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Full text of "Revista archaeologica"

THE J. PAUL GEITY MUSEUM LIBR/ 



REVISTA 

ARCHEOLOGICA 



E HISTÓRICA 



PUBLICAÇÃO AIENSAL 



PROPRIETÁRIOS E REDACTORES: 

A. C. BORGES DE FIGUEIREDO 

Bibliothccario da Sociedade de Geographia de Lisboa 
E 

M. ALEXANDRE DE SOUSA 

Ofticial do exercito 



VOLUME 

1887 



LISBOA 
Typographia de Adolpho, Modesto & C.^ 

FORNECEDORES DA SOCIEDADE DE GEOGRAPHIA 

Rua Nova do Loureiro, 2.5 a 43 

18 8; 



THb J. PAUL GETTY CENTÇR 



NDICE 



XYIII 



VIII 



Pag. Est. 

Aiimlclo roínaiio 70 x 

Aiilijíiiidadfs de Montemór-0-novo 129 

Antiguidades pheiíicias na Península 175 

Ao leitor 1 

Ara romana dcscolicrta em Castro Daire fi2 ix 

Arclieoloj,'ia : iiiijiorlancia, estudo, notas varias 1, l."i, 4o líiG 

Arciíitíícto lie Odiveilas (O primeiro) lio xvi 

Balsa ( perto de Tavira) ;J3 

Beja 18o 

Bencatel 100 

Bihliographia 80, 96, 128, 159 17o 

Brigantium (o supposto) em (>astro de Avellãs 8o 

Bronze (objectos d?) — na Hispanlia lo 

Calcos (modo de tirar) 16 

Castro Daire í Ara romana descoberta em) 52 ix 

Ceitis de D. Allbnso v KJG 

Chinfrans de D. AíTonso v; vej. Real. 

Cippo funerário romano descoberto em Vizeu 81 xii 

Citaina 39 

Constiluiçõcs 10 182 

Conslituições do arcebispado de Lisboa, decretadas por D. João Es- 
teves de Azambuja ( 1102-1114) 10, 28, 60, 77 94 

Descobertas arcbeologicas lo 

Descobertas em Pompeia (Novas) 31 

Dias egypcios (os) 6o 

Dinfieiro de D. Saiicbo ir 57 

Duas inscripçõos de Olisipo o 

Edade de pedra ; na Guadalupe 6 9 

Elvas (Três monumentos epigraphicos d') 97 

Epigrapbia : 

de Olisipo o 

de Tuy 17 

de Balsa 33 

de Citánia 43 

de Faro 47 93 

de Mertoia 64 

de Castro D.iire 52 rx 

num tijolo 76 xi 

de Vizeu 81 

de Castro de Avellãs 8o 

de Sacoias 92 

tle Elvas 97 135 

de Bencatel 100 

(Epitapbio do século xii) 109 

de Montemór-o-novo 113 129 

de Odiveilas 147 

de Duas Egrejas (Miranda do Douro) lo9 

de Beja 18:i 

Epitaphio do século xii 109 

Escuipturas em madeira, da Guadalupe 8 



IX 

I 



r 

III-VI 
VI i 
VIII 

IX 



xir 



XVI, XIX 



Pag. 


Est. 


166 


XVIII 


45 




49 




6 




8 




64 


IX 


129 





índice 



Espadins ile D. AlTonso v 

Estudos nrcheoloííioos om Portugal (os) 

Geoiírifia áral)i' de Portujral (La) 

Guadaluix' pivliislorica (A) 

ídolos da Guadalupe 

Inscriprão clirislã dcscoliorla em Mcrtola 

Inscripção de Moiiteiuór-o-novo. 113 

Lei de'í8 de ai!oslo de 1721 relaíiva á conservação dos monumen- 
tos arelipoio^tricos (extracto) 46 

Mais um monumento rpjgraphico de Bencatel 100 

Mealha de D. AlTonso i 27 

Mecia Lopes de llaro (D.) 161 184 

Modo d" tirar calcos de inscripções 16 

Montemór-o-novo 129 

MonuMieiitos de Balsa 33 

Monumentos epigrapi ieos de Beja 185 

Monumentos epigrapliicos de Tuy _._ 

Monumentos históricos 156 

Notas sohre a toponymia portuguezi 102 

Numismática poi tugueza : 

mealha de 1). Atíonso i 

diniieiro de D. Sancho ii 

fracções de real de D. João i 

reaes de I). João i 

reacs hrancos de D. Duarte 

reaes grossos e meios reaes ou chinfrans de D. AíTonso v 

espadins e ceitis de D. Allbnso v 

Numismaíica romana : 

Vli BS HUM A B E ATA .- 10 ii 

Óbidos, vej. Constituições e Visitação. 

Odivellas 145 177 xvi, xix 

Pedra formosa (A) da ('itania 42 

Pom|ieia (Novas descobertas em) 31 

Porco, sua importaiicia cultual 53 

Pretiistoria : A Guadalupe prehistorica 6 

Primeiro architecto de Odivellas (o) 145 xvi 

Qu'>stionario archcologico HO 

Heal — Fracções de real de D. João i 72 xi 

reaes de 1). João i 83 xii 

reans brancos de D. Duarte 117 xiv 

reaes grossos e meios reaes ou chinfrans de D. AíTonso v 133 xv 

S. João do Mocharro d'Obidos, vej. Constituições e Visitação. 

Silex : — (Armas e utensílios) na Guadalupe 7 

» ■> na Hispanha 15 

Supposto Brigantiuíu em Castro de Avellãs (o) 85 

Tijolo do século xvi 76 xi 

Toponymia [)orfugneza (Notas sobre a) 102 

Três monumentos epigraphicos d'Elvas e do seu termo 97 136 

Túmulos em Pompeia 31 

Uma moeda rara 10 il 

Visitação á egreja de S. João do Mocharro dObidos, por D. Jorgeda 

Gosta, em 14 de fevereiro de 1467 119, 137 152 xvii 

Visitação á egreja de S. João do Mocharro d'Obidos, por D. João, 
Itispo de Gaíim, em nome do arcebispo de Lisboa, aos 2 de ju- 
nho de 1473 169 



17 


III-VI 


177 


XIX 


102 




27 


VI 


57 


IX 


72 


XI 


83 


XII 


117 


XIV 


133 


XV 


166 


XVIIt 



REVISTA 

ARCHEOLOGICA 

E HISTÓRICA 

AO LEITOR 

O conhecimento das gerações que passaram, mostrando- 
nos as pliases que tem percorrido a liumanidade na sua evo- 
lução continua, dá-nos a explicação de muitas das circum- 
stancias de meio e de modo em que vi^'emos. 

Esse conliecimento do antigo — a arclieologia — não 
consta limitadamente da noção de objectos materiaes que 
chegaram até nós, ou de que ha memoria; mas é constituido 
pelo conjuncto de todas as noticias que se i)ossam obter 
acerca dos diíferentes povos, sobre sua origem e suas mi- 
grações, seus caracteres physicos e sua linguagem, sobre 
stus costumes e usos, sua industria e commercio, como so- 
bre suas artes e monumentos, suas instituições e suas crenças. 

Vasto como é este ramo da sciencia, não é dado a um 
só homem o poder tractal-o em todas suas partes. Algumas 
d'ellas requerem a cooperação d'outros ramos scientiíicos, 
dos quaes nem todos attingiram ainda o conveniente estado 
de perfeição, e alguns exigem um estudo especial muito 
complexo e transcendente, absorvendo de tal modo o tempo 
que não dão logar a outros trabalhos. Dissemos que a ar- 
cheologia é não uma sciencia, mas um ramo d'ella. E que a 
sciencia é una, mas tem variadas manifestações ; é estas, na- 
turalmente e de tal modo estão entre si ligadas, que nenhuma 
pôde tornar-se independente das outras. E nessa solidarie- 

Rev. Arch. e HiST., I, N." I — Jan. 18S7, I 



BEVISTA ARCHEOLOGICA 



dade incontestável, é nesse principio geral de harmonia e de 
ordem qiTe reside a força, a grandeza da sciencia. 

Se todos os ramos da arclieologia estivessem já devida- 
mente estudados, poderia aproveitar-se esse conjiincto de 
materiaes para com o seu auxilio se compor definitivamente 
a historia comparada do passado. Mas são ainda muito in- 
complectos na maior parte os trabalhos archeologicos par- 
ciaes, e o grande arcliivo da terra contém ainda muitos e 
muitos documentos desconhecidos que talvez um dia virão 
lançar luz sobre muitas e graves questões que hoje subsis- 
tem irresolvidas. 

lia ainda na actualidade pessoas que, pretendendo ser 
tidas como illustradas e presumindo-se muito intendidas no 
desinvolvimento da humanidade, perguntam qual a impor- 
tância de ir desenterrar uma inscripeao truncada, um frag- 
mento de lâmpada, uma moeda meio safada; qual a impor- 
tância d'um pedacinho de vaso domestico de vidro ou louça; 
que perguntam qual o interesse de saber-se ao certo se uma 
povoação assentava um decimo de milha distante da sua si- 
tuação actual, se sempre uma localidade teve o mesmo nome 
ou designação diversa. 

«Que importa? Bárbaros! — respondeu A. Herculano — 
Importa a arte, as recordações, a memoria de nossos pães, 
a conservação de coisas cuja perda é irremediável, a gloria 
nacional, o passado e o futuro, as obras mais espantosas do 
intendimento humano, a historia e a religião.» Que importa? 
Importa o conliecimento do estado da industria e da arte das 
gerações passadas, importa o conhecimento dos usos e cos- 
tumes dos liomens d'outras edades, importa a noticia das re- 
lações commerciaes entre os povos que nos precederam, im- 
porta a noção do desinvolvimento intellectual, moral e reli- 
gioso da gente que passou, importa a informação de tudo 
que existiu antes de nós, do que preparou o estado presente 
das coisas, importa a causa da civiHsação actual, importa a 
origem da sociedade d'hoje. 

Outra gente ha também que intende ser hoje em dia 



K IIISTUJUCA 



ocioso tractar novamente assumptos, de ([ue se occiíparam 
antigos escriptores, pela razão de que estes, tendo vivido 
mais próximos, do cpie nós, d'aquillo de que falaram, tinham 
obrigaí^ão de ser melhor informados do que as modernas ge- 
rações. Os que pensam de tal guiza, ou têm a simplicidade de 
crer que todos os antigos auctores foram sensatos e todos de 
inteira seriedade e irreprehensivel honestidade scientifica, ou 
sào tcTo ingénuos que julgam uma profanação corrigir os 
dislates e verberar as falsidades de embusteiros como fr. 
Bernardo de Brito, como 1). Nicolau de Santa lyiaria, e ou- 
tros mais. Para esses a historia serve, não para nos instruir 
das phases, das evoluções por que tem passado a humani- 
dade, não para alargar o circulo dos nossos conhecimentos e 
conduzir-nos á verdade ; serve, sim, para affagar as vaida- 
des ineptas com desconcertos de toda a sorte, para conser- 
var estacionários os espíritos fracos sob paral}'sadoras in- 
fluencias. Para esses a historia é como que um romance, 
onde aos personagens ideados se attribuem qualidades con- 
vencionaes, onde os factos são mero producto do capricho 
d'unia imaginação jjoi' vezes enferma ; em vez de ser uma 
narrativa veridica, onde os homens apparecem sob o seu as- 
pecto real, com sua Índole própria, com seus vícios e virtu- 
des, com seu caracter emfim, e onde os factos são effeitos 
de causas operando em circumstancias determinadas. 

Felizmente que alguns espíritos illustrados vão protes- 
tando contra esse erróneo modo de considerar a historia, 
contra esse desprezo ou indifferentismo j^ela archeologia. Di- 
gnos dos maiores louvores são elles. E é com satisfação que 
nós registamos o facto de alguns prelados haverem instituído 
em seus seminários um curso de archeologia; cabe a honra 
da ideia e da })rimeira execução ao Ex.'"" e Bev.'"" Bispo de 
Beja, digno successor do í Ilustre Cenáculo. 

As considerações que ficam expostas, e de cuja verdade 
estamos convictos, nos movem a publicar a lievista Archeo- 
logica e Histórica^ destinada a vulgarisar as noticias de todo 
O' género que digam respeito ás antiguidades e outros assum- 
ptos históricos, despertando assim o gosto por estes estudos. 



REVISTA AKCIIEOLOGICA 



Demais, por muitas vezes temos ouvido algumas pessoas 
estudiosas queixarem-sc da falta em Portugal d'um reposi- 
tório arclieologico e histórico, de publicação regular, onde 
tenham cabimento quaesquer breves descripções, notas e 
communicações do que se váe descobrindo. Ficará preenchi- 
da essa grande lacuna com a Revista Archeologica e Ilistorica^ 
na qualseràoincluidos os artigos com que nos queiram obse- 
quiar aquelles que, assim em Portugal como no estrangeiro, 
trabalham conscienciosamente nestes assumpos. 

Procuraremos sempre melhorar esta publicação; e, se 
ella merecer a acceitação do publico, dar-lhe-hemos maior 
desinvolvimento. 

Uma secção bio-bibliographica dará com toda a pon- 
tualidade noticias precisas das j^ublicações ríícebidas pela re- 
dacção, e dos seus auctores. 



A Redacção. 



E HISTÓRICA 



DUAS INSCRIPÇíJES DE OLTSIPO 

Em 17!)7, o ncgocianlo Francisco Josó da Silva fez edificar o pré- 
dio (hoje iiileiranieiile reformado) da csfiuiiia do largo de Santo Antó- 
nio para o da Sé de Lisboa. Por essa occasião enconlraram-se dnas 
lapides com iiiscripções romanas, de que tomou copia José Anastácio 
da Costa e Sá. 

O padre Manuel da Gama Xaro publicou as duas inscripções, se- 
gundo a copia de (]osla e Sá, nos Ainincs da Sociedade Arc/ieologica 
Luzilana ()J,4li), precedendo-as d'uma breve indicação da sua prove- 
niência. Dos Annaes transcreveu-as l.evy Maria Jordão na deforme 
obra que intitulou Pni-tuf/uUae Inscriptiones Romanae, obra que mos- 
tra com evidencia a ineptidão epigrapliica do seu auctor. Vêem a pag. 
197, n. 4)38; e pag. t2l8, n. 498. 

Posteiiormenle foram as mesmas inscripções publicadas no vol. II 
do Corpus Inscriplionum Lalinanim (n. :200 e 2^0), pelo illustre sá- 
bio allemão, o sr. professor Emilio Hubner, o qual, á falta d'outro sub- 
sidio seguiu o transumpto dos mencionados Annaes. 

Finalmente, incluiu-as na sua Lishod Antiga o sr. visconde de Cas- 
tilho (vol. I da segunda parte, pag, 9i2-93), anlecedeudo-as da seguinte 
informação : 

«O Diário de Noticias, de Lisboa, de 11 de julho corrente, de 1882, 
mencionava isto : numas obras que no prédio, a Santo António da Sé, 
no largo, esquina da travessa de Santo António da Sé estava fazendo 
a companhia de Credito Predial, appareceu, ao derrubar se uma parte 
do muio que separa o quintal do pateo da cocheira, uma caveira num 
vão do mesmo muro ; e esse vão lapava-o uma lapide com esta in- 
scripção. . . E a pequena distancia, no muro, outra lapide. . .» 

Vendo eu esta noticia na obra do distincto escriptor, dirigi-me á 
Caixa de Credito Predial ou IJanco Ilypothecario, e sollicitei do d'gnis- 
simo vice-governador, o ex."'° sr. conselheiro Lourenço António de Car- 
valho, licença para tirar calcos das inscripções. Com a maior prom- 
ptidão e amabilidade s. ex.'^ me facultou o ver as lapides e tirar cal- 
cos, e aqui reitero os meus agradecimentos pelo obsequio recebido. 

As lapides, cuja espessura é de cerca de O, ""00, tèein : uma (a de 
Oplatino) 0,'";í4 de largo e O, '"31 de alto; a outra é quadrada, me- 
dindo cada lado 0,'°:il. 

É pena que os operários (segundo se cré) se entretivessem a lim- 
par com um prego ou navalha as letlras ; não se p(jde porém levantar 
duvida alguma sobre a aulhenticidade (Kestes monumentos, em que 
se encontram ainda vestígios intactos da gravura. 

Embora esta noticia seja acompanhada do fac-simile das inscripções^ 
aqui as transcrevo. 



REVISTA ARCHEOLOGICA 



A inscripção da lapide que Lapava o vão, onde se achou a caveira, 
ú a seguinte : 

D V i\I y 

CAEGILIVSOP 
TATINVS r AN XXN Vii 
H r S E V I V L V O R N E 
COGNATO OPTI 

'' F A G C V K '' 

D{iis) M{jnibus). Caeciliiis Ofl.Ttimis, an{noriim) XXXVII, h(ic) siiiiis) 
e{st). Jiil{iiis) Orne cognato opli{nio) fjc[iiiuJu})i) cur{M'it). 

A outra inscripção é esta: 

D V M 

IVL V SEVERA A/ 
L V V H Y SE V I V L 
ORNE r M A T R I 
PIENTISSIxMAE 
^ FEG I T ^ 

D[iis) M{anibus). Jtil{ia) Severa, an{norwn) LV, h(ic s{iia) e{sí). Jiil{ius) 
Orne matri pientissimae fecit. 

Como se vê, ambos os monumentos foram mandados fazer por Jú- 
lio Orne: um dedicado a sua mãe Júlia Severa, outro ao seu parente 
Caecilio Optatino. 

Borges de Figukiredo. 



A GUADALUPE PREIIISTORICA 

Se é interessante o estudo da vida da geração que antecedeu á actual, 
para as compararmos e prevermos mais do que por uma phantasia da ima- 
ginação, quaes serão as proporções e a vitalidade das raças que nos hão 
de seguir amanhã; se, por uma progressão comparativa de raça para raça, 
de geração para geração, desde que a historia nos ilhimina, podemos 
apontar a raça que amanhã ha de succumbir, e a que á custa d'esta 
ha de desenvolver-se, revolvendo o seio da terra, liei depositaria do 
retrato e do modo de ser das gerações que absorveu, poi"que, com as 
cinzas (Tessas gerações, guardou os seus mais preciosos Ihesouros, os 
documentos mais incontestáveis da sua civilisação e dos seus costu- 



E HISTÓRICA 



mes, tem o homem investigador maior campo de acção, e pôde en- 
contrar os elos partidos e occultos, que a historia não conhece, d'essa 
cadeia extensissiiua da hinnanidado, que ainíhi nãu tem assigiialada para 
a sciencia o sou princi[)io, nem é possível deniaicar-lhe o íini. 

Se allraenle, por conseguinte, é o estudo das raças ijue a historia 
nos descreve, ainda a(|uellas sobre que está feita toda a luz, é muito 
mais interessante investigar os traços deixados pelo homem prehisto- 
rico, principalmente nas ilhas onde as misturas de raças eram mais 
dilliceis nos primeiros tempos da humanidade. 

O sr. manjuez de Nadaillac estudou e fez ha pouco tempo a descri- 
pção da explendida collecção obtida pelo sr. Guesde nas Antilhas, 
descripção que, pela sua importância, mereceu a allenção da França 
que ultimamente se tem entregado cuidadosamente a estudos archeo- 
logicos. O sr. de Nadaillac diz: 

Encontram-se nas Antilhas os traços de duas raças distinctas que 
existiram nos séculos anteriores á descoberta da America. 

Os habitantes das grandes Antilhas e da ilha liahama eram bran- 
dos e timidos e foram promptamente exterminados pelos hispanhoes. 

Nas pequenas anlilhas viviam os Caraibas, guerreiros ferozes e tal- 
vez anlhropophagos; tèm-os descripto e representado como uma bella 
raça, de alta estatura, nariz aquilino, pelle trigueira, olhos ligeiramente 
obliíjuos, e os cabellos longos, duros e ásperos. 

Esta raça também desappareceu. Restam d'ella apenas alguns des- 
cendentes no Nicarágua, nas Guyanas, e na bacia do Orenoque. 

O sr. de Nadaillac altribue aos antepassados dos Caraíbas as peças 
da collecção do sr. Guesde recolhidas em Guadalupe, Dominica, Mar- 
tinica, Santa Luzia, Porto Hico e São Domingos. 

Estas peças são machados e cutellos de silex, d'uma espécie de 
esmeralda, de mármore, e todos geralmente dum trabalho notável, 
obtido pelo friccionamento com outras pedras. 

Encontram-se em Guadalupe, em todas as altitudes, tanto nas costas 
como no interior, objectos fabricados pelos homens. Uns, são extrema- 
mente pequenos e parecem ter sido destinados a uma raça de anijes; 
outros, pelo contrario, são de grandes dimensões e não poderiam ter 
servido senão para homens (fuma força e d'uma estatura excepcional. 

Alguns, pelo grosseiro do trabalho parecem indicar uma industria 
nascente; outros são comparáveis aos mais bellos machados dinamar- 
quezes e são polidos com uma arte que certamente iião poderia ter 
sido excedida ; e para conseguir esla perfeição foi de certo preciso ao 
homem longo tempo e numerosas tentativas. 

Os machados apresentam todas as formas imagináveis; tanto são 
compridos e estreitos, como curtos e largos: o seu gume é sempre 
muito fino. 

Acha-se também, na Guadalupe, o que os francezes chamam nos cel- 
tas casse-létc, ferramentas, buris, mãos de gral ou pisadores de pedra. 



8 KEVISTA AHCnKOLOGICA 

Os Caraíbas serviam-se também de madeira. Gostavam dos orna- 
mentos como todos os selvagens ; e traziam pesadas argolas dependu- 
radas nas orelhas como durante muito tempo trouxeram os mexicanos 
e os peruvianos. 

Certos machados ou achas eram ao mesmo tempo ornamentos e 
amuletos. 

O machado, symbolo da força, era entre todos os povos primitivos 
rodeado d"um respeito supersticioso. Achamol-o esculpido nus baixos 
relevos babylonicos, nas pedras sagradas da Bretanha, nas cavernas 
neolithicas da França. 

O sr. de Nadaillac cita um objecto curioso desenhado num liloco 
de carbonato de cal crystallisado que se suppõe ter sido um idolo, 
como grande numero dos que se encontram nas Antilhas, e dos quaes 
os mais singulares damos em seguida. 

Um, em pedra vulcânica de còr escura, de quasi um metro de al- 
tura, figurando um homem estendido de costas, os braços unidos ao 
corpo, a cabeça coberta com um casquete ou solidéo e as orelhas dis- 
tendidas coiii pezados ornamentos. 

Outro mostra uma íigura humana tendo ao lado outra figura com 
apparencia de macaco. 

«Teremos ahi, diz o sr. de Nadaillac, um argumento em favor do 
nosso conimuni antepassado e teria tido Darwin precursores entre 
os humildes selvagens?» 

Este idolo, é feito de barro cozido e parece ser importado, porque 
os Caraíbas desconheciam a arte da olaria. 

As figuras esculpidas em madeira são mais notáveis ainda. 

lima d'ellas, de altura de 1,"'08, é notável pelas grandes argolas 
fixas ás orelhas e por manilhas que apertam a parte superior dos braços. 

Outra peça de altura de O, '"78, representa dois homens assentados 
sob um docel ou parasol. As costas da cadeira são cobertas de orna- 
mentos, círculos coticentricos ouespiraes. Os homens trni barretes bor- 
dados que lembram especialmente os dos índios que habitam o valle 
central dos Estados-Unidos. 

Tiras de panno lhes cingem apertadamente as barrigas das pernas. 
Irving refere que em 10 de novembro de 1493, Colombo teve um 
combate com os indígenas de Santa Cruz, em que estes foram derro- 
tados e se retiraram deixando muitos dos seus sobre o campo. 

«Os seus cabellos, descreve o grande navegador, eram compridos 
e rijos, os olhos pintados, o que augmentava a ferocidade das suas 
physionomías e os braços e as pernas, muito comprimidas por faxas 
de panno. estavam desmedidamente inchadas.» 

Os Caraíbas foram no seu principio navegadores; quando entra- 
ram em relações com a Europa tinham já duas espécies de embarca- 
ções. Conservam-se alguns exemplares Jeslas, principalmente das que 
eram cavadas no tronco do tlnuja gigantea, no museu de Washington ; 



K IIISTOIilCA 



lima (lestas embarcações não leni menos (1(; s(3sst!nla prs de compri- 
mento. 

íl mnilo interessante estudar tanto as csciilplnras fcilas nos t)lo- 
cos cliamados errantes, Ião numerosos nas duas Américas, como as 
esculpturas feitas sobre as rocbas. 

iMicontram-se no Novo México, Colorado. Arizona, (iualeinala, Ni- 
carágua, Holivia. Ciuvaua, Hiazil e na Uepuldica Argentina. Na Guada- 
lu[)e eiicontiani-se tanibcm: mas estas esculpturas são mais numero- 
sas na ilha de S. Vicente que foi o ulliuio refugio dos Caraibas. 

O sr. de Nadailiac reproduziu uma íjue viu num bioco errante de 
muitas toneladas. Os ornamentos d'esle bloco não tèm nenhuma si- 
gnificação, que se possa inletprelar boje. 

Km resumo, o homem picliislorico da Guadalupe não 6 senão uma 
das numerosas ramilicações duma raça vigorosa e guerreira que es- 
tendeu o seu domínio sobre muitas das peipienas Antilhas e sobre al- 
gumas partes dos continentes. 

A sua arte grosseira tem todos os caracteres que se encontram 
habitualmente nos povos que tiveram o sile\ por primeira arma, e o 
sr. de Nadailiac diz com muita razão: 

«Não conlieço na longa historia da humanidade facto mais notável 
do que esta analogia constante do génio do homem alravez do espaço, 
analogia á analyse da qual se não podem subtrair os observadores, 
mesmo os mais superíiciaes. 

Quer se tomem os silex aparados ou simplesmente lascados, pro- 
venientes da França, da Hespanha, da Algéria ou do Cabo, da Prata 
ou da Califórnia, e se misturem ao acaso, desafio a vista mais exer- 
citada a classificar cada um delles, segundo a sua proveniência. Acon- 
tece o incsmo com as ferramentas ou armas neolitliicas, com as obras 
de barro mais ou menos primitivas; em to la a parte vemos o mesmo 
trabalho, em toda parte reconhecemos as mesmas formas, os mesmos 
processos de fabricação. Sem duvida causas permanentes ou cau- 
sas accidentaes retardaram ou avançaram em cada região o desenvol- 
vimento da nossa raça ; a iidbiencia do cliína, a força da vegetação, 
a visiiihnnça do mar, a [)resença na su[)erfii'ie do solo de silex ou de 
rochas metamorphicas, suscepliveis diim polido mais ou menos bri- 
lhante, a ausência da terra aproveitável á olaria, e outras causas mate- 
riaes, tèm desempenhado um papel mais ou menos importante : mas 
como resultado final, S('mpre e em toda a parte, as mesmas necessi- 
dades crearam os mesmos meios, para as satisfazer.» 



M. Alkxanoiu:: dk SorsA. 



10 REVISTA AliCHEOLOGICA 



UMA MOEDA RARA 

Pertencente á curiosa classe dos bronzes romanos que, sem nome 
de imperante, tèm por inscripção v R B S ROMA, C O N S T A N- 
TiNOPOLis ou POPVLVS R O M A N V s, e cuja data de 
cunliagem ainda não ponde com [)recisão ser determinada, possuo uma 
espécie muito iiileressanle. Considero rara esta moeda, porque não u 
encontro mencionada polo sr. Cohen, na sua excellente obra sobre as 
moedas cunhadas durante o império romano, nem me consta que haja 
sido já mencionada em revista alguma numismática. 

A moeda de (]ue trato é uni pequeno bronze, do modulo terceiro 
da escola de Alionnet, e cuja discripção é como se segue (Est. ii): 

V R B s ROMA BEATA — Busto de Roma, com capacete e 
couraça, voltado para a esquerda. 

ií. — A loba aleitando Rómulo e Remo; por cima, no campo, (ves- 
tígios de) coroa entre duas estrellas; no ex : r # q 

É interessantissima esta moeda pelo qualificativo junto ao nome 
da capital do império romano — VRBS ROMA beata— , a 
feliz, a bemaventurada cidade de Roma. 

Conjecturo que a emissão d"estas moedas coincidiu com a d'a- 
queiroutras que tèm a inscripção BEATA TRANQVILLITAS, 
as quaes foram em minha opinião, com todas as probabilidades cunha- 
das durante os nove annos de paz que decorreram de 1314 a 323. lia 
uma moeda de Crispo (Cohen, vol. VI, 192, 31), com o reverso de 
BEATA TRANQVIELITAS, a qual foi Cunhada no seu se- 
gundo consulado, c r i s P v s n . c . c o S . 1 1 (1074/321). 

BoiíGES DE Figueiredo. 



CONSTITUIÇÕES DO ARCEBISPADO DE LISBOA 
decretadas por D. João Esteves dAzanibnja (1402 — 1414) 



ADVEIirrjEIVCI^ 

Dosdí! os primeiros lonipos do christianismo tiveram os t)ispGs a faculdade de 
ordenar o que julgavam fonvenientc para a manulon(^'ão da reliiíiào, quer com 
respeito ao clero seu suitordiíiado, (pu-r no tocante aos seculares. Cítm o camiidiar 
dos tempos, ausímenlaridíj o numero d'essas ordenações especiaes, naturalmeiUe se 
foram ajnntanílo atí- formarem corpo de leiíislaçfio |)or (pie cada dioC(!se se re- 
ííia. Demais os concílios, tanio «^eraes como [»articulai'es, lizeram sempre determi- 
nações paja regular o que dizia i'espeito ás coisas da egreja e ainda outras. As 
consliluigões dos bispados sào portanto quasi tào antigas como o clirislianismo, e 



E IIISTOniCA 1 1 



.1 (;|iocli;i fiii (|ii(! nllas começaram a formar collcrção não [todo ser precisamente 
detcrmiiiatla. Lun tios coiicilios (|ii(' m;iis innuiram nos cosiiimcse na (lisci|tlina do 
clero foi o de Constantinopla (in Trulloj celebrado em WA e (|iie é tamijem cha- 
mado iiuiniscxliiin. 

Como (|(ier ponun, que seja, o que c incontestável é que não são as constitui- 
ções — nossa li'}íislação reliiíiosa, do século \vi -uma consequência do concilio 
tridentin(t. como se tem allirmado. O concilio di* Trento aliriíi aijs i;{ di; dezemliro 
d(! liilo e fechou a 4 de ejínal mez do anuo di; loCtiJ c já em loál se iinhlicavam as 
"Oníxtilnirõcs do hispado de Cuindirii. Aipielh; celi-hre concilio não podia inllnir na 
elal)ora(;ão d"uma obra pulilicada vinte e (|ualro annos antes. E esses corpos de 
legislação reli.uiosa, qw. desde loál começaram a correr pela imprensa, não são 
mais, do (|ue collecções de antii;as conslituiçòes, devidamente ordenadas e dis- 
postas, convenientemente revistas e reíundidas, redigidas maisapuradamente, co- 
mo obra de (pie a lypoííraphia ia apodiMai-se. 

Muitos artiííos, porém, dessas ordenações foram conservados integralmente, 
como já corriam, conforme se verá daá Cuiislitnirõfs do arcebispo de Lisboa D. 
João Estev(!s d'Azambuja, (pie hoje são [lela primeira vez publicadas. 

Estão inf(!lizmenl(( imUiladas estas constituições, faltando-lhes o linal, onde es- 
tava a data, a assignatura e o logar do sello /mas nenliuma duvida podt- haver 
ác(!rca da pessoa ([ue as decretou, pelos dois seguintes motivos . Km primeiro lo- 
gar, a lettra do manuscripto é do meado do xv século, e o documento tem todos 
os caracteres de authenticidade ; em segundo logar. tendo havid(j até o anno de 
IíjOO apenas duis arcebispos (;m Lisboa do nome de João, e referindo-se o legis- 
lador ao seu antecessor arcebiítpo D João, este é necessariamente D. João Aniies, 
bispo desde i;{83, elevado ao archi(M»i^C(»pHdo em VM.Ví. São provavelmente estas 
as constituições manuscriptas de 1403:, citadas por Viterbo [Elucid. v. Tirhidhos). 
O volumoso manuscripto d"onde foi separada esta constituição e f|ue tinha por 
Ululo— Lino das visitarõcs do igreja de São João do Mocliarro d' Óbidos— íh- a for- 
mado d'uma enorme (piantidade de cadernos e folhas soltas, documentos já origi- 
nacs já ap(igi'aphos, abrangendo o lapso de tempo decorrido desde 1447 a l"ii3U, e na 
maior parle visitações. Osoutios documentos, exceptuada mais uma constitni(;ão, 
eram alçarás, recibos dos emolumentos de visitantes e certificados da publicação 
d:ellas. Esta copia da egreja do Mocliarro d'Obid'os é de boa lettra do século quinze, 
salvo as poucas epigraphes que vão transcriptas em itálico, e (jue parecem do sé- 
culo iurnediato. 

Num tralialho que estou preparando, não só é commentada detidamente esta 
constituição, mas outras e ainda algumas visitações inéditas de summo interesse para 
o conhecimento dos costumes e doestado do ;-lero iiortuguez naedade media. 

Por hoje limito-me a publicar este antigo documento, iiueressante a muitos 
respeitos, jirecedendo-o do indice dos titulos,"e conservandolhe a orthographia e 
as irregularidades grammaticaes. 

B. de F. 

índice dos títulos 

1-Preambulo ou intróito. 

2-da publicação annnal das constituições ao clero. 

3-ila iiistrucção do clero. 

4-das attribuições do arcebispo. 

o-do vestuário ecdesiastico. 

(j-dos beiKííicios ecciesiasticos. 

7-das oblações c oífertas. 

8-d(is demandadorcs e embusteiros. 

y-da assistência dos clérigos nas suas egrejas. 
10-da residência dos priores e vigários na quaresma, 
li-dos clérigos extranhos á diocese. 



1^ KEVISTA ARCIIEOLOGICA 

d2-cla coti vi vencia tio cliristãos com jiulous e moiros. 
i;}-d;is relaçOos d(í oliristãos com judeus o moii'os. 
li-das cita(;õcs c demandas coiilru pessoas ecclosiasticas. 
lo-das avenças. 

Ití-de apeniioramento dos ol)jectos do cullo. 
17-do arrendanienlo do pt; d"altar. 

18-da laculilad'' de o prior, reitor ou vigário dispijr em testuiiiMiLo de melade 
dos liens moveis (]ue liver e houver das rendas da sua egreja. 

lO-dos ajiisies. emprazamentos ompliiteulicos e outros contractos. 

20-do recebimento dos dizimos das terras. 

2i-da conlissão. 

22-do substalielecimento de funcções. 

23-da falta de alguns priores não irem fora da villa levar a communlião. 

2'i-das feiíicerias e supersti(^'ões. 

2o-do mesmo assumpto. 

20-das barregãs. 

27-da feiliceria e superslições. 

28-do mesmo assumpto. 

29-da alcovitaria. 

30-do caipido pelos mortos. 

31-do trabalho nos domingos e dias santificados. 

32-das danças nas egrejas. 

33-das feiras em certos dias santificados. 

3i-do jejum em certos dias santificados. 

3o-do jogo de dados em certos tlias. 

3G-de uso de remédios de judeus ou moiros, etc. 

37-dos casaiinMitos. 

38-da venda de carnes aos domingos antes da missa, 

39-dos barregueiros. 

40-da guarda do dia de Santa Iria em Santarém. 

41-do cumprimento das constituições. 

42-da comparência no synodo archiepiscopal. 

43-da obrigação de haverem cada egreja copia das constituições. 



CONSTITllÇOES 

1 In nomine patris et filii et spiritiis sanli et virginis glorinse sue 
malris et heati apostnii Johauis eiiaiioellisíe et bealisiiiii inartiris vi- 
çeruMi ])atioiii nostri Nus dom Johaiii jier inefce de dons e da santa 
igreja de rroina arçebis[)0 da iniiy nobre e senpre liall cidade de lix- 
boa, desejando de os nossos sobjeytos seerem insinados e rregidos em 
aquellas coiisa.s que pertencem e fazem mester a saúde das suas al- 
mas e booni Ucgimento de todallas egreias moesteyros c albergarias 
da (bla ndadi! e ar('ebis[)ad() de conselho e consentimento do nosso 
davam e cabiido e da outra crelizia do dito arcebispado consirando 
como per nossos antezesores jjispos e per dom Joham arcebispo a 
quem deus perdooee íoram bordenadas fetas algumas constituições 
sobre as ditas cousas as qiiaaes nom eram sabidas per todos nem gar- 
dailas como diviam, poróm (pieiendo nos |)or ireuerença dos ditos 
nossos aiileresores e por as ditas constituições sereui em sy muy boas 
e honestas que lodos as soubessem e gardassem examinamollas e es- 



E IJISTUKICA 13 



colli(3inos algumas as quaos nos pari'(;ftrom millior spííii:)i]o os tempos 
de hora que eram miiy coiminliaiíees e íezcmos e eslabullecemos c lior- 
(lenamos otilras de iiouo as (jiiaaes queremos e mandamos qne sejam 
conpiidas e gaidadas daipii em diante pella guiza rjue os sobre ditos 
6 per nos 1'oiam liordcnadas e Ictas. 

2 liem porquanto s(!gundo direito em cada hum arrel/ispado e bis- 
pado deue em cada huum anuo seer feto ajuntamento de toda a clelizia 
a fazer sinado em o quall se pubriquem as constiluiçõnes fetas e se 
ordenem outros se com[)rir de se fazer e sse determinem duuidas e 
conleníhis que outro ssy am os crehgos e os leygos nos casos de que 
a egreia perteenç^-e a jurdiram e i)or (pie outrossy segundo huma con- 
stitui(^'am do bispo dom Joliam chi soehiantes que depois Iby arcebispo 
de braagaa se em a dita ciilade auia de fazer o dito sinado em homce 
de juniio em dia de sambarnabas porém nos ho hordenamos que daqui 
em (hante em cada huum ano se faça em a dita cidade aos b dias do 
dito mes pêra no dia seguinte que he de sam Joiíam ante portam la- 
tinam começarem ho sin"ado e eslem em elle per três dias seguintes 
se tanto fezer mester e traga cada huum sua sobripilliza e porem man- 
damos que lodollos priores^Reytores e vigários e capellaães perjjetuas 
que teniiam cura dahnas e rracoyros e beneficiados das egreias do 
dita cidade e arçebis[)ado posto que per nossas letaras e vigayros nom 
sejam chamados em cada liuuiii anno se trabalhem e laçam em tall guisa 
como persoallmente cheguem a dita cidade aos ditos cinquo dias do 
dito mes e em caso que sejam embargados per emfermidade ou outro 
lidimo empedimento emvieem seos procuradores pêra no dia seguinte 
com eiles seer começado perante nos ou per nossos socesores ou 
per outros a quem for comilido per nos ou per elles o dito sinado 
continuado e acabado atee os dytos dias. e os que o assy nom fezerera ou 
se nom escusarem per alguma rrazam lidina fiquem citados pêra pa- 
recerem dy a huum mes perante nos ou nossos socesores e nom pa- 
recendo que o arcebispo possa proceder contra elles segundo seu boo 
aluidrio e o que sobre dito he dos rraçoeyros que mandamos virem 
entendemos que sejam das egreias onde forem rresidentes de dous acima 
e que destes possa escolher o prior huum quall emtender que pêra ello 
he mais perteencente o quall asy escolheto per elle seja thindo de viir 
com elle sob a dita pena a custa sua e dos outros rraçoeyros e os dous 
ou mais se os hy ouuer fiquem pêra seruir a egreia. 

3 Item por quanto a todos os creligos espiciallmente aos das 
hordens sacras e os rraçoeyros e beneticiados perteençe muito de 
seerem emsinados e sabedores em aquellas cousas que lhe perteençem 
e sam thiudos de gardar em sy e emsinar aos outros porem estabel- 
lecemos e ordenamos que todollos que ora somos hordenados de hor- 
dens sacras ou em benefícios curados ou outros sinplizes e forem 
abilles e autos e despostos pêra ello se trabalhem daqui em diante 
de aprenderem gramática pêra per eila entenderem o que rrezarem 



14 REVISTA ASCHEOLOGICA 

e leerem ou o quanto pêra oficiarem e fazerem e ajudarem a fazer 
os oficios (jiuinos da santa egreia por que llie foram dados os benefí- 
cios e de aprenderem a dita gramática ou canto mandamos que se 
trabalhem todos os sobre ditos de aprenderem em lall guisa que na 
primeira visitaçam que se fezer depois do segundo sinado achemos 
que Irabalharom os ipie pêra ello forem despostos de aprender as di- 
tas sciencias ou cada huuaia delias sob pena de seerem priuados dos 
benefícios que ouuerem pêra os auerem outros que saybam as ditas 
ciências e os possam seruir como deuem e sam thiudos e sob a dita 
pena mandamos aquaes quer priores vigayros e outros quaes quer que 
teuerem cura dalmas que se trabalhem de saberem bem e conprida- 
mente quaes e quantos sam os artiigos da fie e os sacramentos da 
santa egreia e preceptos da lley e as sele obras da misericórdia e os 
sete pecados principaaes e mortaaes e que pendença deuem fazer 
aqueiles que os cometem e quaaes e quantos sam os casos a nos prin- 
cipalmente rresaruados pêra os saberem e se non trometerem de absol- 
uer delles saluo quando lhes per nos spiçiaimente forem comitidos e 
por os creligos auerem aazo e se despocerem railhor a saber as di- 
tas cousas, liordenamos e estabellecemos que non seja nenhum do 
nosso arcebispado rreçebudo pêra aver hordens sacras on beneficio 
sinplez saluo sabendobendo (sic) bem cantar ou seendo gramático e pêra 
auer beneficiio curado que sayba as ditas sciencias e mais os ditos 
artigos da ífe e as e as (sic) outras cousas sobre ditas que perten- 
ce de saber aqueiles que teem rregimenlo e cura dalmas e non sa- 
bendo as ditas sciencias e cousas que non possa auer beneficiio nem 
seer em elle confirmado. 

4 Item os casos de que a nos perteençe a asoluiçam ou aqueiles 
que pêra ello nosso poder teen sam estes que se seguem primeira- 
mente aqueiles que fazem ou cometem sacrillegio assy como furtar em 
na egreia ou abrilar ou furtar cousas sagradas ou descontar a egreia 
ou quem jaz com molher de hordens ou quem na egreia faz foi-nizio. 
Item aqueiles que husam do corpo deos ou da crixma ou doutra cou- 
sa sagrada em feytiços ou outras cousas como non deuem. Item aquei- 
les que husam de sorteiros ou dminhadeyros e que fazem escriptos 
pêra chamar os demónios. Item aqueiles que cometem peccado contra 
natura assy como com animallias e per outra maneira Item aqueiles 
que jazem com aquellas que bautizaram ou de confissom ouuirom I- 
tem a(]uellas que ham filhos de outrem e nom de seus maridos e os 
dam aos maridos |)or seus filhos e fazemnos poivm erdeyrios em pre- 
juízo dos filhos lidimos Item aijuelles (|ue jazem com judias ou com 
mouras ou aquellas que jazem con judeos ou com moros Item aquei- 
les qu(! jazem com virgeens per força ou per engano Item aqueiles 
que jazem com Uelligiosas Item aqueiles que casam em graao defeso 
assy como com parentes on cunhados ou com madrmhas ou com afi- 
lhados ou com outras pessoas contra defesa da egreia ou com ellas 



E HISTOIíK'A 15 



liam companhia Item aíjuelles que falsam lelaras ou seellos ou outras 
escripluras do saulo padre Item aquelles que sam excomungados de 
mayor excumiuiliam Item aquelles que cometem per cal quer guisa 
que seja simoiiia. Item acjuelles que poõce logo com maa vontade pêra 
fazer dapuo em paães ou em outra cousa Item a(pielles que crêem a 
outrem alguma herisia Item afjuelles que sam homicidas de fato ou 
de objeto ou de conselho sem inditidimento de seu corpo Item aquel- 
les que fazem alguma cousa para a molher nom em[)renhar Item 
aquelles que ferem seu padre ou sua madre Item aípioilcs (jue feerem 
no cimiterio sagrado aciiute Item acpielles que dizem mal de deos e 
dos seos santos ou ho rrenegam e descrêem a que chamamos brasfe- 
madores. Item aquelles que dizem testimunho falso. Item aquelles que 
sam perjuros. Item a(]uelles que leuam armas ou outras cousas defes- 
sas aos mouros. Item aijuelles (]U(í filliam ordens como o non deuem ou 
per salto leyxando humas e tomando outras ou sem licença de seu bis- 
po. Item aquelles (jue bautizam seos lilhos próprios sen neçesidade ou 
os teem nas fontes quando os bautizam ou crixmam. Item aquelles que 
prometem castidade ou voto e vaão comtra elle ou ho britam ou ho nom 
comprem ou lio nom lêem. Item aquelles creligos que cellebram na 
egreia antredita ou dizem missa depois que comem ou bebem. Item 
aquelles que sam husureyros. Item aquelles que sam excumungados e 
lhe mandam que se saiam da egreia e nom querem tornando ho ofi- 
çiio diuino. Item os creligos que dizem missa aquelles que sabem que 
pubricamente excumungados. Item aquelle que emtra em ordens con- 
tra vontade de sua es[)osa com (pie já ouue companhia. Item quaes 
quer que fezerem ou forem contra estas nossas presentes constitui- 
ções e cada huuma delias e as nom gardarem como em ellas he con- 
thiudo. 

(Continua). 

DESCOin^^RTAS AliCHEOLOGlCAS 

As descobertas archeologicas feitas ao poente de Cáceres, nas pro- 
ximidades da estrada velha que segue i)ara a villa de Arroyo dei 
Puerco, onde se descobriram ha tempos os ex-volos de bronze á deusa 
indigena Atalcina Turibigense, foram : diversos machados de pedra, 
fragmentos de ulensilios de bronze, uma cabeça occa de mulher tos- 
camente lavrada, e vários bocados de cerâmica, taes como ladrilhos de 
forma cubica collocados em sentidos oppostos, sendo o mais nolavel 
do thesouro, uma pequena taça de bronze de 25 milimetros de altura, 
em cuja face anterior estão encrustados em prata dois caracteres ibero- 
lusitanos, análogos aos das moedas autónomas de Évora e de Salacia 
(Alcácer do Sal). 

(Da Correspondência de Espana). 



16 liEVISTA ARCJIKOLOGICA 

MODO DE TIRAR CALCOS DE INSCRIPÇÒES 

A redacção ficará exlremamenle reconhecida a todas as pessoas 
que, no interesse da sciencia, a qnizerem obsequiar com quaesquer 
noticias de ruinas. monumentos e descobertas arclieologicas. Essas no- 
ticias deverão conter, além d"uma breve mas precisa descripção do 
objecto, indicação do local exacto onde existe ou foi encontrado. 

Esperando ver coirespondido o seu convite, e como é possivel que 
nem todas as pessoas de boa vontade, que Ih.e desejem ser agradá- 
veis, estejam acostumadas aos trabalhos epigraphicos, aqui indica o 
modo de tirar calcos das inscripçijes que lhe queiram communicar. 

1.° Limpar bem a pedra, e taval-a com esponja, lendo cuidado 
em não deixar agua na cavidade das letlras. 

2.° Emipianto a pedra está húmida, applicar sobre ella uma folha 
de papel molhado, fazendo com que ella adhira á pedra em todas as 
partes sem formar rugas. O papel deve ser bem forte, mas de pouca 
colla ; é próprio o pa[)el forte de impressão. 

3.° Logo que o papel adhira á pedra, bater-lhe em cima com uin 
escova de pello grosso (escova de lustrar calçado), até que se amolde 
ao cavado de todas as leltras, e que toda a inscripção fique perfeita- 
mente visivel. No caso de romper-se o papel nas cavidades, cobrir os 
buracos com pedaços de papel húmido, que se soldam facilmente com 
algumas pancadas de escova. Retirada a folha, quando está meio en- 
xuta, deixal-a seccar complelamente, extendendo-a numa su[)erficie 
plana, collocando o cavado das leltras para baixo. Se o monumento é 
muito grande para ser coberto por uma só folha de papel, empregam- 
se duas ou mais (numerando-as), de modo que uma folha cubra sem- 
pre uma linha estam[)ada noutra. Estando bem secco o calco, pôde 
enrolar-se ou dobrar-se ; no ultimo caso devem as dobras coincidir 
com as entrelinhas. 

4.° Deve indicar-se a lápis, no alto de cada calco, a proveniência, 
a data e o nome da pessoa que o tirou. 

Convém acompanhar os calcos da medida em metros e centímetros 
(allura, largura, espessura) da lapide; das indicações da sua natureza 
(mármore, calcário, ele); da altura e largura da inscripção e dimen- 
são das leltras; dos ornatos e emblemas, ou figuras, e dum fac-simile 
das leltras. L^m desenho de todo o monumento c de grande utili- 
dade. 

Outros processos ha para reproduzir as inscripções, mas o que 
fica indicado é o melhor i)ara as inscripções lapidares. 

A pholographia duma inscripção (ou d^oulro monumento) é tam- 
bém muito importante, pela sua natural fidelidade. 



E HISTÓRICA 17 



MONUMENTOS EPIGRAPHICOS DE TUY 

I 

Numa caria dirigida ao meu amigo sr. dr. Manuel Ferreira Ribei- 
ro, com data de 7 de novembro ultimo, e publicada em o n.'' 10 das 
Colónias Portuguezas de t20 do mesmo mez, dizia eu o seguinte : 

«Satisfazendo ao seu desejo de que eu interpretasse algumas in- 
scripções que me apresentou por copia, vou communicar-ihe o resul- 
tado do meu estudo. As copias, em litliographia, fazem parte, sem 
duvida, dalguma obra impressa e bispanbola, como se deprehende da 
assignatura do desenhador, ol)ra que desconheço; por esta circum- 
slancia, não seria de extranhar recusar-me eu a patentear a minha opi- 
nião acerca das inscripções (pois assim o desejaj, sem ver o livro onde 
foram decerto já tratadas, por isso que poderia ser victima de qual- 
quer sorte de mystdicação; sendo-me, porém, communicadas pelo meu 
amigo as inscripções, não tenlio diivida alguma em lhe dar a conhe- 
cer f) modo como ;is interpreto, dando-lhe ao mesmo tempo toda a li- 
berdade para publicar integralmente esta minha carta, se o julgar con- 
veniente. Em todo o caso, tenho a observar que a interpretação, que 
dou das inscripções, deve ser sempre aferida pelas copias lithogra- 
phadas que me confiou, e de nenhum modo relativamente aos origi- 
naes, que não vi nem sei onde param. Assente isto, eis o que tenho 
a dizer-lhe acerca das inscripções,» etc. 

Como se vê, não tinha conhecimento da obra a que pertenciam as 
estampas ; tinha me porém sido dicto que se havia levantado questão 
entre vários escriptores hispanhóes sobre o modo de interpretar as 
inscripções, e que se me pedia o meu voto, no intuito de ver se elle 
concordava com o dos gregos ou com o dos troianos. 

Correspondendo ao honroso convite, manifestei o meu parecer 
acerca dos lettreiros, apresentando a interpretação que lhes dei, se- 
gundo as regras da hermenêutica epigraphica, creio eu. 

Havendo sido publicada a minha carta em Í20 de novembro, julguei 
eu que me seriam desde logo manifestadas as obras em que se ha\ia 
tratado a questão, o que era correcto e natural ; mas o facto é que 
só muitos dias depois me foram entregues os dois livros seguintes: 
Recuerdos históricos de occidente. Contestacion d los Recuerdos de uii 
viaje de los snrs. P. Fidel Fila ij D. Aureliano Fernández Guerra, por 
D. Joaquin Fernández de la Granja e La ciudad de Tuij la fundo 
Diomedes de Elolia, pelo mesmo auclor. Conheci então que á primeira 
d" estas obras pertenciam as estampas que me haviam sido communi- 
cadas. Da leitura d'ambos os livros fiquei bem inteirado das opiniões 

Rev. Arch. e Hist., I, N." 2 — Fev. 1SS7. 2 



48 REVISTA AUCHEOLOGICA 

do sr. D. Joaquim de la Granja ; mas muito imperfeitamente da dos aca- 
démicos srs. D. Aureliano Guerra e P. Fita. Felizmente vo dia immediaio 
áquelle em que recebi os livros de la Granja, fui obsequiado com os 
Ilcciíerdos de mi viaje a Santiago de Galicia, por el. P. Fidcl Fita y 
ColomtK fi D. Aureliano Fernúndez Guerra, (]ue este ultimo sábio me 
oflereceu em seu nome e no do seu collal)orador, ao saber, por inter- 
venção do nosso commum amigo sr. D. Eduardo Saavedra. que eu dese- 
java conhecer o livro que motivara a questão. Se não fosse a e.xtrema 
obsequiosidí:de d"estes respeitabilissimos sábios hispanhóes, com cuja 
amizade sobremodo me honro, só muito imperfeitamente conheceria a 
questão, em que o sr. D. Joaquim de la Granja se empenhou. A razão 
da demora em me serem manifestados os livros d'este, bem como o 
não me serem communicadas as obras dos seus contrários, foi. segundo 
me consta, o ter desagradado ao sr. la Granja a interpretação que 
eu dei ás inscripções, por não concordar com a que elle lhes dá (I) E isto 
é confirmado pelo facto de se recusar a enviar-me um calco ou pho- 
tographia da inscripção sobre que principalmente ha disputa (a de 
C A E P O L ), documento indispensável, por sua absoluta fidelidade, 
para a definitiva interpretação d'uma palavra pelo menos. Todas as 
instancias para conseguil-o, feitas durante mais d'um mez pela oíli- 
ciosa intervenção do sr. Ferreira Ribeiro, foram baldadas. Essa recu- 
sa, porém, já me não causou admiração, pois também aos srs. D. Aure- 
liano Guerra e P. Fita não foi permittido tirar calco d'esse lettreiro, 
como na obra dos dislinctos académicos se lê a pag. 92, col. 1.*: 
«Resulta ser idêntica ai original la copia de La Cueva, pues la con- 
frontamos con el mismo libro á la vista; medimos el sillar y los cara- 
cteres; nos convencimos de haber sido abierto el letrero en la edad 
augustea; y cuando nos aprestàbamos à obtener calco, para que se 
grabára después, he aqui se presenta el duefio de la casa, reprende 
ai inquilino que atento y benévolo nos habia franqueado la entrada, y 
se muestra muy cuidadc-so de celar á los ojos de las personas en- 
tendidas aquella piedra de que él no entendia una palabra. Ni raos- 
trándole nosotros cn el manuscrito de La Cueva exactísimamente co- 
piado el epígrafe, y teniéndole ya de nuestra propia mano reprodu- 
cido también, comprendiò que semejanle calco ni enchia ni vaciaba: 
Pêro, ^ quién no tiene sus flaquezas?» Eu teria ido a Tuy, para exa- 
minar a inscripção, se não estivesse certo de que a digressão seria 
baldada. 

Sciente hoje da opinião dos contendores, e embora desconheça 
ainda uma obra anonyma que foi publicada em resposta á primeira 
do sr. D. Joaquim de la Granja *; e porque não pude dar ao assumpto o 
necessário desinvolvimento na minha carta, destinada a ser publicada 

1 Apunfes Históricos sobre la antigiiedad de Tuy por D. xi. N. P., citados por 
D. J. de la Granja no seu livro La ciudad de Tuy. 



E HISTÓRICA 19 



num jornal de Índole inleiramenle alheia ao assumpto, vou de novo 
tratar desse objecto, principalmente com o fim de tornar a questão 
bem conhecida, podendo resultar d'isso o apuramento da verdadeira 
interpretação das epigraphes. Segnirei aíjui, (juanto ás inscripções, a 
mesma ordem em que se encontram na alludida carta. 

II 

Uma das inscripções contém um voto dedicado a Marte. O livro 
Rectierdns de nn viaje apresenta esse lettreiro (segundo um calco) do 
modo como vae representado na estampa lu, n." 1 a; e o livro do sr. 
Ia Granja dá-o da maneira que se vè na mesma estampa, n.° 1 b, de- 
clarando ser esse o verdadeiro fac-simile K É tão grande a dilTerença 
entre uma e outra fignra, que se pôde aíTirmar que uma delias é in- 
fiel. Não podendo averigual-o, passo a dizer o que se me oíTerece 
acerca da inscripção, em presença do estudo comparado das duas co- 
pias. 

Osr. P. Fidel Fita interpreta: «Sagrado á Marte Cariocieco. Pusole 
Ilispanio Ironión, en debido cumplimienlo de su voto»-; e approxima 
o sobrenome Cariocieco do de Coroliaco também dado a Marte numa 
inscripção do condado de SiiíTolk ^. Não me deterei a discutir tal ap- 
proximação, que me parece justa quanto á terminação; mas pondero 
sempre que essa terminação é muito frequente na nossa península, 
como se vô dos seguintes nomes e sobrenomes de divindades célti- 
cas: Abiafelaesiiraecm (C. I. L., ii, 2324), Aegiamunmecus {Ibid., 
2523), Bmenasecus (Ibid., 303), Bniweanabaraecus {Jbid., 683), etc. 
Parece-me, porém, que se deve ler Cairiocieco e não Cariocieco, pois, 
mesmo no caso de ser mais exacta a representação do calco, ainda 
ahi se acha prolongada superiormente a haste vertical do R, no que o 
gravador quiz sem dúvida representar o l. No que respeita ao nome 
do dedicador, é maior a diíTerença entre as copias. Na do calco não 
ha vestígios de leltra inicial de prenome, apparecendo só o nome e o 
cognome. O nome é hispanius. Quanto ao cognome, lé-se no 
caíco I R o N I O e no desenho F R O N T o . Embora o primeiro não 
repugne de modo algum, sou inclinado a crer que a lapide tinha ou 
tem o nome muito vulgar de Fronto; e que o calco não reproduziu 
exactamente as hastes horizontaes do F e do T, que muitas vezes eram 
mal definidas e que podem estar apagadas. Em todo o caso, o dedi- 
cador é um só indivíduo, e não dois como imagina o sr. D. Joaquim 
de la Granja *. 

1 Recuerdos históricos de occidente p. 89. 

2 Recuerdos de un viaje, p. 93, col. 2. 

3 C. 1. L. VII, 93 a. 

* Recuerdos históricos, p. 90. 



20 EEVISTA ARCIIEOLOGICA 



III 

A inscripção. que se encontra na estampa iii, n.° 2, nem é inter- 
pretada pelosr. la Granja, nem (Vella se fala nos Uecnerdos de un viaje. 
O sr. la Granja diz unicamente acerca delia : «es, pues la qne aparece 
en la siguienle lâmina, cuya esplicacion dejamos á los sábios epigrafis- 
tas. Por la espalda y en el centro tiene (a pedra) estas dos leltras c O, 
que parecen aludir à cônsules y en el fondo tocando casi el basamen- 
to o, acaso óptimos» ^ Como se vè, nem mesmo tentou lèl-a, indo 
só topar com as lettras sobredictas, que nada ou quasi nada lhe po- 
diam dizer. 

E todavia não apresenta diííicuidade alguma a leitura d'esta in- 
scripção. O monumento c um marco milliario, que a estampa repre- 
senta por dois lados. A sua leitura é : 

2 M P c A E 5 

^ A M E S 5 . 

Q- T R A dec. 

p- f- /NVIc/0 

5 A V G- P o )! /. 

MAX- t r 

pOT • III 

Isto é: [I]mp{erat07'i) Cae[s{ari) G]a{io) Mes[s{;io)'] Qivinto) Tra{ia- 
nó) [Decaio) p{io) f(elici) i]nvi[ct]o avgivstó) p[ont{ífici)] inaxijmó) [tr{i- 
bimicia) p']ol{estaUí) III, a que naturalmente seguia consiUi 11 p. p. e 
as indicações itinerárias competentes. É, como se vc, um milliario do 
imperador Decio; e o poder tribunicio III leva a assignar ao monu- 
mento a data de 250. 

As leltras M E, que se vêem junto á base do marco, não apresen- 
tam sentido; é provável que no original estivesse m. P. {millia pas- 
suum). . . As lettras c O, que se encontram no lado posterior da pe- 
dra (conforme a estampa indica), podem ser a continuação da inscri- 
pção, e nesse caso deve ler-se COs. Os signaes Q O' Q"^ se vêem 
junto da base, nada querem dizer em minha opinião; foram provavel- 
mente feitos posteriormente á inscripção. 

Comparem-se com este outros milliarios de Decio que se encon- 
tram já publicados no C. I. L., u, 4809, 4812, 4813, 4957; e, d'ahi 
resultará, creio, o considerar-se como inédito aquelle que íica acima 
mencionado. 

1 Ibid., p. 9i. 



E HISTÓRICA 24 



IV 

Eis-me agora chegado ao monumento epigraphico cuja interpreta- 
ção maiores (lilliculdades olíerece, e do qual apresenta a estampa iv 
um exacto fac-simile, segundo o livro do sr. la Granja. Na obra dos 
srs. V. Fita e U. Aureliano Guerra vem fielmente transcripta a inscripção. 

Examinemos as interpretações dadas por P. Fita e la Granja; e 
comecemos por a d'aquelle, visto que foi quem primeiro sobre ella 
deu parecer. Attribuo a interpretação só ao sr. P. Fidel Fita, porque da 
exposição feita a p. 93 dos Rccufrdos de un viaje, evidentemente se 
collige que foi este académico quem deu a interpretação, e não o seu 
collaborador. 



A inscripção diz: 

C AE P O L 
CONV 

TI- CLAVDI 

CHOBRA 
5 AVREA. 

E eis a interpretação do sr. P. Fita: «Es muy verosímil que hayan 
de leer-se: Caepol. . .? comi Ti{berii) Claudi{i) [l{iberto)] Chobraima- 
ra) Áurea [pos{uil)]. «Á Gaepol Conu, liberto de Tibério Cláu- 
dio César, erigió este monumento Cobrámara, Áurea.» El Museo de 
Pestb, en Hungria, posee una inscripcion, donde vemos el nombre 
céltico femenino Cobrámara. — Ephemeris epigraphica, n, 375.» * Mu- 
tilada como está a pedra e a inscripção, ha campo vasto para inter- 
pretações. Não sendo possível haver certeza, só se podem apresentar 
hypotlieses, mais ou menos verosimeis. A do disiincto académico não 
me parece das mais verosimilhantes. 

O sr. D. Joaquim de la Granja tem opinião muito diversa. Pretende 
yêr em gaepol uma palavra «Cepol (Kepol) nombre helénico ó 
Etrusco» ^ (que approxima do grego -/.ioa?./,). Sobre c O N v,— depois de 
apresentar o alvitre de ahi se poderem vêr as lettras que se encon- 
tram no exergo de varias moedas, CONOB (CONstantina ou CONstan- 
tinopla), que alguns quizeram lèr Civitates Omnes ^ostrae Obediant Be- 
neraliotie; — opina que c O N v é «aqueila C O V N A que Bricio lleva 
à las orillas dei Tajo cuando estaba á las dei Mino, la ciudad esclare- 
cidisima de los Celtas en la antigua Ibéria,... Hé aqui, pues, segan 
nosolros, la ciudad y capital de los antíguos Cántabros domados por 

* Reciierdos de un viaje, p. 93, col. 1.' 
2 Recuerdos históricos, p. 84. 



22 REVISTA ARCHEOLOGICA 

Augusto». Quanto a c ii o B R A e a v R E A, diz : «Pudo suceder 
muy bien... que Tuy liabiendo sido una ciudad grande y cabeza de 
Província, como dice Sandoval, y capital de los Gravios, segun Ptolo- 
meo, obedeciesen á ella muclias ciudades áun algunas dei Africa Cesa- 
riana donde babia pueblos denominados Cliobra Auria y tambien Tuden- 
ses nombrados por Plínio y Nebrija, tau gran latino como profundo 
helenista». ^ 

sr. D. Joaquim de la Granja considera o lettreiro completo, pois 
diz na pag. 142 do seu livro Ciudad de Tuy: «No de otro modo está la- 
brada la piedra que contiene la inscripcion c A E P O L G O N V la- 
brada por el frente y no por detrás conociéndose áun por el lado dere- 
cho en que terminan sus letras colosales el roce de pico y senales cla- 
ras de cemento; viniendo de dos cosas que en esta arista terminaba la 
inscripcion indicandolo tambien el punlo puesto en la palabra Aureay>. 

É inadmissível que a inscripção esteja completa; basta attentar na 
disposição das suas elegantes lettras, para se conhecer que ella não ter- 
minava alli, mas continuava noutra pedra (ou outras pedras), que es- 
tava ligada á que existe por esse mesmo cimento de que encontrou 
vestígios. Em inscripção tão bem trabalhada, e da epocha que a forma 
da letlra lhe assigna, nenhum gravador praticava o contrasenso de abrir 
as lettras junto da aresta da pedra, quando tinha espaço de sobejo 
para dispol-as symetricamente. O ponto, que a estampa accusa depois 
de áurea, também nada quer dizer ; o ponto entre as lettras dos mo- 
numentos epigraphícos separa as palavras, ou indica abreviatura. 

Salvo melhor parecer, disse e repito, este monumento é um titulo 
sacro. Em c o N v pôde ver-se a palavra c O N v [e N T.], conventus, 
a que devia seguir-se um locativo, como asturicensis, bracarauguslani, 
caesaraugustani, etc. D'aqui se infere, sendo tal a leitura da segunda 
linha, que a palavra ou palavras da primeira eram nomes de uma ou 
mais divindades tutelares do convento, divindades ás quaes Ti. Glaudi... 
fez dedicação. 

C H O da quarta linha pôde facilmente ser a primeira syllaba de 
cohortis, d'onde resulta o completar-se a palavra immediata d'este 
modo: B K Kcaraugiislanae. Neste caso, Ti. Glaudi... faria parte 
da cohorte como mdes, praefectus, ceiUurio, dtiplaris, etc. 

Dadas estas hypotheses, pôde restituir-se a inscripção do modo que 
segue : 

Jeo ? C A E P O L et. génio 

G O N Ví?n/. hcensis? 

TI- GLAVDIV5 ....?.... pme/f 
CHOXiRAC a ravgvs tau. 
5 AVKEA.eA'. voto.sacrvvi. 

1 Ihid., pag 83. 



E HISTÓRICA 23 



Como se vê do desenho da pedra na estampa iv, o c de c A K P o L 
está mesmo sobre a aresta da piidra. donde se deve coricliiir que ou 
a pedra (bi cortada ou emendada com outra por defeito (jue liiilia, não 
sendo provável que o gravador em inscri[)ção tão bem trabalhada fosse 
abrir a letlra sobre a aresta, quando o espaço lhe não faltava. Prova 
de que a inscripção ei^ualmente está incompleta do lado opposto, é vèr-se 
também o I de c L A V D l sobre a aresta da direita. Assim, ou o pe- 
daço (jue falta da pe(h-a continha outra syllaba ou syllabas da palavra 
C A E 1^ O ].. ou alli se lia a palavra deo. 

Com[)leto a primeira linha com as palavras et ç/enio, a exemplo 
de muitas outras inscripções conhecidas; como: Dii dmcr/iie Gcniasqne 
loci {C. I. L., lu, 3il8): dii militares et Genius bei (Jbid., 3í72);/m- 
piter óptimas máximas et geaias manicipii Flavii Neviodani {Ibid., 
3919); Génio Convenf. asluricensis (C. J. L.. ii. 4072); etc, etc. 

Em uma inscripção {C. 1. L., ui, 1773) muito importante lê-se: Dia- 
nae . Neniores \ Sacrcm \ Ti . Clavdivs . Clavdi \ anvs . Praef . Coh . 
1 1 Bracar . Avgvst \ Ex . voto . svsrep . de svo . 

Não se pôde dizer que este Ti. Cláudio Claudiano seja o Ti. Clau- 
di. . . da inscripção de Tny; mas não se pôde deixar de notar a coin- 
cidência dos nomes e a de fazerem um e outro parte duma cohorte 
bracaraugustana. O cognome do dedicador da inscripção de Tuy era 
segundo a minha opmião uma palavra de poucas lettras, como Celer, 
Silo. Orne. etc. 

Quanto á palavra A V R E A pôde facilmente succeder que na pe- 
dra se não distingam já as hastes horizontaes que ligadas ao ultimo 
A formariam o monogramma /E : pôde ser que por lapso o gravador 
não gravasse o e, e pôde ser uma abreviatura. Eu vejo nessa palavra 
um nome próprio da cohorte indicada na quarta linha. Esta cohorte 
se chamava aarea ou aareana, como outras tinham outras designa- 
ções. Havia uma Coh. I Uispnnoram Aariana (C. I. L.. m, D xxiv, p. 
867), e uma ala também assim denominada {Ibid., 5899). Nada obsta 
a que a cohorte, mencionada na inscripção de c A E P o L. tivesse a 
designação de A v R E A [ E ] ou, melhor, A V R E A [ N A E ] . Deixo 
de apresentar outras hypolheses muito plausíveis, quanto a esta pala- 
vra, pois sô o exame do monumento ou duma pholographia as pode- 
rá confirmar. 

Permillarn-se-me ainda algumas considerações acerca da disposição 
das palavras da inscripção: considerações não feitas para confirmar 
era absoluto a minha leitura, mas explicativas delia. 

Entre as diversas circumstancias, a que se deve attender quando 
se procede á restituição d'uma inscripção, é uma das principaes a 
disposição das lettras e das linhas que a compõem, pois da exacta de- 
terminação do comprimento das linhas se tiram frequentes vezes con- 
sequências que esclarecem o sentido e conduzem ao apuramento da 
verdade. 



24 REVISTA ARCHEOLOGICA 

No caso sugeito, sendo indisculivel a mutilação do monumento, po- 
de suppôr-se que d'elle resta ou exactamente metade, ou uma porção 
menor. 

Ku creio que do monumento existe um pouco menos de metade. 
As razões que para isso tenho e que vou dar, implicam a razão de não 
considerar a parte existente como exacta metade. 

De todas as cinco linhas se conhece o começo, menos da primeira; 
e facilmente se deprehende da disposição d'ellas que nos seus finaes 
devia haver a mesma correspondência que nos princípios se nota, 
attendendo ao tamanho das lettras e á disposição symetrica das linhas. 
Tomando c O N*v como as primeiras lettras de conventiis, e sendo 
geralmente a abreviatura d'esta palavra nos textos epigraphicos c O N v 
ou convent; e além d'isso devendo naquella mesma linha ter 
sido inscripto o nome próprio (Jo convento, muito dilllcilmente se en- 
contrará alguma d essas desiiínações locativas que, mesmo em abre- 
viatura, occupe somente um espaço egual ao occupado por aquellas 
quatro lettras. 

Na terceira linha, considerando-se T l . C L A v D l como prenome 
e nome não do imperador Tibério mas d"outro individuo, facilmente 
se conclue que alli se devia seguir o cognome, o qual, só se muito 
curto fosse, poderia ser comprehendido num espaço menor que o que 
subsiste da linha; e digo menor, porque, sendo a abreviatura epigra- 
phica de Claudius c L ou c L A v D , e, não podendo haver dúvida so- 
bre a existência na pedra do i depois do D , este nome estava escripto 
por inteiro na inscripção, indo a ultima syllaba occupar um espaço 
necessariamente maior do que o occupado pelas lettras TI do começo 
da linha. Pôde, porém, succeder que na pedra estivesse T I . G L A V- 
D I , abreviatura de que ha exemplo. 

Na quarta linha, flinicilmeute se pôde lèr outra coisa que não se- 
ja coliorlis hracaraugiistanae. (3ra, a forma ordinária da abreviatura 
d'a(]uelle nome locativo era bracar.AVGVST; pelo que era 
impossível conter-se o, que falta, num espaço egual ao que comporta 
as seis lettras que subsistem. 

Passemos agora á primeira linha. Qualquer que seja a interpreta- 
ção que deva dar-se ás lettras c A E P o L , é inquestionável que o 
que da lapide se perdeu não comportaria mais de três lettras, não po- 
dendo razoavelmente (creio eu) admittir-se que a parte que falta d'es- 
te lado ainda excedesse a porção que existe na parte inferior do mo- 
numento. Por isso intendo que ou alli havia a primeira syllaba do no- 
me, ou a palavra D E O , separada de c A ]•: P O L pelo espaço cor- 
respondente a uma letlra. Assente isto, a primeira linha devia conti- 
nuar, na pedra perdida, até exceder as linhas seguintes d'uma quan- 
tidade egual á excedente no começo; e neste caso três hypotheses se 
apresentam : ou o nome do deus era muito comprido ; ou, em seguida 
á primeira, era mencionada outra divindade (nesse caso a primeira pa- 



E HISTÓRICA 25 



lavra seria diis); ou alli se lia et ijcriio. Por molivo de exemplos, que 
abimdauí, oplo por que a primeira líiilia terminasse com as |)alavras 
K T (i K N I O , o que melhor (jue outra phrase se combina com as 
palavras da linha immediata. 

Na ultima linha fiz a leitura que fica apontada, lendo presentes 
muitos exemplos; talvez, quanto á ultima [)alavia áurea, eu modiíi- 
casse a minha opinião á vista do monumento, ou em presença d'um 
calco ou duma photographia, como já disse. 

Na estampa v se pôde examinar o processo que empreguei para 
a restituição d'esta epigraphe. 



Juntamente com as estampas das três inscripções romanas, que 
deixo mencionadas, me foi entregue outra que vae reproduzida fiel- 
mente na estampa vi. para eu dar a interpretação dos leltreiros que 
contém. O sr. D. Joaijiiim de la Granja diz no seu primeiro livro, rela- 
tivamente á primeira (est. vi, n.'' \): «Se halla sobre una grau piedra 
cuadrilonga, que todo su aspecto es de una losa sepulchral y en mé- 
dio de signos y otros ornamentos ai parecer pontificales ; por lo que 
creemos que el difunto. á juzgar por aquel epitáfio, era talvez obispo 
de época remota (!j».^ Os signaes e ornamentos são, além d'outios, a 
cruz e o swastika ; e o epitaphio claramente se reconhece dizer que 
sob aquella campa repousava, não um bispo, mas uma mulher chris- 
tã chamada Modesta, nome vulgarissimo na península pyrenaica: 

HIC • REQVIESLET 
^MODESTA 

Estão conjunctos o E T da primeira linha, do mesmo modo que o 
T A da segunda : reqmescet em vez de requiescit. 

A outra inscripção, que se vé na estampa vi, n.° 2, é considerada 
pelo sr. la Granja «de dificil explicacion, salvo la opinion de los sábios, 
pues que algunos caracteres parécennos ser etruscos, arcádicos ó pe- 
lásgicos»! 2 

Não é preciso ser sábio para interpretar esta inscripção. Na allu- 
dida carta ao sr. Ribeiro disse eu a respeito d'ella : 

«É também de lapide sepulchral o fragmento de inscripção que 
acompanha a antecedente na mesma lamina. As únicas três palavras 
que alli se vêem estão escriplas da direita para a esquerda ; foi isto 
erro do copista ou desenhador lithographo, ou eíTectivamente no ori- 

1 fíccuerdos históricos, p. 102. 

2 IbiJ. 



2G REVISTA ARCHEOLOGICA 

ginal se encontra assim? Este ultimo caso não seria único. Gomo quer 
que seja, as palavras que se lêem na inscripção são estas, postas no 
sentido directo : 

> i< l hic i 

P A TR V V 



D D I •; 

que interpreto: hic. [rerjuiescet] patrvv[s] D[i]d[ac]i, . . As 

leltras ATR formam um monogramma. 

Ao terminar, não posso deixar de insistir na observação que a 
interpretação, quedou das inscripções, deve ser unicamente aferida pe- 
las estampas que apresento fielmente copiadas das obras que citei, e 
nunca com os originaes que nunca vi. Esta observação é para algum 
ditoso, a quem o possuidor dos monumentos permitta examinal-os di- 
rectamente ou por meio de copia autlientica (calco ou pliotographia). 
É para lastimar o haver ainda hoje pessoas que, apez;u" de instruí- 
das, levadas pelo desejo de fortalecer ou coníh-mar uma opinião, sub- 
traem ao exame das pessoas intendidas no assumpto documentos inte- 
ressantíssimos de que ellas nada percebem. O que digo não involve 
censura, mas apenas uma simples affirmação. Ninguém ha que possa 
ser egualmente sabedor em todas as matérias : é por isso que ha es- 
pecialistas. Ora eu, reconhecendo no sr. D. Joaquim Fernandez de la 
Granja uma variada inslrucção, considerandoo mesmo muito erudito. 
Dão posso todavia deixar de notar que, decerto por a ellas se não ter 
dedicado, é completamente infeliz nas suas interpretações epigraphi- 
cas ; chegando a considerar como fazendo parle da inscripção de 
ARQVIVS ViRTATz etc. {C. I. L, II, 2435) a palavra astnim,*^ 
que á frente d'ella foi posta para indicar simplesmente que no alto da 
lapide estava gravada uma estrella. 

Das duas obras do sr. D. Joaquim de la Granja vè se (]ue o auctor 
está empenhado em fazer ascender Tuy a uma alta antiguidade, dan- 
do-lhe como fundador a Diomedes de Elolia, no que ha tanta verdade 
como em ter sido Olisipo fundada por Ulysses. Este empenho de pre- 
tender dar a uma povoação remota antiguidade, e querer que fosse 
um heróe o seu fundador, ò sempre desculpável, se não louvável, em 
um íilho da terra que se exalça ; mas é uma empreza muito dillicil e 
sobre tudo perigosíssima. 

Borges de Figueiredo. 
1 Ibid. p. 123. 



E HISTÓRICA 27 



NUMISMÁTICA PORTUGUP^ZA 
Mealha de I). Aiíuiisu I 

Tem havido divergências e duvidas entre os numisnialas portugue- 
zes SC I). Alíoiiso 1 cmilioii a moeda d(í billião chamada Miuilha. 

Embora Fernão Lopes, Severim de Faria, Viterbo e outros escri- 
ptores digam que a Mi-al/ia era a metade cortada da moeda chamada 
Dinheiro, o que não duvidamos (jue assim acontecesse em algumas épo- 
cas, nós acompanhamos os escri|)tores que entendem que a mealha foi 
uma moeda de ciuiho e [)ezo especial e a de menos valor cunhada 
n'esta época. Estamos de accordo com o sr. Teixeira de Aragão n'este 
ponto e acreditamos que D. AHonso 1 e seu filho D. Sancho cunhassem 
uma moeda de metade approximadamente do pezo do Dinheiro, a que 
chamaram Mealha. 

Confirma nos n"esta opinião, a noticia das moedas que com esse 
nome cornam em Leão e Caslella no tem[io (\e D. Alíunso 1; os documen- 
tos existentes de compras e vendas d"a(|uella época em que se citava 
com frequência a Mealha para preenchimento duma dada quantia e não 
é provável que se partisse sempre uma moeda, dando um nome em- 
bora correspondente á fracção, o que seria um capricho, apenas para 
ser citado na maioria das vendas. Além dx-stes argumentos (jue nos 
parecem de força, a variante que hoje apresentamos à Mealha com o 
n." 3 da est. ii citada pelo sr. Aragão, prova que esta foi moeda e da 
qual houve mais d'uma cunhagem ou fabricação. 

A Mealha que apresentamos na est. n.° vi embora não esteja em 
perfeito estado de conservação pode ler-se perfeitamente. A legenda diz: 
— )í< REX ALFOSVS — Cruz equilateral cantonada por quatro pon- 
tos denti-o d'um circulo. 

IV i^o R T ( V G ) A LI E— Escudo com um ponto no centro. Do lado 

de fora do escudo dois triângulos, um em cada lado ao meio do escudo 
e por baixo de cada triangulo um ponto. Tanto o escudo como os triân- 
gulos e os pontos estão dentro dum circulo. 

As diíTerenças entre esta moeda e a n." 3 do sr. Aragão, são : 

No anverso a do sr. Aragão tem Rex Afosu, emquanto que a nossa 
tem Rej- Alfosns. 

Nu reverso— a primeira tem dentro do escudo uma cruz e na le- 
genda Portugal; e na nossa podemos ver claramente dentro do escudo 
um [)onto, e a legenda tem Porlvgalie. 

Com quanto estas differenças não parecessem grandes em outro 
qualquer reinado, no de D. Aflonso I tudo quanto seja levantar a ponta 
do veu que occulta o seu systema monetário e esclarecer alguns pon- 
tos sobre que ainda ha duvidas, tem inconte.^tavel importância e foi 
esta consideração que nos levou a apresentarmos a descripção d"esta 
moeda que adquirimos ha poucos dias. 

M. Alexandre de Sousa. 



28 KE VISTA ARCHEOLOGICA 

CONSTITUIÇÕES DO ARCEBISPADO DE LISBOA 
Decretadas por I). Joã» Esteves de Azambuja (^'Ii02-l/rl4) 

(Continuado de pag. 15.) 

5. Item porquanto antre as outras cousas (]ue mais perteencem aa 
onesteduiade [sic) crelical assy lie que os creligos moormeiite os das 
hoi'deiis sacras ou beneficiados mostrem de fora em nas vestiduras co- 
roa e cirçiliio que deuem trazer a linpeza e boa composiçam que bam 
dauer dentro em nas vontades, porém estabelleçemos e hordenamos 
que todollos creligos de bordens sacras e beneficiados de xb em xb 
dias façam talbar os cabellos em maneira de ciribom e topete e rrapar 
as coroas e barbas em tal guisa que sejam conboçidos por creligos e 
possam cellebrar e fezer os diuinos oficios linpamente e sem escandallo 
alguum e esta meesma maneira em quanto tange ao cirçilbo topete e 
coroa mandamos que gardem e tenbam os creligos de bordens meno- 
res e os que sam e forem casados com buma molher virgem se dos 
priuilegios da egreia quiserem gouuir e porque alguns dos sobre ditos 
creligos delles por louçainba e outros por lhe nom aprazer de seerem 
conbiçidos por creligos mandam fazer as coroas tam pequenas que adur 
lhe parecem e as escondem sob os cabellos; porém bordenamos que os 
dos ordens sacras ou beneficiados as tragam e mandem fazer segundo a 
cantidade e forma a juso escrita e os das bordens meores ou casados 
segundo outrosy a cantidade per nos a juso diuisada e nom fazendo el- 
les fazer as ditas coroas cirçilhos e barbas aos teni)os sobre ditos e 
segundo a dita maneyra mandamos aos priores das egreias e priostes 
em virtude de obediência e sob pena de excomunhom que os benefi- 
ciados ou de ordens sacras que o asy nom fezerem os nom contem 
nem lhe dem parte dos fruitos que nos ditos benefiçios ouuerem nem 
lhe consentam que cellebrem os diuinos oficios em quanto assy anda- 
rem desordenados e mandamos que aquelles que asy perderem por 
asy andarem desordenados que os ditos priores de cada huma das 
egreias hu esto acontecer bo arecadem e façam poer em ornamentos 
em na fabrica da egreia sua e nom ho fazendo elles asy que se torne 
e o aja a fabrica da egreia cathedrall e se os creligos solteyros de or- 
dens meores nom trouuerem coroas segundo a cantidade a juso escri- 
pta depois de buum mez da pubricaçam d'estas constituiçones (sic) dehy 
em diante em (juanto asy nom trouuei-em as ditas coroas e cirçilhos 
nom sejam rrecebidos como autores em juizo ecrlcsiastico nem secul- 
lurall e se os de feito Recebei'em nom valha a sentença (pie jior elles 
for dada nem sse faça per ella execuçam. Item quanto tange as vesti- 
duras dos ditos creligos benefiçiiados e de ordens sacras mandamos 
que as tragam taaes (pie sejam perteencentes a seos estados e que nom 
sejam de panno uer"de nem ucrmclho nem de duas moetades nem bar- 
radas nem farpadas nem mais cúrias (pie ataa mea perna nem Iam lon- 
gas que varram pello chão nem fendidas pellas hilhargas nem detrás 



E IIISTOKICA 20 



saluo os que teuercm bosUis em (jiie caii.iliiucin e (jiie (iniiiido as assy 
líMicrein (jue as ))Ossam trazer delias íciididas hiiurn palmo e meo e 
(|ii(' de diaiilo rts pussaiii Ica/cr (elididas dons palmos ainda (jiie. uom 
lenham beslas nem Irai^am mancas de jiellonya nem j^nrgneyras Iam al- 
ias (|ne. |)assem aalem do j)escon) e que as mani^as delias acolinliadas 
ou anchas i)assem de ires palmos nem trayam gibões abolados na gor- 
gueyra com coidooes ou lacas nem tenham mangas mais largas que 
Inunn i)almo e meo nem mantnnes abertos salno (juando canalgarem 
e (|ne destes (|ue hora teem leitos possam hiisai- ataa o segundo sinado 
nem tragam ca[)eyret(,'s abotoados nem de bicos altridos e (jne [)assem 
(i(i li"es palmos e se alguuns dos ditos beiieliciados ou de ordens sa- 
cras trouerem as ditas bisliduias per nos defesas depois de huum mes 
desta consliluiçam sejam punidos segundo dito he quando ti-ouerem 
circilho nem coroa e se depois desta i)iim(!Íia pena ti'Ounereni as ditas 
rroupas e trajos deflesos os nossos vigaircjs e nieyrinhos lhas possam 
en coutai" {sic) e demandallos e leualas pei'a ssy jtor perdidas e quanto 
tange que nom tragam pano uerde e uermelho nem de duas meetades 
nem barradas nem farpadas nem çapatos verdes nem uermelhos nem 
llorados e fazendo ho conlrayro mandamos que se coroas (sic) Irouerem 
taaes trajos que os nossos vigairos e aljiibeyio e nieyrinhos as possam 
encoutar e demandallos por ellas e leuallas como dito he demais que 
taaes creligos em (juanto taaes pannos e trajos trouuerem nom sejam 
rreçebidos como autores em juizo ecclesiastico nem secullar e se os 
de feito rreceberem (|ue nom valha a sentença que por elles for dada 
nem se faça i)or ella execuçam pois se descontentam depois da nossa 
costiluiçam e amoestaçam de trazer vestiduras e trajos (lue nom per- 
teençem a onestidade da ordem (\ne tomai'om. 

6'. Item porquanto os beneíicios ecclesiasticos sam diuudos aquelles 
que nas egreias vigiam e servem e faz {sic) seja que o creligo que por 
aquelle tenpo serue ao altar delle dena de uiuer e per experiência 
certa sabemos que alguuns rraçoeyros das egreias da dita cidade e ar- 
cebispado despoendo e leyxando os ofícios diuinos por os quaaes Ibes 
sam dados os beneficiios ecclesiasticos e desejando Iam soltamente auer 
os proueytos temporaaes leuam logo e rreçebem ao começo do anno 
todas suas rrações dos frutos das egreias bonde sam lienefiçiados en- 
teyramente, os quaaes lhes deniam seer dados e deslribuidos pello an- 
no e meses e domaas e dias delle asy como seruirem ou seruissem e 
depois que os assy leuam e rreçebem absentamsse e amooram-se das 
ditas egreias de que os assy leuam e nom curam de as seruir nem 
fazem em ellas rresidençia por que acho sejam thiudos, poièm man- 
damos e estabelleçemos que em nas egreias em que os rraçoeyros par- 
tem os fruttos com os priores rreytores e vigaii'os e a parte que acom- 
teçer aos beneficiados e rraçoeyi-os seja posta em celleyro comuum ou 
em outro lugar em que fiellmenle seja gardada e pelo prioste seja sua 
rraçon e parte a cada huum rraçoeyro por aquelles dias que seruir e asy 



30 BEVISTA ARCHEOLOGICA 

como SLMiiir em esta guisa. s. que feita a irepartiçam e sabudo quanto 
■ amouta de pam e vinho a cada huma rraçam per lodo o anuo tanto lhe 
dem em cada hnum mes conpeçando de contar a j)artiç.am do pam per 
sam joham baptista e do vinho per samiyuell e as outras cousas vindas 
e fruclos (pie se gnrdcm e se nom podem sejam partidas antre elles ou 
uendidas asy como ho prioste com os rraçoeiros da egreia virem (jue mais 
cumi)re consirando senpre ho mais pi'Oueito da egreia e o ditopriostre des- 
tribua e rrejiarta as ditas meunças e frutos os dinheiros por (pie forem uen- 
didos tam sollamente antre os rraçoeyros que na dita egreia seruirem 
per as domaas e pei- os dias (]ue na dita egreia seruirem como dito 
he cobrando o (pie lhes amonta a cada luium i)er todo ho anuo e nas 
egreias em (jue os rraçoeiros e priores e vigairos e outros quaaes quer 
ou seus procuradores (?) dam e ministram aos rraçoeyros os fructos 
das suas Harões hordenamos e mandamos (pie lhas nom dem nem mi- 
nistrem em outra guisa senam tam sollament.) pellos meses e domaas 
e dias que seruirem em nas egreias afora aipielles (pie forem escusa- 
dos per infermidade ou justa e rrazoaueJi necessidade corporall ou 
por manifesto (í evidente, proueyto da egreia ou se nos ou nossos so- 
çessores ou algum outro que o de direito possa fazer, mandamos dar 
os fruitos das ditas Rações a alguum ou a algunns que esteuerí^m em 
estudo ou [lor outra alguma e assynada rrazam )iorèm por que pode- 
ria acontecer que o [)ani e vinho nom poderia tam bem seer gardados 
nos celleyros c adegas como compria porém se os rraçoeyros e benefi- 
ciados quiserem feitas as rrepartizões rreçeber as rraçõoes e dar fia- 
dores que as seruam nom sernindo que as tornem e emtreguem pêra 
as auer(3m os que as seruem, mandamos ([ue lhas entreguem e dem 
como derem fiança. 

7. Outro sy hordepnamos mais e mandamos que as obradas e quaes- 
quer ofertas e obrações que vêem aas egreias por os uiuos ou com os 
finados e esso medes os que uierem a oytauo e tercesimo dia e ao an- 
uo que sejam anudas por destrdjuições e partidas tam sollamente an- 
tre aíjuelles que seruirem nas ditas egreias e aas oras e hoficios em 
que e por que se derem aos que forem presentes e interesentes e 
absentes nom ajam delias parte saluo se forem escusados por alguma 
enfermidade corporall ou outro lidimo embargo; e o que nom for as 
matinas perca ho terço do (pie ouuer e essomedes por as outras oras 
do dia que se dizem pella manham perca outro terço se a ellas nom for 
e outro terço i)ella nooa e vésperas e compctras (sic) e as ditas cousas 
sejam partidas depois das veesperas e competras ditas e aja cada hiium 
como mei-çeo e como dito he e a parte dos que nom uierem ajamna 
os í|ue forem presentes e interesentes e ausentes pêro queremos que 
os ditos beneficiados sejam escusados das matinas hnum dia da se- 
mana afora ho domingo e festas dobrezes e que no sejam a todallas 
oras do dia pêro ho dia que se sangrarem ou tomarem alguma menzinha 
e os priores e rreytores e vigairos que derem ou mandarem dar a ai- 



E HISTÓRICA 31 



gunns os frnitos dos ditos beneficiios o os priosles que contra esta 
nossa constituiçam os derem saluo pella guisa e maneira que dito 
auemos e esso medes os rracoeyros fjue os Receberem ou a('Uf)a- 
i"em por tall que sejnm punidos em aquillo em que pecarem man- 
damos (pie percam todo aipiillo (|ue n"eceh(;rem e onuerem e outro 
tanto os priores e priosles (|ue llio derem e na parte das olíertas e obra- 
das e do oytauo e lerçesimo dia e anno e dos aniuersarios os ditos 
priores e rreytores e vigayros e priostes que as derem doutra guisa 
e mandarem dar e essomedes os rraçoeiros que as rreceberem e le- 
uarem saluo como dito ha [nw lio dia em que as derem ou mandarem 
dar ou leuarem ajam a pena sobredita e asy cada uez que o fezerem e 
do que assy perderem em anblos (sic) quasos aja ametade a fabrica da 
egreja em que asy forem beneliciados e a outra metade a fal)rica da see. 
S. Item ponpianto os demandadores e ychacoruos dos quaes al- 
guns enganando mentem em dizendosse seerem huuns e sam outros e 
em suas pregações propoeem e dizem muylas abusooes por o tal que 
enganem os sinplizes e tirem e leucm delles per sotill e enganoso en- 
genho ouro prata dinheiros pão e vinho e quall quer outra cousa que 
podem tirar e taaes como estas buscam e demandam as suas cousas 
([ue nom dem por deus, mas por os ghanhos temporaaes e pellas di- 
tas abusões (pie asy propooee, A censura ecciesiastica be feta vill (sic) 
quanto aa oupiniom dos homens e aautoridade das classes da egreia he 
lançada em desprezamento e periigo das almas e escamdallo de mui- 
tos i)orem querendo nos aas ditas abusooes e mallicias refrear e es- 
tabelleçendo mandamos que os priores reitores vigairios perpétuos das 
egreias da dita cidade e arcebispado e os procuradores delles e os 
rracoeyros e outros beneficiados nom rrecebam nem ouçam algum de- 
mandado ou ychacoruo nas egreias e lugares seus saluo se leuarem let- 
tras apposlolicas ou nossas cartas conhecidas em as quaes faça meençom 
(pie nos vimos as ditas letras apposlolicas e as examinamos, Nem os 
leyxem nem consentam dizer nem propoer algua outra cousa salvo as 
endulgençias e perdoanças ou rremissooes conthyudas nas ditas leta- 
ras apposlolicas ou nossas cousas conhicidas e certas e sejam ainda 
percibidos e anisados qiiaaes (juer creligos que nom sejam fauoraueeys 
nem presumm ser aos ditos demndadores e ychacoruos contra as ditas 
constituições canónicas e esta nossa em periigo das suas almas por o 
tall (jue os ditos demandadores lhes dem parte do gaanho que assy 
ganharem e os que contra esto fezerem mandamos que paguem huum 
marco de prata pêra a obra da see. (Continua.) 



NOVAS DESCOBERTAS EM POMPEIA 

Da mesma forma que em i720, um camponez abrindo um fosso 
descobriu a existência de Ilercolanum sob as cidades modernas de 
Resina e de Portici, o proprietário dum vinhedo a leste do amphithea- 



32 REVISTA ARCHEOLOGICA 

tro de Pompeia descobriu, nos fins do anno passado, procedendo aos 
seus trabalhos agricolas, uma estrada, guarnecida de túmulos na di- 
recção da cidade morta para Vocera. Começaram já as escavações, mas 
não poderam ainda por falta de capitães tomar grande desenvolvimento. 
Comtudo, já encontraram, a meio kilometro de Pompeia, por baixo 
de uma secção de 10 melros de pedra pomes e de duas camadas de 
cinzas, uns cincoenta metros da antiga estrada romana, com pavimento 
de beton e com uma pequena flecha no centro para permittir o escoa- 
mento das aguas. Dos dois lados ha uma espécie de banquetas de terra, 
onde se acham sete túmulos já desentulhados, quatro dum lado e três 
do outro, collocados a seguir e tão próximos que se a disposição fòr a 
mesma até á cidade, o trabalho promette ser muito importante. Os 
túmulos estão alinhados todos com a estrada e os mais recuados tem 
á frente uma balaustrada que restabelece o alinhamento e occupa uma 
porção de terreno reservada provavelmente a futuros túmulos de família. 

Cada um, lorma um i)equeno moiuimento architectonico feito de ti- 
jolo e cal, estucado, ornado de columnas e de estatuas, tem nichos para 
collocar urnas cinerarias, e abobadas por baixo para as ossadas. 

Estes tumnios serviam, facto singular, de logarde aííixação de annun- 
cios; estão cobertos com grosseiras inscripções vermelhas, feitas a pin- 
cel, que encerram factos insignificantes para conhecimento geral; um d"es 
tes annuncios diz: «quem achou um cavallo que fugiu, pôde entregal-o 
em casa do ferrador de Vocera, na ponte do Sarno, do lado de Stabia. 

N'outro, as paredes do tumulo tem numerosos nomes, gravados pe- 
los rapazes e pelos namorados daquella época; por baixo duma d'es- 
tas inscripções, em que se entrelaçam dois nomes, lêem-se as seguin- 
tes palavras: «Lembras-tef» 

As inscripções fúnebres propriamente dietas, as estatuas e os or- 
namentos estão depositados próximo do logar das escavações n'uma ca- 
bana, excepto a maior das efíigies que estendida sobre um montão de 
cinzas serve para segurar a barraca em que dormem os operários. 

As estatuas são evidentemente retratos: reconhecem-se n'ellas, um an- 
cião de lábios grossos, um rapaz de cabeça grega, uma matrona de as- 
pecto carregado com profundas linhas aos cantos da bocca, uma rapariga 
com ares affectados. As cabeças tem ainda vestigios de côr e a julgar 
pelo grosseiro do trabalho foram pintadas. Em quanto ás ossadas, não 
foram achados intactos senão os craneos que tem todos entre os den- 
tes o obulo do costume carcomido pelo azinhavre. 

Detalhe curioso, as urnas cinerarias tem um orifício na tampa com 
um pequeno tubo por onde se lançavam as libações. Não se ponde ainda 
determinar precisamente a época d^estes monumentos, mas parece se- 
rem coevos de Jidio César e de Tibério; isto é, tem aproximadamente 
dois mil annos. Quaesquer outras informações que possamos colher no 
jornal francez d'onde extraímos estas, communicaremos aos leitores. 

M. Alexandre de Sousa. 



E niSTOKICA 33 



MONUMENTOS DE BALSA 
(perto de Tavira) 

Quando eu publiquei, lia quasi viule arinos, o segundo volume do 
Corpus Jnscriplioniun Laliiurnmi (em 18GÍ)), o segundo capitulo, des- 
tinado aos monumentos epigrapliicos da antiga Balsa, e impresso já 
em 1806, não podia produzir senão dois números (13 e 14), nenhuili 
dos quaes continha o nome lomano da povoação. Pouco tempo depois 
recebi, graças á obsequiosidade do sr. Augusto Soromenlio, o opús- 
culo do meu illustre amigo sr. S. P, M. líslacio da Veiga, l^uios lial- 
senses, etc. (Lisboa 1800, 30 pp. 8."). O sr. Veiga alcançou depois o 
mérito immortal de haver fundado o Museu do Algarve, e o mundo 
scientifico espera impacientemente a sua grande obra sobre as anti- 
guidades préhistoricas e históricas d"esta parte tão interessante de 
Portugal, obra annunciada pelo auctor no seu pequeno mas interes- 
sante volume sobre as antiguidades de Mertola K Do opúsculo do mes- 
mo auctor acerca de Balsa pude eu tirar duas outras iuscripções in- 
teressantes d'esta povoação, as quaes publiquei nas addenda do vo- 
lume do Corpus. Uma terceira e uma quarta, publicadas depois pelo 
sr. Teixeira d'Aragão no seu Ihialorio suhre o cemiteriu romano desco- 
berto pro.rimo da cidade de Tavira (Lisboa, 1808, 8.°), foram-me for- 
necidas pelo sr. Soromenho. Muitos annos depois, o mesmo Sorome- 
nho enviava-me as copias de três iuscripções importantes, relativas ao 
circo de Balsa; publiquei-as na Ephemeris epigraphica. Se a estas se 
juntarem mais cinco ou seis, e entre ellas uma grega, publicada pelo sr. 
Veiga, pela maior parte inéditas, mas dum valor insigniílcante (excepto 
uma), e ainda outras muitas mutiladas. Iodas reunidas então no Mu- 
seu do Algarve, o capitulo de Balsa toma um aspecto inteiramente novo. 

Antes de inserir este capitulo no Supplemento ao vol. ii do Cor- 
pus, que estou preparando, será agradável aos leitoies da Revista, ver 
reunidas aqui as mais importantes d"essas iuscripções. Ueixo de parte as 
inscripções simplesmente funerárias, cujo valor scientifico é pequeno. 

•1. Altar de pedra calcaria, achado no cemitério da Torre d' Ares; 
no Museu do Algarve em Lisboa. Lettras (alt. O^^M) do segundo sé- 
culo, muito elegantes. Calco enviado pelo sr. Veiga, e verificado por 
mim no original em 1881. Texto inédito. 



[ApoÍ]\li:U I Aiig{iisto)\ Speratits \ Bjíls{eiL<!Íuni) disp{en- 
sator) I animo li[b{cns)\ \ po\_s{iiit)\. 



AVG 

SPERATVS 

BAI.S-Í3ISP A Apollo Augusto Sperato, ao serviço da cidade de Bal 

ANTMO ■ IJ^b sa como dispensador, erigiu de bom grado este altar. 



PO 



1 Memoria das antiy. de Mertola, etc, Lisboa, 1880 (190 pp.j, 8.°, com uma planta. 
Rev. Arch. e Hist., I, N." 3 — ^L\Kço 1887. 



34 REVISTA ARCHEOLOGICA 

No fim da primeira linha deve ler havido n por ni. O D do dis- 
pensator tem, no traço vertical, outro pequeno traço obliquo, que in- 
dica o uso da abreviatura. Os dispensalorcíi da cidade eram servi pu- 
hlici. Este pequeno altar de Apollo pode ter tido ou não collocação 
num templo dedicado á mesma divuidade; mas também não é impos- 
sível o ter existido em Balsa um templo de Apollo. 

2. Altar de pedra calcaria, achado em 1750 e ainda existente no 
plinto do púlpito da egveja de N^ S/' da Luz, tnna légua de Tavira. 
Calco enviado pelo sr. Veiga, segundo o qual eu corrigi algumas pe- 
quenas particularidades do texto, editado no Corpus, vol. ii, n.° 13. 
Lettras sem elegância (alt. O, '"03), do fim do segundo século ou do 
começo do terceiro. 

FORTVNAE • AVG • Fortiinae Aug[usiae) \ Sacrum. \ Annius Pri- 

SACR • viithnis \ ob honorem \ sexvir{atus)sui, \ edi- 

ANNIVS • PRIMITIX^VS to barcarum \ certamine et \ pugihnn, sportu- 

O B • H O N O R E M lis \ ctiam civibus \ datis \ d{e) s{ua) p[ccu- 

5 IIIIII ■ VIR • SVI • nia) d{omnn) diat). 
EDITO BARGARVM 

CERTAMINE -ET- Consagrado á Fortuna Augusta. Annio Pri- 
PVGILVM • SPORTVLIS mitivo, pela honra que obteve do sevirato, 
ETIAM -CIVIBVS depois de ter cxhibido um combate de bár- 
io DATIS • cas e de athletas, e também depois de ter 
D • S • P • D • D • distribuído dadivas aos cidadãos, deu este al- 
tar, erigido á sua custa. 

O combate de barcas, exhibido pelo rico cidadão Annio Primi- 
tivo, que todavia não era da ordem dos decuriões ou senadores da ci- 
dade, mas, como de origem não livre, somente sévir dos Augustales 
(collegio de libertos, instiluido para o culto dos imperadores), eíTe- 
cluar-se-hia no rio, e o dos athletas no circo mencionado nas inscripções 
que seguem. A palavra barca, provavelmente de origem phenicia, pa- 
rece encontrar-se neste documento pela primeira vez na litteratura 
antiga. A Fortuna, como fonte das riquezas do doador, é muito jus- 
tamente honrada por elle. 

3 — 5. Três inscripções relativas ao circo de Balsa. Lages calca- 
rias, encontradas na Quinta das Antas, na margem do Guadiana. Let- 
tras muito estreitas e mwito elegantes do segundo século; na primeira, 
de ali. de 0"\0(); na segunda Ó'",03 a 0"',0'i ; na terceira, fragmenta- 
da, de 0™,1. Esta ultima inscripção está numa peça de epistylo. Cal- 
cos enviados pelo sr. Veiga; não vi os originaes, que debalde procu- 
rei no Museu do Algarve. Os textos estão publicados na Ephemeris 
epigraphica, vol. iv, 1881, p. G, n.*' 1 — 3. 



E HISTÓRICA 35 



3. C • LICINIVS • BADIVS Gliius Licinius Badiíts \ podiínn circi p{edes) 
PODIVM • CIRCI • P • C • c{entinn) \ sua impensci d{omim) d^at). 
SVA • IMPENSA • D • D • 

Gaio Licínio Badio mandou fazer á sua cus- 
ta cem pés do podiínn do circo, como dom á cidade. 

4. T (J) CASSIVS • CELER Titus Cassius Celer] podiínn circi \ pedes c{en- 

PODIVM-CIRCI tiiiii) I sua impensa \ d(omnn) d{at). 
PEDES • G • 

SVA -IMPENSA Tito Cassio Celer fez á sua custa cem pés do 

5 D • D podiuin do circo, como dom á cidade. 



^- CVM • ANT^ 



. .cum anteipagmentis J et st atuis. 



Não é raro o encarrega rem-se alguns cidadãos ricos ou magistra- 
dos do municipio de mandar fyzer^ á sua custa, certas porções dos 
edifícios públicos, para facilitarem a construcção d'clles. liadio é um 
cognome raro. O podiíim é a parle mais baixa da cavea do circo, de 
construcção massiça, logar reservado ás pessoas de distincção; os 
doadores ahi tinham também, de certo, seus togares. O episiylo co- 
roava provavelmente o portal, exterior ou interior do edifício. A sua 
inscripção exlendia-se por muitas pedras, cujo numero pode ter sido 
de doze ou mais ainda; e as lettras, muito grandes, devem ter produ- 
zido bom effeilo. O fragmento duma das pedras contém apenas ura 
resto da phrase do verso, — que o doador (ou doadores) tinham for- 
necido á parte do edifício, construída à sua custa, os aníepagmenta, isto 
é, as peças d'architectura destinadas a revestir as faces exteriores. 
Não se pode supprir antis; porque a lettra seguinte ao t não foi cer- 
tamente um I, mas sim um k. Demais, as antae, ombreiras de porta, 
ainda que possíveis também num circo, correspondem melhor a um 
templo. Estou certo de que as investigações do sr. Veiga designarão 
o local preciso, onde assentava o circo de Balsa. 

f). Grande pedestal (ali. 1"',24, larg. O™, 5i2) de pedra calcaria, en- 
contrado em 18GG entre o povoado de Santa Luzia, meia légua de Ta- 
vira, e a frerjiiezia da Senhora da Luz, seis kilomelros de Tavira, na 
Quinta da Torre d' Ares; no Museu do Algarve. Lettras não muito ele- 
gantes e como pintadas do segundo século (cerca do tempo do impe- 
rador Commodo). da altura, nas linbas 1 a 5, de O"', 04; nas linhas 6 
a IO, de 0'",035; e nas linhas II a 17, de O™, 02. Copia enviada pe- 
los srs. Francisco Raphael da Paz Furtado e Veiga; calco tirado por 
mim próprio em I88I. Editado pelo sr. Veiga, Povos Balsenses, p. Io, 
e no Corpus, vol ii, n.° 4089. 



30 



REVISTA ARCHEOLOGICA 



i5 



T • RVTILIO • GAL 

TVSCILLIANO • 
Q • RVTIL • RVSTI 
CINI • FIL • T • MAl 
LII • MARTIALIS 

NEPOTE- INHO 
N O R E M • E O R V M 

AMICI 
CVR • L • PACC • MARCI 
ANO • ET ■ L ■ GELL • TVTO 



L • PACC • 


BASILLVS 


P • RVTIL • 


ANTIGONVS 


T • MANL • 


EVTYCHES 


T • MANL • 


EVTYCHIO 


L • MECLON • 


CASSIVS 


P V B L I C I V S 


• ALEXANDER 


LAETILIANVS * 


B A L S E N S I V M 



Tiio Rutilio Gal{cria) \ Tuscilliano, \ 
Qiiinti Rutil{ii) Ritsti \ cini fil{io), Tito 
Man I /// Martialis \ nepoti, in ho | norem 
eoriim \ auiici, \ ciir(aiitibiis) Lúcio Pac- 
c{ió) Marci \ {ano) et Lúcio Gell{io) Tu- 
to, I Lucius Pacc[ius) Basillus, \ Publius 
Rulil{ius) AnliffomiSy \ Titus Manl{ius) Eu- 
iyches, \ Titus ALvxl{ius) Eutychio, \ Lu- 
cius Meclon{ius) Cassius, \ Publicius Ale- 
xander, \ Laetilianus Balsensium. 

A Tito Rutilio Tuscilliano, da Tribu 
Galeria, filho de Quinto Rutilio Rusticino, 
sobrinho de Tito Manlio Martial ; erigiram 
em honra d'elles a sua estatua, os amigos, 
sob o cuidado de Lúcio Paccio Marciano 
e de Lúcio Gellio Tuto, (cujos nomes se- 
guem). 



Tuscilliano e seus antepassados, que vêem honrados com eile, são 
pessoas de boa família, apparenlemente da ordem dos decuriões (em- 
bora não lhes seja attribuida magistratura algimia), e egualmente o 
são os dois amigos, que se encarregaram da execução da estatua do 
fallecido e do respectivo pedestal. Mas, dos amigos enumerados no 
fim, seis são libertos, o septimo um escravo. São prova disso, quanto 
aos cinco primeiros, os seus cognomes gregos, excepto Lúcio Meclo- 
nio Cassio; o qual, todavia, se fosse de melhor condição social que os 
quatro, teria sem duvida collocado o seu nome em primeiro logar. 
Publicio Alexandre tem nome como liberto dum publicum, isto é, 
d'uma communidade, d"um templo, etc; ignoramos qual a communi- 
dade indicada, mas o provável que seja a própria cidade. Laetiliano 
era um dos servi publici da cidade de Balsa, como o dispensador do 
n.° 1. Eu já falei acerca dos Publici e apresentei exemplos delles na 
Ephemeris epigraphica, vol. ii,1875,p. 89. Linha 6 iNHO|NOREM 
está escripto sem interpuncção, segundo o uso frequente de unir a 
preposição ao seu substantivo. 

7. Pedestal encontrado e conservado com o precedente, e um pou- 
co maior que elle (ali. l'",4(), larg. 0"',()0); altura das lettras 0'".:J3 a 
O^^jOi; ellas são menos elegantes que as do n.° 6, mas parecem ser 
d'uma época não muito mais antiga (do tempo de Marco Aurélio, pou- 
co mais ou menos). Descoberto e editado com a inscripção preceden- 
te. Calco tirado por mim em 1881. 



E IILSTOKICA 



37 



T • MANLIO 
TFQVIRFAV 
STINO • BALS • 
MANLIA • T • F ■ 
F A V S T I N A 
SOROR • FRA 
TRI • piíssimo 

Tf- VIR -ir 

DD 
EPVLO • DATO 



Tito Maiilio I Titi f(ilio) Qiiir(ina) Fau \ stino Bal- 
s{ensi) I Manlia Titi f{ilia) \ Faiistina \ soror fra \ 
íri piissimo, \ duumviro bis, \ d{edit) d{edicavit) | epu- 
lo dato. 

A Tito Manlio Faustino, filho de Tito, da Tribu 
Quinina, Manlia Faustina, filha de Tito, sua irmã, ao 
irmão piissimo, duas vezes duumviro, deu este mo- 
numento, inaugurando-o com um banquete publico. 



Manlio Faustino, um dos personagens importantes da cidade, como 
o indica o seu cargo iterado de primeiro magistrado^ ciiama-se Bal- 
sensis, isto é, cidadão de Balsa. Mas é duvidoso que elle tenha nasci- 
do em Balsa, pois indica como sua tribu a Quirina, que estava muito 
espalhada na Ilispanha, mas que íião parece ter sido a tribu dos fi- 
lhos de Balsa. Porque, numa inscripção descoberta em 1742 no sitio de 
Torrejão, freguezia de lialeizão, perto de Beja, um certo Gaio Blossio 
Saturnino se chama da tribu Galeria, et Neapolitatms Afer Areniensis, 
Íncola Balsensis (C. I. L., vol. ii, n.° 105). Como elle é natural de 
Neapolis em Africa (Nebel-Kedim, perto de Carthago; vede C. I. L., 
vol. VIU, p. 12o), cidade atlribuida á tribu Arniensis, a Galeria éa de 
Balsa, d'onde elle era incola, habitante, porém não civis, cidadão. Da 
Galeria era effectivamente, como vimos, Tito Rutilio Tuscilliano, do n.'* 6. 

8. Cippo de pedra como mármore, descoberto, do mesmo modo 
que os dois precedentes n.°' G e 7, em 1868, na Quinta da Torre 
d" Ares, junto á egreja da Luz; no Museu do Algarve. Lettras mais ele- 
gantes que as dos dois monumentos precedentes, de altura, na pri- 
meira linha, de C^jOi, e descendo até 0'",02 na ultima. Publicado pe- 
lo sr. Teixeira d"Aragão, relatório, etc, p. 10, e, segundo uma copia 
ministrada por Soromenho, no Corpus, vol. ii, n.° 4990^. Calco ti- 
rado por mim em 1881. 



IVLIAE(J? TlBç^F (ÍjMAR 
CIAE • GEMINAE<i) 
AMICAE • OPTIMAEcJ? 
L-QVINTIVS cJ?PRISCION 
CVM • CALLAEA T- F • SEVERINA 
ET • QVINTIA • AVITA • FIL • D • D 

tio Priscio com Calléa Severina, filha d 
filha, deu e dedicou este monumento 



Iidiae Tib{erii) f{iliae) Mar \ ciae 
Gerniuae, \ amicae optiniae, \ Lucius 
Qiiintius Priscion \ cum Callaea Titi 
J{ilia) Severina \ et Qiiintia Avitaf{i- 
lia) d{edit) d{edicavit). 

A Júlia Mareia Gemina, filha de Ti- 
bério, sua melhor amiga. Lúcio Quin- 
e Tito, (sua mulher), e Quincia Avita, sua 



38 REVISTA ARCHEOLOGICA 

Jiilia Mareia Gemina, íillia d'um Tibério Júlio, que, segundo estes 
nomes, deve ter obtido o direito de cidadão romano pelo imperador 
Tibério, e d'uma Mareia, era cerlamenle lambem duma familia nobre 
de Balsa. O seu amigo L. Quintio Priscion, cujo cognome tem uma 
forma grega (Ilptoxíov, em vez de iV^sc/o), como não junta o nome do 
páe, parece ter sido íillio d"um liberto. O nome da fannlia de sua mu- 
lher, Callaea, ó raro, e, ao que parece, de origem não romana. 

Não repetirei aqui, como já disse, os textos de mais sete inscri- 
pções funerárias encontradas em Balsa ou nos seus immediatos arredo- 
res. Mas vou dar a lista alpliabelica dos nomes das pessoas, que são 
mencionadas nessas inscripçDes. 

Aemilia Chaeris 

Albia Nereis 

Cçiluricus Lupatus 

Caturica Agatemera, sua mulher 

E(lius, em vez de Aelius, ou Flavius) Caturicus 

Domitius Festus 

G. Flavius Relatus 

Q. Flavius Seranus 

Anliochis, Euenus, Ploce, Talianus, Ires dos quaes (excepto Plo- 
ce) se encontram numa iuscripção funerária escripta em grego (Sr. 
Veiga, Povos Balsenses, p. 2G). 

Se a estes nomes se juntarem os que se acham em algumas das 
outras inscripções, principalmente nos números 6 e 8, observar-se-ha, 
embora a estatística seja muito incompleta, uma certa preponderância 
do elemento grego na classe inferior dos habitantes. Esta observação 
é plenamente confirmada pela nomenclatura dos habitantes de Faro 
(Ossonoba), e d'outras cidades de commercio marilimo no resto da pe- 
nínsula. As cidades romanas do interior de Portugal apresentam sob 
este ponto de vista um aspecto muito differente. Gom feições d'este 
género, leves sim, mas bem fundadas nos monumentos, a imagem da 
antiga cidade de Balsa recebe uma certa vida individual, que só os 
factos mencionados nos outros monumentos epigraphicos lhe não da- 
riam. As instituições municipaes, o circo e os seus jogos, o culto dos 
deuses, etc, tinham adíjuirido, na época do mais intenso desinvolvi- 
menlo da civilisação romana das provincias, quer dizer, no segundo e 
no terceiro século, uma certa uniformidade. 

Quando o sr. Veiga nos houver dado a planta da cidade de Balsa 
e dos seus monumentos históricos, as inscripções aqui reunidas mi- 
nistrarão, em certo modo, o material de personagens com que povoar 
esse recinto monumental. 

Berlim, janeiro 1887. 

E. IIÚBNEn. 



E HISTÓRICA 39 



CITANIA 

Tendo sido convidado pelo sr. Martins Sarmento para tomar parte 
na excursão ao Monte da (Vilania, e corres|)ondeiido a um dever de 
cortezia e gratidão, cumpre-me dizer rapidamente as injpressões que 
recebi durante as três horas que gastámos a percorrer aquellas famo- 
sas ruinas e as observaçíjes que me sugeriram os objectos alli encon- 
trados pelo seu illuslrado explorador. 

A historia da invasão dos dillerentes povos antigos nas Ilespanhas 
até aos piimeiros séculos da era christã é bastante confusa, e a no- 
ticia dada por alguns escriptores das cidades que floresceram em taes 
epochas no território portuguez. quando não fabulosa, tem por base a 
tradição, que não resiste a uma critica rudimentar. 

Nos paizes mais illustrados as tiadições são sempre tidas em lo- 
gar mui secundário, procurando íirmar-se a opinião em documentos 
authenticos, sendo considerados dos mais positivos os fornecidos pela nu- 
mismática e pela epigraphia, o que tem tornado importantíssimos es- 
tes dois ramos da archeologia. 

Deixando as epochas mais remotas, os geographos antigos são quasi 
unanimes em dizer que a Hespanha fora habitada por duas raças dis- 
linctas, a dos celtas e a dos iberos, formando diversas Iribus, que se 
ligaram entre si, dando origem aos [)ovos denominados celtibericos. 
Mais tarde fundaram-se no litoral varias colónias e feitorias, sendo 
gregas as das costas do Mediterrâneo e phenicias as do sul e sudoes- 
te. A maior parte das tribos cellibericas e as das colónias gregas e 
phenicias cunharam moeda própria para seu uso, no periodo de quasi 
dois séculos antes da era de saphar, que marca a submissão da Hespa- 
nha aos romanos. 

As legendas das moedas cellibericas são formadas por caracteres 
pouco conhecidos, apesar de muito estudadas por vários sábios, dis- 
liuguindo-se entre elles Fulvius Ursinius, Florez, Velasquez, Hum- 
boldt, Boudard, Saulcy, Ileiss, António Delgado, que ainda nao po- 
deram, apesar das suas engenhosas combinações, dar-lhe a verdadeira 
interpretação. 

Estes interessantes monumentos encontram-se em abundância ao 
nordeste da Península, em pouca quantidade no centro e raríssimas ve- 
zes no território do moderno Portugal. 

Em seguida á destruição de Numancia foi a Hespanha declarada 
província romana. Os conquistadores, desde .lulio César até Calígula, 
concederam a algumas cidades com o titulo de colónia ou mumcípio, 
o privilegio de se regerem por leis especiaes e de cunhar moeda de 
cobre para seu uso; e só depois de prohibido o seu fabrico é que fo- 
ram introduzidos em grande quantidade os bronzes romanos. 

As povoações, hoje incluídas no nosso território, que cunharam 
moedas com legendas latinas, ficam todas ao sul do Tejo. 



40 REVISTA ARCHEOLOGICA 

Nas ruínas da Citania tem-se encontrado as seguintes moedas : 

Em prata: 

Denario que o sr. Martins Sarmento oíTereceu ao sr. Miguel Osório, 
de Coimbra, e que, infelizmente, este cavalheiro perdeu. Em um 
calco que vi coníiece-se o typo das moedas celtibericas — cabeça de 
cabelio encarapinhado; no reverso o cavalleiro de lança enristada e 

por baixo 'T 14 9- Esta legenda está incompleta e a ser exacta a co- 
pia, como devemos suppôr, o começo destoa das que se tem publi- 
cado. 

Estas peças numismáticas são imitação do systema monetário usa- 
do pela republica romana, havendo até algumas forradas como os de- 
narios das famílias consulares, emittidos nos últimos vinte annos do 
século VII de Roma (173 a 153 antes de J. C.) ; e por tal circum- 
stancia não podemos deixar de lhe atlribuir uma data posterior. 

Em cobre appareceram : 

Um grande bronze de Emérita Augusta (Merida): TI- C A E S A R 
AVGVSTVS PONT- MAX- IMP- — Busto laureado de Tibé- 
rio à esquerda, il). avgvsta — emérita escripto em duas 
linhas na porta da cidade, sede do convento cmeritense. 

Metade de um bronze de Calagurris Júlia (Calahorra) vendo-se 
distinctamente parte da cabeça de Augusto e as lettras M/ N (Mu- 
nicipium). 1^. O quarto posterior do boi, e por cima, em duas linhas 
II- V I R - — C • M R - C. . . (// Viris Caio Mário Capitone. . .). 

Metade de outro bronze, de Celsa (Velilla de Ebro), divisando-se 
parte do busto de Augusto e as letras. . v S T V S • i"^. O quarto pos- 
terior do boi e as iniciaes c • v - l - gel- (Colónia Victrix Júlia 
Celsa) AM F E S. . . (Manias Festas). 

Um bronze de Turiaso (Torazona): imp- AVGVSTVS PA- 
TER PATRIAE — Busto laureado do imperador á direita, i^. m- 
GAECIL- SEVERO G- ^AL - AQVILO TVRIASO {Mar- 
co Caecilio Severo, Caio Valério Aquillo); no campo, dentro de uma co- 
roa de loiro, TT v l R • 

Os três últimos bronzes, com 20 a 28 millimetros de diâmetro, per- 
tencem á Tarraconense e ás cidades que formavam parte do convento 
caesaraugustano. 

As duas metades dos bronzes de Calagurris e Celsa, pela regulari- 
dade do corte, parecem ler sido partidas para servirem nas peque- 
nas transações ou trocos. 

Descobriram-se mais quatro medianos bronzes, três completa- 
mente apagados ; no restante percebe-se o busto de Hadriano tendo 
no reverso uma figura de pé, á direita, junto a uma insígnia militar, 
6 na orla as letras ... v G v S . . . 

As moedas que acabo de descrever pertencem a localidades co- 
nhecidas, excepto a celtiberica de prata; e são em pequeno numero re- 
lativamente á superfície explorada. Esta escacez pode explicar-se ou 



E HISTÓRICA 41 



pela raridade do dinheiro no commercio d'aquelle povo, ou em resul- 
tado de guerra, e porque o inimigo, logrando escalar as minaliias, sa- 
queasse e arrazasse a povoação. As casas enlulliHdas cí»m o material 
derribado, e a p.irte iníerior, (pie resta, em perfeita conservação, as 
peças de cerâmica todas feitas em pedaços, e estes muito dispersos; a 
estatua de granito que se encontrou partida e os bocados bastante dis- 
tanciados, a falta de objectos preciosos, são importantes indicios que 
autorisam esta su[)posição. 

A fortaleza do local justifica de sobra o procedimento dos vence- 
dores, que, por prevenção, não quizeram deixar pedra sobre pedra. 

Mas não são só as moedas que nos atlestam uma epoclia já adian- 
tada da civilisação romana. As imiralhas de pedras soltas, (pie alli ob- 
servamos, com três metros de espessura, foram de certo construidas 
para resistir a possantes maipnnas de guerra: e a conuuunicação en- 
tre a parte fortificada e as margens do rio Ave fazia-se por uma via 
urbana ou oppidana toda calçada, que indica pelo menos epocha ro- 
mana. 

As habitações, que estão todas dentro do recinto das muralhas, 
são pela maior parte redondas, de peqneno diâmetro, edificadas com 
pedaços de granito bem faceados e bem dispostos para lhe dar re- 
gularidade e solidez. Algumas têem o pavimento coberto de pequenas 
lages ; noutras apenas uma pedra marca o centro, e muitas destas 
casas estão metlidas num espaço mais ou menos quadrangular for- 
mado também por paredes de granito. Estas paredes (jue restam apre- 
sentam a altura da 1 melro a 1,50 sem signal de porta no maior nu- 
mero, o que faz suppôr ser a commnnicação pela parte superior, ser- 
vindo, talvez, alguma escada portátil. 

As habitações são separadas {)or estreitas vielas, em que duas pes- 
soas a par caminham com (lifficuldade. havendo uma com o dobro 
da largura e que augmenla no meio formando uma espécie de íri- 
vhmí. 

A abundância de granito naquella região explica o seu emprego 
exclusivo nas edificações urbanas, e ainda hoje por aquelles arredores 
se construem casas com idêntico material e systema. 

Determinar a origem da povoação que nos legou aquellas ruinas é 
querer ir muito além, quando a (Jas que existem florescentes, é, na 
maior parte, obscura, precisando os esciipiores da idade u.edia, para 
lhe augmentar a prosápia, arranjar-1'ie um principio mais ou menos 
fabuloso e ás vezes até ridículo. 

Verificado que dois ou ires penedos, que alli se encontram, toma- 
ram a actual posição por accidenles natiiraes, e que não possuem ca- 
racterísticos (ie dolmens, não se tpndo achado instrumento algum de 
pedra lascada ou polida^ ou quaesqiier outros vestígios da epocha pre- 
hislorica, parece ao meu illustrado amigo o sr. Nery Delgado, cuja 
competência é reconhecida e justamente considerada, que não deve- 



42 REVISTA ARCHEOLOGICA 

mos procurar iiaquellas minas uma origem muito remota, opinião com 
que me conformo plenamente. 

Acceitando mesmo á [)(jvoaçrio uma existência anterior ao dominio 
romano, não posso em presença dos signilicalivos vestígios alli en- 
contrados deixar de attribuir o seu máximo desenvolvimento á influen- 
cia civdisadora d'esse grande povo que, caminhando na vanguarda do 
progresso, levava com a vicloria das suas legiões as sciencias, as ar- 
tes e a industria. 

A occupação dos romanos, nas terras que lioje constituem o con- 
tinente do remo porluguez, não foi pacilica ; os povos lutaram contra 
o beneficio civilisador que liies impunha ao mesmo tempo o jugo da 
escravidão. A historia conta as proezas de Viriato e de outros que 
heroicamenie defenderam a pátria, e é de crer que muitos dos usos e 
costumes d'aquelles povos indígenas passassem intactos atravez dos 
diversos domínios extranhos. 

O esclarecido explorador das ruínas mandou reconstruir e comple- 
tar duas das taes casas circulares, que estavam situadas no cume da 
montanha, e ahi archivou os mais interessantes objectos tirados das 
escavações. Siirprehende a aggiomeração d'aquelles confusos vestígios 
de gerações que ha tantos séculos passaram, e para os estudar re- 
quer-se além da competência scientifica detido exame no local das 
próprias ruínas. Futuras descobertas, como o cemitério da povoação, 
que não dev^erá ficar longe, é que podem fornecer mais subsídios para 
confirmar as hy[)otheses estabelecidas. 

Recorrendo á memoria e aos apontamentos que tomei posso dizer: 

A chamada pedra formosa, que está collocada horizontalmente no 
centro de uma das casas reconstruídas, foi encontrada no fim do sé- 
culo XVIII ou principio do xix, e transportada para o poço da 011a, 
onde se conservou até ser levada em 1818 para o adro da egreja de 
Santo Kstevam de Briteiros, d'onde o sr. Martins Sarmento conseguiu 
fazel-a conduzir para o cume da montanha. É de granito amplibolico 
abundante nai|uelles sítios, apresentando a forma de uma mitra com 
o ápice quebrado; mede em altura uns três metros e na sua maior 
largura pouco mais. A face principal é coberta de lavores toscos mas 
regulares, lendo aos lados diias faxas de ornatos, que a alguém pare- 
cei'am letras numeraes, apezar de reproduzidos no lado opposto, como 
aconttíce com os outros desenhos. 

Na parte postei ior da pedra e em cima, á esquerda, está uma espécie 
de inonogramnia que se não ponde ainda decifrar. Julgamos ser esta 
grande pedra um monumento tumular da epocha romano-bysantína, 
tendo a posição vertical, servindo o arco em aberto para a íntroduc- 
ção dos restos mortaes, e os reservatórios e conductos praticados no 
bordo para se deitarem os líquidos das libações. 

Além d'um cíppo que tem em uma das faces os caracteres que se 
vêem na est. viiin." 1, existem mais duas inscripções lapidares romã- 



E HISTÓRICA 43 



nas, uma muito apagada que parece formada por abreviaturas que se 
não tem podido ler, e a outra tem escriplo : 

c O R O ^E R I 
C M.I 
D o M U S • 

A pedra eslá mutilada e tem por baixo e ao lado ornamentaçno. 

nome de Cauiali parece pertencer a alguma faunlia iuiporlante 
da Galicia ; encoutra-se em vários pedaços de cerâmica achados nas 
ruinas. por a seguinte forma c AA.. - C AA.. l, em outros vôem-se as 
letras Ãc ou /RG (argilla?) e. um fragmento tem /RG C AA_> (argilla 
de Camali ?). 

Na supeificie de um penedo e de varias pedras acliam-se grava- 
dos os symbolos e letras que vão reproduzidos na est. vui n.°* 2 — 7. 

No logar de Viulió, pi'oximo á villa de Chaves descobriu-se no sé- 
culo passado uma lapide designando um Camalus, fdlio de Bruno, e 
em Friães, termo de Montalegre, existia um cippo com a iuscripção Ca- 
malus Mihois LiiiuHs. . . ^ Na inscripção, que appareceu em S. Mar- 
tinho de Diime, vem mencionado outro Camalu filho de Melgaeco '^. 

Os fragmentos de pedra lavrada tirados do entulho pareceram-me 
indicar epochas distinctas; assim as duas figuras escuipturadas, a que 
Contador de Argole chamou Salyros, e a estatua de mulher com os 
braços unidos ao corpo, são similhantes na matéria e no trabalho ás 
duas estatuas de granito existentes no jardim dAjuda, encontradas 
próximo a Moiílalegie, ([ue pela rudeza das formas teem feito sus- 
peitar origem celta, mas confrontadas com outra idêntica, que se con- 
serva em casa da sr.^ Cazado em Vianna do Castello, tendo nas co- 
xas uma inscripção fiuieraria latina, levaram o sr. Hiibner, em pre- 
sença de taes caracteres, a marcar-lhe a sua fabrica no primeiro sé- 
culo do chrisliauismo. Na Galliza tem-se encontrado outras similhan- 
tes mas sem inscripção. 

As pedras lavradas revelam cerlo progresso artístico e são da 
maior impuilaiicia para a historia dos povos que alli habitaram. Não 
se podem adinitlir como ornamentos dos edifícios simples e acanhados 
até hoje descobertos, e inculcam pertencer a algum monumento sum- 
ptuoso, talvez templo. 

A inlluencia bysantina nas terras ao norte de Portugal, durante a 
monarchia wisigoda nas llespanhas, é saliente pelo grande numero de 
cidades que alli cunharam moeda, ficando nas terras do sul, como 
excepção, Évora. 

1 Contador de Argole — Mem. do arcebispado de Braga, tom. 1." til. 1.° pag. 
294 e tom. 2." pag. 507. 

2 E. liiibiier — Noticias archeologicas de Portugal, trad. de A. Soromenho, 
pag. 75. 



44 REVISTA ARCHEOLOGICA 

Em cobre e bronze acharam-se varias peças como — fibnlae, gin- 
glymi, açus comatoriae ou crinales, pedaços de torques, armillae, bra- 
cfiiales, iuaures, ele. 

Appareceram alguns instrumentos de ferro, mas muito deteriora- 
dos pela oxydação. 

Encontraram-se também bocados de vidro, e uma porção de con- 
tas de pedra verde clara, furadas e arredondadas irregularmente, que 
parecem ter servido de amuletos. 

Entre a immensidade de objectos do uso domestico e ornamentos, 
torna-se notável uma pequena cabeça, de typo egypcio, com a itifida 
de longas faxas, como se representava a deusa Isis e usavam as ves- 
taes. Os agricultores tinham o costume de suspender nas arvores pe- 
quenas cabeças parecidas com esta, acreditando que o lado do campo, 
para onde o vento as tivesse mais tempo voltadas, seria o mais pro- 
ductivo em fructos. Na cabeça encontrada na Citania falta o furo ou 
argola para se atar o fio- 

Em cerâmica achou-se immensa quantidade de bocados que mos- 
tram ter sido fabricados na roda e cozidos ao fogo. Alguns teem or- 
natos simples e outros são de barro saguntino. A maioria dos frag- 
mentos pertenciam a vasos pequenos e delgados, mas também se en- 
contram pedaços de amphoras e de telhas, tegulae e imbrices, deno- 
tando pela pequena quantidade de cacos d'estas ultimas, que nem to- 
das as casas eram cobertas de telha mas de colmo. 

Dispersas pelas minas encontram-se pequenas mós de mão, lages 
com furo, que parecem servir para rodar o espigão de porta, e uma 
pedra do comprimento de um metro e a forma mais ou menos cylin- 
drica, que se me figurava supporte de mesa ou banco. 

Da etymologia de Citania, se vem de Cinania, de Gitania ou de 
Sisania, nada posso dizer por não me julgar competente. 

No cume da montanha, junto a uma ermida de S. Romão, de con- 
strucção relativamente moderna, encontraram-se varias sepulturas á 
superfície da terra, que por um dinheiro de D. Affonso iii alU achado 
denotam ser posteriores ao reinado d'este monarcha. 

O assumpto é vasto e embaraçado, pessoa mais competente deci- 
frará estes enigmas do passado ; eu só peço : 

1.° que se tire a planta das minas hoje conhecidas por Citania, 
para se continuarem com regularidade as explorações. 

2." que se organise um mappa designando os logares com as rui- 
nas da povoação e marcadas as vias romanas. 

Estes dois trabalhos estabelecerão um systema methodico para a 
exploração e estudo. 

Concluímos prestando sincera homenagem ao sr. Dr. Martins Sar- 
mento pela muita dedicação e superior intelligencia com que tem di- 



E HISTÓRICA 45 



rigido a exploração, e pela explendida maneira como inaugurou em 
Portugal as conferencias archeologicas, adquirindo jús á considera- 
ção puíjlica por Ião relevantes serviços prestados á sciencia e ao paiz. 
9 de abril de 1877. i 

A. C. Teixeira de Aragão. 



OS ESTUDOS ARCHEOLOGICOS EM PORTUGAL 

Nada mais natural, e attraclivo até, para os portuguezes, depois 
de haverem adquirido o dominio pacifico do seu bello e glorioso paiz, 
que o dedicareni-se ao exame de tantos vestígios de antiguidade, que 
alastram o solo d"esse mesmo paiz a que ficaram chamando sen pelo 
direito de conijuisla a injustos, além de bárbaros, invasores. O instin- 
cto da curiosidade innocente devia leval-os a recompor a historia e geo- 
graphia da Lusitânia, de que Portugal ficava sendo representante nato : 
devia estimulal-os fortemente a emprehender esse estudo, porque 
era também honra sua crear uma historia antiga e nobilitante do seu 
torrão, fazendo-a remontar até os Phenicios. . . ; e para isso não po- 
dia jamais omitlir-se a investigação dos monumentos derrocados, es- 
tatuas mutiladas, columnas partidas, capiteis desfeitos, estradas aban- 
donadas ou gastas, moedas soterradas, etc. 

Mas a cultura intellectual dos portuguezes, mais aífeilos então a 
manejar as armas do que a lidar com as letras, estava mui longe de 
prestar o devido apreço aos 3studos archeologicos. Pode-se dizer 
com verdade que antes do eborense xVndré de Rezende ninguém fez 
caso do estudo de nossas antigualhas, salvo com o fim de lhes apro- 
veitar os materiaes para construcções novas. 

Foi com eíTeito no meio do século xvi que em Portugal se encetou 
o estudo da archeologia, percorrendo o mencionado Rezende o nosso 
paiz para resenhar vestigios, tirar copias de inscripções, recolher la- 
pides e moedas, e confrontar depois esses vestígios com as geogra- 
phiaS;, historias e itenerarios romanos: donde resultou a sua obra — 
De antlquitatibus Lusitaniae em quatro livros. 

Fez muito Rezende num paiz, em que nada se linha ainda escri- 
pto sobre a matéria subjeita ; mas a sua obra não podia deixar de ficar 
imperfeita, como obra de ensaio, que não tinha precedentes a dar-lhe 
auxilio. 

Fr. Bernardo de Brito na Mnnarchia Lusitana, o cónego d'Evo- 
ra Gaspar Barreiros na Corographia d' alguns lagares, e poucos mais 
se deixaram então abalar da iniciativa de Rezende; mas eis que adeca- 

1 Foi nesta data escripto o artigo do distincto numismata, mas é pela primeira 
vez hoje publicado. Não era escusada esta advertência, por só se inserirem artigos 
inéditos n« IUvista Archeologica e Histórica — N. da R. 



46 REVISTA ARCHEOLOGICA 

dencia das leiras, que não podia deixar de se derivar do perdimento 
da nossa autonomia politica, paralysa aquelles primeiros impulsos 
dados ao movimento dos espíritos para se estudarem na arclieologia os 
nossos antigos tempos. Só depois de restaurada a monarcliia portu- 
gueza e já bem consolidada no tempo d'el-rei D. João v, resurgiram 
os estudos históricos e arclieologicos, então protegidos pelos poderes 
públicos. Este rei inslitue a Academia Real da Historia Portugueza, 
para ajudar a qual promulga a lei de 28 d'agosto de '17!21, em que 
estatúe o seguinte : 

«Hei por bem que daqui em diante nenhuma pessoa de qualquer 
estado, qualidade e condição que seja, desfaça ou destrua em todo, 
nem em parte, quahpier edifício que mostre sor d'aquelle tempo (dos 
phenicios, gregos. ronuDios, etc.) ainda que em parte esteja arruinado, 
e da mesma sorte as estatuas, mármores e cippos, em (|ue estiveram 
insculpidas figuras, ou tiverem letreiros Phenicios, Gregos, Romanos, 
Gothicos e Arábicos, ou laminas, ou chapas de qualquer metal que 
contiverem os dictos letreiros ou caracteres; como outro sim medalhas 
ou moedas, que mostrarem ser d'aquelles tempos, nem dos inferiores 
até o reinado do Senhor Rei D. Sebastião; nem encubram ou occultem 
alguma das sobredlctas cousas; e encarrego as Gamaras das Cidades 
e Villas d'este Reino tenham, muito particular cuidado em conservar 
e guardar todas as antiguidades sobredictas e de similhante qualidade 
que houver ao presente ou ao deante se descobrirem; e logo que se 
achar ou descobrir alguma de novo, darão conta ao Secretario da dieta 
Academia Real para eíle a communicar ao Director e Censores e mais 
Académicos, etc.)» 

Esta lei (posto que em vigor ainda hoje, segundo creio) não tem 
sido observada pelas Gamaras e pessoas particulares ; se o fora, de 
certo que a historia do nosso paiz nos tempos da civilisação romana 
estaria muito melhorada: é comtudo irrecusável o louvor ao rei que 
a sanccionoU;, porque mostrou os seus bons desejos nesta matéria por 
palavras e por obras. 

Gomquanto porém se finasse muito joven a Academia fícal da His- 
toria Porlugneza. è fora de duvida que ella resurgiu melhorada na 
Academia íieal das Sciencias em tempo da Rainha D. Maiia I, e que 
esta corporação tem feito muito, ainda que muito lhe resta a fazer, na 
matéria em questão. As suas Memorias são um grande repositório de 
estudos archeologios e teem estimulado os extranhos áquelle vene- 
rando grémio scientifico e litterario — a emprehender similhanles es- 
tudos. 

É verdade que muitos olham ainda hoje com desdém para as an- 
tignalhas e para quem faz caso delias ; mas outros, melhor avisados, 
lhes dão o devido apreço, considerando que são — monumentos indis- 



E HISTÓRICA 47 



pensáveis parn se poder escrever coíii segiirançn a historia da nossa 
antiga civilisaçiio. Historia sem inonmnenlos é como contahilidade sem 
documentos. Itegistrem-se pois aquelles; sejam analysados e devi- 
damente apreciados á Inz de uma critica racional; e com isso adean- 
taremos o conhecimento da primeira colonisação do nosso paiz. 

Para esta empreza minto relevava o apparecimento de uma revis- 
ta SNÍ ijenrris, o (]ue somente agoia tem logar: é a fíi'risl(i Arr/icolof/ica 
e Uhiorka. Mais vale tarde do (jne nnnca. Ella, como empreza aces- 
sível a todos os escriptores doutos, facilitará a puhlicação de trabalhos 
novos, como os que em nossos dias publicou o malogrado dr. Augus- 
to Filippe Simões, como tem p(il)licadoo auclor dos Esimlos históricos e 
arclipolofficos de I*ortngal, o sr. Ignacio de Vilhena Barbosa, e outros 
eruditos contemporâneos. 

Os srs. Párochos poderiam, se quizessem. cooperar muito nesta 
obra, resenhendo cada um os monumentos antigos das localidades em 
que vivem, e assim poderia fazer-se uma idéa exacta do (]ue já exis- 
tiu de notável entre nós e ainda existe digno de contemplar-se. 

Saúdo pois com prazer esta publicação, desejando muito que ella 
viva e prospere progressivamente, sendo archivo de quantas antiguidades 
se descubram neste reino, e dando cabimento ás descobertas realisadas 
no estrangeiro, que por ahi costumam jazer confundidas nos jornaes 
diários, que se occupam de mil cousas. 

Bencatel, 23 de janeiro de 1887. 

P." Joaquim J. da R. Espanca. 



EPIGRAPHIA 

Devo á obsequiosidade do sr. Estacio da Veiga o poder inserir aqui 
uma inscripção mutilada sim mas simimamente importante. O distiii- 
cto archeologo levou a sua amabilidade até procurar-me para me dar 
conhecimento delia, mostrando-me um calco que obteve, destinado ao 
nosso communi amigo dr. HiJbner. 

A lapide calcarea, que conttMU a inscripção, existe em Faro, no Lar- 
go da Sé, a uns três metros do chão, servindo de cunhal no angulo 
nordeste ao fundo externo da capella do Santíssimo, onde o sr. Veiga 
a descobriu em 1883. Altura 0,"';}8, largura 0,"'48. As lettras muito 
imperfeitas e pouco profundas parecem da decadência. 

AVGG///// .'////// 

AVR • VRSINVS • VPP.- 

PROVINC LVSITANIf 

Nesta inscripção. provavelmente honorifica, parece ver-se na primeira 



48 REVISTA ARCHEOLOGICA 

linha vesligio dum segundo G, que me traz á ideia a formula pro ma- 
gnifu-enda savculi dd. nu. Aiigg. e similliautes ; pelo calco não pude 
Verificar se o resto da primeira linha loi ou não martellado; mas pare- 
ceu-me ver vestigios duma lellra (a parte inferior dumvou d'umN). 
Na segunda linhali dislinclamente A V R • VRSINVS • v p p • Não 
notei signal de lellra antes de Aiir. ; e, comquanto o calco o não ac- 
ciise com [)erfeição, creio que depois do segundo p estaria um ponto 
ou um <i>, porém não lellra alguma. Na terceira linha perfeitamente se 
lè Pivvinc{iae) Lusilcude. A ullima leltia mais pequena occupa aparte 
superior da linha ; e por baixo delia notei um traço que pode ser ou 
a primeira haste d'um A, ou parte dum ponto triangular. No primei- 
ro caso, estaria a palavra escripta com o diphtongo ae, que o lapi- 
cida dis[)Ozera verlicalmente por falta de espaço; no segundo, teria 
empregado o simples e=ae, o que é frequentissimo. Inclino-me ao 
primeiro caso. 

Curiosa e importante pela menção da província da Lusitânia, é-o 
lambem pelo nome do dedicador. 

O nome de Ursino só se encontra na península (vol. ii do C. 1. L.) 
numa inscripção de Ba reino, Sul. Ursifw (n.° 4587); e p feminino cor- 
respondente numa de Liria, Lie. Ursimi (n.° 3805). É menos raro o 
nomeUrsiano. Em uma inscripção de Itálica appareceum Aurélio Ursiano 
n{iro) eÇgrcgio) (n.° 1 1 15); e em duas de Emérita um C. Júlio Ursiano 
(n.° 54o) e um L. Mar. Ursiano (n.° 578). Pode succeder que o nome 
da inscripção de Faro fosse Ursiono, estando conjunclo o A com o N. 
As leltras v P P que terminam a segunda linha creio deverem ser 
interpretadas formando sentido com as palavras da ultima linha ; vindo 
pois a ser esta a leitura : Aur{dius) Ursitms ou Ursiamis v{ir) ^{erfe- 
clissimus) piraeses) prorinc{iae) LusHmii[a]e. Esta formula assigna á 
inscripção uma epoclia posterior a Constantino Magno (Cf. C. L L. 
vol n, "n.°' 4104 — 4108). Uma inscripção de Emérita (n." 481) do anuo 

de 315 contém a menção G- svLPicivs s- vpppl cJp; 

outra de Tarragona (n.° 4104) do anno de 288 a 289 diz: 

POSTVM-LVPERCVS-V-PERF 
PRAES- PROV • HISP • CIT 
etc. 

Espero opportunamente dizer alguma coisa mais acerca d'este mo- 
numento infelizmente incompleto. 

Borges de Figueuíedo. 



E HISTÓRICA 49 



LA GEOGRAFÍA ÁKABE DE PORTUGAL 

Sin menospreciíir los trabajos de D. José António Conde, que no 
luvo á su alcance mas que la edición dei compendio dei Edrisi, ni 
siquiera la traducción de la obra completa de este geógrafo, lleva- 
da á cabo por el Gaballero Jaubert, es lo cierto que la geografia ára- 
be de nneslra península no se ha podido esludiar de una manera for- 
mal hasta que el inolvidable Dozy publico en 180G su Descripiioíi de 
VAfrique et de VEspagm, con el texto original y la traducción copio- 
samente anotada. No es esta la única obra que se conoce, y aiin que 
se ha impreso, de geografia árabe, pêro es sin disputa la mas com- 
pleta y mcjor redaclada, y debe ser por eso el principio y funda- 
mento de lodo trabajo crítico que dirija a ilustrar en este sentido la 
historia de Espana y de Portugal. Por eso la tomamos como punto 
de partida de los estúdios de geografia árabe, que como ensayo so- 
metemos ai mas ilustrado juicio de los eruditos portugueses. 

Según el sistema geográfico dei Edrisi, el território de la actual 
nación portuguesa queda dividido en dos de los grandes climas geo- 
gráficos, el cuarto y el quinto, separados proximamente por las aguas 
dei Mondego. Solo lo perteneciente ai clima cuarto abraza la publica- 
ción de Dozy, y esa extensión se reparte en três distritos ó climas 
provinciales. 

El mas meridional abraza todo el Algarbe, con la parte Sur dei 
Alentejo, y coincide con el término de Beja dei moro Rasis, dividido 
por Yacut en los dos de Beja y Osonoba. Dozy lee, aunqne con duda, 
el nombre de esta província Alfacr {f^^ ), que significa ;>oíy;Tia, pêro 
Conde y Jaubert enlienden y escriben Alfúgar (y^^ ) 6 sea las Des- 
embocaduras, y cuadra bien con la situación entre las bocas dei Gua- 
diana y la dei Sado en la ria de Setúbal. Edrisi menciona de este cli- 
ma las ciudades de Mértola ( i-^jl-^ ), Silves ( '--Át, ), Cacella ( i-lí=^ ), 
Tavira ( '^j^}. Santa Maria de Algarbe ( vi;*^' hj^ c,-^ ) que es 
Faro, y Sagres ( (J^y^ )• Cita también el Cabo dei Oeste, ó de S. 
Vicente {^j^^ òj^) ^^"^ ^^ famosa Iglesia dei Cuervo ( J^--r^ 
>^'^^^i-^^ ), donde persevero el culto Cristiano durante todo el tiempo de 
la dominación muslimica. 

Rev. Arch. e Hist., I, N." 4 — Abril 1887. 4 



30 EEVISTA ARCHEOLOGICA 

El puerlo que se denomina Garganta dei Bincôn ( '^_J^^ v^aU. ), 
a 20 millas de Silves y 18 de Sagres, es sin diida la ria de Lagos, y 
creo que si se lee Asinesin el território 'que Dozy llama de ach-Chin- 
chin ( ijr^^^ ), donde se haliaba Silves, no cabra duda de que debe 
interprelarse como Tierra de los de Sines (mejor dicho ^^;^--iu;iJ i ), 
descendientes de los antiguos Cynesios. 

Al Norte y por la parle interior corria el clima dei Alcázar, que 
ocupaba gran parle dei Alentejo, y algo de la Beira y la Extremadu- 
ra. En ese clima, que corresponde ai distrito de Badajoz de Yacut y 
à los de Badajoz y Exilania de Uasis, tenia Portugal las cindades de 
Évora ( 2j^L) ó '^jj^, ), Yelves ( ^iX ) y el Alcázar de Abu Déniz 
(^'b ^1 j^ ) que es Alcácer do Sal. Si el autor no se ha equi- 
vocado ai colocar entre Alcântara y Saptarén, sobre el rio Tajo, los 
Puentecillos de Mahmud ( ^j^ ^J^ ), parece que este punto deberia 
corresponder á Abrantes, único donde desde liempo inmemorial se sa- 
be que haya habido puenle. Mas si se considera que la palabra cân- 
tara significa también para nuestro geógrafo (pag. 166 dei texto ára- 
be) murallòn ó arrecife, podrá mas bien imaginarse que se habla dei 
embarcadero de Villa velha de Ródão, en el camino de Niza á Cas- 
tello Branco. 

Vallada, en el Uano de Azambuja, daba nombre á otro clima 
( iljbU! ) que coincidia con los términos de Lisboa y Santarén de Ra- 
sis. Además de Lisboa ( '^j^^ ) y Santarén ( ^ji,/^ ) ya dichas, 
Edrisi menciona en esta comarca á Cintra ( »y^ ) y Almada ( ^j'^=^ 
jj*i! ) é indirectamente à Setúbal ai hablar de su rio (jiJ^ j^ )• 

Los orientalistas portugueses que quieran profundizar la parte 
correspondiente ai quinto clima geográfico pueden consultar el texto 
árabe que en 1865 publique en el Bolelin de la Sociedad Geográfica 
de Madrid (T. 18, p. 229). Alli veràn que el território português cora- 
prendido en este clima se divide en otras três porciones. La primera 
va desde el Mondego ( ^^-^-^ ) ai Vouga, que denomma rio de Botão 
(y^ji ), confundiendo la corriente principal con la de su afluente el 
Sertoma, cosa no poço frecuenle en autores antiguos; y es de notar 
además que Edrisi tiene por sistema titular los rios dei N. de Espana 



E HISTÓRICA 51 



por alguna localidad de su nacimiento. Nombra por aqui la ciudad de 
Coimbra ( ^j^ ) y el caslillo de Montemor o velho (jj^ w>^ ). El 
teri ilorio entro el Vouga y el Duero ( »;Jj-> ) es para el autor propia- 
mente ia lierra de Portugal ( J^'^.-» j^j^ ) y en ella debe caer el des- 
conocido (jLx^ ), que se ha querido ideutificar a Yiseo, alterando sin 
fundamento los puntos diacriticos, y que en mi sentir ha de ser No- 
jões, antes Nojães, aldea de la feligresia de Real, concejo de Castello 
de Paiva, junto ai Duero, donde hay muchos vestígios antiguos. 

Por ultimo viene el espacio entre el Duero y el Mino (y^* ), en 
cuya corriente hay una islã con su castillo, que aunque se escribe 
Í9^^' , creo que por las razones que muy pronto expondré debe 
leerse l'i^j^\ , y es la Boega, todo ello considerado enlonces como 
parte de Gahcia. 

Lo mas oscuro de la geografia árabe portuguesa es el itinerário 
de Coimbra à Santiago de Compostela. Para entenderlo creo preciso 
suponer que Edrisi va desde Coimbra à buscar un camino muy fre- 
cuentado, el cual desde Lisboa se dirigia à Santiago por Viseo y Bra- 
ga, y entonces hallo el primer descanso ( -vM ^n Avo, à 45 quilóme- 
tros ai N. E. de Coimbra. La otra jornada ( »^j ó s^j ) la en- 
cuentro en San Miguel de Outeiro, à 10 quilómetros ai 0. de Viseo, 
en el camino de S. Pedro do Sul. Otra jornada mas se pone hasta 
empezar la tierra propia de Portugal, cuyo âmbito da otro dia de via- 
je, ai cabo dei cual se pasa en barcas el Duero frente à una aldea 
( jli xjjj hjs ) que reduzco à Vdiaboa de Quires, a! E. de Penafiel. 
Después dice el texto que se echan dos jornadas hasta el castillo de 
i^ljjí en el Mino y otras dos desde alli à Tuy. Como esto es ab- 
surdo, creo que hay aqui una equivocación procedente de la erudición 
clásica dei autor. El caslillo de '^^^y^^ es el de Braga, situado efe- 
ctivamente à igual distancia entre Tuy y el Duero; pêro Edrisi vió 
que Tolomeo da Ia misma latilud à Braga que à la boca dei Mino, y 
como sabia la existência de la islã Boega ( ^l^J^ ), facilmente creyó 
tener aqui una errata, y escribiendo j por j hizo una sola cosa de la 
isla y de la ciudad. 

Esto es todo lo que dei famoso geógrafo árabe se puede sacar res- 



52 REVISTA ARCHEOLOGICA 

pecto à lo que hoy comprende Ia nación portuguesa, y ai darlo ai pú- 
blico en este ilustrado periódico me propongo solamente iniciar entre 
los doctos de ese pais una discusión crítica que ilustre tan importante 
asunto. 

Madrid 28 de febrero de 1887. 

Eduardo Saavedra. 

ARA ROMANA DESCOBERTA EM CASTRO DAIRE 

Entre os mais interessantes objectos que possue o Museu do Car- 
mo, de Lisboa, tem um dos primeiros logares uma ara portátil roma- 
na, descoberta em 1877, quando se procedia a escavações para as- 
sentamento dos alicerces d uma ponte sobre o rio Pavia, em Castro 
Daire. 

Esta pequena ara, que mede de altura 0'",30^ de largura O™, 12, e 
de espessura 0"\10, tem apenas duas faces despidas de gravuras: são 
a posterior e inferior. 

Na parte superior tem o focus, ou cavidade onde se queimavam os 
perfumes e se faziam as libações; mas não tem o conducto por onde 
se escoavam os líquidos. Na face esquerda tem gravadas, dispostas 
verticalmente em duas linhas, as lettras 

A 
pR 

ae 

T 

com.o melhor se pôde vêr na estampa ix. Na face direita distingue-se 
uma figura de homem, de lança em punho, fazendo lembrar esses sol- 
dados que se vêem nos pequenos bronzes do baixo império com a 
inscripção GLORIA EXERClTVS;na base da ara. doeste mes- 
mo lado, parece ter havido ornamentação hoje indistincta. Na face prin- 
cipal, apparece a meia altura do monumento, e em grosseiro relevo, 
um quadrúpede cuja forma mal definida deixa incerteza sobre se hou- 
ve intenção de representar os caracteres distinclivos da masculinidade 
ou os da maternidade; parece todavia ter maior grau de probabilida- 
de o primeiro caso. Por cima d'esta figura, em gravura como tudo o 
mais, lè-se v O T v, e por baixo a R o L ; finalmente na base do mo- 
numento e ainda na face anterior ha as lettras a S . 

A forma e proporções da ara são elegantes, sem sairem da vul- 
garidade. Nola-se, porém, no monumento uma grande rudeza, assim 
na esciilptura como no traçado das lettras, que são pouco profundas; 
nota-se além d'isso alguma incúria na symetria. 



E HISTÓRICA 



O quadrúpede não está bem dislincto (e parece nunca ter sido bera 
definido) para que se possa aííirmar sem ponderações a sua espécie ; 
todavia concorrem nelle traços caracteristicos, que mais o approximam 
do poi'CO ou do javali, do que doutro qualquer animal. O conjunclo 
da figura, a configuração da cabeça e cauda, parece-me que excluem 
toda a dúvida. 

Por duas vezes appareceu já em publicações porluguezas o dese- 
nho d'esta ara, acompanhado de interpretações de suas figuras e in- 
scripções: primeiramente no Boletim da Associação dos Arc/iiíeclos Ci- 
vis e Arc/icol.of/os Porlugwzcs (série 2.*, t. iii, n.° 4); em segundo lo- 
gar no periodico.de Vizeu O Liberal (n.° 2;j, de 3 de outubro de 1885). 
Ambos os desenhos estão imperfeitos; porque não conservam ao mo- 
numento as proporções devidas, e dão incorrectamente as figuras e 
as inscripções. 

O auctor do artigo do Boletim reproduz as seguintes leituras de 
dois individuos: 

1.*— VoT(um) U(ovit) Ard... a s(e) apr(o) AT(tacto). — Fez este 
voto Ardil . . . por ter alcançado (morto) um javali. 

2.^ — APR(i) A(nnuo) T(empore) voTu(m) ARD(enti) A(nimo) s(olulem). 
— Voto de um javali no tempo de um anno, cumprido com animo ar- 
dente. 

Estas interpretações que não resistem á critica, comquanto seja 
admissível haver na inscripção lateral allusão ao javali, foram feitas 
na supposição de que na mesma inscripção não havia a leltra e (que, 
apezar de bem visível, ninguém leu antes de mim, que eu saiba), e de 
que a segunda palavra da face principal era ARD... 

O artigo do Liberal reproduz as mesmas incorrecções, ficando as- 
sim prejudicadas as diversas leituras que propõe (quanto á face ante- 
rior: Voto Ardiae Junonis (sic). Voto à cidade de Ardea, etc; e quanto 
à face lateral: A.{ram) p R{opriam) A T{que). . ., etc.) 

Feita a descripção do monumento e apontadas as interpretações 
que tèem dado aos lettreiros — ^ interpretações inacceitaveis perante as 
regras da epigrapliia, — passo a apresentar algumas considerações que 
me suggere o atlento exame da ara. 

O porco era sacrificado pelos povos aryanos, que o consideravam 
como symbolo da fecundidade. Este animal apparece frequentemente 
mencionado entre as victimas consagradas ás divindades, principal- 
mente ás consideradas como tutelares da maternidade, dos animaes e 
da fecundidade d'estes. É bem conhecido o sacrificio romano de pu- 
rificação, designado pelo nome de suovctaurilia, em que eram immo- 
lados um porco, um carneiro e um toiro. Abundam nos escriptores 
gregos e latinos as menções do sacrificio do porco. Na Iliada, d'entre 



54 REVISTA ARCHEOLOGICA 

outras passagens, citarei o sacrifício d'ura javali em honra de Júpiter 
e de Apollo (//. xix. 197): 

KcCTUpOV Tap.SctV Au t" 'Hs)dr>) T£. 

Na Odtjsséa fala-se da immoiação d'nma porca gorda de cinco an- 
nos {0(h/s. XIV, 419): 

Ot õ' vv eii-nyov (xylx 77Íwva Tcevraé-criçov. 

A Maia sacrificava-se uma porca prenhe, como refere Macrobio: 
«Sus praegnans mactabatur Maiae» {Sat. i). Aos Lares menciona Ho- 
rácio um sacrifício, em que apparece o incenso, os fructos e a porca 
{Carm. ni, 24): 

Nascente luna, riistica Philide, 
Si ttmre placaris, et liorna 
Fruge Lares, avidaqae porca . . . 

O mesmo poeta, na ode 23 do mesmo Mvro, allnde ao sacrifício do 
varrasco; e noutra parte aponta o sacrifício do porco feito á Terra, 
com a ideia da fecundidade {Epist. ii, 1): 

Tellurem porco, sylvarem lacte piabant. 

Ovidio, que nos diz muito acerca das victimas consagradas aos 
deuses, nas Metamorphoses (I. xv), fala noutra obra da immoiação da 
porca a Ceres {Fast. i) : 

Prima Ceres gravidae gavisa est sanguine porcae, 
Ulta suas inerita caede nocentis opes. 

Phornuto (Annaeus Cornutus), no commentario de natura deortim, 
é explicito nas razões d'esta ultima consagração (^/í? CcrenO: (^ycuai <5'uç 
èyy.-jlj.cvxz A-/iu.-/,Tcpt, tz/xw ctx.stMç. xò TroÀúycvov /.at éjaú//,-/)rTCV xat TcXsatpspov 
T:cc^iG-y.v-:z;: «Immolam muito convenientemente a Ceres porcas pre- 
nhes, por causa da fertilidade da terra, fácil producção, e complecta 
madureza». 

A porca, no dizer de Varrão e de A. Gellio, era \'\cl\mt\ prapcida- 
nea, isto é, a que se sacrificava primeiro que as outras, ou a (|ue, an- 
tes da colheita dos fructos devia iinmolar quem não tinha prestado to- 
das as honras fúnebres a alguém da sua fainilia; diz Gellio (Noct. Alt., 
ív, 6): «Porca etiam praecidanea appellata, quam piaculi gratia, ante 
fruges novas captas immolari Cereri mos fuil, si qui familiam funes- 
tam aut non purgaverant, aut aliter eam rem, quam oportuerat, pro- 
curaverant». 

Deixando de produzir mais citações litterarias, por não cançar o 



E HISTÓRICA 35 



leitor, passo aos monumentos epigraphicos em qne se faz menção do 
sacníicio do porco, os qnnns ahiiiidain em quasi lodos os volumes do 
Corpus Inscripiionum Lalinanim. Mas, para não alongar este artigo, 
adduzirei aqui unicamente os que se encontram no vol. ii, relativo á 
península, e que são os seguintes: 

Numa inscnpção (C. /. L., ii. n." 3820), é a porca consagrada á 
deusa tutelar da gravidez e do parto: 

DIANA E MÁXIMA E 
VACCAM OVEM ALBAM PORCAM 



Noutra descoberta em Oh)ilcn (Porcnna) é mencionado o sacrifício 
d'um javali e de trinta porcos ao génio do município {C. 1. L., ii, 
n.° 2120): 

c • cornelivs • g • f 
c • n ■ gal • gaeso • aed 
flamen- iivir- mv 
nigipípontifigI 
5 g • gornel- g aes0 

F • SÁGERDOS 

genímvnigipI 
scrofam • gvm 

P O R G í S • T R I G l N 
IO T A • I M P E N S A • P S O 
R V M ci) D • D 
PONTIFEX 



«O nome moderno de Porcnna (pondera judiciosamente o meu 
amigo Adolpho Coelho) parece relacionar-se com um culto em que o 
porco tinha muita importância, ou memorar uma industria local, se 
não se prefere considerai o como uma alteração de Obokona, Bolcona, 
devida a uma falsa analoi-ía». ' 

Note-se mais com respeito particularmente ao javali que elle foi o 
emblema da nacionalidade gaiileza, durante todo o período chamado 
drnídico; collocavam-no no alto das signas militares. O mesmo suc- 
cedia entre os Germanos, os Illyríos e os Celtiberos ^. 

1 Ad. Coelho, Sur les cultes ■péninsulaires antérieurs à la dominaíion romaine 
no Compte-rendu de la 9." sess. dn, Coiigr. intern. d'anthr. et d'arch. préhist. en 
1880. 

2 Vid. Delgado, Monedas autónomas de Espana. 



56 REVISTA ARCHEOLOGICA 

Entre as tradições populares muitas ha relativas ao porco *, as quaes 
demonstram a sua importância cultual em outras épocas de que nos 
restam documentos preciosos; em Sabroso encontraram-se estatuas de 
porcos, como em Segóvia e noutras partes da península. Em Murça, 
no adro duma egreja existe uma estatua de anmial suino, que é bem 
conhecida pelo nome de Porca de Murça. Em Bragança, a base do pe- 
lourinho é também uma estatua de porco, de dois metros de compri- 
mento e sessenta e cinco centímetros de largura ao meio do corpo. 
Ainda ha poucos dias tive occasião de examinar esta ultima, notando- 
Ihe na parte anterior da cabeça uma enorme depressão ou cavidade, 
cuja serventia não sei explicar. Vi também, mas de noite e muito ra- 
pidamente a porca de Murça, não podendo por isso assegurar se tem 
egual cavidade na fronte; parece-me que sim. 

Não admira pois que na ara descoberta em Castro Daire appareça 
a figura do porco, que alli foi gravada em virtude da superstição ou 
crença de propiciar a divindade a quem o monumento foi dedicado. 
O figurar no monumento o javardo não implica necessariamente (co- 
mo se tem julgado) menção de lucta com aquelle animal. 

A leitura da inscripção da face principal, que preoccupou os que 
têem descripto o monumento, é fácil em meu intender. Leio: Votu{m) 
Arol. Aíra) S{alulis). Voto feito a Arol. . . Ara de Salvação. 

Arol... é certamente um nome de divindade peninsular a nós 
desconhecida, como tantas outras mencionadas em inscripções, e 
que se podem vèr no Corpus. A terceira lettra doesta palavra tem 
sido considerada um d; e na verdade é muito pouco curva na parte 
esquerda, parecendo effecti vãmente a haste vertical do D. Apezar do 
detido exame feito no original e em fidelíssimos calcos tirados por mim 
em chumbo e papel, não posso decidir-me abertamente pelo D ou pelo 
O. Todavia, considerando bem quanta a rudeza da escriptura, ponde- 
rando que a lettra seguinte é sem duvida um L fazendo com todas as 
probabilidades parte integrante da palavra, e que por tanto daria (no 
caso de d) a ligação descommunal d l, inadmissível sem similar, es- 
tou convencido, em quanto não apparecer exemplo com que se com- 
pare, de que a palavra é Arol. . . e não Ardi. Os que tiverem relu- 
ctancia em acceitar esta leitura, por causa da incorrecta forma do o, 
6 adduzirem para comparação o redondo o de v O T v, ponham em 
parallelo os dois v v d'esta ultima palavra, os dois A A (um sem tra- 
vessa), e attenlem na configuração geral das lettras, o que tudo lhes 
dirá que, sem termo de comparação, não se pode decidir se o abri- 
dor quiz representar o D ou o o. 

Quanto á inscripção lateral, direi que é para mim um perfeito 
enigma. Na supposição de que a ara fora effectivamente dedicada a 

1 Cf. L. de Vasconcellos, Tradições populares de Portugal, e Ad. Coellio, Re- 
vista de Etimologia. 



E HISTÓRICA o7 



uma divindade em consequência do [)erigo que alguém correra na 
caça ou encontro d'um javali (jue conseguira matar, occorreu-ine que 
a leitura seiúa A P k A !•: • 'lX.s7/y;r/-,s7t'.sj ; mas no estado actual do meu 
estudo também considero de todo o ponto inadmissivel tal interpreta- 
ção. Antes me inclino, por motivo de exemplos, a que algumas d'a(piel- 
las leltras (senão todas) são as iniciacs dos nomes do dedicador da 
ara. Aijuellas seis leltras prestam-se a muitas combinações e irUer- 
pretações, d"entre as quaes raras serão acceitaveis. E caso de repetir: 
«posso dizer o que não é; mas não posso dizer o que é». 

O que torna mais interessante este pequeno momimento, além do 
nome de divindade nelle mencionado, é o ser mais um documento re- 
lativo á importância cultual do porco entre alguns dos antigos babi- 
tanles da peninsúla pyrenaica. 

Março 1887. 

BOUGES DE FlGLi:UUiDO. 



NUMISMÁTICA PORTUGUEZA 
D. Sauclio II 

Não está ainda hoje averiguado nem é muito provável que com 
precisão se possa determinar no futuro, qual foi o systema monetário 
e quaes as vaiiedades de moeda que foram cunhadas no reinado do 
infeliz monarcha D. Sancho II, depois dos incansáveis exforços sem re- 
sultado ellicaz feitos pelo sr. Alexandre Herculano, nas suas cuidado- 
sas investigações para a Historia de Porlugal. e das pesquizas feitas 
anteriormente por Viterbo para o seu Elucidário. 

Ambos referem documentos e leis onde vêem mencionados os no- 
mes de algumas moedas correntes neste reinado, mas todos estes 
subsidies são insuíTicientes para se formar um critério exacto das moe- 
das fabricadas e do systema monetário de Portugal desde [•2.XÍ até 
1248 anuo em que, exilado em Toledo, falleceu D. Sanlio II. 

Sabe-se que D. Aífonso I ou por gratidão ao metropolitano de 
Braga, que lhe prestou auxilio na guerra contra sua mãe D. Thereza 
ou para conquistar as boas graças e favor do clero, que então coroava 
e deslhronava os monarchas, D. Alfonso I concedeu á Sé metropolitana 
de Braga, o privilegio perpetuo, da fabricação de moeda, e dos respe- 
ctivos proventos de senhoriagem, no anuo de 1128. Comtudo, parece 
que D. Aífonso lambem mandou cunhar moedas apezar de ter, segun- 
do Viterbo, abdicado aquelle direito na Sé de Braga. 

Leva-nos a esta supposição a variedade de moedas com o seu nome, 
e que pela fabricação não podem ser de nenhum dos Affonsos seus 
descendentes. 



58 REVISTA ARCHEOLOGICA 



Segundo diz Vilerbo no seu Elucidário tom. 2." pag. 144 em 26 
de dezembro de 1238. chegaram a um accordo em Guimarães, sobre 
a cedência do privilegio anteriormente feito á Sé de Braga, D. San- 
cho 11. o arcebispo e o cabido d"esta Sé. 

Isto quer dizer apenas que não foi revogado o privilegio ou que, 
se o foi, D. Sancho 11 o restabeleceu. O que parece, porém, é que 
D. Sancho reagni contra a abdicação dos seus direitos sobre a fabrica- 
ção de moeda e que foi preciso o accordo de Guimarães para a Sé de 
Braga continuar no usofructo desta prebenda. Se o conservou ou res- 
tabeleceu é claro que a Sé de Braga continuou fabricando moedas. 

Não se distinguem duma maneira irrecusável os cimlios que per- 
tenceram a D. Sancho II e os que pertenceram ao seu avô D. Sancho I. 
Mas este facto ainda tira talvez a sua explicação de ter sido a mesma 
Sé de Braga que fabricou a moeda num e noutro remado, que foram 
próximos um do outro e interrompidos apenas pelos 12 ânuos do rei- 
nado de D. Affonso 11. E embora os cunhos não fossem eguaes, eram 
eguaes as legendas porque o nome do monarcha era o mesmo. 

Viterbo no tom. 1." pag. 38, 174 e 332 diz que Affonso II e D. 
Sancho 11 usaram do seu numero. Em nenhuns sellos nem moedas' 
se encontram as indicações dos números destes monarchas, o que 
ainda até certo ponto nos explica o facto de ser a Sé de Braga que 
fabricava a moeda, e que pela rotina e pela não reflexão sobre a conve- 
niência de distinguir os dois monarchas homonymos, ia apenas fazen- 
do modificações nos cunhos, augmentando o numero dos escudos de 1 
para 4 e 5, mas diminuindo-lhes os tamanhos visto conservar-se apro- 
ximadamente egual o diâmetro das moedas do mesmo nome e valor. 
Em cada novo cunho era copiada fielmente a legenda. 

É talvez por este motivo que o sr. Teixeira de Aragão, na impos- 
sibilidade de assignalar por documentos históricos as moedas que 
pertenceram a D. Sancho I e a D. Sancho 11, dá ao primeiro reinado 
as moedas que tem um só escudo grande, e ao segundo as que tem 
quatro e cinco escudeles. 

É uma maneira racional de fazer a distribuição entre os dois rei- 
nados até que um dia esie ponto, embora seja pouco provável, possa 
ser rectifii'ado por dociiiiieiitos que se encontrem e que ilhminem as 
duvidas com que luctam todos os ruunismatas na classificação de 
moedas com a legenda de D. Sancho. 

O consciencioso numismata Lopes Fernandes conheceu apenas cinco 
typos de moedas de bilhão com o nome de D. Sancho, as quaes se não 
atreveu a classificar. 

Estes cinco typos vêem descriplos pelo sr. Teixeira de Aragão na 
est. 11, tom 1.'' da sua obra (^ Descri pção geral e liisloria das moedas 
cunhadas com o nome dos reis, regerdes e governadores de Portngah, 
com os n.°^ 2 e 3 do reinado de D. Sancho I e com os n.°^ 1, 3 e 4 
do reinado de D. Sancho 11; havendo no 4." uma pequena differença 



E HISTÓRICA 39 



que consiste em ler os cinco escndeles da mnedn indicudn pelo sr. Ara- 
gão iHTia arriieila no centro de cada escndete. É até possível ()iie não 
existisse essa diíTerença e que apenas a moeda de Lopes Fernandes 
estivesse menos clara. 

Este escriptor diz qiie os dois typos que elle prinx^iro mf^nciona, 
6 que são os n."^ 2 de U. Saiiclid 1 e 1 de D. Siiiiciío 11 conldiine a 
referencia que fizemos ao livro do sr. Aragão, llie parece pertence- 
rem a U. Sancho I, por serem os lypos ujais grosseiros. 

Como os leitores poderão ver na obra do sr. Aragão este dislinc- 
to ntniiismala classificou de Sancho II ii.° 1 a moeda (|ue Lopes Fer- 
nandes attiibuia a IJ. Sancho I, e de Sancho 1 como o n." IJ a que Lo- 
pes Fernandes attribuia a Sancho IL 

Os outros Ires ty[)os rpie o sr. Aragão apresenta no reinado de 
Sancho II não foram cotdiecidos por Lopes Fernandes. 

Ucfcrimo-nos já á classificação racional feita pelo sr. Aragão at- 
tribuindo as moedas de bilhão d um escudo a D. Sancho I e as de 4 
e 5 escudetes a I). Sancho II. 

Acceitamos esta classificação, mas vamos mais longe. Para isto 
basta confrontar as moedas dos dois reinados. Estudaíido as, vè-se que 
as primeiras seriam de facto as dum escudo grande, e (|ue de|)ois, 
em modificações successivas as moedas passariam a ter qualio escude- 
tes e finalmente cinco. 

Mas ainda neste ponto não consistiram somente as modificações; 
e isso não refere o sr. Aragão attenla a (U"dein que dá ás moedas de 
D. Sancho II e á mealha que sob o n." 4, inserta no te.\to, atlribue a 
D. Sancho L 

Em seguida ás moedas dos escudos grandes, deviam ter sido fabri- 
cadas as dos (juatro escudetes, a chfio como no n." 2 de U. Suncho II, 
e n." 4 de D. Sancho L descriplo no texio, com a denominação de mea- 
lha: seguindo-se a do n.° I de Sancho II, depois a do n.° :\ do mesmo 
reinado, já com os 4 escudetes (como lhe chamamos) vnsadofi, seguin- 
do-se a do n." O com cinco escudetes vasa(lo< e a cruz floreada e can- 
tonada por dois pontos: depois ainda a do n."o com reverso mais orna- 
mentado, porque a cruz é cantonada por i rosetas em logar de 2 pon- 
tos, como se encontra na do n.° G: e finalmente a do n.° 4 em tjue os 5 
escudetes além de vasados. tem cada um no centro uma airiiella ou 
ponto, o que indica a leniiem-ia para os cinco pontos. í]ue tiveram todos 
os cinco escudetes do reinado seguinte de AíTonso 111, e que continua- 
ram a ser ornamentação das* moedas e sellos nos outros reinados, e 
que D. Fernando, ciicumscreveu mais lanh; por um escudo gramle e 
encimou d urna coroa real, form;mdo o distinclivo ipie [lassúu. com pe- 
quenas alterações de forma, a todos os nossos munarchas como symbolo 
da realeza. 

Portanto entre as moedas de um escudo e as de escudetes ra.sarfos 
mesmo sem os pontos houve indubitavelmente uma transicção re[)re- 



60 REVISTA AUCHEOLOGICA 

sentada pela dos esciidetes a cheio qne progressivamente passaram do 
numero de quatro a cinco. 

Se esta transicção fez parte do fim do reinado de D. Sancho I ou 
principio do de D. Sancho II não o podemos dizer, mas acompanha- 
mos Lopes Fernandes que allribuiu estas moedas pela sua fabricação 
a D. Sancho I. 

Assim, a ordem que dariamos ás moedas descriptas pelo sr. Ara- 
gão, relativas aos dois Sanchos, se nos permiltisse esta liberdade a 
consideração (jue sentimos por este illustre numismata, seria : 

D. Sancho I, n.°* 1, 2, 3, como se acha na est. 11, accrescentados 
com os n.°^ 4 e 5 que seriam os n.° 2 e 1 que se encontram na mesma 
estampa como pertencendo a D. Sancho II; e a este monarcha daria- 
mos os n.°^ 3, O, 5 e 4, que segundo o nosso modo de ver é a ordem 
chronologica da fabricação das moedas neste ultimo reinado. 

Possuimos, porém, uma moeda que pelo seu cunho collocamos en- 
tre os n.°^ 3 e (5 da serie que vimos de referir relativa a D. San- 
cho II. 

Esta moeda é no anverso perfeitamente egual á do n.° 3 de D. San- 
cho II (sr. Arag.. est. II). No reverso é que difere em ter a cruz can- 
tonada por quatro crescentes ou meias luas, com as convexidades vol- 
tadas para o eixo da cruz (est. ix). 

REX SANCll — Quatro escudetes vasados, formando cniz, den- 
tro de um circulo; por fora d"este a legenda, 

í^ PO-RT-VG-AL- — Cruz simples cortando a legenda, e se- 
parando duas leltras em cada quadrante; no meio um circulo e dentro 
d'esle e em cada quadrante um crescente com a convexidade voltada 
para o eixo da cruz. 

Esta moeda se não é um typo completamente novo, é comtudo 
uma variante importante e que vem esclarecer um pouco o reinado de 
D. Sancho II. 

M. Alexandre de Sousa. 



CONSTITUIÇÕES DO ARCEBISPADO DE LISBOA 
Decretadas por D. João Esteves (I'Azambuja (1402-1414) 

[Continuado de pag. 31) 

.0 Item como quer que os santos cânones mandem que os priores 
Reylores e Vigairos perpétuos raçoeyros e outros beneliciiados façam 



E HISTÓRICA 61 



rresidencia persoall em suas egreias e beneficiios assy como deiiem e 
sam tliiu(Jos e nom perteence ao !)eneficiiado aalcm de Ires doinaas au- 
senta rsse do seu hen(!Íicio em pêro muylos Irespassedores da vonta- 
de dos ditos santos cânones e coslitni(;r)es se nam contentam nem 
querem e menos prezam fazísr rresidencia nos ditos seus beneficiios pella 
quall razom o culto e diuino oliciio he migoado e se seguem nniilos pe- 
riigos das almas e grau dapno e perda e deti'imento das egreias, po- 
rem estabellecemose mandamos que todos e cada huos priores e Rey- 
tores e vigairos perpétuos e rraçoeiros e outros beneficiados das 
egreias da dita cidade e arcebispado trabalbem e procurem fazer Re- 
sidência pessoal contbinuadamenle cada liuum em sua egreia e beneficio 
saluo sse per alguma guisa sejam ou forem priuilligiados ou da nossa 
licença sejam ao presente ou forem ao depois \)ov algua Hazam escu- 
sados por alguum tempo da dita rresidencia e se alguns dos ditos be- 
nefiiciados sam absentes dos ditos beneficiios por tall que se tornem a 
fazer e contbinuam aa dita rresidencia damos dons messes despaços 
aquelles que estam no senhorio de purtngall e aaos outros (jue sam 
absentes fora do dito senhorio seis meses o quall espaço lhe asinamos 
por termo perentorio a que uenham fazer rresidencia nos ditos bene- 
fícios e sse ao dito termo ou tempo nom uieerem nos de sentença cu- 
raremos de proueer ou curaremos de fazer que seja proueudo aas di- 
tas egreias rraçõoes e beneficiios daquelles que rrecusarem de viir 
fazer a dita rresidencia a pesoas ydonias que ellas siruam e façam 
rresidencia assy como os direitos querem e mandam. 

IO Item hordenamos que postoque os priores e vigairos tenham 
cura e encarrego das aimas tenham de nos ou de nossos vigários li- 
cença pêra sse absentarem dos seus beneficios que notn enbaigandoa 
dita licença sejam thiudos de fazer residência em ellas na coreesma e 
conpeçarem (sic) na primeira somana e estarem hy atee que todos seus 
freegueses sejam confessados e nom ho fazendo elles asy que a licen- 
ça que teverem seja rrevogada e demais que dem por penna pêra a fa- 
brica da egreia huum marco de prata. 

11. Item porquanto muitos creligos estranhos e nom conhicidos 
doutras cidades e arcebispados e bispados dos quaaes alguuns asy 
como enfames ou criminosos fogem dos próprios luguares donde sam 
naturaaes e chegam ameude a dita cidade e arcebispado e sem seen- 
do examinados ante como denem seer esso medes sem nossa licença 
ante auuda presumem de dizer e cellebrar missas aos quaaes creligos 
estranhos nom devem de lligeyro creer que sam iiordenados e proueu- 
dos aas hordens sacras posto que o afirmem per seu próprio juramen- 
to porem por tirar e auitar muitos periigos que se desto seguem es- 
tabelleçemos que os creligos das cidades e arcebispados e bispados 
alheos nom sejam rreçibidos pêra cellebrar ssem nossas leiras e car- 
tas pubricainente nas egreias da dita cidade e arcebispado pêro que- 
rendo os ditos creligos cellebrar secretamente que lhes dem lugar pe- 



62 BEVISTA AKCIIEOLOGICA 

ra poderem fazer por três dias e mais nora esso meesmo deíTende- 
mos t|iie iienhiiiins creligos da dila rjdjide e arcebispado ou bispado 
a lhes iiom presumam dizer nem cellebrar missa sem nossa licença es- 
piciall em oratórios [trinados ou em casas de leygos que nom ajam li- 
cença do |)adie sanlo ou nossa pêra peta (síc) alleuanlar aliar em que 
se diga missa e os creligos que o conlrayio fezerem sejam presos em 
quanU) for nossa merçee e dos nossos soçesores e de mais o que fo- 
rem das cidades e arcebispados e bispados alheos de hy em diante ja- 
mais nunca sejam rrtçebidos em dila nossa cidade e arcebispado pê- 
ra cellebrar os diuinos oíiciios e esso medes defendemos de todo em 
lodo (pie liuus monges e conigos rreganles {sic) e quaaes outros Rel- 
ligosos {sic) das ditas ci.iades e bispados alheos aos quaaes a clautra 
(m) avia de seer vida prazer e sollar nom sejam rrecebidos aalem de 
três dias pêra cellebiar os diuinos oíiciios na dila nossa cidade e ar- 
çebi>padu e os priores Reitores vigários rraçoeyros que os rrecebe- 
ren aalem do dito lenpo asabendas nas ditas suas egreias contra es- 
ta nossa constilnição sejam presos alee nossa mercee e os thisourey- 
ros que llies derem calez e velimenla percam os sallayros que aviam 
dauer aijuelle anno das egreias e demais sejam punidos assy como 
nos e os arçebis()os que pello tempo forem virem que he aguisado. 

12. liem querendo nos e desejando miiilo de iremover e lirar a 
famihaiidade ou participação doestada e e (sic) auorreçida a qual! al- 
guns nom boos xpaaos e x|)taas nom aborrecem nem ham uergonha 
de fazer com os judeus e com os mouros em doesto da santa ffe ca- 
tollica e grane escandallo dos xpaaos em dapno e dispêndio das suas 
almas slabelleçendo defendemos que os xpaaos nom moriem nem pre- 
sumam de morar com os judeus e mouros em suas casas pêra os 
seruireni conlhinuadamenle nem curem as xpaas os íillios delles em 
as casas delles nem foia delias nem vaao as vodas dos judeus e mou- 
ros nem os conuidem os xpaaos pêra suas casas. 

13. Item como quer que assy seja que os judeus na judaria e os 
mouros na mouraria denam de morar apaslados dos xpaaos pêro 
muitos delles ahigam e alquiam moradas e casas anlre os xpaaos e 
anire ellos moram em ollas e o que pior he muitos xpaaos mouidos 
per cohiiça por (pie lhes dem maiores preços que os xpaaos lhes alu- 
gam suas casas e alguns xpaaos e xpaas moram e presumam de morar 
nas jiidai ias e mourarias das ((/^íff(?i) cousas se geera grande escandallo 
aos outros xpaaos e aos que o fazem se segue grande periigo dijs al- 
mas porem (pierendo nos rremediar e tirar os ditos escandallos e pe- 
riigo> dereiídemos que onde ouner jiidarias e mourarias apartadas que 
os xjiaaos lhes nom aluguem as casas (pie teiierem fora delias pêra 
em ellas morarem nem façam as sobreditas cousas todas e cada bua 
delias e (|uaaesqner xpaaos ou xpaas que o conlrayro das sobreditas 
cousas ou cada bua delias fezerem poemos em elles ou em cada hnum 
delles sentença de excummunhom da quall nom sejam asollulos saluo 



E HISTÓRICA G3 



satisfazendo primeiro do nosso mandado ou no ailifío da morte pêra 
aqiielles que os confessarem e se nos lugares unúc. noni ouuer jiida- 
rias ou niourarias apartadas onde os judeus e mouros viuerem íinlre 
os xpaaos, inand;unos que lhes nom coíiseiilam (jue em praça nos dias 
do domingo e festas que sejam de gardar de títda obra laurem nem 
liusem dos seus mesteres e ollicios nem cozam neui assem nem comam 
carne em pnbrico em na coresma e sestas feyras e em nos oulios que 
os x[)aai s sam lliiudos de jejuar e nom comam cai'ne e se o contra- 
rio fezerem os ditos judeus ou mouros que assy viuerem antre os xpaaos 
nos lugares onde nom teuerem judarias e niourarias aj)artadas man- 
damos aos priores das egreias em cujas freguisias se eslo fezer que 
da parte de deos re(]ueyram as justiças dos lugares que lho nom con- 
sentam e que mandem a seos fregueses sobre pena de excommu- 
nliom (pie nom partici[)em com os que o assy fezerem e os escu- 
munguem de facto sse neçesario llbr e os que sse nom quiserem cas- 
tigar da participaçam dos sobre ditos judeos ou mouros que em os 
dias e fesstas laurarem em praça ou cozerem ou asarem ou come- 
rem carne em os dias que os xpaaos deuem jejuar.» 

14. Item porquanto aquelles que querem citar ou demandar deuem- 
nos citar perante ho juiz de seu oiiciio e esso medes os juizes que 
ham jurdiçam e teem vara e poderio de julgar deuem husar da sua 
jurdiçam iam somente em aquelles quasos que sam da sua jurdiçam 
nas cousas delles, porem estabelleçemos e mandamos que todos assy 
clérigos como leygos que presumirem de citar e demandar e trazer os 
clérigos contra a liberdade da egreia perante os juizes saguaes (57c) 
era os casos de que a nos pertence o conhicimento e de que nos e nossos 
antecessores steuermos em posse de conhecer ou conira outra pessoa 
ecciesiastica ou tomarem os bees dos ditos clérigos assy ecciesiasticos 
como profanos e mundanos oucupar e tomar fezerem per |)0(lerio 
leygall ou per sua autoridade própria por que nos somos prestes fazer 
conprimento de direito e de justiça a cadahuum de taes clérigos e beens 
Anemos e maiidamos que os que o conlrayro fezerem e contra o que 
dito he forem preseuerando alem de três em demandar os ditos creli- 
gos e rrelligiosos depois que allegarem (]ue sam laaes pessoas e o pro- 
uarem por seer notório ou per outra maneira que ipso facio encorram 
em sentença de excummuidiom e ejam excnumouigados ademos 
ainda mais e defendemos que os alquaydes algaziis jí//zes moidomos 
ou oulios quaesquer oíiiciaaes ou seos homens se nan» trenielam nem 
persumam de sse tremeter de castigar nem punir nem corrcger os ex- 
cessos dos creligos rreligios(JS a nos súbditos contra os sanids cânones 
em prejuízo da liberdade ecciesiastica e esso medes defendemos que 
nom penhorem os creligos nem façam penhoras nem os encimtem 
nem tomem nem ocupem nem façam ocupar nem tomar os beens del- 
les nem mandem prensar em as casas dos creligos de hordens sacras 
ou beneíiciiados que de tall encarrego segundo direito sam excusados 



64 REVISTA ARCHEOLOGICA 

saluo se esto se fezer onde elRei for e per seu espiciall mandado e 
quaaesqner qne o contrayro fezerem ipso facto encorram em sentença 
de excommunliom. 

(Continm). 

INSCRIPÇÃO CHRISTÃ DESCOBERTA EM MERTOLA 

O meuillustre amigo o sr. Prof. Iliibner, que já se dignou honrar 
as paginas desta Revista, communicou-me ha pouco uma inscripção 
que um amigo liie enviara de Mertola. Esta inscripção, até hoje iné- 
dita, está esculpida numa lapide de mármore, ait. {""jáO, larg. 0'",48. 

(o texto entre duas pi- 
lastras) 

P SIMPLICIVS SÍ777plichis I pr{es)b{yteru)s fainii \ lus 

p p T) c A "p A M V ^^' vixit I an{i20s) LVIIII \ requievit in \ 

ç^ , „ pace d{omi)ni die \ VIII kal{eijdas) se- 

ATv-rj.xTTTTTT^ ptci}! 1 òfes evã I DLXXV. 

SRKyVliiVliiiN Q presbytero Simplício, servo de Deus, 

rACii UlNivJJ viveu cincoenta e cinco annos. Descançou 

VIII KAL SEPTEM na paz do Senhor a 25 de agosto de 537. 

B R E S * E R A era 575 
dLXXV * p. C. 537 

«Estes textos do século vi — diz o sábio epigraphista — são muito 
curiosos; o presente tem o mérito de dar pela primeira vez, segundo 
parece, a abreviatura p rb S (por prb ou p r s B T), equivalente 
a prrsbfj.terus por preshyler, que é a forma regular. Mas presbj/tenis é 
o antecedente, em baixo latim, de presbytero, que é a forma da pala- 
vra nas linguas românicas.» 

Esta inscrijição é uma das mais antigas que, da época christã, se 
téem encontrado em Portugal. 

Do fac-simile, que se vê na estampa ix, reproduzido duma photo- 
graphia devida á obsequiosidade do sr. João Zink, residente perto de 
Mt^rtola, verá o leitor a forma e disposição dos caracteres da inscri- 
pção, que a composição typographica não poude reproduzir- 

Borges de FicuEmEDO. 



E HISTOKICA 



OS DIAS EGYPCIOS 

Não me proponho Iraclar o assumpto, que daria para um volume, 
da historia da superstição conhecida pehi designarão de dias aziagos, 
dias egypcios, ele: contento-me com dar a lume algumas notas lo- 
madasno curso das minhas leituras á busca de dados para outros es- 
tudos de maior interesse para mim. 



«Ha já bastantes annos achei os restos de uma superstição no Mi- 
nho, de que lenho eml>;d(le buscado hoje descobrir signaes, e que me 
parece seria oiiiinda dessa defe/.a entre os romanos de casarem du- 
rante as festas [)arentaes. Tinha-se por um agoiro lerrivel casar nuns 
certos Ires dias do mez de fevereiro; mas haviam esquecido quaes 
eram esses dias. e por isso as famílias mais precatadas não consen- 
tiam que alguns dos seus casasse dentro do dito mez, com medo de 
que fossem topar com os malfadados dias. Eu já algures fallei d'esta 
superstição, (]ue tem caido no esquecimento.» D. Maria Peregiina de 
Sousa. Nota 30 aos FílHus d Ovídio, traducção de A. Feliciano de Cas- 
tilho, liv. iij, tomo I, p. 377 s. 

É evidente nessa tradição um vestígio da superstição semi-popu- 
lar dos dias aziagos dos mezes e do anno. 



«Pronoslico dos dias críticos de cada hum anno segundo os Astró- 
logos, e tem 31 dias. 

As pessoas que enfermarem em estes laes dias tarde se levanta- 
rão, e se sararem será com mais trabalho, e em os taes dias se ca- 
sarem não viverão mais tempo casadas, nem será leal sua molher, nem 
se quererão bem, e quem comessar caminho de sua caza para outra 
terra negociará mal, e irá com perigo que lhe succedão desastres em 
pessoa, ou fazenda, e nos taes dias lodo o tratto de comprar e ven- 
der succedem muito mal. 

Os dias criticos são os seguintes: 

15—20 



Janeiro 


tem sette dias 


1-2-3-0-11 


Fevereiro 


tem Ires dias 


1 -7-8 


Março 


tem quatro dias 


15—10—17—18 


Abril ' 


tem dous dias 


7—15 


Mayo 


tem Ires dias 


2—7—20 


Junho 


tem hum dia 


6 


Julho 


tem dois dias 


13—15 


Agosto 


tem dous dias 


18-20 



Rev. Arch. e Hist., I, N.o 5 — Maio 1887. 



66 REVISTA ARCHEOLOGICA 

Setembro tem dous dias 13—20 

Outubro tem dons dias G -7 

Novembro tem dous dias 13 — 17 

Dezembro tem dous dias 6 — 7. 

Como estes taes dias ba três muito mais preversos, que são o de 
13 de Outubro, e de 18 de Setembro, e de 18 de Agosto. Também 
ha três segundas feiras muito perigozas para os que tem Iratto com 
molberes a meyas. A primeira segunda feira de Abril, em a qual se 
perderão as cidades de Sodoma e Gomorra e guardesse em tal dia de 
atlos dezonestos com molheres. E a primeira segunda feira de Agos- 
to: porque em tal dia nasceo Caym: a terceira segunda feira he a pri- 
meira de Setembro porque em tal dia nasceu Judas Scarioth, o qual 
commetteu a mayor maldade que se ha visto em o Mundo, pois ven- 
deo a Christo Nosso Senhor.» Obras varias, mss. Bibl. Nac. de Lis- 
boa. E— 3— 29, foi. G7. 

3. 

As obras da edade media offereccm numerosas provas da crença 
nos dias perigosos. Paul Meyer communicou no Jahrbuch fúr roma- 
msche niiá enijUsche Literatur, vii, 49—31, e na Bomania, vi, 4 — 6, 
extractos de calendários medievaes com a indicação dos dias egypdos 
ou aziagos. O sábio romanista envia o leitor para a memoria de M. J. 
Loiseleur, Lcs joiírs cgyptiejis. leurs varialions dans les calendriers dii 
moijen-áge. Mem. de la Soe. des Antiq. de France, t. xxxiii, 1873. 

Eis um dos referidos extractos {Jahrbuch, vii, 49 — 30): 

«Les mestres ky cest arl cumtrouverent et anumbrerent les mau- 
ves jours et les perilous qui sunt en Tan; et ki unkes en nul de ces 
jours en enfermeté cherra, ja ne resourda; et qui veage emprendra 
ja ne retournera, et qui besogne emprendra ja bien ne chevira, et qui 
femme espousera, hastivement departirunt et ensemble en doulour 
vivrunt; c'est à savoir xunj. jour par an, c'est à savoir: 

En .Tenvier sunt vij : le premier, le secund, le quart, le quint, le 
dime, le sesime, le disenouvisme. 

En Fevrier, le tiers, le sesime, le diseutime. 

En Ahirs, le tiers, le quinsime, le sesime, le diseutime. 

En Avril, le secunt, le sime, le unsime. 

En Mai, le quart, le setime, le quinsime, le sesime, le vintime. 

En .luing, le secunt, le quart, le setime. 

En Juil, le secunt, le sesime, le disenouvime. 

En Aoust, le secunt, le disenovime, le vintime. 

En Septembre, le secunt, le sesime, le diseutime. 

En Octembre, le secunt, le quart, le sime. 



E HISTÓRICA 67 



En Novembre, le secunt, le quinsime, le vintime. 

En Decembrc, le tiers, le quart, le sime, le qninsime. 

De ces jours se gard chascun sage hornme, si lera que sage.» 

Um livro francez Ij I)ra;jon rou{/e ^ oíTerece a p. 89 uma Table 
des jours hcureu.r et malheurcnx, em que os últimos divergem bastante 
dos indicados nas passagens transcriptas. 



«Ainda se encontram em uso, mas raramente os calendários per- 
pétuos que indicam, por exemplo, para cada mez os dias infelizes: 
Janeiro I. "1. \\. 4. 6. II. 1:2.; Fevereiro 1. 17. 18.; Marco 14. 16.; 
Abril 10. 17. IT).; Maio 7. S.: Junho 17.; Julho 17. 21.; Agosto 20. 
21.; Septembro 10. 18.; Oulubio 0.; Novembro 6. 10.; Dezembro 6. 
11. 15.» Volksthãmlic/ies aus Sonnenherg in Meiniger Obeiiande von 
August Schleicher. Weimar, 1858, 4.°, p. 140. 

5. 

«Ha no anno 42 dias reprovados. São: 

O 1.2. 6. 17. 18. de Janeiro. 
O 8. 16. 17. de Fevereiro. 

O 3. 12. 1.3. 15. de Março. 
O 1. 3. 15. 17. 18.de Abril. 
O 8. 10. 17. 30. de Maio. 
1.7. de Junho. 

O 1. 5. 6. de Julho. 

O 1. 3. 17. 20. de Agosto. 
O 1. 2. 15. 30. de Septembro. 
O 11. 17. de Novembro- 

O 1. 7. 11. de Dezembro. 

Crê-se com relação a estes três dias: 

1. Toda a creança que nascer num destes dias, ou não viverá 
muito tempo ou será ^perseguido por pobreza e desgraça. 

2. Os que casam num destes dias, ou se separam em breve ou 
vivem em contenda. 

3. Quem se melte a caminho num d'estes dias, padecerá damno 
ou no corpo ou na fazenda. 

4. Não se deve em nenhum d'estes dias começar construcção, atre- 

1 Paris, Chez tous les Libraires, 1838, peq. in-lS." 



68 REVISTA ARCHEOLOGICA 

lar gado novo, que deva ficar para criação, nem semear ou plantar. 
A tudo o que se começar sobrevirá desgraça. 

Entre os mencionados 42 dias lia cinco particularmente infelizes, 
a saber: o 3. de Março, o 17. dAgosto, o 1. 2. e ÍJO de Se[)tembro. 
lia também três dias em que nenhum homem deve sangrar-se, por- 
que se alguém o faz morre necessariamente dentro de oito dias. Es- 
ses dias são: o 1. dAbril, em que nasceu o vermelho Judas; o \. 
d'Agosto, em que o diabo foi lançado no inferno, e o 1. de Dezembro 
em que foram arrasadas Sodoma e Gomorrha.— As creanças que nas- 
cerem num destes dias raro vingarão e morrerão de má morte.» Sit- 
ten, Biàiuiche und Meinungen cies Tirolers Volkes. Gesammelt und he- 
rausgegeben vou Ignaz v. Zingerle. Innsbruck, 1871, S.°, p. 200-201. 

C. 

Nas Observations on the popular Antiquities of Great Britam, de 
John Brand, vol. ii, 44-51 (ed. 1875) ha muitos dados relativos aos 
dias aziagos. 

«No calendário prefixado ao resumo da Chronica de Graflen (1365) 
os dias aziagos são conforme á opinião dos astrólogos: Janeiro, 1, 2, 
4, 5, 10, 15, 47, 29 muito aziagos. Fevereiro 26, 27, 28 aziagos; 8, 
10, 17 muito aziagos. Março 16, 17, 20 muito aziagos. Abril 7, 8, 
10, 20, aziagos; 16, 21 muito aziagos. Maio, 3, 6 aziagos; 7, 15, 20 
muito aziagos. Junho 10, 22, aziagos; 4, 8 muito aziagos. Julho 15, 
21 muito aziagos. Agosto 1, 29, 30 aziagos; 19, 20 muito aziagos. 
Septembro 2, 4, 21, 23 aziagos; 6, 7 muito aziagos. Outubro 4, 16, 
24 aziagos; 6 muito aziago. Novembro 5, 6. 29, 30 aziagos; 15, 20 
muito aziagos. Dezembro 15, 22 aziagos; 6, 7, 9 muito aziagos.» 
Brand, 1. c. p. 48. 

Do mesmo modo que com relação a esses dias aziagos havia di- 
vergência mais ou menos considerável, assim não se chegou a accor- 
do com relação aos três dias mais perigosos do anuo 

Nos Preceitos deixados por Lord Burghley ao seu filho (1636) es- 
ses três dias terríveis são: 1. A primeira segunda feira d'Abril, dia 
em que Cuiui nasceu e seu irmão Abel foi assassinado. 2. A segunda 
feira d'Agosto, dia em que Sodoma e Gomorrha foram destruídas. 3. 
A ultima segunda feira de Dezembro, dia cm que nasceu Judas, que 
foi traidor de Nosso Senhor. Brand., I. c. 



Um livro de circulação popular na Ciiina Meridional, chamado 
hwanfj-li-lHng-slíH, dá um largo catalogo dos dias propícios c perigo- 
sos. Dennys, IVie Folk-lore of China, p. 29-31, onde se acha um ex- 
tracto. 



E HISTOKICA 00 



8. 

A seguinte nota (rum livro muito interessante * para os folkloris- 
tas, mas coniiecido apenas d um ou outro d'enlre elles, dá-nos noticia 
da tradição na Índia : 

«If the 12'!' day of tlie Mon's a.í^e fali on a Sunday, the in'' on a 
Monday, the 5"' on a Tuesday, the ii'"' on a Wednesday, the O"' on a 
Tbursday, lhe 8i'i on a Friday, lhe O^'' on a Saturday, Ihese days are 
accounted uniucky. On the contrary, if the H''' fali on a Simday, lhe 
9^'' on a Monday, lhe O"' on a Tuesday. the 3'"'' on a Wednesday, 
the Qt'» on a Thursday, tlie i:{'i' on a Friday, the 14"' on a Saturday, 
Ihese days are esteemed lucky. In general, the \^^ day of lhe moon's 
age, the 4t'', fit"', lhe SHi, lhe OH», the 11^1», lhe líáf', lhe 14tii and 
lhe 13'!» are esteemed uniucky, uniess Iheir ill luck be corrected by 
the day of lhe week according to the above table. On the contrary 
the 2'i«^i, lhe :'A, the 7t'', the ÍOfi and the i;i"i are esteemed lucky.» 
T/ie Adcenturcs of the Gooroo Par amar Um: A Tale in the TamuI Lan- 
guage; accompanied by a Translation and Vocabulary, logether wilh 
an Analysis of the first Slory. By Benjamin Babington, of the Madras 
Civil Service. London, J. xM. Riciíardson, i3, Coríihill, 18iJ2, 4.°, xii 
243 pp. Nota * a p. 82. 

9. 

Cerca de Ires annos depois de estar escripto o que precede, foi 
publicado na Revista do Minho, t. i, p. 80 (1885) o seguinte, transcri- 
plo (segundo o articulista) dum caderno copiado por um homem do 
povo da Ilha de S. Miguel: 

Memoria dos dias do ãno projndiciaes, para comprar, vender, via- 
jar, cazar, mudar de caza, ele. 

«Três dias ha no ãno horrives e venenosos que são: a primeira 
segunda feira de Abril, porque nella morreu Judas; a primeira se- 
gunda feira de Agosto, porque nella matou Caim a seu irmão Abel; 
a primeira segunda feira de Novembro, porque nella foram arrasadas 
duas cidades — Sedoma e Gamorra.» 

Dias aziagos 

Janeiro é a —2, 4, M, Io, 26, 30. 
Fevereiro é a — 4, M, 15, 20, 16. 

1 Ha nello, por exemplo, uma versão da famosa facécia dos ovos de burro. 
Depois d'isto escripto saiu uma traduccão das referidas Aventuras, feita em alle- 
mão por H. Õsterley e aceompanhada de notas comparativas, no n.° i da Zeit- 
schrift fúr vergleichende Literaturgeschichfe (Out. 1886). 



70 REVISTA AUCHEOLOGICA 

Março é prefeito em todos os dias. 
Abril é a — 7, 11. 
Junho egual a março. 
Agosto é a — 23, i->9, 31. 
Setembro é a — 17, 19. 
Outubro é a — 1, G, 8. 
Novembro é a — G, 7, 11. 
Dezembro é a — 1, G. 

A tradição de que me occupo é das que não se transmittera se- 
não com o auxilio da esci'ipta ; isto explica-nos como se perdeu no 
Minho (n.° 1). A fonte d^eUa 6 erudita como a de tantas outras, que, 
apezar disso, servem a monomaniacospara reconstrucções etluiicas. 

F. Adolpho Coelho. 



AMULETO ROMANO 

Na mina de S. Domingos, próximo de Mertola, encontrou-se, quan- 
do começou o desmonte a céo aberto, um curioso amuleto, de que me 
deu noticia o meu amigo sr. João Zink. 

Este amuleto, evidentemente de fabrica romana, e que, segundo 
parece dever deduzir-se das suas dimensões, era destinado talvez 
para uso de animaes domésticos, como com outros talismans ainda 
hoje se pratica, pela sua forma geral e pelas partes que o constituem 
lorna-se grandemente notável e suggere varias considerações. As par- 
tes de que se compõe são: uma íiga e um phallus, oppostos entre si, 
outro phallus pendendo naturalmente sobre o scroto, e uma argola na 
parte superior. 

Parece á primeira vista um tiiplice amuleto; mas examinando-o 
attentamente e reíleclindo na disposição relativa das suas partes, che- 
ga-se ao convencimento de que muitos talismans quiz alli representar 
o fabricante, por meio da combinação d'a(juelles que ficam indicados. 

São muito diversos os talismans que desde as mais remotas eda- 
des se empregam como meio de defesa contra extranhas influencias. 
Distinguem- se entre elles o sig/w-saimão (signum Salomonis) ; a cniz; 
a argola; o corno de boi e o de carneiro; a nwia-laa, a mão, a follia 
de trevo, a espada (estes se encontram entre os dixes ou crepundia 
dos romanos) ; etc. 

No amuleto, que forma o objecto d'este artigo, predominam os ta- 
lismans buscados no culto phallico, de que tantos vestígios ainda hoje 
abundam por Ioda a parte, e de que tantos restam no nosso paiz, laes 
como os marcos, frades, ou picotas, os pães de S. Gonçalo (claramente 
designados em Guimarães pelo nome vulgar dos orches), as figas. xVlli 



E HISTÓRICA 71 



se vè o phnlliis ou elemento masculino, e do lado opposlo a firja ou 
elemento feminino; o primeii'0 correspondente ao paramanlha (in- 
strumento masculino), o segundo correspondenlií ao arani (instrumen- 
to feminino), cuja ÍVicção reciproca |)roduzia o fogo, meio de produ- 
cção que se comparava como acto da geração e por consequência com 
a vida. A estes dois princii)aes talismans (juiz o fabricante juntar 
ainda outro, o penis, que na parle inferior se vô sobre o scrolo. Não 
será talvez muito arriscado considerar esta parte do amuleto como 
representando o producto rcsullanlc da fecundidade syndjolisada nos 
dois elementos já mencionados. Não admira que ao conjunclo dos 
symbolos da geração se aggregasse uma representação dos órgãos ge- 
nilaes masculinos, significando um novo elemento gerador, tomado 
como emblema da producção. 

Na disposição symetrica da figa e do pliallus facilmente se reco- 
nhece que houve a intenção de representar a nieia-h(a, outro talisman 
muito antigo, que váe prender-se com o culto dos astros ou sabeisnio. 
Convém recordar a existência do culto lunar entre alguns povos da 
península, como aponta Strabão *, e advertir que numerosas supersti- 
ções populares conservam vestígios d^elle -. 

Na argola (jue encima o anmlelo, e que era indispensável para a 
suspender, vejo mais alguma coisa do que esta simples serventia. A 
argola é considerada talisman, por isso se pendura ella, com outros 
amuletos, ao pescoço das creanças. Sem entrar na averiguação e dis- 
cussão do seu symbolismo, pondero que a nimia regulaiidade da for- 
ma contribue para que eu veja naqueila argola um emblema, lendo o 
artista aproveitado alé essa parte indispensável do objecto para for- 
mar oulro symbolo, no intuito de accurauiar o maior numero possível 
de talismans. 

Ainda outra intenção parece revelar-se na configuração geral do 
amuleto. No que vou dizer não lenho o intuito de ridiculisar um ob- 
jecto ou symbolo venerado, nem a a[)proximação quti faço implica ir- 
reverência para com alguma crença. Qual([uer que seja o meu modo 
de pensar, não tenho por empreza o combater quaesquer ideias reli- 
giosas; e, quando a tal fosse obrigado por algumas circumstancias, 
não o faria nesta Revista que jamais será liça de controvérsias dogmá- 
ticas e polemicas rehgiosas, mas sim cam[)o aberto ás discussões scien- 
tiíicas conducentes ao estabelecimento ou determinação de verdades 
históricas. Creio, pois, que as diversas partes que formam este complexo 
amuleto foram dispostas com a intenção de representaiem uma cruz, 
intenção lalvez mesmo inconsciente do i)rincqjio que symbolisava, 
mas sem dúvida filha d'uma crença recebida tradicionalmente. Effe- 
ctivamente entre a configuração do amuleto e a forma da cruz 

1 Geogr. m, 1, 4. 

2 Vej. Leite de Vasconcellos, Tradições populares poríuguezas. 



72 REVISTA ARCIIEOLOGICA 

egypcia ou asada (em hieroglipho, ankh, o vivo), eaiblema da vida, ha 
uma grande correlação. E, sabido como é que a cruz {sioastika) sym- 
bolisa desde uma remotíssima edadeofogo e. por comparação dos in- 
strumentos geradores, a geração, ávida, não repugna de modo algum 
que houvesse ainda o intuito de juntar os elementos geradores de mo- 
do a representarem o principal symbolo da existência. 

São estas considerações que me suggeriu o demorado exame do 
amuleto. É natural que algumas pessoas julguem que me deixei arras- 
tar pela phantasia; mas, para essas, ponho aqui uma reflexão que não 
devem deixar de ponderar; é a seguinte: O homem, quando sob a 
influencia duma crença, tende sempre a reunir a maior somma de 
meios de defesa contra as entidades que o atlerrorisam ou que con- 
sidera simplesmente adversas; do mesmo modo que tende a accu- 
muiar todas as ideias e factos que se lhe deparam, amoldando-as ao 
principio que defende. 

Abril de 1887. 

Borges de Figueiredo. 



NIBÍISMATICA PORTUGUEZA 

D. João I 

O reinado de D. João I foi de todos os da monarchia portugueza 
talvez aquelle em que a moeda teve maior depreciação. 

Não consta, que D. João I, quer nos dezeseis mezes de regedor e 
defensor do reino, desde 5 de dezembro de 1383 dia em que matou o 
conde Andeiro privado de sua cunhada a rainha D. Leonor, até 6 de 
abril de 1385 em que foi eleito rei de Portugal nas cortes reunidas 
em Coimbra, quer desde esta data até ao hm do seu reinado, 14 de 
agosto de 1433, cunhasse moeda de ouro. Na prmieira época do seu 
reinado corriam varias moedas de ouro estrangeiras, principalmente 
a dobra cruzada, a dobra mourisca e o franco d^ouro tendo já quasi 
desapparecido as portuguezas do reinado anterior, de D. Fernando, 
denominadas dobras pé-tarra e dobras gentis por causa das grandes 
despezas feitas com a guerra, 

A moeda de prata e de cobre cunhada n'este reinado foi também 
insignificante. O sr. Teixeira de Aragão cita ^ apenas quatro moedas 
de prata cunhadas por este monarcha, sendo Ires, n.°^ 1, á e 3 do 
I vol. est. VII, cunhadas quando ainda era regente e defensor do reino, 
como accusam as legendas, isto é, entre os annos 1383 e 1383 e todas 
de prata de ÍJ dinheiros com a denominação de real, e a quarta, que é 

^ Discripruo fjn-nl e histórica das moedas cunhadas em nome dos reis, regentes 
e governadores de Portugal. 



E HISTÓRICA 73 



O n.° 4 tia mesma estampa, cunhada já depois de eleito rei, pezando 
aproximadamente o mesmo que as anteriores, tendo a mesma deno- 
minação, ou a de leal, mas, sendo de niellior prata [lorque era de 10 
dinheiros. 

Todas as outras moedas cuiihad.-is n"este reinado sfio de hilhHo ou 
prata muito baixa, p(3la grande poirão de liga que lhe era addicionada. 
De cobre conhecem-se apenas dois ceitis. 

A moeda de prata, como vimos começou por ser de O dinheiros, 
mas nas cunhagens subsequentes pelas grandes reducções na quanti- 
dade de prata (jue o monarcha foi mandiindo fazer (jara atti-nder ás 
extraordinárias despezas da guerra, [)or cansa da successão, contra 
João I de Castella, casado com U. Beatiiz íilha de D. Fernando, de 9 
dinheiros, chegou nas moedas cunhadas de 1409 a 141.J a ser a prata 
de 1 6 de V2 dinheiro. 

Por isto se vè a depreciação que teve a moeda, sendo preciso para 
attender ás reclamações do povo, mandar publicar D. .loão 1, á pro- 
porção que alterava a liga das moedas, que lhes diminuía o peso ou 
lhes dava maior valor, leis que determinavam a forma de paga- 
mento e a relação das novas moedas com as antigas. O povo nos 
seus contractos também arbilrav;! valores á nova moeda com relação 
á antiga. 

As moedas di; prata dos reinados anteriores, que correram n"este, 
foram os diuhciri)^ alfoNsis. barbudas, graves, pilaríes e rmes. 

Embora a historia monetária deste reinado não seja ainda com- 
pletamente clara, pelos elementos dispersos e incomplelos deixados pelo 
chronista do reinado de D. João I, Fernão Lopes, pelos que se encon- 
tram na Ilisforia Gcncalugica, e ainda pelos subsídios fornecidas pela 
CoUccção de Cortes da Academia e pelo Elucidário de Vilerbo pôde fa- 
zer-se uma ideia geral do systema monetário complicado d'este reinado, 
mas não se pôde, porém, descer a minuciosidades, quando faltam as 
noticias de muitas moedas, que as chronicas não trazem, accres- 
cendo ainda que o texto destas nas suas parles mais importantes está 
por tal forma truncado e cheio de erros que não é fácil tarefa decifral-o 
como acontece com o de Fernão Lopes. O livro de D. Duarte também 
não está certo e portanto ha n"estc reinado ainda alguns pontos uuiito 
escuros, e ignorância sobre algumas moedas como as que vamos cilar. 
O sr. Teixeira de Aragão não conheceu as moedas, que vamos des- 
crever, nem Lopes Fernandes também se referiu a ellas. 

Este reinado numariameute fallatido, precisa um estudo mais com- 
pleto do (jue, os até agora feitos, embora o sr. Aragão traga com re- 
lação a elle um trabalho já dt^senvolvido. Este estudo é obra para maior 
fôlego, que nos propomos apresentar mais tarde; por agora, limiíanio- 
nos a descrever as duas moedas novas que possuímos, fazendo sobre 
ellas algumas considerações, porque entendemos que tendo dado duas 
moedas portuguezas do principio da monarchia pertencentes á nossa 



74 EE VISTA ARCHEOLOGICA 

collecção, devíamos seguir uma ordem quaulo possível chronologica, 
que facilitasse a procura a qualquer estudioso ou curioso que nos 
quizesse ler. 

As ;36 moedas descriptas pelo sr. Teixeira de Aragão como per- 
tencentes a D. João I estão agrupadas pela seguinte forma numa ta- 
beliã annexa á descripção do !'einado: 

«Do n." l a 3 rcacs de praia de 10 soldos e de 9 dinheiro cunha- 
dos de 1383 a 1385 quando D. João ainda era regedor e defensor do 
reino com o pezo de 04 grãos.» 

N." 4 — Hcal d(>- praia ou leal cunhada depois de rei, com o peso 
approximado dos anteriores. 

«N.'^ 3 a 7 — Reaes de 10 soldos de 2 dinheiros lavrados em 1386 
com o peso de 61 ^^70. 

«N."* 8 a 11 — Moedas de 10 reaes ou reaes brancos mandados cu- 
nhar em 1415, de bilhão ou prata baixa, de lei de V2 a 3 dinheiros e 
pezo de 64 grãos». Esta depreciação máxima foi motivada pela neces- 
sidade de atlender ás despezas com a conquista de Ceuta, havendo já 
quatro annos que estava feita a paz definitiva com Castella. 

«N.°' 12 a \1 — Reaes de 3 V2 libras de 1398 a 1408, de lei de 
1 V2 dinheiros, pezando 31 '^^jm grãos. 

«N.^^ {^ e \'d—Rmes de 10 soldos lavrados de 1387 a 1391, com 
1 Ya dinheiros, com o pezo dos anteriores. 

«N.^' 20 a 22 — Meios reaes cruzados, lavrados de 1409 a 1415 de 
de lei de 1 dinheiro, com o pezo de 38 *Vi20 grãos. 

«De 23 a 34 —Reaes de 10 soldos de 1392 a 1397, de lei de 2 di- 
nheiros com o pezo de 25 ^^Viso.» 

N.°^ 35 e 36 — Ceilis exclusivamente de cobre. 

Ora na descripção que destas moedas faz no texto, diz o sr. Tei- 
xeira de Aragão que a do n.° 26 peza 16 grãos; a do n." 27, 13; a 
do n.° 28, 16; a do n." 29, 12; a do n.° 30, 14 grãos; etc. 

Como podem portanto estas moedas todas de cunho variado pe- 
zando tão pouco, sem que accusem estarem gastas a ponto de produ- 
zirem estas difíerenças, serem reaes de 10 soldos lavrados entre os 
annos de 1392 a 1397, que deviam ter o pezo de 23 *^Vi8o. grãos? 

Ha forçosamente engano e algumas d"estas moedas não podem ter 
a denominação de reaes, mas sim a de fracções de reaes com ou sem 
outra denomiiiaçrio especial; ou houve ainda outra cunhagem com pezo 
inferior e outra lei (jue lhe disse respeito e que os chronistas e docu- 
mentos existentes não citam. 

E mal se comprehende que tendo sido lavradas estas moedas en- 
tre os annos de 1392 a 1397, e havendo depois d'este periodo de fa- 
bricação, mais três, de moedas divei-sas, como reaes de 3 */2 libras 
de 1398 a 1408, vieios reaes cruzados de 1409 e 1415 e reaes bran- 
cos, em 1415, a depreciação da moeda fosse n"a(iuella época tão grande, 
melhorando de condicções nas subsequentes cunhagens, quando as 



E HISTÓRICA 75 



necessidades da guerra com Hespanha e o enorme dispêndio da con- 
quista de Ceula que agravavam muito as condições económicas do paiz 
deviam levar o monarclia a aggravar lambem cada vez mais as coiidic- 
ções da liga, e do [leso. sahcudo-se como s.e sabe, que foi a cuiibagem 
da moeda a sua pruicipal receita. 

Lopes Fernandes * cliama ás moedas que o sr. Aragão traz na sua 
obra com os n.°^ 23, á8 e 129 fracções de reaes, e traz além d estas uma 
outra moeda que o sr. Aiagão não cita no seu livro. — As outras d"este 
grupo, que o sr. Aragão descreve, L. Fernandes não conheceu. 

As nossas moedas |)ertencem a este grupo que chamaremos como 
Lopes Fernandes fracções de reaes. 

Dissemos que a moeda do sr. Aragão que mais se aproximava das 
duas que vamos descrever era a do n." 'ili que se acha ali descripta 
como segue : 

« >i< 1 II N S X D E I X G R A X R E X X P O R T • Dentro de um 
circulo loi-mado por quatro arcos, as quinas. 

íí). >i< A D I V T O R I M— N O S T R V N . No centro I H N s ; por 
cima entre dois pontos a coroa real; em baixo lambem no meio de 
dois pontos, L. Em três exemplares escolhidos veriíicámos o peso 
de -O a 30 grãos. Meio real cruzado. B. — C.» 

Este indo real cruzado é engano typographico e deve ser real de 
10 soldos segundo vemos na synopse a que já nos referimos. 

A nossa 1.^ moeda é: 

►I< I H N S * DEI # G R A C I A # — No centro dum circulo pon- 
tuado I H N S, tendo um ponto ao meio e superiormente; [lor cima en- 
tre duas cruzes a coroa real; em baixo, l também no meio de duas 
cruzes. 

ít) >i< I H N S # D E I # G R A C I A * R . — Dentro de um circulo 
pontuado oito arcos, em grupos de dois a dois, ligados por um ílo- 
rão, e dentro destes as quinas portuguezas. Vide est. xi, n.** l. 

A segunda moeda é: 

>í<lHNSo DEI» GRA» REX» — No centro de um circulo 
pontuado i HN S lendo um ponto ao meio e superiormente; por cima 
a coi'òa real^ em baixo l entre dois pontos. 

í<)^PORTVGALlEi ET % A. — Dentro de um circulo 
pontuado, quatro arcos ligados por quatro arruelas e dentro destes 
arcos as quinas portuguezas. Vide est. xi, ii.° 2. 

Comparando o primeiro d'estes dois typos novos com o real de 10 
soldos acima descripto, vé-se que a ornamentação do cunho é egual, 
dilteiindo apenas em o typo novo ter aos lados da coroa e do L cru- 
zes em logar de pontos. Na legenda é ({ue a dilTerença é importautis- 
sima. 



Memoria das moedas correntes em Portugal. 



76 REVISTA ARCHEOLOGICA 

No novo, é substituído o a D l v T O R i M N o S T R v N ou cor- 
rectamente A D I V T O R I V AI N O S T R V M , coiuo tem todas as 
moedas d'este reinado, á excepção dos n.°* 20, 'ál e i22 meios reaes 
cruzados, e 29, 30 e 31 suppostos reaes de 10 soldos, por IHNS 

DEIGRACIAR. 

N'estes números ([ue nao tem o adivtorivm o cunho é 
completamente outro. 

O segundo typo (pie apresentamos tem então variantes mais impor- 
tantes.— A legenda adivtorivm é substituída pela continua- 
ção da legenda do anverso portvgalie ET A,eas quinas 
em logar de estarem dentro de oito arcos ligados dois a dois, estão 
denti'o de (piatro. 

A [)rim('iia das moedas peza 21 grãos e a segunda 14. Estas duas 
moedas além de serem diversas das descriptas pelo sr. Aragão, diííe- 
rem também essencialmente entre si, no tamanho, legenda e cunho. 

Podíamos ter citado vários outros exemplares, pertencentes a este 
reinado em (pie as legendas, sendo as mesmas na essência, differem com- 
tudo em estarem umas mais completas do ipie outras. Isso não importa 
um typo novo, mas apenas variantes insignificantes na fabríca(;ão irregu- 
lar da mesma moeda e por isso não accusamos estas dífíerenças como 
também não indicamos a variedade de signaes occultos que se encon- 
tram na moeda do mesmo cunho. 

Das moedas que tem a nossa collecção pertencentes a este reina- 
do, stó estes dois typos novos e por serem novos, prenderam a nossa 
attenção e hão-de interessar certamente os colleccíonadores. 

M. Alexandre de Sousa. 



TIJOLO DO SÉCULO XVI 

O tijolo que se \ò representado na estampa xi existe no Museu do 
Carmo. Segundo informações alli colhidas foi elle encontrado em 
Alemquer ou circumvisinhanças (Pesla villa. 1^^ curioso [)ela inscripção 
que tem, e que se reconhece ter sido feita com um ponteiro de qual- 
quer natureza, antes de secco o barro. A inscripção é a seguinte: 

esle ligollio Jir 
de fernãdalua 
res 

Este Fernando Alvares ou Fernão Alvares foi o fabricante que 
marcou a sua obra. ou o destinatário que nella quiz o seu no^ne? Ou 
será tal insctipção apenas o resultado diim breve entretenimento? 

Em (jualquer dos casos, pela forma da leltra, o tijolo d dos prin- 
cípios do século XVI. 



E IIISTOKICA 77 



CONSTITUIÇÕES DO ARCEBISPADO DE LISBOA 

Decrcladas por D. João Esteves (I'Azaml)iija (1402-14 li) 

{Coulinnadu de piKj. 64} 

15 liem poniu;inlo nas cousas espiriluaes num (Joue seer feia 
preylisia nem aiieença desonesta pêro se depois (jue forem feias e 
cellebradas as ditas cousas ('S|)irituaaes aliíiinia roíisa for dada aaquel 
que as cellebr.ir pêra ajuda de seu uiaiiliuuenlo liçilameiíle e com 
rrazam lio pode tomar e celebrar porem defendemos aos sacerdotes 
e a todos os outros creligos que nom façam aueenças nem preytisias 
por dinlieiros nem por alguma outra cousa lemporall por dizerem 
missas e prezentes ou por outros oficiios diuinos e sse aipielles (jue 
as missas ou outros olicios diuinos mandarem fazer e cellebrar nom 
satisfezerem com alguma cousa e tall demanda for presente os nos- 
sos uigairos e oliciiaaes mandamollies que elles aluidrem aquillo que 
os ditos creligos aguisadamente podem merecer e for acustumado de 
liie darem que logo sem dellonga e figura de juizo lho façam pagar 
quando diserem taaes missas ou ofícios. 

10 Item porfjuanlo as cousas santas nom deuem ser apenhoradas a 
algum leygo saluo em grande necessidade porem estabelleçemos e sob 
pena de excommunliom mandamos que os Reytores uigairos e outros 
creligos do nosso arcebispado nom vendam nem apenhoremnem alheem 
as cousas hordenadas e deputadas ao ocullto (.s/f) e diuino oficiio asy 
como liuros calleçes vestimentas e outros ornamentos quaaesquer nem 
llias compre alguém nem rrecebam em penhor nem precurem de 
seerem alheadas doutra guisa poemos sentença de excommunhom e 
aquelles que o penhor rreçeberem. declaramos ajnda e determinamos 
taaes vendições e apenhoramentos e emaiheamentos seerem nenhuns 
e de nenhum vallor e os que assy emalhearem mandamos que sejam 
denunciados por cxcumungados aataa {sic) que as ditas cousas em- 
alheadas vendidas apenhadas {sic) sejam entregues aas egreias e assy 
merçeram auer beneficiio de al)soIhiçam resaruando a nos o poderio 
de despensar sobre as ditas cousas quando rrazam e aguisado for e 
moormente con aquelles que seruem a nos e aa nossa egreia cathe- 
drall e aos nossos coonigios {sic} e os outros creligos. 

17 Item por quanto os priores Reytores e vigairos que teem as cu- 
ras das almas arrendam aas vezes pei' sua autoridade própria os pees 
dos altares das suas egreias e beneficiios a leygos e por que taaes 
rrendeyros fazem e demandam aos fregueses cousas per as quaaes 
os fregueses e beneficuados e capellaães das egreias sam escandalli- 
zados e maltrautados porém defendemos aos ditos priores Reytores e 
vigairos que os nom arrendem per sua própria autoridade e sse per 
alguum delles o contrayro for feto mandamos que perca aquillo por 



78 REVISTA ARCHEOLOGICA 

que o arrendarem e que aja as Rendas daquell anno a obra da sse 
ficando a terça parte pêra fabrica daquella egreia em que assy forem 
arrendados. 

18 Item por darmos aazo que os Reytores das egreias acrecentew 
e conseruem de milhor vontade as cousas delias stabelleçemos que 
cada buum prior Reytor e viiiairo possa despoer e ordenar asy como 
lhe apronuer ao (empo da sua morte dametade dos beens moneys 
que teuer e ouuer das Rendas da egreia de que lie prior Reytor vi- 
gairo pagadas as diuadas em que for obrigado e o que for thiudo de 
pagar per os bens da egreia ou vigairya que teuer e sse perventura 
a egreia teuer uinlias herdades que o prior vigairo adubar laurar ou 
aproueytar per ssy aa sua custa e ao tempo da sua morle as vinhas 
herdades forem a[)roueitada (sic) lauradas semeadas em tal guissa que 
os fructos se possam apanhar sem mais adobiio que laaes fructos 
posto que a[)anhados nom sejam ao tempo da morte do prior ou ui- 
gairo ajam amelade e que possam delles despoer os fezerem e apro- 
ueytarem ante que morressem como dito he que se faça dos que thi- 
nham em poder e a outra meetade aja ho soçessor. 

19 Item stabelleçemos que os priores Reitores ou vigairos das 
egreias da dita cidade e arcebispado nom façam preytisia ou empra- 
zamento emphitiotico ou qualquer outro contrauto dos beens da rraiz 
das ditas egreias nem hobriguem nem apenhem (sic) alguma cousa 
dos ditos beens nem façam permudaçam nem feryza das possissõoes 
delias sem nossa licença e mandado espiciall e doutra gujsa fazendo 
elles ou cada huum delles o contrayro mandamos que as preytisias 
emprazamentos contrautos obrigações apenhoramentos ennhalheamen- 
tos permudações feyras ou trautos sejam nenhuns e irritos pêra es- 
se feto. e nom seja per elles feto algum dapno as ditas egreias e 
aquelles que taaes apenhoramentos e obrigações emlhamentos (sic) 
permudações canybos (sic) fezerem ssem nosso mandado espiciall se- 
jam os ditos contrautos nenhuns e ssejam constrangidos de pagar e 
entregar per seus beens todollos dapnos e perdas que sse aas ditas 
egreias seguirem de taaes contrautos. 

20 Item como assy seja que alguuns nossos antecessores de boa 
memoria stabellecessem e mandassem sob pena de excommunhora 
que os Reytores priores vigairos e outros creligos nom recebessem 
nem leuassem dizimas das terras nom limitadas a seus beneficiios ou 
que nom fossem lauradas per seus fregueses e essomedes aquelles 
que trouuessem as ditas terras nom pagnassem dizimas delias aal- 
guuns sem seu espiciall mandado e nom embargando esto muylos fe- 
zerom e fazem o contrayro Receberom e leuaram as ditas dizimas em 
escandallo de muitos e periigo das suas almas, porém estabelleçemos 
e mandamos a todollos priores Reytores e vigairos e a todollos ra- 
çoeyros e creligos arendadores e teentes suas vezes que gardem 
a dita constiluiçam feia per os ditos nossos antecessores e nora vaao 



!•: iiisroniCA 79 



conlra ella vm nenlmina guissa e nom prosumam flaqui em diante 
rroçiiher nem demandar per ssy nem per outrem dizimas das terras 
nom limitadas aas suas egreias ou sse nom forem lauradas per seos 
fregiiesscs ou (h; heens (juo perleençam aas capellas e alhcrgarias fjue 
sejam liedylicidas em suas egieias ou frei^uisias ssem nossa licença 
e esi)içiall mnndado e quaaes quer que desslo fezerem o contrayro 
que tornem aquillo que asy receberem con outro tanto e que esto aja- 
mos nos 011 (jiiallquer ouiro a quem perteenrer per direiío. 

21 Item [)()r(|M(; muytas vezes por mingoa t; niiiligcncia do pastor o 
lobo come a ouelha e os pecados dos ,sul)(Jitos por culijas e negligen- 
cia dos prellados lhes liam de seer demandados das suas maaos no dia 
do juizo, porém querendo nos nos gardar de tanto e laam grande pe- 
riigo stabellecemos que todallas pesoas conigos e outros beneficiados 
em nossa egreia cathedi^all de lixboa e os reytores priores vigairos 
das egreias da dila cidade e arcebispado que teuerem cura dalmas al- 
de menos liiima vez no anuo se confessem a nos (? aos arcebispos de 
lixboa que per os lenpos forem ou a outrem do nosso ou do seu espi- 
ciall mandado e os raçoeyros e fregueses se confessem a seos reyto- 
res e vigairos, ssaluo em aquelles casos em que de direito a nos de- 
uem sser remitidos e emviados per os ditos reitores e vigairos e em- 
quanto vagar a egreia di; lixboa e em todallas sobre ditas pessoas vaão 
per suas conilissõoes ao vigaii'o ou vigairos que forem postos na see 
vagante. 

22 Item mandamos e defendemos a todollos priores reytores e vigai- 
ros das egreias da nossa cidade e arcebispado que cura dalmas que 
lhes per nos ou per nossos anleçessoi'es he comitida (jue a nom come- 
tam nem presumam aalem de liuum mez de comeler a alguum outro 
sem nossa licença e mandado espiciall e se presumirem de facto fazer 
o contrai]'o desto mandamos que assy os que tomarem as ditas curas 
como aquelles que as receberem contra esta nossa presente constitui- 
çam paguem senhos meos marcos de prata pêra a obra da ssee e se- 
jam punidos segundo aluidro do arcebispo e nom embargando esto rre- 
uogamos taaes encomendas ou comissões fectas aliem do dito lenpo 
de huum mez pêra as ditas pesoas e auemollas por nenhumas porque 
taaes costituições e sob estaliilicidas nom podem de direito legai- nem 
absoluer os fregueses das ditas egreias [lera as ditas comisõoes obsor- 
ragações e assy almas dos ditos freguezes sam per elles enganadas por 
o que por as ditas comissõoes nom ouueram nenhum poderio. 



{Continua). 



80 REVISTA ARCHEOLOGICA 

BIBLIOGRAPHIA 

Estudos eborenses (Historia, Arte, Archeologia), por Gabriel Pe- 
reira. 1'iiblicação mensal — 8.*^ Evoi'a, edil. Pereira Abranches. 

Docr.MHNTos iiisToiticos DA CIDADE DE EvoíiA, pelo niesoio. Publi- 
cação por assignatura, 4.°— Évora, 1/'' parte, (í) fascículos) 1883-86. 

Poucas povoações portuguezas são tão ricas em antiguidades e no- 
ticias como Évora, e poucas, como ella, tem sido objecto de estudos 
conscienciosos de pessoas competentes. 

O sr. Gabriel do Monte Pereira, a quem já se devia uma interes- 
sante série de opúsculos, onde reuniu grande parte das informações 
que nos deixaram os auctores da antiguidade acerca da peninsula ibé- 
rica, e ainda outros trabalhos históricos e litterarios, emprehendeu a 
publicação dos Estudos Eborenses, repositório de memorias de todas, 
as ed.ides relativas á importante cidade. Estão já publicados nove 
opúsculos que são (pela oi"(lem do seu apparecimento): \.° O mostei- 
ro de Nossa Senhora do Espinheiro; 2.° Évora romana, 1.^ parte: O 
templo romano. As inscripções lapidares; 3.° A Casa pia. O ediíicio 
do collegio do Espirito Santo da Comi)anhia de Jesus, fundado pelo 
cardeal rei em l.jol. A egreja. A instituição da Casa pia em '1836 ; 
4.° Lóios; 3.° Bibliotheca publica; C.° Conventos, l.'"^ parte: Paraiso, 
Santa Clara e S. Bento; 7.° Delias artes; 8.° e 9.° As Vésperas da 
Restauração. — Em todos estes estudos se notam as grandes aptidões 
do auclor e a sua constante applicação; e alli se encontram colligidas 
preciosas noticias. 

Os Documentos históricos da cidade de Évora contêm: documentos 
dos séculos xii a xiv; extractos referentes a 1350-1450; posturas mu- 
nicipaes do século xiv ; regimento da cidade em tempo de D. João i. 

Esta publicação é d'aquellas cuja importância ninguém pode des- 
conhecer ; e não hesitamos, do mesmo modo que á antecedente, em 
consideraí-a como um relevante serviço prestado pelo sr. Pereira á 
historia pátria. 

Permitta-se-nos, porém, que façamos duas ol)servações acerca dos 
Documentos: a primeira é que muito augmentariam o interesse da pu- 
blicação algumas notas topographicas, históricas, ethnographicas, ar- 
cheologicas c económicas, a exemplo do que fez o sr. Ayres de Cam- 
pos nos seus óptimos índices dos documentos da Camará Municipal de 
Coimbra; a segunda é que muito facilitará a consulta d'este livro um 
Índice analytico das matérias ou, ao menos, um Índice alphabetico dos 
documentos. Quanto a esta ultima observação, é [)ossivel que o auctor 
tencione dar o Índice analytico no íim da 2.* parte, que os estudiosos 
anceiam por vèr publicada. 



E HISTÓRICA 81 



CTPPO FUNERÁRIO ROMANO 
(lescolicrlo em Vizcu 

Km princípios de março ullimo, ao proceder-se á demolição d'uma 
parede interior duma casa na rua de S. Luis, antigamenli; chamada 
da Regueira, em Vizeii, casa em (|ue liabila o sr. dr. José Barbosa de 
Carvalho, descobriu-se um cip|)o funerário romano, de gi"anilo, do 
qual obsequiosamente me deu noticia e me enviou [)hotogra[)hia o meu 
amigo sr. Conde de l^rime, a quem reitero aqui os meus agradeci- 
mentos cordialissimos. 

A estampa \m, que reproduz com toda a exactidão a photographia, 
dispensa a descripção minuciosa do moiinmenlo. (jue consta duma 
íigura de mulher vestida de túnica íianjíida, infclizmtnite mutilada na 
parte superior, e duma inscripção. No jornal O Commercio de Vizeu, 
11." 80, de abril, foi já pelo sr. Toro dada representação do monu- 
mento em gravura de madeira e a inscripção lida no geral. Mas a gra- 
vura não era exacta quanto ás proporções do monumenlo, nem quanto 
á reproducção das lellras. O cip[)o mede 0"',í)0 de alt.. 0"\4() de larg., 
0"\30 de expes. média. 

A inscripção diz: 

Jigiim 

de mulher lCa\esae Viriati s[ervae), [^j)i\norwn XXX, -uncimis 

^SAE • VIRIATI S Rcb(urrits) malri f(adiindinn) c{wavit). 

.t;J|NORVM • XXX Monumcntu elevado a Cacsa, serva de Viriato, falleci- 

-.ONCINVS • RLB jj^ ,-,3 ^dade de trinta annos. Longinus (?) Reburrus man- 

MATRI • P • C jQy fazei- o em honra de sua mãe. 



O nome Caesae encontra-se em uma inscripção da Itália (C. /. L., 
IX, n.° * !28:}0). dado todavia como de leitura incerta; porém noutras 
inscripçôes da Itália (C. /. I., i, n.** I08j da Gallia Cisalpina, \C. I. 
L., \, n.°' í.jO e 018) e de Palma (C. /. L., 11, n.'' 3088) enconlra-se 
o diminutivo Caesida cujo positivo é sem duvida Cacsa, Cacsiis en- 
contra-se numa inscripção de Obidco (C. I, L., 11, n.° 2126; Rev. Ardi., 
p. oú). Proponho pois esta leitura do primeiro nome. 

ViiiatHs é nome vulgar na península: e vista a importância que 
tal nome tem para nós, por assim se chamar o capitão que symbolisa 
a resistência dos lusitanos ao poder de Roma, aqui reuno os diver- 
sos monumentos epigraphicos peninsulares que conheço, onde esse 
nome se lè. 

Rev. Arch. e Hist., I, N.» 6 — Junho 1887. 6 



82 KEVISTA ARCHEOLOGICA 



l. — Em Santo Cruz de la Sierra (Tiii'galium) descobriu-se nni 
cippo com este leltreiro {(L 1. L., u, ii." 084): 

\' I R I A T V s 

T A N C I N 1 • F 
H • S • K 

i.— Em Coiia lia-se em nua piedra de canteria no tnuy grande 
ilbid.. n." 791): 

\' I K 1 A T V S 

:í. — Em GasliiiN (Valle de Eaiia, próximo de Estellam) se desco- 
briu mais a segiiiiile dbid., u.'^ láUTO): 

protome feminae 

mundus inuliebris 

D • M •■ AI • BVTVRRA • BIRIATI Fl 

LIA A/ • X X X • H . S 

taitrus procwreus 

4.-- No sitio de Avellor (perto de Braga) descobiiii-se ainda a se- 
giiiiile iniporlaiite inscripção ilbid., n.*^ 2435) : 

astriDU 
A R Q V I V S 
V I R I A T / 
3 • AgRWpAe 
H • S • çjj E S T 
3 M E L G A E 
CVS • PELISTI 
MONIME n t v m 
CO 



Gonfronlem-se ainda as seguintes inscripções, todas descobertas 
na península (C. I. L., m: VIRIACIVS (n." 001), VIR IO 
i n."** 425;) e 42r)()). v 1 R I A (n." 425()). VIRIA A C T E (n.°' Mr\ 

3774;; e vej;un-se lambem os números lUUO, 2OU0, 392't. e ainda 
333, além d outros. 

O nome da terceira linba — o N c l N v s (e não Onceivs, como o 
sr. Toro leu, julgando ver na lapide ires III) não me paiece comple- 



E IIISTOKICA 83 



clu. Talvez se devesse ler [L]i)n[(j]inus. O cognome lirhurrns, muito 
vulgar, apparece iiuulia Hiscri[)(;ãu de Vizeu {C. L L., n, ri.'* 411;: 

V A L E k I O 
i< !•: B V R 

RO ■ AN • XVII 
R A T líR- E T 
5 M A l" 1-: R 
F • C 

A descoboita, em Vizeu, duma iuscripção com o nome de Viriato 
deve [)ara mintas pessoas ser mna conliiinaçâo de antigas lendas. 
Quem assiíu o acreditai-, advirta •lue houve muitos Virialos ; e (jue 
ainda não está em didjnitivo assente (pie o antigo llarminio corres- 
ponda á monlaniia cliamada Serra da Estrella. 

BouGES DE Figueiredo. 



NUMIS.AIATICA PORTUGUEZA 
D. João I 

Bem diziamos nós no o.*^ numero da [\i'i isln Arc/iroloi/ica, quando, 
fazendo algumas considerações sobre a nuuiaiia do reinado de D. 
João 1, e procurando juslilicar com razões obvias a dL'nomma(;ão de 
fracções de rcaes que dêmos a duas moedas novas, não as encoipo- 
raiido num grupo conliecido talvez injustiíicadamenle com outra de- 
nominação, aHiiuiavaindS (pie a historia monelai ia desie reinado iiTio 
era ainda C(»iii[)letamente clara e conhecida poripie íallavam as noti- 
cias de muitas moedas que as chiouicas e mais documentos existentes 
não citavam. 

Duas moedas novas vem corroborar a nossa asserção respectiva- 
mente á falia de noticias deste leinado. 

Estas duas moedas |)reciosas e únicos exemplares que conhecemos, 
em bom estado de conservação, pertencentes á collecção do dislinclo 
numismata e nosso amigo o sr. Júdice dos Santos, cavalheiro que lam- 
bem concorreu para augmenlar d'uma maneira considerável os impor- 
tantes trabalhos e a noticia desenvolvida que <j sr. Aragão dá sobre 
moeiias porluguezas, facultou ao nosso estudo as suas moedas para 
d'ellas darmos uma descri()ção. 

Uma delias pertence ao grupo dos reaea de 3 Va libras e é uma va- 



84 REVISTA ARCHEOLOGICA 

riedade iniporlaiilo do real que sob o n." 13, est. viii, tom. I, o sr. 
Aragão descreve na sua obra. ' 

A outra, pelo cunho, não deveria pertencer a nenhum dos grupos 
citados no nosso anterioi" artigo sobre este reinado. 

O seu reverso assimelhase um pouco no anverso do real de lu soldos 
desciipto pelo sr. Aragão* sob on." 2 deste reinado, dilíerindo apenas 
na legenda que é de rei e não de regente e em ler um P em logar dum 
L: o anverso dá uma ideia do anverso do real de 3 Va libras, com n.° 
16, mas com a legenda que tem o reverso desta moeda e também só 
iruma linha. A coiòa é essencialmente diíTerente. Em resumo, esta 
moeda, é um lypo completamente novo e querendo agrnpala, talvez 
que á falia de melhores elementos e de melhor opinião se podesse 
por emquanto classificar de real de 10 soldos. 

O real de 3 */2 libras do n.° 43 com que comparamos a primeira 
moeda, é descripto pelo sr. Aragão, pag. 201, tom. I, como segue: 

« >í< J o H N s * DEI * G R A Cl A * RE X.— No centro, den- 
tro dum circulo foimado por oito arcos IHNS; por cima a coroa 
real e por baixo E, lendo immediatamente por baixo da coroa um 
ponto, com uma cruzeta de cada lado. 

1^. A D JUTOR lUM ° N O s T R u M = Q u i — Quinas cantona 
das por quatio castellos. Real de H */-2 libras, B. — II^OOO réis.» Vide 
est. XH. 

A nova moeda é: 

>Í<J0HNS*DEI*GRACIA*REX*P. — Dentro d'um cir- 
culo pontuado, e no centro de dezeseis arcos, em grupos de dois a 
dois, ou oito arcos duplos ligados por oito arruelas, i n N S tendo por 
cima a coroa real e pnr baixo L entre duas rosetas ou florões. 

R. ^ I H N S * D E I * G R A G 1 A * R E X * A L ;.— UentrO dum 

circulo pontuado os cinco escudos das quinas collocados em cruz e 

esta canlonada por quatro castellos. Peza r)6 grãos. 

Comparando estas duas moedas vè-se que a nova tem: 

Na legenda do anverso a inicial da palavra Portugal que a outra 

não apresenta, e o e entre dois florões. 

No reverso a legenda é completamente diversa porque em logar 

de AD J UT O R I U M ° N o S TRIIM tem 1HNS#DEI#GRA- 

C i A * R E X * A E . 

Parece- nos que esta moeda merecia bem ser descripta pela legen- 
da do reverso que é totalmente diversa da similar de cunho descri- 
pta pelo sr. Aragão. 

A segunda moeda é: 

>íi A I) J u T O R I II M * N O s T R E N # Q u I . — Deutro dum 
escudo pontuado e no centro de seis arcos duplos, ihns com um 

' Descripção geral e histórica das moedas cunhadas em nome dos reis, regentes 
e governadores de Portugal. 



K HISTÓRICA 



85 



[loiílo ii;i parle superior, tendo por r/ima a corôn real: por hnixf» a 
lei Ira i» . 

\\.yíi IIINS I) K I (] \< A R K X POR 11 (i AI. Al..— Deil- 

Iro fruiu circulo poiUiiarJo e no meio de (|ualro duplos arcos ogivaes 
eslão as cinco quinas em cruz e no lado inferior e esquerdo um i>. 

O reverso que dá uma ideia geral dos rcacs ilr 10 soldos e rcars 
hraHCOs, não é comtudo egual a nenhum delles na legenda, e nenhum 
dos cunhos do Porlo tem só um i> ao lado es(juerdo do escudo infe- 
rior. Tem as lellras i» o aos lados d"esse escudo. 

Só o real de regente com o ii.° á da est. 7, tom. I." da olua 
do sr. Aragão, que é cunho de Lisboa, tem um L no lado esquerdo 
inferior da moeda em vez de i.i? como tem lodos os outros rmes de 
lo soldos fabricados em I/isboa. 

O anverso dillere com[)letamenle dos nuics de KJ soldos e rcoes 
brancos. A legenda é incompleta e só- numa linha. IHNS não está 
immedialamente no cenlro do circulo pontuado como nos reaes de lo 
soldos, mas no centro de seis duplos arcos de circulo. 

Este numero de seis duplos arcos é completa novidade, porque 
em todos os rrars de lo soldos, rmes brancos ou reaes de S * 2 libras. 
o numero de arcos duplos é de oito ou de quatro e nunca de seis. 

A coroa é também especial e diíTerente da de todas as moedas 
descriptas pelo sr. Aragão. Parece mostrar a Iransicçáo entre as duas 
coroas, de regente e de rei. que como se observa nas respectivas 
moedas são differentes. 

Esta moeda está á llor do cunho e pesa 00 grãos. 

Esperamos que hão-de ir apparecendo mais elementos para o es- 
tudo completo d'este remado, e se por emquanto não podemos fazer 
acerca d'elle, como ninguém pôde, allirmações em absoluto com re- 
lação ao seu systema monetário, lemos ao menos o cuidado de ir col- 
ligindo escrupulosamente todas as notas illucidalivas que podemos ob- 
ter para darmos mais tarde um estudo quanto possível completo, 
como prometlemos no nosso artigo anterior. 

M. Alexandre de Sousa. 



O SUPPOSTO BEIGANTIUM 

em Castro de AvelJãs 

Ao passo que nos demais paizes da Europa muito se tem traba- 
lhado e continuamente se trabalha para o exacto conhecimento da sua 
geogr.iphia antiga, em Portugal tem sido completamente descurado 
tão importante objecto. Não ignoro que, desde Rezende, alguns au- 
clores lêem dissertado mais ou menos extensamente sobre a geogra- 
phia antiga do território hoje portuguez, e que muitos d'elles preten- 



8C EEYISTA AECHEOLOGICA 

deram fazer identificações de antigas povoações com outras modernas; 
mas, se por vezos nalpumas dessas idenlificações foram felizes, quasi 
sempre claiidicaiam. Diogo Mendes de Vascoiicellos nos seus scltnlia 
a l^ezeiíde foi duma notável infelicidade; de Biito, provado como 
está sei" falsaiio, nada direi; Faiia e Sousa conlinuoti aniigos erros 
do mesmo modo (]iie mais tarde outros o fizeram, como J. Baptista 
de Castro e Luiz (lardozo; e quanto ao pequeno livro do padre Nas- 
cimento. J\íapi)a breve (In Litsilania cuiliga, não é elie mais do que 
uma '•ongloliação de tudo o que os antigos escriplores porliiguezes 
disseram, sem qu(3 fosse discutido coiivenienlemenle. A par destes 
auctores que citei e d'outros semelhantes, apparecem todavia escri- 
ptoies verdadeiramente notáveis, que, com quanto por causas inlie- 
rentes ás epoclias. em que viveram, nem sempre poderam com toda 
a verdade tratar alguns pontos da nossa geogiai)liia antiga, todavia 
meiecem a nossa consideração por seu sabei' e pelo seu espirito crí- 
tico. São elles principalmente Gaspar Barreiros, na sua C/iorogra- 
p/ua (Vaíguiis lagares, e Gaspar Estaco, nas suas Varias antiguidades 
de Portugal. Depois d"esses vem o académico Manuel de Faria e o 
Padre Viterbo: e mais perto de nós J. da C. Neves e Carvalho Por- 
tugal e o dr. A. F. Simões. 

É principalmente aos estrangeiros que nós devemos os melhores 
estudos acerca da geographia anliga e medieval do nosso paiz. Depois 
dos largos e importanies trabalhos do célebre agostinho ÍIenri(]ue 
Florez, bem conhecido de todos que se entregam a estudos archeolo- 
gico-historicos, outros trabalhos existem Ja, quer inéditos quer [)ubli- 
cados. Em Ilispariha. os meus respeitabilissimos amigos, D. Anielia- 
no Fernandez Guerra y Orbe e D. Eduardo Saavedra, da Acadeutia 
Espahola e da Real Academia de la Historia, téem já tratado da {^eo- 
giaphia antiga da Península: o primeiro d"estes sábios, bd)liolhecaiio 
da primeira d'a(]uel!as ac.idemias e .anlitpiaiio da segunda, eslá empe- 
nhado ha mais de 53 annos (desde '1833), em esludos profundíssimos 
sobre a geographia e hislor ia de ílispanha antiga : o segundo, distin- 
ctissimo escriplor e archeologo, e crnsumado arabista, também em 
muitos trabalhos de alia valia se tem occupado da geogia|iliia j)enin- 
snlar, tanto lomana como árabe. con)0 os leitores da lieristu tive- 
ram já occasião de apreciar. Na vMk manha o sábio di'. Emilio 
Iliibner, meu respeitadíssimo amigo, íamliem. não só em escriplos 
especiaes, mas no segundo volume do Corpus hiscriptionum. Latiiia- 
runi tiala com a proíiciencia que o mundo scienlifico lhe recoidiece 
de muitos pontos da nossa geographia anliga. 

Não citarei outros escriptores, e limitar-me-iiei a observar que 
sendo por um lado extremamente honroso para nós que homens illus- 
Ires como os snpra-cilados se occupem de nossas coisas, por outro 
lado é lastimável que nós os portuguezes tão pouco trabalhemos, sem 
preconceitos, no que é nosso. 



E IIISTOKICA 



87 



É devida ao íjiiasi nada (Iik; possuimos feilo por nós acerca de 
nossas antiguidades, e ao geral desconliecinientn do (pie exlranhos lêem 
prodnzido sobre ellas. a' ignorância de innilos pontos da nossa geo- 
grapliia antiga, e a não resohirão de vários problemas (pie concerntím 
a ella e á historia. I^or isso muitos e mnilos dislates por abi coirem. 
pondu-se elles princii)almente ein evidencia quando o acaso faz com 
que se abram os archivos da terra, patenteando nos antigos monu- 
mentos. , 

lia poucos mezes, em noticias espalhadas por muitos jornaes do 
paiz. divulgou-^e a descoberta dumas rumas im|)orlanlissimas peito 
de Castro ('le .\vellãs, e que pela visinhança da cidade de liragança 
foram logo indicadas como os restos do antigo tírigcmlium. Começan- 
do a ser exploiadas as ruinas pelo professor de francez do lyceu de 
Bragança, o sr. José Henriques l'inheii-o, por conta da sociedade Mar- 
tins Sarmimtn, de Guimarães, e como era possível que houvesse utili- 
dade em que a exploração fosse feita por conta do governo, visto exi- 
mo os docuuKMitos importantes que a antiguidade nos legou não de- 
vem em boa razão ir augraenlar collecções particulares tanto de na- 
cionaes como de estrangeiros, mas ficarem pertencendo ao Kstado, para 
se formarem museus aonde esses moinimentos se conservem conve- 
nienlemenlo, servindo aos estudiosos para suas investigações e aos de- 
mais para seu ensinamento, iionrou-me o illuslre Presidente do Conselho 
de Ministros e Ministro do reino com a missão de ir fazer o reconlie- 
cimento das alludidas ruinas. Dei cumprimento á incumbência e apre- 
sentei em tempo competente o meu relatório, (jue creio vae ser pu- 
blicado. 

O local das ruinas é numa pequena collina que fica, p_ara o poen- 
te, a cavalleiro da pobríssima pov()a(:rio de Castro de Avellas. 

Os principaes vestígios de edilicação que alli lia, (piasi na extremi- 
dade oriental do oiteiro, são quatro plintos do granito que abunda 
naquellas regiões, os quaes se acham alinhados na direcção NS, e 
apenas á profundidade de um metro approximadamenle. Junto do 
ultimo plinto da parte do sul enoonlram-se restos de antiga parede 
seguindo para o poente, formando angulo recto com o alinhamento 
dos plintos; e no lado opposlo. ao noite e também junto do ullimo 
plinto, pareceu-me notar vestígios de parede parallela á outra. Segun- 
do consta, foram encoiitiados\illi um capitel e uma base de columna, 
da ordem toscana. Nem nos plintos. nem nos alludidos restos de co- 
lumna ha coisa que decida a considerar a(]uellas reli(piias como pura- 
mente romanas; pois que tanto podem ter pertencido a um edificio 
elevado pelo grande povo, como a uma construcção medieval, o que 
não pode ser em absoluto prejudicado pelo appaiecunento naquelle 
sitio de muitos fragmentos de tijolo e de telha de rebordo. O que e 
indubitável é (jue S(')bre aquelles (pialro plintos assentavam outras tan- 
tas columuas. Se a construcção é romana, pode crer-se que o edificio 



88 REVISTA ARCHEOLOGICA 



foi um prosíf/Ios, a cujo pronaos pertenceram os quatro plintos; se a 
i-onstrucç.ão é medieval, foi necessariamente um pequeno templo ou 
capella, de cujo alpendre íizeriim parle os restos encontrados. O edi- 
ticio linha como com dilliciildade pude observar, a sua fronlaria vol- 
tada ao oriente, o que podeiia militar a favor da orig(.'m romana 
daquelles restos; pois, se o templo fosse cluislão, seria orientado de 
levante a poente, conforme a lei seguida na edade média ; mas isto é 
iiíSulViciente para uma altirmativa. 

Varias ossadas descobertas a alguns melros do distancia d'aquel- 
las ruinas, a cerca de meio metro de profundidade estavam incomple- 
tas 6 nenhuma importância tinham. Nas sepulturas não se encontrou 
objecto algum que podesse ministrar subsidios á etlmographia; nal- 
gumas, alguns pedaços de schislo cobriam as caveiras, mas nas res- 
tantes (excepto uma), encontraram-se os ossos sem resguardo de qual- 
quer natureza. Na sepultura que exceptuei, appareceram duas lapi- 
des romanas ladeando parte d'um esqueleto, dois cippos funerários, 
sem duvida aproveitados pelo enterrador ou pela familia do defuncto, 
com o piedoso fim de resguardar os restos morlaes alli depositados. 
Os cippos não estavam na sua posição natural, ao alto, mas colloca- 
dos no sentido do comprimento, indicando bem claramente o fim 
para que alli os haviam posto. Num desses cippos, que tem d'alto 
0"',70 e de largo 0"\33 pude ler : 

B L O E N Bloenae oae {filiae ?) anniontm) LX. 

M ///li O 

.E A N N Monumento elevado a Bloena, tilha de . . . .oa, 

l, X fallecida na edade de sessenta annos. 

Teremos nesta inscripção exemplo do facto, pouco commum, de 
ser a filiação somente indicada pelo nome da mãe? 

No outro cippo apenas se pode distinguir a edade da pessoa fal- 
lecida e vestígios d'algumas letras do seu nome : 

//////////// I M O 

/////^///I ////// 

/////XXV 

O mencionado sr. Pinheiro liga grande importância ao achado d'es- 
sas ossadas, e está couvencido de que houve alli um extenso cemité- 
rio, d'onde concluo a existência. na(|uelle sitio, duma grande povoa- 
ção. Está complectamente illudido. As sepulturas não remontam á 
epocha romana; demonstram-n'o as lapides romanas alli encontradas, 
por isso que é um contrasenso suppôr que pessoas d'então fossem 
expoliar brutalmente dos monumentos as sepulturas dos seus conci- 



E HISTÓRICA 89 



(ladãos pura com olles grosseiramente ladear o cadáver d'onlro. Por 
oulio lado, o achado das ossadas de modo algum dtve causar admi- 
ração, sabendo-se da existência na(|nelle sitio de uma antiga egreja 
ou ca|)-3lla de S. Sebastião. Ainda hoje em muitas parles de Portu- 
gal os ciiterramcnlos se fazem, como é saljido, nos adros das egre- 
jas; e lá mesmo em (^aslro de Avellãs tèem (illes logar no limitado 
espaço de terreno (|ne existe por detraz da egreja, recinto separado 
dum lameiro por um pequeno muro. Ora é naturalíssimo e, com re- 
speito ao tempo, perfeitamente regular que o adro ou circumvisinhan- 
ças da egreja de S. Sebastião hajam sido logai- de enterramentos, e 
(jue os christãos tenham lançado mão de monurnenlos de passadas 
gerações para os utilisarem nas suas sepulturas. Na constrncção da 
alludida egreja empregaram se como maleriaes cippos e outras pe- 
dras de trabalho romano. Não se pôde pôr isso em duvida em vista 
(la informação que nos deixou Sampaio'; e não causa extranheza por- 
que em [)lena ednde média ao procedcr-so a qualquer edificação — 
habitação, templo, muralha, torre — a[)roveitavam-se sempre as lapi- 
des romanas que em abundância se encoidiavam por toda a parte: 
porque, estando essas pedras já apparelhadas, só havia o simples 
trabalho do seu assentamento. Frequentemente essas cantarias eiam 
coUocadas de maneira que seus relevos ou inscripções ficassem occul- 
tos. quasi sempre com o fim de apresentar á vista uma superficie 
lisa, mas algumas vezes (principalmente em construcções religiosas) 
no intuito de fazer desapparecer iodo o vestígio do paganismo. Quan- 
to a considerar-se aquelle conjuncto de sepulturas como um extenso 
cemitério c vèr as cousas com vidro de augmenlo; e, ainda que assim 
fosse, suppôr que existiu naquelle local uma grande povoação, por 
aquelle motivo sô, é mera plumtasia. Os romanos tinham suas sepul- 
turas fora das povoações^ á beira das estradas. 

Appareceram nas insignificantes minas que se suppõe serem as 
dos alicerces da antiga egreja algumas lapides romanas, umas parti- 
das, outras com as inscripções apagadas, e três túmulos. Dois d"esles 
(que não vi porque o dono da propriedade os fez transportar para 
sua casa, d'alli distante, apenas achados) não tinham, segundo me as- 
segurou o sr. Pinheiro, inscripção nem relevo algum. Quanto ao outro, 
que este sr. recolheu num pateo de sua casa, tem epigraphe, mas 
tão deteriorada, que não me foi dado lel-a apezar dos grandes esfor- 
ços que para esse ílm empreguei; concorreu também para o mau re- 
sultado das minhas tentativas a péssima posição em que estava o mo- 
numento quasi encostado a um muro, sem eu conseguir que elle fosse 
posto em posição conveniente. Tem esse monumento dois metros de 
comprido e cincoenta e seis centímetros de diâmetro; foi primitiva- 

' Francisco SaiTipaio. Memoria sobre as nditas do Mosteiro de Castro de Avel- 
'lis. . . in Memorias de í.itfcratnra Portugiieza, vol. v, pagg. 258-26;]. 



90 UEVISTA ARCIIEOLOGICA 



mente, creio eu, iiiii mnrco miliaiio circular que escavaram para ser- 
vir dl.' sepuichro ou sarco{)hago. As letras tèem oito cenlimelros de 
altuia; pude ai)euas lèi' com segurança: 

• . • P O S [divi Hadrijui ne]pos ?.. . 

... 1) I \' I T R A divi Tra\jani proncpos ?| • • • 

Além dalgumas lapides inteiramente illegiveis, descobriu-se nas 
recenlíís escavações um cippo mutilado, de O'", 35 de alt. e 0"',^9 de 
larg., tendo a roseta symbolica na parte superior e esta inscripção: 

M A E C I o 
CORNELIO 



Os fragmentos de cerâmica encontrados naquelle oiteiro são in- 
teiramente insignificantes. De cobre, appareceram uns inaures e insi- 
gnincantes IVagmenlos impossiveis de determinar. Não tem appareci- 
do moedas alli, senão muito rai'amente; e não sei se romanas. 

Os jornaes noticiaram o a()parecimento de objectos preliisloricos 
naquelle sitio. O citado sr. I'inlieiro mostrou-me elTectivamente um 
pedaço de pedra calcaiea avermelhada, rolado e paitido numa das 
extremidades, que o mesmo sr. julga ser um machado de pedra da 
epocha neolilhica. .. 

No relatório que apresentei a S. Ex.-' o Ministro, disse eu o se- 
guinte: 

«Que no oiteiro de Castro de Avollãs assentasse o Brigantium Fla- 
vium ou mesmo o Brif/ai'ciiim de que falam FMinio e Piolomeu é de 
todo o ponto insustentável perante as iidbrmações que a antiguidade 
nos legou. Que, porém, tenha havido por aquellas proximidades um 
oppidum Uvigantium ou Briganfia não é hypothese (]ue deva repellir- 
se. attendendo ao actual nome de Bragança e ix enorme quantidade de 
homouymos geograpliicos na penmsula [lyrenaica. Mas, quando dada es- 
ta hypothese, esse oppiílain ou ciriías não assentou no oiteiío de Cas- 
tro. Alli, e estendeiKlo-se talvez para os lados de Gostei (o que futu- 
ras explorações poderão resolver), demorou uma população romana 
ou roinanÍ3ada que é conhecida na hi.stoiia pelo nome de Zoelas. Na 
egreja de C.astro de Avellãs existiu até ha bem poucos ânuos uma la- 
pide com a seguinte inscripção summamenle importante: 



D E O 
A E R N O 

O R D O 
ZOELAR 
5 EX VOTO 



E HISTÓRICA 91 



«Esta iiisciiprno. o iiiiico inomimeiílõ lapidar em que. juntamente 
com o nume de uma divindade peninsular, era m('nfi()n;i(la a ordem dos 
Zoelas, essa pedra (jue os secuios respeitaram, foi destrnida lirutal- 
mente ha alguns annos por um individuo de nome Assis rpie a lians- 
formou num vaso destinado a adornar llie a sepultura, fazendo des- 
ap()ai'tn'.er inlíiii-anHUiti! lodo o vcsligio da impoi tantissima insci ijirno. 

«Deixar de loiMJisar no oileiro a oiíIo Znrlcniin, romo um monu- 
mento- inlelizmenle perdiíln. hoje o coidirma. paia ver naquelle le- 
gar um lirií/nnnioii ainda desconliecwlo, é querer liictar contra a razão 
e a eritica. No Oiip/is Iiiscripliiiii/nii Lutiiuiridii, vol. ii, n."* lidOS e 
!2()01), vêem in-crlas duas inscripç^-ões (]ue se perdei"am e ainda a se- 
guinte (n." i2íil)7), (|ue foi transportada duma [)arede vellia do antigo 
mosteiro de (lastro de Avellãs [)ara a parede de uma casa: 

palma palma 

Dr:o A ER 

N O M 

«Este monumento (nlt. 0"\:ií ; larg. O-". 275; lellras alt. 0'",0G) foi 
tirado pelo cilado sr. Pinheiro da parede em que se achava, com destino 
á Sociedade Martins Saiimuito.» 

No recinto em que se fazem os enterramentos, existe ainda uma 
lapide marmórea peifeitanjeide conservada (altura l™,45;larg. O"", 41; 
lettras ali. 0"',05), com a seguinte inscripção: 

palma 
palma pali>ia 

D M Diiis) M^anilyiis). Proculcio Gracili (filio), an- 

P R O C V L !•: I O norum LV. S{ii) l(ibi) t(erra) l(evis). 

GRACILI Aos deuses dos mortos. Monumento elevado a 

A\/ N O R V M L V l^roculeio, tillio de Gracilo, fallecido na edade de 

3 S T T 1. cincoenta e cinco annos. Seja-te a terra leve. 

Temos nesta epigraphe exemplo da omissão da palavra filitis. 

Creioque lodos esses monumentos epigraphicos. encontrados naquel- 
la localidade, são restos da antiga povoação (licKs, pagus ou ciriíns, 
mas talvez não appidum) da onhi Zofhniiiii. Esta opinião já expendida 
pelo citado Sampaio, pelo auctorisado Viterbo *, e pelo meu amigo sr. 
Emilio llubner, é a única acceitavel. 

' Elucid., s. V. Bemquerenra. 



Dá REVISTA ARCHEOLOGICA 



No caso em que o moderno nome de Bragança, como indiquei 
acima, nos conserve memoria d"nma antiga povoação romana, de no- 
me Hriíiantium oii antes Brif/antia, ella de certo não era situada no 
silio de (lastro de Avellãs. Na falta de outros dados, não deve des- 
[irezar-se a tradicção. embora esta seja muito íallivel. Ora é constan- 
te a indicação Iradiccional de que antigamente a cidade era perto 
do Sabor, ao NE da actual povoação. Já Viterbo * mencionava ves- 
tígios de i-uinas nas margens daquelle rio e eu creio ter reconhecido 
alguns indícios. 

Toda a região transmontana está por explorar ainda no que re- 
speita á archeologia, com grande prejuízo da historia e da geographia 
antiga. A duas léguas de Bragança, para o NE, existe uma pequena 
e pobre povoação, Sacoias. e próximo d'ella uma collina onde tem 
appparecido grande (luantidado d(^ inscripçues lapidares e muitos 
outros objectos interessantes, lia alli muitos vestígios de povoação 
romana. Eis duas das inscripções alli descobertas, que existem hoje 
em Sacoias: 

1. Cippo funerário (alt. !'",(); larg. 0"',4) com a roseta symbolica 
na parte superior : 

1) <t> M Diiiò!) M{anibiis). Flau Festi /(ilio) annioruni) 

F L A O A'XA'. S{it) t{ibi) t{erra) l{evi.s). 

F E S T I F Aos deuses dos mortos. Monumento elevado a 

AAA/XXX Flao, filho de Festo, íallecido na edadede trinta 

3 STTI annos. Seja-te a terra leve. 

O nome Fcsln é bem conhecido; e o de Flao (cf. Flavo e Flávio) 
tem-se encontrado em inscripções da península (C. I. L., u, n.°' 202?) 
e 2774). 

2. Lapide (alt. V'','M: larg. O'". 3) com a seguinte epigraphe; sem 
vestígios alguns d'outras lettras ou signaes: 
A li R O Arro Cloii[thts ?) 

C I. O V a(iumo) l(ibens)? 
A L 

O nome Arro encontra-se numa inscripção de Segóvia (C. J. L., 
I!, n.'' 27.'i5) : D • M • s ■ A R R O N I S , etc. 

Uo pouco que se tem encontrado no oiteiro de Castro de Avellãs, 
sem documentos epigra[)hicos e sem informações que nos deixassem 
os escriplores da antiguidade, é verdadeiramente por mera pbantasia 
que se pode ter dito (jue alli assentara o antigo Brigantium. A povoa- 

' Lor. cil. 



E HISTÓRICA 



93 



ção d'esle nome que IHolomeii cila ^ O/acJtcv Bpiyávncv, era situada 
junto d"uníi grande golplio ou porto de mar h tw ^j.£yá//.) hu.vA, a (|ual 
lambem é mencionada por l)i(jn. Não pode pois este o/y/;/V///m estar si- 
tuado no meditei raiieo. Ouanlo a uma antiga Brujantia já fica apon- 
tado o seu logar piovavel. 

São ainda hoje desconhecidas as situações de muitas e muitas ou- 
tras povoações antigas, cujos nomes nos revelam os auctoies gregos 
e lalinos, e que existiram em todo o leniloiio hoje portnguez. Quem 
sabe onde eram situadas Klcoboris, Talabiig.i. Iníeranmium, ."\h'dobri- 
ga, Cehobiiga e tantas outras? Só lun estudo ciilico ujuito piofundo, 
auxihado pela descoberta de novos documentos epigraphicos poderá 
resolver varias d'essas questões cuja impoilancia seria ocioso de- 
monsli'ar. Mas os poderes públicos podem auxiliar nniilo a sciencia 
promovendo ou ao menos coadjuvando exploiações em vaiios pontos 
do nosso paiz. Por toda a parle, mesmo nas regiões aonde já foram 
executadas explorações, muilo ha que fazer. Mas princi|)?lnienle as 
provindas do Alinho, Traz-os-Monles e as duas Heiías contèem ainda 
milhares de preciosidades, que trabalhos melhodicos fariam conhecer. 



Bo[<r.[<:s dií Fhjueíhldo. 



EPIGRAPHJA 

iVej. pcifl. 41— 4H) 

Monsenhor Pereira Holto, de Faro. obsequiou-me com algumas ob- 
servações acerca da iulerprelação que dei da inscripção de A \' \< ■ 
V R S I \ \ s • Quanto á primeira linha, diz que na lapide ao G se se- 
gue um J., inteiprelando {Auyinsli l[ib('rtus). Num calco em chumbo, 
que me enviou, vejo eíTectivamente alguns vestigios de ieltras, mas 
tão pouco explícitos que não posso decidir-me sobre ellas. Pelo* que 
respeita á segunda linha, dizia-me Monsenhor Bolto na sua primeiía 
carta que «Depois do íá." p da 2.'' linha o baixo relevo que o calco 
deve acusar não é ponto de escripta, mas orifício da mesma pedra: 
advertindo ainda, que ao 2." p evidentemente se segue um i » ; e 
neste supposlo, lia : NUvem) P^iibiicei Pio??/) Mussil). Posteriormente 
enviou-me tarnbem dessa parte da inscripção um calco em chumbo, 
de cujo exame resultou o (içar eu peifeiiamejite illucidado acerca do 
que alli está escripto. O que eu tomara no calco em papel por nm 
ponto triangular ou um i> é uma lettra, um R, de que se não vê 
toda a curva superior por estrago da pedra, mas em que se distingue 
perfeitamente o angulo formado pelas duas hastes convergentes Uga- 

' Geogr., u, G, 4. 



94 liEVISTA ARCHEOLOGICA 

do á hasle vertical, deste modo R. Assim, deve ler-se: \{ir) V{erfe- 
clissimus) PU(tíí'.st'ò^), etc. 

Eis novamente a inscripção rectificada : 

^VGG/ I / I / I I l I I / I 

AVR • VRSINVS • VPPR 

P R O VI N C L V S I T A N I f 

IJoilGES DE FlGUIClUEDO. 



CONSTITUIÇÕES DO AKCEBISPADO DE LISBOA 

Dccreladas por D. João Esteves (l'Azambuja (1402-1414) 

{Contlmiado de pag. 70'\ 

23 Item por quanto per rr.ilnçam de mnytos aprendemos e seja- 
mos ceilelicado (jne niiiylos piiores i"eytoies e vigairos e ptiostes 
da egfeias da dita cidade e aiçidjispado tiom querem liir conunuiigar 
os enfermos fora das villas e casleHos Ini estam as egreias em luga- 
res alloiigados e ri'emolos a (pie sse estende {sic) as fieguisias das di- 
tas egreias que sam grandes e delíiisas dizendo que noin podem aalla 
liyr sem grande trabalho e peiiigo de leuar o corpo do saluador com 
lume e cum aijuella liourra (pie deue sseer Irautadu e leuado, porém 
nos consirando que o corpo do saluador e i'remidor Jlm x° em 
que está a saluaçam e saúde dos xpaãos deve sseer leuado com gran- 
de hoiirra e rreuerençia porem de (sic) e por que os que quei"em a 
cumunhom nom morrerem ssem ella e a rreceberein como com|)re aa 
saúde das suas almas siabellecemos que quando algimm rreylor ou 
outro a que perleençer líor. rrequerido pura liir comungar lora das 
villas 6 lugares lionde as egreias cujas ÍÍVegiiisias sam os que reque- 
rem a cumunhom que os sobreditos priores ou oiilros a (]iie peiteen- 
cei" possam em este caso na casa do que ouuer.de rrecebei' a dita co- 
munhom ou em outra daipielle lugar sse íor mais honesto leuantar 
altar e cellebrar em elle e consagrar a ostia pêra comunhom e dalla 
ao enlíermo segundo a irurma e maneira acuslumada. 

(jiie nom façom sorlcs nem encjnlaiiwnlos. 

24 Item iioso antecessor dom joiíam da boa memoiia a que deus 
perdoee arcebis[)o (pie foy da dita cidade fez e ordenou estas consti- 
tuições que sse segiKun [)rimeiiainei!le (]ue nenhun; nom liuse de sor- 
tes nem dagoyros nem de encantamentos nem de escunjurrim (sic) nem 
chamar espirilus mallinos nem de trazer escripturas nem nominas em 
(pie ssejain escriplas pallanras maas e desonoslas com tigiiras nem 
canrantaras ou com nomes e pallauras que nom possam sseer enlen- 



E HISTÓRICA 95 



(lidas nem arliadas nas sanlas escr iplinas. IUmti per clle (Toy e per os 
nossos antecessores stabelliriílo ipic jcjuaassein anballas lesslas de 
sain vicenle. 

que 7unn façam cercos peia c/iaiitar os ilemonios. 

2õ liem (jue nenhum nom fezesse circo pêra chamar os demónios 
011 pêra ssaher as consas escoiuhdas ou pêra fazer íiiij^imenlos ernpee- 
ciinees [)er (pie sse (K^monslrain e sayham as consas (pie ain de vyr 
e IToy per elle posta senlen(^^'i de excomnnhoni em lotJos os (jue fezes- 
sem eslas e hnzassem delias. 20' liem líoy per elle posta senteriíja de 
excomunhom em as barregãas manlindas dos liomens casados e dos 
creligos de ordens sacras ou IjenefuMados e dos i relligiosos e por fpie 
os (pie as (lilás cousas fazem e liusam delias [tecain graiiemente e 
sse segue dos dilos maaos pecados gr.uides (l.ipnos e perdas assy das 
almas como dos corpos e heens (pn; os liomeMS liam, porem nos 
(juanlo aos dilos casos das conslilinções feitas pei' o dito nosso an- 
teíjessor poemos senlença de excomunhom em os (|U(> as ditas cou- 
sas ITezeiem segundo sse conlem em as ditas conslitui(;ões. 

que 110111 ponhoin iiiaão as crianças 

27 liem se conthinha em as ditas constilui(;ões que nenhuma pessoa 
nom posse (sic) maão em oulrem em maneiía de veedt-yia (;U henze- 
deyra ou emcanladeyra nem husasse de ydollalria fazendo ou di- 
zendo algumas cousas que perteencem mais a parle do inmigo da li- 
nhagem huiiian;ill qiie a deus e aos seus santos e era outro ssy def- 
fesso que nenhuum nom íosse a taaes veedeyros. 

(jiie nom lancem sortes nem augoas, nem ponham call as porias. 

28 Item se conthynha em ellas que nom cantassem mais nem to- 
massem agoas nem lan(;assem hy sortes nem dessem janeyras nem lan- 
çassem call aas portas em lenç-am que por as darem ou rrecebessem 
(sic) emlendessem de avermilhor annoou mez e nom as dando ou rre- 
cebendo pyor e que nom gardassem os dias azinhagos nem a terça 
ííeira creendo que hunm dia he milhor e de millior viloiia (jue outro. 

que nom vsem dakovelaria nem (ezes^in ao domiiiijo nenhum ser- 
viço. 

20 liem era conlliiudo nas dilas visitações (ju constituições que ne- 
nhuum nom husasse de alcouveylaria emí^luzendo molher viuua ou ca- 
sada ou moça virgem pêra corruçam e desonestidade. 30 Item que 
nenhuum nom i)raadasse nem sse carpisse pellos morlos. 

81 liem ijue nenhuuui nomseriiisse nem lizesse oulra obra de ser- 
uidom em os dias dos domingos e festas slabilliçidas por rreuerencia 
de deus e da sua madre e dos oulros santos os quaaes a egreia man- 
da gardar de toda a obra. 32 Item que nom cantassem nem danças- 
sem nem balhassem nem Irebelhassem nos mosteiros e egreias can- 
tos danças e trebelhos desonestos nem em a festa de sam vicenle. 

que nom façam feiras aos dias santos nem joguem dados. 

33 liem que nas festas de jhu x"^ e de sanla maria e dos appos- 



96 REVISTA AUCHEOLOGICA 

tollos e de sam joham se iiam fezesse feyra em caso que as festas 
acontecessem no dito dia da feyra e que fezesse no dia seguinte. 
34 Item era conlhiudo em ellas que jejuassem as fesstas de santo 
anlonliinho e de sam jorge. 5õ liem que nom jugassem os dados des- 
de véspera de nalall ataa oyto dias andados de janeiro. 86 liem que 
nom tomassem meezinlia de judeu nem de homem outro fora da ley 
nem comessem suas viandas nem os chamassem aas suas doores. 

{Conlimm). 



i^IBLlOGRAPHlA 

Anneis. Estudo por A. C. Teixeira de Aragão. Lisboa, 1887 — 
8.°, est. 

Ninguém ha, mais ou menos dado aos estudos archeologicos e es- 
peciahnenle á numismática poi-lugueza, que desconheça o nome do 
sr. Teixeira de Aragão, cirurgião-mihtar, professor de hygiene na Es- 
cola do Exercito, e por isso wmVa mais diremos por agora, senão que o 
distincto numismala acaba de pubhcar um curioso opúsculo acerca do 
anml. Neste opúsculo, encontram-se em 23 paginas muitas conside- 
rações sobre este adorno antiquíssimo, e noticias de vários anneis 
mais ou menos notáveis existentes em Portugal, sobresaindo entre el- 
les*dois; um, pertencente ao sr. Eslacio da Veiga, composto d'uma 
cornalina engastada em oiro, na qual se vè gravada uma breve in- 
scripção árabe; outro, pertencente ao auctor do opúsculo, de prata 
doirada, lambem com cornalina engastada. Nesta vò se uma figura de 
homem em meio corpo, com coiôa real, tendo na mão esquerda uma 
palma e na direita uma cruz radiada; na orla do engasie leu o sr. 
Aragão y_o — A — O; no aro, dos dois lados do sinete vê-se um Y 
coroado, como se encontra nas moedas de D. João h, a quem é attri- 
buido o annel. 

Este trabalho do sr. Aragão é muito interessante; é pena, porém, 
que o auctor haja dado tão pouco desenvolvimento a um assum|)to (|ue 
lhe proporcionaria ensejo de patentear os seus conhecimentos. Porque 
na verdade muitas oulras e importanlissimas noticias nos poderia dar 
acerca desta espécie de adorno, que como o torquex ascende a uma 
remotíssima antiguidade. 



E HISTOHICA 



97 



TRÊS ]\Í0NUMENT0S EPIGRAPITICOS 
D'ELVAS, E DO SEU TERMU 

meu amigo o sr. F. R. da Paz Fiirlado, grande amador de an- 
tiguidades, des('ol)riu ha tempos em Klvas as três inscripções roma- 
nas, de que vou dar noticia, e que serão novidade, segundo julgo, 
para a maior parle dos leitores da lierisfa, por não haverem eílas^si- 
do ainda publicadas em l*oilugal. 

1 — encontrada num quintal da lUia de S. Vicente, junto a um 
poço; hoje na liihliolheca da Camará Municipal. 

G • I V L I O G A L 1^ O G\r/o Jiilio Gallo, emerite{n)si vete- 

EMERITeSI VeTeR>JO rano L{e)g{ionis) SepWnae Gemime 

LG-VII-G-F-sTlPENDIS Felicis, stipendi{i)s emeritis, annornm 

E M E R I T I S • A /W • L X X septuaginta. H(ic) s{itus) e{st). S{it) 

5 H • S • E S • TtL • IVLIA • PRIMA ^"*') ^i<^f>'^) Uevis). Júlia Prima, li- 

LIB • ET • CONIVX ■ PATRONO */^''^'^) ^^ '^''""''*'' P^i^ono benemeri{tó) 
BENEMERI • D • P • S • F • 



d(e) p{ecunia) s{ua) f(ecit). 
Monumento elevado a Gaio Júlio 
Gallo, emeritense, veterano da Legião Septima Gemina Feliz, que complectou 
legitimamente o serviço militar, fallecido na edade de setenta annos. Aqui está 
sepultado. Seja-te a terra leve. Júlia Prima, liberta e cônjuge, mandou fazer á 
sua custa este monumento em honra do seu patrono benemérito. 

Temos nesta inscripção exemplo d'um militar que complectou legi- 
timamente o serviço, e obteve portanto a honeslam missmtem slipimdiis 
emerilis. É a primeira inscripção encontrada em território portuguez 
em que esta fórmula se encontra. 

2 — Encontrada no estabulo da herdade das Terras da Aldeia, po- 
voação de Santa Kulalia, concelho de Elvas. 



D f M »• S 

M CLODIVS IV LI 

N V S A N N XXi 

H »- S r E r S »• T í- T r L »-| 

giíttus 5TITVS CLODlYSpaícra 
MODESTVS ET 
BLESIDIENAMAR 
CELLA P r ET M FILIO 
PIÍSSIMO r F '■ C 



Diiis) (Manibiis) S(acnon). Mar- 
cus Clodius Juli\_a\nus, ann{oruin) 
A'A'/[/], li{ic) s{itus) e{st). S{it) 
t[ibi t(erra) Uevis). Titus Clodius 
Modestus et Blesidiena Marcella 
p{ater) et m{ater) filio piissimo 
/[aciendum) c{uraverunt). 

Monumento consagrado aos deu- 
ses dos mortos. Marco Clodio Julia- 



no, fallecido na edade de vinte e 
dois annos, aqui está sepultado. Seja-te a terra leve. Tito Clodio Modesto e Ble- 
sidiena Marcella, pae e mãe do fallecido, cuidaram em levantar este monumento 
á memoria de seu piedosissimo filho. 

Rev. Arch. e Hist., I, N.° 7 — Julho 1887. 7 



98 REVISTA ARCIIEOLOGICA 

Os symbolos gravados nas faces lateraes do montimenlo indicam 
pertencer o fallecido á classe sacerdotal. Na terceira linha havia talvez 
mais uma unidade além daquella de que restam vestígios; numero 
maior não poderia conter-se no espaço partido, segundo observou o 
sr. Furtado. 

3 — Descoberta, ao sul da cidade, no casal da herdade do Fal- 
cato, junto do caminho de Évora para Badajoz. 

COMINIAr M rFrAVITA Cominia Marci f{ilia) Avita, an- 
A N N O R ave * ave V 1 1 1 1 nor{um) VIIII, h{ic) s{ita) e{sí). T{e) 
HrS»-E»-T'-R»'PrDr SrT'- T >■ L r{ogo) p{raeteriens) d{icas) s{it) t{i- 
M '• C O M I N I V S »- G L E M E N S bi) í{erra) l{evis). Marcus Cominius 
5 V I B I A '^ M r F »• AVITA Clemens Vibia Marci f{ilia) Avita 
FILIAE '• FACIENDVM '- CVRAR filiae faciendum curar{unt). 

Cominia Avita, filha de Marco, 
fallecida na edade de nove annos, aqui está sepultada. Rogo-te, viandante, que 
digas : Seja-te a terra leve. Marco Cominio Clemente e Vibia Avita, filha de 
Marco Vibio, cuidaram em mandar fazer este monumento em honra de sua 
filha. 

Na segunda linha a folha de hera que separa as palavras é ladea- 
da de duas pombas. A formula Te rogo, praeteriens, dicas: sit libi 
terra levis é muito vulgar na península, seguindo-se as mais das vezes 
immediatamente ao h • s • E • Encontra-se ora expressa unicamente 
pelas iniciaes, como na inscripção presente, ora escripta por exten- 
so. Esta fórmula apparece modificada de muito variadas maneiras, 
subsistindo todavia sempre a ideia inicial de rogativa, feita ao trans- 
eunte, de proferir o sacramental ST-T-L- Eis as variantes que 
se lém encontrado na peniusula : 

Numa inscripção de Gadix lê-se (C. /. L., u, n.^ 1728): te- 

rogo-praeteriens-cvm|legis-vt-dJcas- 
SIT-TIBI-T-L<i); uoutra da mesma localidade, esta leve vaiian- 
le (Ibid., n." 1853) :te- rogo-praeteriens-cvm| 

LEGAS-ET-DIGAS-S-T-T-L- 

Numa inscripção de Linares (Castulo) apparece (Ibid., n.° 3296): 

ie PRECOR • PRAETERIENS • D 
I CITO • T • L • 

8 noutra de Trigueros (Ibid., n.° 952): 
siovis • IIS • 

PRAIITIIRIIIS • LIIGII 
SITTIBITIIRALIIVIS 

onde ha exemplo do e representado por dois ii. 



E HISTÓRICA 99 



Noutras e[)igra|)lies o prupleriens ê subsliltiido, quer por trans- 
grcdiens, como muna de Sevilha (IhiiL, u." lá^í);: TK • ROGO • 
TRANSg^rEJlENSjDlCAS S-T-T-L; quer por discedens, 
como se vè num lellreiro de Cadix, que o leitor curioso não desgos- 
tará de vêr ai]ui transcripto integralmenle {lOid., n." I82lj: 

AVE 
HERENNIA • CROCINE 
CARA • SVEIS ■ INCLVSA • HOC • TVMVLO 
CROCINE • CARA • SVEIS • vjxl • EGO 
ET • ANTE • ALIAE • vIXERE • PVELLAE 
IAM • SATIS • EST • LECTOR • DISCEDENS 
DICAT • CROCINE • SIT • TIBI ■ TERRA 
LEVIS • VALETE • SVPERI 

Encontra-se o praetcriens também subslituido pela phrase qui trans- 
is; como numa iiiscripção de Conimbriga (Ihid., i\.° 'ÒG9): DIC -RO- 
GO | Q v l • T R A N S I S I S I T • T I B I • T E R R A I L E V I S ; ap- 
parecendo mais desmvoivida noutra de Valera de Arriba, Valeria {Md., 
n." 3181): 

. . . STTL 

FREQVENS VIATOR 

S^PE QVI TRrJSIS LEGE 

NATVS PRO TE SVM 



Esta rogativa apparece ainda mais periphrastica numa inscripção 
em verso descoberta em Merida {Ibid., n." 538): 



TV QVI CARPIS ITER GRESSV 
PROPERANTE VIATOR SÍSTE 
GRADV QVAESO QVOD PETO PARVA 
MORA EST ORO VT PRAETERIENS 
DICAS STTL 

Outra periphrase num monumento infelizmente mutilado de Vil- 
ches, cuja lettra é do primeiro século {Ibid., u.° 3256): 



tW ' ME- PRAETEREENS- N.... 

. .MNIS • E • NUMERIS- 

iam, q\l\ - LEGISTI - DIC • Sit ■ tibi ■ terra ■ levis 



100 REVISTA ARCHEOLOGICA 

Algumas vezes também a formula foi simplificada reduziíido-se a 
DIGITE QVI LEGETISSTTL, como SC vê em inime- 
rosas inscripções (Ibid., ii."' o0ri8, 1034, 1512. 1487, M2G. ele); e 
esta, por seu turno an)pliíicada, do (]ue dou os seguintes exemplos. 
Um epitaphio de Ilispalis tem {Ibid., n." 1235): 



QVISQ I EGIS TITVLVM SENTIS QVAM VIXERIM PARVOM 
HOC PETO NVNC DICAS SIT TIBI TERRA LEVIS 

outro de Salpensa (Facialcazar?), da sepultura d'um Pfjlades (.Ibid., 
n.° 1293): 



DIGITE • QVI • LEGITIS • SOLITO • DE • MORE • SEPVLTO 
PRO • MERITIS • PYLADES • SIT • TIBI • TERRA • LEVIS 

Se não fosse meu propósito o apresentar somente as variantes pe- 
ninsulares da formula, muitas outras poderia produzir, visto abunda- 
rem ellas nas demais regiões que fizeram parte do império romano, 

Borges de Figueiredo. 



MAIS UM MONUMENTO EPIGRAPHICO 
DE BENCATEL 

Temos felizmente uma Revista especial em que registrar o appare- 
cimento de mais um cippo, para se não perder a memoria d'elle. De- 
pois, ou desappareça ou não a lapide, não se perde já o documento, 
que assim fica bem archivado para os séculos vindouros. 

Historiemos a descoberta. No principio de março fazia-se o alquei- 
ve d'um ferragial da Herdade do Freire, situado entre o monte (casa 
da berdade) e o poço de que alli bebem. Um dos arados revolveu 
uma lágea de mármore branco talbado, que o conductor da parelha 
de muares desenterrou para a examinar, pondo-a em seguida de par- 
te. Lembrando-se depois de que poderia a dieta lapide servir para so- 
bre ella se moerem tintas, deu noticia do seu descobiimeiílo ao car- 
pinteiro do convento de Montes Claros, cuja é a lavoura do Freire; e 
sendo levada para alli num carro a 21 de maio, casualmente soube 
disso o administrador d'aquella casa e lavoura, o sr. António Joa- 
quim Coelho, que, vendo palavias latinas escriplas nella e conhecen- 
do ser um monumento de aiiligiudades romanas, mandou recolher a 
pedra para me ser mostrada no dia seguinte, em que havia de ter lo- 



E HISTÓRICA lUl 



gar lia egreja do convento a íesla annual de Nossa Senhora da Luz, 
sendo eu o orador da festividade. Apenas a vi, logo a interpretei; e 
pedi ao sr. Coelho que ma cedesse e enviasse para minha casa era 
Bencatel; o que elíeituou prompta e obsequiosamente no domingo se- 
guinte. É [)ois minha a lápide e pode ser analysada por quem o pre- 
tender. Eis as suas dimensões: alt. 0'".4:j; larg. O"', 52; espes. mé- 
dia (r,7. 

Diz o leltreiro, era caracteres de quatro centímetros nas primeiras 
quatro linhas e de dois centímetros nas lestantes: 

L • AVRELIVS • L • F Luciíis Aurelius Lucii fiilius) Flaus, ann{orum) 
FLAVS • ANN • XXX^ XXXV, h{ic) s(iíus) e(st). S[ií) t(ibi) i{crra) l{e- 
H-S-E-S-T-T-L vis). Pater d{e) s[iio) p{onendinn) c{uravit). — Pu- 
PATER - D • S • P • G bliiis Aurelius Aiger, ann{oruvi) X..., h{ic) siitus) 
5 p-AVRELivs-NiGER e{st). S{it) t[ibi) t(erra) l{evis). 

ann--^//h -s-e-s-t-t-l Aqui jaz Lúcio Aurélio Flao, fallecido com trin- 
ta e cinco annos de edade. A terra lhe seja leve. 
Seu páe lhe mandou pôr este monumento a sua custa. — Aqui jaz Publio Auré- 
lio Niger, fallecido na edade de . . . annos. A terra lhe seja leve. 

Algum tempo depois de enterrado Lúcio Aurélio, houve-se por 
bem accomodar outro cadáver na mesma sepultura ; e, porque ainda 
sobejava espaço dentro da moldura do cippo, accrescentaram ao epi- 
taphio primitivo o de P. Aurélio. * 

A pedra é branca, de calcáreo, porém mais grosseiro que o de 
Montes Claros ; o que mostra ser cortado para aquellas bandas do 
Freire, que é visinlio da serra d'Ossa, onde começa a haver granito 
somente, assim como dahi para baixo. 

U3matarei este artigo com duas observações. — Piimeira: Deve 
cônsul lar-se o diccionario Portugal antigo e moderno de Pinho Leal, 
coutiiuiado pelo meu prezadíssimo amigo o dr. Pedro Augusto Fer- 
reira, abbade de Miiagaya, no aitigo de Villa Viçosa, a que pertence 
Bencatel, e o d'este mesmo titulo, dt^nde constam os monumentos ro- 
manos conhecidos ao tempo da publicação. Enconlram-se alii as co- 
pias do cippo de Júlia Avita, da ara de Fonlanu e Fontana, e da 
campa chrislã de Domicia, etc. A Herdade do Freire está situada a 5 
kilometros da aldeia de Bencatel, para a parte do sul, juncto á mar- 
gem esquerda do Luciféce, onde em tempo dos romanos só haveria 
herdades {villae) como hoje ha. A povoação central era onde agora 

* Publio Aurélio Niger era uni irmão mais novo de Lúcio Aurélio Flao, como o 
indica o gentilicio; Lúcio, como primngcnito, recebeu o prcnome do pae, o que 
geralmente acontecia. Publio Nii^er fallcceu lalvez muito moço e ainda quando se 
estava a gravar o cpitapliio do irmão, ficando o moíuimento commum aos dois 
falltícidos, que o páe reuniu na mesma sepultura. — B. de F, 



102 REVISTA ARCHEOLOGICA 

assenta esta mesma aldeia de Bencatel, abrangendo porém aqiiella 
uma área muito mais extensa. * 

Segunda: Se eu não fora dedicado aos estudos archeologico>, per- 
der-se-hia o cippo agora descoberto, como em diversos tempos se 
perderam muitissimos, de que tradicionabuente ouço fazer menção. 
Conviria pois que se promulgasse uma lei que obrigasse os municipios 
a remunerar com qiiaesquer quantias as pessoas que lhe apresentas- 
sem monumentos antigos. Nesse caso, com a mira no interesse mone- 
tário, visto que só assim podemos approveitar alguma cousa que ap- 
pareça, aquelles que descobrissem qualquer antigualha a levariam lo- 
go à auctoridade. 

Bencatel, 2 de junho de 1887. 

P." Joaquim J. da R. Espanca. 



NOTAS SOBRE A TOPONYMIA PORTUOUEZA 

I 

É obvio que ao homem se impoz muito cedo a necessidade de dis- 
tinguir os diversos logares, que conhecia, por meio de nomes, do 
mesmo modo que a de individualisar os seus similhanles e todos os 
objectos que o cercavam. Os monosyllabos, que constituíram os pri- 
meiros vocal)uios, segundo se observa, exprimiam apenas ideias con- 
cretas; mas em bi'eve, começando o homem a applical-os a muitos 
objectos em consequência da sua faculdade de i^eneralisação, esses 
termos passaram a representar a principal qualidade commum a es- 
ses mesmos objectos. Conservando os termos uma significação geral, 
e portanto sem particularisarem ou especialisarem um objecto, expri- 
miam ideias invariavelmente relativas ás coisas physicas. Tornando-se, 
porém, gradualmente mais complexo o pensamento, mais complicada 
se tornou a linguagem, e as palavias, sem perderem a sua primitiva 
significação, principiaram a ser empregados em sentido abstracto, não 
naturalmente mas por metaphoras. 

Forçado pois pela necessidade de individualisação e em virtude da 
sua faculdade generalisadora, começou o homem a applicar aos diffe- 
rentes logares da terra os nomes, que formavam o seu vocabulário, 
e que designavam outros objectos. Entrado neste caminho, a derivação e 
a metaphora, a associação das ideias e a phantasia produziram o resto. 

Originariamente significativos, lêem pois os nomes de logares uma 
origem variadíssima: procedem dos diversos accidentes do terreno, 
da sua natureza e eslado; da posição da localidade, das suas con- 

* A(|uel!as paragens eratn provavelmente oceupadas por uma civitas cujo no- 
me por emquanto é desconhecido. — R. dk V. 



E HISTÓRICA 103 



dições climatéricas, da sua fauna, flora e mineraes; das curiosida- 
des naliiraes; das habitações e conslrucções de lodo o género; de 
toda a espécie de produclos arlislicos e industriaes, como de objectos 
do uso domestico e agricola ; de nomes de pessoas e de suas d(;ibrml- 
dades, como de sua posição social ; dos nomes de povos que habita- 
ram estável- ou temporariamente uma localidade ; dos factos históri- 
cos; das tradições religiosas; de antigos sanctnarios ; etc, etc. 

Torna-se hoje impossivel descobrir a etymologia de muitos nomes 
locativos, pelas modiíicações extraordinárias por que elles tèem passa- 
do, e ainda [)ela ignorância em que se está de innumeraveis particula- 
ridades linguisticas dos povos que os estabeleceram. Todavia, de mui- 
tas outras designações de logares se conhecem as origens; e algu- 
mas delias são da mais alta importância, seja qual for o ponto de 
vista sob que forem consideradas. 

Algumas etymologias topon} micas são extremamente interessantes. 
Em varias obras, entre as quaes, apezar de muitas imperfeições, tem 
logar distincto o trabalho de Salverte ^ se podem ver as etymologias 
de muitíssimos nomes geographicos. Aqui limitar-me-hei a apontar, 
como exemplo, alguns cuja origem é sobremodo curiosa. 

O nome Dakcliiuas, por que os brahmanes designam os paizes si- 
tuados ao sul da península gangetica, quer dizer juiizes situados a di- 
reita 2, proveniente de que elles se orientavam com relação ao levante; 
e o nome athapaska Achichillacnchoen quer dizer lorjar onde os homens 
choram porque a agua é vermelha. ^ 

E(j!/pto deriva da phrase lla-Ka-Phtah: (a cidade de Phtah'), pela 
qual os egypcios designavam a grande ]Memphis*;os gregos transfor- 
maram aquella phrase no nome de Atyvr:Tcç, que passou a todas as 
línguas eiu'opeas. A ilha de Cos, pátria de Hippocrates e de Apelles, 
é chamada pelos turcos Sta?Ko, nome que provém de os gregos di- 
zerem ir a Cos £i; zr,v Ku, o que os marinheiros extrangeiros enten- 
deram por Stenco ou Sianco. Se este fado não tivesse similares, po- 
deriam levantar-se algumas objecções; mas ha mais os seguintes 
exemplos todos de antigas localidades gregas: 

Lemnos: ú; zw AÃfj.vo) (ir a Lemnosj, Stalimene; 

Dia: £ii Ty,v Ata (ir a Dia), Standia; 

Uyzancio: siç Tr,v tzóIvj (ir á cidade) Slambul. 

O ultimo exemplo friza bem a importância da capital do império 
do Oriente que era para aquellas regiões a cidade por excellencía, 



1 Exsai historique et philosophique sur les noms dliommes, de petiples et de 
lieux, consideres priucipalement dans leurs rappovts avec la civilisation, par E. 
Salverte. Paris, 18-24. 

2 Maurv, Im lerre et 1'homme, p. 545. 

3 1(1.. ibid., p. 569, not. 1. 

* Maspero, Histoire ancienne des peuples de VOrient, 1. I, c. 2. 



104 



REVISTA AECHEOLOGICA 



correspondendo portanto a alludida expressão á nossa moderna ir á 
capital, ir á cidade. 

II 

Seria não só curiosa, mas summamente interessante a disposição 
methodica de todas as designações locativas portuguezas dorigem co- 
nhecida e ainda daqiiellas cuja significação se presume. A historia, 
como a ethnographia, a archeoiogia como a linguistica, se enriquece- 
riam com o estudo de todos esses elementos convenientemente con- 
densados; dispersos, como estão, não podem ser utilisados devidamente. 

Unicajnente como subsídios para esse trabalho vou apresentar por 
grupos alguns termos locativos mais notáveis, cuja significação é co- 
nhecida ou probabilissima. Creio, porém, dever precedel-os da lista, 
muito breve e muito incomplecta, dalguns exemplos da procedência 
das variadas designações de legares ; é a seguinte ^: 



Natureza do terreno: Areeiro, Bar- 
rosa, Gandara, Insua, Várzea... 

Accidentes do terreno: Algar, Co- 
vão, Lomba, Valle, Portella, 
Fraga... 

Estado do terreno: Alqueive. . . 

Posição da localidade: Foz-Côa, 
Ribamar, Porto, Entre-Aguas, 
Traz-os-Montes. . . ^ 

Fauna: Cegonheira, Coelheira, Lei- 
tões, Colmeal, Andorinha. . . 

Flora: Ameeiro, Ameal, Nogueira, 
Alçaria, Lirios. . . 

Florestas : Bouça, Souto, Carva- 
lhal, Castanheira. . . 

Curiosidades naturaes: Fei'venças, 
Fonte-quenle. . . 

Habitações e outros edifícios: Ca- 
sal, Castello, Torres, Paço, Mos- 
teiro, Egreja, Grijó. . . 



Conslrucções d,'utdidade publica : 
Ponte, Fonte-Arcada. . . 

Estabelecimentos: Azenha, Adega, 
Venda, Fornos, Pisão... 

Santos: Sangalhos [San Gallius], 
Sanjumil [San GemW], et passim. 

Nomes de pessoas: Moncorvo [Mem 
Corvo], Viegas [Ibn-Egas],eípas- 
sim . 

Posição social: Cavalleiros, Car- 
voeiro, Mestras, Promotor, Bes- 
teiros. Sargento-mór. . . 

Deformidade ou defeito pessoal : Bei- 
çudo, Orelhudo, Gigante, Ga- 
gos... 

Povos habitadores : Moura, Mouris- 
co, *Lordemão^. . . 

Factos históricos : Batalha, Conten- 
da. Campolide, Matança, *Povo- 
lide... 



1 i\as listas que vão seguir-se, c, quer dizor «casal»; h-, «herdade»; /„ «lo- 
gar»; m., «monte»; </., «quinta»; s., «sitio». A lettra duplicada indica haver mui- 
tos loçtares d'esse nome. () * denota ser duvidosa a procedência. 

2' Cf. Yamuto (Yamaato) «atraz dos montes», nome da província japoneza 
onde se estabeleceu o mikado em 710 a. C. (Maiiry, op. cií., p. i)'M). 

5 Parece-me que esta desi<;naçào locativa conserva memoria dos homnis do 
norte, os Normandos, que nos antigos documentos sào chamados Norinanos, Lo- 
thornanos, Lormanos, Laudomanes, 'Leodomanes. Sobre as invasões normandas na 



E HISTÓRICA 



105 



Objectos (lo uso domestico: Cântaro, 
*Malga... 

Objectos vários: Cruzes, Hebolo, 
Signo-Saiinão. . . 

Gestos: Alça-penia, Alça-pé, Mira- 
olhos. . . 

Vias de commiinicação : Estradas, 
Carreiros. . . 

Demarcações e monumentos : Mar- 
co, Padrão. . . 



líf/drof/raphia: Uibeira, Fonte, La- 
goa". . . 

Geoloíjia: Lage, Pedras ásperas, 
Barro branco. . . 

Mineralogia: Ouro, *Prala, *Go- 
bre . . . 

Astronomia : Serra da Estrella, Es- 
Irella, Estella. . . 

Etc, etc. 



{) Toponyinia pleonastica (designações locativas cumpostas, que 
apresentam redundância, ou em que o segundo termo reforça mais ou 
menos o sentido do primeiro) : 



Agro-Chão, 6 l. 

Agua- Levada, 2 l. 

Aramenha [*Er-mino] (Hermi- 

nio), //. 
Bicalto, s. 
Cabeço-Alto, /. 
Campo-Chão, /. 
Campo-Liso, /. 
Campo-Raso, 2 l. 
Chão Terreiro, /. 
Corgo d'Agna, /. 
Coval-Chão, s. 
Lage-Pedrinha, /. 
Monte Alminho [*Er-mino], m. 
Monte Arminio ['^Er-mino], m. 



*Monte-Allo, passim 
*Montes Altos, 2 /. 
Monte do Outeiro *, 
Monte Erguido, /. 
MontOulinlio, c. 
Monte-Serro, /. 
Monteserros, /. 
Outeiro-Montinho, /. 
Onteiros-Altos, 2 l. 
Pedras-Lages, 2 l. 
Pico-Allo, /. 
Uiba-Rio, 2 l 
Ribeiro d'Agua, /. 
Serro-Alto, ^3 l. 



passim. 



2) Toponyniia antithética (denominações locativas compostas, cujos 
termos apresentam antinomia) : 



Agro-Villa, 2 /. 
*Leiras-Covas, /. 
Lomba-Chã, c. 



Monte Campeno, s. 
Monte Chão, /. 
Vai Serrão, 2 l. 



península, vej. Mooyer, Die Einfnllen des Normannen in die pyrenaische Halbin- 
sel. Miinster, 1881. (Ha uma versão port. de G. Pereira); Viterlto, Elucidário, 3. 
vv. Lnudniwines e Keiniso: tMorez, Esp. Sagr., t. xl, f. 40:{; Cliron. Goth. apud 
Port. Mon. Hist., Srript., vol. i, p. 9 ; S. Rosendi vila et miracula, ibiil., p, 3o e 36; 
Port. Mon. Hist.. Dipl. et Cliart., vol. i, p. 61. 

1 Deve advertir-se que |)rin('ipalniente no sul do reino a palavra monte designa 
frequentemente «casa de lierdado». 



406 



REVISTA ARCHEOLOGICA 



3) Toponymia monumental (nomes de logares derivados de monu- 
mentos megalitliicos e congéneres): 



Antas 

Anta, passim. 
Antas, passim. 
Anleiras, .<. 
Antella, 2 l. 
Antellas, /. 
Antinlia, q. 
Pedra d" Anta, l. 
*Pedra do Altar, /. 

Menhirs 

Parafita [Perafita], 3 l. 
Pedra Alçada, c. e s. 
*Pedra Alta, 3 l. 
Pedra Empinada, s. 
*Pedra Firme, 2 l. 
Pedra Fita, /. 
*Pedra Longa, /. 
*Pedra Vedra, /. 
*Pera Longa, c. 
*Pera Picota, q. 
Perafisa, /. 
Peraíisos, /. 
Perafita, 2 l 

Alinhamentos 

Pedras Alçadas, /. 
*Pedras Altas, c e s. 
*Pedras Bastas, /. 



*Pedras Juntas, s. 
*Penedos Altos , 2 L 

Marcos 

Marco, passim. 
Marco Alto, h. 
Marco Branco, s. e h. 
Marco Giande, 2 l. 

Mamoas 
Fieis, 5 /. 
Fieis de Deus, 5 l. 
Madorra, passim. 
Mamoa, passim. 
Moronço, alg. l. 

Pias 
Pias, passim. 
Chão das Pias, s. 

Pedras vacillantes 

Falperra [Falsa-pedra], 9 l. 
Pedra Cavalleira, /. 
Pedra Encavallada, c. 
*Pedra da Paciência, s. 
*Perramedo [Pedra-medo], s. 
Peravanas, 2 l. 
* Penedo da Mó, l. 
*Penedo que falia, /. 



4) Toponymia religiosa (nomes locativos que toem ^a origem em 
antigos sanctuarios): 



Agua Santa, /. 
Aguas Santas, 5 /. 
Altar do Trivim, s. 



Altares, /. 

Alto da Santinha, serro. 

*Bussaco *, m. 



' Ad. Coellio, Rev. d'Ethnologia, p. 147 not. 



E HISTÓRICA 



107 



*Hiissacos, .s\ 

Cabeça Santa, /. 

Chã das Santas, /. 

Clião dos Santos, /. 

Fão [1<';miiis], /. 

Fonttí Santa, pa^^sini. 

Fontes Santas, /. 

Logo de Dens, 2 l. 

*Moch3rro [Mons Sacrus], .s\ 

Moinho Santo, /. 

Moita Santa, /. 

*Monchiqne *, m. e /. 

Monjove [Mons Jovis], m. 

Monsanto, 4 s. 

Mo n são, 5 s. 

*iVloiisari'os [Mons Sacrus,] /. 

Monte da Santa, /. 

Monte dos Santinhos, /. 

Monte dos Santos, /. 

Monte Santo, 2 l. 

Monte São, /. 

*Sandomil, /. 

Santa, 5 l. 

Santães, /. 

Santagões, /. 

■*Sanlalha, /. 

Santão, 2 l. 

*Santar, S l. 



*Santarinho, /. 

Santas, 2 l. 

Santinha, 4 l. 

Santinho, 4 I. 

Santissirni), /. 

Santo, 17 l. 

Santomil, /. 

Sanfin *[San FeiixJ, /. 

Sanfins [San Félix], //. 

Sanflppo [San Fihppe], /. 

Sangalhos, S l. 

Sangens, /. 

Sangemil, /. 

Sanhoane [San Johanne], S L 

Sanjumil. /. 

Sanjurge, /. 

Sanoane, /. 

Santo Sidro [Santo Isidro], l. 

Santoro, [Sanctorum], /. 

Santornm 2 /. 

Santos, 8 /. 

Santosinhos, /. 

Sanlidhão, /. 

S. Noane, /. 

S. Noanne, /. 

Vai Santo, /. e s. 

Vai do Santo, /. 



Gomo se vô, são muito incompletas as listas que precedem; mas 
advirta-se que foi meu único intuito apresental-as apenas como uma 
modesta contribuição para o estudo da lopouymiM portugueza, estudo 
cuja importância é de lodo o ponto evidente. 



Lisboa, 26 de maio de 1887. 



Borges de Figueiredo. 



Id., ibid. 



108 REVISTA ARCHEOLOGICA 

CONSTITUIÇÕES DO ARCEBISPADO DE LISBOA 
Decreladas por D. João Esteves d' Azambuja (1402-1414) 

[Coutinuado de pag. 96\ 

que sse tiom casem sse nom em face da egreia e que nom vendam 
carnes nem viandas ao domiiígo 

37 Item era delesso que iienhiiimi nom casasse sse iiam em face 
de egreia e passadas as amoslações per três domyngos pêra sse sa- 
ber se ha liy alguiim embargo a sse nom fazer o casamento. 

38 Item era delfesso que nom uendessem carnes nem outras uian- 
das ao domingo atee que sayssem das missas e pregaçam. 

dos barregueiros 

30 E por quanto em a mayore parle das suas constituições eram 
posstas sentenças de excomunliom em aquelles que o contrayro fezes- 
sem e porque as suas ditas sentenças de excomurdiom nom soomente 
empeeçem e legam aquelles que as encorrem e que sam postas, mas 
ainda empeeçem e legam (sic) aquelles que con elles participam, porém 
querendo nos a esto proiier por saúde das almas dos nossos subiey- 
tos rreuogamos as sentenças de exconumbom postas e contliiudas nas 
dilas constituições e cometemos nossas uezes a lodos os priores e 
curas do nosso arcebispado que possam absoluer quaesquer dos seus 
freguezes que atee ora em ellas encorreram e nom endjargando que 
sy ora rreuogamos as ditas sentenças de excomunbom pêro ponjuan- 
to as ditas constituições sam boas e honestas e fetas segundo direito 
porém de consenlimenlo e consselho do nosso cabiido as aprouamos 
e rretificamos a lodallas cousas em ellas conlhiudas tirando as dilas 
senlenças de excomunbom as quaaes queremos que nom aiam daqui 
em diante liigar affora nos ditos ti'es casc.s. s. feyticeyros adiuinha- 
deyros aguireyros sorteyros feeticeyros et cetera das barregaas 
manthiudas pubricamenle per os casados e creligos beneficiados ou 
dordens sacras e rrelligiosos sse as leuerem notoriamente comssigo 
nas casas em que morarem e uiuerem e em esto caso soomente he 
nossa tençam que elles encorram em sentença de excomunliom e no 
ieiuum das uesperas danballas festas de sam uicente por(|ue nestes 
cassos nom he nossa lençam rreuogar as ditas sentenças de excomu- 
nhom mas de as aprobar e rreteficar. 

que guardem santa eiriia 

40 Item queremos e estabelleçemos que os da villa e arcediagado 
de Santarém gardem as festas de Santa Eirea de toda a obra e façam 
festa doblez. 

que gardem os corregedores esfas constituições 

41 Outrossy queremos e rrogamos ao corregedor e justiças e rre- 
gedores desta cidade e dos outros lugares deste arçel)ispa(lo tpie fa- 
çam comprir e gardar as ordenações e statutos que sobre algniuis dos 
ditos casos per elios forem fetos punindo os que contra elles fezerem 



E HISTÓRICA 109 



seçrundo sse em ellas contém em tall giiissa que os estatutos e proui- 
mciitos per elles fetos e confirmados per nosso senhor elHey sejam 
conipridamente cardados e postos em execnçam assy como cnmpre a 
seruiiu) de dens e proll das suas almas. 

que os crdií/os rua sscijiiros o simulo 

42 Item seguramos todollos crcdigos que vierem ao nosso sinado 
quando e em quallfjuer tempo que lio fezermos que uenham seguros 
e nom seiam presíjs nem rrclliiudos per nos i'em per nosso niandado 
nem per nossos vigairos e oCíicinaes nem [)er seu mandados isici por 
algumas (luerellas de inalleílcios e excessos que delles aiam ados (sic) 
esso medes que nom seiam demandados nem citados por nenhumas 
diua das nem contrautos nem outras cousas ataa que tornem a suas 
casas e beneíicios. 

(jue uiíuuhnn cspreuer estas constituições 

48 Item (juerenios e mandamos em virtude de obediência c sob 
pena de excomunliom que todollos priores e vigairos perpétuos e ra- 
çoyros da dita cidade e arcebispado cada lium em sua egreia façam 
e mandem esprever estas nossas constituições em seus linros atee seis 
messes por nom podei^em alegar e pretender algumas excusaçonees 
e pêra sse em ellas enformarem assy que cada huma egreia as tenha 
escriptas e os priores e vigairos que o nom quizerem fazer mandamos 
que pague cada huma egreia huum marco de prata pêra a obra da see. 



{Falta o resto) 



EPITAPHIO DO SÉCULO XII 

No Museu do Carmo conserva-se uma pequena lapide (alt. O™, 18; 
larg. O"',!'), acerca de cuja proveniência não ponde colher informa- 
ções exactas, tendo a seguinte inscripção, com muitas abreviaturas e 
leltras conjunctas, e de que se pode ver o fac-sinille na est. xm. 



V ; I D U S ; I N li I í : o B 1 1 T ; V" Jdits l{a)n{ua)rii obiit 

D I D A G V S •: MONIZ: Didacus Mom:f cui{u)sa{n)i- 

CVS : A I A ; REQES; {m)a req(ii)iesmeret.E{r)a 

MERET ; E ; iM ;■ CG : XX ] IX ; Eral22g MCC XXIX.Aspice q{ii)ia 

5 ASPIGE:qa;QD: "ÍL S \ p.C.iigi q{tio)d su^l7l)eris.Me}ne{u)- 
F Y l [ Sí -QD ■ S V \ E R l S [ to m(e)i; or[a]te pro me. 
M E M ET O •: M r ; O R • T E •: A o de janeiro falleceu 
PR O \ ME \ Diogo Moniz,cuja alma me- 
rece descanço. Era de 1229. 

Medita : pois o que tu és, já eu o fui ; e o que eu sou, tu o serás. Lembrai-vos 

de mim ; orae por minha alma. 



•110 KE VISTA ARCHEOLOGICA 

Esta reflexão ijiiod es fui et quod sum eris encontra-se frequente- 
mente, com mais ou menos variantes, em epitaphios e outras epigra- 
phes medievaes e ainda posteriores. Anteriormente aos vandalismos 
que ha uns vinte ânuos quasi sem iulerrupção tèem sido praticados na 
malta do Bussaco, via-se por cima da porta interior da Portai ia de 
Coimbra uma caveira sobre dois ossos cruzados, representando o X 
inicial grega de Christo. Por baixo lia-se numa pequena lapide: 

Ó TU^ MORTAL, QUE ME VÊS 
REPLETE RIÍM COMO líSTOU : 
KU JA FUI O QVE TU ÉS, 
E TU SIÍRÁS O QUE EU SOU. 

Os dois últimos versos são uma fidelissima traducção da formula 
latina da inscripção sepulcliral de Diogo Moniz. 

Borges de Figueiredo. 



QUESTIONÁRIO ARCHEOLOGICO 

A redacção da Revista Arclieologica e Histórica, desejando por lodos 
os modos fomentar o desinvolvimento dos estudos archeologico-histo- 
ricos em Portugal, e sendo um dos primeiros passos a dar, para at- 
tingir esse fim, o tornar bem conhecidos os monumentos de todas as 
epochas que ainda restam, muitos dos quaes são ainda ignorados, e ou- 
tros se acham imperfeitamente descriptos, roga aos assignautes d'esta 
publicação, e a todas as deuiais pessoas que tiverem d'ella conheci- 
mento, que tomem na devida consideração o seguinte 

QUESTIONÁRIO 

I 

Monumentos megalithicos: — Anta ou dolmen (larga e grande pedra sus- 
tentada, em geral, horizontalmente por outras verticaes); Antella e 
lambem talvez anlinha (sepultura quadrilonga formada por varias 
pedras lateraes, tapada com outras pedras, coberta ou não de ma- 
môa); Mamòa ou màmoa (montículo artificial de terra, encimado ás 
vezes por um menhir): Meuhir (grande pedra collocada vertical- 
mente, como obelisco); Alinhamento (men/iirs ou simples pedras for- 
mando uma ou mais linhas); (7ro//i/(^67i (circulo formado por íí/fy^/^/r^ 
ou pedras levantadas); Pedra haloiçante (pedra collocada sobre ou- 
tra ou outras, equilibrada de modo que mais ou menos facilmente 
se faz oscillar); Pias (sepulturas abertas em rocha). 

Nome da povoação, freguezia e concelho? 



E HISTÓRICA m 

NonH! (lo lo(*;il onde exisle o momimento? 
Delcrmiiiiirrio ('x;i('t;t iressu local? 
Nome parliciilar por (juc é conliecido o monumento? 
Proprietário? * 

Coiulicções ou estado em que se acha? 

Orientarão: para (|uo lado (norte, snl, oriente, poente) estão vol- 
tadas as suas faces principaes, ou em que sentido se extende? 

Dimensões: diâmetro, comprimento, altura, laigura (em metros)? 

Que inscripções tem? 

Que gravuras ou esculptui'as tem? 

Que noticias, tradições, lendas ou superstições se lhe referem? 

11 

Templos antigos, egrejas, capellas ; mosteiros, conventos; castellos, tor- 
res; casas antigas, aniphithealros, tiwatros; banhos antigos; necro- 
poles. 

Nome da povoação, freguezia e concelho? 

Nome do local onde existe o edifício? 

Determinação exacta do local? 

Nome particular do edifício ? 

Proprietário? 

Amtjito do edifício (em metros)? 

Altura absoluta (em metros)? 

Que jnscripções tem? 

Que escuiptnras ou gravuras tem? 

Que noticias, tradicções, lendas ou superstições se lhe referem? 

111 

Aqueductos, arcos; coltimnas, estatuas; túmulos; cruzeiros, pad rões, pe- 
lourinhos; fontes, cisternas; pontes, vias romanas; minas, caminhos 
subterrâneos. 

Nome da povoação, freguezia e concelho? 
Nome do local onde existe a construcção ou monumento? 
Determinação exacta do local? 
Nome particular da construcção ou monumento? 
Proprietário? 

Dimensões da edificação ou monumento, extensão, altura, largura, 
diâmetro, circumferencia, profundidade (em metros)? 
Que inscripções tem? 

* Se pertence ao eslado,ao concelho, a um est abelecimento publico ou particular? 



112 REVISTA AECHEOLOGICA 

Que esciiIplLiras ou gravuras tem? 

Que noticias, tradições, lendas ou superstições se lhe referem? 

IV 

Epigraphia: inscripções em edifícios, monumentos, túmulos, roche- 
dos, cippos, ele,. 

Nome da povoação, fregnezia e concelho? 
Nome do local, edifício ou monumento onde existe a inscripção? 
Determinação exacta do local ? 
Nome particular do monumento? 
Proprietário ? 

Dimensões do monumento : altura, largura, diâmetro, circumferen- 
cia, espessura (em metros)? 

Que noticias, tradições, lendas ou superstições se lhe referem? 



Moedas mitigas {romainus, celtibericas, wisigothicas, hispano-arabes,por- 
tuguezas, etc); armas, alfaias: amalelos; moveis; objeclos de uso do- 
mestico e outros (que se tornem notáveis por sua antiguidade, ou 
por sua forma). 

(Calco, desenho, ou photographia, acompanhado (quando seja pos- 
sível) da indicação da proveniência e do nome do proprietário. 



MODO DE TIRAR CALCOS DE INSCRIPÇÕES 

Inscripções lapidares (Vej. pag. 16). 

Inscripções ou gravuras em objeclos melallicos, em marfim, em ma- 
deira, em pedras tinas, etc. 

Servir-se-ha de papel levemente collado e fino, mas resistente, de 
cera-de-cartucheira, e de cora branca, molle, ou obreia. 

Fixará o pape! sobre o objecto por meio da cera molle ou obreia; 
e esfregará todo esse papel com a cèra-de-carluclieira até que as par- 
tes planas fiquem ennegrecidas; a gravura apparecerá em branco, des- 
tacando-se perfeitamente. 

Pode empregar-se, em vez da cera-de-carlucheira, plombagina em 
pó, applicada com uma boneca do modo que fica indicado. 

Para copiar sinetes ou gravuras em pedras finas, o melhor pro- 
cesso é reproduzil-os em lacre. 



E HISTÓRICA 113 



INSCRIPÇÃO DE MONTEMOR-0-NOVO 

A inscripr^o fiincriíria úe MonUMiiúr. <|ue eu |)iihli(|iiei sugiiiido os 
textos eulão conhecidos, sobreliido o de Varei la, no Corpus Jnscr. Lat., 
vol. II, ii/' 1^2, a[)reseiila unia lingiiaiíem Ião sini(ular, e conlèin uma 
(juanlidade de coisas Ião [loiico inlelJiiiiveis, (jU(! havia todo o funda- 
inenlo para duvidar da aulhenlicidadí! das copias feitas sobre ella por 
pessoas conscienciosas, mas que não eram e|)igra|)hislas. Em 1871), o 
sr. Gabriel Pereira, o consciencioso e patriótico aiiti(iuario d"Evora, en- 
viou-me um desenlio do moniunenlo, i\\u' eu próprio não tinha podido 
vêr. Esse desenho, feito com muila exaclidão, contêm todavia alguns 
erros de leitura que augmentavam as minhas duvidas. Eu estava já 
disposto a acreditar que toda a inscripção havia sido retocada por uma 
mão inexperiente. D'estas duvidas me tirou a extrema obsequiosidade 
do meu excellente amigo, um dos editores d'esta Revista, o qual se 
torna, cada vez mais o verdadeiro preservador da epigraphia romana 
em Portugal. Elle me enviou excellenles calcos da inscri[)ção, de que 
trato, «(ue me collocain em estado de íixar-lhe o texto com toda a de- 
sejável segiu-ança. Não pode haver a menor duvida sobre a authenti- 
cidade úo monumento; ninguém em Poi-tugal. nem o próprio Resende, 
teria sido ca[)az de coni[)ol-a. Mas, o (jiie é singular, o texto assim fi- 
xado otíerece, todavia, á interpretação dilTiculdades qiiasi insuperá- 
veis. É por esta razão que eu o apresento aos leitores d esta liecisla, 
afim de que, se for possível, nós consigamos chegar á solução dessas 
diíTiculdades, aviribas nniíis» 

A lai)ide calcarea, que desde muitos annos ainda hoje está na pa- 
rede exterior do adro da ifjrcja matriz de Nossa Senlwra do Bispo, fron- 
teira d Camará Manicipal, em Montemòr-o-novo, tem de largura r",20, 
e daltura 0"\30. Está dividida por frisos elevados em três compar- 
timentos, sendo o do centro, que é três vezes mais largo que os ou- 
tros, aquelle que conlèni a inscripção. Os dois comparlimenlos late- 
raes eram, originariamente, ornados ajienas de algumas reiíresentações 
d"utensilios em baixo-relevo, mas não continham lettras. Tèein-nas 
presentemente, é certo, ambos os dois; mas estas lettras são d um ca- 
racter evidentemente de todo o ponto differente do da inscripção do 
meio. É o caracter, muito bem conhecido, das numerosas inscripçoes 
christãs de Portugal e dllispanha. do v° ao vi° século. Para não 
termos ao deanle de nos occupar desses textos, alheios ao objecto 
principal d'esta noticia, aqui os insiro, ajuntando que o da parte late- 
ral á esquerda do espectador, perdeu, ao seu lado esquerdo, um pe- 
queno pedaço, que pode ter contido três ou quatro lettras o máximo. 
Estes textos não tèem sido observados (mas talvez desprezados inten- 
cionalmente) pelos anteriores editores da inscripção; só o sr. Pereira 

Rev. Arch. e Hist., I, N.o 8 — Agosto 1887. 8 



e no da direita 



114 KEVISTA ARCHKOLOGICA 

OS copiou. Todavia o (jiie elle leu não concorda inteiramente com a 
licção dos calcos. Esíes dão, no compartimento da esquerda 

II ■■ M I ■£ dTTi c> 

fa W L I TH 
SEHX IDVS 

Ti S • A B I L If 
E I E R V (T 

Comprehendo apenas algumas palavras da parte da esquerda: [m] 
nomine ã(omi)m \ [fa]miíli X[rist)i.... seiía idns. As lellras da parte 
inferior,. . .sctia, parecem ser o final d'um nome, o áo famuim Cliristi, 
sepultado alli nos Idos de certo mez, cujo nome, assim como as in- 
dicações da era, foi omitlido pelo gravador da inscripção, sem que 
d'isso saibamos as razões. Não comprehendo nada do texto, que se 
encontra no compartimento da direita, tes a bille et (ou ei) enint. Ob- 
servo que as lettras bille (segundo parece) téem uma forma dif- 
ferente das outras d"este compartimento e do da esquerda. Mas não 
poderia dar lhe qualquer interpretação provável; esperemos o Édipo 
que nos ha de resolver este enigma. 

Os ornatos em baixo-relevo, que occupam o meio dos dois com- 
partimentos lateraes, em que se acham as inscripções christãs, de que 
acabamos de tratar, são: 

á esquerda: a esquadria com o prumo, a libclla cum perpendículo, 

á direita : dois instrumentos de forma singular, que não posso pre- 
cisar bem. Creio que é um malhete e um escopro. Estes, com a esqua- 
dria, compõem a mais usual ferramenta do canteiro. Já falei das suas 
representações muito fre(]uentes nos monumentos fúnebres romanos, 
nos meus Exempla scríplurae epigraphicae lathtae, (Berlin, 1885, in 
foi., supplemento do Corpus Inscr. Lat.), p. xxx e segg. O sentido 
geral destes ornatos é o mssmo que o da ascia, tão frequente nas 
inscripções da Gallia. Isto é, elles mostram ao espectador que o mo- 
numento foi expi'essamente erigido para os defuuctos alii indicados, e 
que não foi euipregado por ouli'as pessoas: numa palavra, que elle 
é um monumento novo. 

Passemos agora á inscripção da parte central. A formula sepul- 
chral, que constitiie a primeira linha do texto, encontra se, em lettras 
mais pequenas, na oiia siipriioi' da la[)i(le. As lettras das cinco linhas 
restantes, da altura de 4 centimetros (exceptuadas as da ultima, que 
só téem 35 millimetros), são bem traçadas o muito dislinctas. Apre- 
sentam as formas, muito elegantes, do fim do segundo século da nossa 



E HISTÓRICA 



H5 



era, ou do principio do terceiro, epoclia dos imperadores Cominodo ou 
Seiltiinio Severo. Os poiílos são l)em formados, IriariKular.^s, e não 
faltam em neiílinm dos locares em (|iie se espera eiicoiilral-os. Podem 
coiiiiiarar-se, para o eslylo [jaleographico das lellras, os specimeiís de 
differeiíles textos, todos' proveiiieiíles da [)eiiinsiila ibérica, dados nos 
meus Exempla sob os números 4i:{ a 448, 658 e 659. Eis fuialmente o 
texto : 



D 



iVlEMORlAEG-F- CALGHISIAE- FLAM 
PROV • LVSIT • IT • FIl. • PIISSIM • P:T • MAR • L • F 
SIDONIAENEPTDVLGETAPONLV 
5 PIANO • MAR • MEREIT- FABRIC • QVA • MISER • MA 
TER • IVN • LEONICA • K ARIS • SVIS • ET • SIBI 

a que eu propoiíiio a seguinte leitura: 

D(is) M{anibiis) S(acrum). \ Memorize [ ] G(ciii) fiiliae) Calchisiae, 

flamUnicae) \ provi inciae) Lusit{amae), [it{em)?] fiUiae) piissim(ae), 

et ALir{iae) L{ucii) f\iliae) \ Sidoni.ic, mpt(i) diilc(i)s{svnae), 

et Apon{io) Lu \ piano, mar{ito)^ 
merent[ibiis) fabnc{am)^ quaim) iniscr(a) ma j ter Jiin(ia) Leonica karis suis et 
sibi [/ffJí]. 

A maior parte dos nomes de família dos personagens nomeados 
neste texto, embora haja entre elles alguns raros, corresponde ás leis 
da nomenclatura romana da boa epoclia, tão bem conhecidas em ge- 
ral. Aponio Luinano, o marido da muliíer nomeada em primeiro jogar, 
sua filha Maria Sidónia, a mãe Jfiiiia Leonica. todos tèem todavia so- 
brenomes muito raros ou ainda únicos. A mulher nomeada em pri- 
meiro logar, a flaminica da província (sacerdócio bem conhecido, afi- 
nal), não" tem íiomeii genliliciHm, mas tem um sobrenome não menos 
raro do que os dos outros membros da sua família; nao me recordo 
de haver lido noutra paite um nome como Calcliisia. Eu tinha outr"ora 
julgado que a palavra wnnoriae havia sido mal lida,_e que, em seu 
logar, haveria um nomen gentile. Mas esti palavra é tao clara e certa 
como todas as outras nesta singular inscrípção. As lettras G • F (nao 
C • F) da segunda linha são o mais claras possível; não podem signi- 
ficar senão Gaii filia. Resta pois, como único meio de interpretação, 
suppôr que o nome de família desta Calcitisia, filha dum Gaio, foi 
omiltído pelo lapicida. 

Que o gravador provinciano não comprehendeu bem o texto, que 
lhe havia sido dado para sculpir, prova-se com outro erro na linha 
terceira: L v s I T • I T . Poisque me parece quasi certo que o i T não 
é uma abreviatiu-a, demais muito i)ouco commum, de item (o que da- 



116 REVISTA ARCHEOLOGICA 



ria um sentido granimalical, mas que é apenas uma addiçao supér- 
flua), mas sim iim erro de repetição, causado pelo l v S l T prece- 
dente. 

É verdade lambem que o systema das abreviaturas d'este texto 
Dão é o que já se conhece de tantos outi"os exemplos da boa epoclia. 
Âdmitte-se o f L A M • P R O v • L v S l T , onde se espera antes 
F L A M I N 1 c A , para distinguir do Jlcmmi a mulher deste. A abre- 
viatura L V S I T deu origem a um erro, a repetição da syllaba i t ; 
como já fica observado. Todas as outras abreviaturas (excepto D • M • 
S , G • F , L • F , F I L ) não são as conmiuns, que toda a gente com- 
prehende. MAR significa na terceira linha Maria, na quinta nunilus. 
As abreviaturas mais singulares e mais obscuras são as das palavras 
FABRlC-QVA na quinta linha. O sr. Mommsen, no segundo vo- 
lume do Corpus, tinha suspeitado que o Q V A poderia ser a abrevia- 
tura, conhecida pelas inscri|)Çues sepulchraes doutras regiões, de (/(iii) 
v{ij:it) a(/mos). Mas, além de faltar o numero dos annos, esta fornuila 
está aqui deslocada. Só tenho uma explicação a propor. As palavras 
de que se trata não podem conter um cargo ou uma designação qual- 
quer relativa a Apo})io Lvpiano o Jlamcn da província (porque sua mu- 
lher era, como se viu, a /lauiiiuca), princii)a!mente porque as palavras 
manito) merenHi) as separam de seus nom^'s. Resta pois unicamente 
suppòr que fabrica é a designação do niunnmento sepulchral. que a 
pobre mãe lunia Leonica tinha erigido aos defuntos da sua famiiia. 
Fabrica, na baixa latinidade, significa já, como nas línguas românicas, 
um edifício quahpier. Trebellio Pollion, o historiador dos Augustos, na 
vida dos dois Gallienos (5, ti) fala dum tremor de terra, que teve lo- 
gar em 20i2 de Cli., quo mola mullm fabricae devoratae sunt cuni ha- 
bitatoribus. Palladio, o auctor do de re rústica, emprega o termo no 
mesmo sentido (i 7, 4 e 9, i2). Ambos estes sao, é certo, auctores do 
quarto século ; mas nada obsta a crer que elle fosse já usado na lin- 
guagem do povo, no segundo século, e ainda antes. Entre os nomes 
numerosos e variados, que se encontram applicados, nas inscripçoes 
funerárias, nos túmulos, como domus, aedijicium e similhantes, tere- 
mos a contar, daqui em deante, também a palavra fabrica. O sr. Ad. 
Coelho, do fundo dos seus vastos conhecimentos das linguas români- 
cas, poder-nos-ha ministrar, provavelmente, exenqilos do uso da pala- 
vra fabrica no sentido geral de edifício ou de monumento. 

O redactor pi-ovinciano do texto que nos occupa, ou o próprio can- 
teiro, a (juem estava confiado o trabalho de o sculpir, deixou de dar à 
oração relativa. (]ue começa por Q v A , o seu verbo; fecit, ou facieri' 
dum curavit. È uma omissão pouco grave, comparativamente ás outras 
faltas, que o mesmo texto nos apresenta. Q v A por ova M é uma 
forma da escriptuia rústica nuiilo cominum. Sabe-se que o m final do 
accusativo foi frequentemente omiltido em latim, já nos antigos tem- 
pos da republica romana. 



E HISTÓRICA 117 



Eis pois como eu penso que deve ler-se e explicar-se o singular 
texto da iiiscriprão de Monleniór-o-novo. Ella nos ensina que lá mes- 
mo, no campo, entre os praodia rmtica dos Romanos de boa posirão, 
houve |)i)r Ioda a parle nioinnnenlos Tiincrarios duma ctTla im|)orlan- 
cia, como era sem duvida o de Apnuio LiipUuin e de, (Uikhisia, o //«- 
men e a flaminica da província, no liiii do segimdo século, e da sua 
família. 

IkTlin, Jiillio 1887. 

E. HiJBNER. 



NUMISMÁTICA PORTUGUEZA 
D. Diiarlfi 

No infeliz e curto reinado do sábio e virtuoso príncipe D. Duarte, 
foi dimímila a cunhagem de moeda, quer nos reíiramos aos cinco ly- 
pos geraes conhecidos, quer á quantidade de moeda fabricada de cada 
typo. 

O primeiro typo é o escudo de ouro. bonita moeda, de que se co- 
nhece hoje só um exemplar e que o nosso proverbial e criminoso des- 
leixo consente que continue fazendo parte duma collecção em Cope- 
nhague. 

Querendo estudar a historia natria em qualquer ramo, e sob qual- 
quer aspecto, é triste dizelo. precisamos ir mendigar ao estrangeiro 
o favor de nos mostrar o que é nosso! Que os particulares eudjora 
favorecidos da foituiia deixem os nossos monumentos e relíquias his- 
tóricas nas mãos dos estrangeiros, não os adquirindo convenientemente 
ou até vendendo-lh'os. não nos admira, visto o ignorante indifferentís- 
mo, com que alguns membros da família portugiieza, tão degenerada, 
olham para estes pergaminhos legados por nossos maiores, porque 
não são de enfunadas e equívocas nobíliarchías, porque não dão di- 
reito a um brazão darmas, mas porque dão a todos o direito, sem 
dístíncção de nomes, de se chamarem filhos desses heroes de faça- 
nhas (piasí mythologicas, d"esse punhado de homens que aquinhoaram 
para si, o que ha de mais brilhante na historia europea, o que ha de 
mais venerando na civilisação d "um povo que nasce dos sen.^ próprios 
esforços, que se emancipa, que se impõe ao mundo como o primeiro 
sob todos os aspectos e que junca a sua estrada luminosa de constan- 
tes tríumphos, de padrões de gloria e de louros immarcessiveis. Que 
fatal desgraça peza sobre Portugal, que occupa hoje de|)ois de vu sé- 
culos o nadir dessesol brilhante dos tempos áureos da monarchia por- 
tugueza. E os pygmeusde hoje, íillios d'esses gigantes de outr'ora. no 
fim do século dezeuove, esmagados talvez pelo pezo das glorias, ador- 
meceram, na estrada do progresso, emquanlo que o estrangeiro, ávido 



H8 REVISTA ARCHEOLOGICA 

d'estas riquezas, deslumbrado por estes inapreciáveis lliesoiiros, es- 
preita o depositário delles, e quando este se volta do somno da im- 
becilidade para o da indilíerença, o estrangeiro diziamos, passa por 
elle carregado de preciosidades, e com o riso sarcástico do despiezo 
atira-llie algum ouro, para pagar-lhe a criminosa indolência. 

Mas se os particulares commettem esta falta, os governos commet- 
tem um crime porque tem a mesma respons.djilidade individual, e 
tem a collectiva e moral, como administradores de bens que não são 
seus ou exclusivamente seus. 

Os nossos governos lazem lembrar os antigos administradores dos 
morgados, que (juando estes eram néscios, os outros por via de re- 
gra, eram delapidadores ou perdulários. 

É ao governo a quem compete a iniciativa de impedir a todo o 
custo que saiam do paiz os nossos monumentos de (jualquer ordem, 
fira este acto os interesses menos legítimos de quem ferir, e adquirir 
por quali]uer preço os (jue se acbam dispersos nos vários museus pú- 
blicos e particulares da Europa. É mostrando ao povo os nossos ve- 
lhos padrões sempre virentes de gloria, esses documentos irrecusá- 
veis do que foi a nossa grandeza, do que foi a nossa actividade, que 
poderemos educar a nação e tornal-a apta, senão para trilhara estra- 
da luminosa do passado, ao menos para lhe dar inn exemplo salutar, 
e bom conselho, obstando a que ella renegue os seus princípios ou es- 
queça o que deve a si mesma. 

Feitas estas considerações sobre o primeiro typo, passamos a fallar 
do segundo typo (jue é o Leal, de prata, moeda também muito rara e 
que o sr. Teixeira de Aragão descreve como pertencente á collecção 
do sr. Abílio Augusto xMartins, residente em Coimbra. 

O terceiro typo geral è o Real Branco, de bilhão, cunhos de Lis- 
boa e Porto, moedas também raras, e das quaes vamos apresentar 
duas variantes, que pelo menos indicam differentes cnnliagens, devi- 
das á incansável amabilidade do nosso amigo e grande colleccionador 
o sr. Júdice dos Santos. 

O quarto typo é o Ceitil, de cobre, também cunhos de Lisboa e 
Porto, moeda ainda hoje não muito rara. 

O quinto typo é o lieal Preto, de que por emíjuanlo não conhece- 
mos senão o cunho de Lisboa, e de (jue ap[)arece grande quantidade 
relativamente ás outras. 

Os dois exemplares de Reaes Brancos, citados pelo sr. Aragão são: 
o de Lisboa, est. xiv, íig. 1. 

«►!<. . . V A R 1) S§ . . . — Quinas n'um circulo ogive. 

RJ... D I V T O... I VN I NOS T... — C I | F E C I T C E L V * 
— Escripto em dois círculos; no cam[)0 G coroado; á esijuerda l (Lis- 
boa), com um signal occullo por cima. l*eza 80 grãos. lieal Branco. 
B.— 10.000 réis. D 



K HISTÓRICA 119 



O do Porlo. csl. XIV, fig. ^. 

«O mesiiio anverso do ;Hilt!iiof. 

1^. ^ A D .1 V T O R I V M N O S T R V N g Q V — F E C I T § 
CKVM i E § T RA. — No cainpo G coroaiJo, a direita p (Forlo). 
Peza 80 grãos, lieal Branco. B.— 10:000 réis.» 

As variaiiles que apresentamos são: 

A priin(3ira esl. xiv, íig. 'A, (jiie é de Lisboa, temos es(!iidos muito 
mais peípieiios, embora a moeda conserve no lodo o mesmo lamanlio. 
As únicas duas leltras que estão claras no anverso são D O . Kste o 
é um erro de fabricação, mas está legível, e siibstitue o primeiro v da 
palavra E D V A R D V S i]iie tem todas as moedas deste reinado. 

No reverso as dilíereiu-as mais importaiiles que tem da similhar 
desciipla pelo sr. Arai;ão. consistem em ler o L á direita e não á es- 
querda, e ser o lypo de letlra mais miúdo e mais bordado. 

O estado da moeda não nos permilte mais minuciosa analyse. 

A segunda variante é cunho do Porlo. est. xiv, ílg. 4. nãoesláem 
perfeito estado de conservação, mas vè se que, como a moeda anterior, 
tem o lypo de lellra mais miudo e o p do reverso indi''alivo da fabri- 
ca á esquerda do G em logar de estar á direita como no exemplar 
descripto pelo sr. Aragão. 

Além desles exemplares, lemos outros lambem em nosso poder 
que apenas divergem dos indicados [)elo sr. Aragão, em lerem diver- 
sos signaes occullos e diversamente collocados. e serem as legendas 
mais ou menos completas do (jue as destas moedas a que nos refe- 
rimos. 

Estas variantes, consideramoi as insignificantes e por isso não da- 
mos os seus desenhos. 

M. Ali:xa.nduI': di-: Sousa. 



VISITAÇÃO Á EGREJA DE S. JOÃO DO MOCRARRO 

D'OBIDOS 

por D. Jonjc da Cosia, era 14 de fevereiro de li67 



^D VE IÍ>T li: ]VC I A 

Eiilre os tloeuinpiitos que formavnm o codiee iiilitiilailo Livro ihis Visilnrões da 
Egreja de S. João do Mocliarro d' Óbidos, a que uie referi já a pag. 11 (i'esta Revista, 
tornava-se uotavol o que váe publicar-se. a>sim por shi" umi dos mais anliir'is speci- 
mens d'esta espécie ^\^' docuuifntds. como pt*la assignalura que o fecha. Ellectiva- 
mente o nome di' D. Jorge da (>osla. geraluieule mais couliecido p^-lo tituii» de "Car- 
deal de Alpedrinha», é um dos mais cdebres na historia pátria. Este grande amigo de 



120 REVISTA ARCIIEOLOGICA 

D. AfTonso v assumiu as funcções de arcebispo de Lisboa em 1460; e pelos annos de 
1470 a 1477 liigiu para Roma, receoso do desagrado de D. João ii. Em Garcia de 
Resende se pode ler a anecdota das pedrirdias de que o prudente e fino arcebispo 
receou a pancada. 

Esta visitação (que occupa dezoito e meia folbas de papel de formato in-4.°) é 
muito importante [)or nos dar a conliecer o estado e costumes do clero naquella epo- 
cha (passrm); pela penitencia imposta aos que se casavam secretamente {t. 9); pelas 
ordenanças relativas ás romarias e danças nas egrejas {t. 10); pelas determinações 
relativas aos leiticeiros (í. 17) e aos judeus (í. 29) ; etc. 

Falia infelizmente no íim o sello de cera vermelha, de que ha vestigios, junto 
do qual leviam estar consignadas as verbas do pagamento da visitação, que também 
desappareceram pnr ter sido rasgado o papel. 

Ao mesmo códice pf^rtenceu outra visitação do archiepiscopadu de D. Jorge, e em 
seu nome feita em 2 de junho de 1473. por D. João, Bispo de Çalim, em cujos títulos 
se acham, no gerai repetidas^ e frequentemente pelas mesmas palavras, as ordenações 
contidas na visitação pessoalmente etfectuada pelo arcebispo. Os titules da do bispo 
de Çafim, que não se encontratu na de D. Jorge, e algumas variantes de importância, 
formarão como que um appendice ao documento que hoje começa a publicar-se. 

B. de F. 

índice dos títulos 

1 — Intróito 

2 — Admoestações geraes sobre a cura d'almas 

3 — que hatitisem ssrus filhos a oiito dias. 

4 — que se confessem, des a dominga primeira dephifania atees a guareesma- 

5 — que tragam escriptura piibrica como ssom confessados 

6 — que os creJigos sse confesem 

7 — como sse deuem de confesar os raçociros e capeUaaes de missa em todas (?) 
três festas 

8 — como nom deuem de fazer casamento ssem serem primeiramente apregoados 

9 — a pena que am os leigos que sse casam 
10 — como liam de sseer hungidos 

11 — como deuem de ensinar o pater noster e ave maria e os preceitos 
1'^—como sse am de dizer as misas dos anniversarios 

13 — como sse am de rre partir os anniversarios cu benesse aquelles que pressente 
está (sic) ante três dias 

14— cowío liam de fazer huum linro de tombo de tndoUos beens da egreia 

lo — como ham de fazer duas cliaues darca das esoipturas 

i6—como nom am de cantar na egreia 

17 — dos feiticeiros e deuinhadeiros 

18 — como liam de fazer prioste benefiriiaclo e nom leigo 

19 — como sani comitidos os casos pontificaees a prior e vigairo 

20 — que sayam sobre or, finados 

21 — que nom arrendem seus benefiçUos 

'^'i — que nom façam rontraufos infilioticos 

23 — que nom arrendem quintaaes 

24 — que nom acudam aos ausentes com seus boneficiios 

2o — que cantem as oras apontadamente 

26 — que nom vauo aos domingos fora 

27 — como o benefiçiiado nom dixer misa page cincoenta réis 

28 — que non firam snymentos ao domingo nem festa 

29 — que nom tomem nenliuum pulcu em sua casa pêra seer xpaãos (sic) ataa tem- 
po certo 

30 — como fiirnn dinis no roro druein de rrezar 

31 — ccnno os priudrgiados am de leiíar seus beneficias 

32 — titidu dos creligus que sse nom faliam 



E HISTÓRICA 121 



33— titulo das misas das capellas 

34— f/os barregneiros 

35 — dos que som casados caUaáamente 

36 — como o prioste nom deue de entregar os fructos aos heneftdiados 

37 — titulo da esmolla de sam virente 

38 — os que nom ieiuarem a véspera de sam. virente 

39 — que nom seia ironimo ssenom creligo de misa 

40 — que nom sirua hum creligo ssoomente dons hencfiçiios 

íi — como sse deue de soterrar o creligo na egreia 

42— f/os dias do estatuto e dos qtie nom seruem seus henefiçiios 

43 — que sse confesem os creligos 

44 — que venham os fregueses aos domingos e festas a egreia 

45 — que repartam os reçoeiros as idas (sic) e trintairos 

46 — que nom digam misas nas hermidas 

47 — que ponham as constituições sinodaes 

48 — das penas do meirinho 

49 — que nom empenhem nenhuuns hornamentos 

50— Indicação do pessoal da egreja 

51— /í/?//o da prata 

b'^— titulo das vestimentas 

53 — titulo dos liuros 

54— Sobre varias obras a fazer na egreja (preambulo ao tilulo seguinte) 

55 — Sobre varias obras a fazer na egreja 

56 — Sobre reparos a fazer na egreja de S. Silvestre dos Francos 

57 — Sobre reparos a fazer na egreja de Bombarral 

58 — Sobre o pagamento da presente visitação. 

VISITAÇÃO 
su.in ioam dobiclos 

/ Doiíi Jurge pei^ merçee de deus e da santa igreia de romã arce- 
bispo de lixboa A todosllos beneficiados ecciesiaslicos persoas e assy a 
todo oiili-o poboo da dieta cidade e arçel)ispado saúde em Iliíl x" nos- 
so remidor e saluador que de todos lie verdadeyra saúde e saluaçam 
porque segundo a sagrada escriplura nosso senhor deus fundou esta 
sua millilante igieia 'aa semelhança daquella igreia triumphante da 
quall postoque elle sem outro meo seia pastor e gouernador assy pa- 
ro a mantém em sua bordem e gouernança que os anios e esprituos 
bemauenturados de mais diuindade ahimiam e teem huum modo de 
reger os de meeo e os de mennos e os das mais bayxas ierachias dou- 
trinandoos e emsinnandoos daqitelles mistérios e diiiinaaes sagredos 
que am do senhor deus a quem sam mais cheguados e assy receben- 
do mais hime dos outros todos e iuntamente louuam ho senhor deus 
do que he sua gloria, a saber, bemauenlurança em pêra a qual nos 
outros os homeens fomos criados bonde por assy seer em esta milli- 
lante igreia que ho aiuulamenlo dos liees xpaãos aa maneiía daquella 
em que ha toda perfeyçam deus hordenou ho santo padre assy como 
vigayro geeraal representante sua persoa pêra reger e gouernar de si 
pos em ella |)relados per (jue a outra crelizia e todos os fiees xpaãos 
aiam de seer rregidos e gouernados em maweyra que lodos uiuentes 



I2á REVISTA ARCHEOLOGICA 

em carne que elle comprou per seu priçioso sangue lenham leix per 
que saybam o que lhe conuem kzcr por sua sahiaçam das quaaes leix 
e guaida delias os dictos prellados sani encarreguados aos (piíiees lie 
diclo per xpõ (pie dem de |)acer aas suas ouelhas porem desejando 
nos que lodos nossos siibdilos e de (pie carrego teemos seiam per 
nossa regra cerlos do que pêra assy seruirem o senhor deus liam de 
fazer Iraballiamos de visitar persoallmenle ho nosso diclo arcebispa- 
do de que nos deus deu carrego enupiaulo sua uontade ílbr e viindo 
nos as cousas geeraaes achamos que se denem ao menos de guardar 
estas que sse sseguem porque das espi(;iaaees na iliin de a visita(;am 
sse liara mençam as quaees mandamos conprir a igieia de sam ioliam 
que i)esoalmente visitamos presente pêro aiines vigairo e os beneficia- 
dos cuios nomes abaxam (sic) seram declarados. 

2 Item Primeyramente vos mandanmos e obssecramos per viçera 
mininie dey noslri cpie consirees ho grande ciiyihulo (pie per deus 
e vosso prellado uos he dado e comitido acerqua da cura ^Jas almas 
dos nossos líreguezes em como sooees thiudo de dardes conto delias 
a deus em no estreyto iuizo que seiaaes mny diligente e solliçito em 
proiieerdes vosso holigio (pie uos lie emcomendado per deus como di- 
clo he e minstreres a vossos Itregueses os sacramentos da santa igreia 
em esliluidos (sic) e feclos em ella por rremedio e saluaçam das almas 
dos xpaãos eseendo uos achado nigligenle e rremisso acerqua da dieta 
cura aalem da dieta penna que ante deus mereçees per vossa nigli- 
gençia e sseerem demandadas as almas dos sobretlictos de vossas 
maãos que per vossa culpa perecerem vos será dada em preste lall 
penna lenporall (jue bem senlirees e seia emxemplo a uos e escarmen- 
to aos outros. 

que bautisem sem filhos a of/lo dias 

S Item porquanto ho santo bpatismo {sic) he priii(;ipio efítindainen- 
lo dos outros sacramentos da santa igreia nos conuem vos darmos 
rregra como oaiaaes (ie fazer e a maneira que nelle aiaaes de teenr {sic) 
porem vos mandamos que daqui em diante constrangaaes vossos fre- 
gueses e lhes mandees que do dia que lhes nascerem seus filhos alee 
oyto dias os Iraguam a bajitizar a (bta nossa igreia e uom lhes con- 
siiitaaes que os em outros lugares baptizem saluo em caso de ueçesi- 
dade nom podendo hir a dieta igreia e uom lhes tomarees mais com- 
padres daquelles que som maiuiados nas constiluyíjões antigas sob as 
pennas em ellas conthiudas e se algunns ho nom (piiserem fazer 
constrangedeos per ('ensura ecciesiaslica (pie o façam e (puírendo durar 
em sua conluma(;ia lazedeo saber a nosso uigaiio no espiíitiiall e tem- 
porall [)era remidiar a ello com direclo to-.iiando ao mo(;o dons lio- 
meens e hiima molhei" e a moça duas molhcres e hiiiini liomen. 

fjue se confessem des a dominga primeira da phifania alees a qua- 
reesma 

4 Item vos mandamos que na primeira dominga depois daphifa- 



E HISTÓRICA 123 



nia ainouesleus nossos fregueses e seus filhos e filhas mancebos e 
mariCL-has de sele aiiiios [)t!i"a cirna (jiie alee coieesina scyumle sse 
venliaiii coiiíessai' a nos on a onlrem que os absoluer possa com nos- 
sa licença e nos mostrem como sani confessados conslrangedeos pêra 
ello per çensnra ecciesiaslica e assy uos Iraballiaae qne ante do dicto 
lenpo sseiatn conífessados porípie em pnreza e fora de pecado [)Ossam 
no tempo santo da coreesma fazer pendenças frnctnosas pêra snas al- 
mas e sse alee lio dicto tein|)() flbi-em alginms renees a sse nom con- 
fessarem mandade lio rooll delles ao dicto vigayro pêra ello esto re- 
medear e constranger que sse confessem per lall maneira que quinta 
ITeira de cea e ao domingo da páscoa possam comungar lio corpo de iliu 
x° assy como de directo som thmdos e uos mandamos que assy como 
os conslrangees peia confinsam os coiistianguaees pêra i receberem a 
cominnliom porque a todo sam (hiiidos em cada liuum annosaluosse 
lhe per uos for niandadoquepor estou çe (s/c) nom recebam a dita co- 
mnnhom e sse algunm de vossos fregueses com coraçam emdurado 
quiser estar em sua perlia e nom receber os dictos sacramentos sse 
a morte tomar na dieta perfia nom lio irecebadas em vossa igreia nem 
çimiterio delia nem lhe façaaees algiium lioligo de xpaão pois qne a 
santa igreia quer que taaees como estes careçam da ecciesiastica sse- 
pnllura e viuendo em sua perfia nom os reçebaes em vossa igreia e 
posto qiH) seiam confessados nom sendo comungados e morrendo co- 
mo (lido he nom nos reçebaes a dicla sepultura comodi(to he e viuen- 
do nom os reçebaaes em a dicla igreia poiquanto de necessário som 
Ihiudos de recebíír em cada hunm anuo estes dons sacramentos de ne- 
cessário e fazee em cada hinnii anno caderno em que escrepuaaes os 
ditos fi'egueses pêra sal)erdes caaes sam a(juelles (|ue sse confessam 
e (pniaes nom. O re(;tor que neslo for nigligente que pague nnll reaes 
e sse for seu logo teente pague quinhentos pêra nossa chancelaria e 
aalem do que neste capitulo he conthiudo mandamos que sse gnarde 
em lodo ha forma da nossa caila que acerqua do rreçeber destes sa- 
cramentos he passada cnio irellado mandamos que se ponnha na ffim 
de cada hiima visilaçam. 

(jiie tragam cscripfiira propica (sic) como ssom confessados 
õ Item por (piaiito per verdadeyra enformaçam achamos que al- 
guuns que se nom querem confessar a seus priores e curas tingindo 
que- se confessam a algnuns religiosos on a outros sacerdotes e mos- 
tram aluaraaes qne parecem seer fectos ou assynados per taaes con- 
fessoi'es nom ho seendo e assy passam e andam contra mandamento 
da santa igreia emdurenlados em seus pecados muitos annos em gran- 
de daniio e condepnaçam de snas consciências ao que a nos connem 
proveer, porem querendo nos a ello dar aquelle remédio a nos posi- 
uell mandamos a todos os priores vigairos e curas do nosso arcebis- 
pado (jue nom recebam nem aiam por confessados algnuns de seus 
fregueses saluo aquelles que a elles se confessarem ou lhes mosti-a- 



124 REVISTA ARCIIEOLOGICA 

rem propicas (sic) scriptiiras como ho sam oii uiiia voz que lhe sseia 
(licto per aipielles confessores que os confessarem e doutra guisa nom 
de He aliiaraaes algutins que llies moslrem puslo que pareçam seer 
fecins pellos coiillessores nelles coiiUiindos como diclo lie anle ssem 
embargo delles proceda contra os dictos sens fregtiesses segundo lhe 
per nos lie mandado nesta nossa visitaçam sob penna per nos posta. 
a saber, de paguarem mil! reaes os que em esto nigligenles ííurem. 

qfii', os.crellgos se confessem 

O liem achamos (|uod dollentes rreferimus que alguuns creligos 
de missa da dieta cidade e arcebispado nom temendo deus nem con- 
siraiido a qiiam alto inistimabelle mistério som chamados e em quanta 
pureza e linpeza deueuem (sic) de receber e tractar ho santo sacra- 
mento do copo (sic) e sangue de nosso senhor Ihu x° andam por 
miiytos dias e anos que sse nom confessam e o pior que he aalguuns 
nom sam achados confessores e segundo aigmimas presuncõees nun- 
ca foiam confessados e sem uergonha de deus e temor da sua iustiça 
rrecebcm cada dia com pouca reuerença o corpo de deus em grande 
dapno e perigoo de suas conçiençias, e querendo nos a esto rreme- 
diar por o seruiço de deus e bem de suas almas mandamos aos so- 
bredictos que olhem em suas conçiençias sse em ellas teuerem alguum 
escurpollo que os embarguegue (sic) a o nom receberem e por que 
mall peccado entendemos (jue alguuns sem embargo de nosso manda- 
do (]uiserem hiisar do que dantes husauam mandamos a uos ou a 
quem vosso carrego teuer que coslraiiguaes vossos beneficiados e ca- 
pellãaees (]ue em vossa igreia seruiiem seendo de missa que cada 
huum mes nos façam certo como sam confessados e nom ho fazendo 
assy nom os consintaaes que mais celebrem em uossa igreia e fazee 
per tal maneira que hiso medes .facaaes em cada huum mes e^ que 
dees booin recado quando per ello uos for dedemandado (sic) e seen- 
do uos nigligente aceripia do que dilo he queremos que por uossa ni- 
gligençia paguees [lor cada hiima vez que esto nom conprirdes duzen- 
tos reaes brancos. 

como sse deitem de confesar os raçoeiros e capeilãaes de missa em 
todos (?) Ires festas 

7 Item sse em a dila nossa igreia teuerdes beneficiados e capel- 
liíaes (pie nom sseiam de missa ou outros alguuns seriiidores delia 
mamlamosuos sob a dieta [)enna que os constranguaees que per na- 
tall páscoa pititicosle façam certos como sam confessados e comunga- 
dos e nom ho fazendo elles assy os beneficiados nom recebam de seus 
benefii'ios alguuma cousa atee (pie se confessem e coinungiKím e os 
capídlftees nom consintaaees em nossa igreia assy como dicto he e por 
as dietas Ires ffestas Ifaçam assy certo todos aos vigaii-os das comar- 
cas como compriram ho (pie aqui mandamos e os dictos vigairos cer- 
liliijuem dello nossos uisiladores quando uierem sob penna de paga- 
rem de sua casa. 



E HISTÓRICA 125 



comn tioin th-iwm th' fazer cdsamenlo sscm serem primeiramente 
ap)-c(/0(i(l()s 

ò' Ileiíi |)on|iie al«,Mniiii;is vezes aquece que alguuns reyrutes e ou- 
tros crerigos fazem alguuus casamentos iiom fazendo primeiramente 
as soleni(i;i(los (|ue os derectos (]uerem e ao depois sse acham laaes 
eml)argf)S peiíiue sse laaes casameulos desfazem e queieiido nos a 
eslo neinediar e conlraiiar a laaes perigos mandamosuos que daipii 
em diante nom façaaes nem consintaaes em vossa igreia e freguisia 
seerem fectos taaes casamentos atees que ante per três domingos 
sseiam ao pobno deniuiçiados e declarados denunciando as persoas 
que am de casar e mandando aao [)oIjoo sol) penna de excomunliam 
que (piem algutim embargo souber antre as diclas persoas per que 
casados noui possam seei' que uenlia a nos dizer ou aa(juelle que nos- 
so lugar leuer e quando os ouuerdes de receber seiam rrecibiiJos aa 
p(;rta da igreia nossa asy como he costume. 

a pena ijue am os leigos que sse casam 

U liem achamos (]ue alguuns leygos da (bela cidade e arcebispado 
nou) esguardand em como os sanlos sacramentos da igreia deuem 
seer dados e nnnistrados aos íiees xpãos pellos sacercerdotes {sic) 
que som ministros e regedores delia aos quaaes per deus e pella di- 
eta igreia he conlhiuda {sic) a ministra(^-am, delles sse mouiam con te- 
meraiia au(la(;ia de fazerem casamentos em lugares priuados em suas 
casas, indo em lall fazer conlia os sanlos cânones e delerminaçam da 
santa igreia pella quail cousa sseguem muytas vezes que os maaos 
maridos e taaes molheres neguam os dictos casamentos em grande 
dapno de suas almas e conçiençias e porém querendo nos a esto pro- 
iieer e remediar com oportuno rremedio per esta presente amoesta- 
mos e mandamos aos diclos leygos de qualquer estadí» e condiçam 
que seiam que do dia que lhes esta visitaçam for publicada por três 
canónicas amoeslaçõees e termo preciso ou que delia noticia ouuerem 
alee Ires dias os quaes lhe nos damos por as diclas Ires canónicas 
dessislam sua temerária piesunçam e nom façam mais os diclos ca- 
samentos, e fazendo elles ho conlrairo passado ho diclo leinio quere- 
mos que ipso facto emcorram em sentença de excomunliam assy os 
noyuos como as outras persoas que presente forem a quall nos em 
elles poemos nestes escriplos da qnall excomunliam nom possam seer 
absolutos saluo per nos ou per cada luium de nossos vigairos gee- 
raees de lixboa e santarem segundo ho arcediago em que íoiem ou 
pellos vigairos pedanneos das uigarias e comarcas e averam sua ab- 
solluçam neesta maneira e em oulra nom e damos pêra ello poder, a 
saber, que os noyvos e os que os receberem eslem ante de seer ab- 
solutos três domingos aa porta da igreia de fora em quanto diserem 
as missas da terça, a saber, toda a missa descalços com senhas siluas 
ao collo grossas descubertas em lall guisa que pareçam ao pooboo to- 
do e as três (?) cada huma seu domingo pello dito modo e doutra 



i26 REVISTA ARCHEOLOGrCA 

guisa nom e se pervenlura os sobreditos vigairos forem reqiiiridos 
que lhes mudem estas pendenças em outras e llies parecer que o de- 
uem fazer ()or alguuma causa que os a ello mnua dammollies poder 
e autoridade que lhes ()0ssam mudar a dieta peuua em esta. a saber, 
que os uoyuos e aquelles que os receberem paguem cada huum cin- 
coenta rreaes peras obras meretoí/as que per nos forem hordeuadas 
e as testemuidias vinte cada hunm e satisfecto a esto per callqucr dos 
sobre(Uctos modos os possam absoluer e doutra guisa nom e ffazendo 
quallquer ho coiitravro dos dictos vigairos poemos no que ho con- 
trayio fezer sentença de escomunhom em estes escriptos da quall 
nom possa seer absolluto senam per nos e a higreia em que ba des- 
lar com as dietas siluas será aquella em cuia ffreguisia os dictos noi- 
uos uiuerem e aquelle que teuer aura [síc) da dieta igreia lhes lance 
as dietas siluas ao quall mandamos sob penna de exc.omimhom em a 
quall ipso facto encorra que uerdadeiramenle per seu escripto cerle- 
fique dello ho vigairo que os assy ha dabsoluer e sse for creligo o 
que lall casamento fezer pague quitdientos reaes do nosso aliube. 
conin /iam de sseer luingicJos 

10 Item porque todo ffiell xpãao des que nem aos annos da dis- 
cripçam be thiudo de receber os sacramentos da igreia necessários 
pêra sua saluaçam anlre os quaees ho postomeiro delles he a ultima 
unçam porém uos mandamos que amoestee nossos fregueses que quan- 
do os deus deste mundo quiser leuar rrecebam ho dicto sacramento 
6 vos seede bem dilligente a lho dar seendo uos requirido dando-lhes 
a entender em vossos sermõoes e preegações ha uirlude do dicto sa- 
cramento e quanta graça deus ffaz aaquelles que bo recebem e assy 
os animarees a o auerem de receber e porque a este sacramento he 
neçesario olio dos enfermos sem ho quall nom pode seer fedo vos 
mandandamos (,s/í") que do dia de páscoa atee quinze dias a mais tar- 
dar vaades pellos olleos e crixma aquelles lugares donde os soees 
auer e trageeos a vossa igreia sob penna de duzenios reaes brancos. 

como dcuem de ensinar o palcr j/oster e ave maria e os preceitos 

11 liem porque achamos que muitos xpãaos nom sabem lio pater 
nosier e a>ie maria e o credo in deum que som oiaçõees de neçesi- 
dade e as deuem saber pêra com ellas adorarem a deus e a virgem 
maria sua madre e creerem as cousas conlhiudas nos artigos da san- 
cta ífe calollica vos mandamos que em todollos domingos do anuo aa 
missa do dia depois da oferta digaaes nniy pasamente (sic) per ma- 
neira que os fregueses uos possam bem entender as dietas oraçõees 
aos sobre dictos e no auento e na coreesma depois da dieta olferta 
Ihts dizees mais os dez preceitos da ley com suas conlrariadades del- 
les declarandollios uos ho millior e mais comjjridamente que uos deus 
ministrar e as hobras da misericórdia por que as saybam e as com- 
[)ram e os sete pecados morlaaes per o (pie os conheçam e sse guar- 
dem delles e os sele sacramentos da igreia fectos e emestituidos (sk) 



E HISTÓRICA 1 27 



em cil.i [M)r o salii.iram dos xpãnos e os dooes do cspirilii snnio e as 
uirliidcs lli('ol(i}:aaes e as cardcaaes assy como nos per nos forem 
mostradas e mandamos aos diclus íregiieses sob pemia de excomu- 
nliom que nem lazendo iios o que dicto lie que noilo escrepuam e fa- 
çam saber pcra nos tornarmos a ello com directo e nos darmos aquel- 
la iirande pcinia (pie j)ell(»s nom saberdes nem emsiiiardes merecees. 

conin ssc ani de dizer as uiissas dos mivirersairos 

12 Item acbamos que alyuuns leigos mouidos de piedade e por 
bem de suas almas leixam seus beens aas igreias por llie seerem fe- 
ctos mnylos dias seus aniuersarios assy como llies foy liordenado e 
os bencliçiados sam mnit(j diligentes pêra leceberem as lendas d()s 
dictos jieens e os aniuersarios nom sse fazem assy como lie mandado 
da ipiall cousa sse segue maao emxempllo ao poboo e pequena uon- 
tade de bem fazer aas igreias e o pior que lie detrimento aas almas 
dos sobre dictos que es[)eram no purgatório pellas aiiidas dos sacrifí- 
cios e esmollas dos uiuos. e querendo nos a esto rremediar manda- 
mos uos que façaaes vos c vossos beneficiados os aniuersarios que 
uos foram leixados pois levaaes as rendas delles em aqiielies dias em 
que se am de fazer sse nam forem embarguados por domingos ou 
festas e quando forem embargados ante ou depois no dia seguinte 
per lall maneyra cpie nom fiquem por dizor e dizee vos ou quem di- 
ser a missa ao domingo ao poboo os nauersarios {sic) que forem 
naqiiella somaiia emcomendarees ao dicto poboo que roguem a deus 
pella alma desse que leixou a igreia a lall possisom por seu aniuer- 
sario e sse hi esleuer alguum de seu linliaie que uenlia em tal dia 
uer como sse íTaz o dicto nauersario se quiser, e a maneira que anees 
de teer em fazer os aniuersarios ssera esta direes aa ves[i('ra do dia 
em que lia de seer, véspera e matinas dos mortos e no dia depois 
das matinas do dia direes as laudes dos finados e a missa aa ora da 
primeira de reíjuiem e sse souberdes a ssepultura daquelle ou da- 
quella cuio ho nauersario ffor, e hirees sobre ella com cruz e agoa 
benta dizendo responsso sobre a coua ou sepultura e os dictos nauer- 
sarios sse ganharam per esta guisa, a saber. Iiiinm terço a véspera e 
as matinas, outro terço as matinas do dia do nauersario e laudes dos 
mortos, e oulro terço a missa com saimento, e nom fazendo uos os 
dictos nauersarios como aqui lie liordenado, defendemos e mandamos 
ao prioste da dieta igreia que uos nom de delles cousa alguma sob 
penna de iazer liuiiin mes em nosso alinbe e defendemos a vos que 
ho nom recebaaes e o dicto prioste noIlo faça saber pêra nos des- 
poermos dos dictos nauersarios aqnello que emiendermos pêra ser- 
uiço de deus e bem das almas daquelles que os leixaram. 



{Continua). 



128 REVISTA ARCHEOLOGICA 

BIBLIOGRAPHIA 

BuLLETTLNO Dl AuciiEOLuciiA CiusTiANA dei (^ommeiídatore Giovan- 
ni BaíUsta de Rossi. Série Quarta. Anuo Quarto. N."' 1, "2,, 3, 4. Ro- 
ma, 188G: fig. 

Esle exfolleute boletim, cuja troca com a Revista no mais subido 
apreço leni e recoiiliecida agradece a redacção d'esla, é um dos me- 
lhores repositórios archeologicos que se publicam. O nome do seu il- 
luslre Redactor, respeitadíssimo por todos quantos o conhecem por 
seus innumeros e im[)ortantissimos trabalhos e por suas allissimas 
(jiialidades pessoaes. l)cisla para dar a esta publicação um interesse 
enorme, uma auctoridade incontestável. De modo que, quem quizer 
com passo seguro estudar não só a archeologia christã, mas ainda 
muitas outras espécies da vasta e diílicilima sciencia da antiguidade, 
deve consultar as sabias memorias devidas á penna do sr. Com.'^°'' de 
Rossi. muitas das quaes sairam á hiz no Bollettino de Archeologia 
Cristiana. 

O volume correspondente ao anno de 1886 consta dos seguintes 
artigos: 

Conferenze di archeologia Cristiana (actas), pelo sr. Orazio Maruc- 
chi, secretario: 

II maiísoko degli Urami cristiani a s. Sebastiano sidrAppia. 

L epigrafia primitiva priscilliana, ossia le iscrizioni incise sul mar- 
mo e dipinte siille tegole delia regione primordiale dei cimitero di Pris- 
cilla, com Appendice. 

Os dois últimos estudos, em que continuam a evidenciar-se o fino 
espirito e a luminosa observação epigraphica do sr. Com. '•'''■ de Rossi, 
bem como o seu saber vastíssimo, são d'aquelles que bastariam para 
lhe firmar a reputação, se com muitos e maiores monumentos não 
houvesse já enriíjuecido a Itália e a sciencia. 

A assignatura pode fazer-se, pelo preço annual de liras 11,50, 
sendo dirigidos os pedidos ao sr. Giuseppe Gatli, Perla Direzione dei 
Bultettino di Archeologia Cristiana, Piazza d'Aracoeli, 17, in Roma. 



E mSTORICA 129 



INSCRIPÇÃO DE MONTEMOR-O-NOVO 

(Nota) 

Examinando .linda uma vez os desenhos da inscripção de Monte- 
mór-o-Novo, qne devo á obzeijuiosidade do sr. Gal)riel 1'ereira, pare- 
ce-mo tjiie o texto das duas inscripeões chrislãs, que a ladèam, deve 
ser ap[)roxima(lamente o seguinte (p. 114 da lievi.sta): 

[/«] nomine d(onn)ni 
[fa] tniili Chr{ is li) 
[Si]scua[}i]dus 

[et] lesabille 
[/]e[c]«-í' nt 

lesabille seria ísabdla. 
Herlin. l'i setembro 1887. 



E. IliJBNER. 



ANTIGUIDADES DE MONTEMOR-O-NOVO 

A propósito do artigo do sr. dr. Eniilio Iliibner sobre a inscripção 
de Calcliisia que se acha em Montemór-o-Novo, artigo pubhcado no 
anterior niunero d"esta Ik'visla, e para satisfazer ao convite da digna 
redacção, venho resumir algumas noticias arclieologicas d aquelia villa 
alemtejana, onde ha poucos mezes estive em commissão de serviço 
pubhco. 

Antes de mais agradeço mui reconheeido as palavras amáveis com 
que o erudito professor_da Universidade de Berlim, a quem nós os 
estudiosos portuguezes tanto devemos em licção e exemplo, honra o 
meu nome obscuro. 

Achando-me em Monlemór-o-Novo em commissão assaz demorada, 
que me deixava por dia algumas horas vagas, empreguei-as no meu 
antigo habito de indagação archeologica ou liistorica. O caslello, o an- 
tigo recinto fortificado, a villa, o seu termo, teem que vèr; o archeo- 
logo occupa bem uns três dias percorrendo aquelles campos acciden- 
lados, vestidos, no aro da povoação, por extensos olivaes, cercados 
por bastos montados d'azinho e sobro de grande importância. 

O castello encima um alteroso monte de forte declive. É um re- 
cinto fortiíicado, triangular, tendo uns 800'" no lado maior que olha o 
norte. Dentro estava a antiga povoação, hoje umas terras maninhas, 
formadas de entulhos e caliças; resta o edificio que foi mosteiro de 
freiras, agora asylo de meninas; duas egrejas em abandono, doutra 
apenas as paredes; para o lado da villa, que se alastra alvejante na 

Rev. Arch. e Hist., I, N." 9 — Setembro 1887. 9 



130 REVISTA ARCHEOLOGICA 

baixa ao norte do cerro, ergiie-se a torre do relógio; e no vértice do 
recinto triangular para o Imlo do sul, exactamente onde a escarpa é 
mais Íngreme e o accesso mui dillicil, está o palácio, uma ruina admi- 
rável, com suas alias muralhas em quadrado, fortalecidos os ângulos 
por fortes cubellos. Conservam-se a leste e oeste do castello duas tor- 
res formidáveis, chamadas, na historia e na tradição popular, do Anjo, 
e da Md hora. 

Examinei detidamente o castello e julgo poder aventar algumas 
novidades. Não é medieval, não tem uma ogiva nem um arco mouris- 
co; as janellas das torres e do palácio são rectangulares, ou de volta 
redonda; as portas de grossa silharia bem faciada. e de volta redon- 
da também: a entrada principal, ainda perfeitamente conservada, é ro- 
mana em todas as linhas; a barbacan do norte parecc-me árabe, pela 
disposição e construcção. A alvenaria é tal que alguns pannos da nui- 
ralha e cubellos tombaram inteiros. O (jue todavia merece mais atten- 
ção é o palácio, assim designado na tradição e ainda no actual fallar 
do povo; não é o paço nem a alcáçova, nem a menagem ; é ainda na 
integra a palavra latina. O ediíicio internamente soíTreu modificações, 
no exterior tem puro aspecto romano. 

Visitei em outubro de 1886 um edifício isolado e ignorado que me 
forneceu algumas bases de compai-ação; é o castello de Vallongo, an- 
tigamente castello real, como apparece designado em documentos dos 
séculos XV e xvi. Pica próximo da villa de Montoito, ^ kilometros a 
poente. 

Imagine-se um quadrado de ()0'" de lado, formado por espessas 
muralhas; nos cantos fortes cubellos; um d"esles mais amplo, com 
suas divisões, é a habitação principal. A porta voltada a nascente. 
Dentro do recinto, encostadas ás muralhas, algumas casas, um forno. 
Um dos torreões ampliado com uma construcção de silharia que pa- 
rece prisão. Como está miiiio isolado, ninguém tem ido ali buscar ma- 
terial ; acha-se admiravelmente conservado. É um exemplar curioso, 
digno de estudo. A porta principal, a construcção fundamental, o as- 
pecto, são romanos. O torreão foi reconstruído, e outro accrescentado 
com um pequeno edifício ogival. Mais tarde encostaram barracas ou 
casas baixas que teem portas mouriscas. Como as chuvas descarna- 
ram as paredes, vè-se claramente a successão da construcção. 

E juntando esta lição a outros elementos convenci-nie de que o pa- 
lácio, as grandes torres, a entrada principal do castello de Montemór-o- 
Novo são de origem romana. A inscripção de (^alcliisia estava no adro 
da egreja Matriz; e chegando esta a ruina con)i)leta foi removida para 
a parede fronteira á Camará Municipal. 

Registemos outro facto; na egreja próxima áo palácio ha inscrip- 
ções pouco notáveis; mas n'uma casa aiuiexa o pavimento é formado 
por antigas cabeceiras de sepulturas, pedras que na idade médii col- 
locavam em volta dos templos marcando as covas; uma parte adelga- 



E HISTÓRICA 131 



cada ou espigão entrava no solo, «^"itra parle circular, lavrada com a 
cruz, sobresaliia; na cgreja da Atalaya, lernno de Pombal, ainda ha 
pouco vi duas d eslas [)edras cn plave. Algumas teem oaljiha e o ome- 
fja, a maior parle apenas a cruz. 

Sahiudo da villa pela eslrada nova para Évora, a uns 4 kilomelros, 
vè-se á esfjuerda a (jiiinla da Amoreira da Torre, um edifício grande 
com sua torre mui saliente: e olhando á direita, a 200 metros (Ja es- 
trada, n um cabeço, entre matto curto, bem visivel, está um dolmen; 
é a anta da courella dos Touraes. Tem seis esteios erguidos, a meza 
ou pedra superior no seu logar; mais de 2'" daltura e 4 de diâmetro; 
vesligios da galeria, como de costume, voltada a nascente. 

Uma carreteira passa pioxima da anta e vai descendo o declive, 
corta a ribeira e segue para a casa da Amoreira da Torre. Eu ia visi- 
tar esta casa porque me haviam contado o seguinte. Esta propriedade 
pertenceu á casa d" Aveiro. Um certo conde de S. Cruz, commendador 
mór de Mertola, era amador de arte e antiguidades, e trouxe com 
grande despeza de Aleitola para a sua quinta de Montemor, a Amo- 
reira, onde residia habitualmente, estatuas romanas, lapides, etc. O 
povo de Montemor por occasião do atlentado contra el-rei D. José, 
correu à quinta dos Aveiros, quebrou, destruiu brazões, moveis, etc. 
6 decapitou o marqucz e a marqueza. Na lenda actual lia confusão en- 
tre o caso dos Aveiros, e um mais antigo, muito ligado á historia da 
villa, do tempo de João 2.° É lacto ter o povo assaltado a quinta ; 
apeou, não partiu, os brazões da casa d"Aveiro, que eu lá os vi a um 
canto de certa oííicina, depois de afastados uns molhos de vides sec- 
cas. O meu problema era o seguinte: o povo destruiria tudo? não 
restaria fragmento de estatua ou de lapide? 

Talvez queira vèr as figuras do marqnez e da marqueza, disse-me 
o caseiro éepois de termos percorrido inutilmente o palacete, o jar- 
dim, as oíTicHias; e levou-me a uma casa aonde fiquei por alguns mo- 
mentos enlevado. Os marq/irzes decapitados são duas estatuas roma- 
nas, as mais perfeitas, mais elegantes, de mais nobre arte que temos 
em Portugal, duas estatuas collossaes, de mármore, sem cabeças, nem 
mãos, mais de 2'" daltura, homem e mulher, as roupagens finas, lin- 
damente lançadas, de óptima execução. É possivel que viessem de Mer- 
tola assim mutiladas, porque André de Rezende falia de um achado im- 
portante do seu tempo, natjuclia villa, de formosas estatuas infeliz- 
mente truncadas. 

Em terras da herdade das Commendas, do sr. Oliveira e Silva, por 
occasião de certo trabalho agrícola, appareceram algumas antiguida- 
des; o dono mandou excavar e abrir valias naquelle sitio para reco- 
nhecer o terreno, e descobriu então restos de paredes, de aqueductos, 
e bastantes cerâmicas, utensílios, ferramentas : alguns objectos de 
bronze, fibulas, argolas; muitas de ferro: provavelmenie restos de 
uma exploração agrícola, e também talvez metallurgica. São vulgares 



J32 REVISTA ARCHEOLOGICA 

OS restos de exploraçees mineiras no Alemtejo, onde abundam os jazi- 
gos de cobre, de feiTO, de maiiganez. Nas minas aclnaes reconhecidas 
mi exploradas enconlrain-se sempre vestígios de trabalho mui remoto, 
pre-romanoe romano. Km pontos, existem verdadeiros montes de esco- 
rias, em outros indícios claros, para o olhar ethicado, de terias enor- 
memente revolvidas, sem apparecer todavia vestígio algum romano. 
Onde apparecem grandes tanques, aqueductos, moendas (não sendo 
em margem de ribeira) e Tornos, [)õde alíirmar-se terem existido ex- 
plorações metaliurgicas. 

A3kilometros ao norte de Montemor, á esquerda e cerca da estrada 
que segue para iMòra, eleva-se um cerro com sua ermida no alto, dedi- 
cada a Santo André. 

Dizem-me ser templo dos mais antigos d\iquelles sítios. No Alem- 
tejo são raros os templos anteriores á monarchia, tão frequentes nas 
Beiras, no Minho e em Traz-os-Montes. São conhecidas inscripções S2- 
pulcraes chiislans de alta antiguidade, mas bem raros os templos onde 
OS fieis oravam nos tempos gothicos e no domínio árabe. Eram pro- 
vavelmente pobres, humildes conslrucções, que desappareceram pela 
ruina ou soítreram reconslrucção tal que lhes apagou lodos os caracte- 
res primitivos. 

Com grande curiosidade entrei no pequeno cerrado povoado de oli- 
veiras que antecede a ermida. Um templo, antigo sem duvida ao pri- 
meiro olhar, agora concertado, rebocado; denotando porém nas linhas 
exteriores uma reconstrucção e ampliação bem remota. A porta é ogi- 
val ; dentro, o [)rimeiro arco também ogival ; era o espaço do primitivo 
alpendre que incorpoiaram no templo para o fazer mais comprido. O 
segundo arco de volta redonda, de rude silharia, assentando em co- 
lumnas baixas, grossas, de capiteis cúbicos mui toscos, com ornamen- 
tação vegetal rudimentar ; os arcos que seguem são eguaes ; a capella 
mór reconstruída no estylo golhico. Tem razão a tradição; é um ro- 
mano modificado pelo gothico. 

Teve esta ermida sua confraria e albergaria com a invocação de 
Santo André ; albergaria para romeus e peregrinos, e depois para láza- 
ros ou gafos. 

Existe a copia do primitivo estatuto ou compromisso no lombo do 
Hospital, no archivo da Santa Casa da Misericórdia. É mna copia não 
muito lie! lavrada no século xvi. Foi publicada com alguns erros con- 
sideráveis nos «Estudos do município de Montemór-o-Novo». E a 
reproducção do antigo compromisso dos homens bons d'Evora que 
foram a .lerusalem (Documentos históricos da cidade dEvora, pag. .38). 
Como Évora conmiunicou ás povoações alemlejanas o seu foral, e os 
seus juízos e costumes, assim lambem lhes deii a norma das suas ins- 
tituições pias. O compromisso da antiga confraria dos Ovalheiros. ere- 
cta na albergaria de N. Senhora da Graça, de Vianna dapar dAlvito 
(Vianna do Alemlejo), é lambem fundado no estatuto eborense. 



K IIISTOUICA 133 



Esta Misericórdia do Monleinôr lein uni arcliivo opulento ; e é muito 
notável a sua salla das sessões, o seu as|)t,'clo aiitij^^o. sem Cíjusa íjuc 
disparate, a m Mza e cadeirado pegado, sobre a cadeira do provedor o 
oratório de armário, um grande triptico. os viUlos ou bandeiras, de tela 
pintada a óleo, sus[)ensas nas paredes ; o cofre na sua caixa de már- 
more branco com umas grossas trancas de ferro cruzatlas, com cadea- 
dos ; o tecto de abobada pintada a fresco ; e formosas cadeiras de 
espalíJar, de couro lavrado, ao longo das paredes. É opulento lambem 
o aicbivo municipal otide vi nrailos documentes do século xv. 

G. Pkheiha. 



NUMlSxAíATICA POUTUGUEZA 

I). AíToiíso V 

Não tencionamos entrar, senão por incidente, na bistoria pouco bri- 
lhante do reinado deste aventureiro e leviano monarcba. A nossa mis- 
são é restricta e visa apenas auxiliarmos, quanto couber nas nossas 
forças, alguns novos e inexperientes colleccionadores de moedas anti- 
gas, em Portugal. !•] Ímprobo o nosso trabalho, reconhecemol-o, de- 
pois do dislincto numismata, o sr. dr. Teixeira de Aragão, cuja com- 
petência não nos peza reconhecer, ter desenvolvidamente tractado 
das moedas portuguezas na sua Descripção geral e histórica das moe- 
das cunhadas em nome dos rcij, regentes e governadores de Portugal. 
Mas se é Ímprobo o nosso trabalho e ingrata a nossa tarefa, mais fá- 
cil é a concessão da indulgência que pedunos para qualquer deficiência 
ou erro de apreciação que possamos commetter. 

É importante o trabalho do sr. Teixeira de Aragão, agora mais 
do que nunca o reconhecemos. Mas a numismática ou a diplomática 
numária é uma sciencia, e como tal nã(> está dieta a ultima palavra, 
É uma sciencia positiva, mas precisa de interpretações de moedas, de 
textos e de leis, de apreciações de factos e de documentos de toda a 
espécie, de raciocínios ás vezes tão pouco seguros que ninguém pôde 
ter a preteução de ter dicto a ultima palavra, de ter feito o ultimo 
trabalho. Quem algum trabalho fizer no intrincado labyiintho da nu- 
mária porliigue/.a. que tão abandonada tem jazido entre nós. presta 
indubitavelmente um serviço ao paiz, e este serviço será tanto maior 
quanto mais desinteressado fur. 

D'este reinado vieram-nos paiar ás mãos, quer como propriedade 
nossa, quer como obsequio do nosso bom amigo o sr. Júdice dos San- 
tos, exemplares de moedas que divergem dos citados pelo sr. Teixei- 
ra de Aragão, podendo d'entre estes, considerar-se alguns como ty- 
pos completamente novos e outros como importantes variedades. 



134 REVISTA ARCHEOLOGICA 

Para a descripção d'elles seguiremos como até aqui a ordem chro- 
nologica ou de importância numária, dada pelo sr. Aragão no seu tra- 
tado, sempre que o nosso modo de apreciar ou a maior facilidade da 
descripção nos não obrigue a divergência. 

Vamos descrever dois rcaes grossos com as coroas de Portugal e 
de Castella, ires meios reaes ou chinifrans, três espadins e algims 
ceitis. Um dos meios que adoptámos para facilitar a comparação das 
variantes com os typos citados pelo sr. Aragão, foi o de desenhar as 
duas moedas, fazendo-as acompanhar das respectivas descripçues. 

O sr. Aragão dá sob os n.°' 7 e 8 do reinado de D. AÍIonso v, 
vol. I, est. X, dois reaes grossos, com as armas de Portugal e Castella, 
dinheiro que serviu para commemorar a infausta e leviana aventura da 
reunião dos sceptros de Castella e Leão ao de Portugal, e o conlracla- 
do casamento de AlTonso v com sua sobrinha D. Joanna, a eirellente 
senhora, por morte de Henrique iv de Castella. 

As moedas descriptas pelo sr. Aras^ão são: a primeira, — est. xv, 
fig- 1. 

«>í< ALFONSVS° DEI! GRACIE! REX= GASTE.— 

Escudo com as quinas sobre a cruz de Aviz, orladas por dez castel- 
los, em volta ires anneis». 

«r!. >í< A L F O N S V S : DEI: G R A C l A ! R E A' ^ C A S T E.— 
Armas de Castella e Leão. Pesa 68 grãos. Real grosso. A\ de 11 di- 
nheiros e 4 grãos — 10:000 réis». 

Uma das moedas do sr. Júdice dos Santos é uma variante deste 
typo, vide est. xv, fig. 2. 

>i< ALFONSVS": DEI; GRACIA; REX; CAS.— EsCudo 

com as quinas sobre a cruz de Aviz, cii'cundadas por dez castellos e 
por fora destes, três arruellas, uma de cada lado e outra por cima. 

Tl. ^ A L F O N S V S ; D E I : GRACIA; R E G I S ; C A S T . — 

Escudo com as armas de Castella e Leão, e por cima c (Castella). 

Peza 09 grãos, Real grosso. 

A diflerença d'estas duas moedas consiste principalmente no texto 
das legendas e na lettra d'ellas, e em ter no reverso sobre o escudo 
de castello, um c. 

O segundo real grosso mencionado pelo sr. Aragão, est. xv, íig. 3, é : 

«>í<ALFONQ HIINTIS ^REIS ^CASTELE ^E LEONEES. 

— O mesmo escudo com a cruz de Aviz, mas tendo por cima um p 
(Portugal) entre dois armeis. 

\\. >í<alfonqvintis:reis:castele:e lionees. 

— Escudo com as armas de Castella e Leão; por cima entre dois au- 
neis c (Castella). Peza 07 grãos. Real grosso. A\ de 11 dinheiros e 4 
grãos - 10:000 réis». 

A segunda moeda que também pertence ao sr. Júdice tem: — 
est. XV, íig. 4. 

^alfonsvs; qintvs: reis; castele .— Escu- 



E IIISTOUKA 



135 



do com as quinas sobre a cruz de Aviz, circundadas por dez caslel- 
los e aos lados uma arruela ; por cima um p (1'orlugal) no meio de 
oulras duas arruelas. 

k. ^ A L F o N S V S : ()\N T V s ; H K I s : C A S T !•: I. K : L K .— 
Escudo das aiinas de (>asl('lla e Leão, com o mesmo mmiero de ar- 
ruelas e na mesma disposição, lendo por cima do escudo C (Caslella). 
Peza 06 grãos. lieal (jvosso. 

Estas duas moedas ultimas são também difTerentes nas legendas, 
como póile ser facilmente observado. 

No meio irai (jrosso ou liiinifrcnn as dillerenças são muito maiores. 

O descripto pelo sr. Aragão, vol. i, est. x, e que nós re[)ioduzi- 
mos, est. XV, fig. 5, é: 

«^AI. FONSVS; QVINTI: REGIS;POIi. — Quinas. 

Ri. ^ ADJVTORIVM ^NOSTRVMMN : N O M I N —No Cen- 
tro A entre dois anneis, por cima uma grande coroa e por baixo L 
(Lisboa). Peza ^9 grãos. Meio real ou chimfram, Á\ de 11 dinlieiros. 
— 1:000 réis.» 

A este meio real podemos apresentar três variantes importantes 
da mesma fabrica de Lisboa. Fazemos esta observação da fabrica de 
Lisboa, poripie na obra do sr. Aragão vem também descripto um 
meio real com armas de Castella parecendo ler ali sido fabricado. 

Se, como é nosso dever, considerarmos o anverso da moeda o lado 
que tem o nome do monarcha, ou o mais importante^ só uma das Ires 
variedades (jue vamos a|)resentar pôde ler, como no sr. Aragão, por 
anverso a face da moeda que tem os cinco escudos. E esta moeda 
pôde ler o mesmo anverso, porque tem o nome do monarcba nas 
duas legendas. 

A primeira das nossas moedas é: — est. xv, fig. 6. 

>í< A L F O N s V s : QVINTI : R E G I s : p . — No cenlro a entre 
dois anneis; por cima uma grande coroa, e por baixo L (Lisboa). 

Ri. >í< ADJVTORIVM ; N O S T R V M ; I N . — As cinco quinas 
porluguezas em cruz. Peza '28 grãos. Meio real grosso ou chimfram. 

Além de peípienas diíTerenças nas legendas, comparando este exem- 
plar com o da tig. 5, vè-se que houve troca completa d"ellas, por- 
que a legenda que estava do lado da coroa passou para o das quinas. 

O segundo meio real de que vamos fallar é realmente exquisilo. 
Nenhuma das duas legendas principia ao alto da moeda, logar que 
n'esla devia ser indicado pela posição da coroa ou das quinas. A le- 
genda do reverso varia mniio, e está imperfeita, notando-se que o a 
de ADJVTORIVM está voltado, como se vê na est. xv, fig. 7. 

»í<alfonq:uintvs : reis-, p. — a coroa, o a e o l 
com a disposição do n.° anterior. 

l"^. V D J \' T o R I V M : D N Q : Q V I F E C I T : C E L . — As 

quinas porluguezas. Peza 20 grãos. — Meio real ou chimfram. 

O terceiro exemplar c um lypo completamente novo, tem o nome 



136 REVISTA ARCIIEOLOGICA 

do monarcha nas duas legendas, e por isso dissemos que podia ler o 
mesmo anverso do meio real desciipto pelo sr. Aragão. 

Está peiltíita a impressão do cunho, est. xv, fig, 8. 

^ALFONSVS; QViNTi: REGlSiPOR. — As qui- 
nas porluguezas. 

^. >í< A L F O N s V s : Q V I N T I : REIS ; p O R T . — Gran- 
de coroa por cima dum a, que lem um annel de cada lado, e por 
baixo um l indicativo da fabrica (Lisboa i. Peza ^6 grãos. Meio real ou 
chimfvam. 

O lacto do nome do monarcha estar repetido nas duas legendas e 
estas não serem eguaes, porque uma tem regis por ea outra 
REIS P o R T , auctorisa-nos a a[)resentar a moeda como um novo 
cunho, e, segundo julgamos, até aqui desconhecido. 

(Conlinua). M. Alexandre de Sousa. 



TRÊS MONUMENTOS EPIGRAFICOS 
D^ELVAS, E DO SEU TERMO 

(Resposta a um artigo auoiijmo) 

Em n." 677 do periódico O Elvense, de 28 de julho ultimo, foi 
publicado um artigo, para que chamaram ha poucos dias a minha at- 
tenção. 

Nesse artigo, referindo-se o auctor anonymo aos monumentos d'El- 
vas que descrevi a pag. 97 da Revista, aCíirma que o sr. Francisco 
Raphael da Paz Furtado não foi o descobridor das três lapides^ como 
eu notei, e que ellas não eram inéditas em Portugal. 

A estas asserções, respondo com as seguintes palavras da carta 
que aquelle meu amigo me dirigiu em 5 de julho de I88G, envian- 
do-me as copias das inscripções: — «Permitta-me V. que eu lhe offe- 
reça a copia de três lapidas inéditas |)oi' mim descobertas em Elvas 
quando alli residi, e das quaes dei conhecimento a Mr. liubner.» — A 
estas palavras accrescentarei as seguintes: 

Asseverando o sr. Paz Furtado ter descoberto as lapides, e não 
tendo o artigo do Elvense assignatura alguma que o abone, continuo a 
considerar o sr. Paz Furtado como descobridor delias, emquanto se 
não demonstrar o contrario. 

Quanto a considerar as lai)ides meditas em Portugal, foi isso de- 
vido á indicação dada (como se acaba de ver) pelo sr. Paz Furtado, 
que decerto ignorava, como eu, que ellas haviam apparccido no perió- 
dico O Elvense de 25 de dezembi"o de 1880 e no de 23 de janeiro de 
1881, segundo se diz no artigo. O auctor anonyino devia rellcctir em 
que eu não tinha obrigação de conhecer O Elvense, nem os seus artigos. 



E HISTÓRICA 137 



No qiití respeila ;i dizer so iio arliiío (|ii(): — «Manda a verdade en- 
Irelaiilo (iiir se di-ça, (jiie Ibi o sr. l'a/- Furtado (|iiimii ohltive do sr. 
Iliibiier, dislincLoarcheologo priissiaiio, a coiii[)lecla dccilVarão (raijuel- 
las iiiscriprões»,— lenho a responder que a inlerprela(;âo das Ires lapi- 
des de que se Irada é Ião fácil, que não precisei de auxilio alheio para 
iiitendel-as e explical-as. Só (piem ignora os mais simples elementos 
de epigra[)liia, como parece ignorai os o auclor do artigo, é que po- 
deria deixar de ler a(piellas inscii|)cões. 

Tenho ainda a lemhrar ao articulista (jue o signatário d"eslas li- 
nhas não é o único |)roprietario e redactor da presente Revista, mas 
que tem por collega o distincto numismata sr. M. Alexandre de Sousa, 
o que lhe esíjueccMi mencionar apezar de ser tão amante da verdade. 
E por ultimo observo-llie (lue os artigos anonymos não se admittem 
em questões scientiíicas, nem teem fé para a reivindicação de qual- 
quer direito ou i)rioridade. 

Borges de Figueiredo. 

VISITAÇÃO Á EGUEJA DE 8. JOÃO DO MOCHARRO 

D'OBIDOS 

por D. Jonje da Cosia, em 14 de fevereiro de li67 

(Continuado de pag. 121) 

como ssc am de rreparlir os anniiicrsairos ou benesse drjuetles que pre- 
sente esta (sic) aníe três dias 

13 Item achamos (jue alguuns beneíiciados das dietas igreias da 
dieta cidade e arcebispado nom embargando que moradores seiam nos 
lugares onde teem seus benefícios sam tanto nigligentes no seruiço de 
deus que poucas vezes vaam as dietas igreias onde assy som benefi- 
(jiados e ipierem leuar os fructos de seus benefícios assy como sse 
conthiiiiiadamente seruissem e o pior i\w lie que som bem dilligentes 
aas dietas igreias nos dias em que hy ha benesses ou aniuersarios e 
leuam suas paites em detrimento daíjuelles que comtiniiadamente bem 
seruem e porque nom conuem a razam e dereyto (jue aquelles que 
mall seruem alam de seer higuaaes na repartiçam de premio de seu 
seruiço maao aipielles que bem seruem, mandamos a nos que façaaes 
guardar a constitiiiçam do cardeall (pie sse começa causatur e quanto 
he aos nauersarios e benesses mandamos ao prioste da dieta igreia 
que os nom de {sic) saluo aa(]uelles que per três dias ante do nauersario 
ou benesse e per três dias depois vieerem as dietas igreias e a outras 
oras ca/íonicas e o que esstes perderem aiam aquelles que forem pre- 
sentes aos dictos nauersarios e benesses e esto meesmo se guarde nos 
consales {sic) que ho aiam os que presentes esteuerem e fazendo o 
prioste ho contrairo queremos que iaça dous messes em nosso aliube 



138 REVISTA ARCHEOLOGICA 

fazendo pendença de sua pouca obediência e o beneficiado que algu- 
ma cousa leuar do que diclo he lornaiiho ha em tresdobro. 

('()///() ham ih' fazer liuum liiiro de tombo de todollos beens da egreia. 

14 liem achamos (jue por nigligençia e maao aazo dos reylores e 
beneficiados das higreias as possissoonos e beens delias s.se danificam 
e vaam cada dia ai)erder por nom seerem por elles requiridos da 
(juall cousa ssegne ditrimento do culto diuino que destruído ho ten- 
porall mall sse repairara e podeia manleer ho espirituall, porem uos 
mandamos tjue do dia desta visitaçam atee huum atmo façaaes fazer 
huum liuro de prugaminho e escrepuer em eile todallas possisooes e 
erdamentos de (jnallquer maneira que seiam que a dieta vossa igreia 
pertenceerem desinando os lugares onde cstam e as confi'ontaçõees 
com quem partem e aquelias perssoas que os trazem e por quantos 
preços e fazee bem guardar ho dicto liuro pêra uos per elle regerdes 
em uossas vidas e os que despos vos vierem acharam rrecadaçam per 
onde possam saber as possissões e eredamentos da dieta igreia e 
ahinda que bem sseia fazersse o dicto liuro como dicto he per os di- 
ctos beens e erdamentos seerem aproueytados e nom sse danificarem 
por negligencia, mandamos uos que uos e huum beneficiado per seu 
anuo visitees as dietas possisotjes e erdamentos e os façaaes correger 
e rrepayrar per tall guisa que seiam melhorados e nom peiorados, e 
mandamos ao beneficiado que uos rrequirirdes que vaa comuosco e 
nom se scusse sob pena de duzentos reaes brancos e vaa cada huum 
seu anuo como diclo he por todos saberem as dietas possisooes e er- 
damentos e seendo uos gcerqua dello nigligentes queremos que por 
cada vez que nom fezerdes a ssuso dieta visitaçam pagues mill reaes 
brancos e esso mesmo uos mandamos que façaaes escrepuer todollos 
beens e eherdamentos (s/c) das capellas edificadas em vossa igreia de- 
sinando os lugares e confrontações como suso diclo he posto que na 
ministraçam delias nom pertença a uos e seinm postos os dictos beens 
e erdamentos no dicto liuro pêra sse nom aelhearem o que fazee sob 
a dieta pena a quall uos nom será quite ffazendo uos o contrayro. 

como ham de fazer duas chaues darra das escriptnras 

lõ Item achamos que em muitas igreias da dieta cidade e arce- 
bispado nom ha arca commua em que suas escriptnras possam ser 
gardadas e assy cada huum beneficiado leua pêra sua casa as dietas 
escritui"as como lhes apraz e nunca as mais traz nem torna e per- 
denssem (sic) e i)or tall aazo as diclas igreias perdem seus direitos e 
querendo nos a esto rremediar, mandamos a uos e a vossos beneficia- 
dos que doie atee huum anuo ponhaaes em a dieta igreia huma boa 
arca bem rrija e forte com duas fechaduras e teende uos huma chaue 
e o mais antigo beneficiado outra per tall maneira que uos nom abraaes 
sscm elle nem elle ssem uos a dieta arca e metede nella todallas 
escriptnras que pertencerem aa dieta igreia e di si {sic) nom seiam ti- 
radas sse nam quando íTor necesario e acabado lio huso pêra que fo- 



K HISTÓRICA 



131» 



rein tiradas mandamos nos que logo ateo x dias selam tornadas a di- 
eta arca onde estauam e nom as tornando atee os dictos x dias que 
lios damos por Ires amostaçõoes e teimo preciso em estes escriptos 
poemos em nos sentenra de excommnnliom na qiiall rpieremos que 
cmcorraaes [)assado lio (lido tempo sse lio contrayro íezerdes e nom 
poendo a dieta arca como per nos he mandado (|ii(3remos qn<í por pe- 
na pagues mill ireaes brancos o quanto lie as igreias de Tora posto 
que o [irior ou rreytor as tenha em sua casa em arqiia sobre ssy que 
doutra consa nom se na (sic). 

como tioui (ini df niiiUiv na cgrem 

Kl Item achamos per enformaçam de muitos rreytores e benefi- 
ciados que allguims xpãaos muytas vezes prometem romarias e vigil- 
lias a algumas igreias e lugares religiosos por seerem ante deus ou- 
uidos por algumas peticõees que fazem pellos rogos dos santos em 
cuias igi-eias e lugares fazem as dietas romarias e vigillias e nom es- 
guardando elles em como as igreias e lugares religiosos som fetos 
pcra em elles ouuir orar e pidirmos em elles deuotamente ao senhor 
deus que ouça nossas peticõees e nos outorgue ho que lhe pidimos 
que seia seu seriiiço e saliiacam das nossas almas e em taaees roma- 
rias e vigílias cantam dentro nas dietas igreias cantigas mundanaaes 
e de muytas vaydades aas qiiaes nom conuem pêra taaes lugares e 
saltam e balliam e fazem iogos desonestos os quaes pouco vee a pre- 
posílo per que as dietas vigilias e romarias prometeram e por que 
taaes romarias e vigilias sam liofensas de deus e ditrimento da rreli- 
giam xpãa, mandamos e defendemos aos nossos fregnezes sob pena 
de excomunliom que eesem de fazer em as dietas igreias e lugares 
taaes romarias festas e vigillias e nom cantem nem balhem nem fa- 
çam iogos desonestos como dieto he e fazendo ho contrayro manda- 
mos aas (sic) curas que lhe publiquem este capitulo evitem por es- 
commungados e sse algiiuns quizerem fazer vigilias e rromarias nos 
dictos lugares nom lho defendemos fazendoas assy como deus quer 
com humildade e sillençio e denota oracani e conçiençia linpa e assy 
empetraram de deus ho que lhe dereytamente demandarem e sse al- 
guum for nigligente a pubricar e os avitar {sio pague por cada vez 
çem rreaes pêra a nossa chancelaria. 

dos fetiçeirns c deuinhadeiros 

17 Item por quanto achamos ([ue os feytiçeyros e diuinhadeiros 
escantadores beenzedeyros egoyreyros e sorteyros sam escumungados 
pella constiíuiçam sinodall mandamosuos sob pena de excumunhom 
que denuncies e |)rouiquees por escomungados aquelles e aqiiellas que 
notoriamente em vossa IVeguisia de taaes artes husarem per tantas 
vezes atee que conheçam seu pecado e ssciam dignos de beneficio de 
absoluçom e de seerem restituydos a partic/paçam dos fiíees. 

como ham de fazer priostc bcne/içiado >' nom leigo 

18 Item mandamos gecralmente em todo nosso arcebispado que 



140 REVISTA ARCHEOLOGICA 

façam priosles beneficiados em suas igreias ou Iiiçonimo {sicj ssc ho 
elles euleger quizei-em sob pena de mill rreaes pêra nossa chancelaria 
e que este priosle lenha carrego de re(]uerer todollos íi'uclos e de- 
mandallos da dieta ígreia que andarem presente ho vigairo e que a 
custa de todos se contentem os escripuãaes e procuradores e que 
este meesmo tenha carrego de reíjue/Trem todallas cousas da dieta 
igreia e cousas (pie sentir por honrra e proueyto delia sob pena de 
pagar em dobro (jualipier cousa (pie sse aa sua mingoa perder e sob 
a (Jicta pena mandamos que ffaçam thesoureiro crehgo ao menos de 
hordeens memores. 

como sam com ií idos os casos pontificaces a prior e vigairo 

19 Item cometemos os casos pontificaaes aos i)riores vigairos ra- 
çoeyros e capellãaes de cura sahio sete acostumados nas cartas de 
cura. a saber. Iiomiçidio voluntário fora de guerra comitido, e auer 
alheo sobnegado que passe de çem rreaes, inceudiio, sacrilegiio, per- 
cussam de creligo em que nom aia norme eleisom {sic), e dizimas 
iiom paguadas onde deuer e excumunhom maior os quaes resaruamos 
pêra nos ou pêra quem nosso lugar teuer. 

qm sayam sobre os finados 

W Item mandamos que todallas segundas fieiras ou domingos 
saiam sobre os finados darredor da igreia com cruz e augoa benta se- 
gundo custume antiigo sob pena de xx reaes pêra o meyrinho e sse 
aa segunda fieira for ffesta sayam outro dia da somana em guisa que 
nom falleçam. 

que nom. arrendem seus benefimos 

21 Item porquanto achamos que muytos beneficiados do dicto nos- 
so arcebispado arrendaiiam seus benefícios e sse hiam onde lhes apra- 
zia deixando suas igreias e freguisias soos o que nom auemos por 
bem fecto, porém mandamos que nenhuum dos sobredictos nom a ren- 
dem sseu beneficiio sem nossa licença ou de quem nosso lugar teuer 
e sse for prior ou vigairo ho que ho contrairo fezer por cada vez pa- 
gue mil ireaes pêra nossa chancelaria e o ra(;oeiro iii' reaes. 

({ue nom façam contraulos infiiioticos 

22 Item geerallmente mandamos em todo nosso arcebispado que 
os beneficiados das igreias delle nom façam contrautos iníitioticos dos 
beens e erdades delias sem primeiro andarem em pregam pellas pra- 
ças e lugares pubricos per esi)aço de xx dias os quaaes acabados aiam 
licença e autoridade nossa ou de quem nosso lugar teuer e esta li- 
cença preceda e seia primeiro fecta que os estromentos (|ue sse aj^o- 
ra acustumain a fazer pellos beens e ffazendo o contrairo pague cada 
huum beneficiado mill rreaes e que lall contrauto nom sseia nenhuum. 

qui' nom arrendem qiiinlaacs 

2H Item sob a dieta pena mandamos aos sobre dictos que nom ar- 
rendem (juintaaes, herdades nem possisõoees da dieta igreia de dous 
annos pêra cima sem primeiramente andarem em pregam pellas pra- 



E HISTÓRICA 14i 



ças e lugares piibricos per espaço de xh dias os qnaes acabados os 
arrendem a (iiieiii lhes por elles mais (l(;r. 

qufí nom acnihnii aos (insciitcs ann se/is hcitv/iciios 

24 Item mandamos gíseralmenle em lodo nosso arcebispado que 
nom acudam aos abzenles sob pena de excnmnnhom com os fruclos 
de seus beneíiçios poslo (|ue digam (jne sam priuilegiados e que per 
bem de seus pri^í/legios os denem ain.T, amenos de nos nom nermos 
seus pri?<degi()s e anerem caria de nos oii alguum mandado pêra ello. 

que canlfiu as oras aponladanwale 

20 Item mandamos (jiie cantem as oras apontadamente e ssem 
arrnído e que tenham a ellas sobri[)illizas sob pena de paguarem de 
cada huma vez (jue na [sic) nom teuerem xx rreaes pêra o meyrinho. 

fjue fioiíi vaão aos tloniii/f/os fora 

20 Item pon|uaiito achamos que os sobre dictos leixauam suas 
igreias aoos domingos e Ifestas e hiam dizer missas fora onde lhes 
aprazia mandamos a quall quer beneíiçiado que nos dictos for dizer 
missa fora e leixar sua igreia soo por cada huma vez pague P rreaes 
pêra nossa chancelaria salno hindo alguma capella da dieta igreia que 
seia obrigado. 

como o benefiçiiado nom dixer misa page cincoenla réis 

27 Item achamos que no dicto arcebispado avia algumas igreias 
em que sse nom diziam as missas aos domingos e dias das somanas 
segundo costume e que sse auiam de dizer, mandamos que qualquer 
creligo ou beneficiado qne domairo (sic) Ifor e ei^rar de dizer missa no 
domingo que pague I'* reaes e por cada dia da somana xxx pêra as 
obras piedosas. 

que nom façam, saymenlos ao domingo nem festa 

28 Item geerallmente mandamos em todo nosso arcebispado que 
nom façam saimentos aos domingos e festas pellas manhaas nas igreias 
delles por quanto (jue por os saimentos sse assy fazerem nos dictos 
dias se estornavam os diuinos oíliçios em suas igreias e sse nom fa- 
ziam como diuiam e fazendo ho contrairo por cada vez paguem i' 
reaes pêra as obras piadosas e esto sse nom emlenda nas igreias de 
fora onde nom ha ssenam hunm soo capellam. 

que nom tomem nenhuum judeu em sua casa pêra seer xpãaos (sic) 
ataa tempo certo 

29 Item porquanto alguuns xpãaos cuydando qne ÍTazem alguum 
grande seruíço do deus tomam em suas casas alguniis indeus e mou- 
ros assy homens como molheres e logo como dizem que (|uerem sseer 
xpãaos sem mais sserem catezizados nem sem outra licença nem dili- 
beraçam de tempo os fazem bautizar ou os baptizam {sic) e depois per 
tenpos ia sse muitas vezes aconteçeeo que foram a castella e a outros 
reynos e sse íornanam aa ley de qne dantes eram em que he pouco 
seruiço de deus e vitupério da santa Ife calollica e menospreço do 
santo sacramento do baptismo e grande prazer a todos os daqueila 



442 REVISTA ARCUEOLOGICA 

ley que dello sam sabedores, porém querendo nos ouuiar e tornar re- 
médio n tanto malleemfamia mandamos aos priores das igreias de todo 
nosso arcebispado vigairos perpétuos capellãaes e beneficiados delle 
em virtude de obediência e sob pena de excumunhom que daqui em 
diante nom baptizem nem consintam bautizar a alguuns dos dictos in- 
íiees a menos de ssee rem cerlos que esteuei"am dias com alguum 
xpãao que os ensinasse os artigos da nossa santa íTe calollica e as 
asperezas delia, e quando persistir em sua boa temçam e todavia dí- 
ser que quer sseer xpãao com maior honra e solemnidaí/í" que seer 
possa sem outra conidigam ou caulclla sseia fecto xpãao por que a 
houelha que era perdida toirnousse ao currall. 

como forem dous no coro deuem de rrezar 

30 Item mandamos aos priores e beneficiados de todallas igreias 
que tanto que dous delles forem iuntos no coro pêra as matinas logo 
anbos comecem a.s oras de santa maiia e os outras que depois vie- 
rem conlliinuem com elles sem mais tomar outras atee que as dietas 
horas de santa maria sseiam de todo acabadas e as matinas do dia e 
assy as vésperas e que rezem todos iuntos e nom cada huum per ssy 
apartado e bem apontado ssem nenluium delles pairrar nem fazer 
ieyto nem esguar que ffaça aos outros toruaçam nem passear per o 
coro emquanlo as oras durarem e esto lhes mandamos que cumpram 
assy sob pena descumunhora. 

como os priuilcgiados am de leuar seus benefícios 

Hl Item achamos que alguuns beneficiados presentes de alguumas 
igreias sse agrauauam dizendo que os absentes priuilcgiados levauam 
ho frntlo dogrosso de sseus benefícios e nom lhe paguauam os cus- 
tos de que ho prioste rreçebe grande perda, porem querendo nos a 
ello proueer mandamos que qualquer prioste de cada huma igreia da 
dieta cidade e arcebispado que assy como teuer os fruttos e rrendas 
da dieta igreia pêra partir anlre os beneficiados assy lho rrequeyra 
antee biii° dias os custos que aa dieta riepartiçam peitencer e quall 
quer delles que paguar nom quiser, mandamos que tome tantos dos 
fructos da dieta rrepartiçam e os venda logo per que possa seer en- 
ti'egue dos custos que nella fezer e mais nom e assy nas outras re- 
partições atee que todo sseja entregue do (pie por cada huum uender. 

titulo dos creiigos que sse nom faliam. 

32 Item porquanto achamos que cm algumas igreias alguuns be- 
neficiados (loordens sacras e ainda sacerdotes de missa que sse nom 
fallauam huuns com os outros e çelebrauam missas coin grande can- 
rrego de suas conçiençias e querendo nos a ello proueer como somos 
th?'udo por saluaçam de suas almas mandamos ao prior e Ihesourciro 
daquella igreia e de quall (|uer igr(!ia da dieta cidade e arcebispado 
que aos sacerdotes (jue sse nom fallarem nom dein vestimenta i)era 
dizerem missas na dieta igreia atee que nom seiain reconciliados e sse 
lha ho prior der pague 1' rreaes pêro {sic) ho cepo de sam vicente e 



E HISTÓRICA 143 



O thesonreiro 1" peia o dito cv\ío e innis seia preso no alinhe e lio (jue 
iiom íínr de missa assy Ijciieliçiado como liicoiiimo mandamos ao [)rios- 
le que lhe nom acuda com os IViiclos tio suu heneliçio oii hicouimia 
aatee que primeiramente nom seia rreconciliado. 

liliiln das missas ih is cnjirllas 

.'i-l liem niaudamos ao piior e priosle da dicla igreia sob i)ena de 
excommiliom (pit; se as missas das ca[)ellas nom Inrem cantadas em 
cada liuum anno per aijuelles que thiudos sam atee dia de sam ioham 
hpatista (sic) que aíjueilas missas que a cada huum ficarem por dizer 
(jue as dem a cantar aos que as suas acahadas teuerem e sse as es- 
tes nom poderem cantai- antes do dicto dia de sam ioham que emtam 
l)us(|ne outros ci-eligos de fora que as cantem em tal guisa que atee 
ho dicto dia de sam ioham h[tatisla seiam acahadas de cantar. 

dos harregiieiros 

H4 Item mandamos ao prior e capellam de cura da dieta igreia 
que evitem tbi-a delia todollos harregueyros puhricos casados sse sse 
do dicto pecado tirar nom quiserem e hisso meesmo os solteyros que 
esteiierem com as solteyras sse as nom uieerem reçeher aa porta da 
igreia de presente segundo ITorma de seus mandamentos. 

dos que som casados callaihmente 

S5 Item lhe mandamos que se alguuns seus fregueses teuerem al- 
guuns casamentos clandestinos de que elle.s' saiham parte sse sse nom 
quis(!rem a porta da igreia rreceber de presente segundo forma que 
os euitem pello modo sobredicto. 

como o priosle nom deue de entregaar os fructos aos bencfiçiiados. 

HG Item porquanto achamos per as visitações antiigas que muytas 
vezes mandanam aos priostes que nom emtreguassem certos fructos e 
dinheiros ao prior e beneficiados das igreias atee seerem compridas 
algumas cousas que os diclos visitadores mandauam fazer em ellas e 
por os priores nom saberem parte nem noticia de taaes defessas e 
mandados, entreguauam lodo aos dictos beneficiados e assy se não com- 
priam as cousas das dietas visitaçooees, porem geerallmente manda- 
mos a todollos priores e vigairos e beneficiados do dicto nosso arce- 
bispado que tanto que fezerem seus priostes de hy a oyto dias lhe 
leam esta nossa uisitaçam pêra saberem e seerem certos do que lhes 
per nos he mandado ou per nossos visitadores e esso meesmo lhes 
mandamos (jue cada dia leam ante ssy huum capitulo antre a primei- 
ra e a terça e esto sob pena de duzentos rreaes pêra a nossa chan- 
celaria e a oferta aos leygos huum capitulo cada dommgo começando 
do primeiro atee as visitaçoões seer acai)adas. 

titulo da esmolla de sam vicente 

H7 Item consirando nos em como em todallas igreias deste arce- 
bispado sam postos mem[)Osteiros pêra i)idirem esmollas pêra aal- 
guuns horagos recebendoas daípiellas persoas que per sua deuaçam 
lhas (juerem dar sem alguum constrangimento e veendo como ho cor- 



144 REVISTA ARCHEOLOGICA 

po e rreliquias do glorisimo (sic) mártir sam vicente sam na ígreia 
melropolilana da inuy nobre e senpre liall cidade de lixboa com tanta 
sollemuidade neuerencia e denaçam (|iie outros sse nom acham seme- 
llianles nas espanlias por lio/n'a e lonnor de dens prinçipallmente por 
seriiiço e aiuda e pellas obras mny grandes qne se cada dia rrecre- 
çem na capella do dicto mártir, mandamos a todollos priores vigairos 
e beneficiados e persoas ecclesiasticas a (pie esto pertencer qne cada 
Imnm em sua igreia líaça humn muon[)oslero que peça aos íiees xpaãos 
peras dietas obras e aleem do que elles merecerem ante deus por 
taaes esmollas fazerem nos lhe outorgamos dos thesoui"os que nos on- 
torga a ssanta madre igreia coreenta dias de perdam por cada ves 
que taaes esmollas fezerdes aas quacs esmollas recebera linnm dos 
abonados e boons homeens que ouuer na dieta íreguisia das maaos 
dos dictos mauposteros e escrepnera todo o qne i-render o prior ou 
capeIJam qne seu carrego teuer e sseram leuados os dictos dinheiros 
destas esmollas aos recebedores que hora poeemos nas villas dos di- 
nheiros das obras piadosas e esciepuello am e emtreguemno presente 
ho escripuam. 

os qne nom ieiuarem a véspera de sam vicente 

S8 Item porque achamos que alguuns por nam ieiuarem as vés- 
peras a sam vicente andauam muyto tempo escumungados por nom 
podeiem bir nos buscar asoluiçam e proueendo nos a ello cometemos 
aos priores e curas das igreias do nosso aiçe bispado que possam ab- 
soluer os que nom ieiuai-em as dietas festas dandollies por ello as 
pendençns acustumadas que sam de cada huma dous reaes pêra o di- 
cto cepo as qnaes lhe mandamos em virtude de obediência e sob pe- 
na de excumunhom que rrecadem e mandem aos rrecadadores que 
possermos nas vigairias os qnaes teenram escripuães do que recebe- 
rem pêra as cousas piadosas pêra seerem leuadas ao dicto cepo. 

que nom seia iconimo ssenom. creligo de missa 

39 Item geeralmente mandamos em todo nosse arcebispado que 
nom seia hicouimo alguimi em igreia delle senam creligo de missa 
per nossa carta espiçiall por alguuns embargos que achamos (jue sse 
fazem simonias e conluyos em ellas. 

que nom serua huum rreligo ssoomente dous benefiçiios 

40 Item mandamos a quail(]uer qne for beneficiado em duas igreias 
que em huma somana serna em huma conthinur/damente a todallas 
horas e delia aia os beneses e aniuersarios e (la(|nella que nom ser- 
uir os nom Iene e assy Iene a oulra (juando seruir o (jual queremos 
que se entenda geerallmente em todo nosso aiçebispado. 

(Continm.) 



E HISTÓRICA 143 



o PlíJ.MKIKO A\l('UVrVA'TO DE ODIVELLAS 

Diz fr. Fr;mci,sco niniidrio. íiihiiido (l,'i (mIíIícíiçHo do mosteiro de 
S. Dinis ou dl' Santa Mana de Odicdlas ((jue de atnbas as maneiras 
se etiionlra nomeado em escriplores e dociimenlos) que, a folhas 11 
do Livro seLfiitido de leslamoiilos c capellas, no cartório da Sé de Lis- 
boa, acliáia "iioiiieado poi- leslcmiiiilia da escritiiia ónie o Cabido lez 
de biima capella a IJarhtlaiiicii Aiines, (jdadar> (b; Lisboa) Afonso Mar- 
tins, mestre da obia de udiveHas» '. O documento tinha a data de 
i324. 

Na Lisla dnhjnns nrlisfas... feita pelo cardeal Saraiva (l\itriar- 
clia D. Francisco de S. I^uis) vem mencionado Ailonso Martins como 
archileclo de Odivellas. na íe da tianscripla passagem de Brandão; e 
no seu Diclioniiaiir artisiiqtw da 1'oinajaL o conde A. de liaczynski 
acompanha o cardeal o por consequência Brandão. O cardeal Palriar- 
cba seguiu o consciencioso chronista: nem podia deixar de fazei -o, 
visto não se encontrar em outro escriplor outra noticia. È natural (pie 
buscasse ver o (i(jcumento a (jiie Brandão se refere; mas, não o encon- 
trando, acctitou a informaçãct d elle. Baczynski, que tantos esclareci- 
mentos colheu, e que tantos auxilios obteve de itivestigadores abali- 
sados, como Alexandre Herculano e o Visconde de Juiomenha, nada 
mais adeaniou. Elícctivamente. a mais antiga allusão ao ar.^hitecto de 
Odivellas, e:n esciiptor [)oituguez, é a de IV. Francisco Brandão, í]ue 
íica citada. Delia deiivam todas as luengões que se fazem de Allonso 
Martins. 

Uma recente descoberta vem levantar, poiém, algumas dúvidas so- 
bre o verdadeiro nome do architecto da primitiva fabrica do celebrado 
mosteiro. 

Ultimamente encontrei eu alli um curioso capitel de colimina he- 
xagonal, apeado e certamente muito afastado do seu primitivo assen- 
to. É pena que o capitel houvesse sido deslocado. Foi-o de certo por 
occasião do terremoto do primeiro de novembro de 1755, que tantos 
prejnizos causou no mosteiro, como se vè do documento que passo a 
transcrever do— Livuodo oiuro da 1 s ueligiozas. j 1709 — , a fl. 3á v. 
Ahi se lè assento seguinte: 

«A í?deNovenbro (.s/c) em a Era de Christo bem e S.*"" Nosso de 1755 
descancou (sic) dos trabalhos desta vida a M/' loaima de S. Fran.""*, 
era Uelligioza de vida m.'" ajustada, e nesta mesma era e sempre me- 
morável dia p.""" deste mes, em o qual celebra a Igreja catholica a fes- 
ta de todos os S.*°% se exprimenlou (sic) aíj.'*" fromidavel isic) e quasi 
vniversal lerremotto, em q. acabarão in.''"" milhares de vidas, nas rui- 

1 Mon. Lnsit. V. V, L. xvu, c. 2:5, lom. v. pag. 224. 

Rev. Arch. e IIísT., I, N.° IO — Outubro 1887. IO 



d 46 REVISTA ARCHEOLOGICA 

nas dos ediíicios. sendo o mayor extrago [sic) o q padeceu, a cid.'' de 
Lisboa, essa celebrada corte, e centro de deleytaveis devertim.*°^ foy 
tornada em lui objecto de dezenganos, e domicilio de borrores; e este 
Mostr.**, cuja fabrica era toda grandezas, ficou toda a abatim'*'''; e do 
Tj naõ deyxou caindo íicou taõ arruinado, (] as llelligiozas, fugirão hu- 
mas p' o largo campo do mesmo Moslr", e outras p.-"* fora delle, naõ 
liaveudo clauzura pois o temor a linha feylo nos coraçoens; em o cam- 
po do mesmo l\lostr.°, fes a sua Jornada commua esta Relligioza, e 
nos claustros e Igreja do mesmo por cauza dos tremores, e^lavaõ ca- 
biiido as abobadas, e assim parecia temerid." darlhe sepultuia claus- 
tral, por isso foy conduzido seu defunto cadáver, p.^ iiuã Igreja pe- 
quena q liça defronte da poisaria do mesmo Mosli''', e alii esperaõ 
seus ossos a resurreyciíõ {sic) geral. 

(assígnada) «a cantora mor» 

Apezar da emphase, da ortographia, e do defunto cadáver, é pre- 
cioso este assento, por nos conservai' noticia do desastre terrível sof- 
frido pelo famoso mosteiro. 

KíTectivamente, o que resta, conhecido, da fabrica primitiva é pou- 
(piissimo: a capella-inór e as duas laieraes ; outra capella (talvez), que 
subsiste junto ao port;d da egreja, e esse mesmo portal: alguns frag- 
menlos de pedras com ornatneutação variada e iuiporlante (gregas, 
swastikas, etc); e o capitel a que me tenho referido. Podem junlar-se 
a eslas relíquias, o que existe ainda da antiga casa leal que D. Dinis 
deu ás freiras eque constituiu a primeira habitação delias, emquanto o 
convento propriamente dicto se construía. Dessa casa ou paço restam 
duas janellas e um escudo das ai'mas leaes na parede que olha o 
claustro velho. ICste, cujas columnas são também da primitiva, foi res- 
taurado com alguma grandeza em melados do século xvni. sendo ab- 
badessa D. Luiza Maria de Moira, pelo que as freiras o designavam 
pelo nome de ciaustro da Moira. Também restam ainda dos piimitivos 
tempos vastos casarões térreos, piimitivameute cavallariças pertencen- 
tes ao paço, e depois destinadas a celleiros e casas de arrecadação. 

Mas voltemos ao capitel. Apezar de deslocado, comprehende-se, 
pelas suas dimensões e caracter, que só podia pertencer á egreja. 
Talhado num enorme canto, é elle polygonal, tendo a parle superior 
do ábaco uma superíicie do (r.Oi poi' O'", 74 (Ivst. xvi, n.^ I). Sob o 
capitel vè se um f)edaço do fuste hexagonal, talhado na mesma pedra, 
a qual (em de altura O'". 57. Basta ver o ca|)ilel, para se reconhecer 
ser uma das pouquíssimas relíquias que subsistem da fabrica primi- 
tiva. A sua forma caractcrislica não deixa dúvida alguma acerca da 
epocha em que foi talhado: a [)orção do hisle, as ligações, as escul- 
pturas dos ângulos, o trabalho da pedra, tudo. O ábaco é cortado nos 
ângulos, estabelecendo transição entre a sua forma rectangular e a 
forma polygonal do capitel; dos ângulos, um é ornado com um cacho 



E HISTÓRICA 147 



(riivas, oiilro por iiin;i siii;4('l;i rolliri do parrn, os dois restantes cada 
uni poi" lima caberá. Oiiaiido. [loróiii. tudo isso não bastasse para 
lhe determinar a edade, oulra circiimslancia a estabeleceria inconles- 
tavelinente. 

Vau duas das laces do ábaco, em caracte!"es onciaes de grande or- 
namcntaijão, Irem-se as seguintes palavias, constiluiiidd um nome 
nionrio: 



ANTAM MTINZ 



Depois do primeiro nome notase um sigiial gravado, similliante à 
cifra mais geralmente empregada na escriptnra cbaiiiada golliica para 
signilicar cl e ele. Na liy[)olliese de se dever dar a esse signal uma si- 
gnilicação cpigiapliica, iieuliimia diilia se llie poderia alliibiiir senão 
a de i't, do que re^ullarla a Icdura Aidam cO Marliiiz, isto é, duas pes- 
soas. Se podesse admiltir diivida a leitura do segundo nome, e por 
conseguinte se se podesse interpretar Martini, em vez do palronimico 
C()rre.s|)nudenle, o signal intermediário leria ligoiosamenle signilicação 
copulaliva. (! acliar-nos-hianios naturaliueule em presença de dois no- 
mes pro[)iios. .Mas. .-endo incontestável (|ue o segundo nome é Mar- 
tinz, o signal alliidido nao pôde ser epigrapbico; não só pelo absurdo 
de ficar ligado pelacopulativa (C- o nome propiio ao patronímico, a se- 
rem ambos da mesma pessoa, mas também pelo não menor absurdo 
de, no caso de serem nomes de duas pessoas, uma eslar indicada pelo 
nome prop;io e outra pelo patronímico. Demais, como é sabido, 
naíjiiella ep :)cha e ainda muito posteriormente, só se designavam as 
pessoas pelo nome baptismal, seguido immedialamenle em geral pelo 
patronímico e algumas vezes pelo appellido; mas nunca se designa- 
vam pelo palronimico, o «lual, isoladamente, nada significava. 

Por conse(]ueii -ia. o signal mencionado não tem, em meu intender 
significação e[)igra[tliica; mas foi alli gravado unicamente com o íim 
de preencher um espaço que a primeira palavra deixara devoluto, e 
como que a estabelecer conlmuidade entre essa e a seguinte, depois 
da qual nada se gravou end)ora para isso houvesse espaço. 

Acliaiud-nos, pois, em presença dum nome d"homem, Antam Mar- 
tinz, homem que decerto represeiilou algum papel ua construcção do 
mosteiro. I}em sei que a[)parecem por vezes no interior de algumas 
egrejas, ca[)ellas, e outros edificios, inscripções mais ou menos exten- 
sas gravadas seguidamente nas vaiias pedras do friso; inscripções jii 
compostas de versículos da Hiblia, já ex|iressamente redigidas com 
alhisão no edilicio, ao seu destino, ou a quem ordenou a sua fabrica. 
No caso subjeilo, porém, só se pode considerar aquelle nome isolado 
como uma assignalura, e de maneira alguma como fragmento de in- 



148 REVISTA ARCHEOLOGICA 

scripçíío. E favorecida esta asserção por uma consideração justa e por 
um argumento, que, embora negativo, não deixa de ter algum peso. 

A consideração é a seguinte: se a inscripção Ibsse de IViso, aquelle 
capitel não seria de columna, mas sim de pilastra encostada á pare- 
de; e a inscripção conlimiaria, não no friso propriamente dicto, mas 
em um pseudo friso colíocado á altura do ábaco do capitel. Mas este 
é de colinnna, como evitlentemente o provam o seu faceado regular, 
e as escMl[)tiiras dos seus (piatro ângulos. Passemos agora ao argu- 
mento negativo. Porque conservaram as IV('ii"as de Odivellas aquelle ca- 
pil(>l (la cgrcja. ipieo terremoto do dia de Todos os Santos despenhou 
do alto da colinnna que encimava? Naturalmente porijue, vendo nelle 
gravados alginis car.icteres ((jue talvez até não soubessem ler), intende- 
ram dever gnardal-o como memoi'ia da antiga egreja. Ora, não é crivei 
(jue os demais capiteis e todo o friso da egreja se despedaçassem na 
derrocada; e, portanto, quem guardou a(|neile capitel, ponpie tinha 
gravadas umas leltras, conservaria mais alginn capitel ou porção de 
biso, se mais algum tivesse epigra|)he. Além disso, embora os nossos 
escriptores nos não deixassem nenhuma de.^cripção miiiiu'iosa da egre- 
ja, deceito que não deixariam de fazer menção de tão inq)ortante in- 
scripção como seria, por commemorativa, a que occupasse o biso do 
templo. 

Parece me pois dever abandonar-se a hypothese d'uma inscripção 
de friso; e considerar aipielle nome como a assignatura deixada alli 
[)elo archilecto, j)elo mestre da obra. Considero desnecessário de- 
monstrar a(pii, com exemplos, quão vulgar era o facto de os archite- 
ctos firmarem as suas obras com o seu nome ou com o seu retrato. 

Se fr. Francisco Brandão não dissesse cliamar-se Affonso Mai tins o 
architecto de Odivellas, ninguém hesitaria, á vista da inscripção do 
ra[)itel, em afíirmar que elle foi'a Antam Marlinz. Estamos, pois, em 
[)resença de duas affirmntivas, ambas de grande peso, mas que mu- 
tuamente se contradizem. Estudemos a questão, e vejamos se havemos 
de necessariamente reputar falsa umj d^ellas, ou se as podemos con- 
siderar ambas verdadeiras. 

No primeiro caso, isto é, dada a circumslancia de uma das aíTu*- 
malivas ser falsa, não é licilo [)i'eferir a menção da Moiiarcliia Lusitana 
ao testemunho inconcusso da uíscripção. Esta foi gravada pelo próprio 
Antam Maitins, ou pelo menos (mas com pouca pr()bal)ilidade) por al- 
gum dos seus ofliciaes, á sua ordem e sob a sua direcção; e neste caso 
seiia absurda a snpposicão de que o gravador errasse o nome. Por 
consequência, nesta hypothese, errou Brandão. Este erro, que em nada 
pode desautorisal-o, com(|uanlo seja certo (como já Alex. Herculano o 
notou alguresj que IJrandão não era um paleogra[)ho consumujado, 
seria um siin[)les eipiivoco. Toilos aipielles ipie se (Ião a trabalhos de 
investigação sabiam com (juant.i facilidade [)ode deslisar-se na escri[)tura 
um equivoco de nome pro|)tio, mormente (piando ha a mencionar 



!•; iiisTOiíiCA 149 



muitos. Para evitar esses la|)sos, convém, quanto possível, conferir sem- 
pre o esciipto com os originacs, de preferencia a fazel-o com as co- 
pias p(»r mais conliaiiça que se tenha nellas. 

Mas p()(iei'se-lia (lar o segundo caso? Será tão exacta a asserção 
do célel)i'(i cliiouista. como é verdadeiro o testemuuiio do capitel? 

A obra de Odivellas começou no anuo de 129."). depois d(3 tá7 de 
fevereii'o, pois(|ue nesta data se lavraram as constituições e carta de 
dotação do convento, declarando se alii (pic o rei eslava paia lançar a 
primeira |)edia do edilicio. Ora. existindo já alli naípiella dala. nas 
casas doadas pelo rei. algumas freiras, tendo por abadessa D. Elvira 
Fernandes, e flizendo uma memoiia aníiga do livro das calendas do 
mosteiro cpie, no primeiro de março de l^Oli, começou o serviço di- 
vino das monjas *, é natural (|ue a obi'a tivesse já um ceito adeanta- 
mento a esse tempo. 

Huy de Pina, falando das obras que D. Dinis mandou executai-, 
diz: «e fez ha rua nova de Lisboa, e assi ho IMoesteyro de Sam IJiniz 
Dodivellas em que jaas, ho ()uaal logo ha pouquos annos, que Ueynou 
mandou começar, e em sua vida s(! acabou em dès annos '^». Temos 
pois (jue pelos annos de KiOri estava concluída a obra; o que, se não 
quer dizer precisamente que a fabrica estava feita em todas as suas 
parles, pelo menos deve referir-se ao principal, quero dizer, aos dor- 
mitórios, e mais aposentos, ás indispensáveis oíTicinas, e sobretudo ao 
templo que não podia ser preterido por nutras construcções. 

Por outro lado o docunienlo, a (jue alliide Brandão, era do anuo de 
1324. Hoje não restam vesligios delle. Procurei-o no Archivo Nacio- 
nal ; e foram baldados os esloiços feitos |)eIo meu excellenle amigo 
o sr. José Basto, para enconlial-o. e para descobrir qualquer outra 
indicação acerca do mestre da obra de Odivellas. Procurei o no archivo 
de S. Vicente de Fora, onde Monsenhor Daniel Ferreiía de Mattos me 
assegurou não existu-em nenhuns documentos antigos da Sé. Procurei-o 
no próprio cartório da Sé de Lisboa, aonde o dignissimo cónego, sr. 
D. João de Nápoles, que superintende na fabrica da cathedral, empre- 
gou toda a sua actividade e l)oa vontade, sem obter resultado. A es- 
tes três cavalheiros dirijo aqui sinceros agradecimentos. Pode pois con- 
siderar-se perdido o Livro 2.'^ de testamenlos e capellas, do cartório da 
Sé de Lisboa. 

Ora entre 1296 e 1324 decorre um peiiodo de vinte e oito annos. 
Quem sabe se nesse lapso de tempo, falleceu Antam Martins e, por 
não estar terminada a ediíicação d"alguma pertença do mosteiro de 
Odivellas, lhe succedeu no cargo de mestre da obra um individuo de 
nome AlTonso Martins? O facto de ser mencionado, na escrii)tura cita- 
da por Brandão, Affonso Martins como mestre da obra de Odivellas, 

» Mon. Lmit., ibiJ., pag. 223. 

2 Pina, Clir. dei Kcy D. Diniz, e. 32. 



150 KE VISTA ARCIIIÍOLOGICA 

merece muita consideração. Pode poiíderar-se (|ne, sendo a obra mais 
iiiiportaiile daíiuelle >íilio o mosteiro, a essa allmlia aquclla qualilica- 
ção; mas o certo é que aquellas palavras não delinem piecisamenle 
qual a obra em que Aflbnso Martins superintendia; tanto pode haver 
referencia ao mosteiro como a ontra (pialquer obra. Creio, [)oréin, (|ue 
â(pielle se releria. Vimos ipie a egreja, os dormitórios e as |)i'iiicipaes 
oliicinas do mosteiro, ficaram conclnidas pelos annos de l)H)5 ou {300. 
Daqui se concilie: ou qne Affonso Martins, tendo sido mestre da obra 
desde o começo, se declarava, ou o diziam tal; ou que, dirigindo al- 
guma consti'Ncrão, a (]in' no mosteiro se procedia, nalnralmente indi- 
cava a sna actual occu[)açno. Esla é, a meu ver, a mais sensata inter- 
pretação; por isso que não é plansivel que S(í consignasse como em- 
prego da testemunha um cargo em cujo exei'CÍcio já não estava. Quando 
se quizesse, por qualíjuer motivo extravagante, indicar o contrario, o 
escrevente ou tabellião teria i^osto mcsire que foi etc. Mas no caso 
subjeito não ha dúvida em que Affonso Martins exercia em 13á4 o 
cargo, que na escriptura era apontado; por isso que Brandão a pro- 
duz para demonstrar que naquelle aimo ainda havia obras em Odivel- 
las. O erudito monge de Alcobaça não apresentaria, sem reservas, 
aquella indicação como prova, se ella podesse soffrer interpretação di- 
versa da que lhe dá. 

Eu acceito a noticia que dá Brandão integralmente, e por conse- 
quência não contesto de modo algum que Affonso Martins haja sido 
mestre da obra de Odivellas. Apenas deixo de considerar esse indivi- 
duo como o mestre da obra ou (por outras palavi'as) o verdadeiro ar- 
chitecto do mosteiro, atpielle (]ue concebeu, delineou e começou a exe- 
cutar a fabrica. Pois, poi'(jue o inglez Ouguet foi mestre da obra da 
Batalha, pode porventura negar se que Affonso Domingues foi o mes- 
tre dessa maravilhosa edificação? Neste caso seria exacta a citação de 
fr. Francisco Brandão, apezar do testemunho da inscripção do capitel. 

Im[)ressiona verdadeiramente a notável coincidência de terem o 
mesmo patronímico Antam e Affonso, mestres ambos da obra de Odi- 
vellas, e cuja contemporaneidade é probabilissima. Note-se que a data 
de 1206, é a mais antiga a que se pode attribuir a execução do capi- 
tel de Antam; e que em 1324 nos apparece AíTonso. Entre estas duas 
datas decorreu um periodo de vinte e oilo annos. Era necessário que 
Antam houvesse fallecido logo em 129{) e (pie Affonso tivesse apenas 
28 annos em 132i, para que elles deixassem de ser coetâneos. 

Affonso Martins |)ode ter sido irmão (mais novo com toda a proba- 
bilidade) de Antam Martins. Co.nquanto o palronimico não possa ser- 
vir de confirmação, não se pode desprezar esta hypothcse, visto não 
ser invalidada por fado algum. 

Entre as setenta e quatro cifras ou marcas de canteiro por mim 
calcadas e copiadas nos restos da primitiva labi'ica de Odivellas, ha 
uma, que descobri no abside central ou capella-mór, pela parte inte- 



E IIISTOUICA 151 



rior. a (|iial se compnu (rum A oiicial encimado (riiin o miiiiisciilo, 
ahievialura do Alfonsu {\ÍA. xvi. ii." "2). Não i-epiigiia. aiil(3s é lacil de 
adinillii" (jiic o ineslre Aiilaiii Mailiiis livusse por olíicial ou por eon- 
Iraiiuíslre um seu irmão uiais novo, AlTonso Martins, (jne lhe suc- 
ced(Mi no jogar de mestre da obra do mosteiro, (jnaiilo a AlTonso Mar- 
tins a[)[)arecer como caiileiri), isso não invalida a liypnlliese. vislo (|ne, 
como sahem ainda os menos lidos em coisas aiclieologicas, os an- 
tigos mestres de obras, ou arcliilectos, não se desprezavam de lalliai' 
um canto ou facear un) sócco, lalvez porque não tinham litulos e ve- 
neras. 

Na ahsolnla íalta em (jiie me vejo de nolas biographicas dos dois 
.Martins, apezar de todos os esloiços em[)regados [)or mim para des- 
cobiir mais noticias a elles i'espeitanles, parece-me não sei* íòra de 
razão apontar aqui mna liypotliese que não e absolu amente extrava- 
gante 

Como se sabe. Odivellas dista apenas uns Ires kilometi'os do Ln- 
miai'. Uelativamenle á egreja desla ultima localid;ide. diz o citado 
Brandão: «O sitio em q a Igreja do l^nmiar está edilicada. era delílel 
D. AíTonso Terceiro, q neste lugar tinha bua (|uinta, a qual por esta 
causa chamão o Paço. d- despois pola possuir Afõso Sanches chamarão 
o Paço de Aloso Sanches, d- este nome de Paço retém ainda oje. Oc 
em escritura do anno de mil trezentos iV doze, no qual Sancha Nunes 
Alítíirãa. Heligit)sa do Mosleiío de Santos deu ao seu Mosteiío hmnas 
casas em Lisboa na l*e(lreira, onde chamão o canal, d- tinhaõ sido de 
loão Fogaça. Foraõ teslenninhas loão Longo de Odivellas d- Martim Lon- 
go de Paço de Afonso Sanches» *. 

Seriam Anlam Marlins e seu supposto irmão Affonso íillios de Mar- 
tim Longo? A [)ro.\imidade do i)aço dAlfonso Sanches e o valimento 
d"este para com seu páe^ não podem auctorisar a hypothese de serem 
os filhos de Martim Longo, um o mestre outro olíicial da obra de Odi- 
vellas? Esta suspeita só poderia transforma r-se em certeza, no caso 
da descoberla inapreciável dalgum documento, ou em informação fide- 
digna d'algum escriptor anligo que eu desconheço. 

(]ue, porém, creio não poder admittir dúvida é que o primeiro 
architecto de Odivellas se chamou A.ntam Maiuinz. 

Lisboa, 14 lie outubro de 1887. 

Borges de Figui.ihedo. 

1 Mo». Lusit., ibiil., pag. 224 v. e 22o. 



152 REVISTA ARCHEOLOGICA 



VISITAÇÃO A EGREJA DE S. JOÃO DO MOCHARRO 

D'OBIDOS 

pni I). Joryc da Cosia, cm li de le\ereiio de liG7 

(Concluído de pag. 144) 

como sse acue de soterrar o cniigo na egreia 

41 Item geerallmeiito niandainos e damos licença aos diclos be- 
neficiados fjue sse morrerem fora de pecado morlall notório e priuico 
{sic) e rreçeberem os sacramentos da santa igreia em ílim de seus 
dias como deuem que os enterrem na dieta igreia ssem mais pêra ello 
avendo nosso consinlimento alenantandollie se as hy lia as sentenças 
de excumunliom postas per estatutos. 

dos dias do eslatulo c dos que nom seniem sms benefiçUos 

42 Item por quanto achamos per certa enformaçam que alguuns 
creligos do nosso arcebispado sam assy rremissos e nigligentes acer- 
qua de rrezarem suas oras que adiir acabam de as rezar perfeita- 
mente como sam obrigados e sse as rezam nam as vaam rezar as 
suas igreias segundo deuem aqiielles que sam beneficiados e se re- 
zam em suas igreias nom rrezam com outros aas horas diuidas, po- 
rém querendo nos por descarrego de nossa conçiençia e saúde de 
suas almas dar a ello remédio segundo somos hobrigado mandamos 
que todos creligos beneficiados que seniem inter esenles seus benefi- 
cies e hiconimos rrezem todos iunlamente em seus coros e quallíjuer 
que nom vier aas matinas ao menos atee a primeira gloria patri das 
horas caniiiicas (sic) e per consiguinte as outras, a saber, primeira 
iii* bi'^ seiallie descontado huuni rreal e se nom vieer a vespei'a ao 
menos atee pi'imeira gloria patri hunm rreal e esta pena a poemos 
assy determinada por o que a constituiçam está sobre ella mny con- 
fusa mandamos aos sobi'edictos que façam em cada huum anno per 
sam ioliam huum apontador per iuramento que bem e uerdadeira- 
mente aponte a cada huum as faulas e sse ia teuer em ssy o groso e 
lhe*as destribuiçijes nom abastarem que tomem do que ia em ssy le- 
uer pro rrata o que asy fautar e pêra elo aha (sic) remédio no ca- 
pitulo em que mandamos por este azoo (jue lodos dem ffianças em 
outra maneira lhes nom acudam os prinsles com seus ffrutos segun- 
do no dicto capitulo mais compridametile che (sic) conliudo e por que 
auemos per enformaçam que os l)en('firia(los antre sy por se releua- 
rem huuns aos outros tornam a parle das faulas aqueles que as ffa- 
zera como sse as nom fezesem mandamos que daqui em diante o nom 
façam e fazendoo o apontador e prioste o contrairo e ele o con * * 

' Passagem que parece cscripla com diversa lotlra, mas do mesmo tempo. 



E IIISTOKICA lo3 



siiitiii(li) queremos que percam por cada vez aqiielle anuo as ren- 
das (los (lidos bciicCicios as (jiiaacs apricamos as fabricas dessas 
igreias. a sal)er. ainceladc (.s/n e a niilra tnclade pcra o niciriíilio e 
queremos que os beneliçiados aiam diíslalulo por anuo r" {10} dias p(!ra 
sua rrefeyçam e nom sse emleudam domingos nen» (Testas prinçipaaes 
por dia deslaluto eos allernatiuos aiam em cada igreia xx dias e cando 
bnum dos beneficiados tomar o (ha ou dias outro nom possa tomar 
estatuto alee aipiclh; uom acabar por a igreia seer seruida e cada huum 
seia Ihiudo de o dizer ao poiílador {sk) ou rreytor cada vez que al- 
guum dia tomar por nom cominçidirem nos dias e a igreia nom pa- 
decera detiimento e sse mais iuntamenie pidirem dias o rector os d(j 
ao piimeiro ou aaquelles que senlir (pie teem mais neçesidade e sse 
hl nom ITor rejMor ho poiítadoí'. 
qiw sse coiijcsom os creliijos 

4S item geerahnente mandamos e damos hçença e priuilegio aos 
beneficiados secerdoles que sse possam confessar lunins aos outros 
em toilollos casos poiítihcaaes absohiendo delles em nas dietas confis- 
sooces sahio se Ifnr seuleu(;a de exconuirdiom nou frangualur uermis(6/f) 
ecciesiastiíje (h(;ipniiie {sio em ho ipiall qiiaso sse acorram a quem ho 
poder leiíer ou aaquelle que pos a dieta sentença satisfazendo em for- 
ma de directo. 

que ueiihaiii os fregueses aos domingos e festas a igreia 
41 liem mandamos aos [)riores que amocstem lodollos fregueses 
que ueuham aas festas (hi Ihu x° e de santa maria e dos apostollos e 
horagoos da freguezia quando forem de guardar e todollos domingos 
aa missa da terça e aquelles que ho ÍTazer nom quizercm proceda a 
sentença descumuuhom e primeiro que a missa comece diga ho prior 
ou aipielle í|ue a missa diser que sse hy eslam algumis fregueses dou- 
tra fre.-;uesia em a igreia que la vaão ouuir missa soi) pena descumu- 
nhom nom estein hy aquella missa e depois que os diclos fregueses 
onuirem a dita missa emlam vaão ouuir outra missa ou pregaram on- 
de quiserem e mandamos aos dictos ("fregueses sob a dicia penna 
que emquanto lhe diserem a dieta missa nom seiam (Tora da dieta 
igreia. 

que repartam os raçoeiros as idas (sic) e trintairos 
4õ Item mandamos a todollos capellaaes que assy onuerem de 
cantar na dieta igreia paguad(js os aministradores delias do que ham 
dauer por fazer aproueytar seus benesses que ho ali f|ue nemeneçer 
que sse parla por todollos creligos de missa benefiçiaílos e capellaaes 
que couthiuuaí^lamenle seruem na dieta igreia aneendo cada huum hi- 
gallmeute sseu (juinham e esso meesmo das missas dos testamentos e 
dos triutayros que perleençerem dos (fregueses da dieta igieia outrosy 
que os beneficiados e capellaaes da dieta igreia dignam as missas dos 
abusentes [sic] e outros nom e esso meesmo que irepartam todollos 
reçoeeyros ho dizimo das vinhas antre ssy que cada huum beneficiado 



lo4 REVISTA ARCHEOLOGICA 

Iroiixer aaquelles que presentes íTorem assy em dinheiros como em 
íTiiiclos segundo anlre ssy hordenaiem. 
que nom digam missas nas hennidas 

46 Item deleiulemos e uiandaiuos a todollos sacerdotes do nosso 
arcebispado (jue num dignam missas em ermidas nem baptizem nem 
façam by outros bdfiçiios nem leygos laçam oratórios nem birmidas 
nem leuanlem altar nouamenle ainda que sseia em igreia sob penna de 
exLomunbom a qiiall poeemos em elles passados seis dias bo contrai- 
ro fazendo ssem nossa carta de licença ou de (juem nosso lugar teuer. 

que ponham as conslit/drões sinodaes. 

47 item geeralmente mandamos em todo nosso arcebispado que 
ponham em cada liuuma igreia as conslituiçoões sinodaaes escritas pello 
arcebispo dom loham nosso predeçedor {sic) alee que outra vez a di- 
eta Igreia seia visitada sob pena de ir reaes. 

das penas do meirinho 

48 Item outrossy porque em vaão sseria fazermos as dietas visi- 
taçoões sse com efecto nom ouuessem de seer compridas e dadas a 
exxecuçani (sic) por hisso hordenamos em muitas delias seer posta 
pena de dinheiro eontra os seus transguesores {sic) porem encarrega- 
mos ao nosso meyiinho (|ue saiba parle daquelles que emcorrem nas 
dietas penas por assy nom comprirem estas nossas visilaçoõees e as 
constituições geraaes segundo em tilas be contbiudo e de caaeesquer 
que primeiramente per elle forem acusados queremos que ameetade 
das ditas peniias {sic) seiam pêra elle dicto meyrinho e a outra meta- 
de pêra quem em as dietas visitaçoneos {sic) be expresso. 

cine nom empenhem nenhuuns hornamenlos ^ 

49 Item porque achamos (pie muitas vezes sse apenbam os orna- 
mentos e coussas das igreias em seu detrimento assy ralleçes vesti- 
mentas liuros e prata e outras cousas mouees bo que nom diuiam de 
fazer por seerein cousas ao bofiçiio dininall pertencentes pello que sse 
albeaiiam e perdiam mandanmos [sic] nos que iieiihinnn seia tam ou- 
sado de callqiier condiçam que sse antremet;i a apenhar ou a uender 
as dietas cousas ou cada buma delias nem as receber nem auer em 
ssy per semelhante titulo nos quaaes ou em cada biiiim delles see bo 
contrayro fezer ipso facto em estes escriplos poemos sentença de 
escumunhom e (piereinos que o contracto que assy acerqua dello ibr 
feto seia neiíhiium e a igreia possa tomar e auer onde quer que adia- 
do íTor sem alguma contradicta que lhe a ello seia posta nem seendo 
tliiuda a pagar o por que assy for vendido ou apenhado. 

60 Item achamos por vigairo perpeluum {sic) pedre annes da di- 
eta egreia e beneíiciados aluaro fernandez, mestre fernando. prior de 
sam pedro. loham de frandes. presentes loham afonso absente. tem 

1 As epigraplies em itálico dos títulos 3-49, são de lettra dilTerente da do tex- 
to, e de epoctia posterior. 



E HISTÓRICA 



lon 



ycolinio (.s/V) Acliimdo iii'll;i olfs orií.inioiitns c cousas qiie sse sse- 

gllClll 

Tiliilo (l;i |ii;it;i * 

r,l lii>iii liiiiii:) ciiiz í! (Idiis ciílczus. e liimia custodia com sua cruz 
I' liuuin liiiiulli) i.s/n (' liuni:i iiaucla. 

Titulo (las veslimenlas 

õ-j Ilcm Imuia ilc lial(l()i]uim (6?c) de passarinhas verde com suas 
alinaíicas e outra de pano de sirgo (]ue tem rrodas azures. e duas 
vollias. e duas alinalicas velhas e Ires capas velhas. 

Titulo d(js liui'Os 

;Vy Item dous douiiiiííaes o Imum saulal e dous ofiçiaees e luium 
pistoleiro {sk) e huuiii liuro de vicloria. dos xpaãos e dous salleiros e 
liuiuu haulisteiro. e huum liuro de missas priuadas. e huum missal 
mislico e hiiuui enaiigeliorum e huuui liuro de tombo. 

õ4 Item achamos na dicla egreia muitas cousas por fazer as quaes 
por seruiço de deus e honrra delia diuiamos mandar fazer emmendar 
e coii-eger nella e poi-que paieceria cousa graue e áspera mandandoas 
compi'iir e fazer todas em ho anuo presente [)oiém mandamos que 
até sam ioham este que vem ao cabiido que mande fazer estas que 
sse sseguem. 

õ5 Item achamos que ascada (sic) do coro da dicla igreia está 
mal repayrada mandamos ao dicto cabiido que até o dicto tempo ha 
mande corregi-r per guisa que este bem forte sob pena de cem rreaes 
pêra nossa chancellaria. 

ô(j Item porquanto a egreia de sam silueslre dos francos (stá mal 
repayrada asy.acerqua dos ornamentos da dicla egreia como acerqua 
das portas delía e outras cousas porém mandamos que até o dicto 
tempo ponham humas portas nouas aa porta |)rincipal e outras aa 
porta traueessa e huma porta ao sino da dieta igreia sob pena de ii° 
rreaes pêra dieta chancellaria. 

57 liem porque achamos a egreia de bombarrall star mal repay- 
rada de muitas cousas mandamos que até o dicto tempo ponham huum 
bolareo aa parede da ousia que está contra o leuaute ponjue está pêra 
caiir sob pena de çem rreaes perrt nossa chancellaria. 

58 Item em vertude de obediência e sob pena de excomunhom 
lhe mandamos (]ue atee a páscoa esta que vem nos paguem ou man- 
dem pagar esta nossa visitaçam a ioham gonçalves nosso recebedor. 

^ Esta epigraplie, como as duas seguintes, são da leltra do escrevente da vi- 
sitação. 



156 REVISTA ARCHEOLOGICA 

morador ii;i dicla cidade que per as receber ordenamos e porque açer- 
(pia do que vos asy per nos lie mandado nom podessees alegar igno- 
i'aiiçia pêra vos sseer noliíicado de todo mandamos confazer esta nossa 
carta dada em a nilla dobidos sob nosso sinal e sseello a xiiii dias do 
mes de lenerciío nieem rodiiguez [)or fei-naiide annes scripuam da 
camará do dicto senhor a fez da era de mil iiii' Ixbii annos. 

(assignado) G. An9. Vlisiponys. 



MONUMENTOS HISTÓRICOS 
I 

Em 1838, a mais bem definida individualidade que neste século 
tem apparecido em Portugal. Alexandre Herculano, erguia a sua voz 
anctorisada e ardente em defeza da conservação dos monumentos na- 
cionaes. Esculemol-o: 

«É contra a Índole destruidora dos homens de hoje que a razão 
6 a consciência nos forçam a erguer a voz e a chamar, como o antigo 
eremita, todos os ânimos capazes de nobre esforço para nova cru- 
zada. Ergueremos um brado a favor dos monumentos da historia, da 
arle. da gloria nacional, que todos os dias vemos desabai' em 1'iiinas. 
Esses que chamam prog!'esso apagar ou transfigurar os vestígios ve- 
nerandos da antiguidade que sorriam das nossas crenças supersticio- 
sas; nós sorriremos lambem, mas de lastima, e as gerações mais il- 
lustradas que hão de vir decidirão qual d'esles sorrisos significava a 
ignorant'ia e a barbaridade, e se não existe uma superstição do pre- 
sente como ha a superstição do passado. 

«A mais recente quadra de destruição |)ara os monumentos, tanto 
artísticos como históricos de Portugal, pode dividir-se em duas epo- 
chas bem distinctas. Acabou uma: a outra é aquella em que vive- 
mos. . . 

«A decadência, porém, na epocha em (pie vivemos é outra, e mais 
profunda. Já não ha a corrupção do gosto, o inapplicavel das theorias, 
o erro do entendimento. Agora é o instincto bárbaro, a nialevolencia 
selvagem, a philosophia da brutalidade. Dura ha poucos annos; mas 
esses poucos ânuos darão maior numero de paginas negras á historia 
da arte do que lhe deu século e meio. O picão e o camartello só ha 
bem pouco tempo que podem dizer — «triíimphámos». Até então es- 
caliçavam-se as paredes, roçavam-se esculpluras, faziam-se embrécha- 
dos, mas agora derribam-se curuchéus, partem-se columnas, derro- 
cam-se muralhas, quebram-se lousas de sepultura, e vão-se apagando 



E IIISTOmCA if)l 



Iodas as provas da historia. Faz-se o palimpseslo do passado. Corre 
despelado o vandalismo de um a outro exlrenio do reii)o. díísharalaiido 

(! assolando tudo Alleiito ao menor nnirmurio dos tempos que 

foram, indignado pela mais iMi^iliva lembrança das líeiMrões exlinctas, 
iriMta se com Indo ipie possa significar uma recordação. Assim exci- 
tado, argumenta, ora, esbraveja, esfalfa-se. O erclliismo dos nervos 
só pode afi-oiixar-liro. como as barinonias melancliolicas da harpa eó- 
lia, o rnidd d(; alginn moninncnto (pie desabe 

«Mas iníclizmeiílc para elle, o velho l*ortngal eslava coberto de 
recordações do passado. Cada fado hisloiico tinha unia ogix'j.i. uma 
casa, um mosteiro, um castello, uma muralha, um sepulchro, rjue eram 
os documentos peieimes d'esse fado e da existência dos individuos 
(pie nelie haviam intervindo. iMiconlrando tantas injuiias mudas á de- 
cadência presente, o vandalismo iriiton-se. ergin-ii se e falou em feu- 
dos, em dízimos, em corrupções h^adescas, em maninliíuh-gos, (!m ser- 
vos de gleba, em direitos de osas, em superstições; catou, em siim- 
ma, todas as vergonhas e deshonras do passado que poude e soube, 
ontresachando-as com tentenças e Jogares communs do catechismo 
[tolitico de liamon Salas e. por uma lógica incomprehensivel, por uma 
lógica sua, chamou os homens do alvião e da picareta e começou a 
(h-rribar victoriado pelo povo. Só elle, immovel no meio da mobilidade 
(h) nosso tempo, no meio das opiniões encontradas, das Inctas das 
commoções, tem apontado constante ao seu alvo, a demolição indeni- 
minada do passado.» * 

Dizia isto e muito mais o grande historiador, e ainda trinta e sele 
armos depois subsistiam os mesmos motivos de indignação e censnra. 

Em IS7o, um dos mais formosos talentos artisticos dos nossos 
tempos, o marquez de Sousa Holstein, clamava contra a incúria dos 
poderes públicos que não fundavam museus, (pie não pensavam se- 
(juer ao menos na conservação dos nossos monumentos nacionaes, 

«Eslão estes (dizia o maliogrado inspector da Academia de Bellas 
Artes) inteiramente descurados entre nós, com excepção da Batalha e 
do tem[)lo romano eiii Evoi'a. O sudário das nossas misérias a este 
respeito é tal, que nos envergonha mesmo estendel-o aqui á puridade 
e diante só de olhos portuguezes. A maior parte daquellas veneran- 
das relíquias do passado ou desappareceiam para sempre ou estão 
ameaçando imminente riiina. Umas foram voluntariamente destruídas, 
depois de voluntariamente concedidas, para darem logar a constru- 
cções modernas: outras foram successivamente minadas pela implacá- 
vel mão do tempo; outras estão barbaramente deturpadas pela mão 

1 A. Ifeicuíano, Mímwupntos Pátrios (Opúsculos, t. ir, pag. 8-9. 21, i'2, 23-2't). 



158 EEVISTA ARCHEOLOGICA 

dos homens, que sob o pretexto de lestauial-ns, lhes tiraram toda a 
feição que as caraclerisava.» * 

Por esse tempo, nomeada (por decreto de U) de novembro de 
1875) lima comniissão para traclar da reforma do ensino ailistico e 
organisação do serviço dos musens, monumentos liistoiicos e archeo- 
logia, apresentou eila o seu relatoiio e os seus [)rojeclos com toda a 
brevidade e sollicilude. 

Passados doze annos. que tantos decorreram desde 187G até ao 
presente, a reforma proposta pela commissão não se executou; o en- 
sino atlistiro [)ouco pi'(igrediu; não se organisaram museus: os mo- 
numentos históricos são (hvsli uidos em vez de serem conservados ou 
convenientemente reparados; a aiclieologia em geral é olhada com o 
máximo indiífeienlismo. 

É que em Portuga! não lia o gOí-to, o amor pela arte; não ha a 
comi)i'ehensão da utilidade de museus artísticos e ai'clieol()gicos; não 
ha o respeito pelos mdnumentos pátrios que são documentos da nossa 
hisloiia; não se considera a arclicologia senão como uma simples cu- 
riosidade lilteraria. 

Mas para que piTcisamos de reformar o ensino artístico? Ide ao 
Museu eh' Uellas Aries, e não veieis alli um só aitisla estudioso tiran- 
do coi)ia d algum quadro de Scijueira para se exercitar. Mas vereis 
dois ou Ires basbaípies em idiota pasmaceira diante d'algum painel 
que o guarda lhe disse ser tim, (supposlo) Ilapheiel ou mii Durer. 

Percorrei o paiz. e vereis ainda muitos monumentos que chama- 
rão a vossa atleiição. Mas atleniáe nelles e recuareis indignados. En- 
tre cem, um só encontrareis illeso de espantosas mutilações, de tor- 
pes remendos, de hediondos repaios. Ide á Sé de Lisboa, e lá ve- 
reis. . . O meu illustre amigo Visconde de Castilho vol o diz: 

«Os estuques então não teem nome. ('obrem o granito antigo 
d"aquelles pilares velhos com uma capa de [irosa amassada a colhe- 
rim, e na presença do que é pedra teem a louca presiimiição de que- 
rer arremedar pedra. 

«Além disso, colnmnas coiiiithias despi oporcionadas! capiteis de 
estuípie muito peralvilhos a de>dizerem do módulo do histe! uma 
confusão sem graça, sem ingenuid.ide, ao men')s, (h) bysantino ! 

(( . . .Uas altas colunmas aggregadas do templo velho, íizeram umas 
coisas que nada são.»^ 

BOUGKS DK FlGUElhEDO. 



* Marquoz de Sousa Ilolslciíi. (Jhsrrríirõrs soliri' o (iclnal eslddu du riisiiio das ar- 
tes em Porlwial . . . p;ig. 41. 

2 Jiilio lio Castiltio, Lisboa Antiga. V. ii, l. iii, pug. 1D2 c VX\. 



E HISTÓRICA 



159 



15IHLI0aRAl'IIlA 

Ri:visTA Lusitana, Arcliivo (h; estudos pliilologicos e (UliFiologicos re- 
inlivos a Porliiiínl. diiiiiido por ,/. b-iin df Vascona-Uos. — 1." Aiiiio. 
— N.°' I, i2.— Porlo, 1887. 

A Revista Liisilatin, dirigida por um dos nossos mais consciencio- 
sos es('i'iplores e ahalisado lulklorisla. eslá destinada a occupar um 
logar distmi"lo enire as publicaijões scientiíicas e lilteraiias do nos- 
so paiz e do eslrangeiío. Notamos com prazer a coincidência de le- 
rem enceta o no mesmo amio a [)ulj|icação a licvisin Lnsiiana e a [ie- 
cista Arclmilngiia e Histórica: uma occupando-se prolicienlemente das 
(pieslõcs pliildlogicas e etimológicas: outra procmaiido i'euuir e estu- 
(iar outra classe de materiacs (]ue nos i'estam (h)S passados tempos. 

Nos dois números |)ublicados, correspondentes aos primeiros tri- 
mestres do corrente atmo, encoiitra-se grande copia e variedade de 
artigos firmados por pessoas competentissimas nos assumptos a que 
a licvista Lusitana é destinada. Por longos, não apreseidamos aipii os 
respectivos smnmarios; mas, com a devida vénia, re|)ioduzu'emos 
(por pertencerem ao objecto da liecisla An-lwoUujim) cinco inscripções 
romanas, encontradas pelo sr. Leile de Vasconcellos na povoação de 
Duas-Egrejas (concelho de Miranda-do Dom'o): 



C • ANNIO • 
S 1 1. V A N O • 

A N L. • A N N' 

VS • RVFINVS 

PATRI 

SII.VIO • SII.VANO 

ANN • XXV 

Sn.VIVS • CAI.VVS 

FRATRI 



■ Caio Annio Rufino elevou este monumento á me- 
memoria de seu pae Gaio Annio Silvano, fallecido de 
cincoenta annos.» 



"Silvio Calvo elevou este monumento já me- 
moria de seu irmão Silvio Silvano, fallecido de 
vinte e cinco annos.» 



SII.VANO 
APILICI • F 



«Á memoria de Silvano filho de Apilico.. .» 



SIL VI AE C A L V I 
N A E • A/ • X X V I I I 
ET • G • SILVIO A/N I 
SILVIVS GALVINVS 
F I L I .E ET i\E P O T I 



"Silvio Galvino elevou este monumento á 
memoria de sua hlha, fallecida de vinte e oito 
.annos, e de seu neto Gaio Silvio, de um 
anno.'> 



160 REVISTA ARCHEOLOGICA 

5 ....RIO? 
....ONI? 
anu. 'XXV 



É curiosa a circumslancia da allileração nos nomes das quatro in- 
scripções. As que estão sob os n.*^* ^ e 4 pertencem a pessoas da 
mesma gcns. A inscripção n.° 3 está evidentemente mutilada. Da do 
n.° f) só ponde ler o sr. Leite de Vasconcellos o que vae em letlras 
maiúsculas: a divisão das luilias é miulia. 

Saudamos cordealmente o nosso estimável collega; e auguramos- 
llie nma brilhante caireira. 

A assignalura da Rcrista Lusitana pôde fazer-se dirigindo a cor- 
respondência aos srs. Lopes tí- C/\ Rua do Almada. 119, Poito. O 
preço, poi' anno, é de ^?>000 lòis na Peiíinsiila; de 1^ francos no resto 
da Europa; e de Gií>000 léis fortes no Brazil. 



.louNAL DO DoMiNc.o, Lilleraliira, Sciencia, Artes, Thealro. — 2.* 
Série.— Anno I. 

Merece elogios a empreza d"este jornal pelos esforços que empre- 
ga para infundir no publico o gosto da litteralura e das artes, pro- 
porcionando-lhe semanalmente uma agradável leitura acompanhada de 
formosas gravuras. Pena é que, talvez por motivos muito poderosos, 
esta publicação, reproduzindo largamente monumentos e panoramas 
d'oulros paizes. tão raras vezos dè gravuras i'epresentando os monu- 
mentos nacionaes c as [laizageiís do nosso paiz. 

Assigna-se na Rua da Vinha, 37. 1.°, Lisboa. Preço, por anno, 
!2?5500 réis; avulso 00 réis. 



E HISTÓRICA 161 



D. MECIA LOPES DE HARO 

Vou dizer d'uma mulher que se tornou famosa, assim por sua ex- 
tremada formosura, como pelo seu ruim e aventureiro caracter; mu- 
lher em quem se dava um perfeito contraste entre o physico e o mo- 
ral : um rosto adorável pela belleza, um coração abominando pela per- 
fídia. 

Não é decerto um phenomeno extraordinário este notável ajunta- 
mento ou concurso de dotes physicos com os defeitos moraes ; do mes- 
mo modo que o contrário se dá também em egual numero: um espi- 
rito gentil, a intelligencia, a virtude, num corpo débil, imperfeito, en- 
fezado. Parece que é normalmente invencivel para as forças da natu- 
reza o produzir um ente absolutamente perfeito ; parecendo por con- 
seguinte necessária essa opposição de predicados, essa compensação, 
esse equilíbrio, para a existência. 

Sendo pois frequentes estes contrastes, observar-se-ha que melhor 
compete á physiologia o estudar esses seres como indivíduos de es- 
pécie humana, do que á historia o consideral-os como membros so- 
ciaes. E assim é em geral. Mas, quando uma d'essas singulares indi- 
vidualidades tem occupado sua alta posição na escala social, quando 
ella pela concorrência das circumstancias tem desempenhado um pa- 
pel importante, influindo poderosamente nas modificações politicas 
d"uma nação, neste caso é á historia que principalmente pertence o 
exaniinal-a, apiesdiíiciiníu-.i cm toda a iiadez da verdade. 

Uma d'essas individualidndes é D. Mecia Lopes de Ilaro. 

A formosura desta mulher captivou quantos a conheceram e fez 
a desgraça de alguns; a sua ambição do poder fez com que praticasse 
uma traição vilissima, com que se tornasse culpada da mais abominá- 
vel ingratidão. 

E esta mulher que apenas conheceu no amor a sensualidade, e na 
nobreza o orgulho; esta mulher para quem o dever era somente a 
obtenção, para quem o reconhecimento era incomprehensivel, esta 
mulher, embora descesse dum throno, foi viver abastada e respeitada 
na sua pátria, sem nunca ter dado uma lagryraa àquelle que ella ar- 
rojara para terra extranha. 

I 

D. Mecia foi filha do senhor de Biscaya, D. Lopo Dias de Haro, co- 
gnominado o Cabeça Brava, e de sua mulher D. Urraca Affonso. Por 
seu pae descendia da mais illustre nobreza vascongada ; por sua mãe 
vinha de Affonso IX de Leão por bastardia. Houve já (e mais d'um es- 
criptor) quem julgasse que D. Mecia fora filha illegitima de D. Lopo. 
Essa opinião baseava-se na seguinte phrase do Chronicon Alcobacense 
que diz ad eram 1224: «... Sanchium capelum qui... duxit enim 

Rev. Arch. e Hist., I, N.° II — Novembro 1887. ii 



162 REVISTA ARCIIEOLOGICA 

quandara uxorem de uiliore genere» ; e ainda se fundava em que o 
seu nome não apparece entre os filhos do senhor de Biscaya, no titu- 
lo que a este respeita no Livro das Liiihcujeus chamado do conde D. 
Pedro. Mas, não só noutra passagem do mesmo livro D. Mecia é men- 
cionada como íilha de D. Lopo e da mulher d'este, senão que um do- 
cumento publicado por Gudiel tira todas as duvidas a tal respeito. É 
esse documento um recibo, passado pela viuva do Cabeça Brava, á 
Ordem de Sanl'I;igo, do pagamento de certa quantia que seu marido 
emprestara ; alii figuram os filhos da nobre dama, entre os quaes se 
encontra o nome de D. Mecia e o do marido d'esta D. Álvaro Perez 
de Castro. Se D. Mecia fosse filha illegitima, certamente não seria ella 
incluida pela mulher de seu pac entre os seus próprios filhos. Era pois 
a formosa biscaynha parente em quarto grau de Sancho II de Portu- 
gal, sendo terceira neta de Affonso Henriques. 

Dos primeiros annos de D. Mecia nada se sabe. Deve porém, conje- 
cturar-se que recebeu uma educação adequada á nobreza da sua famí- 
lia, uma das mais notáveis da Ilispanha. Se ella passou a infância na 
Biscaya, se na corte do rei de Leão, não se sabe ; mas talvez não se- 
ja muito arriscado suppòr que D. Mecia assistiu, durante a infância, 
mais tempo na corte do que na Biscaya. 

As mais antigas noticias, que se encontram acerca da formosa filha 
do Cabeça Brava, referem-se ao seu primeiro consorcio^, deixando-nos 
todavia entrever que teve uma mocidade muito agitada. 

Conservou-nos o Livro das Linhagens como que os preliminares do 
seu enlace com Álvaro Perez. Se todas as peripécias alli narradas são 
inteiramente exactas, coisa é que não ha meio de ser averiguada; em- 
bora, porém, a tradição revestisse com mais ou menos atavios o facto, 
não é razoável negar de todo o credito ao antigo genealogista. 

D. Álvaro Perez de Castro, filho de D. Pedro Fernandez de Castro, 
de sobrenome o Castellão, e casado com Aurembiax, condessa de Ur- 
gel, havendo tido desavenças com o rei de Castella, passou ao campo 
dos moiros, facto este que tem muitos similares e ben: conhecidos na 
historia da península medieval, para que me detenha a falar d'elle. D. 
Álvaro Perez estava na villa de Paredes de Nava, de que era senhor, 
como das de Cigales, Mucientes e outras, quando tropas do rei caste- 
lhano o foram cercar, commandadas pelo Caberá Brava. O senhor de 
Paredes era homem corajoso e destemido, e conforme diz o Livro das 
Linhagens «tam grande e tam gordo que nom pôde teer em aquella 
lide (de Enxarez de Sadornini) senom luiuma falifa delgada e huuma 
vara na mão». Fazendo pouco ou nenhum caso das companhas inimi- 
gas, por irrisão poz em torno das muralhas barreiras de seda, dizen- 
do : «que nunca outro muro meteria amtre ssy e aquelles que a elle 
quizessem viir» ; «e isto foy (prosegue o Livro) porque era namorado 
da rainha dona Meçia Lo[)ez. . . com que depois casou». 

D. Lopo de llaro levara para o campo sua (Ilha D. Mecia, a quem 



E HISTÓRICA i63 



lambem andava cortejando D. Marfim Sanches, o famoso filho de San- 
clio I e de I). Maria Ayres de Furnellos. Não se compreliende muilo 
Ijem que I). Lopo andasse acompanhado da íillia duianle os combales 
que linlia a ferir ; mas o que é certo é que, por muitos outros factos, 
que tornam este probabilissimo, se sabe tei' U. Mecia um caracter 
essencialmente aventureiro, como algumas outras damas dessas epo- 
chas guerreiras, as (juaes eram dominadas pelo espiíilo do (empo e 
que estão symbolisadas no romance popular — a donzdla (jue vae jiara 
a guerra. Auctorisa ainda esta apreciação do caracter de U. Mecia um 
facto que a tradição aponta como succedido alguns annos mais tarde, 
e de que será feita menção em seu logar. Ha mais, porém, a conside- 
rar que, achando-se D. Álvaro de Castro enamorado da biscaynha, 
talvez esta lhe correspondesse (como o seguimento parece mostrar), e 
portanto empregasse os meios ao seu alcance para delle se approxi- 
mar. 

O senhor de Paredes havia com toda a probabilidade tomado co- 
nhecimento com D. Mecia na corte de Aífonso ix, onde é natural que 
ella gostasse mais de viver do que no isolamento do senhorio de liis- 
caya. Ainda quando não houvesse muitos outros e óbvios motivos para 
a residência de U. Mecia na corte, bastava o seu parentesco com o rei 
para a justificar plenamente. 

Entre os sitiantes de Paredes achava-se, como fica dicto, D. Martira 
Sanches, que tão célebre se tornou, assim pelos grandes haveres e in- 
fluencia que possuiu, tOmo pelos seus feitos d armas. Os Livros de 
Linagens consagram a este cavaileiro, que «era hoom e moilo honra- 
do» largos encómios e uma longa narrativa de suas acções. 

Sabe-se quaes os resultados que tiveram as generosas doações 
feitas por Sancho i a seus filhos assim legítimos como bastardos, e 
ás mães destes últimos. O egoista e cioso Aflonso ii recusou entre- 
gar-lhes os legados paternos ; houve longas e renhidas luctas e mui- 
tos dos filhos de Sancho i tiveram de expatriar-se; só terminaram as 
discórdias com a intervenção do papa Innocencio ni, que fulminou cen- 
suras e comminações sobre o rei leproso, conseguindo a final uma 
composição entre as partes litigantes, que fizeram mutuas concessões. 
Digamos alguma coisa do filho de D. Maria Ayres, que, como se verá, 
não é extranho ao objecto d'este estudo. 

Martim Sanches, a quem o pae legara oito mil morabitinos em di- 
nheiro de contado, como a seus outros bastardos, afora as suas partes 
respectivas nas deixas em bens immoveis, Martim Sanches leve de ir 
procurar forluna fora da pátria. Escolheu o reino de Leão, onde rei- 
nava naquella epocha Affonso ix, que era seu cunhado, por isso que 
havia casado em 111)0 com D. Theresa, filha de Sancho i, a qual tão 
pouca fortuna teve, visto ser obrigada a separar-se do marido por in- 
timação de Clemente ui, que declarou nullo o consorcio por impedi- 
mento de consanguinidade. A ex-raiuha professou em Lorvão, faUe- 



-164 REVISTA ARCHEOLOGICA 

cendo cheia de annos em 17 de junho de 1250 ; e foi beatificada por 
Clemente xi em 170o. 

Martim Sanches passara pois ao reino leonez, constituindo-se vassa- 
lo do cunhado, que o nomeou adeantado em terra de Leão. AíTonso ii 
de Portuga), sempre egoista e avai-o, aili mesmo mandou á Galliza al- 
gumas companhas a fazer-lhe penhora na terra de Lima. Passou-se isto 
em occasião em que JNlartim Sanches estava ausente. Á sua volta, sa- 
bedor do acontecido, fez reclamar por duas vezes de seu irmão a pe- 
nhora sem razão feita; mas, não obtendo nem da primeira nem da 
outra vez resultado algum satisfatório, juntou quanta gente poude das 
terras de Lima, Torítnho e de Valle de Baroncelhe, e entrou em Por- 
tugal até Ponte do Lima. Alfonso ii, avisado dos intenções do irmão, 
estava-o já alli esperando, com Iodas as forças d'Entre-Douro-e-]Minho, 
e ainda d'aquem Douro. Antes de passar o rio, Martim Sanches man- 
dou-lhe dizer que se retirasse, que elle combatei'ia toda a sua gente 
«ou se nom que se tirase afora mais d"huma legoa que nom parecese 
o seu pendom», e que elle lidaria com todos que ahi tinha. Aconselhado 
Atibnso a retirar-se para Gaya, assim o fez, retrocendo primeiro até 
Santo Thyrso, donde os seus barões voltaram a esperar as tropas de 
Martim Sanches, indo acampar junto do mosteiro da Várzea de Riba 
de Cadavo, a distancia duma légua de liarcellos. Chegado Martim San- 
ches a esta villa, e faltando-lhe o vinho, mandou por elle a Várzea, 
d'onde lh'o não quizeram enviar, recebendo apenas um desafio da 
parte d'alguns homens das forças reaes, que eram, entre outros Mem 
Gonçalves de Sousa, João Peres da Maya, e Gil Vasques de Soverosa 
já áquelle tempo casado com D. Maria Ayres e por conseguinte pa- 
drasto de Martim Sanches. Este poz logo em movimento as suas com- 
panhas, indo encontrar-se com as do rei num campo apar da Várzea. 
A lucta foi renhida, mas curta. Apezar dos esforços das tropas reaes, 
foram ellas postas em fuga. Indo-lhe no encalço, caminho de Braga, 
o vencedor alcançou Gil Vasques, que de «espada en maão» ia cami- 
nhando vagarosamente; e travando-lhe do braço e arrancando-lhe a 
espada, disse-lhe: «já, padre, já, ca asaz lidastes», deixando-o em se- 
guida continuar seu caminho. Emprazado novamente pelos realistas 
para combater entre Braga e Várzea, perto das Congostas de Braga, 
segunda vez os venceu, recuando ainda elles até chegarem á porta 
Occidental da Sé d'aquella cidade. «E aali sô aquel portal que hy está 
se derom moitas e boas feridas, e foy asi que os ouve dom Martim 
Sanchez a levar e pasarpela portela do espinho contra Guimaraães mal 
a seu grado». Terceira vez ainda os combateu e venceu em Guima- 
rães, encerrando os na cidade. Demorando-se alli um dia, á espera de 
novo ataque dos inimigos, viu que elles se davam por satisfeitos com 
as perdas já soffridas; e então regressou á Galliza levando grande 
presa, e muitos prisioneiros, a quem generosamente deu liberdade. 
Martim Sanches, que assistiu á celebre lide de Telhada, teve de 



E HISTÓRICA 165 



AÍToiíso IX (jualro condados, um d'elles o de Traslamara em lença vi- 
lalicia, 6, como disse, o cargo de adeanlado da ílalliza em quanto vi- 
veu. Foi enterrado em «('ofinos», numa villa da ordem do Hospital em 
terra de Campos. 

A presença de Martim Saiiclics no cerco de I>aredes foi motivada 
pela de D. Mecia, a tjuem cortejava e seguia incessantemente, ao que 
parece. D. Mecia não corriíspondia decerto aos requestos do portu- 
guez; pelo contrário, deprehende-se da narrativa do Livro das Linha- 
gens que ella lhe preferia D. Álvaro de Castro, o que os acontecimen- 
tos confirmaram. Mas, ou porque na sua garridice folgava com rece- 
ber as adorações ardentes de D. Maitim, ou poríjue se queria servir 
d'elle para melhor accender a paixão do outro (como julgo mais pro- 
vável) ia aceitando ostensivamente os incensos do íilho de Sancho i. 

D. Mecia, que demorava como facilmente se comprehende fora do 
cerco, eslava um dia na sua tenda, jogando o xadrez com o seu adora- 
dor D. Martim Sanches. Mandara erguer o panno da tenda do lado da 
villa, tomando como pretexto a calma ou o regosijo da vista; mas na 
verdade isto era pura estratégia. O xadrez era o pretexto; o verda- 
deiro jogo era a fralda da tenda levantada. Correspondendo á paixão 
do senhor de Paredes, desejosa de conseguir quanto antes o seu fim, 
talvez mesmo já farta ou aborrecida dos requestos e perseguições do 
ardente D. Martim, tractava de despertar os zelos no coração de D. 
Álvaro. Se tal foi, como [)arece, a sua intenção, o estratagema surtiu 
o pretendido effeito. O senhor de Paredes, acceso em amor e ciúmes, 
ao ver de longe aquella, cuja belleza o captivàra, conversando tão ale- 
gre e intimamente com um rival, armou-se num momento, montou no 
seu corsel, e dum galope chegou á tenda, disposto a um recontro 
com Martim Sanches." Este, que "estava apenas vestido de saio e manto, 
vendo repentinamente approximar-se o castelhano, ergueu-se rápido 
e, sem tempo de armar-se, lançou mão d'uma lança e dum escudo, 
que estavam encostados a um dos esteios da tenda ; e arremettendo logo 
contra D. Álvaro, deu-lhe tão forte lançada, que o ferro atravessou- 
Ihe o escudo, o porponto e a loriga, chegando ainda a feril-o. A van- 
tagem era todavia toda da parte do Castro, assim porque estava arma- 
do, como porque estava a cavallo. 1). Álvaro, porém, soube conter-se, 
ou por não querer abusar da sua posição vantajosa, ou porque lhe re- 
primiu o Ímpeto um olhar da bisca} nha. Talvez mesmo que, reconhe- 
cendo o perigo que podia correr no campo inimigo, demorando-se alli, 
desistisse de levar por deante naquella occasião o seu intento. Como 
quer que fosse, respondeu á aggressão, batendo fortemente com o 
conto da lança no escudo do portuguez, e, dando costas, regressou à 
villa. 

A rivalidade entre os dois ricos-homens não teve seguimento. D. 
Álvaro casou com D- Mecia, e D. Martim tomou por mulher D. Elo 
ou Olalha (Eulália), irmã do primeiro. 



166 REVISTA ARCHEOLOGICA 

O caso do cerco de Paredes combinado com esta phrase d'uma an- 
tiga cliroiiica : «... la reyna dona meneia, que dizian de paredes...», 
da a intender que a íilha de D. Lopo de llaro se tornou muito céle- 
bre por aquelle successo, conduzindo tudo á snpposição de que o seu 
procedimento não foi inteiramente irreprehensivel, o que factos pos- 
teriores parecem coníirmar. Como quer que fosse, D. Mecia casou 
pouco depois do cerco, ainda em 1Í227, com D. Álvaro Peres, que 
repudiou a sua primeira mullier a condessa de Urgel. Ignora se se o 
senhor de Paredes eslava já ou não enamorado da biscaynlia, ao tempo 
do repudio ; mas é provável que fosse a nova paixão a causa deter- 
minante d'elle. A condessa d'Urgel casou no anno seguinte com o fa- 
moso D. Pedro, filho de D. Sancho i, que chegou a ser rei das Ba- 
leares sob a suzerania de Jayme i de Aragão (1230-1244). 

BOUGES DE FlGUI£II\EDO. 



NUMISMÁTICA PORTUGUEZA 
D. Aflonso V 

(Continuado do n." 9 — pag. 1S5) 

No principio do nosso artigo publicado no n.° O da Revista, pro- 
mettemos fallar de três espadins, mas depois de escripta aquella parte 
do artigo, obtivemos outro de que vâmos íulla." também. 

Dos quatro espadins, um é de Lisboa e três são do Porto. 

A moeda espadim, foi, segundo Eannes de Azurara, chronista de 
D. Aflonso V, cunhada para substituir o real branco, sendo comtudo 
inferior a esta moeda. O espadim é ainda uma moeda commemorativa 
da instituição da ordem da Torre e espada, creada por D. Aflonso v, 
para honrar os conquistadores de Fez. É d 'aqui que provavelmente 
tira origem o seu nome, a despeito da lenda do astrólogo dos mouros, 
que com a sua instituição liga Severim de Faria. 

Não fallando no pequeno espadim, que com o n.° 16 da est. xi, 
apresentou o sr. Aragão, que mais parece pela simplicidade do cunho 
e pela reducção do pezo meio espadim, ha três espadins citados por 
este distincto numismata, com os quaes vamos comparar os quatro que 
DOS vieram parar ás mãos. 

O primeiro que o sr. Aragão descreve sob o n.° 13 da est. xi, 
tom. I da sua obra, é, est. xvi, fig. 1 : 

«í< D o I A L F o N S V S i:) E I ° R A C I E = R E • — No ceutro 

de quatro arcos, cantonados por quatro pontos, uma espada, com a 
mão segnrando-a pela folha ; no campo, á esquerda entre ires pontos, 
um A (Alfonsusj. 



E HISTÓRICA 167 



í^. ^ V I V T O K 1 V A : N O N : 1) I F K C 1 T " — NoS mesiDOS 

arcos como tem o anverso, o escudo com a cniz de Aviz, qualro cas- 
lellos e as quinas. Pesa :i9 grãos. Espadini, li.— I,>0(J() réis.» 

O espadim que vamos descrever e que nos pertence, tem o mesmo 
ornato d'esle, mas dilíere nuiilo na legenda, est. xvi, íig. 2: 

>.I< ALFONSVS : Di:i : GRACIK R E G I s • — No centro de 
qualro arcos duplos ligados iiileriornieiile por (piatro aiuieis, e lendo 
outros quatro por fora das ligações, uma mão segurando uma espada 
verticalmente pela folha, logo abaixo dos copos; á esquerda no campo 
um A (Alfoíisus) entre três pontos. 

^. ^ ADJVTORIVM : NOSTRVM : I N ; N — Nocentro 
dos mesmos (juatro arcos du[)los, mas sem os ainicis interiores, o es- 
cudo com a cruz de Aviz, quatro ca^lellos e interiormente as quinas. 
Pesa 4^ grãos. Espadim, li. 

São essenciaes as dilTerenças nas legendas, para conhecer as quaes 
basta a simples leitura Estas moedas, embora não tenham a letlra in- 
dicativa da fabrica, podem considerar-se de Lisboa, onde havia o maior 
fabrico, deixando-se, muitas vezes, como se vè n'outros exemplares, 
de fazer a indicação do iogar do fabrico. 

A segunda moeda do sr. Aragão, n.° 14 da est. xi, tora. i, que 
também reproduzimos é, est. xvi, fig. 3: 

«•ALFO: REIS l^ORTVGAl; F- — No centro de qua- 
tro arcos cantonados por quatro anneis, a mão segurando a espada 
pela lamina, de ponta para baixo; no campo á esquerda entre Ires 
pontos a; em baixo p (Porto). 

íi. A I V T o : R E s = N O s : c V I F E c I • — No ceutro o mes- 
mo da anterior, que está sob o n.° "2. Pesa 38 Va grãos. Espadim, B. 
— 1:>500 réis.» 

Podemos comparar com este espadim do Porto, duas moedas per- 
tencentes ao sr. Júdice dos Santos, que nas mesmas condições das figg. 
n."* 1 e i, tem variantes nas legendas. 

D'estas duas, a primeira é, est. xvi, fig. 4: 

>h A L F o N S V 5 : DEI ; G R A Cl A : RE— Como a figura n.° 
2, tendo a mais na parte inferior do campo, á direita da espada a let- 
tra p (Porto), indicativo da fabrica. 

Ê. ^ ADJVTORIVM [NOSTRVM I ; D O — Como na figu- 
ra n.° 2. Peza 36 grãos. Espadim. B. 

A segunda, est. xvi, fig. 5 : 

^AFONSUS GRACIA RE:: — Como na fig. n." 2, mas 
com um p á direita da espada e na parte inferior do campo. 

íí. ^ A D J V • O R ••• R : IN : I N o S T — Gomo O reverso da fi- 
gura n.° 2. Pesa 2() grãos. Espadim. B. 

O terceiro espadim descripto pelo sr. Aragão é o que na legenda 
tem a palavra d U Cl A S, e que vem na est. xi, tom. i da sua obra, 
sob o n." 15, que nós reproduzimos na est. xvi, fig. 6: 



168 REVISTA ARCHEOLOGICA 

«ALFON; RES^PROTUG^DUCIAS— No Cenlro O 
mesmo da fig. n.° 3. 

í^. O mesmo. Pesa 40 grãos. Espadim, B. — II^^OOO réis.» 

O nosso quarto espadim é, est. xvi, fig. n.° 7, o seguinte: 

alfon: res; protug; d u cias— O mesmo que 
as figuras n."*' 4 e 5, 

í^. A D j V T o R 1 V N ; N o s T R V N : Q V I ; F • — Reverso 
lambem como as figuras n.°^ 4 e 5. Pesa 32 grãos. Espadim. 

Estas duas moedas são eguaes no anverso e só no reverso é que 
variam um pouco na legen la. 

Os cciíis de que promettemos também descrever alguns exempla- 
res, são moedas, de pequeno valor, e começadas a cunhar na dynastia 
de Aviz. 

D. João I foi o monarcha, que primeiramente a mandou cunhar, 
segundo parece, depois da tomada de Ceuta, d'onde querem originar 
o nome d'esta moeda, destinada a ter alli o seu curso. 

Sobre este ponto quem nos podia dizer alguma cousa era Fernão 
Lopes, mas nada nos diz de positivo. 

O sr. Aragão descreve onze variedades de ceitis. 

Não é esta uma moeda, cuja raridade torne importante conhecer- 
se e estudar-se cuidadosamente qualquer pequena modificação de le- 
genda ou de typo, porque é grando a varirdailo de leuendíis no mes- 
mo typo, e variam também os typos com a mesma legenda. Mas, foi 
uma moeda corrente, pertence como qualquer outra á numária portu- 
gueza, e a obrigação do numismata é descrever e estudar a nioeda, 
por mais abundante que seja, por menos valor intrínseco ou desesti- 
mação que tenha. 

As proporções d'esta publicação é que nos não permitte apresen- 
tar um detalhado estudo sobre as variedades que lemos. Ainda assim 
fallaremos de Ires exemplares mais interessantes. 

Variam muito os ceitis d'este reinado na disposição e forma dos 
castellos, substituição feita ás letras do nome do monarcha como ti- 
nham os dos dois reinados anteriores. 

Os que tem a inicial do fabrico L, p ou c, mostram que estes fo- 
ram cunhados em Ires logares, Lisboa, Porto e (talvez) Ceuta. 

O primeiro que vamos descrever, est. xvi, fig. 8, tem os castel- 
los semelhantes ao ceitil que o sr. Aragão descreve com o n.° 29 da 
est. xn do tom. i, mas tem o que não vimos em mais nenhum, as 
duas legendas começadas por ajvtorivm. 

>í4ADJVT0RIVm: no; qvi; feg-— Escudo com as 
quinas contornadas por quatro castellos sobre a cruz d'Aviz. 

í^. ^ A D J V T O R I V M feg— Tres toi-res 

n'um recinto defendido por uma muralha que é batida pelo mar. Pe- 
sa 28 grãos. JE, Ceitil. 

Outro, est. xvi, fig. 9: 



E HISTÓRICA i69 



>i< A I. F O • p O R T u G A 1. 1 1-: R E X — O escodo das quinas 
conlornado por quatro caslellos sobre a cruz de Aviz. 

i"^. ^ A I. F • ►í^ D F P O R r • 1) o M I N \' s — Tres torres es- 
guias, dentro dum recinto cercado por muralhas Itanhadas pelo mar. 
Pesa 4<S grãos. .¥.. deitil. 

O ultimo, est. xvi, lig. 10: 

til A F F : R F X — Como na fig, H. 

n). >i< A J V T o R I V M - Como o anverso da 

fig. 8. Pesa 'M) grãos. .]■]. Ceitil. 

Algumas dilícrenças que existom ainda no fabrico (Us moedas que 
comparámos, são de menos importância, e deixámol as á apreciação 
do leitor em presença dos desenhos. 

M. ALEXANnilK DR SorsA. 



VISITAÇÃO A EGREJA DK S. JOÃO DO M( )CHARRO 

D'OBIDOS 

por D. JOiífl, bispo de Çulim, em nome do arcebispo de Lisboa, 
aos 2 de jiiiibo de 1473 



Toniiiiiaila a visitação do carileai (rAipcilrinha, e em comprimento da promessa 
feita na adverteiifia que a prereileu ípaj,'. t-íO). vão sejriiir-se os tiliilos d"ouh-a visi- 
tação, feita por I). João. i)is|)o de Çaliiii. lmii iioiiie do arceliispo de Lisboa, tituios 
que se não encontram na do rardeal, ou em que ha taes variantes (|ui' podem ser 
considerados como inteiramente dilVerenles. .Ajimtei a numeração dos tituios, para 
facilitar a consulta e as citações, mas não correspondem aos da visitação do car- 
deal. 



B. de F. 



Sam loliam doobidos 



que ensinem o pater tioster e o credo in deiim e os precepíos e os ar- 
tiigos da fe e os bii'^ pecados mnrtaaes * 

7 

e amoestareesos dictos freegueses que tomem os sacramentos que sam 
de neçesidade, a saber, baulismo pendença comunbam crisma e estre- 
ma vnçam e mandamos aos dictos freegueses sob penna de escomunham 
que nom fazendo uos o que diclo lie que noilo façam saber ou a nos- 
sos visitadores quando as dietas igreias forem visitar pêra nos tornar- 
mos a ello com direito e vos darmos aquella penna que por ello me- 
recerdes e esto se entenda nos dias em (]ue nom ouuer preegaçam 
em a dieta igreia ou alguum outro iusto impedimento per que se bem 
nom possa fazer. 

* Todas as epigraplies, ate ao titulo 'tti inclusive, são de lettra dilferente da do 
texto, mas do mesmo tempo. 



170 REVISTA ARCIIEOLOGICA 



como am de pontar os iconimos e os bcnc/içiados 

38 liem porquanto achamos que as igreias eram mall seruidas por 
causa dos beneficiados e iconimos se acuparem (sic) em outras cousas 
e nom em as ser iiir mandamos geeralmente em todo o dicto nosso ar- 
cebispado (pie [)ellos reetores e beneficiados de cada huma igreia seia 
enlejido hnnm que aponte aquelles que nom ueerem aas oras e misas 
(sic) o quaal .-ipontará os que nom sernirem e as missas e oras que 
errarem o quaal apontador asomará (sic) todo o que remderem os be- 
nefiçios da dieta igreia e aluidrai"á o que vem a cada huum em cada 
hunni dia e fará do que montar em cada huum dia trres (sic) partes 
e o beneficiado que errar as matinas perderá huma das dietas partes 
e se errar a missa do dia perderá a outra parte e se errar a uespera 
perderá a outra asy que por cada huma destas oras que errar perde- 
rá a terça parte e mandamos ao dicto apontador que todas as dietas 
factas (sic) desde o dicto anuo atee o sam ioham em que elle acabar 
seu anno as entregue ao prioste que vier pêra o anno seguinte o qual! 
prioste reteerá em sy todos os fructos daqnelles que mall seruirem o 
dicto anno e os reparta antre lodos segundo que cada huum seruir e 
se os beneficiados nom fezerem apontador do dia de sam ioham a quin- 
ze dias auemollos por condanados (sic) em mill reaes se ho apontador 
nom fezer o que dicto he auemollo por condanado em quinhentos reaes 
todo pêra nossa chancelaria e se o dicto prioste nom reteuer os fru- 
ctos que perca todo o que lhe montar em o dicto priostado o dicto an- 
no de seu salairo e este apontamento mandamos asy fazer no groso 
(sic) dos dictos benefiçios sem embargo do que temos hordenado acer- 
ca do camtar das capellas e aniversairos. 

que quando sse jinar alguum leigo probe (sic) que todos os creligos 
ssejarn hy iunlos 

89 Item Achamos que quando quer que alguum freegues dalguma 
igreia pobre se fina que porquanto a oferta que se com elle leua he pe- 
quena e aas vezes nenhuma os beneficiados das dietas igreias nom 
querem hir a tall finado e asy nom acham quem no (siê) enterre e 
querendo nos a ello proueer mandamos que qualquer beneficiado que 
sem legitima causa leixar de hir ao enterramento de tall finado que 
perca todo o que em o dicto dia gaanhar em a dieta igreia e lhe mon- 
tar dauer do beneficio que teuer em ella. 

como as capellas seiam ssegundo cuslumc da terra, a saber, huum 
alqueire de trigo por misa, e dous alqueires de ssegnnda por misa, e 
huum almude de vinho por misa, e meo alqueire de azeite por misa 

40 Item por darmos bordem em maneira como as capellas que 
sam situadas em cada huma igreia do dicto noso arcebispado seiam 
cantadas conlbrmandonos com o ciistume antiigoo delle mandamos que 
se tenha no cantar delias esta maneira, primeiramente que todollos 
priostes das dietas igreias recolham cm sy lodo o pam vinho azeite 



E HISTÓRICA 171 



dinheiros e foros, a saber, carneiros porcos e aues e lodallas outras 
cousas e nicolliido asy lodo asoincin (jiiainlas missas se podctii dizer 
pellos diclos liiictos pa-íaudo por missa alipjeire de Iriijío ou dous de 
segunda almude de viulio meo ah^neiíe dazeile e do dintieiro segundo 
costume do arçehispado avaliando os diclos f(-ros segundo (jue valerem 
pelo estado da terra e iia pa^ia das dietas missas se teerá esta ma- 
neira a(iuelle(|U(' lor apontador dds cousa (es (.svV) screftucia a(|Uf'llas mis- 
sas ipiu se diserem (sic) (! aípielles (jue as dizem segundo iguall des- 
Iribuiçam antre lodollos heneliçiados de cada liuma igreia ípie forem 
de missa e asy como cada hmim lener cantado asy lhe pagará pcllo 
modo suso dicto e ante do sam ioliam huuu) mes fará cnmta daijucl- 
las missas (jue ficarem por dizer e se achar que atpielhis (jue as ou- 
uerem de dizer sam inpedidos (pie as nom podeiam acahar de dizer 
alee o dicto dia de Sam ioiíam repartaas pellos que forem presentes 
e forem desacupados pêra as poderem dizer em tall modo que as di- 
etas missas seiam todas dietas atee o dicto (ha de sauí ioliam e acon- 
tecendo (jue pasado (siv) o dicto dia algumas ficasem |)or cantar per 
negrigencia dos dictos benefi(;iad()s mandamos que entam se tomem 
tantos creligos de fora que as cantem ataa huum mes despois de sam 
ioham e alguum beneficiado das dietas igieias as nom posa mais can- 
tar pois as nom cantaram dentro no tempo (jue eram obrigados, epor- 
quamto achamos que em algumas igreias as dizimas dos beens das 
capellas com os h-uctos e rendas delias iuntamente hiiam a Inmm ce- 
leiro e se cantauam o que he contra rezam (sic) e direito porquanto 
as dietas dizimas nom sam obrigadas ao cantar das dietas capellas 
mandamos que daqui em diamle a dizima dos bens das dietas capei- 
las vaa ao celeiro comum da dieta igreia pêra se re|)artirem segundo 
se partem as outras dizimas e das rendas das dietas capellas se faça 
o que dicto he. 

que o prioste nom dem (sic) a benc/iriiado nem a konimo nenhuma 
cousa atees (sic) rjue dem fiança. 

41 Item mandamos a lodollos os priostes das dietas igreias que 
nom dem fructos alguuns a benPÍi(;iados nem iconimos que mereçi(3os 
nom tenliam sem lhe primeiro tomar fiança abastante pêra serviço de 
todo lio anno das dietas igreias e morrendo al2[uum dos dictos bene- 
íiçiados ou nom seruindo a dieta igreia que o dicto prioste pague os 
dictos fructos que asy der sem fiança de sua casa. 

aquelle que aleuantar arroido no coro, o reetor tenha carrego delia 

42 Item porque achamos que as oras canónicas eram mall camta- 
das porque os beneficiados falavam muito no coro e aleuantavam mui- 
tos aroidos (s/c) dizendohuuns aos outros muitas palavras iniuriosas po- 
rém querendo nos a esto proueer mandamos aos reetores das dietas 
igreias que façam rezar as dietas oras apontadamente e nas oras con- 
uenientes e quallquer beneficiado que fallar em o dicto coro sobeia- 
mente em outras cousas senom no que pertençeer ao rezar que per- 



172 REVISTA ARCHEOLOGICA 

ca aqiielle dia e quallquer que aleuantar aroido de palauras desones- 
tas e iniuriosas perca Irres dias e se vierem aas punhadas ou maãos 
que percam huum mes e se ho aroido lor tail per que se outra penna 
de iustiça mereça aalém desta pena tique a nos ou a nossos olfiçiaecs 
que lhes dem aquella segundo o caso requerer e mandamos ao apon- 
tador dos consates(i'iV)que per mandado do dicto reetor asy ho aponte 
e seendo negrigentes os sobredictos reetor e apontador em fazerem 
o que dicto he que aiam a penna sobredicta posta ao que o dicto aroi- 
do aleuantar. 

quem esleuev aos annicersairos, clles os aiam 

43 Item porquanto achamos que muitos fazíiam duvida quem avia 
dauer os aniversairos o que lie determinado per direito que os non 
aiam senon aquelles que seruiiem e forem a elies presentes, porém 
mandamos que em esto se guarde todo o direito comuum. 

como seia hum beneficiado ou iconimo huum mes, solicitando huum 
mes pêra rrequerer seer, se algum fructo perder seia a sua custa a 
perda. 

44 Item Achamos que muitos beens e cousas das igreias se per- 
diam por se 11011 solicitarem e requererem bem pelos beneficiados del- 
ias, porém mandamos que em cada huma igreia em cada um mes 
seia enlegido huum beneficiado ou iconimo que seia solicitador de to- 
dollos fructos que a dieta igreia trouuer e aquelle que solicitador for 
e o mal fezer e na sua culpa' se perder alguum fruclo que elle pague 
a dieta perda. 

que non tomem benefiçiiado nem iconimo cura por o prioll, sob pena 
de ¥ rreaes, e o prior (sic) pague b'' rreaes para a chancellaria 

4õ Item porquanto achamos que alguns beneficiados e iconimos 
tomauam as curas pellos priores absemtes por muito tempo pelo quall 
as igreias nom sam seruidas pellos sobredictos como deuen» seer 
portanto defendemos aos dictos beneficiados e iconimos que non acep- 
tem semelhantes carregos sob penna de quinhentos rieaes e o prioll 
que lha der pague outros quinhentos rreaes todo pêra a nossa chance- 
laria e esto mandamos que daqui em diamte geeralmente se entenda 
em todo o dicto nosso arcebispado. 

que o beneficiado que nom souber leer e cantar atees hutmi anno, 
que non seia contado e a sua rrenda seia pêra a fabrica da egreia. 

4h' Item porquanto achamos que em algumas igreias avia alguuns 
beneficiados os qiiaees nom sabem leer nem camtar segundo que per 
direito sam obrigados saber pello quall as igreias nom sam seruidas 
como deuem omde taees beneficiados ha, portanto mandamos geral- 
mente em todo o dicto nosso arcebispado que quallquer beneficiado 
que asy nom souber leer e cantar do dia que for beneficiado ata a 
huum anno (pie non seia mais contado em o dicto beneficio, e per 
esta defendemos aos priostes que pellos annos em diamte forem que 
lhe nom acudam com nenhuuns fructos dos dictos seus benefiçios sob 



E HISTÓRICA 173 



penna de quinhentos rreaes pêra a nossa chançellaria, e os fruclos 
que os -lictos beneliçiatlos asy perderem soiam pêra a ral)rica da igreia 
em que asy forem beneíiçiados e o nosso visitador lera carreguo de 
os eixarainar. 

tiue todallas visifnrues pasadas ssc pni/nham (sici em liuum caderno, 
e as (/nc veerevi ao diante. 

47 liem geraltiienlo mandamos em lodollas igreias que se faça 
huum caderno boo de todallas consliluirõees e visilaçõees passadas em 
o qual se cosam todallas visilaçõees que se fezerem por se non an- 
darem rompendo e andarem espalhadas o qual será cuberlo de pur- 
gaminhíi com seus coiros detrás asy como huro de recadaçõees delHey 
sob penna de cimquenta reaes pêra o nosso meirinho. 

4S liem visitando nos a igreia de sam ioh;nn da villa doobidos 
achamo> em ella estas cousas e mandamos fazer outras as quaes se 
adiante seguem. 

Titulo da prata 

49 *ltem huuma cruz de prata Item dons cailezes Item huuma cus- 
loodya com ssna cruz Item huum Iribullo item huuma nauela. 



Titulo dos hornamenlos 

50 Item huma vestymenta de baldoquym de passarynhas verde 
com suas ahnaticas Item outra de velludo azul Item outra de pano de 
ssyrguo azul com roodas brancas liem outra dooslada ? vermelha 
com huma cruz daçendal amarello Item duas ahnaticas velhas Item 
Ires capas duas vsadas e outra milhor liem Ires frontaaes dous velhos 
e huum milhor Item huma coorlyna que eslaa no aliar moor verde 
e vermelha. 

Titulo dos iiuros 

51 Item dous dominguaaes de lenda e canto Item huum ssantal de 
lenda e canto Item dous oíiçyaaes Item dous ssalteyros Item huum 
missal mistico do aliar Item huum evangelliorum com ssuas oraçoões 
Item huum pistoleyro Item huum liuro de missas priuadas Item huum 
liuro que tem ho ofiçyo de vitoorya xpyanorum {chri^tianonnn) e ho 
ofyçio da conçeyçam de ssanta maria e outros hoflçyos Item huma 

í D'esta palavra ciii diante, tuda a escriptura é de lettra diíTerenle da que pre- 
cede. 



n4 REVISTA ARCHEOLOGICA 

oraçom do cooro Item huum caderno que tem ho hofiçyo de bautizar 
Item hunm liiiro do tonbo fsic). 

õ-J Item Achamos em a dieta ygreia estes liuros que sse sseguera 
mal emcadertiados a saber, lio dominguai e hos ofiçyaaes anbos (sic) 
e ho euaiigelyorum e ho huio de missas priuadas. Mandamos ao ca- 
biido que mande pooer fsicj huma tauoa ao dominguai que tem que- 
brada, e mandem emcadernar ho liuro de missas priuadas e mandem 
cobriir de burel todos hos ssobredictos liuros e esto laçam atees ho 
natall primeiro que uem ssob pena de ii'^ reaes pêra a uoossa chan- 
çellaria. 

5S Item Achamos em a vysylaçam do anno passado que foy man- 
dado aos raçoeiros do dicto cabiido que dessem ao vigairo da dieta 
ygreia dos dynheiros que avyam de dar ao dicto cabiido mil e qui- 
nhentos reaes pêra se comprar huuma ymagem de ssam ioham de pe- 
dra porquanto a que eslaa em a dieta ygreia he podre e velha e que o 
dicto vigairo ao (sic) compraasse ssob pennade pagar b^ reaes pêra a 
noossa chancellaria. Ao que dicto vigairo nom ssalisfcz porém manda- 
mos ao dicto vygairo que em todo caso requeyra os dictos dynhey- 
ros aos raçoeyros do dicto cabiido que diiz que os aynda em sseu po- 
der tem e os aia aa ssua niaão e atee o natal primeiro que vem man- 
de poer a dieta ymagem na dieta ygreia sob penna de mil reaes pêra 
noossa chancellaria, a qual penna lhe nom ssera quite por cousa ne- 
nhuuma. 

õ4 Item Achamos que a capella dos vydaaes que he da dieta 
ygreia estaa muy mall corregiida assydas paredes como do telhado e 
a ymagem de ssanta marya cuia emvocaçam a dieta capella he he toda 
podre e posto que ia mandássemos ao cabiido muitas vezes que po- 
sessem hy outra de peedra nunca o quizeram fazer e também quoatro 
(sic) liuros da dieta ygreia, a saber, huum dominguai e huum ssantal 
e huum myssal e ho euangellyorum ssam todos desemeadernados e es- 
farrapados e sse os nom corregem antes de dous annos sseram per- 
diidos porem mandamos ao dicto eabiidoo que atee a primeira nossa 
visytaçam mandem pooer em a dieta ygreia huuma booa ymagem de 
peedra de ssanta maria e mandem muy bem emcadernar os dictos li- 
uros e daqui a dous annos mandem eorreger a dieta ygreia muy bem 
bem (sic) das paredes e telhado de todo o que lhe fezer mester e es- 
tas cousas e cada huma delias compram ssob penna de b'^ reaes pêra 
a noossa chançellarya. 

õõ Item mandamos ao vygairo da dieta ygreia ssob penna de ex- 
comunhom que not^Xique esta noossa vysytaçam e mandados da dada 
(sic) delia a huum mees (sic) primeiro sseguinte por nom aleguar 
ygnorançya do que lhe assy mandamos fazer. 

ôO Item mandamos ao eabiidoo de lixboa em virtude dobediençya 
e ssob pena dexcomunhoin que da feylura desta a xb dias primeiros 
sseguintes vaa ou mando paguar esta vysytaçam a ioham de camoões 



E HISTÓRICA i75 



noosso recebedor em lixboa e assy lhe pague Ixxx reaes do scripuam 
ssob a dieta ponna perma (sic) ao diclo lem[)0 o qual recebedor tem 
todo carregiio de lodo receber. 

57 Dada em a dieta ygreia dons de iiinho per o senhor dom 
ioham bispo de çaphy tpie per noosso si)e(;ial mandado vysytou a di- 
eta ygreia leniam correa a fez por aluaro vaaz noosso secrelareo (sic) 
a qual visylaram ho do anno íjne sse começou per ssam ioham baptis- 
ta, de Ixxiii e sse acabaraa [)er esse mesmo dia de ssam ioham de 
Ixxiiii". 



(assignado) ^^T^^ 



ANTIGUIDADES PIIENICIAS NA PENÍNSULA 

O nosso illustre collaborador e amigo, professor E. Iliibner, infor- 
mou a Sociedode Archeologica de íierhn, na sna sessão de I de no- 
vembro, dnm descobrimento importante, o primeiro até hoje feito em 
a nossa península dum resto aulhentlco da arte phenicia. Acharam- 
86 casualmenie no território de Cadix (a antiga Gadir), perto da necro- 
pole romana, a uma profundidade de cinco melros, Ires sepulturas, 
uma das quaes continha um sarcophago. No tampo deste ai:ha-se a 
figura dum homem multo semelhante á do celebre sarcophago de 
Echmunazar. 



BIBLIOGKAPHTA 

PaLEOETHNOLOGIA. ÂNTIGUmADF.S MONUMENTAES DO ALGARVE. TeMPOS 

1'HKmsTOiucos, por Sebaafião Philijips Martins Estado da Veiga. — 
Lisboa, 1886, 8.** gr., íig. e map[). Volume i. 

Esta obra ha poucos mezes saida dos prelos da Imprensa Nacional, 
desde longo tempo era esperada com grande empenho por todos quantos 
se interessam pelos estudos archeologicos. O sr. Estado da Veiga, 
que foi em lempo encarregado pelo governo de estudar as antiguida- 
des do Algaive, e que alli piocedeu a muitas explorações, melhor do 
que ninguém deve ler accumulado maleriaes e noticias acerca dessa 
notabilissima província. É dMsso já uma prova o volume que lemos 
presente ; e que comprehende já muitíssimas informações sobre os 
monumentos prehistoricos d'aquella região. 



176 REVISTA ARCHEOLOGICA 

Muilo desejaríamos dar agora, uma demorada noticia d'esta obra; 
mas, porque não está ainda publicado o segundo volume, onde (como 
o auctor diz na Advertência) termina o estudo relativo á prehistoria, 
julgamos mais conveniente esperar que elle appareça, para então, pe- 
rante o lodo, melhor podermos dar uma apreciação. O que, porém, 
desde já alllrmamos é que esta vasta elocubração do sr. Estacio da 
Veiga está destinada a occupar um dos mais distinctos Jogares entre 
as modernas obras archeologicas, attentos os perseverantes trabalhos, 
largos estudos e grandes merecimentos do consi)icuo auctor das An- 
íiijuidades de Meilola e das Aniiguidades de Mafra, que tem desde 
muito feita a sua reputação de archeoiogo distinctissimo. 

SociKDADE Carlos Ribkiho (Propaganda das sciencias naturaes em 
Portugal). I, O Musku municipal do Porto (Historia Natural), 
por A. A. da Rocha Pe/.To/o.— Porto, 1888 — 8.'^ 

É interessante a muitos respeitos este opúsculo que, como se vè, 
abre a série das publicações da Sociedade Carlos Ribeiro, recentemen- 
te fundada no Porto. 

Folgamos sempre com a fundação de sociedades scienlificas. Não 
porque as consideremos assembleas de sábios, nem porque esperemos 
que ellas collectivamente produzam muito; mas, sim, porque no seio 
de qualquer sociedade desse género ha de necessariamente haver um 
certo numero de sabedores, estudiosos, que trabalharão por si e pe- 
los seus collegas. Sem esses poucos trabalhadores, as sociedades scien- 
lificas 011 passam a ser sociedades de dança e minuete, ou passam de 
todo. Mas, apezar d'essa inevitável desegualdade, são as sociedades 
scienlificas necessárias, porque só uma collectividade, em consequên- 
cia da mulliplicidade de meios de que dispõe, pode conseguir melho- 
ramentos, que um único homem, e mesmo um pequeno grupo só ra- 
ríssimas vezes alcançaria realisar. 

O opúsculo do sr. Rocha Peixoto mira á reorganisação do Museu 
Municipal do Porto. Demonstra qual seu estado, e indica o que elle 
deve ser: aponta e particularisa os melhoramentos indispensáveis para 
que aquelle estabelecimento se torne ulil. O trabalho está bem feito, 
mostra muita proficiência, e em cada uma das suas paginas se revela 
o ardor enthusiasta de seu auctor. 



E HISTÓRICA 477 



MONUMENTOS HISTÓRICOS 

II 

São priíicipíilmciile os ;iiili<íos Ifinplos e mosteiros que mais sof- 
frem com o vandalismo ollicial e parlicuiar. Nos templos, são em geral 
algumas juntas de [)arochia ignorantes (jue, na preterição de restaurar 
e embelesar o ediíicio, (jue lhes está confiado, praticam ou deixam pra- 
ticar os maiores attentados contra o caracter de vetiistez das antigas 
egrejas. Nos mosteiros, é aos poderes [)nblicos que cabe a responsabili- 
dade das prolanações nelles commeltidas. Quando ílca deíinilivamente 
extincto um convento, pelo rallecimento, ou transferencia para ou- 
tro, da ultima íreua que uelle professou, toma o estado conta do edi- 
fício, inventaria seus bens moveis e imrnoveis, e tracta de dar-Ibe um 
destino qualípier, afim de ulilisal-o. E isto perfeitamente justo, por 
isso que pertencem, segundo a lei. ao estado as rendas e os objectos 
existentes nas casas religiosas extinclas pela lei de iSir». E é justo 
também, e direi até necessário, que esses edifícios sejam aproveitados, 
visto que o deixal-os sem applicação seria a sua completa ruina, além 
de ser a negação dos principios económicos, o que vale o mesmo que 
dizer um contrasenso. Mas não só deve presidir á destinação d"ura 
antigo mosleir'o toda a cir'Cumspecção. afrin de ser idónea a applicação; 
senão lambem, qirando lia necessidade de apropriar ao seu novo des- 
tino o editicio, proceder aos reparos e modificações de modo que se 
se não vão prejudicar as partes d'elle consideradas como monumentos 
históricos. Um exemplo recente demonstra esta asserção. 

Havendo passado aos próprios nacionaes o real mosteiro de S. Di- 
niz dOdivellas. que em 1295 fundara o rei lavrador, foi o edificio ba 
pouco cedido a urna instituição qualquer para recolhimento de mulheres; 
sendo talvez razoável a applicação, que não preteridos discutir. Para 
que, porém, o antigo mosteiro podesse melbor adequai--se ao seu 
novo destino, julgou se conveniente pi'oceder a algumas modificações 
nelle. Nessas alter-ações todavia não se tem atlendido ao que era pu- 
ramente necessário para a apr'opriação, de modo que se teem praticado 
alli alguns attentados censuráveis. Por exemplo, a casa cbamada da 
madre Paula, que começou a ser expoliada (como em geral o foi a 
egr-eja e o resto do mosteii'o) pela abbadessa Anchieta, desappareceu 
completamente para alli se fazer alguma casinha muito nova. muito 
estucada, aonde talvez resida a superiora do recolhimento. Não é po- 
rém desses e idênticos attentados que eu falo; mas. sim. d'outros que 
alli se estão praticando e vão praticai--se, segundo me consta, os quaes 
são vandalismos deveras repugnantes. 

Não se supponha referi r-me eu á projectada restauração do tumulo 
do fundador, para o que se está procedendo a trabalhos preparató- 
rios. O tumulo d'el-rei D. Dinis, que está no abside lateral do lado do 

Rev. Arch. e Hist., I, N.° 12 — Dezembro 1887. 12 



i78 líEVISTA ARCHEOLOGICA 

evangelho, conservava-se desde lo?igos annos terrivelmente mutilado, 
quando a rainha D. Estephania ordenou a sua reparação. A reparação 
foi um verdadeii'0 altenlado; fizeram ao rei D. Dinis uma cabeça de 
gesso, com uma barba muito penteada e frizada, mãos e pés de ges- 
so, etc; sem que ao menos houvessem prociu^ado reproduzir as fei- 
ções dadas á estatua do monarclia pelo artista primitivo. Longe d'isso 
lançaram á margem um pedaço do rosto que ainda existia. 

Agora, trata-se de restaurar o tumulo. Divergem muito as opiniões 
entre os archeologos sobre se se devem conservar as antigas estatuas 
no estado em que os tempos noi as teem legado, ou se se deve proce- 
der á sua restauração fazendo desapparecer as mutilações que teem 
soffrido. Ambas essas opiniões são sustentáveis, e não entrarei aqui 
na apreciação das vantagens e dos inconvenientes que uma e outra 
proclamam. Limitar-me-hei a dizer duas verdades: uma, que nenhum 
artista se atreveria a restaurar a Vénus de Milo; outra, que dadas cer- 
tas e determinadas circumslancias muito complexas, se pode restaurar 
uma estatua até ao ponto de refazer muitas das suas mais insignifican- 
tes particularidades. 

A estatua tumular do rei lavrador é uma das que pode ser res- 
taurada : a maior difllculdade a vencer alli é a representação do rosto. 
Se não houvesse fragmento algum da cabeça, opinaria d'outro modo, 
porque seria absurdo apresentar como retrato de D. Dinis uma mas- 
cara qualquer. Mas, pois que ultimamente appareceu um pedaço do 
rosto da estatua-retialo do rei (parte da face direita, comprehendendo 
a maçã do rosto, metade dos beiços, e uma porção de barba), ainda 
um escuiptor hábil e estudioso pode restabelecer o semblante de D. 
Dinis, com grandissimas presumpções de verdade. Consta-me que o 
encarregado da restauração do tumulo é o sr. Simões de Almeida. 
Espero que este distincto escuiptor se desempenhará brilhantemente 
d*uma empreza cujas difíiculdades são enormes, e cuja responsabili- 
dade só pode acceitar um artista consummado. 

Não trato pois do monumento sepulchral do fundador de Odivel- 
las, visto haver motivos para espeiar (pie a restauração d'elle terá 
bom êxito. Tenho porém a mencionar um grande attentado já execu- 
tado contra as leliquias d.1 primitiva egreja do mosteiro. 

Contigua á abside onde está o tuuudo do fundador, existe uma 
capella (de que foi instituidor no secido xvi um cavalleiro por nome 
Nicolau Soares Kibeiro) para a qual será transferido o tumulo real. 
É nessa capella que se praticou o attentado. Picolaram as paredes !... 
Que isto se fizesse numa aldeia, longe da capital, ainda poderia attri- 
buir-se o facto á estupidez d"algum regedor ou sacristão, ou coisa se- 
melhante. Mas que em Odivellas, a duas léguas de Lisboa, num mo- 
numento como a fundação de D. Dinis, e por occasião d'obras maiuJa- 
das executar pelo governo, se piquem as paredes d'aquella capella, é 
o que merece toda a censura. 



E HISTÓRICA 170 



Picolar as paredes d'uma edificação do século xm! 

Pois não é nnihar a um moiiiimcnlo todo o sen merecimenio, o ti- 
rar llie a patina (pie os séculos depozerani nas suas |)aredes? Preju- 
dica ao aceio a còr parda que teein as pedias dos edilicios e monu- 
mentos antigos? Pois é mais magestoso, mais sublime, o templo em- 
bianquecido, brunido á moderna, do rpie conservando em cada uma 
das suas pedias o cunho da antiguidade, a data da sua construcção "? 

Picolar as paredes d"um aniigo edilicio »"' uma falta de gosto artis- 
lico, é uma prolanação, é uma completa demonslração de ignorância 
dos preceitos, estabelecidos pelos mestres, do modo cítmo se deve pro- 
ceder á reparação e conservação dos monumentos históricos. 

Entre nós pouco se estuda em geral; mas menos que ninguém a 
maior parte dos nossos artistas. Desde que deixam o banco da escola, 
suppõem-se mestres, e mestres não só na sua arte, mas em tudo: são 
até litteiatos. Lêem (quando lêem) novellas, ou quando muilo alguns 
esciiptos, que com o nome de historias por ahi se puldicam, minis- 
trando muitíssimas vezes informações erradas; mas não lêem os livros 
que poderiam instruil-os na arle a que se dedicaram. 

No caso subjeito — e pondo já de parte a questão do gosto artís- 
tico e a ideia de piofanação ; a primeira, por ser geralmente falta na- 
tural, a segunda por falta de com[)reliensão d'ella — no caso subjeito, 
bastaria o coniiecimento dos preceitos estabelecidos pelas pessoas com- 
petentes, para haver a abstenção de prejudicar aquella relíquia da fun- 
dação de U. Uinis. Se quem ordenou (pie picolassem aquellas paiedes, 
houvesse meditado a obra de Mantalembert dii Vanda liínm; et du Ca- 
íholicisme dans lArt ; se houvesse lido o Mannd de farcIíHecte des mo- 
numents religieux de Smith, e a obra do mesmo andor que tem por ti- 
titulo les Éfjlises golhiques, onde ha um capitulo inteiro expressamente 
feito contra a caiação e picolagem das egrejas : se houvesse tomado co- 
nhecimento da circular expedida pelo governo francez em ;2G de, fe- 
vereiro de 1849, decerto que, apezar da ausência do gosto artístico 
6 da ideia da profanação, deixaria de ordenar o attentado a que me 
tenho referido. 

Um dos mais notáveis archeologos que teem havido em França, 
Raymundo Bordeaux, diz no seu livro Trailé de la répnration des éfjli- 
ses as seguintes palavras, que transcrevo fielmente, e que os restaura- 
dores de egrejas devem pesar convenientemente : «II ne faut pas croire 
que le badigeon et le grattage appliqinjs sur des surfaces unies n'aient 
point dautre inconvénient que celui de changer la teinte des murail- 
les. lis atíèrenl encore le grain et les lailles des parements. L'oulil de 
Touvrier dans les travaux soignés darchitecture se fait sentir sur la 
pierre, comme le ciseau et la rape du statuaire sur le marbre. Cha- 
qiie époque, chaque style portent la trace de procedes qui dilTèrent. 
Les tailles antérieures au xui° siècle sont faites assez grossièremeut 
et au taillant droit; celles du xni'' à la grosse hrelture et layées avec 



i80 REVISTA ARCHEOLOGICA 

une grande précision ; l;i surface des pierres, converte le slries qui 
se coiipenl carrenient, ressemble alors à du gros canevas et presente 
iin grain aiissi rúgiilier (pie celiii des liacluires dune gravure. Les 
tadies dn xiv"" siècle sonl huii''es \\ la hretture jute avec pliis de nelleté 
encore ; celle du xv, à la hrcllNn' et aii rúcloir. Les retailies, les 
gratlages faites apròs coup allèrent la physionomie des paremenis et 
la forme des profils. II n'est pas de plus sin- moyen de discerner 
les parlies restées inlacles de celles qui ont élé reslaurées (}ue de 
rechercher les tailles primilives conservées sur les pouils peu acces- 
sibles ou masques. Le grallage, toléré quelquefois sur les parlies unies 
des égiises, a donc aii moins rinconvénienl, cndoniiant aux murailles 
un aspect nonveau, de leiír ôler toul caractere d'aullienticilé» '. 

Fez semelhantes ponderações quem mandou picolar as paredes da 
capella onde jaz Soares Ribeiro? Não, Assim conio não considerou lam- 
bem que desappareceriam sob a picola as cifras de canteuos. 

E as paredes d"essa capella estavam pintadas, não a cuspido ama- 
rello e pardo como as freiras mandaram fazer nos dois absides late- 
raes; mas com uma pintura de perto de cinco séculos, onde sobre 
fundo verde escuro realçaviuii flores de lys de ouro. E pensou nessa 
pintura quem ordenoe a picagem das paredes? E não leflecliu no que 
podia significar tal pintura? Essa pinlura não lhe trouxe á memoria a 
infanta D. Filippa de Alencastro, íillia da desditosa viclima de Alfar- 
robeira? Não. decerto. 

Nas paredes interiores d'esta cnpella (como se encontram também 
em grande numero no interior e exterior dos absides) havia muitas 
cifras de canteiros, esses signaes que os obreiros gravavam nos can- 
tos que trabalhavam, para serem reconhecidos na contagem. A picola 
destruiu, apagou inteiramente essas cifras, como obliterou a pinlura 
e como fez desappaiecer o trabalhado da pedra. Felizmenle poude eu 
conservar, entre os setenta e quatro calcos que possuo d'essas ci- 
fras ^, algumas das da mencionada capella. Colhi-as durante o tempo 
que permaneci no mosteiro, para proceder á moldagem e copia dos 
seus monuajentos epigraphicos. Aproveito gostosamente a occasião 
para agradecer aqui a S. Ex.^ o Ministro da Fazenda, sr. Conselhei- 
ro Marianno Cyrillo de (^larvailio, o haver permillido que eu alli fosse 
fazer estudos e executar trabalhos, de que resultou não se perderem 
inteiramente algumas memorias do famoso mosteiro. 

Não é só a capella mencionada, que é victima do vandalismo. 

1 Bordeaux, Traitij dt^ la n-panition des rglises. pag. 15o-irj6 (nlliina edição). 

2 Yi'j. a est. XIX. K quasi (vi-(o (|ii(( varias cilVas estão duplicadas, iiãu tendo si- 
do as mãos d'algi)ns obi-f^ros siiniineiiteriKMile hábeis para executar o seu signa! sem- 
pre com uniformidade. O leitor, que S(í dér ao trabalho de lazer algumas compara- 
ções, que a disposição das cifras já facilita, concluirá o mesmo. Lomipianto eslas ci- 
fras não sejam das mais cotnplicadas ou ornadas, nem por isso deixam de ser. na 
maior parti', muito intcressanlf^s. Cerca d"umá quarta parte são evidentemente lellras 
iniciaes dos nomes dos canteiros. 



E HISTÓRICA IHl 



Na casa do capitulo entre as dezesete sepulturas (jue alli existem, 
ha uma, a da terceira ahljadessa do mosteiro, cuja lapide tem na orla 
o epilaphio o ao centro gravada a ligura da fallecida. Ksla lapide pre- 
ciosa, por ser no seu género uma raridade em Portugal, está desti- 
nada a íicar no mesmo^^logar em (juo se acha, sendo todavia coherta 
pelo laboado geral que cohrirá o chão, para adequar aquelle logar a 
dormitório ou a alguma ollicina. Se áquella lapide se desse a devida 
importância, seria ella dalli transferida para uma das paredes da 
egreja, onde collocada ao alto se conservasse convenientemente. No 
logar d'ella por-se-hia outra onde se copiasse em lellra moderno a 
epilaphio; e no sócco em que assentasse a primitiva, se declararia 
qual o logar em (pie estivera. Mas nada d'isso se íaz; e se o auctor 
d'estas linchas não houvera lido occasião de lirar um calco dessa la- 
pide, d'aqui a pouco ninguém teria tido meio de admirar esse antigo 
monumento. E aquella p"edra não é notável só por sua antiguidade. 
Hoje os pedreiros e outros operários que procedem á composição do 
telhado da casa do Capitulo, lirmam sobre essa lapide sepulchral as 
pesadíssimas escadas de mão, arrojam-lhe em cima os maços, os mar- 
tellos e as traves, as pedras caem do alto sobre ella, e a lapide assim 
se váe lascando, assim se vão perdendo a uma e uma as lettras que 
restavam da inscripção, a segunda em antiguidade que no mosteiro 
existe. 

Pára aqui o vandalismo? Ainda não. 

No pórtico da egreja, á direita de quem nesta entra, vè-se um 
enorme pelouro embebido na parede e por baixo delle, uma lapide 
com inscripção que refere tel-o mandado alli offerecer a S. Bernardo 
D. Álvaro de Noronha, sendo um dos com que os mouros combate- 
ram em 1552 a fortaleza de Ormuz, que eUe capitaneava. 

Esse mesmo pelouro que alli foi collocado ha pelo menos trezen- 
tos e trinta annos, váe dalli ser tirado, para naquelle logar, que lhe 
pertencia por direito de posse, se abrir uma janellal. . . 

Pois nem o ser a expressão de voto dum valoroso porluguez, que 
honrou a sua palria, pois nem o ser uma prova do que valeram os 
nossos maiores, pois nem o ser o testemunho da fé, da coragem, do 
amor pátrio, que os animava em longes terras na defeza do Deus em 
que criam e no augmento da naciona^^lidade com que se ufanavam, pois 
nada disso é bastante para que se deixe onde está essa memoria, a 
única que hoje nos resta do nosso dominio na famosa Ormuz? 

Se para comvosco não valem os monumentos das nossas glorias; 
se para vós é uma palavra vã o patriotismo: se desconheceis o que 
seja veneração pelos documentos históricos; não reconhecereis ao me- 
nos que aquelle pelouro tem direito á conservação naquelle logar, por 
uma posse de tresentos e trinta annos pelo menos? 

E para que deslocães d'aqui o pelouro; para que ides affastal-o do 
logar que lhe assignou quem foi mais crente que vós; para que? 



182 REVISTA ARCHEOLOGICA 

Para abrir uma janella d'onde as regeneradas gozem a pasmacei- 
ra dos mandriões que demorarem no alpendre? 

Rasguem janellas não só alli, mas também na capelia-mór, nos 
absides e nessa capella que já limparam a picola. Façam entrar jor- 
ros de luz nessa pequena capella, que era a única pertença da 
egreja que ainda ha dois mezes conservava caracter de antiguidade. 
Façam tudo isso; mas, pondo-se de parte a modéstia, grave-se no 
logar mais visível da capella o nome de quem quer que ordenou taes 
obras. 

Borges de Figueiredo. 

CONSTITUIÇÕES 

No primeiro numero da Revista disse eu já algumas palavras acerca das «consti- 
tuifões dos bispados", na breve advertência que prepuz ás Constituições do arcebis- 
pado de Lisboa, decretndas por D. João Esteves de Azamlnija. Mal pensava eu que 
poderia aqui apresentar aos leitores um documento imporlantissimo, em que se tra- 
ta das constituições do mesmo bispado no século xiv. É uma composição entre o 
prelado de Lisboa D. Gonçalo d'uma parte, o rei, a nobreza e o clero d'outra parte, 
acerca de certas moditicações feitas pelo bispo ás constituições decretadas pelos seus 
antecessores. O instrumento ascende a 9 de setembro de 1324. 

Poderia acompanhar o original d'uma traducção; mas creio isso desnecessário, 
considerando que as pessoas a quem a leitura interessa inuuediatamente, não podem 
desconhecer a lingua latina. De mais a mais a versão é facílima. 

Eis o documento : B. de F. 

In nomine domini amen. Nouerint vniuersi presentis intrumenti 
seriem inscripturi, quod cum in presenliam mei Dominici iohannís 
auctoritate regali publici et generalis tabellionis in regnis portugalie et 
algarbii et testium subscriptorum ad infra scripta audienda et uidenda 
specialiler vocatorum coratii illustrissimo príncipe domino Dionísio dei 
gralia rege portugalie et algarbii ex parte ipsius domini regis et ali- 
quorum clericorum et laycorum ciuitatis et diocesis vlixbonensis pro- 
ponetur et dicetur quod reuerendus pater dominus G. dei gratia 
vlixbonensis episcopus qui presens erat in sinodo sua per ipsum cele- 
brata die lune tercia die istius mensis Septembris concurrentis cum 
duobus sequentibus diebus, quasdam constituciones per predecessores 
suos editas et penas contentas in eis innouaret ac alias suas constitu- 
ciones nouiter fecerat certis penis adiectis quas idem dominus rex in 
sue iurisdicionis derogacionem et aliqui clerici et layci in suum preiu- 
dicium rediHidare dicebant. vnum et dicebat dominus rex et alii sup- 
plicabant quod ipse episcopus penas in predecessorum suorum et suis 
constilucionibus contentas, duceret reuocandas prefatus vero episcopus, 
respondendo proposuit quod innouationes et constituciones per ipsum 
edite et publicate erant consone canonicis slalutis per quas diuini cul- 
tus augmentum saltem animarum et ecclesiarum perfeclum, morura 
honestates, criminum et excessuum correpciones ad fórum ecclesiasti- 



E HISTÓRICA 183 



ciim spectantes in meliiis aiigmentari, prociiiari el ruformari uolebat 
absqiie iuris preiíulirif) aliciiius [)tf)iil in t3oriiin IciKirihiis li(|ii(!re po- 
teril eiiideiilLT. Tandem posl aliijiios liaclaliis liahilos liinc, iii(l(.'. [)re- 
faliLS episcopiis vulcns duas consliluciones doniini Joliannis pred(!ces- 
soris siii (jLic secunliir inferius cum punis siiis in suo roljuro jiciina- 
nere. Ad inslanciani prefali domini regis et ad supplicalionem cleiico- 
rum et laycorum sn|)er hoc siipplicantiuni, penas et s(ínleniias [x-na- 
les qne in oninil)i.is aliis [iredecessorum suui lun el dnahns suis consli- 
tiicionihns (luaiiini una volenles iurisdicionein el noslra el noslre eccle- 
sie vlixhonensiselcelera reNíjua ueio. liem i rohibemnsipjod nullus cle- 
ricus qui se grauatumassignat elcelera. inci[)iunl, conlmelur. suspendit 
et uoluit (isi>e suspensas quousque aliler ducerel ordiriandum duahus 
conslilucioniljus domini Joliannis predecessniis sui quatiim una incipit, 
cumsacerdolalis etcelera, reli(]ua uero incii)il. liem cum inlelleximus re- 
dores noslre diocesis et celera et aliis conslilucioniljus per ipsum domi- 
num episcopum in predicla sua synodo editis et publicalis cum suis 
senleuciis et penis in eis contenlis in suo robore perpetuo duraluris. 
Dixit eliam quod per suas consliluciones in predicla synodo editas et 
publicatas. non inlendebal iuri alicuius in aliquo derogare. De (luihus 
omnibus diclis dominus episcopus mandauil f)er me labellionem pre- 
dicium fieri lioc publicum iustrumenlum, aclum vlixbone in palaciis 
predicli regis, nona die mensis Seplembris sub era millesima irecen- 
tesima sexagésima secunda, presenlibus. prefato domino rege. Gun- 
saluo petri maiordomo domine lielisabelbis regine. Slephano de Gar- 
dia, Joliaiine dominici de begia, Laurenlio menendi meyrino maiori, 
Johanne laurencii, Slephano arie, fernando roderici prelore, jolianne 
fernandi et petro canaual aluazilibus ciuilalis vlixbone, francisco domi- 
nici priore saneie niarie de alcaçeua Sanctaren ac dicti domini regis 
cancellario, magislro egidio ihesaurario vlixbone, slepliano marlini ca- 
nónico visense, al'"onso dominici salgado canónico silvense marlino al- 
fonsi reclore ecciesie caslri de vile clericis, petro iohannis Uominico 
petri et Laurenlio marlini labellionibusgeneralibus prefali domini regis 
et pluribus aliis. Et ego Dominicus ioliannis labellio supradiclus de 
peimissis omnibus et singulis quibus rogalus vna cum diclis leslibus 
presens interfui. hoc publicum inslrumenlum manu própria scripsi, 

signoíjue meo consuelo signani quod tale est. in lestimoninm 

omnium premissornm. 



184 REVISTA ARCHEOLOGICA 

D. MECIA LOPES DE HARO 
II 

Durante doze aiiiios esteve D. Mecia casada com D. Álvaro Peres 
de Castro (caso não a tenha repudiado, o que não consta), pois que 
este, congraçado depois do cerco de Paredes com o rei de Casteíla, 
ainda era vivo em 1^10. Se sempre reinou boa paz entre os dois con- 
sortes, não se sabe ao certo; ba todavia motivo para presumir que os 
ardentes eflluvios do amor haviam de todo passado. Esse motivo de- 
prehende-se do que vae lêr-se. 

Em 1:238 D. Álvaro eslava em Toledo, junto do rei Fernando in, 
ao passo que sua mulher se conservava no castello de Martos, próximo 
de Córdova, em companhia de um seu sobrinho, de nome Tello, e 
apenas com um pequeníssimo numero de homens darmas. Ê para 
exlranhar que D. Álvaro deixasse sua mulher tão pouco resguardada 
na fronteira da moirama. Acodem ao espirito dúvidas sobre as boas 
relações entre os dois esposos; íicando-se na ignorância das causas do 
fado. I)en-se, porém, alguma das seguuites circumstancias, d"entre as 
quaes o leitor acceitará a que mais lhe agradar: Talvez D. Álvaro fosse 
a Toledo por breves dias ; nesse caso commetteu a imprudência de 
deixar a mulher sem sufficiente defeza no castello. Talvez, desgostado 
de D. Mecia, ou, considerando perigosa a presença d'ella na corte, a 
quizesse conservar aífastada d'alli. Talvez, rotas as relações intimas 
entre elles, de commum accordo se quizessem conservar separados. 
Talvez, finalmente, que a própria D. Mecia por algum capricho, de 
sua própria vontade quizesse estar retirada da corte. Não podendo eu 
acceitar a primeira circumstancia, só considero prováveis a segunda e 
a quarta hypotheses, opinando ainda por aquella. O caso é que o fa- 
cto se deu. 

Tello, o sobrinho, mancebo ardente, ou pelo desejo de illustrar-se, 
ou por outro qualquer motivo, saiu em certa occasião do castello 
com alguns homens, a fazer correrias em território moirisco, deixando 
sua tia sem servidores bastantes para defendel-a em caso de ataque; 
procedimento que só pôde explicar-se e relevar-se com o estouvamento 
e imprudência dos verdes annos; que não era só a sua existência que 
eile arriscava mas ainda a da sua parente. Talvez infoirnado de que 
o castello licara sem guarnição, o wali de Arjona, Al-IIamar, apre- 
sentou-se a assediar a praça, que não poderia oppor senão a fraca 
resistência das suas muialhas. Nesta conjunctura revelou-se bem o 
caracter animoso e aventureiro de D. Mecia. Temendo o assalto, poz 
em execução um estratagema para amedrontar os moiros : envergou 
uma armadura, ordenou ás suas serviçaes que fizessem outro tanto, e 
foi com ellas vaguear pelas ameias do castello, para fazer crer aos 
inimigos que a guarnição era numerosa. Ao mesmo tempo conseguiu 



E HISTÓRICA 185 



enviar um emissário ao sobrinho, a avisnl-odo perigo rpie corria, para 
que se apressasse a ir soccorrel-a. Kiiiíanados os moiros peio ardil da 
biscayntia, não se allreveram logo a dar o assalto ; e isto deu tempo 
a que Tello regressasse com a sua gente. Ksla, amedrontada pela su- 
perioridade das tropas moi riscas, sò pensou em retroceder, e o moço 
Telles não teve a força suíTiciente para contel-a; felizmente porém um 
cavalleiro de nome Diogo Perez de Vargas mostrou ler bastante au- 
cloridade para obrigar a tropa a cimiprir o seu dever. Vov íim foi for- 
çada a moirama a levantar o assedio. 

Esta estada de D. Mecia longe da corte, (juando o seu génio gar- 
rido e ambicioso devia desejar um meio mais brilhante do que o do 
isolado caslello de Martos, fazem acreditar que seu marido linha mo- 
tivos para conseival-a distante do bulicio e explendor dos paços reaes. 
Pois d^oiitro modo não se pôde comprehender que uma mullier joven 
e formosissima, e cuja virtude tudo concorre para considerar negativa, 
se fosse expontaneamente estabelecer na solidão d'um castello, e ape- 
nas defendida por um diminuto numero de homens d'armas. 

Em 1240 ficou D. Mecia viuva. D. Álvaro Perez de Castro, que 
fora encarregado de certa missão na Andaluzia, morreu d'uma curta 
doença em Orgaz, sem ter junto de si sua mulher. Livre, e sem filhos, 
de génio desenvolto, é natural que D. Mecia [)rocurasse, para eslabe- 
lecer-se, esse meio por que tanto almejava. Passou pois á corte da rai- 
nha D. Berengaria, mãe de Fernando m de Castella, como dama de 
honor. 

Borges de Figukiredo. 



MONUMENTOS EPIGRAPHICOS DE BEJA 

Registro hoje na Revista dois monumentos epigraphicos da antiga 
Pax Júlia. Foram-me clles communicados pelo sr. João Tavares Lan- 
çi, residente em Beja. a quem aqui dirigo sinceros agradecimentos. 

1 — Cippo fimerario de cerca de «um metro dallo e largura cor- 
respondente». Foi ha pouco tirado do lugar em que estava, que era 
na soleira d'uma porta do paço episcopal (jue dá para uma cerca;... 
por fortuna serviu de soleira, mas de costas para cima»: 

Dr M S ti? D{iis) M{anibiis) S{acrum) \ Helaeria \ nus 

H E L A E R I A an \ norimi XII \ h{ic) s{itus) e{st) s(it) t[ibi) 

N V S A N N urna t{erra) l{evis). 

O R V M X I I Aos deuses dos mortos. Aqui jaz Helaeriano, 

HSAESrT^TrL(í? fallecido de doze annos. Seja-lhe leve a terra. 

2 — Numa «pedra de forma irregular, que parece ter tido appli- 



186 



REVISTA ARCHEOLOGICA 



cação diversa da que leve na primitiva, está a inscripção e moldura 
que a guarnece relntraute. . . A moldura lerá uds O™, 50 de lado» : 



SERAPI PANTIEO 

SACRWV 
iNHONOREMGrMA 
RI r PRISCIANI ^ 
STEP-ÍA/A PRISCA 
MATER FILlI 
INDVLGENTISSIMI 
D D 



Serapi Panthco \ sacriim. \ In honorem Gaii Ma \ 
ri[i) Prisciani \ Stephana Prisca \ mater filii \ in- 
didgcntissimi \ dcdicarunt. 

Consagração a Serapis Pantheo. Em honra de 
Gaio Mário Prisciano, fizeram a dedicação d'este 
monumento sua mãe Stephana Prisca e seus filhos 
amantissimos. 



Esta inscripção, de que eu já linha ha algum tempo visto uma co- 
pia incorrecta, mas da qual possuo um calco devido á obsequiosidade 
do sr. Lança, creio estar (como a primeira) inédita em Portugal. Não 
poude verificar se já foi publicada no extrangeiro. Esta é sobretudo 
interessante pela consagração a Serapis Pantheo, Sobre Serapis pode 
ler-se com proveito a obra de Dupuis, Origine de tons les culles, vol. 
ui, pag. 508 e segg. 



Lisboa, 25 de novembro de 1887. 



Borges de Figueiredo. 



ERRATAS 



Pag. 



4, 
10, 

;)tí, 

o4, 
54. 
õ'í, 
54, 
54, 
54, 
54, 

55, 

57, 

82, 

109, 

109, 



inli. 9 lale assumptos. 

U '• escala e descripçSo. 
11 .la iiis.^ripção /í^í/c li A S I L E V S. 
() Inle iTÍova. 

10 .. Cnrm. lu, 23. 

11 » Pliidyle. 
Ití >» Episi. II, 1, V. 143. 
17 » Silvanuin. 
20 .. Faat. I, 349. 
27 » depois de prenhes, lede vista a fertilidade, a fácil concepção o 

a utilidade d'oste animal. 

17 .. í;ae0. 

29 » D. Sancho ii. 

13 .. DM- Ai. 

29 » IDVS. 

32 .) Aspice q{u)ia q{iio)d es fui et q(uo)d su{m) eris. 



O amuleto romano representado na est. 
do original em bronza. 



reproduz exactamente as dimensões 



r/^/ÃM^ciLenist. 



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Kev. Arch.e Hist. 



Est.IV 




Moruitnefitos epi^raphuo,': de Ti'ii 




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Rev. Arch.e Hist. 



Est. VI 








Monmne^ltos tfv^ji<iphu<>s rJc Tirij 









MecMuíc âe^D.Àffhns: I 



Rev. Arch. e Hist. 



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CERTAMÍNE- ET 
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Rev. Arch. e Hist. 



Est. Vil 










Iiiscnpf/MsesiprihoJ o.s qraifochhi em veflra.s do. Citiuvua- 



Rev.Arch.eHist. 



EstiX 




Ara ivnuuui de&colMrta er>i Ca^slro Dairc cm ]^1] 





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PACE bNlc^^^ 
V"'M4LSEPT[ft 



Dinhu ro de D. San-cJw II. 



Inscfipçdo chri^td de. Mertvlcu 



Re V. Arca e riist. 



Est. X 




Amuleto romana' 



Rev.ArGh.6Hist. 



EsL. Kí 











D J-oâxf I 
Fracriíes dor&al 




Tijolo dfscohe rto proxi mo fh .I/rmtnier. 



Kev.ArckeHist. 



EotXII 




Cipjxi fiuuJxirio 1 'oman o, -descoberta) (Jiv lixuv 



Moexlcis At D. xJoão I. 




Rev Arch.eHist. 



EstXni 



^iiJl^^éírffRtmiEET! 



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Epilaphi-o <?<9 sr-culo Xíí 



Rev.Arch.€Hist. 



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D. Duarte ~ Bem.í Br-anro^ 



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Est. XV 



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d.Jffoivso V. 
Km£S arafsos e maosrtaes oiv chirn/roTis 



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Rev.ArckeHisL 



Est. ZVI 





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REVISTA 



ARCHEOLOGICA 



ESTUDOS E NOTAS 

PUBLICADOS SOB A DIRECÇÃO 
DE 

A. C. BORGES J) E FIGUEIREDO 

Bibliotbecario da Sociedade de Ueograpbia de Lisboa 



VOLUME II 

1888 



LISBOA 

Adolpho, Modesto ff C." — Impressores 

Fornecedores da Sociedade de Geographia 

Rua Nova do Loureiro, iS a 43 

1888 



ADVERTÊNCIA 



Todos os srs. collaboradores e muitos dos srs. assignanles, 
que possuem o volume intitulado Revista Archeologica e histórica 
publicado no anno de 1887, manifestaram o desejo de se dar ao 
presente volume um numero de ordem que obviasse a qualquer 
futura confusão em referencias ou citações. Attendendo a tão jus- 
to desejo sáe o presente com a numeração VOLUME II, comquan- 
lo a Revista Archeologica nada lenha de commum com a outra 
publicação alludida. 



índice 



I — Por matérias 

Pag. Est. 

A Feira da Ladra lil 

Antiguidades de C.arquere 113 VI 

Aiiligiiidades phoiiicias e romanas na Península 6, 19 

As grades de Santa-Criiz de (Coimbra o8 

As Laoohrlgas da Lusitânia 173 

Aspedras-haloiçantes 1 gr. 

Bibliographia 79, 111, 127, 131, IW. 185 

Convento das Flamengas etn Alcântara. Os andiitectos Frias. . 70, 10o. 1 16 

Da origem do estyi(t gothico 178 

Fecho de abobatia, em Odivellas 14á VII 

Inscripções de Alcácer do Sal 69 

Inseri pçtít^s de Lamego e de Quintella de Penude 170 

Las diez ciudades bracarenses nombradas en la inscripcion de 

Chaves 81 mappa 

Miscellanea: 

Inscripção de Aeminiun 109 

» (^onimbriga 110 

Pax Júlia". 111 

» Aeminium 12S 

Myrtylis.. 126 

Tessera curiosa 181 X n." 1 

Real preto de D. Duarte cunhado no Porto 184 

Annei com inscripcão 18i 

Monumento d'uma lillia de D. Dinis 

Nova inscripção christã de Mertola 

Numismática porlugueza. D. Duarte 

Pontevedra monumental 

Sello antigo de Ferreira do Alemtejo 

Sepulchrns antiguos de Cadiz 

Sepultura de D. Orraca Paes, abbadessa de Odivellas 

Sobre uma forma do sicastika 

Um monumento de Aeminium 66, 123 

Uma inscripção lusn-romana de Panoias 50, 69 

Una inscripcion Cristiana inédita de Málaga 129 

Visitação do arcebispado de Lisboa (Século xv) 8. 22 

II — Por nomes d^auctores 

Berlanga (Dr.) — Sepulcros antiguos de Cadiz 33 

— Una inscripcion Cristiana inédita de Málaga 129 



18i 


X n.o 2 


17 


I 


65 




19 


I 


143 


VIII 


78 


V 


33 


II e III 


51 


IV 


60 


gr- 



VI índice 

BoRtíKS UK Fuur.iHF.no — As pedras haloiçantes 1 

— Mnmiiiifiilo (liiiiia lillia de 1). Dinis 17 

— Sepnltuia lU' 1). (Mraca Pai's. abbadessa de Odivellas. . 51 

— Schrt' unia IVnina do swasitika 00 

— Tm iiionuiiifnto dt' AtMiiiiiiiwn 66, 12a 

— iMsrriprõfs de Alcarer do Sal 69 

— Sfllo :ui(ij:i) do Ferreira do Alenitejo 78 

— Fecho de altoliada, em Odivellas 14á 

— Iiiscripções de Laineijo e de Quintella de Penude 170 

— Biblit-^irapliia .^ 79, Hl, 127, 131, 143. 18o 

— Miscellanea 109, 126, 184 

Cloqi'et (L ) — Da origem do esl^lo gnfliico 178 

Fehnamhíz-Giehha V ÓRni: (D. Aureliaiio) — Las diez ciudades bracarenses 

nombradas en ia inscripciúri de Cliaves 81 

tioMKS DK Brito — (lonvenlo das Flamengas em Alcântara. Os architectos 

Frias 79, 105, 116 

IUíhnrr (E.) — Antiguidades plienicias e romanas na Península 6 

— >!()va inscripção ebrislâ de Mertola 65 

Leite dk V-^sconcullos (J.) — Uma inscripção luso-romana dePanoyas... 50,69 

— Antiguidades de Carquere 113 

Hne.HA Espanca (J. J. da) — As Lafobrigas da Lusitânia 173 

Santa .Mónica (Visconde de) — A Feira da Ladra 141 

Sousa Vitkrbo — As grades de Santa (^ruz de (loiínlira 58 

ViLLA-AMiL V (Iastro (D. José) — Pontevedra monumental 143 



CORRECÇÕES E ADDITAMENTOS 

Pag. 



5. 


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ha 2 = 


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. Chamam-lhe Pedra da ]í)'r.i 


17, 


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lede MONUMENTO 


29, 


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33 = 


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lencooes. 


53, 


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18 = 


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LXXVIIII 


54. 


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14 = 


., 


1760 


67, 


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32 = 


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pttb(licap) 


67. 


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pot(estatc) 


73, 


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18 = 


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preclaro 


73, 


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ainda ha que 


74, 


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conhecida 


75, 


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Geneal. 


76, 


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é facto 


76, 


» 


ultima = 


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o illustram 


77. 


1, 


1 4 da 


mscripção = lede PERPETVO 



REVISTA 



ARCHEOLOGICA 



AS PEDRAS-BALOIÇANTES 

Entre todos os monumentos megalithicos conhecidos pelos nomes 
de mcnhirs ou peidvans, alinhamentos, cromlechs, antas ou dolmens, 
galerias cobertas, e loghans ou pedras-baloiçantes, são estes últimos 
considerados os mais raros. 

Em França conhecem-se algumas pedras-baloiçantes, entre as quaes 
mencionarei a de Fermanvilíe (Mancha), a de Livernon (Lot), a de 
Saint-Estèphe (Gironde), a de Uchon (perto de Aulun) e a de Perros Guy- 
rech (Cote du Nord). 

Na Inglaterra, é principalmente notável a pedra-baloiçante do cé- 
lebre condado de Sussex. Esta, cujo peso se avalia em quinhentos 
mil kilogrammas, é chamada pelo povo great-upon-little (o grande so- 
bre o pequeno), alludindo ao facto de ser relativamente de muito me- 
nores dimensões a pedra que serve de supporte. 

Na Hispanha, ha, além doutras, a de Abra e as de Boariza (Piedra 
grande e Piedra chica), na província de Santander; duas nas ilhas de 
Bayona, na Galliza; e outra perto da vilia de Luque (Coruova). 

Em Portugal tenho conhecimento de duas: uma na quinta da Torre, 
freguezia de S. João de Lourosa, do concelho de Vizeu, d'onde distará 
5 kilometros, e pertencente ao visconde de Taveiro» *; a outra numa 
herdade de Carragozella, freguezia de Espariz, concelho de Tábua. 
D'outras mais tenho tido noticia por varias vezes; mas as indicações 
teem sido tão vagas que não me atrevo sequer a aponlal-as. 



* Noticia no jornal O Conimbricense^ n." 3910, de 10 de fevereiro de 1885. 
Rev. Arch., n." I — Jan. i888. i 



REVISTA ARCHEOLOGICA 



Consiste o monumento chamado pedra-baloiçaníe numa pedra de 
grandes dimensões collocr.da sobre outra em taes condições de equi- 
líbrio, que oscilia levemente a um certo impulso. 

Quatro variedades ha d'esta espécie de monumentos, que importa 
conhecer. 

Ha pedras-baloiçantes : 

1) Que, assentando horizontalmente sobre outra vertical, de ordi- 
nário menor e de lórnia cónica, oscillamjá para um lado já para o 
que lhe fica diametralmente opposlo; 

2) Que, collocadas lambem horizontalmente sobre outra vertical, 
gyram sobre esta como sobre um eixo, com uma leve oscillação; 

3) Que, descançando equilibradamente sobre duas outras pedras 
inclinam para um ou para outro lado, onde teem por esperas ainda 
duas pequenas j)edras; 

4) Que, poisadas verticalmente sobre outra horizontal, oscillam 
quer para um quer para outro lado, quando se lhe imprime impulso 
em certo logar. 

Em França, estes monumentos são designados de diversos modos, 
não só segundo as localidades, mas segundo a variedade a que per- 
tencem, e as lendas ou superstições que lhes estão ligadas. Assim, cha- 
mam-se : pierres roulantes, — i'oiilées, — tournantes, — retoiírnées , — trans- 
portées (?) — folies,— qui dansent, — qiii virent, — branlanles, —tremblan- 
tes, — de répreuve. 

Sendo desconhecidas em Portugal outras pedras-baloiçantes, além 
da que existe na quinta da Torre, e da de Cai-ragosella, não sei que 
nomes tenha qualquer outra que haja no paiz. Á de Carragozella cha- 
mam a pedra que abana. O meu amigo professor Adolpho Coelho, apu- 
rou já * os nomes locativos de Falperra (falsa pedra) e Peravana (pedra 
abana), como indicadores da existência de pedras-baloiçantes. Mas pa- 
rece-me que a essas se podem addiccionar os toponímicos de Pedra 
Cavalleira, Pedra Encavallada, Pedra da Paciência, Penedo que fala, 
Perramedo, Penedo da Mú^. As duas primeiras designações provêem da 
posição relativa da pedra; e a ultima da configuração da pedra supe- 
rior. Muitas das pedras que abundam no nosso paiz com os nomes de 
Pedra da Moira, Penedo da Moira, e ainda com outras denomina- 
ções, foram provavelmente pedras-baloiçantes que perderam já a sua 
qualidade oscillante. 

lia quem seja de opinião que as pedras-baloiçantes não são monu- 
mentos devidos ao trabalho do homem; mas simples curiosidades na- 
turaes. «Bizarrerie de la nature (diz o sr. II. du Cleuziou), ces blocs, 
quon rencontre un peu partout, suspendus dans le vide, siir des bases 



1 Compte-fírndu de la O" Session du Congrès international d'Anthropologiú et d'Ar- 
chéolorjir prehisloriqiie, Lisljonntí, 1880. 

2 Vej. Notas sobre a loponymia portugiieza, na Rev. Ardi. vol. I, pag. lOG. 



REVISTA AUClIKOLOÍilCA 3 



illusoires, pierres absoliilenierit nalurelles, qui, jadis mème, peul-èlre, 
noiíl jamais oscillé, ctaienl bieii íailes pour servir doiilil de dumina- 
tion a ces charlalans, quon s'esl plii à grandir outre mesure, et qu'il 
est leinps de reinettre en bonne piace (Ivs dnúdesjo *. 

E men parecer que esta asserção não é exacta em absoluto. 

Que o primeiro d'esla espécie de monumentos não deve ser attri- 
buido ao trabalho do liumem, é também minha convicção. Um grande 
penedo errante, locahsado accidentahiiente sobre uma rocha (que al- 
luviões cercavam, e que foi com o tempo por muitas causas desmu- 
dada), ficando assente em certas condições de equihbrio, constituiu a 
primeira pedrabaloiçante. O homem inteihgente, que primeiro desco- 
briu as suas propriedades de oscillação, serviu-se d"elia para donnnar 
aquelles que desconheciam o segredo de movel-a, e a superstição au- 
xihou-o. Mas, como nem sempre uma pedra-baloiçante se encontrava, 
•e ao mesmo tempo se tornava necessário esse meio de dominio, foi 
indispensável preencher a faMa arliíiciahnenle. Se um grande numero, 
a maior parte até, de |)edras baloiçanles são apenas penedos errantes, 
que o accaso dispoz nas condicções que teem ao presente, ou se sabe 
tiveram já, algumas evidentemente ha devidas ao trabalho do homem. 
Entre as segundas podem talvez collocar-se as de Boariza, como a 
de Abra, e sem duvida alguma a de Carragozella. 

As pedras da [irimeira e segunda classe são vulgares. Paliarei das 
outras unicamente. 

A descripção da pedra de Abra, na província de Santander. é feita 
pelo sr. Amador de los Rios da maneira seguinte: 

«Sobre este campo se ergue uma grande rocha granítica perpen- 
dicularmente cortada na altura de cinco a vinte pés, em toda a cir- 
cumferencia, e rodeada de outras menores, desordenadamente amon- 
toadas em estranhas situações, bem como as muitas que cobrem o 
terreno. Não assim a grande, que é quasi plana na face superior, 
formando já de per si um dolmen^ natural de uns trinta pés de diâ- 
metro. Na extremidade meridional desta espécie de mesa e dirigin- 
do-se á parte nordeste, se ergue a segunda pedra com a forma de 
um grande cubo ou silhar posto de esquina sobre quatro ou cinco pe- 
dras applicadas a um e outro lado. porém de modo que a superior, 
nellas suspensa, não toca immediatamente nenhum dos pontos da 
grande mesa uiferior. Isto demonstra alli palpavelmente a mão do 
homem; e tanto que, estando uma das pedras que susteem a supe- 
rior na posição diagonal, para adaptar-se ao lado da mesma, acha-se 
pela sua parte appoiada por outra pedrinha que não tem mais de oito 
pollegadas de comprido e três de grossura ; isto não obstante não se 
pôde arrancar do seu logar, por mais que por ella se puxe, e uia- 

* H. (Ju Cleuziou, La Création de fitomme, pag. o07 
2 Denominação mal applicada. — B. de F. 



REVISTA ARCHEOLOGICA 



gueni até o ousaria tentar com medo de se desaprumar o todo. A pe- 
dra superior tem vinte e dois pés de largura, dez de altura e vinte 
de circumferencia, cingida perpendicularmente pelo meio. Basta indi- 
car taes dimensões para se conhecer que o seu peso deverá ser de 
milhares de arrobas. 

«Pela mesa inferior póde-se andar commodamente, rodeando a de 
cima, excepto pela extremidade meridional em que estão ambas na 
mesma linha perpendicular. Junto a esta extremidade e da parte de 
sueste, as pedras pequenas que susteem a superior, encaixadas á ma- 
neira de cunhas, servem de degraus para subir á mesma pedra, que, 
segundo já indicámos, forma um espinhaço bastante agudo, posto não 
haver impossibilidade de qualquer se suster nos dois lados. Desde o 
meio do espinhaço corre por elle da parte de nordeste com alguma 
inchnação para o lado de sueste, uma fenda ou rego, chegando quasi 
até á ponta do pedregulho : e como por esta parte está bastante adel- 
gaçado pela extremidade inferior, segue-se que uma ou mais pessoas 
poderiam collocar-se por baixo d'elle, para receber o baptismo de 
sangue, se com effeito era esse e não outro o fim do sulco». * 

A pedra-baloiçante que ha no cemitério de Perros Guyrech, é de 
forma oblonga e repousa em equilíbrio pelas extremidades sobre duas 
espécies de pilares; pesa um milhão de libras, e as suas dimensões são 
de quarenta pés de comprido por vinte de largo. «Tem na superfície 
uma bacia com desaguadoiro, e parece ser o altar, onde se faziam os 
sacrifícios pelos mortos, cujos túmulos a cercavam» 2. 

Estas duas pedras-baloiçantes pertencem pois ao terceiro grupo. 

Passo agora a descrever a pedra-baloiçante de Carragozella, soc- 
correndo-me da memoria e dos breves apontamentos que me restam e 
que foram tomados ha vinte annos. A estampa que a representa foi 
feita de memoria; se não é d'uma grande exactidão, dá pelo menos 
uma ideia approximada da configuração do monumento. 

Perlo duma galleria se bem me recordo artificial, sobre uma ro- 
cha erguida a cerca de um metro do nivel do solo, e cuja face supe- 
rior foi porventura grosseiramente desbastada pela mão do homem, 
se eleva um monolitho d'uns Ires metros d'a!to, d'um e meio de lar- 
go e de variável espessura, volumoso na base e adelgaçando para a 
parte superior pyramidalmente. O monolitho a uma branda pressão 
em qualquer das faces, inclina levemente para o lado opposto; se não 
é precisamente um ponto dado aquelle em que, para pôr a pedra em 
movimento, se ha de fazer a pressão, deve comtudo procurar-se o 
logar d'ella na parte central da pedra e a uma certa altura que exce- 
da o centro de gravidade. Recordo me de que, durante três dias fiz 



1 Transcripto na Introdiicrão á archeologia da peniusula Ibérica, por A. F. Simões; 
pag. 79-80. 

2 A. K. Simões, op. cil. pag. 80, citando Kougemont, L'ãge dii bronze. 



REVISTA ARCHIiOLOGICA 



5 



tentativas inúteis para mover a pedra, conseguindo-o finalmente tanto 
d'um como d'outro lado. 

- Se as pedras-baloiçantes de Abra e de Perros Guyrech teem cor- 
tes que parecem indicar que esses monumentos serviram de aras de 
sacrificios, a de Carragozella, pela forma, pela disposição e pela au- 
zencia de quaesquer cavidades ou sulcos, não foi destinada para nella 
se sacrificar. 

Teem divergido as opiniões sobre o Hm a que foram applicadas as 
pedras-baloiçantes, quer naturaes quer artificialmente dispostas. Con- 
sideraram-nas já como symbolos da divindade, como emblemas do mun- 
do suspenso no espaço (opinião de De Camby), como emblemas do li- 
vre arbítrio, e finalmente como meios de reconhecer a culpabilidade 
dos accusados, uma prova judiciaria. 




A este respeito diz judiciosamente o ilhistre Henri Martin: 
«Cette idée d'interroger les forces secrètes de la nature sur les 
secrets de la vie humaine a été aussi univ^rselle que la magie procé- 
dait du même príncipe ou de la même illusion; on croyait faire par- 
ler dans la nature exlerieure le Dieu qui ne parle que dans la con- 
science de Thomme. Les accusés qui ne parvenaient pas à mettre en 
mouvement la pierre étaient sans doule reputes coupables. II n'y a 
pas bien longtemps encore que les maris qui soupçonnaient la fidéli- 
té de leurs femmes, les obligeaient à subir celte épreuve.» 

Esta hypothese é plausível e de demais a mais confirmada pelas 
tradições que em muitas localidades andam ligadas a estes monumen- 
tos. Mas ella não importa a negação de que algumas pedras-baloiçan- 



6 REVISTA ARCHEOLOGICA 

tes não hajam servido ao mesmo tempo de altares de sacrifícios, como 
fica dicto. 

Em França, conforme diz o sr. H. du Cleuzioii, «on la consulte en- 
core de nos jours» *; noutras partes succederá o mesmo. Mas esla con- 
sulta não é, nem foi talvez jamais, unicamente feita pelos juizes que 
buscavam conhecer a iiuiocencia ou culpabilidade de alguém. Se a pe- 
dra-baloiçanle era prova judiciaria, se ella era o jiiizo de Deus, se elia 
tinha a virtude de responder sobre o gravíssimo facto de uma accu- 
sação, não daria ella também resposta a quem a interrogasse sobre ou- 
tros assumptos, sobre coisas futuras? Interrogavam o oráculo acerca 
do destino da alma do morto, como o consultavam sobre o resultado 
d'um combate. O homem interrogava-o sobre a opportunidade de ef- 
fectuar uma empreza, sobre a fidelidade da sua companheira, sobre 
variados objectos. A mulher perguntava-Ihe se o seu noivo correspon- 
dia ao seu aHecto, se o ente concebido seria filho ou filha, inquiria-o 
sobre mil duvidas. 

O emprego da pedra-baloiçante como prova judiciaria é, porém, o 
mais importante; e algumas das denominações portuguezas, que apon- 
tei, parecem conservar memoria do emprego do monumento e do ter- 
ror que infundia a tremenda prova. Pedra da paciência é a que gasta 
a paciência de quem busca movel-a. Penedo que fala é o que em sua 
particular linguagem, a oscillação, responde à pergunta que lhe é di- 
rigida também por um especial modo de dizer, a pressão. Perrainedo 
(pedra medo:=a pedra que é medo, que causa medo) é a que incute 
receio, terror, ao accusado que tem de a fazer oscillar para provar a 
sua uinocení-ia. Peravana (pedra abana — ó pedra, abana) exprime o 
desejo intimo e ardente, a invocação mental ou explicita de quem pe- 
dia ao oráculo uma resposta, de que suppunha depender a sua ventu- 
ra, ou de que de facto dependia a sua existência. 

Janeiro, 1888. Bohges de Figueihedo 



ANTIGUIDADES PHENICIAS E ROMANAS 
NA península 

Devido á obsequiosidade do meu amigo e collaborador o professor 
E. Hiibner, posso ministrar aos leitores uma exacta informação do que 
o illuslre archeologo communicou á Sociedade Archeologica de Ber- 
1ÍD, na sessão de novembro ultimo, acerca da descoberta de antigui- 
dades phenicias e romanas na Ilispanha. Eis o que se lê na acta 
daquella sessão, a qual vem |)ul)licada no Sonderabdruck aus «Wo- 
chenschrift fiir Idassische Philulogiei), 1887: 



1 II. du Cleuziou, loc. cit. 



REVISTA ARCHEOLOGICA 



«... Do noroeste do império romano o orador passou ao extremo 
sudoeste do mesmo império. Por occasião de em Cadix se abrirem os fun- 
damentos d'um ediíicio destinado a uma exposição mnriliina, á beira- 
mar e á entrada da cidade, situada numa peninsula pouco elevada, e 
num sitio chamado Punta de la Vaca encontraram-se ã profundidade 
de cinco metros três sepulturas ladeadas de paredes, provavelmente 
os restos da antiga necropole dos phenicios de Gades. Dentro duma 
d'essas sepulturas eslava um bem trabalhado sarcophago, do íino cal- 
cário que ha na(juelles sitios. O sr. Berlanga, o conhecido archeologo 
de Málaga, Icmbrou-se logo do célebre sarcophago de Eschmunezar, 
conservado no Louvre. As photographias que o orador poude mostrar 
confirmam por complecto esta lembrança. O tampo do sarcophago 
representa a figura deitada do morto, homem de barbas e cabellos 
compridos, uniilLo bem conservada e trabalhada no verdadeiro eslylo 
antigo (approximadamente V século a. Ch.). O braço direito descança 
estendido sobre a estreita roupagem; a mão direita segura sobre a 
a coxa uma grande coroa de loiro que é somente pintada. O braço 
esquerdo está flobrado para o lado direito do peito; e a mão respectiva 
segura um coração, segundo a relação diz; é também só pintado. A 
photograjihia faz suppoi- que se quiz representar um fructo, talvez 
uma romã. As extremidades dos pés excedem a roupagem; os dedos 
são cuidadosamente trabalhados; e tem pintadas bonitas sandálias. A 
cabeceira, aos pés e aos lados do tampo ha pegas, destinadas a faci- 
litar a abertura do sarcophago; o qual, assim como o tampo, se appro- 
xima da forma humana. Do caixão de madeira, (jue se continha no 
sarcophago de pedra, existem apenas insignificantes restos. Os vesti- 
dos e os adornos do defunto parece terem-se decomposto ou sido rou- 
bados. Diz-se que nesta sepultura só se achou um annel d'oiro com 
um sinete movei. Do lado do emblema, mostra uma figura de mu- 
lher, de perfil do lado esquerdo; ella tem na mão direita um ramo e 
na esquerda uma coroa. É possível que este annel fosse trazido do 
Oriente ou d'alli mandado vir pelo seu possuidor, negociante talvez 
da opulenta cidade. O esqueleto está intacto; o craneo é um achado 
de summa importância para a anthropologia. 

«Duas outras sepulturas, também cercadas de paredes, estão ira- 
mediatamente contíguas áquella. Não se encontraram nellas sarcopha- 
gos, mas somente dois esqueletos, bem conservados; um, d"homem, 
com armas de bronze e um collar composto de vértebras; outro, duma 
mulher, com dois braceletes de grosso fio doiro e dois broches do 
mesmo metal. Suppõe-se que elles pertencem a iberos de distincção, 
ligados d'algum modo ao patrono phenicio. Outras escavações, que 
infelizmente mal se podem esperar, dariam provavelmente em resul- 
tado importantes achados para a historia da Gades phenicia. Os que 
ficam mencionados são, além das moedas, os primeiros restos certos 
até hoje encontrados d'uma colónia phenicia era Hispauha. 



8 REVISTA ARCHEOLOGICA 

«Perto d'eslas sepiilluras tão antigas, está uma necropole romana, 
a menor profundidade, onde, na occasião das escavações, se encontra- 
ram alguns objectos que não são destituídos de interesse. Entre as 
inscripções funeraes, que são pequenas, e que íazem lembrar os lel- 
treiros dos columbarios, ha um epigramma que é digno de menção. 
Está gravado em formosos 'caracteres, pouco mais ou menos do tempo 
dos augustos. O orador mostrou um cabo d'essa inscripção, e termi- 
nou pela leitura dum curta e mimosa poesia que não é composta se- 
gundo os modelos ordinários; o auctor, porém, não a poude levar ao 
fim com a forma elegiaca que lhe destinava. A poesia, em dois dísticos 
e um baxamelro, que está intercalado, lamenta a morte prematura de 
duas creanças. Eil-a : 

Contegit hic tiimulus duo pignora cara parentum, 

indicai et iilidus, nomine quo fuerinl. 

Sors prior in piiero cecidit; sed flebile fatum 

(trislior ecce dies !) renovai mala volnera sana, 

el, modo quae fmral filia, mine cinis esl. 

Festiva an ínorumj XI, Sodalis anniculfusj h(ic) s(iti) s(unl). 

Síitj v(obis) l(erra) l(evis). Rogatus dal. 



VISITAÇÃO DO ARCEBISPADO DE LISBOA 
(Século XV) 



Havendo eu já publicado umas constituições do arcebispado de Lisboa, redigi- 
das nos começos do século xv, c também duas visitações feitas á egreja de S. João 
do Mocbarro d'Obidos, uma pelo celebre Cardeal d'Alpedrinba em 14 de fevereiro de 
14G7, outra pelo bis|)o de Çaíim (em nome do arcebispo) aos 2 de junbo de 1474 ; 
vou hoje encetar a publicação d'uina visitação geral du mesmo arcebispado ao que 
me move, além do seu natural interesse, o incitamento de alguns cavalheiros aquém 
particularmente imporia o estudo de documentos d'esta ordem. 

Esta visitação é sobretudo interessante por moslrar o estado do clero portuguez 
ao começar do século xv. F^alta a data ao documento, assim como lhe falta assigna- 
tura; mas, pelo caracter da lettra, a.scende elle certamente aos inicios do século xv. 
Pertenceu ao mesmo lombo, de que fizeram parte os (h)cumentos supracitados, e oc- 
cupava alli o primeiro logar, facto que por si só não lhe imputava maior anciani- 
dade do (jue aos outros, visto ser vulgar a transposição de documentos em antigas 
collecções. 

E natural que se encontrem nesta visitação geral do arcebispado repetidas al- 
gumas das determinações feitas nos alludidos documentos; resolvi, |)oréin, publical-o 
da integra, attendendo a que assim nada perderá de sua importância, e melhor pode- 
rá ser estudado. 

Assim como pratiquei já com os documentos análogos já publicados, precedo a 
visitação do Índice dos capítulos, que a(jui vão numerados para facilitar citações. 

B. DE F. 



REVISTA AliCHEOLOGICA 



índice 

1 — como noiíideiitMii de alisoluer dos casos neste capitólio conteúdos. 

2 — domo som coiiiitidos os casos aos priores e beneficiados. 

ii — (vomo os beneficiados nem Iconiraos nom deuem teer cura por |)rioronde 
assy for beneficiado. 

4 — í^omo noiíi deuem os crelij,'os aleuaiitar aroydo nos coros em canto (sic) 
steuerem ao oíieio. 

5 — Como os priores e vijíairos ieiietn ibj fazer rezedenria em seus benefícios. 

6" — (>omo deuem reipuirer os fregueses ijue doentes forem que recebam os sa- 
cramentos da sancta egreia. 

7 — Csmo (IfHiem de dizer as oras e missas cantadas. 

8 — Como nom deuem fa^er casamíMilos sem banos (sic). 

O — Como bc posta scntemn dexconumbom em aquelles que se casom per ssy. 

10 — Como o crelijjo d(!t