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Full text of "Revista da Sociedade scientifica de São Paulo"

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HARVARD UNIVERSITY 




LIBRARY 

OPTHB 

PEABODY MUSEUM OF AMERICAN I 
ARCHAEOLOGY AND ETHNOLOGY | 

Rec. 1909-1914 i 



REVISTA 



DA 



Sociedade Scientifica 



DE 



SÃO PAULO 



VOLUME III 
1908 




1908 

TYPOORAPHIA HENRIQUE OROBEL 
SÃO PAULO 



i o <■ 



/f./íc 



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< "1 6 ^=1 - .^ -> I 4-- 



índice 

^^ Pag. 
Allocução annual proferida na sessão commemorativa do 5.o anni- 

vers^rio da sociedade pelo Prof. Erasmo Braga 81 

Cariai, Dr. A., Discussão sobre «Cara inchada» (Dr. A. Lutz). . . 11 
Carini, Dr. A., Sobre a «Haemogregarina Leptodactyli» do Lepto- 

dactylus ocellatus 59 

Carini, Dr. A., Cytoleichus sarcoptoYde na cavidade peritoneal de 

um frango 62 

Carini, Dr. A., Neoformações epitheliaes noduiares no figado de um 

Leptodactyius. 63 

Carini, Dr. A., Piroplasmose. 77 

Carini, Dr. A., A peste de coçar 77 

Carini, Dr. A., Blastomycose com localisaçao primitiva na mucose 

da bocca 120 

Carini, Dr. A., A hygiene na guerra russo-japoneza 150 

Carvalho, Dr. J. José de, Discussão sobre : A derrubada das nossas 

mattas (Dr. Krug) 74 

Conceição, JuIio, Brocas 113 

Florence, Paulo, A musica e a evolução 135 

Hottinger, Dr. R., Moléstias dentarias dos cavallos II 

Hottinger, Dr. R., Envenenamento pelo gaz de illuminaçfio ... 129 
Hottinger, Dr. R., Determinação quantitativa da liquefacção da gela- 
tina por micróbios . 147 

Krug, Dr. E., Documentos do «Livro do Tombo» de Xiririca ... 15 

Krug, Dr. E., Xiririca 17 

Krug, Dr. E., Ivaporandyba ou Vaporundyva 65 

Krug, Dr. E., Excursão de S. Pedro do Turvo ao Salto Grande do 

Paranapanema 73 

Krug, Dr. E., Sobre a superstição no Estado de São Paulo. ... 78 

Krug, Dr. E., Uma pesca no rio Paranapanema 91 

Lutz, Dr. A., Cara inchada 10 

Lutz, Dr. A.» Estudos e observações sobre o quebrabunda ou peste 

de cadeiras 34 

Lutz, Dç. A., Um caso de hemophilia 99 

Lutz, Dr. A., Colcoptero parasitário no género «Platyprylla» ... 99 

Mastrangioli, Dt., Sedimento urinário com larvas de filarias . . . 150 
Nobiling, Prof. Dr. O., Iniroducção ao estudo da mais antiga poesia 

portugueza II 1 

Ptiori, Dr. J., O pulso e a applicação do sphygmographo .... 123 

Puttemans, Dr. A., Folhas de Abóbora atacadas por Oidium ... 15 

Puttemans, Dr. A., Macrosporium Coratae, Uredo Ziziphl etc. . . 61 
Sessão solemne do dia 29 de Outubro de 1908 em homenagem ao 

Dr. A. Lutz 101 

Splendore, Dr. A., II virus mixomatoso de* conigli 13 

Splendore, Dr. A., Nova espécie de cogumello pathogenico do 

homem 62 

Splendore, Dr. A., Discussão sobre o Cytoleichus sarcoptorde (Dr. 

A. Carini) 63 

Splendore, Dr. A., Un nuovo protozoa parassita de' conigli etc. . . 109 

Stapter, Dr. D., Um rim polycistico 151 



VOL III - 1!>T>ií7T^fi^ s N. 1-2 






1908 "' •'' 



DA 



Sociedade Scientifica^^"! k., 

SAO PAULO -^^' 

REDACÇÃO: Prof. Dr. Roberto Hottingefe Dr. Edmundo Krug. 

SEDE DA SOCIEDADE: 
Avenida B. Luiz António, 12 -^ S. PAULO ^ Brazil 



SUMMARIO : 

% 
1- Introducção ao estudo da mais antiga poesia portugueza II. pelo Prof. 
Dr. O. Nobiling. 

2. Sessáo do dia 14 de Maio de 1908. / 
Dr. A. Lutz sobre Cara inchada. 
Discussão: Dr. A. Carini e Dr. R. Hotlinger. 

3. Sessão do dia 21 de JVlaio. 

Dr. A. Splendore, II virus mixomatoso de' conigií. 

Dt. a. Puttemans. Demonstrações de folhas de Abóbora atacadas por 

Oidium. 
Dr. Edmundo Krug, Documentos do < Livro do Tombo » de Xiririca. 



Introducção ao estudo da mais antiga poesia portugueza 

PELO Prof. Dr. O. Nobiling 
II. 

Imprimo hoje ^), para os estudiosos da antiga lingua 
e litteratura vernácula, duas cantigas de escarneo cujo 
autor, o trovador do século 13 já nosso conhecido, iro- 
niza ahi a pobreza e mesquinharia de seus companheiros 
de classe, os fidalgos peninsulares. São extrahidas do li- 
vro já citado ^, e faço-as seguir de um commentario des- 
tinado a aplainar todas as ditficuldades que possam otfe- 
recer ao entendimento a linguagem antiquada, a forma 
métrica e as allusões do texto. 

I. 
Dòn Foan disse que partir queria 
quanto Ihi déron e o que avia; 
e díxi-lh' eii, que o ben conhocia: 
« Castanhas ej^xidas e velhas per souto ! >> 



1) Veja-se essa Revista, 11)07. ns. 11 - 12, pag. 153- 8. 

2) As Cantigas de D. Joan Garcia de Gnilhadt. por Osl itr Nobiling. Erlançcn, 
1907. Pag. 62 3. 



Uí.c, /'^'^^^ 



5 E disso-m* el, quando falava migo: 
«Ajudar quero senhor e amigo. » 
E díxi-lh' eu: «Ess* é o verv antigo: 
castanhas saídas e velhas per souto I * 

E disso-m' el: «Estender quer' eu mão, 
IO e quer' andar já custos e loução. » 
E díxi-lh' eu : « Esso, ay don Foão — 
castanhas saídas e velhas per souto I» 

NOTAS 

1. Joafi corresponde ao hespanhol antigo fulan^ e 
foão (v. II) ao hesp. moderno fulano, que mais tarde 
veio a substituir no portuguez as formas vernáculas. To- 
das essas formas, e mais a do dialecto sardo, fulanu, de- 
rivam do árabe fôlan \). 

partir ^= repartir. Com o mesmo sentido se emprega 
a palavra num Imdo contar d'amigo do Cancioneiro da 
Vaticana -), que começa assim : Partir quer migo mha 
madr of aqui quanf á no mundo. Uma donzella consulta 
•ahi graciosamente seu amigo sobre qual das duas partes 
ella deve escolher: se tooos os haveres que a mãi pôde 
dar ou só elle, o amante; e finalmente responde em seu 
próprio nome que escolhe o amante. 

2. déron (do lat. dcderunt — e não do clássico dedé- 
runt — ) e déran (do lat. dederant ;, o perfeito e o maiii- 
que-perfeito, ainda se distinguiam na lingua dos trovado- 
res. — Ihi se encontra ao lado de lhe. 

avia =: tinha: veja-se meu artigo anterior, nota ao v. 2. 

3. í//'.r/ :^ lat. dixi; a 3.* sing. é disse ( :^ lat. dixit ) 
ou, disso (v. 5 e 9; -z lat. popular dixuit: cf. cinco, de 
cinque^ de quinque). 

conhocer ~z l2it. cognoscere; o moderno conhecer é de- 
vido á analogia dos numerosíssimos verbos em ecer, 

4. O estribilho da cantiga é um verso de doze syl- 
labas e quatro accentos, cujo sentido exige uma explica- 
ção. Como já ficou dito (art. ant., nota ao v. i), per equi- 
vale á preposição franceza par: parece, pois, claro que 
se fala de castanhas velhas espalhadas pelo souto, isto é, 
o castanhal, o que evidentemente era uma expressão pro- 
verbial para indicar haveres de nenhum valor. Compre- 
hendemos assim a sátira cruel com que Guilhade moteja 
da prodigalidade fingida de Dom Fulano. Quanto á signi- 



1) Diez, Etymologisdies Wõrterbuch der romanisdten Spradien. Bonn. 1878. 
Pag. 452. • . 

1) li Canzoniere port/ighese delia Bibl. Vat. niesso a stampa da E. MonacL 
Halle a. S.. 1880. N. 784. 



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— 3 - 

íicaçâo de eyxidas^ deve ser a mesma que a de saídas^ 
que (talvez por engano) veio a substituir aquelle termo 
na repetição do estribilho: d'onde se segue que a pala- 
vra deriva do lat. exitas, e, ao meu ver, significa as cas- 
tanhas que escaparam da colheita por se terem extra- 
viado. 

5. el, muito mais usado nos Cancioneiros do que ele, 
formou-se, mui provavelmente, por apocope em posição 
antetonica, isto é. immediatamente antes do verbo. Po- 
rem generaUzou-se na lingua dos trovadores a primeira 
forma, como a segunda no portuguez morfemo : indicio de 
que o idioma litterario de hoje não descende directamente 
do da Idade Média, mas formou-se novamente, e com 
elementos em parte novos, no tempo da Renascença. 

migo: ver o art. ant, nota ao v. 4. 

6. senhor pôde ser masculino ou feminino: a senhor 
significa sempre, na Hnguagem da época, a dama adorada 
e cantada. 

7. vervo (palavra popular, do lat. verbum) -zz provér- 
bio, adagio. 

9 — II. A terminação ão era dissyllaba. (pronuncie-se 
ã — o, com o accento tónico na primeira vogal), como 
prova um semnumero de versos dos Cancioneiros. Todas 
as rimas desta cantiga, bem como da seguinte, são gra- 
ves, o que constitue uma das suas feições populares. Nas 
« cantigas de mestria » (o primor da arte de então) pre- 
dominam consideravelmente as rimas agudas. 

10. custoso n: gastador, generoso. 

11. ésso, forma antiga de isso; compare-se o art. 
ant, nota ao v. 17. 

2. 
Vi eu estar noutro dia 
infanções con un ricome, 
posfaçando a quen mal come; 
e dix' eu, que os ouvia : 
5 « Cada casa favas lávan. » 

Posfaçávan d'un escasso, 
e foyos eu ascuytando; 
eles fôron posfaçando, 
e díxi-m' eu pass' e passo: 
10 « Cada casa favas lávan. » 

Posfaçávan d'encolheyto 
e .de vil e dé spantoso 
e en sa terra lixoso: 
e dix' eu çnton derejto: 
15 « Cada casa favas i^van. » 



Zoe. /?. n^ 



— 4 — 
NOTAS 

2. infançõcs: parece que a primeira syllaba dessa 
palavra não conta neste verso, porque se unia ao a final 
do verso precedente. E* um caso ae synalepha que nos 
pôde surprehender, pois prejudica o effeito da rima; mas 
se o não admittirmos, sobra uma syllaba, visto que a ter- 
minação ões é dissyllaba como ão. Convém observar, to- 
davia, ,que também no v. 3, para obter o numero certo 
de syllabas, foi preciso mudar a preposição dt^ do códice 
para a. 

infançôes e ^ricome {zz: rico-homem) : na hierarchia 
feudal da Península, aos ricos-homens seguiam-se os in- 
fançôes, e a estes os cavalleiros. Cf. Bluteau M e Viterbo -), 
que estão de accordo em considerar as infançôes como 
equivalentes aos fidalgos, e os ricos-homens aos condes 
e marquezes dos tempos modernos. — O singular de in- 
fançôes era infançon ; pois ao plural em òes correspondia 
sempre um singular em ow, assim como ao plural em âcs 
(antigamente diss3-llabo) um singular em an (cães — can), 
e ao plural em ãos um singular em ão (mãos — mão). 
Não foi senão no século 15 que as três terminações on, 
an e ão se confundiram numa só, que então passou a es- 
crever-se ora aw, ora ão, 

3. posfaçar = falar mal de alguém ; não é raro o 
termo nos Cancioneiros. 

5, Também nesta cantiga o estribilho é constituido 
por um provérbio, cuja forma mais desenvohida se en- 
contra em Bluteau ^): «Em cada casa comem favas, e na 
nossa ás caldeiradas» — e no Dom Quixote ^) : « En otras 
casas cuecen habas, y en la mia á calderadas». O sen- 
tido do provérbio se descobre claramente neste ultimo 
passo; pois Sancho Pança, conversando ahi com o escu- 
deiro do Cavalleiro do Bosque, o qual, segundo conta, 
tem um amo doido, responde que o seu o é tanto como 
o outro. Podemos, pois, interpretar assim o adagio em 
questão: Em minha (nossa) casa as coisas não se passam 
melhor do que na dos outros. Convém lembrar que em 
grande parte da Europa as favas são tidas em conta de 
um alimento soez, líiais próprio para os porcos do que 
para os homens. Quanto ao nosso estribilho, vê todo ho- 
mem de bom senso que o pensamento, ahi é o mesmo, 
visto que não se lavam as favas senão para a gente co- 



li Vocabulário port. c lat. Coimbra Lisboa. 1712 28. S. v. Irjfançam. 
2» Elucidário das palavras, (ermos e frases, que em- Portugal antiguamenti se 
usarão. Lisboa 17f)8 99. S. v. Infauçom. 
M Obra cit., s. v. Fava. 
\, U.» parte. cap. \X 



— 5 — 

mer. A forma peculiar que aqui tomou o provérbio obe- 
dece, sem duvida, ao intuito de . obter a assonancia per- 
feita de todas as palavras, sendo a a única vogal empre- 
gada, exactamente como no conhecido adagio « Cá e lá 
más fadas ha ». 

7. foVr^ fui; a forma mais usada já então era fny, 
ascuyiar (do lat. a(u)sculiare) é a forma antiga de 

íscuiar, como- ascofuier (de abscondere) a de esconder, e 
fruita a de fruta. 

8. fôron: veja-se ai." cantiga, nota ao v. 2. 

9. passo Z.ZZ de vagar, é termo commum; mas não co- 
nheço outro exemplo de pass' e passo, que, aliás, é con- 
jectura de Carolina Michaélis de Vasconcellos: d texto 
tem passen passo. 

11. encolhey to ■=^ enco\h\áo \ colheyto deriva do lat. 
colUctum^ que em portuguez daria coleito, porem foi in- 
fluenciado por colher (de colligére, que no latim da Pe- 
nínsula Ibérica substituiu colligere). 

12. spantoso ou espantoso aqui = repulsivo, que 
causa horror ou repugnância. 

13. e en conta como duas syllabas: o hiato é mui- 
tíssimo commum nos Cancioneiros, e é a regra depois 
dos monossyllabos e e que (cf. v. 4). Foi a influencia da 
poesia italiana que, desde Sá de Miranda, fez gradual- 
mente desapparecer o hiato dos versos portuguezes. 

14. enton (das palavras lat. /;/ + twn), hoje , então: 
çí. a nota ao v. 2. 

ADDITAMENTO 

Será este o logar próprio para defender-me de uma 
aggressâo imprevista com que me honrou o sr. João Ri- 
beiro em seu livro « Frazes Feitas » ^). Este insigne pla- 
giário -) pretende ter achado (pags. 253 — 56, 259 e 280 — 
81) um grande numero de erros no meu livro «As canti- 
gas de D. Joan Garcia de Guilhade». Erros haverá, sem 
duvida; mas muito me admiraria, se os descobrisse o sr. 
Ribeiro, cujos estudos da antiga poesia trovadoresca não 
passam dum rápido folhear de algumas publicações scien- 
tificas e leitura de certo numero de cantigas, que não 
comprehendeu bem. E' fácil provar o que digo, tomando 
por exemplo as estranhas opiniões por elle emittidas 
(Frazes Feitas, pag. 255, nota i) sobre a enigmática pa- 
lavra ergo: enigmática, porque differe completamente, 
pelo sentido, do seu homonymo latino, não se podendo 



1) Rio de Janeiro. 1906. 

2) Minha crítica do livro, documentada em todas as suas parte«. os curiosos a 
encontrarão no Estado de S. Paulo de 22 de Abril de 1908. 



— 6 — 

dizer, por isso, se ella de • facto deriva deste ou não. O 
sr. Ribeiro, encontrando o vocábulo nas suas leituras em 
vários lugares e não sabendo o que significa, em vez de 
confrontar todos esses passos e a ahi tirar uma conclusão, 
acha mais commodp conjecturar, para cada um dos luga- 
res, uma accepção qualquer, que parece mais ou menos 
convir ahi. Claro está que, por este methodo, de meia 
dúzia de passos differentes resultarão meia dúzia de si- 
gnificados; e com effeito, o sr. Ribeiro chega a este sur- 
prehendente resultado — que a palavra em questão si- 
gnifica «mesmo», «pois», «ainda quando» e «se por 
conseguinte » ! — E agora, leia o sr. Ribeiro todas as can- 
tigas mie nos estão conservadas dos tempos antigos (é 
verdade cjue são alguns milhares; porem . . . quem se mette 
em coisas da sciencia não. se pode furtar ao trabalho): 
e diga-me, dentre os muitos lugares em que appârecem 
ergo e suas variantes, quantos são os que não se expli- 
cam pelo significado « excepto », que eu dou ao vocábulo. 
Mas do mesmo quilate são todas as objecções deste 
pretenso sábio. Ignorando a significação dos termos anti- 
gos, ignorando as differenças que separam a antiga me- 
trificação da de hoje, affirma (e note-se bem, sem prova 
alguma!) que isto è aquillo e aquilloutro é errado; e 

âuando se digna dizer-nos qual é a interpretação verda- 
eira, diz necedades. 

Ná nota da paç. 255 traduz de pran por «de sú- 
bito ». Que é' impossível essa traducção, eu poderia pro- 
vá-lo por muitas citações ; porém limito-me a tirá-las dunl 
livro que elle deveria ter lido, pois o critica. No Cancio- 
neiro de D. Denis ^) leio eu : (v. 75-76 ) de pram Deus 
nom vos perdoará a mha morte = seguramente Deus não 
vos perdoará minha morte ; ( v. 1027-28 ) tanf afam que 
par de morte m' é de pram = tanta magua que para mim 
deveras é igual á morte; (v. 2614) soo certo de pram^=^ 
estou certo de veras. A traducção «de súbito » seria ab- 
surda em todos estes logares; a minha não somente ser- 
ve aqui, mas igualmente nos passos citados pelo próprio 
sr. Ribeiro (pag. 257) em apoio de sua opinião. 

Tomar, segundo elle, quer dizer « responder », uni- 
camente porque o verbo hoje pôde ter esta significação. 
Nenhum exemplo delia, porém, se pôde citar dos Can- 
cioneiros medievaes, e a minha interpretação (tomava i==- 
virava-se, volta va-se para ahi ) não só se adapta muito 
bem ao contexto, mas está de perfeito accôrdo com a 
origem da palavra, pois, sendo ella derivada do latim 

1) Henry R. Lang, Das Lieáerbudi des Kõnigs Denis von Portugal, Halle a 



- 7 — 

iomus ( « o tomo » ), devia primitivamente significar 
« virar » ou « virar-se ». E em Viterbo }) podaria o sr. 
Ribeiro ter aprendido ( se o único fim com que se serve 
dos livros antigos e bons nào fosse o plagio) que fomàr 
era effectivamente empregado no sentido de « voltar-se ». 

O substantivo, />ar/^ interpretei-o por' «informação»: 
sentido que a palavra sem duvida alguma tinha, e se 
conservou atè hoje na locução dar parie. O sr. Ribeiro 
acompanha esta interpretação com o seguinte commenta- 
rio enigmático e redigido num portuguez de preparato- 
riano mal preparado : « mas só pessoal se se opõe-se a 
mandado » ; e accrescenta ainda uma bhrase que elle 
suppõe ser allemã : «weisse nicht den kleinsten Teil.» — 
EIsperemos que elle nos diga o que tudo isso quer dizer. 

O verbo guarir pode significar tanto «salvar a (sua) 
vida » — foi assim que eu o traduzi — como « ficar bom-» 
— é a traducção do nosso homem. Mas que no passo de 
que se trata só cabe a minha interpretação, vé-se pelo 
contexto, que vou traduzir (v. 246-48): «Vim aqui a 
Segóvia para morrer; pois não vejo aqui a quem costu- 
mava vêr de quando em quando e assim conservava a 
vida iguaria)». E' evidente que o poeta quer dizer que 
a única coisa que o faz viver ( e não : ficar bom ) é a 
vista do objecto de seu amor. 

Eu traduzi fan nial dia naci por «sou/bem infeliz», 
o sr. Ribeiro por '< maldito o dia em que nasci ». A mi- 
nha traducção é livre, a delle é errada. Pois o poeta hão 
profere ahi maldição nenhuma ; mal dia equivale a « dia 
mau, dia infausto », e « nasci ilum dia infausto », é phrase 
muitíssimo commum nos Cancioneiros, e que tomara in- 
teiramente o sentido de « sou homem infeliz ». Se o sr. 
Ribeiro de facto o ignora, deve ter lido bem poucas das 
antigas cantigas de amor. 

O que mais ha nesta mesma nota da pag. 255 é ri- 
diculo demais para merecer um exame sério. Escapandorlhe 
completamente o sentido da cantiga ' 20.", acha que no 
estribilho -) « convinha traduzir e por mas ou se é capaz 
que ». Agora, cite-me elle, em todos os sete séculos da 



1) Obra duvol. II. pag. 384. 

2) Afira de íazer parecer maior o numero de meus " erros **, o sr. Ribeiro serve- 
se da pequena esperteza de citar tres^ vezes este estribilho (" 396, 402, 408 "), de mencionar 
d«as vezes a minha interpretaçio. do v. 429 e a restituição. do v. 449 ~ tudo na mesma 
nota - e de terminar por umas phrases " e muitos outros lugares " e " ique está lonje de 
ser o único **; que ndo enganarão a -muitos leitores. Segue-se ainda uma pérfida allusão 
a Theophilo Braga, cuja competência em matéria de lingua e versificação dos trovadores 
é contestada por mim e H. Lang ( e, repito, por todos os entendidos ). Mas o próprio 
sr. Ribeiro, apesar de altamente reprovar esta nossa ousadia, segue sempre, nas suas cita- 
ções, a minha edição de Ouilhade e a de D. Denis feita por Lang, reconhecendo assim 
implicitamente & superioridade destas edições sobre o Cancioneiro da Vaticana " restitui^ 
do " por Theophílo Braga! 



— 8 — 

litteratura portugueza, um só exemplo em que r signifi- 
que « se é capaz .que » I — Admira-se que cobrado possa 
significar « curado ». Não se admiraria, se soubesse que 
cobrar vem do lat. recuperare. Com perda do prefixo re^ 
e que do mesmo deriva o francez recouvrer, que outr'ora 
tinha também o sentido de «curar-se, restabelecer-se », 
conservado até hoje peio verbo inglez recover. — E como 
é que se pôde tomar a sério a traducção de praz-mi por 
veer = « duvido ver » ? Nós outros, que descobrimos al- 
guma differença entre prazer e dúvida, preferiremos tra- 
duzir; « apraz-me ver, agrada-me ver, gosto de ver». 
Quanto ao empVego da preposição por para introduzir 
um infinito que parece ter funcção de sujeito ( com rela- 
ção ao verbo praz ), compare-se o seguinte exemplo do 
Cancioneiro da Vaticana ^) : Mal sen e por desasperar 
orne ^= tolice é desesperar o homem. 

Porem, o que ha de mais divertido, é que, segundo 
o sr. Ribeiro, eu erro o metro quando imprimo um verso 
— errado a© seu ver — tal qual se encontra no códice. 
Pois censure por. isso os antigos poetas. . . que provavel- 
mente lhe responderiam í pois os homens da Idade Média 
eram pouco urbanos) com uns versos citados e detur- 
pados ( I ) por elle mesmo ( pag. 259 ) : 

« Ben tanto sabes tu que c trobar 
ben qwmto sab' o asno de leer. „ 

O facto é que o próprio, sr. Ribeiro claudica lasti- 
mosamente no metro, infringindo as leis tanto antigas 
como modernas da versificação. O primeiro dos versos 
citados, desfigurou-o assim : 

Ben tanto sabes iu de trobar — 
e attribue ( pag. 39 das Frases Feitas ) a Diogo Bernar- 
des o seguinte decassyllabc) : 

Cuidando ser outro mor a boca abriu. 

Ora, ninguém acreditará que o mavioso poeta do 
Lima seja capaz de semelhante verso; foi, portanto, o 
poeta João Ribeiro que o deturpou, e supponho que 
dizia assim : . 

Creftdo ser outro mór^ a boca abriu. 

Não falo dos passos de meu livro que o meu critico 
reprehende sem corrigil-os, nem da desatinada lembrança 
( pag. 259, nota i ) de substituir^ em dois logares, o 
verbo arriçar, que está no códice e forma sentido per- 
feito, por arrifar ( e^quece-se elle de nos dizer se tam- 
bém em todos os outros logares dos Cancioneiros aquelle 
verbo deve ser substituído ). Mas preciso dizer algumas 



1) Obra cit. n. 537, v. 12-13. 



— 9 — 

palavras sobre a censura que me dirige o mais methodi- 
co dos sábios por ser eu ora pródigo de interpretações 
desnecessárias, ora parco demais nas minhas notas ex- 
plicativas. 

Diz elie na pag. 255 ( e podem os leitores avaliar 
por ahi a sua veracidade ) que « gasto tempo em explicar 
que desde vèm de de-ex-de e que sâdes é sois e vobiscum 
é voseo e outras trivialidades.* A verdade é que expli- 
quei ( nas notas aos v. 4 e 662 ) as formas antigas des — 
que muitos por certo não comprehenderão — e sodes — 
de que não conheço nenhuma explicação satisfactoria an- 
terior á minha — , e naturalmente não podia deixar de 
mencionar as formas modernas que correspondem áquel- 
las. E quanto a voseo, disse, ^ bem ao contrario do que 
affirma o sr. Ribeiro, que NÃO vem da forma clássica 
vobiseum^ senão de outra hypothetica voscum, que substi- 
tuiu aquella. A primeira parte de sua censura é portan- 
to, para o dizer redondamente, uma mentira. 

E quanto á segunda parte, convém saber que mi- 
nha edição de Guilhade é uma these de doutorado, aliás 
acceita e elogiada pela faculdade de philosophia da uni- 
versidade de Bonn. Não podia eu extenaer-me nella 
sobre muitos pontos que explico nos presentes artigos, 
pois escrevia para leitores e juizes entendidos na matéria. 
Já se vê que não contava com o sr. Ribeiro, o qual, na- 
quellas mesma» cantigas de que eu dissera na Introduc- 
ção ( pag. 5 ) « que se explicam por si sós », acha tudo 
muko obscuro. Mas a culpa não é minha: vê-lo-ão os 
leitores pelo seguinte exemplo da sua perspicácia. 

Ao V. 795 das Cantigas: 

do trobador que trobou do Vincai, 
( isto é, do trovador que fez versos do Vincai, cantou o 
Vincai) accrescentára eu um pequeno commentario, que 
começa assim : « AUude-se aqui, evidentemente, a um 
personagem notório como mau trovador ».• Ora, todo ho- 
mem mediaaamente intelligente comprehende esta phrase; 
porém o sr. Ribeiro ^) quer que na minha opinião o 
nome do mau trovador seja Vincai. E, como continuo 
ahi mesmo : « Supponho ser o Vincai nome geographico» , 
descobre elle uma contradicção nestas minhas palavras ! 

Eis ahi o meu critico pintado ao natural. A única 
cousa que verdadeiramente me incommoda em sua criti- 
ca, é o louvor que elle me dispensa no fim desse mesmo 
paragrapho : desde que li ahi que « fiz bem em conser- 
var a lição paleografica » acima citada, confesso que já 
não tenho nenhuma confiança nella. 

1) Frases Feitas, pajç. 280-81.- 



IO — 



Sessão de 14 de Maio de 1908 

Dr. A. Lutz mostra algumas photographias de 
doentes com ulceras phagedenicas das quaes falou na 
sessão antecedente e entre ellas vè-se uma de um doente 
de impaludismo jchronico com o baço enorme, cujos con- 
tornos estão marcados na photographia. 

Fala depois sobre a moléstia de cavallos, chamada 
de Cara inchada no Baixo Amazonas. Menciona um- caso 
visto primeiro pelo Dr. Hottinger, que o mandou para o 
Instituto Bacteriológico, onde foi observado até á ter- 
minação fatal. Apresenta os ossos da cabeça, que mostram 
a rarificação e o amollecimento do osso que permittiu 
fazer com navalha cortes finos e perfeitos que apresen- 
ta também. Dá o resumo de um trabalho publicado sobre 
esta moléstia por lohn Mohler, no « Twenty-third Annual 
Report of the Bureau of Animal Industry for the Year 
1906 », editado pelo U. S. Department of Agriculture era 
1908 e impiesso no Government Prihting Office, em 
Washington. 

Deste artigo resulta que a moléstia nos últimos an- 
nos tem sido observada em muitos paizes, pela miiior 
parte situados em zonas quentes ou tendo pelo menos 
um verão com temperaturas elevadas. Foi observada^ em 
forma epizootica na Austrália, Africa meridional e índia, 
no Madagáscar e nos archipelagos de Hawai e das Phi- 
lippinas, aos quaes podemos juntar o Brasil. Nos Estados 
Unidos foi observada em varias regiões, havendo focos 
bastante intensos, mas somente ataca os equinos e não 
sé transmitte aos bovinos e ovinos, vivendo nas mesmas 
condições. 

O nome mais usado hoje é ode osteoporosis ; chama- 
ma-se também bighead, swelled head, ostéomalacia, cache- 
xia óssea, ostite epizootica etc. 

O auctor dá uma descripção dos symptomas e da 
evolução da moléstia, falando depois sobre as lesões 
anatómicas. A etiologia é desconhecida, sendo a molés- 
tia considerada infecciosa ou contagiosa por uns. Totíavia 
não foi possivel encontrar um organismo causador. 

O prognostico é bastante desfavorável. Por mu- 
dança completa das condições exteriores, da alimentação 



— II — 

etc, consegue-se ás vezes paralysar o desenvolvimento; na 
falta destas, termina-se pela morte depois de uma duração 
de 4 mezês até 2 annos. A therapia consiste em. admi- 
nistração de cal e phosphoro, em varias formas, mas não 
parece de grande utilidade. 

O Dr. Lutz mostra a conformidade da exposição do 
auctor com as observações feitas entre nós. uiscute as 
opiniões emittidas sobre a natureza da moléstia, inclinan- 
do mais para uma perturbação da nutrição normal devida 
á substancias nocivas contidas na alimentação, que talvez 
possam ser originadas por processos de decomposição 
favorecidas pelo calor e humidade que parecem condi- 
ções essenciaes da moléstia. 

Discussão : 

O Dr. Cariai diz ter observado dous casos de cara 
inchada, um numa égua e outro num asno importado da 
Itália. Trata-se de animaes de luxo, criados com todos os 
cuidados e com alimentação variada e abundante. 

Demais, elle colheu noticias exactas de casos ana- 
l(^os, nos quaes a moléstia atacou animaes nutridos com 
forragens que nada deixavam a desejar. Essas observa- 
ções naturalmente depõem bastante .contra a hypothese 
emittida por alguns auctores, que a moléstia seja devida 
a má ou deficiência de nutrição. 

Afim de trazer alguma luz sobre a etiologia desta 
curiosa affecção, o auctor inoculou o sangue de um cavallo 
doente em cães, coelhos e cobayas, sem resultado algfum. , 
Egualmente, depois de -ter, com todas as cautelas de 
asepsia, feito uma abertura no maxillar superior, no ' 
potíto em que a alteração era mais manifesta, retirou pe- 
daços de osso e de medulla óssea, os quaes foram se- 
meados em vários terrenos de cultura, sem dar resultado 
concludente. Uma cabaya que foi inoculada sob a pelle 
do abdómen 'com um pedaço de osso doente, não apre- 
sentou até agora, — desde mais de um mez, — nenhuma 
alteração. 

O auctor procurou também transplantar a moléstia 
para o cavallo e para isso inoculou no maxillar su- 
perior uma égua nova, previamente trepanada, alguns 
centímetros cúbicos da emulsão obtida triturando medulla 
óssea e osso frescos retirados do animal affectado. 

Do resultado desta prova, assim como de outras 
tentativas de cultura e do estudo histológico das lesões, 
o auctor tratará mais tarde. 

O Dr. Hottinger chama a attençãõ para certas 
doenças dentarias dos cavallos, especialmente as prove- 



— 12 — - 

nientes das irregularidades nas disposições dos molares 
e incisivos. Não offerecendo perigo directo para o animal 
essas anomalias, — podem comtudo trazer inconveniências 
graves, pelo mau funccionamento da mastigação. — Como 
complicação apparecem em seguida doenças do tracto in- 
testinal, enfraquecimento e emagrecimento do individuo, 
— complicações estas que facilmente podiam dar indica- 
ções falsas sobre a eteologia da doença. As deformações 
e degenerescências ósseas na cara- inchada, são especial- 
mente localisadas nas visinhanças dos dentes, de maneira 
que as mesmas complicações podiam dar-se em seguida a 
estas .osteoporosis como se costuma vêr em outras ano- 
malias do apparelho da mastigação. Julgando os sympto- 
mas da cara inchada deve-se levar em consideração estes 
factos. A generalisação da doença pôde ser attribuida a 
complicações provenientes do mau funccionamento da 
mastigação. 



13 — 



Sessão de 21 de 'Maio de 1908 

11 Dlrus mixomaíoso de' conlgli 

Nota preventiva del Dott. A. Splendore 



La breve nota seguente riferiscesi ad un* infezione 
de me recentemente osservata ne* conigli dei Gabinetto 
Batteric>logico deirOspedale Portoghese f materiale anató- 
mico e preparazioni microscopiche ebbi occasione di pre- 
sentare, in due sessioni, alia Società Scientifica di S. Paulo. 

La malattia apparve in un gruppo di conigli prove- 
nienti dal merca to delia città, e in pochi giorni attaccò 
otto, sopra dodici, di tali animaletti : è interessante il fatto 
che, dopo questi casi, T epidemia si è arrestata spontanea- 
mente e, tine od oggi, dopo circa 4 mesi, non si sono ve- 
rificati casi novi, né su quattro conigli rimanenti del 
gruppo, nè sopra altri proposital mente posti nello stesso 
locale de' primi, mentre le prove d' infezione sperimentale 
praticate in vari di essi non hanno lasciato dubbio alcuno 
sulla pertetta recettività degli stessi. 

V infezione manifestasi primieramente con edema 
palpebrale de' due occhi e secrezione congiuntivale siero 
purisimile, propagandosi 1' edema, in seguito, ai naso, 
alie labbra e airintera faceia, come anche si manifesta 
nelle regiohi ano-genitali ; Tanimale dimagrisce rapida- 
mente e muore, inesorabilmente, ai 4." o 5/' giorno delia 
malattia. 

Air autopsia non sincontrano alterazioni macrosco- 
piche caratteristiche degli organi interni, mentre le glan- 
dole linfatiche delle varie regioni s'incontrano sempre 
ingorgate. 

L'esame istologico dimostra che le lesioni de* tessuti 
attaccati sono di natura mixomatosa. Dal punto di vista 
batteriologico non s' incontrarono germi specifici nè cogli 
esami microscopici nè colle colture, mentre i batteri col- 
tivati da uno o altro caso non hanno riprodotto Taffezio- 
ne nelle prove sperimentali : tuttavia, la natura infettiva 



— 14 — 

delia malattia è dimostrata dagli esperimenti fatti col ma- 
teriale patológico. 

Ho conseguito facilmente J'infezione sperimentale 
con vari materiali (tessuto edematoso. sangue, sueco di 
glandole linfatiche e sueco di fegato ) adoperati tanto ron 
metodi di frizione che d'inoculazione. Basta frizionare 
lievemente, con un pezzetto di tessuto mixomatoso, la 
congiuntiva di un occhio, per vedere apparire il caratte- 
ristico edema sullo stesso, dopo quattro o cinque gíomi, 
e proseguire Tinfezione con tutti i suoi caratteri e col 
solito decorso. 

Col método delle iniezíoni, sia intraperitoneali che 
sottocutanee, pare che il virus, per svoleere la sua viru- 
lenza, abbia bisogno d'un período d' incubazione alquanto 
piú lungo, a vendo osservato i primi segni delia malattia, 
negli anim?li iniettati, solo dopo otto, e, talvolta dieci 
giorni; per altro, in essi lafíezione decorse molto piú 
grave, essendo aícuni conigli venuti a morte ai 2.** ò 3."* 
giorno di malattia, talvolta prima che Tedema caratteri- 
stico, appena iniziato alie palpebre, si fosse generalizzato. 
In un caso, la di cui morte avvenne ai 4.'' giorno si 
osservarono numerosi e veri tumoretti mixomatosi sopra 
varie regioni delia testa dei tronco e degli arti posteriori' 

Gh esperimenti d'infezione da me fatti finora sopra 
altri animali (cavie, gatti, cani) non sono stati seguiti 
d alcun successo. 

Quanto alia vitalità dei virus, questo si. è mostrato 
perfettamente attivo dopo esser rimasto per molti giorni 
eonservato nella gelatiera, mentre, invece, dopo unhara di 
permanenza nella stufa 50 C. iniettato ne' conigli nçn ha 
determinato lesione alcuna. 



Procurando nella letteratura, che ho avutb fra le 
mani, qualche osservazione rassomigliante a' miei casi, ho 
potuto constatare che essi sono identici a quelli osser- 
vati dal SanarelU a Montevideo, il di cui lavoro originale, 
però, fino ad oggi non ho avuto occasione di leggere, 
avendone ricavate le notizie solo dalla nota che ne ta il 
Roux nel suo lavoro « sur le microbes dits invisibles » 
(BoU. de rin3t. Past. T. I. n. i) — Nella stessa nota ho 
rilevato che Sanarelli considera il germe causatore di tale 
affezione curiosa come un ultravisibile. 

Ho voluto procedere ad esperimenti di íiltrazione ed 
ho esperimentato sançue e vari altri materiali paU>log^ci 
sufficientemente diluiti in siero fisiológico, il potere viru- 
lento de' quali tutte le volte fu perfettamente verificato ; 



— 15 - 

raa servendomi di candele da filtro Charaberland che la- 
sciavano passare non solo de* piccoli bacilli cromogeni da 
me misturati per controllo ma anche altri germi che qual- 
che volta esistevano nel materiale desperimento, ii filtrato, 
iniettato in vari conigli, non ha mai riprodotto alcuna le- 
sione. 

Giò farebbe credere che il virus mixomatoso non do- 
vesse appartenere agli ultramicoscopici a meno che la non 
filtrabiJità fosse dovuta a condizioni speCiali, como di trovarsi 
legato ad altri elementi che non attraversano il filtro, ciò 
che procurerò verificare con nuove prove. Avendo ini^ialo 
delle ricerche co' metodi usati per lo studio de' proto- 
zoária ho potuto osservare che in alcune preparazioni co- 
lorite col Giemsa raolte cellule mixomatose delle lesioni 
presentano delle inclusioni speciali. alcune delle quali ri- 
cordano perfettamente i clamidozoari dei tracoma des- 
critti da Kalberstâdter e Provazek, osservandosi anche, 
talvolta, eguali corpi inclusi in certi leucociti. 

Credo, per altro. ancora molto prematuro il tempo 
per assegnare a tale reperto qualsiasi importanza speci- 
fica: Targomento sembrami molto interessante e degno 
di nuoví e ulteriori studi. 



O Dr. A. Puttetnans apresenta algumas folhas de Abó- 
bora atacadas por uma moléstia que cobre toda a face 
inferior da folha com manchas esbranquiçadas. As fplhas 
atacadas desprendem-se com facilidade e a moléstia en- 
fraquece itiuito a planta. A moléstia em questão é devida 
a um fungo pertencente ao género Oidium que pode ser 
facilmente combatido por pulverisação de enxofre. Os 
exemplares apresentados só mostram a forma conidiana 
ou imperfeita ; devido a esta circumstancia não é possivel 
determinar com exactidão a espécie. E' um caso de mo- 
léstia muito frequente, para não dizer geral, no Brazil. 
Até agora não foi encontrado pelo relator nenhuma 
forma perfeita nas numerosas observações que fez aqui 
no Estado em OidiutHs, tanto em plantas cultivadas como 
em silvestres. 



O Dr. Edmundo Krug lé alguns documentos históri- 
cos tirados do «Livro do Tombo» de Xiririca, referiu- 
do-se a fundação desta cidade de Ivaporanduva e Ypo- 
ranga, documentos estes que serão publicados opportuna- 
mei^e na «Revista». 



- i6 — 

Mostra algumas gravuras e lê um trabalho sobre a 
Ribeira de I^ape que está sendo publicado pela Secre- 
taria de Agricultura que será distribuído com esta Re- 
vista. Esta memoria é escripta em portuguez* e em al- 
lemão. 



flDiSOS 

Ficou resolvido na sessão da Directoria de 18 de Maio 
que os snrs. sócios que se inscrevessem para conferen- 
cias avisassem esta Redacção com bastante antecedência 
afim de serem as mesmas annunciadas na secção « Avisos>^ ; 
e que cada sócio que fizesse conferencias ou communica- 
ções fornecesse um resumo destas para serem publicadas 
na Revista. 

Ficou também deliberado que a Revista fosse pu- 
blicada com regularidade e distribuída mensalmente, tendo 
sido nomeados pela Directoria os srs. dr. Roberto Hot- 
tinger e Edmundo Krug para fazerem parte da redacção ; 
responsabilisando-se estes pelas actas scientificas e demais 
assumptos a se publicar. Pelo conteúdo dos resumos e 
trabalhos originaes são responsáveis os próprios autores. 
Estas resoluções foram approvadas por unanimidade de 
votos na sessão ordinária de 21 do corrente. 



Conferencias annunciadas (que serão feitas na sede 
social Avenida Brigadeiro Luiz António n. 12): 

II de Junho: Dr, Adolpho Lntz: Estudo sobre a 
peste de cadeiras. 

18 de Junho: Dr, António Carini: A liygieoe na 
guerra russo-japoneza. 

25 de Junho : Dr, Affonso Splendore : Introducção 
ao estudo dos Protozoários parassitas. 



Para o mez de Julho estão inscriptos os sócios : 
Dr. J. V. Belfort Mattos: Da influencia das niatt as- 
em geral e especialmente sobre a do Estado de S, Paulo. 
Dr. Edmundo Kru^: A superstição no Estado de 
S. Paulo. 



\U 



^r' lEYISTA . «Sc^EzvBo 



SÂO PAULO 



Sociedade ScientifiC; 



REDACÇÃO : Prof. Dr. "Roberto Hottinger e Dr. Edmundo Krug. 

SEDE DA SOCIEDADE: 
Avenida B. Luiz António, 12 ^ S. PAULO «> Brazil 



SUMMARIO : 

1. Xiririca pelo Dr. Edmundo Krug. 

2. Estudos e observações sobre o quebrabunda ou peste de cadeiras pelo 

Dr. Adolpho Lutz. 

3. Sobre a Hemogregarina Leptodaetyli pelo Dr. A. Carini. 

4. Sessão do dia 28 de Maio de 1908. 

Dr. A. Puttemans sobre Macrosporium Coratae, Uredo Ziziphi, Asco- 

chita Ziziphi. Grisyphe communis etc. 
Sessão do dia 4 de Junho. 
Dr. A. Splendore sobre a cultura d'uma nova espécie de cogumello 

pathogenico. 
Dr. A. Carini sobre Cytolsidiiis sarcoptoide. 
Discussão: Dr. A. Splendore. 
Dr. A. Carini sobre Neoformações epitheliaes nodulares no fígado de 

um Ceptodactylus. 

Xiririca 

POR Edmundo Krug 

Parece q' se viciou o nome deste 
Bairro, donde a Freguezia tira o seu, 
quando alguns Antigos chamáo Ribei- 
rão de Tiririca, ou do Tiririca!, que 
diz =: taquaras que cortáo, ou feixes 
de taquaras que cortáo, a que chamáo 
jayvaras, creciymas da Língua original. 
Do « Livro do Tombo >. 

Quem não terá um sorrizo nos lábios, ao ouvir pela 
primeira vez este nome exquisito! 

Mal sabem, porem, taes maliciosos que a esta cidade, 
assim como a quasi todos os logares situados nas mar- 
gens da Ribeira, está reservado um bello futuro. 

Cidade de aspecto variado pela quantidade de mor- 
ros que a cercam, cortados pela magestosa Ribeira, que 
dão uma nota alegre ao conjuncto harmonioso de toda a 
paisagem, não é tão antiga como talvez se presuma. 



— i8 — 

Rabuscando os antigos livros da igreja, ahi ainda 
existentes, achei uma infinidade de documentos, que mais 
adiante passarei a transcrever. Delles deduzir-se-á como 
foi fundada a actual cidade e a antiga freguezia, situada 
dois kilometros distante desta. 

Quanto ao logar actual, existe ahi uma rua que corre 
parallela á Ribeira; destacando-se delia, perpendicular- 
mente, outras transversaes, que, com uma subida mais ou 
menos forte, vão dar a uma segunda e terceira ruas, pa- 
rallelas á primeira, nas quaes existem as melhores casas 
e mais bem sortidos armazéns. 

Num vasto largo encontra-se uma nova igreja, ainda 
por acabar, e logo atraz desta as ruinas de uma outra, da 
primeira matriz consiruida na actual Xiririca, que, devido 
aos grossos e possantes muros, devia-se presumir ter ^idp 
uma invencível fortaleza. 

Atraz destas ruinas, no pé de um morro, existe pe- 
quena capella qjue geralmente está adornada de flores 
naturaes. E* ahi que começa o caminho que vai ter ao ce- 
mitério, coUocado no cume da mesma colina. 

Neste logar de eterno descanço, jazem os restos 
mortaes de Henrique Bauer, que morou por muitos an- 
nos em Jurú-Mirim, e estudou a Ribeira, a fundo, levan- 
tando a sua carta, coUeccionando e analysando minérios 
e galgando morros, afim de poder fazer uma propaganda 
séria da fertilissima zona. 

Do alto do cemitério desenrola-se adiante dos olhos 
do excursionista magestoso panorama de successivas ca- 
deias de montanhas que desapparecem no infinito azul. 

D ahi, em direcção rio abaixo, se vê o Vutupóca, 
morro de 600 m. de altura, mais ou menos, que se pre- 
sume ter sido vulcânico e no qual, conforme os ditos de 
pessoas de meu conhecimento, se diz que ha fontes de 
agua quente. * 

De clima quasi tropical, é o terreno excellente para o 
cultivo de cacáo no nosso Estado; por estar situada na 
boa estrada de rodagem que, vindo de Cananéa e passando 
pela Barra do Batatal, vai ter a S. José do raranapa- 
nema, é apropriada para o desenvolvimento racional de 
uma lavoura ou criação lucrativa; por ser logar de pas- 
sagem forçada de canoas que vêm, Ribeira acima, para 
descarregar suas mercadorias mo vapor fluvial que ahi 
attraca, está destinado, quando se cogitar em dar credito ás 
minhas palavras e o governo se dispuzer á uma propaganda 
séria da zona, a ser um importante foco commèrcial. 



* Tem Ribeirão, que corre da parte de hú grande Morro q' tem este Nome. 
o qual diz - Morro q' estala, que rebenta. (Do Livro do Tombo). 



— 19 — 

Pois bem, para que aquillo que hoje ainda é legível, 
mas que mais tarde não o será, para aquillo que já está 
sendo carcomido pelas traças fique reservado para a pos- 
teridade — os documentos referentes á fundação do logar 
— resolvi na minha ultima viagem á belía zona, demorar- 
me alguns dias mais em Xiririca para procurar docu- 
mentos históricos e i>ublical-os. 

Naturalmente foi pelo Livro do Tombo que procu- 
rei, cujo livro tive a grande felicidade de obter por inter- 
médio do meu amigo sr. Coronel Joaquim Brazileiro Fer- 
reira, que com tanta amabilidade me facultou um ameno 
trabalho. 

O Livro do Tombo é o antigo livro da igreja 
aonde se lançavam os mais importantes acontecimentos 
referentes ao logar e outros assumptos de interesse geral. 
Mas qual não foi a minha surpreza, quando, revendo-o, 
tive (íe verificar que o verdadeiro livro se tinha estra- 
viado e que este era uma segunda edição, bem imperfeita, 
do primeiro ! 

Note-se que os primeiros documentos ahi escriptos 
são de uma clareza extraordinária, com bellissima e inve- 
jável calligraphia, tomando-se os seguintes, peiores, e até 
illegiveis os últimos. 

Foi obra iniciada por um tal Padre Mendonça. 
O primeiro documento, a abertura do livro, refere-se 
ao primeiro Livro do Tombo e sendo bastante interes- 
sante transcrevo-o em seguida: 

«Joaq™ Júlio da R"* Leal. Presbítero Secu- 
lar, Cavalheiro da Ordem de Christo^ Cap'"' Con- 
firmado do Real Collegio de Paranágoa, Vigário 
Collado da Parochial Egreja Matriz de N. Snr* 
do Rozario da mesma Villa de Paranágoa, n'ella 
e sua Comarca, Vigário da Vara, Juiz dos Caza- 
mentos, e Reziduos, Examinador Synodal do Bis- 
pado de S. Paulo, e Vizitador Ordinário das Co- 
marcas da Marinha do Sul, do dito Bispado de 
S. Paulo, pelo Ex"^** e Rv™ S. D. Matheus 
d'Abreu Pereira, Bispo Diocezano, etc. etc. » 

« Faço saber ao M. R. Sr. Vigário Collado 
de Xiririca José Francisco de Mendonça, que re- 
vendo os Livros desta Igreja achei o Livro do 
Tombo cheio de furames, encontrando n'elle, já 
Pastoraes, já Capitulos de Vizita, já Propostas, e 
Ordens, q' mais se deve chamar confuza Micila- 
nia, e não Livro do Tombo, alem dysto, vi no 
dito Livro, Pastoraes tão antigas, como são as do 
Ex"""* Sn"^ D. Frei António d'Aguadalupe, D. Frei 



L, Soe. /^''í-^ 



20 

João da Cruz, e do Sn"^ D. Bernardo primeiro 
Bispo de S. Paulo, quando alias só devião estar 
copiadas as Pastoraes dos Ex""**^ Prellados desde 

tempo q' principiou esta Freguezia, a ser Pa? 
rochia: igualmente vi, q' as mesmas ordems dos 
M. R. Vigários da Vara, sendo posteriores a mui- 
tas Pastoraes, eram escriptas primeiro do q' as 
Pastoraes antigas, tudo sem methodo, e só com 
dezaranjo e notável dezalendo, para de hoje em 
diante remedeár este mesmo dezaranjo, rubriquei 
este Livro, para servir de Tombo d'lgreja de fls. 

1 a de fls. i28. Até o fim, para as Pastoraes dos 
Ex"?^ e Rev. Prellados, e R^^* Vizitadores, visto 
que o Livro das Pastoraes está cheio de nódoas, 
e manchado, e por isso incapaz de continuar a 
servir, por embeber tinta, e ficarem as Letras 
apagáveis, e se não entenderem nos vindouros 
tempos. Neste Livro do Tombo, escreverá M. R. 
S"^ Vigr. com o seu continuado aceyo, clareza, e 
methodo, a fundação desta Freguezia, procurando 
dos Homens mais antigos, q' Homes forão, os 
que Levantarão a primeira Cappella; e seus no- 
mes dos mais conhecidos habitadores da quelle 
Tempo. A demembração da Villa de Iguape no 
tempo do Ex™*" Sr. Bispo D. Frei António da 
Madre de Deus e a Copia de tudo o que está es- 
cripto de fls. 5 até fls. 6. Igualmente os nomes do 
d^Ôrago da sua Freguezia ; quantas Igrejas se tem 
feito desde a sua fundação: os Altares que tem, 
os Santos, e os que annualmente se festejam : 
suas Alfayas e Paramentos, Vida e costumes: Os 
termos dividentes, seus nomes quer da Ribeira 
acima, chamado Pilloens, quer Ribeira abaixo: 
a extensão em Legoas, que tem a Freguezia, o 
nome de todos os Bairros d'ela, as Fazendas 
mais notáveis, o numero de Engenhos, e os Se- 
nhores dos ditos Engenhos: o Património da Ma- 
triz: a Fundação da Cappella filial de Ivaporan- 
dj^a, quem a fundou, se tem património, e em 
que anno se principio a celebrar nella; a Copia 

do Requerimento exarado no Tombo antigo Fls 

Quem foi o seu primeiro Parocho desta Fregue- 
zia, quantos tem havido encomendados; .seus 
nomes, e pçitria ; o bem que fizerão para augmento 
da Freguezia: quem foi o primeiro Vigário Col- 
lado, seo nome e pátria; Copia da Carta da sua 
Collação: quem foi o primeiro Vigário da Vara; 



— 21 — 

Copia da Reprezentação do R"" Vizitador ao Ex*"** 
Prellâdo para a desmembração da Vara : Copia da 

Çrimeira rrovizâo de Vigário da Vara, Copia do 
'ermo q' se passou em Vizita para a fundação 
da Nova Igreja Matriz, e finalmente numero de 
Fogos, pessoas de Confissão, do numero de habi- 
tantes; o Comercio, q' plantassões, importação e 
exportassão. Igualmente escreverá tudo o mais 
notável q' tem acontecido desde a fundação desta 
Igreja, o que se poderá saber, inquirindo dos ho- 
mes mais antigos, e oque foi acontecendo de hoje 
en diante de mais memorável, para se não per- 
derem os acontecidos feitos, da Lembrança dos 
homens, pois só deste modo se conservarão, ape- 
zar da edacidade dos annos. Bem sei, que este 
trabalho hé grande, porem são mayores os talen- 
' tos, e scientiíicos conhecimentos do M. R. Paro- 
cho actual : e como hé primeiro Vigário CoUado 
desta Matriz, elle também deve ser o primeiro 
com toda clareza, ordem, e com methodo deve 
esclarecer, e avivar o que si de todo esquecido. 
O Livro do Tombo antigo, sirva so para os Ca- 
pítulos de Vizita. Assim escrupuloza mente se ob- 
serve, emquanto os Ex"^^^ e K»"*^* Prellados não 
mandarem o Contrario. 

Xiririca, em Visita aos 8 de 'jW*' de 1819. 
O Viz*'^ Joaq"^ Júlio da R"* Leal. 

O antigo Livro do Tombo , como se deduz deste 
documento, continuou a servir para receber os CapUidos 
de Vizita^ mas estando cheio de furaynes, quer dizer, de 
furos feitos pelas traças, cujos estragos se alastraram, des- 
appareceu finalmente, não se sabendo hoje o que n'elle 
continha. Foi uma pena, mas assim acontece com os caca- 
recos que, atirados ao lado, depois de servirem durante 
annos e annos, desapparecem por completo. 

O Padre Mendonça, ou por mera curiosidade ou por 
querer agradar ao seu superior em ordens, começou a in- 
vestigar, ponto por ponto, o prescripto no documento que 
acabei de transcrever. 

Começa elle o novo Livro do Tombo com o seguinte 
documento : 

Origem, c Fundação desta Igreja e Freguezia 
de D. Senhora da Guia de Kiriríca 

« Das memorias ainda existentes e incontest<i- 
veiá desta Freguezia consta que aos 16 de Janeiro 



— » 22 — 

de 1757 alguns dos principaes moradores Desta 
Rjbeyra acima, entáo Freguezes da Villa de Iguape, 
no bairro de Jaguary, hu dos mais antigos d' esta 
Freguezia, passarão a Escriptura de Património da 
primeira Capella, c^ue fundarão de baixo da Con- 
cessão do Exellentissimo e Revçrendissimo Prela- 
do Dom Fr. António da Madre de Deus Galvão 
deste Bispado de Sam Paulo ; e que passados 
Seis annos, depois de fundada a Capella, foi esta 
desmembrada da Igreja Matriz da referida Villa 
de Iguape por Sentença do mesmo Exellentissimo 
e Reverendíssimo Prelado de 19 de Janeiro de 
1763. Sendo em todo este espaço Vigário Collado 
da referida Villa de Iguape o Muito Reverendo 
António Ribeiro. » 
Quem fez pois o primeiro donativo para ser consti- 
tuido o patrimqnio da Igreja ? Esta resposta nos dá o § 3, 
cujo documento foi estrahido pelo Padre Mendonça, do 
Livro dos Capítulos das Vizitas, que diz: Forão Romáo 
de Veras e seu irmão Severino de Veras com as suas 
mulheres Maria Rodrigues de Vasconcellos e Maria de 
Oliveira que fizerão o donativo de duas moradas de ca^as 
mixtas, cubertas de telha que tinhão comprado a João de 
Pontes, e António de França, dando as para Pattrimonio 
para Se conseguir o estabelecim^^ de húa Capella neste Rio 
da Ribeira, onde a querem erigiros moradores do difto Rio 
para remédio espiritual das Suas almas. 

Esta escriptura foi lavrada pelo Tabellião Carlos Ma- 
nuel Pereira da Silva em o Sitio do Jaguary *, para onde 
seguio de Iguape, a requerimento dos doadores, aos dez e 
Seis dias do mez de Janeiro do anno do Nascimento de 
Nosso Senhor J. Christo de mil e Settecenios c cincocnta 
e Sette. 

A capella foi erigida sem perda de tempo; talvez 
tivesse sido ella, a primeira ali edificada, muito modesta, 
modestissima, mas que importava isso, se a principal cousa 
era que os crentes tivessem um logar para levantar as 
suas preces a Deus ! 

O dia da installação festiva da casa santa não é com- 
provado por documento algum, porém daquelle que trata 
do Orago deduz-se o seguinte : 

«Logo que se fundou a primeira Capella,então 
Filial da Igreja Matriz da Villa de Iguape, se lhe deu 
o seu titulo ou património, hé constante q' o Re- 

* o uomc official de Jaguary é hoje Itaúna, o „ Livro do Tombo" nos dá a se- 
guinte explicação da etymologia do logar : O Nome deste Bairro muito antigo quer 
dizer = agua ou rio de caxorro. 



— 23 — 

verendo Vigário Collado d'aquella Villa António 
Ribeiro Subira a este Lugar, accompanhado de 
muitos dos seus Freguezes, a collocar festivamente 
na mesma Capella a Imagem de Nossa Senhora da 
Guia, cuja invocação ficou sendo o Orago Perpetuo 
desta Freguezia de Xiririca em cujas visinhanças 
hé fundada da parte fronteira. Esta collocação hé 
do anno de 1757, pouco mais ou menos; e ficou- 
se desde então celebrando o seu Anniversario, ou 
o Dia de Nossa Senhora da Guia, a oito de Set- 
tembro com o concurso dos Devotos, e Romeiros 
dos Lugares circumvisinhos. » 
A capella ahi ficou ; porem, devido á grande dis- 
tancia de Iguape a Xiririca, donde devia vir um sacerdote 
desobrigar os freguezes, os moradores não tiveram a con- 
clusão dos seus desejos. 

Por mera commodidade pessoal, tal qual acontece 
ainda hoje aqui entre nós, nos longiquos sertões paulista- 
nos, o padre preferio ficar na sua sede e receber a 
meia oitava de ouro por anno, do que seguir, Ribeira aci- 
ma, até Xiririca, numa canoa sem commodidade alguma, 
fatigando-se durante alguns dias de viagem penosa, sof- 
frendo sede e mesmo fome ho caminho despovoado : era 
um máo cumpridor dos seus deveres. Estas affirmativas 
ahi emmittidas deduzem-se do documento encontrado no 
Livro do Tombo a fls. 4, verso. Este documento é bas- 
tante interessante e delle se verifica como era grande a 
necessidade dos povos de então, ouvir uma missa ou mesmo 
a fala do Sacerdote. Eil-o : 

« Gemendo estes Moradores da Ribeira ajsi- 
ma com a grande, e irremediável carência de Suf- 
fragios, Se confederarão com o Reverendo Vigário 
de Iguape de erigirem hua Capella, em qual cons- 
tituísse elle Reverendo hum Capelláo actual a Sua 
custa, obrigando-se elles contribuir cada hum com 
meia oitava de ouro por pessoa de Confissão. Mas, 
tendo passado o espaço de Seis annos, e vendo 
náo dava Satisfação ao Compromisso, vindo So- 
mente depois da Paschoa desobrigal-os, e cobrando 
todos os Seus emolumentos, sem dar providencia 
ao pacteado ; Se resolverão fazer representação a 
Sua Exellencia R""", o que visto pelo ditto Senhor, 
Mandou notificar ao Rever^'' Vig*' António Rib^, 
para que dentro de três mezes nomeasse Capelláo, 
pena de q' ficaria devoluta por Direito, e occor- 
reria a táo urgente necessidade. Porém, como o 
ditto Reverendo Vig° ainda notificado náo desse sa- 



— 24 — 

tisfaçáo e promettido, proferio Sua Exell* R"* a 
Sentença, que aqui etc. ...» 
A sentença proferida pelo então Bispo de S. Paulo 
Frei António da Madre de Deus, em 19 de Janeiro de 
1763, em resposta ao requerimento acima, foi simplesmente 
o desmembramento da Capella, fundada pelos Veras, da 
Matriz de Iguape, nomeando para lá um Capellão Curado, 
que devia receber' de cada habitante de confissão, do logar, 
annualmente, V2 oitava de ouro, percebendo elle um total 
de 300 oitavas, pois, como se verifica no documento a que 
me refiro, haviam já alli 600 almas. Frei António fixa os 
limites do districto da dita Capella, da seguinte forma : 
« O Ribeirão dos Pillõens inclusive da parte 
Superior, e a Pedra grande chamada Fortaleza, e 
na Lingua da Terra Jyquyá, inclusive da parte 
inferior são os Termos demarcantes desta Estola, 
ou Freguezia de Nossa Senhora da Guia de Xi- 
ririca, a respeito das Freguezias Suas Visinhas 
Limítrofes q* são a Villa de Apiahy, e a Villa 
de Iguape, devendo por conseguinte abranger to- 
dos os rios que desaguáo dentro das mencionadas 
demarcações. :» 
A freguezia estava, pois, fundada; apedra fundamen- 
tal para a creação do logar estava posta ; foi o seu pri- 
meiro Capellão Curado o Padre José Martins Tinoco. * 

* o Reverendo Doutor Jozé Martins Tinoco, oriundo de Portugal. Formado 
pela Universidade de Coimbra, segundo se cré, mas sem constar em que Faculdade, 
foi o que creou esta Freguezia de baixo dos auspicios do Exelleniissimo e Reverendís- 
simo Prelado o Senhor D. Fr. António da Madre de Deus. como se ve das copias 
fieis deste Livro. fl. 6. Este Reverendo Parodio poz logo as suas vistas em requerer 
ao mesmo Exellmo. Prelado htm Regra certa e original sobre os usos e costumes, que 
Se obrigaria nesta Igreja, pelo que toca ao Pé d'altar. e proventos da Estola Parochial. 
representando que esta Igreja se achava fundada em arrayáes de Minas, onde tudo se 
compra e vende a preço d'oiro. náo devendo por conseguinte excluir-se d'esta Lei os 
emolumentos Parochiaes ao exemplo das Igrejas de Minas; e como os Reverendos 
Parochos das Freguezias visinhas, Apiahy e Paranapanema. fundadas em arrayáes de 
Minas, percebessem o preço do oiro, e o referido Vigário desta propuzesse isto mesmo 
ao mesmo Exellmo. Prelado, mandou este observar n'esta Igreja de Xiririca os Usos e 
Costumes da de Paranapanema, que com ejfeito se observáo. exeptuando aquelles que 
o tempo tem variado, como em Seu lugar deixamos ditto. Não tem faltado quem va- 
zasse escurecer a memoria, e Virtudes de hum tão exacto e desinteressado Parodio, 
arguindo-o de dolo e prevenção na representação, que fez ao Exellmo. mencionado Pre- 
lado, e dizendo temerariamente, que havendo recebido Ordem expressa para se com- 
formar com a Igreja mais visinha, que era a de Iguape, adoptou a de Paranapanema 
por cauza da riqueza do Oiro, o que Sem trabalho se refuta recorrendo as copias Fieis 
da Creaçáo desta Igreja. 

Das Memorias de^ta mesma Igreja se mostra, que o Seu Paroâiiato durou 10 
annos contados da data da Creaçáo até a posse do seu Successor a IO de Janeiro de 
1773. havendo em todo este decurso trabalhado na regularidade dos seus Freguezes 
com Santos exemplos e Sá doutrina, deque mereceu os justos Louvores de dois Reve- 
rendíssimos Visitadores, e dos Seus mesmos Parochianos: e Sendo deixou mais outro 
monumento do temporal desta Igreja incipiente, a pouquidade dos habitantes, a Limi- 
tação das Suas faculdades, e depois a Soliddo continua desta Freguezia n'aauelles pri- 
meiros tempos o prímaváo de mais esta gloria. Havendo-se enfim conduzido para o 
arrayal de Yporanga, alli acabou Sua carreira, e faz Sepultado na Capella velha do 
mesmo arrayal. 

No Seu tempo se contáo 39 Cazamentos. doze de pessoas brancas, e destas al- 
gúas que passão pelas principaes Famílias desta Freguezia: baptizaráo-se cento e oi- 
tenta e seis, e fellecidos settenta e cinco, sobrarão cento e onze indivíduos de augmento 
a Povoação antiga. 



— 25 — 

Quanto é extensão desta freguezia foi original a ma- 
neira de medil-a. Naturalmente é esta avaliação completa- 
mente falsa, por fazer justamente a Ribeira, entre a oarra 
dos Pilões e Xiririca, algumas voltas bem grandes, mas 
por ser documento curioso copío-o na sua integra: 

cNão se pode exactamente avaliar a Extensão 
de Legoas, que tem esta Freguezia, Senão pelo 
tempo que se gasta descendo, contando á relógio 
as horas que se tem observando Levar quem 
desce sem fazer paradas e a bem remar, alem da 
rapidez da Ribeira, tanto maior onde sente o im- 
pulso das Cachoeiras; e assi gastando com esta 
velocidade cinco horas dos Pilloens até esta Fre- 
guezia, e. desta até a Fortaleza ou Pedra Jyquyá 
o mesmo tempo, pode avaliar-se a Extensão de 
vinte Léguas, mclumdo-se duas Léguas em cada 
hora; ao que parece tiveráo Seria a reflexiva at- 
tenção, quando se assignalou com. húa igualdade 
assi a extensão de Sima, como a estensão de baixo 
desta Freguezia. jí 
A freguezia ia crescendo, pois entre <fs Successos que 
Se devem referir nestas Memorias Se conta a multiplica- 
ção Sensivel dos Habitantes, Do Rol de desobriga Se ve 
contar o Numero de Pessoas de Confissão de mil duzentas 
e oitettta e oito^ e de trezentos e três Fogos, chegando po- 
rem a duas mil almas o numero de toda a Povoação Se- 
gundo parece constar do Cenço ou Rol da Policia desta 
mesma Freguezia feito em Janeiro deste mestno anno de 
1819. 

Crescendo o numero dos habitantes, é lógico que o 
trabalho feito por elles já apparecesse mais ; maiores roças 
eram plantadas, negociantes se estabeleciam e procura- 
vam auferir, por meio de uma exportação, maiores vanta- 
gens, e, como muitos géneros deviam vir de fora, estabe- 
leceu-se uma regular importação e exportação, como po- 
demos ver dos seguintes dados: 

«Já desde o anno, e ainda antes, de 1790, 
começaváo alguns moradores desta Freguezia a 
applicar-se a plantação de arroz, segundo as no- 
ticias daquelle tempo, mas não era cultivado este 
género da Lavoura com tanto empenho e genero- 
sidade, emquanto Senão procurava e pedia con- 
stante e annualmente, ja Subindo ja descendo de 
preço, e algúas vezes mteiramente se abandonava 
a mais Ínfima estimação, até que elevou-se a Ser 
o principal fundamento do Commercio desta Fre- 
guezia do anno por diante de 1807 com a Trans- 



— 26 — 

migração de Sua Magestade Fidelíssima de Portugal 
para este Reino do Brazil. Então foi que a indus- 
tria e a Arte tentarão os Engenhos de virar com 
agua tanto por Sima como por baixo» depois q* 
apenas Se contaváo três até quatro de virar por 
sima; e fazendo-se maior e mais constante a es- 
timação deste género, começou da mesma Sorte 
a Ser maior a Importação ou o Commercio de 
fora de Fazenda Secca, molhados e Escravatura. 

Fazendo pois hú calculo prudente a vista do 
que se tem sabido exportar-se cada anno deste 
referido género, segundo hé maior e geral a feli- 
cidade das Colheitas, chega ate 20$ alqueires o 
arroz em casca, e a 10$ o pillado. 

Mas, alem deste género universal, hé bem 
certo que Se deve tão bem contemplar a planta- 
ção quasi geral do Fumo, que neste Paiz se fa- 
brica exellente e em grande quantidade, do Feijão 
que se planta quatro vezes no anno, do Milho 
duas vezes no anno, da Mandioca, da Cana para 
aguard^te, e finalmente do Café bem que género 
este aqui pouco cultivado, Sendo todos ellesos 
da exportação, como do consumo e commercio do 
mesmo Paiz . . .» 

O logar, porem, aonde estava edificada a capella não 
foi decididamente bem escolhido, ou pelo menos os mora- 
dores não tinham observado qual a altura das maiores en- 
chentes. As Chêas deviam ter sido antigamente tão fre- 
quentes que o povo se vio necessitado a fazer a mu- 
dança da freguezia,' escolhendo para isso um logar mais 
apropriado, dois kilometros rio abaixo. 

Devido a esta mudança houve muitas lutas politicas 
na antiga Xiririca, como nos narram as tradicções ainda 
existentes na actual; dois partidos se formaram: um re- 
solveu mudar-se, o outro, não querendo a mudança e tam- 
bém não podendo ficar no logar, esphacelou-se, retiran- 
do-se então muitos habitantes da freguezia, indo fundar 
diversos bairros no rio Juquiá e mesmo na Ribeira. 

Deve ter sido uma enchente medonha, pois facto 
é que, estando a freguezia situada numa barranca do rio, 
a qual ahi tem talvez uma altura de 14 metros, foi toda 
ella attingida pelas aguas, como veremos mais adiante. 

Ainda hoje existem as ruinas da mencionada Ca- 
pella; das grossas paredes, feitas de pedra e cal, deduz-se 
um interessante plano; devido, porem, á espessa vegeta- 
ção que, no decorrer dos annos, cresceu no recinto da 



— 27 — 

mesma, é quasi impossível um estudo completo da sua 
disposição. 

Eu a vi, examinei-a, mas não pude verificar, nas ob- 
servações feitas, si a capella tinha tido torre e qual o es- 
tylo do todo. Deve ter sido um estylo tosco ; moldura de 
espécie alguma pude descobrir que me tivesse incitado, 
pelo menos, para alguma deducção lógica. 

O interessante é que os miiros todos forão feitos de 
pequenas pedras, havendo entretanto, não muito distante 
do logar, grandes blocos. 

O documento abaixo, que transcrevo por completo, 
nos dirá mais exactamente quaes os motivos da mudança 
da referida capella ou Matriz para o logar actual. 

Devo, porem, observar, que tenho minhas duvidas 
sobre que tivesse existido somente uma capella. 
Julgo que tivessem sido construídos, pelo menos, duas 
capellas no decorrer de 1757 a 1816, a primeira, prova- 
velmente ligeira, de pau-a-pique, foi feita em curto lapso 
de tempo ; a segunda, cujas ruinas ainda existem, foi feita 
com mais vagar. Duvido que uma Matriz, como essa a 
que me refiro, tivesse sido edificada depressa, pois sendo 
todos os habitantes do logar lavradores, estes não podiam 
cuidar continuadamente da construcção ; havia cousa mais 
urgente a se fazer: eram as plantações. 

mudança desta ÍDatriz c Freguezla para Ribeira abaixo 
perto da Ilha Formosa, Causas disso ; ÍDeios e 
Diligencias que se tem empregado. 

«Nenhuma empreza tem sido mais retardada, 
nem mais difficil de Se por em execução do que 
a Reedificaçáo de húa Nova Matriz, a vista da ur- 
gente necessidade que tem obrigado a pertender 
esta obra, e por conseguinte a mudança desta 
Freguezia. Era necessário de certo modo, que as 
grandes Chêas repetissem cada anno os mesmos 
effeitos de ruina, assim de obrigar com mais força 
os presentes Moradores a procurarem a Sua 
mesma utilidade, e melhoramento, corrigindo ass 
a falta de cautela e providencia, que commetteráo 
os primeiros Fundadores desta Freguezia, húa 
vez que a experiência, e a mesma razão os ad- 
vertia, que. Se os mais pequenos regatos Se 
eleváo e Sobrepujáo prodigiosamente com a abun- 
dância das chuvas, hu rio grande, cujas aguas 
Sáo o concurso de outros muitos rios, que se 
associáo e ajuntáo em búa Só madre, como 
accontece com esta Ribeira, a que grão de ele- 



- 28 — 

ção náo deve Subir até que se possa espraiar. 
Para exeder os Limites das chêas ordinárias este 
caudaloso Rio, náo carece mais, que as chuvas 
abundem mais na parte dos campos e das Suas 
cabeceiras, para subir os Lugares mais altos, e 
alagar tudo em distancia immensa. Se éra pois 
assas bastante para intentar a referida mudança 
húa destas Chêas, que se contáo de maior inter- 
vallo de annos, que Se deve dizer tendo ellas 
Sido tão frequentes, que treze annos á esta parte, 
com pouca differença não se contáo menos de 
três ou quatro, pouco menores húas a vista das 
outras. 

Muito pouco faltou que esta Matriz existen- 
te, por Ser de pedra e barro; não experimentasse 
a mesma Sorte que tiveráo as Cazas da Fregue- 
zia, com a Chêa extraordinária de 28 de janeiro 
de 1807 e depois com a de 7 de Outubro de 1809. 
Que triste era andar em canoas, carregadas com 
os moveis domésticos, procurando refugio contra 
as aguas que cresciam e inunda váo ; e quando 
parecia escapar-se em húa casa por estar em mais • 
alto terreno, onde não constava ter chegado algua 
das Chêas anteriores, passar Logo a outra casa 
mais alta, e desta emfim procurar como ultimo 
asillo a mesma Igreja, reduzida já a necessidade 
de fazer-se desta Casa Sagrada o arcenal ou 
commú deposito das coisas profanas, como accon- 
teceu emtão, e pôde accontecer ainda ! Depois 
disto, que desconsolação ver submergidas, e al- 
gúas destroçadas inteiramente, depois da inunda- 
ção, aquellas casas que faziáo o ornato da Fre- 
guezia, a residência dos moradores, dando hum 
espectáculo Lastimoso já por apparecerem Sem 
bell^*, como esqueletos descamados, e entulhadas 
de profundo lodo, ja por estarem inclinadas e 
pensas, destituidas de portas, de janellas, dos 
moveis emfim de madeira do interior e que 
guardaváo a alfaya domestica e a roupa dos ha- 
bitantes, porque tudo as aguas arrebataváo com 
os mais despojos Sujeitos a Sua violência, e Le- 
vaváo a espalhar ao Longe, e por diversas e 
incógnitas partes I 

Portanto náo havendo nisto exaggeraçáo al- 
gúa, porque tudo se passava realmente aos olhos 
destes Moradores, aquém ainda mais convencia a 
própria experiência de tfintos prejuizos, e ainda 



— 29 — 

mesmo dos perigos evidentes, a que acabaváo 
alguns de escapar, a vista destas causas táo fortes 
tratou se Logo desde a primeira, chamada a Chéa 
Grande, de mudar esta Matriz e Freguezia para 
melhor . Lugar ; e a medida que repetiáo novas 
Chêas, assi renovaváo os mesmos incommodos, 
igualmente Se renovava esta pertenção, procura- 
váo-se as meios mais conyenieDíçs, assentando-se 
Sempre de contribuirem todos com Seus arrozes 
para os gastos e trabalhadores, assim de Se não 
tirarem do Serviço da Lavoura. Tendo-se emfim 
consumido muito tempo em propor os referidos 
meios, em tomar medidas, fazer representaçoens, 
determinar Procuradores, conciliar vontades, ven- 
cer contradiçoens (que jamais deixáo de haver) 
nestas circumstancias todas approximou-se as nos- 
sas a vontade benéfica do Muito Reverendo Vicário 
CoUado e da Vara da Villa de Paranaguá, Visita- 
dor Ordinário que tem sido desta Igreja em Set- 
tembro de 1816 e de 1819 e tomando a Si o cuidado 
de piomover esta nossa tão Louvável Pertenção, 
havendo-se conduzido ao Lugar escolhido para a 
nova Fundação offerecido e dado p*^ hum gene- 
roso Parochiano Romáo de França Lisboa, alli 
ouvindo o mesmo Reverendíssimo Visitador Ordi- 
nário Joaquim Júlio da Resureição Leal os votos 
e pareceres, estando presentes o R. Vigário Col- 
laao actual, o Capitão Mor deste destricto José 
António Peniche, o Capitão Commandante da Fre- 
guezia Francisco de Paula França, e outros muitos 
dos Principaes Moradores, Se Lavrou o Termo 
que serve de fundamento a construcção da ditta 
nova Matriz, e hé como Se Segue : 

Copia do Termo que se passou para a Fundação 
da rioDa igreja íTlatriz. 

Aos nove dias do mez de Settembro de mil 
oito centos, e dezeseis estando juntos o Muito Re- 
verendo Joaquim Júlio da Resurreição Leal Vigário 
CoUado, e da Vara da Villa de Paranaguá, Vizi- 
tador Ordinário da Freguezia, de Xiririca, e o 
Muito Reverendo José Francisco de Mendonça, 
Vigário Collado da mesma Freguezia de Xiririca, 
e o Iir Cap'" Mór José António Peniche, e o 
Cap."" Commandante Francisco de Paula França, 
e o Cap"" Joaquim Papo Ferreira e o Cap"' Gre- 
gório Félix de Ahneida, o Tenente António Giz 



_ 30 — 

Fontes, o Alferes Ignacio da Costa França por 

garte dos moradores Ribeira aSima, o Alferes 
raz da Cunha Ramos, e mais moradores abaixo 
assignados, appareceu Romáo de França Lisboa, e 
disse que de Sua livre vontade, e Sem constran- 
gim*° de pessoa algúa, dava o Luçar, que fica a- 
Sima da Ilha Formoza *, para n*eTle se mudar a 
Igreja Matriz de Xiririca, e com todo o Seu terreno 
para os moradores da mesma Freguezia fazerem 
as Suas cazas, abrindo ruas, e sennoreando-se do 
ditto terreno e campos que foráo Seus cultivados, 
de hoje e para todo o Sempre, fazendo esta So- 
lene dooçáo Só pela devoçáo que tributa a Virgem 
Nossa Senhora da Guia, como pela desconsolação 
que tinha de ver as Cazas dos dittos moradores 
arruinadas com as Chêas da Ribeira. Igualmente 
todos os mesmos Moradores tanto da Ribeira aci- 
ma, como da Ribeira abaixo Se obrigaváo a pagar 
cada Fogo hú alqueire de arroz pillado, em quanto 
durassem as obras da Igreja, annualmente, conti- 
nuando sempre a dár a meSma porção todos os 
annos, com clausula porem que os Fogos, que não 
tivessem escravos, dariáo annualmente o ditto al- 
queire de arroz, ficando Livres de dár mais cousa 
algúa em attenção a Sua pobreza, e os que tivessem 
escravos, alem do alqueire de arroz pillado por 
Fogo, darem aquillo que a Sua devoção pedisse 
por adjuctorio, e não Se negaváo mesmo por de- 
voçáo a Virgem Senhora da Guia mandarem algúas 
vezes escravos para ajudar n'aquillo que pudessem. 
O mesmo Hl» Capitáomor vocalmente aisse, que 
deixava ordem ao Capitáo Command** para man- 
dar roçar o Lugar e todo seu circuito, e determi- 
nava que Se fizesse toda esta Limpa por esquadras, 
ficando mesmo 111» Cap"" Mór, e o R. José Fran- 
cisco de Mendonça por Protectores da ditta obra, 
e para clareza e tudo todos Se assignaráo no 
mesmo dia, mez, éra ut Sujprà. Joaquim Júlio da 
Resureiçâo Leal, Vizitador Ordinário = Jozé Fran- 
cisco de Mendonça, Vigário CoUado = Romáo de 
França, Doador = Jozé António Peniche, Capitão 
Mór = Francisco Paula França, command'' = Joa- 
quim Pupo Ferreira = Gregório Félix de Almeida 
= António Gonçalves Fontes = Ignacio da Costa 



* Descendo da Freguezia para baixo o primeiro bairro hé o da lUia Formosa, 
assí chamado talvez pela vista agradável que ofíerece a extremidade Superior da Ilha. 
quando a Ribeira está baixa. Fronteiro está o Ribeirão cf tomado do Ilha Formosa. 



— 31 — 

França = Braz da Cunha Ramos = Joaquim Pe- 
reira Cardozo ^^ Bento Jozé da Costa = Ignacio 
Beneditto de Freitas = Anacleto Pereira = Jozé 
Gonçalves da Costa = Jeremias de Souza e Oli- 
veira = Manuel Bento Dias = Ignacio Gomes = 
Reginaldo Jozé de Pontes = Bento Pupo Ferreira 
= Joaquim Pereira de Oliveira -=:= António Gomes 
da Silva = Rafael Gonçalves de Oliveira = Estes 
três últimos e Jeremias de Souza assignaram-se 
com t cruz, por não saberem escrever.» 
Este documento está conforme ao Orighial, como diz 
o próprio Padre Mendonça, que o transcreveu do primeiro 
Livro do Tombo, que então existia. 

Tomada posse do logar aonde se devia erigir. o novo 
templo, tendo sido roçado o mesmo local para ahi se 
fazerem os moradores da Freguezia as Suas cazas, abrindo 
ruas etc. deu-se inicio á nova igreja, da qual já falei no 
começo deste pequeno trabalho, igreja esta que acha-se 
em minas. Parece-me, porém, que os promettedores do 
alqueire de arroz não cumprirão as suas promessas : talvez 
as ameaças do bom padre de nada valessem, e que do 
purgatório, apezar de serem muito crentes, os habitantes 
não tivessem medo. Assim deve ter ficado a edificação 
parada, até que o prelado, vendo-se embaraçado, enviou 
um requerimento ao General da Cidade de S^ Paulo para 
se manifestar a favor da Obra da Nova Matriz, requeri- 
mento este que foi respondido, sendo intermediário da 
correspondência o Capitão Mór da Villa de Iguape, res- 
posta esta datada de ii de Janeiro de 1820, cujo teor é 
o seguinte : 

* Havendo-me exposto o Reverendo Vigário 
da Freguezia de Xiririca José Francisco de Men- 
donça a necessidade que havia de fazer-se nova 
Igreja Matriz por causa das continuadas chêas, e 
inundaçóens da Ribeira, que não Só destroem o 
Templo, mas táobem impedem aos Moradores de 
edificarem cazas na visinhança, por ser todo o 
terreno paludoso, e que havendo dado principio a 
esta obra por húa contribuição voluntária de arroz, 
com que o Povo concorria, authorizado pela Ca- 
mará, muitos se Subtrahiáo ; e tendo eu conside- 
raçáo a Attestaçáo da Camará (digo da mesma 
Camará) a esse respeito, a informação de V. M. 
e outros, a que procedi ao mesmo assumpto, e 
cumprindo com as Recommendações a Sua Mages- 
tade que Manda, que os Governadores e Capitaens 
Generáes desta Capitania favoreçáo e coadjuvem 



_ 32 — 

os Vigários das Igrejas, hei por bem conformar-me 
com a informação de V. M.. e mando que a faça 
pôr em inteira execução, para o que lhe remetto 
por copia assignada pelo Commendador Manuel 
da Cunha de Azevedo Coutinho Souza e Chixor- 
ro, Secretario deste Governo, e V. M. me parti- 
cipará o augmento que leva o Templo por meio 
desta providencia. Deus guarde a V. M. Sam 
Paulo, 1 1 de Janeiro dè 1820. João Carlos Augusto 
Oeynhausen = Sn"^ Cap"* Mór das Ordenanças da 
Villa de Iguape. 
Eis o teor da informação mencionada : 

« IIP** e Ex"""^ Senhor. Em cumprimento do 
respeitável Despacho de Vossa Exellencia pro- 
ferido no Requerimento junto do Muito Reverendo 
Vig** da Freg^ de Xirinca Sobre a continuação 
da nova Matriz, que pertende, e q' hé muito útil 
e conveniente pelas rasoens recontadas no ditto 
Requerimento. Hé meu parecer, depois de ouvir 
as propossiçoens das principaes pessoas da ditta 
Freguezia, que para formarem hum rendimento 
annual para a factura da ditta Matriz hé justo, e 
bem proporcional que cada cabeça de caza con- 
tribua annualmente com tantos meios alqueires de 
arroz de casca, como quantas pessoas de confissão 
tiverem em Sua caza, ou Sejáo filhos, aggregados, 
ou escravos, em cujo pagamento ou contribuição 
voluntária convieráo as dittas principaes pessoas, 
e de Suas mutuas vontades, ao que Se deverão 
Sujeitar ou obrigar as mais cabeças de caza in- 
significantes. Porem, prevendo-se que em muitas 
cazas (especialmente pobres) há por exemplo oito 
ou dez pessoas de confissão, e d^elles não Se em- 
pregáo na Lavoura Senáo dous ou trez, e os mais 
em nada ajudáo por pequenos : Sou de parecer 
q* fiquem izentos os individuos de Confissão q* 
náo tiverem completos doze annos de idade, porq 
dahi para menos nada ajudáo, bem como alguns 
miseráveis inválidos, que melhor conhecerá o ditto 
Reverendo Vigário. 

Aquelles moradores ou Freguezes, que tive- 
rem arroz p* pagarem a contribuição annualmente, 
ou porq' não plantassem nem colhessem, ou por 
Se terem empregado em outros Serviços, devem 
ser obrigados a virem ou por Si, ou por outrem 
á Sua custa, trabalhar na Obra da Igreja Matriz 
té perfazer a valor do arroz, que devia dár, Se- 



— 33 — 

gundo o preço corrente daquella Freg* no mesmo 
anno, abonando-se o preço dos jornaes pelo mesmo, 
cf a obra da Igreja estiver pagando geralmente, 
ror este modo Se pode conseguir a Obra sem 
vexame dos povos em mais ou menos annos, Se- 
gundo o rendimento q' produzir a d* Contri- 
buiçáo, o qual Supposto Seja inodico, tem a Seu 
favor e beneficio berem táo bem de pouco valor 
os materiaes necessários naquelle Lugar. Hé quan- 
to tenho a propor a V. Ex* que mandará oq' for 
Servindo. Iguape 28 de Novembro de 1819. José 
António Peniche Capitáo Mór — Manuel da Cunha 
de Azevedo Coutinho Souza Chixorro.» 
Eis alguns dos documentos que se referem á funda- 
ção de Xiririca ( antiga e actual ). Quanto á conclusão da 
Matriz e ao povoamento do logar, nada posso dizer, visto 
não achar documentos dos quaes pudesse deduzir qual- 
quer cousa a respeito, duvidando mesmo que exista 
alguma cousa ainda sobre o assumpto. 

A maneira como foi fundada Xiririca é quasi tal 
qual como se fundam ainda hoje os povoados ; em nada 
differe : Primeiro é a capellinha que é erguida, ou por 
mera devoção do proprietário do terreno sobre o qual 
ella e erigida, ou mesmo por especulação, pois em dias 
determinados, no dia do patrono da Igreginha, por exem- 
plo, são queimados fogos, fandangos e outros rachapés 
são executados, divertindo-se a vismhança e os forasteiros 
á sombra do milagroso protector do tosco sanctuario. 
Uma venda ou maior armazém é logo construído nas 
proximidades, uma casa já se levanta ahi, e em bem 
pouco tempo organisa-se o povoado ; este torna-se com- 
mèrcial, e, si as terras circumvisinhas são boas, quasi 
sempre o futuro do logarejo está garantido. 

Na verdade, a actual Xiririca não atravessou por 
completo todas as phases pelas quaes tem de passar 
uma povoação futurosa, porém, a passos curtos, ella irá 
avante, e oxalá que saibam os xiriricanos aproveitar sem- 
pre as boas occasiões, para fazer da sua amável e hos- 
pitaleira cidade uma importante localidade, situada no 
mais lindo e fértil rio sul-paulistano, na grandiosa Ribeira 
de Iguape! 



- 34 



Estudos e obserDQções sobre o quebrabunda ou peste 

de cadeiras 

PELO Dr. Adolpho Lutz. 

Dou em seguida uma relação das observações e dos 
estudos que tive occasião de fazer no Estado do Pará 
sobre a moléstia dos cavallos conhecida pelo nome vul- 
gar de « Quebrabunda » (i). Tendo confirmado a identi- 
dade da moléstia com o que se chama em outros logares 
«Mal de cadeiras »' ou «reste de cadeiras», empregarei 
geralmente este ultimo nome, por mais esthetico e uni- 
versalmente conhecido. Principiarei o meu estudo com 
alguns dados históricos e geographicos, pedindo desculpa 
se nesta e em outras occasiões tiver de repetir cousas 
já conhecidas pelo menos de uma parte dos meus lei- 
tores (2). 

Em Marajó, que é hoje considerado como foco prin- 
cipal da peste de cadeiras, esta epizootia não tem reina- 
do sempre. Sabe-se que antes de 1828 os cavallos em 
toda a ilha existiam em numero enorme, o que clara- 
mente indica não ter ainda existido a peste naquella oc- 
casião, porque com um numero tão grande de animaes 
susceptiveis não teria deixado de assumir maior proporções. 

Attribue-se o apparecimento subsequente da molés- 
tia ao facto de se ter feito grandes matanças de cavallos 
com o único fim de aproveitar o couro, deixando os ca- 
dáveres abandonados ao ar livre, sendo assim a peste a 
consequência da putrefacção destes. Esta idéa, derivada 
provavelmente de observações feitas nas guerras com 
moléstias epidemicas do género humano, não pôde de 
forma alguma explicar-nos o apparecimento repentino da 
peste de cadeiras, visto ser esta epizootia causada por 
um protozoário encontrado no sangue do animal vivo, 
desapparecendb rapidamente o perigo de transmissão 
depois da morte do mesmo e antes do estabelecimento 
de uma putrefacção franca. 

Devemos antes suppôr que mais ou menos nessa 
época a ilha perdeu a protecção natural que lhe dava a 
sua posição isolada, pela introducção de algum cavallo 



— 35 — 

infeccionado vindo de outro ponto, onde a moléstia já 
existia. Achando-se este no primeiro período da moléstia 
ou soffrendo de uma forma chronica e attenuada, fafcil- 
mente escaparia á observação. Uma vez introduzida a 
peste, encontrou logo as condições mais favoráveis para 
o seu desenvolvimento epidemico, revestindo uma forma 
tanto mais grave quanto não havia a menor immunidade 
preexistente. 

Deu-sè então o que costuma dar-se com a febre 
amarella, que tanto pelo seu modo de transmissão como 
pela sua dependência de certas condições locaes não 
deixa de ter muitas analogias com o mal de cadeiras. 
Quero dizer que houve primeiro uma epidemia geral 
muito intensa, estabelecendo-se depois um foco endémico 
onde a moléstia até hoje reina continuadamente de um 
modo mais ou menos esporádico, assumindo as vezes a 
forma de epidemias locaes e limitadas, sem todavia che- 
gar a produzir nova pandemia. 

O sr. V. Chermont de Miranda publicou em 1904 um 
interessante estudo (3) do qual tiramos os dados seguintes: 

« O mal das cadeiras fez a sua apparição em Ma- 
rajó pela primeira vez em 1828, tendo reinado até hoje, 
auer dizer, durante um periodo de quasi oitenta annos. 
>e 1828 até 1836 reinou com tanta intensidade que quasi 
extinguiu o gado cavallar tão numeroso anteriormente 
que Ferreira Penna diz ter existido um milhão de cavai- 
los no fim do século XVIIL Data desta éppca o uso do 
boi como animal de sella ». 

« Em 1839 a assem bléa legislativa provincial votou 
um premio de quatro contos pela descoberta de um meio 
efficaz para extinguir a peste quebrabunda ». Em conse- 
quência disso foram feitas diversos tentativas para deter- 
minar a natureza da melestia que depois foram repetidas 
em varias occasiões, sem que se chegasse a um resultado 
aproveitável. 

Em 1903, segundo o auctor acima citado, a moléstia 
deu em toda a ilha um prejuizo de i.ioo cavallos appro- 
ximadamente, calculado em mais de 15 ^1^ da sua popula- 
ção cavallar. Desde então até hoje parece ter havido 
outra vez uma diminuição bastante accusada, a julçar 
pelas informações que obtive e as observações que tive 
occasião de fazer. 

No seu livro : « As Regiões Amazonicas » o Barão 
de Marajó, falando de Marajó, também dá alguns dados 
interessantes sobre o assumpto. Diz que em 1806 o nu- 
mero de fazendas nesta ilha tinha subido até 226, ha- 
vendo quinhentas mil cabeças de gado bovino. O cavai- 



-36- 

lar calculava-se existir em numero duplo do bovino, pre- 
judicando este pela insufficiencia dos pastos. Vieram 
depois os episódios já mencionados acima. Um recensea- 
mento feito quando o auctor era presidente do Pará em 
1881 accusou oito mil cabeças de gado cavallar na ilha, 
o que, em vista de dados insufficientes, pôde ser augmen- 
tado de modo a chegar ao numero total de dez mil. 

Falando da ilha de Mexiana, que visitou em No- 
vembro de 1848, diz Wallace no seu livro : « Traveis on 
the Amazon » que nos últimos annos os cavallos quasi 
foram exterminados por uma moléstia epidemica que nâo 
deve ter sido outra senão a peste de cadeiras, a qual 
constituiu outro foco endémico nesta ilha (4). 

No Baixo Amazonas a moléstia também existe desde 
trinta annos para cá pelo menos, segundo as informações 
de pessoas dignas de fé. Tive occasião de observar na 
fazenda Santa Cruz, perto de Óbidos, um caso typico 
procedente de outro logar visinho, não havendo casos na 
própria fazenda. 

Sob uma forma mais ou menos esporádica parece 
existir em toda a bacia do Amazonas e consta que ulti- 
mamente appareceu em forma epidemica no território do 
Acre. Encontra-se também no Peru cisandino. 

Quanto aos outros Estados do Brazil tive informa- 
ções sobre a sua frequência nos Estados de Maranhão e 
Goyaz por conhecidos alli residentes. Diz-se existir nos 
Estados de Matto-Grosso e Ceará. No Estado de São 
Paulo só se observa de um modo muito esporádico ou 
em logares muito afastados da Capital. 

Fora do Brazil o mal de cadeiras occorre também 
na Bolivia, n*uma parte da Republica Argentina e prin- 
cipalmente no Paraguay. 

Quanto á historia da moléstia em outras regiões e 
principalmente á questão de saber onde ella foi observa- 
da em primeiro logar, faltam-me quasi por completo in- 
formações competentes, mas não duvido que com o tem- 
po ainda se poderá saber alguma cousa a respeito e fica- 
ria muito agradecido por qualquer informação sobre este 
assumpto, 

Póde-se dizer de um modo geral que a moléstia 
occorre de preferencia em zonas tropicaes ou subtropi- 
caes, em regiões bastante alagadas ou mesmo periodica- 
mente inundadas. Não se observa como epizootia em 
animaes de estábulos que se acham de muito tempo nas 
cidades, o que indica claramente faltar alli o elemento 
transmissor, quando houver importação de animaes in- 
feccionados. 



— 37 — 

Se estas observações têm um valor geral, como tudo 
me leva a acreditar, não deixam de ter grande importân- 
cia para a determinação do modo pelo qual a moléstia 
se propaga. 

A historia da peste de cadeiras tanto como os sym- 
ptomas que a acompanham indicam que se trata de uma 
moléstia infecciosa, devida ao parasitismo de um micró- 
bio, que, em circumstancias favoráveis, pôde ser trans- 
mittido a outros indivíduos da mesma espécie. Todavia, 
as investigações feitas com o fim de descobrir este mi- 
cróbio não deram resultados satisfactorios, até que em 
1901 Elmassien conseguiu no Paraguay observar a pre- 
sença de trypanosomas no sangue dos animaes infectados. 
Como desde 1880 organismos muito semelhantes foram 
reconhecidos como causadores de três differentes epizoo- 
tias de caracter muito grave, já havia a priori muita pro- 
babilidade em favor desta etiologia e de facto as obser- 
vações de Elmassien foram logo confirmadas na Republica 
Argentina por Voges, Zabala et Lignières e o virus, 
levado para Europa, foi usado por Laveran et Mesnil, em 
Paris, para um estudo do parasita e da moléstia produ- 
zida pela sua inoculação, servindo para comparação de- 
talhada as outras espécies de trypanosomas pathogenicos. 

De lá os virus foi levado para vários laboratórios e 
também tive occasião de estudal-o no Instituto Bacterio- 
lógico de S. Paulo, ao mesmo tempo que os trypanoso- 
mas da surra e da nagana. Não consegui observar casos 
da moléstia em S. Paulo, mas Vital Brazil e Carini acha- 
ram no sangue de dous burros doentes trypanosomas, 
que tive occasião de comparar e que não me parecem 
differentes do trypanosomas equinuntj como foi chamado 
o parasita descoberto por Elmassien. O mesmo se dá 
com os trypanosomas que encontrei no Estado do Pará 
no sangue de treze cavaílos doentes e dos quaes muitos 
morreram com os symptomas do quebrabunda. Assim 
pôde se considerar um facto verificado, o que aliás era 
de esperar, que o quebrabunda de Marajó é idêntico ao 
mal de cadeiras do Paraguay e da Republica Argentina, 
sendo até hoje a única infecção por trypanosomas, obser- 
vada entre nós em animaes domésticos. 

Não podemos concordar com a opinião do fallecido 
dr. Vicente Chermont de Miranda, que attribue a peste 
de cadeiras a uma cysticercose equina (5 . 

Sem entrar n'uma descripção minuciosa dos trypa- 
nosomas direi simplesmente que se trata de flagellados, 
que no estado adulto são parasitas do sangue e da lym- 
pha de vários animaes vertebrados. O corpo transparente 



- 38 - 

e fusiforme, porém torcido no eixo longitudinal em íórraa 
de s;icarolha, mostra de um lado uma extremidade cónica 
e do outro uma ponta comprida terminada por um fla- 
gello ou fio bastante comprido que representa o prolon- 
gamento e o bordo reforçado de uma membrana lateral 
ondulatória ; esta nasce perto da outra extremidade e 
acompanha um lado do corpo. Por meio destss appare- 
Ihos o parasita se move com bastante intensidade com o 
flagello para diante, parecendo-se o movimento, ora com 
o de uma cobra, ora com o de um ferro de pua, o que 
lhe valeu o seu nome grego. 

O parasita descoberto por Elmassien que recebeu o 
nome scientifico de trypanosoma equinum, tem um com- 
primento de cerca de 25 e uma largura de i 1/2 a 2 mil- 
lesimos de n illimetro, o que permitte reconhecel-o nas 
preparações microscópicas pela sua forma e os seus mo- 
vimentos com um poder de 200 para 400 v^zts. 

Para estudar a estructura do parasita, usa-se prepa- 
rações microscópicas fixadas pelo calor ou pelo álcool e 
coloridas com matérias corantes pelos methodos geral- 
mente conhecidos. O mais usado é o processo de Ro- 
manowsky e as suas modificações por Laveran, Giemsa, 
etc. Sendo estas soluções facilmente alteráveis nos climas 
quentes, experimentei com muitas outras cores e encon- 
trei no « azul Victoria » (6) da fabrica de Ludwigshafen 
uma tinta que permitte perceber nitidamente todos os 
detalhes da organisação, sem colorir os glóbulos sanguí- 
neos quando a preparação é fixada pelo calor só. Usan- 
do alume para mordente, pôde se obter uma coloração 
tão intensa que se reconhece o organismo já com pode- 
res muito fracos, o que permitte percorrer as preparações 
com maior rapidez. Por meio de um. outro processo con- 
segue-se salientar os núcleos. 

Obtive também preparações bastante distinctas com 
« cresylechtviolett ». A « thionina » também se presta 
para preparações de sangue, por não colorir os glóbulos 
vermelhos mas os parasitas ficam um tanto pallidos. Ha 
muitas outras cores que tingem os parasitas sem todavia 
dar resultados melhores. 

O azul Victoria colora a fibrina, por isso convém 
fazer as preparações antes que o sangue tenha tempo de 
coagular-se. A camada de sangue pode ser um pouco 
mais grossa que para o emprego do methodo de Roma- 
nowsky, mas não deve exceder uma certa grossura. A 
coloração obtem-se im mediatamente aquecendo ligeira- 
mente a solução em cima da lamina e um pouco mais 
lentamente a frio. Convém empregar para cada lamina 



- .^ - 

solução nova da qual bastam algumas gottas ao titulo de 
I **/o ou menos. 

Nas preparações coloridas nota-se além dos elemen- 
tos já descriptos um núcleo bastante grande. Nos outros 
trypanosomas percebe-se um segundo núcleo um pouco 
menor que serve como base ao ílagello; este, porém, 
faha ou é apenas indicado no trypanosoma equinum, o 
que permitte distinguil-o das outras espécies. Encontra-se 
também exemplares maiores com dous núcleos ; estes se 
acham em via de divisão longitudinal. 

As frypanosomiases ou infecções por trypanosoma 
denominam-se hoje frequentemente pelo termo mais 
breve, embora menos correcto, trypanoses. Além de uma 
forma humana que é a causa da moléstia do somno ou 
lethargia africana, conhece-se ainda varias espécies que 
accomettem os grandes animaes domésticos, sendo, porem, 
desconhecidas entre nós, com a única excepção da peste 
de cadeiras. Estas infecções apresentam muitas feições 
communs. Os parasitas apparecem no sangue em numero 
variável, ora muito grande, ora moderado ou mesmo 
muito diminuto. Observam-se algumas vezes de um modo 
continuo, mas geralmente apparecem com interrupções 
mais ou menos compridas. A moléstia assim pôde ser 
aguda, sub-aguda ou chronica e muitas vezes interrompi- 
da por períodos de melhoras appareiHes. 

Nas experiências comparativas que fizemos em ani- 
maes de laboratório, a infecção com o trypanosoma Evansii 
(surra) foi mais aguda que a moléstia produzida pelo 
parasita da nagana (tr. Brucei) e esta evoluiu mais ra- 
pidamente que a peste de cadeiras, mas parece que 
esta ultima tem uma virulência muito variável. 

Quando os trypanosomas invadem o sangue em 
grande numero, produzem paroxysmos febris, as vezes 
muito altos, principalmente no principio da infecção. São 
seguidos de intervallos variáveis, caracterisados pelo 
abaixamento da temperatura e o desapparecimento mais 
ou menos completo dos parasitas do sangue. Com a 
continuação do parasitismo observa-se um emmagreci- 
mento, as vezes rápido, bem como anemia, que pôde ser 
acompanhada de edemas, apparecendo também tumefac- 
ções glandulares e erupções cutâneas. Os phenomenos 
nervosos, observados na moléstia do somno, na dourine 
e na peste de cadeiras pertencem a um periodo adianta- 
do da moléstia e geralmente conduzem em pouco tempo 
a um desenlace fatal, se a therapia não consegue obstar 
ao seu progresso. Não constituem a moléstia, mas apenas 
um accidente terminal, devido á intoxicação chronica de 



— 40 - 

certas cellulas nervosas resultante dos effeitos sommados 
do parasitismo prolongado. 

Assim, a peste de cadeiras pôde apparecer sob for- 
mas pouco características que conduzem á morte sem o 
quadro do quebrabunda ou prolongam-se por muito 
tempo sendo o resultado final geralmente, mas não ne- 
cessariamente, fatal. Nestes casos os parasitas podem ser 
muito raros e difficeis de encontrar-se. Pertencem a este 
numero, como bem reconheceu o sr. V. Chermont de 
Miranda, muitos casos chamados mormo secco. As vezes 
apparecem em primeiro logar symptomas cerebraes con- 
stituindo a forma conhecida por mormo da cabeça. 

O começo da trypanose de Elmassien é difficil de 
determinar, quanda não se trata de moléstia experimen- 
tal. As pessoas que lidam com os cavallos reconhecem 
geralmente que este-; estão doentes, porque se cansam 
depressa e não podem mais prestar os mesmos serviços 
como antes, ou notam que o animal emmagrece rapida- 
mente. 

Faltando qualquer outra explicação e na ausência 
de alguma moléstia epidemica de outra natureza, estes 
symptomas são muito suspeitos, principalmente se o ca- 
vallo continua a alimentar-se como antes. Observa-se fre- 
quentemente uma anemia muito intensa, mas esta corre 
em grande parte pqj* conta dos morcegos, que perseguem 
muito os cavallos e principalmente os que já estão doen- 
tes. A tumefacção das glândulas lymphaticas debaixo do 
queixo, um corrimento seroso e, as vezes, purulento do 
nariz, o augmento da secreção conjunctival, o apparcimen- 
to de edemas são symptomas que, na falta de uma outra 
• explicação, devem chamar a attenção, mas, além de não 
apparecerem muito cedo, não são constantes. O augmento 
de temperatura é bastante difficil de observar, nas condi- 
ções actuaes das fazendas da ilha de Marajó, onde os 
cavallos vivem soltos e são tão pouco mansos que geral- 
mente não se pôde fazer um bom exame sem tombal-os. 

Erupções cutâneas são de observação difficil, tanto 
mais que muitos cavallos soffrem de sarna. O appareci- 
mento dos symptomas de fraqueza do trem posterior é 
muito característico quando se dá gradualmente, o que 
não é a regra, mas é sempre um symptoma tardio, pelo 
qual não se pôde esperar, para iniciar uma cura ou tra- 
tar da prophylaxia. 

Seria também inútil esperar-se o esclarecimento do 
diagnostico do exame dos cadáveres de animaes falleci- 
dos durante a moléstia ou em consequência d'esta. As 
lesões dos orgams não têm nada de característico e 



41 — 

ai:)enas correspondem ao que já se observa durante a 
vida, como o emmagrecimento, edemas e derramamentos 
serosos, etc. O próprio systema nervoso não offerece 
nada de característico ao olho nú e as alterações que 
devem existir na meduUa espinhal têm um caracter intei- 
ramente microscópico. O liquido cerebro-espinhal parece 
as vezes mais abundante e mais turvo do que de costu- 
me, mas este caracter não é constante. 

Visto que a pesquiza de um signal clinico, caracte- 
rístico e facilmente perceptível, não nos deu resultado, só 
resta a demonstração do elemento causador para firmar 
o diagnostico. O parasita pôde ser procurado directa- 
mente ou por meio da inoculação de um animal sensível. 

Na esperança de facilitar o diagnostico fiz uma série 
de experiências variadas procurando o parasita no liquido 
de puncção das glândulas lymphaticas, das vísceras e no 
liquido cerebro-espinhal (9). 

Cheguei ao resultado que não ha razões para substi- 
tuir por outro liquido o sangue da circulação, facilmente 
accessivel nas veias superficiaes e nos capillares da pelle. 
O mesmo serve para a inoculação de animaes, seja de- 
baixo da pelle, seja entre os músculos ou mesmo nas 
veias ou nas cavidades serosas, quando se pode contar 
com a esterilidade dos instrumentos e a ausência de 
contaminação. Para injecções intravasculares é preferível 
empregar só o soro do sangue. 

A pesquiza microscópica no sangue pôde ser facil- 
mente aprendida por pessoas intelligentes. Os proprietá- 
rios de fazendas que quizerem pratical-a precisam de um 
microscópio e alguns accessorios gue se pôde obter por 
duzentos mil réis em qualidade sufficiente para este fim. 
Algumas lições praticas são quasi indispensáveis e pode- 
rão ser obtidas no posto zootechnico que se deve inau- 
gurar em breve. 

Um manual de microscopia também será de grande 
utilidade para quem tem de trabalhar só e o ajudará a 
fazer da microscopia um divertimento útil e instructivo. 

No exame de sangue fresco convém usar uma lami- 
nula bastante grande, de modo que uma pequena gotta 
de sangue fique bem espalhada, e correr então as prepa- 
rações com um poder bastante fraco, procurando os loga- 
res onde se nota um movimento vibratório. Sendo o re- 
sultado negativo convém repetir o exame da preparação 
alguns minutos depois quando os glóbulos agrupados 
(aglutinados) deixam entre si espaços claros para onde os 
parasitas sahem e onde podem facilmente ser reconhecidos 
por seus movimentos serpentinos (10). 



— 42 — 

Quando os parasitas são muito abundantes, pôde se 
contar alguns no mesmo campo ; outras vezes somente a 
custo encontra-se um numa preparação inteira. Em casos 
negativos é bom repetir o exame em alguns dias successi- 
vos e principalmente quando o animal parece mais doente. 
No ultimo periodo quando apparecem os symptomas 
paralyticos, os parasitas as vezes faltam completamente, ou- 
tras vezes são abundantes. N*este ponto as minhas observa- 
ções confirmam os dados de Elmassien e outros autores. 

Na falta de microscópio bastam preparações seccas, 
que se obtém espalhando numa lamina uma camada fina 
de sangue, que se fixa então, seja pelo calor, seja no ál- 
cool absoluto. 

Estas preparações podem depois ser coloridas e exa- 
minadas por pessoas competentes, a quem também se 
pôde remetter para exame os animaes inoculados. 

A inoculação dos animaes de experiência obtem-se 
pela injecção debaixo da pelle de um pouco de sangue 
que se pode tirar de uma veia com seringas appropria- 
das. Em casos duvidosos convém injectar alguus centime- 
tros cúbicos. 

Quasi todos os mammiferos experimentados podem 
contrahir a infecção, mas a intensidade d'esta e a gravi- 
dade dos symptomas variam muito, alem de haver diffe- 
renças na virulência dos próprios trypanosomas. 

Dou em seguida o resumo das minhas observações 
sobre a receptividade de certos animaes de experiência, 
que differem em alguns pontos, da lista estabelecida por 
Nocard. Foram obtidos com differentes virus de prove- 
niência variada. 

Para animaes de experiência recommendo em pri- 
meiro logar OS: nossos pequenos simianos: macacos de 
cheiro, saguins, macacos de prego, sendo. os últimos um 

f)ouco menos sensiveis, talvez por causa do seu maior vo- 
ume. Nos primeiros temos as vezes encontrado trypano- 
somas nos primeiros dias depois da inoculação, sendo já 
bem numerosos depois de três ou quatro dias quando em 
muitos outros animaes a infecção só apparece muitos dias 
depois. A infecção n'estes macacos é rápida, muito in- 
tensa e frequentemente quasi continua. A njolestia pro- 
gride rapidamente e mostra symptomas bem accusados^ 
como edema, conjunctivite e keratite e finalmente as ve- 
zes phenomenos. paralyticos evidentes. (Em dous casos 
observou-se também gangrena da parte terminal da cauda). 
Os mesmos animaes, principalmente quando mansos, pres- 
tam-se também muito bem para experiências therapei\ticas 
c(>m vários remédios. 



— 43 — 

Uma preguiça com m um (Bradypus tridactylus) mos- 
trou também uma sensibilidade enorme. Os parasitas ap- 
parecerâo logo, alcançando a maior proporção observada 
em qualquer animal e não desapparecerâo até á morte, 
causada por cachexia extrema, accompanhada de hypo- 
tbermia. N'um outro exemplar o decurso foi interrompido 
e a moléstia por isso um pouco mais demorada. 

Entre os roedores os camondongos brancos têm sido 
recommendados como animal de preferencia, o que pa- 
rece completamente justificado quando podem ser obtidos 
facilmente. Isto não se dá entre nós e os importados mor- 
rem logo quando não succumbem já na viagem, sendo 
isso aparentemente devido a efíeitos do clima. Os ratos 
brancos são mais resistentes e fáceis de obter, porém a 
sua sensibilidade já é muito menor e a infecção com ma- 
terial virulento pôde dar um resultado demorado ou ne- 
gativo. Os camondongos e ratos selvagens são pouco com- 
modos para experiência e morrem facilmente na captivi- 
dade ; accresce que os últimos contêm frequentemente 
trypanosomas que pouco se distinguem dos da peste de 
cadeiras, necessitando assim um exame prévio muito mi- 
nucioso. 

As cobaias podem ser utilisadas para a conservação 
do virus, mas não são bastante sensíveis para as primei- 
ras experiências importantes. A infecção é tardia e pôde 
falhar quando o virus não é abundante e forte; a pre- 
sença dos parasitas no sangue é muito irregular e a mo- 
léstia tem symptomas pouco característicos e as vezes um 
decurso muito longo. Com as passagens repetidas o 

Earasita acostuma-se mais. As preás e cutias parecem 
astante resistentes, porque nos dois tivemos resulta- 
dos aparentemente negativos com^ uma dose geralmente 
sufficiente de virus bastante activo. O coelho parece dif- 
íicil de obter-se no Pará e certamente não é tão sensível 
como os pequenos macacos. O mesmo pôde se dizer das 
capivaras, que todavia quando novas são de manipulação 
commoda, embora um pouco delicadas. As experiências 
cora estes animaes mostram uma sensibilidade media e of- 
ferecem um interesse especial por causa da occorrencia 
dos casos expontâneos offerecendo symptomas de paraly- 
siâ dos membros posteriores, como podem também ser 
observados nas experiências. Esta infecção expontânea, 
aliás raríssima em anímaes novos, deve ser excluída o 
mais possível, nas experiências importantes. A presença 
dos parasitas é um tanto inconstante, alternando p^eriodos 
de abundância com outras de escassez ou ausência com- 
pleta, o que sempre produz uma moléstia mais demorada. 



— 44 — 

Cães, coatis e mucuras (gambás) podem ser usados 
com vantagem para a conservação do virus, sendo de sen- 
sibilidade media e fáceis de obter. O apparecimento do 
f)arasita é demorado e por isso não se recommendam para 
ins diagnósticos. 

O próprio cavallo, além de poder usar-se somente 
em circumstancias extraordinárias, não se presta tão bem 
como os macacos. O decurso da moléstia, a julgar pelos 
casos expontâneos, é muito incerto, e a quantidade dos 
parasitas no sangue varia muito e raras vezes alcança 
proporções altas. De outro lado, a infecção artificial per- 
mitte julgar da virulência e observar todo o decurso da 
moléstia em circumstancias favoráveis, como foi feito por 
vários autores, e finalmente permitte experiências thera- 
peuticas em lugares ' onde a moléstia expontânea não 
existe. 

Parece verificado que a mula e o asno são mais re- 
sistentes que o cavallo e as vezes saram da infecção. 

A infecção expontânea de outros animaes domésticos 
ainda não foi verificada, exceptuando-se o cão que as ve- 
zes contem os mesmos parasitas que os cavallos do logar. 
Ha porém, em Marajó, observadores que notaram raras 
vezes nos porcos os symptomas da peste de cadeiras e 
outros querem ter observado casos em carneiros. O gado 
vaccum certamente não mostra symptomas caracteristicos, 
nem soffre de um modo evidente em lugares onde a mo- 
léstia é frequente. 

Segundo Nocard o boi, o carneiro e o porco quando 
inoculados experimentalmente, não apresentam accidentes 
mórbidos e o sangue não mostra parasitas quando exami- 
nado no microscópio, mas conserva-se virulento durante 
quatro a cinco mezes, o que quer dizer que os parasitas 
existem, seja em numero muito pequeno, seja numa outra 
forma não conhecida. Dizem porém Ligniéres, Zabala e 
Voges que o carneiro e a cabra morrem de cachexia de- 
pois de três ou mais mezes. 

* * 

Temos agora de discutir o modo de transmissão da 
peste de cadeiras. De um modo geral sabemos que a pro- 
pagação das trypanoses dos grandes mammiferos se faz 
por dous modos differentes, sendo um a inoculação directa 
do sangue y como nas experiências acima citadas, outro o 
contacto de secreções contaminadas com uma mucosa ou 
uma superficie ferida. Este modo de transmissão só se 
observa excepcionalmente e não tem importância nas epi- 



— 45 — 

zootias do gado, as quaes (com a única excepção da dou- 
rine) resultam da transmissão por certas e determinadas 
espécies de insectos chupadores de sangue, todos perten- 
centes á classe dos dipteros. . Assim se explica que certas 
trypanoses sejam limitadas a certas localidades, situadas 
em zonas bem determinadas, como foi primeiramente ob- 
servado no caso da nagana, cujo trypanosoma é propa^ 
gado pelas moscas tsé-tsé do género ghssina que é ex- 
clusivamente africano. Por isto, tanto esta moléstia, como 
a moléstia do somno, cuja propagação depende igualmente 
de espécies de glossUta, não se estenderão a outros con- 
tinentes, embora que a ultima moléstia fosse frequente- 
mente introduzida na America por ,meio de negros afri- 
canos. 

Imp6e-se assim o estudo dos dipteros chupadores 
de sangue para a resolução do problema da transmissão 
da peste de cadeiras e da maneira de ser evitada. Darei 
mais adiante o resultado das pesquizas que fiz n'este 
sentido. 

Sendo as trypanoses produzidas por parasitas que 
se deixam experimentalmente transmittir a mammiferos 
de espécies dilferentes, produzindo infecções de gravida- 
de desigual, convém estudar quaes as espécies que n'um 
logar dado apresentam alfecções espontâneas com parasi- 
tas no sangue. Estas espécies, quando mordidas pelos 
chupadores de sangue, garantem em certos logares a 
persistência da moléstia, na falta de qualquer animal do- 
mestico ; mas estes, se forem introduzidos, posto que em 
pei-feita saúde, contrahem logo a infecção, sem que se 
possa determinar a sua origem. Assim na Africa os ru- 
minantes e equideos selvagens conservam o vírus da 
nagana e contaminam as moscas tse-tsé, de modo que 
estas pelas suas picadas podem infeccionar animaes do- 
mésticos em logares onde não ha criação alguma. 

Entre nós parece dar-se um facto análogo. Observa- 
ções, feitas em muitos logares por observadores perfeita- 
mente independentes e livres de idéas preformadas, 
estabelecem o facto que as epizootias de peste de cadei- 
ras são acompanhadas ou precedidas por uma moléstia 
que accommette as capivaras produzindo nelks sympto- 
mas muito similhantes com os da trypanose equina. Ora 
a distribuição natural da peste de cadeiras coincide de 
um modo geral com a das capivaras e como estas em 
muitos logares representam o único mammifero maior, 
observado com bastante abundância nos próprios pastos 
dos cavallos ou na sua visinhança im mediata, parece já 
a priori provável que sejam procurados de preferencia 



-46- 

pelas espécies indígenas de chupadores de sangue que já 
existiam em grande numero muito antes da introducçâo 
do cavallo, do boi e de outros animaes domésticos intro- 
duzidos pela raça branca. 

A occorrencia da moléstia das capivaras ou como 
se diz lá « dos carpinchos » já se acha citada na primeira 
communicação de Elmassien como observação corrente no 
Paraguay. Mas com quanto verificasse a sensibilidade da 
capivara para o trypanosoma não chegou a examinar 
carpinchos infeccionados. Neste ponto fui mais feKz e 
depois de ter examinado umas vinte capivaras sadias e 
duas doentes de outras moléstias (ii) finalmente tive oc- 
casião de obter o cadáver completamente fresco de uma 
capivara que antes de ser morta mostrava os symptomas 
do quebrabunda. Encontrei no sangue o trj-panosoma 
equinum talvez na proporção de meia dúzia para cada 
preparação e conservei o virus por inoculação em vários 
animaes, obtendo resultados idênticos aos observados com 
o virus de origem cavallar. Além disso, também inoculei 
com resultado positivo o virus de cavallos doentes em 
capivaras sãs. Uma d'estas que era adulta, durou cinco 
mezes e^ morreu com os symptomas de quebrabunda, taes 
como se observa nas capivaras de Marajó. Entretanto 
esta capivara foi pegada perto de São Paulo onde não 
se conhece a moléstia das capivaras. 

Além de ser a doença das capivaras um facto ge- 
ralmente conhecido na ilha de Marajó e no Baixo Ama- 
zonas, também nos foi confirmada em relação ás margens 
do rio Pindaré no Estado de Maranhão. Póde-se agora 
considerar um facto estabelecido que as capivaras apa- 
nham espontaneamente a peste de cadeiras nos mesmos 
logares onde os cavallos adoecem. Temos boas razões 
para considerar as capivaras que adoecem n'estas condi- 
ções como um perigo constante para os cavallos que 
vivem nos mesmos logares e por isso a exterminação 
doestes roedores, completamente inúteis, parece uma das 
primeiras medidas indicadas na campanha contra a peste 
de cadeiras. Já foi iniciada em alguns logares em conse- 
quência da observação citada. 

Quanto aos transmissores habituaes da peste de ca- 
deiras deve-se procural-os entre os insectos dipteros 
(moscas e mosquitos) com exclusão dos outros sugadores 
de sangue como sejam morcegos, sanguesugas, carrapatos 
e percevejos. Os dipteios sugadores de sangue que po- 
dem entrar em discussão são as motucas, as moscas de 
cavallos, os carapanãs ou mosquitos e os maruins. A 
mosca de cavallo (12) ( stomoxys calcitratis) ou mosca 



— 47 — 

brava de certos auctores, pôde ser excluída conio faltan- 
do completamente em terrenos muito infeccionados de 
Marajó e do Baixo Amazonas e commum em logares 
onde não ha peste de cadeiras. Os maruins e carapanãs^ 
espécies de ceratopogon e de culicidae, sâo frequentes 
n' estes logares e pelo menos os últimos também atacam 
as capivaras ; assim podiam talvez occasionalmente pro- 
duzir uma infecção, mas por varias razões não podem 
ser considerados os transmissores legítimos. Chegamos 
assim a procural-os entre as motucas, já suspeitas e 
-quasi convictos de carregar outras trj^panoses. 

Os tabanideos ou motucas das quaes fiz um estudo 
especial, existem no Estado do Pará eni grande numero 
de espécies, que não deve ser muito inferior a cincoenta. 
D'estas porém a maior parte são de terra firme e na ilha 
de Marajó só achei umas dez. Entre estas encontrei só 
duas em todos os pontos infeccionados e geralmente em 
numero muito grande. Ambas já foram descriptas e 
denominadas ha cerca de 8o annos, com o nome de 
iabanus importunus Wiedemann e tabanus trilineatus 
Latreille. 

O tabanus importunus é muito commum na ilha de 
Marajó pelo menos nos municípios de Cachoeira, Soure 
<i3) e Chaves, mas provavelmente será igualmente fre- 
quente nos outros, onde as condições naturaes o permit- 
tam. Acredito que a forma adulta será encontrada todo o 
anno, n>as pessoalmente a observei apenas nos mezes de 
Ag03to até Novembro. Parece muito mais frequente no 
fim e no principio da estação das chuvas. A espécie tem 
uma distribuição vasta, porque recebi-a do Maranhão e de 
•Goyaz, onde é commum, e foi observada também no Es- 
tado da Bahia. Deve ser encontrada ainda em muitas ou- 
tras regiões, além de ser substituída por espécies bastante 
visinhas fora dos limites do seu território. Atacão muito 
aos cavallos, escolhendo de preferencia a pelle das per- 
nas, principalmente pouco acima dos cascos e deixando 
uma pequena ferida da qual quasi sempre exsuda uma 
gotta de sangue depois que a mosca deixa o logar. Vi-as, 
<:om os meus olhos, atacar no matto capivaras feridas e 
recentemente mortas, comquanto em captividade não . con- 
seguisse fazel-as chupar n^uma capivara, presa debaixo 
de um mosquiteiro. Uma outra vez procuravam chupar 
•o sangue de um cavallo cujo cadáver ficou abandonado 
no campo havia mais de quinze horas mas não consegui- 
rão encher-se de sangue. 

Esta espécie de motucas é uma das maiores, tendo 
perto de dous centímetros de comprimento. Os olhos têm 



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uma coloração geral verde furta-côr, sem listas ou outros 
desenhos. 

O thorax em cima é de còr cinzenta muito clara 
com matiz lilaz, tendo quatro estrias longitudinaes mais 
escuras; o scutello é distinctamente avermelhado; o 
abdómen é de côr ochracea com uma estria lon- 
gitudinal media e duas lateraes de côr ennegrecida que 
são apagadas na base e tornão-se mais distinctas na parte 
terminal. Entre ellas, o fundo está coberto com pellos fi- 
nos» esbranquiçados, com brilho de seda. Em baixo apre- 
senta o abdómen a mesma côr ochracea alaranjada que 
permitte reconhecer a motuca de longe, quando está 
voando. Em repouso está coberta pelas azas, bastante en- 
negrecidas, principalmente na raiz e na parte media, onde 
algumas veias apresentam um bordo infuscado, contras- 
tando muito com a côr clara do escudo dorsal. A tromba 
é preta e bastante comprida ; os palpos são largos e com- 
parativamente curtos, de côr clara e cobertos de pellos 
finos; as antenas ferruginosas cora ponta preta e as per- 
nas ochraceas ou ferruginosas com as extremidades e a 
base do primeiro par infuscadas. O macho, como em to- 
das as motucas, não chupa sangue e distingue-se pelo es- 
cudo dorsal mais escuro e os olhos confluentes em cima 
da cabeça. 

O tabanus trilineatus é menor, nào alcançando com- 
pletamente um centimetro e meio; também é de forma 
mais esbelta. Occupa um território ainda mais vasto, que 
se extende da America central até ao sul do trópico do 
Capricórnio na costa oriental do continente sul ameri- 
cano e chega até na costa occidental na zona equatorial, 
sendo em muitos logares a espécie mais commum. 

E' muito bem caracterisado pelo desenho dos olhos 
que só se encontra em poucas espécies. Consiste em três 
listas verdes sobre fundo escuro, das quaes duas são 
transversaes e parallelas, emquanto a terceira acompanha 
a margem posterior do olho reunindo-se do lado de fora 
á segunda em angulo agudo. O escudo thoracal é co- 
berto de pennugem cinzenta muito amarellada e as azas 
são transparentes, embora não completamente hyalinas. 
O abdómen em cima é de côr parda e ennegrecido no 
seu terço posterior. 

Tem uma Hsta longitudinal mediana e duas lateraes 
que acompanham as margens lateraes do abdómen, de 
còr amarellada, cobertas de pellos curtos esbranquiçados, 
de modo a apparecer as vezes quasi brancas. A estria 
mediana é muito conspícua, mesmo em posição sentada, 
não ficando completamente coberta pelas azas. As pernas 



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são pela maior parte ochraceas, com os pés mais escuros 
e uma parte das duas pernas anteriores mais clara, 
quasi branca, o que também eontribue a caracterisar a 
motuca andando ou sentada. A tromba é curta e preta, 
os palpos são amarellos e as antennas ferruginosas com 
ponta preta. O macho tem os olhos unidos, com uma 
estria verde apenas, apresentando a parte média e poste- 
rior uma côr metallica lembrando o aluminium. 

Esta motuca faz parte de um grande grupo exclusi- 
vamente americano e que tem ainda alguns representan- 
tes bastante similhantes no Estado do Pará. Como o /a- 
banus importunus ella ataca as capivaras. Do outro lado 
o homem é raras vezes picado por esta. espécie. 

Experimentei principalmente com o tabanus impor- 
tunus, o qual, por causa de seu maior tamanho, parece 
mais apto ao papel de disseminador. No seu estômago 
os trypanosomas podem ser encontrados vivos até três 
dias depois de ter chupado sangue virulento. Dissequei 
muitos exemplares, apanhados em estado vasio, sem 
nunca encontrar n'elles organismos que se parecessem 
com trypanosomas ou alguma forma de evolução d'estes. 
O modo exacto da transmissão dos trypanosomas 
não está ainda elucidado e n'este ponto não fui mais 
feliz que os meus predecessores. Conhece-se até hoje 
três modos pelos quaes os sugadores de sangue transmit- 
tem o virus causador de differentes infecções do homem 
e dos animaes domésticos. O mais complicado é aquelle 
que se observa na febre do Texas (chamada também 
tristeza ou mal triste) e nem f>or isso deixou de ser o 
primeiro descoberto e provado de modo evidente por 
experiências numerosas. 

A febre de Texas, como já se sabia pela observa- 
ção do povo, é limitada ás regiões onde os bois são in- 
festados de carrapatos do género boophilus, do qual nas 
zonas quentes ha varias espécies, muito similhantes, que 
vivem quasi exclusivamente nos bois. Estes carrapatos 
atacam os bois no estado larval, ficando as fêmeas agar- 
radas até attingir ao tamanho completo, quando se deixam 
cahir, para depois depositar os ovos no chão. Por isso 
não são capazes de transmittir directamente o parasita 
da febre do Texas, mas este passa nos ovos e nas larvas 
que nascem d'elles e são estas que depois infeccionam o 
gado que vem pastar no mesmo logar. Assim uma boiada 
passando n'um logar pôde disseminar o contagio, sem se 
pôr èm contacto im mediato com o gado da região. 

No impaludismo e na febre amarella, transmittidos 
por mosquitos (carapanãs e muriçocas) é preciso que o 



— 50 — 

mesmo mosquito chupe por duas vezes com um inter- 
vallo que regula entre uma ou duas semanas e que é 
absolutamente indispensável para a evolução do micróbio 
e a sua passagem na saliva do mosquito. O mesmo se 
dá no caso de certos vermes do sangue. 

Pôde se dar finalmente o caso, que o mesmo suga- 
dor de sangue pique dous animaes, em seguida, por ser 
perturbado antes de ter completado a sua provisão de 
sangue ou depois de um intervallo tão curto que per- 
mitta ao virus conservar-se vivo na forma em que foi 
absorvido. A primeira hypothese facilmente se dará com 
as motucas ; quanto á segunda seria preciso que as mo- 
tucas se aprovisionassem de sangue por mais de uma 
vez, o que não foi ainda observado e me parece duvi- 
doso comquanto infelizmente não me fosse possivel elu- 
cidar este ponto. 

Na hora actual, a transmissão immediata, — passando 
a motuca de um animal infeccionado para outro são, afim 
de completar a sua provisão de sangue — , parece o mais 
provável e n'este caso os animaes infeccionados serão 
tanto mais perigosos quanto mais abundem os parasitas 
no seu sangue. Depois da morte do animal os trypano- 
somas conservam-se vivos por uma série de horas, mas 
pela falta da circulação e pela coagulação do sangue a 
absorpção torna-se sempre mais diíficil para as motucas, 
como tive occasião de observar ; muitas vezes o insecto 
vae procurar uma outra victima. Se a infecção pudesse 
se produzir assim, não somente varias espécies de motu- 
cas, mas, talvez, até outros sugadores de sangue, podiam 
fazer o papel de transmissores ; se porém, a transmissão 
se faz como na febre de Texas ou na febre ama relia, 
serão necessários certos hábitos do transmissor ou pelo 
menos uma adaptação reciproca muito especial entre o 
parasita e o transmissor. 

Infelizmente as motucas difficilmente se encontram 
nos primeiros estados da evolução e por isso só se co- 
nhece estes n'um pequeno numero de espécies da Euro- 
pa e dos Estados Unidos, sendo a evolução das nossas 
completamente desconhecida. As larvas têm um typo um 
tanto similhante ao das larvas de varejeiras que se criam 
na carne; são porém mais consistentes, mais compridas e 
de côr mais escura. Devem ser procuradas no fundo da 
agua ou em terra muito húmida, aonde vivem a custa de 
outros animaes pequenos. 

Os insectos adultos são mais raros nos campos 
abertos que nos cobertos, onde ha muitas arvores; abun- 
dam principalmente nas ilhas de matto, pelo menos em 



_ 51 — 

tempo de secca. Segundo as informações que colhi são 
mais abundantes no principio e no fim do tempo das aguas. 
No sul o maior numero de esp>ecies só apparecem 
na estação quente e chuvosa ; ha porém algumas que se 
mostram no inverno e outras muito communs, entre estas 
otabanus triliuèatus, encontram-se quasi todo o anno, sendo 
porém muito mais abundantes na estação quente. 

Falta-nos dizer alguma cousa sobre a possibilidade 
de curar a peste de cadeiras. Nas experiências de labora- 
tório chegou-se a descobrir varias, substancias dotadas de 
uma certa acção contra os trypanosomas obtendo-se mesmo 
com ellas alguns casos de cura em pequenos animaes 
de laboratório. Não consta, porém, até hoje, terem sido 
empregados com successo no tratamento das epizootias 
devidas a trypanosomas. 

As primeiras substancias empregadas com algum 
successo pertencem a um grupo de matérias corantes de- 
rivadas do alcatrão de carvão de pedra e entre estas ha 
uma introduzida por EhrHcli com o nome de Trypanrot 
que é considerada particularmente activa. 

Tendo recebido do próprio Ehrlich 150 grammas de 
trypianrot puro fiz experiências em quatro cavallos com 
muitos trypanosomas. Doses de 2 até 4 grammas, dadas 
internamente em solução aquosa, por dous ou três dias 
consecutivos, eram bem supportadas e engulidas sem maior 
difficuldade, por não ser o gosto muito pronunciado ou 
desagradável. Uma acção inhibitiva sobre os parasitas era 
evidente, notou-se mesmo varias vezes o seu desappare- 
cimento completo, mas o effeito era desigual e principal- 
mente incerto nos casos peores, mesmo com doses maio- 
res. Também os parasitas reapparecériam poucos dias de- 
pois. Era evidente que seria preciso empregar doses ainda 
maiores e durante mais tempo para melhorar os resulta- 
dos (e n'este caso teria-se de receiar ef feitos tóxicos, como 
já foram observados) ou então combinar o uso do trypan- 
rot com o de outros remédios. 

Ha muitas cores de anilina que matam os trypano- 
somas quando postos em contacto com estes em soluções, 
mesmo pouco fortes, mas usando-as interjiamente soffrem 
uma tal diluição e quiçá alteração que se tornam inacti- 
vas. Acontece isso com o Victoriablau que também expe- 
rimentei. 

Fiz também varias experiências com o iodureto de 
potássio em dose diária de dez a vinte grammas, dadas 



de uma vez internamente em solução aquosa. Também 
observei varias vezes o desapparecimento dos parasitas 
do sangue, mas o effeito era ainda mais passageiro que 
dom o trypanrot e finalmente os flagellados reapparece- 
riam no sangue até durante o uso do remédio, e modo 
que este pôde ser considerado inefficaz nas doses empre- 
gadas. Todavia, estas podiam sem grande inconveniente 
ser augmentadas e continuadas durante mais tempo com 
a condição de poder-se administrar o remédio com a agua 
de beber, o que com os cavallos do campo não deixa de 
ter difficuldades. Podia talvez servir também para ajudar 
a acção de outros remédios. 

O remédio que njais despertou a attenção publica 
foi o atoxyl, uma combinação orgânica de arsénico e ani- 
lina, considerada quarenta vezes menos toxica que o ar- 
sénico puro. Usa-se geralmente em injecções subcutâneas 
em soluções aquosas de i a 2 por cento, mas não vejo 
contraindicação para o uso interno. Com o afoxyl obte- 
ve-se muitas vezes o desapparecimento dos flagellados do 
sangue de animaes em experiência, sendo algumas vezes 
definitivo, mas geralmente apenas temporário. Passada a 
dose conveniente este remédio pôde produzir symptomas 
de envenenamento, ora agudos ora chronicos, de modo 
que não se pôde usar em qualquer dose, nem durante 
qualquer tempo, e as soluções aquosas têm de ser feitas 
sempre de novo por que com o tempo decompõe:n-se. 
tornando-se mais venenosas. De outro lado é preciso em- 
pregar as doses mais altas que ainda são bem toleradas 
e a determinação d'estas é a primeira tarefa do experi- 
mentador. 

Na Africa o atoxyl é hoje usado em grande escala 

{)ara debellar a frypanose humana que produz accessos 
ebris e termina na moléstia do somno^ sendo de resto 
uma infecção muito chronica e com os parasitas bastante 
raros no sangue, o que facilita o tratamento. Costuma-se 
dar duas doses de meia gramma dentro de 24 horas e re- 
petir depois de uma semana. 

Tomei este modo de usar para direcção do emprego 
do atoxyl que fiz em dois macacos de cheiro bastante in- 
feccionados. No primeiro d'elles empreguei uma dose sub- 
cutânea calculada em uma gramma por' sessenta kilos de 
peso e dividida em duas injecções com intervallo de doze 
horas. Estas 'fizeram desapparecer os parasitas dentro de 
24 horas mas reappareceram alguns dias depois e persis- 
tiram até á morte do animal que não demorou muito. 

Em seguida, um segundo macaco e uma preguiça, 
embora muito infeccionados, foram tratadas do mesmo 



— 53 — 

modo. Na preguiça o efíeito foi nullo, no macaco os pa- 
rasitas desappareceram para voltar poucos dias depois. 
Empreguei então uma segunda dose um pouco mais ele- 
vada, dada por injecção, em uma vez só e tive a surpreza 
de obter, ao que parece, um desapparecimento completo 
dos crypanosomas, porque dura já mais de seis mezes. O 
animal estava muito infeccionado e não podia ter resis- 
tido muitos dias. Apresentava phenomenos de paralysia 
incompleta (paresia) que só lentamente desapparecerâo. 
Hoje está completamente restabelecido e muito esperto. 
Este resultado é muito animador mas, infelizmente, parece 
muito excepcional. 

Infelizmente, só muito tarde me foi possivel princi- 
piar o tratamento dos cavallos com atoxyl do qual só ti- 
nha poucas grammas. Uma quantidade maior, que foi en- 
commendada em tempo, tardou alguns mezes a chegar e 
só a recebi no fim dos meus estudos. 

Escolhi então três dos cavallos infeccionados e dei ao 
primeiro, por duas vezes, duas grammas internamente em 
solução de 2 %. N'este animal que já com o trypanrot 
tinha mostrado melhoras sensíveis, os poucos parasitas 
presentes desappareceram depois do atoxyl mas durante o 
uso consecutivo de bichlorureto de mercúrio sobreveiu 
uma pneumonia fatal. Desconfio que se tratava de uma 
pneumonia de epgasgo, porque o animal punha difficulda- 
des em tomar o remédio, sendo preciso dar-lhe a for<;a. 

Se este caso, por algum tempo, prometteu um bom 
resultado, pelo outro lado obtive um insuccesio completo 
nos dous outros, onde os parasitas já numerosos pare- 
ciam augmentar ainda depois do remédio e ambos mor- 
reram poucos dias depois com os symptomas typicos de 
quebrabunda. Entretanto tinham recebido maior quanti- 
dade de atoxyl, sem serem maiores ou mais pesados : o 
primeiro n'um dia recebeu três grammas e no segundo 
duas ; o segundo a mesma dose e mais duas grammas no 
terceiro dia. 

Para obstar ao reapparecimento dos parasitas que 
depois do atoxyl é a regra, a escola de Liverpool recom- 
mendou o uso de sublimado ou perchlorureto de mercú- 
rio. Empreguei-o depois do trypanrot e do atoxyl, em do- 
ses de oito centigrammas, administradas diariamente ou 
de dous em dous dias. Parece que esta dose, que fora 
calculada pelo que o homem pôde tolerar e em relação 
ao peso, é bem supportada pelos cavallos, porém o seu 
effeito não é rápido e com poucas doses não si pôde pre- 
venir o reapparecimento dos parasitas, contra os quaes 
elle só não tem acção. 



— 54 — 

Deixámos a questão de therapia n'este ponto, quero 
dizer, que não reconhecemos ainda urp modo de tratar 
que prometta um resultado prompto e seguro, mas já co- 
nhecemos algumas substancias cujo uso se deve continuar 
a estudar, o que poderá ser feito com vantagem no posto 
zootechnico projectado, onde haverá mais facilidades. E* 
preciso também dizer que nas condições em cjue perma- 
necem no verão as fazendas da ilha de Marajó, o trata- 
mento é muito difficultado pela insufficiencia do pasto e 
pelos morcegos que muito perseguem estes animaes já 
debilitados e pôde correr em parte por conta d'elles a 
anemia que se nota tão frequentemente nos cavallos desta 
região. Uma outi^circumstancia desfavorável é o estado 
meio selvagem em que se acham estes animaes, sendo 
que em alguns nem uma gotta de sangue se pôde obter 
sem tombal-os primeiro e para a applicação de remédios 
isto é quasi sempre necessário. Dei estes geralmente pela 
bocca, porque o emprego subcutâneo tem muitos incon- 
venientes, principalmente para quem não é profissional, 
mas pôde ser ensinado sem maior difficuldade a pessoas 
intelligentes. As soluções e seringas devem ser esteriliza- 
das e não convém o uso de agulhas muito finas ; também 
não devem ser feitas de platina e iridio porque estas mal 
penetrão o couro do cavallo. 

Pôde se dizer que, a menos de tratar-se de um ca- 
vallo de grande valor, nas circumstancias actuaes não vale 
a pena procurar cural-o. E^ possivel que em breve se 
chegue a melhores resultados em consequência dos estu- 
dos que se estão fazendo em muitas partes do mundo, 
mas actualmente parece mais indicado no interesse da 
prophylaxia, matar os animaes, no sangue dos quaes se 
encontrem os parasitas. No município de Cachoeira esta 
medida já era obrigatória a respeito dos cavallos que mos- 
trarão symptomas evidentes. 

Convém ainda salientar, que com todos os remédios 
empregados notou-se grande differença de acção nos di- 
versos indivíduos, o que indica que o effeito do remédio 
depende em grande parte da coadjuvação do organismo 
doente. Por isso um tratamento tardio dará menos espe- 
rança. Os phenomenos paralyticos não são directamente 
influenciados pelos remédios antiparasitarios e, se não fo- 
rem incuráveis, só retrocederão com muita demora e tal- 
vez de um modo incompleto, deixando o cavallo inutili- 
sado. Assim parece de pouco valor tratar um animal que 
já tem symptomas manifestos de quebrabunda, mesmo 
quando não ha parasitas no sangue. N'este ultimo caso,, 
talvez o melhor remédio seja o lodureto de potássio. 



— 55 



* * 



Falta-nos fazer ainda algumas considerações sobre a 
prophylaxia. Como já explicamos, a peste de cadeiras, ao 
nosso vèr, è contrahida pelas picadas de motucas previa- 
mente infeccionadas pelo sangue, seja de cavallos, seja de 
capivaras doentes. E^ta infecção deve dar-se de dia e ge- 
ralmente nos pastos communs. A prpphylaxia por isso 
deve evitar a introducção de animaes infeccionados, eli- 
minar os cavaUos com parasitas no sangue e exterminar 
as capivaras. Convém também estudar os meios de pro- 
teger os animaes contra as mordeduras das motucas. 

Cavallos de maior valor poderão ser protegidos até 
um certo ponto, conservando-os perto das fazendas e se- 
parados dos outros em corraes especiaes, feitos em loga- 
res onde haja poucas motucas, ou, melhor ainda, em es- 
tábulos completamente fechados. Nos tempos próprios 
convém a.applicação de substancias que afugentem as 
motucas, principalmente nas peinas dos cavallos. 

Dou ainda um resumo rápido dos resultados das 
minhas observações. Confirmei de um modo geral os tra- 
balhos de Elmassien e outros, a saber: que a peste de 
cadeiras é causada pelo parasitismo de uma espécie de 
trypanosoma bem differenciada e que se deixa inocultar 
em mammiferos de varias espécies incluindo a capivara. 
Confirmei a sensibilidade dos macacos que achei princi- 
palmente pronunciada nas pequenas espécies do norte, 
coU^ando-as em primeiro logar como animaes de expe- 
riência e verifiquei também a grande sensibilidade das 
preguiças para esta infecção. 

Além d^isso verifiquei que o «quebrabunda» do norte 
é idêntico ao mal de cadeiras do sul e constatei que a 
moléstia espontânea das capivaras observada frequente- 
mente e apresentando symptomas parecidos aos do que- 
brabunda é devida ao mesmo parasita, de que resulta a 
necessidade de livrar os territórios de criação d'estes roe- 
dores. Cheguei por exclusão a considerar as motucas 
como os transmissores da moléstia e salientei entre estas 
como as mais abundantes o tabanus importunus Wied. e 
trilineatus Latr. Verifiquei pessoalmente que estas espé- 
cies perseguem também as capivaras e a-panhei exempla- 
res que estavam cheios de sangue d'estas. 

Confirmei que o trypanroth e o atoxyl têm uma 
acção inhibitiva sobre os parasitos, embora não seja igual 
em todos os casos. Experimentei também com iodureto de 
potassa e Victoriablau e com o sublimado recommendado 
pela escola de Liverpool. Destas experiências resulta que 



- 56 - 

não se pôde pensar ^inda em debellar a moléstia por 
meio do tratamento dos animaes doentes e que temos de 
dirigir a nossa -acção mais do lado da prophylaxia, sem 
desesperar completamente da possibilidade de achar-se 
ainda melhores recursos therapeuticos. 

Sinto que certas circumstancias imprevistas, princi- 
palmente a escassez do material no principio, me tives- 
sem impedido de colher mais resultados, mas creio que 
estes que obtive, com trabalho bastante penoso e longo, 
poderão já servir de boa base para qualquer observador 
que queira continuar estes estudos. 

Pará, 5 de Dezembro de 1907. 



ANJÍ0TACÕE8 

1. Fiz estes estudos em commissão do Governo do Kslado do 
Pará e aproveito a occasião para agradecer cordialmente o bom acolhi- 
mento c os conselhos e informações úteis que me foram prodigatisados 
cm toda parte, principiando pelas auctorídades. Menciono particularmente 
os exmos. srs. dr. Augusto Montenegro, governador do Estado, dr. Lyra 
Castro, presidente do Senado, o director do serviço sanitário, dr. Francisco 
de Miranda e o director do Museu Goeldi, dr. Jacques Huber. Não posso 
enumerar todos os particulares, entre os quaes muitos coUegas, que me 
obsequiaram de um ou outro modo e aos quaes fico muito grato. Por 
occasião de meus estudos demorei durante algumas semanas em cada 
uma das fazendas seguintes : Tuyuyú, no rio Arary, do sr. coronel Ray- 
mundo Miranda ; Santa Cruz, perto de Óbidos, dos srs. desembargador 
Thomaz Ribeiro e dr. José Picanço Diniz ; e Santa CathaHna, no munici- 
pio de Chaves, do sr. coronel Silva Santos, onde estive em companhia 
dos srs. dr. Vicente Miranda, major Agostinho de Almeida e sr. Marques, 
administrador de Santa Cruz., que fizeram tudo para ajudar-me nos meus 
trabalhos e acompanharam as minhas observações. A todos estes senhores 
dou também meus agradecimento sinceros. 

2. As rainhas observações seriam pouco comprehensiveis a menos 
de combinar com elles uma exposição summarla de todo o problema da 
peste de cadeiras, conforme os nossos conhecimentos actuaes. Fazendo 
isso, basiei-me de preferencia em observações pessoaes, citando os nomes 
dos auctores somente quando se tratava de factos inteiramente novos ou 
não verificados por mim. A minha intenção era principalmente de dar o 
resultado de estudos pessoaes feitos no Estado do Pará, território bastan- 
te distante e differente do campo de estudos dos observadores que me 
precederam. Quem se interesse particularmente em conhecer o desen- 
volvimento dos conhecimentos do assumpto e a litteratura bastante es- 
palhada achará um resumo nos trabalhos seguintes : 

Nocard et Leclainche : Les maladles microbiennes des snimaux. 
Paris, Masson et Cie. 1903. 

Laveran et Mesnil : Trypanosomes et trypanosomiases. Paris, 
Masson et Cie. 1904. 

O que appareceu depois d' esta data deverá ser procurado nos jor- 
naes dedicados á medicina veterinária ou á microbiologia em geral e aos 
protazoarios em particular, como também nos tratados mais modernos 
sobre estes assumptos. Lá o leitor encontrará muito a respeito de trypa- 
nosomas em geral que não deixa de ter interesse para o nosso assumpto. 



— 57 — 

mas não me consta que sobre a peste de cadeiras haja novas pubtícações 
importantes. Recommendo especialmente a leitura das publicações da 
Escola de Medicina Tropical de Liverpool aos que se interessem no pro- 
blema da cura das trypanòses. 

3. O mal de cadeiras e a cysticercose equina. Pará.Gillct & C.al904. 

4. A moléstia ainda hoje existe em estado esporádico n'esta ilha, 
como na da Caviana que lhe é visinha. N'esta ultima todavia é rara, 
devido talvez ás precauções de que se usa n'esta ilha, onde a criação de 
cavallos é de grande importância; pôde também contribuir o facto de lá 
ha\Tr muito menos motucas. 

5. Em 11 autopsias de cavallos, dos quacs dez soffriam de try- 
panosomas, apresentando em grande parte symptomas de quebrabunda, 
nunca encontrei cysticercos vivos e só raras vezes focos necróticos que 
se assemelhavam com cysticercos mortos e calcificados, mas que julgo 
antes serem devidos a exemplares erráticos de sclerostomum porque estes 
vermes, communs em toda parte, encontram-se também nos cavallos de 
iMarajó. Registra-sé um cysticercns fistnlaris do cavallo, mas parece 
raro e mal estudado, e támbem a forma de cysticercns da taenia edii- 
nococcus, mas nenhum destes poderia produzir symptomas análogos aos 
do quebrabunda, cuja causa hoje está bem esclarecida ; em todo caso 
cysticercos encontrados vivos ou bem conservados nos cavallos seriam 
sempre um objecto de interesse e dignos de serem estudados. 

Entre mais de vinte capivaras examinadas por parasitas só encon- 
trei uma vez no fígado nódulos calcificados que pareciam de origem 
parasitarias. 

6. Em allemâo : « Victoriablau >. 

7. Espalha-se o sangue n'uma lamina de vidro, bem limpa e li- 
geiramente aquecida, em camada muito fina que deve seccar rapidamente 
e quando secca não deve mais mostrar uma còr vermelha. Para este fim 
usa-se a margem de uma lamina, laminula ou um pedaço de cartão de 
visita. Fixa^e no álcool absoluto puro ou em partes eguaes com ether sul- 
fúrico durante IO a 20 minutos ou por alguns segundos um palmo acima 
de uma chamma de vela ou de lâmpada de espirito de vinho evitando 
queimal-as, não devendo exceder o calor muito além de cem gráos. 

8. Como taes considero a fraqueza do trem posterior que produz 
o cambaleio dos quartos trazeiros e finalmente a queda do animal com 
impossibilidade de levantar-se só e sustentar-se quando ajudado a er- 
guer-se. Nota-se também paresia e paralysia dos sphincteres do recto 
cmquanto que as pernas conservam um certo movimento. 

9. Encontrei uma vez o parasita no liquido cccebro-espinhal, quan- 
do faltava no sangue, mas o contrario é mais frequente. Uma outra vez, 
na falta apparente dos trypanosomas no sangue, obtive uma infecção ino- 
culando o sueco de uma glândula lymphatica tumefçita. 

10. No sangue dos macacos pequenos, raras vezes no de capiva- 
ras e outros animaes de experiências, póde-se encontrar larvas de filarias 
que facilmente se distinguem pelo seu tamanho muitas vezes maior. Na 
sua forma tanto como nos seus movimentos parecem perfeitamente com 
uma pequena cobra e na parte posterior reconhece-se o intestino. Com 
thíonina e principalmente com cresylechtviolett póde-se obter preparações 
coloridas com muita nitidez. 

11. Trataya-se uma vez de um enorme abcesso do figado conse- 
cutivo a um tiro de chumbo e outra vez de um processo pneumonico. 

12. Esta mosca chupa o sangue dos cavallos e as vezes do pró- 
prio homem. Parece-se bastante com a mosca commum da qual facil- 
mente se distingue pela forma ponteaguda da tromba. A chamada sto- 
moxys nebulosa parece apenas uma variedade e póde-se affirmar que o 
género stomoxys não é autochthono na America do Sul e que os que 



^58- 

se observam sâo apenas introduzidos tratando-se de moscas quasí 
cosmopolitas. 

13. Devo ao collega dr. António Figueiredo, que também me 
ajudou em outras occasiões, a remessa de motucas colhidas em vários 
pontos do municipio de Soure. 

14. Para as soluções e para a esterilização das seringas convém 
usar agua filtrada na falta de agua distillada. As seringas podem ser 
fervidas n'esta durante um quarto de hora. As soluções podem ser leva- 
das ao ponto de ebullição quando nâo supportem bem uma fervura pro- 
longada durante um quarto de hora. Comquanto esta esterilização não 
seja perfeita, é sufflciente para as exigências da pratica. 



59 - 



Sobre a ^ 5acmogregarina hcplodaclyli ^ 
do bcptodactylus ocellatus 

PELO Dr. a. CaRINI 

Director do Instituto Pasteur 

Em Novembro do anno passado, examinando o san- 
gue de um «Leptodactylus ocellatus» L., capturado nos 
arrabaldes de S. Paulo, encontrei uma grande henwgre- 
garina^ que me pareceu diversa das até agora conhecidas.- 
A hemogregarina é sempre endoglobular, apresenta-se re- 
niíorme, de 12 a 16 microns de comprimento, por 4 a 6 
microns de diâmetro. 

Com o Giemsa, o protoplasma toma uma bella co- 
loração azul-pallida. No centro, vê-se um núcleo com gros- 
sas granulações de chromatina, intensamente coradas em 
vermelho-violeta escuro. O núcleo é oval, quasi redondo, 
situado mais ou menos no centro do parasita e apresenta 
uiti diâmetro de 3 V2 ^ 4 V2 microns. 

As extremidades da hemogregarina são ordinaria- 
mente arredondadas, sendo uma um pouco mais grossa 
do que a outra ; encontram-se, porém, excepcionalmente, 
exemplares, nos quaes uma das extremidades apresenta-se 
pontuda, observa-se esta ponta dobrada n'uma peque- 
na extensão. 

Nas minhas preparações a hemogregarina era sempre 
intraglobular e com o seu maior diâmetro disposto mais 
ou menos na direcção do grande eixo do glóbulo. 

Raras vezes, em torno do parasita ha uma fina zona 
clara, devida provavelmente á retracção do parasita. Não 
foram encontradas formas de multiplicação. 

Os órgãos internos não foram examinados. 

O núcleo do glóbulo hospede é sempre deslocado, 
algumas vezes para um lado, outras para a extremidade 
do glóbulo, que apresenta um leve augmento de volume 
e raramente também um pequeno gráo de descoramento. 

Os parasitas eram bastante numerosos no caso obser- 
vado, mas foram encontrados num só «Leptodactylus», 
apezar de terem sido examinadas algumas centenas d'es- 
tes batorachios. 



— 6o — 

O leptodactylus era parasitado também por dactylo- 
soma, drepanidium e por trypaiiosomasy que me parece- 
ram do typo rotatorium (formas ordinárias e formas chatas 
gigantes). 

Tendo enviado em Janeiro uma preparação ao Dr. 
Mesnil, de Paris, para conhecer a sua opinião, elle me 
respondeu dizendo que de facto se tratava duma espécie 
nova, mas que já tinha visto a mesma hemogregarina em 
preparados do rrof. Lésage, de Buenos Ayres. 

A' vista d'isso, dirigi-me ao Prof. Lésage, que gentil- 
mente me enviou algumas preparações da hemogregarina 
que elle chama haemogregarina hptodactyli e pude assim 
constatar que se trata em realidaae do mesmo parasita. 

Coraquanto não me conste que sobre esta hemogre- 
garina já tenha apparecido alguma publicação, creio de 
meu dever — mesmo para evitar confusão — guardar o 
'nome já dado por Lésage. 



N. B. — Durante a impressão da presente memoria, appareceu uma 
nota de Lésage sobre esta hemogregarina. (V. Compt. rend. Societé de 
Biologie n. 20. — Í2 Junho 1908). 



~ 6i — 



Sessão de 28 de Maio de 1908 

Dr. A. Puttemans assignala a presença em S. Paulo 
do fungo Macrosporium Carotae Eli. et Laugl. causador 
de uma moléstia das folhas de cenoura (Daucus Carota L,) 
provocando o deseccamento ou apodrecimento das mesmas. 
Aconselha como tratamento as pulverisações por meio de 
caldo de Bordéus. A moléstia foi observada em S. Paulo 
(Capital) e Piracicaba. 

— Assignala, também, pela primeira vez no Brazil, a 
presença do fungo Urcdo Ziztphi Pat. parasita das folhas 
de Ziziphus Spina-Christi, causando a sua queda. Sobre 
as mesmas plantas encontrou também um fungo novo que 
denominou Ascochyfa Zizipht Putt. n. sp. o qual apresen- 
ta-se sob forma díe manchas orbiculares pardas de 4 a 
10 mm. de diâmetro, podendo essas manchas pela sua 
justa posiçfio abranger grande parte da folha tornando-se, 
então, de formas irregulares, não tardam a deseccar-se, 
rachando-se ou despedáçando-se. 

As pjThnidas subepiderraicas medem, termo médio, 
200 u. de diam., os esporos hyalines uniseptados têm 
24 — 30 ^=^ 15 — 18. Estes dois fungos foram encontrados 
em Piracicaba no mez de maio de 1908. 

— Apresenta também uns exemplares de Grisyphe 
communis (Walls) Fr. com peritheces, de procedência 
europea para chamar a attenção dos membros sobre o 
aspecto destas fructificações, que elle ainda não poude 
encontrar no Brazil sobre as numerosas plantas, atacadas 
pelos Oidium, que teve occasião de observar. 



62 — 



Sessão de 4 de Junho de 1908 

O Dr. Affonso Splendore, como noticia preventiva 
apresenta culturas d'uma nova espécie de cogumello pa- 
thogenico do homem, por eile isolado, assim como também 
algumas preparações histológicas referentes ao relativo 
caso clinico. 

Refere-se este caso a uma moça de nacionalidade 
italiana, observada no Hospital da R. e B. Sociedade Por- 
tugueza de Beneficência, a qual apresentava uma vegeta- 
ção de aspecto verrugoso no lado direito da face, notan- 
do-se também duas glândulas lymphaticas êngorgitadas na 
região super-raaxillar. 

Não só a apparencia macroscópica da lesão mas 
também a própria histologia dos tecidos pathologicos per- 
mittiam a suspeita d'um caso de blastomycose dermatica, 
tão grande e profunda era a semelhança. 

O exame microbiológico, porém, em vez de corpos 
redondos de duplo contorno caracteristicos de taes afíec- 
ções, mostram a presença de corpos redondos estrellados 
que, em culturas, desenvolveram colónias de cogumellos 
muitos semelhantes aos de Sporotrichum já, em - outra 
occasião, isolado dos ratos e do homem. 

Tudo faz crer, portanto, que o referido caso clinico 
não seja outra coisa que um novo caso de Sporotrichose. 

(Tomo, porém, o cogumello causador, nos tecidos 
pathologicos se apresenta de forma estrellada, differente 
portanto do .outro, julga o Dr. Splendore que se trata 
d'uma espécie nova e denomina-o de Sporotrichtmt aste- 
roides. 



Dr. CaríiiL Presença do Cytoleichus sarcopioide na 
cavidade peritoneal de um frango — Com apresentação 
de exemplares do parasita. 

O Autor, abrindo, algumas horas depois da morte, 
um frango que succumbira espontaneamente depois de ter 
apresentado durante algumas semanas, falta de appetite, 
emagrecimento, encontrou esparsos, na cavidade peritoneal, 
sobre as alças intestinaes, nas dobras do mesenterio, uma 
grande quantidade de pequenos pontos brancos-amarella- 



- 63 - 

dos. Examinando-os ao microscópico, viu que se tratava, 
de acarianos, e mais particularmente de Cytoleichus sar- 
coptoide, que, como se sabe, habitam os reservatórios 
aéreos dos gallinaceos, d'onde podem ir até os bronchios 
e ossos, que estão em communicaçâo com aquelles saccos. 
No caso em questão, foram também encontrados 
exemplares do mesmo parasita nos saccos aéreos e nos 
ossos. A presença d'esses ácaros na cavidade peritoneal, 
pode ser devida a uma invasão postntortem ; entretanto, 
tendo em consideração o grande numero, a sua distribui- 
ção por todos os pontos do peritoneo, assim, o facto de 
ter sido praticada a autopsia pouco tempo depois da morte, 
poder-se-ia também acreditar que os acarus tivessem pe- 
netrado na cavidade peritoneal já durante' a vida do animal. 

Discussão : 

Sobre a presença de ácaros no peritoneo das galli- 
nhas o Dr. Splendore faz observar que tendo tido occasião 
de examinar muitos pássaros, varias vezes, encontrou áca- 
ros não só no peritoneo mas também na cavidade pleu- 
ral ; mas nunca dando importância ao facto, julgando ser 
isso devido a uma invasão «post mortem»». 

Sobre o facto dos tumores no ligado do «cysbijuntus 
ocellatura», toma opportunidade para communicar que em 
dois casos da mesma espécie encontrou um pequeno tu- 
mor intraperitoneal ligado a ponta extensa do intestino 
ténue, tomou esse do tamanho d'um feijão, que, quando 
aberto, mostrou-se cheio d'uma pequena espécie de distoma. 



Dr. CarinL Neoformações epitheliaes nodulares no 
íigado de um Leptodactylus com demonstração de prepa- 
rados. 

Autopsiando um Leptodactylus ocellatus, o Autor 
encontrou no figado um pequeno nódulo de còr esbran- 
quiçada do tamanho de uma cabeça de alfinete. Incluido 
e cortado o fragmento observou que se tratava d'uma 
neoformação epithelial. 

No meio do tecido conjunctivo compacto, bastante 
abundante, encontram-se espaços, alguns muito dilatados, 
revestidos de epithelio cylindrico em via de proliferação, 
e semelhantes aos dos canaes biliares. 

Nódulos semelhantes de dimensões menores obser- 
vavam-se em outros pontos da preparação. 

O Autor não encontrou nenhuma causa que pudesse 
explicar esta neoformação epithelial. 



64- 



flDiSOS 

Conferencias annunciadas ( que serão feitas na sede 
social Avenida Brigadeiro Luiz António n. 12 ) : 

28 de Julho : Dr. António Cariní : A hygiene na 
guerra russo-japoneza. 

30 de Julho : Dr. Edmundo Krug : Sobre a supersti- 
ção no Estado de S. Paulo. 

b de Agosto : Dr. J. N, Belfori Mattos : Da Influen- 
cia das mattas sobre o clima, especialmente sobre o clima 
do Estado de S. Paulo. 



Roga-se aos srs. auctores de enviarem as provas, 
logo depois de corrigidas a Henrique Grobd. Caixa do 
Correio //., Capital. 



A Sessão solemne para commemorar o anniversario 
da fundação da Sociedade terá provavelmente logar no. 
dia 5 de Setembro na sede social ; o programma será 
publicado no próximo numero desta Revista. 






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'^cmT 



'?çV" lEYISTJi 

DA 

Sociedade Scientifica !!"''' '^'^'^ 

DE Pu - -' ' 

SÂO PAULO '^^^(^^ ' 

REDACÇÃO : Prof. Dr. líóberto Hottlnger e Dr. Edmundo Krug. 

SEDE DA SOCIEDADE: 
Avenida B. Luiz António, 12 ^ S. PAULO -r. Brazil 

SUMMARIO : 

1. Ivaporundyba pelo Dr. Edmundo Krujy. 

2. Sessão do dia 25 de Junho de 1908. 
Dr. Edm. Krug: Excursão de S. Pedro do Turvo ao Salto Grande 

de Paranapanema. 
Discussão : Dr. J. J. de Carvalho, A derrubada das nossas mattas. 

3. Sessáo do dii 9 de Julho. 
Dr. A. Carini : Piroplasmose. 
Dr. A. Carini : A peste de coçar. 

4. Sessão do dia 30 de Julho de 1908. 
Dr. Edmundo Krug : Sobre a superstição no Estado de Sâo Paulo. 

iDoporundyba ou \7aporundyDa 

POR Edmundo Krug 

Mui propriamente significa este 
Nome : Rio de muito Vaporú, fruta. 

< Do Livro do Tombo, de Xiririca.» 

Deixando-se a hospitaleira Xiririca e tomando-se uma 
canoa, das muitas que seguem, Ribeira acima, até Barra 
dos Pilões, Yporanga, Capella da Ribeira etc, passa-se, 
no segundo dia de agradável viagem, depois de se ter 
apreciado as bellezas naturaes deste grandioso rio, depois 
de nos ter saudado o alto pico do André Lopes com a 
sua cabeça calcarea, depois de termos conhecido, mais de 
perto, o bondoso e gentil povo ribeirinho, por Ivapurun- 
duva, logar ermo e habitado por algumas famiHas de 
pretos, descendentes dos escravos de epocha da qual 
logo mais tratarei. 

Uma capellinha, sem architectura alguma, apenas com 
uma larga porta no pavimento térreo e duas janellas no 
andar superior, que dão luz ao coro, está construida no 



— 66 — 

logar mais alto da beira da Ribeira ; íngremes morros, 
como o Morro da Joanna e outros, cercam-n*a pelo lado 
de traz, dando assim ao logarejo uma vista agradável 
e poética. 

Alguns fazendeiros, proprietíirios de pequenas enge- 
nhocas, estão estabelecidos nas circumvisinnanças, fazendo, 
talvez, somente o necessário para entreter a vida e ganhar 
alguma cousa mais do que o sufficiente quotidiano. 

O fim da minha visita ao logar foi vêr a igreja, afim 
de colher dados minuciosos sobre a existência de Ivapu- 
runduva ; foi porém, impossivel, pois nao encontrei livro 
algum na capella, e todos os dados que podia obter já 
os tinha rebuscado em Xiririca no Livro do Tombo, 

Antes de entrar na igreja, deparamos com dois sinos 
de tamanho regular, pendurados num varal enfiado na pa- 
rede da capella, e amarrados com corda feita de cipó embé. 

Uma grande chave enferrujada é posta na fechadura; 
com custo abre-se a capella ; o cheiro de mofo e o calor 
abafado que ahi reina, nos faz retroceder. 

O aspecto interior da igrejinha é tristissimo : tudo 
está sem ordem; as vestes do sacerdote, já mofadas e 
carcomidas pelo tempo e podridão ; uma grade de ma- 
deira, beiíi antiga, quasi canindo; cadeiras, sem encosto, 
espalhadas por aqui e acolá; emfim um completo cháos, 
deduzindo-se disso tudo, que o zelador não se importa 
muito com as cousas dos séculos idos, deixando-as em 
completo abandono a estragareni-se ainda mais do que 
já estão. 

Num altar acha-se uma pequena imagem de Nossa 
Senhora do Rosário, vestida de seda e com um botão 
enorme de ouro pregado nas suas vestes. Disse-me a 
pessoa que me acompanhava, oue existiam dois destes 
grandes botões, dados a Nossa Senhora por um mineiro 
piedoso ha mais de cem annos, Jtendo sido um delles, 
roubado por curiosos que ahi estiveram. 

Me contou mais, que esta imagem tinha virtudes mi- 
lagrosas, pois só era necessário fazer-se uma procissão, 
em canoa, com ella, para que logo chovesse! 

O arraial, que é bem mais antigo do que Xiririca, e 
talvez mesmo mais antigo do que Jaguary (Itaúna), está hoje 
em completa decadência, havendo ahi talvez só umas seis 
casas mal acabadas, quasi em ruinas, habitadas por pes- 
soas que se dedicam exclusivamente á lavoura e gado. 
Dos documentos que transcreverei mais adiante, deduzir- 
se-ão as datas mais importantes e os dados mais interes- 
santes sobre a creação do logar. 

No Livro do Tombo, de Xiririca, no capitulo que 



-67- 

trata dos nomes dos Bairros e da sua descripção, achei 
a seguinte nota do Padre Mendonça : 

Ivajporundyba, ou Vaporundyva * Ilha e Ri- 
beirão. Bairro. 

Pede a antiguidade, e os Successos deste 
Bairro táo celebre, que nos demoremos algúa 
coisa na sua exposição. Mui propriamente signifi- 
ca este Nome : Kio de muito Vaporú, fruta. O 
Bairro pois d'Ivaporudyba, nos seus primeiros 
tempos Arrayáes de Minas, consta ter sido, quan- 
do náo dos primeiros mais antigos, ao menos ha- 
bitado já antes da Creaçào desta Freguezia **. 
Mas ver agora, dentro de poucos annos iá não 
digo o espaço de algúas Legoas até as Vargens 
por onde se andava expeditamente noite e dia, 
mas somente o Lugar da commú Frequência, cu- 
berto de matos, despido de tantas cazas e ranxa- 
rias, sem a pastaria de gados, q' contava, sem o 
reciproco commercio, que Se fazia com a influen- 
cia do Oiro, dòs extranhos e moradores. Sem 
aquelle numero de escravaturas, q' era o arrimo 
dos Mineiros, cujos homes em parte se esquece- 
rão, em parte apenas Se recordáo ; ver, digo, este 
Sradavel Arrayal já extincto, e existindo apenas 
aa Capella, esforço e empenho dos Pretos es- 
cravos, aífeiçoados a Devoçáo de Nossa Senhora 
do Rozario, parece se pode justamente dizer, q' 
esta, mais Louvável, Obra fié como o ultimo 
Suspiro de tantos trabalhos e fadigas, que alli se 
haviáo empregado. 

Já falíamos acima, quando fizemos menção 
dos antigos moradores desta Freguezia, de João 
Dias Baptista, de Domingos Rodrigues Cunha, do 
Capitão Joaquim Machado de Moraes, Mineiros 
deste Arrayal. Alem d'estes também constáo os 
Nomes do Capitão mór João Baptista da Costa da 
Villa de Cananéa, do Alferes Jozé da Silva Mar- 
tins, Solteiro, que náo tem hoje em dia descen- 
dência nesta Freguezia, bem assi constáo os de Ni- 
colau Antunes, natural de Lisboa, cazado com 
Catharina de Sene da Costa, natural de Iguape, 
progenitor dos Antunes, de quem já nos Lembra- 
mos; de Manuel da Costa Travassos, oriundo de 



* No próprio Livro do Tombo ha confusão quanto a orthographia. 
ora é escripto Ivaporundyba, ora é Ivaporudyba. 

** Quer diz'r: já antes da fundação de Xiririca. (Nota do autor) 



t.. 5ooJ9,/:té> 



— 68 — 

Portugal, cazado com Maria da Costa, natural 
d'Iguape, progenitores dos Travassos igualmente 
mencionados. Mas com justa razão parece ainda 
mais memorável o Nome de Joanna Maria, natural 
de Minas Geraes, náo pela nobreza de Seu san- 
gue, ou por deixar muitos filhos, ou emfim pelas 
Suas riquezas, nada de tudo isso ella ou teve, ou 
fez a áatisfação dos Seus desejos. Toda a Sua 
distinção lhe proveio unicamente das suas hones- 
tas e Virtuosas acçoens ennobrecidas pela sua 
admirável caridade. Tendo vindo para este ar- 
rayal cazado com André de Souza, oriundo de 
Portugal, bem se pode affirmar q* ella foi a Alma 
de Ivaporúdyba, assi como foi a Sua origem, fa- 
zendo o melhor uso dos bens, que a Providencia 
confiou as Suas maons. Por fallecimento do pri- 
meiro Marido tornou a cazar com Joáo Marinho, 
também . de Portugal, e por morte deste terceira 
vez com José Manuel de Sequeira Lima ; natural 
de Minas Çeraes, talvez alliciados todos das esti- 
máveis qualidades desta Piedosa Mulher, cuja 
Caza em todo o tempo foi o abrigo dos Pobres, 
o Hospicio dos Peregrinos, e, o que hé mais, 
honrada no espaço de vinte e dous annos, mais 
ou menos, como o de Martha e Maria, pela Pre- 
sença Real de Jesus Christo; pois n'elía Se cele- 
brava o S*** Sacrificio, e Se conferirão os mais 
Sacramentos, excepto a do Matrimonio, ao que 
parece, antes de Servir a Capella de Nossa Se- 
nhora do Rozario dos Pretos, por eleição bem 
acertada do Primeiro R'^"* Parocho Jozé Martins 
Tinoco no anno Septimo do Seu Parochiato. 

Falleceu emfim esta virtuosa Mulher aos 2. 
de Abril de 1802. com idade de noventa annos, 
sem deixar bens alguns, porque em vida Soube 
distribuil-os, e renumerar com a liberdade os es- 
cravos que lhe Serviáo. 

Acaba-se de vêr, que, por não haver Capella no ar- 
raial de Ivaporundyba, eram feitos os officios divinos, ex- 
ceptuando os casamentos, na casa desta piedcsa Mulher^ 
chamada Joanna Maria; fazia-se isto ahi devido a uma 
representação que fez o povo do logar ao Vigário Capi- 
tular, com sede em S. Paulo, allegando que a longa jor- 
nada até Xiririca fazia-lhes perder muito tempo, e sendo 
constantes as enchentes na Ribeira, os desastres eram 
frequentes. Eis a cópia do requerimento acima mencionado : 



- 09 - 

Muito Reverendo Senhor Doutor Vigário 
Capitular. Dizem os Moradores das Minas de 
Ivaporudyba Freguezia de Nossa Senhora da Guia 
de Xiririca, que o Seu Reverendo Parocho os 
obriga no tempo da Quaresma dar satisfação aos 
Preceitos annuaes na Capella da Freguezia, deque 
Se Segue aos Supplicantes intolerável dano nas 
Suas fazendas pelos muitos dias, que perdem no 
trabalho de Seus escravos, accontecendo as vezes 
ficarem ilhados pelos contratempos de hua cau- 
dalosa Ribeira, pelo qual desce:n e Sobem, pas- 
sando faltas de mantimentos, e muito mais pelo 
risco das canoas carregadas de gente de toda 
idade, de que Succedem muitos infortúnios, como 
pouco tempo há pela mesma occasiào se affogou 
húa escrava, e mais três que correrão grande 
risco perdendo tudo, e de próximo três pessoas 
affogadas, e húa pagem ; e ao mesmo accontece, 
e pode accontecer aos d'aquella paragem, quando 
se vem baptizar, e outros muitos inconvenientes 
náo menos temerosos, que por notórios Se náo 
allegáo. Por tanto Pedem a Vossa Senhoria, at- 
tendendo aos referidos inconvenientes, conceda 
benignamente Se possáo desobrigar na d* para- 
gem, e que o Rever'"* Parocho, achando-se n'ella 
possa baptizar todas aquellas crianças, que nesse 
tempo se lhe offerecerem, para Se evitarem os 
mencionados inconvenientes. E receberão Mercê. 
O despacho do Vigário, Capitular a tão justo pedido 
está concebido nos seguintes termos : 

Sendo verdade o que os Supp.""* allegáo, o 

Reverendo Parocho os poderá desobrigar e ad- 

ministrar-lhes os mais Sacramentos necessários 

em a paragem referida, e Lugar que para esse 

effeito Se preparará com a decência que for possivel. 

S"* Paulo I de Março de 1770 — (Jarvalho. 

Por muito tempo, pois, deveram ter sido feitos os officios 

na casa desta mulher de admirável caridade. Mas, neste 

mundo ha sempre quem seja dotado de espirito de contra- 

dicção, quem seja opposicionista nato; qualquer inimigo ou 

desaffecto da santa mulher, pois inimigos tem até a melhor 

mulher, achou que a casa de Joanna Maria não servia 

para se effectuarem missas, baptizados etc. e que uma igreja 

devia ser levantada, e assim foi que antes do anno de 

1791, annos antes da morte de Joanna, se deu começo á 

capellinha da qual tratei ao principiar este artigo e que 

ainda hoje poderia contar cousas de tempos idos, assum- 



— 70 — 

ptos da historia paulista, que ninguém mais sabe hoje e 
que sempre se ignorará. 

Eis em sefi;uida o documento que refere-se á funda- 
ção da igreja de Ivaporundyba : 

Já deixamos ditto, que os Pretos, escravos 
dos Moradores de Ivaporudyba, onde abundarão 
primeiramente, movidos da Devoção para com a 
Senhora do Rozario, comecaráo a festejar desde 
principios a mesma Senhora n'esta Freguezia "^^ 
erigindo-Ihe Altar, e mandando vir a Sua Ima- 
gem, que se conserva n*esta Matriz; e que os 
mesmos escravos do referido Bairro, pela distan- 
cia em que Se achaváo, e por poderem apenas 
vir pela Paschoa da Ressureição, quando se des- 
obrigaváo da quaresma, festejar a Nossa Senhora 
hé q fundarão a Capella de baixo da Invocação 
de Nossa Senhora do Rozario, que hé o Seu 
Orago, a quem desde o anno de sua Benção, q^ 
foi o de 1791 a 21 de Agosto, começarão a Fes- 
tejar Sem interrupção na i" Dominga de Outubro, 
Segundo o Seu Costume, com eleição de Juizados 
e Reinados. Concorrendo pois os Senhores dos 
Sobredittos escravos com a Sua approvação e 
auxilios, mormente o Capitão Joaquim Machado 
de Moraes, de quem já falíamos, erigio-se de 
baixo da Faculdade Ordinária da referida Capella 
no Lugar em que existe, pagando-se todo traba- 
lho dos taipeiros e carpinteiros com o Oiro dos 
mesmos escravos. Não consta o tempo certo em 

3ue teve principio esta obra, mas Sem duvida foi 
entro de cinco annos do parochiato do Reve- 
rendo João Teixeira da Cruz **, entre 1775 ^ 1780, 
de quem adiante fallaremos. O qual Reverendo 
Parocho, persuadido da necessidade e utilidade 
d'esta Capella n'aquelle bairro, morreu ainda mais 
os sobredittos Moradores, e Seus Escravos, a 

* Freguezia de Xiririca. (do autor). 

*• Acha-se no Livro do Tombo a seguinte memoria sobre o padre 
João Teixeira da Cruz : 

Terceiro Encommendado 
Posto que devemos ainda fazer mais extensa a mençáo 
do Reverendo António Pedrozo de Barros Leite, e Ligar de 
certo modo com os Subsequentes vinte e dous annos cinco 
mezes e nove dias, que ainda parochiou, os primeiros dous annos 
e Sette mezes, que aSima declaramos, com tudo este hé o Lugar 
em que deve entrar o Reverendo João Teixeira da Cruz, natural 
da Cidade de Sm Paulo, como terceiro Parocho Successor. Não 
Se acha Termo de Sua Posse, mas parece de outras memorias 
do Tombo, que Sérvio, que foi aos vinte e oito de Agosto de 



— 71 — 

porem em execução os Seus Louváveis desejos. 
A nào pequena demora com tudo, que padeceu 
aié a Sua Dedicação ou Benção, asima mencio- 
nada, deixa ver alguas difficuldades, como accon- 
tece em Similhantes Obras, retardarão o uso 
desta Capella, que apenas ficou concluída no que 
toca somente ao corpo da Igreja, Sem terem po- 
dido Levar aSsima a sua Capellamór, e a Sua pe- 
quena Sacristia. 
Toda igreja deve ter um património, isto é: bens 
consignados para o sustento do padre que ahi diz missas, 
ou então para, com os rendimentos que dão o património, 
poder se concertar a igreja, o cemitério, emlim para se 
poder manter decentemente tudo o que diz respeito á casa 
de Deus. Este património pode constf^r de casas, como 
vimos quando tratei de Xiririca, ou de terrenos, que são 
alugados para lavradores, ou mesmo de terrenos auriferos 
em arraiaes de minas. 

Ivaporunduva é locar muito rico em ouro, e lógico 
era que qualquer proprietário piedoso tivesse feito doação 
de alguma lavra á Santa protectora da capellinha. O ouro 
era bateado também pelos crentes, que, por mera devoção, 
reservavão alguns dias do anno para este serviço, cujo 
producto, depois de lavado, era entregue á igreja. 

Documentos exactos sobre o património de Ivapu- 
runduva não encontrei, somente faz o Livro do Tombo, 
de Xiririca, menção do assumpto no seguinte trecho que 
transcrevo : 

Para Titulo ou Património da mencionada 
Capella de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos 
de Ivapurudyba, Erigirão ao mesmo tempo hua 
morada de cazas de taipa, visinha a mesma Ca- 
pella, cuja escrittura consta fora alli mesmo pas- 
sada pelo Tabelliáo da Villa de Iguape Joaquim 
Pereira do Canto» e Se crê estar lançada no Livro 
competente de Notas d'aquelle tempo, depozitado 

1775. Durou o Seu Parochiato cinco annos e cinco dias, até o 
dia dous de Settembro de 1780. Tendo-se empregado vigilante- 
mente na boa conducta dos Seus Freguezes, mereceu os justos 
Louvores de hum Reverendíssimo Visitador, e dos Seus mesmos 
Parochianos. As exhortaçoens Saudáveis deste Reverendo Paro- 
cho Se deliberarão os Escravos e Moradores de ivaporandyba 
erigir a Capella de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos 
d*aquelle bairro. Acabou Sua carreira mortal em a Villa de 
Iguape, onde estava residindo. 

Contáo-se neste decurso celebrados nove Cazamentos, dous 
Somente de pessoas brancas : baptizados cento e trinta e seis ; 
e tendo fallecido cincoenta, Sobrarão oitenta e seis individnos de 
augmento a povoação antiga. 



— 72 — 

no Archivo da Camará da mesma Villa. Pertence 
ao mesmo Titulo a Doação de hua Sorte de La- 
vras, que algum tempo depois foi feito a Nossvi 
Senhora do Rosário por hum dos Moradores Mi- 
neiros daquelle Bairro, da qual Senáo celebrou 
escritturaçáo, e Somente Se conserva húa muito 
fiel e antiga tradição que hé bastante para confir- 
mar a Sua posse. 
Durante a minha ultima estadia na Ribeira procurei 
indagar da tradição que se refere a essa lavra de ouro : 
nem em Xiririca nem no próprio logar em questão me 
foi possivel obter siquer vestigios de informações. 

Estas doações eram geralmente de valor para os 
verdadeiros devotos, que eram excessivamente dominados 
pelo clero, como se depreende principalmente dos docu- 
mentos transcriptos sobre Xiririca; estes nunca davam ob- 
jectos de pouco preço para satisfazer os seus piedosos sen- 
timentos; é por isso que presumo ter sido a lavra de alto 
valor aurifero. Talvez algum investigador mais paciente 
do que o humilde signatário destas linhas, amplie com o 
tempo as muitas lacunas que ahi ficam para ser preen- 
chidas. 

Já ficou dito no começo deste pequeno trabalho, 
quando tratei do interior da capellinha, que ahi deparei 
com os paramentos e alfaj^as, em estado deplorável. Não 
pude saber si ellas eram as mesmas que existiam nd 
fundação da igreja; duvido, pois que pannos e sedas não 
resistem por muitos annos em athmosphera carregada de 
humidade, como é a da Ribeira, mofam em pouco tempo, 
decompondo-se por completo, principalmente, quando 
acham-se em recmto nunca ventilado. 

O Livro (lo Tombo, de Xiririca, nos dá uma completa 
lista das alfayas e moveis que ahi existiam, e pela varie- 
dade de objectos se deve deduzir que a capellinha era 
remediada^ possuia um património cujos juros davam mar- 
gem para uma ornamentação decente e, além disso, a de- 
voção dos pretos era grande, pois estes também contri- 
buíam para esse fim. 

Termino a transcripção dos documentos existentes no 
Livro do Tombo de Xiririca, com o logar que chama-se 
actualmente Yvapurunduva. Não considero estes docu- 
mentos, acima transcriptos, de grande importância para a 
historia do nosso Estado, mas, como estou tratanao dos 
antigos bairros da Ribeira não me podia furtar a este 
trabalho. Num dos seguintes números da nossa Revista 
tratarei do bellissimo Yporanga. 



73 — 



Sessão de 25 de Junho 

O Dr. Edmundo Krug trata de uma excursão que fez 
//r S. Pedro do Tun'o ao Salto Grande do Paranapanema, 
descrevendo as bellas niattas virgens que se encontram 
durante o trajecto de seis léguas e observando que *o 
coração de attento observador condoe-se em vér no meio 
destas ricas selvas^ uma rocinha, um verdadeiro pygmeu, 
comparado com os gigantes do seu género, uma ridicuhi 
rocinha de milho ou feijão, cujo producto só servirá para 
sustentar por algum tempo, uma meia dúzia de pessoas, 
ou para engordar dous ou três porcos famintos, de raça 
ruim e degenerada. Condoe-se o coração porque para 
íazel-a derrubou-se quantidade de bôa e rica madeira de 
lei, em valor mil vezes superior á plantação I » Continua, 
dizendo que «para se fazerem estas rocinhas abatem-se 
arvores ; para fazel-as, despreza-se a natureza, que nos 
dotou com riquezas immensas que são pizadas e repiza- 
das pelo homem boçal e sem tinoI> e conclue sobre este 
assumpto dizendo : « Paciência I ainda virá o tempo em 
que os filhos e netos chorarão as imprudências dos pães 
e avós, commettidas hoje ». 

Tratando da Villa do Salto Grande, diz que ella está 
situada na margem direita do caudaloso Paranapanema, 
donde se vê a accidentada margem esquerda, já perten- 
cente ao visinho Estado do Paraná e construida de forma 
rectangular, achando-se a maioria das casas edificadas em 
dous lados adjacentes da figura. O lado parallelo ao rio 
é o mais commercial ; o bairro pobre, o Bairro dos Bugres, 
está perpendicular ao rio e constituído de casebres mat 
acabados. 

Do Salto, propriamente dito, faz a seguinte descri- 
pçào : « O rio Paranapanema antes de se precipitar pelo 
grande degrau que forma o salto, bifurca-se adiante de 
uma ilha de mais ou menos dous kilometros de extensão 
longitudinal, ilha essa de formação ignea, que segue ainda 
rio abaixo fazendo com que o salto tome dous aspectos 
completamente differentes. O lado do Estado de S. Paulo 
é uma prolongada corredeira, o lado do Estado do Paraná 
é uma só queda de cerca de 9 ^^ metros de altura. In- 
contestavelmente o lado do nosso Estado apresenta maior 



— 74 — 

interesse ao attento observador, sob o ponto de vista de 
originalidade : finos e grossos fios de clarissima aeua 
passam por entre as innumeras pontas de pedras e dão, 
pela variedade de suas formas, um encanto especial ao 
conjuncto harmonioso da totalidade. A queda do lado do 
Paraná nada de interessante apresenta a não ser a longa 
cortina branca que se desenrola adiante de nossos olhos 
estupefactos. Toda a massa de agua desta queda, do lado 
do Paraná, passa, com fúria vertiginosa, por uma estreita 
garganta, formada de altos paredões de rochk. 

Quanto á ilha que separa os dous lados da grandiosa 
queda, diz que ella nada mais é do que um enorme matacão 
sobre a qual vegetam esparsos arbustos, que alimentam-se 
da matéria orgânica que acham nos rachões da enorme 
pedra, e de cuja seiva se alimenta grande quantidade de 
parasitas, sobre cujos caules apegam-se muitas epiphytas 
da família das Orchídeas. Ahi encontra-se enorme quan- 
tidade de Baunilha. 

Discussão do Dr. J."™ José de Carvalho sobre : A der- 
rubada das nossas mattas : 

Tendo prestado a devida attenção á brilhante confe- 
rencia produzida pelo Dr. Edmundo Krug, pede permissão 
para externar ponderações, que pela mesma lhe suggeriram. 
Começa dando parabéns ao illustrado conferente, por- 
quanto ao lado do fundo espirito de observação e fina 
critica, que mais uma vez revelou e lhe reconhecem todos, 
o Dr. Krug agora denunciou-se também poeta, pelas tintas 
de delicada paleta com que decorou sua conferencia, 
descrevendo com inteira côr local a vida e costumes, usos 
e modos, grandezas e defeitos do nosso camponio, essen- 
cial e radicalmente differente do camponio de qualquer 
outra nação do globo. 

O Dr. Krug é, pois, um poeta delicado e naturalista, 
inda que não tenha quiçá versejado, o que não é condição 
indispensável. 

Da conferencia, porém, o que a elle, Dr. Carvalho, 
mais impressionou, ífoi a referencia ao ataque ás nossas 
mattas, assumpto que, de longo e de longe, muito o vem 
impressionando, pelo que tem lido, pelo que tem ouvido, 
e mais e muito mais pelo que tem visto. 

Diz o Dr. Carvalho que se lhe confrange o coração 
e se lhe aterra o espirito, ao vêr a estúpida, brutal, anti- 

f patriótica e imprevidente destruição de nossa riquêsa 
lorestal, qual se faz ahi pelo interior. 

O lavrador, de si e do futuro dos seus descuidado, 
manda todos os annos derrubar, queimar e incinerar cen- 



— 75 — 

tenas de alqueires de mattas virgens, para ahi plantar 
tristes roças de milho, feijão e abóbora, para engorda 
de porcos, sustento de animaes e outros empregos ! . . . 
Nem o fim, neste caso, justifica o meio, porque : a) des- 
tróe-se o mais pelo menos; b) nada prova a necessidade 
dessas derrubadas annuaes, visto como é falsa a allegaçâo 
de cansaço da terra; c) inutilisa-se estupidamente o que 
a Natureza com lento e constante esforço produziu em 
muitos séculos, e não mais alli reproduzirá ; d) desappro- 
veita-se completamente um valor grande, de enorme uti- 
lidade pratica, de variadíssimas applicações ás industrias 
e ás artes ; e) compromette-se mesmo a salubridade e a 
belleza dos sitios, substituindo a matta virgem, opulenta, 
pelo mirrado capoeirão. 

Diz o Dr. Carvalho que, muito violentando a sua 
condescendência, chegaria á alguma, inda que fragilima, 
justificação para o lavrador, que derruba para plantar ; o 
que, porém, o indigna e revolta pela estúpida brutalidade 
do acto, é vêr derrubar-se pelo machado ou pelo fogo 
um pinheiro de 300 a 500 annos, que daria madeiramen- 
to inteiro para uma regular construcção, e que se deixa 
por fim apodrecer indifferentemente, só pelo gosto de 
furtar ás abelhas uma garrafa de mel / / . . . Incfigna-o e 
revolta-o vêr inutilisar-se um cedro colossal para só delle 
tirar-se um comedouro para gallinhas ! ! . . . Não sabe 
com que indignação relatar que põe-se por terra, exposto 
ao fogo e á destruição do tempo, um jequitibá alteroso, 
uma embuia valerosissima, para ao redor delles plantar 
12 minguados pés de milho I ! . . . 

E' a nossa riqueza florestal, e com ella uma boa 
garantia da vida prática das gerações porvindoiras, que 
assim, com criminosa indifferença, deixamos ir aguas abaixo. 

Não compreende, diz o Dr. Carvalho, que se esteja 
arborisando as cidades ao mesmo tempo que se devastam 
as mattas e florestas seculares ! 

Nestes termos, embora temendo dizer um dislate, 
pensa que pôde pedir á Sociedade Scientifica de São Paulo, 
corporação já muito respeitável pelo saber e alta compe- 
tência da quasi totalidade de seus membros, a nomeação 
de uma Commissão para entender-se com o Governo ou 
com o Corpo Legislativo, pedindo-lhe providencias urgen- 
tes para o caso ; e ainda pensa poder lembrar á douta 
Sociedade a conveniência de promoverem-se festas das 
arvores. 

— Respondendo a considerações e objeções que lhe 
foram feitas por alguns coUegas, o Dr. Carvalho disse: 

I.** — que não via intrusão ou impertinência a acoi- 



- 76- 

mar-se á Sociedade Scieniifica, si esta resolvesse algo 
lembrar aos Poderes Públicos ou a quem competente fôr. 
porquanto, além de serem amplos e irrestrictos os direitos 
de petição e de queixa, é dever que pesa sobre todos os 
patriotas esse de dizer, lembrar e aconselhar quanto em 
sua intelligencia e capacidade encontrarem de que resulte 
beneficio ou proveito para a collectividade ; e, demais, si 
no Governo houvesse um grosseirão, que nos perguntasse 
— o que tendes vós com isso, — bem poderiamos e airosa- 
mente responder — tanto quanto vós, zelando dos inte- 
resses pátrios, presentes e futuros, que vossa incúria com- 
promette. 

Ainda mais : si o Governo tem competência para 
impedir, sob multa, o plantio do café, tem igualmente com- 
petência e direito para impedir a destruição barbara das 
mattas com inutilidade provada. 

Ninguém pôde incendiar sua própria casa, pois a lei 
prohibe e pune. 

Isso não é offender ou perturbar o exercicio do direito 
de propriedade ; é antes acautelal-o melhor. 

O Dr. Carvalho lembrou também que prohibe-se a 
pesca pela dynamite, porque compromette a producção. 
e lembrou mais que ha Camarás Municipaes que já pro- 
hibem e multam a derrubada dos palmitaes, a caçada às 
perdizes e codornas, etc, males muito inferiores aos emer- 
gentes da destruição das mattas e florestas. 

2.'' — que confiar a extincção desse attentado ao 
efleito da educação popular, é o mesmo que lhe não ligar 
importância alguma, pois é para perguntar-se — em que 
século esse effeito será colhido ?... quando já não houve- 
rem mattas e florestas?... 

3."* — que não vê similhança ou paridade na destrui- 
ção de monumentos e na destruição das mattas. O monu- 
mento pôde ser restaurado e mesmo reerguido em dias, 
ao passo que a matta virgem não se restaurará sinão com 
muitos séculos, quando tal se possa alfim conseguir. A 
historia está ahi para demonstral-o, em nôs e em todas 
as partes do mundo. 



77 



Sessão de 9 de Julho de 1908 

O Dr. Cariní trata da Piraplasmose. Nos numerosos 
exames de sangue feitos até o presente nos bovidèos ata- 
cados de Tristeza, o Autor encontrou somente uma forma 
de piroplasma, que corresponde em tudo ao piroplasma 
bigeminum da febre do Texas. Assim o A. observou as 
alterações dos glóbulos vermelhos, que acompanham ordi- 
nariamente esta doença, isto é, as granulações basophilas 
e os pontos marginaes. 

Isto faz admittir, até prova contraria, que em S. Paulo 
existe uma só forma de Tristeza, o que tornará mais fácil 
a immunisaçao dos animaes procedentes de lugares in- 
demnes de Tristeza. 

O Autor passa em seguida a occupar-se dos meios 
empregados para obter essa immunisaçao e dos resultados 
práticos colhidos até agora e pensa também, que seria 
recommendavel estabelecer, em um dos grandes portos de 
Europa, um posto de vaccinação dos animaes destinados 
aos paizes onde a tristeza reina endemicamente. Os ex- 
portadores, com esta immunisaçao, augmentarão muito o 
valor dos animaes. 

O Dr. Hottínger fez algumas objecções, que mais tarde 
serão publicadas aqui. 

Dr. A, Caríni sobre a Peste de coçar. O Autor refere 
brevemente os symptomas de uma moléstia chamada peste 
de coçar, que appareceu, ha alguns mezes, na Fazenda de 
S. Roberto, perto de S. Carlos do Pinhal, onde matou 
diversas vaccas de leite. 

O relatório do veterinário que foi encarregado de 
estudar /;/ situ a doença, produziu certa apprehensão, pois 
que o Dr. PicoUo não tendo podido obter dados suffi- 
cientes para estabelecer um diagnostico seguro, admittiu 
a possibilidade que se tratasse da peste bovina, já bem 
conhecida pelos grandes estragos que tem causado na 
Europa e em vários outros paizes. 

Esta hypothese era também apoiada pelo facto de que 
as pesquizas microscópicas, feitas sobre o sangue e órgãos 
internos, não demonstraram a presença de nenhum pa- 
rasita. 

Ao contrario do que se podia prever, foi sufficiente 
mudar o gado de pasto, isolando os animaes doentes, para 
não se produzir mais casos da moléstia. 



-78 



Sessão do dia 16 de Julho 

O Dr. Affonso Splendore trata da Introducção ao 
estudo dos Protozoários parasitários. 

Sessão do dia 30 de Julho 

O Dr. Edmundo Krug trata da Superstição no Estado 
de S. Paulo. Diz que tudo que emittirá foi colhido du- 
rante suas innumeras excursões pelos arrabaldes de São 
Paulo, nas suas viagens aos sertões do nosso Estado e 
coUeccionado com pessoas do seu conhecimento, sendo 
que a maior parte dos dados sobre o assumpto dizem 
respeito ao caipira. 

Continua declarando que não pretende trazer nada 
de novo, que quer somente coUeccionar dados espalha- 
dos, aproveitando a opportunidade para pedir aos illustres 
ouvintes quererem auxilial-o em augmentar a sua peque- 
na collecção de superstições dando-lhe verbalmente ou 
enviando-lhe por escripto material para um trabalho mais 
extenso que pretende publicar. Dá a explicação do que 
é superstição e classifica-a em cinco cathegorias distin- 
ctas, a saber : 

Da primeira cathegoria fazem parte as de origem reli- 
giosa, seja ella da crença do paiz ou do page ; 
Na segunda entram as superstições nas quaes representa 

o homem o papel mais saliente ; 
Pertencem á terceira cathegoria, aquellas em que o ani- 
mal é o factor principal do assumpto supersticioso ; 
Na quarta entram as superstições nas quaes a planta 

assume o papel mais em evidencia ; 
Finalmente trata a quinta cathegoria das cousas inanima- 
das, quando estas representam um papel distincto. 
Reconhece, o conferencista, porém, que esta classi- 
ficação é pouco pratica, por assumirem factores de duas 
diversas cathegorias o mesmo papel importante. 

Trata em primeiro logar das superstições dos Índios 
e depois das religiosas, prevenindo, porém, os ouvintes, 
de que não se expandirá demasiadamente no assumpto 
religioso, para não offender susceptibilidades ; e para não 
dar motivo a que pessoas ignorantes, que porventura lessem 



— 79 — 

a conferencia, tivessem motivo para julgar que o confe- 
rencista estivesse zombando de certos usos entranhados 
nos nossos costumes religiosos. 

Entrando definitivamente no assumpto trata, em 
primeiro logar, do Cahapóra do indio, ou do nosso Cai- 
pora. Diz que elle é o génio protector da caça do mat- 
to, que é tão perverso, que nem siquer pôde ser visto, 
sem trazer a infelicidade para quem o enxergar. Elle 
mostra-se somente, em occasiões criticas, aos demais ani- 
maes, quando caçador malévolo pretende exterminar por 
completo uma porção de caça etc. em um dado momen- 
to. O Cahapóra é um homem grande, coberta completa- 
mente de pellos lustrosos, como si tivessem sido untados; 
vive montado no seu animal predilecto, o porco, um 
porco monstro; tem uma physionomia tristonha, é taci- 
turno, e de vez em quando grita para impellir a vara 
que segura constantemente na mão. 

Trata em seeuida do Lobishomem, do Sassi, do 
Uauyará ou Boto, do Boi-tatá e finalmente do Currupira, 
passando em seguida para a superstição religiosa. Cita 
o S. Roque, que é o Santo contra o engasgo e a Santa 
Barbara que é a Santa contra o fogo, faz commentarios 
detalhados do Santo António como casamenteiro, e de- 
mora-se mais na descripção da dança supersticiosa do 
S. Gonçalo, citando alguns versos que são cantados pelos 
violeiros, por occasião desta cerimonia, em cujos versos 
mal rimados attribue-se boas qualidades a este santo 
dançador. Como ultimo ponto de superstição religiosa 
menciona o S. João e o facto dos caboclos não queima- 
rem Cedro, dizendo que tendo servido esta madeira para 
crucificar Jesus Christo não devia-se empregal-a para 
usos triviaes. 

Passa depois á segunda cathegoria e cita as curas 
no homem por intermédio de sympathias ; cita o effeito 
das figas contra o quebranto, os caborges contra qualquer 
incidente imprevisto e trata de usos supersticiosos para 
com os defuntos e para quando um rapaz pretende anga- 
riar as sympathias de uma rapariga ou viceversa. Final- 
mente cita casos de superstições dos ladrões e assassinos. 

Tratando da terceira cathegoria são mencionados os 
diversos meios para se curarem moléstias no gado, nos 
animaes domésticos, e as mordeduras de cobras, aífirman- 
do positivamente, que o figado da cobra não tem valor 
algum como contraveneno dado ao mordido, como susten- 
tou ha tempos medico conhecidissimo aqui em S. Paulo. 
Diz também, que é absurda a idéa espalhada no nosso 
meio, de que a cobra procura a teta da vacca ou o peito 



— So- 
da mãe que amamenta, provando a incapacidade da cobra 
de sugar, devido á formação de sua bocca e á posição de 
seus dentes. 

Fallando da planta como agente principal da super- 
stição, affirma que deve ser considerado absurdo o des- 
viamento da agulha magnética pelo Páo d* Alho e a influ- 
encia da lua sobre as madeiras. Trata das larangeiras como 
prophetisadoras da morte de alguma pessoa de casa e das 
precauções que se deve ter quando as plantas de cultura 
praguejam. 

Finalmente, passando á quinta cathegoria, diz o con- 
ferencista que é dentro de casa que mais se observam os 
effeitos da superstição sobre cousas inanimadas. Trata dos 
meios de se livrar de uma visita enfadonha, dos meios 
para se evitar infelicidade, etc, etc. 

Termina a sua exposição da seguinte forma : «Quem 
não conhece o «Folk Lore», que é uma das grandes di- 
visões da anthropologia, dirá talvez, que o conferencista 
tivesse occupado demais o precioso tempo do distincto 
auditório com assumptos banaes e sem valor ; a supersti- 
ção, porém, faz parte integral de um povo, e para se 
conhecer o mesmo é necessário conhecerem-se os seus 
hábitos, seus costumes e suas superstições, esperando, que 
algum dos consócios venha fazer uma exposição melhor e 
mais bem classificada deste assumpto, ainda completamente 
novo entre nós ». 



flDiSOS 
Sessão solemne 



A sessão solemne commemorativa da fundação da 
Sociedade terá logar á 12 do corrente mez, ás 8 horas 
da noite na sede social com o seguinte programma : 

I.) Abertura da sessão pelo presidente. 

2.) Discurso official pelo Sr. Erasmo Braga. 

3.J Communicações scientificas. 



Sessão económica 

Fica convocada para o dia 17 do corr. a sessão eco- 
nómica do ultimo trimestre do anno social cadente, e caso 
não haja numero legal de sócios para realisal-a, será ella 
effectuada a 24 com um numero qualquer de sócios pre- 
sentes, conforme estabelece o art. 12, § 3 dos Est. 



au(^a; 1209 

DA 

Sociedade Scientifica 

DE 

SÃO PAULO 

REDACÇÃO : Prof. Dr. Roberto Hottinger e Dr. Edmundo Krug. 

SEDE DA SOCIEDADE: 
Avenida B. Luiz António, 12 ^ S. PAULO ^ Brazil 



SUMMARIO : 

1. Ailocução annual proferida na sessão commemorativa do 5.o anniver- 

sarío da Sociedade pelo Prof. Erasmo Braga. 

2. Uma pesca no Rio Paranapanema pelo Dr. Edmundo Krug. 

3. Sessão do dia 6 de Agosto de 1908. 

Dr. Adolpho Lutz sobre um caso de hemophilia.' 

4. Sessão do dia 27 de Agosto de 1908. 

br. Adolplio Lutz sobre um coleoptero parasitário. 

5. Sessão de l.o de Outubro de 1908. 
Dr. Mastrangioli sobre uma urina. 



finocução íinnual 

proferida na sessão commemorativa do 5.o annlversario da 
Sociedade Scientifica de S. Paulo pelo 

PROF. Erasmd Braga 

Ao pacto fundamental com que fundámos a Socieda- 
de Scientifica de S. Paulo cabe a razão de soar hoje 
nesta casa a voz menos auctorizada que aqui se tem 
ouvido. Foi um dos detalhes de nosso compacto: quando 
a Sociedade pedir o nosso concurso e cooperação, não 
hesitar em metter hombros ao trabalho que ella nos confiar. 

Não foi sem grande surpreza, de nossa parte, que 
recebemos da nossa digna Directoria, a incumbência de 
que, ora nos desempenhamos. *E é com summo acanha- 
mento que nos connamos á vossa benévola attenção, por- 
que bem conhecida é a ogeriza, que se vota, nos grémios 
scientificos, á arte declamatória e não nos sobra a compe- 
tência dos illustres profissionaes que ornam o nosso 
quadro social, para emprestar a esta allocuçâo o mérito e 
valor que devera ter. 



— 82 — 

Si não visamos dar á nossas palavras o caracter ou 
de um balanço da sciencia corrente ou de uma documen- 
tação philosophica das tendências hodiernas do pensa- 
mento, no vasto campo das sciencias, como soem ser os 
discursos annuaes da British Association, dispomo-nos, 
todavia, a estudar certas faces do nosso programma de 
trabalho e da funcção em que se acha a Sociedade 
Scientifica. 

Não deveria ser necessário delinear a apologia de 
uma aggremiação destas, em nosso meio social. Taes 
grémios deviam existir em toda a parte, onde houver 
pessoas que amem a Natureza e se deleitem na contem- 
plação verdadeira e fiel dos factos que constituem o pa- 
trimónio da sciencia. 

Para muitos indivíduos, a idéa, a noção própria de 
um grémio scientifico ou literário concretiza-se em uma 
installação mais ou menos apparatosa ; em uma dique de 
eleitos, regidos por uma directoria em que não deve faltar 
«essa typica e obsoleta entidade que se chama nas nossas 
aggremiações o « orador official ; » um olympo que im* 
mortaliza os felizes, os singulares, os preciosos, ou 05 in- 
comparáveis que têm a ventura de obter alli uma cadeira. 

Elles querem uma academia ou nada. 

Longe de nós, detractar das academias e dos acadé- 
micos. Mas, é precisamente á opinião formada de uns, 
contra as academias e do erro de outros, que não podem 
imaginar a possibilidade de algumas pessoas se aggremia- 
rem para o cultivo das letras e das sciencias sem serem 
immortaes, com toda a paraphemalia dessas eminências, 
que se deve attribuir em parte a difficuldade com que 
luctam para viver as instituições scientificas existentes, no 
Brazil, em minguado numero. 

Depois, um outro erro — parece um vicio congénito 
de nosso espirito nacional — um erro pernicioso compro- 
mette a vitalidade dos grémios a que nos referimos. Mal 
se funda uma aggremiação e ou ella se transforma em 
club de diversões, « um mappa de festas », como diria 
Gregório de Mattos, ou a politica e a eloquência indefecti- 
vel que discute « de omne re scibile et quibusdam allis > 
vem comprometter a utilidade delias. 

Dahi vem outro preconceito contra toda a espécie de 
grémios que não visem um fim utilitário, restricto a uma 
classe ou a uma profissão. 

A existência da Sociedade Scientifica é — em si — 
um protesto contra a megalomania de uns, o erro de 
outros e o exclusivismo utilitário de ainda outros. 



-83- 

A razão de ser de um grémio desta ordem — é o 
trabalho, a cooperação intellectual. 

Desde que haja espirito de trabalho e um ponto de 
vista commum — estão preenchidas as condições essen- 
ciaes para se associarem os coUaboradores. E é tão forte 
essa espécie de affinidade, que ella se manifesta a des- 
peito da distancia. 

Nossa matricula de sócios contêm nomes de pessoas 
residentes em outro hemispherio, que se associaram com- 
nosco para os fins dessa vasta cooperativa scientifica que 
prende necessariamente em suas malhas todos os homens 
da sciencia, por mais individualistas que elles sejam. 

E' um corollario do principio de economia : a vida é 
breve; as linhas de pesquiza, levadas por outrem mais 
longe, o caminho já percorrido por outrem, os successos 
e insuccessos de outrem, — devidamente estudados e ve- 
rificados — servem de base para novas conquistas. Dada 
a limitação da intelligencia e da vida, para chegar-se a 
algum resultado novo, precisamos de conhecer o patri- 
mónio que nos legou o passado e o estado da questão 
no presente. 

Sem prejuízo da iniciativa individual e do valor in- 
disputável do esforço original, a menor perquirição, em 
terreno virgem, demanda inilludivelraente um dominio 
completo da literatura scientifica. 

Aqui apparece, em todos os ramos dos conhecimen- 
tos humanos, a necessidade palpitante de uma clearing- 
house. Uma sociedade como a nossa tem de visar preci- 
samente esse fim pratico. Foi essa uma das grandes idéas 
que se incorporaram no programma da Sociedade Scienti- 
fica, em seu inicio — a permuta de conhecimentos biblio- 
graphicos e de informações sobre vários assumptos. Si de 
um lado são vastas as literaturas de cada ramo de scien- 
cia, minguadissimos são os nossos recursos em um paiz 
novo, onde não ha as grandes bibliothecas enriquecidas 
com livros de especialisação e onde a compra de obras no 
extrangeiro está em funcção dos parcos ordenados que 
fazem das carreiras liberaes entre nós uma verdadeira 
vocação de heroicidade. 

Esta é a limitação mais dolorosa para quem estuda 
no Brazil. 

E tanto estas circumstancias são visíveis, que recen- 
temente vimos uma carta de Meyer-Ltlbcke a um dos 
nossos mais dedicados professores, manifestando o grande 
philologo profunda admiração pelos trabalhos que o seu 
correspondente levara a cabo, tão longe dos centros 
scientificos. 



L.Soc.l^-íí-^ 



-84- 

E com efíeito — examinemos este facto á luz de 
nossas instituições de ensino. 

Raros sâo os professores que independem de suas 
cadeiras para a sua subsistência e a generalidade recorre 
ao ensino privado para se manter. Sobre essa triste con- 
tingência que compromette a qualidade e a efficiencia, 
sinão a proficiência do ensino, e dá logar a elevar-se o 
discurso á altura de methodo pedagógico, ainda accresce 
em geral ao professor a obrigação de discutir com os 
seus botões a encommenda dos livros e de confrontar os 
preços do catalogo, com as ultimas cotações dos cereaes 
e das verduras. 

E as bibliothecas das escolas ou se enchem de livros 
velhos, adquiridos por favor, ou recebem obras novas em 
apoucado numero, consoante a idiosyncrasia ou as pre- 
ferencias personalissimas de quem as mande vir. 

Nâo queremos generalisar, em absoluto, mas conhe- 
cemos casos específicos destes. 

E' exactamente em taes circumstancias que a coope- 
ração de uma sociedade vem a ser preciosa. 

Mas, essa cooperação ha-de ser encyclopedica ? obje- 
ctará algum caturra zeloso de sua reputação especialíssima. 

Sim, responderemos nós, e por felicidade dos que 
aprendem ainda o será por mais algum tempo, sem em- 
bargo da bòa orientação com que cada um vá especiali- 
zando os seus próprios conhecimentos. 

A quem estuda as raizes triliteraes das linguas semí- 
ticas, os cuneiformes antiquíssimos e tem a ampla seara 
da Mesopotâmia e da Syria onde lavrar, ninguém nega- 
gará, toaavia, o direito de se rejubilar com os illustres 
bactereologistas desta casa por terem isolado mais um 
micróbio. 

A educação encyclopedica que todos devemos ter 
recebido antes da educação profissional serve de base 
commum para que — até certo ponto — o trabalho do 
astrónomo seja digno da attenção do biologista, mesmo 

Suando a correlação das sciencias para isso não nos 
esse uma razão maior. 

Si, de um lado, é incomprehensivel o homem de 
sciencia que não tenha a sua predilecção ou especialida- 
de, doutro lado o esplendido isolamento da intelligencia re- 
flecte no moral e pôde fazer de um eminente sábio um 
homem injusto, intratável, um egoísta falho de aprecia- 
ção pelo trabalho alheio. 

ríão é possível que alguém se disponha a aleijar as 
suas faculdades moraes por um mal entendido exclusivis- 
mo que está muito longe da especialisação. 



-85- 

Mas voltando ao ponto em que tratávamos da falta 
de espirito associativo, em nossas classes letradas, ha 
uma observação que nSo deixaremos escapar. 

A sobrevivência da Sociedade Scientifica e de suas 
irmãs desta capital e de Campinas — o Instituto Histórico 
e Geographico e o Centro de Sciencias, Letras e Artes 
— são um argumento da viabilidade de taes organizações 
em nosso meio, aparte os preconceitos e erros, que mili- 
tam contra tal iniciativa. O espirito que anima os traba- 
lhos da Sociedade Scientifica devia promover, em toda a 
parte, onde se encontrem pessoas estudiosas, a açgremia- 
ção para o trabalho — modesto sim, mas consciencioso. 

Imaginemos o impulso que daria ao estudo das scien- 
cias em nosso Estado a organização de algumas ou mui- 
tas associações — para trabalho, estudo, observação, com- 
paração de notas, confronto de resultados ! 

E' o que fazemos aqui. Neste particular, resalta com 
salencia a importante funcção que o movimento associa- 
tivo, para o fomento e vulgarisação de estudos scientificos, 
deve ter na actualidade no Brazil. Temos ao redor de 
nós uma natureza esplendida, onde a vida se manifesta 
em formas admiráveis. Na vastidão dessas florestas que 
se extendem desde alli — aquella orla verdejante que 
cerra o nosso campo visual — ha innumeraveis seres — 
animaes, plantas ou mineraes — que não foram colleccio- 
nados, estudados, classificados. 

Esse é um trabalho que ultrapassa o limite de nos- 
sos esforços. 

Crianças, moços intelligentes, dotados dessas brilhan- 
tes qualidades que fazem assombrosa a mentalidade sul- 
americana — crescem com os olhos fechados a essea 
quadros que extasiaram a Humboldt e pasmaram a St. 
Hilaire e Agassiz — ao passo que aos estudantes estra- 
gam a memoria com a indigesta injecção das prelecções 
eloquentes e dos livros de segunda mão. 

Não é que as aggremiações do typo que ideámos 
venha substituir a escola. Mas, sem a menor intromissão 
em terreno alheio muito podemos fazer para incutir 
na geração nova uma curiosidade sã pela Natureza e um 
desejo insaciável de vêr com os próprios olhos as mara- 
vilhas do Creado. 

Ha em nosso meio uma convicção tenaz de que a 
pesquiza original não é para nós : isso apenas pôde con- 
seguir-se em centros mais adiantados, com outros recursos 
e outro preparo. 

Não ha erro mais deplorável. 

Em toda a parte o observador íntelligente e operoso 



— 86 — 

pôde fazer seu estudo de psychologia experimental ou 
de entomologia. 

Tomemos como illustração este tópico, onde a novi- 
dade e a possibilidade de investigações de primeira mSlo 
podem satisfazer ao pesquisadcw mais ambicioso. Com 
força maior, applicam-se ás nossas circumstancias as se- 
guintes palavras de nosso consócio John Henry Comstock : 

« Relativamente pouco é o que sabemos sobre a in- 
tima estructura dos insectos; as transformações e os 
hábitos do maior numero de espécies não têm sido estu- 
dados ; e as relações de consanguinidade dos vários gru- 
pos de insectos são muito imperfeitamente conhecidas, 
rortanto, si alguém quizesse aprender qualquer cousa da 
acção das leis que regem a vida e o desenvolvimento 
dos seres organisados, e ao mesmo tempo experimentar 
o prazer derivado da investigação original, não poderia 
encontrar melhor campo do que lhe offerece o estudo 
dos insectos. 

Mas não é necessário que tenha o gosto e o tempo 
requerido para a cuidadosa investigação scientifica afim 
de tirar proveito desse estudo. Pôde elle ser transforma- 
do em um recreio, uma fçnte de entretenimento, quando 
estivermos fatigados, uma agradável preoccupação de 
nossos espiritos quando caminharmos. . . As admiráveis 
transformações dos insectos, sua belleza, o alto desenvol- 
vimento de seus instinctos, tudo os faz attractivos objectos 
de estudo.» 

E como se pôde proceder a este bello estudo ? Uma, 

Cequena coUecção de apparelhos fáceis de adquirir e um 
om par de olhos, abertos intelligentemente para a natu- 
reza, é o material sufficiente ; depois, trabalho methodico, 
sincero e exacto. 

O habito de coUeccionar — tão notável nas crianças 
— fornece o elemento psychologico fundamental para o 
inicio de uma vasta campanha para vulgarisação do es- 
tudo das sciencias — o verdadeiro estudo das sciencias. 
O que ha muito é uma tortura anti-scientifica da 
mocidade em nome das sciencias, ou quando muito a 
exposição das coUecções importadas — cut and dried — 
como dizem os inglezes — e que não influem na forma- 
ção do espirito scientifico do individuo, como o collecciona- 
mento original, acompanhado do memorial das excursões 
com o registro fiel dos phenomenos observados. 

O ensino só pelo livro tem compromettido seriamen- 
te o futuro scientifico do paiz, com prejuizo da creação 
da iniciativa do trabalho original, muito embora tenha 
progredido a eloquência didáctica. 



-87 - 

Pois ainda ha quem ensine sciencia fazendo orações 
á moda clássica e se extasie de entreouvir dos discipuk»s, 
no jargon escolar: «Como fala bem! este sujeito tem 
talento ». 

Eram estas as palavras quasi textuaes com que um 
eminente scientista, tragicamente morto, ha pouco tempo, 
caracterisava lamentosamente a orientação tradicional do 
ensino scientifico. 

Pcrmittam-nos fazer neste ponto o nosso confiteor — 
ainda não abordámos no terreno pratico esse artigo do 
nosso programma, a não ser nas sessões publicas que 
bem podiam ser transformadas em um curso livre de 
sciencias physicas e naturaes. 

Si a nossa aggremiação o fizesse, animada do espiri- 
to de servir ao paiz e á Sciencia, é possivel que houves- 
se recriminações, mas neste valle de lagrimas é difficil 
agradar touf le monde et son père, 

Lembra-nos a primeira visita que fizemos em locali- 
dades longinquas do Estado do Paraná a dois homens que 
g restaram a vários museus valiosos serviços — Eduardo 
>unkenfield Jones e Telemaco Borba. 

Um, no retiro pittoresco de sua vivenda, empregava 
o ócio em organisar para o Museu Britânico, sob a direc- 
ção de lord Walsingham, a mais rica coUecção de lepi- 
dopteros brasileiros que ha, estando algumas espécies 
novas baptizadas com nomes da familia Jones. 

Outro, nos interregnos das sessões parlamentares do 
congresso de seu estado, penetrava os sertões, convivia 
com os Índios, explorava as ruinas de La Guayra, desco- 
bria jazidas de carvão, coUeccionava os ricos specimens 
de artefactos da edade da pedra do homem americano que 
figuram nos museus de Curityba e de La Plata. A' sua 
sollicitude é que devemos o Spirifer borbae^ cujo primeiro 
exemplar trouxemos de nossa excursão a Paraná em 1899 
para o Museu Paulista, sendo incluído na systematica por 
Kayser. 

A collaboração de muitos leigos de boa vontade e 
intelligencia podia ser aproveitada si ao menos houvesse 
uma direcção competente que os incitasse a colleccionar 
e lhes desse as instrucções necessárias para isso. 

Devemos o nosso primeiro impulso para o trabalho 
independente aos conselhos de um naturahsta que nós poz 
nas mãos as instrucções praticas da Smithsonian Institu- 
tíon e a um dos nossos mais distinctos bacteriologistas 
que nos ensinou os segredos do microscópio. 

Mas, permitti que ponha sob a vossa bondosa atten- 
ção — particularmente a vós que tendes a auctoridade de 



— 88 — 

mestres e scientistas — um appello da mocidade estudiosa. 
Precisamos urgentemente de uma literatura pratica scíen- 
tifica — adaptada ás nossas circumstancias e exemplificada 
com a nossa fauna e a nossa flora e os nossos mineraes. 
Nada ha que mais desencorage o principiante ainda 
privado da experiência que buscar no commercio uni 
apparelho recommendado e não o poder encontrar; lêr 
no livro a exemplificação dos specimens mais comesinhos 
e não poder identifical-a, por que não ha em nossa latitude 
os exemplares referidos. Essa falta é sobretudo mais no- 
tada na technica. O único trabalho deste género publicado 
pela Commissão Geographica e Geológica e organizado 
pela secção botânica já não está ha tempos, accessivel 
aos estudiosos. A nossa observação não vae ao ponto 
de desconhecer a existência de livros didácticos de valor, 

{*á em uso. Desejamos mesmo agradecer daqui ao professor 
Jranner e ao professor Derby, o assignalado serviço que 
prestaram á literatura scientifica da lingua portugueza 
com a publicação da Geologia Elementar do eminente 
professor de « Leland Stanford Júnior » que estimamos 
muito entre os nossos livros. 

Mas, oxalá este appello não morra com a voz de 
quem fala. E' sensível a ausência de guias práticos como 
o de Packard, para o colleccionamento de. specimens en- 
tomologicos, como o de Comstock, do mesmo género — 
para a iniciação dos que entram o pórtico do verdadeiro 
trabalho scientifico. 

Aos nossos botânicos incu:nbe ensinar como se faz 
um herbario ; aos nossos entomologistas, como se apanham 
e conservam os insectos ; aos nossos mineralogistas, como 
se pode fazer uma coUecção aproveitável de mineraes. 

E, como complemento disso, é possivel, por meio da 
instituição de prémios, de permuta de exemplares, de 
auxilio na classificação, de informações prestadas com 
sympathia — orientar a geração nova por uma estrada 
mais recta e menos árdua. 

Cremos que os poderes públicos não seriam indifferen- 
tes a qualquer plano pratico neste sentido, que não inter- 
ferisse com a organisação escolar. 

Nas linhas vastas desse programma pratico, cabe toda 
a actividade, toda a profundeza, toda a dedicação dos 
amigos da Sciencia e da Humanidade. 

De passagem, não podemos deixar despercebido o 
enthusiasmo com que o Conde Barbiellini lançou recen- 
temente a sua revista entomologica e se dispoz ao traba- 
lho, nesta capital. 

Dentro aos limites restrictos que a ethica das sciencias 



-89- 

da observação e da experiência nos delimitam — registando 
com fidelidade o resultado de nossas pesquizas — podemos 
esperar a solução de alguns enigmas que hoje ensombram 
os horizontes da Sciencia. 

Podemos estudar esse vasto processo de desenvolvi- 
mento que vae desde as amibas até o homem e ultrapassa 
o reino animal para a evolução ulterior sem que sl vexafa 
quesiio das origens empane o brilho da Verdade, onde a 
possamos vêr com animo sincero, ou no campo do micro- 
scópio, ou no circulo illuminado da objectiva telescópica, 
ou nos tubos do laboratório, ou nos mysterios do mundo 
subjectivo, ou na espessura das camadas do solo, ou no 
grande scenario da vida organisada. 

E o conspecto, do mundo scientiíico, é de molde a 
nos concitar ao culto do facto, mais que ao enthusiasmo 
das escolas e das hypotheses ; mais á expectação humilde 
do que ao dogmatismo intolerante. Faço minhas as pala- 
vras do professor Darwin, perante a Briiish Associaiion: 

« O mysterio da vida permanece impenetrável como 
sempre ... O homem é apenas um ser microscópico rela* 
tivamente ao espaço astronómico, e elle vive em um pla- 
neta minúsculo a gyrar em tomo de uma estrella de ordem 
inferior. Não parece, pois, tão fútil imaginar que possa 
descobrir a origem e a tendência do universo, como espe- 
rar que uma mosca nos ensine a theoria do movimento 
dos planetas ? E, todavia, emquanto elle durar ha-de pro- 
seguir em sua pesquiza e indubitavelmente descobrirá 
muitas coisas admiráveis que ainda estão occultas. Pode- 
mos pasmar perante o que o homem tem descoberto, mas 
a grandeza do não descoberto ainda subsistirá para lhe 
quebrantar o orgulho. » 

E quanto maior é o raio de nosso circulo de conhe- 
cimentos, maior é o numero de pontos em que a peripheria 
delles vêm em contacto com o desconhecido. 

E em taes condições é possível, sem quebra de cara- 
cter scientifico, soffrer, na formação do conceito do Uni- 
verso — o Weltanschauung — de que sir Oliver Lodge e 
Charles Darwin desesperam em ultima analyse, a trans- 
formação que revela Virchow em seu famoso discurso — 
A liberdade da Sciencia (1877); que Du Bois-Raymond 
soffreu do monismo para o supernaturalismo, confessando-o 
na celebre Ignorabimus; que se operou em Wundt quando 
em 1892 confessou o seu novo credo na segunda edição 
de sua obra monumental ; que revelou a Romanes a sub- 
sistência de lacunas que faziam incompleto o trabalho de 
uma vida inteira dedicada á Sciencia. Ha lugar para que 
o notável ancião de Jena possa manter para com os ad- 



— 90 — 

versarios uma attitude mais cordata e tolerante, na con- 
templação dos enigmas do Universo. 

E ao concluir mais um anno, de labores em pró da 
Sciencia eu me congratulo com os illustres consócios por 
termos dado mais uns passos para se desvendarem os 
mysterios da cisterna de Poseidon, onde segundo a lenda 
hellenica ha uns tantos millenios, em eras de superstição 
e de trevas, se escondeu encarquilhada a Verdade. 

Sugeitos nós mesmos a esse processo universal do 
aperfeiçoamento, fortalecidos pelo passado que luctou mil- 
lenios para trazer o reino vegetal até á planta que orna- 
menta os nossos jardins; que não teve descanço até 
exhaurir as possibilidades da organisação nos mamíferos, 
levantemos a fronte para o Infinito. « A successão não 
pode quebrar-se — hoje é a planta, em que estamos nós; 
depois — é a panicula, onde estaremos amanhã; finalmente 
o grão grado na espiga » — o fructo de nossos trabalhos 
para a nossa descendência. 

E assim, meus senhores, apertemo-nos as mãos, anhe- 
lando como Haeckel, com sinceridade 

« o Bem, o Bello, o Verdadeiro >. 



* * 



91 — 



Uma pesca no rio Paranapanema 

Conferencia feita na sessão solemne de 12 de Setembro de 1908 
POR Edmundo Krug 

Senhores ! A illustre Directoria da Sociedade Scien- 
tifica commemorando hoje o 5.** anniversario desta tão 
benemérita associação, que graças aos dedicados esforços 
dos seus numerosos sócios soube angariar, aqui em São 
Paulo e mesmo lá fora, as mais vivas sympathias, encar- 
regou-me de algo dizer acerca das minhas aventuras ser- 
tanejas. Acedi ao pedido e julgando que o thema sobre 
pesca despertaria um certo interesse, resolvi tratar hoje 
deste assumpto, mesmo porque este divertimento, este 
sport, é indubitavelmente uma das recreações mais at- 
trahentes e de grande sensação para aquelle que pela 
primeira vez teve occasião de pescar num rio caudaloso 
como é o Paranapanema ou o Tietê. 

Senhores ! Sou um daquelles que, apezar de apaixo- 
nado pela pesca, desejo vêr este assumpto em breve le- 
gislado. De ha annos para cá somente cuidamos do pro- 
ducto café ; cogitamos em valorisal-o, em reduzil-o na sua 
producção e augmentar o seu consumo ; entretanto nin- 
guém cuida em proteger os bellos specimens piscatórios 
dos nossos caudalosos rios, ninguém cuida actualmente 
de propor leis enérgicas afim de evitar o extermínio 
completo das nossas aves, dos nossos quadrúpedes, emfim 
da nossa caça! Desejava que as poucas leis sanccionadas 
sobre o assumpto, quer municipaes, quer estaduaes e fe- 
deraes, fossem executadas, que o abuso do dynamite e 
dos traiçoeiros parys fossem vedados completamente por 
uma rigorosa fiscalisação do governo e por parte dos in- 
teressados. No Mogy-Guassú eram os empregados de 
certa companhia poderosa e são ainda os administradores 
e colonos das fazendas juntas ao piscoso rio, que pescam 
com bombas. Numa villa, lá para as bandas de Campos 
Novos do Paranapanema, a própria auctoridade policial 
gaba-se de ter exterminado, por intermédio de dynamite, 
Piracanjúbas, Bagres etc. No rio das Almas, affluente do 
grande Paranapanema, os vereadores de certa localidade 
armam parys, empregam a pólvora ou o timbó para mutilar, 
envenenar os pobres peixes e seus filhotes ! 



— 92 — 

E* triste termos de registrar taes factos, commettidos 
por aquelles que deviam zelar pelo futuro e pelas leis 
do paiz ! 

Infelizmente, porém, estes factos que acabo de men- 
cionar, são apenas um exemplo do muito que quotidia- 
namente se faz aqui no Estado de S. Paulo ! 

Quando eu, durante as minhas excursões aos sertões, 
sou convidado para tomar parte numa pescaria, acceito 
de bôa vontade o gentil convite, avisando, porém, que 
não desejo vêr bomba de espécie alguma nas malas que 
conduzimos. 

Seja, porém, dito de passagem, que ha já muita 
gente sensata, mesmo entre os caipiras e caboclos, que 
condemnam, sem piedade, esta praxe barbara, muito mais 
vulgar entre nós do que se julga. 

Uma das mais lindas pescarias a que tenho assistido^ 
foi ha dois annos, no grande e piscoso rio Paranapanema. 
Caboclos da zona me convidaram, com toda a etiqueta, 
para tomar parte numa pesca e numa caçada. Acceitar a 
gentil offerta e me preparar para uma tal distracção sen- 
sacional foi um momento, tanto mais que estava em 
férias. Já no dia seguinte seguiamos, a cavallo, para o 
Porto do Adolphinho, 3 léguas distante do Salto Grande 
do Paranapanema, pouco acima da corredeira denominada 
da Figueira, 

Nós éramos três pessoas e exerciamos ao mesmo 
tempo o papel de patrões e de camaradas, pois nós mesmos 
tocávamos a tropa e não raro se ouvir da bocca dos 
nossos companheiros : « Vorta, dianhc ! » quando um dos 
animaes de carga tentava seguir rumo diverso. 

Três pessoas apenas não podiam fazer uma pescaria 
em regra, pois para isso era necessário maior numero 
de gente; foram, então, convidadas varias pessoas duran- 
te o trajecto de nove léguas que deviamos percorrer, da 
povoação na qual me achava até o porto, e de muito 
bom grado era acceite o convite, pois o caboclo, geral- 
mente, tem tempo para a pandega, principalmente quando 
pôde adiar para o dia seguinte o que devia fazer hoje. 

Levávamos comnosco barracas para nos abrigar do 
sol e da chuva, algumas comedorias e os necessários 
cães de caça que nos seguiam acorrentados dois a dois. 

Pesca e caça são dois divertimentos inseparáveis, e 
havendo tempo sufficiente, dividem-se os dias em duas 
secções, destinada a secção matutina para caça e a ves- 
pertina para a pesca. 

Chegados ao porto e depois de armadas as barracas 
prismáticas de simples algodãosinho, são nomeados o 



— 93 — 

chefe do divertimento e o cosinheiro. Sendo estes dois 
cargos honorificos, nunca são regeitados. principalmente 
quando a votação por acciamação é unanime. 

O cosinheiro, eleito, segue incontinenti, para o matto, 
á procura de dois galhos bifurcados e de uma vara recta, 
que posta horizontalmente sobre aquelles, forma o indis- 
pensável fogão. Não passa muito tempo, o fogo está 
acceso e nas panellas e caldeirões, pendurados na vara, 
ferve a agua para o café. O chefe da expedição deter- 
mina, depois ae um curto descanço, que as respectivas 
iscas para os anzóes sejam pescadas ; para esse fim ser- 
vem Lambarys, Bagres, Cascudos e mesmo Campineiros, 
bem entendido, o peixe assim denominado. 

Não tarda muito, o café é servido nas proverbiaes 
tigellinhas, sem cabo, utensilio pouco pratico, pintadas de 
todas as cores conhecidas e desconhecidas da paleta de 
um pintor. Apezar de não serem lavadas estas tigellinhas 
com a modernista lixivia ou mesmo com a antiquada 
cinza, o cí^fé torna-se saboroso, devido ao fresco e puro 
ar que se respira nestas occasiões e devido à linda natu- 
reza virgem que nos rodeia e que nos faz esquecer, no 
momento, certos preconceitos hygienicos, que se tornaram 
habito em as nossas casas. 

As iscas são retiradas da agua em bem pouco tempo 
e em seguida partem rio abaixo duas canoas, das que já 
estão no porto, com os enthusiasmados pescadores para 
a mais próxima corredeira, a cujas pedras são presas. 

O gosto dos amantes da pesca é nestas occasiões 
bem diverso: uns querem pescar somente peixes de 
escama, como sejam Dourados, Piracanjúbas etc; outros 
só querem retirar das aguas Jahús, Surubins e Bagres, 
apreciando mais os enormes peixes denominados «de couro». 

Para estes diversos fins as linhas de pescar são pre- 
paradas bem diversamente. O caboclo sabe perfeitamen- 
te que o Dourado e os demais peixes de escama, em 
geral, só se conservam nas camadas superiores da agua; 
elle não põe, conseguintemente chumbo, pezo algum na sua 
corda, e jogada esta na agua, a isca, devido á forte cor- 
renteza, conserva-se na superíficie do rio. Os Jahús, Pin- 
tados e outros peixes de couro só se nutrem de Cascu- 
dos e de matérias orgânicas que se apegam ao fundo do 
rio; o anzol para pescal-os deve levar, então, um peso, 
para que a isca desça ao fundo e descanse sobre o leito. 

As linhas de pesca são desenroladas das suas respe- 
ctivas taboinhas, de tal geito que formem uma espécie de 
espiral no fundo da canoa e que se não embarassem ao 
jogar-se o anzol. A corda é então segura, com a mão 



— 94 — 

direita, pouco acima do chumbo, e o pescador, com um 
movimento rápido, íazendo-a girar ao redor da cabeça 
larga-a repentinamente para deixal-a cahir com vertiginosa 
velocidade no lugar previamente determinado. Ahi, o 
anzol permanece em repouso por algum tempo, e si 
nenhum peixe vier beliscar a saborosa isca, a operação 
é repetida, sendo atirada a corda para outro logar, geral- 
mente com melhor êxito 

Repentinamente sentem-se pequenos soccos na mão ; 
já pela força exercida, já pela qualidade de pulsações ob- 
servadas o pescador pratico determina com antecedência 
o tamanho e a espécie de peixe que pegou, A corda é 
solta pouco a pouco para o peixe engulir melhor a isca 
e dahi a momentos puxada vagarosamente para a canoa. 
Poucos segundos depois o feliz pescador chama um com- 
panheiro para auxilial-o, — o pezo tornou-se cada vez 
maior — e, finalmente, apparece na superficie da agua a 
cabeça de um monstro amarello, com manchas escuras : 
foi um Jahú que se conseguiu retirar das aguas! Espan- 
to geral e diversos commentarios sérios e chistosos são 
ouvidos acerca do peixe preso. 

A custo o animal é posto na canoa, um bem acer- 
tado golpe de facão faz que elle fique quieto no fundo 
da embarcação, e apenas um mover nervoso das guelras, 
denuncia que elle ainda tem um pouco de vida. 

A alegria é geral e grande entre os pescadores; 
maior, porém, é a do cosinheiro, que já se apodera do 
achado como se fosse de sua propriedade, garantindo, 
assim, um saboroso petisco para o jantar ! O primeiro 
peixe pescado é levado na segunda canoa á cosinha ; lá 
elle é preparado de diversas maneiras pelo hábil auxiliar 
de LucuUo, que, orgulhoso por conhecer u fundo a arte 
culinária, espera já impacientemente os companheiros, que 
continuam a puxar das doces aguas do rio, Jahús, Dou- 
rados, Surubins etc. 

Eu vi retirarem-se do Paranapanema, durante as pri- 
meiras horas que pescávamos, na occasião a que já allu- 
di, nada menos de 5 Jahús e 8 Surubins e outros tantos 
Dourados; quero dizer com isto que este systema de 
pesca se torna um enorme abuso, sendo necessário vedal-a 
legalmente como já explicarei. 

Iscas para a pesca são continuadamente necessárias, 
pois acontece que peixes amestrados, que já travaram 
conhecimento com a ponta do anzol só beliscam-n'a, re- 
tirando-a completamente do gancho sem engulil-o. Para 
pescar as iscas utilizam-se os pescadores, das tarrafas e das 
redes circulares, que são jogadas sobre as lages que 
servem de porto seguro á canoa. 



— 95 — 

Para se pescar com a tarrafa são necessárias duas 
pessoas, que se despem quasi por completo, afim de se 
não molharem por inteiro. Uma delias maneja a tarrafa, 
rede esta que presa por uma corda central e armada de 
pezos de distancia em distancia na sua peripheria, é ati- 
rada longe, abrindo-se no ar e cahinao extendida nos 
logares razos das lages. A corda central depois de alguns 
momentos, é puxada lentamente e, os peixes que ficaram 
debaixo da rede, agitando-se, prendem-se nas suas malhas. 
O segundo auxiliar fecha com as mãos a peripheria da 
tarrafa e pondo-a assim num balde, adrede preparado, 
deixa cahir o seu conteúdo nelle. 

Disse já anteriormente, que a pesca e a caça são 
dois divertimentos, dois sports, quasi que inseparáveis, 
pois da caça tiram-se os principaes elementos de isca 
para a pesca. Destripada a caça, guardam-se sempre 
os intestinos e o sangue. Este é lançado, de vez em 
quando, ás canecadas, á agua; aquelles são dependurados, 
durante a pesca, numa corda dentro do rio ; ambas as 
matérias têm, quando o peixe não quer morder, grande 
força de attracção. 

A terceira maneira de se pescar nestas occasiões é 
por intermédio do «Espinhei» ou do « Pindacuema » como 
os índios o chamam. 

A palavra pindacuema é proveniente do guarany, e 
virá talvez das palavras « pindá » que significa anzol e 
« cuema » que é o mesmo que corda. Esta palavra com- 
posta significa, conseguintemente, anzóes dependurados 
numa corda. E como de facto : em uma corda fina, porém 
forte, se amarram, na distancia de i V2 metros anzóes 
encastoados em cordinhas de V2 metro âe comprimento. 
Um dos extremos da corda principal é atada numa ar- 
vore á beira do rio e no outro extremo é amarrada uma 
pedra, mais ou menos pezada. 

Depois de se ter firmado a corda na arvore, pren- 
dem-se, pouco a pouco nos anzóes as respectivas iscas, 
deixando-os cahir na agua á medida que são preparados 
com pedaços de Cascudos, Lambarys etc; finalmente jo- 
ga-se também a pedra á agua, afim de que se possa 
manter todo o espinhei immovel sobre o leito do 
rio, isto quando se pretende pescar peixe de couro; 
si se quer pescar peixe de escama, ambos os extremos 
da corda são atados em arvores ou fixados sobre as 
lages de uma corredeira qualquer por intermédio de pe- 
zos. Si o luar fôr favorável á pesca e não houver vento, 
póde-se estar certo que no próximo dia, bem cedo, em 
cada anzol estará preso um Jahú ou um Surubin, que 



-96- 

são retirados pelo canoeiro, aos poucos, da agua, e mor- 
tos com o facão, afim de não causarem perigos aos tri- 
pulantes, com os seus saltos bravios e desencontrados. 

Incontestavelmente o systema de pesca mais interes- 
sante é o Promombó] porém, além do interesse que elle 
faz despertar ao curioso, deve ser considerado o mais 
cruel e antipatriótico possivel, quasi tão cruel como a 
pesca com dynamite ! 

Devo primeiro explicar a origem da palavra Promom- 
bó: EUa também é proveniente do guarany e compõe-se 
de Pró ou também Mboró. que significa espontâneo, ligeiro, 
e de mombó, que quer dizer pulo, salto ; a traducção, pois, 
da palavra Promombó será salto espontâneo. 

Esta pesca é executada da seguinte forma : uma canoa, 
na qual tomam logar duas ou três pessoas, sahe bem de- 
vagar e sem barulho algum do porto ; uma das pessoas 
rema e a outra, núa, ou pelo menos sem calças, toma 
assento sobre umá taboa, atravessada de um bordo a outro 
da canoa ; esta corre sempre parallela á margem do rio, 
na distancia máxima de 4 metros. Repentinamente o que 
está assentado sobre a taboa bate repetidas vezes com o 
assento sobre esta. Como por encanto saltam os peixes 
fora da agua indo cahir, muitos delles, dentro da embar- 
cação. Para se evitar a perda de muitos specimens que 
saltam outra vez fora da canô^ ou por cima desta, esten- 
de-se, opposto á margem, de proa á popa, uma rede de 
pescador ou uma esteira de taquara ; assim os peixes sal- 
tando contra esta vêm cahir dentro da embarcação. Feita 
esta manipulação barulhenta e repetindo-se ella de cada 
50 a 100 metros, escolhe-se o conteúdo da canoa, jogan- 
do-se fora o peixe miúdo e imprestável, separando-se o 
bom e grande. Eu vi ser executado o Promombó somente 
á noute e ignoro si pode ser pescado desta forma também 
durante o dia. 

O Promombó pode ser também executado por uma 
só pessoa, que então faz ao mesmo tempo as vezes de 
remeiro e de pescador. Neste caso, porém, não bate com 
o próprio assento na taboa atravessada sobre a canoa, 
mas sim com o remo sobre o costado desta. Além destes 
quatro systemas mencionados usa-se no Paranapanema de 
diversas construcções de covos, que geralmente só são 
utilizados pelos moradores das margens do rio. Pescadores 
que vêm de longe para gozarem os encantos deste diver- 
timento não podem utilizar-se deste meio, devido ao in- 
commodo que se tem com o transporte destas armadilhas. 

Depois de farta pescaria, caindo a noute e tendo 
apertado o apetite, os excursionistas pensam em procurar 
as suas barracas. 



— 97 — 

Já uma soberba sopa de Jahú os espera e um enso- 
pado de Dourados ou de Cascudos ferve no caldeirão. 

Havendo tempo e vontade para se salgar o peixe re- 
tirado da agua, é feito este trabalho antes da refeição; 
sendo, porém, o cançaço demasiado, os peixes grandes 
são fisgados, ainda semi-vivos, em fortes anzoes e submer- 
sos na agua, para se não deteriorarem durante a noute. 
No dia seguinte, então, todo o peixe é salgado de uma só 
vez e por todos os presentes, ficando então tudo jà prepa- 
rado, convenientemente, antes do calor ardente. 

O jantar offerecido pelo cosinheiro necessita de algu- 
ma apreciação mais nitiaa de minha parte, mesmo porque 
não se pôde idear uma pesca ou caçada sem se pensar 
no estômago. Não costumo apresentar aos meus distinctos 
ouvintes os menus que se elaboraram durante alguns dias 
de agradável descanço ; mas desta vez me vejo na contin- 
gência de fazel-o. Pois bem, o jantar offerecido pelo cosi- 
nheiro, eleito unanimemente por acclamação, não pode 
exigir de forma o nome de banquete. Peixe, carne de 
veado ou passóca de anta são os petiscos mais communs 
que vêm á meza. Si houver palmitos na matta, estes que- 
brarão, de vez em quando, a monotonia do menu; si não 
são encontrados, os pratos servidos serão sempre os mes- 
mos durante os dias que durar a pescaria e a caçada. 

Não pensem também os meus illustres ouvintes que 
se faz muito luxo e ceremonia com taes jantares ; meza 
não ha, cadeiras muito menos. Quem quizer accommodar- 
se, sênte-se sobre as bruacas ou mesmo sobre o chão á 
maneira dos turcos, ou sobre os calcanhares, como o fa- 
zem os nossos caipiras, e utilize-se dos joelhos ou da 
própria mão esquerda como si fosse meza. O lampeão 
que illumina este poético jantar é o claro brilho da lua 
do mez de Dezembro, ou o fogo do fogão improvisado que 
projecta suave e fraca luz sobre o prato do pescador. E 
assim deve ser, pois, si muitas vezes se observasse bem 
a côr dos trens de cosihha, nunca mais se faria uma tal 
excursão! Os poucos pratos que são trazidos, são natu- 
ralmente distribuidos entre os mais distinctos da comitiva; 
aquelles que não têm pratos, utilizam-se da tampa da pa- 
nella ou mesmo dos caldeirões. O garfo á disposição é 
geralmente o garfo contendo cinco pontas, dado pela na- 
tureza, o qual, por ter dentes movediços, auxilia o esfo- 
jneádo pescador a fazer pelotas de comida, diseccadas com 
bastante farinha de milho ou de mandioca, que levados á 
bocca sem muita cerimonia se chamam capitão no pairar 
rude do caboclo. 

Também os meus distinctos ouvintes não julguem 



-98- 

que o café seja servido em luzidas salvas de prata e o 
assucar mechido com delicadas colherinhas de chá ! Nada 
disso se encontra no selvagem recanto : a palma da mão 
é o pires, e quando o conteúdo da tijellinha está quente 
demais, o lenço serve de isolador para proteger a 
delicada mão do pescador improvisado; finalmente qual- 
quer paosinho, cortado da arvore ou arbusto mais próximo, 
faz as vezes de colherinha. 

Quem pesca e caça durante todo o dia debaixo de 
um sol ardente e abrazador de Dezembro, cujos raios são 
reflectidos pelo grande espelho de agua crystallina de um 
rio sul paulistano, está incontestavelmente cançado depois 
de uma certa hora ; o corpo pede repouso e então cada 
um dos excursionistas trata de se accomodar o melhor 
possivel debaixo das barracas trazidas. A cama é feita dos 
baixe iroSj suadouros e caronas do animal, o lombilho é o 
travesseiro, que para o tornar macio é forrado com o 
próprio braço do excursionista. A* noute é, porém, um 
inferno : ora é a dura cama que nos desperta do somno 
mal começado, ora adormece o braço sobre que repousa 
a cabeça e que deve ser despertado de novo com uma 
certa gymnastica de dedos ; ou imitando murros, ou 
então são os atrevidos mosquitos que, independentes das 
fogueiras alimentadas com folhas verdes, entram por algum 
furo no panno da barraca e nos vêm aborrecer, sugando- 
nos, quasi completamente, o sangue. Dá-se graças a Deus 
quando a manhã rompe, para de novo, se correr atraz de 
uma gorda anta ou retirar um bello specimen de peixe 
das claras aguas. 

Por esta tosca descripçào de pesca, senhores, acho 
ter explicado sufficientemente a grande necessidade de 
uma legislação a favor destes entes inoffensiveis, ainda 
mais quando se leva em consideração que na maioria das 
vezes todo o material pescado não é aproveitado regular- 
mente. Para provar esta affirmação seja-rae lecito dizer 
que se trouxeram para casa, nesta ultima excursão, quatro 
animaes bem carregados de peixe salgado. Eram 28 arro- 
bas que se pescaram durante 6 a 7 dias ! Tendo sido mal 
feita a salga, já no segundo dia de viagem foi necessário 
abandonar-se a carga, devido ao máo cheiro que ella 
desprendia, proveniente da deterioração. E' uma triste 
verdade o que consigno aqui, mas o que nos aconteceu, 
acontece diariamente a pescadores inconscientes e sem 
amor ás cousas referentes á natureza. Legisle-se, senhores, 
a favor da nossa fauna ; prohibam-se as pescas e caçadas 



- 99 — 

abusivas, nomeando-se para fiscalisal-as inspectores enér- 
gicos e conscienciosos, nos districtos piscosos e abundantes 
em animaes úteis, para protegel-os dos attaques malévolos 
de pessoas ignorantes e mdolentes, que, temendo o trabalho 
serio, matam milhares de specimens para tirar proveito 
de um só ! 

E' conveniente que o bem intencionado governo e o 
patriótico corpo legislativo do nosso Estado pense seria- 
mente neste assumpto e proteja os peixes dos nossos rios, 
os pássaros das nossas selvas e a caça dos nossos campos; 
que medite mais sobre o futuro, e não entregue a prote- 
ção destes inoffensivos animaes somente a uma dúzia de 
homens bem intencionados, porém sem força alguma para 
levar avante uma ideia nobre e incontestavelmente de 
grande alcance económico e humanitário. 



Sessão de 6 de Agosto de 1908 
O Dr. Adolpho Lutz discorre sobre um caso de he- 
mophilia observado na occasião de uma pequena incisão, 
feita num abscesso da abobada palatina, e apresenta o 
doente. A tendência da hemorrhagia só desapparece de- 
pois da administração de phosphato de cal e da intro- 
ducção de soluções de gelatina por via rectal. A hema- 
tose temporária foi feita pela tamponagem da cavidade, 
continuada durante cinco dias. Discute rapidamente a 
hemophilia constitucional, observada em certas famílias e 
as hemophilias temporárias occorrendo em certos proces- 
sos infecciosos e em estados cholemicos, como também 
os meios pelos quaes se pôde combater este estado 
pathologico, citando algumas observações pessoaes. 



Sessão de 27 de Agosto de 1908 

O Dr. Adolpho Lutz mostrou um exemplar vivo de um 
coleoptero parasitário no género «Platyprylla» que demons- 
trou ter algum parentesco com os Staphylinideos. Embora 
cego, têm movimentos vivos e uma locomoção rápida. 
Quando, ha muitos annos, esteve em Montevideo, recebeu 
do Dr. Arechevaleta alguns exemplares deste coleoptero que 
foram encontrados na provincia argentina de Entre-Rios 
numa espécie de Hesperomys. Deu-os para um zoologo 
que confirmou a suspeita de se tratar de uma nova espé- 
cie de Platyprylla e prometteu descrevel-a mas provavel- 
mente não o fez. Tendo recebido ultimamente exempla- 
res vivos de varias espécies de ratos indigenas, procurou 
o parasita e encontrou alguns exemplares. 



— lOO — 

A única outra espécie conhecida « Platyprylla casto- 
ris » foi encontrada nos castores europeus e americanos. 

Estes coleopteros escondem-se entre os pellos dos 
animaes, parasitados como certas espécies de dipteros 
pupiparos. 

Sessão de 1." de Outubro de 1908 
O Sr. Dr. Mastrangioli refere-se a uma urina enviada do 
interior do Estado para analysar, a qual apresentava, como 
característico, apenas a côr amarello-escura. Praticado o 
exame completo sobre a urina em questão não foi encon- 
trado principio algum chimico-pathologico, e indagando 
da origem da coloração, foi possível confirmar que esta 
era devida á presença de derivados de oxidação de pro- 
ductos phenolicos, cuja existência provinha de alguma in- 
gestão de medicamentos. — Com effeito, o chlorureto de 
ferro demonstrou evidentemente a presença de productos 
phenolicos mediante a característica coloração violeta da 
urina em exame. 

flDiSOS 
Sessio económica de 24 de Setembro 

Nesta sessão foi apresentado pelo snr. thesoureiro 
Dr. Reynaldo Ribeiro o balancete annual, demonstrando 
um saldo de Rs. i:7o6$68o, existente em caixa. 

Foram eleitos nesta- sessão os seguintes membros da 
Directoria, que deverão exercer os seus respectivos cargos 
durante o anno social 1908— 1909: 

Presidente : Dr. Edmundo Krug 

Vice-Presidente : Dr. Affonso Splendore 
I. Secretario: Dr. João N. Motta 

II. Secretario : Dr. Amândio Sobral 

Thesoureiro : Dr. Reynaldo Ribeiro (reeleito). 

Entraram no Conselho Consultivo : 

Os snrs. drs. Adolpho Lutz e Roberto Hottinger (re- 
eleitos) e o dr. António Carini, em substituição do snr. 
Erasmo Braga, que, devido a mudança de domiciho, re- 
nunciou ao cargo. 

Por proposta da Directoria foi nomeado bibliothecario 
o snr. Geraldo Horácio Paula Souza, que tomou posse 
do cargo, não fazendo parte da Directoria, devendo, porém, 
assistir ás sessões desta. 

Conferencia annunciada 

O Dr. Priori fará brevemente uma conferencia sobre 
„0 pulso e a applicação do Sphygmographo de Dudgeon'\ 



TJ" _ Beyista 

DA 

Sociedade Scientifica 

DE 

SÃO PAULO 

REDACÇÃO : Prof. Dr. Roberto Hottinger e Dr. Edmundo Krug. 

SEDE DA SOCIEDADE: 
Avenida B. Luiz António, 12 <8> S. PAULO <$> Brazil 



SUMMARIO : 

1. Sessão solemne do dia 29 de Outubro em homenagem ao Sr. Dr. 

A. Lutz. 

2. Un nuovo protozoa parassita de' conigli etc, pelo Dr. A. Splendore. 

3. Brocas por Júlio Conceição. 

4. Um caso de blastomycose com localisação primitiva na mucosa da 

bocca pelo Dr. A. Carini. 

5. O pulso e a applicaçao do sphygmographo pelo Dr. Priore. 

6. Envenenamento pelo gaz de illuminação pelo Dr. R. Hottinger. 

7. A Musica e a Evolução pelo Prof. Paulo Florence. 

8. Determinação quantitativa da liquefacção da gelatina por micróbios 

pelo Dr. R. Hottinger. 

Sessões : 
Dr. A. Carini» A hygiene na guerra russo-Japoneza. 
Dr. A. Mastrangioli sobre um sedimento urinário. 
Dr. D. Stapler sobre um rim polycystico. 



5essão solemne 

No dia 29 de Outubro do anno de 1908 a Sociedade 
'Scientifica de S. Paulo reuniu-se era sessão solemne para 
o fim de conferir ao seu illustre sócio Sr. Dr. Aoolfo 
Lutz o titulo de sócio benemérito. Presente grande numero 
de sócios, para este fim especialmente convidados, o pre- 
sidente Sr. Dr. Edmundo Krug, abriu a sessão, que se 
effectuou na sala da sede da Sociedade, que estava com- 
petentemente enfeitada com flores naturaes. 

Tomou logar de i.^ secretario o proprietário do lo- 
gar Sr. Dr. João Motta, e, na falta do 2.** secretario effe- 



U Sòc. i^-i'^^ 



— I02 — 

ctivo, O Sr. presidente convidou, para occupar o respe- 
ctivo logar, o Sr. Dr. Vital Brasil. Organisada a mesa, o 
Sr. presidente proferiu as seguintes palavras : 

Senhores ! 

Ao abrir esta sessão solemnej cumpre-roe em 
nome da Directoria da Sociedade Scientifica de 
S. Paulo, agradecer ao illustre Dr. Lutz, demais 
convidados e aos representantes das Instituições 
scientificas o seu gentil comparecimento. 

Estamos aqui reunidos, senhores, afim de 
nos despedirmos do nosso caro e muito illustre 
consócio Sr. Dr. Adolfo Lutz, que dentro de pou- 
cos dias se retirará para a Capital do Paiz, em 
honrosa incumbência, aonde permanecerá por al- 
guns mezes, junto aos notáveis scientistas, que no 
momento se acham reunidos no «Instituto Os- 
waldo Cruz». 

E' justíssima esta homenagem da nossa parte, 
pois quem teve o prazer de assistir tão assidua- 
mente ás sessões desta modesta e despretenciosa 
instituição, como aquelle que neste momento tem 
a subida honra de vos falar, sabe perfeitamente, 
que a lacuna, que ora se vai dar, não poderá ser 
preenchida com facilidade. 

O dedicado amigo, nosso digníssimo Sócio 
fundador e nosso sábio mestre, Sr. Dr. Lutz, soube 
angariar neste recinto as mais vivas sympathias, 
não só pelo modo delicado de tratar áquelles com 
quem mantinha relações, não só pela maneira bon- 
dosa com que acolhia toda e qualquer ideia sobre 
assumptos scientificos, mas também pelos vastos e 
sábios ensinamentos que nos proporcionava e pelas 
discussões sérias que mantinha sobre qualquer as- 
sumpto de sciencia com os mais competentes con- 
sócios. 

O Sr. Dr. Lutz foi até hoje um dos sócios 
que raras vezes faltaram ás sessões semanaes, e se 
faltava era devido a motivos de força maior. — * 
De sua parte havia, julgo poder dizer isto alto, 
bem alto, sincera estima e amizade para com a 
nossa florescente instituição. 

Cada vez que aqui se apresentava, tinha al- 
gum assumpto scientifico para discutir : com o ar- 
chitecto e com o engenheiro civil discutia magis- 
tralmente sobre a Hygiene domiciliar e urbana; com 
o medico sobre todo e qualquer assumpto de medi- 



— I03 — 

cina; com o veterinário sobre as moléstias do gado; 
com o entomologista sobre os insectos do Estado 
de S. Paulo ; e todos nós escutávamos a sua pa- 
lavra com o maior acatamento e prazer. 

Supponho que a cadeira do nosso illustre 
censocio nSo restará vaga por muito tempo ; mas, 
si o contrario succeder, peço como actual presi- 
dente da Sociedade Scientifica de S. Paulo, ao 
illustre consócio não se esqueça por completo 
de nós, que guardaremos como relíquia o seu 
exemplo. 

Mas, senhores, esta constância no compareci- 
mento ás sessões, os bellos ensinamentos de que 
todos nós sócios tanto aproveitámos e o adeus 
que eu aqui quero deixar patente, não justificam 
só por si a sessão de hoje; porém, sim a alta ca- 
pacidade scientifica, o saber pouco commum, a 
vastíssima erudição, sobre grande parte dos co- 
nhecimentos humanos, do Sr. Dr. Adolfo Lutz; 
qualidades estas que determinaram, nas sessões 
de 26 e 27 do corrente mez a deliberação de con- 
sideral-o sócio benemérito, A deliberação consistiu 
na approvação de uma moção concebida nos se- 
guintes termos : «Attendendo a que o nosso con- 
sócio Sr. Dr. Lutz, que vae brevemente fixar sua 
residência no Rio de Janeiro, prestou relevantes 
serviços a esta casa e á humanidade, como grande 
scientista que é, servindo especialmente a pátria 
brasileira em innumeras commissões, onde relevou 
sempre o seu profundo saber ; attendendo a que a 
sua alta capacidade tem sido reconhecida por to- 
dos aquelles que têm tido conhecimento das suas 
obras, que são as seguintes em lingua portugueza : 

1. Sobre o effeito therapeutico do Quebracho 

colorado — These — Rio de Janeiro . . . 1881 

2. A opilação ou hypoemia intertropical — Brasil 

Medico 1887 

3. Observações sobre as moléstias da cidade e 

do Estado de S. Paulo — Rev, Med. . . 1898 

4. Um caso de myase ou bicheira da garganta 

— Rev. Med, 1899 

5. Algumas observações feitas em dois casos de 

peste pneumónica — Rev. Med. .... 1900 

6. Instrucções relativas aos exames etc. . . . 1900 

7. Novas espécies de mosquitos no Brazil — 

Imprensa Medica — 5. Paulo 1903 



— I04 — 

8. Nota preliminar sobre os insectos sugadores 

de sangue — Brazil Medico 1903 

9. Technica seguida nas experiências feitas com 

mosquitos — Revista do Grémio dos Internos 

da Bahia 1904 

10. Observações anatómicas e microscópicas feitas 

em casos de meningite cerebro-espinal — 

Rev. Med. 1906 

11. Estudos e observações sobre a quebrabunda 

ou peste de cadeiras — Revista da Socied. 
Scientifica^ de S. Paulo 1908 

12. Cara inchada ou osteoporosis do cavallo — 

Typographia do Diário Official 1908 

13. Uma mj^cose pseudococcidica etc. — . Brazil 

Medico 1908 

14. Relatório do Instituto Bacteréologico deste. . 1993 

15. Relatório sobre os institutos e trabalhos de 

hj'giene no Rio da Prata — Typographia 

do Diário OfficiaL 1897 

16. Relatório apresentado etc. a cerca de uma 

commissão em Montevideo etc. — Typogr. 

do Diário Official, 1907 

17. Relatório apresentado por occasião do congresso 

internacional de tuberculosos em Paris — 
Typogr, do Diário Official . . . . 1906 

18. (Em collabóração com o Pessoal do Instituto) 
Parecer do Instituto Bacteriológico sobre o 

serum Caldas 

Vários outros pareceres e relatórios separados 
dos quaes só uma parte foi imprimida . . 

19. (Em collabóração com o Dr. A. Splendore) 
Sobre uma mycose observada em homens e 

ratos 

Em Jingua allemã: 

((Dedicina geral e Dermatologia) 

1. Ein Fali von akuter fibrinôser Bronchitis. — 

Correspondenzblatt fúr Schweizer Aerzte . 1880 

2. Die therapeutische Wirkung der Quebracho- 

prâparate. Dissertation Bern 1880 

3. Zur Morphologie des Microorganismus der Le- 

pra. Monatsh. fur pract. Dermatologie. Unna's 
dermatologische Studien. Heft I . . . . 1886 

4. Mittheilungen úber Lepra. Monatshefte f. pract. 

Dermatologie 1887 

5. Ueber Cysticercus in der Haut. Mon. f. pract. 

Dermatologie 1886 



6. Ueber einen sprosspilzartigen Epiphyten der 

menschlichen Haut. Mon. f. pr. Dermatol. . 1886 

7. Eine neue Nathmethode. Mon. í. pr. Dermatol 1886 

0. Ueber eine neue, in Brasilien beobachtete 

Krankheit. Mon. f. pr. Dermatol 1886 

9. Ein Fali von Lichen ruber obtusus et planus.v 

Mon. f. pr. Dermatol 1886 

10. Zur Kasuistik des Rhínoscleroms — Mon. f. pr. 

Dermatol 1886 

11. Correspondenz aus Honolulu. — Mon. f. pr. 

Dermatol 1891 — 1892 

12. Zahlreiche Referate in Mon. f. pr. Der- 

matol 1885— 1887 

(Zoologia) 

1. Ueber die Cladoceren der Umgeçend von Bern. 

Gekrônte Preisschriít. (Mittneilungen der na- 
turforschenden Gesellschaft in Bern. . . . 1878 

2. Die Cladoceren der Umgegend von Leipzig. 

Sitzungsber. der naturf. Gesellsch. in Leip- 
zig, mitgetheilt von Prof. Leuckart .. . . 1879 

3. Ueber Parasiten etc. Deutsche Zeitschr. f. Thier- 

medicin etc 1888 

4. Ueber eine Rhabdonemsiart des Schweines etc. 

Centralbl. f. klin. Medizin 1885 

5. Ueber ein Myxosporidium aus der Gallenblase 

brasilianischer Batrachier. — Gentralbl. f. 
Bact. und Paras i887 

6. Zur Frage der Invasion von Taenia elliptica 

und Ascaris lumbricoides. — Ebenda . • . 1887 

7. Weiteres zur Frage der Uebertragung des 

menschlichen Spulwurms. — Ebenda . . . 1888 

8. Klinisches tlber Parasiten etc. — Ebenda . . 1888 

9. Ankylostoma duodenale und Ankylostomiasis. 

Samml. klin. Vortr. v. Volkmann 255, 256 
und 285. 

10. Zur Lebensgeschichte des Distoma bepaticum. 

— Centralbl. f. Bacteriologie etc 1892 

11. Helminthologisches aus Hawaii. Ebenda. . . 1892 

12. Beobachtungen tlber Taenia und llavopunctata. 

— Ebenda 1894 

13. Distoma opisthotrias. (Texto portuguez e alle- 

mâo). Kev. do Museu Paulista 1895 

14. Ueber einen Befund von Eustrongylus gigas 

Centralbl. f. Bact. etc 1901 

15. Ueber die Drepanidien der Schlançen.— Ebenda 1901 

16. Ueber Pebrine und verwandte Microsporidien 



— io6 — 

(rait Dr. A. Splendore). Ebenda Bd. XXXIII 
u. ff. 

17. Ueber Waldmoskitos und Waldmalaria. Ebenda. 

18. Ueber eine bei Menschen und Ratten beobach- 

tete Mycose (mit Dr. A. Splendore). Ebenda. 

19. Bemerkungen tiber Nomenklatur und Bestim- 

mung der brasilianischen Tabaniden. Ebenda 1907 

20. Beitràge zur Kenntniss der brasilianischen Ta- 

baniden I und II. Rev. Scientif. de S. Paulo. 

21. (Im Drucke). Die Tabaniden Brasiliens und der 

Nachbarlànder. — Zoologische Jahrbucher. 
Em lingua ingleza. 
I. LeprophobYa. — Journal of Cutaneous and Ve- 
nerai Diseases 1891; 

attendendo a que grande parte do brilho e 
prestigio da Sociedade Scientifica de S. Paulo é 
devido ao Sr. Dr. Adolfo Lutz, a mesma Socie- 
dade resolve consideral-o seu sócio benemérito». 
Esta moção estava assignada por um grande nu- 
mero de sócios. 

Em virtude desta moção, que foi approvada 
por unanimidade de votos dos sócios presentes 
áquellas sessões, e em harmonia com o disposto 
no art. 8 dos Estatutos, eu proclamo sócio bene- 
mérito desta Sociedade, o sócio fundador Sr. Dr. 
Adolfo Lutz». 
As ultimas palavras do Sr. presidente foram segui- 
das de uma salva de palmas, a qual demonstrou o apreço 
em que é tido no meio scientifico paulistano o Sr. Dr. 
Lutz, eminente bacteriologista e entomologista que ora 
se retira para a Capital Federal. 

Em seguida o Sr. i.° secretario procedeu á leitura 
de uma carta do Sr. Dr. J. Amândio Sobral, 2.® secre- 
tario effectivo desta Sociedade, que era concebida nos se- 
guintes termos : 

«Piracicaba, 28 de Outubro de 1908. 
Meu caro presidente. 

Sendo-me absolutamente impossível compa- 
recer á sessão solene damanhã e da Sociedade 
Cientifica, na qual vae ser proclamado Sócio be- 
nemérito o nosso sábio consócio Sr. Dr. Adolfo 
Lutz, peço-vos me desculpeis de não estar nesse 
dia junto de vós e dos nossos ilustres consócios 
que ahi vão prestar homenagem ao grande mem- 
bro da nossa sociedade. Era meu desejo, como sa- 
beis e estava combinado, dirigir também duas 



— 107 — 

palavras de saudação, por ocasião dessa soleni- 
dade, ao Sr. Dr. Lutz, e nelas pretendia referir 
os muitos serviços prestados á ciência pelo nosso 
sábio consócio, e a sua vastissima erudição e pro- 
fundo saber, especialmente na bacteriologia, na 
biologia e no enormíssimo campo das ciências na- 
turaes. A ausência me inhibe de assim proceder, 
mas não impede c[ue por esta eu acompanhe a 
Sociedade Cientifica na sua festa de 29 e que, de 
todo o coração, eu me associe a éla. 

O Sr. Dr. Adolfo Lutz, é um dos sócios que 
mais merecem da Sociedade Cientifica, porque é 
um daqueles a quem ela mais deve, e por ter 
sido um dos- que mais a honram pelo brilho de seu 
nome, conhecido nas grandes rodas cientificas da 
sabia AUemanha e da velha Europa, e faço votos 
por que, mesmo de longe, o Sr. Dr. Lutz continue 
a iluminar a nossa Sociedade com as claríssimas 
luzes de seu vastíssimo saber, que eu, com todo 
o respeito, admiro como cousa prodigiosa e pere- 
grina. Em todas as nossas sessões a que o ilustre 
consócio assistia, quer na mais momentosa ques- 
tão, quer no menor assunto, a sua erudição se 
manifestava, e a sua palavra de mestre consumado 
se fazia ouvir. Por isto, tudo lamento que S. Paulo 
perca um homem desta ordem e aplaudo since- 
ramente a benemerência que a Sociedade Cienti- 
fica amanhã proclama solenemente. 

J. Amândio Sobral». 

Em seguida foi lido um telegramma enviado pelo 
Sr. Dr. Oswaldo Cruz, digníssimo director da Saúde Pu- 
blica da Capital Federal, concebido nos seguintes termos : 
«Impossibilitado de assistir pessoalmente á 
sessão solemne dedicada ao sábio Lutz, associo-me 
cordialmente a essa justa manifestação». 

Pediu em seguida a palavra o Sr. Dr. João Priore 
para fazer uma interessante communicação sobre o Sphyg- 
mographo Dudgeon^ apresentando diversos Sphygmogra- 
grammas feitos em sua clinica e tomando alguns sphygmo- 
grammas dos sócios presentes. 

O Sr. Dr. Walther Seng pediu a palavra e referiu 
experiências feitas em Berlim sobre a medição da acção 
cardíaca por meio da electricidade. 

O Sr. Dr. Adolfo Lutz pediu a palavra e agradeceu 
a honra que a Sociedade Scientifica lhe prestava. Apro- 
veitou a occasião para fazer uma communicação sobre a 



— io8 — 

moléstia infecciosa geralmente conhecida pelo nome de 
moléstia de Weily discorrendo largamente sobre o seu 
diagnostico. 

O Sr. Dr. Joaouim J. de Carvalho pediu a palavra 
para saudar ao Sr. Ur. Lutz. 

O Sr. Dr. Affojiso Splendore pediu a palavra e fa- 
lou sobre um caso semelhante k moléstia de Weil, obser- 
vado em sua clinica. 

O Sr. Dr. Seng pediu de novo a palavra e falou 
sobre o icterus infecciosus^ terminando por pedir, ao Sr. 
Dr. Lutz, informações sobre um caso de supposta febre 
amarella, tratado no Hospital do Isolamento e que foi 
autopsiado pelo mesmo Sr. Dr.. Lutz. 

O Sr. Dr. Adolfo Lutz, fazendo de novo uso da pa- 
lavra, prestou as informações pedidas. 

Não havendo mais quem pedisse a palavra, o Sr. 
presidente encerrou a sessão, que ficará memorável na 
historia desta Sociedade, por ter ella sido dedicada á de- 
claração da benemerência do illustre Sr. Dr. Lutz. 

Terminada a sessão o Sr. Presidente convidou todas 
as pessoas presentes a tomarem uma taça de champagne 
em honra do Sr. Dr. Adolfo Lutz, e então entraram todos 
para uma sala contigua á das sessões, a qual estava or- 
namentada com muitas flores naturaes, e ali foi o sócio 
homenageado brindado repetidas vkizts por muitas das 
pessoas que compareceram a esta solemnidade, sendo o 
primeiro brinde feito pelo Sr. Presidente, em no nome 
da Sociedade Scientifica de S. Paulo. 

E assim terminou esta festa, justa homenagem e pro- 
clamação dos méritos do operoso Sr. Dr. Adolfo Lutz. 



1O0 — 



Un nuoDO protozoa parassita de' conigli 

iDOODírato nelle leslonl anatomláe d*UDa roalattia die rlcorda In moltl 
puDtl il Kaia-azar delPuomo* 

Nota preliminare pel 

DoTT. Alfonso Splendore 

Direttore dei Gabinetto Batteriologico deirOspedale Portoghese in S. 

Paolo (Brasile) 

Una nuova malattia de' conigli, íl di cui quadro ana- 
tomo-patologico presenta roolte analogie coiraffezione 
protozoica deli' uorao conosciuta col nome di Kala-azar, è 
comparsa, recentemente, fra le bestioline dei raio labora- 
tório, nello stesso ;-ecinto dove, poço avanti, era scoppiata 
Tepidemia mixomatosa da me in altra nota segnalata. 
Questa nuov* aff ezione, ne' casi fino ad ora osservati, che 
sono poço piú di mezza dozzina, non ha presentato un 
quadro clinico caratteristico, essendo tutti gli animali ve- 
nuti a morte senza sintomi speciali, meno uno che, negli 
ultimi due giorni di vita manifesto paralisi degli arti 
posteriori. Tutti i conigli affetti cominciarono a mostrare, 
sette od otto giorni avanti la morte, un grande deperi- 
mento orgânico ; ma non bo mai riscontrato in essi altro 
sintoma. L*esame microscópico dei sangue periférico non 
rivelò mai nè presenza di parassiti nè alterazioni degne 
di nota. 

Air autopsia, invece, sempre s'incontrarono delle 
gravi alterazioni negli organi interni, i quali presentarono, 
costantemente, un aspetto caratteristico, che può ben dirsi 
patognomonico. Dette alterazioni riguardano principalmen- 
te la milza, poi il fegato, il polmone, le glandole linfati* 
che, r intestino grosso. La milza s'incontrò sempre forte- 
mente ipertrofica, con superfície di colore rosso bruno, 
cosparsa da piccole e numerosissime chiazze bianco grigie 
di varia forma e dimensione, dando alFintero organo un 
aspetto tal volta pseudo- tubercolare, piú spesso marnio- 
rizzato;.il fegato aumentato di volume, seboene in erado 
minore delia milza, cosparso anch' esso, come puré il pol- 
mone, da numerosi punticini gjrigiastri; le glandole linfa- 
tiche sempre ingrossate, specialmente quelfe dei mesen- 
tarío; rintestino grosso, sebbene raramente, cosparso da 



— ílò — 

varie ulcerazioni sulla mucosa. Sempre esisteva liquido 
perítoneale, in discreta quantità, il quale ordinariamente 
era di natura sierosa, ma in un caso aveva aspetto san- 
guinolento. In un caso si noto, anche, alfautopsia, un'ulce- 
razione sulla pelle dei dorso. 

L^esame microscópico dei materiale patológico degli 
organi interni sopra ricordati ha costantemente rivelato 
presenza di speciali corpuscoli che s* incontrarono anche 
nel niidoUo delle ossa, e un po' meno, nella polpa de' reni. 

Detti corpuscoli avevano già richiamata la mia at- 
tenzione ne* preparati a fresco per la loro forma e, spesso, 
per il loro aggruppamento, ma furono meglio messi in 
evidenza mercê la colorazione col método di Giemsa. 

Essi ne' preparati fatti per strisciamento s' incontrano 
tanto fuori ene dentro le cellule, tanto solitari che ag- 
gruppati in vario numero, ma ne' tagli istologici sono piú 
spesso riuniti in gruppi e per lo piú intracellulari, ospi- 
tati dalle cellule degh organi affetti, nonchè da qualche 
leucócito, mai da* globuli rossi dei sangue ne' detti organi 
contenuto. 

Osservati a fresco, presentano un protoplasma ialino 
e un núcleo granuloso. Nelle osservazioni a fresco fatte 
fino ad ora, non ho mai riscontrato alcun flagello nè os- 
servato in essi alcun movimento attivo. Rispetto alia forma, 
si mostrano prevalentemente un poço curvati a mo' di 
rene, con un'estremità piú grossa e arrotondata deiraltra; 
alcuni, però, sono ovalari, sembrando, guesti, rappresen- 
tare una forma di divisione de' primi ; altri, piuttosto rari,. 
sono piú o meno rotondi o irregolari. 

òltre di tali corpuscoli, s'incontrano de' cisti rotondi 
o rotondoidi contenenti, talvolta, un numero indetermi- 
nato di elementi individualizzati rassomiglianti alie pre- 
dette forme curve od ovalari, talvolta una grande quantità 
di blocchetti granulosi sparsi, senz'ordine, nel protoplasma 
comune che li avvolge. 

La dimensione de' corpuscoli reniformi od ovalari è 
di 5 — 8 microm. di lunghezza, 2,5 — 4 microm. di larghezza 
massima ; i cisti hanno un diâmetro da 8 a 40 microm. 

La colorazione fatta col método di Giemsa, ne' pre- 
parati per strisciamento mette in evidenza, cosi ne' cor- 
puscoli reniformi come in quelli ovalari, il protoplasma 
che si colora in bleu pallido ed il núcleo che appare 
formato da un gruppo di granuli di cromatina colorati in 
rosso, circondato da un piccolo alone chiaro, incolore. 

II núcleo occupa un'estensione poço minore delia 
superfície di larghezza dei corpuscolo ed i granuli di 
cromatina che lo compongono sono aggruppattí o in figura 



— líl — 

di rosetta o in figura irregolare, mostrando-si spesso, in 
fasi di di visione. 

Non è raro d^incontrare corpuscoli ovalari in cui 
la cromatina si presenti già divisa in due bloccbetti egua- 
li e distinti ; in essi è anche facile distinguere un partico- 
lare condensamento dei protoplasma, in modo che Tintero 
corpuscolo sembra rappresentare Tunione di due forme 
curvate in via di separazione. S'incontrano, poi, frequen- 
temente, de' corpuscoli reniformi ben determinati e distinti 
con tutti 1 loro caratteri, riuniti insieme due a due. 

Ciò ifa credere che 1' unione bigemina in questi corpi 
parassitari sia caratteristica. 

In nessun caso bo mai visto alcun blocchetto di 
cromatina extranucleare che possa ritenersi come un vero 
blefaroplasto, ma in rarissime forme ho notato, presso 
una delle loro estremità, un granellino di cromatina co- 
lorato in rosso come quella dei núcleo ( blefaroplasto 
rudimentale ? ) 

Oltre alie descritte forme caratteristiche, la colora- 
zione di Giemsa mette in evidenza degli altri corpicciuoli 
liberi, che nelle preparazioni fino ad ora esammate ho 
incontrato solo di rado. Questi sono di forma rotonda o 
lievemente ameboide ed hanno la dimensione di un gló- 
bulo rosso di sangue o poço meno, — presentano il pro- 
toplasma, piú o meno addensato, coloratQ in bleu un poço 
piú cupo di quello de* corpuscoli descritti, e mostrano, 
alcuni, un globetto di cromatina colorato in rosso violá- 
ceo situato alia periferia, coUa dimensione quasi eguale 
ad una terza parte deirintera superfície dei corpicciuolo, 
altri de' granuli di cromatina appena percettibíli, situati 
presso la periferia o nel mezzo dei corpo; altri ancora 
non presentano alcun vestígio di cromatina. In alcune 
preparazioni di fegato ho incontrato anche de' corpic- 
ciuoli fusiformi, aventi le due estremità molto lunghe e 
sottili a guisa di flagelli : anch^essi si presentano costi- 
tuiti da una massa protoplasmatica colorata in bleu pal- 
lido e non mostrano traccia di cromatina colorata in 
rosso, mentre, talvolta, nel mezzo dei corpo mostrano 
una specie di núcleo a mo' di massa compatta colorata 
in bleu un poço piú cupo ; hanno la lunghezza totale 
eguale fino a quella di tre o guattro diametri di un 
corpuscolo rosso di sangue e la íarghezza massima fino 
a' due terzi circa dello stesso, essendo le predette estre- 
mità filiformi su per giú eguali ciascuna alia lunghezza 
dei corpo stesso. 

Ne' cisti, la colorazione, quando non mette in evi- 
denza degli elementi rassomiglianti completamente alie 



— llíà — 

forme ovalari o curvate sopra descritte, rivela una gran- 
de c^uantità di blocchetti di cromatina eguali o minori a 
quelli delle stesse, spesso di forma quasi poligonale, colo- 
rati in rosso e sparsi senz'ordine nel protoplasma comune, 
ch*è tinto in bleu pallido, avendo ciò somiglianza colla 
scbizoeonia di vari sporozoari. 

Non ci è dubbio che tutte queste forme notate rap- 
presentano stadi di sviluppo di un protozoa parassita, che 
compie, per lo meno, parte dei suo ciclo vitale neir orga- 
nismo dei coniglio, mentre le condizioni anatomiche in cui 
esse s*incontrano corrispondono a quelle de* corpuscoli 
dei Kala-azar deiruomo. Parmi, però, che questo nuovo 

Earassita dei coniglio sia diíferente non solo dal genere 
-eishmania, ma anche dagli altri fino ad ora descritti. 

Prowazek a cui ho mandato a Rio de Janeiro due 
preparati di milza, gentilmente mi ha scritto la sua auto- 
revole opinione, dicendomi sembrargli trattarsi di un nuovo 
gruppo di protozoi piú o meno vicino a quello delle cosi 
dette emogregarine de* mammiferi descritte da Balfour e 
da altri. 

Credo non sia possibile determinare una classifica- 
zione certa di questo nuovo protozoa prima di conoscersi 
1* intero suo ciclo vitale, e ciò spero scoprire nelle mie ul- 
teriori ricerche. Ho tentato, intanto, delle culture in 
sièro fisiológico çitratato ( Rogers ) come anche in agar 
sangue ( Mc Neal ), ma non ho avulo risultato positivo ; 
cosi come gli esperimenti di trasmissione fatti tanto per 
via sottocutanea che alimentare in conigli sani e in altre 
specie di animali, fino ad ora non sono statí coronati da 
successo; e parimenti negativo è stato un esperimento 
fatto con inoculazione a mezzo di pulei raccolte sopra 
uno de* conigli morti deiraffezione. 

La relazione piú dettagliata, accompagnata da figure 
illustrative, delle mie osservazioni sara comunicata in 
altro lavoro. 



— 113 — 



Brocas 

POR JuLio Conceição 

No Boletim da Agricultura, publicado pela Secreta- 
ria deste Estado, serie 8.*, n q, do anno passado, em 
suas notas de consultas recebidas, figura uma procedente 
do Rio de Janeiro, acompanhada de um tronco de laran- 
jeira que apresentava diversos túneis longitudinaes e trans- 
versaes, produzidos por uma larva, que o Instituto Agro- 
nómico ao Estado disse ser de um coleoptero e nSo 
borboleta como se pensa. 

Esse insecto, segundo a nota, ainda não íôra estu- 
dado, por julgal-o o Instituto raro nos laranjaes. Puro 
engano, infelizmente tal persuasão não é acertada, pois 
que as laranjeiras do litoral, principalmente, soffrem muito 
com similhantes insectos. 

Ha aqui antigos sitios onde os laranjaes s«lo extin- 
ctos por elles. Mesmo no interior do Estado já tenho 
vièto varias laranjeiras affectadas. 

E' muito justificável essa persuasão do Instituto Agro- 
nómico do Estado, visto serem poucos os que tratam da 
fructicultura entre nó$^ e esses mesmos com algum indif- 
ferentismo, sçni, entretanto, com mais frequência, se lem- 
brarem de pedir conselhos e levar suas observações ou 
queixas áquella repartição, em boa hora creada e mantida 
pêlo nosso Governo. 

Os prejuizos causados pelas brocas em geral, são 
extraordinários, mais do que se suppõe, notadamente nas 
regiões do nosso litoral, onde, sem um extremo cuidado, 
incontestavelmente não se pode obter anonaceas e figuei- 
ras de fina qualidade. 

As da íamilia das myrtaceas^ taes como o cambucá- 
eiro, a jaboticabeira, araçáeiros e até a própria goiabeira, 
são immensamente prejudicadas, com especialidade a ja- 
boticabeira. Quando conseguem resistir á acção das bro- 
cas, ficam inteiramente definhadas, vegetando c fructifi- 
cando mal. 

Com a destruição desses insectos ha longos annos 
que se preoccupa a minha attenção com serias e prolon- 



— ^H — 

gadas investigações, tendo chegado, por fim, a um resul- 
tado satisíactorio desde ha cerca de dois annos. 




^^'-^U^ro 




OM^K^th 





CiMíÊV 



fJU- 




i ace dofsal 



face veníral 



N.t> 1. Coleoptero adulto que ataca as anonaccas. 

N.o 2. Larva em alcc^ol do mesmo coletipÈera no período adeanUdo da 

mctamorphose. 
N.o 4. Larva em aícooJ, adulta, talvez no seu máximo desenvolvimento, 

eJttrahida de uma jaboticabeíra. 

Sem a preDccupaç5o de nomes technicos e classifi- 
cação das famílias desses perniciosos insectos, passarei a 
relatar os resultados das minhas observações e cunclu- 
soes. 



— 115 — 

As anonaceas, salvo o araticu silvestre, Sclo atacadas 
de forma a se extinguirem por completo em nosso litora], 
especialmente as variedades finas e mais apreciadas, como, 
por exemplo, a aia do Ceará (ou /meia do conde ou con- 
dessa^ como lhe chamam), a gerimoia do Chile e outras. 




V 





i-M^ \mU 



N.o 3 Fragmento do tronco de uma jabotícabeira commum, viva, com o 
pçqtieno Cítsulo onde se desenvolve a Sarva que peneira na 
planta, na primeira pliasc destruidora- No verso desse íragmenío 
observa -5e o orifício da penetração. 



O insecto que as ataca, no tronco, é um pequeno 
besouro de 2 centímetros de comprimento por 8 míliime^ 
Iros de largura, com tromba adunca, preto e com uma 



— ri6 — 

larga lista branca, de ambos os lados, da cabeça ao ex- 
tremo das azas, localizando-se no tronco, cerca de uma 
pollegada abaixo da linha do solo, A sua larva, cónica e 
pardacenta quando adulta, regula medir i 7^ cmt. de com* 



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i 


1. 


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1 


^^^Hr 'j*^i^^^H^^^^^^I 


1 



N.o- 5. Tronco de Jaboticabeira mostrando a forma pela qual foram extinctas 
as brocas, com as perfurações tapadas a cera, após a introducção 
de pequenos pedaços de carbureto de calcium. 



primento. Elia estaciona a pequena profundidade no tronco, 
em compartimento revestido da própria serragem da ma- 
deira, e ahi, em curto periodo, de 2 mezes mais ou me- 
nos, se transforma no pequeno besouro a que me refiro. 
A sua extracção é difficil, quasi impraticável, só pôde 



— TI7 — 

ser feita por raeio de canivete ou outro instrumento cor- 
tante, procurando o sitio em que está eslacionada* Não 
ha ingrediente que a attinja sinão com o sacrifício dá 

f)lanta, pois o caminho da sua trajectória, embora curto, 
ica sempre impedido por compacta serragem. 




N.** 6 Tronco de uin c<i(tibia\1cim novo moslrantio os csUagos dos dam- 
ntnlios insectos. 

Custou-me chegar a um fim pratico para evitar os 
malefícios desse insecto, pois só pude resolvel-o por meio 
da enxertia das referidas anonaceas, entre lo a 20 cmts. 
ãcima do solo, no nosso araticu silvestre, que, seja por 
sua natureza ou por qualquer outro motivo, tenho obser- 



— ii8 — 

vado ser completamente immume em relação a taes in- 
sectos. 

A enxertia nesse cavallo silvestre vae muito bem, 
pois tenho vários exemplares com bellissimo resultado. 



Verifiquei que as larvas notadas nas laranjeiras são 
as mesmas que atacam as figueiras, e o seu percurso é de 
cerca de lo a 20 cmts. entre a casca e o lenho da planta, 
para depois fazer a sua perfuração em procura do âmago, 
ora em sentido perpendicular, ora obliquo, acompanhando 
os galhos ou descendo pelo tronco. Essas larvas, quando 
adultas, são chatas, amarelladas quasi brancas, de cerca 
de 4 cmts. de comprimento por 72 de largura, similhan- 
tes á tenia solitíiria pela configuração annelada. A sua 
permanência no tronco é prolongada, é de muitos mezes, 
pois que, no período das minhas observações e experiên- 
cias, supportei com verdadeiro pezar o anniquilamento de 
preciosos specimens, sem outro remédio sinão o decepa- 
mento pelo tronco para ir ao encalço da larva. 

Por meio de simples observação descobre-se a planta 
affectada e com canivete se extingue o mal, acompanhando 
o sulco antes da penetração no tronco. Após este período, 
só se pôde extinguir com o mesmo processo que applico 
aos cambucáeiros, jaboticabeiras, etc, como adeante ex- 
porei. 

A broca, que no litoral persegue os cambucáeiros, 
jaboticabeiras, etc, penetra directamente ao âmago das 
plantas, sem o percurso notado nas laranjeiras e nas fi- 
gueiras. O insecto que a origina, forma um pequeno ca- 
sulo no tronco e ahi se opera a penetração da larva, que 
é similhante a um verme alongaao, de 2 cmts. approxi- 
madamente, cor de havana escuro. A sua permanência no 
tronco é prolongada, como nas laranjeiras. 

Também não foi menor o trabalho para conseguir, 
por um processo pratico, a extincção dos damninhos in- 
sectos nestas ultimas variedades. 

Principiei as minhas experiências tapando os orifi- 
cios com cera, com pinos de madeira bem ajustados, de 
forma a tirar a circulação do ar ; e com applicações, por 
meio de injecções de álcool, de solução de sulfato de co- 
bre, de arsénico, de quassia e outras, tudo improficua- 
mente. Notei que o álcool na jaboticabeira, mata a planta 
com rapidez extraordinária, como si se lhe deitasse agua 
fervendo, resultando ter perdido vários exemplares da 
cura empregada por este meio. 



— 119 — 

Quasi desanimado e reflectindo, passei a fazer expe- 
riencias com o emprego de gazes, aliás, como as injecções, 
de difficil inoculação. Cheguei, porém, ao resultado dese- 
jado, com o uso do carbureto de calcium, como agente, 
em estado granulado, raciocinando que a planta viva, 
assim, com o seu systema cellular atravessado por furos, 
deveria secretar a humidade natural sufficiente para 
desenvolver lentamente o gaz acetylene, que invadiria 
todos os compartimentos. E não me enganei no vatici- 
nio, visto que tenho sempre conseguido um resultado 
maravilhoso por esse processo. 

Pelos resíduos depositados junto ao tronco das ar- 
vores, facilmente se descobre, pela direcção da queda, 
aonde está aninhada a larva, e assim descoberto o local, 
tira-se com a ponta de um arame ou grampo o pecjueno 
revestimento de tecido protector da entrada do onficio, 
que geralmente é da côr do próprio tronco da arvore. 
Assim desimpedida a entrada, introduz-se um ou dois pe- 
quenos pedaços de carbureto, do tamanho mais ou menos 
de um grão de arroz, tapando-se logo em seguida o ori- 
fício, como todos os demais que com esse possam ter re- 
lação, com um pouco de cera, pois o desenvolvimento do 
gaz, sem absoluto prejuízo para a planta, envenenando a 
atmosphera, matará a larva. 

Este processo tanto se applica nas laranjeiras como 
nas figueiras, no caso do aprofundamento da larva no 
tronco. O resultado é infallivel, pois ha cerca de dois an- 
nos que o ponho em pratica. 

Com igual successo, tenho feito idênticas experiên- 
cias em arvores silvestres. 

O ingrediente a applicar é pouco, barato e de fácil 
obtenção, attenta a larga generalização do gaz acetylene 
entre nós. O trabalho material também é pequeno e rá- 
pido, basta explical-o a um menino intelligente e perspi- 
caz, que em poucos momentos fica adestrado e pratico 
nesse mister. 

Santos, Outubro de 1908. 

NOTA 

E' facto sabido que o pé da fructa do conde ou con- 
dessa, que é sempre, como em toda parte, reproduzido 
por semente, não tem duração superior a 2 ou 3 annos 
no máximo, vindo sempre a extinguir-se pela acção das 
brocas ou de uma moléstia não conhecida que dá no tronco, 
junto ao solo, tomando-o craquento e todo rachado. A 
enxertia, portanto, traz duplo valor: primeiro, evita esse 



— I20 — 

mal, as brocas e moléstias que afíectam a raiz, e segundo, 
o processo fixa as boas variedades, com a vaíitagem de 
poder melhorar os fructos com as reenxertias^ como se dá 
em relação ás mangas, laranjas, uvas, etc. 

O cavallo de araticu silvestre é refractário a moles- 
tias e de fncontestavel durabilidade, pois temol-o á vista 
abundando nos pastos das fazendas e nos campos, sendo 
conhecidos, em determinadas propriedades, pés que exce- 
dem a cem annos. 



INSTITUTO PASTEUR DE SÃO PAULO 



Um caso de blastomycose 
com locdisaçõo primitíDa na mucosa da bôcca 

pelo 
Dr. a. Carini. 

Depois que Posadas (i), em 1894, descreveu o primeiro 
caso de blastomjxose (que erroneamente interpretou como 
psorospermose), chamando assim a attenção dos observa- 
dores para essa moléstia, foram encontrados, especialmente 
na America do Norte, vários outros casos de doenças 
devidas a blastomycetos. 

O Dr. Lutz (2) fez recentemente conhecer dois casos 
com localisação primitiva na cavidade buccal. 

O Dr. Splendore (3) também observou dois casos 
dessa affecção, e num delles, a lesão teve inicio na mucosa 
buccal. 

Essas são as únicas observações feitas, até hoje, no 
Brasil. 

Graças ao Dr. Buscaglia, director do Hospital Italiano 
de S. Paulo, tive occasião de estudar um caso que, pela 
forma clinica e pelos caracteres anatomo-pathologicos, deve 
ser classificado ao lado dos casos do Dr. Lutz e do Dr. 
Splendore. 



1) Alejandro Posadas — Psorospermiosis infectante generalisada — 
Buenos Aires, 1894. 

2) Adolpho Lutz— Uma mycose pseudococcidíca localisada na bocca 
e observada no Brazil. Contribuição ao conhecimento das hyphoblastomyco- 
ses americanas. Brazil medico, 1908. 

3) Affonso Splendore — Communicação á Sociedade Scientiflca de 
São Paulo, 1908. 



— 121 — 

José Fernandes, nascido em 1848, em Leão (Hespa- 
nha), colono, casado, com filhos todos de bôa saúde. 

Aos 20 annos soífreu de febre malarica e não teve 
depois nenhuma moléstia de importância. 

Vive no Brazil ha muitos annos, trabalhou na cultura 
do café e da canna de assucar. Ha cerca de 6 annos é 
estabelecido no Salto de Itú (Est. de S. Paulo), onde 
convive com os filhos, operários de fabricas. Ha um anno 
mais ou menos começou a notar um pequeno' endureci- 
mento na abobada do paladar, o qual, augmentando, obri- 
gou-o a consultar um medico, que prescreveu collutorios 
de chlorato de potássio. 

Tendo-se a affecção extendido a toda a abobada pa- 
latina, o doente procurou o Hospital, para onde entrou 
no dia 26 de Maio. 

O Dr. Buscadia não podendo, somente com os dados 
clinicos, firmar o diagnostico, pediu-me que examinasse o 
doente, que vi pela primeira vez a 10 de Junho. 

A abobada do paladar mostrava-se de coloração rósea 
normal, coberta em alguns pontos de um exsudato fibri- 
noso amarello. 

A sua superfície apparecia cheia de saliências mam- 
millares, que se extendiam aos pilares anteriores e á uvula. 
Ao tacto sentia-se o tecido bastante espessado, dando uma 
impressão particular de dureza. 

A mucosa, attritada com um tampão de algodão, 
sangrava facilmente. Os gangUos lymphaticos do pescoço 
não se achavam engorgitados. 

A não ser uma pequena difficultade na deglutinação, 
o paciente não se queixava de mais nada. 

Depois de ter interrogado e examinado attentamente 
o doente, e não tendo encontrado antecedentes de syphilis, 
nem de tuberculose, nem de lepra, depois de ter pesoui- 
zado inutilmente os agentes destas infecções, pedi ao Dr. 
Buscaglia que cortasse um pedaço do tecido doente, para 
ser feito o exame histológico, e aconselhei-lhe a extirpação 
da uvula, que já participara da affecção. A uvula foi cor- 
tada a // de Junho (i) e logo trazida ao Instituto. 

Pequenos fragmentos, lavados antes repetidamente 
era solução physiologica esterilizada, foram semeados em 
caldo e em agar de centeio espigado (Lutz-Splendore), em 



(1) Graças á gentileza do Dr. Viscardl, de Itú, sabemos que o 
doente se acha ainda nas mesmas condições em que se achava quando 
sahiu do Hospital em 21 de Junho ; o seu estado geral é bom, a lesão da 
abobada palatina não progrediu muito e nao lhe causa dores nem outros 
incommodos. 



— 122 — 

a|;ar de Sabouraud, que, guardados á temperatura am- 
biente, por diversas semanas, não deram resultado algum. 

Uma cobaya, inoculada sob a pelle do abdómen, com 
um pedaço pequeno, morreu poucos dias depois, de infec- 
ção secundaria. O resto do fragmento, fixado em álcool, 
foi conservado para o exame histológico. 

Nos cortes, corados pela hematoxylina-eosina e pelo 
Van Gieson, notam-se abaixo do epithelio, — que se acha 
em geral um pouco espessado — zonas limitaaas de infil- 
tração mais ou menos abundante ; no meio destas zonas 
estão espalhadas numerosas cellulas gigantes, algumas de 
dimensões muito grandes, com muitos núcleos (loo e mais). 

Nas partes mais profundas encontram-se glândulas 
mucosas normaes e feixes de fibras musculares estriadas. 

Em alguns pontos a infiltração penetrando pelas pa- 

[)illas, chega até o epithelio superficial, que, invadido pelos 
eucocytos, fica mais ou menos dissociado. 

No interior das cellulas gigantes não é raro encontrar 
espaços claros limitados por uma membrana; algumas 
vezes esses espaços apresentam um conteúdo que toma 
as cores nucleares. Raramente encontram- se estas pseudo- 
coccidias fora das cellulas gigantes. As suas dimensões 
são variáveis; muitas vezes, perto de uma maior encon- 
tra-se outra menor, como se esta fosse originada por 
gem mação. 

A estructura histo-pathologica, que é de um granu- 
loma infectuoso, corresponde, portanto, á observada nos 
casos de blastomycose ; e apezar de terem sido as culturas 
negativas, e de ser o aspecto dos blastomycetos no tecido 
não muito característico, acho fora de duvida que o pre- 
sente caso seja de blastomycose. 

Esta observação, com as do Dr. Lutz e do Dr. Splen- 
dore, vem provar que no Estado de S. Paulo ha uma 
blastomycose de decurso chronico, com localisação primitiva 
na mucosa da bocca. 

E' bom que para esta affecção seja chamada a atten- 
ção dos clinicos, porque provavelmente ella não é tão rara. 



~ 123 - 



o pulso e a applicação do sphygmographo. 

Conferencia pelo Dr. Priore 
Meus consócios. 

Não é com pretenção de dizer-vos cousas desconhe- 
cidas ou peregrinas que nesta sessão eu venho falar-vos, 
mas é só para lembrar a mira, aos meus collegas e ao 
mesmo tempo para dar uma idéa aos senhores que da 
nossa sciencia não fazem parte, o que nós entendemos 
por pulso arterial, quaes os modos para releval-o, quaes 
as modificações que nós encontramos nelle nos diversos 
estados pathologicos, do coração e das artérias principal- 
mente, e qual é a importância que nós devemos dar a 
estas modificações. 

Entende-se por pulso arterial a dilatação das arté- 
rias, consequência immediata da contracção do ventriculo 
esquerdo. Os factores deste phenomeno são essencial- 
mente dois, d*um lado a força propulsiva do coração e 
d'outro lado a elasticidade das artérias. E' pratica antiga 
apreciar o pulso por meio do tacto que dá a frequência 
delle, o rytmo, a celeridade, a dureza e mais algumas 
modalidades. 

Por frequência nós entendemos o numero das dila- 
tações arteriaes num minuto primo, e segundo que este 
numero é maior ou menor que o normal — 70-74 num 
homem de 25 até 50 annos, falíamos de um pulso jre- 
quente e raro, 

O rytmo depende do intervallo que passa entre uma 
dilatação e outra das artérias, e quando este intervallo é 
sempre egual se tem o pulso arytmico e irregular no 
caso que o intervallo não fôr constante. Entre o pulso 
regular e irregular existe o pulso alloryimico, o qual é 
o pulso que mesmo não tendo o rytmo normal, tem 
porém uma periodicidade nos seus movimentos. 

A celeridade é subordinada a duas condições : á 
força da contracção cardíaca e á elasticidade das artérias, 
e dir-se-á que o pulso é rápido quando as artérias se 
dilatam rapidamente e rapidamente se contrahem, em- 
quanto se dirá tardo no caso contrario. 



— 124 ~ 

A respeito da dureza se distingue um pulso duro e 
ntolle, e esta propriedade aprecia-se dà pressão que se 
deve fazer com os dedos para fazer desapparecer os bat- 
tidos arteriaeis. 

Todas estas observações nós fazemos diariamente 
nos nossos doentes, e tiramos delias consequências 
importantes, porém são sempre observações imperfeitas e 
superficiaes, que resentem muito das condições individuaes 
dos mesmos observadores. E' por isso que todas as vezes 
que nós precisamos estudar oem o pulso, nós lançamos 
mão de apparelhos que o representem graphicamente e 
que nos revelam as minimas alterações delle. 

Estes apparelhos registradores chamam-se sphygmo- 
graphos. 

Ha vários sphygmographos, todos baseados sob um 
mesmo principio, mas eu não venho expôr-vos nem a 
historia da sphygmogrophia, nem as modificações feitas 
nos apparelhos, venho só mostrar-vos o de. Dudgeon. 

Agora vamos estudar os diversos diagrammas que 
deu este appa relho. 

Antes de tudo eu apresento- vos um pulso normal 
ampliado de muito para melhor esclarecel-o (quadro I). 

Nelle distingue-se uma linha ascendente, uma sum- 
midade, uma linha descendente, uma base. 

A linha ascendente (A) é única, recta, levemente 
inclinada, e ella está em relação com a systole ventricular 
e representa a dyastole arterial. A sua inclinação varia 
conforme a força com a qual se contrahe o musculo car- 
díaco, sendo mais inclinado antes das refeições, nos mo- 
mentos de repouso etc. do que depois de ter ingerido 
álcool e outras substancias excitantes, e depois de ter 
feito esforços corporaes e mentaes. 

A àummidaae (S) representa o começo da systole 
arterial e apresenta-se como um angulo agudo. 

A linha descendente (D), obliqua, mais comprida 
da ascendente, apresenta varias elevações, que ordinaria- 
mente são três. A primeira (e). corresponde á terceira (e) 
e são chamadas elevações de elastecidade, sendo causa- 
das de ondulações secundarias das artérias dilatadas pela 
columna do sangue. 

A mais importante é a elevação que se acha quasi 
no meio da linha e que é chamada elevação de recuo (r). 
Ella é produzida por uma onda sanguínea positiva prove- 
niente da fechadura das válvulas sygmoidias aórticas. 
Distruindo de facto estas válvulas os physiologistas viram 
desapparecer do sphygmogramma a elevação de recuo. 

Esta experiência encontra uma confirmação clara, 



— 125 — 

absoluta na insufficiencia aórtica, moléstia que clinicamen- 
te nos é revelada por meio de um sopro diastotico no 
logar de auscultação das válvulas sygmoideas, e que func- 
cionalmente corresponde ás condições que os physiolo- 
gistas cream praticando nos animaes a destruição das 
válvulas supraaitas. E' verdade que na insufficiencia estas 
válvulas não são destruidas, mas ellas são alteradas . na 
sua estructura, reduzidas na sua extensão, o que produz 
o mesmo effeito, quer dizer a volta do sangue da aorta 
no ventrículo esquerdo. Pois bem a primeira cousa que 
nós observamos no sphygmogramma da insufficiencia 
aoitica é o desapparecimento da elevação de recuo, phe- 
nomeno este que se percebe também com o tacto, da 
rapidez com a qual se cumpre a systole arterial. O qua- 
dro II mostra claramente quanto eu affirmo : vê-se em 
effeito na linha descendente uma só elevação que corres- 
ponde á primeira elevação de elasticidade á elevação e 
do quadro I. Depois desta elevação a linha cáe quasi 
recta, mesmo sem a segunda elevação de elasticidade. 
Além disso a linha ascendente é menos inclinada, mais 
alta, quasi como se vé no pulso normal. Tomado depois 
de esforços, quando o coração se contráe com grande 
energia, cousa que se verifica também na insufficiencia 
aórtica na qual o ventrículo esquerdo é sempre em hy- 
pertrophia, obrigado a lançar o sangue que vem da aurí- 
cula subrastante e mais o sangue que refluiu da aorta. 

Effeitos oppostos verificamse na estenose aórtica, 
quer dizer no estreitamente do orifício aórtico. Nesta 
moléstia o ventrículo esquerdo é também hypertrophiado, 
mas esta hypertrophia é devida ao esforço que deve fazer 
para fazer passar o sangue entre um orifício estreitado 
e escabroso. Destas condições consigne naturalmente que 
a systole ventricular não se effeçtua com a rapidez nor- 
mal, mas mais lentamente, o que se revela no sphygmo- 
gramma com a modificação na linha ascendente. O 
diagramma que eu vos apresento (quadro III) mostra 
a hnha ascendente dividida em duas partes, a primeira 
recta, levemente obliaua, effeito da enérgica contracção 
do ventrículo esquerdo immediatamente depois do seu 
repouso, emquanto que a segunda é incurvada e repre- 
senta os últimos esforços do musculo cardíaco, cançado 
pelos grandes obstáculos que encontra na sua funcção. 
Além disto o sphygmogramma apresenta a summidade 
do pulso não como um angulo agudo, mas como uma 
plataforma, o que indica que as artérias ficam um mo- 
mento numa dilatação constante. Esta modificação encon- 
tra-se todas as vezes que os vasos arteriaes por processos 



— 120 — 

morbosos tem perdida a sua elasticidade — como no 
nosso doente que é também arteriosclerotico — e quando 
por uma razão qualquer o systema das veias está repleto 
de mais, o sangue por conseguinte corre muito lenta- 
mente nos capillares. Este facto é provado pelo ultimo 
sphygmogramma, no qual se vê a mesma plataforma no 
logar do angulo agudo. Neste caso não se pôde fallar 
em dureza das artérias, pertencendo o pulso a uma me- 
nina de treze annos, a qual soffre do morbo bleu, moléstia 
devida á mistura do sangue arterioso com aquelle venoso. 
Eu vos não fallarei dos symptomas que a menina apre- 
senta e por meio das quaes eu diagnostiquei a persis- 
tência do dueto arterial, que mette em communicação na 
vida endouterina a artéria pulmonar com aquella aórtica, 
mas direi somente que as veias cavas não se podem 
descarregar livremente na aurícula direita, do que consegue 
uma repleção exaggerada do systema venoso com lento 
movimento do sangue nos capillares e lenta systole arterial. 
Das modificações que encontram-se nas outras mo- 
léstias do coração edaquellas que se encontram nas alte- 
rações das artérias, nas neprites, na febre e na pneumonia 
eu vos fallarei noutra sessão, não tendo recolhido ainda 
os sphygmogrammas correspondentes. 



I — Pulso normal 




— 127 — 

II — Insuffideocia aórtica 



— 128 — 

III — Stenope aórtica = arteriosclerose 




IV — Morbo Meu 



129 — 



EnDenenamento pelo gaz de ilíumínação 

Trobalbo cxpcrímenlal 
PELO Dr. R. Hottinger 

Ha cerca de 15 annos escrevi um trabalho sobre o 
envenenamento pelo oxydo de carbono, que então era 
muito frequente. 

E* sabido que na combustão incompleta da madeira 
ou principalmente do carvão, ba formação de um gàz 
muito venenoso, que já tem feito muitas victimas ; e eu 
não voltaria novamente a tratar de tal assumpto, si elle 
se não relacionasse directamente com a questão ora tra- 
tada : — possibilidade da formação do C O na combustão 
incompleta do gaz de illuminação. 

Ò elemento venenoso nelle contido é principalmente 
o CO, que como sobemos é formado, quando a combus- 
tão da matéria orgânica tem lugar em presença de pe- 
quena quantidade de O; ao passo que quando a combus- 
tão é feita com bastante oxygenio o CO é transformado 
por ella em CO^. 

Comprova o que dissemos o processo geralmente 
empregado na fabricação do gaz de illuminação : — com- 
bustão incompleta do carvão. 

Devido ao facto de se formarem gazes venenosos na 
combustão incompleta do carvão, e das intoxicações pro- 
duzidas por elles, muitos foram levados a pensar que o 
CO poderia formar-se também na combustão incompleta 
do gaz de illuminação, nos fogareiros a gaz. Eu nego que 
isso possa acontecer, baseado principalmente em conside- 
rações de ordem chimica, isto é eu nego que a combus- 
tão incompleta do gaz de illuminação possa dar origem 
á formação do CO e não que o gaz de illuminação não 
queimado possa dar causa a perigosos accidentes, devido 
principalmente a grande porcentagem de CO que elle 
contemj cerca de 10 ^/q. Mas devido ao seu cheiro cara- 
cterístico penetrante bastam apenas pequena quantidade 
delle no ar para despertar logo os nossos sentidos. 

E' verdade que tal accidente poderia ter lugar á 
noite, durante o somno, devido a um escapamento de 
gaz; mas o gaz se espalharia logo por toda a casa e se- 



— I30 — 

ria presentido por qualquer pessoa desperta em outro 
aposento que viria então em auxilio dos que estavam 
dormindo. 

O nosso objectivo principal aqui é estudar os gazes, 
productos da combustão do gaz de illuminação queimado 
e não estudar o gaz não queimado. 

Como já dissemos vamos estudar si é possível ha- 
ver formação de C O na combustão incompleta do gaz de 
illuminação nos fogareiros, como acontece em se tratando 
do carvão ou da madeira. 

Nos fogões onde se queima carvão ou madeira, existe 
perigo immediato, quando a tiragem é imperfeita, porque 
navendo formação de CO e de outros gazes pela má 
combustão, elles ficam misturados com o ar do aposento 
em que se dá a combustão, pelo facto do máo funcciona- 
mento da chaminé não permittir arrastal-os para fora. 
Nos fogareiros a gaz, faltam muitas vezes completamente, 
as chaminés, e por isso os productos formados pela com- 
bustão são misturados com o ar (o que acontece muitas 
vezes nos quartos de banho). 

Queimando-se carvão em um fogão pode-se em um 
espaço de tempo curto sobrecarregar o ar de CO a tal 
ponto que a minima estada no lugar tenha consequências 
funestas. 

OCO sendo inodoro e de uma tão grande toxidez, 
comprehende-se o perigo que a sua formação pôde offe- 
recer. 

Um ar contendo uma mistura mesmo ao millesimo 
deste gaz, quando inspirado for muito tempo é perigoso 
para todo o animal que o respirar, sem excepção. A sua 
toxidez é devida a eíle ter, como o oxygenio, a proprie- 
dade de se combinar á hemoglobina, acontecendo porém, 
que e sua affinidade sendo muito maior, o oxygenio não 
o pôde mais deslocar da sua combinação com a hemo- 
globina e o animal perece por falta de oxygenio no san- 
gue, Porisso é provável que quantidades deste gaz, mesmo 
muito pequenas cheguem a ser nocivas quando respira- 
das por muito tempo. 

Haverá formação deste ou de outros gazes veneno- 
sos ou má combustão do gaz de illuminação ? 

Haverá necessidade de uma chaminé nos fogareiros 
a gaz? 

Não havendo encontrado nos Manuaes de Chimica, 
si uma combustão incompleta do gaz de illuminação po- 
deria dar formação ao C O, fiz diversas experiências para 
me certificar a respeito. — Que essa formação não é ge- 
ral, parece fora de duvida, pelo facto de serem muito 



— i3i — 

commums pequenos quartos aonde durante muitas horas 
por dia ha combustão de gaz de illuminação sem que 
haja nenhuma noticia de accidente por essa causa. 

As condições podem ser taes, para alguns fogarei- 
ros, devido á tiragem mal feita, que os gazes sejam em 
parte queimados na chaminé e a combustão por conse- 
guinte se torne anormal. 

Quando isso acontece, misturado á fumaça são ge- 
ralmente arrastadas particulas de fuligem ; — neste caso 
a combustão talvez possa offerecer algum perigo. 

A fuligem formada pelas chammas é, como se sabe, 
carvão. 

Pôde acontecer que esse carvão seja incompleta- 
mente queimado, como acontece nos fogareiros a carvão, 
e haver então, occasionalmente, um perceptível despren- 
dimento de C O, 

Experiência. — Para effectuar estas diversas expe- 
riências era preciso um logar de athmosphera confinada 
aonde houvesse alta temperatura, porisso aproveitámos 
para este fim uma estufa destinada a experiências de di- 
gestão, existente em o Novo Laboratório; e, cuja tempe- 
ratura é sempre conservada a cerca de 40.*'C. 

A capacidade desta estufa é superior a um metro 
cubico. O aquecimento d*ella é feito por um bico Auer 
disposto em sua parte inferior. A chamma deste bico pe- 
netra por um buraco existente no chão da estufa ao in- 
terior da mesma. 

Assim sendo é natural que os gazes resultantes da 
combustão permaneçam na estufa e que o CO tendo um 
peso especifico muito menor do que o do ar (cerca de 
0,97 do ar) se vá accumular na parte superior da estufa. 

O gaz a ser estudado foi colhido na parte mais 
quente da estufa, que não era absolutamente ventilada, 
por intermédio de um tubo ahi introduzido. 

As nossas investigações, pelo methodo physiologico, 
se não limitaram só a pesquisa da CO, mas também dos 
outros gazes venenosos, que eventualmente pudessem 
ser encontrados. 

Para esse lim, empregamos uma cobaya, que foi col- 
locada em uma pequena camará de respiração, em com- 
municação com a estufa. 

Essa camará tinha paredes duplas, entre as quaes 
foi collocado agua, principalmente para resfriar o ar que 
penetrava na camará. Por duas janellinhas existentes na 
camará, podia-se observar o estado do animal durante a 
experiência. 

Da estufa aquecida era o ar aspirado para a camará 



— 132 — 

de respiração por intermédio de uma bomba de vácuo, 
que aspirava cerca de um litro de gaz por minuto. Para 
um consumo de lo litros de O por hora, o transporte 
médio de ar era de 6o litros, quantidade esta mais que 
sufficiente para a respiração do animal em experiência, 
(levando -se em consideração a pressão parcial de CO^ 
augmentada edo O diminuida, por^causa da combustão (na 
chama). 

O transporte de ar pelos tubos e pelo apparelho de 
absorção, causava, na. camará de respiração, uma dimi- 
nuição de pressão de cerca de 25 ""/m de mercúrio. 

Foi naturalmente verificado si o apparelho realmente, 
aspirava ar do interior da estufa, tapando a extremidade 
do tubo interior e notando que no apparelho de absor- 
ção, que continha aeua, não passava nenhuma bolha de ar. 

O fim principal do tubo de absorjão aqui é dar in- 
dicação sobre o funccionamento do apparelho. . 

, A absorção exercida pela agua não pôde ser levada 
ém conta aqui, tratando-se apenas de i cc de agua. 

Com tal dispositivo pude certificar-me de que uma 
cobaya que, em taes condições, permenecer a primeira 
vez por 2 horas e a segunda por 4 V2 na camará de res- 
piração, não apresentava o mmimo signal de mal estar, 
apesar de, um tal ar ser bastante desagradável para o 
homem. É verdade que pôde haver accumulo de C O, 
quando em quantidade menor do que 0,05^0 sem que o 
animal mostre nenhum symptona pathologico apreciável. — 
Mas é bastante que haja 0,032 7o de c O no ar (como 
mostra Hempel) para que o exame spectroscopio do sangue 
o possa revelar. 

Uma prova feita nesse sentido com o sangue da co- 
baya em experiência deo resultado negativo; a raia da 
oxyhemoglobma de um sangue normal, coincidio com a 
apresentada pelo sangue em exame, no prisma semelhante; 
e ambos os sangues tratados pelo S (N H 4) 2 ficaram igual- 
mente reduzidos. 

Traços de gaz de illuminação, contendo uma quanti- 
dade de C O que não era superior a 0,0001 gr., penetrado 
em uma ampola com sangue, na occasião em que o fechá- 
vamos á chamma de um bico borboleta, bastaram para dar, 
quando examinado o sangue ao espectroscopio, a raia 
característica da carboxyhemoglobina. 

Observando assim, em uma das vezes sobre cerca 
de 250 1 de ar saturado de fumo, não encontrei nem 
traços de C O, 

2. Haverá C O nos gazes de combustão, produzidos 
pelos fogareiros a gaz de chammas fuligunosas? 



— 133 — 

Para estudar a questão acinja proposta, difficilmente 
se encontraria um apparelho que se prestasse melhor, que o 
fogareiro a gaz, para aquecer agua, existente no Laboratório. 

A chamnia do bico borboleta empregado no foga- 
reiro, dava constantemente fuligem, mas quando se abria 
completamente o gaz, grande quantidade de fuligem en- 
volvida por densa fumarada era enviada a chaminé, como 
tivemos ocassião de observar, tirando uma das peças que 
a compunham. 

Para esta experiência sérvio a camará de respiração 
já descripta. 

O tubo de aspiração foi collocado de tal modo, sobre 
a chaminé do fogareiro, que os gazes queimados tivessem 
fácil accesso a elle. 

Durante a experiência os bicos foram completamente 
abertos, e a fuligem das chammas, precipitadas nos tubos 
de absorção e em outras partes do apparelho, serviam para 
mostrar que o ar em experiência provinha da chaminé. 

Quando já havia 50 minutos que durava a experiên- 
cia, observando o animal, notei que elle estava nos seus, 
últimos momentos de vida. Elle estava deitado sobre o 
lado e respirava com difficuldade; mas tirando-o immedia- 
tamente do apparelho notei que o coração ainda batia e 
submettendo-o a respiração artificial, consegui, depois de 6 
minutos, fazel-o respirar com facilidade e 10 minutos de- 
pois elle estava completamente restabelecido e não apre- 
sentava o menor signal de um envenenamento. 

O ar na camará de respiração era alem de desagra- 
dável, quasi irrespirável, tanto que parecia ser a causa da 
contracção da glotte do animal. 

Para termos mais provas, analysámos o ar respirado 
pelo animal, em ambos os casos. Na primeira experiência, 
em que empregámos a estufa, a analyse do ar deo o se- 
guinte resultado: 

19,2 % de O 
1,0 7o de C O2 

Estudando-se estes dados, ve-se que a falta de O e 
o accumulo de COo não são taes que possão causar a 
intoxicação de um animal; e a quantidade de C O, si é 
que existia, não era perceptível aos mais sensíveis reacti- 
vos, por nós empregados. 

No 2.° caso, em que o ar que o animal respirava 
provinha directamente da chaminé do fc»gareiro e era mis- 
turado com fuligem, a analyse deo o seguinte resultado: 

6,9 7o de O 

6,2 7o de c a^ 



— 134 — 

É bastante lançar um golpe de vista sobre estes dados, 
para se ter a explicação da asphixia da cobaya, pois a 
pressão parcial do O era muito reduzida. A concentração 
do C O 2^ como vemos, não é bastante para intoxicar um 
animal, mas naturalmente, influenciaria sobre a qualidade 
do ar, que, ao menos para o autor, era quasi irrespirável. 

Resumindo: 

Não houve formação do C O em as combustões do 
gaz de illuminação, feitas nas peiores condições; isto é 
nem directamente nem empregando um animal vivo, cujo 
sangue examinado, ao espectroscopio, depois não apresen- 
tou, nem siquer, traços deste gaz. 

No caso da i.° experiência, accumulação do gaz quei- 
mado em uma estufa de pouco mais de um metro cubico, 
muitíssimo mal ventilada, aquecida por um bico de gaz 
de combustão continua, a quantidade de C O^ encontrada 
foi apenas de i,o7o» quantidade essa menor do que, 
muitas vezes se encontra, nos aposentos mal ventilados, 
habitados por muitas pessoas. 

Do que já dissemos, podemos concluir que não ha 
necessidade de uma chaminé nos fogareiros a gaz, porque 
os gazes, productos da combustão do gaz de illuminação, 
não são nocivos aos animaes e portanto para o homem. 



- 135 



a (Dusica e a EdoIuçqo 

PELO Prof. Paulo Florence 

No meu artigo ^Sobre a natureza da melodia e do 
rhythmo" (Klavierlehrer^ março 1897) parti do principio 
que só ha uma arte, que diversamente se manifesta de 
conformidade com os sentidos por meio dos quaes se 
torna perceptivel. Generalisarei agora esse principio a 
todas as manifestações da vida e do universo, quer phy- 
sicas quer intellectuaes, que obedecem ás mesmas leis 
íundamentaes por mais variadas e heterogéneas que pa- 
reçam. 

Procurarei, pois, cingindo-me a esse principio, inves- 
tigar as relações que existem entre a musica e a vida. 

Que a arte é um reflexo da vida torna-se relativa- 
mente fácil de ver na pintura e na esculptura, por serem 
essas duas artes essencialmente imitativas. Já na archi- 
tectura e principalmente na musica, porem, faz-se mister 
para bem reconhecer essa verdade prescrutar o intimo da 
sua essência, e alem disso comprehender a vida em suas 
revelações. 

A musica tem sido considerada, e com razão, como 
a mais elevada entre as artes, porque não só os meios 
de que se serve para sobre nós agir são de natureza 
muito mais ideal do que nas outras artes, como também 
porque as suas revelações são puramente espirituaes. 

Emquanto as demais artes tem de lançar mão de 
meios exclusivamente materiaes e só conseguem dispertar 
vagamente impressões espirituaes, a musica tem o poder 
absoluto, e a musica pura deve-o até fazer, de tornar-nos 
sensivel a própria vida espiritual. 

Em todos os tempos procurou-se conhecer no que 
consistia o poder da musica sobre a natureza humana 
sem comtúdo chegar-se a uma solução satisfactoria, pon- 
do-se em duvida até que um dia se consiga obtel-a. 

Schopenhauer, que, aparte algumas opiniões extra- 
vagantes, fez considerações importantes sobre a musica, 
dá entre as demais artes logar reservado á arte dos sons. 
EUe escreve que da analogia com as outras artes deve-se 



— 136 — 

concluir ser a musica de certo modo reproductiva. Toda- 
via, pretende que o ponto de comparação entre a musica 
e o universo, isto é, a razão pela qual aquella se acha 
com este em relação de imitação e reproducção, jaz pro- 
fundamente occulta. « Em todas as épocas cultivou-se a 
musica, essa questão, porem, ainda resta por elucidar. 
Satisfeito todo o mundo com sentir a musica immediata- 
mente, renunciou-se a investigações mais profundas e pro- 
fícuas sobre as causas da sua immediata comprehensão ». 

Nas suas demais apreciações sobre a arte dos sons 
diz Schopenhauer ainda, ter encontrado para si e para 
os que conhecem o seu systema philosophico, solução sa- 
tisfactoria e sufficiente nas suas investigações, embora não 
possa* apresentar provas positivas. 

Em todo caso elle attinge o ponto principal do qual,* 
segundo penso, se deve partir para que se consiga 
constituir a base de uma esthetica da musica que satis- 
faça. 

Creio que até hoje não se tem aproveitado essas 
idéas, de sorte que a esthetica da musica tem-se conser- 
vado em terreno muito vago e bastantes sujeito a con- 
trovérsias. 

O ponto que estabelece Schopenhauer e com o qual 
estamos de perfeito accordo, é que a musica occupa po- 
sição reservada entre as demais artes e que ella não é a 
imitação das manifestações da vida, mas sim a reproduc- 
ção da própria vida intima, da sua essência. 

Se a musica mais do que qualquer outra arte tem o 
poder de tornar comprehensivel a natureza das coisas, 
então as mesmas leis que constituem essa natureza devem 
existir também na essência da musica. 

Eis do que me occuparei em seguida. 

Está claro que não pretendo resolver o problema 
mas tão somente suggerir idéas paia que se façam pes- 
quizas nesse sentido. 

As leis principaes de que me hei de occupar tanto 
com relação á vida como á musica são as que imperam 
na formação, desenvolvimento e subsequente decomposi- 
ção de qualquer um complexo determinado. 

Sem prévio conhecimento da obra philosophica de 
Spencer cheguei, já ha annos, observando as coisas com 
relação ao ponto de vista musical, ainda que sem syste- 
ma determinado, a conclusões que se acham de perfeito 
accordo com alguns dos principaes pontos da philosophia 
do Mestre. 

As theorias deste extraordinário pensador já exer- 
cem a sua influencia regularisadora e elucidativa em todos 



— 137 — 

os terrenos e sou de parecer que também a esthetica tem 
a tirar delias o máximo proveito. 

Para tornar bem clara a minha ideia sobre a essência 
da musica, necessito expor alguns princípios de Spencer 
que se referem ao nosso thema ; não pretendo, porém, 
com isso, apresentar um trabalho completo e absoluto. 

(A) Nenhum todo definido, qualquer que seja a sua 
natureza, nasce da própria força e subsiste por ella : é o 
resultado de outros muitos ou relativamente poucos com- 
plexos. 

, Antes que um complexo e as subdivisões que o 
constituem se integrem num todo definido e perceptivel 
acham-se as suas partes em estado diffuso, isto é, estão 
espalhadas pelo ambiente e voltam a este estado quando 
o todo se dissolve para soffrerem novas distribuições 
(redistribuiiion), Spencer chama evolução e dissolução 
« estas duas operações que se mostram por toda a parte 
em antagonismo e que por toda a parte obtém uma sobre 
a outra um triumpho temporário aqui e lá um triumpho 
mais ou menos duradoiro ». 

A evolução consiste na « integração da matéria e na 
dissipação concomitante do movimento ». 

A dissolução effectua-se no caso contrario e é acom- 
panhada pela desintegração da matéria. 

(B) Quando um organismo ou, em sentido mais, 
lato, uma força, que incide sobre um complexo é menos 
poderoso que este, terá de dissolver-se por completo ou 
em parte conforme forem a intensidade do choque e as 
proporções das duas forças; graças á lei da persistência 
da força não perde, comtudo, nada da sua influencia. 

(C) Aquillo que, pois, se manifestou uma vez sob 
uma forma qualquer, exercerá sempre a sua acção, em- 
bora modificado na forma. 

(Dy Se as formas ou organismos que se manifestam 
são minimaes os seus effeitos se dissiparão logo de modo 
a não serem mais perceptíveis aos nossoà sentidos ; se 
forem, porem, poderosas bastante dar-se-á o contrario. 

(E) Toda força (organismo) parte do simples para 
o complexo, absorvendo pouco a pouco os elementos in- 
coherentes que favorecem o seu desenvolvimento paula- 
tino, e, do homogéneo para o heterogéneo. 

(F) Esse processo da evolução que leva o organis- 
mo do mais homogéneo para o mais heterogéneo expli- 
ca-se pelo phenomeno que todo o complexo ou parte 
delle subdivide e differencia uma força incidente. 

Cada uma dessas subdivisões e differenciações cria 
em progressão geométrica novas alterações das quaes 



— 138- 

provém para o complexo uma' sempre crescente hetero- 
geneidade. 

(0) A' heterogeneidade chaotica e indefinida op- 
põe-se o progresso da segregação « que tende constante- 
mente a separar as unidades difíerentes entre si e a unir 
as unidades que se assimilham, servindo deste modo con- 
tinuamente a tornar mais vivas as differenças resultantes 
de outras causas », 

(H) O ponto culminante que todo o organismo tem 
de attingir desde que não tenha sido absorvido por uma 
força incidente mais poderosa é precisamente determmado 
pela própria potencia desse organismo e pelas forças me- 
nores que pouco a pouco se vão a elle aggregando e por 
elle são assimiladas. 

(1) Neste estado conservar-se-á o organismo era 
qlianto' puder contrabalançar as forças incidentes e em- 
quanto se acharem também em equiHbrio entre si as 
partes que o constituem. 

(J) No caso contrario o organismo decahe e appa- 
reniemente deixará por fim de existir, pois que só seria 
real o seu fim se o organismo e todas as suas partes 
componentes fossem os únicos existentes. 

(K) Como em realidade não existe a extincção, a 
morte e sim a transição e transformação, o organismo que 
apparentemente desapparece reune-se á furça incidente pre- 
ponderante, formando um complexo maior e mais poderoso. 

(L) Assim continua incessantemente o jogo das , 
forças em maiores proporções dando em todos os casos 
a força maior a direcção do movimento. 

A applicação á musica de cada um dos principies 
geráes que expuz no numero passado, tornaria necessário 
um trabalho muito extenso que estas investigações, por 
assim dizer, preliminares não permittem ; tanto mais que 
este ensaio de estabelecer pesquizas sobre a natureza da 
musica, debaixo deste ponto de vista, é talvez o primeiro 
que se faz. Por isso mesmo não apresento em forma difi- 
nitiva todos os detalhes da minha exposição. 

O principio estabelecido no primeiro periodo de A 
é de fácil comprehensão. 

Como exemplo darei o seguinte : 

Uma nação de qualquer forma de governo compõe- 
se de differentes grandes complexos sociaes, como sejam : 
reinos, estados, provindas, etc. ; estes, por sua vez, for- 
mam-se de districtos, comarcas, municipios, etc, que se 
tornam de novo a subdividir em menores complexos. 

Seguindo-se esse processo chega-se por fim ao ma- 
terial primitivo, do qual o todo se compõe: o homem. 



— i3g — 

Para elucidação do segundo período tome-se em con- 
sideração o desenvolvimento histórico dos povos que tem 
o seu cunho característico nacional. 

Estes foram se formando paulatinamente de diversos 
elementos ethnicos, que em épocas anteriores se achavam 
dispersos pelo mundo, fazendo parte de outros complexos 
de povos. No correr dos séculos foram, então, assumindo 
uma nova forma que se tornou perfeitamente definida 
como uma nova nacionalidade. 

Bastem-nos os dois exemplos acima. Passando ao 
dominio da musica notar-se-á que uma obra de concepção 
elevada e factura complicada, ainda nunca ouvida, appa- 
recerá ao leigo como uma peça inteiriça sem divisibilir 
dade. Mas, mesmo um espirito musical bastante preparado 
necessitará de um estudo acurado para reconhecer clara- 
mente as partes mais ou menos independentes que cons- 
tituem o todo. 

Julgo dispensável occupar-me aqui da theoria da 
forma, que trata da analyse e disposição das partes iso- 
ladas e tomo logo em vista o motivo^ o menor aggregado 
musical que é para todos os complexos musicaes o que 
o homem é para os complexos sociaes. 

Um motivo (^) é produzido quando um ou mais sons 
se fazem ouvir consecutivamente num rhythmo qualquer. 

E* extraordinário o numero das combinações que 
dahi nascem, e o seu material acha-se, por assim dizer, 
disperso num estado incoherente e desordenado antes de 
se fundir num complexo musical qualquer, formando um 
todo perceptível, coherente e definido. 

O compositor, cujo espirito faz a escolha e distri- 
buição desse material procede, embora insensivelmente, 
segundo as mesmas leis a que tudo está sujeito na natureza. 

O simples talento, claro está, trabalha quasi sempre 
com combinações já achadas, ao passo que o génio creador 
apresenta combinações originaes nunca dantes ouvidas. 

Sirva-nos o seguinte exemplo tirado da sonata de 
Beethoven, op. 57, para mostrar em que sentido se deve 
tomar o motivo: 

do la*' I fa; la*> do |'fa; la*> do fa; fa | do; etc. 

Cada um destes motivos já representa um pequeno 
conjuncto musical que, assim como o homem na organi- 
sação social, considerado por si só nada ou pouco significa. 

Maior importância obtém elle pelo complexo ao qual 
pertence, o seu inteiro valor dá-lhe somente o todo. 



(1> Emprega-se na musica a expressão de motivo para designar grupos de sons, 
ora um pouco extensos^ ora muito curtos. Eu a tomo aqui sempre neste ultimo sentido. 



— 140 — 

Uma vez dissipado um conjuncto musical as suas 

f)artes constituintes voltam, por assim dizer, ao estado dif- 
uso, imperceptivel e soffrem novas distribuições, quer na 
mesma peça, quer em outras. 

A muitos talvez pareça extranho esse principio ; to- 
me-se, porem, em consideração o desenvolvimento da mu- 
sica e veja-se como surgiram motivos, grupos de motivos^ 
harmonias, combinações polyphonicas, etc, que antes não 
existiam e que uma vez creadas por um espirito creador 
reapparecem inúmeras vezes sempre sob novas distribui- 
ções em complexos musicaes posteriores. 

As duas ultimas sentenças sob a letra A devem ser 
comprehendidas, segundo o próprio Spencer, do modo se- 
guinte : « jião se trata aqui do movimento- dos elementos 
de uma massa em relação ás outras massas e sim do 
movimento que anima estes elementos uns em relação 
aos outros ». 

Pore xemplo : Quanto mais poderoso e consolidado 
quer ser qualquer um complexo social tanto mais deve 
subordinar-se as suas partes constituintes — o homem em 
complexos simples ou as differentes agrupações sociaes 
em complexos mais ^complicados — ao iodo. 

Isso exige uma perda da liberdade de movimento, 
pois que onde o individuo ou alguns centros prepotentes 
podem desenfreadamente entregar-se ao cuidado dos seus 
interesses egoístas, existe um movimento interno muito 
mais considerável, que desconsolida o iodo e até pode 
dissolvei o. 

Também na musica vemos, pelo estudo das obras 
primas, que cada partícula se deve subordinar perfeita- 
mente ao complexo superior de que faz parte ; este, por sua 
vez aos outros superiores e, finalmente, todos elles ao iodo. 

Em obras mais ou menos defeituosas, embora de 
valor, encontrar-se-á muitas vezes o ponto fraco na cir- 
cumstancia de gosarem certas partes, que por si só seriam 
perfeitas, uma excessiva liberdade de movimento. 

Quanto mais defeituoso fòr o trabalho, naturalmente, 
mais sensível se tornará essa falta até nos menores com- 
plexos. Não se trata aqui, já se vê, propriamente da ele- 
vação e grandiosidade da concepção. 

Obras de grande fôlego podem conter grandes de- 
feitos, assim como trabalhos triviaes podem, no seu géne- 
ro, serem perfeitos. Estes, porem, somente poderão obter 
valor no conceito daquelles cuja comprehensão artística 
não se eleva acima de um nivel inferior. 

Estudaremos agora os pontos em B e C. 



r' 



~ 141 — 

Como os demais pontos também estes têm- o seu 
valor não só com relação ás manifestações da vida pura- 
mente physicas como também espirituaes. 

As primeiras são conhecidas nos seus traços geraes 
e indico na obra de Spencer « Les premiers princípes » 
os capitulos 6, 7 e 8 que tratam da persistência e da 
transformação e e<pivalencia das forças. 

Passemos, pois, logo as manifestações espirituaes. 

Todo o homem representa um conjuncto de forças 
que nelle se reúnem formando um todo e que constituem 
o que se chama a sua individualidade. 

Por toda a parte e a cada instante se oppõem a 
esse todo outras forças physicas e espirituaes. A somma de 
manifestações que disso resultam tem a sua característica 
expressão no termo de todos conhecido : Struggle for life. 

Applicado, em geral, mais com relação ás necessi- 
dades materiaes da vida, tem essa expressão, no emtanto, 
pleno vigor no mundo puramente intetlectual, com a única 
diíferençd que ahi se trata da lucta pela existência espi- 
ritual, isto é, pela sua conservação e prosperidade. 

Nesta lucta os diversos complexos espirituaes tém 
de soffrer certas modificações cuja importância depende 
precisamente do antagonismo entre ellas, da força empre- 
gada, da duração e frequência dò encontro e de outras 
circumstancias mais. 

Sem lucta não pode existir uma evolução e assim a 
historia dos povos, que nada mais são do que individuali- 
dades mais complexas, compõè-se de uma seria ininter- 
rupta de guerras e luctas espirituaes, cujos resultados 
apresentam todas as graduações entre o pequeno influxo 
e a completa dissolução da parte mais fraca. 

Mesmo neste caso isso não significa, porem, o anni- 
quilamento da força vencida. 

E' evidente que ella não reapparecerá na sua forma 
anterior, pois que o complexo como tal foi destruido, 
mas, não as partes pequenas constituintes cujo conjuncto 
o formavam. 

Estender-me-ei mais tarde a respeito, quando me oc- 
cupar dos pontos sob J e K. 

Procuremos agora na musica as mesmas manifesta- 
ções sem comtudo perder de vista que a musica, no seu 
desenvolvimento total, é uma parte integrante da própria 
vida que, porem, a obra musical só pode significar uma 
imagem da vida. 

Escolhi o thema das variações em do menor de Bee- 
thoven, que analysarei como exemplo. 

Esta analyse musical não pode ser apresentada em 



— 142 — 

todos os seus pontos como indiscutível, embora não reste 
duvida sobre a exactidão da ideia fundamental. Além 
disso só com a explicação de outros pontos ella poderá 
ficar mais completa. 

Neste exemplo apresenta Beethoven três forças prin- 
cipaes, que se inlíuenciam reciprocamente, representadas 
por três diversos motivos. 

O motivo é caracterisado essencialmente pelo rhythmo. 

Os motivos que formam este curto complexo são 
os seguintes : 

i) Do mi bemol (*) re sol 

2) sol la si do re | mi 

3) mi sol I fa fa 

4) do re mi fa | fa sust. fa sust. 

5) do re mi bemol fa sust. | sol 

6) la bemol 

7) la bemol fa 

8) sol I do 

9) sol do. 

Os meios de que se serve o compositor para dar 
aos complexos cuja influencia mutua elle nos mostra, um 
poder de acção definido, consistem na escolha do rhythmo, 
da harmonisação, posição dos sons, duração, dinâmica, 
etc. ; cada um desses meios por si só já é uma força. 

A primeira força, aquella cujo desenvolvimento o 
compositor principalmente descreve, é reproduzida pelo 
primeiro motivo. Este desenvolvimento far-se-á exacta- 
mente, segundo a medida daquellas forças que o compo- 
sitor faz agir sobre a primeira. 

A segunda força é representada pelo segundo motivo 
e este, inferior na sua acção sobre o primeiro, fal-o sof- 
frer certas modificações que correspondem justamente á 
proporção entre as duas forças. 

E assim vemos no terceiro motivo apparecer o pri- 
meiro modificado de uma maneira que analyzaremos quando 
falarmos dos pontos sob J e K. 

Os três motivos reunidos formam um complexo de 
quatro compassos. 

Nos motivos quatro e cinco vemos a segunda força 
incidir de novo sobre a primeira; desta vez, porém, ella 
tem de agir sobre um complexo maior e do modo pelo 
qual o compositor formou estes dois motivos, deveria a 



NOTA — (*) Os traços representam as linhas divisórias do compasso. Para 
maior clareza confira-se o original. 



— 143 — 

força sobre a qual elles agem reapparecer nos dois últimos 
compassos, sob uma modificação mais intensa, embora 
semelhante á que nos mostra o terceiro motivo no pri- 
meiro complexo de quatro compassos. 

Nesse ponto a evolução total, porém, a terceira for- 
ça representada pelo sexto motivo mcide sobre o com- 
plexo com tal intensidade harmónica, tonal e rhythmica 
que se torna a mais poderosa delias; depois disso, segue- 
se, logicamente, a dissolução do organismo total. 

Também a respeito disso, teremos também de nos 
occupar. 

Nos dois últimos compassos é apresentada a phase 
de dissolução pelos motivos sete, oito e nove, que nasce- 
ram do desmembramento do primeiro motivo. 

Naturalmente num trecho tão curto como este as 
forças influentes são caracterisadas por simples motivos; 
em trechos maiores, claro está, que as proporções serão 
também maiores. 

Devo accentuar que o methodo analytico acima em- 
pregado só pôde ter plena applicação em obras que tra- 
zem um desenvolvimento continuo, como o exemplo que 
apresento. 

Um grande numero de peças sujeitas a formas deter- 
minadas é mais ou menos influenciado por normas de 
ordem architectonica, por isso que só no decorrer dos 
tempos as artes adquirem os meios mais livres e ade- 
quados para exprimir a vida. 

A' observação que fiz nos dous últimos períodos do 
numero precedente tenho de accrescentar amda outras 
que vem esclarecer a applicação á musica do que expu- 
zemos antes. 

O artista que nos apresenta a imagem da vida só 
pode ter em vista e reproduzir, conforme a sua indivi- 
dualidade e amplidão do seu espirito, uma parte deter- 
minada das evoluções innumeras que perfazem em sua 
somma total uma só evolução: a do universo. 

Também do complexo cuja evolução elle principal- 
mente descreve só nos dá a conhecer as partes que pelo 
caracter da obra são as mais importantes. 

Vemos assim ao lado de complexos musicaes que 
mostram uma evolução normal — começo e augmento até 
o ponto culminante, declínio até a completa dissolução 
— complexos que abrangem somente uma parte qualquer 
mais ou menos extensa dessa evolução normal. 

No numero dos primeiros contamos — servindo-nos 
de poucos exemplos conhecidos — o adagio molio da so- 



— 144 — 

nata op. 53 ^ o primeiro tempo da sonata (^) « Clair de 
lune » de beethoven ; preludio n.** 4 de Chopin ; proto- 
phonia do « Tristan e Isolde )> de Wagner, etc. 

Outras obras, como o preludio e a Fuga n.° 5 do 
I.*" volume do « Claveéin bien tempere » de Bach, a V. bym- 
phonia de Beethoven, preludio n.^ 18 de Chopin, etc. des- 
crevem uma evolução somente até seu ponto culminante. 

Ainda outras peças, poucas, de caracter impetuoso 
ou heróico, reproduzem mais grandiosos pontos culmi- 
nantes de evoluções extraordinárias, como, por exemplo 
o Final da V. Symphonia de Beethoven, e as Polonaises 
op. 40 n.° I e op. 53 de Chopin. 

Em muito menor escala poderão ser apresentadas 
em sua evolução total as outras forças incidentes que in- 
fluem sobre um complexo, e, somente, a phase da evo- 
lução que segundo as intenções do compositor logicamente 
se impõe. Das três forças principaes que apparecem no 
complexo musical analysado no numero precedente, vemos, 
pois, cada uma apresentada em differentes phases da sua 
evolução. A primeira força na sua evolução é tratada 
mais extensivamente poiis que é destinada a dar o seu 
caracter fundamental á peça. 

Occupa 5 dos 9 motivos e vemol-a ainda em intima 
ligação com o motivo da segunda força principal, no 
fa sust. fa sust. do quarto motivo. 

Da evolução do complexo que age como segunda 
força principal apenas três motivos reproduzem o quadro, 
ao passo que da evolução da terceira só apparece uma phase. 

Na vida real podem- se observar lactos semelhantes. 

Das forças que determinam a nossa evolução indi- 
vidual conhecemos naturalmente melhor a força represen- 
tada pelo nosso próprio ser, e, dos diversos complexos, 
quer sejam espirituaes quer sejam mais de ordem mate- 
rial, com os quaes durante a nossa vida estivemos e es- 
tamos em rel^cção directa influenciando-nos reciprocamente, 
em geral, só conhecemos aquellas phases com as quaes 
estivemos em contacto. 

Quanto ao ponto D torna-se dispensável uma expo- 
sição mais succinta ; basta observar que as forças meno- 
res perdem tão depressa os seus effeitos perceptíveis aos 
nossos sentidos, devido somente á insufficiencia destes. 

De resto na sua acção não differem em nada das 
maiores forças. A relativa deficiência dos nossos sentidos 
é, porém, compensada por um certo sentimento mais in- 

(t) A íntroducçSo de 4 compassos desse tempo, a reprise desde os compassos 
42-60 e a coda final mostram ainda a musica sob a influencia arcbitectonica da qual 
Beethoven e seus successores procuram sempre mais libertar-se. Na protophonia de 
Wagner acirna indicada quasi já não se notam mais vestígios disso. 



- 145 - 

timo e mais fino que, apezar de não darmos disso conta, 
nos permitte antes sentir do que perceber directamente 
as influencias mais subtis das forças. E' evidente que nem 
todos possuem em igual gráo este sentimento refinado, 
com estudos perseverantes, porem, consegue-se apural-o 
extraordinariamente. E mesmo aquelles que por natureza 

{*á são dotados dessa susceptibilidade, necessitarão do tra- 
)alho que, como diz Goethe com razão — é a outra me- 
tade do génio. 

O ponto E, ao contrario, carece que delle nos occu- 
pemos um pouco mais. Não existindo uma absoluta homo- 
geneidade^ devem os termos homogéneo e heterogéneo 
ser tomados somente em sentido relativo. 

As evoluções podem mover-se em limites modestos 
ou indicar já desde o seu começo uma grande complexi- 
dade que só deve ser considerada como simples com re- 
lação ás phases que seguem. Do ponto de vista musical 
ohserva-se outro tanto. 

Uma symphonia de Beethoven ou os dramas collos- 
saes de Wagner apresentam nesse sentido o mesmo phe- 
nomeno que uma sonatina ou uma simples canção popular. 

Para demonstrar, quanto á vida real, o principio de 
que nos occupamos, citaremos das exposições de Spencer 
no 15.** capitulo da sua obia: *Les premiers principfs>^ 
o que se refere a evolução da musica, que, como já dis- 
semos, é na sua evolução geral uma parte integrante da 
vida real. 

A' pagina 319 lê-se : 

„Ainsi que le prétend Burney et que nous le révè- 
lent les coutumes des races qui sont encore aujourd*hui 
à Tétat de barbárie, les premiers instruments de musique 
étaient sans doute des instruments de percussion, des ba- 
guettes, des calebasses, des tam-tams, et Ton ne s*en ser- 
vait que pour indiquer la mesure de la danse; cette répé- 
tition constante du même son offre Tétat le plus homo- 
gène de la musique. Les Egyptiens eurent une lyre a 
trois cordes. 

La première lyre des Grecs en eutquatre: c'était la 
tetrachorde. Au bout de quelques siècles, elle en eut 
sept et même huit. II fallut mille ans pour atriver au 
„grand sysième^^ de la double octave. Tous ces change- 
ments introduisirent naturellement une grandehétérogé- 
néité dans la melodie. 

En même temps, on commença à faire usage de 
différents modes, le dorien, Tionien, le phrygien, Téolien 
et le lydien, qui correspondaient à nos clefs: il y en eut 
jusqu^à quinze. 



— 146 — 

Jusqu*ici cependant, la mesure de la musique présen- 
tait peu d*hétérogénéité. La musique instrumentale n'était 
durant cette période que Taccompagnement de la musique 
vocale, et celle-ci restait completement subordonnée aux 
paroles. Le chanteur était en même temps poete ; il chan- 
tait ses compositions et réglait la longeur de ses notes sur 
le mètre de ses vers: il en devait résulter inévitableraent 
une mélodie uniforme et fatigante, que, selon Burney, 
«nulle ressource de la mélodie ne pouvait déguiser». 

Manquant du rhythme complique dú aux mesures 
égales et aux notes inégales que nous employons, le seul 
qu*on eút résultait de la quantité des syllabes et devait 
être relativement monotone. En outre, le chant n'était 
alors qu*un récitatif et se différenciait bien moins nette- 
ment du langage ordinaire que notre chant moderne. 

Néammoins, si Ton tient compte de la portée éten- 
due des notes en usage, de la variété des modes, des va- 
riations accidentelles de mesure qui dépendaient du chan- 
gement du mètre, et de la multiplication des instruments, 
on voit que la musique atteignit à Ia fin de la civílisation 
grecque une hétérogénéité considérable, non pas sans 
doute si on la compare à notre musique, mais à celíe qui 
Tavait précédée. Jusqu ici, il n'y avait que de la mélodie; 
rharmonie était inconnue. Ce ne fut que lorsque la mu- 
sique d^église chez les chrétiens eut atteint quelque dé- 
veloppement, que Ton vit s'établir la musique à parties 
par Teffet d'une différenciation qui nous échappe. . . . 

Sans indiquer en détail Taccroissement de comple- 
xité que resulta de Tintroduction des notes de diverses 
longueurs, de la multiplication des clefs, de Temploi des 
accessoires, des variétés de temps, des modulations, etc, 
il suffira de mettre la musique, telle quelle est aujourd'hui, 
en regard de ce qu'elle était autrefois poui* voir le pro- 
grés immense qu'elle á fait du cote de Thétérogênéité. II 
suffit d'embrasser la musique dans son ensemble, d*en énu- 
mérer les divers genres et espéces, d'en considérer les 
divisions en musique vocale, instrumentale et mixte, et 
les subdivisions en musique à différentes voix et à diffé- 
rents instruments, d^observer les diverses formes de mu- 
sique sacrée, depuis le simple hymne, le chant, le cânon, 
le motet, Tantienne, etc, jusqu'à Toratorio, et les formes 
de musique profane plus nombreuses encore, depuis la 
ballade jusqu^à la serenade, depuis le solo instrumental 
jusqu'à la symphonie. On découvre aussi le même progrès 
en comparant un morceau de musique moderne, ne fút-ce 
qu^une romance au piano. (Continua), 



147 



Determinação quantitatioa da liquefacção da gelatina 

por micróbios, 

feita por Intermédio da fricção interna, d temperatura de 37^. 

PELO Dr. R. Hottinger. 

Certos micróbios liquefazem a gelatina, symptona este 
que é muito importante na determinação da espécie. So- 
bre os meios actualmente empregados para esta determi- 
nação encontra-se indicações nos manuaes de bacteriologia. 
A determinação é geralmente qualitativa e feita á tempe- 
ratura baixa a 22**, temperatura esta inferior ao ponto de 
fusão da gelatina, de modo que a sua liquefacção pelo 
micróbio pode ser verificada immediatamente, pela simples 
inspecção do tubo de cultura. Comparando-se a zona 
liquefeita com a inferior ainda solida, tem-se uma certa 
idéa sobre o poder liquefaciente do gérmen em estudo 
Fermi — . Para certos micróbios porém e especialmente 
para os pathogenicos, como o do carbúnculo, esta tempe- 
ratura não é a mais favorável, de modo que tendo-se ne- 
cessidade de estudal-o comparativamente com micróbios 
habituados a uma temperatura muito inferior (micróbios 
da agua) pode se tirar conclussões muito erradas. 

Para avaliar quantitativamente a liquefacção da gela- 
tina com mais approximação, foi empregado o processo 
ponderal, methodo este que não está ao alcance de cada 
bacteriologista e cujos resultados me parece, não poderão 
ser considerados idênticos aos obtidos pelo pbenomeno 
da liquefacção, porque as relações chimicas não podem dar 
indicações precisas sobre os differentes estados de um corpo. 
Estas analyses são feitas á temperatura de 37. 

E' o gráo da fricção interna, intermolecular, a ampli- 
tude das oscillações moleculares cohesão que devem ser 
tidos em consideração na definição dos differentes estados 
physicos de um corpo. O estado solido, pastoso, liquido 
de um corpo, são devidos á maior ou menor facilidade dos 
movimentos moleculares. Estas phases mudam com a 
temperatura etc. ou então pelas reacções chimicas. Este 
ultimo caso tem lugar na liquefacção da gelatina por mi- 
cróbios, pela intervenção de fermentos proteolyticos. A 
mudança da phase é reversivel pela temperatura e irre- 
versível pela acção proteolytica. 



— 148 — 

Entre outros methodos physicos para determinar 
quantitativamente o estado de um corpo, emprega-se o da 
determinação da fricção interna do corpo (ou viscosidade, 
palavra imprópria para ser empregada em geral). Julgando 
haver conveniência em o emprego deste processo physico 
na bacteriologia, experimentei um methodo, que em segui- 
da vamos descrever, como nota preliminar, rara o estudo 
da theoria, enviamos aos manuaes de physica. 




O apparelho construído e illustrado pela figura annexa 
talvez tenha necessidade de algumas modificações. O mo- 
delo que vamos descrever é de manipulação muito simples, 
esterilisavel e barato, nos o fazemos em meia hora. 

Um tubo capillar (cerca de 0,5 mm. e 12 cm. de 



— 149 — 

comprimento) atravessa uma rolha furada e vai ter a uma 
empola e que serve de reservatório ; esta empola está em 
communicação pela sua parte superior, com outro capillar, 
que dá para uma empola menor disposta excentricamente, 
como se vê na figura. Desta empolasinha parte um tubo 
curvado tendo uma dilatação para receber um rodilhâo 
de algodão em a sua extremidade, para evitar contami- 
nação e penetração de germens. O balão onde se colloca 
a gelatina tem um orificio lateral igualmente munido de 
uma tampa de algodão, por onde se indroduz o meio de 
cultura e se procede á vaccinação. Do modo de se montar 
o apparelho, da completa explicação a figura. 

Uso do apparelho. 

Montado o apparelho como mostra a figura, carregado 
com gelatina, esterihsado e vaccinado é elle introduzido 
na estufa. Pelo buraco destinado á passagem do thermo- 
metro faz se penetrar um tubo de borracha que é libado 
á extremidade curva do apparelho. Espera-se 15 minutos, 
para que a temperatura delle e da estufa fiquem uniformes, e 
procede-se então á passagem da gelatina para a tubulura 
menor, aspirando-se pelo tubo de borracha. Na parte su- 
perior e inferior da segunda tubulura, existem traços de 
afloramentos A e B, marcados sobre o vidro dos capilla- 
res. Deixando de aspirar, a gelatina voltará novamente 
para o interior do balão. Toma-se pois nota do tempo 
decorrido entre a coincidência da superfície delia com os 
dois pontos marcados. O tempo necessário para a passagem 
do volume do liquido pelo capillar é proporcional á fricção 
interna do liquido. As condições que podiam influir sobre 
o gráo da fricção são constantes no nosso caso. Importa 
porékn que a temperatura seja constante, pois um gráo 
de temperatura influe de cerca de 20 ^/o sobre o resultado. 

A fricção é naturalmente, tanto menor quando mais 
alto a temperatura. Repetindo-se a observação assim des- 
cripta, um certo numero de vezes, notar-se-ha uma dimi- 
nuição no tempo, naturalmente dependente da maior ou 
menor capacidade do gérmen para modificar a gelatina. 

Em seguida daremos alguns dados experimentaes 
obtidos com a gelatina contendo 10 ^o» ^ ^"^ addicionamos 
um pouco de pancreatina (fermento proteolytico) pode-se 
facilmente, uma diminuição enérgica da fricção interna com- 
provar pela simples observação dos dados que se seguem : 

Tempo de esvasiamento observado no espaço de ca. 36 
horas expressos em segundos: 480, 430, 210, 195, j8o, 160, 147. 

Fazendo-se ao mesmo tempo algumas determinações 
de verificação, comprova-se logo a exactidão do methodo, 
^pois a diíferença em segundos ç de mais ou menos 
um segundo. 



— I50 



Sessões 

O Dr. Caríni fallando da hygiene na guerra russo- 
japoneza, menciona os rápidos progressos feitos nestes 
últimos annos pelo Japão, que entre a maravilha da velha 
Europa, veio collocár-se entre as principaes potencias. 

Recordadas as causas que determinaram a guerra, e 
o seu longo e paciente preparo, o orador descreve o 
theatro da guerra, dando noticias sobre seu clima, as 
doenças dominantes, os costumes dos habitantes. Depois 
mostra — com estatisticas dos casos de doenças, occorridos 
no exercito japonez durante a guerra, com opportunos 
confrontos, com as estatisticas da guerra contra a China, 
em 1894, e de outras guerras precedentes — que,, graças 
á applicaçSo escrupulosa dos preceitos da Hj^giene moder- 
na, os japonezes conseguiram abaixar enormemente a mor- 
bilidade pelas moléstias infectuosas que continuam "a di- 
zimar os exércitos em campanha. 

Para vêr melhor como foram obtidas estas esplendidas 
victorias da Hygiene, o Dr. Carini, baseando-se sobre as 
publicações de homens competentes que seguiram de perto 
a campanha, descreve a organisaçào sanitária do exercito 
japonez, insistindo especialmente sobre a parte destinada 
a impedir o apparecimento e propagação das doenças in- 
fectuosas, como a varíola, o beribéri, a malária, a dysen- 
teria, o typho, etc. 

Noticias minuciosas são dadas sobre a maneira de 
acampamento, sobre a alimentação, a vestimenta, o equipa- 
mento do soldado japonez em campanha, tornando-se bem 
saliente o critério pratico e o grande respeito á Hygiene. 

O Dr. Mastrangioli apresenta alguns preparados mi- 
croscópicos de um sedimento urinário com exemplares de 
larvas de filarias. Estas larvas foram encontradas mortas 
numa urina leitosa, de côr amarello-esbranquiçada, que 
continha 2 grammas de albumina por litro, traços de san- 
gue e raros cylindros renaes granulosos e grande quanti- 
dade de gordura. 

A uriqa pertence a uma rapariga de 15 annos, a 
qual mora no Ypiranga, cujo tratamento está ao cuidado 
do Dr. U. Paranhos. 

Conforme a historia clinica, colhida pela gentileza 
do Dr. Paranhos, a rapariga sobredita apresenta-se, ha 



-li- 
deis mezes, triste e sem animo para o trabalho. Além 
destes symptomas não apresenta que a urina leitosa. 

E' uti) notar que essa doente vive em S. í^aulo ha 
8 annos, tendo antes residido no Rio e nunca sahiu de 
S. Paulo depois dessa época. 

A larvas encontradas medem mm. 0,248 de compri- 
mento e mm. 0,00819 de largura, medidas estas que cor- 
respondem ás da filaria sanguinis hominis ou filaria 
nocturna. 

Não foi possivel fazer alguma pesquiza sobre o sangue 
da doente, colhido de noite, pela distancia da moradia delia. 
Os resultados da analyse feita sobre a urina em 
• questão foram os seguintes : 

Peso especifico a 15.0: 1020 
Reacção acida 

Aspecto leitoso 

Côr amárello-esbranquiçada 

Albumina gr. 2 7oo 

Assucar não contem 

Phosphatos gr. 2,5 7oo 

Chioruretos » 11,5 7oo 

Uréa * 18,1 7oo 

Gordura grande quantidade 

Ao microscópio observam-se vários glóbulos de pús, 
varias hemacias, varias cellulas epitheliaes chatas e cubicas, 
raros cylindros renaes granulosos e algumas -larvas adul- 
tas de filaria. 

O Dr. Sfapler apresenta um rim polycystico que 
extirpou ha poucos dias. 

Tratava-se de uma senhora de, mais de 60 annos de 
idade que de ha 10 mezes tinha haematurias inter mittentes. 
Verificando que o rim esquerdo era . transformado em 
grande tumor propoz á doente a operação ; a urina continha 
grande quantidade de pus e o rim direito hypertraphiado. 

Por motivos externos não foi possivel fazer um exa- 
me cryoscopico da urina o que tornou a operação até um 
certo ponto arriscada. 

A operação consistia na extirpação total do rim 
esquerdo que apresenta um tamanho três vezes maior do 
que o normal e é completamente degenerado em cystos 
maiores e menores, contendo um liquido citrino e ás vezes 
sanguíneo. Não ha traços de tecido renal normal sendo 
tudo transformado em taes cystos tanto na parte externa 
como no interior do orgam. 

A doente está passando bem, urinando de 1050 a 
1300 gr. em 24 horas. 



REVISTA 



DA 



Sociedade Scientifica 



DE 



SÃO PAULO 



VOLUAE IV. 




1909 

Typ. HENRIQUE OROBEL 

Sio Paulo 



índice 



Trabalhos oríginaes: 

Pag. 

Camargo, Th., O canto do gallo á noite 86 

— O problema zootechnico em S. Paulo 129 

Florence, Prof. P., A musica e a evolução 28 

Hottinger, Dr. R., Observações sobre o preparo da tintura e do papel 

de toumesol ' 87 

— Lackmosol (Indicatina) 91 

— e O. de Paula Souxa, Preparo de caldo como meio de cultura 80 
Ktug, Dr. B., Yporanga Õ5 

— Meine Reise nach dem Salto Grande von Paranapanema . 14õ 
Pitsch, Prof. O., Influencia do clima e do terreno sobre os pés dos 

ungulados 95 

Splendore, Dr. A., Sopra un nuovo protozoo parassita de' conigli . . 7Õ 
Wetter, Joio, A visita do medico sueco Dr. Gustavo Beyer ao Brazil 

em 1813 1 

Os novos Estatutos da Sociedade: 

Bttatutos da Sociedade Scientifica de S. Paulo 98 

Regulamento interno da Sociedade Scientifíca 103 

da Bibliotheca 106 

da Revista 107 

^ interno da Secção de medicina 127 

„ « „ , de sciencias phyticas e naturaes . . 128 

Lista alphabetbica dos sócios da Sociedade Scientifica 109 

Resumo das Sessões: 

Ribeiro, R., Tremores de terra 41 

Splendore, Impaludismo 42 

Provasek, Malária 44 

Carini, Hemogregarinas novas 4õ 

Splendore^ Sporozoario novo 48 

Hottinger, Revelação de chapas lacmus lactose agar 49 

Splendore, Sporotrichose lymphangitica 49 

Wetter, Mandibula humana fóssil (Traducção) ÕO 

Splendore, Novo caso de blastomycose generalizada Õ2 

— Ulceras de Bauru 73 

Stapler, „ „ Bauru, transmissão 74 

Barros Barreto, Applicaçao da óptica á mineralogia 1^ 

Slater, Peso especifico, determinação expedito geológico 162 

Hottinger, Acção da superfície 163 

Lutx, Gafanhotos 164 

Brasil, Vital, Inimigos das cobras 164 

Hottinger, Inimizade e amphimixis 165 

Splendore, Kala-azar 166 

Seng, Tumor cerebellar 166 

FeUce, „ „ 166 

Palcone, Ferimento do craneo 166 

Splendore» Blastomycose 167 

— Toxoplasma cuniculi 167 



h 



^?,V'' lEYISTA '■^•' 

DA 



Sociedade Scientifi?!*^^' ^^ 



sãoJaolo ^% 

REDACÇÃO : Prof. Dr. Roberto TIottinger e Dr. Edmundo Krug. * 

SEDE DA SOCIEDADE: 
Avenida B. Luiz António, 12 <a> S. PAULO <8> Brazil 

SUMMARIO : 

1. A visita do medico sueco Dr. Gustavo Beyer ao Brazil no anno de 

1813 e á fabrica de ferro do Ypanema por João Wetter. 

2. A Musica e a Evolução pelo Prof. Paulo Florence (Continuação e fim). 

3. Sessões : 

Sr. Reynaldo Ribeiro, Os tremores de terra. 

Dr. A. Splendore sobre um caso de impaludismo. 

Dr. P. S. Provazek sobre a malária. 

Dr. A. Carini sobre duas hemogregarinas do „Tupinambis Texi- 

guin" (L.) 

Dr. A. Splendore sobre um novo sporozoario no figado de um peixe. 

Sr. João Wetter sobre a descoberta de uma mandibula humana fóssil. 

Dr. A. Splendore sobre um novo caso de sporotrichose lymphan- 

gitica gommosa. 



fl Dísita do medico sueco Dr. Gustauo Beyer ao Brazil 
no anno de 1813 e a fabrica de ferro do ypanema. 

Conferencia feita na sede social aos 11 de Fevereiro de 1909 
POR João Wetter. 

No volume XII, do anno de 1907, pag. 275, da 
Revista do Instituto Histórico e Geographico veiu publi- 
cado um trabaliio do sueco Gustavo Beyer, trasladado 
para a lingua vernácula pelo Sr. A. Loeígren, intitulado 
Ligeiras notas de viagem do Rio de Janeiro d Capitania 
de São Paulo, no Brazil, no verão de iSi}, com algumas 
noticias sobre a cidade da Bahia e a ilha Tristão da Cunha ^ 
entre o Cabo e o Brazil e que ha pouco foi occupada. 

A publicação d'essa traducção deu motivo para es- 
crever o illustrado Sr. Dr. Vieira Fazenda um artigo, em 



U. Soe. /^VÍ6 



— 2 — 

parte critica, era parte destinado a occasionar investi- 
gações tendentes a elucidar o mysterio que envolvia a 
personalidade do tal sueco Gustavo Beyer e o movei da 
sua viagem ao Brazíl ou a natureza da sua missão. 

Seguiram-se dous artigos do provecto e operoso Sr. 
Dr. Oliveira Lima nos quaes o auctor procura responder 
ás questões Quem era G. Beyer? e Qual foi o motivo que 
determinou a viagem d*elle ao Brazil ?, otferecendo valio- 
sissimos esclarecimentos e explicações apoiadas todas em 
documentos ou trabalhos históricos que devem merecer 
inteira fé a qualquer pessoa que d'elles se occupa sem 
prevenções. Seja-me licito transcrever do ultimo d'esses 
artigos o trecho seguinte que dá conta d*uma publicação 
feita, em tempo, pelo mesmo Gustavo Bej^er e menciona- 
da na memoria histórica do senador Vergueiro sobre a 
fundação da fabrica de ferro do Ypanema. 

Lê-se alli : «Segundo o autor Hedberg (sueco) an- 
« dava no Brazil fiscalibado de perto por dous estrangei- 
« ros de distincção, stíus credores por sonmias largas, 
« que recebiam o que elle ia adquirindo com seu salário 
« e suas espertezas. Beyer que chegou bastante depois 
« e não tomava parte n'aquella singular exploração, tão 
« satisfeito ficou, porém, com o resultado pratico da sua 
x viageqi que, ao regressar para a Europa, publicou no 
« Investigador Portuguez, de Londres — n. 29 — uma 
« pomposa e inexacta carta, affirmando com relação. á fa- 
« brica cousas fabulosas, entre outras que se estava ira- 
« balhando com toda actividade no forno altOy quando tal 
« não succedia absolutamente. Nesta carta firmada só com 
« a inicial do seu appellido, declara Beyer corresponder 
« com sua informação de testemunha ocular ao desejo 
« manifestado pelo redactor do citado periódico, o qual 
« era subvencionado pela legação portugueza em Londres 
« na intenção de rebater os constantes ataques do Cor- 
« reio Brasiliense, e depois do Portuguez, em cujas pa- 
« ginas eram defendidas as doutrinas liberaes ou consti- 
« tucionaes. — Receiava somente o viajante sueco que o 
« seu limitado saber de obras da natureza da fabrica por 
« elle chamada, com um sabor de etyinologia grega, de 
« « Hyppanema », em vez de seguir a pretensa graphia 
« tupi de «Ypanema», tornasse muito imperfeita aquella 
« sua exposição. Via-se, por isso. obrigado a ser muito 
« succinto para «errar menos*. E foi, com effeito, muito 
« lacónico, sem comtudo deixar de indicar os muitos tra- 
« balhos realizados nos três annos decorridos de 181 o a 
« 1813, accrescentando não existir estabelecimento egual no 



— 3 — 

« inteiro e infinito continente americano, e concluindo por 
-t proclamar que tal fundação provinha da sabia vontade 
« do principe regente e era íructo do patriotismo e luzes 
^ de um grande ministro. » 

Transcrevo "este trecho, porque desejo, abrindo mão 
de quaesquer considerações hypotheticas e conjecturaes, 
mostrar o homem tal qual se manifestou pelos seus actos 
e idéas, confrontando as suas declarações escriptas e 
impressas com a realidade nua e crua dos factos ! 

Nas suas « Ligeiras notas de viagem » Gustavo Beyer 
escreveu, com relação á fabrica de ferro do Ypanema, o 
que segue : 

«Ha vários annos funcciona aqui uma fabrica, 
« actualmente dirigida por um sueco, sr. director Hedberg. 
« Na mesma occasião organizaram-se mais duas fabricas 
« de ferro, uma em Tijuca (?) pelo Barão de Eschwege ^), 
« da Allemanha, e outra em Minas-Geraes pelo afamado 
« mineralogista Sr. da Camará -) a quem o mundo scienti- 
« fico conhece desde as suas viagens pela Rússia, Suécia 
« Allemanha- Mas nem uma nem outra tem dado bons 
« resultados para os proprietários (?). A superintendência 
« de Ypanema é exercida por uma junta, ae que o dire- 
« ctor é membro, e o capital de movimento está em 
« acções de que o governo possue um terço. A fabrica 
« é situada próximo ao rio Sorocaba que fornece a agua 
< necessária e está projectada para trabalhar com dous 
« folies e cinco fomos (I), dos quaes um deve estar em 
« descanço. O trabalho é executado por cem negros, 
« além dos creoulos. Os açudes são feitos de pedra Ia- 
«. vrada e todas as obras internas são feitas das mais 
«. lindas madeiras do Brazil, cortadas n'uma serra bem 
« montada e por meio da queda d'agua do próprio rio 
« conduzidas até a fabrica. O logar mais rico, porém, é 
« a montanha chamada « Goraçoiaba », ordinariamente 
« denominada « Morro do Ferro », a meia légua de dis- 
« tancia da fabrica cora a qual communica por uma es- 
€ trada nova e larga. Em relação ao fabrico do carvão, 
« julgava-se por muito tempo que as madeiras brazileiras 
« não prestavam por causa da sua dureza, porém a ex- 
« periencia do Sr. Camará convenceu do contrario. Ima- 
« ginava-se também que a fabricação do ferro no Brazil 
« prejudicaria á Europa e supplantaria a importação da 



* ) Quer dizer Prata, perto de Congonhas do Campo, Villa Rica, 
Minas. J. W. 

') Morro do Pilar, 25 léguas de Tijuca. J. W. 



L. Soe. I%l2^^ 



« Suécia, porque o aproveitamento dos recursos próprios 
« seria de grande valor, caso uma guerra entre a Ingla- 
« terra e as potencias do Norte impedisse a exportação 
« dos artigos de primeira necessidade. Ignorância topo- 
« graphica foi a causa d'esta opinião, ,ou seria isto um 
<< meio de afastar a concorrência r ...... » 

Os artigos do Sr. Dr. Oliveira Lima determinaram 
ao Sr. Loefgren a solicitar do Dr. Dahlgren, real bi- 
bliothecario em Stockholmo, informações exactas acerca 
da personalidade de Gustavo Beyer e, recebidas estas, 
foram communicadas pelo Sr. Loefgren ao Instituto His- 
tórico e Geographico de São Paulo. 

Ficámos, assim, sabendo, com exclusão de qualquer 
duvida lutura, que Beyer era homem lettrado, meaico 
formado e encarregado de varias missões ou commissões 
que diziam respeito á sua profissão, funccionou também, 
durante certo período, como cônsul geral de Portugal na 
Suécia e foi nomeado egualmente conselheiro da ordem 
do Wasa. 

O que não parece bem seguro, nem provável é que 
Beyer — ou Bayer — no anno 1812 se tenha dirigido 
para o Brazil com o fim de estabelecer relações comtnerciaes 
entre este paiz e a Suécia, porquanto é notório que taes 
relações entre estes dous paizes em época alguma foram 
directas, mas sim indirectas, servindo de intermediário o 
commercio da Inglaterra e do continente europeu, exa- 
ctamente nas mesmas condições que ainda hoje preva- 
lecem para os dous artigos de exportação sueca, genuína, 
embora não exclusiva, de ferro e madeira. 

Que Beyer não encontrava difficuldades em obter 
recommendações do rei da Suécia e do príncipe regente 
de Portugal, é obvio, tomando-se em consideração a sua 
qualidade de cônsul. 

As « ligeiras notas » resentem-se, aliás, da ausência 
quasi completa de dados e informações dos quaes pudes- 
sem tirar proveito as classes commerciaes de um ou de 
outro paiz, a excepção talvez do appendice contendo a 
relação de moedas brazileiras, taxas de imposto etc. 

Conclúe o Sr. Loefgren a sua communicação do 
resultado das suas pesquizas acerca da pessoa de Gustavo 
Beyer com as palavras seguintes : « Confrontando agora 
« estes dados com o trabalho que elle publicou sobre a 
« viagem ao Brazil, forçoso é reconhecer que o dr. Beyer, 
« além de homem illustrado e cavalheiro distincto, deve 
« ter sido uma pessoa de rara modéstia, pois em nem uma 
« só linha de todo o seu trabalho deixa elle transparecer 



- 5 — 

« que era formado, que vinha em missão especial ou que 
« occupava tão elevada posição social. Pelo contrario, 
« soube abstrahir a sua individualidade a ponto de ser 
< mais tarde confundido com um simples touriste ou globe- 
« irotter, sem destino nem fim especial. » 

Quanto a nós, admittimos lealmente e não pomos a 
menor duvida em acreditar que Beyer era homem illus- 
trado e cavalheiro distincto e que, egualmente, possuia 
talvez rara modéstia, ao ponto de nem deixar transparecer 
nas suas notas de viagem que era «formado», de modo 
que mais tarde ficou confundido com qualquer touriste 
sem importância. 

Comtudo, entendemos que Beyer, se veiu, de facto, 
com algum fim especial, não tmha obrigação de desvendar 
aos olhos do mundo inteiro os Íntimos recantos da sua 
consciência. Que elle não veiu em missão exclusivamente 
official, demonstra, á saciedade, a ausência d'algum rela- 
tório formal e "^w regra^^, não sendo licito considerar 
como tal as «Ligeiras notas de viagem». 

Offereceu ainda o Sr. Loefgren ao Instituto Hist. 
e Geogr. a traducção de outro trabalho apresentado á 
Repartição de Hygiene da cidade de Stockholmo pelo 
Dr. Gustavo Beyer, agente commercial de Brazil, Assessor 
e Cavalheiro da Real Ordem do Wasa, datado do Rio de 
Janeiro, 23 de Abril de 1813. — Nesta peça limita-se 
Beyer, na qualidade de agente commercial, a lembrar uni- 
camente a possibilidade de exportarem-se do Brazil varias 
drogas medicinaes para a Suécia com navios suecos que 
as pudessem levar para a Europa em troca de outras 
mercadorias, porquanto, pagas em dinheiro, encareceriam 
demais. No resto, deprehende-se deste relatório que Beyer, 
como profissional, achava-se, mais ou menos, á altura da 
sciencia medica da sua época. 

O que achei um' tanto curioso, foi o facto de ter, 
apparentemente, cabido no esquecimento um bello trabalho 
do illustrado Sr. Dr. J. P. Calogeras, publicado no volume 
IX, do anno de 1904, do Instituto Hist. e Geogr. e inti- 
tulado «O Ferro (Ensaio de Historia Industrial).* — AUi 
encontramos a historia resumida da installação da fabrica 
do Ypanema, baseando-se o autor, em grande parte, na 
conhecida, embora hoje rara, obra do Barão von Eschwege: 
jyPluto Brasiliensis" ^ Berlim, 1833. 

E' escusado repetir aqui o que já appareceu publi- 
cado em volumes anteriores do Instituto; todavia peço 
licença para transcrever as phrases seguintes, contidas no 
trabalho do Sr. Dr. Calogeras e que se referem á pessoa 
do Dr. Gustavo Beyer (ou Bayer) : 



' - 6 — 

« Nada disto, porém, sabia-se no Brazil, e, por inte- 
€ resse próprio, tanto o sueco como seu parceiro na la- 

< droeira de Stockholmo, Bayer, espalhavam a fama de 
« Hedberg que chegou ao Rio de Janeiro com uma auto- 
« ridade incontestada. Já para facilitar-lhe os primeiros 
« passos em Ypanema e angariar meios de dar estabili- 
ze dade aos trabalhos, o governo tinha tomado uma serie 
« de providencias. » (Pag. 75), e mais ; « D'elle mesmo ha 
« um depoimento curioso, a carta escripta a Eschwege, 
« em I,** de Julho de 1813, em que elle (Napion) bem 
« mostra como julgava desastrada a permanência de Hed- 
« berg á frente das obras; nesse mesmo documento vê-se 
« que a cheeada recente de Bayer ao Rio de Janeiro 
<c causava alli certa impressão, embora se não soubesse 
« ainda da roubalheira por elle praticada no contracto da 

< colónia sueca. Em resposta a esta carta, Varnhagen, em 
« 22 de Julho, escreveu um longo mçmorial, pondo a nú 
« a indecentissima tramóia de Stockholmo, » (pag. 79). 

Devemos confessar que os termos adoptados pelo 
Sr. Dr. Calogeras, no seu alludido trabalho, não resen- 
tem-se de falta de clareza e franqueza. Do outro lado, 
entretanto, e se bem que sintamo-nos dispostos a julgar 
a pessoa, o caracter e as intenções do Dr. Gustavo tíeyer 
com a maior somma possivel de benevolência e imparciali- 
dade, ficam de pé para accusal-o vehementemente os elogios 
C[ue teceu á installação iniciada pelos seus patrícios, emit- 
tmdo, antecipadamente, juizo desfavorável acerca das obras 
de competidores e condemnahdo-as «sem conhecimento 
de causa», quando o tempo incumbiu-se de provar, se não 
outra cousa, pelo menos a incapacidade de director e 
auxiliares e o completo fiasco dos serviços realizados em 
Ypanema com dispêndio de sommas enormes. 

Beyer mostrou-se tão « optimista » e optimista pre- 
cipitadíssimo que prenunciou, sem hesitação nem reserva, 
o inevitável desastre a que deviam conduzir a installação 
feita pelo Barão de Eschwege em Prata e a de Camará 
em Morro do Pilar, Minas, das quaes nem uma nem 
ontra tinha dado bons resultados, emquanto a do Ypa- 
nema devia tomar-se a primeira do continente america- 
no (!). Melhor avisado teria andado Beyer, suspendendo 
o seu juizo por poucos annos, para então certificar-se de 
que a pequena fabrica do Barão de Eschwege tinha dado, 
effectivamente, lucro, embora medíocre, a fabrica de da 
Camará tinha dado prejuízo e a fabrica do Ypanema pre- 
juízo bem maior ainda f 

Tamanho optimismo da parte de Beyer, em plena 



contradicçSo com os resultados ulteriormente verificados, 
recommenda todo cuidado na apreciação dos motivos Ín- 
timos que no espirito d'elle actuavam. Admittindo até, que 
Beyer laborava em erro e illusão quanto á supposta capa- 
cidade e competência do seu patrício e devedor Hedberg, 
quando (de bôa fé) o recommendou ao embaixador por- 
tuguez, na Suécia, como idóneo e apto a organizar e di- 
rigir alguma fabrica no Brazil, nada na que possa justifi- 
car o optimismo prematuramente manifestado nos seus 
mencionados escriptos, a não ser algum interesse incon- 
fessò e inconfessável. 

A muitos poderia afigurar-se insensata a idéa de 
emprehender o credor longa e penosa viagem por mar 
com o único fim de effectuar a cobrança duma divida nSo 
excedente de dez mil cruzados ! Convém, entretanto, não 
perder de vista que Hedberg contava muitos credores na 
Suécia, que parte delles já tinham tratado de requerer 
mandato de prisão contra elle e que todos consentiram 
na sua partida para o Brazil só depois de Beyer ter as- 
sumido, para com os demais credores, a responsabilidade, 
se não effectiva, ao menos moral, pela satisfação final dos 
compromissos contrahidos por Hedberg. Por conseguinte, 
já não se tratava mais para Beyer de dez mil cruzados e 
sim de somma muito mais avultada, accrescendo ainda a 
possibilidade de tomar-se tal negocio, no futuro, facilmente 
delicada qufsfão de honra para Beyer, i. e. no caso de 
Hedberg faltar ás suas promessas: Estavam, nesta even- 
tualidade, em jogo a posição social e a bôa reputação de 
que Beyer, sem duvida, gozava na suà terra natal, e tudo 
isso encerrava, a meu vêr, sobejos motivos para deterraii- 
nar a vinda de Beyer ao Brazil. 

Tenho quasi certeza de que todo e qualquer leitor 
imparcial forçosamente ha de fazer suas as considerações 
e conclusões acima apresentadas, se tiver lido com atten- 
ção o capitulo transcripto do «Pluto Brasiliensis» que 
abaixo segue. Sendo, como já mencionei, rara a citada 
obra e offerecendo o trecho que se refere á fabrica de 
ferro do Ypanema extraordinário interesse para a historia 
do nosso Estado, encarreguei-me, a pedido dos illustres 
Srs. Drs. Alfredo de Toledo e Francisco Assis Moura, de 
traduzir da lingua allemã a parte mais importante desse 
capitulo e apresento este meu trabalho a nossa So- 
ciedade, figurando nelle documentos que bem merecem 
ser preservados da deplorável sorte do desapparecimento 
completo. 



— 8 — 

PLUTO BRAZILIENSIS 

Uma série de tratados sobre a riqueza do Brazil em 
ouro, diamantes e outros mineraes, a historia do seu 
descobrimento, a situação das suas jazidas, o serviço 
da exploração e a legislação respectiva, 

POR W. S. VON ESCHWEGE 

Real Coronel-Engenheiro e Intendente de Minas de Portugal etc. 

Berlim, Editor O. Reimer, 1833. 



CAPITULO III 

Historia da Fabrica de Ferro de São João de Ypanema 
na Provinda de São Paulo 

A historia antiga da fabricação de ferro neste dis- 
tricto já mencionei na introducção da historia do ferro e 
passo agora a tratar da historia mais recente. 

Esta fabrica acha-se situada ao pé da serra de Ar- 
rasoyaba ou Guarasoyaba, á margem do ribeirão Ypane- 
ma. A montanha que fornece o minério ferrifero, eleva-se, 
em forma de ilhota, até a altura máxima de 1.088 pés 
acima d*uma vasta planície, interceptada por morros e 
pináculos, cuja elevação média, conforme as minhas medi- 
ções barometricas, é de 1822 pés ingl. acima do nivel do 
mar; portanto a altitude total acima d'este nivel é de 
291 o pés. A serra apresenta na sua base uma figura 
oval com o diâmetro maior, na orientação de N. para S., 
de cerca de 3 léguas e com o diâmetro menor de i Vo 
légua só. No lado de leste corre o rio Ypanema e no ae 
oeste o Sarapu}^, desaguando ambos no rio Sorocaba á 
distancia de uma légua do sopé septentrional da serra e 
sendo ambos navegáveis para pequenas embarcações 
( canoas ). 

A ascenção da serra é, em grande parte, brusca, e 
só em poucos logares mais suave com alguns pequenos 
valles entrantes que permittem a cavalleiros subir até o 
cume com toda commodidade. Na altura máxima encon- 
tram-se em parte montículos, em parte taboleiros, achan- 
do-se n*um doestes uma lagoa de aguas estagnadas, a 
« lagoa dourada », a respeito da qual contam diversas le- 
gendas de thesouros escondidos. Alguns pequenos riachos 
nascem das costas da serra correndo pelos valles em de- 
manda dos rios maiores. O valle principal chama-se «Vai 
das Furnas », do qual sahe o ribeiro denominado «Fabri- 
ca velha » para desaguar, em direcção Norte, no rio 



Sorocaba. A maior parte da serra está coberta de matta 
virgem, grande parte, porém, já ficou privada das suas 
bonitas arvores pelo preparo do solo para culturas. A 
riqueza em madeiras de lei é, aliás, tão grande que 
podem contar-se umas 120 espécies differentes. 

A rocha principal da montanha de Arraso3'aba con- 
siste de granito de grão grosso com oxydo de ferro 
magnético, intercalado n^aauelle ora em maior ora em 
menor porção, mas que frequentemente mostra-se tão 
predominante que substituiu os outros componentes do 
granito, apresentando-se como uma rocha pura de oxj^do 
de ferro magnético. Como tal encontramol-o no já men- 
cionado caldeirão das « Furnas », cujas margens, tendo 
nas suas arestas superiores uma circumferencia de talvez 
uma legua^ se acham inteiramente cobertas de massas e 
blocos destacados de oxydo de ferro magnético, cujo diâ- 
metro não raras vezes mede 20 pes. Ao todo em três 
pontos differentes dos dous lados do valle apresenta-se 
elle em forma de grandiosos paredões de rocha, dos 
quaes destacaram-se esses blocos enormes, do mesmo 
modo que succedeu com os grandes morros de ferro de 
Itabira e N. S. da Piedade em Minas-Geraes e cujo es- 
magamento só pôde ter sido occasionado por alguma 
força formidável. Tal massa de oxydo de ferro, embora 
que tenha orientação determinada de N. para S., não 
pode ser considerada nem como ganga nem como leito, 
mas sim como rocha movediça, de origem simultânea 
com o granito. 

Nos lados d'estas rochas magnéticas desapparece a 
mica e o feldspatho, pouco a pouco, na mesma proporção 
que augmenta o quartzo e a magnetita, até que desappa- 
rece também aquelle, permanecendo o puro oxydo de 
ferro que encerra, ás vezes, calidonito, lithomarga e 
crystal de rocha. D'estes três diversos massiços de miné- 
rio ferrifero que tem, como já ficou dito, a direcção de 
N. para S,, cada um tem uma espessura de algumas 
toezas, distantes um do outro 100 toezas. 

O granito que encontrei, tinha feldspatho, mica es- 
cura e quartzo branquiçado, muito puro ; consta, entre- 
tanto, que encontra-se também com feldspatho branco- 
cinzento. Possúe grande densidade, prestando muito bem 
para pedras de moinho. No lado de Leste e Norte da 
montanha acha-se encostada ao granito uma rocha que 
não sei como denominar, se schistos argilosos, schistos 
silicosos ou schistos-grauwacke com schistos welz, ou 
diabase, da mesma forma que se encontra tal rocha em 
grandes extensões nos sertões de Minas e que, sem con- 



— IO — 

testação, deve ser classificada nas rochas intermediarias 
<de transição), isto é, nos terrenos que abrangem o cal- 
careo escuro ; visto que encontramos úm schisto calcareo 
cinzento e bem firme, com muitas veias de spatho calca- 
reo, sobreposto aos schistos argilosos em ambas as mar- 
gens do rio Sorocaba e bem assim uma grande caverna, 
chamada «, Palácio » pelos sertanistas, no calcareo coái 
muitas stalactites. A orientação doeste calcareo é de N. 
para S., ordinariamente com ligeira inclinação para E. ; 
frequentemente, porém, a sua posição é inteiramente ho- 
rizontal ; è bem possivel, que pertença ao calcareo per- 
meano (zechstein), não ouso, entretanto, emittir juizo 
definitivo a respeito. Occorre tanto em camadas grossas 
como em camadas finas. Ha, portanto, differença or5'kto- 
gnostica entre elle e o cakareo da mina de galena de 
Abaete, embora as condições de superposição pareçam as 
mesmas ; existe, porém, grande semelhança entre elle e 
o calcareo encontrado no Monte Rovigo e perto de For- 
miga em Minas. Na fabrica de Ypanema serve elle de 
fundente nos altos fomos. Encima dos schistos argilosos 
e concomitantes acha-se collocada a formação do grez 
mais antiga, assim como acontece nos sertões do rio oão 
Francisco e com diversas modificações que podiam in- 
duzir no erro de haver aqui grez de periodos differentes, 
quando examina-se em logares differentes, sem olhar para 
as condições de estratificação e posição. Em certo logar 
encontramol-o como enorme rocha massiça encima de 
schistos argilosos e de grauwacke com grande numero 
de fósseis e sem reparar destacamentos e estratificação 
alguma. Confesso que não visitei tal logar pessoalmente, 
devendo referir-me, a respeito, ás observações do senhor 
Varnhagen, não apresentando este detalhes quanto aos 
fpsseis encontrados. (Desconfio, que haja até engano do 
Sr. V. a respeito destes, tomando certas configurações 
na rocha por fósseis ). 

Em outros logares parece este grez coUocado immç- 
diatamente sobre o sedimento dos schistos argilosos, 
quando estes não tinham ainda endurecido inteiramente, 
de modo que parte da solução arenosa entrava nos schis- 
tos argilosos, formando como que uma transição. Perto 
da fabrica encontra-se um grez branco, de grã fina, não 
muito consistente, usada para obras de cantaria dos fornos 
e cujas camadas superiores são de grão mais grosso, es- 
pécie de marga com addições de granito, gneiss, pórphy- 
ro, schistos silicosos e argilosos em forma de nódulos até 
o tamanho d'um punho. O cimento calcareo d'este grez 
em certos logares, e sobretudo nas margens dos riachos 



— II — 

e em paredes de rocha húmidas, é em tal quantidade 
que o grez acha-se inteiramente coberto de estalactites, 
aprovehando-se então para extracção de cal. No logar^ 
donde se tiram as pedras de cantaria para os altos Tor- 
nos, a camada inferior é de côr cinzenta, muito consis- 
tente, fornecendo boas pedras d*amolar; acima d'esta 
acha-se um grez de grã íina, branco, também consistente, 
tendo dado o material para construcção dos edificios da 
fabrica, e a camada superior, de duas toezas de espessu- 
ra, representa um grez amarellado, de grão um tanto 
grosso e pouco consistente, fornecendo as pedras para os 
altos fornos, em cujo fogo tornam-se vitreos na superficie 
Só, formando, quando rebentadas, pedaços em forma de 
columnai 

Também nota-se esta forma de columna já nas pró- 
prias jazidas do gfcez, examinando-se somente, não longe 
da casa de residência do mestre da fabrica, a rocha mas- 
siça, limpa de adherencias terrosas. Vê-se alli a superficie 
inteira, bastante raza, fendida, e contemplando taes fen- 
das com alguma attenção, percebe-se que não represen- 
tam senão polygonos de 3 até 9 lados, os quaes, prolon- 
gados verticalmente até certa profundidade, devem for- 
mar as faces lateraes de columnas em posição vertical. 
A desaggregação causada por influencias atmosphericas,. 
deixou assigna'ado o numero das faces lateraes na super- 
ficie, porque a cohesão das moléculas era menor, prova- 
velmente, nas linhas divisórias. Pela dilatação em conse- 
quência do aquecimento no alto forno e pelo resfriamen- 
to e consequente contracção produz-se então a separação 
gradual d'essas columnas de grez ; na sua origem, porém^ 
já tem esta forma pelo seccamento da rocha húmida e 
pela evaporação d*agua, observação esta que não me pa- 
rece destituida de interesse para o naturalista, visto ser 
possivel, talvez, explicar de modo análogo a formação 
das columnas de basalto, também, não me sendo dado 
saber, nas condições actuaes, se talvez outros já o fizeram. 

No lado sul da serra encontra-se encostado ao gra- 
nito diabase e rocha amphibolica, sendo esse primeiro 
também em pedaços aue tem a forma de columna. Sobre- 
posto á diabase e rocha amphibolica acha-se o já men- 
cionado grez antigo, o qual cobre a montanha inteira 
como um manto. Merece ainda menção no lado de sud- 
oeste uma jazida de amphibolo escuro e consistente, 
aproveitado para pederneiras, das auaes fazem exportação 
para outros districtos em quantidade de muitos milhares 
annualmente. 

Atravessa esta camada um riacho, cuja agua contém 



T^TT" 



— 12 — 

tanta sílica em solução que qualquer objecto que vier a 
cahir nella, torna-se immediataraente como petrificado 
pela penetração do silicato. Por isso, encontram-se na 
vizinhança grandes depósitos de madeiras petrificadas, 
conservando muito bem a estructura natural da madeira. 
A's vezes esta já se transformou, de um lado, quasi em 
amphibolo, emquanto do outro lado reconhece-se ainda 
a madeira. No próprio cume da serra encontra-se, não 
raras vezes, pyrito e uma jazida d'uma rocha bem boni- 
ta, cuja massa primitiva parece ser feldspatho resinito 
(Pechstein) com intercalações de calidonito. Spix e Mar- 
tius affirmam terem observado egualmente schistos argi- 
losos primitivos que, entretanto, eu não notei. Também, 
não faltam ao pé da montanha sedimentos auríferos, 
aonde antigamente occuparam-se com a extracção do ouro. 

Segundo velhas tradições, o povo julgava esta mon- 
tanha bastante rica em minérios auríferos, e alguns acre- 
ditavam-n'a idêntica ao «Uvutucavarú» (montanha de ouro 
em forma de cavallo), do qual falia o jesuita Anchieta nos 
seus arranzeis, mencionando que deve estar situado jus- 
tamente no oeste de São Paulo, Como se dá este caso 
com a serra de Arrasoyaba, presume-se, que Anchieta não 
ignorava a riqueza da serra em minério ferrifero e bem 
assim, na sua qualidade de homem versado em sciencias, 
que o ferro constituía maior e mais importante thesouro 
do que o próprio ouro, e que usava elle somente de 
♦symbolismo» nos seus escriptos no intuito de incitar o 
povo á procura do «Uvutucavarú» e a subsequentes gran- 
des descobertas no sertão. 

E' esta a topographia geral do districto de Ypanema 
e da serra de Arrosoyaba, onde a maior fabrica de ferro 
teria por espaço de mais de loo annos minério ferrifero 
sufficiente, sem necessidade de trabalhos de mineração, 
utilisando tão somente o minério existente á flor do solo 
em blocos destacados e cascalho. 

Foi para este lugar que mandaram, no anno de 1810, 
o Tenente-Coronel von Varnhagen, afim de organisar o 
projecto duma grande usina metallurgica para extracção 
de ferro, o qual ficou, porém, inutilizado pela ingerência 
dum director sueco com 18 auxiliares, chegados no anno 
de iBii com muitos machinismos, como rodas, pilões etc, 
porquanto o sueco pretendia montar a fabrica a seu gosto, 
e o governo que não se achava habilitado a julgar qual 
dos dous projectos era realmente o mais vantajoso, acre- 
ditava ser do seu dever apoiar as idéas do sueco, visto 
que este, com os seus auxiliares, já tinha custado bastante 
dinheiro ao governo. Prometteu elle a construcçâo de 



— 13 — 

quatro pequenos fornos do systema sueco, capazes de 
produzirem annualmente 40.000 arrobas de ferro em barras. 
Ou ignorância em assumptos metallurgicos ou malicia so- 
mente podiam levar alguém a fazer semelhante promessa^ 
reconhecendo qualquer perito immediatamente a impossi- 
bilidade da sua realisação; infelizmente, porém, não havia 
perito entre o pessoal do governo, e nem a opinião de 
Varnhagen nem a minha conseguiram impôr-se. O fiasco 
foi, portanto, inevitável e tanto mais quanto o sueco, em 
virtude dos plenos poderes que lhe tinham sido outorga- 
dos, esbanjou os fundos disponiveis, retardando ainda os 
serviços e acabando só no anno de 1814 uma pequena 
fabrica, com quatro pequenos fornos suecos e um martello^ 
cujo custo se elevava a mais de 900.000 cruzados, e na 
qual produziram-se, em vez de 4o.ooo arrobas, apenas 200 
arrobas de ferro em barras. 

O governo, afinal prevenido pelo prejuízo soffrido, 
e depois de terem os accionistas perdido o seu capital, 
viu-se forçado a demittir o director sueco com os seus 
companheiros, visto ser manifesto e notório, e a experiên- 
cia o tinha demonstrado, que o director não só carecia 
dos necessários conhecimentos, como também que tinha 
acceito o lugar como aventureiro e com intenção de arran- 
jar assim os meios precisos para melhorar a sua precária 
situação financeira na Suécia. D'entre todos os pretendidos 
«fabricantes de ferro» que elle tinha trazido da Suécia e 
aos quaes pagava diariamente no total a bagatela de 4$5oo, 
ao passo que recebia elle da caixa I4$ooo para este fim, 
não se encontravam senão 3 indivíduos idóneos. 

A despeito desta grande ladroeira, o governo mos- 
trou-se ainda tão generoso que reconheceu ao çueco o 
direito á pensão considerável que estipulava o respectiva 
contracto pelos 10 annos subsequentes, uma ve/ que tives- 
sem sido preenchidas todas as clausulas do mesmo. 

Para proporcionar aos leitores um conhecimento mais 
detalhado ainda da historia desta usina metallurgica, apre- 
sento abaixo alguns trechos extrahidos de cartas que me 
escreveu a respeito o Tenente-Coronel Varnhagen. 

Extractos de cartas do Tenente-Coronel Varnhagen 
datadas de São- Paulo de 18 14, 

« Recordar-se-ha V. S. ainda do que lhe disse, já 
« ha alguns annos, acerca da companhia sueca e do seu 
« chefe, i. e. que não conseguiriam montar uma fabrica 
« para extracção de ferro. Hedberg foi na Suécia escrivão 
« de emprezas de mineração e mais tarde tomou conta 



— 14 — 

« das minas de Ad(ílfors por arrendamento, em vez de 

* realisar lucros, porém, incorreu em dividas. Do numero 

* dos seus credores fazia parte também o cônsul portu- 
^< guez, Sr. Bayer, pela quantia de lo.ooo cruzados. Para 

* felicidade deste o embaixador portuguez, de então, tinha 
'• sido encarregado de arranjar na Suécia profissionaes 

* mineiros para extracção de ferro, os quaes deviam ir 
« |)ara o Brazil. Metteram o H. no lugar de director sob 

* condições vantajosissimas, escolhendo d'est'arte o Brazil 
*c para pagar este as dividas de H. — Conseguiram o seu 
« intento, e o Sr. Baj^er esteve aqui, ha algum tempo, 
« afim de buscar o séu dinheiro. 

« Já no anno 1811 tive ensejo de lançar um olhar 

« nas cartas do sueco, o qual tinha tomado a peito protelar 

« o mais possivel e indefinidamente os trabalhos. Contra 

^1 o novo projecto delle, de montar uma fabrica capaz de 

« produzir 500.000 quintaes de ferro, houve protestos na 

* Junta. Esta estipulou a quantidade de 10.000 quintaes, 
« resolvendo egualmente a construcçao dum alto forno. 

* Sabe V. S. que, desde que chegou o sueco, não queria 
-^ ter mais nada que vêr com esta fabrica, prevendo o 
'^ infeliz termo da empreza, e que sempre procurei livrar- 

me delia. No anno de 1812, porém, estando no Rio, 
> recebi, de novo, ordem de acompanhar para alli o ge- 
í neral Napion, encarregado de verificar o estado da fa- 
•■< brica. Chegámos em meiados de Outubro e N. que, 
« tendo já visitado estabelecimentos congéneres na Alle- 

* inanha e na França, devia ter formado juizo seguro 
« acerca duma installação dessa ordem, declarou, na pre- 
« sença de muitos, que já tinha imaginado ser máu o 
^ estado da fabrica, mas que, na realidade, achava-o dez 
ft vezes peior ainda ! — Comtudo, movido por considerações 
< para com a pessoa do seu antigo amigo, o fallecido 

* Ministro L., não teve elle coragem de mandar derrubar 

- immediatamente a installação imprestável, prejudicando 
-! assim bastante o serviço inteiro. Quando mais tarde o 

* sueco apresentou-lhe um projecto de fabricar em 4 pe- 
« quenos fornos rústicos 10.000 quintaes de ferro; çonfor- 
** mou-se elle, de bôa fé, com esta manifesta impossibili- 
dade, deixando ao sueco a execução e nem querendo 

« siquer ouvir as minhas representações, de modo que eu 

* não sabia o que admirar mais, se a sua politica desen- 
' contrada, sua ignorância em assumptos metallurgicos ou 

a falsidade com que contrariava, evidentemente, o por- 

- vir da fabrica. 

« N. approvou, portanto, o projecto do sueco, com-. 
A promettendo-se este a executal-o dentro em seis mezes 



— 15 — 

« pelo preço de 20000 cruzados, e deixou ordem de que 
« ninguém se intromettesse nos negócios da fabrica, em- 
« quanto não se achasse executado tal projecto. Entre- 
« tanto» escolheu elle, antes da sua partida ainda, o local, 
« aonde eu devia, no futuro, coUocar os altos fornos, de- 
« sejando, naturalmente, reservar para si a direcção su- 
« prema doestes mediante um bom ordenado. Também 
* combinou elle commigo que suggerisse ao nosso amigo, 
« o ex-ministro A., fazer vêr elle, opportunamentè. ao 
« Príncipe Regente que iió debaixo da direcção superior 
« de N. pudesse prosperar a fabrica, fazendo elle a mim 
« egualmente todas as promessas possiveis que, entretan- 
« to, nunca cumpriu. 

« Em i.** de Julho de 1813 recebi de N. uma carta, 
« da qual mando-lhe o seguinte extracto : 

« Uma empreza mal miciada nunca pôde ser coroada 
« de bom êxito e, por isso, não se devem nutrir, desde 
« logo, grandes esperanças a respeito. Entretanto, não se 
« pôde negar a possibilidade de tornar-se a fabrica no 
« decorrer do tempo uma das maiores para extracção de 
< ferro, podendo utilizar-se para o fim mesmo as instal- 
« lações feitas pelo director H. — Ha pouco escreveu me 
« elle, que se acha tudo prompto e que os fornos possam 
« trabalhar, e pediu licença para vir ao Rio de Janeiro. 
<c Esta noticia combipa mal com outras que aífirmam 
« justamente o contrario de tudo isso, parecendo ella 
« exaggerada etc. A chegada do Sr. Bayer foi geralmen- 
« te commentada (ninguém sabia então do debito -de H. 
« para com Bayer ), o governo, porém, continua alerto, não 
« se deixando illudir tão facilmente. Quanto mais traba- 
« Iharem os estrangeiros para crearem obstáculos ao 
« porvir da installação aqui, tanto maiores esforços ha de 
« fazer o governo para anniquilar os propósitos d'elles. 
« O que me admira mais, é a importância que ligam 
« a boatos sem fundamento, em vez de mandar apresen- 
« tar mensalmente um relatório detalhado do estado da 
« fabrica. A' pouca habilidade do director reune-se gran- 
« de intriga, e o resultado não poderá ser bom. 

« O projecto de^ V. S. relativo a uma fabrica de 
« ferro perto de Pinheiros parece vantajoso, entretanto, 
« creio também que não se poderá pensar na reali- 
« zação antes de ficar prompta a começada. Como bre- 
« vemente deve ser dado começo ao serviço de fundição, 
« desejo que V. S. me mande relatório detalhado de 
« tudo, também das carvoeiras e do dinheiro ainda dis- 
« ponivel etc. » 

A esta carta respondeu Varnhagen em data de 22 



— Io- 
de Julho de 1813, de São Paulo, e da sua resposta vou 
transcrever o extracto que segue : 

« A respeito da fabrica de ferro de Sorocaba, aonde 
« não fui mandado desde a occasião em que acompanhei 
« a V. Ex.", não posso informar senão o que me foi com- 
« municado pelo fiscal E. quem esteve alli ha poucos 
« dias. Até a esta hora nada se acha prompto, por con- 
« seguinte não é verdadeiro o que participou H. a V. Ex.* 
« E* verdade, que fabricaram alguns pregos, mas de ferro 
« estrangeiro. Afim de conduzir, para isso, agua sobre a 
« roda, construíram um pequeno açude provisório de 
« terra, porque não se acha prompto ainda o açude prin- 
« cipal. A chegada do Sr. Bayer diz unicamente respeito 
« á cobrança d' uma divida de 10.000 cruzados que lhe 
« deve Hedberg, e de mais 10.000 cruzados para o pae 
« do secretario de H., tendo Bayer assumido a responsa- 
« bilidade egualmente por esta divida. O governador 
« mandou, ha pouco, ao Ministério um relatório sobre as 
« condições da fabrica, o qual, entretanto, não tenho 
« visto. Pois bem, o plano do sueco, de pagar as suas 
« dividas com o dinheiro do governo portuguez, ficou 
« realizado ! E' provável, que procure elle protelar ainda 
« mais o negocio, e a licença solicitada para vir ao Rio 
« parece ter por único fim retirar-se inteiramente da fa- 
« bricação de ferro, porquanto não pôde elle cumprir a 
« promessa de fornecer 10.000 quintaes. » 

« Nunca recebi resposta a esta carta, nem tão pouco 
« á muitas outras que escrevi mais tarde, depois de ter 
« sido enviado, repetidas vezes, para a fabrica pelo eo- 
« vemo. Abaixo mando-lhe agora uma breve biographia 
« dos « metallurgistas » suecos que me foi fornecida pelo 
« Cari Prinzenschold, secretario particular de H;, e que 
« ha de causar-lhe alegria. 

« Conforme o contracto celebrado, o director H. 
« compromette-se a empregar 14 fundidores e mineiros, 
« pagando-lhe o governo i4$ooo até esta data, embora 
« já tenham fallecido dous d'aquelles homens. 

« I. Carlos Gustavo Hedberg, director da fabrica 
« de ferro, filho d'um serralheiro, dedicou-se primeiro á 
« profissão do pae, deu. porém, provas de talento, tinha 
« bôa letra e obteve um logar de escrivão- mineiro nas 
« minas de ouro de Aldefors. Era de génio emprehen- 
« dedor e tomou mais tarde conta d'essas minas por ar- 
.< rendamento, levantando, para a exploração d'ellas, ca- 
« pitaes em todo o reino até a concorrência de uns 
« 60.000 florins. Levou a vida de homem abastado, en- 
€ tretanto, o resultado final foi, que não podia pagar 



— 17 — 

nem a renda ao rei nem os juros aos seus credores, 
ficando sequestrada toda a sua fortuna. Retirou-se 
para junto do seu pae que tinha comprado uma pe- 
quena fabrica de ferro, tomou conta doesta ultima e 
construiu um forno alto que rebentou logo na occa- 
sião da primeira experiência; procedeu á construcção 
de outro forno maior, mas foi egualmente infeliz. 
Agora, todos os seus credores cahiram sobre elle para 
conseguirem a decretação da sua prisão, e foi então 
que surgiu a sua bôa estrella no Brazil. Mr. Bayer 
tornou-se seu bemfeitor, recommendando-o ao em- 
baixador portuguez de então, e assumindo a responsa- 
bilidade pelas suas dividas, afim de que os aemais 
credores deixassem-n*o partir para o Brazil. H. firmou 
então contracto muito vantajoso com o embaixador, 
chamando para o seu serviço os seguintes individuos, 
aos quaes pagava uma bagatela : 

1, Hultgren, carpinteiro de profissão, recebe 800 reis 

diários ; 

2, Sandahl, antigamente creado de H. na Suécia, nunca 

aprendeu officio algum; em Sorocaba acha-se em- 
pregado como serrador, recebendo 340 reis diários; 

3, Dahlstroem. Foi serralheiro na fabrica de H. na 

Suécia; recebe agora 340 reis diários; 

4, Hult. Foi aprendiz de ferreiro na fabrica do H.; 

recebe 340 reis diários; 

5, Lindstroem. E' alfaiate, tendo acompanhado ao H. 

para o Brazil com o fim de receber d'elle uma 
divida de 300 florins; também faz trabalhos de 
alfaiate para o H., recebendo 320 reis diários; 

6, Lind. E' carvoeiro e sapateiro simultaneamente, exer- 

cendo em Sorocaba ambas estas profissões, de 
preferencia, porém, a de sapateiro ; recebe 340 
reis diários; 

7, Hagelhund. Foi carpinteiro e mais tarde soldado no 

regimento dos dragões de Smoland, obtendo baixa 
do serviço por apresentar defeito de ouvido. Tra- 
balhou em Sorocaba como marceneiro, maltratado, 
porém, pelo H. enforcou-se no anno de 1812 ; 

8, Jolidon. Foi ajudante de cozinheiro na cozinha da 

rainha da Suécia ; agora é cozinheiro do H., rece- 
bendo 960 reis diários ; 

9, Stroembeck. Filho de camponez que não aprendeu 

officio algum ; serve como ajudante na conducção 
da lenha usada na fabrica, recebendo 300 reis 
diários ; 



— i8 — 

10, Ulsrim. Aprendiz de pedreiro, é vadio e costuma 

afastar-se frequentemente do serviço; recebe i8o 
reis diários ; 

11, Norrmann. Primo de H., não entende profissão al- 

guma, é fiscal na pedreira, recebendo i8o reis 
diários ; 

12, Christian Lindstroem. Foi primeiro artilheiro, depois 

fez, como marinheiro, uma viagem para as índias 
orientaes, de volta trabalhou numa refinação de 
assucar na Suécia, conhecendo alli o cozinheiro 
Joiidon que o recommendou ao H. ; recebe 120 
reis diários; 

13, Fossberg. Encarregava-se na Suécia da redacção de 

requerimentos e petições para os camponezes, 
servindo agora como secretario do H., recebendo 
320 reis diários; 

14, Bergman. Foi estofador, segundo diziam, morreu, 

porém, no primeiro mez de tisica pulmonar. 
« rortanto, H. tirou de todos estes homens, dos 
« quaes apenas três eram aproveitáveis no serviço, diaria- 
« mente 9$46o, ficando o governo roubado dessa quantia. 
« Fora dos referidos homens, fazem parte da comi- 
« tiva do director sueco os seguintes: 
II. Carlos Dankwardt. Capitão de mar na Suécia. Já 
era conhecido do H. ha muito tempo e veiu agora 
cobrar 4.000 florins que este devia ao seu irmão. 
Não podendo obter o dinheiro, nutria elle a espe- 
rança de arranjar, com o auxilio do H., algum 
emprego no Brazil e, como fallava soffrivelmente 
o portuguez, conseguiu o seu intento. Foi nomeado 
capitão na legião de São Paulo e serviu como 
interprete na fabrica de ferro. 

III. Carlos von Printzenschold. Moço de bôa educação, 

veiu em companhia do H. para cobrar 10.000 flo- 
rins que este devia ao pae do Pr., podendo este 
gastar os juros dessa quantia. Como, porém, o H. 
não pagava nem o capital nem juros, regressou 
Pr. para a Suécia em 1812. 

IV. Barão von Flemming. Finlandez, veiu em companhia 

do H. para cobrar delle successivamente uma di- 
vida de 10.000 florins. H. devia-lhe, originaria- 
mente, 13.000 florins, mas para assegurar-se da 
amizade do H., Flemming presenteou-o, antes do 
embarque para o Brazil, com 3.000 fl. — Este ho- 
mem já é idoso, gordo e aleijado, gosta das bebi- 
das e, provavelmente, não ha de viver aqui^ por 



— 19 — 

muito tempo. Estes três homens H. deve alimentar 
e vestir por sua conta. 

« Eis a inteira companhia sueca^ com a qual o gover- 
« no foi illudido tão vilmente. Este tem vergonha de con- 
« fessar tudo, embora que tenha agora informações com- 
« pletas e exactas. V. S. poderá facilmente imaginar que 
« nestas condições, não quero ter nada com toda a fabrica, 
« se bem que procurem imputar a mim erande parte da 
« culpa do máo êxito. Espero que V. S. laça os melhores 
« esforços no Rio, afim de refutar esta opinião errónea, 
« etc. . . . Varnhagen. » 

Finalmente, depois de gasto, do modo mais insensato, 
o fundo de mais de 200.000 cruzados, fornecido pelos 
accionistas e por subvenções da caixa real, resolveu-se, 
em vista dos prejuízos soffridos, dispensar a inteira com- 
panhia sueca. Uma Carta Régia de 27 de Setembro de 
i8i4, dirigida ao Conde de Palma, então governador de 
São Paulo, com as necessárias instrucções, mandou que 
os suecos fossem substituídos por uma companhia de tra- 
balhadores allemães e que o.major-engenheiro Varnhagen 
fosse investido da direcção da installação a construir com 
a minha assistência. 

Transcrevo em seguida essa Carta Regia de 27 de 
Setembro de 1814: 

« Conde de Palma do Meu Conselho, Governador e 
« Capitão General da Capitania de S. Paulo. 

« Amigo, Eu o Príncipe Regente, vos Envio muito 
« saudar como aquelle que Amo. Fazendo-se digno 
« de huma particular e séria attenção o augmento do 
« importante estabelecimento da fabrica de ferro de São 
« João do Ypanema, na montanha de Varassoyava, da 
« Villa de Sorocaba, doesta Capitania que Mandei crear 
« pela Minha Carta Regia de 4 de Decembro de 1810, 
« em be;neficio de Meus fieis Vasallos e vantagem da 
« agricultura, commercio e industria doestes Meus Estados 
« do Brazil; e não tendo até agora correspondido os 
« progressos d'esta fabrica ás providencias que Fui servi- 
« do dar para a sua verificação^ mandando vir da Suécia, 
« com grande dispêndio da Minha Real Fazenda, hum 
« Director e huma companhia de mineiros fundidores, e 
« lixando a maneira de se haver os fundos necessários, 
« por meio de accionistas que voluntariamente concorre- 
« ram para este estabelecimento, com o fim de participa- 
« rem das grandes vantagens que d'elle devem resultar, 
« e convencido Eu de que a continuação da sobredita 
« companhia de mineiros, cujo prazo de contracto com 
« que vieram da Suécia^ se acha finalizado, seria nociva 






— 20 — 

« aos interesses da fabrica, não só por serem excessivas 
« as condições por elles propostas para reforma do mes- 
« mo contracto, m^p por ser reconhecido que muitos 
« d' estes operários são pouco hábeis na sua profissão e 
« convencido, egualmente, de que não convém de modo 
« algum que o director Carlos Gustavo Hedberg continue 
« a dirigir os trabalhos da fabrica, supposto devido ao 
« seu caracter o máo méthodo que Me tem seguido na 
« construcção dos fomos para a fundição do ferro; sou 
« servido resolver que o sobredito director e a compa- 
re nbia de mineiros sejam dispensados, practicando-se a 
« seu respeito o que se convencionou no contracto, rela- 
« tivamente ao seu regresso para a Suécia, podendo to- 
« davia ficar com alguns dos ditos operários que sejam 
« mais peritos e que se reconheça ser conveniente, que 
« ora fiquem reservados na fabrica. Para que não parem 
« os trabalhos proceder-se-ha a hum novo ajuste que pa- 
€ reça razoável, afim de continuarem alli ser empregados. 
« Propondo-Me Eu mandar vir da Allemanha alguns fun- 
« didores e refinadores hábeis para substituirem a sobre- 
« dita companhia de Suecos, e porque Estou informado 
« da necessidade que ha, de se construirem dous fornos 
4c altos em outro local que seja mais adequado a este 
« fim do que aquelle em que existem os fornos actuaes, 
« para que a fabrica possa trabalhar em grande e pro- 
« duzir annualmente a quantidade de ferro em barra de 
« que hé susceptivel hum tal estabelecimento : Hei por 
« bem ordenar-vos que encarregueis da direcção doesta 
€ bôa obra o sargento-mór do Real Corpo de Engenhei- 
« ros Frederico õuilherme Varnhagen, cujos conhecimen- 
« tos affiançam, que elle saberá desempenhar como con- 
4c vém, podendo para o futuro ser ajudado nestes traba- 
« lhos pelo Ten.-Coronel graduado do mesmo Real Corpo, 
« Guilherme Barão de Eschwege, quando este puder ser 
« dispensado das commissões do Meu Real Serviço de 
« que ora se acha encarregado na Capitania de Minas 
« Geraes. Para se effectuar esta obra indispensável para 
« que a fabrica possa prosperar e cujas despezas, segun- 
'< do o orçamento que Me foi presente, poderão montar 
« a vinte contos de reis, dos quaes deve deduzir-se a 
« avaliação do que alli se acha já edificado e puder 
« servir, convém que procureis, com aquella dexteridade 
« e prudência que vos hé própria, conseguir que aquelles 
« dos accionistas d'essa Capitania que ainda até agora 
« não entraram no cofre da fabrica com as segimdas 
« meias acções, hajam de preencher o total da sua im- 
« portancia, persuadindo-os da necessidade d'esta medida, 



— 21 — 

« para que com mais brevidade se complete a construc- 
<c çâo dos fornos e para que em consequência possam 
« elles gozar dos lucros correspondentes ás suas acções. 
« Igualmente procurareis vêr, se hé possivel adquirir 
« novos accionistas para a dita fabrica, e vos Authorizo 
« neste caso admittil-os debaixo das mesmas condições 
€ dos existentes, devendo vos fazer constar na Minha 
« Real Presença o resultado doesta diligencia e o estado 
« em que então se achar o cofre da fabrica, para Eu, por 
« meio de adiantamentos, que Mando fazer pela Minha 
« Real Fazenda ou por outros meios que Me parecerem 
« convenientes, dar as providencias afim de que não 
« venham a faltar os fundos para supprir as indispensa- 
« veis despezas ordinárias da fabrica e as extraordmarias 
« que se fizerem com a construcção dos novos fornos. 
« O que tudo Me pareceu participar-vos para vossa de- 
« vida intelligencia, e para logo hajam de ser despedidos 
« os mineiros suecos com quem não se fizer novo ajuste 
« para continuarem a ser empregados na fabrica, como 
« acima fica dito, fazendo-os vos transportar para esta 
« Corte afim de seguirem d^aqui viagem para a Suécia, e 
« vos Authorizo também para proceder a este ajuste e 
« praticar tudo o mais que convém, segundo esta Minha 
« Regia determinação, não duvidando Eu de que neste 
« importante negocio Me dareis novas provas do zelo, in- 
« telligencia e efficacia com que tanto vos tendes distin- 
« guido no Meu Real Serviço. Escripto no Palácio de 
« Rio de Janeiro em 27 de Setembro de 1814. 

Príncipe. 

Para o Conde de Palma. 

« Cumpra-se como S. A. R. ordena e se registre 
« nas estações competentes.» 

S. Paulo, 9 de Decembro de i8i4. 



Que eu não podia e nem queria ligar-me a esta em- 
preza como simples auxiliar, era consequência necessária 
da própria natureza do negocio. Consegui também con- 
servar-me afastado d'e11e e continuei com os meus servi- 
ços na provincia de Minas, emquanto Varnhagen adminis- 
trava a nova fabrica. Dos suecos ficaram alguns, só tra- 
balhando com os quatro pequenos fomos construídos pelo 
director sueco». O ferro extrahido, porém, provou inteira- 
mente imprestável, de modo que o governador confiou ao 
Varnhagen também a direcção doeste serviço. Escreveu-me 
V. acerca d*isto em data de 7 de Janeiro de 1816 o 
seguinte : 



— 22 — 

« A fabricação de ferro pelos suecos durou cinco 
« mezes e durante todo este tempo nâo fabricaram nem 
« uma barra siquer de ferro bom. Abstive-me, entretanto, 
4c de dizer palavra alguma. Ainda assim gastaram quanti- 
« dade enorme de carvão. No mez de Novembro, p. e., 
« produziram 171 arrobas de ferro em barra, consumindo 
« 61 II arrobas de carvão. Em Decembro fabricaram 116 
« arrobas de ferro em barra, gastando 5700 arrobas de 
« carvão. Cada arroba de ferro exigia, portanto, 41 arrobas 
« de carvão. Como cada arroba de carvão custava, posta 
« na fabrica, 60 reis, o custo do carvão necessário para 
« I arroba de ferro já era de 2$46o. Como o ferro está 
« sendo vendido a i$6oo por arroba, facilmente se poderá 
« calcular o prejuízo. 

« A causa doesse enorme gasto de carvão foi devida 
« ao desejo dos trabalhadores de obter ferro afinado, tendo 
« abaixado os fornos de 12 palmos para 7. O resultado 
« foi, que as fontes ficaram pequenas, e o ferro ficou 
« quebradiço e oxydado sem ser refundido. 

« Immediatamente mandei augmentar a altura dos 
« fomos, obtendo fontes 3 a 4 vezes mais carregadas que 
« eram mais cruas, podendo ser refundidas com mais faci- 
« lidade no forno de cuplar, transformando-se em ferro de 
« bôa qualidade. Cada lupa pesava 3 a 4 arrobas e cada 
« arroba de ferro de muito bôa qualidade não exigia mais 
« de 16 a 20 arrobas de carvão. » — 

N'uma carta datada de 21 de Abril do mesmo anno 
diz Varnhagen : 

« Os meus trabalhos progridem a passos de gigante. 
♦ Os fornos altos já estão construídos de cantaria até a 
« altura de 25 palmos. Por todo o mez de Agosto deverá 
« ficar prompto todo o edifício da fabrica, e depois hei de 
4c dar começo á construcção do edifício dos pilões e malhos. 

<c Os vizinhos da fabrica já produzem de carvão tanto 
« quanto gasta a fabrica sueca, o que constitue grande 
« vantagem para esta ultima e para os carvoeiros. Espero 
« que o preço baixe ainda muito, desde que a povo tor- 
« ne-se mais habituado a tal serviço e que estabeleça-se 
« concorrência. » 

Outra carta de 8 de Maio do mesmo anno contém 
os seguintes trechos : 

« Na semana passada produzimos aqui a maior quan- 
« tidade de ferro até agora verificada. De 3 pequenos 
« fornos que trabalharam desde meia noite de segunda 
« feira até ás 6 horas da tarde de sabbado sahiram 60 
« fontes que produziram, na refundição, 30 lupas, forjan- 



— 23 — 

« do-se d'estas 75 arrobas de ferro em barra de superior 
« qualidade. Mais não se pode produzir, era caso algum, 
« por semana. O consumo de carvão, porém, é conside- 
« ravel, sendo de 2S a 3o arrobas por cada arroba de 
« ferro em barra. 

« No correr doeste anno espero a sua visita, podendo 
« então V. S. acompanhar uma expedição que partirá no 
« mez de Agosto para o Rio do Paraná, afim de buscar, 
« por conta da fabrica, uma colónia de Índios, já meio 
« civilisados, que desejam ser transferidos para um lugar 
« mais povoado. 

« Apresentei a proposta de installar-se aqui, perto 
« da fabrica, uma aldèa de Índios, para aproveitar no fu- 
« turo estes no serviço da fabrica. Doze doestes homens 
« estão trabalhando aqui muito bem, já ha certo tempo. 
« Também propuz a organisação d*uma companhia de 
« artifices, conseguindo-se com isso certa ordem militar 
« no serviço. » 

Uma carta de 12 de Junho de 1816 contém ainda as 
seguintes informações acerca do serviço dos fornos suecos: 

« O serviço da fabrica sueca, quando esta me foi 
« entregue, era extremamente miserável; o ferro era que- 
^ bradiço, não se prestando absolutamente a ser trabalha- 
« do, e ao todo tinham fabricado até a época da minha 
^ chegada 600 arrobas. Modifiquei incontinenti a cons- 
« trucção do forno d'afinação, reduzindo a sua largura á 
« metade, conservando a chapa da frente só; as outras 
« deixei fora, porque não servem de nada com o carvão 
« usado aqui, e adoptei logo uma regadura frequente do 
« fogo. Além d*isto caldeavam aqui, antes da minha che- 
« gada, na forja, na areia, de modo que não escoava a 
« escória. Remediei, também, este inconveniente, mandan- 
« do caldear, conforme o methodo commum, com escória. 
« Em diversos outros detalhes ainda mandei proceder a 
^ alterações que importavam n'uma reducção do consumo 
« de carvão. 

« Para habilitar a V. S. a apreciar bem a differença 
« que havia no consumo e na producção da fabrica du- 
« rante o tempo em que eu me achava encarregado da 
« direcção e o período em que esta estava confiada, por 
« certos motivos, a um mestre sueco, submetto-lhe a se- 
« guinte tabeliã : 

« Foi produzido ferro e gastou-se carvão, conforme 
« segue: 



— 24 



NEZES 


AIIQS 


FERRO EM BDRRIIS 


6AST0 OE CARVllO 


Abril . . . 


1815 


145 arr. 


II v« 


libras 


3.660 arr. 


Maio . . . 


» 


195 » 


II 


» 


5.220 » 


Junho . . . 


» 




16 


» 


3.000 » 


fí° 


Julho . . . 


» 


2V4 


» 


4.860 » 


12 ^ 

"St 


Agosto . . 


>> 


32 » 


4 


» 


1.800 » 




Setembro . 
Outubro . . 




137 » 
143 » 


15 
19 


» 


4.980 * 
4459 » 


^$^^ 


Novembro . 


» 


171 » 


7 


» 


6.1 II » 


^% 


Decembro 


» 


116 » 


2 


» 


5.700 » 


Janeiro . . 


1816 


193 » 


— 


» 


6.055 ^ 


Fevereiro . 


» 


113 » 


16 


» 


5.671 » 


Março . . . 


» 


113 > 


3 


» 


3.294 ^ 


Abril . . . 


» 


178 » 




» 


4.202 » 


Maio . . . 


> 


296 » 


— 


» 


7.960 » 




Total 


2018 arr. 


10 1/4 


libras 


66.972 arr. 



« o carvão foi conduzido até o fim de Outubro em 
carros de boi e o peso nSo foi verificado com exacti- 
dão ; mais tarde a conducção foi feita sobre costas de 
mulas, em cestos, e verificado o peso d' estes. O ferro 
produzido pelos suecos foi rugoso, quebradiço e sem 
coherencia; o meu era inteiriço, afinado e resistente. 
A differença no gasto de carvão durante os primeiros 
dous mezes do anno de 1816 foi devida á circumstan- 
cia de achar-se molhado o carvão. 

*í AchandO'Se tudo nas condições precisas, cada 
forno poderá fornecer semanalmente 30 fontes. Cada 
fonte exige 300 libras de minério de ferro e cerca de 
400 libras de carvão, pesando bruta 3 arrobas e dando, 
quando refundida, i V2 arroba de ferro em barra. 

« Para cada lupa empregam-se duas fontes, produ- 
zindo então 3 arrobas de ferro em barra. Ordinaria- 
mente e com o mais regular funccionamento gastam-se 
28 arrobas de carvão para i arroba de ferro em barra. 

« Dous fornos de afinação, trabalhando somente du- 
rante o dia, produziram em uma semana 70 a 80 ar- 
robas de ferro em barra. Os nossos fornos têm agora 
a altura de 13 palmos. Cada arroba de carvão custa, 
conforme já mencionado, 60 réis e cada arroba de mi- 
nério de ferro, inclusive os serviços de calcinar e britar, 
25 réis, vendendo-se a arroba de ferro em barra por 
i|6oo, isto é, pelo preço que se paga pelo ferro sueco 
de primeira qualidade nos portos do mar.» 



— 25 - 

Deprehende-se de todas as informações acima, que 
Vamhagen gastou para i arroba de ferro em barra 29 Vs 
arrobas de carvão^ ao passo que os suecos precisavam de 
40 arrobas de carvão para i arroba de ferro. Na fundi- 
ção o consumo era, portanto, de 12 V2 arrobas de carvão 
e na refundição de 17 arrobas. Comparado este consumo 
com o da minha fabrica de Prata em Minas Geraes re- 
presenta elle uma perda considerável de carvão, visto 
que eu não gasto mais de 10 arrobas de carvão para i 
de ferro em barra. 

São estas as noticias relativas á fabrica sueca e aos 
resultados d*ella. 

( — O auctor reproduz, em seguida, na sua referida 
obra descripções technicas minuciosas da installação nova, 
feita por Varnhagen, deixamos, porém, de transcrevel-as 
aqui, por não offerecerem interesse algum, nem para o 
profissional moderno. ) 

Continua depois Eschwege : 

Por diversas vezes já tinha eu manifestado as mi- 
nhas idéas quanto á inconveniência oue havia na installa- 
ção de grandes fabricas de ferro no brazil, tendo estabe- 
lecido como norma que as proporções de semelhantes 
installações deviam ser determinadas pela procura que se 
podia esperar com certeza para os productos da fabrica. 
Kefere-se a este assumpto a seguinte resposta que recebi 
de Varnhagen em 18 de Maio de 181 7 : 

« As suas idéas acerca da inviabilidade de grandes 
« fabricas de ferro no Brazil não podem achar applicação 
« á que eu installei. — O meu projecto principal é que 
« se fabriquem aqui annualmente cerca de 4.000 quintaes 
« de ferro em barra, sendo esta a quantidade que passa 
« annualmente por São Paulo e que se consome, portan- 
« to, nesta e nas províncias vizinhas. ( — Duvido que 
seja exacta esta affirmação, visto que a província de 
Mmas tem o dobro da população das provindas de São 
Paulo, Goyaz e Matto-Grosso juntas, gastando muito mais 
ferro Já por causa dos trabalhos de mineração realizados 
alli, e ainda assim os registros das alfandegas dão como 
importados durante 5 annos 2.000 quintaes só. v. E. — ). 

« O resto deve então ser trabalhado aqui para o fa- 
« bríco de armas, chapas etc, o que dará um lucro de 
* 50 %. — Suggeri o alvitre de tornar esta fabrica o de- 
« posito que supprisse todas as províncias vizinhas, e que 
« se organizasse uma companhia de soldados-artifices, sem 
« o que seremos forçados a mandar vir estrangeiros. De 
« outra maneira não aprendem os indígenas cousa alguma, 
« porquanto nunca permanecem no serviço. — Artigos de 



— 26 — 

^ ferro fundido hão de encontrar aqui procura extraordi- 
« naria; principalmente os grandes engenhos de canna, 
« dos quaes contam-se uns cem n'uma distancia de lo 
« legoas ao redor da fabrica, hão de comprar caldeirões, 
« panellas, cylindros e até machinismos inteiros em gran- 
^< de numero. ( — Dentro de i anno a fabrica grande 
poderá supprir todas as necessidades de todos esses enge- 
nhos de canna, ficando estes providos por espaço de lo ou 
20 annos. O que fazer então com o ferro fundido ? v. E. — ) 
« O ferro fundido poderá ser fornecido por preço bem 
« baixo e mais baixo do que em qualquer outro paiz, 
« assim como o ferro em barra, desde que se organize 
« um serviço económico. 

« Entretanto, podemos facilmente fazer um computo. 
<( Cada arroba de minério de ferro custa agora, termo 
« médio, 8 réis posta na fabrica ; cada arroba de calcareo, 
« como fundente, 25 réis, cada arroba de carvão 50 réis. 
« — Calculo nào precisar mais de 10 arrobas de carvão 
« e 3 arrobas de carga para cada arroba de ferro em 
« barra de bôa qualidade. Cada escravo custa aqui, com 
« alimentação, vestimentos, medico e pharmacia, não mais 
« de 80 réis por dia, segundo um computo abrangendo 
« um espaço de 2 annos. — Todos os serviços estão sendo 
« realizados por escravos próprios. » 

Não é preciso possuir habilidade extraordinária em 
calcular, para demonstrar, com os dados acima e apezar 
do mais perfeito andamento dos serviços, que o amigo 
Varnhagen laborava em erro e que cada arroba de ferro 
em barra custava i$4oo, sem levar em linha de conta as 
muitas despezas miúdas que occorrem n'uma fabrica de 
ferro, sendo esse o preço que se costuma pagar pelo fer- 
ro nos portos marítimos. Entretanto, e apezar do prejuizo 
que provavelmente terão sempre essas obras, votei sem- 
pre em favor d*esta empreza por entender que o Estado 
necessita das fabricas de ferro, para adquirir alli, em 
casos de urgente precisão, armas e munições, sem depen- 
der a este respeito de outros . Estados. 

Uma carta de V., datada de 7 de Novembro de 1818 
informa o seguinte : 

« Communico a V. S., a toda pressa, que comecei 
« a esquentar um dos altos fornos no dia 3 de Outubro, 
« no dia 10 metti fogo no cadinho, no dia 14 enchi o 
« forno com rachas de madeira de peroba, no dia 27 car- 
« reguei minério, no dia 30 puz os sopradores em acção. 
« No dia i.*" de Novembro fiz, pela primeira vez, correr 
« a fonte. Procedi em tudo da mesma forma que costu- 
« mavamos proceder no Portugal, sendo egualmente os 



— 27 — 

« resultados os mesmos. O meu fundidor francez não en- 
« tende nada; por isso, encarreguei-o da fiscalisação do 
*< carregamento e eu estou trabalhando com dous ferreiros 
« suecos, um carpinteiro e alguns pretos. Tudo vae bem, 
« e a pedra de cantaria ^os cadmhos é a melhor que 
« jamais tenho visto. Estou fundindo agora martellos, bi- 
« gomas etc. Os meus inimigos e o partido adverso cala- 
« ram-se, pois ninguém esperava, que se pudesse já- 
« mais produzir ferro aqui, visto que fossem contrários o 
< ar, as pedras, os materiaes, a fraqueza dos trabalhadores 
« etc, conforme tinha propalado aos quatro ventos o di- 
« rector sueco, empenhando a cabeça. * 

Datada de lo de Decembro recebi a carta seguinte: 

« O forno continua a trabalhar sem interrupção, tendo 
« havido até agora 72 corridas de fonte. No mez de No- 
« vembro consumiram-se S725 arrobas de madeira e 1070 
<c arrobas de carvão, produzindo-se cerca de 2000 arrobas 
« de ferro. Apoz 11 dias de serviço foi preciso retirar do 
« cadinho uma lupa de ferro afinado, porque, por engano, 
« tinha sido carregado minério de qualidade differçnte. 
€ Prosegui, entretanto, com o serviço de fundição, e po- 
« deriamos ainda continuar com o mesmo cadinho durante 
« um anno inteiro, se não nos forçasse a falta de madeira 
« e os inconvenientes da estação a terminar o serviço, o 
« que tenciono fazer no dia 21 de Decembro. 

« Hoje fundi uma coroa de ferro de meio quintal e 
4( também muitas balas. Tudo vae melhor do que eu 
« mesmo tinha antecipado. 

« A gente grita agora que o ferro não presta. Só 
« quando ficarem calados, darei começo ao serviço de 
« afinação. O oxydo de ferro magnético não constitue se- 
« não a terça parte das cargas, o resto é diabase, calcareo 
« e escória, de modo que a carga contém uns 30 o/^. Creio 
« firmemente, que aqui nunca se poderá fundir com carvão 
« sóe exclusivamente. Tentativas tenho feito, diminuindo 
« pouco a pouco a madeira e augmentando o carvão; com 
« metade madeira, metade carvão, porém, a fundição foi 
« tão difficil, que dentro de 24 horas passaram somente 
« 12 a 14 cargas, emquanto com 3 partes de madeira e 
« I parte de carvão passam 24 até 25 cargas. » 

Termina o capitulo da citada obra de Êschwege, cuja 
traducção vae acima, com um extracto do diário dos altos 
fomos em Ypanema e algumas tabeliãs sobre os serviços 
executados que não nos parecem de interesse bastante 
para serem reproduzidos aqui. 



— 28 — 



fl (Dusica e a EdoIuçõo 

FELo Prof. Paulo Florence 
(Continuação e fim) 

« Nous trouvons que ce dernier est três hétérogène 
non seulement par la variété que lui donnent Téiévation 
et Ia longueur des notes, le nombre des notes différentes 
qui résonnent au même instant en compagnie de la voix, 
et les variations de la force avec laquelle elles sont 
dominées par Tinstrument et le chant, mais aussi par les 
changements de clef, de temps, de timbre de la voix, et 
par beaucoup d'autres modifications d*expression. 

D'un autre côté, il y a entre Thétérogénéité de Tancien 
chant de danse monotone et celle d*un grand opera de 
nos jours, avec les complications infinies de Torchestre 
et les innombrables combinaisons des voix, un contraste 
si grand qu*on peut à peine croire que le premier ait été 
Tancêtre du second. » 

Não é difficil observar-se na musica, como imagem 
da vida, o que acabamos de expor. 

E' preciso, porem, ter em vista também aqui só taes 
peças ou partes de peças, que apresentam um desenvol- 
vimento continuo, pois não se trata aqui daquella hetero- 
geneidade que deve ser observada na combinação, ou 
melhor, na opposição architectonica de partes mais ou 
menos independentes, e sim do que se accentúa sempre 
mais num organismo musical, deste a sua origem, durante 
a sua evolução. 

Considerando-se os complexos musicaes sob esse 
ponto de vista, pode-se designar numa obra logicamente 
confeccionada, ou nas différentes partes da mesma, o pri- 
meiro grupo de motivos, e até, ás vezes, já o primeiro 
motivo como o gérmen relativamente ainda homogoneo 
do qual se desenvolve o todo com o concurso de novos 
elementos, como sejam: novos motivos, novas harmonias, 
as tonalidades, etc. 

Isto traz comsigo, naturalmente, uma heterogeneida- 
de sempre crescente e essa é explicável pelo ponto F. 



— 29 — 

que em forma mais ampla vem reproduzido no capitulo 
aX dos < Premiers principes » de Spencer : 

« Universellement, Teffet est plus complexe que la 
cause. Que Tagrégat sur lequel elle tombe soit homogène 
ou non, une force incidente se transforme par le conflit 
même en plusieurs forces qui différent par Tintensité, la 
direction ou Tespèce, ou par tous ces rapports à la fois. 
Chacune des forces diversement modifiées de ce groupe 
subit en définitive une transformation analogue. 

Montrons maintenant combien Tévolution est avan- 
cée par cette multiplication des effets. Une force inciden- 
te décomposée par les réactions d*un corps en un groupe 
de forces dissemblables, une force uniforme réduite à une 
forme multiforme, devient la cause d'un accroissement 
secondaire de multiforraité dans le corps qui la décom- 
pose. Nous avons vu dans le demier chapitre que les 
diverses parties d*un agréeat sont diversement modifiées 
par une force incidente. Nous venons de montrer que, 
par suite des réactions des parties qui subissent ces mo- 
difica tions différentes, la force elle — même doit se di- 
viser en fractions modifiées différemment. Mais il reste á 
faire voir que chaque division différenciée de Tagrégat 
devient un centre d'oú une division différenciée de la 
force originale est de nouveau diffusée. Enfin, puisque 
des forces semblables doivent produire des résultats dif- 
férents, chacune de ces forces differenciées doit produire, 
dans tout Tagrégat, une nouvelle série de différencia tions. 

Cette cause secondaire de changement de Thomogé- 
néité à rhétérogénéité devient évidemment plus puissante 
à mesure que 1 hétérogénéité augmente. Lorsque les par- 
ties qui résultent de la désagrégation d'un tout en évolu- 
tion on pris des natures três differentes, elles doivent né- 
cessairement reagir três diversement sur une force inci- 
dente; elles doivent subdiviser une force incidente en 
autant de groupes de forces vivement contrastées. Cha- 
cune de ces parties, devenant le centre d'un groupe d*in- 
fluences tout a fait distinct, doit ajouter au nombre des 
changements secondaires distincts opérés dans Tagrégat. 
II faut pourtant tirer un autre coroUaire. Le nombre de 
parties dissemblables dont se compose un agrégat, aussi 
bien que le degré de leur dissemblance, est un facteur 
important de Topération. Toute nouvelle division spécia- 
lisée est un centre nouveau de forces spécialisées. Si 
un tout uniforme, devenu multiforme sous Taction d'une 
force incidente, la rend multiforme; si un tout composé 
de deux sections dissemblables divise une force incidente 
en deux groupes differentes de forces multiformes, il est 



— 30 — 

cia ir que chaque tiouvelle section différente doit être une 
nouvelle source de complication parmi les forces á TxEuvre 
dans la masse, c*est-à-dire une nouvelle source d'hétéro- 
généité. La multiplication, des effets doit aller en pro- 
gression goométrique, chaque degré de Tévolution doit 
être le prélude d*un degré plus élevé.» 

Se podemos sentir perfeitamente, segundp o apuro 
e educação do nosso sentido musical, as influencias reci- 
procas das forças que entram em jogo nos complexos 
musicaes, é-nos corotudo difficil dar-nos conta da natureza 
dessas forças com a mesma clareza com que se pôde 
explical-as, nas manifestações da vida real, como o fez 
Spencer no capitulo XX da obra citada. 

Todavia basta um estudo attento de qualquer com- 
plexo musical logicamente confeccionado para vêr que 
também aqui a multiplicação dos effeitos representa papel 
saliente na evolução. 

Assim, vemos reapparecerem sempre no percurso de 
um trecho os motivos ou grupos de motivos, uma vez 
expostos, com aspectos diversos, isto é; harmonisados 
diíferentemente, com posições e effeitos dinâmicos varia- 
dos, com outras disposições de intervallos e, sendo 
isso de particular importância para nós, divididos em par- 
tes maiores ou menores que continuam a sua acção, se- 
paradas ou unidas a partículas de outros motivos. 

Todas as obras primas são exhuberantes desses de- 
talhes innumeros, e nas concepções mais profundas e 
artísticas dos mestres elles se entrelaçam do modo tão 
admirável que passam-se gerações antes de se tornarem 
comprehensiveis ao sentimento geral, offerecendo sempre 
novas descobertas mesmo depois de um estudo aprofun- 
dado dessas obras. 

Considerando agora que a variedade de formas 
sempre mais accentuada, á qual, em virtude da multipli- 
cação dos effeitos, está sujeito qualquer complexo em sua 
evolução, resulta do desmembramento e nova distribuição 
tanto de suas partes constituintes como das forças inci- 
dentes que successivamente entram em acção; conside- 
rando ainda que, por mais heterogéneas que pareçam as 
novas formas dahi resultantes, nunca se encontrará nellas 
senão elementos das forças que entraram em acção — po- 
deremos perfeitamente designar também nesse ponto os 
complexos musicaes como uma imagem da vida real. 

Observamos ahi, em variedade infinita, os effeitos 
que os motivos ou grupos de motivos uniformes e multi- 
formes produzem em sua acção reciproca; notamos uma 
heterogeneidade sempre crescente dos diversos complexos. 



— 31 — 

Mas, se observarmos de perto, encontraremos que os 
grupos sempre mais differentes na apparencia compõem-se 
de partes e partículas das forças que entraram em jogo. 

Quando, sem motivo, succede o contrario, como em 
obras imperfeitas, sentimos repulsão, pois que do mesmo 
modo que exigimos conscientemente em um quadro, que 
reproduza fielmente os objectos da vida, assim também 
sentimos na arte dos sons, ainda que até aqui inconscien- 
temente, qualquer defeito como uma imitação da vida 
errónea e falsa, e portanto anti- artística. 

Para esclarecer o ponto G, transcrevo o seguinte 
trecho que se encontra á pag. 52 do «Résumé de la 
Philosophie de Spencer » de ÒoUins : 

« Nous n'avons pas trouvé la raison pour laquelle 
il ne se produit pas une hétérogénéité vague e chaotique 
au lieu de Thétérogénéité harmonique que nous voyons 
dans TEvolution. Nous avons encore à découvrir la cause 
de cette integration locale, c*est á dire la ségrégation, 
qui se complete graduellement, desunités semblables en 
un groupe distingue par un charactère nettement tranche 
des groupes voisins, composés chacun d*autres espèces 
d'unités. Si vous prenez une poignée d'une substance 
pulverisée contenani des fragments d*une grandeur iné- 
gale, et que vous la répandiez à terre pendant que 
souffle une légère brise, vous trouverez les plus grands 
fragments tombes à terre, presqu^à vos pieds. Les frag- 
ments un peu plus petits iront tomber un peu sous Te 
vent; les plus petits iront plus loin encore, et enfin les 
parcelles de poussière seront emportées fort loin avant 
d'atteindre la terre. C*est à dire que la force incidente 
imprime des mouvements différents aux unités mélées, 
dans la proportion méme de leur difference ; et par suite, 
en proportion de leur dissemblance, tend à les déposer 
en des lieux différents. II est une cause inverse de sé- 
grégation qui doit être nommée. Si des unités differentes 
soumises à Taction de la même force doivent prendre 
des mouvements différents, les unités de la même espèce 
doivent aussi prendre des mouvements differérents, sous 
laction de forces differentes. » 

Vejamos de que modo estão sujeitos a esta lei os 
complexos musicaes. 

Nas obras em que prevalece a construcção archite- 
ctonica póde-se facilmente observar que, apezar mesmo 
da differença dos elementos que as constituem, as sub- 
divisões de um todo musical, consideradas cada uma por 
si, parecem homogéneas relativamente ás outras subdivi- 



-32- 

sões. Os grupos distinguem-se claramente entre si pelas 
tonalidades, pela dinâmica, pelos intervallos tonaes, pelos 
accórdes e, especialmente, pelos rhythmos diversos. 

Mas também nos complexos com desenvolvimento 
continuo encontramos o mesmo, quer constituam uma 
obra extensa, como se vê na musica moderna, quer uma 
subdivisão qualquer de complexos maiores, como nos 
mostram as obras de forma determinada. 

As analyses seguintes de dois complexos musicaes 
evidenciam sufficientemente a acção da lei de segregação 
debaixo do ponto de vista musical. 

No preludio em do maior do Clavecin bien tempere, 
de Bach, i.o volume, observa-se a evolução de uma força 
representada pelo primeiro motivo ( no compasso pri- 
meiro ) : 

sol do mi sol do mi. (*) 

As forças, de que depende o desenvolvimento deste 
motivo, são especialmente harmónicas 

Nem uma só vez apparecem motivos cora rhythmos 
diversos, cuja influencia, como já dissemos, mais clara- 
mente se manifesta. A ligeira mudança de rhytmo no 
compasso 33 não interrompe o seguimento contínuo de 
semicolchêas, se bem que já sirva para provocar nos úl- 
timos compassos um novo agrupamento de elementos do 
motivo principal. 

Assim se desenvolve placidamente e sem notáveis 
alterações o motivo, como se vê também numa vida hu- 
mana isempta de grandes contratempos e luctas. 

A segregação mais saliente deste complexo corres- 
ponde também á natureza das forças incidentes mais im- 
portantes: o que distingue os diversos grupos é quasi 
exclusivamente a harmonisação. 

Si este exemplo nos prova que também nos com- 
plexos musicaes a falta de forças incidentes de bastante 
influencia dão em resultado uma segregação pouco per- 
ceptível, o segundo preludio do mesmo volume nos mos- 
tra, com egual evidencia, como, por motivos nov(»s de suf- 
ficiente força incisiva, as partes constituintes tanto dessas 
como das forças que soffrem sua influencia se separam e 
se tornam a reunir, conforme o grau de sua affinidade. 



(*) Este motivo é propriamente completado por dois outros que 
encontramos no baixo. Nesta peça, porém, ellas seguem naturalmente a 
mesma evolução que o de cima. Ahi, como na peça que analysaremos em 
segundo logar, basta para nosso fim tomar em consideração apenas uma 
voz ; está claro que as demais se sujeitam egualmente ás leis da evolução. 
e, além disso, influem do mesmo modo no andamento do todo como são» 
por sua vez, por elle influenciadas. 



~ 33 — 

O motivo de cuia evolução se trata nesta peça é 
mi bemol — re mi bemol-— do mi bemol— re mi bemol do — que 
se acha na parte superior, formado pelas semicolchêas 2—^. 

Até a primeira nota do compasso 25 póde-se repetir 
o mesmo que com relação ao exemplo primeiro ficou dito e 
o desenvolvimento se conservaria o mesmo até o fim, si 
neste ponto n^o incidisse no conjuncto um novo motivo: 
o accórde quebrado si re fa la bemol (2.* — 5.* semicol- 
chêa do compasso 25). 

Embora o rhytnmo ahi não seja diverso a nova po- 
sição dos intervallos tonaes já influencia sufficientemente 
para imprimir á evolução caracter inteiramente differente. 

Apparece (no compasso 25) a 2.* metade do primei- 
ro motivo principal separada da primeira : fa mi fa si e 
fa mi fa sol ( primeira semicolchêa do compasso 26 ). O 
accórde quebrado fa re si la bemol intercalado, nasce da 
reacção que o primeiro motivo principal por sua vez exer- 
ce sobre a força incidente. 

Os compassos 26 e 27 repetem o mesmo em pro- 
porções maiores, devido á torça crescente com a qual o 
segundo motivo reincide, até que no compasso 28 o ap- 
parecimento de um terceiro motivo, semibreve sol em 
fortíssimo, completa a separação dos dois elementos e 
colloca cada um em grupos distinctos : depois da semi- 
breve sol apparecem até a 5.* semicolchêa do compasso 
32 e, da 2.* semicolchêa do compasso 33 até ai.* nota do 
compasso 34. grupos de figuras que lembram pela posição 
estreita dos seus intervallos tonaes a primeira metade do 
primeiro motivo principal. 

Entre esses dois grupos nota-se um menor que é 
formado pela segunda metade do primeiro motivo principal. 

No compasso 34 entra uma quarta força incidente, 
representada por um pequeno grupo de novos motivos e 
póde-se vêr claramente que os quatro compassos finaes 
são formados exclusivamente por elementos das forças 
que entram em acção no complexo total. Encontram-se 
aqui principalmente agrupamentos de accórdes quebrados 
que sahiram da acção sobre o segundo motivo principal. 

Se tão poucos e simples motivos são capazes de 
provocar uma heterogeneidade definida, bastante notável, 
tanto mais isso se accentúa, quanto mais differentes e 
mais complicados forem os motivos que apparecem na 
evolução progressiva da arte musical. E é isso, principal- 
mente, o que estabelece a differença entre a arte de um 
Wagner e a de um Bacb, pois no fundo imperam os 
mesmos princípios. 

Os pontos até aqui tratados não têm ainda sua ver- 



— 34 — 

<ladeira significação senão combinados com os principios 
que restam a elaborar : chamo, por isso, a principal atten- 
^ão sobre estes últimos. 

Formando os pontos expostos em H-L um todo 
coherente, podemos analysal-os conjunctamente. EUes en- 
cerram a historia do desenvolvimento de todos os com- 
plexos, tanto de qualquer subdivisão como do maior 
<:omplexo que nos é possivel abranger com o nosso in- 
tellecto, em suas linhas geraes. 

A historia universal, encarada sob este ponto de 
vista, fornece-nos exemplos frisantes para a confirmação 
ào que expuzemos. 

No percurso dos séculos repete-se sempre o mesmo 
processo da formação de povos, que, predestinados pelas 
suas qualidades excepcionaes e por outras circumstancias 
favoráveis, se levantam de posição obscura e modesta e, 
estendendo paulatinamente o seu poderio, attingem o 
ponto culminante da sua evolução, como senhores de 
vastos impérios. Não pôde haver duvida que cada augmen- 
to de poder está em proporção mathematica com as 
forças que entraram em jogo, e que o movimento ascen- 
dente só perdurará emquanto os elementos que incidem 
sobre o complexo, ou sobre os quaes este incide, são de 
natureza a dar ao seu poder novo incremento. Para mu- 
dar completamenfe o aspecto da historia universal, teria 
sido sufficiente, por exemplo, que as condições geogra- 
graphicas das terras adjacentes ao Mediterrâneo fossem 
outras do que realmente são ; assim como é evidente 
que o ponto culminante do povo romano seria inferior, 
se este tivesse tido adversários menos importantes, ou se, 
já antes da transmigração dos povos, tivesse sido prepon- 
derante a força de um dos seus poderosos inimigos. 

Do mesmo modo temos de admittir que a humani- 
dade considerada como um todo immenso, teria permane- 
cido estacionaria no ponto culminante da historia antiga, 
ou mesmo que teria pouco a pouco decahido, se por um 
numero complexo de circumstancias, tivessem faltado os 
elementos bastante poderosos para occasionar um novo 
impulso do espirito humano, ou se, no segundo caso, se 
tivessem achado exhauridos os próprios elementos neces- 
sários para sustentar em sua posição o complexo total. 

/ E impossível imaginar outra hypothese, pois que, 
tão bem como nos mais insignificantes complexos, o pon- 
to culminante que á humanidade será dado attingir, de- 
pende unicamente das forças que actuam em e sobre o 
nosso planeia. 

Depois de attingir o ponto culminante, vemos os 



— 35 — 

povos entrarem no período da decadência, que consiste 
na dissolução rápida ou mais ou menos demorada, se- 
gundo a natureza das forças que a determinam. Exgot- 
tar-se-ão sempre mais os seus recursos para r-esistir a 
poderosas forças incidentes até serem finalmente por estas 
dissolvidos e assimilados, soffrendo assim, por sua vez, 
a mesma sorte que tinham imposto a outros complexos 
por elles vencidos e aggregados no seu organismo social. 

Os exemplos de povos que se conservam por tempo 
indeíinito no estado de equilibrio instável designado pelo 
ponto I são raros e, também esses, não constituem exce- 
pção, pois nesses casos, o resultado final commum a 
todas as evoluções apenas é retardado. 

A maior parte dos aggregados só chega a um mo- 
desto ponto culminante e ha mesmo innumeros que, já 
antes do ponto culminante ou em qualquer outra parte 
antes da evolução e dissolução normal, são destruídos 
por forças incidentes preponderantes, mas no mechanis- 
mo geral das coisas, mesmo os mais insignificantes com- 
plexos têm seu pleno valor; no fundo deve-se até attri- 
Duir-lhes a importância principal. Não podemos compre- 
hender .a marcha geral das evoluções sem ter em vista 
que, acompanhados dos phenomenos que estudamos nos 
pontos B-Q (*), pequenos complexos se unem form?ndo 
um complexo maior; este por sua vez repete o mesmo 
processov com outros aggregados formados da mesma ma- 
neira, e assim por diante em proporções sempre maiores. 
As insignificantes fontes e, por meio destas, os pequenos 
regatos, formam os rios, e da reunião destem nascem as 
immensas e caudalosas correntes : assim também os vul- 
tos extraordinários que admiramos na historia não repre- 
sentam senão focos poderosos para os quaes convergem 
os esforços de innumeros precursores e contemporâneos 
menos considerados ou mesmo injustamente desprezados. 

Levando mais longe esta operação synthetica, che- 
garemos finalmente a reconhecer que continuará inces- 
santemente no nosso globo a fusão de todos os elemen- 
tos, os quaes, apparentemente operando em sentido 
contrario, só contribuem, na verdade, para a formação, 
em futuro remoto, de uma só grande unidade que gozará 
da máxima perfeição relativa, e este estado não é senão 
o estado de equilibrio instável, ao qual forçosamente tem 
de chegar a humanidade, como qualquer outro complexo. 



(*) Os pontos I, K e B, C completam-se mutuamente. Assim tam- 
bém os outros pontos já estudados nos mostram sufficientemente, de que 
maneira se effectúa a fusão dos elementos dos complexos em sua forma, 
destruídos com os elementos da força preponderante. 



-36- 

Estas mesmas leis que acabamos de expor podem-se 
averiguar também nos complexos musicaes. Já accentua- 
mos por varias vezes e convém repetir neste lugar que, 
sob o nosso ponto de vista, a única differença entre as 
manifestações da vida real e a sua reproducção artistica 
consiste em que no terreno da arte domina a phantasia, 
isto é, que o espirito creador tem plena liberdade de es- 
colher as forças, emquanto que na natureza estas succe- 
dem-se com absoluta fatalidade. Uma vez, porém, esco- 
lhido um motivo, uma harmonia ou qualquer outra figura 
musical, também o compositor está sujeito ás mesmas 
leis inexoráveis. Refere-se, pois, a sua liberdade somente 
á escolha e não aos effeitos, das forças. 

Voltemos, para as nossas investigações, ao thema de 
Beethoven, já analysado, com relação aos pontos B e C, 
no N. IO — 12 do ÍII vol. desta revista. 

Como já observamos, o primeiro motivo, em nosso 
thema, representa o gérmen, do qual se desenvolve o todo. 
Caracterisam-no uma solemnidade rhythmica e grandeza 
de linha melódica que. segundo as forças incidentes tor- 
nariam-no capaz de grandioso desenvolvimento, si o com- 
positor, para os seus designios, não se tivesse limitado a 
um curto complexo de 3 compassos, sufficientes esses, 
i entretanto, para evocar em nós a idéa de energia e grandeza. 

Antes de occupar-nos mais detalhadamente das for- 
ças que o compositor faz agir neste complexo, e dos seus 
effeitos, encaremos o conjuncto em sua generalidade e, 
suppondo a influencia de outras forças que não as esco- 
lhidas pelo compositor, vejamos como a sua acção muda- 
ria o aspecto geral do conjuncto. 

Não incidindo sobre o i.° motivo força alguma, claro 
está que permanecerá em seu estado, não havendo evo- 
lução possivel. 

Fazendo-se agir sobre este gérmen musical apenas 
Harmonias e sons diff crentes, o seu desenvolvimento as- 
sumiria, forçosamente, caracter semelhante ao do Preludio 
em do maior de Bach. Todas as variações deste thema, 
compostas neste sentido, nol-o provam. 

Explica-se isto facilmente, considerando-se que os ef- 
feitos de uma força incidente sempre se manifestam se- 
gundo o seu caracter individual (*). Quando, em um com- 
plexo musical, que até ahi decorreu em rhythmo igual, 



* Quasi sempre perdemos logo os vestígios, devido a acção simul- 
tânea e multiforme de outras forças que tomam necessário, como o vemos 
em todos os ramos da sciencia, um estudo paciente e engenhoso para re- 
conhecer as partes e partículas, infinitamente subdivididas e redistribuídas, 
dos complexos desaggregados. 



— 37 — 

incide uma nova força rhythmíca, accentúa-se imraediata- 
mente uma heterogeneidade correspondente á natureza 
deste novo rhythmo. 

Já o notamos no Preludio em do menor de Bach e 
também o thema variado de Beethoven o confirma: Ve- 
jam-se os compassos i e 5 da s.* variação; o 6.° com- 
passo da 7.*; o 6.0 da 26.*; o 5. da i8.* etc, e os ef feitos 
dos rhythmos incidentes. 

Por occasião da i.* analyse do thema Beethoveniano 
não podiamos ainda indicar a razão porque este complexo 
só pode chegar ao ponto culminante determinado, que en- 
contramos no 6.** compasso, questão esta que agora, elu- 
cidados os pontos H— L, não é difficil de apurar-se. 

Neste complexo, assim como o compositor o formou, 
não surgem, após o 6.** compasso, forças que pudessem 
retardar o declmio e muito menos ainda levar a evolução 
a mais elevado gráo. 

Do mesmo modo, o fogo cresce, não havendo obstá- 
culos, até um certo ponto determinado e em absoluta pro- 
porção com o material inflammavel, e não se pode retar- 
dar o seu declínio ou dar-lhe maior intensidade sem dispor 
do novo material correspondente. Não é isso uma simples 
comparação, pois que também aqui, como lá, regem as 
mesmas leis. 

Admittamos que Beethoven tivesse feito incidir no- 
vas forças depois do 6.** motivo : forçosamente o complexo 
teria de seguir evolução differente. Também para este 
caso nos fornecem as variações muitos exemplos. 

Na 3.*, 19.*, 20.*, 26.* e em outras mais encontramos, 
devido a novas forças incidentes depois do ponto culmi- 
nante, mais ou menos attenuada a rapidez de declínio 
própria ao thema. Em outras a evolução ascendente vae 
ainda além do 6.*^ compasso, principalmente na 32.*, onde 
as forças incidentes crescem até o íim, terminando assim 
este trecho no seu ponto culminante. 

Pode-se, pois, sabendo-se escolher as forças inciden- 
tes necessárias, dirigir e prolongar, de mil maneiras, a 
evolução dos complexos musicaes. Inexcediveis são, nessa 
arte, os três incommensuraveis génios Bach, Beethoven 
e, principalmente, Wagner, os quaes, depois de gigantes- 
cos crescendos, sempre dispõem de novas forças para ele- 
varem-se a ainda maiores alturas. 

Passamos agora ao estudo detalhado das differ entes 
phases da evolução çeral, examinando ao mesmo tempo 
a natureza das modificações, a que estflo sujeitas as for- 
ças em sua acção reciproca. 

Assim como nos apresenta o compositor a primeira 



-38- 

força (o 2.** motivo), que incide sobre o complexo germi- 
nante, é ella, em sua efficiencia, inferior a este, e, conse- 
guintemente, es effeitos consistem em um accrescim<i de 
vida e intensidade da força predominante ; accrescimo este 
que deve estar em proporção com a resistência a vencer, 
pois que, em qualquer conflicto, as forças inferiores síio 
sempre assimiladas por inteiro ou por parte, segundo as 
circumstancias, pelos complexos mais poderosos. Vemos, 
com effeito, reapparecer no 3.** motivo a i.* força, com 
maior potencia, devido aos elementos que lhe aífluiram 
da força incidente vencida e assimilada. Quanto ao rhythmo 
nada se alterou, mas os accordes e a posição mais alta 
dos sons que lhe dão maior effeito são elementos do 2.® 
motivo (*). 

O estudo de qualquer obra de Beethoven nos mostra 
como o seu espirito extraordinariamente lógico sempre 
sabe admiravelmente calcular os effeitos das suas combi- 
nações. Colloque-se, p. e., no thema, o 3.° motivo uma 
oitava acima ou abaixo, conservando-se o resto do con- 
juncto inalterado, e sentir-se-ha immediatamente a falta de 
lógica deste proceder. 

Para justificar taes desenvolvimentos, que em. si não 
são impossíveis, deveriam anteceder-lhes os elementos cor- 
respondentes, e também o seguinte seria necessariamente 
influenciado por estas forças, de outro modo do que no 
original. Além disso pode também, emquanto se manifestam 
ainda os effeitos immediatos do encontro entre duas ou 
mais forças, sobrevir qualquer nova força, tomando então 
a evolução uma direcção imprevista. P. e. um sostenido 
antes da i.* nota do 4.** compasso mudaria já bem sensi- 
velmente o caracter do 3.° motivo e com isso também o 
aspecto da peça inteira. 



(*) Quanto a esta e outras asserções congéneres n'este trabalho» 
não podemos apresentar provas palpáveis. Também não as admittirá nem 
siquer as comprehenderá senão quem tiver grangeado o alto ponto de vista, 
em que se coUoca Alexandre Bain no seguinte trecho: «La loi de la quan- 
tité, dont les mathématiques sont le développement complet, domine toutes 
les formes de Texistence. 11 est vrai néanmoins que les calcules numériques 
s'adaptent plutôt aux propriétés de Tobject, comme Tespace, les dimensions» 
le poids, etc. Nous n*avons pas le moyen d'estimer numériquement les 
plaisirs et les peines. Cette circonstance, qui est un grave obstacle aux 
progrès de la science de Tesprit, provient non pas de ce que les phéno- 
mènes de Tesprit échappent à la loi de la quantité, mais de ce que nous 
sommes impuissants á trouver une mesure completement éxacte, d*après 
laquelle nous puissions calculer tous les degrés de la sensibllité Nous 
avons sans doute la conscience de Tinègalité de nos plaisirs, de nos émo> 
tions, de nos désirs, mais il nous serait difficile d'établir exactement ces 
degrés par des expressions intelligibles, qui puissent être retenues, et com- 
muniquées aux autres». (Logique déductive). 



- 39 — 

Entre o numero infinito de forças incidentes imagi- 
náveis em lugar do 2.** motivo original é sufficiente apon- 
tarmos dois casos especiaes: Substituindo-se as notas da 
2.** motivo pelos silêncios correspondentes e ficando assim 
a força incidente reduzida ao accorde de dominante na 
mão esquerda, é verdade que o 3.** motivo pode succeder 
tal qual o encontramos no original; emquanto, porém, 
para a vista a linha ascendente conservpu-se inalterada, o 
nosso sentido auditivo, o nosso sentimento musical apu- 
rado exigem uma execução mçnos enérgica do 3.^ motivo, 
o que é muito natural, tendo, neste caso, affluido á força 
predominante elementos novos menos importantes. 

Pelas mesmas razões tornar-se-hia muito mais frouxo 
o desenvolvimento do complexo, si, em vez das harmonias 
originaes dos compassos 3 e 4, escolhermos a dominante 
e tónica de do menor, que, neste ambiente, são de muito 
menor força incisiva. 

Do mesmo gérmen podem pois, segundo a natureza 
das forças incidentes, nascer innumeros complexos diffe- 
rentes, mas sempre ligados, mais ou menos, pelo paren- 
tesco proveniente da egual origem, e reflecte-se, assim, 
também neste dominio, apparentemente tão diverso e 
afastado, a unidade da natureza em todas as suas mani- 
festações. 

Tudo o que acabamos de dizer a respeito da forma- 
ção do complexo encerrado nos 4 primeiros compassos 
vigora igualmente para as partes restantes. 

Os motivos 5 e 6 e o segundo motivo são de origem 
commum (confira-se com as observações feitas nos N.^^ 10-12 
do III.° vol. d'esta Revista) e, como as forças adversarias tem 
agora deante de si um complexo mais poderoso, forçosa 
é dotal-os com maior potencia, para que seja, segundo os 
designios do compositor, conservada a linha ascendente. 

Fal-o Beethoven com os dois golpes consecutivos de 
tão enérgico effeito. Mas, também desta vez, prevalece o 
complexo principal, e, sem a entrada imprevista do 6.*^ 
motivo, repetir-se-hia, em superior degráo, o mesmo que 
já tivemos occasião de ver na formação dos primeiros 
quatro compassos, impondo-se, então, ao desenvolvimento 
a seguinte direcção : 

No 6.° compasso: (com o accorde de 4.* 6.* de do 
menor) | soF' (colchea); pausa de colchea; sol* (seminima 
com ponto); colchea | 

No 7.° e 8.** compasso: (Em cadencia authentica e no 
rhythmo do i.** motivo) | pausa de seminima; si*'; re'" | 
do"*; do*'; pausa de colchea | 

Já observamos acima que, apezar da força incidente 



— 



— 40 — 

tão poderosa, representada pelo motivo n.*^ 6, o compositor 
teria podido levar o organismo musical a proporções maio- 
res, si o tivesse auxiliado cora novas forças de sufficiente 
efficacia, e como isto não acontece, claro está que deve 
começar neste ponto a evolução descendente, a phase 
rápida e definitiva de dissolução. 

Nas modificações a que são sujeitas as forças, depois 
do seu encontro, representam papel saliente também os 
phenomenos discutidos nos pontos P e Q. Em um complexo 
tão curto, como o é o thema Beethoveniano, cae menos 
na vista a união, segundo a sua affinidade, das partes 
desaggregadas pelo embate das forças. Notam-se, entre- 
tanto, também aqui começos distinctos de segregação. 

Nos primeiros quatro compassos o motivo incidente 
não tem ainda força sufficiente para desmembrar o i.** 
motivo. Na segunda metade do thema, vemos, porém, for- 
marem-se, nos compassos 4, 5 e 6, os primeiros grupos 
relativamente homogéneos, pois o 6.° motivo não é senão 
uma particula do i.^ motivo, consideravelmente reforçada 
por outras forças. Segundo agrupamento apresentam os 
motivos 8 e 9. 

Comquanto, com estes pontos, não esteja, nem de 
longe, exgottado um assumpto tão vasto, como é o nosso, 
damos por terminado o nosso trabalho. Ahi estão lança- 
das, embora com todos os defeitos e insufficiencias inhe- 
rentes a um primeiro ensaio neste género, bases positivas 
para investigações que outros, mais hábeis e perspicazes, 
poderão fazer a respeito. Devemos abandonar o campo 
das conjecturas metaphysicas, ainda hoje tanto em voga 
não só na musica, mas em todas as questões de esthetica, 
pode-se mesmo dizer em todo o nosso modo de sentir e 
de pensar. Com as armas modernas das sciencias positi- 
vas, preparadas pelos grandes pensadores do século pas- 
sado, já estamos habilitados a substituir as vagas expres- 
sões e os indefinidos sentimentos da velha escola meta- 
physica por dados positivos e, longe de perderem com 
essas analyses que a muitos poderão parecer destructoras 
do ideal artistico, realçar-se-hão as bellezas das obras 
immortaes, crescerá sempre mais a nossa admiração pelos 
génios artísticos que, com um material imponderável, fi- 
nissimo, guiados somente por um subtilissimo sentimento 
para as proporções e o jogo das forças, souberam crear 
obras divinas de uma lógica perfeita. 



— 41 — 



Sessão de 30 de Dezembro de 1908 

O Sr. Reynaldo Ribeiro, tratando dos tremores de terra, 
diz o seguinte : 

A propósito do desastre que assolou Reggio e Mes- 
sina, convém recordar que os vulcões se acham dispostos 
em linhas mais ou menos rectilíneas e que a sua maior 
actividade se encontra exactamente no cruzamento doestas 
linhas. 

Pelos cálculos de Fuchs, ha actualmente em activi- 
dade 323 vulcões, formando zonas, cujas principaes são 
as do Pacifico e a transversal do Atlântico. 

Uma das zonas ou linhas desce pelo littoral da Ásia 
Oriental até Sonda, de onde toma a direcção de Nova 
Zelândia. Esta linha é cortada por outra, que vae da Bir- 
mânia ao archipelago das Ilhas Baixas, passando pelas ilhas 
dos Navegantes, Amigos, etc. Só neste cruzamento ha 
cerca de 150 vulcões dos mais violentos. Outra linha é a 
que segue a costa occidental da America, desde as ilhas 
Áleucianas até a Terra do Fogo, sendo ainda atravessada 
por uma outra que se dirige das ilhas Sandwich para a 
America Central, seguindo depois pelas Antilhas, Madeira, 
Canárias, Mediterrâneo, onde forma os vulcões da Itália 
e suas ilhas, indo terminar no Cáucaso. Ha ainda a zona 
do Atlântico que comprehende a ilha de John Mayen, 
Islândia^ Açores, C. Verde, S. Helena, Ascençâo e Tristão 
da Cunha e bem assim uma outra zona no Oceano Indico, 
de importância secundaria. 

um facto que se tem notado é a existência dos vul- 
cões nas linhas de fracturas da crosta, achando-se quasi 
todos elles situados nos littoraes ou em ilhas, parecendo 
não lhes ser estranha a influencia das grandes massas 
de aguas. 

Não se pôde ainda estabelecer com precisão a causa 
dos vulcões, havendo diversas hypotheses para explicar a 
sua origem. Querem crer alguns "geólogos que a infiltração 
da agua a grandes profundidades deve concorrer para as 
suas explosões; outros entendem que são eff eitos de re- 
acções chimicas que se dão nas entranhas da terra; a causa, 
porém, mais acceita e mais racional é que os vulcões têm 
origem nos logares, onde ha montanhas em formação. 



— 42 — 

resultando contracções da crosta, as quaes comprimem e 
expellem as lavas para o exterior. 

Os sismos, terremotos ou tremores de terra podem 
ter diversas causas: abatimentos de terrenos pela dissolu- 
ção de massas salinas que lhes servem de base, despren- 
dimentos de aludes (avalanches), deslocamento interno de 
gazes, vulcões abortados, cuja força não foi sufficiente 
para romper a crosta. 

Os tremores se propagam a grandes distancias, com 
intensidade decrescente e em ondulações ellipticas, mais 
ou menos irregulares, conforme a natureza dos terrenos e 
que se podem communicar também ás aguas do mar, for- 
mando as vagas de translação, tão perigosas e tão temidas. 

Para se mostrar a facilidade de transmissão das vi- 
brações, cita-se o caso da explosão de um deposito de 
dynamite em New- York, cujo tremor resultante foi accusado 
pelos apparelhos dos observatórios de Cambridge, Boston 
e Washington. 

O foco do sismo acha-se numa vertical tirada do 
centro da ellipse ou epicentro, que é o logar da superficie 
da crostra, aonde primeiro chega a vibração, a uma pro- 
fundidade que varia entre 250 a 50.000 metros. 

. Em seguida fala o Sr. Belfort Mattos sobre as ultimas 
temperaturas elevadas, observadas em S. Paulo, ligando-as 
com os ventos norte e nordeste. 

Sessão de 14 de Janeiro de 1909 

O Dr. Roberto Hottinger fala sobre dois novos me- 
thodos de dosagem da fermentação e liquefacção da gela- 
tina, cujo trabalho já foi publicado no ultimo numero 
desta Revista. 

Sessão de 21 de Janeiro de 1909 

O Dr. Affonso Splendore apresentando preparações 
microscópicas referentes a uma observação feita em um 
caso de impaludismo faz as seguintes observações sobre 
o assumpto. 

Caso clinico : — J. S. portuguez, de 28 annos de eda- 
de, trabalhador, residente no Brazil ha vários annos; não 
se lembra ter tido doenças dignas de nota. — Conta que, 
achando-se em os campos de Bauru, onde então reinava 
uma epidemia de malária, era em principios de Novembro 
ultimo, isto é, ha uns três mezes, um dia foi acommettido 
de calafrios prolongados, seguidos de febre bastante alta» 



— 43 — 

a qual terminou com grandes suores, poucas horas depois. 
Semelhantes accessos repetiram-se em dias alternados^ 
durante algum tempo, até que, com o uso quotidiano de 
uma pastilha de quinina e de gottas arsenicaes, tomaram- 
se mais fracos e mais espaçados; ultimamente os inter- 
vallos eraih de 6 a 8 dias. 

O doente, desejando curar-se radicalmente, a 20 de 
Janeiro entrou no hospital da R. e B. Sociedade Portu- 
gueza de Beneficência, aonde, no mesmo dia, foi submet- 
tido a um exame geral. 

As faces do doente apresentavam uma coloração térrea 
e elle tinha um ligeiro tumor do baço. 

O exame microscópico do sangue, tirado á hora do 
meio dia, deu o seguinte resultado: — escassíssimas formas 
esporuladas e raros gâmetas do hematozoario da terçan 
benigna, como também escassos glóbulos vermelhos para- 
sitados com granulações de Schtiffner. 

A temperatura do paciente, na hora em que foi tirado 
o sangue, era de 36**,6 C. e elle disse não ter tido febre 
ha cerca de uma semana. A temperatura, tomada varias 
vezes por dia, durante a permanência do doente no hos- 
pital não era a de uma alteração febril. O doente sahiu 
do hospital uma semana depois. 

— Depois de algumas considerações sobre as curas 
expontâneas que se podem verificar na malária o Dr. Splen- 
dore diz que a attenuação do caso presente deve ser 
attribuida ao remédio tomado quotidianamente pelo doente, 
fazendo, porém, notar que, se as pequenas doses de* qui- 
nina, porquanto continuas, servem alguma vez para mitigar 
os accessos febris ou mesmo fazel-os desapparecer por 
completo, não são por si sufficientes para destruir o para- 
sita e não sào recommendaveis nem nas formas mais li- 
geiras do impaludismo, visto como a permanência do pa- 
rasita no sangue pode acarretar ò perigo das recidivas, 
cujos effeitos deletérios podem ser incalculáveis, especial- 
mente nos climas tropicaes, onde varias outras causas 
podem concorrer para o depauperamento do organismo 
atacado. 

Sessão de 28 de Janeiro de 1909 

Achando-se presente, pela primeira vez, o sócio cor- 
respondente Sr. Dr. P. S. Provazek, é saudado pelo Sr. 
Vice-presidente, Dr. Affonso Splendore, com as honras 
do estylo. 

O Dr. Splendore referindo-se de novo ao caso de 
impaludismo do qual havia tratado na sessão p. p., pedem a 



— 44 — 

palavra para discorrer sobre o mesrao assumpto os con- 
sócios Dr. Adolpho Lutz, Walter Seng, Roberto Hottinger 
e dizendo o seguinte o Dr. Provazek: 

Bei der Malária scheint eine Art von Chiningewõh- 
nung der Plasmodien vorzukommen, wie dies bereits bei 
den Trypanosomen auf Grund der Arbeiten von Ehrlich^ 
Breinl und Nierenstein bezíiglich des Atoxyls bekannt ist; 
die beiden letzteren Autoren fanden, dass die einmal er- 
worbene Atoxylfestigkeit des Trypanosoma brucei erhalten 
bleibt. Auch freilebende Protozoen kann man allmàhlich an 
hõhere Chininkonzentrationen gewõhnen; Colpidien ster- 
ben in Chininkonzentrationen von i:6ooo ab, passen sich 
aber innerhalb einer Woche nach und nach an eine Kon- 
zentration von 1:5300 an. 

Die Chininmenge wurde nachtrâglich quantitativ be- 
stimmt. Es wàre von Interesse, morphologisch derart gift- 
íest gemachte Protozoen zu untersuchen und zu bestim- 
men, ob nicht etwa besondere lipoidartige Granulaiionen 
des Protoplasmas das Alkaloid binden. Zíichtet man niim- 
lich Fãulnisamoeben in Lezithinlõsungen (V2 %), so treten 
nach einiger Zeit zahlreiche Lipoidgranulationen in der 
Sarkode auf und derartige Lezithinamoeben sind im all- 
gemeinen giftfester gegen Chinin ais die Kontrollamoeben. 
Sie sterben aber ab, sobald durch hõhere Temperaturen 
und andere derzeit unbestimmbare Faktoren die Lizithin- 
trõpfchen durch Verschmelzen sich vergrõssem und ihr 
Chinin an das eigentliche Protoplasma abgeben. 

Durch vergleichende Vitroversuche, die im «Biologi- 
schen Centralblatt» 1908-9 ausftthrlich verõffentlicht worden 
sind, konnte nâmlich der Beweis erbracht werden, dass mit 
<ler Grõsse der Tropfen die Oberflãchenspannung abnimmt, 
die Chininkonzentration auf der Oberflàche dagegen zu- 
nimmt und umgekehrt. 

Durch physikalische Entmischungen und Ober- 
ílàchenspannungsãnderunçen^ die ftir die vitalen Funk- 
tionen der Zelle von bis jetzt noch nicht ganz gewUrdigter 
Bedeutung sind, kõnnen in Verbindung mit den Lipoiden 
der Zelle bald Stoffe in die kleinen chemischen Alveolar- 
werkstâtten des Protoplasmas eingeleitet und wirksam 
gemacht, bald aber wieder von hier entfernt werden. 

Traducção : 

Na malária, parece que os plasmodios podem, de certo 
modo, habituar-se á quinina, como sabemos acontecer aos 
trypanosomas, relativamente ao atoxyl^ depois dos traba- 
lhos de Ehrlich, Breinl e Nierenstein; estes dous últimos 



— 45 - 

autores acharam que a resistência do tryp. Brucei ao ato- 
xyl, uma vez estabelecida, conserva-se. 

Podem-se habituar gradualmente» também protozoá- 
rios que vivem livres, a altas concentrações de quinina; 
os colpidios morrem em soluções de quinina a Veooo» ™^s 
adaptam-se, n'uma semana, pouco a pouco, a uma con- 
centração de ^5800- 

A quantidade de quinina foi depois determinada 
quantitativamente. Seria mteressante estudar morphologi- 
camente os protozoários de tal modo tornados resistentes, 
e vêr si especiaes granulações de natureza lipoide do 
protoplasma fixam o alcalóide. De facto, si se cultivam 
amebas da putrefacção em solução de lecithina (0,5 7o) 
apparecem, depois d'um certo tempo, no sarcodio, nume- 
rosas granulações lipoides e estas «lecithin-amebas» são 
em geral mais resistentes á quinina do que as amebas 
testemunhas. Porém, ellas morrem logo que, mediante altas 
temperaturas, ou outros factores ainda não bem determi- 
náveis, as gottas de lecithina, fundindo-se, augmentam de 
volume e cedem a sua quinina ao próprio protoplasma. 

Mediante pesquizas comparativas in vitro — que foram 
publicadas minuciosamente no «Biologisches Centralblatt» 
(1908 — 1909) — póde-se dar a prova de que, com o aug- 
mento de volume das gottas, diminue a tensão superficial, 
emquanto a concentração da quinina na superficie cresce 
e vice-versa. 

Por desmisturação physica e modificação da tensão 
superficial, que pelas funcções vitaes da cellula e que até 
agora não foram reconhecidas de importância, podem, 
juntamente com os Lipoides da cellula, ser introduzidas 
como matéria nas pequenas tendas chimicas alveolares do 
Protoplasma e tornarem-se activas para depois serem se- 
paradas daqui. ^ ^^^ 

O Dr. António Caríni, do Instituto Pasteur de São 
Paulo, — trata de duas hemogregarinas do Tupinambis Te- 
guixin (L.) e diz o seguinte : 

Tendo tido occasião de examinar, por varias vezes, 
o sangue de alguns exemplares de «Tupinambis tegui- 
xin» (^) encontrei hemogregarinas, que me parecem per- 
tencer a duas espécies novas. 



(') O Tupinambis Texiguin (L.) é um grande lagarto, que, com a 
cauda, pode medir mais de um metro de comprimento, não sendo raro nos 
campos do Estado de S. Paulo. Nossos lagartos foram apprehendidos vivos, 
por meio de «armadilhas» expressamente preparadas, nos arredores do Posto 
Zootechnico e nós os devemos á gentileza do Dr. Luiz Misson, director 



-46- 

i) Hemogregarina Tupinambisi, (^) Tem o aspecto 
de um vermiculo curvado ao redor do núcleo da hemacia. 
O núcleo guarda a sua posição; porém, quando a parte 
convexa do parasita é voltada para o núcleo, este é em- 
purrado para a peripheria do glóbulo. Não é raro encon- 
trar dois parasitas em um mesmo glóbulo. A hemogrega- 
rina mede 15 a 18 microns de comprimento para 3 e 4 
de largura. Das duas extremidades, uma é mais ou menos 
arredondada e a outra é mais delgada, quasi sempre do- 
brada sobre si mesma e fortemente adherente de modo 
<iue, nas preparações, as duas extremidades parecem ter 
a mesma forma. O núcleo muito longo (7 a 12 microns) oc- 
"Cupa a metade ou os dois terços do parasita e se encon- 
tra situado no meio d'este a uma mesma distancia das 
duas extremidades. 

Nas preparações coradas pelo systema de Giemsa ou 
pelo Leishman o parasita se destaca muito bem no glóbulo. 

Quando a coloração é fraca, o protoplasma é quasi 
incolor e, a chromatina nuclear apparece sob a forma de 
trabeculos transversaes, que devidem o núcleo em seg- 
mentos. 

Nas preparações coradas mais intensamente, o pro- 
toplasma tem uma còr azul pallida é se observam finas 
granulações chromaticas coradas em vermelho e dobras 
delicadas devidas provavelmente á retracção causada pela 
fixação. 

O núcleo com contornos bastante irregulares se cora 
uniformemente em violeta. 

Com um exame cuidadoso podem-se distinguir, ao 
lado das formas descriptas, que são as mais numerosas e 
que consideramos como formas masculinas, outras mais 



<l'aquelle estabelecimento, ao qual como reconhecimento, nós lhe dedicamos 
uma das hemogregarinas encontradas. 

Estes lagartos são bastante bravos e devem-se manejar com pru- 
dência, porque suas mordeduras podem produzir lesões extensas. Para bem 
segural-os, servimo-nos vantajosamente do laço, que se emprega para a 
captura das serpentes venenosas. 

Para retirar o sangue, destinado aos exames microscópicos, põe-se um 
bastão de madeira na bôcca do animal, a qual permanece assim aberta, e com 
a thesoura se faz uma pequena incisão n'uma veia que se vê no assoalho 
da bôcca, perto da extremidade do maxillar inferior, sobre a borda da bai- 
nha onde está collocada a língua. 

O O Dr. Adolfo Lutz, diz ter encontrado em um exemplar de Tejus 
Teguixin (synon. de Tupinambis Teguixin) uma hemcgregarina, que elle 
considerou idêntica ás hemogregarinas das serpentes, descriptas por elle 
como pertencendo a uma só espécie (drepanidium serpentium). 

Não tivemos occasíão de estudar minuciosamente as hemogregarinas 
que se encontram nas serpentes do Brasil, mas acreditamos que a hemo- 
•gregarina tupinambisi differe daqu^llas qne observamos nas serpentes. 



, ~ 47 — 

grossas, cujas extremidades são mais redondas, o proto- 
plasma claro corando-se mal, o núcleo oval e que acredi- 
tamos serem formas femininas. 

Todas estas formas têm pouca tendência a abando- 
nar o glóbulo, mesmo quando o sangue está fora do vaso. 

Nas preparações, os parasitas livres são sempre muito 
raros, sendo dotados de movimentos lentos. 

Os glóbulos parasitados não apresentam nenhuma 
alteração; entretento, encontram-se no sangue glóbulos 
vermelhos muito alterados e apresentando no seu interior 
um espaço oval claro correspondendo, muito provavel- 
mente, ao logar occupado pelo parasita. 

Esses glóbulos sem ter augmentado de volume, per- 
deram a forma oval e são irregularmente arredondados, o 
núcleo é deslocado; o protoplasma, nas preparações pelos 
methodos de Giemsa e Leishman, tm vez de ser verme- 
lho é violeta pallido apresentando-se cheio de granulações 
que devem ser análogas ás observadas por Billet nas 
hemacias invadidas pela «Hemogregarina viperinis» e pela 
«Hemogregarina do Bufo mauritanicus», e recentemente 
por França nas hemacias invadidas pela Hemogregarina 
Schaudini. 

Elias, entretanto, differem, porque nas hemacias pa- 
rasitadas observadas pelos auctores citados as granulações 
apparecem cedo emquanto que no nosso caso as granu- 
lações se mostram tardiamente, só quando o parasita aban- 
donou o glóbulo. Um lagarto que estava bem parasitado foi 
morto e com o sueco de diversos órgãos foram feitos 
frotiis^ que se coraram pelos methodos de Giemsa e Leish- 
man sem que se pudessem descobrir kystos ou formas de 
multiplicação. 

A pesquisa dos kystos foi também negativa nos cortes 
de órgãos incluidos na parafina e corados pela hemato- 
xylina-eosina. 

Sobre cinco exemplares de T. Teguixin examinados, 
encontramos três infectados; em dois casos os parasitas 
eram bem numerosos e podiam-se contar diversos exem- 
plares em cada campo microscópico. 

Os animaes não pareciam soffrer com a presença de 
hemogregarina. 

2. Hemogregarina Missoni — No sangue de um T. 
Teguixin, encontramos formas bastante differentes d'aquel- 
las que acabamos de descrever. Elias são sempre endo- 
globulares, reniformes, e medem unicamente de 8 a 9 
microns de comprimento sobre 2 V2'~3 ^^ largura. 



-48- 

O protoplasma se cora, com o Giemsa e o Leish- 
man em azul pallido, o núcleo situado no meio, oval ou 
redondo, se cora em violeta escuro. 

A posição do parasita no glóbulo não é sempre a 
mesma; ordinariamente elle é collocado perto de uma 
extremidade, com a parte concava voltada para o núcleo 
da hemacia. Esta não é alterada e seu núcleo guarda a 
sua posição. 

Acreditámos a principio que estas formas pudessem re- 
presentar individuos jovens da hemogregarina Tupinambisi, 
mas repetindo muitas vezes o exame do sangue, com se- 
manas de intervallo, observámos : 

i) que nos individuos infectados pela hemogregarina 
tupinambisi nunca se encontram formas pequenas análo- 
gas á que acabamos de descrever. 

2) que nos lagartos que apresentavam essa forma 
menor faltava a forma adulta da hemogregarina tupinam- 
bisi. (^) 

Baseando-nos sobre essas considerações e sobre a 
differença morphologica, consideramos, até prova contraria, 
essa hemogregarina como pertencendo a uma espécie nova 
e propomos o nome de Hemogregarina MissonL 

O Dr. Splendore refere-se a uma communicação pre- 
liminar feita á Sociedade, numa sessão do anno passado, 
sobre um novo sporozoario, por elle descoberto no figado 
de um peixe pertencente á familia dos Xamulidae e apre- 
senta preparações microscópicas de material fresco, relativo 
ao mesmo, dando varias explicações. 

Trata-se de um micro-organismo que se encontra nos 
tecidos do orgam affectado, em grupos de variado numero 
de sporoblastos redondos, cada um dos quaes contendo 
um numero de quatro sporocystos dizoicos. Cada grupo 
parece representar um pansporoblasta, distinguindo-se no 
meio dos mesmos sporoblastas um grande numero de 
granulações amarelladas, como também um núcleo redondo, 
cujo diâmetro é um pouco menor do de um delles, cuja 
dimensão varia de 8o a loo micromillimetros. 

Deste novo parasita que o Dr. Splendore crê deve 
ser considerado como myxococcidio, serão dados pelo 
mesmo noticias mais detalhadas em ulterior trabalho. 



(^) Somente, depois de diversos mezes, durante os quaes os lagartos 
estiveram juntos na mesma gaiola, conseguimos encontrar no mesmo lagarto 
formas idênticas á hemogregarina Tupinambisi. Pensamos que houve uma 
dupla infecção. 



— 49 — 

Sessão de 11 de Fevereiro de 1909 

O Sr. João Weffer trata da pessoa do, nos últimos 
tempos muito falado viajante sueco, Dr. Gustavo Bayer, 
cujo trabalho vae publicado n*este fasciculo. 

O Dr. Rob. Hottinger expõe um novo processo para 
revelar placas de Petri nas quaes já se tinha empregado 
o methodo de Drygalski, para differenciar o bacillo coli 
do bacillo do typho, quando as mesmas já estão comple- 
tamente vermelhas. 

Sessão de 18 de Fevereiro de 1909 

O Dr. Rob. Hoftioger prosegue na exposição de seus 
trabalhos já referidos em sessão anterior, desenvolvendo 
o seu methodo, que permitte fazer voltar a côr caracte- 
ristica das culturas relativas aos bacillos do typho e coli, 
e dá o resultado de suas ultimas pesquizas. 

O Dr. Ant Carini referindo-se a estas pesquizas ob- 
serva o grande valor que têm os raethodos empregados 
para o reconhecimento e i>ara isolar, nas matérias fecaes, 
os bacillos do typho e indica o modo como se faz hoje 
a luta contra esta moléstia na Allemanha e em vários 
paizes da Europa. 

Sessão ordinária de 4 de Março de 1909 

O Dr. Splendore communica ter observado um novo 
caso de sporotrichose lymphangitica gommosa num moço, 
cujas lesões se achavam espalhadas no membro superior 
direito, consistindo numa ulceração (lesão primitiva) do 
tamanho mais ou menos de uma moeda de loo rs. com 
bordos minados, loca Usada no terço inferior da região do 
braço, e mais um numero de 15 nódulos de tamanho va- 
riado, desde o de um grão de bico ao de uma pequena 
avelã, sendo os maiores os mais próximos da lesão primi- 
tiva, evidentes pelo entumescimento e pela côr um pouco 
^vermelhada da pelle; os menores, os próximos da cavidade 
axillar, que eram palpáveis porém invisiveis. 

Ditas lesões estirpadas cirurgicamente, foram submet- 
tidas ao estudo histológico e bacteriológico, dando as cul- 
turas relativas desenvolvimento de numerosas colónias de 
sporotrichum, cujos caracteres macro e microscópicos são 
bastante semelhantes aos do micro-organismo isolado de 
homens e ratos, descripto em trabalho anterior. 

O Dr. Splendore expõe alguns detalhes clínicos sobre 



— 50 — 

os caracteres differenciaes das formas de sporotrichoses 
até agora observadas, fazendo notar que o presente caso 
representa o 6.** de uma serie por elle estudada no Brazil, 
pertencendo todos estes á mesma cathegoria, caracterisada 

Kor formação de gommas em correspondência dos vasos 
ympathicos de um membro. 

Para con validar a sua exposição apresenta uma pho- 
tographia e vários fragmentos de material anatomo-patho- 
logico e culturas ao caso relativas. 

O Dr. W. Scng tratando do mesmo assumpto, dis- 
corre sobre o methodo de cural-o. 

O Dr. João Wetter lê a traducção de uma noticia 
sobre a descoberta de uma raandibuíà humana fóssil na 
AUemanha que é do seguinte teor : 

Perto da aldeia de Mauer, a distancia de lo kih. da 
cidade de Heidelberg (AUemanha), no valle d*um riacho 
«Elsenz» — affluente do Neckar — existe um areal em 
exploração já ha muitos annos — para extracção de areia 
para construcções — , aonde, no decorrer dos tempos, já 
foram encontrados numerosos restos de esqueletos ani- 
maes, principalmente de mammiferos. Esta circumstancia 
levou o Dr. O. Schoetensack a ligar especial attenção á 
existência muito provável também de ossadas humanas. — 
No mez de Outubro de 1907 descobriu-se, de facto, uma 
mandíbula tnaxilla inferior humana, de bastante interesse 
e que facilmente poderia ser julgada proveniente d*algum 
animal se não fossem as condições da dentadura que não 
pode ser senão de origem humana. 

A mandibula encontrou-se n^uma profundidade de 
24,10 m. abaixo da superficie e só 87 cm. acima do fundo 
do areal. O perfil do areal mostra certo numero de ca- 
madas em 8 grupos differentes, sendo de cima para baixo 
I.**, Loess recente (^5,74 m. de espessura), 2.°, Loess an- 
tigo (5,18 m. de espessura) e 3.** grez^ com intercalações 
de argila, no fundo do areal. 

Neste 3.° grupo reconhecem-se 23 estratificações dif- 
ferentes, achando-se a mandibula na quarta estratificação 
de baixo. 

Faltam nesta camada restos do «Elephas primigenius» 
(Mammuth), sendo este substituido pelo «Elephas antiquus». 
Quanto á época geológica os fosseis de mammiferos e ou- 
tros encontrados indicam o periodo do Plioceno ou da 
época terciária recente. 

E' de suppôr que a mandibula encontrada e deno- 
minada pelo Dr. Schoetensack «Homo heidelbergensis» 
seja o resto humano mais antigo até agora descoberto, 



- 51 - 

pertencendo, senão á época terciária remota, ao menos 
aos terrenos de transição entre o Pliocenio e o Dilúvio. 

A mandíbula do «Homo heidelbergensis» impõe-se, 
á primeira vista, pela sua fofma voluminosa e massiça, 
tanto na symphise como nas partes lateraes e ramos, o 
que poderia induzir á supposição de se tratar talvez d'um 
resto de anthropoíde. O desenvolvimento insufficiente dos 
dentes caninos, porém, e a falta de adaptação do primeiro 
dente praemolar ao dente canino superior demonstram a 
necessidade absoluta de classificar a mandibula como per- 
tencente ao genus «homo» : Os dentes estão aliás, em des- 
proporção evidente com a mandibula volumosa e peque- 
nos demais para esta, veriíicando-se ainda certas particu- 
laridades em que differem do typo dos dentes do homem 
actual. O numero dos tubérculos dos dentes molares é de 
cinco — a excepção de um único dente — , particularidade 
que se encontra hoje exclusivamente na raça dos austra- 
lios ainda. O «cavum pulpae» dos dentes molares é, ou- 
trosim, de dimensão considerável. 

Outra particularidade é a ausência completa da apó- 
physe geniana (queixo, mento). 

Os ramos ascendentes da mandibula são de largura 
considerável, medindo nas eictrem idades superiores até 
6o mm., ao passo que a média no homem europeu actual 
é de ^7,4 mm. 

Outra particularidade constitue a ausência da margem 
básica da symphise — formação que H. Klaatsch verificou 
egualmente em mandibulas de lepresentantes da raça 
oceânica, denominando-a «incisura submentalis». 

Coílocando-se a mandibula sobre uma meza horizon- 
tal, reconhece-se que só as partes lateraes da mandibula 
tocam na meza, emquanto a região mediana conserva-se 
livre no espaço n*uma extensão transversal de so""*. 

Conforme as explicações do Dr. Schoetensack a man- 
dibula do Homo heidelbergensis representa uma forma 
de transição entre a mandibula do homem europeu actual 
e a do negro africano. No resto, a mandibula encontrada, 
apezar de excluir a dentadura toda e qualquer duvida quanto 
a sua qualidade de fóssil humano, parece approximar-se 
do ponto de partida dos anthropoides. 

Entre as mandibulas já conhecidas do homem do 
dilúvio remoto á do Homo heidelbergensis assemelha-se 
bastante com a do esqueleto de Spy I (Bélgica), sendo, 
porém, de dimensões muito mais consideráveis, e como a 
mandibula de Heidelberg corresponde, nos seus principaes 
característicos, a um período precursor da mandibula de 
Spy, podemos designar o «Homo heidelbergensis» como 
precursor da raça de Neandertal ou «praeneandertaloide». 



_ 52 - 

o Dr. Splendore faz referencias sobre um novo caso 
de blastomycose generalizada^ por elle observado n' estes 
últimos dias, cujos caracteres clínicos são muito seme- 
lhantes a outro caso por elle communicado á Sociedade 
n'uma sessão do anno passado. Tanto este novo caso 
como o outro, tfem as suas localizações primitivas na mu- 
cosa da bocca, mas não é idêntico, ao mesmo quanto 
á microbiologia, sendo que emvez de corpos redondos 
pseudococcidicos como aquelle, apresenta incluidas em 
cellulas gigantes, nos tecidos patnologicos, enorme nu- 
mero de corpos pequenos (2 — 6 microns de diâmetro) de 
forma frequentemente oval, geminados e ligados em ca- 
deias de vario numero de elementos. 

Taes corpos foram encontrados não somente em 
fragmentos de tecidos cortados da mucosa da bocca, mas 
também numa glândula lymphatica supraclavicular, e até 
em raras cellulas vescicaes (exame da urina). 

Os materiaes pathologicos desenvolveram nas cul- 
turas numerosas colónias de um blastomycete, cujos ca- 
racteres estão sendo estudados. 

Parecem existir em S. Paulo, pelo menos, duas espécies 
de microorganismos capazes de determinar as formas cli- 
nicas assim chamadas olastomycoses generalizadas tendo 
localização primitiva na mucosa da bocca. 

O Dr. Hotfinger apresenta placas de agar e tornesól 
sobre as quaes tinha cultivado colónias de bacillos de 
typho e de coli, nas quaes tinha applicado o seu methodo 
de revelação com vapores de carbonato de amoniaco e 
que mostravam os bacillos de typho uma côr azul, os de 
coli uma côr de rosa. 

Ao mesmo tempo apresenta tubos capillares, finissi- 
mos, dos quaes de serve para prova de agglutinação, ou 
mobilidade. 

Tomam parte nesta discussão os Drs. Seng e Carini. 

Sessão de 11 de Março de 1909. 

Communica o snr. presidente o fallecimento do sócio 
correspondente Dr. Barboza Rodrigues e sob a proposta do 
sr. I secretario dr. João Motta, o presidente nomeia os 
srs. Drs. Oswaldo Cruz e Adolpho Lutz, sócios residentes 
na Capital Federal para apresentarem a familia do illuslre 
scientista sentidas condolências. Faliam ainda, referindo-se 
as obras do fallecido os srs. Drs. Puiggari e Edwall 

Estando presente o Dr. António barros Barreto, só- 
cio fundador, recentemente vindo do Rio de Janeiro, aonde 



- 5â- 

desempenhou as fdncções de Delegado do Governo Elsta- 
dual na Exposição nacional, o sr. presidente saudou-o, ' 
não só lembrando os relevantes serviços prestados ao Es- 
tado mas também agradecendo, em nome da Sociedade 
Scientifica, o interesse que teve para com essa, esforçan- 
do-se que também a nossa aggremiação scientifica fosse 
premiada com a medalha de ouro pelos seus trabalhos 
expostos. 

O Dr. Barros Barreto agradecendo, divaga sobre os 
attestados vivos do espantoso adiantamento obtido pelo 
ensino e pela instrucção particular no Brazil, isso tanto 
relativamente ao desenvolvimento scientifico como quanto 
ao material escolar, livros, mappas, coUecções etc. 

Refere-se mais aos bellos trabalhos de geologia, mi- 
nas, geographia, hydrographia etc. que teve occasião de 
estudar no recinto da exposição, e, depois de longa ana- 
lyse, sobre as cousas expostas no grande certamem, con- 
clue, que o enorme progresso observado deve-se a liber- 
dade do ensino e das profissões garantida pela nossa 
Constituição. 

Depois de falar largamente sobre o assumpto o Dr. 
João Motta propõe o seguinte voto de agradecimento: 

«Proponho que se lance na acta de hoje um voto 
de agradecimento pelos grandes esforços empregados pelo 
consócio Dr. Barros Barreto, para fazer realçar o Estado 
de S. Paulo na Exposição Nacional». 

Esta proposta foi acceita por unanimidade de votos. 

flÍDiSOS 

Numa das próximas sessões tratará o Sr. Dr. Hot- 
tinger das theorias modernas sobre a Evolução, havendo 
para esta sessão convites especiaes. 



if- 



- V 



AUR ? ? 1910 . 

VOL IV 13) 1?^ lir v»BMmiM/ u.i» ...iu I^. 



ê' 



1909 

DA 



DA 

Sociedade Scientifíca 

DE 

iAO PAOLO 

REDACÇÃO: Prof. DrrKoberto Hottinger e Dr. Edmundo Krug. 

SEDE DA SOCIEDADE: 
Avenida B. Ltiiz António, 12 <^ S. PAULO <s> Brazil 

SUMMARIO: 

1. Yporanga por Edmundo Krug. 

2. Sessões : 

Dr. A. Splendore sobre as ulceras de Bauru. 



yporanga 

POR Edmundo Krug 

Yporanga-Agua bonita 

Já tratei em artigos separados, n*esta Revista, da hos- 
pitaleira Xiririca; já transcrevi documentos relativos a Yva- 
porundiva ou Yvaporunduva, agora chegou a vez da pitto- 
resca Yporanga. 

Já conhecem os meus leitores sufficientemente, pelas 
minhas descripções anteriores, as extraordinárias bellezas na- 
turaes^ situadas entre Xiririca e este logar, que fazem go- 
zar o despreoccupado excursionista durante um agradável tra- 
jecto, em canôa,na grandiosa Ribeira; para comprovar as mi- 
nhas affirmativas dou neste numero algumas gravuras; tomar- 
me-ia enfadonho, si quisesse recapitular e remoer o que já foi 
dito tantas vezes em conferencias e em o meu trabalho 
sobre a <Ribeira de Iguape>; também o meu intuito não 
é narrar novamente estas deslumbrantes bellezas, nem tra- 
tar da fertilissima zona; tão pouco pretendo analyzar riquezas 
mineraes contidas no solo desta grandiosa região, ou tran- 
sitar por magestosas sylvas prehistoricas, virgens, impene-. 
traveis; hoje quero tratar do histórico do logar, da funda- 
ção de Yporanga. É um homenagem que cumpro para com o 
hospitaleiro povo do logar, a quem dedico este meu des- 
pretencioso trabalho. 



— Õ6 — 

Um dos primeiros viajantes que escreveu sobre Ypo- 
ranga foi Carlos Rath, o geographo allen^ão, nascido em 
Túbingen (Wiirttenberg), que, em portugnez pouco gram- 
matical, nos deu uma pequena descripção do logar, igno- 
rando eu, si este documento que transcrevo por completo no 
fim deste trabalho, já tivesse sido publicado anteriormente. 
Sou de opinião que um geographo bem preparado como 
era Rath não dey^a descrever um logar qualquer em cin- 
co ou seis palavras. Yporanga é mais digna do que aquillo 
que elle nos legou. Diz este viajante, no documento a <\}xe 
me refiro e que deve ter sido escripto no anno de 1852 
ou 1854, o seguinte: 

<Na freguezia conta-se pouco mais ou menos 
30 casinhas, uma Capella e uma cadeia; consiste 
em uma rua, e as outras casas espalhadas; lugar 
bem triste que se pode ver nas margens da Ribei- 
ra. As montanhas de granito e de schistos argiUo- 
sos primitivos são mui próximos. A única vista que 
se tem. Ribeira abaixo para as cachoeiras, é de 
um quarto de légua. As capoeiras e os mattos a- 
foga a gente. 

A antiga povoação foi situada algumas léguas 
por cima do ribeirão,* onde se chama os Pinheiros. 
No mesmo lugar acha-se ainda valias grandes, des- 
vios do Ribeirão este, provavelmente das lavras 
de ouro. Serviços grandes e antigos da primeira 
povoação que viveu só da mineração de ouro. Ago- 
ra não se trata mais deste serviço, por não fazer 
mais conta.> 

É só sobre o logar. 

Si analysarmos bem este trecho, é licito confessar que 
do anno 1854 para cá se modificou bem o pittoresco e 
agradável logar. Façamos antes de tudo uma narração e- 
xacta do actual Yporanga. 

A canoa em que seguimos, Ribeira acima, que nos 
levou com tanta segurança atravez das fortes cachoeiras 
do Poço Grande^ Caracol e Funil abriga-se sob o verdejante 
tecto de um vistoso Pau d* Alho. e, junto com outras mui- 
tas, de diversas procedências, descança, amarrada no pró- 
prio varejão do hábil canoeiro, da viagem que fez de 
Xiririca para cá. 

Saltando-se por cima de duas ou três embarcações que 
nos atravancam o caminho, pisa-se logo em chão firme do 
pittoresco porto semicircular para galgar immediatamente 



♦ Ribeirão de Yporanga. O Autor. 



— 57 — 

a Íngreme escada, em bruto; de 53 degraos, obtidos de la- 
ge calcarea das próximas serras. Uma inscripção, mal aca- 
bada, feita com ferro ponteagudo no ultimo degrao, reza: 
Cheia 2S'S'dU o que nos indica que também este logar se- 
ria bem perseguido das innundaçôes, tal qual aquellas que 
obrigaram a mudança (ie Xiririca, si Yporanga não tí- 




(Cliché da Cora. Geogr. e Geolog., S. Paulo) 

Itaúna ou ^aguary 

vesse sido construida em logar alto, para se ver resguar- 
dada de taes phenomenos. A vinte passos desta escada 
topa-se com uma segunda escada, mais bem feita, de 9 
degraos; subindo-a, achamo-nos no vasto pateo da igreja. 
A agradável apparencia deste edifício, as formas proporcio- 
nadas da torre, executada n*um estylo gothico e ingénuo, 
retem-nos, como architecto, para admirarmos a habilidade 
do pedreiro que a edificou. Sentimos, porem, immensamente, 
que o corpo da igreja seja feito de taipa e de pau-a-pique, 
com telhado muito saliente, sem esmero algum, estando 
até em plena desharmonia com o restante. 

A igreja é o ponto central de todo o logar; dahi 
sahem as ruas que vão aos diversos pontos da povoação, 
e neste mesmo logar, no pateo da igreja, acham-se os arma- 
zéns mais importantes que suprem os moradores da villa e os 



L, Soo. /^* ^^^ 7 . ^^Físpr 



— 58 — 

proprietários dos sítios, distantes dous ou três dias de ca- 
noa, no Rio Pardo, Rio Turvo e Ribeira acima etc. Ha 
entre estes armazéns alguns de considerável importância 
attendendo-se ás necessidades da povoação, e é, principal- 
mente aos domingos e dias santificados, dentro delles que 
se manifesta a parte mais interessante da vida do povoado. 
Individuos vestidos de bombachas estão assentados so- 
bre o balcão, palestrando, rindo-se, matando a sede e offe- 
recendo algum refresco ao amigo ou despreoccupado ob- 
servador; mulheres regateiam e compram d'este ou daquel- 
le obsequioso caixeiro um lenço de cores, alguns metros 
de chita ou um enfeite qualquer. E todos são attendidos 
da mais cordeal maneira, sahindo sempre satisfeitos do ne- 
gocio, e convencidos de terem feito boa compra. Roceiros 
de longe offerecem suas mercadorias em troca deste ou 
daquelle indispensável instrumento para a lavoura, ou pro- 
põem a barganha de sua colheita de arroz ou de milho ao 
proprietário, com vantagem reciproca. E' natural que o pro- 
prietário do armazém saia lucrando, saia ganhando bem, 
mas, attendendo ás circumstancias do negocio firmado, nada 
pode-se oppor a um lucro de 30 a 40*7^^. 

Sabendo um roceiro que fulano ou cicrano vem á 
zona afim de estudal-a, com habilidade e cortezia chega-se 
a elle contando-lhe as riquezas auriferas existentes, as cu- 
riosidades que ha por ahi, narrando-lhe, por vezes com 
bastante phantasia, observações extraordinárias que se ti- 
zeram em tal e tal anno, convidando-o gentilmente, por fim, 
a fazer uma excursão ao seu sitio, onde, sendo o convite 
acceito, se é hospedado com lealdade e satisfação, convi- 
dando-o a fazer uma excursão ás bellissimas grutas calca- 
reas da zona ou para observar as aguas esguichantes do 
maravilhoso Varadouro. 

Quanto ás narrações que ahi se ouvem deve-se dar 
o menor credito possivel, devido a deducções pouco lógi- 
cas que são feitas por estes habitantes, na maioria pou- 
co escrupulosos em matéria de observação. 

Digo isto, porque ha pessoas que tem viajado por ahi, 
scieniistas de nome obscuro, que pretendem propalar tudo 
que ouvem como sendo verdadeiro, sem ter feito observa- 
ções próprias e prejudicando completamente o desenvolvi- 
mento da zona com phantasias extravagantes e sem valor. 

Não se presume que seja enfadonho viver entre esta boa 
gente por algum espaço de tempo, pelo contario: as cons- 
tantes narrações que se ouvem disto e daquillo, as festas 
tradiccionaes a que se assiste, os casos supersticiosos que 
são contados com tanta graça, as observações erróneas 
que são feitas pelos roceiros da circumvisinhança do logar 



^"^TT* 



~ 59 — 

e descriptos como factos irrefutáveis, são todos factores 
que nos mantém constantemente em actividade intellectual, 
não deixando-nos succumbir pelo enfado, como acontece em 
outras localidades do interior do nosso Estado. 

Eu desviei do assumpto, peço excusas. 

A viUa, hoje, pela nova lei eleitoral, cidade, não se 
compõe de uma só rua, como diz Carlos Rath, mas sim 
de seis ruas mais ou menos longas e estreitas, cujas habi- 
tações, baixas, são construidas, na maioria das vezes, de 
taipa ou de pau-a-pique e caiadas de branco. O próprio 
povoado está collocado sobre diversos outeiros e a sua 
posição geographica, observada por Carlos Rath, é de õ® 
18" 6' long. oçc. Rio de Janeiro e 24^ 51'latsul. A Com- 
missão Geographica e Geológica achou os seguintes dados: 
24«35'41" lat sule õ"23'01" long. O. do Rio de Janeiro. 

Por esta pequena descripção que faço, C. Rath não tèm 
absolutamente razão de affirmar que seja Yporanga lo£'ar 
bem triste que se pode ver nas margens da Ribeira; pelo 
contrario, de todos os muitos logares que conheço na zona 
sul-paulista é este o que mais me attrahio, e, francamente, 
si tivesse de escolher como moradia qualquer cidade ou 
villa entre as muitas de São Paulo, escolheria Yporanga, 
escolheria Agua bonita. 

Não tenho, porem, terminado com a minha des- 
cripção: 

Percorrendo com maior attenção o logar, verifica-se 
acharmo-nos em sitio antigo, vestígios de architectura cofonial 
se observam nos dois ou mais sobrados velhos, bem ve- 
lhos, ahi existentes. N'elles encontram-se, no pavimento su- 
perior, saccadas estreitas, constituidas de balaustres de taboas 
recortadas e pintadas de uma só cor. São estas casas do- 
cumentos históricos, já carcomidos, não pelas traças dos 
nossos archivos, mas sim pelos dentes do tempo e pela humi- 
dade proveniente da evaporação das crystalinas aguas do 
Rio Ribeira; estes dois factores já deram cabo de grande 
parte da madeira que constitue estas habitações históricas, 
que em breve, em bem poucos annos, desapparecerão dentre 
as novas, reduzindo-se a pó, devido á demolição, para da- 
rem logar a outras que ahi se levantarão. 

Não posso precisar a quantidade de casas existentes 
em Yporanga, mas si Rath assignala só trinta moradias 
em uma única rua existente, devemos presumir que a ci- 
dade tenha hoje pelo menos 200, das quaes algumas con- 
servam-se fechadas, por se acharem os proprietários em 
suas lavouras próximas. 

A cadeia mencionada por Carlos Rath ainda existe, 
e sendo velha, é um foco antihygienico, aonde pode-se des- 



— 60 — 

envolver, com facilidade, qualquer moléstia contagiosa: bem 
carecia de uma completa reforma; o governo sabendo, po- 
rem, muito bem, que não ha na zona criminosos, gente ruim, 
e outras aberrações animaes em forma humana, acha que 
a cadeia prehisiorica ainda pode servir pôr muitos annos, 
até que, abatendo-se sobre um dos guardas bonacheirões, 
que zelam pelo bem estar publico, envie um engenheiro 
das Obras Publicas para dar o seu muito dilactado e cons- 
ciencioso parecer, no qual affirmará que a cadeia effectí- 
vamente se abatera de velhice! Por aqui, em épocas de far- 
tura, jogou-se dinheiro á rodo para a edificação de bellas 
obras; para lá, para uma zona que merecia ter uma outra 
sorte do que a que tem actualmente, devido á uberdade 
do seu solo, devido ás suas inexgotaveis riquezas, devido 
á bondade do pacifico povo, 'e que se despreza por com- 
pleto, não houve vintém para melhorar a sua situação lasti- 
mável!! E' triste se narrar isto, mas é facto consununado! 

Carlos Rath, apezar de ser allemão (e quasi todo 
o allemão é apreciador da natureza) achava Yporanga bem 
triste, o mais triste logar da Ribeira. Já fiz ver, em 
linhas anteriores, que isso é uma inverdade, não preciso 
commentar mais tal facto, só quero deixar aqui assignala- 
do que uma mais imponente vista, um aspecto mais varia- 
do de cidade sul paulista não ha, principalmente avis- 
tando-se Agua bonita, V4 ^^ legoa distante do ponto aonde 
deve atracar a frágil embarcação que nos conduz Ribeira 
acima« 

■ O que Rath diz das mattcis e capoeiras é uma ver- 
dade ainda hoje. Ha ainda tantas e tão próximas ao logar, que 
na realidade afogam, e ainda mais lindas, mais densas, 
mais ricas tomam-se ellas, quando nos embrenhamos no ver- 
dadeiro sertão, entre Yporanga e Apiahy. E que riqueza 
em madeiras! que valor está ahi escondido sem poder ser 
retirado por falta de fáceis meios de communicação! 

Quanto á fundação do actual logar os documentos 
que seguirão, aliás ainda inéditos, darão esclarecimentos 
bastantes para aquelles que se interessem por este meu 
despretencioso trabalho e por assumptos históricos da nos- 
sa pátria. Eil-os: 

Noticias que eu obti dos moradores mais antigos a res- 
peito a noção da povoação desta FregzJ^ de Yporanga. 

Na era de mil sete centos e sincoenta e sinco, 
os mineiros que trabalharão na Lavras de ouro 
no Ribeirão de Yporanga, sendo os mais aponta- 
dos, Garcias Rodrigues Pais, o Guardamór José 
Rollim de Moura, António Leme de Alvarenga, 



61 



Nuno Mendes Torres, fizerão huma Capella de pa- 
redes de taipa e cobrirão com telheis, no mesmo lug-ar 
da outra Capella mais antiga coberta Capim, que 
os mencionados tinhão feito, logo depois que 
vierão habitar no d.° Ribeirão, em razão ficar 
perto de Suas Lavras, de oiro, e Garcias Rodri- 
gues Pais deu a Imagem de Santa Anna para 
Padroeira da d^ nova Capella, e António Leme de Al- 
varenga deo para a dita imagem hum resplendor 
e coroa de oiro, que até o dia de hoje existe. Es- 
ta dita Capella nesse tempo pertencia a Villa de Igua- 
pe, de onde vinha annualmente o Coajutor, ou ou- 
tro qualquer Sacerdote p/ mandato do Vig.*^ des- 
obrigar o povo dos preceitos Quaresmal, baptizar, 
cazar etc. 

Passados alguns annos os moradores da Fre- 
guezia de Apiahy determinarão erigir em Villa a di- 
ta Freguezia, para cujo fim obtiverão anexar os mora- 
dores da Capella de Yporanga, por conceção do 
Ex."'*' Bispo Diocezano, cujo nome ignoro, e 
desde então principiou a ser Capella filial da Villa 
de Apiahy, de onde annualmente vinhão os Reve- 
rendos Vigário administrar os sacramentos, até que 
por varias representaçoens ao Ex."^° Bispo Dioce- 
zano Dom Frei Manoel da Resurreição da falta 
de um Sacerdote para administrar os Sacramentos, 
obtiverão um Capellão com nome Frei António 
d'Ascenção o qual prezistio nesta dezoito annos até 
que se recolheu ao Seu Convento, e ficarão os ha- 
bitantes Namesma falta de Sacramentos, Só am- 
nualmente vinha o R.° ^ ig'-'' ^^ Apiahy des- 
obrigar o povo, baptizar etc. e cobravão meia oi- 
tava de oiro por cada pessoa de Confição e nes- 
te infelis estado persistio este povo p.*^ m.'°^ annos. 

No anno mil oitocentos e dois eu vim ordenado 
de São Paulo, e principiei a administrar todos os 
Sacramentos p."^ faculdade dos Reverendos Vigá- 
rios da Villa do Apiahy. Só annualmente vinhão a 
esta cgd/ Vigário desobrigar o povo e cobrar as con- 
ceiçoens, fazer festas etc. Mortos os ditos mineiros 
habitantes no Ribeirão de Yporanga, o resto do 
povo vejo estabelecerse nas margens da Ribeira, 
fazer plantaçoens de arroz, edificar Engenhos de pi- 
lar os d.*°' e transportalos p.* a Villa de Iguape, 
e Como com muita dificuldade se podia ouvir Mis- 
sa, e Sepultar os Corpos dos que f alecião. Vendo eu 
que na Ribeira, digo na barra do Ribeirão de Ipo- 



— 62 — 

ranga, tinha Escolástica Maria Carneiro hum sitio 
adonde se podia edificar outra Capella, afim de e- 
vitar o incommodo do povo, e meo na viagem pa- 
^ra dentro do Sertão (que se diz ter huma legoa) 
pedi a dita Escolástica me vendese o Seu sitio, oque 
ella me respondeu generosamente que para o d.*^ 
fim dava o sitio de esmola a S.^ Anna. Convoquei 
o povo desta afim de metermos maons outra da 
Capella, e que para o d.° fim era percizo fazer- 
mos huma plantação de arroz, afim de termos 
áinJ^ para pagarmos ao menos o mestre das Tai- 
pas [Francisco Alves (?) ] e com o feito o povo 

não se negou, apezar de serem todos indigentes, 
no dia apregoado por mim, todos se aprezenta- 
rão Com suas foces e machados Fizemos a pri- 
meira rossada no Lugar que está hoje a Freguezia. 
Vendidos o arroz rendeo o seu liquido cem mil réis, 
mandei então tirar Provizão de erecção para a nova 
Capella, que hé da maneira Seguinte: 

Ex."'** Rev'"*' S.*"": Dizem o Padre Bernardo 
de Moura Prado, o Capitão Joaquim de Moura 
Rollim, e os mais moradores do Arrayal de 
Iporanga, felial a Villa de Apiahy, que acaban- 
do-se as minas de oiro do d.*" Arrayal, Se esta- 
belecerão os habitantes delle nas margens da Ribeira 
distante huma légua (caminho espesso) ficando aquel- 
le sitio totalmente dezerto por cuja causa a Capel- 
la que os antigos ahi edificarão tem tido grande 
minas, por não haver morador vizinho que posse 
zelar delia, em razão de se acharem todos habi- 
tando na dita Ribeira, por isso desejão mudar a 
dita Capella para a mesma margem da Ribeira, e 
como não podem fazer, e nem demolir a antiga 
Capella sem licença de V. Ex.*, por tanto os Su- 
plicantes pedem a V. Ex.^ R.'° Se digne mandar 
pcissar Provizão para a creação da nova Capella 
no vSupra ditto Lugar. E. R. M. Despaixo — Passe 
Provizão — São Paulo 7 de Julho de 1814 — Matheos 
Bispo. 
Eis o theor da provisão datada de 11 de Abril de 1815: 
Dom Matheos de Abreu Pereira p.^ mercê 
de Deos e da Santa Sé Apostólica Bispo de São 
Paulo do Conselho de Sua Alteza Real e Princi- 
pe Regente X. Senhor. Aos que esta nossa Pro\â- 
zão virem Saúde e Paz em o Senhor. Faremos 
Saber que atendendo nós aoque por sua petição 
representarão o Padre Bernardo de Moura Prado, 




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— 63 — 

e o Capitão Joaquim de Moura Rollim, e os mais 
moradores do Arrayal de Iporanga Termo da Vil- 
la de Apiahy deste nosso Bispado, Havemos por 
bem pelo presente conceder lhes Faculdade para 
reedificarem a Capella de Santa Anna, erecta no 
dito .Arrayal, passando daquelle Lug^ar para o da 
Ribeira adonde existe o povo, com tanto que seja 
o lugar decente, alto livre de umidades, desviado 
quanto possa ser pdssivel de Lugares immundos, 
e Sórdidos e de cazas particulares, não tendo, po- 
rem em Lugares ermos, e despovoados, e com âm- 
bito Sufficiente em roda para poderem andar Pro- 
ciçoens, de sorte que fique com capacidade, para 
pelo tempo futuro serv-ir de Matriz, se for precizo, 
o qual Logar será aSignado pelo dito P.® Ber- 
nardo de aloura Prado, a quem por esta damos 
Commição. Obser\'ará oque determina a Constitui- 
ção do Bispado, sendo tudo Sem prejuizo dos Direi- 
tos Parochiaes e depois de completa a Capella não 
se poderá nella celebrar sem Licença Nossa, para 
a qual procederá imformaçáo. Vizita e juntamente 
será apresentada com Sertidão do P.^ Sentença 
do Dote da d.* Capella. Dada em São Paulo sob 
Nosso Signal CwSellodas Nossas armas aos 11 de 
Abril de 1815. Eu o Padre Fernando Lopes de 
Camargo Escrivão Ajudante da Camará de Sua Ex.* 
Rev.* o escrevi. D. Matheus Bispo. Provizão para 
que V. Ex."* Rv.™ ha por bem conceder faculdade 
para reedificação da Capella de Iporanga, Termo 
da Villa de Apiahy, na forma asima declarada. 
Para V. Ex."* R."* assignar. 
Vê-se que quem formulou este documento visava um 
certo interesse hygienico, pois exigia o Bispo D. Matheus 
que a igreja fosse edificada em logar limpo, dcsinado de 
Lugares immundos^ livres de maleitas (sórdido); demonstra 
também, mui claramente, que exigia-se do povo uma gran- 
de devoção, pois não devia ser edificada 4 igreja em lo- 
gar despovoado, e ter bastante espaço ao tomo de si, pa- 
ra se poderem realizar pomposas procissões. Sem as festas 
não entrava dinheiro nos cofres da igreja, e sem este, pa- 
dre algum poderia se manter n'um lugar que compunha-se 
de tão pouccis casas. 

A igreja foi construida e deve ter ficado prompta an- 
tes do anno 1821; como, porem, a antiga igreja estava 
affecta á Villa do Apiahy, era necessário que o Vigário 
doesta, informasse si a nova capella estava dignamente or- 
namentada e si o património antigo, isto é, os bens que 



— 64 — 

pertenciam á primeira capella, construida de taipas e co- 
berta de capim (deve ser de sapé), feita pelos Rodrigues 
Pais, RoUim de Moura, Alvarengas e Torres, eram suffi- 
cientes para a manutenção do clero, e para esse fim, então, 
foi dirigida ao Vigário da Vara um requerimento, infor- 
mando o seguinte: 

111.™° Sn/ Vig/ da Vara. Dizem os moradores 
do Arrayal de «Iporangà filial de Apiahy, que 
por terem de fazer Seu requerimento a Sua Ex.* 
R."* afim de obterem Provizão de Benção para 
a nova Capella do ditto Arrayal, Se lhes fas preci- 
so que o Reverendo Vig.*" da Egreja desta Villa 
de Apiahy lhes ateste se o património, que ser\âo 
para a Igreja velha, pode servir para a dita nova 
Capella. Item se a dita está decentemente ornada 
capas de benzerse,* e por tanto Pedem a Vm." 
Se digne mandar passar a atestação. Como for 
verdade E. R. M. 
Este documento tirado do Livro do Tombo, de Yporanga, 
não traz a assignatura de morador algum, o que é na 
verdade de lastimar, pois poder-se-ia verificar se ainda ha 
ahi descendentes dos antigos signatários deste requeri- 
mento. 

Era naquella epocha Vigário coUado de Apiahy o 
padre Generoso Alexandre Vieira, e este deu o seguinte 
despacho, do qual se deduz uma certa bondade e que é 
isento de qualquer inveja, pois sendo a capella de Ypo- 
ranga antiga filial da de Apiahy, o padre d'este, incurta- 
do nos seus rendimentos annuaes por desligar-se desta a 
capella em questão, podia informar bem diversamente daquil- 
lo que informou. Eis o documento, (O despacho) ao qual 
me refiro: 

Attesto e passo certo que a setenta e tantos 
annos* Se edificou a Capella de Santa Anna do 
Arrayal de Iporanga fihal a esta Villa, servindo 
sempre para o Seu Património a Fabrica, ou en- 
terro dos moradores do mesmo Arrayal, isto de- 
terminado pelos Vizitadores, e por consentimento 
de todos meus antecesores. Este mesmo patrimó- 
nio pelo Seo rendimento pode servir para a dita 
nova Capella, eu consinto p.' ser de razão e Cus- 
tume antigo. Item certifico que a dita nova Ca- 
pella, pelo louvável zello que tem tido o R.^° Pa- 



♦ Yporanga antiga foi conseguintemente fundada no anno de 1751 
mais ou menos, ella é, pois, 6 annos mais antiga que Xiririca. O Autor. 



— 65 — 

dre Bernardo de Moura Prado, Se acha decente- 
mente ornada, e Capas de benzerse, e por tanto 
Se faz merecedor de toda a atenção de Sua R." 
todo o beneficio da ditta Capella. O referido é ver- 
dade oque juro aos Santos Evangelhos. Apiahy, 
8 de Outubro de 1821. O Vigário collado Genero- 
zo Alexandre Vieira. 
Munidos deste documento trataram os moradores, do 

novo logar, do novo Yporanga, por intermédio do Padre 

Bernardo, de adquirir do Bispo D. Matheus a provizão 

para ser benta a nova capella e dirigiram ao mesmo, o 

seguinte requerimento: 

Ex."** e R." Sn'. Diz o Padre Bernardo de 
Moura Prado, e os demais moradores do Arrayal 
de Iporanga, termo da Villa de Apiahy, que el- 
les tem erigido por Provizão de V. Ex.* a Capella 
de Santa Anna sita as margens da Ribeira, e mais 
cómodo aos ditos moradores, em lugar da antiga, 
que se achava fundada mais remotta, e penoza para os 
mesmos habitantes, e como na conformidade da mes- 
ma Provizão de V. Ex.* deve a referida nova Ca- 
pella ter a qualidade que ella indica e estas con- 
correm no sitio da fundação e bem assim tem o 
mesmo titulo da Fabrica que teve a primeira Ca- 
pella, como fazem ver a V. Ex.* no documento jun- 
to, afim de alcançar-se de V. Ex.* a Faculdade de 
ser Benta na forma do Ritual Romano. Por tanto 
Pedem a V. Ex.* seja servddo mandar passar Sua 
Provizão para se Benzer a dita Capella, e se ce- 
lebrarem nella os officios divinos. E. R. M. 
O Despaixo do Bispo D. Matheus foi, como sempre, 

lacónico: Passe Provisão^ e é dactada de 17 dê Novembro 

de 182i, 

A provizão mesmo é concebida nos seguintes termos: 

Don Matheus de Abreu Pereira, por Mercê 
de Deus e da Santa Sé Apostólica Bispo de São 
Paulo do Conselho de Sua Magestade Fidelicima 
etc. Aos que esta Nossa Provizão verem Saúde e Ben- 
ção em o Senhor. Fazemos Saber que atendendo Nos 
ao que por Sua petição representarão o Padre Ber- 
nardo de Moura Prado e mais moradores do Arrai- 
al de Iporanga destricto de Apiahy deste Nosso 
Bispado. Havemos por bem pelo prezente conceder 
Faculdade a M.^ Reverendo Vigário da Vara da Vil- 
la de Apiahy, para que com o Escrivão do Seu 
Cargo, possa visitar a nova Capella de Santa Anna 
cita as margens da Ribeira, e achando-a decente- 



— 66 — 

mente ornada, Capas de nella celebrarem os offi- 
cios divinos, a benzerá, e juntamente hum cemitério 
competente, para o què por esta mesma lhe conce- 
demos Faculdade, fazendo-se de tudo, os termos 
necessários, e do estilo, que com essa, e as ordens 
por que foi erecta a referida nova Capella, se re- 
meterá a Camará Episcopal, ficando tudo lançado 
no livro do Tombo da mesma Freguezia, ou Villa. 
Dado em São Paulo sob o Nosso Signal e Sello 
das Nossas armas aos 19 de Novembro de 1821. 
Eu o Padre Fernando, digo Padre Idelfonço Xavier 
Ferreira official da Camará o Escrevi. Dom Matheus 
Bispo. 
Este documento registrado no livro 27 foi. 68 da Ca- 
mará Ecclesiastica deve ainda existir, em original, aqui em 
São Paulo, e nella diz, bem expressamente, que antes de 
ser, benta a nova igreja ella devia ser \nsitada pelo Padre 
de Apiahy. Esta visita, que correspondia a uma fiscalisação 
rigorosa por parte dos visitadores, que muitas vezes 
eram demasiadamente severos, talvez para não incorrerem 
em castigos ou mesmo para agradarem a seus superiores 
em ordens, devia ter sido feita de bem pouca vontade, 
attendendo-se á péssima estrada que já ligava, n*aquella e- 
pocha, Apiahy com Yporanga. Se hoje, devido ás chuvas 
torrenciaes, a estrada carece de constantes concertos e a 
viagem, para quem a percorre por obrigação, é perigosa, o 
que seria naquelles tempos, que ninguém, nem o governo, 
se importava com a manutenção das mesmas! Em todo 
caso o padre da Villa de Apiahy foi para lá aos 4 dias do 
mez de Junho do anno de 1822 afim de fazer a visita reque- 
rida, lançando o termo da visita no antigo livro do Tombo 
(?) como era uso: 

Aos quatro dias do mez de Junho de mil oi- 
to centos e vinte e dois o Reverendo Vigário col- 
lado Generozo Alexandre Vieira, visitou a nova 
Capella de Santa Anna do Arrayal de Iporanga, 
por Faculdade de Sua Ex.^ R.™ e achandoa de- 
centemente ornada para se celebrar os officios di- 
vinos, e alem disso tendo se comprido tudo quanto 
' determina a Provizão da erecção da dita Capella 
despeito o Lugar e mais circumstancias, deo o di- 
to Reverendo Vigário CoUado, e da Vara, por vi- 
zitante, e mandar que Se passasse este Termo, no 
qual Se assignou juntamente commigo Escrivão 
do seu Cargo, o Padre António José Pereira de 
Carvalho, e o Reverendo Vigário Collado, e da Vara 
Generozo Alexandre Vieira. 



— 67 — 

Visitada a capella no dia 4, era natural, que o vigá- 
rio de Apiahy achando-a decentemente ornada para celebrar 
os officios divinos, e tendo lavTado o termo supra men- 
cionado, a população, ainda bem pequenina, se preparas- 
se com rapidez para que fosse a modesta casa de Deus 
benta sem demora. Era o padre de Apiahy que de- 
\ia proceder a esta cerimonia religiosa. Eis o documento que 
refere-se a este acto: Termo de Benção, 

Xo anno de mil oito centos e vinte e dous, 
digo no anno do Nacimento de nosso Senhor Je- 
sus Christo aos cinco dias do mez de Junho de 
mil oito centos e vinte e dous, o Muito Reverendo 
Vigário Collado e da Vara da Villa de Apiahy Gene- 
roso -tVlexandre Vieira, acompanhado dos Reveren- 
dos Padres Bernardo de Moura Prado, e FVancisco 
José da Trindade, Benzeu a nossa Capella de San- 
ta Anna do Arrayal de Iporanga, conforme de- 
termina a provizão de Benção, que obtiverão os 
moradores do dito Arrayal, do Ex.""" e Rev.'' Se- 
nhor Bispo Diocezano Dom Matheus de Alves Pe- 
reira, e para constar fiz este termo, que assignei 
com o Reverendo Vigário Collado e da Vara, e 
Eu Padre António José Pereira de Carvalho escri- 
vão que o escrevi. O Vigário Generoso Alexandre 
Vieira. 

No mesmo dia sinco de Junho da era supra 
indicado no termo da Benção o Reverendo ^ iga- 
rio da Vara, Generoso Alexandre Abeira juntamen- 
te com os Sacerdotes asima nomeados, Benzeo o 
Adro, e a roda da Igreja para servir de Semiterio, 
até que edifica-se outro em lugar Separado da 
Matris, e para em todo tempo constar passo esta 
clareza. O Vigário Bernardo de Moura. 

O que succedeu em Yporanga depois do benzimento 
da capeUa não sei, provavelmente a população ia crescendo, 
porem devagar; as grandes cachoeiras do Funil, Caracol e 
Poço Grande, também a péssima estrada de Apiahy impe- 
diam o seu desenvolvimento rápido, e sendo mesmo a 
maior parte da população affeiçoada á lavoura, era natu- 
ral que os povos só fossem ao logar quando necessita- 
vam de chitas e de sal para o consumo diário, nas suas pro- 
priedades. Cultivava-se muito arroz, é provável que ainda 
se bateasse bastante ouro e pacatamente continuavam a vi- 
ver os habitantes do logar. Acharam, porem, alguns annos 
depois, necessário elevar a povoação,até aqui Capella, á cathe- 
goria de Villa e assim sendo, requereram, quem foi não sei 



— 68 — 

nem pude descobrir, á Assemblea Geral esta transforma- 
ção polititía. O requerimento foi discutido, e aos 9 de De- 
zembro de 1830 foi promulgada a respectiva lei conce- 
dida nos segxiintes termos: 

Decreto: Hei por bem Sanccionar e ordenar que 
se execute oque resolveo a Assembleia Geral sobre 
a relação do Conselho Geral da Província de São 
Paulo. Artigo 1° Crear-se-hão Freguzias as Capei- 
las de S. João do Rio Claro, e de Nossa Senhora 
das Dores de Tatuyby no destricto da Villa da 
Constituição: de Cabreuva e Idayatuba na da Vil- 
la de Itú: de Nossa Senhora de Bethlem no de 
Jundiahy: no Bairo dos Silveiras no de Lorena: de 
Iporanga no de Apiahy. 

Artigo 2.° O Governo marcará a cada huma 
o competente destricto. 

O Visconde d' Alcântara, Conselheiro do Es- 
tado Honorário, Ministro ÍSecretario do Estado dos 
Negócios de Justiça o tenha assim entendido e fa- 
ça expedir os despaixos necessários. Palácio do 
Rio de Janeiro em nove de Dezembro de mil oito 
Centos e trinta, nono da Independência, e do Impé- 
rio. Com a Rubrica da vSua ^íagestade Imperial 

Visconde d' Alc antera. 
Os limites da nova Freguezia ficarão determinados 
como se segue, tirados por mim, do livro do Tombo. 
Declaração dos Limites, 

O Governo determinou a Camará da Villa de 
Apiahy que marcasse os limites desta Freguezia, 
vindo os enviados da dita Camará, demarcarão 
por Limites desta Freguezia, na Ribeira asima a 
barra do Rio São Sebastião, Linha recta de huma, 
e outra parte da Ribeira; e Ribeira abaixo no Ri- 
beirão dos Pilões, digo na Barra do Ribeirão cha- 
mado Pilões, linha recta de huma contra parte da 
Ribeira seguindo o Sertão para o Sentro: n'este 
Lugar confinava o districto da Villa de Apiahy, com 
a Freguzia de Xiririca, ficando todo o Ribeirão 
dos Piloens pertencendo a esta Freguezia por seguir 
Ribeira asima; e para em todo o tempo constar 
e evitar duvidas fasso esta declaração. 

O Vigário Bernardo de Moura Prado. 
Eis ahi todos os documentos existentes no Hvro do Tom- 
bo, de Yporanga, que foi aberto no dia 12 de Agosto de 
1833 pelo Vigário João Baptista Pereira, com sede emlguape; 
elles tratam da fundação deste pittoresco logar. Si existe 
ainda o Livro dò Tombo do primitivo Yporanga não sei, 



— 69 — 

duvido porem; elle deve ter tido a mesma sorte que os seus se- 
melhantes, que vindo passar a mãos leigas, desappare- 
cem por completo, tendo talvez servido para atear fogo 
em um fogão de qualquer caboclo boçal e muito pouco 
comprehendedor de assumptos relativos á historia do nosso paiz. 
Com a transcripção destes documentos conclui o histó- 
rico de Yporanga. Poderia continuar a commentar o tra- 
balho de Carlos Rath, como porém o mesmo nada diz da 
fundação do lugar, e sendo eUe muito falho, dou por con- 
cluído com o ultimo documento autentico achado e já 
transcripto. Carlos Rath, a meu ver, deixou-se levar muito 
por informações bem pouco fundamentadas, me parecendo 
que elle não teve, na maioria das vezes, o sufficiente cuit 
dado de verificar e examinar detidamente os problemas 
que se lhe depararam; também elle era um descontente, 
de um pessimismo inqualificável, que só achava defeitos 
em tudo, não louvando o bom e o útil; mesmo questões 
pessoaes que tinha durante as suas viagens, incommodos 
que lhe affectavam, eram levados ao conhecimento do 
Governador da Provinda, e é devido a tudo isso, que Rath 
não enxergava as cousas como devia enxergar. Hoje em dia, 
nós, moços, estamos acostumados a analysar os assumptos 
de maneira diversa. E é devido a isto, que lamento que 
elle não nos tivesse deixado descripção mais nitida do 
lugar que ora acabo de tratar — de Yporanga — de Ag-ua 
bonita. Até mesmo o trabalho de Rath que transcrevo em se- 
guida como nota pode ser muito contestado por aquelles que, 
como eu, conhecem mais ou menos, a fundo, a zona da Ri- 
beira de Iguape. 

NOTA. 

9* Comarca de Itapetininga 

6o Município da Villa de Xiriricá da Freguezia de Iporanga 

Dçscripto por Carlos Rath-Dr. e Ingenieur Geograph. 

Freguezia de Iporanga situada 5 grãos 18 minutos 6 segundos de 
longitude occidental do Rio de Janeiro; 24 grãos, 51 minutos de latitude, 
879 pés sobre o nivel do mar. O nivel da Ribeira é 812 sobreonivel do mar. 

Visinho do districto de Apiahy que é 6 léguas distante desta ultima 
em quanto que verdadeiramente têm somente 4 léguas, creada por decreto da 
assembléa geral de Novembro de 1830. O seu termo consta de 1200 mo- 
radores que se dão a criação de porcos e da plantação de arroz e canna. 

A freguezia é collocada na margem direita do Ribeirão Iporanga o 
qual no mesmo lugar desagua no rio Ribeira do lado esquerdo. A freguezia 
é situada 89 palmos acima do nivel da Ribeira. 

O ribeirão IfMjranga tem 10 braças de largura na embocadura, e acima 
tem 2 a 4 braças só. O fundo é muito desigual, e não é navegável. 

Na freguezia conta-se pouco mais de 30 casinhas, uma capella e uma 
cadea: consiste em uma rua, e as outras casas espalhadas; l,ugar bem triste 
que se pode ver na& margens da Ribeira. As montanhas de Granito e de 



— 70 — 

schistos argillozos premitivos são mui próximos. A única vista que se tem 
Ribeira abaixo para as cachoeiras, é de um quarto de légua. 

As capoeiras e os mattos afoga a gente. 

A antiga povoação foi situada algumas léguas por cima do ribeirão, 
aonde se chama os Pinheiros. No mesmo lugar acha-se ainda \'a11as grandes, 
desvios do Ribeirão etc, provavelmente das lavras de ouro. Serviços grandes 
e antigos da primeira povoação que viveu só da mineração de ouro. Agora 
não se trata mais deste serviço, por não fazer mais conta. 

O nascimento do ribeirão Iporanga tem 5 léguas pelo oeste, entre 
grandes e altas montanhas recebendo no curso delle alguns outros riaxos. 
Entre estes, ha um bem notável, que sahe de uma gruta que toma o nome 
de S. António. Esta gruta acha-se entre as pedras de cal, formando na 
bocca da gruta uma muralha preta de 812 pés. Este gigantesco paredão é 
ornado de alguns arbustos, plantas e cipós, que sahem das frestas dos jazi- 
gos, que se mostram aqui bem horizontaes, correndo de leste para oeste, 
com uma queda do norte para sul de 20 grãos. 

A gruta tem a largura de 130 palmos e faz um vão, com a fundura 
de 80 palmos, fora do canal donde sahe o riacho que tem a largura de 30 
palmos, igual á da bocca da gruta. A perfundidade do Ribeirão tem 4 a 6 
palmos. Para entrar é preciso entrar primeiro na agua. A altura da gruta 
pode ter 60 a 80 palmos, e é inteiramente ornada de stallactitos, isto é uma 
crosta ou melhor precipitação de cal mui branca que cobre as abobodas e 
as paredes, e alguns poucos Stallacmites de cal, correspondente no chão. 
Estes Stallactites e Stallacmites formão as vezes figuras mui pitorescas, que 
ficam penduradas nas abobodas etc A agua ' é muito fria, des grãos de 
Reaumur. 

O canal donde sahe a agua, forma no fundo muitas cascatas, porem 
no fira estreita-se para uma fresta mui escura e medonha. 

Este mesmo riacho tem três léguas acima o nome d'agua fria e sahe 
por baixo das pedras de cal, e depois de ter corrido '/^ de léguas toma o 
nome de funil ou sumidouro; porque a agua sumia se entre um buraco, 
também nas mesmas pedras de cal e apparece na gruta de St. António outra 
vez, para unir-se pouco distante com o rio de Ifwranga. 

Para chegar neste rio e na gruta de St. António é preciso passar um 
lugar onde corre o rio entre os rochedos de cal mui altos empinados e lisos, 
que quasi não dão espaço para passagem de uma cobra. Se escorrega o pé 
(naturalmente delcalço) ou a mãO| precipita-se o visitador sobre o ribeirão 
que em grande profundidade corre com muita velocidade. 

Até hoje não tem outro caminho. 

No leito destes rios e riachos, acham-se pedras grandes de quartzo, 
lages de uma pedra siliciosa, schistosa, melaphyr, Jaspes ordinários, pedra de 
ferro e pedra de cal muito preta. 

Este cal preta forma uma collína, que se estende para noroeste algu- 
mas 8 léguas, mudando já algumas léguas distante a cor e o principal caracter. 

Na gruta está ella acamada em lages ou jazigos de 6 a 12 pollega- 
das, muito duro, mais grande dolomitica, sem veas; as fendas são cheias 
de uma argilla arenosa branca pouco calcarea. 

* Para queimar gasta muita lenha e dá uma cal meia preta hydraulica 

de boa qualidade ; a gente de lá, não sabem lidar com ella. Eu suppoz que 
fosse uma espécie de uculan ou Antraconite dos mineralógicos. 

Duas léguas acima ve-se a cal com a cor azulada com veas brancas 
e de quatrzo com gallena ou Tellurio (mina de Chumbo com pouco prata etc.) 
Lá ella forma rochedos grandes que parecem a cal carbónica da fabrica de 
ferro de S. João de Ipanema e de Apiahy. Esta collina é riquíssima destas 
minas de chumbo. 

Chumbo, Tellur, Ouro, Prata, Cobre, Enxofre 
54,0 32,0 1,0 8,5 1,3 3,0 



— 71 — 

Amostras e descripçio desta mesma * mina mandei eu ao Snr. Raphael Decio 
que usurpava esta terra muito montanhosa para o governo! Fora do lugar 
que mencionei, acha*se ella perto da villa de Xiririca, rio dos Pillões, bairo 
Vutuverava e Campo -largo de Curitiba. 

Esta mesma collina de pedra e cal acha-se no interior do Iporanga, 
e nas outras partes muitas vezes ellevadas e destruidas por uma pedra que 
se chama Leucomelan, Leucitaphyr, e Melaphyr, pedras vulcânicas; o povo 
chama-lhe pedra de capote ou de ferro por causa da sua cor, e da proprie- 
dade de crear uma casca vermelha térrea em redor de si. Esta pedra forma 
quasi sempre morros mrito agudos, que sobresahem as outras montanhas e 
destroem e põem em ruinas as outras formações. Estes morros agudos são 
innumeraveis em baixo da serra. 

Algumas , veses mostra-se a pedra mais basáltica, isto é em columnas 
prismáticas, as mais vezes redondas em bollas, muito dura, cor escura de ferro, 
por dentro, por fora avermelhada. As vezes acha-se este melaphyr em lages 
mais ou menos grossas e com algum som;''as vezes de cor cinzenta: também 
se encontram nos leitos dos rios. 

Na freguezia de Iporanga contar5o-me certas pessoas de credito, que 
um morador de lá, achou na roça d'elle, na occasião de queimar, pedras 
azues derretidas e no chão um metal como estanho, que elle vendeu em 
Iguape. O homem não quiz me mostrar as pedras por ter medo que o go- 
verno tome o terreno delle orde se acham estas pedras. 

Nas margens do rio Ribeira perto da freguezia de Iporanga no ca- 
minho para a villa de Apiahy, rio acima, onde desagua o riacho S. Sebastião, 
lado direito da Ribeira acha-se um mineral bem raro, o espatho da islandia. 
Espatho de cal, claro transparente, desfaz-se em pedaços romboides, lamel- 
loso, com a particularidade de ter uma refracção dupla com o da Islândia. 

No morro escarpado ao lado esquerdo da "Ribeira, duas léguas acima 
de Iporanga, contem uma grande porção de um mineral já mencionado cha- 
mado Pyrites. O morro já se incendiou umas poucas vezes por si mesmo, 
causa rompimentos, quedas de grandes pedaços do morro. E no anno 1847, 
cahindo de repente uma torrente de agua quasi do cume do morro, abrio 
um caminho pelo seu declive e corria com tal impetuosidade, que arrastava 
e estragava tudo que encontrava. 

Os pyritos servem para a fabricação do enxofre, do acido vitriolico, 
para marte ou coparosa e colcothar, um mineral de pintura vermelha e para 
bumir ouro e prata. 

No rio Guaporunduva e principalmente nas cabeceiras delle onde se 
chama ribeirão das mortes, ribeirão dos Pilões, ribeirão St. Anna, onde 
atravessa o caminho do Iporanga para a freguezia do Paranapanema, acha-se 
um p-ajde serviço de quasi duzentos annos nos valles, montes de cascalhos, 
desvios dos mencionados ribeirões, emfim aqui se ve material para um pin- 
tura extraordinária e horrorosa. 

Os lavradores que viverão aqui para tirar ouro matarão uns aos 
outros e por isso os brancos desappareceram e só os pretos se conservarão 
até hoje no ribeirão Guaporunduva, Anhangueira, etc. 

As formações dos grandes paredões do logar chamado Passa-vinte 
são de cal carbonífera com minas de chumbo; acima de Ribeirão das Mortes 
e dos Pilões atravessa a mesma formação pelo lado do norte. 

Ribeirão abaixo estão a maior parte dos montes de Quartzo, schistos 
premitivos e schistos quartzosos. No lado do ribeirão S. Anna é grés branco, 
de feldspatho e quartzo como no morro que se chama mesmo pedra branca 
por seu cume ser sem vegetação e reluzenta ao longe. Para cima do ribei- 
rão dos Pilões os grandes e altos paredões são de grés branca inferior, com 
os jazigos conglomeraticos muitas vezes alternando; pois destes acha-se muito 
quartzo. O terreno baixo entre as montanhas, nas margens do ribeirão é 
estéril, sem terra nem vegetação, os lavradores de ouro fugirão destes luga- 
res tristes, de lemt>ranças medonhas, onde elles tirarão o metal infernal. 



— 72 — 

O oaro que se tira do Apiahy, Iporanga e Guaporunduva, e nas 
margens da Ribeira mostra-se mais ou menos com as quinas bem agudas, 
pouco roUado de cor claro, amarello, até alguns i>edaços tem uma cor verde 
esbranquicenta, tem 22 quilates em seu valor. 

O ouro com a área de Apiahy, examinando mechanicamente deu-me.o 
seguinte resultado: O oxydo de ferro tirado pelo iman 40,13, Zircon 12,08, 
Mangan. Superoxydo 15,9, Riacolith 12,30, Quartzo 12.80 — Total 100,00. 

A analyse de ouro deu o resultado seguinte: 
Ouro Prata Ferro 

89,80 9,86 0,32 —99,98. 

£m geral o ouro destes lugares, é muito raiudo, os cantos e quinas 
não são muito arredondados e a abundância foi grande ! As vezes acha-se 
folhetos bem grandes com o de 10 a 20 oitavas; e no Iporanga uma familia 
de um capitão mór achou um pedaço de 12 libras, formando uma cabeça de 
macaco a qual foi cuusa de um processo infernal até que enfim a cabeça do 
macaco desuppareceu. 

Diamantes acham-se só alguns poucos nos ribeirões para o lado do 
sul de Apiahy, abaixo da serra entre três morros agudos, na frente das 
furnas, ainda no sertão bruto sem moradores. Ouro como diamantes tira-se 
nesta Proviucia das alluviões, raras vezes experimenta-se fazer uma mina e 
quando o fazem é sempre com um fim funesto e prejudicial dos mineiros, 
donos dos escravos, falta de conhecimentos e cuidados. 

Julgo aqui ter lugar alguma observação sobre o lucro dos mineiros 
de ouro nas minas ricas de Califórnia e da Rússia, e dos ganhos com a fa- 
bricação de ferro na França ... 



Nos visinhanças do rio Ribeira, Iporanga abaixo, no lugar denominado 
Caracol o outro no Poço Grande, acham-se minas de 'ferro magnético com 
mistura de ouro e nas lavras dos rios das Mortes tem a mesma mina. 
Estas minas de ferro mostram raras vezes crystaes; a maior massa é porosa, 
tuffosa, muito preta, quasi sem lustro metallico, e as cavidades são cheias 
de um barro muito vermelho com pouca mica. 

A maior parte da mina pode-se observar nas margens dos riachos 
que mostrão uma extenção ou riqueza grande. 

A mina de ferro do Poço grande sabe da formação primitiva dos 
schistos argillosos mui destruído», em companhia de um quartzo branco com 
veias de oxydo de ferro em pó. Os moradores de lá me nfirmao que neste 
pó se acha ouro em folhetos bem visiveis. 

Depois deste exame fica-se certo que as terras abaixo da serra prin- 
cipalmente as do Rio Ribeira por dentro, e nas terras moutauho<<as a beira 
mar, até Guaratuva, são terrenos metaliferos para o futuro do paiz. E não 
como a infeliz terra da Provincia de Minas aonde se tirou com innumeraveis 
escravos o ouro e os diamentes para mandal-os para a Inglaterra e França, onde 
se a purifica, lapida, engasta, etc. com a qual mão de obra ganhão metade 
e mais, ah;m de que falsificam. 

Chumbo, estanho, cobre, Azougue, ferro, etc. occupa gente que ganha 
e necessita de muitas cousas. Para a apuração destes metaes, carece levantar 
machinas, engenhos, edificios grandes, e os productos necessitam os habitan- 
tes do Brazil em seu estado bruto, para os industriosos levantarem fabricas 
e mil ramos para purificar e fabricar os objectos. Até hoje o dinheiro que 
se ganha nos productos da exportação, fica nas terras estrangeiras, em troco 
de. géneros de toda a qualidade, que vem para o uso, em quanto se produz 
no mesmo paiz, também n'elle fica o dinheiro. 

As terras das plantações de agricultura são serra acima, e para lá dos 
Campos de S. Paulo de Sorocaba e dos Campos Geraes até o grande rio 
Paraná onde a final se tira o combustível mineral. 




/ 



— 73 ^ 

Para a criação dos animaes ficam os Campos Geraes, pois os outros 
terrenos quanto mais se aproximão a -serra, tanto menos servem para a cul- 
tura e criação de animaes por causa do muito frio e humidade. 



Sessão do dia 22 de Rbril 



O Dr. A. Splendore fallando sobre as ulceras de 
Bauru — refere ter tido occíisião de examinar, nos últimos 
dieis do mez passado, quatro casos de ulceras sobre 
indivíduos provenientes da zona Noroeste d'este Estado, 
sendo três provenientes do Kilometro 300 e um do 360, 
além de Bauru. A pesquiza microscópica sobre o material 
doestes casos verificou, em três d'èlles, a presença do Elco- 
soma tropicum de Wright, o que permittiu affirmar o diag- 
nostico clinico do Bouton d'Aleppo. A existência dessa 
moléstia no Brazil é já conhecida desde rrtuitos annos em 
outros Estados, mas só nestes últimos dias é que foi reco- 
nhecida no Estado de S. Paulo, parecendo muito frequente 
na zona ferro -viária Noroeste. Precisa porém notar-se que 
nem todos os casos de ulceras provenientes doesse lugar 
são da mesma natureza, visto como outros casos, por elle 
já referidos n'esta Sociedade no anno passado, sessão de 
7 de Maio de 1908, apresentavam histologia e microbiologia 
differente, sendo um d'elles certo e outro suspeito de blas- 
tomycose dermatica. 

Tratando, em seguida, da morphologia e biologia do 
parasita do Bouton d'Aleppo faz notar o parentesco do 
mesmo com o microorganismo do Kala-azar e da anemia 
splenica dos meninos, já encontrado por Nicolle, em Tunis, 
nos cachorros; e lembrando as varias opiniões sobre os 
possíveis trasmissores d*esse protozoário, acha que seria 
muito conveniente um estudo d'essas ulceras feito syste- 
maticamente no lugar da epidemia, para chegar-se ao conhe- 
cimento das condições de propagação. São apresentadas 
preparações microscópicas relativas aos vários casos acima 
referidos. 

O Dr. Caríni faz notar que as observações do Dr. 
Splendore, quanto á existência do Bouton d'Oriente na linha 
Noroeste, confirmam as suas communicações feitas, ha dias, 
na local Sociedade de Medecina e Cirurgia. 



— u ^ 

o Dr. Stapler affirma que o botão do Oriente já é 
conhecido desde os tempos bíblicos e o causador da mo- 
léstia ha já mais de 10 annos. Seria da maior importância 
conhecer agora a maneira da transmissão deste maL Só 
assim seria possivel impedir a propagação destas ulceras, 
o que é mais importante do que saber cural-as (o que 
ainda não sabemos bem). Os doentes provenientes dos logares 
infeccionados dizem que o contacto j;om uma agua stagnada 
produz a moléstia. Tomando este facto em consideração 
bem pode ser que haja n'esta agua-t^m insecto ou inhisorio 
que é portador dos protozoários e que infecciona depois o 
individuo. Todos os esforços de uma commissão devem 
convergir para este ponto importante. 



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Sociedade Scientifica 



•^F" "» • 1911 



SAO PAULO 

REDA(',ÇÃC): Prof. Dr. Roberto Hottinijer e Dr. Edmundo Krug. 

SEDE DA SOCIEDADE: 
Avenida B. Luiz António, 12 ^ S, PAULO <^ Brazil 

SUMMARIO: 

1. Sopra un nuovo protozoo parassita pelo Dr. A. Splendore. 

2. Preparo de caldo como meio de Cultura pelos Snrs. Dr. Hottinger 

e Geraldo de Paula Souza. 

3. O canto do gallo á noite por Theodureto de Camargo. 

4. Algumas observações sobre o preparo da tintura e do papel de 

Toumesol. 

5. Indicatina pelo Dr. R. Hottinger. 

6. • Influencia do terreno e do clima sobre os pés dos ungulados por 

Otto Pitsch. 

7. Os novos estatutos da Sociedade Scientifica de S. Paulo. 

8. Regulamento interno da < « « . 

9. " da Bibliotheca. 

10. « da Revista. 

11. Lista dos sócios. 

12. Regulamento da secção de medicina. 

13. <^ das sciencias physicas e naturaes. 

Sopra un nuoDO protozoo parassita de' conigli 

2.a NOTA PRELIMINARE 
PEL 

DR. ALFONSO SPLENDORE 

Direttore dei Gabinetto di Batteriologia delVOspedale S. Gioacchino in 
S. Paulo (Brasile) 

(Con 1 tavola) 



In una nota (*) presentata alia Società Scientifica di 
S. Paulo nella sua seduta dei 16 Luglio dello scorso anno 
(v. atti delia stessa) ho dato raggiiaglio di una nuova ma- 
lattia di conigli da me scoperta, le di cui lesioni presentano 
molte analogie con quelle dei Kala-azar delPuorno, conte- 
nendo, anche, de' corpuscoli parassitari che ricordano, per 

♦ Rev. da Soe. Scient, de S. Paulo «. 10-J2 1908 



— 76 — 

molti caratteri, quelli delle Leishmania.ádi qaeXx, però sem- 
brano differire principalmente per la mancanza di un cen- 
trosoma, che non è dimostrabile coi metodidiRomanowsky. 

I primi casi spontanei di tale affezione erano comparsi 
fra gli animali dei mio laboratório verso i primi dei Giugno 
precedente e ad essi molti altri ne seguirono in Luglio e 
Agosto; ma cominciarono a tornarsi rari in seguito, fino a 
che, da Ottobre in poi, passo molto tempo prima di appa- 
rime uno nuovo. 

Senza ripetere quanto ho già comunicato relativamente 
a* caratteri delle lesioni anatomo patologiche é de' parassiti, 
sopra cui ritomerò in altra occasione, accennerò oggi alcuni 
fatti ulteriormente osservati. 

Nel mese di Gennaio dei corrente anno ho ritrovato 
all'autopsia di un nuovo coniglio, morto spontaneamente, 
le caratteristiche lesioni descritte, ma questa volta erano 
piú specialmente localizzate a' polmoni, essendo poço note- 
voli nella milza, niente affatto evidenti nel fegato. L'esame 
microscópico di questi organi non ha mostrato che moltis- 
simo raramente i soliti corpuscoli curviformi caratteristici, 
(v. fig. 5) trovandosi, invece, piú facilmente, e puré non mol- 
to abbondanti, le masse protoplasmatiche piene di numerosi 
gruppetti di cromatina, che ho già descritte nell^altra nota. 
Le stessissime localizzazioni anatomiche e le identiche forme 
parassitarie si sono ripetute ne' casi di reinoculazione espe- 
rimentale in altri conigli per ben due serie, mentre i risul- 
tati degli esperimenti in una terza serie sono rimasti com- 
pletamente negativi. 

Ciò mi ha fatto sospettare che Tevoluzione dei parassita 
avesse qualche rapporto con la stagione e che il tempo non 
fosse stato molto propizio per il suo completo sviluppo in 
questi casi. 

In un nuovo gruppo di casi apparsi verso i primi 
deirultimo decorso mese e próprio, cioé, nella stessa época 
dell*anno passato, ho ritrovato nuovamente Tantico quadro 
anatómico e parassitario delia malattia. Credo che questo 
fatto dei tempo debba essere tenuto in conto nella ricerca 
d'un eventuale trasmissore delPaffezione, visto come essa 
non è trasmissibile per via alimentare, per mêzzo delia 
quale i risultati di esperimenti da me fatti sono stati sem- 
pre negativi. 

Debbo aggiungere a rispetto delle forme dei parassita 
che, ne' casi di questo gruppo, ho ritrovato, relativamente 
numerosi, i corpi ameboidi liberi da me già descritti, come 
anche, piú d'una volta, i tali corpi fusiformi fomiti di lun- 
go flagello; questi ultimi, per altro, sempre privi di cromatina. 
In una preparazione a striscia fatta col materiale dei 



— 77 — 

fegato di un caso ho anche incontrato un grande corpo di 
figura quasi piriformç, di grandezza su per giú egoiale a 
txe o quattro volte quella d'un glóbulo rosso, fomito di vari 
gruppetti di cromatina, tre de' quali disposti verso la base, 
in linea quasi trasversale, ed un altro gruppo poço lontano 
dalla sommità, uscendo lateralmente da esso un filetto delia 
stessa sostanza in forma di flagello delia lunghezza di 5 
o 6 microm. 

Non ho mai, per altro, osser\'ato, nelle preparazioni a 
fresco, alcun movimento attivo dei parassita. 

Oltre delle masse parassitarie contenenti un grande 
numero indeterminato di corpuscoli, (w fig 1 e 2) sia libere 
che intracellulari, ne ho osservato alcune, molto rare, con- 
tenenti appena un numero fisso e limitato di otto elementi, 
(v. fig. 3 e 4) presentando ciò una certa analogia com quel 
che ho osservato in diverse specie di microsporidi da me 
publicati in altri lavori. 

Ho potuto veríficare, ancora una volta, che il paras- 
sita possiede due modi di riproduzione Tuno per biparti- 
zione longitudinale (v. fig-. 5) e Taltro per divisione múlti- 
pla endog'ena, (schizogonia) e credo che quest'ultimo cos- 
tituisce la prima fasi delia moltiplicazione. 

Relativamente agli esperimenti di trasmissione, il pa- 
rassita ha mostrato un grande potere patogenico, agendo 
forse per produzione di qualche tossina. 

I conigli sani inoculati per via sottocutanea con un* 
emulsione di organi d'animali affetti, qnalche volta soccom- 
bettero precocen>entt-, prima che Taffezione avesse avuto il 
tempo di manifestarsi con le sue lesioni caratteristiche. In 
questi casi il reperto parassitario, molto scarso, era rap- 
presentato da forme ameboidi, per la massima parte inclu- 
se in mononucleari grandi e piccoli, alcune delle quali (ne* 
primi due o tre giomi dairinoculazione) si trovavano ac- 
coUati ai núcleo delia cellula ospite, ricordando un poço, 
per Taspetto, i corpuscoli curviformi e sembravano rappre- 
sentare una fase d'accrescimento degli stessi. Piú tardi 
queste forme ameboidi non presentavano alcun carattere 
speciale, disting-uendosi appena come corpi protoplasmatici 
aiveolari diffusi nel corpo cellulare di cui avevímo invasa 
la superfície spostando gradualmente il núcleo: in questa 
fase la cromatina dei corpo parassitario si presentava come 
un blocco un poço piú grande di quello dei corpuscolo 
normale, avente poça affinità colorante col método di Giemsa. 

In seguito, la detta cromatina divenne sempre piú pal- 
lida e si mostro diffusa, fino a che, in una fase piú avan- 
zata, si trovava divisa in finissime granulazioni appena vi- 
sibili e disseminate nel protoplasma. Verso il 6.° giomo dei- 



u^ Soe. n.i^^ 



— 78 — 

Tesperienza i primi sintomi delia moltiplicazione endógena 
erano evidenti. 

Quando i conigli d'esperimento vennero a morte con 
tutto il corteggio anatómico e parassitario delia malattia, 
ciò ebbe luogo fra il 12 e 15 giorno, in un solo caso ai 
9.° giorno delPinoculazione. 

Oltre che ne' conigli, ho potuto ottenere la riprodu- 
zione de' corpuscoli parassitari caratteristici in altre specie 
d'animali, principalmente in cavie, in una delle quali 
morta in pochi giomi, si verificarono le lesioni caratteristi- 
che delia malattia localizzate però solamente ne' polmoni. 
Negli organi di questi animali il numero di parassiti era 
sempre molto scarso. 

Un cane inoculato con materiale tirato d'un coniglio 
molto ricco in corpuscoli parassitari ha presentato, né pri- 
mi giomi d*esperimento, diarrea sanguinolenta e, circa due 
mesi dopo, una rápida e grave cachessia come anche un 
principio di cecità per intorbidamento oculare: Tanimale era 
ridotto a un esaurimento estremo; non poteva piú né cani- 
minare né cibarsi; ma in seguito ricominciò a prendere il 
cibo e la forza. A questo punto lo sacrificai per osservame 
il reperto parassitario, prima dei ristabilimento completo; 
ma non ho incontrato alcuna lesione anatómica nè alcun 
parassita. Quello ch'è piú strano è la riproduzione dei pa- 
rassita dei coniglio negli uccelli, come ho verificato fin dal 
Tanno scorso in due passerini {Zonotrichia pileata (Bodd,) 
che cessarono di vivere cinque giomi dopo Tinoculazione 
sottocutanea di un paio di goccie d*eitiulsione di milza di 
coniglio affetto: in questi casi non trovai lesioni evidenti e 
i corpuscoli tipici esistevano negli organi in numero molto 
piccolo. 

Vari uccelletti dei genere Eiiphonia, Desni., inoculati 
come i precedenti, vennero a morte dopo 8 ed 11 giorni 
dell'esperimento e presentarono, alPautopsia, forte aumento 
dei fegato e delia milza, contenendo, tutti gli organi, (v. 
fig. 6) enorme numero di corpuscoli parassitari tipici. alcuni 
de'quali, nel sangue dei cuore, ái presentavano inclusi ne' 
globuli rossi. 

Recentemente il Dr. Carini, ripetendo le mie ricerche, 
ha confermato le osservazioni da me fatte ne' conigli ed 
ha ottenutouna riproduzione molto abbondante degli stessi 
corpuscoli negli organi de' colombi, ne' quali, infatti, io ho po- 
tuto verificare costantemente la trasmissione delia malattia 
in serie. 

Questi uccelli inoculati sottocutaneamente o nel tessuto 
muscolare col virus dei coniglio ne' miei esperimenti ven- 
nero a morte da 11 a 15 giorni dopo Tinoculazione, pre- 



— 79 — 

sentando grande quantità di parassiti in tutti gli organi in- 
temi, specialmente nel fegato, i quali, però, non mostrarono 
nessun' alterazione macroscópica caratteristíca. In uno di 
questi casi ho incontrato. relativamente numerosi, gli ag- 
gruppamenti parassitari formati da un numero fisso di otto 
corpuscoli. 

Trattasi, dunque, d*un parassita molto interessante 
rappresentante senza dubbio di un nuovo gruppo di pro- 
tozoi differente da quelli de* generi fino ad ora conosciuti, 
sia per la sua morfologia, sia per il potere patogenico di 
cui è fomito. 

Poço tempo dopo la scoperta fatta da me a S. Paulo, 
un altro Protozoo morfologicamente idêntico a quello de' 
conigli è stato incontrato a Tunisi da Nicolle e Monceau (*) 
negli organi d'un roditore africano {Ciènodactylus gondi), 
H parassita, scoperto da questi autori, però, che ho potuto 
osservare nelle preparazioni gentilmente inviatemi dal Nicolle, 
differisce da quello da me descritto per mancanza delia 
moltiplicazione endógena. 

Non ci è dubbio, intanto, che queste due specie di 
protozoi debbano éssere classificate in uno stesso género e 
poichè il Nicolle ha già proposto il nome di Toxoplasma 
per indicare la forma ad arco de' corpuscoli che essi pre- 
sentano, io, per lo meno provvisoriamente, chiamerò il pa- 
rassita dei coniglio col nome di T. cuniculi. 



SPIEGAZIONE DELLE FIGURE 

Fig I-II: masse libere di Tox, cuniculi a numero indeterminato 

di corpuscoli: 

fig. I osservazione a fresco. 

fig. II e seguenti col. col met. GKemsa. 
Fig. ni: massa di Tox. cun. a numero di otto corpuscoli non 

ancora perfettamente individualizzati, contenuta in un 

mononucleare. 
Fig. IV: massa libera di Tox, cun. ad otto corpuscoli quasi 

completamente diíFerenziati. 
Fig. V: corpuscoli carratteristici liberi di Tox, cun. uno de 

quali in bipartizione longitudinale. 
Fig. VI-VII: T, c. riproduzione esperimentale nella milza di 

Euphonia violácea Linn. 
Ingrandimento delle figure: ob. ap. Zeiss 2 mm i oc. 

comp. 4. 



• Com. rend. de VAc. de Sc. 26 oct. WOS et 8 fevrier 1909; Arch, 
de FInst. Pasteur de Tunis fase. II Mai 1909. 



Preparo de caldo como meio de Cultura 

PELOS SNRS. 
R. HOTTINGER E GeRALDO DE PaULA SoUZA 



Laboratório de Zootechnia da Escola Polytechnica de S. Paulo. 



Numerosas são as receitas e methodos empreg^ados 
para a preparação de meios de cultura liquidos. A base do 
maior numero d^elles é o caldo de carne. Quando se 
compara o modo de preparaFo seg-undo vários autores, 
facilmente se verifica que nenhum d'entre todos estes me- 
thodos basea-se nos principios de physica e da chimica. 

Em nenhum d'elles se levou em conta o que se pas- 
sa na preparação do extracto de carne para o fim que 
temos em vista. 

Citamos apenas alguns desses methodos para salientar 
que o modo da preparação não é lógico 

500 g-rs. de carne são fervidas em 1 litro de agua, 
durante '/a hora á fogo nú. 

A carne assim tratada vae ser parcialmente coagulada 
na superfície empedindo assim a extracção de substancias 
solúveis, extracção porém que se daria durante a fervura 
de '2 hora. A extracção em todo o caso é incompleta, a 
carne terá ainda em absorção uma quantidade considerá- 
vel de substancias solúveis. Para receber estas substancias 
uma prensa forte seria necessária, expremendo o residuo 
tanto possivel quasi até ao estado secco. Taes prensas po- 
rém são muito caras. 

Carne fer\'ida 5 horas á fogo nú. A fer\aira prolon- 
gada certamente não tem effeito, desde o momento em 
que estabeleceu-se o equilibrio entre os corpos solúveis em 
soluções e os absorvidos pela carne; fervura prolongada 
não modificará mais esta relação, (jasta-se fogo e trabalha- 
se sem lucro. 

Carne picada addicionada do duplo do seu peso em 
agua, depositada na geleira e no dia seguinte tratada como 
acima mencionamos, isto é, fervúda bastante tempo. 

Certamente tem valor picar a carne (reduzir com á 
machina) pois a extracção de um corpo reduzido á peque- 
nos fragmentos dá-se tanto mais rapidamente quanto me- 
nor forem os volumes dos pedaços. 

A demora prolongada na geleira porém não ofFerece 
vantagens pois o equilibrio se estabelece, como veremos 
nas experiências feitas, em pouco tempo. A fervura pro- 
longada feita no dia seguinte não tem nenhum valor pois 
a extracção da carne assim tratada é quasi immediata. Este 



Rev. da Soe. Scíent de S. Paulo 
Vol. IV. (1909) 




A. SPLEXDOKE 
Toxoplasnia Cuni^nH 




/^ 



\ 



4 



IV 




II. 





1 1. 



IV. 





VI. 



— 84 — 

ultimo methodo é vantajoso por não impedir a extracção 
por coagulação na superfície da carne, porém também 
por este methodo perderemos bastante material que fíca 
absorvido pelo residuo. 

No preparo do caldo de carne devemos evitar a 
coagulação das albuminas antes das substancias solúveis 
e incoagulaveis serem eliminadas. Temos de nos lembrar 
que é impossível acabar uma extracção qualquer em uma 
só operação, mesmo quando a substancia á extrahir for 
reduzida a pequenas particulas. A agua de lavagem ha de 
ser renovada e só em 2 ou mais operações se poderá ex- 
gottar a substancia. 

Para comprovar o que acima dissemos, fizemos expe- 
riências comparativas dos vários methodos uzados e de 
methodos baseados em principios da physica e da chimica. 
200 grs. de carne foram picadas e misturadas a 400*"*^ 
de agua e deixadas na geleira durante a noute. No dia 
seguinte depois de mexida e decantada foi coagulada uma 
parte usando-se de um balão como refrigerante» para evitar 
perda de agua. Para determinar o gráo de extracção de- 
terminou-se no liquido filtrado o N. pelo processo de Kjel- 
dhal. 

Millgr. N. Vo N 
1.^ analyse - Depois de permanecer na geleira, de- 
cantada, filtrada achou-se em 5^^^ 11,0'"™ 0,220 
2.* analyse - A mesma amostra foi coagulada sem 
ser retirada a carne picada. Mostra que em 
5*^*^ o extracto augmentou-se de 0,8 milligr. 
ou de 0,016^'^ isto é, em 5^^ 11,8 0,236 
S."* analyse - Uma amostra (200 grs. de carne 
em 400*^^ de agua) aquecida á 60^. 15' depois 
tirou-se imia amostra que foi filtrada e coagu- 
lada como acima descrevemos. 5*^*^ deram 12,4 0,248 
4.* analyse -Uma amostra tirada depois de per- 
manecer 30* á 60^^ deu em 55" do filtrado 10,3 ou 0,206 
5.* analyse - 4õ dirigido á 60*^ recebeu-se em 55" 10,8 „ 0,216 
6.* analyse - Fervida toda a carne juntamente com 

agua obteve-se em 55''*^ 11,0 „ 0,220 

7.* analyse -Esta amostra analysada no dia se- 
guinte deu os mesmos resultados 11,0 „ 0,220 
8.* analyse -O preparado n.*" 7 foi fervido duran- 
te 1 hora juntamente com carne em banho- 
Maria, tomando-se precaução de não evapo- 
rar agua. 55*''' do filtrado deram 11,4 „ 0,228 
Nos dados acima notamos diíFerenças bem curiosas 
no n^ 3, n**. 4, n."* 5, verifica-se uma diminuição doazoto 



— 85 — 

quando é mais demorada a extracção. Suppondo um erro 
de experiência foi repetida a operação, usando-se porém 
na serie sej^inte 200 grs. de carne para õOO*^*' de agua. 
A carne foi comprada no dia anterior, os dados por conse- 
guinte, não são directamente comparáveis entre si. 

MiUgT.N.V^^N. 

9.* analyse - A carne picada misturada com agua 
mexida apenas 2' foi decantada e coagula- 
da 5^»^ deram 9,7 ou 0,194 

10.* analyse - Depois de digerir, mergulhando o 
balão em agua de ca de 70** até ficar a agua 
á 5õ^5*=^ deram 10,8 „ 0.216 

11.* analyse- Depois de permanecer 15' nesta 

temperatura, recebeu-se em 54*^*^ 9,7 ,, 0,194 

12.* analyse - Depois de ficar 30* recebeu-se em 

55- 10,5 „ 0,210 

13.* analyse -2(X) grs. de carne da mesma re- 
messa, picada e bem mexida, misturada com 
300^*^ de agua, operação repetida com 200*''' 
recebeu-se em 5" 10,9 „ 0,218 

14.* analyse -O residuo foi extrahido outra vez 
com 400^^ agua. A coagulação foi incomple- 
ta, filtrando-se o liquido que se obtinha na 
turvo, mas depois tomava-se claro, sendo leve- 
mente alcalinisado 55*"^ deram 7,3 ,, 0,146 

Das analyses acima mencionadas conclue-se que fervuras 
prolongadas ou extracções demoradas no mesmo liquido, 
isto, é agua para preparar o caldo, não tem conveniência 
alguma. A extracção da carne passada na machina muito 
rapidamente, a concentração máxima é attingida em poucos 
minutos, estabelecendo-se um equilíbrio entre a concentração 
no liquido e as substancias absor\'idas pelo residuo da carne. 
Aconselhamos, baseados nos resultados das experiências: 

Passar a carne na machina e juntar agua até formar 
uma massa de consistência de charope bastante dilluido, 
depois de ter mexido bem filtra-se atra vez de um coador 
de tela de arame. Este coador que convenientemente tem 
a forma de funil torna-se muito útil nestas operações: frag- 
mentosinhos de carne que passam não prejudicam. A mesma 
operação repete-se ainda duas ou trez vezes, de maneira que 
se recebe de um kilo de carne 4-6 litros de caldo, que 
unidos serão fervidos como de costume. 

Emprega-se geralmente para um kilo de carne dois 
litros de agua, porém não tem inconveniência alguma em- 
pregar mais agua, especialmente quando se extrahe mais 



- 86 — 

completamente a agua pelo modo que indicamos acima. Pro- 
cedendo-se a esta extracção repetidas vezes verifica-se que 
só depois da terceira extracção o extracto fica mais pallido, 
os primeiros contêm ainda bastante Haemoglobina, signal 
este que bastantes corpos solúveis se acham ainda em 
absorção. 

Os residuos das extracções não devem ser rejeitados, 
elles ser\^em muito para a preparação de uma peptona- 
propicia especialmente para a formação de Indol. Experiên- 
cias feitas neste sentido mostraram que as peptonas pan- 
creáticas preparadas com estes residuos offerecem muitas 
vantagens, ellas são bem melhores do que as peptonas do 
mercado. Sobre a preparação destas peptonas, por meios 
á mão de cada pessoa, entraremos mais tarde. 



O canto do gallo à noite é um exemplo de propriedade 
adquirida por hereditariedade 

FOR THEODURETO DE C AMARGO 



LaboratoiÍD de Zootechnia da Escola Polytechnica de S. Paulo. 



Tendo tido occasião de acompanhar, como prepara- 
dor do Laboratório de Zootechnia, ás observações alli feitas 
pelo Snr. Prof. Dr. Hottin^er, para provar que o canto do 
g-allo pela madrugada era um exemplo de hereditariedade 
somatogenica* e habituado a ouvir cantarem os gallos aqui 
sempre áquella hora, não foi sem verdadeira surpreza que, 
indo passar as férias em S. Carlos, notei que em o nosso 
quintal havia um galli que, cantava sempre ás 9 horas 
da noite, contrariamente aos gallos da visinhança que só 
cantavão de madrugada. 

E o que é interessante, um gallo de raça commum, 
que se empoleirava em a mesma arvore que elle, se con- 
servava completamente indiflFerente á sua cantiga. 

Indagando, soube que o gallo, a que me refiro, era 
de raça Orpington pura, oriundo de pães importados ha 
alguns annos. 

Notei as minhas observações e chegando aqui mos- 
trei-as ao meu amigo Snr. Dr. Hottinger, que immediata- 

^ Annoario da Escola Polytechnica de São Paulo 1908, pag. 269 



— 86a — 

mente me disse: «essa raça deve ser orij^naria de um paiz 
situado a leste e cuja diíFerença de longitude para São 
Paulo seja de cerca de 7 horas.> 

Procurando na Zootechnie Speciale de Comevin, edi- 
ção de 1895, encontrámos á pagina 173: Orpington, raça 
de criação ingleza recente; ella provem do cruzamento 
das raças de minorca, langsham e plymouth-rock. 



OrpiígtOH 
oreaflo receite 



■ilOrCl- Provavelmente da Hespanha. 

llBgSbUi' Importada da Tartaria em 1872. 

I CocbiicliiHa , ^ . 

pljionthrock I , í leghoni \ *»^**"" 
I DOBíHica J 1 liToneia 

raça iagleu 
■Bito antiga 



dorkíHg I 



Examinando a arvore genealógica acima, vemos que 
dos elementos constitutivos da raça orpington, a raça de 
langsham é a que ha menos tempo foi importada do Oriente 
(1872), pois as raças de minorca e a plymouth-rock des- 
cendem de raças importadas talvez ha millenios; não é 
extraordinário portanto, que ella ainda conservasse, por 
occasião do cruzamento, propriedades que nas outras duas 
já se havião desapparecido, pela acção das diversas influ- 
encias (Annuario da E. Polytechnica- 1909 pg. 272); e as 
transmittisse aos seus descendentes. 

Quando isso não tenha acontecido» podemos chegar 
á mesma conclusão, baseando-nos nos trabalhos de Correns*, 
Tschermak** e outros, que mostraram, por innumeras 
experiências, que se pôde pelo cruzamento, reactivar nos 
descendentes, qualidades desapparecidas dos ascendentes. 

Mas para que a explicação do phenomeno que esta- 
mos estudando, o canto do gallo á noite, possa basear-se 
no que acima dissemos é preciso que a Tartaria, paiz de 
onde é originaria a raça de langsham, esteja coUocada 7 
horas a leste de S. Paulo. 

Effectivamente, si procurarmos em qualquer mappa, 
encontraremos que a differença de longitude entre a Tar- 
taria chineza e S. Paulo, é justamente de 7 horas, facto 
este que vem confirmar a previsão do Dr. Ilottinger. 



• Correns, lur Kenntnis d^r scheinbar neuen Merkmale der Bastarde. Berichte der 
Deutschen Botanischen GeseUschaft, Band XXIII, Heft 2, pag. 85. 

♦♦ Tschermark, iiber die Bedeutuug des Hybridismus fiir die Deszendenzlehre 
Biologisches CentralbUtt, Bd. XXVI, N. 24-1906, pag. 886; Cber die Ergebnisse der mo- 
dernen Kreuzungsziicbtung bei Getreide und ihre Zukunft. Monatshefte fUr Landwirtschtdt. 
1908 pag. 11; Die Kreuzungszííchtung des Getreides und die Frage nach den Ursachen der 
Mutation. Monatshefte fiir Landwirtschaft, Heft I ex. 1908 pag. õ. 



Algumas obseruações sobre o preparo da tintura 
e do papel de tournesoL 

R. IIOTTINGER 



Laboratorío de Zootechnia da Escola Polytechnica de S. Paulo. 



A importância e o uso constante deste indicador nos 
laboratórios e na technica, deram causa a um sem numero 
de receitas e indicações para o preparo delle. Porém estes 
methodos a par das vantagens têm desvantagens, que tor- 
nam os resultados obtidos pouco satisfactorios. Umas vezes 
os reultados são bons, mas o processo complicado e tra- 
balhos; outras vezes o methodo é expedi ti vo, mas o indi- 
cador obtido é tão impuro que não serve nem para os 
trabalhos pouco exactos. Innumeras applicações por mim feitas 
dos processos conhecidos, para o preparo da tintura de 
toumesol, tomaram cada vez mais sensivel a necessidade 
de uma simplificação dos methodos empregados, mas que 
não prejudicasse a qualidade do indicador obtido. 

E* de uso corrente hoje também na bacteriologia, para 
selecção de germens e nos estudas sobre fermentação, o em- 
prego da tintura de toumesol como indicador: mas o bom 
êxito do trabalho depende quasi exclusivamente, em quese 
muitos casos, da sensibilidade da tintura. É verdade que a 
que se encontra a venda no mercado com o nome de azo- 
lithmina, substancia indicadora, chimicamente pura, mas o seu 
preço é bastante elevado, o que vem restringir o seu emprego. . 

A tintura detoumesol que se encontra a venda, raras ve- 
zes pôde ser empregada por conter, quasi sempre, impurezas 
quei mpedem a passagem nitida da cor vermelha para a azul. 

No processo por mim empregado, para isolar a subs- 
tancia indicadora, não sahi do methodo fundamental, que 
consiste: em extrahir pelo álcool, dois corpos prejudiciaes 
que se acham misturados com o indicador e absorvidos 
pelos carbonatos de cal e de potássio. Fazendo-se a ex- 
tracção dos grânulos brutos, como se compra nas dro- 
garias, pela agua, obtem-se um indicador péssimo; e a 
solução que assim se recebe contem 4 corp3s differentes, 
que são: a Azolithmina, a Spaniolithmina a Erythroleina 
e a Erythrolithmina. De todos estes corpos só a Azolith- 
mina é indicador. Os outros corpos são tintas insensi- 
veis ou até antagonistas: — a Erythroleina em contacto 
com o ammoniaco toma uma coloração vermelha de pur- 
pura ao passo que a Azolithmina toma-se azul. 

A Erythroleina e a Erythrolithmina são solúveis no 



— 88 — 

álcool ao passo que as outras duas, que ficam no resíduo, 
só são dissolvidcis na agua alcalinisada. Os ácidos precipi- 
tam a Azolithmina, ao passo que a Spaniolithmina fica em 
solução. 

Nestas propriedades destes corpos, são baseados os 
diversos methodos de preparar o indicador. 

Não vale a pena descrevel-os, porque quasi todos os 
tiatados de analyse volumétrica dão indicações a respeito. 
Dando em seguida a descripção da maneira mais fácil de 
se preparar o indicador, pensamos justificar as modificações 
introduzidas, mostrando que ellas facilitam muito os traba- 
lhos do operador e permittem-no receber um producto 
que satisfaz. 

L* Extracção dos grânulos com álcool: 

Os grânulos de tournesol são comprados em bocaes. 
Estes vidros me serv^em de extractores. Eu os encho com 
álcool de ca 90^^, 957,, ^» collocando-os na meza, á vista 
e ao alcance das mãos. De vez em quando eu os enclino, 
virando-os mas evitando agitações. O álcool cada vez mais 
adquire uma coloração violácea. Quando a cor é bastante 
intensa eu decanto e renovo o álcool até quando elle se 
torna quasi incolor. A renovação do álcool é fácil, fechan- 
do o bocal com um pedaço de lã, amarrada com um bar- 
bante ou mais expeditivo ainda, com um annel de borracha. 
Inclinada a garrafa o álcool passa já filtrado atravéz do 
panno. Serve também uma simples decantação, pois geral- 
mente os grânulos são bastante sólidos, para se não desfaze- 
rem na operação, especialmente quando não forem agitados. 

A extracção assim feita, demora bastante, porém não 
occupa o preparador. Comprando-se os grânulos, tira-se a 
rolha do boccal e se o enche com álcool, que se renova 
quando se tem occasião de o fazer. O álcool extrae 
assim, a Erythroleina e a Erythrolithmina, adquirindo uma 
coloração violácea avermelhada, com fluorescência verde. 
Estes dois corpos prejudicam especialmente o indicador 
sensivel, isto é a Azolithmina. A extracção deve ser por 
conseguinte, tão completa quanto possivel, até não ficar 
mais colorido o álcool, que esteve em contacto alguns dias 
com os grânulos. 

Os autores aconselham a extracção dos grânulos com 
álcool de 90"/^,, em capsula, no banho-maria. Este processo 
é naturalmente, mais rápido, porém causa perdas em indica- 
dor, pois a concentração do acool facilmente se abaixa tanto, 
que fica extrahida a Azolithmina. Querendo-se tomar mais 
expeditiva a extracção opera-se em balão com tubo refri- 
gerante. O balão é situado de tal modo que a ferv^ura seja 
fraca. Com vantagem usa-se de um dephlegmador, de mo- 



— 89 — 

delo semelhante ao aconselhado por mim no Annuario da 
Escola Polytechnica, para destilar ammoniaco na analysé 
do Azote. 

Prefiro a extracção a frio, porque a operação não 
precisa ser vigiada e é pelo menos, tão efficaz e completa 
como a quente. 

A extracção da Azolithmina do residuo, com agua 
não é lógica. Nas indicações existentes sobre esta operação, 
acha-se mencionada a difficuldade da filtração do extracto. 
Fervendo o residuo ou extrahindo a frio a tinta com agua, 
recebe-se renovando a primeira agua, uma suspensão muito 
fina. Suspensão esta que facilmente passa o filtro ou quan- 
do não passa mais, por estarem entupidos os poros do 
papel, a filtração para quasi completamente. Acconselha-se 
também a decantação do extracto, porém a precipitação 
leva alguns dias até ficar exgottado por varias operações, 
o residuo, leva bastante tempo. 

A extracção final da tinta indicadora deve ser feita 
com a solução fraca de carbonato de ammoniaco. A con- 
centração do alcali não precisa ser medida, é sufficiente 
que a agua apresente reacção básica nitida pelo toumesol. 

Deve-se evitar uma concentração mais forte, para não 
prejudicar a sensibilidade do indicador, caso se não queira 
preparar a Azolithmina mais pura, precipitando-se esta por 
uma solução acida ou pelo álcool. 

Extrahindo com carbonato de ammoniaco, obtem-se 
duas vantagens: em primeiro lugar, nota-se que a filtração 
toma-se bastante fácil, assim como a decantação é muito 
mais rápida. Fazendo a extracção como álcool a frio não 
será necessário filtrar, pois pela dififtisão recebe-se o ex- 
tracto, ficando nas primeiras operações os grânulos intactos. 
A razão de se usar do carbonato para a extracção é 
devida ao facto de, por este modo, ficar supprimida a ioni- 
sação do carbonato de cálcio por conseguinte a solubilidade. 
Deve-se lembrar que na preparação do carbonato de cálcio 
só um excesso de acido carbónico toma mais completa a 
reacção, conforme (a „Massenwirkungsgesetz") a lei das 
massas activas (^^c^"""^-)' 

Uma outra vantagem da extracção com o carbonato 
de ammoniaco, de soda ou potassa, consiste na maior solubi- 
lidade do indicador nestes meios. Extrahindo assim, por 
exemplo, um residuo ja bastante esgottado, apenas colorido 
levemente de azul, em duas amostras, uma vez com agua 
outra com alcali verifica-se facilmente o que mencionamos. 
A extracção com alcali, dá um extracto muito mais azul de 
que com agua, facto este que facilmente se explica pelas 



— 90 — 

leis da absorção, no systema liquido solido. Na mesma 
occasião verificar-se-ha a vantagem em respeito á decanta- 
ção e a filtração, o tubo contendo carbonato, decanta 
muito melhor do que o de agua pura. 

Assim tratando o material bruto recebe-se já um in- 
dicador bem sensivel e sufficiente para o uso commum 
nos laboratórios, este preparado que é tão útil na bacte- 
riologia, especialmente para os meios assucarados. É este 
preparado que usô na revelação das chapas de Drygalski 
para a diagnose do Typho, Paratypho etc. 

Para torrar mais puro o indicador, acidula-se os 3 
primeiros extractos com acido acético e derrama-se o liqui- 
do em bastante (ca de 3 volumes) álcool rectificado. 
Extrahindo-se com agua, recebe-se soluções mais fracas, 
que precisam ser evaporadas antes de serem precipitadas. 
Porém convém muito evaporar em todo o caso e para faci- 
litar esta operação procede-se da maneira seguinte: 

Em uma cuveta photographica ou outro vaso plano, 
põem-se rodilhões de panno de linho e junta-se as soluções. 
Estes rodilhões tem para fim absorver a tinta, e facilitar a 
evaporação, pelo grande augmento de superfície. A eva- 
poração toma-se mais rápida collocando-se a cuveta na 
estufa ou em lugar morno e o indicador secco no panno, 
pois é sabido que a luz empallidece os papeis de tournesol 
que são expostos a ella. 

Tendo os pannosinhos absorvido o indicador e quando 
seccos, mergulha-se em álcool para dissolver os restos das 
tintas solúveis em álcool, bem como os acetatos de potassa, 
ammoniaco etc. Tratados com agua morna recebe-se o indi- 
cador ou a tintura de tournesol bastante pura. 

Estes pannosinhos servem muito para a preparação da 
Azolithmina ou a puriíicação completa do indicador. Mer- 
gulha-se quando seccos em uma solução de ca 10'' ,, de 
acido sulfúrico para precipitar a Azolithmina, que fica 
pegada a elles. A Azolithmina assim tratada é insolúvel 
na agua e pode-se assim eliminar, especialmente a Spa- 
niolithmina por lavagens com agua. Uma solução muito 
levemente ammoniacal extrahe então facilmente a Azolih- 
mina em solução azul muito pura. 

Recebe-se também uma boa tintura, dialysando os 
extractos por carbonato de ammoniaco; e para facilitar esta 
operação uso ha já muito tempo de um dispositivo para 
dialysar, que aqui será descripto mais tarde. 

Resumamos o methodo de preparar o indicador: 

Encher de vez em quando os boccaes, que vem com 
o material bruto (Lakmus) com aJcool retificado (90-957e)- 



— 91 — 

até que o acool se não colore mais, e continuar a mesma 
operação com uma solução levemente alcalina, de carbo- 
nato de ammoniaco (sódio ou potasio) até os grânulos 
ficarem exg-ottados. Convém deixar actuar bastante o álcool 
e o alcali, a operação é feita com as garrafas do deposito. 

A solução aquosa passa para cuvetas photographicas 
contendo rodilhões de panno de linho limpo e branco para 
facilitar a evaporação e a fixação da tinta nos pannosinhos, 
que, depois de seccos, mergulhados em álcool acidulado 
com acido acético e depois lavados com álcool (100 Álcool 
rect. misturado com 10 de agua). 

Para receber-se a tintura extrae-se estes pannos com 
agua morna ou querendo-se obter a azolithmina, passa-se 
o pannosinho no acido sulfúrico a 10% lava-se extrae-se 
com uma solução levemente ammoniacal. 

Para a Bacteriologia, é sufficiente extrahir-se os grâ- 
nulos aminuciosamente com álcool; os saes não precisam 
ser eliminados em forma de acetados. 
O papel de tournesol. 

A tintura que se recebe pela preparação acima, serve 
para preparar papel de tournesol de alta sensibilidade. Cos- 
tuma-se fazer papel vermelho e azul, isto é papel acido e 
alcalino. 

Titulando cuidadosamente a tintura até a cor de carmim 
bem escura recebe-se um papel neutro que reage sensi- 
velmente pelos ácidos, bem como pelos alcalis. O papel 
preparado deve ter uma coloração roxa e para se receber 
esta cor, experimenta-se, na neutralisação da tintura, mo- 
lhando uma fitasinha do papel de filtro que se quer usar e 
deixando seccar. O papel húmido não pode ser bem julgado. 

Este papel é bastante pratico quando se trata de 
neutralisações de liquidos. Com este mesmo papel pode-se 
^ter o ponto neutro. 



Indícaíína 

DoDO indicador, de uma grande sensibilidade ás bases. 



POR ROB. HOTTINGER 



Laboratorío de Zootechnia da Escola Polytechnica de S. Paulo. 



Em o Annuario da Escola Polytechnica [1907, pg. 5] 
escrevi uma pequena noticia sobre um indicador por mim 
obtido, fazendo actuar o nitrito de sódio sobre a resorcina, 
afim de preparar o lacmoid. _______-^_^__^_— 



O nome INDICATINA será subshtuido por LACKMOSOL 
por razão de existir um nome Indicanina, derivado do «Indican». 



— 92 — 

Antes porém de proseguir, devo dizer que o paren- 
tesco entre lacmoid e lacmus é apenas de nome, pois as 
differenças entre as suas propriedades physicas e chimicas 
são bcistante grandes. 

Em nota accrescentada durante a correcção d^aquelle 
trabalho, tive occasião de dizer que tendo comparado o in- 
dicador por mim obtido, com o lacmoid de Merck, recebido 
da Europa, encontrei taes differenças que suppunha bem se 
tratasse de um novo corpo. Investigações recentes vieram 
corroborar ainda mais aquella opinião. Depois de innumeras 
tentativas, creio haver encontrado, finalmente, o methodo 
mais conv^eniente para o prepara daquelle corpo, que cDmo 
já disse, me apparece o quando tentava preparar o lacmoid, 
sem que eu tivesse tido occasião de observar, qual a causa 
intima da sua formação. 

Vamos dar em seguida, o methodo que nos permittio 
isolar aquella substancia dos outros corpos pouco ou nada 
sensiveis, evitando assim innumeras fontes de erros. 

Methodo de preparo: Colloca-se 20 grms. de resorcina 
em um balão de Erlenmeyer, addiciona-se 2*^*^ de agua e 
mergulha-se o balão em um banho de parafina. 

Eu prefiro a parafina ao óleo, por ser muito mais limpa, 
não desprender vapores encommodos e não tornar oleoso 
o balão, pois a parafina se endurece ao res£riar-se. 

Entre a temperatura de 90^ e 100° ajunta-se cerca de 
um centímetro de uma solução concentrada de nitrito de 
sódio, mexendo-se levemente o balão, porém de modo a 
impedir que as paredes interiores delle, fiquem sujas de 
tinta a um nivel superior áquelle em que elle mergulha na 
parafina. 

O balão deve ser mantido no banho em uma posição 
vertical com auxilio de uma supporte, 

A' temperatura de 110° começam a desprender-se va- 
pores ammoniacaes e o liquido do balão passa aos poucos, 
da coloração rosa-violeta para a de azul-violeta e finalmente 
adquire uma cor azul bem nitida. Quando o liquido fica 
com essa coloração azul, bem nitida, sem traços arroxeados, 
a operação deve ser interrompida. Para se poder avaliar 
bem esse momento, convém inclinar o balão e observar a 
camada fina de tinta, que fica adherente ás paredes do vasD, 
atravez da chamma illuminante de um bico de Bunsen. 
Pode-se também mergulhar um bastão na preparação e tocar 
com a ponta delle a superfície de um vaso com agua e pela 
coloração da agua avaliar do estado da preparação; mas 
este processo tem o inconveniente de não dar uma idéa tão 
justa, por causa da differença de concentração das diversas 
amostras em comparação e ser causa de perdas de material. 



— 93 — 

Retirado da parafina esfria-se o balão, inclinando-o ao 
mesmo tempo, de modo a molhar completamente com a 
tmta as suas paredes interneis. Este processo tem a van- 
tagem de facilitar a extracção pelo ether, que se segue. 

Nunca se deve deixar, depois da operação, o thermo- 
metro no banho de parafina, porque a contracção d*ella 
pelo resftiamento, o esmagaria impreterivelmente. 

Procede-se em seguida, a extracção pelo ether am- 
moniacal, agitando-se bem o balão, afim de retirar a resor- 
cina que não foi atacada. Depois de repetida esta operação 
diversas vezes, decanta-se o ether bem e addiciona-se um 
acido volátil concentrado (acido fórmico ou acético) agitan- 
do-se o balão e procurando dissolver o residuo, esfregando 
a tinta de encontro a parede do vaso, com um bastão de 
vidro. 

Extrahindo-se em seguida pelo ether, recebe-se um li- 
quido vermelho de carmim claro, que é o indicador. Esta 
substancia é extraordinariamente solúvel no ether, principal- 
mente quando um pouco acidulada; propriedade essa que 
permitte exgottar completamente o residuo. Não se deve 
porém, levar a extracção até o ponto do ether sahir incolor, 
porque o resultado obtido não pagará o trabalho. 

O extracto ethereo do indicador deve ser destillado 
em um apparelho qualquer, até a eliminação do ether e 
collocado para seccar em pequenos crystallisadores á tem- 
peratura moderada. O acido volátil deve evaporar-se, mas 
quando não aconteça isso addiciona-se um pouco de álcool 
e procede-se a uma nova evaporação. 

Uma gotta de álcool addicionada ao indicador, deve 
tomar logo um coloração azul que se tornará depois vermelha 
com a maior concentração do indicador. 

Algumas propriedades da Indicatina: Para tomar bem 
patente a differença existente entre lacmoid e indicatina, 
vamos comparar não só as suas propriedades physicas, como 
também os processos de preparação. Experimentando com- 
parativamente lacmoids recebidos de duas fabricas européas 
e que traziam nos respectivos rótulos o titulo de ^puriss», 
cheguei a conclusão de que não só elles não erão puros, 
como consegui mesmo, isolar diversos corpos que se acha- 
ram misturados com elles, tratando-os pelo acido cicetico, 
fórmico, chloreto de sódio e extraindo pelo ether. Verifiquei 
que no lacmoid de Alerk se encontra, em pequena pro- 
porção, indicatina e mais, pelo menos, dois corpos, que não 
são indicadores. Em uma solução de lacmoid que recebi 
das Fabricas Unidas de Berlim encontrei maior quantidade 
de indicatina que no lacmoid de Merk, porém encontrei 
também as mesmas impurezas já mencionadas. 



94 



Purifiquei o lacmoid de Merk até eliminar [quasi] 
completamente a indicatina, que fica energicamente absor- 
vida pelo lacmoid. 

A tabeliã seguinte mostra as difFerenças mais impor- 
tantes entre os dois indicadores. 



Beactino 


Lackmoid 
extraído do de Merk 




Indicatina 


Agua 


insolúvel 




solúvel 


Ether commum 


insolúvel 




solúvel 


< livre de agua 
e de acido 


» 


insolúvel, uma gotta de 
agua, dissolução rápida, 
agua azul, ether vermelho 
(provavelmente hydrolise 
do ether com formação 
de traços de acido). 


Acetona 


Solúvel vermelho 




Solúvel vermelho 


< em excesso 


continua vermelho 




torna-se azul 


Álcool 


solução vermelha 




solúvel vermelho 


< em excesso 


» » 




torna-se azul 


Acido acético 


difficilmente solúvel 




solúvel 



diluida 10 vezes com agua 
precipitação parcial, su- 
spenção, depois flocos — 
agitado com ether pre- 
cipitados, formação de 
membrana, ether torna- 
se incolor. 



diluida 10 vezes com agua 
fica em solução — 
agitado com ether não ha 
precipitação nem mem- 
brana — 
ether muito vermelho 



Acido fórmico 
< chlorohydr.2/n 
Agua 



Insolúvel 



Solúvel 

3 gottas da solução ver- 3 gottas da solução ver- 
melha em lOcc de agua melha em lOcc . de agua 
permanece vermelha; ôO^c ficão azul. 
de agua com indicador 
precisão de 1 gotta de 
Na O H n/,Q para ficar 
azul. 



Papel de filtro 

(1 gotta projectada sobre 
eUe). 



mancha vermelha (forma- 
se uma Zona azul de 1 
millimetro, devida a tra- 
ços de indicatina). 



mancha azul 



Estas reacções servirão para provar que se trata de 
corpos diflferentes. Em respeito á sensibilidade, resta-me 
dizer que a Indicatina é bem superior ao lacmoid. Estudos 
comparativos fornecerão dados objectivos. O lacmoid do 
mercado é tanto mais sensivel quanto maior quantidade de 



— 95 — 

Indicatina contem em mistura. O de Merck contem IO^/q 
de Indicatina, sendo o restante lacmoid com traços de im- 
purezas [corpos de cor amarellada]. 



Influencia do clima e do terreno sobre os pés dos ungulados 

Estudo palaeontho-zoologico 

POR O. PiTSCH 



Laboratório de Zootechnia da Eàcola Polytechnica de S. Paulo 



INTRODUCÇAO 

Em o ultimo numero do Annuario da Escola Poly- 
technica, tentámos provar a influencia da alimentação, ele- 
vagem e tratamento sobre o desenvolvimento das formas 
e aptidões dos bovideos, tomando como modelo o g-ado 
pardo da Suissa. Tentámos alli provar a influencia do 
terreno e dos agentes climatéricos sobre a mudança das 
formas dos bovideos actuaes. 

As nossas observações originaram-se do estudo dos 
bos hrachyceros de Rutimeyer ou bos taurus longifrons de 
Owen. Esses animaes já existiam na Europa, em os tempos 
prehistoricos e são geralmente conhecidos pelo nome de 
Torfrind. Estudos recentes mostraram a probabilidade, destas 
raças das turfas terem sido trazidas de outros paizes para 
a Europa. Com a propagação delia, aos diflferentes paizes 
europeos, de condições e climas diversos, formaram-se diffe- 
rentes raças e variedades, [vide pag. 189-201 do Annuario 
de 1909]. 

Para comprovar a variabilidade, não é preciso um 
campo de obser\'ação tão vasto: o districto do gado pardo, 
cujo estudo detalhado demos no Annuario, basta para aquelle 
fim. Mas para facilitar ao leitor, vamos dar aqui um resumo 
das conclusões a que alli chegamos. 

Os mais antigos restos de bovideos encontrados na 
Europa, são provenientes dos tempos prehistoricos. Excava- 
ções feitas nas mais antigas palafitas, puzeram a descoberta 
ossadas de bois, o que prova que já n'aquella epocha elles 
eram domesticados. 

Rutimeyer estudou detalbamente os animaes domésti- 
cos das palafitas e foi de opinião, que as ossadas por elle 
encontradas, eram de bois pequenos com os chifres curtos, 



— 96 — 

raça esta geralmente conhecida pelo nome de boi das turfas. 
Os seus estudos mostraram a identidade entre os bovideos 
das turfas e os da raça parda actual, denominada òos 
bracityceros pelo Rutimeyer ou bos tauriis lottgifrons por 
Owen. Em palafitas mais recentes, da era neolithica, foram 
encontrados além de ossadas da raça das turfas, ossos de 
bovideos maiores, com outros caracteres, conhecidos pelo 
nome de bos primigenios. 

Parece que estas duas raças viviam ao lado uma da 
outra, mas sem se cruzarem, em os primeiros tempos. Ainda 
hoje se pode distinguir em todos os bovideos europeos, estas 
duas raças primitivas. Da raça das turfas, são originarias 
todas aquellas raças e variedades, que conhecemos sob o 
nome coUectivo de bos brachyceros Rutimeyer ou bos taurus 
Owen. Da raça primitiva, bos primigenios^ se derivaram 
todas as raças e variedades que conhecemos hoje sob 
aquelle nome. 

Até hoje, não se encontrou na Europa nenhum bovi- 
deo selvagem, d'onde se pudesse originar o bos brachyceros. 
Os restos de ossos encontrados nas palafitas mostram desde 
o começo signaes bem caracteristicos, de terem pertencido 
a uma raça uniforme, o que nos obriga a considerar essa 
raça como importada de um paiz extrangeiro. Estudos e 
esclarecimentos neste sentido, foram feitos também por Ada- 
metz e C. Keller. Xão entraremos em mais detalhe neste 
assumpto por ficar fora do nosso objectivo. 

O que queriam os accentuar é que todas as raças e 
variedades originarias do bos brachyceros^ são derivadas da 
antiga raça das turfas. A raça das turfas espalhando-se 
pelos diversos districtos da Suissa, Allemanha, França, 
Áustria, Rússia e Itália variou, sob a influencia dos diversos 
terrenos e condições exteriores, a ponto de formar as raças 
actuaes. Em o trabalho que publicamos no Annuario, nos 
limitamos apenas a estudar a variabilidade do corpo animal 
em o pequeno districto de creação do gado pardo suisso. 
Em este pequeno districto, encontrão-se os diversos factores 
que favorecem a variação. As condições topographicas são 
muito diversas; alli se encontrão desde a planície até a en- 
costa abrupta e accidentada; como também todas as alturas: 
desde 250™ acima da superfície do mar, até a linha das 
neves eternas. 

Os terrenos destes districtos limitados, são também de 
constituição muito variáveis, assim como as condições vitaes. 
Estes factos devem influir muito para a variação das formas 
dos corpos bem flexíveis dos bovideos. 

E de facto, vimos que o bos brachyceros formou dif- 
ferentes raças, nos diversos districtos. 



— 97 — 

As condições difFerentes do terreno e do clima, tomado 
no sentido zootechnico, influíram sobre a divergência das 
formas. Isso acconteceu em uma epocha em que se ligava 
pouca importância ás creações e por isso ellas tiveram que 
se acommodar as diversas condições vitaes dos respectivos 
lugares. 

lloie as condições são completamente outras: os crea- 
dores dirigem a creação de accordo com as regras zoo- 
technicas. Todos elles tem os seus interesses uniformes e 
em vista um só destino zootechnico, que procuram attingir 
empregando os mesmos meios. E* um typo uniforme que 
elles hoje têm em vista. As influencias da natureza que 
antigamente produziam formas divergentes no gado pardo, 
tomam hoje o rumo da convergência. Os creadores conhe- 
cendo os meios e empregando-os minusciosamente, tem á 
mão e dominam por conseguinte, as influencias que causam 
a divergência ou a dissemelhança de animaes e raças. As 
influencias do terreno, bem como dos agentes climatéricos, 
são uniformisadas pelos creadores em os districtos mais 
diversos. A agricultura e a zootechnia racionaes tomaram 
cada vez mais iguaes os diversos terrenos. Para attenuar 
a acção dos diversos agentes climatéricos, fora 3 construídos 
estábulos, até nas mais elevadas pastagens alpestres. A ali- 
mentação é dirigida de modo a se receber o mesmo resul- 
tado; e a selecção ainda auxilia esta uniformisação podero- 
samente. 

O resultado destes tentamens e trabalhos é muito sa- 
liente — desapparecem cts variedades cada vez mais, de ma- 
neira que hoje, após p jucos annos de trabalho, relativamente 
foi obtido um typo uniforme. Typo uniforme, que foi rece- 
bido pelo dorninío sobre os agentes naturaes. 

Para esclarecer mais ainda, a influencia do clima e do 
terreno sobre a variabilidade, estudaremos em seguida o de- 
senvolvimento do pé dos ungulados, durante a philogenese. 

Estudaremos o pé dos ungulados, desde o primeiro ap- 
parecimento delle, nas eras geológicas. E para ficarmos 
orientados sobre as influencias do terreno e clima, pro- 
cederemos mais ou menos, da maneira seguinte. 

Tendo-se poucas indicações sobre as condições do 
terreno e clima daquellas epochas, procuraremos reconstruir 
aquellas condições por conclusões retrogradativas, usando 
para isso dos dados fixados na litteratura respectiva. 

Os achados paleonthologicos de ungulados são, para 
o nosso fim, bem completos. Isso pelo menos para os 
perisodactiles. 

Para o fim que temos em vista, vamos estudar o pé 
dos ungulados recentes e vivos, especialmente a funcção 



— 98 — 

e desenvolvimento dos pés, em relação á vida delles nas 
condições actuaes do terreno e dos agentes climatéricos. 
Veremos quanto é possivel concluir, associando logicamente 
os dados e factos recentes aos dados paleonthologicos. 



ESTATUTOS 

— DA — 

SOCIEDADE SCIENTIFICA DE S. PAULO 



CAPITULO I. 
Da Sociedade e seus fins. 

Art. 1. A Sociedade Scientifica de S. Paulo, fundada 
a 7 de Setembro de 1903, é de duração illimitada, de illi- 
mitado numero de sócios, e tem sua sede na Capital do 
Estado de S. Paulo. 

Art. 2. Seu fim é promover, vulgarizar e despertar 
o gosto pelo estudo das sciencias, suas applicações techni- 
cas e artisticas, servindo-se. além dos meios que julgar op- 
portunos, dos seguintes : 

a) Excursões scientificas, com a descripção de seus 
resultados e a elaboração de memorias referentes ás obser- 
vações que se fizerem ; 

b) Eomiação de museu, laboratórios e bibliothecas ; 

c) Conferencias scientificas, technicas, e artisticas; 

d) Publicação de uma revista; 

e) Correspondências com as instituições congéneres 
do paiz e do estrangeiro. 

Art 3. O património social será constituído pelas con- 
tribuições, legados, donativos e subvenções que a Socie- 
dade receber. 

CAPITULO II. 
Dos sócios: seus direitos e deveres. 

Art. 4. Haverá cinco classes de sócios: effectivos, 
correspondentes, remidos, protectores e beneméritos. 

§ 1. • Sócios effectivos serão todas as pessoas que fo- 
rem propostas por qualquer sócio, e acceitas pela Directo- 



— 99 — 

ria da Sociedade, e concorrerem com a trimensalidade de 
12$000. 

§ 2. Sócios correspondentes serão todas as pessoas 
de nomeada scientifica, technica ou artística, residentes no 
estrangeiro, que forem propostas por qualquer sócio, ac- 
ceitas pela Directoria, e que fizerem offerta de seus traba- 
lhos á Sociedade. 

§ 3. Sócios remidos serão os que, nas condições dos 
effectivos, fizerem, de uma só vez, uma contribuição de 
500$000. 

§ 4. Sócios protectores serão todas as pessoas resi- 
dentes na cidade de S. Paulo ou fora, que forem propos- 
tas por qualquer sócio e acceitas pela Directoria e que 
contríbuirem, de uma só vez, com 1:0001000, no minimo. 

§ 5. Sócios beneméritos serão todos os sócios da So- 
ciedade que forem propostos por qualquer sócio, acceitos 
unanimemente pela Directoria, e approvados em Assembléa 
Geral, para isso extraordinariamente convocada, por três 
quartas partes dos sócios presentes. 

Art. 5. Os sócios de qualquer categoria terão direito 
de assistir a todas as reuniões da Sociedade e da Directo- 
ria, tomando parte na discussão de todos os assumptos. 

§ Único. Nas sessões da Directoria, a esta é reserva- 
do o direito exclusivo de voto ; nas outras sessões e nas 
Assembléas Geras ordinárias ou extraordinárias, esse direito 
é commum a todos os sócios offectivos. 

Art. 6. São deveres dos sócios: 

a) Satisfazer as contribuições estipuladas n^estes Es- 
tatutos; 

b) Fazer activa propaganda da Sociedade e seus fins; 

c) Concorrer, á medida de seus recursos, para o de- 
senvolvimento do museu, dos laboratórios e da bibliotheca 
da Sociedade; 

d) Desempenhar os cargos e commissões para que 
forem eleitos ou nomeados; 

e) Respeitar e fazer respeitar os presentes Estatutos, 
o Regimento Interno e as resoluções da Sociedade. 



CAPITULO m. 
Da Administração. 

Art. 7. A Sociedade será administrada por uma Di- 
rectoria composta de cinco membros, a saber: Director 
Presidente, Director Secretario, Director Thesoureiro, Di- 
rector Bibliothecario, Director da Revista. 



— 100 — 

§ 1. A Directoria será eleita annualmente, em es- 
crutínio secreto, em Assembléa Geral ordinária, para isso 
especialmente convocada, e que se realizará logo após o 
dia 7 de Setembro. 

§ 2. A Directoria elegerá entre si o Presidente e os 
demais directores. (*) 

Art. 8. A Assembléa Geral que eleger a Directoria, 
elegerá também o Conselho Fiscal, composto de três mem- 
bros que alcançarem maioria de votos. 

Da Directoria: 

Art 9. A* Directoria compete: 

a) Dirigir e administrar a Sociedade e modificar o 
Regimento Interno; 

6) Auctorizar as despezas; 

c) Providenciar sobre quaesquer donativos que a So- 
ciedade receber; 

d) Convocar as Assembléas Geraes e quaesquer ou- 
tras reuniões, conferencias ou sessões de sua própria ini- 
ciativa ou a pedido de pessoas competentes ; 

f) Nomear commissões e tomar conhecimento das 
que forem nomeadas nas sessões ou reuniões a que não 
houver presidido; 

/) Nomear os funccionarios, arbitrar-lhe os vencimen- 
tos e admittil-os, quando julgar conveniente; 

^) Resolver sobre os pareceres das commissões que 
houver nomeado. 

Art. 10. As funcções de cada um dos Directores, na 
ausência de um d'elles, serão desempenhadas na ordem 
seguinte : Director Presidente, Director da Secretaria, Dire- 
ctor da Thesouraria, Director da Bibliotheca e Director da 
Revista. 

Do Director Presidente: 

Art. 11. Ao Director Presidente incumbe pôr em 
execução em todas as suas disposições o Regimento, com- 
petindo-lhe mais os deveres abaixo mencionados: 

a) Presidir as sessões da Directoria; ás Assembléas 
Geraes e ás Conferencias; 

ò) Representar a Sociedade em juizo ou fora d'elle, 
e em geral em suas relações com terceiros ; 

c) Apresentar o relatório annual dos trabalhos so- 
ciaes na Assembléa Geral Ordinária a que se refere o § 
único do Art. 7., Cap. UI, e bem assim as contas com o 
respectivo parecer do Conselho Fiscal; 



(•1 Art. 7. Foi modificado, de conformidade com o que está na acta da Assem, 
biéa Geral Extraordinária, que teve lujçar na quinta-feira, 12 de Agosto, e conseguinte, 
mente teremos que modificar a redacção dos outros artigos, consoante a modificação. 



- 101 — 

d) Auctorizar, por escripto, as despezas de paga- 
mento das contas convenientemente processadas, e quando 
approvadas pela Directoria; 

e) Tomar conhecimento de todas as sessões, mesmo 
académicas e das Conferencias; 

/) Providenciar para o regular funccionamento de 
todas as Assembléas, Reuniões, Sessões» Conferencias, etc, 
auxiliando-as com as suas idéas e conselhos; 

g) Submetter á deliberação da Directoria as medidas 
que julgar necessárias ao desenvolvimento da Sociedade 
e ao bom desempenho do mandato, quando não tenha 
conseguido accôrdo individualmente com os Directores a 
quem tiver de recorrer; 

h) Cumprir e fazer cumprir os Estatutos, o Regimen- 
to Interno e as deliberações tomadas em Assembléa Ge- 
ral ou em qualquer outra reunião da Sociedade; 

/) Indicar á Directoria o nome de um sócio para 
substituir qualquer dos Directores, durante o seu impedi- 
mento, devendo esta indicação recahir no mais votado na 
ultima Assembléa Geral Ordinária, em que houver sido 
eleita a Directoria em exercicio. 

Do Director Secretario: 

Art. 12. Ao Director Secretario compete: 

a) Dirigir e superintender a Secretaria; 

ò) Redigir as actas da sessões administrativas; 

c) Organizar a correspondência social, quando auc- 
torizado pela Directoria : 

d) Providenciar sobre o registro de toda a corres- 
pendencia e archivo; 

e) Providenciar sobre as conferencias e a propagan- 
da pela imprensa; 

/) Organizar o relatório dos trabalhos da secretaria. 

Do Director Thesoureiro: 

Art. 13. Ao Director Thesoureiro compete: 

a) Arrecadar a receita e responsabilizar-se pela sua 
guarda ; 

b) Pagar as contas auctorizadas pela Directoria; 

c) Apresentar á Directoria balancetes e contas se- 
mestraes. 

Do Director Bibliothecario: 

Art. 14. Ao Director Bibliothecario incumbe zelar 
pela bibliotheca da Sociedade, mantel-a na melhor ordem 
e catalogal-a pelo melhor systema até hoje conhecido, a 
juizo da Directoria. 

Do Director da Revista: 

Art. 15. Ao Director da Revista incumbe a super- 
intendência de tudo quanto á mesma se refere e mais su- 



— 102 — 

perintendencia de tudo o que diz respeito ao Museu e ao 
Laboratório, quando estes installados forem. 

CAPITULO IV. 
Das sessões da Sociedade. 

Art. 16. Haverá sessões de Directoria, de Assem- 
bléa Geral, de Conferencias e Académicas. 

Art. 17. A Directoria reunir-se-á sempre que for ne- 
cessário ou quando um dos Directores o reclamar, em dia 
e hora prefixados, podendo deliberar somente com a pre- 
sença de três Directores, ou com qualquer numero em se- 
gunda convocação. 

Art. 18. As sessões Académicas e as de Conferen- 
cias serão regidas de accôrdo com os Estatutos e o Re- 
gimento Interno. 

Art 19. A Sociedade realizará uma Assembléa Ge- 
ral Ordinária e Solemne no dia 7 de Setembro de cada 
anno, se for possível, para com memorar a sua fundação, e 
Assembléas Geraes Extraordinárias quando a Directoria 
assim o resolver ou quando houver requisição escripta de 
três Sócios Effectivos. 

§ 1. As Assembléas Geraes Ordinárias Solemnes ou 
simples e as extraordinárias serão convocadas com antece- 
dência nunca inferior a cinco dias. 

§ 2. Para que se realisem as Assembléas previstas 
n'este artigo, em primeira convocação, é necessário que 
compareçam pelo menos dez por cento dos sócios ; mas em 
segunda convocação, a Assembléa resolverá com qualquer 
numero, sendo admittida a representação legal dos sócios. 

§ 3. A Assembléa Geral Ordinária, de que trata os 
Arts. 7 e 8 do Cap. III, deverá tomar conhecimento do 
relatório e contas annuaes, da Sociedade, e eleger a Dire- 
ctoria e o Conselho Piscai composto de três sócios. 

Art. 20. O Conselho Fiscal examinará o balancete 
semestral e as contas annuaes, e emittirá o respectivo pa- 
recer, que será discutido na Assembléa Geral Ordinária, 
que trata do § 3 do Art. 19, do Cap. IV. 

CAPITULO V. 
Disposições Geraes. 

Art 21. A Sociedade terá um tempo indefinido, poden- 
do ser disolvida por unanimidade de votos em uma Assembléa 
Geral Extraordinária, para isso expressamente convocada, 
a que comparecerem três quatas partes dos sócios effectivos. 



— 103 — 

qualquer que seja a convocação. Esta Assembléa Geral 
Extraordinária dará conveniente destino aos bens da So- 
ciedade. 

Art. 22. Estes Estatutos só poderão ser reformados 
em sessão de Assembléa Geral Extraordinária, devidamente 
convocada por dez sócios, e um anno depois de sua apro- 
vação. 

Art 23. Os Sócios da Sociedade Scientifica de São 
Paulo, inclusive os Directores não respondem subsidiaria- 
mente pelas obrigações contrahidas expressa ou intencio- 
nalmente em nome da Sociedade. 

Observação: Estes Estatutos foram elaborados por 
uma Commissão composta dos sócios Snrs: Dr. Edmundo 
Krug, Dr. J. N. Belfort Mattos, Dr. Roberto Ilottinger, 
Dr. Reynaldo Ribeiro da Silva e Dr. António de Barros 
Barreto e approvados em Assembléa Geral Extraordinária 
no dia 29 de Julho de 1909, devendo, após essa approva- 
ção, nos termos das leis em vigor, ser registrados na re- 
partição competente, para os fins de direito. 

S. Paulo, 29 de Julho de 1909. 

A Commissão: 
Dr. Edmundo Krug 
^ J. N. Belfort Mattos 
^ rob. hottinger 
„ Reynaldo Ribeiro da Silva 
„ António de Barros Barreto. 

A Commissão de redacção: 

Dr. Eliezer dos Santos Saraiva 
„ J. N. B. Mattos 
„ Reynaldo Ribeiro da Silva. 



REGULAMENTO INTERNO 

- da — 

SOCIEDADE ^CIENTIFICA DE S. PAULO 



Art. 1. A sessão académica ou a sessão em que se 
tenham de discutir assumptos scientificos ou technicos, será 
aberta por um dos directores presentes ou, em sua ausência 



— 104 — 

por algnm sócio, devendo ser em seguida convidado para 
presidil-a qualquer dos sócios interessados no assumpto, o 
qual, por sua vez, convidará outro sócio para secretario. Este 
lavrará a acta em livro apropriado, acta essa que deverá ser 
ser lida, discutida, approvada e assignada na mesma sessão 
por todos os sócios presentes até o fim da sessão e ser posta 
á disposição do director da revista. 

Art. 2. Cada sessão académica, que se construir, ele- 
gerá o seu presidente e o seu secretario e organisará o regi- 
mento interno da sessão que será submettido á approvação 
da directoria. 

Art 3. Os sócios presentes ás sessões académicas não 
poderão discutir assumptos que digam respeito á administra- 
ção da sociedade. Poderão, porém, discutir e estudar quaes- 
quer outros assumptos technicos, artísticos ou scientíficos, 
organisar commissões, provisórias ou permanentes para estu- 
dal-os e dar pareceres, podendo apreciar e discutir esses 
estudos e pareceres, fazendo-os publicar na revista, com audi- 
ência do respectivo director. 

Art. 4. As reuniões académicas das varias sessões, de 
que fala o Art. 2, quer sejam sciencias jurídicas e sociaes 
physicas, chimicas e naturaes, ou quaesquer outras sciencias, 
de engenharia, de medicina, de educação, de biologia, de 
architectura, artistíca etc. serão semanaes e em dia e horas 
previamente designados. 

Art. 5. As conferencias realizar-se-ão sempre que al- 
guns dos seus sócios propuzerem a fazel-as podendo a direc- 
toria facultar também este direito a pessoas extranhas á so- 
ciedade, uma vez que disponha da indispensável idoneidade 
a juizo da directoria. 

Art. 6. E' dever do Director-Presidente pro\4denciar 
para que haja, por parte da sociedade, toda a assistência ás 
sessões académicas e ás conferencias, de modo sejam atten- 
didas quaesquer requisições do presidente da secção ou da 
conferencia ou de qualquer de seus membros. 

§ I. E' dever da directoria promover a \'ulganisação das 
sciencias, suas applicações e das artes, organisando cursos 
elementares, podendo haver uma licção por semana. 

§ n. As licções serão livres para todos os sócios. Os ex- 
tranhos á sociedade adquirirão ingresso gratuito ou não a 
juizo da directoria. 

Art. 7. Haverá sempre na sala em que se effectuar a 
sessão académica, ou a conferencia, um funccionario da socie- 
dade o qual facilitará a execução do art. 6. Este funccionario 
não poderá tomar parte na sessão, e occupará o logar que 
lhe for designado pela directoria, embora seja sócio. 



— 105 — 

Art. 8. Haverá na sede social, e ao alcance fácil de 
qualquer dos sócios, um livro especial, em que o sócio escre- 
verá qualquer reivindicação que haja de fazer á directoria. 

Art. 9. O livro de que trata o art. 8. precedente será 
rubricado director-presidente, que providenciará a respeito. 

Art. 10. O Director -Presidente providenciará, de 
accôrdo com a directoria, para o estabelecimento de um 
<buíFet>, cuja tabeliã de preços, por unidade de consumo, 
será submettida á approvação da directoria. 

Art. 11. As salas da sede social estarão abertas diaria- 
mente das dez horas da manhã ás 10 horas da noite, excepto 
nos dias de sessão em que se conservarão abertas até o seu 
encerramento. 

Art. 12. Pessoa alg-uma extranha á sociedade terá in- 
gresso em sua sede, salvo acompanhada de um dos sócios. 

Art. 13. Não é permittido conversa alguma na sala de 
leitura. 

Art. 14. A Directoria providenciará a fim de que haja 
uma sala especial para palestra. 

Art. 15. A Directoria providenciará a fim de que haja 
uma sala especial para jogos, que não sejam a dinheiro. 

Art. 16. A Directoria providenciará para que haja uma 
sala especial adequada á <toilette>. 

Art. 17. A Directoria poderá promover qualquer festa 
ou conferencia em beneficio da sociedade e de qualquer de 
seus fins. 

Art. 18. Os Kstatutos e o Regimento Interno terão 
uma copia encadernada com folhas em branco de permeio, 
onde serão registradas as resoluções tomadas pela sociedade 
na forma da lei, com o fim de modifical-as em tempo oppor- 
tuno. 

Sede da Sociedade Scientifica de S. Paulo, 

19 de Agosto de 1909. 

A Directoria: 

Eliezer dos Santos Saraiva . 
J. N. B. Mattos 
rob. hottinger 
Reynaldo Ribeiro da Silva 
António de Barros Barreto. 



Regulamento da Biblíotfieca 

- da - 

SOCIEDADE SCIENTIFICA DE S. PAULO 



I. A Bibliotheca e o g-abinete de leitura estarão abertos 
todos os dias úteis, das 10 horas da manhã ás 10 
horas da noite. 

n. Nenhuma obra poderá ser retirada da Bibliotheca, sem 
que o consultante assine uma declaração de que 
a obra fica em seu poder, ainda mesmo quando a 
consulta seja feita no próprio gabinete de leitura. 

in. Nenhum sócio poderá conservar uma obra em seu 
poder por espaço de tempo superior a 15 dias, salvo 
em casos especiaes, a juizo do Bibliothecario. 

IV. . Quando a obra for devolvida, será entregue ao con- 

sultante um recibo de restituição, assignado pelo 
Bibliothecario ou pelo empregado incumbido do ex- 
pediente diário da sede social. 

V. Os consultantes serão responsáveis pelos estragos ou 

extravios das obras que estiveram em seu poder. 

VI. Nenhum jornal, revista ou outra qualquer publicação 

periódica poderá ser retirada do gabinete de leitura, 
salvo quando essa publicação for de natureza tal, 
que exija um certo prazo para sua consulta, ficando 
em tal caso sujeita á disposição do art. III. 
Vn. No gabinete de leitura deve reinar o maior silepcio, 
evitando-se palestras. 

N. B. Este regulamento foi approvado pela Directoria 
em sessão de 19 de Agosto de 1909. 

O Director-Bibliothecario: 
Eliezer dos Santos Saraiva. 



Aos prezados consócios da Sociedade Scientifica. 

Tendo assumido as funcções de Director-Bibliothecario 
d'esta Sociedade, e achando-nos empenhado em promover, 
por todos os meios ao nosso alcance, o desenvolvimento da 
bibliotheca, vimos, por este meio, dirigir um appello aos 
dignos consócios, no sentido de a auxiliarem com o maior 
numero possivel de livros, de que possam dispor. Seria 
esta uma inestimável contribuição para o desenvolvimento de 
um dos mais importantes ramos de actividade da Sociedade 
Scientifica de S. Paulo. 

S. Paulo, 25 de Agosto de 1909. 

Eliezer dos Sanctos Saraiva 

Director-Bibl iothecario. 



Regulamento da Reuísta 

- da - 

SOCIEDADE SCIENTIFICA DE S. PAULO 



1.) A „Revista da Sociedade Scientifica de S. Paulo" será 
publicada sempre que houver matéria sufficiente para 
constituir uma edição. 

2.) Publicar-se-ão na Revista trabalhos originaes, informa- 
ções sobre o estado actual dos vários ramos da sciencia 
em suas applicações technicas ou artisticas, resumos 
das conferencias, relatórios das assembléas geraes e 
das commissões, e especialmente as actas das diversas 
secções académicas. 

3.) Aos auctores dos artigos cabe a responsabilidade das 
ideias n'elles emittidas; entretanto cabe ao Director 
a faculdade de propor á Directoria a rejeição dos 
trabalhos que julgar não corresponderem á orientação 
ou ao prestigio da Revista. 

4.) Aos auctores dos trabalhos fomecer-se-ão gratuitamente 
cincoenta exemplares dos seus trabalhos, com capa, 
trazendo sempre o nome da Sociedade, e os que ex- 
cederem doesse numero só poderão ser fornecidos 
mediante pagamento. 



— 108 — 

5.) O anno da Revista vae de Janeiro a Dezembro, sem 
se tomar em consideração o numero de paginas. 

6.) Cabe ao Director da Revista a responsabilidade da sua 
elaboração, bem como da sua distribuição, procurando 
desenvolvel-a o mais possivel em todos os sentidos. 

7.) A Revista é distribuída gratuitamente aos sócios e per- 
mutantes; para os demais interessados fica fixado 

o preço de por volume ou assignatura 

annual. 

8.) Cada edição da Revista nunca será menos de 1000 
exemplares. 



Lista Alphabetica 

dos 

Senhores Sócios 

da 

Sociedade Scientifica de S. Paulo 



^mB 



Pede-se aos Senhores Sócios o especial obsequio de corrigir 
qualquer erro que possa ser encontrado n'esta lista. 

A Direcioria. 



111 



Ascendino Angelo dos Reis, Dr. . 

Alam. Barão do Rio Branco, 42 
António Avé Lallemant 

Avenida Martinho Prado Jr., 13 
Adolpho Lutz^ Dr. 

Rua da Liberdade, 179 
Adolpho Laves 

Rua Direita, 38 
Alberto Lôfgren, Dr. 

Rua D. Veridiana, 71 
Alexandre Cococi, Dr. 

Rua V. do Rio Branco, 14 
Affonso Splendore, Dr. 

Rua Timbyras, 9 
Alfredo Porchat, Dr. 

Rua Conde de S. Joaquim, 2 
Álvaro de Almeida 

Porto Alegre 
António de Barros Barreto 

Rua Maranhão, esq. da r. Aracaju 
Arthur G. Krug, Dr. 

Av. Angélica, 79 
Adolpho Hempel, Dr. 

Campinas 
Arnaldo de Ulhôa Cintra 

Rua D.* Angélica 
António Mercado^ Dr. 

Rua de S. Bento, 45 
Alberto Seabra, Dr. 

Rua da Liberdade, 108-B 
Alfredo Duprat 

Rua Direita, 26 
Álvaro de Menezes, Dr. 

Al. Barão de Limeira, 20 
Alexandre Coelho, Dr. 

Mogy-Mirim 
Augusto Fried, Dr. 

Av. Brig. Luiz António, 245 
António Amâncio de Carvalho, Dr. 

Largo da Sé, 2 



-^" . 



— 112 — 

Arthur Palmeira Ripper^ Dr. 

Rua Magdalena 
Alberto Kuhlmann, Prof. 

Al. Cleveland 
Alfredo Usteri, Dr. 

Gloriastrasse, 64 — Ziirích 
Alberto Masó 
Alfredo Pereira 
Adolpho Pereira^ Dr. 

Rua Victoria, 155 
Américo Brasiliense 

Al. Glette, 22 
Arnaldo Barreto 

Campinas 
AíFonso d'Escragnolle Taunay, Dr. 

Rua D.* Veridiana, 20 
Amâncio P. de Carvalho^ Dr. 

Rua da Liberdade 
Arthur Motta, Dr. 

Repartição de Aguas 

Arthur H. O' Leary 

Rua Augusta, 194 
Amândio Sobral, Dr. 

Rua Gustavo Sampaio, 6-B 

Leme, Rio de Janeiro 
António Carini^ Dr. 

Instituto Pasteur 
Arsénio Puttemans, Dr 

Rua Sta. Izabel, 8 
António Augusto Mendes Borges 

Rua Gen. Jardim, 70 
António Teixeira da Silva, Dr. 

Rua Direita, 27 
Arthur Barboza Coronel 

Rua do Commercio, 3 Casa Lyon 
Augusto de Toledo 

Rua B. de Iguape, 66 

António de Milita, Dr. 

Rua Joaquim Nabuco, 7 
Arthur Malta Júnior 

Rua Jaguaribe, 20 



— 113 — 

Adelino Leal 

Escola da Pharmacia 
António Petraglia 

Avenida Paulista, 224 
Amadeu A. Barbiellini, Conde 

Rua José Bonifácio, 17 
Aschen, Dr. H. von 

Rua Alvares Penteado, 38-D 
António Augusto Mendes 
Alexandrino Pedroso, Dr. 

Largo dos Guayanazes, 51 
Ataliba Baptista de Oliveira Valle, Dr. 

Av. Martinho Prado Jr., 15 
Adolpho Botelho de Abreu Scunpaio, Dr. 

AL B. do Rio Branco, 18 
António Dino da Costa Bueno^ Dr. 

Rua Andradas, 62 
Álvaro Guerra^ Prof. 

Rua Jaguaribe, 38 
Alfredo Braga, Dr. 

Rua General Ozorio, 112 
Alfio Martelliti, Dr. 

Rua Vergueiro, 270 
A. Cownley Slater, Prof. 

Mackenzie College, C. C. n. 14 
Arthur Assis de Oliveira Borges, Dr. 

Rua Pedroso, 19 
Adolpho Daniel Schritzmeyer 

Largo do Ouvidor, 5 
Adolpho A. Pinto, Dr. 

Av. Martinho Prado Jr. 28 
Arthur Malta, Dr. 
Alberto de Mendonça Moreira, Dr. 

Companhia Paulista, Jundiahy 
Adalberto de Queiroz Telles^ Dr. 

Av. Tiradentes, 3 
Augusto Lefèvre, Dr. 

R. M. Cardim, 159 
A. T. Wysard, Dr. 

Rua Pirapintinguy, 18 
Adolpho V. de O. Coutinho^ Dr. 

R. V. do Rio Branco, 92 



— 114 — 

Amador de Araújo Franco, Dr. 

Rua Boa Vista 
Abberici^ Dr. 
Alfredo Stuart Pennlgton 

Buenos Ayres 
Arthur Horta Júnior 

Rua Jaguaribe, 20 
Alfredo Sanches Osório 

Cuba 
Alexandre Agassiz 

Harvard College, U. S. A. 
Angelo Celli, Prof. 

Roma 
Augusto Thienemann 

Miinster, Allemanha 
Achille Splendore 

Scafati, Itália 
António Ennes de Souza, Dr. 

Escola Polytechnica do Rio de Janeiro 
António de Cerqueira César, Dr. 

Rua General Ozorio, 108 
Adolpho Júlio da Silva Mello, Dr. 

Rua da Liberdade, 93 

B 

Basílio da Cunha, Dr. 

Rua Frei Caneca, 194 
B. Belli 

Rua da Fundição, 10 
Bruno Rangel Pestana 

Instituto Serumtherapico, Butatntan 
Benjamin Cõrner, Dr. 

Rua Quintino Bocayuva, 24 
Brazilio Machado, Dr. (Conde) 

R. S. Bento, 22, L° andar 

c 

Carlos Nunes Rabello, Dr. 

Alam. Barão de Piracicaba, 65 
Carlos Botelho, Dr. 

Rua Brig. Tobias, 49 
Constantino Rondelli, Dr. 

Rua D.* Veridiana, 4 



— 115 — 

Carlos Gerke 

Rua 15 de Novembro, 30-A 
Celestino Bourroul, Dr. 
Christovam Buarque de HoUanda 

Rua Piauhy, 101 
Carlos Meyer, Dr. 

Largo Sta. Cecília 
Carlos Stevenson, Dr. 

Cruzeiro 
Cherubim Cintra 

Taubaté 
Comelio Schmidt, Coronel 

Rua da Liberdade, 9 
Carlos Mauro, Dr. 

Rua S. Bento, 3 
Carlos Eckmann 

Rua D.* Veridiana, 3 
Corte Real, Dr. 

Rua Boa Vista 
Carlos Niemeyer, Dr. 

Rua do Arouche, 2 
Carlos Magalhães Duarte 

Rua Martim Francisco, 2 
Carlos Giullo Spera, Dr. 

Rua Dr. Silva Pinto, 47 
Carlos Bertoni, Dr. 

Av. Brig. Luiz António 
Carlos de Campos, Dr. 

Avenida Paulista, 43 
Christobal M. Hicken 

Buenos-Ayres 
C. A. Lindmann 

Stockholm 

D 

Domingos Jaguaribe, Dr. 

Rua D.* Veridiana, 30 
Dorival de Camargo, Dr. 

Rua Sta Ephigenia, 63 
Dinamerico Rangel, Dr. 

Rua Consolação 
Domingos Raja, Dr. 

Rua Consolação, 68 



— 116 — 

Desiderio Stapler, Dr. 

Rua Barão de Itapetíninga, 4 
Delphino Ulhôa Cintra, Dr. 

Avenida Angélica, 3 
Dário Sebastião de Oliveira Ribeiro, Dr. 

Alam. Barão de Piracicaba, 123 
Domingos Tatá, Dr. 
Donrucio da Gcima, Dr. 

Buenos-Ayres 

E 

Edmundo Krug, Dr. 

Rua Genebra, 76 
Eliezer dos Santos Saraiva, Dr. 

Rua Alartim Francisco, 25 
Erasmo de Carvalho Braga, Dr. 

Coll. Internacional, Campinas 
Ernesto Guilherme Young, Dr. 

Iguape 
Eugénio Hollender 

Rua Senador Feijó, 27 

Eugénio Hussak, Dr. 

Serviço Geológico e Mineralógico do Brasil. 
Rio de Janeiro 

Ernesto Ludwig Voss 

Rio de Janeiro 
Edgard Egydio de Souza, Dr. 

Rua Maranhão, 23 
Eduardo d' Aguiar Andrade 

Rua Flor. de Abreu, 160 
Eurico Pereira 

Sorocaba 
Enrico Boccolini 

Rua Maranhão, 34 
Eduardo Prates, Conde 

Rua S. Bento, 81 
Eurico Dória de A. Góes 

R. FeHppe Camarão 71, Rio de Janeiro 
Euclides Teixeira 

Escola de Pharmacia 
Eduardo da Fonseca Cotching, Dr. 

Rua S. Luiz, 1 



— 117 — 

Ernesto Falcone, Dr. 

Rua Piratíning-a, 35 
Edmundo Braga 
Edoardo Peroni, Prof. 

Rua da Liberdade, 84 
Ernesto Júlio de Carvalho Vasconcellos^ Conselh. 
Enrico Ferri 

Roma 
Eugénio Autran 

Buenos-Ayres 
Enrico Moreno 

La Plata 
Emilio Goeldi 

Berne, Suissa 
Erich Wasmann 

Luxenburgo 
Emst von Hesse Wartegg 

Luceme, Suissa 
E. Larrabure y Unane 

Lima, Peru 



Félix Guimarães 

Santos 
F. G. Foetterle 

Petrópolis 
Francisco Krug, Dr. 

Rua Eduardo Prado, 25 
Félix Otero, Prof. Maestro 

Rua S. Bento, 14-A 
Fernando Paranhos 

Rio Qaro 
Francisco de Paula Ramos de Azevedo^ Dr. 

Rua Barão de Pirapitínguy, 15 
Francisco Machado de Campos 
Francisco Mastrangioli, Dr. 

Rua da Consolação, 51 
Francisco Simões da Costa Torres^ Dr. 

Avaré 
Felippe de Lorenzi, Dr. 

Rua da Conceição, 48 



— 118 — 

Flávio Uchôa, Dr. 

Praça da Republica, 34 
Francisco Marcondes Homem de Mello, Dr. 

Rua S. Luiz, 1 
Francisco Matarazzo 

Rua 15 de Novembro, 26 
Ferreira Júnior & Saraiva 

Rua Mauá, 27 
Fr. Ohaus 

Steglitz-Berlin, Allemanha 



Guilherme Florence, Dr. 

R. V. do Rio Branco, 14 
Gustavo Edwall, Dr. 

Rua das Palmeiras, 45 
Gustavo d'Utra, Dr. 

Secretaria d'Agricultura 
Gustavo Enge 

Campinas 
Gabriel Raja, Dr. 

Rua Xavier de Toledo, 68 
Guilherme Axel Wendel^ Dr. 

Rua V. do Rio Branco, 14 
Geraldo Horácio de Paula Souza 

Rua Aurora, 79 
G. Spinelli, Dr. 

Rua José Bonifácio, 46 
Gabriel de Rezende, Dr. 

Rua Galvão Bueno, 14 
Guglielmo Mortari, Dr. 

Rua Dr. Falcão. 12 
Giambattista Grassi, Dr. 

Roma, Itália 
Graça Aranha, Dr. 

Berne, Suissa 
Guglielmo Ferrero, Dr. 

Torino, Itália 
Gõran Bjôrkman, Dr. 

Stockholm, Suécia 
George Cari Church, Coronel 

London, Inglaterra 



— 119 — 

H 

Henrique C de Magalhães Gomes^ Dr. 

Al. B/do Rio Branco, 34 
Henrique Ruegger 
Horácio Belfort Sabino, Dr. 

Avenida Paulista, 46 
Huascar Pereira de Souza, Dr. 

Secretaria d' Agricultura 

Horácio Williams, Dr. 

Serviço Geológico e Mineralógico do Brasil. 
Rio de Janeiro 

Horácio M. Lane, Dr. 

Mackenzie CoUege 

Hercules de Ulhôa Cintra 

Henrique Lindenberg, Dr. 
Rua D. Veridiana 

Henrique Aubertie 

Largo de S. Bento 

Huberto Puttemans, Dr. 

Rua Aurora, 177 

Henri Potel 

Rua Alegre da Luz, 10 

Heraclyto \^iotti 

Rua Xavier de Toledo, 7 

Hans Meyer, Dr. 

Leipzig, Allemanha 

Hermann Meyer, Dr. 

Leipzig, Allemanha 

Hermann Julius Kolbe, Dr. 
Berlin, Allemanha 

H. Noegli-Ackerblom, Dr. 
Genève, Suissa 

I 

Ignacio Wallace da Gama Cochrane, Dr. 
Rua Barão de Iguape, 48 

Ignacio Puiggari, Dr. 

Rua Tabatinguera, 33 



— 120 — 

J 

C Branner^ Dr. 

Stanford University, Califórnia, U. S. A. 
oão Baptista de Lacerda, Dr. 

Rio de Janeiro 
ohn Henry Comstock, Dr. 

Comell University, Ithaca, U. S. A. 
[ulius Weise 

Berlin, Allemanha, 
uan A. Domínguez 

Buenos-Ayres 
[acques Huber 

Museu do Pará 
íosé N. Belfort de Mattos, Dr. 

Avenida Paulista, 71 

[osé Cândido de Souza, Dr. 

Oymnasio do E. de S. Paulo 
orge Krug, Dr. 

Praça António Prado, Palacete Bricola 

osué Bueno de Camargo 

Rua da Estação, 77 
osé de Campos Novaes, Dr. 

Campinas 
osé Silveira Cintra, Dr. 

Rua Bom Retiro, 24 
oão Pedro Cardoso, Dr. 

Rua Apa, 6 
oão Christovão Macedo 
oão Pedro da Veiga Miranda 

Ribeirão Preto 
oão Priori, Dr. 

Hospital Umberto L 
oão Motta, Dr. 

Rua General Jardim, 99 
íulio Brandão Sobrinhct 

Secretaria d' Agricultura 
orge Krichbaum, Dr. 

Secretaria d* Agricultura 
osé Pereira Barreto^ Dr. 

nha Grande, Est de S. Paulo 
osé Brant de Car\^alho^ Dr. 

Rua Ypiranga, 155 



— 121 — 

Joaquim Vieira Pinto Barboza 
Joaquim José de Carvalho, Dr. 

Rua Santo Amaro 
José Malhado Filho 

Rua S. Bento, 43 
Júlio Bierrenbach Lima, Dr. 

Ladeira do Piques, 35 
José Torres de Oliveira, Dr. 

Rua S. João, 133 
José Custodio Cotrim, Dr. 

Rua B. do Rio Branco, 86 
J. Renato Siqueira Zamith, Dr. 

Rua Barão de Tatuhy, 4 
João Teixeira Alvares, Dr. 

Uberaba 
Júlio Conceição 

Santos 

Joaquim de Prates, Conde 
Rua S. Bento, 81 

Johannes Hacker 

Rua Alvares Penteado, 21 
João Zepherino Ferreira Velloso, Dr. 

Rua Jaguaribe, 21 
João R. de Miranda 

Comp. Intermediaria de Café, Santos 
José de Maria Borges^ Dr. 

Largo das Perdizes, 10 

Júlio Boccolini, Dr. 

Rua Maranhão, 34 

José LuÍ2 Coelho, Dr. 

Rua Barão de Iguape, 58 
José Gonçalves Barboza 

José Bonifácio de Oliveira Coutinho, Dr. 

Faculdade de Direito de S. Paulo 
José António da Fonseca Rodrigues, Dr. 

Av. Martinho Prado Jr., 19 

João Zoilo 

Av. Rangel Pestana, 104 

Joaquim Marra^ Dr. 

Rua Verona, 29 



— 122 — 

K 

Karl von den Steinen 

Steglitz-Berlin, Allemanha 
K. M. HeUer 

Dresden, Allemanha 



Luiz Fructuoso Ferreira da Costa 
Lauriston Job Lame, Dr. 

Rua S. Bento, 53 
Luiz Ferreira Ban-eto, Dr. 
Luiz Bismchi Betoldi^ Dr. 

Camará Municipal 
Luiz Chiaffarelli 

Rua Bátra Funda, 41 
Leopoldo de Freitas, Dr. 

Rio de Janeiro 
Luiz Silveira 

Av. Brig. Luiz António, 122 
Lourenço Granato 

Secretaria d' Agricultura 
Luiz Machado Faria Maia 

Rua S. Bento, 57, II. andar 
Leôncio Gurgel 

Rua S. Bento 
Laudelino de Oliveira 

Jahú 
Luiz Berrini 

Rua Maranhão, 32 
Luiz António Teixeira Leite 

Alameda Barros, 10 
Luiz de Rezende Puech, Dr. 

Rua D.* Veridiana, 19 
Leon Gouy 

Aven. Paulista, 17 
Lins de Vasconcellos 
Ludwig Reh^ Dr. 

Hamburg, Allemanha 
Lysanias Cerqueira Leite, Dr. 

Rio de Janeiro 
Luiz Ayres, Dr. 

Rua da Liberdade, 79 



— 123 — • 

Luiz de Toledo Piza e Almeida 
Av. Angélica, 114 

M 

Maura Álvaro de Souza Camargo 

Rua S. Bento 
Mário Freire 

Rua Araújo, 19 
Mário Macdonaldo 

Posto Zootechnico Central „Carlos Botelho". 
Manoel Pessoa de Siqueira Campos^ Dr. 

Rua Pirapitínguy, 29 
Manoel Rosa Martins, Dr. 

Campinas 
Mário de Amared 
Mário Reys 

Rua Cons. Carrão, 3 
Maximiliano Emilio Hehl, Dr. 

Av. Martinho Prado Jr., 11 
Mcmuel Pinto Tores Neves, Dr. 

Rua Maranhão, 43 
Miguel José de Brito Bastos 

Largo 13 de Maio, 4 

N 

Nicolau Falconi 

Itália 
Nicolau B. de Gama Cerqueira, Dr. 

Rua Caixa dAgua, 3 
Numa P. do Valle, Dr. 

Rua da Fundição, 9 
Nicolau AttanasoíF 

Piracicaba 
Nicolau Lúcio Lourenço, Dr. 

Largo de S. Paulo, 7 

O 

Orville A. Derby, Dr. 

Rio de Janeiro 
Oscar Ribeiro 

Av. Hygienopolis 
Oscar Nobiling, Dr. 

Rua Taguá, 2 



— 124 — 

Oswaldo Gonçedves Cruz, Dr. 

Rio de Janeiro 
Ormidio Leite, Dr. 

S. Rita do Passa Quatro 
Oscar Thompson, Dr. 

Rua José Bonifácio, 41 
Otto Pitsch, Dr. 

Pensão Forster, R. Brig. Tobias 
Oliveira Lima, Dr. 

Bruxelles, Bélgica 



Paulo Florence 

Rua Paulista, 12 
Plinio Prado, Dr. 

Av. Hygienopolis, 9 
Pedro Aug. Gomes Cardim 

Cons. Dram. e Mus. 
Paul Le Cointe 

Óbidos, Pará 
Paul Ehrenreich, Dr. 

Berlin, Allemanha 
Paul Speiser, Dr. 

Sierakowitz, Allemanha 



Ricardo Krone 

Iguape 
Rufus King Lane, Prof. 

Mackenzie College 
R. Aragão, Dr. 

Al. Barros, 10 
Roberto Hottinger, Dr. 

Rua Maranhão, 42 
Reynaldo Ribeiro, Dr. 

Rua Gen. Ozorio, 133 
Rodolpho von Ihering, Dr. 

Museu Paulista 
Remigio Guimarães, Dr. 

Rua Vitalis 
Rogério Fajardo^ Dr. 

Rua Vieira de Carvalho, 21 



— 125 — 

Ruy de Paula Souza, Dr. 

Escola Normal 
Rozendo Galvão, Dr. 

Rua Dr. Martin Francisco, 19 
Raphael Archanjo Gurgel, Dr. 

Rua Direita, 9 
Raul Ortiz Monteiro, Dr. 

Rua Tabatinguera, 15 
Rodolpho de S. Thiago 

Travessa Consolação, 21 
Robert E. Peary, Dr. 
Richard von Wettstein 

Vienna, Áustria 
Ranulpho da Motta Pinheiro Lima, Dr. 

Rua Magdalena, 46 
Rodrigo Pereira Leite, Dr. 

Rua Major Diogo, 9 



Samuel deis Neves 

Rua 15 de Novembro 
Sylvio Romero 

Rio de Janeiro 
S. von Prowazek 

Hamburg, AUemanha 
Sebastião Lobo, Dr. 

Rua Araújo, 5 



Theodoro Sampaio 

Bahia 
Theodureto Leite de Camargo, Dr. 

Rua Brig. Tobias, 47 
Thiago Monteiro 

Light & Power 
Thomas W^illis 

Casa Bromberg, Rua da Quitanda, 10 
T. Machado de Campos 
Theophilo Oswald Pereira e Souza 

Rua Jaceguay, 38 
Theodoro Marcos Ayrosa 

Rua Duque de Caxias, 57 



— 126 - 

Telesphoro de Souza Lobo 
Rua Aurora, 162 



Victor DubugTcLS, Dr. 

Alameda Lima, 3 
Victor da Silva Freire, Dr. 

Rua Galvão Bueno, 90 
Vital Brazil, Dr. 

Instituto Serumtherapico 
Victor Goudinho, Dr. 

Rua S. Bento 
Victor Pedilha 
Vincenzo de Toledo, Dr. 
Vicente de Felice, Dr. 

Rua Cons. Crispiniano, 33 
Vicenzo Grossi 

Roma, Itália 
Vicente de Carvalho, Dr. 

Rua Barão de Itapetininga, 14 

w 

Walter Seng, Dr. 

Rua B. de Itapetininga, 21 
William White Gailey 

S. Paulo Railway Comp. 
W. Gordon Speers, Dr. 

Al. B. do Rio Branco, 1 
William Ramsey 

London, Inglaterra 




Replamento interno da Secção de Medicina 

— da — 
SOCIEDADE SCIENTIFICA DE S. PAULO 



Art 1. Fica constituída a Secção de Medicina congre- 
gando os médicos membros da Sociedade Scientifica de 
S. Paulo. 

Art. 2. A secção de medicina celebrará reuniões scien- 
tificas onde serão apresentados trabalhos originaes, relatórios 
e estudos críticos tratando das publicações contemporâneas, 
que se fizerem na lingua portugueza ou em qualquer outro 
idioma. 

Art. 3. Nas sessões académicas serão apresentados os 
doentes cujo comparecimento e exame for necessarío ao 
estudo do caso pathologico ou a observação medica de 
qualquer natureza. 

Art. 4. Será installada, entre os aggremiados da secção 
de medicina, uma bibliotheca circulante, composta de jomaes 
e revistas medicas, podendo ficar essa críação annexa a 
bibliotheca social. 

Art. 5. Serão realizadas visitas medicas collectivas, 
com regularidade, aos hospitaes e laboratórios importantes. 

Art. 6. Os sócios prestarão, uns aos outros todo o au- 
xilio moral ou de qualquer espécie, e se esforçarão pelo 
alargamento e progresso dos conhecimentos médicos em 
o nosso meio. 

Art. 7. A Directoria será eleita trimestralmente, por 
votação secreta e maioria absoluta de votos recolhidos, de- 
clarando-se na cédula o sócio designado para Presidente 
e Secretario. 

Art. 8. As sessões ordinárias serão realizadas mensal- 
mente na primeira terça-feira do mez, salvo aviso posterior 
da Directoria. 

Art. 9. Os membros serão avisados por carta, com a 
de\'ida antecedência, do programma que deverá ser exe- 
cutado na reunião. 

Art. 10. A lingua official será o portuguez, mas o 
francez e o italiano serão facultivos. 

Art. 11. Nas sessões académicas, o relator de qualquer 
trabalho tomará a palavra para ler o seu relatório, findo 
o qual, todos os membros terão direito de discutil-o. En- 
cerrada essa primeira discussão, ao relator fica a faculdade 
de replica, podendo de novo os sócios estabelecer nova 



— 128 — 

discussão, a qual o relator poderá ainda responder, encer- 
rando-se definitivamente a discussão. 

Art. 12. As matérias não previstas n'este regulamento 
serão resolvidas pela assembléa, por maioria de dous terços 
dos membros, presentes. 



REGULAMENTO INTERNO 

da Secção de sciencias physicas e naturaes. 



Art. 1. Fica constituida a secção de sciencias physicas 
e naturaes congregando os sócios que se interessarem por 
estes estudos. 

Art. 2. Esta secção se reunirá 2 vezes por mez (salvo 
outra resolução) para tratar de assumptos que se relacionem 
com aquelles ramos de estudos, isto é assumptos de physica, 
chimica, meteorologia, zoologia, botânica, mineralogia e 
geologia. 

Art. 3. Nas sessões serão apresentados trabalhos ori- 
ginaes, relatórios sobre o estado actual de certos ramos das 
sciencias mencionadas, demonstrações de apparelhos, pre- 
parações, objectos, photographias (por meio de apparelho 
de demonstração). Excursões scientificas, visitas a fabricas, 
laboratórios etc. 

Art. 4. Installação entre os associados da secção, de 
uma bibliotheca mutua, cujos livros e revistas serão entre- 
gues mediante recibos e por um prazo que não excederá 
de 15 dias. Para a formação desta bibliotheca os aggremia- 
dos deverão apresentar na sede social, uma lista dos livros 
e revistas, com os quaes queiram contribuir para a formação 
da bibliotheca, afim de ser organisado o catalogo geral. 

Art 5. As secções serão dirigidas por um presidente 
e um secretario que serão eleitos por votação secreta ou 
aclamação. 

Art. 6. E' obrigação do secretario, escrever a acta da 
secção, em um livro especial. As actas devem ser feitas 
durante as sessões e assignadas por todos os presentes. 



4SSP^ 



k. ^06. //■ I ^6, 



VOL. IV 13^ j^ «F Y e\ ^ m Setembro-Dezembro 

1909 MJ&¥I5ÍA RBX^EIVKD 

DA 

Sociedade ScientifKu/ «reu*. 

DE 

m PAULO 

REDACÇÃO: Prof. Dr.T^oberto Hottinger e Dr. Edmundo Krug. 

SEDE DA SOCIEDADE: 
Avenida B. Luiz António, 12 ^ S. PAULO <^ Brazil 

SUMMARIO: 

1. o problema zootechnico em S. Paulo, por Theodureto de Camargo. 

2. Meine Reise nach dem Salto Grande von Paranapanema, por Ed- 

mundo Krug. 

3. Resumo das communicações. 



O problema zootecíinico em 5. Paulo/ 

noções fundamentaes índispensaDcis. 

Theodureto de Camargo. 



Laboratório de Zootechnia da Escola Polytechnica de S. Paulo. 



Breeding studies miist go on in connection 
with the attempt to secure economy of production 
through the developement and perpetuation of more 
efficient machines for converting food into products 
and the securing of greater special adaptation. 
£xp, Staíion Record. Vol, XX n. 11, pag. J003. 



Os seres organisados differem dos inorganisados pela 
plasticidade da substancia viva que os constitue. Esta sub- 
stancia, o protoplasma, não é inerte e nem indifferente ás 
circumstancias que o rodeiam; ella se renova sem cessar 
pelas trocas constantes com os meios exteriores, e se amolda 
na medida do possível, ás diversas disposições destes meios. 
Um individuo qualquer, entre os seres organisados, não é 
jamais semelhante a si mesmo durante toda a sua existên- 
cia; desde o momento em que o seu desenvolvimento em- 
bryooarío termina, em que elle attinge o estado adulto, até 



- 180 — 

o da sua morte, os meios que o rodeiam agem sobre elle, 
e elle reage por sua vez, aproveitando-se delles em o 
limite que é necessário para entreter a vitalidade do seu 
organismo. Assim a matéria organisada não é inerte com 
relação ao meio exterior; ella possue uma certa plasticidade 
que lhe permitte variar as suas formas e aptidões para se 
adaptar ás novas condições vitaes. Mas ao passo que a 
adaptação obriga o organismo a variar, existe uma outra 
força constantemente em lucta com ella afim de conservar 
no organismo a sua disposição primitiva, sem lhe permittir 
nenhuma mudança particular; esta força é a hereditariedade. 
E' com effeito devido á hereditariedade que os descendentes 
se assemelham aos seus progenitores. A hereditariedade 
não se limita a tomar os descendentes semelhantes aos 
geradores; ella exerce a sua influencia durante toda a vida 
do individuo, desde o seu nascimento até a morte, procu- 
rando conservar em o organismo a sua maneira de ser, 
sem lhe permittir nenhuma modificação complementar. 

Os seres organisados são pois sujeitos, durante a sua 
existência, a duas forças contradictorias, cujas resultantes 
são oppostas: a hereditariedade, que procura manter o in- 
dividuo no molde dos seus antepassados e a adaptação que 
obriga-o a variar afim de se amoldar ás novas condições 
de existência. Si as condições exteriores fossem sempre as 
mesmas a adaptação desappareceria para só actuar a here- 
ditariedade e então todos os individuos seriam semelhantes 
entre si. Mas esse facto como sabemos, nunca se dá, 
porque os meios (configuração geológica, clima etc.) variam 
de lugar, para lugar, de modo que o organismo tem tam- 
bém de variar até se acommodar á novas condições. 

Como temos visto, os organismos variam para se adap- 
tar ao meio e essa capacidade de adaptação não é a mesma 
para todos os individuos: uns se adaptam melhor são fortes 
outros são mais fracos se adaptam peior. Este é um facto 
de observação corrente. 

Os individuos fortes terão pois mais probabilidade de 
assegurar a sua existência; a sua progénie será mais 
numerosa e mais forte. Pela hereditariedade essas proprie- 
dades serão transmittidas aos seus descendentes 

Acontecendo o mesmo com relação aos fracos, teremos 
desde logo duas ordens de seres: — uns fortes em maior 
numero; outros fracos em menor numero. 

Si suppuzermos agora que ambos tenham os mesmos 
hábitos e que sejam concorrentes, o que acontecerá? Haverá 
lucta entre elles; os fracos desapparecerão para dar lugajr 
aos fortes. 

E* a isso que Darwin chamou <a selecção naturaL> 



- 131 — 

A selecção natural, determinando pob, uma melhor 
adaptação das formas ao meio ambiente, constitue o factor 
essencial do aperfeiçoamento da espécie. £ a differença 
entre ella e a selecção artificial é que aqui o homem pode 
fazer uma mais cuidadosa escolha, pondo em exercício as 
suas faculdades de observação, distinguindo characteres que 
na lucta pela existência seriam indiSerentes e muitas vezes, 
mesmo prejudiciaes aos seus portadores; e isolar facilmente 
os animaes possuidores das qualidades desejadas. Além 
disso, a selecção artificial pode mais facilmente attingir o 
fim almejado, a producção de novas formas, tendo a sua 
disposição innumeras espécies e entre ellas um numero in- 
finito de individuos a escolher, podendo fazer variar dentro 
de grandes limites as condicções exteriores e obter assim 
uma grande copia de variações. 

A selecção porém em si não produz variações: — a sua 
acção pôde ser comparada* á de uma peneira, que servisse 
para sororucar as raças, separando-as das impurezas com 
as quaes se achavam misturadas. — 

E a sua acção, na melhora das raças, não se dá cre- 
ando qu2Jidades novas, mas sim separando, isolando aquellas 
qualidades, das más quedidades com as quaes se achavam 
misturadas. Procurando isolar os typos, e purificar a raça 
sucessivamente, a impressão que se tem no fim de um certo 
tempo é a de se ter conseguido augmentar os characteres 
pela selecção, quando na verdade o que se fez, outra coisa 
não foi que separar, que isolar taes characteres da mistura 
em que elles se achavam (comprimento do pello, cor etc.) 
Toda selecção artificial pois, tem um limite que pôde ser 
attingido em um tempo mais ou menos longo, conforme os 
characteres que se desejar obter, o numero das variações 
misturadas, a porcentagem de individuos que apresentam 
taes variações e o methodo de selecção empregado. Ora 
as variações extremas sendo excepcionaes e funcção do 
numero de individuos, é claro que quanto maior o numero 
de animaes em experiência e tanto mais provável será 
attingirmos um numero mais elevado de variações. E o 
limite se dará então, quando todos os animaes apresentarem 
os mesmos characteres; mas, quando conservados sempre 
sob a acção das mesmas condições exteriores, porque do 
contrario, essas causas de variação viriam perturbar a 
selecção. 

Resta-nos ainda, estudar o gráo de constância here- 
ditária, que se pôde obter pela selecção artificial. 



(*) Esta comparação é de Plate. 



SOc, 



/cfjl6 



— 132 — 

Não é fácil estabelecer a differenciação entre as varia- 
ções que não são hereditárias, chamadas por Plate* de 
Somaiionen, por serem causadas pelas modificações das cel- 
lulas somáticas (acção da alimentação, clima etc.) e as 
variações hereditárias — De Vries** chama, falsamente, de 
fluctuações, confundindo com o mesmo termo empregado 
por Darwin em sentido contrario, ás variações não here- 
ditárias, pelo facto delias poderem elevar-se por selecção, 
no fim de poucas gerações e dos characteres adquiridos 
desapparecerem, quando cessadas as forças que actuaram 
para a sua elevação: — selecção continua, alimentação etc. — 
Essas variações se dão sempre segundo um máximo e um 
minimo, conforme as propriedades são favoráveis ou des- 
favoráveis. 

Certos casos ha, em que a gente tem a impressão de 
tratar de variações hereditárias, quando trata-se no emtanto 
de Somationen. Um exemplo: — E' muito sabido que a boa 
alimentação dos animaes influe em regra, sobre as suas 
cellulas reproductoras (ovos etc.) e portando sobre a melhor 
apparencia dos filhos, phenomeno esse que, como dissemos, 
pôde dar idéa de uma certa hereditariedade, quando no 
emtanto tal não acontece; e Galton mostrou que, nesses 
casos as propriedades apresentadas pelos filhos são sempre 
em menor numero do que as dos pães (lei da regressão). 

A selecção das variações hereditárias dos animaes do- 
mésticos conduz em muitos casos a uma completa constância, 
nomeadamente quando é possivel o isolamento dos diversos 
typos entre si, de modo a evitar qualquer cruzamento. 

Foi assim que se conseguio formar as raçcis puras de 
pombos, gallinhas, carneiros, bois etc. que são tão constantes 
como as espécies naturaes, comtanto que elles permaneçam 
sempre em as mesmas condições e a multiplicação entre 
elles, se dê sò dentro da raça, a ponto de transmittirem 
de geração em geração, os minimos characteres e detalhes 
isolados; ao passo que, nas mesmas condições, as espécies 
naturaes variam constantemente. 

Estudado o methodo da selecção, passemos a tratar do 
cruzamento, que também pôde prestar relevantes serviços no 
melhoramento das raças, quando convenientemente appUcado. 

Deixaremos de tratar do refrescamento do sangue, 
consanguinidade etc. por não ser o nosso fito aqui. senão 
dar as noções que nos pareceram indispensáveis, para ser- 
vir de fundamento á ligeira critica, que mais adiante fare- 
mos, dos processos zootechnicos, que estão sendo empre- 
gados em S. Paulo. 

(♦) SeUcttonsprimip, Verlag von Engelmann- Leipzig -1908. 
(*♦) De Vríes. — Die Mutationstheoriey citado por Plate. 



— 133 - 

Cruzaracnlo, Da-se geralmente o nome de cruzamento 
á união entre as cellulas macho (espermatozóide) e fêmea 
(ovulo) de dois indivíduos pertencentes a raças differentes. 
Hoje porém, a maior parte dos autores emprega com o 
mesmo sentido, o termo hybridação, que outrora indicava 
exclusivamente a união de indivíduos pertencentes a espé- 
cies diíFerentes. 

Antigamente suppunha-se que os filhos, em regra, her- 
davam a media das propriedades paternas, isto é que a 
hereditariedade fosse intermediaria. Investigações modernas 
porém, vieram mostrar que, além da intermediaria, existe 
um segundo typo de hereditariedade, pelo qual os caracteres 
dos pães reapparecem invariáveis nos filhos e netos. Esta 
forma de hereditariedade é chamada de alternativa^ disjun- 
ctiva ou Mendeliana devido ao seu descobridor G. Mendel 

A opposição entre a hereditariedade intermediaria e 
mendeliana não só não é muito rigorosa, como até indivi- 
dues pertencentes a uma mesma geração, podem apresentar- 
se com typos completamente differentes. 

Uma regra que parece geral, é a dos characteres das 
formas affins, tanto nas raças como nas variedades» ten- 
derem para a separação, ao passo que em as formas afas- 
tadas das differentes espécies, essa tendência é para a fusão. 
Isto é, justamente o contrario do que outrora se suppunha, 
quando se procurava ligar characteres semelhantes para se 
obter uma forma media. 

Uma segunda lei que também parece geral, é aquella 
que manda que se estude separadamente os diversos cha- 
racteres dos animaes a serem cruzados, porque sobre ponto 
de vista da hereditariedade elles se comportão independente- 
mente entre si. E' assim que cada individuo deve ser estu- 
dado não como uma unidade mas sim como um mosaico 
de unidades. Entre as aves por exemplo, a forma da crista, 
a cor da perna, a cor da plumagem, numero dos dedos, 
forma do bico, forma da cabeça, são characteres que devem 
ser encarados independentemente entre si. Entre elles uns 
podem seguir esta, outros aquella lei de hereditariedade. 
A lei, da independência dos characteres na hereditariedade, 
leva-nos pois, a comparar os diversos characteres individuaes 
isoladamente e não os individuos conjunctamente. Neste 
estudo comparativo as propriedades são chamadas de pares 
antagonistas^ alldomorphas, conforme a sua coUocação, op- 
posição ou semelhança. 

Casos ha porém, mas são raros, em que um dos pães 
possue uma propriedade que no outro falta completamente; 
a um tal conjuncto chama-se de impar. 



— 134 — 

Fala-se de mono, dí, trihybrido conforme a differença 
entre os pães dos bastardos é de um, dois, três ou mais 
characteres; o que tem importância, porque o numero de 
combinação dos characteres nos bastardos, depende dessa 
diíFerença. 

Regras de (Dendel. Supponhamos F^ geração de indiví- 
duos uniformes; F, de individuos multiformes, havendo al- 
guns dentre elles que apresentam novamente propriedades 
paternas e algumas vezes também propriedades de Fj. Um 
tal modo de hereditariedade é chamado de disjunctivo. 
Muitas vezes porém, apparece aqui uma outra ordem de 
phenomenos; a predominância, isto é os individuos só mos- 
tram um dos characteres paternos o dominante^ ao passo 
que o recessivo fica completamente occulto. Ha casos porém 
em que F^ permanece entre ambos os pães, não ha pre- 
dominio de qualidades. E pelo facto de certas propriedades 
do milho assim se comportarem, deo-se a esta hereditarie- 
dade mendeliana o nome de Zeaiypus. As regras que regulam 
estes casos de hereditariedade são chamadas de Mendelom, 

P: a xb 

♦Verdadeiro Mendelom Zea Mendelom 

a = dominante b = recessivo a-fa = intermediário 

a F, a-b 

a a a b F^ a a-b a-b b 

a a a a a b b b F^ a a a a-b a-b b b b 

♦ Estes schemas foram extrahidos do livro de Platc «Selectionsprinzip», p. 361 

Nos verdadeiros mendelom Fj corresponde aos pães do- 
minantes; F, compõe-se conjunctamente de 75% a e 25^/^, b. 
Estes últimos productos quando são cruzados entre si tor- 
nam-se puros. Das formeis a só 7$ permanece constante 
e dá sempre formas a novamente; os '/g restantes seguem 
o mesmo schema de separação: em 7õ7o ^ e 257o ^• 

Os Zea mendelom differenciam-se unicamente no facto 
das formas inconstantes serem reconhecidas pelos seus cha- 
racteres exteriores, que apresentam uma apparencia inter- 
mediaria. Supponhamos que D seja as propriedades domi- 
nantes de um animal a, R as recessivas do animal í, de 
tal sorte que a geração F^ contenha as * propriedades de 
ambos os pães, isto é DR, ainda que exteriormente só D 
appareça. No plasma germinativo de F, haverá novamente 
uma separação destas propriedades, uma pietade do ovo 
recebe só D a outra só R e o mesmo tem valor para o 
espermatozóide. Supponhamos que os animaes de Fj cru- 
zem-se entre si, e teremos então: 



— 135 - 

D+R(avo) XDi+R (espennatozoide) = DD+aDR+RR 
DD e RR que contem só uma espécie de propriedades são 
chamados de homoxigoto ou par, e herdão portanto esta 
constância; os DR possuindo duas propriedades diSerentes 
ligadas em si, são chamados de hçterozigoto ou impar, si 
bem que exteriormente só uma das propriedades appareça, 
a dominante, elles herdam essa inconstância e separam-se 
novamente quando cruzados entre elles em 75^,, D e 25% R. 

Vejamos agora o que ha sobre a possibilidade de se 
prever, si este ou aquelle character será dominante ou re- 
cessivo. De Vries e outros investigadores pensavam que 
os characteres mais antigos, oriundos da estirpe primitiva, 
fossem sempre dominantes e que os novos fossem reces- 
sivos; mas estudos posteriores, baseados em grande copia 
de observação mostraram que a idade phyletica para o caso, 
é de nenhuma importância. Para comprovar o que acaba- 
mos de dizer basta citar o caso do cruzamento entre car- 
neiro merino e muflão obtido por Kíihn* em 1888 e que 
apresentava na forma do corpo, suppressão dos pellos a lã 
e coloração branca, todos os characteres do pae domesti- 
cado e só pelo comprimento do rabo, que era curto, lem- 
brava a sua origem selvagem; mostrando portanto, que a 
opinião de De Vries não tem razão de ser porque, como 
acabamos de ver, todos os characteres dominantes no cruza- 
mento, foram os adquiridos pela domesticação. Outras hypo- 
theses têm apparecido baseadas em este ou aquelle facto; 
mas por emquanto o que ha de positivo na transmissão 
de propriedades dominantes ou recessivas não basta ainda 
para regular taes phenomenos. 

No emtanto o predomínio dos seguintes characteres 
parece ser geral: o predomínio dos characteres positivos; 
das formas elevadas sobre cis inferiores; das novas formas 
sobre as formas mais simples. De facto assim devia ser 
para se poder explicar o continuo progresso dos seres or- 
ganisados no decurso da phylogenése. 

Para completar estas noções passemos a estudar a 
influencia da alimentação, tratamento e exercício sobre o 
melhoramento das raças. 

Quem fala é Settegast: <a alimentação, o tratamento e 
o exercicio estão na mais intima relação entre si e a sorte 
da Zootechnia só poderá ser favorável si esses três factores 
concorrerem do mesmo modo para a prosperidade d*ella. 
Seja um delles preterido e o resultado do conjuncto será 
muito minorado. Tenha-se porém de destacar o mais im- 
portante dentre elles e indicaremos então a alimentação. 



♦) Citado por Platc, 1. c. pag. 364. 



— 136 — 

Uma creaçao racional só produzirá indivíduos ruins 
quando o producto não foi convenientemente alimentado; 
e só predominarão os characteres naturaes quando a ali- 
mentação não fornecer as condições convenientes para o 
desenvolvimento das qualidades herdadas. Uma alimentação 
sufficiente e conveniente produz sempre, mesmo quando a 
creação não seja racional, animaes de qualidade muito su- 
perior á dos indivíduos de raça muito melhor, bem creados, 
mas cuja alimentação se descuidou.>* 

E' possivel mesmo, só com o auxilio destes factores 
modificar as formas e as funcções de um animal, tomando-o 
especialisado para uma determinada aptidão: — producção 
de leite, carne etc. Foi assim que os inglezes conseguiram 
melhorar as suas raças animaes tornando-as uma das mais 
estimadas, pelas suas excellentes qualidades. 

Mas, para que isso aconteça, é preciso que o animal 
ainda seja novo, porque só então a alimentação poderá in- 
fluir directamente na formação e desenvolvimento do esque- 
leto e concorrer portanto para modificar-lhe as formas. 

Para tomarmos um animal precoce devemos pois ali- 
mental-o quando novo intensivamente, com um alimento rico 
em albuninas e saes mineraes, porque então o esqueleto 
delle e principalmente os ossos compridos, completarão mais 
depressa o seu desenvolvimento e elle adquirirá as formas 
arredondadas characteristicas, da precocidade. Para deixar 
mais patente a influencia da alimentação na formação do 
esqueleto, vamos reproduzir aqui os dados obtidos por Sam- 
son comparando os esqueletos de carneiros merinos de 15 
mezes, precoces e tardios. 

Comprimento das partes medias 

Menor comprimento 

Volume total 

Peso 

Densidade 

Substancias mineraes 

Substancias orgânicas 

Von Nathusius***) mostrou a influencia dominante dos 

differentes alimentos sobre o esqueleto e especialmente sobre 

o craneo. E' assim que uma alimentação concentrada e rica 

accelera o crescimento dos animaes, deixando-os com as 

formas mais curtas e arredondadas, cabeça curta e larga, 



Precoces 


Tardios 


13 cm. 


16 cm.** 


5.6 cm. 


6 cm. 


70 cm.» 


78 cm.» 


93.95 grs. 
1.342 


99.4 grs. 
1.274 


67.70«/, 
32.3% 


61.4«/o 
38«. 



♦) H, Settegast.—Die fíktterungslehre, folh. I. 

♦♦) Samson-^Traité <U ZooUcknie, vol V, pag. 182. Edição 1901. 

*••) Citado pelo Prof. Dr, Pitseh — Influencia da Alimentação, elevagem e 
tratanunto, sobre o desem'ohimento das fornias e aptidões demonstradas no gado de 
Schwyz, Ann. da Esc. Polytechnica de S. Paulo — 1909. 



— 137 -. 

tronco profundo e largo e extremidades curtas. Ao passo 
que o animal mal alimentado fica com as extremidades 
alongadas, cabeça estreita e partes nasaes compridas. 

Pará mostrar a enorme influencia que a alimentação 
pode exercer sobre as formas dos animaes novos, vamos 
dar abaixo o resultado das experiências feitas por Glaettli, 
com animaes da raça parda de Swyz, que extrahimos do 
trabalho publicado pelo Prof. Dr. Otto Pitsch no Ann. da 
Esc. PoL e por nós já citado. Gaettli empregou sempre 
grupos de animaes da mesma idade: — 

2—3 mezes 13 — 18 mezes 

4-6 < 20-24 < - 

7-10 < 26-30 • 
10-12 * 30-36 « 
Estudando os resultados obtidos o autor notou que 
havia oscillações enormes devidas ao maior ou menor des- 
envolvimento da columna vertebral; e que o progresso no 
desenvolvimento não era continuo, que apresentava phases 
de actividade maior ou menor. Os animaes de 5 — 9 mezes 
apresentarão lun retardamento no desenvolvimento, ao passo 
que nos de 2 — õVa o crescimento era de 25 *="*• ou 80 para 
106 do comprimento total. Elle verificou também que os 
animaes do 2 — 3 grupos ganharam só 10*^™- Os animaes 
entre 9 — 12 mezes não apresentavam mais esta anomalia. 
Procurando a causa destas differenças Glaettli verificou que 
eUa coincidia justamente com o período da desmama dos 
animaes e consequente mudança de um alimento concen- 
trado e rico como é o leite, para outro mais volumoso e 
mais fraco. A nutrição do corpo, tendo de ser accom- 
modada ás novas condições, toma-se peior nesse período de 
tempo, influindo até no desenvolvimento do esqueleto, como 
as medidas vieram indicar. 

Como poderemos verificar pela tabeliã abaixo, da-se 
também um maior desenvolvimento do segundo terço nas 
primeiras phases do desenvolvimento. 



Idade 


Primeiro terço 


Segundo terço 


Ultimo terço 


2 mezes 


20 cm. 


32 cm. 


29 cm. 


õ'/. > 


23 > 


48 > 


40 > 


9 » 


27 > 


49 > 


40 > 


12 > 


26 > 


50 > 


43 > 


14 V, > 


29 > 


53 > 


46 > 


21 > 


34 > 


61 > 


51 > 


27 > 


33 > 


63 > 


51 > 


34 > 


36 > 


65 > 


54 > 



Vejamos agora a influencia exercida sobre a altura no 
garrote, profundidade do thorax e comprimenta da Cjabeça, 



— 138 — 

Idade Altura Profundidade Coittprifnento 

no garrote do thoraz da cabeça 

2 mezes 88 cm. 34 cm. 28 cm. 
5V. . 101 „ 45 . 36 „ 

9 „ 107 „ 47 „ 37 „ 

12 „ 111 . 52 „ 42 „ 

14V, „ 113 . 54 „ 43 „ 

21 „ 122 „ 61 . 48 „ 

27 „ 126 „ 63 „ 50 „ 

34V, „ 129 „ 66 . 51 „ 

Examinandose as medidas acima fácil é comprovar a 
influencia, que a mudança de alimentação produzio sobre 
o comprimento do thorax. 

Mas a influencia da alimentação não se exerce só sobre 
o esqueleto e musculatura, os próprios órgãos internos são 
directamente influenciados por eUa, como ficou patente das 
experiências de WoUny,*) cuja tabeUa, abaixo publicamos. 
WoUuy tomou duas cabras da mesma idade e peso, cdimen- 
tando uma delias com leite e a outra desde o começo, com 
vegetal Eis o resultado a que elle chegou: 

Cabra alimentada Cabra alimentada 
com vegetal com leite 

Peso do corpo 25.55 27.95 kgs. 

Músculos mais fortes 

Pansa e barrete . . . • 6.910 cem. 3.150 cem. 
Folhoso e coalho .... 1.42 1.45 

Relação entre ambos . . 1:4.9 1:2.2 

Comprimento dos intestinos 22.1 m. 19.4 m. 

Fígado e billís 350 grs. 560 grs. 

Coração 95 „ 165 „ 

Pulmões 225 , 415 „ 

A influencia do exercido sobre as formas e funcções 
é também muito grande, pois como dizia Lammark: <C'est 
la fonction qui forme Torgano O excercicio dos músculos 
actua sobre o desenvolvimento dos ossos, pela tracção em 
os pontos de inserção delles, de tal arte que os ossos, nos 
quaes se inserem músculos mais exercitados tomam-se tam- 
bém mais compridos e mais grossos. Quanto maiores os 
músculos e melhores inseridos, maiores serão as tracções 
em os pontos de inserção e mais enérgica a formação de 
protumberancias e processos ósseos.**) Os movimentos e 
exercicios actuam também sobre o desenvolvimento do ap- 
parelho de circulação e consequentemente do thorax. 



♦) Wollfiy—Landw, Jahrb, 1873, p. 209, cit. por Ad. Mayer. «Agrikult 
Chemie> IV. Bd. pag. 577. 

♦♦) Vide Prof. Dr. Otto Pitsch ioc. cit. 



bigeira critica dos processos actualmente empregados. 

A Zootechnia tem para São Paulo uma importância 
capital, não só porque é ella quem nos ha de fornecer os 
meios de nos utilizarmos de uma zona extensíssima do 
Estado, que pela natureza das suas terras se não presta a 
outro género de exploração, como também porque depende 
delia em grande parte, a solução de um outro problema 
de não menor importância: — a adubsição dos nossos cafe- 
eiros, que principalmente depois dos últimos estudos feitos 
nos Estados Unidos e Allemanha, mostrando a importância 
enorme das matérias orgânicas na fertilidade das terras, 
deve ser encarado sob um outro ponto de vista. E não 
obstante dotado pela natureza com todas as condições in 
dispensáveis não só para produzir animaes para o próprio 
consumo, como até para exportação, nós temos em S. Paulo, 
deixado completamente no olvido esse importante ramo da 
agronomia, para nos dedicarmos quasi exclusivamente, á 
cultura do café. Quasi todo o gado para o nosso consumo 
nós importámos de Matto Grosso e Goyaz; a banha do 
Rio Grande do Sul. 

E tudo isso por nos ter faltado uma orientação melhor 
dirigida e os conhecimentos indispensáveis que demanda 
uma tal producção. Porque não ha negar, toda vez que 
se não trate mais de abandonar a creação completamente 
entregue a selecção natural e á lucta pela existência, são 
necessários certos conhecimentos elementares essenciaes, 
difficeis de serem adquiridos entre nós, principalmente por 
nos faltarem livros práticos e bons escriptos em linguagem 
clara e de accordo com o nosso meio. Os que existem no 
mercado, geralmente escriptos para paizes europeus, de con- 
dições completamente diversas das nossas, podem ser de 
alguma utilidade para profissionaes, capazes de separar o 
joio do trigo, mas nunca para pessoas leigas na matéria, 
que só terão a perder com a sua leitura, porque si forem 
applicar o que alli aprehenderam, na maior parte das vezes 
terão prejuiso em lugar do lucro esperado. Podíamos mes- 
mo, sem medo de sermos taxados de exaggerados, avançar 
que a descrença que já se nota entre os nossos agricultores 
com relação a tudo que se refere á moderna agricultura, 
outra causa não tem que os prejuízos por elles sofifridos, 
quer applicando noções mal assimiladas adquiridas em a 
leitura de taes livros, quer seguindo conselhos de pessoas 
sem a precisa competência, que ali foram pedir subsidio* 

Si tratamos aqui desta questão é porque ella tem con- 
corrido poderosamente para a orientação que entre nós se 



— 140 — 

vae ^dando á Zootechnia. £ sinão, como explicar essa mania 
de importação de animaes, que de tempos a esta parte se 
vae gener2iÍisando entre nós, de um modo digno de admira- 
ção, principalmente pela maneira leviana porque é feita; 
não se levando em conta nem a capacidade da raça a se 
acclimatar, nem a differença enorme do meio, existente 
entre o nosso e os paizes europeos? 

A importação, que mesmo quando feita nas melhores 
condições e obedecendo a todos os requisitos necessários, 
seria uma operação de lucro muito problemático, principal- 
mente pelo facto das raças européas melhoradas <já se 
acharem muito enfraquecidas pelas producções anormaes> 
(Prof. Dr. R. Hottinger*) e portanto incapazes de supportar 
a acclimação; como está sendo feita, será a causadora de 
prejuisos certos, que, para o nosso mal, só se tomarão pa- 
tentes d*aqui a alguns annos, quando já tivermos gasto 
muito tempo e dinheiro. Demais, mesmo no caso em que 
a acclimação se desse não dispomos ainda, ao menos em 
S. Paulo, das condições precisas (alimentação conveniente; 
noções de Zootechnia, de hygiene etc.) e iudispensaveis, 
para podermos conser\^ar em taes animaes as qualidades 
com que foram importados; e, é muito sabido, pelos que 
se dedicam ao estudo da Zootechnia, que essas qualidades, 
sendo a resultante de uma selecção continua, uma alimenta- 
ção intensiva, principalmente quando novos, e dos cuidados 
hygienicòs, desapparecem aos poucos, quando taes forças 
deixam de actuar para a sua conservação. 

Haja vista o que se da na republica Argentina, aonde 
de ha annos, importão bo\nnos das raças inglezas durham 
e hereford (a lei prohibe a importação de outra procedência) 
especialisadas para a producção de carne. Nenhum outro 
lugar pôde offerecer, a quem quizer estudar a influencia do 
meio sobre o gado importado, um mais abundante material 
nem melhores condições para se o fazer; pois, estas duas 
raças achão-se espalhadas por toda a Republica e sob a 
acção de todos os meios: — desde o deserto quasi árido e 
o clima tropical, até o clima temperado e as pradarias idéaes 
da província de Buenos Ayres. Para ali pois, deviamos diri- 
gir as nossas vistas, antes de qualquer tentetiva de importa- 
ção, a colher experiências que nos orientassem a respeito 
Fòi effectivamente, o que fez o Snr. Dr. Carlos Botelho, 
commissionando o Snr. Pçof. de Zootechnia e Veterinária 
da Escola Polytechnica, Dr. Rob. Hottinger para estudar 
o estado da Zootechnia etc. nas Republicas do Pfata e no 
Rio Grande do Sul. No detalhado relatório que aquelle 



♦) Annuario da Escola Poljrtechnica — 190Õ, pag. 113. 



— 141 — ' 

profissional então apresentou ao Snr. Dr. Secretario da A- 
gricultura e do qu^ infelizmente, só uma parte foi publi- 
cada e essa mesma truncada, elle mostrou á evidencia ba- 
seado em dados irrefutáveis ali colhidos e acompanhando 
as demonstrações com photographias que, na Argentina 
como no Rio Grande ou Uruguay, ás formas e as aptidões 
do gado dependião quasi exclusivamente das condições. do 
meio e dos cuidados de tratamento etc: eram boas quando 
as condições e o tratamento o eram e ruins em o caso con- 
trario. E* assim que a mesma raça que ostentava os seuè 
bellissimos exemplares nas campinas de Buenos Ayres, 
quando vista nas proximidades dos Andes era de causar 
do não só pelo desconjuncto das formas como pela falta de 
desenvolvimento do esqueleto. <Via-se claramente, diz o Dr. 
Hottinger, por um simples golpe de vista, que tratava-se 
de animaes em plena degenerescência. > 

Vejamos agora o que diz o Snr. Prof. Dr. Pitsch* tra- 
tando do mesmo assumpto com relação ao gado de Schwyz. 
Diz elle: <Temos verificado a acção do clima, da alimenta- 
ção e do exercicio, sobre os animaes, mostrando que estas 
influencias são capazes de produzir variações. 

E de facto pode-se verificar tal influencia, cada vez 
que se introduz animaes novos, das regiões das coUinas em 
as regiões mais altas; a variação individual toma-se patente 
nestas condições, differentes das de origem. Os animaes des- 
envolvem-se mais de vagar do que aquelles das zonas mais 
baixas; e a productibilidade de que elles são capazes é me- 
nor do que aquella que elles terião alcançado nas collinas.> 

Da interessante monographia do Dr. Pitsch extrahimos 
também os seguintes dados, para mostrar como em um paiz 
tão pequeno como a Suissa as diversas raças variavam tão 
consideravelmente de peso, conforme as condições do meio 
em que ellas eram creadas. 

1896 
Peso médio 

Raças de St. Gallen, Seebezirk u. Neutoggenbg. 600 kil. 

, „ Graubiinden, Bezirk Ilinterhein . . 575 „ 

n n ví » Heinzenberg . 550 „ 

„ , Schwyz „ Einsiedeln . . . 560 „ 

„ „ , „ Briinalt . . . 550 , 

. . Zug 520 . 

, w Ob und Unterwalden 450 „ 

„ „ Tessin 389 e 300 „ 



*) Annuario da Escola Polytecfinica — 1909 , pag, . Influencias da alimen- 
tação, tratamento etc sobre o desenvolvimento das formas e aptidões, de- 
monstradas no gado Swyz. 



— 142 — 

Do que até aqui temos dito, pensamos poder concluir: 
que os animaes variam com o meio; que d^essa variação 
não estão isentos os pertencentes is raças melhoradas euro- 
péas; que até pelo contrario elles são mais sensiveis que 
os de uma outra raça qualquer por se acharem já enfraque- 
cidos pelQ desiquilibrío orgânico produzido pela especiali- 
çãp das formas e aptidões; que o nosso meio sendo com- 
pletamente diverso do europeo, não só em relação ao solo» 
clima etc. como também aos cuidados, tratamento etc. os 
descendentes dos animaes importados com a nova adapta- 
ção, perdem a msdor parte das qualidades herdadas dos 
pães. 

CruzaiDCnto. E geralmente idéa corrente entre os creadores 
paulistas que é bastante importar um reproductor extrangeiro 
de uma das raças européas melhoradas e entrar com elle 
nacreação para que o gado se tome desde logo melhorado. 

Ora, uma tal idéa é falsa, não só porque as proprie- 
dades transmittidas pelo cruzamento não representam sempre 
a média das propriedades paternas, como já tivemos occa- 
sião de mostrar, como também porque si tal transmissão se 
desse as propriedades se não poderião desenvolver por falta 
do cuidado e da alimentação convenientes. 

E destarte a maior parte dos senhores creadores está 
inconscientemente a fazer como Penélope: a desmanchar 
em um dia o que fizeram no outro; com grande perda de 
energia, tempo e dinheiro. 

O que se tem em vista, com o emprego deste methodo 
em o melhoramento das raças, é obter um maior numero 
de variações. 

Porque como tivemos occasião de dizer, quando estudá- 
mos as leis que regulam a hereditariedade nos cruzamentos, 
os individuos devem ser encarados como um mosaico de 
propriedades que se comportão independentemente entre si. 
De modo que com um pequeno numero de individuos pode- 
se obter um grande numero de variações, pelas diversas 
combinações possíveis entre as differentes propriedades. Ao 
passo que empregando-se o methodo da selecção é preciso 
dispor-se de um grande numero de indiviuos para se con- 
seguir o mesmo numero de variações. 

Empregando-se a selecção, nós temos á nossa disposi- 
ção apenas as variações que forem apparecendo pela acção 
do tratamento, alimentação etc, ao passo que o cruzamento 
em si já produz variações, que podem ainda ser augmenta- 
das pelos processos acima referidos. 

Contrariamente porém á selecção, que pode ser empre- 
gada por qualquer, comtanto que seja um bom conhecedor 
do exterior, o cruzamento exige de quem o applica um 



— 143 — 

completo conhecimento das suas leis geraes, alem de uma 
grande perspicácia no julgamento das formas e aptidões 
dos productos obtidos, afim de afastar um determinado ani- 
mal da creação, em tempo de evitar que elle possa causar 
pela transmissão desta ou aquella propriedade prejudicial 
dominante, a mina de todo o trabalho até então realizado. 
Não deve porisso, ser aconselhado indistinctamente a gregos 
e troyannos, como se está fazendo entre nós, sob pena de 
tomarmos cada vez mais difficil e complicada a solução do 
nosso problema zootechnico. 

Mas para que o emprego tanto de um como de outro 
methodo seja fmctifero é preciso e indispensável alem de 
tudo, que o creador seja um completo conhecedor da es- 
pécie animal que procura melhorar; é preciso que elle saiba 
escolher entre todos os animaes aquelles com as proprie- 
dades mais próximas possíveis do typo desejado e isolal-os 
da mistura em que se achavam. £ sò assim será possivel 
no fim de um certo numero de gerações, dependentes do 
numero de animaes, do methodo empregado etc. obter uma 
raça constante de animaes uniformes. 

Portanto a primeira cousa a fazer na melhora das raças, 
antes mesmo da escolha do melhodo a empregar, é esta- 
belecer as formas e aptidões que desejamos conseguir para 
o animal melhorado, afim de figurarem na primeira pagina 
do livro genealógico da raça e servirem de termo de com- 
paração por occasião de effectuarmos as selecções. Estas 
formas e aptidões a servirem de estalão, não devem ser 
tomadas ao nosso arbítrio, mas sim representar a média da 
raça em melhoramento. 

Mas quer empreguemos este ou aquelle methodo, selec- 
ção ou cruzamento, os resultados obtidos hão de ser muito 
pequenos si descuidarmos da alimentação, tratamento etc. 
dos animaes, principalmente quando novos; pois em outro 
lugar deste trabalho já tivemos occasião de mostrar, por 
innumeras tabeliãs extrahidas de diversos autores, a influ- 
eecia enorme que aquelles factores podem exercer, não sò 
sobre ás formas dos animaes, como também sobre as suas 
aptidões. 

Podemos mesmo dizer, que todo projecto de melhora- 
mento que não basear seu principal ponto de apoio n*uma 
alimentação e tratamento racionaes principalmente do ani- 
mal novo não pode dar resultado, porque aquelles factores 
são a causa efficiente do melhoramento; e o fim do cruza- 
mento ou selecção, outro não é que obter animaes cuja 
constituição physiologica seja a mais apta possivel para a 
acção delles. 



— 144 — 

Foi comprehendendo isso, que a Allemanha, a Áustria, 
a França e ultimamente os Estados Unidos e o Japão, in- 
stalaram estações experimentaes destinadas ás investigações 
sobre as nutrições dos animaes; e, já são fecundissimos os 
resultados que os criadores d*aquelles paizes tem tirado dos 
ensinamentos ministrados por aquelles institutos. 

O Snr. Dr. Dafert, que tão relevantes serviços prestou á 
nossa agricultura, quando director do Instituto Agronómico 
de Campinas, em carta aberta ao Snr. Dr. Carlos Botelho 
publicada na Rnnsta Agrícola de 19 de Dezembro de 1895, 
assim se exprimia: <A criação paulista carece em primeiro 
lugar de uma protecção e de um tratamento systematisado 
do lado do Governo, porque haverão difficuldades justifica- 
das em encontrar-se numero sufficiente de particulares que 
sejam bastante ricos e habilitados para dedicarem-se á re- 
solução experimental e nacional do problema. Para com- 
prehender-se este facto preciso lembrar que não basta a 
importação de vaccas e touros de raças embora feita com 
todo o cuidado e muitos sacrifícios, a installação de um 
ou mais estábulos modelos, por melhores que sejam e pu- 
blicações de artigos originaes copiados de livros estrangei- 
ros,*'' interessantes e em si utilíssimos para criar em S. Paulo 
gado bom e . . . criadores. Para obter tal resultado é preciso 
que além das condições económicas apropriadas, naturaes e 
favoráveis (de que se me não engano dispomos em muitos 
lugares de S. Paulo) coUaborem quatro factores: 

a) Um estabelecimento ou cousa que o valha, chimico 
agricola, dispondo do pessoal technico e dos laborató- 
rios, para se fazerem os estudos e analyses chimicos; 

b) um estabelecimento ou instituição semelhante, munida 
de pessoal e todos os recursos scientificos necessários 
ao estudo exacto do processo de assimilação e deeissi- 
milação (estábulos experimentaes etc. para experiências 
physiologicas, apparelhos de respiração etc.) campo da 
sciencia em que até hoje absolutamente nada foi feito 
na zona tropical nem em relação ao homem nem rela- 
tivamente aos animaes.> 



•) o grypho é nosso. 



ÍDeíne Reise nacb dem Salto Grande 
Don Paranapanema. 

von Edmundo Krug. 



Wer fur die Oeffentlichkeit schreibt, muss sich auch auf 
die Unannehmlichkeit õfFentlicher Angriffe gefasst machen. 
Ais ich vor etlichen Monaten meine kurzgefassten Reise- 
eindriicke uber das Ribeiratal in meiner Muttersprache 
publizirte, hatte leider das hiesige Dorfintrigantentum nicht 
wenig an mir auszusetzen, ohne aUerdings meine Darlegungen 
zu entkráften, oder gar Liigen strafen zu kõnnen. Immerhin 
wíirden die Angriffe, denen ich ais Strafe fíir meine Ehr- 
lichkeit ausgesetzt war, hingereicht haben, mich dauemd 
um die Lust zum Schreiben zu bringen, wenn ich es nicht 
fiir eine Kulturpflicht hielte, Geschautes und Erfahrenes 
Anderen mitzuteilen, und wenn ich mich nicht weiter dem 
Schilde eines guten Gewissens hieb- und stichfest wíisste. 

Ich will heute wieder íiber eine Exkursion berichten, 
die ich nach dem síidlichen Teile meines Heimatsstaates 
untemahm. Diesmal aber war mein Ziel nicht das herrliche 
Ribeiratal, nicht sein interessanter Zufluss, der Rio Pardo, 
oder dessen Nebenfiuss, der Rio Turvo, sondem der Salto 
Grande, der riesige Wasserfall des grossen Paranapanema- 
flusses. 

Gebe sich der verehrte Leser keinen Dlusionen hin: 
die Gegend, die ich diesmal besuchte, hâlt trotz der Be- 
riihmtheit, welche sie geniesst, absolut keinen Vergleich 
mit den grossartigen Naturschõnheiten des Ribeiraflusses 
aus. An der Ribeira spriesst die unvergleichlich grossartige 
Vegetation, herrscht eine Harmonie in der gebárenden 
Natur, der jeder Baum, jeder Zweig, ja, jedes Blatt an- 
gepasst ist; dort lagert ein kúnstlerischer Hauch auf Aliem, 
was das Auge schaut, jede Flussbiegung bietet neue, un- 
beschreiblich packende Landschaftsbilder und nie wird der 
Reisende miide, sich an diesen Naturschõnheiten zu be- 
rauschen. 

In den Gegenden, die ich diesmal durchzog, giebt es 
nichts von alledem; Campos, unendliche Fláchen mit Gras, 
die alies, nur nicht die Bezeichnung «schõn» verdienen, hier 
und da unfruchtbare Fláchen, mit Samambaia*) bewachsen, 
die sich dem Reisenden nicht weniger ais interessant oder 

(*) Farnkraut, 



— 146 — 

gar erheitemd prásentíeren; die prachtvollen Urwâlder, die 
unser Stolz sind, kommen vorlâufig vereinzelt vor. 

Wenn der etwa reiselustige Leser aus meinen Erfahrun- 
gen einen Vorteil ziehen und die Naturschõnheiten des 
Staates São Paulo emstlich geniesen will, so empfehle ich 
ihm, zuerst alie anderen Gegenden und erst dann das 
Ribeiratal zu besuchen. Andernfalls wird er Enttâuschun- 
gen statt gesteigerten Genusses erleben. So erging es mir 
wenigstens. 

Meine Reise begann mit einer 13 stiindigen Fahrt nach 
der Statíon Cerqueira Cezar, auf der Sorocababahn, iiber 
deren Betrieb sich heute, wo sie unter tiichtíger Leitung 
ist, ein g^nz anderes Urteil abgeben lásst, ais friiher. Ein 
Genuss ist es aber auch heute noch nicht, auf der harten 
Bank eines stossenden Schmalspurwaggons 13 Stunden lang 
durch eine langweilige Gegend zu fahren. Aber mit dem 
nõtigen Riickgrat und etwas Geduld geht's schon. 

In Cerqueira Cezar gibt es eine Anzahl leidlich guter 
Hotels, mehr sogar, ais fiir den Verkehr nõtig wáre. Wir 
stiegen im besten derselben ab, und erfuhren bald, dass 
auch die Conducção — die Tiere — die ein guter Freund im 
Sertão^) uns gesandt hatte, bereits zur Stelle waren. Ja, der 
Camarada^) desselben hatte, wie wir zu unserem Vergníi- 
gen erfuhren, sogar schon Zeit gehabt bei unser en Wirt sich 
eingehend iiber uns und unsere Absichten zu erkundigen, 
wobei er naturlich nicht versáumte, unserem Interesse durch 
einige Aufschneidereien nach seiner Art dienstbar zu sein, 
eine Verschmitztheit, die wir durch Kopfnicken annahmen, 
um einmal dem wiirdigen Wirt den Genuss seiner eigenen 
Schlauheit zu lassen, dann aber auch um uns keiner Neu- 
gierde auszusetzen. Wer wenig besuchte Gegenden bereist, 
muss ein wenig Diplomat sein; darf weder seinen Freunden 
widersprechen noch Neugierde erwecken, dafiir aber ist 
es fast immer zweckmãssig, das Gegenteil von dem zu tun, 
w£is angeraten wurde. Demokratische Kamaradschaftlichkeit 
und auch ein Scherz ist am Platze, nur darf er sich nicht 
an die Adresse der Frau oder Tochter des Caboclos***) 
richten, denn sein Messer sitzt locker! 

Friih am náchsten Morgen brachen wir auf. Am Aus- 
gange des Fleckens gesellte sich ein chinesischer Korb- 
flechter zu uns, der mit deutlichem Seitenblick auf unsere 
úberfliissigen Tiere, und mit der Versicherung, ein vorzíig- 



(♦) Sertão, werden hier die Gegendeu genannt, die sehr wenig bewohnt 
sind und schlechte Verkehrsverbindungen haben. 

{♦*) Camarada, ist Diener gleichbedeutend. 

(*♦♦) Caboclo, ist der Mischling zwischen Indianer und Portugiese, der 
Sertão wird meistens noch von Caboclos bewohnt. 



— 147 — 

licher Reiter zu sein, um die Erlaubnis bat, uns ein Stíick 
begleiten zu diirfen. Mein Camarada war sichtlich unzufrie- 
den, mochte aber wohl nicht offen abwinken und wusste 
sich denn auch vorziiglich cinders zu helfen. Der China- 
mann bekam einen Esel, der aber zuerst hinterrúcks ein 
Fenster mit ihm eindriickte und ihn dann, auf die Vorder- 
beine iiberkippend, so kráftig auf seinen Blechreisekoffer 
setzte, dass derselbe platt und formlos wurde. Der brave 
Mongole erklârte dann feierlichst, das Tier tauge nichts 
und er ziehe es doch vor, zu Fusse zu gehen. Unser 
schlauer Caboclo aber schmunzelte nicht wenig und ver- 
gniigt ritten wir von dannen. 

Es kann kaum eine anstrengendere und langweiligere 
Reise geben, ais die von Cerqueira Cezar nach Óleo. Die 
drei Legoas*) die man durch eine sandwústenâhnliche Land- 
schaft reiten muss, sind 4 trostlose Stunden, die zur Un- 
endlichkeit werden. Die Sonne brennt sengend, der weisse 
Sand reflektiert ihre Strahlen und die trockene Luft ver- 
urteilt bald Tiere wie Menschen zu Durstesqualen. Dabei 
ringsum kein Wasser, oder wenn solches zu finden, fúr Men- 
schen ungeniessbar, da das Stampfen der durstigen Tiere 
es schlammig machte. Die Maulesel schreiten mit Milhe, 
denn sie versinken tief im weichen Sande. Auf beiden 
Seiten der Landstrasse sieht man nichts ais riesige mit 
Samambaia bewachsene Fláchen, eine ewige Monotomie, die 
unwillkiirlich miide und traurig macht! 

Ais ich auf friiheren Reisen die Campos zwischen Fa- 
xina und Itapetininga durchschritt, glaubte ich schon das tion 
plus ultra der Langweiligkeit kennen gelemt zu haben, jetzt 
weiss ich, dass der Weg von Cerqueira Cezar nach Óleo 
noch trostloser und triibsinniger ist. Trâfe man nicht in 
weiten Abschnitten auf vereinzelt stehende, schon geformte 
Báume voU gelber Bliiten, die dem Auge wohltun, ich 
wiisste wahrhaftig nicht, was dieser Gegend Angenehmes 
nachzusagen wáre. 

Nahe bei Óleo durchzieht diese Campos ein kleiner 
Fluss, der Cafundò, und hier beobachte ich, ehrlich erstaunt, 
wie eine so unbedeutende Wasserscheide die Grenze zwi- 
schen zwei võllig verschiedenen Vegetationen bilden kanm 
Auf dieser Seite des Flusses die õdeste Ertrâgnisslosigkeit, 
driiben, aber eine ziemlich reichhaltige und frische Vege- 
tation, ja, die besten Anzeichen der Fruchtbarkeit, die Bou- 
gainvillia, eines der b.esten Zeichen der Fruchtbarkeit der 
Erde, erfreut das Auge durch seine prachtvoU gefárbte 
Lilablíiten. Hier sah ich zum ersten Male die Heuschrecken- 



(♦) Eine Legoa ~ 6,666 km. 



— 148 — 

plage mit eigenen Augen. Die gefrâssigen Geradflugler 
waren aber noch auf den Campos und man konnte dem- 
zufolge nicht ahnen, welche gewaltíge Verwiistungen diese 
kleinen Tierchen anzurichten vermõgen. Leider soUte ich 
sehen, dass die Zeitungsberichte, die içh zuerst fiir iiber- 
trieben hielt, noch vielfach hinter der grausamen Wahrheit 
zuriickbleiben. 

Óleo, das wir ohne Aufenthalt passirten, macht einen 
uberaus netten und betriebsamen Eindruck. Gut gehaltene 
Kulturen von Zuckerrohr, Baumwolle, Kaffee und Mais 
zeugten fiir die Arbeitsamkeit der Bevõlkerung und von 
der Fruchtbarkeit der Gegend. 

Unsere miiden Tiere mussten doch noch weiter bis zu 
dem kleinen Orte Lageado, offiziel Mandaguary, wo wir 
zu íibemachten gezwungen waren, da die schon ermatteten 
Krâfte derselben bis zum nâchsten grõsseren Orte, Santa 
Cruz do Rio Pardo, nicht ausreichten. 

Sowohl zwischen Óleo und Mandaguary, und weiter 
bis nach Santa Cruz, liegen prachtvolle KafFeeanpflanzungen, 
die ich, obwohl ein ehrlicher Feind der Monokultur, und 
iiberzeugt, dass der Kaffee unbedingt unser Verderbnis ist, 
bewundern musste, wenn ich auch im Geheimen meinen 
Heimatsstaat gliicklich pries, dass diesen Plantagen kein 
ewiges Leben beschieden sei! 

In Mandaguary mussten wir uns natiirlich mit einem 
Pouso, einem Notlager, begníigen, wo die miiden Knochen 
von der langen Wiistenreise ausruhen konnten. Es war 
bald und leicht gefunden, ebenso wie ein MittagsmahL 
Zum Gliick war der uns zur Verfiigung stehende Speisesaal 
nicht elektrisch beleuchtet, sodass die Gedankenkombination 
zwischen der Farbe der aufgetragenen Speisen und der 
Reinlichkeit der Geschirre unseren Appetit nicht so wesent- 
lich beeintráchtigte, wie es sonst wohl der Fali gewesen 
wâre. „Was das Auge nicht sieht, fiihlt das Herz nicht" 
sagen meine Landsleute, und in unwirtlichen Gegenden rei- 
sen — fiige ich hinzu — „diirfen nur Leute mit gutem Magen 
und vòrziiglichem Appetit" Magenleidende und Herren mit 
aristokratischen Sitten ist mindestens dieser Ort kein em- 
pfehlenswerter Aufenthalt Dafiir kennen solche Leute 
auch nicht die Wonne, einen Pouso, wie wir ihn bewohnten, 
wieder mit einem zivilisierten Bett vertauschen zu diirfen. 
Schon deswegen sollte auch der Aristokrat hie und da 
eine solche Reise machen, sich von.Maiskolbenknoten des 
Lagers wund driicken lassen und unter den Bissen híipfen- 
der und kribbelnder Ruhestõrer Betrachtungen iiber das 
GUick jenes Vorgângers anstellen, der das Bettzeug, auf 
dem man liegt, zum ersten Male benutzen durfte. Ich wiirde 



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— 149 — 

nicht so zungenlos sein, wenn ich nicht mein gutes Geld 
fiir einen schlechten Pauso gegeben hâtte; wenn ich nach 
Landessitte gastfreundlich bewirtet worden wáre, wiirde ich 
doch an dieser Stelle gaiiz ruhig geschwiegen haben! 

Noch in vorgeriickter Stunde stattete ich dem nahen 
Rancho^) einen Besuch ab, um dort mit meinen halbcivili- 
sirten Landsleuten, den Tropeiros^ den Tier- und Karren- 
fíihrem der Landstrasse, wieder einmal Fíihlung zu be- 
kommen. Ein unerwarteter Kunstgenuss ward mir íuer zuteiL 
Ich hõrte, begleitet vom Violão^ von der Bratsche, eine 
Caipira^)' ^\xvcvaí^ von so wunderbarer Schõnheit, dass es 
mir ordentlich fiir die Stimmenentdecker unter den Theater- 
direktoren Europas leidtat, die diesen Mann nie zu hõren 
bekommen und daher keine Gelegenheit haben werden, 
seine Prachtstimme abzuschátzen. Und so einer lebt, Wind 
und Wetter ausgesetzt, auf der Landstrasse, raucht átzenden 
Tabak und trinkt Pinga, Zuckerrohrschnaps, dazu — je mehr 
desto besser! 

Von Mandaguary fiihrt der Weg ueber Santa Cruz do 
Rio Pardo nach São Pedro do Turvo. Diese ganze Land- 
schaft, sowie dieser Teil des siidlichen S. Pauios besonders, 
ist sehr eben und an den Landstrassen ziemlich wasserarm. 
Die Hauptvegetation ist diejenige der Campos, aber nicht 
jener traurigen Campos zwischen Cerqueira Cezar und Óleo. 
Diese Campos haben fruchtbaren Boden, der entweder 
von Natur, oder auch durch rationelle Bearbeitimg fiir die 
Viehzucht im grossen, geeignet ist. Grade in diesen Ge- 
genden hier merkt man mehr Wohlstand ais im Ribeiratal 
und auch zweifellos viel mehr Lust zur Arbeit. 

Das aber erklárt sich leicht: An der Ribeira ist die Be- 
võlkerung úberaus spárlich, die Verkehrswege sind schlecht 
und in ihren Hauptadem meist weit von den Ansiedlun- 
gen entfemt Daher pflanzt die Bevõlkerung nur, was sie 
notwendig fiir den eigenen Lebensunterhalt gebraucht In 
der Gegend zwischen Mandaguary und S. Pedro do Turvo 
aber sind die Verkehrswege besser und kõnnen, da sie 
durch ebenes Gelánde fuhren imd da die ganze Bevõlker- 
ung dichter ist, auch leichter erhalten werden. Aus den 
gleichen Griinden aber blíiht der Handel und sieht sich 
der Gutsbesitzer auch veranlasst, mehr ais zum eigenen 
Lebensunterhalt erforderlich, zu pflanzen. 

Hier sieht man fortwáhrend gut angelegte Landgiiter 
und Fazendas, auf denen sich viele Hánde riihren, und lemt 
gleich eine Bevõlkerung kennen, die genau weiss, dass nur 
rege Arbeit zum Wohlstande fiihrt 

(♦) Offcner mit Stroh bedeckter Raum. 
(**) Ziemlich gleichbedeutend mit Caboclo. 



— 150 — 

Aber eine bange Frage hat sich mir doch aufgedrângt: 
Wird dieser Wohlstand erhalten bleiben, wenn die Regienmg 
sich der gegenwârtígen Heuschreckenplage gleichgiltig 
gegenuberstellen sollte? Denn darúber besteht leider kein 
Zweifel: es wird, wenn nicht ganz energische Massregeln 
ergriffen werden sollten, um dieses grauenhaften Verwusters 
Herr zu werden, in kurzer Zeit, — in wenigen Stunden — 
Alies, was hier der Menschenfleiss geschaffen, vollstândig 
vemichtet sein. Statt der bliihenden Landgiiter und Fa- 
sendas, die heute von Wohlhabenheit zeugen, werden wir 
dann, gerade wie anderwárts, nur noch armselige Caipira- 
hiiiten sehen, deren Besitzer die Erinnerung ihre ganze Habe 
nennen miissten. 

Zum Gliick hat sich die Regierung zu energischer 
Aktion entschlossen. Mõge das Eingreifen unseres wohl* 
meinenden Ackerbau-Sekretars und Staatsprâsidenten von 
Erfolg gekrõnt sein und mõge vor Aliem der Kongress 
baldmõglichst ein Gesetz erlassen, das die Bevõlkerung 
der heimgesuchten Distrikte zwingt, selbst energische Mass- 
nahmen gegen die gefrássigen Insekten zu ergreifen. Die 
Leute miissen, meiner Ansicht nach. dazu gezwungen 
werden, sie miissen doch mit der Zeit verstehen lemen, 
dass die Regierung nicht der gute Vater der ganzen Be- 
võlkerung sein kann. Wie weiter oben gesagt, glaubte 
ich zuerst, dass die Zeitungsberichte ueber Umfang und 
Schâdlichkeit der Plage uebertrieben seien. Nur zu bald 
aber hat mich leider der Augenschein vom Gegenteil ueber- 
zeugt; Das Elend ist leider noch schlimmer, ais es ge- 
schildert wurde! 

Ich sah in dortiger Gegend regelrechte Bânder von 
Heuschrecken, die etwa 200 m. lang u. 17^-2 m. breit waren. 
Die Tiere lagen durchschnittlich centimeterhoch aufeinander, 
sodass ein solches Band einem Raummass von etwa 8 — 
10 cbm. d. h. also einem Volumen von 8000 Liter entsprach. 
Wenn man nun bedenkt, dass drei Viertel der Individuen 
dieser Kolonnen Weibchen sind, und dass jedes Weibchen 
mindestens 300 Eier legt, so gewinnt man leicht ein Bild 
von der Gefâhrlichkeit der Plage, und triibe Gedanken 
tauchen allmáhlig beim Nachdenken auf. 

Ais ich diese Insekten sah. waren sie noch klein und 
ungefUigelt und hiipften nur zur Seite, wenn man an ihnen 
vorbeiritt. Sie zogen sich dann nach dem Waldrande zu- 
riick, wo sie sich am sichersten fuhlten. In dieser Periode 
ihres Werdeganges, also noch in der Metamorphose, sind 
die Heuschrecken noch verhâltnismassig leicht auszurotten, 
wenn der Caipira oder Fazendeiro nur ein wenig praktisch 
vorgeht, um so leichter, ais die Tiere sich in diesem Stadium 



— 151 — 

noch meist auf reinem Terrain, also z. B. am Rande der 
Landstrasse aufhalten. 

Maispflanzungen, die ich sah, und die von Heuschrecken 
abgefressen waren, boten einen wahrhaft trostlosen Anblick. 
Nichts ais die Stengel und die diese krõnenden Bliiten sind 
stehen geblíeben, kein einziges Blatt ziert die dem Unter- 
gang geweihten Planzungen. Bei Betrachtung einer soíchen 
Anpflanzung steigen wirklich díistere Zukunftsbilder, Ge- 
danken an Hungersnot, Teuerung nind Verarmung dem 
Beschauer auf. Er fragt sich, was werden ^oll, wenn wir 
hier im reichen und fruchtbaren Staat S. Paulos die dringend- 
sten Bedíirfnisse des Unterhalts importiren miissten. — 

Santa Cruz do Rio Pardo geniesst den traurigen Ruf 
einer politisch bezeichneten Ortschaft. Hier nãmlich soll 
die Dorfjpolitik in noch grõsseren und blõderen Wirrwarr 
ausarten ais anderu^ârts im gesegneten Staate S. Paulos. 
Es gibt zwei Psirteien, die <yagunços^ und die ^Picapaus>, 
die einander fortwáhrend in den Haaren liegen, ohne dass 
natiirlich das Mindeste dabei herauskáme, was der Ortschaft 
imd ihren Bewohnem niitzlich sein kõnnte. Persõnliche 
Fehde ist alies, das Wohl des Bezirks wird vollkommen 
dariiber vergessen, nur Intriguen und gegenseitige Chikanen 
sind an der Tagesordnung. 

Leider steht Santa Cruz do Rio Pardo mit seiner Dorf- 
politik nicht alleine da. Wir haben viele solche Oertchen, 
die sich bei ihren Politikem dafíir bedanken kõnnen, dass 
sie auf keinen gninen Zweig kommen. Die Dorf-Politiker 
sind leider durchgángig so ungebildet, dass sie eben effectiv 
nicht fáhig sind, das Rechte vom Verkehrten zu unter- 
scheiden und daher alies ruiniren, statt mit vereinten Krâf- 
ten praktische Fortschritte anzubahnen. Ob die Jagunços 
oder Picapatis sachlich im Rechte sind, das zu unterscheiden 
ist nicht meines Amtes, praktisch sind entschieden beide 
im Unrecht, und vernunftig sollten sie einmal werden. 

Meine Anwesenheit in Santa Cruz — sie betrug nur 
wenige Stunden — war zu kurz, ais dass ich weiteres von 
dort zu berichten wiisste. 

Drei Meilen von Santa Cruz entfemt, liegt São Pedro 
do Turvo, wo ich ais Gast des Herm Coronel António de 
Souza Guimarães einige wirklich angenehmeTage verbrachte. 
Da der Ort klein ist, lemte ich gleich am Tage meiner 
Ankunft alie Mitglieder der besseren Gesellschaft kennen, 
denen ich hier nochmals bezeugen mõchte, dass sie alies 
taten, um mir den Aufenthalt angenehm zu machen. Aller- 
dings musste ich auch hier leider mit der schon friiher 
erwãhnten Dorfpolitik Bekanntschaft machen, deren Ten- 
denzen ich nicht kommentiren, wohl aber illustriren mõchte. 



— 152 — 

Auch S. Pedro do Turvo riaimt .sich der politisireuden Partei- 
gTUppen der Picapaus und Jagunços y von denen nach meiner 
unmassgeblichen Meinung ueberhaupt nur die letzteren — 
es sind die Regierungsanhânger — wissen, was sie eigendich 
wollen. Der politísche Qief dieser Partei ist der oben ge- 
nannte, intelligente und liebenswurdige Coronel Guimarães, 
der schon seit 30 Jahren im Orte lebt und eng mit den 
Geschicken der Bevôlkerung verwachsen ist Seine Partei 
hat das Ruder in dêr Hand und hat einen sehr wohl- 
méinenden Mann zum Intendenten des Ortes gemacht Be- 
dauerlicherweise hat dieser aber noch nicht die Kunst er- 
funden, ohne die Erhebung von Steuem Landstrassen zm 
erbauen, Munizipalbeamte zu bezahlen und sonst nõtigen 
administrativen Geschâfte zu besorgen. Steuem aber bezahlt 
Niemand gem und die Picapaus speziell haben eine aus- 
gesprochene Abneigung gegen Ausgaben. Daher haben 
sie dem Intendenten offenen Krieg erklârt und ihn sogar 
schon unter Fíihrung ihres Hauptmachers, des Lokalpriesters, 
mit Revolver bedroht Doch halt, ich hâtte fast den Haupt- 
grund der Feindseligkeiten vergessen: sie sind empõrt 
dariiber, dass ein Munizipalitatserlass an der Tiire eines 
Kaufmannsladens angeschlagen werden sollte. — Traurig 
aber wahr! 

Der Kem der Sache ist der, dass die Opposition die 
Steuem nach cilter guter Gewohnheit in ihrem Interesse 
fíir die Eleições (Wahlen) verwendet zu sehen wiinscht, und 
fiir Landstrassenverbesserung, Strassenbeleuchtung und 
Hygiene nichts uebrig hatte. Tatsâchlich sind denn auch, 
solange die Picapaus am Ruder waren, keine Steuem zur 
Erhebung gelangt, sodass kein Geld vorhanden und ein 
ewiges Defizit die Folge war. 

Man fragt sich, wenn man derartige Zustânde aus der 
Nâhe kennen lernt, unwillkurlich, wie es mit der Politik in 
den Sertões der anderen minder fortgeschrittenen Staaten 
des grossen brasilianischen Vaterlandes bestellt sein muss, 
wenn schon in S. Paulo, wo doch eine regulâre, von besten 
Absichten geleitete und rechtschaffene Regiemng existirt, 
derartige Zustânde mõglich sind? 

Doch genug davon, umsomehr, ais ich persõnlich we- 
der ueber Mitglieder der einen, noch der anderen Partei zU 
klagen hatte, die mich, im Gegenteil, ausnahmslos liebens- 
wiirdig behandelten. Ich spreche aber auch nur von der 
Sache, von dem Handeln der Parteien, nicht von Indivi- 
duen, auch môchte ich betonen, dass ich dazu ein Recht 
ais Brasilianer habe, wenn ich Auslander wáre, wiirde ich 
natiirlich ganz ueber die Angelegenheit schweigen. 



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— 153 — 

. São Pedro do Turvo liegt langgestreckt zwischen zwei 
Fliissen, S. João und S. Pedro, welche in den fruchtbaren 
Rio Pardo miinden. Die Griindung des Ortes ist meines 
Erachtens júngeren Datums, und bezweifle ich, dass sie mehr 
ais 50 Jahre zuriickliegt; meiner Vermutung nach existiren 
daruber keine Dokumente, ich kann daher íiber die ge- 
schichtliche Ent^\icklung des Ortes nichts sagen, 

Wer sich hier ein Haus bauen will, braucht kein Terrain 
zu besitzen, denn zwischen den vorhandenen Wohnhãusem 
liegt Land in Fiille, das die Stadt-Kammer mit Vergniigen 
umsonst abgibt, nur ist es nõtig, das in Beschlag genom- 
mene Grundstiick zu umzãunen. In dieser Hinsicht herrschen 
abo im Sertão noch paradiesische Zustande und auch sonst 
lâsst sich nach meinen Erfahrungen, trotz der Verkehrtheit 
der politischen Verhâltnisse, in São Pedro ganz vorzuglich 
leben, nur muss man sich mõglichst wenig mit der Dorf- 
politik abgeben. Ich glaube auch, dass der Ort in kurzer 
Zeit emporbliihen wird, denn abgesehen davon, dass aus- 
gezeichnet fruchtbarer Boden zur Verfiigung steht, hat 
das Stadtchen verschiedene sehr untemehmungslustige Be- 
wohner, die schon jetzt durch Installirung maschineller An- 
lagen zum Reisschâlen und zur Reinigung von Baumwolle 
den Export dieser beiden Produkte vervielfacht haben. 
Dieser Fali zeigt wieder so recht, was wenige unter- 
nehmungslustige Mânner in Bezug auf den Wohlstand eines 
Ortes zu leisten vermõgen. Die Aufstellung der beiden 
Maschinen hat der ganzen Bevõlkerung Lust zur Arbeit 
gemacht und hat ihr gezeigt, dass man bei der Landwirt- 
schaft noch verdienen kann und veranlasste sie bedeutend 
mehr zu pflanzen ais fiir den eigenen Bedarf nõtig ist. 

Von São Pedro do Turvo fiihrte mein Weg nach dem 
Salto Grande do Paranapanema ueber den Flecken gleichen 
Namens zu dem beriihmten Wasserfall, von dem so viel 
erzâhlt wird. 

Durch Waldungen und iiber Campos fiihrt der fast un- 
bewohnte Pfad. Die ganze Vegetation ist, abgesehen von 
kleinen Waldstreifen, deren Formation Interesse erregen, 
nicht besonders schon. Bemerkenswert ist in den Wald- 
ungen das absolute Fehlen von Orchideen und Bromelia- 
ceen, jener reizenden Epiphyten, die anderwârts durch ihre 
eigenartige Fárbung und ihre bizarren Formen den Blick 
fortA^ ãhrend auf sich ziehen. Dieser Mangel ist mir, wenn 
ich nicht schlecht beobachtet habe, auffãllig. Er hângt viel- 
leicht mit der geringen Feuchtigkeit der Luft zusammen. 

Jahrhunderte alte Bãume aber sind in Fiille vorhanden, 
besonders Paú d' Alho (Knoblauchsholz) gibt es in solcher 
Menge, dass die Luft, besonders nach Regenschauem, mit 



— 164 — 

dem charsikteristíschen Geruch des Knoblauchs geschwângert 
ist Dieser Baum gilt ais Padrão de terra òôa, d. h. ais Zeichen 
vorziiglicher Bodenbeschaffenheit. Er hat aber auch eine 
sehr bõse Eigenschaft, so sagt man, welche besonderes die 
im Urwalde arbeitenden Ingenieure ais grosse Unannehmlich- 
keit kennen und fíirchten: er lenkt nâmlich die Magnetnadel 
ab, wenn auch nur in so geringem Masse, dass es meist 
wenig zu sagen hat. Immerhin ist mir aber háufig von 
dieser wunderbaren Eigenschaft des Baumes erzáhlt worden. 
Freunde von mir, Geometer und Ingenieure, die keine Ge- 
legenheit hatten, in Gegenden zu arbeiten, wo Pau d' Alho 
vorkommt, haben gleich mir an der Sache gezweifeit, mir 
versicherte aber dann spáter ein Feldmesser, der lange Jahre 
in der Gegend von Cerqueira Cezar gearbeitet hat, dass 
er sich unbedingt von der Richtigkeit der Beobachtung 
liberzeugt und festgestellt habe, dass die Ablenkung der 
Nadei eine noch grõssere sei, wenn der betreffende Baum 
angehauen wird. Jedenfalls ist dieses Phânomen sehr 
merkwiirdig urd wert studirt zu werden. Vorlâufig glaube 
ich nicht daran, und solange ich die Sache nicht mit ei- 
genen Augen gesehen habe, halte ich sie fiir den reinsten 
Aberglauben^ 

Salto Grande ist eine Villa, ein Flecken, ohne Munici- 
palitát und besteht aus zwei einander rechtwinklich schnei- 
denden Háuserreihen. Der Mehrzahl nach sind die Hâuser 
niedrig, schlecht gebaut und mit Sapé (Stroh) oder gespal- 
tenem Bambusrohr bedeckt Dachziegel findet man selten 
und Háuser aus Ziegelsteinen noch seltener. Die Wohnungen 
bestehen fast ausnahmslos aus Paú á pique, d. h. aus Rund- 
hõlzern, die 20 cm. von einander senkrecht aufgestellt, oben 
an einem Rahenholz befestigt und unten entvveder in die 
Erde gesteckt, oder auf einem Schwellrahmen aufgenagelt 
oder eingezapft sind. Sie werden dann mit Latten von ge- 
spaltenen Kokospalmen und mit Cipó (Lianen) verbunden. 
Die entstehenden viereckigen Lõcher werden mit Lehm ge- 
schlossen und zwar so, dass zwei Personen, die eine von 
innen, die andere von aussen die Lehmklumpen gegeneinander 
pressen. Xatíirlich kõnnen diese Háuser nicht, oder doch nur 
schlecht verputzt werden, so dass sie im fertigen Zustande 
ein iiberaus eigenartiges exotisches Aussehen haben. In 
manchen Fâllen erlaubt die Trâgheit der Bewohner nicht 
einmal die Verwendung von Lehm zum Ausfiillen der Gitter- 
õffnungen, man nagelt einfach auf der Innenseite eine aus 
gespaltenem Bambus geflochtene Matte auf die Wand und 
lâsst das Haus so halbfertig stehen. Fiir Wârme bei kalter 
und regnerischer Jahreszeit sorgt ein in Mitten der Behaus- 
ung errichteter Scheiterhaufen. Oft genug steckt derselbe 



— 155 — 

4en ganzen Palast in Brand. Aber was schadet das? Mit 
Hilfe des freundlichen Nachbars ensteht in kurzester Zeit 
ein Neubau. Die Kosten desselben sind mit einem fetten 
Schwein und einigen Raschen der edlen BranquinJta, des 
gnten Zuckerrohrschnapses, hoch bemessen. 

Ich mõchte bei dieser Gelegenheit einer Sitte Erw^ahn- 
ung- tun, die nicht nur am Salto Grande, sondem auch 
ganz in der Nâhe von S. Paulo, so beispielsweise auf den 
Giitem um Santo Amaro heimisch ist, der sogenannten 
Mutirão oder auch Muxirão, Will nâmlich ein armer Caipira 
ein Haus bauen oder sonst eine grõssere Arbeit vomehmen, 
der seine Familienmitglieder alleine nicht gewachsen sind, 
so werden die Nachbam zu einer Feier versammelt. Es wird 
ein Schwein geschlachtet, und wáhrend der Schnaps kreist, 
macht alies sich lustig an die Arbeit. Nachts wird dann 
flott getanzt, gesungen, um die Wette gereimt und gedichtet 
Oft dauert so ein Mutirão mehrere Tage, und wehedem ge- 
ladenen Gast, der ohne Entschuldigung ausbleibt! Er wird 
von Freunden und Nachbam einfach boykottirt und die 
Folgen kõnnen sehr unangenehm sein. Eine solche Sitte 
kõnnte man einfach die praktische Sozialdeniokratie nennen. 

Der Wasserfall des Paranapanema, der sogenannte 
Salto Grande oder Salto dos Dourados, liegt ca. 3 km. von 
der soeben beschriebenen Ortschaft entfernt Auf reizvoUem 
Wege, erreicht man ihn. 

Der-Jagd muss in dieser Gegend sehr wenig gehuldigt 
werden, denn es wimmelt von schiessbarem Getier und 
dasselbe zeigt so wenig Scheu vor dem Wanderer, dass 
selbst bekanntermassen furchtsame Geschõpfe wie Tauben, 
Rehe etc. den Fremden in náchster Nâhe passiren lassen, 
ohne Notiz von ihm zu nehmen. Selbst in den Strassen des 
Dorfes tõten die hierzu abgerichteten Hunde sehr háufig 
Rehe, die sich arg- imd furchtlos bis in die unmittelbare 
Umgebung der Háuser gewagt haben. 

Was nun den viel gepriesenen Wasserfall betrifft, so 
ist er meiner Meinung nach absolut nicht ais schõn zu be- 
zeichnen. Wer das Gegenteil behauptet kennt sicher nicht 
die wirklichen Schõnheiten, die unser Staat aufzuweisen hat, 
kennt nicht den Varadouro des Ribeiraflusses, den Salto de 
Piracicaba, den Salto do Itatinga bei Santos u. s. w. 

Der Salto Grande, Uegt etwa 6 km. vom Zusamnien- 
fluss des Rio Paranapanema mit dem Rio Pardo entfernt 
und kurz unterhalb des Rio Novo. An der Stelle des Falles 
wird der Paranapanema durch die etwa 1 ^/, km. lange 
Insel, Ilha Grande, in zwei ungleiche Arme geteilt. Der 
wasserreichste dieser Arme — er liegt auf der Seite des 
Sta^tes Paraná — bildet den eigentlichen Fali, der, senkrecht 



~ 156 — 

gemessen, eine Hõhe von etwa 8,6 m. haben mag. Das 
Wasser dieses Flussarmes sammelt sich zuerst in einer 
beckenartígen Verbreitung, um dann durch einen engen 
und hohen Kanal eingeschníirt, wieder in das eigentliche 
Flussbett zu gelangen. 

Auf der Seite des Staates S. Paulo bildet der Flussarm 
eine Unmenge von Schnellen, deren Wasser zwischen spit- 
zen, eigentumlich geformten Felsen hindurchschiesst. Man 
sagte mir, und spâter beobachtete ich es selbst, dass der 
Anblick dieses Wasserfalles bei trockener Jahreszeit ein 
genussreicher sei, weil dann auf der S. Paulo Seite be- 
deutend mehr Kanâle sichtbar wíirden und das Bild des 
Ganzen belebten. 

Das Befahren des Sólios im Kanoe ist võllig ausge- 
schlossen. Das Wasser hat eine solche enorme Gewalt, dass 
es jedes Fahrzeug, welches ihm trotzen woUte, in Atome 
zerschmettem wiirde. Es bleibt den Kanoefiihrern des Para- 
napanemaflusses daher nichts iibrig, ais ihre Fahrzeuge in 
der Nâhe des Falles aus dem Wasser zu heben und eine 
Strecke weit iiber Land zu tragen um sie dann in das 
stromschnellenfreie Wasser zu setzen. 

Das Facit meiner Empfindungen beim Anblick des Salto 
Grande war, offen gestíinden, eine Enttauschung. Wer den 
Varadouro, Stromschnelle in der Ribeira de Iguape gesehen 
hat, wer die Naturschõnheiten dieses Flusses zwischen Xiri- 
rica und Iporanga kennt, wer die Rios Pardo, Pilões und 
Turvo, die Nebenfliisse der an Naturwundem so reichen 
Ribeira sah, wer je die riesigen Stalaktiten und Stalagmiten 
der herrlichen Hõhlen jener Gegend, besonders der Gruta 
do Monjolinho, der Tapagem, der Arataca anstaunte, der 
tut besser, nicht nach dem Rio Paranapanema zu reisen, 
um dort den Salto Grande zu sehen, denn er findet in 
diesem beriihmten Wasserfalle nichts Aussergewõhnliches. 
Nicht einmal die durch den jahrtausendlangen Ansturm des 
Wassers geschaffenen Steinformationen flõssen besonderes 
Interesse ein. Da sieht es denn doch am Varadouro, dem 
200 meter langen und in der Mitte 5 meter breiten Engpass 
•der oberen Ribeira anders aus! Hier ist fast jeder Stein ein 
Naturwunder, hier zieht fast jeder Fels das Auge des Natur- 
beschauers an, hier kann man stundenlang verweilen ohne 
zu ermiiden, und reisst sich nur schweren Herzens los, 
wenn geschieden sein muss! 

Der Riickweg nach S. Pedro do Turvo gab mir Gre- 
legenheit zu der Beobachtung, dass auch die Waldungen 
des Ribeiratales einmal holzreicher und zum andern interes- 
santer seien, ais diejenigen im Tale des Paranapanemas; 
dort sieht man mâchtige Riesen, Zeugen tausendjáhriger 



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— 157 — 

Entwicklung, hier nur kleinstammige Baume, die wie Zwergei 
aussehen. 

Wohlbehalten wieder in S. Pedro do Turve eingetrofFen, 
beníitzte ich nach mehrtagigem Aufenthalte eine erwunschte 
Gelegenheit, um auf einer etwa 3 Meilen entfemten Fazenda 
meine legitímen Landsleute, die Coroados-Indianer, einmal 
von Angesicht kennen zu lemen. Allerdings waren es nur 
gezàhmte Widerspenstige, civilisirte Rotháute, die ich dort 
zu sehen bekam, was der Roínantik der Sache ja immerhin 
Abbruch tat, dafiir aber auch minder gefâhrlich war, ais 
es sonst wohl sein kõnnte. 

Auf der einem Kapitalisten von Rio de Janeiro ge- 
hõrigen Besitzung leben, in 3 2^1ten untergebracht, ca. 30 
Indianer, von denen speciell die Mânner zum Ackerbau, 
herangezogen werden. Ihre Indolenz ist so gross wie ihre 
Arbeitslust bescheiden ist. Natiirlich ist auch die Bezahiung 
danach: wenig Geld, etwasZeug und die nõtigen Esswaren. 
Oft genug packt sie die Sehnsucht nach ihrer urspriing- 
lichen Lebensweise und reissen dann kurzer Hand aus, 
treiben sich einige Tage jagend im Walde umher und kom- 
men dann kreuzvergniigt wieder zuriick um abermals ein Bis- 
chen Civilisation zu spielen. Mit Ausnahme der Kinder unter 
10 Jahren, die in der Bekleidung herumlaufen, welche der 
liebe Gott ihnen verlieh, nehmen sich alie sittsam und kulti- 
virt aus. Ihre Híitten oder Zelte sind hõchst primitiv aus 
aufrecht stehenden Hõlzern erbaut, welche Strohdacher tra- 
gen und in 2 Abteilungen getrennt sind. Die eine dient 
wâhrend des Tages ais Wohnzimmer und bei Regenwetter 
auch ais Kiiche, die andere, soweit der Platz reicht, ais 
Schlafgemach, wo sich Mânner, Frauen, Kinder, Hunde und 
Flõhe vertraglich teilen. Sie kochen ihre Speisen, geniesen 
aber auch geme Ungekochtes. Der Verwalter der Fazenda 
erzahlte mir, dass sie geme im Wald Palmenbâume fâllen, 
um dieselben verfaulen zu lassen und dann nach einigen 
Monaten nach Kâferlarven zu durchforschen, die sie roh 
und wenn mõglich mit Honig vermischt, verzehren. 

Nahe bei dieser Fazenda leben noch wilde Indianer, 
die standig zuríickgedrângt und daher begreiflich wíitend, 
nicht gerade angenehme Nachbam sind. Die Bewohner 
dieser Gegend leben daher in stândiger Gefahr und sind 
deshalb stets bis an die Zâhne bewaffnet, speziell wenn sie 
in den Wald gehen, um auf AUes vorbereitet zu sein. 

Infolge der fortwâhrenden Bedrohung hat sich bei die- 
sen Leuten ein geradezu bewundenmgswiirdiger Beobacht- 
ungssinn entwickelt Ich erinnere mich eines Falles, in dem 
mein Begleiter, einer von der Grenze der Kulturscheide, 
vom Pferde stieg, um durch Besichtigung der am Boden 



— 158 — 

Heí^enden und von einem niederen Baume abgerissçfien 
Blutenscheide einer Palme zu ermitteln, ob wilde Indianer in 
der Nâhe seien oder nicht. Nachdem er das Blattstúck 
lange betrachtet hatte, úbergab er es mir mit der Frage. 
òb ich glaube» dass AíFen oder Indianer den Bauni beraubt 
hâtten. Ich bemerkte natíirlich trotz eingehender Unter- 
suchung- nichts, was zu einem Schluss berechtigt hâtte und 
war daher hõchst erstaunt, ais mein Begleiter mir bestimmt 
erklârte, der Baumfrevel sei von einem AíFen begangen 
worden. Er zeigte mir dann an dem Blatte zwei vvinzige 
Zãhneindriicke, die ich niemals bemerkt haben wiirde, fiigte 
aber hinzu, dass er auch ohne deren Vorhandensein zu 
der gleichen Schlussfolgerung gelangt sein wiirde, da der 
Mensch, wenn er ein solches Blatt ^breisse, es ohne Dreh- 
ung herunterzõge, wáhrend der AíFe ihm vorber eine Achsen- 
wendung gebe. Ich bekam einen grossen Respekt vor 
diesem Scharfsinn seiner genauen Kenntnis der Wildniss. 

Der gleiche Mann envies sich auch sonst ais das Muster 
eines Sertanejos, So beritten wir einen Wald von 2000 Al- 
queires oder ca. 5000 // Grõsse, ohne uns úberhaupt um 
Weg und Steg zu kíimmern. Ais ich ihn besorgt fragte, 
ob wir denn auch den Weg nach Hause finden wíirden, 
wurde ich ob dieser Naivitat fast ausgelacht. Er versicherte 
mir, dass man ihn mit verbundenen Augen mitten in den 
Wald bringen kõnne, und dass er sich niemals verirren 
werde, sondem stets den Weg finden und heil zu Hause 
ankommen wiirde. 

Wie reich die jungfráulichen Waldungen dieser Regio- 
nen an jagdbarem Getier sind, davon zeugen die zahllosen 
Spuren. denen man íiberall begegnet. Ausser Tapiren, 
Wildschweinen, Rehen u. s. w., die man fortwáhrend in 
•gTosser Anzahl zu sehen bekommt, und die unbekúmmert 
utn den Fremdling die Wege vor ihm kreuzen, beherbergen 
diese Waldungen auch den Hauptfeind dieser Tiere, die 
blutgierige Onça, die grosse gelbgescheckte Riesenkatze. 
Merkwiirdig furchtíos zeigten sich iibrigens auch die im all- 
gemeinen so scheuen Affen, der Wald wimmelt fõrmlich 
von ihnen und gemeinsam mit den Papageien, Perequitos, 
Araras und Arapongas und anderen tropischen Võgeln, 
verleihen sie dem MUieu einen echt brasilianisch-tropischen 
Qiarakter. 

Aber die Stunde des Abschiedes nahte und so musste 
ich mich schweren Herzens von neuen, lieb gewonnenen 
Freunden trennen. Ein strammer Ritt von 3 Tagen brachte 
mich wieder nach Cerqueira Cezar und eine langweilige 
Eisenl^ahnfahrt von 13 Stunden beendete den interessanten 
Atisflug. 



— 159 — 

Auch meine Pláuderei sollte híer enden, dochimõchte 
ich noch, alter Grewohnheit zufolge> ein wwiig von Land 
und Leuten der besuchten Gegenden erzâhlen. 

Wer meine Artikel íiber die Ribeira de Iguape vor 
Jahten gelesen hat, kennt meine Vorliebe fíir den Charakter 
der Bevõlkerung im síidlichen S. Paulo. Das Paranapanema* 
tal gehõrt ebeníalls dem síidlichen Teile meines Heimats- 
staates an und babe ich aUch hier Eindriicke gewonnen, 
die meine alten "Erfahrungen bestátigten. Das Volk ist 
durchwegs gutmíitig und gastfreundlich bis zum Extremen. 
Nur um bei dem Gaste in guter Erinnerung zu bleiben, 
gibt es, was Haus und Kúche irgendwie bieten kõnnen, und 
ausgesprochene Wiinsche werden fast stets erfíillt. 

In Bezug auf Bildung — sofem dieses ominõse und viel 
misshandelte Wort auf eine Hinterwálder-Bevõlkerung iiber- 
haupt Anwendung finden darf— ist allerdings ein unverkenn- 
barer Unterschied zwischen den Bewohnem beider Flusstâler. 
Ich spreche» wohlgemerkt, von der Bevõlkerung nicht von 
einzelnen Individuen. 

Das Volk des Páranapanematales ist weniger scheu 
und hat mehr praktischen Erwerbsinn, und ist, mit einem 
Worte, kultureU vorgeschrittener, ais dasjenige an der Ri- 
beira. Der Grund liegt nicht etwa in minderer Intelligenz 
der Ribeira-Bewohner, sondem hángt wesentlich mit der 
Bodenbeschaffenheit der beiden Regionen zusammen. Das 
Flusstal des Paranapanema ist iiberaus fruchtbar und dabei 
eben und frei von Gebirgen. Infolgedessen ist der Transport 
und Verkehr relativ leicht, der Warenabsatz bedeutend und 
aus diesen Griinden auch dichter bevõlkert Nun ist es 
aber eine natiirliche und bekannte Tatsache, dass wo Ver- 
kehr herrscht und wo der Handel bliiht, auch die Bildung 
fortschreitet Das Volk ist gezwungen zu lemen, es muss 
Gewicht auf Lesen und Schreiben legen und wird so ganz 
von selbst mit der Zeit befáhigter und untemehmímgslu^tir 
ger. Es bekommt politische Ideen, bekomnit Fiihlung mit 
der Regierung und wird demzufolge auch mehr beachtet. 
Die Folgen sind bessere Landstrassen und gemeinniitzige 
Einrichtungen. Zuzug und zunehmende Belebung des Ver- 
kehrs, das sind die Momente, welche auch in unserem spezi- 
ellen Falle den kulturellen Hochstand der Bewohner des 
Páranapanematales erklâren. 

An der Ribeira beobachtet man von alledem fast das 
Gegenteil. Abgesehen davon, dass das Ribeiratal ebénso 
oder sogar bedeutend fruchtbarer ist, ais die Region des 
Paranápanemas, ist das Land so bergig und die Herstel- 
lúng von Landstrassen, mangels technischer Kenntnisse, dem- 
zufolge so schwierig, dass selbst zwischen nahegelegenen 



— 160 — 

Ortschaften keine besoiiders gxite Verbindun^ existirt In- 
folgedessen stockt der Verkehr, díe Reiseoden bleiben aus, 
es fehlt der geschâftliche Impuls und die Leute kommen 
nicht aus sich heraus. Neues wird nichts gelemt, Lesen 
und Schreiben wird fúr entbehrliche Kiinste betrachtet und 
60 bleibt ein Volk, das schon seines Charakters wegen ein 
bessetes Loos verdient hátte, zuriick — vergessen — wenn 
Reisende nicht immer wieder die Aufmerksamkeit der Re- 
gierung und der Oeflfentlichkeit auf dasselbe lenken. 

Unsere Regierung kõnnte helfen; sie kõnnte jene Ge- 
gend próductív, jenes Volk zu seinem treuesten politischen 
Anhânger machen. wenn sie die Herstellung und besonders 
die Erhaltung guter Landstrassen in die Hánd nehmen 
wúrde. Die Kosten diirfen wirklich nicht in Betracht kom- 
men gegenúber der Mõglichkeit, eine solche Gegend, wie 
das Ribeiratal, produktiv zu machen. 

Allerdings kann das gutmíitige Volk des Siidens auch 
sehr unangenehm und sogar geradezu rachsúchtig werden, 
wenn man es, besonders was Lândereien anbetrifft, an seinem 
Eigentum schâdigt. Eine Schilderuftg sei hier mitgeteilt: 
Es gibt in der Paranapanemaregion tausende von Quadrat- 
kilometer herrenloses Land, oder nchtiger; Lândereien, auf 
die sehr viele Eigentumcr Anspruch erheben, ohne aber ir- 
gend welche Dokumente zu besitzen. Da sie nun aber das 
beniitzte Land seit 30-40 Jahren ais Eigentum besitzen und 
auch bebaut haben, betrachtet sie das Gesetz ais rechtsmâs- 
sige Besitzer. Einer dieser Leute. ein armer Schlucker, 
nahm vor vielen Jahren Besitz von tausenden von Alqueires, 
starb darauf und hinterlies sein belegtes Eigentum Sõhnen 
•und Freunden. Auch diese starben, nachdem jeder von 
ihnen wiederum verschiedene Erben eingesetzt hatte. Das 
Gesamtterrain hat infolgedessen jetzt eine Unmenge von Be- 
sitzem, die weder Dokumente haben, noch sich gegenseitig 
kennen, sich jedoch nolens volens gut vertragen. Kommt 
nun ein Fremder und kauft sich von einem der Erben einen 
Teil, verlangt gerichtliche Teilung und die geometrische 
Aufnahme des erworbenen Landes, so sind die uebrigen 
Besitzer sofort in Rebellion und Mord und Todschlag sind 
an der Tagesordnung. Ein solcher Kampf wiitet gegen- 
wârtig in Campos Novos de Paranapanema. Ein Posseiro, so 
heisst der erste Besitzer des Landes, nannte etwa 120,000 
Alqueires Flâche, etwa 290,400 Hektar, sein Eigentum, 
welche von Campos Novos bis zum Rio Tibagy, einem lin- 
ken Nebenfluss des Paranapanemas, reichten. Der Mann 
war ein Pfiffikus und verkaufte das gleiche Land an ver- 
schiedene Leute. Seine Erben, die in den Schwindel ein- 
geweiht waren verzichteten nach seinem Tode auf die Erb- 



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— 161 — 

schaft/ 13 Monâte (íl) nachdem er gestorben, schenkte ihm 
aber seine Witwe noch einen Sohn und dieser verzichtete 
nicht, (!) sonden\ vepk&ufte, voUjáhrig geworden, das schon 
wiederholt veráusserfe Land nochmals, und zwar fíir ca. 20 
Contos an einen Herm aus S. Paulo. Da der Kaufer der 
Uebèrzeugung war, ein ehrliches Geschâft gemacht zu haben, 
líess er die Lândereien ruhig liegen. Ais er sie kiirzlich 
vermessen lassen wollte, tauchte dann ein rechtmâssiger 
friiherer Kaufer auf und der Kampf begann. 

Auch wirkliche Landdiebstahle stehen dort auf der 
Tagesordnung und gehen ebenso einfach wie raffinirt vor 
sich. Irgend jemand erfáhrt, dass verschiedene Familien, 
die einander nicht kennen, einen gemeinsamen Landbesitz 
haben. Flugs geht dieser Jemand zu irgend einem sauberen 
Patron — Grilleiro nennt man solch einen Ehrenmann — und 
verspricht ihm so und so viel Alqueires des Landes, wenn 
er ihm eine Prokuration zur gerichtlichen Teilung der be- 
wussten Lândereien ausstellt, d. h. wenn er sich dem Richter 
gegenuber ais rechtmâssiger Mitbesitzer der Lândereien 
ausgibt. Mit dieser VoUmacht in der Hand geht der Gauner 
nun zu den anderen Mitbesitzem und teilt ihnen den Auftrag 
mit vielen Redewendungen und grosser Schlauheit mit Die 
armen Besitzer haben natiirlich kein Geld um die Gerichts- 
kosten zu bezahlen, und bitten den Vermittler, naiv wie sie 
meist sind, auch ihre Sache zu vertreten. Statt der Kosten 
und seiner Kommission versprechen sie ihm Land, das er 
natiirlich bereitwillig annimnit. Genau so macht er es bei 
den anderen Mitbesitzern. Dann wird die Teilung beantragt, 
deren Kosten ja mássig sind und der schlaue Vermittler, 
der gar nichts mit der Sache zu tun hat, héimst Lândereien 
von einem Werte ein, der zu den Unkosten in gar keinem 
Verhâltniss steht. ^o werden die armen Caipiras bestohlen, 
so spekulirt man mit der Dummheit des Volkes! Unser 
Staat, der immer so wohlmeinend ist, soUte doch endlich 
ein Gesetz gegen diesen Unfug erlassen, denn so lange 
wir keinen obligatorischen Register fíir Lândereien besitzen, 
werden die Grilleiros stets ihren Unfug treiben. 

Nun einige Worte íiber die Fruchtbau-keit des Landes. 
Sie ist so gross, dass die Maisemte den 250fachen Ertrag 
liefert und zwar kann man stellenweise fiinfmal hinterein- 
ander emten, ohne den Boden kiinstlich fruchtbar zu ma- 
chen. Der Reisertrag belãuft sich auf das éOOfache der 
Aussaat und Baumwolle gedeiht prachtv^oll, ebenso wie 
auch sâmtliche Produkte zur rationellen Zucht von Haus- 
tieren auf dem schlechiesten Boden ohne besondere Miihe 
des Gutsbesitzers aufwachsen. 



— 162 — 

Wer meine kleine Schrift íiber die Ribeira gelesen 
hat, die das Ackerbau-Sekretariat herausgegeben und beide 
Gegenden mit einander vergleicht, wird die Bemerkung 
machen, dass, was Naturschõnheiten anbelangt, die Ribeira 
weit entwickelter ist ais die Region des Paranapanemas, 
was aber dagegen die Fruchtbarkeit des Bodens betrifft, 
zwischen beiden Regionen kein Unterschied vorhanden ist 
Meine kiihne Behauptung, dass der Teil des Staates São 
Paulo, welcher zwischen der Linie, die ich von Iguape zu 
den Quellen des Flusses Santo Anastácio ziçhe und dem 
Paranapanemaflussé liegt, einst trotz der grossen Sertões, 
der Speicher unserer engen Heimat sein wird, wird oft be- 
stritten, doch hoffe ich, dass mir in einigen Jahren recht ge- 
geben werden wird. Es ist durchaus nicht kíihn zu nennen, 
dass dort einst riesige Fabrikschomsteine sich erheben wer- 
den und dass der Paran^^nema, der heute nicht schiffbar 
ist, von kleinen Dampfem befahren werden wird um unsere 
Produkte nach Goyaz, Matto Grosso, Paraguay, Uruguay 
und Argentinien und auch von dort aus zu uns zu bringen. 



NOTA: Este trabalho foi escripto cm língua allemi, para tomar a zona 
mai.s conhecido no exterior do nosso paiz. 

A Red. 



Resumo das Sessões- 

Secção de Sciencías physícas, chímlcas e naturaes. 

26 de Agosto de 1909. 

Presidente: Dr. Slater. 

Secretario: Dr. Theoph. Oswaldo Pereira e Souza. 

Tomando a palavra o sócio Dr. António Barros Barreto, 
fala sobre a applicação da Óptica á Mineralogia. Depois 
de fazer uma breve resenha dos phenomenos physicos da 
polarização luminosa e das interferências, estudou a applica- 
ção dos methodos americanos na analyse dos mineraes, 
assim como o modo de uzar os microscópios especiaes e a 
luneta de Bertrand em taes investigações. Deixando a 
presidência, o Dr. Slater faz uma communicação sobre os 
processos expeditos para a determinação do peso especifico 
dos corpos, operando o geólogo em pleno campo e só tendo 



— 163 — 

como instrumento de investigação o martello de cabo longo, 
previamente graduado. 



9 de Setembro de 1909. 






Presidente: Dr. Gustavo EdwalL 
Secretario: Bierrenbach Lima Jr. 

Tomou a palavra o Dr. Barros Barreto que continua 
a falar sobre os phenomenos physicos da polarização e das 
interferências, apresentando algumas preparações micros- 
cópicas para ellucidar o assumpto. 






22 de Setembro de 1909. 



Presidente: J. Bierrenbach Lima Jr. 
Secretario: Belfort Mattos. 

Dr. Hottinger fala sobre os resultados obtidos estu- 
dando as formações crystalBnas obtidas na solução alcoólica 
do Sulfato de Amoníaco que deixam vêr pequenos crystaes 
e globulitos. 

Pede a opinião do Dr. Barreto acerca de taes forma- 
ções, bem como relativamente a regeneração de crystaes. 
Dr. Barros Barreto discorre então de modo gercd sobre a 
crystalo^í^enia. 






7 de Outubro de 1909. 



Presidente: Dr. Belfort de Mattos. 
Secretario: Theodureto de Camargo. 

O Dr. Hottinger pedindo a palavra, referiu-se a uma 
communicação sobre um phenomeno observado por S. 
Brussow*), sobre a absorção do ouro pelo carvão. Aquelle 
autor notou que quando misturava carvão com uma solu- 
ção aquosa de Au Clj o Au ficava absorvido pelo carvão, 
ficando o Cl em solução n'agua. O Dr. Hottinger falou 
baseando-se nesta observação sobre os colloides e sobre a 

importância que tem hoje o estudo delles para a biologia. 

♦ 

4 de Novembro de 1909. 

Presidente: Dr. A. Lutz. 
Secretario: Dr. A. Barros Barreto. 

Aberta a sessão passou-se a ordem do dia que constou 
d'uma proposta do Snr. Dr. Splendore para que fosse acceito 

♦) D/e Absorption des Goldes durch Kohle, etc, — Kolloid-Zeilsckrift 1909, 
I. pag. 137. 



— .164 — 

sócio correspondente o Snr. Prot Hartmann proposta esta 
que foi unanimamente acceita. 

Em seg-uida usou da palavra o Snr. Dr. Belfort de 
Mattos fazendo uma interessante communicação sobre as- 
sumptos meteorológicos. 

O. Dr. Lutz tomou patente a necessidade da observa- 
ção systematica da data do apparecimento annual de certos 
insectos como sejão os issás (formas sexuaes das saúvas), 
e das térmitas com azas. Seguiu-se depois uma palestra 
scientifica tomando parte e dando as suas observações o 
Dr. Hottinger e Bierrenbach sobre as diversas formas do raio 
em bola. O Dr. Lutz pediu a palavra e relatou um facto 
referido pelo um seu antigo professor que contestav^a a 
existência real do fog-o factuo e assevera que elle mesmo 
ainda não ouvio um observador consciencioso asseverar a 
existência do fogo factuo lembra que a presença de um 
vagalume ou de um reflexo poderia levar um observador a 
tomar estes factos pela existência de um fogo factuo. Con- 
tinuando o Dr. Lutz disse que é muito commun um obser- 
vador tomar um facto por outro muito diverso e citou o 
o exemplo da serpente do mar a qual não existe; o que 
existe é um grande cephalopode de cerca de 45 pés, cuja 
existência está provada pelo facto que se tem encontrado 
nos estômagos das baleias (cachalote ou baleia de sperma- 
cete) membros do corpo de tal cephalopode e também se 
tem encontrado exemplares nas praias. 

O Dr. Lutz falou sobre o apparecimento dos gafanhotos 
e relatou a sua observação feita na serra do Botucatú e 
principalmente no que diz respeito aos saltões e affirmou 
que não se pode determinar os seus berços originaes, entre- 
tanto pensa que os que têm apparecido em São Paulo, 
têm o seu berço no próprio território do Estado. Pensa 
que os gafanhotos sobem muito facilmente as alturas e que 
a região do alto Paraguay, provavelmente é a maior pro- 
cedência d'elles. 

2 de Dezembro de 1909. 

Presidente: Theodureto de Camargo. 
Secretario: Bnmo Rangel Pestana. 

Feda o Dr. Vital Brazil que principia a sua communica- 
ção citando os animaes que são inimigos das cobras. Entre 
outros citou o cara-cará, cueania, acaúan, o porco. A res- 
peito do porco citou o Dr. Vital Brazil experiências que fez 
em seu laboratório para verificar se o porco se alimentava 
de cobras. Tendo prendido um porco com uma cobra vene- 
nosa, elle recusou a comel-a. 



— 166 — 

Entre as cobras que se alimentam de outras cobras, 
citou a Erytrolatnprus esculapii e a Rhachídelus braziliu 
espécie nova que foi pelo Dr. Vital encontrada no arredores 
do Instituto. 

Descreveu a Rliachidelus brazilii e mostrou a sua im- 
portância paira os agricultores que devem conhecel-a. Em 
seguida pede a palavra o Dr. Hottinger que propõe para 
que a Sociedade mande fazer uma gravura colorida da es- 
pécie Rhachidelus brazilii com o fim de tomal-a conhecida. 

O Dr. Vital Brazil acha boa a idea do Dr. Hottinger 
e agradece a lembrança, 

O Dr. E. Krug pede ao Dr. Vital Brazil para escrever 
um trabalho para ser publicado na Revista da Sociedade. 

O Dr. Splendore propõe para que a Sociedade faça 
um excursão ao Instituto do Butantan. 

O Dr. Hottinger fala sobre a importância da inimizade 
como agente contra a amphimixis (Weissmann) espécies, 
inimizade essa, que vae augmentando pela hereditariedade. 



Secção de medicina. 

6 de Julho de 1909. 

Presidente: Dr. Stapler. 
Secretario: Dr. Splendore. 

O Dr. Spinelli faz uma communicação sobre a ligadura 
da caractida femural; falam também sobre o assumpto os 
Drs. Lane, Carini, Mauro e Stapler. O Dr. Stapler fala 
sobre placenta previa, assumpto que é também discutido 
pelos Drs. Oliva, Lane e Mortari. 

17 de Agosto de 1909. 

Presidente: Dr. Stapler. 
Secretario: Dr. Splendore. 

O Dr. Hottinger fala sobre a digestão das albuminas, 
salientando que a digestão não pára na formação das al- 
bumosas e peptonas, mas que vae da decomposição da 
molécula até os ácidos aminicos, seguindo a marcha da de- 
composição nos intestinos, sustentando a theoria que as 
peptonas e albumosas não são corpos até hoje definidos 
mas sim polypeptidas. 



— 166 — 

7 de Setembro de 1909. 

Presidente: Dr. Stapler. 
Secretario: Dr. Splendore. 

O Dr. Splendore faz uma conferencia sobre o Kala-azar 
e apresenta preparações microscópicas relativas a moléstia, 
sendo alguns dos casos asiáticos, os outros provenientes 
de Tunis; apresenta também algximas preparações relativas 
ao Botão do Oriente, demostrando a semelhança dos para- 
sitas destas duas moléstias. Paliando dos symptomas do 
Kala-azar das crianças, conhecido no sul da Itália e em 
Tunis sob o nome de anemia splenica infantum, cita um 
caso clinico provavelmente idêntico a esta moléstia, por elle 
observado nesta cidade de S. Paulo. Não tendo sido, porém, 
permittido nem a puncção do baço durante a vida, nem a 
autopsia. Em seguida trata de uma moléstia dos coelhos, 
por elle descoberta no anno passado, cujas alterações ana- 
tómicas correspondem perfeitamente as do Kala-azar do 
homem, apresentando em seguida desenhos e preparações 
microscópicas relativas a esta moléstia, fallando sobre a 
morphologia do parasita, que é um novo protozoário, alias 
um pouco differente, mas visinhado do Kala-azar e do Botão 
do Oriente. 

O Dr. Martelliti fala sobre a pathogenese e therapeutica 
do pes varo equino communicando um novo processo opera- 
tivo do mesmo. 






5 de Outubro de 1909. 



Presidente: Dr. Stapler. 
Secretario: Dr. Splendore. 

O Dr. Seng descreve detalhadamente um caso de tumor 
cerebellar, que foi operado por elle com excellente resultado, 
a trepanação do osso muito duro era bem difficil, pois 
vários instrumentos se quebraram; a resecção do osso foi 
total, surgindo logo o tumor que foi extirpado facilmente 
depois a ligadura do sinus. Na discussão o Dr. Stapler está 
de pleno accordo com as indicações do Dr. Seng menos 
nos casos de ferimentos provenientes de bcda, onde presume 
que é mais prudente esperar alguns dias e se o doente 
sobreviver fazer a trepanação, se houver indicação. O Dr. 
Felice pensa que muitos casos de tumor sejam syphiliticos 
e que só 10 ^/q dos tumores sejam de outra natureza, 

O Dr. Palcone relata um caso de ferimento do craneo, 
que embora grave, o doente sobreviveu depois da remoção 
dos fragmentos do craneo; e um segundo caso, que, apesar 
da trepanação, o enfermo conservou a paralysia causada 



~ 167 — 

pelo ferimento. O mesmo trata da ethiope míneraL Toma 
parte na discussão o Dr. De Pelice combatendo o uso do 
medicamento, havendo replica por parte do Dr. Palcone. 
O Dr. Mòrtari duvida do valor do ethiope mineral. 






2 de Novembro de 1909. 



Presidente: Dr. Stapler. 
Secretario: Dr. Splendore. 

O Dr. Mortarí apresenta um doente de víscera inversa^ 
illustrando o caso com dados anamnesticos. 

O Dr. Splendore fala sobre um novo caso de blasto- 
mycose com localisação das lesões primitivas na bocca, 
apresentando photographias do paciente e preparações mi- 
croscópicas relativas ao caso. Este doente está recolhido no 
Hospital Portuguez desta cidade. São convidados os sócios 
para observal-o neste Instituto. O mesmo Sócio communica 
também ter consef^ruido uma lesão de forma verrucosa vege- 
tante sobre um macaco em consequência da inoculação de 
esporos de Sporotrichum asteroide feita sobre a pálpebra 
de um dos olhos. 

Falam também sobre a blastomycose os Drs. Lutz, 
Seng e Stapler. 

O Dr. Lane fala do tratamento cirúrgico da retroflexão 
do útero, tomando a palavra sobre o mesmo assumpto os 
Drs. Seng e Stapler. 



* 



17 de Fevereiro de 1910. 



Presidente: Dr. Carini. 
Secretario: Dr. Ribeiro. 

O Dr. Splendore faz uma nova communicação sobe o 
toxoplasma cuniculi, notando os seguintes factos por elle 
observados: 1** o tox, cuniculi é pathogenico para varias, 
classes de pássaros. As experiências nos batrachios deu 
resultado positivo em varias rans, emquanto que foi negativo 
em duas espécies de saurios; 2** os corpúsculos curviformes 
do toxoplasma cuniculi observados em certas circumstancias 
apresentam formas e movimentos gregarinoides; 3** o toxo- 
plasma cuniculi tem uma phase flagellada; 4** o toxoplasma 
cuniculi tem também habitat intraglobular nas hematias; 
5** os corpúsculos curviformes do tox. cuniculi estudados com 
o methodo da hematoxilina ferrica apresentam sempre um 
kariosoma; 6** com tal methodo de coloração pode-se veri- 
ficar perfeitamente que a multiplicação do tox. cuniculi 



— 168 — 

presenta duas formas de reproducção uma por divisão lon- 
gitudinal dos corpúsculos, outra por divisão múltipla endó- 
gena do kariosoma. 

Em seguida communica ter observado a schizogonia 
das hemogregarinas das rans {Leptodactilus occllatus) e de 
ter encontrado uma nova hemogregarina no sapo untanha, 
verificando também d'esta a schizogonia como a das pre- 
cedentes, no baço e no figado do hospedeiro. Apresenta 
figuras e desenhos dos parasitas. 



C5?>' 



J 



^ 



I 



Vol. V 
1910 



MAY 2 3 1911 4 

Revista n^^i^f^toMuseuM. 



DA 



Sociedade Scientifica 

DE 

^0 PAULO 

REDACÇÃO: Dr. Edmundo Krugr 
SEDE DA SOCIEDADE: 

Avenida B. Luiz António, 12 ^ S. PAULO <^ Brazii 

SUMMARIO: 

1. Rhachidelus brazilí, pelo Dr. Vital Brazii. 

2. Tripanosomi di uccellettí e di pesei brasiliani, pel Dr. A. Splendore. 

3. O Nambyuvd, por Bruno Rangel Pestana. 

4. 1 Sobre uma espiríllose do rato, pelo Dr. A. Carini. 
5.^ A superstição paulistana, por Edmundo Krug. 

6. Sobre a «Haemogregarína murís«, pelo Dr. A. Carini. 

7. A vasostomía no tratamento da epididymite, pelo Dr. Desiderío 

Stapler. 

8. Regulamento interno da Secção de Engenharia. 

9. * » » » > Sciencias juridicas e sociaes. 
10. Resumo das Sessões. 



Rhachidelus brazili 

Espcde ophiophaga. Seu papel na destruição das cobras venenosas 

PELO 

Dr. Vital Brazil 



Entre as cobras enviadas pelo Instituto de Butantan 
ao Brítish Museum, em 1908, para serem identificadas, foi 
um exemplar que o Snr. Boulenger, notável herpetologista 
d'aquelle estabelecimento reconheceu como pertencente a 
uma espécie ainda não descrípta, julgando depois de algu- 
ma hesitação dever crear com ella um novo género — o 
Rhachidelus brazili. 

Essa espécie foi descripta pelo seu autor nos seguintes 
termos nos «Annals and Magazine of Natural History», 
serie 8, vol. II, Julho de 1908: «Eye moderately largue, its dia- 
meter — equal to its distance from the oral border and Vs 
the length of the snout, which is rounded, rather strongly 
depressed, and scarcely projecting. Rostral once and two- 



u.:^ocj^j^(^ 



— 2 — 

thirds as broad as deep, the portion visible from above 
measuring one-third its distance from the frontal, intema- 
sals nearly as long as broad, two- thirds the length of the 
praefrontals, frontal pentagonal, as long as broad, twice as 
broad as the supra ocular, as long as its distance from 
the rostral, a little shorter than the parietais; nostríl large, 
between two nasais; loreal longer than deep; one praeocu- 
lar, not reaching upper surface of head; two postoculars; 
temporais 3 + 4; eight upper labiels, fourth and fifth ente- 
ring the eye; five lower labiais, in contact with the anterior 
chin-schieids, which are larger than the posterior. Scales 
smooth, with distinct paired apical pits in 25 rows, those 
of the median row enlarged and nearly as long as broad. 
Ventrals 184; anal entire; subsandals 80, the last 28 paired, 
the rest single. Dark brown above strongly iridescent, with 
very indistinct traces of darker eross-bars; dark brown be- 
neath, with small irregular yellowish blotches. Total length 
1320 mm.; tail 310.* 

O exemplar que sérvio para esta descrípção era de 
um individuo novo; temos examinado exemplares até de 
2350 mm. de comprimento, os de 1500 mm. são communs. 
Notamos algumas differenças entre os caracteres constata- 
dos nos nossos exemplares e os consignados na descrip- 
ção do Snr. Boulenger, differenças attribuiveis de um lado 
a idade do individuo remettido para o Museu britânico, de 
outro ao não perfeito estado de conservação do mesmo, 
principalmente no que se refere a côr. Daremos, por isso, 
uma descripção succinta de um dos nossos exemplares ainda 
vivo e que pode ser considerado como typico: Exemplar 
macho, medindo 1,50 m. Placa rostral de forma triangular, 
estreita em cima, larga em baixo, ligeiramente concava n'esta 
parte, mais larga do que alta; sete supra-labiaes das quaes 
a 3.a e 4.a indo até o glóbulo occular; uma occular anterior; 
duas occulares posteriores; duas intemasaes, duas prefron- 
taes; frontal de forma pentagonal, terminando em vértice 
posterior; duas parietaes, quatro temporaes, cinco mentaes, 
das quaes uma mediana de forma triangular; escamas lisas 
em 18 series. Placas subventraes 216; anal inteira; pri- 
meira sub -caudal dividida, as duas seguintes inteiras, as 
outras divididas em numero de 106 em duas series. Côr 
cinzenta escura, quasi preta, furta côr, tendo o tom preto 
principalmente ao nivel do dorso, apresentando nas partes 
iateraes do corpo um tom pardacento-rozeo. Os exempla- 
res muito novos apresentam mesmo manchas vermelhas 
no pescoço junto a cabeça em forma de colleira, manchas 
que desapparecem completamente com a idade. Para maior 
facilidade de identificação d'esta importante espécie fazemos 



acompanhar esta descrípção de estampas copiadas do na- 
tural. Esta espécie foi encontrada pela primeira vez em 
terrenos do Instituto em lugares húmidos visinhos do ri- 
beirão Pirajussára. Todos os individuos que temos tido 
foram capturados nos terrenos do Butantan, com excepção 
de trez únicos exemplares que nos foram enviados um 
de Campo Alegre, outro de Saldanha Marinho e outro de 
Ourinho. 

Tivemos também occasião de ver um exemplar morto 
em Sul de Minas nas proximidades de Aguas de Lambary. 
E' provável que essa espécie tenha um habitat bastante 
extenso, sendo explicável a raridade relativa com que tem 
sido encontrada, pelos seus hábitos nocturnos e pela habi- 
lidade com que se occulta. 

O facto mais importante da biologia doesta espécie de 
serpente é alimentar-se ella exclusivamente de outras ser- 
pentes, atacando habitualmente os thanatophidios de grande 
tamanho mais frequentes na região Sul Americana, lia já 
alguns annos observamos que os indivíduos d'esta espécie 
quando collocados na mesma gaiola com outras cobras, 
faziam victimas, sem comtudo engulil-as em consequência 
da estreiteza do espaço. Tendo tido opportunidade de ob- 
servar posteriormente a deglutição de uma cobra não vene- 
nosa pela Rhachidelus brazili, tivemos a ideia de verificar 
si ella atacava também as cobras venenosas, servindo -se 
d'ellas como alimento. Esse facto foi verificado de modo 
positvo innumeras vezes no Instituto, tendo sido presenci- 
ado por vários homens de sclencia entre os quaes muitos 
membros do 4.o Congresso Medico Latlno-Americano e da 
Sociedade Scientifica de S. Paulo. 

A Rhachidelus brazili é exclusivamente ophiophaga, 
podendo-se provavelmente alimentar-se de qualquer espécie 
venenosa. As nossas experiências foram feitas com a La- 
chesis laneeolattcs (Jararaca), Lachests alternatus (Urutu ou 
coatiára e o Crotalos terrifi^m^ (Cascavel), por serem as es- 
pécies mais frequentes e de que dispúnhamos em maior 
numero. 

Um individio que temos em captiveiro ha perto de um 
anno, medindo 1,77 m. ataca e engole exemplares de La- 
chesis ou Crotalus até de 1,40 m. A alimentação faz-se de 
tempos a tempos e de modo irregular. Com intervallo de 
6 a 9 dias poderá tomar alimento se as victimas não forem 
de grandes dimensões e si não houver qualquer impedi- 
mento de ordem physiologica, como a muda de pelle e o 
periodo de postura. N'estas duas ultimas circumstancias 
ella recusa o alimento. Quando engole uma cobra muito 
grande poderá levar até quinze dias para de novo acceitar 



L. Soe. 19, /2i 



O alimento. Quando o repasto é offerecido em cobras pe- 
quenas poderá tomar na mesma occasião trez ou quatro. 
A digestão se faz de modo completo, encontrando-se nos 
excrementos apenas as escamas, que escapam a acção dos 
suecos gastro-intestinaes. 

A Rhachidelus brazili não é sensível as mordeduras 
das cobras venenosas, pois é sempre mordida no momento 
do ataque, sem apresentar symptoma algum de envenena- 
mento. 

Quando se lança a Rhachidelus brazili sobre uma cobra 
venenosa que se lhe offerece como repasto, achando-se 
ella indisposta para alimentar-se recusa a luta, não aggríde, 
nem defende-se quando é mordida pela serpente venenosa. 
Quando, porém, ella está bem disposta e com bom appe- 
tite, é a primeira a accommetter a outra, o que faz sempre 
de modo victorioso. Eis como procede: Morde a cobra 
venenosa em qualquer parte do corpo, fixando a bocca na 
parte mordida e enrodilhando-se-lhe rapidamente no corpo; 
n'esse momento quasi sempre é mordida pela cobra vene- 
nosa, porque ella pegando em uma parte qualquer do corpo 
da sua inimiga deixa sempre livre a cabeça d'esta. N'essa 
phase da luta (Fig. 2) as duas cobras se acham completa- 
mente enovelladas procurando a Rhachidelus que possue 
um corpo extremamente flexível e forte tolher completa- 
mente os movimentos da outra apertando as múltiplas 
voltas lançadas ao corpo da victima. A cobra venenosa 
depois de haver mordido uma, duas vezes, não procura 
mais defender-se e vae entregando-se aos poucos a dupla 
constricção feita pela bocca e pelo corpo de sua inimiga. 
Quando esta comprehende que não ha mais nada a temer, 
faz mover, com a bocca, o corpo da victima de modo a 
apanhai -a pela extremidade cephalica. N'esse momento a 
cobra venenosa, quasi sempre ainda pode mover- se e si é 
bastante vigorosa a Rhachidelus procura matai -a, já con- 
stringindo-lhe a cabeça entre os maxillares, já fazendo -lhe 
uma distenção forçada da parte anterior do corpo por meio 
de trações repetidas exercidas sobre a cabeça. 

A Rhachidelus brazili é uma cobra inteiramente inof- 
fensiva, não acommettendo senão a outras cobras. Não 
aggride absolutamente nem o homem, nem os outros ani- 
maes, mesmo na hypothese de ser maltratada. Parece res- 
peitar os indivíduos da sua espécie, tanto os de sexo dif- 
ferente, como os do mesmo sexo. 

Trata- se como se deprehende facilmente do exposto 
de uma espécie utilíssima e que deverá desempenhar im- 
por tantissimo papel na prophylaxia dos accidentes ophi- 
dicos. 



— 5 — 

As nossas figuras 2 e 3, copiadas do natural, represen- 
tam a Rhachidelus matando e engulindo uma enorme La- 
chesis lanceolatus (Jararaca), fêmea, muito grossa e prova- 
velmente cheia de ovos. 

Em vários paizes abundantes de serpentes venenosas, 
tem-se procurado proteger os mammiferos e pássaros ca- 
pazes de destruir as cobras. Mas, ao que parece, ainda 
ninguém pensou seriamente em utilizar-se das cobras ophi- 
ophagas innoffensivas como meio destruidor das peçonhen- 
tas. Parece-nos, entretanto, que se poderia tirar melhor 
partido prophylatico das serpentes ophiophagas do que dos 
outros animaes inimigos das serpentes até aqui apontados 
como agentes destruidores dos ophidios e por esse motivo 
indicados á protecção social. 

Basta considerar-se que os mammiferos e pássaros ca- 
pazes de destruírem as serpentes são carnívoros ou omní- 
voros e só accidentalmente alimentam-se de ophidios, em- 
quanto que as serpentes ophiophagas o são exclusivamente. 

A biologia das serpentes ainda não tem sido conve- 
nientemente estudada e por isso é natural que muitos factos 
importantes e de applicação pratica immediata ainda sejam 
pouco conhecidos. 

Haverá, pois, o máximo interesse em determinar de 
modo positivo e por meio de observações rigorosamente 
feitas, os hábitos dos ophidios, procurando precisar o gé- 
nero de alimento preferido por cada espécie. 

Estamos bem certos de que outras espécies de ser- 
pentes haverá que sejam ophiophagas e que possam des- 
empenhar como a Rhachidelus brazili importante papel na 
defeza do homem contra o ophidismo. 

Entre as cobras que frequentemente recebe o Instituto 
de Butantan, temos observado uma espécie muito commum 
a Erythrolamprtis aesculapii (coral não venenosa), cuja au- 
topsia nos tem revelado ser ella uma ophiophaga exclusiva. 
Não acreditamos, porém, que esta espécie possa prestar os 
mesmos serviços que a Rhachidelus, porque sendo de exí- 
guas dimensões não poderá apanhar senão cobras peque- 
nas. Nunca conseguimos fazel-a alimentar-se em captiveiro: 
E' uma cobra de hábitos diurnos, emquanto que a Rhachi- 
delus é um animal nocturno. Esta ultima circumstancia é 
mais uma indicação de ser a Rhachidelus uma caçadora das 
espécies peçonhentas, que também são nocturnas. 



Laboratório (U Baneriologia (lell'03ge(lale S. filoaccliliio - S. Failo 



Trípanosomí di uccelletti e di pesei brasílíãoi 



PEL 

Dr. A. Splendore 



Raccolgo nella presente nota alcune osservazioni in 
parte già, brevemente, comunicate alia Società Scientifica 
di S. Paulo in diverse sedute degli anni decorsi, sopra tri- 
panosomi di uccelletti e di pesei brasiliani. 

Prima di fare una pubblicazione su tali parassíti, desi- 
deravo studiarne dettagliatamente la biologia e Tevoluzione; 
ma non mi è stato possibile, per mancanza di materiale. 
Ritomerò su di essi se ne avrò Foccasione. 



Tripanosomi di uccelli 

Tríp. zonotrichiae n. sp. (^ Nel 1904, procedendo 
airesame di un passeríno (Zonotrichia pileata Bodd.) che, 
morto da qualche ora, era stato conservato nella gelatiera, 
incontrai nel sangue tirato dal cuore un tripanosoma che 
presentava, a fresco, i seguenti caratteri: corpo protopla- 
smatico allungato; estensione approssimati vãmente eguale a 
3 — 5 volte quella di un'emazia delFospite, larghezza mas- 
sima due terzi circa dei diâmetro trasversale delia stessa. 
II parassita era fornito di movimenti piuttosto lenti di on- 
dulazione e traslazione, assumendo, in conseguenza dello 
stesso, una forma flessuosa, talvolta piegata ad arco (fig. 
2—3). Potevasi osservare inoltre, che il suo corpo aveva 
superfície alquanto appiattita; estremità affilate; núcleo ro- 
tondo o rotondoide poço distante dalla regione mediana dei 
corpo di cui occupava quasi Fintera superfície trasversale. 

Poço distante da una delle estremità vedevasi un gra- 
nulo molto rifrangente circondato da un vacuolo; Paltra 
estremità mostravasi ordinariamente piú affilata, terminando, 
però solo eccezionalmente, con un breve flagello libero, 
proveniente dal bordo d'una membrana ondulante molto 
stretta, che accompagnava il corpo parassitario in tutta la 
sua lunghezza. 

(^) Comunicazione alia Società Scíent. dí S. Paulo, seduta de! 13 
Dicembre, 1906. 



— 7 - 

Ne' preparati colorati col método di Romanowsky o di 
Laveran il protoplasma di tale ematozoo si presenta colo- 
rato in azzurro chiaro, piíi intenso verso la regione nu- 
cleare, poço notevole verso le due estremità, con presenza 
di piccoli spazi chiari, che danno alia struttura un aspetto 
alveolare. In alcuni esemplari dei parassita (v. fig. 2) si 
vedono, lungo il corpo, alcune strie (mionema) piú intensa- 
mente colorate in azzurro. II núcleo mostras! formato da 
un gruppo di piccoli granuli di cromatina colorati in rosa, 
circondato da un'areola chiara ed incolore. II blefaroplasto 
vedesi in forma di piccolo granulo rotondo o rotondoide 
di cromatina, di colorito rosso, un poço piú intenso di 




Tr. zonotrichlae 

quello dei núcleo, situato a pochi micromillimetri dalFestre- 
mità piii acuta (posteriore): attorno ad esso vedesi un pic- 
colo spazio chiaro vacuolare. 

Tali forme parassitarie sono di due tipi, Tuno maggiore, 
Faltro minore; nel tipo maggiore distinguesi, sebbene non 
sempre, la membrana ondulante, molto stretta, di colorito 
lievemente azzurro, su quasi tutta la lunghezza dei parassita, 
con poche frangie, mostrandosi orlata di un filo a forma 
di cordoncino molto ténue di colore rosa pallido: questo 
filo si vede prendere origine dalla regione dei blefaroplasto 
e terminare alFestremità opposta (anteriore) dei parassita, 
donde, solo eccezionalmente, tornasi libero per una breve 
lunghezza di 2 — 3/i. 

Nel tipo minore (fig. 4) le di cui dimensioni sono lun- 
ghezza /i20, larghezza /i2, non si osserva presenza nè di 



— 8 — 

membrana ondulante nè di alcun filo cromático, notandosi 
appena un protoplasma alveolare lievemente colorato in az- 
zurro, un núcleo formato da granuli di colore rosa e un 
blefaroplasta di colore rosso piú intenso. 

Le dimensioni delle forme maggiori sono: lunghezza 
totale dei corpo =jli 50; flagello libero =a*3; larghezza mas- 
sima (a livello dei núcleo) =fi5; núcleo =/^4; blefaropla- 
sta = jLi 0,50; distanza dei blefaroplasto dalFestremità poste- 
riort =fi 5; dal centro dei núcleo =/i 16; distanza dei 
margine nucleare dalFestremità posteriore =::/il4; dalFestre- 
mità anteriore =^30. 

II materiale in esame era molto scarso di tali forme 
parassitarie (1—2 per ogni preparazione ordinária di striscia- 
mento). 

Ho incontrato, inoltre, ma molto piú raramente, un altro 
tipo morfológico, che credo rappresenti alcuna fase d'evo- 
luzione dello stesso* microrganismo, di aspetto rotondo o 
rotondoide o ameboide, di grandezza poço maggiore di un 
glóbulo di sangue, formato di protoplasma a struttura areo- 
lare, con presenza di vacuoli, ed un grosso núcleo di cro- 
matina colorata in rosa, in evidente fase di divisione longi- 
tudinale, situato a uno dei poli. Una forma, per altro, (fig. 5) 
presentava distinta divisione longitudinale anche dei proto- 
plasma, con núcleo quasi centrale e blefaroplasto presso 
una delle sue estremità 

II sangue dei passerino presentava anche numerose 
forme di proteosoma intra ed extra globulare. 

Dalla predetta época fino ad oggi ho avuta Foccasione 
di esaminare grande numero di Zonotrichia pileata, ma non 
ho mai piú rinvenuto alcun tripanosoma, pur frequentemente 
incontrando altre specie d'ematozoi, come proteosoma, alte- 
ridi e filarie. 

Tr. schistochlamydis n. sp. Ultimamente, esaminan- 
do un'altra specie di passerino (Schistochlamys capistrattis 
Wied.) venuto a morte in seguito ad infezione esperimen- 
tale di Toxoplasma ctmimili, nei preparati di sangue tirato 
dal fegato ho incontrato alcuni corpicciuoli in movimento 
la di cui forma e struttura credo appartenenti a speciali 
fasi biologiche d'un trípanosf)ma non ancora descritto. Lo 
indico col nome di Tr. schistochlamydis. II loro numero era 
rarissimo, bisognando scorrere vari preparati prima dlncon- 
trarne appena uno o due. Nei preparati coloriti col método 
di Oiemsa essi mostrano la seguente struttura: aspetto fu- 
siforme; dimensione di lunghezza, poço maggiore di quella 
d'un corpúsculo sanguigno delFospite, /^ 22—25; larghezza 
massima eguale a' due terzi, piú o meno, di quella dello 



stesso, fxA — 4, 5; estremità affilate, Tuna costantemente pun- 
tuta, Faltra, talvolta, smussata e rípiegata sopra sè stessa 
(fig. 2, 6). II loro protoplasma mostrasi colorato in azzurro 
marino, di struttura finamente alveolare. Notasi un blefaro- 
plasto in forma di grosso granulo (1 fi) rotondo intensa- 
mente colorato in rosso cupo, situato molto vicino alFes- 
tremità piu puntuta, a 2— 3/^ dalla stessa, quasi sempre 
circondato da uno spazio chiaro, incolore. Núcleo formato 
da un gruppo di granuli colorati in rosa, situato piu vicino 
alFaltra estremità, a S-lO/i dalla stessa, avendo forma irre- 
golare, grandezza 3— 4/i, sempre circondato da un'areola 
chiara. 

Non si nota presenza di membrana ondulante. In al- 
cuni rarissimi esemplari dei parassita (fig. 2) notasi, nel 




Tr. schittochlamydis 

protoplasma, una serie di granuli di cromatina, colorati in 
rosa, come quelli dei núcleo, situati con un certo ordine, 
dando Tidea di rappresentare le traccie d'un flagello. Que- 
sto, difatti, non è sempre apprezzabile: in rarissimi casi 
ne' quali si osserva (fig. 7, 9, 11, 13) presenta lo stesso 
colore de' predetti granuli, accompagnando, irregolarmente, 
la lunghezza dei corpo parassitario in forma di filamento, 
il di cui diâmetro non si presenta eguale in tutta la sua 
lunghezza, ma appare granulato. Tale flagello vedesi, tal- 
volta, partire dalla regione dei blefaroplasta, arrivando, dopo 
aver percorsa la lunghezza dei parassita, alFaltra estremità 
dello stesso, donde qualche volta rimane libero per la lun- 
ghezza di 2— 3/i. 



— 10 

Oltre a tali forme allungate, ne' preparati a secco, ho 
incontrato delle figure rotonde o rotondoidi (fig. 3, 5, 10, 
12) di superfície piú o meno eguale a quella d'un corpu- 
scolo sanguigno delFospite. Anch'esse presentano un pro- 
toplasma alveolare colorato in azzurro, però un poço piú 
cupo delle forme precedentemente descritte; ma sono molto 
povere di cromatina, osservandosi, questa, solo in alcune, 
a modo di finissime granulazioni rosse appena percettibili 
nel protoplasma. In una forma parassitaria, per altro, (fig. 5) 
oltre a' predetti granuli relativamente notevoli situati nella 
regione centrale dei parassita, ho anche osservato un gra- 
nulo maggiore (blefaroplasto) piu eccentricamente disposto, 
a cui faceva capo un ténue filo di cromatina che rimaneva 
libero dal corpo parassitario per la lunghezza di circa 2/i. 
Finalmente, ho incontrata una forma rotondoide (fig. 10) 
nella quale si può distinguere un gruppo di granuli croma- 
tici colorati in rosa nonchè un granulino maggiore poço 
lontano dallo stesso e di colorito rosso piu cupo dando 
Fidea di rappresentare il blefaroplasto: tale forma parassi- 
taria presenta anch'essa il protoplasma colorato in azzurro 
con struttura alveolare ed una disposizione particolare, che 
dà ridea d'un microrganismo ravvolto sopra sè stesso, o, 
meglio ancora, in via di sviluppo. 

Negli stessi preparati microscopici osservansi anche 
rare forme pasassitarie intraglobulari, incluse nel protopla- 
sma di alcuni corpusculí rossi, e piú ancora di leucociti 
mononucleari; ma esse sembrano appartenenti ai toxo- 
plasma cuniculi di cui Torganismo deiruccelletto è infestato. 
Debbo, puré, notare che in questo caso, ancora piú che in 
altre specie di uccelli ne' quali il parassita dei coniglio è 
trasmissibile, i caratteristici corpusculi dei toxoplasma pre- 
sentano molto frequentemente un cariosoma, talvolta in evi- 
dente fase di divisione, presso Testremità piú attenuata, la 
quale qualche volta mostrasi alquanto allungata (*). 

Inoltre, Tuccelletto presentava nel sangue anche vari 
embrioni di filaria e aveva, nella milza, de' noduli pseudo - 
tubercolari, ne' quali rinvenni numerosi elementi d'un bla- 
stomiceta, di cui mi occuperò in lavoro particolare. 



(*) Ho comunicato in altra occasione (seduta delia Soe Sc di 
S. Paulo 17 Febbraio 1910) che, i caratteristici corpusculi dei Tox. cun^ 
in certe condizioni, mostrano, a fresco, forma e movimento gregarinoide, 
con un'estremità piu fina e allungata, e che, contrariamente a quello 
che si pensava, sono anche fomiti di cariosoma, il quale, per altro, non 
è sempre apprezzabile col método di Oiemsa, verif icandosi , invece, 
meglio ne' preparati colorati coirematosilina ferrica (Rosenbusch). Avrò 
occasione di riferire dettagliatamente sulPargomento in un lavoro spe- 
ciale che sara prossimamente pubblicato. 



— 11 — 

Forse la presenza dí questi altri parassiti avrà impedito 
lo sviluppo delle forme tripanosomiche ne' tentativi di cul- 
tura che feci nel terreno di Nicolle. Le ínoculazioni fatte 
col materiale diretto deiruccelletto in vari passerini, come 
anche in un coniglio e in un colombo, diedero per risul- 
tato la morte di quasi tutti gli animali d'esperimento awe- 
nuta per toxoplasmosi in pochi giorni; ma non incontrai 
in essi alcuna forma di tripanosoma. Solo il piccione (caso 
raro) è ancora vivo e sano (dopo piu di due mesi) e fino 
ad ora non ha presentato, alFesame dei sangue, alcun ele- 
mento de' parassiti inoculati. 

Può anche darsi che le forme di ematozoo a cui mi 
sono riferito rappresentino particolari stadi d'un tripanosoma, 
suscettibili di sviluppo solamente nelForganismo di qualche 
ospite intermediário invertebrato. 



Tripanosomi di pesei 

Tr. hypostomi n. sp. (^) Incontrai questo tripano- 
soma nel sangue circolante di Hypostomus mirogutiatus Knor 
pescato nel fiume Tietê, regione di Osasco (vicinanza di 




Tr. hypostomi 

S. Paulo). Di tale pesce furono esaminati nelFoccasione 21 
esemplari, trovandosi infettati deirematozoo appena due. II 
parassita era raríssimo (1—2 per preparato a strisciamento 
sul porta-oggetto) e di piccole dimensioni; presentava, a fre- 
sco, de' movimenti molto attivi, che ne impedivano Tesame 
strutturale. 



(») Comunicazione alia Soe. Sc. di S. Paulo, seduta de! 7 Feb. 1907. 



— 12 — 

Ne' preparati colorati col método di Giemsa possono in 
esso distinguersi i seguenti caratteri (fig. 2, 3, 4). Protopla- 
sma finamente granuloso colorato in azzurro piú o meno in- 
tenso, con estremità affilate e puntute, Tuna piu corta presso 
cui notasi il blefaroplasto in forma di piccolo granulo di co- 
lore rosso intenso circondato di uno spazio chiaro vacuolare, 
Taltra piu lunga dove notasi, sebbene non sempre ben visi- 
bile, la presenza di un flagello libero. II núcleo formato 
da pochi granuli di cromatina colorati in rosa, circondato 
da un'areola chiara, vedesi di forma ellittica, occupante quasi 
rintero spazio trasversale dei corpo parassitario, situato fra 
il terzo médio e il terzo anteriore dello stesso. II flagello 
colorato in rosa pallido vedesi prendere Torigine, talvolta, 
nella regione dei blefaroplasto, ma per lo piíi, da un punto 
alquanto mediano dei corpo, accompagnando il margine di 
una stretta membrana ondulante colorata in azzurrognolo. 

Le dimensioni dei parassita sono: lunghezza 25 — 40 /í; 
larghezza 2— 2,5/^; núcleo =3X2/^; flagello libero 7—8^. 

II blefaroplasto è situato a circa 2fi dalFestremità po- 
steriore, il núcleo a 10— 12/i dalFestremità anteriore. 




Tr. riianidifle 

Tr. rhamdiae Bot. Un altro tripanosoma fu da me 
incontrato nel sangue di Rhayndia quelen pescato presso 
la stessa località dei precedente. Anche in questo caso 
gli animali infettati erano di numero molto scarso (tre sopra 
circa venti esemplari esaminati) cosi come il parassita era 
raríssimo tanto nelle preparazioni di sangue dei cuore come 
negli strisciamenti fatti dagli organi interni (fegato e milza). 



— 13 — 

Presenta un corpo lungo e fino con estremità affilate e 
puntute; dimensione di õO—lOjn di lunghezza; 4,5— 5 /x di 
larghezza massima (a livello dei núcleo). 

Ne' preparati colorati col método di Oiemsa (fig. 2, 3) 
notasi in esso il protoplasma alquanto granuloso e alveo- 
lare; il blefaroplasto in forma di piccolo granulo rotondo 
di colore rosso intenso circondato da uno spazio chiaro, 
situato a 2—3ju dairestremità posteriore, a 35 — 40^ dal nú- 
cleo, il quale, di forma rotonda o rotondoide, è costituito 
da numerosi granuli di cromatina colorati in rosa, occu- 
panti quasi Tintera superfície trasversale dei parassita e si- 
tuato fra il terzo médio e il terzo anteriore dei corpo dello 
stesso. La membrana ondulante, molto stretta e con poche 
piegature, vedesi prendere origine dalla regione dei blefaro- 
plasto, bordato da un ténue cordoncino, accompagnando il 
corpo parassitario fino alFestremità anteriore, donde il pre- 
detto cordoncino tomasi libero a guisa di flagello, per la 
lunghezza di \5— 20 jll. 

Fuori delle forme descritte ne ho incontrate altre raris- 
sime, (fig. 4) che ritengo come fasi di evoluzione dei pa- 
rassita, nelle quali notasi appena un corpo protoplasmatico 
alveolare allungato (lunghezza ^15—20 larghezza /i2— 2,5) 
di colore azzurrognolo, con solo núcleo quasi mediano for- 
mato da un gruppo di granuli di cromatina colorati in rosa. 

lo credo che tale tripanosoma debba essere identificato 
col Tr. rhamdim descritto da C Botelho, (C. S. Soe. Biologie 
t. LXIII, 6 juillet 1907) benchè questo osservatore abbia 
notato pel suo microrganismo dimensioni un poço minorí 
e non abbia osservato la presenza dei flagello libero. 

In alcuni esemplari dello stesso pesce ho anche incon- 
trato due specie di mixosporidi (gen. Mixobolus e Hanne- 
guya) con localizzazione nelle branchie, nonchè un coccidio 
intestinale. 

Di questi altrí parassiti faro opportunamente comuni- 
cazione dettagliata a parte. 

5. Paulo (Brasile) 1 Agosto 1910, 



— 14 — 

O Nambyuvú 

(Nota preliminar) 

por 

Bruno Rangel Pestana 

Ajudante do Instituto Serumtherapico do Butantan 



Esta moléstia também conhecida por febre amarella 
dos cãesy existe em alguns lugares do Estado de S. Paulo, 
sendo muito frequente nos arredores desta capital, onde 
mata não pequeno numero de cães, principalmente os novos 
e de caça. 

Segundo observações populares, duas são as formas 
que pode aprezentar: uma, a grave, que mata os cães de 
3 a 5 dias; e outra, a lenta, que pode durar de seis sema- 
nas até 3 mezes, como tivemos occasião de verificar. 

Só a forma lenta é que pudemos observar. 

Pela symptomalogia observada por nós em um cão que 
teve a moléstia naturalmente e em outros inoculados com 
sangue de cães doentes, o animal, a principio, mostra-se 
triste. Perda de appetite e emmagrecimento. Oanglios do 
pescoço infartados. A temperatura se conserva durante 
todo o tempo da moléstia ao nivel de 39o, caindo a 35,6 
no dia em que o cão fallece. As mucosas, pallidas, tor- 
nam-se violáceas pouco a pouco, depois ligeiramente icté- 
ricas, e completamente no fim da moléstia. Um cão que 
examinamos, em estado grave, apresentava-se completamente 
ictérico, com a barriga e orelhas inteiramente amarellas. 
Anemia profunda. Fraqueza muscular; o animal tem diffi- 
culdade de andar; fica deitado, com olhares ternos, pello 
iriçado, insensível a todas as excitações. A sensibilidade 
geral é abolida. Respiração apressada. Hemorrhagias abun- 
-dantes, pela bocca, nariz, olhos e pelle principalmente nos 
bordos das orelhas. O cão torna-se paraplégico, a tempe- 
ratura baixa, chegando mesmo o termómetro a não accu- 
sal-a. O animal cáe em estado comatozo e morre suave- 
mente. 

Outras vezes, porém, o appetite vem voltando, as mu- 
cosas voltam á côr normal, as forças se restabelecem, as 
hemorrhagias diminuem e o animal restabelece-se, ficando 
completamente bom. 

A symptomatologia por nós registrada approxima-se da 
mesma descripta por Nocard e Motas na Piroplasmose ca- 
nina, em uma excellente memoria publicada nos «^Annaes 
do Instituto Pasteur» em 1902. 



— 15 — 

Devemos, entretanto, notar o facto de havermos cons- 
tatado symptomas importantes e constantes, que não fo- 
ram mencionados por aquelles observadores. Queremos 
nos referir ás hemorrhagias múltiplas mais ou menos abun- 
dantes, quasi constantemente observadas durante todo o 
tempo da moléstia de forma lenta e o ingorgitamento dos 
ganglios como symptoma inicial, constante, tão constante e 
precoce que chamou a attenção do observador popular: 
o caçador conhece desde logo que o cão está atacado de 
nambyuvú pelo exame dos ganglios do pescoço. 

As observações que aqui ficam feitas de accordo com 
o que constatamos em 9 casos dos quaes cinco com he- 
morrhagias, sendo três de forma grave, os quaes succum- 
blram; dois tiveram pequenas hemorrhagias e os outros dois 
não apresentaram hemorrhagias, notando-se apenas ema- 
grecimento, falta de appetite e engorgitamento ganglionar. 
Todos se restabeleceram dentro de três mezes. 

Desses animaes um único não fora inoculado, tendo 
contraído a moléstia provavelmente de um outro que fora 
inoculado com o sangue do primeiro cão que tivemos 
opportunidade de autopsiar e que nos fora enviado para 
tal fim. 

O exame dos órgãos e do sangue deste primeiro ani- 
mal não nos revelou a existência de parasita algum. 

A impressão que tivemos foi de acharmo-nos em pre- 
sença de uma moléstia extremamente descrasica, e deter- 
minando também alteração profunda do fígado, que se 
achava com signaes evidentes de esteatoze; os ganglios 
lymphaticos também se achavam muito augmentados de 
volume; baço do tamanho quasi normal e muito rijo ao 
corte; rins de apparencia normal, urina sem albumina. 

Este caso nos forneceu material para inoculação em um 
cão (n. 1), o qual, tendo sido observado por 20 dias e não 
tendo apresentado symptomas evidentes de moléstia, foi 
abandonado, pensando nos haver falhado a infecção, que 
se apresentou, entretanto, no prazo de 38 dias pelo appa- 
recimento de hemorrhagias múltiplas e abundantes, tempe- 
ratura elevada, falta de appetite. As mucosas, pallidas, fo- 
ram se tornando completamente amarellas. Fraqueza mus- 
cular; o animal tem difficuldade de andar; fíca deitado, com 
olhares ternos, pello eriçado, insensível a todas as excita- 
ções. A sensibilidade geral abolida. Respiração apressada. 
Assim conserva-se durante 14 dias, quando a temperatura 
baixou e o animal falleceu. 

Pouco tempo depois, apresentou-se com hemorrhagias 
abundantes e com os mesmos symptomas que o cão n. 1, 
um cão do Instituto de Butantan, (n. 2) o qual não fora 



— 16 — 

inoculado. Este cão conservou-se durante 3 mezes doente, 
restabelecendo-se. 

Com sangue destes dois animaes infeccionamos outros 
cães; porém vamos dar aqui somente o protocollo do cão 
n. 4. 

Cão n. 4. Recebe no dia 14 de Janeiro de 1910 2 cc 
de sangue do cão n. 2. Nada apresentou de anormal até 
o dia 4 de Fevereiro. No dia 5 revelou temperatura alta 
(39,7o). Triste, falta de appetite. Oanglios infartados. Res- 
piração apressada. 

Dia 10, hemorrhagia pelo nariz e bordos da orelha. 
Emmagrecimento. Mucosas amarellas. Fraqueza muscular: 
o animal tem difficuldade de andar; fica deitado, com olha- 
res ternos, pello iriçado, insensivel a todas as excitações. 
A sensibilidade geral é abolida. 

Dia 15. O cão toma-se paraplégico, a temperatura 
baixa. 

Dia 17. O animal cáe em estado comatoso e morre 
ás 10 horas da manhã. Autopsiado ás 2 horas da tarde 
do mesmo dia. 

O animal apresenta sufusão ictérica em todo o tegu- 
mento externo bem apparente na pelle que cobre o ventre. 
Incisada esta, em toda a extensão e dissecada, vêem-se os 
ganglios das regiões inguinaes, axilares e cervicaes, desen- 
volvidos, havendo no tecido periganglionar, na região axilar 
esquerda, forte edema-hemorrhagico. Decúbitos dorso late- 
ral esquerdo em relação á posição guardada pelo cadáver 
até o momento da autopsia. 

Aberta a cavidade abdominal constatamos desde logo 
grande quantidade de liquido na cavidade peritonial, ligei- 
ramente turvo de côr aureo-citrino claro, tendo sido colhida 
uma pequena porção para exame. Figado ligeiramente au- 
gmentado, de côr e consistência normaes em quasi toda a 
sua extensão, escepto a superficie do lóbulo esquerdo, em 
que se notaram manchas amarelladas indicando um começo 
de degeneração. Baço augmentado de volume, muito con- 
sistente, com uma certa rijeza ao corte. Rins de apparen- 
cia e consistência normaes. Vezicula biliar completamente 
augmentada e cheia. 

Aberta a cavidade toraxica, os pulmões mostraram-se 
infiltrados e edematosos em toda a sua extensão. Nota- 
vam-se zonas congestivas acompanhadas de pontos hemor- 
rhagicos, variando de tamanho; os maiores eram compará- 
veis ao de um grão de arroz. Coração ligeiramente dila- 
tado, tendo nas cavidades ventricular e auricular direitas o 
sangue completamente coagulado. Os ganglios mesente- 
rícos muito augmentados de volume. 



— 17 - 

A urina era normal, não tendo nem albumina, nem 
sangue. 

A anatomia pathologica por nós observada é quasi 
que a mesma que foi descripta por Nocard e Motas, di- 
vergindo somente quanto aos rins, que sempre encontrá- 
mos normaes, aos ganglios, que sempre encontrámos hy- 
pertrophiados e ao figado, que apresentava um principio 
de degeneração, sendo que em dois casos encontrámos de 
côr bem amarella. 

Diversos experimentadores suppunham, por ser a sym- 
ptomatologia de Nambi/uvú semelhante á da Piroplasmose 
canina, que se tratava da mesma moléstia; porém, não se 
tinha ainda constatado pelo exame do sangue a presença 
do Piroplasma canis. 

Examinando o sangue da circulação periférica dos nos- 
sos cães, tanto do que tinha apanhado a moléstia natural- 
mente, como nos infeccionados experimentalmente, con- 
seguimos, depois de numerosos exames, encontrar um 
protozoário intra-globular semelhante ao Piroplasma canis, 
descripto pela primeira vez por Piano e Oalli Valério, na 
Itália; por Koch nos cães da Africa; por Marchoux no Se- 
negal e por outros experimentadores. 

Não podemos ainda dar certeza si se trata do mesmo 
parazita de Piano e Galli Valério, ou de uma variedade, ou 
se a differença que encontrámos na symptomatologia é de- 
vida a uma attenuação do gérmen. 

Temos outros cães infeccionados e colhemos alguns 
carrapatos em animaes infeccionados. 

Continuaremos as nossas pesquizas e esperamos den- 
tro em breve trazer os resultados colhidos. 

Antes de terminar cumpre-nos agradecer ao nosso il- 
lustre mestre dr. Vital Brazil os seus sábios conselhos e 
valioso auxilio, e ao dr. Splendore a gentileza com que se 
prestou a examinar as nossas preparações e dar a respeito 
a sua abalisada opinião. 



18 — 



Sobre uma espíríllose do rato 

(Mus decumanus) 

OBSERVADA EM SAO PAULO PELO 

Dr. A. Carini 



No decurso de algumas pesquizas sobre os hemopa- 
rasitas dos ratos, encontramos no sangue de um Mus de- 
ctnnanusy capturado no mez de Janeiro no Instituto Pasteur, 
um espirocheta. 

Este parasita não foi observado vivo em preparações 
a fresco, mas só em preparações fixadas e coradas pelo 
Leishmann e pela hematoxylina ferrica. Elle não era muito 
abundante no sangue circulante e para encontrar-se alguns 
exemplares era necessário percorrer vários campos micros- 
cópicos. 

No mesmo rato existiam simultaneamente numerosos 
Trypanosoma Lewm, 

O espirocheta encontrado é curto, grosso, 
^^^^ medindo 2-4 microns por 0,20 microns de lar- 
^^V gura; apresentando só 2-4 giros de espiraes; as 
^«^i^ duas extremidades são um tanto pontudas, pa- 
recendo ser uma um pouco mais do que a outra. 

Não foi possível tentar culturas ou fazer inoculações 
em outros animaes. 

Este espirocheta parece idêntico áquelle descripto em 
1907 por Mc. Neal 0) nos Estados Unidos (Spirocheta mu- 
rís, varietas Virginiana) e áquelle que Mezincescu (*) en- 
controu em 1909 em Soulina (Spirocheta muris, varietas 
Oalatxiarm) . 

O primeiro espirocheta do Mus decumanus foi visto 
por Cárter (^) em 1887 nas índias (Spirilbim minus) e pa- 
rece ter mais giros de espiraes do que o nosso. 

Espirochetas muito semelhantes foram notados tam- 
bém em camondongos pardos e brancos por Wenyon (^) 

(•) W. J. Mac Neal. A spirochete found in the blood of a wild 
rat. Proc. Soe, for exp. Biol. a Med. T. IV, 1907 p. 125-127. 

(') Mezincescu — Sur une spirillose du rat — (note preliminaire). 
C. R. Soe. de Biol. T. LXVI 1909 p. 58. 

(') Cárter ~ Scientif. Mem. of índia part. Ill, 1887. 

{*) M. Wenyon — Spirochaetosis of mince due to spírochaeta mu- 
ris, n. sp. in the blood. Journ. of Hyg. 1906 T. VI. 



19 



fSpirochaeta muris) e por Breinl e Kinghorn (*) (Spirochaeta 
Laveraní) e especialmente em camondongos com tumores 
por Borrei, Oaylord, Caikins, Tyzzer, Nègre e outros. 



A superstição paulistana 

Conferencia feita na Sociedade Scientifíca de São Paulo 
por 

Edmundo Krug 



Préface 



Cest avec un vif interêt que j'ai lu la conférence de 
Mr. Edmundo Krug «A superstição paulistana». 

Ce n'est qu'en 1846 que Thoms introduisit dans le 
langage scientifique le terme de Foik-Lore pour designer 
la collectivité de toutes les traditions populaires, des le- 
gendes, des fables, des chansons, des proverbes et devi- 
nettes, des croyances et superstitions, des moeurs et usa- 
ges. Les études à ce sujet se multiplièrent, et c'est un 
honneur pour notre beau pays que de figurer au premier 
rang pour Tétude du FoIk-Lore avec les noms de José de 
Alencar, Celso de Magalhães, I. António de Freitas, Hart, 
Coutinho, N. de Souza e Silva, L Netto, Couto de Maga- 
lhães, Silvio Romero, F. I. de Santa Anna Nery et tant 
d'autres. 

Le Brésil est un pays jeune et nous y trouvons en- 
core les Aborígenes avec leurs rites et croyances, les Por- 
tugais et leurs descendants, les traces des Hollandais, les 
croyances importées par les Nègres; toutes les idées de 
ces différents peuples vont former peu à peu un amal- 
game, dans lequel il será difficile de se retrouver. 

Cest pourquoi il faut rechercher tout ce qui se trouve 
dans les traditions populaires, c. a. d. entreprendre le même 
travail que fit déjà faire Charlemagne, de reunir toutes les 
traditions paíennes, collection perdue malheureusement par 
la faute de Louis le Pieux. 

Pour une étude de ce genre, cependant, une activité 
isolée ne suffit pas; j'espère donc que tous ceux qui ont 

(*) Breinl a Kinghorn — Note on a new spirochaeta found in a 
mouse. Liverpool School of trop. Med. Mem. T. XXI 1906. 



— 20 - 

entendu la conférence de Mr. Edmundo Krug, et les nom- 
breux lecteurs de sa plaquette, voudront bien apporter leur 
concours pour un travail ultèrieur, qui, nous en sommes 
persuades, ne se fera pas attendre, grâce au dévouement á 
la science Foikloriste de réminent auteur. 

Genève, le 4 Janvier 1909. 

Dr. H. N^geli-Âkerblom 

Prof. agrégé, pour rHistoire de la Médedne 
á rUniversité de Oenève. 



Distínctos consócios! 

Devo confessar que jamais fiz estudos profundos acerca 
do assumpto de que voii tratar. Tudo que aqui emittirei 
foi colhido durante as minhas excursões pelos arrabaldes 
de São Paulo, durante as minhas muitas viagens aos gran- 
diosos sertões do nosso futuroso Estado e colleccionado 
com pessoas do meu conhecimento. 

Sabem os meus amigos que sempre me interessei pelo 
nosso «Foik-Lore», não deixando passar opportunidade al- 
guma da qual não me prevaleça para estudar os nossos 
costumes, e assim, sendo a superstição uma das partes 
integrantes deste attrahente assumpto, colhi a maior parte 
dos dados, que aqui exporei, nas cabanas dos nossos cai- 
piras, nas senzalas dos nossos negros e mesmo junto a 
pessoas de elevada posição social. 

A maior parte dos dados sobre a superstição perten- 
ce ao caipira. Foi principalmente á tardinha, nas poéti- 
cas cabanas dos nossos patrícios, quando estes, reunidos 
em palestra ingénua e despretenciosa se aqueciam á suave 
temperatura de uns tições ou junto da tradicional fogueira 
de S. João, quando o estalar das bombas e o chiar dos 
buscapés não suffocavam a vóz do pilhérico caboclo. Ahi 
perto da fogueira, desta fogueira que jamais adquirirá a 
importância de outrora, se contavam os casos interessantes 
da vida diária, commentando-os, entrelaçando-os de intri- 
guinhas e phrases supersticiosas, ora provocando o riso 
descrente do mais civilisado, ora tendo observações dos 
mais crentes, e muitas vezes um abanar de cabeça dos in- 
differentes. 

Não pretendo trazer cousa nova, e bem sei que meu 
trabalho é muito incompleto, quero somente colleccionar 
dados espalhados, aproveitando a occasião para pedir aos 



— 21 

meus illustres consócios e demais ouvintes me quererem au- 
xiliar em augmentar a minha pequena collecção de super- 
stições, dando-me material para um trabalho mais extenso. 

A significação da palavra superstição sabe-o o illustrado 
auditório tão bem ou melhor do que eu. Por minha vez, 
defino o assumpto da seguinte forma: tudo que não per- 
tence á verdadeira crença religiosa do paiz, tudo que não 
está provado scientificamente, deve ser considerado super- 
stição. 

Esta difinição, naturalmente muito relativa, é dada sob 
o nosso modo de encarar a questão; difinindo-a, explican- 
do-a assim; não pretendo dizer que devemos considerar 
superstição aquillo que não é de nossa crença, nem tam- 
pouco usos e costumes de outras religiões; serão conside- 
rados superstições, quando, levados para o nosso meio, 
exija-se que entrem na série de assumptos que fazem parte 
dos nossos usos e costumes vulgares. 

O nosso caboclo ou mesmo o sertanejo, que nem sem- 
pre é caboclo, podendo ser também italiano, allemão ou 
portuguez, é extremamente susceptível a todo e qualquer 
assumpto para elle inexplicável. As cousas que elle não 
comprehende, vão geralmente por conta de Deus ou do 
Diabo. Cresce bem a roça: raras vezes attribue ao bom 
solo; a explicação que elle dá ao successo é: Deus quer 
que assim seja. Pragueja o feijão, as colheitas são ruins, 
logo o insuccesso é attribuido ás almas do outro mundo, 
ao demo etc. 

Quando o caipira começa qualquer explicação com o 
dix que, pode-se estar certo, que na maioria das vezes é 
uma superstição que ter-se-á de ouvir. Com tudo isso, 
porém, não quero dizer que seja somente o sertanejo o 
único superticioso que temos aqui no Estado: ha famílias 
distinctas, que possuem conhecimentos relativamente bons 
e que tendo uma instrucção acima do nivel normal, são 
supersticiosos; mesmo altos magistrados, que devem, pela 
natureza da sua profissão, ser isentos de tudo isso, são 
extremamente supersticiosos. O numero 13 é, como todos 
sabem, um numero máo, que já tem dado margem a muito 
absurdo. Conheço um distincto advogado aqui em São 
Paulo, que recebendo a sua nomeação de juiz no dia 13 de 
Dezembro do anno de tantos, aconselhou-o o seu superior 
em ordens não acceital-a devido ao numero 13. O interes- 
sado que era moço e querendo fazer carreira, não deu ou- 
vidos a tal conselho pouco amável. Deu-se, porém, que 
depois de casado, o primeiro filho deste advogado nasce qua- 
tro annos, justamente^ depois de sua nomeação — no dia 13 
de Dezembro. A' participação do nascimento acompanhava 



22 

a seguinte nota: O que devo, conforme sua sábia opinião, 
fazer com o meu primogénito, nascido no dia 13 do cor- 
rente mez? A resposta não veio! Teria ella talvez sido: 
Enforque-o! Este numero fatal, porém, pertence á super- 
stição européa, e não nos incommodaremos com elle. 
Seguindo no nosso assumpto, o que diz respeito ao Estado 
de S. Paulo affirmo, que temos bem poucas superstições 
originaes; a maioria das existentes são provenientes de três 
fontes bem distinctas: 1) do Européo, principalmente tra- 
zidas pelo Portuguez, 2) do Africano, trazidas pelos escra- 
vos, e 3) as de origem do gentio, do indio. 

Eu classifico as superstições correntes do nosso Es- 
tado em cinco cathegorias, a saber: 

1) — Da primeira fazem parte as de origem religiosa, 
seja ella da crença do brasileiro civilisado ou do brasileiro 
bravio. 

2) — Na segunda entram as superstições nas quaes 
representa o homem o papel mais saliente; nesta cathegoria 
está incluída toda a crença religiosa. 

3) — Pertencem á terceira, quando o animal é factor 
principal do assumpto. 

4) — Na quarta entram as supertições nas quaes a 
planta assume o papel mais proeminente. 

5) — Finalmente trata a quinta cathegoria das cousas 
inanimadas, quando estas apresentam um papel distincto. 

Tratarei em primeiro logar das superstições religiosas, 
prevenindo, porém, que não me expandirei demasiadamente 
no assumpto para não offender susceptibilidades; não quero 
que pessoas ignorantes, que porventura lessem esse traba- 
lho, tivessem motivo para julgar que pretenda zombar 
de certos usos entranhados nos nossos costumes. Em 
todo o caso tenho motivos poderosos para poder affirmar 
positivamente, que si se quizesse organisar de novo uma 
crença catholica conforme as opiniões correntes dos nossos 
caboclos, a actual, passaria por muitas modificações; elles, 
os caboclos, haviam de incluir na sua reorganisação uma 
porção de feitiçarias, de necromancia, de capnomancia etc 

Ha alguma cousa de verdadeiro na affirmação de um 
crente, meu conhecido, dos sertões sul-paulistanos, quando 
me dizia que lhe parecia se ter modificado muito a actual 
religião catholica de uns annos para cá! Sim, ella modifi- 
cou-se bastante no interior do nosso Estado, principal- 
mente nos vastos sertões, pela simples razão de especula- 
rem certos sacerdotes pouco escrupulosos com a boa fé 
dos pobres crentes, sabendo elles perfeitamente que o co- 
bre só se ganha com maior facilidade empregando -se a 
superstição junto com a verdadeira palavra de Deus. Os 



— 23 — 

pobres ignorantes, nunca tendo tido uma instrucção reli- 
giosa e considerando geralmente o padre como homem 
santo e im>maculado, incapaz de proferir uma inverdade, 
julgam que os ditos do sacerdote sem escrúpulo, fazem 
parte da religião; é assim que se architectam novas ideias 
e a crença toma uma outra direcção. 

Superstição religiosa haverá sempre emquanto houver 
homens no mundo e affirmo cathegoricamente, que duvido 
que haja um único crente, que não tenha um certo que 
de supersticioso! 

Tratemos em primeiro logar da mythologia indigena, 
que passou a ser superstição entre nós. 

Couto de Magalhães cita no «Selvagem» a lenda do 
Cahapára ou do nosso Caipora. Uma pessoa é caipora 
quando tudo lhe corre mal, quando todo e qualquer em- 
prehendimento toma um rumo diverso ao almejado. O 
vulgo diz, que ninguém deve proferir a palavra Caipora, 
pois si assim fizer, tornar-se-á verdadeiramente infeliz. 

O Cahapóra do indio, do page, é o génio protector 
da caça do matto, elle é tão máo, tão perverso, que nem 
siquer pôde ser visto, sem que traga a infelicidade para 
quem o enxergar. Elle mostra -se somente, em occasiões 
criticas, aos animaes, quando o caçador malévolo pretende 
exterminar por completo uma porção de caça, um bando 
de porcos do matto, em um dado momento. Elle é, diz a 
lenda, um grande homem, coberto completamente de pellos 
pretos, lustrosos, como se tivessem sido untados; vive 
montado no seu animal predilecto, no caitetú, num porco 
monstro; é taciturno, e de vez em quando grita para im- 
pellir a vara que segura constantemente na mão. 

O nosso caipira corrompeu esta lenda, ora transforma 
o Cahapóra em Lobishomem ora em Sassi, e quando elle 
passa por um matto escuro, tenebroso e quieto e ouve 
casualmente o grito de uma coruja ou animal qualquer, 
diz que por ahi anda o Lobishomem ou o Sassi. 

Quanto a este ultimo, bem poucas vezes lhe são attri- 
buidas as maldades do Cahapóra; geralmente elle é des- 
cripto como um homemsinho, pretinho, que não faz mal a 
quem quer que seja, não acarreta prejuízo ao viajante, tro- 
ça-o somente. Ora sobe a uma arvore na beira do cami- 
nho, sacudindo-a fortemente, ora engarupa-se no animal do 
cavalleiro fazendo cócegas no primeiro, afim deste pinoteavy 
ou também faz fogo com o isqueiro para metter medo ao 
transeunte. 

O peor mal que ouvi dizer que tivesse feito, foi ter 
desencilhado um animal que um cavalleiro tinha prendido 



__ 24 

a um moirão do pasto, tendo escondido a sella em logar 
aonde o cavalleiro nunca esteve. 

O melhor modo de se ver livre deste diabinho é não 
fazer caso delle. Geralmente o caipira receia o Sassi. Co- 
nheço um caboclo, morador nas proximidades de Santo 
Amaro, aqui no municipio de S. Paulo, caboclo este muito 
supersticioso; tem um filho de uns 16 a 18 annos de 
idade, que alem da extraordinária perspicácia que possue 
é dado a pandegas. Sabendo o filho quaes as fraquezas 
do velho, como é grande o seu medo para com o Sassi, e 
querendo se ausentar da casa paterna durante a noite, ge- 
ralmente sahe dalli a pretexto de falar com fulano ou si- 
crano. Só no dia seguinte elle volta, alegando que, tendo 
visto o Sassi, de medo retrocedeu. O velho que de es- 
perto nada tem, acredita-o! 

Seja-me licito observar aqui, que também eu já passei 
por ser Sassi, e não á noite, mas ás 2 horas da tarde de 
um lindo e esplendoroso dia de sol. Fui a S. Amaro, afim 
de dirigir-me a um sitio próximo, distante 2 a 3 legoas; 
eu vestia, como de costume, um terno de roupa preta e 
devido aos ardentes raios solares, tinha trocado o pince- 
nez usual por um de vidros pretos. 

Depois de ter vagado algumas horas, verifiquei que 
tinha perdido o caminho, o rumo me era desconhecido, 
estava completamente desnorteado. No intuito de encon- 
trar-me com algum benévolo caipira que me indicasse a 
verdadeira vereda, prosegui. Finalmente avistei ao longe 
um carro de bois, vindo, como de costume, bem devagar; 
dentro delle dormia, socegadamente sentado, um rapazola 
de seus 20 annos de idade. O caminho era tão estreito, 
que só o carro podia passar, e alem disso as enxurradas 
já tinham-n'o aprofundado sensivelmente, de forma que de 
ambos os lados haviam altos barrancos. Colloquei-me so- 
bre um delles e perguntei, ao approximar-se o carro, pelo 
caminho certo. Immediatamente o caipirinha poz-se de pé 
sobre a meza do mesmo e investiu com o chucho, com a 
vara de tocar os bois, contra a minha inoffensiva pessoa, 
chorando e gritando ao mesmo tempo: Sassi me mata, 
Sassi me mata! Meio minuto depois não vi mais o meu 
homem, o carro de bois sumira-se e eu sobre o barranco, 
possuído da mesma duvida para onde seguir! 

Uma outra lenda indígena, que já entrou, aliás muito 
esparsa na nossa superstição é a lenda o Uayára. O 
Unydra é um ente no qual se transformou o peixe co- 
nhecido pelo nome de Boto ou Delphin (Delphinus del- 
phis). Este ente é um grande amante das nossas indias e 
principalmente das caboclinhas de lindos olhos de jaboti- 



— 25 

cabas, bellos cabellos pretos e de dentes alvos como um 
collar de pérolas. Muitas índias attribuem o seu primeiro 
filho, o primogénito, a alguma velhacaría do Uayáray deste 
deus conquistador, deste Cupido inconsciente, que as sur- 
prehendeu no delicioso banho, ou que se transformou na 
figura de qualquer mortal para seduzil-a, ou mesmo que 
as arrebatou para debaixo de alguma onda fresca, em cujo 
logar a pobresinha foi trahida. 

Assim é, pois, que quando uma caboclinha tem um 
filho de pai desconhecido, os visinhos intrigados com a 
questão — sempre estes máos visinhos! — dizem com ar 
de graça: Foi o boto. 

Nas nossas superstições entram ainda, provenientes do 
indigena, o Boitatá, que é o génio protector dos campos 
e o Corrupiray o Deus amante das sylvas. Me é, porem, 
no momento, impossivel citar factos relativos a estas duas 
individualidades, não me occorrendo dados sobre o as- 
sumpto. 



Vejamos agora algo sobre a verdadeira religião catho- 
lica. Não perderei tempo com o S, Roqf/e que é o Santo 
contra o engasgo. Si alguém se engasgar com uma espi- 
nha ou com um pedaço de osso qualquer, prevalesça-se 
deste benemérito, chamando-o pelo nome, que o engasgo 
passará; também não quero citar factos sobre a Sanita Bar- 
bara e S. Jeronyyno que são os Santos contra o fogo e a 
trovoada, mas quero demorar-me mais com o sympathico 
frade lisboeta, que é o padroeiro das moças enamoradas, 
com o proverbial Santo António. Uma reza a este bene- 
mérito, basta uma résinha, para que o moço pretendido 
fique querendo bem á apaixonada. Não é, porém, absoluta- 
mente raro que este Santo, talvez caceteado por tanta moça 
bonita, faça oumdos de ynercador. A sua imagem é então 
collocada com a cabeça para baixo e dizem certos super- 
sticiosos que já a ameaça de pol-o com as pernas para o 
ar é sufficiente para ser attepdido. Quando este Santo é, 
porém, intransigente, sabendo, provavelmente, que as exi- 
gências da moça não encontram apoio junto aos pais, elle 
é amarrado, é surrado e muitas vezes quebrado e jogado 
ao fogo e mesmo ao fundo do bahú. 

^ndo a imagem de barro, o innocente Santo é moido, 
é reduzido a pó; deste pó são feitas pillulas e ingeridas! 
Conheço dois casos sobre esta superstição que deram 
resultados negativos e que são bastantes chistosos, para 
serem aqui relatados. Numa cidade do interior do nosso 
Estado — cujo nome não vem ao caso — havia uma mo- 



— 26 — 

cinha, que eu conheci, bellissima de rosto, nulla, porém, 
de espirito; coitadinha, era muito tola. Apaixonou-se por 
um rapaz, que sendo intelligente não a queria como es- 
posa por ser ella bem mediocre. Ella, porém, para chegar 
ao fim desejado começou a rezar ao Santo António. A 
reza, a continua reza, a este bom santo tornou-se-lhe tal- 
vez enfadonha, e querendo incurtar o processo, escreveu a 
respectiva oração numa tira de papel e enfiou-a na parte 
ôca do santo casamenteiro. Ahi ficou até que um certo 
dia, querendo a familia transferir a residência para outra 
localidade, fez leilão dos seus bens e junto com elles foi 
o oratório da familia. O papel com a reza foi achado pelo 
arrematador, que infelizmente não teve a discreção suffi- 
ciente para guardar segredo. O amor da moça tomou-se 
desde então publico! 

A segunda anedocta é que estando a ser surrado so- 
bre o peitoril de uma janella por uma apaixonada, o Santo 
cahiu na rua, adiante dos pés de um rapazola elegante e 
rico. Querendo este saber quem foi que commettera tal sa- 
crilégio olha para cima, depara com uma bella moça na ja- 
nella, rubra de pudor. Apaixonando-se por ella, pede-a em 
casamento e hoje são felizes, apezar de que este rapaz não 
era o desejado! 

Uma outra superstição religiosa, que tive occasião de 
observar muito, durante as minhas viagens ao sul do Es- 
tado, é a dança de S. Oonçalo: Quando uma sympathica 
caboclina pretende se casar com um rapaz de seu gosto, 
mas que a sua paixão não é correspondida, quando o ve- 
lho pai de familia teme que as suas insignificantes planta- 
ções não produzam, ou quando alguém deseja que certos 
emprehendimentos succedam bem etc, promette-se ao S. 
Gonçalo uma dança e quanto maior for o valor da pro- 
messa, tanto maior será o numero de voltas que se dan- 
çará. 

Vejamos como é executada esta dança. 

Sobre uma meza, em cima da qual é estendida limpa 
toalha e sobre esta ardem algumas vellas, é collocada a 
imagem de S. Oonçalo. A's vezes figuram duas imagens, 
uma maior, e outra menor. Perpendicularmente a esta meza, 
que faz as funcções de altar, formam-se duas fileiras de dan- 
çantes; de um lado só estão mulheres, do outro só homens, 
no extremo de cada fileira, opposta ao Santo, collocam-se 
dois violeiros, cuja missão é marcar a dança, tocar e cantar. 

Quanto maior for o numero dos dançantes, mais demo- 
rada é a volta, pois cada par precisa fazer sósinho as figu- 
ras prescriptas pelos violeiros e sendo estes bons Sdogon- 
calistas, fazem uma infinidade de figuras, que podem juntas 



27 

durar pelo menos 5 a 10 minutos. A primeira ro//a, só 
está terminada depois de terem todos os pares dançado as 
figuras previamente prescriptas. Si estão reunidos 25 pares 
a volta pôde durar de duas a quatro horas. 

As figuras consistem em uma porção de reverencias 
reciprocas dos dançantes aos não dançantes e finalmente 
reverencias ao Santo, com benzimento. 

Não é absolutamente vedado aos dançantes se refres- 
carem com bebidas ou regalarem com iguarias, o que corre 
por conta do que faz a promessa, e apesar de ser dança 
religiosa, torna-se ella uma espécie de divertimento aos con- 
vidados, que, não raro, retiram-se ás 2 ou 3 horas da tarde 
do dia seguinte, para as suas moradas, devido ao numero 
de voltas promettidas e de dançantes convidados. E' digno 
de nota, que nesta dança existe geralmente grande respeito 
e as conversas equivocas desapparecem. 

A lenda diz que São Gonçalo fora dançador e que para 
penitenciar teve pregos nas solas dos sapatos cujas pontas 
feriam -lhe os pés. A elle attribue-se muito boas qualida- 
des, attribuições estas cantadas pelos violeiros numa mo- 
notonia enfadonha: Ora, é casamenteiro, e assim cantam 
estes: 

São Gonçalo do Amarante 
Casamenteiro das velhas 
Porque não casais as moças 
Que mal vos fizeram eilas! 

Ora elle é padre: 

São Gonçalo já foi padre 

Na Egreja de Roma 

Onde elle fez casar 

Nosso querido Santo António. 

Elle é um excellente Santo, pois o seguinte verso nos 
conta disso: 

São Gonçalo é bom santo 
Livrou o seu pai da forca 
Livrai-me, santo^ livrai-me, 
De mulheres de má bocca! 

Ah! si assim fosse! quanta gente não faria uso deste 
versinho! 

Apezar de ser bom santo elle pode tornar- se raivoso, 
parece ser um tanto irascivel, pelo menos deduz-se isso do 
seguinte verso: 

Si fores a S. Gonçalo 
Trazei-me um cacho de uvas 
Si elle ficar com raiva 
Dizei que já estão maduras. 



— 28 - 

Elle também é rheumatíco, as seguintes palavras nos 
ensinam isso: 

São Gonçalo cahío 
Por morar perto do rio 
Santo da minh^alma 
Que não morra de frio! 

Elle faz concurrencia a certos médicos especialistas; é 
parteiro, mas parece que ninguém cogita em processal-o 
como curandeiro: 



São Gonçalo tem rasgado 
Sola dura de sapato 
Somente por visitar 
Mulheres que estão de parto. 



Finalmente seja-me permittido citar um dos versos que 
são cantados por violeiros gaiatos, versos estes, porém, 
condemnados pelos maiores adeptos da dança, arriscando 
mesmo aquelles a própria individualidade com uma tre- 
menda surra de páu. Eil-o: 

São Gonçalo de Amarante 
Feito de nó de pinho 
Dai-me força nas canellas 
Como porco no focinho. 

Ha muita gente, que vendo esta dança qualifica os 
dançantes de estúpidos, bárbaros etc. Não sou desta opi- 
nião, acho, que não se levando a superstição em conside- 
ração, esta dança é antiga, tem conseguintemente direito de 
tradição; as tradições, no meu modo de ver, quando a nin- 
guém prejudiquem, devem continuar a existir. 

Poderia citar ainda uns 50 destes versos, que são can- 
tados nas danças de S. Gonçalo; como, porém, vou tratar 
de outros assumptos com a mesma minuciosidade, prefiro 
interromper aqui, podendo mais tarde fazer uma conferencia 
especial sobre as danças paulistanas, poesias e cantos de 
nossos sertanejos. Somente o que não entendo, é o que 
estes versos tem com toda a cerimonia. Julgo que os mes- 
mos foram introduzidos posteriormente, devido á monotonia 
da dança e sendo, geralmente, o assumpto da promessa um 
segredo, principalmente quando se faz dançar um S. Gon- 
çalo para se realisar um casamento desejado, fazem os vio- 
leiros toda sorte de improvisos para não cançar tanto os 
dançadores. 

A este capitulo pertence também a lavagem do S. João 
feita na madrugada do dia 24 de Junho. Ha para esta festa, 
geralmente um festeiro, que convida os amigos e conheci- 



— 29 — 

dos para festejarem o proverbial Santo. Depois de um bom 
fandango (dança original), de uns gostosos valsados, se- 
guem os amigos do festeiro em procissão ao mais pró- 
ximo córrego, carregando o Santo em andor. Chegados ao 
rio ou aguada qualquer, é tirada uma bacia de agua e com 
esta se lava o rosto do Santo. Parece-me significar isso 
uma espécie de baptismo. Até aqui a festa é tradicional, 
depois vem o assumpto supersticioso: Os presentes olham 
então para a agua e aquelle que não vir a própria imagem 
refletida no limpido liquido morrerá no mesmo anno! De- 
pois desta cerimonia vai-se á ceia. O acaso fez com que 
a superstição se firme mais ainda na crença do povo; si 
por mera fatalidade vier mesmo o individuo a morrer, os 
adeptos desta superstição acreditam ainda mais na sua in- 
falibilidade. 

Sabem os meus ouvintes qual o motivo porque o cai- 
pira nunca queima páu de Cedro (Cedralla brasiliensis)? 
Talvez esta superstição seja bem pouco conhecida em o 
nosso meio civilisado. Sempre reparei que nunca se quei- 
mava esta madeira, o menor galho não entrava no fogão, 
preferindo o caipira deixal-a apodrecer. Insistentes ordens 
minhas para mandar inutilisar uns troncos de Cedro no 
meio do caminho em minha propriedade aqui perto de S. 
Paulo, eram sempre desrespeitadas, até que o ordenei posi- 
tivamente. A resposta que tive foi então a solução do 
problema sobre o qual tinha meditado tantas vezes. O ca- 
marada interrogou-me, com um ar de receio, si eu não te- 
mia queimar madeira da qual foi feita a cruz de Nosso Se- 
nhor Jesus Christo! 



Dou por concluído este primeiro ponto e entro no 
capitulo em que o próprio homem figura como agente prin- 
cipal da superstição. São bem poucos os casos que me 
occorrem no momento. 

Em primeiro logar são as curas extraordinárias no ho- 
mem que não devo deixar desappercebido neste capitulo, 
si bem que poderiam certos casos figurar sob outros ca- 
pítulos por mim emittidos: Ouçam os senhores médicos 
presentes e tomem bem nota da receita. 

O cobreio é uma moléstia muito conhecida no nosso 
meio, denominada pelo medico herpes xoster. E' um incom- 
modo cujos symptomas são pequenas bolhas de liquido na 
cintura ou mesmo em outras partes do corpo, e é uma mo- 
léstia desagradável. O seu tratamento é com agua zincada. 
O caboclo e outra gente boa ignorando, porém, esta remé- 
dio escreve sobre o logar affectado, para alivio do mal. 



— 30 — 

uma porção de vezes Ave Maria, Ave Mana ou mesmo 
Cobreio, Cobreio, Cobreio; o remédio é efficaz, si a tinta de 
escrever não infeccionar o corpo doente. 

Hemorrhagias curam-se, também, muito simplesmente e 
dizem os conhecedores da formula, que não devem ensi- 
nal-a a quem quer que seja, pois si assim succeder a força 
da formula fica perdida para o proprietário e se transmitte 
ao ensinado. Esta formula é falada muito baixo, como to- 
das as outras empregadas nas diversas superstições. Con- 
siste, pois, o estancamento da hemorrhagia em rezar perto 
da ferida algumas vezes o Padre Nosso até o pão de cada 
dia nos dae hoje, O velho caboclo que me contou este 
processo tinha já perdido a força de sympathia, por isso 
poude-me explical-a. 

Na Ribeira de Iguape, nesta adorável zona, affirmam os 
supersticiosos, que um purgante só faz effeito, collocan- 
do-se em baixo da cama do paciente o copo pelo qual 
elle tomou o remédio. 

Para o gaguejo existe também um bom tratamento: o 
gago deve beber agua benta da campainha do sachristão. 
Ouvi, porém, só uma vez ser mencionada esta superstição 
e isto mesmo quando estive perto dos limites de Minas 
Oeraes; ouvi, porém, dizer, que nos sertões de Minas, esta 
cura é muito corrente. 

O povo ignorante dá muito credito ao Quebranto, 
Este mal nada mais é do que um máu olhar, chamado 
também afito. Além de se afirmar que o afito nas crianças 
é proveniente da lua, diz-se geralmente que só mulheres 
velhas e feias, principalmente as pretas, que andam de mu- 
letas e são corcundinhas, põem o quebranto, isto é, en- 
feitiçam com um máo olhar alguma pessoa adulta e na 
maioria das vezes crianças de collo. 

Para se tirar o quebranto de uma criança utiliza-se de 
diversos meios secretos, que também só são transmittidos 
de pai a filho ou de mãi a filha ou então da planta Arruda 
(Ruta graveolens), com cujo galho se passa, com as respe- 
ctivas rezas, sobre cara e corpo do enfermo. 

Occorre-me no momento uma historia que bem serve 
para illustrar esta superstição e que me contou pessoa edu- 
cada do interior do nosso Estado quando conversáva- 
mos de superstições. Este senhor me affirmou que antiga- 
mente não dava credito algum a taes cousas, como «que- 
branto», «feitiçarias» etc, mas que hoje acreditava piamente 
no assumpto, podendo proval-o com factos dados na pró- 
pria familia. Explicando-me a significação do quebranto 
disse julgar serem fluidos ynagiieticos que sahiam dos olhos 
da pessoa que enfeitiçava e fundiam -se aos nervos do 



— 31 — 

quebrantado, sobre estes é que agia toda a moléstia, de- 
finhando o corpo com rapidez. Minha filha, continuava 
elle, estava muito doente, devia morrer de um momento 
para o outro, ella não se alimentava, não dormia, chorava 
continuamente de forma que nós, tanto minha mulher como 
eu, não sabiamos mais que fazer. Recebíamos, então, neste 
momento critico a visita de uma conhecida e esta vendo a 
criança, affirmou cathegoricamente que se tratava de «que- 
branto». Minha mulher insistia commigo que se chamasse 
uma preta ébria, a única que existia no logar, para tirar o 
feitiço. Annui, depois de muita relutância, ao pedido, aliás 
muito descrente. Procurou-se pela preta, que foi encontrada, 
completamente embriagada e de tal forma sem sentidos, que 
foi necessário trazel-a, quasi carregada, á minha residência. 
Depois de lhe ter dado café forte, pouco a pouco ella vol- 
tava a si e só então entendeu o nosso intuito. Pediu um 
galho de Arruda e fechou -se no quarto, bem contra a 
minha vontade, junto com a criança. Eu estava de espia 
e constantemente observava pela fechadura todo e qual- 
quer movimento que a preta fazia. Era um rezar sem ces- 
sar e de vez em quando passava o galho da planta sobre a 
cara e corpo da pequena, que então adormecera. Depois 
de ter rezado a fartar, durante duas horas consecutivas, 
ella, a ébria, chamou por minha mulher, dizendo que a 
criança achava-se sã e salva. Immediatamente a pequerrucha 
acceitou o peito e é hoje mãi daquelles três rapagões que 
o senhor vê brincando no terreiro. 

O meu sorriso expressivo de pessoa bem pouco crente 
deve ter desgostado immensamente ao meu bom amigo que 
interrompeu a conversa bruscamente, dizendo que podia 
acreditar si quizesse, porém, não estava obrigado a fazel-o. 

A crença no quebranto prevaleceu-se aqui do acaso. 
Talvez fosse neste momento que a criança, pelo somno 
que lhe faltava, sentisse melhoras e agora acredita o bom 
homem na efficacia do medicamento e da reza. Foi uma 
crise que passou. 

Contra o quebranto usa-se também de pequenas mão- 
sinhas, com o punho fechado, denominadas figasj feitas 
de coral ou de azeviche e também ás vezes de qualquer 
metal de mais valor, dizendo-se que tendo a criança que- 
branto esta mãosinha racha ou quebra-se, principalmente 
quando a acção do feitiço é muito forte. 

Diz-se, também, desta mãosinha que ella quebra ou 
racha tendo alguém inveja do possuidor. 

Quanto ao quebranto utiliza-se o povo baixo de uns 
saquinhos presos ao pescoço, contendo uma formula ou 
mesmo uma reza, escripta sobre papel; algumas vezes se 



— 32 — 

encontra uma pombinha representando o Espirito Santo ou 
mesmo algum Santo qualquer. Encontra-se destes saqui- 
nhos de duas diversas espécies: ou são de panno ou de 
couro. Quando de couro, este é feito pelo sapateiro e o 
dono da formula está de espreita afim de que este não 
possa ler o seu conteúdo; si tal succeder a sua efficacia 
perde-se immediatamente. 

Dentro destes saquinhos encontra-se também orações, 
rogando a protecção contra qualquer cousa ruim, p. ex., 
contra tiros, contra assassinatos, contra surras, etc. 

Sobre a reza contra uma surra e combinada contra ti- 
ros posso contar também aqui uma pequena anecdota. 
Durante as minhas viagens tive um camarada de toda con- 
fiança, que era dado a valente. Tendo elle um destes sa- 
quinhos atado ao pescoço, gabava-se de ser intangível. Eu 
propuz ao mesmo, afim de verificar si o possuidor tinha 
mesmo grande fé nesta sympathia, collocar-se perto de uma 
arvore, que eu o queria attirar com o meu revolver, para 
ficar conhecendo o esplendido effeito deste meio sym- 
pathico. 

Naturalmente elle se oppoz a isto e semanas depois 
ouvi de terceiros que elle tinha tomado uma tremenda surra 
de páu. Interrogado por mim si o caborye de nada ser- 
viu, respondeu-me com toda a sinceridade, que fora eu que 
tinha quebrado o effeito da reza com o meu convite. 

Assim acontece sempre com estes meios; si elles são 
inefficazes, alguém é incontestavelmente o culpado. 

Devemos mencionar também aqui como se obtém mo- 
léstias e como se pode morrer em pouco tempo: Ninguém 
abra os braços dentro de uma porta de forma que fique 
tocando os batentes da mesma; é um meio condemnavel 
pelos supersticiosos, pois desta forma adquire-se bem de- 
pressa moléstia que só com custo pode ser curada; a es- 
pécie da moléstia, porém, não é mencionada. 

Na visinhança de Limeira existe uma superstição que 
prohibe ás criadas ou pagens dizerem ás crianças confia- 
das a ellas: não faça isso. Dizem que as crianças mor- 
rem em bem pouco tempo. Exquisito! talvez seja por esse 
motivo que temos tantos meninos e meninas malcreadas e 
desobedientes ! 

Uma outra superstição que pertence a essa cathegoria, 
que é, porém, trazida do estrangeiro para o nosso meio, é 
o dormir de um enfermo -com os pés para a porta do 
quarto. Dizem os supersticiosos que esta pessoa será logo 
transportada, como defunto, por ahi. 

Desde que trato de defuntos, digamos de passagem, 
qual o motivo porque aqui entre nós sempre se observa 



— 33 - 

que o defunto seja enterrado no cemitério com os pés para 
o caminho! E' para que elle ache logo a vereda que o 
conduz á vida eterna. Eu presenciei já uma vez abrir-se o 
caixão mortuário, no cemitério, para ser verificada a posi- 
ção dos pés; as pessoas que o carregaram se tinham es- 
quecido, durante o trajecto, si era a cabeça ou os pés que 
elles conduziam na frente. 

Além da superstição, empregando-se o Santo António 
para se conseguir um casamento, existem no sertão diver- 
sos meios, uns mais innocentes, outros menos moraes. A 
maneira empregada pelos moços para fazerem com que 
certas e determinadas moças, as escolhidas do seu coração, 
se apaixonem por elles, diverge muito em os diversos Jo- 
gares; citarei, porém, somente alguns casos. Eil-os: Coa- 
se café pelo fundilho da própria ceroula usada no mo- 
mento e serve-se-o á querida; ou toma-se algumas gottas 
de ourina da apaixonada, que se obteve de qualquer ma- 
neira sagaz, pondo-se-as sobre um pedaço de ferro ma- 
gnético que se tem sempre comsigo para o fim desejado. 

Estas duas maneiras são receitas de primeira ordem, 
que me foram narradas por um camarada, que me condu- 
ziu aos longiquos sertões do Paranapanema e que me af- 
firmara ter conseguido com uma delias os amores de pró- 
pria mulher, quando ainda solteira. 

Para um serviço contrario, para um moço se enamorar 
de uma moça, esta côa café pela própria camiza ou então 
despeja-o por detraz, pelas próprias costas, aparando-o em 
seguida com um outro vasilhame, collocado previamente 
debaixo do assento. 

Mulheres apaixonadas, ou mesmo mocinhas que qui- 
zerem angariar os amores de um homem, deitam também 
diversas gottas do sangue menstrual no café e dão-lhe 
para beber, naturalmente sem que elle saiba; diz a supers- 
tição que acontecendo isto ao próprio marido, recebendo 
elle este café da própria mulher, esta pode travar amores 
com terceiros sem se temer uma reacção por parte delle... 

Quanto ao ronco ha uma receita estupenda: Não pode 
dormir a cara metade motivada pelo ronco do marido ou 
da mulher, vira-se o chinello com a sola para cima; esta 
manipulação é sufficiente para que o ronco desagradável 
cesse immediatamente. Sobre este virar de chinello terei 
de citar mais tarde um facto. 

Também os criminosos têm as suas superstições; eu 
conheço bem poucas delias, talvez os snrs. advogados pre- 
sentes me poderão auxiliar em amplial-as. Quando um in- 
dividuo é assassinado e cae ao chão com as costas para 



— 34 — 

cima, é virado incontinente pelo assassino profissional de 
forma que o ventre venha ficar para cima. 

Diz o perverso, que, si o assassinado permanecer assim, 
digo, com as costas para o ar, elle, o perverso, não pu- 
dera sahir do logar e si o crime foi commettido em 
uma matta e elle, o assassino, tentar fugir, sempre voltará, 
mesmo depois de algumas horas, depois de vagar por aqui 
e acolá, depois de ter tentado achar o caminho certo para 
se esquivar, ao mesmo logar, sendo então preso. 

Também dizem os supersticiosos, que quando um in- 
dividuo é morto, é assassinado e o próprio sangue corre 
até os pés, este está pedindo vingança e os perseguidores 
dos assassinos não demorarão. 

Para se afugentar ladrões é muito conhecido o sys- 
tema de se collocar nas portas de entrada uma pequena 
cruz de madeira pregada com prego$ ou 3 H escriptos com 
giz. Ladrões audazes, porém supersticiosos, collocam o 
chapéo ou então uma folha grande de qualquer planta so- 
bre estes signaes, affirmando, que o diabo não os perse- 
guirá, porque não os vê arrombarem, ou então não arrom- 
bam esta porta, mas sim penetram por uma janella na casa 
cubicada. Estas três letras, estes três H para mim nada 
mais são do que a cruz mal interpretada, na qual falta o 
pé perpendicular, ou será talvez uma superstição tal qual 
vemos na Allemanha, principalmente nos paizes ultracatho- 
licos, que em logar da cruz se escreve com giz 3 K, que 
significa «drei Kõnige», o symbolo dos três magos da Pa- 
lestina, que vieram ver Jesus Christo quando nascera. 

Lá, estes três K é também signal contra ladrões. 

São estes os dados príncipaes que pude colher e que 
me occorrem no momento sobre a superstição quando o 
homem é o agente principal do assumpto; repito, que é 
difficil uma classificação exacta da matéria, por servir mui- 
tas vezes um e o mesmo agente em diversas cathegorias. 
E' justamente devido a isso, que inclui certas superstições 
que deviam ser de espécie religiosa na segunda cathego- 
goria do meu assumpto. 



Vejamos agora quando o animal é o agente principal 
da superstição: Como se curam animaes, quando doentes, 
broqueados ou soffrem de bicheiras? Ha diversos meios 
e si se quizesse syndicar donde estes usos e costumes 
vieram, creio que perder-se-ia o tempo. Também devo af- 
firmar que muita cura, ainda hoje não provada scientifica- 
mente nas quaes o sol e a lua tomam papel saliente deve 



- 35 — 

ser considerada supersticiosa. Cito um exemplo para real- 
çar esta minha affirmação. Quando os porcos soffrem de 
sarmiy cura-se-os geralmente com Pós de Jonnna, que nada 
mais é do que um preparado de sublimato corrosivo. Diz 
o caboclo, que nunca se deve curar com o frio ou mesmo 
com chuva, a cura para ser efficaz deve ser feita com o 
sol quente. 

Para se curar um animal doente, tristonho, que não 
quer tomar alimento algum faz o caboclo supersticioso um 
corte em forma de cruz no extremo da cauda do mesmo 
animal, e effectivamente... o animal continua a emagrecer. 

Para se curar brocas nos cascos dos cavallos ou mua- 
res, estes furos, geralmente produzidos por estrepes, dos 
quaes sahe um liquido seroso, conheço só um meio e si 
a memoria não me falha este meio é também empregado 
no Hindostão; pelo menos já li ou ouvi falar qualquer 
cousa sobre o assumpto, referindo-se a este paiz dos eni- 
gmas scientificos. Consiste no seguinte: Colloca-se o pé 
do animal sobre o chão firme, previamente limpo de qual- 
quer vegetação e tirando o caboclo o seu indispensável 
facào da bainha, traça com a ponta do mesmo um circulo 
ao redor do pé doente; depois de ter retirado o animal do 
logar, toma uma pá ou cavadeira e revira a terra dentro 
deste circulo, de forma que a parte superior do chão ve- 
nha ficar por baixo, dizem os sábios da roça que em pouco 
tempo o animal sarará. 

As bicheiras produzidas pela mosca Lucilia omnivo- 
rax são muito frequentes aqui entre nós, principalmente 
em pastos sujos aonde as moscas, denominadas varegei- 
ras, tem tanta occasião de encontrar animaes mortos e em 
adiantado estado de podridão. 

Estas moscas põem nas feridas dos animaes, seus 
ovos, causando a evolução destes ahí uma espécie de pu- 
trefacção dos tecidos. As larvas provenientes destes ovos 
deitados, que são em immensa quantidade, é que são as 
bicheiras e só desapparecem depois de um enérgico trata- 
mento com creolina, mercúrio ou mesmo com alcatrão puro. 
Pois bem, o caboclo poucas vezes usa destes meios ou 
por não acreditar nelles ou quando mora longe do com- 
mercio, não podendo adquiril-os por falta de tempo. Elle 
sabe perfeitamente que a moléstia pôde ser fatal e por des- 
encargo de consciência usa então das taes sympathias que 
são bastante interessantes para serem mencionadas aqui. 

Um destes meios sympathicos, usado em quasi todo 
o nosso Estado consiste em se tomar uma palha de mi- 
lho, tirar delia uma pequena fita é fazer nesta um laço 
rouxo, sem apertai -o. Por este laço olha- se para a bi- 



— 36 — 

cheira e repete- se tres vezes a seguinte reza: Augmenta 
bicho como atigmenta o dinheiro nos dias santos dispensa- 
dos. Depois de se ter dito pela terceira vez a formula, 
o laço de palha é apertado com força e atirado por cima 
da cabeça para traz de si. Quem me contou esta formula 
foi um padre italiano com quem eu me dava no interior, 
e me parecia que este senhor ou acreditava nesta supers- 
tição ou também fazia uso delia para ganhar mais respeito 
de seus parochianos. Elle me affirmou que já tinha visto 
se curarem animaes desta forma e acreditava piamente na 
efficacia do remédio. 

O segundo systema de se curar bicheiras é o se- 
guinte: em primeiro logar se observa de que lado do ani- 
mal está ella collocada: si no quarto dianteiro ou trazeiro. 
Feito isto se coUoca sobre o rasto do lado doente duas 
folhas de qualquer arvore, tiradas no momento, em forma 
de cruz, fixando-se-as com uma pedrinha para que ellas 
não saiam dalli com o vento. A cura é maravilhosa 

Pedindo a um caboclo me mostrasse como se fazia 
isto e ao mesmo tempo curasse um cavallo meu que es- 
tava no pasto, elle se negou peremptoriamente a fazel-o di- 
zendo que seria isto tentar a Deus, visto eu não acreditar 
nesta sympathia o animal poderia morrer; seria, pois, con- 
veniente cural-o com arsénico ou mercúrio. 

Quanto a bernes trata-se ou antes liquidam-se elles de- 
pendurando-se no pescoço do animal praguejado um sa- 
quinho de panno contendo 9 bagos de chumbo. Dizem 
os caboclos das immediações de S. Paulo que este meio é 
efficaz. Perguntando ao meu informante si o animal não 
sararia, si se tomassem 10 ou 11 bagos, disse-me que 
nunca fez tal experiência, mas acreditava num resultado 
negativo, porque a crença do povo exigia 9 bagos e como 
os velhos já assim faziam, 10 a 11 bagos seriam demais 
para a cura. 

Deve ser considerado superstição o tratamento de ani- 
maes aguados, por intermédio de uma sangria, que se exe- 
cuta no pescoço. Esta superstição é muito espalhada no 
nosso Estado e mesmo pessoas que se devia presumir pos- 
suírem maiores conhecimentos na zootechnia usam-na. O 
estar aguado do animal nada mais é do que um cresci- 
mento irregular dos cascos, geralmente devido a um ex- 
cesso de marcha etc. e isto, certamente, não se pode curar 
sangrando um animal. Diz-se que, depois de uma sangria, 
quando esta é feita de um só lado, o animal fica sempre 
manco; para se evitar este inconveniente sangra-se o ani- 
mal de dois lados. Não posso dizer, si isto é também 
superstição ou facto verificado praticamente. 



— 37 — 

São também interessantes as superstições que dizem 
respeito á cura de mordedura de cobras. 

Corre como scientificamente experimentado ser de gran- 
de efficacia o figado de cobra como contraveneno para mor- 
deduras deste reptil. Eu não posso acreditar absolutamente 
em tal affirmação, pois, eu mesmo fiz a experiência em um 
cão no sertão, colhendo resultado completamente nega- 
tivo. Quando me provarem o contrario, modificarei de 
bom grado o meu modo de pensar, e neste sentido o 
Dr. Vital Brazil, maior conhecedor das cobras paulistanas 
e descobridor do serum antiophidico, concorda perfeita- 
mente commigo. 

Dizem os caipiras (esta superstição é porém pouco 
commum), que quando uma cobra morde, deve-se-lhe cor- 
tar a cauda no comprimento de um palmo, e collocar este 
toco sobre a mordedura; o toco chupará por completo o 
veneno existente na ferida e o paciente não deverá em ab- 
soluto temer os effeitos do toxico. O interessante em to- 
das as supertições é que se exige do paciente uma crença 
inquebrantável no êxito da cura; si o paciente vier a falle- 
cer, foi simplesmente devido a não ter acreditado no medi- 
camento. 

Outro remédio, no qual muitos acreditam, para se curar 
o effeito da mordedura de cobra consiste no seguinte: O 
ferido deve repetir em seguida e por três vezes: não 
fui eu o mordido pela jararaca ou cascavel (conforme o 
caso), foi fulano ou sicrano (citando geralmente o nome de 
um inimigo qualquer). Diz o supersticioso que o mordido 
salva-se e que o inimigo poderá ficar inutilizado si a dose 
do veneno foi demasiada. Incontestavelmente um excellente 
meio para se livrar de certos indivíduos que nos causam 
innumeros incommodos na vida! 

Os benzimentos são frequentes n'estas occasiões e 
os charlatães perspicazes e especuladores se utilizam fre- 
quentemente dos meios que vou citar para ganhar bom 
cobre, 

O benzimento pode ser feito por duas formas: ou o 
paciente está presente, ou o benxedor faz as suas curas de 
longe. No primeiro caso o benzimento é feito em cima da 
ferida e consiste em rezas, que também só herda um dos 
filhos, não se podendo saber o teor das mesmas, por ser 
segredo; no segundo caso, quando o doente não está 
presente, o charlatão envia-Hie um copo de agua ou mesmo 
um martello de pinga, previamente bento, que deve ser 
tomado immediatamente, de uma só vez ou então conforme 
prescripção. Acontece também que o benxedor^ o char- 
latão neste caso, bebe-o, sem dar remédio algum ao pa- 



38 

ciente. Geralmente o mensageiro é despedido com as se- 
seguintes palavras: volte, que fulano está são e salvo, ama- 
nhã pôde levaniar-se e ir ao trabalho. 

Contou-me um caboclo, morador num sitio próximo a 
Santo Amaro, aqui perto de S. Paulo, que quando moci- 
nho fora mordido por uma cobra, que foi immediatamente 
morta; era uma tremenda Jararaca. O curandeiro a quem 
se dirigira cobrou-lhe 20$000 pela cura; annos depois pi- 
sou-se um dos seus filhos numa espinha de cobra, e enve- 
nando-se, teve de recorrer ao mesmo benzedor, que se 
fez pagar desta vez 50$000. Reclamando ter pago pela pri- 
meira vez só 20$000 e agora mais do que o dobro, retor- 
quiu o celebre charlatão, que na primeira vez o nome da 
cobra lhe era conhecido, e que o benzimento era mais facii, 
sendo, porém, desta vez impossível classificar a cobra pela 
espinha, pelo osso apresentado, o benzimento era diffici- 
limo, consequentemente muito mais caro. 

Não sei si de facto as espinhas das cobras são vene- 
nosas ou si temos de lidar com nova superstição; em todo 
caso, já vi muitas e muitas vezes o caipira atirar para longe 
de si ou para dentro de uma valia a cobra morta, dizendo, 
perguntado pelo motivo, que as espinhas são mais vene- 
nosas do que o próprio dente. 

Uma outra cura, que não devo deixar de mencionar é 
a seguinte: depois de ter sido benzido o mordido ou de- 
pois de ter ingerido uma quantidade de aguardente com 
sueco de Herva de Lagarto, Quasetunga etc, e ter sa- 
rado, 41 dias depois da mordedura ha uma desinfecção ge- 
ral do corpo e da roupa que o mordido trazia na occasião, 
com fumaça de folhas e paus seccos sobre os quaes pousa 
a cobra que mordeu ou já podre ou já secca. Diz o cai- 
pira que esta é a cura final. Nunca pude descobrir o mo- 
tivo desta desinfecção; porque 41 dias depois da morde- 
dura? O individuo que me contou o caso era adepto 
deste modo de curar, mas não m'o podia explicar. 

E' crença que sendo alguém mordido por cobra não 
deve contar a pessoa alguma este facto, senão morrerá in- 
fallivelmente, mesmo aquelles que presenciaram-no devem-se 
calar, para que o paciente não succumba. E' uma das su- 
perstições mais estultas que conheço, pois, quantas vezes 
se salvariam muitas pessoas mordidas, si tivessem o bom 
senso de pedir immediatamente um contra-veneno. 

A cobra, commummente, offerece vasto campo para o 
assumpto de que trato no momento, e, si bem que o ve- 
neno, como me parece, pode causar ainda effeitos no corpo 
de um individuo depois de 30 annos de mordido, é absurdo 
se querer acreditar, como muitos caboclos presumem, que 



39 — 

o veneno da cobra principalmente o do Jararacussú, pro- 
duza a morphéa! Também não creio, como um velhote me 
affirmára positivamente, que succedeu com a própria pes- 
soa, que os cabellos e barbas caiam, e cresçam depois 
completamente brancos. 

Desde que trato de cobras seja-me permittido intercalar 
aqui uma superstição corrente entre os caboclos e caipiras, 
que habitam as margens dos rios que affiuem ao Rio Pi- 
nheiros, aqui perto da Capital: elles affirmam que a cobra 
Coral é a mais venenosa das nossas cobras; e que seis 
mezes do anno ella se utilisa da cauda e os outros seis 
mezes da bocca para morder! Como taes superstições ab- 
surdas nascem me é completamente inexplicável; só pode 
ser proveniente de um cérebro pouco forte e pouco tra- 
quejado em raciocínio. 

E' muito conhecida a lenda da cobra que procura o 
peito das mulheres ou mesmo a teta da vacca e de outros 
animaes que amamentam, para sugar-lhes o leite. 

Uma pessoa do meu conhecimento, muito cheia de su- 
perstições, contou-me o seguinte caso, que aqui reproduzo 
para melhor illustrar esta lenda: Havia uma cabocla, que 
tinha um filhinho de mezes, cuja criança definhava de dia 
para dia, tendo ao mesmo tempo apparecido sobre o peito 
da mãi duas insignificantes feridinhas; não sabendo do que 
se tratava e presumindo estar a casa efifeítiçada resolveu 
mudar temporariamente de residência para outro logar. Ahi 
a criança melhorou sensivelmente, sarou por completo e as 
feridas sobre o peito da mãi desappareceram inteiramente. 
Voltando para a antiga casa, observou-se de novo os mes- 
mos symptomas e pela segunda vez foi resolvida a mu- 
dança para outro logar. Depois de ter a criança reconva- 
lescido pela segunda vez e estando a familia de volta para 
a residência effectiva, uma enorme cascavel a cércay querendo 
atacal-a. Uma boa pancada foi a recompensa da audaciosa 
aggressão, e, morta, deixaram o reptil na estrada. Desde 
aquelle tempo a criança gozou de saúde e não reapparece- 
ram mais as feridas no peito da mulher. Examinando-se 
a casa attentamente, verificou-se um logar liso, redondo, da 
grossura da cobra morta, numa das paredes exteriores da 
mesma Logo veio á ideia a esta gente boçal que o que 
fazia definhar a criança era a cobra que vinha roubar do 
peito da mãi o seu leite, e que as duas feridas eram pro- 
venientes dos dentes do reptil em questão. 

Diz o vulgo, que a cobra no sugar o peito de uma 
mulher dá a ponta da cauda á criança para chupal-a e não 
chorar, e que este chupar da cauda é muito prejudicial, an- 
niquilando a criança em bem pouco tempo. 



— 40 — 

E' simplesmente incrível como esta superstição perdura 
no leigo, e é mesmo de se admirar como muito gente in- 
struída acredita em semelhante cousa. E* simplesmente im- 
possível se explicar aos adeptos desta superstição que a 
cobra não tendo bochechas não pode absolutamente sugar 
e si mesmo pudesse, o veneno mataria em bem pouco 
tempo o individuo de sua escolha, pois abrindo a cobra a 
bocca, as prezas venenosas saltam para fora e haveriam de 
ferir forçosamente o peito da mulher que amamenta; além 
de tudo isso a parte córnea da sua bocca não se pode ada- 
ptar ao peito. 

Esta mesma lenda existe para as vaccas, dizendo os 
supersticiosos, que as cobras procuram as vaccas no campo, 
sugando-as completamente sem deixar pingo de leite para 
os bezerros. Em geral ninguém viu tal facto e refere-se a 
fulano e a sicrano que o presenciaram, que são pessoas 
de ioda confiança. Vai se a fulano ou a sicrano para se 
obter informações; estes, por sua vez, dizem que ouviram 
o facto de outros e assim por diante. Só uma vez depa- 
rei com um destes indivíduos que me contou o facto da 
seguinte forma, presenciado quasi por elle. Dizia-me o meu 
informante, que no sitio do pai havia no pasto um grande 
monte de cupim (Termes devastans) e que ahi, num buraco 
de tatu (Dasypus) retinha-se uma grande cobra, que ninguém, 
porém, tinha conseguido matar. Dava-se o caso, que uma 
vacca, que pastava no campo e que tinha cria, não queria 
sahir das proximidades do tal monte de cupim. O bezerro 
anniquilava-se de dia para dia e temia-se a sua sorte, não 
se sabendo a que attribuir este definhamento. Pessoa da fa- 
mília querendo mungir a vacca depara casualmente com a 
cobra no referido logar e mata-a. A vacca não tinha, como 
de costume, leite e immediatamente occorre a esta pessoa 
que talvez a cobra a tivesse sugado. O reptil é aberto 
e do estômago escoa uma porção de leite ainda fresco. 
Desde aquelle tempo o bezerro tomou novas forças e res- 
tabeleceu-se por completo. 

A pessoa que me contou esta historia affirma ter visto 
a cobra aberta e o leite perto delia. Perguntando eu, de- 
pois de ter escutado pacientemente esta interessante narra- 
tiva, si a cobra neste caso também dava a cauda ao be- 
zerro para sugal-a, respondeu-me o meu informante irritado, 
que eu sempre tinha alguma pilhéria a fazer quando se tra- 
tava de assumpto sério. 

Acredito que as cobras gostem do leite e sejam mesmo 
attrahidas pelo cheiro deste, e que devido a isso se tenha 
achado já por muitas vezes destes reptis nos quartos de 



— 41 — 

dormir de mais que amamentam e que se deva attribuir a 
esse facto a lenda suprareferida. 

Diz também o vulgo que uma cobra morta por alguém 
e jogada ao lado, attrahe o seu parceiro, podendo-se então 
matal-o com facilidade. 

Conta-se sobre este facto a seguinte historia para com- 
provar a sua veracidade, que com tudo isso carece de con- 
firmação: Um individuo matou uma jararaca e jogou-a di- 
ante da porta da própria casa afim de assustar a mulher. 
Esta sahindo para o terreiro grita incontinenti: fui mordida 
por uma cobra! O marido naturalmente soltou uma grande 
gargalhada, mas pela insistência da mulher seguiu para o 
terreiro e verificou a veracidade da affirmação. Será este 
facto superstição ou assumpto que merece ser estudado? 
Eu não acredito nesta lenda, pois quantas vezes são mor- 
tas cobras e sendo largadas em logar transitado não é des- 
coberto o parceiro! ou será devido a esse motivo que o 
caipira, quando mata uma cobra estica-a no meio do cami- 
nho para o cavalleiro apear-se e remataUa? 

Caçadores apaixonados dependuram nos seus cães de 
estima um solimào, quer dizer um saquinho de panno ou 
tubosinho de vidro contendo sublimado corrosivo, affir- 
mando que esta matéria afugenta incontestavelmente as co- 
bras e livra assim os cães das suas mordeduras. Digam 
lá os senhores entendidos si isto é verdade! 

Mencionarei ainda uma superstição sobre a cobra. Di- 
zem as más linguas que o seguinte methodo é efficaz... 
para se saber si uma caipira tem saia ou não. Quando 
uma caipira ou uma cabocla é timida e topa no caminho 
com uma cobra venenosa e não tem coragem de matal-a, 
ella, antes de chamar o marido ou qualquer outra pessoa, 
levanta a saia de cima e dá um nó na saia de baixo, affir- 
mando que a cobra não se meche, ficando completamente 
hypnotisada, podendo ser então morta com facilidade. Não 
sei si, quando a caipira não tem saia de baixo, o nó pode 
ser dado na camisa! 

Passemos a outro assumpto: 

A primeira segunda-feira de Agosto vale como dia 
aziago, dia de má sorte para os caçadores. Dizem elles 
que a caça ferida por chumbo não morre, podendo mesmo 
succeder desgraça a si ou aos seus, si tentar neste dia tal 
divertimento. Contou-me um velho roceiro em Campinas, 
que tendo tido ensejo de ir nesse dia á caça mas não se 
lembrando da data, encontrou-se com uma bugia que ama- 
mentava o filho sobre o galho de uma arvore. A pontaria 
foi feita, mas immediatamente a bugia apresentou-lhe o filho 
como que pedindo misericórdia. Independente disso o 



— 42 — 

nosso homem fez fogo e a bugia fica ferida. Esta, po- 
rém, toma immediatamente um punhado de folhas da ar- 
vore sobre a qual pousava, mastiga-as com avidez e col- 
loca esta cataplasma sobre o logar ferido pelo tiro, fugindo 
em seguida sã e salva! 

Estupefacto com o caso e ao mesmo tempo emocio- 
nado de ter atirado sobre a macaca, retrocede afim de voltar 
para a casa; no caminho uma cobra enleia-se nas pernas e 
si não tivesse sido a sua agilidade em jogal-a para longe 
com um grande impulso, ella teria -o picado. Só depois 
do caso verificou que tinha sido victima da 1.» Segunda- 
feira de Agosto! 

Jurou e cumpriu o juramento de nunca mais ir á caça 
neste dia. 

Não são só os caçadores que se submettem a esta 
superstição, também os lavradores supersticiosos não co- 
meçam suas plantações ás Sexta-feiras. 

Julgo, porém, que não fazer roças ou começar um ser- 
viço qualquer numa Sexta-feira tenha um outro motivo bem 
differente daquelle que elles geralmente invocam: não é 
pelo motivo de ter sido Jesus -Christo cruxificado neste 
dia que elles descançam, é simplesmente por ser Sexta- 
feira dia bem próximo do Domingo e querendo vadiar pre- 
textam dia aziago. Também nas Sextas-feiras nunca o cai- 
pira começa uma viagem ou mesmo faz qualquer negocio. 

Também ás Quartas-f eiras os supersticiosos não cor- 
tam as unhas ou os cabellos, o motivo desta superstição 
ignoro completamente; contou -me uma cabocla que na 
Quarta-feira da Semana Santa não tinha perigo que se pen- 
teasse, só se fosse preciso sahir de casa por negocio ur- 
gente. 



Quem é que não conhece a pequena coruja, quasi que 
cosmopolita, a Strix flammea, da qual temos tantas aqui, 
principalmente nos logares ermos e lúgubres do interior? 
Dizem os supersticiosos, que quando ha pessoa doente 
em casa e a Suindara vem pousar sobre o telhado da mesma, 
deve- se afugental-a, pois é mau indicio, affirmando ainda 
que quando ella fala significa que a mortalha para o doente 
está sendo aprontada e logo sahirá um defunto da habitação. 

Quando um beija-flôr entra na moradia e esvoaça da- 
qui para lá sem achar a sahida, diz o vulgo que neste 
mesmo dia haverá briga entre o casal, e quando uma bor- 
boleta preta, sugando o néctar das flores, voa para todos 
os lados ou errando o caminho entra para uma casa, ha- 
verá muito em breve lucto nesta familia. 



43 — 

Ha ainda diversas superstições sobre pássaros e bor- 
boletas na serie de superstições brazileiras, não me recordo, 
porém, no momento, de nenhuma delias, sei, com tudo isso, 
que a côr preta tem uma profunda significação: o preto e 
o lucto são co-irmãos, e o caipira, não sendo educado 
como nós em distinguir cores, não faz muita differença 
entre o preto e o azul escuro, não as definindo bem, jo- 
ga-as na mesma cathegoria. 

Quem não conhece o nosso pássaro Anu, ave esta 
que vive socegadamente sobre o gado nos campos, catan- 
do-lhe os incommodativos carrapatos? Sendo ave que ha- 
bita exclusivamente os pastos, e vindo casualmente parar 
num jardim dentro da cidade, logo se attribue a elle qual- 
quer facto luctuoso que terá de soffrer a familia a quem 
pertence o jardim. 

Os gatos pretos dentro de casa são prejudiciaes, famí- 
lias supersticiosas não os querem, porque dizem que elles 
separam os esposos, que elles introduzem a desharmonia 
entre o casal. 

Vejamos agora quanto á criação que vive e meche 
perto das habitações. Eu penso nas gallinhas. O cai- 
pira tem muita cautella em não arrancar as guias de um 
bonito gallo — as guias são as penas de forma de foici- 
nha que adornam a cauda — diz elle que si ellas forem 
arrancadas o gallo perde incontestavelmente a propriedade 
de reproduzir a raça. 

Dizem também os sábios da roça, que se deve ter o 
máximo cuidado quando se transporta ovos para serem 
chocados, todos os ovos que tiverem de ser transportados 
por agua, rio ou riacho qualquer, goram infallivelmente. 
E'-me um tanto incomprehensivel esta superstição, pois, 
sendo o caipira ou sertanejo geralmente um bom observa- 
dor da natureza, devia já ha muito ter observado que este 
modo de pensar não tem cabimento algum. Talvez se po- 
desse explicar este facto, si no transpor a aguada, os ovos 
fossem abalados; diz o vulgo que um abalo, mais ou me- 
nos forte, faz com que o ovo não gere. Quanto a esta 
ultima affirmativa tenho eu mesmo elementos de contestar; 
também isso deve valer como superstição: Já tenho man- 
dado vir de longe ovos para a minha propriedade, que fo- 
ram trazidos sobre animal trotão, depois de um transporte 
de estrada de ferro e de 2 horas de cavallo, e todos os 
ovos geraram. 

Cito mais uma superstição sobre os ovos: Observando 
um certo dia uma caipira preparar ovos para chocar, vi que 
o marido fazia neste e naquelle uma cruz com carvão. No 
começo presumi que esta cruz fosse feita para afugentar o 



— 44 — 

diabo — o caipira tem ideias muito estravagantes, só sabe 
quem o conhece — mas, meditando mais profundamente 
sobre o assumpto e observando mais tarde a mesma ope- 
ração, tive a curiosidade de perguntar qual o motivo desta 
cruz. O meu homem vacillou em me dar uma resposta, 
pensando, talvez, que zombaria da sua tolice; insistindo, 
porém, tive de ouvir o seguinte: Sou muito amigo de gal- 
linhas pampas, de gallinhas brancas e pretas e esta cruz 
faz com que as frangas provenientes destes ovos fiquem 
assim. 

Não sei si esta superstição corre mundo ou tivesse 
sido inventada de momento, nunca mais ouvi algo delia; 
duvido, porém, que tivesse sido concebida naquelle instante, 
pois o caipira que fazia as cruzes sobre os ovos possuia 
phantasia em bem pequeno gráo para idear tal cousa. 

Que as trovoadas são prejudiciaes a ovos que estão 
sendo chocados deve ser considerado também superstição, 
nunca observei semelhante coisa em criação alguma, como 
isso é, porém, superstição européa continuo em assumpto 
diverso. 

Os pintos, quando de um certo tamanho, soffrem de 
uma infecção diphterica, denominada Boba, que consiste 
em a formação de bolhas na cabeça, cujo liquido e mesmo 
casca, quando seccando, é muito contagioso, morrendo 
grande quantidade de avesinhas. O caipira tem uma sym- 
pathia interessante para cural-a. A' noite toma- se um pu- 
nhado de milho e colloca-se-o em qualquer logar. Bem 
cedo, na próxima manhã, a pessoa que trata da criação, 
sem ter comido cousa alguma, sem ter falado com alguém, 
leva este montinho de milho aos pintos proferindo em se- 
guida as seguintes palavras: Ave Maria, Otedo, que boba! 
e dizem os supersticiosos que a cura é radical. 

Não ignoram os snrs. presentes como foi grande a 
praga de gafanhotos, ha dous annos passados, aqui no 
nosso Estado. Interessantes foram os meios que se em- 
pregou para afuguental-os : Por diversas vezes vi proprie- 
tários de roças rezar nos três cantos das mesmas um Pa- 
dre Nosso ou uma Ave Maria «Qual o motivo porque 
o amigo não reza no quarto canto?» era a minha curiosa 
pergunta. A resposta era sempre a mesma: «no quarto 
canto sahe a immundice e si se rezar também ahi, a bi- 
charada não tem logar para fugir e faz maiores estragos!» 

Também para attenuar a praga do temido Coruquerê, 
larva de uma borboleta que causa enorme damno aos al- 
godoaes, faz-se a mesma operação e os supersticiosos acre- 
ditam piamente neste processo. Pena é que o ex-titular 
da pasta de Agricultura deste Estado, o exmo. snr. dr. Car- 



— 45 — 

los Botelho, não tivesse tido conhecimento deste meio tão 
efficaz, pois em vez de gastar 200 a 300 contos de reis 
com o exterminio do voraz orthoptero, podia ter empre- 
gado 20 a 30 rezadores e toda a gafanhotada teria sahido 
mais barata aos cofres públicos. 

A maioria das vezes são estas rezas proferidas por 
verdadeiros charlatães, por caboclos finórios, que conhe- 
cendo perfeitamente a indole do povo e a sua grande igno- 
rância, tiram partido do acaso. Commummente são feitas 
estas rezas gratuitamente, os rezadores nada cobram por 
ellas, isto é, apparentemente, mas pouco a pouco vão ti- 
rando mantimentos e outros géneros de primeira necessi- 
dade dos pobres crentes, que lhes são fornecidos de bem 
boa vontade em paga dos relevantes serviços prestados. 

Si as rezas não são efficazes, logo é o insuccesso at- 
tribuido a qualquer incidente havido no decorrer da ope- 
ração. Estas orações são feitas em geral em voz baixa e 
constituem um segredo, que passa também de pai a filho; 
não me constando que mulheres sirvam para taes fins. Ha, 
comtudo, rezadores, que acreditam nos próprios meios sym- 
pathicos, estes não são charlatães e não ha dinheiro que 
pague a revelação de tal segredo. Eu mesmo tive occa- 
sião de offerecer cinco mil réis a um destes rezadores, che- 
guei a offerecer até dez mil réis para obter a reza, mas 
assim mesmo não consegui o desejado, prova de que o 
individuo acreditava no meio que conhecia e não se im- 
portava muito com a offerta, pois, lhe teria sido muito fácil 
me impingir qualquer reza, eu teria ficado convicto de que 
possuía uma formula efficaz contra toda e qualquer praga 
animal e elle, por cima de tudo isso, zombava da minha 
boa fé. 

Depois de muito procurar achei finalmente um velho 
sertanejo, que me poude dar o teor de uma oração contra 
taes pragas, dizia elle, que esta reza também servia para 
afugentar as tempestades, que estas tomavam rumo diverso, 
quando na estrada se rezava com todo o ardor. Fiz-me 
dital-a mas me foi impossivel fazer delia alguma cousa que 
prestasse, o portuguez era tão pouco claro, que mesmo 
com a maior difficuldade não se pode reconstruil-a. E' por 
este motivo que não a cito. 

Continuemos no assumpto. A este capitulo da minha 
exposição pertence o bicho barulhento e o cavallo sem ca- 
beça. Sobre o primeiro, eu mesmo presenciei um facto 
que convém assignalar aqui; quanto ao segundo não tenho 
dados que possa citar. Viajando de Xiririca a São José do 
Paranapanema, por terra, a cavallo, pelo sertão inhospito, 
denominado Sertão do Batatal, passa-se pelo Rio das Mor- 



— 46 - 

tes, logar histórico na mineração paulista. Diz a lenda que 
40 bateadores de ouro ahi se assassinaram mutuamente, 
devido a grandes achados do precioso metal que fizeram 
no supra citado rio. Este logar passa por ser assombradoy 
existindo ahi o tal Bicho bandhentOj que ninguém ainda 
viu, porém, cuja voz se ouve á noite e que é tão perverso 
que mata aquelle que o vir. 

Devia pousar ahi, si as chuvas torrenciaes que cahiam 
incessantemente no dia da minha jornada, não tivessem 
parado. O camarada que me acompanhava disse-me posi- 
tivamente que me abandonaria si eu persistisse nessa in- 
tenção. Felizmente ou infelizmente as chuvas cessaram e 
sem novidade alguma pudemos proseguir. 

Sobre o tal Bicho barulhento o meu camarada nada 
me poude dizer. Eis ahi um facto que propalado de bocca 
em bocca torna-se, sem motivo algum, a causa de uma su- 
perstição. E' bem provável que desta maneira se criam ou- 
tras, cujas causas são completamente desconhecidas. Mesmo 
de outros lados não pude conseguir explicações sobre o 
tal Bicho barulhento; talvez que alguns do meus benévo- 
los ouvintes possam me esclarecer mais exactamente este 
assumpto. 

Ainda dou uma superstição, aliás pouco citada, que 
me occorre depois de já ter escripto factos sobre as galli- 
nhas. Na minha propriedade aqui perto de S. Paulo tenho 
uma maior criação de aves; é muito natural, que entre 
ellas haja algumas que sejam mais alegres e que cantem 
sem o menor motivo durante todo o dia, principalmente 
quando se procede á distribuição do alimento; me affir- 
mou um meu camarada, que era muito ruim ter- se em 
casa taes cantadoras, pois era certo que em pouco tempo 
morreria alguma pessoa de parentesco chegado da minha 
familia. Disse-lhe que a minha família era tão grande, que 
annualmente morriam parentes chegados. A resposta foi 
muito concisa: mate, seu doutor, estas gallinhas, pois ellas 
são a causa de tanta desgraça! 

Dou este capitulo por concluído e sigo aos dois últi- 
mos por mim estabelecidos; delles não tendo muito a di- 
zer, serei curto na minha exposição. 



Em primeiro logar tratarei da planta quando esta é o 
agente principal da superstição. 

Affirmam os meus collegas engenheiros, e isto geral- 
mente de uma maneira positiva, que o Páu d'Alho, este 
magnifico padrão de terra superior, é desviador da agulha 



— 47 — 

magnética. Já, aqui na Sociedade Scientifica, por proposta 
minha, nos interessamos pelo assumpto, mas este interesse 
parece ter sido momentâneo. Eu continuei a syndicar e 
encontrei na maioria dos collegas uma affirmativa favorá- 
vel; outros, bem poucos, negam a veracidade do facto. 
Pela minha parte, si a questão não se desvendar como 
assumpto supersticioso, o que é o mais provável, acredito 
e affirmo o seguinte: O Páu d' Alho cresce somente sobre 
terra de superior qualidade, sobre terra constituída pela de- 
composição do diabase, que por sua vez nada mais é do 
que um conjunto de chloreto, ferro magnético, ferro tita- 
nado e apatite, e é justamente neste conjunto que devemos 
encontrar a solução do problema: o ferro magnético at- 
trahe ou desvia a agulha! Si esta affirmação dos collegas 
é verídica, então transcreva-se o caso do supersticioso para 
a realidade; eu, porém, contínuo a não acreditar nesta af- 
firmativa. Com isso não quero contestar que hajam plan- 
tas que tenham a propríedade de accumular electricidade, 
tornando-se assim uma espécie de pilha eléctrica, desviando 
ou attrahindo a agulha conforme a electricidade accumu- 
lada. Quanto ao Pau d'Alho, porém, não acredito que te- 
nha taes propriedades. Dizem ainda outros engenheiros, 
que o Páu d'Alho, age ainda com maior actividade, sendo 
ferido com o machado! Isto, para mim, é absurdo e julgo 
que nunca poderá entrar na cabeça de pessoa que esteja 
habituada a pensar com mais ou menos lógica. 

Também já se discutiu o seguinte assumpto no nosso 
seio, negando-se tal affirmativa: os madeireiros, porem, in- 
dependente das nossas discussões, continuam a affirmar 
que certas madeiras cortadas na épocha da mingoante não 
caruncham tanto como toda e qualquer madeira derrubada 
na lua cheia. Seria bom que se fizesse a experiência pra- 
tica deste assumpto de magna importância. 

Faiando de arvores seja- me permittido dizer que em 
certos logares, na noite de S. João, no dia 24 de Junho, 
vêem -se muitas pessoas bater com varas nas laranjeiras, 
e de tal forma, que poucas folhas ficam nellas. 

Perguntando-se a razão recebe-se como resposta, que 
assim se procedendo as laranjas tornam-se muito mais do- 
ces no anno vindouro. E' uma espécie de poda grosseira 
que se faz, presumindo-se que a noite de S. João tenha 
qualquer influencia sobre a arvore. 

Em muitas occasiões o leigo ignorante prevalesce-se 
de certas casualidades para ficar acreditando ainda mais 
em assumptos que pertencem á superstição vulgar. Visi- 
tando um caboclo, aqui perto de Santo Amaro, disse- me 
meio sentida, a amável dona da casa, no seu portuguez ar- 



— 48 — 

rastado, que estava certa, que alguém da casa morreria 
ainda durante o anno corrente. Porque? foi a minha la- 
cónica pergunta, Ué, retorquiu ella, vancê parece que nào tá 
vendo que as minha laranjeira ião morrendo! Isto é mau 
signar, dando-se este causo morre arguem da casa! Minha 
resposta foi uma gostosa risada, mas facto é que o amá- 
vel caboclo morreu poucos mezes depois e todo o mundo 
ficou então acreditando no valor prophetico das laranjeiras. 
Mal sabia a minha pobre instructora que as fruteiras da 
sua propriedade estavam todas atacadas da broca. Apezar 
de lhe ter dito isso na occasião em que ella me narrava 
o facto supersticioso, affirmava peremptoriamente que um 
caso nada tinha que ver com o outro. 

Sabem os meus caros ouvintes, porque o lavrador bo- 
çal, o caipira e caboclo ignorantes não fazem as suas plan- 
tações de milho, feijão, etc. em linha recta? E' porque o 
diabo e as más almas ahi podem entrar com facilidade e 
destruil-as, ao passo que sendo as plantações feitas sem 
systema algum o caminho é mais difficil de se fazer e as 
plantações não são molestadas por entes do outro mundo. 

Não é raro que as plantações praguejam, principalmente 
o feijão, que é plantado em quantidade, por ser o alimento 
principal da população roceira; as folhas são atacadas por 
um fungo que as pode aniquilar por completo, o que se dá 
também com as batatas etc. O caboclo ou caipira super- 
sticioso toma então um punhado das folhas praguejadas, 
amarra-as com um fio de embira e pendura este feixesinho 
no fumeiro, acima do fogão da cosinha. Diz elle que desta 
forma a praga cessa. E' em todo caso de se admirar que 
os nossos agrónomos e phytopathologistas estudem tanto 
e nos aconselhem calda bordaleza, pulverisações com en- 
xofre e arsénico sendo que sem estudar tanto com o mi- 
croscópio existe um melhor e mais efficaz meio á mão! 

Quem viaja pelos sertões do Paranapanema observa 
muitas vezes que certos pontos da estrada estão cobertos 
com cascas de Amendoim (Arachis); dizem os moradores 
daquellas bandas, que espalhando-se as cascas desta legu- 
minosa pelas vias publicas as plantações crescem melhor 
e produzem mais. 

O lavrador que procede a plantações de qualquer se- 
mente ou vegetal nunca fecha uma cova sem pôr nella a 
respectiva planta ou grão, prefere que fique aberte, pois si 
assim fizer morrerá logo. 

E' sabido que da arvore do Louro é difficil se obter 
mudas por intermédio de galhos. O caipira, que quizer 
obter uma boa muda de galho, plante na cova deste três 
grãos de milho que o ramo pegará. 



49 — 



Passo agora á quinta e ultima cathegoria do meu thema: 
Da supersti^o sobre as cousas inanimadas, quando estas 
representam um papel distincto. 

Fallei de S. João, da proverbial festa. Todos sabem 
que era a festa mais querida entre o antigo povo das ge- 
rações passadas; hoje já não se festeja mais este Santo com 
tanta devoção, e francamente é de se lastimar que as lindas 
festas, as proverbiaes reuniões nas fazendas cedam ao passo 
civilisador que agora mais se sente aqui no Estado. 

Dizia-se, e isto ouvi muitas e muitas vezes, que quem 
passar descalço sobre a fogueira de S. João não queimará 
os pés! Eu nunca vi ser executada tal affirmativa, pode 
bem ser que pretos, acostumados desde a mais tenra in- 
fância a andarem descalços tivessem experimentado passear 
pelas cinzas ainda quentes da fogueira, não aconselho, porém, 
aos meus amigos semelhante experiência. 

As superstições que se ouvem na própria casa, dos 
domésticos ou na casa de amigos, são que mais se salien- 
tam neste capitulo: repito, que ellas poderiam ser intercala- 
das em os outros capitulos já mencionados, devido, porém, 
á classificação difficil do assumpto é que as colloco neste 
ultimo. 

Quem estiver perto de um espelho, junto com uma 
criança e arregalar os olhos esteja certo que a criança tor- 
nar-se-á muda. 

Quem fôr mordido por cobra e tiver um bico de Inambú 
em seu poder, amarre-o por cima da picada que ficará curado 
em bem pouco tempo. 

Quem varrer o cisco na própria casa, de dentro para 
fora ou quem tiver a pouca cautella de virar um banco com 
as pernas para o ar, pode estar certo de que a infelicidade 
entrará para dentro da casa com passos largos. 

Quem quizer crescer mais, suba num cofre de dinheiro, 
que em pouco tempo ficará alto. 

Quem se quizer livrar de verrugas tome um vintém 
(de cobre), esfregue-o sobre as mesmas, vá a casa de um 
visinho, bata na porta e quando ouvir passos jogue a moeda 
no corredor. 

Quem achar uma porteira de uma fazenda aberta, não 
a feche, pois lhe será prejudicial á saúde e poderá morrer 
logo. 

Não vire o pão ou uma caixa de phosphoros com a 
parte de baixo para cima, que poderá morrer em breve. 

Quantas vezes não se observa dependurado numa cerca 
ou fincado numa vara do quintal uma caveira ou chifre de 



— 50 — 

vacca ! Todos nós sabemos que estas caveiras servem para 
evitar que praga ou que as más almas entrem e damnifiquem 
as plantações. Será talvez esta superstição proveniente da 
Africa, será ella a mesma que Max Buchner observou em 
Lunda e não sabendo para que servia, suppôz que fosse 
uma prevenção contra raios e trovoadas? Ainda ha bem 
poucos annos se observava aqui em S. Paulo, na rua Quin- 
tino Bocayuva nas portas de armazéns portuguezes a mesma 
caveira pregada. Talvez seja ella prevenção contra toda e 
qualquer infelicidade. 

Uma superstição que ainda não pude comprehender é 
o pregar de uma moeda de 10 réis, na soleira das portas ou 
sobre os balcões de vendas. Será talvez para não entrar 
dinheiro falso na gaveta? 

Quando eu no anno atrazado viajava pelos vastos ser- 
tões do Rio Paranapanema, recebi de presente, de um ser- 
tanejo, um bello guizo de cascavel, dizendo-me o doador, 
que estes guizos tem diversas propriedades admiráveis en- 
tre as quaes devia-se salientar como príncipaes: remédio 
efficaz contra dores de dentes e contra sarna de cachorro. 

O guizo, como medicamento, devia ser torrado, soccado 
e então posto o pó no dente ou misturado na comida dos 
cachorros. Na primeira das hypotheses o dente arrebenta- 
ria por completo e na segunda a sarna cahiria immediata- 
mente morta. Também collocado o guizo dentro de um 
violão ou rebecca, o instrumento ficaria com um som me- 
lhor e mais melódico. Mas a principal propriedade era 
verificar numa pessoa si ella soffria de ataques, si eram 
elles provenientes de catalepsia ou não. Si os ataques 
fossem catalépticos, o guizo, collocado sobre a testa do 
individuo, ficaria preso á pelíe, si não o fosse, cahiria im- 
mediatamente. Eu me ri desta affirmativa e colloquei-o na 
minha testa, ficando elle immediatamente preso. Espavorido, 
disse-me, que eu devia soffrer de ar, Contestei-o, di- 
zendo que nunca tive um único ataque. «Então os seus 
ataques devem ser á noute, este meio nunca engana!» 

Vejo que me tornei extenso de mais, acredito, que al- 
gum dos benévolos ouvintes, talvez aborrecido das minhas 
receitas e affirmativas, tivesse ido ao fogão da casa deitar 
um punhado de sal ao fogo ou mesmo ter virado a vas- 
soura com o cabo para o chão, como se faz quando se 
quer ver livre de um hospede importuno; mas eu já acabo, 
peço apenas um momento de paciência. 

Quem não conhece o «Foik-Lore», que é uma das 
partes integrantes da anthropologia, dirá talvez que tenha 
occupado o precioso tempo do distincto auditório com 
assumptos banaes e sem valor. Pode ser, meus senhores. 



— 51 — 

que devido ao pouco talento que tenho em me exprimir 
por intermédio da penna, tivesse tornado esta exposição 
bem enfadonha; a superstição e o povo é um conjuncto 
inseparável e para se conhecer qualquer povo é necessário 
conhecerem -se seus costumes, suas superstições, e sendo 
assim e acreditando mesmo que entre os meus distinctos 
ouvintes haja alguns que conheçam bem este assumpto, 
espero que estes também venham emittir as suas opiniões 
sobre este problema completamente novo no nosso meio. 
Quanto a mim, peço somente desculpa de ter-me ati- 
rado a um estudo, que não faz parte da minha profissão 

S. Paulo, em Setembro de 1908. 

Nota. — Não cito aqui as superstições do jogador, os taes palpites 
part o jogo, ligados com sonhos, etc. devido ao pouco conhedmento 
que tenho da matéria e, serem, a meu ver, bem pouco originaes. 



Instituto Pasteur de S. Paulo (Brazil) 

Sobre a «hxmogregarína inurís> 

PELO Dr. a. Carini 



Continuando o estudo dos parasitas do sangue das 
ratazanas (mus decumanus) verificamos que uma boa parte 
destes roedores, capturados nestes últimos mezes no quin- 
tal do Instituto Pasteur, eram parasitados pela <^hcBmogrega' 
rina muris^. 

A haemogregarina no estado adulto é representada por 
um corpo oval, reniforme, ligeiramente encurvado, de 10—13 
microns de comprimento por 4 — 6 de largura com extremi- 
dades aredondadas. 

Examinada a fresco, aparece como um corpo pallido, 
hyalino, homogéneo, sem pigmento nem movimento. 

No sangue circulante, ella se encontra, quasi sempre, 
no interior dos leucocytos, especialmente dos grandes mono- 
nucleares e das formas de transição; as formas livres são 
muito raras; todos os indivíduos se apresentam no mesmo 
estado de desenvolvimento. 

O parasita se mostra circumdado de uma capsula, que 
ddxa passar com facilidade as substancias corantes. Pelo 
Oíemsa e pelo Leishmann, o protoplasma se cora em azul 



— 52 — 

pallido e apresenta algumas finas granulações coradas em 
vermelho. 

O núcleo bem nítido, ovóide, é central e occupa todo 
o diâmetro do parasita. 

Algumas vezes os parasitas são muito numerosos e 
quasi todos os leucocytos mononucleares são parasitados; 
em outros casos, os parasitas são muito raros. 

Raramente no mesmo leucocyto existem duas haemo- 
gregarinas. 

As ratazanas não apresentam symptomas de doença, 
mesmo quando a infecção é muito forte. 

As inoculações de sangue parasitado em ratos brancos 
e outros animaes deram constantemente resultados n^a- 
tivos. 

Em uma ratazana, encontramos numerosíssimas formas 
de multiplicação schizogonica no fígado; as mesmas for- 
mas existiam mas em numero muito pequeno, nos pulmões. 

Estas formas são representadas por corpos redondos 
ou ovaes, de dimensão variável de 15—30 microns. 

Observados a fresco, elles parecem constituídos por 
uma parede (capsula) bastante espessa, com um conteúdo, 
formado de granulações claras e refringentes. 

Com um exame muito superficial estes corpos pode- 
riam ser confundidos com óvulos de vermes. 

Depois de coloração pelo methodo ordinário de Oiemsa 
e de Leishmann o conteúdo aparece reticular e corado em 
azul claro; em muitos kystos (formas novas) não se dis- 
tingue a chromatina, em outros apparecem blocos mais in- 
tensamente corados, que representam os núcleos em via de 
multiplicação; ordinariamente são corados só os núcleos 
periphericos, collados á parede e não os outros, devido pro- 
vavelmente a difficuldade com que penetram as substancias 
corantes; porém pelos novos methodos de fíxação húmida 
e successiva coloração pelo Oiemsa ou pela hematoxilina 
ferrica, os núcleos são melhor corados e são bem visíveis 
em todos os kystos, mesmo nos novos. Os kystos chega- 
dos ao seu completo desenvolvimento contem 25—50 mero- 
zoitos fusiformes. Entre os kystos ha alguns, que parecem 
conter um numero maior de elementos e um pouco mais 
pequenos (microzoitos?); outros nos quaes os elementos são 
em menor numero e maiores (macrozoitos?). Estas diffe- 
renças porém, se existem, são muito pequenas. Nos «frot- 
tis» os kystos apparecem ordinariamente livres, o seu des- 
envolvimento porém se faz no interior de cellulas e vimos 
varias vezes kystos bem desenvolvidos, que achavam -se 
ainda no interior de uma cellula (provavelmente de natu- 
reza epithelial). Nos kystos não vimos reliquat. 



— 53 — 

Este parasita por nós encontrado em S. Paulo parece 
ser o mesmo que foi observado por Balfour (^) no Sudan, 
por Cleland{^) na Austrália; é muito provável também que 
elle seja identificado com o parasita descripto por MiUer (^) 



Hsmogregarína murís 

Hsmogregarínas no sangue circulante: 



ot# ® 





1 2 



Formas de multiplicação no fígado: 







10 





Explicação das figuras: 



1 — Olobulo vermelho normal. 

2 — Haemogjegarína livre. 

3 — Grande mononudear contendo nma 

hsmogfreflfarína. 

4 e 5 — Dois Teucocytos (formas de tran- 

sição) contendo uma haemog^regarina 
cada um. 
6 — Mononudear contendo duas haemo- 
gregarínas. 



7 — Forma nova de multiplicação por 

scktzogonia. 

8 e 9 — Phases mais adeantadas. 

10 — Phase final, na qual cada indivi- 

duo se acha já formado. 

11 — Forma muito nova no interior de 

uma cellula hepática. 

12 — Phase mais adeantada, eg^ualmente 

n'uma cellula hepática. 



(*) Balfour, A haemogregaríne of mammals. The Joum. of trop. 
med. 1906, p. 81. 

O Cleland. The haemogregarine of mammals and some notes 
on rates. The Journ. of trop. med. 1906, p. 296. 

O Miller. Hepatozoon perniciosum, a Haemogregarine pathogenic 
for white rats etc Buli. Inst. Pasteur 1909, p. 349. 



- 54 — 

na America do Norte nos ratos brancos sob o nome de 
hepatoxoon perniciosus. 

Parasitas muito semelhantes já foram descriptos em 
outros mammiferos: no boi, no cão, no gato, em lebres, 
esquilos, ratos e camondongos. 

Alguns observadores, levando em conta a situação 
intraleucocytaría destes parasitas, os classificaram entre os 
leucocytozoons. Esta classificação porém não é opportuna; 
convêm deixar o nome de leucocytozoon a outros para- 
sitas, que apresentam outros caracteres e outro cycld de 
desenvolvimento. 

No actual momento, é melhor collocal-os todos na 
grande familia das haemogregarinas, com as quaes elles têm 
muitas analogias. 



Á Yãsostomía no tratamento da epídidymite 

PELO 

Dr. Pesiderio Stapler 

Cirurgião da Beneficiencia Portugueza 



E' realmente de estranhar, que a cirurgia que tem inva- 
dido quasi todos os ramos da medicina, tivesse deixado de 
lado o tratamento da epididymite. Estamos n'esta moléstia, 
como os nossos avós: nas cataplasmas, nas pomadas, e 
como ha pouco vi um caso, até nas sanguesugas! Entre- 
tanto o epididymite é uma moléstia essencialmente cirúrgica. 
E' uma infecção, em geral gonorrheica, que causa uma in- 
flammação, um abcesso, diante do qual cruzamos os braços 
esquecendo n*os da boa regra cirúrgica: ^ubi pus, ibi evacua^, 

Tem-se comparado, e com razão, os testículos e os 
vasos differentes aos ovários e ás trompas da mulher, mas 
poucos têm tirado as consequências d'essa semelhança. No 
emtanto o tratamento cirúrgico destes órgãos é infinitamente 
mais fácil, mais accessivel no homem do que na mulher. 

Como se dá a infecção do epididjrmo? Deixando de 
lado a infecção tuberculosa, a propagação do pus da ure- 
tra faz-se pelos pequeníssimos orifícios ejaculadores; d'ahi 
a infecção vae ás vesículas seminaes; de lá aos differentes 
vasos, e, em seguida aos epididymos. E* natural que um 
liquido accumulado na vesícula ou no epididymo não possa 
sahir facilmente pelo dueto ejaculador, estando este inflam- 
mado e portanto fechado. Assim temos, como na salpin- 



— 55 — 

gite, uma cavidade fechada, da qual a matéria infeccíonante 
— no principio um sôro, depois um pús — não acha 
sahida. As consequências são: distensão da vesícula e do 
epididymo, inflammação e dores violentas. Só a boa vas- 
cularisação d'estes órgãos explica como este quadro clinico 
cede tantas vezes ao repouso e aos remédios. Mas assim 
mesmo este não é o tratamento racional: o racional é dar 
vazante ao liquido, que causa esta distensão, as dores e a 
inflammação. 

As primeiras tentativas de alliviar os doentes por meio 
de uma puncção do epididymo, foram feitas por Vidal já 
no principio do século passado; Escat em 1903 fez a in- 
cisão do epididymo e túnica vaginal mesmo nos casos em 
?ue não havia fluctuação. Mas, os americanos Belfield em 
Chicago, Bazet em S. Francisco (e outros depois) introdu- 
ziram em 1905 a simples vasostomia nos casos de epididy- 
mite aguda. Já em S. Francisco tive occasião de executar 
esta operação, tão simples, com óptimo resultado. Aqui 
empreguei-a novamente em alguns casos na Beneficiencia 
Portugueza d'esta capital. São naturalmente só os casos 
bastante inflammados que procuram o hospital, — é n'estes 
a operação indicada. 

Não quero entrar em detalhes do histórico dos casos, 
mas basta dizer, que as dores desapparecem no dia se- 
guinte e em alguns vê-se logo depois da incisão do vas, 
sahir uma gotta de pús; em outros sahe só um sôro, mas 
em todos — onde a incisão abriu realmente o vas — as 
dores desapparecem no dia seguinte. 

Um doente com febre alta durante alguns dias, ficou 
afebril depois da operação. E' tal o allivio depois da ope- 
ração, que os outros enfermos da mesma moléstia na en- 
fermeria se submettem á operação por iniciativa própria. 
Para os hospitaes é uma economia no sentido de poder 
dar alta mais cedo aos doentes e para estes o tempo de 
soffrimento é reduzido. A maior vantagem, porém, está em 
afastar por esta operação o perigo da esterilidade. Nos 
primeiros casos operei com anesthesia local, mas como a 
manipulação do cordão espermatico é bastante dolorosa 
principalmente no estado de inflammação, emprego agora a 
embriaguez pelo ether, depois de ter feita a incisão da pelle 
com anesthesia local. Após a desinfecção habitual uma 
incisão de dous a três centímetros sobre o cordão esper- 
matico corta a pelle; com duas pinças anatómicas o cordão 
é isolado, mantido fora da incisão cutânea por meio de 
' um pedacinho de gaze iodoformada e uma incisão de meio 
centímetro abre o seu lúmen. 

Decorridos alguns minutos, vêr-se-ha sahir um liquido 



- 56 — 

— soro ou pus. No lúmen, assim aberto, inseri nos pri- 
meiros tempos um fio de catgut para impedir que logo se 
fechasse; mais tarde usei um fio de crina de Florença para 
o mesmo fim; e ultimamente uso a seguinte drenagem que 
me parece mais efficaz: 

Dois ou três fios de gaze esterilisada são torcidos para 
fazerem um só fio e este é coberto por uma lamina de 
guttapercha. Introduzido no vas não é absorvido como o 
catgut, não obstróe o canal como a crina e faz uma ver- 
dadeira drenagem por capillaridade. 

A incisão cutânea é muitas vezes deixada aberta, outras 
vezes fechada em parte por meio de uma ou duas suturas. 
Um curativo simples é applicado; dous ou três dias depois 
é eliminada a drenagem e a pequena ferida fecha por gra- 
nulações. 

Recommendo muito esta operação tanto pela sua sim- 
plicidade como pelo resultado efficaz que se obtém. 



Riniidaiiiitii íitem da Sbsçío íb GniMlaría 



Art. 1.0 — Fica constituída a Secção de Engenharia 
da Sociedade Scientifica de S. Paulo, que se regerá pelo pre- 
sente regulamento interno, sem prejuízo do que dispõem os 
estatutos e o regulamento interno geral. 

Art. 2.0 — A Secção de Engenharia occupar-se-á de 
todos os assumptos que se prendem ás matérias dos Cur- 
sos de Engenharia do Brazil, qualquer que seja a especia- 
lidade, e de questões industriaes. 

Art. 3.0 — São membros naturaes da Secção de En- 
genharia todos os engenheiros, industriaes e constructores, 
de qualquer especialidade, que forem sócios da Sociedade 
Scientifica de S. Paulo. 

Art. 4.0 — A Secção de Engenharia terá quatro dire- 
ctores, que serão eleitos annualmente, na segunda quinta- 
feira do mez de Janeiro, em votação secreta e por maioria 
absoluta de votos. 

Art. 5.0 — Os directores poderão escolher entre si um 
presidente e um secretario, que exercerão preferencialmente 
essas funcções, sempre que se acharem presentes. 

Art. 6.0 — As sessões poderão ser presididas por qual- 
quer dos directores presentes, salvo verificada a hypothese 
do artigo precedente, e em sua ausência por um dos sócios. 



57 

servindo de Secretario qualquer dos presentes que fôr* de- 
signado pelo Presidente. 

Art 7.0 — O Secretario exercerá as funcções ordinárias 
deste cargo, em relação aos interesses da Secção de Enge- 
nharia. 

Art. 8.0 — Serão feitas por escripto as communicações 
ou quaesquer avisos que tenham de ser dirigidas aos sócios. 

Art. Q.o — A Secção de Engenharia effectuará reuniões 
semanaes de accôrdo com o regulamento interno da Socie- 
dade, em dias fixados na sessão anterior. 

§ único — Fica estabelecido previamente que uma des- 
sas reuniões realisar-se-á na segunda quinta-feira de cada mez. 

Art 10. — Nas reuniões serão apresentadas e discuti- 
das theses e questões praticas profissionaes. 

Art. 11 — Mediante acceitação da Directoria da Socie- 
dade qualquer pessoa extranha poderá apresentar e discutir 
dessas theses e questões, nas reuniões a que se refere o 
artigo Q.o 

Art. 12 — Para melhor preenchimento do que dispõe 
o art. 9.0 citado, poderão ser realisadas visitas a estabeleci- 
mentos, fabricas ou obras. 

Art. 13 — Na medida de suas forças empenhar-se-ão 
especialmente os membros da Secção de Engenharia pela 
elevação do credito scientifico da Engenharia Nacional, es- 
tudando e resolvendo problemas brazileiros, divulgando tra- 
balhos importantes da engenharia e industria do Brazil, quer 
no Paiz quer no Extrangeiro; creando e desenvolvendo re- 
lações entre os engenheiros e industriaes brazileiros e os 
extrangeiros, por meio de publicações e correspondências. 

Esforçar-se-ão do mesmo modo pela divulgação das 
riquezas nacionaes, investigando suas fontes e estudando 
os recursos e condições naturaes e económicas de sua ex- 
ploração. 

Trabalharão finalmente pelos interesses da classe e pe- 
las garantias profissionaes. 

Art. 14 — Poderá haver ampla discussão, sempre no 
terreno exclusivamente profissional, sobre todas as theses 
e questões apresentadas. Os debates serão todavia encer- 
rados em terceira discussão. 

Ficam expressamente vedadas as discussões que não 
forem estrictamente necessárias ao esclarecimento dos as- 
sumptos em debate. 

Art. 15 — Não serão apresentadas nas reuniões theses 
e questões que possam dar logar a discussões contrarias ao 
disposto no artigo precedente. 

Art. 16 — Todas as theses e discussões serão susten- 
tadas na lingua nacional. 



— 58 - 

§ unico — Por interesse profissional ou da sciencia, 
poderão entretanto ser usadas as línguas franceza, ingleza, 
italiana e hespanhola. 

Art. 17 — O presente regulamento será revisto annual- 
mente, para o fim de ser melhorado, de accôrdo com o 
desenvolvimento dos interesses da Secção. 

S. Paulo, 14 de Abril de 1910. 

Clodomiro Pereira da Silva 
H. Hacker 
P. Souza 



Remiaieito literno ila Siieçío ile Scíeieías JiiriíDeas e Sicíaes 



Art. 1.0 — A Secção de Sciencias Jurídicas e So- 

ciaes é composta de todos os graduados em direito ou 
cultores notáveis do direito, que forem sócios da Sociedade 
Scientifica de S. Paulo. 

Art. 2.0 — O seu fim é promover o proveito geral da 
sciencia por meio de estudo e discussão de questões scien- 
tificas relativas ss sciencias jurídicas e sociaes, e de confe- 
rencias. 

Art. 3.0 — Esta secção reunir-se-á uma vez por mez 
em sessão ordinária. 

Art. 4.0 — Qualquer membro pode requerer ao Presi- 
dente sessão extraordinária. 

Art. 5.0 — Ao presidente desta secção incumbe presi- 
dir os trabalhos, dirigir e convocar as sessões, promover 
tudo que interessar á boa execução dos fins da secção e 
das deliberações de seus membros. 

Art. 6.0 — Ao Secretario incumbe receber os livros, 
memorias, folhetos e correspondência que mandarem á sec- 
ção, lêr o expediente e acta, redigir esta e substituir o pre- 
sidente nas suas faltas. 

Art. 7.0 — O Presidente e o Secretario serão eleitos 
por um anno pelo processo ou modo que cada vez a sec- 
ção deliberar previamente que seja adoptado. 

Art. 8.0 — Quando em exercido da presidência, o Se- 
cretario convidará um membro para occupar interinamente 
seu cargo. Na falta, á hora designada para a sessão, do 



59 

Presidente e Secretario, o membro mais velho assumirá a 
presidência e convidará outro membro para secretario. 

Art Q.o — Nenhum membro poderá tomar a palavra 
sem a ter obtido do Presidente da secção. 

Art. 10 — Qualquer membro pode requerer, verbal- 
mente ou por escripto, urgência, adiamento por praso certo 
e definitivo e encerramento de alguma discussão para a 
votação. 

Art. 11 — Não serão permittidas discussões pessoaes, 
nem partidárias, nem divagações sobre assumptos extranhos 
ao que estiver sujeito á discussão e deliberação da secção. 

Art. 12 — Todo o membro tem o direito de requerer 
ao Presidente e á secção o que achar útil e conveniente á 
secção e á Sociedade Scientifica. 

Art. 13 — Das resoluções do Presidente e do Secre- 
tario qualquer membro pode appellar respeitosamente para 
a secção, sem direito aos recorridos de resignar o seu cargo 
por effeito da decisão da secção. 

Art. 14 — Nas omissões e lacunas deste regulamento, 
o que fôr deliberado pela secção para as supprir será em 
outra sessão especialmente convocada para esse fim, sub- 
mettida de novo a discussão e votação e, no caso de ser 
confirmada, será incorporada, como artigo addicional, a as- 
signatura do Presidente e Secretario. 

Sala das Sessões, 17 de Agosto de IQIO. 

José Bonifácio de Oliveira Coutinho, relator 

A. DlNO BUENO 

Luiz Ayres A. Freitas 



— 60 



Resumo das Sessões 



Assembléas geraes ordinárias 



Sessão de 10 de Março de 1910. 

Presidente: Dr. A. B. Barreto. 
Secretario: Dr. Theophilo Souza. 

O Sr. Presidente expõe o fim da reunião, que é eleger 
2 membros da Directoria provisória da Secção de Engenha- 
ria, nas vagas dos Srs. Drs. Ignacio W. da O. Cochrane 
e Francisco de P. Ramos de Azevedo que se exoneraram, 
aquelle por officio e este verbalmente: propõe o Sr. Presi- 
dente, que, a despeito do pequeno numero de sócios pre- 
sentes, seja feita a eleição, alvitre esse que foi posto em 
discussão. 

Depois de ligeira troca de opiniões a respeito, ficou 
resolvido convocar-se para 17 do corrente uma segunda 
assembléa da secção, para o mesmo fim. 

O Sr. Presidente faz á casa as três communicações 
abaixo: 

a) — que, utilizando- se da bôa vontade do sócio Sr. 
Dr. Luiz Ayres de Almeida Freitas, em cumprimento á 
observação final dos estatutos que ordena o registro dos 
mesmos na repartição competente, para os fins de direito, 
o que foi feito sem despeza alguma para a Sociedade e 
encarregando-se aquelle illustre consócio de todas as dili- 
gencias necessárias; 

b) — que o apparelho para projecções luminosas en- 
commendado no extrangeiro pela Sociedade, já se acha em 
Santos, tendo sido encarregado o consócio engenheiro Dr. 
J. Hacker de montal-o na sede da mesma, onde o referido 
apparelho ficará á disposição dos Srs. sócios; 

c) — o fallecimento do sócio correspondente Coronel 
Oeorge Eari Church, occorrido em Londres no dia 5 de 
de Janeiro ultimo. 

A respeito desta ultima communicação a casa resolve 
por proposta do Sr. Presidente, que seja expedido em nome 
da Sociedade, um officio de condolências á familia do finado. 



— 61 — 

Sessão de 14 de Abril de IQIO. 

Presidente: Dr. Barros Barreto. 
Secretario: Dr. Belfort Mattos. 

O Dr. Presidente depois de prestar conta do expe- 
diente, aborda o assumpto principal da secção — instal- 
lação da Secção de Engenharia. 

Dada a palavra ao Dr. Theophilo de Souza para a 
leitura do Regulamento Interno da Secção de Engenharia, 
é iniciada a discussão, depois da casa tomar conhecimento 
do projecto de estatutos. 

Passou-se em seguida, á discussão detalhada dos arti- 
gos do regulamento. 

O Dr. Etarros Barreto propõe que se inclua, entre 
as linguas acceitas nas communicações, o allemão, e, sob 
proposta do Dr. Hottinger» é ampliada a idéa acceitan- 
do-se qualquer lingua para ser admíttida na redacção das 
communicações alludidas. 

O Dr. Edmundo Krug pergunta em que secção da 
sociedade devem ser congregados os architectos; depois 
de pequena discussão, ficou deliberado que elles pertençam 
á Secção de Engenharia. 

Entrando em discussão o artigo 13 do regulamento é 
sua redacção approvada, assim como os demais artigos, 
encerrando-se a l.a discussão do Regulamento Interno. 

Abrindo- se a 2.» e a 3.» discussões são approvados 
todos os artigos do Regulamento, o qual deverá ser im- 
presso na «Revista». 

Encerrada a sessão ordinária, abre -se a da Secção de 
Engenharia. 



Sessão de 28 de Abril de IQIO. 

Presidente: Dr. Barros Barreto. 

Secretario ad-hoc: Dr. J. Bierenbach Lima. 

Aberta a sessão é lida a acta da sessão de 14 do cor- 
rente, sendo approvada sem debate. 

E' lido o expediente, que consta de diversos convites 
á Sociedade. Sendo o fim da presente sessão a installação 
da Secção de Sciencias Juridicas, o Sr. Presidente lembra 
que se deve fazer a eleição de um membro da Directoria. 

O Dr. Stapler propõe que o Dr. Oliveira Coutinlio 
fique auctorizado a organisar difinitivamente, com qualquer 
collega de secção, os estatutos da secção de Sciencias Júri- 



— 62 — 

dicas, convidando um dos collegas para fazer parte da Di- 
rectoria. 

Posta em discussão, a votação approva a proposta 
Passando-se á segunda parte o Dr. Hottinger pede 
a palavra e expõe, por meio de projecções luminosas, es- 
tampas de borboletas e bezouros, que tendo soffrido altera- 
ções de temperatura, quando em desenvolvimento, apresen- 
tam, quando indivíduos perfeitos, modificação de coloridos. 



Sessão de 2 de Junho de IQIO. 

Presidente: Dr. Barros Barreto. 
Secretario: Dr. Theodureto de Camargo. 

Lida e approvada a acta da sessão anterior deu-se conta 
do expediente. 

Trata-se em seguida e durante toda a sessão da fun- 
dação da Secção de Agricultura e Zootechnia, dizendo, por 
fim, o Sr. Presidente que se congratulava com a Sociedade 
Scientifica pela sua fundação, julgando que a mesma virá 
prestar relevantes serviços ao Estado de S. Paulo. 



Sessão de 18 de Agosto de IQIO. 

Presidente: Dr. António de Barros Barreto. 
Secretario: Dr. Theodureto de Camargo. 

O Dr. Presidente apresentou o regulamento interno da 
Secção de Sciencias Juridicas e Sociaes da Sociedade Scien- 
tifica de S. Paulo, assignado pelos Srs. Directores Drs. Bo- 
nifácio de Oliveira Coutinho, António Dino da Costa Bueno 
e Luiz Ayres de A. Freitas, que deve ser publicado no pró- 
ximo numero da Revista. 

Passando-se á segunda parte da ordem do dia, por 
proposta do Dr. Presidente, ficou resolvido que se convi- 
dasse cada um dos sócios para uma reunião a realizar-se 
no dia 25 deste, afim de se deliberar sobre a maneira de 
commemorar a data da fundação da Sociedade. 

O Dr. E. Krug» propõe que se officie ao Dr. Pádua 
Salles, Secretario da Agricultura, felicitando-o pela acquisi- 
ção das grutas calcareas da Zona de Yporanga, proposta 
esta que foi unanimemente approvada. 



63 — 



Actas lia Secção ile Seínieias physicas, elíiíeas e lataraas 



Sessão de 7 de Abril de 1910. 

Presidente: Dr. Theodureto de Camargo. 
Secretario: Dr. Barros Barreto. 

Estiveram presentes os Snrs. Drs. Reynaldo Ribeiro, 
Luiz Ayres, Vital Brazil, Edm. Krug, Splendore, Carini, 
Stapler, Pestana, Francisco Iglesias, Hottinger e Edwail. 

Occupou a attenção do auditório o Sr. Dr. Carini que, 
depois de usar a palavra entregou as linhas abaixo escrip- 
tas, resumo de sua communicação, para ficarem lavradas 
em acta. 

Eis as linhas: 

Dr. A. Carini» <3:Sobre a haemogregarina muris». 

In un topo selvático catturato alFIstituto fu incontrata 
rhaemogregarina muris. Essa trovas! ali' interno dei leuco- 
citi mononucleari e nel caso in questione era molto nume- 
rosa, Pochi sono i mononucleari che non sono parassitati. 

È la prima emogregarina di mammiferi segnalata nel- 
TAmerica dei Sud. 

Depois de entregues estas linhas o Sr. Dr. Carini poz 
a disposição do auditório o seu microscópio com prepara- 
dos que illustraram o assumpto em questão. 



Em seguida a um pequeno intervallo usou da palavra 
o Sr. Pestana lendo a communicação que vai publicado em 
artigo separado, illustrando-a com preparados microscópicos. 

Em seguida fez uso da palavra o dr. Splendore que 
fez diversas considerações sobre o mesmo assumpto. 

O dr. Vital acha que por emquanto é prematura a idéa 
de identificação com a piroplasmose canina — estudada por 
Piano e Oalli Valério — porquanto os symptomas não se 
approximam muito dos descriptos por aquelles investiga- 
dores. E sobre a objecção do dr. Carini de se não tratar 
da piroplasmose pela exiguidade de parasitas no sangue 
peripherico, acha que essa exiguidade é mais apparente e 
devida a um defeito da technica. Na opinião do dr. Vital 
trata-se de uma piroplasmose, mas não idêntica á estudada 
na Europa, Ásia e Africa. 

O dr. Carini usando da palavra diz que numa memo- 
ria que ha tempo escreveu para o Rio, já suppoz que o 



— 64 - 

nambiuvú fosse uma piroplasmose; mas em observações 
posteriores notou algumas differenças na symptomatologia, 
principalmente pelas abundantes hemorragias. 

O dr. Splendore apresenta alguns exemplares d'um 
hirudineo sanguisuga de rans em que encontrou as formas 
de evolução dum trípanozoma da ran (Leptodactilus ocilla' 
tus), accrescentando que não conseguiu obter com o mes- 
mo ectoparazita transmissão de hemogregarinas em varias 
rans de experiência, e acha, por isso, que não pode ser 
considerado hospedador destes haematozoarios emquanto 
certamente o é do outro. 

O dr. Splendore apresenta preparações microscópicas 
duma nova espécie de mixosporidio por elle descoberto 
nos rins do Leptodactilus ocillatusy classificando o dito pa- 
rasita no género Leptotica. Fala sobre os mixosporidios 
dos batrachios e apresenta também preparações de fysto- 
discu^s immersus. 



Sessão de 5 de Maio de IQIO. 

Presidente: Dr. A. de Barros Barrettò. 
Secretario: Dr. J. Bierrembach Lima Júnior. 

Aberta a sessão é lida e approvada sem debate a acta 
da sessão anterior. 

O sr. presidente lembra aos srs. sócios que a Socie- 
dade, quando fez a encommenda do apparelho de proje- 
cção, resolveu emittir acções para com o resultado fazer as 
despezas da acquisição, e, havendo ainda algumas das re- 
feridas acções, avisa aos srs. sócios, que quizerem adqui- 
ril-as, que as mesmas se acham com os membros da Di- 
rectoria. 

O sócio Sr. Dr. Hottínger apresenta diversas chapas 
de preparações microscopias, que são projectadas pelo ap- 
parelho, e, como phenomeno, apresenta um pinto com 4 
pernas, sendo duas delias correspondentes ás azas. 



Sessão de IQ de Maio de IQIO. 

Presidente: Dr. Carini. 

Secretario: Dr. Júlio Bierrembacli Lima. 

Aberta a sessão pelo Sr. Reynaldo Ribeiro, director 
thesoureíro, foi lida e approvada a acta da sessão anterior. 



65 — 

O expediente constou do recebimento de revistas e 
publicações scientificas. Passando-se á segunda parte da 
ordem do dia o Sr. Ribeiro convida o Dr. Carini a pre- 
sidir a sessão, tendo este acceitado o convite. 

O Dr. Edmundo Krug trata dos projectos da Peni- 
tenciaria da Capital, assumpto este que tem occupado a 
attenção de todos os engenheiros e architectos aqui resi- 
dentes. Fala detalhadamente do edital publicado pelo go- 
verno, sobre a concurrencia para a construcção da Peni- 
tenciaria, achando que esse edital deveria conter, alem dos 
nomes da commissão julgadora como é costume em quasi 
todos os paizes da America do Norte e da Europa, um 
programma exacto sobre as exigências do governo. Diz 
que esta falta occasionou a grande differença de preços 
totaes dos diversos projectos apresentados pelos nove con- 
correntes. Acha que o jury foi parcial por ter classificado 
somente os projectos do systema de pavilhão, havendo 
entre os outros, de systema radial, concepções originaes e 
superiores, em disposição, á planta approvada em primeiro 
logar. 

Pede ainda á Sociedade que se interesse pelo assum- 
pto na secção de Engenharia, 

Em seguida é dada a palavra ao mesmo consócio que 
apresentando chapas diapositivas, que são mostradas no 
apparelho projector, trata do seu artigo publicado em Hn- 
giia allemã no ultimo numero da revista sobre uma viagem 
que fez ao Rio Paranapanema nos annos 1906 a 1907. 



Sessão de 26 de Maio de 1910. 

Presidente: Dr. Vital Brazil. 

Secretario: Dr. Tlieodureto de Camargo. 

Assume a presidência o Dr. Hottinger que convida 
para presidir a sessão o Dr. Vital Brasil e para Secretario 
o Dr. Tlieodureto de Camargo. 

Lida e approvada a acta da sessão anterior, deu- se 
conta do expediente. 

Em seguida passou-se á eleição da Directoria para a 
secção de Sciencias Physicas, Chimicas e Naturaes, sendo 
acciamados, por unanimidade, para Presidente: o Dr. Vital 
Brazil e para Secretario o Sr. Bruno Pestana. 

Passando-se á segunda parte da ordem do dia, o Dr. 
Vital propõe que a Sociedade faça uma serie de conferen- 
cias publicas sobre assumptos scientificos de interesse geral. 



66 — 

Approvâda esta proposta o Dr. Hottínger propõe que da 
organisação dessas conferencias fiquem encarregados os 
directores das diversas secções, presididas pelo Presidente 
da Sociedade. Posta esta proposta em votação foi unani- 
memente approvâda. 

Ficou deliberado que se convocasse uma sessão espe- 
cial para tratar da organisação das conferencias e que o 
Sr. Secretario communicasse esta resolução aos Srs. Direc- 
tores das diversas secções. 



Sessão de 7 de Junho de 1910. 

Presidente: Dr. Reynaldo Ribeiro. 
Secretario: Dr. Theodureto de Camargo. 

O Dr. Vital Brasil resumindo a monographia publicada 
nas Memorias do Instituto Oswaido Cruz, pelo Dr. Carlos 
Chagas, sobre uma nova trypanomiase humana, propõe 
que a Directoria da Sociedade officie áquelle investigador 
felicitando-o pelo seu explendido trabalho. Esta proposta 
foi unanimemente approvâda. 

O Dr. Presidente diz que está sobre a mesa um officio 
do consócio Dr. Edmundo Krug solicitando demissão de 
membro da Sociedade, de cujo officio o Sr. Secretario ia 
proceder á leitura. — Em seguida foi approvâda unanime- 
mente a seguinte proposta apresentada por diversos sóci- 
os: «A Secção de Sciencias Physicas, Chimicas e Naturaes, 
tomando conhecimento do officio em que o consócio Sr. 
Dr. Edmundo Krug pede demissão de membro da Socie- 
dade Scientifica, e achando que a qualquer sócio é permit- 
tido o direito de critica scientifica, uma vez que a mesma 
seja de caracter impessoal, resolve pedir á Directoria para 
não tomar em consideração aquelle pedido de demissão». 

O Dr. Stapler diz que devendo passar brevemente por 
S. Paulo o Professor Samuel Pozzi, notável scientista, pro- 
põe que a Sociedade nomeie uma commissão para recebel-o. 
— Esta proposta foi approvâda, nomeando-se membros dessa 
commissão os Srs. Drs. Splendore e Carini, que acceitaram 
a incumbência. 

O Dr. Splendore propõe que a Sociedade proceda 
do mesmo modo que vae proceder para com o Professor 
Pozzi, para com outros scientistas que vierem a S. Paulo. 

Passando-se á segunda parte da ordem do dia o Dr. 
Presidente diz que tendo ficado deliberado que a Sociedade 
realise conferencias publicas de vulgarização scientifica e já 



— 67 - 

tendo sido marcado o dia 23 para uma reunião especial 
para aquelle fim, lembrava a idéa de se fazerem, nas diver- 
sas secções, conferencias preliminares que servissem de ini- 
cio ás conferencias publicas. 



Sessão de 7 de Julho de 1910. 

Presidente: Dr. Edmundo Kntg. 
Secretario: Dr. Bruno Rangel Pestana. 

Aberta a sessão pelo Sr. Presidente, esta cumprimenta 
o Dr. Lutz que se acha por alguns dias entre nós, dando- 
nos o prazer de assistir ás sessões desta Sociedade. 

No expediente foi lida uma carta da familia do Sr. Ale- 
xander Agassiz agradecendo os pezames enviados pela So- 
ciedade. 

O Dr. Lutz, occupando-se da entomologia clinica faz 
um resumo dos seus trabalhos no Instituto de Mangui- 
nhos sobre os insectos sugadores de savgm. Tratando dos 
Borrachudos, passa a descrever as diversas espécies, entre 
as quaes algumas novas. Descrevendo a biologia desses 
animaes diz que sugam o homem, o cão e o cavallo, não 
sabendo se atacam também a vacca. 

Tratando da classificação diz que é mais fácil de clas- 
sifical-os pelos casulos que pelos adultos. 

Não podendo mais achar differenças* macroscópicas fez 
diversas preparações microscopias, encontrando ainda grande 
differença em espécies que se assemelhavam a olho des- 
armado. 

Diz que é interessante a distribuição geographica das 
espécies. Elles vão desde o nivel do mar até á base das 
Agulhas Negras, onde encontrou uma espécie nova. 

Dentre as 20 espécies citadas só 12 atacam o homem 
de um modo constante. 

Diz que os Simulideas atacam o cavallo somente du- 
rante o crepúsculo, havendo algumas espécies que o ata- 
cam durante o dia. 

Os Simulideas são animaes que voam bem e podem 
ir a grande distancia. 

O Dr. Caríni diz que no anno passado, estando no 
Instituto Pasteur, ahi se achava o Sr. Oeorgi Vitici que lhe 
disse que na Siena havia uma moléstia que era talvez trans- 
mittida por uma Simulidea, de que havia grande quanti- 
dade. Tendo encontrado o Sr. Oeorgi Vitici uma Chritidia 



- 68 

no Simulidnssi achava que essa moléstia era transmittida 
por um Simulidussi. 

O Dr. Lutz diz que os casos de morte produzidos 
por essa moléstia da Siena, eram talvez devidas aos pró- 
prios Simulidussi, que atacam os animaes produzindo-lhes 
lesões. 

O Dr. Caríni diz que estando persuadido da impor- 
tância dos insectos sugadores de sangue, como transmis- 
sores de moléstia, examinou sempre os intestinos desses 
insectos. Examinando um piolho de gallinha encontrou 
um Spirochetia muito ágil que tinha o movimento de um 
trypanosoma. Não sabe se este spirochetia .é conhecido e 
se é um hospede banal. 

O mesmo consócio faz uma communicação preventiva 
sobre elemento que encontrou no pulmão de um rato que 
já teve trypanosoma hemogregarinus. Estes elementos cor- 
respondem aos desenhos de Chagas. 



Sessão de 28 de Julho de 1910. 

Presidente: Dr. Barros Barreto. 
Secretario: Dr. Edmundo Knig. 

Ficou resolvido que fosse nomeada uma commissão 
de três membros, para receber o professor da Universidade 
de Parma Sr. Dr. Ernesto Bertarelli, devendo esta commis- 
são ser composta dos Srs. Drs. Splendore, Krug e Stapler, 
sendo ella portadora de um officio, communicando ao Sr. 
Dr. Bertarelli a sua eleição para sócio correspondente. 

O Dr. Barros Barreto communicou a resolução to- 
mada em relação á publicação da revista e leu um officio 
que sobre este assumpto dirigiu ao Sr. Dr. Vital Brazil. 

O Dr. Carini falia sobre alguns novos medicamentos 
especialmente sobre a «Tripanblau», aconselhada nestes úl- 
timos tempos para o tratamento de Tristeza de bovideos. 
A Tripanblau usa- se em injecções subcutâneas d'uma so- 
lução aquix a 2 7o ^m doze de 100 — 150 c/cubicos. 

Tratando -se d*uma moléstia muito grave e bem fre- 
quente entre bovideos aqui importados, o Dr. Carini es- 
pera ter occasião de experimentar este novo remédio. 



— 69 — 

Sessão de 4 de Agosto de 1910. 

Presidente: Dr. Vital Brazil. 
Secretario: Dr. Edmundo Knig. 

Presentes, além dos acima mencionados, os consócios: 
Drs. Carini, Stapler, Splendore, Paula Souza, Francisco 
Iglezias, Gabriel Raja, Dorival de Camargo, Theodureto de 
Camargo, Bruno Pestana e o professor Ernesto Bertarelli, 
lente da Universidade de Parma. 

Ao abrir a sessão o Dr. Vital Brazil saúda o Dr. 
Bertarelli e communica-lhe que a Sociedade nomeou-o 
Sócio correspondente. 

O Dr. Bertarelli agradece esta nomeação. 

Passando -se á 2.» parte da ordem do dia o Dr. Vital 
Brazil convida os srs. sócios presentes a examinarem as 
preparações da moléstia Nambyuvú que ataca os cães; re- 
ferindo-se ao trabalho do Dr. Bruno Pestana que vai publi- 
cado n'esta revista, são projectados desenhos dos parasitas 
desta moléstia pelo apparelho da Sociedade. Trata o sr. 
Presidente de uma Filaria encontrada nos ratos que habi- 
tam as margens do Rio Pinheiros, encontrado pelo consó- 
cio Dr. Francisco Iglesias; é uma Micro filaria cujo macho 
mede 20 mill. de comprimento e 102 microm. e a fêmea de 
65 a 95 mill. de comprimento e 115 microm. de largura. 
O Dr. Splendore julga tratar- se do rato denominado Mus 
ratus. O hospedador é mostrado vivo e preparações de 
sangue são projectados pelo apparelho. 

O Dr. Splendore trata este de um microorganismo 
verificado por elle como sendo um interessante tripano- 
soma de pássaros, mostrando algumas figuras relativas ao 
mesmo parasita. 

O Dr. Stapler refere-se a uma operação praticada por 
elle, por diversas vezes, denominada Vasostomiay quando 
se trata da Orchite. Promette escrever um artigo sobre o 
assumpto na próxima revista. 

O Dr. Carini fala sobre a esterealisação das pessoas 
atacadas de moléstias hereditárias afim de evitar que taes 
indivíduos possam procrear. 



— 70 



Actas da Secção de Engenharia 



Sessão de 17 de Março de 1910. 

Presidente: Dr. A. B. Barreto. 
Secretario: Dr. Theophilo Souza. 

Segundo o que ficou resolvido na reunião de 10 do 
corrente, procedeu-se, por escrutínio secreto, á elação de 2 
membros da Directoria da Sessão, com o seguinte resultado: 

Dr. Clodomiro Silva ... 9 votos 

Dr. J. Hacker 4 » 

Dr. Belfort Mattos .... 4 * 

Dr. Arthur Krug 1 » 

Proclamado o resultado, isto é, a escolha dos Drs. 
Clodomiro Silva e Hacker, o Sr. Presidente da reunião 
convida o Dr. Clodomiro Silva a occupar o seu logar, o 
que foi feito, assumindo o Dr. Clodomiro a presidência 
e agradecendo a sua eleição. 

Depois de troca de idéas a respeito da constituição da 
Secção, resolve-se tratar de organizar o regulamento interno 
da mesma, devendo o respectivo projecto ser apresentado 
na reunião a celebrar-se, segundo o estipulado, no dia 14 
de Abril, na qual também farão communicações académicas 
os Srs. consócios Belfort Mattos e Barros Barreto, 
fallando o primeiro sobre «Nivellamento expedito» e a se- 
gunda sobre «As fontes». 



Sessão de 14 de Abril de 1910. 

Presidente: Dr. J. Hacker. 
Secretario: Dr. Theophilo Souza. 

O Dr. Barreto propõe um voto de agradecimento ao 
Dr. Clodomiro, pela iniciativa que tomou de organizar a 
Secção de Engenharia, offerecendo o projecto de regimento 
interno, que foi approvado em sessão desta mesma data, 
pela Directoria da Sociedade. A proposta foi unanimemente 
apoiada. 



71 — 

O Sr. Hacker passa a presidência ao Dr. Clodomiro, 
o qual dá a palavra ao Dr. Barreto para fazer a confe- 
rencia para a qual se acha inscripto. O conferencista co- 
meça a falar sobre «As fontes», e termina promettendo 
continuar em sessões subsequentes. 

A respeito das idéas expostas esta noite, falou também 
o Sr. Hacker, bem como o Dr. Hottinger. 

O Sr. Presidente propõe que a discussão da confe- 
rencia do Dr. Barreto seja adiada para depois da termi- 
nação da mesma, que está apenas na 1.» parte. 

O Dr. Barreto pede inscripção para a próxima assem- 
bléa, afim de continuar a sua exposição. 



Sessão de 12 de Maio de 1910. 

Presidente: Dr. Clodomiro da Silva. 
Secretario: Dr. Júlio Lima. 

O Dr. Barros Barreto pede a palavra para commu- 
nicar que o Dr. Theophilo P. de Sousa deixará de com- 
parecer por ter seguido viagem para a Europa, propondo 
para substituil-o no cargo de secretario o secretario em 
exercido. 

Esta proposta é acceita. 

O Dr. Belfort de Mattos pede a palavra para fazer 
a sua conferencia sobre O nivelamento barometrico expedito. 

O Dr. Barros Barreto pede a palavra e propõe -se 
a fallar sobre a determinação Latitudes com o auxilio do 
Sextante. 



Ada da Secção de Agricultura e Zootechnica 

Primeira sessão. 

Presidente: Dr. R. Hottinger. 

Secretario: Dr. Theodureto de Camargo. 

Aos 12 dias do mez de Maio de 1910 na sede desta 
Sociedade foi inaugurada a Secção de Agricultura e Zoote- 
chnia, sendo Presidente o Sr. Dr. Hottinger e l.o Secre- 
tario o Sr. Dr. Theodureto de Camargo. 



- 72 — 

O Sr. 1.0 Secretario lê o regulamento que é approvado 
unanimemente. 

Depois procede-se á eleição do Presidente e Secretario. 

Apurada a eleição verifica-se o seguinte resultado: 

Para Presidente, Dr. Roberto Hottínger por 4 votos 
e para Secretario, o Dr. Theodureto de Camargo tam- 
bém pelo mesmo numero de votos. 



L. 



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Sociedade Scientifica de S. Paulo 



Volume vi 



Outubro de 1911 



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RedacçSo e s£de social — Rua 15 de NovemlM-o, n.» 20. 2fi andar 



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Nova phmêe^Eiiezer dos Sonetos Saraiva • . 1—2 

A nnlfomritaçlo da hora ao Braafl e ot fuaos horarloi 

<-/. M Bel/ort Mattos. . • . . 8 >I0 

O reglman dos ventoa cm S. Pãula—EUezer dos Sanctos 

Sarahfã • . • • • . 11^15 

Apastlvaçio pronomUkiA^ Álvaro Oaerra . » • 18^18 

A (tecllnaçio mai^aetica cm S. Paulo—/. N. Belfort Mattos . 19-111 
LMntalnbríté à Rio da Janeiro en nn^Naegeli A^kerblom 22-8S 
O cófta daa mattaa e tua \t^%\9,^9M^José Rangel Bel/ort 

de Mattos ...... M-S9 

Al fontes . . .80-35 

Sociedade Sdentlflca de S. Paulo t 

Comrouiiicaç6es . . . . .36-41 

Resoluções . . • • . 41—42 

SessOes solemnes • • .42-48 

A nova directoria . • • .48 

Relatório apresentado á Assembléa Oeral referente ao pe- 
ríodo social de 1910-1811 .... 49-52 

Parecer do Ccmselho Fiscal .52 

Sócios propostos e admlttldos em 1910 e 1911 83— SS 



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' 1911 



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Redacçf o t tMt Mcfal -* Raa 15 de Novembro, •• S9, t.^ 



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Pretendemos publicar a Revista trimensal- 
mente, por julgarmos que esta medida nao só 
consulta melhor os interesses financeiros da So- 
ciedade, mas também dá opportunidade a que se 
preparem edições de leitura mais variada e ma- 
terial mais abundante, de modo a tornar a Re- 
vista da Sociedade Scientifica uma publicação 
digna da corporação de que é orgam. 

No intuito de tornar em realidade este nosso 
objectivo, e para que a Revista seja a expressão 



L, Soe. /q. flé 



_ o 



da vida de nosso grémio, resolvemos pôr em 
practica, tanto quanto seja possível, o seguinte 
programma : 

a) Só serão publicados os trabalhos dos 
sócios ; 

b) Não será permittido o emprego de outra 
lingua que não a vernácula, exceptuando-se nos 
trabalhos, cuja divulgação no estrangeiro seja 
de interesse practico para o nosso paiz, e ainda 
assim com a traducção parallela na lingua do paiz; 

c) Serão publicadas na integra todas as com- 
municações que os Snrs. sócios fizerem nas ses- 
sões académicas da Sociedade ; 

d) As resoluções adoptadas nas varias ses- 
sões serão publicadas, sob titulo especial, para 
conhecimento dos Snrs. sócios; 

e) Daremos também, em uma secção espe- 
cial, um extracto das mais recentes descobertas, 
invenções e aperfeiçoamentos scientificos ; 

f) O catalogo da Bibliotheca da Sociedade, 
de accôrdo com a classificação mais racional, será 
pouco a pouco publicada nas columnas da Revista. 

Devido a grande accumulo de matéria no 
presente numero da Revista, não nos é possivel 
publical-a com todas as secções acima menciona- 
das, porém fal-o-emos do próximo numero em 
diante. 

Agradeceremos, com o máximo prazer, todas 
as suggestões conducentes a melhorar, tanto a par- 
te intellectual, como a parte material da Revista. 

Aproveitamos a opportunidade para aqui dei- 
xar consignados nossos agradecimentos pela con- 
fiança em nós depositada pela Sociedade Scien- 
tifica de S. Paulo, confiando-nos a direcção de 
seu orgam. 

Eliezer dos Santos Sarafvw, 
3>ítectcr da Revista. 



— 3 — 



A unifopmisação da hora no Brasil 
e os fusos horários ^*^ 



A uniformisaçào (la liora pela adopção dos fnsos 
horários é um assir.iipto (juc bem merece a attençào 
do nosso meio scientifico, pois que está li^íado, nào só 
ao problema das communicações entre os Estados Bra- 
sileiros, como também se prende ás relações interna- 
cionaes, e de tal magnitude se reveste uma deliberação 
que tenda a uniformisar a contagem do tempo que, 
para promover a sancção de um systema uniforme da 
hora universal, convocaram-se dois congressos, dos 
quaes o de 1884, realizado em Washington, tratou de 
resolver a questão de modo tal, que as horas marcadas 
nas differentes partes do mundo differissem unicamente 
de um numero inteiro de horas não attingindo o des- 
accôrdo nem aos minutos, nem aos segundos. 

O estabelecimento da hora official no Brasil já nos 
preoccu|)a ha muitos annos, e a construcção do Obser- 
vatório Meteorológico, que se está edificando na Ave- 
nida Paulista, 6 mais um passo dado para o estabeleci- 
mento da alludida Hora Official. 

Mas esta questão, versando sobre a contagem do 
tempo, não é moderna e, para mostral-o, será neces- 
sário remontar aos primeiros tempos da astronomia en- 
tre os chaldeus. 

Desde essas remotas eras, já o ''nychtemero'*, isto 
é, o período abrangendo o dia e a noite, dividia-se em 
24 partes eguaes, denominadas horas, se bem que alguns 
povos da antiguidade, por excepção, tivessem divisões 
muito differentes e deseguaes para a contagem do tempo. 

Nos poemas homéricos encontram-se os dias cons- 
tituídos por três intervallos, os quaes eram, segundo He- 
siodo, presididos pelas três filhas dç Júpiter e Therais: 
Eunimia, Dicéa e Irene, isto é: a lei, a justiça e a paz. 

Também os romanos, na sua infância, procediam 
como os gregos, e dividiam propriamente o dia em 
mane, )neridiese suprema, subtendendo se *tempestas». 

Comtudo, a divisão mais seguida, e que mais se 
generalizou em Roma, considerava o dia constituído 
de duas partes: tempiis ante meridianum e tempus 
post meridianum, ou tempo antes e depois do meio dia. 

(*) BtU meinori* (ol apresentada e lida na tcuio de 27 de Abril do corrente anno. 



Só mais tarde começaram os romanos a empregar 
a divisão do dia em 12 horas, <|uan(lo aprenderam a 
fazer u?o dos relógios do sol, mais ou menos 291 an- 
nos ante$ de Christo. 

Ao passo que os gregos e os romanos dividiam 
assim o nycthemero em duas secções de 12 horas, ou- 
tros povos contavam de um até vinte e quatro, segui- 
damente, esses intervallos eguaes, o que lhes valeu a 
denominação de horas eguinoxiaes, em opposição ás 
primeiras, que variavam segundo a duração desegual 
das noites e dos dias. 

Com eífeito, as horas não podem ter a mesma du- 
ração nos logares situados em differentes latitudes, como 
também, no mesmo logar, as horas do dia augmentam 
desde o solisticio do inverno até ao solisticio do verão, 
decrescendo, em ordem inversa, do verão para o inver- 
no, só existindo egualdade entre o dia e a noite, por 
occasião dos dois equinoxios ou para os pontos situa- 
dos sobre o Equador. 

Segundo uns, deve-se a Anaximandro, segundo ou- 
tro, deve-se a Anaximene. a introducção, na Grécia, do 
relógio babylonico, para o qual o dia se compunha de 
duas partes, com 12 horas cada uma. 

A titulo de curiosidade, recordaremos que os ita- 
lianos já contavam as horas de 1 a 24, a partir do pôr 
do sol, o que tinha o duplo inconveniente de alteiar a 
correspondência com o dia civil, e não permittir que 
começasser» elles no mesmo instante, nas quatro es- 
tações do apno. 

Hoje porém, ha três modos de contar as horas : o 
astronómico, que faz começar o dia ao meio dia, e coor- 
dena os intervallos horários de 1 a 24; outro que biparte 
o nycthemero em dois periodos de 12 horas, começando 
á meia noite e indo até ao meio dia, e do meio dia 
á meia noite seguinte ; finalmente outro que conta as 
horas de 1 a 2-1, a partir de meia noite até á meia 
noite que se segue. E' este o modo adoptado hoje para 
a contagem civil do tempo nos paizes mais adeantados, 
e, pedindo a adopção d*este systema, fazemos votos 
pelo estabelecimento da hora legal conforme a propos- 
ta votada no Congresso em Washington, e n'esse em- 
penho temos muito trabalha':'o, obtendo já que o go- 
verno incluisse o serviço da hora no programma dos 
trabalhos do Observatório de S. Paulo, que o Exmo. 
Snr. Dr. Secretario da Agricultura mandou edificar. 



- 5 — 

A incerteza da hora, podendo occasionar contesta- 
ções judiciarias, principalmente no que toca aos prazos 
dos vencimentos das lettras, obrigações, etc, impõe 
que a hora legal seja perfeitamente definida e conheci- 
da do pubhco. 

Parece-nos mais que a hora official a doptar-se em 
S. Paulo, Paranaguá e Santa Catharina, bem como no 
Rio de Janeiro, deve ser dada conforme os fusos horá- 
rios internaícionaes, e. para sermos bem comprehendi- 
dos, precisamos explicar em que consistem taes fusos. 
Começaremos dizendo que esta questão se prende ás 
resoluções adoptadas nos congressos internacionaes de 
Roma e Washington, nos quaes se tratou da escolha 
do primeiro meridiano, que deveria ser acceito como 
fundamental para as nações cultas. 

N'este ultimo congresso quasi ficou unanimemente 
acceito o meridiano de Greenwich, e, de accôrdo com 
tal escolha, acha-se actualmente o globo dividido em 
24 fusos de 1 hora ou 15^ cada um, os quaes têm, nos 
respectivos meridianos centraes, a differença exacta de 
1 hora, para um instante qualquer, isto, bem entendido, 
quando os fusos forem consecutivos. Havendo um, dois, 
três ou mais fusos de permeio, a differença de tempo 
entre os dois fusos extremos será de duas, três ou 
mais horas. 

Como a graduação dos fusos se faz para o oriente 
a partir de Greenwich, o Brasil ficou situado dentro dos 
fusos XIX, XX, XXI e XXII, sendo sua hora egual á 
de Greenwich menos 5, 4, 3 e 2 horas. 

A Capital do Brasil e quasi todo o Estado de S. 
Paulo estão situados no fuso XXI, e deverá ter a mes- 
ma hora que o Rio de Janeiro, Belém, S. Luiz do Ma- 
ranhão, Therezina, Fortaleza, Bahia, Victoria, Curityba, 
Florianópolis, Porto Alegre, Goyaz, Bello Horizonte, etc. 

A adopção da mesma hora para todos os pontos 
aa Terra, situados dentro de um fuso horário, é neces- 
sário como um meio de regular a nossa vida social, 
facilitando as relações de toda a sorte, entre as diver- 
sas nações cultas do globo. 

Após o congresso de Washington, seguiram 26 na- 
ções o systema da hora official e 20 unicamente se 
subordinaram ao meridiano de Greenwich, conservan- 
do as 16 restantes a hora dada de accôrdo com o 
meridiano de suas capitães ou de seus observatórios 
principaes. 



Em todas as nações que adoptarem o systema da 
hora universal, tendo como base o meridiano de Gre- 
enwich, os relógios em qualquer occasião marcam pre- 
cisamente o mesmo numero de minutos e segundos, 
só havendo discordância no ponteiro das horas. 

Como complemento das decisões (io cx)ngresso de 
Washington e para regular as transacções, partidas de 
trens e de vapores, bem como para abertura e encer- 
ramento de expediente, termos de vencimento de lettras, 
etc„ cumpre ter uma hora official, a qual deverá ser 
distribuída, por um observatório, ás repartições publi- 
cas. Praça do Commercio, estações ferro-viarias, etc. 

No observatório haverá um relógio padrão e trans- 
missões eléctricas, que fornecerão aos relógios secun- 
dários a hora certa e os rectificará uma ón mais vezes 
ao dia. 

Como ultimo e irrespondivel argumento aos que 
se opõem á adopção da hora universal dada pelo me- 
ridiano inicial de Greenwich, transcreveremos o seguinte 
artigo do brilhante e espirituoso scientista, o astrónomo 
escriptor Camillo Flamarion, que assim se manifestou 
a respeito : 

«O Journal Officiel, de 10 de Março de 1911, pu- 
blicou a seguinte lei: 

^Lei modificando a hora legal da França para 
pôl-a de accôrdo com o systema imiversal dos fusos 
horários^, 

O Senado e a Camará dos Deputados adoptaram, 

O Presidente da Republica promulga a Lei, cujo 
teor se segue: 

Artigo único,- -A hora legal na França e na Al- 
géria é a hora, tempo médio de Paris, retardada de 
nove minutos e vhtte e ///// segundos. 

A presente lei, deliberada e adoptadit pelo Sena- 
do e pela Camará dos Deputados , será executada 
como lei de Estado. 

Isto é decretar, por euphemismo, que o meridiano 
de Paris fica substituido polo de Londres (Observató- 
rio de Greenwiche, que a hora legal da França será, 
d'ora em deante, a hora da Inglaterra. 

Para não chocar susco})tibilidados patrióticas, que 
de ha muito impediam a adopção doesta proposição, o 
commissario do governo, Mr. Charles Lallemand, sábio 
membro do Bureau de Longitudes e do Instituto, Vic^- 



— 7 — 

presidente da Sociedade Astronómica de França, teve 
o cuidado de ministrar a pilula aos deputados e sena- 
dores sob esta forma disfarçada, sem pronunciar o 
nome do meridiano in<?lez adoptado d*ora em deante, 
como o primeiro meridiano do mundo. Esta formula 
a ning:uem fere, nenhuma discussão de rivalidade po- 
litica a envenenou, nem mesmo foi necessário invocar 
Vcnientc cordiale, e a lei passou nas duas camarás. Sa- 
be-se, de mais, que pelo seu modo de eleição, um gran- 
de numero de deputados e de senadores são forçosa- 
mente incompetentes nas questões scientificas e, n'este 
assumpto, só poderiam tudo embrulhar. 

Os derradeiros partidários militantes da suprema- 
cia do meridiado de Paris, meus amigos Janssen e 
Bouquet de la Grye, partiram para um outro mundo. 
De outro modo o negocio não teria corrido á revelia». 

Passa depois o popular e espirituoso escriptor a 
analysar a posição de duas cidades para as quaes o 
meridiano de Greenwich passaria muito próximo e lem- 
bra que Argentan estaria nos casos de possuir um pilar, 
mesmo sob o meridiano de Greenwich, que a nova lei 
poderia ter declarado perfeitamente bem: ^A hora le- 
gal da França é a da cidade de Argentan». 

E prosegue nos seguintes termos: 

«Mas seria isso um subterfúgio um pouco infantil, 
pois que, do facto, trata-se de adoptar o meridiano de 
Greenwich. 

Porque V 

Porque de ha muito, o meridiano de Greenwich 
foi adoptado nos cálculos astronómicos pela maioria 
dos paizes, por todas as possessões inglezas, cuja ex- 
tensão é considerável, por todos os Estados Unidos e 
o Ganadá, pela Austrália, etc. 

Ha já 27 annos que se trabalha n'este assumpto, e 
em 1884 um congresso internacional se reuniu em 
Washington com o fim de promover a unificação das 
horas de todos os povos do mundo, por isso que sua 
grande diversidade traz uma difficuldade perpetua nas 
communicações, (|ue se tornam cada vez mais geraes. 

Convencionou-se que as 24 horas do dia seriam 
repartidas com regularidade pelo sysíema de 24 fusos 
hoi*arios, sendo o primeiro determinado e regulado pelo 
meridiano de GnM^nwich. ('ada fuso differe de seu 
visinho justamente de 1 hora. O fuso inicial se esten- 
de a 15^ ou 1 h., parte a Este e parte a Oeste do me- 



— 8 — 

ridiano de Greenwich. Cada fuso tem, pois, 1 hora 
ou 15^ em longitude, compondo os 24 fusos os 360^ da 
circumferencia do globo. 

Todos os pontos de um fuso tem, a todo o instan- 
te, a mesma hora que o de meridiano central corres- 
pondente; por conseguinte, a hora de 1 fuso adianta- 
se exactamente de 1 hora sobre a de seu visinho de 
Oeste, e atraza-se outro tanto relativamente ao visinho 
de Este. 

Como consequência da decisão do congresso de 
Washington, 36 nações adoptaram uma hora official e, 
entre essas, 20 adoptaram também o meridiano de 
Greenwich ; outras conservaram, como base de seus 
systemas horários, ou o meridiano de suas capitães ou 
o de seu principal observatório. Tal foi o caso da Fran- 
ça, da Rússia e do Brasil, ([ue não tinham acceitado 
a hora universal. A lei actual completa a unificação 
para a França. 

Para traçar-se a carta geral de um globo é indis- 
pensável escolher um meridiano universal, que seja 
um ponto de partida das longitudes. Foi o que fizemos 
de ha muito, relativamente ao planeta Marte. Este me- 
ridiano é origem das longitudes, contando-se, de Oeste 
para Este, bem como o Equador, que é a origem das 
latitudes, tanto boreaes como austraes. 

Seria racional, em um globo como o nosso, divi- 
dido em mares e continentes, collocar este meridiano 
ao Oeste do continente principal, e assim o julgaram 
os nossos primeiros carthographos. 

As antigas cartas da PYança e da Europa, sob 
Luiz XIII, têm, para meridiano principal, o da Ilha do 
Ferro, a mais occidental das Canárias, porém o pa- 
triotismo de campanário não tardou a supplantar esta 
unidade. Luiz XIV fundou, em 1667, o Observatório 
de Paris, e Carlos II, em 1675 o de Greenwich, e tan- 
to um como outro preferiram seus meridianos locaes 
ao da Ilha do Ferro, e construiram-se cartas baseadas 
n'elles ; os portuguezes preferiram o meridiano de Co- 
imbra, outros propuzeram o de Jerusalém, como re- 
presentando a origem do Christianismo. 

Pouco a pouco o meridiano neutro das Canárias, 
que não teria suscitado discussões de rivalidade, foi 
desprezado, e hoje se reconhece a necessidade de a- 
doptar um meridiano único. 

Os inglezes, tendo conquistado a supremacia dos 



— 9 — 

maros, e o tridente de Ne}>tiiiio sendo o sceptro do mundo, 
como dizia Lemière, sustentam elles agora esse sceptro, 
com mão firme, e impõem-n'o a todos os povos. 

M. Hou(iuet de la (irye repetiu-me muitas vezes 
(jue esta razào não era sufficiente para sanccionar o 
l)rincipio, attendendo-se a (jue futuramente o sceptro 
poderia ser empunhado por outra potencia, tal como 
o Japão, mas a cousa está definitivamente feita . 

Vê-se, i)ois, íjue um dos maiores obstáculos ao es- 
tabelecimento (lo systema universal de fusos horários 
acaba de desapparecer, e a França (jue, por assim di- 
zer, chefiava a opposigão feita ao meridiano de Gre- 
enwich como universal, em bôa hora poz de parte o 
sentimento de bairrismo, estabelecendo, pelo decreto 
de 10 de Mart^o de 1911, o meridiano inglez como o 
primeiro meridiano i)ara a Republica Franceza e seu 
lerritorio de Aro(»lia. N'esta emer<»encia, só nos resta 
acompanhar a Fran(,*a, com quem sempre andamos 
alliados no assumpto em (juestão. 

Na discussão travada a propósito das vantagens 
a colher com o emprego (k)s fusos horários na conta- 
gem do tempo, foi lembrada a divisão do Brasil em 
duas grandes zonas limitadas pelo meridiano de 52*^ 
30* a (Jeste de (JrefMiwich, e o temi)o na parte orien- 
tal do paiz seiia atrazado de três horas relativamente 
ao relógio (ra(|uelle observatório, ao passo (pie a j>ar- 
te Occidental restante teria um ati*azo de 4 horas, com- 
parado ao tempo de,(ire(*nwich. 

Pare(»e-nos (pu» esta ideia deve merecer o applau- 
so de todos os consócios, pois realiza uma medida de 
grande alcance scientifico e de alto interesse social, 
(*ollocando o Hiasil ao lado das mais adiantadas na- 
ções do miuulo, (|ue teem já adoptado as resoluções 
votadas pelos congressos de Roma e de Washington. 

Insi)irado nas razões a(nma desenvolvidas, tencio- 
namos rc^correr á solidariedade das corpora(;ões scien- 
tificas em prol da adopção dos fusos horários, e ten- 
cionamos submetter á aj^provação do Terceiro Con- 
gresso Brasileiro de (Jeographia, (pie se reunirá em 
Curityba a 7 de Setembro próximo, a seguinte moção 
(Mid(n*eçada aos poderes coin])(^tentes : 

O Terceiro CoHf/resso Brasileiro de (k^xjntphid 
solicita doy'> poderes ptiblicos todo o sen j>j'eídi(/io e 
apoio no sentido de ser nnifortnisadff (t /fonf official 
do Brasil, diridindo-se o paiz em dnas zonas por 



— 10 — 

meio de accidentes physicos que corram o mais pró- 
ximo possível do meridiano de 62^ 30* a Oeste de 
Greenwich, tocando ao trecho oriental do paiz um 
tempo atrazado de 3 horas sobre o do meridiano in- 
glez e á parte occidental o tempo de Greenwich re- 
duzido de 4 horas K 

Assim, ao lado da Sociedade Scientifica de S.Pau- 
lo, se virão arregimentar auctoridades de alto valor 
moral e scientifico, que darão o necessário prestigio 
á reforma que se deseja introduzir na contaigem do 
tempo. 

27—4—1911. J. N. Belfort Mattos, 

Director-SccreUiio. 



— 11 — 
o regimen dos ventos em S. Paulo 



Entre os phenomenos atmosphericos (jiie desde as 
épocas mais remotas occuparam a atfenção dos inves- 
tigadores, occupa o vento o logar mais j)roeminente, 
não só pela sua continua occurrencia, mas também pela 
influencia (|ue este elemento exerci» na economia social. 

O Euro, o frio Bóreas e o A Tricô ardente, tào de- 
cantados por Homei-o e Virji^ilio nas admiráveis estro- 
phes da Illiada e da Eneida, insi)irando ao illustre 
poeta mantuano tão bellas onomatopéas reproduzidas, 
com rara felici<lade, em o idioma vernáculo, nas magni- 
ficas traducções de Lima Leitão e Odorico Mendes, 
eram o objecto da attençào craquelles povos antigos, 
que ensaiavam os jn-imeiros passos na con(iuista dos 
mares, abrindo novos horizontes á geographia, á civi- 
lização e ao progresso. 

Quantas e quão admiráveis Iiçõ(*s practicas não te- 
riam aprendido, atravez dos mares, affrontando ventos 
de regimen desconhecido, os arrojados navegantes da 
Phenicia, de Carthago e da (irecia, nas suas longin- 
quas expedições, realizadas á mercê dos vendavaes e 
tendo como guia as estrellas brilhantes das noites des- 
annuviadas ! 

A periodicidade do regimen dos ventos, sobre a 
qual tantos e tão concludentes estudos se teem reali- 
zado nos últimos tempos, devia, i)or certo, \tov c.iama- 
do a attenção d'a(pielles destemidos pioneií-os das con- 
quistas marítimas e n'elles fn*mado novos estimulos 
para novos emprehendimentos. E, com effeito, sabe-se 
que as motiçõcs do Oceano Indico, ventos i)eri()dicos 
que sopram n'a(iuella região (lo globo, foram minucio- 
samente estudadas pelo grande Aristóteles. E' fado 
também que os Árabes já as observavam desde os 
mais remotos tempos. 

No inicio, porém, da Edade Mo(l(»i*na, em que a 
Europa começou a expandir para além i!e suas fi*on- 
teiras o seu commercio e a civilização (lue renascia 
dos escombros da cultura antiga, foi que novos hori- 
zontes se abriram ao estudo (la meteorologia, e muito 
especialmente ao estudo do r(»gimen das correntes at- 
mosphericas. 



— 12 — 

A Christovam Colombo, o arrojado navegante ge- 
novez, que em 1492 abriu as portas do Novo Mundo 
á civilização occidental, deve-se a descoberta da regu- 
laridade dos ventos tropicaes de NE, que foram deno- 
minados alízeos, e que mais tarde de tal modo vieram 
a favorecer os Inglezes na sua admirável expansão 
colonial, que foram por elles denominados trade winds 
(ventos do commercio). Desde então até aos nossos dias 
o assumpto tem sido objecto do mais attoncioso estudo 
por parte de emidentes scienlistas, como Halley, Had- 
ley, Dove, Maury e tantos outros, que lançaram os fun- 
damentos da meteorologia dos nossos dias, em que o 
estudo do regimen dos ventos desempenha papel pro- 
eminente na meteorologia dynamica e na climatologia 
ou meteorologia estática. 

Os bem montados serviços meteorológicos actual- 
mente em funccionamento em vários paizes do mundo 
teem desenvolvido cada vez mais a esphera d*essas 
pesquizas, e não faltam meios practicos e syntheticos 
de investigação a respeito do regimen dos ventos em 
um logar. 

Na Capital Paulista, sede do Serviço Meteorológico 
Estadoal, que mereceu de Willis L. Moore, o sábio di- 
rector do Weather Bureau dos Estados Unidos, as 
mais encomiásticas referencias, as observações datam 
do anno de 1887 para cá, epocha desde a qual se re- 
colhem também dados referentes ao regimen dos ventos. 

E', pois, a respeito doeste elemento e seu regimen 
em S. Paulo que nos propomos a fazer ligeiras consi- 
derações, sem de forma alguma nos aventurarmos a 
tirar conclusões absolutas, e apenas offerecer este tra- 
balho como uma humilde contribuição subsidiaria para 
estudos mais desenvolvidos e definitivos. 

Para bem se estudar o regimen dos ventos, não 
basta somente conhecermos sua direcção e fre(juencia: 
é necessário comparal-os com outros elementos meteo- 
rológicos, que com elle se acham em intima dependên- 
cia. A pressão atmospherica, a temperatura do ar e a 
humidade relativa apresentam valores maiores ou me- 
nores, segundo certos e determinados rumos do vento. 

Para fazermos este estudo co]ni)arativo , calcula- 
mos, para cada uma das oito (liro(*ções do vento, as 
médias normaes da porcentagem da freíjuencia, da 
pressão atmospherica, da temperatura o da humidade 
relativa, organizando o seguinte quadro comparativo: 




r^ 9Í 



OSP^ THERM/c^ 



^05^ \^^y^ 




— 13 



Ventos 



Porcentagem 

da 

frequência 



Pressio 
atmospheríce 



Temperatura 



Humidade 
relativa 



CALMAS 


19.6 








N 


5.6 


761.6 


20.8 


78 


NE 


10.0 


763.0 


18.3 


83 


E 


14.7 


764.0 


17.1 


84 


SE : 


18.1 


764.0 


17.6 


84 


S 


i 12.4 


763.1 


17.9 


83 


sw 


' 1.9 


761.6 


19.9 


83 


w 


4.5 


760.4 


22.4 


72 


NW 


, 13.2 


760.4 


22.8 


71 



Os valores contidos na presente tabeliã chamam a 
nossa attenção para certos factos que melhor se ap- 
prehendem nos quatro diagrammas annexos, denomi- 
nados: 

1. Rosa de frequência; 

2. Rosa barica ou da pressão atmospherica; 

3. Rosa thermica, ou da temperatura; 

4. Rosa psychrica ou da humidade relativa. 
Essas figuras são desenhadas em escala, marcan- 

do-se, em cada direcção, o valor do elemento que lhe 
corresponde, e unindo successivamente os pontos assim 
obtidos. 

Examinando as quatro rosas no seu conjuncto, 
notamos que a linha formada pelos rumos NE e SW 
dividem todas as figuras formadas pelos contornos em 
duas partes deseguaes e approximadamente propor- 
cionaes, caracterizando a profunda diversidade entre o 
regimen dos ventos de N e W, e os de S e E. 

Essa diversidade de regimen consiste, segundo se 
verifica dos diagi^ammas alludidos, no seguinte: 

Ventos de N e W, menos frequentes, de mais 
baixa pressão, mais quentes e mais seccos; 

Ventos de S e E, exactamente o opposto, isto é, 
mais f7'equenteSf de mais alta pressão, mais finos e 
mais húmidos, 

A correlação, pois, entre esses elementos com a di- 
reção (lo vento, é evidente e, para um estudo de con- 
juncto, as quatro rosas fornecem dados facilmente ap- 
prehensiveis. 



14 - 

Vorifica-so também que em S. Paulo predomina o 
vento SE qut, como o de E que se lhe seguiu em fre- 
quência, accusou a maior pressão, 764 mm. Cabe ao 
vento E a menor temperatura, que é de 17.<*1, sendo a 
média immediatamente superior, 17*^6, correspondente 
ao predominante SE. Tiveram ainda os ventos SE e E a 
mesma taxa de humidade relativa, que importou em 84 %. 

Em summa, os ventos SE e E são ef?uaes quanto 
á pressão e á humidade, e (juasi eti:uaes quanto á tem- 
peratura. 

São, com effeito, os ventos do quadrante SE, os 
portadores das ondas frias, acompanhadas, ás vezes, 
de garòas e chuviscos prolonjífados, produzindo as 
bruscas variações atmosphericas tão communs na Ca- 
pital do nosso Estado. 

Oc^íupa o terceiro logar na rosa de frequência o 
vento NW, que apresenta característicos diametralmente 
oppostos aos de SE. E' assim que este vento accusou, 
juntamente com W, a menor pressão, que éde 760.4 mm., 
ou, feita a coiTecção para a gi^avidade normal, 759.1 mm., 
o que mostra que os ventos do quadrante NW são de 
baixa pressão. São elles os que nos trazem as chu- 
vas cyclonicas mais ou menos intensas, durante os 
mezes de verão, e ás vezes nos que lhes precedem ou 
se seguem, estimulando, com a humidade que comsigo 
trazem, a vida vegetativa em uma quadra em que o calor 
tanto concorre para subtrahir ás plantas a sua humi- 
dade. Mostra-nos ainda a rosa thermica que coube a 
NW a mais elevada temperatura, que foi de 22^8, se- 
guindo-se-lhe W, com a immediatamente inferior, 22M. 
Foi também o mais húmido, . eusando a taxa hygi*o- 
metrica de 71^/ o, pouco infericx-, entretanto, á de W, 
que foi de 72^/o. 

Do que fica exposto, conclue-se que as mesmas, 
aiialogias existentes entre os ventos SE e E se verifi- 
cam, porém em sentido opposto, para os de NW e W. 

Convém advertir que os ventos do quadrante NW, 
quando sopram no inverno, não produzem o mesmo 
regimen observado no verão. Actuam, ao contrario, 
com um factor de firmeza nas condições atmospheri- 
cas, de sorte que favorecem o desannuviamento do ceu 
nos dias claros do inverno. A geada, cuja deposição 
depende de calma e limpidez atmospherica, é quasi 
sempre precedida do regimen do vento W. 

Muito teríamos ainda a dizer, se entrássemos no 



- 15 — 

estudo do regimen mensal e diário dos ventos, o qual 
offerece gi*ande margem a curiosas investigações. No 
presente trabalho, porém, tivemos apenas em mira fa- 
zer um estudo de conjuncto, baseado nas normaeí? do 
regimen annual, mesmo porque falleceu-nos o tempo 
para coordenar dados mais minuciosos e completos. 

Mas, como dissemos atraz, a presente memoria é 
apenas um despretencioso subsidio para investi ga<;5es 
de maior fôlego, e não comporta, por isso, maior il(^s- 
envolvimento. 

Eliezer dos Sanctos Saraiva. 

Engenheiro Civil e Ajudante do Serviço Meteovologico do EtUdo^ 



N. B. — A presente memoria foi apresentada e Ilda na sessão da Sociedade, 
em 15 de Dezembro do «nno findo. 



- 16 — ■ 

jÇpassivaçõo proqominal 



A apassivação pronominal, na língua portugueza, 
não é, nem pôde ser, privativa da terceira pessoa. Tal 
processo, mais semântico que synctatico. veiu supprir, 
quanto á morphologia, uma herança que não tivemos 
do latim— a flexão passiva dos verbos. Essa flexão, em 
nosso idioma foi substituida pela forma pronominal re- 
flexa. 

Como o portuguez, o grego exprimia também por 
formas idênticas o sentido passivo e o reflexivo. Eram 
usados, para isso, os suffixos mai, sai, fai. Assim, na 
língua de Homero, luomai vale tanto como — eii me des- 
prendo, ou sou desprendido, (V. Lameira de Andrade, 
Grammatica, pag. 449.) 

Diz Júlio Ribeiro, a tal respeito, na sua Gramma- 
tica (2." edição, pag. 339): «Ha ainda a notar que a 
voz reflexa, em românico, é também empregada como 
equivalente da passiva nas primeiras e nas segundas 
pessoas. E' obvio o sentido passivo doestas constru- 
cções—Devoro-me de pesar.^Tii te pagas de lisonjas*. 

Sim. Nem só o pronome da 3." pessoa (o famige- 
rado se) pôde apassivar os verbos: os da 1." e os da 
2.' também gosam desse direito. Excluir, portaiil»», 
essas duas pessoas grammaticaes, apenas para dar 
áquella tal privilegio seria absurdo. Seria absurdo, sim, 
porque os verbos passivos, na lingua de Cícero, não 
se conjugavam unicamente na 3."... Demais, o que apas- 
siva os verbos, em portuguez, não é o pronome se. 
nem qualquer outro: é a translação de sentido. Ora, alii 
está! n. 

Si alguém, por exemplo, diz : Eu me chamo Paulo, 
o sentido da oração é, evidentemente?, passivo. Tal forma 
equivale a :—Eu sou chamado Paulo. E' que ninguém 
se chama Paulo, Sancho ou Martinho a si mesmo... 
Eu me chamo Paulo corresponde ao latim— fy^o z'o- 
cor Paulus. Bem assim, quando, discutindo, observa- 
mos ao nosso contradictor : Muito te enganas (multum 
fallefisj, não é, decerto, nossa intenção dizcr-lhe que 
elle se engana a si próprio, mas, sim, que é, ou está 
enganado. 

Pela mesma raz o, quando declaranr.os : Nós nos 
educámos em Paris, queremos inculcar que — fomos 



— 17 — 

educados na capital onde existe a torre Eiffel... Quan- 
do affirmamos : Tti te bacharelaste em direito, preten- 
demos dizer: Foste bacharelado na sciencia de Lobão... 
Quando a um capenga interrogamos, compadecidos : 
Não vos gerastes com este defeito!^— com certeza te- 
mos em mente perguntar-lhe : Não fostes gefado com 
uma perna torta?... 

A propósito da apassivaçâo pronominal observa, 
mui judiciosamente, um grammatico mineiro, de pleno 
accordo com o escriptor destas linhas : 

«Não é frequente o uso dos pronomes da primeira 
e segunda pessoa para ex|)rimir sentido passivo, norque, 
sendo necessário ()rescindir do agente da acção, para 
formar esta passiva, nào será fácil fazer sujeito um pro- 
nome da primeira ou segunda pessoa, sem que seja 
também agente. Seria, pois, mais razoável dizer que 
esta passiva se faz juntando-se ao verbo o * pronome 
reflexo da pessoa do sujeito*. 

Perfeitamente. A voz passiva pronominal, em por- 
tuguez, repito, não se faz tão só com o pronome se. 

Com referencia ao assumpto, bem pudera eu citar 
Fred. Diez (Gtammaire des Langues Romaines) ou 
Reinach (Manuel de Philologie Classigue). Mas, para 
quê? Contento-me de recommendar aos estudiosos, ape- 
nas, ou a leitura das pags. 105 e 106 da Syntaxe da 
Lingua Portugueza, de Leopoldo Pereira, illustrado 
professor da lingua vernácula na Escola Normal de 
Arassuahy (Minas),— ou, então, a consulta das pags. 
213 e 214 da Grammatica Histórica da Lingua Por- 
tugueza, de António Garcia Ribeiro de Vasconcélloz, 
lente cathedratico na Universidade de Coimbra e, hoje, 
um dos mais respeitados philólogos de Portugal. 

Sobre o emprego das formas reflexivas, com sen- 
tido passivo, eruditamente adverte o sr. Vasconcélloz: 

«Este uso já se achava admittido no antigo portu- 
guez, mas em muito menor escala. Resultou da neces- 
sidade ou conveniência de substituir as pesadas ou mo- 
nótonas formas da passiva. Foi no século XVI que se 
desenvolveu extraordinariamente este processo de ex- 
primir a passiva». 

Portanto, tão passivas sào as formas queimou-se 
uma casa e venderam-se livros, como as orações— ^w 
me baptizei na freguezia da Gloria,— tu te enganas- 
te a este respeito, — bacharehUno-nos no mesmo dia, 
—não vos educastes na França. As expressões npon- 



— 18 — 

tadas valem tanto como esfoutras : uma casa foi quei- 
mada,— livros foram vendidos,— eu fui baptizado na 
freguezia da Gloria,-— tu foste enganado a este res- 
peito,— nós fomos bacharelados no mesmo dia,— vós 
não fostes educados na França. 

Em qualquer dos exemplos supracitados, porque o 
sujeito nâo pôde, em sentido próprio, exercer a acçào 
do verbo, a oração está, indiscutivelmente, na voz 
passiva. 

Álvaro Guerra. 

(Do Wvxo— Reparos PhiloiOilicos. em preptrcçio). 



(*) Para provar este asserto, parece-me característica a phrase dtada por AblUo 
Cctar Borges na sua Orammatica Portugueza (pag. 39) -.^Baptizei-me na freguezia da 
Gloria, Efíectivamente, o verbo, neste caso, está na voz passiva, visto que o sujeito nio 
pôde ser o agente da oraçlo. Baptizei-me é, de feito, o mesmo que — fui bapHsado. 
Ninguém se baptisa a si prcprto... 



— 19 — 

Ji declinação magnética em 
S. Paulo 

Entre os agentes que determinam os phenomenos 
de toda a sorte, que constituem a harmonia admirável 
da vida universal, occupa o primeiro e mais importan- 
te logar o calor, e é a energia calorífica que predomi- 
na como força colossal, accionando a grande uzina 
atmospheríca, no fundo da qual respira e vive toda 
essa humanidade activa e intelligente, cuja operosidade 
e progresso em marcha accelerada nos vae deslum- 
brando, com suas conquistas scientificas e incompará- 
veis invenções dos tempos modernos. 

Mas, ao lado da energia calorífica, surgem, quasi 
sempre, as manifestações da energia electric^i, da qual 
o, magnetismo terrestre é já considerado um tjaso par- 
ticular, pois que o raio, como o relâmpago e a attra- 
cçãoma^etica dos poios, nada mais são do que outras 
tantas vibrações da tnatería, posta em acção por diffe- 
rentes e varías causas. 

Estudando a declinação da agulha êm S. Paulo, 
consideraremos um caso especial do Magnetismo Ter- 
restre, parte da Physica que se occupa das investiga- 
ções concernentes ao campo magnético do globo, a 
qual toma em consideração, não só a declinação, como 
também a intensidade e a inclinação, que tanto variam 
de uma para outra parte do planeta que habitamos. 

Diz-nos Briot que os primeiros estudos sobre este 
ramo da Physica foram realizadosj.na China^ muitos 
séculos antes da éra christan, empregando os chinezes, 
de então, a bússola de agulha fluctuante ou suspensa 
por um fio ténue. 

Provavelmente os árabes aprenderam a empregar 
a bússola com os habitantes do Celeste Império, e re- 
velaram o seu uso aos europeus por occasião das pri- 
meiras cruzadas, mas Gilbert nos conta que foi Paulus 
Venutus quem trouxe da China para Veneza, em 1260, 
a bússola magnética, divulgando-se lentamente o seu 
emprego pelos nautas do Mediterrâneo, onde, pelo es- 
treito campo da navegação, não se poude destacar, de 
modo sensível, a declinação da agulha. 

Foi o intrépido conquistador do Oceano, o immor- 
tal Christovam Colombo, quem, em sua travessia de 



— 20 — 

1492, reconheceu o desvio manifestado na direcção da 
agulha, e iniciou as primeiras observações sobre a de- 
chnação magnética, tão interessante aos navegantes, 
que na bússola encontram um guia discreto, que raras 
vezes náo os leva em paz e salvamento ao porto do 
seu destino. 

Além da Navegação, as outras sciencias receberam 
um gi'ande auxilio das indicações prestadas pelo estu- 
do do magnetismo terrestre : a Astronomia, pelo que 
se relaciona com os estudos sobre a influencia luni- 
solar; a Geologia, pelo effeito resultante da distribui- 
ção desegual das terras e dos mares, a natureza das 
rochas e as deformações dos solos mais antigos e os 
de formação recente; a Physica. pelo que toca ás cor- 
rentes terrestres, á electricidade atmospherica, á pro- 
priedade dos gazes rarefeitos, ás acções varias dos ra- 
ios solares, ás auroras polares, etc. ; a Meteorologia, 
quanto ás correntes atmosphericas, relâmpagos, í^ios, 
ás reacções do magnetismo terrestre sobre a formação 
de certas nuvens, ás variações das pressões, das tem- 
peraturas e da humidade, em uma palavra, sua influ- 
encia decisiva sobre a dynamica atmospherica. 

N'este breve trabalho, poremos de lado a intensi- 
dade e a inclinação do campo magnético terrestre, 
para só tractar da declinação, que varia quasi de hora 
em hora, em um mesmo logar. 

A observação directa ou o registro automático 
d'este eleiíúento mostra que taes variações são, umas 
bastante rigigulares, outras de caracter periódico, em 
seu conjuncto, otttras finalmente accidentaes, constitu- 
indo as perturbações ou tempestades magnéticas. 

Das variações regulares, temos obtido dados que 
se referem á declinação secular da agulha, a qual, em 
rigor, seria representada pela differença entre as Ta- 
riações médias de annos consecutivos. 

Esse trabalho, feito em a nossa residência, á Ave- 
nida Paulista 71, data de 1901 para cá, isto é, tem elle 
sido realizado durante 11 annos, e forneceu o seguin- 
te resultado: 

1901 — Maio . . declinação de 5*> 19^ W 

1902 — Março . . ^ ^ 6*> 26' W 

1903 — Abril. . . -> - 6^ 34' W 

1904 ~ Março . . y> - 5^ 44' W 
1906 — Julho. . . » > 5^ 66' W 



— 21 — 

1906 — Maio * » 6« y W 

1907 — Março > ^ B^ 29^ W 

1908 — Junho * * 6^ 34' W 

1909 - Julho » ^ 60 39^ W 

1910 — Maio > > 60 50' W 

1911 — Junho ^ » 6o 59' W 

Na determinação dos valores acima, tivemos que 
calcular o azimuth de uma base, que ficou astronomi- 
camente estabelecida com o emprego de varias estrel- 
las observadas em cinco noites não consecutivas, du- 
rante os mezes de AbrU e Maio de 1901. 

Se tomarmos os valores extremos da lista anterior, 
veremos que a differença entre elles será de lo 40^, cor- 
respondente a 10 annos, o que fornece a variação mé- 
dia de IO' para Oeste, no prazo de um anno. 

No Annuario do Observatório Nacional encontra- 
se uma lista de determinações feitas no Rio de Janei- 
ro entre os annos de 1670 e 1910, e por ellas se vê 
que a variação secular da declinação foi, nos últimos 
dez annos, de cerca de 11' para W, pouco differindo, 
assim, da que obtivemos n*esta Capital. 

J. N. Belfort Mattos, 

E ngcnhelro Civil, Cliefc do Serviço Meteorolo^co de S. Paulo, Director 
Secretario da Sociedade Sclentlflca, etc. etc. 



ê> 



— 22 — 

L'insalubpité à Rio de Janeiro 
en 1792 

et ses canses d'après Lord M^CARTNEY, Ambassidenr dn Rol 
SBprès de TEmperenr de Ckioe. 



Le roi Georges III, d'Angleterre, désírant entrer 
en rélation avec Tempereur de Chine, envova comme 
ambassadeur Lord Macartney avec une flotille de 3 na- 
vires et un personnel de choix, charge de faire des 
observations três precises partout oii ils passeraient Ce 
voyage dura 3 ans. 

11 m'a semblé intéressant de reproduire pour notre 
societé ce que les membres de Texpédition pNensaient 
notamment du climat du Brésil et des maladies cau- 
sées par celui-ci. Et voilá ce qu'on trouve à ce sujet' 
concemant Rio de Janeiro (*). 

«L'on dit que cette ville est insalubre, et qu'il y a 
rarement des exemples de longevité. Mais son insalu- 
brité provient de quelques circonstances locales et ac- 
cidentelles, plutôt que de Tinfluence du climat. Rio-Ja- 
neiro est, en grande partie, située dans une plaine qui, 
excepté du cote de la mer, se trouve environnée de 
montagnes, convertes d'epaisses f orêts ; de sorte que non 
seulement la circulation de Tair n'y est pas libre, mais 
les matinées et les soirées y sont humides. Les parties 
aqueuses que pompe le soleil pendant qu'il et audes- 
sus de rhorizon, se condensent à son coucher, et re- 
tombent sur la ville en brouillard ou pluie três me- 
nue. Des nuits humides, précédées de jours brulants, 
doivent souvent occasionner des fièvres putrides et in- 
termittentes. 

On voit aussi souvent, à Rio de Janeiro, des créo- 
les blancs et négres, et même des européens, affligés 
de relephantiasis, maladie cruelle qui, detruisant les 
téguments de la peau, gonfle, deforme et décolore tou- 
tes les parties qu'elle attaque. Les jambes se couvrent 
alors de rugosités, grossissent énormement et devien- 



(*) VOYAOE DANS fINTÉRIEUR DE LA CHINE ET EN TARTARIE. fait dint 
les annéet 1792. 1798 et 1794, par Lord MACARTNEY, etc, PARIS, BUISSON ÉDITEUR. 
an 6 dt la Republique (1798). Pag. 205 et sttiv. Tome l. 



— 23 — 

A insalubpidade.no Rio de Janeiro 
em 1792 

e Sttas cansas segando Lord MACARTNEY, Eabaixidor do Rei, 
Jnoto do Imperador da Cklnt. 



O rei George III de Inglaterra, desejando entrar 
em relação com o imperador da China, enviou como 
embaixador a Lord Macartney com uma flotilha de 
três navios e pessoal escolhido, com o encargo de fa- 
zer observações muito precisas em todos os logares 
por que passassem, ^sta viagem durou três annos. 

Pareceu-me interessante reproduzir, para a nossa 
Sociedade, o que pensavam os membros da expedição, 
principalmente sobre o clima do Brasil e as moléstias 
por elle occasionada^. Eis o que a este respeito se 
encontra relativamente ao Rio de Janeiro. (*). 

»Diz-se que esta cidade é insalubre, e que raros 
são os casos de longevidade. Mas a sua insalubridade 
provêm de algumas circumstancias locaes e accidentaes 
mais do que da influencia do clima. O Rio de Janeiro 
está, em grande parte, situado em uma planície que, 
excepto do lado do mar, se acha rodeada de monta- 
nhas, cobertas de florestas espessas ; por isso não so- 
mente a circulação do ar não é alli livre, mas também 
as manhan^ e as noites são húmidas. As partes aq^uo- 
sas que se evaporam, emquanto o sol se acha acima 
do horizonte, se condensam, no seu occaso, e tornam 
a cair sobre a cidade em forma de neblina ou garoa. 
Noites húmidas, precedidas de dias abrazadores, devem 
produzir, muitas vezes, febres pútridas e intermit- 
tentes. 

Vêem-se também, muitas vezes, no Rio de Janeiro, 
creoulos brancos e negros, e até europeus, atacados 
de elephantíase, moléstia cruel qne, destruindo os te- 
gumentos da pelle, produz inchação, deformação e per- 
da de côr de todas as partes por ella atacadas. As 
pernas cobrem-se então de rugosidades e tornam-se 



(*) VIAOEM AO INTERIOR DA CHINA E DA TARTARIA, feita nos annos de 
1782. 1793 c 1794. ^ac Lord M\CARTNtíY, etc PARIS, BUISSON ÉDITEUR. Anno 6 da 
Republica <1796). PagW 205 e seguintes, tomo l.o. 



— 24 — 

nent semblables à celles de Tanimal colossal, dont cet- 
te maladie a tire son nom. 

Non seuloment le voisinage des bois, mais celui des 
eaux stagnantes, doit ètre nuisible à Rio do Janei- 
ro. On laisse auprès de la ville des marais qu*il se- 
rait aisé de desséeher et de combler. Les étrangers, 
surtout, en sentent rincommodité ; car, dans les pre- 
miers temps de leur arriváe, ils sont tournientás par des 
nuées de cousins ou de gros moiieherons, qxie produi- 
sent ces marais. I^ne longue résidence fait qu'on est 
beaucoup moins inquiete par ees insectes; non que la 
peau cesse d'être sensible à leur piqure, mais ou leur 
aiguillon la penetre avec moins de facilite, ou ils n'y 
trouvent plus les sues qu'ils aiment . 

Cest intéressant de voir que le travail d'assainis- 
sement commencé en 1902, et (jui a donné de si splen- 
didesrésultats, avaitdéjàétéconseilléllO ans auparavant. 

«Peut-êtreest-il intéressant de rappeler que les An- 
glais signalent encore cette époque une fabrique de 
cochenille, industrie nógligée aujourd*hui, bien qu'à 
cette époque le gouvernement eut abandonné le mono- 
pole qu^elle avait gardé jusque-là. 

En outre il y avait encore, vis-à-vis de la ville, 
une manufacture, oii une Société convertissait en huile 
la graisse des baleines noires, (jue du reste on ne pre- 
nait plus dans la baie même, comme auparavant. 

Les nègres attachés aux plantations du Brésil 
peuvent travailler pour eux deux jours de la semaine, 
ce qui est le double de ce qu'on alloue aux Antilles». 

Ce temoignage d'un Anglais est i)récieux. 

La Société voudra mVxcuser d'avoir pris de son 
temps pour la lecture de cette communication, mais 
peut-être un autre membro i)ourra trouver quelque 
chose dlntéressant à ce sujet, no fut-ce que de recher- 
cher dans les documents de cette époque Tmpression 
qu^eurent les Brésiliens d'alors dos membros de Texpe- 
dition anglaise, notamment des chinois missionaires, 
élevés comme catholiques à Romo, et qui accompai- 
gnaient les Anglais hérétiques comme interpretes. 

Naegeli A^kerblom. 



— 25 — 

extraordinariamente grossas, similhantes ás do enorme 
animal, de que esta moléstia tira o nome. 

Não somente a visinhanga das mattas, mas também 
a das aguas estagnadas, deve ser prejudi(^ial ao Rio 
de Janeiro. Deixam, junto da cidade, pântanos que 
seria fácil seccar e aterrar. Os esti'angeiros, especial- 
mente, são os que mais soffrem os incommodos por 
elles produzidos ; porque, nos primeiros tempos de sua 
chegada, elles são torturados por nuvens do mosquitos 
ou moscas produzidas por taes pântanos. Uma pro- 
longada rosidencia faz com que s^ soja muito menos 
incommodado poios inse Hos, não porque a pelle cesse 
de ser sensível á sua picada, mas porque, ou seu fer- 
rão a ponetra com menos facilidade, ou porque não en- 
contrem mais os suecos de que gostam . 

E' interessante de ver que o trabalho de sanea- 
mento começado em 1902, e que deu tão esplendidos 
resultados, tinha já sido acansolhado 110 annos antes. 

< Talvez seja interessante recordar que osinglezes 
assignalam ainda n'esta epocha uma fabrica de cocho- 
nilha, industria hoje abandonada, se bem que n'aqucl- 
la epocha o governo tivesse abandonado o monopólio 
que havia con^servado até então. 

Havia ainda, além d*isso, fronteiro á cidade, um 
estabelecimento fabril, onde uma sociedade convertia 
em azeite a banha das baleias pretas, que no entanto, 
não se pescavam mais na própria bahia, como antes. 

Os negros aggregados ás fazendas do Brasil po- 
dem trabalhar para si dois dias por semana, que é o 
dobro do que se permitte nas Antilhas. 

Este testemunho de um inglez é precioso. 

Queira a Sociedade desculpar-nie de ter tomado 
de seu tempo para a leitura doesta communicação, mas 
talvez um outro membro possa achar alguma coisa de in- 
teressante a este respeito, quando mais não seja, bus- 
car nos documentos doesta época, a impressão que ti- 
veram o$ Brasileiros, além da dos membros da expe- 
dição ingleza, especialmente dos chinezes missionários, 
educados como catholicos em Roma, e que acompa- 
nhavam os inglezes heréticos como interpretCwS. 

Naegeli A^kerblom. 



N. da R.— Este interessante trabalho, que publicamos no oiiginal francez. com a 
respectiva traducção, é da lavra do illustre scientista Naegeli A^kerblonu de Genebra, 
Suissa, sócio correspondente da Sociedade Scientifica de S. Paulo, à qual elle fez a defe- 
rência de enviar tio valiosa contribuiçio. 



— 26 — 

O cópt^ dos mottos ^ 5aa 
legislação 

(These apresentada ao 2.^ Congresso Brasileiro de 
Geographia, realizado em 1910, em 5. Paulo) 



O corte das mattas, feito em grande escala, des- 
nudando vastas regiões, anteriormente cobertas de 
mattas virgens, por tal modo altera o clima, facilitando 
as inundações nas várzeas dos grandes rios, que já 
os physicos e meteorologistas attribuiam, em annos 
mais remotos, as inundações de Paris ao desbarato das 
florestas, que cobriam as encostas, que formam a par- 
te média e alta da bacia do Sena. 

Ainda no corrente anno muito se escreveu, af- 
firmando tal opinião e buscando demonstrar essa hy- 
pothese, o que determinou a alta administração da Re- 
publica Franceza a promover a rearborização das en- 
costas, restabelecendo, quanto possível, as antigas flo- 
restas quasi extinctas. 

Estudando-se o clima agricola de uma região, de- 
param-se-nos dois elementos importantes e sufficientes, 
o mais das vezes, para caracterizal-o : a temperatura 
média do ar e a altura da columna pluviometrica. Vá- 
rios são os agentes capazes de modificar as médias 
dos dados que mencionamos: no caso da temperatura, 
a latitude e a altitude são os principaes factores, ao pas- 
so que, considerando-se a chuva apresenta-se-nos, como 
regularizadora do regimen pluviometrico, a maior ou 
menor extensão da superficie coberta pelas mattas. 

Assim como as grandes massas oceânicas servem 
de regularizadoras da temperatura para as regiões cir- 
cumvisinhas, assim também as florestas impedem que 
as chuvas torrenciaes e rápidas de verão se despe- 
nhem pelas encostas das serras e devastem a vegeta- 
ção, arrastando, na sua marcha destruidora, os elemen- 
tos fertilizantes que enriquecem o terreno, para se lan- 
çar nos rios mais próximos, e provocando enchentes 
prejudiciaes. 

O mesmo não se dá com as regiões cuja flora é 
constituida pelas florestas virgens. As precipitações 
caem regularizadas na passagem pelas copas das ar- 
vores e, chegando ao solo, encontram um terreno po- 



— 27 — 

roso, composto de folhas e detritos vegetacs, camada 
permeável e absorvente, que facilita a penetração da 
agua no sub-solo. Formam-se então as fontes perennes, 
que impedem as sêccas tão prejudiciaes. Esse contras- 
te é observável quando comparamos as sí^ccas tão ce- 
lebres do Ceará com o clima regular de S. Paulo e do 
Sul de Minas. No Norte do Brasil não é raro atraves- 
sar-se a vau, no tempo de estiagem, um rio que na 
estação chuvosa seria impossivel transpor, tal o ímpeto 
e profundidade da corrente. 

As derrubadas e queimadas das mattas, que grande 
desenvolvimento tomaram em S. Paulo, poderiam, com 
o andar do tempo, alterar as condições climíilericas lo- 
caes, tornando necessárias as precauções por parte do 
governo, afim de se repararem inconvenientes occasiona- 
dos por taes devastações, que já começam a fazer sen- 
tir os seus effeitos. Foi, então, que ò precavido go- 
verno estadoal deu uma organização nova e mais des- 
envolvida ao Instituto Agronómico de Campinas, o 
Horto Botânico da Cantareira, Horto Tropix:al do Cuba- 
tão, etc. 

A Companhia Paulista installou. também, um horto 
florestal em Jundiahy e procedeu á rearborisação do 
terreno em trechos de sua linha férrea, empreitando o 
eucalyptus, e chegando, hoje, até quasi Rio Qaro. Nos 
outros Estados do Brasil muito poucas tém sido as 
precauções tomadas n'este sentido, limitando-sc estas, 
até pouco tempo, á existência da Inspectoria das Flo^ 
restas do Jardim Botânico e análogas instituições no 
Rio Grande do Sul e Bahia. 

Lamentamos que no nosso corpo de leis não exis- 
ta um correctivo para o desregrado desbastamento das 
mattas, como se dava na antiga legislação portugueza. 
O Conselheiro Ribas, na sua obra de Direito Civil, nas 
paginas 385 e seguintes, assim se occupa da antiga le- 
gislação : 

«Denominam-se bens do Estado, geraes ou nacio- 
uaes, no sentido restricto : 

4) As terras devolutas 

As florestas que crescem cm terras devolutas, 
como dependências que são d'estas. pertencem tancbem 
ao Estado; aquelles que as derrubarem, ou lhes puze- 
rem fogo, são sujeitos á pena de prisão por scisniezes 
e multa de lOOSOOO, além da satisfação do damno can- 
sado. 



— 28 — 

f 

i 

5) O pau-brasil e madeiras reservadas. 

Já desde o começo do século XVII que o pau- 
brasil contitue um monopólio do Estado, cuja violação 
era punida com a morte e confiscação gerai dos bens; 
seu corte, remessa e distribuição pelas praças da Eu- 
ropa, se fazia por conta da fazenda real, por intermé- 
dio de seus provedores e do tribunal da junta do com- 
mercio geral. 

Depois da independência nacional, o producto doeste 
monopólio foi applicado ao ])agamento da divida ex- 
terna; o corte d'esta madeira incumbido aos mesmos 
proprietários dos terrenos que as produzem, e, só no 
caso de recusa d'estes, a outras pessoas auctorizadas 
pelas thesourarias de fazendas, e sujeitas á multa de 
30$000 por tonelada as embarcações que levarem este 
género por contrabando para os portos estrangeiros. 

Também desde o século XVII que se deram provi- 
dencias para evitar o estrago das florestas no nosso 
paiz e especialmente das madeiras próprias para a cons- 
trucção naval. Mandou que estas, quando situadas nos 
portos, costas do mar e suas visinhanças, ficassem in- 
teiramente reservadas ; que os terrenos se não dessem 
de sesmaria, e que os mesmos sesmeiros do interior 
não pudessem cortar madeiras grossas e de lei sem 
licença do governador e capitão-mór da respectiva ca 
pitania. Modernamente os juizes de paz foram incum- 
bidos de vigiar sobre a conservação das mattas e flo- 
restas publicas, onde as liouver, e obstar, aos particu- 
lares, o corte das madeiras reservadas por lei ; e, com- 
quanto fossem extinctas as conservatórias dos cortes de 
madeiras, continua a prohibição de cortar as reserva- 
das por lei, sem licença do governo, ainda em terrenos 
particulares». 

O Art. 64 da Constituição de 24 de Fevereiro que 
nos rege, determina que aos Estados pertencem as 
minas e terras devolutas situadas nos seus respectivos 
territórios. Eduardo Espindola tarubem enumerando os 
-bens pertencentes aos Estados, cita as mattas que se 
acharem em seu território. 

Isto nos leva á conclusão de que ò Estado de S. 
Paulo, visando o interesse próprio, poderia lançar mão 
dos meios que lhe são facultados, como seja um im- 
posto pesado, sobre o corte de madeiras, para impedir 
que este solo rico e productivo venha um dia aencon- 



— 29 — 

trar-se nas condições dos terrenos do norte, Antilhas, 
Estados Unidos, etc. 

N'este ultimo paiz serias medidas tém sido tomadas, 
pois o grande território da Republica Americana estaria 
desprovido de florestas, caso continuassem as derrubadas, 
no curto praso de 30 annos, como previu Mr. Gifíard 
Pinchot, o eminente chefe do serviço florestal. Foi então 
que o presidente doesta nossa republica amiga se serviu 
dos meios enérgicos para impedir a destruição total 
das mattas, tomando o governo da União o encargo 
do serviço de rearborização, irrigação e regulamentação 
das culturas, bem como o arrendamento das terras a 
particulares, em vez de vendel-as a particulares que, 
procurando tirar um proveito immediato, procedessem á 
destruição das poucas íorestas que existiam. 

Pensando no dever em que estamos de velar pela 
conservação do nosso bom clima e no intuito, também, 
de impedir o destroço de nossa rica floresta, que muito 
vae sof frendo com a pratica vandalica das derrubadas 
e queimadas, aproveitamos a rara occasião que agora 
se nos offerece, para dirigir um appello aos altos ])ode- 
res do paiz, concitando-os a legislar definitivamente 
sobre o corte das mattas, de modo a garantir aquelles 
preciosos bens, pela Providencia legados ao progressis- 
ta e rico Estado de S. Paulo. 

José Rangel Belfort de Mattos, 

da FscvkUidc dt DIrttto 



— 30 - 

AS f OííT€S 



A Terra em geral; a atnosphera, sua espessara e pressio. 

Considerada de uma maneira geral, a Terra pôde 
se suppôr constituída de dois envoltórios— o exterior, 
de gazes, e é a atmosphera, cercando completamente o 

f)laneta, e o interior, constituído de duas partes: uma 
iquida, hydrosphera, cobrindo cerca de três quartas 
partes do globo, e a outra, fria e solida, em sua superfí- 
cie, lithosphera, que possue uma temperatura interna 
bastante elevada. 

É certo que os actuaes envoltórios liquido e gazo- 
so do planeta representam somente uma parte da 
massa primitiva do gaz e da agua, de^que o globo 
era outr'ora cercado. Approximadamente a metade da 
crosta da Terra consiste de oxygenio, que provavel- 
mente existiu na atmosphera primitiva. Também a 
agua absorvida pelos mineraes que formam a crosta 
é quasi incrível, e já se admitte que um terço de toda 
a massa do oceano tenha $ido abporvida n'este pro- 
cesso de solidificação. 

O envoltório gazoso, ou atmosphera, estende-se da 
superfície da Terra até a uma distancia, que tem sido 
dinerentemente estimada, conforme os methodos de ob- 
servação empregados. Laplace imagmou que a atmos- 
phera tem um volume 155 vezes maior que o da Ter- 
ra, e está disposta lenticularmente, de maneira que seu 
diâmetro polar é cerca de 4.4, e seu diâmetro equato- 
rial cerca de 6.6, respectivamente os diameti^os polar 
e equatorial da Terra. D'ahi, conforme esta m/.nehra 
de pensar, deve ter umas 17.000 milhas de espessura 
nos poios, e cerca de 26.000 milhas no equador. Do 
phenomeno da crepúsculo se pôde concluir que a at- 
mosphera deva ter, para mais de 50 milhas de espes- 
sura, e a aurora indica uma atmosphera sensível a 
mais de 100 milhas. Meteorolithos, que se tornam incan- 
descentes pelo attrito contra a atmosphera, ás vezes 
apparecem em alturas de 220 milhas, sendo que cerca 
de 20 *» o dos meteoros estão, pelo menos, na altura de 
100 milhas no instante de se tornarem visíveis. 

Podemos, por isso, inferir que a atmosphera se 
prolonga pelo menos até a essa distancia da superfície 



— Si- 
da Terra, e provavelmente em um estado de extrema 
tenuidade muito mais distante. 

No nivel do mar, a atmosphera determina, sobre a 
superficie da Terra, uma pressão egual á que produziria 
uma camará de mercúrio de 30 pollegadas de espes- 
suraj ou de uma camada de agua de 34 pés de espessu- 
ra. Cada pollegada quadrada da superfcie da Terra 
supporta a pressão de 14 libras e três quartos. Na 
altura de 18.500 pés diminue justamenie da metade, e 
em uma ascenção de balão, quando se attingiu á altura 
de sete milhas, isto é, exactamente o dobro de 18.500 
pés, a pressão diminuiu de um quarto. 

A atnosptaera prinitlva; sua provável composiçio. 

Muitas conjecturas se tem feito em relação á com- 
posição chimica da atmosphera durante os primeiros 
períodos geológicos. Não pôde haver duvida que ella 
devia differir originariamente, em grande escala, de sua 
condição actual. 

Tem-se presumido, que houve outr^ora pouco ou 
nenhum oxygenio livre na atmosphera, que consistia em 
grande parte de azoto, acido carbónico e vapor aquoso, 
chegando alguns ao extremo de suppôr mesmo que o 
oxygenio da atmosphera primitiva foi devido á acção 
do sol sobre as plantas, o que levaria a admittir que houve 
provavelmente um tempo, e com certeza longo, em que 
não havia oxygenio livre na atmosphera, o tempo 
prehistorico. 

Afora a eliminação do oxygenio, que forma agora 
toda a crosta exterior da Terra, as vastas camadas de 
carvão encontradas em todas as latitudes, em formações 
geológicas de edades muito differentes, sem duvida re- 
presentam outro tanto de acido carbónico, outr^ora 
existente na atmosphera. A porção de acido carbónico 
absorvido no processo de deterioração da rocha, e ora 
representado em forma de carbonato, especialmente nos 
calcareos da crosta da Terra, provavelmente equivale a 
duzentas vezes o volume actual de toda a atmosphera. 

Qualquer addição á proporção existente de acido 
carbónico na atmosphera teria um effeito importante 
sobre o clima, sabendo-se que este gaz possue a capa- 
cidade tão notável de absorver o calor. Se a presen- 
te proporção deste gaz na atmosphera fosse augmen- 
tada duas e meia ou três vezes, o effeito seria elevar 



— 32 - 

a temperatura das regiões árcticas cerca de 8 a 9 gra- 
us centígrados, e assim dar-lhes o clima que tiveram 
na Era Terciária. 

Durante a Era Carbonífera a atmosphera devia 
ter sido mais quente e devia ter contido mais vapor 
d'agua e acido carbónico em sua composição do (|ue 
actualmente, para permittir uma flora tão luxuriante 
como a de (jue as camadas de carvão foram formadas. 

A atmosphera actual, sua composiçflo. 

Actualmente a atmosphera é considerada como 
sendo uma mistura de 4 volumes de azoto e 1 de oxy- 
genio, com pequenas proporções de acido carbónico e 
vapor d'agua,e ainda menores quantidade de ammonia 
e do poderoso agente oxydante, o ozona, além dos cor- 
pos simples gazozos recentemente descobertos, que são, 
por ordem de quantidade, o árgon, o neoUy o helium, 
o krtjpton e o xenon. Estas quantidades são susceptí- 
veis de variação conforme a localidade. Por occasião 
da ultima passagem de Vénus pelo Sol, as missões 
scientificas, que foram encarregadas de observal-a, 
effectuaram, em diversos pontos do globo, analyses do 
ar atmospherico e encontraram, para dez mil volumes 
de ar: 

de 3.1 a 2.6 de acido carbónico. 
As maiores differenças encontradas foram 

4.2 máximo observado em Paris. 

2.7 máximo encontrado no Chile. 

No ar das ruas e das casas, a proporção de oxy- 

genío diminue, emquanto a de acido carbónico cresce, 
onforme diversas pesquizas, o ar puro não deve ter 
menos que 29.99 ^/o de oxygenio, com 0.03 de acido 
carbónico. Em Manchester o ar tem apenas 20.21 de 
oxygenio; durante o nevoeiro a proporção de acido 
carbónico, se eleva a 0.0679, e na platéa do theatro a 
0. 2734. 

Pelo facto das plantas absorverem o a ido carbó- 
nico durante o dia e o desprenderem durante a noite, 
a quantidade doeste gaz na atmosphera osciUa entre 
um máximo á noite e um mínimo de dia. 

Durante a parte do anno em que a vegetação é 
mais activa, julga-so que haja pelo menos 10 *^ o mais 
de acido carbónico no campo ao ar livre dui^ante a 
noite do que de dia. Por pequena que possa parecer 
a porcentagem doeste gaz no ar, todavia o seu total 



— sa- 
em toda a atmosphera provavelmente excede á totali- 
dade do que seria desprendido, se toda a matéria ve- 
getal e animal da superfície da Terra se queimasse. 
Além das substancias acima mencionadas, o ar contém, 
em suspensão, quantidades diminutas de poeiras e fra- 
gmentos sólidos, além de micro-organismos que se 
teem encontrado. 

O vapor cPagua contido na atmosphera, junto com 
o ar e as outras suòstancias n'ella existentes, é um 
agente importante na formação das fontes. 

A porcentagem de vapor aquoso sempre presente 
no ar é muito mais importante do que as diminutas 
proporções dos gazea. Para provar sua presença, bas- 
ta expor durante algum tempo, ao ar livre, um vaso 
cheio de gelo pilado: o vapor d'agua se condensa no 
estado liquido sobre.. a superfície fria do vaso. A 
quantidade de vapor d'agua, ctjntido no ar, varia mui- 
to; depende geralmenteúvda ,4ieihperatura, do regimen 
dos ventos, da akitude, e também das massas de agua, 
mais ou menos extensas, que possam existir nas visi- 
phanças. Nos trópicos, na estação das chuvas, se en- 
contra até 3.6 grammas de vapor d'agua para 100 
Srammas de ar; ao contrario, durante os grandes frios 
o inverno, ou no cume das altas montanhas, a dose 
de vapor d'agua é muito?fraca. Aliás, o estado de hu- 
midade do ar nãò depende do peso absoluto do vapor 
aquoso que o ar contenha, porém da distancia em que 
aje acha de seu ponto de saturação. Com muito pouco 
vapor, o ar pôde estar húmido, se estiver frio ; pôde 
estar secco, com uma quantidade maior de vapor d'a- 
gua, se a temperatura fõr alta. Um metro cubico de 
ar saturado de humildade pôde conter: 

a Q^ cerca de 5 grammas d'agua. 

a 10o ^ ^ 10 » » 

a 20^ - > 18.4 ^ > 

a 30^ > * 33.5 ^ > 

a 40^ ^ » 58.2 » > 

Está bem provado qaie a porcentagem maxim^ do 
vapor d'agua que a atmosphera pôde conter varia con- 
forme a temperatura. Um metro cubicq de ar, no ponto 
tie congelação, pôde conter unicamente 4..871 grammas de 
vapor d'agua, porém a 40.** cent. pôde conter 60.7 gram- 
mas. Uma milha cubica de ar saturado a 35^ cent. de- 
positaria, quando resfriado a O^cent., para mais de 140.000 
toneladas d'agua eiíi forma de chuva. Podemos dizer 



- 34 - 

que temos sobre nossas cabeças mais agua que sob 
nossos pés. 

E' por este vapor d'agua, junto com acido carbó- 
nico e particulas de poeira suspensas, que uma parte 
d<? èalor radiante é absorvido. A atmosphera absorve 
uma ou outra parte do calor, radiado para a Terra, 
proveniente do Sol, e em infiraa quantidade provindo 
das estrellas, e absorve, em porção muito maior, o calor ob- 
scuro devolvido pela Terra ao ambiente. O effeito da 
atmosphera é de promover a uniformização das tempera- 
turas da superfície da Terra. 

O vapor d'agua se condensa em orvalho, chuva, 
granizo e neve, e é assim de máxima importância na 
grande série de processos epigenios, que desempenham 
papel tão importante nrás transformações geológicas da 
superfície da Terra. 

Ao assumir uma^^tie suas firmas visiveis, e descen- 
do atravez da atmosphera, o vapor, previamente dis- 
solvido e invisivel,*ápòssâ-se d'uma pequena quantida- 
de de ar e das substancias differentes que elle possa 
conter. As substancias de que a chuva, a neve, o gra- 
nizo ou o orvalho se apoderam são conserv^adas em 
solução ou suspensão, e podem ser melhor examinadas, 
analysando-se a agua da chuva ou a da neve e do 
granizo den^etidos. 

D'esta maneira se tem verificado a existência dos 
gazes atmosphericos, juntos com a ammonia,'ios ácidos 
nítrico, sulphuroso e sulphurico, chloruretos. Vários saes, 
carvão solido, poeira inorgânica. A poeira microscó- 
pica tão abundante no ar é, sem duvida, pela maior 
parte, devida á acção do vento, que eleva as particulas 
mais miúdas das rochas desintegradas da superfície da 
Terra. 

As explosões vulcânicas ás vezes fornecem quan- 
tidades prodigiosas de poeira fina. Ha provavelmente 
também bastantes particulas solidas na atmosphera, 
provenientes de explosões ou pulverisação de meteo- 
rólithos que entram em nossa atmosphera. A' grande 
diffusão das particulas solidas do ar se attribue actual- 
mente grande importância na condensação do vapor. 

As proporções relativamente pequenas, porém ainda 
assim bem notáveis, dos componentes menos importan- 
tes da atmosphera, são muito muito mais susceptíveis 
de variação do que as dos gazes mais essenciaes. O 
chlonu^eto do sódio, por exemplo, é, como se deve es- 



- 35 - 

perar, particularmente abundante no ar das praias. O 
acido nitrico, a ammonia, e o acido sulphuríco appa- 
recem em maior proporção no ardas cidades. As sub- 
stancias orgânicas existentes no ar éão, ás vezes, meras 
particulas miúdas de poeira, provenientes dos corpos 
de organismos vivos ou mortos. 

O ar das cidades é particularmente carregado de 
impurezas, e não obstante a hygiene ligítt" extrema im- 
portância a esses vehiculos què podem trazer a poUuição 
microbiana do ar, entretanto não affectam permanen- 
temente a atmosphera geral, pois que são periodica- 
mente em grande parte eliminadas do ar pela chuva, 
mesmo nas localidades onde ellas se piloduzem. Elias 
possuem, todavia, uma significação geológica especial, 
e, a este respeito, também toem acções económicas im- 
portantes. 

Como agente geológico; a atínosphera effectua 
transformações pelas reacçõos chimicas»de ôeus gazes 
constituintes e vapores, pela sua variável temperatura e 
pelos seus movimentos e é, se bem que iridirectamente, 
uma das causas primordiaes da origem das fontes, como 
se poderá ler nos artigos que posteriormente apparecerão 
sobre eçte assumpto. 

(Continua) 



- 36 — 

Sociedade Ôcíentifica de 5- ^oulo 

Gxtracto daf^ NessSeH 

, DE AbI^IL de I9IO A pUTUBKO DE I91I 

COMMUNICAÇÕES 

Sessio de 28 de \hf\\—0 Dr, Roberto Hottinyei' 
expõe, por meio da machina de projecção, estampas de 
borboletas e bezouros, que, tendo soffrido alterações 
de temperatura no período de desenvolvimento, apre- 
sentam, quando indivíduos perfeitos, alterações de co- 
loridos. 

Scssáo de 5 de Mtiç — *0 socip Dr. Roberto Hot- 
tinger apresenta diversas chapas de preparações mi- 
croscópicas, que ^ são projectaílas pelo apparelho, e, como 
.phenomenp, apresenta um pinto com quatro pernas, 
sendo duas d'ellás correspondenifes ás azas. 

Sessio de 19 de Maio. — O sócio Dr. Edmundo 
Krug faz uma communicação referente á construcção 
da Penitenciaria da Capital. Em seguida, o mesmo só- 
cio apresenta varias chapas diapopitivas, que são mos- 
tradas no apparelho de projecção,^ e se referem á via- 
gem que fez ao rio Paranapanemá em 1905 e 1907. 

Sessio de 7 de Julho. — O Dr. Adolpho Lutz, to- 
mando a palavra, declara que, occupando-se da ento- 
mologia clmica, ia fazer um resumo dos seus trabalhos 
no Instituto de Manguinhos, sobre os insectos suga- 
dores de sangue. Tratando dos «simulium», passa a 
descrever as diversas espécies, entre as quaes alçumas 
novas. Descrevendo a biologia d'e's8es animaes, diz que 
elles vivem nas aguas agitadas, e que desovam em pos- 
turas grandes. Sugam o homem, o cao e o cavallo, não 
sabendo se a vacca também. Tractando da classificação, 
diz que são mais fáceis de ser classificados pelos casulos 
do que pelos adultos. Não podendo mais achar diffe- 
renças microscópicas, fez diversas preparações micros- 
cópicas, encontrando ainda ainda grandes differenças 
em espécies que pareciam eguaes. E* interessante a 
distribuição geographica das espécies. Elias vão desde 
o nivel do mar até á base das Agulhas Negras, onde 
encontrou luna espécie nova. D'entre vinte espécies 



— 37 — 

conhecidas, só doze atacam o homem de um modo con- 
stante. Diz que os simulium atacam o cavallo pelo 
crepúsculo, havendo algumas espécies que o atacam 
durante o dia. 

Os simulium são animaes que voam bem, e pó- 
dem ir a grande distancia, e é quasi certo que elles se 
deixam dirigir pelo olfacto. 

O Dr. António Varini, tomando a palavra, diz que 
no anno passado, estando no Instituto Pasteur, ahi se 
achava o Snr. Georgévitch, (jue lhe disse haver na 
Servia uma moléstia transmittida por um simulium (S. 
Columbacensis, pois taes insectos lá existem em grande 
quantidade. Tendo encontrado o Snr. Georgévitch uma 
crithídia no instestino do simulium, achava que tal 
moléstia era talvez causada por um flagellado. 

O Dr. Lutz diz que os casos de morte produzida 
por essa moléstia da Servia eram talvez devidos ao 
próprio simulium que ataca os animaes, produzindo 
lesões. 

O Dr. Carini lembra ainda as recentes observações 
sobre a febre dos papataci, que é certamente transmit- 
tida pelo Phlebôtomus papatasíi. 

O Dr. António CVirtw/ faz, em seguida, uma commu- 
nicação preliminar sobre formas^ de eschizogonia do try- 
panosoma Lewisi. Em frottis feitos com os pulmões de 
um rato (mus decumanus) em cujo sangue se achavam 
abundantes tryp. Lewisi (infecção natural), C. encontrou 
formas de eschizogonia constituídas de pequenos kys- 
tos contendo 8 elementos; os kystos e os merozoitos 
n'elles contidos são muito semelhantes aos descriptos 
por Chagas no seu schizotrypanum Cruzi. 

Esta observação é muito importante, pois que per- 
mitte suppôr que o processo de multiplicação por es- 
chizogonia seja commum a muitos trypanosomas. 

Sessão èm 28 de Julho. — O Dr. António Carini 
fala sobre alguns novos medicamentos, especialmente 
sobre os tripanblan tripanrothy aconselhado, n'estes 
últimos tempos, para o tractamento da tristeza dos 
bovideos. O tripanblan usa-se em injecções subcutâneas 
d*uma solução aquosa a 2^ o, em dose de 100 a 150 
ctm. cúbicos. Tniclando-se de uma moléstia muito grave 
e inuilo frequente entre os bovideos aqui importados, o 
Dr. Carini espera ter occasião de experimentar este novo 
remédio. 



— 38 — 

Sessio cm 4 de Agosto — O sócio Dr. Vital Bra- 
sil convida os presentes a examinarem as preparações 
referentes á moléstia Namhiuvú, que ataca os cães. 
São também projectados, no apparelho da Sociedade, 
vários desenhos de parasitas d'esta moléstia. 

Refere-se também o Dr. Vital Brasil a uma Filaria 

encontrada nos ratos que habitam as margens do rio 

* Pinheiros : é uma Microfilaria, cujo macho mede 20 

mm. de comprimento e t02 microns, e a fêmea de 65 a 

95 mm. de comprimento e 115 microns. 

O Dr. Spíendore julga tratar-se do rato denomi- 
nado mus raius, 

O mesmo Dr. Spíendore, pedindo a palavra, tracta 
de um micro-organismo verificado por elle em um inte- 
ressante trypanosoma de pássaros, mostrando algumas 
figuras relativas ao mesmo parasita. 

O Dr. Stapler refere-se a uma operação por elle 
practicada diversas vezes, denominada vasostomia, 
quando se tracta da orchite. 

O Dr. Carini fala ácêrca da esterilisação das pes- 
soas que soffrem de moléstias hereditárias, afim de evi- 
tar que taes indivíduos possam gerar. 

Sessão em 15 de Dezembro. — O sócio Dr. Eliezef 
dos Sanctos Saraiva faz a leitura de um trabalho sobre 
«O regimen dos ventos em S. Paulo», sendo esse tra- 
balho baseado em vinte e três annos de observ^çõfs 
de tal elemento meteorológico. E* apresentado, então, 
um quadro dando a porcentagem da frequência, a pres- 
são atmospherica, a temperatura e a humidade relativa 
para cada rumo da rosa dos ventos, assim como quatro 
diagfammas representando a rosa de frequência, a rosa 
barica, a rosa thermica e a rosa psychrica dos ventos, 
fazendo-se a projecção dos desenhos por meio da grande 
machina projectante, que pertence á Sociedade. Segundo 
os dados apresentados pelo Dr. Saraiva, os ventos do 
quadrante NW são os menos frequentes, os de mais 
baixa pressão, os mais quentes e os mais sêccos, e os 
de SE, exactamente o opposto : são os mais frequentes, 
de alta pressão, mais frios e mais húmidos. (*) 

Após esta communicação, seguiu-se uma interes- 
sante palestra acerca do assumpto acima alludido. 

Sessio cm 27 de Abril — O Dr. Belfort Mattos apre- 



<*) Etta eofiiimuilcaçio vae Interta na Int egra, aa pretente edição áh/íevisUi. 



— 39 — 

senta um trabalho sobre a *Uniformisação da hora no 
Brasil e os fusos horários», no qual, depois de expor 
algumas idei^as históricas ácêrca da contagem do tempo, 
desde as mais remotas eras, passa a explicar o systema 
da contagem do tempo por meio de fusos horários, 
tendo o primeiro |)or meridiano central o meridiano de 
Greenwich, já quasi universalmente acceito. Cada fuso 
consta de 15^ ou 1 hora, de modo que o tempo de um 
fuso para outro differe de uma hora exacta. Em seguida, 
p Dr. Belfort passa a demonstrar jas vantagens que, 
sobre os vários ramos de actividade, advirão, se fôr 
adoptado o systema dos fusos horários, e termina com 
uma moção que pretende apresentar ao Terceiro Con- 
gresso Brasileiro de Geographio, pedindo aos poderes 
públicos a decretação da hora official no Brasil, de ac- 
côrdo com a divisão do globo em fusos horários. (*) 

O Dr, Barros Barreio discorre sobre o papel da agua 
na geologia, explicando a formação dos lençóes d'agua 
que determinam as infiltrações, dando logar ao appare- 
cimento dos lagrimaes e successivamente dos córregos, 
ribeirões e rios mais ou menos caudalosos. Incidente- 
mente occupa-se do problema da defesa da Capital Fe- 
deral contra as inundações, adoptando o plano de cir- 
cumvaliação da cidade. 

De pas^^agem, tractou também dos processos de se- 
dimentarão e aterro das várzeas por colmatagem, bem 
como o effeito das correntes maritimas, ao penetrar no 
intr»rior das bahias, onde muitas vezes depõe as areias 
que arrastam de bem longe, obstruindo assim os anco- 
radouros e canaes de accesso. 

Sessão em 4 de Maio. — O sócio Dr, Belfort Mattos 
continuou a tractar da questão da hora official e sua 
uniíormisaç^o no Brasil, aproveitando a occasião para 
ler um interessante artigo do brilhante escriptor astró- 
nomo M. Camille Flammarion, publicado na *L'Astro- 
nomie», revista da Sociedade Astronómica de França, 
e na qual o distincto scientista transcreve e commenta 
o decreto írancez. publicado no «Journal Officiel», de 10 
de Março do corrente anno, estabelecendo a modificação 
(la hora legal da França, para pôl-a de accôrdo com o 
systema universal dos fusos horários. (**) 



(*) Este trabalho vae publicado na integra, no presente numero da Revista» 

(*) Os treciíos mais interessantes d*aquelle artig^o vão repreduzidQS oa me- 
moria que sobre o dlcto assumpto sae publicada n*e8te numero. 



— 40 — 

Em seguida, o sócio Dr. Barros Baneto dissertei 
sobre a classificação geológica dos terrenos, corrimuni- 
can(lo á casa a descoberta, em território americnno e 
canadense, de jnnumeros exemplares de aezoons cana- 
denses, generalizando-se, em seguida, uma discussão 
sobre as escolas phiiosophicas e a geologia. 

' Sessto cm 7 de Setembro. — O Dr, António Carim 
iaz uma communicação ácêrca da moléstia denominada 
cara inchada (osteoi:nalaeia, osteoporose) dos cavallos. 

Depois <íe ter descripto os symptomas e as lesões 
princípaes, falia sobre as causas da moléstia, não accçi- 
tando a theoria que a faz depender de uma insufficiente 
nutrição, acreditando mais na natureza parasitaria, e são 
citados factos de observação pesjoal a favor desta theoria. 

O Dr. Carini diz que nos porcos abatidos no ma- 
tadouro de S. Paulo se observam não raramente lesõçs 
osteomalacicas localisadas em forma de nódulos sobre 
as costellas. D'çstas lesões e das dos cavallos osteo- 
malacicos, o orador conseguiu isolar, embora raramente, 
um estapíiilococcô, que poderia ser o agente etiológica 
da moléstia, faltando porém ainda a prova. 

Em seguida o sócio Dr. Assad Bechara falou ácêrci 
de seu paiz nat^l, a Syria, atravez da historia e sua mo- 
derna condição social. Depois de se refeiir aos antece- 
dentes históricos d'aquelle paiz, pelos quaes accentuou 
a falta de cohesão, que caracterizava os primitivos ha- 
bitantes da Syrja, sempre vencidos e subjugados peles 
povos invasores, o orador frisou o facto que suas coi- 
dições actuaes derivam d'essa situação creada em tem- 
pos passados, e que, constantemente opprimidos pelos 
turcos, os syrios emigram para outros paizes, onde, 
pelo exercicio do commercio, vào em uma atmospheni 
de liberdade, collaborar no seu engrandecimento. Pro- 
curou ainda o orador desfazer quaesquer impressões, 
porventura menos favoráveis, que poderiam ainda existir 
com relação ao seu povo, que não deve ser confundido 
com o povo turco, cuja indole e inclinações são bem 
diversas das dos syrios. 

O sócio Dr. Eliezer dos Sanctos Saraiva disserta 
sobre «Costumes e tradições populares no Sul do Bra- 
sil». Descreve, em primeiro logar, a situação geogra- 
phica do Estado de Santa Catharina, suas origens his- 
tóricas, bem como os vários elementos ethnicos que 
entraram na formação do povo çatharinense. Passa de- 
pois a apreciar a vida maritima e rural no seio d'aquel- 



— 41 — 

le povo, descreve algumas das múltiplas e variíidas 
feições da vida agricola do sertanejo catharinense, como 
as moagens de canna, as farinhadas, etc, e termina 
por se relerir a varias festas, umas de caracter leli- 
eioso, e outras de caracter profano, como sejam as 
festas de Reis, do Espirito Santo, de â. João, o pau 
de fita, o bumba-meu-boi, etc. Frisou, finalmente, o ora- 
dor que a expansão ferro-viaria, a invasão gríulual das 
correntes immigratorias e o |)rogresso da iíistrucção 
popular tendem a modificar esses costumes que, ení- 
bora rudes, constituem um património que, pena é, 
tenha de desapparecer. 



RESOLUÇÕES 

Foram adoptadas as seguintes resoluções: 
Jfa sessõo d# /♦ d9 Jfbríl d# f9íò: 

Approvando o Regulamento Interno da Secção de 
Engenharia; 

Admittindo-se o allemâo ou qualquer outra língua 
para a redacção das communicações; 

Incluindo os architectos na Secção de Engenharia. 

Jfa sessão de 28 de jTbril: 

Organizando a Secção de Sciencias Juridicns e So- 
ciaes ; 

Nomeando o Dr. José Bonifácio de Oliveira Couti- 
nho para organizar o Regulamento Interno d'aquella 
Secção. 

Jfa sessão de 26 de Jíffaio: 

Organizando uma serie de conferencias publicas 
sobre assumptos scientificos, de interesse geral. 

Jfa sessão de 9 de Junho: 

Felicitando o Dr. Carlos Chagas pela sua mono- 
graphia sobre uma nova trypanomiase humana, pu- 
blicada nas Memorias do Instituto «Oswaido Cruz» ; 

Nomeando uma commissão composta dos Drs. Splen- 
dore e Carini, afim de dar as boas vindas, em nome da 
Sociedade, ao notável scientista Prof. Samuel Pozzi, 
que deve chegar brevemente a S. Paulo. 



— 42 — 

J/a sessão de 28 de Julho: 

Nomeando uma commissão composta dos Drs. 
Splendore e Krug, afim de receber o Dr. Ernesto Ber- 
larelli, professor da Universidade de Parma; 

Elegendo o Prof. Dr. Ernesto Bertarelli* sócio cor- 
respondente da Sociedade. 

Jfo sessão de 16 de Jfgosio: 

Approvando o Regulamento Interno da Secção de 
Sciencias Juridicas e Sociaes; 

Felicitando o Exmo. Snr. Dr. Pádua Salles, Secre- 
tario da Agricultura, pela acquisição feita pelo governo 
das grutas calcareas da zona de Yporanga. 

Jfa sessão de /.^ de Setembro: 

Promovendo, para o dia 7 de Setembro, uma ses- 
são commemorativa do sétimo anniversario da funda- 
ção da Sociedade; 

Nomeando uma commissão composta dos Drs. An- 
tónio Teixeira da Silva, Reynaldo Ribeiro e José Nunes 
Belfort Mattos, afim de representar a Sociedade na 
sessão inaugural do vSegundo Congresso Brasileiro de 
Geographia, a realizar-se n'esta Capital, no dia 7 do 
corrente; 

Offerecendo ao Congresso Brasileiro de Geographia 
uma sessão solemne, no dia 15 do corrente, no Instituto 
Histórico e Geographico. 



SESSÕES SOLEMNES 

A sessão commemorativa do sétimo anniversario 
Commemoracâo do ^^ fundação da Sociedade foi realizada 

7n o««j.,^.L,i n- dia 7 de Setembro de 1910, com a 
7.0 anniversario _, , j _• 

presença de grande numero de sócios 

e de exmas. famílias. A sessão foi presidida pelo Dr. 

Barros Barreto que, depois de expor os fins da reunião, 

deu a palavra ao Snr. Dr. António Teixeira da Silva, 

orador official, o qual pr(»feriu o discurso commemora- 

tivo da solemnidade. 

Seguiu-se com a palavra o Dr. Barros Barreto, Di- 
rector-presidente, que fez uma communicaçâo sobre as- 
sumptos geológicos, tractando especialmente da histo- 
ria da Terra. 

O Dr. Torres de Oliveira, representando o Instituto 



— 43 — 

Histórico e Geographico de vS. Paulo, saudou a Socie- 
dade Scientiíica, em nome daquella instituição, íazendo 
os melhores votos pela sua prosperidade. Em seguida 
foi dada a palavra ao Rev. Padre Etienne IgrKice Brasil, 
representante do Estado do Rio de Janeiro no Segundo 
Congresso Brasileiro de Geographia c Presidente do 
Instituto Histórico e Geographico Fluminense, o qual 
saudou em francez a Sociedade em nome (festa instituição 
e do Dr. Alfredo Backer, Presidente (Paquclle Estado. 
Depois de se ter congratulado com as senhoras e 
cavalheiros pelo brilho que deram, com a sua presença, 
áquella festa scientiíica, salientando o papel da mulher 
sociedade, o Dr. Presidente declarou encerrada a sessão, 
e convidou todos os presentes a se servirem de uma 
mesa de doces. 

Com enorme concorrência de congressistas, sócios 
Homenasem ao Sc ^*^ Sociedade c innumeras famílias, rea- 

^^A..r^^^^^.^^ lizou-se, no dia 15 de Setembro de 1910, 
£undu Congresso J , te -^ i o • 

Brasileiro de Oeo- ^ sessão solemne offerecida pela Socie- 

granhia " ^^"^ Scicntifica ao Segundo Congresso 

* ^ Brasileiro de Geographia. O local da 

reunião foi o vasto salão de conferencias do Instituto 
Histórico e Geographico de S. Paulo, e que ficou litte- 
ralmente cheio de assistentes, apezar do tempo incle- 
mente que reinava n'aquella occasiào. 

A sessão foi presidida pelo Dr. José Nunes Belfort 
Mattos, Director-secretario, na ausência do Director-prc- 
sidente, que deixou de comparecer por motivo imperioso, 
tomando assento á mesa os demais directores da vSocie- 
dade, Drs. Eliezer dos Sanctos Saraiva e Edmundo Krug, 
os Snrs. conselheiro Ernesto de Vasconcellos, coronel 
Abel Botelho e Dr. Lobo d'Avila Lima, membros da 
delegação portugueza ao Segundo Congresso Brasileiro 
de Geographia, o snr. commendador Tiburtino Mondim 
Pestana, representando o Snr. Dr. Secretario do Inte- 
rior, o Dr. Gentil de Assis Moura, Secretario-gera! do 
Congresso, e o Dr. António Teixira da Silva. 

Ao abrir os trabalhos, o Dr. Delíort Mattos, depois 
de justificar a ausência do Dr. Barros Barreto, Dircctor- 
presidente, proferiu o seguinte discurso : 



— 44 — 

Exmas. Snras,, Ulmos, Snrs. Delegados de Na- 
ções Amigas, Preclaros f epresentantes dos Governos 
de 5. Paulo e Estados Brazileiros, Snrs, Congressis- 
tas. 

Na ausência justificada do Dr. Presidente da Socie- 
dade Scientifica de S. Paulo, toca-nos a subida honra 
de trazer-vos as saudações calorosas do nosso grémio, 
vibrante do mais vivo enthusiasmo, ante o êxito feliz e 
completo que vae tendo o Segundo Congresso Brasileiro de 
Geographia. 

E bem legitimo é o jubilo que nos vae n'alma, ao 
encontrarmo-nos em meio d'essa fulgente constellação 
de rútilos espiritos, que tanto enaltecem a Geographia, 
cujo escopo em si abrange os mais interessantes e vi- 
taes problemas que dizem respeito ã humanidade, pois 
que a bella sciencia de Humboldt desenvolve suas pes- 
quizas sobre o vasto campo que encerra os factos phy- 
sicos, biológicos e sociaes, considerados em sua distri- 
buição na superficie do globo, estudando as origens e 
mutuas dependências d'esses phenomenos. 

Mas, Snrs. Congressistas, se buscarmos a causa 
dominante e reguladora da distribuição de seres vivos 
pelas diversas regiões do orbe, conheceremos logo que 
é o clima esse factor dominante na repartição geogra- 
phica de todas as espécies vegetaes e animaes. 

Vós o sabeis, quanto mais se avança para os pólos, 
tanto menor será o numeto de espécies encontradas 
nos reinos vegetal e animal, ao contrario do que suc- 
cede quando buscamos a zona tórrida, onde existem os 
mais bellos, variados e completas organismos, com 
suas faculdades superiores elevadas ao máximo de 
desenvolvimento. 

Dá-se mais o facto de serem encontrados sob tem- 
peraturas idênticas, mas em paizes remotos, os mes- 
mos géneros perfeitamente caracterizados, o que conduz 
logicamente á conclusão de que ó o conjuncto de phe- 
nomenos meteorológicos que caracteriza um estado 
médio da atmosphera, o principal elemento para a fi- 
xação do habitat e da localidade das espécies até hoje 
estudadas na historia natural. 

Entre os vegetaes, sobretudo, essa dependência 
climatérica é iniliudivel, ao passo que entre algumas 
espécies animaes a hibernação e ás migrações permit- 
temlhes fugir ás grandes differenças das temperaturas. 



— 45 — 

A subordinação imposta á vida vegetativa pela dif- 
ferença <las latitudes se reproduz muito mais intensa e 
rápida (luando se estudam a flora e a fauna das locali- 
dades com altitudes differentes, onde a luminosidade, a 
duração e a intensidade da insolação, variam extraor- 
dinariamente sob um mesruo parallelo terrestre. 

Se tão intima é a ligação entre a Geographia e a 
Meteorologia, não será descabido aqui appeliar para a 
vossa illustração e influencia, no sentido de pedir o 
vosso apoio, o vosso prestigio, e todo o vosso interes- 
se para que se promova o estabelecimento de postos 
de observações em o nosso vasto c querido Brasil. 

Que ao lado da^ explorações geographicas niiarchen 
as pesquizas meteorológicas, desvendando a climatolo- 
gia brazileira, somente conhecida em alguns Estados 
mais adeantados do Brasil e apenas esboçada na maior 
parte do nosso vasto e mal estudado território, eis Snrs. 
CongressisthíT,' os votos sinceros que faço pelo progres- 
so da Geographia e da Climatologia brasileira, ao abrir 
a presente sessão, que a Sociedade Scientifica de S. 
Paulo consagra ao 2.® Congresso Brasileiro de Geo- 
graphia. 

Tocando-nos agora o gratissimo dever de cumpri- 
mentar, por nossa vez, a preclara missão portuguezaí, 
que nos trouxe d'além mar as mais carinhosas palavras 
d'esse paiz tão caro a nós os brasileiros, descenden- 
tes, em linha reòta, dos bravos lusitanos, raça de au- 
dazes navegantes e valorosos guerreiros que assom- 
braram o mundo, na phase evolutiva em que a Europa 
operava a grande transformação da Renascença, bri- 
lhante estádio da historia em que o heróico braço por- 
tugurz conquista Ceuta, avassalla Tanger, Arzilla, Gôa, 
Azamor, Ormuz e Malaca, busca iiUemerato, na Africa 
tenebrosa, o império do lendário Prestes Johan, ao passo 
que os seus ineçualaveis navegantes dobram o Boja- 
dor, vencera o Cabo das Tormentas e descobrem as 
ilhas do Porto Santo, Madeira, Fernando Pó, S. Tho- 
mó, o Congo, o Brasil, o Canadá e a Terra do La- 
brador, emprehendendo, e quasi levando a termo, sua 
viagem de circumnavegação o mallogrado Fernão de 
Magalhães, quando já se povoava a terra descoberta 
pelo senhor de Belmonte, o qual em 1500 nos trouxera, com 
o generoso sangue portuguez, as primícias da civilisa- 
ção Occidental, abrangendo ao mesmo tempo, sob as 



- 46 - 

quinas lusitanas, a pátria dos Viriatos e as virgens 
selvas da Terra de Santa Cruz. 

Eis porque, Snrs. Congressistas, a Sociedace Scienti- 
fica de S. Paulo vos manda muita saudar, na occasião 
em que se honra ao conferir o titulo de sócios hono- 
rários aos illustres hospedes da missão portugueza. 
cuja presença, em o nosso meio, é motivo do mais in- 
tenso jubilo. 

Snrs. da missão portugueza, recebei da Sociedade 
Scientiíica de S. Paulo os vossos diplomas de sócios 
correspondentes. 

Tenho dito. 

Em seguida, foram entregues os diplomas de sócios 
correspondentes aos Snrs. Coronel Abel Botelho e Dr. 
Lobo d^Avila Lima, sendo que o conselheiro Ernesto de 
Vasconcellos já era de ha muito sócio correspondente, 
tendo sido apenas empossado. 

Dada a palavra ao Dr. António Teixeira da Silva, 
este saudou, em nome da Sociedade Scientiíica, os con- 
gressistas, bem como os delegados da Sociedade de 
Geographia de Lisboa, que acabavam de ser empos- 
sados como sócios correspondentes da Sociedade. 

Seguiu-se a conferencia do Dr. Lobo d'Avila Lima, 
que discorreu ácêrca da colonisação européa no Brasil, 
especialmente em referencia á corrente immigratoria 
portugueza. 

O Sócio Dr. Edmundo Krug ícz, cm seguida, uma 
communicaç^o sobre «Lendas indigenas*, encerrando-se 
a reunião depois de ter o Snr. Dr. Presidente agrade- 
cido a presença, não só dos congressistas, membros 
da missão portugueza e demais pessoas de representa- 
ção oííicial, mas também das senhoras e cavalheiros, 
que tanto concorreram para o brilho d'aquella sessão 
solemne. 

Perante numeroso e selecto auditório commemorou 

esta Sociedade, no dia 7 de Setembro 

A^^^"Í^J^?J^r^Jíi^ ultimo, o oitavo anniversario de sua 
do 8.0 anniversario rj- ,, i^r» ^rj 

fundação, na sede social, á Rua 15 de 

Novembro, n.° 20. 

Entre a numerosa assistência, notavam-se os Snrs. 
Dr. Barros Barreto, Presidente da Sociedade, João 
Motta, João Rangel, Eliezer dos Sanctos Saraiva, Ál- 
varo Augusto Schmidt, Cassio Motta e Ralpho Pacheco 
e Silva, com suas exmas. famílias; Drs. Alfredo Kaus- 



- 47 - 

chus, Jeronymo Rangel Moreira, António Novaes Mou- 
rão, Odilon Ribeiro. Hermínio Gomes Moreira, Francis- 
co Leite Moreira Júnior, Carvalho Aranha, António 
Carini, José António Rizzo, Assad Bechara, Benjamim 
Freitas, José Nunes Belíort de Mattos, Luiz Ayres de 
Almeida Freitas, Manoel Pessoa de vSiqueira Campos 
Filho, Mariano Neves e A. Cownley SIater. 

Ao abrir a sessão, o Snr. Dr. Presidente em breve 
allocução, expoz os fins da reunião e coníí;ratulou-se 
com os sócios pelo 8.® anniversario de existência que 
a Sociedade Scientifica de S. Paulo éntào completava, 
salientando os progressos e notável desenvolvimento 
d'aquelle grémio nos annos recentemente decorridos. 

Foi. em seguida, dada a palavra ao Snr. Dr. An- 
tónio Carini, director do Instituto Pasteur, o qual fez 
uma commimicaçào sobre a moléstia denominada **A 
cara inchada** dos cavallos. 

Seguiu-se com a palavra o sócio Assad Bechara, 
de nacionalidade syria, que tomou por thema de sua 
communicaçào "A Syria atra vez da historia e sua mo- 
derna condição social". 

Dada a palavra ao sócio Dr. Eliezer dos Sanctos 
Saraiva, estre proferiu uma allocuçào saudando a So- 
ciedade pela data festiva que solemnisava, e passou em 
seguida a fazer uma communicação sobre ^'Costumes 
e tradições populares do sul do Brasil". 

O Dr. Carvalho Aranha, em eloquente improviso, 
depois de se referir á contribuição trazida áquella ses- 
são i)elos oradores que o haviam precedido, saudou a 
Sociedade Scientifica pela commemoração que então 
realizava, e fez sentir que as nossas investigações, em 
que pesasse aos partidários de algumas escolas philoso- 
phicas, nAo deviam parar no desconhecido, mas ir além, 
proseguir, na conquista da verdade. 

Em seguida o Dr. Presidente, depois de ter agra- 
decido a presença das Exmas. Snras. e demais pessoas, 
pela honra que á Sociedade haviam dado de sua pre- 
sença, encerrou a sessão, depois de ter convidado a 
todos os presentes a se servirem de uma mesa de do- 
ces offerecida pela Sociedade. 

A' mesa foi o bello sexo saudado pelo Dr. N. Mourão, 
sendo a resposta a essa saudação proferida, em nome 
das senhoras presentes, pelo Dr. Carvalho Aranha. O 
Dr. Teixeira da Silva, usando da palavra congratulou- 
se com a Directoria pelas prosperas condições em que 



- 48 — 

manteve a Sociedade até aqui, e frisou, como facto 
de maior importância, o movimento em que se em- 
penha um dos seus mais illustres sócios, o Dr. Belfort 
Mattos, no sentido de ser decretada no Brasil a unifor- 
mação da hora, pela adopção dos fusos horários. 



A NOVA DIRECTORIA 

Em Assembléa Geral da Sociedade, a que compa- 
receram 29 sócios pessoalmente ou por procuração, e 
realizada a 29 de Setembro ultimo, depois de lido o re- 
latório do Presidente, e approvadas as contas, com pa- 
recer do Conselho Fiscal, procedeu-se á eleição da nova 
directoria para o anno social de 1911—1912, tendo sido 
proclamados como eleitos, de conformidade com os es- 
tatutos, os cinco sócios mais votados, a saber: Drs. 
António de Barros Barreto, José Nunes Belfort Mattos, 
António Carini, Eliezer dos Sanctos Saraiva e Roberto 
Hottinger. 

Para constituir o conselho Fiscal foram eleitos os 
Drs. Luiz Ayres, João Motta e Oeorge Krug. 

Em reunião dos directores el^tos, no dia 6 de Ou- 
tubro, ficou assentada a distribuição dos cargos pela 
maneira seguinte: 

Dr. António de Barros fíarreto. Director -presidente. 

Dr. J. N. Kelfort Afattos, Director secretario. 

Dr. António Catini, Director— thezoureiro. 

Dr. Roberto Hottinger, Director— hibliothecnrio. 

Dr. Eliezer dos Sanctos Saraiva, Director da Revista. 



— 49 — 

RELATÓRIO 

Apresentado áAssembléa Geral da Sociedade Scienti fica 
de S. Paulo, em 29 de Setembro de 1911, e refe- 
rente ao período social de 1910-1911. 



Illustres Senhores Consócios: 

Em cumprimento dos nossos Estatutos, vimos vos 
apresentar o relatório e o balanço do anno que hoje 
finda, acompanhando este ultimo o parecer do Conse- 
lho Fiscal. 

No que diz respeito ás reuniões académicas das 
diversas Secções da Sociedade Scientifiea de S. Paulo, 
devemos declarar que é de lamentar que ellas não se 
tenham realizado com a frequência de outras épocas. 

Attribuimos este facto á sobrecarga de traoalho 
profissional, que tem pesado sobre os hombros de nossos 
illustres consócios, de maneira a nunca poderem ter 
cedido ao nosso grémio algumas de suas poucas horas 
de descanço, illustrando-nos com as suas luzes. Todos 
vós conheceis os múltiplos e variados trabalhos que, 
de três annos a esta parte, se vêm executando em S. 
Paulo. 

Se reflectirmos que esses trabalhos são, em griuule 
maioria, duígidos por muitos de nossos illustres con- 
sócios, que em numero approximado de 200 occupam, 
com verdadebo brilhantismo, posições, quer na parte te- 
chnica da Administração Federal e Estadoal de S. Paulo, 
quer nas profissões liberaes, no commercio e na indus- 
tria, etc, encontraremos a justificação, aliás valiosa, da 
falta das reuniões acima alludidas. 

As reuniões da Directoria e da Assembléa Geral 
têm-se feito regularmente e as respectivas actas têm 
sido lavradas. 

E' interessante salientar o brilho que teve a Assem- 
bléa Geral, que commemorou o oitavo anniversario da 
fundação da nossa Sociedade. A Directoria, de confor- 
midade com os nossos Estatutos, já este anno deu 
principio aos cursos universitários, aliás já bem fre- 
quentados, e que se acham sob a direcção de illustres 
professores, nossos consócios. A Directoria actual es- 



— 50 

pêra que a Directoria vindoura, não só continue os 
cursos actuaes, como também crie novos cursos. 

A sede social proporciona lioje, aos nossos illustres 
consócios, um conforto que outr'ora não offerecia. 

A bibliotheca tem augmentado, resente-se, porém, 
da falta de um catalogo technicamente elaborado. Foi 
ella frequentada, durante o anno social que agora fin- 
da, por 762 leitores. 

O nosso archivo está em ordem. 

Devido aos mesmos motivos pelos quaes não se 
realizaram as sessões académicas, deixou de ser publi- 
cada a nossa revista, pois são taes reuniões as que 
fornecem material para aquella publicação. 

As finanças d'esta Sociedade têm melhorado razoa- 
velmente, como podeis verificar pelo balanço apresen- 
tado, convindo notar que, se nem todos os nossos com- 
promissos foram ainda satisfeitos, tal facto não se deu 
por falta de fundos, mas sim por que temos enfrentado 
despezas imprevistas e de urgente necessidade. 

Outrosim, cabe-me informar que os credores da So- 
ciedae têm recebido mensalmente pagamentos propor- 
clónaes, por conta de dividas antigas, isto de accôrdo 
com prévia combinação. 

O património social, que em Março do corrente 
anno, apresentava um saldo de Rs. 7:010$180, teve, du- 
rante este semestre, um accrescimo de Rs. 1:0901850, 
figurando, portanto, em iio3SO balanço, com o saldo de 
Ra 8:111 $030. Para bem esclarecer aos prezados con- 
sócios acerca do accrescimo em questão, abaixo damos 
a fonte do mesmo: 

Credito de Lucros e Perdas: 

Contribuições recebidas durante o semestre 

findo 3:868$000 

Alugueis, idem, idem, 600$000 

Rs. 4:4681000 

Debito da mesma conta: 

• Pago de alugueis durante o 

semestre 1:5008000 

Idem, idem, despezas geraes . 1:035$550 

Idem, idem, ordenados . . . 490$000 

Idem, idem, commissão de co- 
branças 3511000 3:377$150 

Património social 1.0908850 



— 51 — 
BALANDO GERAL 

DA 

Sociedade Seientifica de S. Paulo 

EM 

30 de S^f^fnàro de 1911 
ACTIVO 

Contas Correntes: 

Brasilianische Bank fúr Deut- 

chland (ex juros) 5:236$100 

London & River Plato Bank . 205$600 5:441$700 

Cai ia: 

Saldo que apresenta n'esta data 217$450 

Moveis e Utensilios : 

Pelos existentes, conforme in- 
ventario 3:620$990 

Bibliotheca : 

Valor que se lhe dá, conforme 

avaliação 3:248$800 

Deposito : 

Valor que temos na Light & 
Power, em caução 50$0Q0 

""l2!578$94Õ 

PASSIVO 

Contas Correntes : 

Henrique Grobel 2:396S100 

Brombero-, Hacker et Via. . . 529S490 

Rothschild & (^ia 152S320 

Lyceu de Artes e Officios . . 200§000 3:277S910 

Aeeões: 

Pelas que emittimos 1:190$000 



— 52 — 

Património Social: 

Pelo que se verifica pelo pre- 
sente Balanço 8:1 11 $030 

12:5781940 



Concluindo, agradecemos a confiança em nós deposi- 
tada por nossos illustres consócios, e esperamos que 
a Directoria, que hoje deverá ser eleita, cada dia me- 
lhore as nossas condições. 

A Directoria: 

Director-Presidente, António de Barros Barreto. 

Director- Secretario y J. N. B. Mattos. 

Director da Revista, L. Granato. 

Director- Thezoureiro, Eliezer dosSanctos Saraiva. 



Parecer do Conselho Fiscal 

A Commissão abaixo assignada, tendo examinado 
os livros e documentos relativos ao estado financeiro 
da Sociedade Scientifica de S. Paulo, achou-os perfei- 
tamente regulares, e julga-se no dever de felicitar a 
actual Directoria pelo esforço dispensado em prol da 
mesma Sociedade, hoje em elevado grau de prosperi- 
dade. 

S. Paulo, 29 de Setembro de 1911. 

(A.) João A. Cunha 
» JoAo M. MOTTA 
Dr. a. Carini. 



— 53 — 

Sociedade Scientjfica de S. Paulo 

Sócios propostos e admiUidos 

EM 1910 

Sócrates Alfeld Andrade, Dr. (Engenheiro) 
Luiz Delfino Ribeiro, Dr. (Engenheiro) 
Moysés Nogueira Marx, Dr. (Engenheiro) 
J. Gaspar d'01iveira, Dr. (Engenheiro) 
Francisco Saturnino Rodrigues de Brito, Dr. (Enge- 
nheiro) 
Oscar Werneck, Dr. (Engenheiro 
Miguel F. Presgrave, D/. (Engenheiro) 
Eduardo Shalders, Dr. (Engenheiro) 
Hermillo Campello, Dr. (Engenheiro) 
Isaac Pereira Garcez, Dr. (Engenheiro) 
António do Amaral Camargo, Dr. (Engenheiro) 
João Pugliese, Dr. (Empreiteiro Constructor) 
Ricardo Severo, Dr. (Eng. Civil) 
António Cândido Rodrigues, Dr. (Engenheiro) 
Alexandre Albuquerque, Dr. (Engenheiro) 
José F. Lohn, Dr. (Engenheiro) 
Henrique Santos Duuiont, Dr. (Engenheiro) 
José Vicente de Souza Queiroz, (Lavrador) 
José Carlos d'Almeida Torres Tibagy, Dr. (Engenheiro) 
Mário Natividade Dr. (Engenheiro) 
José Clemente Vuono Netto, Dr. (Engenheiro) 
Pérsio de Souza Queiroz, Dr. (Engenheiro) 
William J. Sheldon, Dr. (Engenheiro) 
Walter N. Walmsley, Dr. (Engenheiro) 
Aphrodisio de Vasconcellos, Dr. (Engenheiro) 
Arlindo J. de Mello, Dr. (Engenheiro) 
Othoniel Motta, Dr. (Lente do Gymnasio de R. Preto) 
Ovidio Pires de Campos, Dr. (Medico) 
Guilherme Ernesto Winter, Dr. (Engenheiro Civil e 
Architecto) 

EM 1911 

Álvaro Augusto Schmidt, Dr. (Advogado) 

António de Novaes Mourão, Dr. (Advogado) 

Ademar de Moraes, Dr. (Eng. Civil) 

Assad Bechara, Dr. (Bacharel em Artes pelo Syrian 
Protestant College de Beyruth) 

Armando Fairbanks. (Funccionario Publico e . Acadé- 
mico de Direito) 



— 54 — 

Aurélio Victor Diniz Gonçalves, Dr. (Medico) 

Alexandre E. E. Lefèvre, Prof. 

André Villari, Dr. (Director da Academia Pratica de 
Commercio de S. Paulo) 

Agenor de Azevedo, Dr. (Advogado) 

Alfredo Kauschus, Dr. (Engenheiro) 

Benjamim de Freitas, (Cirurgião Dentista) 

Cassio Motta, Dr. (Medico) 

Domiziano Rossi, Prof. 

Delphino de Toledo Piza e Almeida, Dr. (Bacharel em 
Direito) 

Euclides í^agundes, Dr. (Eng. Civil) 

Eduardo Limpo de Abreu, Dr. (Eng. Civil) 

Evaristo Ferreira da Veiga, Dr. (Medico) 

Eloy de Miranda Chaves, Dr. (Advogado) 

Félix Ferraz, Dr. (Eng. Civil) 

Francisco Machado de Campos^ Dr. (Eng. Civil) 

Gustavo Pires de Andrade, (Cirurgião Dentista) 

Henrique Misasi (Presidente da Camará Italiana de 
Commercio e Arti) 

Isaac de Mesquita Júnior, Prof. 

João Jeronymo Pontual Rangel, Dr. (Medico) 

José António Rizzo, Prof. 

Joaquim Miguel Martins de Siqueira, Dr. (Bacharelem 
Direito) 

José Rangel Belfort de Mattos, (Funccionario Publico 
e Académico de Direito) 

Joaquim Ferreira da Rosa Sobrinho, Dr. (Engenheiro) 

Jeronymo Guedes Fernandes, Prof. 

Joaquim Prado de Azambuja (Administrador dos Cor- 
reios do Estado de S. Paulo) 

José Martiniano Rodrigues Alves, Dr. 

João Alves da Cunha, Dr. (Eng. Civil) 

José Mariano Corrêa, Dr. (Advogdo) 

José Ferreira de Mello Nogueira, (Advogado e Jorna- 
lista) 

Luiz Hoppe, Dr. (Medico) 

Leonidas Barreto, Dr. (Advogado) 

Luiz José Corrêa de Sá Júnior, Dr. (Medico) 

Luiz Arthur Varella, Dr. (Advogado) 

Manoel Pessoa de Siqueira Campos Filho, Dr. (Advo- 
gado) 

Manoel Pedro Villaboim, Dr. (Lente Cathedratico da 
Academia de Direito) 

Numíi d^Oliveira, Dr. 






— oo — 

Odilon Ribeiro, Dr. (Advogado) 

Plinio de M. Uchôa, Dr. 

Raul Carlos Briquet, Dr. (Medico) 

R. Heise, Dr. (Eng. Civil) 

Salvador Toledo Piza e Almeida, (Agricultor) 

Thiers (jalvão de Fran<;a (Funcionário Publico) 

Theodomiro Dias, Dr. (Advogado) 

Theotonio de Lara Campos Júnior, Dr. 

Valdomiro Fagundes, Dr. (Eng. Civil) 

Vicente Graziano, Dr. (Medico) 

Virgílio Rodrigues Alves Filho, Dr. 



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REVISTA 



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Níriedade >neiiiiliia de S, Paulo 



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1913 



DIrertor di Stirísla - Etl£2£R DOS SANCfOS S4RAÍVA 
Reiliicçlo t wéút tocMI — Rv« 16 iff Noveistiro. n.« dOi, 2.° indtr 



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S. PAULO — BRASIL 
1913 



7 



REVISTA 

DA 

Sociedade Scientifica de S. Paulo 

VOLUME VII - - - NOVEMBRO DE 1913 



Uma explicação 



Desde que assumimos a direcção da Revista da 
Sociedade Scietdifica, fizemos o empenho de que ella 
representasse os esforços de nossos consócios, publi- 
cando tão somente trabalhos originaes e estudos apre- 
sentados nas sessões da Sociedade. 

Uma vez, porém, que tem havido escassez d'es- 
ses trabalhos, a direcção da Revista tem-se con- 
siderado desobrigada de publical-a, e d*ahi o grande 
interregno decorrido desde o ultimo numero. 

A presente edição contém trabalhos de alto valor 
scientifico, e para elles chamamos a attenção dos ami- 
gos e leitores da Revista, 

Temos o maior desejo de pub ical-a regularmen- 
te; pois, além do ser um meio de divulgação das me- 
morias e estudos apresentados pelos sócios, relatando 
assim a vida de nosso modesto meio scientifico, cons- 
tituo também um meio de troca com outras revistas o 
publicações congéneres do Paiz e do estrangeiro. 

São innumeros os pedidos que temos recebido do 
exemplares da Revista, e confessamos que não é pe- 
quena a contrariedade que nos causa a privação do 
publical-a. Ella conseguiu uma posição de destaque 



u.áof. / -ft /^^. 



no seio da nossa imprensa scientifíca, e será para la- 
mentar que, com tal prestigio, esteja inbibida de cor- 
responder ao desejo de tantos que almejam recebel-a. 

Vamos, pois, levantar a Revista. Para isso não 
nos falta bôa vontade. Mas é necessário que os nos- 
sos consócios nos prestem o seu braço forte com o 
concurso de suas luzes. 

Sabemos que em nosso meio temos profissionaes 
de elevada competência scientifíca, C4ijos trabalho» 
muito honrariam as paginas de Revista, e que talvez 
estejam dormindo o somno do esquecimento nos esca- 
ninhos de suas secretárias. 

Que venham esses trabalhos vulgarizar as pre- 
ciosas investigações que encerram, ao lado dos muitos 
a que temos dado publicidade na Revista da Socie- 
dade Scientifíca. 

Distribuído o presente numero, é nosso desejo 
publicar um outro, para, de algum modo, supprir o 
longo intervallo, durante o qual deixou de sair o nos- 
so orgam, para o que desde já solicitamos a intelli- 
gente coUaboração de nossos consócios, de accõrdo com 
o programma publicado no ultimo numero. 



nj 



— 3 — 

O ECLIPSE TOTAL DO SOL 

em 10 de Outubro de 1910 O 



Estudar o Sol (centro do nosso systema planetá- 
rio, importa em estudar o grande agente da vida ter- 
restre, pois o nosso planeta e todos os animaes e ve- 
getaes que o povoam giram suspensos no espaço e 
são mantidos pelos eternos laços da attracção universal» 
dominados pela força portentosa emanada do grande 
astro fulgurante. 

Originado da immensa nebulosa solar, o nosso 
globo e todos os que o habitam devem sua existência 
ás radiações de toda a sorte, que nos envia o poderoso 
foco, em torno do qual circulamos, descrevendo a elli- 
pse harmoniosa da trajectória terrestre. 

Dahi a importância capital do problema solar, que 
é o nó vital da sciencia moderna, visto como todas as 
energias terrestres não são outra coisa senão transfor- 
mações das energias solares, e o vento que sopra cm 
mansa brisa ou nas violentas rajadas, em impetuoso tu- 
fão, a catadupa que se despenha em cachões alvacen- 
tos nas quebradas das serras, a locomotiva e o transa- 
tlântico que voam, a flor que rescende aromas e o co- 
libri irisado, são outras tantas crystallizações das radia- 
ções solares. 

O conhecimento do astro do dia leva-nos, de mais, 
ao conhecimento da constituição geral do universo, por- 
que o universo é composto de estrellas ou, de systemas 
estellares, e cada estrella é um sol do infinito, cujos 
mysterios nos são desvendados pelo estudo do Sol, por 
isso que, assim como o organismo de um só individuo 
revela a anatomia e os traços còmmuns a uma espécie 
inteira, bastará conhecer um só para se ter sciencia de 
todos os outros astros da mesma natureza. 

Afim de se adquirir o alludido conhecimento da 
constituição physico-chimica do Sol. um dos meios mais 
effirazes é, sem duvida, a observação dos phenomenos 
que se desenvolvem por occasião dos eclipses totaes, 



(*> Memoria etcripta pelo notto consócio Dr. Joié Nunes Belfort MattQt, Chefe 
do Strviço Meteorolof ico de S^. Paoto. cóntéfIdA at' (natrucçõet officiact para o estudo 
do phenoraeno, a serem observadas pela Commistio do Observatório de S. Paulo, que es- 
teve Mn Cruzeiro, e pelos particularres interessados na observação do eclipse. 



_ 4 — 

durante os quaes podem ser percebidos factos impos- 
síveis de se distinguir, dado o brilho offuscante que 
circumda o astro nas suas condições normaes. 

A acção do Sol sobre todo o nosso systema é, pois, 
de tal importância, que difíicilmente se poderia descre- 
vel-a em um trabalho ligeiro como este, que se destina 
a fornecer breves indicações sobre o modo de obser- 
var proveitosamente o eclipse de 10 de Outubro, com 
os recursos ao alcance de todos. 

Levado por essas razões e certo da boa vontade 
que anima os nossos observadores, e ao mesmo tempo 
contando com a valiosa contribuição dos scientistas 
domiciliados em S. Paulo, resolvemos fazer as seguintes 
considerações relativas ao eclipse do Sol, ao dirigir-Ihes 
um pequeno questionário ácêrca do que puderem ob- 
servar por occasião do phenomeno que se vae produ- 
zir a 10 de outubro próximo. 

Receberemos com prazer e procuraremos aprovei- 
tar todo e qualquer trabalho criteriosamente executado 
n'este assumpto, e desde já agradecemos as informações 
que o publico illustrado nos possa enviar. 

Nas indicações que se seguem, procuramos seguir 
bem de perto as instrucções dadas pelo sábio astróno- 
mo Bigourdan, para que sejam utilizáveis as observa- 
ções tomadas durante os eclipses. 

O que vemos ordinariamente do Sol é uma peque- 
na fracção de sua massa inteira, e só durante os eclip- 
ses totaes se poderá avistar a atmosphera do astro ou 
coroa solar mais volumosa que o globo em si. 

Ora, essa atmosphera é a parte do Sol mais ac- 
cessivel aos nossos instrumentos, e os factos que n'ella 
'se observam são como um reflexo do que se passa na 
massa interior, e que escapa á nossa investigação di- 
recta. 

Para as importantes observações a fazer sobre a 
coroa, e que geralmente são realizadas por commissões 
poderosamente organizadas, daremos apenas uma idéa 
geral, no decurso d>ste trabalho. 

Sabe-se que a Lua gira em torno da Terra em 
pouco menos de um mez, e que sua trajectória por en- 
tre as estrellas corta annualmente a orbita apparente 
do Sol, podendo ficar, dadas certas circumstancias, em 
frente do Sol ou por traz da Terra. No primeiro caso 
o astro do dia ficará totalmente encoberto, ou nos ap- 
parecerá como um corpo parcialmente redondo, e occor- 



-5- 

rerá então uma eclipse do Sol, podendo ser tal pheno- 
meno um eclipse parcial, total ou annular. No segundo 
caso, quando a Terra fica collocada entre o Sol e a 
Lua, dá-se um eclipse total ou parcial da Lua, ficando 

satellite em parte ou completamonte dentro do cone 
de sombra terrestre. 

Um eclipse pôde ser total em um ponto da super- 
fície da Terra e parcial em outro ponto, isso porque o 
Sol e a lua estão desegualmente afastados da terra, e 
como o satellite acha-se mais próximo de nós, podere- 
mos deslocamos sufficientemente na superfície do glo- 
bo, de modo a que o Sol e a Lua pareçam, n'essas po- 
sições, situados de um modo bem diíferente. 

Muitas dessas circumstancias, de que acabamos de 
falar, se realizarão no eclipse de 10 de outubro; e, ao 
passo que em Silveiras o eclipse do Sol será total durante 

1 minuto e 52 segudos, em Cruzeiro elle terá 1 minuto 
e 44 segundos approximadamente, descrescendo sua du- 
ração successivamente para Bocaina, Lorena e Appare- 
cida, onde o phenomeno será talvez percebido em pou- 
cos instantes, devendo, em toda essa zona, as observa- 
ções serem começadas um pouco antes das 9 horas da 
manhan, e terminarão quasi ao meio dia. 

Para observar as diversas phases do eclipse, quem 
dispuzer de lunetas astronómicas ou óculos de alcance, 
deverá faze^ por projecção, ou observar directamente 
o Sol, tendo o cuidado de collocar vidros fortemente 
coloridos entre a vista e a ocular do instrumento. 

^ Para observação á vista desarmada, deve-se em- 
pregar os vidros graduados, recorrendo-se aos verdes 
para observação dos contactos, porque, com o vidro 
vermelho, se poderia confundir a luz vermelha de uma, 
protuberância brilhante com a luz do bordo solar, que 
pareceria também vermelha, devido á coloração do vi- 
dro. V 

Para as outras observações, as, cores neutras pa- 
recem preferíveis, podendo-se empregal-as egualmente 
para os contactos. 

Nas observações de simples curiosidades, póde-se 
empregar um vidro enfumaçado á chamma de uípa ve- 
la, devendo-se proteger a superfície ennegrecida, collo- 
cando por cima um segando vidro preso ao primeiro 
por meio de uma orla ou debrum de panno ou de pa- 
pel collado. 

Para o observador desprevenido pôde passar des- 



— 6 



\ 



ji 



^ IiMITES S 11X0 




percebido o começo do eclipse, mas, se estiver attento, 
munido com um vidro negro e examinar continuamente 
o Sol, eile verá produzir-se, do lado do oeste, no astro 
do dia, um chanfro negro, que augmentará rapidamente, 
comquanto por longo tempo a diminuição da luz do 
dia seja pouco sensível. 

Emnm, o Sol desapparecerá completamente, e a 
obscuridade será tal, que se pôde observar estrellas á 
vista desarmada. No firmamento, em vez do Sol, esta- 
rá o corpo completamente preto da Lua, rodeado de 
uma auréola ou coroa resplendente. Demais, junto do 
bordo lunar se verão, em diversos trechos, pequenas 
chammas róseas, chamadas protuberâncias. 

Nas auréolas ou coroas distinguem-se as partes 
seguintes: a coroa interior, formada da zona mais lu- 
minosa, acha-se vizinha do Sol, que, por ella é pouco 
mais ou menos cercado, com certa regularidade, sendo 
na vizinhança immediata do Sol o seu brilho por ve- 
zes tão vivo, que pôde occasionar duvidas sobre o mo- 
mento preciso da totalidade ; 

a coroa exterior^ que envolve a precedente e que 
na peripheria se perde gradualmente, esbatendo se so- 
bre o fundo do ceu ; 

a coroa média, formada pela parte commum ás 
duas regiões precedentes. 

Consideram também os astrónomos, como prolon- 
gamentos das coroas* os pennachos, plumas, azas, ta- 
petes e jactos luminosos, que nada mais são do que 
raios luminosos de forma e orientação diversas, mais ou 
menos extensos, mais ou menos regulares, os quaes, 
ora prolongam a coroa exterior, ora lançam raizes até 
á coroa interior. 

As brechas, fendas e fissuras são regiões escu- 
ras ou quasi sem luz, que se extendem muitas vezes 
desde o bordo da Lua até ao limite extremo da coroa. 

Sabe-se também que a superfície luminosa e bran- 
ca do Sol (photosphera) acha-se contornada por um en- 
volucro colorido (chromosphera), que é visivel durante 
a totalidade sob a forma de um circulo avermelhado, 
envolvendo o Sol. 

Esta camada, mais ou menos regular, tem 10" a 12" 
de altura, sabendo-se que 1" corresponde a 724 kilome- 
tros para distancia a que nos achamos do Sol. 

A chromosphera é formada principalmente de hy- 
drogenio, que em vários pontos pôde elevar-se, forman- 



— 8 — 

do chammas róseas, de que já falamos, e que se deno- 
minam ptotuberancias. 

Emfim, servindo de base á chromosphera e irame- 
diatamente sobre a photosphera acha-se a camada de 
inversão { revef sing layer), que tem 1" a 2" de espes- 
sura, e que assim é chamada, porque dá logar, por in- 
versão, ás raias negras do especto solqr. 

Quanto á reproducção dos eclipses, já os astróno- 
mos da Chaldéa sabiam que taes phenomenos se repe- 
tiam sobre a Terra em o periodo de 18annos e 11 dias, 
constituindo tal prazo o Saros famoso dos antigos. 

O Saros abrange 70 eclipses, dos quaes 41 sola- 
res e 29 lunares, não podendo haver, nem menos de 2, 
nem mais de 7 eclipses em um anno, e quando se ve- 
rifica a primeira hypothese, ambos os eclipses serão 
solares. 

OBSERVAÇÕES A FAZER DURANTE O ECLIPSE 

^.^— Visibilidade da Lua fora do Sol— Antes 
ou pouco depois de terminar o eclipse, quando a Lua 
se projecta somente sobre a coroa, é possivel que o 
contorno lunar se torne visivel por contraste, ao me- 
nos parcialmente, comquanto affirmem vários observa- 
dores haver tentado em vão perceber o phenomeno 
com o emprego de lunetas astronómicas. 

2.^— Observação das horas dos contactos. — Nos 
eclipses parciaes serão tomados os instantes em que se 
dão os dois contactos exteriores, assim chamados, por- 
que os discos do Sol e da Lua se nos apresentam então 
tangentes exteriormente. 

Nos eclipses totaes ounosannulares, ha, além d*is- 
so, os dois contactos interiores, que são o segundo e o 
terceiro entre os quaes cáe a totalidade nos eclipses to- 
taes. 

A Lua, no primeiro contacto, attinge o Sol, che- 
gando pelo bordo oeste, que é o primeiro a passar nos 
instrumentos fixos, pelo que será preciso examinar at- 
tentamente este bordo, para apanhar o momento em 
que o chanfro negro produzido pela Lua se apresenta 
com a sua menor dimensão, sendo este primeiro con- 
tacto o mais difficil de se observar, porque geralmente 
elles nos surprehendem um tanto desattentos ao phe- 
nomeno. 

Para fazer essa observação, como a dos outros 
contactos, bastará uma i)equena luneta munida de um 



\ 



Vários aspectos da coroa solar nos eclipses totaes 
de 1867, 1868, 1869 e 1871 







— 9 — 

vidro negro, bem como um relógio de segundos, cuja 
correcção seja conhecida^ isto é, que se saiba qual o 
seu atraso ou adeantamento. 

Mesmo com um relógio medíocre de segundos e 
com a vista protegida por um simples vidro enfumaça- 
do, poderão fazer-se observações úteis, tomando a du- 
ração exacta da totalidade. Estas observações da du- 
ração da totalidade são muito recommendadas nos luga- 
res que se acham dentro, da zona da totalidade e pró- 
ximos dos limites norte é sul, e são preciosas para a 
determinação da relação entre os diâmetros do Sol e 
da Lua. 

S.^—Occultojçuo das manchas solares e das fa- 
ctilas pela Lua. — Avançando gradualmente, a Lua 
occulta, pouco a pouco, todos os detalhes da superficie 
solar, como sejam grãos, poros, manchas e faculas. 

Quando a Lua está quasi a tocar o núcleo de u- 
ma mancha solar, verifica-se muitas vezes a formação 
de um ligamento negro entre o bordo escuro dá Lua 
e o núcleo da mancha. Admitte-se geralmente que es- 
te ligamento é de origem instrumental, tal como as 
gottas negras que se percebem por occasião da passa- 
gem de Mercúrio e de Vénus sobre o Sol. 

Quando q núcleo de uma mancha é assim enco- 
berto, em parte, póde-se comparar sua coloração e bri- 
lho com o da Lua, achando-se geralmente que o nú- 
cleo é o menos negro dos dois, concluindo-se d'ahi que 
os núcleos emittem luz e parecem completamente ob- 
scuros nas condições ordinárias, unicamente pelo con 
traste com as partes vizinhas e brilhantes da superfi- 
cie do Sol. 

A observação das manchas e das faculas no mo- 
mento em que se acham ellas parcialmente encobertas, 
poderia denunciar a existência de uma atmosphera lu- 
nar, que deformaria os detalhes da superficie solar; 
porque os raios luminosos provenientes das manchas 
e das faculas tangenciam a superficie do nosso satelli- 
te, e se acham nas melhores condições para que sejam 
desviados: o camioho n'essa atmosphera hypothetica é, 
com effeito, duplo do que elles percorreriam, se da su- 
perficie da Lua fosse observado um pôr do Sol. As 
faculas, em f azào do seu numero, das formas e da uni- 
formidade de sua luz, prestam-se a este género de pes- 
quizas. 

A."^ "Obscuridade do disco da Lua.— Sua colora- 



— 10 — 

ção. — O disco da Lua recebe certamente luz reflecti- 
va pela Terra, por isso que, no momento do eclipse so- 
lar, está ella em condições favoráveis á producção da 
luz cinzenta. De mais, a luz atmospherica deve vir ao 
observador da direcção em que se acha a Lua. Entre- 
tanto, o disco do satellite apparece, de ordinário, com- 
pletamente negro. 

Alguns observadores accusam a coloração verme- 
lha, comquanto esta tinta não seja senipre indicada co- 
mo uniforme. 

f^P-Orla brilhante do bordo concavo do cres- 
cente luminoso, — Certos observadores notaram com 
as lunetas e os telescópios, que o bordo concavo do 
crescente luminoso, isto é, o que se acha contíguo ao 
bordo lunar, parece mais brilhante que o resto do cres- 
cente e também mais brilhante que o bordo convexo 
vizinho do fundo negro do ceu. 

Este a&pecto foi attribuido á acção da atmosphera 
lunar ; mas Aity mostrou que uma tal atmosphera nun- 
ca daria o accrescimo de brilho notado, parecendo an- 
tes um effeito de contraste. 

6.^— Exame dos pontas do crescente solar. — De- 
finição das duas bordas do crescente. — Durante o 
eclipse, o crescente luminoso, que permanece visível, é 
terminado por dois arcos da circumferencia. As extre- 
midades ou pontas d'esse crescente são vivas, e devem 
ser bem delgadas nas vizinhanças da totalidade, e sua 
observação é então mui interessante, por isso que, se a 
Lua tivesse uma atmosphera notável, essas pontas po- 
deriam soffrer deformações, devido a refracções dese- 
guaes. Essa espécie de deformação não pôde ser to- 
mada pela que se produz, devido ás montanhas do bor- 
do lunar, projectadas, em forma de dentes, sobre o bor- 
do concavo do crescente luminoso. 

Os dois bordos do crescente não são egualmente 
nítidos : o que é formado pela Lua é muitas vezes indi- 
cado como mais nitido do que o bordo exterior perten- 
cente ao Sol. 

1.^— Visibilidade da parte da Lua, que se pro- 
jecta fora do Sol. — Durante o eclipse, as partes do 
bordo lunar, que se projectam fora do Sol, podem se 
mostrar em maior ou menor extensão ; todavia, isso não 
se dá ordinariamente, senão um pouco antes ou depois 
da totalidade. 

8.^— Aspecto das sombras durante o eclipse. — 



- 11 — 

Durante o eclipse, á medida que o crescente luminoso 
diminue, as sombras dos objectos terrestres tornam se 
muitas veees mais nítidas, o que se explica pela dimi- 
nuição da penumbra. 

Também é curioso observar a forma que tomam 
sobre o solo as manchas luminosas semeadas por en- 
tre as sombras das arvores, e que se formam pela luz 
solar passando atravez da fo)hag'em. De ordinário, taes 
manchas luminosas apparecem em formas circulares ou 
ellipticas ; mas, quando o Sol está em parte eclipsado, 
taes manchas têm a forma de lellipses chanfradas, tal 
como o Sol, todas de um mesmo lado e da mesma 
quantidade angular. 

9.^— Variação da luz do dia durante o eclipse.— 
A diminuição da luz do dia não é perceptivel nos pri- 
meiros momentos do eclipse, e só se nota a mudança, 
quando a Lua cobre cÔrca de três quartos da superfí- 
cie solar ; mas em seguida a diminuição da luz é rá- 
pida, sobretudo nas vizinhanças da totalidade. 

10.®— Cdr da atmosphera e dos objectos terres- 
tres durante o eclipse. — Desde que a luz do dia co- 
meça a declinar sensivelmente, a atmosphera e os ob- 
jectos terrestres tomam uma côr acinzentada, em se- 
guida plúmbea e finalmente livida, que se vae accen- 
tuando á medida que se approxima a totalidade; ao 
mesmo tempo toda a natureza apresenta um aspecto 
solenne e triste. Emfim quando o Sol está quasi enco- 
berto, esta côr torna-se muitas vezes olivacea, e as phy- 
sionomias tomam um aspecto cadavérico muito pronun- 
ciado, que contribue para tornar mais empolgante a 
imponência do phenomeno. 

\\.^— Rastilhos brilhantes acompanhando o cre- 
scente luminoso. — Em alguns eclipses, o crescente 
luminoso é acompanhado de rastilhos brilhantes ou de 
topetes, de forma e extensão muito variáveis, que lem- 
bram o effeito produzido pelos raios do Sol passando 
pelos interstícios das nuvens. 

^2.^—Parhelios e raios vistos nas vizinhanças 
da totalidade. — Esses aspectos, mais raros de obser- 
var, lembram, em parte, os rastilhos de que acima fa- 
lamos. Os raios luminosos, que formam uma faixa e- 
quatorial em torno do Sol, parecem ás vezes animados 
de de um movimento de rotação assas rápido. 

i3.^—Cõr da atmosphera edas nuvens. — Quan- 
do o crescente solar mostra-se muito delgado, isto é. 



— 12 - 

nas vizinhanças do segundo e do terceiro contactos, 
muitas vezes o ceu e as nuvens tomam uma côr de 
cobre ou alaranjada, análoga á que se observa frequen- 
temente ao nascer ou pôr do Sol. Muitas vezes notam- 
se irisações. 

^A.^^ — Nrwejts irisadas e arcos coloridos. — A's 
mesmas causas, que produzem a coloração de que aca- 
bamos de falar, devem se attribuir as nuvens irisadas e 
os arcos coloridos, que se originam provavelmente das 
cores da chromosphera, das protuberâncias e das curôás. 

\b.^— Franjas moveis observadas sobre o cres- 
cente luminoso e sobre a Lua. — Muitas vezes se 
têm observado franjas ou linhas fugitivas, projectando- 
se, ora sobre o crescente luminoso, ora sobre a Lua, 
circumdando o bordo do satellite. Esssas franjas, al- 
gumas vezes colorida?, quasi sempre apparecem quan- 
do o crescente luminoso se mostra bastante delgado. 

\6.^— Sombras moveis, sombras volantes na su- 
perficie da Terra (Shadow Band). — Quando o cres- 
cente luminoso se mostra muito delgado, a claridade 
dos objectos terrestres soffre variações manifestas e 
bruscas, que trazem á memoria o que se passa, quan- 
do a luz é reflectida pela agua um pouco agitada, ou 
quando ella' rasa um corpo fortemente aquecido. 

Algumas vezes é como uma simples ondulação 
perpassando pelo ar, o que tem levado a dizer-se que 
se viu passar o vento. A's vezes o phenomeno apre- 
senta-se bem regular, e então percebem-se as franjas 
ou faixas alternadamente claras e sombrias, deslocan- 
do-se mais ou menos rapidamente, e parallelas entre si. 
Taes faixas são muitas vezes coloridas, e admitte-se 
que esses phenomenos se produzem na nossa atmo- 
sphera, e dão-se em virtude dos movimentos que ani- 
mam o ar na occasião em que se contempla o facto. 

Os que observarem esse phenomeno devem notar 
a direcção e a força do vento, a forma, as dimensões, 
a velocidade das faixas e a direcção do seu movimen- 
to. Será também indicado se o movimento de progres- 
são é perpendicular á direcção das faixas, bem como as 
demais particularidades que se possam apresentar. 

11.^— Grãos e collar de Baily. — ^ No momento em 
que os discos do Sol e da Lua vão se tornar tangen- 
tes interiormente, tanto no começo como no fim da 
totalidade, o adelgaçado crescente luminoso, visto com 
uma luneta, parece dentilhado como uma serra, de 



- 13 — 

sorte que a parte visível do Sol forma uma espécie 
de coUar de contas brilhantes e irregulares. 

Este phenomeno é, ontretanlo, assaz fugitivo, e 
as coisas se passam como se entre os bordos do Sol 
e da Lua houvesse uma matéria viscosa e preta adhe- 
rente a certos pontos do bordo do disco solar. 

Baily avalia a duração do phenomeno entre seis 
e oito segundos, tanto no terceiro como no segundo 
contacto, sendo tal phenomeno comparável ao Tigamen- 
to negro observatdo na passagem de Vénus, pelo dis- 
co do Sol. 

18,"*— Feixes luminosos, em pincel, implantados 
no crescente tnminoso, quando este está muito delga- 
do — N*este momento o crescente parece como eriça- 
do de curtos raios luminosos, formando uma espécie 
de brocha ou pincel. 

Algumas descripções d'esses feixes luminosos refe- 
rem-se a jactos de luz vermelha viva, que, sem duvi- 
da, eram protuberâncias. 

l^P— Visibilidade das estreitas durante o eclip- 
se. — Deve-se mencionar a visibilidade dos astros do 
maior brilho, indo até ao de mais fraca luminosidade, 
sem excepção dos cometas, que [)odem então ser des- 
cobertos. 

20p— Visibilidade das profuberancúts, Deve- 
se tomar nota do tempo em que se avistam as pri- 
meiras protuberâncias, bem como o tempo em que so 
esvae a ultima d^ellas. 

21.^ — Visibilidade da coroa solar, — Será tam- 
bém annotada a hora em que fôr percebida a coroa 
solar, assim como o momento de seu desapparecimento. 

22.^ — Chegada da sombra da totalidade, ~ Co 
mo a Lua invade o Sol pelo bordo oeste, é também 
d'este lado que o observador poderá ver approximar- 
se a sombra da Lua, no momento da totalidade. Um 
logar elevado e descoberto, ou o centio de uma gran- 
de planície de onde seja possivel avistar os flancos de 
cadeias de montanhas, são pontos particularmente fa- 
voráveis para esta observação. 

Póde-se também ver esta sombra se projectar na 
atmosphera sobre nuvens loginquas. Entretanto, para 
muitos observadores, o phehomeno [)assa despercebi- 
do. Os que viram mover-se a sombra na superfície 
da Terra, comparam n^a a uma tempestade prestes a 
estalar, avançando com excessiva rapidez. Ordinária- 



— 14 — 

mente é essa velocidade que impresssiona, e, segundo 
Forbes, foi um espectáculo verdadeiramente terrifican- 
te... «no qual me senti por momentos quasi atordoa- 
de, como se o vasto edifício que se achava a meus pés 
se houvesse inclinado de um lado.» 

23.^— Descida apparente do ceu no momento da 
totalidade. — A mudança de illuminação da atmos- 
phera, no momento da totalidade, dá ao ceu uma ap- 
parencia mais abatida. O phenomeno é bem percep- 
tivel, quando existem nuvens próximas do zenith: no 
começo da totalidade as nuvens parecem descer rapi- 
damente, para se erguerem quando a totalidade termi- 
na Eis a observação relatada a respeito por Airy, 
que se achava em Superga, perto de Turim, em 1842: 

«A obscurid?ide augmentava rapidamente; uma 
simples candeia parecia lançar um brilho extraordiná- 
rio ; por cima de possas cabeças se achava uma gran- 
de nuvem que nada apresentava de notável, mas que 
me pareceu um cumulo-strato : ella tomou o aspecto 
de um nimbo negro ; o seu aspecto era horrivelmente 
ameaçador e ella parecia como que animada. De to- 
dos os aspectos apresentados pelo eclipse, nenhum hou- 
ve que ficasse mais profundamente gravado em minha 
memoria, do quç a vista d'essa nuvem terrível.» 

Observações especiaes durante a totalidade 

24.»— A coroa., inclusive a camada de inversão, é 
hoje em dia o principal objectivo das observações a 
fazer durante a totalidade. 

As notas dos sim|)los espectadores não serão sem 
utilidade. 

Pediremos, pois, que respondam ao questionário 
seguinte : 

a) Foi notada alguma mudança na apparencia 
da coroa durante o eclipse ? No caso affirmativo, in- 
dicar o género de mudança. 

b) Especialmente no que se refere a raios negros 
ou fendas, houve mudança de aspecto durante o e- 
clipse ? 

c) Descreva-se tudo aquillo que não mudou du- 
rante o eclipse, e indicar sua estructura. 

d) Indiquem-se as cores observadas além das pro- 
tuberâncias avermelhadas. 

e) Onde e como so achavam as cores dispostas 
por camadas em torno do Sol ? 



— 15 — 

f ) Onde e como appareciam as côres dispostas 
em raios ? 

g) Indicar as cores dos raios e seus intervallos. 

h) As fendas negras chegam até á Lua ou so- 
mente até as camadas densas da coroa ou da chro- 
mosphera ? 

i) Onde os raios se apresentavam mais brilhan- 
tes, na vizinhança da Lua ou mais afastados d'ella ? 

j ) Quaes eram comparativamente as partes mais 
brilhantes: os raios, a coroa interior ou a parte exte- 
rior da coroa ? 

2hP— Clarões avistados na super fieie da Lua, — 
Durante vários eclipses, foram mencionados clarões ins- 
tantâneos, ondulantes como os relâmpagos terrestres, 
percebendo alguns observadores pontos brilhantes, por 
uns altribuidos á luz do Sol atravessando o corpo da 
Lua, por uma espécie de caverna obliqua, ao passo 
que outros attribuem os pontos brilhantes ao effeito 
dos vulcões lunares. 

26.^^ Visibilidade da luz zodiacal. — Occultando 
o brilho solar e o clarão das coroas com um anteparo, 
é possível perceber a luz zodiacal, comquanto as ten- 
tativas n'esse sentido tenham sido quasi infructiferas. 

21 P-- Investigações sobre os planetas intra-mer- 
euriaes, — Leverrier, em 1859, indicou a provável exis- 
tência de planetas situados dentro da orbita de Mer- 
cúrio, os quaes, sempre mergulhados na radiação so- 
lar, seriam geralmente invisíveis, pelo que se pensou 
em procural-os durante a obscuridade dos eclipses to- 
taes. A principio as pesquizas eram feitas directamen- 
te, recorrendo-se depois á photographia, que hoje em 
dia é o único meio empregado. 

Effeitos dos eclipses totaes do sol sobre os hg 
mens, sobre os animae8 e sobre as plantas 

28.^— Sobre os homens. — Os eclipses totaes exer- 
ceram outr'óra verdadeiro terror, e ainda hoje impres- 
sionam elles as populações íitrazadas, que assistem ao 
phenomeno cheias de receios. Entre nós os que igno- 
ram a duração mathematica do eclipse, attribuem sem- 
pre uma duração duas a três vezes maior. 

29.® - Sobre os animaes. — Os animaes também 
se impressionam vivamente com a chegada da totali- 
dade, e tem-se visto os animaes de tiro e os de sella 



~ 16 — 

estacarem em sua marcha, retomando andadura depois 
de íinda a phase da totalidade. Os carneiros, as aves 
nos terreiros e os animaes soltos* abandonam o ali- 
mei>to, se reúnem e ganham o local onde habitualmen- 
te pernoitam. Algumas vezes os gallos cantam, as co 
rujas e morcegos deixam seus retiros, os insectos dei- 
xam-se eguahnente impressionar, as formigas abando- 
nam seus fardos para retomal-os com a reapparição 
da luz. 

30.^— Sobre as plantas. — As ílôres e folhas que 
se fecham durante a noite, também durante o eclipse 
se fecham, sobretudo quando a obscuridade é longa. 

Para fazer estas observações, será preciso evitar 
a vizinhança de casas, arvores e obstáculos quaesquer, 
encobrindo uma parte maior ou menor da atmosphera. 

INFLUENCIA METEOROLÓGICA E MAGNÉTICA DO ECLIPSE 

^l.""— Barómetro, Vento do eclipse. — Os resul- 
tados das observações barometricas feitas durante o 
eclipse sào contradietorios, devendo este ser um pon- 
to a elucidar-se nas regiões tropicaes, onde a regula- 
ridade da curva barométrica diurna pôde revelar 
quaesquer influencias do eclipse sobre o elemento cli- 
matologico em questão. 

O vento do eehpse depende bastante das condi- 
ções locaes. Parece que elle tem um máximo do ve- 
locidade antes da totalidade, um minimo immediata- 
mente depois d'esta e um máximo no fim do eclipse. 

22,^ - Therniometro e hygrometro. ~ A tempeva- 
tura e o estado hygrometrico do ar são claramente 
modificados pela passagem da sombra : a temporatl^'2P 
cae momentaneamente e a humidade eleva-se sobre a* 
marcha diurna normal. Muitas vezes notam-se depó- 
sitos de orvalho, formados durante a totalidade. De- 
vem ser feitas observações directas de 10 em 10 mi- 
nutos ou de 5 em 5 minutos, evitando-se o aquecimen-'^ 
to dos thermometros devido á presença dò observador 
e da lâmpada de que elle está munido durante a to- 
talidade. 

"i^iP —Aciinoniciria. — As observaço.es actinome- 
tricas deverão sor realizadas em pontos mais elevados 
que possam ser occupados. e permittiVíío verificar se 
os bordos do Sol nos enviam menos calor do que o 



— 17 — 

centro, patenteando-se que a absorpção calorífica pro- 
duzida pela atmosphera solar é um facto verificável. 

34:,^ ^Variação do magnetismo terrestre durante 
o eclipse. ~ Com uma bússola de declinação faz-se 
oscillar a agulha durante o eclipse e fora delle, coUo- 
cando-se sempre, tanto quanto possível, nas mesmas 
condições. Parece que a agulha oscilla um pouco mais 
rápida durante o eclipse, indicando um reforço no 
magnetismo terrestre, cuja verificação seria para de- 
sejar que fosse feita sobre um grande numero de es- 
tações, situadas dentro e fora das varias zonas do 
eclipse. 

Quanto á variação do estado eléctrico, da ozoniza- 
ção e da radio-actividade da atmosphera durante os 
eclipses, não são bem conhecidas as modalidades que 
soffrem, e o estudo de taes elementos só pode ser abor- 
dado com recursos de certa ordem, sahindo, portanto, 
da alçada das observações correntes de que acima fa- 
lamos. 

Resumo das observações a fazer 

Aspecto das sombras durante o eclipse; 

Variação da luz do dia ; 

Côr do ceu e dos objectos terrestres durante o 
eclipse ; 

Rastilhos acompanhando o crescente luminoso ; 

Parhelios e raios na vizinhança da totalidade ; 

Côr da atmosphera e das nuvens ; 

Nuvens irisadas e arcos coloridos ; 

Sombras volantes ; 

Visibilidade das estrellas durante as phases do 
eclipse ; 

Chegada da sombra da totalidade ; 

Descida apparente do ceu no momento da totali- 
dade ; 

Observações diversas a fazer sobre a coroa ; 

Movimentos rápidos da coroa ; 

Aspecto e brilho do horizonte durante a totalidade; 

Obscuridade geral durante a totalidade ; 

Visibilidade da luz zodiacal ; 

Astros visíveis á vista desarmada; 

Effeitos da totalidade sobre os homens, os ani- 
mais e as plantas ; 

Abaixamento da temperatura, orvalho; 



~ 18 — 

Observações a fazer com instrumentos pouco 
custosos ; 

Visibilidade da Lua fora do Sol ; 

Observação dos contactos ; 

Occultação das manchas e das faculas; gottas 
negras ; 

Obscuridade do disco da Lua ; 

Orla brilhante sobre o bordo concavo do cres- 
cente ; 

Nitidez das pontas do crescente — definição dos 
dois bordos ; 

Visibilidade das partes da Lua que se projectam 
fora do Sol ; 

Franjas moveis observadas sobre o crescente lu- 
minoso ou sobre a Lua. 

Grãos de Baily ; 

Raios em feixes e em pincéis; 

Visibilidade das protuberâncias durante as phases ; 

Visibilidade da coroa; 

Cores da coroa e das protuberâncias ; 

Observações varias sobre os planetas e cometas; 

Influencias meteorológicas do eclipse ; 

Actinometria ; 

Magnetismo terrestre. 



Taes são as principaes observações que recom- 
mendamos sejam feitas, com bastante calma, pelos 
nossos collaboradores, lembrando-lhes que só se deve- 
rá escrever aquillo que se viu com toda a nitidez. 

J. N. Belfort Mattos 

Engenheiro civil 



CD 



— 19 — 

Unificação do abastecimento de 
aguas de S, Paulo 

(MEMORIA APRESENTADA PELO EXMO. SNR. SENADOR 

DR. LUIZ PIZA 

EM SESSÃO DA SOCIEDADE SCIENTIFICA 

Senhores Consócios. 

Prometti, ha já alguns mezes, trazer á nossa uti- 
líssima sociedade, em uma das suas sessões, como pe- 
quena contribuição, estudo por mim feito para o abas- 
tecimento de agua da cidade de S. Paulo. Animou-me 
a circumstancia de ter visto a minha concepção inicial 
adoptada por um notável engenheiro e industrial: 
este mesmo facto, porém, forçou-me a adiar a apre- 
sentação da memoria promettida, a fim de que, exultan- 
do com o concurso do notável profissional, não pudesse 
parecer que, por minha vez, lhe trazia o meu contin- 
gente de esforços na execução de um emprehendimen- 
to que, além de scientifico e technico, é industrial e 
financeiro. 

Em 1904, gerindo a pasta da agricultura no go- 
verno do Estado, fui levado, sob a pressão de um 
clamor justo e unanime, a procurar uma solução de- 
finitiva para o supprimento de agua á nossa prospera 
Capital. Dos estudos preliminares a que procedi, es- 
pécie de exame de consciência da administração, não 
do secretario - veio-me a convicção de que a solução 
procurada tinha sido por muito protrahida pela 
persistência de um preconceito technico, consistente em 
se despresarem todas as aguas que, pela sua altitude, 
não pudessem ser adduzidas, quando menos, ao re- 
servatório da Consolação, ponto visado pelo primeiro 
serviço estabelecido e reputado inprescindivel para a 
distribuição por todas as zonas da accidentada Capital. 

Excluida esta persistente ideia, cuja permanência 
não se explicava mais, após o grande desenvolvimento 
assumido pelos bairros do Braz, S. Ephigenia, Barra 
Funda a Agua Branca, colloquei em segundo plano, 
como parte componente da concepção simplista que 
perdurava, a dispendiosa adducção das aguas da serra 



— 22 — 

collocados na mesma encosta de serra, tudo indica que 
a adducção deve fazer-se por um systema mixto de 
conducto forçado e de aqueducto : conducto forçado 
para a passagem dos valles incontornáveis, ou de dií- 
ficil contorno, aqueducto para todo o resto do per- 
curso. 

Assim, será possivel trazer a mais, para o mes- 
mo systema unificado, todos os affiuentes do Tietê, 
margem esquerda, entre a garganta do Tapanhahu e 
a cidade, bem como todas as cabeceiras do rio Gran- 
de, ou Pinheiros, que puderam, mediante a pratica de 
tunneis na serra, tomar a mesma direcção : o Jundia- 
hy, o Tayacupeba, o Guayó, o Tamanduatehy, de um 
lado, o córrego da Estiva* e outros, do lado opposto, 
podem vir, misturando as suas aguas, proporcionar a 
Piratininga o elemento de progresso de que tem sido 
privada sempre e fazel-a esquecer o supplicio a que 
tem sido condemnada pelas vistas estreitas da admi- 
nistração. 

A distancia que separa S. Paulo do ponto natural 
de captação doestas aguas é de 75 kilometros em linha 
recta, será provavelmente de cem kilometros o percur- 
so das linhas adductoras. Esta extensão representa 
approximadamente três vezes a distancia média de to- 
das as linhas formadoras do abastecimento. 

Parecerá, por isso, á primeira vista, que o lado 
económico da questão exclue toda a possibilidade do 
plano. Mas isto é falso. Si é verdade que teremos 
uma linha 3 vezes mais longa que as actuaes, 6 egual- 
mente certo que teremos um só estudo definitivo a fa- 
zer, uma só desapropriação, um só custeio — sendo cer- 
to que, si nas linhas de aqueducto deve emprehender- 
se desde logo uma obra definitiva, nas de conducto 
forçado, este deve ser progressivo, de accôrdo com 
as exigências do consumo. 

Pôde prever-se, pois, que o preço da agua obti- 
da pela administração, ás portas da cidade, não será 
em hypothese alguma superior ao actual, sendo sensi- 
velmente melhor a sua qualidade. Aliás, no servi- 
ço publico a solução definitiva dos problemas de ad- 
ministração só deverá ser excluída por considerações 
de ordem financeira quando o preço representar um 
sacrifício quasi impossível ; fora d'esta hypothese os 
outros elementos da questão devem prevalecer. 

Estes enumeram-se em larga escala, sem contra- 



— 23 — 

postas; a questão financeira se apresenta apenas como 
uma possibilidade; deve fazer-se um voto para que 
esta simples confrontação não se converta, mediante 
os rigores de uma demonstração mathematica, em uma 
equação . . . destinada a embaraçar ainda por muitos 
annos o surto do progresso paulistano. 



=^^S)@^^= 



— 24 - 



REFORMA DA ORTHOGRAPHIA 



A joven republica irmã portugueza realizou ulti- 
mamente um progresso notável, que não devemos dei- 
xar passar despercebido. Quero fallar da reforma or- 
thographica, confiada pelo Governo portuguez a uma 
commissão de philologos os mais competentes, cujo pa- 
recer já foi publicado e approvado por portaria de 1 
de Setembro de 1911. 

Sobre a necessidade da reforma não podia ha- 
ver duas opiniões. A anarchia era (e é) completa nos 
assumptos orthographicos, e nem as publicações offi- 
ciaes dos Governos nem os escriptos philologicos, lin- 
guisticos ou scientificos em geral, jamais conheceram, 
em Portugal e no Brasil, uma orthographia uniforme 
e coherente. E, uma vez que a necessidade de uni- 
formizar a orthographia era reconhecida, apresentou- 
se muito naturalmente a ideia de simplificá-la ao mes- 
mo tempo. Nem todos comprehenderão talvez a van- 
tagem que ha nesta simplificação, esquecidos já de 
quanto trabalho lhes custou o tornarem-se senhores da 
escripta portugueza, ha tantos annos atraz. Porém u- 
ma reflexão simples os convencerá sem duvida. Sen- 
do aboUdo o emprego de todo o p, /, / dobrado, etc., 
os alumnoB de primeiras letras não precisarão mais de- 
corar listas de vocábulos escriptos com dois pp, tU ff, 
poupando assim um esforço que era exigido delles em 
pura perda. Com effeito, que vantagem pôde desco- 
brir-se em escrever approvar com dois pp^ e apagar 
com um só p, ou dito sem o c, mas escripto com o p 
da palavra correspondente latina? 

Levada por considerações deste género, a Acade- 
mia Brasileira de Letras, ha poucos annos, imaginou e 
recommendou uma orthographia melhorada e unifica- 
da, que infelizmente não teve muita acceitação. E di- 
go "infeUzmente", porque, se esta nova orthographia 
não era a melhor de todas as orthographias possi- 



(1) Bases para a unificação da orthogrflfia que deve ser adoptada nis escolas e 
publicações oficiaes. Lisboa, Imprensa Nacional, 1911. — Contém, além do Relatório da 
Commissão e os ofíicios que ihe dizem respeito, nm Formulário e um Promptuarío or- 
bographicos. 



— 25 - 

veis, era certamente muito superior áquella que se en- 
sinava nas escolas e se imprimia nos jornaes. Seu 
defeito principal era o pouco caso que fazia do falar 
de Portugal e dos estudos linguisticos publicados n'a- 
quolle paiz por sábios de valor e fama internacional 
de Gonçalves Viana e Leite de Vasconcellos. Já que 
em uma boa parte de Portugal se distinguem ainda 
hoje pela pronuncia cassa e caça, coser e cozer, xá e 
chd, não convinha desprezar (como se desprezou) 
esta distincção em uma orthographia que podia, e de- 
via, ser adoptada por todos os que falassem a lingua 
portugueza. Pois, se ha tantas coisas que corrigir no 
nosso modo de escrever, comecemos por introduzir a- 
quellas correcções que possam ser adoptadas em to- 
dos os paizes de lingua portugueza. 

Quanto á Commissão orthographica portugueza, 
composta, como já disse, dos sábios mais competentes, 
(basta dizer que fizeram parte delia Gonçalves Viana 
e D. Carolina Michaèlis de \ asconcellos), força é re- 
conhecer que ella procedeu com muito critério. Intro- 
duziu reformas cuja utilidade n5o se pôde contestar, 
como a simplificação de todos os bb, dd, ffy eta do- 
brados ; mas conservou certos modos de escrever "que, 
comquanto menos consequentes, se tornaram já, a bem 
dizer, habituais": taes são o h inicial, o ge, gi, em 
concorrência com je, ji, o s em palavras como scien- 
eia, scena, otc. Nestes pontos, a Commissão renun- 
ciou de alguns melhoramentos da orthographia recom- 
mendados por Gonçalves Viana no seu livro recente 
"Ortographia nacional"; mas o próprio Gonçalves Via- 
na, como membro da Commissão, consentiu a estas 
recahidas na orthographia chamada etymologica, por- 
que julgou que ji reforma, sendo menos radical, teria 
mais fácil aceitação e seria, portanto, mais efficaz. 

A não ser esta consideração, a orthographia re- 
formada poderia ser muito mais phonetica, e o seria 
sem duvida, senão fosse o principal intento dos re- 
formadores o crear uma escripta própria e acceitavel 
para todas as terras que falam o portuguez. Assim 
os reformadores portuguezes, tomando em considera- 
ção a pronuncia brasileira, distinguem ãi e em, e não 
eecrevem iryuer (como se pronuncia em Portugal) por 
erguer, nem durinir por dormir. Em alguns outros 
pontos convirá talvez permittir-se a liberdade de re- 
presentar a pronuncia local das pessoas cultas ; por 



— 26 — 

exemplo, se género, génio representam a pronuncia 
normal de Portugal, género e génio correspondem sem 
duvida melhor á pronuncia brasileira. 

Fora deste caso que dependerá de um ajuste ul- 
terior, qual é a posição que deveremos assumir nós, 
os brasileiros, em vista da reforma orthògraphica ? 
Seria de certo uma prova de melindre ridículo, se a 
repudiássemos sob pretexto de que a reforma da nos- 
sa Academia de Letras não foi acceita por Portugal. 
Pois se nem sequer no Brasil, e nem sequer no pró- 
prio seio da Academia Brasileira ella encontrou accei- 
tação geral ! Não é este o caso da reforma portu- 
gueza, adoptada por maioria ou unanimidade de vo- 
tos da Commissão composta dos primeiros philologos 
de Portugal. 

Eu sou de opinião que, á vista da3 grandes van- 
tagens que traz a unidade da orthographia portugue- 
za, nós devemos aproveitar-nos dos trabalhos realiza- 
dos pela Commissão portugueza e aceitar-lhe os re- 
sultados e conclusões. Se o Governo brasileiro decla- 
rasse ao de Portugal— que a orthographia recommen- 
dada e fundamentada nas ''Bases para a unificação da 
ortografia" será igualmente adoptada nas publicações 
officiaes e ensinada nas escolas do nosso paiz, pres- 
taria um serviço importante á lingua portugueza, as- 
sim como ao seu ensino e á instrucção nacional. So- 
mente, convém que nós, os brasileiros, reservemos o 
direito de afastar-nos da orthographia recommendada 
pela Commissão, naquelles pontos que repugnam á 
pronu^cia dos brasileiros instruídos; porque não jul- 
go de modo algum necessário abandonarmos a nossa 
maneira de falar pela de Portugal, e qualquer ortho- 
graphia que se afaste sem necessidade da pronuncia 
correcta dá margem a incertezas e confusões, que é 
melhor evitar. 

Dr. o. Nobiling. 



=^§)(§^= 



— 27 - 



RELATÓRIO 



DA 



CoMMissAo DO Observatório de S. Paulo 

REFERENTE AO 

ECLIPSE TOTAL DO SOL 

de 10 de Outubro de 1912 (*) 



A florescente cidade de Cruzeiro foi o local pre- 
ferido para a sede dos trabalhos da commissão pau- 
lista, organizada com os funccionarios do Serviço Me- 
teorológico de S. Paulo, com o fim de estudar o eclip- 
se de 10 de outubro, por isso que offerecia um bom 
conjuncto de íondições favoráveis á observação do fac- 
to astronómico, que alli nos levava, situada, como es- 
tava a cidade, dentro da zona da totalidade e perto 
do eixo da alludida faixa. 

A' beira da E. F. Central do Brasil, dispondo de 
recursos que facultaram a realização do programma, 
de antemão traçado para as nossas investigações, a es- 
tação do Cruzeiro proporcionava reaes vantagens ao 
estudo do eclipse, cuja duração ahi seria pouco infe- 
rior á maximtí que se daria sob o eixo da totalidade, 
no qual se achava collocadá a cidade de Silveiras. 

Este ultimo ponto, distante cerca de 17 kilometros 
da E. F. Central do Brasil e de mais custoso accesso, 
estava já occupado pela commissão do Observatório 
Nacional, chefiada pelo illustre astrónomo, Dr. Julião 
Lacaille. 

Não convindo juntar em um mesmo ponto varias 
commissões, para que a occorrencia de um contratempo 
local não pudesse annullar os esforços de mais de um 
grupo de observadores, decidimo-nos pela occupação 
do Cruzeiro, sendo as razões, acima expostas, acceitas 
pelo exmo sr. dr. secretario da Agricultura, que sanc- 
cionou a nossa escolha. 

Comquanto houvesse maiores probabilidades de 
bom tempo, na zona da totalidade, que se estende ao 
norte do Estado, por Chapadão, Pedregulho, etc, do 
que no trecho paulista de Cruzeiro e Silveiras, deixa- 
mos, comtudo, de ir para aquellas localidades, por isso 



(*) Este relatório foi elaborado pelo nosso consócio, Dr. José Nunes Belfort 
Mattos, ébefe d'aquella Commlsslo, e lido em sessio da Sociedade Sdentlfica. 



~ 28 — 

que alli o phenomeno se apresentava com o tempo da 
totalidade já bem reduzido. 

Estabelecemos, pois, acampamento na cidade de 
Cruzeiro e escolhemos, para ponto de observação uma 
graciosa collina que se eleva no occidente, e é conhe- 
cida pela denominação de «Morro dos Inglezes». 

A meio kilometro da estação ferroviária, o local 
em que foi construido o pilar destinado ao theodolito 
universal da commissão, tem as seguintes coordenadas, 
que foram determinadas, em primeira approximação, e 
com instrumentos que não permittiram, aliás grande 
rigor : 

Latitude Sul, 22<> 38' 55". 

Longitude E. S Paulo, 6 m. 51 s. 

Altitude, 565 metros. 

Calculou-se em 8^4T&' Wa declinação média 
diária da agulha magnética a 4 de outubro, dia em que 
realizamos aquellas determinações, empregando um 
sextante, que fornecia leituras angulares até 15", um 
theodolito magnético, dando 30 segundos de arco, e 
um chronometro de algibeira. 

Em pleno campo, sobre um solo de ondulações 
suaves, terminado a W por um bosque de pequena al- 
tura, o nosso horizonte era fechado, ao longe, pelas ele- 
vações da Mantiqueira, que, correndo pelo norte, afãs- 
tavam-se, depois, em rumo nordeste, e deixavam ver, 
ao Oriente, as terras menos accidentadas do valle do Pa- 
rahyba. Tal relevo topographico deveria permittir que 
se avistasse até grande distancia a approximação ou o 
afastamento da sombra da totalidade, quando ella se 
mostrasse naquellas paragens. 

Bem próximo do acampamento ficava a casa ce- 
dida gentilmente á commissão paulista pelo sr. Álva- 
ro d'Oliveira, prestimoso chefe do trafego da Viação 
Sul-Mineira. 

Por inicialiva da Camará Municipal do Cruzeiro 
foi o nosso abarracámento circumdado por uma forte 
cerca de madeira, ficando no meio do recinto, sob uma 
ligeira e anipla barraca de lona, os nossos instrumen- 
tos de trabalho, devidamente montados e que eram: 

1 Luneta equatorial, portátil, Salmoiraghi, dando 
augmentos até 240 vezes, provida de prisma, micro- 
metro, etc. ; 

1 Luneta Bardou, em solida columna de ferro, com 
movimentos lentos e augmentos até 360 vezes, mu- 




a> o 
c o 

C/2 « • 
•O C 

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« fe 2 



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CO -5 

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O) CC-O 
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O) g^ 

— .-O 
C3XS íi 

2 = 

C/3 fl^ (A 



— 29 - 

nidos de prisma e um dispositivo para projecções da 
imagem solar; 

1 Luneta pequena, permittindo augmentos até 80 
vezes ; 

1 Theodolito universal, Salmoiraghi, dando leitu- 
ras angulares de 5 segundos de arco, permittindo, po- 
rém, avaliações até 2 segundos, provido de um micro- 
metro especial para avaliar ângulos verticaes a menos 
de 1 segundo de arco; 

1 Theodolito magnético Gurley, dando os ângulos 
com approximaçâo de 30 segundos de arco; 

1 Pequeno spectroscopio de visão directa; 

3 Binóculos permittindo augmentos até 12 vezes; 

1 apparelho photographico, com tele-objectiva, di- 
rigido por um hábil photographo da importante casa 
Wolsack ; 

2 Cinematographos, com fitas para 3 horas de tra- 
balhos, sem interrupção, e artistas vindos do Rio para 
o manejo das machinas, tudo gentilmente custeado e 
posto á nossa disposição pelo opulento capitalista, pro- 
tector e amigo da Astronomia, o illustrado sr. Júlio 
Conceição, que é merecedor dos maiores applausos ; 

1 Abrigo meteorológico, contendo uma bateria com- 
pleta de thermometros ; 

1 Pluviometro, typo paulista, installado longe da 
barraca ; 

1 Anemómetro Wild e um molinete anemometri- 
co Fuess ; 

1 Heliographo Campbell modelo aperfeiçoado; 

1 Actinometro Arago ; 

1 Dispositivo com uma bateria completa de ther- 
mametros, expostos ao relento ; 

1 Grande chronometro sideral, 3 chronometros tor- 
pilleurs e 1 chronometro de bolso, todos a invar, do 
fabricante Nardin, e 1 chronometro de algibeira do fa- 
bricante Patek, reguladores esses anterigrmente estu- 
dodos no Observatório de S. Paulo ; 

2 Collecções de fitas largas, com as cores do iris, 
em vários tons, formando uma escala chromatica de 
14 nuanças ; 

1 barómetro mercurial Fuess ; 

1 barómetro aneróide Tonnelot. 

Assim apparelhada, a commissão esperava pres- 
tar serviços á sciencia, caso o tempo permitisse um 
trabalho coínpleto. 



- 30 — 



Desde a véspera do eclipse, caíra, porém, o mau 
tempo, recolhendo o pluviometro das 9 horas da ma- 
nhan de 9, até ás 9 horas da manhan de 10, uma quanti- 
dade de chuva avaliada em 20,5 mm. 

Amanheceu o dia 10 chuvoso, cahindo bátegas 
mais ou menos fortes, entremeadas de chuviscos, com 
algumas estiadas de curta duração, o que não impediu 
que, pelas 8 horas da manhan, todos os membros da 
commissão paulista se achassem a postos, esperando o 
signal para dar inicio aos trabalhos. 

Pelas 8 horas e 3o minutos fizemos as primeiras 
observações de ensaio, e ás 8 horas e 45 minutos tor- 
naram-se ellas definitivas, quando por um claro deixa- 
do nas nuvens, avistamos o sol, semivelado por uma 
camada ténue de stratos-nimbos. Fizemos, então, a 
nossa primeira e única observação do disco, que ainda 
se mostrava completo, não se havendo dado o primei- 
ro contacto ; durante o resto do dia não nos foi mais 
possivel avistar o sol, tendo o mesmo succedido em 
todos os pontos occupados pelas commissões astronó- 
micas, de que temos noticia. 







Thermomeíros Actinometro 


CQ O 


O 




HORAS 


Abrigado 


o 


2 

E c 


2 o 
11 


OBSER- 
VAÇÕES 


A. M. 


8 

V 
V) 

15.1 


o 

2 
E 

3 


o 

a 


11 


5 2 

li 


> 


8 h— 45 111. 


14.6 


14.7 


15.0 


15.4 


716.6 


E6 




8 


-50 


15.1 


14.8 


14.6 


14.8 


15.7 


716.6 


K8 




9 


~ 


15.5 


14.8 


14.6 


17.6 


17.3 


716.6 


E6 


Chove 


9 


- 5 


— 


— 


— 


— 


— 


— 


— 


Garoa fraca 


9 


-10 


15.4 


14.6 


14.8 


18.2 


21.0 


716.6 


E8 


Chuvisco 


9 


—20 


15.4 


14.8 


14.6 


18.0 


17.6 


716.4 


E5 


Chuvisco 


9 


-30 


15.3 


14.4 


17.0 


17.2 


18.8 


716.5 


ENE 8 


Chuvisc. fraco 


9 


-40 


15.1 


14.4 


16.8 


18.0 


15.3 


716.4 


ENE 5 


Chuvisco, de- 
pois chv. forte 


9 


-50 


15.2 


14.2 


15.0 


16.4 


17.0 


716.2 


E6 




9 


-55 


15.0 


14.4 


11.7 


15.8 


16.2 


716.1 


E6 


Chuvisc. fraco 


10 


- 


14.8 


14.5 


14.6 


15.2 


15.4 


716.2 


E6 


Garoa 


10 


— 5 


14.8 


14.4 , 1,k6 


15.4 


15.4 


716.1 


E8 


Garoa fraca 


10 


-10 


14.9 


14.1 14.6 


15.3 


15.0 


716.0 


E6 


Chove 


10 


—20 


14.8 


14.1 


14.6 


15.3 


15.0 


715.0 


E6 


Chove 


10 


-30 


14.8 


14.1 


11.6 


15.6 


15.0 


716.0 


E4 


Estiou 


10 


-40 


14.8 


14.3 


14.6 


15.0 


15.8 


716.0 


E4 


Estiou 


10 


-50 


15.0 


14.6 


14.6 


15.7 


15.2 


715.9 


ENE 6 


Garoa 


11 


— 


14.8 


14.4 ; 14.6 


16.0 


15.8 ; 715.7 


NE 4 


(iarôa fraca 


11 


- 10 


15.0 


14.4 1 14.7 


16.4 


16.81715.7 


ENE 4 


Garoa 


11 


-^20 


ir).2 


14.6 14.7 16.1 


17.0 715.6 


ENE 4 


Garoa 


11 


—,^0 


15.4 1 14. S 15.0 17.0 I 15.0 715.Hhni:0 


Gurôa 


11 


-40 


15.2 14.6 1 14.8 10.2 1 16.7 i 715.2 kni: I 


Garoa 



— 31 — 

O registro das observações tomadas no local mos- 
tram quaes os dados colhidos pela commissão paulista, 
durante esse memorável dia, tão adverso ao estudo de 
Astronomia. 

Durante o tempo em que estivemos em activa faina, 
os cinematographos registraram vários aspectos da na- 
tureza e apanharam, também, diversas phases e opera- 
ções em que o pessoal se empenhava, apezar da chuva, 
que tanto nos perseguia. 

Ao approximar-se a totalidade, a escuridão era 
tão grande que os pássaros voavam pressurosos em 
busca dos abrigos costumeiros, passando os corvos, 
que pouco antes viramos no matadouro, em vôo rápi- 
do, demandando as pousadas habitues, nas abas da Ser- 
ra, que próximo se erguiam. 

O trillar dos grillos e coachar dos sapos quasi não 
foram notados, mas os gallos, de vez em quando, can- 
tavam, como nas noites claras, ao approximar-se a al- 
vorada. 

Os nimbos, na direcção do sul, por vezes adelga- 
çaram-se, formando abertas pelas quaes se percebia, 
nas altas camadas da atmosphera. cúmulos, e cúmulos 
-nimbos, coloridos, nos quaes predominavam os tons 
violáceos ou cinzento-azulados. 

Pelas 9 horas e 50 minutos, em rumo sul, obser- 
vou-se, por um claro nas nuvens baixas, um bello tre- 
cho de cirtos estriados, em faixas cerradas. 

A'cêrca da influencia magnética do eclipse, o que se 
poude notar, foi, por occasião da totalidade, uma dimi- 
nuição no numero de oscíllações da agulha magnética, 
a qiial, desviada da sua posição de equilíbrio, em idên- 
ticas circumstancias, antes, durante e depois do phe- 
nomeno, gastou, também, menos tempo para estacio- 
nar, na totalidade, do que nas observações que antece- 
deram e se seguiram á phase máxima. 

Nas 14 fitas coloridas, que formavam a nossa es- 
cala chromatica, desapparecerem as que apresentavam 
os tons violeta, azul carregado e verde garrafa, perce- 
bendo-se apenas, em seus lo