
xamos esboçado em paginas anteriores. 

Ao ser escripto o trabalho de Eschwege sobre a estatística 
da Capitania em 1822, existiam em Minas as seguintes fabricas 
de ferio principaes: Congonhas do Campo, Morro do Pilar, as 
forjas de Manoel Gomes de Gouveia e de seu cunhado Lucas 
José Soares de Gouveia, a do coronel Motta, no Giráo, a do 
Capanema, um núcleo de pequenas usinas em torno da Itabira 
de Matto Dentro, e, entre ellas, uma onde existia uma machina 
de furar, o que permittia annexar-se á ferraria uma officina tosca 
de armeiro. Além destas existiam disseminadas, principalmente 
na comarca do Serro, numerosas forjas de importância menor. 

Monlevade foi pouco a pouco captando as sympathias dos 
mineiros com quem convivia, que o recommendaram a José Bo- 
nifácio, então ministro, como homem capaz de continuar os tra- 
balhos de exploração da galena do Abaete, iniciados por Eschwe- 
ge, e em que o Governo Hegencial não tinha querido proseguir. 
O engenheiro allemão já tinha voltado para Portugal, onde con- 
tinuava no desempenho de serviços officiaes nas fabricas de ferro 
do Reino. 

Foi ao voltar desta missão scientifica que ao profissional 
francez, em 1825, occorreu montar na região de Itabira uma forja 

Í)ara extrahir o ferro de seus minérios pelo processo directo, or- 
linariamente appellidado de Catalão. 



(4) Offlclo de 9 de Agosto de 1817. 

(5) Noticias $ reflexões estatística* loc. cit. pg. 758. 
(6; Loc. clt, pg. 608. 



— 91 - 



A usina de São Miguel de Piracicaba só manteve esse me- 
thodo de trabalho omquanto foi vivo o seu fundador. Morto F. 
de Monlevade atravessou o estabelecimento um período de fran- 
ca decadência, e quando quizeram reorganizai o já se tinha 
perdido aquella habilidade especial, o tour de main que exige o 
processo catalão. Foi necessário recorrer a um fundidor italiano 
que estava occupado em estabelecer forjas em Minas, em que se 
usava um methodo, similhante ao catalão, conhecido pelo nome 
de seu paiz de origem. Sobre as ruínas dos fornos construidos 
por Monlevade ergueu-se pois uma forja italiana. 

Houve uma tentativa, em 1828, de introduzir-se em Gon- 
goloco um systema curioso de fusão reductiva em um forno de 
16 pés de altura por 28 pol legadas em quadro, no bucho. O 
anctor desta experiência, um sr. Baird, a quem parece terem 
faltddo os necessários conhecimentos technicos do assumpto, nada 
pôde obter com similhante apparelho, sinão uma critica cruel 
por parte de Eschwege (1). 

Ficaram, portanto, em presença um do outro, após o desap- 
p&recimento de Camará, Eschwege e Monlevade, dois methodos 
de preparação directa do ferro : o dos cadinhos e o italiano. 

Não cabe nesta parte de nosso estudo entrar na analyse de- 
talhada desses processos. Basta dizer que para o methodo dos ca- 
dinhos, mais simples, ao alcance de intelligencias rudimentares 
dos escravos negros, era mais fácil encontrar pessoal. Já para 
o outro, que exigia certa apprendizagem, era necessário possuir 
escravos peritos em fundições, mais caros, portanto, cousa que só 
podiam fazer os proprietários de forjas mais abastados. 

Em 1864 o presidente da provincia, Conselheiro João Chris- 
piniano Soares, citava a existência de 120 ferrarias. 

Em uma viagem de estudos feita em 1879 pelo dr. Joaquim 
Cândido da Costa Sena, na zona de Piracicaba, de Itabira, do 
Morro de Gaspar Soares e da Conceição do Serro, teve esse pro- 
fissional o ensejo de visitar ou de ter noticias de 80 fabricas : 
sete usavam o processo italiano e as vinte e três restantes o dos 
cadinhos (2). 

A mesma preponderância é citada pelo dr. de Bovet em seu 
estudo sobre o ouro e o ferro em Minas Geraes (3) : avaliava 
em 75 o numero total de fogos siderúrgicos da provincia em 
1883, dos quaes um quinto apenas era de forjas italianas. 

O fallecido professor da Escola de Minas de Ouro Preto, o 



(1) Pluto, pç. 580—682. 

(2) Annaes da Escola de Minas, Vol. I. 

(3) Id. Vo). n, pg. 51. 



- 92 



dr. Paul Ferrand avaliava em 1894 em cem o numero de forjas 
dos doia typos na zona da Serra do Espinhaço e a lista dos re- 
mettentes de produetos de ferro deste Estado a exposição Mi- 
neira e Metallurgica do Chile, naquelle anno, accusava para 41 
usinas de cadinhos, 7 apenas que empregavam o outro methodo (1). 

Conclue-se facilmente desta resenha que não houve pro- 
gresso nos processos directos empregados em Minas. O que elles 
eram em 1830, eram ainda sessenta annos mais tarde, quando 
apparecerem as tentativas de 1893 de que breve trataremos. 
Poder-se-ia mesmo dizer ter havido retrogradação quanto a usina 
de Monlevade, onde o methodo catalão, abandonado por imperí- 
cia dos operários, cedeu o logar á variante italiana. 

Em um ponto, entretanto, se fazia sentir notável incremen- 
to : apesar do desenvolvimento das vias férreas, que levaram 
para zonas cada vez mais internas do Estado o ferro importado, 
por preços inferiores ao da producçào local, e com superioridade 
do producto manufacturado sobre o metal em barras, ainda assim 
o numero de pequenas usinas cresceu progressivamente até 1894, 
nem contradiz essa afirmativa a estatística de 1864 que se re- 
fere a toda a província, quando as demais dizem respeito so- 
mente a zona entre Ouro Preto e Diamantina. 

Não se notava o mesmo facto auspicioso nos estabelecimen- 
tos onde o ferro se obtinha pelo methodo dos fornos altos. 

A Fabrica do Morro do Pilar, a bem dizer, nunca tinha 
produzido fonte, sob o ponto de vista industrial. 

O forno alto de Caethé, erigido por Monlevade, apagara seus 
fogos. 

Restava unicamente Ypanema, como testemunha solitária no 
Brazil inteiro, dos processos indirectos, com as operações subse- 
quentes do refino da fonte produzida. 

Varnhagen, magoado com as provas de diminuição de con- 
fiança por parte do Governo Provisório de S. Paulo, pediu sua 
demissão a 30 de Julho por um officio em que declarava « E 
« fallando a V. Ex.* como de vo t direi sem rezerva que logares 
« de alguma authoridade publica no estado presente das cousas, 
t não devem ser occupados por estrangeiros. » Nesse mesmo do- 
cumento, indicou á Junta qual deveria ser seu substituto, obede- 
cendo assim ao que esta determinara em officio de 26 do mesmo 
mez; os nomes lembrado» foram o do Capitão Abreu do Trem 
de S. Paulo e o do antigo escrivão da fabrica, António Xavier 
Ferreira, ambos práticos no serviço do forno-alto. Nenhum delles 



(l) Revisto Industrial de Míom Geraee, anno I, n. 6. pg. 100. 



- \fà - 

foi nomeado, escolhendo o governo provisório o 1.° tenente Rufino 
José Felizardo e Costa, a quem sobrariam outras qualidades, mas 
que não possuía a de conhecer praticamente o modo de dirigir 
uma usina de fundição. Dahi datam os primeiros symptomas de de- 
cadência da fabrica. De Rufino José Fiiizardo e Costa (1821— 1824) 
auxiliado pela colónia de fundidores allemães, que Varnhagen man 
dára buscar com ins tracções precisas para seu recrutamenso, até- 
a administração de António Xavier Ferreira (1824 — 1834) não 
foi tão sensível a queda. Mas esta accelerou-se nos últimos tempos 
desse diroctorio, e a Regência do Império nomeou o Coronel 
João Florêncio Perêa e o Major João Bloem para inspeccionar 
a fabrica. Em 1836, este ultimo era promovido á chefia do esta- 
belecimento, cuja reorganização levou a effeito com inteiro suc- 
cesso ; pieso em 1842 por ter se envolvido no movimento 
com man da do pelo Brigadeiro Raphael Tobias ; foi dispensado da 
directoria. Seguiram-Be então em dezoito annos, de 1842 a 1860, 
as administrações do Coronel António Manoel de Mello, Barão 
de Itapicurú-Mirim, do Major Dr. Joaquim José de Oliveira, de 
General Ricardo José Gomes Jardim, do Cons.° Dr. Francisco 
António Raposo e do Major João Pedro de Lima da Fonseca 
Guttierres. Todos esses officiaes soffriam do mesmo mal ; a in- 
competência para a direcção de uma uzina metallurgica. Não é 
para admirar, portanto, que o Governo mandasse fechara fabrica, 
resolvendo abrir outra em Matto Grosso, sob a direcção de En- 
genheiro Rodolpho Vanheldt. 

Foi a guerra do Paraguay que determiuou annullar-se esse 
plano, pela impossibilidade de se dispor então da navegação do 
rio, e restaurar o trabalho em Ypanema, sob as vistas do então 
capitão de engenheiros, o Dr. Joaquim de Sousa Mursa, cuja 
direcção, apesar de seus defeitos tech nicos numerosos, ainda re- 
presenta o período áureo daquelle estabelecimento. (1) 

Deram -se, entretanto, mesmo nesse período factos que bem 
demonstram quão ignorado no Brazil era a metallurgia do ferro. 

Não entra no plano de um rápido escorso como este; narrar 
por miúdo todos esses erros. Já o fizemos em outro logar (2). 

Devem, entretanto, ser salientados aqui que os estudos sobre. 
I a composição dos minérios e do fundente, a investigação geolo- 

' gica da região, a analyse metallurgica dos produetos e dos pro- 

cessos, tudo emfim que é condição existencial para uma usina 
siderúrgica e cousa banal para qualquer metallurgista de ultima 

(1) Memoria êobrê a fabrica de ferro de S. João de Ypanema por Leandro Dupré, 
Annaes da B«cola ae Minas, Vol. IV, 1885, pg. 54. 

(2) A fabrica de ferro de S. João do Ypanema, por J. P. Calogeras, Revista Bra- 
itleira Vol. de 1895. 



— 94 — 

plana, tudo era ignorado em Ypanema ou somente conhecido por 
trabalhos alheios. Assim é que a existência do titânio no minério 
foi revelada pelos laboratórios da Escola de Minas de Ouro Preto ; 
a presença do phosphoro foi denunciada em 1891 quando o emi- 
nente professor F. Gautier, em yizita áquelle logar, viu nas barras 
de aço comentado as tão características criques\ a geologia local 
deve-se ao professor Orville Derby ; os dados estatisticos mais 
perfeitos sobre o andamento dos fornos e dos demais apparelhos 
encontram-se nas memorias dos engenheiros formados em Ouro 
Preto, e assim por deantea, té a escripturação da fabrica, errada 
não diremos proposital mente, mas de modo a fazer figurar lucros 
ou attenuar defirite contra a evidencia dos factos. Não insisti- 
remos sobre essas fraquezas te eh nicas, desoladoras para a com- 
prehensào que revelavam da noção do dever em matéria de 
serviço publico, nem alludiremos sinão pro memoria ao plano 
delirante de estabelecer-se alli uma usina de refino Bessemer, 
pelo typo allemão da Gross bessemerei, quando, dando aos fornos 
altos o máximo de sua producção e ás retortas refinadores o mi- 
ni mo delias, estava verificado que em dous dias se transformaria 
em aço toda a fonte produzida pelo forno em um anno. 

O Dr. Mursa praticamente tinha chegado a obter um bom 
rendimento metal lurgico de seu foruo alto; em estudos do auetor 
deste parecer ficou demonstrado que a utilização de minério tinha 
attingido a 96 °[ do ferro que elle continha. Os processos em- 
pregados eram dispendiosos mas certos defeitos do minério tinham 
sido vantajosamente combatidos, de sorte que, quando em 1892 
(1) voltou a fabrica a pertencer ao Ministério da Guerra, do qual 
fora separada em 1878 para ser subordinada ao da Agricultura, 
foi logo previsto que se aggravariam as condições desfavoráveis 
do funecionamento da usina, já desleixada por ter sido removido 
o General Mursa para outro posto. Kealizaram-se as previsões. 
A incompetência ao novo pessoal director não podia ser supprida 
por sua boa vontade. 

As escorias do alto forno já não corriam fluidas ; eram arran- 
cadas a gancho do seio do cadinho. Os deficits augmentavam 
de modo notável, a producção baixou de 3 toneladas diárias a 2 
apenas e os produetos tornavam -se cada vez mais impuros e 
menos acceitos pelos consumidores. Foi então que o Congresso 
Nacional, ouvindo o parecer do Senador Ramiro Barcellos que 
se apoiava nos trabalhos do auetor do presente trabalho, resolveu 
mandar fechar a usina em fins de 1895, dando razão á ultima 



(l) Lei n.o 39 A de 89 de janeiro de 1892. 



— 95 — 

palavra dita sohre este assumpto pelo illustre metal lurgista F. 
Gautier « Ypanema est génércdement mal connu ou Brésil ; il ne 
vit que de lalégende officielle et ríe&t susceptible d'aucum déoelop~ 
pement sérieux.» (1) 

custo desta fabrica não se conhece por ter sido pessimamente 
feita sua escripturaç&o . Dados sobre o custeio são também dif- 
ficeis de se conhecer e de interpretar, tal a escassez com que 
sempre foram ministrados, o a irregularidade com que eram lan- 
çadas nos livros as varias parcellas da despesa : assim é que o 
valor da fonte refinada figurava correntemente duas vezes nas 
contas— a primeira, como valor produzido pelo forno alto ; a 
segunda, por não ser deduzida do valor do ferro obtido pelo 
refino do mesmo. 

Os números conhecidos e confessados nos relatórios officiaos 
sfto os seguintes para os últimos annos de existência da usina : 

1888 25:802$077 

1S89 22:680$000 

1890 . . ? 

1891 ? (2) 

1892 87:778$035 

1893 132:134$603 

Transporte. . . . 268:394$715 

1894 164:961$914 

1895. (até Novembro) . . 142:011$384 

575:368$013 

Se fizermos a esse total a correcção da duplicata do valor 
da fonte refinada ; chegaremos a um defict de cerca de 750 
contos para esses últimos oito annos em que Ypanema produziu 
ferro. 

Âo lado do insuccesso das tentativas officiaes, ia pouco a 
pouco criando alento a iniciativa individual. 

O problema siderúrgico estava sendo estudado com mais 
proficiência technica e económica pela Escola de Minas do Ouro 
Preto : lentes e alumnos á porfia indagavam das condições em 
que se tinham desenvolvido as pequenas fabricas Mineiras; pre- 
parava se o advento da solução pelo estudo systematico, apro- 
fundado e consciencioso de todos os termos da equação económica 
do ferro. Em praso curto o material reunido foi bastante vasto 



(1) Revista Industrial de Minas Geraes, anno I v. 8 pg. 193. 
(2) Nao ha dados financeiros publicados quanto a estes dois exercícios. 



~ 96 — 

para permittir que um dos lentes, o Dr. Arthur Tire, propusesse 
era 1884 um plano para o estabelecimento de uma usina onde 
se empregasse o methodo indirecto. Continuando os trabalhos 
de investigação e a propaganda, poude se pensar em realizar 
este projecto, e, em 1888, já estando a estrada de terro D. Pedro 
2.°, hoje Central d ■ Brazil, além de Itabira do Campo, um grupo 
de industriaes, os Srs. Joseph Gerspacker, Dr. Amaro da Silveira 
e Carlos Costa Wigg, metteram mãos a obra para construir, se 
não o primeiro, o segundo forno alto de Minas, devido a inicia- 
tiva particular (1). O local escolhido para esse tentamen foi 
um ponto ao sopé do Pico de Itabira, immenso mole de minério 
de ferro, e á margem do Rio Itabira ; a fabrica denomina-se 
Usina Esperança. O forno construido com 9 metros de altura, 
era projectado para uma producção de 4 toneladas diárias; com 
o aquecimento do ar insuflado os melhoramentos trazidos mais 
tarde pelo seu director Ferdinand Gautier elevaram a 6 tonela- 
das o peso fornecido diariamente. Em 1891 a Companhia Na- 
cional de Forjas e Estaleiros adquiriu o immovel, e depois de 
algum tempo collocou á frente de sua administração aquelle emi- 
nente metallurgista que melhorou muito as condições anteriores 
de funccionamento dos ap parelhos. Mais carde, após a debâcle 
das empresas formadas no periodo de 1889 — 1891, foi á praça 
o acervo da Forjas e Estaleiros, sendo arremattada a usina por 
uma firma Leandro & Queiroz, que, ultimamente se dissolveu 
ficando unicamente á cargo do Dr. J. Queiroz. E* sob a direcção 
deste que os trabalhos continuam. 

Os antigos fundadores de Esperança, foram crear novo centro 
industrial em Miguel Burnier, exactamente no entroncamento da 
linha do Centro com o ramal de Ouro Preto da E. F. Central. 
Iniciado em 1892, foi o forno inaugurado a 14 de Outubro de 
1893. Após vários períodos de actividade e de repouso, causado 
pela exploração prepoderante de jazidas de manganez no mesmo 
local pertencentes ao mesmo dono do alto forno, continuam hoje 
seus trabalhos de fundição, não no forno alto, e sim no cubilot 
tendo a usina passado a ser propriedade exclusiva do Comraen- 
dador Carlos da Costa Wigg. O apparelho tem 10 metros de 
altura, com 2 m ,20 de diâmetro no bucho e l m ,50 na bocoa, rece- 
hendo por três algaravizes o ar soprado a 200° de temperatura 
e com a pressão de l m ,50 d 'agua. 



(1- Neste ponto rectificamos uma asserção do fallecido Professor Paulo Ferrand, 
na Revista Industrial de Minas Geraes, anno 1, attribuindo a esta usin% o mérito de ser 
o primeiro forno alto construido por iniciativa particular. Pelo que atrás deixamos dito, 
veriflca-se que esse titulo cabe ao forno de Monl evade em Caethè. 



- 97 - 

Ambos os estabelecimentos est&o funccionando, si bem que 
de modos diversos, e se pode avaliar em 2.100 toneladas annuaes 
a sua producçao. 

Nenhum auxilio lhes é dado pelo Governo, a nao ser uma 
tarifa reduzida para seus prod actos e para o combustível que 
tenham de receber de pontos mais afíastados da linha. 

Longe de encontrar nos Governos a coadjuvação intuitiva 
que se deveria dar a uma industria vital como esta para o 
desenvolvimento nacional, tem sido as usinas obrigadas a tra- 
var lucta com a estreiteza de vistas dos directores económicos 
de nossa terra, a cuja myopia tem escapado a importância ca- 
pital do problema siderúrgico. 

Apesar de todos os óbices, entretanto, as fabricas tem con- 
tinuado a fundir, isto é, tem prosperado; e só esperam para se 
desenvolver chegue ao poder um homem capaz de permittir o 
livre surto da energia latente que reside nellas, e o crescimen- 
to desimpedido do germem fecundo que ellas representam. 

Do mesmo modo, houve em 1893 um esforço por se me- 
lhorarem as forjas onde eram empregados os methodos directos. 

E' ainda á Companhia Nacional de Forjas e Estaleiros que 
se deve o progresso feito. A antiga fabrica de Monlevade, perto 
de S. Miguel de Piracicaba, já nao usava o processo catalão, e 
sim a variante italiana, quando em 1892 foi vendida áquella 
empresa. Seu novo director, o Dr. Francisco de Monlevade, 
tratou de introduzir melhoramentos que se traduzissem por um 
mais elevado rendimento económico das installações. Abandonou 
o antigo local e approximou-se do rio Piracicaba do qual derivou 
força motriz no valor de 600 cavallos ; com ella movimentou um 
ventilador para os novos fornos e um trem de laminadores; fi- 
nalmente adoptou a variante americana do systema catalão para 
o preparo do ferro, e substituiu os antigos malhos, movidos por 
um motor hydraulico, por um martello-pilao. O novo processo 
empregado, o bloomary, permittiu com dous fornos apenas (dos 
cinco que foram planejados) elevar de 500 a 2000 kilogrammas 
diários de ferro em barras a producçào da fabrica. Para isso 
muito concorreu o grupamento dos ap parelhos, a adopção do 
aquecimento do ar e a maior rapidez no espidramento aas lupas 
no laminador, em vez de ser no malho : O martello-pilao, mais 
rápido também, Berve somente para esbravejar as bolas sabidas 
do ferro, e para expurgar de escorias a lupa formada. Outras 
machinas accessorias transformam em productoi manufacturados 
(envhadas, pregos, machados, ferraduras) as barras de metal. 

Esta usina, admiravelmente situada, teria abastecido toda a 
zona central de Minas, si nao cessasse de funccionar pela fal- 



- 98 — 

lencia da Comp.* de Forjas e Estaleiros. Sua producção quando 

Sarou em fins de 1897 com 4 fornos em actividade sobro 5 que 
evia possuir, era de três a quatro toneladas diárias ou 900 a 
1200 toneladas por anno. 

Serviu de exemplo esta fabrica á fundação de outra do mesmo 
typo no arraiai de Santa Rita Durão, no município de Marianna, 
projectada o construída em menos de anno pelo Dr. Ernesto Be- 
tim Paes Leme em 1893, por conta de uma associação de que 
fazia parte elle próprio, o Coronel João Gualberto Martins da 
Costa e José Gomes de Almeida Cotta. Dois eram os fornos ; 
em vez de martello pilão era um malho movido por uma roda 
d'agua que se empregava ; ao ventilador substituiu uma trompa 
hydraulica. Com um só forno em actividade checaram a obter 
por dia de 24 horas 920 kilogrammas de ferroem barras. Poucos 
mezes funccionou esta usina ; em fins de 1894 estavam apagados 
os seus fogos. 

Ambas empregavam processos de grande vantagem para 
a industria siderúrgica da zona central do Brazil, e é profun- 
damente deplorável a cessação de seus trabalhos. 

Foi por alguns attribuida esta suspensão dos serviços á im- 
possibilidade de luctar com os preços ao material importado, nos 
mercados do littoral, em um estudo sobre A Mettallurgia do ferro 
em Minas (1), o Dr. Clodomiro de Oliveira defende essa these, 
a par de dizer que influiu para esse resultado a falta de meios 
de transporte por via férrea. Achamos pouco probante a ex- 
plicação, como mais tarde procuraremos demonstrar, e ante3 acre- 
ditamos ter sido esse facto lamentável devido á falta de recursos 
pecuniários que motivaram a quebra da Comp.* de Forjas e Es- 
taleiros, arrastando em sua queda a fabrica de Monlevade* e 
impediram a formação de um capital de movimento suficiente 
para fazer face á3 immobilizações e aos salários de mais elevado 
numero de empregados, para o caso da Usina União em Santa 
Rita Durão. 

Parece-nos fácil a solução do problema em ambos os casos, 
e dependente, apenas e tão somente, de capital bastante di- 
minuto. 

A situação actual da siderurgia no Brazil é pois esta : dous 
fornos altos, dos quaes ura só em actividade produzindo annual- 
mente 2100 a 2200 toneladas de fonte e um certo numero de 
forjas preparando o ferro por methodos directos, no máximo umas 
com fabricas dando umas 2000 toneladas de ferro em barras. E' 
ainda muito atrazo para um paiz que dispõe das jazidas ferri- 

(1) Ánnaet da Escola dê Minai, Vol. 5.«, 1902. 



— 99 - 

feras que temos, e isto mesmo apezar da grande carência de 
combustível que caracteriza nosso meio como productcr de metal* 

Durante o período colonial todo até a Regência de D. Jo&o 
á regra seguida nas capitanias mineiras fora affastar os esforços 
dos habitantes do Brazil de qualquer industria que não fosse a 
extracção do ouro e dos diamantes. 

Veiu D. Jo&o e deu inicio a uma politica económica nova, 
francamente animadora da industriai siderúrgica que elle queria 
fundar e que fundou. 

Âo sair da America, legou o Rei ao Príncipe D. Pedro 
ama situação intrincadíssima, da qual surgiu a Independência. 

Em meio das luctas pela expulsão das tropas metropolita- 
nas, dos trabalhos pela organização do Império, e seu reconhe- 
cimento pelas potencias extrangeiras, não havia margem para 
cogitações de pura economia tendentes a implantar uma nova 
fonte de riqueza no paiz. Accrescia ás demais dificuldades o 
facto de estar o Brazil sem meios fáceis e económicos de com- 
municaç&o, essenciaes para a diffusao de productos que se ela- 
boraram a muitas dezenas de legoas dos mercados do littoral. 
Coincidiu que, com a proclamação da Independência, voltaram 
para a Europa dous dos três homens capazes de dirigir a evo- 
lução da siderurgia entre nós, Eschwege partidário das peque- 
nas usinas e Varnhagen que admittia a possibilidade de coexis- 
tirem estas com uma ou duas fabricas de porte maior, para o 
preparo da fonte. 

Desses mestres, cujos serviços, por geralmente desconheci- 
dos, nem por isso deixam de figurar entre os mais relevantes 
de que o Brazil é devedor, o terceiro era Monlevade. Successi- 
vamente fundou um alto forno que não durou dez annos, e a 
fabrica catalã de S. Miguel de Piracicaba. Não poude, entre- 
tanto, formar uma escola, não só pelo meio onde trabalhou, co- 
mo pela indifferença com que eram recebidos seus esforços. 

De que viveu, portanto, a siderurgia brazileira até 1870? 

Tão somente do impulso adquerido sob a poderosa e intel- 
ligente acção de D. João 6,° e de seus ministros. 

Foi após a guerra do Paraguay que começou a agitar-se, 
fora do circulo das oceupações estreitamente ligadas á pesquisa 
do ouro, o esforço daquelles cujo intuito era aprovei tare m-se 
melhor e mais completamente das riquezas naturaes de nosso 
solo. À este escopo superior, perfeitamente representado pelo 
grande Brazileiro que foi D. Pedro 2. v , deve-se a já tardia exe- 
cução da lei de 1832, creadora da Escola profissional de Minas, 
que só por decreto de 6 de Novembro de 1875 entrou em via 



— 100 -- 

de realização pratica. Germinou a semente e em breve fractifi— 
cou a arvore em hora abençoada plantada. 

Este novo impulso, porém, n&o foi seguido de outros au- 
xílios. 

N&o se procurou devassar o nosso território para lhe valo- 
rizar as jazidas. Aos governos n&o occorreu velar pelo desen- 
volvimento pratico da mettallurgia do ferro que vinha despon- 
tando no quadro da actividade industrial de nossos patrícios. 

Em ipanema, padr&o de nossa siderurgia official, continua* 
vam a imperar a rotina, e os velhos processos de indifferença 
em matéria de serviço publico, e o progresso Be traduzia por 
uma retrogradação 

Aos esforços t&o louváveis da iniciativa particular que ne- 
nhum favor pede ao Estado sin&o o permittir-lhe desenvolver— 
se e n&o cerrar ouvidos a suas justas reclamaçõas pela existên- 
cia de um mercado interno sem se alterarem as normas actuaes 
de taxac&o alfandegaria ; a esses esforços tem respondido a acção 
governamental com a mais profunda indifferenca, com uma le— 
thargia que faz pensar achar-ee o Brazil em um planeta espe- 
cial, que n&o a Terra onde cada vez mais acirrada e forte se 
patenteia a concurrencia mundial. 

Crea-lhe óbices pelas tarifas de transporte para as matérias 
primas, e para os productos exportados. Traz-lhe dificuldades 
pela ganância fiscal. Nega-lhe liberdade de movimentos e a 
possibilidade de produzir mais barato fechando-Jhe, quer syste— 
maticamente, quer por ignorância profunda dos phenomenos ou 
inércia indisculpavel na torrente dos factos económicos, o accesso» 
preferencial aos mercados de que dispõe, e, entre quantos erros 
commettidos, esse quiçá é o mais grave. N&o pode perdurar essa 
situação. Os erros em que seguidamente se tem reincidido, se— 
r&o corrigidos em futuro que para bem de nossa Pátria almeja- 
mos próximo. E dia virá cm que a Historia julgará severamente 
aos governos que, podendo ter auxiliado o surto da siderurgia 
no Brazil, n&o cumpriram seu dever em apressar o advento de 
nova independência económica, quanto a este elemento básico de 
todo progresso estável. 

J. P. Calógeras. 

Bello Horizonte, Junho de 1904. 



A Guarda de Honra do Príncipe 

D. Pedro 



Nomes dos guardas naturaes de t indamonoangata 

Segando o historiador Pedro Taques (1), a villa de Nossa 
"Senhora do Bom Snccesso de Pindamonhangaha (2), (elevada á 
cathegoria de cidade em 1859) era uma capella onde os mora- 
-dores dos arredores ouviam missa, em íins do século XVII. 

Esses moradores, «os mais opulentos e principaes em nobreza, 
com o tratamento a ella competente», eram o alcaide-mór Braz 
Esteves Leme, seu irmão António Bicudo Leme, seu filho Ma- 
noel da Gosta Leme, seus dois genros João Corrêa de Magalhães 
e Pedro da Fonseca Magalhães, da nobre casa de Manoel Pe- 
reira de Vasconcellos, senhor e morgado da villa de Sinfaens (3), 
-e outros mais paulistas notáveis, os quaes, não querendo estar 
sujeitos á jurisdiccao da villa de Taubaté, se congregaram, so- 
lidários, para hospedar ao desembargador Jo&o Saraiva de Car- 
valho, segundo ouvidor geral e corregedor da comarca de S. 
Paulo, que por ordem régia seguia para o Si o de Janeiro, mas, 
chegando á capella de Pindamonhangaha, deixou-se corromper. 
Tecebendo valiosos donativos que lhe deram os moradores do logar. 

Assim, pois, esse desembargador, no limitado espaço de uma 
noite, criou juizes e officiaes para a camará, levantou pelourinho, 
e, emfim, tudo preparou de forma que, ao amanhecer do dia se- 
guinte, estava a capella de Pindamonhangaha elevada a villa, 
continuando Jo&o Saraiva de Carvalho sua jornada em direcção 
á serra de Paraty. 

Contra este acto do desembargador queixaram-se a sua ma- 
gestade os moradores da villa de Taubaté, porém os da nova 
villa de Pindamonhangaba recorreram ao mesmo rei, que, afinal, 



..1) Vide Historia da Capitania dê 8. Yicsnt*. por Pedro Taques de Almeida Paes 
Leme,' na « Revista do Instituto Hlstortco e Oeographlco do Brasil», 1847, tomo II, se- 
gunda série, paga. 454 e 465. 

(2) «Povoação situada a nordeste da capital, de que dista 28 léguas ou 155, 6 Ml., 
•à margem esquerda do rio Parafcyba, em uma planície a leste da de Taubaté» 

vide Apontamentos Eistoricot, 1870, por Asevedo Msrques. 2.» Tui., pag. 106. 

(I) Paulo da Camará, no seu Diccionario Gêograpkico dê fortuaaJ, 1850, tomo I, 
gag< *34, escreve: Binfam, villa e freg. a 4 leg. de Lamego, 2.510 haS. 



— 1C2 - 

perdoou aos culpados e houve a dita villa por acclaraada, como 
se vê na carta régia de 10 de Julho de 1705, registrada no li- 
vro primeiro do registro das ordens reaes da ouvidoria de S. Paulo. 

O dr. Joào de Azevedo Carneiro Maia (1), narrando este 
facto, precede-o das seguintes palavras : 

« Todavia muitos foram entre nós os municípios que se criaram 
sem a intervenção do poder central. Por si mesmo o povo se 
emancipava elegendo as suas camarás, que por fim assumiam 
certo caracter de legalidade, umas vezes por homologação tacita 
do governo, outras por alvarás posteriores que vinham confirmal-as. 
Este acto do poder era a consagração de um acontecimento que 
a politica daquelles tempos já reconhecia a necessidade de sane— 
cionar, senão por amor da liberdade, ao menos pelo interesse da 
ordem e da publica segurança. 

c Nem era tão fácil, a despeito do absolutismo da épocha, 
suffocar a expansão popular que mais de uma vez se constituirá 
em revolta permanente por amor ia independecia local, ou da 
própria dignidade quando repeli ia o capricho de certos donatá- 
rios poderosos e dos seus apaniguados ». 



Sendo, pois, os moradores de Pindamonhangaba, opulentos e 
nobres, isso em fins do século XVII e princípios do XYIII, con- 
vém notarmos que, cento e tantos annos mais tarde, os descen- 
dentes desses moradores ainda eram pessoas disti netas e illustres, 
como cabalmente demonstra o facto significativo delles represen- 
tarem a maioria (2) na Guarda de Honra (3) do príncipe re— 

fl) Vide Município, 1883, pag. 35. 

(2) Dizendo maioria, queremos indicar que Pindamonhangaba foi a villa que 
mala guardas de honra deu para o séquito de D. Pedro. 

(3) À Guarda de Honra do príncipe regente, foi mais tarde, por decreto de 1 de 
Dezembro de 1822, organisada offlcialmente «ob o titulo de Imperial Guarda de Honra, 
oompondo-se de três esquadrões de cavallaria: um de 6. Paulo, outro de Minas Gentes 
e outro do Rio de Janeiro. 

Os tópicos mais interessantes do referido decreto silo os seguintes : 

« oommandante da guarda de honra será um o ffl ciai- general e estará immedia- 
tamente sujeito á minha imperial Pessoa. Os commandantes de esquadrõet terlo a gra- 
duação de coronel.» 

« Para esta guarda se escolherão os homens mais capazes, afim de ser respeitada 
e tornar-se digna das honrosas funecões a que é destinada. Bm concorrência serão sem- 
pre preferidos os naturaes do Império, mais abastados e patriotas, e tó o merecimento 
dará direito a accesso. » 

« Gosaráo de todas as honras, privilégios, isenções e franquezas concedidos aos 
offlciaes da primeira linha, além dos que Eu houver por bem conceder-lhee » 

« Todos os offlciaes da guarda de honra poderáo entrar na sala do docel.» 

« A Guarda de Honra terá precedência sobre todos os corpos do exercito, quando 
entrar com elles em grande parada; e tomará á direita da linha, ficando porém enten- 
dido que nunca irá senão quando Eu commandar em chefe. » 

« A guarda de honra não fará continência senão á minha imperial Pessoa, á Impe- 
ratriz minha muito amada e presada esposa, e á minha augusta Família imperial.» 

Vide Legislação Brasileira, colligidos pelo conselheiro José Paulo de Pigueirõa Na- 
buco de Araújo, tomo III, pagina 357. 



— 103 — 

gente d. Pedro, mais tarde Pedro I, fundador do Império bra- 
sileiro. 

Pois bem, como um dos elevados fins do Instituto Histórico 

e Geographico de 8. Paulo é esclarecer e estudar minuciosamente 

tudo quando se refere á hibtoria de nossa Pátria, especialisando 

a deste Estado, offerecemos a esta egrégia associação, como um 

pequeno subsidio para a historia, a lista completa dos nlkos da 

villa de Pindamonhangaba que fizeram parte da Guarda de Honra 

do príncipe regente. 

Já num artigo commemorativo, assignado pelo dr. Paulo An- 
tónio do Valle, o jornal o Ipiranga, de 7 de Setembro de 1853, 
publicou somente os nomes dos guardas de honra (de diversas 
cidades ou villas) que assistiram á proclamação da independência 
do Brasil, a 7 de Setembro de 1822 (1). 

À interessante lista dos nomes desses guardas foi transcrí- 
pta por alguns historiadores, entre os quaes — o brigadeiro Ma- 
chado de Oliveira (2), Azevedo Marques (3), dr. João Mendes de 
Almeida (4\ barão do Rio Branco (5), dr. António Piza (6), 
José Jacintho Ribeiro (7), e, ultimamente, pelo dr. Pires de 
Almeida, num substancia] artigo publicado no Jornal do Com" 
mercio (8). 

Em todas essas transcripções, porem, apenas figuram, entre 
os guardas de honra de outros logares, os nove guardas, filhos 
de Pindamonhangaba, que assistiram á proclamação da indepen- 
dência. Tendo havido entretanto, mais dois guardas, dessa mes- 

(1) Encontramos no exollente Jornal Americano, publicado em Pindamonhangaba, 
numero de 10 de novembro de 1872, esta interessante noticia : Monumento do Y piranga. 
— Lé-se no Diário de 8 Paulo : «Em uma exploração feita na colllna do Y piranga, pelo 
engenheiro Carlos Rath foi descoberta, no centro de uns alicerces alli encontrados, e 
destinados, ao qne parece, á erecção do monumento commemorativo da independência do 
império, a respectiva pedra fundamental, coHocada sob uma tosca lage, tendo a forma 
de uma caixinha oblonga de granito, com uma saliência de 1 1]2 centímetro ao redor, 
25 de extençflo, 12 de altura e outro tanto de largura, com um pega-m&o de latilo na 
face superior e em uma outra a seguinte inscripçao, em letras douradas ; 

INDEPENDÊNCIA 
P. I. 

7 DE SETEMBRO DE 1822 

(2) Vide Quadro Histórico da Protineia de 8. Paulo, primeira edição, 1664, pag. 
329; e segunda edição, 1897, pag. 328. 

(3) Apontamento* Históricos, 1879, vol. primeiro, pag. 194. 

'4) Xotas Genealógica», 1886, pag. 131. Beferindo-se ao guarda Benedicto Corrêa 
8algado, o dr. Jofto Mendes chamou -o de Bento Corrêa Salgado. 

{h) Ephemerides Brasileiras, 1892, dia 7 de setembro, pags. 311 e 312. 

(6) Vide a Importante memoria, Considerações sobre o togar onde, nos campo* do 
Ypirunga, D. Pedro proclamou a independência a 7 de setembro de 1822, na Rn. do Inst. 
Hist. e tieog. de 8. Paulo, 10i>2, vol. Vil, pag. 458. 

(7 Chronologia Paulista, 1901, 2.» vol.. pag. 445. 

(8) Vide no Jornal do Commercio, do Rio, de 22 de setembro de 1903, o artigo : 
A Escola Bjfroniana no Brasil. 



- 106 - 

VIII 

António Marcondes Homem de Mello. Casado, mas não dei 
xou descendência. Era irmão do visconde de Pindamonhangaba 
pae do nosso venerando consócio e illustre historiador sr. barão 
Homem de Mello. 

IX 

Benedicto Corrêa Salgado. Casado e deixou numerosadescen- 
cia. Era irmão do finado visconde da Palmeira e tio do falle- 
eido barão de Itapéva e da sra. viscondesa da Parahybuna, que 
reside em Pindamonhangaba. 

X 

João Monteiro do Amaral, coronel. Casado e deixou nume- 
rosa prole. Esto guarda de honra é um dos que os historiadores 
não mencionam, porque não esteve no Ypiranga no memorável 
dia 7 de Setembro. 

XI 

José Romeiro de Oliveira Godoy, sargento-mór. Casado e 
deixou numerosa e illustre descendência. Teve os seguintes filhos: 
barão de Romeiro, fazendeiro abastado já fallecido ; dr. José Vi- 
cente M. de Moura Romeiro, magistrado, depois fazendeiro, já 
fallecido ; commendador Ignacio Marcondes Romeiro, fazendeiro, 
fallecido ; coronel José Moreira Marcondes Romeiro, fazendeiro 
importante, solteiro ; António Marcondes Romeiro, fazen- 
deiro, fallecido ; dr. Matheus Marcondes de Moura Romeiro, fa- 
zendeiro, foi magistrado alguns annos; dr. João Marcondes de 
Moura Romeiro, antigo deputado provincial, magistrado em dis- 
ponibilidade e advogado actualmente; dr. Francisco Marcondes 
Romeiro, medico abaiisadc, é deputado ao Congresso Federal. O 
sargento-mór José Romeiro teve mais três filhas e muitos netos 
que se formaram em direito, medicina, etc. 

Também este guarda de honra não esteve no Ypiranga, e, 
portanto, seu nome não é mencionado pelos historiadores que se 
oceuparam da Guarda de Honra de d. Pedro. 



Concluindo este ligeiro trabalho, resta-nos dizer que os ha- 
bitantes de Pindamonbangaba sempre se destacaram, nos diver- 
sos departamentos da actividade e do saber humano honrando a 
terra onde nasceram. 



- 107 - 

No seu inicio, quando era ama simples capella, em fins do 
século XVII e começo do século XVILI, já os seus moradores 
eram os mais opulentos e principaes em nobreza, segundo Pedro 
Taques; mais tarde, em princípios do século XIX, também seus 
filhos eram notáveis e abastados, representando a maioria na guar- 
da de de honra do príncipe d. Pedro, e ainda em nossos dias, 
esssa localidade se salientou, possuindo dez titulares (1) todos 
cavalheiros opulentos, de fortuna. E, caso raro, até hoje essa 
cidade já produziu mais 150 diplomados em medicina,direito, en- 
genharia, sacerdócio, etc, muitos dos quaes occuparam e occu- 
pam logar saliente na politica, na magistratura e em outros 
cargos importantes. 

Em 1860 escrevia Emilio Zaluar (2) estas palavras a res- 
peito de Plndamonhangaba : 

« Distante sessenta léguas da capital do Império, e mais de 
trinta da capital da província, encontram-se os costumes, a illus- 
trac&o, a amabilidade e o bom gosto das brilhantes reuniões do 
Rio de Janeiro, no seio dessa população escolhida e fina, e crer- 
vos-eis transportado por encanto nos ruidosos salões do Catete 
ou as vivendas deliciosas de Botafogo e Andarahy. E' este sem 
duvida o ponto mais animado de todo o norte da província.» 

E, termina ; « esta mimosa filha do Parahyba, ó também um 
dos centros mais brilhantes da civilisaçfto da província. > 

S. Paulo, 5 de Setembro de 1904. 

Leôncio Gurgel. 



(1) Reflrimo-nos aos exmos. srs. 1.° bário de plndamonhangaba, fallecido; via- 
ecmde de Plndamonhangaba, fallecido ; visconde de Palmeira, fallecido ; barão de Para- 
hybuna, fallecido ; bário de Itapèva, fallecido ; bar&o de Romeiro» fallecido ; barão d» 
Tanbaté, bário Hemem de Mello, viscondessa de Parahybnna, bário de Lessa. 

(2) Pfgrinaç&o fia provinda iê 8. Paulo, pag. 142 e 145. 



Historia de Iguape 

Documento N/ 1 

Parte do « relatório das necessidades do Município» 
apresentado pela Camará em 17 de Fevereiro 
de 1853. 

Matriz actual — Esta Igreja findada ( segunda se lé em hum 
Livro do tombo delia ) em 1637 conserva-se ex corada por bota- 
rioB na extenç&o de seu comprimento de hum lado e de outro, 
sendo sua duração pouco amançavel As obras da nova Matriz 
com pequeno supprxmento pelo cofíre Provincial e alguns fez 
esmolas, e agora com a metade da taxa consedida pela Lei vi- 
gente trabalhando-se nella efetivamente apenas tem se podido 
conseguir cobrir o corpo da Igreja Capella mor e o corredor do 
lado do mar e agora trabalha se no assoalho do corpo da Igreja. 
Nao pode porem esta obra ser de pronto levado a efieito, com 
as pequenas apurações por que sua concluz&o depende inda de 
alguns contos de reis, no entanto que pode a Gamara afiançar 
que ella acha-se no estado em que esta he devido o zelo e 
assiduidade do Procurador Geral da Irmandade o Tenente Co- 
ronel Luiz Alvares da Silva. A Camará Municipal rogo pois a 
Assemblea Digne se lançar suas vistas sobre este t&o importante 
Templo o qual quaze que pode se dizer o primeiro da marinha 
na Província de São Paulo, e espera a Camará que attenta a 
necessidade desta importante obra, a Assemblea decretará para 
continuação delia huma quota pelo menus de 3:000$ rs com o 
que se poderá conseguir a por em estado de serem ahi silibra- 
do os ofncios Divinos. 

Documento N° 2 

Ao pri meiro De meiro digo Aos quinze De Janeiro da era 
De mil É seis sentos £ setenta e seis annos nesta uilla de na 
Sr* das neues de Yguape nas Cazas do Conselho dela se ayunta- 
rào os ofisiais Em Camera yuyzes uereadores e preCurador do 
Conselho E pelo Vreador mais uelho foi perguntado A preCura- 
dor Se tinha querer E por ele foi dito E requeKido que guarda- 



— 109 — 

sem E cnmpriBem suas merses o que tinho deixados En yua Corei - 
s&o En seus Capitolos Ouidor E o ditos ofisiais ouer&o por bem seu 
Requerimentos fazendo Se Contos do dinheiro que auia de Rendas 
da Camera ou foros E se não aChou mais que deuer Bernaldino 
Corea E o defunto ynacio dias velho de huas terás Em que uiue 
de des annos de foro Cuatro mil Reis hú Cruzado por anno E se 
n&o aChou otra ninhúa Renda nii dinheiro Caido de La E logo se 
m&dou Chamar o dito Bernaldino Corea para que pagase o Dito 
dinheiro e por ele foi dito que n&o deuia nada por Coanto As 
terás Er&o de seu abo fiertolameu gunsalues o Coal aprezentou aos 
ditos ofisiais hua pitis&o Con hú despaxo o pe desta ao ouidor ge- 
ral manoel dias Rapozo En que mandaua dar uista aos ofisiais da 
Camera que neste tenpo sernir&o pa que Respondesen E lhe tor- 
nase sua Resposta Se as terás que se diz&o seren do Conselho 
Er&o de bertolameu gunsalues Responderão os ditos Ofisiais que 
era uerdade as ditas terras Er&o de bertolameu gunsalues ao Coal 
pidir&o lhe desen Lugar a Se fazer nelas uila E lhe dari&o ou- 
tras as quais lhe n&o der&o y era yusta lhe restituises E Comfor- 
me sua pitis&o E despaxo do dito Ouidor geral lhe mandar&o dar 
pose na forma de seu mandado por seren suas do dito Bertola- 
meu gunsalues E a Camera desen pose de dela por quanto as ti- 
nh&o pusidos Em mau titolo por as ter posuidas o dito bertolameu 
gunsalues E seus antepasados E Cultivadas E nisto pelos Ditos ofi- 
siais mandar&o ao dito bernaldino Corea se fose Em pas E por n&o 
auer dinheiro ninhú mais que Coatro mil e Coatro sentos E oiten- 
ta Reis dos Coais se mandar&o Coatro mil Reis aue Estav&o na 
m&o do depusitario os quais mandar&o ui e sem Conaenas&o confor- 
me o que ordenaua ouidor geral de que fiz este termo onde asina- 
r&o os ditos ofisiaes Eu ynasio Miz escriv&o da Camera que o es- 
Creui — M 6 da Costa — Seuerino de ueras—fro de anhaya — Bechior 
•|- farão — Mel dia pr\ 

Documento N° 3 



Treslado da Certidão que os Of fisiais da camará Pas- 
saram ao Capp* m Bernardo Reiz bueno que Deos 
aja na era de mil e seis sentos e sesenta annos. 

Bernardo Roiz Bueno morador nesta Villa de nossa Senhora 
das neues de Iguape q e elle p justifi caçam sua lhe he nesesario 

2ue Vms lhe mandam pacar certidão de como Sauiam que Seu 
,bo Ant° de Barsellos foi dos primeiros pouadores desta V a e a 
sustentou e outro Sii Seu Sogro fran 00 alures marinho como 
poboador também foi o que mudou a uilla donde estaua de pri- 



— 110 — 

meiro por não ser desente e o fes e a sustentou a custa de sua 
fazenda e deu sitio aonde oie esta e nella sempre seruiou os 
cargos de Capp* m e de juis e Breador e por ser ia uelho e não 
poder seruir por força deu a dita Cappitania a hum genro seu. 
em falta do dito entrara na dita Cappitania elle Sr Bernardo 
Roiz bueno seruindo também os Cargos da Republica por uezes 
« sempre fora sulicito no seruiço de sua Mag* e bem quisto de 
todo o pouo por tanto pede a Vms lhe mandar passar certidão 
e o que na uerdade pede pêra mais tarde sua sustificaçam esta 
e bem merece mercê. 

Certidão da Camará os Juizes e Breador es e Procuradores 
do conselho abaixo asinados nesta Villa de nossa Senhora das 
neues de Iguape. Certificamos em como he uerdade tudo o que 
o Capp am Bernardo Roiz bueno dis em sua peticam que seu abo 
Ant° de barselles foi dos primeiros pouoadores de* ta Villa e a 
sustentou e outro si* Seu Sogro fran 00 alures marinho com poua- 
dor tamaem foi o que mudou a Villa donde estaua primeiro por 
não ser desente e aumentou a custa de sua fazenda e deu o sitio 
a onde oie esta e nella seruiou os cargos de Cappitam e de juis 
e Breador e por ser ia uelho e não poder seruir pasou a dita 
Capitania a hum genoro seu e por falta do d to entrara elle 
d to Bernardo Roiz bueno no dita Cappitania seruindolas bem os 
Cargos da Republica por uezes e sempre fora mui sulisito ao 
seruiço de Sua Mag de e bem quisto de todo o pouo e he mere- 
cedor que sua Mag* e lhe faça mercês he isto certificamos que he 
uerdade pelo iuramento de nossos offisios feita em camará aos 
vinte dias do mez de dezembro de mil seis sentos e sesenta 
annos eu manoel mrz de fonte escriuao da camará desta Villa que 
o escriui — Belchior franco — Inosensio de veras —fran co guedes — 
fran co Cordeiro de Rezende — Pascoal peres. 

Documento N° 4 

Termo do rocio desta Villa 

Aos dois dias do mez de Julho de mil Seis sentos e settenta e 
nove annos e nas cazas do Senado desta Villa os officiaes da Cama- 
rá delia os abaixo aSignados requerirão ao Capitão Mor Ouvidor 
Luiz Lopes de Carvalho que esta Camará não tinha terras medidas 
nem demarcadas que para se saber o que hera do Conselho lhe 
mandasse medir o que fosse licito para se fazerem casas indo esta 
Villa em augmento e pelo dito foram mandado chamar o Capitão 
Manoel da Costa e o Capitão Francisco de Pontes Vidal por serem 
os herdeiros de Cosme Fernandez, Pessoa de quem as ditas terras 
forão, e lhes pedio em nome do Senhor Conde Donatário, que elles 



— iil — 

quissessem dar terras para o Rocio desta, ao que elles responderão 
herào cou tentes e davào de suas livres vontades duzentos e cin- 
coentas braças craveiros de terras em quadra para o Rocio desta 
villa, as quais começão da Barra do Rio 1 piranga da banda do Nor- 
deste e acabaria para a banda do Sudueste, e logo pelos ditos offi- 
ciaea da Camará em prezença do dito Ouvidor e adoadores forão 
medidas as duzentas e cincoenta braças, e acbarão acabarão adiante 
da caza de Francisco Guedes, aonde esta bua Rebuleira de mato 
alto e outro tanto s» intenderá para a banda do Noroeste e de como 
assim os ditos adoadores der&o as ditas terras para o Conselbo e 
Rocio desta Vilia de suas livres vontades e os ditos officiais da 
Camará aceitarão, mandando fazer este termo onde todos asigna- 
rào. E eu Jerónimo de Araújo Escrivão da Camará que o es- 
crevy — Valentim Rodrigues — Francisco de Ponte Vidal —Manoel 
da Costa — António Franco — Cruz -f- de Belxor Forão — Felipe 
Perera — Manoel Martins de Miranda — Luiz Lopes de Carvalho. 

Documento n.° B 

Escritura do venda do torras q fas Maria Nunes 
Chaveiro dona Viuva ao R. do P. e Viç|.° desta V. » 
Ant.° Barboza de m. * 

Saibam quanto Este publico instrum to de escritura de venda 
de terras Virem que no anno do nasim to de nosso senbor Jezus 
Cbristo de mil e seis sentos e noventa e seis annos aos Vinte e 
dois dias do mez de janeiro do mesmo anno nesta Villa de nossa 
Senhora das Neves de Iguape Cappitania de nossa Senhora da 
Comceipç&o partes do Brazil etc. nesta dita Villa nas Cazas e 
moradas de Maria Nunes Chaveira dona Viuva moradora nesta 
dita V a e sendo hy prezente a dita Maria Nunes Chaveira Logo 
por ella outorgante foi dito em minha prezença de mim taba- 
liam ao diante nomeado e asignado e em prezença das testemu- 
nhas ao diante nomeados e asignados que ella dita Vendedora 
vendia como de feyto vendeu deste dia para todo o Sempre 
huans Sorte» de terras que possue nesta dita Villa ao Reverendo 
P* Vigário desta Villa António Barboza de m ca por presso e 
quantia de vinte mil Reis em dinheyro de contado em moeda 
Corrente que tantos Recebeu a dita Vendedora Maria Nunes 
Chaveira dona Viuva e dise que estava paga e satisfeita do 
valor das ditas terras as quais terras Contiudas partem a veira 
mar da barra do Ribeiro hipirangua correndo a veira mar athe 
a pedra Redonda junto ha y Taguâ a qual pedra quando amare 
esta cbea fica Cuberto dagoa, o tem outra pedra grande de frente 
em terra a qual pedra esta em pei só tem Mais outras tanto 



— 1J2 — 

assy de vanda do norte; e correndo da barra da hipiranga Ca- 
minho de noroeste atbe partir Com as terras dos erdeyros do 
Capp*"* o defunto fran 00 de pontes Vidal os quais erdeyros sam 
esmeiros com a dita Senhora Maria Nanes Chaveira dona Viuva 
a saber pesuhia a dita S* Maria Nunes Chaveira dona 
Viuva da vanda do Leste e Sueste e outros poauhidores da outra 
metade da vanda do porto da Ribeira Rumo de noroeste as quais 
ditas terras dise ella dita uendedora Maria Nunes Chaueira dona 
Viuva de se uendia como de feito uendeu ao Reverendo P* Vi- 
gairo António Barboza de M?» deste dia pêra o sempre com todas 
Suas entradas e sahidas Campos e oiteiros Tapera agoas uerten- 
tes ao Sul e ao nasente iponente franquezas e Liuerdades asim 
e da maneira que a pesuhia e dise que ho auia pormetido de 
posse das ditas terras d es ti n guindo toda a posse e sinhorio e do- 
mínio na pesoa do dito comprador o Reuerendo P* Vigairo 
Ant° Barboza de Mo* para que as Logre de oze p a sempre 
e delias possa fazer o q lhe bem estiuer como couza com- 
prada por Seu dinheiro e se obrigaua por sua pesoa e bens 
de lhe fazer Sempre boas esta uenda ualioca he inReuoga- 
uel em fô do que asim outorgou e pedio a mim ta m asim 
lhe escreueçe neste meu liuro de nota pêra delia dar os treslados 
nesesarios sendo por testemunhas q foram prez entes que todas asi- 
gnarao nesta nota João feio de araujo Diogo Perera Nunes e Ànt.* 
Roiz Madera todos aquy moradores pesoas Reconhecidas de mim 
ta m e eu Como pesoa publica e estipulante e aseitante aseitey esta 
escritura em nome de quem mais tem possa autilidade desta escri- 
tura onde se asignou também a uendedora que por ser molher e 
n&o saber escreuer pedio e Rogou o Seu Irmão Manoel Nunes Cha- 
ueira asignace por ella outorgante eu Miguel frz Bicudo tabaliáo 
do publico o escrevy aSina e a Rogo de minha hirm&a maria nu- 
nes chaueira a seu Rogo — Manoel Nunes Chaueira — Diogo P* Nu- 
nes — João feio — António Roiz Madeira. 

Documento N. 6 

Aos quinze dias do mez de Janr° de mil e seis sentos e noventa 
e dous annos nesta Villa de nossa Senhora das neues de Igoape 
nas Cazas do comselho delia se ai untaram os offisiais em Camera 
Juiz e Briadores e procurador do comselho e pello breador mais 
uelho foi preguntado ao procurador se tinha q Requerer e por elle 
foi dito e Requerido que pêra bem Com mu m do Pouo hera nesesa- 
rio porpor obra trazer a agoa da fonte do Senhor Bom Jezus a esta 
Villa e pella muita falta que faz aos pobres por ficar longe. Re- 
ceberam asim e Comcordaram os ditos Offisiais da Camera o d° 



— 113 — 

Requerimento para se prosiguir com a obra do q íis este termo e 
Miguel frz Bicudo esCriuâo da Camera o e&Creui. — António de 
Souza Coutinho — SeBastiâo Raiz Bueno—fran c0 de ueras — Ino- 
sendo de ueras — João de fontes morais. 

Documento N. 7 

Termo de Vcreança 

Ao primeiro dia do mez de Dezembro de mil e sete sentos 
e trinta e eete annos nesta Villa de íguappe em a Gaza e passo 
do Conselho delia se Juntarem os OffiCiais da Camera Juiz ordi- 
nário Vereadores e proCurador do Conselho para effeito de se 
arematarem as obras da fonte e pellourinho tendo Corrido os 
termos da ley 4m praÇa Correndo os LanÇaz a quem menos der 
e Como nam houvese quem menos nzese fai Lansado nas ditas 
obras pello Cappitam Joam Per* Yalle em sento e noventa mi] 
reis que pellas ai t tas obras LanÇou o ditto acima e Como andou em 
pregam as dittas obras pellas imas pello porteiro e nàm houve quem 
afrontaCe ditto Lanço se remataram as dittas obias a saber hua 
Casa de abobada na ditta fonte sendo de pedra e Cal Com dous Ca- 
nos e seu tanque fora para Lavagem de roupa em modo de boa 
utilidade ao pouo desta Villa para tomar agoa nos canos e seus 
asentos por banda Couza Capaz de receber; asim mais com suas gra- 
des de ferro ou o que roais Conveniente for. E asim mais um pel- 
lourinho de pedra e cal com seu pe ou degraos ao pe Como seu mo- 
do de Cutello em sima, e hua argolla de ferro no pe do ditto pel- 
lourinho, dando o ditto Cappitam Joam Pr* Valle todo o necessá- 
rio de cal pedra e tudo mais necessário e somente os Officiais da 
Camera lhe dariam os dous canos para a ditta fonte o que tudo 
asim se obrigou o ditta a dar aCabada as dittas obras athe a festa 
de Agosto que vem de mil e sete sentos e trinta e oito e desta sorte 
fiCaram as dittas obras arematadas pello ditto asima pella ditta 
quantia de sento e noventa mil reis, declaro que a fonte ha de ser 
de sorte que Corra sempre agua para fora da ditta Casa para a par- 
te por onde o Ribeyra Corre de que mandaram fazer este termo 
que aslgnaram eu CarLos Pinto dos Beis esCrivam da Camera o 
esCrevy asim mais declaro que pellos dittos offiCiais da Camera lhe 
foi pedido fiador abonado as dittas obras e logo aprezentou por seu 
fiador Antodio Nog r * Chaves morador nesta Villa homem abonado 
que também asignou eu Sobre ditto Escrivam o Sobescrevy por 
mandado dos mesmos OffiCiais da Camera e que o pagamento si 
faria em três quartéis = Lobo = Sardinha = Nunes = bairros = 
Ara-\-ujo = João Per* Valle = Manoel da Costa = António 
Nogr* Oitaves: 



- 114 — 
Documento N. 8 

«Ouvidor geral, Francisco Leandro de Toledo 
Mendonça» 8 de Agosto de 1787 

Proveo mais que se continuasse a obra do cano por onde ade 
vir a agoa da fonte chamada do Senhor p* esta Villa, fazendo-se 
pelo mesmo Lugar> por onde esta demarcado, e executando-se a ris- 
co, que elle D° r Ouvidor Geral tem dado; vencendo os mestres pe- 
dreiros, e os serventes seus jornaes respectivos e racionáveis, e 
fazendo lhes pagam' 7 todas as semanas, sendo a feria assignada por 
Joaq m Pereira do Canto, Administrador da mesma obra, a quem 
tãobem se pagará por cada dia, que se trabalhar nella=240=pe- 
queno premio de grande zelo com que a administra ; nao se exen- 
tando o Proc or e mais officiaes da Camará, de examinarem, e de 
zelarem da metma obra, como lhe comp e em razão de seus cargos, 
visto ser ella feita a jornais por nao haver quem a quizesse arre- 
matar andando em praça perto de anno, sendo alias de m l ° necessd 6 
p* a utilidade publica. 

Documento N. 9 

«Ouvidor, António Ribeiro de Carvalho» 
26 de Agosto de 1809 

Proveo que os Juizes ordinários passam logo a mandar limpar 
o aquedueto, ou rego, por onde vem a Agoa que se gaste nesta 
Villa, devendo conservallo sempre limpo e aseado; de maneira que 
Ágoas possao correr livramente, e não estejao estagnadas, co- 
mo actualmente se conservão em grande risco de corromperemse, e 
perigar por este motivo a saúde dos moradores desta villa. 

Documento N. 10 

«Ouvidor Jozé de Azevedo Cabral» 3 de Setembro 

de 1823 

Proveo mais que tivessem todo o cuidado no aquedueto das 
Aguas para o uso e serventia publica desta villa, e que nenhuma 
pessoa pudesse destrahir as mesmas do curso para serventia e 
uso particular e sem que tinham chegado ao lugar do uso e ser- 
ventia publica como já pertendeo Ignacio Marianno que perten- 



— 115 — 

deo destrahir as mesmas para o uso de hum Engenho, cujo pro- 
cedimento a Camará do nnno passado lhe embargou, cujo em- 
bargo, elle ministro ha por confirmado e que digo e assim também . 

Documento N, 11 

Registo de hum ofiicio que a Camará dirigiu ao Prcz. te 
da Província em consequência do Ofiicio fio mes- 
mo, informando quaes as Obras Publicas mais ne- 
cessárias a fazer- se neste Município. 

A Camará Municipal da Villa de Iguape em cumprimento 
do Officio de V. E. cla em data de 6 de Outubro de mil oito cen- 
tos e vinte e oito tem a dizer a V. Ex. a que ella nomeou huma 
Commissao composta de Cidadãos probos para a revista das pri- 
zoens publicas desta villa e remetti por Cópia o acto constante 
do parecer d'aquella commissao, unido ao parecer da Commissao 
permanente que ambos fazem palpável o deplorável esteado da 
Caza que serve de Cadêa, e o meio mais prompto de melhorar a 
sorte desses infelizes, que tiverem de soffrer o pezo da Ley, em 
consequência de seos delictos ; e quanto as obras de primeira nece- 
sidade, e para as quaes já se tiverem despendido alguma quantias, 
a Camará não obstante o conhecer a vantagem que resultará a esta 
Villa da conclusão da Valia de Communicaçao, todavia não pode 
deixar de ponderar a V . Ex. a que esta obra he em proporção bas- 
tante despendioza, e que o seu administrador orsou a sua concluzão 
na quantia de hum conto de réis ou foi antes dos temporaes, em 
consequência dos quaes, sobrevierão consideráveis entulhos, ou sem 
duvida ignora esta circumstancia essencial, que hoje talvez faça 
exceder a trez contos de réis a ultimação d'aquelle trabalho, quantia 
que não existe disponível, e que porisso a pequena existente a Ca- 
mará penca que se deve empregar ern obras de primeira e mais 
evidente necessidade, tal he o melhoramento da agua de beber ; he 
esta a única de serventia publica e a mesma de que se servem os 
os ulserados e infectados dos diversos males contagiosos, lavandose 
e todas as ropas sujas nos differentes lugares em toda a extensão do 
rebeirão, obrigando por isso ao Povo embaixo a beber as aguas que 
desse a assim infeccionadas e impuras, de que resultão incalculáveis 
males ; os pareceres das Commissões assas demonstrão esta verdade 
e a necessidade desta obra da qual depende a saúde publica, pri- 
meiro bem de hum Povo : a Camará a julga preferível a mesma da 
remossão da Cadêa e esta a valia, inda estando esta ultima já prin- 
cipiada e para ella se ter despendido algumas quantias, e penca 



— 116 — 

que igual preferencia mereserá de V. Ex. a aprovando o despendio 
de setecentos mil réis em que foi orsada a Caixa e encanamento de 
agua, assim como dos cem mil réis em que igualmente foi orsada a 
obra dos quartéis para remossão da Cadêa, e nesta além da neces- 
sidade acresse a pouparse os alugueis que se pagão por essa Gaza 
arruinada e imunda. Deos guarde a V. Ex. a Iguape em Sessão 
Extraordinária de dezenove de Fevereiro de mil oitecentos e trinta 
e trez. Ulmo. e Exrao. Snr. Rafael Tobias de Aguiar Presidente 
desta Província— Joaquim Manoel Junqueira e Canto — Luiz Al- 
vares da Silva — Jozé Bonifácio de Andrade — Jozé Alves Carneiro 
— Manoel Duarte de Castro — Jozé Ribeiro Sátiro. 

Documento N° 12 

Registo de hum Ofíieio que a Camará dirigi© aoExmo. 
Presidente da Província sobre a questão que lhe 
foi movida tendente a agua da Fonte publica. 

Hl™ e Ex mo Senr — A Camará Municipal da Villa de lguape 
na firme persuasão de concorrer quanto ser possa para a prosperi- 
dade de seu Município julgou de seu dever sustentar hum direito 
inquestionável que se lhe quer uzo froir sobre o objecto que pelo 

Sresente passa a levar a respeitável prezença de V. Ex.* A agoa 
e beber sobre a qual as Camarás transactas ti verão e tem sempre 
toda gerência, são dous córregos que se reúnem em hum só, e tem 
sua origem em hum lado da montanha vizinha a Villa cujo lado 
sendo de servidão publica vem a ser de propriedade da Camará : 
parte a mesma agoa por huma extensão de quazi quatro mil pal- 
mos de terreno da Camará e se introduz pela chácara de D. Fran- 
cisca Alves Alvim, e d'alli a outros quintaes pelo meio da Villa 
ate dezagoa no mar. Esta agoa tendo antigamente huma direcção 
muita diversa corria para o Porto da Ribeira ; foi tentada pelos 
antigos encana) -a para hum Chafariz em hum dos largos da Villa, 
como se observa de hum muro que ainda existe feito na extensão 
de cem a cento e cincoenta braças desde a flarda da montanha; foi 
porem despois este projecto abandonado, talvez por falta de meios 
para leva-lo ao fim o que destinavão ; e desde esse tempo e deantes 
tem sido inquestionável o direito da Camará sobre a agoa com- 
mum ; ao cuidado delias tem estado sempre a limpeza do córrego, 
com o que annualmente dispende algumas quantias ; ao cuidado 
de seos Fiscaes hé recommendada a vigilância para prevenir quaes- 
quer abuzos afim de te la no melhor aceio que lhe for possível. 
Como a Camará transacta conhecesse que as fontes de lavagem 
acima da chácara da mencionada D. Francisca contigua aquella 



— 117 — 

*m que a população tomava a agoa para beber era perniciozo, pelo 
ttotivo de que as lavandeiras fazendo por meio de tapage no cor- 
rigo, retroceder as agoas levarão a fonte de beber aquella de que 
w Berviao, e alem disso como em occazião de grandes chuvas en- 
graçando as agoas excedessem ao corrigo não capaz de abran gelas, 
banhavào os campos, n'elle ficavão estagnadas, e parte correndo 

fula rua e pateo das cazinhas tazi&o estragos que tinha sempre a 
amara de repara-los; resolveo pois ella mandar abrir hum valo em 
o anno de 1839, que sahindo em linha recta ao mar pelo pateo do 
Ipiranga desse em igual parte sahida as agoas pelo nivel de huma 
soleira que fiz collocar, esta medida foi tomada posta em pratica 
e assim se tem conservado ate hoje. Acontece agora que pelas 
grande secas que tem havido, baixou a agoa consideravelmente e 
as lavandeiras, cujas fontes existem no novo corrigo tapavão o 
outro para as agoas obedecer este : o Fiscal de a conta disto a 
Camará, e por ella lhe foi ordenado que faça por agoa em hum 
nivel igual, isto hé, que a agoa corresse em igual porção para am- 
bos os corrigos ; projectando por em pratica esta ordem appoem- 
se a predicta D. Francisca, e sem reclamação alguma a este a Ca- 
mará, chama ao seu Procurador ao Juiz de Paz, e tenta huma 
acção de manutenção de posse sobre esta agoa de servidão pu- 
blica com a única allegação de que a annos passa pelo seu quintal, 
com que se algum direito isso lhe outhorgue para que as Camarás 
para commodidade dos habitantes de seu Município não possa re- 
movei a para onde a publica utilidade o exigir. A Camará pois 
Exm.° Senr., que não reconhece nesta inconsiderada intenção da 
mencionada Dona Francisca senão a vontade de tolher-lhe o di- 
reito de propriedade e colher hum ainda que gracioso titulo, esta 
na firme persuasão de defender os seus Direitos e o de todos os 
seus Munícipes, e livrar o porvir de um férreo Sacrifício ; e para 
isto conseguir esta persuadida que não será carecedora de gran- 
des fadigas por ter a razão e a mais plena justiça de seu laudo. 
Si a mencionada Dona Exm.° Senr. tem juz á aquella agoa, e 
pede indemnização, como já o fez ; o mesmo direito tem mais de 
30 moradores por cujos quintaes ella passa, e estes nunca se lem- 
brarão que só por este motivo tivessem direito de propriedade, e 
nem o primeiro possuidor da chácara de que se trata, Manoel Joa- 
quim dos Santos, que sempre reconheceo ser dita agoa perten- 
cente ao Município, tanto que abria o portão da chácara para 
mesmo dentro delia hirem lavar roupa etc. A Camará levando 
ante V Exc* esta expoziç&o e tendo os mais sólidos fundamentos 
para pugnar pelo Publico Direito rogo a V Exc* se digne autho- 
rizala para pelo seu Cofre fazer a necessária despeza com a susten- 
tação da cauza que se lhe propor, visto que no seu respectivo orçar 



- 118 — 

mento, não tem para isso quantia designada) e he de sua mais 
firme intenção dar andamento a hum chafariz para de todo remo- 
ver quaesquer obstáculos, e para esse fim ja deu principio a huma 
Subscripção voluntária e pedio a Assemblea Provincial a presta- 
ção de huma quantia. A Camará finalmente, espera que V Exc* 
lhe authoriza para a necessária despeza como lhe honre com sua 
opinião a respeito. Deus guarde a V Exc* Salla das sessões da 
Camará Municipal da Villa de Iguape em sessão ordinária de 1.° 
de Fevereiro de 1843. Ulmo e Exmo Senr Presidente desta Pro- 
víncia de São Paulo — Luiz Alvares da Silva — João Maneio da 
Silva Franco — Joaquim José Teixeira dos Santos — José Joaquim 
Cardozo — Rafael Dias dos Beis. 

Documento N, 13 

O Presidente da Província declara á Camará Municipal da 
Villa de Iguape, em solução ao ponderado em seu officio de 1.° 
de Fevereiro, que, sendo obrigado pelo art. 41 da Lei N. 1 de 
Outubro de 1828 a fazer, repor em seo antigo estado as Servi- 
doens publicas, não consentindo que os habitantes do seu Mu- 
nicípio fiquem privados daquellas vantagens em cujo gozo esta- 
vão desdes longos tempos, cumpre-lhe defender taes direitos por 
via do seo procurador, devendo todavia aconselhar-se á respeito 
com Advogados de conceito, para que tenha bom êxito a lide 
que se propõem a sustentar ; do que tudo dará parte a Assem- 
blea Legislativa Provincial, afim de que seja por ella concedido 
o necessário credito, visto não haver quota para isso no respe- 
ctivo orçamento ; conforme allega a Camará em dito officio. O 
que lhe communica para sua intelligencia. Palácio do Governo 
ae S. Paulo, 30 de Junho de 1843 — Joaquim Jozé Luiz de Sousa. 

Documento N. 14 

«Em sessão da Camará, 111 de Dezembro de 18£3» 

O Vereador Alves da Silva apresentou a indicação seguinte : 
cComo Presidente interino da Camará e em falta do Presidente 
delia tive de dar algumas providencias que me forão exigidas 
pelo Fiscal durante o intcrvallo da ultima Sessão ordinária ate 
esta, visto que erão objectos que necessita vão de promptas pro- 
videncias, e hé — O Fiscal officiou me dizendo que vizinho ao 
córrego da fonte aonde Ignacio Marianno queria fazer hum En- 
genho que a Camará embnrgou, tem hum outro córrego e que 



— 119 — 

neste duas pessoas querião fazer huma espécie de tanque de la- 
vagem, e que queria saber que medidas devia tomar a prevenir; 
respondi -lhe que puzesse em pratica o que determinava a Pos- 
tura, mas antes de o fazer esgotasse todos os meios de persuasão 
e de brandura afim de não cumplicar-se semelhante questão, e 
que para o reconhecimento de que aquelle córrego faz parte da 
Servidão publica collocasse no centro do córrego para nelle in- 
troduzir huma bica que serve de fonte publica cuja obra não se 
acha acabada por falta de cal, e eu tenha supprido com nove 
mil e tantos réis, para levar-so ao \ estado de perfeição necessi- 
tava gastar-se até a quantia de vinte ou vinte e sinco mil reis, 
espero a vista disto que a Camará approve esta medida e au- 
thorise ao Fiscal para concluir a obra e prompta denomine «fonte 
de Todos os Santos». A fonte da <Saudade» acha-se prompta, 
gastou-se oitenta e sinco mil e oitocentos reis, tendo apenas a 
Camará dado trinta mil reis, tudo o mais foi prehenxido pelos 
seguintes cidadãos ; eu dei doze mil e oitocentos alem de quatro 
dias de serviço de hum escravo ; Bernardo António Neves deu 
quatorze mil reis : António Joze Finto sete mil réis ; António 
Joze Gonçalves dois mil reis, e Manoel Joze Corrêa seu serviço 
como Administrador na importância de vinte mil reis como tudo 
consta da conta junta, mas seria bem precizo fazer-se levantar 
mais os muros da caixa, com que se gastaria de dez a doze mil 
reis pêra livrar de abuzos e malfeitores. Cabe-me aqui lembrar- 
vos a necessidade que há de prohibir-se inteiramente todo o corte 
d6 madeira no morro da servidão publica, por quanto se conti- 
nuar o abuzo de despi-lo de suas matas breve experimentaremos 
a falta d'agoa, principalmente nos tempos de grandes seccas por 
que a excepção do córrego grande denominado «Fonte de Senhor» 
tudo o mais são córregos de pouca agoa, e pode se dizer que 
elles hoje não tem a metade d 'agoa que em outro tempo tinhão, 
quando o morro se achava no seo estado primitivo ; lie necessá- 
rio hoje olharmos para essa necessidade publica recommendando 
ao Fiscal toda vigilância e cuidado, e athe enviar-se á Assem- 
blea hum artigo de Postura ; bem como sobre o mao estado, digo 
mao uzo das Pedreiras junto ao córrego . Movido de curiosidade 
de ver o trabalho das antigas Camarás encontrei em hum Livro 
de Vereanças de 1729, que a poucos dias foi restituído ao Ar- 
chivo da Camará que no anno de 1737 mandou a Camará arre- 
matar a caza da Fonte do Senhor e o Pelourinho por cento e 
noventa mil reis e ordenou que a agoa da fonte depois de en- 
trar naquella casa destinada para o xafariz fosse levada ao Porto 
da Ribeira desta Villa seu antigo destino, e no anno de 1740 a 
quinze de Março forão a vistoria daquella obra , e assim conti- 



— 120 — 

nuou debaixo da vigilância da Camará como propriedade sua, e 
tanto assim que a oito de Agosto de 1757 estando a porta da- 
quella cazinha arrombada ella mandou are matar esse concerto ; 
cujas declarações he necessário transcreyelas neste Livro de Actas : 

Principalmente o termo de Vereança de primeiro de Dezembro 
e 1737, que deve todo ser fielmente copiado para mostrar a 
nossos vindouros que a Fonte do Senhor, cazinha da fonte, e 
muro que d'alli segue p«ra a Villa tudo he de propriedade da 
Gamara de que sempre esteve e esta de posse, como per- 
tencente a Servidào publica; e achando-se aquella cazinha ar- 
ruinada em algumas pequenas partes era mister que se recom- 
mendasse ao Fiscal que mande retificar bem como incanar a agoa 
para alli aquella que os canos possão isgotar; e ter de hoje 
avante toda cautela e cuidado n'aquelle bem publico, e outra 
sim que abrangendo aquella cazinha a pedra onde foi depositada 
a Imagem do Senhor Bom Jezus, cuja devoção dos Devotos que 
aqui chegao he tirar pequenas partes delia, seria prudente que 
a chave estivesse sempre a disposição do Procurador da Irman- 
dade do Senhor para saptisfazer a requizição dos Devotos, re- 
commen dando não consinta que alli se lava ninguém, afim de 
não se perder huma devoção tão conhecida e arraigada no co- 
ração dos Fieis, e quando haja abuzo, a Camará providenciará 
como intender. Iguape treze de Dezembro de mil oitocentos e 
quarenta e trez. Luiz Alves da Silva. Cuja indicação entrando 
em discussão foi approvada, bem como as medidas tomadas pelo 
mesmo vereador na qualidade de Presidente interino da Camará. 
Levantou-se a Sessão ao meio dia. E eu João Maneio da Silva 
Franco vereador servindo de Secretario escrevy a presente acta 
e assignei — Almeida e Cruz — Maneio — Silveira — Cord 9 — Reii — 
Alvares da Silva. 

Documento N. 18 

Registo de hum officio que a Camará dirigio ao Fiscal 
para providenciar sobre as obras do Municipio. 

Ulmo Snr. A Camará Municipal resolveo. l.° Que V S.* 
mande limpar o córrego da Fonte, principiando da ponte do Ca- 
pitão Carneiro Braga para baixo em toda a sua extensão, menos 
nos terrenos que tem proprietário que serão notificados para fa- 
zerem igual beneficio, dando- se maior largura ao córrego e bas- 
tante profundidade. 2.° Que feito o alargamento e rebaixo em 
em toda extensão, mande V S.' intulhar o principio da Valia 
que vai ter o mar, e isto ate a ponte que attravessa o caminho 



— 121 — 

junto ao córrego, de sorte que os aguas retomem o seu antigo 
ordinário curso. 3.° Que mande abrir três grandes fontes para a 
lavagem de roupa do muro de D. a Francisca de Chagas para 
baixa, outra Fonte no lugar que mais conveniente parecer, outra 
no córrego da Fonte da Saudade junto aos fundos da chácara 
de Filadelfo de Souza Castro mandando também limpar o tamque 
de lavagem da dita Fonte. 4.° Que V S* mande profundar huma 
antiga valia que vem em linha recta desde a cazinha do Snr 
Bom Jezus ate a ponte que attravessa para a chácara do Capi- 
tão Carneiro Braga, afim de fazer correr para ahi as aguas do 
córrego. 5.° Que verificando de que a falta de agua no córrego 
da Fonte provem de extravio da agua no lugar em que outr'ora 
Ignacio Marianno Rodrigues tentou levantar hum Engenho, cum- 
pre que V S* com urgência mande fazer o re prezo que precizo 
para que agua se não extravie. 6.° Que V S* faça arrematara 
renda das afferições por 4 annos principiando do 1.° do corrente 
anno, nunca por menor quantia do que a do passada arremata- 
ção. O que tudo se lhe communica para a sua intelligencia e 
immediata execução, que a Camará muito lhe recommenda. Deos 
guarde a V S\ Iguape 16 de Janeiro de 1845. limo Snr. Ma- 
noel Bento de Jezus, Fiscal da Camará. Joze Innoeencio Alves 
Alvim, Presidente da Camará. 

Documento n. 16 

Em seesão do dia 14 de Abril de 1847 

O Sr. Vereador Pinto apresentou o seguinte prejecto que 
foi approvado. Hum dos maiores benefícios que presentemente a 
Camará Municipal deve fazer aos seus Munícipes em observância 
ao Árt. 40 da Lei de sua creaçâo e § 1.° do art. 66 hé dar-lhes 
bua agoa limpa para beberem visto que a que existe se tem 
tornada imunda e prejudicial a saúde publica, pela forma em 
que está. Quando porem para fazer hum tão grande beneficio não 
he possível construir-se huma grande obra; procura-se faze-lo 
por meio de huma pequena, e por isso approveitando-me eu dos 
conhecimentos do Sr. Manoel Joze Corrêa, morador desta Vi lia 
e do dezejo que elle tem de cooperar para que seja encannada 
a agoa da Fonte, fui com elle examinar a localidade, e ao mesmo 
tempo orçar a despeza, e em rezultado observemos que com faci- 
lidade *e trazia a agoa por cima do muro, afim de fazer-se no 
fim delle huma caixa com quatro bicas, ficando hum registo fei- 
xado para deitar agoa para dentro da antiga caixa quando pre- 
cize ; observemos mais que a agoa podia vir encannada em tubos 



— 122 — 

ou telhões e coberto desde o lagar do morro onde era tomada 
té aquelle em que deve servir ao publico, entretanto só para este 
encannaniento a agoa preciza, devendo a excedente e a das em- 
xuradas continuar a correr pelo mesmo córrego no qual hirá 
despejar tnobem a das bicas da caixa do fim do muro ; observe- 
mos mais que o lugar para onde vem a agoa ate o principio do 
encannamento se pode beneficiar para não ficar exposto a prati- 
car-se nelle porcarias, isto por meio de pedras que se lhe devem 
deitar, e finalmente observemos que parte do muro se achava 
desmoronada e que precizava ser rectificada de novo, concluindo 
que para fazer esta obra erâo precizos 600$000 para cal, pedra, 
tijollo, mão de obra etc. Proponho pois que desde já se mande 
fazer esta obra, pela forma acima, e pela dita quantia, encarre- 
gando-se delia ao dito Sr. Manoel Joze Corrêa por contracto por 
escripto, devendo ella ficar concluída te Outubro de 1848. Lem- 
bra-me porem que com quanto os meus nobres Collegras achem 
esta minha propoziçãe muito justa, terão sua repugnância em 
concordar com ella pela razão de lhes parecer que nos faltarão 
os meios pecuniários, desde já sustento e sustentarei que esta 
Gamara os pode adquirir e pela seguinte forma, resolvendo que 
desde já se não dispenda quantia algum da quota pertencente a 
obras publicas em outra obra senão nesta te Outubro de 1848, e 
que no fim de cada hum trimestre aguella quantia que se tiver 
cobrado pertencente a dieta quota seja entregue ao encarregado 
da obra com as forma^dades do estilo, mesmo porque assim se 
torna necessário para que o contratante tenha com que fazer 
face a despeza que desde já deve principiar a fazer, devendo 
mais, logo que a obra esteja em andamento fazer promo ver huma 
subscripção geral por todos os habitantes do Municipio que estou 
certo todos se prestarão a subscrever conforme suas posses. Deve 
declarar mais que acceita esta minha proposição e desde já con- 
tratada, devemos infallivelmente, se a contrario não for ordenado 
pelo supremo Creador do Universo, ter a agoa encannada ate 
Outubro de 1848, por consequência agoa limpa para beber, ao 
contrario porem, se entramos em maiores planos de obra em 
arrematações ou outra qualquer couza teremos de concluir o 
nosso quatrienio já quazi a expirar sem consumarmos esta tão 
necessária obra, pois que ficará no esquecimento como té hoje 
tem ficado, quando proposto por algum dos meus nobres Collegas. 
Sou por tanto de parecer que sem prejudicarmos os interesses 
públicos podemos prescindir de arremattaçoes e de outras quaes- 
quer formalidades, porque estou certo de que se no principio 
formos sinsurados por hum tal proceder, as sinsuras por si mesmo 
se desvanecerão e nós caberá a gloria de ouvirmos dizer — A 



— 123 — 

Camará que sérvio no anno de 1847 he que mandou fazer esta 
obra, dando nos assim agoa limpa para beber em lugar de agoa 
suja . Justo pois para que façamos algum sacrifício e que levamos 
a effeito esta tão preciza quão necessária obra. Salla das sessões 
14 de Abril de 1847. O Sr. Vereador Pinto fiz a seguinte pre- 
pozição que foi approvada. Resolvendo a Gamara que desde já 
cessa a despe za das obras publicas na forma proposta salvo a- 
quella urgentíssimas determinadas pelo Sr. Presidente da Camará 
que não excedão a dez mil reis, que se convide a Manoel José 
Corrêa para assignar o contracto, qne seja entregue no fim do 
Trimestre ao contractante a quota para obras publicas que for 
arrecadada, e que seja a caixa d, agoa feita no fim do muro com 
frente para o mar conforme lembrou o Sr. Vereador Silva: Of- 
fereceo-se o Sr. Vereador Camargo para promovera subscripção 
e logo a Camará assignou quinze mil reis cada um de seos Mem- 
bros devendo a subscripção logo concluida ser entregue ao Se- 
cretario. Não bavendo nada mais a tractar o Sr. Presidente le- 
vantou a Sessão. Eu António Martins de Castro, Secretario que 
a escrivi e assigno . Souza Castro — Toledo — Camg° — Silva — 
Alvares da S* Pinto. 



Documento n. 17 

Em ses.«ao do dia 15 do Abril de 1847 

Comparecer» presente Manoel Joze Corrêa que bavia sido 
convidado e disse que se obrigava a reunir as agoas da fonte 
do Senhor Bom Jezus, e encannadas por cima do muro e no 
fim do muro fazer buma Caixa piramidal com quatro bicas de 
ferro e que este encannamento passaria pela frente da Caza do 
Senhor Bom Jezus se obriga fazer com tubos de barro, com hum 
registro feixado para deitar agoa dentro da antiga caixa inti- 
tulada Cazinha do Senhor Bom Jezus, quando precizo, tudo na 
forma pro pasta e resolvida pela Camará Municipal, isto tudo 
bem construída de pedra e cal, e pela quantia de seis centos e 
cincoenta mil reis (650$000) que lhe será paga a proporção que 
a Camará for recebendo dinheiro para essa obra, obrigando-se 
mais a concluir a obra no mais curto espaço possível não poden- 
do exceder de Outubro de 1848. E para firmeza do presente 
contracto dar aqui por expressas e declaradas as clausulas pelo 
direito exigidas e se obriga a prompto cumprimento por sua 
pessoa e bens, o que foi acceito pela Camará. 



— 124 — 
Documento N. 18 

Em sesstlo do dia 4 de Outubro da 1852 

Senhor Vereador Baptista Carneiro fez a seguinte indi- 
cação. Indico qne se officie ao Fiscal para que com brevidade 
mande limpar o vallo que passa pela rua de António Magalhães 
Mesquita e vae ao do Cemitério cujo vallo dá esgoto ao córrego 
da fonte e mais aguas estagnadas. Paço da Camará 4 de Ou* 
tubro de 1852. Baptista Carneiro. Posta a indicação em dis- 
cussão foi approvada, ordenando-Be ao Fiscal, que mande fazer 
a obra indicada, mandando igualmente rebaixar o registro feito 
no vallo que dá esgote para o largo do Ipiranga. 

Documento n. 19 

Aos doze dias do mez de Agosto de mil e sete centos e 
vinte em esta villa de nosa Senhora das Neves do Iguappe pe- 
rante mim t* m ao diante nomeado e asignado por M el Roz Frie— 
ria foi aprezentado hua negra Carijó do serviço da M* de Fa- 
rias que em sua mão ficou depozitada segunda a queixa q' eu 
ui de Heironida Silva por lhe dar huas poucas de pancadas 
cuias queixas e composiçião se fiz perante o Juiz Ordenario 
Manoel da Costa por termo assignado de hua p te e outra e na 
forma sobredita apresentou o dito M el Roz Frieria a dita negra 
sam rija e valente sem lezão nenhuma que eu t* m tomei fé do 
referido esta a dita negra bem sam sem lezão algua de que 
passei este termo q' assignou o dito M el Roz Frieria e com as 
testaraunhas q' a tudo forão presentes o C M el Roiz Bueno e 
João Lopes Mz eu António Roiz Madeira tam o esCrevy — Ma- 
noel Roiz Frieria — João Lopes Mz. 

Documento N. 20 

Trclado da Copia de hua Ley dei Rey nosso Senhor 
sobre a liberdade dos Gentios da terra 

Dom Philippe por Graça de Deos Rey de Portugal e dos 
Algavez da quem e dalém mar em AfriCa Senhor de Guine e 
da Conquista NavegaÇão e ComerCio da Ethiopia, Arábia, Per- 
Cia, e da índia &C. FaÇo Saber aos q esta minha Ley virem 
q sendo o Senhor Rey Dom Sebastiam meu primo q Deos tem, 
informado dos modos eliCitos Com q nas partes do Brazil se 
Captivão os Gentios delias e dos grandes inConvenientes q 



— 125 — 

disso resultào, mandou por hua Ley feita em Évora a vinte de 
MarÇo de mil e quinhentos e setenta q' se nfto pudessem Cap- 
tivar por maneira algua, Salvo aqnelles q fossem tomadas em 
guera justa q se fiseCe coro sua SilenÇa ou do Governador das 
ditas partes e os quaes SalvaCem os Portuguezes e outros Gen- 
tios para os Comerem, Com deClaraçào que as pessoas que pela 
dita maneira os CaptivaCem dentro em dois mezes primeiros se- 
guintes os fiseCe esCrever nos Livros das Provedorias das mes- 
mas partes, para Se poder Saber quais er&o os q LiCitamente 
fora Captivos, e nfto os fazendo assim perdeCem a acção de os 
terem por tais e elles fiCarem Livres, e todos os mais q por 
qualquer outro modo Se Captivassem, a qual Ley, El Rey meu 
Senhor q Sane ta Gloria haja, houve por bem de revogar por 
outra Ley q fiz em onze de Novembro de mil e quinhentos e 
noventa e sinCo pellas Cauzas nella deClaradas e mandou q 
em nenhum Caso fossem Captivos Salvo aquelles q se Captiva- 
Cem na guera por Suas provisoens particulares aSinadas por 
elle mandace q se lhe fizecem, havendo por Livres aos q por 
qualquer outra maneira fossem captivos, e sendo eu informado 
Com tudo era neCessario prover com deferente remédio man- 
ei por minha provizão passada em SinCo de Junho de mil e 
seis centos e cinco, q em nenhum caso Se pudessem os ditos 
índios Captivar. E por Ley feita em trinta de Junho de mil 
seis Centos e nove os declarey a todos por Livres Conforme o 
direito e seu nasCimento natural Com outras deClaraçòens ln- 
Cinza Conthuidas na dita Ley, e tornando hora mandar ver e 
Considerar os inConvinientes q se representarão Conforme a 
importância da Matéria, e querendo atalhar a elles e aos q 
adiante Se puderem seguir, e juntamente prover no q mais 
Convém ao Governo dos ditos Gentios, e sua converÇão a nossa 
Sancta fe Catholica e a ConuerÇâo do paz d'aquelle estado, com 
parecer do meu ConSelho mandei ultimamente fazer esta Ley 
pella qual pela dita maneira deClaro todos os Gentios das ditas 
partes do Brazil por Livres Conforme o direito e Seu nasCi- 
mento natural, asim os q forem baptizados e reduzidos a nossa 
Sancta fé CatholiCa, Como os q ainda viverem Como Gentios, 
Conforme os Seus ritos e Serimonios e q todos sejào tratados e 
havidos por pessoas Livres Como Sam, Sem poderem Ser Cons- 
trangidos a ServiÇo nem Cauza algua Contra sua Livre von- 
tade, e as pessoas q delles seservirem lhe pagarào Seu trabalho, 
asim, de maneira q s&o obrigados pagar a todos os mais pessoas 
Livres; porem SuCedendo Cazo q os ditos Gentios movào guera, 
rebelliam e alevantamento, para o Governador do dito Estado 
juncta Com o Bispo, sendo presente e Com o Chanceler e dez 



1 



— 126 — 

embargadores da relaÇam e todos os Prelados das ordens q 
forem prezentes no lugar donde se fizer a tal junta : e nella se 
aviriguarã se Convém e he neCCessario ao bem do Estado 
fazerCe guera ao dito Gentio, e se ella be justa; e do asento 
q se tomar se me dará Conta Com RelaÇam das Cauzas q para 
isso bâ e eu as mandar ver, e apro vendo % q so deve fazer a 
guera, se fará e Serem Captivos todos os Gentios q nella se 
Cap ti varem. E porque poderá SuCeder q na dilaÇão de espe- 
rar minha reposta e aprovaÇão sobre se fazer a guera haja pe- 
rigo, Hey por bem e mando q havendo-o na tardanÇa e sendo 
tomado asento pella dita maneira q se deve fazer a guera se 
faço e execute o q se asentar dando Como Conta do asento 
Como fiCa referido e os Gentios q se Captivarem se asentarão 
hu Livro q para isso se fará, por seus próprios nomes e lugares 
donde se he, Com declaraÇão de suas idades signaes e sirCums- 
tanCias, q houver em seus Captivero: e as pessoas q os Capti- 
varão e a q pertenCerem, os terão Como Captivos, sendo feito 
as ditas diligencias : porq não as fazendo o não serão e Com 
elles os não poderão vender athe eu ter Confirmado o asente q 
se tomar sobre se fazer a tal guera e Confirmando o eu, poderão 
fazer delles o q bem lhe estiver, Como seus Captivos q fiCarão 
sendo Livremente e não se Confirmando se Cumprira o q sobre 
isso mandar. E por que tenho entendido q os ditos Gentios 
tem guera huns Com os outros q Costumão matar e Comer todos 
or q nella Captivão, o q não fazem aChando quem lhos Compre, 
dezejando prover Com remédio ao bem delles e SalvaÇão de 
suas Almas, q se deve antepor a tudo, e Considerando Como he 
Certo q nenhuma pessoa quererá dar por elles Couza algua não 
lhe havendo de ficar sujeito; Hey por bem q sejão Captivos 
todos os Gentios q estando prezos e Captivos de outros para os 
Comerem, foram Comprados, justificando os Compradores delles, 
delias pessoas a Conforme esta Ley podem ir ao Certão com 
Ordem do Governador q os Comprarão estando Como fiCa dito 
prezos de outros Gentios para os Comerem Com deClaraÇão q 
não passando o preÇo porque os tais Gentios forem Comprados 
da quantia q o Governador Como adjustos declarar, serão Capti- 
vos sobmente por termo de dez annos q se contarão do dia de 
tal Compra e passados estes fiCarão Livres Com sua Liberdade 
e os q forão Comprados por mais fiCarão Captivos como dito he, 
E pello m mo q Convém a Conservação dos ditos Gentios e po- 
derem com Liberdade e segurança morar e ComerCiar Com os 
moradores das Capitanias, e para mais q Conver ao meu Servi- 
Ço e beneficio das fazendas ae todo aquelle Estado do Brazil e 
Sesarem os enganos e violências Com q m" erão trazidos do 



— 127 — 

Certuo, Hey por bem e mando q o G or do dito Estado Compa- 
reCer do ChanCeller da relaÇam delle e Provedor mor dos 
defuntos delia faÇào a eleiÇam das pessoas Seculares; Cazados, 
de boa vida e Costomes que lhe pareCerem mais Convenientes 
para serem Cappitaés das aldeãs dos ditos Gentios ; e qpodendose, 
sejão de boa geraÇão, e abastados de biens e q de nenhum modo 
sejào de nação; os quais Cappitais serem eleitos na quantidade 
de Aldeã q' se houverem de fazer, e por tempo de três annos 
e o mais q' eu houver por bem em quanto não mando o contra- 
rio e sendo eleitos, lhe darão horden para Com boas palabras 
e brandura, Como Com promessas sem lhe fazer forÇa, ou mo- 
léstia aigua em Caso q' não queira vir para o q' Levarão Con- 
sigo hú religioso da C. ia de Jesus e não o havendo ou não que- 
rendo hir Levarão outro de qualquer religiam ou Clérigo q* 
saiba a lingua, para asim os poderem melhor persuadir. E vin- 
dos os ditos Gentios o Governador os repartira em povoaÇoens 
de athe tresentos Cazaes pouco mais ou menos Limitando lhe 
Sitio Conveniente, e matas do Páo Brazil q' não possam preju- 
diCar a huas cotizas nem outra e asim lhes repartirá lugares 
para nelles lavrarem e Cultivarem, não sendo ja proveitados 
pellos Cappitaens dentro do tempo, Como faz obrigados por 
suas doasoens, as quais repartiÇoens fará o G or Com pareCer dos 
ditos Chanceller o Provedor mor e os ditos índios serão senho- 
res de suas fazendas nas povoaÇoens asim Como o são na serra 
sem lhes poderem ser tomadas, nem sobre elles se lhes fazer 
moléstia ou injustiÇa algua, nem poderem ser mudados Contra 
suas vontades das Cap pi Unias e lugares que lhe forem ordena- 
dos, salvo q d0 elles Livrem te o quizerem fazer. Em Cada uma 
das ditas Aldeãs haverá hua Igreja e nella hua Cura ou Vig.° 
que seja Clérigo Portugueze q T saiba a lingua, e em falta del- 
les seroo religiosos da Comp. 1 *, e em sua falta das outras reli- 
gioens, os quais Curas ou Vig. 08 serão aprezentados por mim 
ou pello Gov. or do dito Estado do Brazil em meu nome e com- 
firmado pello Bispo: e pello dito Bispo poderão ser providos, 
quando das visitaÇoens resultarem Contra elles Culpas porq' 
o mereÇão: e posto q' os tais Vigr. 08 ou Curas sejão regulares 
fiCarão subordinados ao ordinário no q' toCa ao seu ofnVio de 
Curas Conforme ao Sagrado Consilio Tridentino e a Sim se de- 
Clararà nas Cartas q' se lhes passarem. Nas Aldeãs q' se fize- 
rem do dito Gentios viverão juntam te os ditos Cappitaens, ou 
Vigários para es Confessarem e saCramen tarem, e enSinarem, 
e doutrinarem as Couzas da sua SalvaÇam. Asim viverão nel- 
las os Cappitaens Cada hua na sua Com sua molhei* e família 
para os Governarem em sua vivenda Contia e ComerCio* Com 



— 128 - 

os moradores d'aquellas partes; asistindo m to particularmente a 
seu governo e tratarem de tudo o q' Com vem, asim p* Culti- 
varem a terra Como para aprenderem as artes meCaniCas, e 
quando forem neCessarios p* meu serviÇo os apresentarem ao 
G or ou Cappitam Gn.* 1 a que toCar; e havendo pessoas q 1 v&o 
busCar gente para seu serviÇo lhe darão peilos preÇos e Con- 
forme a taxa geral que se fizer para todo o Estado, o qual fará o 
G or Com o ChanCeller da relaÇam delle, e lhe fará fazer bons os 
pagam 108 aos quais serão prezentes e não Consintirào q' sejào mal- 
tratados; e quando os ditos Cappitaens se servirem delles, lhe 
pagarão também o seu trabalho, Como as mais pessoas hão de 
fazer. E nem os ditos Cappitaens nem os mais a Cujas Cappi- 
tanias os ditos Gentios forem e onde estiverem terão sobre elles 
mais vaselagem, poder e jurisdiÇão do q* por seus regim t08 e 
doaÇoens tem sobre os mais pessoas Livres q' nellas vivem lbe 
poderão mandar lanÇar tributos Reaes, nem pessoaes; e lan- 
Çando lhes alguns o G or lhos tirará e lhe fará logo tornar tudo 
o q' injustam te tiverem pago, fazendo-o exeCutar asim sem ap- 
pellaÇam nem aggravo. Os ditos Cappitaens Cada hua em sua 
Aldeã será juiz das couzas dos ditos Gentios, asim das q' mo- 
verem huns Contra outros, Como das q' moverem Contra outras 
quaisquer pessoas, e as tais pessoas Contra elles, e tratará sem- 
pre de os Compor, e terá AlÇada nos Cazos Civez ate quantia 
de des testoens e nas Crimes ate trinta dias de prizão em q' 
poderá Condenar, e absolver; e no q' exCeder dará aprezenta- 
Çào para o ouvidor da Cappitania em Cujo distrito estiver a 
Aldeã. E o dito ouvidor não Cabendo a Cauza em sua AlÇa- 
da dará apresentaÇão para o provedor mor dor defuntos da re- 
laÇam d'aquelle estado, o qual hey por bem q 1 seja juiz de to- 
das as appellaÇoens q' se tirarem das Cauzas dos ditos Gentios 
dos Cazos q' não couberem na AlÇada dos ditos Cappitaens e 
ouvidores e os despaChara em relaÇam Com adjuntos Como se 
despacharão os mais feitios . O dito G° r Com pareCer dos ditos 
Ohanceller e Provedor mor dos defuntos fará regim* em q 1 se 
deClararâ o modo e ordem q' os ditos Cappitaens, Curas ou 
Vigr 08 hão de guardar em seu governo temporal e os hão de 
haver de ordenado q' tudo ha de ser pago a Custa dos Gentios, 
e não da minha fazenda, o qual regim to será tanto q' esta Che- 
gar aquellas partes e se me enviará Logo para eu o mandar 
vir e Comfirraar, se me pareCer e entretanto não fará determi- 
naÇão q' sobre isso se tomar se uzarâ delle. E por quanto 
sou informado q' em tempo de alguns Governadores passados 
d'aquelle estado se Castigavam m tos Gentios Contra a forma 
das LeyB de El Rey meu Senhor e Pay do Senhor Rey Dom 



— 129 — 

Sebastião meu primo que Deos tem e principalm* 6 de Jagoari— 
pe, hey por bem e mando q' asim os aitos Gentios Como outros 
quaisquer q' atbe a publiCaÇão desta Ley forem Captivoe se- 
j&o todos os livres e postos em sua liberdade e se tiverem de 
poder de quaisquer pessoas em Cujos poder estiverem sem re- 
pliCa nem dilaÇào, nem serem ouvidos Com embargos nem an- 
Çào alguas de qualquer Cal i dado, ou matéria q f sejão e sem 
se lhes admitir appellaÇão, nem aggravo, posto q' aleguem es- 
tarem delles de posse o q' os Comprarão e q 1 por sentenÇas lhe 
forào julgados por Captivos porq* por este deClaro as ditas 
vendaB e sentenÇas por nullas, fiCando resguardada a sua jus» 
tiÇa aos Compradores Contra os q' lhos venderão e dos ditos 
Gentios se farão também as Aldeãs q' forem neCessarias, easim 
nellas, Como nas mais q' ja hoje houver e estão domestiCas se 
terá a mesma ordem e governo, q' por esta se ordena haja nas 
mais q' de novo se fizerem. Hey por bem q' todas as pessoas 
de qualquer Calidade e CondiÇão q' sejão q 1 Contra a forma 
desta Ley trouxerem Gentios da Serra ou se servirem delles 
Como Captivos ou os venderem em Correm nas penas q' por di- 
reito Commum e minhas ordenaÇoes emCorrem os q' Captivão 
e vendem pessoas Livres: E para Se saber se asim o Cumprem 
e Como os ditos Cappitaens o fazem na obrigaÇão de seus Car- 
gos Mandará o dito G or todos os annos tirar devassa por hum 
Dez 01, ou pellos ouvidores das Cappitanias q' lhe pareCer, asim 
dos Cappitaens, Como dos mais pessoas q 1 forem Contra o q' 
por esta mando, e as devassas depois de tiradas serão Levadas 
a relaÇam na qual se proCederâ Contra os Culpados, breve, e 
sumariara 10 , sem mais ordens sequer de Juizo, q 1 a q' for ne- 
Cessaria para se saber a verdade, e os feitos se despaCharão 
nella Como pareCer justiÇa. E por esta revoga todas as ditas 
Leys e Provizoens atraz deClaradas e todas e quaisquer Ley a, 
Provizoens e Regim* 09 q' athe agora são feitas e passadas por 
mim e pellos Reys meus anteCessores sobre a liberdade dos di- 
tos Gentios do estado do Brazil, e seu governo, e esta som M 
quero q' tenha forÇa e vigor e se Cumpra e guarda inviola- 
velm te , sem se lhe poder dar deClaraÇão nem interpretaÇào al- 

fuas por asim ser minha tenÇão e vontade e mando o G* r do 
ito estado do Brazil e aos das Cappitanias de Sam ViCente, 
Espirito Sancto, e Rio de Janeyro q 1 ora faz e ao diante fo- 
rem, e ao Regedor da Casa da supliCaÇão e G" da Caza do 
Porto, e ao todos os Dezembargadores das ditas relaÇoens e da 
do dito estado do Brazil e Capitães delia, e as todas as mais 
minhas jus ti Ç as, offiCiaes e pessoas a q' pertenCer, Cumpram 
e faÇam dar a sua devida exeCuÇão, Como nelle se Comtem, a 



— 130 — 

qual se registrará no meu Coinselho da índia e terras ultrama- 
rinas, e nas ditas relaÇoens nos livros onde semelhantes Leys 
se Costumào Registar, e asim se Registará nos livros das Pro- 
vedorias e Camará das Cappitanias do dito estado do Brazil. 
E ao GhanCeller mor dos meus reinos mando outro sim a faÇa 
publiCar na OhanCellaria e emprimir para se emviar ao dito 
estado e la se publiCar e Cumprir, e por elle Be faÇa o dito 
Registo, a qual se emviarâ, outro sy, ao Certao e terras adonde 
os ditos Gentios morarem p* hir a notiCia de todos e se Cum- 

5 rirá esta, outro sy, sem embargo da ordenaÇào do segun- 
o livro titulo quarenta e quatro q 1 diz se não entenda ser 
derogada ordenaÇào alguas, se delia se nào fizer expreÇa 
menÇào Simão Luiz a fiz em L" a dez de Setembro anno 
do nasci m to do nosso Senhor Jusu Christo de mil seis cen- 
tos e onze. Eu o SeCretano António Villej de Cima a fiz es- 
Crever — El Rey — Damião de Ag* r , Foy publicada na ChanCel- 
laria a Ley de Sua Mag de atraz desCripta por mim GP ar Maldo- 
nado EsCrivão delia prez te os officiaes da dita ChanCellaria e 
outras mt.* gente q vinha requerer seu despaCho em Lix.* a 
trez de outubro de mil seis sentos e onze annos. G.p* 1 " Maldo- 
nado — GonÇallo RevasCo CalvalCanty e Albuquerque 

Documento n.° 21 

Certidão do q o dezembargador Sindicante E corre- 
gedor da Comarqua o doutor João da Itocha pita 
deixou por correição na vi lia de são paulo sobre 
a criasào de malmalucos. 

Certo fiquo eu Ant° madr* saluadores tabeliam E escriuão 
da Vi 11 a de Silo Visente e seus termos e nela escriuão da Ca- 
mará em como he Verdade que o dezembargador sindicante e 
Correguedor da comarqua o doutor joão da Rocha pita deixou 
na Camera da Villa de São paulo entre os capi tolos de Corei- 
ção hú que dis o seguinte: ordenou mais q os malmaluquos fi- 
lhos de braquos ou de outra qualquer mistura senão chamase a 
libardade pello foro de seus pais por quanto conforme a Regra 
Cumuua de direito sigue a libardade ou catiueiro a uia mater- 
na e que querendo seu pai libartalo seguisem a Regra cumuna 
de dir ° pagando comforme aos estados da pesoa que libertarem 
ou na uentra da mai pagando coatro mil Reis e segurando a 
uida dela ou despois de sete annos pagando a criação a seis tos- 
to is por mez e na maior idade a como Valerem e que nesta 



— Í31 - 

matéria nada na lei algúa a forma de Comueira do guentio se 
nào Resolui ja 6om te comforme a poste em que estauào os mor CB 
desta uilla o que conuinha a sua comseruaçào o qual treslado 
do capitolo de correição eu matias machado tab* m do publico 
judisial e notas nesta Villa de São paulo trasladei bem e íielm to 
do próprio libro dos assentos da Camera adonde achei e uai na 
uerdade sê couza que duuida fasa e o corri e com sertei e asi- 
nei com o juiz ordinário joào pães Roiz Comigo no comserto 
abaixo asinado aos Vinte e seis dias do mez de fevereiro de seis- 
sentos c oy tenta annos, mathia machado. E comigo juiz ordi- 
nário joào pães Roiz. e por asim ser uerdade pasei o prezente 
por me for pedida a presente treslado do próprio Capitolo em 
os dez dias do mez de dezembro de seisentos e oitenta annos — 
An? madeira Saluadores. 



Documento n.° 22 

António Luiz de Távora, Conde de Sarzedas, do Conselho 
de Sua Mag* que Dcos 6 de , Alcayde mor da cidade da Guar- 
da, da villa de leya e da de Ferreira, Comendador das Comen- 
das de Sancta Maria de Ferreyra, de Santiago, de Almalaques, 
da de Sam Jofio Brito, de Sam Pedro Fines, de Sancta olalia, 
de San talha e de Sancta Maria de Sarzedas, do ordem de (.'br is- 
to e Senhor da mesma villa e de Sobreira Fermoza, Gov or Cap- 
pitam G al da Cappitania de Sam Paulo e Minas de Ouro aa 
sua repartiÇam etc. 

Por me constar que Aldeãs dos índios desta Cappitania se 
acham exauradas delles, por haverem alguns moradores delia le- 
vado os índios e índias para fora. nam so alugados, e induzi- 
dos, mas ainda com despachos, Como também, q os índios e 
Bastardos criados fora das ditas Aldeãs nas Cazas dos moradores 
desta Cappitania q pondose em Litigio, forao mandados pela 
Justiça para as referidas Aldeãs, e se acham fora dsllas, em 
cazas de outros moradores, q poderão ser os mesmos, que cos- 
tumao a induzillos, e Concorrer Com o necessário para os seus 
pleitos, tirando os das cazas donde se Criaram nam so para de- 
pois se servirem delles, mais ainda para oíFenças de Deos, e ser 
conveniente, nào so ao serviço de Sua Mag de e Conservarem se 
todos os índios nas Aldeãs para estarem promptos, para as oc- 
casiones q se onerecerem do Real Serviço, mas ainda das ín- 
dias não andarem espalhadas, e fora das Aldeãs, e se dever Cas- 
tigar, nào so aos que os dezencaminh&o mas a todos os q cons- 
tar os Levarão, Conservao, e nào tornarão a restituir. Ordeno e 



— 132 — 

Mando a todos os moradores desta Cappitania, assim de povoa*» 
do Como de minas» q tiverem índios e índias, assim antigos,, 
como modernos, das Aldeãs desta Cappitania, os tornem a Con- 
duzir a ellas no termo de hum mez depois da publicaçam deste 
bando; os que estiverem em povoados, e os q estiverem nas Mi- 
nas dos Guayas se lhe asinão trez mezes e os do Cuyaba fica- 
rão esperados athe a primeira monção q vier para povoado, os 
quais se me apresentarão, ou a quem estiver em meu Lugar» 
para os mandar por nas Aldeãs a a pertencer, e se lhes dar re- 
cibo, e todos os que tiverem os oitos índios, ou Índias, assim 
dos antigos, Como dos q forão mandados por ordem da Justiça 
para as ditas Aldeãs, e os não entregarem no termo, q lhe fica 
Cominado, pagarão por cada hum ou mais que tiverem induzi- 
dos, ou estiverem em seu poder, Cem Mil reis para o hospital, e 
das despezas dos Soldados q estão de destacamento nesta cidade; 
e havendo denunciante secreto, ou publico, lhe pagará mais cada 
denunciado, Sincoenta mil reis, e terã a prizão na fortaleza da 
barra de Santos a meu arbítrio: e outro sim; incorrerão na mes- 
ma pena, todos os q tiverem índios Paracis, não os pondo no 
referido tempo, nas Aldeãs, q lhe asinar, na forma da Resolu- 
ção de Sua Mag* 6 de sete de março do anno passado, e nas 
mais q se declararão na ley de dez de Setembro de mil e íeis 
Centos e onze, e do bando, q mandei lançar nesta Cappitania, 
Minas de Guayaz e Cuyaba em vinte de Setembro do anno pas- 
sado, e so ficará izentos os q derem fiador, e que fizerem termo 
de entregar os ditos Paracis quando lhe for mandado, e forem 
fazer guerra ao Gentio Paraguay, e para huns e outros ficarem 
incursos nas pennas q ficão declaradas, bastara Certidão de q 
se publicou este bando nesta Cappitania, e q depois conservou 
os ditos índios em seu poder; e para q não possão allegar in- 
norancia se publicará este bando a Som de Caixas, assim nesta 
cidade, como em todas as villas, e Minas desta Cappitania e 
registrará nos Livros das Camarás, ouvidoria, e das superinten- 
dências, donde virão Certidoens a esta secretaria, q serão obri- 
gados a mandallas os Juizes e superintendentes, e a remetterem 
este bando de huas as outras villas para ter a sua devida exe- 
cução. Dado na Cidade de Sam Paulo aos Catorze dias de Mar- 
ço, Fran 00 Dias de Mello o fez anno de mil e setecentos e trin- 
ta e trez. O secretario Geruazio Ley te Rebello o fiz esCrever— 
O. P. Conde de Sarzedas. 



— 133 — 
Documento n.° 23 



Registo de hum efficie do Juiz de Paz de Destr to de 
Juquia remettendo incluso por copia um off° que 
havia recebido do Capp m Command** da Escolta 
e deligencia naquelle Destr°. 

Induzo remetto a W SS a Copia do Officio do Cap m Com- 
mandante da deligencia que se dirigio a este Destricto por or- 
dem do Iir° Snr Ten te Coronel do Batalhão e para que VV SS 
*vejão o aperto em que se acha este Destricto respeito aos ditos 
Indígenas. Deos Guarde a VV SS. Freguezia de Juquia 23 de 
Fevereiro de 1835. I1P°' Snrs da Camará Municipal da Villa 
de Iguape — Fernando José Gomes — Juiz de Paz da Freguesia 
de Juquia. Copia do Officio do Commd* da Escolta. Cumpre 
me participar a VS os passos que dei nos dias 21 e 22 do cor- 
rente na deligencia a que fui encarregado de procurar todos os 
meios de hir Cathequizar os Indígenas vagante por estes matos. 
No dia 21 sahi da Barra e dirigi me ao Rio Tariri com 38 ho- 
mens, Guardas Nacionaes; neste mesmo dia reparti a gente e 
chegando no Bi beirão do Posso grande, paragem justamente on- 
de os Bugres derfto no dia 6 em trez homens que forão a Cas- 
sa, tendo explorados todos aquelles matos com toda Cautella, e 
azando vestijoB do lugar donde os ditos Bugres atacarão aos 
mesmos, fiz seguir húa Escolta de dezeseis homens commanda- 
da por Libolio Joze para o centro do Ribeirão a explorar mato 
dentro todas as cabeceiras de Ribeiroens e Corrigos a ver se 
encontrava vestijo fresco ; eu segui em Canoas rio aríma com 
vinte e dois homens para o Rio Guanhanhanga, porem neste 
dia a tarde sobreveio hum temporar que nos privou de fazer 
boa viagem. No dia 22 a húa hora depois de meia noite 
fiz embarcar toda gente nas Canoas por causa da grande 
enxorrada de agoa que veio, que nos allagou o Rancho; 
seguimos Rio acima e fomos esperar o dia perto da pri- 
meira Caxoeira, ahi vendo que ainda chovia bastante e que 
não podia romper a veluzidade e perigo das Caxoeiras, fiz para 
a gente, mandei fazer hum grande Rancho e acomodar a gente : 
passada algumas horas clareou o dia e abriu o Sol mostrando 
lazer bom dia; levantar a gente embarcar nas Canoas, seguir 
rio acima; passamos as Caxoeiras, e tendo chegado e passado a 
barra do Rio de peixe, logo acima de hum estirão ao vortear 
bua volta avistamos a trez Bugres pequenos que estavão pes- 
cando Bobre o Barranco do Rio ao lado esquerdo, e logo os Ca- 



— 134 — 

maradas enfurecidob portarão as Canoas e sahirão atraz de hum 
Bugre mais pequeno aver se o pegavão, porem sobrevindo logo 
bua grande treyoada vortarão para a Canoa porem acbando fal- 
ta em mim, que tãobem tinbo sabido atraz dos Camaradas com 
quatro homens, seguirão em minba procura; e logo encontrarão- 
se com os Bugres os quaes estando de imboscadas morro acima 
immediatamente desfecharão suas flexas, ferindo a trez homens 
que vem a ser Pedro Joze Paz, Ignacio Monteiro, e António 
Joze Dama, dois dos quaes, a saber Pedro e Ignacio se achão 
bem mortaes; porem, os mais Camaradas conservando- se com 
muito valor e intbuziasmo fizerao retroceder os ditos Bugres 
que corojozamente avançarão para a Canoa dando-lhe os mes- 
mos valerozos Soldados muitos tiros de mosquetaria embaladas 
julgando eu por isso que alguns dos Bugres perigarão; bem que 
eu procurasse meios de poder ver se affagava-os não foi possí- 
vel por causa do grande tem porá r que Caio. Fiz embarcar toda 
gente debaixo de toda chuva truse os doentes para baixo e aqui 
se acba em casa de Alferes Bento Pupo se curando; e boje 
pertende seguir para Cima em Socorro da Escolta que foi para 
o mato; portanto julgo ser necessário que YS venha immedia- 
tamente fazer Corpo de delicto nos homens feridos; outro sim 
julgo ser necessário que VS com a possivel brevidade faça ex- 
pedir hum próprio com hum Officio seu a Freguezia de Xiri ri- 
ca deprecando o Juiz de Paz d'aquel!a Freguezia para que haja 
de mandar a dois bomens que existem nella de nomes Lourenço 
e Paulino, que me consta são homens intelligentes para lidarem 
com Bugres e intendem sua linguagem; por quanto eu não per- 
tendo desamparar este ponto em quanto não ultimar a Commis- 
são a que vem incumbido; bem com depreco a VS baja de dar 
providencias para quanto antes vir mantimentos para a gente 
afim de não faltar. Deos guarde a VS. Barra de Tariri. 23 de 
Fevereiro de 1835. Ill mo Snr Juiz de Paz do Destrito. Fernan- 
do Joze Cromes, Agostinho Lourenço da Silva Dória, Cap m Com- 
mandante da deligencia. 

Documento n.° 24 

Cumpra-me participar a VS*" os passos que deo em deli- 
gencia de Cathequizar os Indígenas vagantes nos mattos deste 
Destricto o Cap m da Escolta Agostinho Lourenço da Silva Dó- 
ria no dia 21 de Fevereiro saio da Barra do I tariri com 38 ho- 
mens Guardas Nacionaes, neste mesmo dia chegando no Ribei- 
rão do Posso grande paragem justamente onde os Bugres derão 



— 135 — 

no dia 6 em trez homens que forâo a cassa e tendo explorados 
todos aquelles matos com toda cantei la e achando vestijo donde 
os ditos Bugres atacarão os mesmos Fiz seguir uma escolta de 
dezeseis homens commandados por Libolio Joze para o centro 
do Ribeirão a explorar todas aquellas vertentes a ver se encon- 
trava vestijo fresco dos ditos Indígenas, e elle dito Cap m seguio 
em canoa Rio acima com 22 homens e no dia 22 tendo chegado 
na Barra do Rio do peixe logo acima de hum estirão ao vol- 
tear huma volta avistarão a trez Bugres pequenos que esta vão 
pescando sobre o Barranco do Rio e logo os Camarados em for e- 
cidos portarão as canoas e sahindo atraz de hum do* Bugres 
mais pequenos a ver se o pilhavào, porem sobrevindo logo huma 
grande trevoada de agoa voltarão para a Canoa, porem achando 
falta no Cap m que tãobem havia sahido a traz delles com qua- 
tro homens tornarão se a resolver sahirem novamente em pro- 
cura de seo Cap m e logo encontrarão- se com os Bugres os quaes 
estavão de emboscadas morro acima quazi a chegar sobre o Bar- 
ranco do Rio e logo que avistarão os Soldados desfrechavão suas 
frechas nos Soldados ferindo a trez que vem a ser Fedro Joze 
Paz, Ignacio Monteiro ja he fallecido da mesma frechada, An- 
tónio Joze Dama, porem os mais soldados conservando-se com 
muito valor nzerão retroceder os ditos Bugres corojozamente 
avançarão contra os soldados dando-lhes os mesmos Soldados 
muitos tiros e porisso julgasse que alguns dos Bugres perigarão 
e quando o Cap m ovio os tiros e que voltou para a que lia parte 
chegando ao Iogar ja nada pode ser bom por estar tudo acaba- 
do; fez embarcar os doentes debaixo de todo temporar de chuva 
e trouse para a Barra do Itariri, donde «e achão curando me- 
nos Ignacio Monteiro que ja se acha enterrado nesta Capella, 
mais ultimamente tornando ó Cap m da deligencia a entrar nos 
mattos do Rio Itariri adjunto com huma Escolta de 20 homens 
a desinganar dos ditos Indígenas para poder dar huma ixacta 
conta do que se achava encarregado, no dia 1.° de Março des- 
cubrirão ao Ranchomento dos mesmos Indígenas nos matos, pou- 
co acima do ataque que elle 8 derão em os soldados, porem não 
encontrarão mais vestijos que mostrassem que elles estivessem 
naquellcs matos sinão do dia 22 de peleja, antes pelos sinaes 
que havião davão a intender que elles tinhão se auzentado para 
lonji dali, porque encontrarão Rancho despresiveis panella pi- 
chorra e gamellas quebradas alem deste o Ranchamento encon- 
trarão outro em mato dentro o que tudo visto e examinado vie- 
rão no conhecimento que os mesmos Indígenas se tinhão reti- 
rado, com tudo para pleno conhecimento da cauza seguirão os 
ditos Indígenas que hião derrota batida em fhga os accompa- 



— 136 - 

nharão te huma Serra grande que ja as suas vertentes segui&o 
para Rio São Lourenço porem vestijos todos de 6 a 7 dias e a 
Escolta que se guio Rio acima nada encontrou de vestijos fresco 
mas sim antigos, deserào para a Barra de Itariri aonde se foi 
encontrar com outra Escolta que tinha mandado para o rio São 
Lourenço aver se tãobem encontrarão alguns vestijos dos ditos 
Indígenas e que n&o encontrarão couza alguma, ora o dito Cap m 
não contente por ainda pensar que os ditos Indígenas vortarião 
ou estnriào alojado por detraz de algumas Serras que constem 
naquelle Rio e achando-se ao mesmo tempo muito doente e com 
grande vontade de Cathequizar os Indígenas, e como não poder 
fazer por se ver preterido, determinou seguir huma Escolta com- 
posta de hum Omcial inferior e 12 Soldados a explorar por trez 
vezes os passos dos Selvagens e seguindo esta Escolta no dia 3 
do corrente para o Rio Itariri aganhar novamentes os Rastos 
dos Indígenas que segundo parecia na segunda exploração hião 
derota batida, no dia 4 de Março tomarão o Sertão e marchou 
a Escolta em hum dia mais que os Selvagens em 11 dias o que 
se verificou pelos Pouzos dos ditos Indígenas no dia 5 do pre- 
sente mez de Março encontrarão vestijos frescos dos Selvagens 
e seguirão com toda a cautella te que forão parar de onde se 
acha vão pousados os ditos Selvagens que ião de fuga percebem 
ate o aliando dos mesmos e apromptando-Be a Escolta para da- 
rem nelles ao romper do dia seguinte por suspeitar que aquellas 
horas andarião desperços. Seria meio noite mais ou menos des- 
carregou hum grande temporal deixou a Escolta emtanguido 
quazi a morrer mulhando-se todos armamento e pólvora e sus- 
tento que nada se aproveitou havendo se a Escolta em perigo 
de vida por se verem emtanguido e destituído de armamento 
fizerão-se de volta para traz, por verem que nada arrumarão 
segundo a consternação em que se vião e chegando a onde tinhão 
deixado as Canoas não toparão porque sobrevindo huma grande en- 
xurada motivado do grande temporal carregou as ditas e ficou 
a Escolta ilhado e vendo-se nos urtimos riscos das suas vidas, 

Sorque o temporar ainda continuava a descarregar, fizeram canoa 
e Jaracatia e jangadas de Páos, botando-se para o Rio abaixo 
como quem hia morrer, então toparão com as conoas na facia de 
hum morro que tão grande foi a enchurrada, e logo que apan- 
harão as suas canoas tirarão da donde estavão engatadas, embar- 
cando-se nellas vierão ter com seu Cap m a vista do que me par- 
ticipou o mesmo Cap m , e eu mandei que recolhesse visto ter 
cumprido com seos deveres a Commissão a que veio emcombido, 
fazendo da sua parte os melhores exforçcs que 'podia a fim de 
achar este Destricto em Paz e sem temor d aquelles Selvagens 



- )37-- 

como bom cidadão amigo da boa ordem e obediente as Leis ar- 
rastando im mansos perigos. Deos guarde a VV SS. Fregiíezia 
de Juquia 13 de Março de 1835. Ulmo Snr. Presidente da Camará 
Municipal e mais membros delia. Fernando Joze Gomes, Juiz 
de Paz. 

Documento n. 25 

Registro de hum officio que o Prez da Camará diri* 
pio ao Juiz de Paz supplente desta vi lia. 

Ulmo Snr. Recebi o orneio de VS datado de hoje em o qual 
me communica haverem novamente apparecidos os Selvagens nas 
mattas do Destr° de Juquia, como lhe participou o Juiz de Paz 
d'aquelle mesmo Destricto e fazendo me ver a necessidade de 
ser elle fornecido conforme lhe requisita, com oito a doze lbs 
de pólvora e xumbo afim de fazer Cathequizar os d to> Selvagens. 
Sou a dizer a VS que já se achao dadas as necessárias provi- 
dencias para o Procurador entregar doze lbs de pólvora e xumbo 
a pessoa que haja de conduzir ao referido Juiz de Paz. Deos 
Guarde a VS. Iguape 23 de Julho de 1835. Ulmo Snr. José 
Bonifácio de Andrade. Juiz de Paz Supplente desta Villa. Ma- 
noel Duarte de Castro. 

Documento n. 26 

Registo de hum officio que a Camará dirigio ao Exmo 
Vice Presidente desta Província, participando 
haverem sidos reduzidos á estado de amizade os 
Selvagens vagantes nas matas do Dest° Juquia. 

Ulmo Exmo Snr. A Camará Municipal da Villa de Iguape 
participa a V Ex* haver o Juiz de Paz do Dest° de Juquia feito 
reduzir a ebtado de amizade os Indígenas vagantes nas matas 
d'aquelle Destricto por meio do Selvagem mandado vir de Ta- 
petininga, e de dois práticos vindos de Xiririca como lhe parti- 
cipou, o mesmo Juiz de Paz por officio de 11 do eorrente mez 
sendo a seu n° de trinta e trez e hum resenacido os quaes ainda 
existem no dito Destricto e se espera que breve cheguem a esta 
Villa. Esta Camará confia de que V Ex* senãc poupará em pro- 
videnciar qual o destino que d aqui devem eiles ter, e igualmente 
que tendo ella concorrido como ainda está acontecendo com toda 
a necessária despeza, como V Ex* determinou por sua Portaria 
de 25 de Junho do corrente anno, cujas contas em tempo com- 



— 138 — 

pe tente lhe serfto transmittidas. e achando-se actualmente quasi 
sem* fundos para acudir esta e outras despezas indispensáveis, 
julgo de necessidade que pela Fazenda Publica lhe seja forneci- 
da algua quantia para esse fim. Deos Guarde u V Ex* Passo 
da Camará Municipal da V* de Iguape em Sessão extraordinária 
de 18 de Agosto de 1835. Tllmo e Exmo Snr Francisco António 
de Souza Queiroz. Vice Prezidente desta Província. Manoel Du- 
arte de Castro — Luiz Alvares da Silva — Bernardo António Neves 
— Joaquim de Souza Castro — Joze Bonifácio de Andrade. 

Documento n. 27 

Em sessão da Ca iria r a do dia 16 de Outubro de 18M5 

Foi lida outra Portaria do mesmo Exmo Vice Prezidente de 
doze de Setembro próximo passado, em resposta ao Officio que 
esta Camará lhe dirigio participando lhe terem sido reduzidos á 
estado de amizade os Indígenas vagantes nas matas do Districto 
de Juquia, sendo porisso necessário que elle providenciasse man- 
dando dar algua quantia para adjutorio das despezas cora os mes- 
mos; e dizendo o mesmo Vice Prezidente que já havia providen- 
ciado a que pela Fazenda Publica fosse fornecida a quantia de 
cento e cincoenta mil reis: devendo a Camará lhe remetter hua 
conca circumstanciada de todas as despezas que tiver feito, e fizer 
com este objecto : participando igualmente que havia ordenado 
ao Juiz de Orphaons desta Villa, para que houvesse de destri- 
buir os ditos Indígenas pelos habitantes deste Município ; devendo 
tãobem esta mesma Camará da t>ua parte tomar aquellas medidas 
mais adaptadas a fim de se podesse obter bom resultado, tendo 
logar esta medida emquanto a A;-semblea Legislativa Provincial 
nào der as providencias que julgar conveniente. Ficou a Camará 
inteirada. 

Documento n. 28 

Em sessão do dia 19 de Outubro de 1835 

Foi lido um requerimento de João António do Espirito 
Santo, Carcereiro desta Villa. representando acharem no Sallfto 
dos Quartéis seis Indígenas que forào dados pelo Juiz de Orphaons 
desta Villa a Joze Ribeiro Sátiro, o qual lhe haver dito, que nào 
queria mais saber delles, requerendo que a Camará desse provi- 
dencia a este respeito ; Ficou a Camará inteirada e resolveo que 
se officiasse ao dito Juiz de Orphaons, fazendo! he saber que ella 
da sua parte nào pretende fornecer aos ditos Indiginas municio 
algum, vi- to que ja forào dados. 



— 139 — 
Decu mento n. 29 

sessão da Camará «lo dia 12 de Outubro de 1841 

Foi lido um officio de Fernando Joze Gomes, Juiz de Paz 
do DÍ6tricto du Juquia datado de treze de Setembro ultimo, 
remettendo por copia a participação que havia recebido do Ins- 
pector de Quarteirão do Bairro Itariri pela qual annuncia haver 
apparecido naquelle rio vestígios da existência de Indígenas, pe- 
dindo o mesmo Juiz providencias a respeito. Entretanto a matéria 
em discussão deliberou a Camará que se lhe respondesse dizendo 
que por informações de pessoas desta sabe que havendo fugido 
os índios que se conservavào em poder do Padre Francisco Ma- 
noel Junqueira, e Baldoino Francisco da Costa, he de presumir 
sejào os mesmos que aparecerão naquelle Districto, e por isso 
não devem os moradores terem receio; devendo com tudo ter em 
vistas cazo sejão outros, deve participar a esta Camará. 

Documento n. 30 

Registro do olfieio com mu n içando ao L\mo. 1'rezi- 
dente da Província o a verem entrado nas matas 
de Juquia pessoas desconhecidas e ali aranclian- 
dose nos terrenos concedidos aos Indígenas. 

Ulmo. e Exmo. Senhor. A Camará Municipal da cidade de 
Iguape não pode deixar de respeitosamente pedir a V. Ex. oia pro- 
videncias sobre as cauzas que passa a narrar. Andando errante 
a annos no Rio de Juquia uma tribu de Indígenas, o Exmo. Pre- 
zidente da Província authorisou ao Juiz de Paz d'ali, e as Auto- 
ridades desta, para que empregasse todos os meios de tirar da vida 
errante essa tribu e para que o Juiz de Paz do Curato de Juquia 
visse terrenos, que não fossem nem muito distante da povoação 
que difficultase prestar-lhes soccorros quandos exigidos fossem, 
não tão pertos que os moradores soffresem prejuízos com a tribu. 
Á visto do que o Juiz de Paz escolheu um terreno no Rio do 
Peixe, Braço do Itariri depois de demarcado, ali collocoji o Al- 
deamento dessas Indígenas onde morão te hoje. Acontese que 
muitos homens de Município estranho, em numero de 70 mais 
ou menos estão se apossando dessas terras, esbulhando os Indí- 
genas, so pelo direito da força daquillo que o Governo concedeu. 
Os Indígenas estão na Classe dos Orphãos, e porisso merecem 
protição de todas as Autoridades do lugar. A Camará Munici- 
pal levando o occorrido ao conhecimento de V. Ex. cia tem por 
fim não só pedir protição para os Indígenas, como tãobem pedir 



- 140 — 

um meio de chamar esses homens ao comprimento de seus de- 
veres, prestando obediência as autoridades, visto q' elles a isso 
se furtao. Deus Guarde a V. Ev. 01 * Passo da Camará Municipal 
da cidade de Iguape, 15 de Janeiro de 1853; Ulmo. e Exmo. 
Prezidente da Província de Sao Paulo. Luiz Alvares da Silva. 
— Scipião Ferreira Goulart Junqueira. — Francisco Joze Borges 
Pizarro. — António Vaz Ferreira. — Joaquim Carneiro da Silva 
Braga. — Agostinho Xavier de Almeida e Cruz. 

Documento n.° 31 

Treslado da Carta de aforam. 10 das terras do Comselho 

q' afora Carlos Pinto do Reis 

Senhores of ftçiaies da Camará. — Diz Carlos Pinto do 
Reis morador em essa villa de Iguape que elle supp. 6 tem afo- 
rado desde abinicio as terras competentes a este Genado per 
nellas fazer suas Lavouras pagando o foro de Renda que se lhe 
tem ordenado neste Cenado Cuias terras torna a pedir a Vms e 
quer Comesar de hua Corrigo vindo a sua serca athe um tan- 
que que fica no çitio correndo rio acima do mar pequeno com 
sua coadra: pello que pede a Vms lhe faç&o m. a aforallas ou 
aRendallas na forma que pede vms ordenarão o q' forem ser- 
vidos. E Recebera m* Comsedemos ao supp. e duzentas brasas 
de terras do Comselho e pagara de fora húa pataca por cada 
sem brasas por cada hú anno na paragem q' pede e se lhe paçe 
Carta nas Costas desta e se Registara nos livros dos Registos 
desta Camará. Camará de Iguape vinte e nove de Dezembro de 
mil e sete centos e dezanove. — MJ Roiz Bueno — Reis — Pra — 
Pestana — Reis — Neves. 

Documento n.° 32 

Diz Francisco Barreto morador nesta villa de Iguape q' elle 
Supplicante não tem onde possa mais comodam. te fazer sua chá- 
cara e jntentace a fazer no Rocio desta villa para o que quer 
arendar ou aforar duzentas Brasas de terras do Comselho deste 
Rossio comesando de húa paragem e tanque de agoa adiante do 
sitio de Carlos Pinto do Reis the chegar ao marco das Palmei- 
ras do dito Rossio na quadra da viuva Catarina Rangel e sendo 
tenho mais das duzentas Brassas todas quer o supplicante a ficar 
a pagar o foro Racionavel que vms for taxado sendo primeiro 
medidas ditas terras portanto pede a vms seiao servidos passace 
despacho a forarem lne ditas duzentas Brassas de terras ou as 



— 141 — 

qne na medição se acharem segundo o referido em sua petição 
pasando se lhe carta de aforam. em forma e ficando elle supp.* 
outro sim empossado Judesialm.* das ditas terras. E recebera 
mercê. Comcedemos as duzentas brassas de terras do Comselho do 
Supplicante e pagara de foro húa, pataca por cada sem brassas 
por cada hú anno e se lhe paçe carta nas Gostas desta e esta 
registara nos livros dos Registos desta Camará Camará de Igua- 
pe uinte e nove de Dezembro de mil e sete centos e dezanove 
— Pr.* — Reis — Bueno— Neves — P estanha. 

Documento n.° 33 

Termo de Verança 

Aos dous dias do mez de Junho de mil e Sete centos e Se- 
tenta e trez annos nesta Villa de Iguape nas Cazas da Camará 
aonde foy vindo o Juiz ordinário Frezidente da Camará o Ca- 
pitam André de Souza de Faria e os mais vereadores abaixo 
asignados, os quaes todos juntos na dita Camará, para effeito 
de se abrir huma carta vindo do Snr. D° r ouvidor Geral desta 
Comarca, de que Comforme as ordens do dito Senhor Logo se 
passou mandado para se notificar as pessoas para comcerto do 
varadouro no tempo detriminado; e asim mandar&o os ditos 
Officiaes; que se registasse no livro do registo a dita Carta do 
ditto Senhor e asim mais se passou mandado para se por Bali- 
ça no piraque grande e vigie ao peixe Sobre os Redeyros; por 
requerimento de varias pessoas; e asim mais se despachou huma 

Ítetiçaom de António Rodrigues Cunha, por requerimento que 
az, sobre humas terras devolutas que se ach&o desde a Barra 
da Lagoa Ribeyra aSima, athe o fim a donde aSiste Nazario 
Domingues; e como emformados os ditos officiaes de nao ave- 
rem títulos das ditas terras do requerimento do suplicante, man- 
dar&o o Juiz ordinário e mais officiaes delle e juntamente o re- 
ãuerimento do Procurador, por ser em beneficio e rendimento 
o Concelho que pagasse o dito António Rodrigues Cunha Sen- 
to e Secenta reis de foro das ditas terras por anno; e aSim 
prometeu o dito Suplicante de pagar e nem por duvida, de que 
asignou este, como fareyro de hoje para sempre com os ditos 
Officiaes abaixo asignados, e para constar mandar&o fazer este 
termo em que todos asignar&o e Eu Joseph dos Santos Lisboa 
escrívaom da Camará que o escrevy— Faria— Antunes~Pais~- Per*' 
—Barcellos—Antonio Raiz Cunha. 



— 142 — 
Documento n. 34 

Termo de Vereança 

Aos trinta e bum dias do mez de Mayo de mil e Sete cen- 
tos e oitenta e oito annos nesta villa de Iguape em Cazas da 
Camera e passos do Concelho onde foi vindo o Juiz ordinário 
e Prezidente da Camera e mais offieiaes delia abaixo asignados 
para effeito de Se fazer Vereança, e cuidar no bem Cômú do 
Povo. E sendo ahy aparesseu prezeute António dos Passos, 
Maria Gertrudes como Erdeira e famílias da defunta Joanna de 
Deos Pereira, António de Araújo Vianna, Diogo Garcia da Sil- 
va, Rita Pereira Mendes e Clara da Cruz, Viuva do defunto 
Ignacio da Costa Cardozo, e por elles todos foi requerido que 
como nas Terras do Rocio, tinha suficiência para comodar a 
elles todos, Se queriào Subgeitar a pagar trezentos e vinte reis 
por cada cincoenta braças de Terras, o que sendo visto e ouvi- 
do pelos ditos Juiz ordinário e Prezidente da Camera e mais Ve- 
readores o requerimento dos ditos nomeados, forào pessoalmente 
medir as ditas Terras e delias se aforarão a António de Araújo 
Vianna cem braças das quaes haver pagar o foro de Seiscentos 
e quarenta reis, vindo asim a ser trezentos e vinte reis a cada 
cincoenta braças, Aforarão mais a Maria Gertrudes cincoenta 
braças das quaes haver pagar de foro trezento e vinte reis, E 
asim mais aforarão outras cincoenta braças a Clara Francisca da 
Cruz viuva do defunto Ignacio da Costa Cardozo das quaes 
hade pagar de foros trezentos e vinte reis. Mais a António 
dos Passos outras cincoenta braças de que deve pagar trezentos 
e vinte reis, a Diogo Garcia ds Silva outras cincoenta braças, 
também de foro trezentos e vinte reis que hade de pagar, Tam- 
bém a Rita Pereira Mendes outras cincoenta braças aforadas por 
trezentos e vinte reis, e ficarão aforadas a Joze dos Santos Lisboa 
duzentos e doze braças de Terras das quaes hade de pagar mil du- 
zentos e oitenta reis, e por que asim se deram por Satisfeitos, e as 
ditas Terras asima declaradas, ficarão demarcadas por elles ditos 
Offieiaes da Camera e Subgeitaram a pazar os foros declarados a 
que asignaram este termo que os ditos offieiaes da Camera manda- 
rão fazer e eu Joze Jacintho da Silva Rocha, Escrivão da Camera, 
o escrevy — Babeya — Sylva — Peniche — S.* — Araújo — António de 
Araújo Vianna— Ant* dos Passos—Diogo Garcia da S.*-~Pereira 
Mendes asigno arogo da minha may Clara Francisca da Cruz e 
de Maria Gertrudes, Bento da (7o/ic. am — Asigo arogo da foreira 
Rita, Manoel Fran. co dos Santos— Joze dos Santos Lisboa. 



- 143 — 
Documento n.° 38 

Termo de Yercança 

Aos dezaseis dias do mez de Julho de mil oitocentos e três 
annos nesta Villa de Nossa Senhora das Neves de Iguape, Comarca 
de Paranaguá em casas da Gamara e passos do conselho aonde foi 
vindo o Juiz ordinário Joze Manoel Junqueira presidir para o 
efeito de se fazer vereança com os mais oínciaes actuais delia 
abaixo asignados para o efeito de se fazer vereança e Cuidar 
no bem Comum da Republica e sendo ahi todos juntos, fizerâo 
vereança e concordarão no bum Comum do Povo. Na mesma 
Camará mandarão elles officiaes da Camará vir a sua prezença 
aos moradores do Rocio Grande, os quais sendos prezentes lhes 
encarregarão, que daqui em diante se quizessem morar na terra 
do Rocio, fizetem seus requerimentos, para se lhes conferir Cartas 
de Dactas para pagarem foroz da quella porçoens de braças de 
terras que Caresesem, os quais ficarão Scientcs e Sertos em ti ra- 
sem Cartas de Dactas e requererem sobre as braças de terras 
que Caresesem. Nada mais ouvi de que para de tudo aSim Constar 
mandarão Lavrar este termo em que Si aSignarão e eu Fran- 
cisco do Santos Carneiro Escrivão da Camará que o escrevy= 
Junqr m =S B =Carnr*=Carv =Gomes. 

Documento n.° 86 

Termo de vereança 

Aos onze dias do mez de Outubro de mil oitocentos e vinte 
oito annos nesta Villa de Iguape em Casas onde a Camará cos- 
tuma fazer suas cessoens e ahi achando-se reunido o Juiz ordi- 
nário Prezidente o Capitão Francisco dos Santos Carneiro com 
os mais officiaes delia abaixo assignados adjunto commigo Escri- 
vão ao diante nomeado, abrirão sua cessão para se tratar sobre 
o bem geral e commodidade publica. Na mesma se despachou 
trez Keqnerimentos=hum de Francisco Morato do Canto pedin- 
do setenta palmos de terrenos para levantar sua propriedade 
raixtos a posse de Manoel Francisco de Aguiar=Despacho= 
Concedemos o terreno etc=outro de Manoel da Cruz pedindo 
emeoenta palmos de terrenos para fazer sua morada de cazas 
no logar pagado a posse de Joze Jacintho de Toledo e de Ver- 
nancio do tal=Despacho=Concedemos etc=Outro de Salvador 
Rodrigues Lima allegando ©er senhor e possuidor de huma Ses- 



— 144 — 

maria que comprehende do caminho da xacra do Sargento mor 
Bento Pupo de Govea tbe o Porto da Ribeira seguindo the 

Serto do rio Sorocaba, e requerindo que se prohibisse o conce— 
esse terreno dentro da dita Sesmaria para qualquer moradia, 
posse ou cultivaç&o==Despacho==aprezente títulos para a vista 
delles se poder differir=Iguape etc=E como mais nada houvesse 
mandou o Juiz Presidente lavrar este termo em que assignou e 
ditos officiaes. E eu Agostinho Lourenço da Silva Dória Escri- 
vam actual o escrevy. Santos Cameiro=Peri B =Rocha=Borges. 

Documento n.° 37 

Joaquim Euzebio da Silva Carneiro, Escrivão do Juiz de Paz 
nesta villa de Iguape, etc. Certifico que revendo o livro primeiro 
que sérvio de Protocolo das audiências deste Juizo de Paz nelle se 
axa o Termo de consiliação cujo theor he pela forma seguinte. Aos 
dezoito dias do mez de Setembro de mil oito centos e trinta annos 
nesta Villa de Iguape em morado do Juiz de Paz Jozé Innocencio 
Alz Alvim, onde eu Escrivão do seu cargo vim, e sendo abi com- 
pareceo Ignacio António de Souza por si, e por sua may Maria 
Francisca de quem apresentou Procuração com plenos poderes, 
visto não morar ella na Villa, e por sua avançada idade nao po- 
der comparecer e sendo attendido estes motivos pelo Juiz o 
ademitio como procurador de sua may. Por elle foi dito que 
trazia a este Juiz por si e por sua may a Salvador Rodrigues 
Lima, a António Florêncio, António da Costa e Joze António que 
prezentes se axao, para o fim de se conciliarem 6obre a seguinte 
questão : Que sendo Salvador Rodrigues e os mais suplicados 
asima nomeados herdeiros nas terras — chamadas do Porto da Ri- 
beira — nas quaes tem elle suplicante e sua may parte cm qua- 
lidade de herdeiros conjunctamente com aquelles, e com os mesmos 
direitos sobre as ditas terras ; acontece, que sem ter havido par- 
tilha nem divisão dos Terrenos os ditos herdeiros tem vendido 
diversas sortes das terras a varias pessoas sem que se tenha re- 

Sartido o Dinheiro proveniente de taes vendas por todos osher- 
eiros, ficando asiim prejudicados o suplicante e sua may, por 
cujo motivo vinhao os suplicante* citados a este Juizo para o 
conciliarem de alguma maneira. O herdeiro Salvadoí respondeo 
que sendo seus ascedentes senhores das Terras do Porto por tí- 
tulos legítimos acontece vir a esta Villa hum ouvidor por nome 
Manoel de Mello Godinho Manso, o qual mandou queimar os 
ditos titulos. Que passado um grande numero de annos, tendo 
varias pessoas tomado posse de parte das ditas Terras no Porto da 



— 145 — 

Ribeira, o Pay delle suplicado, por nome Raymendo Rodrigues 
Pereira, fizera huma justificação para mostrar que aquellas Terras 
lhe pertencião, cujo documento existe no cartório desta Villa e hó 
o único titulo que hora bâ dessas Terras. Que avendo se entro- 
duzido nellas Carlos Muniz de Gusmão, o mesmo Pay do suplicado 
movera contra o dito intruzo huma Demanda para expulsar das 
Terras, mas tendo tido contra si trez sentenças por fim se acomo- 
dara o dito Gusman, ficando este nas Terras emquanto fosse vivo, 
como de facto se conservou, e elle suplicado Salvador fora quem 
pagara as custas da Demanda que importarão em oitenta mil reis, 
sem que os mais herdeiros contribuíssem : Que depois elle supli- 
cado convencionara vocalmente com seos Irmaons que todo o ter- 
reno da parte do Sul do Caminho do Porto ficaria pertencendo a 
elle suplicado e todo o Terreno da parte do Norte aos ditos Ir- 
maons e que tendo estado nesta posse com effeito tem vendido 
algumas posses de terras com o que não tem prejudicado aos mais 
herdeiros, porque elles também tem vendido algumas Terras da 
parte do Norte : Que alem de todas estas circumstancias existe 
mais a favor do suplicado huma e vem a ser — Que estando aquellas 
terras oneradas com a pensão de huma Missa annual pela Alma de 
Cosme Fernandes Pessoa, somente elle suplicado, e seu falecido 
Pay cumprirão aquelle ónus : sem que os mais herdeiros contre- 
buissem para isso, e que portanto julgava não ter prejudicado aos 
herdeiros em vender ultimamente parte das Terras. Os suplicados 
António da Costa, Joze António de Souza e António Florêncio 
responderão unanimamente que elles se conformavão com a re- 
posta dada por seu Tio Salvador por ser verdade quanto elle espoz 
por quanto não se queixavão de prejuízo, visto que também elles 
tem vendido algumas das terras da parte do Norte : bem como a 
suplicante Maria Francisca vendeu huma sorte de terras ao Te- 
nente Joaquim Rocha por cujo motivo não se poder dizer prejudi- 
cada. O suplicante Ignacio António de Souza por si e como pro- 
curador da sua May, replicou dizendo — Que não duvidava e menos 
contrariava a alegação feita pello suplicado Salvador Rodrigues 
maz nem por isso deixavão elle suplicante e sua may de estarem 
prejudicada s, senão verdade ter a dita sua may vendido cincoentas 
braças de Terras em quadra ao Tenente Joaquim Pupo da Rocha 
elle suplicante sendo morador em Cananeia mudando- se para esta 
Villa, e conhecendo que sua may por ignorância fizera aquella 
venda elegal que não podia fazer por não ter havido partilha e 
divisão de Terras, entregara a mesma quantia recebido de doze 
mil e oitocentos reis, ficando tudo no antigo estado. Os su- 
plicados responderão que em virtude da venda feita ao dito 
Rocha fizera esta hua propriedade em qual esta morando e por 



- 146 — 

isso não ficarão as cotizas no antigo estado. Replicou o Supli- 
cante dizendo que Se Joaquim Pupo da Rocha ocupa o terreno 
da casa que fiz, e hum pequeno quintal, ocupa com o mesmo 
direito com que ali se axão com cazas e armazeins hum grande 
numero de pessoas por ser hum lugar publico de embarque e 
desembarque dos efeitos do Commercio desta Villa de onde se 
segue que ainda que a may do suplicante não tivesse feita aquella 
venda ninguém embarasaria ao dito Rocha de fazer a casa asim 
com não tem eido embarasados todos os demais moradores, e 
proprietários dos ditos Armazeins no dito lugar publico a mar* 
gem da lagoa. Os suplicados nada responderão a isso. Promo- 
vendo o Juiz consiliação entre estas partes, não se consiliarào, 
porque propondo o suplicante, por si e por sua may, que em 
idemnisação dos seos prejuízos os suplicados lhes marcassem sertã 
porção de Terras que de ora em diante podessem considerar como 
propriedade unicamente deles suplicantes, não se poderão con- 
cordar sobre o local que se deveria marcar, querendo o supli- 
cante que se lhe dece serto Terreno ao Norte no que não con- 
vierão. E de como não se consiliarào mandou o Juiz lavrar este 
termo e delle se deu certidoens as partes se o pedirem, e asignou 
o Juiz com as mesmas partes António da Costa e António Flo- 
rêncio asignarão com cruz por não saberem escrever. Eu Agos- 
tinho Lourenço da Silva Dorea Escrivão o escrevy. 

Documento n.° 38 

Parte de uma carta 

Aos avos de Salvador foi concedido a mais de 200 annos 
uma sesmaria, dada pelo Donatário, esta sesmaria foi deixada a 
seos netos com a clausula de mandarem dizer uma Missa annual 

Sara tenção do primeiro proprietário. Tendo-se mudado a villa 
e Iguape para o lugar onde hoje está, os proprietários reccorre- 
rão ao Governo que, procedendo as diligencias necessárias a res- 
peito determinou positivamente ao Corregedor que fosse a Iguape 
e mudasse novam te a villa do lugar a onde estava, em virtude 
de que foi o dito Corregedor ahi e chamando os proprietários 
alcançou delles 250 braças em quadro (como consta d'uma acta 
da Camará d'aquella época, que terá 160 annos). Passou esta 
meBma sesmaria a seus herdeiros que hoje estão de posse e a 
nova instancia da camará concederão mais um pedaço athe um 
lugar chamado «Ponte de Bento Pupo» e estes herdeiros tem 
vendido a particulares o toirão que não foi dado. He de notar 
que a Camará em varias épocas, como consta das suas actas* 



— 147 — 

tem reconhecido este direito e ate tem demarcado as ruas athe 
esse limite e tem havido indicações para se comprar o resto das 
terras. Tem crescido o commercio e no porto do Ribeira se tem 
feito mnitas casas, já por concessão dos proprietários, já por 
compras feitas dos mesmos proprietários. A sesmaria de 200 
annos ou mais não apareço e so existe pleitos defendidos por 
títulos de sesmarias nas actas da Camará, a possa não interrom- 
pida athe hoje e o reconhecimento geral do povo. Certos indi- 
víduos apatrocinados por inimigos da paz publica querem reque- 
rer a Camará para que tome conta deste terreno, de proprieda- 
de, dizendo que querem fazer casas no dito porto. P — 1.° A 
Camará pode tomar os terrenos alheios reconhecendo ella ante- 
riormente que não tinha nada neste porto do Ribeira e poste- 
riormente demarcando limites so por requerimentos dos. interes- 
sados sem indemnisar os proprietários pela sua estima? 2.° 
Como se deve haver os proprietários e de que acção devem usar ? 
3.° Se os proprietários devem pugnar para seus direitos ? 

Resposta 

Si bem intendo a proposta, que não me parece assaz clara, 
sou de parecer, que os herdeiros da sesmaria, tendo a proprie- 
dade do restante da mesma, que nunca foi aleivado por algum 
titulo, e tendo esta propriedade em virtude de huma posse im- 
memorial e não interrompida, e reconhecida pela Camará e mo- 
radores em todos os tempos, não podem delia ser despojadas si- 
não por compra por utilidade publica, ou por outro qualquer 
meio admittido em Direito, e que podem uzar contra os inva- 
sores da mesma propriedade das acções possessórias ou da rein- 
vindicação, segundo estes invasores, se acharem já com a posse 
de mais de anuo e dia, ou sem ella, podendo estas acções ser 
intentadas contra a própria Camará, se for ella a quem se acha 
de posse deste terreno ou tente entrar por elle. 

São Paulo 17 de Maio de 1840. 

Dor Clemente Falcão de 

(Nota : — Não pudemos decifrar o sobrenome). 

Documento n.° 39 

Camará Municipal da Villa de Iguape, 5. a sessão ordinária 
em 11 de Janeiro de 1845. Prés/ do Snr. Alvim. Reunidos 
seis vereadores, faltando com cauza o Snr. Vereador Toledo, o 
Snr. Presidente declarou aberta a sessão. Lida a acta da ante- 



- 148 — 

cedente foi approvada. A Commissao Permanente leo o seguin- 
te parecer. A Commissao Permanente examinou o officio do 
Fiscal em que expõe a esta. Camará que Joaquim José 
Teixeira dos Santos tem feito sapatos no porto da Ribeira jun- 
cto ao Rio em lugares de servidão publica; e pede que a Ca— 
mara lhe indique o que deverá fazer a respeito. A Commissao 
observa que não entra em duvida serem os terrenos do porto 
da Ribeira, j une to ao Rio, senão propriedade Municipal ad que- 
rida por huma posse immemorial nunca contradictada, ao mesmo 
servidão publica de embarques e desembarques. Com effeito he 
sabido que todos os edifícios e armazéns ali construídos o forao 
pelos antigos honde bem lhes pareceo sem contradicçao e me- 
nos opposição de Raymundo Rodrigues proprietário do Sitio 
chamado do Porto da Ribeira. O Porto da Ribeira he hoje uma 
povoação, que vae em augmento: huma das Camarás passadas 
mandou alinhar huma rua; os dinheiros Municipaes tem sido ali 
despendidos em aterros e benefício de terrenos para facilitar o 
embarque e desembarque, e o transporte dos effeitos da Lavou- 
ra; só em huma ponte se despendio sincoenta e tantos mil reis. 
A Camará que sérvio no anno de 1837, tomou huma delibera- 
ção respeito a obras quaesquer na margem do Rio, pela qual 
Srohibio toda e qualquer construcção na dita margem ate a casa 
e Nicolau Drey, afim de se não embaraçar o transito publico, 
e o embarque e desembarque e toda a sorte de servidão publi- 
ca. Não havendo pois duvida: 1.° de que pela legislação vigente 
as margens dos Rios que servem de embarque e desembarque 
são propriedade publica: 2.° que com especialidade a margem 
do Rio do Porto da Ribeira de tempo immemoriaes e posse nun- 
ca interrompida hé sevidão púbica e muito necessária: 3° que 
aquelle Rio hé de maré e que na forma da Lei, 15 braças dis- 
tante do ponto onde chega a maior maré são propriedade Na- 
cional, hé evidente que seja qual for o titulo pelo qual Joa- 
quim Joze Teixeira doB Santos se inculca proprietário de certos 
terrenos do porto da Ribeira elle não tem direito do fazer obra 
alguma ali com que embarace a servidão publica, e por conse- 
quência que esta Camará está constituída no rigoroso dever de 
fazer repor ao antigo estado a servidão como urge o interesse 
publico, e lhe he expressamente ordenado pelo artigo quarenta 
e hum da Lei de seu Regimento. Quaes serão os meios legaes 
que a Camará devera empregar para fazer repor a servidão no 
seu antigo estado ? A Commissao intende que, não estando ex- 
pressamente revogado a ordenação Livro primeiro titulo 66 § 
11 — ibi— Porem se acharem (os vereadores) que algumas pes oas 
alargão os vallados das suas herdades e com elles tomão aos Ca- 



— 149 — 

minhos e servidões do Conselho alguma parte, elles logo por si 
com algum conhecimento summario de testamunhas perante as 
partes ou seus Caseiros, ou Mordomos, sem mais outra citação de 
mulheres, tornarão os caminhos e servidões ao ponto que dantes 
estavao, sem receber appellaçao nem aggravo: ficando porem res- 
guardado aos Senhorios, se intenderem que são aggravados, pode- 
rem demandar o Conselho sobre a propriedade ordinariamente — 
entenda a Commissao que pode esta Camará servir se desta Lei, e 
tanto mais a Commissao tem motivo para assim intender; quanto a 
expressão do artigo citado quarenta e hum da Lei do 1.° de Outu- 
bro de 1828 — ciarão repor no antigo estado as Servidões e Cami- 
nhos públicos, não consentindo de maneira alguma etc.» — pare- 
ce sem duvida conferir ás Camarás neste ponto huma jurisdicção 
executiva, aliás a Lei em vez de dizer — «farão repor» — devia re- 
quererão aos Juizes, como se expreça em outros partes a outro res- 
peito. Olhando-se a questão por outro lado observa a Commissao, 
que não havendo duvida alguma de que as Sapatas se estão fazen- 
do nos terrenos da servidão publica, segue-se que Joaquim Joze 
Teixeira dos Santos, está commettendo força esbulhando ao Publi- 
co de huma posse immemorial; e neste caso tem a Camará direito 
de desforçar-se incontinente; como permitte a ord. L.° 4 tit 58 § 
2 mandando desmanchar aquellas obras. Portanto se não está em 
vigor a Ordenação da Lei 1.° tit 66 § 11, está sem duvida alguma 
acima citada do L° 4, em todo o cazo pois será legal o pocedimento 
da Camará em fazer por si mesma e intermédio do seu Fiscal repor 
a Servidão publica no seu primeiro estado, como urge ja e ja o bem 
publico . Tal hé o parecer aa Commissao. Posto em discussão o pa- 
recer foi approvado sem debate, deliberando a Camará que se oni«*» 
cia-Be ao Fiscal para mandar desmanchar as obras feitas por Joa- 
quim Joze Teixeira dos Santos nos lugares de servidão publica no 
porto da Ribeira . 

Documento n.° 40 

Rigistro de um offieio dirigido ao Exmo. Prezidente 

da Província 

Ulmo. e Exmo. Snr. A prezença de V. Exa. levo os di- 
versos factos abaixo relatados e occorridos nesta cidade, afim 
de V. Ex. ci * tomal-os na devida consideração e resolver como 
mais acertado e de justiça entender, para assim, com ajusta 
decisão de V. Ex. d * poder a Camará cumprir exactamente as 
attribuições que por Lei lhe é conferidas, e eu na qualidade 
de Prez. te delia desempenhar a parte que me toca. Eis o 
cazo Ex. m * Seu. or : Ha bastante annos que acharão-se no rocio 



— 150 — 

desta Cidade, como se ve do archivo nos antigos livros da 
Vereança, dos annos de 1719 á 1803. Estes moradores sem 
mais outro titulo do que o de foro, ali moravão ; porem, com 
o correr de muitos annos aquelles foreiros fallecerão e outros 
se retirarão, e quer daquelles, quer destes se apossarão os 
herdeiros, credores etc, de modo que nesta contradança, legal 
ou i Ilegalmente forão os terrenos passando de uns á outros, 
e assim correrão as couzas sem que, segundo creio, as Ca- 
marás transactas at tença o a isto prestassem e mesma ella ate 
boje não sabe quantas braças forão tomadas para Rocio, no 
começo desta povoação ou quantas a Ley concede : e agora 
conhecendo que por particular interesse, chamão-se á posse 
destes logares ( o que se deprehende pelos antigos livros de 
Vereança forão aforados) pessoas mais ou menos abastadas e 
moradores da Cidade, os quaes não só se chamão a posse e 
sem direito de propriedade de que aquelles foreiros em outro 
tempo desfruetarão, como de toda a extensão do terreno que 
suas forças permittem devastarem, ja roçando, ja queimando, 
ja tirando mandeiras e vallando: de modo que por esta forma 
chama rào-se a posse de quazi todo o Rocio, quando a Camará 
julga- se com o direito delle, não só para augmento da po- 
pulação no futuro, como prezen temente para morada da po- 
breza e mesmo para ser o logar donde a população da Cidade 
Registro de um ofjicio dirigida ao Ex. mo Presid* da Provinda 
se fernece-se do lenha para consumo e de mais que precizo 
seja ; e no entanto os especuladores, sem respeito á Camará 
tem inteiramente prohibido á diversos o corte de madeiras e 
do mais que a necessidade alli os obriga procurar, dizendo- 
lhes «que todo o matto alli é delles e que ninguém pode 
tocar sem authorisação dos mesmos», a tal ponto que um 
delles possuindo ahi um Engenhoco para socar arroz, em tempo 
chuvoso, para poder conservar agua para movel-o em tempo de 
secca, tem feito com seus escravos extraordinários tanques e vai- 
les pelo centro do Rocio, que crusão de um lado á outro e em 
muito maior distancia que talvez meia légua, e os terrenos e ma- 
tos, desta forma vallados e os que comprehende a mesma direc- 
ção chamão seus. 

Um outro, tendo feito especulação quando a Camará conce- 
dia cartas de datas dos terrenos urbanos, para a edificação na ci- 
dade, tirou immensas datas ou posses, já em seu nome, já em 
nome de seus filhos e já em nomes de outros, e como não as po- 
desse edificar no prazo das Posturas (2 annos) ainda a chama 
seus, e tem vendido alguns por muito bom preço e assim mui- 
tos outros. Em Setembro do corrente anno tendo fallecido Ber- 



— 151 — 

nardo Joze Dom 68 , morador no Rocio onde ha annos viven pos- 
suindo ahi (sem titulo) uma cazinha rústica, algumas larangei- 
ras e 10 a 12 pés de Caffé, os seus herdeiros fizerào venda de 
tudo pelo diminuto preço de 40$000 e consta que o compra- 
dor mandou fazer declarar na venda (que foi particular )« de 
mais 110 braças (pouco mais ou menos) de terreno no mes- 
mo logar». Ora tudo por 40S000 e assim em poucos annos se jun- 
tarão outros e tomarão completam le conta de tudo quanto é Rocio. 
Exmo Snr a vista das reclamações que ouvia respeito ao Rocio, 
e quanto aos especuladores ; assentei de que deveria reunir a 
Camará com urgência para nella se tratão de semelhante ma- 
téria, e do mais que preciso fosse. Assim fiz, ordenei no dia 
3 do corrente áo Secretario que convocasse os mais Vereado- 
res para o dia 4, porem Exmo Snr qual não foi a minha ad- 
miração no dia aprazado desde ás 9 á 10 horas da manha só 
comparecerão dous Vereadores ! ficando desta forma Camará sem 
poder funecionar e como as horas já passassem das da Ley, man- 
dei lavrar a acta, assignei-a com os dois prezentes e reti- 
rei-me. Isto de não comparecerem os mais Vereadores deno- 
ta qualquer mysteria ou parcialidade, visto que se hia tratar de 
negócios que compremettião os intereses de affeiçoados e as- 
sim é que a Camará nada pode fazer uma vez que os negó- 
cios prejudiquem este ou aquelle. Exmo Snr, desde o anno 
de 1855, mais ou menos, em vista de uma Portaria do ante- 
cessor de V. E a Dor J António Saraiva, data de 24 de 
Novembro de 1854, ordenando que em observância dos Avi- 
zos do Ex mo Ministro do Império de 12 de Outubro e 3 de 
Novembro de 1854, a Camará não tem concedido cartas de 
datas, do terrenos urbanos, para edificação de prédios na Ci- 
dade, por ter intendido não o poder fazer em virtude da ci- 
tada Portaria, e entre os particulares e entre elles mesmo al- 
guns Vereadores da Camará tinhão assentados á seu bel pra- 
zer fazer roçadas, queimadas, etc, em novas ruas que a Ca- 
mará ordenou fossem abertas (visto que se achavão cheias de 
matto) á custa de seu cofre e nellas tinhão tomado por aquel- 
le meio muitas posses em diversas e melhores pontas das 
mesmas, quando assim finalmente por taes meios esbulharem 
a Camará da posse e juz que tinhão para no futuro fazer quaes- 
quer servidões publicas. 

Exm Snr, bastante pezar tenho não poder injustamente 
ministrar maiores esclarecimentos a cerca do que allego, poip 
consta me por pessoas fididignas e antigas no logar, que no 
archivo um bvro ou memorial existio de todos os limites da 
Cidade, seu Rocio, Porto da Ribeira etc, porem infelizmente 



— 152 - 

ha annos que esse livro desemcamlnhou-se, ou foi subtrahido, 
e hoje que com elle muito se aproveitaria não aparece e min- 
guem delle Babe. Exmo Snr, a vista da exposição que ora 
acabo de fazer espero que V. Ex ci * dignar- se ha tomal-a na 
devida consideração afim de por uma vez remediarem-se esses 
males e evitarem -se abusos que a cada passo se estão e es- 
tarão reprodnzindo. Deus Guarde a V. Ex* Iguapo 6 de No- 
vembro de 1863. 

Exmo Snr Prezidente da Província de S. Paulo. Francisco 
Peireira de Mendonça , — José Joaquim de Oliveira, Secretario . 

Documento n.° 41 

Registro de hua Circular do Prezidente da Província 
ordenando que a Cantara informe quaes os terre- 
no de Marinho que s*o percizos para logradouro 
Publico. 

Circular. Em cumprimento do paragrapho quatorze do Ar- 
tigo cinco en ta e hum da Lei de quinze de Novembro do anno 
próximo passado cumpre que Vossa Mercês me informem prompta- 
mente quaes os terrenos de Marinha de Seus Districtos, que são 
precisos para logradouros públicos, mandando a descri pçfto delles, 
afim de que este Governo resolvendo sobre este objecto possa 
também dar execução a mesma Ley, aforando a particulares 
aquelles de taes Terrenos, que julgar conveniente. Outro sim 
me informarão, se alguns dos ditos terrenos de Marinha se tem 
edificada sem concessão, ou que tenejo ja sidos concedidos con- 
dicionalmente se axao obrigados ao pagamento de fora. Deus 
Guarde a Vossa Mercês. Palácio do Governo de São Paulo trez 
de Fevereiro de mil oitocentos e trinta e dous. Rafael Tobias 
de Aguiar. 

Documento n.° 42 

Informação que a Gamara diricjio ao Prezidente da 
Província sobre os terrenos da Marinha 

Em resposta da Circular de trez de Fevereiro do corr. te a Ca- 
mará Municipal da Villa de Iguape remette a V Ex* a Descripção 
dos terrenos da Marinha que servem de logradouros Públicos nesta 
Villa, não precisando presentemente de outros, salvo, quando pelo 
augmento da Villa se facão necessário da pai te do Sul da mesma 
para servirem de portos e aberturas de novas ruas para o mar, re- 
gulando-se os quarteiroens segundo o plano estabelecido pela Cama- 



— 153 -- 

ra. Outro sim, informa a V Ex* que em todo o Litoral da Villa se 
tem edificado cazas, ou se tem tomado posse de terrenos por carta 
de datas concedidas pela Camará, actual e transactas desde tempo 
immemorial sem condição algua, talvez por ser quazi inteiramente 
ignorada a Ley, que reserva para a Nação o Litoral da Marinha, 
comprebendido nas quinze braças do preia mar, Ley a que nunca 
se deu aqui execução, assim como em muitos outros lugares do 
Império. A excepção do local da Villa em nenhum outro terreno 
em todo o Districto deste Município se tem edificado nas 15 
braças da Marinha. Acuza também a Gamara, que recebeo o 
officio de V Ex* de quinze de Maio do corrente, acompanhando 
o Edital ao aforamento dos mencionados terrenos da Marinha na 
conformidade da Ley de quinze de Novembro do anno passado, 
o qual foi aqui publicado, e affixado no lugar de custume, no 
dia dez de «Junho, findando o prazo marcado no mesmo aos dez 
do corrente mez. Deus Guarde a V Ex*. Iguape em sessão 
ordinária de quatorze de Julho de mil oito centos e trinta e dois. 
Ulmo e Exmo Sr Rafael Tobias de Aguiar. Prezidente desta 
Província. Francisco Carneiro da Silva Braga. João Chryzostomo 
d' Oliveira Salgado Bueno. Francisco Manoel Junqueira. João 
Baptista. José Gonçalves Maia. 

Descripção dos Terrenos da Marinha da Villa de Iguape, 
que servem de Servidão Publica. No Litoral da Marinha desta 
Villa de Iguape se achão trez Largos : o primeiro ao Nordeste 
na extremidade da Villa, junto ao Morro, seguindo o alinha- 
mento demarcado, que tem duzentos e vinte palmos de frente ao 
mar: o segundo Largo, denominado do Funil no fim da rua do 
mesmo nome com quatro centos e noventa palmos de frente ; e 
o terceiro, o Largo do Cemeterio noutra extremidade ao Sul com 
quatrocentos e quarenta palmos. 

Alem destes sahem ao Mar dentro da Villa quatro Becos 
denominados: do Mejor, Porto grande, de Dona Úrsula e Dores; 
outros trez da Praça do Rocio, chamados, de Joze Dias, Hespa- 
nhol, e Saloio, e mais trez da parte do Nordeste que achão ali- 
nhados mas que ainda não tem cazas, quazi todos com a largura 
de Secenta palmos a excepção de quatro que tem largura irre- 
gular. TodoB estes Largos e Becos mencionados são de Servidão 
Publica e não devem ser comprehendidos no aforamento a que 
se tem de proceder. Iguape aos quatorze de Julho de 1832. 
Manoel Joaquim Martins, Secretario da Camará. 



- 154 - 
Documento n.° 43 

A Camará Municipal da Villa de Iguape, acuzando a recepção 
do officio de cinco de Setembro do presente anno, tem a levar ao 
conhecimento de V Ex* que passa a requerer o respectivo tomba— 
mento na forma da Ley, e protesta fazer tudo quanto estiver a 
seo alcance, afim de que os proprietários do? terrenos da Ma- 
rinha apresentem seos titulos, como VEx a determina. A Camará 
julga do seo dever clarear a VEx a que ninguém nesta Villa paga 
aforamento dos terrenos da Marinha, por quanto sendo a primeira 
sede desta Villa na Capara, em terrenos Nacionaes (segundo consta) 
se passou para este local por ficar mais próxima ao Rio da Ribeira 
em terrenos de propriedade particular, e por isso as Camarás tran- 
sactas e mesma esta concedi rao os terrenos para se levantar edifí- 
cios sem ónus, ou foro por se julgar com direito de propriedade 
pelos documentos juntos, pelos quaes igualmente se mostra não 
haver reservado marinha, e nem os Donatários do Brazil, tão velho 
como seu descobrimento, e mesmo como a Ordenação, concedião 
Cartas de Sesmarias com essa clausula, como se ve de alguas Ses- 
marias dadas em seos nomes ; e se as Cartas de Doaçoens concedi- 
das pelos Reis de Portugal a tinhào, nunca puzerão em pratica, 
porque então nào seria a primeira Rua desta Villa e ate a Matriz 
edificada a beira mar, de cujos edifícios fabricados em tempos imme* 
moriaes não encontra os proprietários de hoje documentos, comtudo 
ha de suppor, que as Camarás lhes dessem aquelles terrenos, e sem 
foros ; alem dos documentos juntos ainda a Camará tem novas 
doacçoens dadas pelos proprietários, que augmentão seo terreno, e 
está de posse delles ; vindo por isso agora em duvida a Camará, se 
apezar ao direito de propriedade, que tem a este terreno, deve ou 
não continuar a ceder os terrenos, ou quando possa se deve ser 
com ónus de foro, que ate agora não tem sido ; e como a Lei do 
quinze de Novembro de mil oito centos e trinta e hum, titulo 
quarto, Capitulo único, Artigo quatorze não especifica se ha so 
terrenos nacionaes, ou se com prebende os de propriedade, e nem 
menos a Camará sabe se aquelles Donatários o poaiao dar sem re- 
serva, para isso recorre a VE* para que com suas luzes se digne 
clarear a esta Camará, qual se faz digna de desculpa porque o seo 
fito he só obdecer a Lei e as authoridades verdadeiramente consti- 
tuídas. 

Acuza também a Camará o recebimento do officio de trez de 
Setembro do prezente anno com a lamina de pus vacinico, o qual 
logo mandou por em execução por mão abil, que teve o mesmo re- 
sultado que os primeiros, o talvez que seja pela mala do Correio 



— 155 - 

adquirir -uraidade nos caminhos que perde a sua eficácia. Acuza 
igualmente a recepção de outro Officio de dezesete de Setembro do 
presente anno com os vinte e sete Exemplares de Leis, quaes lhes 
deo o destino competente — Deos Guarde a VEx*--Iguape em ses- 
são ordinária em dezessete de Outubro de mil oitocentos e trinta e 
doas. Ulmo Ex mo Sr. Rafael Tobias de Aguiar — Prezidente desta 
Província — Francisco Carneiro da Silva Braga — Bernardo Antó- 
nio N^eves — João Dias Baptista — Joze António dos Anjos — Fran- 
cisco Manoel Junqueira — Joze Gonçalves Maia, 

Documento n.° 44 

Tendo a Camará Municipal de Iguape reprezentado em bene- 
ficio do bem Pubiico pello orneio de 14 de Ju^o de 1832 a necessi- 
dade de logradouros públicos para commodidade de seos habitantes 
naquelle tempo, o que lhe fora confirmado pela resposta do Exmo 
Prezidente da Província datado de 5 de Setembro do mesmo 
anno e tendo agora em vistas o progressivo augmento que esta 
Villa tem tem tido e promete ter para o futuro em Lavoura, 
Com me rei o e mais géneros de exportação e importação, madeiras 
taboados e páos, que ora principia a exportar seo commercio para 
os portos do Sul e que os Becos das Ruas que tivera pedido por 
aquelle dito officio apenas chega para tranzito dos Carros, não 
havendo cómodos alguns para deposito de Canoas das serventias 
de madeiras e géneros comerciaes de embarques que por essa 
causa se depositão nas ruas com estorvo do livre tranzito, in- 
fringindo as Posturas da Camará, e mesma cauzando inde- 
cencias, tendo outro sim, em vista os termos em que se con- 
cebe aquelle peditório de logradouros quando diz. « Salvo quando 
pelo augmento da Villa se faça necessário », por isso e para 
beneficio do bem publico tendo em vista exercício de logra- 
douros prezentemente e que tanto mais escaco será para daqui 
a poucos annos, regulando-se pois pela Lei de 15 de Novem- 
bro de 1831, artigo 14 do titulo 4.°, que amplia sem restrição 
o pedir os terrenos necessários, coadjuvada ainda mais a mesma 
Camará da posse imraemorial de que se acha esta Villa do ter- 
reno em que está fundada por doação feita pelo proprietário 
do mesmo terreno que o possuía por titulo de Sesmaria que lhe 
foi doado pelo Senhor Donatário como se comprova dos docu- 
mentos juntos, e estes quazi em parelelo em annos com o des- 
cobrimento do Brazil, doação estas que sempre se reputarão e 
se respeitão como firmes, valiozas e irrevogáveis pela sua na- 
tureza, sem ónus ou restricção alguma, por isso que as Cama- 



— 156 — 

ras transactas sempre concederão livremente os terrenos que se 
lhe pedia para caza, fossem a beira mar ou foi a delia, como 
propriamente de sua competência por ser doação feita por hum 
particular para fundação da Yilla como fica demonstrado; he 
por isso que esta Camará tendo em consideração tudo quanto 
tem exposto vae rogar a V. Ex* lhe concede o terreno abeira 
mar nos limites desta Yilla desde a pedra Itagua na parte do 
Nordeste ate a divisa das terras de João Maneio da Silva Fran- 
co da parte do Sadueste, onde analisa os terrenos doados para 
a mesma Yilla, para deposito de madeiras, do canoas, estalei- 
ros, ranxos de pescaria e mais servidões publicas, embarques e 
desembarques, ficando esta mesma Camará na antiga posse para 
conceder a quem se propuzer a fazer cães de pedra a sua cus- 
ta a imitação de hum quarteirão que ja se acha feito a custa 
dos proprietários e ser franqueado sem rezerva e nem penção 

Sara logradouro e serventia publica, como acontece com o cães 
o quarteirão dito que está servindo de rua e o mesmo tempo 
deposito de Saccos de Arroz e de outros géneros e volumes de 
exportação e importação, ate onde muitos vão beneficiar suas 
fazendas para embarque visto que esta Camará não tem posses 
para huma obra tão despendioza e que tanto convém ao Co- 
mercio. Espera pois esta Camará que Vossa Ex" anuirá ao 
Sedido a imitação do que tem concedida outras Comarcas como 
o Rio de Janeiro, Paraná goa, Antonina, S. Francisco do Sul 
e outras muitas. Deus Guarde a Y. Ex da Paço da Camará 
Municipal da Yilla de Iguape em sessão ordinária de 19 de Ja- 
neiro de 1838. Ulmo. e Exmo. Snr. Bernardo José Pinto Ga- 
vião Peixoto, Prezidente desta Piovincia. Joaquim Pio Pupo, 
António Carlos de Toledo , Francisco Manoel Junqueira, José 
Bonifácio de Andrade, José Jacintho de Andrade, Jodto Baptista 
da Silva Carneiro, Xavier de Almeida Cruz . 

Documento n.° 45 

Registo de húa Portaria do Ex mo Prez* 9 da Província 
em resposta ao O í fiei o que a Gamara lhe dirigio 
resp t0 ficar livre de pagar foro os terrenos Maríti- 
mos comprehendidos no limite desta Villa. 

Em solução aos Officios da Camará Municiqal da Y.* de 
Iguape, de data de 19 de Jan.° e 5 de Fev . * do corrente anno, 
em que pede a Concessão dos terrenos de Marinha, que ficâo 
entre a pedra Itagua e o ponto que chama limite doada a mes- 
ma Yilla da parte Sudueste, para deposito de madeiras, canoas, 



— Í57 — 

estaleiros, Ranchos etc. e para concedel-os aos particulares que 

?uizerem fazer cães de peara a sua custa, o Prezidente da 
'rovincia declara a referida Camará, que não pode anuir se- 
melhante exigência, porque na forma do § 14 do art. 51 da 
Lei de 15 de Novembro de 1831, só hé permittida a concessão 
de terrenos de Marinha as Gamaras para logradouros públicos 
e não para todos os fins para que ella pede os ditos terrenos. 
Palácio do Governo do Estado de B. Paulo, 9 de Outubro de 
1838. Venâncio José Lisboa. 

Documento n.° 46 

Illmo. e Exmo. Snr. Á Camará Municipal da Villa de Iguape 
faltaria sem duvida a hum de seus primeiros devore* se de novo 
não pedisse a V. Exc* para servidão publica da mesma Villa 
desde a pedra Itaguati a Valia. Esta Camará está inteiramente 
convencida que V Exc* a exemplo de outras não deixará de an- 
nuir a húa tão justa requisição bxzeada na Lei e na razão, diz 
baseada na lei por está expressamente determinado que os Ex 1 " * 
Ooverros concedão as Camarás dos Municípios os terrenos que 
pedirem para sua Servidão publica, e esta Camará que com o andar 
dos tempos conhece, que aquelles que sem maduro exame forão 
apontados para sua Serventia não herão e nem podiam ser sufE- 
cientes, se vio nas circumstancias de novo pedir maior ex tenção 
como de facto o fiz em Orneio de 19 de Janeiro deste anno di- 
rigido ao antecessor de V. E.x a , baseado na razão porque esta 
Villa foi fundada muitas braças distante do mar em hum terreno 
Sismado do qual os proprietários Manoel da Costa e Francisco 
de Pontes Vidal perante o Ouvidor da Comarca Luiz Lopes de 
Carvalho, e Camará no anno de 1679 íizerão gratuita doação do 
terreno necessário para a fundação da Villa e seo Rocio, sem 
ónus nem penção alguma, tal e qual como fora dado pelos Do- 
natários tudo anterior a Lei da impozição da taxa, cujos títulos 
esta Camará e todas as transactas sempre respeitarão. Naquelles 
tempos Exmo Snr a beira do mar pequeno hera hum terreno 
alagado coberto de mangue, e para isso a Villa foi fundada 
muito distante sobre hum local mais elevado. Acontece porem 
que com o andar dos tempos os moradores forão aos poucos cor- 
tando aquelles mangues para fazerem portos de desembarque para 
suas respectivas cazas, e mesmo beneficiando para quintaes, e 
então as agoas achando o terreno limpo forão esburacando, con- 
sequentemente foi desap parecendo o mesmo terreno e as agoas 
aproximando-se das cazas na rua hoje chamado do mar, de sorte 
que aonde outra ora herão mangues hoje hé ancoradouro das 



— 158 — 

Embarcações e sem duvida se demolirão todas as cazas se um 
cães não obstar seos progreços. Este facto de que ainda boje 
alguns monumentos e muitas testemunhas, bomens antigos, bem 
se verifica pela simples inspecção ocular, por onde com eviden- 
cia se conbece qual hera a linha que eir. outrora seguia a beira 
do m;ir pequeno, ainda mais quandc se observa a posição em 
que fica o Itagna que cae sobre o mesmo mar, e a posição fron- 
teira no mesmo alinhamento do terreno que ainda existe com 
mangues ; entre hum ponto e outro forma-se li uma pequena en- 
ceada, feita pelas agoas, em todo o terreno que os habitantes 
beneficiarão. As cazas que se achão ao lado do Sul do porto 
grande vão successi vãmente perdendo seos quintaes, e alguas há 
cujas cozinhas estão sobre o barranco onde bate a maré, e outras 
que a mesma maré tem demolidas; factos estes Exmo. Sr. tão 
patentes, que não podem ser contestados. Se pois os primeiros 
habitantes desta villa fundarão suas cazas em grande distancia 
do mar pequeno, e hoje soffrem prejuízos, pelas Camarás antigas 
não terem fundos para fazer hum cães que obstasse os progre- 
ços das marés, como se pode deixar de conceder hua graça tão 
justa aos habitantes de hum terreno que nenhúa culpa ti verão 
dos progreços da maré e falta de fundos competentes das Cama- 
rás ? Como pagar foros de hum terreno desde seos princípios e 
antiguidade dados gratuitamente? Será este povo menos mere- 
cedor do que os outros que tem obtido igual graça? O povo 
Exmo Sr reclama os seos direitos, esta Camará reconhece justa 
a sua reclamação, não pode reparar os damnos porque não tem 
fundos, nem nunca terá para mandar fazer hum caca em que se 
gastarão immensas Sommas, elle exige sua antiga Servidão pu- 
blica para depozito de suas cargas, madeiras, canoas, embarques 
e desembarques, visto que os pequenos lugares apontados pela 
Camará transacta não são sufficienies, he por isso que a Camará 
vai por esta segunda vez pedir a V Ex - lhe conceda livre de 
penção para Servidão publica desde o Itagua té a Valia, para 
também ella dar gratuitamente aos que quizerem levantar edi- 
fício só com o ónus de tazer cães a sua custa pelo alinhamento 
marcado, isto para melhor Servidão, segurança das propriedades 
e ellegancia da Villa. A Camará insta por esta graça, e quan- 
do V Ex* por alguma circumstancia conheça que exige emediata 
rezolução de S. M. Imperial, ou da Assembléa Geral, por ella 
V Ex* insta, que esta Camará prestará as justificações e Vestu- 
rias que necessárias forem. Esta Camará espera que V Ex a re- 
cebera com benignidade esta Suplica e que lhe dará o devido 
merecimento acreditando que a Camará não tem outro fito sinão 
o Zelo para bem publico e interesse de seos concidadãos. Deos 



— 159 — 

guarde a V Ex\ Paço da Camará Municipal da Villa de Iguape, 
em sessão ordinária de treze de Outubro de 1838. Ulmo e Exmo 
Snr Dor Vernancio José Lisboa, Presidente desta Província. — 
— Joaquim Pio Pupo. — João Dias Baptista. — Francisco Manoel 
Junqueira. — António Carlos do Toledo. — António José Gonçalves. 
— João António Peniche. — João Baptista da Silva Carneiro, 



Documento n.° 47 

Ulmo. e Exmo. Senr. Á Camará Municipal da Villa de Igua- 
P e i julga de seo mais rigoroso dever reprezentar a V. Ex. a a 
Biimma necessidade que há de reclamar maior expançào de ter- 
reno para servidão publica da mesma villa ; por quanto crescendo 
progressivamente a população (como acontece) não hé suficiente 
que a Camará transacta pedio em data de 14 de Julho de 1832 
que só se limitou aos becos que sahe ao mar que para aquelle 
tempo talvez fosse sufficiente, o que porem .não acontesce para 
a hepoca de hoje visto o progressivo augmento da mesma villa 
e da população : mormente quando se tiver concluída a Valia 
de tranzitaoão da Ribeira a esta Villa por que então voltando 
todo o Comercio da mesma Ribeira e Serra A sim a, a praia da 
Villa abandonando o Comercio do Porto da Ribeira, sem duvida 
á não haver maior espanção não terão aonde portarem, origi- 
nando-se por isso as mesmas desordens nos proprietários e Ca- 
noas, prejudicando o Povo e Comercio. Esta Camará que bem 
conhece estes princípios e a urgente necessidade que ha de maior 
espanção, como órgão do Povo nada mais lhe resta senão recla- 
mar e por isso e mesmo por que muito bem se lembra que V. 
Ex. m na sua primeira Prezidencia fez quanto estive ao seo alcance 
á felicidade da Província e mesma desta Villa, implora a V. Ex. 1, 
que em virtude da Lei de 15 de Novembro de 1831, artigo 14 
do titulo 4.°, se digne conceder da immensa Marinha que tem 
este município somente o que decorre desde a barra da mesma 
Valia ate a pedra Itagua para servidão publica da mesma Villa. 
Esta hé a supplica que a Camará da Villa de Iguape implora a 
V. Ex*. Passo da Camará Municipal da Villa de Iguape em 
Sessão ordinária de 10 de Outubro de 1840. Ulmo. e Exmo. 
Snr. Rafael Tobias de Aguiar. Prezidente desta Província. — 
João Baptista da Silva Carneiro — Joze Bonifácio de Andrade-"* 
Francisco Manoel Junqueira — António Carlos de Toledo — Antó- 
nio Joze Gr07içalves--Joze Jacintho de Andrade— João Dias 
Baptista. 



— 160 — 
Documento n.° 48 

Foi presente a este Governo o officio da Camará Municipal 
da Villa de Iguape, datado de 10 de Outubro próximo passado, 
em que reclama para Servidão Municipal nessa Villa o terreno 
que decorre desde a barra da Valia da mesma Villa, ate a pedra 
Itaguá, em attenção ao acressimo da população e as necessidades 
da Marinha, e dando o Prezidente da Província todo o pezo a 
requizição da Camará e estando de accôrdo com a informação 
da Thezouraria de 11 de Novembro corrente, declara a mencio- 
nada Camará, que concede o terreno pedido pela mesma Camará 
Sara servidão publica, procedendo-se quanto antes a necessária 
emarcação. O que tudo communica a Camará para sua Intel— 
ligencia e em resposta ao seu dito officio. Palácio do Governo 
de São Paulo 16 de Novembro de 1840. — Rafai Tobias de Aguiar. 

Documento n.° 49 

« 

Km sessão de 1.° de Outubro de 1840 

Tàobem foi lido hua outra Portaria do dito Exmo. Prezi- 
dente da Província de dezeseis de Novembro deste anno acu- 
sando recebido a reprezen tacão que esta Camará lhe dirigio pela 
qual pedio ao mesmo para a Servidão Municipal desta Villa o 
terreno da Marinha que decorre da pedra Itaguá até a barra da 
nova Valia, e concedendo o dito Prezidente o referido terreno 
a vista da en formação a que procedeo da Thezouraria em data 
de onze do mesmo mez, ordena que a Camará proceda a neces- 
sária demarcação : ficou a Camará inteirada e deliberou que se 
procedesse a dita demarcação o que seria feita pelo Fiscal com 
asistencia dos Senhores Vereadores Gonçalves e Peniche, neste 
acto nomeados para especionarem este trabalho. 

Documento n.° BO 

Em sessão do dia 12 de Maio de 1846 

O senhor Vereador Camargo fiz a seguinte indicação que 
foi approvada: Não tendo-se até hoje cumprida a ordem do 
Exmo. Prezidente, que concedendo a esta Villa os terrenos da 
Marinha desde a Valia até a pedra Itaguá e mandando tombar 
immediatamente como consta da Portaria de 16 de Novembro 
de 1840, assim como não se tem tombado as divisões do terreno 
da parte do Porto da Ribeira, que ja demarcado pela ultima rua 
da parte de Nordeste se lhe poz o nome de rua das Palmeiras 



— 161 — 

e de Sudueste rua da Victoiia, como está decidido, e foi appro- 
vado em Sessão de 15 de Abril de 1839, por tanto indico que 
se officie ao Ulmo. Juiz Munucipal para que passe a tombar 
pelos demarcoB dos lugares, e que concluída as diligencias par- 
tícipe para ser registrado no Liyro competente. 

Indico mais que o Secretario emvie por certidão a acta da 
Sess&o de 15 de Abril de 1839 na parte do parecer da Gom- 
miss&o e sua approvação, para ser igualmente incorporado com 
o officio do Governo. — Iguape, 12 de Maio de 1846. — Camargo* 

Documento n.° BI 

Aos sete dias do inez de Setembro de mil oito centos e 
vinte e sete annos, nesta Yilla de Iguape, Comarca de Parana- 
guá e Curitiba em cazas da apozentadoria do Doutor Ouvidor 
Geral e Corregedor interino da Comarca Joaquim Teixeira Pei- 
xoto onde se reunirão os Juizes ordinários o alferes Joze Inno- 
cencio Alv"s Alvim e José Jacintbo de Toledo e mais officiaes 
da Camará e outros Cidadãos abaixo assignados para o fim de 
irem com o dito Senbor Corregedor ao largo do Kocio para se 
apontar o logar em que se deverá edificar a nova caza da Ca- 
mará e Cadea e proceder-se a avaliação por bum Calculo apro- 
ximadamente mais ou menos da importância com que se poderá 
realisar a dita obra. E dirigindo-se todos ao dito largo do rocio 
e assentarão que se deverá edificar a nova Caza da Camará na 
esquina da rua do Campo ao lado direito da Capella da Senhora 
do Rozario, fazendo frente para o largo do rocio. £ sendo pre- 
sentes os louvados Euzebio da Cunha Paiva e Joze Domingues, 
derão estes os seus laudos, concordando em que com trez contos 
de reis pouco mais ou menos se poderá edificar a nova Caza da 
Camará segundo o plano, que na mesma occasiào foi aprezen- 
tado e approvado pelo Senhor Corregedor e mais Senhores Of- 
ficiaes da Camará e Cidadãos prezentes. E retirando-se depois 
para esta Casa da apozentadoria mandou o Senhor Corregedor 
lavrar este termo em que assignou o dito Senhor os Officiaes da 
Camará e mais Cidadãos. E eu Agostinho Lourenço da Silva 
Dória, Escrivam da Camará o escrevy e assigney com os ava- 
liadores. — Joaquim Teixeira Peixoto. — Joze Jacintho de Toledo. 
— Joze Innocencio Alves Alvim. — Rafael -Gomes Malta Carneiro. 
— Bernardo ÂnL ó Neve. — Joze António Peniche.— - António JBor- 
ges Diniz. — Francisco Carneiro dq SUva Braqa. — Ant.° Mor* 
Ramos. — Francisco da Silva Rego. — Euzebio da Cunha Paiva. — 
José Domingues. — O Focem. Agostinho Lour. da SUva Dória. 



- 162 - 
Documento n.° 82 

Aos nove dias do mez de Setembro de mil oito centos e 
trinta e trez nesta Villa de Iguape em cazas de moradas do 
Fiscal da Camará Bernardo António Neves onde eu Secretario 
da mesmo foi vindo, e sendo ahi comparecerão prezentes Manoel 
Ferreira da Silva, Anna dos Passos e seo genro Thomé de 
Lara. Por aquelle foi dito que tendo rematada em praça pu- 
blica a factura de hua morada de cazas, que por parte da 
Gamara foi mandado fazer, para dar em troca a Anna dos Pas- 
sos e seu genrro, achava a mesma caza concluída na forma da 
convenção que entre ellcs fez a Camará transacta, não restava 
mais nada senão entregar a elles, o que desde já o fazia por 
sua parte, dimitindo de si todo o jus, dominio, e senhorio que 
nella tinha. Neste acto o dita Anna dos Passos e seu genrro 
Thomé de Lara também dizerão em prezença das testamunhas 
abaixo asignados que sendo verdade terem feito tal convenção 
não punhão duvida em fazer entrega ao dito Manoel Fer. a da 
S.* por ser a dita troca de propriedade a propriedade e de 
suas muito livres vontades sem constrangimento de pessoa algúa 
e que porisso não poderião em tempo algum anular ou distra- 
tar a prezente troca, antes sim sempre o revalidarião no cazo 
de algúa duvida o que também farão os seus herdeiros prezen- 
tes e futuros; e pelo referido Manoel Ferr.* foi dito o mesmo 
Sor ser a referida troca feita de sua muito livre e ampla vcm- 
e e para este effeito ter feito a arrematação já dita. E de 
como assi". se concluio este arranjo, ficando cada hum de posse 
da caza que lhe pertencia conforme a troca, para constar 
mandou elle Fiscal lavrar este termo em que asignou com 
as testamunhas e arrogo de Anna dos Parsos asignou seo filho 
Joze Gonçalves Lopes, comigo Manoel Jaaquim Martins Secre- 
tario da Camará Muncipal o escrevi e aSigney — Bernardo Antó- 
nio Neves — A Rogo de minha Maim Anna dcs passos Joze Gon- 
salves Lopes— o erdeiro Thomé de Lara — Manoel Ferreira da Silva 
—Como testamunhas — José Furtado Roiz— Joaquim Joze de Quei- 
roz Azevedo-, Joze Domingues Barreiros— O Socretario Manoel 
Joaquim Martins. 

Documento n.° B3 

Termo de Vereança aos dezescis dias do mez do 

Jullio de 1828- 

Na mesma se leo huma Petição de trez Cidadãos a saber, 
do Jo/.e Jacintho de Toledo, João Vieira do Sá e Joze Boni- 



— 163 - 

ficio de Andrade requerendo que a Camará approvasse huma 
Subscripção voluntária de vários cidadãos desta Vi lia que 
offerecerão para huma projectada estrada qne se communique 
entre esta Villa e Freguezia de Xiririca pelas cabeceiras de 
Jacupiranga on por onde mais fácil for, authorisando ao Capi- 
tão António Borges Diniz para receber as quantias snbscriptas 
e manejar a mesma abertura em que se concorrem todas as 
qualidades ; avisto do que despacharão— o seguinte — A Cmara 
attendendo as preocupaçoens actua es do Capitão António Borges 
Diniz, e sendo publico a agilidade e caracterismo do Cidadão Joze 
Jacintho de Toledo, em quem concorrem os quizitos necesesarios 
e tendo em consideração ao bem publico com a progectada es- 
trada, autboriza ao sobredito Cidadão Toledo para promover to- 
dos os meios que estiverem ao seo alcance, afim de concluir 
huma obra tão útil. 

Documento n. 54 

Sessão do dia 10 de Dezembro de 1*29 

O Sr. Vereador Toledo fez a seguinte indicação : Que, por 
concepção da Camará tranzacta se abrio bua Subscripção volun- 
tária na qual varias pessoas se asignarão prometendo dar suas 
ofiertas para a abertura de bum Caminbo da Freguezia de Xiririca 
á esta por onde pudesse trazitar Gado, e animaes independentes de 
Balças pelo Rio da Ribeira e que tendo o encarregado da abertura 
do dito Caminho tranzitado com algum Gado tbe o Rio Sabauma 
pcrtendia continuar a sua marcha the esta Villa para o fim de 
vencer o pagamento ajustado a custa da dita contribuição volun- 
tária ; e porque do dito Rio Sabauma tbe esta Villa haviam muitos 
moradores pertencentes ao Bairro xamado — mar pequeno — com 
roças e plantas poderia acontecer que em pi d irem o tranzito de 
Gado, visto não ter havido ainda providencia algúa a Semelhante 
respeito : por isso que propunha com urgência as providencias que 
a Camará axasse justas, tantos para os ditos moradores não porem 
embaraço ao dito tranzito visto não haver ainda estrada gorai, como 
para o Gado e outros animaes não Cauzarem prejuizo as plantas e 
roças. Sendo aceita a dita indicação foi discutida e depois de 
varias reflexoens sobre ella resolveo a Camará que se recomendasse 
ao Fiscal para que por meio doB officiaes de quarterões e na falta 
destes pelos Cabos de Ordenanças d'aquelle districto fizesse havi- 
zar aos moradores para não embarasarem o tranzito do Gado, assim 
como advirtisse ao Condutor tivesse toda a Cautella com elle, para 
não cauzar prejuizo as plantas e roças de pessoa alguma, pena de 



- 164 - 

pagar o prejuízo que cauzasse por sua omissão isto emquanto se- 
não abrir hua Estrada Geral. 

Documento n, B6 

Em sessão de 14 de Julho de 1830 

senhor Prezidente declarou, que sendo encarregado pela 
Camará na reunião próxima passada ae convidar ao Tenente João 
Dias Baptista para explorar o Caminho desta Villa para a Fregue- 
sia de Xiririca informava que officiando ao dito, este respondeo 
pessoalmente que com muito gosto se incarregava do dito trabalho, 
mas que o nfto podia fazer ja, e que logo que pudesse daria conta 
do resultado. 

Documento n° 86 

Em sessão do dia 4 de Janeiro de 1 833 



Foi lido hum Officio da Camará Municipal da Villa de Ita- 
peva de dezenove de Julho do anno passado, convidando esta 
Camará accooperar com ella para o concerto do Caminho que com- 
munica aquella Villa com as Freguezias de Paranapanema e Xiri- 
rica. Resolveo a Camará que estando muito próximo o dia mar- 
cado para a nova Camará tomar posse, nfto podia dar providencias, 
nemhúa a este respeito, e porisso ficasse este Officio addiado para 
o Secretario aprezentar a nova Camará. 

Documento n. 87 

Em sessão do dia 18 de Julho de 1834 

Segunda, que, tendo esta mesma CommiBsfto feito todas as 
refiexoens que estão ao seu alcance tendente a espozis&o que faz o 
Cap. m Francisco Galvão de Barros França em seo Relatório, mos- 
trando a facilidade que ha de conseguir huma Estrada que se 
communique do Porto do Rio Ypiranga de Juquia com as Villas 
de Itapetininga, Paranapanema e Sorocaba, e como paro facturo 
pode ser de grande vantagem para esta Villa ; a Commiss&o he de 
parecer que se remette por Copia o mesmo Relatório ao Exmo 
Snr Prezidente da Província visto que esta Camará não tem Ren- 
das suficientes para poder por em pratica uma obra de alguma 
ponderação . 



— 165 — 
Documento n.° 58 

Em sessão extraordinária do dia 8 de Agosto de 1 834 

Declarou o Snr Presidente aberto a sessão, fazendo por es- 
cripto o Seguinte discurso; Senhor, vosso Patriotismo me ani- 
mou a convocar* vos para esta presente sessão extraordinária: In- 
grata me foi a deliberação desta lllustre Camará relativamente 
a falta de comparecimento meo nas Sessões ordinárias, e n&o 
obstante convencer-me de Vossas intenções a meo respeito to- 
davia o officio que me dirigistes contem expresoins que offen- 
dem a bum membro cujo caracter e patriotismo vos reconheceis, 
mas eu não vem anilisar os princípios em que elle se fundou e 
estou que não percizas de algúa justificação minha; o meo obje- 
cto prezentemente e o primeiro que deve merecer a attenção 
desta Camará, he aproveitar-me da opportunidade e não retardar 
nemhum istante, se isto he posBivel, todas aquellas providencias, 
que abrangerem nossas attríbuicoins para o fim de melhorar a 
sorte de nossos Concidadoins, de nosso Com provincianos, em fim, 
de nossa Pátria. Eu foi Senhores o movei para que o Cap m 
Francisco Galvão de Barros França se dirigisse a esta Camará, 
a honrra deste cidadão, os dezejos que como bom Brazileiro tem 
de ser proveitozo a Pátria, fiz com que se não poupasse a todos 
os esforços para dar cumprimento a sua palavra; de sua expo— 
ziçào alia» circunstanciada, evidentemente se conclue que a 
providencia vela sobre nossos destinos. A imornez em patriotis- 
mo nas Authoridades tranzactas, ou talvez dificuldades que jul- 
garão envenciveis privarão a nosso Paiz das regalias e vanta- 
gens de que gozão todas as Cidades e Villas cituadas nas Cos- 
tas do Brazil. Dos ofícios dirigidos existentes nesta Camará se 
observa quanto o nosso Governo Provincial se tem empenhado 
por facilitar a communicação desta Villa com as de Serra-acima, 
tudo tem sido extorvos, tudo obstáculos que se opõem ; ao meio 
desenvolvente do crescimento deste nas sen te Paiz. Confeço, senho- 
res, que das observaçoins que particularmente mandei fazer (e esta 
a minha custa) no Caminho que vai do Assumgui a Sorocaba 
não colhi fruto animante, e da incumbência feita por esta Ca- 
mará á Pruença todos sabem o resultado, o que combinado com 
as noticias dadas pelos Tropeiros, e mais viandantes de Apiahy 
e Paranapanema, a consequência tem sido esfriar, e afrouxar 
porem agora que o Céo nos proporciona tão vantajozos meios, 
cumpre Senhores nãe vasilarmos. A deliberação desta Camará 
tomada a tal respeito na Sessão próxima passada não me pa— 



— 166 — 

rece bastante enérgica para conseguirmos hum resultado feliz. 
O Governo Provincial he todo Brazileiro e o mesmo que tem 
em vistas este Objecto, aprovei temos-nos de sua protecção: Pro- 
ponho por tanto que se Officie ao Ex™ Sr Vice Presidente desta 
Província, remettendo-lhe por Copia o Officio do dito Cap m Gal- 
vão para em Conselho authorizar á esta Camará a fazer aquel- 
las despezas que percizas forem no d es t lançamento do Rio Ipi- 
ranga, furados e Estrada que ha de ir do Porto de embarque as 
lavras do referido Galvão, e para coadjuvar esta Camará não só 
com a quantia de seiscentos mil reis, ou com aquella que pos- 
sível for a vista da Lei do orsamcnto, visto o estado de defal- 
que do Cofre deste Município, mais para ordenar as Camarás 
das Villas de Sorocaba, Faxina e Itapitininga, e ao Juiz de 
Paz da Freguezia de Paranapanema para que se cumbinem e 
todos de commum accordo pelas rendas de seos Cofres, ou como 
melhor lhes convier mandem abrir a estrada do Campo as ditas 
Lavras: 2.° que so Officie as Camarás das ditas Villas e ao Juiz 
de Paz de Paranapanema remettendo-lhes igualmente por copia 
a cada húa a exposição do referido Galvão para estes como dis- 
se combinados mandarem fazer a dita Estrada do Campo as La- 
vras : 3.° que esta Camará incumba a hum de seos membros a 
descoberta de hum homem que seja apto e capas de observar o 
Rio Ipiranga e terreno que pertence a este Município do porto 
de embarque as ditas Lavras para calcular a vista das dimcul- 
dades e boas proporçoins a despeza que se fará, isto não porque 
deixe de julgar verdadeira a expozição do onrrado Cap. m Gal- 
vão, mais para evitar mais a nota de precipitada, e mesmo para 
se porventura o Governo Provincial não coadjuvar-nos com al- 
gúa quantia (o que não he de esperar) promover-se húa subscrição 
Voluntária. Estou persuadido Senhores, que o Ex mo Snr Vice 
Prezidente desta Província nada poupará, e nem demora provi- 
dencias de qual depende a fuctura prosperidade desta Villa, de 
Cananea, e das de Serra-acima. Sendo as ditas propoziçoins 
postas em discussão forão todas unanimamente approvadas, e de- 
liberou a Camará que no Sentido delias se Officiasse ao Ex mo 
Snr Vice Prezidente, as Camarás de Sorocaba, Faxina, Itapiti- 
ninga e ao Juiz de Paz de Juquia para prestar-se ao Observa- 
dor dirigido pela Camará, e entrando em duvida qual dos mem- 
bros se deverá incumbir dos trabalhos constantes ao artigo ter- 
ceiro das propoziçoins, o Senhor Prezidente pos a votos e a 
ploralidade absoluta delles sahio elleito o mesmo Prezidente, e 
o qual disse que com gosto acceitava a incumbência. 



— 167 — 
Documento n.° 59 

Em sessão do dia 20 de Setembro de 1 8ÍJ4 

Foi lido outro Officio do mesmo Ex mo Snr Vice Prezidente 
desta Província, em data de seis de Septembro participando ter 
o Conselho do Governo resolvido que da quantia decretada na 
Lei do Orçamento se fornecesse á esta Camará com a quantia 
de quatrocentos mil reis para á abertura da nova Estrada de 
Communicação desta Villa com as de Serra -acima; e bem assim 
a quantia de seiscentos mil reis para a continuação do Canal 
de communicação do Ribeirp com o mar desta Villa; ficou a 
Camará inteirada. 

Documento n.° 60 

Em sessão do dia 6 de Julho de 1841 

Foi lido bum officio do Fernando Joze Gomes Juiz de Paz 
do Districto de Juquia de dois de Junbo deste anno reprezen- 
sentando a necessidade da mudança da direcção da estrada que 
com muni ca esta Villa com Serra-acima por ver sua direcção 
sahir no Rio Ipiranga no lugar Ribeirão preto que não pode 
servir para o fueturo pelo escases e tranqueires do Rio e terre- 
no pantanozo o que não acontese sabindo ella na barra do Rio 
Assungui: ficou a Camará inteirada e deliberou que fosse o dito 
Officio enviado ao Exmo Prezidente da Província fazendo-se-lbe 
ver a urgente precizão da concluz&o desta obra pela vantagem 

ne prezente ao publico, e que isto se fizesse saber ao dito Juiz 

e Paz em resposta a seo Officio. 

Documento n.° 61 



j 



Ulmo Snr. Tendo a Camará desta Villa deliberado a fazer 
arrematar a factura da estrada que se projecta desta para essa 
Villa de Xiririca; e sendo conveniente que se dê publicidade 
ao Edictal a que junto, rogo a V S a se serva por bem do ser- 
viço publico manda-lo affixar nessa Villa. Deos Guarde a V S*. 
Iguape 16 de Outubro de 1845. Ulmo Snr Joaquim Gabriel da 
Silva Cardozo. Prezidente da Camará Municipal da Villa de 
Xiririca. Joze Innocencio Alves Alvim. Prezidente da Camará 
da Villa de Iguape. 



— 168 — 
Documento n.° 62 

Registro do Relatório das Necessidades do Município, 
que a Camará dirigia ao Exmo Snr Prezidente pa- 
ra ser prezente A Assemblea Provincial, com data 
de 24 de Dezembro de 1845. «Em parte». 

Estrada para Xiririca=0 transporte de Gado, Cavailos e 
Porcos em balças pelo Ribeira desde Xiririca ate Iguape, he 
não só despendiozo mas sujeito a muitas iventualidades e peri- 
gos: alem disto os conductores encontrados em Xiririca, falta 
de Canoas e de remeiros para as balças o que de ordinário os 
obriga a vender ate por preço baixo aquelles animaes que com 
tanto trabalho tem trazido de Serra-acima com a esperança de 
os reputarem em Iguape. Huma Estrada pois de Xiririca para 
cá he de mui grande necessidade, não só para os habitantes 
desta Yilla como para os Povos de Serra-acima. Sem esta es- 
trada, continuação e complemento da do Paranapanema, nào se 
conseguirão os fins que a Assemblea teve em vistas quando com 
tão grande dispêndio decretou a abertura desta ultima. Foi cer- 
tamente convencido deste que a Assemblea na Lei do Orça- 
mento Provincial de 1844 a 1845 decretou 4:000$000 reis para 
a estrada de Xiririca a Iguape. O Governo em Junho deste 
anno deo ordem para que as ferias dos trabalhos da abertura 
desta estrada fossem pagas pela Meza de Rendas desta Villa; 
mas ultimamente huma ordem do Inspector da Thesouraria fiz 
sustar os pagamentos. Ignorão-se os motivos que tive o Gover- 
no para isso, fossem porem quaes fossem a Camará de Iguape 
confio em que a Assemblea Provincial mandará realizar a con- 
signação decretada para esta obra. 

Documente n.° 63 

Registro do Relatório das necessidades do Município 
remettido ao Exmo Snr Prezidente da Província 
em 27 de Dezembro de 1846. «Em parte». 

Tem soffrido e inda softre este Povo a necessidade da aber- 
tura da estrada de Xiririca, para livre tranzito de Gados, Ca- 
vailos e Porcos, visto que o transporte em balças pela Ribeira 
hé não só dispendiozo como sujeito a muitas eventualidades de 
perigos mas tem esta Camará esperança de em breve ver san- 
nado este sonrimento porque se está dando andamento a aber- 



i 



- 169 — 

tuxa da dita estrada para a qual foi conseguido a quantia de 
4:OOO$00O reis na Lei do Orçamento Provincial de 1844 a 1845 
cuja quantia ja pelo Ex mo Snr Prezidente foi mandada por a 
disposição desta Camará. 

Documento n.° 64 

Sendo necessário proceder-se a hum exame na parte da es- 
trada de Xiririca que de corre desde as terras de VS a " ate o 
rio Jacupiranga a fim de se verificar se a arrematante da dieta 
estrada comprio ou não as condições do contracto, a Camará 
Municipal desta Villa julgando que ninguém melhor do que V 
S* se acha em circunstancias de proceder a esse exame, resol- 
veo comvidar a VS* para se encarregue desse trabalho e certo 
de seu Patriotismo e zello pelo bem do seu Paiz comfia que V 
S* se n&o recusará a prestar este serviço Publico informando 
depois a Camará do resultado, para o que se lhe remette 
huma Copia das Condições do Contracto afim de que VS* possa Co- 
nhecer se ellas foráo ou não cumpridas exactamente. Deos Guar- 
de a VS*. Iguape 22 de Julho de 1847. Joze Innocencio Al- 
ves Alvim — Prezidente da Camará. 

cEste officio foi dirigido aos Senhores Tenente João Dias 
Baptista e Thomé da Costa». 

Documento n.° 6B 

Iilmo e Exmo Snr. A Camará Municipal da Villa de Iguape 
recebeo a circular de 9 do corrente, pela qual VEx* exige in- 
formações sobre o estado das estradas que passão por este Muni- 
cípio e despeza necessária para seu conveniente melhoramento no 
anno financeiro próximo futuro, e declara a VEx* que quanto cou- 
ber nas quantias que restão para semelhante fim, mandará o 
Governo proceder immediatamente nos reparos reclamados pela 
necessidade publica, e que quanto ao que exceder a autorização 
da Lei vigente do Orçamento, dará conta á Assemblea Legisla- 
tiva Provincial para que esta o habilite como julgar conveniente 
etc. — A Camará Municipal informa: 1.° que neste Município não 
há estrada, que tenha renda própria : 2 . ° que alem da estrada 
geral da Marinha só há neste Município a nova estrada para a 
Villa de Xiririca, que foi mandada abrir á custa do Cofre Pro- 
vincial. Esta estrada com quanto por ella tenhão passado e che- 
gado a esta Villa alguns Cargueiros com mantimentos e algumas 



— 170 — 

Boiadas e porcadas, não se acha ultimada: porque a quota de 
4:000$000 para ella destinada no Orçamento de 1846 a 1847 
apenas chegou para abertura de quatro léguas e meia mais on 
menos no districto de Xiririca e de 10 léguas neste de Iguape 
mais ou menos, faltando ainda abrir couza de duas léguas : oc- 
correndo que inadvirtencia o Administrador da Obra dispendeo 
de mais 38JG00 reis. O franzi to por estas duas léguas hé feito 
com muita difficuldade e trabalho par hum estreita picada, e dentro 
desta distancia se acha o rio Sabauma, bastantemente largo, onde 
hé de mais urgente necessidade construir-se huma ponte, e nas 
suas immediaçõas tornão-se indispensáveis aterros de hum e de outro 
lado por ser o terreno muito atoladiço e coberto de mangues. 
Também preciza-se de huma ponte no rio Turvo districto de 
Xiririca. Orça-se a despeza necessária para tornar a estrada no 
todo transitavel sem maior trabalho em 2:000$000 reis a saber 
1:500£000 reis para pontes e 500$000 reis para abertura das duas 
léguas de picada e aterros. A abertura da estrada de que se 
trata desta Villa para a de Xiririca foi decretada pela Assemblea 
Legislativa Provincial, não só em attenção a utilidade de que 
delia resulta ao commercio de ambas as Villas, como porque forma 
a continuação da estrada de Paraná panem a para a Xiririca faci- 
litai! -se assim o commercio directo sempre por terra das Villas 
de Serra-acima com esta Vilia de Iguape. O facto de já haverem 
chegado a esta Villa boiadas e porcadas não obstante a falta de 
duas léguas de estrada, prova o apreço que da nova estrada 
fazem os Povos na Serra-acima e quanto lhes convém conduzirem 
seus effeitos e gados por terra para evitarem as grandes despezas 
e perigos pela Ribeira e Canoas e balças. Occorre também que 
apenas aberto, ha poucos mezes, o grande certão entre o mar 
pequeno e o rio Jacupiranga formarão-se logo alguns estabele- 
cimentos nelle á beira da nova estrada. A Camará M une i pai 
espera que VEx/ se 9ervirá propor a Assemblea Provincial a 
decretação de mais 2:000$000 reis para a conclusão de tão útil 
estrada; se isto se não conseguir perdida será a quantia de 
4:000$000 reis que se despendeo na abeitura, o que será lamen- 
tável em todos es sentidos. Quanto a estrada geral da Marinha 
a Camará Municipal trata delia nesta mesma data cm officio a 
parte á VEx.* visto que no orçamento vigente ha huma quota 
apnlicada para ella. Deos guarde a VEx.*. Iguape em Sessão 
ordinária de 22 de Novembro de 1847 . I1F° Ex mo Snr Brigadeiro 
Bernardo Joze Pinto Gavião Peixoto. Vice Prezidente desta Pro- 
víncia. Joze Innocencio Alves Alvim. Joze Jacintho de Toledo. 
Joze António da Silva. Manoel Autonio de Camargo. António 
Joze Pinto. 



I 

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I 



— 171 — 

Documento n,° 66 

Ulmo Snr. A Camará Municipal desta Villa de Iguape re- 
me t te a VS\ por copia aqui juncta a e Portaria que recebeo do 
Ex mo Governo da Província, na qual ordena que esta Camará dê 
huma informação circumstan ciada á cerca da abertura de huma 
nova estrada que vários habitantes dos rios São Lorenço e Itha- 
riri reprezentarào á Assemblea Legislativa Provincial, e pedirão 
igualmente as fundas necessárias para a abertura da dita estra- 
da, e não achando-se esta Camará habilitada para dar huma se- 
gura informação resolveo buscal-a por intermédio de VS*, para 
que convidando a trez cidadãos intelligentes d'aquelles lugares 
procede a hum exame sobre a utilidade d'aquella nova estrada, 
fazendo proceder a hum orçamento das fundas necessárias para 
sua abertura, que será de largura suficiente que possa desemba- 
raçadamente transitar hum animal carregado, ou hum Cavai 1 eiró, 
cuja informação e orçamento deverá ser em separado afim de ser 
prezente ao Governo conforme hé exigido. A Camará espera do 
Patriotismo de VS*, que com gosto e satisfacção se prestará, 
como sempre se tem prestado, a este serviço publico a bem do 
Município e dos habitantes daquelles rios. Deos Guarde a VS* 
— Paço da Camará Municipal de Iguape. 21 de Agosto de 1848. 
Ulmo Snr Fernando Joze Gomes da Silva. Sub-Delegado da 
Policia em Juquia. Joaquim de Souza Castro. Presidente da 
Camará. 

Documento n.° 67 

Ulmo e Exmo Snr. A Camará Municipal da Villa de Iguape 
tendo em vista o augmento do commercio e bem estar de seo 
Município resolveo em Sessão de 11 do corrente implorai a V. 
Excia se digne conceder a quantia de 200$000 para a explora- 
ção de húa Estrada do Rio Juquia a sahir defronte esta Villa. 
Exmo Snr. qnando qualquer Município existe em appatia por 
falta de Commercio ou pela difficuldade delie, por falta' de tran- 
sação para as Villas do centro, de certo devia contar com sua 
decadência : visto que não pode haver engradecimento aonde 
f ai tão recursos com que possa aquebrantar a paralisação em 
que está. O commercio central, as Estradas gera es para todas 
as Villas e Cidades Marítimas são que fazem o engradecimento 
destas e toda a Cidade o a Villa no Brasil, que podendo ter 
Commercio directo com as Villas vizinhas do centro, não tem a 
sua decadência hé certa como se ve na antiga Capitania de Ita- 
nhãe, e São Vicente outr'ora emriquecida pelo Commercio Mari- 



— • 172 — 

timo. A Villa de Iguape talvez para o futuro encontra-se na 
mesma posição que ora jazem aquellas Villas se não obstar o 
mal que para o futuro lhe ameassa. Ex m ° Snr. não ignorado hé 
por V Excia a affluencia do Povo no Rio Juquiá deste Municí- 
pio ao depois que se principiou a abrir a estrada de Itapitininga 
ao dito lugar, tanto de pessoas pobres como abastadas ; mas de 
que serve Ex me Snr. se lá existem e de lá o seu Commercio hé 
para as Villas de serra-acima porque a immensa difficuldade que 
encontrão a vir commerciar a esta Villa pela longe viagem de 8 
dias que gastão pelo rio, pois antes querem sacrificar-se a voltar 
que descerem. Esta Camará acaba de ser informada d ? um melho 
ramento que hé conseguir húa estrada do dito Rio Jaquia donde 
se finalisa a estrada de Itapitininga a sahir no Sitio de Belxor 
Francisco Gulart bem defrente ao desembarque da Ribeira desta 
Villa ; melhoramento esto que evita pelo menos 7 dias de viagem 
em Canoa, viagem emcommodadora, não só das que estão a ella 
acustumadas como mais emcommodadora dos que vem de serra- 
acima, e querendo mandar explorar os locaes por onde deve 
passar a estrada preciza a quantia de 200$000 reis visto não ha- 
vei quem se encarregue gratuitamente da dita exploração e hé 
de cré que o cofre Provincial não ficara exaurado pela dita falta 
quando servirá de grande utilidade para a Provincia cazo se con- 
seguir a Estrada pelo augmento de rendimento que para o fu- 
turo pode ter e fiado no Patriotismo de V Excia espera que 
V Excia não se negará a huma couza tão justo e proveitozo, 
concedindo a quantia pedida. Deos Guarde a V Ex c,& Paço da 
Camará Municipal da Villa de Iguape 12 de Janeiro de 1849. 
Iir° e Ex m ° Snr . Doutor Vicente Pires da Motta . Dig mo Prezi- 
dente desta Provincia. Joze Xavier de Almeida e Cruz. João 
Maneio da Silva Franco. Joze Bonifácio de Andrade. David An- 
tónio da Silva Carneiro João Manoel Junqueira Netto. Filadelfo 
de Souza Castro. 

Documento n.° 68 

Ulmo Snrs Estando eu a mais de vinte annos morando neste 
Rio de Peroupava por coazi todo («He tenho explorado seus lo- 
caes, e conservando com oa Snrs João Manoel Junqueira Neto e 
Scipião Ferreira Gulart Junqueira lhes fiz ver que do Rio Ju- 
quiá podia se deitar hum caminho a sahir em frente a La- 
goa da Cidade, e por felicidade nosso foi eleito essa Camará 
do que também he membro o honrado Snr. Neto, então de 
novo lhe fiz que atriviame a por a picada, por quanto a 
nem hum melhor do que a mim, pela pratica que tenho, per- 
tencia a exploração, o Senr Neto me disse que era melhor 



— 173 — 

pedir dinheiro para a exploração, que para a estrada, que a 
exploração fazer por duzentos mil réis, e consta que o Senr 
Nete pedira essa quantia, e o mesmo Senr me disse que essa 
Ulustre Camará pedira o mencionado dinheiro, e que o Ex™ 
Prezidente da Província annuira ser explorada antes, concedindo 
o dinheiro para mim fazer a exploração. Dias se passarão e 

Sue vem me estorvar o grande temporal que ennundou parte, 
essa Cidade e todos os seos distríctos, esse temporal preterio- 
me na minha viagem, tendo para isto já fallado com hum timo- 
neiro para meo ajudante. Quando tenciono na empreza, depois 
de enxutas as matas, eis que chega ao meo conhecimento que 
hum empregado publico deste bairro participara ao Digno Pre- 
zidente dessa Camará, que o Caminho por este rio não prestava, 
e que pelo rio de Una hera melhor! mostrando por essa guiza 

2ue hé hum protector do bem publico. Direi a tal prepozição 
Ilustríssimos Senr" que esse empregado não olhou para a uti- 
lidade publica, e sim somente para o seu espirito de vingança, 
espirito isso desprezível, e desprezado por todos os homens que 
prezão a honra, e por VS.* 1 que sóalmejão o engrandecimento 
moral e material de nosso paiz. O fim desse empregado he so- 
mente de por meios ignóbeis, me desacreditar, para que pre- 
gnntarei a esse Senr. se já examinou o terreno em que mora? 
A estrada pelo rio de Una já foi explorada e consta me nunca 
terá êxito porque terá de passar por escabrozas serras, dispois 
por pãns de mais de quarto de légua como do rio preto, e final- 
mente terá grande custa por ter de a t travessar muitos rios e 
dispois de grande viagem de Canoas pela Ribeira como todos 
sabem que custa as vezes passar quando o vento agita as aguas, 
e isto para as de serra acima será tirrivel obstáculo. Por este 
rio nada disso haverá, porque attravessando a serra por lugares 
facilicimos, dispois de pequena distancia passará pelas portas dos 
habitantes deste rio que morão pelo lado da Ribeira per terra 
alta té o sitio de Braz Rodrigues de Aguiar quazi em frente a 
barra das Areias, dahi deixando o rio cortará para a Caiobá 
attravessando o pântano do Capivary único e pequeno, desse 
monte irá a fazenda do Snr Neto que já tem caminho para 
animaes tranzitar dessa a do Snr. Francisco Ferreira Gulart 
terá fácil passagem porque as terras são altas e quazi todas cul- 
tivadas para mandioca; tendo mais a advertir a VS*" que do 
ultimo morador já ha caminho por terra, lugar por onde a de 
ser estrada até quazi a barra do Guaviruva, e do meo sitio 
pouco abaixo deste lugar já tranzito também por terra ate a 
fazenda do Snr Neto por onde eu e o Snr Scipião e mais al- 
guns vizinhos himos a Cidade, acressendo mais que o dinheiro 



— 174 — 

pedido por indicação do Snr Neto que foi appoiada, hó segundo 
penço, para a exploração por este rio e não por outra parte. 
Por querer o emgrandecimento de minha pátria, quando commi- 
go se tratou a exploração obrigueime a mais que pudio : fico 
esperando nova resolução de VS". Deos Guarde a VS"\ Pe- 
roupava 20 de Junho de 1849. Ill moi Senr° B Prezidente e mais 
Membros da Camará Municipal desta Cidade. João Alves 
Adorno. 

Documento n.° 69 

Registro do Relatório das Necessidades do Municí- 
pio remettido ao Governo cm 17 do Fevereiro 
de 1 853. «Em parte». 

Estrada de Xiririca. Esta obra que tanto por ella se tem 
esforçado as Camarás tranzactas, acLa-se hoje intranzitavel, já 
pelo crescimento de mattos, já pos falta de pontes, e finalmente 
por falta de novos atalhos que a possao desviar grandes lagos e 
pântanos que só com algum dispêndio poderá melhorar, a Ca- 
mará calcula que mediante a quota de 1:500$000 pode supprir 
o maior mal: hé desta estrada que a Camará espera ver ferti- 
lizar-se os habitantes desta Cidade : poio hé ella que onerece 
húna vantagem e commodidade aos tropeiros do interior que 
para esta Cidade esportão suas mercadorias. Os transportes de 
Gados, Cavallos e Porcos em balças pela Ribeira desde Xiririca 
té Iguape hé não só dispendioza mais sujeito a muitas even- 
tualidades de perigos, alem disso es conduetores encontrão em 
Xiririca falta de Canoas e de Remeiros para balças e que de 
ordinário os obriga a vender ah por preço, baixo aquelles ani- 
maes que com tanto trabalho tem trazido de Serra Cima com 
a esperança de os reputarem bem em Iguape . Htuna estrada 

Sois de Xiririca para esta Cidade lie de mui grande nessicida- 
e ; não só para os habitantes desta Cidade como para os Povos 
de Serra Cima. Sem a continuação desta estrada e inteiro cum- 
plimento da de Pnranapanema não conseguirão as treis que a 
Assembléa tive em vistas, quando com tão grande dispêndio decre- 
tou a abertura desta ultima. Foi certamente convencido disto 
que a Ássembléa na Lei do Orçamento Provincial de 1844 a 1845 
decretou quantia para a estrada de Xiririca a Iguape. A Camará 
Municipal confio pois que a Assemblea decretará huma nova quan- 
tia para os reparos acimo ditos pontes e atalhos. Estrada de Ju- 
quiá a Itapitininga e Sorocaba. Esta tão necessária obra não só 
para beneficio de Iguape como tãobem dos Povos do interior da 
Província, e tem estado e continua a estar em simples picada pelo 



— 175 — 

que tenhão os Povos sofrido privações em suas commodidades, a 
falta que teve esta Cidade de boas vias de communicaçao com as 
Povoaçoens do interior da Província, tem tornado decadente em 
parte seu comraercio, se as estradas que das Povoaçoens centrais 
passão pelo Juquiá e continuasem francas té um ponto mais pró- 
ximo a esta Cidade, nao só Iguape apresentaria bum floreante com- 
mercio, como taobem os habitantes do interior tenhão exprimenta- 
do vantagem no apuro de suas mercadorias. Espera pois a Ca- 
mará que a Àssembléa olhará para esta nessicidade com a maior 
attençao, decretando na próxima Lei do Orçamento um quantita- 
tivo suficiente com que se poça remediar tao sentida falta desta 
estrada. 

Documento n.° 70 

Registro do Ofíicio dirigido ao Exmo. Presidente re- 
medindo o orçamento da estrada do Rio Pequeno 
ao Juquiá . 

Ulmo e Exmo Snr. Á Camará Municipal da Cidade de Igua- 
pe, confirmando seos officios a VEx cla dirigidos em datas de 17 de 
Oatubro do anno próximo passado e 14 de Jaueiro do corrente, 
informando sobre a estrada de Juquiá ao Rio Pequeno e pe- 
dindo a quantia de 1:500$000 que na Lei do Orçamento foi 
conseguida para ri mesma ; tem a crescentar em virtude da exi- 
gência de VE cla a constante do orçamento junto, e declarar, que 
não bé esta huma estrada nova, mais sim, picada aberta e ex- 
plorada por onde com difficuldade tem descido algum Gado, cu- 
jos reparos trata o referido orçamento. Deos Guarde a VEx cia . 
Paço da Camará Municipal do Iguape. 4 de Abril de 1854. 
Hl mo e Ex m ° Snr D* r Josino do Nascimento Silva. Luiz Alva- 
res da Silva. — João Manoel Junqueira Neto, — Scipião Ferreira 
Goulart Junqueira. — António Vaz Ferreira. — Joaquim de Souza 
Castro» — João Baptista da Silva Carneiro. — Joaquim Carneiro da 
Silva Broga. — António Francisco de Athaide Peniche. 

Orçamento da despeza provável com os reparos na 
estrada do Rio Pequeno ao Juquiá. 

Para rossadas, aterras, e pontes desde a Ribeira té 

o Rio Pequeno-extenàào 3 léguas .... 600J000 

Para pontes e rossadas desde o Rio Pequeno té o Rio 

Preto affluente do Peroupava— extensão 4 léguas 500$000 

Para rossadas e aterro de pântanos desde o Rio 

Preto té o Juquiá — extensão 3 léguas. . . 508*000 

1:608$000 



— 176 - 
Documento n.° 71 

HP° e Ex m * Sr. A Camará Municipal da Cidade de Iguape 
em cumprimento a Portaria de VEx d » datada de 6 do actuai, tem 
a honra de levar a prezencia de VEx d * o orçamento da despeza 
provável com os necessários concertos da estrada desta Ciaade 
a Villa de Xiririca, e a Camará espera que VEx^* se dignará 
attender esta tão reclamada necessidade publica, ordenando a 
entrega da quantia necessária para incontinente serem feitos os 
precizos reparos. Deos guarde a VEx da Paço da Camará Mu- 
nicipal de Iguape 28 de Março de 1854. IH mo e Ex mo Snr D #r 
Josino do Nascimento Silva. Dig mo Prezidente desta Província. 
Luiz Alvares da Silva — Scipião Ferreira Goulart Junqueira — 
João Manoel Junqueira Netto — António Vaz Ferreira — João Ba- 
ptista da Silva Carneiro — Joaquim Carneiro da Silva Braga. 

Orçamento com as despezas provável dos necessários reparos 
com a estrada desta cidade para a Villa de Xiririca. 

Com rossadas e destroncamento de madeiras desde o 
Rocio deste Cidade té o Rio Jacupiranga — ex- 
tensão de 9 léguas 75O$0OO 

Com atterra nas várzeas dos Rios Subauma e Seri- 
guaia e Canho em extensão de 3 quartos de 
légua 500(000 

Com a factura de sete pontes, a saber huma no Rio 
Sorocaba contendo 150 palmos e outras nos Rios 
Subauma, Seriguaia e Canho e seus adjacentes 440J0OO 



1:690$000 



Documento n.° 72 



Ulmos Senr\ As estradas são umas necessidades vitais dos 
povos. Quando um povo laborioso e todo entregue a agricultura 
não pode por falta de viação dar um impulso á sua lavoura elle 
ja mais poderá attingir aquelle gráo de perfeição e desenvolvi- 
mento precizo ao bem estar dos povos. O estado quasi que na- 
tural em que se achão os Municípios de Iguape, Cananea e Xi- 
ririca a respeito de communicação é tal que seus habitantes, 
podendo viver na abstança vivem sem poder satisfazer as mais 
palpitantes necessidades ! E' sem exageração o Município de 
Iguape um município rico e dotado pela natureza de tantas pre- 
ciosidades que o seu desenvolvimento será uma Riqueza para o 
o Brazil. A immensa Ribeira de Iguape que banha esta Cidade 



- 177 - 

e a importante Villa de Xiririca, os seus magestosos afluentes 
Juqiiiá, Pariquera, Peroupava, Pariquera-su, Una, etc, essa rede 
de Rios importantes que cobrem o seu solo e a riqueza de suas 
matas recomendão este Município a proteção d'aquelies que con- 
tribuindo por o meio da sua illustração e patriotismo procurão 
elevar ao nosso Paiz a sua verdadeira posição. Os sofrimentos 
dos habitantes deste Municipio por lhes faltarem os meios pre- 
cizos para sua felicidade no qual deve o corpo legislativo pro- 
vincial ajudal-os, as suas queixas continuas contra aquelles que 
os podem soccorrer e que pelo contrario os olhão, não como 
pertencentes a communhão Paulistano, mas sim como entiados, 
tem feito nascer neste povo o dezejo de encorporar-se a Provín- 
cia de Paraná. E' nestas circumstancias assas dolorosas e muito 
reaes que a Camará Municipal da Cidade de Iguape, promove 
por mais esta vez e somente, a vossa proteção para o emfeliz 
Municipio de Iguape, que vive somente de seus fracos recursos, 
notáveis eleitos por este povo uzarmos de seus interesses, não 
podemos nos furtar a este dever sagrado, por isso indagando 
quaes os obstáculos que são preciso remover-se afim de tornar a 
vida de seus habitantes menos necessitada e menos dura aponta se 
e como de maior e de mais urgente necessidade os seguintes : 
A picada que liga esta Povoação a de Xiririca, é de grande 
importância- que se torna quanto antes uma estrada útil, já por 
contribuir para absticemento destas duas povoações, já para se 
povoar este grande espaço que fica entre as citadas povoações, 
e já porque estando-se medindo um território para os colonos, 
neste espaço, faz se necessário que se empregue os meios preci- 
sos para aue este território seja hum nuclo de colonos úteis a 
esta Cidade e Villa de Xiririca. 8o as vias de communicação 
indispensáveis e a colonisação poderá concorrer para felicitar 
estes povos, que, misturados com os colonos, conhecerão os meios 
de desemvolver a sua agricultura e a bem entendida ambição 
são preciso ao homem. Depois desta estrada segue-se a que vai 
de Xiririca a Paranapanema, que, pondo em communicação esta 
Cidade e Villa de Xiririca, com as povoações de Serra-assima 
nos trará géneros, que se requerem á necessidade da vida, con- 
correndo para um desemvolvimento incalculável, ao commercio 
e agricultura. À communicação de Xiririca com Paranapanema 
já existe, porem sendo uma picada quasi que se acha abando- 
nada. Fallemos agora Senr" Representantes da Província de 
uma outra muito e muito preciso a esta Cidade, é a que deve 
ir d 'aqui a Sorocaba; muito preciso e importante por ligar estes 
dons pontos, que trocando os seus géneros se desem volverá o 
seu commercio e agricultura ; e sobre todo pela facilidade do 



— 178 — 

transporte de sal para aquelle Município. O proviniamento de 
seus habitantes por esta estrada do um verdadeiro fanatismo, 
porem até louvável, pelas vantagens que apresentarão. A gra- 
tidão delles os levará a perpetuar a lembrança d'aquelles que 
soubessem fazer desaparecer as dificuldades que os inimigos do 
progresso, e aquelle s que calculadamente estorvão o maior be- 
neficio que lhes podiam fazer. He mister dar-se principio aos 
melhoramentos precisos na Ribeira de Iguape afim de que dêr 
livre navegação de Vapores e Hiatos, pois que, lançando-se nesta 
Ribeira importantes afíluentes— Jacupiranga o Juquihá, navegá- 
veis em parte até por vapores, principalmente o ultimo contri- 
buirá o rápido desemvolvimento destas regiões tão favorecidas 
pela natureza. A necessidade que á de sondar a barra de Ica- 
para por longos annos esquecida, e balisala convenientemente 
e bem assim a collocaçao de uma atalaia e uma praticagem afim 
de que os navios tenhao conhecimento dos bancos principaes e 
suas mudanças e de numero de palmos d'agua, são tão precisos 
estes melhoramentos que nada mais diremos sinão apontal-os. 
Esperamos Senhores Representantes da Província que obdecereis 
benignos nossas supplicas até aqui despresadas, e que nos rele- 
vareis alguma falta que por ventura houvessimos coiLmetido 
nesta representação ; assim esperamos muito principalmente, se 
at tenderdes que a grande vantagem que resultara e resulte a 
este Município, com a estrada que a communica com o Municí- 
pio de Itapitininga e para a qual a dous annos consecutivos tendes 
consignado quota em vossa Lei de orçamento tem não sei por- 
que fatalidade sido despresado não tendo se empregado essas 
quotas em uma estrada que tantas vantagens offerece, aos seus 
importantes Municípios. Deos guarde a VVSS. Iguape em 
Sessão da Camará Municipal aos 7 de Fevereiro de 1857 — Luiz 
Alvares da Silva, Prez id ente — Joze António Pupo — Rafael Gomes 
Malta Carneiro — Joaquim José de Queirós Azevedo — Manoel Fer- 
reira da Silva — José Bonifácio de Andrade — Scipião Ferreira 
Goulart Junqueira. 

Documento n.° 73 

Ill mo e Ex mo Snr. A Camará Municipal desta Cidade, bem 
compenetrada das principaes necessidades materiaes do seu Muni- 
cípio pede permissão para com todo respeito, entregar uma d'ellas 
sob a valiosa protecção de VEx\ He da projectada estrada que 
deste logar váe ter a cidade de Sorocaba, que ella tem de pencionar 
a attenção de VEx\ como geralmente se reconhece : é das vias de 



- Í79 — 

communicabilidade, e de boas estradas que nasce a facilidade 
das relações e commercio entre os povos, e, conseguin temente, 
dos lugares em geral, e de cada um particular. Infelizmente 
e nào se sabe porque este Município está privado de tão 
vantajoza garantia, não tendo até esta data estrada alguma 
para se relacionar com os povos de Serra acima. Apenas 
conta uma fluvial com a qual entretém relações com o Mu- 
nicípio de Xiririca. Sem medo de contradicção, assegura a 
Camará que este Município apenas, para sua tento do seo 
commercio e lavoura, dispõem de seos próprios recursos. He 
pois de toda intenção, que o Governo a quem incumbe pro- 
videnciar ao melhoramento das povoações, olhe com attenção 
para este Município promovendo a abertura dessa estrada. 
Sua existência dará á esta localidade, á outras, e k Provín- 
cia inteira grande utilidade. He isto geralmente reconhecido 
e por vezes a Camará se tem empenhado ; nada tem por 
ora conseguido, porque como sempre este Município não é 
dos mais felizes, na partilha dol dinheiros públicos. Esta 
Camará por tanto, como órgão dos interesses de seus Muní- 
cipes, supplica em abono desta sua precisão, a protecção e 
benevolência de VEx*, e espera que dos cem contos de reis 
decretados pela Assembléa geral para as estradas d'esta Pro- 
víncia, e com mais alguma quantia consignada na futura 
sessão da Assembléa Provincial, se dê a quantia precisa para 
com a que já foi consignada ter lugar a factura e conclusão 
da referida estrada. Deos guarde a VEx\ Paço da Camará 
Municipal de Iguape, em 3 de Dezembro de 1857. Ill mo e 
Ex* 10 Ónr. Presidente da Província de São Paulo. — Luiz Al- 
vares da Silva. — Rafael Gomes Malta Carneiro. — Manoel Ho- 
mem Pamplona. — José Bonifácio de Andrade. — Rafael Dias 
dos Reis. — Zeferino José do Prado. — José Alves da Costa Paiva. 
— António Ferreira Goulart Amador Junqueira* 

Documento n.° 74 

Registro de um officio dirigido aos Ex m ° N Membros 

da Assembléa Legislativa Provincial 

em 18 de Fevereiro' de 1863 — (EM PARTE) 

Trez são as estradas de nominal existência n'este Municí- 
pio, a saber : 1.* a que ligando esta cidade com o bairro do 
Jacupiranga, bifurca-se para Cananéa e Xiririca, segue deste 
ultimo ponto á Paranapanema, São João Baptista e Faxina. 2. a a 
que desta Cidade dírigi-se á Juquiá e dabi busca os campos de 



- 180 — 

Itapetininga. 3.* a chamada da Marinha que accompanhando o 
litoral vai á Santos pelo Itanhaem. Qualquer destas estradas 
acha-se em estado tão lastimável que sem inperbole se pode afir- 
mar não poder entrar em competência com um simples picadao; a 
I a e 2 a jamais tiverào beneficio algum ; abertas as veredas a fouce 
e machado, assim ficarão até hoje, a forca da vegetação já ahi moB 
trou seus eneitos de modo que já ellas não são viajáveis por viajo- 
res a pé os mais traquejados. Si, Ex moB Snr 68 , ellas tivessem sido 
tiradas por direcções menos ingratas, se, desde suas primeiras ex- 
plorações, por assim dizer, si tivesse attendido ao fucturo que esta 
Camará d'ellas esperava ; si igualmente se tivesse em consideração 
a regra de economia e durabilidade, já desviando os altos eólios 
das montanhas que dobrão, e paus queatrançào, e já beneficiando-a 
com pontilhões e aterros, ex gotos ou sargetos. Se o influxo muni- 
cipal se tivesse feito suster a respeito a Commarca de Iguape e os 
municípios que a circundào terião conferido vantagens de fundo e 
de vulto dessas Bommas, que ahi se tem consumida em pura perda. 
Para que porem possa um dia assim sueceder precizava-se de uma 
gestão franca, prudente e desinteressada, que melhor auxiliasse as 
vistas administrativas dos poderes Provinciaes e preferisse a grati- 
dão da população ao interesse individual; pois é certo, Ex m08 Snr 6 * 
que até o presente aquellas estradas testa mu d hão a falta de um 
administrador nas circumstancias preditas, e é porisso, que á nada 
se ellas prestando, tem esta Commarca vivido de suas próprias 
forças como que sequestrado do resto da Província, rezultando 
d' isto o enfraquecimento de sua seiva. Não são queixosas as 
palavras desta Camará muito menos aceuzaçoes contra quem quer 
que seja. São simplesmente a expressa da verdade que ella jul- 
ga de seu dever expor franca, embora dolorosamente, afim de que, 
hoje a testa da Administração da Província se acha um Paulista 
patriota e illustrado, possão VVEx clM prover-se a estes males que 
são de longe data. Se esta Camará tivesse de admittir voto so- 
bre qualquer das linhas a que se deve dar preferencia na dotação 
da quota para sua confecção, ella não hesitaria um só momento 
em pronunciar-se pela primeira, por quanto ella é a que, abrindo 
suas pontas de serra acima as pontes desta Cidade e de Cananea 
apresentando a estas duas povoações e de Xiririca mercados novos ; 
e por tanto novos importadores e exportadores, offerecer-lhes-há 
igualmente uma prospectiva de lizongeiras e certamente realisa- 
veis esperanças. O rio de Jacupiranga e seus numerosos tributá- 
rios, banhão uma areia grandemente fértil, povoada por perto de 
5000 habitantes em sua quasi totalidade livres. Já em Segunda 
discussão nessa Ássemblea na Sessão de 1858 passou um projecto 
offerecido pelo Ex mo Conselheiro Ribas quanto ali uma fregue- 



- 181 - 

zia, a qual sem duvida florecia porisso que o local possuo a ne- 
cessária capacidade e assim preparando-se a estrada em questão, 
muito daria de si; d'ahi há excellentes veredas para Tananea e 
Iporanga, que servirão de ramal, porquanto em fins de 1861 o 
Cidadão Alexandre Pedro No lasco, residente em Cananea, tirou 
d'essa Villa uma picada até Iporanga, a qual tocou no ponto 
marcado, pôr sede da projectada freguezia. De Xirírica a an- 
tiga estrada de Paranapanema que passa pelo Capão bonito vai 
a São João Baptista e Faxina em continuação da que se trata. 
Segundo a linha que em substituição avança pedaços do actual 
se tiver o beneficio que se lhe der, poderá uma tropa carregada 
vir de S. João Baptista e de Faxina a esta Cidade em 6 ou 
6 1|2 dias de viagem, por isso que a maior parte da estrada, 
poderá ser feita por planície. De toda ella a parte mais dis- 
pendiosa será a que, começando a quatro legoas desta Cidade 
vae cortar em diagonal o primeiro território mandado dividir e 
marcar pelo Governo geral em 1857 e assim tãobem a que co- 
meçando de Xiririca vae até o logar de S. Pedro. Entregara 
factura dessa estrada á pessoa habilitada e sob uma inspeção 
severa pode ella concluir-se ao máximo 20:000$000 e no minimo 
com 15.-000)000. Este dispêndio porem será embolsado pelos 
Cofres Provinciaes, desde que feita em regra, começarão as tro- 
pas por esta estrada a affluir para esto porto e dar rendimento 
a barreira que ahi por ventura se criar. À abertura desta via 
de coinmunicação não será somente em beneficio a esta Camará, 
alem de alargar e mesmo servir o seu commercio ella fará o im- 
menso sertão de Paranapanema, extensão de mais de 14 legoas, 
seja logo povoado. Os territórios medidos e demarcados n'esta 
Commarca quando o Governo Geral não os queira aproveitar, já 
pelas riquesas das madeiras e já pela abundância convida para os 
estabelecimentos agrícolas e fabricas, entre outros merece espe- 
cial mensão aquelie que era destinado para sede da Colónia pelo 
qual sem dispêndio se pode fazer passar a estrada. Sobreleva 
mais notar que quando menos preparava se não quizesse a parte 
d' essa estrada que começa nesta Cidade e vai para Xiririca seria 
urgente fazel-a na parte que desta Villa vai até a de S.Joao Ba- 
ptista porquanto daquelle ponto para Iguape ha a estrada por ago- 
ra sempre franca como é a Ribeira navegável não sé por canoas 
êe 250 a 300 ar 40 como por vapores de peque no calado. Quazi 
ao par desta linha se acha a estrada de Juquiá a I tape tin ingá da 
qual já há alguma cousa feita ainda que imperfeitamente mas que 
aprovei tM da em tempo economisaria para a factura grandes dispên- 
dios. Em dias do anno passado uns picadores de Itapetininga e 
Campo Largo abrirão uma picada que desviando grandes bre— 



— 182 — 

nhados e declives de serra veio sahir na margem esquerda da 
Ribeira no logar Sete Barras, acima um pouco da Barra de Ju- 
quiá, segando as informações que ha a respeito, o terreno é bas- 
tante enxuto, apenas ondulado e offerece leito para uma perfeita 
estrada de rodagens. O porto das Sete Barras sendo ja um pe- 
queno nicho de povoação e sendo seus habitantes não desfavore- 
cidos de fortuna offerecera aos viandantes e tropeiros os commodos 
precizos, não só porque alli encontrarão meios de transporte por agua 
até a Cidade como também suffíciente pastagem para cavalgadu- 
ras e animaes de cargo. O Delegado de Policia desta Cidade 
já disto deu conhecimento ao Ex mo Prezidente da Província que 
aqui lhe aparecerão dous picadores pedindo uma remuneração 
pelo seu trabalho, depois de completamente examinado e ava- 
liado. Esta Camará julga de seu dever solicitar a VVEx cia " se 
dignem tomar esta informação na devida consideração. 

Documento n.° 78 

Termo de arem atacam das obras da Caza da fundiçam 

Aos Sejte dias do mez de Mayo de mil e Sette sentos e trinta 
e seis annos nesta vi Ha de Iguappe em a caza e passo do con- 
selho delia estando junto os oíHciais da Camará Juiz ordinário 
vereadores e procurador do conselho ahy foi mandado vir a Joam 
Mayo da Silva official de Carpenfceiro por ser quem tinha Lan- 
çado nas obras da caza da officina sendo ja corrido os Termos 
da Ley para ser arematada a dita obra do conserto com as con- 
di çoins seguintes; todo o madeirame de sima novo e a telha 
necessária as portas e janellas tudo de novo com os portais tudo 
de novo tudo capaz de receber tudo foi ar ema ta do pello dito em 
preço e quantia de quarenta mil reis por ser o Lanço mais baixo 
que se deu em praça cuja quantia se lho ha de satisfazer estando 
a obra aCabada e para o dito conserto se lhe pedio fiador abo- 
nado a dita obra e logo aprezentou por seu fiador a Sebastião 
Roiz morador desta dita vil la homem republicano e abonado com 
biens próprios sem obrigaçam algua o que ambos se obrigarem 
por suas pessoas e biens moves de raiz havidos e por haver sem 
por duvida algua tudo na forma asima de que mandarão os ditos 
oficiais da Camr* fazer este termo que asiguarão com o dito 
arematante e fiador e eu CarLos Pinto dos Reis esCrivão da 
Camr* o esCrevy. João Mayo da Silva. Sebt 1 * Roiz. Bernardo 
Sardinho. João da Cunha. Ant° de Veras. Fran co Barreto de 
Fúria. Ani? Giz da Rocha. 



- 183 - 
Documento n.° 76 

Termo de Rematação da caza da fundição 

Aos vinte dias do mez de Outubro de mil sete sentos e trinta 
e sete annos nesta villa de Iguappe em a caza e passo do Con- 
selho delia se juntarem os officiaes da Ca mera Juiz ordinário 
vereadores e proCurador do Conselho para effeito do se rematar 
a obra do conserto da Caza de fundição e logo ahy foi rematada 
a dita obra no menor e ultimo Lanço que Lançou o Alferes 
Joam Teixr* de Azevedo em preço de cincoenta mil reis tendo 
corrido os termos da Ley e por nam haver quem menos Lançace 
se rematou no dito Lanço asima do dito Joam Teixeira de Azevedo 
com as condiçoens seguintes: a Saber toda a madeira de novo 
Caibros Ripas e a demais que for necessário toda a telha que 
faltar asim mais porta janella com suas portais tudo de novo 
Com huas Armas seais na parede de pao como dantes tinha e 
que tudo o dito Joam Teixr* asei t ou e se obrigou a fazer toda 
a dita obra e se obrigou a por mam nella nos princípios do mez 
de Dezembro próximo futuro e dar aCabada a dita obra por tudo 
o mez de Janeiro de mil sete sentos e trinta e oito para o qual 
ofereceu por seu fiador o Alferes Ant.° Giz da Rocha que tam- 
bém prezente estava que por elle foi dito aos ditos oficiais da 
Camera que fiava a dita obra e se obrigava a tudo com o dito 
fiado de que de tudo para constar mandarem fazer este termo 
que asignarão com o dito fiado e fiador e eu CarLos Pinto dos 
Reis esCrivam da Camera o esCrevy, declaro que também se 
obrigou a todo a pregaria necessária eu Sobredito esCrivam o So- 
bScrovy. João Teixeira de Azevedo. Ant.° Giz Rocha. Lobo. 
Nunes Cairro Araújo +. 

Documento n.° 77 

Termo de Vcreança 

Aos sette dias do mez de Agosto de mil e sette centos e 
setenta e oito annos nesta Villa de Iguape em cazas da Camera 
e passos do Concelho delia onde foi vindo o Juiz Prezidente An- 
tónio Fernandes Veras, E o vereador mais velho António Perey- 
ra Pais, e o segundo Januário António da Silva, e o terceiro 
Francisco Correya e o Procurador Lourenço Lopes Trigo Comi- 
go Escrivão da Camera ao diante Nomeado. E sendo ahy pelos 
dictos OfHciaes da Camera foi mandado abrir huma Carta do 



— 184 — 

Sargento Mor Comandante da Praça de Santos Francisco Aranha 
Barreto, em a qual lhe dizia que por lhe determinar o IHustris- 
simo e Excellentissimo Senhor General desta Capitania que os 
ditos officiaes da Camará emprestassem a Caza que sérvio de 
oficina e fundição em outro tempo, ao Capitão Gregoiro Gonçal- 
ves da Rocha, para servir de Quartel de Auxiliares, ao que de- 
terminarão os ditos officiaes a mandar lhe entregar a dita ca- 
za ao referido Capitam Gregório Gonçalves da Rocha, por em 
quanto davam parte ao IHustrissimo e Excellentissimo Senhor Ge- 
neral de Sam raulo por huma carta que lhe escrivião. E não 
ouve mais requerimento algum de que para de tudo assim cons- 
tar fiz este termo em que aSignarão e eu Joze Jacintho da Sil- 
va Rocha Escrivão da Camera que o escrevy. Veras. Pais An- 
tunes. d 9 oliveira. Trigo. V i0 em Crr*° de 1778. Barhoza. 

Documento n.° 78 

Sendo prezente nesta Junta da Real Fazenda a*reprezenta- 
ção dirigida ao ses Excellentissimo Prezidente pello Brigadeiro 
Inspector Geral de Melicias, fazendo ver ser muito Conveniente 
ao Real serviço a conservação de huma pequena caza situada na 
Yilla de Iguape para nella se aquartellar a tropa alli destacada, 
a qual tendo servido em cutro tempo para Fundição de oiro, fo- 
ra posteriormente reservada para o Quartel da referida Tropa 
Eelo ex Governador e Capitão General das Capitanias Martim 
iOpes Lobo de Saldanha, Se ordena ao Sargento-mor graduado 
Beato Papo Gouvea Commandante Militar da dita Villa de Igua- 
pe passe a tomar conta da sobre dita Caza para nella se aquar- 
tellar a Tropa da sua guarnição, mandando-a reedificar e fazer 
as divisoens nececarias, tanto para melhor, como para serem cap- 
turados aquelles que cometerem faltas pelas quais devão ser pu- 
nidos conforme a ordem do servisso, tudo a custa do predito 
Sargento Mor na conformidade da sua offerta exarada no officio, 
que sobre esta matéria derigio ao seo respectivo Coronel na dat- 
ta do mez de Outubro de mil oito centos e quinze. São Pau- 
lo quatro de Fevereiro de mil oito centos e dezacete. Com 
Cinco rubricas. Esta conforme o original o que me reporto. 

Iquape 31 de 8 bro de 1820 e eu Manoel Joaquim dos Sa*» 
que o Sooscrevy. Manoel Joaq* dos Santos, 

Documento n.° 79 

IHustrissimo Senhor Capitão Joze Xavier Rodrigues. Esta 
Gamara Participa a Vossa Senhoria para que no prefixo tempo 



- 185 — 

de dez dias haja de promover a mudança da pólvora que se acha 
no quartel que está no interior, deita Villa a qual por isso mes- 
mo que pode cauzar hum grande insendio e mortandade de po- 
vo pelas poucas cautellas em que está com moradores de hua e 
outra paredes meias as quaes se acham continuamente com fo- 
gos precizos para os misteres do uzo. Esperamos em Vossa Se- 
nhoria dé como sempre providencias em mudar aquelle género 
em lugar próprio por bem do serviço publico. Deos guarde a 
Vossa Senhoria muitos annos. Iguape em Gamara de quatro de 
Junho de mil oito centos e vinte cinco. De Vossa Senhoria At- 
tenciozos veneradores — João Jozé de Carvalho Simoins. — Fran~ 
cisco de Oliveira Duarte. — Rafael Gomes Malta Carneiro, — Jo- 
ze Bento Pupo de Govea. — Joze António dos Anjos, 



Documento n.° 80 

Illustrissimo Senhor Juiz Prezidente e mais Officiaes da 
Camará. 

Iguape seis de Junho de mil oitocentos e vinte e cinco. 

Com todo o respeito e dos sol idades Recebi a Carta de 
Vossa Senhoria de quatro de Junho e a ella responda que se 
acha dentro do Quartel da Tropa desta Villa, dezeseis arrobas de 
pólvora bem acondicionada, no sobrado do dito Quartel e o mais 
trem de Guerra, como palias e o Armamento que me foi reme- 
tido por bordem do Illustrissimo Excellentissimo Senhor Prezi- 
dente desta Provincia para defeza desta Villa e recolhi este 
Trem dentro do Quartel por n&o achar Caza socfiiente para re- 
colher húm género de tanto importância o que V. Senhorias 
n&o poderão ignorar, e agora Vossas Senhorias dizerem-me que 
dentro em deis dias, que tire fora de dentro do Quartel assim 
eu n&o tenho Cazas, mais que o meu Quartel adonde mora nes- 
ta Villa, as Cazas que tem s&o próprias moradas, dos moradores, 
e algumas que tem de allugueis s&ò arruadas e pegadas com as 
outras e as que est&o mais fora da Villa s&o Cazas de pillares 
de páo e paredes Francezat velhas que n&o s&o suficiente para 
recolher o dito trem de Guerra por estarem desmanchadas e 
indignas de ser ocupadas ; e eu estou na responsabilidade do 
dito Trem por Ordem do mesmo Excellentissimo Senhor, e assim 
depreço a Vossas Senhorias que me mandem dar húas Cazas 
siguras de pedra e cal fora desta Villa para eo tirar o Trem e 
a pólvora do deposito adonde esta para se lhe pagar os allu- 
gueis ao dono da dita Caza que Vossas Senhorias me detrimi-» 



— 186 - 

narem. Deos Guarde a Vossas Senhorias por muitos annos. 
Quartel da Villa de Iguape, Beis de Junho de mil oitocentos e 
vinte e cinco . De Vossas Senhorias Súbdito attenciozo — Joze 
Rodrigues. Capitão Commandante. 

Documento n.° 81 

Illustrissimo Senhor. Sendo prezente a esta Camará a Carta 
de Vossa Senhoria de seis de Junho em resposta do seo orneio 
de quatro do mesmo mez do corrente anno Ordena a Vossa Se- 
nhoria segunda vez por asim exigir a bem e segurança publica 
que no prefixo tempo de seis Dias mande mudar a pólvora que 
se acha no Quartel resinto desta Villa para as Oazas de Fran- 
cisco Ferreira de Nação Espanhola por estar em lugar mais re- 
tirado the Vossa Senhoria como deve dar as providencias ne- 
cessárias a hum pequeno Almazem ou lugar conveniente para 
este artigo ficando Vossa Senhoria responsável ao que produzir 
a falta desta Observância. Deos Guarde a Vossa Senhoria muitos 
annos. Villa de Iguape em Camará de vinte e cinco de Junho 
de mil oitocentos e vinte e cinco. Illustrissimo Senhor Cappitam 
Commandante da Milicia desta Villa, — Joze Xavier Rodrigues — 
João Joze de Carvallio Simoins — Francisco de Oliveira Duarte 
— Rafael Gromes Malta Carneiro — Cândido Pupo da Rocha — 
Manoel Alves da Costa. 

Documento n.° 82 

Illustrissimo Senhores. Recebi o respeitável Officio de Vos- 
sas Senhorias de vinte e cinco de Junho no dia trez de Julho 
em que Vossas Senhorias me Obrigão a tirar a pólvora de dentro 
dos Quartéis para a Caza de Dom Francisco Ferreira de Nação 
Espanhola por ser lugar mais retirado, não reparando Vossas 
Senhorias que he Caza que está a cahir embaixo toda desman- 
chada, sendo que a pólvora está depuzitada na sua própria Caza 
que he de Sua Magestade Imperial : a que eu estou responçavel 
e feito Almochariz delias e agora Vossas Senhorias me Oferta- 
rem hum tão horrendo Quartel para a pólvora não mandando ou 
menos compola não ponho duvida passar a pólvora para as ditas 
Cazas ficando Vossas Senhorias na responsabilidade delia, e com 
a resposta de Vossas Senhorias passo a mudar, e arrepresentar 
ao Illustrissimo Excellentissimo Senhor Prezidente da Província 
para segurança da ditta pólvora que se acha depozitada por 
ordem de Vossas Senhorias em hua caza velha sem segurança e 



\ 



— 187 — 

que Vossas Senhorias estão na responsabilidade delia, ate Sua 
Excellencia dar as providencias nesseçarias para segurança da 
dita pólvora e Vossas Senhorias me mandarão entregar as 
chaves das ditas Gazas por Seo Official de Justiça para poder 
Obd r as Ordens Superiores. Quartel da Villa de Iguape trez 
de Julho de mil oito centos e vinte cinco. — Joze, Xavier Ito- 
ãrigueSy Capitão Commandante. 

Documento n° 83 

Illustrissimo e Excellentissimo Senhor. Esta Camará tem 
a honra de aceusar a recepção de Officio que, em data de trin- 
ta de Junho deste anno. V. Ex cia lhe diri<rio, exigindo huma 
informação sobre os factos allegados nos Officios do Capitão 
Joze Xavier Rodrigues, e do Coronel André Alves Borges. A 
Camará em cumprimento do seu dever passa a expor o que 
realmente existe de facto sobre aquellas representações. Ten- 
do sido prezentes a esta Camará numerosas e reiteradas repre- 
sentaçoens de muitos habitantes desta Villa, entre os quaes se 
fez mais notável por suas instancias e clamores o Sargento Mor 
Bento Pupo de Gouvea, expondo os sustos e affticções, em que 
continuadamente vivem por cauza do imminente perigo, em que 
se acham suas vidas e propriedades por morarem juntos ao 
Quartel Melicianno, onde estão depositados oito Barri z de Pólvo- 
ra na Saila da parte da Rua, pois que, alem da possibilidade 
de ser a caza incendiada, se achavão próximos os dias das fes- 
tividades da Padroeira e do Senhor Bom Jezuz, para as quais 
se achavão promptos vários géneros de fogos, que com facilida- 
de poderião originar alguns desastres no Quartel sitio no pateo 
da Matriz entre cazas unidas Oitão com Oitão entre cuzinhas 
das cazas particulares, em rua quazi estreita e com vizinhança 
de cazas pela frente e por detraz com hé visto á Olhos do pu- 
blico; e pedindo por tanto houvesse a Camará de intender-se 
com o Capitão Joze Xavier Rodrigues, afim de que removesse 
a pólvora para outra caza; esta Camará intimamente convenci- 
da do que (não so pela natureza de sua instituição que lhe dar 
diíeito de interver e reprezentar sobre commodidades e necessi- 
dades publicas mas athe pelo que positivamente lhe hé ordena- 
do na Ordenação Livro 1.° titulo 65 § 2, e titulo 66 in prin- 
cipio) faltaria a seo primeiro dever, e com razão se lhe exigi- 
ria rigoroza responsabilidade em caso de desastre publico, si- 
não attendesse e providenciasse a tempo sobre tão justas quan- 
to bem fundadas reprezentaçoens, resolveu Officiar ao Capitão 
Joze Xavier Rodrigues, indicandolhe a necessidade de dentro 



- i88 — 

em dez dias remover a pólvora; e sendo por este respondido 
que o nào fazer por não ter caza suficiente, o Juiz Prezi dente 
desta Gamara João Joze de Carvalho Simoins de accordo e com- 
binação com o dito Capitào deo as providencias para se aprom- 
ptar huma caza fora da Villa, para a qual seria removi ia a 
pólvora, logo que se concluísse certo beneficio que o referido 
Capitão se incumbio a fazer na mesma caza. Eis o estado em 
que estava a questão tão de pressa principiada, quando logo 
terminada; com satisfação publica, e especialmente das Autho- 
ridades, quando a esta chegou, segundo dizem, hum Orneio do 
Governador das Armas, ordenando que se não tirasse a pól- 
vora. Quanto ao ter esta Camará marcado o espaço de dez 
dias, do que paresse ressintir-se o Capitão Joze Xavier Rodri- 
gues, não podia ser outra a intenção da Camará, marcando es- 
paço certo, senão a prevenir algumas comtemporizaçoens que 
tornassem de nenhum effeito a de precação, e por isso assignou 
dez dias, durante os quaes esperava que se removesse a pólvo- 
ra afim de que no cazo que isto se não effec toasse tivesse a 
Gamara tempo suficiente de reprezentar a Vossa Excellencia e 
obter as precizas providencias ainda antes das próximas festivi- 
dades. Diz o Capitão Joze Xavier Rodrigues no seo Orneio 
«que a Camará quer que retire a pólvora não tanto pelo temor 
de incêndio, como porque pertende fazer do Quartel, Cadea e 
Caza da Camará». Eou verdade Excellentissimo Senhor, somen- 
te algumas opiniões particulares fizerão nascer no espirito d'a- 
quelle Capitão a desconfiança e aprehensão que manifesta, pois 
que ante respeito o que há hé somente o seguinte. Quarenta 
ancos há que nesta Villa se começou a edificar huma nova Ma- 
triz, cujos alicerces forão lançados juntos a actual Cadêa, con- 
cordando a Camará e os bomens bons d'aquelle tempo em edi- 
ficarem nova Cadêa, visto que a existente hé muita pequena, 
velha e mal segura. Nestes últimos annos tendo-se trabalhado 
com algum fervor na obra da Matriz, acha-se ella em termos 
de não poder progredir por cauza do Obstáculo que lhe faz a 
Cadêa, e mesmo está exposta a ser abandonada se senão as- 
sentarem quanto antes muitas peças de Cantaria destinadas para 
o lugar em que está a Cadêa, porque se faltar o Mestre, que 
unicamente conheço o seo plano e enumeração de peças, fica* 
rão estas inutilizadas, e a obra tornara a dormir por muitos an- 
nos, como ja aconteceo, e talvez nunca se concluirá. Por esta 
e outras razões os Povos que receão ver perdidos tantos dinhei- 
ros e trabalhos vos, clamão para que a Gamara desmanche a 
Cadêa, o que se não pode fazer por não haver Gaza, que possa 
servir de Cadêa e nem dinheiro para se fazer ja outra nova. 



— 189 — 

Nestas circumstancias tem lembrado alguns Cidadãos a possi- 
bilidade de se remediar tal embaraço de hum mo <o que a nin- 
guém prejudica, e vem a ser, servir o Quartel Melicianno de 
Caza de Gamara e Cadea, podendo-se fazer duas repartições, 
huma para a civil e outra para o Militar, isto em quanto se 
não fizer nova Cadêa, entretanto que os Miliciannos nada po- 
dem perder com isso, visto que poucas ou nenhumas vezes se 
utilizào do Quartel, que quasi sempre existe fexado, solitário, 
e sem ter ao menoB nua sentinella. Esta opinião tem sido ma- 
nifestada e debatida em conversações particulares, sem que a 
Camará athe agora tenha tomado parte nella, e menos dado 
passo algum para Obter da Sua Magestade a preciza facul 
oade para aquelle fim. Por esta sincera narração conhecerá 
Vossa Excellencia que o único movei, que dirigio esta Camará, 
exigindo a mudança da pólvora foi o dezejo de cumprir com 
seus deveres a prol da segurança publica, e bem commum dos 
habitantes desta Villa, assim como conhecerá que se não pode 
deixar de attribuir á pouca reflexão, por não dizer leviandade 
o asseverar-se sem conhecimento de cauza que esta Camará tem 
«injustos projectem, como escandalosamente se nota no Officio 
do Coronel André Alves Borges: porquanto, ainda quando a 
Camará tivesse dado alguns passos para obter de Sua Magesta- 
de a faculdade temporária de se servir do Quartel conjuncta- 
mente com os Miliciannos, para taxar de injusto tal projecto, 
seria precizo provar que elle involve acção tenta to ria a direi- 
tos ou propriedade de alguém, o que será muito dimeuitozo; 
porque o Quartel hé propriedade desta Villa, e não dos Mili- 
ciannos desta Villa, os quaes só por huma graça, que lhe fez, 
a Imperial Junta da Fazenda, reservem d elle em at tenção a 
reedificação outr'ora feita pelo então Commandante Militar, 
Bento Pupo de Gouvea, a qual lhes não dar direito de proprie- 
dade. Conclue pois a Camará este Officio, asseverando a Vossa 
Excellencia que não obstante haver o Governador das Armas 
descida a questão sem a necessária informação dos motivos que 
a Originarão, não Obstante o desaire que não pode deixar de 
resultar-lhe aos Olhos do Publico, pelo menoscabo com que foi 
tratada, ella se lizongea, não só de ter cumprido com seus de- 
veres, como de haver afastado de si toda e qualquer responsa- 
bilidade. Deos Guarde a Vossa Excellencia muitos annos. 
Villa de Iguape em Vereança de vinte e dois de Agosto de mil 
oito centos e vinte e cinco. De Vossa Excellencia, Attenciozos 
Súbditos. João Joze de Carvalho Simoins. Francisco de Oli- 
veira Duarte. Rafael Gomes Malta Carneiro. Cândido Pupo 
da Rocha. Manoel Alves da Costa. 



- 190 - 
Documento n.° 84 

Prezidente desta Província participa a Camará da Villa 
de Iguape que como declara pelo soo Officio de vinte e dois de 
AgOBto próximo passado ter convencionado com o Capitão Joze 
Xavier Kodrigues a mudança da pólvora, que existe no Quar- 
tel para húa Caza retirada da Villa, muito convém esta medida 
para segurança Publica, e por ser conforme as Leis, sendo exa- 
cta que esta, e outras providencias de reconhecido interesse se 
realizao, quando são dadas de commum accordo, sem interven- 
ção de excessos de jurisdição de húa e outra parle, e unica- 
mente com o fito no bem Publico. Palácio do Governo de São 
Paulo, quinze de Setembro de mil oito sentos e vinte e sinco. 
Lucas Monteiro de Barros. 

Documento n.° 85 

Em observância do Officio que agora recebeo do Illustrissi- 
mo e Excellentisãimo Senhor Governador das Armas desta Pro- 
víncia, Ordenando ao meo Coronel que pela reprezentaçâo que 
Vossa Mercês levarão a prezença do Excellentissimo Senhor Pre- 
zidente, Seja removido a pólvora do seo próprio depozito em lu- 
gar sufficiente e retirado em beneficio da Segurança publica, 
Como Vossa Mercês requisitarão, e asim depreso a Vossa Mercês 
me ajam de dar húa Caza Suficiente e Segura para deposito do 
dito género e com as suas determinaçoins cumprirei as Ordens de 
meos Superiores, fazendo o mesmo tempo ver a Vossa Mercês 
que no lugar u donde ella esta, não perciza Sentinella nem me- 
nos paga alugueis de Caza, o que não acontecera em outra 
qualquer parte, onde se depositar, com tudo ; espero Suluçào de 
vossa Mercês para com mas exaqção cumprir os meos deveres 
que me são emcnrregados. Deos , Guarde a Vossas Mercês por 
delitados annos. Quartel da Villa de Iguape seis de Novembro 
de mil oito centos e vinte e cinco Illustrissimo Senhores do 
Nobre Senado. — José Xavier Rodrigues, capitão com mandante. 

Eoeumento n.° 86 

Em acto de Vereança de hoje nos foi prezente o seo officio 
de seis de Novembro em qual nos participa ter recebido hum 
officio do Illustrissimo e Excellentissimo Governador das Armas 
desta Província para que Vossa Senhoria removice a pólvora 
para outro lugar fora de onde ella athe o prezente existe, em 



— 191 - 

consequência das ordens emanadas do Excellentissimo Senhor 
Prezidente desta Província. Esta Comarca se Hzongea com as 
acertadas providencias de seos superiores para hum fim tão justo 
quanto necessário ao bem Publico e fica certo que Vossa Senho- 
ria cumprirá com exactidão as ordens que tem a tal respeito. 
Deos Guarde a Vossa Senhoria muitos annos. Villa de Iguape 
em Vereança, do seis do Novembro de mil oito centos e vinte 
e cinco. Illastrissimo Senhor Commandante Militar Jozé Xavier 
Rodrigues. — António Joze Peniche. — Francisco de Oliveira Duarte. 
— Joze Gonçalvez Maia. — J&ze António dos Anjos. — Domingos 
dos Santos Bandeira. 

Documento n.° 87 

Esta Camará para bem cumprir o Provimento do Illustrissi 
mo Doutor Dezembargador Ouvidor Geral e Corregedor da Co- 
marca Joze Vernancio Ribeiro de Aguilar, Depreça a Vossa Se- 
nhoria para que, tomando em consideração a necessidade e ur- 
gência do negio, rezolva e faculte o Xadrez do Quartel Militar 
para recolher algum malfeitor que por acazo possa apparecer, 
exigindo esta Camará resposta de Vossa Senhoria na factura 
cessão para o seo governo, e isto em quanto se não concluir a 
obra da nova Caza da Camará, porquanto que se vai demollir a 
velha para poder continuar a obra da nova Igreja. Deos Guarde 
a Vossa Senhoria. Iguape em Camará de trinta de Setembro 
de mil oitocentos e vinte e seis. Illustrissimo Senhor Comman- 
dante Militar Joze Xavier Rodrigues. — Francisco da Silva Rego. 
— Joze António da Silva. — Felij>pe Pinto de Almeida. — António 
Pupo da Rocha. — António Jozé Peniche.-" Domingos dos Santos 
Bandeira. 

Documento n.° 88 

Recebi o officio de Vossas Senhorias datado de trinta de 
Setembro no dia oito de Outubro, e a elle respondo; Que se- 
gundo as consequências que houve a quatro de Junho do anno 
passado recebi hum officio do meo Coronel para não entregar a 
chave do quartel, só sim por ordem positiva do Governador das 
Armas desta Província e do mesmo Coronel. E assim vou offi- 
ciar ao dito para responder o Officio de Vossas Senhorias com 
mais asserto, o que Vossas Senhorias não podem levar em consi- 
deração o meo obrar, pois devo cumprir com as ordens que são 
determinadas pelos meos superiores. He o que tenho de levar 
a prezença de Vossas Senhorias. Quartel de Iguape oito de Ou- 
tubro de mil oitocentos e vinte e seis. Illustrissimo Senhores 
do Nobre Senado. — Joze Xavier Rodrigues^ Capitão Commandante. 



— 192 - 
Documento n.° 89 

Prezidente desta Providencia remette a Camará da Villa 
de Iguape para sua intelligeúcia e devida execução a Copia 
junta de hum artigo da Acta da Sessão do Concelho do Gover- 
no em data de vinte e seis do corrente sobre o que reprezen- 
tara q Coronel do Batalhão de Caçadores Numero trinta e oito 
de Segunda Linha do Exercito, a respeito de per tender a mes- 
ma Camará que sirva a prizão do Quartel Militar em quanto não 
trata da factura de caza própria para aquelle fim. Palácio do 
Governo de São Paulo trinta de Outubro de mil oitocentos e 
vinte e seis. — Baron de Congonhas do Campo. 

Copia de hum artigo da Acta da Sessão do Conselho do 
Governo de vinte e seis de Outubro do corrente anno. Entrou 
em discussão o Officio do Coronel Commandante do Batalhão de 
Caçadores numero trinta e oito de segunda linha do Exercito, 
dirigido ao Excellentissimo Senhor Prezidente em que impugna 
a pertenção da Camará da Villa de Iguape sobre servir de Ca- 
dea a prizão do Quartel Militar feita a custa do Sargento mor 
reformado do mesmo Batalhão Bento Pupo de Gouvêa, e por 
consequência deliberou que a dita Camará emquanto não manda 
fazer Caza própria para aquelle fim, como he de seo dever alu- 
gue qualquer que com as precizas seguranças sirva entanto de 
Cadea, dezistindo de similhante pertenção, que não admissível ; 
e porque ainda não execução, bem como os demais Camarás a 
oraem que Be expedira para remetterem os competentes livros, 
de receita e despeza, e dos mandados, para serem examinadas 
suas contas, em conformidade do artigo undécimo da Carta de 
Lei de vinte de Outubro de mil oitocentos e vinte trez, e o dito 
Coronel trata dissipação de seos rendimentos, se deverá dirigir 
nova ordem para de se lhes dar em Culpa na Correição pela 
falta da Observância da Lei, o que será determinado aos respe- 
ctivos Ouvidores.— Barão de Congonhas do Campo. — Luiz Antó- 
nio Neves de Carvalho. — Manoel Joaquim de Ornellas. — Manoel 
Bispo Eleito. — Manoel Rodrigues Jordão. Secretaria do Governo 
de São Paulo trinta de Outubro de mil oitocentos e vinte seis. 
— Joaquim Florianno de Toledo. 

Documento n.° 90 

Illustrissimo e Excellentissimo Senhor. A Camará da Villa de 
Iguape accuza a recepção do Officio de Vossa Excel lencia datado 
em trinta de Outubro do corrente anno pelo qual Vossa Excellencia 
ordenava que esta Camará desse a devida execução as rezoluçoens do 



— Í19B — 

Exeelfontissimo Concelho do Governo tomadas, em :se&são de vinte -e 
Beis do sobredito* mez de Outubro, huma -sobre a reprezentação do' Co- 
ronel do Batalhão* de* causadores- numero trintae oito de Segunda Li- 
nha a respeito de pertender esta Camará a pria&o do Quartel Militar 
para Cadea;-e outra^sobre a remessa dos Livros der receita e despezae 
mandados para»serem examinadas as contas. A Gandra fica na intel- 
lisrencia desalugar hmna Caza para Cadêa, sem que -seja necessário 
pertender o Quartel -.porque há falsa a asserção de haver a Camará Ja- 
mais tido semelhante peitenção ; porquanto- o quea este : respeito se 
Í>asson he o seguinte ; Em Audiência Geral de Capitulo de Correição 
embravào alguns Cidadãos ao Corregedor que visto existir aqui 
hum Quartel Militar, que sempre está fechado, Quartel que pertence 
esta Villa nfto a particular algum, parecia conveniente que a Ca- 
mará pedisse ao Commandante Militar* hum lugfr no dito Quartel 
para prizào Civil : o que tendo ponderado, e attendido pelo Corre- 
gedor, proveo que a Camará apromptasse humas Cazas para Cadea 
ou pedisse ao Commandante Militar, que. franquiasse o Xadrez do 
Quartel. Em consequência a Gamara oficiou ao Commandante 
nos termos da Certidão induza, .pedindo- lhe que franquiasse o 
Xadrez, se quisesse, .dando -resposta a Camará na primeira sees&o 
para seo governo, isto he paia procurar ontra caza na formado 
Provim eu to, que tãobem se remette por certidão. Por esta nar- 
ração conhecerá Vossa Exceli encia, que .esta Camará não tive 
pertençoens, mas que somente executou o que lhe fora ordenado, 
não esperando jamais, nne de tal comportamento se fizesse ob- 
jecto de reprezentaçoens e inculpaçoens . Esta Camará tendo 
tomado posse em Abril deste anno nao tive noticia da Circular 
de quatro de Novembro de mil oitocentos e vinte cinco, pela qual 
se ordenava e exigia a remessa dos Livros de Receita e despeza 
e de mandados; agora recebendo em vinte e nove do mez passado 
o orneio de 30 de Outubro, que ora se responde, e recebendo em 
dez do corrente a Circular da mepma data de trinta de Outubro, 
não poude dar-lhes a devida execução por se achar então o Es- 
crivão da Camará auzente em Com missão com 'hum dos Juhres 
na praia de Carajuana, distante treze legoas para onde 'foram 
tomar conta e inventariar as 'fazendas da -Bumaca Politica .Mo- 
derna que. ali tenha encalhado.; e como se esperava de dia em 
o dito Escrivam, que tinha deixado o Cartório fechado, e nelle 
os Livros da Gamara que não .tem .álchivo seguro, foi se assim 
cassando o tempo, em que se podesse dar -execução aquellas or- 
dens, que serão executadas na futura .reunião do Concelho. A 
Camará tanto mais sente o imfcaraco que teve para não remetter 
os Livros, quanto sua honra se acha com promett ida pela asserção 
do Coronel do Batalhão numero trinta oito, de que os bens deste 



— 194 — 

Conselho são delapidados ; mas na futura reunião do Conselho 
pelos exames a que se proceder nos Livros e contas ja exami- 
nadas pelo Corregedor, se conhecerá com evidencia quanto foi 
irreflectida e ditada por paixão aquella falsa asserção do referido 
Coronel. Deos Guarde a Vossa Excellencia. Iguape em Ca- 
mará de trinta de Dezembro de mil oito centos e vinte e seis. 
Illustrissimo e Excellentissimo Senhor Vis-conde das Congonhas 
do Campo. — Francisco da Silva Rego — Felippe Pinto de Almeida 
— António Papo da Rocha — Joaquim Franco da Silva — Domiri- 
gos dos Santos Bandeira. 



Documento n.° 91 

Não havendo prezentemente prizão publica nesta Villa para 
os differentes R. R. culpados ou Criminozos em razão de ser exe- 
gido pelo proprietário, a Caza que para esse efeito actualmente 
servia, nem havia outra própria que pari isto possa servir, tem 
a Camará resolvido o depreçar a V S para que haja de cedir- 
Ihe a Chadres, que servia de prizão aos Milicianosdas extinctas 
Milícias, afim de servir inteirameate de prizão publica ate que a 
mesma Camará de as necessárias providencias sobre hum tão im- 
portante objecto. Deos Guarde a V. S. Paço da Camará Mu- 
nicipal da Villa de Iguape, aos 24 de Julho de 1833. Ulmo Snr. 
Joaquim de Souza Castro, Cap m das Guardas Nacionaes desta 
Villa. Manoel Duarte de Castro* 



Documento n.° 92 

O Concelho do Governo tendo deliberado, que o Cap m Com- 
mandante da 1* Companhia da Guarda Nacional dessa Villa en- 
tregue a Vra ces a Chave do Quartel da extincta 2* Linha, a fim 
de o converterem em Cadea, como pertcndem, manda recommen- 
dar-lhes que se o dito Quartel for hum Edifício, que alem dos 
cómodos necessários para as prizões, tenha algum lugar que 
possa ser reservado para Quartel, o deverá conservar, visto ser 
essa Villa maritima e poder dar-se algum cazo em que con- 
vinha ter nella Tropa aquartelada. Deus Guarde a Vm ces Pa- 
lácio do Governo de S. Paulo 14 de Janeiro de 1834 — Rafael 
Tobias de Aguiar. Snrs Prezidentes e Membros da Camará da 
Villa de Iguape. 



- 195 — 
Documento n.° 93 

Havendo o Concelho do Governo deliberado que o Cap m Com- 
mandante da primeira Companhia da Guarda Nacional desta Villa 
entregue a Camará Municipal da mesma a chave do Quartel da 
extincta segunda Linha afim de ser por ella convertido em Cadêa 
como lhe foi communicado pelo Ex m ° Prezidente da Província 
como se ve de officio por copia induzo, depreça a V S para que haja 
de verificar a referida entrega das Chaves. Deus Guarde a V S. 
Passo da Camará Municipal da Villa de Iguape 6 de Fevereiro de 
1834. Ill mo Snr. Joze Jacintho de Toledo — Tenente Coronel Com- 
mandante do Batalhão das Guardas Nacionaes desta Villa — Ma- 
nou Duarte de Castro. 

Documento n.° 94 

Termo do Vcreança 

Áos doze dias do mez de Abril de mil e Sette Centos e SeSenta 
e trez annos, nesta Villa de Iguape e paços do Conselho e Cazas 
da Camará delia onde foi vindo o Juiz Prezidente António Fer- 
nandes Veras, o vereador mais velho Francisco Pereira Veras e 
os mais oficiaes da Camará e o Procurador delia Valério António 
de Melo para efeito de Se dar Comprimento a húa Carta dos Se- 
nhores Governadores do Rio de Sanr°, a qual Se deo logo pronta 
exzecução fazendo publicar hum edital a respeito dos oficiaes da 
ordenança e ahy Se detriminou recolher a Caza a Camará a Caixa 
e trastes que nella Se achão da oficina Peai da fundição Cujas 
trastes Sam os Seguintes, dous martelos, hua tines, hum tais, huns 
foles Velhos, hum Cofre, hua bigorna pequena dous sintas e hua 
mira e tam bem Se despachou hua petição de João de Deos e 
Se detreminou a Requerimento do dito procurador chamar a Carlos 
Manoel Pereira da Silva para aperte de ver toma conta de Seo 
anno de Procurador e de Como não houve mais requerimento 
alguns mandará fazer este termo de vereança que aSinara e Eu 
Manoel Martins Borbon escrivão da Gamara que o escrevy. — 
Serrão — Veras — Paes — Mello. 

Documento n.° 9B 

Ouvidor Geral António Barboza de Mattos. 

vinte de Abril de mil sete centos e setenta e nove. 

Por quanto reprezentou a Camará a utilidade que poderá re- 



— 196 — 

soltar ao bem Ceraram « doe poros em particular a abrir-se 
hum Vallo que pudesse fazer Communicavel o Rio da Rebeyra 
desta Villa por ficarem os Embarques pronptos e Cortar • inco- 
modo de se Carregarem as Cargas para se imbarcarem no dito 
Bio Rebeyra em que se interessào todos m abitantes querendo m&o 
Communados ComCorrer para a manobra do Valle. Proveu que 
no Caso de se Comcluher este premeditado entento a custa los 
moradores Com o predito fica possa a mesma Camará desta dita 
Villa asistir Com o mantimento pereiro para os manobrastes do 
VaDo por dever ComCorrer para buma obra que as primeyras 
Vistas paresse redonda em utilidade. 

Documento n.° 96 

Termo de Vereança 

Aos vinte e nove dias do mez de Setembro de mil e sete centos e- 
setenta e nove annos nesta Villa de Iguape em Cazas da Camará o 
passo do Concelho delia onde forão vindos o Juiz ordinário e prezi- 
dente António Rodrigues "Cunha, Com os mais vereadores Rnymundo 
Rodrigues, Salvador Affonço da Costa e Alferes Ignacio de O li- 
reira Guimaraens e o procurador do Concelho Lourenço Lopes 
Trigo para efeito de se fazer vereança. E sendo aby se cha- 
mou alguns homens do povo para com elles concordarem se hera 
ou nào útil começa hua amanobla do Vallo, que se contem no 
provimento que o Doutor Corregedor desta Comarca deixou na 

Sroxima correyç&o que nesta -villa fiz: £ sendo elles ditos vin- 
os, decerao que nfto parecia ser ju6to intentar semelhante obra 
por não servir de nenhum effeito, para o bem còmu do povo, e 
me os ditos vereadores assim o comfirmarao Segundo os vottoà 
aos ditos convocados. E de como assim se passou na verdade 
mandar&o os ditos officiaes fazer o presente teimo em que asi— 
gnar&o e eu Joze Jacintho da Silva Rocha Escrivão da Camará 

2 se o esevevy. — ASdno vencido em Tottos Cunha,- -Rozz. — <á.«— 
tuim. — Aâno vencido em vottos Irigo. 

Documento n.° 97 

Senhor Doutor Ouvidor Geral António Barboza de Mattos 
Coitinho . 

Nào posso deixar de Comunicar a V. Mc* o grande Con- 
tentamento que tenho com a alegre noticia da melhora da mo- 
léstia de V« Mc*, eu estimo seja igoal ao Seu desejo e que V. 
]£c.* repita em dar me oCeasions em que possa mostrar o gosto 



- 197 - 

que tenho de Obedecer os preceitos de V. Mc. e Eu pus na 
presença do Hlustrissimo e Excellentiasnno Senhor General a 
justa determinação^ de V. Mc* a. beneficio do Povo desta Villa 
a factura do Valia que dat Ribeira Se ba de Comunicar ao mar 
mandando ao dito Senhor a Copia dos Provimentos que v. mc. e 
foi Servido deixar:, os quaes elle os approvou Serem muito con- 
formes a Raaào como V. Mc. e verá da Copia da Carta que in- 
duza Remeta e que o Sertam* nào podia Ser contrario pelo zelo 
e utilidade do bem deste Povo, por elles mal conhecido. H& o 
que Se me Ofiferece diaer a V. Me 6 a quem Deos Guarde m" 
adros. Igoape a 26 de Outubro de 1779.. — Anixmio Rodkigueada 
Cunha. 

Documento ru° 98 

Termo de Vereança da Cantara « em parte » 

Ao primeiro dia do mez de Junho de mil oito Sentos e 
Sinco annos, nesta Villa de Nossa Senhora das Neves de Iguape 
Comarca de Paranaguá em Cazas da Camará e passos So Coni- 
celho aonde foi vindo, o Juiz ordinário Prezídente delia o Sar- 
gento mor Manoel Paulo da Cunha Com os mais Omsíaes delia 
abaixo aSignados para efeito de se fazer Ver e anca e Cuidar no 
bem Commnm do Povo, e sendo alii todos juntos fizerao Vereança 
e Cuidarão no Bem Commum do Povo. Nella escreverão, ao Illus- 
trissimo Exmo. Senhor General desta Capitania a respeito do furado* 
que Se tem concordado fazer pello mesmo antigo Vallo do Rocio 
que querem fabricar, afim de Contaminar as Aguas do Rio da Ribei- 
ra as do mar, Cuja Carta foi' registada no Livro Competente. 

Assignado. — Cunha. — da Silva. — Carneiro. — Garcia. — 
Cunha. 

Documento n.° 99 

IUmo. Esmo. Senhor* Sendo* hum dos mais interesantes Ri- 
mos para o augmento do Comercio facilidade da Agrkultuxa 
transporte dos efeitos do» Lugares da suu producçoins para esta 
Villa e Seo embarque huma Valia, que a tau tos annos Se tem 
dezejado fazer polia, qual Se cumuniquem as Agoas da Ribeira 
com a» do mar, por huma parte por onde tem de distancia tre- 
zentos braços mais- ou menos, e tendo este Objecto Sido da maior 
contemplação dos moradores desta villa e lavradores- de moior 
excepção por lhe aliviar hum prejudicial trafico que the a pre- 
sente tem sido- de hum* despeza extraordinária, aSin* para os 
■ditos lavradores como para* ob próprios donos de Cavro, por ser 
bua cousa incopativel (aw asin* se pode- dizer), a. Conservação 



- 198 - 

dos Bois Carneiros naturalmente dam ninhos das Roças dos mo- 
radores do Rocio e Porto da Ribeira, o que jamais Se poderá 
vedar, com as providencias q damos alem dos Capítulos de Cor- 
reição dos nossos Corregedores, em prezença dos quaes todos os- 
annos Se formam intrigas e Contra versas, que jamais Se pode- 
rão Sanar em tempo algum ; e tendo Subsistida estas incompa- 
tibilidades por huma frouxidão e falta de deliberação Sobre a 
fatura da dita Valia, com a qual Somente ficarão todas as Coizas 
em huma perpetua união, porque alem de ficarem as terras de 
Rocio Sercadas com a dita Valia fica Sem Serventia o pencio- 
nado trafico de Carros e Bois, pondo-se tam Somente Conservar 
nesta Villa animaes que Sejão bastante para o aSeio delia, Sem 
ofender a pessoa alguma, e querendo-nos empregar o nosso Zelo 
e maior esforço neste bem publico e útil em geral; precedemos 
primeiramente convocar em Camará o Povo, e depois de lhes 
termos Representadas as nossas intençoins lho ponderamos que 
a fraqueza pecuniária delia, não podia Suprir para este Serviço 
que nesesariamente havia de Ser despendiozo, o que querendo 
elles ajudar com ss despezas, tudo se ar angaria na forma do 
nossos desejos e delles, e a vista destas Sircumstancias se arro- 
jarão os de maiores forças com suas promessas para a dita Obra 
Cujas porçoins Somão na quantia de trezentos e dous mil reis, 
entre trinta e Seis homens alem de darem as Suas Escavaturas 
para o Serviço. Finalmente para conseguirse este importante 
particular, queremos primeiro consultar a Vossa Ex.* que Se- 
cundo as Suas Pias intençoins e Sabias Luzes tem dado a Co- 
nhecer a quanlo Se interesse no augmento da Lavoura de Sua 
Capitania, promovendo facturas de Caminhos para que por elles 
frequentemente Se transportem os efeitos como Colegimos da Res- 
peitável Ordem de trinta de Janeiro de mil oito Sentos e quatro 
dirigida a esta Camará, pela qual nos faz ver V. Ex.* a rigorosa 
obrigação que tem todas as Camarás Sobre este particular; e 
querendo Nos desempenhar os nossos deveres precizamos para 
isso em primeiro Lugar: Obter de Vossa Ex.* aprovação desta 
Obra que não he dlfficil e que se Se pode fazer em dous Mezes 
ou mais expedindo-nos Ordem para o povo trabalhar nella por 
Esquadras e Cada Esquadra dez dias, dando-se-lhe o Sustento 
nesesario e fnzendo-se as mais despezas pella quantia que Con- 
tribuem os mesmos moradores Sem que por este Serviço fiquem 
vixados por Ser tam moderado. Em Segundo o descanço dos 
Bois afinal dezordem da mortandade de Bois Carreiros, e quei- 
xas dos moradores do Rocio, e facilidade dos transportes dos 
efeitos para esta Villa Som depender de Carretos e Conduçoins 
Sendo igualmente huma Obra que ficara para sempre eternizada 



I 



- 199 — 

na memoria dos Povos e que se conseguio no tempo do felicisimo 
Governo de Vossa Ev.* como o hunico Protetor que para ella 
deo os auxílios e providencias necessárias, o que esperamos da 
benévola Protecção de Vosa Ex. * que Deus prospere e guarde 
muitos annos. Villa de Iguape em Camará do primeiro de Junho 
de mil oito Sen tos e Sinco. Beijão as maons da Vosa Ex.°* 
Sens reverentes Súbditos Manoel Pinto da Cunha. Bento João 
da Silva. Domingos da Costa Carneiro. Francisco Gomes de 
Moraes. Manoel Rodrigues Cunha. 

Documento n.° 100 

Recebi com o maior Satisfação o Officio de vosas mercês 
dactado no primeiro do Corrente e não posso deixar de Louvar- 
lhes muito o Zelo que mostrão pelo bem publico no projecto que 
formarão de abrir hum a Valia que comunique as Agoas do Rio 
da Ribeira com as do mar, afim de facilitar o transporte dos 
efeitos e produçoins do interior para essa Villa, e pôr termo aos 
prejuízos que o Gado cauza nas plantaçoins dos moradores. Esta 
Capitania teria prosperado muito se aquelles cujo Cargo está o 
Governo económico das Povoaçoins tivessem hum igual dezejo 
ao que vosas mercês mostr&o de remover os Obstáculos que im- 
pedem a livre circulação dos Géneros de huns para outros Lu- 
gares, e que vem a Ser cauza de Sua Carestia. Conhecida a 
utilidade geral dessa obra, de que primeiro fui informado por 
huma Rcprezentação de António da Silva Franco, não Só aprovo 
a factura delia como o detalhe por vosas merceb feito de traba- 
lhar o Povo por Esquadras da maneira que me propuzerâo a 
Cujo fim escrevo ao Capitão Mor dessa Villa para que aSim o 
faça executar, confiando muito da Sua Capacidade e Patriotismo 
e Certo de que unido com vosas mercês executarão efectivamente 
bum projecto com que Seus antesessores Se não atreverão. Deus 
Guarde a vosa mercês. Sam Paullo dezasete de Junho de mil 
oito Sen tos e Sinco. António Joze de França e Horta. Senho- 
res Juiz Prezidente o mais Officiais da Camará da Villa de 
Iguape. 

Documento n.°101 

Termo do Vercança da Camará. 
« em parto » 

Aos vinte e nove dias do Mez de Junho de mil oito Sen- 
tos e Sinco annos nesta Villa de Nossa Senhora das Neves de 
Iguape Comarca de Paranaguá em Cazas da Camará e passos * 



t 



— 200 — 

do Conselho onde foi' vindo o Juiz ordinário Prezidènte da Ca- 
mará com os mais Offisiais actuais delia abaixo aSignados para 
efeito de* Se abric huma. carta vinda de- Sua Excellenoia a res- 

Seito do que Se lhe escreveo, na Camará de hum de Junho, 
6Bte corrente anuro, respeito ao furado que Se quer fazer pello 
cnial Se oomoniquem a» Aguas da Ribeira com as do mar, cuja 
Obra foi aprovada por Sua Ex* dando ordem palia sua Carta 
porque Se fizesse a dita Obra cuja Carta fica Registada nos Li 
vros desta Camará. 

Assignado: Cunha — da Silva — Carnr* — Garcia — Cunha — 
António Borge Diniz. Diogo Garcia da jfr\ 

Documento n.° 102 

Aos dezanove de Agosto de. mil e- oitocentos e vinte nesta 
Villa de Iguape em Cazas da Camará onde foi vindo o Juiz or- 
dinário Presidente António BorgeB Diniz com os mais officiaes a 
saber pelos, trez vereadores por andarem auzentes e outros ira- 
. possibilitados António Moreira Ramos Juiz que 6ervio o anuo pas- 
sado, Ricardo Joaquim Peniche homem Republicano, Joze Gonçal- 
ves Maia Procurador do anno passado, e Procurador actual para 
efíeito de se fazer Yereança respeito, ao bem publico ahy assentou- 
se ser muito justo a abertura, do furado da Ribeira a esta Villa 
por ser muito útil ao Gommercio, a qne ja foi approvado pelo 
Ei?° ex Governador e Cappitào Goneral desta Cappitania Antó- 
nio Joze. da França, e Horta e mormentes fazendo Como per- 
tendem os ditos negociantes, ou Comercio fazer a sua Custa sem 
despendi o algum deste Senado a. excepção de alguns mantimen- 
tos para alguns pobres que ali trabalharem e que finalmente 
tenhào desejo de effectuar esta obra por ser muito comum ao 
publico podendose desde de hoje principiarce Com a dita obra, 
isto este Senado assentou por S9r requerido por todos os nego- 
ciantes. Assim despachouse vários requerimentos. E mais nada, 
de que faço este termo que assignarào eu Manoel Joaquim dos 
Santos que escrevy. Borges. liamos. Peniche Maia. Costa. 

Visto em corr m de 1820. Mello. 

Documento n.° 103 



mo 



Excellentisàimo senhor — Em observância da rezoluçào Ex 

Concelho da' Providencia do Governo communicada por Vossa 

Excel lencia em circular de- quatro: do mez próximo passado, te- 

'mos a honra de levar á presença de Vossa Exicellencia para se- 



— 201 — 

rem prezentes ao Excellentiseimo Concelho as seguintes observa- 
ções Bobre as medidas que de prezente se tornao indespensaveis 
a bem da instrucção e moral Publica dos Povos desia Vi Ha, e 
melhoramento de seo Commercio e agricultura. Em 1.° lugar 
temos de notar a grande e assaz, sentida falta de Professores 
Públicos de Gromm atiça Latina e I a " lettras em buma popula- 
ção de seis mil almas-. Nào se acha ainda decretada para esta 
Villa huma Aula Publica, de Grammatica Latina, e por isso Be 
torna necessária esta instituição. Quanto á de 1** lettras- bem 
que exista, comtudo por cauza do mesquinho ordenado nào ha 
quem se queira propor a ensinar; tornando-se portanto necessá- 
rio que augmente o Ordenado. Em 2.° lugar, devemos também 
notar o grande inconveniente que resulta a esta- Villa da falta 
de hum Juiz letrado, que com imparcialidade se saber adminis- 
tre a Justiça; e a faça respeitar, contra os attaques de certos 
malintencionados que intendem por liberdade constitucional a 
faculdade qae se arrogao de poder insultar as Authoridades 
Membros da Justiça, quando não concordào com seos arbítrios e 
maldades; este mal que pares se ser commum em muitas parteB, 
também se tem experimentado aqui, resultando que os homens 
de bem se excusão e fogem de servir os Cargos Públicos, porque 
estão tanto mais certos das injurias, quanto elles tem sido im~ 
quenes. Ainda que estamos persuadidas que para a instai la cão 
de huma Cadeira de Grammatica Latina, augmento de ordena- 
do á de primeiras lettras e concessão de hum Juiz de Fora, se- 
rão necessárias medidas Legislativas comtudo julgamos não ser 
occioso levar á presença db Excellentissimo Concelho estas ne- 
cessidades Publicas, porque como estamos convencidos dos seos 
bons dezejos e zelo pelo bem da Província, confiamos em que o 
mesmo Excellentissimo Concelho as não perderá de vista, se 
houver de representar a Sua Magestade sobre as medidas legis- 
lativas que julgar indispensáveis, urgentes ao bera da Provín- 
cia, e mesmo em quanto a Nossa Assemblea Legislativa não re- 
mover por meio de huma sabia legislação tantos flagelos que 
opprimem os Povos em consequência da confuza, incoherente e 
mesquinha legislacção que por desgraça e necessidade ainda nos 
rege. Em 2° lugar devemos implorar com a maior inBtancia a 
protecção e directa influencia do Ex m ° Concelho sobre trez ob- 
jectos que parecem pertencer as suas attribuições O 1.° já está 
em parte provedenciado pelo Excellentiòsimo Concolho, por cuja 
sabia decizão desde ja recebe as benções deste Povos falíamos 
sobre a estrada que nos consta se vae abrir de Sorocaba para o 
Rio Juquia, obra de summa importância e interesse para* os Po* 
vos de ambos os districtos: oxalá que elle se ponha em pratica 



— 202 - 

e se conclua com a maior brevidade ! porem temos de lembrar e 
mesmo de rogar com instancia ao Excellentissimo Concelho a 
providencia da abertura de outra estrada que sahindo do Capi- 
tal, costeando a serra pelos Campos á esquerda da Freguezia de 
Cotia, va reunir-se a estrada que se fizer de Sorocaba para Ju- 
quia, naquella parte onde foi possível junto a Serra. Assegurão- 
nos que é possível esta Obra, e muito conveniente hé, que o 
Excellentissimo Concelho mande desde ja examinar a possibili- 
dade abrindo-se huma picada, o que esperamos do Excellentissi- 
mo Concelho. E quando isto se não possa executar, lembramos a 
abertura bem fácil da estrada em outro tempo praticada de Santo 
Amaro para a Villa da Conceição de Itanhaem, pois que por 
essa antiga estrada se facilita em extremo a communicação e 
despendioza viagem da Capital para estas Villas da Marinha, o 
que também esperamos o Excellentissimo Concelho não perderá 
de vista. O 3." he huma obra de mais mediata importância e 
interesse de todos os Povos deste districto; obra muitas vezes 
reclamada pelos Povos, e muitas vezes mandada por em pratica 
por differentes Governos da Província, mas que desgraçadamente 
por huma fatalidade inexplicável (se hé que se nào pode expli- 
car pela falta de patriotismo d'aquelles a cujo cargo foi encar- 
regada) tem sido athe agora desprezada. Tratamos da abertura 
de hum Canal que faça communicar a Ribeira com o mar pe- 
queno. As vantagens que rezultao a todos estes Povos são in- 
calculáveis e para os mencionar necessário seria huma longa 
Memoria: contcntaino-nos portanto em apontar tão somente al- 
gumas que logo a primeira vista mos trilo a sua vantajoza impor- 
tância. Seja a 1.* a provável esperança de melhoramento da 
Barra chamada do mar pequeno, ou da Capara, por quanto com- 
municando-se a Ribeira com o dito Mar, e augmentando-se por 
consequência o volume das aguas, he possível ( segundo o afir- 
mam os que intendem das leis da Hydraulica ) que se torne 
mais profundo o Canal da dita Barra: e nesse cazo deixamos a 
contemplação do Excellentissimo Concelho, a inapreciável van- 
tagem que recebe o commercio, não só desta Villa, como de to- 
das aquellas que com ella tem relação em se não utilizar da 
Barra da Cannêa distante desta quatorze a quinze legoas, por 
onde a extrema necessidade as obriga a navegar, pois que não 
he raro gastarem as Embarcaçães dois ou trez dias de viagem 
do Rio de Janeiro athe Cananêa, e desta para Cá oito dias e 
mais. Seja a 2.* a grande summa de dinheiro que annualmente 
se gasta na condução dos géneros do Porto da Ribeira para 
esta Villa, no dinheiro gasto em Bois anualmentente, no per- 
dido serviço dos Escravos, nos roubos das Sacas de arroz nos ar- 



- 203 - 

mazens do dito Porto, damnificação e empate das mesmas e por 
consequência demora das Embarcações que estão á carga, pois 
que muitas vezes não há absolutamente carros para transporte 
etc. He necessário portanto abrir se bum Canal de meia legoa, 
com profundidade e largura sufficiente, por onde possam 
passar duas Canoas grandes emparelhadas. Esta Camará 
não só nao tem meios para tratar desta Obra, tão dispendioza 
mas athe se acha gravemente embaraçada na factura que agora 
emprehende de huma Caza de Camará e Cadea, pois que a an- 
tiga, alem de incapaz se teve de necessidade desmanchar para 
dar lugar a continuação da obra da Nova Matriz: por tanto he 
necessário que o Povo concorra para a abertura do Canal, para 
o que elle se presta de muito boa vontade. Trez são os expe- 
dientes ou lembranças que se podem pôr em pratica com appro- 
vaçào e coadjuvação do Excellentissimo Concelho; 1/ Serem ge- 
ralmente, sem excepção de pessoa obrigados todos os vizinhos 
desta Villa, Freguezia de Xiririca e athe os de Iporanga, des- 
tricto de Apiahy, a virem trabalhar na abertura do Canal. Este 
plano que a primeira vista parece bom deve encontrar na pra- 
tica muitos obstáculos, que necessariamente podem pelo menos 
embaraçar por alguns annos o complemento da Obra, e são os 
seguintes, he necessário pagar pelo menos a dois administrado- 
res que dirigem e zelem os trabalhos, e ahi temos que he ne- 
cessário pagar-lhes a novecentos e se sen ta reis por dia a cada 
hum o que no fim da Obra montará a grande quantia, que 
junta aquella que se deve gastar no sustento e ferramentos, se 
não saber de onde ha de vir: ora temos alem disto que não se 
devendo obrigar o Povo trabalhar senão em certa época do anno, 
tarde ou nunca se concluirá o Canal. Alem deste inconveniente 
temos outro, e vem a ser, qual será o meio de se não faltar ao3 
princípios de Justiça distribuitiva no cazo de serem os povos 
obrigados a concorrerem com seo contingente de trabalho, pois 
que, este trabalho deve ser proporcionado a utilidade que cada 
homem deve tirar da Obra? Por exemplo no destricto e vizi- 
nhança desta Villa todos são interessados na abertura do Canal, 
mais hum, mais outro menos, porque huns abitão no mar pe- 
queno e outros na Ribeira, seguindo-se que estes tirão interesse 
como de dez, aquelles talvez como de hum: entre os mesmos 
moradores da Ribeira, huns tirão interesse como de sem e ou- 
tros como de cinco, atendidas as suas circumstancias de agri- 
cultura e commercio. Ora comparativamente aos desta Villa he 
enorme differença entre os de Xiririca, e entre estes aos de 
Iporanga. De onde se vê que por este plano se seguirão des- 
contentamentos, queixas e má vontade o que tudo resultará em 



- 20* - 

retardamento da obra, alem das inimizades e intrigas que de 
necessidade devem aparecer. Ainda mais> concluída que seja a 
Obra, be infallivel que nos primeiros annos ella necessite de 
concertos e desentulhos, e então temos novas convocações do 
povos: não se devendo ommittir que os Povos estão cascados 
com os trabalhos a que tem Rido obrigados na abertura, ainda 
que fácil, de pequenos furados na Ribeira acima. A 2* lembran- 
ça consiste em achar-ae hum homem abocado que se encarregue 
de fazer o Canal por hum preço determinado e em determinado 
tempo: e para satisfação do empenho que se contrahir se deve- 
rá lançar sobre- os Povos huma derrama, guardados na forma 
acima mencionada, os princípios de Justiça cfístribuitiva;. a pe~ 
zar de cuja dificuldade parece este plano prefferivel a aquelle, 
bem que nos venha a lembrança a ingrata recordação do infeliz 
resultado que tive hum igual plano no Caminho de Santos á 
Cubatao. A 3* lembrança consiste em- achar hum homem abo» 
nado que se encarregue de* fazer a sua custa toda a Obra obri- 
gando também ao aeo concerto, com condição de cobrar por es- 
paço dos annos que* se justar aquelle mesmo que se costuma 
pagar por arroba nos carroe: por exemplo costumão pagar por 
saca sessenta reis no transporte do carro: o> homem que fizer o 
canal deverá perceber os mesmos sessenta reis quando as Sacas 
passarem pelo Canal, isto por espaço de oito ou dez annos ou 
por aquelles que se ajustar. Este parecer aer o expediente 1 mais 
prompto e menos giavozo ao Povo; mais prompto porque deutro 
em seis mezes ou bum anno estará franco o Canal, visto que o 
homem que delle se encarregasse por isso mesmo que nào re- 
cebe dinheiro avançado, e que aplica os seos fundos he o mais 
interessado em que a Obra se finalize* para principiar tirar o aeo 
dinheiro, cujo lucro só poderá haver depois de passados alguns 
annos: menos gravoze ao Povo, porque o pow só recebe o pro- 
veito, sem trabalhar, porquanto o direito que deve pagar por 
hum tempo certo, hé o mesmo que elle tem ate agora pago e 
que continua a pagar, e que pagará-se se não emprehender e 
executar a obra, e seguindo-se que não concorrerá era nada para 
o Canal; qne terá este Canal aberto- dentro, em pouco tampos e 
que- ficará desonerado de o consertar; salta porem aos olhos hu- 
ma difficuldade que segundo nos parece está ao alcance do Ex- 
cel lentissrm o Coneelho o removel-a, e vem a ser. Be inegável 
que não s& no antigo» sistema, como no moderno se tem muitas 
vezes faltada a fé publica, e disto sabe muito bem o Povo que 
o sente em muitos exemplos: e por isso occorre que talvez, fi- 
nalizado o prazo ajustado* com quem fizer o Canal, queira o Go- 
verno' chamar a si o- direito estabelecido a favor do particular; 



- J805 - 

esta idea certamente he revoltante, e se o Povo n&o tiver huma 
firme garantia de que tal direito se lhe n&o ha de extorquiar, e 
sim ha de findar no .mesmo dia em que findar o Contracto, por 
eerto que n&o só esta Gamara mas o Povo em geral se quererá 
expor a todo e qualquer aacrifissio. Eis o que nos parece que 
está nas maons do Exeellentrmo Concelho a obviar, promettendo 
per tudo o que há de mais sagrado e fazendo com que tal pro- 
messa «eja acreditada, de 'que tal direito jamais será pertendido, 
lavrando-se disso «m Gamara as precisas declarações e •empe- 
nhas do-ee nellas o mame Augusto do Soberano. O 3 o objecto que 
temos de lembrar ao Exeelientissimo Concelho he a abertura de 
hum pequeno furado, que faça communicar o Bio de Una da 
Conceição com o Rio de Una de Iguape. Aquelle Rio acha-so 
deserto e inculto a pezar das favores da Natureza, que no longo 
espaço de quatorze legoas e mimozeo com hum terreno próprio 
para todo o género de cultura, mas como ae acha fixado n&o ha 
por onde o lavrador p*ssa sem grande despendio tirar as suas 
colheitas, está abandonado e o estará emquanto se n&o abrir o 
furado, que propomos, obra fácil lima que se n&o tem feita por 
falta de patriotismo, apezar também de Ordens que para isso 
tem havido. Dizem ser t&o somente precizo abrir hum Canal 

?ue n&o tem mais de oitenta braças e limpar o rio chamado — 
larvalho— que desagua no dito rio de Una da Conceiç&o; tudo 
isto he muito fácil e pouco despendiozo; pode ser obra de duas 
.a trez semanas, mas para se dar principio a ella be preeizo a 
influencia positiva do Exeelientissimo Cuncelho, para que n&o 
só esta Gamara seja authorizada para fazer as módicas dospezas 
necessárias, mais também para que as mais Âuthoridades con- 
corrào de accordo com ella para fins t&o justos. Taes s&o as lem- 
branças que por ora nos occorre como mais precisas, e que por- 
isso as levemos a presença do Exeelientissimo Concelho, que se 
dignará prestar lhes a attenç&o que merecem. Iguape em Ca- 
mará de dezoito de Dezembro de mil oitocentos o vinte e qua- 
tro. De Vossa Excellencia Attenciozos Súbditos. Joze Gonçalves 
Maia. João Jaciniho de Andrade. Joze Bento Pupo de Gouvea* 
Joze António Peniche filho* Joze António dos Anjos* 

Documento n,° 104 

Yercjtnça da Casnara (esa parte) 



Aos doze dias de mez de Fevereiro de mil oitocentos e vis- 
ta e sineo annos, quarto da Independência e do Império, nesta 
Villa de Iguape comarca de Paranagoa e Coritifaa em Gazas da 



- 206 - 

Camará e passos do Concelho onde vierâo prezentes o Juiz Pre- 
zidente Joze Gonçalvez Maia com os officiaes adiante nomeados 
e sendo ahi para effeito de fazerem vereança e cuidarem no bem 
comum do Povo. Na mesma foi aprezentado hum requerimento, 
e elle aneixo as Condiçoens respeito á abertura de hum vali o 
do Porto da Ribeira, para o mar pequeno desta villa cujo re- 
querimento foi aprezentado por parte de Joze Innocencio Alyes 
Alvim e de Joze António dos Anjos com despacho do Ex ma Pre- 
zidente para que a Camará dera o seu parecer ouvindo aos Ci- 
dadaons todos de mais conseito e de probidade desta villa e seu 
termo, avisto do que Assentarão de que para darem Sua devida 
Informação distinar&o que se fizesse avizo ao Comandante da 
Freguezia de xiririca para este convocar as pessoas competentes 
de Seu destricto para darem o Seu parecer Sobre á abertura do 
Vallo desta Villa em consequência do Despacho do E mQ Prezi- 
dente, os quaes se deveriào reunir nesta no dia vinte e seis do 
corrente mez de Fevereiro para darem juntamente com as pes- 
soas de maior conseito e probidade desta dita Villa o seu pare- 
cer respeito ao dito vallo, escrevendo elle Prezidente ao dito 
Comandante para assim terem assentado. Assignado: Maia, An- 
drade. Malta Carn°. Peniche f°. Costa. 

Documento n.° 108 

Illustrissimo Senhor Cappitão Comandante. Em consequência do 
Despacho de Sua Excellencia que neste vai Incerto delle VS* verá 
que a Camará desta Villa tem de dar o devido cumprimento 
fazenda as precizas diligencias que no mosmo determina, e por 
tanto tenho de fazer ver a Vossa Senhoria de que propondo-se Su- 
jeitos particulares com requerimentos aos Excellentissimo Preziden- 
te querendo abrir o Canal da Lagoa da Ribeira desta Villa para 
communicar com o mar pequeno, para com mais facillidade au- 
gmentar o commercio da mesma e Seu termo, debaicho das Con- 
dições que foi prezente a mesma Camará e ella assentou que se 
deverá dar com a brevidade possível sua informação ouvindo aos 
Cidadãos de mais conceito e probidade desta Villa e seu termo e 
para o dito fim destinarão o dia vinte e seis do. corrente mez de 
Fevereiro : por tanto por esta vou convidar a Vossa Senhoria, e 
aquelles Cidadãos desse Freguezia que forem de mais conceito e 
probidade para se acharem nesta Villa e cm Camará no dia desti- 
nado para serem ouvidos, visto que he em igual beneficio dos mes- 
mos para assim sem bem cumprido o despacho de Sua Excellencia; 
Í6to hé, Vossa Senhoria e os mais dos seus súbditos, pois que do 
contrario em tempo ninhum terão duvidas e nem alegarem quaes- 



i. 



— 207 - 

quer oppizições os prezeute objecto hua vez que não compareção 
ein tempo aqui marcado, para esse que tenho bem ponderado a 
Vossa Senhoria todas as circumstancias que prementemente me 
occorrem para lhe fazer saber pela parte que lhe toca ; e para me- 
lhor conhecimento seu remetto nesta por Copia o despacho que he 
o seguinte — Informe a Camará, ouvindo a todos os Cidadãos de 
mais conceito e probidade da dita Vil la e seu termo, avista das 
condições propostas peloB Supplicantes e interpondo o seu pareser. 
São Paulo quinze de Janeiro de mil oitocentos e vinte e cinco 
— Monteiro — He o que por oras tenho de levar ao conhecimento 
de Vossa Senhoria a quem Deos Guarde muitos annos. Villa 
de Iguape aos quatorze de Fevereiro de mil oitocentos e vinte 
e cinco, De Vossa Senhoria — Attenciozo respeitador— O Juiz 
Prezidente Joze Gonçalvez Maia. 

Documento n.° 106 

Acta de vercança (em parte) 

Àos cinco dias do mez de Março de mil oito centos e vinte 
e cinco, quarto da Independência e do Império, nesta villa de 
Iguape comarca de Parauagoa e Coritiba em Cazas da Camará 
e passos do Concelho onde se vio prezente o Juiz ordinário 
Prezidente Joze Gonçalvez Maia com os Officiaes abaicho asi- 
gnados com o vereador primeiro interino o Alferes Manoel 
Baptista Gomes em lugar do actual João Jacintho de Andrade 
e sendo ahi todos reunidos para ene i to de se tratar de Negócios 
do bem publico, Nella mandarão declarar que tendo-se destinado 
o dia vinte e seis de Fevereiro em vereanca de doze do dito mez, 
para Se Informar o Requerimento do Alferes Joze Innocencio 
Alves Alvim, e de outro Seo Sócio, respeito ao vallo pertendido 
da comonleaçao das agoas para o mar pequeno desta villa, não 
Se informou no dia detrimiuado pella razão de Se ter convocado 
aos Cidadaons da Freguezia de xiririca não comparecerão athe 
o prezente, mais Sim, ter o dito Juiz Prezidente recebido hum 
asignado do Comandante e de varias pessoas d'aquella Fregue- 
zia no dia vinte e sete do passado, que nesta vereanca fiz pre- 
zente propondo elle Juiz aos O ff 08 Se com o dito asignado bas- 
taria para derem Sua devida Informação, ou Se hera precizo 
comparo serem os mesmos prez entes nesta Camará em dia que 
ouvesein de ser para isso destinado, Asentarao os vereadores que 
em quanto os asignados não es ta vão pello aSignado, mas Sim 
do3 próprios Cidadoins não So daquella Freguezia, como os desta 
villa, que em acta de vereanca Se aSentaria, e que para isso se 



lavrará Edital para esta villa e Freguezia de xiririca com o dia 
marcado .vinte e seis de Março para reunião nesta Camará, com 
.as circumatancias da ordem do Ex"° Prezidente, cujos Editaes 
ordinar&o que fosse Somente asignado pelo Juiz Prezidente — 
Maia — Gomes — Gouvea — Peniche f° Anjos. 



Documento n, 107 

Joze Gonçalvez Maia Jniz Ordinário Prezidente da Camará 
nesta Villa de Iguape hb seu termo com alçada no Civel e Crime 
por bem da Lei etcetera etcetera etcetera. 

Fasta saber a todos os moradores da Freguezia deXiririca aos 
que convier que em detnminaç&o de Vereança de cinco do cor- 
rente mez e anno, se deverifto juntar os Cidadaons da mesma 
Freguezia nesta Villa para no dia vinte e seis do dito corrente 
mez se acharem em acto de Vereança para darem o seu parecer 
sobre a abertura de hum vallo que se pertende abrir da Lagoa 
da Ribeira desta Villa a communicar-se com o mar pequeno da 
mesma por se considerar ser obra muito útil .ao giro do com- 
mercio, e bem publico, em consequência do Despacho do Ex- 
•oellentissimo Prezidente desta Província que he do theor seguinte 
— Informe a Camará, ouvindo a todos os Cidadãos de mais con- 
ceito e probidade da dita Villa e seu termo, avista das condt- 
•çoens propostas pelloB Supplicantes, interpondo o seu parecer — 
São Paulo quinze de Janeiro de mil oito -centos e Tinte e cinco 
Monteiro — Pello que hé de necessidade que os ditos Cidadaons 
de mais conceito e probidade comparação .no dito dia asima mar- 
cado pela Camará, afim de se lhe fazer o dito Canal, e Condi- 
çoens pellos mesmos offerecidas, e dizerem o seu parecer, com 
.os demais Cidadaons desta Villa para a vista de suas propuzi- 
çoin6 a Camará interpor o seu parecer e fazer subir tudo ao 
conhecimento de Sua Excellencia e para que chegue a noticia 
.de todos e n&o poss&o em tempo algum alegarem ignorância 
mandei passar o presente para ser publica pelas ruas da dita 
Freguezia pello centenário da mesma o qual ^passará sertid&o ao 
pé do mesmo de assim o ter executado, e levaavBe tudo ao Co- 
nhecimento do Excellentissimo Prezidente, e vai por mim asigna- 
do. Dado em Iguape aos Dose de Março de anil oitocentos e 
vinte e cinco, quarto .da Independência e ào Império, eu Joze 
Joaquim da Assumpção e Souza, JCaorivam o escrevy— Joze Gon^ 
çalvtz Maia. Juiz Prezidente. 



- 2G9 — 
Documento n.° 108 

Joze Gonçalves Maia, Juiz Ordinário, Prezí dente da Gamara 
desta Villa de Iguape e seu termo com Alçado no Civel e Crime 
por bem da Lei ele etc etc: 

Faço saber a todos os Cidadãos desta Tília que havendo o 
o Ulustrissmo e Excellentissimo Prezidente da Província orde- 
nado a Camará desta Villa que, ouvindo os Cidadaons de mais 
conceito e probidade, interponho o sen parecer sobre o requeri, 
mento de Joze Innocencio Alves Alvim e Joze António dos 
Anjos, da -Villa de Iguape, que tratando-se de abrir junto aquella 
Villa hum Canal de meia legoa, que faça communiear a grande 
Ribeira com o mar pequeno 00 Supplicantes se oflferccerem para 
o abrir á sua custa com as condições induzas ; e porque 'a lei 
de vinte de Outubro de mil oitocentos e vinte e traz incumbe 
a Vossa Excellencia a fomentar Obras desta natureza : e alem 
disto os Supplicantes dezejao que Vossa Excellencia seja o ga- 
rante do Contracto e convenção entre elles e a Camará d'aquella 
Villa c Pedem a Voasa Excellencia haja de intervir e proteger 
este negocio da maneira que lhe dictar a sua prudência e sa- 
bedoria, Esperào Receber Mercê » Informe a Camará ouvindo a 
todos os Cidadoes de mais conceito e probidade da dita Villa e 
seu Termo, a vista das condições propostas pelos Supplicantes 
e interpondo o seu parecer. Silo Paulo quinze de Janeiro de 
mil oitocentos e vinte e cinco— Jfon tetro. 

Condições com que Joze Innocencio Alves Alvim e Joze 
António dos Anjos da Villa de Iguape se obrigão abrir o Canal 
que deve comnrunicar as agoas da Ribeira com mar pequena 
junto a mesma Villa: 

1.* Que elles se obrigão a abrir a Canal com largura e 
profundidade suficiente para passarem a par duas 1 canoas gran- 
des ; obrigando^se a concertal-o por espaço de dez annos. 2.* Que 
durante os dez annos cobrarão de todos os géneros que passarem pelo 
Canal o mesmo que eostumào pagar no transporte dos carros isto he, 
vinte réis por alqueire de arroz, feijão, milho, farinha, sal, mate ; 
vinte reis por arroba de farinha de trigo, Café, toicinho, e banhas, 
sebo, fumo, assucar, carnes verdes e secas, fazenda seca em qualquer 
volume, e cinco reis por medida de todos os líquidos que passa- 
rem polo Canal. 3/ Ficarão livres de contribuição os seguintes 
artigos, telha, barro, pedra, rama, trastes, mobília, utensílio*» e 
o mantimento que levarem para a Villa para sua sustentação 
das famílias, não passando de trez alqueires de cada género. 4.* 
Ficarão prohibidos os transportes em Carros; se houver porem, 
quem queira transportar os seus eneitos em carros, o poderá fazer, 



- 210 - 

ficando portanto inhibido de passar jamais pelo Canal, visto que 
não contribuindo não terá direito de gozar de commodidado e 
benefícios do dito Canal. Joze Innocencio Alves Alvim. Deli- 
berou a Camará em Vereança de cinco do corrente de Março 
convocar bum Conselho de todos os Cidadãos de Conseito e pro- 
bidade e marcou o dia vinte e seis do corrente para a reunião 
deste Conselho. Portanto convido e convoco a todos os Cidadãos, 
que estejão nas circumstancias do despacho acima para que cora- 
pareção no dia marcado para darem o seu parecer sobre hum. 
objecto de tanta monta e interesse publico. E para que chegue 
a noticia ue todos o Contheudo deste Edital mandei Lavrar o 
presente qne será publico pelas ruas desta Villa o fixado no 
logar do costume, e vai por mim asignado. Dado em Iguape 
aos Vinte de Março de mil oitocentos e vinte e cinco. Quarto 
da Independência e do Império: Eu Joze Joaquim de Assumpção 
e Souza Escrivam o escrevy. Joze Gonçalves Maia. Juiz Pre- 
zidentc . 

Documento n.° 109 

Vereança da Camará 

Aos vinte e seis dias do mez de Março de mil oito Sentos 
e vinte e sinco ânuos quarto da Independência e do Império 
nesta Villa de Iguape, Camará de Paranagoa e Coritiba em Cazas 
da Camará e passos do ConEelho onde veio o Juiz Prezi- 
dente Joze Gonçalves Maia Com os actuaes vereadores João Ja- 
cintho de Andrade. Joze Bento de Gouvea e o Ajudante Joze 
António Peniche filho e mandarão ver prezente a António Pupo 
da Hocha para servir no lugar do Procurador, visto o actual 
Joze António dos Anjos ser suspeito na prezente vereança e 
sendo ahi todos reunidos para effeito de fazerem vereança e tra- 
tarem sobre a abertura de hum Canal do Porto da Ribeira para 
comunicação com o mar pequeno da mesma, na conformidade do 
Edital que se havia lavrado em consequência da detriminação 
da vereança de sinco do corrente mez e anno, destinando-se para 
Reunião de hum Conselho e tratarse sobre o dito objecto, e se 
dar o devido cumprimento ao Despacho do Ex lno Prezidente. 
Nella se achando prezente e Reunidos a* pessoas que aSignarão 
hum plano que pello Capitão Autonio Borges Diniz foi oferesido 
na vereança de hoje os quaes todos Convierão no mesmo para 
a abertura do Canal da Ribeira que Se pertende Se faça a Comu- 
nicarse com o mar pequeno desta Villa, os quaes tãobem reque- 



— 211 — 

rerao que ficav&o exentos do outro qualquer Plano que ouvece 
com que Se haja de propor Sobre a dita abertura, por não que- 
rerem ser tributados, que Sendo pellos interesados esa dita aber- 
tura, por ter requerido ao Ex 1 * Piczidenle, Com outro Sócio 
Jozé António dos Anjos, oferecido estes bum primeiro plano, e 
conhecendo Ser bastan temente pezado, nesta vereança ofereseo 
Segundo Com outra modificação, e sendo prezentes neste mesmo 
dito nfio convier&o e que Sim Se dese execução na dita obra 
por aquelle plano oferecido pello Capitão António Borges Diniz 
por Ser de gosto, dos que muitos Sc acharão. Na mesma ellcs 
offísias da Camará detriminarao que visto neste acto de vereança 
Sc nào ter ruinido mais pessoas e cidadoens por nfto Se acharem 
na Villa detriminiirao fica Se para outra Camará Se Convocarem 
e Reunirem mais pessoas paia tftobem darem os seus vetos e 
Cora mais Sircumstancias precizas clles offisiaes ]>o derem dar sua 
informação e para constar mandarão Lavrar esta acta ein que 
aSignarâo e eu Joze Joaquim da Assumpção e Souza Escrivam 
o escrevy. Maia, Andrade. Gouvea. Peniche S.° Ant.° Bx.* 
Joze António Peniche. António Jaze Penixe. Joze Xavier Boiz. 
fran. co Car.° da S. a Braga. António Fran. co Giz. João Joze 
<te Car.° Simoins. Joze Ant* da S.* Joaquim J. Teixeira dos 
Santm. Joaq. m Man. 1 Junq.* e Canto. João Ignacio d^Oliv* 
Guim" João Vieira da S.' António Mnz Bib. m Joze Boni- 
fácio <F Andrade. Cândido Pvpo da Bocha. Igr Mariano Biz. 

Documento n.° 110 

Em vereança da Ca mura— 4 de Abril de 1825 

Na vereança a Camará detriminarao que visto ficar em aber- 
to para serem chamados os Cidadãos desta Villa e Seu termo 
para lhes Ser a cada hum delles aprezentado dois planos com que 
por meio delles darem o seu parecer sobre a abertura de hum 
canal que se per tendo Se faça para comonicaçào das agoas da 
Ribeira com as do mar pequeno desta villa, para ashn se facilitar 
mais a comodidade publica, e por a seus respeitos se dar o mais 
exacto cumprimento ao Despacho do Ex mo Prezidente desta Pro- 
víncia, e Nella comparecerão prezentes partes dos Cidadaons desta 
villa e sendo lhes asim anrezentados os dois planos oferecidos em 
vereança para cada hum delles asignarão no plano oferecido pello 
Capitão António Borges Diniz os quaes asignarão juntamente 
neste mesmo acto o Na mesma pello Gregório Feliz de Almeida 
como Comandante da Freguezia de Xiririca nao asignavao plano 
algum e Sim contribuir com o que pudesse nem mesmo mandar 



— 212 — 

Escravos alguns por ser muito distante desta villa e sofrerem por 
isso emcomodos, a visto do que detriminarão tudo ouvese de ser 
prezente ao Es™ Prezidente da Província Com a Informação que 
de suas partes lhe for de seu dever, e fazendo Saber tudo quanto 
for tendente ao prezente respeito ao conhecimento de Sua Ex* e 
para constar mandarão fazer inSerramento em que aSignarào e 
eu Joze Joaquim da Assumpção e Souza Escrivão da Gamara que 
o Escrevy. Cunha. Andrade. Gouvea. Peniche 1.°. Rocha. Vi- 
ctorio Joze Lopos. O P* Francisco Manoel Junqueira. Gregório 
Félix de Alm\ António Mz Ramos. João Muniz da S\ Manoel 
António Duroens. Francisco de Souza Castro. Joaquim de Souza 
Castro. João Bernardo Carn°. Joze Bento de Olv* e Souza. Joze 
de Andrade e S*. Francisco Manoel da Silva e Mello. 

Doeunento n.° 111 

O Prezidente desta Província remette a Camará da Villa de 
Iguape a portaria induza e pedida pela Secretaria do Estado 
dos Negócios da Marinha, memorias e mappas a ella juntos, sobre 
o melhoramento da navegação desde o Ric Peruhybe ate a Barra 
da mesma Villa afim de que em vereança geral como o pare- 
cer de todos os Cidadaons do seu Destricto informe com brevidade 
sobre hum tão interessante objecto, propondo os meios de realisar. 
se esta obra, quaes as rendas que para ella se deverão destinar 
e tudo aquillo, que lhe dictar o seu Zello pello bem Publico . São 
Paulo doze de Julho de Mil oito centos e vinte e sinco. Lucas 
Monteiro de Barros. Manda Sua Magestade o Imperador pela Se- 
cretaria do Estado dos Negócios da Marinha, remetter ao Prezi- 
dente da Província de São Paulo não só o mappa induzo e ex- 
Ílicação a elle annexo que o Capitão de Fragata Carlos Lourenço 
lanckward apresentara com o fim de melhorar-se a navegação 
interior da mesma Província desde o Rio Peruhybe ate a Barra 
de Capara, ou da Villa de Iguape, mas tãobem a Informação 
accompanhada de outro mappa que a semelhante respeito dera o 
Brigadeiro Daniel Pedro Mui ler, e Há por bem que o referido 
Prezidente informe, interpondo a seu parecer sobre tão interes- 
sante objecto, declarando qual hé a quantia que pelas rendas da 
Província se poderá annualmente consignar para o mencionado 
fim. Palácio do Rio de Janeiro em oito de Junho de mil oito 
centos e vinte e sinco. Francisco Villela Barboza — Cumpra-se e 
Registe-se. São Paulo vinte e hum de Junho de mil oito centos 
e vinte e sinco. Monteiro— Explicação do mappa — (A) o Porto 
para os Navios que entrão pela Barra de Cananea fundear e car- 
regar na Villa de Iguape e fazem a volta de vinte e sinco le- 



— 213 — 

goas n&o obstante que (B) a Barra de Capara bé navegável para 
Navios de doze a quatorze palmos, mais por falta de Pratico e 
assistência de bmna Lanxa, tem ella sido desconhecida athe eate9 
dias que foi praticado por bum Capitão que teve animo a entrar 
pela dita Barra, e julgar-se mais fácil que a Barra da Ribeira 
duas a trez legoas. (C) A Villa de Iguape bem construída e 
populada, setuaçao avantajoza para cumercio, exporta todos os 
annos sessenta mil a oitenta mil alqueires de arroz e algum Caffé, 
construe-se trez a quatro navios por anno no bellisimo Rio da 
Ribeira, mais por falta de fácil communicaç&o com os moradores 
do mesmo Rio por onde vem todo o cumercio faz que o trans- 
porte fique mais custozo e despendiozo pella (D) Lagoa que for- 
ma o Porto da Ribeira e o desembarque de tudo que passa para 
a Vilia em Carros pello (E) caminho, e o lugar para os nego- 
ciantes ter os nos armazéns, quando com toda a facilidade podia 
se abrir (F) o Canal já a muito tempo projectado, maia pello 
pouco animo e a intriga n&o se tem realizado e será bum grande 
beneficio para o cumercio, e mais ainda para o povo, que por 
falta de cómodo no Porto da Ribeira raras vezes vem a Villa e 
por por este motivo padesse os habitantes do necessário para o 
seu sustento : o auctual Prezidente tem em vistas de mandar 
abrir, visto que se faz bum Caminho da Fabrica de Ferro pela 
Villa de Sorocaba e a Freguezia de Itapecerica descendo por hum 
braço da Ribeira para por este Caminho transportar com mais 
commodo o Ferro, effectuando esta grande e útil obra, mais pre- 
cizo será a abertura do Canal que poderá ter menos que hum 
quarto de legoa de cumprido em terra plano e firme. (6) a Bar- 
ra da Ribeira tem estrada para doze a quatorze palmos com bom 
tempo, mais por falta de toda a existência de hum bom Pratico 
e Lanxa, he pouco frequentado e sô de algumas Summacas per- 
tencentes aos moradores do mesmo rio, por isto hé muito neces- 
sário para a navegação do rio hum lugar para fazer Signal e 
hum bom Pratico com Lanxa, o qual he mais necessário na sa- 
bida que senfpre se faz com hum terral fraco contra maré em- 
xente, que muitas vezes impede os Navios a fazer viargem, visto 
que a sua pequena tripulação n&o hé suficiente, para dar Rebo- 
que, quando hé precizo no banco da Barra, poderá ter quatro- 
centos braços e passando tem quatro a cinco braços de fundo, 
n&o me admira que lá n&o tenha providencias necessárias para 
facilitar o cumercio, quanto aqui em Santos he o mesmo. He 
muito necessária dar providencia nesta Barra, visto que o seu (H) 
Rio da Ribeira hé mui abundante de exellente madeira de con- 
strucç&o e navegável quinze legoas asima para os mesmos Navios 
que podem entrar na Barra : assim parece me este Rio, o segun- 



— ?14 - 

gundo Nillo em Egypto pelo seu fértil ingente, produz fructos 
de clima quente e frio, pastherias excellentes polias Praias; e 
podia se augmentar pella industria, mas ha difficil transporte 
para a Villa desanima os Pobres moradores. Eu tinha muita es- 
perança de tirar bastante madeira deste Rio, e especialmente 
Planchaões e Taboado de Canella preta, excel lente para os fun- 
dos dos Navios, de que ha falta aqui matos de Santos e na Ilha 
de São Sebastião, a Escuma deste Arcenal está na sua segunda 
viagem deste Rio : mais não pode forçar este negocio ; visto que 
a despeza excede as minhas ordens e actuaes meios, e ainda 
mais fácil será esta especulação se a madeira pude- se ser tran- 
sportada direitamente cm Balças pelo novo Canal para ser em- 
barcada em Navios roais grandes de quinze a dezoito palmos e 
sanindo pela Barra de Cananea, para chegar ao principio deste 
Rio gasta-se oito a dez dias de viagem, mais em sima mais aban- 
donada pelos particulares, visto a sua distancia: os cortes da 
madeira será mui fácil, visto que há muitos moradores pelo Rio 
visto que quazi todo o terreno he plano, as mesma facilidade 
encontra-se no Rio Grande e de Una de trabalhadores, tem menos 
(I) Rio de Una pequeno, consta-se que 03 moradores do Rio 
Grande tem procurado a facilidade de unir os dois Rios pello 
Rio Carvalho no (K) lugar, e de distancia de hum quarto de 
legoa, para facilitar o transporte dos seus géneros, que agora se 
faz com muito trabalho pello Porto do Prellado e parte por terra 
ate o (L) lugar, e de dezembarque, viajando da Villa de Iguape 
por terra, e pellos Rios athe a Villa de Santos. (M) O porto do 
Prellado que dar passagem para descer (N) Rio grande de Una 
qninze legoas ate o Porto (O) dos índios depois tem passar os 
morros de Guaraú e Peruibe a pé, e os factos a costa, para se- 
guir athe Santos . a Barra do Rio grande de* Una não tem Bar- 
ra certa mais sempre de oito a dez palmos de agoa. (P) o quazi 
desconhecido Rio grande de Una tem só aeis moradores em vinte 
e cinco legoas de distancia, mui fértil em arros, assucar e man- 
timentos abundantes na parte do Norte de Caxueiras e em ma- 
deiras de araribá, Canella, Jacarandá e outras madeiras de Lei, 
o seu matto ainda virgem ; a sua Barra podia melhorar em a abrir 
ao pé do morro de Guaraú (R) lugar mui fácil pello hum terreno plano 
em distancia de seiscentos paços para dar maior força e correnteza da 
agoa o para fazer a Barra mais funda podia se abrir a curta 
distancia de cem braços no (S) lugar plano ao pé do morro e 
>or esta obra encurta-se o Rio de melo dia de viagem . O Rio 
e Una tem ainda duas a vantagens de ter só trinta legoas da 
Barra de Santos quazi outro tanto a Barra da Ribeira, e a se- 
gunda de ter da distancia de legoa e meia em frente do (I) Rio 



I 



- 215 — 

Guaraú (Barra praticável só de canoas e pouco abundante em 
madeiras), (Y) A Ilha do mesmo nome que offeresce hum ex- 
cellente ancoradouro para os Navios, que podem vir tomar car- 
ga de madeira e outros géneros, e para esperar huma boa en- 
trada pela Barra de Una ou ali receber a sua carga em balças 
ou Canoas grandes, permitta-me Vossa Excel lencia fazer lembrar 
que este Rio quazi inbabitado podia ser com muita vantagem 
habitada pellos Collonios Estrangeiros, logo elles mostravão a 
riqueza e fertilidade de&te Rio, fazia a communicação transita- 
vel e occazião de mostrar as suas industrias e tirar logo utili- 
dade dos seus trabalhos, para não ser a pezo por muito tempo 
a Nação, reservando a madeira de construcçâo. (X) Hum pe- 
queno Rio e morro da Peruibe, que de lá forma se huma Praia 
ate a Villa da Conceição, contem-se em dezoito léguas athe a 
Villa de São Vicente. (Y). O morro de Guaraú. (Z) o grande 
morro da Jureia mui alto e remarcavel serve de conhecimento 
para os navegantes por estas costas, e consta-se ter mineraes no 
seu superfície — Observação — Tanto o Mappa como os conheci- 
mentos dos Rios e mattas forào tomadas a vista e no breve 
tempo em que me podia oceupar nesta viagem, mais do que eu 
vi e me contarão os moradores que não tinhão enteresse de me 
oceultar a verdade, julgo que os dois Rios da Ribeira e Una 
grande merece attenção do Governo e a Protecção de Sua Ma- 
gestade o Imperador e peço pordão a Vossa Excellencia de ser 
tão extensa nesta Rellação, mais se motivo delia Vossa Excel- 
lencia achara utilidade para o serviço da Nação e de Sua Ma- 
gestade será huma grande Saptisfação minha de receber a in- 
dulgência de Vossa Excellencia que Deos Guarde por muitos 
annos. Carlos Lourenço Danekvard. 

Senhor — Como pela repartição da Secretaria de Guerra re- 
cebeo de Vossa Magestade Imperial a honra de ser consultado 
sobre huma resumida memoria que o Capitão de Fragata Carlos 
Lourenço Danckward dedica ao Ministro dos Negócios da Ma- 
rinha, rei la ti vo a alguns melhoramentos que propõem da nave- 
gação interior de alguns rios t> barras da parte da Costa da 
Província de São Paulo, desde o Rio Peruibe athe a Barra de 
Capara, ou da Villa de Iguape. Levo portanto a Augusta pre- 
zença de Vossa Magestade Imperial as reflexoens, que ordena- 
damente a meo alcance possa suggerir a elle respeito, segundo 
o que o mesmo reprezenta e do que eu conheço d'aquelles ter- 
renos, e informaçoens obtidas a esse respeito, tanto verbaes, 
como a vista dos mappas dos mesmos. Primeiro— Em primeiro 
logar pertende que a barra de Capara, próxima a Villa de Igua- 
pe seja susceptível de ser frequentada o de que de certo seria 



— 216 — 

yantajoza a aqaella Villa, porem parece-me náo Ber admissível 
senão para Canoas com bom tempo, pois sendo ella encavada 
em banco de área solta, he sempre hieonstante, os seus canaes 
são estreitos, ofierecem pouco fundo, e nestas aberturas desco- 
brem* se as vexes alguns cachopos em marés baixos ; ella fica 
exposta e desabrigada do Ímpeto das ondas do mar, que nesta 
lugar he por consequência muito forte e portanto todas as bar- 
ras desta natureza, não poderão offerecer entrada senão com 
extremo perigo e este mesmo em bom tempo e a embarcaçoens 
muito pequenas, ella he tão variável que já foi pela lagoa de 
Capara, de onde deriva o nome. Segundo — Propõem a aber- 
tura de hum canal que communica o Porto da Ribeira com o 
mar de Iguape, este me parece possível, a extenção he pouca e 
• terreno he mil braços mais ou menos, he piau o e seria vantar* 
jozo pelos motivos que expõem abrindo assim uma grande ex- 
tenção de navegação interior, con veria porem nivellar exacta- 
mente o terreno para se poder formal isar o seu projecto. Em 
quanto o que diz sobre a estrada que se projecta por Itapecerica, 
para abrir a communicacão com a Fabrica de Ferro acho que 
nisso houve alguma equi vocação, basta que se lancem os olhos 
ao mappa da Província e se perceberá o engano ; creio, que se 
tracta de huma estrada por mim projectada e proposta em mil 
oitocentos e dezanove para aquelle fim, que do Rio Sorocala vai 
ao Rio Juquia braço da Ribeira de Iguape, e que terá de ex- 
tenção doze legoas mais ou menos segundo as noticias que me 
-deu o pratico. Terceiro — Seria com effeito útil que na Barra da 
Ribeira houvesse hum pratico, talvez assim animasse mais o ser 
frequentada pelas embarcaçoens pequenas, que ex portão muito 
arroz e madeiras das margens daquella, porem eu a julgarei 
sempre perigoza, pois tem pouco fundo, he formada em área 
em hum lugar desabrigado e o banco que atravessa a bocca do 
grande rio accumulado pela luta do mar neste lugar baatante- 
mente agitado com a correnteza do dito rio a mim me pareceo 
que apezar do tempo bonança a barra era focada por huma praia 
pela arreben tacão do mar em toda a largura. Isto bem provado 
fica pelas embarcaçoens que se tem ahi perdidas, mesmo ate al- 
gumas Corvetas e Brigues ahi construídas, que procurando sahir 
-descarregadas com mares cheias e em tempo próprio tem seus 
donos tidos o desgosto de as ver naufragar na ponta da partida 
da sua primeira derrota. Quarto— Em quanto ao Canal que 
.deve unir o rio Una grande com o pequeno parece coisa útil e 
deve ser de pouca extenção, he projecto premeditado a muito 
tempo è sempre matéria de conversa» quando qualquer estran- 
geiro aporta naquella praia, porque se lhe faz ver que assim se 



— 217 — 

evita a viagem ineonunoda do Rio do Prelado e o andar a pé a 
praia da Jurea, para se tornar a embarcar, assim se obtinha 
numa navegação desde Una ate a Ribeira de Igaape, porem por 
falta de meios, ou talvez indolência, senão tinha feito este tra- 
balho, convém por tanto que se mande examinar o terreno, que 
me parece ha bastantemente pantanozo, e ainda coberto de ma- 
tas, por isso talvez tenha desanimado aquelles moradores, por 
falta de algum auxilio. Devo sobre este objecto concluir, que 
se aquelles dois canaes se podesse construir e outros tão bem 
fácil de fazer de meia legoa de extencão por terreno plano que 
communicasse o mar de Ararapira com a bahia de Paranagoa 
consegui r-se-hia huma navegação interior quazi ao longe da costa 
desde Una ate a Yilla de Paranagoa. Quinto — A barra do rio 
Una por onde se entrão canoas talvez seja susceptível de me- 
lhoramento segundo os meios apontados, sobre este objecto não 
Sosbo informar porque ainda não o vizitei. Sexto — Pelo, que 
iz respeito ao Colonos estrangeiros que lembra se de vão man- 
dar para o longe das despovoadas margçns do rio Una, não me 
parece ter isto lugar ; porque consistem a maior parte delias de 
matai virgens alagadiças (cujo vista so os atemorisa) que fazem 
este terreno muito doentio, como denotão suas negras aguas e 
que só se povoe com bastante trabalho por gente climatizada 
ou proprietários a quem se dé alguma protecção . Havendo po- 
rem algum projecto a esse respeito lembra as margens do rio 
Juquia, braço do grande Ribeira (de que assim fallei) ainda em 
grande parte inculta, o terreno he muito abundante de madei- 
ras de construcção e navegável, e obtendo-se a estrada da Villa 
de Sorocaba se proveria a sua povoação, lembrando que havendo 
de accommodar colonos Europeos na Província de Sáo Paulo, 
se deve preferir os rizonhos e férteis campos geraes de Curiti- 
ba. Devo finalmente concluir com o Capitão de Fragata Dan- 
ckward, que nas margens da denominada Ribeira de Iguape 
(singular na Província de São Paulo por ser o único dos prin- 
cipaes delia que se desagua no mar) e assim tão bem nas de rio 
Una se deve estabelecer cortes de madeiras e por consequência 
promover conjunctamente todos os meios da facilidade de ex- 
portação, o que tãobem promoverá a agricultura e com os dois 
canaes de que se tracta jà se pode ao menos constar, que po- 
derão com facilidade embarcar-se na villa de Iguape e sahir pella 
barra de Cananeia que franqueará a entrada a embarcaçoens 
athe Corvetas — Avista pois da notta que me foi aprezentada 
tenho tido a honra de expor a Vossa Magestade Imperial as 
refflexoens que me pode occorrer para o fim proposto e me re- 
putarei feliz se delia pode colher-se algumas coizas que promo- 



— 218 — 

vendo o bem Publico me nutre aquella saptisfação a qual com 
Zelo me dedico. Para o Brigadeiro Daniel Pedro Muller — 
Pedro Caxdoi. 

Documento n. 112 

Aos quinze dias do mez de Outubro de mil oitocentos 
e vinte cinco annos nesta Villa da Senhora das Neves de 
Iguape Comarca de Paranagoa e Coritiba em Oazas da Ca- 
mará o passos do Concelho, onde vierào prezentes o Juiz 
Ordinário, Prezidente o Capitão António Joze Peniche com 
os mais officiais delia ao adiante asignados, na mesma 
vereança e Camará pelo Juiz ordinário Prezidente e mais 
vereadores foi tractado, que se devera dar cumprimento ao offi- 
cio do Excellentissimo Prezidente desta Província em determina- 
çoens relativas aos planos que se achão annexos para a abertura 
de hum Vallo, ou Canal do Porto da Ribeira para esta Villa, 
para o que b avião convocado todos os Cidadons de mais concei- 
to e probidade desta Villa em geral para que dessem os seos 
votos e pareceres sobre o mesmo objecto, depois de lhes ter sido 
proposto e patenteado pelo Juiz Prezidente o mesmo officio e 
planos, asentarão, que se deveria abrir hum Canal desde o rio 
Una mirim ou Caraú a sahir no Rio Grande de Una que tem 
de distancia mil e seiscentos o vinte braças e de Rio por lim- 
par duzentos e sincoenta braças, o lugar he plano e já exami- 
nado e medido, assentarão os mesmos Cidadons de abrir o Vallo 
do Porto da Ribeira para esta Villa, para cuja fim assentarão 
que se devera mandar pedio hum Engenheiro, para distinar lu- 
gar mais próprio e suficiente para esta obra; emquanto os mais 
expostíi, referirem a Informação do Brigadeiro Mullerer. E 
para constar mandarão fazer este inserramento em que assigna- 
rão, e por empedimento do actual vereador mais velho Francisco 
de Oliveira Duarte sérvio o Alferes Manoel Baptista Gomes e 
do Segundo vereador Rafael Gomes Malta Carneiro fservio Joze 
Bento Pupo de Gouvea, E nesta Camará despacharão dous 
Requerimentos, hum do Ajudante António Joze Peniche em qne 
houverem por bem reformar hum Despacho de posse de terras 
devolutas nesta villa e outro do huma Attestação de Joz6 An- 
tónio da Silva em que houve por bem attestarem. E para con- 
star mandarão fazer inserramento. E eu Agostinho Lourenço 
da Silva Dorea escrivam interino o escrevy. — Peniche. — Gomes. 
—Grouvea. — Rocha. — Costa. — José António Peniche. — Bento 
Puppu de Gouvea. — Joze Xavier Roiz.—Tgn eio da Corta França. 
— Fran co Carn da S a Braga.— Ricardo Joaquim Peniche. — Joze 
António da Silva.— Fran c0 Joze de Sá.—JozeJacinthode loledo. 



r 



- 219 - 
Documento n.° 113 

Illustrissimo e Excellentissimo Senhor. A Gamara da Vi lia 
de Igaape tendo recebido a Portaria data de doze de Julho 
deste armo acompanhada da Portaria expedida pela Secretaria 
d'Estado dos Negócios, Mappas do Capitão de Fragata Carlos 
Lourenço Dankward e. do Bregadeiro Daniel Pedro Muller pellas 
quas Vossa Excellencia houve por bem detriminar que esta Ca- 
mará, ouvindo em vercança Geral a parecer dos Cidadaons desta 
Villa em formasse sobre o melhoramento da navegação interior 
desde o Rio Peruibe athe a Barra desta Villa propondo ao mes- 
mo tempo os meios que se devem empregar e quaes as Rendas 
que por este fim possam ser applicadas, e havondo esta Camará 
procedida em observância daquella Portaria á convocação dos 
Cidadaons em Vereança Geral depois de proposta e discutida 
a matéria em questão a vista das mencionadas Memorias e 
Mappas, conformando se com os votos e pareceres de todos 
leva como cumpre a seu dever ao conhecimento de Vossa 
Excellencia a informação seguinte: — primeiro — Que respectiva- 
mente ao Canal, que deve unir a Ribeira com o Mar peque- 
no desta Villa, reconhecendo a necessidade desta Obra, ha 
tanto dezejada, por isso que delia depende a facilidade dos 
transportes, a Commod idade dos Povos e o augmento pro- 
gressivo desta Villa; como há differentes opinions sobre o 
lugar por onde se deve abrir dito Canal, porque huns que- 
rem por onde denotão os mencionados Capitão de Fragata 
Dankward e Brigadeiro Muller que só este lugar examinarão de 
própria curiozidade c se lhes não fez ver os inconvenientes que 
dahi rezultao e outros em muito maior numero querem por ou- 
tro lugar pouco mais extenso e igualmente plano como aquelle 
designado sem os gravíssimos inconvenientes de privação dos 
recursos de primeira necessidade qual o da acua que farta esta 
Villa e os da pedra saibro e barro para os edifícios, ficandose na 
dependência de ponte que será difficit conservar-so nas inunda- 
ções periódicas da Ribeira monos que não seja de pedra, o que 
arrastará grandes despeza, com que o Concelho da Camará e 
particulares nao podem ; nestas circumstancias esta Camará pro- 
põem que venha hum Engenheiro ou pessoa intelligento c de 
confiança, que examinando ambos os lugares e comparando as 
dificuldades e contrapezando os inconvenientes e o bem que 
deste rezulta, haja de designar o lugar mais próprio para o pro- 
jectado Canal sem privação de moradores; na certeza de que 
sendo por onde quazi geralmente se dezeja a outro lado do Sul 
da Villa, não faltarão contribuentes. como alguns já se offerece- 



- 220 - 

rão para o abrir a sua custa quando por outro modo se não 
possa effectunr. — Segundo — Que a respeito do Canal para a com- 
municaç&o do Rio grande de Una com o Rio Acarahú (chamado 
Una mirim pello Brigadeiro Muller) a todas as vistas Se conhe- 
ce ser este de grande interesse tanto pella commod idade dos 
viajantes e facilidades dos transportes, como por Ser este o 
único meio de povoarse aquelle Rio que sendo da tão grande 
estens&o apenas conta Seis Fogos, fugindo muitos de Se irem 
ali estabelecer pella dificuldade de Cundussâo dos géneros. Este 
terreno foi já examinado e se achou ter de estenç&o desde o 
Porto do Prelado athe o Rio Acarahú mil sento e sesenta bra- 
ças e do Rio grande de Una athe o dito Acarahú mil seis sen- 
tos e vinte braças, deve se porem preferir este ainda que mais 
longe, cuja picada esta já feita, para por elle se abrila perten- 
dido Canal; por isto, que sahindo este no Rio Largo, em todo 
tempo navegável com quatro sen tos e sesenta braças de mais 
7em a encurtar duas legoas de viagem pelo estreito e tortuozo 
Rio do Prelado, viagem enfadonha, muito encommoda e dilitada; 
porque este Rio está sempre xeio, quando nao, ha chuvas. Por 
consequência fica insubsistente por difficultozo, e de longa na- 
vegação, o Canal apontado pello Capitão de Fragata Dankward 
para a communicaç&o do Rio grande de Una com outro rio de 
Una que desagua na Ribeira, como se vé do Mappa pello mes- 
mo ofFerecido Todavia se lançaria m&o deste quando não hou- 
vesse aquelle recurso. — Terceiro — Que as Rendas por onde se de- 
ve fazer as dispezas dos mencionados canaes parece esta Camará 
poderem ser applicadas a do rendimento da Nova contribuição 
desta Vil la ou dos Dízimos, por quanto de outra maneira nào será 
tão fácil conseguir-se* — Quarto — Que pello que respeito a nave- 
gação do Rio Peruibe no Districto de Conceição de Itanhaen nao 
pode esta Camará comprehender talvez por falta de conhecimento 
exacto do lugar, como se possa communicar aquelle com o men- 
cionado Rio de Una quando tem montes e Sertoens, que attra- 
vessar, quaes o morro de Peruibe, o mato de Guaráú e o moro 
de Una. — Quinto — Que nào duvida do melhoramento de que pro- 

Soem o Capitão de Fragata Dankward ser susceptível a Barra 
o Rio de Una: porem parece que esta obra será de não pe- 
quena dificuldade e de grande despeza, talvez infructuosa pela 
inconstância da dita Barra. Sua utilidade quando muito, será 
remoto e somente para os que hnm dia povoarem aquelle Rio, 
menos que nao seja para a transporte de madeiras que se hajào 
de ali cortar n'aquelíes mattos. Comtudo nao será assim quanto 
ao canal que denota abrir-se para incurtar sua navegação quazi 
meio dia de viagem e que ver a ser muito vautajozo. — Sexto— 



— 221 — 

Que sobre a admissão de Colonos não se pode accrescentar ao 
que tâo sabiamente expeudeo o Brigadeiro Muller: parece que 
nao tem lugar esta proposição para o Rio de Una nem mesmo 
para qualquer outro dos centros deste Destricto os quaes estão 
mais ou menos povoados atbe dois e três dias de viagem. A 
Ribeira não tem bum só palmo de terreno que não esteja tra- 
balhado ou com proprietário atbe muito acima do porto de Apiahi, 
o mesmo Rio Juquia ba pouco encetado tem já bum bom piin- 
cipio de povoação alem de bastante posses que alguns se tem 
bido ali fazer e de muitos outros que estão a espera que se 
efiectua a estrada para Sorocaba para irem estabelecesse. — Séti- 
mo — Que a estrada do Rio Juquia para a villa de Sorocaba, 
pelo que pertence ao Destricto desta Villa, consta está incum- 
bido ao Zello e actividade do Sargento Mor Bartbolomeu da 
Costa Almeida e Cruz que muito tem concorrido e promovido a 
sua abertura e andamento, de maneira que se espera ver em 
breve aberta a communicação desta com as Yillas centraes de 
Serra-acima. — Oitavo — Que o Canal indicado no Varadouro de 
Paranaguá be muito necessário para se poder conseguir a nave- 
gação interior desde o Rio de Una atbe aquella Villa, be do 
mais transcendente utilidade Publica, porque sem cortarse aquel- 
le Istbmus que separa os dois mares aa Cananeya e de Para- 
naguá a communicação interna será sempre deficiliraa obsta- 
da pellas dependências de transportes por terra e de ca- 
noas a outro lado, ou de varar as que se levao (o que deo o nome 
ao lugar) tornando-se por isso muito difficultozo, este projecto 
pella falta de Canoas e de Carregadores e por outros inconve- 
nientes, sobre este projecto parece a propozito consultar-se as 
Camarás respectivas daquelles Destrictos. Finalmente esta Ca- 
mará achando muito digno de attenção tudo quanto intelligente 
e judiciozamente esbrocarão os mencionados Capitão de Fragata 
Dankward e Brigadeiro Muller nas Memorias eMappas, que le- 
varão a Augusta Prezença de Sua Magestade Imperial respecti- 
vamente ao melhoramento indicado, refere e se conforma em tudo 
o mais as judiciaz reflexoens do Brigadeiro Muller, cujo Mappa 
parece mais exacto tendo de mais a asseverar a Vossa Excellen- 
cia que dando esta Informação como lbe dieta seu Zello pello 
bem Publico be animada de forte dezejo de promover e de con- 
correr, quanto estiver ao Sua alcance para a felicidade deste 
Povo, e engrandecimento desta Villa. Iguape em vinte e dois 
de outubro de mil oitocentos e vinte e sinco. — António Joze Pe- 
niche, Francisco de Oliveira Duarte. — Manoel Baptista Comeb. — 
Bento Pupo de Gouvea. — Manoel Alves da Costa. 



— 222 — 
Documento N. 114 

lllustrissimo e Excel lentíssimo Senhor. Tendo esta Camará 
de levar a Prezença do Excellentissimo Concelbo da Prezidencia 
desta Província huma informação circumstanciada sobre o pro- 
jecto de hum Canal junta a esla Villa para te lazer communi- 
car as aguas da Ribeira com as do mar pequeno : e dezejando 
ella proceder com pleno conhecimento de cauza, e com aquella 
circumspccção que se exige em hum objecto de interesse tão 
geral e tâo transcendente, e sobre o qual athe se notão diver- 
sidade de opinioens não só a respeito ao local, como a respeito 
de futuro perigo que talvez podem sobrevier a esta Villa, re- 
solvco cm Sessão de hoje, que visto ser de publica notoriedade 
haver Vossa Excellencia examinado os dous pontos por onde 
unicamente se pode abrir o Canal, convém ao serviço publico 
rogar-se a Vossa Excellencia haja por bem i Ilustrar a esta Ca- 
mará, communicando-lhe o rezultado de suas observaçoens e a sua 
opinião sobre o objecto em geral, e com especialidade sobre os 
inconvenientes, que por ventura poderão rezultar da abertura 
do Canal por hum ou outro lado da Villa, e para que Vossa 
Excellencia possa melhor entrar no conhecimento detodaascir- 
cumstancias passadas a tal respeito c das opinioens emetidas em 
Camará Geral de Cidadoens no anno próximo passado julgou a 
Camará conveniente transmittir a Vossa Excellencia a copia in- 
duza do officio que então se dirigio ao Excellentissimo Prczi- 
dente da Província. Tal he o objecto, que ora obriga a esia 
Camará incommodar a Vossa Excellencia guiado pelo espirito de 
beneíiciencia que anima todas as suas acçoens folgará de ter 
occazião de dar mais huma prova do seo amor pelo bem geral 
da Nação e em particular desta Villa. A Camará aproveita esta 
occazião para protestar a Vossa Excellencia pela sua profunda 
estima e consideração. — Deos Guarde a muito Nobre c respei- 
tável pessoa de Vossa Excellencia. — Iguape em Vereança de 
Sete de Agosto de mil oito sentos c vinte e seis.— lllustrissimo 
e Excellentissimo Senhor, Chefe de Divizão, Paulo Freire de 
Andrade : Francisco da Silva Rego. — Joze António da Silva. — 
Felipe Pinto de Almeida. — Joaquim Franco da Silva, — António 
Pupo da Rocha. — Rafael Gomes Malta Carneiro. 

Documento N. 118 

Accuzo a recepção do Officio da Illustre Camará desta Villa, 
datado de sete do corrente mez : refere o dito officio que se 
trata de communicar o Rio da Ribeira com o da Capara, ou mar 



— 223 — 

pequeno, por meio de hum Canal! e pede-me, que para o bem 
publico, eu diga a minha opinião para o Jogar da abertura, e 
as razoens em que me fundo, para que eu podesse formar huma 
idéa sobre a preferencia do lugar. Quando as ordens de Sua 
Magestade Imperial me não obrigassem a concorrer com iodos 
os meus bem limitados conhecimentos para a prosperidade desta 
Província, bastaria somente a Vossas Senhorias pedir-mo a mi- 
nha opinião sobre assumpto de tanto monta ao augmento desta 
Villa jiara que eu de prompto annuesse a hum tal pedido, e dis- 
sesse com franqueza o meu parecer sobre hum tal objecto. Se 
o terreno desde o Rio da Ribeira te ao da Capara resistisse a 
impetiozidade da corrente, eu diria, que o Canal deveria passar 
pelo meio da Villa ; não reziste, nem pode rezistir ; logo deve 
passar ao Norte ou ao Sul delia— Passando pelo Norte, ainda 
que o Canal seguisse sempre a mesma direcção de hum a outro 
Rio, soffreria immediatamente a violência da cheia do Rio da 
Ribeira, que nesse tempo sobe a um a de treze pés do seu es- 
tado actual, e o Canal, tanto no seu principio ao entrar da cor- 
rentes, como em toda a sua extenção, seria damnificado em breve ; 
a parte do Norte do Canal por ser montanhoza dura, se resis- 
teria, e só o terreno próximo a Villa soífreria toda a perda, por 
ser pouco compacto ; o que lhe seria muito prejudicial pela pro- 
ximidade, em que o dito Canal deve ficar da Villa ; ainda mesmo, 
suppondo que o Canal nao soffre pela corrente ; que se conser- 
vará sempre no mesmo estado; o qitc não devo conceder-lhe; 
outras muitas couzas dignas de madura consideração aberto o 
Canal pela parte do Norte, fica cortada, nao só a agua para be- 
berem os habitantes da Villa ; mas tâobem a pedra, e o barro 
para edificarem ; dir-me-hão, que tudo isto pode vir a Villa por 
ponte, que se forme, ou er.-. serviço de Canoa. Suppondo mesmo, 
que em todos os annos se formào paus capazes para ellas, quanto 
nào serão precizas só para andar conduzindo agoa? £ deve- 
riào ser muito grandes aquellas, que podessem transportar pedras 
de doze a quinze quintaes, como me parece pezão algumas, 
com as quaes se esta edificando a Igreja e outros edifícios, que 
se fizerem ; para a gente pobre e com a qual 6e deve ter toda 
a consideração e que não poderiao ter Canoas, como buscarião 
a agua e o barro para a Caza que se vai arrumando? pedilas- 
hiào as tivesse ? e acharião elles sempre a toda a hora de dia, e 
de noite pessoas carectativas, que lhes prestassem? Creio que 
não; e por consequência deverião padecer algumas vezes a falta 
de hum elemento tão necessário a vida humana. Outro meio 
de facilitar a communicacão da Villa com a montanha vizinha, 
era o de ponte; suppouhamos que ella hé constiuida com huma 



— 224 — 

solidez tal, qne possa durar alguns annos, quanto nào soure ella 
pelo damno, que lhe causa a corrente por baixo e o continuo e 
grande pezo de pedras e de paus que lhe deve passar por cima? 
resistindo ella a tudo isto sem que precise contínuos reparos, 
alias contínuos e grandes reparos, ainda há outros inconvenien- 
tes. O Canal he feito para se augmentar a industria, animar 
o comercio e facilitar a passagem de hum a outro Rio; o assu- 
car e outros muitos géneros que se podem ir buscar as nascentes 
do Rio Ribeira, he natural que se vão buscar em saveiros, pois, 
que paus para Canoas já vão faltando, e essas, pouca carga con- 
duzem, e que para se evitar despesas querem que os mesmos 
saveiros conduzào os géneros a borda das embarcações que estão 
no Rio Capara ; por onde hão de elles passar ? por baixo da 
ponte ; será preciza que a ponte seja muita alta e muito dis- 
tante entre si os paus que a sustentarem o que muito a infra- 
quecerá. O Rio ae Capara nào tem logar commodo para nelle 
se carenarem Sumacas, Brigues, etcetera; estes lugares se en- 
contrão no Rio da Ribeira, querendo aproveitar o Canal para 
taes embarcaçoens passarem de hum a outro Rio; como hão de 
passar, por cima ou por baixo da ponte ? A Villa vae crescendo 
em população, e quando se queira agoa no meio da Villa, que 
corra por hum chafariz, por onde passarão os canos que a con- 
duzirem? por baixo do Canal he difncultozo ; por cima nao 
pode ser muito durável, pelos muitos e grandes inconvenientes 
que nisso há. Pelo exposto facilmente se collige que o Canal 
aberto ao Norte da Villa, nào he útil, he nocivo, serve de ruina 
aos habitantes, falo na pluralidade, hé privallos da facilidade de 
terem bens que a pródiga natureza lhes concedeo. — Aberto o 
Canal pela parte do Sul, ficao os habitantes gostando de tudo 
que gosào, sem receio de que a corrente lhe possa levar o ter- 
reno próximo as suas casas; e alem disto com a vantagem das 
embarcaçoens passarem de hum a outro Rio, porque então a 
ponte se não faz preciza e no porto mesmo da Villa, poderão 
ter as producçoens do terreno adjacente ao Canal, mandar buscar 
aqui as embarcaçoens lhe conduzirem, a onde as Canoas com 
mais meia dúzia de remadas poderão abordar. Eis aqui porque 
prefiro o Canal aberto pela parte do Sul. Talvez me pergun- 
tem; sendo o Canal feito pela parte do Sul, não destruirá o ter- 
reno adjacente? vai a responder. He na Alagoa, que forma o 
porto da Ribeira desta Villa, pelo Canal, já pela natureza aber- 
to, e que passa pelo sitio de Manoel Coelho, que julgo que de- 
ve por ali passar o Canal, seguindo sempre a mesma direcção, e 
a mais próxima a entrar o Rio de Icapara. A agoa da corrente 
do Rio da Ribeira entra na Alagoa pexdendo parte da força, que 



— 225 — 

tem pela sua vellocidade; depois de perder esta força expalhada 
em todas as direcçcens da referida Alagoa, entra ja no Canal 
com muita pouca e por consequência não sofre tanto damno, e 
como o Canal seguindo a direcção que indico, passará distante 
da Villa, ainda que as cheias sejao grandes não terão os habi- 
tantes motivos de justo receio, que de repente o terreno da Vil- 
la seja pela corrente transportado; as cheias na Alagoa n&o tem 
produzido susto aos habitantes, e a experiência, creio, que cor- 
robora esta minha opinião, pois que exestindo este Canal á an- 
nos nào tem soffrido damno considerável, ainda que pela conti- 
nuação do tempo sofra, será de fácil reparo. Em quanto a dis- 
tancia, isto he, ao trabalho que será preciso fazer-se para abrir 
o Canal, seguinda a direcção que indico e servindo-se do peda- 
ço do Canal já feito, julgo serem iguaes distancias, isto he, o 
Canal, aue se abrir ao Norte, e ainda estou que pelo lugai que 
digo a distancia he menor e quando seja precizo fazer-se mais 
algumas braças de Canal, o que duvido, que importa este pouco 
mais trabalho, sendo por ali mais útil o Canal, o que he evi- 
dente. Tenho expendido a minha opini&o e os motivos em que 
me fundei, tenho só em vista a prosperidade da Villa, e o bem 
geral, sejao quaes forem as interesses particulares de cada hum 
o que não quero saber, cumpre me só referir o que debaixo de 
minha consciência julgo o mais útil. Tenho saptisfeito como pos- 
so a requiziçào de Vossas Senhorias, ficando-me vehementes de- 
zejos de poder de alguma maneira contribuir em outro qualquer 
assumpto para o bem dos habitantes desta Villa, assim como de 
obsequiar a Vossas Senhorias. Deus Guarde a Vossas Senhorias. 
Quartel da Villa de Iguape oito de Agosto de mil oito centos e 
vinte seis — IUnstrissimo Senhores Vereadores da Camará desta 
Villa — Pavio Freire de Andrade — Chefe de Divizào. 

Documento n° 116 

Illustrissimo e Excellentissimo Senhor. Sendo chegado o 
tempo de ser decidido pelo Excellentissimo Concelho da Presi- 
dência desta Província a questão sobre o local mais próprio e 
mais conveniente, por onde se deverá realisar o projecto de hum 
Canal para communicar as agoas da Ribeira e do mar da Capa- 
ra; e sendo evidentemente incontestável, que a este Povo rezul- 
tarão prejuízos os mais graves e os mais consequentes se se re- 
solver a abertura do dito Canal pelo lado do Norte da Villa; 
esta Camará faltarei sem duvida ao primeiro e mais essencial 
dever, que lne impõem a lei, de vellar e reprezentar sobre o 
bem ser e prosperidade do Povo, se com a maior energia, senão 



— 226 — 

apressase a pôr na prezença de Vossa Excellencia para a fazer 
constar em tempo competente ao Excellentissimo Concelho, a 
prezente reprezentação a tal respeito, corroborada pcllo Officio 
incluzo do Chefe de Divizao, Paulo Freire d' Andrade, o qual 
achando-se prezen temente nesta Villa em Commissão de Serviço 
e havendo pessoalmente examinado ps localidades e indagado as 
circnmstancias deste negocio, instancias desta Camará expendeo 
a sua opinião com a imparcialidade próprio de seo caracter, ja 
bem conhecido pela assas boa publica fama. A experiência, Ex- 
cellentissimo Senhor, que he a grande e verdadeira Mestre de 
tudo, tendo aqui mostrado, que qualquer pequeno vallo feito em 
terreno arenozo em breve se alarga prodigiozamente, ainda que 
não haja maior impulso de agoas correntes, tem ha muito tem- 
po radicado em grande parte do Povo desta Villa a crença, de 
que no cazo de se abril o Canal pelo Norte da Villa sem du- 
vida terá de sofirer pelo correr dos tempos, sinão total, ao me- 
nos grande ruína, pela proximidade em que ficará do Canal, 
visto que a grande força das inchentes da Ribeira necessaria- 
mente o hão de alargar, sobre o terreno arenozo da mesma Vil- 
la; esta crença bem ou mal fundada, unida a certeza de priva- 
çoens de objectos da primeira necessidade que de facto se farão 
sentir logo que se abrir o Canal pelo dito lado; pois que ticará 
interrompida a communicação para a vizinha montanha, de on- 
de se vai tirar a pedra, o barro, a lenha, e com especialidade 
a agua única de que se serve este Povo; esta crença, diz a Ca- 
mará, unida a tal certeza tem feito sempre encarar como hor- 
rozo o projecto da abertura do Canal pelo Norte, e de mais a 
mais foi fortificada em tempo no Capitão General António Joze 
da França e Horta por hum hábil Òfficial de Engenharia João 
da Costa Ferreira; o qual examinando o terreno e attendendo o 
futuro perigo que poderia rezultar a Villa e também as necessi- 
dades publicas quanto a pedra, barro, lenha e agoa, declarou 
que jamais se deveria abrir o Canal pelo Norte, e sim pelo Sul, 
visto que deste lado podia ser aberto, senão com maior ao me- 
nos com tanta facilidade em maior distancia da Villa, sem peri- 
go e inconvenientes algum; Talvez na Secretaria do Governo se 
achem os Documento» que podem comprovar esta asserção; o 
certo hé aue em consequência de tal opinião o dito Capitão Ge- 
neral dicidio que se abrisse o Canal pelo Sul, mas desgraçada- 
mente logo em princípios se malogrou esta Obra. Estando as- 
sim formada a crença e publica opinião, aconteço que ha pou- 
cos tempos a esta parte algumas pessoas preocupadas por inte- 
resses particulares, por terem propriedades da parte do Norte, 
tem feita grande bulha, e formado hum certo partido, em que 






— 227 — 

todavia senào contào senão muitas poucas pessoas de respeito e 
consideração: este partido pois tendo assoalhado nestes últimos 
dias que tem motivos fortes para crer que o Canal será infalli- 
velmente aberto pelo Norte, esta Camará tem sido com a maior 
vehemencia instada e solicitada por numerozas e reiteradas re- 
prezentaçoens de pessoas as mais circumspectas e de maior repre- 
zentação desta Vi lia, para que sem perda de tempo se dirigisse a 
Vossa Excellencia e reprezentasse, bem que as passadas Camarás 
ja o tenhão feito- sobre os perigos e inconvenientes de tal abertu- 
ra. Foi então que a Camará tomou a resolução de consultar a opi- 
nião do sobre dito Chefe de Esquadra, e como elle se prestou com 
benignidade e como homem de intiligencia sobre a matéria assas 
claramente desenvolveo todos as circumstancias pouco resta a Ca- 
mará a dizer de mais e somente julga necessário transmittir a Vos- 
sa Excellencia as cinco seguintes observações. Primeira — Que em 
outros tempos antes que houvesse abundância de gado, bestas e 
outros animaes na Villa. a vasta planície que se extende ao Sul 
delia foi muito povoada e cultivada, e fornecia a farinha para o con- 
sumo da terra e athe havia exportação delia, e que todo esse terre- 
no tem sido por fim abandonado pela difficuldnde que hoje offerece 
a sua cultura a grande numero de animaes; que da Villa livremen- 
te o circulão, damnificando todas as plantaçoens e que se o Canal 
como he de esperar se fór aberto pelo Sul, certissimamemto a la- 
voura se tornará a estabelecer alli, aproveitando-se tantas terras 
hoje inutilizadas, visto que o Canal servirá de barreira ao transito 
dos animaes. Segunda — Que a agoa única de que se serve este Po- 
vo, descendo da montanha, circula esta Villa, passando pelos quin- 
taes de numerozas cazas, as quaes por isso tem mais valor, seguin- 
do-se disto, que a abrir-se o Canal pelo Norte, não só privar-se-há 
a este Povo da preciza commodidade de ter agoa perto para beber, 
lavar roupa, e outros uzos, porem de mais a mais ir-se-há atacar a 
a propriedade alheia tirando- se agoa que dâ valor as cazas e isto 
sem necessidade de publica, visto poder-se abrir o Canal por ou- 
tra parte. Terceira — Que não ha dinheiros para a construcção de 
huma ponte e nem esta Cnmara está em circumstancias de occor- 
rer anu uai mente as despezas de concertos da ponte, quando mesmo 
ella possa existir. Quarta — Que estando aberta a estrada do Rio Ju- 
quia para Sorocaba, e havendo bem fundadas esperanças de se esta- 
belecerem relaçoens commerciaes d&quella para esta Villa, o ferro, 
o assnear, e os demais effeitos, que de lá vierem não poderão ser trans- 
portados senão em grandes Saveiros, os quaes não poderão passar pelo 
Canal ao Norte por causa da parte. Quinta— Quo no caso de 
ordenar-se a abertura pelo Norte, infallivelmente se não conclu- 
irá a obra pela falta de meios e pelo desgosto geral (excepta se 



— 228 — 

a fazenda publica concorrer) visto que muitos Cidadãos bem es- 
tabelecidos, que podem contribuir, tèm declarado que jamais o farão 
para o Norte, pois que não querem com seos dinheiros concor- 
rer para a ruina e calamidade publica. Finalmente remata a 
Camará este Officio, rogando com a maior energia a Vossa Ex— 
cellencia e ao Excel lentíssimo Concelho em nome deste Povo 
hajão de prestar toda a sua attenção a tão serias como justas 
representaçoens afim de decidirem esta quest&o com a circum- 
specçáo e cuidado que lhes deve merecer huma obra, que pode 
acarretar sobre os habitantes desta Yilla as maiores calamidades. 
Deos Guarde a Vossa Excellencia muitos annos — Iguape, em 
Vereança de dezeseis de Agosto de mil oitocentos e vinte e seis 
— niustrissimo e Excel lentíssimo Senhor Vice Prezi dente da Pro- 
víncia Luiz António Neves de Carvalho — Francisco da Silva Rego 
—Joze António da Silva — Filippe Pinto de Almeida — Joaquim 
Franco da Silva — António Puppo da Rocha — Rafael Gomes Malta 
Carneiro. 

Documento n.° 117 

O Vice Prezidente desta Província tendo em vista que a 
Camará da Villa de Iguape declara no seo Officio de dezeseis do 
mez próximo passado haverem Cidadaons que estão promptos a 
concorrer com os donativos para a abertura do projectado Canal, 
com tanto que se realize ao Sul da mesma Villa e não ao Norte, 
lhe ordena que remetta com toda a brevidade huma rellação de 
seus nomes e das quantias que offerecerem, porisso que ja existe 
na Secretaria outras dos que concorrem para que se abra ao 
Norte. Palácio do Governo de São Paulo quatro de Setembro 
de mil oitocentos e vinte e sais— Luiz António Neves de Car 
valho. 

Documento n.° 118 

Illustrissimo e Excellentissimo Senhor. A Camará da Villa 
de Iguape em observância do que por Vo9sa Excellencia lhe foi 
determinado em officio de quatro do mez de Setembro deste anno, 
tem a honra da levar a prezença de Vossa Excellencia a Lista 
incluza dos Cidadaons que por ora têm subscrivido para a aber- 
tura do Canal ao Sul da Villa, subscripção que ainda continua. 
Nesta Lista vão incluídos os Cidadaons Joze Jacintho de Toledo 
e Francisco Carneiro da Silva Braga com as quantias que assi- 

rrão em Camará no dia quinze do mez de Outubro do anno 
mil oitocentos e vinte e cinco, consta porem que depois assi- 
gnarão com maiores quantias em huma subscripção em que se 
não declarava por onde queirão aberto o Canal. A propósito da 
abertura do Canal a Camará em addicão ao que )a tem repre- 



- 229 - 

zentado a Vossa Excellencia julga ser do seu dever declarar o 
seguinte. Hé publica nesta Villa quem houvera quem affirmasse 
a Vossa Excellencia que o Canal pelo Sul importará dobrada 
quantia do que pelo Norte, visto que o terreno ao Sul hé mais alto; 
se hé verdade que tal se afnrmou cumpre desmintir tal asserção 
assegurando a Camará a Vossa Excellencia que ha pouco, hum 
particular intelligente, bem que não seja Engenheiro de pro- 
fissão, médio e escrupulosamente observou ambos os terrenos que 
ja tinhào taobem sido examinados pelo Chefe da Divisão Paulo 
Freire de Andrade, e por esta ultima medição e observação re- 
zultou a Camará a inteira convicção de que o terreno ao Sul se 
não he mais baixo pelo menos tem a mesma altura que o do 
Norte. Sobre este objecto muito tinha esta Camará que dizer a 
Vossa Excellencia, para jastificar-se de arguiçoens que, segundo 
he fama publica, tem sido dirigidas contra ella á Vossa Excel- 
lencia, mas ella guarda por ora o silencio, por não ser 
conveniente fallar sem ter a vista as mesmas arguiçoens; en- 
tretanto li mi ta- se tão somente em dizer a Vossa Excellencia 
que sejão quaes forem as ideas, que por ventura se hajão trans- 
mittidas em seo desabono e dos Cidadaons que dezejào o Canal 
pelo Sul, se Vossa Excellencia prestar alguma attenção a quali- 
dade e numero dos Cidadoens as signa dos na Lista induza, facil- 
mente reconhecerá de que parte existe o espirito de interesse par- 
ticular e de capricho ; porquanto nella verá Vossa Excellencia 
todas as Aucthoridades Ecclesiasticas, Civiz e Militares, todos os 
officiaes de Melicias, todos os de Ordenanças excepto o Capitam 
António Borges Diniz ; quazi a totalidade (com muito pequena 
excepção) dos homens bons e afazendados, que servem os cargos 
Públicos da Governança ; e em huma palavra tudo o que há de 
melhor e mais asizudos nesta Villa; os quaes Cidadoens todos 
subscreverão mui espontaneamente segundo suas faculdades. Esta 
Camará remata este officio rogando a Vossa Excellencia, que 
visto não haver segredos quando se trata de matérias de publice 
interesse, Vossa Excellencia se digne dar vista a Câmara de todas 
e quaesquer inculpaçoens, e notas, que a respeito de suas repre- 
zent&çoens sobre o Canal se hajãô feito contra ella afim de que 
victoriozamente possa justificar-se evidenciando-se assim cada vez 
mais a verdade a prol do bem publico. Deos guarde a Vossa 
Excellencia muitos annos. Iguape em Camará de vinte e hum de 
Outubro de mil oito centos, e vinte e seis. . Illustrissimo e Ex- 
cellentissimo Senhor Vice Prezidente desta Província Luiz An- 
tónio Neves de Carvalho — Francisco da Silva Rego — Joze António 
da Silva — Felippe Pinto de Almeida — António Pupo da Rocha — 
Francisco de Oliveira Duarte — Domingos dos Santos Bandeira. ~ 



— 230 — 
Documento n.° 119 

Senhores. Verificada a reunião ordinária do Concelho do 
Governo em vinte e trez do corrente, cumpre por tanto, que a 
Camará da Yilla de Iguape remeta quanto antes a exigida rela- 
ção de Subscriptores para abertura dos Canaes projectados na 
mesma, afim de ser prezentes ao referido Concelho, o que o Pre- 
zidente da Província lhe participa para sua intelligencia e exe- 
cução. Palácio do Governo de São Paulo — 27 de Outubro do 
1826— Barão de Congonhas do Campo. 

Documento n.° 120 

Illustrissimo e Excellentissimo Senhor. Aucthorisado pela 
Camará desta Villa e em qualidade de seo Prezidente, tenho a 
honra de participar a Vossa Excellencia que a subscripção feita 
na Freguezia de Xiririca para a abertura do Canal rendeo a 
quantia do cento e dezacete mil e oitenta reis, e nellase achão 
assignados cento e onze Cidadaons. segundo participa o Com- 
mandante da mesma Freguezia. Deos Guarde a Vossa Excellen- 
cia. Iguape 28 de Outubro de 1826. Illustrissimo e Excellen- 
tissimo Senhor Vice Prezidente desta Província, Luiz António 
Neves de Carvalho — Joze António da Silva, Juiz Prezidente. 

Documento n.° 121 

Folha de pagamento n.° i$ 

Ferias dos trabalhadores, que trabalharão no serviço do Canal. 

Dias Bairro da Capara 

5 Joze a 240 1.200 

5 António 1.200 

5 António 1.200 

5 Joze 1.200 

5 Bento 1.200 

5 Salvador 1.200 

Bairro da Enseada 

5 Joaquim 1.200 

5 Custodio 1.200 

5 Agostinho 1.200 

5 Joze Teixeira 1.200 

5 Elias Joze 1.200 



- 28i — 

16 Escravo da Senhora D.Fran." da Chagas a 240 3.840 

10 Escravo do Senhor Francisco António. . 2.400 

10 Escravo do Senhor Cap. António Joze Peniche a 180 1.800 

5 Escravo do Senhor Joze Castelhano . . a 240 1.200 

5 Escravo do Senhor Joze António da Silva 1.200 

5 Joaquim Menino a 100 500 

5 Joze Gonçalves menino 100 500 

5 Cândido 240 1.200 

2 Joaquim Franco 120 240 

2 António Alfama 240 480 

14 1/2 Escravo do Snr Bartholomeu .... 240 3.480 

Importe de 32 Balaios a 40 1.280 

5 Do Cabo Luiz a 320 1.600 

Soma 32.920 
Iguape 7 de 7bro. 1827 

Luiz Joze 

Aprovamos a Ferria supra N° 3 q o Sr. 
Thezoureiro, Bernardo António Neves, pagará V* de Iguape 8 
de 7bro de 1827 

Peniche Almeida Cruz 

Receby do Thesoureiro o Senhor Bernardo António Neves 
a quantia de trinta e dous mil novecentos e vinte reis constan- 
te de Feria retro N° 3 para destribuir pelos trabalhadores. E 
por ter recebido passo o prezente por mim tão somente assi- 
gnado. Villa de Iguape oito de Setembro de 1827. 

Silo Es 32Ç920 Luiz Joze. 

Documento n.°122 

Sessão extraordinária em 7 de Ag to de 1829 

«em parte» 

Passando se a dar cumpriín 10 a ordem do dia foi a Camará 
emformada por mim Secretario de que tinha havizado a todos 
os Sr" de auethorid", e que se tinha publicado, e afixado o Edi- 
tal convocando a todos os Snr" Cidadãos e Proprietários de nu* 
meroza escravatura para comparecerem na presente Sessão afim 
de se dar cumprimento ao Orneio do Ex m ° e Rev do Sr Vice Pre- 
sidente desta Província sobre a continuação do Canal de como- 
nicaçâo e aehando-se prezentes os Snr el de auethoridades, e mais 
Snr'" Cidadãos foi lido o Officio depois do que o Snr Prezid 10 
dirigindo a sua falia a todos e esperando a unanimidade geral 



- 232 - 

foi elle o pr" que se prestou declarando; que apezar de suas 
poucas forças, e de ter contribuído voluntariamente com a quan- 
tia de 42$800 reis para o d° Canal offerecia os poucos escravos 
que tinha de Servisos roraes p* continuação do referido Canal 
que por escalla lhe tocase sem prejuizo da sua lavoura, para o 
que asim e afirmou com o seu nome: bem como os mais Senho- 
ra» Vereadores e mais pessoas seguintes :=0 Prezid 1 * Francisco 
dos Santos Carneiro=o vereador Bento Puppe de Gouvea= 
Francisco Carneiro da S* Braga=Joze Gonçalvez Maia=Joze 
António Peniche Cap m Mor=Joze Alvares Carneiro— António 
Joze Peniche=Francisco da Silva Rego=Joze Innocencio Alves 
Alvim=Forâo de diffeiente parecer os Snr'* abaixo asignados e 
requerendo o Snr Vereador Toledo adiantamento para aprezen- 
tarem por escripta os motivos que tem, e que tantos os obriga, 
pela Camará lhes foi concedido o dia honze para apresentarem 
os ditos motivos por si ou pela pessoa do Snr Rov do Fiscal, pa- 
ra cujo fim aqui asignarao=Joze Jacintho de Toledo=Rafael 
Gomes Malta Carneiro, vereador=0 Fiscal da Camará o P e 
Fran 00 Man 1 Junqueira=Antonio Borges Diniz Cap m Com te = 
Joaquim Manoel Junqueira e Canto=João António da Costa 
Mendonça=0 P* Joaquim Francisco de Mendonça=0 Tenente 
Joaquim Xavier Roiz=Joze Rib° Satiro=Ant° Fran 00 Glz= 
Fellipe Pinto de Alm da Victorino Joze Lopes=João Vieira de 
Sá=Antonio Mor* Ramos=Antonio Pupo da Rocha=Joaq m Joze 
Teix* dos Santos=Candido Pupo da Rocha=Manoel rer* da 
Rocha=Joze Bonifácio de Andrade=Joze Ign cl ° de Oliv* Guim*' 
=Fran C0 de Castro Guirn 68 João Pinto de Faria=Antonio Joaq m 
de Souza=Francisco Souza Castro=Joaq m Lopes Trigo=Manoel 
Bento Dias. 

Documento n.° 123 

Excel lentíssimo e Reverendíssimo Senhor. Tendo esta Ca- 
mará recebido o Officio de V Ex* do dia 14 de Julho do cor- 
rente anno, pasou logo a reunirse extraordinariamente para o 
fim de convocar as Aucthorídades e Cidadãos e com particulari- 
dade aos de numero za escravatura o que fez por meio de avizo 
pelo Secretario e de Edital publicado e afixado em lugar Pu- 
blico marcando o dia sete deste mez para a dita reunião. 
Chegando o dia destinado se reunio esta Camará em Sessão 
extraordinária e em prezença de todos, o Prezidente delia fez 
os esforços puciveis abem de pursuadir, e fazer auxiliar os âni- 
mos, de todos os circumstantes, para que esquecidos das opiniões 
passadas se prestasem e concorecem a dar seus escravos para a con- 
tinuação do Canal principiado, fazendo-lhes ver quanto hera útil 



r 



— 233 - 

a todos a comunicação da Ribeira com o mar pequeno pelo dito 
Canal, Rendo concordes com este parecer os três Vereadores, Au- 
cthoridades e Cidadãos que se ach&o asignados na Sessão junto 
a este discurso. Forào de differente parecer os dois Vereadores e 
mais pessoas como consta da acta da dita Sessão, requerendo por 
fim adiamento para aprezentarem seos pareceres por inscripto, e 
darem as razoins de suas opozições o que concedeo se-lhes adian- 
do-se-lhes o dia onze para mais outra Sessão extraordinária, Às 
Copia das Duas Sessões extraordinária de Sete e onze, que in- 
duza levamos a prezença de V Ex* demonstão as deligencias 
asima ditas, e o resultado, que delles houve a vista do que V 
Ex* mandará o que for servido. Esta Camará não pode deixar de 
sentir a divergência de opiniões que ainda subsiste, e que motiva 
o demorar-se a abertura do Canal que tanto interessa ao Comercio 
e Agricultura desta Villa. Deos guarde a V. Ex*. Iguape em 
Sessão extraordinária da Camará Municipal de dezesete de Agos- 
to de mil e oito centos e vinte nove. Excellentissimo e Reveren- 
díssimo Senhor D. Manoel Joaquim Gonçalves d' Andrade. Bispo 
Diocézano e Vice Prezidente desta Província de São "Ptm\o=Fran- 
tisco dos Santos Cameiro=Bento Pupo de Gouvea=Francisco 
Carneiro da Silva Bragar=-Joze António da Silva=Joze Gonçalves 
Maia=Rafael Malta Gomes Ccrneiro=Joze Jacintho de Toledo. 

Documento n.° 124 

Sessão extraordinária cm 1 1 de Agosto de 1829 

«em parte» 

Passando- se a dar cumprimento a ordem do dia, foi pelo Snr 
Vereador Toledo lida a sua opinião do theor seguinte: 

Na sessão extraordinária de 7 do corrente foi me necessário 
pedir a esta Camará huma Sessão para nella expender os motivos 
porque me recuzava a dar os meus escravos para trabalhar na- 
qnella mal fundada Valia ; com effeito esta se me concedeo e nem 
menos se devia esperar de huma Camará que so trabalha para o 
bem de seus Concidadãos, posso por isso dizer que sendo eu hum 
dos mais interessados naquella Canal, não tanto por meo inte- 
rece, mais pelo interece de todos habitantes desta Villa de com- 
mum. accordo com o Cap m Mor Joze António Peniche, Sarg to Mor 
Bento Pupo de Gouvea, Sarg to Mor Bartholomeu da Costa Al- 
meida e Cruz, e o Cap m António Borges Diniz, e de outros m t0s 
Senhores asaz possuidores de boa fortuna, me. propuz e dei prin- 
cipio a húa larga e suficiente picada para se abrir dito Canal 



- 234 - 

pela parte do Norte, como com effeito trouxe a dita picada the 
mais do meio de seo comprim" em Julho de 1821; tendo assim 
tratado, e vendo que se não proseguia na cavação delia, deliberei 
deixar iiquelle servisso the que os m mo * Senhores se resolvesem a 
concoiTer na forma ajustada; entretanto que aSim me esperança- 
va, recebeo a Camará desta VilJa húa ordem do Ex mo Governo 
para informar sobre hum plano que o Alferes Joze Innocencio Al- 
ves Alvim e Joze António dos Anjos havião offerecido, coma con- 
dição de cobrarem 20 rs por cada alqueire, ou arroba de qualquer 
género e 5 rs por medida de líquidos de tudo que por ali pasasem 
por tempo de dez annos; estas noticias aterradouras se espalharão, 
produzindo, como he natural, a inquietação, eo desaçoceeo entre hum 
rovo, que teme deixar seus filhos, seus neto?, enfim seus dessendentes 
gemendo entre ferros: evitar os malles fucturos tive por fito, quando 
correo a reunir-ce e a convocar a Camará, e nella tratarse de 
húa subscrito voluntária ; com effeito juntas as Aucthoride* do 
Fays, e grande parte dos mais bem estabelecidos Agricultores, 
entrou em discussão á escolha do terreno para a abertura da dita 
Valia, e foi ali que se observou divergência de opiniões apa- 
resendo dous partidos, hum pelo Norte, e outro pelo Sul, e bem 
que o partido aprovador do Norte fosse de hum maior numero, 
todavia julguei, que para caminhar com acerto, evitando os ma- 
les que de ordinário trazem questões entre li o mês de espirito 
alterados, seria justo representar ao £x mo Governo da differença, 
instando por hum Official Engenheiro apto e pirito para disidir 
a questão : esta propozição foi unanimemente aprovada por ambos 
os partidos, sujeitando se ao destino : isto he a decizào a qualquer 
que ella fosse, e nesta boa fé entre outros subscritores, eu ofle- 
reci voluntariamente a quantia de 100$ reis. A Gamara foi 
exacta levando o objecto em quês tilo á prezença do Ex™ Gover- 
no, que provid 16 não demorou a vinda do Ten* Coronel Euzebio 
Gomes Barreiro ; esto homem emparsial apenas chegou principiou 
seus trabalhos, recatando com prudência o rezultado de suas com— 
binações ; mas nenhuma providencia bastou para evitar a malícia 
bem fundada, que o partido do Sul tinha de lhe não ser apro- 
vada a sua escolha, e porisso não poupou todas as custas e me— 
didas para desfigurarem o bom conceito que justamente devia 
merecer este honrado Official, proclamando abertamente, que inda 
mesmo decidindo elle contra sua opinião, nunca jamais se con- 
cluirá pela parte do Norte, motivo este qne deu causa a húa 
grande parte de Negociantes e Lavradores á asignarem húa 
subscrição voluntária, que sommou a quantia Rs 1:500& rs pela 
primeira vei, e com ella reprezen tarem ao Ex" # Governo a de- 
liberação em que estavão de se prestarem á aquelle Serviço, abrin- 



— 235 — 

do a Valia a sua custa sem vexame, ou ainda o mais pequeno 
encomodo da pobreza, e sua passagem ficar livre a todos de im- 
posto algum ; roas Snr. Prezidente, qual foi o resultado, desta 
generosa ofterta, deste bem esencial a bum Povo ? A não lie 
pocivel crer-se, mais cumpre-me o dizer, que obtiveram ordem 
do Ex mo Governo para abrir se o dito Canal pelo Sul, esquecftndo- 
se atbe que se fazia desnecessária a vinda a'aquelle Official En- 
genheiro como se tão pouco pesase a Nação Brazileira despezas 
na prezente época. He desta forma Sr. Prezidente, que se au- 
gmentao as despezas de bua Nação, que se promove as intrigas, 
aniquilando o bem estar de bum Povo por sua natureza u mi Ide 
e pacifico, e apropriado para obedecer a Ley, e as ordens dos 
seus Superiores. A despeito das mais bem fundadas esperanças; 
chega finalmente a ordem para se abril a Valia pela parte do 
Sul : nao ba quem desconheça q t0 menos bem pençada foi, e que 
baldados seriao todos os trabalhos e fadigas, apezar do que, nim- 
guem se recuzou, e apenas herão notificados por ordem do Cap m 
Mor desta Vi lia, esquecião sua gricultura, suas mulheres, e seus 
filhos e prontamente vinhão prestar seus trabalhos na má logra- 
da Valia, fazendo-se publico, que estas" ordens traziào tanta força 
que poriao ao Povo em desespero a não ser a natural benevo- 
lência do executor delias oCap m mor desta Villa, homem pen- 
sador e humano. Não se tinha inda feito grande servisos quan- 
do ja constava ter se acabado a pequena Somma offerecida por 
aquelle partido, e he então quando aquelle Ex Adm or entra a 
procurar pelas quantias que se havião asignado em a condição 
asima mencionada : sendo eu um delles, se bem que me não hera 
iquivoca a perdição d'aquelle dinheiro antevendo o seu máo re- 
zultado ; comtudo os dezejos de viver em boa ordem em paz e 
armonia com os meus concidadãos, me obrigarão a prontam to exi- 
bir a dita quantia de Sem mil reis, indo conhecendo, que pri- 
meiro tracto eu não estava sujeito, maiormente tendo protestado 
como protestei. São estes Sr. Prezidente os verdadeiros e justos 
motivos a que me ligo para não dar mais os meus escravos para 
tal serviso : não he isto ser desobediente, não he faltar o respeito 
as ordens do Exmo e Sábio Governo, he sim julgar disperdicios 
todo trabalho que se presta em obras mal fundadas. Esta ver- 
dade conhecida de todos só pode ser escura ao Ex mo Governo por 
se lhe não levarem as reprezentações e informações revesti- 
das de toda verdade, e especificações. Todos conhecem o bem 
que rezulta ao Povo na abertura dessa Valia ; he evidente por 
isso, que elles se recuzão porque nenhuma esperança tem de apro- 
veitarem seu trabalho, e para prova que a exessão de Seis ou 
Sete Pessoas ninguém mais pode aprovar a parte do Sul . Tenho 



— 236 — 

Snr Prezidente dada as razões pela qual me comprometti na 
Sessão do 7 do corente, e estou persuadido que esta Camará lhe 
dará o pezo que merese, porque ellas se abrigão na verdade, na 
razão e na Justiça. Iguape onze de Agosto de mil oitosentos e 
vinte nove=0 Vereador=Joze Jacintho de Toledo. O Snr Ve- 
reador Malta Carneiro fallou no mesmo sentido dizendo ser da 
mesma opini&o. O dito Snr Vereador propoz, que na passada Ses- 
são do dia 7 a maior parte dos Cidadãos que se acharão prezentes 
deixarão ao Snr Rev do Fiscal, os seos poderes, para em nome dellea 
dizer seos sentimentos ; e estando prezente o dito Snr Rev do Fis- 
cal, disse que trazia dita opinião por escripta para a aprezentar. 
O Senhor Prezidente propoz se deveria ser aceita e incirida na 

Srezente acta, na qual se deveria somente mencionar a opinião 
os Snres Vereadores e não as de outras pessoas. Resolveo a Ca- 
mará que fosse lida e insirida na acta a opinião do Sr Rev do 
Fiscal por parte dos Cidadãos, asim como qualquer outra que 
viese á Meza sendo sobre este objecto. O Snr Rev do Fiscal por 
parte dos Cidadãos asignados na acta antecedente leo o Seguinte : 
Tendo- se feito publico por Edita es a preciza reunião do Povo 
na caza da Camará desta* Villa em Sessão de 7, foi pelo Snr 
Prezidente lido o Officio do Ex mo Sr Vice Prezidente desta Pro- 
víncia, que ordenava a obrigação de os habitantes desta Villa 
darem seus Escravos por escalla para trabalharem na principiada 
Valia : a maior parte do Povo, deixou de acudir a chamado, pelo 
temor do contagio e os poucos que ali se aprezentarão tão una- 
nimos como submissos, reprezentarão verbalmente ao Sr Prezi- 
dente e mais Membros da Camará Municipal, o motivo porque 
devião ser ixenzos, requerendo e alcançando a graça de o fazerem 
especificadam te a mim como Fiscal, cumprindo eu com a ordem 
que me foi dada, vou descrever rezumidamente o sentimento geral 
que por Documento existem em meo poder. A gricultura foi sem- 
pre em todos os tempos e em todas as Nações o Sustentáculo dos 
grandes Impérios, fica por isso claro que a sua marcha não deve 
ser interrompida senão em cazos de mais evidente necessidade, e 
hé firmado nestes princípios que o Ex mo Snr Prezidente dize — 
não prejudicando a agricultura. São de ordinário as propozi- 
coins, pareceres, e informaçoins levadas a prezença dos Governos 
não só despidas da necessária verdade, mais athe sem as pre- 
cizas clarezas e especificacoins ; e he porisso que por illudidos, 
e enganados, as mais das vezes deixão de obrar bem. A lembrança 
de huma Valia de comunicação da Ribeira ao mar pequeno desta 
Villa he antiga, o comercio, e o interece geral, a fizeram olhar 
como necesaria, debaixo destas vistas talvez, Joze António dos 
Anjos e seo Sócio o Alferes Joze Innocencio Alves Alvim, pro- 



— 237 - 

pozerào em Janr* de 1825, a abrilla pela parte do Norte, depois 
de terem maduramente anivellado o terreno, exigindo em remu- 
neração de seo trabalho e despezas a pequena impozição de 20 
rs por alqueire 20 rs por aroba e 5 rs por medida de cada liquido 
que transitace, por tempo de dez annos : divulgando-se a noticia 
do tributo pertendido, o Povo acudio e reunindo-se ante a Camará 
ali lhe fizerào a mais decidida oppozição, má lograda asim esta 
primeira tentativa, sucitarão se apoz delia questões de preferencia 
sobre o lugar mais appropriado para abertura da dita valia, por- 
que o* mesmos que ae antes escolherão e appro varão fosse feita 
pelo Norte, devergindo de sua primeira opinião tornarão esta 
escolha indeciza, foi nesta ocaziào que o Cap m António Borges 
Diniz em Fev° de 1825, apresentou a Camará hum plano em 
qual se propunha a factura da mesma valia, pedindo se propu- 
zese ao Povo para livremente desidirem e quanto fosem concordes 
dar-se principio : este plano se aprezentou a huma grande, e tal- 
vez a maior e mais forte parte dos habitantes, que a vista re- 
Suererão ao Ex m ° Governo mandasse um official Engenheiro, que 
ecedise de lugar, que achase mais appropriado, para a abertura 
da Valia sujei tando-se elles a decizão aesse qualquer homem, e 
sacrificando- se a fazerem por suas tazendas e bens dita valia, dei- 
xando-se livre a todo e qualquer individuo a sua pasagem, pro- 
testando ao mesmo tempo não se prestarem de maneira alguma 
para outro lugar que não fosse o escolhido pelo dito Engenheiro : 
Governo annuio ao pedido, mandando o Ten te Coronel Euzebio 
Gomes Barreiros, cujo homem chegando, nào se poupou a trabalho al- 
gum, obtendo em resultado de suas fadigas a escolha do terreno pela 
parte de Norte em qual axou não menos de doze palmos de deferença 
que acrecia em profundidade da parte do Sul, alem de 80 braças 
que tinha mais de cumprim.**, os espíritos caprixos ou melhoro 
poder da soberba e da intriga manejou daqui em diante estes 
negócios, e com tal melindre soube iludir ao Governo, que 
delle pode obter ordem para se abril a referida valia para par- 
te do Sul, a despeito das mais apreciáveis vantagens que ofe- 
recia a parte do Norte, não só das oitenta braças que diminuía 
em cumprimento, doz doze em profundidade como ná neste lo- 
cal; e não encontrar senão huma decima parte do terreno are- 
nozo, e as outras nove partes toda barrente, cujo trabalho, alem 
de suave, sua existência he de eterna duração o que tudo pelo 
contrario se encontra pela parte do Sul, acrescendo a tudo, a 
propuziçào voluntária que o Povo fazia de abrir a referida 
Valia a sua custa deixando sua pasagem sempre livre a seos 
descendentes independente de vnxames ou constrangeres aos 
Povoa agrícolas como ja se tem feito e se pertende. Esta parte 



— 238 - 

de agricultores confirmao o seu producto dizendo que elles li- 
vremente se sacrifica o á abertura da valia, pelo lado que es- 
colhece o inviado do Governo, sem exigirem serviços, ou outra 
alguma prestação de Povos, maiormente agricolas, e que sendo- 
lhes esta oferta desprezada, preferindo-se a parte opposta; esta 
percizamente fazia a mesma oferta, e que porisso nada mais 
resta ao Ex. m ° Governo que obrigal-os ao comprimento de sua 
promessa. Tenbo asim como Fiscal, desempenhado a comição 
que por esta 111.™* Camará me foi encarrogada emetindo sin- 
gelamente os sentimentos que dos Po/os comprehendidos no 
officio me forão comfiados, acrecendo o dizer que elles justa- 
mente desconfiuo de hum máo êxito na principiada Valia, não 
só por ser esta formada em hum local impróprio pela mobilidade 
de seo terreno todo arenozo; mais ainda porque a sabida das 
aguas para mar se fazem em hum baixo sobejamente exteríço, 
e que porisso inda quando se finalizo o principiado trabalho 
poucos tempos utilizará, e hum novo trabalho virá em quietar 
aos habitantes ao qual outros suecederâo inda prezidindo dos 
apontados malles de mais doze palmos de fundura, oitenta bra- 
ças de cumprimento, e outros deferentes obstáculos que se o mi- 
tem por não ser extenço. Iguape 10 do Agosto de 1829. O 
Fiscal=/\ e Francisco Manoel Junqueira. 

O cidadão Cap.™ Com. le António Borges Diniz, compareceo 
e mandou a Meza a sua opinião do theor seguinte. António 
Borges Diniz em qualidade de agricultor; tem a responder á 
esta Illustre Camará em resposta ao adiamento requerido pelo 
Povo da Sessão de 7 do corrente para responder ao Officio do 
Ex. TO0 e Rev. mo Sr. Vice Prezidente desta Província, sobre a 
continuação da abertura da Valia da comunicação da Ribeira 
com o mar pequeno, que pelo plauo junto offerecida em Cama- 
rá em 25 de Fevereiro de 1825, e oferta feita ao Governo des- 
ta Província, e protexto por requerimento em 1826, que se ha 
de achar na Secretaria daquelle Governo, em que ja protesta- 
vão em não poder contribuir para aquella factura, pela grande 
dificuldade do serviço, e contra o ex preço exame do Ten. ,c Co- 
ronel Emgenheiro Euzebio Gomes Barreiros, deixando, o lugar 
mais próprio e fácil, tão somente por caprixo como o mesmo 
Emgenheiro o poder mostrar, deixando de se fazer pelo lugar 
de 16 palmos de cavoque e 20 de largo, sendo muito bastante 
para o nosso mister, para preferir o lugar inais alto que tem 
esta Villa; que he precizo 30 palmos para mais de cavoque 
e 40 do largo alem de maior longitude e comprimento. He 
i vidente, e claro, que e independente de decizão de Emgenhei- 
ro, que por caprixo foi pedido, que o lugar mais próprio hé 



— 239 - 

pelo pé do morro, que acompanha e circula esta Villa, e que 
as aguas da maré da Ribeira innundao a metade do terreiro 
próprio para o dito Canal, que só tem 10 palmos de cavoque 
sendo o motivo porque eu e os mais asignados nos prestáva- 
mos a fazei io independente de veixamo a pobreza nem ónus, 
ou tributo aos Povos. Sendo o obstáculo a cortar a comonica- 
çao da agua de beber e todos os mais utencilios do morro, 
para a factura dos cazas que se edifi casem nesta Villa, asim 
como pedra, barro e páos que para o fazer comonicavel bastava 
somente umapiquena ponte de largura da dita Valia, e quando a Ca- 
mará desta Villa a niio podesse fazer por falta de meios (o que não 
he de esperar) havia os mesmos subscriptores quem a fizesse a sua 
custa nao so huma como duas pois he claro que huma ponte 
de madeira de vinte palmos de largo he húa piquena despeza: 
comtudo prevalece o caprixo so fundado em desunioens afectando 
oráculos Evangellicos para contradizer a vontade do publico o 
de todos os Cidad&os, que a se contar tudo mais que se seguiu 
he couza muito extença, chefes, Camará, etc, te melhor informa, 
rá o dito Tent e Coronel Engenheiro. Saio estes ilustres Verea- 
dores os motivos porque nâo posso prestar trabalhadores para a 
continuação do Canal por ser obra muito despendioza e imeom- 
pativel com as forças do Pays pois que tendo nos obrigados, por 
força hade perecer a lavoura, e quem se sujeitará a prestar seus 
escravos para hum serviço tào damnozo a saúde, e tao. prolon- 
gado como a esperiencia nos tem mostrado, os que athe agora 
alugav&o seus escravos, todo3 empa lamarão e para aquelle ser- 
visso não querem mais. Temos visto os clamores da pobreza 
que athe agora sido obrigados para aquelle trabalho virem co- 
mo jornaleiros (quando o nâo sao) e níio ha nemhum que nao 
tenha seo Citio, mulher, e filhos a manter, e alem de sermos 
obrigados a prestarmos serviços de nossos escravos, ruínas de 
saúde, atraso de lavoura, e Sugelt03 a tributos para o fueturo, 
havendo quem se oferecese a faaer a obra sem despendio da 
Fazenda Nacional, emeomodo a pobreza e livre de ónus, e ca- 
prixozamante foi tudo desprezado e refutado, e athe o mesmo 
Emgenheiro, para agora termos todos tantos emeomodos, he 
precizo noctar que nao he a mesma divergência, e dos mais por 
opinião, porque para o bem publico tenho prestado, e presto meo 
dinheiro asim corno para Estradas, caminhos, Rocios e para tu- 
do quanto he a beneficio publico, e nào por máos Cidadào3. Ou- 
tro obstáculo; o canal principiado nào se ultima com quatro 
contos de réis, e concluída que seja tem hum baixou na foz, que 
pode crear a ponto de tapar a barra, e juntamente difícil para 
procurar as Embarcações para a descarga das Canoas, pois como 



— 240 — 

he evidente, e claro se pode ver todas as vezes que se quizer, 
sem ser precizo exame, desconfiança esta de não servir mesmo 
ultimado que seja, e que serão perdidas todas as fadigas, tanto 
da nossa parte como do Governo, comtudo como bom Cidadão e 
Súbdito aos Governo» Superiores, sendo unanime a aprovação de 
todo povo, prestarei o que por escalla me tocar, advertindo que 
ha muitos que presto o seus nomes em abono da obra sem forcas 
para o auxilio que se preciza para a continuação da obra, na 
mente que com os nomes prestados, estão concordes nos Servi- 
ços que se exigem. Finalmente Senr 68 a minha opinião he de 
que he mais mais fácil fazer-se nova Valia pelo logar mais fácil 
do que continuar aquella que tudo o serviço tanto na largura 
como em perfundidade he pela metade : os barrancos dos lados 
mais baixos, e não tão sugeitos a cahir, e a intulharem a canal 
asim como se esta vendo na principiada Valia que esta feita, e 
ainda precizando de dez ou mais palmos de rebaixe, para poder 
receber agoa em que possa navegar Canoa Carregada, que gran- 
de Serviço trabalhozo não será esta rebaixe, o que peia parte 
opposta seria muito mais fácil e asim Illm * Sen™ Vereadores 
VV SS*» devem esclarecer ao Exm° Governo com a verdade pura 
afim de mais fácil e iconomico e útil. Este serviço tão necessá- 
rio a nos outros como he este, mas não por logar tão difficultozo 
e feliz do subscriptor, que gozar das vantagens que nos afiança 
o canal e portanto concordando os mais Cidadãos com a minha 
opinião eu me ofereço com todas as minhas forças para a abertu- 
ra do novo Canal, na forma do plano em Camará em 1825 que 
junto ofereço. Iguape honze de Agosto de mil oito centos e 
vinte nove.— António Borges Diniz. 

O Cap m António Borges Diniz não convindo nas condições 
com que Joze Innocencio e seo sócio se propõem a abrir o Canal 
da Ribeira para o mar, quando se pode abrir o mesmo Canal Bem 
gravame com igualdade de serviços, e despendios conforme o plano 

Sue oferece a este Senado, pata ser aprezentado a todos os òida- 
ãos desta Villa e sem termo afim de o ver e asignar cada hum seu 
parecer, que sendo a maior parte concordes, se abril o dito Canal 
pelas condiçoens seguintes. 

1.* Será da atribuição da Camará combinar-se com o Cap m Mor 
e commandandte desta Villa para dirigir o trabalho da abertura do 
dito Canal, que será dividido por esquadra cada comp* por seus 
respectivos Capitães regulando os Serviços segando a posibilid* 
de cada família ; obrigando aos remiços que se excuzarem quando 
por seus cabos forem chamados, sem exenção de pessoa alguma. 

2 * Os Negociantes que uão tiverem escravos para em- 
pregar no m m * serviço concorrerão com dinheiros a pro- 



- 24t — 

posão dos fundos de cada bum para comprar mantim , °" e sus- 
tentar os trabalhadores durante á abertura do m mo Canal ; bem 
como ferramentas para o m mo serviço aos indigentes que a não 
tiverem 

3.* A ponte para a passagem da agoa de beber, que em- 
falivelmente deve ser feita na m m * ocazião será a custa do di- 
nheiro do Concelho, por ser este bem publico, e o verdadeiro 
emprego de tais dinheiros segundo a instituição de semelhantes 
empoa tos. 

4/ Da mesma maneira se continuará o serviço de conserto 
que occorrer para o fucturo que húa vez aberto o dito Canal 
ficará para sempre, ixento de tributo, ou outro qualquer emcargo, 
e livremente poderão todos os individuos trauzi tarem pelo mesmo 
quando bem lhe convier. Para cujo fim me ofereço com todas 
as minhas forças, serviços dos meus escravos, sustentados a minha 
custa, praxe que seguirão livremente todos os Snr e * que con- 
cordarem no prezente plano. Iguape vinte e seis de Fevr° de 
1825. António Borges Diniz. A Camará vendo a diversidade 
de opinião que aparecerão sobre a execução do Orneio do Ex mo 
e Hl S r Vice Prezidente da Província de quatorze de Julho 
deliberou levar ao conhecimento do mesmo Ex mo S r tudo quanto 
resultou nas Sessões passadas e prezente remettendo as Copias 
para a vista delias o dito £x m ° S r determinar o que for justo. 



Documento n. 128 



Cumprindo me em observância da Lei, informar ao Conse- 
lho do Governo na sua próxima reunião ordinária sobre os ne- 
gócios de sua privativa competência, convém para este fim que 
Bossas Mercês me remettão com a possível brevidade huma cir- 
cnmstanciada informação do estado de adiantamento ou atrazo 
em qoe ge acha o serviço da abertura do Canal a que se está 
procedendo nessa Villa, com declaração do que está feito, e do 
9" e ai^da falta a fazer, podendo Vossas Mercês juntar a dita 
. rill *cão todos os demais esclarecimentos que lhes parecer con- 
?ezu e **tes a bem d'aquella interessante e utilíssima obra, para 
p 1 " fcl *do levado ao conhecimento do mesmo concelho. Deos 
n *rde a Vossas Mercês— Palácio do Governo de São Paulo, 

Sflk ^ e J u ^° ^ e m ^ °* t0 cent08 e trinta. Manoel Bispo — 
n * à °ir©8 Prezidente e Membros da Camará da Villa de Iguape. 



- 242 - 
Documento n. 126 

Ex mo e Rev mo Snr. Em cumprimento do Officio de V Ex* 
de vinte de Julho do corrente, em que determina que a Camará 
da Villa de Iguape, informe circumstanciadameute sobre o estado 
de adiantamento ou de atrazo em que se acha o Canal de Com- 
municação da Ribeira com o Mar desta Villa, ajuntando todos 
os esclarecimentos que forem convenientes, esta Gamara tem a 
saptisfação de levar ao Conhecimento de VE* que por bua Com- 
missão de três de seus Membros fez pessoalmente examinar e 
medir o mencionado Canal, para conhecer quanto estava feito, 
e quanto restava a fazer-se, e esta em resultado achou muito 
serviço feito, e as maiores dificuldades vencidas, dando as mais 
lizongeiras esperanças de sua conclusão. Achou no primeiro re- 
baixo na extensão de quatro centos e trinta nove braças, que 
faltarão cinco a seis palmos para o nivel da maré do Mar da 
Villa, cento e noventa e cinco no segundo rebaixo precizarào 
ainda de oito a nove, e o terceiro também de cento e noventa 
e cinco braças talvez de onze a doze palmos; achou mais cento 
e trinta braças ja feitas, que pouco rebaixo carecem, restando 
somente duzentos e quatro braças para se abrir, para comple- 
mento de nossas esperanças. A Camará remette a V Ex* a 
Nota induza, que o Administrador, sendo consultado, enviou a 
Commissão, por onde se ve o dinheiro despendido, c o que resta 
em ser. Tem somente a acrescentar, que aprova a resolução 
em que está o mesmo de (vencidas as 204 braças que está o para 
escavar) meter quanto antes agoa da Ribeira no Canal, para facili- 
tar a conclusão do Trabalho. Avista pois da necessidade desta obra, 
a qual resulta sem contradicção o augmento desta Villa alem da 
iuegavel commodidade Publica, esta Campra interpõem sua ro- 
gativa pedindo a continuação do empréstimo de mais hum conto 
de reis afim de se não paralizar esta obra de primeira necessidade. 

He o que esta Camará tem a honra de informar a V Ex* 
sobre este objecto, esperando as determinações e providencias 
que V Ex a houver por bem dar . Deos Guarde a V Ex* Iguape 
em Sessão ordinária de 5 de Novembro de mil oito centos e trinta. 
Ex m ° e Rev m& Snr Dom Manoel Joaquim Gonçaluez de Andrade, 
Bispo Diocesano e Vice Prezidente desta Província = Joze Ja- 
cintho de Toledo=Joze António da Silva=João Chrysostovw d 1 Oli- 
veira Salgado Bueno=Bento Puppe de Gvnvea— Rafael Gomes 
Malta Carneiro. 

Nota — Tenho a honra de accusar a recepção do Officio de 
Vossas Senhorias com data de hoje, remettcndo-me a nota que 
tomarão na medição a que pessoalmente assistirão das braças do 



— 243 - 

Canal abertas em primeiro rebaixo, e das que ainda não tem 
benefício algum; n'aquella nota cnlculíto VV SS mais ou 
menos os palmos que será necessário abrir na excavação do Se- 
gundo rebaixo, sobre o que dezejarão VV SS ouvir a minba 
opiniào, assim como ser informados das despezas ate agora feitas 
c dos recursos que ainda restão para a sua continuação e con- 
cluzão. Prestando-me com muito gosto a dar a minha opiniào, 
e informaçoens, principiarei dizendo, que fazendo a reducção dos 
palmos calculados por VV SS como necessários para o se- 
gundo rebaixo, vejo que teremos de fazer um rebaixo de sete 
palmos em toda a extensão de mil cento e hum a braças; eu porem 
calculo (servindo-me da mesma baze que Vossas Senhorias to- 
marão para o seu calculo, o uivei do mar) que o rebaixo não 
excederá a cinco palmos, porquanto junto ao mar sobre a ponte 
tem o Canal quasi quinze palmos, faltando so trez para o nivel 
do mar : Ora da ponte para cima segue quazi a mesma altura 
l>or espaço de mais de setenta braças; nos cento e noventa e 
cinco que Vossas Senhorias notarão athe o córrego, calculando 
de onze a doze palmos o segundo rebaixo eu tenho certeza pelo 
nivelamento a que assisti que só falta rebaixar nove palmos por 
espaço mais ou menos de cem braças, e que na noventa e cinco 
que restão só falta rebaixar seis a sete palmos. Quanto o mais 
conformo-me com a nota. Tenho porem de observar que a aer 
certo c que se diz citando- se a authoridade do fallecido Briga- 
deiro João da Costa Ferreira e de hum outro homem cujo nome 
me não accore agora (o pai do fallecido António Euzebio) os 
quais nivelarão o terreno, que a ser certo digo, que a Ribeira 
tem o seu nivel seis palmos sobre o mar, aberta que seja o Ca- 
nal na Ribeira, as aguas procurando o seu nivel natural na pe- 
quena extensão de mil cento e setenta trez braças, tornarão des- 
necessário o grande rebaixo calculado : mais a experiência he 
que hade mostrar isto. A subscripção chegou a quantia de 
Reis dois contos novecentos e sete mil quatrocentos reis. O fal- 
lecido Sargento mór Bartholomeo emprestou duzentos vinte e sete 
mil quinhentos e vinte (alem de sua Subscripção de duzentos 
mil reis e do serviço de hum escravo por cento e vinte hum 
diaa sem jornal), a Junta da Fazenda emprestou Reis hum conto, 
as quaes quantias formão a de trez contos trezentos e vinte e 
quatro mil novecentos e vinte reis. Na abertura de cento e 
oitenta e quatro braças durante a primeira administração dis- 
penderão-se Reis hum conto setenta e seis mil e noventa e trez 
re is. Na administração do fallecido Joze Xavier Rodrigues, dis- 
penderão-se oitocentos secenta o cinco mil quatro centos e cin- 
coenta na abertura de duzentas e trinta e seis braças. Na admi- 



\ 



— 244 — 

nistraçao temporária do fallecido Sargento Mor Bartholomeu dis- 
penderào-se noventa e seis mil trezentos e oitenta reis na aber- 
tura de vinte braças. Tenho eu dispendido na abertura de 
quinhentos e dezenove braças Reis oitocentos setenta e sete mil 
sento e setenta reis, as quais quantias formão a de dois contos 
novesentos quinze mil e noventa e oito reis. Existe portanto a 
quantia de quatro sentos e nove mil oitocentos e vinte e dois 
reis, a saber, por conta do empréstimo da Junta, cento e vinte 
e doia mil oitocentos e vinte cinco reis, em dividas a subscripçào 
duzentos e oitenta e e seis mil novecentos e noventa esete. Com 
estas quantias espero concluir o primeiro rebaixo fazendo abrir as 
duzentas e quatro braças que faltão ; e para o segundo rebaixo que 
pertende fazer no meio do Canal, só com a largura de oito pal- 
mos, julgo que será suficiente a quantia de hum Conto de Reis: 
e como nào temos esta quantia, se a Junta da Fazenda a não 
quizer emprestar, teremos de ver ainda paralizada por muitos 
annos ou talvez para sempre abandonada huma obra tao neces- 
sária, e que já tanto tem custado; que Deos avertala. Resumo 
=Subscripçao e empréstimo, trez contos trezentos vinte e quatro 
mil novecentos e vinte reis = Despeza = era cento e oitenta e 
quatro braças, hum conto setenta e seis mil e noventa e trez 
reis=Dita em duzentos e trinta e seis braças, oitocentos secen- 
ta e cinco mil quatrocentos e cincoenta reis = Dita em vinte, 
noventa e seis mil trezentos e oitenta reis= Dita em quinhen- 
tos e dezenove braças, oitocentos setenta e sete mil cento e se- 
tenta cinco reis=Soma as braças novesentos e cincoenta e nove. 
=boma Rs dois contos novesentos quinze mil e noventa e oito 
reis.=Falta para excava-se duzentos e quatro braças = Tem o 
Canal mil cento e secenta e trez braças = Existe em dinheiro 
cento e vinte e dois mil oitocentos e vinte cinco reis=£m di- 
vidas activas, oitenta e seis mil novecentos e noventa e sete 
reis = Trez contos trezentos vinte e quatro mil novecentos e 
vinte reis. He o que tenho de responder a Vossas Senhorias. 
Deos Guarde a VV SS Iguape trez de Novembro de mil oito- 
centos e trinta=Illu8t' issimos Senhores Joào Chrizostomo d' Oli- 
veira Salgado Bueno=Joze António da Silva=Joze Jacintho de 
Toledo=Membros da Commissao Permanente do Camará Muni- 
cipal = Joze Innocencio Alves Alvim, Administrador da obra do 
Canal. 

Documento n.° 127 

Ill mo e Ex mo Snr. Tendo a Camará Municipal desta Villa 
recebido a Circular do Ex mo Prezidente da Província Aureliano 
de Souza e Oliveira Coitinho de sete de Março do corrente, 



- 245 — 

em que participando as Dispoziçoins do Artigo treze e do Para- 
grapno trinta e oito do Artigo primeiro da Carta de Lei de 
quinze de Dezembro do anuo próximo passado exige que esta 
Camará envie bum Orçamento do quanto se poderá dispender 
com a sustentação dos prezos pobres no anno financeiro ; e assim 
mais que informe circumstanciadamente quaes as obras necessá- 
rias e de mais utilidade Publica neste Districto, e as quantias 
em que forem Orçadas, para com conbecimento de cauza deli- 
berar em Concelho sobre a execução da referida Lei, respecti- 
vamente a esta Villa; a Camará em cumprimento do seu dever 
vai levar o conhecimento de V Ex* quanto á primeira parte 
que poder-se-ha dispender em todo o anno financeiro com a sus- 
tentação dos prezos pobres nesta Villa a quantia de trinta a 
quarenta mil reis mais ou menos em que foi orçada. Quanto a 
segunda parte, que sendo muitas as necessidades deste Munici- 
cipio, tanto para commodidades como para utilidade Publica, sem 
que á ellas possa occorrer a Camará pela limitação de seu re- 
dictos, nenhúa obra se aprezente de maior e indispensável ne- 
cessidade do que a do Canal de communicaçao da Ribeira com 
o Mar desta Villa, o qual bem que bastan temente adiantado, 
todavia se acha paralizado, por falta de meios, nào obstante ha- 
verem concorrido para elle os cidadaons mais possibilitados ; a 
conclazao desta obra tão interessante foi orçada em hum Conto 
de reis ; e por a Camará conhecer tanto a necessidade deste 
Canal como a dificuldade de o concluir, he que na informação, 
que levou em o anno passado a prezença de V Ex* com data 
de cinco de Novembro pedio a prestação do mais hum Conto de 
reis pela Fazenda Publica da Província para o conseguir. Esta 
Camará confia, que V Ex* tomando em consideração a neces- 
sidade da concluzão de húa obra, da qual rezulta o augmento 
do Commercio e prosperidade desta Villa destinará para ella 
com a maior quantia que for compatível na destribuição da 
consignação para esta Província. Alem do Canal mencionado 
há também outra obra de grande interesse ao bem do Muni- 
cípio, que hé a Cadea e Caza para as Sessoins da Camará, 
de que tanto se carece ; visto que estão actualmente Servindo 
Cazas particulares com não pequeno dispêndio annual de alu- 
gueis ; a poder ter lugar a applicação de qualquer quantia 
esta Camará receberá como Subsidio; para adiantamento da que 
se acha apenas com parte dos alicerces tirados. Deos guarde 
a V Ex* Iguape em Sessão extraordinária de quatorze de 
Maio de mil oitocentos e trinta e hum. Ex m ° e Rev m ° Senhor 
Dom Manoel Joaquim Oonçalvez de Andrade, Bispo Dioce- 
sano e Vice Prezidente desta Província. Francisco dos Santos 



— 246 - - 

Carneiro. Rafael Gomes Malta Carneiro . João Chrizostomo de 
Oliveira Salgadtj Bueno. Joze António da Silva. Bento Pupo 
de Gouvea. 

Documento n.° 128 

A Camará Municipal da Villa de Iguape, reconhecendo que 
o Canal da communicaçào do Ribeira com o mar desta Villa he 
de absoluta necessidade, pois que d'elle depende a facilidade dos 
transportes, e commodidades dos habitantes c por consequência 
o augmento da Agricultura e do Commercio e a prosperidade 
deste Município, e vendo esta obra quazi concluída, paralisada 
por falta de dinheiro e em circumstancias hua vez que se nào 
acabe de se malograr tanto trabalho á custa dos cidadãos Con- 
tribuintes em proporção de suas posses ; se propõem applicar para 
ella até a quantia de quatrocentos mil reis, pelas vendas deste 
Concelho. E não obstante ver-se empenhado em a obra da 
nova Cadêa, apenas começada, abertura do hua nova Rua, (para 
a qual se fiz precizo demolir parte de hum edifício particular) 
factura de hua ponte, concerto do estradas e outras obras, de que 
muito se carece, entretanto que seus reditos não podem bastar; 
todavia convencida a Camará, que nada mais bem empregado, 
que o dinheiro para o fim proposto, persuadi n d o-se dever con- 
sultar o Concelho Geral da Província, para ser por elle autho- 
rizada, vai pedir licença, quando precizo seja, e espero obtel-a, 
para poder despender com o dito Canal ate a mencionada quantia 
de quatrocentos mil reis como propõem. Se persuade a Camará 
com esta prestação dar a esta obra, da primeira necessidade, hum 
impulso, que, quando não a possa concluir, por ser precizo para 
isso maior quantia, animará talvez a novas prestações dos mesmos 
ou outros Contribuintes. He o que tem a Camará de levar a pre- 
zença do Concelho Geral a quem Deos Guarde. Iguape em Sessão 
extraordinária de 18 de Janeiro de 1832. IU m ° e Ex m * Senhores 
Prezidente e Membros do Concelho Geral da Província. Joze 
Jacintho de Toledo . Rafael Gomes Malta Carneiro . João Chri- 
zostomo d* Oliveira Salgado Bueno. João Dias Baptista. Fran- 
cisco Manoel Junqueira. Joze Gonçalvez Maia. 

Documento n.°129 

III™ 08 Snr" 1 Levo ao conhecimento de Vossas Senhorias que 
estando ja tratados alguns trabalhadores para a obra do Canal, eu 
pertendo que no dia quinze do corrente se principie a traba- 
lhar, isto no cazo de que VV SS julguem comveniente ordenar 



- 24? — 

ao Procurador da Camará que pague as ferias, visto que por ora 
não conto com outro recurso para a continuação da Obra. Vossa» 
Senhorias se servirão declarar-me a sua rezolução. Deos Guarde 
a W SS. Iguape 7 de Maio de 1832. Illustrismo Senhores Pre- 
zidente e Membros da Camará Municipal. Joze Innocencio Alves 
Alvim. Administrador da obra do Canal desta Villa. 

Documento n,°130 

Tendo a Camará recebido o Officio de V S* com data de hoje, 
participando-lhe que vai continuar com a obra do Canal, de commu- 
nicaçào da Ribeira com o mar desta Villa, atim de que esta Camará 
ordena o seu Procurador para pairar as ferias ; faze saber a V S 
em resposta ao seu mencionado Officio que agora mesmo expede 
ordem ao Procurador para que ponha a disposição de V S os quatro- 
centos mil reis que o Concelho Geral da Província mandou applicar 
para a mencionada obra. Deos Guarde a Vossa Senhoria. Iguape 
7 de Maio de 1832. Ill™* Snr. Joze Innocencio Alves Alvim. 
Adm dor da Obra do Canal desta Villa — Joze Jaciniho de Toledo. 

Doeumetno n.° 131 

Tendo me a Camará transacta manifestado em officio de 27 de 
Novembro ultimo o dezejo de ouvir o moo parecer sobre a quantia 
que se poderá ainda despender na conduz ao da obra do Canal; 
julguei que só depois de calcular sobre o termo médio das despe- 
zas de quatro ou mais ferias, que d'aquelle tempo em diante eu 
ouvesse de pagar pelos serviços do ultimo rebaixo, que se tinha 
de tirar da alagoa para o mar, poderia eu saptisfazer a Camará, 
aprezentando hum orçamento mais ou menos aproximado; acon- 
teceo porem que, apenas se deu começo ao dito rebaixo, sobreveio 
a chêa da Ribeira, que fez cessar absolutamente todo o serviço; 
acho-me portanto ainda sem huma baze em que possa fundar o meo 
calculo de orçamento. Tendo porem meditado bastante sobre tal 
objecto, e observando a dificuldade, que offerece a ultima excava- 
çfto ao nivel da baixa mar; por que apenas a maré começa a en- 
cher fica o terreno tudo coberto de agoas e o serviço embaraçado e 
algumas vezes, totalmente interrompido ate abaixar o mar, rezul- 
ta-me a convicção que com menos de hum conto de reis se não 
poderá levar a concluzão aquella obra, de sorte que fique o Canal 
servindo em qualquer maré. He o que por oras pospo informar a 
W SS. Deos Guarde a VV SS. Iguape 14 de Janeiro de 1933. 
Ill . mo * Snr.* Prezidente e Membros da Camará Municipal de Igua- 
pe. Joze Innocencio Alves Alvim. Inspector das obras do Canal. 



- 248- 
Documento n.° 132 

111 . m ° e Ex. mo Snr. A Camará Municipal da Villa de I^ua- 
pe a quem foi prezente o officio de V Ex* datado de 16 de Março 
para informar qual o andamento que tem tido a obra do Canal au- 
xiliado com seiscentos mil reis pela Fazenda Publica, depois de 
ter ouvido o parecer da Commissão especial para semelhante fim 
nomeada de entre os seus membros, tem de informar a V Ex* 
que a obra do Canal desta Villa, tarefa de grande monta e huma 
das mais úteis para este Município e mesmo para os de outros, se 
acha em actual Serviço e nos consta que se tem despendido com 
os jornaleiros .trabalhadores a quantia de Reis trezentos noventa 
mil quatro centos e cincoenta, existindo ainda Reis duzentos e 
nove mil quinhentos e cincoenta que se está despendendo . Esta 
obra pela grande dificuldade o que diz metade do Canal da beira 
mar para o centro por cauza de ser o terreno arenozo desbarrancar 
muito com as chuvas e mesmo as agoas que correm pelo dito Canal 
minerem as paredes dos lados pondo a superfície dependurada té 
que vai abaixo, e intulha a obra feita, por isso seria precizo uzar 
de nova forma de Serviço, fazendo as paredes dos lados quazi a 
maneira de húa rampa, cujo Serviço hé bastante despendiozo, pois 
assim evitaria o intulhamento e ficaria de hua vez feito ; esta he 
a cauza porque metade da parte da beira mar para o centro per- 
ciza de hum rebaixo maior para conceder a navegação das Ca- 
noas ao menos com as marés cheias. Quanto a metade que sae 
na Ribeira alem de ser terreno mais baixo e pantanozo tem algu- 
mas partes de barro e outras de área mais ligada que não des- 
barranca e por isso com mares cheias admitte a navegação das Ca- 
noas em toda ex tenção da dita metade. He por tanto necessário 
prover a continuação de huma obra tão útil, e que para concluila 
não será percizo talvez despender tanto quanto se tem despendi- 
do, e esta Camará, certo do que V Ex* continuará a precaver 
com os seus auxilios e boa despuziçoens como té o prezente tem 
feito, applicando-lhe mais alguns produetos para ella terá a gloria 
e o prazer de ter nosso Município hum Canal tão interessante 
e não cessara de bem dizer ao zelo de V Ex* que Deos prospe- 
re e guarde. Deos guarde a V Ex* Passo da Camará Muni- 
cipal da Villa de Iguape em Sessão Ordinária de 11 de Julho de 
1835. Ill m ° Ex m ° Snr. Prezidente desta Provincia de São Paulo. 
Manoel Duarte da Cosia, Joaquim de Souza Castro. Bernardo 
António Neves. Rafael Dias dos Reis. Luiz Alvares da Silva* 
Joze Bonifácio de Andrade. 



- 249 - 
Documento n.° 133 

Á Camará Municipal desta Villa considerando que a concluzão 
do Canal de Communicaç&o da Ribeira com o mar pequeno, he 
objecto dos votos de todos os Cidadaoens, que se interesse pelo au- 
gmento e bem ser deste Município e observando que se acha aquella 
obra paralisada por falta de húa quantia de dinheiro alias limitada 
segundo as circumstancias do Paiz, resoiveo appellar para o Pa- 
triotismo de todos os seos Concidadaons e por tanto ella os convi- 
da para húa reuni&o na Salla de Suas Sessoins no dia 1.° do futuro 
mez de 9 bro as 10 horas da manhã, afim de que ahi em geral Con- 
celho se adoptem os meios, que parecerem convenientes para se 
levar a dezejada concluzào aquella obra de tanto e tão grande in- 
teresse. A Camará pois espera que seos Concidadaons terão a 
complacência honroza de annuir ao prezente convite, que ella lhe 
faz para tão útil e justo fim. Villa de Iguape. 22 de Outubro de 
1835. Manoel Duarte de Castro. 

Documento n.° 134 

Camará Municipal da Villa de Iguape. Sessão extra» 
ordinária de 1.° de Novembro de 1835 

Prezidencia do Snr Castro. N.° 262. 

Reunido seis senhores Vereadores, Andrade, Almeida e Cruz, 
Franco, Dias Reis, Peniche e Silva, faltando com cauza o Snr. 
Prezidente Castro, ocupou a cadeira de Prezidente na forma da 
Lei o Snr Andrade: sobre a meza hum officio do Secretario, fal- 
tando este com parte de doente convidou o Sr Prezidente ao 
Vereador Silva para ocupar este lugar, e tomando acento 
abrio o Sr Prezidente a Sess&o e declarou que o motivo delia 
hera tratar-se dos meios e maneira de dar -se andamento a obra 
do Canal que communica a Ribeira com o mar pequeno desta 
Villa para o que foi em Sessào de 15 de Outubro próximo pas- 
sado marcado hoje para tratar-se deste objecto, e igualmente de- 
liberado convocar-se os Povos como asim se praticou, conservan- 
do-se a Camará reunida a espera que comparecessem os cidadoes 

Sara decidir-se de hum negocio de tanta ponderação e interesse 
o Município, nfto pode ter essa saptisfacç&o porque apenas com- 
parecido trez cidadoes. Ponderou o Sr Prezidente qual deveria 
ser a marcha desta Camará em semelhantes cazos devendo-se to- 
mar algumas medidas que vencesse os obstáculos que té aqui tem 
ocorrido com aquella obra que afiança tantas felicidades e que trará 



- 250 - 

imensos bens para este Município, e sendo offerecido por vários 
Sen es Vereadores algumas propozições e suficientem* 6 discutidas 
em que pela ordem falarão, afinal decidio-se que, se deveria abrir 
buma sobscriçâo voluntária entro os povos nomeando trez cidadões 
que compriào esta commição, influindo cada bum Membro da 
Camará, por sua parte, ficando a cargo da commiçào não sò 
promover a mencionada subscrição como também a direção da 
obra de acordo com o Administrador delia e dar o andamento ne- 
cessário logo que tenba quantia suffíciente em caixa, ou ajutorio 
daquelas pessoas que prometerem serviços dos seus Escravos, no 
entanto que se deveria officiar ao Ex mo Prezidente da Provin- 
cia e Ássemblea Provincial communicando-lhes esta medida filha 
da vontade que ccta Camará tem de ver aberto e concluída a 
fonte da riqueza de seu Município, mas que julga e pondera que 
não bastara a Sobscriçâo dos Povos para esta concluzão por ser 
nenessario fazer-se de maneira que serva para todas as marés o 
dito Canal e de outra forma mais seguro e durável e por isso ne- 
cessário que atento estas circumstancias a Ássemblea coadjuve 
com alguma quantia suficiente para terminar-se este trabalho. 
Passando se a nomear os Cidadões que comporião a commição que 
deve promover a subscrição como mencionado foi lembrados e 
unanimamente aprovados os Sen es Alferes Joze Innocencio Al- 
ves Alvim, Ten te cor el Joze Jacintho de Toledo e o capitão 
António Joze Peniche, e deliberou a Camará que neste sen- 
tido se oficiasse aos mensionados Cidadões. O Snr Prezidente 
ponderou que tendo de correr a Sobscriçâo por aquellas pes- 
soas de alguma fortuna mais ou menos e muito de entre estas 
algumas escaparião por não serem lembradas, e sendo esta 
obra do Canal de interesse geral do Município, clara estava 
que a maior parte do Povo não fazia sacrifício nem com dinheiro 
nem com serviços recahindo o pezo só naquelles indivíduos lem- 
brados, e de algumas posses, hera por tanto necessário que todos 
concorreçem por hum objecto de tanta grandeza e felicidade desta 
Villa, e o melhor meio hera que por via dos Juizes de Paz e 
a estes de seus Officiaes de Quarternns se convidassem aos 
Povos, para voluntariam te prestarem cada hum 2 dias de servi- 
ços, dando a Caixa da Sobscriçâo o sustento : isto hé á aquelles 
que não possão sobscrever com alguma quantia; sendo tomado 
a proposição na devida consideração foi unanimamente aprovado e 
deliberou a Camará que neste sentido se offíciasse aos Juizes de 
Paz, e se fizesse disto siente a Commição que promove o anda- 
m t0 da obra do Canal para intelligencia desta. O mesmo Sr. 
Prezidente lembrou que se deveria nomear huma commição de 
2 membros p» redigir offícios que tem de subir a prezença do 



- 251 - 

Governo da Província, e Assemblea Provincial e sendo nomea- 
dos os S™ Almeida Cruz e Silva, forao aprovados. Não tendo 
mais quem pedece a palavra deo o Snr Presidente por findo a 
prezente sessão. Levantou-se a Sessão á huma orada tarde. Eu 
Luiz Alvares da Silva Vereador e Secretario interino da Cama- 
rá o escrevy. Andrade. Silva. Franco. Peniche. Almeida e Cruz. 
Dias Reis. 

Documento n.° 135 

Ill mo e Ex mo Snr. A Camará Municipal da Villa de Iguape 
tendo em data de 11 de Julho do corrente anno, levado ao co- 
nhecimento do Governo desta Província huma informação circums- 
tanciada sobre o estado da obra do Canal entre a Ribeira e o 
mar pequeno, e também a sua opinião sobre o Serviço, que ainda 
há a praticar-se afim de que se consiga a concluzão d'aquella 
obra de huma maneira estável, que nào torne necessários maiores sa- 
crifícios para o facturo, julgo ser do seu dever participara VEx CIa 
que tendc-3e gasto a quantia, que existir era ser n'aquella data 
acima referida, conseguindo-se apenas com a quantia de seiscentos 
mil reis hum rebaixo na extençao de 656 braças, rebaixo alias 
não bem suffíciente para a passagem livre de Canoas carrega- 
das em qualquer maré, esta Camará resolveo promover huma 
Subscripção para se continuar o trabalho; para o que nomeou 
huma com missão externa; esta obteve huma quantia muito limi- 
tada; por isso que as forças do Paiz sno pequenas, e muitos Ci- 
dadãos já por outras vezes tem prestado subscrições para esta 
obra. Nestas circumstancias, a Camará, lembrando-se que está 
próxima a reunião do Corpo Legislativo Provincial, se dirige a 
V Ex a a rogar-lhe se digne propor no orçamento da Des- 
peza a quantia ao menos de hum conto de reis, a qual reunida 
a mais alguma quantia que se pouder obter por Subscrições 
entre a população, talvez será bastante para se concluir esta 
obra do Canal. A Camará deixa de expor em detalhe a VEx* 
as grandes vantagens que rezultarão da concluzão deste Canal, 
porque muitos documentos a este respeito existem na Secretaria 
do Governo. He o que nesta occazião a Camará leva a Respeitá- 
vel Prezença de V Ex* esperando que VEx* acolherá com be- 
nignidade a rogativa que ella lhe faz a bem deste Município. 
Deos Guarde a VEx*. Passo da Camará Municipal da Villa de 
Iguape em Sessão Extraordinária de 1.° de Novembro de 1835. 
Illm° e Exm° Snr. Francisco António de Souza Queiroz. Vice 
Prezidente desta Província. Joze Bonifácio de Andrade. Joze 
Xavier de Almeida e Cruz. Luiz Alvares da Silva. António 
Joze Peniche. Victorino Joze Franco. 



— 252 — 
Documento n.° 136 

Camará Municipal da Vi Ha de Iguape. Sessão extra- 
ordinária ao 17 de Fevereiro de 1836 

Prezidencia do Snr. Castro 

N° 271. 

Reunidos cinco Vereadores Castro, Silva, Peniche, Souza 
Castro e Franco, occupou a Cadeira o Sr Vereador Castro, 
declarou o Senhor Prezidente aberta a Sessão, e disse que o mo- 
tivo delia hera, que tendo recebido um Officio e reprezentação 
dos encarregados de promover a Subscripção para a concluzào da 
Obra do Canal que communica a Ribeira com o Mar pequeno, 
e sendo o Objecto da reprezentação de grande ponderação que só 
por si nada podia deliberar, por isso o convocou a Camará para a 
prezente Sessão. Foi lido um Officio dactado de hoje asignado 
por Joze Jacintbo de Toledo e Camp m António Joze Peniche 
encarregados da Subscripç&o para concluzào do Canal que com- 
munica a Ribeira com o mar pequeno desta Villa, acompanhado 
de húa representação tão bem por elles asignada, pela qual 
circunstanciadamente fazem ver, que tendo elles esgotados todos 
os meios de persnação e rogativas para com cada hum dos ha- 
bitantes deste Município mendigando suas asignaturas de porta 
em porta, não tinhão podido conseguir vantagem alguma pela 

frande desunião e desigualdade nas asinaturas que tinhão obti- 
o, porque se alguns se tinhão prestado com o contigente pro- 
porcional as suas posses, em mor parte não só querião subscre- 
ver, e concorrer com couza alguma como ate mesmo despersuadem 
aos que querem subscrever, e por isso lembrando-se elles encar- 
regados que o único meio mais efficaz e terminante para obviar 
todas as duvidas, e chamar aos Cidadãos ao grémio aos seus de- 
veres, hera irnpor-se uma taxa razoável no género arroz, que 
mais se exporta deste Paiz para dentro e fora da Provincia, so- 
bre o plano segninte: Art° rrimeiro=Pagarão de ora em diante 
todos os exportadores a taxa de vinte reis por cada hum alqueire 
de arroz pilladc que exportarem para fora deste Município, cu- 
jos reditos serão a ppl içados unicamente para a concluzão do Ca- 
nal que se está fazendo nesta Villa de communicação da Ri- 
beira com o mar pequeno . Art° Segundo=Durará esta taxa de 
vinte réis por cada alqueire de arroz pillado não só durante a 
concluzão do dito canal, como também em quando necessário 



— 253 — 

for para se fazer o pagamento de hum conto de reis que se pe- 
diu emprestado e se deve a caixa Nacional da Província ; assim 
como também para se pagar aos Administradores da obra varias quan- 
tias que adiantavào para o andamento do Sobredito Canal, cujo pa- 
gamento se verificará em tempo competente pelas contas, que 
deverão aos Administradores aprezentar a esta Camará. Art° 3 o 
=Coiicluido que seja o Canal e pagos todas as quantias que se 
deve, se reduzirá esta taxa de vinte réis na de cinco réis por al- 
queire de arroz pillado, que serào applicados para beneficio, con- 
certo e conservação do dito Canal, té que fique o mesmo em es- 
tado de não percizar mais de reparos, e então será extincta esta 
taxa de cinco réis, ficando assim concluido o dito Canal sem mais 
ónus ou penção a pessoa alguma. Art° 4°=Esta cobrança tan- 
to a taxa de vinte reis como a de cinco reis se fará pelo Procu- 
rador da Camará (ou por outro qualquer Empregado que a Ca- 
mará nomear) o qual ficará incumbido de sua fiscalização e ar- 
recadação, e cobrará a taxa como renda deste Município appli- 
cavel para a Obra do Canal. Art° 5 o = São todos obrigados a 
pagar esta taxa pelo modo e maneira que acima se tem dito: e 
como muitos Cidadãos probos concorrerão com varias quantias, 
subscrevendo voluntariamente para a abertura do dito Canal, o 
Procurador da Camará, ou o Empregado nesta Repartição, bira 
levando em conta aos mesmos Cidadãos aquellas quantias que 
elleB devem pagar pertencentes a esta renda provenientes de ar- 
rozes que exportarem té se concluir o pagamento do que cada 
hum concorreo para a dita obra. Art° 6°=Todos os Mestres das 
Embarcações são obrigados a exigir e procurar na respectiva Re- 
partição o bilhete de desembaraço em que mostra terem os ex- 
portadores pagos esta taxa ; não devendo serem despachados 
Sela Autboridade competente sem que mostrem este bilhete de 
esembaraço. Sendo tomado em consideração a reprezentacão 
e plano offerecido e depois de terem cada um dos Senhores Ve- 
readores expedido as suas razoins, e vendo elles que nenhum 
meio mais próprio, eficaz se podia encontrar para serem chama- 
dos os Cidadãos a hum dever do qual rezulta a felicidade e bem 
geral do Paiz, resolveu a Camará por unanimidade de votos que 
se fizesse húa Postura, firmado no mencionado plano aprezenta- 
da para o que foi pelo Senhor Prezidente nomeada húa Com mis- 
são especial composta de trez Membros que forão os Senhores 
Vereadores Silva, Souza Castro e Franco, que forão approvados a cu- 
ja Commissão foi entregue a Sobredita reprezentacão para no dia de 
amanha sobre ella darem o seo parecer. Deo o Senhor Prezi- 
donte para a ordem do dia parecer da Commissão sobre a repre- 
zentacão dos encarregados da Subscripção para a concluzão da 



- 254 — 

Valia, propostas e indicações. Levantou -se a Sessão as quatro 
horas da tarde. Eu Manoel Joaquim Martins Secretario da Ca- 
mará o escrevi e asignei. Castro. Silva. Souza Castro. Fran- 
co. Peniche. O Secret° Manoel Joaquim Martins. 

Documento n.° 137 

Camará Municipal cia Villa de Içyuape. Sessão ex- 
traordinária «os AH de Fe verei iro de 18:16 

Prezidencia do Snr Castro N* 272 

Reunidos cinco Senhores Vereadores, Castro, Souza Castro, 
Silva, Peniche e Franco faltando Junqueira e Canto e Rocha, 
declarou o Senhor Prezidente aberta a Sessão e lida a Acta da 
antecedente, foi approvada. Foi lido hum Officio de João Matheos 
de Azevedo dactado de nove do corrente mez, participando ha- 
ver recebido o Officio que se lhe havia dirigido com o Diploma 
para vir tomar posse do cargo de Juiz de Paz Suplente do 
Districto debaixo da Freguezia de Xiririca, e reprezentando, que 
morando elle distante da Freguezia, e faltando lhe absoluta- 
mente os conhecimentos percizos para desempenhar os seos 
deveres, nào podia por isso tomar posse do cargo para que foi 
convidado, e que portanto a Camará o dispençasse chamando 
ao immedinto em votos : ficou a Camará inteirada, e resolveo, 
que fosse novamente convidado o dito cidadão para vir tomar 
posse, visto que nenhum dos motivos por elle allegados o dis- 
pençavoo de ocupar o cargo para que foi elleito. Entrando-se 
na ordem do dia; a Commissao especial encarregada de dar o 
seo paracer sobre a reprezentaçfio dos Encarregados da Subscri- 
ção a conclazào da obra do Canal do communicaçâo da Ribeira 
com o mar desta Villa, aprezentou o seguinte parecer : A Com- 
missoo encarregada de examinar e dar o seo parecer sobre a 
reprezentaçào que fazem os Cidadãos nomeados para o promo- 
vimento da Subscrição, andamento, e concluzao do Canal de 
communicaçâo da Ribeira com o mar pequeno desta Villa em 
o qual ponderoo as difficuldades que tenhao encontrada em 
muitas pessoas em nao quererem concorrer para tào útil quanto 
conhecido bem que se espera desta obra húa vez concluída e 
franca de passagem, ao mesmo tempo que outros Cidadãos pres- 
tarão até ae boa vontade com sua asignatura e quota mais que 
esta desigualdade o resultado hé paralizaç&o delia e finalmente 
a vista de taes ponderações Offerecendo hum plano a reduzir o 
artigo de posturas, único meio de todos concorrerem, e de huma . 



— 255 — 

vez "Vor-se o dezejado fim desta abertura do Can.il, fonte da 
nqx^a^^ deste Município. A Commissao depois de bem ponderar 
esto, ir ^ preze ntacôo, e mais miudamente informada da desigual- 
dade *ju e na verdade há, e aparecem quando so trata do servi- 
^P^i-lilico, buns por que julgào desairozo chegarem a voz da 
m *^°» outros a protestos frívolos julgao-se desligado de concor- 
reí ^<** para fins úteis e finalmente outros descorçoados de que 
-^«.cionaes estabelecidos estào sempre sujeitos a todo e qual- 
j l ^ r ónus, subscrição etc, de interesse do Paiz, comtanto que 
çx Mascates fazem seos negócios atravessando e estorvando ò 
^^innercio sem pençilo e nem ónus, gozando de mais garantia 
H^ os Nacionacs, portanto, a vista de semelhantes ponderações 
^ ^ornmissao julga que o único meio de todos concorrerem para 
^a abertura do Canal bé em consequência do plano dos Ad- 
ministradores da Valia a prezente postura redigida pela Com- 
issão levando-se a prezença do Ex mo Governo, "e mais docu- 
mentos a este respeito pedindo lhe aprezente a Assemblea Pro- 
vincial alcançando sua approvaçâo, ponderando-lhe mais que a 
falta de Prefeito nesta Viila a Camará resolveo enviar sem 
aquella formalidade do artigo quatro paragrapho dez da Lei de 
onze de Abril de mil oitocentos e trinta e cinco, cujos artigos 
de Postura sào os Seguintes : 

Art° 1.° Toda e qualquer pessoa que d'ora em diante ex- 
portar arroz pillado para fora deste Município ficará sujeito a 
pagar por cada bum alqueire a taxa de vinte reis, cujo rendi- 
mento será applicado para a concluz&o da obra do Canal que se 
está fazendo nesta Villa de communicaçao da Ribeira com o 
Mar pequeno. 

Art v 2. u Esta taxa de vinte reis por cada alqueire de arroz 
pillado não só durará té a conclusão do dito Canal, como tam- 
bém té quando íôr necessário para se pagar varias quantias em 
que a obra se acha alcançada, como seja, bum conto do reis a 
Fazenda Publica, e aos Administradores da dita obra aquelle 
que constar de suas contas, as quaes contas deverão ser apre- 
sentadas a Camará para em tempo competente sorem pagas. 

Art° 3 o . Concluída que seja esta obra, que dé livre tran- 
zito as Canoas, e pagas as quantias em que ella se acha alcan- 
çada, será reduzida esta taxa de vinte reis na de cinco reis por 
cada alqueire de arroz pillado que se exportar, cujo rendimento 
será sempre applicado para o beneficio, concerto e conservação 
do mesmo Canal té que fique em estado de nào percizar mais 
de reparos. 

Art° 4 o . A cobrança desta taxa tanto dos vinte reis como 
dos de cinco reis por alqueire de arroz, fica pertencendo ao Pro. 



- 256 - 

curador da Camará, vencendo este em premio de seo trabalho o 
que por Lei lhe pertence das Cobranças das Rendas deste Mu- 
nicípio, a quem os Mestres das Embarcações serão obrigados a 
apresentar nua lista de seo carregamento com declaração dos 
nomes dos Carregadores, marcas, e numero de saccos de arrozes: 
e o mesmo Procurador prestará suas contas trimensalmente deste 
rendimento segundo o Regimento da Camará, as quaes concas 
serão feitas e apresentadas separadamente das da mesma Ca- 
mará. 

Árt° 5 o . O Procurador da Camará cobrará esta taxa de todos 
os que exportarem arrozes, sem excepção de pessoa, e ira appli- 
cando o seo rendimento para a Obra do Canal a proporção que 
os Administradores da mesma obra lhe apresentarem as ferias 
dos trabalhadores, té que se realiza a sua concluzão, e effectuado 
o mesmo Procurador irá levando em conta á aquelles que tem 
Bubscrevido voluntariamente para a mesma obia aquellas quan- 
tias que deverão pagar provenientes de seos embarques té que 
fiquem saldados. 

Avt° 6 o . Todos os mestres das Embarcações ficão de ora 
em diante obrigados a exigir da respectiva repartição o bilhete 
de desembaraço que será passado pelo Procurador da Camará 

Selo qual mostre terem os Exportadores pagos esta taxa: não 
evendo por isso serem despachados pela Authoridade compe- 
tente sem que primeiramente mostrem estar desembaraçado na 
dita repartição. O Mestre que faltar ao Cumprimento da pre- 
sente Postura será multado pelo Fiscal na quantia de trinta 
mil reis, e oito dias de Cadêa, cuja pena todavia poderá ser 
commutada em pena pecuniária, querendo-a, que serão applica- 
dos para a mesma obra do Canal, e lançados em receita. 

Art° 7 o . Encorrerão nas mesmas penas do artigo antece- 
dentes os Mestres de Embarcações que se negarem Sacos em- 
barcados que se verificará pelo Procurador da Camará a quem 
compete vigiar e fiscalizar esta Renda com todo o zelo e acti- 
vidade . 

Art° 8 o . A prezente Postura terá effeito somente em quan- 
to necessário for para o Objecto a que ella refere. 

He este o parecer da Commissão. Paço da Camará Munici- 
pal da Villa de Iguape em Sessão extraordinária de dezoito de 
Fevereiro de mil oitocentos e trinta e seis. Silva.=Souza Cas- 
tro. Franco. 

Sendo o parecer posto em discução e depois de suficiente- 
mente descutido os Artigos da Postura, que alguns delles sof- 
frerão emenda na discução, forão ap provados e deliberou a Ca- 
mará que extrahido por copia os ditos Artigos de Postura fos- 



— 257 - 

sem enviados ao Em mo Frezidente da Província, acompanhados 
de hua representação pedindo lhe que haja de fazer prezente a 
Àssemhlea Legislativa Provincial para serem por ella approva- 
doa, fazendo-se publico por edital nesta Villa na forma da Lei. 
Deo o Senhor Presidente por finda a prezente Sessão e sendo 
lida esta Acta ioi approvada e asignaaa. Levantou-te a Sess&o 
a meia hora da tarde. Eu Manoel Joaquim Martins Secretario 
da Camará a escrevi e asignei= Castro= Silva= Souza Castro 
—Franco — Pemcae=0 Secret* Manou Joaquim Martins. 

Documento n.° 138 

I1V" e Ex m ° Sn'-- Á Camará Municipal da Villa de Iguape ten- 
do-se reunido em Sessão extraordinária no dia dezesete do corrente 
para deliberar sobre huma representação que com urgência os 
encarregados da Subscrição voluntária para a concluzão da obra 
do Canal da dita Villa de communicaçào da Ribeira com o mar 
pequeno, lhe havi&o dirigido, tomou em grande consideração o 
objecto da dita representação, julgando-a fundada em princípios, 
de generalidades para com huma obra de utilidade publica, e 
por isso tendo procedido todas as formalidades de estillo, em 
Sessão extraordinária de dezoito deliberar formar huma Postura 
por artigos sobre o género arroz, que mais se exporta do seo 
Município para fora, sendo o ramo do comercio que tem mais 
influencia na dita Villa, pagando os Exportadores huma taixa 
nsoavel e proporcional ao estado do Paiz applicado para a con- 
ehizào da dita obra. Inclusa a Camará leva a Prezença de VEx* 
não só a representação dos Encarregados, que deo motivo á pre- 
sente Postura como tãobem a mesma Postura, o que não faz por 
meio do Prefeito por não haver nesta presentemente, dignanao- 
se a V Ex* tendo tempo e opportunidade faseia entrar em dis- 
cuçào da prezente Legislatura da Assemblea Provincial para ella 
appwrvala: podendo todavia a Camará assegurar a V Ex* que 
esaehé com efeito o único meio que ella achou mais efficaz e 
terminante para se poder dar fim a huma obra d<j tanto interesse 
publico, visto que muitos se eseuzão de se prestar voluntariamente 
para o andamento da dita obra. Deos Guarde a VEx' — Paço da 
Camará Municipal da Villa de Iguape em Sessão extraordinária 
de 18 de Fevereiro de 1836. I1P* e Ex mo Snr Joae Cezario de 
Miranda Ribeira. Prezidente desta Provinda. Manoel Duarte de 
Castro=Luiz Alves da Silva= António Joze Peniche= Joaquim 
de Souza Castro=Vietorino Joze Franco. 



— 258 — 
Documento n.° 139 

lir 01 Scn ea Rcprezcntantos da Província. 

A Camará Municipal da Villa de Iguape leva ao conheci- 
mento da Assemblea Legislativa Provincial a reprezen tacão in- 
duza de alguns dos habitantes de seo Município na qual peaem 
a extincção dos vinte reis por alqueire de arroz pillado que estão 
pagando para o Canal em vertude da Resolução da mesma Assem- 
blea de 14 de Março de 1837 que approvoua Postura feita pela 
Camará transacta impondo a dita taxa. Esta Camará conhecendo 
verdadeiras as razões expendidas na dita representação deixa de 
emitir a respeito sua opinião para que tudo submete a conside- 
ração e Sabedoria da Assemblea Provincial para rezolver como 
axar justo. Deos Guarde aos Digníssimos Senhores Reprezentantes 
da Província. Paço da Camará Municipal da Villa de Iguape em 
Sessão extraordinária de I o de Fevereiro de 1839. João Baptista 
da Silva Carneiro= António Joze Gonçalvez=Fran cisco Manoel 
Junqueira=Joze Bonifácio de Andrade=Antonio Carlos de To- 
ledo— Joze António Peniche. 

Copia da reprczentaçSo de quo trata o ofiicio supra 

I1P 01 Sen c " da Camará Municipal. 

Os negociantes, Lavradores, Proprietários de Engenhos e 
mais Povos deste Município honerados de tantos tributos e im- 
puzições antigas e moderna*, com d i Aferentes denominações de 
rendas geraes, e rendas Provinciaes, oneradas tfiobem das impu- 
zições Municipaes que por Posturas desta III™** Camará se tem 
estabelecido sobre as cazas de negocio sobre os carros, que con- 
duzem os efeitos do Porto da Ribeira para o porto do mar, 
como porto de embarque, onerados ainda mais de algumns con- 
tribuições prestadas por meio de deliberações Voluntárias para 
differente? obras publicas dentro desta Villa, qu« suposto não 
sejão forçadas, comtudo delia se não negão os recorrentes como 
a pouco tempo fizerào para ter principio hum atterrado da ma 
das cazinhas paia o Morro, obra esta que só depois de aprezen- 
tada huma Subscrição voluntária que minorava as despezas esta 
1 Ilustre Camará poz em execução; hua ponte na rua do Fuoil 
muito útil e necessária feita a custa de alguns moradores nos 
circumviziuhos, que supposta fosse construída de madeira hé 
comtudo forte e durável, e nella gastarão os recorrentes taboa- 
dos, madeira?, pregos, jornaes com os obreiros bastante motivo e 
justas razões tem para se queixarem da impoziçãc que de mais 



\ 



\ 



— 259 — 

a . na ^-is sobre elles peza com o pagamento ou contribuição de 
™^^ Te * s P or alqueire de arroz pillado que exportão barra fora, 
aplicada para o Canal que com mímica as agoas da Ribeira com 
. m»o mar pequeno, contribuição esta pue em consequência de 
^H Postura acelerado e nula pela falta de Membros a Illus- 
t^ Camará transacta levou a approvoção da 111" 1 * Assemblea 
^ovincial para confirmar, como confirmou, e que prezentemente 
^to peza sobre os recorrentes que encarando outr'ora como 
^i\ e necessária para aquella obra, cujas vistas boje se torna 
^Juoza, e oppresora, pois que só deste género arroz pagão o an- 
togo Dizimo, e carreto para terra, ao carro que o conduz para 
o embarque, e a contribuição para o pertendido Canal sem êxi- 
to e do qual senão servem e nentrua esperança tem de Serven- 
tia em tempo algum por cauza do local de sua edificação ser 
composto de arêa que continuadamente está cabindo e unindo 
as do mesmo canal desfazendo quazi tudo o que se tem feito a 
custa de tanto trabalho, despezas e avultada Somma com que 
os recorrentes em principio contribuirão debaixo de boas espe- 
ranças de utilidade commum, alem dos muitos serviços pessoaes 
prestados por bua grande parte dos moradores com seos escravos. 
Esta contribuição Senhores, se torna tanto mais pezada quanto bé 
grande o vexame aos recorrentes e mais babitantesdeste Municí- 
pio, para pagarem com ella duas vezes a conducção do artigo 
arroz. He pois esta a razão que obriga a supplicarem a 
111"* Assemblea Provincial pela extineção da dita taxa por in- 
termédio desta Illustre Camará e Suplicão se digne levar a 
p reze n ca dos Ill moB Legisladores e Dignos Deputados da Assem- 
blea Provincial de quem esperão a extinção do dito imposto de 
vinte reis por alqueire de arroz pillado para o Sobredito Canal 
de que se não servem, e de cujo pezo esperão ficar aliviados 
pela Sabedoria, pelo conbecimento da razão, e destas verdades 
puras, e pela imparcialidade da IU m * Assemblea de quem im- 
plorào os recorrentes o alivio e Justiça. Iguapo I o de Feve- 
reiro de 1839 — Francisco da Silva Rego — Francisco Carneiro da 
S* Braga — Joze Ribeiro Satyro — Joze Xavier de Alm d * e Cruz 
— Joaquim de Souza Castro — Francisco Carneiro da S* Braga 
Júnior — Joze Pinto Perreira — Bernardo António Neves— Manoel 
Marcus Navanos — Fran co Manoel de Andrade — Silveiro Fran 00 
de Medeiros — Manoel Gonçalvez Pinheiro — Fran co Joze Borges 
Pirano— Joaquim da S a Barros — Joze Joaq m Cardozo — António 
Rafael Carneiro — Joaquim Alves Silva Carneiro — Gregório Joze 
da Silva — Joze Floriano Chaves — Francisco de Castro Guima- 
rães — Bento Joze Furtado — Joze Ribeiro do Carvalho — Joaquim 
Euzebio Gonçalvez — Joaquim Francisco de Paulo — Bento Duarte 



— 260 — 

Castro — António de Almeida Pinto— António Corrêa da Silveira 
— Joze Jacintho Peniche — Fran 00 Joze Nunes — Miguel Gonçal- 
ves da França — Joze Ant* Muniz de Guzmão — Joze João da 
Costa — Joze Francisco Cancella — João Baptista Muniz — Agost* 
Gomes Mendes — António Domingues Costa — Fran 00 Rodrigues 
Marques — António Vaz Ferreira — Feliciano Baptista Carneiro — 
António Fran 00 Carvalho — Joze António dos Santos Prado — Mar- 
tins Ribeiro — Ant* Roiz Per* — João Maneio da Silva Franco — 
Gil de Oliveira Duarte — Joze Domingues Barreiros — Joze Igna- 
cio de Oliveira Guimar&es — Ant° Per* Soares de Castro — Flo- 
rêncio Joze Lopes — Fran 00 Ferreira Goulart — Belxior Francisco 
Goulart — Ant Joaq m Gomes de Oliveira — João Girai — Manoel 
Joaquim Corrêa — Thomas Trudes de Normandia — Manoel Mar» 
tins Silveira Júnior. 

Documento n.° 140 

O Prezi dente da Província participa a Camará Municipal 
da Villa de Iguape que tem reservado para ser prezente a As— 
semblea Legislativa Provincial na sua próxima futura sessão, a 
reprezentação dos Cidadãos dessa Villa, qne a Camará remetteo 
á este Governo acompanhada de sua informação e officio de 16 
de Agosto p. p, e que versava sobie a alteração do Regularmen- 
to de 14 de Abril de 1837 na parte em que manda pagar im- 
mediatamente a taxa de 20 reis por alqueire de arroz pillado 
para a obra do Canal dessa mesma Villa, entendendo este que 
não convinha antecipar juízo algum a esse respeito ja por estar 
assas próxima a reunião da mesma Assemblea, ja por que d'um 
officio do Administrador da obra de 20 do mesmo Agosto consta 
estar ella em andamento com esperanças de ver a huma con— 
cluzão favorável o que faz que se desvaneça húa das razões ai- 
legadas na reprezentação (a de falta de emprego do produeto da 
taxa) e que n&o seja prudente tolher ja de húa vez essa anda- 
mento sem haver dados positivos e mais seguros de que a obra 
he impraticável ou absolutamente inútil. Convém pois que a Ca— 
mara afim de participar aos ditos Cidadãos este rezultado na sua re- 
prezentação, aproveitar-se tentativa que faz ao Administrador da 
obra actualmente, para adianta-la com húa experiência mais para 
illustrar a conveniência, ou inutilidade do Canal, e que a vista 
de seus rezultados dirija a mesma Assemblea sua reprezentação 
no sentido que lhes parece mais conveniente, apoiando-a com 
exames oculares e imparciaes, feitos em prezença ou ao menos 
com audiência do Administrador da obra, para só assim poderá 
a Assemblea resolver o que for mais justo e de mais utilidade» 



- 261 — 

* esse Município com suficiente conhecimento de cauza. O que 
tado o Prezidente da Província participa a Camará para sua in- 
teligência. Palácio do Governo de São Paulo. 9 de Setembro 
<fo 1839. Manoel Machado Nunes. 

Docurfiento n.° 141 

Ill. mo e Ex. m ° 8/ A Camará Municipal da Villa de Iguape, 
*cuza o recebimento da Portaria de V. Ex* de 9 de Setembro 
p. p, em consequência da qual por Edital convidou os Cidadãos 
asignados em reprezen tacão que levou ao conhecimento de V. 
Ex. 4 para se acharem prezentes no dia 11 do corrente, e con- 
vidou igualmente o Administrador da Valia o Ten. te Cor^Joze 
Jacintho de Toledo, o Collector da Taxa o Cap. m Luiz Alvares 
da Silva e mais Authoridades do Paiz quaes alguas comparece- 
rão na Caza da Camará no dito dia, menos porem os Cidadãos 
na dita reprezentaç&o aSignados : então em plena sessão a Com- 
missão que deo o parecer sobre a dita reprezentação que o Povo 
por intermédio desta Camará fez subir a prezença de V. Ex.* 
exigi o a leitura delia e fiz ver que a mesma mostrava a neces- 
sidade de húa Valia de comnranicação da Ribeira ao mar pe- 
queno, que tendo-se emprehendido esta em questão a tendo le- 
vado hum grande impulso a custa de grande dispêndio e tra- 
balho, seria o maior dos absurdos deixar-se de concluir, que só 
com o dinheiro da taxa não se conseguiria o fim dezejado, ella não 
snbministrava senão pagamento per alguns mezes, e quando depois 
ficaria paralizada, e então se voltava tudo a peior estado e que só fi- 
nalmente a força da caixa Provincial forneceria dinheiro para de hum 
só golpe concluir-se, e que faltando este só com o rendimento 
da taxa era impossível a concluzão senão com o correr dos 
annos, entretanto que pezavo ao Comercio mormente em tempo 
t&o critico pela peste actual dos animaes Carreiros e outras ra- 
zões por ella explendidas e porisso emquanto a Camará não ti- 
vesse a certeza de se emprestar dinheiro existia em seos mesmos 
princípios a vista das allegações dos Habitantes do seo Muni- 
cípio : então nesta occasião o mesmo Administrador, dito Toledo, 
fez ver por hum Officio do Ex"* ex Prezidente Gavião Peixoto 
datado de 20 de Novembro de 1837 que tive ordem para pro- 
curar dinheiro emprestado para a concluzão da mesma Valia o 
que o Governo garantia qualquer soxa pedida e procurando não 
achou quem nesta Villa desse, o que motivou reccorrer ao Ex mo 
-ex Prezidente antecessor de V Ex* que prometteo por Officio de 
"3 de Fevereiro do corrente anno levar ao conhecimento da 



- 262 — 

Assemblea, de cujos Officios a Camará nenhúas ideas tinha por 
n&o lhe serem communicados ; a vista pois delles hé de esperar 
que a mesma Assemblea subministre emprestando sem premio 
ate seis contos de reis para coadjuvar o imposto da taxa que o 
dito Administrador receberá a proporção que foi percizando o 
que tudo hé com effeito conforme o* espirito daquella Com missão 
e por isso a vista daquelles Officios aprezentados pelo Adminis- 
trador, implora a Camará que V Ex* se digne tomar em consi- 
deração o exposto, facilitando o imprestimo em beneficio da dita 
Valia por se concluir com brevidade ficando a taxa imposto per- 
sistindo para amortização somonte deste imprestimo na formado 
art. 1.°, 2.° e 3.° da Lei Provincial de 14 de Março de 1837, e 
quando nao realizado por algum incidente então V Ex* a vista 
daquella reprezentaçao determinará o que íôr justo a beneficio 
do Povo e Comercio. Deos Guarde a V Ex\ Paço da Camará 
Municipal da Vil la de Iguape em Sessão extraordinária de 26 
de Outubro de 1839. IH n, ° e Ex ,no S r Manoel Machado Nunes- 
Prezidente desta Província. Joaquim Pio Pupo — Francisco Ma- 
noel Junqueira — António Joze Gonçalves — Joze Bonifácio de An, 
drade — João Baptista da jS* Carneiro — João António Peniche, 

Documento n. 142 

Digníssimos Senhores Representantes 'da Província 

A Camará Municipal da Cidade de Iguape vem respeitoza- 
mente aprezentar-vos os Artigos de Proposta, que janto vereis, 
para serem convertidos em Lei. A Lei Provincial n. 19 de 14 
de Março de 1837 criou húti taxa de 20 reis por alqueire de 
arroz pilado exportado deste Municipio; o produeto d'esta taxa 
era applicado para a concluzao do Canal, que commumea a Ri- 
beira com o mar peqneno ; porem, hoje que esse Canal dar uji 
transito quazl constante, a Camará Municipal julga, que só a 
metade do produeto é bastante para reparo do mencionado Canal, 
quando, em tempos chnvozos, algum entulho obstrua seu leito. 
Outra ametade do produeto da taxa, a Camará Municipal julga 
deverá ser appl içada para concluzao da nova Matriz do Snr Bom 
Jezus. A Religião, como sabeis Senhores Representantes da 
Provincia, he a base fundamental das Sociedades, quando ella 
falta, quando os povos nào tem lugar decente onde se reúna 
para dirigir suas Supplicas ao Altíssimo, para ouvir as palavras 
salutares dos seus pastores e receberem os Sacramentos que seu 
fundador iustituio, então esses povos torn&ose como selvagens, 



- 263 - 

tudo definha e acaba cm verdadeira anarchia. Senhores, a nova 
Matriz, é verdade, tem merecido soccorros do corpo Legislativo 
Provincial ; porem, muito ainda deve merecer, attenta sua cons- 
pecto, sua necessidade e os immensos sacrifícios que tem feito 
08 povos do Município para levar ao pé em que está . Com os 
artigos da proposta, que vos offerece para serem convertido em 
^ e i> a Camará Municipal espera que t&obem decie tareis hua 
v crba na Lei do orçamento vigente para construcçao da mesma 
no ?a Matriz, visto que muito falta para se levar o effeito sua 
^°ncluzào. Deos Guarde aos Digníssimos Senhores Representan- 
te * a Assemblea Provincial. Paço da Camará Municipal de Igua- 
Pj 9 de Outubro de 1851. João Mando da Silva Franco — Luiz 
««arcèf da Silva — João Manoel Junqueira Neto — Padre Scipião 
g err *ira Goulart — Joze Bonifácio de Andrade — Filadelpho de 
/**& Castro — João Baptista da Silva Carneiro — António Do- 
mingues Muniz. 

Documento n. 143 

Informem Vm ccs com urgência, em que ponto se acha a obra, 
que communica a Ribeira de Iguape com o mar pequeno, e bem 
assim se julga conveniente, a vista do estado dessa obra appli- 
car á outro fim metade do imposto creado pela Lei Provincial 
N. 19 de 14 Março de 1837. Deus Guarde a Vm CM . Palácio 
do Governo de Sào Paulo, 3 de Junho de 1852. Hypólito Joze 
Soares de Souza Snrs. Presidente e Vereadores da Camará Mu- 
nicipal da Cidade de Iguape. 

Documento n.° 144 

Ulmo. Snr. A Camará Municipal desta Cidade tendo de 
responder ao Ex m ° Vice Prezidente da Província a Portaria de 
3 de Junho pretérito, pelaqual pede que esta Camará informe o 
estado da obra do Canal que communica a Ribeira com o mar 
pequeno desta Cidade, e se a mesma Camará julga conveniente 
applicar a outro fim metade do imposto creado pela Lei Provin- 
cial N. 19 de 14 de Março de 1837, resolveo exigir de V S*os 
esclarecimentos necessários, a saber, se o referido Canal dar transito 
geral, e se ja se pode dividir a taxa applicada para a constru- 
cçao daquella obra, e cazo não se possa fazer essa divisão, digne- 
se V S. a declarar o motivo porque. Deus guarde a V. S. a Igua- 
pe 9 de Julho de 1852. Hl mo Senr. Commendador Joze Jacin- 
tho de Toledo. Inspector das obras do Canal. João Meneio da 
Silva Franco. Prezidente. 



- 264 — 
Documento n.° 14B 

M moa Snr 68 . Accuso a recepção do Officio de V S*' pedindo- 
me os esclarecimentos seguintes : 1.° Se o Canal desta Cidade 
dá tranzito geral : 2.° se ja se pode dividir a taxa applicada para 
aquella obra : 3.* no cazo de que se não possa fazer essa divizão 
quaes os motivos que a isso se oppôr. Quanto o 1.° só tenho a 
dizer aquillo que V S" sabem e é publico e notório á todos, 
isto hé, que o Canal em occasiões de marés, tem dado desde 
muito tempos e continua a dar transito livre para as maiores Ca— 
noas e balças carregadas ; precizaado ainda de rebaixo no leito, 
e de grande rampamento nas suas paredes para dar transito livre 
em todo tempo. Como o 2/ e o 3.° quisito tem intima ligação 
passo a tratar delles conjunctamente. V S* a não ignorão que 

Ento mais se aprefundar o Canal tanto mais custozos e dispen— 
sos se tornão os trabalhos, por que a medida que se vão re- 
baixando, é necessário hir logo rampando as paredes para evitar 
os desmoronamentos ; sabem tão bem que no estado actual do 
Canal, as marés e as chuvas cauzão de continuo desmoronamen- 
tos que o en talhão em partes, sendo necessário desentulhal-o im- 
mecUatamente para conservar- se sempre o transito livre, o que 
hé urgente para que as Embarcações possao carregar. E' inne- 
gavel pois que são ainda necesarios muitos annos de trabalho e 
o dispêndio de grandes sommas para que a obra se complete de 
hum modo estável. Nestas circumstancias he obvio que se não 
pode ainda applicar a metade da taxa para outra qualquer obra. 
Regulando as safras de arroz, umas para outras, a 50$ saccos 
rende annualmente a taxa 2:0C0$000, tirar a metade occaziona 
grandecissimo atrazo na obra do Canal, ppr que com l:000$OOO 

5 ouço se poderia fazer ; Outra razão se da para que se não possa 
ividir a taxa com applicação para obras deste Municipio, é 
que o Municipio de Xiririca, cuja exportação de arroz excede 
a de Iguape concorre com maiores quantias para a taxa ; e 
portanto tirar desta taxa para obras de Iguape, é tributar 
aquelle Municipio em beneficio deste ; o mesmo acontece a 
respeito do curato de Santo António de Juquiá, cujos habi- 
tantes tãobem concorrem para a taxa, e não devem contribuir 
Sara obraB de Iguape por que tãobem elles tem precizões de 
inheiros para acabarem o Templo que ali estão construindo a 
sua custa. O mesmo se dá a respeito da Freguezia de Ipo— 
ranga. Não se deve pois dividir a taxa applicanda metade 
delia para outra obra, ate porque mesmo depois de concluido no 
todo o Canal tem de ser conservada a taxa por inteira ainda 
por alguns annos para pagamento das dividas do Canal, paga— 



f 



— 265 — 

\^° que esta garantido pelo artigo 8.° da Lei Provincial N. 
* de 14 de Março de 1837, o qual dispõe que depois de con-* 
^taida a obra, e de pagar as dividas que o Canal estiver de- 
vendo ficará reduzida a taxa a cinco réis destinados para os re- 
paros qne forem precizos annualmente. Estes os esclarecimentos, 
ípe posso prestar ; elles sao fundados em factos, tao notórios que 
ninguém por certo se atreverá a negar. Deos Guarde a V. S." 
Iguape 13 de Julho de 1852. Ulmo. Snr. 1 Presidente e Mem- 
bros da Camará Municipal desta Cidade. — Joze Jacintho de Toledo. 

Documento n. 146 

Ulmo. e Ex. mo S. r A Camará Municipal da Cidade de Iguape, 
tendo colhido e obtido as precizas informações acerca da Repre- 
sentação do u Francez Luiz Krissily, tem a honra de devolver a 
V. Ex. a essa representação, declarando que menos bem informado 
estive aquelle Francez, quando endereçou a V. Ex.* essa Re- 
presentação, por isso que ha muito que esta Camará mandou 
Bobre'star á abertura d 'aquelle Canal, fundado sobre mui sabias 
informações que obtive do Engenheiro Dr. Carlos Rathe, e de 
então para cá não consta que tal obra continuasse; tanto mais 
que a Camará Municipal, zeloza de sua dignidade não esperaria 
que aquelle Francez se adiantasse em Representar á V. Ex. a 
aquillo que á ella competia por sua honra e dignidade. A Ca- 
mará Municipal certifica a V. Ex.* que a referida representação 
do Francez Luiz Kríssilz foi intempestiva e filha talvez de falsas 
informações. Deos Guarde a V. Ex.* por muitos annos. Iguape 
28 de Abril de 1856. Ulmo. Snr. Dor. António Roberto de Al- 
meida, D. mQ Prezidente da Provincia. — Joq. m Carneiro da Silva 
Braga. — Pe. Scipião Ferreira Goulart Junqueira. — João Baptista 
Silva Carneiro. — Joaquim de Souza Castro. — João Nunes da 
Silva Júnior. — António Francisco de Athaide Peniche. 

Documento n. 147 

Registro de uma Representação dirigida á Assem* 

bléa Legislativa Provincial 

Snrs. Membros da Assembléa Legislativa Provincial. A Gamara 
Municipal desta Cidade tem a honra de levar a vosso conhecimento 
que as obras do Canal que communica a Ribeira com o Mar-pe- 

3ueno para cuja concluzao foi creada pela Lei Provincial N. 19 
e 14 de Março de 1837 a taxa de 20 réis por alqueire de arroz 
pilado, que exportado fosse para fora do Municipio, Lei essa que 
aoflreo as modificações constantes da de n.° 13 de 17 de Julho 



— 266 — 

de 1852 art. 6.°, tit. 3.° e da de n.° 30 de 6 de Maio de 1856 
arte. 3.°, 4.° e 5.°, se achão concluídas dando o dito Canal livre 
transito as canoas, pelo que e conforme o art. 3.° da citada Lei 
de 1837 estava essa imposição no cazo de ser reduzida a 5 reis, 
cujo producto seria applicado ao» benefícios e concertos que ne- 
cessários fossem a sua conservação. Attendo porem esta Camará 
a urgente necessidade que ha no melhoramentos dos vallos, 
aqueductos, chafarizes e ramificações para o abastecimento da 
agua potável, que cada vez mais so vai tornando diíficil c es- 
cacia á população, intende conveniente e com instancia Vôs pede 
que o rendimento da metade da referida taxa concedida em favor 
do Canal passa a ser renda Municipal, com applicaçào especial 
de ser por ella empregado no concerto e beneficio do mesmo 
quando necessário seja e também empregado nas obras que con- 
vierem em beneficio e augmento da agua potável. Esta Camará 
nutra a convicção de que Vôs faz um pedido bastante razoável 
e justo, espero ser attendido. Deos Guarde a V. V. S. S." 
Sen."" Membros da Assembléa Legislativa Provincial. — Rafael 
Dias dos Reis. — Manoel Homem Pamplona. — Joze Alves da Casta 
Pacca. — Francisco António Pereira. — António d? Oliveira Xavier. 
Está conforme. Iguape lo de Janeiro de 1860. — Joaquim Joze 
de Oliveira. 

Documento n.° 148 

(Em sessão da Camará de 11 de Agosto de 1851) 

Entrando-se na ordem do dia, leo-se hum officio do Fiscal 
dando conta do que na Sessão de 9 do corrente lhe foi por esta 
Camará ordenado, e em resultado diz o Fiscal que indo ao porto 
da Ribeira, fiz medir o terreno que dista do de Francisco Manoel 
dos Passos té a beira do Vallo e que achou ter 354 palmos e 
que julgo necessário 220 palmos sobre a beira do mesmo Vallo 
para servidão publica ; a vista do que entrou em discussão o re- 
querimento de Ricardo Carlos de Campos em que pede 28 bra- 
ças de frente do terreno no porto da Ribeira, abeira da agua 
contigos aos terrenos de Francisco Manoel dos Passos. Resolveo 
a Camará informar o Inspector da Thesouraria que do terreno 
pedido só preciza a Camará, para uzo publico de 220 palmos, 
sendo a informação no requerimento pella forma seguinte : A 
Camará Municipal da Cidade de Iguape em cumprimento ao Des- 
pacho do Ex. ro ° Governo, informa que fazendo medir o terreno- 
pedido se encontrou 854 palmos té a margem da nova Valia do& 
quacs precisa, junto a mesma Valia de 220 palmos para uzo e 
servidão publica. Sala das Sessões 11 de Agosto de 1851. 



— 267 — 
Documento n.° 149 

lllustrissimo Senhor Doutor Dezembargador e Ouvidor Geral. 

Em observância da ordem de Vossa Senhoria de trez de 
Dezembro próximo passado para remetter a Planta da Nova 
Matriz, que se esta erigindo nesta Villa e assim mais o orça- 
mento da importância delia, e o calculo dos Sacos de arroz pi- 
lado que annualmente se exportao, temos de informar a Vossa 
Senhoria, Que não havendo aqui quem tirasse hua Copia da 
Planta pela qual se dirige a Obra, e nem se podendo remetter 
aquela, menos que se pare com a construcçao do edifício exigi- 
mos do Mestre nua descripçao circumstanciada da largura, cum- 
primento e altura de todo a Igreja, para suprir a falta da dita 
Planta, a qual nos foi dada da maneira seguinte = Tem a nova 
Matriz duas torres, e dois corredores, a que correspondem duas 
Sacristias, tem em toda a largura exterior sento e quatorze pal- 
mos; isto he, quarenta e oito no Corpo da Igreja, vinte e dois 
em cada hua das Torres, sete na grossura de cada hua das pa- 
redes da Igreja e quatro em cada hua das paredes de fora ; o 
cumprimento exterior he de sento e setenta palmos contando a 
grossura das paredes; tem de altura na frente, da superfície até 
o Capitel sessenta e quatro palmos, do Capitel da Igreja até o 
Capitel das Torres cincoenta e oito, e do Capitel das Torres até 
a cttpula trinta e sinco ; tem hua so porta na frente, hua attra- 
veasa e quatro janellas no corredor de cada Lado, e hua porta 
e duas janellas em cada Sacristia, trez janellas no Coro, oito 
Sacadas de cada lado e quatro sineiros em cada hua das Torres. 
As çapatas, forras e portadas e na frente os cunhaes e pilastres 
ate o Capitel são de cantaria. He de hum só nave ; alem do 
Altar Maior tem mais três Altares de cado lado do corpo da 
Igreja; de largura interior tem os mesmos quarenta e oito pal- 
mos, de cumprimento ate o Arco sento e trinta e sinco palmos ; 
a Capella Mor he do sinquenta e seis de cumprimento e trinta 
e oito de largo, sendo a grossura do Arco de quatro palmos e 
ficando quatorze para o vão do Throno ; a altura das paredes da 
parte de dentro he de setenta e três palmos; tem de cada lado 
no corpo da Igreja quatro tribunas e na Capella Mor duas e 
sinco luzianas em cada hum dos lados. As Sacristias tem sin- 
coenta e sinco palmos de cumprimento e vinte e nove de largo. 
Havendo as informaçoens necessárias do Mestre e pessoas intel- 
igentes, foi calculado toda a obra na importância de setenta e 
sinco contos de reis, não entrando neste computo o serviço que 
diariamente presta o Povo, por si, e os Senhores que mandam 
trabalhar seus Escravos; vindo a ser vinte e sinco contos de 



- 268 - 

reis para a Capella Mor e Sinquenta contos de reis para o corpo 
da Igreja. A vista das Listas da exportação aprezentadas pelo 
Contractador dos Novos Direitos, dos annos de mil e oitocentos 
e vinte e hum, mil oitocentos e vinte e dois, e mil oitocentos 
e vinte e três fes-se o orçamento que se exportão desta Villa 
annnalmente doze mil sacos mais ou menos. He o que sobre 
este objecto podemos informar a Vossa Senhoria. Deos Guarde 
a Vossa Senhoria muitos annos. Villa de Iguape em Vereanca 
de três de Fevereiro de mil oitocentos e vinte e quatro. — Felippe 
Rodrigues Cunha, — Ricardo Jaquim Peniche. — António Florençp 
de Andrade . — Joze Bento da Silva Franco. — Manoel Baptista 
Gomes. — Rafael Gomes Malta Carneiro. 

Documento n«° 150 

Auto da Vereanca Geral a que mandou proseder 
Doutor Ouvidor Geral Corregedor desta Capita- 
nia António de Corvalho Fontes Henriques 
Pereira. 

Anno do Nascimento de Nosso Senhor Jezus Christo de mil 
oito Sen tos e quatro. Aos dezenove dias do Mez de Agosto do 
dito anno nesta Villa de Nossa Senhora das Neves de Iguape 
da Capitania de Paranaguá em Cazas de Aposentadoria do Dou- 
tor Ouvidor Geral e Corregedor António de Carvalho Fontes 
Henriques Pereira, onde eu Escrivão abaixo nomeado foi vindo 
com o Juiz Ordinário e Offisiais da Camará actuais e os mais 
Pessoas que tem Servido de Cargos Ja Governança desta Ve- 
reanca para efeito de Se proseder na Audiência Geral de Capí- 
tulos da Correição, e neste Acto foi requerido a elle dito Mi- 
nistro, por todos os que se axavão prezentes que se dese a ne- 
cessária providencia para o Refazimento da Igreja Matriz desta 
Villa, a que Se axa em estado de não poder Subsistir em Ra- 
zão de Sua total ruína de paredes e Madeiramento, de maneira 
que a parede Culatrar, que Olha para o Sueste junto ao Altar do 
Senhor Bom Jezus se axa escorada, para evitar o eminente Risco que 
vmeaça huma grande brexa da mesma parede, por cujo motivo se 
fazia digno objecto da mais prompta providencia e da mais prompta 
execusão, para o dito refazimento da Igreja indespensavel para nella 
Se praticarem os Actos de Religião o que todos Somos Obrigados. 
Acresse a isto não aver nesta Villa outra Igreja aonde posa mu- 
dar-se o exercício das funçoens ECleziasticas. £ Sendo por elle 
dito Ministro visto Seos Requerimentos, e lhe parecer Justo e 
digno ao mais Seria Contemplação mandou exarar este Auto de 



— 269 — 

Yereança Geral para por meio delle propor a este Senado, que 
declara-se ob meios mais promptos mais eficazes e menos des- 
pendiozos para por meio delles se proseder na mencionada Obra 
da Igreja. E onanimamente convierão que Se impuzesse bum 
yintem em cada alqueire de Arroz em Casca que produzir nes- 
ta Freguesia e destrito de Xiririca, e dez reis em cada medida 
de Ágoardente que entrar neste Destrito, por espaço de dez 
annos, para o que requeriào ao Ex m0 Senbor Oeneral a es ta Capita- 
nia, Confirmação desta impuziçao pello dito tempo e juntamente 
para que ouvisse de renovar-se pello dito Ex m ° Senbor a Ordem que 
pello Seo Predesesor Bernardo Joze de Lorena se expedio ao Com- 
mandante desta Villa na qual determinava, que os freguezes 
desta Freguezia concorrecem Com Suas esquadras para a fa- 
ctura da dita Igreja. £ que por a fiscalização, deste Ónus, e 
impuziçao Sua arecadaçao e guarda, ficasse incumbido aos Offi- 
siais da Camará, que fariào Depositar na mão do Depozitario 
Geral. De tudo elle dito Ministro mandou fazer este Auto em 
queaSiuon, com os Vereadores e mais pessoas que se axavão 
prezentes e Eu Francisco dos Santos Carneiro Escrivão da Ca- 
mará que o escrevy. Carvalho — Almeida — Mendonça — Roiz — 
Souea— Aguiar — Joze António Peniche — Ignaeio Joze Pupo — 
Bento Pupo de Oouvea — Greqorio Giz da Rocha — Felippe Ro- 
drigues Cunha — Ignaeio de Oliveira Guimarães — Bartholomeu da 
Coita e Almeida Cruz — Diogo Garcia da Silva — Francisco Luiz 
Per*— Manoel Francisco da S * — Joaquim do Rosário — Andra- 
de— José Joaquim Pinto — Domingos da Costa Carneiro — Antó- 
nio Borges Diniz — Manoel Baptista Gomes — Sancho Gomes de 
Bouza — Francisco Parces de Moraes — Joaq. m Pupo da Roxa — 
Manoel Pinto da Cunha — Jovencio Lopes Trigo — Manoel Per* 
de Farias — Francisco Duarte Castro. 

Documento n.° 1B1 

ÍUustrissimo e Excellentissimo Senbor. A incomparável ne- 
cessidade que nos promette a insubsistência da Igreja Matriz 
desta Villa pello mao estado em que Se axa, alem de ser o 
único Templo que temos, nos moveo a d ar- se principio a outra 
nova Matriz, que com efeito Se tenha comesado athe os pri- 
meiros fundamentos, a qual por não Ser principiada Com as 
necessárias Sistemas de que depende buma Obra destas, e por 
algnns a cci dentes que ouverão ficou parada Com Suma pezar 
nosso* E porque de prezente temos novos ameaços da Antiga 
Matriz que pouco tempo poderá Subsistir em evidente risco de 
vir abaixo, aSintamos portanto fervores novamente aquele Edi- 



— 270 - 

ficio principiando, precendendo primeiramente na próxima Cor- 
reição, o requerimento de Vereanca Geral, cujo acto por Copia 
oferesemos incluzn na prezença de Vossa Excellencia, rogando- 
lhe queira tomar debaixo de Sua protecção o Seguemento deste 
Sane to Edifício, havendo por bem Confirmar o dito Acto de 
Vereanca, tanto na parte que respeita ao Voluntário rendimento 
que ece Fovo oferesse e quer Contribuir para a referida nova 
Igreja, como renovar nos arroz, ao Capitão Mor Commandante 
de Melicias o graça que o Exm.° Senhor Bernardo Joze de Lo- 
rena predesesor de Vossa Ex.* concedeo ao Commandante desta 
Vi lia para fazer trabalhar os Povos com suas Esquadras, por- 
quanto Suposto que este fervor Seja do gosto deste Povo com- 
tudo entre elle poderão haver alguns, que Serão menos devotos 
e Longe do boa nosào, Se queirào mostrar pertinazes, apezar 
de não Sentirem prejuízo por que trabalhando huma Esquadra 
Seis dias Se lhe dá de folga seis mezes. Servindo-se Vossa 
Excellencia de atender estes nosos requerimentos teremos por 
muito serto vencir os dezejos que temos de nos empregar neste 
tâo necessário e Sane to Serviço, onde temos o gosto de exercitar 
os Cultos e Actos de nossa Religião e também rogar pela pre- 
cioza vida de Vosa Excellencia que Deos prospero e guarde por 
muitos annoB. Iguape em Camará de vinte e seis de Setembro 
de mil oito Sen tos e quatro. Beijâo as maons de Vosa Exc. a Seus 
Reverendos Súbditos. — Raimundo Pinto de Almeida — António 
Martins Rodrigues — Francisco de Paião e Souza — Manoel João 
de Aguiar — João Jacintho de Andrade. 

Documento n.° 182 

Recebi o Officio desa Camará de vinte e seis do mez pas- 
sado em que Se me participa a providencia dada em Correição 
a requerimento delia e mais pessoas da Governança sobre a 
constmeçao da nova Igreja Matriz visto o deplorável estado de 
ruina da actual, e se pede a minha aprovação, bem como a re- 
novação da Ordem do meo Antesesor o Ex° Bernardo Joze de 
Lorena, para fazer trabalhar na Obra da Referida Igreja os 
Soldados dns Ordenanças e Melicias desa Villa e seo Destricto. 
Atenta a nesessidade desta Obra e a disposição da Lei, em si- 
melhantes cazos convindo em que nella se prociga pello modo 
estabelecido, e passo expedir Ordem para o Requerido trabalho 
dos Melicianos e da Ordenança, mos como a referida Obra exce- 
de necessariamente a quantia athe onde o Provedor da Comarca 
pode íinter para tais obras, deve vosas mercês participar a Sua 
Alteza pello seo Concelho ultramarino a d i liberação tomada ao 



— 27i — 

p lc * "respeito e fazella confirmar pello meírao Senhor. Deos 

wv^rde a vosas mercês. Sam Paullo trinta e hum de Outubro 

? Oito Sen tos e quatro. António Joze da França e Horta. Se- 

u ^or Juiz Prezidente e Offisiais da Camará da Villa de Iguape. 

Documento n.° 1B3 

Il m ° e Ex mo Senr. A Gamara Municipal da cidadã de Iguape 
v <ú muito respeitozamente a illustrada pessoa de Y Exci a para 
garrar factos que tem contristado seus Munícipes nimiamente 
Religiosos. Estando marcado em o Programma da Trasladação da 
Venerando Imagem do Senhor Bom Jezus da Matriz para o seu 
novo Templo, que as Sagradas Imagens que a haviam de acom- 
panhar devião regressar para aquella o vigário António Car- 
neiro da Silva Braga, o mesmo que prezidio a conferencia 
da Irmandade e assignou eesa programma, endereçou hum of- 
íicio a Camará Municipal para que esta a orientasse, se as 
Imagens devido voltar par a Matriz ou se devião ficar no novo 
Templo. A Camará Municipal, então prezidida pelo Vice Pre- 
zidente Irmào d'aquelle Vigário convocou certos e determinados 
Vereadores e em huma casa de seo Avo, ahi dessidirão ex cathe- 
dra, que as Imagens deviào ficar no novo Templo, desprezando 
ou antes aconselhando a transgressão dos sagrados cânones, que 
expressamente prohibem a trasladação de Imagens sem previa 
aucthorisação ou ordem, que só a havia dado para a Veneranda 
Imagem do Senhor Bom Jezus. Saptisfeitos os dezejos do Pa- 
rodio, para cumprir seus intentos, sabe a Camará Municipal que 
pretendem deitar em baixo a Matriz sem huma razão plausível 
para isso. Ex ra ° S r o não regresso das Sagradas Imagens da 
Padroeira e de outros Santos para a Matriz cauzou bastante 
sorpreza ao povo, e ia se provocando entre estes hum con flicto, 
se pessoas de influencia não intervissem a prestar seus bons 
officios aconselhando que tudo esperassem dos poderes competen- 
tes. Acontece agora porem Ex m ° Snr que a Matriz acha-se fei- 
xada, nenhum dos officios divinos ali se praticão e nem mesmo 
o que he mais custozo soffrer-se, nem mesmos os Sinos fazem 
ouvir seus sons, porque o vigário tem os condemnado a esse 
silencio; fazendo assim arrefecer no povo suas crenças religiosas 
que elle por dever Sagrado devia ser o primeiro a mantel-a e 
fazer por augmental-as. Huma representação da Camará ja a 
tempos subio a prezença de V a Ex* pedindo providencias para 
que os festejos aa Transfiguração se fizessem no novo Templo e 
não na Matriz, pois que esta ameaçava ruina, porem Ex ,I>e Sen r 
esta apresentação, que alguns moradores assignarào de boa fé, 
ja foi filho d 'aquella imaginação do Vigário, para que assim 



- 272 - 

cumprisse melhor seus planos, que, malogrados pela primeira 
vez, depois deo-se pressa em consumal-os, como de facto conse- 
guio. As aucthoridades deste logar tendo de novo mandado 
examinar a Matriz os peritos declararão que ella estava nas cir- 
cumstancias de receber os fieis, e servir para a celibração dos actos 
divinos. Á experiença veio confirmar esta opinião, pois que 
todos os festejos desde 28 de Julho ate 6 de Agosto n'ella forão 
feitos, sempre repleto de fieis e nada aconteceo apezar das im- 
mensas salvas, que houverão, a estar ella como dizião, alguma 
ruina devia causar. Soube a Camará que o Vigário quando 
vio que seus planos malogravão-se conservou, desde o primeiro 
exame ate o 2 o que deccorreo muitos dias feito por ordem do 
Delegado de Policia, conservou o telhado da Matriz descoberto, 
para que quando houvesse chuva, gotejasse, e assim incutisse 
no animo dos fieis o terror e o susto de assistir aos actos divi- 
nos. A Matriz com muito pouca quantia pode ser reparada e 
ainda por muitos e muitos annos servir para os actos divinos, e 
esta quantia os fieis prestão, pois que ja para isso tem offerecido 
quando desde ja principiasse o concerto. A Camará Municipal 
omittindo muito do que occorreu, porem fazendo dis30 esta suc- 
cinta narração tem em vista rogar a V* Ex* que não concinta 
na demolição da Matriz, pois que o povo Iguapense tem de 
exasperar-se e pode por essa occasião haver algum acontecimento 
que trago o lueto e perante a huma ou muitas famílias, pois que 
olha para a Matriz com um objecto venerando ; onde muitas e 
muitas vezes hiào pedir a Deos que abrandasse a sua cólera 
quando fulminava os raios de sua vingança contra os que des- 

{>rezavão seus preceitos, onde receberão os laços sagrados que 
igando-os virão proceder de si huma posteridade temente de 
Deos, respeitador das leis e das aucthoridades; onde finalmente 
Ex m ° Sen° r estão encerrados os restos mortaes de todas as pessoas 
que lhe forão caros. Este pedido deve ainda ser attendido por 
V Ex* pois que o Novo Templo não está em estado de receoer 
todas as Santas Imagens, por não estar conclui d o e tanto que a 
Padroeira da Parochia, a Virgem Santíssima Senhora das Neves 
esta em hum altar lateral do novo Templo lugar sem duvida 
não digno para esse fim. Ex m> Senr A Camará Municipal da 
Cidade de Iguape confiando na solicitude de VE* que tanto se 
desvella pelo bem publico espera que VE* removera hum fueturo 
de negras nuvens para este Iguape ate aqui tão pacifico e manso. 
Deos Guarde a V E\ Iguape 34 de Agosto da 1856. Ill m ° e 
Ex mo Sen' D° r Francisco Diogo Pereira de Vasconcellos. Dig"* 
Prezidente de São Paulo. — Luiz Alvares da Silva — F* Scipião 
Ferreira Goulart Junqueira • 



— 273 - 
Documento n.° IB4 

Matriz actual 

Esta Igreja fundada (segunda se lê em hum Livro de tombo 
delia) em 1637 conserva-se escorada por botareos na extensão de 
seu cumprimento de um lado e de outro, sendo sua duração 
pouco afiançavel. As obras da nova Matriz com pequenos sup- 
primentos pelo coffre Provincial e alguns eBmollas, e agora com 
a metade da taxa conaedida pela Lei vigente, trabalhando-se 
nella efetivamente a penas tem se podido conseguir cobrir o 
corpo da Igreja, capella mor e o corredor do lado do mar e 
agora trabalho se no assoalho do corpo da Igreja. Nao pôde 
porem esta obra ser de pronto levada a efíeito, com as pequenas 
appuraçoes por que sua concluzao depende indo de alguns con- 
tos de reis, no entanto que pode a Camará afiançar que ella 
achasse no estado em que esta he devido o zelo e assiduidade 
do Procurador Geral da Irmandade o Tenente Coronel Luiz Al- 
vares da Silva. A Camará Municipal rogo pois a Aisemblea 
Digne- se lançar suas vistas sobre esta tão importante Templo o 
qual quaze que pode-se dizer o primeiro da marinha na Provín- 
cia de São Paulo, e espera a Camará que attenta a necessidade 
desta importante obra a Assembléa decretará para continuação 
delia huma quota pelo menos de 3:000$000 com o que se poderá 
conseguir a por em estado de serem ali Selibrado os officios 
Divinos. 

Documento n.° 18B 

Secretaria da Policia de Sâo Paulo, 11 de Julho 

de 1856 

Chefe de Policia em cumprimento ao que lhe fôr determi- 
nado pelo Ex. mo Presidente da Prov. cl * em officio de 7 deste 
mez, induza por copia, faz sentir ao Snr. Delegado de Policia 
da Cidade de Iguape a conveniência, de, por todos os meios 
legaes, obstar a que se celebre a festa do Snr. Bom Jezus na 
antiga Igreja Matriz at tento o estado de ruina em que se 
acha a mesma Igreja como consta da representação da Camará 
Muuicipal dirigido ao Ex. m ° Governo da Província, copia do 
exame feito na referida Igreja Matriz e informação do Snr. 
Delegado, acompanhadas, que lhe forão prestadas pelo Reve- 
rendo Vigário e Procurador Geral da Irmandade do Senhor 
Bom Jezus, não permittindo que a festa tenha lugar na men- 



— 274 - 

cionada Igreja, no caso de parecer lhe que existe eminente pe- 
rigo na reunião do povo em a dita Igreja apezar das medidas 
de prevedencia tomadas ou que se tomarem, pofs que só o mo- 
tivo de não alterar as disposições da programma não deve con- 
trabalançar a vida e segurança dos cidadões. António Roberto 
d 7 Almeida. 

Documento n.° 166 

Termo de requerimento feito pello R. P. vi<j.° en- 
comendado Manoel Alves Vianna 

Aos doze dias do mez de Agosto de mil sete sento s e trin- 
ta e hú annos nesta villa de Iguappe em a caza e passos do 
Conselho delia Sejuntarão os officiaes da Camará Jniz ordinário 
vereadores e procurador do Conselho por requerimento do R. 
P.de Vigr.° emComendado o Snr. Manoel Alves Vianna ahy 
aparesseu Logo o d to R. P. de e por elle foi aprezentado húa 
procuração do P. de An Prb.° requerendo nella aos ditos officiaes 
da Camará lhe dessem posse da Igreja que o R.° An Prb.° 
ordenava tomasse em seu lugar a dita posse e Logo acudindo 
o procurador do povo aprezentando procuração corrente do dito 
povo e por elle dito procurador foi requerido aos ditos officiaes 
que não convindo lhes se desse Logo a dita posse ao R.° or- 
denante sem primeiro ser decidido pelo Ill. mo Senhor Bispo ou 
por quem direito lhe pertencer por razoens que tinha para isso 
som." se poderia consentir a dita posse desfeito a duvida do 
património do d. to ordenante fazendo a de fora e não dos bene- 
fícios da Igreja a que visto pello R. P. Vigr.° foi requerido 
lhe pasasem certidão e de tudo mandarão fazer este termo que 
asignarão eu CarLos Pinto dos Reis esCrivão da Camará q o 
esCrevy. 

Souza. Veras, Franco. Veras. Veras. Bueno. 

Documento n.° 187 

Aos sete dias do mez de agosto da era de mil e seis sen- 
tos e oitenta e três annos nesta Villa de nossa Senhora das 
neves de Iguape no paço do Comselho se ajuntarão os ofissiaes 
em Camará juizes e veriadores e proCurador do Comselho e 
pelo Vriador mais velho foi perGuntado ao proCurador do Com- 
selho se tinha q requerer e por elle foi dito q esta V.* a 
três mezes sem te Saserdote p.* administrar os Santos Sa- 
Cram. t0B porq.* estauo o nosso R. d0 p. e Vigr.° doente em Cama 



► 



> 



— 275 — 

e emCapaz p.* poder administrar os Santos SaCram.* 0- e estan 
do aqui o R. do p. e Ant.° barboza de mendonça morador na V/ 
de Santos e coadiotor na V.* de Cananea prouido pello Snr. 
Bispo q dens guarde o mandamos Chamar em Camará e lhe 
Requeremos da Parte de deos e do Senhor Bispo nos asistise 
p. k no* administração dos Santos SaCramentos a este pouo e 
por o R.do p/ 5 f i dito q nao podia asistir nesta Vi lia por quan- 
to estaua Seruindo de Coadiutor na V.* de Cananea com proui - 
são do Snr. Bispo taxada por hnm anno E lhe faltau&o aindo 
Coatro mezes pouCo mais ou menos por q. to ganhaua Sinquoen- 
t* e sinquo mil reis de ordenado; a Saber Vinte e Sinquo de 
Coadiutor e trinta mil reis q lhe largaua o R. do p.* Vig.™ 
Miguel de faria fiolho de seu ordenado e que por essa Rez&o 
não podia asistir nesta Vil la e pellos ofisiaes da Camará foi 
Requerido nouo Requerim. to e pelo mesmo pouo foi Requerido 
«os ditos Ofissiaes da Camará que obriírasem ao R. d0 p.° Ant.° 
■oarboza de mendonça Coadjutor no V. a de Cananea q por 
seruiço de deos e do Snr. Bispo obrigasem ao dito p.* q asis- 
tise nesta Villa ate a Vinda do seu Bispo quando nâo lhe en- 
caregaufto os almas de tudo este pouo morendo sem os Santos 
Í5a p p aui t tM e Como Cristãos o a6Ím o Requererão Visto o R. d0 
P O ^*g« ro miguei de faria fiolho podei administrar os Santos 
^fam."' a seus treguezes donde mandarão os ditos ofisiaes 
lazer q^ termo donde Asignarào os ditos ofisiais Com o R. d0 
P* António barboza de mendonça feito em Camará os sete do 
me5s a.sima declarada. Eu esCriuào da Camará que o esCreui. 
-, w J°nao Barboza de Mendonça. Balnis. MJ giz. penedos. 
t * <ie pontes. André Bios Boiz. Luiz palhasso de Azeve- 
JH. 1 RiBeiro. António perera Nunes. 

Documento n.° 1B8 

\^mo de declaração que faz o Secjundo Vereador 
da Camará Felippe Pinto de Almeida das no- 
vidades e Cazos aContecidos no prezente anno 
de 1807. 

Áos trinta dias do Mez de Dezembro de mil Oito Sen tos 
e Sete annos nesta villa de Nossa Senhora das Neves de Igna- 
pe Comarca de Paranagoa em Cazas da Camará e Pasos do Con- 
selho onde foi vindo o Juiz Ordinário Prezidente da Camará 
Com os Offisiaes delia no fim aSignados para effeito de Se fa- 
zer Vereança e Cuidar no bem Comum do Povo, e ahi pello 
Vereador Segundo Felippe Pinto de Almeida foi dito que na 



— 276 — 

Conformidade das Riais Ordens, que se aCh&o desCriptas no 
prinCipio dsste Livro, e pello que lhe hera enCarregado pelos 
Provimentos insertos neste mesmo Livro fazia a prezente de- 
claração Reportandose ao Mapa geral dos habitantes deste 
destricto e Livro dos asentOB da Igreja pella forma Seguinte : 
Declarou elle dito Segundo Vereador Felippe Pinto de Almei- 
da que neste corrente anno de mil Oito Sen tos e Sete, em o 
Mez de Janeiro e de Fevereiro quis Deos Noso Senhor mostrar 
o Castigo da Sua Cólera Contra os habitantes deste Pais (es- 
pecialmente Contra os da Freguezia de Xiririca e Ribeira abai- 
xo the a fronteira desta Villa) Com huma Cheia que houve na 
dita Ribeira tam grande e tam terrível que nunca Sevio enem 
as pessoas mais antigas Selembrão que ouvisse outra igoal e 
tilo funesta como foi esta que Cauzou os prejuízos Seguintes: 
Na Freguezia de Chi ri rica que fica mais Chegada ao meio da 
longitude da dita Ribeira porisso mais ou menos distante da 
Barra que faz no mar Seis a the Sete dias de viagem creseo a 
Agoa da Ribeira dentro em três dias com duas noites Sesenta 
palmos do Seo natural Subindo este numero de palmos por 
hum OLivel que o Reverendo Parocho daquella Freguezia 
Joze Francisco de Mendonça e o Reverendo Francírco Xavier 
de Passos que ahy também Se achava mandarão Como Cu* 
riozos exzaminar, depois que a mizericordia Divina permi- 
ti o que as Agoas fossem abaixando Ao tempo que as Agoas 
forão Correndo e tocendo em meio das paredes das Cazas da 
dita Freguezia foi dcitando-as abaixo, principalmente aquellas 
que ficavão ou se aChavão Cituadados aborda d'aquelles altíssi- 
mos Barancos onde Laborava a maior fúria da Correte d'aquelle 
Rio e na verdade deitou e Carregou duas propriedades novas que 
se achavão feitas pello Thenente António Oonçalvez Fontes, em 
Cujo Lugar diz pois que as agoas abaixarão Somente Sevio hú 
grandiozo buraco que inda exziste, Sem apareser vistigios algum 
das Cazas, nem que ouvesse em tempo algum Edifício n'aquelle 
Lugar=Junto a estas Cazas Se aChav&o as Cazas de António 
da CostaChaves, de Romão de França e outros as quais Suposto 
que as Agoas não Levarão, ficarão Comtudo demolidas e cabidas 
or terra Sem paredes, nem telhado porque este Com o fundo 
a Caza Correo todo para o fundo onde dispois Se achou. Todas 
as mais Cazas d'aquella Freguezia que andarão por Sento e 
vinte Cazas ficarão es traídas Sem paredes, demulidas e atterra- 
das com mais de Seis palmos de lodo que vinha com as agoas por- 
que em todas ellas chegou o deluvirio atirar pella altura das 
portas, outras mais por Sima abeira do telhado, e Outras por 
mais baixa altura, de Sorte que aSim estiverão alagadas o espaço 



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— 277 - 

Imaturo noites Com três dias. Alguns moradores que Se acha* 
7, ***i dita Freguezia adejunto Com os dous Reverendos Padres 
. *V&o em Canoas entrando por dentro das Cazas d'aquelles 
dià Tfive * 8 h* *** 11 ^ tirando as Suas Caixas, e trastes que po- 
o 5* alcançar e Conduziào para a Sacristia da Igreja onde está 
^tacada a May de Deus a Senhora da Guia, a qual permitia 
yta aquelle deluvio n&o chegasse a tocar da porta de Sua Santa 
MS*eja para dentro, a qual fica Citnada em hum alto cnde So- 
tostites chegou a Agoa ao OLivel da Soleira da porta principal, 
& não Sobrou para dentro, mas todo o Corpo da Igreja tinha 
*goa que Vertia da terra, por onde se conneceo o milagre da 
Virgem Senhora dando a Conhecer que La fora estava mais alto 
& Agoa de que o a Sen to da dita Igreja. Os mesmos moradores 
e o Reverendo Parocho José Francisco de Mendonça dizpois de 
terem aCoridicionada as Caixas e trastes dos mais moradores den- 
tro da Sacristia da Igreja fizerão Suas despensaçoens a May de 
Deus e vindo nesse dia que as Agoas ainda emxiào e o estrondo 
que dava actualmente a dita Ribeira hera Cada vez maior, e 
lhe vinha Conduzindo grandes Paus, Canoas, dispersas e imen- 
sas Arvores frutíferas como herao Larangeiras, Bananeiras e 
outras que a violência das Agoas arrancava» e Levarão Com 
vários pedasos dos Barrancos que se partirão do firmamento da 
Terra de grandor de quinze a vinte, quarenta athe de Sincoenta 
braças pella terra dentro, espesialmente em alguma voltas que a 
Ribeira Cortou, e dizpois Sevio em Linha recta e direita naquel- 
les Lugares : intimidados deste espetacullo Se embarcavão em Ca- 
noas e forao entrando nellas pello mato dentro em procura de 
hum Monte que fica perto onde estive Cituada Com Sua Famí- 
lia Joaquim António da Cunha e ahi Se acomodarão the que 
destinou a rebaixarem as Agoas, ficando Saletariamente o Reve- 
rendo Francisco Xavier de Passos com Seus famullos na dita 
Freguezia aposentado na Sacristia da Igreja de onde não Se 
quiz retirar=Da dita Freguezia para baixo todos os moradores, 
que tinhão montes ao pé de Seos Citios Correrão para elle a 
escapar Com Suas Familins porque as Agoas Se a posarão de 
Suas Cazas, e os vizinhos que não tinhào este Regreso Corrião 
a procurar em Canoas o obrigo dos mesmos Morros, e Com grande 
Risco por estar a Ribeira innavegavel por Veloz Corrente que tinha 
e grande imensidade de Madeiras verdes e Seccas que Conduzio= 
Contar ao-se dose Cazas que dizpois que a Ribeira abaixou somen- 
te* Sevio o lugar delias e the hoje Sinão Sabe o fim que leva- 
rão Com Seus trastes e pertences do trafico de Agoad. te cultura 
que tudo perderão aqnelles miseraveis=Naquelles Citios havião-se 
mais aSim Como herao Gados, Porcos, Aves e outras Criaçoins 



— 278 - 

Cazeiras, Se ouvião o estrondos dos Seus Berros e gritos, na- 
dando pello meio das Agoas, e o pobre lavrador, que naquelle 
Con flicto Cuidava em escapar Com Sua Família, lhe não acudia 
por modo algum, de Sorte que huns en travão pello matto a nado 
la Se embaracav&o e morrião, e outros que vinkao para a medre 
da Ribeira a Correnteza Carregava Com elles, e deste Sorte 
morrerão os pobres animaes ficando estes moradores destetuihidos 
deli es e Sem Saberem onde forao parar. Na occasião da maior 
fúria da enxente Sevio da Freguezia de xiririca virem humas Re- 
zes arebatadas da violência das Agoas, e tomarão pé duas delias 
Sobre os telhados da Caza de Thenente António Goncalvez 
Fontes, que emtão ainda não tinha Rodado e vendo as pesoas 
que ali Se axavão aquelles animaes Lutando Com a morte na- 
quelle Lugar forão a Cudir e escaparão de morrer trazendo -os 
para o alto da Igreja onde escaparão com o mais gado d'aquella 
Freguezia — Passados os dias mais tristes deste infeliz aconteci- 
mento forão aquelle? moradores ver as Suas Rosas, nas quais n&o 
axarão Coiza alguma Com que podesem ao menos Remediar Sua 
fome e das Suas Familias por estarem Razas, humas Sem Couza 
de planta, outras podres e Outras in terra das Seis e Oito palmos 
debaixo do Lodo que as Agoab trazião : e por este modo the 
hoje estão experimentando grande fome expesialmer.te na fari- 
nha, e por Consequência os moradores desta Vi lia, que para Re- 
mediarem a nesesidade daquelles que Se decorrião a providenciar-se 
das Lavouras dos moradores da Ilha do Mar e Praia de Jureya 
fazia Com que ouvise Carestia e falta de farinha por todo este 
anno ; este prejuízo xegou a todos os moradores que Se axão 
Cituados a margem da Ribeira desde Sua Origem athe frontear 
Com o Porto da Ribeira, e dahi para baixo athe a Barra que 
desagoa no mar groso não fiz tanto estrago porque os grandes 
vargedos que derão Lugar a» Agoas Se espalharem evita vão Subir 
tanto quanto Subirão naquella Freguezia, e Lugares onde vem 
aquelle Pio por entie Morros porque ainda mais Subia a fúria 
da Sua inxurrada ; esta narrada e maior inxente na referida 
Freguezia se verificou no dia vinte e nove do Mez de Janeiro 
deste Corrente anno de 1807, s por aqui por baixo durou xeia a 
Ribeira athe quinze do Mez de Fevereiro do mesmo anno, e 
dahi por diante entrou a declinar o abaixarem as Agoas — Dos 
Paus e Madeiras que Correrão São testemunhas os moradores da 
Praia da Jureya onde acharão Paus Sufisientes e de que fizerão 
Canoas de mais de três palmos de boca ; Na mesma Praia Sevia 
despojados immensas paus brutos, Portas, e Janellas das Cazas 
que a Correnteza rastou, paredes de Cazas com os paus delias 
amarados e pregados, Ingenhos de Cana destroncados, paus de 



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— 279 — 

Prenças de fazer farinhas; Laranjeiras, Bananeiras, e outros 
vistios qne indicavão a triste Lamentação e prejuízo d'aquelles 
habitantes da Ribeira — Por esta Couza foi nenhuma a produção 
da Agricultura este anno e Somente alguns Lavradores colherão 
Seus arrozes mui diminuto daquella posção que esperavão Colher 
Segundo as avultadas plantaçoms que Se fazem deste género; 
mas houveo ahi a Sinco mezes canta abundância de Feijão por 
Ser fruto que em breve tempo se Colhe a qual plantarão por 
aquelles Lugares inundados e Iodados que abranjou a aquellas 
dizolados moradores, e aos desta Villa e Soubrou muito que foi 
para Cananea de onde o vinhão buscar e por barato preço, e 
também foi algum para a Villa de Santos, comprado nest* pellos 
mesmos Santistas que vierão neste anno aSistir a festivid de do 
Senhor B Jesus. — A produção dos Gados não pode ter augmento, 
por Cauza do destroso e infelicidade que Sobre elles também 
chegou por Cauza deste Diluvio: mas os moradores Cuidam 
muito em Se refazer de outros vindos da Freguezia de Parana- 
panema, Serra a Si ma, do onde Com efeito tem vindo Gado bas- 
tante a vender-se este anno para Criaçoins, e Se Deos Noso Se- 
nhor permitir que não haja outro funestre acontesimento hão de 
Se por as Couzas todas no mesmo estado de antes em breve 
tempo. — Declarou mais elle dito Vereador que neste mesmo 
anno de 1807 e no mez de Dezembro entrou no Estado Eclizi- 
astico Secular do Abito de Sam Pedro hum Filho de António 
Fernandes de Quebedos de nome António Mariano de Castro que 
estava nos Estudos da Cidade de Sam Paulo e ha noticias Certas 
que neste dito mez de Dezembro tomou ordens de Diácono e 
Sub Diácono; o dito he Natural desta Villa de Iguape na mesma 
morador e juntamente Seus Pais, e Suposto que não Sam dos 
mais opulentos Pesoas deste Pais Consta Comtuao os Pais vivem 
da lavoura e he bem serto ser hum dos principaes lavradores deste 
País e dos da maior excepção. — Declarou mais que neste anno 
não Se Construhio Embarcação alguma neste Pais mais Sim Se 
fez hum Escaler de trinta palmos de quilha que Administrou o 
Capitão Mor Comandante delia Joze António Peniche por ordem 
qne tive da Junta da Real Fazenda da Cidade de Sam Paulo 
para mandar fazer o dito Escaller e Remettelo para a Villa e 
Praça de Santos para Serventia da Novo Alfandega daquella 
dita Villa, e forão os Mestres delle Joaquim Felippe Sant Anna 
Carpinteiro da Ribeira e o Pintor que pintou o dito Escaller foi 
Francisco Luiz Pereira, homem Curiozo Natural de Rio de Ja- 
neiro e morador desta Villa. — Declarou que dentro nesta Villa 
e seo Destrícto habitão Sinco mil Seis Sentos Oitenta e duos 
entre a Freguezia de xiririca e esta de Jguape que tudo 



- 280 - 

be do mesmo Destricto e neste Numero de Pesoas Se compre— 
bendem todos os habitantes aSim do Sexo masculino Como do 
Sexo feminino aSim pardos como pardas, Libertos e Ga* 
ptivos, e Negros e Negras Libertos e Captivos desde a primeira 
idade tbe a maior, e que disto nfto pode presentemente fazer 
buma individual declaração do Numero das peBoas com espesifi- 
cação das Suas idades e qualidades porque devendo de reportar- 
se ao mapa geral que todos os annos Se Compoin neste Destri- 
cto te ainda sinão esta feito e legalisado para delle tirar buma 
Instrução Certa que Se possa escrever neste Livro. — E porque 
não houve mais Cazo algum que fose memorável e digno de 
historia próprio para elle Se fazer aSento neste Livro poriso 
Som entes fiz declaração do que fica ponderado requerendo ao 
Corpo da Camará, que ouvisse de mandar escriver na forma a 
que tinha dito de que para de tudo aSim Constar fiz este inser* 
ramento em que aSignarão e Eu Francisco dos Santos Carneiro 
Escrivão da Camará que o escrevy. 

Cunha— Faria— S*— Alm**— Giz— Coelho. 

Documento n.° 169 

Termo da nomeação e estabelecimento da nova 

povoação de Sabauina 

Aos sete dias do mez de Janeyro de mil sete centos Se- 
centa e sete annos neste Rio de Sabauma destricto da villa de 
Iguape Comarca de Paranaguá onde por ordem do Illustrissimo 
e Excel lentiss imo Senhor Dora Luiz António de Souza Botelho 
Mourão do Concelho de Sua Magestade Capitão General e Go- 
vernador desta Capitania de Sam Paulo veyo o Ajudante de 
Suas Ordeus Afionço Botelho de Sam Payo e Souza com o Juiz 
ordinário o Capitão António da Silva vianna e vereador o Al- 
feres João Teixeyra de Azevedo João de oliveyra Procurador da 
Camará Manoel Franco de Rego e eu escrivam da Camará ao 
diante nomeado e no citio do moro de Sabauma em prezença do 
Tenente Joaquim Coelho da luz e Sargento Mor Gregório Joze 
Gambino e todrs os moradores que presentes Se acharão Se liu 
a ordem do Illustrissimo e Excellentissimo Senhor General que man- 
dou ao director Diogo Pereyra Paes cujo theor é o seguinte — 
Por quanto tenho determinado em vertude das ordens de Sua 
Magestade aumentar as povoaçoens desta Capitania, tenho noti- 
cia que na Foz da Ribeira chamada Sabauma entre as villas 
de Cananea e Igoape ha terras Suficientes para estabelecer hua 
boa Aldêa, Sou Servido nomear a Diogo Pereyra Paes Juiz or- 



- 281 - 

dinario actual da villa de Igoape para fundador administrador 
e director da dita Aldêa em quanto não mandar o contrario por 
concorer na Bua pesoa Christandade Capacidade e Justiça para 
dirigir os povos delia conforme o directório de Sua Ma gesta de 
lhe ordemno, convoque para o dito effeyto todos os forros car- 
gos e administrados de que tiver noticia que andào vadios e 
nào tem casa nem domicilio certo nem são úteis a republica e 
os obrigue a hir povoar ai sobreditas terras da Ribeyra Sabau- 
ma estabelecendo nellas a referida Aldêa e eligindo Citio pro- 
porcionado para ella o fazendo guardar os moradores todos os 
privelegios que Sna Magestade tem Concedido aos que estabe- 
lecerem Colónias de novo como tao bem os mais que eu alem 
delles lhe concede pello Bando de des de Fevereyro do prezes- 
te anno que tudo assim cumprirá com aquelle zello e actividade 
e desinteresse que recomendão as ordens de Sua Magestade e 
da sua pessoa espero, Santos a vinte e hum de Março de mil 
sete centos e Secenta e Beis — Dom Luiz António de Souza— 
Ao Ajudante das minhas ordens AfTonço Botelho de Sam Payo 
e Souza — tem encarregado varias dependências para essas par- 
tes, por onde esta de partida, e como vaes tão bem encumbida 
da dilegencia de ver essa povoação e examinar as terras em 
que se acha ; pelo que recomendo a vossamerce que logo 
que esta for entregue dé de tudo conta ao dito, o qual lhe de- 
terminará o que deva fazer o que vossamerce executará na for- 
ma que elle ordenar Sem duvida alguma — Deos guarde a vossa- 
merce Sam Paulo des de Dezembro de mil sete centos e secen- 
ta e seis— Dom Luiz António de Souza — Senhor Diogo Pereyra 
Paes — Vista do que convocou e dito Ajudante das ordens Af- 
fonço Be telho de Sam Payo a Camará e director que havia de 
ser da dita povoação e alguns dos ditos moradores que havião 
de concorrer para a dita povoação e lhes explicou as grandes 
utilidades que Se Seguirão no aumento de novas povoaçoens e 
como o dito Senhor General o mandava a elle para dar as or- 
dens e providencia necessária para a conceção para que com 
maioi brevidade se excecutasse as que o dito Senhor tinha man- 
dada a este respeito que pela distancia em que se achava Sua 
Excelência qualquer Leve embarasso suspendia a devida excecu- 
ç&o motivo porque na prezença do Juiz Prezidente da Camará 
e mais Corpo delia e pessoas que ali se achavào desse o dito 
Ajudante das ordens que todos lhe dissessem o Citio que lhe 
paressesse mais útil e acomodado e próprio para se formar a 
nova povoaçào e por tudos uniformemente foy acentado que se 
fissesse no espigão do mesmo morro que a frente do nassente 
para o mar e Citio do Capitão Mor João Baptista da Costa do 



- 282 — 

Norte para o Rio Sabauma que corre para o Sul e por ser pre- 
cizo hir se fazendo a picada para se romper o mato senão pode 
riscar o lugar certo da Igreja e mais povoação e So chegando 
a bua chapada que pareceo milhor acento todos dicerão que ali 
devia ser o acento verdadeiro para o que determinou o dito 
Ajudante das ordens AfFonço Botelho que a Camará mandasse 
notificar todas as pessoas que se achavão no Rol que a dita 
Camará aprovou para quo aos dous de Fevereyro do prezente 
anno se achassem na Vi lia de Igoape e nesse mesmo dia vies- 
sem para o Citio determinado da nova povoação aonde achariào 
as ferramentos nessessarias para descortinar o mato e dar prin- 
cipio a nova povoação e as mais providencias que o Illustrissi— 
mo e Excellentissimo Senhor General lhe ordenou o que todos 
aprovarão e acentarão em vertude do que asignarãó com elle 
dito Ajudante das Ordens AfFonço Botelho de Sam Payo e Sou- 
za e o Tenente do Prassa de Santos Joaquim Coelho da luz o 
Juiz Prezidente Vereadores Procurador da Camará e director 
Diogo Pereyra Paes Sargento Mor Gregório Joze Gambino que 
todos depois de feyto e lido este termo asignarãó na forma so- 
bredito e eu Carlos Manoel Pereyra da Sylva escrivão da Ca- 
mará que o escrevy — O Ajudante das ordens deste Governo 
Affonço Bott de S Payo e Souza — Ant° da S* Vianna — Manoel 
Franco do Rego — João leix* de Azevedo — João d? oliveira — 
Braz Lopes Pereyra — Tenente Joaquim Coelho da Luz — Diogo 
Per 9, Paes Director da povoação — Ggr° Joze Gambino — Joze de 
Barros —Joze Joaq™ Mar* 19 da S* Cczar. 



Documento n. 160 

Termo de Veriança 

Aos dous dias do mez de Fevereyro de mil sete centos e 
secenta e sete annos nesta Villa de Igoape em paços do conce- 
lho e cazas da Camará onde foi vindo o Juiz ordinário Prezi- 
dente da Camará o Cap m António da Sylva Vianna e mais ve- 
readores delia e em lugar do Procurador asistio o do anno pas- 
sado o Cap m Joze Alves da Sylva para tratarem do bem comum 
e escreverão ao Illustríssimo e Excellentissimo Senhor General a 
Respeyto da nova povoação para se nãe obrigasem a hir a dita 
povoação e por constar fis este termo em que se asignarãó e eu 
Carlos Manoel Pereyra da Sylva escrivão da Camará que o es- 
crevy. Sylva. Azevedo. oLiveira. Franco da S*. 



- 283 - 
Documento n. 161 

Termo do Vcreança 

^ °s coatro dias do mez de Março de mil sete centos e Se- 

ce f! ô Sete annos nesta Villa de Igoape em os paços do Con- 

k c f a ^ Cazas da Gamara onde foi vindo o Juiz ordinário o Ca- 

f pi ao> António da Sylva vianna e mais vereadores abaixo asigna- 

. l Jl ^va Se tratar do bem comam e nella Se despaxão varias 
pÇoetjg e g e fi z p 0r Almotaces o Capitão Joze Alvares da 
oiivo. ^ Thomas de Souza Baptista e por não haver mais que 
re( l)^ r eT, o director Diogo Pereyra Paes requereu se mandasse 
^j^car a gente que está nomeada para a nova povoação da 
Aide**, de Sabauma para que Se passão trez mandados para se- 
rem notificados a virem no dia catorze do prezente mez e anno 
e por uao haver mais que prever fiz este termo e eu Carlos 
•Manoel JPereyra da Sylva escrivão da Camará que o escrevy. 
oy/t?ct^ Azevedo. oLiveira. Fr*. Franco. Joze Azevedo da S*. 
Ttomczs de Souza. 

Documento n. 162 

Termo de vcreança 

_ Aos dezeceis dias do mez de Março de mil Sete centos e 

5 ecei *ta e Sete annos nesta Villa de Igoape em os paços do 

concelho e Casas da Camará onde foi vindo o Juiz ordinario^o 

te *"es André de Souza Faria e mais vereadores abaixo asignados 

P a *a fazerem vereança e dar providencias ao bem comum e apa* 

Ce< í prezente o director Diogo Pereyra Paes e por elle foy re- 

4 ^"ido ao dito Juiz e vereadores que lhe mandasse entregar os 

e x **cados para a nova Aldêa para estarem promptos o que visto 

se **vidos por elles e ter informados a mim escrivão de como 

p p e **hão passado mandados por duas vezes para Se acharem 

v no*-íit itos e constail do pella certidão dos offisiais eleytos que os 

I 0s ^ bicarão mandarão ellei ditos Camaristas que se convocassem 

os ^ Se achassem na Villa para a porta delle dito Director e 

do^^^^is que fossem chegando seguirem a mesma ordem atenden- 

tir^ ^ a Suma mizeria dos tais notificados que por falta de man- 

de^ **tos e o mais nessessario nâo poderiao promptamente obe- 

te^-^^^em e por não havia mais que requerer mandarão fazer este 

S^j^-O em que se assignarão e eu Carlos Manoel Pereyra da 

»e^^*^ escrevão da Camará o escrevy. — Faria. — Azevedo. — OLi- 

. — Frc.° 



- 284 - 



Documento n. 163 

Termo de Vereança 

Aos vinte e oito dias do mez de Junho de mil Sete centos 
e Secenta e Sete annos nesta villa do Igoape em os paços do 
Concelho e Casas da Camará onde foy vindo o Juiz ordinário 
o Capitão António da Sylva vianna e vereadores abaixo asi- 
gnados Com o Procurador da Camará e eu escrivão delia para 
effeyto de se tratar do bem comum e sendo ahy apareceo pre- 
zente o Director Diogo Pereyra Paes e por elle foy dito que 
visto haver ordem próxima do Uiustrissimo e Excellentissimo 
Senhoi General p* he examinar outra paragem de milhor utili- 
dade para a povoação nova veio requeria que Se convocassem to* 
dos os alistados Sem Segunda ordem do dito Senhor para com 
elle continuar ao Sua obrigação o que visto e ouvido pello dito 
Juiz e mais vereadores mandarão fazer este termo em que Se 
asinou depois de feyto e lido eu Carlos Manoel Pereyra da Sylva 
escrivão da Camará que o escrevy. — Syloa. — Azevedo. — OLiveira. 
— Franco. — Diogo Pereyra Paes. 

Documento n. 164 

Anno do Nascimento de Nosso Senhor JESUS Christo de 
mil e Sete centos e Seteiita anno. Ao primeiro dia do mes de 
Agosto do dito anno nesta Freguezia de Nossa Senhora da Com- 
ceição de Sabauna honde veyo o thenente Coronel Ajudante das 
ordens do Governo desta Capitanhia de São Paulo Aftonço Bo- 
telho de Sam Payo e Souza e o Ouvidor Geral desta Comarca 
de Paranaguá o Sargento Mor Christo vão Pinheyro e França 
comigo escrivão de seu Cargo ao diante nomeado e sendo ahy 
para «vfteito de Croar e erigir nova Villa nesta mesma Fregue- 
zia por portaria do Uiustrissimo e Excellentissimo Senhor Dom 
Luiz António de Souza Mourão Botelho Governador e Capitão 
General desta Capitania de São Paulo que he do theor seguinte : 
—Por quanto Sua Magestade que Deus Guarde foi servido or- 
denarme na Instruçoens de vinte e seis de Janeyro de mil Sete 
centos e secenta e sinco e em outras hordens que eu ao depois 
fui recebendo que era muito Comveniente ao Real Serviço que 
nesta Capitanhia se erigicem villas naquellas partes que focem 
mais covenientes e que nella se Comgregacem todos os vadios 
e despersos ou que vivem em Sitios volantes para morarem em 
povoaçoens civies em que se lhes pudecem adeministrar os Sa- 
cramentos e se estivem promptos para as ocazioens do Seo 
Real Servisso e no paragem chamada Sabauna que fica asituada 



e - *^ * Villa de Iguape e Cananéa Mandei fundar hua Povoa- 
v** a Qual me Consta por Informação do thenente Coronel Aju- 
** ^te <f as ordens Àfonço Botelho de Sam Payo e Souza por que 
* *^H\ destribuidas as privaçoens que tem eido precizas para dita 
^^belecimento que Se acha ja com bastantes Cazas e Igreja e 
°^os edifícios públicos em que se esta actualmente trabalhando 
f ^°F V 16 alegindo-se em Villa se poder se aomentar com mais 
^alidade; Ordeno ao dito thenente Coronel e o Ouvidor da 
Comarca de Paranaguá pasem a mencionado paragem e façam 
™Qgir em Villa a dita Povoação levantando peloarinho Sinatando 
lhe termo de que Se faça oucto em que também a aSinara a 
Camará da dita Villa com que comfinar para que em nem hum 
tempo posso vir em duvida e lhes demarquem Lugar para edi- 
ficarem os passos do Concelho e Cadeya Como também me pro- 
porão as pessoas mais Capazes para Juizes e Vereadores para Eu 
nomear os que hão de servir este prezente anno na forma das 
Ordens que tenho, como também escrivão para eu lhe mandar 
passar Seo provimento o que todo obrarão conforme dispõem as 
Leis que Se aChão promulgadas a respeito desta matéria. Sam 
Paulo aoB vinte e dous de Julho de mil e Sete centos e Seten- 
ta. Pinheyro e França : e não Se Continha mais em a dita Or- 
dem que bem e fielmente tresLadei e vai sem que dovidafaça — 
£ Sendo ahy mandou Comvocar todo o povo e gente da mesma 
freguezia por hum Edital que se tenha mandado pobLicar e 
fixar nas partes mais pubLicas da mesma freguezia o dito the- 
nente Coronel Ajudante das Ordens Àfonço Botelho de São Payo 
6 Souza do theor seguinte §§ Àfonço Botelho de Sam Payo e 
Souza Morgado dos Passos Capitam mor de Provizende Superin- 
tendente do porto de Pinhão thenente Coronel expector das tro- 
pa^ AuxiLiares Ajudante das ordens do Governo desta Capita- 
*&* de Sam Paulo por Sua Magestade Fedelissima que Deos 
Guarde etCetera § Faço Saber* ao director e Capitam António da 
^FÍva Vianna e a todos os mais moradores da Povoação de Nossa 
senhora da Comceiçào da Lage de Sabauna que o ILLustrissimo 
® ^ceLentifesimo Senhor General desta Capitanhia Dom Luiz 
atonio de Souza Botelho Mourão foi Servido ordenarme por 
0r deui Sua de vinte e trez de Janejro deste prezente anno em 
r ^PHmento das reaes detriminaçõens de Sua Magestade nas 
c *"U.çoens de vinte e seis de Janeyro de mil Sete centos e Se- 
íe ^ e Sinco e em otras mais hordens em que foi Servido de- 
«jj^^ixiarlhe que era muito Comveniente ao Seo Real Servisso 
íbe **esta Capitanhia Se erigicem Villas naquellas partes que 
og **X mais Comvenientes e que a ellas Se Congregacem todos 
*l^le vivicem em Sitios bolantes para morarem em povoaçoens 



civis em que Se lhes padecem adeministrar O Sacramentos « es- 
tivecem promptos para ns oCnzioens do Seo Real Servisso que 
vista esta a dita Povoação com bastantes Casas Igreja e edeffi- 
cíos pubLicos em que Se estar actualmente trabalhando para o 
Seo aumento parece eu com o ouvidor desta Comarca a dita Po- 
voação e a fizecemos erigir em Villa Levantando pellourinlio 
aSinalando lhe termo e demarcando lhe Lugar para edificarem 
os passos do Comeelho e Cadeya e propor ao dito Senhor as 
pessoas mais Capazes para Juizes e Vereadores para elle nomear 
os que bonde servir este prezente anno na forma das Ordens 
que tem Como também Escrivão para lbe mandar passar provi- 
mento o que todo avemos de fazer exarator e Levantar Pelou- 
rinho no Lugar que for mais Comveniente e denominar Villa de 
Nossa Senhora da Comceiçao da marinha a dita Povoação no dia 
trinta e hum do prezente mez de Julho em cujo actto Se acha- 
rão o dito e director e todos os Sobre diioa moradores do Seo 
districto e termo para Com alternativo Jubilo Comfeçiirem obe- 
diência e otnenagem ao Fedelicimo Monarca e potenticimo R«y 
de Portugal nosso Senhor Dom Josepb o primeiro. Ao districto 
da nova Villa será por ora o que Se declarar no termo da Sua 
posse o qual lbe Será Comferido ouvidos as Camarás de Iguape 
e Cananea nthe o lllustrissimo e Excelentíssimo Senhor General 



o Sua Magestade que DeoB Guarde não mandarem o Comtrario 
e para que venha a notic.a de todos Se poblícara este edital e 
Se fixara no Lugar mais pubLica da dita nova Villa. Dado 
nesta Villa de Parnagua a vinte e três de Julho de mil , e Sete 
Centos e Setenta ânuos. Afonço Botelho do Sam Payo e Souza 
e nfto Se continha mais em o dito bando o qual bem e fielmente 
tresladei e vaj Sem Couza que dovida fossa §§ e de Como o 
dite edital foi publicado e Se achava fixado no canto da rua di- 
reita — Eu Josepb Joachim da Costa escrivão do ouvidoria Geral 
desta Comarca de Parnagua por provisão do ILLustris -imo e Ex- 
ceLentissimo Senhor General desta Capitanhia de Sarn Paulo 
etcetera: Certifico e dou fé e por passar na verdade pasBej 
o prezente Certidão de minha Letra e Signal Freguezia de Nossa 
Senhora da Comceiçao da Marinha primeyro de Agosto de miL 
Sete Centos e Setenta: Joseph Joachim da Costa §§ Em o qual 
declara Como Se ve a detriminnção de crear e fundar nova 
Villa desta freguezia Com o titollo de Nossa Senhora da C- m- 
ceicão. da Marinha, Levantar PeLourinho e porpor novos offi- 
ciais na Governança desta mesma Villa que aonde principiar a 
Servir Em Camera delia este prezente anno destinar Lugar para 
os Passos delia e Cadeya demarcar destrito entre as Villas de 
Iguape e Cananea para terem Serteza da Sua Júri dição os no- 



> 



—,287 — 

voa offixiaes e mais providencias neceçarias e para dar principio 
ao ocscXarado acima chegarão a esta nova Freguezia de Nossa 
Sei*t*ora da Comceiçâo da Marinha aos trinta e hum de Julho, 
o dito thenente Coronel Ajudante das Ordens Afonço Botelho 
de Saxn Payo e Souza e ouvidor Geral da Comarca o Sargento 
mor Cliristovão Pinhejro e França e o Capitam Jde Emfantaria 
e Comandante do destacamento da Villa de Parnaguá Fran- 
cisco .Aranho Barreto e muitos mais officiais militares e Gente 
«estira ta a donde Se achava ja a Camera da Villa de Iguape 
|j oa \ toda a Gente da Freguezia estando feito hum forte no porto 
do desembarque Logo que aparecerão as canoas dos ditos officiais 
em-tr^j-fcQ a for f g 0B q Ue g e achav&o no dito Castello ate 
aez^mbarcarem, e Logo do porto forào direitos a Igreja e depois 
ue «l«.rem Graças a Deus e Se recolherão tendo exprementado 
w^ todo povo huma Grande aLegria e Jubilo universar o para 
ma,la mostrarem mandou o dito Ajudante de Ordens Lançar 
aL »Kvim fogo do ar o Com muitas danças e aLegria se passou 
^^ai toda a noite e no dia primeyro de Agosto pellas dez oras 
to dia forào o dito Ajudante de ordens e ouvidor Geral Com 
todas as pessoas dos tintas, Camera da Villa de Iguape e mais 
povo que Se achav&o prezentes a Igreja de Nossa Senhora da 
^«mceição a honde Cantou Missa o Reverendo Vigário Frei 
Joseph da Po ri li cação Soares o Cantaxão e no fim da dita Missa 
Se Canto o de demoLaudamos o que tudo Se fez Com grande 
SoLemn idade em trez vivas e a p Laus o do povo mandando o 
Capitam Francisco Aranho Barreto dar re pi tidas Salvas de mos- 
puetaria o que tudo Se fez para que Deos prospere os estados 
de Sua Magestade FedeLicima e tivecem esperança de feLicidade 
foc taras no progresso do Governo e aumento da Nossa Villa 
erecta e para que o mesmo Senhor lhe desse Luz aos novos 
Officiais que avião de Servir daqui em diante para bem Gover- 
nar e adeministrar Justiça para honra e GLoria do mesmo Se- 
nhor e aumento da dita nova Villa e aCabada a função da Igreja 
mandou o dito ajudante de orden6 com o ouvidor Geral para o 
Lugar donde estava detriminado foce praça poblica e Se achava 
Ja feito o PeLourinho de hum páo de maçaranduba bastante 
Groço e delle feito hum peLourinho oitavado e Com os mais 
Sinaes qua o termo da ereção decLara Sahindo Logo da porta 
da Igreja junto com dito Ajudante de ordens e ouvidor Geral e 
o Capitam Francisco Aranha Barreto mandando marchar a tropa 
paga que a Ly Se achava Com os mais officiais e pessoas Des- 
tintas e Camera da Villa de Iguape e mais o director o Capitam 
António da Sylva Vianna e todo povo Com muitos JubiLos da 
descarga da mosquetaria e mais demonstraçoens de gosto repetindo 



— 288 — 

muitas vezes vivas o Sereníssimo Senhor Dom Josepli o primejro 
nosso monarco chegarão ao Lugar destinado e de como aSim 
Obrarão e detriminarão o dito thenente Coronel Ajudante de 
ordens Aíbnço Botelho de Sam Payo e Souza e ouvidor Geral 
o Sargente mor Ch ris to vão Pinhejro e Franca e fizerão fundar 
e erigir esta nova Villa de Nossa Senhora da Comceição da 
Marinha Sendo prezentes a este aucto o Capitam Francisco Ara- 
nha Barreto e Doutor Joachiin Joseph Frejre da Silva e o Li- 
cenciado Manoel Joseph Pereyra de Andrade e o Reverendo 
Vigário Frey Joseph de Poreficacão e Soares e o director 
Capitam António da Sylva Vianna Henrique Martins Jofto de 
OLivejra Martins e Joseph da Sylva Rocha que todos depois de 
Lido por mandado do dito thenente Coronel e o ouvidor Geral 
este aucto de Erição desta Villa e todo mais qne nella Se con- 
tem e deClaraSe aSignarão, de que de tudo para constar fiz este 
aucto de Levantamento da dita Villa Eu Joseph Joachim da 
Costa escrivão da ouvidoria Geral que o escrevy. 

Afonço Boi? de 8 Payo e Sza 

Christovão Pinheiro e França 

O Cap m Com te Fr co Ar % Barr 

O Vigário Fr Joze da Purificação Soares 

Joaquim Joze Fr* da S* 

O Director Ant° da S* Vianna 

Dtor jtf/? j oze p er * de And* 

Anriques Mz 
Joze da S* Rocha 
João de oLiíf a 

Documento n.° 166 

Saybão quantos este publico instrumento de Escritura, pu- 
blica, de compra e venda, de huas moradas de Casas de pedra 
e cal Cubertas de telhas citas na rua do canto da Senhora da 
Gloria, e de ^orenta e oyto oytavas e meya de oyro lavrado ja 
uzado, virem que sendo no anno do Nacimento do Nosso Senhor 
JESUS christo de mil e sete aentos e noventa, Aos catorze 
dias do mez de Dezembro do dito anno nesta villa de Nossa 
Senhora das Neves de Iguape Camarca de Pernagua em casas 
de moradas e Escritório, de mim Tabelião ao diante nomeado, 
e sendo ahy aparecerão presentes o Alferes José Gonçalves da 
Rocha e Sua Molher Dona Thomazia Leonarda Gaga da Ca- 
mera, vendedores e o Procurador interino da Irmandade do 
Senhor Bom JESUS, o Capitão Bento Pupo de Goveia epor 
parte da dita Irmandade comprador todos moradores desta villa 



- 289 — 

e todas pessoas reconhecidas de mim Tabelião pellas próprias 
aquy nomeadas, do que dou fé, E sendo ahy em presença das 
Testemunhas, ao diante nomeados e asignados, me foy dito pellos 
ditos vendedores dito Alferes José Gonçalves da Rocha e Sua 
Molher dita Dona Thoroazia Leonarda Gaga da Camera, que 
elles de seus livres e expontâneas vontades sem delo constran- 
gimento algum vendiao como com effeito vendido tenhfto de 
hoje para todo o Sempre, hua morada de casas de pedra e cal 
ja declaradas asima, e corenta e oyto oytavas e meya de oyro 
Iravrado ja usado, cujas casas de hua parte, pertem com casas 
de Anna França, e da outra com casas de Constantino Ribeiro 
cujas expecies assim casas com o referido oyro lavrado ás ven- 
diao Livres e desembargadas a pensão fora ouhypoteca alguma 
e do prezente dia para todo o Sempre as vendem como 
com effeito vendiào a Irmandade do Senhor Bom Jezns por 
preço e quantia e Sento Secenta e Sinco mil quatrosentos e co- 
renta Seis, a saber as referidas casas por sento e quatro mil 
reis presso em que ficerào com o abatimento da quinta parte 
na conformidade da Ley, pella avalluaç&o que Judisialmente se 
fez nas ditas casas, e Secenta hum mil e quatro Sen tos e corenta 
reis emporte das ditas corenta e oyro oytavas e meya de oyro 
lavrado cujas duas quantias fazem a mencionada de sento e 
sesenta e cinco mil e quatro sen tos e corenta reis cuja quantia 
elles vendedores estavao devendo a dita Irmandade do Senhor 
Bom Jezus de principal e juros, dynheyro que tinha tirado os 
ditos vendedores do cofre da dita Irmandade, E pella presente 
venda e satisfação da sobredita quantia que devem a dita Ir- 
mandade lhe da plena e Irrevogável Quitaçào e desde ja ceden- 
doéy toda a posse jus e dominio que tinhão nas ditas casa e 
expecies de oyro lavrado da sobridita quantia assima declarada e 
com toda a força e vigor trespassarão ao corpo da dita Ir- 
mandade do Senhor Bom JESUS; que he o comprador das 
ditas casas e referido oyro lavrado, cuja compra e venda a faziro 
pella Pessoa do Procurador da dita Irmandade o Capitão Bento 
Pupo de Goveia para que de hoje em diante e como suas 
Que ficào sendo, tanto as casas como o oyro possa a dita Irman- 
dade lograr posuhir ou dyspor como suas que ficfto sendo de hoje 
Era todo sempre sem que pessoa nenhua ou ordeiros d elles ven- 
dores possao em nenhum tempo reclamar nem po obstáculo 
algum o se obrigavãp por suas pessoas e beins a fazer esta 
venda firme e valioza desrevogavel e de nào reclamarem e que 
poderia a dita Irmandade toma posse dos ditos beins ou Judi- 
cial ou como bem lhe parecer e davão nesta Escritura de venda 
por expressas e delibradas todas e quais quer escusalos em 



- 290 - 



Dyreyto necessárias como se de todas ou de cada hnma fizesse rTuma 
clara e distincta menção e de como assim a disser&o e declara- 
vfto me pedirAo -lhe fizesse a presente escritura a qual eu como 
Pessoa publica aceitante e extipulante a Ceitey e extipulleye 
a quy tudo asentey e Escrivy e depois de fazer toda lhes Ly 
e elles dissesar&o estava a seu contento e assim aCeitar&o e 
aSignar&o tanto os vendedores como o Procurador da Irman- 
dade sendo a tudo por prezentes testemunhas o Capitão Joa- 
quim António Gomes e Tenente Manoel Pinheyro Ribeiro Thome 
de Souza villas boas, todos moradores desta villa e pessoas re- 
conhecidas de mim dito Tabelião pelos próprios aquy nomeados 
de que dou fê e pella vendedora senão saber asignar asignou 
a seu rogo Joaquim Gonçalvez da Rocha e Eu Joaouim Perey- 
ra da Costa Tabelião que o Escrevy — José Gonz da Rocha — 
assino arogo de nr* tia D. Thomazia Leonarda, Joaquim Giz 
da Rocha— Manoel Pinheiro Rib° — Bento Pupo de Goveya — 
Thome da S* v bs — Joaquim António Gomes. 

Documento n.° 166 

Sessà© do dia 15 de Abril 18412 

O Snr. Prezidente informou a Camará que tendo consultado 
ao Rev. Vigário acerca do lugar que deve ser designado para 
enterro dos mortos, não lhe é possível elle emittir a sua opinião 
por se achar perplexo sobre este objecto e por isso que a Ca- 
mará deliberem. Posta a matéria a discussão resolveo a Camará 
por unanimidade de votos que ficasse d'ora em diante designade 
provizoriamente para serem enterrados os Defuntos em teireno 
dentro da nova Matriz, por ser para este fim o lugar mais pró- 
prio pela insuficiência do Semiterio principiado ; e que isto so 
faça saber o R d0 Vigário em resposta ao seu Officio. communi- 
cando-se desta deliberação ao Procurador Geral da obra da d* 
Matriz, e que se ordene ao Fabriqueiro para concorrer com a 
despeza que foi exigida pelo mesmo Reverendo Vigário. 

Documento n.° 167 

Treslado do hua Petição do Reverendo Padre Frey 

João de São Domingos religioso do 

Sam Francisco, Vice ComiSario, Procurador E 
esmollcr dos Santos Lugares de Ilyerusalem : E 
hum despacho do Exmo. Senhor General da Cidade 
de Sam PauIIo: E húa Prouizão de S. Magestade 
<| Deos guarde Cujo theor de tudo li© o se- 
guinte = etc = 

Diz o P° Frey João de Sam Domingos Religiozo de Sam 



— 291 — 

Francisco, Vice Comisr e Procurador; Esmoller dos Santos Lu- 
gares de Hyerusalem nesta Capitania e Comarca de Sam Paullo, 
Eleito pello Seu Reverendíssimo Padre Geral; E pello Padre 
Comissário Geral de Purtugal Frey João das chagas q El Ray 
nosso senhor q D" guarde foy Seruido conceder a prouizao Jun. 
ta p* q cada hua das Cameras desse Sua Esmolla; E Como de- 
tremi ria que as Cameras q tiuerem coatro centos mil reis de 
Renda dem coatro centos reis de Esmolla; E como muitas tem 
de ronda duzentos mil reis e trezentos mil rs. V Ex* detremi- 
na mediante esta Esmolla: e como ordeno e mando se registre 
nos liuros das ditas Cameras=Portanto=Pede a Vossa Excellen- 
cia mande por Seu despacho que os Escrivons das Cameras des- 
ta Comai"ca as registem nos liuros dos aSentos e detremina a 
esmolla que se hade dar p a q a todo tempo consta; E Recebera 
mercê ; Os Escriuoens das Cameras das Villas desta Capitania 
re o*&t:era nos liuros delias a Prouvizào inclusa p* Se observar o 
^ S ^Bíagestade que D" guarde nella manda adeuertindo q a es- 
molla q ouuerem de dar aos Santos Lugares Se arbitrará Con- 
torna.^ a Renda delias; e a resuluçao do dito Senhor; Sam Paullo 
tez de Setr° de mil sete centos e vinte e três annos — Lugar 
d* Tí-ubnca — Copia da Prouizao de Sua Magestade q D" g 06 — 
y 0t *x João por Graça de Deos Rey de Purtugal, e dos Algarues, 
da estiem e dalém Mar em Africa Senhor de Guine etc. — Faço 
sab^:r aos q esta Prouizao Virem, que o Padre Frey Francisco 
de S*m thiago Pregador Jubilado Difinidor actual da Prouincia 
d° X > urtugal da Ordem de Sam Francisco e Comissário Geral 
d a "X*erra Santa neste Reyno, Seus estados e Comquistas me re- 
presentou por Sua petição, q Eu for Seruido conceder lhe Pro- 
Tiisíto por três annos para que as Cameras deste Reyno e Seus 
^ominios : e mais Ilhas adeGerentes dár cada huá delias huã 
^ttàclla para a Sustentação dos religiosos que uiuâo nos Santos 
V.^Sares de nossa redempçao em Jerusalém; E porq o tempo da 
tQ * Prouizao delle hia acabando me pedia lho fizesse mercê 
^f^idar passar outra por tempo de outros três annos, para q 
, . tri neste Reyno, Como nos Seus Dominios, e Ilhas da Ma- 
ei .??*» Porto Santo, e a Assores Se lhe continuasse a dita Es- 
a *Ia na forma q athe aquy se praticara ; E visto o que aLegou 
p* ProuizSo que aSentou. Hey por bem fazer mercê ao dito 
*«*re Frey Francisco de Sam tiago de lhe protragar mais três 
**os de tempo (alem do que Ja lhe concedy) que começarão d* 
Ur**, desta Prouizao em diante para que os ofiiciais das Came- 
&**^ cada huâ das Cidades das Villas e Lugares deste Reyno 
jk*^ti8 Dominios E Ilhas que tiverem quatro centos mil reis de 
n< l*4 lhe poSam dár athe quatro mil reis de Esmolla; e as que 



— 292 — 



tiuerem Cem mil reis lhe poSam dár athe quatro Centos reis; 
para ajuda do Sustento dos religiozos q aSistem na Caza Santa 
em Conseruação dos Locares Santos delia Com declaração que 
na dita Esmolla não entrará Á minha Terça; e o dito Padre 
Frey Francisco de Santiago Comisario Geral ou pesoa q o Seu 
poder tiuer q lhes apresentar esta Prouizao dará conhecimento 
em forma do que aSim receber a cada hua das ditas Cameras e 
ficará aSentado nos liuros delias para os Prouedores das Comar- 
cas lhe leuarem em Conta; o que aSim hey por bem, ficando 
esta Prouizao trasladada nos ditos liuros para não porem a isso 
duuida. Pello que Mando aos officiais das ditas Cameras, e a 
todos os Corregedores, Prouedores, Juizes e mais Justiças a que 
o conhecimento disto pertencer Cumpr&o e goardem esta Proui- 
zao Como nella Se Conthem que Valerá posto que Seu effeito 
haia de dár os mais de hnm anno Sem Embargo da Ordenação 
L° Segundo verço quarenta em Contrario. — El Rey nosso senhor 
o mandou pellos Dezembargadores António de Beja de Noronha. 
e Luiz Guedes Carneiro ; Ambos do Seu Conselho e Seus De- 
sembargadores do Paço. — Joseph de Maya e Faria a fis em Lis- 
boa a três de Dezembro de mil e Setecentos e dezaseis annos. 
— Manoel de Castro Guimarães a fez Escreuer. — António ds Beja 
de Noronha. — E. Luiz Quedes Carneiro. — Por Despacho do De- 
sembargo do Paço de quatro de Novembro de mil e Setecentos 
e dezaseis em obseruancia da Ley de vinte e quatro de Julho 
de mil Setecentos e treze ; o que tudo isto aSim e tam cumpri- 
damente Se contenha hera aSim Conthendo esCrito e declarado 
na dita Petição, Desp° e Prouizao atras esCripta ; o qual tres- 
lade de hua e outra Couza Eu Christouao Fernandes, Eescreu&o 
da Camera desta Villa de Igoape aquy tresladei bem e fielmeme 
de hú original qne me entregou o Rev*° P* Frey João de S. 
Domingos o qual me reporto o qual tornei a entregar ao d to P* 
e de Como o Recebeu asignou aquy Comigo ; e uay na uerdade 
Sem Couza q faça duuida q o Ly, comfery, e Comsertey, com 
o próprio nesta dita Villa em os vinte e Sete dias do mes de 
Jan° de mil Setecentos e vinte e coatro annos; Eu Sobredito 
Christouam Fernandes Escriuão da Camera que o EsCrevy e 
aaignei. 

Consertado por por mim Escriuão 

com o próprio Fernandes. Frey João de S. Dom * Leite- 

Vice Comis da terra S.*** 



— 293 — 
Documento n.° 168 

"Treslado de outra Petição do mesmo Reverenda 
Padre Fr. Joam de Sam Domingos; e hum Instru- 
mento ; e duas prouizones e hua Petição nellas 
induza pasado a instancia do Reverendo Padre 
i Frey Francisco de ConCeipÇao, Vice Comisario 

f Procurador da Casa Santa de Hyerusalem na 

Cidade de Bahia Cujo theor de huas e outras 
Couzas Sfto o Seguinte. 

Diz o Padre Frey Joam de Sam Domingos Religiozo de Sam 
Francisco ; Vice Comisr Procurador, E esmoller doa Santos Lu- 
gares de Jerusalém nesta Capitania e Comarca de Sam Paullo, 
Que El Rey nosso senhor q Deos guarde foy seruido Conceder 
freuilegios e Exzencoens aos Síndicos dos Conventos de S. 
Francisco da Ilha da Madeira e da Prouincia de Santo António 
do Brazil; os quais Priuilegios, e exzencoens concedeo o Senhor 
Viz R Ç y jo Estado do Brazil aos Síndicos dos Santos Lugares 
de hyi-nsalem ; E pêra que en toda esta Comarca Conste que os 
Syndicos São Exzentos e gozam dos Priuilegios — Portanto — pede 
a Vossa Excelência mande por Seu Despacho a todos os EsCri- 
^ 8 das Cameras desta Comarca registem nos Liuros das 
^tas Cameras os treslados dos ditos Priuilegios que com esta 
a prezenta o dito Padre Vice Comissário pêra q Conste a todos 
® fique remunerado o trabalho que tem os ditos Síndicos dos 
juntos Lugarer=E Receberá mercé=Os EsCriuaes das Cameras 
^ Villas desta Capitania registem nos L°* das ditas Cameras 
?*. treslados dos Preuilegios que lho pprezentar o R d0 Padre 
Vice Comissário da terra Santa Frey Joam de Sam Domingos: 
"&m Paulo três de Setembro de mil e Setecentos e vinte e três 
ÍJ^os^: Juntamente pasado a Instancio do Reuerendo Padre Frey 
fanei sco da Conçeipçao Vice Comisr e procurador Geral da 
&za Santa de Jerusalém Com o theor de duas Prouizoens e 
Ua Petição nellas inclusa=Saibam quantos este publico Instru- 
i hJi- 1 * à&do e P* 8 *^ em publica forma no orneio de mim Ta- 

ci^ 111 Com o theor de húa Petiçào e duas Prouizoens nella in- 
* ^^as, Virem que sendo no Anno do nassimento de nosso Senhor 
^tis Christo de mil e Setecentos e vinte e dous annos aos 
j a Ve dias do mez de Abril do dito anno nesta Cidade de Salua- 
* da Bahia dito dos os Santos nas pouzadas de mim Tabaliam 
P**^ceo prezente o Reverendo Padre Frey Francisco da Concei- 



£rp° Vice Comisr e procurador Geral da Caza Santa de Hyeru- 
***feu& hora aSistente nesta Cidade e pessoa de mim Tabaliam 



pessoa 



— 294 — 

Reconhecida pello próprio do que aquy neste instrumento faço 
menção : E por elle me foi pedido e Requerido, que lhe desse e 
pasasse em publica forma o tbeor de hua Petição e duas Proui- 
zoens: ao que satisfiz fazendo as aquy Lançar por estarem Lim- 
pas e sem vicios nem entrelinhas ou couza que duuida faça na 
forma nellas declaradas lhe dei e passei Cujo theor de tudo delle 
de Verbo adverbum he o seguinte=rSenhor=Diz Frey Francisco 
da Conceipção Vice Comissário e procurador Geral da Caza Santa 
a Jerusalém neste Estado que Sua Magestade que Deos g de foy 
Seruido Conceder bua Prouizão para que os Síndicos dos Con- 
uentos de Seu Padre Sam Francisco deste Estado do Brazil fosem 
Exzentos de aLardos, fintas, e outras Exzençoems e preuilegios 
que na dita Prouizão relata: e para bem de Seu Requerimento 
he necessário ao Suplicante o treslado da tal Prouizão que nesta 
Secretaria deste Estado Se acha registrada=Portanto=Pede a 
uossa excelência Seja Servido mandar Se passe a dita Certidão 
em modo que faça fée : E Recebera Mercê=Passe do que Cons- 
tar não hauendo enconuenientes Bahia e Janeiro vinte e seis de 
mil o Setecentos e vinte dous annos=Rubrica da emcelentissimo 
Senhor Vize Rey=Copia da Prouizão=Dom Joam por Graça 
de Deos Rey de Portugal e dos Algarues da quem e da lem 
Mar em África: Senhor de Guine: e da Conquista nauegnção, 
Comercio da Ithiopia; Arábia: Pérsia E da índia etc. Faço 
Saber aos que esta minha Carta virem q tendo respeito a me 
reprezentar o Prouincial da Prouincia de Santo António do Bra- 
zil que naquellas partes padecem os Seus Conuentos muytas fal- 
tas por recuzarem muytos o orneio de Sindico dos tais Con Ven- 
tos por não terem Preuilegio nem Inzenção algua Com que fique 
remunerado o Seu Trabalho, despendio de Suas fazendas: moti- 
uos q obrigara aos Reis meus prodessessores concederem alguas 
Jzençones aos Síndicos da Ilha da Madeira e Barbeiros dos Co- 
nuentos Como Constaua dos documentos, que aprezentou : Pedin- 
dome lhe concedesse por Esmola aos Síndicos e Cirurgioens dos 
Conuentos d'aquella Prouincia os mesmos preuilegios Ja conce- 
didos aos da Ilha da Madeira: E tendo a tudo Conçideração, e 
e por fazer Esmola aos Conu tn * da dita prouincia de Santo An- 
tónio do Brazil : Hey por bem de Conceder aos Síndicos e Ci- 
rurgioens dos ditos Conuentos os preuilegios de serem Izentos 
e esCuzos do pagar nenhumas fintas Reais pedidas, seruiços, nem 
empréstimos que estejão ou forem Lançados no dito Estado, nem 
Sejão obrigados aCompanhar prezos, nem dinheiros nem o Serem 
tutores, nem Curadores de nenhumas pessoas Saluo Se as tais 
tutorias forem ledimas. nem posão Ser constrangidos a Seruirem 
ofícios, nem Cargos de Conselhos Contra Sua Vontade, nem sejão 



— 295 — 

postos por hosteiros de conto Se athe agora o não forão: e da 
mesma maneira bey por bem e me praz q não paguem Jagados 
nem ou tau os de pão e Vinho nem outras Couzas de que Se 
Custuma pagar, nem ponzem com elles em Suas Cazas de mo- 
p * adega nem gaualaria, nem lhe tomem Seu pão, vinho, 
ttotip^ lenha, Galinhas, e Suas Bestas de Sella nem de albardo 
ne *n outra algua couza do Seu contra Sua Vontade nem vão 
a Servir a nenhumas Guerras por Mar nem por Terra nem 
outras nenhumas partes que sejão para donde possão Ser cha- 
? a< *os, nem sejão acontiados em Cauallos e Armas nem em Bestas 
^linhas, nem em outras nenhumas quantias posto que tenhão 
. a ^ e ^da pêra atirem, nem apare*são em aLardos, porque de 
<ío o que dito he:eem especial os hey por reuellados e ex- 
p^^os e Liures Como São os Síndicos e Barbeiros de Sam 
ac T**" T * e<> da obseruancia q está na Hha da Madeira ; Pello q mando 
e ^^ **aeus Gouernadores e Capitains Mores das Capitanias delles 
ç^^J^^-is ministros a que tocar, cumprão e guardem esta minha 
0Cfc^ *\ de privilégios e enzençoins, e a facão Cumprir e guardar 
I ç5^/^*íamente Como nella Se contem Sem duuida nem contradi- 

>T^ ^lgua, q por firmeza de tudo lhe mandey passar esta por 
^a^s Vias por mim asignados e Sellados Com o meu Sello de 
çNfrTimbo pendente: E por Ser por Esmolla Se não pagará nouos 
direitos Como Consta por Certidão dos officiais delles : Dada na 
\ Cidade de Lisboa aos quatro dias do mez de Outubro Dionisio 

Cardoso Pereira a fis Ânno do nassimento do nosso Senho Jezus 
Christo de mil sete centos e noue o Secretario André de Laura 
a fez esCreuer — El Rey — P, Miguel Cwlos — Carta de preuilegios 
I exzençoins concedidos aos Síndicos e Cirurgeons dos Conuentos 

/ da Prouincia de Santo António do Brazil, e como nella Se de- 

clara q vay por duas Vias — Pêra Vossa Magestade ver — Por 
' despacho do Conselho Ultramarino de vinte e três de Setr° de 

mil Setecentos e noue — Gratiz — Manoel Lopes de o Livr° chan- 
celer mor Pagou nada por Ser por Esmolla e ao chanceler e 
aos officiais da chancelaria nada por quintos em Seus direitos ; e 
deacordão Pagou cem reis Lisboa vinte e dous de Outubro de 
m tt e Setecentos e noue — Ignocencio Corrêa de Moura— registado 
f no L° de Padrois de aSentos a folhas Sincoenta e oito — Lisboa 

vinte e três de outubro de mil e Setecentos e noue — Grátis — 
Joseph Corrêa de Moura — Registado a folhas corenta e noue 
verso em o Liuro doze e efficios da Secretaria do Conselho Ul- 
tramarino Lisboa vinte e coatro de outubro de mil e Setecentos 
e noue — André Lopes de Louroca — Cumprasse Como vossa Ma- 
gestade que Deos guarde mando e registesse nos Liuros da Se- 
cretaria do Estado e nos mais a que tocar. Bahia e Julho vinte 



— 296 — 



e dous de mil e Setecentos e dez — Dom Lourenço de Almada—* 
Gonçallo Rauesco Caualcante e Albuquerque P — Prouizào — Vasco 
Fernandes Cezar de Menezes do Concelho de Sua Magestade q 
Deos Guarde ; Alferes môr do Reyno : Alcaide mor da Villa de 
Alemquer comendador da ordem de Ghristo das comendas de 
Sam redro de Thomar e Sam Joam do Rio frio, Vice Rey e 
Capitão General de mar e terra do Estado do Brazil etc — 
Faço Saber aos que esta Prouizào uirem que tendo respeito ao 
Padre Frey Francisco da Conceipção Religiozo da Regular ob- 
seruancia do Saranco Padre Som Francisco Vice Commissario 
Geral da terra Santa de hyerusalem neste Estado me reprezen- 
tar que Sua Magestade q Deos guarde fora Seruido Conceder 
aos Síndicos dos Conuentos de Sam Francisco deste Estado os 
priuilegios e Izencoins de que fazia menção a prouizào do dito 
senhor aprezentada e que a Santa Caza de hyerusalem expre— 
mentaua muytas deininuição nas Esmollas por recuzarem muytos 
o officio de Sindicos da dita Santa Caza por não tere preuilegios 
e Izencoins alguas com q ficasse remunerado o Seu exçeçiuo 
trabalho e dispêndio de Suas fazendas, Pedindo me pelo Amor 
de Deos q at tendendo o Referido me dignasse em vertude da 
Prouizào de Sua Magestade q Deos guarde Conceder aos Sín- 
dicos da Caza Santa de hyerusalem os mesmos preuilegios e 
Izencoins q o dito Senhor Concedeo aos Sindicos da Prouincia 
de Santo António deste Estado do Brazil visto terem os reli- 
giozos os q aSistem na guarda dos lugares Santos da mesma 
religião ; e a grande utilidade q Se Seguia aos ditos Lugares : 
E para a Sua Conseruaçào, toda a Christandade estaua obrigada 
aCudir ; E tendo Eu Consideração do Justo e Louuauel Reque- 
rim to do Sup te e do que Sobre elle informou o Dezembargador 
procurador da Corte: Hey por bem de Conceder Como pella pre- 
zente Concedo aos Sindicos da terra Santa os mesmos preuilegios q 
tem os de Sam Francisco neste Estado, em quanto Vossa Magesta- 
de não mandar o contrario ; aduertendo q haverá hum sò Sindico 
em Cada freguezia p* cujo effeito fará o Prouim to o Commissario 
Geral, ou quem tiuer Seus poderos : Pelo que mando aos Gouerna- 
dores, Capitais Mores desta Capitania anexas ao Gouerno Geral 
deste Estado, e aos Ministros a que o Conhecim" desta pertencer 
a Cumprão, e facão enteiramente Cumprir e guardar Como nella 
Se Conthem Sem duuida nem Contradição algúa : Para firmeza do 
que mandei passar esta Sob meu Signal e Sello de minhas Armas*, a 
qual Se registará nos livros da Secretaria deste Estado e nos 
mais a que tocar: Santos de Souza a fez nesta cidade do Sal- 
uador da Bahia de todos os Santos em doze dias de Feuereiro 
anno de mil Setecentos e vinte dous — Vasco Fernandes Cezar — 



— 297 - 

lugar do Sello — Prouizão por q' vossa Excelência teue por 
bem conceder aos Síndicos da Terra Santa de Hyerusalem os 
meamos priuilegios q* tem os Conuentos de Sam Francisco deste 
Estado, emquanto vossa Magestade que deos guarde nam man- 
dar o Contrario: Com declaração q' hauerá hum só Sindico em 
Cwa freguezia pellos respeitos aSim declarados — Para Vossa 
^6T©8tade ver Registo — Registada no L.° quarto dos registos da 
fretaria do Estado do Brazil a que toca as folhas Cento e 
atenta © húa verso — Bahia e Feuereiro Catorze de mil e Sete- 
centos e Vinte e dous— Rauasco — o qual Instrumento Eu So- 
bredito Tabaliam o fiz tresladar Bem e uerdadeiramente dos 
próprios a que me Reporto, e os tornei a entregar a quem mos 
a P r fcfcentou: e de como os Recebeo aquy Se aSignou: e Com 
p es » e Com hum oficial Comigo abaixo aSignado, este Confery, 
^^Sertei, SobEsCreuy e aSignei em publico razo seguintes — E 
eu Miguel Corrêa de Sa Tabaliam o Sob-eaCrevy — Em teste- 
? Ul c? la da verdade — Lugar do Signal Publico — Miguel Corrêa 
Sa — Consertado por mim Tabaliao Miguel Corrêa de Sa — e 
(v^Ço Tabaliao Manoel Afonso da Costa Frey Francisco da 
do*r\ e *Pçã° — Justificaçam — O Doutor Luiz de Sequeira da Gama 
laçj^fezerobargo de Sua Magestade Seu Dezembargador da Re- 
Cq?° deste Estado do Brazil e nelle Ouuidor Geral de Ciuil 
^ alçado e Juis das Justificaçoens virem q' a mim me cons- 
WU por feé do Escriuao do meu Cargo q' este fis em Como a 
Xietra do Sob EsCriuão do Instrumento retro próximo — Signal 
publico e dos razos ao pé delle he do Tabelião Affonso da Costa 
o que tudo hey por Justificado Bahia dezaSeis de Abril de mil 
e Setecentos e Vinte e dous annos: Eu Manoel Teixeira de 
Mendonça o esCreuy — Luiz de Sequeira da Gama — E não se 
continha mais na dita Petição, despacho, Prouizão, Justificação 
de Letras e Signais : Eu caétano Soares Vianna Escriuao da 
Camará desta Cidade de Sam Paullo trasladei Bem e fielmente 
de hum Instromento onde estaua Lançado ao qual me reporto: 
e Ly, Corry, Confery, e conSertey e me aSignei: Sam Paullo 
des de Julho de mil e Setecentos e vinte e dous annos — Cae- 
tano Soares Vianna— o que tudo asim e tam cumpridamente hera 
aSim esCrito contheudo e declarado no dito treslado de Instru- 
mento, Petiçoens, despachos, e provizoens atras esCritas : o qual 
Eu Christouão Fernandes EsCrivão da Camera desta Villa de 
Igoape aquy tresladei Bem e fielmente dos próprios tresLados q 
me aprezentou o R. do P.° Frey Joam de Sam Domingos aos quais 
me reporto, que os Ly, Corry e Confery esCreuy e me asignei, 
• os tornei a entregar ao dito P.* Frey Joan de Sam Domingos 
6 ae como os recebeo aquy Se aSignou comigo esCriuão que o 



- 298 — 

Escreuy e aSignei &. Consertado por mim esCrivfto Fernandes 
— Christovão Fernandes — Frey João de S D°* Leite, Vice Comis° 
da terra Santa. 



Documento n. 169 



Anl° Jozo do Abreu Viz° r desta Frec| a e outras 

mais deste Bispado de S. Paulo pefo R mo Snr 

D or M el Joze Vaz do S to Ofí° Conecjo 

da Cónego Penetenciario de Se Cathcdrnl 

e Viç)° Cap r do d° Bispado Sede Vaeante &. 

Faço saber q aos 26 de Julho de mil e Sette Centos e 
Sessenta e oitto annos Visitey pessoalm 10 esta Igr* Matriz de N* 
Senr* das Neves da Villa de Iguape na prés* do Seo Rev do 
Farocho Ant° Ribr°, Irmand es , Parochianos, e mais povo, q se 
achava junto ; fiz processão dos Defuntos, Visitey o Sacrário, 
pia baptismal, S l °* Óleos, altares, Imagens, param 10 *, e tudo mais 
pertencente a mesma Visitação; e provendo no espiritual e tem- 
poral me pareceo acertada p* o Serv° de D°, Culto Divino e 
bem das almas prover o Seg\ Louva-se m° ao R d0 Parocho o 
Zelo e ded° Com q administra os sacram 108 aos enfermos, e o 
desvelo Com que Ôuyda em dirigir as almas de Seos freguezes 
pelo Cam° da Salvação, e recomendo-lhe q assim persevere athe 
o fim, não só p* evitar as temporeas penas, Com q Sam puni- 
dos os negligentes, mas igoalm tu para evitar as eternas, e Se 
fazer digno dos prémios Com q D° hade remunerar as Suas mo- 
mentâneas fadigas. Observará inviolavelm 10 as pastoraes e or- 
dens dos Exm' ,a Snr c " Bispos e Revm°* Prelados q se achão re- 
gistrados em hum dos Livros desta Freg* e da mesma Sorte 
observara os Capítulos das Visitas passadas q todas innovo pelas 
delia* São providas q nellas Be achão q não transcreve por evi- 
tar hua fastidiosa re pi tição, e Com especialm 10 Cuydara em en- 
sinar a doutrina Christaa, fazer oração mental e o S to e 

nas praticas q fizer exhortara os Seos freguezes a q sejão de- 
votos de N a Senr* rezando lhe todos os dias o Seo rosário o a 
ao menos »pp a p te delle. Conformando me Com a bulia do S m ° 
P c Benedicto XIV de fel 1 record datada a 7 de Fev Q de 1742 
q principia — E si trinime — determino, q o R d0 Parocho ao me- 
nos húa vez Cada mez faça os três actos da Fé, Esper* e Ca— 
rid e explícitos em voz alta, inteliigivel e pausada, p* q o poro 
vaes repetendo as mesmas palavras, porq sendo todos os Catho- 



I 



— 299 — 

licos obrigados a fazer estes actos Como uniforrc" afirmam os 
Theologos (ainda q variam no tempo) mostra a exper* q m tOB 
nunca. 08 fazem pela Sua ignor* o q deve supprir o R do Paracho 
aeudixido a todos Com a parte espiritual Como he obrigado. 
He péssimo o detestável o uzos dos batuques, e danças desho- 
nesttis <le homens com mulheres, fomento pernicioso de Luxuria. 
Recomendo ao R do Parocho que procure extirpar este abuzo dos 
Limites de Sua Parocha, e Constando q em algúa parte Se 
lazem, Comdemnará ao dono da Caza em três mil reis e a cada 
uum dos assistentes em Seis Centos e quarenta reis q ap plica 
pa a fabrica desta Igr* e alem disso lhes advertirá q incorrem 
° a Excomunhão mayor ipso facto imposta em húa das pastoraes 
do E:>t*» u Snr B # Defunto D. F. Ant° de Guadalupe. Está to- 
talm** 5 indecente pelo Seo antigo feytio e desmancho a Custodia 
em <j nesta Igr* Se expõem o S mo Sacram 10 " e Sahi nas Pro- 
cissoeus, q Se fazem nas Solemnid", Como eu mesmo vi e ex- 
peairrientey n &° sem magoa m.* Determino q o R do Parocho em 
k ****** Custodia não exponho mais o Sacr° Sob pena de Se lhe 
° ax * e»n Culpa grave nas Visitas futuras, e exhorto q Com a 
rev id.° possivel Se mande fazer hum relicário de feytio moder- 
?°* Sobredoírado p* o q bem Chega a prata da prés" Custodia. 
^ a I^om° ou dia S to antecedente ao dia em q houve de Sahir 
í^^p^ssão a rua admoestara o R d0 Parocho aos Seos Freguezes 
9 ^^ limpam e Carpam as ruas por onde liam de passar e Cons- 
tando lhe q não estam limpas e Com o necessr asseyon&o Saya 
V 0rri a Procissão ainda q p* isso lhe mostrem L ca do R do Vigr° 
a Vara da Com* p* q assim Sinão dizes time e falta com a Ve- 
£ e *-*K-3o divida ao S m ° Sacram to e do Verdadr Corpo e Sangue 
p ô J^sus Chr°. Consta me q na praya de Jurea estão huns 
p 0x "p»os Sepultados ; e o R d0 Parocho Se informara deste Caso e 
°xx&tando-lhe Ser Certo íará Com q Sejão os ossos trasladados 
P***^. ing ar Sagrado a Custa dos parentes, herd°" ou administaa- 
*°*"^h, desses Defuntos ou por Caridade dos Vizinhos. E desta 
j^****^ hey por findos estes Cap°" q mesmo se cumpram e guar- 
. *** Como nelles Se Contem debaycho das penas nelles impôs - 
^j^ « de 20 Cruzados Se dar em Culpa a desobed* ao R do Pa- 
2 J^o na Visita futura. E p* q cheguem a not la de todos o 
a R do Parocho os Lera ao povo em três Dom " ou dias S*° 

jy ^^tação da Missa Conventual d q passara Certidão ao pe delles. 
d«^ ** 8 nesta Freguezia e V* de Iguapo aos 10 dias de Agosto 
^768. Ant* José de Abreu. 



- 300 - 



Documento n.° 170 

Carta de Privilegio pqS Ex a R m * manda privilegiar 
o Aliar do Senhor Bom JEZUS sito na Igreja 
Matriz de Senhora das Neves nesta Villa. 

Dom F r Manoel da Ressureicão da Sagrada Ordem dos 
Menores Observantes p r Mizericordia de Deos, e Graça da Santa 
Se Apostólica, Bispo de São Paulo, e do Conselho de S. Ma- 
gestade FideP'. 

Ao R d0 Parocbo, Clero, e Povo da Villa de Iguape, deste 
Bispado Sande e benção em o Senhor Fazemos saber q atten- 
dendo Nos ao que por sua petição nos reqresentou o Thez° e 
mais Irmãos do Senhor Bom JEZUS de Iguape, e uzando 
da faculdade permittida pelo SS Padre Clemente 14 de 
feliz recordação, pelo Breve Apostólico, que nos foi dirigido da- 
tado em 18 de Junho de 1771, o qual principia — Dilecti filii — 
Dezignamos e declaramos previlegiado e Altar do Snr Bom JEZUS 
da Igreja Matriz da sobre dita Villa, para que todo o Sacerdote 
secular ou Regular que nelle Celebrar Missa de defuntos pela 
alma de qualq e Fieis de Christo q falleceo em graça lhe adquira 
huã indulgência plena do Thezoiro da Igreja por modo de Su- 
frágio, e seja elle livre das penas do Purgatório pelo mereci- 
mento do Nosso Senhor JEZUS Christo, da Beatissima Virgem 
Maria, e de todos os Santos, e declaramos q conforme os clau- 
sulas do Referido Breve fica revogada a graça concedidas ad 
tempo ad in perpetuum ; pela qual haja na dita Igreja outro 
Altar priveligiado, ficando-se Subsistindo o prez te q concedemos 
em virtude delle por tempo de quinze annos, findo os quaes não 
terá vigor algum. Mandamos ao R d0 Par° q leia esta a Estacão 
da Missa Paiochial, estando o povo junto, que depois de Co- 
piada no livro das Pastoraes e Ordens a mandara fixar no lugar 
Costumado e do lado do dito Altar, faça por huã tabeliã na qual 
se declara ser elle priveligiado. Dada nesta Cidade de S. Paulo 
Sob Nosso Signal e sello das Nossas Armas, aos 29 de Janeiro 
de 1782. Fr Manoel Bispo de S. Paulo. 



Documento n.° 171 

Vista em Vizita — A demora com que os M R'd'08 SVrs 
Vigários dão conta, e remetem os seus Roes a co reger, e regis- 
trar nesta Comarca Eccleziastica, hums em Setembro, e Outubro 
e outros em Novembro, hé hum decorozo, e decizo testamunho, 



- 301 — 

da grande bondade, e generoza beneficiencia do Reno SVr Vi- 
gário da Vara actual; e nesta Vizita, quazi em principio de 
Setembro, indo n&o vi p° obrigação deste anno, hum só Rol, 
registrado neste Livro. Rogo Comtudo ao R'mo S'n'r Vigário da 
Vara, Lembre aos M R'd'os SVrs Vigários da sua Comarca, n&o 
devem ser piodozos do q a Igreja. Esta benigna e terna May 
estendendo tbe o ultimo ponto, os braços da sua piedade, fixa 
as dezobrigas de seus filhos, the o dia d'Espirito Santo, e the 
esse mesmo dia, devem concluir o M. R'dos SVrs Parochos as 
suas dezobrigas ; declarando logo no Rol dos Rebeldes, na Estação 
Conventual, os que the aquelle termo, n&o tiverem comparecido. 
He fútil, e nugatoria, a desculpa que d&o os freguezes a suas 
Parochos, de doentes e impossibilitados. Os doentes, mais de 
preça devem procurar a Igreja, e qual será o Parocho, q sabendo 
o seu freguez está de todo impossibilitado de Comparecer, n&o 
derame rios de bondade para socorer a Ovelha que dezeja saber 
fazer os preceitos d'Igreja. Declarados, «naturalmente se envergo- 
nharão de estarem no Rol dos Rebeldes ; e logo procurarão em- 
mendar-se: d 'outra sorte, lhes fazem a Quaresma por seus maons' 
desobrigfto-se quando querem, fiados na bondade culpável de seos 
Parochos; nem estes devem privar as Chancellarias do Ex'mo 
SVr Bispo, e mais Ministros, no Mandado d,absolviç&o, contra 
J 8 rebeldes que se n&o desobrigarão, quando, manda a Santa 
%reja. 

Igualmente Lembro, que o M R S c n'r Vigário da Vara, re- 
comende aos MM RR Senhores Vigário da sua Comarca, a for- 
malidade dos Seos Réos de desobriga: e bem que a nossa Con- 
stituição no Tit 37 n&o descreve todas as circunstancias, que 
com o andar do tempo occorrer&o porisso mesmo for&o estabele- 
cidas, e recomendados nos Rôes ae Desobrigas, q os M R'dos 
SVrs Vigários da Vara com Párocos, remeti&o ao Juiz Superior 
A formalidade estabelecida hé oS eguinte : 

F — Vigário Collado, ou Vigário Coadjutor de tal 

Certifico que este he o Rol do desobriga, dos preceitos, da Con- 
fiç&o e Comunh&o desta Parochia, neste presente anno de tal.... 

cujo numero comprehende tantos fogos ; e mil ou três mil e 

tantas almas : Dessas se confessarão, e comungarão. . .. tantas que 
v&o notadas em duas — CC — dentro da primeira Linha. — os que 

só se confessar&o são tantas que v&o notadas com hum — C — 

dentro da nota da segunda Linha, os incursos s&o....tantos, os 

Buçae8....tantos, os Chrismados tantos, q v&o notados com — 

Chris dentro da terceira Linha. Os n&o chrismados s&o tantos, 

que n&o tem nota algua, e todo este numero somão em tantas 
mil pessoas que se confessar&o e comungar&o N&o admeti F aos 



- 302 - 



preceitos da Igreja; por esta ou aquella Couza; n&o admeti P 

por isto ou quilo Em fim, o mais hira 

concluindo, e dando os motivos, já dos Dementes que são . . . 
tantos dos que por já serem rudes e de todo ignorantes 
que sao. . . tantos os deixo por asperados, etc. — etc. Não parece 
perluxidade, ou Severidade Catonianna este modo, e formalidade 
que requer o Juiz Superior. Somos Súbditos, devemos obdecer, 
a quem tem direito de mandar. Alem deste ba poucos annos 
aconteceu que romettendo trez Capitains Mores de bua Camará 
Eccleziatica o Rol da população a Capitania do Governo, e porq e 
não Confirio, antes uotavelmente differio, e muito se diferençou 
do Rol dos M R' dos S'n'ro Vigários da dita Comarca, vejo ocul- 
amente, e com toda pressa, bua ordem do Juiz Superior, para 
o M R Vigário da Vara da referida Comarca, pelos Ro'es regis- 
trados no Livro do Seu Auditório informar o numero dos adul- 
tos, o números dos Menores, o numero dos pretos Buçaes q não 
comungarão. Assim se executou com toda brevidade pelos Ro'es 
daquella Comarca. Se vier búa igual ordem a esta Comarca, que 
trabalho não terá o R'mo Vigário da Vara actual para executai- 
la? Dos Ro'es registrados, não Consta : porque, em buns vem os 
menores e buçaes, nos que não Comungarão : e em outros, e qua- 
si todos, não distinguem o seu numero. O recurso, be dirigir-se 
aos M R' dos Parocbos: porem nem este sabem o numero, sem 
ter novo trabalho de contarem: e nestas delongas, só o M. R. 
SVr Vigários da Vara, be que fica compremettido. Ultimamen- 
te: não se pensa, que bum Vigário da Vara, be búa dignidade 
estiril. He sim, bum Ministro, que tem bua autoridade delega- 
da dos E'mos Ordinários :e que por esta autoridade delegada, na 
sua Comarca, pode mais, ou menos, a diversão, que os E'mos Prel- 
lados no Seu Bispado. São portanto, Juizes, Directores e Vigil- 
lantes, pay de familias. Como Juizes no seo foro, despachão, de- 
vassão, Sentenção. Como Directores lhe está enbarregado a sau- 
dável diversão dos Costumes, nos povos, a inspecsão dos Eccle— 
ziasticos, na gravidade e modéstia dos seus honestos vestidos, e 
descencia nos hábitos talheres, e para todas as funcsoes õVIgreja 
e do Altar. He finalmente Vigillante pay de familias, para nada 
ignorar no qne se passa na sua Comarca : e para dar as mais justas 
e Santas providencias. Iguape em Vizita*aos 25 de Agosto de 
1816. O Vigos Ordinr . João Júlio da R m Leal. 



r 






— 303 - 



Documento n.° 172 



da Cir- 
transcripta 



Copio da informação «(ue dei cm cumprimento 
eular do 22 do Novembro de 1820, ira 
«* f 93 V*° e Scg tc . 

Em cumprimento ao que me foi ordenado pelo Ex™° R mo Sn r 
Bispo Eleito Vigário Capitular do Bispado na Circular de 22 de 
Novembro do anno findo de 1826 dirigida aos Parochos do mes- 
m0 P* que estes hajão de dar hua informação, com toda a clare- 
ai © legalidade, da Côngrua, que percebem as Conhecenças, ob- 
laçeris, offertas, ou qualquer Benesse proveniente de seu Benefi- 
C1 ° ; declarando outro sim o titulo, Lei, uzo ou costume, que os 
authoriza, e qual a sua origem, e motivo, porque os percebem, 
passo a dar a Informação seguinte que remetto a Camará Capi- 
lar da Cidade de São Paulo. 

O Parocho desta Freguezia da Villa de Iguape, em razão do 

* ei * Beneficio, percebe da Fazenda Imperial e Nacional da Cida- 

OQ ^ e ^ ao P au ^°> a Côngrua de 200$000 por anno, e assim mais 

^^920 rs chamados — Guizamentos — para cera, vinho, e hóstias 

P^ra a celebração das Missas da Freguezia Não recebe Conhe- 

cer *Çus, e somente 20 rs por cada pessoa de Dezobriga, tanto mai- 

*? res > como menores, cuja maior parte pagão na occasião de se 

° e sqxijtarem no Rol competente da Dezobriga, menos os residen- 

® **a Villa, que dão suas offertas chamadas — Alleluias. O Ti- 

*°» pelo qnal percebe este Benesse, he o Tombo da Freguezia, 

® e ^t^ costume parece trazer sua origem da creaçào da mesma; e 

SfC 11 * S ue entao (como se vc do dito Livro do Tombo) so pagava 

' r ^ P e l° 8 menores e 80 rs pelos maiores, todavia o costume de 

Po» que achei, ha pagar se os Robreditos 20 rs. 

Não acho Lei que tenha regulado os emolumentos desta Pa- 
>j0^ia, a excepção de alguas determinaçoens do Ex" 1 * e R ms Bis- 
po do Rio de Janeiro, quando esta Freguezia pertencia aquelle 
Bispado. O uzo e costume do tempo immemorial (como consta 
do mencionado Livro do Tombo e Regimentos) que parece re- 
montar a creaçào da Freguezia, he o Seguinte: 

Tem o Parocho de cada Missa cantada alem da cera da banqueta 
1.920 e sendo com o Sanctissimo Sacramento exposto 2.560 
rs., de processão 640 rs , de Matinas, ou de Officio de Defun- 
ctos 1.280 rs., de Vésperas 640 rs., de cada Novena 320 rs., 
sendo com o Santíssimo Sacramento exposto 640 rs., Nos Ba- 
ptizados tem hua Vella, e as offertas dos Padrinhos adlibitum. 
Nos Cazamentos tem as mesmas Offertas, que dão os Contra- 
entes e Testamunhas, de Banhos ou Proclamas 480 rs., da 



— 304 — 

Certidão destes 160 rs. e de toda qualquer Certidão com o 
theor do assento de Baptismo, Óbito ou Cazamento 320 rs. 
Nos interros tem 640 rs. da Missa de Corpo prezente, o mes- 
mo tem da Encommen dação de qualquer Define to, e sendo es- 
cravo tem somente 320 rs. alem da Vella, que costume dar- 
se em todos os interros e por cada Memento ou Lauda to can- 
tado tem 640 rs. 

Nem todos estes emolumentos recebe o Parocho, Àlgnas 
Festas se fazem aqui de Graça, os pobres nada pagão, e alguns 
que o não são, tãobem não pagão, porque não querem; e como 
não parece muito decorozo ao Parocho contender com os Fre- 
guezes, elle vem sempre a perder. 

Todo o rendimento pois proveniente dos Benesses, Ofiertas 
e mais emolumentos a fora a Côngrua e Guizamentos andará 
por 350$000 reis ou 400$000 rs. mais ou menos, devendo toda- 
via declarar que qualquer outro Parocho mais accerado em ha- 
ver os emolumentos, que por Direito, uzo, ou Costume lhe 
pertencem, poderá tirar maior rendimento. 

Iguape 12 de Janeiro de 1827. 

João Chrisostomo de Oliveira Salgado Bueno. 



Documento n.° 173 

Traslada da Provizno de Ley de S. Magestade q Deos 

guarde he o Seguinte 



Eo EIRey faço saber aor q esta minha Provizão em forma 
de Ley virem q sendome prez. q na bahia de todos os San- 
ctos forão quatro Navios de Guine e quatro da índia oriental: 
todos Inglezes e também outras ao Rio de San. 1 ; e q todos os 
d. toa Navios nos d. t0 * portos introduzirão mercadorias de Euro- 
pa, e da índia ; tirando do Brazil m.° ouro, e tobaco, Fuy Ser- 
vindo resoluer p.* evitar tão concideravel damno q se ordenasse 
aos Gouemadores das Conquistas nam admiticem nos Portos 
delias Navios alguB Inglezes ou de outro qualquer nação es- 
trangeira, Sinão indo enCorporados com as frotas deste Reyno; 
evitando Com ellas na forma dos tratados; ou obrigado de al- 
guas tempestade ou falta de mantim.°\ nos quais Cauzos asis- 
tindolhes Com o necessário vos devião mandar Sahir Sem lhes 
premitir Comercio alga. E porq. 6 este Senão poder a fazer 
Sem que o Gouemadores o Consintão, outoLerem. O que ne- 
cessita de prompto e efficaz remédio pellas ConSequencias que 



r 



- 305 - 






pod^crà Resultar da toLerancia e da Simulação destes neg. doa ; 
e P^dlr a boa igualdade da justiça se evite tam grande damno, 
e se castigue aos que Concorrem de algu modo para semelhan- 
tes Comércios com os estrangeiros. Hey por bem, e mando, 
quô &8 peçoas que Com elles Commerciarem ou Comsen tirem 
*3 **^ commercem, ou sabendo e o nào empedirem, sendo Gouer- 
dacIot» j e q UaeS q Uer d e minhas Comquistas ultramarinas emcor- 
ra xicts pennas de pagar em três dob. ro> p. a a minha faz. 4 » or- 
de**^d<>8 q ue Receber ou tiver Recebido pella tal ocupação de 
G^^ex-nador e q pêra os bens da coroa que tiver e fique inha- 
bi* J>«ura Requerer outros, e quaisquer mercês do Coroa, e -de 
of^par quaisquer cargos ou gouernos ao futuro. £ sendo offi- 
C Í^T «le Guerra, Justiça ou faz.** ou qualquer outra peçoa par- 
ti^^oXar Purtuges e vassallo deste Reyno emcorrera na pena de 
c °T**fÍ8caçao de bens; a metade pêra o denunciante e outra me- 
^^ p, m a fazenda Real. E pêra q daquy emdiante se descn- 
" r * mais facilm.!* os que fizerem nesta Comquista negocio com 
^tTangeiros. Hey outro sy por bem premetir q os que denun- 
ciar delles possao fazer as denunciaçoens em segredo perante o 
Provedor da faz. da ou dalfandega da Capitania em que se acha- 
ram. E ao Regedor da Caza supliCaçam ordeno q Logo q a 
&te Reyno chegarem Navios das Comquistas Com noticia que 
algumas delias tenham hidos estrangeiros faça nesta Corre 
tua imformaçao das peçoas que tiverào vindos nos ditos Na- 
vios escrevendo as ditos da6 testamunhas e dezembargador dos 
Aggravos que elle escolher prometendo as testamunhas guar- 
dar lhes segredo. E no porto em a mesma forma ao Gouernador 
da Rellaçào da que cidade, e constando por estai imformaçoeas 
o q baste para constar da culpa Se Suspendem o Gouernador 
ou official e vira preso para este Reyno e depois de sahir da 
comquista se tirara devassa do seu procedimen. to dando o Juiz 
dos cavalleiros comp. te se devassar aos que o forem. E para se 
evitar o damno que se segue dos moradores das minhas oom- 
quistas intentarem passar a Reynos estranhos pêra fazerem nelles 
empregos, e os tornarem a Levar pêra as mesmas conquistas 
tirando delles os melhores géneros, Hey por bem que toda a pe- 
çoa de qualquer Calid.* que seja das eomquistaa ultramarinas 
intentar passar a Reynos estranhos Sendo colhidos em Navios 
Barcos ou Lanchas em q se entenda hir embarcar seja presa e 
emcorre em pena de dez annos de degredo pêra outra comquista 
perdendo a metade do seus bens e se com effeito tiver hido per- 
dera todos, e será desnaturalisado do Reyno e seus filhos varões 
pêra nelles nunca poderem hauer honras dignid" ou outras quais- 
quer couzas eclesiásticas ou seculares. Pello q mando a todos 






- 306 - 

os Gouvernadores das comquistas ultramarinas, Ministros offi e * e 
mais peçoas delias a q tocar a execução desta minha Ley a 
cumprem guardem e executem, e a facão cumprir e guardar e 
executar como nella se contem e vay declarado sem duvida nem 
contradição algua, e sem embargo de quaisquer outra Ley, Re- 
gimento, ou ordem que lhe seja passado mandando- a publicar e 
registar nas partes necessárias pêra que chegue a noticia a todos ; 
e esta minha provizam quero q' valha como Carta e não passe 
pela chancellaria e sem embargo da ordenação do L.° d° f*" 39 
e mais em contrario e se passou por duas vias. Theotonio Pe- 
reyra de Castro a fes em Lisboa a oito de Feuereyro de mil e 
sete Centos e onze o escrivão André Lopes da Laura a fes es- 
criuer=Rey=0 qual traslado de provisão de Ley de Sua Magd* 
que Deos guarde assim como nella se contem — Eu Manoel Pe- 
rera da Silva EsCrivão da Camará nesta V a de Nossa S* das 
Neves de Iguape o tresladey bem e fielment* da própria q me 
foi aprezentada a q me Reporto, vay na verdade sem couza q 
duvida faça q corry comsertey esCrevy e asigney em os vinte 
e sete de Dezembro de mil sete Centos e quinze annos. — Ma~ 
noel Per a da Silva. 

Documento n.° 174 



Havendo-se espalhado a noticia de q na Ilha do abrigo em 
Cananéa se axa hum Bergantim vindo da Costa de Leste com 
Africanos, com a pre tenção de fazer dezimbarcarlos nas praias 
ou Costa daql* Yilla, talvez com o fim de os passar (quando não 
todos ao menos alguns) para o Districto desta Villa, he de rigo- 
rozo dever desta Camará participar este pernisiozo contrabando 
opposto aos tratados e Leis do Império para V. S. como Au- 
thoridade competente prevenir com lempo todas as providencias 
que o cazo pede em semelhantes occasioens ; e porque seja di- 
fícil reunir-se com presteza os Vereadores, para este fim, o de 
que se axão incarregados pela Portaria do Exm. # Prezidente da 
Província de 25 de Abril do corrente anno porisso tomo a de- 
liberação de fazer saber a V. S. a deste acontecimento que exige 
promptas medidas a bem do Serviço N. I, para depois o levar 
ao conhecimento da Camará que haja de aprovar. Deos guarde 
a V. S. Iguape 18 de Setembro de 1833. Sr. Capitão António 
Joze Peniche, Juiz de Paz desta Villa. — Joze Bonifácio de An- 
drade, 



*. «-^t 



- 307 ~ 



Documento n.° 175 

Receita e Despcza da Camará de 1686 á 1828 



ANNO 



1696 
97 
98 
99 

1700 
1 
2 
3 
4 

1705 
6 
7 
8 
9 

1710 
11 
12 
13 
14 
15 
16 
17 
18 
19 
1720 
21 
22 
23 
24 
25 
26 
27 
28 
29 



RECEITA 



28 
30 
37 
32 
31 



580 
200 
040 
970 
430 



5 

17 

23 

5 

10 
17 
16 
17 
6 
9 
4 
19 
2 
8 
10 
29 
28 
26 
12 
68 
31 
61 
60 
66 
66 
68 
ÒS 
30 



920 

460 

140 

470 

580 

440 

070 

460 

600 

560 

160 

980 

200 

120 

680 

640 

360 

620 

560 

730 

425 

677 

200 

640 

630 

160 

070 

320 



DESPESA 



271440 
970 
120 
320 
540 
830 
320 
950 
940 
510 

101320 



28 
26 
43 
30 
36 
12 
18 
25 
14 



16 

16 

14 

7 

8 

6 

14 

5 

6 

10 



220 
600 
820 
500 
980 
200 
160 
200 
140 
550 



28 020 



22 
21 
10 
69 
30 
53 
51 
43 
109 
60 
55 
36 



780 
360 
280 
894 
720 
438 
220 
210 
090 
100 
200 
220 






á 



- 308 - 





ANNO 


RECEITA 


DESPESA 






1730 


48 


800 


62 


140 






31 


99 


760 


49 


330 






32 


31 


970 


46 


080 






33 


41 


500 


30 


080 






34 


43 


920 


42 


960 






35 


56 


910 


52 


210 






36 


114 


100 


116 


740 






37 


207 


500 


151 


479 






38 


169 


658 


172 


664 






39 


163 


210 


174 


755 






1740 


166 


944 


168 


280 






41 


161 


046 


152 


934 






42 


48 


520 


127 


580 






43 


52 


994 


70 


690 






44 


90 


640 


87 


191 






45 


166 


220 


148 


720 






46 


152 


540 


140 


440 






47 


159 


756 


119 


200 






48 


70 


343 


97 


173 






49 


153 


564 


186 


347 






1750 


254 


848 


203 


420 






51 


152 


555 


232 


265 






52 


122 


075 


70 


460 






53 


67 


357 


123 


112 






54 


136 


280 


123 


440 






55 


130 


416 


105 


556 






56 


88 


840 


121 


220 






57 


67 


916 


71 


306 






58 


94 


510 


77 


180 






59 


91 


760 


91 


710 






1760 


115 


899 


114 


059 






61 


120 


257 


72 


547 






62 


55 


517 


121 


557 






63 


102 


295 


80 


894 






64 


107 


345 


89 


723 






65 


97 


588 


70 


075 






66 


144 


792 


55 


160 






67 


105 


400 


222 


183 






68 


98 


925 


56 


982 






69 


105 


960 


65 


388 





— 309 — 



*j 



ANNO 


RECEITA 


DESPESA 




1770 


108 


692 


103 


580 






1 


107 


736 


78 


778 






2 


107 


075 


37 


810 






3 


61 


014 


230 


339 






4 


170 


984 


96 


020 






5 


88 


233 


114 


955 






6 


132 


508 


83 


980 






7 


146 


045 


124 


503 






8 


131 


748 


98 


400 






9 


12C 


252 


174 


690 






1780 


118 


292 


45 


805 






1 


114 


546 


70 


805 






2 


114 


426 


175 


970 






3 


113 


588 


96 


150 






4 


113 


186 


48 


535 






5 


103 


216 


126 


740 






6 


113 


186 


104 


315 






7 


128 


915 


415 


548 






8 


131 


505 


174 


425 






9 


132 


795 


86 


385 






1790 


99 


884 


99 


438 






1 


112 


437 


115 


720 






2 


133 


656 


105 


460 






3 


142 


957 


107 


930 






4 


154 


308 


113 


320 






5 


145 


829 


121 


630 






6 


126 


203 


84 


395 






7 


132 


213 


208 


580 






8 


145 


133 


124 


010 






9 


149 


245 


107 


135 






1800 


184 


175 


184 


929 






1801 


149 


425 


92 


743 






2 


161 


132 


96 


579 






3 


172 


732 


149 


571 






4 


149 


132 


207 


645 






5 


153 


320 


212 


104 






6 


151 


620 


207 


430 






7 


151 


420 


176 


538 






8 


152 


786 


116 


232 






9 


151 


026 


189 

• 


459 





r 



— 310 — 



ANNO 


RECEITA 


DESPESA 


1810 


153 


726 


248 


352 




1 


271 


921 


177 


295 




2 


82 


452 


176 


330 




3 


171 


832 


133 


380 




4 


261 


046 


121 


30 




5 


260 


184 


250 


703 




6 


259 


341 


238 


358 




7 


241 


200 


402 


429 




8 


488 


372 


158 


140 




9 


425 


245 


310 


248 




1820 


641 


830 


419 


862 




1 


607 


818 


218 


919 




2 


562 


617 


555 


050 




3 


412 


802 


657 


425 




4 


661 


036 


533 


125 




5 


465 


644 


408 


376 




6 


595 


708 


539 


135 




7 


171 


597 


453 


515 




1828 


629 


978 


1:156 


779 





Documente n.° 176 

A sento das agoa«ardentes o o mais do q se pagua 
Subsidias que se manifestou este prezonte Anno 
de mil e Sete Centos e sete: he o Seguinte. 

4707 



Manifestou BerthoLomeu Fran 00 morador nesta V* dois 

Baris de Agoaardente da terra. ..... 

Manifestou o Capp* m Joào Alz Corrêa morador nesta 

V* hum baril de Agoaardente do Reyno • 
Manifestou mais o dito Cap* m Jo&o Alueres Corrêa 

duas pessas de pano de algadam 

Manifestou Jo&o Barboza morador nesta V* hum baril 

de Agoaardente da terra 

Manifestou Ant° Per* Nunes morador nesta V* Sinco 

baris de Agoaardente da terra 



1$500 
$750 
$480 
$750 

3$750 



— 3n — 

Peitou Fran 60 do Aguiar de Siq r " morador nesta 

7* dous baris de Ag" da terra 1$500 

estou Capp'""* João AU Corrêa morador nesta 

r " doas baris de Ag" da terra 1$500 

estou João Barboza m dor nesta V" hum baril 

e Ag<' da terá $750 

estou João Cordeiro borne forasteiro meyo baril 

e Agoaardente da tetra $500 

tsstou Gregório da Silva Vianna morador nesta 

"• dons baris de Agnoardente do Reyno . . l$5O0 

estou o Capp'" 1 Joào Alz Corrêa bum baril de 

agoaardente da terra $750 

-onde nações de semaneyros q nfto asistirflo as 

aai semanas da pr" execução 1$120 

*o das terras do Cons" de Ant" Per" Nunes do 
•ugar do sen Citio de dous annos a Sento e se- 

enta Reis por Cada hnm anno $320 

ro das terras do Cons° de D°* de Souza de 

«us annos a oitenta Beis por anno .... $160 

Dndenasons das semanas das segundas execução 2$110 

o q paresse Salvo erro ....... 17J440 

mais de Resto do anno ante cedente . . . $260 

tudo coroo Se ue 17$700 

da despeza Coroo do Liuro delia paresse pêra 
>e entregar Aos nouos off" $960 

Doeu mento n.° 177 

tezns <| Sc lez este prezente anno de mil e Seiz 
tentos e noventa e noue annos o Seguinte. 

liram" do Rossio q Se deu aos negros oito cen- 

os Reis $800 

as Cartas de uzanssa dos juizes mil e seissentos 

leis 1$600 

ma deuassa de sobomo q Se deu a f* da Costa 
le esCreuer a dita deuassa nove Sentos e se- 

enta Reis $960 

rez Livras de Será do Reino pêra a festa dei 
íoi do Corpo de Deus a Sete Stos Reis Liure 
!m porta dous mil Sem Reis 2fl00 




— 312 — 



Mais hum Liura de Será do Reino a oito Sen tos Reis 
For nraziqua q tocou na Capella oito Sentos Reis . 
Por palmeiro e junca na Igreja trezentos Reis • 
Deu Se aos trabalhadores q aRanquar&o a palha pêra 

o olaria Sento e oitenta Reis 

Pêra a festa de Santa Izabel de Será do Reino por 

coatro Liaras e meia a oito Sentos reis Liura 

em porta três mil e Seis sentos Reis «... 
Mais meia Liura de Será do Reino oito sentos Reis. 
Por palmeira p* mesma festa duzentos Reis . 
Aos muziquos por cantar na dita festa douz Cruzados. 
Por juncar a òadea e a Igreja Sem Reis. • • 

Pêra os trabalhadores q trabalharfto na trazida 
da fonte pêra esta Villa Sento e uinte Reis. . . . 

Pêra o official q ConCerta a ginella de Cadea de 
solera e pregos e Cal trezentos e uinte Reis . . . 

Por bua tabam peia hua ponte duzentas e co- 
renta Reis 

A Manoel Nogeira Se p* telha q Se 

obrigou a fazer e que nam estam feito ainda . • . 

de papel Seis Sentob e corenta Reis 

Por trez Cambadas de peixe q Se deu a huns 
Coreios q uier&o Com Carta e ordem do S r gouerna- 
dor Artur dessa E mnnezes deu Se aos ditos Coreios 
trez Cambadas de peixe a uintem o peixe emporta em 
Sento e uinte Reis 

Deu Se lhe mais aos ditos Coreios pêra o Cami- 
nho q do forfto Sinco Cambadas de peixe emporta du- 
zentos Reis 

Mais de huma Coarta de farinha Sento e uinte 
Reis 

Mais Se deu ao Coreio que Se emuiou desta Villa 
pêra a de Cananea Com hú masso de Cartas do S r 

fouernador Artur dessa £ menezes e treslados das or- 
ens pêra a dita Villa Sobre o dr° para Seemviarao 
Rio de Janeiro a caza da moeda, deu Se ao dito Co- 
reio duas patacas 

pella Canoa q leuou d" Coreio pataca e meia. 

Mais de hua Coarta de farinha Sento e uinte Reis. 

de peixe q Se deu ao dito Coreio Sento e uinte 
Reis . 

de hua mio de papel Sento e Sesentta Reis. . 

de hua Liura de Será do Reino oito Sentos Reis. 

Por Coatro Seis Sentos e Corenta Reis . 



$800 
$800 
$300 

$180 



3$600 
$800 
$200 
$800 
1100 

$120 

$320 

$240 

$300 
$640 



$120 

$200 
$120 



$640 
$480 
$120 

$120 
*160 
$800 
$640 



m 






— 3J3 — 

Pêra em forte Ceatro uintens .... $080 

deu Se ao AlCaide Saluador Rib° de seu Salário 
três mil Reis 3*000 

Som ma as despesas deste prez" anno Como pare- 
ce pellas adisois atraz e asima uinte £ bu mil e Sento 
e Corenta Reis 21$140 

Mais q Se deu p* os trabalhadores q' abrirão o 
vallo p' trazer a fonte noueSentos Reis $900 

Que faz ao tudo Soma Liquida de Vinte e Doas 
mil e Corenta Reis 22$040 

Mais dia do Anno bom de hua missa q mandarão 
Cantar os omciais da Camera ao Espirito Santo mil e 
duzentos Reis 1$200 

Soma estas Contas atraz E aSima Como parece 
pellas adisois atraz EaSima Vinte e trez mil e tre- 
zentos e uinte Reis 23$320 

Documento n.° 178 

1702 

Ha de auer as despeZas deste pre Zente anno de mil 
e Sete Sentos e dois he o Seguintes 

Para as uZanças treZentos e Corenta .... $340 
De Será p* a festa dei Rey Será da terra a duas 

pataquas $640 

Será do Reyno p* a d* festa três pataquas. . • £960 

da muZiqua duas pataquas $640 

da DespeZa miúdas bum cruZado $400 

Soma o Seguinte 2$640 

negue-Se os pagam 108 do q fiCou a deuer esta 
Camera no anno ae mil Sete Sentos E bum . . . 

A BaltaZar RoiZ três pataquas $960 

ao AlCaide Saluador Rib° *640 

A Ant° Per* Nunes tresmil Reis 3$000 

A Ant° de SouZa oito Sentos e Corenta . . . $840 
Ao EsCriuão da Camera P° RoiZ Pontes três pa- 
taquas . $960 

Soma o Seguinte 6$400 



— 314 — 



Soma a despeZa atras Como Se.ue dois mil Seis 
Sentos e Coreu ta Reis 2$640 

Mais do EsCriu&o da Camera a Conta do Seu 
Salário dois mil Reis , . . . . 2$000 

ao t* m da deuassa do Soborno por n&o auer nella 
Culpados Seis Sentos e Corenta Reis $640 

Ao AlCaide Man 1 Ramalho nunes a Conta do 
Seu Salário duas pataquas $640 

Soma os pagam 1 *' o Seguinte . • 5$920 

Soma o dispendido Em fronte. . 6$400 

Soma dos pagamentos Em fronte 5$920 

Soma o Seguinte 12$32Q 

Documento n.° 179 

1688 

Aos quinze dias do mes de i julho da era asima Saiunta- 
rem os ditos oficiaes em Camera ijuiz he uereadores he pro- 
curador do Conselho pelo vereador mais velho foi proguntado 
ao procurador do Conselho se tinha q Requerer e pelo dito pro- 
curador foi req rido desem a Saber ao pouo em q Se tinha 
pasado quoartel p* uer Se auia quem to mase o estand' pela com- 
tia em q esta uila he obrigada a pagar em cada hum anno he 
não oue quem o tomase nem em q Se empregase dr° algum 
onde Se pode Se ganhar a dita comtia Req-reo o dito procu- 
rador q sendo causo q carese a finta por diante estiuese o pouo 
de a cordo pêra pagar a comtia q digo os ditos Oficiais oueram 
por bem he o fizer&o a saber ao pouo prinsipalmence aos omens 
Republicanos os quais Responderam q' eses estauam por tudo 
aquilo que suas merses fizerem q eses como leaes basalos obe- 
desiâo Sem embaraso q em lisitamente fora fitarse o pouo por 
q quanto se acauar&o os vinte quatro annos em q esta uila foi 
cortada como costa da carta da uila de S&o uicente com cabesa 
he sendo feita aduer tencia como costa asima he asima e atraz 
ouuiram por a Cabado o dito termo onde se asinarem os ditos 
Oficiais com os mais pesoas he Eu pedro de fontes ercrivâo da 
Camera q o escreui— ferd° deanhaja — Luiz palhassa de Azed" — 
SeBasti&o Roiz Bueno — Ant° per* Nunes — Ant° nunes Castro — 
M el Mmz de Miranda — Severino de Veras — André Giz — Franc° 
da Sylva pestana — AndreRoiz — felippe pr* — Dioguo Per* pães — 
Dionísio da Costa — António fraquo — belchior for&o — Balnis — Ant° 
Cardozo. 



~jr-w»;tr:ryT«fl 






- 315 — 

■ 

Documento n.° 180 

Termo de deposito q fazem os officiais da Camera da 

era de Sele Sentos 

Aos trinta dias do de Dezembro da era asima nesta Villa 
de Iguape estando os officiais Juizes em Camera Requereu o 
Procurador do Concelho aos ditos officiais fizecem depositário 
dos Vinte mil Reis pêra o corregedor na forma que o tinha 
Requerido no Liuro nos termos de Vereança, o q os ditos offi- 
ciaes resolverem Logo Chamar a Franc° da Sylva do Rego por 
ser pessoa de fidelidade e afazendado lhe pediao fose Depozi- 
tario dos ditos Vinte mil Reis pêra o vindo do Corregedor pella 
ordem do General Artur de sa e Menezes : e o Dito Franc° da 
Silva do Rego deboamt 6 os aseitoue prometeu dar conta delles 
em todo o tempo q lhe for pedido de q fiz este termo onde Se 
as.narào os ditos oificiais com o dito dei»uzitario da Silva do 
Rego. Miguel frz Bicudo escriuao o escreuy. 

Frc° da silua do Reguo Fd° de Anhaya 

Manoel da Silua Saluador Cubaz 

Ant° fn ferrão Seuerino de vera 

Documento n.° 181 

Para os Juizes e mais officiais da Camera da 

Villa de Iguape 

SuaMgd e q Deos gd e Servido pella Sua Real grandeza attender 
a anexação que poderião os Vacallos destas Cappitanias por falta 
de Justiça pello q tem acontecido tão detestáveis Crimes Sem 
hauer Castigo p* os Culpados, ou por Resp to , ou por poder, e 
como a Justiça Diuina e humana he igual p* todos quiz acudir 
a Sua Mag* e a estas desordenis nomeando ouuidor geral letrado 
p* estas Capitanias o qual espero na frota, e como p* o celario 
q hade ter este ministro he nesesr concorrerem as Villas de 
Sua Comarca p* o q mando conuocar de todas as Cameras Pro- 
curadores, os quaiz se ham de ajustar nesta Villa de São Paullo 
a quinze de feverero deste prez te anno p* se arbitar o meyo o 
mais Suaue p* se lhe satisfazer o seu ordenado, e Vms nomea- 
rão hum procurador q lhes parecer o mais conueniente p* este 
ajuste. g4* Deos a Vms m t0 * annos. São Paullo 22 de Janeiro 
de mil sete sentos — Artur De sa e Menezes — E no cauzo q Vms 
pella distancia não possão mandar procurador, mandarão procu- 
ração a hu destes moradores de São Paullo q em seu logar fa- 
zerem esta diligencia etc. 






i 



- 316 - 
Documento n° 182 

Treslado das Aualiaçois das direitos noves e a meãs 
Anatas Registadas na fazenda Real de Cappita- 
nias, he nesta Camará de São Visente o titolo 
he o seguinte. 

Cappitania de Nossa Senhora da comseipçâo de thinhaem. 

Donatário e Alcaide mor desta Cappitania tem de Rendim* 
Cada Anno Sincoenta mil Reis. 

Cappitam mor tem de emolumentos oitenta mil Reis. 

Prouedor dos defuntos e ausentes desta Cappitania tem De 
emolementos Setenta mil Reis. 

Juizes ordinários q Seruem de orfaons e de enqueredor tem 
eada bum de emolementos oito mil Reis. 

EaCriu&o da ouuidoria tem de emolementos quatro mil Reis* 

EsCriu&o da Camará e almotasaria e de orfaons e tabeliam 
do judisial que serue hua so pessoa tem de emolementos dez 
mil Reis, 



Villa de Nossa Senhora das Neves de Igoape 

Juizes ordinários que seruem de orfaons e de emqueredor 
cada hum tem de emolementos seis mil Reis. 

EsCriuao da Camará almotasaria e orfaons e tabaliam de 
judicial e notas q serue hua so pessoa tem de emolementos seis 
mil Reis. 

Villa de Sâe João de Cananea 

Juizes ordinários que seruem de orfaons e de emqueredor 
tem de emolemento seis mil Reis. 

EsCriuao da Camará orfaons Almotasaria e tabaliam de 
judicial e notas que serue hua so pessoa tem de emolementos 
seis mil Reis. 

Alcaide e Carsereiro q serue hua pessoa tem do ordenado 
da Camará quatro mil Reis. 

Declaro que o Alcaide da Villa de Nossa Senhora das neves 
de Igoape tem de ordenado da Camará três mil Reis, q por erro 
não foi asima com os mais offisiais. 

Villa de hun...ba 

Os Juizes ordinários que seruem de orfaons e emqueredor 
cada hum tem de emolementos quatro mil Reis. 



-■■i 



— 317 — 

EsCrruão da Camará de orfaons almotasaria e tabalião do 
judicial e notas tem de emolementos seis mil Reis. 

Alcaide e Carsereiro tem de ordenado da Camará três mil 
Beis. 

Villa de Paraty 

Juizes ordinários que seruem de orfaons e de emqueredor 
tem de emolementos quatro mil Reis. 

EsCiiuao da Camará e orfaons almotasaria e tabelião do 
judicial e notas tem de emolumentos oito mil Reis. 

Alcaide e Carsereiro tem de ordenado da Camará quatro 
mil Reis. 

Villa da Ilha grande 

Juizes ordinários que seruem de orfaons e de emqueredor 
tem de emolementos cada hum quatro mil Reis. 

EsCriuào da Camará orfaons almotasaria e tabelião do Ju- 
dicial e notas que serue so hua pessoa tem de emolementos vinte 
e seis mil Reis. 

tem o Alcaide de ordenado da Camará sinco mil reis. 

Villa de gorathigueta 

Juizes ordinários que servem de orfaons e de emqueredor tem 
de emolementos quatro mil Reis Cada hum. 

esCrivão da Camará almotasaria e orfaons etabelião do judi- 
cial e notas que serve Sao hua pessoa tem de emolumentos oito 
mil Reis. 

alcaide e Carsereiro tem de ordenado da Camará três mil 
Beis. 

Villa de Taibathe 

Juizes servem de orfaons e emqueredor tem de emolementos 
cada hum seis mil Reis. 

esCrivão da Camará almotasia orfaons e tabelião de jndicial 
e notas q serve hua Sso pessoa tem de emolementos desaseis 
mil Reis. 

Villa de nossa Senhora da Candelária de hyttu 

guassu 

Juizes ordinários que servem de orfaons e emqueredox tem 
de emolementos cada hum seis mil Reis. 

EsCrivão da Camará almotasaria orfaons e tabelião do judi- 



à 



- 318 - 

ciai e notas q serve hua Sso pessoa tem de emolementos des 
mil Reis. 

Alcaide e carcereiro tem de ordenado da Camará quatro 
mil Reis. 

Villa do Sorocaba 

Juizes ordinários que servem de emqueredor e de orfaons 
tem cada hum de emolementos quatro mil Reis. 

esCrivã) da Camará almotasaria orfaons e tabelião do Ju- 
dicial e notas que servem hua Sso pessoa tem de emolementos 
des mil Reis. 

Alcaide e Carsereiro tem de ordenado da Camará três mil 
Reis. 

Villa de Nossa Senhora do Rosário de Parnapua 

Juizes ordinários que servem do orfaons e emqueridor tem 
cada hum de emolementos seis mil Reis. 

esCrivão da Camará almotasaria orfaons e tabelião do Ju- 
dicial e notas q servem hua Sso pessoa tem de emolementos des 
mil Reis. 

alcaide e carsereiro tem ordenado da Camará taes mil Reis. 



Villa do Rio de Sâo Fran" 

Juizes ordinários q servem de orfaons e emqueredor tem de 
emolementos seis mil Reis. 

esCcrivão da Camará almotasaria orfaons e tabelião do Ju- 
dicial e notas q servem hua Sso pessoa tem emolementos des 
mii Reis. 

alcaida e carsereiro tem de ordenado da Camará quatro mil 
Reis. 

o qual treslado de aualiasois Eu francisco gomes de govea esCri- 
vão da alfandega e almochaaiphado nesta cidade de São seBas— 
tião do Rio de Jan° o fes tresladar dos próprios originaes que 
por ordens de Sua Mag de que Deos g de Remeteram a esta pro- 
vedoria que consta do livro delias fica em meu poder da prove* 
dor da fazenda Real Domingos perera fortes ao qual me Reporto 
i este corri e comsertei com o official abaixo sob esCrevy e as— 
inei por mandado do dito provedor aos desanove de met de ou- 
tubro de mil seis sentos e noventa e dois annos — franc° gomes 
de govea — consertado por mim esCrivão com as próprias — frac° 
gomes de govea — e comigo esCrivão da Fazenda Real e contas—» 
Luiz Lopes Pegado — Registe-se nos livros desta provedoria Santos 



— 319 — 



• - J T»' 



de dezembro vinte de mil e seis sen tos e noventa e dois — Corrêa 
—Registado no livro sete o q toca ns folhas setenta e cinco 
Villa de Santos o primeyro de fevereiro de mil seis sentos e no- 
venta e três annos — por mim esCrivào da fazenda — Moreira — o 
qual taesladei do treslado que no livro desta Villa de Sam Vi- 
sente do livro do Registro desta Camará desta Villa e Cappita- 
dia cananea da Cappitania eu Ant° madeira salvadores esCrivão 
da Camará Registei as avaliasois asima e de modo que a prove- 
dor da fazenda Real as entregou e lhe tornei a dar o dito tres- 
lado o que assim fiz serviço de Sua Mag 41 ® qne Deos g* 6 i este 
com elle corri e consertei e asinei como Juiz ordinário neste 
conserto comigo asinado p* o Remeter ao Senado da Camará da 
Villa de nossa Senhora aa Conceipção Cananea da Cappitania 
do Senhor Conde Ilha do prinoipe p* elle mandar em as Câma- 
ras das villas de sua Cappitania o q todo tom dM a cada Villa 
em os sinco de majo de mil seis sentos e noventa e três annos 
— Ant° madeira Salvadores — consertado por mim esCrivão da 
Camará— -An t° madeira Salvadores — e commigo Juiz Abreu — 
Cumprace e Registece no livro onde tocar — Iguape quinze de 
outubro de mil seis sentos e noveuta três annos — Manoel Pereira 
da Silva— o qual traslado de avaliasois eu Miguel frz Bicudo 
escrivão da Camará nesta Villa de Nossa Senhora das neves de 
jéTuape do próprio original e treslado Remetida a esta Camará 
<fos officiaes da Camará da Villa da nossa Senhora da Conseipçae 
Cabeça destas Cappitanias ao qual me Reporto na sua verdade 
8 ©m couza q duvida faça que corri e comsertei escrevy e asinei 
em os três de dezembro do mil seis sentos e noventa e três 
annos-^Misuel frz Bicudo. 



*. . 



Documento n.°183 



Ao primeiro dia do mez de Abril de mil seis centos e 

?Qiita e dous annos nesta Villa de Iguape e nas Cazas do 

B ai ^ e ^ delia se aiuntaram os offisiais em Camera Juiz e 

fo ,la es e P rocura dor do Comselho e pelo briador mais uelho 

e ji -Fjf^guntado ao procurador se tinha que Requerer e por 

k *°i dito que Requeria desem comprimento ao que se Com- 

, **og Cappi tolos na Correição donde o senhor ouuidor ge- 

° r dena se procurem as Casas do defunto o P. e Vigário 

? Pertencerem a este Comselho e que uisto seu Requerimen- 

^^ uisto mandaram os offisiaes chamar ao Capp. m António 

Cat?*^ ^ e ^ Dreu e * ne Representarem o que se Comtem no d.° 

Ppifcolo ao que Referiu dizendo tinha húa quitacam 



quitaçam que o 



- 320 - 



Asoluia das ditas castas e logo a presentou e por Dão acharem 
clareza por termo nesta dita Camera duuidaram a asoluer o 
dito Ant° per.* de abreu pello que fizeram embargo nas ditas 
casas com condiçam de as n&o poder uender nem alear atbe o 
d. to Snr. dispor e pêra clareza de tudo mandaram fazer este 
termo e deClaraçam e de obrigaçam que faz o dito Ant.° pero- 
ra de abreu de fazer bom o d.° embargo sendo lhe seu pedido 
pello dito Sr. ouuidor geral de q fiz este tonno donde se asi- 
nou com os ditos offiaiais eu Miguel frz. BiCudo esCriu&o da 
Camera o esGreui. Ant.° pr.* de abreu — Fran, 60 de veras — 
Ant.° de Souza Coitinho — SeBastião Roiz Bueno — Inosencio de 
Veras — João de fontes morais* 

Documento n.°J84 

Alapa dos terrenos, e sismarias com as puifieaçoens 
nelle declarados que p. r Offíeio da Camará Muni- 
cipal de 2£7 de Abril do corrente anno se exzujto 
deste Juize de Pas de todo este Destricto, ao que 
me prestei debaixo das informncoins dos Inspec- 
tores, e de pessoas niais antigas, probas, e de 
verdade, de quem as exzigi para relatar, circum- 
stanciadamente, e he o seguinte 

Costa de mar grande e mar pequeno 

1„ Sesmaria de meia legoa de terras no Rio verde ao Nor- 
te da Jureia concedida pelo Governo da Província a António 
Pedro da Silva, que as Cultiva nelas planta e tem suas bem- 
feitorias . 

Todo o terreno da Costa do mar alto desde a Jureia the 
a barra de Capara, e desde esta barra the esta Villa pelo mar 
pequeno, e desde a villa the o Rio Sabauma onde se dividem 
os termos com a villa de Cananea, consta que foi dado por 
Sesmaria pelo Conde de Natario aos prim. 0- povoadores, cujos 
nomes, porçoins de terras a cada hum concedida se ignora, tan- 
to pela antiguidade, como porque sendo então a Villa de S- 
Vicente a Cabeça da Capitania, e depois a Villa de Conceição 
a Cabeça de Comarca, consta que os Resistos de tais Sismarias 
do Conde de Natario se axfto nos antigos livros destas duas 
Villas. He verdade e se está vendo que todo este território 
que terá 8 legoas em cujo Centro se axa esta Villa Cituada se 
axa todo povoado e Cultivado pelos habitantes dele, e tudo di- 
vidido em porçoins de 25, de 50, e 100, braças de terras, sendo 
bem poucos os moradores q posuem 200, braças, e dahi para 



^y. -»«*.•* st?* • 



- 32i - 

cima, e tudo por Compras, heranças, e títulos ti an aferidos de 
huns a Outros, depois do falecimento e extinção dos primeiros 
posuidores e Sismeiros. 

Ribeira principiando da Barra para Rio aSima 

1„ Sismaria de meia Legoa de terras no Pindâ concedida 
pelo Governo a Bento Pupo de Govea, que se axa ja dividida 
entre seus herdeiros, e Outros, e cultivada actualmente. 

1„ Sismaria de meia Legoa de terras no Pinheiro conce- 
dida pelo Governo a Francisco Xavier Roiz, hoje de seus her- 
deiros descendentes, cultivadas, e Com fabricas de Socar ar- 
rozes. 

1„ Sismaria de meia Legoa na fronteira desta, concedida 
pelo Governo a Bartholomeu da Costa Almeida e Cruz e hoje 
de seus herdeiros e de Cap m António Borges Diniz que princi- 

Sia da Barra do Rio Piraupava e segue Ribeira asima, cultiva- 
as actualmente com Lavoiras. 

1„ Sismaria de meia Legoa de terras em Boicoara conce- 
dida pelo Conde Natario aos ascendentes de Joào de Andrade 
falescido, havendo passado parte delas a Outros herdeiros e des- 
cendentes q entre elles se axa retalhada, e tudo com Lavoiras 
em actual cultura. 

1„ Sismaria de meia Legoa em frente desta de Outro ban- 
da do Rio, concedida pelo Conde de Natario a António de Veras, 
do qual passou p r seo falescimento, a Seos herdeiros Raimundo 
Pinto, e destes a seos filhos, Nettos e alguns estranhos q tem 
comprado alquns quinhoins delia e tudo cultivada em actual 
Cultura. 

1,, Sismaria de hua Legoa de terras, que comprehende a 
povoação do Porto da Ribeira concedida pelo Conde de Natario 
aos antepassados de Salvador Roiz Lima, que se axa estabele- 
cida nela a povoação do dito Porto da Ribeira, e o mais divi- 
dido em pequenos quinhoins a vários q os estam povoando e 
actualm" cultivando. 

1„ Sismaria de hua Legoa de terras no Morrette, que 
principia da Barra da Lagoa do Porto da Ribeira e segue Rio 
aSima concedida pelo Conde de Natario, ao Cap m Iose Alves 
Carneiro, dividida por seus herdeiros descendentes, e alguns es- 
tranhos, e toda cultivada com propriedades de moradia, e Culturas 
actuais em todo sua extensão. 

1„ Sismaria de duas Legoas de terras fronteiras a estas de 
Outro bando do Rio concedida pelo Conde de Natario ao Cap m 
Manoel de Veras, comprehendendo Brajautuba Gruatinga Ca- 



<■ 



I 



- 322 — 

yová Caputera Gapara e todo dividido pelos seus herdeiros e 
descendentes, e por alguns Outros que tem comprado porçoins em 
q morao, tudo Cituado, com Propriedades de moradias, pastos de 
Grado, com actual cultura, por todos os seus habitantes. 

1„ Sismaria de huma Legoa de terras em Baicô concedida 
pelo Conde de Natario, a qual Se axa hoje repartida entre mui- 
tos moradores, sendo huns herdeiros do falesciao Sismeiro como 
he a família de Vicente Alves falescido, e Outros por compras 
e tudo em actual cultura. 

1„ Sismaria de quatro Legoas de terras, dentro do Rio de 
Momuna concedida pelo Ponde de Natario aos ascendentes do 
falescido Salvador Roiz de Oliveira, e depois deste ficou em 
posse de seus filhos, Ne t tos e Parentes que succederào ao* Outros 
descendentes, povoada e cultivada em muitos logares, e sempre 
em actual cultura pelos herdeiros moradores. 

1„ Sismaria de huma Legoa de terras em Jataituba con- 
cedida pelo Conde de Natario aos accendentes do falescido João 
Nunes, hoje povada e Cultivada por seus Parentes e descenden- 
tes q nella morao e plantão e se axào em actual Cultura. 

1„ Sismaria de meia Legoa de terras de huma banda da 
Ribeira e meia Legoa de Outra banda concedida pelo (.-Soverno 
ao S. M r . Bento Pupo de Govea falescido no lugar Carapiranga^ 
hoje pertencente aos Seus herdeiros, Cultivadas, habitadas em 
actual cultura. 

1„ Sismaria de meia Legoa de terras de huma banda da 
Ribeira, e meia Legoa de Outra banda concedida pelo Governo 
ao falescido Cap m0r Joze António Peniche no lugar Ponta grossa, 
hoje possuído pelos seus herdeiros, com fabrica de Soccar Arroz 
pasto de Gado, Propriedade de moradias, e em actual cultura. 

Entre estas Sismarias se ax&o muitos terrenos, habitados 
desde a Birra da Ribeira the a Barra do Rio Juquiá, sem titulo 
de Sismaria, mas como Simples Colonos, que povoarão, e deles 
tem passado a Seus herdeiros, descendentes, que neles estão mo- 
rando, plantando, Com a pose pacifica adquerida pelos Seus ante- 
passsados, de Sorte que tudo se axa occupado com culturas, mo- 
radias, e plantaçoins de cada hum, huns em pequenas frentes, 
e Outros em maiores conforme as forças de Seus braços. 



- Rio de Piraupava 

1„ Sismaria de meia Legoa de terras concedidas pelo Go- 
verno ao falescido Bartholomeu da Costa Almeida e Cruz, nos 
fundos de Outra que posue na Ribeira, hoje posuhido por Seus 
herdeiros em actual cultura e com plantaçois. 



: -<v#; 



-v 



- 323 - 

1„ Sismaria de meia Legoa de terras mais asima lugar 
Capivari concedida pelo Governo ao Cap m ° r Joze António Peni- 
che, hoje de seus herdeiros ; axam-se cultivadas. 

1. Sismaria de meia Legoa de terras concedida pelo Go- 
verno, em frente a asima dita da Outra banda the a Barra do 
Rio das Áreas, ao falescido Bartholomeu da Costa Almeida e 
Cruz, hoje de seus herdeiros; axam-se cultivadas. 

1. Sismaria de meia Legoa de terras concedida pelo Go- 
verno ao falescido Joào Manoel Junqueira, lugar Boa Vista, 
hoje de seus herdeiros, axão-se cultivadas. 

1. Sismaria de huma Legoa de terras concedidas pelo Go- 
verno ao falescido Joaquim Per* do Canto, sendo meia legoa de 
huma banda, e meia da Outra do Rio em frente huma da Ou- 
tra, hoje posuida por Joaq m J c Teixeira, axam-se Cultivadas. 

1. Sismaria de huma Legoa de terras concedidas pelo Go- 
verno ao Cap m Manoel Baptista Gomes e Sócio Baldoino Fran- 
cisco da Costa em Jaràbatuba sendo meia Legoa de huma ban- 
da, e meia da Outra do Rio fronteira hua da Outra em que 
moram, plantam e se axam cultivadas. 

Entre estas Sismarias se axão muitos moradores desde a 
Barra desta Rio Piraupava the Suas Cabeceiras, Moradores que 
entrarão sem titulo algum a povoar diferentes terrenos em mui- 
tas partes deste Rio, os quais se axao habitando, eles e Seus 
desendentes com pose pacifica adequerida pelos braços a muitos 
annos, huns em pequenas testadas, outros em Maior, conforme 
saas famílias e forcas e tudo eles tem cultivado, plantado, e 
beneficiado como suas moradias em que vivem. 

Nas Cabeceiras deste Rio Piraupava se axão dois Rios hum 
intitulado Rio Branco,, Outro intitulado Rio preto,, para onde 
tem entrado de próximo alguns moradores que neles tem for- 
mado seus Citios e tem feito plantaçoins. Estes Rios fasem con- 
tra vertentes com a Serra xamada Pouzo Alto do Rio Juquia: 
e dos moradores a pouco entrados p* sima tem imensas terras 
devolutas, boas para toda cultura de mandioca, fejào, milho, 
Arroz, Café, Cana, e tem imensas madeiras de Construcç&o e 
p* Canoas. 

Rio de Una da Ribeira 

1. Sismaria de duas Legoas de terras concedidas pelo Con- 
de do Natario em Jarauvaparim, hoje posuido por varias pes- 
soas, e pelos herdeiros descendentes de Braz Lopes Pereira e se 
axa toda cultivada em actual plantação. 

1. Sismaria de huma Legoa de terra concedida pelo Conde 
do Natario, na Aldeã, e hoje posuhida por dois moradores q as 
houveras dos antepassados e toda em actual cultura. 



$ 



•>&■ 



- 324 - 



1. Sismaria de meia Legoa de terras Concedida pelo Gover- 
no ao Cap m António Borge* Diniz que nelas mora e Cultiva 
com seus Escravos actualmente. 

1. Sismaria de meia Legoa de terras concedida pelo Gover- 
no a António Francisco Giz que nelas mora e Cultiva com seus 
Escravos actualmente na paragem de Cambixe. 

1. Sismaria de meia Legoa de terras concedida pelo Gover- 
no ao falescido Bento António da Silva, posuhida pelos seus 
herdeiros e toda da cultivada em todo sua extensão. 

1. Sismaria de meia Legoa de terras concedida pelo Gover- 
no a João Manoel Junqueira e Sócio na paragem Barra do Rio. 
das Pedras, cultivada pelos seus herdeiros em actual plantação- 

1. Sismaria de meia Legoa de terras concedida pelo Gover- 
no a Bento Pupo falescido, e seu Sócio Manoel da Lara, per 
tencendo hoje a parte do falescido a Seos herdeiros, e a parte 
de Manoel de Lara repartida também pelos seus herdeiros, e se 
aza cultivada. 

1. Sismaria de meia Legoa de terras concedida pelo Gover 
no a Jo&o Vieira de Sa em Garapeú hoje posuhida por Joaq m 
Alves Carneiro e Joào Pinto de Faria por as haveram remata- 
do em praça p r falescimento do Sismeiro, e toda em actual 
cultura. 

1. Sismaria de meia Legoa de terras concedida pelo Gover- 
no no Rio ItaUm braço deste Rio de Una a António Moreira 
Ramos onde se Cituou, e se axa actualm" cultivada. 

1. Sismaria de meia Legoa de terras concedida pelo Go- 
verno a Silvestre Joze de Lima, paragem Tinguçú> e se axa 
em parte cultivada. 

1. Sismaria de Legoa e meia de terras concedida pelo Go- 
verno no fim do Guapeú a Joaquim Felipe e Seus Sócios, e 
se axa com alguns cultivados 

Entre estas Sismarias se axam imensos moradores, huna 
aposeados de terrenos, que principiarão a cultivar, e Onde se 
estabelecerão, e Outros com poses conferidas pela Camará no 
tempo aue esta se axava authorizada p* o fazer, cujos terrenos 
e moradores que se axão asim de posse morando e plantando 
são imensos, e se axao guardadas e Conservadas as ditas suas 
poses existentes Com moradias e cultivados. 

Ribeirão Itimirim braço deste Una 

1. Sismaria de duas Legoas de terras concedidas pelo Go- 
verno ao Ajud* António José Peniche, a José de Andrade 
Silva, a Prancisco dos Santos Carneiro, a Francisco Manoel d& 



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+■- 



- 325 - 

Alvarenga, sendo hua Legoa de huma banda, e Onira Legoa da 
Outra banda, em cuja extensão se axâo alguns cultivados, facul- 
tados pelos proprietários Sismeiros. 

Este Ribeirão Itimirim que tem sua imbocadura no Rio de 
Una as ima dito, tem »lguns moradores, desde sua Barra tbe a 
Sisnaax-ia que dito fica, os quais moradores estam se con- 
servando nos cultivados, e poses q fizerào como primeiros povoa- 
dores, e tem seus citios em que morão cultivam e presistero, sem 
<5ontra^diçfto, é quazi todo cultivado o terreno que cada bum ocupa. 



to 



das Areias q entra por este Una the Piraupava 



El& te Rio das Areias q tem sua imbocadura neste Rio de Una, e 
he n^xregavel the sair no Rio Piraupava onde tem Outra imbo- 
^^ra, tem em si muitos moradores q nele se forào estabelecer 
sem titulo nem posse alguma p* se axar entam despovoado, os 
quaes, moradores estão habitando cada hum nos termos e fren- 
di 9 <J.x*^ poderão cultivar axando-se somente nele as Sismarias 
^rui** tes. 

X , , Sismaria de meia Legoa de terras concedida pelo Go- 

frf* 1 ** a Daniel Al vez Adorno e a Victorino José Lopes, posu- 

i( *^ laoje todo pelo Sócio dito Victorino José Lopes p* haver 

..^I^^íkIo a parte de seo Sócio onde mora, planta, ecultivaefe- 

lv ^ oriente com Beus Escravos cuja paragem e Sismaria tem o 

0EI: *^ Itinga. 

X 9 , Sismaria de meia Legoa de terras concedida pelo Go- 

, r **o mistas a as ima dita no lugar denomiuado Areias, onde não 

oj ^ -Ociorador algum, mas se axa cultivadas porq* esta Sismaria 

""^^o pedida p* vários moradores do Rio Piraupara p* nelahi- 

J=»lantar mandiocas p r ser próprio p* isso somente lhes foi 

-«lida neste Sentido, e p r isso todos os moradores ali vam 

~ xnamente plantar e colher. 



COE* 

una 



Bio de Una do Prelado 

ye ^^^ 3L„ Sismaria de meia Legoa de terras concedida pelo Go- 
Jo^?*^* a Joaquim Pupo da Rocha, falescido, e hoje posuida por 
**" António dos Anjos, com efectiva cultura. 

-„ Sismaria de duas Legoas de terras concedidas pejo Go- 
no Rio Quacunduca, ao P e Francisco Manei Junqueira e 
►ócio, com alguma cultura em parte. 
» 1 , Sesmaria de meia Legoa de terra concedida pelo Conde 

Y: ^^atario, e dada depois em Património de N. S. Conceição 
^ ô ^t^ah&e, hoje posuhidas pela Viuva Catharina de Lima q as 



seo 



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— 326 — 

comprou, e as cultiva porq ficam contíguas a sua moradia na 
Barra deBte Rio, na praia do mar grosso. 

Este Rio de Una alem da sua extenão tem em si muitos 
Ribeiroins navegáveis e tem estas terras devolutas, muitas ma- 
deiras, boas propriedades p* muitos estabecimt" e terras pró- 
prias para toda a cultura. Prezen temente tem entrado p* elle 
alguns povoadores, que se estam nele estabelecendo com seus 
citios e plantaçoinB, tendo ainda mt° terreno dezocupado inculto 
de hum e Outro lado do Rio. 

Consta que todas estas Sismarias estam cultivadas, com me- 
dição e posse, a excepção de quatro das nomeadaB, mais moder- 
nos, q* consta não terem feito medir pela probibição q o Gover- 
no da Provincia fez ao Juiz territorial nesse tempo, ordenando 
q não confirisse posse de terrenos de Sismarias, tbe segundo 
Ordem de Sua Magd* de Leis da Âssemblea Geral, constando 
também q os ditos Sismeiros a este respeito com seus documentos 
á Sua Magd c não tiverão Sulução. 

Villa de Iguape 5 de Julho de 1836. 

Joze Bonifácio de Andrada 

Juiz de Paz 

Documento n. 188 

Aos Vinte e seis dias do mez de Dezembro de mil e seis 
sentos e setenta E oitho annos na caza do oficina Se aSentarão 
os oficiais E prouedor E tbczourero Comiguo escrivão de abrir 
o cofre p* Se quiiitar ouro q auia nella Eu Ignacio miz escri- 
uão aue o escreuy. E loguo no mesmo dia mes Era aSima de- 
clarado aprezentou o Capit* m André Luiz e M' 1 de lemos do 
Reino por mão de Joseph de Souza Vinte quatro oitauas de 
ouro de que couue a Sua altheza quatro oitauas E mea de ouro 
E seis Vinténs que fis Este termo onde Se asinou Eu Ina- 
sio miz escriuão que o escreuy — M cl da Costa — Franc de pontes- 
Vidal — Josepe de Souza. 



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UM DOCUMENTO HISTÓRICO 



UMA CARTA DE PAULA SOUZA 



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-i. 



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«Vivons de notre vie>, dizia o mimoso poeta e ardente pa- 
triota suisso Juste Olivier. Faço minhas suas palavras: viva- 
mos de nossa vida, recordemos o nosso passado, aprendamos de 
nossos anceatraes. 

E' com summo prazer e profunda saudade que eu, ás vezes, 
no silencio do gabinete, ao tic-tac de uma pêndula, faço da me- 
moria colorida marmota e me delicio em vêr passarem, num cor- 
tejo augnsto e solenne, os vulgos de Feijó, Paula Souza, Mattim 
Francisco, José Bonifácio, etc. etc. 

Nestes tempos de abatimento moral, em que no nosso orga- 
nismo politico se manifesta pertinaz neurastenia, lembremos, com 
saudade, esses personagens másculos, de um patriotismo viril e 
quente, de caracteres massiços, de envergadura moral de aço. 

Nao desprezemos as suas lições; antes, assentados a seus pés, 
bebamos em seus exemplos o civismo que se escassêa eai nossos 
dias. 

Está na Índole de nosso povo, em gerol, lançar completo 
desprezo sobre tudo quanto é genuinamente nosso. E, em quan- 
to esse fôr o nosso procedimento, podemos estar certos de que 
nunca seremos um povo forte, porque forte é o povo que 
tem consciência da sua individualidade no congresso aos povos, 
e que procura, na sua organisaçào intima, accentuar, sem qual- 
quer idea estreita de nacionalismo, a fibra moral dessa individua- 
lidade. 

O apego ao nosso solo, o respeito aos nossos mortos illustres, 
a veneração das tradições de nosso» pães, o conhecimento do nos- 
so passado — eis o que deve ser a tonalidade do caracter brasi- 
leiro, para que esse caracter seja nobre, distincto, capaz de se 
objectivar no consenso dos povos. 

Não quero dizer com isto que sejamos retrógrados, nem que 
apotheosemos, como alguns o fazem de modo ridículo, o passado 
de nossa pátria, como se elle fosse puro, ideal ; mas, simplesmente, 
que não devemos snicidar-nos, mareando a gloria aos nossos 
nobres patrícios e aviltando tudo quanto, nesse passado, foi santo 
e grandioso. 



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Dois males que nos conservarão neste statu q-uo inquietador 
são: o pessimismo de uns, que só enxergam, no presente, podri- 
dão por toda parte, caracteres tabidos, vazios, e o optimismo de 
outros que só divisam flores e fingem n&o ver as mazellas de 
nossos tempos. , , 

Nihil nooum sub sole: as mesmas lutas, as mesmas fraquezas 
que ha hoje... tiveram-nas os tempos que lá se foram, e nada 
tão ridículo como arremessar para as costas da Republica os 
desmandos que hoje se praticam,., 

O documento que publico, (1) vem revelar-nos, ás claras, 
quão angustiosa era a situação politica de nossa então província 
em 1822. 

Publtcaudo-o, seja-me permittido acompanhal-o de algumas 
considerações que patenteiem aos olhos do nosso publico o mo- 
mento em que elle foi escripto. (2) 

Não venho dizer coisas novas ; não escrevo tio somente aos 
eruditos; o de que mais carecemos, na actualidade, são homens 
que escrevam ao povo ; que falem á nação, demagogos, como 
Feijó, que se unifiquem com as massas, se identifiquem com a 

Se nío devemos ter pelos nossos antepassados a admiração 
supersticiosa que levou os antigos povos a deificarem seus heróes, 
forçoso é não olvidal-os, e triste, muito triste e mesquinho é 
deepojal-os de seus lauréis... 

Despertemos em nossos jovens patrícios o gosto pelo estudo 
da historia politica de nossa pátria, afim de que elles saibam 
mais das angustias e aspirações de nossos avós do que da tomada 
da Bastilha ou do cerco de Sedai)... 

Leamos, todos juntos, o documento que nos legou um pa- 
triota cuja alma sempre palpitou movida de nobres anhelos pelo 
futuro e grandeza de nossa terra. Leamol-o com o mesmo sen- 
timento piedoso com que, no lar enlutado, em torno de ama 
mesa, uma só familia maguada, a hora do crepúsculo mysterioso 
e cheio de saudade, lê uma carta do chefe querido, que dorme 
o ultimo somno aos pés de um cypreste choroso: 



i jihnsa quebrtd», no período I técnico e nervoso, d* pontunelo 
mnuente >gunli em qna M íhsIut» iqnelle grude Tnllo (obra 

tiniu reiponsiblMtdas. 



'*, 



V ' 

.V 



- 329 - 






« IUmo. Sr. C.* 1 Martim Francisco Ribr. de Andrada. 
Creio, deverá saber o mizeravel estado actual da Prov.*; 
xnaz ao longe não pode assim m. m ° parecer tal qual é. P. r t.° 
todos os am. teB da ordem (q. é a g. de generalidade) morm. e desta 
e das V. M vizinhas, descorçoadas p. ,a tardança de S. A. R., 
entenderão, q'só indo um Deputado expresso á ta 11 ar m. mo a S. 
A. R., poderia affastar-se a terrível tempestade, q' parece immi- 
nente : e p. r isso vai o p. or desta, digno dessa comissão sobe- 
jam.*, e de fazer ver tudo p. r nós, e cm. nós. 

Espero q. V. S. lhe prestará todos os auxílios, q. elle puder 
precizar, m. m ° para dezempenho de seo fim, pois que eu me res- 
ponsabilizo p. r sua capacidade. Devo lembrar q. se elle não vai 
munido de diploma da Camará é pelo perigo de rebentar o se- 
gado, e perigar m. ta g. te frustando-se o fim. Tal é o estado 
desta! Domina por t.° a Inquizição, o Terrorismo : os espíritos 
Gfttao já mt°«. e mt°. azedos.: a facção ainda é a que domina: 
a anarcbia p. r t°., e todos seus horríveis fructos, são mt°. de 
«e temer, e esperar, e breve, a não virem promptos remédios. 

Estimarei a saúde de V. S., e todas felecidades. 

Dg. g. e a V. S. p. r ms. a.\ como lhe desejo. 

T tu 24 de Julho de 1822. De V. S. mt°. aft°. obr°. vor. 
"^Francisco de Paula Souza e Mello. » 

Como se vê, era em Julho de 1822, mez e meio apenas 

^^©8 do — INDEPENDÊNCIA OU MORTE ! 

Era por esses tempos em que, certamente, Adam Smith não 
era Uanito conhecido, Com te, com 22 annos, ainda não tinha 
c °Qcl-|]jd seuB estudos e Spencer, com dois annos, passeava de 
^T^ho pelas ruas de Derby... Nossos homens não conheciam 
mill J k*-8 philosophias ; mas se a philosophia é o gnothi sauton 
^^«ce-te a ti mesmo) gravado no portal do templo de Del- 
P °*» base da philosophia de Sócrates, nossos homens eram phi- 

. Exiles nem mesmo a língua materna conheciam com perfei- 

**?» cultivavam com esmero; mas uma coisa elleB sabiam — 

^ as necessidades do povo ; uma coisa elles cultivavam — a 

*** f estação espontânea das massas, condicção única para todas 

, | *^ formas sociaes. £ era quanto bastava, e é o que hoje, 

^^x nos falte... As fra quezas augmentaram, as virtudes rarea- 

™***> forçoso é confessar. 

Era maior, naquelles tempos, o numero de patriotas abne- 
^°s que lutavam sinceramente pelo bem publico, acalentando 
*** *iina um ideal por que eram capazes de morrer. 



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- 330 - 



Hayia homens, temperas rijas, de moral tão consistente que 
se tornavam verdadeiros imans para o povo. A inflexibilidade de 
seus caracteres, a força de vontade que os animava, dominava as 
turbas, e um grito arrancado de seus peitos era percutido por mi- 
lhares de boccas ; e quando elles oravam, as massas pendiam-lhes 
dos lábios e fluctuavam magnetizadas como os gregos de Homero 
aos discursos de Achiles. «Quem poderá furtar-se, pergunta o conde 
de Gasparin, ás influencias de uma vontade firme e resoluta ?» 

Animava-os uma convicção profunda e as velas de suas almas 
patrióticas enfunavam-se ao sopro dos ideaes mais puros. 

O homem de vontade forte e bem intencionado é, por certo, 
coisa rara ; mas, cemo o radium, elle é capaz de desenvolver no 
seio da sociedade um calor, uma luz, uma energia incalculável 1 

Quando os nossos quarenta deputados ás Cortes deixavam 
transparecer as idéas de independência, o deputado portuguez 
Borges Carneiro dizia : «O que nos falta é energia, o que nfto 
suecede no Rio de Janeiro, onde basta que José Bonifácio mande 
e tudo 6e faz.» 

£ Feijó? Fossem quaes fossem suas fraquezas, era a alma 
do um verdadeiro democrata (1), republicana em sua essência (2). 

Se alguém hoje fosse visital-os além tumulo, bem podia pa- 
rodiar as palavras de Menippo a Sócrates, quando este lhe per- 
guntou, no Hades: «Que se faz hoje em Athenas?» — «A maior 
parte dos jovens, respondeu Menippo, dizem-se philosophos, e, a 
julgar pelo seu porte e manto. . .silo philosophos perfeitos!» (3) 

E se elles, experientes homens de lutas, pudessem ver muitos 
dos que dirigem os negócios do Brasil, e muitos dos que, a ferro 
e fogo, pretendem dirigil-o, no futuro, é provável que discorres- 
sem como a raposa de Esopo deante da mascara tão bella : 

«O hoia kephalé, kai egképhalon ouch échei... O' que cabe- 
ça ! e nao tem miolo !» 

Mas, não divaguemos. Era em Julho de 1822. Por essa 
época as coisas politicas em Portugal e no Brasil ferviam. A 
irritação dos espíritos, pelas medidas que as Cortes tinham tomado 
com referencia á administração do Brasil e viagem de D . Pedro, 

(1) Morava em Porto Felis um homem rustioo. analpfaabeto, suponho, qne fora. 
companheiro de viagem de Feijó e sen amigo dedicado. Uma occasi&o, dizia elle, espera- 
ram $eu padre com um banquete em . . . 

Como era a moda, trajavam todos a casaca asnl de botões amareilos, 8tu pa- 
dre me fei sentar com elle acabeceira da mesa. 

Passei apuros!... ku com meu turtum de bafita... 

(2) Quando, desgotoso, entrevado, no fim de seus dias, via «He mal parados os ne- 
gócios do paic, exclamou: «Estas mftos precisavam de palmatória, quando nio esposei 
a eansa republicana.» 

Estas palavras, que nio me constam estarem registadas em algum documento ais- 
torioo, foram-me transmittidas por tradição de familia. 
(8) Luciano. Dialogoi nekrott. 



- 331 - 

era enorme. Lavrava franca e decidida incompatibilidade entre 
■ deputação brasileira e os congressistas portupuezes. No meio 
de uma vozeria ensurdecedora, a ralé minda de Lisboa, apinhada 
ou galerias em coro com os deputados de além mar, suffocava 
as palavra noa nossos, e Girão, o deputado mais audaz em ata- 
car-nos, balofo e sem critério, conseguia fazer carreira entre 
aqnella gente amotinada, tal como ainda boje alguns deputados 
nonos o fazem entra a gentalha do Rio... Em descompassado 
alamiré «manda-se um cio de fila domar o Brasil !> dizia elle. 
Os nossos, com grande dignidade, nfio lhe deram as honras de 
tuna resposta. 

Porque será que em nossos dias deputados desses ainda têm 
resposta ? 

Será que a sisudez transparecida nnquollc nobre silencio não 
mais condiz com a actualidade ? Será que aqui lio passaria agora 
por um catonismo ridículo, que um tal congresso seria anachro- 
nico e, como tal, nfio lograria obter o prestigio do povo ? 

Proa i gamos, porém. 

Os brasileiros eram atacados nos jornaes e da maneira mais 
insólita. Cançonetas mordazes, poças apimentadas no theatro, 
glosavam os feitos e as pessoas delles. 

Havia, é certo, nao obstante a pavorosa anarcbia em que 
ss achava Portugal, uma parte sensata que desapprovava aquel- 
les desvarios, e Trígoso sempre era nas sessões uma voz calma e 
conciliadora. 

Tinham desembestado os congressistas portuguezes e queriam 
a todo o transe, cercear pela raiz os surtos de independência. 

Quando, entretanto, chegaram do Rio novas que revelaram 
unia attitude positiva, resoluta e quasi extreme do príncipe e do 
povo, elles se intimidaram. 

Mas, alma do governo, pertinaz e animoso, Silva Carvalho 
enfrentou a tempestade. Era elle um portuguez de velha tem- 

£irs. «A natureza desta nossa nação portngueza, diz Fernão 
sndes, é sermos muito afteiçoados a nossos pareceres...* (1) 

E a roacçao proseguiu. 

Nossoa deputados, em plenas sessões, eram acoimados de 
linfmne», traidores, insolentes Paulistanos*' (1) A Junta Gover- 
nativa de S. Paulo, por deliberação das Cortes, devia ser pro- 
testada, por ter concitado o príncipe a resistirá metrópole epor 
Wel-o applaudido quando elle accedeu. 

Emquanto isto se passava cm Portugal, graves desordens se 
davam em S. Paulo, como nas demais províncias. 



- 332 - 



As idéas de independência não se tinham crystalisado ainda 
e não havia mesmo certa cohesao de forças 

A D. Pedro não lhe convinha uma independência radical, 
absoluta, porque, como herdeiro que era do throno português, 
sorria-lhe a perspectiva de dominar, sob um só sceptro, Portu- 

fal, Brasil e as mais colónias. José Bonifácio e a familia An— 
rada opinavam pela independência commercial % por assim dizer, 
e nào desapontavam o príncipe com outra qualquer idéa. 

Nao se dava, porém, o mesmo com José Clemente, Ledo e 
outros do partido liberal do Rio. Elles convidavam D. Pedro a 
c rasgar o véu» que encobria uma pátria grande e prospera (1), 
e faziam forte opposição a José Bonifácio que, além do mais, 
opinava por uma dictadura temporária, como medida útil. 

Esse partido encontrava rasgado apoio em alguns membros 
da Junta de S. Paulo. 

Oeynhausen e companheiros faziam a Martim Francisco, 
dentro da Junta e fora delia, a mesma opposição qne seus cor* 
religionarios faziam no Rio a José Bonifácio. É isto faziam, não 
porque abraçassem as idéas avançadas de Ledo e companheiros, 
mas tão somente por antipathia á familia Andrada (2). Podemos 
dizer mesmo que, na questão da independência, Ledo e os seus 
occupavam a extrema direita, José Bonifácio o centro e Oey- 
nhausen a extrema esquerda. 

Incommodado com a opposição que sofíria na Junta de S. 
Paulo seu irmão M. Francisco, opposição que lhe contrariava os 
planos, José Bonifácio conseguiu do príncipe uma portaria que 
ordenava o recolhimento de Oeynhausen e Costa Carvalho ao Rio. 

A execução de uma tal medida produziu a conhecida Ber- 
narda de Francisco Ignacio. Reunida a tropa e alguns do povo, 
protestaram contra a retirada dos dois chefes, taxando de despó- 
tica e arbitraria a portaria recebida. 

Temendo maiores males, M. Francisco e o brigadeiro Jordão 
demittiram-se, seguindo o primeiro para o Rio, onde foi occupar 
a nova pasta que lhe era confiada. 

A Bernarda échoou como um attentado á ordem, uma re- 
beldia ao príncipe. 

A camará de Ytú reprovou-a, fazendo sentir que não fora 
ella a expressão da vontade popular, nem mesmo de S. Paulo. 
Em seguida, officiou a S. A. R. protestando-lhe todo apoio e 
e8tygmatizando o procedimento da Junta. 



(1) Pereira da Silva, ffiti. da Fund. do Imp. 

J2) Ledo, no ÍUttrbero. 

(3) Á. Brazllienue. Lie. de Hitt. Pai. 240 



r 



- 333 - 

Tal representação foi interdicta pelo governo, sob pretexto 
de que era anarchizador o facto de se dirigir uma camará ao 
príncipe directamente e nào por intermédio do governo. 

Replicou a camará que o precedente das camarás de Minas 
auctorizavam-na a assim agir. Á situação angustiosa competia a 
camará ytuana a argumentar com . . . precedentes. 

Sorocaba corroborou a attitude de Ytu, uniu-se-lhes Porto 
Feliz e as demais viilas seguiram-lhes os passos. 

Á Junta sentia o terreno fugir-lhe debaixo dos pés. Em 
S. Paulo mesmo a opposiç&o era grande. 

Temendo algum movimento pelas armas, ordenou o governo 
ás camarás que enviassem á capital os respectivos destacamentos. 

Ytu desobedeceu-lhe e, no offlcio que dirigiu á camará de 
Porto Feliz, dizia: — «O nosso parecer é que por forma alguma 
se augmente a força pbysica na capital.» E a de Porto Feliz, 
em resposta, protestou acquiescencia franca as decisões daquella : 
«Já dêmos os passos que estão a nosso alcance, oficiando ao te- 
nente-coronel commandante de Sorocaba e á camará da mesma 
villa em que deprecavamos nao fizessem sair o destacamento. 
Resolutos a defender a bonra de nossa Província e fazer respei- 
tar o grande heróe brasileiro, nos defenderemos sendo atacados, 
repelliremos a força facciosa c, quando as nossas forças nào bastem, 
renovaremos os dias de Numancia, perecendo antes do que deixar 
de cumprir as ordens de sua alteza real. Nisto podem ficar w. 
sa. ; porém, senhores, este povo olha a installaçao de um gover- 
no provisório, como lembrou Sorocaba, como a base de todos os 
nossos movimentos». 

Á camará de Ytu deliberou que as forças vizinhas se con- 
centrassem nnquella cidade e ficassem promptas para o primeiro 
signal. O mesmo fez Sorocaba. 

Eis, em malbaratada synthese, mais ou menos, o estado das 
coisas no interior, quando o nosso documento foi escripto. 

Na capital as coisas eram mais serias ainda. O governo 
geral expediu um aviso a 23 de Junho ordenando que os ma- 
rechaes Arouche e Xavier puzessem ordem na província, lan- 
çando m&o das forças aquarteladas em Santos, se preciso fora. 
commando das armas tocava ao marechal Arouche. 

O governo de S. Paulo, sciente de que o governo geral 
procedia com firmeza, chamou Arouche á capital e exigiu que 
o commando das armas ficasse com o coronel César. 

Arouche transmittiu o seu aviso a Xavier e apresentou-se 
na capital • 



— 334 — 

Cândido Xavier marchou de Santos para S. Paulo, com 
as forças, pretextando vir em soccorro do governo. Mas o go- 
verno desconfiou: a esmola era de mais... 

Encarregado pelo governo, o coronel Muller foi parlamen- 
tar em caminho com o marechal, tão solicito pelo bem estar 
da capital... Devia Muller agradecer-lhe os cuidados extempo- 
râneos e fazer a força retroceder, por desnecessária. 

Foi então que Cândido Xavier entrou nesta, dirigiu-se a 
palácio, exigiu a presença de Arouche e entregou os dois 
avisos. 

Oeynhausen retirou-se para o Rio e a força voltou para 
Santos . 



Isto a 21 de Julho. 






Na exiguidade de meus conhecimentos de historia pátria, 
seja-me licito perguntar; Que csegredo» era aquelle de que fala 
a carta, segredo cujo «arrebentar» polia «perigar muita gente»? 

Dar-se-ia o caso de terem chegado de Portugal novas 
alarmantes com referencia aos ultrages que recebiam nossos de- 
putados, ás medidas coercitivas com respeito ás liberdades bra- 
sileiras, e taes novas impelissem os Ytuanos, os paulistas, emfim, 
a machinarem a independência tal como se deu a 7 de Se- 
tembro? 

Contra esta hypothese, que a simples leitura da carta sug- 
gere forçosamente, levantam-se objecções que me parecem pon- 
derosas. 

Em primeiro lograr o teor da carta diz respeito ás circu in- 
stancias especiaes «da Província», não se refere a um assumpto 
de interesse geral. 

Em segundo logar, a camará de Ytú, eoi orneio de 25 de 
Junho, dizia a S. A. R. : «Agora, Senhor, cairam por terra to- 
dos esses monstros que nos ameaçavam; o espirito publico já é 
unanime; o Brasil vae já sem duvida formar o magestoso cir- 
culo de que Vossa Alteza Real é o centro, e a nação inteira 
vae conservar sua desejada unidade, sem perder sua mutua in- 
dependência, e o venturoso, o benéfico e sempre saudoso Bei, 
o Senhor D. João VI, pae commum de toda a família portu- 
gueza, etc. 

E no banquete de 30 ainda se cantava: 



r 



- 335 - 

— < De ambos os mundos 
Viva a união; 
Seja uma sempre 
Toda a nação». (1) 

E é fora de duvida que a vinda de D. Pedro visava a paz 
interna da província t&o somente, e que o grito do Ypiranga, 
foi devido ás ultimas noticias que vinham ás mãos do príncipe 
aqui em S. Paulo. 

Seria a installaç&o do Governo Provisório, como lembrava 
Sorocaba? 

Mas essa resolução Sorocaba só tomara em 29 de Julho; 
e a camará de Porto Feliz, no officio transcripto, dirigido á ca- 
mará de Ytú, officio que traz a data de 4 de Agosto, ainda se 
refere á 6uggesi&o de Sorocaba como uma aspiração também da- 
quelle povo. 

Ora, o «segredo», segundo se deprehende da carta, era já 
uma colligação das «villas», um plano assentado a 24 de Julho, 
um quer que fosse «imminente». 

Seria um pedido para a própria vinda de D. Pedro? Mas 
isso não era um segredo que, descoberto, perigasse coisa algu- 
ma, visto como mesmo o governo de S. Paulo, «num beco sem 
saida», para salvar' as appnrencias, pedia a presença de S. A. 

Seriam os avisos em poder de Arouche e Cândido Xavier ? 

Mas, nesse caso, qual a missão do «Deputado»? Só pode- 
ria ser uma, a de dizer a D. Pedro : «Senhor, os vossos avisos, 
de que nós temos conhecimento, s&o decisivos e põe a Provín- 
cia em collisões. O marechal Cândido marcha a executal-os; 
mas o governo resiste e o sangue vae correr. Senhor, voae a 
S. Paulo»! 

Sabemos finalmente que a 23, véspera do dia em que a 
carta foi esc ri p ta, tendo chegado a Ttú a noticia dos successos 
da capital, reuniu-se a camará «e tratou de combinar com a 
força local os meios de pôr a villa em segurança*. (2) 

Aqui parece estar a chave do enigma. «Pôr a villa em 
segurança» contia quem? Temeriam os Ttuanos que as forcas 
da capital, apertadas pelas de Santos, affiuissera para o interior? 
Nao é possível. 

Parece, pois, que as forças reunidas em Ytú, bem como em 
Sorocaba, não estavam somente na defensiva, em espectativa. 



(1) Esses Tersos, que o dr. A. T. Pisa publicou na Rev. do Inst. Hist. sem o no- 
me do autor, eram da lavra do mesmo Cândido José da Motta. A familia Motta conser- 
va o original. 

(2) Dr. A. T. Pisa, Rtv. do Inst. Hist., vol. Vil. 



- 336 - 



Isto n&o consistiria «segredo» ao governo de S. Paulo, que bem 
sabia e temia a attitude hostil e resoluta das camarás. 

Parece, pois, indicar o tal «segredo» uma acção extrema, 
ofensiva. 

Em que consistia ella? que planos iam ser executados? 

Digam-no os sábios na escriptura... 

Quanto a mim, na minha inexperiência de joven, na ousa- 
dia de um illustre desconhecido, tomo a liberdade de appellar 
Sara a reconhecida competência do dr. A. T. Piza, perguntan- 
o-lhe: que csegredo», afinal, era aquelle? 



S. Paulo, 28 de Maio de 1904. 



Othonibl Motta. 



UM DOCUMENTO HISTÓRICO 



UMA CARTA DE PAULA SOUZA 

Chamado nominalmente pelo distincto e esperançoso moço 
Othoniel Motta para disser o que penso sobre uma carta myste- 
rio8a que Paula Souza dirigira a Martim Francisco a 24 de Ju- 
lho de 1822 e vem publicada em O Estado de S. Paulo de 29 
Maio ultimo, venho desobrigar-me daquella incumbência e reafir- 
mar a minha convicção sobre os graves acontecimentos de 23 de 
Maio daquelle anno e seus funestos effeitos Bobre a província de 
S. Paulo e todo o Brasil; mas para isso preciso de algum es- 
paço, qne O Estado terá certamente a gentileza de me conceder. 
Em 1820 toda a America Hespanhola estava em plena re- 
belliao para a independência. Essas revoluções, que duravam 
fade 1809, n&o repercutiram no Brasil porque a família real 
portuguesa aqui se achava, muitos abusos tinham sido remedia- 
dos, muitos melhoramentos introduzidos na administração do paia 
6 > de facto, a colónia já não era mais o Brazil, mas Portugal. 
Entretanto, se os movimentos revolucionários nas colónias 
*^*P&ithola8 não tiveram éco entrenós, a não ser na imprudente e 
c poem era rebelliao de 1817 em Pernambuco, que custou a vida 
a vários patriotas, elles affectaram profundamente as metrópoles, 
9 110 naquePe anno de 1820 estavam em temerosa anarchia poli- 
c * *ob o fundamento de desejarem os povos da península ibérica 
^opç&o de um regimen constitucional. 
j, .O rei Joio VI, chamado a Portugal, para onde seguiu em 
**1 de 1821, deixando no Brasil o seu filho primogénito D. Pedro 
V*^ regente, aconselhou-o que chamasse para si a coroa no ca- 
na colónia fazer-se independente da metrópole ; mas D. Pedro 
• "tinha interesse algum em fazer a indepedencia do Brasil. 
Drç /J? que» sendo o herdeiro presumptivo do throno de seu pae, 

nov»* **** natIlir *l roente 8€T ° chefe supremo de toda a monarchia 

* ^f^ueza a sel-o do Brasil somente. 

k_ A. independência, portanto, n&o podia ser e de facto n&o foi 

^* espontânea sua. 
p^ í^artindo a família real para Lisboa e ficando no Brasil o 
^^ipe Regente como um simples delegado do rei seu pae, 
™ ^ia que as Cortes Constituintes de Portugal deviam ficar aa- 



.*• 



— 338 - 



tisfeitas e deixar que os negócios públicos da colónia americana 
seguisse o seu caminho ordinário, á feicào dos tempos ; mas aquel- 
las Cortes, não querendo deixar-nos a menor apparencia de auto- 
nomia politica e administrativa, nào obstante o pomposo titulo 
de Reino Unido de Portugal, Brasil e Algcrves que se bavia da- 
do ao conjuncto da monarchia luzitana, insistia na chamada de 
D. Pedro para Lisboa e ao mesmo tempo dividia o Brasil em 
varias circumscripções politico-administrativas, cem governadores 
e comman dantes das armas nomeados directamente pelo governo 
portuguez e independentes do Príncipe Regente, cuja autoridade 
ficou limitada ás províncias que ficam do Espirito Santo para o 
sul e para o interior. 

A 23 de Junho deste mesmo anno de 1821, dois mezes de- 
pois da partida de João VI, deu-se em S. Paulo um movimen- 
to revolucionário, em que a massa popular era capitaneada pelos 
moços José Innocencio Alvim, e seu irmão Joaquim Alvim, no 
qual tomaram parte as tropas da cidade chefiadas pelos coronéis 
Lazaro José Gonçalves, António Leite Pereira da Gama Lobo 
e Francisco Ignacio de Souza Queiroz. 

Reunidos o povo e a tropa em frente ao paço municipal, con- 
sideraram deposto o capitão general João Carlos de Oeynhausen 
e passaram a tratar da organisação de um governo provisório 
em que não entrassem os «nossos antigos oppressores» (testual). 
José Bonifácio, que residia em Santos desde 1819, depois de trin- 
ta e oito annos de ausência na Europa, achava-se na cidade e, 
comquanto não tomasse parte no movimento sedicioso, foi con- 
vidado para ir á sala da Camará municpal presidir a eleição do 
novo governo. 

O modo pela qual se fez esta eleição do novo governo, o 
procedimento honesto, honrado, leal, que José Bonifácio então te- 
ve, as falas que então fez e os sábios e prudentes conselhos que 
deu aos revolucionários estão bem e longamente expostos nas pa- 
ginas 272 e 273 dos Apontamentos Históricos, de Azevedo Mar- 
ques, e julgo-me dispensado por isso repetil-os aqui. Porém, Jo- 
sé Bonifácio, que sairá do Brasil em menino, pelos annos de 
1780, e só voltara em 1819 para continuar aqui os estudos sobre 
a historia natural, conhecia pouco o pessoal paulista e com me t- 
teu o grave erro de organisar um governo collectivo excessiva- 
mente numeroso e composto de gente muito heterogénea, não 
respeitando o sentimento popular que pedia que fossem excluí- 
dos do governo aquelles que «até aqui têm sido nossos oppres- 
sores. » 

Ficou o governo composto de quinze membros, cujos nomes 
dou abaixo, com as suas naturalidades e profissões: 



— 339 - 



«^ 



1."— Joio Carlos de Oeynhausen, general portuguez-allemão, 
J|> e *Tiador que havia sido deposto naquelle mesmo dia do poder 

°**ato que exercia na província, presidente; 
pt^ 2."— José Bonifácio, paulista, por si, por seus pães e avós, 
jjt j ^Bse dia dado á sciencia e á litteratura e sem pratica de po- 

^ e de administração, vice-presidente; 
^*tj^ 35.°— Martim Francisco, coronel de engenharia, dado a es- 
"► de mathematicas, de historia natural e de economia poli- 
familiar com os seus práticos e conhecedor das suas neces- 
^s; occupou as pastas do Interior e Fazenda; 
^x J^- — Lazaro José Gonçalves, coronel dos caçadores, portuguez, 
^KVSstro da Guerra; 

5.°— Miguel de Oliveira Pinto, portuguez, official de mari- 
nha e delia intendente em Santos, ministro da Marinha; 

6.° e 7. Q — Padre João Ferreira de Oliveira Bueno, paulista, 
descendente de Amador Bueno, intelligente, mas muito velho, e 
padre Felisberto Jardim, do Rio Grande do Sul, representantes 
do clero;- 

8.° e 9.° — Brigadeiro Manoel Rodrigues Jordão, paulista, de 
torailia illustre, rico e amigo dos Andradas, e coronel Francisco 
Ignacio de Souza Queiroz, nascido em S. Paulo, filho de por- 
taguez, genro de portuguez, educado em Portugal e lá official 
de linha, commandante de milícias em S. Paulo, negociante e 
proprietário; representantes do commercio; 

10.° e 11.° — Coronel Gama Lobo, portuguez, commandante 
da cavallaria miliciana, e Daniel Muller, coronel portuguez alie- 
no e bom cartographo; representantes da força armada: 

12.° e 13.° — Dr. Nicolau Vergueiro, portuguez, advogado e 
lavrador, e António Maria Quartim, militar hespanhol-inglez, de 
Gibraltar, representantes da classe agrícola; 

14.° e 15.° — Padre Francisco de Paula Oliveira, paulista, 
professor, e André da Silva Gomqs, portuguez, professor, muito 
velho; representantes da classe a que pertenciam. 

Ora, temos aqui um governo oriundo de uma revolução li- 
beral e composto de oito extrangeiros, dos quaes sete eram mi- 
litares em actividade e um era um velho professor de latim, 
e de sete brasileiros, dos quaes cinco eram paulistas, um era do 
Sal e um era paulista de nascimento, mas portuguez de sangue, 
de educação, de costumes e até official do exercito de linha de 
Portugal e ainda coronel de milícias em S. Paulo! 

Não podia haver harmonia de vistas entre um tal pessoal 
e os attritos começaram logo no seio da heterogénea corporação. 
José Bonifácio, Martim Francisco e o brigadeiro Jordão eram 
nmito ligados entre si e influíam muito na direcção do governo, 



- 340 - 



pelo que eram objecto de mal encoberto ciúme do elemento mi- 
litar portuguez, personificado em João Carlos de Oeynhausen, 
Lazaro Gonçalves, Gama Lobo e Vergueiro com quanto fossem 
portuguezes, haviam adherido lealmente á nova ordem de coisas 
politicas e foram fieis á causa da revolução; os clérigos do go- 
verno e mesmo o professor portuguez André Gomes não se en- 
volveram nas lutas entre os interesses paulistas, personificados 
em José Bonifácio e seus amigos e as syropathias reaccionárias 
e retrogradas, representadas por João Carlos, Oliveira Pinto, 
Mui ler e Francisco Ignacio. O padre Paula Oliveira, que se 
8uppoz ser sympathico aos extrangeiros, foi sujeito mais tarde a 
um inquérito de que resultou prova em contrario ; coherente 
com a sua orgem paulista, esteve ao lado dos seus patrícios. 

Caminhava o governo provisório pesadamente, sempre com a 
ausência de alguns dos seus membros, principalmente de Ver- 
gueiro, que era homem muito occupado com negócios particula- 
res, e de Lazaro Gonçalves, militar em diversas commissões fora 
da cidade. A rebellião do primeiro batalhão de caçadores, que 
se achava aquartelado em Santos, e as violências praticadas na- 
quella praça pela soldadesca, obrigaram o governo á appli cação 
de rigorosos castigos, enforcando a sete dos mais compromettidos 
econdemnando a 110 a trabalhos forçados por vários tempos, de 
accôrdo com a criminalidade de cada um. 

Todos os membros do governo foram solidários na applica- 
ção destes castigos, como se vê das Actas das suas sessões, mas 
occultamente se procurou atirar sobre os Àndradas a responsa- 
bilidade dosses actos, de modo a deprimil-os no conceito dos 
paulistas, de cujos sentimentos elles eram os mais genuínos re- 
presentantes. E' o que dizem Machado de Oliveira e Paulo do 
Valle, contemporâneos dos factos, Azevedo Marques, Américo 
Brasiliense e conselheiro Aquino e Castro, chronistas insus- 
peitos. 

Em 24 de Dezembro de 1821 José Bonifácio redigiu e fez 
approvar pelos bous collegas do governo a celebre representação 
ao principe D. Pedro, a qual «ecoou por todo o paiz como uma 
fulminação poderosa atirada á face do governo de Lisboa», efoi 
immediatamente enviada ao Rio de Janeiro, onde serviu de prin- 
cipal incentivo ao figo do joven Príncipe. Em principio de Ja- 
neiro de 1822 o próprio José Bonifácio seguiu para o Rio, como 
delegado do governo de São Paulo, a reforçar, com o seu pres- 
tigio pessoal, as razões dadas na representação para que D. 
Pedro desobedecesse aos chamados das cortes portuguezas e ficas- 
se no Brasil. 



r 



- 341 - 

Na ausência de José Bonifácio cabia a Martim Francisco a 
vice-presidencia do governo collectivo de São Paulo, mas a in- 
fluencia paulista na direcção dos negócios públicos ficou sensivel- 
mente diminuída e na mesma proporção augmentada a dos es- 
trangeiros membros do governo. Américo Brasiliense, nas suas 
Lições de Historia Pátria, definiu bem a situação em poucas 
palavras, quando disse que «com a ida de José Bonifácio para 
o Rio de Janeiro ficou João Carlos de Oeynbausen com mais 
liberdade de acção e que, para manter a influencia portugueza, 
sé precisava da eliminação de Martim Francisco». 

Entretanto, essa eliminação era perigosa, porque José Boni- 
fácio era já ministro de D. Pedro e Martim Francisco e o bri- 
gadeiro Jordão representavam o genuíno sentimento paulista no 
meio dos militares extiangeiros acastellados no governo de S&o 
Paulo. Procurou-se então angariar alguns brasileiros e alguns 
paulistas de posição elevada para se tirar ao movimento sedi- 
cioso que se ia tentar o caracter de lucta de nacionalidades, 
entre paulistas e portuguezes. 

O primeiro que adberiu ao plano foi Costa Carvalho, ouvi- 
dor da comarca e interessado em remover os Andradas do seu 
caminho politico ; depois vieram o brigadeiro Joaquim José Pinto 
de Moraes Leme, fidalgo das primeiras famílias da província e cbeio 
de valiosos serviços ao seu paiz; o coronel Francisco Alves Ferreira 
do Amaral, chefe de um batalhão de milícias, solteiro, negociante, 
tíco e dispondo de bôa clientella que vivia dos seus favores ; o 
eapit&o Pedro Taques Alvim, de família illustre, irmão de José 
Innocencio e de Joaquim Alvim, que dirigiram o movimento 
liberal de 1821 ; Jayme da Silva Telles, Siqueira Moraes e ou- 
tros maiB, quantos bastavam para dar á sedição uma apparencia 
-de caracter popular. 

Antes que rebentasse a projectada rebellião veiu a portaria 
imperial de 10 de Maio de 1822 chamando para o Rio de Janei- 
ro, a Berviço da nação, o general João Carlos de Oeynbausen e 
o ouvidor Costa Carvalho. Foi a faísca que produziu o incêndio 
no material revolucionário accumulado pelo elemento português 
em Silo Paulo, auxiliado por uma pequena fracção de paulistas. 

A 23 de Maio estava a cidade entregue aos sediciosos, que 
«ahiram á rua com a força armada, depuzeram Martim e Jordão 
e intimaram a João Carlos de Oeynbausen e Costa Carvalho 
•que desobedecessem ás ordens de D. Pedro, não Banissem de São 
Paulo e nem abandonassem os seus cargos. Jordão seguiu para 
Santos e Martim Francisco foi mandado preso para o Rio de Ja- 
neiro, onde foi logo nomeado ministro da Fazenda. Não demo- 
rou a reacção contra os sediciosos, que foram deportados para 



- 342 - 



diversas partes da província, emquanto Jo&o Carlos e Cosia 
Carvalho seguiam para o Rio depois de ter lide o conteúddo o 
seguinte decreto, de 25 de Junbo de 1622 : 

« Sendo o primeiro do» meus mais sagrados deveres vigiar 
c sobre a salvação do Estado, união e tranquilidade dos povos 
« que me foram confiados, como Regente e Defensor Perpetuo 
« do Reino do Brasil, me não podia ser indifferente o modo 
€ illegal e facioso com que os chamados c povo e tropa » da 
« cidade de S. Paulo, instigados por alguns dbsorg anis adores 

« B REBELDES QUE POR DESGRAÇA DA PROVÍNCIA SO ACHAM ENTRE 

« os membros do seu governo, se têm ultimamente comportado 
« e querendo, pois, dar prompto remédio a taes desordens e 
« at tentados, que diariamente vâo crescendo hei por bem cassar 
c o presente governo e ordenar os eleitores das parochias pas- 
« sem ira mediatamente nomear um governo provisório legitimo 
c composto de um presidente, um secretario e cinco membros... » 

Acompanhando este decreto, severo pelo fundo e áspero pela 
forma, veiu a seguinte carta dirigida por D. Pedro ao membros 
sediciosos do governo de S. Paulo: 

c Sendo-me presente os vossos officios de 24 de Maio e 11 
« de Junho, em que me participastes as duvidas que occorreram 
c e se vos offereceram para não cumprir as portarias de 10 e 
€ 21 do dito mez de Maio, em que vos ordenava que fizésseis 
« partir immediatamente para esta corte o presidente do governo 
c e ao ouvidor nomeado para essa comarca de S. Paulo, debaixo 
« do falso pretexto de que assim vos requereram o povo e tropa 
« dessa cidade e porque assim o exigia o socego publico dessa 
c província, rogando-me por isso que eu houvesse de ap provar 
« semelhantes medidas ; informado eu, porém, dos verdadeiros 
« motivos que deram causa ao motim de 23 do dito mez, em 
« que a tropa e um punhado de miseráveis b facciosos dentre 
« o povo foram instigados b seduzidos por algums db vós 
C B outros vossos apaniguados, com manifesta desobediência 

« B REBELDIA A MINHA REAL AUCTORIDADB, COmO Príncipe Re— 

« gente d*ste Reino do Brasil e seu Perpetuo Defensor, e contra 
c o juramento que me prestastes no dia da installação desse 
c governo : Portanto, desejando eu que fique para sempre illi— 
« bada a honra dessa briosa e leal provincia de S. Paulo, a 
c quem eu e este Reino tanto devemos pela fidelidade e energia 
« de seus sentimentos e nobres acções, vos ordeno que logo, logo, 
« deis fiel e prompta execução ás ditas portarias, acima men- 
c cionadas ...» 

O governo de S. Paulo se achava reduzido, de quinze 
membros que tinha, ao seguinte pessoal -. Oliveira Pinto, oficial 



- 343 — 

da marinha portugueza; Daniel Muller, coronel portuguez, 
Quartim, militar hespanhol. e Francisco Ignacio, chefe apparente 
da sedição ; e esses homens não se m aguaram, nào se oôen de- 
ram com o decreto e carta de D. Pedi o, não deixaram o governo 
e continuaram a funccionar como Be nada tivesse havido que 
denotasse que tinham perdido a confiança do Principe Regente ; 
pelo contrario, mativeram-se no governo e tratam m de reagir 
contra estas ordens de D. Pedro de que eram portadores os ge- 
neraes Cândido Xavier e Arouche Rendem, ficando no governo 
até o dia em que o Principe aqui os apeou do poder. 

Á esta gorada sediçào militar e extrangeira foi dada o nome 
de Bernarda de Francisco Ignacio e contra ella reagiram desde 
logo as camarás municipaes de Ytú, Sorocaba, Porto Feliz, Cam- 
pinas, Mogy-mirim e outras, até dos Campos Geraes, á medida 
que a ellas iam chegando a noticia do que se passava em São 
Paulo 

Formou-se então uma confederação dos municípios do in- 
terior, com sede em Ytú, e armada para a defesa dos sentimen- 
tos paulistas e dos interesses brasileiros em luta com os milita- 
res extrangeiros aças tel la dos no governo desta capital. Paula 
Souza era o chefe dessa confederação e tinha como seu imme- 
diato auxiliar Cândido José da Motta, além de outros repre- 
sentantes de vários municípios, como o major José Custodio, o 
capitão Salvador Martins, Domingos Soares, o padre Miguel Ar- 
chanjo, etc. 

Santos permanecia fiel aos paulistas e estava guardado por 
forças que obedeciam ás ordens de Cândido Xavier; o valle do 
Parahyba estava em paz, em bóa parte pelos esforços do gene- 
ral Arouche, que lá residira em 1819 e 1820 e ainda exercia 
as funeções de inspector geral das milícias; o interior estava 
todo subordinado a Paula Souza, de modo que os extrangeiros, 
senhores do governo, dispunham somente da capital, cuja popu- 
lação era mantida em obediência pela força armada e pelo ter- 
ror que inspiravam os processos empregados pelos sediciosos, dos 
quaes alguns, como Pedro Taques e Silva Telles, chegaram a 
sair á rua de trabuco em punho, convocando gente para se 
ajuntar aos sediciosos e ameaçando de morte aos que se recu- 
sassem acceder á intimação. 

De 23 de Maio a 20 de Agosto a cidade de S. Paulo es- 
teve sob o regimen do terror e o interior em armas, á espera 
de graves acontecimentos. A situação era gravíssima em 19 e 
20 de Julho, quando se espalhou nesta capital a noticia de que 
o general Cândido Xavier vinha de Santos á frente de tropa ar- 
mada e que o general Arouche, nomeado commandante das ar- 



- 344 - 

mai, vinha do valle do Parahyba, a se encontrarem nesta ci- 
dade, e que as tropas do governo extrangeiro pretendiam re- 
sistir, não se podendo calcular quaes seriam os resultados deste 
possível encontro de forcas. 

Esta noticia devia ter chegado a Ytú na noite de 23 de 
Julho e Paula Souza devia immediatamente precaver se para o 
que pudesse acontecer em vista da grande somma de responsa- 
bilidades que pesava sobre os seus hombros. D. Pedro havia sido 
convidado a vir a S. Paulo e os próprios extrangeiros do go- 
verno pediam a sua vinda como o único remédio aos males pú- 
blicos e única saida menos desairosa para a úluação angustiosa 
em que se metteram; mas o Príncipe demorou essa vinda, que 
era por todos ardentemente desejada, e Paula Souza tratou de 
mandar ao Rio de Janeiro um emissário de confiança que bem 
esclarecesse aos ministros de D. Pedro a verdadeira situação dos 
negócios públicos na província de S. Paulo. 

O emissário escolhido foi Cândido José da Motta, seu ami- 
go e companheiro na confederação ytuana, homem intelligente 
e muito capaz de bem desempenhar a missào de que fora in- 
cumbido. EUe nào levava carta credencial da camará de Ytú 
porque teria necessariamente de passar pela cidade de S. Paulo 
em sua viagem ao Rio de Janairo e se os extrangeiros do go- 
verno desta soubessem ou chegassem a suspeitar que elle vinha 
como emissário da camará de Ytú ou da confederação ytuana, 
não passaria elle desta cidade, os seus papeis seriam sequestra- 
dos e a sua missão ficaria mallograda. 

Uma sessão de camará, mormente em tempos de revolução, 
não pode ser absolutamente secreta, a carta credencial que a 
camará de Ytú desse a Cândido José Motta podia ser notificia- 
da ou denunciada ao governo de S. Paulo, com graves conse- 
quências para o mandatário e para os interesses que lhe eram 
confiados. Dahi vem Paula Souza incumbir-se de dar a creden- 
cial ao seu amigo Cândido Motta, usando nella da phrase «Devo 
«lembrar que se elle não vae munido de diploma da camará é 
«pelo perigo de rebentar o segredo e perigar muita gente, frus- 
trando-se o fim.» 

O segredo estava na própria missão de que Cândido Motta 
fora encarregado e não nas instrucçÕes de que elle era porta- 
dor. Que elle não fez essa viagem ao Rio prova-o a existência 
entre os seus papeis da carta confidencial que Paula Souza lhe 
entregara. Alguma informação vinda do Rio a Ytú teria talvez 
trazido a noticia de que D. Pedro viria a S. Paulo dentro em 
pouco tempo e isto dispensou Cândido Motta de fazer aquella 
perigosa jornada. 



r 



- 345 — 

Realmente, a 25 de Agosto o Príncipe chegou a S. Paul- 
e desappareceu para sempre o governo da Bernarda, que tan- 
tos males trouxe á província de S. .Paulo, e ao voltar daqui 
para o Rio a 10 de Setembro do mesmo anno de 1822, estava 
proclamada a independência nos campos do Y piranga e empos- 
sado um novo governo, cordato e pacifico, composto do bispo 
D. Matheus de Abreu Pereira, do general Cândido Xaviel de 
Almeida e Souza e do dr. José Corrêa Padeço e Silva, ouvi- 
dor da comarca. 

Entretanto os ódios continuaram, os chefes da confederação 
ytuana soffreram, a Assembléa Constituinte foi dissolvida á mão 
armada e os An eirada», graças aos manejos de Costa Carvalho 
& João Carlos Oeynhausen, auxiliados pela cortezan Domitilla, 
aram deportados por seis annos. Só em 1831 foi que o elemento 
brasileiro, chefiado por Evaristo Veiga, assumiu as rédeas do 
governo e tomou conta dos negocioB públicos; porem todo o 
período regencial, anarchico e turbulento, resentiu-se das con- 
sequências da Bernarda de Francisco Ignacio e ainda na rebel- 
liao de 1842 era visível e apalpa vel a animosidade de Costa 
Carvalho, já então barão de Monte Alegre e presidente da pro- 
víncia, contra Paula Souza pelas recordações da confederação 
de Ytú. 

S. Paulo, Junho de 1904. 

A. db Toledo Piza. 



Chronicas dos tempos coloniaes 



EPISÓDIOS DA INDEPENDÊNCIA EM S. PAULO 

movimento de 23 de Maio de 1822, que depoz do poder 
o coronel Martim Francisco Ribeiro de And rada e o brigadeiro 
Manoel Rodrigues Jordão e ficou conhecido na historia pelo ap- 
pellido de «Bernarda de Francisco Ignacio», foi um aconteci- 
mento grave, que esphacelou o próprio governo e dividiu pro- 
fundamente os paulistas, atirando uns contra os outros, pondo a 
capital em lucta com o interior e deixando a administração en- 
tregue a alguns extrangeiros — João Carlos de Oeynhausen, Da- 
niel Muller, António Maria Quartim e Miguel de Oliveira Pinto 
— escorados militarmente pelo coronel Francisco Ignacio de Sousa 
Queiroz e civilmente pelo ouvidor José da Costa Carvalho, que 
alguns supunham ter ídéas republicanas, mas que sempre esteve 
ao lado dos portuguezes, dos retrogados e dos conservadores em 
todos os tempos da sua longa vida politica. 

Contra o dominio dos extrangeiros na capital rompeu logo 
o povo vtúano, chefiado por Paula Sousa e Cândido Motta, se- 
guindo lhe o exemplo Porto Feliz, sob a direcção do major José 
Custodio e do capitão Salvador Martins; Campinas dirigida pelo 
capitão mor João Francisco, padre Miguel Archanjo e outros ; 
Piracicaba guiada por Domingos Soares de Barros ; Mogy-mirim, 
Sorocaba, Itapetininga e as villas dos Campos Geraes. 

Montou-se uma confederação dos municípios, com sede em 
Ytú, transformada em praça de guerra e guarnecida por força 
armada, sob as ordens do tenente coronel Pedro de Brito Cami- 
nha. Santos se mantinha em socego, sob o commando do gene- 
ral paulista Cândido Xavier de Almeida e Sousa e as villas do 
valle do Parahyba, sob a influencia do marechal José Arouche de 
Toledo Rendon, se mostravam solidarias com a confederação ytú- 
ana na repulsa do predomínio extrangeiro na capital. 

Deposto e remettido preso para o Rio de Janeiro, Martim 
Francisco foi logo depois nomeado ministro da Fazenda do jovem 
Príncipe Regente, que a 25 de Junho expedia um áspero decreto 
dissolvendo o governo sedicioso de S. Paulo, cassando lhe os po- 
deres, mandando eleger um outro que op p o r tu nam ente seria em- 
possado, e chamando para o Rio o general João Carlos de Oeynhau- 



— 347 — 

sen e o ouvidor Costa Carvalho, cabeças pensantes e directoras 
dos factos de 23 de M»io. 

Entretanto, as relações entre a capital e o interior da pro- 
víncia se tornavam dia a dia mais complicadas, tensas e azedas, 
dando logar a sérios receios de uin rompimento á mão armada, 
cujas consequências ninguém poderia prever. O governo do Prín- 
cipe Regente havia nomeado o marechal Arouche commandante 
das armas da provincia e ordenara ao general Cândido Xavier, 
governador militar de Santos, que marchasse sobre S. Paulo com 
força armada, a dai* posse ao commandante das armas e concor- 
dar com este sobre os meios de trazer a paz á cidade anarchi- 
zada. 

Arouche havia chegado a S, Paulo a 16 de Julho e Cân- 
dido Xavier só chegou cinco dias depois, na noite de 21, tendo 
; deixado atrás, estacionada no Ponto Alto, a força com que vie- 

i ra de Santos. Foi elle recebido nas portas da cidade pelos co- 

I roneis Muller e Francisco Ignacio, chefes sediciosos, e com el~ 

les veiu a palácio, sendo apupado nas ruas pelo populacho re- 
volto, que estava senhor da cidade, não obstante as declarações 
em contrario, feitas na Camará, de haver pacifica paz, não so- 
mente na cidade, mas também em toda a provincia. 

O governo provisório, extrangeiro e rebelde, não quiz dar- 
se por dissolvido e cassado e tratou de egual a egual com os 
dois generaes delegados do Príncipe Regente, tendo as suas tro- 

Sas de promptidfto e deixando a cidade, no dizer de Machado 
e Oliveira, entregue á arraia miúda e aos desordeiros, assala- 
riados por quem tinha interesse em prolongar e aggravar essas 
desordens. 

1 1 Em virtude do accôrdo então feito entre aquelles dois ge- 

neraes e o governo de S. Paulo, evitou-se a necessidade de ser 
assaltada a cidade pelas forças legaes e de se derramar sangue, 
o que viria aggravar ainda mais a situação politica da provin- 
cia e tornar mais intensos os ódios entre a capital e o interior. 

r i Partiram para o Rio de Janeiro o general João Carlos de 

Oeynhausen e o ouvidor Costa Carvalho em obediência ao cha- 
mado do Príncipe; voltou a Santos o general Cândido Xavier, 
não tomou Arouche posse do cominando das armas e ficou-se á 
espera da chegada de D. Pedro, a quem antes se havia dirigido 
instantes convites para vir a S. Paulo a harmonizar a pro- 
vincia. 

A 14 de Agosto partiu D. Pedro do Rio de Janeiro pela 
via terrestre, e no caminho se reuniu a elle uma bella e fi- 
dalga escolta, que lhe foi enviada pelas villas do valle do Pa- 
xahyba; no dia 24 chegou elle ao arrabalde da Penha e alli 



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- 348 - 

pernoitou, a pedido de uma commissão, para dar tempo a que 
se completassem os preparativos que na cidade se faziam para 
a sua festiva recepção. 

D. Pedro era então moço de 24 annos de edade e, com- 
quanto fosse já casado e pae de família, não possuía a sisudes 
e circumspecção exigidas pela sua alta jerarchia e pelo elevado 
cargo que occupava no paiz; era estróina, trocista, leviano e 
mesmo devasso, não tendo o menor respeito pelos laços conjti- 
gaes e pelas grandes qualidades da sua esposa, a bella e vir- 
tuosa princeza D. Leopoldina da Áustria. José Bonifácio nunca 
poude corrigil-o desses defeitos e por mais de uma vez teve 
occasiào de ficar escandalizado com as respostas pornographicas 
que lhe dava o Príncipe, em troco dos seus bons conselhos e 
melhores exemplos de moralidade domestica. 

No Rio não era segredo a historia das costellas quebradas, 
nem a resposta pilhérica que o Príncipe dera a um distincto 
medico que, ao examinar a quebradura das régias costellas, de- 
clarara que era o resultado de uma sova de cacete e não de 
uma queda do cavallo, como diziam os palacianos. Em Tanba- 
té, onde pernoitara durante a viagem, passou elle a noite fora 
da companhia da sua comitiva, em casa publica de pessoa que 
ainda vivia cincoenta annos depois e que não tinha motivos 
para ter saudades da visita principesca, com que aliás parecia 
dever julgar-se lisongeada. 

Na noite de 24 de Agosto não se deixou ficar na Penha; 
estava á vista da cidade, a tentação era grande e veiu incosrni- 
to e fora de horas para a cidade, em companhia de um certo 
cavalheiro, que o levou para os lados da ladeira da Academia, 
á casa em oue então residia uma bella fidalga, que dentro em 
pouco se tornou cortezã famosa pelos soffrimentos que infligiu 
a desditosa imperatriz Leopoldina, pela parte activa que tomou 
na dissolução da Aesembléa Constituinte e deportação dos Án- 
dradas e pelas desgraça? que acarretou sobre o Brasil todo, in- 
clusive a perda da nossa bella província da Cisplatina, influin- 
do de modo perverso e desmoralizador sobre o espirito irrefle- 
ctido e leviano de Pedro I e tornando-o odiado pelos brasilei- 
ros, que no começo tanto o amavam. 

Da Penha expediu o Príncipe uma portaria ao Senado da 
Camará de S Paulo para que no dia seguinte, 25 de Agosto, 
fosse incorporado recebel-o na entrada da cidade, onde estava um 
grande arco embandeirado por baixo do qual devia elle passar. 
Da Camará, porém, eram membros alguns indivíduos, como o ca- 
pitão António de Siqueira Moraes e outros, que tinham tomado 
parte activa na sedição de 23 de Maio, e a D. Pedro, que vinha 



— 3-49 - 

inquirir sobre os acontecimentos desse dia, repugnava ser recebido 
em festas por esses mesmos vereadores sobre cuja criminalidade 
elle vinha syndicar. 

Assim determinou elle que entre os vereadores que o fossem 
receber nao estivesse nenhum dos que tinham participado na 
Bernarda e que esses fossem substituídos por vereadores transa- 
o* 08 * limpos da pecha de sediciosos e nao sujeitos á syndieancia 
que elle vinha fazer. 

Também o coronel Francisco Ignacio, um dos principaes che- 
fes da Bernarda, que por isso tomou o seu nome, homem rico e 
influente, militar, commerciante e capitalista, sobrinho e genro 
do brigadeiro Luiz António, tomou a si o trabalho de montar a 
M 1 * custa um corpo de luzida tropa para festejar a entrada do 
xrincipe na cidade: porém este, logicamente, recusou o obsequio, 
^pensando o coronel daquella formalidade, porque não podia 
^n temente ficar em obrigação para com um dos mais compro- 
metidos nos factos delictuosos que obrigaram a sua vinda a São 

r No dia 25 de Agosto, como estava combinado, entrou D. Pe- 

°A cidade, sendo recebido festivamente pelo povo e pelos 

Wteadores e servindo de orador ofiLcial o dr. Manuel Joaquim 

ie Ornellas, que mais tarde fez figura na politica da província 

e que, como vereador mais transacto, fora chamado por causa do 

seu talento oratório, conveniente em tal solemnidade. O modo 

pelo qual o jovem Príncipe foi recebido nas portas da cidade 

pela Camará de S. Paulo, incorporada, consta da seguinte acta, 

secca, lacónica, prosaica equasi indígena daquella grande solen- 

nidade : 

« Termo de ajuntamento para ir ao encontro de Sua 
« Alteza Real nesta cidade . 

« Aos 25 de Agosto de 1822, nesta cidade de S. Paulo e 
« casas da Camará, paços do Conselho delia, onde foram viu- 
« dos o juiz presidente, capitão Bento José Leite Penteado, os 
« vereadores José Mariano Bueno, dr. Manuel Joaquim de Ornei- 
« las e José de Almeida Ramos e o procurador Luiz Manoel da 
« Cunha Bastos, abaixo assignados, daqui foram incorporados e 
« cobertos com o real estandarte, e no primeiro arco, defronte 
« da porta do exmo sr. bispo, encontrou esta Camará com Sua 
« Alteza Real, recebendo-o debaixo do pallio; dahi foi-se á Sé. 
< onde se cantou «Te Deum Laudamus» e dahi foi-se ao paço, 
« onde deu seu beija- mão, á Camará em primeiro logar e depois. 
« seguiram-se as auctoridades, e dahi recolheram-se a estes paços 



— 350 — 

« do Conselho e para constar mandaram lavrar este termo, que 
c assignaram, e eu João Nepomuceno de Almeida, escrivão, o 
« escre v i. — Penteado — Bueno — Ornellas — Ramos — Bastos » • 

Nada de discursos, nada de oratória na occasião da chegada 
do Principe, ficando adiado para o dia seguinte o esforço con- 
gratula tório do orador Ornellas. Entretanto, mandou a Camará 
illu minar o paço municipal, emquanto os particulares illumina- 
vam as suas casas, o povo folgava e D. Pedro procedia á rece- 
pção dos que o vinham cumprimentar e das delegações que vie- 
ram de Ytú, Campinas, Sorocaba e outros municípios da confe- 
deração ytúana, que montaram, com gente de sua absoluta con- 
fiança, uma guarda especial que garantisse a pessoa do Principe 
contra qualquer perigo que pudesse vir do partido retrogrado, 
apeado do poder e com os seus chefes provisoriamente deporta- 
dos para varias partes. 

Foi entào que entre os delegados do interior appareceu em 
palácio o capitào-mór de Ytú, Vicente da Costa Taques Góes e 
Aranha, respeitável velho de mais de 70 annos, bom latinista e 
poeta de merecimento, vestido com a farda própria do posto que 
occupava desde 1779 e que vinha do tempo de Martim Lopes, 
chapéu armado e bastão de commando, solenne e grave como 
um peru arrepiado e cheio da importância que ligava ao cargo 
de representante entre os mortaes do poder e direito divino dos 
reis. 

D. Pedro, leviano e imprudente como sempre, ao vêraquel- 
la figura antiquada, representante de uma geração extinctaede* 
costumes de outras eras, não poude se conter, deu lhe no rosto 
tamanha gargalhada e fez taes troças com o capitào-mór, em 
presença do seu séquito e mais visitantes, que o honrado velho, 
profundamente magoado no seu amor próprio, retirou se do palá- 
cio desesperado, desgostoso de ter vivido até aquelle dia para 
ser enxovalhado pelo próprio idolo das suas crenças politico- 
absolutistas e talvez recitando mentalmente aquella apostrophe 
do grande poeta : 

Oh rage, oh desespoir, oh vieielesse ennemief 
Nai-je dane tant vecú que pour cette infamie ! 

Arrependeu-se logo D. Pedro da imprudente grosseria que 
tinha praticado para com aquelle honrado paulista e leal servidor 
de seu pae e avô, que havia já quarenta e três annos que exer- 
cia com justiça e rectidão as espinhosas funeções de capitão-mór 
de Ytú, e que tanto se illustrára na defesa dos interesses bra- 
sileiros, representados pela enfederação dos municípios, contra as 



351 — 



tendências absorventes dos extrangeiros acastellados no governo 
de São Paulo. Mandou-o chamar a palácio antes que o velho 
tivesse regressado para a sua cidade natal e deu-lhe as satisfa- 
ções que a gravidade da offensa exigia, pedindo-lhe qne conti- 
nuasse a prestar os seus serviços á causa dos brasileiros contra 
os portuguezes, que pretendiam nos recolonizar. 

Voltou o velho capitão-mór a palácio mais uma vez e de- 
pois se retirou para Ytú com o coração mais contente e com o 
seu melindre mais apaziguado, porém inteiramente desilludido do 
ideal da divina perfeição que, nas suas crenças politicas e reli- 
giosas, se acostumara a ligar á pessoa dos reis, que para elle 
eram, até aqnelle fatal dia, os verdadeiros transumptos de Deus 
na terra. Continuou, entretanto, no exercício do 6eu cargo até 
1825, quando falleceu, deixando grande descendência e penosa 
lembrança de suas luctas contra Feijó e Paula Sousa, que elle 
considerava como demagogos perigosos para a ordem politica e 
social da província. 

— No dia seguinte, ao da chegada de D. Pedro, a Camará 
se reuniu para fazer aquillo que consta da seguinte acta, egual- 
mente secca e lacónica : 

< Aos 26 de Agosto de 1822, nesta cidade de S. Paulo e 
casas da Camará, paços do Conselho delia, onde foram vindos 
o juiz de fora presidente, capilão Bento José Leite Penteado, 
o vereador actual José Mariano Bueno e os transactos dr. 
Manoel Joaquim de O me lias e José de Almeida Ramos e o 
prosurador Luiz Manoel da Cunha Bastos, abaixo-assignados, 
para effeito de irem ao beija-mao de Sua Alteza Real e cum* 
primental-o ; daqui sahiram cobertos com o real estandarte e 
foram ao paço real, e estando a Camará na sala de espera, 
mandou Sua Alteza que a mesma entrasse primeiro ao beija- 
mào e depois de ter assim cumprido pediu vénia para fazer a 
sua fala, e mandou o mesmo Senhor que sim; fez ou recitou 
o dr. Ornellas, de que o mesmo Senhor ficou muilo satisfeito, 
e logo depois nos recolhemos a estes paços do Conselho, onde 
para constar mandaram lavrar este termo e determinaram que 
se registasse a dita fala. Quem carregou o estandarte foi o 
capitão Francisco Leandro de Moraes Leme, E eu João Ne- 
pomuceno, escrivão, o escrevi. — Penteado — Bueno — Ornellas — 
Ramos — Bastos ». 

O discurso de Ornellas, saudando o Príncipe em nome da 
Camará, é uma peça curta e digna de ser lida pelos estudantes 
da historia pátria. Além dos exaggerados elogios á pessoa e á 
missão providencial de D. Pedro, contém o pensamento de que 
o Brasil ainda podia continuar ligado a Portugal, mesmo quando 



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- 352 - 

tivesse um corpo legislativo próprio e uma . regência em lucta 
aberta com as Cortes Constituintes de Lisboa, e isto se afirma- 
va apenas doze dias antes da proclamação da independência. 
Disse o dr. Ornellas o seguinte: 

« Senhor. — Á vinda de Vossa Alteza Real a esta provín- 
cia é a mais decisiva prova da sua paternal bondade, do seu 
amor e da sua estima para com os seus fieis, obedientes e aman- 
tes paulistas, esta porção de afortunado povo brasileiro, que teve 
a incomparável dita de possuir a Vossa Alteza Eeal por seu 
Augusto Regente e Defensor Perpetuo. Vo6sa Alteza Real é o 
astro luminoso que, raiando no nosso horizonte, veiu dissipar 
para sempre, com os seus brilhantes raios, as negras e espessas 
sombras que o cobriam e que tão desgraçadamente perturbavam 
a serenidade deste bello e ameno paiz, onde sempre reinaram a 
paz, o socego e a bôa ordem sociaL 

« Vossa Alteza Real, com a sua Augusta Presença, afugen- 
tando já de uma vez para o Averno o envesgado monstro da 
discórdia, vem reanimar a pacifica oliveira qne um furacão, le- 
vantado de improviso, procurou desarraigar, mas que nao poude 
abalar, fustigando apenas alguns dos seus ramos. 

c Esta ditosa arvore, pois, reanimada pela benéfica influen- 
cia de um astro pacificador, torna a recobrar todo o seu antigo 
vigor e vae desde já produzir, em uma primavera continua, os 
doces e sazonados tractos da paz, da união, da tranquillidade e 
da concórdia. O beneficio que Vossa Alteza Real acaba de 
fazer a este povo, visitandoo nos dias da sua tribulação e amar- 
gura, é o remate glorioso com que Vossa Alteza Real quiz co- 
roar o majestoso quadro dos immensos e extraordinários favores 
de que t&o liberalmente tem enchido este vasto reino do Brasil. 

«Alegra-te, Paulicéa, exulta de prazer, despe as enlutadas 
roupas em aue te envolveste quando, ultrapassada da maior dor, 
viste rompida a tranquillidade em que vivias ; orna-te já da pre- 
cioBa e brilhante vestidura com que deves apparecer para rece- 
beres em teu seio o anjo tutelar que vem ccnsolar-te na tua 
afilicçao, enxugar tuas lagrimas, converter tua tristeza em um 
exuberante regosijo e firmar em alicerces inabaláveis o magni- 
fico edifício de uma futura grandeza e permanente prosperidade. 

«Ta vês já em teus braços o precioso penhor da tua segu- 
rança, o caro objecto das tuas adorações, o príncipe amável que 
faz as delicias do seu povo, o ornamento da d ynastia bragantina, 
por ti sempre idolatrada, o digno filho do rei magnânimo e bem- 
lazejo, a quem todo o Brasil deve a sua emancipação pela ca- 
tegoria do reino a que t&o generosamente o elevou ; um príncipe, 
finalmente, que, pela generosa resolução qu«* tomou de ficar no 



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- 353 - 

Brasil e sua fiel promessa de ser o sen protector e defensor per- 
petuo, o tem resgatado da vergonhosa escravidão a que se in- 
tentava reduzi lo, desprezada a sua preeminência de reino, e se 
lhe destinava unicamente em partilha com ò reino-irmào, a que 
está unido. tíoija, portanto, a real mno do teu augusto bem- 
feitor e, curvada deante do throno, protesta lhe uma fiel obe- 
diência : assegura-lhe que viverás sempre unida á causa coinmuro 
do Brasil, sem com tudo romperes os laços que te prendem a Por- 
tugal, laços que cada vez desejas apertar mais e fazer indisso- 
lúveis ; consagra-lhe os mais sinceros e ardentes votos do teu 
respeito, do teu amor da tua gratidão e do teu eterno reco- 
nhecimento. 

cE vós, Senhor, que não nascestes sinão para fazerdes a 
felicidade do liberal povo que tão sabia e dignamente regeis, 
espalhae sobre esta parte dello vossas benignas vistas e capa- 
citae-vos de que entre os briosos paulistas ainda se conservam 
aquelles heróicos sentimentos de honra, de fidelidade e de adhe- 
são á sereníssima casa de Bragança, que animaram sempre os seus 
famigerados ascendentes e os fizeram tão distinctos entre o de- 
mais povo do Brasil. 

«Viva a religião! Vivam as futuras Cortes do Brazil 1 Viva 
El Rei Constitucional, o Sr. D. João VI ! Viva o Priucipe Real, 
Augusto Regente e Defensor Perpetuo do reino do Brazil ! Viva 
a Sereníssima Princeza Real, sua Augusta e Querida Esposa ! 
Viva a sua Real Família ! Viva toda a Casa de Bragança I Vi- 
vam a união e a tranquilidade ! E vivam, finalmente, os honra- 
dos portuguezes de ambos os hemispherios !» 

Por este discurso se vê que o monstro da discórdia reinava 
em S. Paulo, que um furacão devastador tentara desarraigar a 
arvore de oliveira, que é o symbolo da paz, e que a família pau- 
lista se achava enlutada e cheia de tribulação ao tempo da che- 
gada de D. Pedro a esta cidade ; entretanto, o militarismo e a 
plebe desenfreada, que expelliam Martim Francisco e Jordão do 
governo e apupavam nas ruas o general Cândido Xavier, cor- 
riam ao paço municipal e faziam protestos declarando que a ci- 
dade e a província se achavam um pacifica paz e que não ha- 
via motivos para medidas excepcionaes da parte do governo do 
joven Príncipe. 

A este discurso do representante da municipalidade não re- 
spondeu o Príncipe coisa alguma na occasião ; mas, no dia seguin- 
te, mandou o seu secretario de Estado interino, Luiz de Salda- 
nha da Gama, enviar á Camará o seguinte agradecimento : 

«Manda Sua Alteza Real o Príncipe Regente, pela secreta- 
ria de Estado interina, agradecer á Camará desta cidade a fala 



- &54 - 

3ne lhe dirigiu, como seu orgam, o vereador transacto Manoel 
oaquim de Ornellas. Sua Alteza Real aproveita esta occasiào 
para repetir que a sua fortuna é inseparável da felicidade dos 
povos que rege e que para seu bem nada ha que repute sacrifi 
cio: Paço de S. Paulo, 27 de Agosto de 1822.— Luiz de Sal- 
danha da Gama. 

A presença de D. Pedro bastou para dispersar os restos do 
governo extrangeiro e sedicioso, que estava reduzido ao portu- 
guez Oliveira Pinto, ao portuguez-allemão Daniel Miillcr, ao hes- 
panhol-inglez António Maria Quartim e ao brasileiro Francisco 
Ignacio de Sousa Queiroz. Para o Rio já tinha seguido João 
Carlos de Oeynhausen em companhia do ouvidor Costa Carva- 
lho ; José Bonifácio e Martim Francisco eram ministros de Esta- 
do ; Jordão, deposto e expulso da capital, voltara quando D. 
Pedro aqui chegou, mas conservou-se alheio á administração ; 
Vergueiro cuidava mais em lavoura e negócios do que em po- 
litica e estava arredio ; o& padres Oliveira Bueno, Felisberto Jar- 
dim e Paula Oliveira e o professor André Gomes, todos membros 
do governo, se haviam delle retirado ; Lazaro Gonçalves e Gama 
Lobo, militares portuguezes, mas sincen s adherentes da causa do 
Brasil e dos brasileiros, sempre oceupados em serviço activo, 
também deixaram o funesto governo, que assim ficou reduzido ao 
triste estado em que foi encontrado pelo Principe Regente. 

Poucos dias demorou-se D. Pedro em S. Paulo e, adminis- 
trativamente, pouco fez, porque a sua tarefa era apaziguar os 
ânimos e restituir a paz á província anarchizada e não gover- 
nar. Em dez dias estava cumprida a sua missão e a 5 de Se- 
tembro desceu elie a Santos com o fim de examinar as fortale- 
zas e visitar a casa de José Bonifácio e os membros da famí- 
lia Andrada, que lá residiam; passou o dia 6 naquella praça 
marítima e a 7 tratou de voltar para esta capital. 

Do Rio de Janeiro tinha elle vindo em companhia do men- 
cionado Saldanha da Gama, que lhe servia de secretario e de 
ministro interino, do coronel Gama Lobo e de dois criados, An- 
tónio Luiz da Cunha e Eleuterio Bezerra. No caminho a sua 
comitiva cresceu com algumas dezenas de pessoas gradas, que 
se lhe juntaram, vindas de S. João Marcos, Rezende, Arêas, Gua- 
ratinguetá, Pindamonhangaba, Parahybuna, Taubaté e Mogy 
das Cruzes, de modo que chegou a S. Paulo bem acompanhado 
e com gente muito boa. 

Esle séquito o acompanhou a Santos e com elle também 
foram o brigadeiro Jordão e o i adre Melchior Pinheiro. Re- 
gressando no dia 7 de Setembro, chegou elle aos campos do 
Ypiranga entre as 3 e as 4 horas da tarde e alli encontrou- se 



- 355 - 

com António Cordeiro e Paulo Bregaro, que vinham do Rio a 
marchas forçadas com papeis remettidos por José Bonifácio a 
D. Pedro e tão importantes qne decidiram-no a dar alli mesmo 
o famoso grilto: Independência ou morte! 

Cessaram nesse celebre momento os lempos Coloniaes, para 
começar uma éra nova, a da nossa emancipação politica; mas 
antes de encerrar esta chronica, que não pode continuar com 
a mesma epigraphe, julgo prestar um serviço aos leitores do 
Correio Paulistano com a exposição de um facto importante que 
não é de muitos conhecido: 

D. Pedro era filho primogénito do rei Joào VI e o herdei- 
ro presumptivo da coroa; por morte de seu pae devia elle reinar 
sobro toda a monarchia portugueza e não podia, portanto, dese- 
jar a independência do Brasil, o fraccionamento do reino, por 
ser isso contrario aos seus interesses e aos dos seus descenden- 
tes. Era portuguez de nascimento e veiu ao Brasil em 1808, 
com dez annos de edade; aqui cresceu, fez -se homem e casou- 
se e aqui nasceram todos os seus filhos — D. Pedro II e as prin- 
cezas Maria, Paula, Francisca e Januaria. 
\ A independência não poderia ser feita sem guerra e, além 

f de ser contraria aos interesses dynas ticos do joven Príncipe, 

seria esta lucta a do portuguez contra a sua pátria e a do 
filho contra seu pae. Convinha lhe, portanto, protellar, contem- 
porizar, transigir e recuar, mas nunca se pôr á testa do movi- 
mento para a separação do Brasil. 

Por todas as representações que de diversas partes do paiz 
lhe foram dirigidas para que ficasse entre nós e não obedeces- 
se aos chamados das Cortes de Lisboa, se verifica que a opi- 
| nião publica brasileira estava madura para a independência e 

que a volta do Príncipe a Portugal seria seguida pela imme- 
diata separação e independência da colónia americana. 

D. Pedro estava bem ao corrente destes factos e seu pró- 
prio pae, ao partir do Brasil em 1821, havia recommendado ao 
[ filho, que aqui deixava como regente, que si a colónia se fizes- 

-4 se independente fosse em seu proveito e não em beneficio de 

algum aventureiro. D. João VI previa que a separação era 
uma simples questão de tempo, dependendo a sua demora da 
maior ou menor habilidade e tolerância da parte do governo de 
Lisboa. 

Entretanto, as Cortes Constituintes de Portugal se mostraram 
incapazes de conjurar os perigos da situação e foram de uma es- 
pantosa inépcia na legislação que decretavam para o Brasil, des- 



— 856 - 

conhecendo por completo as nossas condições politicas e sociaes 
e procedendo de modo a provocar a separação immediata. Não 
se limitavam a restringir as garantias que D . Joíio VI nos havia 
concedido durante a sua estada no Rio de Janeiro, de 1808 a 
1821, mas ainda dividiam o Brasil em circumscripções politico- 
administractivas com governadores e com mandantes militares por- 
tuguezes, somente dependentes do governo de Lisboa, e deixa- 
vam D. Pedro ccmo regente daB províncias que ficam do Rio 
para o poente e sul, sempre insistindo para qne o Príncipe vol- 
tasse a Lisboa, afim de nos tirar a ultima apparencia de autono- 
mia politica e administrativa. 

Ainda a esse tempo se ouvia da parte de brasileiros distin- 
ctos e opinião de poder a monarchia se manter unida, como ma- 
nifestou o dr. Ornellas no discurso acima transcripto, porque 
todos comprehendiam a dificuldade da situação, com o pae no 
throno em Lisboa, o filho na regência do sul do Brasil e o norte 
do paiz fraccionado e entregue ao domínio directo de Portu- 
gal. Custava a repercutir no Brasil o eco do que se passava 
Cortes de Lisboa, onde os nossos representantes eram, em nu- 
mero relativamente pequeno, mas forte pelo talento e energia, 
constantemente insultados pela maioria portugueza e até pela 
plebe lisboeta agglomerada nas galerias, ao ponto de precisarem 
alguns fugir de Lisboa para a Inglaterra, de onde voltaram ao 
Brasil depois de publicarem o Manifesto de Falmouth, em que 
explicavam a causa do seu procedimanto. 

Estas provocações das Cortes e mais o facto de declararem 
irritos e nullos alguns actos praticados por D. Pedro e crimino- 
sos de traição aos seus ministros, José Bonifácio e outros, vieram 
determinar a culminância da crise politica e o rompimento da 
colónia contra a metrópole. 

Estab ultimas noticias chegaram ao Bio de Janeiro quando 
D. Pedro se achava em S. Paulo; em conselho dos ministros, 
presidido pela princeza D. Leopoldina, foram lidos os despachos 
irritantes de Lisboa e na discussão que se seguiu aventou Mar- 
tim Francisco a idéa da independência immediata do Brasil como 
resposta decisiva e final ás provocações que nos eram dirigidas 
pelo governo portuguez . José Bonifácio acceitou a idéa e conse- 
guiu convencer a Princeza da opportunidade e conveniência de 
ser ella posta em pratica; os outros ministros também adheriram 
e Martim Francisco foi encarregado de redigir o officio ao Prín- 
cipe, communicando-lhe a situação das coisas e a resolução assen- 
tada em conselho de se fazer já a independência. 

O major António Ramos Cordeiro e o empregado publico 
Paulo Bregaro foram os emissários escolhidos por José Bonifacip 



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— 357 — 

para virem a S. Paulo trazer ao Príncipe os papeis contendo os 
despachos provocadores das Cortes de Lisboa e a resolução ado- 
ptada pelo conselho dos ministros sob a presidência da princeza 
Leopoldina. Partindo do Rio estes mensageiros tiveram ordem 
de vir a toda a pressa, matando os cavallos no caminho se fosse 
preciso. Chegaram a S. Paulo a 7 de Setembro e sabendo aqui 
que D. Pedro estava em Santos, partiram na tarde do mesmo aia 
para lá e o encontraram no alto do Y piranga, já de volta para 
esta capital. 

Entregaram ao Príncipe a correspondência que traziam e 
deviam ter encarecido a sua importância para que D. Pedro im- 
mediatamente a lesse e, suggestionado pelo seu conteúdo, rompesse 
com todo as considerações de interesses dynasticos e alli mesmo 
bradasse : « independência ou morte ! » Chegando a galope ás 
margens do ribeirão do Y piranga, onde ainda existem umas velhas 
ruínas e uma venda nova, juntou-se elle á sua numerosa comi- 
tiva, que se havia a d cantado em «Oj Meninos» e alli o estava 
esperando, D. Pedro, sem se apear e com a espada na mão, bradou : 
« Camaradas, as Cortes de Portugal querem escravizar o Brasil ; 
cumpre declarar já a sua independência. Laços fora. D'ora avan- 
te traremos todos outro laço de atas, verde e amarella, e estas 
serão as cores nacionaes.» 

Todos immediatamente arrancaram do braço o laço porta- 
guez e enthusiastica mente repetiram as palavras do Príncipe : 
«Independência ou morte!» 

Estava proclamada a independência entre flores e festas, em 
contrario á affirmação de Ornellas de quererem os paulistas que 
continuasse a união do Brasil a Portugal ; e a José Bonifácio e 
Martim Francisco devem os brasileiros este grande serviço e 
os paulistas a gloria do grande facto se ter realizado nas riso- 
nhas campinas dos arrabaldes da sua capital. 

Aos ytúano8 também cabe uma boa parte de gloria, porque 
foram elles que romperam a lucta com os extrangeiros sedicio- 
sos do Governo Provisório e deram motivos para avinda do Prín- 
cipe a S. Paulo e para a independência ser proclamada em ter- 
ritório paulista e não em outra parte . 

À. DE TOLLEDO PlZA. 



Como se poderá elevar o nível moral da Pátria ? 



CONFERENCIA PROFERIDA POR DAMASCENO VIEIRA NA SOCIEDADW 
HUMANITÁRIA DOS EMPREGADOS NO COMMERCIO, DE SANTOS, 
A 23 DE JANEIRO DE 1904. 

Exmas. senhoras, senhores sócio* da Humanitária, i Ilustre 
auditório. 

Completaram-se, a 20 de Dezembro ultimo, sete annos que 
deixei a terra fundada por Braz Cubas, em 1543, e onde, por 
espaço de três annos, prestei alguns diminutos mas desinteres- 
sados serviços a meus concidadãos, já como funccionario publico, 
já como homem de letras, levando a minha collaboraçàe ao 
distincto jornalismo desta cidade. 

Não sou, portanto, um desconhecido entre vós, e muito 
menos desta benemérita sociedade Humanitária^ que nunca dei- 
xou de me dirigir testemunhos de seu cavalheirismo, de sua 
vitalidade, de seu sempre crescente desenvolvimento. 

Homem de coração, continuei, através da distancia e do 
tempo, a interessar-me pelo progresso desta terra, em cujo seio 
viram a luz três descendentes meus, três flores desabrochadas 
aos bafejos das brisas do mar e intimamente entrelaçadas ao meu 
coração . 

Quantas vezes, srs., a saudade, o gosto amargo de infelizes, 
o delicioso pungir de acerbo espinho, não veiu aqui, por sobre o 
azul do vasto Atlântico, ao rumor melancholico das aguas, tra- 
zida na aza da lamentosa alcyone de que nos fala Almeida 
Garrett em seu poema Camões ; quantas vezes a saudade não 
veiu pousar aqui, entre aftectos que me são profundamente caros, 
e deante de logares que rocordam o inicio do nossa historia : — 
a memoranda praia de S Vicente, a que aportou Martim Affonso 
de Sousa a 22 de Janeiro de 1532 e onde fundou o nosso pri- 
meiro núcleo colonial, e, depois, esta cidade, chamada pelos in- 
dígenas, ora Uruparaçaman, arco apparelhado, a representar a 
curva que o braço de mar faz, contornando Santos, ora guirá 
piran, pássaros vermelhos, guarás, que em bandoa percorriam 
outr'ora o littoral, matizando a paizasrem com a rubra tinta de 
suas pennas ; esta bella cidade, que se tem constituído um dos 
mais importantes empórios commerciaes da Republica Brazileira. 



> 



* 



- 359 - 

' Impellido o meu destino para o norte do paiz, permittiu o 
acaso que eu experimentasse indizível alvoroço ao ver me collo- 
cado na Bahia, na grande e generosa terra que assistiu festiva- 
mente ao solenne consorcio entre a Civilização trazida pelo al- 
mirante Pedro Álvares Cabral a 3 de Maio de 1500, e o Bar- 
barismo : — abençoadas núpcias, de que resultou a maior e a 
mais rutilante das conquistas portuguezas. 

Nessa terra, original em todo o Brazil, pela maneira tocante 
por que pabe guardar e venerar as suns tradições ; nessa terra 
que herdou dos a Afectuosos índios Tupiniquins os mesmos rasgos 
de ger.tileza e de hospitalidade ; ne^se palpitante centro de 
illustração, ideei collocar-me a altura do meio litterario e ao 
mesmo tempo offerecer á Pátria uma homenagem intellectual, 
muito embora superior ás minhas forças. 

Nas raras horas não empregadas ao funccionalismo, entre- 
guei-me a estudos de assumptos brasileiros, compulsando velhas 
chronicas de jesuítas, livros de explorações e de viagens, roteiros 
de expedicionários, revistas e monographias, todos quantos do* 
cu mentos históricos as minhas investigações puderam alcançar, 
durante cerca de cinco annos de aturado labor. 

Vencendo penosas dificuldades inherentes á publicação de 
obra de largo plano, consegui que surgissem á luz dois volumos 
de minhas memorias históricas brazilbirab, abrangendo período 
superior a três séculos, a partir do Descobrimento do Brasil 
(1500), até a conclusão da guerra dos Farrapos (1845J. 

Ao escrever o meu trabalho, devo dizer-vos, senhores, quanto 
me foi grato reconhecer e assignalar em minha obra o papel 
preponderante que nos primórdios da civilização brazileira repre- 
sentaram os paulistas. Percorrendo de sul a norte e de leste a 
oeste es te paiz, foram elles, foram os corajosos bandeirantes, os 
brazileiros que com sen arrojo quebraram a linha divisória tra- 
çada pelo traçado de Tordcsillas, a 7 de Junho de 1494. 

Filhos de portuguezes com mulheres indígenas, a mescla do 
sangue europeu com o sangue americano formou-lhes como que 
uma nova raça, cheia de força e arrebatada pela febre dos grandes 
emprehendimentos. Sim! Foram os mamelucos paulistas, que, 
revolvendo os invio3 sertões, abriram, excavaram o solo e des- 
lumbraram o mundo, exhibindo lhe punhados de ouro, de esme- 
raldas e de diamantes, tornando uma realidade as p Dantas ti cas 
jóias brotadas pela maravilhosa lâmpada de Aladino I Foram elles 
que alargaram o perímetro do território nacional! Foram elles 
que obstaram predominassem as conquistas hespanholas no enorme 
losango brazileiro! 



- 36Ô - 

Si estes feitos, realizados nos primeiros séculos de nossa 
historia, impunham os paulistas á gratidão da Pátria, outros de 
maior valor, porque se relacionam com a sei en cia e com a alta 
politica, os cercam de prestigioso acatamento. 

Preciso citar nomes, para que as minhas asserções sejam 
corrobadas pela evidencia. 

Evocada pela historia, surge ante nós a veneranda sombra 
do santista padre Bartholomeu Lourenço de Gusmão ; vem dizer- 
nos que a posteridade deu-lhe logar conspicuo na magestosa ga- 
leria dos religiosos eminentes, que se não votaram única e ex- 
clusivamente á oração, mas consagraram também cultos á 
sciencia, como o frade .allemão Nicolau Copérnico, o sábio que 
da estreiteza de sua cella ampliou a cosmographia, revolucionou 
a comprehensão do universo, assentou em solidas bases o seu im- 
mortal systema planetário que tem como centro o sói, e não a 
terra, como se declara na Bíblia. 

Semelhantemente, o padre Gusmão lançou o olhar indagador 
ao espaço illimitado, o grande oceano do azul, sulcado apenas 
pelas aves e só ensombrado pelas nuvens. E, assim como ele/ava 
o espirito, em mysticos arroubos, até Deus, quiz que seu corpo 
se elevasse, pela sciencia, ás altas regiões da atmosphera que en- 
volve o nosso planeta. Fremia de anceios para disputar aos pássa- 
ros a celeridade no voo, conquistar o ar — arriscadíssima empresa 
não conseguida por i Ilustres sei en tis tas seus predecessores, como o 
frade Rogério Bacon e o jesuíta italiano Pedro Lana Terzi. 

Com a força de vontade que caracteriza o génio, superior 
ás idéas de seu século, o Padre Gusmão realizou o seu assombroso 
pensamento. Inventou um apparelho aerostatico, e foi elle o pri- 
meiro homem que subiu ao ar, em Lisboa, no dia 8 de Agosto 
de 1709. A immarcessivel gloria de sua precedência na historia 
da navegação aérea, é hoje um facto de acceitação e de applauso 
universaes, desde que a chronologia demonstrou não caber aos 
irmãos Montgolfier a prioridade no invento, porque o balão fran- 
cez só foi lançado ao espaço — e isoladamente — 74 annos depois, 
a 5 de Junho de 1783. 

Feita, com admiração geral, a sua primeira ascenção, que 
abalou toda a cidade, como disse ura poeta daquelle tempo, não 
poude o preclaro mechanico repetir as suas experiências, melho- 
rar a sua machina, de modo a conduzil-o aos pólos— termo final 
do seu pensamento alti volante. 

Infelizmente, senhores, a épocha em que viveu o padre Gusmão 
era de obscurantismo e de deplorável atraso. As descobertas que 
se iniciavam, por isso mesmo que se manifestavam quasi milagro- 
sas, intimidavam as massas populares. Acreditava-se que só o 



) 






— 36t — 

demónio poderia interferir no apparecimento de invenções appa- 
rentemente contrarias ás tais da natureza. 

Dois annos antes, em 1707, dava-se, na Allemanba, um at- 
tentado inaudito. Lançava-se ao rio Weser o primeiro navio a 
vapor. 

O inventor francez Diniz Papin sentia um deslumbramento 
de gloria, ao vêr a embarcação sulcar as aguns, obedecendo á 
impulsão de um machinismo, fructo de seus trabalhos mentaes. 

Qual não foi, porém, a sua magua, o seu espanto, quando 
viu a imponente machina abordada por grande numero de bar- 
queiros, e despedaçada, ferozmente, como si fosse digna de destrui- 
ção obra de tão elevado alcance! A ignorância daquelles mari- 
nheiros acreditava que Deus não podia permittir a revolta dos ele- 
mentos: que o fogo não podia evaporar a agua, para que o ho- 
mem navegasse contra o vento! 

A mesma treva que pairava sobre o povo d'além-Rheno 
eitendia-se no céo de Portugal. O grande inventor santista foi 
accusado de herege e de feiticeiro. Perdida a protecção de D. 
João V, sem forças para vencer a onda da opinião que lbe espu- 
mava em torno, salpicando o de ridículas satyras, receioso de que 
a Inquisição o quizesse purificar, queimandu-o vivo em um de 
seus horripilantes autos de fé, o padre Gusmão viu se obrigado 
a pedir asylo á Hespanha e ahi morreu, obscuramente, a 18 de 
Novembro de 1724, no hospital de misericórdia da cidade de 
Toledo. 

Felizmente, senhores, quando se abre sepultura para recebei o 
cadáver de um vulto proeminente, abrem-se egualmente, de par 
em par, as portas da historia para perpetuar-lhe o nome. 

O padre Gusmão não ficou esquecido pelos cultores de letras 
de nossa pátria. Outro santista emérito, José Feliciano Fernan- 
des Pinheiro, mais conhecido pelo titulo de Visconde de São 
Leopoldo, traçou-lhe a biographia, enaltecendo-o condignamente. 

O Visconde de São Leopoldo !. . . 

Que rio-grandense ha, que se não curve ao proferir este 
nome ? Foi elle o auctor da grande obra Ânnaes da Província 
do Rio Orande do Sul ; foi o creador da primeira alfandega e o 
primeiro presidente daquelle Estado sulista; foi o ministro do 
Império que reformou os cursos jurídicos, deu nova organização 
á Escola de Medicina do Rio de Janeiro, reformou o plano da 
Escola de Bellas Artes ; foi, além de outros encargos, o primeiro 
presidente perpetuo do Instituto Histórico e Geographico Brasi- 
leiro, de que me honro de fazer parte. 

Ah!... Permitti-me esta vaidade, senhores! Si a cidade 
de Santos se desvanece de ter produzido um homem da estatura 



— 362 — 

moral e intelíectual do Visconde de S&o Leopoldo, a cidade de 
Porto Alegre — a formosa collina em que vi a luz — comparte o 
vosso contentamento, dizendo : 

«Vós, cidade de Santos, lhe destes os primeiros haustos de 
vida ; eu, recolhi, entre lagrimas, o seu ultimo suspiro ; foi em 
meu seio afiectuoso que elle, aos 73 annos, reclinou para sempre 
a aureolada cabeça ; eu o vi subir, em .espirito, á região dos 
eleitos, á vida ira maculada dos immortaes, a quem a historia 
coroa U 

Âínda, como realce a esta terra, passam ante nós três som- 
bras augustas — os três irmàos Andradas. Em primeiro plano, o 
patriarcha José Bonifácio, o poeta arcadico Américo Élysio, o 
grande amigo da celebridade Barão de Humboldt, o nosso scien- 
tista de maior fama européa, o estadista patriota que inspirou a 
Pedro I a idéa de ficar no Brazil e de quebrar os liames que 
nos prendiam á metrópole ; em segundo, António Carlos, o tri- 
buno rival de Miraheau na vehemencia da palavra, o parlamen- 
tar fogoso e electrizante, que, perante as cortes portuguezas, fez 
explodir as nossas aspirações de independência e de liberdade ; 
e em terceiro plano, Martim Francisco, o estadista que por sua 
honradez mereceu respeitos, como um symbolo. 

Prestada esta homenagem a cinco santistas beneméritos, 
passo a tratar do assumpto que constitúe objecto desta confe- 
rencia. 

Como se poderá elevar o nivel moral da Pátria ? Interro- 
gação complexa, a envolver um problema. 

A quantos espíritos não terá surgido esta pergunta, quando, 
fazendo abstracção de interesses pessoaes, pensam no bem com- 
mum, na honra da collectividade ? 

Sobre este grave assumpto, senhores, tentarei expor algumas 
considerações. 

Como sabeis, todo o nosso paiz atravessa uma epocha anor- 
mal. A falta de c>inprehen9ào de deveres cívicos entorpece, de 
modo contristador, o desenvolvimento dos negócios públicos. 

Em muitos pontos da Republica successivos desfalques, suc- 
cessivos desvios de dinheiros, acarretando a pobreza dos Estados, 
nos collocam deante de uma formidável crise. 

Desejos de enriquecer facilmente, sem o cunho prestigioso 
do trabalho honesto, explicam este mal que parece generali- 
zar-se. 

E' mister, senhores, uma reforma radical em nosso systema 
de educação. 



> 



- m- 

Si n&o nos é possível imprimir criteriosa e honrada orien- 
tação áquelles que se afastam da rota do dever; si a energia 
da palavra falada ou escripta não actua de modo regenerador 
no meio social impulsionado pelas forças dirigentes, qual a nos- 
sa attitude? Cruzar os braços numa impassibilidade de fakir, 
não oppor quebra -mar ás ondas que se encapellam e ameaçam 
a tranquillidade de nossos lares e pretendem talvez arrastar em 
sua passagem a própria instituição republicana? Impossível! 

Não nos deixemos tomar pela descrença que o presente nos 

suggere fatalmente, como a sombra entorpecedora da mancenilha. 

Lancemos os olhos para o futuro, certos de que delle virá 

o transbordamento de um Nilo fertilizador, a inundar o solo, e 

a fazer brotar novas e fecundas sementeiras. 

Proclamemos bem alto que as armas devem ser depostas 
pelos livros; que o fechamento de quartéis equivale á abertura 
de escolas e de fabricas; que os prélios da força physica devem 
neste século ceder campo ás luminosas luctas da intelligencia. 
«Outr'ora, disse nosso compatriota dr. Oliveira Bello em 
um discurso memorável, a gloria dos governos consistia no nu- 
mero de suas hostes: mais irradiava a nação que mais baione- 
í tas exhibia ao sol das batalhas. Hoje, a gloria mais pura, o 

l merecimento excelso reside e se pro\a nas estatísticas do ensi- 

I no publico. O baluarte couraçado faz mais estrondo; a escola, 

porém, tem mais brilho. A Suissa inerme é mais fraca do que 
a Rússia militarizada; porém a Suissa instruída tem mais no- 
breza do que a Rússia analphabeta. O canhão divide e ensan- 
guenta; o livro congraça e fecunda. Si a fraternidade univer- 
sal é o ideal dos povos, as nações que apprendem têem mais 
grandeza do que os governos que se armam». 

Expostas estas verdade», passemos, senhores, do terreno da 
theoria para o da pratica, demonstrando de que modo, accessivel 
a todos, poder-se-á conseguir a elevação do nivel moral da Pátria. 
i Preparemos a geração que se levanta, in aunando -lhe no co- 

ração e no cérebro novos sentimentos e novas idéas, para que 
delia irrompam mentalidades capazes de dirigir e prestigiar a 
causa nacional. 
k M Digamos com a máxima franqueza que a origem de nosso 

1 abatimento está na absoluta falta de educação cívica. 

Não tratamos com desvelo e carinho patriótico dos destinos 
da infância. 

Não se protege, como uma missão elevadíssima, a instruc- 
I ção do povo, como a comprehende a Suissa, como a considera 

a Republica Argentina, que despende grande parte de suas 
I rendas com o custeio de suas escolas. 



- 364 - 

Magistério mal retribuído, falta de fiscalização por parte 
dos directores, creanças isentas da obrigação legal de frequen- 
tar estabelecimentos de ensino, abandono completo em que jaz 
este ramo de administração, como o declaram presidentes dos 
diversos Estados em seus relatórios, toda esta desorganização só 
pode produzir uma sociedade vacillante e tímida, som energia 
e sem ideal, inapta para as grandes iniciativas, as grandes em- 
presas que constituem a vida das nacionalidades cuja força prin- 
cipal reside no saber. 

E' de urgência que em todo o paiz se opere uma reacção, 
tendente a refundir em breve tempo a nossa sociedade. 

Neste sentido, a Bahia acaba de dar exemplo digno de ado- 
pção em todas as cidades da Republica: iniciou já um trabalho 
de regeneração social, creando uma associação intitulada Liga 
de Educação Cívica, destinada a proteger as escolas primarias, 
de maneira a habilital-as a preparar homens honestos, fortes e 
patriotas. 

Santos; que já possue uma utilíssima Sociedade Auxilia- 
dora da InstrucçãOy poderá dotar-se com outra de fins especiaes, 
assim definidos : 

I Obter dos poderes públicos que a instrucção do povo seja 
não só gratuita, mas obrigatória, afim de que diminua a espan- 
tosa porcentagem de analphabetos que as estatísticas apresentam. 

II Fazer adoptar nas escolas primarias livros que inspirem 
sentimento elevados, de abenegação e de patriotismo. 

III Em dias de festa nacional, promover pequenas confe- 
rencias, com o fim de instruir as creanças sobre a vida nacional, 
fazendo-as interessar-se pela nossa historia 

A 24 de Fevereiro, por exemplo, o professor tratará da 
constituição republicana e apreciará as ai fie rentes formas de 
governo, estabelecendo confrontos e salientando as vantagens de 
uma Republica Federal fortemente cimentada na probidade e 
na honradez, e dirigida por homens que alliem o cultivo intel- 
lectual á firmeza de princípios ; dirá que a guarda dos dinheiros 
públicos é um encargo sagrado, que só deve ser exercido por 
mãos impol lutas ; que a obrigação dos governos é manter il libado 
o credito exterior e cooperar para o progresso interno em todas 
as suas ramificaçõos. 

A 21 de Abril, dissertará sobre a conjuração mineira, ex- 
plicando quaes os intuitos dos revolucionários, empenhados em 
apressar o advento da Republica Federativa ; traçará delles li- 
gueiras biographias, especialmente do alferes Joaquim José da 
Silva Xavier, appellidado o Tiradentes. 

A 3 de Maio, entre flores e bandeiras da festa escolar, o 



> 



> 



— 365 — 

educador instruirá a seus discípulos como se realizou o desco- 
brimento do Brazil ; louvará o espirito emprehendedor dos por- 
tuguezes, falará de suas conquistas nu Africa e na Ásia e do 
modo por que uma expedição, em viagem para a índia, apor- 
tou a nossa terra, adquirindo para Portugal esta grandiosa 
parte da America Meridional. 

A 13 de Maio, dissertará sobre a lihertação incondicional 
dos escravos no Brazil ; que resultado surprehender te alcançou 
a propaganda abolicionista, tendo como propulsores o génio ar- 
rebatado de Castro Alves, o cérebro gigantesco de Ruy Barbosa, 
o verbo e a penna flammejante de José do Patrocinio e a elo- 
quência dominadora de Joaquim Nabuco. Dirá qne si o direito 
de propriedade foi sacrificado, si ficaram sem indemnização os 
possuidores de escravos, mais do que o dinheiro de alguns par- 
ticulares valeu a honra do Brazil, que desde esse momento er- 
gueu, perante o mundo, a fronte desannuviada de uma nódoa 
ignominiosa. 

A 7 de Setembro, recordará como se effectuou em S. Paulo 
o acto da independência ; fará o elogio histórico de José Boni- 
fácio. E, assim como a Bahia, a 2 de Julho, conduz as creanças 
de todas as escolas ao monumento commemorativo da grande 
data da independência bahiana, para que o en fe item de flores, 
também esta cidade, inspirada por egual patriotismo, promoverá 
procissão infantil que leve ao tumulo do patriarcha perfumosos 
preitos de veneração. 

A 12 de Outubro, outra festividade civica imprimirá bello 
movimento á escola, fazendo convergir as attenções para o 
acontecimento que serviu de fecho ao século XV : o descobri- 
mento da America por Christovam Colombo. O preceptor descre- 
verá, com elevação de vistas, a accidentada historia do aconte- 
cimento, que, ampliando os contecimentos geographicos, propor- 
cionou á humanidade novo e magnificente scenario, opulento de 
riquezas e de maravilhas como justas recompensas ao trabalho 
e á intelligencia dos emprehendedores. 

A 15 de Novembro, finalmente, narrará como foi procla- 
mada a republica no Brazil, e que benefícios delia resultarão, si 
a educação civica produzir homens capazes de comprehender e 
de prestigiar a mais bella das formas de governo. 

Eis, senhores, o terreno que a Bahia prepara neste momento 
e de que faço propaganda como um dos fundadores da Liga da 
Educação Cívica. 

Congracemos esforços, homens de governo e povo, para que 
o paiz, desviando-se do abysmo a que parece querer arremessar- 
se, apresente se ante as demais nações tão grande, moralmente e 



- 366 - 

intellectualmente, quanto o é por sua extenção, por sua formo- 
sura, por sua riqueza Vegetal e mineral. 

Imprimamos feição patriótica á mocidade que se educa. e 
se instrúe ; façamos utna legião de abnegados, de corações altruís- 
tas, de espíritos superiores ! Apontemos da tribuna, do jornal e 
do livro a gloriosa liça em que a nova geração deve fortificar- 
8e para dar ao Brazil um destino mais bello, mais digno da 
consideração universal ! 

Republica ! Tu que íeste o immaculo ideal dos grandes 
oradores que traçaram um sulco de luz na França, na Hespa- 
nba e em Portugal e se chamaram Leão Gambetta, Emílio 
Castellar e Latino Coelho ; que foste a aspiração de três mar- 
tyres=Frei Caneca, Ratei ift e Tiradentes ; tu, encarnação for- 
mosa da liberdade, serás erguida aos bombros das novas gera- 
ções e, sob as harmonias frementes dum hymno triumphal, has 
de pairar no sagrado Thabor de tua gloria, luminosamente 
transfigurada pela educação e instrucçao cívica ! 



CapitEo P. A. Torquato de Toledo 

1810 — 1898 



» Capitão Torquato de Toledo 



Laus virtuti ubíqae qnandocumqm 
{Inst. Hist. Geog. Brazil.) 



o António Torquato de Toledo, filho de Luiz Pedroso 
ledo e de D. Ignacia líiu de Toledo, neto de Manoel de 
> Piza e de D. Atina Joaquina de Toledo, bisneto de José 
ledo Castelhanos e de D. Helena Pedroso de Almeida, da 
família Toledo Piza, originaria da Hespanbn e que se es- 
;eu em S. Paulo no século XVII, nasceu aos 10 de Ja- 
de 1810, na capital da capitania de S. Paulo, que, cinco 
mais tarde, em virtude da nova cathegoria de reino dada 
izil pela carta de lei de 16 de Dezembro de 1815, se trans- 
I em província. 

ez seus primeiros estudoB com muito aproveitamento no 
ario de San t' Anu a, passando depois a frequentaras licções 
thematicns de Libero Badaró, o ilhistre medico, homem 
meias e jornalista, que foi victimado por uma bala trat- 
em 20 de Novembro de 1830 e morreu proferindo as já 
es palavras : — Morre um liberal, irias nâo morre a Liberdade! 
ao querendo continuar os estudos, apesar de sua muita 
isao para clles, por qunrer desde logo viver sobre si, ar- 
com as dificuldades da vida pratica, os deixou, mndando-se 
Bragança e nesta então villa casou-seem 11 deSeptembro 
10 em primeiras núpcias com D. Marinha Florisbella do 
to Santo, tendo sido o celebrante do matrimonio o padre 
<1 Joaquim GoncalveB de Andrade, que tomou assento como 
lor na Camará Municipal de Bragança no quatrienío de 
a 1840 e como deputado na terceira legislatura do Con- 
geral de província e nas duas primeiras da Assembléa de 
iuIo. 

'. Marinha era natural da mesma villa de Bragança, filha 
na do tenente José Marianno Ferreira Leme e de D. Ma- 
ígelica e viuva de seu primeiro marido Joaquim de Oli- 
Cezar. 



- 368 - 

Fallecida D. Marinha em 14 de Outubro de 1858, contra- 
kiu Torquato de Toledo segundas núpcias na então villa de S. 
Joào de Atibaia em fins de 1860, com D. Maria Umbelina de 
Toledo, senhora que alliava á sua notável formosura os mais 
nobres predicados moraes, sahentando-se na sociedade, em que 
vivia e de que era ornamento, por sua extrema e sadia bondade. 

Foi D. Maria Umbelina baptisada na egreja matriz de 
Atibaia em 1 ° d.) Janeiro de 1840, sendo seus padrinhos o al- 
feres Manoel Diógenes de Moraes e D. Gertrudes Maria de 
Oliveira. 

Era a segund* esposa de Torquato de Toledo filha de Vi- 
cente Ferreira da Silva e D. Maria Dyonisia de Araújo, que se 
receberam em matrimonio na mesma villa de Atibaia aos 14 de 
Maio de 1818, sendo elle natural de Villa Nova da Campanha 
da Princeza, Bispado do Marianna, filho legitimo de Matheus 
da Silva Passos, natural da dita Villa Nova da Campanha, e 
de D. Gertrudes Maria Rodrigues, natural de Barbacena, neto 
pelo lado paterno de Manoel da Silva Passos e D. Maria da 
Silva e pela parte materna de António José Rodrigues, natural 
de Lisboa, e de D. Maria Thereza, natural das Ilhas, e sendo 
ella, D. Maria Dyonisia, natural de Atibaia, filha legitima de 
Amaro Leite de Morae-*, natural da freguezia de Ayruoca, Bis- 
pado de Marianna, e de D. Gertrudes Caetana do Nascimento, 
natural da freguezia da Conceição dos Guarulhos, onde se casou 
en 10 de Maio de 1796, neta paterna de Amaro das Neves de 
Moraes, natural de S. Paulo, e de D 1 Maria Leite de Araújo, 
natural de Pitanguy. e materna de Pedro Bueno de Moraes, 
natural da freguezia da Conceição dos Guarulhos, e de D.Maria 
Leite de Araújo, natural de Pindamonhangaba. 

Por seu bisavô Amaro das Neves de Moraes, de que trata 
Pedro Taques de Almeida Paes Leme na sua Nobiliarchia Pau- 
listana (Revista do Instituto Histórico Brazileiro, vol. 33, parte 
2, pag. 325 e vol. 35, parte 1.*, pag. 271), descendo D. Maria 
Umbelina de Toledo de ístevam Ribeiro Bayào Parente e sua 
mulher D . Magdalena Fernandes Feijó de Madureira, dos quaes 
c procede, na affirm.içào competente de Pedro Taques (Rovista 
citada, vol. 34, parte 2. a pag. 154), a primeira e a mais quali- 
ficada nobreza da capitania de S. Paulo, a qual sempre no 
real serviço deu a conhecer o sangue, que lhe adornava as veias». 

Descendente dos Alvarengas Monteiros, dos Buenos de Ribeira, 
de Álvaro Gil de Cabral, senhor de Belmonte e ter avô de 
Pedro Alvares Cabral, o descobridor do Brazil, de Santo Arnaldo 
que foi duque da Austrasia, de Santa Radegunda e de Santa 
Clotilde, transmittiu D. Maria Umbelina a seus descendentes o 






- 869 — 

nome illustre, que tinha recebido, illustre também pelas virtu- 
des, que a enguirlandavam e lhe mereceram a estima, o respeito 
e a consideração dos que tiveram a ventura de conhecel-a e dos 
necessitados, de que foi ella amparo e a que soccorria com 
mãos largas. 

Do casamento do capitão Toledo com D. Maria Umbelina, 
nasceram oito filhos; D. Felisbina e D. Regina, ainda solteiras; 
D. Zerbina, casada em 12 de Outubro de 1881 com o dr. Honó- 
rio Libero, natural da cidade do Pomba , Estado de Minas Geraes, 
medico-legista e conceituado clinico em S. Paulo ; dr. Alfredo de 
Toledo, casado aos 4 de maio de 1895 com D. Aurora Ferreira 
Alves de Toledo, filha legitima do dr. Joaquim Augusto Ferreira 
Alves e D. Messias Ernestina Ferreira Alves ; José, íallecido de 
tenra edade ; capitão Laudelino de Toledo, proprietário em São 
Paulo e funccionario publico ; Alfeu, fallecido ainda na infância; 
e D. Emerentina, casada com Olyntho Bernardi, superintendente 
da sociedade de seguros A Equitativa nos três Estados sul-bra- 
sileiros. 

A respeito de seu filho, dr. Alfredo de Toledo e com o 
nome deste notável advogado por epigraphe escreveu, em sua 
edição de 24 de dezembro de 1903, a conceituada folha mogy- 
miriana A Comarca, proficientemente redigida pelo illustre jor- 
nalista Francisco Cardona, o seguinte : 

«E' sócio correspondente do Instituto Histórico e Geogra- 
phico Brasileiro, sócio effectivo do Instituto Histórico de S. 
Paulo e sócio honorário da Associação Humanitária de S. Paulo, 
da Associazione fra gl'insegnanti italiani de S. Paulo, e da So- 
cietá Italiana di Mutuo Soccorso Umberto I, de Serra Negra. 

«Collaborou no Jornal do Commercio e no Crepúsculo, de 
Santa Catharina ; no Correio Bragantino, na Gazeta de Bra- 
gança e no Cuaripocaba, de Bragança, na Vaz do Povo, de So- 
rocaba, no Diário de Pernambuco, no Commercio de Pernambuco 
e na Gazeta da Tarde, do Recife e no Correio Paulistano e no 
Diário Popular de S. Paulo. 

cPublicou com Fernando Caldeira de Andrada, actualmente 
procurador da Republica em Florianópolis, uma collecção de 
contos e phantasias com o nome de Alvoradas. 

«Deu á estampa na Revista do Instituto Histórico de São 
Paulo, um substancioso trabalho de critica histórica intitulado — 
Uma reivindicação improcedente — e que foi por Augusto de Lima 
e Max Fleiuss adjectivado de magnifico e pela Revista do Ar- 
chivo Publico Mineiro transcripto integralmente com palavras 
de louvor. 



I 



- 370 - 

cNa O aze ta Jurídica, de S. Paulo, publicou interessante e 
erudito estudo sobre Questões prejudiciaes de direito civil no 
processo criminal e tem publicado com applausos diversas alle- 
gações forenses. 

«Os livreiros editores Miguel Melillo & Comp., tendo de 
publicar nova edição da monographia — Da posse e das acções 
possessórias — escripta pelo finado jurisconsulto e professor de di- 
reito conselheiro António Joaquim Ribas, confiaram o cuidado de 
annotal-a ao dr. Alfredo de Toledo, que, conforme o confessam 
os editores nas Duas Palavras, de que fizeram preceder a nova 
edição, desempenhou a honrosa tarefa com um critério digno de 
encómios. 

«Proferiu no theatro S. Izabel, do Recife, perante numero- 
síssimo auditório, de que faziam parte o governador do Estado 
dr. Barbosa Lima e o general com mandante do distrícto militar, 
applaudido discurso sobre Tiradentes, por occasiao do centenário 
da morte do glorioso martyr da Liberdade. 

«No Real Club Gymnastico Portuguez, de S. Paulo, fez uma 
conferencia, que teve por theina — A mulher nas artes, nas sei- 
encias e na religião, 

«E' bacharel em sciencias jurídicas e sociaes e, si foi, no 
dizer da Gazeta da Tarde, uma das bem formadas cerebraçoes 
do corpo académico de seu tempo, é hoje, como o disse o Cor- 
reio Catholico, de Uberaba, um laureado jurisconsulto. 

«A Capital Paulista publicou na pagina de honra de um 
de seus números o retrato de A. de Toledo, ao qual acompanhou 
um bom artigo biographico devido á penna intelligente e ope- 
rosa de Arthur Goulart, o festejado auetor das Pequenas Telas, 
e o Correio do Jahú, um dos melhores jornaes do interior paulis- 
ta, teve para com o dr. Toledo egual procedimento, publicando 
seu retrato e uma brilhante biographia escripta pelo dr. Estevam 
Leão Bourroul, notável homem de letras, que tem enriquecido a 
litteratura pátria com seus diversos livros, todos de muito valor 
e elevado mérito.» 

O excellente bi-semanario A Comarca em seu n. 409, de 
25 de Fevereiro de 1904, também estampou o retrato do Dr. A. 
de Toledo com um bem acabado perfil biographico. 

Accresce que o dr. Alfredo de Toledo, em 7 de Junho de 
1904 eleito sócio correspondente da Sociedade de Geographia 
de Lisboa, sob a forma d<*, razões tem publicado diversos tra- 
balhos forenses que grandemente abonam a vastidão de seus 
conhecimentos jurídico?, filiados á boa Escola dos grandes Mes- 
tres de Direito e isemptos do tom de pedanteria e philaucia 






i 



— 371 — 

que, não raro, i o felizmente, é o cunho da sapiência dos moder- 
nos jurisperitos, antes leguleios que legistas. 

Em 23 de Dezembro de 1880 e confortada com os santíssi- 
mos sacramentos da Egreja Catholica entregou placidamente sua 
alma a Deus em Bragança D. Maria Umbelina, sendo sua morte 
muito sentida por toda a população e sendo o seu enterro um 
dos mais concorridos, que se fizeram naquella cidade, pela real 
estima geralmente votada tanto á fallecida como a seu extremo- 
so consorte, então viuvo para sempre inconsolável pela grande 
e irreparável perda sonxida com o passamento prematuro de sua 
amada esposa. 

Fallecida sua segunda mulher, o capitão Torquato de To- 
ledo, que desde moço repartira sua vida dedicando-a em parte 
a sua Pátria, a que amava com a sinceridade de um crente, e 
em parte á Família, teve a seu cargo exclusivo a educação de 
seus filhos do segundo casamento, antes confiados também aos 
carinhos, ás virtudes e á competência de sua esposa e procurou 
supprir a enorme falta por elles experimentada, primeiro, appli- 
cando todos os seus lazeres em beneficio d'elles e, depois, aei- 
xando o serviço publico, a que patrioticamente se entregara 
durante mais de trinta e cinco annos, para lhes votar todos os 
seus cuidados e delles fazer objecto constante e principal de 
seus pensamentos. 

Os desvelos assim carinhosamente dispensados a seus filhos 
pelo capitão Torquato de Toledo, que fazia de seu lar um ver- 
dadeiro templo, em que todas as virtudes tinham altar e culto, 
não foram improfícuos ; pois seus filhos na pratica da vida não 
se afastam da austera correcção sempre por elle mantida em 
todos seus actos no decurso de sua existência e continuam a 
vida de honradez ininterrupta de seus dignos pães. 

n 

Por impulsiva e natural vocação, embora os regulares bens 
de fortuna, que então possuia, o col locassem a coberto da neces- 
sidade de recorrer ao magistério publico para manutenção e sub- 
sistência sua e da Família, resolveu Torquato de Toledo dedicar 
sua actividade ao ensino o se oppôr para isso á cadeira de pri- 
meiras letras da villa de Bragança e que se achava então ha 
mais de anno abandonada pelo professor nella provido. Tomada 
esta deliberação, partiu elle para a cidade de S. Paulo com o in- 
tento de se habilitar para o car^o, que pretendia; mas em che- 
gando á Capital foi informado de que o professor, scientificado do in- 



— 872 — 

tuito, que o levara a S. Paulo, tratou de lhe obstar a reali- 
saç&o dos desejos continuando a reger a aula publica e exercer 
assim o cargo, que por dilatado tempo n&o merecera sua a t tenção. 

Sabedor do occorrido em relação á cadeira, a que pretendia 
se oppôr, Torquato de Toledo, no mesmo acto, em que d'elle 
teve sciencia na Secretaria do Governo Provincial, se informou 
das cadeiras, que estavam vagas, e, apezar de abi lhe ser afir- 
mado que nem uma d'ellas lhe podia convir em vista de ficarem 
todas distantes de Bragança, onde tinha elle uma propriedade 
agrícola e estavam radicados seus interesses, sem vacillaç&o nem 
detenças escolheu de entre as cadeiras vagas a da freguezia de 
Casa Branca, na villa de Mogy-mirim, e a ella se oppoz. 

Habilitado no forma do regulamento da instrucçao publica em 
vigor, em 14 de Dezembro de 1841, «tendo de prover-se o cargo 
de Professor da Escola de Primeiras letras da Freguezia de Casa 
Branca, Termo da Villa de Mogy-mirim, que se acha vaga, em 
pessoa de capacidade e préstimo e concorrendo taes circumstan* 
cias na do Cidadão Francisco António Torquato de Toledo», foi 
elle nomeado com ordenado annual de duzentos e quarenta mil 
réis para esse cargo pelo conselheiro Miguel de Souza Mello e 
Alvim, que administrou a província de S. Paulo como seu pre- 
sidente por espaço de cinco mezes e vinte e nove dias, desde 
15 de Julho de 1841 até 13 de Janeiro do anno seguinte. 

De posse de seu titulo de nomeação, seguio o novo profes- 
sor, depois de por em ordem seus negócios, para Casa Branca, 
freguezia creada em virtude do Alvará de 25 de Outubro de 
1814 e então recentemente elevada á villa pela lei provincial n. 
43, de 25 de Fevereiro de 1841, prestando em 28 de Abril de 
1842 por procurador o juramento do cargo perante a Camará 
Municipal de Mogy-mirim, a qual nesse mesmo dia expediu e 
mandou publicar edital, assignado por seu presidente o coronel 
Joào Theodoro Xavier e secretario António Pinto Lima, para 
que chegasse o facto á noticia de todos. 

Em 17 de acosto de 1843 o presidente da província Joa- 
quim José Luiz de Souza, coronel de primeira classe do estado 
maior do exercito e commendador da Ordem de S. Bento de 
Aviz, «em attençao ao que ai legou (Torquato de Toledo) em 
seu requerimento, em que pedia ser para a mesma villa de Bra- 
gança removidoí, o nomeou professor da escola de primeiras le- 
tras da villa de Bragança. 

Com a remoção que lhe foi concedida com o ordenado de 
tresentos e sessenta mil reis annuaes, effectuou Torquato de 
Toledo o projecto, que o levara, pouco mais de um anno e 
meio antes, de Bragança a S. Paulo, vencendo assim facilmente 



— sis - 

e sem se dar por achado as dificuldades, que seu antecessor 
na escola de Bragança lhe quizera crear. 

Depois de doze annos do serviços assíduos e profícuos, pres- 
tados com a máxima correcção e muita competência por quem 
exercia o cargo por tão irresistível inclinação, que não o aban- 
donou nem quando por mais de um anno lhe foi negado o ne- 
cessário attestado de exercício para recebimento do ordenado 
nem quando o mesmo inspector, que lhe negava o attestado, 
lhe mandou por fogo nas mattas de sua propriedade agrícola, 
depois de mais de doze annos de relevantes serviços deixou o 
illustre professor, alcançando sua exoneração, a pedido, em 30 
de dezembro de 1853, sendo presidente da província o dr. Jo- 
sino do Nascimento Silva, o magistério, a que se entregara 
com amor e proficiência. 

Bem comprovam a maneira correcta, útil e benéfica, com 
que Torquato de Toledo se desempenhou de seu cargo de pro- 
fessor, a estima, a consideração e respeito, de que seus antigos 
discípulos sempre o rodearam, a gratidão de muitos dentre el- 
les para com seu velho mestre, a boa graphia e o solido saber 
de quasi todos elles. 

Em 1887 o barão da Franca, coronel José Garcia Duarte, 
indo a Bragança visitar o dr. Joaquim Augusto Ferreira Alves, 
que era então o juiz de direito dessa comarca, para a qual foi 
removido, a pedido, por decreto de 6 de maio ae 1886 e onde 
até 9 de fevereiro de 1889, quando foi removido para a primei- 
ra vara eivei da capital de S. Paulo, administrou a justiça com 
a integridade e as luzes, que o distinguem, o barão da Franca, 
sabendo que Torquato de Toledo, que fora seu professor de pri- 
meiras letras em Casa Branca, estava morando em Bragança, 
correu á casa delle visital-o e lhe agradecer o muito que lhe 
devia pelas licções delle recebidas no pequeno tracto de tempo, 
em que frequentou suas aulas. 

Este proceder, si mais ennobrece o referido titular ora já 
fallecido, é também um reconhecimento completo da proficiên- 
cia com que o antigo mestre cumpriu os deveres de seu cargo. 

Rememorando a passagem de Torquato de Toledo por Casa 
Branca, OIntramigente, que se publica naquella cidade, em sua 
edição de 5 de novembro de 1903. n. '350, deu á estampa não 
só o retrato como ligeiros traços biographicos daquelle emérito 
professor, no que foi seguido pelo Almanach de Casa Branca 
para o anno de 1904, do qual é editor-proprietario o esforçado 
e operoso cidadão Luiz Soares Pereira. 

Torquato de Toledo, bem compenetrado dos deveres, que 
lhe impunha o professorado, e cônscio de que os podia bem 



— 374 — 

éúmprir, se deu de corpo e alma á árdua tarefa de preceptor ; 
mas a necessidade de velar de perto pelos seus interesses, 
que agora eram também de outros de cuja vida era elle auctor, 
a cuja educação devia prover e cujo património queria consti- 
tuir, o levou a pedir sua exoneração e a deixar o professorado. 

III 

Retirado do magistério, passou Torquato de Toledo á viver 
para a Familia ; mas nem o muito que esta lhe merecia, os cui- 
dados que a ella elle dispensava, o desejo de cercal- a de todas 
as commodidades, nem a preoccupaç&o de bem educar os cora- 
ções de seus filhos, de lhes illustrar o espirito e de lhes formar 
o caracter e de, emfim, fazel-os bons, honestos, esclarecidos e 
felizes, nada disso impediu que, reclamando a sociedade os seus 
bons serviços, elle, não se esquecendo dos seus, promptamente em- 
pregasse, logo depois de deixar o professorado, sua actividade em 
oeneficio da ordem publica, da paz das famílias e da justiça so- 
cial, assumindo o cargo de delegado de policia em Bragança e 
nelle prestando os mais desinteressados e relevantes serviços. 

Mais tarde foi ainda seu patriotismo aproveitado pelo Go- 
verno Provincial, que em data de 13 de Julho de 1866, exercen- 
do a presidência da província o conselheiro Joaquim Floriano de 
Toledo, o nomeou supplente do juiz municipal de Bragança. 

Esta nomeação muito surprehendeu tanto o nomeado, que 
não a tinha solicitado nem a podia esperar, porque era elle re- 
ligionario intransigente do partido conservador e o partido libe- 
ral estava então no poder, quanto o próprio partido liberal da 
localidade, o qual tinha por seus próceres indicado ao Governo 
os nomes dos seus correligionários sobre os quaes devia recahir 
a nomeação. 

A escolha do nome de Torquato de Toledo para supplente 
de juiz municipal, apezar de não pertencer elle ao partido en- 
tão dominante, tinha partido do próprio vice-presidente da pro- 
víncia como um acto de estima pessoal e de reconhecimento da 
inteira capacidade intellectual e moral do escolhido. 

Foi a nomeação recebida com surpresa, mas sem protesto, e 
o seu acerto reconhecido pelos próprios adversários do nomeado. 

Exercia o cargo de juiz municipal e de orphams de Bra- 
gança, quando Torquato de Toledo foi nomeado supplente, o dr. 
Carlos António Rodrigues dos Santos, que, nomeado em 13 de 
Fevereiro de 1864, e com exercício desde 20 de Fevereiro de 
1865, teve como sucessores, findo o quatriennio, primeiro o dr. 
António Pereira Pinto Júnior, nomeado em 1869, depois o dr. 
Henrique Porchat de Assis, nomeado em 16 de Agosto de 1871, 



— 375 -- 

o dr. António Barbosa de Azevedo Veiga, nomeado em 24 de 
Janeiro de 1874 e fallecido em A ti baia aos 7 de Agosto 1888, 
o dr. José Moreira Alves da Silva, actualmente deputado por 
Pernambuco ao Congresso Legislativo Federal, o dr. Tertuliano 
Moreira Gezar, que entrou em exercício aos 5 de Julho de 1881 
e foi removido em 22 de Julho do anno seguinte para Tau bate, 
o dr. Brasilio Rodrigues dos Santos, exonerado, a pedido, em 21 
de Junho de 1883, nomeado lente da Faculdade de Direito de 
Sào Paulo em 23 de Septembro do mesmo anno e fal- 
lecido em 30 de Março de 1901, e, fiimlmente, o dr. Pedro No- 
lasco Xavier de Paula, nomeado aos 14 do Janeiro de 1883. 

No juizado municipal de Bragança foi o dr. Carlos António 
Rodriguos dos Santos, posteriormente j az municipal de Batataes 
por nomeação de 7 de Julho de 1873 e juiz de direito de Soure, 
na provincia do Pará, precedido: 

a) pelo Dr. Francisco de Assis Vieira Bueno, nascido em 
S. Paulo, aos 27 de Agosto de 1816, bacharelado em 1841 e 
nomeado em 25 de Maio de 1844 para o cargo de juiz munici- 
pal e de orphams do termo de Taubaté, do qual foi removido 
para o de Bragança em 28 de Agosto do mesmo anno ; 

b) pelo Dr. Joaquim Pinto Porto, que foi deputado á As- 
sembléa Legislativa Provincial de S. Paulo nos biennios de 
1854 a 55 e de 1856 a 57, juiz de direito da Bagagem e de 
Alegrete, para onde foi removido em 12 de Dezembro de 1862 
e onde em 30 de Junho de 1865 alcançou a exoneração, que 
pediu, do cargo de juiz de direito, e veiu a fallecer em Porto 
Alegre em 28 de Outubro de 1877 ; 

c) pelo Dr. Joaquim Pedro Villaça, que, filho legitimo do 
morgado alferes Mauoel José Villaça e L). Maria Ignacia do 
Carmo Villaça, nasceu na capital da provincia de S. Paulo a 
29 de Junho de 1817; casou -se em 3 de Novembro de 1849 com 
D. Carolina Ferreira Garcia Villaça ; foi promotor publico da 
5.* comarca, hoje Estado du Paraná; juiz municipal de Soroca- 
ba, juiz de direito de Paracatú, Passos, Caldas e Alfenas, em 
Minas Geraes, de Lorena, Ytú e Santos, em S. Paulo; desem- 
bargador na Relação de Ouro Preto e na de S. Paulo, servindo 
nesta ultima nove annos como presidente ; ministro do Supremo 
Tribunal de Justiça por nomeação datada de 22 de Septembro 
de 1888, tendo se aposentado em 1890 e vindo a fallecer em 
8 de Maio de 1897 ; 

d) pelo Dr* Mathias António da Fonseca Morato, que exer- 
ceu a judicatura como juiz municipal de Bragança por dons 
quatriennios consecutivos, de 1856 a 1864 e foi em 6 de Maio 
de 1865 nomeado juiz de direito da França e removido em 15 



— 376 — 

de Janeiro do anno seguinte para a comarca do Rozario, em 
20 de Julho de 1878 para a capital do Rio Grande do Norte e 
nomeado em 14 de Março de 1885 desembargador da Relação 
do Belém, no Pará, vindo a fallecer no Maranhão, como desem- 
bargador aposentado, a 27 de Março de 1896. 

Pouco antes da nomeação de Torquato de Toledo como sup- 
plente de juiz municipal, em 27 de Abril de 1866 foi nomeado 
juiz de direito da comarca o Dr. Joaquim Roberto de Carvalho 
Pinto, que falleceu em 21 de Abril de 1886 e teve como ante- 
cessores na comarca o Dr. João Sertório, depois barão de Ser- 
tório e presidente da província do Rio Grande do Sul e da 
Relação do Rio do Janeiro, e o Dr. Manoel Baptista da Cruz 
Tamandaré nomeado em 22 de Junho de 1865 e exonerado, a 

Eedido, em 27 de Abril de 1866, sendo que ao juiz de direito 
►r. João António de Araújo Vasconcellos foi em 30 de Abril 
de 1864 designada a comarca de Bragança para nella ter elle 
exercicio, mas não constando que elle para ella tivesse ido. 

Ao Dr. Joaquim Roberto, que exerceu a judicatura em Bragan- 
ça por quasi vinte annos, succedeu na comarca o Dr. Joaquim 
Augusto Ferreira Alves, que, nascido na cidade do Rio de Ja- 
neiro aos 7 de Setembro de 1843, bacharelado em 1864 foi de- 
putado á Assembléa Legislativa da Província de S. Paulo no 
oiennio de 1872 a 1873 e encetou sua vida de magistrado aos 
17 de Janeiro de 1867, entrando em exercicio do cargo de juiz 
municipal de Atibaia, para o qual foi nomeado em 24 de No- 
vembro de 1866. Em 21 de Janeiro de 1871 e 6 de Março de 
1875 foi reconduzido para Mogy das Cruze*, em 19 de Septem- 
bro de 1877 nomeado juiz de direito da Franca, em 6 de Maio 
de 1886 removido para Bragança, a 9 de Fevereiro de 1889 
para a primeira vara eivei da capital de S. Paulo, em 8 de Se- 
ptembro de 1892 nomeado ministro do Tribunal de Justiça do 
Estado de S. Paulo e em 6 de Julho de 1898 aposentado com 
mais de trinta annos de relevantes serviços á magistratura e ao 
paiz, tendo publicado um justamente apreciado livro-- Consoli- 
dação das Leis da Provedoria — e sendo na actualidade um dos 
mais provectos e notáveis advogados do foro nacional. 

Por decreto de 16 de Fevereiro de 1889 foi designada a 
comarca de Bragança para nella ter exercicio ao juiz de 
direito Dr. António José Lopes Rodrigues, que em 27 de De- 
zembro de 1875 entrara em exercicio do cargo de juiz de di- 
reito de Casa Branca e em 18 de Maio de 1869 fora nomeado 
juiz municipal de Constituição. 

Aos 9 de Abril de 1891 foi removido de S. João da Boa 
Vista para Bragança, o juiz de direito Dr. João Pinto de 



► 



} 



— 377 — 

Castro, antes promotor publico de Botncatú por nomeação de 1 
de Março de 1867, juiz municipal de Capivary e Tietê nomea- 
do a 2 de Outubro de 1872 e juiz de direito da Limeira desde 
3 de Agosto de 1882. 

E' o quarto successor do Dr. Joaquim Roberto o Dr. Manoel 
José Villaça, filho legitimo do conselheiro Joaquim Pedro Vii- 
laça e D. Carolina Ferreira Garcia Villaça, nascido a 16 de de- 
zembro de 1856 e formado em 1881. 

E' o Dr. Villaça, que foi juiz de direito da comarca de 
Porto Feliz desde sua installação em 1890 até 1892, um dos 
doze bragantinos diplomados emsciencias jurídicas e sociaes, 
sendo os outros onze os seguintes; 

1 ) Dr. Américo Brasilio de Campos, nascido em 12 de 
agosto de 1835, formado em 1860, redigiu o Càbriâo com o Dr. 
António Manoel dos Reis, o Correio Paulistano, a Provinda de 
8. Paulo e o Diário Popular, e em 1890 foi nomeado cônsul do 
Brasil em Nápoles, onde falleceu em 20 de Janeiro de 1900. 

2) Dr. Francisco de Paula Leme, formado em 1861, foi 
juiz municipal e de orphams do termo do Amparo. 

3) Dr. António Joaquim Leme, irmão do anterior, filho 
legitimo do capitão António Joaquim Leme e D. Anna Michae- 
la de Albertin Lanoya, nascido a 11 de novembro de 1841, re- 
cebeu o gráo de bacharel em 3 de dezembro de 1862, foi pro- 
motor publico de Parahybuna, juiz municipal de S. Luiz do 
Parabytinga e do termo de Cunha e deputado á Assembléa Le- 
gislativa Provincial no biennio de 1880 a 1881. 

4) Dr. Luiz Gonzaga da Silva Leme, filho do coronel 
Luiz Manoel da Silva Leme e D. Carolina Euphrasia de Moraes, 
neto materno do capitão Luiz Gonzaga de Moraes e D. Gertru- 
des Thereza da Silveira e bisneto de Amaro Leite de Moraes, 
que é também bisavô do dr. Alfredo de Toledo. O dr. Luiz Leme, 
além de formado em direito, em 31 de outubro de 1876, é en- 
genheiro civil pelo Instituto Polytechnico de Reusselaer de Troy, 
Estados Unidos da America, desde 1880, membro da Sociedade 
de Engenheiros de Reusselaer em Troy, do Instituto Histórico 
de São Paulo, cavalheiro da ordem de S. Gregório Magno pela 
Santa Sé e tem no prelo uma importantíssima obra de oito gros- 
so* volumes, dos quaes três já se acham publicados e pela qual 
com acurada, paciente, conscienciosa investigação, guiada por 
uma lúcida intelligencia e solido preparo e auxiliada por uma 
admirável memoria, chegou a reconstituir os titulo» perdidos da 
apreciada Nobiliarchia Paulistana de Pedro Taques, rectificar 
alguns pontos desta e continual-a até a actualidade. 



— 378 — 

Nasceu a 3 de Agosto de 1852 e casou-se em S. Paulo aos 
8 de Setembro de 1883 com D. Maria Fausta Macedo Leme. 

5 ; Dr. Albino Olegário de Moraes Dantas, formado em 18S2 
e promotor publico em Bragança, onde falleceu em fins de 1889. 

•>, Dr. Cândido Carneiro Ribas, formado em 1884 e fallecido 
poucos annos depois. 

1) Dr. Alfredo de Toledo, nascido aos 7 de Abril de 1869, 
filho do capitão Torquato de Toledo, advoga em S. Paulo com 
talento, saber e probidade. 

8; Dr. Trajano Tolentino, muito cedo fallecido no Estado do 
Paraná, a cuja magistratura pertencia. 

9, 10 e 11) Os três futurosos irmãos Carvalho Pinto, netos 
do Dr. Joaquim Roberto de Carvalho Pinto, Drs. Arlindo, Al- 
fredo e Vírgilio, o primeiro c advogado em S. Paulo e duas 
vezes se oppoz a uma das cadeiras de lente da Faculdade de 
Direito, o segundo é promotor publico no Soccorro e o terceiro, 
promotor publico em S. Paulo dos Agudos. 

Foi o Dr. Manoel José Villaça nomeado em 20 de Septem- 
bro de 1892 juiz de direito de Bragança e é elle quem no pre- 
sente administra justiça em sua terra natal. 

A comarca de Bragança foi creada por lei de 6 de Maio de 
1859 e o logar de juiz municipal e de orphams foi no termo da 
referida cidade creado pelo decreto u. 162, de 10 de Maio de 
1842 e extincto pelo decreto n. 9765, em 14 de Julho de 1887, 
quando, declarada especial a comarca, foi creado o logar de juiz 
substituto, para o qual foi nomeado em 11 de Agosto do mesmo 
anno o Dr. José Maria Bourroul, que o exerceu até 20 de Ju- 
nho do anno seguinte, data em que permutou o cargo com o 
juiz municipal da Penha do Rio do Peixe, o Dr. José Maria 
Largacha Júnior. 

Teve Torquato de Toledo, como supplente do juiz muni- 
cipal de Bragança, muitas occasioes de se mostrar digno da con- 
fiança nelle depositada pelo venerando paulista conselheiro Joa- 
quim Flariano de Toledo, tendo estado por muitas vezes em 
exercício pleno do cargo de juiz municipal, e nào deixou Tor- 
quato de Toledo escapar as occasioes, que se lhe antolharam, 
sem que em cada uma d'ellas por seus actos, teus despachos e 
suas sentenças bem comprovado ficasse o acerto da nomeação e 
bem merecedor se mostrasse do elevado conceito, que d'elle fa- 
zia o presidente da província. 

Nesse ramo do serviço publico prestou Torquato de Toledo 
serviços de grande relevância, como os tinha já prestado no 
cargo de professor no trato de uma boa dúzia de annos e no de 
delegado de policia, augmentando-se, por sua integridade, exa- 



> 



> 



-â79 — 

ctidfto no cumprimento de seus deveres, urbanidade para- com 
todos e grande desinteresse, a estima, o respeito e a considera- 
ção, de que já fruia desde muito. 

IV 

O partido liberal de Bragança, annos depois, teve occasião 
de approvar por completo proceder do conselheiro Joaquim Fio- 
riano em relação a Torquato de Toledo, deixando de lado, a 
seu turno, as ideias politicas d'este para mantel-o, apezar de 
sua intransigência partidária, no cargo de coilector de rendas 
geraes e provinciaes em Bragança, para o qual fora nomeado 
quando o partido conservador, de que era religionario, estava no 
poder, a que subiu com o ministério de 16 de Julho de 1868 e 
em que se manteve por quasi nove annos e meio. 

ror acto de 27 de Junho de 1873, tendo as rédeas do go- 
verno nacional o ministério de 7 de Março de 1871, organisado 
pelo Visconde do Rio Branco e que succedeu ao de 29 de Sep- 
tembro de 1870 presidido pelo Marquez de S. Vicente, e estando 
á testa da admistrnção da província de S. Paulo o Dr. João 
Theodoro Xavier, foi o capitão Torquato de Toledo nomeado coi- 
lector de rendas geraes e provinciaes em Bragança. 

Três annos antes, já na situação conservadora, presidindo 
os destinos da província o juiz de direito Dr. António Cândido 
da Rocha e governando o paiz o ministério organisado pelo Vis- 
conde de Itaborahy em 16 de julho de 1868, foi Torquato de Toledo 
por carta patente de 4 de Maio de 1870 nomeado capitão da se- 
gunda companhia do oitavo batalhão de reserva da Guarda Na- 
cional em Bragança. 

Deixado o poder pelo ministério de 25 de junho de 1875 
presidido pelo Duque do Caxias, assumida a direcção politica do 
paiz pelo ministério de 15 de janeiro de 1878, do qual foi or- 
ganisador o conselheiro João Lins Vieira Cansansão de Sinim- 
bu, e se inaugarando com este ministério a situação liberal, 
que se prolongou até 20 de agosto de 1885, se iniciou desde 
logo a derrubada politica, de que o paiz inteiro era theatro 
sempre que os partidos se substituíam no governo, sendo todos 
os funecionarios e en.pregados públicos demissiveis exonerados 
de seus cargos, para os quaes eram então nomeados os religic- 
narios do partido dominante. 

A nova situação liberal encontrou o capitão Torquato de 
Toledo no exercício de seu cargo de coilector de rendas e, como 
elle sempre entendeu que como exactor não servia ao partido 
mas á pátria, entendeu também que suas ideias politicas e filia- 



— áso — 

ção partidária não o incompatibilisavam com o referido cargo 
numa situação liberal, porque também nesta podia elle servir á 
pátria, sem quebra de seu caracter, sem prejuízo para suas ideias, 
sem deslealdade para com seu partido. 

Assim pensando, não pediu o capitão Toledo sua exonera- 
ção á espera de que o partido liberal o demittisBe, como o es- 
tava fazendo para com todos os mais. 

Em Bragança era o partido liberal chefiado pelo coronel 
Francisco Emilio da Silva Leme, que em 20 de fevereiro de 
1836 fora provido na serventia vitalicia de escrivão de orphams 
e ausentes e da qual desistiu, sendo por acto de 2 de outubro 
de 1885 acceita a sua desistência. 

Este cbefe liberal, que serviu com o capitão Toledo como 
escrivão, quando este exerceu a judicatura, conhecia de perto 
a forte envergadura de seu beilo caracter, sabia perfeitamente 
que os mais nobres predicados moraes, uma facilidade rara de 
comprehensão e uma intelligencia bem educada exornavam sua 
distincta individualidade, entendeu, a seu turno, que o facto só 
de não pertencer o capitão Toledo ao partido dominante não 
podia bastar para privar o paiz dos serviços, que com insupe- 
rável correcção e grande patriotismo estava elle prestando no 
cargo de collector. 

O proceder do conselheiro Joaquim Floriano, nomeando 
Torquato de Toledo supplente de juiz municipal, teve assim a 
mais inteira approvação do partido liberal de Bragança, quando 
este o manteve no cargo de collector, attendendo ao seu muito 
valor, de que dá ideia o seguinte facto : 

Estando o partido liberal no governo foi mandado em com- 
missão a Bragança um empregado de alta cathegoria da Fa- 
zenda Nacional para proceder a rigorosa inspecção na collecto- 
ria de rendas. 

O commissionado chegou sem que ninguém o esperasse e 
sem que os interessados tivessem tido conhecimento de sua com- 
missão e, antes mesmo que circulasse a noticia de sua chegada, 
tratou de dar começo ao desempenho da incumbência, que o 
levara ás plagas do Ouaripocaba. 

Aberta a collectoria ás nove horas da manhã, de conformi- 
dade com o regimento dos empregados da Fazenda Publica, 
poucos instantes depois nella appareceu o inspector commissio- 
nado, que participou seccamente quem era e ao que vinha e, 
sem esperar da delicadeza do collector e de seu escrivão José 
Marcellino da Silveira os cumprimentos impostos pela regra do 
bom tom, interrogou mais áspera que urbanamente o collector 
iinur o arrecadado. 



I 



— 3*i — 

Torquato de Toledo, que pela sua correção dispensava qual- 
quer benevolência respondeu de prompto no mesmo tom mais 
áspero que urbano, apontando para uma das gavetas de sua. 
secretária, que o dinheiro arrecadado estava todo na gaveta, 
que elle indicava com o dedo, respondendo ainda á segunda 
pergunta de qual a importância que se continha na gaveta in- 
dicada, que ahi estavam todo o dinheiro arrecadado e mais outro 
tanto, e, á pergunta de qual a importância arrecadada, que ella 
constava dos livros, cuja escripturação se achava em dia e, por 
isso, o inspector commissionado, a cuja inteira disposição punha 
todos es livros, podia por si mesmo e num instante verificar em 
quanto montava a arrecadação feita. 

Posta uma das mesas da repartição ao dispor do referido 
inspector, franqueados todos os livros, collector e escrivão con- 
tinuaram seus trabalhos sem modificar uma linha siquer de seu 
proceder de todos os dias, não auxiliando o inspector no exame, 
a que procedia , para lhe dar mais ampla liberdade. 

A' hora regimental, ás três horas da tarde, Torquato de 
Toledo avisou o inspector de que era hora de se fechar a re- 
partição, e que a ia fechar de facto. 

Retirou-se o inspector, voltando nos dias seguintes com a 
mesma severidade, que tocava ás raias da grosseria, mas no 
quarto dia e nos que se lhe seguiram, certificado plenamente a 
mais não ser de que seriam frustrados todos os seus esforços em 
procurar qualquer incorrecção do collector por mínima que ella 
fosse, deu de mão aos modos com que se apresentara e tratou 
de ganhar as Rympathias e a amizade do digno exnctor, que, 
como o sabia elle já então, não precisava de benevolência nem 
a procurava, 

Terminou o commissionado a inspecção rigorosa a que pro- 
cedeu, fazendo os mais francos elogios ao digno collector, que, 
sendo adversário da situação, o levou a assim proceder única e 
exclusivamente pela maneira por que cumpria os deveres do 
cargo 

O partido conservador, quando subiu ao poder com « mi- 
nistério de 20 de Agosto de 1885 organisado pelo Bnrão de 
Cotegipe, achou no exercício do cargo de collector em Bragan- 
ça o seu correligionário, que fora poupado pelo partido libe- 
ral, mas que nem um só instante com este transigiu no tracto de 
mais de septe annos e meio, em que esteve elle no poder e lhe 
era dado a qualquer momento demittil-o. 

Prestou neste ultimo posto o capitão Toledo serviços relevantes 
como os tinha prestado em todos os mais cargos, que occupara, 
até que em 26 de Junho de 1889, depois de dezeseis annoe de 



- 382 - 

dedicação patriótica ao cargo, de que fôra investido em 1873, 
depois de uma consagração de doze annos e meio á instrucçfto 
publica e de mais cinco annos de desinteresse e sacrifício em— 
pregados na manutenção da ordem e na distribuição da Justiça, 
deixou a vida publica para viver para os seus filhos, sem que, 
entretanto, deixasse de se preoecupar com todos os problemas,, 
que assoberbavam nussa nacionalidade, e de acompanhar com 
interesse patriótico a politica nacional. 



Nos últimos annos do terceiro quartel do século passado, 
inaugurada em 16 de fevereiro de 1867 a linha férrea de San- 
tos a Jundiahy, o problema ferro -viário preoceupava mais do que 
nunca a attençào da província de S. Paulo. 

A lei provincial n. 34, de 24 de março de 1870, auetorisou 
o governo a garantir os juros de 7 / o até o capital de 
2.500:000^000 rs. para a construccào da estrada de Jundiahy a 
Ytú e de 1.200:000$000 rs para a da de Ytú a Sorocaba. 

Em 30 de junho de 1870 se constituiu a Companhia Ytuana 
e em 20 de novembro iniciou ella a construccào da e si rada. 

A lei n. 28, de 24 de março de 1871, concedeu os juros 
d« 7°/o sobre o capital máximo de 10.655:000^000 rs. para a 
construccào de via-ferrea em S. Paulo e a povoação de Ca- 
choeira. 

A lei n. 33, de 29 de março deste mesmo anno de 1871, 
auetorisou a concessão, com garantia de juros e de zona, de 
uma estrada de S. Paulo a S. João de Ypanema, passando por 
S. Roque e Sorocaba. 

No anno de 1872 se organizou a Companhia S. Paulo e Rio 
de Janeiro para a construccào da estrada, a que se refere a lei 
n. 28, de 1871; aos 13 de junho a Companhia Sorocabana ini- 
niou a construccào da estrada auctorízada pela lei n. 33, tam- 
bém de 1871 ; em 11 de agosto a Companhia Paulista inaugu- 
rou solennemente a linha de Jundiahy a Campinas; a Assem- 
bléa Legislativa Provincial votou e o Presidente da Província 
promulgou cinco leis relativas a estradas de ferro, as de ns. 18, 
34, 36, 45 e 54, de 21 de março e 5, 6 e 18 de abril. 

Naquelle anno raro foi o dia de sessào da Aesembléa Provin- 
cial, no qual nào teve esta de se oceupar da viação férrea, pois 
sobre este assumpto lhe foram em differentes datas apresentados 
septe diversos requerimentos, quatro representações e nove pro- 
jectos, o primeiro dos quaes, assignado por António Pinheiro de 
Ulhoa Cintra, António Joaquim de Freitas Leitão, Luiz Sil7e- 



— 383 — 

rio Alves Cruz, Simpliciano da Rocha Pombo, Manoel Afifonso, 
Cónego Demétrio, Ferreira Alves, Leonel Ferreira, Paula Edu- 
ardo, Valladão, F. António de Araújo e Raphael de Araújo Ri- 
beiro Filho, foi apresentado em 15 de fevereiro, teve o n. 44 e 
foi convertido na lei n. 18, de 21 de março, pela qual foi per- 
mittida a concessão de privilegio e garantia de juros para a es- 
trada de Campinas a Mo gy- mirim com um ramal para o Amparo. 

Dos septe requerimentos apresentados o segundo era assignado 
por diversos bragantmos, que solicitavam concessão de privile- 
gio e garantia de juros para a construcção de uma estrada de 
ferro, que do ponto mais conveniente da estraua de Jundiahy 
se dirigisse a Bragança. 

Este requerimento, levado á consideração da Assembleia 
em 8 de fevereiro, ck*.u aso a que os nobres deputados Drs. Joa- 
quim Augusto Ferreira Alves e Paulo Egydio de Oliveira Car- 
valho apresentassem em 5 de março um projecto de lei, o qual 
teve o numero 102 e, depois de combatido pelo Dr. . Frederico 
Abranches, na primeira e na segunda discussão, pelo Dr. Luiz 
Silvério na segunda discussão e pelo Dr. Pedro Vicente de Aze- 
vedo na terceira e defendido pelo» seus signatários, foi conver- 
tido na lei n. 36, de 6 de abril. 

Auctorisada a concessão, feita esta, organisada a Companhia 
Bragantina de Estrada de Ferro e aberta a subscripçào publica 
das acções, o capitão Torquato de Toledo foi um dos primeiros 
em subscrevel-as concorrendo com seus capitães para dotar a ci- 
dade, em que fixara sua residência, com esse extraordinário ele- 
mento de progresso, que o é a via-ferrea, facilitando o trans- 
porte de mercadorias e a comraunicacào dos homens, dando in- 
cremento ao commercio e á agricultura e contribuindo para a 
solidariedade humana. 

Foi o capitão Toledo um dos primeiros em subscrevel-as, 
e o fez impulsionado unicamente por seu sadio e elevado pa- 
triotismo, porque a seu espirito atilado e culto não escapou que 
o capital empregado em acções da Companhia Bragantina, longe 
de se tornar apenas improductivo e morto, logo e logo se des- 
valorisaria e as acções seriam cotadas por menos de seu custo. 

Este prognostico, que não impediu o capitão Toledo de des- 
embolsar não pequena quantia e lhe deu ensejo de patentear 
com esse desembolso seus nobres sentimentos de cidadào prestante 
e patriota, teve com o correr dos tempos completa confirmação, 
pois não só, já em 1881, antes da inauguração da estrada em 
14 do agosto de 1884, o engenheiro fiscal escrevia em seu re- 
latório, apresentado ao presidente da província, o senador Flo- 
rêncio de Abreu, que «E' geral a duvida que paira sobre Q 



- 384 - 

espirito publico, com relação á prosperidade da Estrada de Ferro 
Bragantina, depois de aberto o trafego», como ainda as acções 
da Companhia até a adquirição da estrada pela S. Paulo Eailway 
Conopany foram sempre cotadas muito abaixo do par. 

Com egual desinteresse e idêntico patriotismo, com que en- 
carou o problema da viação férrea para Bragança, enfrentou o 
capitão Toledo o problema do elemento servil, precedendo nos 
seus sentimentos altruisticos aos agitadores da libertação dos es- 
cravos, não só não mais, desde 1850, quando ainda a escravidão 
não tinha despertado a philantropia sinão de um ou outro raro 
patriota, comprando outros escravos ou vendendo os que pos- 
suía, pelos quaes, por muitas vezes, recusou preços elevados, como 
também dando a estes tratamento e liberdade de acções taes 
que causavam extranheza tanto aos outros senhores de escravos 
como aos demais contemporâneos, de modo a afnrmarem, e com 
razão, que os escravos do capitão Toledo eram antes os mais 
bem aquinhoados condóminos do estabelecimento agrícola, em 
que viviam, do que escravos de facto, pois gozavam elles de 
licença de fazerem suas roças, de venderem a quem bem lhes 
aprouvesse a colheita, de irem todas as tardes á cidade e de 
ahi pernoitarem e, ao em vez de terem feitor a dirigil-os, a fis- 
calizar seus serviços e a lhes infligir castigos pelas faltas, eram, 
elles mesmos senhores da direcção de seus serviços, 

A lei n. 3.353, de 13 de maio de 1888, pela qual foi abolida 
a escravidão no Brasil, não encontrou o capitão Toledo como 
proprietário de escravos, pois que antes desta lei já tinha elle 
concedido de direito a seus últimos escravos, que eram todos nas- 
cidos e creados em seu estabelecimento agrícola, a alforria, que 
elles, de ha muito ou, melhor, desde sempre, fruiam de facto, e 
que continuaram a fruir no mesmo estabelecimento, que não 
quizerain abandonar nem depois de libertos, nem depoÍ6 da lei 
de 13 de maio, como não o quizeram antes, quando era geral o 
êxodo dos escravos, que abandonavam as fazenda? de seus se- 
nhores 

O altruísmo do capitão Toledo não se circumscreveu ao 
âmbito de seu estabeleci mento agrícola para tornai -o antes pro- 
tector que senhor de seus escravos, e, ao contrario, de par com 
seu bello e finíssimo caracter de quem não se contenta de ser 
homem de bem, mas tem applausos para os que também o são, 
se fez sentir ainda no seio da sociedade bragantina, onde a 
diversas pessoas, que mourejavam na lucta pela existência pau- 
tando seus procedimentos pela linha do dever, tendo amor ao 
trabalho e capacidade de colher delle todos os proveitos, que 
só não auferiam por desajudados da fortuna, deu a mão o ca- 



~ 385 — 

pitão Toledo, pondo á disposição deli es os meios pecuniários, 
de que necessitavam, e os fornecendo, de facto, áquelles que, 
animados por semelhante benéfico impulso, accei taram o auxilio 
offerecido. 

Áo patriotismo, com que encarava os problemas sociaes, e 
aos applausos, com que distinguia os caracteres bem formados, 
se junctava cm Torquato de Toledo o interesse pela politica 
nacional, de cujos partidos elle seguia, sem transigência, mas 
sem exclusivismos, a desenvolução, e, por isso, apesar de ser elle 
religionario do partido conservador, foi em sua casa que se hos- 
pedou o eminente brasileiro Dr. Manoel Ferraz de Campos Salles, 
mais tarde presidente da Republica, quando em janeiro de 1889 
e a convite do Club Republicano local, que era então presidido 
pelo conceituado clinico e distincto cidadão dr. Honório Libero, 
foi á Bragança fazer uma conferencia. 

Em 21 de março de 1898, Torquato de Toledo, espirito 
esclarecido, coração bem formado e caracter impolluto, passou 
ás 8 horas da manhã, placidamente como um justo, que o era, 
desta vida paru o parai zo celeste a gozar das bemaventuranças, 
coin que a Divina Providencia galardoa os bons, affirmando a 
Gazeta Republicana, de Bragança, em seu n. 127, de 24 de 
março do mesmo anno, que «O illustre morto, cidadão dotado 
de innumeraveis virtudes, salientou-se na nossa sociedade pela 
correcção de seu proceder e finou-se com a avançada edade de 
87 annos, empregados sempre na practica de boas e salutares 
obras». 

Foi assim sob todos aspectos o capitão Francisco António 
Torquato de Toledo um brasileiro illustre, digno da estima, 
consideração e respeito de seus contemporâneos e da veneração 
da posteridade. 

Elpidio Lbitjb 



Campanha de 1827 



A BATALHA DO PASSO DO ROSÁRIO OU DE ITUÇAINGO 

« B' tempo de se faaer um appello enérgico ao 
sentimento nacional para o flm de pe estabelecer a 
yerdade histórica»... 

Fosse a ousadia de disputar louros literários que nos fizesse 
levantar a voz ante tilo il lustrado auditório, que nem indulgência 
mereceria tão descabida preterição. 

No declínio da vida, tragando em silencio injustiças dolo- 
rosas, acabrunhado pelos males consequentes da espinhosa car- 
reira das armas, o estimulo pelo cumprimento do dever, porém, 
teve ainda forças para nos arrancar do i solamento em que vive- 
mos, para virmos aqui disputar, quem sabe pela ultima vez, 
louros guerreiros para a nossa Pátria. 

Move-nos também, devemos confessar, a necessidade de la- 
vrar solemne protesto contra o desprestigio que se procura, 
nestes tempos de dolorosa provação, assacar contra a classe de 
que nos prezamos de ser devotado representante, posto que o 
ultimo na escala dos merecimentos. 

E, cousa extranha ! 

Será por ventura verdade que uma vez entrado o organismo 
no periodo de declinação da vida, de dissolução das moléculas 
que o constituem, empregue, como que para apressar esse movi- 
mento de destruição, os últimos restos das forças que ainda o 
vigorisam ? 

A quanto tempo se observa que nesta desmantelada nacio- 
nalidade não se agita com apparencias de vida outro orgam que 
não seja o da classe militar? 

Será pois a esse ultimo élo que nos prende a vida social que 
insistente, posto que inconscientemente, se quer a todo transe 
anniquilar ? 

Não entra pelos olhos de todos, não chama a attenção até 
dos mais desocupados, esse phenomeno que nos Ínfimos seres da 
natureza, nesses minúsculos insectos que por toda a parte voejam, 
e que com tanta generalidade se observa, de disporem todos de 
eficazes elementos de defeza, de armaduras, bem formidáveis 
algumas vezes, para a conquista dos elementos indispensáveis á 
Y?da ? 



4 — 



- 387 - 



Como pois prescindir desse exemplo tão constantemente 
ofiferecido pela própria natureza e se esforçam alguns indivíduos 
por denegrir os altos feitos e os intuitos da classe militar, esse 
indispensável orgam da vida das nações ? 

Não será por ventura, ao contrario, o nosso imprescriptivel 
dever, fazer o possível por levantal-o, por ele vai -o siquer, ao 
gráo de prosperidade, de cohesào e de eficácia para os seus fins, 
a que os nossos visinhos, povos infinitamente nossos inferiores 
em toda classe de recursos, tem levantado os seus? 

Sem duvida, enorme é o espaço que nós brasileiros occupa- 
mos na superfície da terra ; mas essa mesma grandeza que faz 
o nosso orgulho, não será a causa de inveja, desse amargo sen- 
timento que tão atrozes injurias irroga a quem o origina? 

Não vemos, neste mesmo instante, lá pelos confins da Ama- 
zónia, Liliput a morder- nos os calcanhares? 

Não conhecemos, talvez, nem queremos cogitar da questão 
de direito no Acre ; mas não devemos tolerar que por motivo 
algum, por passarem mais por aqui do que por alli linhas ideaes 
de demarcações limitrophes, alce o petulante visinho mão crimi- 
nosa contra os nossos patrícios, ameaçando -nos com a guerra. 

E seria por ventura possível similhante attentado, si esti- 
vesse a força militar de que dispomos em proporção com a nossa 
grandeza territorial, população e recursos ? 

Si a mobilidade e consistência de nossas forças estivessem 
em condições de desferir com efficacia e promptidão necessárias, 
teriam sido elles commettidos? 

Não ha negal-o ! Existi o o pendor para o anniqaillamento 
da nossa corporação fechando escolas, arsenaes, colónias milita- 
res, esvaziando depósitos, etc; destruindo os antigos viveiros de 
soldados e de marinheiros, e os institutos em que se educavam os 
menores desamparados para uma e outra classe ; para o futuro 
dificultará, pode-se affirmar, o exercito e a nossa marinha de 
guerra do se constituírem em condições de desempenhar o papel 
saliente que lhes dá a razão de ser em todo o mundo — a de- 
feza da pátria e o castigo dos seus aggressores ! 

No norte do Brasil, nos pântanos onde vegeta essa famosa 
syphonia elástica, só porque a riqueza do seu prodncto fel-a 
chamar a arvore do ouro, expulsam e fuzilam os nossos patrícios ! 

Eis o impatriotico resultado a que chegaram no Brasil os 
adversários da nobre classe militar, envolvendo a todos que ves- 
tem o glorioso uniforme, desde os Marechaes e Almirantes até 
o soldado softredor e valente sob epithetos poucos lisongeiros. 

Sectários 4<> servilismo não sabem discriminar o pretoriano 



- 388 — 

vil e mercenário do severo legionário, confundindo sabia* insti- 
tuições militares com a politicarem, ignorância e felonia. 

Politicos e jornalistas acotovelaram- se nessa faina ingrata 
depois de acenarem á nobre classe com miragens se d uc toras e 
anarcbicas. 

Olhando para o nosso passado individual nos ufanamos de 
ter cumprido o dever — bónus miles. (1) 

Quando houve a grande epopeia do Paraguay, abandonando 
estudos e tudo que nos era caro, deixamos as margens amenas 
do histórico Ypiranga em Fevereiro de 1865. palmilhando o sertão 
do Oeste, seguindo as pegadas dos antigos Bandeirantes e fomos 
libertar Matto Grosso em guerra. 

Posteriormente marchamos das alterosas barrancas do mages- 
toso Paraná ás cumiadas da Cordilheira de Maracajá, afrontando 
o inimigo. 

Ah ! que saudades que temos daquelles tempo* em que a 
nossa bandeira auri-verde victoriosa se 'desfraldava nos campos 
de três na^Oes vis i nhãs levando -lhes instituições livres e deso- 
primindo-as de seus tyranos! 

Concorremos, de regresso á Pátria, para a libertação da es- 
cravatura, aspiração nacional. 

Na proclamação da Republica observamos as normas do es- 
trie to dever militar: Vós o dissestes. 

Em frente a questão da Ilha da Trindade, e, finalmente 
agora, offertámos ao governo o nosso minguado soldo e débeis 
forças. Reconhecido, nos louvou. 

Hoje, deplorando os males que nos assoberbam, mas para os 
quaes ha remédios que o santo e puro amor da Pátria suggere 
aos seus bons filhos, olhando para o passado e lembrando que 
sempre procurámos o caminho da honra, soffrendo as maiores ca- 
lumnias, por isso mesmo nos indignamos e protestamos, dizendo, 
com o Poeta, aos nossos detractores : 

«Che la lor condizione 
E' tanta bassa 
Non raggionamur da lor 
Ma garda i passa ...» 



Surprehendidos por vermos estampados nas paginas de um 
dos volumes da Revista do Instituto Histórico de S. Paulo con- 
ceitos pouco lisongeiíos a um bravo general, já fallecido, e aos 



(1) Agradecemos á lJena o sermos : Cbrist&o, paulista e militar ; c o afflrmamos 
sempre com actos. 



- 389 - 

feitos gloriosos do Exercito Brazileiro na campanha do 182Í, 
escrevemos estas linhas procurando restabelecer a verdade, fun- 
dando-nos, na inspecção ocular do theatro das operações, no 
testemunho de algumas pessoas presentes aos acontecimentos, nos 
nossos resumidos conhecimentos de táctica e estratégia e nos do- 
cumentos do tempo. Pretendemos provar que o Exercito Brasi- 
leiro foi victorioso na batalha do Passo do Rosário, em Ituçain- 
gó, e que o Marechal Marquez de Barbacena, vencedor, faz jus 
a benemerência dos coevos e pósteros. 

E principiemos delineando ligeiramente o perfil histórico dos 
personagens de cujo duelo em Ituçaingó pretendemos decidir a 
victoria contra a corrente de ideas, muito embora geralmente 
seguidas, apoiados porém em documentos verdadeiros monumen- 
tos, aere perennius, e cujo valor a vosso turno julgareis. 

E f um pequeno parallelo a imitação dos bellissimos de Plu- 
tarcho para bem concluirdes qual seria o vencedor, conhecidos 
os seus precedentes. 

D. CARLOS DE ALVEAR 

Em nossa casa, demos o primeiro lugar ao extrangeiro : Lo 
cortez no quinta lo valiente. 

De arribada a sua pátria de nascimento, que a do seu cora- 
ção e da sua cabeça era a paterna onde fora creado e educado, 
a Hespanha, Alvear (Carlos Maria) deixou desde logo presentir 
o extranho papel que desempenharia em seu novo campo de 
acção. 

Ao primeiro relancear de olhos, na Argentina, acha logo tudo 
pequeno, incapaz de com elle hombrear nas lides da guerra a que 
se propunha lançar ; porque de guerra sanguinolenta e violentís- 
sima posto que entre irmãos, ou por isso mesmo que entre irmãos, 
somente se tratava então no estuário vastíssimo do Prata. 

«Aqui não ha, dizia elle, mais generaes que eu e San Mar- 
tin»; — personagem que com elle chegara então da Hespanha e 
seu amigo intimo. (1) 

Não sendo nosso objectivo fazer propriamente a biographia 
de Alvear, passemos por alto tudo aqui lio que não accentúe bem 
o seu caracter. 

Companheiro de San Martin na organisação da loja maçó- 
nica Lautaro, não vacilou em cabalar e atiral-o para o Alto Peru 
afim de se livrar de tão forte competidor e poder desassombrado 
adiantar os seus projectos de ambição. 



O) Bartholomeu Mitre— Historia de Belgrano y de la Independência Argentina. 



- 390 - 

Conseguido esse desideratum, disse aos seu sequazes:— «Ca- 
hio o homem», mas usando de outras palavras de calào mui 
baixo, verdadeiro argot, revelando tendências criminosas segundo 
Lombroso. 

— cA rendiç&o de Montevideo foi um louro com que inde- 
vidamente se adornou», diz Mitre, pois c preparada pelo general 
Rondeau era questão de dias a rendição da praça apertada pela 
fome como se adiava.» 

cÀssumindo o poder sem influencia alguma popular, pela 
acção exclusiva da sua camarilha, offerece a Lord Strangford su- 
bmetter sua pátria (!) á Inglaterra sem condição alguma para 
salval-a dos males que a affiigiam, commettendo assim uma ver- 
dadeira traição, diz Mitre, aos interesses do paiz cuja vontade 
invocava falsamente.» 

cTres mezes dapois rechassado pelo povo, abandonado pelo 
exercito, sem apoio da opinião nem da força teve que abandonar 
o poder e se refugiar em um navio extrangeiro,» diz o mesmo 
escriptor relatando a sua cahida. 

Poscrípto no extrangeiro acha depois opportunidade para 
galvanisar a sua acção politica ligando-se com Carrera, aventu- 
reiro chileno que se agitava em Montevideo á procura de ele- 
mentos para revolucionar seu paiz contra O' Higgins, que d'alli 
o expulsara. 

cEsta noticia trouxe novo elemento de perturbação. 

O ódio a Álvear era a paixão dominante em Buenos- Ayres ; 
bastava pronunciar-se o seu nome para que todos acudissem ás 
armas contra elle. De uma ambição pessoal sem escrúpulos, sem 
pudor e phantastico, acreditava nos improvisos, tudo confiando 
aos golpes theatraes, sem se dar ao trabalho de amadurecer os 
seus planos, nem siquer de esperar a opportunidade propicia,» 
são ainda expressões bem duras do referido escriptor. 

Ingerindo-se apezar de tudo na revolução que estão se ef- 
fectuou, mais uma vez foi vencido, indo se occultar de novo para 
preparar outro trama th e a trai. 

Com effeito ; «m um pronunciamento se introduzio subrepti- 
ciamenfe entre os vencedores pretendendo figurar entre elles ; 
mas reconhecido pelo povo, foi atacado a punhal, salvando-se 
por haver alguém se responsabilisado pela sua expulsão do paiz. 

Em nova farça, sempre transigindo, aproveitando- se da vi- 
ctoria de Canhada de la Cruz em que cahira vencida Buenos- 
Ayres pelas forças federaes, faz-se acclamar governador pelos 
aventureiros que o acompanhavam. (1) 

(1) F. Lopei; Historia da Republica Argentina. 



- 391 - 

Investido dessa ridícula e transitória auctoridade, responde 
a uma deputação de portenhos que procurava a paz: — cjá me 
depuzeram vocês uma vez ; mas si o tentarem agora, enforcarei 
a meio Buenos Ayres;» barbara ameaça que já principiara a ter 
execução como verificaram esses commissionados vendo pendu- 
rado na forca pela madrugada da paschoa da Resurreição, a um 
individuo só por ter fallado mal de Alvear em um café ! 

Com toda sua fanfarronada foi miseravelmente cahirem San 
Nicolás fugindo aguas abaixo em uma canoa para Montevideo, 
d'onde manobra e é nomeado chefe das forças em operações con- 
tra o Brazil, «mostrando logo, diz Bransen, a sua ignorância da 
parte pratica da sciencia militar, pois nào sabia marchar, nem 
acampar, nem prever couza alguma». 

Sem experiência, nào consultava senão a sua vontade e o 
seu capricho, paralisando o talento e a experiência dos outros 
generaes, pondo a cada momento em duvida a própria existência 
do exercito, cou forme publicou Saldias (1) e outros. 

Para terminar, perguntamos: este aventureiro politico jamais 
poderia vencer um general? 

E quem era esse general? 

Era o illu&tre guerreiro e sábio 

MARQUEZ DE BARBACENA 

o qual se notabilisava entre os homens distinctos que com elle 
combateram na arena parlamentar pela supremacia dos seus ta- 
lentos, pela consumada experiência, pelo fino tacto e critério de 
diplomata, predicados estes que sobresahem nos actos que cons- 
tituem a sua vida privada e publica. 

Homem de pensamento e de acção, o Marquez de Barbacena 
foi uma das proeminências que illustraram o laborioso e difficil 
inicio do Governo Representativo, proclamado por um povo que 
se educara sob o domínio colonial. 

Principiou a sua carreira publica o Marquez de Barbacena 
alcançando aos 19 annos de edade, por estudos, o posto de Ca- 
pitão de Mar e Guerra, seguindo em brilhante commissão para 
a Africa onde logo teve opportunidade de prestar relevantes 
serviços, dando caça aos corsários até fazel-os deeapparecer das 
costas de Loanda e Moçambique. 

Transferido para o exercito joi promovido a Tenente Coronel 
e classificado no regimento de guarnição na Bahia. 



(]) Historia de la Republica Argentina; Fregeiro, e B. Queiada-.La batalha de 
Ytnsalngo 



— ^925 — 

Àpproveitando os lazeres que lhe deixavam as obrigações mi- 
litares emprehendeu também outros serviços de utilidade publica, 
como a introducção da vacina no paiz, mandando para esse fim 
a sua custa um cirurgião e sete escravos á Europa, afim de se- 
rem inoculados e trazerem em si o antídoto da varíola, moléstia 
que tão desoladora então desvastava o paiz ; serviço pelo qual 
figura o seu busto no Instituto Vaccinico do Rio de Janeiro. 

Promovido a Coronel, foi commandar o regimento 13, de 
guarnição em Peniche, sendo o primeiro brazileiro que alcan- 
çava tão disputado posto no Reino de Portugal. 

De volta ao Brazil, foi nomeado Brigadeiro inspector das 
tropas da Bahia, onde introduzio profundas reformas em bem 
da diciplina, lactando com terríveis obstáculos, como se pode 
examinar considerando o que teria feito para extinguir as com- 
panhias de Familiares da Inquisição, de longa data toleradas no 
exercito. 

Introduzio o montepio para os officiaes e melhorou os regu- 
lamentos para as caixas dos corpos. 

A sua custa fez levantar uma cartado Recôncavo da Bahia 
e de Sergipe, tendo sido elogiado pelo Conde de Linhares. 

Mandou vir uma machina de brocar e fazer armas que alli 
installou e que mais tarde foi trás portada para o Rio de Janeiro. 

Mandou abrir estradas a sua custa para o interior da Bahia, 
sendo por isso condecorado. 

A primeira machina a vapor de moer canna foi por elle in- 
troduzida bem como as sementes de canna cayana e imperial. 

Intelligencia de vastos horizontes, comprehendeu a necessi- 
dade de fomentar o esforço do braço com o estimulo do capital, 
entendendo-se para esse fim com o Banco do Brazil, afim de 
conseguir o estabelecimento na Bahia da caixa filial que alli se 
installou; causando verdadeiro assombro a leitura das cartas que 
a esse propósito escreveu revelando dotes de grande financeiro. 

Com a sua promptidão de expediente, tão hábeis medidas 
suggerio que afastou essa província do contagio revolucionário de 
Pernambuco em 1817; tendo contribuído para salvar os compro- 
mettidos com a somma, então considerável de quatrocentos mil 
cruzados e mais com um navio de sua propriedade para o trans- 
porte das forças que Buffocaram aquelle movimento. 

Espirito emprehendedor e progressista fez vir da Inglaterra 
a primeira machina naval á vapor, que empregou no navio que 
alli fez construir. 

Então foi promovido a Marechal com os foros de fidalgo. 

O quanto o seu ardente patriotismo e lucidez de espirito 
concorreram para o desenvolvimento e prosperidade da Bahia, 



- 393 - 



não é assumpto para aqui tratarmos, porque seria mister histo- 
riar tudo o que alli se fez em matéria de industiia, agricultura, 
commercio e sciencia e que tão alto levantaram essa provincia por 
esses tempos, pelo que em 1820 teve a honra de Ber nomea- 
do cavalleiro da Torre e Espada. 

Clara intelligencia, de vistas essencialmente praticas e po- 
litico adestrado, empenha-se pela nossa indepedencia com o ar- 
dor que costumava dispender em todas as causas que desposava; 
pensando constituir um Governo modelado pelo da Inglaterra, 
cujas vantagens bem de perto conhecia e que tanto adimirava, 
seguio para Londres onde se dedicou á realização desse grande 
e patriótico desideratum. 

Uma vez alli franqueou generosamente a sua bolsa a illus- 
tres patrícios que queriam legressar para o Brazil : Lino Cou- 
tinho, Feijó e outras notabilidades. 

Investido de plenos poderes para pleitear junto ás cortes 
europeas o reconhecimento da nossa independência, esse facto 
culminante da nossa vida politica, atravez de mil dificuldades, 
luctando com o ingente poder da Santa Alliança, que a todo 
movimento liberal oppunha intransigente resistência, chegou aos 
seus fins marcando o mais alto padrão de gloria em sua vida 
politica e por cujo grandioso serviço todos (levemos votar-lhe a 
máxima gratidão e reverencia. 

Por tão relevante serviço foi promovido a Tenente General 
e eleito por três províncias Senador á Constituinte e nomeado 
Visconde de Barbacena. 

Chamado ao Brazil foi encarregado das pastas da Fazenda 
e do Império, repartições em que deixou, como em todas as com- 
missoes de que se encarregava, fundos sulcos de sua passagem. 

Faço ponto aqui tendo resumido a vida deste illustre mili- 
tar até o momento em que foi nomeado commandante em chefe 
das forças que oppoz o Brazil á invasão Argentina e Oriental 
em 1827, e que foram, apezar de todas as vantagens, completa- 
mente batidas e esmagadas pelo nosso pequeno exercito vence- 
dor em Ituçaingó na batalha do Passo do Rosário a 20 de Fe- 
vereiro. 

Oliveira Lima em sua excellente obra — O reconhecimento do 
Império, diz : «O Marquez de Barbacena era um militar de calma 
energia, politico de comedidas ambições e homem de variadas 
aptidões». 

Eunapio Deiró escreveu: — «O Marquez de Barbacena ele- 
va-se á cathegoria de um estadista superior ao seu tempo e ao 
estado moral, social e politico do seu paiz. 



\ l 



- 334 - 

«EUe reuniu em sua individualidade as múltiplas qualidades 
de guerreiro, de diplomata, de orador e de estadista. 

«Sur prebende que um espirito tao notável seja desconhecido 
das gerações novas e tenha ficado esquecido ! 

«Os homens do presente parecem desdenhosos dessas recor- 
dações do passado; devem, porem, refletir que são uma bôa e 
instructiva parte da historia brazileira, que por patriotismo lhes 
cumpre conservar e zelar». 

Quod potui, feci; faciant meliora, potentes. 



Recordemos o passado ; elle encerra úteis 
ensinamentos para o futuro. 

Traçados como ficaram alguns dados biographicos do Marquez 
de Barbacena e de Álvear, recordemos ligeiramente os successos 
que originaram a campanha de 1827, em que se feriu a famosa 
batalha do Passo do Rosário ou Ituçaingó, (1) afim de bem se 
perceber pelo objectivo que tiveram aquelles generaes em vista 
e pelos resultados a que chegaram qual o que pode ser conside- 
rado vencedor. 

Tomando os factos que mais se approximam desse memorável 
feito d'armas, lembraremos que o Estado Oriental, cansado de 
luctas intestinas fomentadas sempre por Buenos-Ayres, por um 
movimento próprio, expontâneo, se tinha declarado província 
integrante do Império, sob o nome de Ci 6 platina, conforme consta 
da acta relativa ao Cabildo ie Montevideo, approvada e accla- 
mada em seguida por todo aquelle paiz que queria progredir 
e viver em paz. (1821) 

Inspirada, porém, ainda então Buenos-Ayres pelas idealida- 
des politicas de Rivadavia, tomou-se de zelos, considerando como 
um attentado a sua integridade a perda dessa província e con- 
sequente incorporação ao Brazil ; passando a promover com todo 
o afan a sua sublevação afim de poder de novo reincorporal-a 
ás Províncias Unidas do Rio da Prata. 

Buscou então ai liados por toda a parte ; foi a Comentes pe- 
dir o concurso de Ferre ; foi a Entre-Rios supplicar o de Aguir- 
re ; chegando até a ir implorar de Bolívar, no Alto Peru, os seus 
talentos e soldados para a guerra contra o Brazil (2) (de Bolívar 
que a despresava !) 



v l) Arroio que nasoe nas cochila as de flauta Rosa onde se deo a batalha, e qne se 
despenha em salto no Banta Maria ; dahi o nome— agua que cae em «salto— I-tu-çain-gó. 

(2) Bm um banqnete publico em Areqalpa, Bolívar trepa a mesa do festim «y 
rompitndo com fúria voto» y platot bajo ti taco dt tu bota prorompio, pastando $t por 
tila :-~*Ási pisottart la Republica Argentina fe— 

(B. Mitre. Historia de B. Martin. Tomo 4.« pag. 115.) 



THEATI 




atlioLclo: +y** 



- áÔ5 - 

» 

Sublevada que foi, pelos emissários portenhos, a campanha 
da nossa Província Cisplatina, mandou um ministro ao Rio de 
Janeiro communicar o facto e reclamai -a, recebendo a única 
resposta cabível, — a enérgica declaração de guerra. — (1825). 

Confiada porem, a Argentina na superioridade numérica de 
seus soldados especialmente na arma de cavallaria fez marchar 
para o Rio Grande do Sul, Alvear, com 10.500 homens, 24 boc- 
cas de fogo e 3.600 orientaes sob o mando de Lavalleja, fora 
jnontoneros, em fins de 1826. (1) 

Fedro I, por seu lado, assoberbado por incandescente lucta 
politica, mas conhecendo o estado deficiente em que se achava 
o nascente Império, de armamentos e de mais petrechos para 
uma guerra exterior, lançou as vistas para a proficiência militar 
de Barbacena como a de um general capaz de eupprir pelo seu 
talento, patriotismo e calma bravura a tudo o que faltava para 
enfrentar o inimigo. 

£ nào se enganou. 

Segundo o que temos lido sobre o Marquez de Barbacena, 
formamos o conceito de que elle en* um general carré, como 
dizia Napole&o I, isto é, com tanto de base quando de altura. 

Possuia as quatros qualidades essenciaes citadas pelo Mare- 
chal de Saxe em suas Reveries Militaires: valor, prudência, 
sciencia e experiência. 

Nomeado pois, Barbacena, parte incontinente para o Rio 
Grande ; passa em minuciosa revista as repartições todas do 
exercito que encontra em peior estado ainda do que se suppu- 
nha e officia ao governo detalhadamente mencionando tudo o 
que era mister providenciar afim de iniciar com êxito a campa, 
nha. Nao é porém attendido. 

Supperando dificuldades reorganisa o pequeno exercito que 
encontra nú, descalço, mal acampado e a pé movendo-sc a 13 
de Janeiro de 1827 com quatro mil homens pouco mais ou menos 
de Santa Anna do Livramento, em obediência ao plano que 
preconcebera ; e, fazendo marchas forçadas, porém bem combina- 
das, dirigio-se para a fronteira de Bagé, nas pontas do Rio Negro, 
onde esperava e urgia se encontrar com a outra ala do exercito 
composta de 1.572 homens, que vi n hão de Jaguarào sob as or- 
dens do Marechal Brown para, operada sua juncçào, e unidas as 
duas alas, poderem contrastar, de algum modo, ás forças do ini- 
migo. 



O) Todo o auno de 1826 passon-se em pequenos encontros entre brasileiros e ori- 
entaes : eram choques sem importância, de montoneras, artiguistas e milicianos. 



— 396 — 

Âlvear forçando os orientaes á lucta, os arrebanhara, e ar- 
rancando de snas tolderias, no Arroio Grande, encetara a mar- 
cha com suas hostes numerosas, irregulares, barbaras, devastando 
tudo em seu percurso. À sua passagem era assignalada pelo in- 
cêndio dos campos e mattas, pela destruição das estancias, a 
pilhagem, o saque, o roubo, o luto, a deshonra e a morte nos 
lugares povoados e indefezos. (1) 

Não era a marcha de um exercito civilisado e libertador! 
Era Attila, o hagello de Deus, que talava as férteis planícies da 
Cisplatina; eram as hordas de Tamerlam e Gengis-Kan que avan- 
çavam pavorosas sobre as fronteiras do cubicado Rio Grande. 

Costeando o Rio Negro os alliados Argentinos e Orientaes 
marcharam acceleradamente com o propósito de obstar a reunião 
do exercito brasileiro, bater as duas alas em detalhe e dicidir 
assim em seu favor da sorte da campanha, marchando desassom- 
brados com o seu exercito victorioso para Porto Alegre e ahi 
dictar a paz. 

Felizmente, porém, não puderam realisar esse intuito real- 
mente seductor, sendo obstados pela marcha cautelosa e estraté- 
gica de Barbacena que conseguio effectuar a juncção das duas 
alas do seu exercito com a maior audácia e habilidade, vencen- 
do as oitentas léguas que mediavam entre as duas columnas, e 
isto, nas barbas do inimigo jactancioso mas illudido. 

Este facto capital decidio da sorte de toda a campanha de 
que a nosso ver, a batalha do Passo do Rosário, é um corollario 
apenas. 

Assignalemos um feito d'armas durante essa marcha notavel- 
A 31 de Janeiro nos galhos do Camaquan Chico, antes da junc- 
ção que foi feita em Palmas, a 5 de Fevereiro, a ala direita do 
pequeno exercito que vinha de San t* An na fez a passagem deste 
rio, debaixo de uma borrasca tremenda estando os flanqueadores 
em constante tiroteio, e as guerrilhas mascarando o movimento 
com o inimigo á vista ! A infan teria brasileira com agua pelos 
peitos, com as munições á cabeça, e a artilharia em carretas 
atravessaram o rio em pelotões, (2) gastando trinta e seis horas 
em tão difficil passagem, arrostando toda a ordem de perigos / 
O inimigo não poude estorvar o passo. 

Descarte alcançou o exercito brasileiro a sua primeira vi- 
ctoria estratégica, — elevando o seu effectivo a seis mil homens, 
orgulhosos por esta soberba operação de guerra tão bem plane- 
jada e melhor executada. 



(1) Fregerio e B. Quesada em seus escriptos sobre Itnzaingo citam testemunhas 
valiosas sobre as devastações e infâmias commettidas em Bago e o incêndio de Bio 
Gabriel. 

(2) Botas de couro. 



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- 397 - 

O inimigo ficou desprestigiado e o nível moral do nosso 
exercito muito se elevou. 

O próprio Alvear mais de uma vez exitou em dar combate 
quando podia fazel-o, e porque?... 

Confundido e contradictorio, ora se jacta cie seu napoleóni- 
co plano estratégico (aliás tào corriqueiro, pois consistia em in- 
terpor-se entre as duas alas e batel-as em separado); ora con- 
fessa que a nova organisação e juncçao das forças brasileiras 
em Palmas, transtornou lhe completamente os cálculos (1) e assim 
devia ser pois a passagem do Camaquan Cbico pelo exercito de 
Barbacena importa a victoria deste no tempo e no espaço. 

Perfeitamente convencido de que o inimigo se achava des- 
moralisado, por nao ter realisado o seu ideal, Barbacena, pro- 
curou entào dar uma batalha campal; para isso com o exercito 
acampado em Palmas, posição eminente e segura, aguardou o 
momento propicio fingindo abandonar ao inimigo as dilatadas 
planices da província onde este praticou razzias e devastações 
inauditas. 

Os aHiados mal preparados na verdadeira sciencia militar, 
logo conheceram o grande erro que cometteram invadindo o Rio 
Grande que aéreamente pensavam submetter, ou pelo menos su- 
blevar, fazendo capitular o pequeno exercito que o governo do 
Brazil lhes oppunha. 

Calculada mente Barbacena estabeleceu o vácuo e o deserto 
em redor do invasor. 

Alvear então procura se retirar comprehendendo a sua situ- 
ação precária. Sem base de opperaçoes, embora com exercito 
mais numeroso, conheceu que muito se arriscava em se bater 
com um chefe methodico como Barbacena auxiliado por officiaes 
hars ligne e soldados veteranos. 

Mas era tarde ! 

E, era tarde, porque na clepsydra do tempo já estava assi- 
gnalada a hora do encontro fatal entre um general de princípios 
elevados, eminente patriota, instruído, moralisado, e um outro 
que era a anti th e se perfeita desses attributos, ao ponto de, em 
sua própria pátria, ser cognominado o «Catilina Americano» e 
ser delia expulso /árias vezes por traidor! 

E, era tarde, porque na ampulheta em que se escoam os 
instantes dos acontecimentos humanos, lá figurava o momento 
fatídico da lucta entre uns chefes que obedeciam á disciplina 



(1) Apontei para la historia de la Republica Oriental dei Urngnay, por A. D. de 
P t TOl. I pg. 295. 



- 398 - 

prestando homenagem ao seu general e outros que olvidavam 
todos seus deveres até nos momentos supremos! (1) 

E, era tarde, porque ia se travar o clioqne entre a organi- 
saçao, o methodo, a silencia, a civilisaçAo, a hiz e a liberdade 
emfim, contra a desordem, o desquicio, (2) a insubordinação, a 
ignorância, a caudilha^cm, a coaquUta solapada e a barbárie! 

E, era tarde, porque de um fado, no exercito brasileiro, des- 
tacavam se ofnciaes dignos de figurar n'uma epopeia homérica. 
Declinemos os nomes de alguns heroes dessa cruzada : Barboza, 
o bravo dos bravos, Calmou Cabral, o democrata Bento Gonsal- 
ves, o legendário Ozorio, Barreto P. Pinto, Marques de Souza, o 
erudito Xery, Pita, o venerando Abreu e outras lanças e espadas 
de fina tempera da nossa famosa ca valia ria. (3) 

Os artilheiros tinham como seus representantes os Fontes, 
Soares de Andréa, Mallet, aquelle mesmo que um dia daria o 
seu nome á artilheria rewolver, — tão certeiros e repetidos eram 
os seus tiros ! 

Que diremos da itifanteria! À rainha das armas era sobeia- 
ranamente dirigida pelos tácticos Lamenha, Freire de Andrade, 
Pacheco, o ardoroso Leitão Bandeira, emfim, pelo exímio Gene- 
ral Callado e outros de provada lição (4) 

Os soldados que os obdeciam eram todos veteranos cujos 
maiores tinham desbaratado os Francezes na Amazónia, os Hollan- 
dezes em Pernambuco, os Portuguezes na Bahia, e reduzido a pó 
os Castelhanos nas pampas do Sul na tomada das Missões, nas 
batalhas geraes ou campaes de Catalan, Taquarembó, Carumbé, 
índia Muerta, Arapey, Guabijú e em mil outras jornadas. 

Digna e valente progénie de Henrique Dias, André V. de 
Negreiros, Fernandes Vieira, Philippe Camarão e outros em quem 
poder não teve a morte. 

E, era tarde, porque, do outro lado, no exercito Argentino- 
oriental, descola va-se apenas um como militar verdadeiro— o bene- 
mérito coronel José Maria Paz. (5) Quanto aos mais, hombres de lan- 
za y luzo % podia- se bem applicar-lhes o verso que Ovidio poz na 
bocca de Ulysses classificando a Ajax : — Rudis et sine pectoremiles. 

(11 Varias vese«, e até na véspera da batalha m offlciaes do exercito alllado se 
insubordinaram, insultaram e até quiseram depor Alvearl... 

(2) Brandseo.— Diário publicado por Pregelro.— B de Ituzaingo. Alvetr qnei- 
xava-ie do que seuB of Reines o atraiçoavam ! B. Qnesads-Bata1hi.de itusalnpo, pa*. 49. 

<3) No dia do combate ella foi admirada pelo exercito alliado que bem a conhe- 
ceu ao pooto de Mansilla, General Chefe do K*tado Maior, elogial-a. 

(i) Relativamente aos chefes e soldados da infantaria brasileira vejamos o que a 
respeito dis o próprio Alvear em sua exposicion a pg. 16, citada na obra de k. D. Pas- 
choal — Apuntes, utc. — : La infantaria brusilera no puede ser destruída sino por obra 
infantaria, por lo quebrado y cortado dêl pais; y es preciso deeir, en obsequio de la ju*~ 
iicia que ella esta bten mandada; ha mostrado temer una instrucion mui brillante, y una 
serenidad que le kace honor. 

(6) Una golondrina no hoce ter ano. 



- 399 - 

E, era tarde, porque a esses honrados e disciplinados vete- 
ranos cobertos de cicatrises e medalhas nos peitos, ganhas em 
acções de guerra justa e santa, os invasores inimigos oppunham 
una tropa toda bisofía^ todos eran redutos ; todas las classes nu- 
evas. La oficialidad, tan destituída de experiência como la 
tropa; no tenia en gtan parte mas antiguedad que ella, (1) 

Eis porque era tarde ! 

Barbacena o persegue. 

Diariamente os gaúchos de Bento Manoel e Bento Gonsal- 
ves, destacados em raids ensopam suas lanças no sangue das mon- 
toneras argentinas e orientaesquejá nao tem um dia de repouso. (2) 

Nesses entrementes Barbacena reunio um conselho de 
guerra e ouvio os chefes brazileiros que foram todos de accôrdo 
que, nào obstante a superioridade numérica no inimigo, se em- 
penhasse com brevidade o combate; por isso, obdecendo aos im- 
pulsos daquellos patriotas briosos, atravessa rapidamente as ame- 
nas campinas que margeiam o Vacacahy, onde pensava ser pro- 
vável encontrar o inimigo que tinha a sua maior força na ca- 
vai la ria; e fica surprehendido de encontral-o junto ao Passo do 
Rosário occulto, como que do emboscada, por «detraz de cochi- 
lhas, entre sangas, em terrenos pantanosos (3) onde difficil e des- 
vantajosamente manobraria a sua cavallaria e artilheria; accres- 
cendo a circunstancia de que para ai li eh egar descrevera Álvear 
longo circulo, «verdadeira horezia estratégica». (4) 

Ahi se ferio no dia 20 de Fevereiro a mais importante ba- 
talha que pelejaram jamais os herdeiros das rivalidades entre 
portuguezes e hespanhoes. 

Raiava o sol ardente sobre aquellas verdejantes colimas, 
coroadas de armas reluzentes dos dois exércitos: os argentinos 
e orientaes desvanecidos talvez com as recordações de batalhas 

âue tinham sustentado contra a mãe pátria, aguardavam con- 
ados na sua superioridade* numérica, nos seus regimentos decou- 
raçeiros resguardados por amplas malhas de aço, e na cavalla- 
ria ali em a. 

Nutriam esperanças de que o suisso Chila vert (5) e outros 



1 Álvear. Evposicion. Pg. 38. --• Quesada, pg. 47. 

2 Nestas expedições os nossos sempre levavam a vantagem, tomando prisioneiros, 
illndindo ob inimigos «obre a direcção do exercito, finalmente como o fliera Bento Ma- 
noel, atrnhindo a cavallaria de Alvear para os desertos do Norte, para os areaes de 
embú, onde a derrotou. 

a La batalha de Ytnzaingo por Ernesto Qnesada: pgs. 62,63,64 e notas.— Pregeiro 
Diários de Brandsen. etc. 

4 Tont tsmp» d'arret »t tout détour inútil» $out des gaspillagu ds for cu ti dê» 
hárémet Ktratégiqm*.— Napoleon I. 

5 "Funestamente celebre Chilavert, «no militar, pêro mim merodeador;ú!La o ge- 
neral Pai a pag. 145, 4«. vol. de suas "Memorias" 



- 400 - 

chefes estrangeiros fariam impossíveis com a sua poderosa arti- 
lheria de 24 canhões, mas foram defraudadas as suas esperan- 
ças, porque, npezar do superior calibre pouco fizeram na reali- 
dade por estarem mal distribuídos e o terreno ter um declive 
superior ao regulamentar. 

Acreditaram também que a melhor táctica de infante ria é a 
de combater deitado, sem manobrar, — em prudente reserva ! 

Finalmente confiavam num recurso ignóbil de que lança- 
ram mão — na defecção de forças nossas a peso de ouro! (1) 

Os aliados esperavam não um combate glorioso mas uma ca- 
pitulação deshonrosa. 

Fatuidade de heroes de Cervantes! 

Com verdadeiro desprezo vira Alvear o reduzido grupo de 
soldados que commandava Barbacena, imaginando em sua filau- 
ciosa ignorância que, com as hostes de cavallaria o tomaria de 
surpreza forçando-o a se render sem combate. 

Olvidando os preceitos da táctica mais elementar se arrojou 
das eminências em que se colocara sobre a nossa infantaria que 
calmamente esperou o furioso embate, em formaturas adequadas, 
combinando o manejo das três armas e aproveitando o terreno 
segundo as regras da arte. 

Eis o que foi em synthese a acção : de um lado o desprezo 
pela sciencia : do outro a obediência cega a seus princípios. E' 
fácil augurar a victoria para que lado penderia. 

O que se teria passado no animo desses guerreiros, alguns 
delles com mérito real como Brandzen e Paz, quando foram re- 
pellidos pela solida infantaria brazileira ?(2) 

Realisava-Be o embate de forças que para sempre disputa- 
riam em todos os terrenos a hegemonia da America do Sul. 

A nossa força, a consistência das nossas armas, as nossas 
qualidades inexcediveis de guerreiros, ahi se firmaram para sem- 
pre aos olhos dos nossos eternos rivaes nunca assaz escarmentados. 

Frente a frente, em linhas parallelas ao Rio Santa Maria, 
que nelle os alliados apoiavam a sua recta guarda, mediam-se com 
bem diverso sentir os dois exércitos : pretencioso e arrogante diria o 
argentino ao avistar o nosso: — cVos forçaremos á capitular;» — 
responderia o brazileiro: — «Não importa vossa numerosa artilheria 
e cavallaria aparatosa, porquanto lhes cortaremos os regei tos». — 

Pela inspecção ocular que fizemos do terreno, corroborado 
pelas descripçoes de vários protogonistas afirmamos que não podia 

(l) R' o Que ga dedos da leitura das pgs. 19 e 20 dr oit. obr. de E. Queaida. 

(•V O heróico Coronel Brandsem, ferido em seus brios e em soa honra por Alvear, 
logo no começo da batalha, se atirou, desgostoso, sobre os quadrados brasileiros mor. 
rendo gloriosamente. 



- 401 - 

ser peior o campo escolhido por Alvearpor ser todo elle desigual 
e cortado de gangas e barrancos ; as cochilhas com inclinação ou 
declividade superior a 8/100; desfavorável portanto para aquelle 
exercito que primava pela cavallaria e artilharia. 

Não faltam entretanto planícies unidas, cochilhas suaves e 
formosas, no Rio Grande, para se dar qualquer acção de guerra 
até entre os maiores exércitos do mando; donde concluímos que 
o inimigo foi arrojado a esse cul de sac (1). 

Não obstante jactam-se da previa escolha de semelhante 
terreno, generaes e escriptores argentinos, quando aliáz foi uma 
das causas principaes do cheque que alli sonreram os soit disants 
heroes da moderna Asculum (2). 

A' distancia de uma légua do Passo do Rosário, no rio de 
Santa Maria e á beira da estrada, duas ordens de cochilhas cor- 
rem parallelas; são pouco elevadas, vestidas de arbustos e ma- 
cega. 

Estas meias laranjas são irregulares pois cortam -nas, em 
vários pontos, barrancos e valles profundos; medeiam entre uma 
e outras espaços reduzidos onde não se encontra siquer um pal- 
mo de terra plano. 

São as cochilhas de Santa Rosa, onde nasce o Ituçaingó, 
mudes to e pantanoso arroio, sangradouro do banhado de Inha- 
tiurn, que, immen*o, alaga aquellas paragens desde as proximi- 
dades de S. Gabriel. 

Al grano como dizem os nossos visinhos: 

Collocada a ala direita do exercito brazileiro num colado 
com declives para uma sanga, mais antes cortadura, compunha- 
se de forças da primeira divisão: 3 batalhões de inf/intaria, 4 
boccas de fogo, 2 brigadas de cavallaria, sob o commando do- 
General Sebastião Barreto e Marechal Brown. 

No centro, como reserva do exercito se achavam 4 canhões 
amparados por obstáculos naturaes na sua frente; ahi comman- 
dava o Coronel Madeira. 

O exímio General Calado com mandava a extrema esquerda 
2 batalhões de infan teria, 2 peças de pequeno calibre e 2 bri- 
gadas de cavallaria. 

Adiante dessa divisão, como a 500 passos, obliquados á es- 
querda, se achava desde o alvorecer tiroteando com o inimigo, o 
bravo e venerando Barão do Serro Largo com 250 ginetes e 
mais um canhão. 



(1) A. batalha de Itnaaingo, por E. Qnesada; p*gt. 64 e notas. 

(2) xo&im se chamam as victorias de Pyrrho; V. Plataroho. 



- 402 - 

O total da força brazileira orçava por 5:327 homens presen- 
tes á batalha. (1) 

Nos serros fronteiriços á nossa esquerda se achava Lavai] ej a 
com mais de 3.600 Orientaes formando o 1.° corpo de exercito 
com cinco divisões; com pequeno intervalo, a sua esquerda, Alvear 
dirigia em pessoa 6 regimentos de cavallaria, 8 canhões e 1 ba- 
talhão de infanteria. Ahi era o centro e chave da posição ini- 
miga. Acompanhando a depressão do terreno e mais á esquerda 
formava a reserva o general Soler com 3 batalhões de infante- 
ria, 3 regimentos de cavallaria, sendo um de lanceiros allemães, 
commandados pelo Barão Hein e 16 peças de artilheria de gros- 
so calibre. 

Dirigindo a palavra a um tão selecto auditório, composto em 
sua totalidade de notáveis cidadãos que se dedicam ás bel las artes, 
ás letras, ás sciencias e a outros misteres pacíficos da actividade 
humana, e, achando-nos em unidade, como militar, neste Insti- 
tuto de que nos desvanecemos de ser sócio fundador, permittir- 
nos-heis que, respeitando vossos calmos e serenos ideaes, não en- 
tremos em pormenores sobre os tristes incidentes que se dão em 
uma batalha; cada um de per si imagine em sua phantasia o que 
se teria passado no correr desse dia terrível, lá n'um obscuro rin- 
cão do nosso Brazil. 

Desde o alvorecer, nas até então silenciosas cochilhas de 
Santa Rosa, ouvia-se o resoar de sonoros toques de clarins, e clan- 
gor de ruidosas cornetas e tambores; mais tarde, ininterruptas 
descargas de fuzilaria, espargindo milhares de mortíferas balas, 
cortando o ar em todas as direcções; o troar de dezenas de ca- 
nhões despedindo centenares de bombas e metralhas. 

Nuvens de pó, levantadas pelas cargas de cavallaria, tolda- 
vam o espaço, em quanto o solo por toda parte extremecia sob o peso 
daquelles formidáveis esquadrões . (2) 

E mais tarde, quando o sói dardejava a terra com seus raios 
mais abrazadores, o fumo da pólvora, do immenso incêndio por ul- 
timo ateado nos macegaes e sarandys daquellas paragens, veio au- 
gmentar o horror e a desolação, com o estrondo do embate d 'armas, 
o grito dos dispersos, a algazarra dos vencedores, os ais lastimo- 
sos dos feridos! 

No céu, trevas; no ar, cháos; na terra, o sangue dos heróes 
avermelhando a verde relva das cochilhas! 



(\) bravo General Bento Manoel Ribeiro nfto se achou presente á batalha, com 
a sna forte divislo de Cavallaria, por achar-se a nove legoas brasileiras do campo, em 
o Passo de Santa Victoria. Historia do General Osório, pag. 180. 

(2) um argentino presente i batalha sustenta que alll te bateram iS.UOu ?homene 
de cavallaria e 64 oanhõec ! I 

Sempre hiperbólicos! (Qneaada, pg. 78), 



— 403 — 

Taes são, porém, os usuaes espectáculos da guerra, desse hor- 
rível flagello dos povos! 

Passaremos em silencio, não nos detendo, no arrebatador es- 
pectáculo do brilho de reluzentes armas relampejando ao almo sói; 
na bel la symetria que guardam entre si os exércitos em suas mar- 
chas e evoluções, colleando, quaes immensas serpes, as verdejan- 
tes collinas, ao som de bellicos instrumentos; nem no enthusiasmo 
que despertam os elegantes ginetes em suas ardorosas cargas e en- 
trever >s; nada diremos sobre o effeito moral, que se desenha nos 
semblantes dos filhos de Marte, produzido pelas compassadas e atro- 
adoras descargas da artilharia semeando a morte; silenciamos as la- 
grimas contidas dos que ficam ao despedirem-se dos companheiros 
que marcham para a eterna gloria, estorcendo-se em cruéis dores, 
dizendo o derradeiro adeus da vida, proferindo o doce nome de 
uma extremosa niâe, ou de uma esposa adorada, ou bem, de filhos 
idolatradas! 

Calaremos as explosões de communicativa alegria, os brados 
da victoria de generaes, chefes e soldados, ao redor das bandei- 
ras, symbolos sagrados da Pátria amada. 

Obedecendo a esta ordem de ideias, simplificaremos o mais 
possivel a descripção da batalha, fundando-nos na verdade dos 
factos, na inspecção do terreno, na audiccào dos coevos e em 
provas irrefragaveis que procuramos descobrir e achamos, de 
preferencia, mesmo, nos confusos auctores argentinos por nós ci- 
tados, por entendermos que convinha rebater a mentira e desmo- 
ronar a legenda architectada pelo inimigo.com as suas próprias 
armas. 

Ao clarear do dia 20 de Fevereiro de 1827, o exercito brazi- 
leiro que vinha em marcha pela estrada real de S. Gabriel ao 
Passo do Rosário, sobre o rio de Santa Maria, ao enfrentar com as 
coch ilhas de Santa Rosa, teve aviso da vanguarda que o exercito 
alliado Argentino e Oriental alli se achava, collocado em posição, 
á direita da estrada. 

Reconhecida a veracidade deste acerto, aliás incrível pelo 
impróprio do lugar, o Marechal Barbacena tomou sem vacilaras 
disposições convenientes para a lucta immediata. 

Começou ella na extrema esquerda do exercito brasileiro 
pelas constantes guerrilhas, escaramuças e cargas dadas ao ini- 
go pelo pratico, velho batalhador Barão do Serro Largo. 

TiroteanJo, manobrando sagazmente, só tinha um intuito ; 
atrahir as cava11aria6 indisciplinadas de Lavalleja para a frente 
da ala esquerda onde estava, aquém da sanga divisória, o Ge- 
neral Calado com a sua pequena mas bem combinada e solida 
divisão das três armas. 



- 404 — 

Tanto porfiou o velho guerreiro que afinal consegui o o seu 
desideratura, e isto já quanao o sol ia alto, ali entre meio dia e 
uma hora da tarde : porque o inimigo, ou por manha ou por 
outros motivos respondia frouxamente as arremmettidas dos nossos 
levando muito tempo em suas repulsas e contra ataques. 

A essa hora porém, em um dos entreveros que teve o ve- 
nerando ancião, Marechal do Serro Largo chegara a destrocar 
uma divisão do 1." corpo inimigo (Laguna), e avançou até as 
reservas e centro das linhas inimigas! (1) Tal a sua pujança, 
tal o valor dos seu paizauos! 

Ferido mortalmente por bala de canhão, (2) na ultima car- 
ga, por sublime inspiração, moribv.ndojá e vacilante guiou a sua 
pouca e abnegada gente, perseguida pelo 1.° corpo sob uavalleja 
que vinha em massa, a la diàble, para cima da 2.* divisão bra- 
sileira. Esta, formando em quadrado, collocando a artilharia 
nos ângulos e seus regimentos de cavallaria nos flancos esperou 
com toda a calma aquella avalanche humana e a desfez com seus 
fogos certeiros. 

Os Orieutaes, nestas cargas sem prévio preparo, desordenada- 
mente, foram fulminados pela infan teria brasileira que os sacri- 
ficou matando ahi quatorze esquadrões. 

A característica do combate na ala esquerda do exercito 
brasileiro foi, pois, desde as 6 horas da manhã até as duas bo- 
tas da tarde o tirotear constante das guerrilhas do Marechal 
Abreu ; e o descalabro das inoportunas cargas de cavallaria (3) 

(1) B. Quesada, obr. cit. pg. 88. Baldias, Historia de la Confederacion Argentina, 
tomo 1.° pag. 253. 

(2) Qnando éramos Alferes do 4.» Batalhão de infan teria de guarnição em 8. 
Gabriel, fomos examinar, em Fevereiro de 1881, o famozo campo de batalha dos nossos 
maiores. Com religioso respeito pizámos aquelles paramos; de longe em longe, uma pe- 
dra coberta de musgo aseigoalava o tumnlo de um bravo, como outrora nos campos de 
Morven, dos heroes de Ossian . 

No alto da Cocbilha, miis próxima á estrada, como única lembrança á posteridade 
modesta cruz, chama a attençfto do peregrino, e n^s braços delia está gravada para con- 
solo dos crentes, este s ymbnlico lemma : In hoc signo vinces. 

Ahi descansa o grande Marechal Abreu, Barão do Cerro Largo. A exiguidade de 
sua campa nao diminuo a grandeza de seus abnegados feitos ! 

Rlle nao morreo: vive na memoria dos bons militares— Bit ei terra levis— 
Ao escrevermos as linhas acima nos vieram A memoria os seguintes versos de 
Pope : 

Restl— thou bravest gentlest, mlnd, 

Thy country'8 friend, but more of human kind 

born to arras !— 0' worth in youth approved ! 

soft humanlty. in age beloved ! 

Por thee the hardy veteran drops á tear, 

And the gay courtier feels the sigh sincero. 
* • • • 

Adieu !— yet n r t with thee remove 
Thy martlal spirit, or thy social love! 

(3; General D. Domingos P. Sarraiento, citado nas Memoriai do Gtnçral J. MartQ 
fwt, Tomo 1, paga. 425, 



— 405 — 

de todo o exercito Oriental ao mando de Lavalleja, Laguna e 
outros chefetes, que pretenderam romper quadrados de infanteria 
de tropas veteranas, apoiadas e devidamente sustentadas por ca- 
vai lar ia e artilheria ; além de tudo habilmente com mandadas por 
Callado e outros pares de nomeada ! 

E' o caso de se dizer : Qu& vos dementia cepit t 

Um escriptor argentino que muitas vezes temos citado, por 
ser o que melhor tem tratado deste assumpto, embora revele 
para comnosco a má vontade tradicional, E. Quesada a pg. 90 
de sua bem documentada obra diz, ao tratar da ultima carga do 
General Abreu : «Si Abreu logra su intento atacando las reser- 
vas de Alvear este estaba perdido, pues sus tropas estaban como 
en el fondo de um embudo. Ya Abreu habia deshecho la divi- 
sion Laguna, (Oriental).» 

Como é pois que o Marechal Abreu fugio com a sua gente 
sem tirar as espadas, sem dar um tiro no começo da acçào 1 Sem 
commentarios. 

A verdade è outra ; foram heroes, cubriram-se de gloria ! 
Foram martyres da mesma religião que professamos : — A da Pátria. 

Nao se quiz dar a esses voluntários da morte, a esses ho- 
roes de Fingal, as honras do dia. 

Aos patriotas de bon aloi — acontece o mesmo em todos os tem- 
pos, em todos os lugares! Sic fato volunt. 

Continuemos. 

Outro notável escriptor e historiador argentino, V . F. Lopes 
no 10.° tomo de sua interessante obra Historia de la Republica 
Argentina, pgs 9, 88, 89, 90 e 91 e outras enche de ridículo 
a Lavalleja, General em chefe dos Orientaes, e diz que, rece- 
bendo ordem de Alvear para «echar sus cuerpos con vigor so- 
bre la isquierda inimiga (Abreu e Calado) y «de vencer 6 morir» 
Lavalleja llevó sobre el inimigo toda su linea (3600 Orientaes), 
pêro lo maio fué que sin c vencer ni morir» fué completamente 
deshecho». 

Em consequeuci . la enorme hecatombe de seus bravos Orien- 
taes, Lavalleja, e nem os seus, ousaram ap parecer mais em frente 
ao incommovivel quadrado de Calado que, semelhante a uma 
columna de bronze e fogo mantinha em respeitosa distancia o 
inimigo impassível, inexplicável, em prudente reberva. 

A's duas horas, acclamadn a victoria, ufanos, galhardamente 
se retiraram do campo preso de violento incêndio, deixando o 
inimigo inerme, batido e desmoralisado (1). 



(1) Resumindo: a ala esquerda do exercito brasileiro, no dia 20 do Fevereiro de 
1827, na batalha do Passo do Rosário, ou ítuçalngó^ cumpriu gloriosamente o seq dever 
contribuindo para a viotoria 1 



— 406 — 

Passemos ao centro do exercito que, em geral, é a posição 
mais forte. Ahi se congregam as melhores e mais numerosas 
tropas e costuma occupar a chave das posições. 

Tal era no exercito alliado ; não assim, porém, do nosso 
lado, onde o espaço centrico entre as duas alas era justamente 
o ponto mais fracamente guarnecido, devido porém ás circum- 
stancias do terreno, que compensava amplamente esse inconveniente. 

£' babido que os sucessos da guerra dependem em grande 
parte da bôa eleição das posições 

O terreno as offerece, mas só o engenho e a capacidade 
dos offíciaes é que determina o bom aproveitamento delias ; elles 
escolherão o que convém, conforme as circumstancias e o objecto 
a que se propõem. 

Assim, a posiç&o a melhor escolhida e que tenha as van- 
tagens que tiver, perde essas vantagens si as tropas que as occupa- 
rem estiverem mal distribuídas; isto é, si cada arma não estiver 
estabelecida na parte que lhe convier; portanto, o general bra- 
sileiro modificou muito sabiamente, a nosso ver, a disposição 
de suas tropas de conformidade com as exigências do terreno, 
ficando por isso o centro do exercito relativamentre fraco e as 
alas fortíssimas. 

O terreno do centro da posiç&o nfto tinha desenvolvimento 
para as evoluções, e a sua frente n&o se prestava senào para a 
lucta á distancia, entre canhões, por intermediar um Yale pro- 
fundo e abrupto. 

O inimigo, para chegar a essa posiç&o, tinha forçadamente 
que dar uma grande volta para atacal-a pela rectaguarda, o 
que é um erro estratégico ; ou si intentasse atacal-a lateral- 
mente, tinha que offerecer os seus flancos ás faces dos quadrados 
de infanteria das duas divisões próximas, o que é um erro táctico. 

Por isso a força que veio aggredil-a estava, a priori, con- 
demnada pois seria com facilidade destroçada. 

E foi o que se deu como veremos. 

Nessa posição, para servir de reserva e movimentos, se 
achavam quatro canhões em bateria resguardados perfeitamente 
de qualquer investida em sua frente por obstáculos insuperáveis. 

O seu commandante, Coronel Madeira, magistralmente se 
aproveitava dos ensejos que lhe offerecia o inimigo, em suas 
desordenadas cargas ás alas direita e esquerda, para atirar-lhe 
obliquamente bala rasa e metralha. 

E' esse o papel da artilheria de reserva segundo todos os 
auctores militares (1). 



(1) Cornara Ltniê t pg. 183— FtoJ, Ruêtote 6 outfttt. 



— 407 — 

Gomo bateria de escarpa não podia e nem devia fazer fogo 
para a frente, incessantemente, para não attrahir o do inimigo, 
dotado de 24 canhões de maior calibre e com commandamento 
frizante sobre a nossa posição . 

Assim pois, somos de opinião e folgamos de cxternal-a por 
ser a expressão da verdade, que o Coronel Madeira e a arti- 
lharia do centro muito contribuíram para o feliz desenlace das 
operações desse memorável dia, observando uma atitude calma, 
reservada e secundum artem. 

Em uma das medievaes cargas de cavallaria que a superio- 
ridade numérica permittia ao inimigo reproduzir, com a vaidosa 
idéa de destroçar e confundir a nossa ordem de batalha, a sabre 
e á lança secca abalançou-se uma grande divisão ao mando do 
Coronel argentino Zufriategui a vir occultamente, jor entre si- 
nuosidades e accidentes do caminho, atacar o nosso centro afim 
de arrebatar canhões. 

Na citada obra de V. F. Lopes a pgs. 59 e 96 lô-se: «23 
n. 8, comandado por Zufriategui, ja fuese por mal manejo, por 
ineptitud de su gefe, Õ par su falta de serenidad, para desplegar 
sus esquadrones y llevar-los ai combate, remolineó, se envolvia y 
se desbandó vergonozamente . » 

« Este cuerpo era de los mas sólidos dei exercito, y su coman- 
dante no tenia bravura militar ni antecedentes de guerrero, ni 
se le tenia por entendido en el modo de haser manobrar. La 
única calidad era dichero, mui chistoso corteeano. 

Este coronel e seus sólidos esquadrões foram arrollados (1) 
por ousar atacar essa bateria em posição defendida com o con- 
curso de outras armas, sendo galhardamente repelido pelos 
artilheiros • 

Opportuno foi o auxilio do nosso Coronel Barbosa Pita, que 
ex próprio Marte, voou da Divisão Calado onde se achava com 
a sua valorosa brigada de cavallaria, e, acomettendo o inimigo, 
com impeto, o acutilou, o lanceou, levando-o de roj