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Full text of "Revista brazileira: journal de sciencias, lettres e artes, dirigido por Candido Baptista de ..."

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'' REVISTA BRAZILEIM 



JORNAL 



DE 

SCIENCIAS, LETTRAS E ARTES 



DIRIGIDO 



POR 



CÂNDIDO BAPTISTA DE OLIVEIRA 



PUBLICAÇÃO TRIMENSAL 



TOMO I 



RIO DE JANEIRO 

TYPOGRAPHIA UNIVERSAL DE LAEMMERT 

. HUA DOS INVÁLIDOS, 61 B 

1857 



t 



325044 



PROSPECTO 



A puhlicaçSii litUíraria que se dá hoje á luz^ sob 
a dcaominação de Revista Braziieira, nada mais é 
que a transformação de ou Iro jornal do mesmo género, 
o Guwmbara^ tomando maiores proporções, c passando 
a ser Irimensaí. 

(~ts acanhados limites do jornal , cuja publicação 
cessara, n5o perraittiam o preciso desenvolvimenlo de 
muílos assumptos interessantes; nem o periodo men- 
sal da sua apparição dava tem|)o suflieienle para se pre- 
pararem as matérias que faziam o seu objecto, 

A redacção da nova Revista está confiada ás mesmas 
pessoas que collaboraram na publicação do Guanãònra; 
com a única diíTerença de ficar agora commettida de- 
stignadamcnte a um só desses collaboradores a direcção 
4m trabalhos concernentes á publicação regular do 
novo jornal , com a responsabilidade inherente á 
qualidade de editor. 

A lievisía Brazileira comprehenderá , em matéria 
de íícieneias, lettras e artes ^ tanto os trabalhos de 
lavra própria, como a Iranscripçao de artigos tirados 
das publicações nacionaes c estrangeiras da mesma 
Índole, cuja leitura possa interessar ao publico. 

Além das sciencias puramente especulativas ^ ou de 
producçOes litterarías de mero goslo, farão regular- 
mente objecto da Revista quaesquer conhecimentos 



de utilidade pratica: comprehendendo-se especialmente 
nesta cathegoria o estudo comparativo de importantes 
factos históricos de qualquer ordem, nacionaes e es- 
trangeiros; e das matérias económicas, industriaes e 
financeiras, com particular applicaçSo ao Brazil. 

A redacção da Revista acceilará de bom grado , 
para serem nella estampados, os trabalhos lillerarios 
que lhe forem traiismittidos, uma vez que satisfaçam 
estes á condição indispensável da utilidade, e se 
recommendem por outra parte pelo merecimento da 
composição. 

A redacção da Revista Brazileira empenhará final- 
mente os seus esforços para bem preencher a honrosa 
tarefa de que se encarregara, tanto pela importância 
do seu fim, como sobretudo para corresponder digna- 
mente ao desejos benévolos daquelle, que no fas- 
tígio do poder somente anhela a prosperidade do 
Brazil, amparando com generosa protecção e pro- 
movendo desveladamente a illustração nacional, o mais 
seguro abono da ordem e da liberdade regrada, que 
faz hoje a nossa felicidade, e fará também no futuro 
a dos nossos filhos. 



ASTRONOMIA PB¥SI€A. 



MEMORIA 



aovEB ▲ naoBiA da osnofTAÇÂo do plano osoillatobio do FSHDOLC; 

8IMPLB0 t B SUA APPUOAÇlO Á DETERMINAÇÃO APPBOXIHADA PO' 
ACHATAMBMO DO ESPHBBOIDB TEBBBSTRB. 



I 



1. O pbenomeno do desvio progressivo que mostra o 
plaoo oscillatorio do pêndulo .^imples , no sentido invariável 
da esquerda para a direita , era relação a um observador que 
no hemispherio boreal olhar para o pólo do Norte, foi com- 
municado pela primeira vez á Academia das Sciencias de 
França pelo seu secretario perpetuo M. Arago , na sessão 
He 3 de Fevereiro de 1851, sendo autor desta curiosa des- 
coberta M. Foucault ; o qual somente demonstrara experi- 
mentalmente a existência do facto, sem que depois dessa 
época até o presente nem elie, nem algum dos sábios, tanto 
francezes como de outras nações , que se tém occupado 
daquelle pbenomeno, houvessem acbado a lei que segue 
no seu movimento apparente o plano oscillatorio do pêndulo, 
durante uma rotação inteira da Terra. 

Já era época muito anterior a esta descoberta o celebre 
geometra Poisson bavia feito a observação (em uma 

1 



BEVISTÀ BRAZILEÍRA 



memoria sot 







ire o moviraento das projerlís) de qoaal 
messada pur uiiih peç^ de artilharia , em qualíjuer lati 
boreal , se desviara .^sèlíiprt; para a direita do observa* 
que, collocadoJpaÍ<r<á peça, ol bar para a trajecloria que 
descreve: fac/iVrèsle infeiramente anaiugn no preeedenta. 

Tamberp a/Atademia dei Giineaio do Florença recIantJ' 
(por DCGiiíliao* do que em França ftWn publicado sobre e^^ 
objectí>l';fl' honra de primeiro descobridor em favor do f* 
mosa Galileo, membro daquella associação \ o qual enlrea v 
/tl(íiitàs e variadas observações que fizera acerca do movi--' 
iftiento do pêndulo, diz a referida Academia, notara já esscf 
mesmo desvio, que faz hoje o objecto tia descoberta de M. 
Foucaultf sem todavia prestrir então a devida altenção a essq 
eircumstaneia. 

Tal é o estado em que íorao esta questão» i|ue passo 
resolver por modo simpb*s e inlelligivel para quem tiver a 
precisas noções da geometria e da trijinnoinntria esp bórica»! 

Sup ponho primeiramente que o pêndulo de que se traia 
é somente submettido á aceáo da gravidade ou da altracção 
terrestre: isto é , supponho nesta inve^^ligaçâo que o pêndulo 
se mova em um meio não resistente, ou no vazio perfeito jj 
e que o fio de suspensão é uma recta inflexivel. 

S. Kepresentem os traços contínuos da Gg. 1 ' arcos de 
círculos descri ptos sobre a superficie da Terra, sendo esl 
considerada como uma esphera; a saber: m;W4 o arco de 
um parallelo tjualquer; MP3f o arco do meridiano que j 
passa por dous pontos opposios do parallelo M e M^ , f ^V 
presentando P o pólo da Terra ; ^P o arco do meridiano 
que passa pelo ponto .4 do parallelo ; o a linha recta Ad 
a tangente do parallelo no ponto A , 

As linhas pontuadas representam semelhantemente arcoi 
de círculos máximos traçados na superlicie da mesma es^j 
phera; a saber: OMP' o OM^P^ pertencendo a dous cii 

1 Ctíitto a nossa figura é utiu projecçãn sobre o plano ílo E<iiiadQr , m rçciai" 
PP*^ VM^ PM' e Pâ r«prf scniam arcos tk drculg» mnximon. 



S^id 




PUNO OSGILLATOHIO 00 PENDULtU 3 

culos máximos, cujos planos passam pelas tangentes do 
parnltf^lo nos pontos M v 3P oppostos , e cuja intersocção 
na superíicie d^ esphcra terá logar em dous pontos oppostos, 
um dos quaes é P , existindo nas eilremidades do diâmetro 
da espberat perpendicular ao [jIkuo do meridiano jfPAf. 
Desta constfucção se segue que os arcos de círculos má- 
ximos MP, PP^ e ilí'/*' são iguaos entre si , e cada 
um igual a 90'; que o angulo espherico iíPjP' ^ 90% e que 
MP=AP=^M^P. 

Represente l a latitude do logar da superficie da Terra 
designado por M; Po angulo com prehendidu pelos dotis 
iiieridianoísi MP e ÀP ; e IF o angulo formado pelos 
planos que passam pelo centro da espUera , c pelas Unbas 

Ter-se-ha pois 

|fp^90' — 1; APM^P;(^.W=PAa=m'~PAF. 

Por uma furuiula conhecida da trigonoinelria espherica 
tem-se no triangulo A PP* 

O ^ em A P' ros A P + sen AP^ sen A P ms PA P' 

cm AP* ^sen AP nen PP* m$ (^ + P) 

dondi' se dedmt a formula seguinte 

{!) mn U 



V^ 1 —cosnsen^P 

3, Suppoiília-se que a rotação da Terra, que aa flgura so 
representa da direita píira a esquerda, islo é , em relação ao 
piilo do Sol , SB íiUí pende por um m orno n lo , e que no ponlo 
M se acha cullucado ura pêndulo simples, cujo plano os- 
dUatorio seja dirigido no sentido da tangente do pnniUtílo 
oasse ponto, A orientação deste pêndulo ticari assim deter- 
minada pelo plano que passar pelo cenlro da Terra e pela 
tangente no ponto M. 

S«pponlia-se agora que a esse mesmo tempo existe também 



* HEVLSTA BRAZILEIRA. 

no ponto M lio parallelo , opposto ao primeim, um outro 
pêndulo inteiraniente sem eth ante e fuiic(?ianandu do mesma 
mafieira « isto é, lendo o sey plafiu ol^cíllaU>l'io dirigido no 
seoiidoda tangente do [mralielo no ponta M** O neu pUno 
osoilialorio coincidiíá semellmnienienle eoni o pinno que 
pftssa pelo contro da Teirfi ^ pí4a t^ngt^nle no ponto iW, 

Logo a linha da interseciãodosretéiidoíí planos, istoé , o 
dia melro da Torra [k^i pendiculir ao plano do im^ridiano qu6 
passa pelos pontos M c HP , prolongado iodelioidainenie , 
d^e rapinará a oi'Íen(aeão com muni do^ planos osoil la tórios 
dosdous piiudulos» 

O ponto designado pí)r P' na íígiira nehar-so-hi por- 
tanto ae^a liiihadeorieatuoèoeonimijfn aos dan^^ pêndulos; 
e os arcos de eircnios máximos MP^ ^PP^ representa tio 
as intersecções dos dous planos oscil In tórios com a superfície 
da Tcrca. 

Dada a rotação da terra no sentido acima indicado, o pên- 
dulo eollocado no ponto M será transportado por efTeito 
delia ao ponto j4 do parallelu, no fim úm um determinado 
tempo; e pelo principii» dí* lei de inércia, ahi como em 
qualquer outra posição no mesmo parallelo, deverá con- 
servar o sen plano oscil la tório n (»rÍenlação que linha no 
ponto da partida M. lísie plano oscillatorio deverá por con- 
seguinte passar peb linha (acima dtterminadajde orientação 
commum aos dous pêndulos coltncados nos pontes oppostos 
do parallelo M c iP \ e o arco de circulo mai^imo AP^ 
representará a interseí^cSo desso plano com a superfiaie da 
Terra, 

O arco de circulo máximo PP' reprcsentaré consegtiin- 
temente a intersecção dn [ihuo que \m?,m pelo eixo de ro- 
tação da Terra, e peln linlia de çommum orientação , para 
qualquer posírãõ em ijnc se achar o pêndulo no parallelo 
dado; ou por outros lermos , peto eixo da esphera íísa , cujo 
póloéP', á quíil darei a denominação de fijpAerrt áe ortaíi- 
tnçãOf em relação ao parallelo e ao ponto Jf , que uelle se 



PLANO OSCILLATORTO BO PBKDULO, 5 

I9idem : e a supponho por esla razão immovel , emquaQto 
^1 Terra camplela a sua rotação ao redor úo seu pólo P* 

O angulo , que fura ílesigiiíido por W na formula (l), re- 
preseiilará portanto para um tempo qualquer dado da ro- 
tação da Terrfl (ou para qual(|uer angulo P dado) o desvio 
Jo plano osciilatono do pêndulo , era relação á tangente do 

irailelo oessie ponto, rm direcção contraria á que tem logar 
00 hemispheria hore»!. A ôousirucçao representada pela 
figura faz conhecer que o angulo \V é da mesma espécie do 
inguJu P, podenílo cresírer riesde O* até 3B0*, 

A formula (Ij da pBra os 4 quadrantes da rola cão inteira 
da Terra os seguinteã valores de W: 

P= 90'.. JF= 90'* 

P=t80\._....ir=l80* 

P=27f)^ , JF=270'* 

P=360v,..,,,,W^=360* 

O plano oscillatoriu lará pois uma revolução inteira ao 
redor da vertical do pêndulo , no mesmo lempo em que a 
Terra couiplctar a sua rotnção» movendo-se em sentido con- 
trario desta, com a niesma velocidade média; istoó, 15* 
par hora sideraK 

Se oa formula (!) sup|Jozer-se successivamente ), = o , o 
X=ÍKl*, ler-se*lia o valor de W no Equador terreí*lfe, ou 
no pulo ^ a saber : 

X=t90'» .AV=P 

O primeiro resullailo qut^r dizer (|ue o plano odoilUlorio 
do |)4índulo nno se desvia ila sua posiçào inlcinl na direcção 
da tangente do parallelo, funccíonando o p(?ndulo no Equa- 
dor; c o segunilo, que dudu um |>endulo, cujo ponto de 
suí&pensão estivesse no proluugaiueritu do eivo de rolação , 
ode&vio do plano o^iciltalorio seria iguol ao augulo da ro- 
tação: como devera ser tanlo n'um como n^oulro caso* 




BZflfil 



6 ^ BEYISTA BRAZILGIRA. 

Cora effeito , no primeiro caso a li Lha de coramum orien- 
tação existe no plano do Equador ; o no segundo é ella a 
projecção do plano oscíllatorio (na sua posição inicial] sobre 
o horizonte. 

A formula (1) dará o desvio do plano oscillatorio, qualquer 
que seja a orientação inicial do pêndulo. Gomeííeito, se n'um 
ponto dado do parallelo se suppozer que um pêndulo oscilla 
em uma direcção qualqui^r, ao mesmo tempo que outro pên- 
dulo oscilla na direcção da tangente do parallelo , é evidente 
que o plano oscillatorio do primeiro deve guardar a respeito 
do plano em que oscilla o segundo a mesma orientação re- 
lativa. 

Logo ambos esses planos de oscillação <levein desviar-se 
da sua posição inicial no mesmo sentido e seguindo a mesma 
lei representada na formula (1). 

i. Para tornara formula (I) applicavel a todos os caso^ , 
ponha-se nella 1^+ « ona logar àeW ; P-f p em logar de P ; 
e ter-se-ha : 

(2) sen[W)+=.-J^'''^^+P^ 

^ i—mnsen'{P+p) 

sendo a o angulo da posição inicial do plano oscillatorio, em 
relação á tangente ao parallelo no mesmo ponto ; W o 
desvio do planoM^scillatorio , contado da posição dada pelo 
angulo a e correspondente á rotação representada por P ; 
p o angulo da rotação correspondente ao desvio a , em 
relação á posição inicial , tomada na direcção da tangente 
ao parallelo. 

Sena formula (2) se Ozero= -; e por conseguinte tam* 

bem p = 5« ^í»** ^ 

senlsen[P-\- ^] 



(3) ,cn(M'+2-)=7 



1— coí»Xícn*{P+;y) 



PLA50 ÔSCILLATORIO DO PEiS0t?LC. 



I 



;4> 



ms W^ 



sen l cos P 



^i — €Osnms'P 



Amiias estas formula«!i ^ão apropriadas para aelmr os des- 
vios do plano oscillaloriíj, toiuamio para posíçãri inicial tJas 
t;scjUaçÒ€ít dii penJulo o meridiano do logar. 

Faiendo ua ionunlii (:3) ^=^0 , virá : 



teHÍW+l)~o',i.W=~l 



resulladu iiiusira que osci liando o pêndulo no Equa- 
dor terreíilrtí , u plmo oi^cillalorio não soflVe desvio algum; 
coint] já se mosCrára tio oabq de tunccionur o [^etidulo ua 
direcção da tangente íio mesmo Eqtiodor, visto que o valor 
achado para IF remova o plano oscilialorio pura esta ultima 
po^içáup 

for oulra parle ó evidente que funccionando o pêndulo 
no Equador « e na ilireeçâo do meridiano , não poderá des- 
viar*seáo mesniu tempo para Leste, em relação a cada um 
ilus dons jicdoís : e uulro tanto se dirá de qualquer orientação 
inicial do pêndulo luneeionando subre o Equador. 



Obier varão. — Cumpre aqui prtsveoir a leitor que a orlen- 
lação , de que se trafa na [>resente investigação^ é relativa 
ao plano osci! la tório Uo pêndulo» e não A tangente do arco da 
osctllaçào inieiíil ; porquanto estii fleverá necessariamente 
loinar posiçóes diví^r^^as em relação ao eixo da esphera do 
•iri«^ntaçiiOp nos planos i>scillatorios eomprehendidos entre a 
ponto de partida e o opposlo no mesmo parai leio. 



-.g»>b,^> 



8 



BEVISTA BEAZILEmA* 



II 

Determinação do achatamento de um ellif%úiik de revolução 
mculador num ponto dado da mperficie do espheroide te7— 
fe$tre , peia latitude observada: e sendo mnkcrido o desi^io do 
plano o$€ÍHalorio do pendido êimples no me^imo ponto, e para 
um íempo igualmente dado, 

5. Se na formula (1) se suppòe canhecido pela observa- 
ção o desvio \V do iiendiilo em um logar qualquer da 
superBcie da Terra , e para um angulo de rolsçâo P dado ; 
é evidente que se podeii determinar l » isto é , a latitude 
geocêntrica do ponto dn úbservaçâo, 

A latitude observada nesse logar, qiio eu designarei por >' 
poderá ser igual a X , e maior ou menor que X. No príuieiro 
caso a TeíYi será espheriea , em relação a esse ponto da sua 
superflcie; e no segundo caso poderá ser um etlipsoidede 
revolução osculador no ponto da observação , gyrando em 
torbo dê qualquer dos seus dous eiios principses, a saber 
do menor ou do maior, 

Eu stipporei , tratando desía segunda by|)othese , que é 
a Terra um esplieroide de revolução acliatado noíi pólog; 
isto é, que gyra no redor do seu eiso menor, como oê 
factos o indicam : devemlo por conseguinte considerar-se 
sempre X'>X. 

Nesta hypothese W tleveró ser considerado existir na su- 
perfície da esphera que passa pelo ponto da observação con- 
cêntrica com D e^plieroitle terrestre , e por conseguinte igual 
á projecção do desvio observado, que ea designarei por IF, 

Supponlva-se por o gora que conhecido W^ pela obser- 
vação o sempre possível determinar \W sem ilepetidencia 
do conbeeimeulo de À, cornu uioslrart^i depois em um tra- 
balho especial : ou tome-se coiiiu (irimeini appros^iiiiação 
||^í=íf' ; o que é admissivel, considerando a Terra proxima- 
mente espberica. 



VLAm DSCÍLUTORIO M HíNBÍJLn. 9 

De^gnaofto por a o semi-eiso niBior do ellipsoido os- 
€tilftdor uo potilo da observíiçâo , e por h n spmi-eiífn menor, 



íang l 



Hotido se lira 



a— i 



o* tangV ' 
^^ 1 — y -— * =aoaclia(Aniento di« elUpsoide os- 



L 



Procedendo desta maneira a re<ipoitodedifferentes ponlos 
tifl fsnportíeift da Term nos doiii* heniisplieríós boreal e ans- 
Irel, poder-se-ha clipírtjr no coaliecíiriefití) do um fspheroide 
oí*rruliidor, lujd aclialamentn corresp(iii*la ao inodio dos re- 
sultados parciaes oiitidos pela funuti!» (A)] o que eB(»\ja 
com preli rendido eu Ire os limites asâignados por Laplace nos 
ê\ws prafiinda!* iavestigaçõeí^ sobre n Processão dos eqiii- 

QOiias e a Nulaçao : a saber ^777 e p— 



578 



IIL 



ti* Coi>sidere-se agora o pêndulo simples fuDccionnridD 
nis circulas ta ncias ordinárias, isto é, submctfido á resis- 
tência do ar aimoiplierico. 

Pondo aqui íJe parle & consideração das cauâus perturba - 
dons do iiioviíuenlo ilu peothtlo, iuberenfes á sua sus- 
peusâo material , e deixando á ciperienoia decidir que gniu 
de iaflueucta pmm exeicer a resísttMicia do ar atmosplierico 
sobre o movimento aji parente do [ilnno oseíllalôrio; passo a 
httr a t:0!iiparaçàti dos resultados díi tornuila precedente 
ootn aquelk^s que ^m já conliocidos pela observação* 

M. Fúucaolt at bou , por mein de observações feitOM no 
Pànlhéofi de Púth , e nas circunisianciaíí mais favoráveis» n 
Velocidade tnádiu de 12" poi' bora (fcinpií toóíJio) , dedriíjila 
4u niouniinto a|jparèiUr do [)latio osí^illatorio para Leste, e 
partindo do meridiano. 



lÉM 



10 



nEVlSTA BRÁZILEIRA, 



E^íe resulládu não pôde ser comparado coin o que deve 
dar a formula (3), (lur igoonir-se u nmiiero de horas que 
(Í7.era ostiller u bvu pêndulo M. Foueaull. para dalii concluir 
a velocidade média do plano oscillalorio* 

Na bypolliese de íer ilurado essn observação u espaço da 
seis lioiHs [It^mpo sidciat)» lerin sidu a amplitude do desvio 
obseivado ituficadii por um angulo de lí" proximamente. 

Ora, duianlõ a rotatãí» da Terra correHpondenttí a esseJ 
tempo , u desvio culnulado pela IWmula (1) ou [3] , isto é , a 
parlir do parallplo oti dt* mtiiidiano , é uru angulo de 90** 
para qualquer Irililude : dondt* resulla a ditrerença de 18% 
a qual , dislribuida pelas Beis liorrjs da observação, dá 3^ de 
relardação ao muvinicnla apparotite do pêndulo de M, Fou- 
fjault por earln born. 

Esta difíerençí» jmde srír explicada salisfactoriamente p 
considerando-a euino fjUtíito piincipalnienle da fricção no 
ponio de suspensão do pondulu , a qual deveria ler com- 
municado ao lio, ou arame de «u^pensáo , um eerlo grau de 
lorsão , no sentido ( tnitrario ao movimento apparonle do 
plano uscillalorío , fazendo que este participasse mais ou 
meni)s da rtitaçâu da Tt^na. 

M. DuTiiur [i^abin tlistiiictu de Gofinbra , u qtiem tive a 
honra de alli conbeeer e Iralar no anno de 1836] fez diversas 
eKperienciaíí sidire n mesmo objecto nri anno de 1851 ; e 
d'entre os resultatios 4pie elle obtivera tomarei n seguinte ; 

Latitude do obsci vatorio de Genebra , if>' 11/ 59" (X) 

Duração da observação *2'' » 1 1 [tempo médio) ; 

o que equivale ho angulo do rotação de. . , 31^ 11' lâ"(Pj 
Desvio observado do plano oscillatorio em 

relação a tangente do parai leio para Leste. 25* 
Empregando os elementos dados â eP na for* 

itmia (i), açhar-He loi para o desvio calculado 24* 3' 30" 
Sendo por conseguinte a dífíerença entre os 

dous resultados ........ 56' 30'' 



PLAHO OSnHXATORIO DO PÊNDULO* 



II 



Esla difforença para iimís (ilcvend«> ser tia ssenlido con- 
irarío) póife explicar-se pelo eínniir^ín *\é «Iiiíis crusôíí » que 
pro^iivcfl mente influírain im re.milt'i(lo da oh^ervíição : $ 
wber , *» desvio inicial da liiilia de projeei^ii do pinidulo , a 
o far.lo [cofiíessado porM. Diifmir) de hriver descriplo o seu 
peodulíj sempre ellipscs tMtlreiuamí^nlL^ jdougfidas ; produ- 
liodo eí^líi rircíimsilaricin um ceiín ^vini df* irieertf*za nn 
ttpreciaçíio da vcníinlriía posição do fãxo ninior, e por con- 
!$egiiÍQt€ na modiçoo do angulo ilu desvio atigérvado. 

As experiências feitas por M, Hufonro induziram a presii^ 
mir fiiuitõ judieiosRmeQte que o iiioviuicnto rippnreiíte do 
plano Dscill/ilorio iein tnaretifi díversn , portindo áo paralltílo 
on do meridiano; sendo accdenido no primeiro caso, e 
rei&nhdo no segundo. E islo se acha de perfeiia aecorda 
com os resu liados da nossa iheoria. 

Com eíTeilo , fnz»^ndo variar na formula (1) o angulo que 
representa » rotaçiio , ahi designado por P, entre os limitas 
deP=o, e P==3B0*, conelue-se o seguinte: 

Prima. Que no i^e 3'' ((uarlmnles da rolaçâo da Terra 
recebe o anj^ulo tlu desvio, em temjKjs iguaes» auguientos 
sempre crescentoá: sendo por cunsej^uiiite at^celeradoo ino- 
rimenloapparente do plano osci lia tório, a |iaitir do para liei o, 

Secumlo. íjue no 2*^ e 4' quadrantes são e?íses augnien- 
Im sempre decrescentes : sendo por eonsegoinltí retardado 
o movimento apparente lio pliiiio osciltatorío » a partir do 
[Qeridianu , qualquer que seja a latitude, lanto neste cuuio 
fiO caso precedente. 



OBSEÍIVAÇAO FINAL. 

o perfeito occordo da prefedenle fheoria com os factos 
observados p(>derá ser d'ora em diante eonsid prado como a 
prora direcla , irrecusEiveK do mtniinento diurno do nosso 
planeia: iicando assim salisteílo o desejo manifestado por 
Laplace nos segidnte^ termos : 



li BEVISTA BRAZlLEtRA. 

<i Quoiqufí In rolaf iun de la Terre soit maintenont éíablie 
Hvoo l(>!ffe Ia cí rfiíi»de que eomportont les selenren physi- 
qups, cependani une preuvfí directo de ce pliénotnène doit 
inléresâor les géonièfres et les aâtronomes. >> 

Riu dt^ Janeiru, 10 dii Juueim de 185Í1 

Cândido Bapfuta de Olivdra. 



APPE^DICE 

Á MEMORIA SOBRE A OftllíNTAÇÃO DO PÊNDULO SIMPLES, 

Em O numero 5 II , disso eu, no (jaestào da figura da 
Terra » que na liypollieso de ser esta espherica » as latitudes 
observadas seriam sempre geocêntricas. 

Esta proposição» que é geralmente recebida na astronomia 
pliysica, i&tá Idtijçe de ser eiacla, udmiUida a rotação diurna 
do globo terrestre ; como pasíío a mostrar* 

Seja m um ponto du meridiano EmPt cuja latitude se 
quer achar pela obsen^ar^fio de uma altura , ou pela distancia 
zenithal de{|»alí|uor aslro nesse plano [íig, 2J, * 

Os ângulos dados (jidu instruiuento em inm observações 
referem-se : no segundo caso , á direcção da linha de prumo 
que passa pelo pento w ; e no primeiro caso » ao plano do 
horizonte (indicado por um f4<nnento da super licie livre 
de um liquido qualquer , em que se sup ponha existir o 
]ionto m) : sendo a linha de pitimo sempre normal a eato 
[dano, e putiendo mover-se a uxassa do prumo ao redor do 
eixo de suspensão. 

1 A figura ErnPO representa um <iuadranie do meniiiiiiu terixíiire * na tiy- 
potliose de ser a Teira esplitríca i simi!i> O o centro , i^ uin dos pfAon do íítei 
ã« rotação « E o pua to de intérH»*ci;4ti do E{}uador com o meridiano , Om mm 
raio da esph^ra » Híf o rawj du paréillelt) que jiaisa por ífu 

A r^cta pontuada suppottiia-se |)a^siirido p^tDft pcnto» h, ^^ e m. 



PLANO OSGOMTORIO DO PÊNDULO. 13 

Se a Terra fosse ama rocha homogénea de forma es- 
pheríca , ou composta de camadas interiores concêntricas, 
mecanicamente homogéneas, isto é , tendo cada uma delias 
densidade uniforme ; e fosse além disso privada de movi- 
mento de rotação , ao redor de um de seus eixos : é fora 
de duvida que a direcção da linha de prumo coincidiria 
com o raio Om que passa pelo ponto da observação , e que 
por conseguinte o plano do horizonte seria tangente á es- 
phera nesse mesmo ponto. 

Tendo porém a Terra a rotação diurna quo é conhecida» a 
massa pesada do prumo ficará submetíida (como todos os 
corpos situados na superfície da esphera acima supposta) 
á acção da força centrifuga , combinada com a attracçâo 
terrestre, cuja resultante dará por conseguinte á linha de 
prumo, que passa pelo ponto m, direcção diversa daquella 
que é indicada pelo raio Om : devendo por consequência 
soffrer igual desvio o plano do horizontf3 , para que o ele- 
mento da superfície livre do liquido situado no ponto m se 
conserve em equilíbrio. 

Eu vou determinar agora a direcção daquella resultante , 
em relação ao raio da esphera , passando por qualquer 
ponto m do meridiano. 

Representando por ij a intensidade absolula da gravi- 
dade no ponto E do Equador, e por /* a intensidade da 
força centrifuga nesse mesmo ponto, tem-se, como é sabido, 

' 289 
Se p representar a grandeza a que se reduz f no pa- 
rallelo do ponto m, cuja latitude geocêntrica Eom repre- 
sentarei por X , ter-se-ha : 

f : P : : Eo : mq ; ou 

sl^: p :: Ei)\ EOx (m\\ donde se tira 
' 589" 



14 REVISTA BRAZILEIRA. 

Seja pois P representada , em grantieza e direcção , pelo 
segmento mp , tomado no prolongamento do raio mq do 
parallelo : e seja essa força decomposta na direcção de mn , 
prolongamento do raio Om^ e da tangente mn^ \ represen- 
tando mn y mn* , em grandeza , as respectivas componentes ; 
as quaes ficarão determinadas [telas seguintes er|uações : 

(1) mn = pcosA^^--^^ 

,s, . n -. y c^^ Isenl q sen 2 X 
(2, mn> =r sen ^= /-___ =!__ 

A massa do prumo no ponto m será pois solicitada por 
três forças differentes, a saber: a gravidade q no sentido 
áemo; a componente mn de /' na direcção do raio Om , 
e obrando em sentido contrario da gravidade; e a compo- 
nente tangencial mn^ obrando no sentido do pólo para o 
Equador : ou por esta ultirap. componente de /^ , e pela 
differença das duas primeiras g — mn, que representarei 
em grandeza pelo segmento m$ do raio mo. 

A resultante dessas duas forças será pois a diagonal ms 
do rectângulo por ellas coraprehendido : e com ella coin- 
cidirá portanto a direcção da linha de prumo que passar 
pelo ponto m. 

Designando por o o angulo smsf , que forma essa resuU 
tante com o raio mo , o desvio da linha de prumo no ponto 
m será representado por 9. 

O triangulo mss' dará : 

ss!t=:smtg. 9; ou 

mn' = (5f — mn) íj. y; e substituindo 

uesta equação os valores de mn' e de mn , achados 
acima (1) e (2) , virá : 

q sen 2 X 

'^■'- — '- — ^SPIV'"" 



.... $miX 



PLANO OSCILLATORIO DO PÊNDULO. 15 

Designando por V o angulo Ehm dado pela observação , 
ler-se-ha : 

(4) X=:X' — 9 

Substituindo na eqiiaçiio (3) esto valor de X , e pondo em 
iogar de ^cos^l o seu valor médio em (odo o quadrante , a 
saber, a unidade; virá finalmente: 

,-. ^ sen2{V — ^ 

^^^ ^'y= 577 

Esta formula fará conhecer o desvio da linha de prumo 
para qualquer latitude )/ dada peln observação , praticando 
duas operações successivas , para tirar delia dous valores 
de 9, em primeira e segunda approximaçâo ; isto é , fazendo 
primeiramente f^-o no segundo membro da equação (5) ; 
o resultado obtido dará o primeiro valor approximado de <f: 
e este valor, substituído no segundo membro da equação , 
dará o segundo valor approximado. 
Se na equação (5) se fizer V — ^ , ou X == 45**±a ; virá : 

cos [+2 a) C0s2a, 

'^- ^ = 577 "^TiT 

Este resultado faz conhecer uma circumstancia impor-- 
tante, a saber: que nos parallelos que se afastam igualmente 
do parallelo de iò"* (±«), o desvio da linha de prumo con- 
serva-se o mesmo. 

Se na precedente equação se fizer a=»o ^ virá : 

(6) ton^.<p = g^=tí/(5'57"): 

donde se tira: 

?=5'57" 

E' este o máximo desvio da linha de prumo , o qual tem 
Iogar no parallelo de 45^ 

Se na equação (5] se puzer em Iogar de 9, no segundo 
membro , o seu máximo valor , precedentemente achado, e 
calcular-se o valor de tg. 9 para qualquer latitude obser- 



** «BVISTA BIUZILEIRA. 

vada A . comiiaiando esse resullado rom o que der « mesma 
foim"!«. sulisliiumdo rero em lugar daqi,f,lle y maximutn • 
achai-SB-bi. que o erro comu.oUido neste segundo caso níio 
iufltic na detennmoçm da g.anJeza de ^ senão até uma 
pequeníssima differença menor que l". 

Poder-se-haporlanlosuppriínir, seia inconveniente oa 
j,raUca , a niianlidade tp no segundo membroda formula (5)- 
e dando ao coefficiente constante (6). que ahi muUiplicn 
sen 21 , a forma exponencial , ter se-ha : 

O expocnledo numero (10) nesU equação é u h^garilluno 
da tg. r»' 5"". 

OBSRRVAI^KS. 

1/ O que acabo de expender, relativamente ao desvio 
i]a linha de prumo, é igtialmenle applicavol á depressão 
equivolenle do plano dn Worízonle: de modo que a altura 
observada de um aslio no meridiano lemj em excesso . o 
que fali" ^' '*"'' distanoin zenitltal , e vice-verso. 

2.' Por esta occasião notarei o erro que commettem 
aqucHes que. odmillindo o desvio na linlia de prumo, consi- 
deram todavia invariável a posição do plano ilo horizonte , 
isto é , sempre langinUe á esjdieni ; porquanto n mesma 
componente tangencial da força eentriiuga , que produz o 
desvio na linha de prumo, altera da mesma maneira a su- 
neiiicie livre dos líquidos, conscrvanHo-sea perpendiculari- 
dade doquclla linha sobre o pi) no tangente a esta , para que 
sejam satisfeitas as eondirnes de equilíbrio, segundo os prin- 
cípios da bydiosliiliea. 

Na /i/iMími^ tiorn»! franoez) de 1854 Hnnun<ntíu-8e em 
lermos encomiásticos a invenção de «m appareUio destinado 
a demonstrar a existência da rotação li unia da Terra ; o qual 
fundo-»e no erro acima notado . suppondo o seu autor 
ÍM Richard) que o plano do horizoDte 6 independem* da 



PLANO OSCILLÀTOmO DO PÊNDULO. 17 

acção da forca centrífuga, em quanto produz ella na direcção 
da linha de prumo um dado desvio. 



Os resultados a que cheguei na precedente investigação, 
dependendo de condições especiaes relativamente á consti- 
tuição physica do nosso planeta, não autorisam por certo 
que delles se faça rigorosa applicação ao espheroide terres- 
tre, cuja figura não coincide com a da esphera, segundo 
mostram os factos observados. 

Todavia, na ignorância em que nos achamos sobre a de^^ 
terminada figura da Terra, póde-se afoutamente consideral-a 
como um espheroide de revolução muito próximo da es- 
phera; visto que as observações do pêndulo, feitas em 
diversos meridianos e parallelos difierentes, dão a relação 
entre os dous eixos príncipaes do espheroide na razão de 
335 para 336 (Laplace, Stech. cel, liv. 3/) 

Neste presupposto eu passo a fazer a applicação da for^- 
mula (7] na determinação dos elementos geodésicos, que 
tem sido empregados até o presente na investigação da 
figura do espheroide terrestre. 

E' sabido que da comparação de dous arcos, medidos no 
mesmo ou diflerente meridiano, correspondentes a l"" , e 
dos respectivos raios de curvatura, se deduzem as duas 
formulas seguintes, que dão a relação entre os dous eixos 
príncipaes do espheroide de revolução osculador nos pontos 
correspondentes á latitude media, em coda ura dos referidos 
arcos, a saber : 



(n) e^= W 



sen^ L — í-^)^ sen^ í 



18 REVISTA BBÂZILEIRA. 

a b representam, nestas equações, o semi-eixo maior e o 
semi-eixo menor do espheroide oseulador ; sendo por con- 
seguinte a fracção o achatamento desse espheroide: e 

a ellipticidade, isto é y ^~ ' D d as grandezas díffe- 

rentes de dous arcos de 1"*, cujas latitudes, correspondentes 
ao meio de cada um, são designadas respectivamente por 
L l. 

Cumpre notar aqui que a grandeza do arco de l"" é 
deduzida da relação entre o comprimento do arco medido no 
meridiano e o numero de gráos comprehendido na differença 
das latitudes extremas , ou na sua amplitude angular. 

Laplace faz menção de sete arcos medidos em diversos 
meridianos na Europa , na America e na Africa (além destes 
foram medidos posteriormente um na Suécia e outro na 
índia]; a saher : o !.• no Peru sobre o Equador, por Bouguer: 
ò 2/ no Cabo da Boa-Esperança , por Lacaille: o S."" na 
Pensylvania, por Mason e Dixon: o 4/ na Itália, por 
Boscovich e Le Maire : o 5/ em França, por Delambre e 
Mechain: o 6."" na Áustria, por Licesganing: o 7/ na 
Laponia , por Clairaut e Maupertuis. 

Comos arcos de um gráo, deduzidos de cada um destes ar- 
cos dados pelas operações geodésicas, tentaram os geómetras 
todas as combinações possiveis , sem que obtivessem dous 
resultados conformes : offerecendo mesmo algumas dessas 
combinações resultados incompativeis com o que já era 
conhecido pelas observações do pêndulo. 

Laplace , procurando achar com a reunião de todos esses 
dados qual seria o ellipsoide oseulador mais provável, 
empregou um methodo novo deanalyse em tal investigação; 

e d'ahi concluiu ser o achatamento desse ellipsoide rr? , 

exprimindo-se a este respeito da maneira seguinte : « Cette 



PLANO OSaLLATOMO DO PÊNDULO. 19 

expression donnc 86,2G (336,24 melros] pour l*erreur du 
degré dé Laponie ; erreur beaucoup trop grande pour être 
admise: ce qui conCrine ce que nous avons dit, savoir, que 
la terre s'écarte sensiblement de la figure elliptique. [Mech. 
cel. ibid.) » 

Empregando depois o mesmo melhodo de analyso unica- 
mente sobre os elementos deduzidos do grande arco medido 
em França [10«, 7487=9%6738, entre Monljoui (Barcelona) 
e Dunkerque] achou um resultado que lhe pareceu mais 
extraordinário ainda, pela circumstancia de ser a medida 

desse arco a que lhe merecia maior confiança ; a saber j5Q-g- 

Combinando porém o arco de 1% tomado na latitude 
media desse grande arco , com o arco correspondente ao 
Equador, achou para o achatamento do ellipsoido osculador 

i 

Tendo assignado o mesmo gcometra 335-70 para o achata- 
mento do espheroide terrestre, deduzido das observações do 
pêndulo, dÍ2 elle por essa occasião o seguinte: « Cela 
s'accorde d'une manière remarquable avec Tellipticitó 
conclue des mesures de France et de TEquateur [Mech. cel. 
ibid.] » 

Se o grande geometra, quando assim se exprimia, não 
estivesse dominado pelo pensamento que emittíra no trecho 
precedente, no qual mostrara haver já desesperado da 
ellipticidade do espheroide terrestre, elle tiraria sem duvida 
dessa mesma coincidência, que tão notável lhe pareceu, a 
consequência lógica , que se apresentaria naturalmente a 
um espirito desprevenido; a saber: que nas outras combi- 
nações dos arcos medidos, cujos resultados se afastaram tão 
notavelmente do que achara naquella combinação única , 
alguma circumstancia importante devera ter sido provavel- 

• R =: dy^^SOa : d a regoa que serviu de unidade a Delambre. 



20 BEVÍSTA BIIAZILEIIIA. 

mente desalteniliJa pelo analysta, cuja influencia por outra 
parte desapparecéra naquelle caso singular. 

Esta illação , com quanto pareça ousada, vai receber, 
segundo penso, a sua irrecusável conlirmação de alguns 
resultados que passo a apresenlar. 

1,* comhinução. O arco do Peru medido no Equador, e 
o arco de Tornea (Laponia). o mais refraclario (pennilta-se 

a expressão) dos arcos comparados* 

Os elementos relativos ao primeiro arco não precisam de 
correcção alguma , por serem as latitudes extremas zero^ e 
3* 7^ 1" S. ; tomando-se para latitude media zero, * 

Pelo que respeita ao segundo, depois de corrigidas as 
latitudes extremas, pela formula (5) ou (7), deduzem-se da 
amplitude real do arco medido a grandeza do arco corres- 
pondente a 1 .% e a hUiludc media. 

Estes elementos assim corrigidos, e postos nas formulas 
m o í*, dão para o achatameDlo do espheroide osculador 

552 ; servindo-se da amplitude angular do arco medido dada 

por Laplace, a saber: 57^ 28", 5; ^ ^^2 ^J^preg^^do a 

amplitude determinada por Clairaut e Maupertuis (57' 
30" ,5). 

â/ comfcííiflfâo. O arco comiu*ehendido entre Montjoui e 
Carcassonne, e o que vai do Panthéon de Paris atéDun- 
kerque: os quaes formam os extremos do grande arco me- 
dido em França, 

Sendo feitas em cada um destes dous arcos as devidas 
correcções, deduzidos, como se praticou no caso precedente, 
os elementos precisos para o calculo ; as formulas m en 

dâo para o achatamento do espheroide osculador ^• 

* Em rigor de\(rã ejnprcpar-se coino latitude media 1" 33 * SO''» 5: maâ i 
substituição desla tailtude por tero não ti*m innut'iida aprcciav€Í oo resultada 



rtA,^0 OSCILLATORIO DO PE^DlíLO. 21 

3/ tonúinação. O arco do Peru, e o graode arco medido 
em Fiança. 

Pralieando como se procedeu nas duas precedentes Dom- 
bÍDaçòes^ ai-bâ-se para o aehatamenlo do esplieroide 

iscttlador^; 

Ora sendo ailmissive] , na opinião de Laplace, qualquer 

achatamento obtido menor do que j^ (achado por Newton 

■para o caso de ser aTerra um esplieroida homogéneo) dentro 
los limites dos erros possíveis nas operações geodésicas , 

demonstrada Qca pelos resultados precedentes a necessidade 
de alWnder-se ao desvio da linha de prumo^ na determinação 
das latitudes terrestres, uma vez que sejam considerados 
como satisfactorios esses mesmos resultados. 

Cumpre aqui noiar uma circumstancia attendivel, cujo 
conhecimento contribuirá para fazer apreciar melhor a 
verdade da precedente asserção* Ao arco médio de 1% 
deduzido da total aiiiptitude do arco medido em França, 
curresponde a latitude media 46"*, 117 : e segundo se 
observou anteriormente, tratando-se de investigar a lei que 
íiegne o desvio dn linha de prumo, as latitudes que se afastam 
igualmente do parallelo du AB"" tem desvios iguaes, e no 
raesmo sentido. Daqui se conclue que aquello arco de 1" 

pdeduzido da amplitude do arco medido, ainda não corrigida, 

^deve aproximar-se muito da grandeza do que fura deter- 
minado, depois de feitas as devidas correcções nas latitudes 
extremas» a saber, de Montjoui e de Dunkerque; a que por 
<x>n^cguinlc o resultado que obtivera Laplace, servindo-se 
tlesse elemento, devera senielbantemenle dar uma apro- 
ximação satisfactoria do achatamento do esphcroide terrestre, 
Corroliorarei ainda esta observação produzindo um facto 
lalogo , devido á intluencia da mesma causa. 
Coní^idere^sc o arco de Frauca prolongado desde For- 
mentura ate o parallclo de Greenwich, cujo comprimenla 



22 RE\1STA BRAZILEIRA. 

total é hoje conhecido: sendo a amplitude angular 12* 48^ 
50". Ter-se-ha para latitude media corrigida 44*,973. A 
combinação deste arco com o do Peru dá o achatamento 

^^ 33Õ ' *^™ ^"^ * grandeza do arco de 1* soflfra correcção 
alguma, por conservar-se a mesma amplitude do arco 
medido entre Formentera e Greenwich, ainda depois de 
corrigidas as latitudes eitremas. 

Tomando o termo médio das fracções ~ -1- -J. 

• S02 29S 345 

lem-se ^ para o achatameuto médio: ou ^ pondo r^ 
em W^rdcg^. 

Pela theoria da Lua achou Laplace, para o achatamento 
(lo espheroide terrestre , ^• 

No que venho de expender, relativamente á iSgura da 
Terra, tive por objecto não só justificar a applicação da 
formula (5) [do desvio da linha de prumo] ao espheroide 
terrestre, com aproximação toleravelmente satisfactoria na 
practíca, como principalmente chamar a attenção dos geó- 
metras para esta questão de subido interesse para a sciencia, 
aíim de que, uma vez admittidos os factos que acima 
apresentei (indicando ao mesmo tempo os meios de sua 
verificação], hajam elles de investigar as modificações que 
convém fazer na referida formula, para tornal-a mais adaptá- 
vel á figura espheroidal do nosso planeta. 

Em um trabalho especial, em que me proponho tratar 
deste objecto com o necessário desenvolvimento , compre- 
henderei nas minhas investigações a questão do estado 
primitivo e actual constituição physica da Terra. 

Porei termo a este meu trabalho fazendo algumas obser- 
vações importantes acerca do emprego da formula destinada 
a dar em cada parallclo terrestre o desvio da linha de prumo, 
que eu chamarei desvio ccntrifwjo. 



H-ANO OSaUATORIO DO PÊNDULO, Z4 

\ / Para corrigir do desvio cenlrifugo as alturas observadas 
fora do meridiano, seni indispensável reportar cada uma 
lellaâ a esle plano, por raeiodo azimutii observado ; e feita 
ihi a de%ida eorrecçao no angulo quo represenla a sua 
prajecçtto, o mesmo azimuth servirá, com sufBcicote apro- 
dinação » para transferir esse angulo assim eorrigido ao 
.t ' ' Iro Terlical que passa pelo astro, ou pelo ponto 

Nas observações que tiverem por objecto a delerraínnçâo 
do tempo, nao lia necessidade de correcção alguma , visto 
que ** resultado deve convir a qualquer ponto do meridiano 
em que se achar o observador : como seja na determinação 
das íongitudes pelas dislancias lunares 

i* Na opplicação da formula do desvio centrífugo deve 
atlender-se a que ella não poderá ílar resultados admissíveis 
par» um observador collocado dentro da zona equatorial, 
ande a figura da Terra se torna mais pronunciada mente 
eliipâoidal, sem que se faca nelles alguma correcção, a qual 
%iirte ao mesmo tempo com a posição do observador. E 
em quanto a seiencia se não pronuncia a lai respeito, eu 

ilHjria que, a partir mesmo do parallelo de 30 grios, 
Uxesse uma dimiauiçãu nos desvios calculados^ na razãe 

deT^ por cada Ires gráos que o observador se aproximar 

do Equador, 

3/ Cumpre advertir que na correcção das latitudes 
lerrestres, pelo que respeita ao desvio centrífugo, não se 
do%'e considerar a latitude corrigida [representada por A 
na equação (i)] como geocêntrica ^ mus sim como deter- 
miuada em geral pela intersecção do raio do Equador com a 
normal á superticie do cspheroide terrestre, que passa pelo 
|Hmto de observação no meridiano ; ou que é a mesma cousa, 
(om o raio da esphera oscula d ora nesse mesmo tempo, 

Hifi de Janeiro, 30 de Outubro de 1855, 

Canflifiií Baptista de Olheirti, 



24 RE\1STA BRAZILEIRA. 



NOTA. 



Cumpre fazer aqui uma observação curiosa. 

M. Swanberg, astrónomo Sueco, auxiliado por alguns 
outros sábios da mesma nação, se propôz verificar as ope 
rações geodésicas executadas por Maupertuis e Glairault 
na Laponia, no anno de 1736; das quaes deduziram estes 
sábios a grandeza do arco de 1* correspondendo á latitude 
media de 66« 20' prox. 

Para esse fim mediu Swanberg uma nova base, sobre o 
mesmo rio Tornéa, pouco differente, em posição e compri- 
mento, da base de que se havia servido Maupertuis : e dos tra- 
balhos que executara, nos annos de 1801, 1802, 1803, para 
obter o comprimento do arco de 1"* 3^ 19" 56, medido sobre 
um meridiano» na latitude media de 66*" 20' 10^' 04» deduzia 
elle para o arco de 1* o comprimento de 57,196 toesas. Ora, 
tendo o comprimento de 57,420 toesas o arco de l"" deter- 
minado por Maupertuis e Glairault , na mesma latitude 
media (differindo apenas 10''), resultara da comparação 
dos dous arcos de 1*" a differença de 224 toesas, a qual 
supporia um erro de cerca de 10", na amplitude angular 
do arco medido por estes sábios, para menos. 

M. Swanberg, comparando o seu arco de 57,196 toesas 
com o do Equador , medido por Bouguer , achou para 
expressão do achatamento do ellipsoide osculador na referida 
latitude -—• 

É notável que a simples correcção do desvio centriftyo, 
applicada, segundo a nossa theoria, ás latitudes extremas 



PLANO OSCILLATORIO DO PÊNDULO. 25 

do arco medido por Maupertuis, nos houvesse dado uma 
differença de 9^' para mais, comparando a amplitude an- 
gular, dada pela observação, com a que fora deduzida das 
latitudes corrigidas : achando nós com esses elementos a 
expressão do achatamento muito aproximada da precedente. 
Daqui se concluo que^ a ser exacto o nosso principio da 
correcção centrífuga, commettéra M. Swanberg para mais o 
mesmo erro que elle, e os próprios sábios francezes, haviam 
imputado para menos a Maupertuis e Clairault. E cousa sin- 
gular I a Academia das Sciencias de França galardoou esses 
trabalhos de M. Swanberg, conferi ndo-lhe a medalha de 
distincção fundada por M. de la Lande ! 



26 RBVICTA BRAZILEIRA. 

PROBLEMA. * 

Determinar a latitude de um ponto qualquer do globo terretlre, 
sendo ahi observadas duas alturas de uma mesma estrella , 
situada em qualquer dos dous hemispherios celestes , a saber : 
uma dessas alturas tomaàa no meridiano do logar, e a outra 
fora deste plano ; sendo também dado o azimuth da estreita, 
cuja declinação suppõe-se desconhecida. 

Represente (na figura 3) ADB um arco do circulo 
descripto por uma estrella , na sua rotação apparente sobre 
o horizonte do logar da observação; seja D o ponto culmi- 
nante da sua excursão; e O o centro do circulo da rotação 
diurna da mesma. 

A recta DO representará a intercepção do plano do 
meridiano com o plano do circulo de rotação da estrella : 
suppondo-se o arco AD=DB, será a corda ilfi perpen- 
dicular a DO, e lambem ao plano do meridiano. 

Sejam pois dadas pela observação a altura vertical da estrella 
no ponto A, a qual representaremos por fc; e a altura 
meridiana, que designaremos por //; sendo o angulo azimu- 
thaU correspondente á primeira posição, representado por a. 

Trata-se de achar com estes dados a distancia angular 
entre o ponto D e o ponto O em relação ao observador ; 
isto é, o angulo formado pelo raio visual dirigido á estrella 
com o eixo de rotação da esphera celeste, o qual passa pelo 
ponto O, e pelo olho do observador. Representando por <p 
este angulo, e por x a latitude pedida, ter-se-ha A =±.{H — ?): 
isto é, a latitude igual á elevação ou á depressão do pólo, 
em relação ao horizonte do logar, estando a estrella 
observada no hemispherio do pólo visivel no primeiro caso; 
e tendo logar o segundo caso, na hypothese contraria. 

Reporte-se o azimuth a ao plano que passa pelo olho do 



DETERMINAÇÃO Dfi LATITUDE. 27 

observador, e pela corda do arco ADB; e lenha nesse plano 
a grandeza a^ Reporte-se semelhantemente a altura obser- 
vada h ao plano do meridiano; e tenha nesse plano a 
grandeza h!. 
Ter-se-ha, pelo principio das projecções,* 

(1) sen a'=sen a cos h. (2) sen h =isen W cos a'. 

É evidente que os ângulos a' e H—h' representam as 
distancias angulares entre os pontos A e E, E e D, em 
relação ao observador : designando por 7 a distancia angular 
entre os pontos A e D, ter-se-ha (projectando na esphera 
celeste as rectas AE, ED, AD] um triangulo espherico 
rectângulo, cujo angulo adjacente á hypothenusa (que é a 
projecção da corda AD), no ponto correspondente a D, 
designaremos por A ; o qual é commum ao triangulo 
isosceles espherico, que tem por vértice a projecção do 
ponto O na superficie da esphera , e cuja base é t- 
Ter-se-ha portanto no triangulo rectângulo 
(3).. . cos'(=cosa'cos (H — h'). (4)... sen Q!=^sentsen A 
e no triangulo isosceles 

empregando nesto caso a formula conhecida 

I A-B \ 
U}. ^4- = íff- i c , ■ p, ; e fazendo a=h, A^B. 



cos\ 



As equações 1, 2, 3, 4, 5 resolvem pois completamente o 
problema proposto; e eliminando das referidas equações as 

' A formula geral é sen a' cos \i.=:sen a cos p cos q; na qual a é a 
projecção do angulo a'; fx o angulo comprchendído entre os dous planos ; 
pe ^ os ângulos formados pelos lados com as suas projecções. Quando se tem 
I*=:p, virá sen a'=sen a cos q. 



S8 REVISTA BRAZILEIRA. 

quantidades A» 71 a', ficará a solução practica reduzida á 
applicação das duas formulas seguintes : 

I .. senhf — sen h cos (H — A') 
[A].... tg.<f= senhsen[U-h') 

(B).... sen h't 



l/l — sen^ a cos^ h 



Estas formulas poderáõ reduzir-se a uma só» pela elimi- 
nação de V ; ficando assim a Iq. «p expressa nos dados 
immediatos da observação ; a saber, a,heH:e virá 

,^^ ^ 1 — IcosHcos h cosa + sen H sen k 

IC/).... tg.m=: i— — ~ r — 

^ ' ^ ^ sentí cos h cosa — cos U sen h 

 formula [B) deverá ser conservada para o fim especial 
de reduzir qualquer altura observada ao plano do meridiano, 
nos casos em que fôr isso preciso. 

Rio de Janeiro, 15 de Outubro de 1854. 

Cândido Baptista de Oliveira. 



METROLOGIA 



NOTA SOBRB UMA NOVA APPLICAÇlO DO PBINGIPIO DO NONTOS NA MEDIÇÃO 
DAS GRANDEZAS, COM APROXIMAÇÃO INDEFINIDA. 



O NONIUS PROGRESSIVO. 



Na applicação das sciencias que tem por objecto o estudo 
das grandezas de toda a espécie , e das relações que estas 
guardam entre si; isto é, na practica das sciencias mathe- 
maticas, e das sciencias physicas em geral, é indispensável o 
emprego de meios rigorosos para obter medidas precisas do 
tempOj do pao^ e da extemão. 

Graças á descoberta do pêndulo por Galileo, e á feliz 
applicação que fizera depois Huygens desse precioso instru- 
mento como regulador do movimento nos relógios ou 
chronoraetros, ficaram ha muito em completo desuso as 
imperfeitas clepsydras empregadas pelos antigos para esse 
fim : de modo que pôde hoje dizer-se afoutamente que o 
tempo é medido com a ultima exactidão, ainda mesmo nas 
suas menores fracções. 

Outro tanto diremos da avaliação do pe$o , cuja medida 
pôde obter-se com precisão absoluta , usando do processo 
simples e engenhoso de produzir o equilibrio em uma 
balança, substituindo-se alternadamente na mesma concha 
dous pesos equivalentes, por muito defeituosa que seja essa 
balança. 



30 REVISTA BRAZILEIRA. 

Pelo que respeita porém á extensão, considerada na sua 
espécie elementar , a linha , não se chegou ainda a con 
seguir a precisa exacção nesta parte , embora sejam co- 
nhecidos e se empreguem actualmente meios diversos de 
aproximação, os quaes satisfazem na maior parte dos casos 
as necessidades da sciencia. 

Foram Pedro Nunes e Galileo os primeiros que, reconhe- 
cendo em épocas differentes essa necessidade, propuzeram 
a adopção de meios artiQciaes para medir as pequenas gran- 
dezas, que escapam i apreciação dos instrumentos gra- 
duados. E neste intuito suggerira Galileo a ideado seu Pmma 
micrometrico ; consistindo este em um prisma triangular 
metallico, revestido em uma parte do seu comprimento (o 
espaço de meia polegada, por ex.) pela circumvolução de 
um arame tenuissimo, guardando as espiras perfeito con- 
tacto umas com outras. 

Uma vez achada a relação entre uma dada divisão de um 
instrumento graduado (um gráo por ex.) e o numero cor- 
respondente de circumvoluções do arame, pondo-se em 
contacto immediato a aresta do prisma com o limbo do 
instrumento, fácil seria determinar assim, com o auxilio de 
uma lente, fracções do gráo lanto menores quanto mais 
delgado fosse o arame empregado no revestimento do 
prisma, 

É provavelmente desta idéa primitiva que partira a in- 
venção dos diversos micrometros que estão hoje em uso, 
especialmente nas observações astronómicas, para apreciar 
pequenas grandezas, como sejam entre outras os diâmetros 
apparentes dos corpos celestes. 

Vem tlnalme^te a escala denominada Vernier ou Nonius , 
a qual, por meio de uma combinação simples e engenhosa 
das suas próprias divisões com a graduação do limbo do 
instrumento, fracciona o gráo em partes aliquotas expressas 
em minutos e segundos ; ou as divisões de uma escala qual- 
quer em partes aliquotas das mesmas. 



NONIUS PROGRESSIVO. 31 

É pois O nosso objecto na presente Nota explicar o 
pnncipio em que se funda o uso do Vemier, e levar a 
applicação desse principio ás suas ultimas consequências : 
eons^uindo por este meio chegar a uma aproximação 
indefinida na medição dos ângulos e da extensão linear. 

Tome-seama escala qualquer rectilinea ou circular, divi- 
dida em partes iguaes ; diga-se em 10 parles iguaes, por ex 
Tomando depois uma extensão igual a 9 dessas partes, 
e dividíndo-a semelhantemente em 10 partes iguaes, 
ter-se-ha assim formado a escala que hoje se chama Vemier, 
a qaal, como ' mostraremos no fim desta Nota, é uma 
judiciosa modificação do engenhoso meio proposto por Pedro 
Nunes (um século antes de Pedro Vemier) para chegar ao 
mesmo fim* 

Do exemplo acima supposto deve concluir-se, que sendo 
10 partes de Vernier iguaes a 9 partes da escala primitiva, 
a difierença entre duas divisões de ambas as escalas é ^ da 
maior; de modo que, ajustado o Vemier sobre a escala, e 
fazendO'0 marchar para direita ou para esquerda , elle 
avançará , em cada uma das suas divisões que coincidirem 
successivamente com as da escala > ^ » ^ t n» ^té |^ de uma 
das partes da escala. 

Designando pois por n o numero de partes tomadas da 
escala ou do limbo graduado de um instrumento ; por ^' a 
grandeza de cada uma dessas divisões; e A" ^ grandeza 
de cada uma das divisões do Vernier; ter-se-ha em geral : 

(1) n A"=(f> — 1) A': donde se tira: 

(2) A'-A"=^ 

A equação (2) mostra que A" se aproximará de A' 
tanto mais, quanto n for maior ; isto é, que a difierença 
entre as divisões do Vemier e do limbo do instrumento 
diminue indefinitamente , á medida que n cresce. 



32 REVISTA BRAZILEIBA. 

Supponha-se que o limbo do instrumento é um circulo 
completo, graduado em 360'', e cada gráo subdividido em 
três partes iguaes, representando cada uma destas SfV (o 
que tem logar de ordinário nos instrumentos cujo raio não 
excede a 5 ou 6 polegadas). 

Pondo na equação (2), em logar de (A' — A")» 2(V', W 
5" ; os valores de n correspondentes farão conhecer a 
grandeza da escala de Yernier para cada um desses casos, 
a saber : 

20.'=a5-'=^2!:^«; n=60=3.20 
n n 

10"=l^'=?2:^; n=120=3.40 
n n 

5„_20'_20^ n=240=3.80 
n n 

1»Í=!$!=!2!L«9; n=1080=3.360 



Yé-se pois que, segundo a applicação que se faz do prin- 
cipio em que se funda o Vemier, será l"-g a menor diflTe- 
rença que poderá dar a escala mojpíma, correspondente a 
360* ; na hypothese de ser o limbo graduado de vinte em 
vinte minutos. 

Mostremos agora como é possivel formar sobre esse mes- 
mo principio escalas análogas ao Veniier ordinário, por cuja 
combinação com este se obtenham successivamente as ditTe- 
rençasde 20"', 20'^, 20^, etc. 

Para esse fim supponba-se por um momento que a cir- 
cumferencia do limbo do instrumento se rectifica, e que a 
sua graduação se repete indefinidamente sobre o prolonga- 
mento da linha recta que a representa ; o que é admissivel. 

Dado isto, a equação (2j fará conhecer, como se praticou 



NONIUS PBOGRESSIVO. 33 

uiaii, os diversos valores w, correspondentes ás differen- 
ças indicadas : e ter-se-ha 



20"= — =^.^^ 
n n 



20"'=— = ?^^^^'. 

n n ' 



20' 



•T 



20' 20 '".60 '. 
" n n 



n=60 



n= 60 



n=60 



Substituindo agora os valores achedos n na equação (1) 
saccessivamente ; e designando por A". A'"» A"'» A^» 
etc., as dirersas grandezas das divisões nas escalas respecti- 
vas; virá: 

«0A"=(60-i) A'=69A' 

«oa-=%^A'=(60_i)a'=(59+5^*)a'==50A'+A« 
«OA"=%A =(60-1-,) A'=(59+%^) A"=59 A'+A 

«OA'=%A'=(60-Í,)a' = (59+%-*)a'=5»A'+A 



IH 



IT 



Ter-se-ha por conseguinte ura numero indefinido de 
escalas suceessivas, correspondendo por sua ordem ás equa- 
ções seguintes : 

. 60 A"— 59 A' 

. G0A'"=59A'+A" 

. 60A"=59A'+A"' 

. 60A'=59A'+A" 



(2.-) 
(3/) 



34 REVISTA BRAZILEIRA. 

Ai.* destas escalas é a mesma que é conhecida pelo 
nome de Vemier, a qual dá difTerenças de 20". 

AS.* fórma-se dividindo em 60 partes iguaes as mesmas 
59 partes do limbo do instrumento, que entram na formação 
da primeira escala, e mais uma divisão desta ; e dará díffe- 
renças de 20'", sendo sobreposta ao Vemier, de modo que 
o zero das suas divisões se possa ajustar com a divisão do 
Vemier que mais se aproximar de uma divisão do limbo. 

Na applicação da (3/), (4.'), etc , se procederá de um modo 
semelhante ao que acaba de ser expendido relativamente á 
2/ escala: isto é, a 3/ escala funccionará em relação á 2.*, 
do mesmo modo que esta em relação á 1/, etc. 

Observação. As difficuldades practicas devem pôr um 
dado limite á construcção e uso das escalas successivas e 
auxiliares do Vemier. 

Segundo presumimos, não será admissivel nos instrumen- 
tos portáteis (cujo raio é de 5 até 6 polegadas] mais que a 
2.* escala além do Vemier. E dando este, em taes instru- 
mentos cuja graduação comprehende três ou quatro partes 
em cadagráo, diflferenças de 20 ou 15" , poderá ter-se, pela 
applicação da 2.* escala , dííferenças de 20 e 15'" , ou 



e 



«f/ 



Nos instrumentos fixos, usados nos Observatórios , po- 
der-se-ha empregar sem inconveniente maior numero de 
escalas auxiliares, até duas talvez além do Vemier. 

A graduação destes instrumentos comprehende 6 e 12 
partes em cada gráo, representando cada uma 10 ou 5' . 

O Vemier dará portanto diOerenças de 10 ou 5" ; e as 
duas escalas auxiliares darão differenças de 10 ou 5'", 
de 10 ou 5'* : levando assim a aproximação a 

1 1'' 1 1'' 

6 ^ 12^ ^^ ^ 36Õ ® 72Õ' 



NONlfS PRIMITIVO. 35 

O KONIUS PRIMITIVO. 

O Dr. Pedro Nunes, o mais distincto gcometra e astrónomo 
do seu tempo , floresceu em Portugal no século XYI , e 
pablieon em Lisboa, pelos annos de 1542, o seu muito 
apreciado Tratxido de crepusculis; no qual descreveu o 
methodo que inventara para medir mais precisamente os 
angules observados com o Quadrante, que estava em uso no 
seu tempo ; e é o seguinte : 

Traça Pedro Nunes na superQcic plana do limbo do Qua- 
drante 45 arcos de circules concêntricos , aproximados uns 
dos ontros quanto baste para que possam distinguir-se com 
a simples vista. Divide depois em 90 partes iguaes o arco 
exterior {!.*): o immediato a este (2.*) em 89 partes iguaes: 
o seguinte (S.""] em 88 partes iguaes : e assim por diante até 
o ultimo arco (45"*], o qual fíca dividido em 46 partes iguaes. 

O uso practico d^ta graduação complexa é o seguinte : 

Supponha-se que , na observação de um angulo com esse 
Quadrante, a linha de prumo, ou linha do fé da alidade, 
coincide com a 45/ divisão do 2." arco : ter-se-ha o valor 
exacto do angulo observado, cm gi-áos do Quadrante, por 
meio da proporção seguinte : 

89 : 45 :: 90^^ : x=^ 45^ 30' 20" |5 

Se por outra parte se designar por p uma das divisões 
desse mesmo arco , ter-se-ha : 

89p = 90-; 89{p-l-)=l-; p_l-=|=.40"g 

A diíTerença (p — i*) multiplicada pelo numero de divisões 
indicado pela alidade, juntamente com esse mesmo numero 
representando gráos, dará o mesmo angulo acima achado , 
a saber : 

40" 1^ X 45+ 45<>=45<» 30' 20" ^ 



36 REVISTA BRAZILEIRA. 

Demos ainda outro exemplo: e supponha-se que a coinci 
dencia da linha de fé da alidade marca a 45/ divisão de 
11/ arco concêntrico; isto é, aqu^Ue que é dividido em 8C _. 
partes. Ter-se-ha o valor do angulo observado fazendo fr> 
seguinte proporção : ^ 

80 : 45 :: 90« : a; = 50- 37' 30". g 

80p, = 90; 80(p,-l/) = 10^ p^-V^^±=.1i^QH:\ 

e por conseguinte t 

7^30>'x45-í-45^ =50^ 37' 30". 

Destes exemplos conclue-se que o modo de proceder pata 
obter o valor do angulo observado, em cada um dos arcos 
graduados do Quadrante de Pedro Nunes, é essencialmente 
o mesmo que se pratica no uso do Vernier. 

Em tal caso qual a vantagem do Vernier actualmente em 
uso? Ê grandissimal Consiste ella no feliz pensamento que 
tivera o seu auctor: 1 / De fazer movei com a alidade do ins- 
trumento o segundo circulo concêntrico do Quadrante de 
Pedro Nunes, dispensando desta sorte todos os outros cir^ 
culos concêntricos, além do primeiro : 2/ De reduzir esse 
arco movei ás proporções comparativamente diminutas da 
sua escala , sem que por outra parte estas alterações afie- 
ciassem substancialmente o principio do Nonius. 

Partilhem pois entre si Pedro Nunes e Pedro Vernier a 
gloria desta admirável invenção, tão simples na apparencia, 
quanto fora útil ás sciencias do observação, e ás artes me- 
chanicas em geral. 

Damos todavia a denominação de Noniui progressivo 
ao systema de escalas auxiliares do Veríiier^ acima des- 
criptas, com o fim único de ligar ao que é obra nossa, nesse 
melhoramento, o honroso nome do seu primitivo inventor. 

Rio de Janeiro 25 de Outubro de 1854. 

Cândido Baptista de Oliveira. 



i 



■3r* 



^ 



ORIVITHOLOGU 



A GRANDE AGCIA DA GUYANA (MAVDUIT) 

OU 

GRANDE HARPIA DA AMERICA (CUVIER) 
FALCO DESTRUCTOR (DAUDIN) 



As grandes aves de rapina , pela sua ferocidade e ex- 
traordinária robustez , por sua altivez e ousadia , tem ser- 
vido em todas as épocas para symbolísar a força e o poder. 

Entre os Gregos a águia era o maior attributo de Júpiter ; 
os Romanos , assim como algumas das mais valentes na- 
ções dos antigos tempos , a adoptaram por bandeira , ou 
como emblema nacional e guerreiro, uso que tem sido 
adoptado por muilas das nações modernas. 

Se alguma das nações da America Meridional tivesse de 
adoptar como emblema a algum dos tyrannos dos ares , a 
grande águia equatorial deveria ter a preferencia entre to- 
das as aves de rapina , preferencia incontestável pela IPel- 
leza de suas formas , nobreza de seu aspecto , sua coragem , 
sua ousadia , elegância e vivacidade de seus movimentos. 

Hernandes , Marcgrave e Azara descrevem esta ave tão 
notável a todos os respeitos ; porém as suas descripções 
são tão confusas que vários naturalistas deram-lhe nomes 



diversos , ou a incluirani em géneros dilTeretiles , taes como 
os géneros ^í^uíía^ Vultiii\ Fako elÍQVpyia.^ 

Adoptei D nome de Fako dcÉÍrucíor, dado por Daudín, 
por ser o que preferiram Lesson e Temininck, aquelles 
dos naturalistas por mim consultados que melhor o des- 
creveram , e em cujas obras se encontram os melliores 
desenhos. Em verdade estes desenhos nâo se assemelhara 
exactamente nem onlre si, nem com o exemplar vivo que 
eiiste no Museu nacional ; porém talvez as diiíerenças 
provenham das modificações que experimentam lodos os 
aaimaes, sobretudo os pássaros , conforme a idade e o sexo, 

O desenho annexo ^ tirado cora a maior exactidão possí- 
vel á vista do exemplar vivo do Museu , me dispensa de 
fazer uma minuciosa descripção. Direi somente que o Faim 
deitnifior não pôde ser confundido com nenhuma outra ave 
de rapina, bastando unicamente para o distinguir o collar 
de plumas que tem era roda do pescoço, e*a crista ou poupa 
que lhe orna a cabeça. Quando se encolerisa, levanta as 
plumas da crisla e do pescoço de um modo tão particular 
que a sua physionomia se assemelha muito a da coruja. 
Esta particularidade o torna singular , e inteiramento diâi6- 
melhante de todas as aves da mesma familia: de mais^ ne« 

4 VIptIlot fbl o naturalista que adoptou o género liarpyin^ c di^omlfiou ífarpyia 
wutJ^imti à gr^iíát itguia da Gu/ana de Maudiiit, {Víirê. a dlsLtnfi^iiir da afuli peqtièiia 
dn Gltjrnnaf d^^rípia pelo mc^iuo M^uduil., á qual dini o namc dç SpiíatiUJi f^ãriegú* 
líw* Ê n^iudíti o de Ffikú fpiyanenxia» Lesson e Cuvier eii^lijo pui Uiividn 4e o FaUít hnjr- 
pyia et tmpniidis do SUaw , o VnUnr cruíijtnn de J^cq uÍd , e o í alço Jacçnint ele 
Guidu» b^0 a moAUio indívidito que o palco ni-;'$T(iuijTOfi d^ Oaudiíi. Tenimífirk di2 
dccidUfauiriiU' qu<^ nãy, lioa Irt^s tiutur^iliisUts qije €Íiáiiios no li^xlu, u uiai^ coiífttsúé! 
Aifira t ou aulc?^ o 9-í*ú natioliidar, tftie <^cpiiftitide o /vi/^rc Scttructtjr coiu a liiiturana 
{FtíUú coromttua ut íUp«rbus do Shuw) , ou fVifro ortwtus de Da u d tu ^ f\He é Q 
jigiiia médiP da Guiana de Maudnit* descripla i«jr Aíart^ravc» Sc o itíqumiiíK dPi- 
iripto |ior Hcfiiandrs, è o iiici;mn Falto íhsiiviwtor » roítii? qupi\iii Cuvk') r . 

GU^o e^la ove éa lij^uia real do Mriko, qui; ^cmii th i^ttihleinii gui^rnnni d<< ^ 

dos i iin)eradíir'os do Meiíeo . era qur Tolla Siiveru) CljivJ(Çi:io i^nui -- —-^í. " i 

4»U d*Vliqu4uill. Ej Etilri' lis LiqulJii» ^iMuajhiif' liiiamiHf, l;i oiuh {•> < 

In^ t|up M' llinr^nrii ÇI1 v{ |míz IVit/títinf^r « laqual liou ^si^u cji£u [uij . ' , -4 

sino que Uud^eti uUií^íi la:^ feiras y liti liiitubnes, » (D* Frait£Í»eo Siji nrit» Qávigêro « 
llitfvrkí tíníi^ua dtí Mtfpaij, 

Se, aoíllíiirJiUv o MÍlV'flSSli'(lJvrâ*«SiÚ íilglnri 1 ■ ; 

O» I^ortuglicfes o dfiitiinirtarjín cavííu nr.\h, ^ 

con1ikt«ceriiin no liiaíil)^ ou f^iivíão iTj*l,de que Lvh...,,, í.ií .0, ». . ; .,tir/ í*l .,, ft^^ r, 

mtuo &ta Sfcé coutievidu iiiis |Ho%juctai de AI&to-groE^, Go^ai, Siioos* &c* 



o PAUB DESTRUCTOR, 



39 



nfiyma tem os larsas , as garras e o bico mais robiislos , 

fkem aprescnla tnaior luxo de pltimagem, Estíi plumagem é 

éfli geral beilis^iiiia , prifitíipalinenle as plumas do ventre e 

peilo: as qu6 formam o feixe si liiado por baixo das rectri- 

ce^sio Ião uU^ns e delicadas como as do Marabuto* 

Pelo graúdo iiuroero de nomes dados aoFíi/co dt^iímctor, e 
pelas diversos géneros em íjiie o lem vários iialiirnlisliis* 
coUigc-sc que elle é ainda pouco conhecida; ena verdade 
sSo úo poucos os exemplares que lem chegado perfeitos aos 
países onde floresce a bisíoria natural^ que não deve causar 
sorpresa semelhante confusão. 

Por exemplo, Teraminck, de todos os naturalistas o que 

Cborflce ter melhor coidieeído esta ave ^ dij£ que o individuo 
que serviu de modelo á figura estampada na sua obia foi fal- 
iiíicadaj iirando-^e-llie pennas de um logiir para pôr-se em 
_ outros , da sorte que algumas, qne deviam ser pretas, s5o 
bra ncas , c vice- ve rsa . 

Sc a sua férma não é ainda bem conhecida , por mais 
forte mmo os seus costumes e hábitos, ou confundidos com 
os de outros indivíduos da mesma família. Colhendo tudo 
quaítto se acha nas obras dos naturalistas modernos, em 
geral simples copistas de Hernaades, Marcgrave e Azara , 
e caraparando estas noticias com o que tenho obser- 
flilo acerca dos costumes e Índole do exemplar vivo 
i> Museu» vou fazer a historia desta ave, que pela sua 
força, grandeza e ferocidade , representa entre os animaes 
alinosphericos o mesmo papel que o leão entre os animaes 
lerrestres, * 

O exemplar vivo que se acha no Museu fui mandado do 
Alto Amazonas pelo Sr. Jeronymo Francisco Coelho, guando 
presidente do Pará. Foi apanhfido apenas sahindo do ni- 

tA affuin, tiisRuffoti, aprc»Ênta tmtUas roíaçôc^ pbysTcu^ c mpriicí toni o k-ío» 

1. Ka o (m|»crio í^filiif as outras ates ^^onjo o íefio wbre os quadrojictles ; 

vt\ue as lai duspreiar os pequcuos íiriirinvos , He* ; as uutiu» íeui a J»es- 

vnibi» taiiJ^aoi e^pantoscK!! pitos; aiubo^ »Sio liimiigo^ de IcmIii & sociedade. 



40 BEVJSTA DEA2ILIIM, 

nho í e poderá ler boje pouco niais de sete a oilo annos de 
idade* Com tao poucos annos já apresenta maior tãinnnho 
do que um grande peru , e esta grandeza podo dar idéu do 
tamaolio a que chegaria no estado de liberdade se, como aíBr^ 
ma Klein e outros naturalUtas, as aves desta família podem 
viver Ires ou quatro séculos. Não ba porta u lo exageração 
em lícrnandes » quando compara a sua estntura á de um 
grande carneiro , e quando aOirma ter visto algumas coin 
seis palmos d'altura, o que é confirmado por Marcgrave. 

Estes dous auctores e Azara, que a viram no esíado do li- 
berdade, dizem que ellas atacam indistinctamenln a todos os 
auimaes, mesmo aos mais fortes e ferozes , sera exceptuar 
o próprio homem , ao qual quebram o craneo a golpes do 
bico e garras.Toílas as outras aves , mesmo o atrevido e vorag 
Caratará, fogem espavoridas logo que o Fako desíructor se 
aproiima delias, ^ 

« Esta espécie d' águia , àh Hernandes . arrosta os ani- 
maes ferozes, e não leme atacal-os; mesmo domesticada , 
0áo hesita em lançar-se sobre os homens pela mais leve 
provocação da parte destes , e não são raros os casos de ma- 
tarem os íilhos dos índios e devoral^os, tanto u seu caracter 
é brigador , feroz e crueL » 

Citarei ainda um exemplo » exirahido da obra recente* 
mente publicada porM. de Caslelnau , na parte que trata 



1 Ko Para|[uay» e naioutrp*t Estados da lingiiri brspanUoIa, cbamjim a este pâs- 

íiaro Cfirtutchú, e nõ Emtíl ^mutoi OtiOtne de Curatar^ã é ^imruntj i|iie a^^im o deuo- 
mmaram {lorqtie seufi grítoâ juúlâm [lerfeilaui^tiie » pio lí ti nela úílsH pfeliivra ; é O 
Cinua OrúsHiensh de Briítso», <m FakQ brasilicmis de Líiiíieo» 

O Citrarnfit é a m<ih audni c voruz dt; todas as aitjs do mplnai Vlvsí de conjf» 
corruplus e ísiub * d''iiiíjecl03, de ni-ijlis^ finaítm^fj!^' ''^íI" '■--.", ^ '?— T-^n. - itrl 
veracidade. Quando esí 6 muito eàfomcadot aiuca ici t, 

iQC;»irtu úo abe^trui ; laíidicm atara os cabrito S| canM • ^ . ■ ■, ■■■'-» 

uiDt) mannila d<* canidrob ou dt; ciiliras níio fâr bem ^nmãinin, nâit è tuio eucorUrur nm 
baijdo de Caf^cârAi di^vofaíidó ocordào nmtMl^cii^ v nrmiirTináfi os ii:ite^liiió<4 df)t ra- 
britoi e cordeiros roccmnascido*. rci> ■ ■<.- leviiiu nu f i luj 

presíi , e á Tof^a os ol»íi|í£»m o laiirar o ^ m no ur e i - 

mcdíiitamnitc. tvvam finaln- ■ '^ -■ ■•■ '' . :i^ 

ç adónis, v de rkíiilím the o Ti iti 

que estes atiram» SC o í^íitíjív^^ , , , . :ir(í 

•lii» UKs&bê, d(! (1 maUiff p a kna i:om>tgo u^ g^ra»! procur.incl(i um ii>gar çiid« 
ifosii dfTOrar imiiiiulJJjuueutc^ 



FALÍX) DESTnrCTOR. 



41 



I^vTi^m <lo lícayala aos Pampas dei Sacramento : « Em 
orna ca^a J» níteâo dos Sepibo$ acbámoâ uma magnífied har- 
pia ou águia destruidora^ que comprei aos Índios. Em quan- 
lo elles faziam uma gaiola para prendel-a , o meu pequeno 
Índio Catama aproximando-se muito delta , a águia se lan- 
eoti sobre cUè^ e em um instante a cabeça do pobre rapaz 
licou coberta de sangue ; foi mesmo coui muito trabalho 
que obrigámos a este iemivel pássaro a largar a sua presa. 
Os Cmibo$ (conliima M, de Caslelnau), oulra horda selva- 
gem do Ucayala , apanbam Iodas n% harpias qoe podem , e 
Êã conservam em grandes gaiolas. Era certas épocas do anno 
elles as matam em uma festa celebrada de proposilo para 
isso. Convidam lodos os seus amigos, e no Qm do banquete 
liram a harpia da gaiola , formam-se em um vasto circulo em 
torno dellat e atiram-lhe Jlecbas antes que possa tomar o 
mu vôo. * )> 

As harpias americanas, assim como as outras espécies 
d^flguias, vivem de preferencia nos logares solitários das 
montanhas escarpadas , e fazem seus ninlios nas fendas dos 
rochedos. Parece que tem pouca aíTeieio a seus íllbos, 
pois que apenas estes tem forças para voar sào immedia- 
tamente expellidos dos ninhos, e forçados a procurar a sua 
subsistência. 

macho « como o mais forte, mo querendo partilhar o 
produclo de suas caçadas , sempre esfomeado « e nunca sa- 
eiido pela enorme quantidade d' alimentos que exige o seu 
Toraz appetite , apenas consente que a fêmea habite perto 
delle ijuando vela sobre a sua progenitura. Parece que a 
natureza como que abafou na maior parte das aves de rapina , 
i$sim como era lodos os quadrúpedes ferozes, as ternas 
affeiçôes com que ella soube embelíezar a creaçao. Talvez 

1 11, d<! Caslelnou parcre adoptar para esta ave, que flliás tltínoíiilna íiárpia 
g^fi*-,i,j,,*^,i, it ttOíue capfr-rifico de Fnteo cristatus de UiitieOí ma% com^J já db*L% 
é "doso *e LínniMi dt*igr»a com eíte nomt! o Fníco díntruttor áv Uiiiitlíii. 
(< n ^m r^fHÀíQ a obra publicada pel&A discípulos de Cuvkr, t|uc tem por 
Ut4ii(> O iUiW animai t lcc« , píirii &cnir d'iiiiroducçao á iiaatomia compaiitdii de 
OtftkrO 

6 




42 



EEnSM BRA3S1LEIRA. 



seja istodevido, como observa Bory de Saint-Vincent, ao uso 
contiuuo da caroe e do sangue, e tudo leva a acreditar que é 
esta» se nau a única, ao menos a principal causa, pois qtie não 
se encontra a mesma crueldade « os mesmos instinctos des- 
truidores nas aves granívoras, nem nos dóceis ruminantes. 

Sempre ávido de carnagem e de combates, o Fafco deí- 
iructor despreza as presas fáceis e timidas; e , ou por ins- 
tÍDcto de carnagem , ou o que é mais provável , pela dif- 
íiculdade de caçar pequenos passaras , elle nunca os ataca ^ 
mesmo quando está faminta, mas devora com feroz deleite 
as carnes palpitantes dos grandes animaes^ e somente em 
falta absoluta de outra alimentação é que se lança sobre ca- 
dáveres corruptos. 

Attribuem-lhe um voo rápido e mais elevado do que o 
de todos os outros voláteis , e uma vista capaz de perceber 
do mais alto ponto a que pode chegar os menos volumosos 
aoimaes terrestres, mesmo os reptis, sobre os quaes se 
lança como uma pedra cahindo verticalmente , e eom tal 
certeza que raras vezes a viclima lhe escapa. 

Estes costumes podem ser attribnidos a todas as águias , 
e em geral a todas as aves de rapina . É quasi impossível ob- 
servar os costumes o a Índole dos animaes no estado de 
liberdade, sobretudo quanto ás aves. No estado dedomes- 
ticidade um observador attento pôde estudal-os ^ aiuda quo 
necessariamente estes costumes se alterem pelo decurso do 
tempo. 

Desde que chegou esta ave tau notável , comecei logo a 
observar-lhe os instinctos e os hábitos : agora passarei a dar 
umasuccinta contado resultado destas observações. 

Yieillot adoptou um género á parte para as águias da 
America I que denominou Harpias, dando o nome de Har* 
pyia mojnma á que faz o objecto do presente artigo. ^ 



1 Vicitlol fi(?u-1}io mi€ nome pai^ a dísUiiguu djt pequciis offuía dA Guj>nEi« 
i1âcri[»tíi por JHouduil, que muító £e aiiscmcllta k grtnde : t o Spísctctui wfírie^atitã 
da mc^nio Vidlloir c o rúktt ifuyattei^ii» de Dftttdiíit 



o FAICO DESTRUCTOn. 



43 



Os caracteres íleste novo género não pareceram até Cu- 
vier baj«liiiileui(ínte nssígnaltiitos para marear os llmiles que 

param as harpias das outras águias ; mas, se attendernios 
que refere Virgilio a res|j^ilo dessas famosas deosas ou 
demoõios alados» que arrebatavam e sujavam tudo quanto 
eacoolravam , o nome de harpia convém perfeitamente ao 
Fatm ikjtíTuctúr. Excitado pela fome continua que o devora, 
€dle pmcura arrebatar todos os animaes que se íhe apresen- 
Um • nialã-os, e lhes devora carne e ossos se são voláteis, 

o mesmo faz aos pequenos quadrúpedes ainda tenros. Pó- 

tyse dixer que olle aproveita quasi toda** as partes de suas 
vtf limas , e converle tudo cm suecos nulrilivos , porquanto 
Ji maíi^ d*excrementOí5 que lança é insignificante era rela- 
ção aos volumes devorados. 

EsKl»^ oxercmeiítoí* são alvíssimos « tem a consislencia da 
nnia de cal , e quasi inteiramente compostos de urato d'am- 
moniflco e de mui pouco urato de caK Leraery diz que o ex- 
cremento dos Falcos passa por ura efHcaz reãolutivo sendo 
applicado sobro a parte enferma, e que bebido produz o 
efleito de urn forle sudorifico ; que a sua gordura é empre- 
gaila nas doenças de o! lios , para resolver os tumores ^ para 
«mollecer e forli ficar os nervos ; íinalmente que a sua carne 
è omiUi estimada para a cura das moléstias de cérebro. Es- 
ta*» virtudes, verdadeiras ou falsas, gozam de inteiro credito 
eutrc os selvagens e os civilisados do Alio Amazonas a res- 
peito do fithi fkstrurtor ^ a cujas garras se attribueni muitas 
virtudes medicinaes ou supersticiosas. 

Os eicrementos sâo lançailos com força para longe, e 
por tanto sujatii tudo quanto enfoiítrani, È este um outro 
ponio de contacto cora as fabulosas harpias; entretanto 
• Harpia americana é extremamente acoiada. Para ei- 
ppjitr n$ seus excrementos sem sujar-se, ella toma as 

Cpiiorm precauções: levanta as rectrices^ e abaixa o feixe 
do plumas ah isslmas que tem debaixo da cauda ; incHna-se 
para a frenle , c e;sforça-se para lançar o mais longe 



i^ 



44 



REVISTA nilAZILEIRA. 



i 



possível a massa semíÓuida qtie coostítue ú residuo da sq a 
alimenlaçâo. 

Não se lírnilaa islo o seu aeeio. Quanda acaba de comer ^ 
lava sempre o bico e os pés; e se a viclima está suja, ou se - 
apresenta uma còr que denote um começo de corrupção , ■ 
anles de a devorar ella a lança no seu bebedouro ^ donde ~ 
somente a tira depois de passado algum tempo. O resultado 
destas precauções é acbar-se sempre Ião limpa qne nÕo é 
possivel enconlrar-se a mais leve mancha em nenhuma 
parte de seu corpo» 

A grande quantidade ile nii mentos, que o Fako desíruetor 
pôde devorar em um dia , parecerá uma exageração áquoUes J 
que não tiverem tido occasião d e observar a sua extraordina- H 
ria voracidade. Si eu laesmo não fosse lestemunlia quoti- 
diana dessa monstruosa fome^ nâo poderia acredital-a, 
ainda que me fosse referida por pessoa que reputasse da ^ 
mais inteira veracidade* H 

Para fazer-se idéa desse appetite incri vel , que deve cau- 
sap o seu tormento quando no estado de liberdade não en- 
contrar victimas, basta dizer que no dia da sua chegada de- 
vorou um peru , um leitão e uma gallinha . alem de quatro 
libras de carne de vacca * I 

Deita-se-lhe todos os dias maior ou menor numero de ani- 
maes, taes como perus, patos, gallinhas, leitões, ratos, etc. 
Nunca rejeitou nenhum, a não estar corrupio; poréní 
em algumas occasiòes nâo devora o mesmo onimal de uma 
BÓ vez; come uma parte , o guarda a outra para algum tempo 
depois, como um gastronomo que quer saborear lentamente 
um manjar delicioso. 

Prefere sempre os animaes vivos, e esta preferencia so 

i Cotirorme SpíiílíiníHiiij a ca|Kici<fdtt«* tio papti (ift^jimic*} tlits uíuIas é dftic \«ef 
lliai<»r qtJt* a úo vetiLiM^utu» o (lôdi? *tírifrr de irservatorití |iar\i n smi nlinit-nUçilo 
duraale mmítci» «lias. l':::»lu<;uitro miarão fiiilk-a a cíuisa úe^st: jrjtuti apjhiniUr a que 
se sobraetton quando nm tbest d^o <)e comer dur^ivlc muilo Irmjin , mi i(tLiffiJó titi 
niAilo.de Hberdiidc nâo íhii% é poiâhol Eipiiali»r netiltdin atiimiU. A nuttirtia foi pmvi^ 



o FALCO DIÍST^UCTOR. 15 

inifesta por jíritos , por movimentos violenlos , c por um 
pagmouto dé ferocidade. 

Sào nolaveis as precauções que toma para nào sar nffen- 
[dida por qualquer auímal que quer matar. Este singular 
inslinclo de conservarão se tornou sensível em occíisiâo do 
, *e lííí! lanrar nn gniola um desses passai os niarinlios a que 
10 vulgo ciiama Mergulhão [Sula bradiienm, Spis), O mísero 
tpissaro levantou o enorme bico, sua única defosa , e pare- 
cia amL^açal-o, O Palco dvstructor, coma se lemesse o mal 
qíie o Mergnllao lhe podia fazer, hesitou rim momento; 
ajfls bem dei>ressa tomou lao acertadamente as suas medi- 
as que, quando se atirou sobre elle^ o bico da victima 
ficou fechado enire duas de suas garras , como si estivesse 
«Dcerrado em um anneL 

buas caçadas feitas por soa própria industria dão plena 
iilóadosua destreza no estado de liberdade* 

Uma pequeua cadclla, em um estado mui adiantado de 
gravidez, ficou por esquecimento fechada nos salões corres- 
puaJeotes á porta d*entrada central. Procurando uma sa- 
bida» como talvez a janella onde se aclia a gaiola que serve 
dô prisão Bo Falco tksíructúr lhe parecesse o logar próprio 
partisso, suppõe*se que introduzira a cabeça por entre dous 
«ias varões da mesma gaiola , cujo intervallo é de pouco mais 
de pilegada e meia. Ouviu-se ura grilo . - . . quando se 
acudiu j4 a infeliz cadotla eslava reduzida a pedaços, e o 
Falco lho bebia o sangue e Vlie devorava as carnes com 
«coflvpan ha mento de gritos espantosos o visíveis signaes 
da mais cruel satisfacSu, 

Outra caçada « ainda mais notável do que esta , leve logar 
<^inuni animal ao qual a oaturozii armoudo tal maneira que 
pnrecia tel-o posto a abrigo de cpialquer ataque. Enviaram 
fto Museu um Ciiandu ou pequeno porco-espioho {Hulrix 
inúirnsa, Lieth), mui manso, mas que , não perdendo os 
MQ$ hábitos silvestres, procurava logares obscuros onde se 
C^scoudesge; á noito sabia para o jardim, onde vagava até 



46 



HHVISTA BRA7JLEmA . 



ao romper rio dia. Observoíi-se algumas vezes que elle su- 
bia pelos troncos das palmeiras que existem no mesmo jar- 
dim. Uma destas palmeiras ^ é armada de longos espinhos 
desde a raiz até á extremidíide das folhas ; porém o Cuandú, 
também todo eriçado d* espinhos , subia por ella cora tunía 
facilidade como por qualquer outra arvore. Uma manhãa 
achou-se por únicos vesligtos do raisero Cuandii os seus 
espinhos espalhados pela gaiola, e um pouco de sangue f 
Suppõe-se que, subindo pela palmeira, se dirigira para a 
gaiola por um dos ramos , cujas folhas entrando pelos va- 
rões o Faleo se diverte ás vezes em catar com o bico. 

Os animaes que elle tem morto não sofTrem uma longa 
agonia : são de tal maneira apertados e feridos pelas suas 
possantes garras, que o espaço entro o ataque e a morte a 
inapreciaveL 

O Fatco desímcior arranca a pelle aos animaes quo a lera, 
e aos voláteis tira aspennas com tanta destreza e tão limpa- 
mente como o faria o maiy hábil cozinheiro , sem deixar- 
Ihes nem se quer os rudimentos. 

Se a victima está suja , elle a lança n'agua ^ e só lhe pega 
depois de a ter deixado algum tempo de molho ; outras ve- 
zes, segurando-a com as garras de um dos pés , passeia 
com ella pela gaiola como se quizesseamassal-a aQm de tor- 
nar a sua carne mais tenra. Todos estes actos s3o acompa- 
nhados de gritos e de violentos movimentos d^azas; nunca 
porém começa a devoral-a sem haver trepado em um dos 
poleiros, o que sem duvida é devido ao incomiimdo de andar 
em um logar plano em consequência da grande curvatura 
de suas garras* 

Lança umas vezes gritos agudos e repelidoSt capazes d*en- 
surdecer ; outras vezes pia como um pinto. Os gritos estri- 
dentes tem logar quando está com fome, sobretudo ao ama- 
nhecer, ou quando tem alguma victima nas garras; pia 



1 A Ar.uocoMU &CLE«i>íUKnA de KarliiH, cííiiIiccVíUi íií^ií com <> nojiic ú^ eo^ 
^u€Ír& <lt cmarrot € de mortfr^ ou macauba m> norte tio BfaiH« 



a FAIXO DESTEUCTOft. 



47 



docemente e com pouca frequência qtiando está repleto, 

no na começo da noite, 

* 

EncenaJo em uma gaiola , e condemnado portanto a 
uma inércia confraria ásua natureza ea seus tnstinctos, o 

kúde$ini€lor forceja para ter alguma actividade e <líir 
m njovimento á sua nionolona existência ^ ora salii^ndo 
dos poleiros para baíio, ora debaixo para cima de um a ou- 
tro poleiro , ora finalmente revolvendo-se vivamente sobre 
as garras e abrindo e feebando m azas. 

Algumas vezes fica na mais perfeita quietação , com a ca- 
beça alia e os ollio^ fixos no espaço , como si se recordasse 
de om passado de liberdade. Nestas occasides toma um as- 
pecto níiagosloso, a o seu semblante aíTecta melancólica 
gravidade. Se porérn alguma avo vòa por defronte, a sua 
physiononita se toraa logo feroz, começa a mover-se 
vivamente, e lança grandes gritos. Outras vezes, como 
que revollando-se contra a sua prísèo , e com a con- 
sciência de sua Ibrça, procura arrancar os varões da 
gaiola, dus quaes lem conseguido entortar alguns, ainda 
que fortes. 

Aaua ferocidade nalural não tem soíTrido amais pequena 
modificação , apezar de estar presa ha mais de quatro an- 
DOS, e de ver e sor Iralada sempre poios mesmos indiri- 
ditoa. Nos dias d^eiposiçiio publica fica qii/isi sempre furiosa, 
e avança para os espectadores , procurando feril-os ; o que 
|á conMguiu uma vez, lançando as garras á cara de ura Alle- 
mão, que leve a imprudência de chegar-se mui perlo da 
gaiola. Se não fosse soccorrido a tempo, o mal seria mui 
gravo r pois quo o Fako desírudor havia-lhe fincado duas de 
iuas enormes unlias, uma no pescoço e outra por baixo do 
olho esquerdo. Aularior mente um dos serventes, encarre- 
gado da limpeza da gaiola, tendo-se descuidado, foi grave- 
mente ferido em um hombro* Finalmenie, muitos dos 
visitantes do Museu aos domingos se lem cerlamente arre- 

Eido de o excitar, empregando os seus chapéos de sol e 



18 



REVISTA QtUZILEIRA* 



bengalas , porque tem perdido os cabos e os castões^ que 
elle arranca e lanea a grande dtslancíat 

Como ultimo exemplo da ferocidade da Falco deslruclor 
referirei um facto, que prova q\m elle não poupa nem mes^ 
rao aoíi indivíduos de sua espécie, 

O fallecido Lisboa Serra preseuíoou o Museu com um 
outro Falco destrucíor, ainda mui novo.* Veio em um cai^ 
xão, onde se achava tão incoramodado quo mal podia levan^ 
tar a cabeça. Por falta de gaiola, e também para conhecer-se 
como o Falco grande receberia este novo hospede , o pe- 
queno foi introduzida na gaiola do grande. 

Apenas se avistaram^ tomaram logo a altilude de combale, 
e começaram a dar violentos e repelidos gritos, O grande 
Falco, trepado no poleiro mais alCo, d*azas abertas, cabeça 
baita, poupa eriçada e garras abertas; o pequeno, encosta- 
do ás grades , na mesma postura , mas de cabeça alt& » como 
se esperasse um imminente ataque, 

Deitou-se um frango pouco longe do pequeno, eesle, 
estimulado pela fome e esquecendo^se do seu inimigo, se 
lançou sobro ellej o grande Falco, a provei tando-se deste 
descuido, abateu-se sobre o pequeno, e depois da um 
curto combate» voou para o poleiro , levando o frango nas 
garras. O recem-chegado deu gritos abafados, cambaleou, 
deitou pela boeca uma espuma sanguinolenta, e cabiu morto, 
cora sor presa dos espectadores , pois que somente o julga- 
vam ferido em uma aza, onde se notavam leves manchas de 
sangue. Tirado da gaiola , viu-se então que tinha o coração 
atravessado de parte a parte, como se tivesse sido traspassado 
por um agudo punhal. 

Pouco tenho a dizer acerca de certas circurnslancias phy- 
sicas do Faíco dõ$lmctO}\ Não me tem sido possível descobrir 
o seio do exemplar vivo do Museu, nem pela voas, pelo 



1 Esle pequeno Falco fez conlicncr qn^ mmúivífiim^t tU* luo c^r^"í\ ^rT^ndo mui 
navo^ dâo lodos braacos» ao contrario dos adultos^ que lotii o '^ ' ocgro, 

ni::ieplo hm cslremidãdc^ dos gran dos penuas , ondt: tem duaiSf Lie? ,^ |^ rjoUr|di 
brgucft»* A$ Utijas são amirtU^idUT. 



o FALCO DKSTaUCTOR* 



49 



pftrte, nem pela Ijellojyi ro!»liva da plumagem; porquanto 

tf fiinie dircclo sobre as partes que dislinguem os sexos 

«ímpo^ivol ín?M-o era uin^ ave viva, e coberta da abun- 

idanluH plumas jusiaEnenle «o logar ondo este aia me podia 

\j^r feilo, 

A muda [mittatio] tem logar durante todo o anno, porém 

I {irineípalttieiítenoi^ mexesique correspondem á primavera do 

liíiuiRpherio Sul. As pennas caliem uma a uma; mas tenho 

inílido q«ie o Fiílco ilêstrnctor larga somente as {)ennas cau- 

»laps, e algumas diJS finíssimas e alvas plumas do ventre e 

peito; nunca vi caUir nenhuma das remiges, nem tão pouco 

[êsque lhe formaim a crista. As rcctrices são notáveis pela 

[sua bcHeía e tamanbo; tem-se apanhado algumas de mais 

[iledous palmos. 

A«u termiojrei sem chamar a atleDçào para um melhora- 
Deoto, qtie muito influirá para derramar o gosto da zoolo- 
lii, e certamente o mais jíroveiloso para se faserem sérios 
stitdos sobre a parto talvez a mais interessante deste ramo 
WcKÍcni:ias naturaes, a que trata dos costumes e Índole dos 
onimaes. Este melhoramento consiste na creaçSo de par- 
|nes de anima es vivos, ou jardins zoologiGos. 
Todas os nações cultas faznm grandes despezas para a ma- 
ile0çao destes parcfues, não somente por esse luxo de civi- 
io a que todas devem aspirar, como pela sua utilidade 
real- A agricultura e outras artes tem ganho muito e ainda 
&m muito a colher com estes estabelecimentos, que de 
fornecem os melhores e os mais valiosos meios de 
rijcção nos ramos da zoologia e da anatomia com pa- 
rada « l! somente nestes estabelecimentos que o naturalista 
Je estudar os inslinctos, e adquirir uma idéa exacta da 
"holurexa morai dos anímaes. Considerados unicamente de- 
bailo deste ponto de vista, taes estabelecimentos oíTerecem 
unta nlilidâde incontestável ; mas esta utilidade não se li- 
mita ao estudioso, porém ioílue sobre o vulgo , cuja atten- 

é vivamente attrabida pelo espectáculo curioso e inle- 

4 



50 REVISTA BRAZILEIRA. 

ressante que presencia nesses theatros resumidos • 
Natureza. 

O Jardim botanico offerece todas as commodidades e co 
venieneias para o estabelecimento desses parques. Crc 
que não seria grande a despeza a fazer para construir < 
parques de macacos e pássaros do Brazil. 

F. BURLAMAQUE. 



BOTÂNICA 

LEGUMIIVOSA. 

GEN. — MYROSPERMUM (JACQ.) 
SP. - ERYTHROXYLUM (NOBIS.) 



NOME TKIVIAL : ÓLEO VERMELHO, 



Arvore das mais corpulentas : 
tronco admiravelmente direito e 
torneado , como são os de qiiasi 
todas as arvores resinosas d*aqui, 
a saber: Copahihas , Jetahys , 
Caborekibas , e outras : casca 
grossa , parda , resinosa , áspera, 
mas não fendida ; madeira densa, 
pesada, na côr avermelhada , de 
suavissimo cheiro ; ramos , em 
quanto novos, verdes, lisos, 
sub-pubescentes ; com a idade 
porém se tomam pardos, glabros 
e ásperos. 

Folhas alternas , imparipin- 
nadas : peciolo commum de três 
polegadas mais ou menos, con- 
vexo no dorso e face, nos lados 
ligeiramente marginado, apenas 
pubescente ; peciolos parciaes de 
duas a três hnhas , sub-canah- 
culados : foliolos em numero va- 
rio de 5 a 1 1 , alternos ; os infe- 
riores menores , o terminal sjme- 
tricô, os outros algimia cousa 
inequilateraes i de forma um tanto 



Arbor procerrima : trunco tam 
mire recto , rotundatoque , ut 
confectum ad tornum dicercg 
(ita vulgo sunt in aliis resiniferig 
arboribus , scilicet : Copaiferis^ 
Hymenceis , Myrocarpis , et cae^ 
teris) : cortice crasso , cinereo 
resinoso , áspero , non rimoso . 
ligno denso, ponderoso, colorig 
rubelli , gratissimi odoris ; ramig 
dum novellis, viridibus, pube« 
rulis , IsBvibus ; demum cinereis 
glabratis et asperatis. 

Folia alterna, imparipinnata : 
petiolo communi circiter bipolli- 
cari , utrinque convexo , ad late- 
ra pauxillum marginato , subtili- 
ter fiísco-pubenti ; petiolis parti- 
alibus 2-3 linearibus, vix canali- 
culatis : foliolis 5 ad 11 , alternis, 
infimis minoribus, terminali sym- 
metro , cíeteris parum iníequila- 
teris ; figura non firmissimis, sed 
plerumque ovato-oblongis ; gran- 
dioribus duos polHces longisj 



REVISTA DRàaLEinA. 



inconstante , mas geralmento 
oval-ob!onga ; de comprimento 
os maiores até duas polegadas ; 
na base agudos , sub-agudoí? , e 
mesmo arredondados , na pontn 
acuminados , na orla finamBiite 
crenulados , por caasa talves; das 
glândulas que ahi se acham ; de 
consi stencia merabrano-cor iaceos, 
contendo grande numero de glân- 
dulas translúcidas lineares, ou 
arredondadas; penninerveos, ner^ 
vura media resaltada no dorso ; 
as lateraes, assim como o reti— 
culo das reias, tSo saliidas no 
dorso como na face ; por cima 
glabros , lustrosos , fortemente 
verdes, embaixo d* um verdt? maia 
claro , e conservando alguns pel- 
loa quasi imperceptíveis, loiros , 
dos que cobrem mui bastaniente 
os gommos tanto foliaceos , como 
floraes. 

Estipulas nullas, 

Perae esta arvore as suas fo- 
lhas nos messes do invenio , ves- 
te-se de novo * o vem floreseer 
em Setembro , dando os fructos 
maduros em Janeiro* 

Flores brancas , de pouca ap- 
parencia , de suave arotna , e 
dispostas em racimos simples , e 
axílkres. 

Pedúnculo direito^ maior que 
a folha correspondente, um pouco 
anguloso , verde-glaaco , con- 
servando apenns alguns tenuíssi- 
mos pellos dos que cobrem os 
gommos. Pedieellos de 3 a4 li- 
nhas , roliços t nascendo da axilla 
d*uma mui pequena e aguda 
bractea , recurvados , um pouco 
mais grossos para a ponta ou 
hasfl_ do cahs, com a qual sÔo 
contínuos. 

Calis quasi aíunSado , um 



basi acutís , sub-acutis , aut ro- 
tundatis, ápice acumlnatfs, mar- 
gine, forte glândula rum pme— 
sentia, minutissime crenulatis ; 
membranoso-coriaceis , glandults 
pellucidís numerosis, línearibus , 
sivepunctiformibus, notatis; pen-- 
ninerveis , nervo médio dorso 
proeminenti , kteralihus , proín- 
de ac reticulo venarum, ab Utre- 
que latere prominulis ; supra 
glalíris, Incidis, valrle virentibus, 
dorso minus coloratis , pilís fer- 
rugineis , vix vísibihbus , resi- 
dois eoruni , quibus gemma? , 
seu foliacCíT , seu flora les densa 
teguntur , raro insperás. 



Stipukenulte* 

Híbernis mensibus folia deper- 
dit, novam vlriditatem asseeuta, 
Septemhri infloret , et fructus 
maturos Januário profert* 

Flores albi, non insignes, 
suaviter odori, in racemos spioe- 
formes axillares dispositi. 

Pedunculus rectus , fotio lon- 
gior , parce angulatus , gkuco- 
\iridis, aliquot minutíssimos pilos, 
è gemma restantes , conservans. 
Pedicelli 3-4 lineares, teretes, 
basi bracteola minutissíma acu- 
ta guffiilti , recurvi , ad apicem 
sensim incrassatíf et cum caljce 
continui. 



Calvx ftre infunè^biliformiií , 



ÓLEO VEHMELnO. 



53 



(lôiico corvo , Cftmuíio , por íáru 
Ter Jo-g ! t uco , gl íí1> ro : 1 nu bo de 
5 dentes rosos, desiguíies, os 
dous postiços^ maiat largos j tubo 
forrado lio fundo por um disco 
^L pertgrneo , ciipulí formei Nilo 
^H acompanha o fructo até a sua 
^H tuat u mr H o , 

^V CoroUa âub-papilionaeeti , de 

1 5 pétalas brancas » menibrano- 

I Sãs, de dous corupriEientos do 

I cabe , todas divergentes e re- 

I flejctiB na flor aberta : a superior 

^^^^oti j osttca um poueo maior que 
^^^^bs outras ^ longamente ungui- 
^^^^ulada , de limoo largo e ob- 
cordifonne , que no íjotflo se 
dobra Bõbre as outras cjuatro 
twetalas ; esías apparentemente 
iguaes entre si sao todas hnca- 
n?s, lajaceoladas , ponta gud as, e 
©Freitas paru rt base. 

Estames 10 , livres, 5 nm 
pouco maiores e do comprimento 
das pétalas , fixados junto com a 
corítUa em torno da margem do 
disco : filamentos capi liares , su- 
bulados , glabros , brancos j ari- 
tliems bilocubires, amarellas, in- 
trorsas, stili-btisifixas, no apicc 
actmiínadají, emarginadas na ba- 
Be t lojas ad|>r)stB8, loti^itudinal- 
mente regoada«, maã abrindo-se 
b6 no ápice : j)ollen mui subtiL 

Pistillo erecto, fixado no fundo 
do cális^ um pouco menor C|ue os 
estames, glaoro : ovário longa- 
mente estípitado , comprimido , 
Bulí-fídcíido, contendo dous óvulos 
anatropos; estilete continuo, cur- 
ió, ligeiramente encurvado j es- 
tigma in visível. Depois dafecun- 
mífio o pistillo aUongando-se se 
aatxB em dous sentidos tomando 
i fiSrma d um -x> 
Bagem indebíscente , monos- 




parum reciin*iis » carnosiis * ex^ 
tus glauco-viridis, glaber : intus 
ad imum disco perigyneo cupuli- 
forrai insíructus ; ail orara atte- 
nuatus, obsolde o dentatns , 
dentibus doobos postícis amplio- 
ribas, Usque ad maturationem 
fructns non per si st it* 

(jorolla sub-papiíionacea , pe- 
talis 5 a! bis , membranaceis, du- 
plo eaiicis longioribug^ diver- 
gentibug , et reftexis ín flore 
expanso ; superiore seu postiço 
aliõuanfulum majori , longe uu- 
guiculato, lamina lata obcordata, 
lu oestivafione alia pétala oLte^ 
gente ; cíeteris quatuor inter se 
sequalibug , linearibus, basi at- 
tenuatis ad apicem lanceolatis , 
acutis» 



Stamina 10, libera, 5 par um 
altiora , pétala lequantia, et cum 
eis circa marginem disci inserta : 
filam ent is capiS lari bu s , su bii 1 a ti s , 

fifl abris , albís ; antheris biloeu- 
aribus , luteis , iutrorsis , prope 
basífixis, basi emarginatis, ápice 
acuniinatis ^ loculís apposjtis , 
longitudinaliter sulcatis, sed ápice 
sol um modnm debiscentíbus, te~ 
nuissimo polline refertis. 

Pistillum è fundo ealjcis recto 
assu rgen s , &t am i n ubus bre viua , 
glabrum : ovário longe stipitato, 
compresso , sub-falcato , ovula 
duo anatropa continenti : st^lo 
continuo, brevi, aliquantulum in- 
curvo : stigmate inconspicuo. 
Post fa*cundationem, pistiUura 
dum increscit, bicurvum seu in 
formam r\j evadi t. 

Legumen iiidehiscens, m©iiOÊ- 



5i 



RE\1STA BRAZILEIRA. 



perme, de figura quasi oval, uiu 
pouco torta, de lados mui con- 
vexos e superficie rjgosa; no 
ápice obtusi, e inferiormente 
alongada em um estipe de 2 po- 
legadas pouco mais ou menos. 
De cada lado, dorsal e ventral, 
do estipe procede uma aza, que 
corre por toda a sua extensào ter- 
minando na base arredondadas, 
e indo morrer no corpo do fructo, 
sendo a dorsal mais curta e muito 
mfiis estreita; ambas planas, lisas, 
e inteiras na margem. Semente 
presa por um mui curto podos- 
perma, quasi reniforme, grossa, 
uanliada em roda por uma pouca 
de resina fluida : epispemia mem- 
branoso , delgado, bastante pe- 
gado ao embrj'ão, e mettendo-se 
mesmo por entre as pregas das 
cotjledones ; hilo e chalaza pouco 
apparentes . embrvfio sem endos- 
perma , curvo ; cotjledones es- 
pessas, carnosas, encolhidas, for- 
mando pregas mais ou menos 
pfofundas e irregulares ; radicula 
curta, descoberta, e encostada 
ás cotjledones; gemmula mui 
pemiena. 

Esta arvore é própria das matas 
virgens, e nao é muito commum; 
ao menos assim acontece nas da 
serra de Gerecind, onde por ora 
só duas ou três tenho encon- 
trado. Sua madeira nílo é de 
grande duração, se estiver exposta 
ao ar ; mas é estimada, e procu- 
rada para empregos especiaes. A 



Íermum, figura fere omJí, mo- 
ice incur\'um , utrinque valde 
convpximi , reticulato-rugosum , 
ápice obtusum, inferne in stipitem 
bipoUicnrem , compressum, ad 
basin tenuiorem , elongatum : 
siug\do latere , nempe dorsali et 
ventrali, stipitis, um versa exten— 
sione ala producitur , membra- 
nacea, plana , margine integra ; 
dorsalis longe angustior, ac paulo 
brevior. Sémen resina fluida cir- 
cumdatum, proxime reniforme, 
crassum, fimieulo brevissimo sus- 
pensum: tegumento tenui, em- 
bnoni satis adherente, et in ejus 
sinuamina etiam peuetranti ; hilo 
et chalaza parumconspicuis. Em- 
brvo albuiiiine destitutus, incur- 
vatus ; cotvledonibus camosis , 
profunde et irregulariter plicatis ; 
radicula brevi, externa, mflexa ; 
gemmula vix apparenti. 



pnmaBvis ; 
saltem in 



Oflenditur svlvis 
sed infrequens est . 
monte, (j^ui vulgo dicitur Gere- 
cinó ^ ubi duas tantummodo vel 
três potui hactenus videre. Li- 
gnum ejus diu expositum non 
perdurat ; sed operibus variis spe- 
cialiteradaptatum, et requisitum. 
De resina, si alicui usui adhi- 
betur, non constat. 



resma não me consta que seja 
aproveitada. 

Tenho por certo que esta espécie 6 bem distincta das quatro até aqui 
descriptas nos tratados de Botânica. O nome especifico Èxythroxylum 
[páo vermelho) é um equivalente do nome vulgar Óleo terynelho. 

Rio de Janeiro 5 de Junho de 1851. 

Francisco Freire Allbmâo. 



ÓLEO VERMELUO. 



55 



Explicação da estampa, 

Fig. l.Ramo do tamanho na- Fig. 1. 
tural. • 

(a) Porção da folha 
muito augmentada, 
para mostrar a dis- 
posição das nervu- 
ras e glândulas. 

» 2. Flor, pouco aug. 

» 3. Flor cortada longitudi- 
nalmente para ^ue 
se veja o disco, a m- 
serçdo e relações dos 
órgãos iloraes. 

» 4. Pétalas. 
» 5. Estame de frente. 
» 6. O mesmo de costas. 
» 7. O mesmo de lado , já 
vazio de poUen. 

» 8. Pistillo partido. 

Ía} Estilo. 
b\ Estijje. 
c) Ovário. 

to 9. Fructo, do tamanho nat. » 9. 

» 10. O mesmo aberto , mos- » 10. 
trando a semente. 

» 11. Semente. » 11. 

(a) Hila. 
fbj Raphe. 
íc) Chalaza. 
(d) Micropjlo. 

» 12. Embryão aberto. » 12. 

(a] Kadicula. 

(b) Gemmula. 



Expacatto tconts. 



» 



2. 
3. 



4. 
5. 
6. 

7. 



8. 



BâmuR magnitudinís 
naturalis. 

(a) Portio folii valde 
aucta , ut nervi et 
glanduiSB videantur. 



Fios, parum auctus. 

Fios longitudinaliter 
sectus, ut discum, 
insertio, et rationem 
partium patefaciat. 

Pétala. 

Stamen facie visum. 
Idem dorso visum. 
Idem lateraliter visum 

post ejaculatiun pol-- 

tinem. 

Pistillum sectum. 

Ía] Stylus, 
bj Stipes. 
c) Ovarium. 

Fructus, magn. nat. 

Idem divisus , sémen 
ostendens. 

Sémen. 
la) Hilum. 
(bj Raphe. 
Ic\ Chalaza. 
(d) Micropjlus. 

Embryo apertus. 
ía| Kadicula. 
(b) Gemmula. 



EUPHORBIAGEA. 

HYERONIMA-^ALCHORNIOIDES (") 



VULGO: URUCURANA. 



Indivíduo masculino. 

Tronco, folhas, íoc. era tudo 
semelhantes aos do individuo fe- 
minino. 

Flores pe^eninas , dispostas 
«m cachos paniculados, axil- 
lafes, menores que a folha, arti- 
culados, despegando-se inteiros 
da arvore depois da florescência. 

Pedúnculo dividido umasó vez, 
em ramos alternos ; dos quaes os 
superiores sfio sempre menores, 
munidos de liracteas, que, sendo 
lineares e fugazes nas primeiras 
divisões, vao diminuindo para 
cima, e acabam triangulares e 
mais duradouras. Pedicellos cur- 
tíssimos, nascidos da axilla de 
uma bractea aguda, mui pequena. 
Todas estas partes sâo cooertas 
de pellos escamiformes, estrella- 
•dos, «(5 visíveis com o soccorro de 
uma lente, de cór parda aloirada 
um tanto lustrosa. 

Calis hferbaoeo, subcampanu- 
lado, com quatro sulcos mui apa- 
gados, coberto por fora da mesma 
sorte de pellos que o pedúnculo ; 
limbo iápônas quadridenteado. 



Stirps máscula. 

Truncus, folia , et cartera^ ut 
ín stirpe foemina. 

Flores minuti, in racemos pa- 
niculatos, axilla foliorum articu-- 
latos, folio breviores , post an- 
thesinintegroscadentes, aispositi. 

Peduncuius semel divísus, an- 
gulosus: divísuraBalternsBySursum 
decrescentes, bracteis eadem ra— 
tione minuentibus, infimis linea- 
ribus, fiigacibus, ultimis trian- 
gularibus, diutius persistentibus, 
suflWtflD. Pedicelii brevissimi , 
bracteolis acutis muniti. Cuncta 
pilis squamosis stellatis, subru-' 
tilis , ope lentis iantumraodo pers- 
picuis , fusco-luridis inspersa; 



Calyx herl(aceus,subcampanu- 
latus , obsoleto quadrisulcatus , 
extus eodem trichismo pedunculi 
obductus; limbo vix quadriden- 
tato. 



(*) O pmtrofJycronima foi estabelecido em 18à8 ; mas como na Europa pouco 
se procuram &s- publicações do nosso paiz, e mesmo algumas pessoas a quem os 
autores as remetlem não mostram empenho em dar destas ao menos uma noticia 
(com honrosa excepção de M. deSaint-IIilaire), aconteceu que o Dr. L. R. Tulasne 
nos Annaes das Sciencias naturacs, vol. I de 1801 p. 2ii0 et seq., publicou oito 
espécies do mesmo género, que este denominou Stilaginella, ficando porém este 
nome prejudicado por causa da prioridade do outro do nosso dislincto Dr. Freire 
Allemão. 

Na Serra da Estreita encontram-se jantas em abundância arvores dos dous sexos. 

Cafànemà. 



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IRLCURANA- 



57 



Cofulla (hita* 

Entre Q cíJifi e os e st ames m 
obfiêrra uma eí^pecie ãe cúpula 
ibranosa, mais curta que o 
, offerecendo tanjljera na mar- 
gem quatro dentas mui rasos, e 
.alguns peUos* Este orgAo, que 
'^IHàlcaente existe nas fldres fe- 
iiiiimag, porám míiis pqueuo, e 
(oode ea o desifriiei com o nome 
ie disco, me pureee agora, vista 
'a sua posíçuo por fòra dos esta- 
mei, repreeenfar antes o verti- 
|40ilb corolUtio : uo emtnnto eu sei 
quão to o disco raría em forma e 
Cíâíçáo relativa iiae Euphorbía- 
rceas. 

Estasies íhjrpõgriieos, livres, 
muito mais compridos que o ca- 
lis, altemog com us divísOes deste, 
e oppostos ás da cúpula; filámeu- 
tos glabros, da mesma grossura 
era todo o comprinjeDto , achata- 
dos, e bisulcados; anthera em 
fdrma de ferradura, medi fixas, 
ioírorsas, a pendentes no botfio, 
ixH ílAr aberta voltadíis para cima; 
lojas situadas nos exfrenios de 
um connectivo dístraclil e curvo, 
opjiosías enfrc si, e abrindo—se 
no ápice por uma mui pequena 
cada* 

No centro da flor se levanta 
tiin corjKí eí4|iesâo ejlindrico» mais: 
f^rOBSO para a ponta , onde é ob- 
tuso , deprimido, c s€^m pellos, 
Fendo pelos lados coberto de uma 
felpa ona : é cdguma eoasa mais 
alto que o calis. Eu o considero 
como um pístillo abortado . 

Esta arvore, como o iudívídtio 
fetnioino, nasce nas maÍRS vir- 
gens , e dá boa madeira de cons- 
trurçâo : estava com flor em Ou-- 
lubro. 



Ojfolla nuUa. 

Inter caljcem et stamina ioe^t 
cúpula membranacca , margine 
obsoletissime quarlridentata, ci- 
liata , cahce brevior. Vere discuíi 
an corolla abortiva? In flore fcE— 
miiieo, ubi brevíssima, discum 
-appellavi; nunc, Quialocumco- 
rolW occupare videi ur, biesito. 
Intcrea non me fugit quantum 
díscus sivc ncctana in Eupbor- 
bíaceis pro forma situve varient. 



St a mina 4 hj^pogvna , omuíno 
libera, cálice multo íongioni, di- 
visioníbusc.ilieis alterna, cupulte 
opposita : filíiiiienta glabra, com- 

fjressa, leviter bisulcata, ^qua- 
iter crassa ; antberíp biloculares, 
medífixm, ferrei soleaí figuram 
exhibentes, in prsífloratione ín- 
trorsm, appenssp, post aiitbesiu 
rcsupiua?, erecta*; loculía dis- 
cretis, in exíreinitatibus connec— 
ti%n curvi sitís, inter se opposítís, 
figura bre%issima ápice apertis. 



In centro florig corpus cjliu- 
draccum , clavatum npico obtu- 
sum, depressum, cíilvum, late- 
Tibus tenuiter piloguni , caljcem 
parum superans, erigitur, Rudi- 
uientnm pístilli vídetur. 



Habitat sjlvis priniordiis ; 
octobri florebat; in constructío— 
uibus, ut PtBmtna, utills* 



58 



REVISTA BRAZlLEillA. 



REFLBXAO. 

Em Abril de 1848 publiquei a historia e o desenho do individuo 
feminino desta espécie , que considerei como representando o typo 
de um género novo. Então havendo unicamente estudado a flor fe- 
minina e o fructo, me pareceu que, quanto á structura destas partes, 
tinha este novo género aflBnidades com o Oyclostemon dos AA. O. 
exame da flor masculina veio confirmar minha primeira opinião, 
quanto â novidade do género, ajuntando novos e importantes car- 
racteres para a sua dioffnosis e circumscripçSo. O numero porém dos 
estames e seu modo de inserção, a fdrma singular das antheras, &c 
o afastam do Cyclostemon, e o approximam ao Brypetes na tribu das 
Buxeas. 

A diversidade no tempo da florescência dos dous individues macho 
e fêmea é devida seguramente â diflerença das localidades onde os 
encontrei : a flor feminina foi colhida na serra de Oerecinó, e a mas- 
culina nos matas da fazenda dos Afionsos. 

Rio de Janeiro 18 de Novembro de 1850. 

Francisco Freire Allemão. 



Explicação da estampa. 
Fig. 1. Racimo floral, no ta- 
manho natural. 
ía| bractea superior, 
íbj bractea inferior, t. n. 
(c) a mesma aug. 
» 2. Flor, t. n. 
» 3. A mesma aug. 

(a) bractea. 
)) 4. Flor partida pelo meio 
verticalmente. 
(a) pelloestrellado, aug. 
íb) caUs. 

(c) cúpula ou disco. 

(d) corpo central, ou ru- 
dimento do pistillo. 

Antheras no botão. 

(a) vista por dentro. 

(b) vista por fora. 
Antheras na flor aberta. 

(a) vista por fora. 

(b) vista por dentro. 



5. 



6. 



ExpUcatio iconis. 

Fig. 1. Racemus magnitudinis 
naturalis. 
ía| bractea ultima. 
fm » infíma,m.n. 

(c) eadem aucta. 
)} 2. Fios, magn. nat. 
» 3. Idem auct. 

» 4 Idem verticaliter sectus. 

(a) pilus steilatus. 
íb) cálix. 

fc) cúpula seu discus* 

(d) rudimentum pistilli. 

)) 5. Antherseinpraefloratione. 
fa] intus visa. 

(b) foris visa. 

» 6. Antherae post anthesin. 

(a) foris visa. 

(b) intus visa. 



LITTEMTUM 



A CONFEDERAÇÃO DOS TAMOYOS 

PELO SB. DR. DOMINGOS JOSÉ GONÇALVES DE MAGALHÃES. 



Depois do que tantos e tão bons engenhos teui escripto 
sobre a inconvenieDcia das cpopéas nos séculos em que 
as Juzes parecem haver enfraquecido o vigor das crenças , e 
cora elle a exaltação dos sentimentos, e a variedade e a 
força dos caracteres, será permittido èo homem inspirado, 
a que o mundo costuma chamar poeta , lançar ao regaço da 
sociedade contemporânea um grande brado d'amor nacional 
soba forma visivel d'uma epopéa? Estará ainda o povo do 
Brazil na sua simplicidade primitiva , e será ainda tão 
infante que se enfeitice com o maravilhoso de uma nar- 
ração heróica , sem pedir nenhuma explicação á sciencia , 
sem discutir o mérito de similhnnte trabalho pela critica? 
E resolvidas essas duas importantes questões, qual será a 
forma por que a arte se deve hoje manifestar no Brazil? 

II 

Qualquer que seja o estado de cultura em que se achem 
as sociedades humanas , ao alvorecer nebuloso da intelli- 
gencia , ou ao raiar esplendido da civilisação , o mais natural 
e o mais afagado sentimento que nellas se manifesta é 



iW 



ftlvViSTA 0EA21LE1IU. 



sempre o da liarmonifl pelfi vm e pelo iDovimento da arfu - 
de sorle que a bi^^loria do industria e da riqueza tle cada 
povo nâo é para nus senão » própria historid do seu proi^resso 
oriíslíco, qtie se resume ein duas palavras : —a realisação do 
ideal no espirito e na matéria, O ide«l, que é a cunsictlacâa 
da cruz para o atrtjvido navegador da lerra 1 O ideal , que 
é o raio ardente que se desprende de Deus a sâ lefracla 
no coração do poeta, em quanto vieja pelo ingrato oceano 
da vida ! 

Seja qual fôr o secul i cm que cíida individuo na,>^ça, sejam 
quaes forem as trailições nncionaes que o cerquem su- 
persticiosas ou esclarecidas — é sempre certo que o senti* 
mento da musica pela palavra e o amor da bello pelas 
formas so lhe revelam espontâneos iralina, como um fulgor 
celeste. Desgraçado d*ai{ue1le liomem que não sente em 
si esso lume, porque o afoga descuidoso nas ignóbeis crustas 
da toa teria ! 

Assim, nnsidtííles ful> idosas doá povos apparecem as 1 liadas 
e as Odvsséas , que elles descantam eudicvecidos era todas 
as cidades n^is civilisaçócs semi-Iiarbaras ostenta íii-se as 
Eneidas e as PUarsalias , com todo u iuxo depurado que a 
Grécia soube inspirar aos seus conquistadores» e que nós 
todos admiramos; nas civil isações cbristãas o gosto se Irans- 
forma eai^to com as novas idéas, e a Musa do Cliristiauismo 
oíTerece-nos os Luíiiadas e a Jerusalém Libertada, ante 
quem se ajoelham as nações. 

Mas o que é cerlo ó que em todas as idades se levanta 
o génio como a mais alta potencia da absti acção e do en- 
tbusiasmo, iuexgolavel como Deus que o dá, folheando a 
historia, estudando as paiiòes humanas, assistindo ao 
espectáculo da natureza inteira , e contemplando o poder 
infinito do Greador. A fórroa porém, o modo particular de 
ver, ea vantagem iramediala que os costumes podem tirar 
do canto que p5o em scena uma acção illuslre o a propõe 
á veneração d'umpovo» isso é que diíTerOi cdeve diflforir 



I 



k CONFEOEItArAo DOSE TAMÔYOS. 61 

Unlo quanlú forem diversas as pbascs civis, as climas e as 
in^lituiçô^íi poUticáíi desse povo, mtus sómenle nisso, 

A epopéa é pois, quando as creaças populares estão cheias 
de vida, uma lenda feilieeira das fainilins ; qtiaiido as tra- 
dições vão descorando eom a fé, um svmbolo delieioso do 
passndo; e quando a razão se abrnçFi grave com a indushia* 
é um ningnllíeo monumento da nite; de sorte que a questão 
de opportunidade para a epopéa é antes uma questão de 
aspecto para o povo qoo a recita . do que uma questão de 
tempo para a humanidade que a acceita, 

in 

o BraziU descoberto ha pouco niais de Ires séculos, 
aclia~se na sua pliase nscendenie de eivilisaoão. e caminha 
n*uma senda de prosperidade admirável, O ardor de seus 
fíllios em todas as provincias para a cultura das artes e leitras 
humanas , e a reputação que alguns delles goxam na Europa 
e na America, quer como homens iF Estado, quer como 
sabiot distinctos, assentam hoje o Brazil em um dos mais 
honrosos logares no quadro das nações polidas. 

E todavia, em nossa opinião, não eslá só na cultura das 
lettras e na disLincçào iFalgnas homens de talento o quo 
em bom direito se pude chamar a polidez d'um povo : 
cabe unicamente este nome uquelle quo ^ a par do movimento 
tia industria — tomado este termo na aceepção mais ampla 
—respeita e conserva a base das suas instituições politicas 
como um penhor de segurança c de repouso, e como o 
iijiiis solido fiador da sou engrandecimento, sem que o 
seduzam as tlieorias deploráveis que hão reduzido a penúria 
outros povos da (erra em nossos dias. Ora, o firazil vive com 
efleilo á sombra destas instituições , adora-as , abraça-se 
com ellaã^ e revolve-se no principio de ordem e de liberdade 
regrada; e novo como é , não é já infante : é uma coiméa 
de honieos robusios, é uma geração virente que se arroja 



62 HE VISTA BRAZILEIRA. 

desassombrada á praça das idéas, que as pesa, que as 
combina, que as tritura, que as harmonisa, e que felizmente 
se acha liberta das sombras limbicas da primeira idade. 
E é porque o Brazil está cheio de vida intellectual, porque 
crê nos seus destinos futuros, e sente no coração o gérmen 
da poesia que os seus bosques e rios lhe inspiram, que a 
critica se pôde hoje apoderar em socego da Confederação 
(los Tamoyos, como do ideal da sua historia primitiva, e 
consideral-a imparcial e desapaixonada, quer sob o domínio 
da sciencia, quer da arte. 

IV 

O Sr. Domingos José Gonçalves de Magalhães acaba de 
publicar com effeito no Rio de Janeiro em magniQcos ca- 
racteres o seu bello poema A Confederação dos Tamoyos^ 
dedicado a Sua Magestadk o Imperador. É um monumento 
nacional que leia sido m editado e analysado , segundo nos 
consta, por mui distinctos pensadores; mas nem por isso 
lhe fará mal que o irmão d*arte que elle ha muito conhece, 
c que com elle arou n'ontro tempo o campo das sciencias 
no seu palrio Uio , venha hoje augmentar o numero dos 
que o estudaram, e o fizeram melhor conhecer. 



A acção do poema começa por um brado de guerra dos 
Tamoyos contra a colónia de São Vicente, e acaba pela 
fundação da cidade do Rio de Janeiro, e a posso detinitiva 
de todo o Nictheroy pelos Portuguezes nossos antepassados, 
que com ella nos ganharam a do Brazil inteiro. 

O heroe é o chefe mais destemido dessa tribu illustre — 
Aimbire — , a cuja personagem se dá toda a unidade e 
toda a gravidade que similhante acção requer. 

O poeta abre o seu primeiro canto invocando o Sol e os 
Génios dos desertos do Brazil , para que o bafejem e o ins- 



A CONFEDERAÇÃO DOS TAMOYOS. 63 

pirem. D'ahi começa a descrever o que são as nossas plagas, 
edá-nos este maravilhoso desenho dos seus limites ao Norte 
e ao Sul — o Amazonas e o Paraná: 

Balisa natural ao Norte avulta 

O das aguas gigante caudaloso , 

Que pela terra alarga-se vastíssimo ; 

Do Oceano rival, ou rei dos rios, 

Si é que o nome de rei o não abate ; 

Pois mais que o rei supera em pompa o brilho 

No sólio á multidão em torno curva , 

Supera o Amazonas na grandeza 

A quantos rios ha grandes no mundo! 

O Kiang, o Nilo, o Volga, o Mississípo, 

Inda que as aguas suas reunissem , 

Com elle compelir não poderiam. 

Ao lado seu direito; e ao esquerdo lado 

Mil feudatarios rios vem pngar-lhe 

Tributo perennal de suas aguas. 

Basupino gigante se afigura , 

Qual outro Briaréo, mas verdadeiro , 

Que estende os braços p'ra abarcar a terra ! 

Pujante assim no Atlântico s'entranhn , 

Ante si repellindo o argênteo salso , 

Como si elle na terra não coubera , 

Ou como d'inundal-a receioso 

Si mais longo e mais lento a discorresse 1 

O Amazonas co'o Oceano furioso 

Luta renhida trava interminável 

Para roubar-lheo leito; e ronca e espuma , 

Qual no lago, enlaçada a cauda a um tronco, 

Feroz sucuriuba hórrida ronca 

Quando sente mover-se á flor das aguas 

Lontra ligeira, ou anta descuidada ^ 

£ inchando as fauces, a cabeça eleva , 

Os queixos escancara, a lingua solta. 

Para de uma só vez tragar o amphibio. 

Tal no pleito co'o Oceano o Amazonas 

Para sorvél-o a larga foz medonha 

Legoas abre setenta I A ingente lingua 



64 REVISTA miAZILBlRA. 

Estende de ires vezes Irinla milhas, 
Coiuo uma longa espada, que se embebe 
Ao travez do Allanlico irncundo , 
Que gemendo recua no arremesso, 
E em montes ali|uebrado o dorso enruga. 
Armas que joga ao mar sSo grossos troncos 
Arrancados na fúria, são pedaços 
D'esbroudas montanhas qu' ello mina : 
Seus gritos são trovOes tão horrorosos , 
Que alli parece submergir-se o mundo 
Quando se incha seu corpo desmedido: 
Equorea, espessa nuvem se levanta, 
Como uma chuva contra o céo erguida , 
Reflectindo do sol os sele raios. 
Tal o conquistador, que co'os despojos 
Dos reis deslhronisados se opulenta , 
Ou co'os tributos dos vencidos povos, 
Em pé tirme no carro do combale, 
Envolto n'uma nuvem de poeira , 
Na frente vai levando debandada 
Ingente alluvião de imigas hostes, 
E ante as portas de bronze do castello 
Nova victoria alterca porGosa. 
Da opposta parte, não tão magesloso. 
Mas grande em si, o Paraná se alonga 
Da serra Mantiqueira, e cava, e afunda 
Largo sulco nas terras que devassa ; 
Como escorregadiça, argêntea estrada , 
Obra sem pardas mãos da Natureza , 
Em prol dos filhos seus circumvizinhos , 
No trajecto veloz se assenhoreia 
De pingues numerosos aOluentes , 
Té no Prata perder-se, ou dar-lho origem. 

Pintando o nosso céo táo liado e as nossas altíssinias 
íloreslas, diz-nos o Sr. Magalhães que aqui 

A Natureza é tudo, e excede ao homem , 
Quehade bem cedo emparelhar com ella! 

A liberdade dos pobres índios, foragida, é assemelhada ao 



A CONFKDERArlO DOS TAMOYOS. fi5 

guará , que perde as alvas pennas, 

E novas por«m negras !íbó lhe crescem ; 



De tão lindo que era se Iransforma 
Em pássaro funéreo ; e fugitivo 
Geme, como carpindo a perda sua , . 
£ nem ousa mosirar-se envergonhado, 
Até que o lucio em purpura se mudo 
Co'as plumas novas, que lhe crescem rubras. 

Imagens locaes, de uma graça e de uma originalidade ini- 
mitáveis, 

O audaz Aimbtre põe em pratica quanto lhe suggere o 
amor da terra natal para reunir todas as tribus dos Tamoyos 
conlra os Portuguezes, e um desses meios é o braço e a 
experiência do velho Pindobuçú. Vai procural-o á Gavia, 
onde elle habita, masacha-o dando repouso a um filho a 
quem amava. Depois de tomar uma pedra e pousal-a sobre 
a sepultura do morto , rompe Aimbire nesta saudação 
admirável: 

Em paz descança , 

(Diz) oh guerreiro, cujo nome ignoro ; 
Mas ésTamoyo, e amigos meus te choram. 
Aqui teus ossos jazerão p'ra sempre 
Sobre este monte, que me viu pequeno , 
Após meu pai, andar sahis caçando , 
Tão lindos qu'eu co'as pennas m^enfeilava. 
Lá diviso a Tijuca tSo saudosa , 
Cujas aguas bebi; nellas banhei-me. 
Allí n'aquelie morro, onde se eleva 
O Corcovado píncaro ventoso, 
Doce e manso deslisa-se o Carioca , 
A cujas margens minha m9i cantava 
Tão mestos cantos, qu*eu chorando ouvia, 
E ainda choro co'a lembrança delles. 
Quantas vezes n'aquella escura várzea , 
Onde o Catôte saltitante corre , 
Ouvindo o sabiá e o gaturamo , 



66 REVISTA BRAZILEIRA. 

Dormi, sonliei, aromas respirando 
Co' aquelles ares puros que dão vida l 
Aqui abaixo o Comorim se alarga « 
Onde eu pescava tantas vezes, tantas. 
Terras em qu*eu nasci, c^mo sois bellas ! 
Como és formoso, oli céo de Guanabara ! 
Mais azul do que as pennasd'araruDa! 
E a vós eu volio, e vos saúdo em frento 
De uma recente, pranteada campa , 
De quem, não sei ; talvez de algum amigo l 

Quem não percebe nestas saudosas lembranças o própria 
coração do poeta em terra estranha , recorda ndo-se da 
pátria, que parece ter diante de si? 

No entanto Pindobuçú reconhece Aimbire, diz-lhe quem 
é o morto, ambos o pranteam, e o irmão, e a irmãa, e os 
índios todos. Mas Aimbire não quer receber o agazalho que 
o cacique lhe offerece sem que primeiro se lhe conte de 
que modo morrera o seu Comorim . 

O cacique narra-lbe essa morte gloriosa ao defender n'um 
assalto a irmãa roubada , e como já preso e ferido atirara 
denodado com dous Emboabas por terra , e agarrando-os 
pelos cabellos, dera com a cabeça de um contra a do outro. 

Que batendo quebraram-se estalando , 
Como e3talam batendo as sapucaias 1 

Formosissima onomatopéia, talvez a de melhor etíeito ae 
todo o poema. 

Aimbire, respirando vingança feroz, incita a tribu de 
Nacahé a vingar com elle a morte do seu amigo d*infancia , 
e o roubo tentado de Iguassú, e exclama soberbo : 

Serás vingado, Comorim, eu juro 
Por teu sangue innocenie derramado; 
Por minha mai, que os vis assassinaram ; 
Por meu pai; que morreu nocaptiveiro ; 
Pela linda Iguassú, que defendeste, 
"Equ^eu defenderei de hoje em diante 



A CONFEDERAÇÃO DOS TAMOYOS. 6T 

Como irmào si quizer, ou como esposo^ 
Si ella e Pindobuçú me não desprezam ! 
Juro por este céo, por estes ares , 
* Por tudo quanto vejo, e pela lua 
Que tomo em testemunha, e que me escuta; 
Juro que hei de vingar a lua morte , 
Até que a tua voz me grile : basta \ 

Tamoyos, que me ouvis, tudo está prompto ; 
Todos estes sertões eslào armados , 
E por vós só esperam. Eia, armai-vos 
Para a grande vingança, de nós digna : 
Não ha prazer que ao da vingança iguale. 
Comorim não quer lagrimas, quer sangue 1 
Não quer tristeza, quer furor e guerra ! 
Preparai vos p'ra guerra sanguinosa , 
Qu' eu aviso vou dar ás tabas todas 
Que vós sereis comnosco. Prometteis-me? 
Quereis ser livres d'uma vez p'ra sempre? 

Os índios todos Ibe respondem unisonos: « Vingança e 
liberdade ! » , e assim se encerra o canto primeiro. 

VI 

Confederadas as tribus do Guanabara e aprestadas para 
a guerra , dá-nos o poeta os usos de suas armas e vestidos, 
e pinta deste modo os de Aimbire , á testa de todos : 

« Fraldào tecido de encarnadas pennas , 

Matizadas d'azul, que a arara imita, 

A cintura lhe cinge. Do pescoço 

Cabe o collar de dentes arrancados 

Por suas mãos das boccas dos vencidos , 

E tfio amplo lhe cabe que o peito cobre. 

Larga, escamosa, verdenegra pelle 

De enorme jacaré, qu' elle matara , 

As espadoas lhe veste. Tem na dextra 

Uma de dentes d'onça acha embutida , 

Que de serra lhe serve e mortal arma. # 

Croa-lbe a fronte um resplandor de pennas 



68 REVISTA BRAZILEIKA. 

Da côr do fulvo sol : obra apurada 

De Iguassú, que Ib'a deu de amor em prenda « 

Iguassú, sua amante, e qu^elle espera 

Tomar, Gnda esta guerra, por esposa. 

Nero ao lado lhe falta grossa aljava , 

Nem o arco robusto , que dous homens 

Gomo nós a vergal-o suariam , 

E em suas mãos porém fácil se curva. 

E depois o porte do sombrio cacique da Gavia , e o do 
horrendo filho : 

O anciSo Pindobuçú de nobre aspúclo 
Sua taba conduz : elle se cobre 
De negras plumas, que a tristeza exprimem 
Pela morte do filho, qu'inda chora. 
Parabuçú, de porte agigantado , 
De pennas não se cobre ; moço ainda , 
Quer espanto causar co'o hórrido aspecto 
Da figura : manchada, oncina pelle 
Desde a cabeça, que no largo espaço 
Das abertas mandíbulas se enfía, 
Até ao chão se estende ; enorme casco 
De tatu lhe derende o peito e o ventre ; 
De escudo outro lhe serve. Elle sobraça 
A terrivel inúbia, que assignala 
A hora da investida e retirada. 
Tão medonho trajar mais lhe realça 
O corpo colossal e musculoso. 
Pindobuçú, seu pai, que muito o ama , 
N'elle de Comorim tem viva a imagem , 
E n'elle cifra o orgulho dos seus annos. 

Estas bellas enargucias não achara similhantes senão 
em raríssimos poetas de extremado mento. 

O Sr. Magalhães tem um grande conhecimento de todas 
as usanças e ritos tu picos, da geographia primitiva do paiz, 
6 sobretudo da sua historia. 

Todos os chefes das tribas confederadas reunem-se n'ama 



A CONFEDERAÇÃO DOS TAMUVDS. 69 

geie de conselho de guerra; e a falia de Jagoanbtira, 
que é o mais moço, é iiõiavel de enlliusiasmo e hardimcnlo: 

Vede esia pello que me cobre os hombros ; 
É ãe um tamanduá, animal ffseo , 
Qye não ousa alacar, mai^que manlmso 
Deitado e5]}era o aggressor incauiOp 
Eabraçando-o tlie crava as curvas garras. 
Quereis vós imitai -o na traquúzâ? 
Humildes receber novos insultos t 
Esperar e luclar como cobardes , 
Que jamaiâseapresônlam flecha á flecha , 
E com meios dlnduslria só combalem? 

Blas a [iodra de toqtie, verdadeirameaic poética, do Sr. 
Magalliães no segundo canto , é a oposlroplie blaspheoia do 
lerrivel Aimbire, desafiando a Tupan, cujo mysterio eUc 
€onhec€^ para aceender em todos a aiulacia e o furor: 

Tupan queime apresento, etit^o veremos 
Qual de nósdous mefbor diâpara o raíOi 
Eis o meu. não o escondo l hto dizendo. 
Tira do cinto uma pistola armaJa , 
O braçx) estende, e para o céo dispara ; 
E Q bala foi ferir uma ave negra , 
Que no espaço mil gyros descrevendo, 
Cabir veio a seus pés inda guinchando * 
Quentes gottas de sangue sacudindo 
Sobre a assombrada lurnia estupefacta. 
Alvorota-se o campo ; e quantos ouvem 
O inopinadQ estrondo pVa ai li correm t 
E em tomo do concilio se amontoam , 
Tendo todos os olhos sobro Aimbire. 
EUe, inimovelj cô'o brnço inda estendido > 
Com ar vanglorioso a arma empunha, 
Porque do seu poder não se duvide. 

A blagphêmia d'Aimbire , que escandalisa de horror o 
ouvido cbristão, é não só tolerável como natural o bella na; 
boeca do pagão i para quem Deus é apenas o génio do fogo^ 
colesle. 



70[23 ^ REVISTA BRAZILEIRA. 

Os limites desta critica não nos permittem trasladar panr 
aqui a extensa falia dWimbire no conselho dos caciques, 
mas é uma soberba representação do que eram os Tamoyos 
antes da conquista » e a narrativa dos mais notáveis feitos 
do guerreiro até essa época. Amestrado do uso das armas 
etiropéas desde que se alliára aos Francezes, incita as tribus 
a marcharem denodadas contra os Porluguezes , descreven- 
do-lhes o combate cruel , que tivera por ultimo resultado a 
tomada da fortaleza de Villegagnon ; 

De ambos os tados raios sobre raios 

Disparados, no ar se eramaranhavam; 

Trovões sobre trovões tào repetidos 

Ribombavam, que o mar lodo tremia ,. 

E eriçado em montanhas se elevava 

Sobre o penedo^ em cólera bramando : 

Tremia o céo, de fumo só coberto ! ^ 

E o ecbo horrendo destes duros montes^ 

Que ia medonho ao longe rcsoando, 

Era rgual ao estridor da trovoada. 



« Nunca vi tanto sangue derramado f 
Todo o rochedo em sangue se inundava. 
Mil regatos de sangue ao mar corriam ; 
£ o mar vermelho eslava ! Entre cadavVes « 
BraçoS; pernas, cabeças mutiladas, 
Tropeçavam os vivos!. . Sobre as aguas 
Muitos dos inimigos já feridos 
Luclavam p>a subir sobre as canoas, 
Âos remos se agarravam, e uns e outros 
Seguros mutua guerra se faziam. 

Entre os inimigos appnrece-lhe Tibiricá, antigo chefe 
d'uma tribu guanabára: o guerreiro insulta-o como traidor ^ 
mas é preso e levado para uma náo de Mem de Sá, da qual 
se escapa nadando, e vai descançar n*um rochedo vizinho. 
Ahi encontra alguns Francezes e Tamoyos, também escapes, 
e juram todos guerra eterna aos Portuguezes. A ultima parte 
do discurso d'Aimbirc é um conselho a Jvigoanharo, para que 



A CONFEDERAÇÃO DOS TAMOYOS. 71 

va ver Tibiriçá, e o persuada a vir juntar-se aos seus, e 
a honrar as cinzas de sua mãi. Todos applaudem com mil 
grilos O parecer e os feitos do heróe, e 

Em signal de alegria dispararam 
Mil seitas para o ar ; e vozeando , 
Os sons interrompiam n'um trinado » 
Sobre as boccas batendo co'as mãos ambas. 

VII 

No terceiro canto fiaz-nos o poeta conhecer novos e 
curiosos usos dos índios, — os seus licores, o seu dormir, 
o deitar dos maridos 

Quando as mulheres dão áluz os filhos, 
Como si elles para si a dõr tomassem , 

o doudejar das crianças , a occupaçâo das velhas , e o colher 
dos fructos para o banquete que se prepara. 

O retrato de Villegagnon é tão conforme com o que 
delle pensam os dous santos jesuitas que o Sr. Magalhães 
consultara, que não podemos furtar-nos á tentação de o 
copiar : 

Era Villegagnon manhoso e ousado 
Cavalleiro Francez, que de Calvino 
Ostentava seguir a nova seita , 
P'ra ter de Coligny o certo apoio 
Na ambição desmedida que o movia ; 
Mas com todos traidor, cuidava o ímpio 
Poder com vis enganos e perfídias 
Novo Império fundar nestas devezas , 
A qa'elle — França Antárctica — chamava. 
Mas faltava ao Francez aventuroso 
Constância igual ao plano agigantado ; 
Faltava-lhe inda mais a fé sincera 
De quem attinge á idéa, não ao lucro. 

Os Francezes vem em soccorro dos Tamoyos , que os- 
recebem por entre applausos e festas , e 



72 REVISTA BRAZILEIIU. 

umcôro de donztíllas 

De coma íTucluftnle, e mal coberias 
Co^iiD leeido de pennas de tucano ^ 
Tão esbeltas no t»lhe que venciam 
As mais belias palmeiras destes bosifues ^ 
Ante elles assomando graciosas 
Lhes offertam em cuias coloridas 
O ardente nanauy, e outros diversos 
Saborosos licores, que ellas mesmas 
De Fermentados fructos extrahiranu 

Par entre a recepção e o folgar dos hospedes, namora-se 
um dos Francezes da linda filha d^Aimbire, peíle-a ao pai 
por esposa, mas elle nâolh'a dará emquanto os ossos de 
seu pai forem cakados pelos pà dos Lusos. 

Segue-se a festa da despedida dos guerreiros antes de 
marcharem contra os inimigos. Vai a noite adiantada» 
Goaquira, o yate inspirado das tribus, eleva-se como um 
vulto terrível sobre um combro de terra , chega aos lábios 
um craneo inimigo , onde espuma a licor sagrado : e por 
entre o pallor da lua e os reflexos escarlates das fogueiras, 
prorompe rouco neste medonho hymno de guerra : 

« Gloria, gloria a Tupan 1 Sua voz troo 
Desde a cabana erguida na montanha 
Té nos covis recônditos das feras. 

« O céo é de Tupan, a terra é nossa ; 
Nossos pais a regaram com seu sangue ; 
A nós toea noorrer para vingal-os. 

t Nossos pais livres foram, e temidos 
Dos Aimorés terríveis, que sá comen> 
Crua carne, e só quente sangue bebem. 

« Do que nos servem mãos, arcos e fiecbas , 
Si o feroPortuguez impune caka 
Nossa terra> ecaptiva nossos filhos? 

t Pais, mulheres, irmãos, filhos e amigos ^ 
Ou são a nossos olhos fulminados » 
Ou «scravos v&o ser dos Emboabas. 



A CONFEDERAÇÃO DOS TAMOYOS. 73 

« Ah nâo I Ligeiras pernas, braços fortes. 

Iremos abrazar suas cabanas, 

Sem medo dos trovões, sem temer raios. » 

Dança ligeira traçam osTamoyos 
Em torno de Coaquira, repetindo: 

« O céo é de Tupan, a terra é nossa ; 
Nossos pais a regaram com seu sangue ; 
A nós toca morrer para vingal-os. » 

De nova inspiração accesa a mcnlo , 
O bardo dos Tamoyos continua: 

Noite é esta talvez a derradeira 
Para muitos de nós, em que nos veja 
A lua em branda paz estar folgando. 

« O sol ha de amanliâa dourar os grelos 
Das palmeiras dos montes; e nós armados 
Já marchando pVa guerra o saudaremos. 

« Eia, dansemos hoje; eia, bebamos 
Entre nossas mulheres, nossos filhos , 
Que amanhãa só de guerra pensaremos. 

1 Por nós temos Tupan! Eia, no sangue 
Do inimigo lavemos nosso opprobrio , 

£ seus corpos que fiquem sobre a terra. 

« A terra os repudie de seu seio ; 
Só negros urubus sobre elles pastem ; 
E morra co'o vapor quem enterral-os. 

t De herdada valentia exemplo novo 
A nossos filhos demos. Morra o fraco 
Que a morte do seu pai vingar não sabe. » 

Pára espumando o trovador Tamoyo, 
E arroubado em deliquio cabe por terra. 
Gyrando o coro á roda delle canta : 

« O céo ó de Tupan, a terra é nossa ; 
Nossos pais a regaram com seu sangue ; 
A nós toca morrer para vingal-os« » 



74 REVISTA BRÂZILEIRA. 

Esta inspiração tão feliz é uma das maiores bellezas do 
poema. 

A descripção do banquete commum. proposto a Francezes 
eTamoyos, o adeus dos esposos, dos tilhinbos, dos parentes 
nessas florestas , tudo é de um grande e curioso eíTeito , não 
8Ó para o leitor europeu, mas ainda para o brazileiro. Nada 
porém iguala a saudade de Iguassú, que Aimbire procura 
consolar. Os últimos colloquios dos dous amantes são do sa- 
bor e estylo oriental, e revelara profundo conhecimento do 
coração da mulber, sempre o mesmo em todas as phases 
da barbárie ou da civilisação. Assim , quaudo o amante lhe 
jura que osiilhinhos dos inimigos 

M6srDoá vista dos pais e dos parenles 
Sem piedade serão estrangulados, 
Para acalmar a sede de vingança r 

Iguassú ateriada, e n'uma crispação involuntária, respon- 
de-lhe : 

« Não males, nâo, Aimbire, os innocentes 
Filhinhos desses homens, que banhados 
São ao nascer em agua mysteriosa« 
Tu mesmo me contaste, que elles dizem 
Que quem matar ião débeis creaturas 
Abrazado será lá n'outra vida. 
Elles são do seu Deus tSo protegidos 
Que os raios e os trovões lhes obedecem, 
E se escondem nas suas espingardas. 
Tão forte ó o seu Deus, que até parece 
Que Tupan o respeita e o adora. » 

Nas ultimas palavras d' Aimbire, frenético, ao despren- 
der-se dos braços de Iguassú, léem-se cinco ou seis versos de 
inimitável valentia, um só dos quaes era sufficiente para 
remir todos os defeitos que o poema pudesse ter : 

Braços d'Aimbire, procellosos braços. 
Acaso alguma vez frouxos temestes 
Canguçus e giboyas subjugando? 



A CONFEDERAÇÃO DOS TAMOYOS. 75 

Alguma vez tremestes quando a morte 
Em cada setta aos Lusos enviastes? 
Porque náo fartarei a minha raiva 
Com lodo o sangue do inimigo odioso? 

Aqiiella idéa de procella unida aos hrnços, aquelles 
braços proeellosos charamejam tanta poesia , e dão tamanha 
extensão ao pensamento do guerreiro, qne só lhe encon- 
tramos comparáveis aquelles dous magniíicos versos do 
cantor dos Lusiadas» quando o Gabo das Tormentas narra a 
sua metamorphose : 

« Estes membros que vés, e esta figura 
Pur estas longas aguas se estenderam. » 

V.11I 

o raiar da aurora , com todo os seus enlevos ^ abre a scena 
do quartocanto. É a hora da partida, e lá vão Taraoyos e 
Francezes marchando com os chefes das tribus á frente , e 
Aimbire á testa de todos. Na cauda do exercito vêem-se 

horrendas velhas 

Enrugadas, medonhas como espectros , 
Nuas, pintadas do verniz vermelha 
Do fruclo do urucú, e matizadas 
De listas transversaes ou angulosas, 
Amarcllas e negras. 

A formosa Iguassú de cima d'um monte alcantilado , 
melancólica, contemplativa, com o coração apertado de 
saudade, vé o exercito ir-se sumindo, c em cada arbusto 
divisa um guerreiro. O canto do sabiá poisado n'um ramo 
d'aroeira eleva-a ás puras regiões de gozos ineíTaveis , e em 
tal situação mysteriosa , acompanha o trinado do passarinha 
com estas terníssimas endeixas : 

« Só, eis-meaqui no cimo da montanha, 
Dos meus abandonada ; como um tronco 
Despido, inútil no alto da collina, 
A que os ramos quebrou Tupan co'a flecha. 



76 REVISTA BRAZILEIRA. 

<( Sóf eis-me aqui^ do velho pai ausentCr 
Ausento do querido bem amado ; 
Como viuva rola solitária 
Em deserto areal seu mal carpindo. 

a Inda lioje o caro pai vi a meu lado , 
Inda hoje o amante eu vi 1. . . Fugiram ambos 
Velozes como os cervos da floresta : 
Já fui feliz, mas hoje desgraçada! » 

E os echos responderam : — desgraçada ! 

« Desgraçada !. . . E inda vivo? Antes á guerra 
O pai e o bravo amatUe acompanhasse: 
Ouvindo sua voz, seu rosto vendo, 
Acabar a sou lado melhor fora. » 

E os echos responderam : — melhor fora ! 

« Génios, que as grotas povoais, e os valles; 
Génios que repetis os meus accentos; 
Ide, e do amado murmurai no ouvido 
Que a amante sua de saudade morre. » 

E os echos responderam: — morre.., morre! 

A virgem cala-se por algum lempo, murmurando em 
segredo o estribilho dos echos, mas as lagrimas brotam-lbe 
de novo. O sabiá, que também havia emmudeeido, renova o 
canto da mais suave melodia, e a saudosa amanle continua 
em meia voz , temendo que os echos lhe respondam coma 
ainda ha pouco : 

« Porque tào cedo, oh sol, boje raiaste? 
Porque flammejas conn) accesas brazas? 
Ah! tu me queimas: teu calor modera, 
Que na marcha os guerreiros enlanguece. 

« Desta terra que é tua, destes bosques 
Que o grão Tamandaré depois das aguas 
Do diluvio plantara pVa seus filhos , 
Hoje os Tamoyos em defesa marcham. 

« Tamandaré foi pai dos avós nossos ;^ 
Sempre Tamandaré a ti foi caro^ 



A CONFEOERAÍIAO DOS TAMOYOS. ' 77 

Til, oh sol, o aquece^le na velhice; 
Aquece os Glhos seus; mas ah I não tanto. 

« Olhos meus, de chorar cançados olhos , 
Que tendes mnis que ver? Já se sumiram 
N*aque11cs densos bosques os guerreiros 
Entre os ariribás e as sapucaias. 

« Nada mais vejo que prazer me canse. 
Só estou sobre a terra ; vinde, oh feras 1 
Nfio ha quem me defenda : vinde, ao menos 
Menos dura é a morte que a saudade. 

« Sim, morrerei. ... » E mais dizer não pôde. 

O estado cm que fica a sentida amante , e as imagens do 
poeta em similhantc quadro, são de uma belleza inexpri- 
mivel : 

Os lábios lhe tremiam convulsivos 
Como flores batidas pelos ventos. 
Cruza os braços no collo, os olhos cerra , 
Pende a fronte, e no peito o queixo apoia , 
As derretidas perlas entornando : 
Tal n'um jardim a cândida açucena, 
De matutino orvalho o cálix cheio , 
Si o zepliyro a bafeja, a fronte inclina , 
Puros crystaes em lagrimas vertendo. 
Nâo sei si dorme, ou si respira ainda; 
Mas parece entre pedras bella estatua. 

Continua a marcha d'Indios e Francezes, até que chegam 
a uma várzea amena, e d'ahi a um bosque cerrado. O Oriente 
negreja , o Occidente é um mar de sangue , e a floresta 
representa uma nuvem condensada, côr de violeta. Aqui o 
poeta interrompo a enargucia, e dirige uma bella apostro- 
phe ao nosso eximio pintor o Sr. Araújo Porto Alegre, 
incitando-o a crear pela arte as maravilhas que a natureza 
do Brazil ostenta ao seu engenho. 

Um grande rio divide a floresta em duas partes : tudo é 
escuridão: os insectos phosphoricos representam no solo e 



78 IlEVlSTA BRAZILEIRA* 

sobre as arvores mil figuras phanlaslicas : o horror recresce 
nos índios com a voz da natureza em luto: levanlam-se 
centenares de fogueiras, que aíugentam as feras, e os Ta- 
moyos sobem aos (roncos para repousar. Declina a noite , e 
um echo rouco e surdo resôa na floresta , e se repete uma e 
duas vezes d*ahi, gemidos e guinchos como de mocho espa- 
lham o pavor e a confusão em lodos. E* um Payé que 
ahi apparece, cora uma flecha na mao, e enfiado nella um 
craneo de homem, com as orbitas accesas, era forma de hor- 
renda lanterna. 

O episodio do Payé, já preparado pelo espectáculo lúgubre 
dessa noite, é uma scena diabólica e phantastica, que o pin- 
cel de VVieland invejaria, se descrevesse as primitivas su- 
perstições da America. 

O agoureiro exprobra a Coaquira e a Aimbire o marcha- 
rem afoitos para a guerra sem o consultar primeiro, e vatici- 
na-lhes os males que os aguardam : aconselha-lhes que fu- 
jam, e que deixem aosPortuguczcs as margens deleitosas de 
Nictheroy, que^elles tanto invejam, e essas várzeas, e essas 
aguas, e esses mattos, porque a liberdade é o maior dom de 
Deus. Recommenda-lhes que tirem somente d'ahi os ossos 
de seus pais, para que os pés ferozes dos^ inimigos os não 
pizem, e d'ahi que vão todos procurar outros sertões mais 
Ínvios, além dos grandes serros : 

(( E onde? brada Aimbire acceso em ira , 
Como si o inferno lhe estourasse n'alma : 
£ onde, estullo velho, onde acharemos 
O eco de Nictheroy? As ferieis plagas 
Do nosso Parahyba ? E as doces aguas 
Do saudoso Carioca, que suavisam 
Dos cantores a voz melodiosa? 

Tudo deixar? Fugir? Mas tu deliras 1 

Fugir? Que Curupira malfazejo 

Inspirou-te tão baixos pensamentos? 

Fugir 1 sem combater?. . . Quem?. . . Nós, Tamoyos? I 

Ferve-to acaso o cajuhy nas veias , 



A CONFEDERAÇÃO T)OS TAMOYOS. 79 

Ou perlurbo-te o fumo que se exhala 
Do queimado tabaco nrsse craneo , 
Que fincado ahí tens sobre essa flecha? 
E onde iremos nós, que nos nâo signm 
Esses que cuidam não caber na terra, 
E toda a terra querem e o mar todo ? 
Que rios caudalosos, que altos serros 
De amparo servirSo ás nossas tabas, 
Si elles canoas tem e pés ligeiros? 
Em que sertões iremos acoutar-nos 
Como as tapiras que de tudo fof^em ? 
E onde livres, e em paz esconderemos 
Esses osso? de nossos pais guerreiros , 
Que temendo estão já que os revolvamos? 
Ossos de nossos pais ! estai tranquillos : 
Não temais que os Tamoyos vos aviltem , 
E da terra em que estais vos tirem hoje , 
Para entregai a ao bárbaro estrangeiro. 
NSo fugiremos, nâo. Dizei Tamoyos, 
Dizei: quereis fugir?» 

d Queremos guerra ; 
Guerra, e só guerra. » Unisonos bradaram. 
« Ouves? ouves, Payé? (Aimbire exclama 
De prazer exultando). Ouves o grilo 
Que ainda forte sôa ?. . . Já conheces 
Que gente vai aqui? Que mais tu queres? 
Que nos dizes agora ? » 

O Payé cala-se, pensa por alguns momentos , e d'ahi 
responde com voz pesada : 

«. . . Pois bem, Tamoyos , 
\osso valor o animo me exalta. 
Vamos ver si Tupan, que nos escuta , 
Quererá proteger vossas fadigas. » 

Assim dizendo o Arúspice dos bosques 
Deixa em pé a lanterna pavorosa; 
Toma duas forquilhas de páo sécco, 
Como tesouras, e com força as finca 
No duro chão, defronte uma da outra 



XO REVISTA BRAZILEIUA. 

Tres palmos de dislnncia: npós sobre cilas 
Dcila e amarra com torcida embira 
Uma clava de pennas enfeitada , 
A que chamam os índios Tangapema. 

Tendo assim preparado o sortilégio , 

Cbama pVa junto a si os tocadores 

De cangoeira, instrumento de ossos feito, 

Que os cabellos erriça co*os sibilos. 

— Tocai, dançai comigo. — Ei-lo que dança 

Em torno á Tangapema ; e já dançando, 

Seguem-lbe os passos muitos dos Tamoyos, 

Polo infernal concerto arrebatados. 

Mais que lodos as velhas se revolvem , 

E em coro a feias bruxas se assemelham. 

Cada vez mais a mais se anima a orchostra , 

E cada vez a dança mais se anima; 

Como um confuso rodopio rápido 

De violento uracáo que gyra e zune. 

Mais celeros nào sào os Dervisd'Âsia 

No rodante bailar religioso, 

Com que o grande Allah honrar pretendem. 

Amainando j;'i vai a estranha dança; 

Já vão minguando os circulos valsantcs; 

Tontos e frouxos já repousam muitos. 

Até que emtim cançados todos param , 

E em torno ao feiticeiro se acocoram , 

Como egypcias estatuas de granito. 

Só ello inda volteia, possuído 

De algum demónio, que lhe agita os membros. 

Que diabólicos gestos, que tripúdios, 

Que esgares faz, os olhos não tirando 

Da magica armadilha ! Já lhe banha 

Todo o corpo o suor em grossas bagas. 

Com rouca voz e sons interrompidos , 

Que parece o bulhào d'agua que ferve. 

Não sei que tetro canto sybillino. 

Que horrenda evocação 'slá murmurando. 

Nunca em Delpbosa Pythia assim táo cheia 

Do deus que a enfurecia, e tão convulsa 

Sobre a sagrada tripode arquejando 



A CONFEDERAÇÃO DOS TAMOYOS. 8l 

Sollou com voz confusa o seu orac'lo. 

Só se lhe ouve dizer: — Mando eu que posso ; 

Quero e mando : obedece, Macachera I — 

Pela terceira vez isto dizendo , 

Como certo de ser obedecido , 

Incha as bochechas, Grma os olhos rubros, 

E três vezes assopra a Tangapema. 

Oh infernal prodígio! Eis de repente 

Sobre as forquilhas estremece a clava, 

Como sobre o altar do sacrillcio 

A victima estremece quando o ferro 

Lhe abre o ventre e as entranhas lhe revolve, 

PVa dar algum presagio au Adevinho. 

Estalam, arrebentam-se as embiras. 

Sem que visível mão a clava toque. 

£il-a já solta das prisões que a atavam , 

E em torno a si gyrando, ao céo se eleva 

N'uma linha espiral que a prumo sóbc. 

Deixando boquiaberto o vulgo ignaro. 

Só Aimbire de cólera roxeia, 

E espera conjurar o vaticínio 

Si contrario elle fôr ao seu intento. 

Sobe a clava zunindo como a pedra 

Pela funda com força arremessada : 

Sobe, e tâo alto vai que no ar se some. 

Mas volta. . . oil-a que vem. . . traz sangue 1 E' ccrlo I 

Onde foi olla ? Donde vem ? Quem sabe ? 

Vem toda ensanguentada !. . . Mas parece, 

Pelo rumo que segue, cahir deve 

Distante das forquilhas Máo presagio I 

Aimbire, qu'isso vé, índa do longe, 

E teme o efTeíto do fatal annuncio. 

Dispara incontinente alada flecha , 

Que a vai ferir nos ares, e trazel-a 

Para onde elle quiz. A flecha e a clava , 

Uma encravada n*outra, ambas já descem, 

E entre as forquilhns cahem. Aimbire exulta! 

Mas o velho Payó liorrorisado : 

a Ímpio ( exclama) ! Tu vês? Vês tu? Entendes 

O que isto quer dizer? » 



82 UEVISTA BRAZILEIRA. 

— « Sim ; rauilo sangue 
Temos de derramar. Sim ; a vicloria 

É certa para nós Vai-te, agoureiro, 

Se a vida te não pesa, e aqui não queres 
• Ter a sorte da tua Tangapema. 
Vai-te, que é tempo de marchar p'ra a guerra. » 

A curiosíssima scena da feitiçaria do Payé pòe termo ao 
quarto canto. 

IX 

No quinto canto é já chegado Jogoanharo a Sào Vicente, 
e abi, dentro de uma igreja encontra elle a Tibiriçá de 
joclbos, com vários outros neópbilos, dirigidos pelo venerá- 
vel Ancbieta, e cantando todos em coro. E porque nos não 
bavia de dar aqui o Sr. Magalbàes o texto dos psalmos sa- 
grados que esses simples bomens recitavam , e que tão 
melancólico effeito produziriam, sujeitos ao grave rbytbmo 
da sua epopéa I E' uma falta que não podemos perdoar ao 
poeta. 

Noemtanto Jagoanbaro, seduzido pelo encanto da musica, 
vai entrando pouco e pouco, até se ajoelbar ao pé do tio, o 
qual o reconbece ; e depois de se informar dos seus, Ibe 
vai mostrar quanto de notável ba pela nova villa. Um 
dialogo interessante se estabelece entre Tibiriçá e Jagoa- 
nbaro, até que esle ultimo dá conta ao tio da sua impor- 
tante mensagem. Tibiriçá, que já agora se cbama Martím 
Affonso, repelle como cbristão as proposições da embaixada ; 
ostenta ao sobrinho o variado luxo da civilisação que em 
sua casa e pessoa se dá ; mostra-lbe as vantagens da liber- 
dade civil sobre a liberdade natural ; mas o mensageiro 
rebate com a eloquência do selvagem as razões do chefe 
convertido, rejeita as promessas que elle lhe faz, e ambos 
ficara nas suas idéas. O filho d^Araripe, sob o pincel do Sr, 
Magalhães, é o vulto inteiriço do homem primitivo e in- 
corrupto. 



A CONFEDERAÇÃO DOS TAÃOYOS. 6â 

X 

o sciLto canto da Confederação é magniEco. Jagoanharo 
vai deitar -se com a mente accesa na luta de idéas por que 
passara, e abi se lhe representam ainda mais vivas todas as 
scenas do dia : 

Mas a noite declina, e branda aragem 
Começa a refrescar. Do céo os lumes 
Perdem a nitidez já desmaiando. 
Assim já frouxo o pensamento do índio , 
Entre a vigilia e o somno vagueando , 
Pouco a pouco se olvida, e dorme, e sonba. 

Concentrada a alma , 

Àfto moço se lhe antolha 

De bello e santo aspecto, parecido 
Ck)'uma imagem que vira atada a um tronco, 
E de settas o corpo traspassado , 
N'um altar desse templo onde estivera , 
E que tanto na mente lhe ticára. 

— Vem, lhe diz : e ambos voam pelos ares, 
Mais ligeiros que o raio luminoso 
Vibrado pelo sol no veloz gyro ; 
E vSo pousar no alcantilado monte , 
Que curvado domina o Guanabara. 

O poeta desenha o magestoso quadro de Nictheroy, vista 
do alto do Corcovado; e comparando aquella nossa bahia 
com o golfo de Nápoles, volla-se para este ultimo mar, e 
dírige-lhe esta apostrophe graciosissima : 

Nâo és iSo bello assim, cerúleo golfo, 
Onde a linda Parthénope se espelha , 
Tào risonha e animada como a noiva 
No dia nupcial leda so arréa 
Para mais encantar do esposo os olhos! 
Não és tão bello assim, quando torrentes 
De puríssima luz vào esmaltando 



84 REVISTA BRAZILEIRA. 

Tuas magicas ribas apinhadas 

De garbosas cidades, de palácios 

Enlre bosqueles e odorosas tempos , 

£ combros de ruinas gloriosas 

Da romana grandeza que inda choras. 

Ou quando no teu céo voluptuoso. 

Onde o ar perfumado amor inspira , 

Entre os cirios da nuito alveja a lua , 

No mar mostrando ao longo a bella Capri , 

E a saudosa Sorrento, onde meus olhos 

Cuidam ver inda infante o egrégio Tasso 

Brincando à sombra de frondosos louros. 

Ou mesmo quando inopinado ás vezes 

O teu volcaneo monte, contrastando 

A brandura da doce Natureza, 

Horrisono troando e estremecendo , 

Das sulphureas entranhas arremessa 

Pela bocca infernal, de fumo envolta. 

Altos jorros de lavas inflammadas , 

Como ardentes columnas crepitantes, 

Que estalam no ar, e rompem-se em chuveiros, 

E umas sobre outras cabem em catadupas , 

E torrentes de fogo, que lambendo 

Vão o seu dorso, avermelhando as nuvens. 

Meu pátrio Nictheroy te excede em galas. 

Na grandeza sem par muito te excede! 

A alma absorta do índio vai contemplando milhares de 
prodígios por enlre o vasto panorama de Nictheroy ; e o 
illuslre Martyr que o guia vai-lhe pondo patentes os assom- 
brosos destinos do Brazil, desde a fundação da cidade de 
Janeiro: a vinda do Senhor Dom João VI para aterra 
de Cabral ; o brado da Independência pelo heroe do 
Ypiranga : os milagres da industria no nosso paiz, e toda 
a série de successos que compõem a epopéa da nossa li- 
berdade : 

(i Eil-o, egrégio mancebo de alto porte, 
Dos filhos do Brazil já ladeado, 
E desse sábio Andrada^ que se ufana 



A CONFEDERAÇÃO DOS TAMOYOS. 85 

Cu OS illustres irmãos de ter nas veins 
Sangue de TibVíçá e dos Tamoyos. 



« Saúda, oh Indio^ a tua pairia livre 
D') jugo contra o qual armas leu braço ; 
E o espirito levanta a Deus Eterno, 
Que nunca deixa sem justiça os homens, 
Pune os erros dos pais co'as mSos dos filhos, 
E prostra o oppressor aos pés do opprcsso. 
Thronòs cahcm, thronos se erguem I Reis e povos, 
Como as ondas do mar, sobem e descem I 
Do pensamento humano o soproardenle, 
Que da Razão perenne a luz recebo. 
As novas gerações inflamma eanima, 
JMáo grado os antepostos refractários I 
A vida é movimento, e a humanidade 
Como tudo caminha e se renova ; 
Mas Deus, único, immovel permanece : 

« Olha, e alli \è no meio da cidade 
Aquella vasta praça apínhoada 
Do longos batalhões, de povo em turmas, 
Queaflluem dos quatro lados, como sangue 
Affluo ao coração quando ha perigo. 
Nâo ouves o estridor da vozeria 
Como o som de longinqua trovoada , 
Ou das ondas do mar o rumor surdo ? 
Não vós como ao clarão da casta lua 
Relampejam em linhas ondulantes 
Essas polidas armas eriçadas. 
Como si do inimigo voz de guerra, 
A santa paz e o somno perturbando, 
Ao combate chamasse essas phalanges? 
Sabe pois o qu'isso é. Uma palavra, 
N'um momento fatal articulada. 
Como a voz do destino alli retumba. 
O Fundador do Império abdica o Throno I 
Diz um adeus ás margens do Janeiro ; 
Orpháo deixa seu filho, tenro infante 
Qu'iiida não pode sopesar o sccplro, 



86 REVISTA BRAZILEIRA. 

£ mais três ilibas tenras sem defesa, 
Tanto elle crê no amor desse bom povo ! 
E vai por alto impulso além dos mares 
Oppôr-seao próprio irmão em campo armado ; 
Libertar essa lerra em que nascera, 
Terra de seus avós, sempre querida ;, 
E firmar em seu Throno uma Rainha, 
A Segunda Maria, filha sua : 
Eemfim morrer. O mundo dirá delle : 
— Soube ser cidadão, ser pai, ser hoqiem. 
Tendo naseido Rei. 



» Mas vô ao lado do auri -verde soUo 

Esse infante gentil, que no seu berço 

Pelo sol tropical foi aquecido, 

E as auras respirou destas devezas,. 

Que libertade e amor bafejam n'alma^ 

Vê o neto de Reis, de Pedro o filho. 

Desse prudente Lima acompanhado. 

No seu pnço, sem guardas que o defendam. 

Mas como o povo o ama ! Como o guarda 

Com paternal cuidado e puro zelo. 

Sem que de imposto mando leve sombra 

Da espontânea aíTeição TheoíTusque o brilho ! 

» £ si um Pedro lançou do Império as bases. 

Outro o fará subir á mór altura, 

E a gloria, a força crescerão com elle. )> 

O santomartyr Sebastião prediz ao índio qiie o seu poder 
será vencido por outro poder maior e sobrehumano, contra 
o qual não valem forças mortaes, e que a final a victoria será 
da verdade, e não daquelles que aspiram a fruil-a por 
amor do ganho, sem saber que a outro fim mais alto os chama 
a Providencia. E d*ahi prosegue : 

a índio, si amas a terra em que nasceste^ 
E si podes amar o seu futuro, 
A verdade da Cruz acceita e adora. 
Que imporia q^uôm a traz ser inimigo,. 



A CONFEDERAÇÃO DOS TAMOYOS. 87 

Si O bem fica e supera os males todos ! 
Bons e roáos, tudo serve á Providencia ! 
Como de um fructo pútrido^ lançado 
Sobre a torrada semente germinando 
Nova arvore produz e novos fructos ; 
Assim desses cruéis, corruptos homens, 
Que vos flagellam hoje, um santo gérmen 
Aqui produzirá filhos melhores. 
Invencivel poder tem a verdade, 
Que o Christo do Senhor na cruz morrendo 
Legou aos homens todos 

— Dai-me a cruz ! — brada o índio mesmo em sonho : 

— Daí- me a cruz ! A seus pés quero proslrar-me. 

E uma alvissima cruz mais rasplendenle 
Do que a prata polida, e que o brilhante 
Ao luzir de um relâmpago, apparece 
No céo sobre áureo fundo luminoso. 
Que em rósea vibraçilo no azul se perde. 
Duliossonsde suavíssima harmonia 
Se evaporam nos ares perfumados. 
Estático adorando o puro emblema, 
O santo guia ás nuvens se levanta 
Por dous alados Anjos sustentado : 
E o índio absorto cMíe sobre os joelhos, 
Na cruz fitando estatelados olhos, 
Mãos e braços erguidos, todo immovel ; 
Como si o espanto do prodi^^io immcnso 
Petrificado lhe deixasse o corpo , 
£ em seu arranco lhe soltasse a alma. 

E o índio mal desperto alça-se da rede era que está, e entre 
o sonho e a vigília, ao ver a grata visão esvaecer-se, brada á 
cruz que o salve, e cahe attonito aos pés do cacique. Tibiriçá, 
cheio de jubilo e de fé, arroja-se aos braços do sobrinho, 
aperla-o, beija-o, e lá se dirigem ambos para a habitação do 
piedoso Anchieta . 

Mas na praça da igreja vêem o povo apinhado, e grandes 
vozerias, e no meio do tumulto alguns selvagens, velhos e 



88 ^ UE VISTA BRAZILEIRA. 

mulheres, com as mãos atadas para trás das costas. Jagoa- 
nharo pára, olha, e reconhece cheio de pasmo a formosa 
Iguassú, que ia chorando. De repente arremessa-se, enfia 
por entre as turmas, espuma furioso, e quer que a soltem 
immediatamente. O cacique que o acompanha livra-o cem 
vezes da morte, e logra arrancal-o da multidão. 

O padre Anchieta apresenta-se, informa-se de quanto se 
passa , aplaca e consola Jagoanharo , e proraette-lhe que 
Iguassú voltará aos braços do pai. O índio insta para que lh'a 
entreguem já, que a quer levar elle mesmo; mas sendo isso 
impossivel aos esforços do santo missionário: «Malvados! 
brada o índio, pérfidos traidores I 

« Assassinos cruéis! eu voscunheço ! 
E aindn íallareis de caridade ? 
Vossos pais o seu Deus crucificaram, 
Derramaram seu sangue; evos, infames, 
Para mais insultar cobardemente 
A esse Deus, que adorais por zombaria, 
Vindos aqui roubar-nos e malar-nos 
Com palavras de amor, a cruz mostrando. 
Branca era a cruz que eu vi ; a vossa ó negra 
Como as vossas acções e as almas vossas ! 
Eu chamo o vosso Deus para punir- vos, 
E contra vós lhe oíT^reço os nossos braços. » 

E insano e precipitado entra na canoa em que viera, e lá 
vai remando de foz em fora com os dous índios que o aguar- 
davam. 

A prosopopeia de S. Sebastião, fulgurante de pompa e de 
interesse histórico, ó uma creação indubitavelmente chris- 
taã. Os recursos immensos que a verdadeira religião ofl*erece 
á arte, e especialmente ao artista calholico, são os únicos 
que podem elevar o génio sem grande esforço á sua maior 
altura na epopéa, como o Sr. Magalhães acaba de fazer. 



A CONFEDERAÇÃO DOS TAMOYOS. 89 

XI 

A sombra de selvas gigantescas, e por entre as grimpas de 
suceessivos montes que orlara o Parabyba do Sul, esperavam 
os Tamoyos impacientes a resposta que Ibes traria Jagoa- 
nharo. 

No emtanto, d'abi parte Aimbire pensativo, acompanbado 
somente de Parabuçú, ao brando sopro da noite, por entre 
as mnttas solitárias, sem que ninguém saiba para onde, mas 
pensando ambos na desditosa Iguassú. Rompem emilm o 
silencio, e ambos encontram em si um terrivel presenti- 
mento, que os faz estremecer pela sorte daquella flor do 
deserto. Aqui, no dialogo em que ambos vão, pòe o Sr. Ma- 
galhães na bocca de Aimbire esta tão curta mas tão tiel pin- 
tura do que c ser captivo : 

« Irmão de Comorim, ah tu não sabes, 
Não, tu nâo sabes o que é ser escravo I 
Não ser senhor de si, viver sem honra, 
Acordar e dormir sem ter vontade ; 
Calado obedecer com rosto alegre, 
Soffrer, sem murmurar, comer chorando ; 
Trabalhar, trabalharão sol e á chuva, 
Eistop'ra quoum senhor iranquillo viva!.... 
Ah ! tu náo sabes o que é ser escravo.» 

Chegam emíim a um valle, e Aimbire reconhece o sitio cm 
que o pai está enterrado. 

Vão-se-lhe os olhos 

Por esses negros troncos gigantescos. 
Como esqueletos de Titanca raça. 
Que o tempo conservara... Um calafrio 
Como o sopro da morte ao peito anciado 
O sangue lhe refluo.... lleceia, teme 
Nâo achar o que busca 



Mas a Cnal descobre o ipe que procurava^ junto ao qual 
oulr'ora dera sepultura ao pai , abraça-lhe o tronco allissimo. 



90 REVISTA BRAZILEIRA. 

beija-0, rega-o com lagrimas, e ambos trabalhando á porGa 
desenterram a urna venerada. Ao vèl-a, ópio Aimbire rompe 
numa exclamação dolorosa, na qual recorda os feitos illus- 
Ires do morto e o seu capliveiro, jura de novo vingar-lhe as 
cinzas, e promette dar outro jazigo aos seus ossos, onde os 
passos do estrangeiro os não farão mais estremecer. 

D'ahi partem os dous pelo campo, colhendo galhos seccos 
e folhas de coqueiros ; poem-nos ás costas em feixes, e vão 
ter a um pequeno terreiro, onde arde uma grande fogueira 
ao lado de uma choupana, rodeada de senzalas. E Aimbire 
mostrando-as ao companheiro, 

« Nesta o eruel senhor, diz cllo, habita ; 
E naquellas os míseros escravos, to 

£ approximando-se da choupana, encosta os combustiveis 
á porta e aos esteios, vai á fogueira vizinha buscar brazas, e 
n'um momento a casa inteira offerece o espectáculo de um 
terrível incêndio, Aimbire vai postar-se defronte da janella, 
como o caçador que espera a caça que o cão fora levantar, e 
eis que um vulto de homem espavorido se atira ao chuo e 
corre 

Como umphantasma que abro a campa e foge, 
Ou alma que do ardeote inferno escapa. 

Aimbire reconhoce-o , aferra-o rápido , 

Como um demónio aferra a alma damnada 
Que por pacto infernal Iheeslá sujeita. 
£ arrojando-o por terra enfurecido , 
O leva de empurrões, quasi do rastos, 
Té ao tronco do ipé, junto á igaçaba. 

•< Olha p*ra mim, Braz Cubas! brada o índio 
Com rouca, horrenda voz e um riso hediondo : 
Olha-me bem, e vô si me conheces? 
Não quero que tu morras sem que saibas 
Quem se vinga de tí^ dando-tea morte. » 



A CONFEDERAÇÃO DOS TAMOYOS. 91 

A tal ameaça a vicliraa tremendo 

Mal pude articular: — Piedade» Aimbire! 

Tem compaixão de um pai. 

a De um pai, tu dizes? 
Eu lambem tive um pai; e tu, malvado» 
Delle e de mim piedade não tiveste. 
Dentro desta igaçaba jaz seu corpo 
Pedindo o sangue teu. » 

— Porque? Ávida, 
Não a morte, lhe eu dera, si pudesse. 

« Sim, porque elle vivendo te servira , 
E eu inda hoje seria teu escravo. 
Eseuta : quando tu p'ra aqui vieste , 
Ba muito tempo já, mulher eu tinha 
Tão bella como a lua que estás vendo, 
Tão joven, delicada, e tão mimosa 
Que outra esposa qual cila não havia ; 
E um Blbome devia dar bem cedo. 
Do nosso terno amor primeiro fructo. 
Tu a viste, e não sei se a cubiçnste. 
£ um dia, que eu caçando longe andava » 
A vejo vir correndo, tropeçando 
Pela montanha acima, já sem forças, 
Quasi a vida exhalando. Corro a ella , 
Nos braços a recebo ; e etia cahíndo » 
Apenas dizer pôde : — os Emboabas I 
£ alli do susto e da fadiga exhausta , 
E das dores talvez tendo a criança , 
N'um tremor expirou a malfadada , 
A tão cara Potira, esposa minha. » 

-^ E será minha a ci>lpa ? 

a Sim : e que outros 
Senão tu j^untoaos teus a perseguiram? 
Escuta ainda mais : passados tempos , 
Tu em paz com meu pai viver fingias. 
Um dia acompanhado o acommeltcsle, 
£ como minha mãi te ia fugindo, 



92 REVISTA liRAZlLEIRA. 

E grilando por mim que a soccorresse, 
Tii apressado após lhe désle um tiro , 
E a malasle, cruel, dentro do mallo. 
Preso meu pai trouxeste, e uma criança; 
E enlregar-me vim cu ao captiveiro 
Para estar com meu pai e minha filha, 
E sobre elles velar. Si nào matei-te 
Foi só porque osso velho e essa criança 
Não podiam na fuga acompanhar-me , 
E aqui ficando os teus os matariam. 
Lembras- te tu do pobre Guaratiba? 
Tu a um tronco o amarraste, em cuja base 
Havia um formigueiro, e o açoutaste 
Até fazer saltar co'o sangue a pelle 
Das costas, que uma chaga lhe ficaram ; 
£ as formigas em chusmas negrejando 
Sobre o convulso corpo o remordiam! 
E cu, á casa voltando do trabalho, 
E vcndo-o assim, por elle intercedendo, 
Tu furibundo me disseste: — O mesmo 
Também a ti farei, se ousado fores I — 
Guaratiba morreu marlyrisadol 
Assim a esposa, a mài, o pai, o amigo, 
Tudo quanto eu amava me roubaste. 
Sabes em fim quem sou. . . . Agora morre ! » 

« PerdSo para meu pai! perdão, Aimbirel 
Ah nào males meu pni I » Assim bradando 
Uma gentil menina, mal envolta 
N*uma alva do dormir, so arroja ao collo 
Da viclima, que jaz do susto immovel. 
« Ah nào o mates, não. » Seu debíl corpo 
Cobre o corpo do pai ; e um braço alçado 
Gomo que apara o golpe, ou que o conjura. 

Esla sccna, que nos grandes mestres poucas vezes lemos 
visto iíçualada, e que por isso aqui trasladamos por inteiro , 
é de um bellissimo effeilo dramático neste logar. 

Aquella menina gentil, aquelle anjo da guarda, como lhe 
chama o Sr. Magalhães, baixado alli do céo para salvar o 



A CONFEDERAfAO MS TAMOYOS, 

mcccaJor 4Ía nn^rle, é Jlaria, n poLie Maria, reconhcoida 
por Ainibire quando vai a deslecliar o golpe: á sua vlsía, 
o ÍDilio assomlirado rcctia insí»iitauLuj, |az um movimento 
involunlfliio, raas, , , ollja para o pai, volta o rosto ; 

*' — Nla lens sangue que me fíirte, 
Vaino?, PttrabuçúJ vamos* parlamos. »> 

isto é suldimo : é um movimento inimitável de pietlade 
acima do lodo o elogio na alma heróica de um índio: o 
eíTetIo, |>ara os que acabam de ouvir squella voz, é da 
quebrar o coração; — paia ní5s, <|ue assislimos á esla scena 
cumo espectadores , é de uma profunda admiração peio 
poela, que assíra realisa o ideal na terra, 

E lá vão os dotis, sem vtdtarem mais os olbos para trás, 
Vf»m «surgindo a aurora; ea pratica que os entrelem pclo^ 
caiiiinbo revela, para quem ainda a nao tiver adevinbado, a 
nobreza de motivos que inlluiram espontâneos no animo do 
guerreiro, para poupar a vida a Braz Golias, 

At> pòr do sol chegam ao promontório de Cairuçii; e alli, 
em frente ao njar, dá Aimbire novo descanso, a^ora elcrnot 
aos osíios do pai. Andios os Tamoyos nesse acto solcmne 
murmuram um canlico fúnebre, e sigi liara os restos do 
velho cacique sob uma grossa pedra. 

No eintonlo , que se passará na recenti? villa de São- 
Vicente? Qi^e (erásido íeilo de Iguassú?- Iguassu a formosa 
Tiviáemeaptiveíro, longe de quanto amava ; niaspor entre os 
devaneios de suicidio que a assaltavam, suslenlava-lbe a 
existência a grata esperança de se ver salva pelo pai, pelo 
amante» pelo irmão, pela taba ioda, e ia assim vivendo e 
liilando contra a impudicicia de Francisco Dias , que a 
bavia colhido com outras muitas moças índias, e tomado 
para si como mais bella, A casla Musa cbrislaa cala-se 
contristada, e não se atreve a narrar os tratos cruéis e os 
lascivõâ ataques do caudilliu para violentar a pobre escrava, 
tâo moça e do láo nobre animo. 



94 REVISTA BRAZILEIRÀ. 

O venerável Anchieta, todo brandura, vai ter coto Prail-* 
cisco Dias, descreve-lhe o perigo imminente em que se acha 
a villa, por causa do viver licencioso dos que provocam os 
índios, e roga-lhe que lhe entregue Iguassú, para que ellci 
restituindo-a, desarme os inimigos, e para que os outros 
colonos o imitem, libertando os captivos. 

O Dias responde desabrida e impiamente ao santo mis- 
sionário, em quem as lagrimas lhe borbulham a flux. 

Eslé a villa de São-Vicente cheia de pavor, porque espera 
a cada momento que as tribus colligadas venham anniquilar 
a colónia, e os dous servos de Deus — Nóbrega e Anchieta — 
occupam-se em pregar pelas praças a doutrina do Evangelhoi 
afim de inspirar idéas de justiça a todos os colonos, affeitos 
a caçar e matar os pobres índios. 

A summa destas piedosas prédicas termina o sétimo 
canto da Confederação. 

XII. 

O maravilhoso do poema é sobretudo introduzido no 
oitavo canto. Salanaz via medrar a lei de Christo no Novo 
Mundo, e resolve-se a excitar as paixões todas no coração 
dos colonos contra os dous santos jesuitas, — a uns com 
discursos irónicos, a outros com uma philosophia sophis-^ 
tica e sensual : 

« O homem marcha ao bem por lei do instinclo; 
£' seu guia o prazer: virlude e vicio 
São vans palavras; o interesse é tudo. 



£' vasto campo de batalha a terra , 
£ opposlas forças sem cessar se embatem 
Por lei da Natureza : a vida e a morte 
Surgem deste conílicto ; e a Natureza 
Apoia os fortes quando os fracos gera. 
Justiça é o poder, direito a força , 
£ do mando a razão 'stá na victoria. » 



A CONFEDERAÇÃO DOS TAMOYOS. 95 

Â.SSÍID é que os colonos, á maneira de tigresi em quem a 
razão se anuviava, iam roubando e matando os pobres índios, 
e a grei de Cbrislo ia minguando cada vez mais. O inferno 
porém não pôde gozar por muito tempo do seu triumpbo. 
O perigo que ameaça os colonos ameaça talvez a igreja e os 
padres, e é isso que os salva. Tíbiriçá corre ás margens do 
Tamandatehy cheio de zelo, reúne mil arcos para o combate, 
e dirige aos Guayanás algumas palavras de incitamento, 
aconselhando-os a queimar as cabanas c os campos, e a ir 
defender São-Yicente ameaçado. 

Quizeramos ver nesta espécie de proclamação do cacique 
não mais extensão, porque ella de sua natureza devia ser 
curta, porém mais fogo, mais vivacidade, mais vehemencia, 
da parte de quem pretende chamar á guerra uma horda indó- 
mita conira o feroz e irritado Aimbire. Este defeito porém, 
que uma critica mais exigente podia chamar de situação, é 
abundantemente compensado pela fúria com que o poeta, 
transportando-nos ao campo inimigo, nos desenha achar-se 
Âimbire ao saber que Iguassú é captiva em Sâo-Vicente, e 
quando no Gm do quadro de mestre, em que figura anciada 
toda a familia da triste noiva, põe na bocca do chefe dos 
Tamoyos estas ultimas palavras : 

« Lauto banquete 

Vai dar meu braço nos urubus famintos. 

Eia I p'ra Berlioga ! Ao mar canoas ; 

Náo ha mais que esperar. Ao mar I voemos. » 

E com que propriedade e belleza de semelhança nos não 
pinta o Sr. Magalhães a juncção dos Tamoyos na praia onde 
embarcam, ao roncar da inubia, e ao chamado terrivel do 
seu chefe I 

Ao ver em confusão de toda parte 
Como da terra erguidos, nus, poentos , 
Correr á praia centenares de índios, 
A mente, ás margens do Cedron voando , 
Cuidara ver os mortos revocados 



96 REVISTA BRAZILEIRA. 

Ao som da trompa do Juizo eterno , 
Das entranhas da lerra resurgindo, 
 Josaphat correr em mestos bandos. 

Arrojam-se d*ahi innunieras canoas ao mar, esquipadas 
de guerreiros; e o cântico ao som do qual vão os remos cor- 
tando as ondas é de tal modo combinado e deixa tal vago 
n*alma, que é, quanto a nós, a primeira das bellezas do 
canto oitavo : 

« Vog.1, canoa, que é maré de amigo ; 
Ligeira voga, sem temor das ondas ; 
São braços fortes que aqui vão remando, 
Braços Tamoyos, que a romar nSo cansam. 

« Gosio de ver-te pelo mar singrando , 
Cabeceando, levantando espuma ; 
Assim, canoa, assim bufando vôa, 
Como esses peixes que lá vão fugindo. 

« O mar 'slá manso, estão dormindo os ventos; 
Mas pVa o Tamoyo sempre o mar foi manso; 
Eia, canoa 1 o teu balanço é doce 
Como na terra o balançar da rede. » 

Não só aquelle singrando , cabeceando, levantando, bufando, 
imita perfeitamente o movimento dos lenhos que brincam e 
o plache das aguas que se quebram, mas a barcarolla é 
composta com taes echos que o ouvido juraria ser rimada. 

Desembarcam os Tamoyos nas praias de São-Vicente. 
É noite; e Aimbire, reuniudo-os, pòe-lbes diante dos olhos 
a historia de cada tribu, e conjura-os a acabar o mal na 
própria fonte , salvando a liberdade e a misera Iguassú. 
D'ahi, seguindo o conselho dos Francezes, divide a gente 
em três columnas, marcha na do centro, e dispõe o ataque. 

Tibiriçú porém os esperava prompto e apercebido nessa 
mesma noite, por aviso sobrenatural de Anchieta; e é aqui 
que o poeta, ao dar-nos conta do viver ascético do santo 
eremita, nos revela o profundo estudo que tem feito do 



A CONFEDERAÇÃO DOS TAMOYOS. 97 

espirito hamano no seu estado excêntrico de exaltação 
religiosa. 

Sôa o combale; e Tibiriçá lá está Qrme e calmo á porta da 
igreja para defender os padres, e para aíTrontar todos os 
perigos, com seis mil arcos. Os chefes dos Tupis e dos 
Carijós, á frente das suas tribus, alli se lhe vem juntar. 

Para maior terror dos sitiados, são os Francezes que 
dão começo á acção. Ao voar das settas e ao estridor das 
armas que estouram, as mais com os filhinhos nos braços, e 
os velhos que já não podem pugnar, correm todos para o 
templo, implorando a Deus misericórdia. Na turma dos que 
entram vai a esposa de Ramalho com seus filhos, e a seu 
lado Iguassú. Fora da igreja enearuiça-se desapiedado o 
combate, ao triste alvor da lua: 

Cansado de espargir mortes a esmo , 
Avança Aimbire os passos, e rodando 
Os olhos, que o furor de sangue tinge , 
Procura os principaes d'enire os contrários , 
Qu*elle veja morrer sob seus golpes. 
« Traidor Tibiriçá, onde te escondes ! 
Cayoby! Cunbambébal » E assim dizendo. 
Com Braz Cubas se encontra. « És tu ? lhe brada , 
Dei-te a vida, e tu vens buscar a morte? * 

— Venho vingar-me; o Portuguez lhe volta : 
Vil escravo, selvagem I reconhece 

Em mim o teu senhor, que vem punir-te. — 
E assim dizendo lhe desaba o golpe , 
Que apenas resvalou na maça do índio. 

« Tens a lingua roais forte do que o braço ; 

Pouca é a gloria de tirar-te a vida. 

Si a queres, eu te a deixo ; e tu bem sabes 

Si dessa vida alguma vez fiz caso. 

Mas vem comigo, e mostra-me primeiro 

Onde jaz Iguassú, e quem roubou-a. » 

O Portuguez, que o julga alheio á lula, 
Calcula o lance, irónico dizendo: 

— Quero poupar-te a magoa de choral-a. 



98 REVISTA BRAZILEIRA. 

« E eu a infâmia da vida quo te pesa. » 
E co*a prompta resposta um promplo golpe 
Acerta-Ihe o Tamoyo, e a um tempo soam 
Resposta e golpe, e do infeliz a queda. 
« Dar- te nâo posso a morte que mereces 
Lenia e cruel ; n'um só momento morre ; 
Tenho pressa. » E o deixou nadando em sangue. 

Assim acabou Braz Cubas. E o valente Âimbire coutinúa 
a semear estragos por todo o campo. Os outros chefes, 
Parabuçú, Coaquira, Pindobuçú, Arary, bramam como onças 
famintas, e juncam o chão de mortos. Distínguem-se do 
outro lado os caciques contrários, e com elles o represen- 
tante do valor portuguez — Ramalbo — , cercado de todos 
os colonos. Entre os mais fortes porém cabe o primeiro 
logar ao illustre Tibiriçá, primeiro defensor da igreja 
nestas então incultas plagas. 

No ardor da luta, e no adro da capella, encontra-se com 
elle Jagoanharo : 

— Que vens tu procurar? — diz-lho o cacique: 
Desta espada nâo vós pendente a morte? 

« Não a temo, replica-lhe o mancebo. 
Entrega-me Iguassú, que alli 'stà dentro. 
Um prófugo dos teus certificou-me 
Que alli a vira entrar com tua filha. 
Vai buscal-a ; senão irei eu mesmo. » 

E investe para a porta : ahi arcam os dous por muito 
tempo , Jagoanharo á maça e Tibiriçá á espada , até que 
a luta se empenha braço a braço; e Tibiriçá, depois de • 
haver subjugado o valente sobrinho, levanta-o com força 
hercúlea, arremessa-o contra a pedra da soleira da igreja, 
e ahi lhe esmaga o craneo; mas vendo que ainda anceia, 
entra, vai buscar uma pouca d'agua benta, e baptisa-o: 

« Tirei-te a vida, disse, mas ao menos 
Sah'0-te essa alma. » 



A CONFEDERAÇÃO DOS TAMOYOS. 99 

É uma bella maneira de acabar com a vida do ardente 
vulto, depois da admirável descripção com que o illustre 
poeta nos desenha todos os pormenores da horrível pugna. 
E' o triumpho do céo sobre Satanaz. 

E á essa hora estava o angélico Anchieta prostrado ante 
o altar, recitando em coro a Ladainha de todos os Santos, 
como a igreja ordena em occasião de grandes perigos I De 
repente 

Pasma, estrtímece, estático alli Gca 

Attento olhando, como si visível 

A seus olhos celeste mensageiro 

Ordem suprema lhe estivesse dando! 

Cala-se o coro, e Nóbrega nSo ousa 

As preces proseguir, nem despertal-o. 

Após breves instantes, como alçado 

Por uma força occulta, se levanta 

O ministro de Deus; olha, e direito 

Vai a Iguassú; co*a mão no hombro lho toca : 

«Ergue-te, oh filhai diz-lhe, vem comigo. » 

Ambos da igreja sabem. Todos absortos 

Vn dcixal-os passar abrem caminho. 

Onde irão I uns aos outros se perguntam. 

Mas estranho prodigio esperam todos. 

Pelas trevas lá vão silenciosos ; 
Ella cheia de assombro, a tudo alheia; 
Ellecomo impellido, calmo e attento, 
Evitando passar por onde ha sangue! 
Que luz na ascuridso, ou que Anjo o guia 
Ao campo da batalha? Eil-o que pira : 

— Aimbire I chama, e sua voz parece 
Resoar em caverna harmoniosa. 
Aimbire l Aimbire I — O rábido Tamoyo, 
Que perto combatia, se apresenta 

Todo escorrendo sangue, espavorido. 

— Toma Iguassú, lhe diz; deixa- nos, parle. 
Em quanto fascinado o índio volvia 

Os olhos a Iguassú, somo se Anchieta , 
E andando sua voz dizia : — parte. 



100 REVISTA BRAZILEIRA. 

A inubia dá o signal da retirada : os Tamoyos carregam 
aos bombros os seus mortos e feridos, e lá partem todos 
para as suas canoas. 

XIII. 

Chegam as tribus Tamoyas a Iperohy, e ahi enterram os 
seus mortos, no meio do alarido das mulheres. O velho 
Goaquira, apregoado por todos como sabedor de occultas 
virtudes medícinaes, e vate entre todos, vai animando os 
feridos com a palavra, e curando-lhes as chagas por modos 
vários. 

No erotanto Aimbire, cada vez mais ousado, incitava os 
índios a uma nova luta, para extinguir a raça dos tyrannos, 
e vingar a morte de Jagoanharo. Seguro de ter cumprido o 
seu dever, dando honrada sepultura aos ossos do pai, 
cumpre também a sua palavra entregando a filha ao Francez 
Ernesto, que lh*a pedira em consorcio, e elle mesmo se 
declara esposo dlguassú, como para premiar seus próprios 
feitos : esposo somente em nome, até que ella chegue á 
aurora das delicias, porque os índios respeitam severos a 
idade da innoccncia, e não colhem o fructo ainda verde: 

Amava Aímbire 

A sua tenra esposa, como um lyrio 
Prestes a abrir o cálice mimoso 
Aos beijos do colibri. 

Pindobuçú, Goaquira e os dous amantes entretem-se em 
graves palestras sobre a vida actual e a futura, e sobre os 
mysterios da religião de Christo, que Iguassú e Aimbire 
haviam aprendido de Portuguezes e Francezes. Mas eis que 
divisam ao longe uma canoa esquipada, demandando a 
praia: — é Nóbrega e Anchieta que ahi vera ; e já ao alcance 
da voz, erguem-se ambos, e o primeiro dirige-se ás quatro 
personagens que estão á beira-mar, e communica-lhes que 
vem entregar-se sem armas em suas mãos, porque sabem 



A CONFEDERAÇÃO DOS TAMOYOS. 101 

que OS Tamoyos nunca recusaram hospedagem ao estran- 
geiro. 

« Quem nos procura em paz nos acha amigos ; 
Podeis desembarcar. Jamais Jamoyo, 
Para dar agasalho ao eslrangeiro,c< 
Perguntou-lhe quem era, e o que quaria. 
De mais, ha enire nós quem vos cotífefç^.- » 

Aferra o lenho á praia. Os missionários desetoUarcam no 
meio de grande acatamento, e todos os principaeV'l|ies vem 
offerecer o que tem. O banquete da chegada orna-se no 
chão, em frente da cabana de Goaquira, onde os apòstold^ 
são hospedados. ' •• :. 

No dia seguinte, ao romper d'alva, os dous santos eremitas - 
preparam um altar tosco á sombra de um coqueiro, e o mais 
velho celebra o primeiro sacrifício incruento que esses 
bosques presenciaram. 

Finda a missa , os missionários em conselho com os caci- 
ques Tamoyos propõem paz e amizade para sempre, e 
mostram quantos bens traria corasigo a concórdia para 
Índios e Lusos. Aimbire accede á proposta, com a condição 
de se lhe entregarem os prisioneiros, e còm elles os três 
chefes traidores, e mais Dias, que se atrevera a raptar 
Iguassú. 

Nóbrega pede aqui a Anchieta, como mais. moço, njais 
ardente e mais versado na lingua tupica , que responda ao 
Tamoyo. 

Temos pena de nòo poder para aqui trasladar, por sua 
extensão, o edificante discurso do novo Xavier : é o resumo 
da doutrina do Filho de Deus, ensinada na terra aos homens: 
é o seu mandado d'amor na ultima hora, e n'uraa linguagem 
singela e chãa, como convinha a tal auditório. Conta-lhe por 
fim o padre como Dias fora morto , e nega-se a entregar os 
Ires chefes índios, porque seria isso uma horrenda perfídia. 

Os circumstantes applaudera o orador, e o próprio Aim- 
bire cede á forca da razão. Louva o ministério e o coração 



102 REVISTA BRAZILEIRA. 

de arabos os padres, rememora os serviços que elles pres- 
taram á sua querida Iguassú ; lembra-se ainda altonito da 
appariçào fascinadora da igreja; confessa ignorar quem logo 
depois locara a reliradav.è propõe agora como única condi- 
ção de paz o ficarem. os seus índios senhores para sempre do 
Guanabara, embiiir^-os Porluguczes &quem de posse de todas 
as terras já tóWaías. 

As Iribuô. ouvem com prazer condição tão justa; mas 

Anchi<^t£r^ -que nada podia prometter , replica a Aimbire que 

nãò^ só* de terras que se Irata, vislo que terras tem os Por- 

,44jrjgMzes de sobra , áquem e além dos mares ; mas que o 

: átever que Deus impôz aos seus ministros é o de salvar as 

, almas dos pobres índios, e que é mister que os missionários 

habitem no meio das tribus, para as guiar á civilisaçao. 

Homens incultos n'nma terra inculta. 
Sem haver quem os tire da ignorância , 
Náufragos sno em vaslo mar perdidos, 
Que a morte bebem no volver das ondas. 

Depois de reflectir ia failar Aimbire, quando o Francez 
Ernesto toma a palavra , c se oppòe á proposta de paz e ami- 
zade com os Portuguezes, que se não fartam de terras e de 
escravos. Lembra á assembléa que, se não fossem os Fran- 
cezes , nem um só palmo de terra já teriam os Tupis em seus 
ninhos. Rejeita a instrucçâoqueos padres oiTerecem em troca 
da liberdade, e apresenta para doutrinar os índios muito 
melhor os nomes de alguns calvinistas, que se acham entre 
os Francos. Abre bem os cancros da civilisaçao européa, es- 
pecialmente o do Santo-Oíficio ; e mostra que com a alliança 
dos Francezes podem os Tamoyos formar na America uma 
oação nova e grande, e zombar de todos os inimigos. 

Ia responder Anchieta ao calvinista, quando Aimbire, 
interrompendo a Ernesto , bradou : 

« PVa que tanto failar inutilmente? 
O (\ix'o\x disse está dito; e termii)emo5. 



A CONFEDERAÇÃO DOS TAMOYOS. 103 

Restituam os nossos prisioneiros; 

£ si quizerem paz, em paz nos deixem. » 

£ á longa discussão assim poz termo. 

Corria pelos serlões a nova da chegada dos missionários 
como dous espias, que vinham ver o campo dos Taraoyos ; e 
esse boato crido pelos Índios , corriam elles em chusmas 
alvoroçados, afim de matar os padres. O próprio Parabuçú 
chega com este intento a Iperohy , seguido dos seus ; mas ao 
dar com os dous santos dejoelhos, macerados pela penitencia 
e pelo jejum, retira-se envergonhado. Outros porém per- 
sistem na intenção de assassinal-os, ao que obsta Âimbire 
furioso, ameaçando com a morte quem tentar contra a vida 
de qualquer dos dous. 

O padre Nóbrega entende que é necessário ir um delles a 
São-Vicente patrocinar a causa dos Índios , e d*ahi escrever 
para Lisboa apara a Bahia, rogando a Mem de Sá que sem 
demora mande gente para o Rio de Janeiro , aOm d'ahi fun- 
dar uma cidade, antes que o façam os Francezes protes- 
tantes; e communica esta resolução ao padre Anchieta, o 
qual escolhe ficar em Iperohy , como posto mais arriscado. 
Separam-se os santos varões , e parte Nóbrega para São- 
Vicente. 

Aqui termina o canto nono. 

XIV 

Quanto me apraz a egrégia lieroicidado 
Do illustrado varão, que nSo movido 
De afTecto vil, mas só de amor guiado. 
Mil perigos e a morte assoberbando , 
Todo sesacriGca a bem dos homens 1 
Que outra virtude a tonto amor iguala? 
Nesta mansão de cardos e de espinhos, 
O vero heroísmo,' que o dever só segue • 
Flóridas c' roas pVa exultar não busca , 
Nem os applausos e o pregSo da fama : 
Mas nem por isse o merecido encómio 



104 REVISTA BRAZILRIRA. 

Lhe negue a Musa da virlude amiga ; 
Antes mais sonorosa a voz erguendo , 
Faça o mundo enloar do juslo o nome. 
Anchieta, de ti fallo I e o céo conceda 
Que eterno o nome teu sòe em meus versos. 

E' com esta bella pbilosophia e apostropbe que o poela 
abre o seu decimo e ultimo canto. 

Consagrava-se todo Anchieta ao bem dos índios, e á pra- 
tica das virtudes que ensinava : aquellaalma, purificada pela 
fé, era como um altar de caridade viva, curando os enfermos, 
amansando os ferozes, e doutrinando a todos. No meio dessa 
natureza virgem , elle moço e severo, para furtar-se aos pen- 
samentos de concupiscência , e ao ócio que o podia seduzir, 
faz voto de cantar na lingua lacia a pureza da Virgem Santís- 
sima : e lá vai todas os tardos ao pôr do sol vagar sósinbo peia 
praia , com a niente cheia do celeste assumpto , que se lhe 
desliza dos lábios em cadentes versos : 

Como p'ra vei-o, e alumiar-lhe os passos. 
Entre os cirios do céo se erguia a lua , 
Longa zona argentina reflectindo 
Sobre o mar salpicado deardentia : 
Disseras ser um rio de luz pura , 
Que de vulcão celeste á flux surgindo. 
Em campo diamantino deslizava. 

Quanta poesia não vai nesta imagem , e como é casto o 
esplendor que etia derrama em similhante quadro I 

Uma voz se espalhou que allí notou-se 
Branca pomba adejarem torno ao vate. 

Oh mil vezes feliz a alma sublime 
Que abrazada no fogo da poesia. 
Tudo que a toca de harmonia envolve. 
Como' a flor embalsama o arque a beija! 

Aqui o poeta invoca o céo que o viu infante beber com a 



A COÍÍFKDERAÇÂO DOS TAMOYOS. 105 

irtdu iio*i brocos in^iternas o amor da liâniionin, e pede-llje que 
o itispsre, e otiçaoseu cnnlo derradeiro, en seu extremo sus- 
piro iiessMs (erros do saudoso Carioca, onde descansam os ossos 
de seus pais. O coraçào do leitor cmche-se naluralmente de 
Iristesa e de uma doce melancoliu ao recitar as ultimas aspt* 
rações do cantor illustre , que ao levantar de bem longe os 
alhos pnra o horizonte dn pAlria pronuncia cheio d'amoros 
numes de Caldas, de Sao-Carlos, de Alvarenga, de Duião , de 
Basílio dn Gama e de Cláudio. 

Re^^idia em Ipcrohy o heróico Anchieta havia jâ cinco 
luas, e o chefe dos Tamovos achava mais que longa a demora 

resposta de Nóbrega, que ratillcosse os ajustes de paz. 
Os Francezes, aproveilando-se da impacteneia do cacique» 
inci lavam os Índios por diversos modos a nào esperar mais; 
porém o chefe dos selvagens, em enjo peito nem modo nem 
vileza senninliavara, respondia-Ihes que a espero era muito, 
mas que a resposta havia de vir. Já a Kizania ia a ppa recendo 
no campo, íjuando o santo onachoreta lhes com«nmicou 
que unia voz celeste lhe annunciára novas de paz dentro 
em três dias. Com etíeito, na terceira turde vêem surjrir de 
uma ponta de terra uma canoa esquipada, e um índio na 
proa fazendu aeenos de amizade: — era Cunhambeba, que 
desembarca, beija as mãos de joelhos ao venerável An- 
chieta^ e lhe entrega uma carta de Nóbrega : d'ahi vai á 
canoa, e volta cora todos os remei rus carregados de pre- 
bentes, que depóe aos pés do padre. 

Anchieta lé a carta, explicã-a aos Indioái exultando de 
prazer, dá graças a Deus pela mercê recebida, reparte os 
presentes pelos circumstantes, robora-os nas idéas de paz, 
pede-Uies esquecimento *lo passado, e despede-sede todos: 



fi Só por 3 mor da li, volton-lhe Aimbíre , 

AceeíLumos â paz qao, mo pedidn, 

Noâ vieste propor co*o teu amigo, 

Vâ bem que a tua gente a mo quebranle, 

Que entre nos ninguém falia ao promeuido. » 



lOC ftBVISTA BltjiZILEIlU. 

Aintla alii passaram jiiii los essa noite, mas ao romper da 
aurora ííejjararani-âe, oCíidaqual, no clolorosu ensejo do 
np5rtaini?nto, Iraz ao porcgrino alguma oííeroiuia lititiiildc. 
Pindobueú, n filha e Coaquira, pedeni em lagrimas ao santo 
TaruQ que volte depressa áquellas pingas, o ode ficam todos 
a suspirar por elle. Anchieta prometle-liro, embarcasse, e 
já dinilio da canoa lhes lança a benção , 

Porém a doce crença da pasibera ponco durou. Ura grande 
eniame de Tâuioyos, que fogfjm , chejça a Iperohy com 
Guaxaru seu chefo, dantlo a fatal nova de que a frota por- 
UVj^mym entríira o ( i na n abara cora grande estrondo, e des- 
pejara em terra gente sem conta. Era Estucio de Sá» que 
por ordem da Bainha Regente de Portugal D. Catharina 
vinha com duas mWs do Tejo^ e mais dous galeões que 
nn Baliia lhe iléra Meoi de Sá » governador geral do 
PiniziU e outros navios e barcos pequenos que tt>mu ia em 
São-Vieente , com grande copia de índios, e os missionários 
Oliveira e Am bieta, expulsar os Francezes de todo o Nic- 
tlicroy, e fundar nas suas margens a cidade do Rio de 
Janeiro* 

Ao ouvir tal aonuneio as tribus ficam como fulminadas ; 
mas ao pasmo succede o furor, e eis que lá vão os Índios 
correndo pelo campo em confusão, bradando — guerra * e 
sem esperar as ordens de x\imbire apresentani-se armados 
para marchar* « Bem vos amoestei eu, dixia Ernesto^ 
vede se me enganei; eil*os agora, os iniquos, reforçados 
e jactanciosos, que vos vem dar a paga da vossa boa fé. ^ 
— « Aotes assim I brada Aimbire furioso : 

_ . . . . Agora ao menos 
Melhor conhecem todos o inimigo. 
Af!abou-se a piedade ; e dura guerra , 
Guerra dú morle aos pérfidos faremos» 
Itoaquo da marcKa a ínnbia : á guerra vamos, 
E por tarra e por fnar> oia^ parlamos. *> 

E todos repetiram o brado de guerra, menos Pindobuçú o 



A CONFEOERACio DOS T AMO VOS. 



107 



Pciiiquírn, quê so lembravam Jt*s prégfteõcs de Ancliiola, e 
quo , lementlo o casligo tia céo, pretendiam com roíòes 
variíiíi conjurar a tortiionto qut3 in levontar-st'. Nau lhes é 
isso possível, e eil-os einfim lodos cliegados a Niclliorõy, A* 
visla das mu ralhas rnal erguidas da nova fortaleza da Pruia 
Veroicvllia, onde tremulam as Quinas poi tuguezas, os Ta- 
nioyos enfurecidos investem^ e começam a disparar milhares 
tle sollAâ, que llie chovem dentro. Das trincheiras braoiam os 
Breahu/es , entre raios e fumo, que espargem a morte por 
liida a parle. Redobra o furor de dia em dia, e repetom-se os 
ataques. Dous annos se possam ti es ta In la ementa , e a gente 
de E^lacio , cansada e falta de munições , começa a descoro- 
coar. O capitão portuguez manda Anchieta á Bídiia exporá 
Mcíii de Sa as suas fadigas , e pedir-lho promplo soceorro. 
Cumpre Anchieta a sua missão, e ao mesmo tempo e alli ov- 
ilanado presbjtero, Sleni de Sá , que se apraz com o^ perigos 
da guerra, manda aprestar a armada, e corre prompto a auxi- 
liar u EstQcio, 

No dia dez.oito de Janeiro dá fundo a armada |vartt}gueza 
na líaliia de Nicthcroy, saudando a torra e o novo casleUo, Ao 
horrisono ribondjo dos canhões surgem dos bosques cor- 
rendo ás praias grandes cardumes dô índios, o entre ellcs 
Aimbire^ olhando attento para a armada fatal : 

Passa a dextra na frontij anuviada ; 

Mesto os olhos do mar er^^ie às monunhas, 

Qutí Síib limam do golfo a magesiadc ; 

£ as vai como saudando. Após os volve 

Do uni lado e d^oulroaos setis, â Hlhn, á a^posn , 

Que â III cora elle estão. Adous saudoso, 

O ultimo adtíus, dizer parece a tudo. 

Do novo ínvoluntcario a náo attenla; 

£ a lagrima, que a dòr Nie nega aos oltioSi 

LKo calie no coração petrificada ! 

Dahip como acordando ao brado de Ernesto, que lhe per- 
gunta o que convéui fazer , resolve quo se ataque o inimigo 



108 REVISTA BRAZILE1RA. 

nas trincheiras , e que metade da gente fíque em Uruçú-rae- 
rim , para que mais segura seja a defesa, sem aventurar ludo 
n'um só combate. 

No emtanto reunem-se em conselho Estacio e Mem de Sá, 
eos maisilluslresda companhia dosdous: discute-se eappro- 
va-se o plano do ataque, e é commettida a execução a Estacio. 
O dia seguinte era consagrado ao santo padroeiro da nova 
cidade. Ao surgir da aurora apparelham-se devotamente para 
a morte os bravos Portuguezes» e lá vào em rápidos bateis 
para terra. 

Francezes e Tamoyos os receber.) nas trincheiras com 
pellouros e sedas: os Portuguezes avançam corajosos, cha- 
mando por São-Sebastião. Trava-se horrenda luta : nos fossos 
espuma o sangue em lagos, onde rolam innumeros cadáveres : 
os vivos investem como leões ás trincheiras. «Victoría!» 
brada Estacio, e o furor recresce de um e outro lado. índios e 
Francezes cahem por terra em montões na atroz carniGcina. 

Os vencedores vão d'alli gloriosos paraParnapicuhy. Laos 
espera Aimbire, cujo braço não repousa: em torno éhelle 
cahem os companheiros bramindo, feridos ou mortos: — elle 
os conculca: os pellouros sibilam-lhe ao redor ; — desaQa-os : 
passam-Ihe peia fronte pedaços arrancados das trincheiras ; 
— affronla-os. É noite horrenda : é um meteoro medonho, 
onde combatem demónios. 

A pintura desta luta extrema de um povo que expira é 
similhante era vigor e correcção á terriQca batalha do Chrys- 
sus do Sr. Alexandre Herculano, no seu inimitável Eurico. 

Mas aqui parece o poeta tomado de um santo temor e de 
uma sympathia profunda pelo iltustre guerreiro quasi mar- 
tyr, e proségue : 

Inda um momento 

O índio seguirei. Victima illustre 
De amor do palrio ninho e liberdade^ 
Elle que aqui nasceu nos lega o exemplo 
De como esses dous bens amar devemos. 



A COKiEIJÍSRAÇla DOS TAMOITOS. I0!> 

Poucos llia restam da guerreira iribu , 
Que livre aqui nasceti e morreu livre» 
l^unssúi sua esposa, (ju6 o tiSo deixa , 
Varado o peilo, aos pés líie cahe etíJtpira, 
Sem exhular uin ai ! Fár^ in^taritoneo 
OiiidoiniloTamoyo. Anie o inimigo. 
Que viciorííi jâ brada. E-slacio avulta, 
E uma sfiUa de Aimbire aes^poso viugíi, 
Ferindo o ca piíao, queda vícioritt 
Pr>r poucos dias gozara dos louros. 
Rapiíla após coDio um possesso toma 
O vnihv^T dã esposa^ ao hoinbro ú lança « 
Empunha a hercúlea maça e feroz brada : 
■ Tamojôsoii, Tamoyo morrer quero» 
E livTe morrerei. Comigo morra 
O nllimuTanjoyo ; e nenhum fique 
Para escravo do Luso : a neolium delles 
Darei a gloria de tirar-mea vida. > 

Cheio de raiva e cego, vai abrindo com a maça uma es- 
trada de cadáveres porenire o inimigo^ e lança-se ao raar. 
No dia seguinte os valentes companheiros dos Sásapossavam- 
!$e das formoâfiti plagas do Gtiauabara, ^ traçava cd os funda- 
mento^» du Janeiro, levantando um templo a São Sebastião* 
O mar arroja m praias os corpos de Âimbire e de Iguassó, e 
o sfloto e piedoso Anchieta ahi Ibes dã sepultura. 

Aqui termina n acção do poema. Mas o Sr. Domingos de 
Magalhães não duvta encerrar a sua epopéa sem a depor aos 
pés do e.selarecido Soberano a quem a olTerece, ea cujo berço^ 
a'tim momento de grande infortúnio, se ajoelhara ainda 
bem moço. E* o que elle faz com etlailo na magnifica invo- 
caçào que segue, que c como a curôa do seu bel Io poema : 

41 Excelso Imperador, que justo empunEias 
O gcepiro doBraíil, onde Teu befço 
Por 5ea ardente amor foi embatido ; 
Onde uin só rur^içâo não lia que um LÍirono 
Be amor To não consaijfre ; onde espontâneas 
De livras cidadãos as gratas voa:ea 



110 REVISTA BRAZILEIRA. 

Tuas grandes virtudes apregoam : 
Tu, cuja vida vivifíca os germens 
Da gloria nacional, que Te circunda; 
Defensor do Brazil, Tu que inslruido 
Dos deveres de Rei, sabes que o throno, 
fiarreira de paixões desordenadas, 
O apoio deve ser da liberdade. 
Da justiça e da paz, e o altar sagrado. 
Cujo fogo perenne animar deve 
Sciencias, lettras, artes e virtudes ; 
Monarcha Brazileiro, accoita o canto 
Que Te dedica o vate agradecido ; 
E faze que outros muitos mais ditosos, 
Porém não mais da nossa terra amigos, 
Eterna gloria dôm á Ti e á Pátria. » 

Ditoso o Estado a quem Deus concedeu um Principe 

. . . cuja vida vivifica os germens 
Da gloria nacional : 

e ditoso o Chefe de uma grande monarchia 

Onde um só coração não ha que um throno 
D'amor lhe não consagre 1 



XV 

Resolvamos agora a ultima e mais importante questão 
que a principio nos propozemos: — Qual será a forma por que 
a arte se deve hoje manifestar no Brazil ? 

A poesia acha-se actualmente n*um excellénte caminho 
entre as nações mais cultas da Europa ; os nomes de guerra» 
as alcunhas de partido, não tem mais significação para nin- 
guém ; o pugilato das theorias acabou felizmente, e o ter- 
reno da arte não é já hoje um circo de gladiadores, — ó um 
campo fecundissimo, onde ninguém se bate, e onde todos 
seoccupamem trabalhar, com mais ou menos fortuna. As 
doutrinas de liberdade litteraria espalharam a sementeira 



k CONPÊDETlArAO DOS TAMOYOS, 1 I l 

mi loJo esse campo ; c já agora as gerações novas hão de 
ceifar a messe* 

Sabemos qucs aa redlí^^ação 4o ideat se não pôde ir aléin 
dosPhidias, dos Raphneiâ^ dm Beetbovens e dos Gamões^ 
mns também sabemos qiie não é impossível igiiãbd-os, por- 
que Deus, que enviara á terra aquelles seus escolhidos, pode 
cnviar-Uie muitos outros, que valham laato como elleti, o 
que descubram novo*s enminhos para se elevarem ao abso- 
luto. Por que razão , porlanto , querer fixar iim cravo no 
€110 incansável era que o espirito humísno %'olve, c decretar 
uma hilólo Ijrannica ao génio? A bitola do génio é a escada 
de Jacob : sA do alto delia é que o homem descobre os ca- 
miobos do infinito, e escolhe aquella em que mais se de* 
leita. A cada grande pensamento, a cada tro[)héode victoría 
nicançada pelo espirito contra a matéria, sobe o bomem 
predestinado um degráa dessa escada, até quo se perde na 
mysleriosa no vem que o cerca, e se apresenta cita tico diante 
do Throno de toda a luz* para dizer a Deus : «Senhor I eis- 
lue aqui. E* aquclle o caminho que eu pretendo seguir, ^> 

Nós cremos pois firmemente no futuro. Ainda se vêem 
fluetudr aqui o acolá na superfieie da arte alguns troços de 
velhas poéticas desmastreadas» que ha mais da vinte annos 
fa^crm agua; ainda apparecem alguns teimosos» que se lhes 
penduram irados a um c outro bordo do navio, e nos amos- 
tram de lá na ponta d' uma lança o adorável pavilhão de 
Amtoteles; mas elles de lá estão vendo os homens predes- 
tinados resolver a questão de forma segundo a vocação de 
cada um, e por diversas maneiras, todns graciosas, todas se- 
duetoras» o sobretudo encaminhadas pelo bom senso, que 
será sempre o guia seguro do espirito na realisação do ideal 
pela arle, 

Comlanto que a lingna do poeta — e uma língua tão bella 
como a nossa — se não deturpe nem se vista á moda, porque 
ag modas nas linguassão a sua abjecção; eomtanto que as 
imagens, as figurast os cõnloruos, o estylo, os grandes atre^ 



áÊOÊk 



112 REVISTA ORATtlLKlRA. 

vimeotos de mestre sejam formosos e naturaes, íleiíe-sí 
voar o génio: toda a inspiração é divina; Ioda a forma convém 
ao actual século, chame-se ella ode ou psainio, idyllio ou 
epopéa. Severidade e grandeza nas formas, grandeza e se- 
veridade no fundo, tal é a tei actual da arte, tal é o modo 
por que ella se deve manifeslar no BraziL 



XVI 



Se nós tivéramos lido a fortuna de emprelieoder e eteeu- 
tar uma composição da ordem e dimensões dos Tamoyast 
preferiríamos a oitava-rima ao hendecasyllabo solto ; não 
lanlo porque todos os nossos bons poetas epopaicos até hoje 
a hão preferido (essa seria fraca razão), mas porque no^ pa- 
rece que o encanto da rima multiplica a harmonia, e hz 
quasí sempre o poeta descobrir maravilhado em seu próprio 
engenho bellezas de fórnoa que elle atéahí desconhecia, e 
que somente lhe appareceram com a instigação da rima. O 
Sr. Magalhães porém preferiu a forma livre á rimada, como 
mais severa que é, e sob a qual elle podia dar aos seus vul- 
tos toda a correcção que a arte demandava. Foi uma nobre 
preferencia, de que o poeta tirou todo o partido possiveh 

Assim mesmo» atgnns versos inteiramente prosaicos, ou-* 
tros deleíxados lhe escaparam n'atgumas scenas, quando 
nem o caracter da personagem, nem a situação dramática, 
podem jusliflcar esse deleixo, ás vezes necessário. Nem Ião 
pouco reparou o poeta n* algumas imperfeições de linguagem, 
n*algumas transposições desusadas que aqui e acoíá appare- 
cem, e que soam desagradáveis ao ouvido que fora embola- 
do na castigada língua de Frei Luiz de Souza, 

A armada portugueza de Mem de Sá surgiu nas aguas de 
Nictheroy era 18 de Janeiro de 1507» quando o astro que é 
nosso centro visitava ainda Capricórnio. O Sr* Magalhães, no 
seu uUimo canto, diz-nos que 



I 



A CONFEDERAÇÃO DOS TAMOYOS. 113 

No Aquário signo em meio o sol gyrava, 
Quando de Niclheroy no ímmenso golfo 
Entrou soberba a protectora armada. 

E' um anachronismo facíl de corrigir e fácil de desculpar 
em um homem, cujo commercio é muito mais frequente 
com Calliope do que com Urania. 

E a final, todos esses raros defeitos e inexactidões ficam 
totalmente offuscados pelas innuraeraveis bellezas do poema, 
que não tem similhante em nenhum dos publicados até 
hoje em nossa America do Sul, desde a Araucana de Ercilla, 
alé o Caramurú de Santa-Rita Durão. A côr local, que o Sr. 
Magalhães espalhou em todo o drama, constituo o principal 
mérito da sua epopéa. Aqui os episódios são tão interessan- 
tes, as pugnas barbaras tão homéricas, as personagens, as 
descripçÕes, as paisagens são tão americanas, tão brazileiras, 
que elevam o poema a uma das maiores alturas a que a phi- 
losophia christãa se pôde elevar pela poesia. 

A Confederação dos Tamoyos será sempre lida com orgulho 
por todos os amigos da pátria, e considerada em todos os sé- 
culos como um grande monumento de honra pava o poeta, 
e de gloria perdurável para o paiz a que elle pertence. 



Pernambuco, 9 de Abril de 1857. 

José Soares d* Azevedo. 



t . 



RESPOSTA 

A UM TRECHO DO POEMA 

CONFEDERAÇÃO DOS TAMOYOS. 



iQterpellado pelo meu araigo Magalhães , debaiio da 
forma a mais solemne, e perante a posteridade que tem de 
atravessar o seu poema da Confederação dos Tamoyos, creio 
do meu dever publicar neste momento a resposta que dei 
no anno de 1851 , quando recebi uma carta sua de Nápoles, 
onde vinham transcriptos os versos que se acham hoje 
estampados á pagina 113 da edição princeps do seu poema, 
feita por ordem e ás expensas de Sua Magestade o Senhor 
D. Pedro II. 

O meu nome, sem outro merecimento maior ao da antiga 
e fraternal amizade que lhe consagro, foi por elle collocado 
n'um dos mais bellos cantos da sua obra, mais com o fim 
de immortalisal-o do que com o intuito que revela, porque 
na arte nada sou para merecer tal honra ; e porque elle, 
deposito intimo de todos os segredos do Yneu coração, 
espirito illustrado e vidente , conhece perfeitamente as 
occurrencias da época em que vivemos, o pensamento 
predominante dos contemporâneos , e a desigualdade dos 
nossos elementos civilisadores. 

As épocas das maiorias não são as das individualidades, 
mormente das artisticas , que necessitam de uma tempera- 
tura politica mais intensa e mais regular. 



REVISTA BRAZlLEiRA. 

*iililíco lio nntf^mSo e^ta resposta porque espero merecer 
indulto tios que mo íiccusarem sem saber as duras prova- 
eòes por que passei nesta vida excepcional, ainda não com- 
prehendida pela maioria do uma naçáo nova, herdeira de 
graves preconceitos contra o liomem d'arle, e alheia ao 
espirito e íi practie« que fomentam as bellas artes. 

Fidizmuiile para a mocidade, os homeus da actualidade 
começam a ver que a giande pátria iião esla na extensão 
do solo, qtie a nacionalidade não é o individuo, e que o 
almanak olFieial pouco signitlea quando o seu pessoal não 
se exorna do amor da pátria e dos dons da intelligencia. 

Se devemos á imprensa uoia parle desta feliz modi- 
ficação, devemos outra maior á illustraeao e disposições na- 
iuraes do Impera Jori que mais de uma vez tem dado provas 
de que a intelligencia é para elle a primeira qualidade no 
ln>nH.'m : olhemos para eima , e veremos bnslantes provas* 

lía dezenove aanos que voltei da Europa, e apezar de ser 
aa época da menoridade, Gz alginis serviços» e dei exemplos 
de que era artista e desinteressado, O que aqui digo com- 
prehende a mais bella quadra da minha vida, a quadra da 
mocidade, do vigor, da esperança, do fanalismo pátrio, e a 
de tristes decepções, Tarde resignei-me; hoje nâo vivo para 
o individuo, nao penso mais no artista, não tenho ambição de 
gloria m^m de rique?.ãsi (raballjo porque o trabalho ó uma 
necessidade; trabalho para as nrtes porque o Imperador 
iissim o manda ; mas o arlista dosappareGeu ; as perseguições 
de alguns egoístas, as ingratidões de alguns discípulos e 
culli^gasp moléstias graves e a desesperança consummaram 
n obra. 

Talvez que a minha imaginação engrandecesse as causas, 
avultasse os eíFeitos, o que não é culpa minha ; todavia o quo 
escrevi é o que se passou em mim, ou o que pensei ver: 
desejo de todo o meu eoranãn estar itiudido, e que só sejam 
causas as fatalidades do um homem que não conhece a 
folicidade. 



116 RESPOSTA AO DR. MAGALHÃES. 

» • 

Eis-aqui por inteiro o periodo a que me refiro. Respondo 
somente aos versos que vão em itálico , porque os outros 
considero coraofructo da cegueira de uma amizade fraternal, 
como um meio generoso de a justificar mais altamente. 

Cantor sublime dos brazilios bosques. 
Que fazes dos pincéis que a Natureza 
Com tanto amor te deu ? Caro Araújo, 
Tu que pintando o que lào bem descreves 
Com essa alma de fogo, que se abraza 
N'um voIcSo do arrojados pensamentos, 
Crear podias maravilhas d'arte, 
Que a par dos versos teus mais te exaltassem , 
Porque não mostras quanto podo o engenho , 
Que esta Pátria accendeu p'ra gloria sua? 

FRAGMENTO DO COLOMBO 

Prosigamos no afan. 

Ether divino, 
Grémio da creaçào, asylo eterno 
Da celeste harmonia , e dos arcanos 
Patentes ao mortal por Deus ungido 
Ao ver a luz do sol , a ti me volvo. 
Em leu âmbito puro nào se cruzam 
Infidos echos de paixões terrenas. 
Avo canora, vou cantar no espaço. 
No livre espaço da mans5o sidérea , 
Lá onde não se escuta entre saráos 
Sibilar a serpente; onde meus hymnos , 
Como os olhos da infância á luz propensos. 
Do céo de amor , serenos , sobre a pátria 
Um dia descerão, sem que os retrinque 
Ardilosa fallacia ou vil ciúme. 

Sarjou-me a face o aguilhão das magoas; 
Nevou-me a fronte do infortúnio o sopro ; 
Prematuro trajei vestes senectas , 
Mas intacta ficou minha alma artística. 



FRAGMENTO DO COLOMBO. 117 

Ameigada nas azas da espôrança, 

O vôo fito no clarão da gloria, 

Em meu ser te infundiste alma pintura. 

Três lustros de labor, de risos, lagrimas, 

E a fé, virgínea fé de um peito jovcn, 

O almejo ardente , o generoso impulso , 

Tudo^ tudo perdi! É meu passado 

O arcabouço mirrado da belleza; 

Alveo de um rio que o volcão seccára; 

Trilho perdido por cerrada malta ; 

Um astro extincto, um desengano horrivell 

Já nSo tenho palheta ! — Odeio a tela , 
Painel de magoas que me corta a vida. 
Tantos annos de amor, de árduos empenhos. 
Tudo 9 tudo perdi ! Sonhos tão bcllus 
Como a virgem celeste da esperança , 
N'um sudário de angustias envolvidos , 
Jazem no campo da mortal incúria , 
No barathro odioso do despeito; 
No porvir tenebroso dessa gente 
Que alegre vive na fatal descrença , 
£ as virtudes das artes , comu os bárbaros, 
Ufana desestima, e quer ser grande?! 

£ nada o homem quando o ouro é tudo. 

É nada o génio, o heroismo, a honra, 
Quando impera a cubica , quando o vício 
Triumphante domina, quando o prisma 
Das miseras paixões irisa o crime 
£ a verdade refrange. Dece|)a<l() , 
Como um velho que os lem^ms doutrinaram , 
Na estrada me abati: Eu vos perdoo. 
Nâo manchará meu canto vossos nomes 
Escuros no porvir, e só brilhantes 
Na idade d'ouro amoedado. Basta. 

Antes que as velas se desfraldem , antos 
Que invada as metas do oceano incógnito 
O famoso Ligurio^ á Itália adeja 



118 REVISTA BRAZILEIRA. 

Pensamento querido, e sobro as margens 

Do mar lyrrheno, na formosa estancia , 

Parthenope gentil , amigo pousa. 

Ao som da lyra do brazilio vate , 

Que interroga o meu ser, responde accorde. 

£ sua alma minha alma 9 o mesmo molde 

Formulou-as no céo, gémeas nasceram 

No amor e na amizade, nSo no engenho ; 

Do sol radiante avizinhada a sua , 

Da fronte espande nos painéis brazilios 

O lume divinal que o céo fadou-lhe. 

Pensamento querido, vôa, vôa, 

Carinhoso agradece ao Magalhães 

De haver meu nome eternisado , e a fronte 

De brázilos lauréis, de amor lhe adorna. 

Como o fogo do monte, que a seus olhos 
Sulphurea nuvem pelo céo distende, 
Assim foi minha dôr: o chão crestaram 
No momento fatal as minhas lagrimas 
Quando vi condemnado a inútil ócio 
O meu fraco pincel , e o verme impuro 
Em volátil carcoma transformal-o. 
O sceptro d'arte pertencia aos Midas, 
Juiz era o algoz ! Então reinava 
O nefando egoismo : Deus e a pátria 
N'azinhavrado cofre se encerravam, 
E as virgens musas no velabro sórdido. 
Era outra a minha fé , outro meu norte : 
Nascera no Brazij. Ah! mui difíere 
Do prófugo a missão, quando sua alma 
Do lar deserta a demandar a pátria 
Nos acúleos sedentos da cubica. 
Guai de quem não afere os sentimentos 
Do homem que em seu berço vê a lousa , 
E de adectos sagrados circumdado, 
Seus deveres conhece, adora a pátria ! 
Da ínhospita e cruel mansão dos homens 
Resignado fugi : ao céo voltei-me, 
Pára o céo que sorria , e o céo benigno 
Oulorgou-rae o espaço generoso , 



FRAGMENTO DO COLOMBO. 119 

Onde eu» liberto, a consciência em mente, 
Podesse discorrer. 

Vi nelle um Anjo ! 
No lúcido remígio desprendia 
Concentos divinaes; dos virgens lábios , 
Como estrellas canoras, as palavras 
Cadentes aleavaro, transluzindo 
Consolo 6' quietação ao peito afllickoV, 
Dizia lanto na longínqua esphera , 
Que o verbo bumano modular não pode. 
Sereno , á lerra deslisou , e erguido 
Sobre um combro de ruinas, o passado 
Cum aceno exhumou. Bem como a névoa 
Do prado erguida e das sonoras brenhas 
Pelo vento, e em mil larvas retalhada. 
Assim do solo resurgiram mudas 
Legiões de phantasmas! Era o povo. 
Dos domínios da morte, o tempo exhausto 
Nas lutas do passado , confundido 
Pelo código eterno do sepulchro. 
Sorriu-se o Anjo, e para mim fitando 
Os olhos caroaveis , disse : 

« E' tempo : 
« Já basta desofTrer , enxuga as lagrimas. 
« De amor celeste e de harmonias pátrias 
« O dedo de Adonai ungiu teus lábios 
« Quando o lume do céo abriu teus olhos 
« Lá no ameno Jacuhy , na terra ovante 
« Onde a infância por brinco toma as armas! 
a Canta que és vate. Deixa a lóia escrava 
« Fanar*se ao bafo das poentas eras. 
Cl Quantas vês a meus pés , tristonhas larvas , 
« Artistas foram , desgraçados entes 
« Que, a um tácito marlyrio devotados , 
« Em premio houveram do futuro avaro 
• Perpetuo olvido. — A geração que os viu , 
« E a miséria oflertou-lhes, jaz sem nome. 
« Para eterno viver-se entre os humanos 
« Não basta um nome na funérea lapida , 
« Como Zeuxis , Parrhasio , ou como Apellc:» 



120 REVISTA BRAZILEIRA. 

c( Onde estão seus painéis, onde o Ceramrco, 

« £ os pórticos d'outr'ora recamados 

c( De lúcidos primores?! Não prosigas ; 

« A' noite oppOe a luz, idéas planta 

« Na puerícia fecunda ; que a nobreza 

(' Inda ás artes do bello não pediu 

<c Mais lustre a seus brazões; nem a riqueza 

« A gloria que a eternisa. — Ha só futuro 

« No teu pátrio Brazil , só esperanças. 

a A hora do alvanel, hora solemne, 

« Que exorna ochso e a pátria nobilita , 

« Inda está no porvir ; inda não fatiam 

a Com elle a pedra e o sonoro bronzQ:* 

« A estatua inda é rochedo. £ tu pretendes 

« Dar vida á léla , que do harmónio circulo 

u A orbita remata ? I Não te illudas ; 

« O fumo dos mercados escurece 

« As tintas de Corregio e Ticiano ; 

« Ahi se compra tudo, ou se permuta 

« A gloria por misérias e agonias. 



« Foi mui longn a i Ilusão , alfím cedeste. 

f< A andorinha animosa fende a nuvem 

• Que á terra baixa de trovões pejada , 

f E incólume surgindo , airosa sobe 

u A um céo sereno, que lhe doura a fronte 

(( £ o corpo irisa do matiz ethereo. 

« Na atalaia do tempo nàoflorêa 

o O pendão magestoso , como o tronco 

« De palmeira vergada por pampeiro 

« Sc inclina o masto na supina mole ; 

« Da fó suprema, que remoça as eras 

« £ o povo regenera, a hora tarda 

« No leu joven paiz : o escambo em mcirte , 

« £ os frívolos prazeres vão gastando 

« O tempo , — o mór thesouro — e a moòidade l 

« A bocca do orador inda bafeja 

« O leite escravo que libou na infância l 

a £' forçoso esperar ; inda peleja 

% O verbo do Ypiranga. 



FRAGMENTO DO COLOMBO. 121 

« Eia, nSo pares ^ 
« Eia y pintor , a grandiosa teia 
<c Do oceano y do espaço , e do inGnito ; 
« A luz dos astros y a palheta do iris , 
« A terra tSo fornoosa e variada , 
« E os prodígios do homem. Ah I não cesses , 
tt Do métrico pincel espraia os rasgos , 
« No fíat imroortal tens o modelo ! 
« Se om verso deres que o porvir acolha, 
« E ledo o exare no altar da pátria , 
« Filho ingrato não foste, assas Gzeste. 
« Não vive a prole que a mastins semelha 
c Em mutua refílar-se , e que ao futuro 
« Convicios testa : o Sybarita apathico 
« Nos seus fastos deslembra a humanidade. 



« Escravas são do rico as artes plásticas , 

« E como elle caducas. Peristyllos , 

« Douradas regias e marmóreos circos 

« No outono do tempo o chão alastram ; 

« E o deus, que vira um Phídias no penhasco, 

« Ao pó do Vaticano irá mesclar-se 

« Quando Roma fôr cinza , quando o Tibre 

« Mudar de nome , e alvejar ao hime 

« A prole diva que em seu lodo escondo 

« Os membros mutilados ! Triste ó o circulo 

tt Da humana crença: o homem do futuro 

« Com pó profanador conculca altares 

« Por seus pais adorados , eao descrido 

ff Vindouro os seus entrega. Tudo morre , 

« Tudo perece, mas o vate nunca : 

« Da belleza moral , superno antiste , 

« Como ella amado , os corações conquista ; 

« A inteiras gerações pertence o vale , 

«• Pertence aos seus, ao forasteiro, ao bárbaro 

« Dos bulcões do porvir ; aos que hão de um dia 

« Sobre vossas caveiras vir sentar-se. 

« Sío seus versos padrões que o tempo anuirllam, 

« Monumentos intactos junto ao throno 

« Eámisera choupana. 



122 REVISTA BRAZILEIRA. 

« Quando a pátria 
« E' madrasta cruel, e o rei escravo 
« Da ímproba avareza , ou dos tyraunos 
« Que elle mesmo creára , então silencio ; 
« Que o silencio não fere a róos dourados : 
<c Mas quando sobre o tbrono impera um príncipe 
« Como Pedro Segundo , que combate 
« A rudeza yO em templos de harmonia 
« Os seus paços converte, canta, canta. 

o Si orei te escuta ^.emmudecer é crime. 

it Abraça-te co'a lyra , adora a Musa, 

« A Musa da harmonia , a helia virgem 

fc Em cuja fronte se mistura o lume 

« Da vidência celeste ao canto egrégio ; 

« Ameiga os seus dictames , colhe o nardo 

« Que seus lábios distíliam quando falia 

« A' lua dubiosa , ao sol radiante , 

« Ao claro rio , á fugitiva nuvem . 

« A' selva escura , ao monolilho alpestre , 

« A' flor do valle, que reflecte a aurora, 

« Ao mar , e aos volcões, ao negro abysmo , 

« Ao homem , á virtude , e ao Deus eterno. 

« Na estancia adora , habitação dadiva, 
M Contínuos gyram fecundando flores 
M O colibrio amoroso , a borboleta 
« Do ether filha e de meta es incógnitos ; 
« Adora a virgem que om perpetuas alvas 
ff O ser fluctua harmonioso e cândido, 
a E os sonhos colhe que ella mesma gera , 
« E no espaço aviventa com magia 
« Em vitaes primaveras , onde o enxame 
« Das abelhas do cóo se nectarisa , 
« O orvalho da dôr em mel converte , 
<< Os extasisem hymnos, e os olhares 
u Em raios de belleza eternisada. 

« Encosta ao coração a lyra mystica , 
« Que elle não dormirá : sagrado enlevo, 
a Mercê do céo, ás pulsações dá vida , 
« Gloria ao amor , perpetuidade ao canto. 



FRAGMENTO DO COLOMBO. 123 

« Amanhã soerguerá 4o áureo sepulchro 

ff Em que Roma jazer um^outra Itália , 

c £ no cóo não verá talhar-sc a cupola 

« Do augusto Vaticano ! O verme eterno, 

« Que o marmor carcomiu do Capitólio , 

« Â cruz ovante deixará somente » 

c Mas nào a regia pontifícia » as scenas 

<i Germinadas na mente endeosada 

« De Júlio e Raphael , de Miguel Angelo , 

ff O homem de três almas ! Sobranceiras 

« A tantas ruinas , luminosas, vivas, 

« As grandes vozes se ouvirão ainda 

ft Do Tasso e Dante e do Aríosto egrégios. 

« Quando a terra cobrir a ingente ossada 
« Do Espartaco brutal^ que a mente inquina , 
« Vingando o captiveiro ; quando o engenho 
« Em regiões mais puras libertar-se 
« Da rasoura fatal que ora o achana , 
a E a cerviz conculcar de seus tyrannos; 
« Então erguida , Iriumphante , nobre 
« A gentil Guanabara , ao sol dos trópicos, 
« Seus padrões mostrará, e os simulacros 
« De heroes á sombra de vergéis edenicos. 
« Seu povo livre, generoso e grande , 
« Uade ás Musas prestar culto solemne , 
» E aos dons da intelligencia mór tributo. » 

Ouviste a voz desse Anjo, ó meu amigo? 
Cantor de Watorloo , eis-me escusado : 
Obreiro nato , no labor não canso , 
Votei-me á lyra , morrerei com ella. 

Porto- ALEGRE. 



NOTICIAS DIVERSAS 



Opera uacioual. — No dia 17 de Julho de 1857 a Aca- 
demia Imperial de Musica , honrada cora a presença de 
Suas Magestades , exhibiu no Gymnasio Dramático a sua 
primeira prova musico-dramatica com a opera intitulada 
A estréa de uma ariisla. O publico fluminense applaudia 
esta tentativa artistiea com a sua costumada benevolência ; 
e não era de esperar de uma assembléa tão distincta e 
illustrada outra manifestação que não fosse a de uma 
generosa animação. 

A realisaoão deste pensamento, que promette um lison- 
geiro futuro, teve origem no dia em que no Thealro 
Provisório o celebre Tamberlick cantou o fragmento de uma 
opera escripla pelo nosso distincto litterato o Sr. Manoel 
de Araújo Porto-Alegre a pedido de M"* Stoltz, intitulado 
A restauração de Pernambuco , cujo fragmento foi posto em 
musica pelo Sr. Giannini, mestre honorário da Capella 
Imperial, e professor de harmonia e contraponto do Con- 
servatório de musica. 

Esta nova creação tem despertado no animo dos nossos 
poetas e músicos um enthusiasmo extraordinário. Neste mo- 
mento escrevera para a opera nacional os Srs. Francisco 
Manoel da Silva, Joaquim Giannini, Stockmeyer e outros mes- 
tres, sobre libretos de assumptos brazileiros ; talvez haju 
concorrido para este acoroçoamento a pratica dos theatros 
da Europa adoptada pela nova Academia musical, na qual 
o artista encontra o fructo de seu trabalho sem a inter- 



NOTICUS DIVERSAS. 125 

ferencia ou o interesse dos emprezarios , as mais das vezes 
movidos por am calculo , que tende a sacriGcar a arte ao 
monopólio. 

A JVebulosa. — Âcha-se no prelo quasi a concluir-se 
um poema em seis cantos do Sr. Dr. Joaquim Manoel de 
Macedo com a denominação de Nebulosa. O nome do illustre 
autor, já conhecido por tantas e tão variadas obras em 
prosa e verso , nos dá certeza de que esta nova producção 
será mais um florão de gloria que elle ajuntará á sua tão 
bem merecida coroa de poeta. 

Poesias do Dr. Gonçalves Dias. — Acaba de chegar a 
esta corte, impresso em Leipzig, um lindo volume con- 
tendo todas as obras lyricas do nosso illustre compatriota 
o Sr. Dr. António Gonçalves Dias. Os três volumes , que o 
nosso vate aqui publicara com o titulo de Primeiros, se- 
gundos, e últimos cantos, se acham reunidos nesta bella 
edição , que em breve será exposta á venda. 

Estatua equestre. — Por uma carta escripta de Pariz 
pelo Sr. Rochet soubemos que este hábil estatuário, encar- 
regado do monumento , que deve ser levantado á memoria 
do Fundador do Império, já começara os seus trabalhos; 
e que S. M. o Imperador dos Francezes puzera á sua 
disposição todos os cavallos das imperiaes cavallariças para 
elle escolher o mais formoso , e que elle preferira o so- 
berbo andaluz pertencente a Sua Magestade a Imperatriz. 

Sociedade Ypiranga. Esta Sociedade adoptou por una- 
nimidade de votos a proposta de seu sócio o Sr. Manoel 
de Araújo Porto-Alegre para que na Praça da Constituição 
se erigissem as estatuas do Visconde de Cayrú e de José 
Bonifácio de Ândrada. Ao primeiro destes dous Obreiros da 



126 REVISTA BRAZILEIRA. 

Independcncia se deve a iniciativa da abertura dos portos 
do Brnzil , decretada pelo Principe Regente o Senhor Dom 
João VI: e quanto aos serviços do segundo, são elles tào 
conhecidos que seria ocioso recordal-os. 

Academia Imperial das Bellas Artes. — A congregação 
da Academia Imperial das Bellas Artes, reconhecida aos 
serviços prestados ao estabelecimento pelo Sr. conselheiro 
Luiz Pedreira do Coutto Ferraz, quando ministro e secretario 
de estado dos negócios do império, mandou fazer o seu busto 
em mármore de Garrara para ser collocado na bibliotheca a 
par do busto do visconde de S. Leopoldo, fundador da 
mesma academia. 

Sociedade Auxiliadora da Industria Nacional. — O Sr. 

Dr. Burlamaque, actual director do Museo nacional, acaba 
de ser nomeado pela Sociedade Auxiliadora da Industria 
Nacional para redigir o seu periódico. Os estudos especiaes 
deste benemérito cidadão são garantia suíHciente da boa 
escolha que delle fezaquella útil associação, e anciosamente 
aguardamos a leitura dos excellentes artigos de tão laboriosa 
penna, com que sem duvida exornará o dito jornal. 

Orlanda. — As ultimas amostras de papel para impressão 
typographica , desenho e escripta, que vimos sabidos da 
fabrica de Orianda, propriedade do Sr. Dr. Capanema, nos 
dão toda a esperança de era breve poder ella rivalisar com 
as melhores fabricas européas. O papel para desenho é quasi 
igual ao da afamada fabrica de Wathmann de Londres, e 
as amostras do papel fabricado para o sello fixo são muito 
superiores ao que o Thesouro nacional importa para esse 
fim. 

■■ li M i ^" IB BB I 



NOTA 



A MEMORIA SOBRE A ORIENTAÇÃO DO PLANO OSCILLATORIO 
DO PÊNDULO SIMPLES 

PDBLICADA NO COMEÇO DESTE VOLUME. 



Em a nossa memoria escripla no anno de 1853, sobre a 
theoria mathematica da orientação do pêndulo, deduzimos 
a formula seguinte : 



^ ,,, sen l sen. P 
M ) Sen. TV = 



*^^1 — CQ^\ sen}V 

na qual W representa o movimento angular apparente do 
plano oscillatorio do pêndulo, em sentido contrario da 
rotação terrestre ; na hypothese de conservar permanente- 
mente o plano oscillatorio a sua orientação inicial. 

Se porém esta hypothese não tem logar para um angulo 
de rotação P de qualquer grandeza, ella será rigorosamente 
verdadeira para um angulo de rotação extremamente pe- 
queno, ou o que é a mesma cousa durante um tempo extre- 
mamente pequeno, qualquer que seja a latitude X do parallelo 
terrestre em que funcciona o pêndulo. 

Esta segunda hypothese autorisa o desprezo da quantidade 
(Cos' X «en' P) ; tomando a fórmula (1) a seguinte expressão 
mui simples 

(2) W ^V sen À. 

Esta fórmula coincide perfeitamente com a que fora de- 
monstrada pelo illustre sábio M. Lionville, membro da 
Academia das Sciencias de Pariz, servindo-se para esse íim 
do principio raechanico da composição das rotações. 



128 REVISTA BRAZILEIRA. 

Compre declarar aqui que só tivemos conhecimento 
dessa fórmula de M. Lionviile alguns annos depois da 
publicação daquella nossa memoria. 

A nossa fórmula (1) ofierecerá portanto um methodo 
differente de investigação para chegar ao resultado, que 
representa a fórmula (2), submettendo-a á condição da 
segunda hypotbese , que serviu á demonstração de M. 
Lionviile. 

Rio de Janeiro, 24 de Junho de 1857. 

C. Baptista d'Oliveira. 



i 



GEOMETRIA ANALYTIGil. 



7HE0RI.4 DA LINHA RECTA E DO PLANO 



CONSroEBADOS NO ESPAÇO. 



Problema. Sejam dadas as rectas indeíiDidas OD c 0D\ 
fcii-mando no espaço um angulo qualquer TV, no ponto da 
^^a intersecção O (íig. 1): lomem-se arbitrariamente nos 
"^dos desse angulo os pontos (m, m'), cujas coordenadas, em 
^laçâo aos três eixos ortbogonaes (OX, OY, OZ), sejam res- 
pectivamente (x, j/, z), (a^, y', z'); e formem estas coorde- 
'^^das com as rectas OD e OD^ respectivamente os ângulos 
(«. 6. cMa', 6', c'). 

Pede-so uma equação que dé uma funcção trigonométrica 
"^ angulo W, expressa nos seus lados de grandeza dada 
(^ , ^') , e nas coordenadas dos pontos (m, m'); ou somente 
'^os ângulos formados por estas coordenadas com os referi- 
^^s lados. 

Feia geometria elementar, e pela trigonometria plana, 
t^m-se 

mm' =A'+A!'—^AA'Co$, F=(^-.Tf +(2/»— #+(2'— z)*: 
íonde se lira 

(l) A A' Cw. fF=x3f +ytf + zz' . 

9 



130 REVISTA BRAZILEIRA. 

Dividindo ambos os membros desta equação por AA^ ® 
observando que, pelas condições do problema, tem-se 

X V z 

—. = Cos. a; '^=Co8. b ; — =Co8. c : 
A A A 

e semelhantemente 

—=Cos. a' ; ^= Cos. V ;—^= Cos. c': 
A' A' A' 

virá 

(2) Cos. W=Cos. a Cos. a^-^-Cos. b Cos. 6'+ Cos. c Cos. d. 

As equações (1) e (2) dão a solução completa do problema 
proposto. 

Se o ponto O vértice do angulo W fôr dado no espaço 
pelas suas coordenadas [f, g, h], referidas aos eixos [O^X', 
O^V^ 0'Z') respectivamente parallelos aos primeiros, refe- 
rindo a esses eiios as coordenadas dos pontos (m, m') ; a 
equação (1) tomará a seguinte forma mais geral : 

(3) AA' Cos.W=[x-f){:>J-f]Mv-<iW-g] 

+ (z_A)(z'_/.). 

Pelo que respeita á equação (2), conservará ella a mesma 
forma : ficando porém entendido, que os ângulos que entram 
na expressão do segundo membro referem-se ás projecções 
dos lados do angulo W sobre três rectas parallelas aos eixos 
do novo systema, passando pelo vértice O do mesmo angulo: 
e os cosenos daquelles ângulos ficarão expressos em funcção 
das novas coordenadas, da maneira seguinte : 

^ — f r. y — Q ^ . ^ — h 

^—-±=:Cos. a;—7-^ = Cos. b\ — t-==(/0«. c: 

A A A 

ítf — f t/ — Q .. z' — h 

— — i= Cos. o; ^— p= Cos. V ; — — =í;o«. a' 
A' A' A' 



iiEOMETRIA ANALYTICA. 131 

Nas applicações que passamos a fazer da equação do 
augulo W considerado no espaço , usaremos por mais sim- 
plicidade da equação (1], excepto nos poucos casos em que 
fôr indispensável o emprego da equação (3). 

II 
Fazendo íF = 0, na equação (1), virá 

Esta equação pode referir-sea duas hypotheses differentes, 
a saber: 1** suppondo que as duas rectas (A» A') crescera 
indeOnídaroente até comprebenderem no infinito o angulo 
W=Ot conservando-se constantes as coordenadas dos pontos 
(m, m') : S'* suppondo que aquellas mesmas rectas coin- 
cidem , e que por conseguinte os pontos (m, m') existem' 
sobre a mesma linha recta, sendo determinados pelas res- 
pectivas coordenadas. Em ambas estas hypotbeses os ângulos 
formados por A ® A'» respectivamente cora os três eixos 
coordenados, ou cora três rectas parallelas aos mesmos, 
serão iguaes: e a equação (2) tomará em ura c outro caso 
s seguinte forma : 

(5) 1 =Coi}a + Co$}h + Co$}c. 

Esta equação exprime pois a condição que caracterísa o 
parallelismo de duas linhas rectas dadas no espaço: o ao 
mesmo tempo uma notável propriedade inherente aos ân- 
gulos formados por uma linha recta no espaço com três 
outras parallelas aos eixos coordenados, ou com estes mes- 
mos eixos. 

A equação (4), na hypolhese de coincidirem as duas rectas 
(At AO de grandeza íinila, encerra ura bello iheorema de 
geometria, que pôde ser enunciado da raancira seguinte: 

O producto das diagonaes de dous paralklipipedos rectangu- 
Iara i iyual á somma do$ producto$ das suas arestas homologas : 



1;í2 revista UBAZILEÍHA. 

OU em outros termos: o reeíaiufuh eomprehendido pela dia- 
gonal de um paralkHpipedo rttlãfígular, e por um segmenta 
quahfuer da mesma diatjonaU é irjual d somma dos rectângulos 
formados pelas projecpes respectivas das ditas linhas sobre as 
ires arestas contigimí^. 

Fazendo agora W ^= ^-, nos equações (I) e (2) ; virá 

(6) 0=w' + yi/' + í5' 

(7) = Co$. a Cos. a' + Coí. b Cos. y + Cos. e Cos. e'. 

A equação [G) corresponde ao caso em que as íhias rectas 
^1 A') são perpendiculares entre si: e a equação (7) 
encerra a condição a que devem satisfazer os onguloâ con- 
cernentes a eâsas rectas, para que formem um angulo rectOi 
isto é» para que lenha sempre logar o re€Íproca perpendicu- 
laridade, qualquer que seja o posiçáo de ambas as rectas, 
em relação aos Ires eixos coordenados. 

Se suppozer-se invariável a posição de ^ no espaço ; isto 
é, se forem constantes os ângulos (a, b, c). podendo variar a 
grandeza de /\, e por conseguinte as coordenadas do ponio 
(m), a saber (x, y, z); a equação (tí) dá a solução do seguinte 
problema : Do ponto (0), tomado em uma recta dada de posiçw 
no espaço, levantar unta perpendicular á essa mesma recta, 

É evidente que sendo a perpendicular pedida repre- 
sentada pela recta ^', o problema flcará indeterminado, 
visto que esta perpendicular poderá tomar todas as posiçõeii 
possíveis ao redor da recta flia ^, satisfazendo sempre os 
ângulos que Ibe são eoncernenles [a\ y, ef]à equação de 
condição (7). Ficaria porém determinado o problema, se em 
logar de uma recta perpendiculor se tratasse de nm plano: 
porquanto a recta /\J, em qualquer posição que possa lomar 
relativomente aos eiros coordenados, existirá sempre ao 
plano que passar pelo ponto O perpendicularmente á recta 
fixa Z\. Nesta bypolhese, dividindo a equação (5| por A* ® 



GEOMETRIA ANALYTICA. 133 

fazeoilo ihi as convenientes substituições, ler-se-lia urna 
et|uiiçâo projuia para dar a posição de um plano que passa 
pela origem cias coordenadas; e ao niesmo tempo deter- 
CDÍnar nelle um ponto qualquer (m^), pelas suas coordenadas 
(y;y, s'); a saber: 

(8) O = a' Co$. a+j/ Cos. H--' Cos. e^ 

Da eqtiação (G)» cunsideracla em toda a sua getieralidadp, 
deduz-se aindo um resultado assas curioso» a saber: 1* que 
(>s produclos das projecções homologas das rectas (^, /\*) 
sobre oâ ivns eixos cooideoados dão uma somma, que é 
sempre igual a zero^ qualquer que seja a posição dessas 
rectas em reliiçTio aos eixos coordenados, e qualquer que 
^ji a grande2'.a de cada uma delias: 2"" que um desses três 
produclos será necessariamente aflecto de signal contrario 
aos dos outros dons; tsto é, que será eite pontivo quando 
forem c^\t6 iierjuHwn, e vice-versa ; o qual terá por esta 
mesma razáo a propriedade de ser o máximo dos ires, para 
qualquer poâiçao dada do angulo recto comprelieudído pelas 
referidas linliaíí. 

Faxendo na equação (4) Z^=^^'; virá 



I 



(9) 



A*=x'+y'+z' 



Esta equação representa na geometria elementar, como se 
sate, ã relação entre a diagonal de um parallelipipedo rec- 
lãfignlar e as suas três arestas contíguas; c pôde exprimir 
cm geral uma relaçáo análoga entre uma recta de grandeza 
fioita, que passa pela origem das coordenadas» e as suas pro- 
jecções orthogonaes sobre os Ires eixos. 

IVtíslecaso enuneia-se essa mesma propriedade em lermos 
mais geraes, a saber: que o quadrado de um serfmmlQ de 
gnndcza qualquer, tomado em uma recta dada de posição no 
eipaço^ i igual á somma dos quadrados dm suas projecçoe$ orlko- 
ffonaes tohre os três eixos coordenados. 



134 REVISTA BRAZILEIRA. 

Dividindo ambos os membros da equação (9) j)or ^, e 
fazendo ahi as devidas subslituiçóes , virá 

(10) A = a? Cos. a + y Cos. b -{-z Cos. c. 

Esta equação refere-se á linha recta considerada no espaço, 
e faz ella conhecer a posição da recta pelos ângulos cons- 
tantes (a, 6 , c) , determinando a posição de um ponto qual- 
quer (m), tomado na recta, pelas suas coordenadas (rr, y, z); 
e por conseguinte a grandeza de At que representa a 
distancia desse ponto á origem das coordenadas (O). Deve 
porém esta equação estar sujeita â condição de ter-se sempre 

^ ^ y ^ 1 ^ ^ 

-— = Cos. a; -— = Cos. b, -— == Cos. c. 

A A A 

A equação (10) exprime por outra parle uma propriedade 
notável, inherente ao principio das projecções: porquanto 
sendo os três termos, que compõem o segundo membra 
dessa equação, equivalentes ás projecções das coordenadas 
[x, y, z], sobre a recta A> da qual são essas mesmas coor- 
denadas as projecções orthogonaes sobre os três eixos, pôde 
d'ahi deduzir-se o seguinte theorema: 

As projecções de um segmento qtialquer tomado em uma linha 
recta dada deposição iw espaço y sendo projectadas novamente 
sobre a mesma recta, determinam ahi projecções cuja somma é 
igual ao referido segmento. Ou em termos mais abreviados : 
è o segmento projectado igual á somma das suas três projecções 
inversas. Chamando directas as primeiras projecções do seg- 
mento sobre os três eixos, e inversas as que tem logar sobre 
a recta, em que existe o segmento. 

As equações (9) e (10), comparadas entre si, fazem co- 
nhecer ainda o resultado seguinte, a saber: que a somma 
das projecções inversas representa a raiz quadrada da somma 
dos (piadrados das projecções directas. 

Querendo que a equação (10) encerre explicitameqte^a 
condição de passar a recta, a que ella^se refere , ^poram 



GEOM£THIA AI^ALYTICA. 135 

poDto dado no espaço, pelas suas coordenadas em relação 
a três eixos parallelos aos primitivos; considerando o ponto 
O commum á origem destes eixos e á linha recta, como o 
ponto dado no espaço, a equação (10) tomará a forma geral 
indicada pela equação (3); a saber: 

(10 bis) A={^—f] Cos. a+(y—g) Cos. b+{z—h) Cos. c. 

Reportando-nos á equação (10), supponha-se que a recta 
^ é projectada sobre o plano coordenado dos (x, z), por 
meio da perpendicular abaixada da sua extremidade (m) 
sobre este plano : e represente-se por /\i a grandeza dessa 
projecção, a qual forme com o eixo dos (z) um angulo desig- 
nado por [ci], sendo por conseguinte í^ — Ci ] o angulo for- 
mado cora o eixo dos (x). 

Fazendo agora variar a posição da recta /\ aló confun- 

dir-se com a sua projecção /\i ; isto é, fazendo 6 = ^, e por 

conseguinte y=0; conserva ndo-se invariáveis (x, z): os 
ângulos (c, a) coincidirão respectivamente com os ângulos 

(Cf), e (^ — cA. Ter-se-ha portanto para equação da recta 

/\i no plano dos (x, z) 

(n) ^^=xCos. (^ — Ci]-\-zCos. Ci=xSen. Ci-^-zCos.Ci. 

Praticando o mesmq relativamente ao plano dos (y, z) ; 
designando por ^j a projecção da recta /\ sobre esse plano; 
e por [Ci) o angulo por ella formado com o eixo dos (z); 
ter-se-ha semelhantemente a equação da recta /^^ no plano 
dos (y, z) ; a saber : 

(**') Aa = y Sen. C2'\-z Cos. c^. 

As equações (n) e (n'), que determinam em posição e 



136 REVISTA BRAZILEIRA. 

grandeza as projecções (^i, ^J da recta (^) considerada 
no espaço, podem substituir a equação (10); por isso que, 
conhecidas a posição e a grandeza das projecções ^i, ^, 
sobre os planos dos (x, z) e dos (j, ^), uma simples cons- 
trucção geométrica dará a posição e grandeza da recta ^ 
no espaço ; ou porque, dadas as equações (n) e [n/], é sempre 
possivel deduzir delias analylicamenle a equação (10): como se 
yai mostrar. 

CoNSTRUCçÃo geomStrica. Por cada uma das projecções 
(Ai> A:] faça-se passar um plano perpendicular ao respectivo 
plano dos [x, z), e dos (y, z): a intersecção desses dous 
planos determinará evidentemente a posição de ^ no 
espaço ; e o ponto em que essa linha fòr cortada pela per- 
pendicular levantada na extremidade de ^i , ou de ^,, no 
respectivo plano normal^ determinará a grandeza daquella 
recta. 

Deducção analytica. As equações (n) e (n') podem ser 
transformadas em outras equivalentes, e de roais simples 
expressão, eliminando delias /\x e As » ^^ seguinte ma- 
neira : 

Faça-se A =tg. c^; eB=^tg. c,. Sendo (x, z) projecções 
de Al respectivamente sobre os eixos dos (x), e dos [z) ; e 
(y, z] as projecções de /^^ sobre os eixos dos (jf), e dos [z]: 
ter-se-ha 

z= ^i Cos. Ci; z= ^i Cot. Cf. 

Substituindo nas equações (n) e (n') os valores de Ai ® de 
/\i, tirados destas duas equações ; virá 

(11) x=^Az;y=Bz, 

Estas equações podem ser deduzidas directamente pela 
trigonometria: e são ellas usadas de preferencia nos tratados 
clássicos da analyse applicada. Uma vez conhecidas as 
tangentes A e B, ficarão por ellas determinadas não só a 
posição de cada uma das projecções (Aif As)» ^^^ taHibeai a 



GfiOllETRIA analítica. 137 

projecção, ou o ponto projeclado sobre essas rectas, sendo 
dada ama qualquer das três coordenadas. Resta agora so- 
mente exprimir os cosenos dos ângulos (a, b, c], que entram na 
equação (10), em funcção de ^ e de B. 

Na deducção da pquação (10) tiveram logar as equações 
seguintes : 

a:= ^ Cos. o ; y «= A Cos. b; z= /^ Cos. e. 

Eliminando entre estas equações, e as duas precedentes» 

as relações - e - ; virá 

Cos. a Cos. b 

'^ Cos. c' Cos. c' 

ou 

Cos. a = A Cos. c; 
Cos. b^=B Cos. c. 

Substituindo os valores de Cos. a, e Cos. b, na equação de 
condição (5) l = Cos^ a'{'Cos.^ b-^-Cos.* c; virá 

i=[A'+B'+l)Cos.'c. 

Ter-se-ha portanto 

1 



Cos.^c^ 

(12) lcos.H = 

Cos.^ a = 



4»+B*+l 

B^ 
A'+B'+i 

A'^B'^l 



Determinados assim os ângulos [a, b, c], a equação (10) 
não poderá representar outra linha recta senão aquella» 
cujas projecções sobre os planos dos [x, z) e dos (y, z) são 
dadas pelas equações (11). 

As equações (11) podem ser traasfonnadas em outras duas 



138 R|V1STA BRAZILEIRA. 

equivalentes, expressas nas tangentes dos ângulos formados 
pelas projecções (^i, /\,) respectivamente com os eixos dos 
Ix) e dos [y]: porquanto designando por A-, e B', essas novas 
tangentes, tem-se pela trigonometria 

AAf=\;BBt=>l 

As equações (II) tomarão por conseguinte a forma sim- 
plesmente invertida, a saber: 

(11 bis) z = Afx;z = Biy. 

As equações (12), pondo nellas l j^,-^)emlogarde(ií,B), 

afim de corresponderem ás novas equações precedentes, 
ficarão transformadas nas seguintes: 

Cos. c = 



^''B'*+^"+F* 



(12 bis) lcos.'b=: ^" 



iCos.^a^ 






Estas expressões dos três cosenos são, como se vé, menos 
simples do que as suas equivalentes do nM2 : e d*ahi vem 
a preferencia que se dá ás equações (11) nas applicações 
analyticas. 

Estando os ângulos (a, 6, c) subordinados á equação de 
condição (5), é evidente que bastará sempre conhecer dous 
quaesquer desses ângulos, para que a recta /\ fique deter- 
minada de posição. 

Pondo na equação (1), depois de elevar ambos os seus 
membros ao quadrado, (1 — Sen.^W) em logar de [Cos^ W); 
virá 

(13) ^^^^ Sm} ^— A' A" — (^«^+y»'+^^'r- 



liEOMKTEU AXALYTICA. 139 

DÍTÍJintlo ambos os membros; desta "«"«'"'^ '^^^ ^^ 
bsendo as devidas substituições; virá 



equação por ^^ e 



(141 A*" Sen,' ;r=AM^ Coi. a+y^ Cot. h^z^Co$. cf , 

BeprcâLtUandu por [p] a grande/a da perpendlculap abai- 
'Hida da exlreiuiílade da recta /\^ sobre a direcção de £s^^ 
ler*«e-ha evidcnlemenle 

^15) p=Aí5m. ÍK 

StibÃlituíndo pois o primeiro membro da equação [14) 
por //', pondo em logar de /s^^ (no segundo membro) a ex- 
pressiio equivalente [^'^ -f «/''-r^^'] [Cm.^a^CQ$,'^h-\^CQZ? c); 
e executando as operações indicadas; virá 

|16) p'= (^ Co&^ h — ij Cos. af + [sâ Cos. c— i' Cm. af 

Esta equação resolve o seguinte problema: 
Dado um pmi(o no espaço, pelm mas coordenadas [x' y, z') 
êtkãr a expresmo da ptrpendmdar tirada desse ponio sobre 
uma Tida, qm passa por um ponto determinado [O], e cuja 
dirtfçàú i dada pelos angulas (a, b» e] que cila forma com os três 
címs coordenados. 

Se o punio O, por onde possa a recta dada de posição, fòr 
tleteraiínado pelas i§uas coordenadas \J, q^ h], em relação 
ao sjHienia de eÍ3Eos(0'A', O^V^ 0'^') parallelos aos primi- 
livos; c beni assim as coordenadas [x', ^\ 5') da extremidade 
cU perpendicular [p\\ a equação (16) terá uma expressão mais 
gieral, pHudo Ix^ — f], [/ — ;/), {s'— A)* em logar de (2:'» y 
i saber ; 



í ^n 



(17) p^[ty— /) (Toi. h—[y^—ii]Cos. o]'+f(^— f 1 Cos. c 
—{-'-Al Cos, íi]M- W—g] Cos. e— (-'— A) Cos. b]\ 

Se i(tiÍ3cer*$c tran^ferír a urigom dos eixos coordenados 



140 REVISTA BRAZILEIRA. 

para o ponto dado no espaço, pelas coordenadas (o^» j^, í'); 
ouy o que é a mesma cousa, para o ponto donde é tirada a 
perpendicular (p) ; bastará fazer af — /*=»Xi; y' — flf = ffi í 
z^ — h=Zi : e fazendo estas substituições na equação prece- 
dente, virá 

(17 bis) p^=r{xyCo8. b — J/l Cos. a)'-|-{*i ^^*- ^ — ^t í^^*- ^) 
+(yi Cos. c — Zi Cos. 6)*. 

Esta equação especial tem applicações importantes na 
mecânica racional: e deve ficar entendido que as novas 
coordenadas [xu Ju ^i) referem-se a qualquer ponto do 
espaço, por onde passa a recta dada de posição. 

III 

Dada a equação (1) do angulo plano considerado no espaço,- 
havemos delta deduzido as propriedades geraes da linha 
recta, considerada também no espaço: no presente artigo 
trataremos especialmente das particularidades inherentes 
á linha recta, considerada em um plano, como um caso 
particular da linha recta considerada no espaço. 

Projectando a recta ^ sobre o plano dos [x^ z] havemos 
nós achado, no art. II, para essa projecção a equação 

(r) Al = í«? 5en. Cx'{-z Cos. c^ 

Devendo nesta equação considerar-se [x] e [z] como as 
projecções de ^i sobre os eixos dos [x] e dos (z); e repre- 
sentando (ci) o angulo formado por Ai e o eixo dos [z); 
divididos ambos os membros da equação por Ar> ^ substi- 

tuindo ahi — - por Sen. Cx ; e -7- por Cos. Ci; virá 
Al Al 

{r') 1— SenVci+<7o«.'fi 

Multiplicando ambos os membros da mesma equação por 
Al ; e Âizeado ahi as detidas substítoições ; virá 



r.eOMETIUA ANA LVTICA . 



141 



(•^1 



.^+: 



As 



f^. 



»J'l 



equações fr, r'j exprimem propneJades anulogas ás 
que adiámos (õ) e (9) para a linha recla considerada no 
espaço: das quaes se deduz que a posição e grandes^.a de 
uma linha recla , em relação a dous eixos orthogonaes que 
eiistam no mesmo plano, e por cujo origem passe a mesma 
linha recta, Dearâo delerminadiis pela equação (r); sendo 
dados um dos dous ângulos que ella forma com os referidos 
eixos, e a grandeza das duas coordenadas^ referidas a qual- 
quer dos seus ponlos. 

Designando por [A] a tangente de {ct}, e eliminando ^^ 
di equação (r), por nieio da equ«çâo 2^=^i Coh, c, havemos 
transformado, na mencionado art*. aquella equação na 
seguiole; 

(i) x=^Àz* 

È evidente que esta equação, mais simples du que a 
equação (r), resolve os mesmos proldemas, relalivamente á 
linha recta que ella representa, ílcando sempre suhen- 
tendida a propriedade expressa na equação (r^'), 

Projeclaudo lambem a recta /\^ sobre o plano dos (x, r], 
e designando por ^t' essa projecçâa, assim como por.í a 
tangente do angulo que ella forma com o eixo dos [z]: ter- 
se-ba semelhantemente 



w 



A,z' 



Se suppozer-se que o ponto O, origem das coordenadas ^ 
se afasta indeflnidaraenle dos pontos representados pelas 
cc»ordenadas [x, i], (x^ z^j, o angulo comprehendido pelas 
T^las ^1 e ^'i decrescerá também indeGnidamente ; e 
quando este se tornar màlo, as duas rectas ficarão rigoro- 
emente parallelas, sendo prolongadas ao inGni to: e sendo 
cortadaíí por uma recta qualquer parallela au eixo dos (::}, 
hrm ellas com a recta secante os ângulos correspondentes 



142 REVISTA BRAZILBIRA. 

iguaes. Ter-se-ba portanto para exprimir a condição do paral- 
lelismo de duas rectas, que formem com o eixo dos (z) 
ângulos dados pelas tangentes [A, A^), a seguinte equação: 

(u) A=A, 

Supponha-se agora que a recta /^Z , movendo-se no 
mesmo plano, toma uma posição perpendicular à recta ^t. 

A equação (7), que exprime a condição da perpendicula- 
ridade entre duas rectas consideradas no espaço, tomará 
nesta hypothese a seguinte forma : attendendo que deve 

71 

pôr-se nella ^ em logar dos ângulos representados por (6, b^); 

(cu cfi) em logar de (c, d)\ (^ — cA e í^"" ^') ^™ *^g*"^ ^® 
(a) e de a') ; a saber 

O = Sen. Cl Sen. Ci' + (7oí. Ci Cos. c.J 

Dividindo ambos os membros da precedente equação por 

[Co$. Cl Co$. Cl'); pondo A em logar de - — —; e iíi em logar 

j Sen. Cl* . , 

deT; í; vira 

Cos. Cl 

[v] 0=1+^ii 

Desta equação de condição se tira 

Esle resultado mostra que a recta /^',, na hypothese 
de ser perpendicular a ^i, deverá formar com o eixo dos 
[z] um angulo negativo, e ao mesmo tempo complementar 
do angulo formado por /^^^, se fôr este angulo agudo : no 
caso porém de ser obtuso, será aquelle primeiro angulo 
positivo, e complementar do supplemento do se^pindo» 
dentro dos limites de (tt). 



fiSOMETEU ANALlTtCA. 113 

Se na equação {$], [t], («), [v] se substituírem A e Ai por 

-r, V —r respectivamente, ter-se-Iia uqi novo systema tle 
A^ A\ * ^ 

equações análogos ás precedentes, nas quaes a posição das 

rectas 2Í\,, e /\/i é reportada ao eixo dos [a?], pelos ângulos 

que forniam com este eixo, cujos to agentes são designados 

respectivamente por A* e A\^ a saber; 



D^aqni se conclue era geral que, sendo dadas duas linha» 
rectas sobre um plano, representadas pelas suas equações, 
referidas a qualquer dos dous eixos coordenados, deverão 
estas satisfaster: 1" á condição do parallelisrao das duas 
rectas, quando as tangentes que entram nessas equações, 
sob a forma de coe0icientes constantes, íoi em iguaes : ^"^ à 
condição da perpendiculariílade de uma sobre a outra, 
quando as referidas tangentes forem reciprocas e de shjnal 
cúnírario. 

Se de nm ponto qualquer dâ recta ^^ suppozer-se tira- 
da uma recta parallela a perpendicular ^j' ; é evidente 
que será essa recta lambem perpendicular á recta ^i : 
devendo por conseguinte ser applicaveis á essa recta as 
mesmas condições de perpendicularidade acima acbadas, 
reialivamenlea ^/, que se considerou partir do ponto com- 
toum á origem dos eixos coordenados. Porquanto o supposto 
parallelismo entre a referida recta c /\\ exige que sejam 
as mesmas, em grandes&a e signal, as tangentes que entram 



IH REVISTA BRAZILEIRA. 

nas equações que as representam, quer seja em relação ao 
eixo dos (2), ou ao eixo dos (jr). 

Reportando pois a equação [s] aos eixos coordenados (0'J', 
OT', (yZ') f parallelos aos primitivos; e designando por 
(P 9' h^) AS coordenadas de um ponto do espaço, differente 
do ponto O, pelo qual passa a recta parallela a ^\; epor 
(x"i/"z") as coordenadas de um de seus pontos , referidas a 
aquelles mesmos eixos ; viráõ expressas em toda a genera- 
lidade as equações relativas a duas linhas rectas perpendi- 
culares entre si ; a saber : 

X — f =^ (^ — h) 
1 



X 



Pondo -jj em logar de A, em ambas estas equações ; virá 

z _/i=4'(x— /") 

As primeiras duas das precedentes equações referera-se 
a duas linhas rectas perpendiculares cnlre si, formando 
com o eixo dus \£\ os ângulos, cujas tangentes são respecti- 
vamente (.4), e í — J: sendo [A}\, e í — .Jas tangentes 

dos ângulos que essas mesmas rectas formam com o eixo 
dos (â;], nas duas outras equações. 

Por meio de cada uma das precedentes equações poderá 
determinar-se um ponto qualquer da linha recta, a que ella 
se refere, uma vez que seja conhecida, para cada caso, uma 
das duas coordenadas, que ahi se consideram simultanea- 
mente variáveis; as quaes tem, nos tratados clássicos, as 
denominações especiaes de ahtma, e de wAefMA^f segundo 
fòr ella adjacente, ou opposta ao angulo formado pela recta 
com o eiio doa (i]i ou com o eixo dos (x). 



(^EOHBTRTA AN.ILITICA, 115 

Se porém se quizer determinar a posição do ponto de 
jntro das duas rectas, eni relação aos eixos coordenados^ 
'fèdnz-se o probleiriQ a considerar iguoes as coordenadas 
liomologas, em qualquer dos grupos de duas equações ; por^ 
quaBti) ê evidente que essa igualdade deverá ter logar 
unioiaiente no ponto comnium ás duas rectas. Ter-se-ha 
pois ar ^^'\ e z^=i": resultando jiara cada um dos doua 
grupos, duas equações a duas incógnitas, que resolvidas 
fanio conhecer as ceordenadu^ pedidas. 

Tomando a primeira e a terceira das precí^denles equações, 
e pondo ira primeira [ff] cm logar de {[ — Ah); e na segunda 
(^jeni logar de [h — ^Y)» ^^^^ ^^ ^^^^ equaçòes seguintes : 

_ k )'^ = ^^+9 



Amiias eslaíi equações são adoptadas de preferencia nos 
tratados clássicos, em razão da sua maior simplicidade ; mas 
qualquer deltas satisfaz ás mesmas condições a que estão 
stijeita'^ ns pquações de que procederam : isto é, cada uma 
deliam deve fazer conhecer o ponto dado no plano» pelo qual 
pasiu a linha reata, a que se refere. 

Com eíTeito, fazendo na primeira equação ^^0, lem-se 
jc=^: quer este resultado dizer, que a recta passa por am 
ponto do eixo dos (jc), na distancia (q) da origem das coor- 
denadas. 

Fazendo semelliantemenlQ na segunda equação x^=0, 

lem-se -^q^: quer dizer esle resultado que a mesma recta 

encontra o eixo dos (z), na distancia [q^) da origem das coor- 

denndas. É evidente que, devendo ambos estes resultados 

ler logar ao mesmo tenapo» precisa ó que sendo (q) positivo^ 

se tenha (9') negativo, e vice-versa: chamando sentido 

pwtitx» aquelle que tende a augmentar as duas coorde* 

nadas, nos respectivos eiíos ; e negativo o que produz o 

eíTeilo contrario, 

ia 




149 fieriSTá íràziuiía. 

S6t nas ãnm precedentes equtçõe» , se aliminir (i) ãn 
pi-imeira, e {^) ãà segunda : isto é> resolveado-as pelas i^grtã 
da álgebra ; virá 



ap-=; 



too 



Esles resultados sâo evidentemente inadiiussiveis * visto 
que assignando-sc á variável (j?) um valor íittito e arbitrário, 
deduz-se pelo calculo de qualquer das duas equações [k] um 
valor finilo para [z]. 

Restabeleçam -se porém os valores primitivos de (q) ede 
(9'j nas expressões precedenlçs de {x) ede {z); e virá 



gf^ 



Aqf-^q __ A [h — A*f)-\-f—Ah 



O 



O 



Afq-\-q^ á'tl— iíi)+A— AY 



O 



O 



Estes novos resultados mostram 'qiie os valores do (x) e 
de (z) ficam indeterminados, concorrendo as duas equações 
(fc), assim GO mo já o eram em cada uma das equações isola* 
damente : donde se conclue que as doas equações {k) nâo 
são distinctas; isto é> não eiprimem condições dílTerentes» 
a í[ue devam satisfazer as d uns variáveis [x] e [z): e que por 
conseguinte dada uma, se poderá sempre deduzir delia a 
outra, multiplica ndo^a, ou dtvidindo-a por uma mesma 
quantidade ; como se vai ver. 

Tomem-se as equações (s, :^] que correspondem As eqm 
ções [k]; suppondo que a linha recta, para mais simfdíciflaftâ 
passa pela origem das coordenadas ; a saber : 



Tem-se AÀ^=Íi nitiliiplicanda pois a segondff destti 
equações por  ; vifá 

Az = AA^gí=:x 

O ponio da omdyse que vimos de discutir não encerrt 
por certo doutrina algum a nova ; por isso que os resultados 
a qti6 chegámos, tratando as equações (^-li como se fossem 
disti nelas, bem puderam ter sido previstos, uma vez conhe^ 
rnÚB ê equação de condição entre m duas tangontes (A, A*]i 

lavta julgamos conveniente erilrar nesse desenvolvimento, 
aQiu de furtitiear o espirito dos principiantes» na perfeita 
ir>^ " ocia dis duas equações reciprocas {$, s'), principal- 
.^ .{uaudo ellas se upreseolam sob a forma [k]: visto que 
ambas essas equíiçoes sao usadas frequentemente nas ques- 
tões trãnscendenies da geometria analylica. 

Se na equação (17) art. II, se fizer ^^=0, ^'=0^ e fc = ^: 

ibsliluiudo mais (p) por p^; e os aogulos (a', c] por (ot, Cj); 
virá 

p^=l^~f] Cm. c,-(^f — h) Cos. a,Y 

É claro que as elementos que entrara nesta equação devem 

'Considerados no plano dos{j, x) ; e resolve ella o seguinte 
problema : 

Achar a expressão da perpendieular (p»), tirada de tim 
poolo dado, no plano dõn{x, z], pelas suas coordenodas (^^ z'), 
lobre uma recta, dada de posiçãtf no mesmo plano, pelas 
coordenadas [fi h) referielas á tim ponto determinado delia» 
e pelos ângulos (at, Ci) formados respectivamente com os 
eisos dos (*r) e dos [z]. 

Fazendo as mesmas substituições na equação [17 his)p virá 



(p) 



pi^ = [:f| Cos. €^ — Zi Coi, ai]* 



Ei^ eqotçjio resolve o mesmo problema antecedente, oom 
^uuica dillerença dõser, uesie m^o^ a porpendteuiar fp^) 




118 BfiVISTA BBAULEtBA, 

tirada da origem daâ coordenadas ; sendo as coordenadas 
variáveis (^F)^ ^i) referidas a qualquer ponto da recta dada de 
posição. 

Cumpre dar aqui a interpretação geométrica desta equaçSôi 
não obstante ser claramente eomprehensivel, sob este pooto 
de vista, a precedente e mais geral donde fora ella deduzida: 
o que passamos a fazer por meio da construção especial 
represeolada na fig. 2* 

Sejam [O^m^ On) segmentos dos dous eixos coordenados 
[QX^, &Z^]i (m, n] os pontos em que a recta dada de posição 
corta 05 referidos eixos , formando com estes respectiva- 
mente os ângulos (a^ Cf): (0'j) a perpendicular tirada da 
origem das coordenadas sobre a recta [mn]: (o'r, n) as coor- 
denadas [xi. Si) referidas ao ponto (í) da mesma recta : (i') 
um ponto qualquer da recta (mn), representada na equação m 
(p) pelas coordenadas variáveis [x^, Zi): [$) o angulo formado " 
pela perpendicular [0\%) com o eixo dos [x). 

Ter-se*ha, nos Iriangulos (m O^n], e[m O^s) 



+ B 



Destas equações se tira 

Coã. €i = Co$. 6 
Cq$. Oi = — Sen. B 

Substituindo estes valores na equa^o [^i]; viri 

(fi*) pv=^^ Cos, 9+ít Sen. B 

Para que a posição da recta [mn] tique determinada, ena 
relação á origem das coordenadas, bastará que seja dado o 
valor de (i£|), ou de [s^), referido ao ponto em que a recta 
{mn) corU o eiio dos (x)» ou o eiio dos (r). 




GEOMETRIA àNALYTICA. 149 

Seja pois dada Xi = 0*m : ter-se-ha ii =2 O : e por conse- 
giiinle : 

Resta agora mostrar que qualquer outro ponto da recta 
(liinjt assim detarmíuadíi de posição, satisfaz a equação {^^). 

Se tomar-se o ponto [s], referíudo a elle as coordenadas 
{^„ 5,), pondo» na equação (pi'), (fyr] era logar de (Xj) e (0'í) 
em logar de (?t); viré 

p^:={0^r) Cot. + (Oji) Sm. $ = 0'í 

Se porém as coordenadas [Xf, z^) se referirem a um ponto 
qualquer (a^)^ fazendo (f^w) — (OV) ="í; ter-se-ha 



ri=(iV)— /. foíj. ê = l 



Cos* $ 



Setu e ' 



donde se tira 



Sm. B 



Coi. $ 

Mas achou-se acima 

0'f = {(ym) Cos. e = {<yr'+l) Cos. $ — (í^r') Cõh. $-{-1 Coi. 9 

Subitiluindo na ultima eipressão (jc») em logar de (0'f'), 
e o valor de (/) , virá finalmente 

Esie ultimo resultado íftz conhecer ao mesmo tempo uma 
particularidade notável do triangulo (mO^n), a saber : se dous 
ou maii pontos da hypothenusa [mn) forem determinados 
por coordenadas referidas aos eixos [O^m], [O^n], cuja origem 
é o Terlice da angulo recto ; e se deste [lonto se tirar uma 
perpendicular a [0's) sobre a mesma hypolbenusa; terá 
sempre togar a seguinte propriedade» 

M A som ma dos productos de cada uma das duas coorde- 
nadaií, referidas a um ponto qualquer da h^pethenusa^ pelo 



150 nS VISTA ^BAZILRIRA* 

iSQíem e pelo seno^ ordeoadanventa do angulo opposto ao eixo 
das abscíssas; ou pelo imo e pelo mseno do angulo opposto 
ao eixo das ordenadas ; entrando tio primeiro producto a 
ahci$sa, e no segundo a ordenada; dará orna quantidade 
wmtante, e igual em grandeza â perpeMkular tirada do 
verlice do angulo recto sobre a bypothenuss- i) 

IV 



Se na equação (1) se suppuzer invariável, em posiçlô 
grandeza, a recta ^ ; e por conseguinte invariáveis também 
^s poordeoadas [^« y» ^] do ponto (m): fazendo ao mearao 
tempo 



00 - 



a recta ^^ gyrando ao redor de ^, fará descrever ao ponto 
(m^l da sua ei trem ide de, para um valor qualquer dado ao 
angulo W, a circumferencia de um circulo no espaço, cujo 
raio terá a seguinte expressão 

mm* ^^' Sen. W 
À equação (1] tomará nesta hypothese a seguinte forma: 

(18) A'=^^+iíy+-^' 

Se nesta equação se assignarera valores arbitrários ás 
coordenadas variáveis (;r', j/), schar-se-ha para [z*] um valor, 
que determinará & posição dp ponto (m^), existente na cir- 
cumferencia do circulo descripto por ura dado raio fnm\ 
morendo-se perpendicularmente ao redor da recta ^, 

Se pois se fizer variar o angulo IFde zero até g , o raio (mm') 

crescerá desde zero até o iníinito : e qualquer ponto repre- 
sentado na equação (18) pelas coordenadas (ãp\ j\ ir') deverá 
eicislir necessariamente no plano descripto pein raio (mmf), 
cuja grandeza é indefinida : ou por outros lermos, esse ponto 
existirá sempre no plano perpendicular á recta ^, passando 
pela sua extremidade [m]. 



rfEOffemu ANALtncA, 



151 



õiridiQdo amhos os membros da preocdentr! eqHaçfto por 
^t n CiíeiKlu iiellfl as devidas Siibittluiçoes; virá 

{19J ^ =,J Co$. a-\-y^ Coi. b-\-z^ Cos. e. 

0^ anguios (a, 6, e], considerados cerrto constantes nesta 
ec|ttaçà0t servem para determinar â posição da recta A^^ em 
relação aos ires eiios coordenados : e dada por ôtitt*a parte 
i grandezj ôt /\, o plano perpendicuíar a esta recta, pas* 
^«Tido pela soa estrem idade, ficará determinado de posição, 
ifin relação aos Ires planos coordenados; e comprehenderá 
na sua ettensão itideflnida qualqner dos pontos reprejieh- 
lados pélas coordenadas variáveis (ít'*^', s'). É freste Rentido 
qy* sé dií que a «qnaçíio (19) represenln um plano nô 
espaço* 

Obiervandô que as coordenadas (.r', ff,^) represeolam, 
na precedente equação» as projecções da recta ^' sobre oi 
Ires eiios coordenadoi ; e que, por outra parte, as e^E pressões 
(íTof* a], (y Co$. b], [5' Cos. c) exprimem as projecções de 
(^, y, z^ respectivamente sobre a recta ^; e sendo ao 
mesmo tempo /\ projecção de ^' ; pôde Iraduilr-se a 
equação (19) em um bello e importante theorema de getí- 
me Iria, cujo enunciado é o seguinte : 

Dadm díiú$ rectas, sendo utna deltas de. granfkzft finita, qtm 
pú$$em péã oriffúm de fres cmji oríhofjonms, as ires prújemjcs 
da tinha recta finifa sobrc^ edes dros, sendo projedadãs mm" 
fnente sobre a outra recta determinam aki outrai três projecções, 
mjã somma i equivalente d projecção directa da prinieira sobfõ 
a se^nda. 

Sc i recta ^ fAr dada em direcção e grandeta pelas suas 
projecrôes sobre dons dos três planos coordenados , os 
ungulM [dt 6t ^) ^^rSo determinados petas forniulas (IS) 
irl. U» sendo eipressos nas doas tangentes [A, B], que 
aquelias projecções formHm respectivamente eom o eixo do9 
(r): ^ determinada aasiin a posição e grandeea de ^, o 
plano que passar pela extren^idade (m] desta recta • a por 



fS2 BE VIST A BRAZILEIRA, 

quaesquer doiiis pontos determinados no espaço, por meio da 
equação (19) satisfará em lodos os casos passíveis a esíè mes- 
ma equação; istoé, serú perpendicular á recla /\ no ponto (tn). 

A posição deste plano no espaço pôde ser ainda determi- 
nada por meio dos traços ^ que representam duas quaesquer 
das suas intersecções com os Ires planos coordenados : como 
se vai mostrar. 

Considerando os traços formados pelas intersecções do 
plano, de que se trala> com os planos coordenados dos (i, z) 
e dos [y, z], representam (1, m] as tangentes dos ângulos 
externos que formam respectivamente com os eixos dos(x) 
e dns [y] os dous traços, que !em um ponto commum cotii 
o eixo dos {%]; e designe-se [mr [n] a distancia deste ponto á 
origem das coordenadas, 

E' evidente que os três elementos (í, m, n) determinam a 
posição do plano no espaço; e só resta investigara forma 
da equação» que sendo expressa nestes elementos haja de 
servir para determinar um ponto qualquer desse plano^ 
representado pelas suas coordenadas (je', J^'p «'). Chegar-se-ba 
a esse fim transformando a equação (19) em outra, na qual 
appareçam os novos elementos constantes, em subslituição 
daquelles que entram naquella equação; procedendo do 
modo seguinte: 

Projectando a recta ^ [ considerada como normal ao 
plano em questão] sobre os planos coordenados dos (o?, 2] 
ê dos (y, z]; e prolongando as duas projecções, até encon- 
trarem os dous traços nos referidos planos, produzidos pelas 
intersecções com o plano secante; é evidente que» sendo 
cada um dos planos coordenados, juntamente com o plano 
secante, perpendiculares ao plano da projecção de /\, laolo 
sobre o plano dos (;r» s}, como sobre o plano dos [y, z], aquellas 
projecções prolongadas deveráò formar ângulos rectos com 
os dous traços do plano secante* 

Conservando pois a notação qoe empregémos no art^ II^ 
ter-se-ba 



CBOMETAIA ANALYTICA. 



153 



(20) 



Cm, a 
Cm. e 



A 



Cm. h 



Co$, 



i Be= — m;^^= n Coi. c 



Nt eonilrijceão que havenios Ggurado, pata a bypolhesa 
de que se trata^ os ângulos a que se referem as tangentes 
desígnadíiâ por (À, B) sáo respeclivamente iguaes aos sup- 
ptemeoCos dos angutos representados pelns taugenles [/, m). 

Eliminando agora [Cos. a, Cos. 6» /S]^^ equação [19}, por 
meto das equagòes (20); ter-se^ha 

(2!) z*={^^mf-\-n 

E esta poria n to a equação pedida do plano, sendo este 
dado de posição por dous dos seus traços com os planos 
coordenados: e as ires equações do n*" 19 servem para fazer 
ã transformação da equação (Í9) nesta, e vice- versa. 

Sena» formulas (12) do art. 11, acima citado, se subsiU 
tuirem os valores de [A^ B) dados pelas equações [âOj ; virá 



Çoí. C£=— -r 



l^(PH-f7l^+i) 



{22) 



Cos. b=' 



-m 



Cos. a=— -3^ 



—l 



Estas equações servirão para determinar a posição da 
fiormal ao plano dado pela equBção (21): ou passe essa 
uormal pela origetii das coordenadas [sendo neste caso a sua 
gmodeia ^determinada pela terceira das equações (20)]: 
00 passe ella por tim ponto qualquer dado no espaço^ ou 
mesmo no plano, 

A equfiçâo (19) é independente da grandeza da normal /\, 
00 mais precisamente da distancia do plano á origem das 
coordenadas: de modo que> suppondo-se que o plano, que 



151 



REVISTA ERAZILMIIA. 



ella representa , se tuove parallelamente á sua primeira 
postçao« conservando o ponto (m^) a sua posição reUliva, á 
reíípeilo dos três eixos, alé locar a origem de ^; isloé, até 
que tenha um ponto commum com a origem dos eiios coor- 
denados; coincidirá esse plano coma perpendicular á recta 
/^ nusse ponto: e neste caso já se nu^ no arl. II , que ©m 
qualquer posição que se considere essa perpendicular, mo- 
vendõ-seao redor da recta fixa ^ , é ella sempre dada por 
um ponto [m^] commum ao plano, e determinado peta 
equação 

(19 bis) O =.x' Cos, a+jf Co$. è+2^' Coi. c. 

É pois esta equação referida ao planoque passa pela origem 
das coordenadas: a qual nada mais é do que a equnçSo 
(18 bis), fa?.endo nesta ^^0; isto é, a distancia do plano 
á origem dos eixos , represe alada por ^^ e contada na 
normal ao plnno, que passa par aquelle ponto. 

Se considerarmos o movimento do plano, sob as mesmas 
condições precedentes, era relação aoi elementos constantes» 
que entram na equação (20); é evidente que á medida que 
o plano se approximar da origem das coordenadas, a dis- 
tancia (n) contada no eixo dos (i) irá decrescendo, coiiser* 
vando-se todavia invariáveis as tangentea (í^ m); até que, 
sendo (n) nu lio, o plano passará pela origem das coar* 
denadas : e a equação (20) tomará nesta h jpothese a seguinte 
forma 



(21 bis) 



líjc^+my' 



Nesta nova posição do plano, a que se refere a eqoãçãa 
precedente, os dous traços que determinam os anguim, re- 
presentados peias tangentes (1, m), ficam eiistindo no prolon- 
gamento negativo dos planos dos {x,z] e dos (;/,s), partindo 
ambos da origem dos eixos : de modo que [4, tí] sao ainda 
respectivamente iguaes ás tangentes dos suppleroentoi- 
daquclles ângulos. 



r,«ou&tmA ãnalyticâ. |6S 

Cumpre aqui observar que a tletermioação da posição da 
normal no piano, passe este ou n;lo peia origem dos eixos, 
é seinpro independenle da grandeza de ^, em relação á 
equafão (19), ou de (n), em relação é equação (21); depen- 
dendo sómeiíte dos oulros elementos constantes que entram 
ms referidas equações; a saber» o$ cosenos de [a. 6, c}, pelo 
que respeita ás equações (19), ou (19 bis); e as langentes 
\lf m], nas equações [21), ou (21 bis): o que se deduz inirae- 
diataiueute da natureza das equações [12). 

Se suppuzer-á6 que as rectas (^, ^') são dadas de posição, 
ooi]siderando*se invariáveis os ângulos {a, 6, cj, (a\ 6\ c'); 
sendo por conseguinte lambem invariável o angulo [U"); o 
plano que passar por essas duas rectas ficará delenuinado de 
poÂíçãOi em relação aos três planos coordenados; e deverá 
satisfazer á quabjttor das doas equações (19 bis), ou [21 bis), 
uma vez que os elementos constantes, que entram nestas 
equações, sejam eipressos u^h que detertninam a posição das 
rectas (^, /\% Passamos pois a investigar as relações que 
ligam aqticHes a estes elementos. 

Suppoaba-se que OiV, Gg- (1), passa pela origem dos eixos 
coordenados, sendo perpendicular a cada uma das rootas 
(A» A'j» ^ P^i* eoni^eguinte normal ao plano em que etlas 
eiíãleui. 

A recta ON ^ sendo combinada com cada uma das rectas 
{A* AO» deverá saliafaaer [mediante os ângulos («, c, y) 
que elJa forma respectivamente com os eixos coordenados] 
ás duas seguintes equações de condição (7) arl, 11. 

O ^= Co$* a Cos» a+Coí, b Cm, c-^Cos. c Cm. y 
O ^^Cú». nf Cos* a-^Cos, i^ Cm, c-\-Cm. c' Cm, y 

Holúplicíindo a primeira destas equações por [Co$m^], 
a ft segunda por {Cm.a]; tirando esla d8(|uel!o, e prati- 
amdo a mesma operaçào com os m y I ti plica dorofi [Cqí. f) 
%{C^, b\; virá 




Cos, é Cos. b — Cos, c Cos. h* 
Cos. a Coi, ¥ — Cos^ a^Cos. 



As quantidades designadas, nas precedentes equaçôei, por 
{Âu fti] são análogas ás que havemos (lesignado por (A, B) 
nos arts. n e iV ; a saber, as tangentes dos ângulos formados 
com o eixo dos (z] pelas projecções da recta ON sobre os 
planos dos (.T, z)e dos (j/. z). Ter-se-ha portanto [repelindo o 
processo analytico empregado nos referidos arts.] as equações 
seguintes: 






/i'+mi^+l 






{-hf 



^i^+fii'-hl i»'+W+l 



As quantidades designadas por (h mi) nestas equações são 
análogas ás que representámos por (í, m) no art* IV; a saber» 
as tangentes dos angu tos formados respectivamente pelos 
traços do piano com os eixos dos i^ e dos (i/), nos planos 
dos {x, z) e dos (t/, z). Cumpre porém notar, que no presente 
caso (4tf Bi) não se referem aos ângulos supplamentares 
daquelles, cujas tangentes são aqui designadas por [(t, f^}i 
mas sim a ângulos que tem os mesmos complementos que 
estes f aos quaes são por conseguinte respectivamente 
iguaes ; sendo porém as tangentes dos primeiros tomadas em 
sentido contrario das tangentes dos segundos: isto é^ 
Ai^= — ^ íi; B^ = — mu como o fácil de verificar na fig, (1). 
Com effeito , os ângulos dados pelas tangentes (4i, Bi) 
crescem no sentido negativo, em relação aos angtilos cujas 
tangentes foram designadas JpovJ^À^ B)t os quaes erascem no 




GBOMETfilA ANALYTICA, 



157 



sentido positivo, na disposição que apresenta a fígurã ; e 
quândo em outra posição da norma) ON aquelles ângulos 
se tornarem positivos, os angutos dados pelas tangentes 
(i,, fíii) serão necessariamente negativos, por identidade de 
Temo. 

Substituindo nas equações (19 hh), em logar dos cosenoâ 
que abí entranii os dous valores que eiprimem os cosenos 
dados pelas equações (Si); virá 



(25) 






Qualquer deslas duas equações representa o plano das 
doas rectas dadasi, tendo um ponto commum com a origem 
dôs eixos coordenados : podendo delerrainar*se por meio 
ilella um ponto qualquer (m') siluado nesse plano, e repre- 
sentado pelas coordenadas [ú^t y^, z^)\ Passa-sede uma á outra 
equação pondo nella em logar dos coefrtcientês de (o^, y^j os 
coeíBcientes análogos da outra» aíTectos do signal negativo. 

A primeira destas equações é evidentemente idêntica 
com a equação (19 bis), visto que ambas se reportam á 
normal ao plano no ponto que este tem de commum com a 
origem dos eixos : distingue-se ella porém na forma , a 
saber ; na equação (lí) bis) os elemenfos constantes são os 
angutos quê determinam a posição da normal ao plano^ dados 
pelos cosenos; emquanlo que na primeira das equações [25\ 
ei^es elementos são dados pelas tangentes [Au ^i) dos ângulos 
formados cora o eixo dos [z] pelas projecções da normal ao 
plano, sobre os planos coordenados dos (a?, z) edos (t/, z,) 

A segunda das referidas equações é ao contra rio, não só 
8»enciãlmente idêntica, mas ainda semelhante na forma, 
quando comparada á equaçiio(21 bis}, que encerra as mesmas 
ccmdições analytieas; exprimindo, como nesta» os elementos 
€i>nitanl0S [fi, gi) que nella entram as tangentes dos ângulos, 
que determinam os traços do plano com os planos coor* 
cU^nados dos (^, z] e dos [y, z]. 



"Í58 B1TI9TA BRAntRIUAi 

EstA equação offerece uma interpretação geoiBetnea aisái 
curiosa; a snber, que a coordenada (z'), que dá a distamia do 
ponto (m). eonsidcrado no plano em questão ^ ao phma coor- 
denado dm (xt 2)* é igual á xmnmí das dua& ordstiadas do$ geui 
traçm nos pontos cQrre$pondmte$ ds absmas (s) e (y). Com 
etfeito, se pela coordenada (z') se tizer passar um plano 
parftlleloao plano dos [y, ^j, ale encontrar o plano dos {x, z); 
e outro plano paralleto a 8St€ até eneonlrar o plano doa 
(j/, z); é evidente que a parte da intersecção produzida no 
plano dos [x, z)^ comprehendida entre a eixo dos(x) e o traço 
do pi ano t representará a ordenada do ponto cortado nesse 
traço í sendo [nf] a sua abscissa; e cuja expressão será (/| ^); 
c t\ue se terá senielhanle [uh ^j) para expressão da ordenada 
relativa ao Iraço do plano dos [y, z). 

Se um doâ traços do plano, que se considera, coineidir 
por exemplo coiu o eixo dos [x]^ será l| = 0; e ter-^&e-tii 
por conseguinte 

zf—msf 

Este resultado coincide com o que é já cabido pela geo- 
metria elementar, a saber» qualquer que seja a po.%ição do 
ponto [m^] sobre aplano indimdo ao plano don (x, y), e passando 
pelo eixo dos (x), a sua distancia a esle plano é sempre dada pe^ 
intersecção do traço daqueile plano, no plano dos (y, z], por outro 
plano tirado pelo ponto (m') parallelo ao plano dos [x, z). 

O angulo designado por [y]^ sendo comprehendido pela 
normal ON ao plano das duas rectas (^, ^'), e pelo eixo doi 
(s), o qual é perpendicular» no mesmo ponlo^ ao plano dos 
{x^ y), medirá lambem a inclinação do primeiro plano sobro 
o segundo: e pela mesma razào o angulo (rr) medirá a incli- 
nação do mesmo plano sobra o plano dos (jr, z): e o angulo (jt) 
medirá a inclinação s^obre o plano dos (y, z]. 

Substituindo na expressão de (Cos.^ 7) os valores do [Ai, Bi\ 
tirados das equações [â3j; virá 



I 



í;oí.*v = 



{Cq$. a Cos. b* — Cos, a' Coi. 6)= 



{Cos- a Cos. b^ —Cos. a' Cos, bf 



[Cos.ãCoi. c'— Cof. a' Co*. cf+(6os. b Cos. c^—Cos, 6' Cos. cf 

Desta equação se poderão deduzir as expressões análogas 

ie (Cl».* f), (Cof.* a), pela simples permulação das letras; e 

'n6$ ã apresentzimas aqui como um importante resultado, a 

|ue se recorre em algumas iavestigações analyticas, como 

verá para diante. 

Se o puoto da encoDtro O Uas duas rectas (^, ^^j é dado 

petição DO espaço, palas suas coordenadas (/, gi li), em 

Ifelaçáo aos mxos jO'A^ O^V, QZ^] parallelos aos primitivos; 

|ccportafído a esses qovos eixos as coordenadas (a;^ y\ z^) do 

pODlo [m^] existente no plano a que se referem as equa- 

i(%5}; tomaiâo estas equações a seguinte forma geral 



V. 



Fatendo na equação (1), arl. I, 5^=0, s^=0, (ieando 
iavij-iaveis (;r. j/], (»r', j/); designando por If a projecção do 
inguto \V sobre o plano dos [^r, y); e por (í, í') as projecções 
<le(^, A'j ^^^^ o mesmo plano; virá 



[tl\ 



^ffCot. W=:x^+}/^ 



$ul^ÍíUnuáo nâ equação (1) o equivalente do segundo 
itiemtira desla ; virá 

(*8í A A* Coif. r =íí' Cos, IP+í^'. 

Dividindo imboi os nKinbros desta equação por A AS ^ 
I ilteMleoilo quo m tern^ pela nottçâo adoptada, 



160 



REVISTA BRAZILEIHA. 



ler-se-ha 



Sen. (/; — 



Coê.c; — '» 



Cos, f : 



(29) Cot. fracos, cCoB. ^-\-Sen. cSen. é Cos, W^ 

Por meio desla equação se pôde dctermioar a grandeza 
de W^^ projecção do angulo W dado de posição no espaço; 
uma vez que sejara conhecidos os ângulos [c^ c'j formados 
pelos seus lados com o eixo dos {z]\ e em geral com a recta 
que passa pelo verlice do angulo dado, e é perpendicular ao 
plano da projecção. Mas delia deduziremos uma formula 
mais simples, e accomniodada ás applicações praticas nesse 
sentido , como adiante se verá. 

A equação (29) encerra lambem a expressão de um theo-' 
rema fundamental da trigonometria espherica, do qual são 
deduzidas toda^ as formulas empregadas na resotução dos 
Iriangulos dessa natureza; o qual eDuncia-se da seguinte J 
maneira : ^ 

O m$mú de um angulo plano (W), o qual forma uma das ire$ 
farsi^ que cúmprchendeni um angulo $úlidú tjuaUfuer do te-\ 
íraedrOf é igual ao pruducto dos coxenos tios doiís angulas planos 
eontiguos (c, c'), augmentado do producto dos senos desses mesmos j 
ângulos multiplicado pelo coseno do angulo diedro opitosto (W), 

Elevando ao quadrado ambos os membros da equação (27),] 
e pondo abi (i — Sm? W^) em logar de [Cos. íf'}; virá 

(30) ^â*^ Sen.' W =- íV' — [xsif +yi/f 

Praticando a mesma operação na equaçâa (1)^ virá a 
equação do n' 13 art. II ; a saber 

(31) A* A'' Sen.' lf=A' A" — k^+yy'+wT 

Dividindo ordenadamente a primeira equaçâa }>ela ^• 
gundaj c depois dividindo também ambos úb lermo» cli»| 



GEOMETRIA ANALTTICA. 161 

segundo membro da equação resultante por (/\^ /\'^) , 
fazendo nos quocientes pareiaes as devidas substituições; 
virá 

_ Sen.^ c Sen.^ cf —(Cos. a Cos. gf+Cos. b Cos V f 
~\ — (Cos. a Cos. a^+Cos. b Cos. b'+Cos. c Cos. df 

_ (Cos. a Cos. V — Cos. a! Cos. bY 
"■ (Cos. a Cos. V—Cos. o' Cos. b^ ' ' * 

+{6o«. o Cos. cf — Cos. a' Cos. cf+(Cos. bCos. d—Cos.bCos. c)^ 

= Cos.^y (26).art. IV. 

[Sen. ^ c Sen.^ cf=[i —Cos.^ c) (1 — Cos.' d) 

=[1 -íl - Cos.^ a— Cos.' b]] [1 —(1 —Cos.' a' - Cos.'V]] ; 

l = (í7os.» a-\-Cos.' b-^Cos.' c) (Cos.' o'+Coj.' bf-{-Cos.' d)] 

Da precedente equação se tira o importante resultado 
expresso na seguinte 

,o^, JJ^ Sen, W AA'Sen.W ^ 
[óó) 2 = 1 ^^*- 7 

Exprimindo o primeiro membro desta equação a área do 
triangulo, cujos lados (í, í') eomprehendem o angulo fV^; 
assim como o primeiro factor do segundo membro exprime 
a área do triangulo» cujos lados (A» A') eomprehendem o 
angulo W\ a saber, a área do triangulo projectado sobre o 
plano dos (x^ y): conclue-se dahi que a relação entre essas 
duas áreas é dada pelo coseno do angulo da inclinação do 
plano da área projectada sobre o plano da sua projecção. 
Esta propriedade tem na analyse applicada o nomo de prin- 
cipio da projecção das áreas : o (|ual é geralmente deduzido, 
uas obras clássicas que tratam desta matéria, por meios 

li 



162 REVISTA BRAZILBIRA. 

indirectos, que não se compadecem com a indole dos pro- 
cessos analyticos. Sirva de exemplo desses recursos auii- 
liares, a que nos referimos, aquelle que é mais geralmente 
empregado pelos geómetras, a saber: « considerando a 
área do triangulo projectado dividida em uma infinidade de 
linhas rectas parallelas entre si, a relação commum entre 
essas linhas e as suas projecções, sobre um plano dado de 
posição, será expressa pelo coseno do angulo de inclínação« 
entre este plano e o do triangulo projectado. » 

O resultado deduzido da equação (33j, relativamente a 
um triangulo dado no espaço, pôde facilmente tornar-se 
extensivo a um polygono qualquer plano, dividindo a área 
deste em triângulos, por meio de diagonaes tiradas do 
vértice de um dos seus ângulos, e tomando este ponto para 
origem dos eixos coordenados: pois é evidente que a relação 
entre a área do polygono, e a da sua projecção, será a 
mesma achada para cada um dos triângulos que o compõem, 
e a respectiva projecção. Daqui se concluo por inducção 
que esse principio pôde ser rigorosamente applicavel a 
qualquer área plana, terminada por um perímetro curvilíneo. 

Represente-se por T uma área plana de figura qualquer, 
dada no espaço : por (íi, Í2» U) a grandeza das suas projecções 
respectivamente sobre os planos dos (x, y), dos [z, z), dos 
(y, z] : ter-se-ha, em virtude da equação (33) e das duas 
outras análogas, expressas em (Cos. 6), e (Cos. «) 

t,=:TCos.y 
U = TCos. S 
U= T Cos. a 

Elevando ao quadrado ambos os membros de cada uma 
destas equações, sommando-as depois, e attendendo que se 
tem l=Cos.^ oc'\-Cos.^ S'\-Cos.^ y : ler-se-ha 

(34) 2^=íi'+í,^+ía^ 



GEOMETRIA ANAtYTICA. 



163 



Considerando as quatro arêas expressas em quantidades 
Dumertcfis, esla equação exprime um bello resultado^ sus- 
ceplivel de um enunciado analytico; a saber: que o quadrado 
iã arm projectaík sobre os Ires planos roordenados é igual á 
mmma dos qimlrados das suas três projecções, 

É bem notável que este mesmo resultado possa dedu- 
lir-se immediatameole das equações (30) e (31)^ relatlva- 
neois 80 triangulo, sem a dependência dos cosenos, que 
lio D» precedente investigação a relação entre a área pro- 
jectado e a sua projecção, sobre cada um dos Ires planos 
coordenados ; como se vai mostrar. 

Pondo no segundo membro da equação (30), em logar de 
ÍFi% o seu equivalenlep a saber (x^-f tf) [^^^-^-yf^]; virá 

Eitr^hindo a raiz quadrada de ambos os membros desta 
«quftçáo, € dividindo-os por 2; ter-se-ba 



(35) 



àâf Sen. W ly^ — sfy 



Substitiiiiido samelhantemente , na equação (31), em 
logar de (^* ^'^), o seu equivalente, a saber (j?^4-y^+^') 
(^+Jf'*+^*); e dividindo por 4 ambos os membros da 
equiçâa; virá 



m 



A'A"&»*MV^ fxif—sfy\\ fxz'—x'g\* 



■=( 



H—r-} 



Eiprimíndo o primeiro membro desta equação o quadrado 

di área do triangulo dado no espaço , e cada um dos Ires 

lleniios» que forniam o segundo membro, a respectiva pro- 

Ijecçia dessa área nos planos dos (a;, y), dos (^, x], dos (y, ^), 

como &G mostra pela equação (35}: &ca assim demonstrada 



ÈmOÊ 



164 REVISTA BRAZILEIRA. 

a identidade deste resultado com o que fora deduzido da 
equação (34). 

As equações (35) e (36) são além disso susceptíveis de 
uma outra interpretação analytica , a saber: o segundo 
membro da primeira exprime a área de um triangulo, cons- 
truído em um plano dado, em funcção das coordenadas 
referidas dos vértices de dous dos seus três ângulos, exis- 
tindo o vértice do terceiro angulo na- origem das coorde- 
nadas : e semelhantemente a equação (35) faz conhecer a 
área de um triangulo , dado no espaço, em funcção das 
coordenadas (a?, j/, z), [x*, y', ^'), referidas aos pontos aná- 
logos, sendo também o vértice de um dos seus ângulos con- 
siderado como origem dos três eixos coordenados ; tomando, 
neste sentido, a forma seguinte : 



H'^) 



( 



Dividindo ambos os membros da equação (33) por A A'» 
e fazendo ahi as devidas substituições ; virá 

(37) Sen. cSen. d Sen. W'=Sen. W Cos. y 

Pondo nesta equação í — — ^ )' íi" — ^0» ^^ ^^S^^ do an- 
gulo (c), e de (c'); ter-se-ha 

(37 bis) Cos. 1 Cos. V Sen. fT' = Sen. W Cos. y. 

Ambas as precedentes equações encerram o princípio da 
projecção dos ângulos. A primeira (37) dá a projecção do 
angulo [W] sobre o plano dos [x, y), sendo dada a inclinação 
[y] dos dous planos, e os ângulos formados pelos lados do 
referido angulo com o eixo dos [z); ou em geral com a recta 
que passar pelo vértice do angulo, perpendicular ao plano 



GEOMETRIA ANÂLTTIGA. 165 

da soa projecção (W^O- * segunda (37 bis) resolve o mesmo 
problema, empregando, em logar dos ângulos (c, d), os seus 
complementos (X, V)\ isto é, os ângulos formados pelos lados 
do angulo [fF) com as respectivas projecçOes no plano 

de (^')- 

Qualquer destas equações, considerada como uma formula 
especial, será sempre preferivel á equação (29), nas appli- 
caçõespara que uma ou outra dessas formulas é apropriada. 

Designando por (W^")i (^'") as projecções do angulo {fF) 
sobre os planos dos {x, z), e dos [y, z), e fazendo applicação 
da formula (37) a cada um dos três planos coordenados , 
virá 

ÍCos. 7 Sen. TV = Sen. W^ Sen. c Sm. c' 
Cos. S Sen. W = Sen. ff"" Sen. b Sen. V 
Cot. OL Sm. W = Sm. TV"f Sm. a Sen. a' 

Elevando ao quadrado ambos os termos de cada uma 
destas equações, e fazendo a somma delias, pondo a 
unidade em logar de [Cos.^ y+Cos.' C+Cos.^ «) ; ter-se-ha 

• 
(38 bis) Sen.' W=Sen.'' W Sen.' c Sen.' d 

+S«».» W Sen.'bSen.H'+Sen.' fV»' Sen.' a Sen.' a' 

Dividindo ambos os membros da equação (36) por (A* A'')» 
• fazendo ahi as devidas substituições, ter-se-ha uma nova 
expressão de (Sen.'^ W], a qual pôde ser de utilidade em 
alguns casos; a saber 

(39) 5ew.Mr=(foí. a Cos. V—Cos. a! Cos. bf^[Cos. a Cos. c' 
—Cos. a' Cos. cY+(Cos. b Cos. d— Cos. tí Cos. cf 

Substituindo na equação (26}, e nas duas outras análogas, 
expressas nos cosenos de (o), e de (a), cm logar do deno- 
minador do segundo membro, o seu e4|uivalente [Sen.^ ]\^\ 
te^se-ht 



166 REVISTA BRAZILEIRA. 

j ^ Cos. a Cos. V — Cos. a! Cos. h 

^'*' ^= s^iTw 

(Ã(\\ )^ >o Cos. a Cos. cf — Cos. a' Cos. c 

\^^) {Cos. 6= ^ =z 

Sen. W 

^ Cos. b Cos. cf — Cos. V Cos. c 

\ Sen. W 

Substituindo a expressão de cada um destes cosenos nas 
equações (38) ; ter-se-ha 

Cos. a Cos. 6' — Cos. a' Cos. h . 

Sen. W = õ c — :j 

Sen. c Sen. d 

In "nni Cos. a Cos. cf — Cos. a' Cos. c 
(41) /^Sen.W" = ^^ ^ ^^ ^ 

o ™íi (^os. b Cos. cf— Cos. 6' Cos. c 

Sen. W^' = ê c ; 

Sen. a Sen. a' 

Estas formulas poderão ser úteis nos casos em que se 
quizer exprimir qualquer das três projecções do angulo (ÍF), 
em funcção dos ângulos formados pelos seus lados com os 
três eixos coordenados, independentemente da graudeza 

de(W). 

Dividindo a equação (35) por (íí'); e fazendo 

X ocf 3/ I v' 

- = Cos. tti ; v= Cos. o'i; j= Cos. fcr, ^ = Cos. b\: virá 

Sen. W=Co5. Oi Cos. b\ — Cos. a\ Cos. b^ 

Esta equação exprime a projecção do angulo [W] sobre o 
plano dos [x, y) , expressa nas projecções dos ângulos for- 
mados pelos seus lados com os eixos dos [x] e dos (y): e 
ter-sô-ha portanto, para dar as três projecções, nos respec- 
tivos planos coordenados, as equações seguintes : 

^Sen. W = Cos. ai Cos. V^ — Cos. a\ Cos. bx 

(42) {Sen. lP'=6'oi. Oj Cos. d^ — Cos. a\ Cos. Ci 

^Sen. W^^=Cos. bt Cos. d^—Cos. Vr Cot. c, 



GEOMETBIA ANALÍTICA, 



[67 



Jalgamos canveniente, no interesse dos principiaDtes, 

Iproveilar aqui um favorável ensejo para conflrniar, pela 

conformiílade <Io5 resultados , o rigor dâs dedocçòes atifl' 

ly ticas» quando são eí»tas submettidas á prova dos processos 

ptirAcneole geomeiricos. 

Se Da equação [29) se fizer ir =^ ; virò 



(f9bis) 



Cos, \V=Coã, ú Cos, d 



A signiGcação trigonoraetrica deste resultado e a seguinte : 
Dado um angulo triedro, cujas faces angulares são repre* 
lentadas por (H^ c. c'), sendo recto o angulo diedro opposto 
k face {W\\ o comio iksíe amjuh será sempre igual ao produdo 
rfof rosmos tios oníros dons [c, c*)í e á e^ta uma propriedade 
dos triângulos es phe ricos rectângulos. 

Dada a devida intelligencla a formula precedente, pro- 
ponhu-se achar primeiramente a expressão de [Sen. W}t 
pela applieaçãu das formulns da trigonometria plana. Se- 
gundo a nolflçiio acima adoptada deverá ter- se o angulo 
[W*] expresso de duas maneiras: 1" pela diCferença {a\ — ai), 
çntre as projecções dos ângulos [a', a)» formados por (A'» A) 
como eixo dus(^), sobre o plano dos (^, i/): i!" pela ditíferenga 
(hx — b\) das projecções dos ângulos relativos ao eixo dos (j/), 
.fobre o mesmo plano: e ler-se-ha portanto 

TT 

W^=^Sen. {a\ — ^a,)=5eíí. «i^ Cos, íii — Cos, a\ Sen. ai 
^=Cos. íii Cm. h\ — Cos, a\ Cos. b^ 

Tvm-se pois demonstrado assim pela trigonometria plana 
Q exaclidâo das equações (42): resta agora passar destas ás 
equações equivalentes do n" (41) • 

É íacil de com [ireliender pela construcçâo da fig, (1) que 

os ângulos (ai), 1-^ — cV e (a), formam um angulo solido 

[tendo o vértice na origem dos eixos coordenados] cuja face an- 
gular ^ci} Gcaopposla ao angulo diedro recto, comprehendido 
pelas outras duas faces: applicaodo portanto a formula 
|29 bi^} a estes Ires augulos ^ virá 



168 REVISTA BRAZILEIRA. 

Cos. a = Cos. (h Cos. l^ — cj =Cos. ax Sm. c 

Ter-se-ha semelhantemente a considerar outro angulo 
triedro, no qual o an^lo diedro recto é comprehendido 

pelas faces angulares {b'i) e [^ — c'V sendooppostaaaquelle 

a face designada por (ò|]: empregando pois a mesma formula 
a este caso ; virá 

Cos. 11 = Cos. Vi Sen. d 

Multiplicando esta equação pela precedente, membro a 
membro, ter-se-ha 

n nu Cos a Cos. V 

tos. Qi tos. 0'i = 7; n # 

Sm. c Sen. cJ 

Procedendo do mesmo modo a respeito dos ângulos [a\( 
e (61): virá 

, ^ , Cos. o' Cos. b 

Fazendo agora a devida substituição destes resultados na 
expressão acima achada para Sen. W'; ter-se-ha finalmente 

Cos. a Cos. b' — Cos. a' Cos. b 

Sm. W = ^ ê í 

Sen. c Sen. d 

Esta equação é, como se vê, a mesma que fora deduzida 
pela analyse (41). 

Concluida esta útil digressão, poremos termo a este artigo, 
já enriquecido com resultados de grandq importância na 
analyse applicada, dando és formulas do n'* (40) uma nova 
transformação, que vai ligar aquelles resultados a outros 
obtidos nos artigos anteriores. 

Designando por (p) a grandeza da perpendicular, tirada 
do ponto (m') extremidade da recta (^') sobre a direcção de 
^; ter-se-ha (15) art. II. 

p = A^Sen. W 
Pondo nas equações (40) ~ em logar de Sen. W\ e at- 



GEOMETRIA ANALYTICA. 169 

tendendo que se tem ^ Cos. a^ = x^; ^' Cos. V^y'; 
^ Cos. c' = 2j'; virá 



^ V Cos. a — x^ Cos. b 

, Cos. y = ^ 

, ^ ^ 2! Cos. a — ccf Cos. c 
(AS) \Cos. 6 = 

z^ Cos. b — v' C'os. c 

, Cos. a = 2 

P 



Referindo as coordenadas (x', j/', z') aos novos eixos 
parallelos aos primitivos, sendo o ponto O, vértice do angulo 
(11'), dado de posição pelas coordenadas (/*, j, h) em relação 
aos novos eixos (O' A'', OV, O^Z^]] as precedentes equações 
tomaráõ a seguinte forma geral 



^ (!/'— ff) Co g» a—{xf—f) Cos . b 

tos. y = 

(z^—h) Cos. a—[a^—f) Cos. c 



Cos. X = 



p 

{z^—h) Cos b—{yf—g) Cos. c 



Tanto nas equações (43), como nas precedentes, as coor- 
denadas (x', //', 5') representam o ponto (m') da recta ^', 
donde é tirada a perpendicular (p) sobro a recta dada de 
posição, formando com os três eixos coordenados os ângulos 
(a, b, c]. 

Se porém se quizer transportar n origem das. coordenadas 
para o ponto dado (m'), isto ó, para o ponto donde é tirada a 
(>erpendicular; pondo nas precedentes equações (xi) em 
logar de {af — />); (y,) em logar de [\f — gf); (z,) em logar 

12 



170 REVISTA BRAZILEIRA. 

de [z' — h'); estas novas coordenadas determinarão, na 
recla dada de posição, o ponto em que ^' a encontra; 
exprimindo /\J, nesta bypothese, a distancia do vértice do 
angulo (W) á origem das coordenadas: e ter-se-ha 

fr^ Vi (^os. a — j?i Cos. b 
^ Cos. y= 



(45) \Cos.S = 



P 
Zi Cos, a — xi Cos. c 



. ^ zi Cos. b — Vi (^os. c 

\C0S. (X = ^ 

Nas equações anteriores aos três números precedentes 
(Cos. y, Cos. 6, Cos. «) determinam a posição da perpendi- 
cular aos dous lados (^, /\^) do angulo [W) dado no espaço, 
passando pelo vértice desse angulo. Nas equações porém dos 
n" 43, 44, 45, nas quaes o lado ^' e o mesmo angulo (TF) 
foram eliminados, introduzindo-se nellas a perpendicular 
(p), tirada do ponto [m') do referido lado ^' sobre a direcção 
do outro lado ^, deverá entender-se que aquella perpen- 
dicular é neste caso anormal ao plano que passa por (p), 
e pela recta que coincide em direcção com /\, e em um 
ponto dado da mesma ; a saber : nas equações do n' 43 ó 
esse ponto a origem das coordenadas ; nas do n"* 44 e o 
ponto dado pelas coordenadas (/*', g\ h']; nas do n* 45, final- 
mente, é qualquer ponto da recta, cuja direcção, em relação 
aos três eixos, é conhecida pelos ângulos (a, 6, c); e cuja 
posição, em relação á origem dos mesmos serâ determi- 
nada quando forem conbecidas as coordenadas (oTi, ^i, zj 
referidas a um ponto delia. É evidente, por outra parte, que 
qualquer ponto tomado no plano satisfará as condições da 
normal. 

Todavia poderá sempre representar-se o angulo (TF) 
como tendo por vértice o ponto da recla dada de posição, 



GEOMETRIA ANALYTICA. 171 

por onde se fizer passar a normal ao plano, e por lados 
aqoella mesma recta indefinida, e a que fòr tirada do re- 
ferido ponto á origem de (p); como já se notou acima. 

Na determinação dos três cosenos, cujas expressões são 
dependentes da grandeza de (p), deverá recorrer-se ás 
equações (16, 17, ou 17 bis), art. II, para ter esse elemento; 
segundo se empregarem as formulas dos n""* i3, 44, ou 45. 

Notaremos ainda sobre este objecto, que as formulas do 
n"" 43 podem deduzir-se immediatamente da equação 26 
art IV, multiplicando ambos os termos do segundo membro 
por ^", e pondo no denominador o seu equivalente (p^), 
dado pela equação (16) art. II : com attençâo a mudar as 
denominações dos ângulos que ahi entram, em relação aos 
ângulos (7, 6, a). 

VI. 

Se conjunctamente com o plano, que passa pelas rectas 
(A» AO» ®^*' 'V» tendo por normal nesse ponto a recta ON, 
se considerar outro plano passando pelo mesmo ponto O, 
origem das coordenadas, cuja normal nesse ponto se repre- 
sente por ON* , determinada em posição pelos ângulos 
«, 6', /), formados por ella com os três eixos coordenados; 
designando por [9) o angulo comprehendido pelas duas nor- 
maes: ter-se-ha (2) art. I. 

(46) Co$. e=Cos. (xCo$. a 4 Cos. SCos. è'+Cos. y Cos. / 

Sejam os dous planos dados pelas soguintes equações 

As formulas (24) darão os valores de [Cos. a. Cot. 6, Cos. y) 



172 REVISTA BRAZIUBIBA. 

e de {Cos. a , Cos. S\ Cos. /): os quaes, sendo substi- 
tuídos na equação (46), darão o seguinte resultado 



(47) Cos. e = • 



^(/i'+mt^+l)>^(Pi+m%+l) 

O angulo (d) mede, como se sabe, a inclinação reciproca 
dos dous planos, representados pelas duas equações dadas : 

fazendo portanto Ô=-» na precedente equação, ter-se-ba 

a condição de perpendicularidade, dada pela seguinte 
equação de condição 

(48) = l+mim,+/tÍ2 

Suppondo nesta equação (mi, U) invariáveis; isto é^dado 
de posição no espaço o plano, á que pertencem esses ele- 
mentos ; é evidente que esta equação ficará indeterminada, 
emquanto não fòr conhecido qualquer dos dous elementos 
variáveis (yn,, /,], que determinam a posição do outro plano. 
Poder*se-ha porém assignar certos limites notáveis, dentro 
dos quaes terá logar a variação de cada um desses ele- 
mentos; como se vai mostrar. 

Fazendo gyrar o plano variável ao redor da normal ao 
outro plano, na origem dos eixos, commum á intersecção 
dos dous planos , é evidente que aquelle plano tomará , 
ao redor daquella normal , todas as posições possiveis 
sobre o plano dado de posição. Supponha-se, pois, que por 
effeito desse movimento o plano variável (orna uma posição 
tal a respeito do plano dos [x, 2), que o seu traço neste plano 
se torna perpendicular ao traço do plano invariável , dado 
de posição. É evidente que, em virtude da reciproca perpen- 
dicularidade dos dous planos, o outro traço do plano ya- 



GEOMStHIA ANALYTICA. 173 

riavel sobre o plano dos (y^ z) deverá necessariamente 
coincidir com o eixo dos (y). Ter-se-ha por conseguinte 



m2=0 

A segunda das precedentes equações exprimindo a con- 
dição da perpendicularidade dos dous traços, a que se 
referem as tangentes (/i, íj), art. III, deve considerar-se 
como consequência necessária da primeira equação. 

Continuando o plano variável a mover-se no mesmo sen- 
tido^ supponha-se que elle chega á posição em que o seu 
traço no plano dos [x, z) se confunde com o traço do plano 
invariável. Ter-se-ha neste caso 



tWj«= — 



rwi 



Designando [Ai] o angulo cuja tangente é representada 
por {U)\ ter-se-ha 



nh = — 



mt Cos^ Al mi Sen. 2 A^ mi 

Chegue finalmente o plano variável, movendo-se ainda 
no mesmo sentido, a tomar a posição em que o seu traço, 
movendo-se também sobre o plano dos (x, z), se confunda 
com o eixo dos {x). Ter-se-ha, como no primeiro caso, 



174 REVISTA BRAZILEIRA. 

1 

m2 = — — 
mi 

Nesta posição o plano variável será perpendicular ao 
plano dos [y, z], como já teve logar na primeira posição em- 
que o consideramos á respeito do plano dos [x, z): sendo por 
conseguinte o seu traço naquelle plano também perpen- 
dicular ao traço do plano invariável, como o mostra a 
segunda das precendentes equações. 

Considerando agora o movimento do plano variável em 
relação ao plano do [y, 2), e continuando no mesmo sentido, 
supponha-se que toma elle a posição em que o seu traço se 
confunde com o do plano invariável. Ter-se-ha 

li c= fila 



A seguinte coincidência do traço do plano variável com o 
eixo dos [y] restabeleceria a posição inicial do mesmo plano, 
correspondente aos primeiros resultados acima obtidos 

Às tangentes (íi, nii) variam pois inversamente, em uma 
revolução inteira do plano variável ao redor da normal ao 

plano dado de posição; a saber: [nh) desde zero até ( j; 

1 \ , 
(I2) desde ( — y- ] até zero : limites dados pela posição do 

plano variável, perpendicular primeiramente ao plano dos 
(y, ;?;), e depois ao plano dos (y, z). 



GBOMETRU ANALYTICA. 175 

Nas posições intermediarias, em que o plano variável 
passa alternativamente pelos traços do outro plano, cortando 
os planos dos [x, z], e dos (y, z); as referidas tangentes tem 
entre si a relação dada pela seguinte equação 

Ij Sen. 2 i4i . mi* 



W2 Sen. 2 B^ . h^ 



Cumpre ainda notar acerca da equação de condição (48) 
que, no caso de serem representados os dous planos, á que 
ella se refere, por equações reportadas a outros eixos coor- 
denados» parallelos aos actuaes, comprehendendo por isso 
na sua expresão geral as constantes (ni, nj), (21) art. IV; 
seria a condição da perpendicularidade entre os dous planos 
dada pela mesma equação 48: isto é, que aquella condição 
é independente das referidas constantes, vislo que é sempre 
possivel transferir a origem dos eixos coordenados para um 
ponto qualquer da intersecção dos dous planos, que se con- 
sideram no espaço. 

Fazendo fl= O, na equação (47), ter-se-ha a condição do 
parallelismo entre os dous planos ; a saber : 

Desta equação se passará facilmente á seguinte 

(49) 0={k-kf+[m,-m,Y+{m,k-nhlif 

Esta equação de condição não pôde ser satisfeita de outra 
maneira, senão fazendo ao mesmo tempo 

k==l2'f mi==m2 
Estes resultados mostram que, na hypothese de serem 



176 REVISTA BRAZILfilRÀ. 

parallelos os dous planos, deverão também ser parallelos os 
seus respectivos traços, nos planos dos [x, z), e dos [y, z). 
propriedade esta que não tem logar por analogia a respeito 
dos planos perpendiculares entre si, cujos traços nos refe- 
ridos planos coordenados somente se tornam perpendi- 
culares, dadas certas condições, como acima se mostrou. 

Neste caso a distancia entre dous pontos quaesquer dos 
dous planos, tomados em uma recta parallela ao eixo dos (z), 
será constante e igual a (ni — th) ; isto é, á diíferença das 
duas constantes , que nas equações reportadas a outro sys- 
tema de eixos parallelos aos actuaes representam as dis- 
tancias do plano dos [x, y) aos pontos em que os respectivos 
planos encontram o eixo dos (s). 

Se no ponto O da intersecção dos dous planos , cuja 
inclinação reciproca é dada pelo angulo (6), se suppozer 
uma perpendicular levantada, no plano variável, sobre a 
intersecção commum dos dous planos: é evidente que a 
angulo da inclinação dessa recta sobre o plano dado de 
posição será representado por (0), e dado pela mesma 
equação (47). Por conseguinte as condições da perpendicu- 
laridade, G de parallelismo entre essa recta e o plano dado 
de posição, serão as mesmas que se acharam acima para o 
caso de dous planos (48 e 49). 

Resta porém mostrar como, dado o ponto em que uma 
recta encontra um plano também dado de posição no espaço, 
formando ella com os três eixos coordenados, ou com rectas 
parallelas aos mesmos ângulos conhecidos, e representados 
por [e, e\ c"), será sempre possível deduzir destes dados os 
elementos [U, m^, que determinam a posição do plano 
variável, que passa por essa recta, e cuja intersecção com 
o plano dado de posição é também perpendicular^ mesma 
recta: o que passamos a fazer. 

Designe-se por (cí, d', d") os ângulos formados pela inter- 
secção dos dous planos com os três eiios coordenados : estes 
ângulos são desconhecidos. 



GEOMETRU ANALÍTICA. 177 

Devendo a intersecção dos dous planos ser perpendicular 
tanto á recta dada no espaço, como á normal ao plano qne 
ella encontra, e no mesmo ponto; tomando este ponto para 
origem dos eixos coordenados: ter-se-ha, art. I 

= Co$. e Cos. d+Cos. e' Cos. d'+Co8. e" Cos. d" 
0=zCos. a Cos. d+Cos. SCos. d'+Cos. yCos. d" 

1 = Cos.^ d + Cos.^ d'+ Cos.^ d" 

Tratando estas equações, como se praticou já cora outras 
análogas, (23) art. lY, fícaráõ conhecidos os ângulos 
(d, d', d"), em funcção de [e, e\ c") e de (a, S, y). 

Uma vez conhecidos os ângulos formados com os três 
eixos coordenados pela recta dada de posição, e por aquella 
que representa a intersecção do plano dado com o que passa 
ao mesmo tempo pela referida recta , poder-se-ha, por meio 
das formulas (24), determinar os ângulos formados pela 
normal ao plano que passa por essas rectas, no ponto em que 
ellas se cortam : deduzindo-se d'ahi, como se praticou no 
referido art., as tangentes (/,, fWj) que determinam os traços 
do plano em questão nos planos dos (x, z), e dos (y, z), me- 
diante a applicação das formulas (20). 

Referindo-nos ainda aos dous planos, que havemos con- 
siderado na precedente analyse; e reproduzindo aqui a 
equação (46), a saber 

Cos. 6=Cos. OL Cos. oL-^Cos. 6 Cos. è'+Cos. y Cos. y'; 

e observando que os ângulos (a, a) representam as res- 
pectivas inclinações dos dous planos sobre o plano dos [y, z); 
(5, 6*) sobre o plano dos (x, z); {y, y') sobre o plano dos (x, y): 
conclue-se da equação precedente que a propriedade 
inherente ao angulo comprehendido por duas linhas rectas» 

12 



178 REVISTA BRAZILEIRA. 

que se corlara no espaço, (2) art. I, é commum a dous 
planos, sob as mesmas condições. 

Designe-se agora por [S) a área do Iriangiilo (mOm'), 
fig. (1), que se suppoz existir em um dos referidos planos: 
multiplicando a precedente equação por (S), virá 

(50) S Cos. e~ [S Cos. a) Cos. a'+(S Cos. 6) Cos. 6' 

+ (SCos.y)Cos.y 

O primeiro membro desta equação exprime a projecção 
da área (S) sobre o plano que forma com ella o angulo (ô): 
as expressões (S Cos. a), (S Cos. 6), [S Cos. y), exprimem se- 
melhantemente as projecções directas da área IS) respecti- 
vamente sobre os planos coordenados dos (y, z), dos (x, z), 
dos (x, y]: as expressões [S Cos. a) Cos. a , (S Cos. S) Cos. 6\ 
(S Cos. y] Cos. y\ representam do mesmo modo as projecções 
das precedentes projecções sobro o plano, a que se referem 
os ângulos {x\ &,y ']: (33) art. V. A estas ultimas projecções 
daremos a denominação de inversas. 

A equação (50) encerra um importante theorema de 
geometria, que pôde enunciar-se da seguinte maneira, gene- 
ralisando o resultado que ella exprime : 

As três projecções de uma área qualquer, considerada no 
espaço, sobre os três planos coordenados , sendo novamente 
projectadas sobre um plano dado de posirAo, ahi determinam 
outras três projecções, cuja somma é equivalente d projecção 
directa da referida área sobre este plano. 

Este theorema é perfeitamente análogo ao que já ante- 
riormente deduzimos da equação (33) ao plano, relativa- 
mente ás projecções de uma linha recta. 

Representando por [â') a projecção da área (S) sobre o 
plano dado de posição, e por (Si, Sj, S^) as projecções di- 
rectas da mesma área sobre os três planos coordenados : 
demais designando por (í", í'") as projecções dessa arca 



GEOMETRU ANALÍTICA. 179 

sobre dous outros planos^ que formem com o primeiro 
aogalos rectos; sendo («'', 6'', /'), («'", 6"'/") as inclinações 
destes novos planos sobre os ires planos coordenados : viráõ 
as três equações seguintes 



M'=5i Cyos. a!+S^Co$. 6'+S» Cos. / 
[e) |(í"=Si Cos. oéf+Si Cos. 6"+S» Cos. /' 
[ifif c= Si Cos. «"'+S2 Cos. e'"+S» Cos. y "' 

Elevando ao quadrado ambos os membros de cada uma 
destas equações , e sommando-os ordenadamente : ter- 
se-ha 

(51) <P'+a*"4-í'"'=St»+S,^+S.« 

A symelria desta equação faz ver que as equações (e) 
lerão logar também trocando nellas {Su Sj, Sj) por (í', d^', 
^% com os cosenos dos ângulos respectivos, e vice* versa; 
4 saber: 

/ Si=í' Cos.«'+í" Cõs. «"+í'"+(;oi. «"/ 
(e') )St = í' Cos. &+d\Cos. &f+'i'f Cos. 6'" 
(S3 = í' Cos. /+í" Cos. 7" + (í'" Co«. /' 

Estas equações podem aliás ser deduzidas directamente 
^^s equações (e), multiplicando-as ordenadamente por 
[Cos, af, Cos. a", Cos. a'''), e sommaudo-as, etc. 

Nas precedentes operações cumpre attender ás seguintes 
equações de condição, as quaes devem ler logar simulta- 
neamente, em relação aos dous systemas differentes de 



180 RBVISTA BRAZILBIRA. 

planos orthogoiiaes, representando cada um três prcgeccfies 
directas da supposta área {S) ; a saber: 

1 = COB.^ « ' + Coi.^ a" + COS.^ «"' 

1 c= Co8.^& ^Cos.^ 6" + Cos.^ e'" 
1 «, Co$.^ yf + Co$} y^f +í7oi.* /^' 

o = Co$. afC0$.&+ Co$. af' Cos ff' + Co$. o"' Co$. gW 
o =C0l. a' Cos. / + Cos. oí^ Cos. y" + CoS. cí" CoS. /" 

o = Cos. ff Cos. / + Cos. fff Cos. f + Cos. ff" Cos. y''' 

B evidente que a equação (50) poderia ter sido dedufida 
directamente, fazendo applicação da formula (34), art. V, 
aos dous systemas de planos ortbogonaes. 

A mesma equação terá logar, qualquer que seja a área 
plana projectada, como já se mostrou em outro art.; e 
mesmo occupando uma posição qualquer no espaço. 

Isto supposto, sejam dadas no espaço as áreas planas, 
representadas por (S', S", S'", etc), existindo em planos 
differentes, e diversamente inclinados a respeito dos três 
planos coordenados: é evidente que á cada uma destas áreas 
corresponderão três projecções nos planos coordenados» 
de modo que as que existirem no mesmo plano coordenado 
poderáõ sommar-se» e ser representadas por uma só área 
equivalente á somma delias. 

Designe-se pois por {Si^, SJ SJ) as três projecções re- 
lativas a (S'); por (Si'\ SJ', Sj") as que são relativas a (S''); 
por (Si'", jSV", S»'") as que são relativas a (S'"), etc, segundo 
a ordem dos planos dos (j/, z), dos [x, y): e faça-se 

Si=5'i + S^+Si'" + etc. 
§,= S',+S", + iS"\+etc, 



OBOHRTRIl ANALTnCA. 



181 



A somma das prajecçòes inversds, designada acima por 
è*, será dada pela equação seguinte 

í' =5^1 Coz, cê -f ^ S"s COÈ. oê + S'"i Co$, oé -h etc, 
+ S\ Co$. & + S"^ Cos. & + S% Cos. e + etc- 
+ S^n Cm. i + 5^ Cm. / + S'"i Cm. y' + etc, 
= S, Caí- «' + S, Cof . 6' + Sa Coí, y' 

Do raesmo modo ise acharia para (í") e (í^') expressões 
análogas á precedente : donde se eonclue que a equação (50) 
(em ainda iogar, representando (Sj, Sj, S^) res pedi vãmente 
a sõmDia da^ projecções de qualquer numero de áreas dadas 
no espaço, e existindo em planos diversoSp sobre os três 
planos coordenados r e que semelhantemente fí', J^', í'"} 
representaráõ, na mesma equação , áreas equivalentes ás 
projecções directas das referidas áreas dadas no espaço, 
iobre os planos em que eiístem aquellas. Tirando da 
•quaçào (50] o valor de (í'), virá 



A equação precedente faz ver que a grandeza de [tf'} 
crescerá, prescindindo dos signaes que aíTeclara o radical 
00 segundo raembro, á medida que decrescerem í^' eí'", 
quaesquerque sejam os signaes qoe affectem estas quanti* 
dades, visto que os seus quadrados ficarão sempre positivos : 
e quando í" e í'" forem ao mesmo tempo íiu/íoí, a área 
represenlada por (í') locará o seu valor maiimum , e terá a 
segoínte expressão 



(51) 



í* = ±l/«i,+íf,+S. 



Esta equação terá país legar sempre que forem «atiiíeitas 
as seguintes equações de condição 



182 REVISTA BRAZILE1RA. 

O = Si Cos. a '+S2 Cot. í"+S8 Cos. /' 
o = Si Cos. a!''+S2 Cos. r+S, Cos. /" 

Verificada esla hypolhese, chama-se plano principal aqneWe 
era que existe (í*), e que tem a propriedade característica 
de dar a projecção máxima^ ou antes a máxima sorama das 
projecções directas das áreas dadas no espaço. Este resultado 
tem uma applicaçâo importante na astronomia. 

Para determinar a posição do plano principal , bastará 
conhecer as projecções representadas por (Si, Sj, S»): por- 
quanto tem-se (33 e 34) art. V; [ou fazendo <í"=0, cí^^rrrO 
nas equações (e')] 



ri I "1 '^1 

Cos. a == rr = , . 

(52) f°'- ' °=^° ±.^y+y+5.' 

l '^ * ±^^Si^+S.^ + Ss' 



Os ângulos («', 6', /) assim conhecidos determinaráõ a 
posição da normal ao plano principal, passando pela origem 
dos eixos coordenados, ou a qualquer plano parallelo a 
este: porquanto é evidente, que todos os planos que ti- 
verem essa normal commum terão também a mesma pro- 
priedade do plano principal. 

Se a área dada no espaço fosse uma só, representada 
por [S), as suas projecções sobre os três planos coorde- 
nados seriam representadas por (Si, S2, Ss) : e ter-se-hia. 
(34) art. V 



GEOMETRIA ANALÍTICA. 1S3 

Esle resultado mostra que, uo presente caso, o plano 
principal, ou o da máxima projecção, é parallelo ao plano 
da área dada, como se sabia já : porquanto nesta hypothese 
as projecções da área (S) sobre os dous planos perpendicu- 
lares ao plano de (c^') são evidentemente nullas. 

Supponha-se que as áreas representadas por (S', S", etc.) 
são projectadas directamenle sobre um dado plano , cuja 
inclinação sobre o plano principal seja representada pelo 
angulo l(f]: e designe-se por T a somma das projecções sobre 
este plano: sendo (oi, ^i, y^) os ângulos formados por esse 
plano com os três planos coordenados: ter-se-ha (50) 

r = Si Cos. «i+Sj Cos gi+Sj Cos. yi 
= (í* Cos. «*) Cos. ai+(í* Cos. S']Cos. gi+(í* Cos. /) Cos. y* 

=^â^(C0S. OL^COS. OL^+COS. S* Cos. 61 + C05. y* Cos. yi) 

= à' Cos. e 

Substituindo em logar de (í') o seu valor, tirado da 
equação (51); virá 

(53) r = ± i^sTTsT^+s^cos. e 

Esta equação"^ mostra que a somma das projecções das 
áreas (S', S'', etc), dadas no espaço em planos quaesquer, 
é uma quantidade constante, relativamente a todos os 
planos que fizerem com o plano principal o mesmo angulo {6). 

Fazendo na precedente equação 9 = 1 ter-se-ha 

r = o 



1S4 BEnsiA BBunniâ. 

Este resoludo mostra que as projecções de [S^ S\ ele), 
sobre qualquer plaoo perpeodicular ao plano principal^ dão 
ama somma igual a zero: o que já se conhecia à priori como 
uma propriedade característica do plano principal. 

Seja dada no espaço a pyramide triangular [ABCO] , 
6g. 3 , cujo vértice O esteja na origem dos três eixos 
ortbogonaes OX, 01\ OZ-: sendo os vértices (i, B, (7) 
dos três ângulos da sua base dados de posição pelas suas 
coordenadas :x,y, f , V, y*, z ), V, }f\ z^^\i e represente 
o triangulo oht) a projecção da base (-IBC^ sobre o plano 
dos (x, y\ 

A simples inspecção da Ggura faz ver que a projecção da 
face triangular \f^OV] da pyramide compOe-se das projecções 
das outras duas faces \COA^ BOA]; e do triangulo [abe] que 
representa a projecção da base da pyramide: suppondo-se 
que é COB; a maior das três faces. Designe-se por [D] a 
área do triangulo [ABC]; e por (C, B, A] as projecções 
daquella arca, rej^pedivanicnte sobre os planos dos (jr, y], 
dos (x, z], e dos 'y, z]. 

A projecção (afcr; devendo ser expressa pela diflferença 
enlre a projecção da maior face da pyramide, e a somm.i 
das projecções das outras duas faces contiguas: isto é, + 
aquella projecção + a somma destas; ter-se-ha , (35} 
arl. V 

f xV'-yV' <y-y'x xy"-yx" 
2 2 2 



(54) B=-^ 
A 



z'x" — x'z" z'x—zx zx" — xz" 



_ y'^"-z'ij" y'z-z'y yr"-zy" 



GEOBIETRU ANALÍTICA. 185 

As duas ultimas expressões das projecções da mesma área 
(ABC) sobre os planos dos {x, z). e dos [y, z) deduzem-se evi- 
dentemeute da primeira, fazendo a devida permutação das 
letras : advertindo que a projecção da face [BOC) compre- 
hende sempre as projecções das outras duas, dando-se para 
esse fim á pyramide a conveniente posição. 

Tem-se, (34) art. V 

D'= A^ + B^ + C^ 
(55) D =1/^2 ^B^^(p 

Este resultado nada mais é do que a generalisaçao do 
que se obteve, expresso na equação (36): isto é, a área de 
um triangulo dado no espaço, expressa em funcçâo das 
coordenadas que determinam a posição dos vértices dos seus 
três ângulos. 

Tire-se do ponto O a perpendicular {OD) sobre o plano da 
base da pyramide : e designe-se por («i, oi, yi) os ângulos 
formados por essa recta respectivamente com os eixos dos 
(x), dos (y), e dos (z); sendo («) a grandeza de [OD). 

Ter-se-ba a equação do plano do triangulo [ABC), em 
relação ao ponto {A), ou a outro qualquer ponto tomado no 
mesmo plano, expressa da maneira seguinte, (19) art. lY. 

(i) «= X Cos. a, + 2/ Cos. 6, + ^ (^os. y 

Os ângulos («i, 61, yi) medem, como se sabe, a respectiva 
inclinação do plano em que existe o triangulo [ABC)^ sobre 
os planos coordenados dos [y, z), dos (.r, z], dos (x, y): e ter- 
se-ha, (33) art. V. 

C = D Cos. y, 
B = D Cos. S, 
A=DCos.a, 



186 REVISTA BRAZILEUU. 

Substiluindo os valores de (Cos. oi, Cos. 61, Cos. yi), 
tirados destas equações, na precedente; virá 

(56) D.ç = Ax+ By-^Cz 

O primeiro membro desta equação exprime o volume do 
prisma triangular, cuja área da base é (D)/e a altura [a). 
Semelhantemente qualquer das três expressões, que entram 
no segundo membro, representa um prisma triangular, 
cuja base é a projecção da base triangular da pyramide sobre 
um dos planos coordenados, sendo a respectiva altura a 
coordenada que representa a distancia deste plano ao vértice 
U) do triangulo [ABC]. 

Se ambos os membros da precedente equação forem di- 
vididos por 3, o resiiltado que ella exprime se enunciará da 
maneira seguinte : 

A pyramide triangular, cujo vértice está na origem dos 
eixos coordenados, tendo n base no espaço, dada pelas coor- 
denadas referidas ao vértice de cada um dos três ângulos da 
mesma, tem um volume equivalente aos das três pyramides, 
que tiverem por bases as projecções da base da pyramide 
sobre os três planos coordenados, e por vértice commum 
qualquer dos vértices do triangulo da referida base, ou 
qualquer ponto tomado no plano desta. 

É evidenle que se, na equação (58), [D] representar 
uma área plana de forma qualquer, sendo (-4, fi, C) as 
projecções da mesma sobre os três planos coordenados; 
poderá generalisar-se o precedente enunciado da maneira 
seguinte: 

O cylindro, cujas bases forem áreas planas de qualquer 
íjgura, sendo uma delias dada de posição no espaço, exis- 
tindo a outra no plano que passar pela origem dos eixos 
coordenados parallelamente ao plano daquella, terá um 
volume equivalente á somma dos volumes dos três cylindros 



GEOMETRIA ANALÍTICA. 187 

formados sobre as projecções da base dada de posição, tendo 
as bases oppostas situadas em ires planos que passem por 
um mesmo ponlo tonuido no plano da base do cylindro 
projectada, parallelamente aos planos coordenados das res- 
pectivas projecções. 

Tanto este resultado como o precedente poderiam ter 
sido deduzidos coma simples applicação da trigonometria, 
uma vez conhecido o principio das projecções das áreas 
planas pela geometria elementar : todavia esses resultados 
não se apresentariam com a generalidade, que notavel- 
mente os caracterisa , sendo derivados da equação (i) , 
como acima se viu. 

Substituindo na equação (56) os valores (Ai B^ Ci) dados 
pelas equações (54) ; virá 

(57) i)..=(L-JLj^+(___)y+(JL^ 

Esta equação notável dá a conhecer immediatamente uma 
bella expressão da área do triangulo, que é a base da py- 
ramide, ahi designada por (D) ; em funcção das trcs projec- 
ções do triangulo, que é a maior das três faces da pyramide, 
sobre os planos coordenados; das três variáveis [x, y, z)' 
que representam o vértice do triangulo, cuja base é com- 
mum á referida face; e da grandeza do eixo do plano, em 
que existe o triangulo que se considera, isto é, a normal que 
representa a distancia desse plano á origem dos eixos coor- 
denados, designada por (cr). 

Se na precedente equação se Gzer(r=l ; virá 

/.-... irv /i/^"— 2V'\ fz'cc/*—x'zff\ íxfy'f—r/xf^\ 
^ Esta equação, posto que dê o valor de (D) independente- 



188 REVISTA BRAZDLEIRA. 

mente da quantidade (o-) que não entra na sua expressão, é 
todavia sujeita a duas condições; a saber: 1* que o plano 
em que se considera existir o triangulo, cuja área é repre- 
sentada por (D), está situado no espaço, na distancia da 
unidade da origem dos eixos coordenados : S"" que o ponto 
desse plano, representado pelas três coordenadas {x^ y, z), 
deve considerar-se collocado a respeito dos outros dous 
pontos representados por {x\ y\ z'), (x'\ y*\ z"), que formam 
as extremidades da base do triangulo; de modo que seja 
sempre satisfeita a condição de ser essa base commum á 
maior face da pyramide : e ficando sempre comprebendida 
na projecção desta face a projecção da distancia da origem 
das coordenadas a aquelle ponto, sobre os planos coor- 
denados. 

Esta equação resolve pois completa e elegantemente o 
problema, era que se propozer determinar a área de am 
triangulo qualquer, dada pelas coordenadas referidas aos 
vértices dos seus três ângulos, existentes em um plano de 
posição conhecida, em relação aos mesmos eixos coorde- 
nados: porquanto será sempre possivel transferir esses eixos 
parallelamente á sua primitiva situação, até que a grandeza 
do eixo do plano, dado de posição, seja igual á unidade: e 
o valor de (D] virá neste caso expresso em funcção das 
coordenadas primitivas, e das coordenadas da nova origem 
dos eixos. 



VII. 



Havemos reservado para o presente e ultimo artigo a so- 
lução de alguns importantes problemas da analyse applicada 
á geometria, de que tratam os clássicos na matéria, empre- 
gando para esse fim processos mais simples, e segundo 
pensamos mais satisfactorios. 



6fiOME¥RU AltALYTICA. 189 

1.* PROBLEMA. 

Dado um ponto [M] no espaço determinado pelas suas 
coordenadas (x, y, z) referidas a três eixos orthogonaes ; 
pede-se a determinação de cada uma destas coordenadas, em 
funcção de outras novas coordenadas [x\ y\ z\ referidas 
a outro systema de eixos orthogonaes, dado de posição em 
relação ao primitivo, e lendo com este uma origem com- 
mnm. 

Designe-se por (Ji, Yi, Z\) os ângulos comprehendidos 
por um dos novos eixos respectivamente com os eixos dos 
[x)^ dos (jf), e dos {z) do systema primitivo: e semelhan- 
temente por (J], F], Zs), (Js, Fs, Zz) os ângulos relativos aos 
dous outros eixos do novo systema. 

Solução. Ê evidente que fazendo passar pela extremidade 
da coordenada, representada por {x) e pelo ponto dado de 
posição (if), um jplano perpendicular a aquella recta, poderá 
esta ser considerada, no systema dos novos eixos, como o 
eixo do plano, cujo ponto (Af) tem por coordenadas (x', j/', z'); 
as quaes formam com o eixo do plano respectivamente os 
ângulos [Xu Xi, Js)- 

Semelhantemente as coordenadas representadas por (y, z], 
no systema primitivo, poderão ser consideradas, em o novo 
systema de eixos, como os eixos de outros dous planos que 
passam pelo mesmo ponto (iVÍ), dado pelas coordenadas 
(x', y\ í'), as quaes formam respectivamente com os refe- 
ridos eixos dos planos (j/, z) os ângulos [Yo Fj» F») {^u 

Applicando pois á cada um dos três referidos planos a 
formula, expressa na equação geral do plano, referida ao seu 
eixo, (19) IV; ter-se-ha 



190 BEVISTA BRAZTLEIRA. 

Sflj = a^ Cos. Xi-\-iJ Cos. X2 + z' Cos. J, 
y =.0:1 Cos. Y,+ y Cos. Yt -}- z' Cos. y, 
z = 7íCos. Z^ + íf Cos. Za + zf Cos. Z, 

Se coDsiderarmos agora as coordenadas (x', y\ z*) que 
representam o ponto [U) em o novo systema, coroo eixos 
dos planos, que, no systema primitivo, dâo a posição do 
mesmo ponto (M) pelas suas coordenadas (x, j/, z): ter-se-ha 
semelhantemente 

Sxf = x^ Cos.X^ + yCos. Y^ + zCos.Z, 
yf = xf Cos.Xi + y Cos. Yx+z Cos. Z, 
z' = xf Cos. Xz + yCos. Y^+z Cos. Zs 

As equações (58] resolvem pois o problema proposto: e 
as equações (59) resolvem a mesma questão com inversão dos 
dados. Ambos estes grupos de equações dependem das se- 
guintes equações de condição, para a determinação dos 
ângulos comprebendidos enlre ca^a um dos eixos de um dos 
dous systemas com os três eixos do outro, a saber: 

1 = Cos.' Ji + Cos.' Yi + Cos.' Zy 
1 «= Cos.' X2 + Cos.' Y2 + Cos.' Zr 
1 = Cos.' X, + Cos.' Y, + Cos.' Zs 

O = Cos. íi Cos. íj + Cos. Yi Cos. F, + Cos. Z, Cos, Z, 
O = Cos. Xi Cos. X, + Cos. Yi Cos. Y^ + Cos. Z» Cos. Z, 
O = Cos. Xi Cos. Xi + Cos. Yi Cos. Y^ + Cos. Zj Cos. Zi 

Por meio destas seis equações ficarão determinados seis 
dos nove ângulos que entram nas equações de cada um dos 
dous grupos: donde se conelue que um dos dous systemas 



GEOMETRIA ANALYT1CA. 191 

de eixos ficaró invariavelmente dado de posição, em relação 
ao ou Iro systeraa, todas as vezes que forem dados três ân- 
gulos dos nove, que comprehendem entre si os eixos de 
ambos os systemas : comtanto que desses três ângulos so- 
mente dous se reQram a um mesmo eixo. 

Dado qualquer dos dous grupos de equações (58), ou (59), 
6 fácil deduzir delle o outro, com o auxilio das seis equações 
de condição que o acompanham : advertindo que no caso 
de quererse passar do segundo grupo ao primeiro, será 
necessário recorrer ás seguintes equações de condição, que 
são relativas a esse grupo ; a saber: 

^f= Co$} Xi + Cos.^ X, + Cos.^ Xz 
1 = Cos.^ Y, + Cos.' }\ 4- Cos? Y, 
1 = Cos? Z, + Cos? Z, + Cos? Zj 
O = Cos. X, Cos. y, + Cos. Xi Cos. Fj + Cos. J. Cos. y, 
O «- Cos. Xi Cos. Zi + Cos. Jj Cos. Z, + Cos. X, Cos. Z» 
O = Cos. Y, Cos. Zi -f Cos. Yi Cos. Z, + Cos. Y, Cos. Z, 

Posto que os clássicos na matéria, tratando desta questão, 
eontentam-se de ordinário com a apresentação das seis 
equações de condição, com o (im de mostrar apenas a possi- 
bilidade de determinar por meio delias, mediante três ân- 
gulos conhecidos, todos os outros que entram na expressão 
de qualquer dos dous referidos grupos, não dissimularemos 
DÓS que a diíTiculdade das eliminações, na generalidade era 
qoe são dadas essas equações, tornaria summamente labo- 
riosa a determinação das quantidades variáveis que nellas 
entram, a não recorrer-se ao auxilio de convenientes trans- 
formações. No intuito de remover esse inconveniente pra- 
tico, passamos a substituir as seis referidas equações por três 
OQtras, nas quacs existem somente seis ângulos, referindo-se 
dous a dous destes, á cada um dos três eixos dos dous 



192 REVISTA BRAZILEIRA. 

systemas : pois é evidente que o terceiro angulo em cada 
uma destas combinações fica sempre conhecido, uma vez 
determinados os outros dous, pela relação constante que 
ba entre a somma dos quadrados dos cosenos respectivos e 
a unidade. 

As equações (40) art. V fazem conbecer em geral os cosenos 
dos três ângulos, formados pela perpendicular commum a 
duas rectas, que se encontram na origem dos eixos coor- 
denados, comprebendendo no espaço o angulo (TF), e por 
cada um dos três eixos coordenados. Fazendo portanto 

1F= ã nessas equações , os referidos cosenos exprimirão 

nesta bypothese os ângulos, que forma um qualquer dos três 
eixos de um systema orthogonal com os três eixos de outro 
systema primitivo da mesma natureza. 
Ter-se-ha pois 

íCos. y = Cos. a Cos. if — Cos. q> Cos b 

(*') }cos. 6 = Cos. a Cos. / — Cos. a' Cos y 

[Cos. OL == Cos. y Cos. / — Cos. / Cos y 

Neslas equações (a, o') representam os ângulos que formam 
dous dos novos eixos com o eixo dos (x) do systema pri- 
mitivo ; (6, 6) os ângulos formados respectivamente por 
esses mesmos eixos com o eixo dos (y) do systema primitivo; 
(a, 6, y) representam os ângulos formados pelo terceiro eixo 
do sjslema respectivamente com os eixos dos (x), dos (j/), e 
dos [z]. 

Substituindo pois nestas formulas as denominações qne 
competem aos respectivos ângulos, em relação ás equa- 
ções (58); virá 



GEOIt£TBU ANALYTICA. 193 

fCof. Zx — Cos. Xi Cos. Fj — Cos. J, Cos. Y^ 
(i") )^Cos. Fi = Cos. Ji Cos. Zi — Cos. J, Cos. Zi 
[Cos. Ji = Cos. Tl Cos. Zi — Cos. Yi Cos. Z, 

Ê evidente que por meio destas equações será sempre fácil 
determinar os cosenos dos três ângulos, que não exprimem 
os ângulos dados; e obter depois os restantes cosenos, que 
com os precedentes formam os coefficientes das variáveis 
nas equações (58); as quaes tem por objecto a transformação 
das coordenadas, passando de [x, y, z) para [x', y\ 2'). 

Se se tivesse de proceder inversamente, isto é, passar 
das ultimas coordenadas para as primeiras, é manifesto que 
<^s formulas (i'] teriam uma applícaçuo análoga neste caso. 

2.* PROBLEMA. 

Dadas duas linhas rectas no espaço , cuja posição seja 
determinada em relação a três eixos orthogonaes, pede-se : 
^^ a expressão da menor distancia de uma á outra : 2' a 
posição, em cada uma^ do ponto era que se verifica a menor 
distancia entre ellas; ou, por outros termos, a posição do 
plano que as corta nesses dous pontos. 

Tome-se para origem dos eixos coordenados um ponto 
9 Ualquer em uma das duas rectas dadas de posição: o de- 
•^•gne-se por (a, 6, c) os ângulos que ella forma respectiva- 
mente com os eixos dos (ar), dos (j/), e dos [z). 

Sejam semelhantemente (a', b\ c'j os ângulos formados 
P^Ia outra recta cora os referidos eixos coordenados: (p, q, r) 
^^ coordenadas dadas de um ponto (m) no espaço, por ondo 
P^ssa essa recta: e designe-se por (fx) a recta, cuja grandeza 
^Opresenta a menor distancia entre as duas rectas dadas. 

Solução. Faça-se passar pela origem O das coordenadas 
^aa recta paraUelâá outra dada, que existe no espaço: o 

13 



191 



IíIí:\1STA BRAZlLtinA. 



que é sempre possiveU umíi ve?- que aqiidli recta snlisfiç^i 
a coinlx"i<* <le fíizcr cnm os Ires eixos cnordenatlos os mesmos 
ongulus qiio com elles forma n segunda. 

Dadas pois tíc posição íluas recla*;, que se onconfram nn 
orijiem das coordenadas^ lem-se os tdemenlos precisos para 
determinar os cosenos dos Ires ângulos, que forma com oi 
eixus coordenados a perpendicular eomnium ás rpfcriihfi 
reclíis: empregundo para cs*íe fim as formulas dos n**(21, 24) 
arl. IV; a saber: [Coi, x, Cos* n, foí, y), 

Supponhase pois levantada essa perpendicular sobre a* 
referidas rectas: e iraagine-se que ura plano, pass.indo pela 
recta exUtenIe no espaço, corta essa perpendicular, for- 
mando com ella ângulos rectos em qunlquer sentido: ou pur 
outros termos, srja esse plono pardllelo ao plano das duas 
rectas qiie passam pela origem dos eixos. 

É evidenie cjue a menor distancia entre as doas rectas; 
será dada pela distancia entre esses doos planos paralleins : 
logo a parle da referida perpendicular , comprehendida 
entre estes planos» será igual á menor dtstoncia podida, e 
poderá ser por conseguinte representada por {n). 

A recta representada por (p), sendo o eixo do plano que 
passa pela recla dada existente no espaço, na qual ss acha 
o ponto (m) determinado pelas coordenadas (p, g. r), finiri 
igualmente determinada pela equação do plano referida a 
esse ponto; a saber, (19) IV 



< 



lí) 



fi «= p Cos* á-\-q Cot, Q*\'T Cos. y 



Fica assim resolvida geométrica e aQalylicamente a prU 
meira parte do problema, 

Faça-se agora passar pela perpendicular y), e pela rec!a 
dada quf*. passa por O, um plano"inderinído: e é evidente 
que conhecidos os ângulos («» í, y], poderão lambem tleier- 
minar*se os cosenos dos ângulos (»*, í', / j formadoa pelos 




CEOHEtnU A!V'ÃLYTtCA. 



195 



oisos coordenados com a normal a esse"plaoo no ponto O: 
empregando as furmulas (23, 21) arL IV. 

Si^jam (j\ íj\ z*) ns coordenadas do ponto (m*), Gxistenlô 
na oulra recla dada, pelo qual passa a perpendicuiarcom- 
miim a ambas, cuja grandeza é [p): c represeole-se por [d] 
ã distancia entre os pontos [m] e {rii% 

Hert-rindo a equação do plono, cujo eixo é (pt}, ao ponto [m'] 
qyeeii:íle nelle, ler-se-ha 

(?) fi = í' Cos. a + ij Cos. à + 5' Cos. y 

Pralicandoa mesma cousa no plano que passa pela orippra 
das coordenadas e pelo eíio (p] do plano precedenlei ter^se^ia 

{;') o = jc' Coí . «' + i <^os. â' + s' Cot. í' 

Considerando agora a'distancia [d), entre os pontos {m, m*) 
da recta dtida de posição, existente no espaço, como eixo do 
plano que passa pela menor distancia entre as duas rectas 
dadas; ter-se-ba 

1= {£~p] Co$. a* + {y*—q] Co$, 6' + (a'— r) Cos, c' 

As equações {í', í", í'*) determinarão a posição do ponto 
[ni], e por conseguinte a sua distancia (d) do outro ponto (m)p 
Wo na mesma recla ; a qual é eixo do plano que corta 
nmbas as rectas dadas, nos pontos que representam a menor 
distancia entre ellas. 

Nb conslrucçâo geométrica Qca determinado o ponto (m'J 
f*Gla intersecção du plano normal aos dous parallelos, pas* 
t^ndo por Ija). com a recta dada, que passa pelo ponto (m]* 




136 BEnsTA «ifnrmi. 

E*u «^nda farte do prc-LIeiíia é susceplivel de uma 
si!c(io n^Li s^afles. Unto gr^^hica. ciíido analytíca, mu- 
dando i!e eíiC5 eoorcrD^d:}^: como se v&i \er. 

Ar.les de operar e<ia mudança observaremos : 1* qoc c já 
conhecida a grandeza e a cireeçáo da recla que represcnti a 
menor (n^t^ncil entre as doas dadas no espaço, a qual de- 
signamos acima por y. : 2* que. dados os ângulos que 
formam as duas reptis us j^s com os eiios coordenadi><;, é 
sempre fK>ssivvI ler, expressa em funcoão desses ângulos, a 
grandeza do an^lo fonuaJo por uma Unha recla, que coi Ic 
uma d^s duas reclss dalas no espaço, em qualquer ponto, 
sendo tirada parallrhmente á culra. 

Designando por z\ esse angulo, ter-sc*ha [1] art. I. 
Cos. z = Cos. a Cos a -^ Cos. b Cos. 6' -|- Cos. c Cos. c' 

Tome-se agora pira eixo dos V a direcção da recta M; e 
para eixo dos x, aquella mesma das duas dadas, que passa 
peia origem dos eixos, c a qual é [u.] perpendicular. 

Âpplicando ao presente caso as formulas geraes da trans- 
formação das coordenadas orlhogonaes, ^j9; Probl. 1°: sejam 
[p, ij, r') as novas coordenadas do ponlo íin), referidas aos 
novos eixos coordenados; observando que tsr-se-lia r' = a. 

É evidente, que os pontos ím, m] projectados sobre o novo 
plano dos (x, ?/ ahi determinarão uma recla igual, era di- 
recção e grandeza, ao segmento [mm') da recla existente no 
espaço; visto estar esla recla era ura plano parallelo ao 
plano dos (x, y\ e dever achnr-se por conseguinte o ponlo 
(wi') na perpendicular que passa pela sua projecção no eixo 
^^s (x), ou na oulra recta dada. 

Considere-se pois ess a prcject*ão como a representa a 
^'g 4, a saber: (OX OY, OZ) representando os novos eixos 
coordenados: [mm*) a recla dada existente no espaço, cm 



GEOMETRIA ANALYTICA. 197 

iim plnnnr {nuini) pnrallelo ao plano {XOY): [n, n') as pro- 
jecções dos pontos (m, m'); sendo o primeiro destes dado 
pelas suas coordenadas (u, r/', j/j, as qiiaes são represenfadas 
níi llgura por (m«, íift, hO); c o segundo oquelle que corres- 
ponde , naquella mesma recta, á menor distancia á outra 
recta dada, e que é, na figuro, representada pelo eixo 
[OX). 

Esia constrncção faz conhecer á posição graphica do ponto 

[n] sobro uma das rectas dadas: de modo que levantando 

nesse ponto uma perpendicular á essa recta, sendo também 

DO plano que por ella passa parallelamente á outra recta 

dada , a grandeza de (u), tomada nessa perpendicular, fará 

conhecer a posição do oulro ponto nesta mesma recta; o 

qnnl ficarei também determinado pela parallela ao eixo duft 

[x] tirada do ponto (.v) do eixo dos (r), que está na distancia 

[i] da origem. 

Para determinar analyticamente a posição do ponto (u* 
sobre o eixo dos (J); designando por (rj, ji) as coordenadas 
de qualquer ponto da recta [nn')\ e observando que ella 
passa pelo ponto [n) dado de posição, pelas suas coordenadas 
iV.//j : a equação geral da linha recta, considerada n'uúi 
plano, dará 

T/i— 9' = — ígf.9(i?i— pO 

E evidente que, na constrncção dada pela fig. 4, o angulo 
\ri representará ou o angulo (0/i'n) ou o seu supplemento 
l'*'*'I): em qualquer destes dous casos terá sempre logar a 
^^uaçâo precedente. 

fazendo pois nessa equação j/i=0, Icr-seha o valor de 
W» islo é, a distancia do ponto (r*') á origpm dos eixos coor- 
J^*nados; a saber: 

^i =/>' + 7^ = 0/i + An' 



198 



REVISTA URAZILEIRA. 



3/PROBLElíA* 






Dada uma espliera da raio (It], ctijn posição no e^p^çn ó 
delerminada pelas coordenadas íf, g, h] do seu centro, refe- 
ridas a Ires eixos orlhogonaes; e sendo lambera dada uma 
linba recta qualquer, cuja posição é delerminnda pelas eoor- 
denadas («, S, y] K* '5, /) referidas a dous dos seus ponlos 
[m, m'): pede-se a delerminaçíio do ponlo da superíicie da 
e.(%pberât pelo qual passa um plano langente á mesma, e ao 
mesmo tempo pela recla dada de posição. 

SoiuçãOr Designe-sc por (j?, y, z) as coordenadas do ponto 
[m") da superficie da espbera, ern que devei-á ler logar o 
contacto do plano que passar pela recta dada [m m'): cor- 
respondendo respectiva Dl cote ás coordenadas referidas ao 
centro da espbera. ■ 

De%^endo o plano tangente, em qualquer ponlo da super- ™ 
Geie da csphera, ser perpendicular ao raio da mesma, será 
por conseguinte (R) o eixo do plano tangente que passar 
pelos três pontos {m, ru\ m*')\ e referindo a equação dessâ 
plano aos dous ponlos (m, m'); ler-se-ba, art. IV 



R = {sL^f) Cos. a + [S— Sf) Cos. b + {y—h) Coi. a 
R = y-f] Co$. a + {ô*-g) Cús- b + [y*-k) Cor. e 

Eliminando destas equaçÕ3â os ângulos [a^ b, ^), por meio 
djs o|uaçòes seguintes : 



—^ = Cos. a ; jP= t^oi. b ; — rp = Cot. c 



6 ajuntando a equação da posição do ponto (m") na supci^ 
riciã da espbera [a qual é a mesma equaçlo do n* (9) arl. I> 



GEÕHETÍIU ANALYTICA- 



109 



soppondo nelln ^ constonfc, e toma neslo caso o nome de 
i equação dfi csphera]; ler-se-ha 



I 



IP = ix-f) [x-f] + [S-g] (y-ff) + iy-h) [s-k) 

IC = [x-ff + (y-ff)» + (z-ftp 

Eslns três equnçôes delerminarão as coordenodas fa:, y, 2} 

da ponto do cunLacto do plano langante á esphera da^la ; 

Ltando expressas nas quantidades constantes , conhecidas 

pcbs condições do prol>lema ; ú saber: (fi), oe, S, y), {ix\ '5, y )* 

Obscroamo. É ftieil de prever-se que as precedentes equa- 
ções dorâo pela tdi mi nação do x e de [y] unia equação do 
2* gráo eí£ pressa em [z], da qual se tirarão para [-— /i) dous 
valores ignacs de signaes contrários; o que mostra que o 
problema proposto é siisceptivel de duas soluções: isto ó, 
lia verá dous pontos da supcrricie espherlca » em situações 
oppnstas» reliitivamente ao plano que passa pela recta dada 
do po&içâo o pelo centro da espliora ; os quaes satisfazem as 
cwdiçòes do problema. Resultando dalii haver sempre dous 
planos tangentes á csphera, cuja intersecção commum passa 
p€bs dous pontos (m, m') dados no espaço, 

4.' PROBLEMA, 



n.\Ja uma equação algébrica do l*gráo n Ires Tariavci?, 

'"dependentes entre si, determinar as condições a que 

^'^^em satisfazer as quantidades constanies que nella cnf rarn, 

P-^ta que possa idia representar um poulo qualquer de um 

í^'í*no tiado de posição no espaço , ou em uma linha recta. 

Seja dada a si^giiinte equação, sob a forma de uma funcção 

*^Qar a três variáveis (aí', y\ s'). 



SOd nsnsTA brazileira. 

(v) D = Ax' + By' + Cz' 

Comparemos csla equação com aquella qne representa o 
plano, sendo referida ao seu eixo (19) IV; a saber: 

(íi') /\^ = x' Cos. a + %J Cos. b + z' Cos. e 

Csla equação representará também a linha recta, dada do 
pnsiçno pelos ângulos (a, 6, r] formados por ella com os três 
eixos coordenados, quando ^ variar com [x\ y\ i'), de modo 
que sejam simultaneamente satisfeitas as condições se- 
guintes: 



— sr= Cos. a;^'=^Cos. b • —-^^Ccs. c; 
/\ A A 



donde resulta a s?guinte equação, que exprime uma pro- 
priedade exlensiva da linha recta considerada no espcçn; 
a saber : 

1 = Cos.^ a + Cos,^ b + Cos.^ c 

A referida equação do plano sóraenfe coincidirá com a da 
linha recta, no caso único em que as coordenadas [x\ y\ s') 
representarem um ponto commum ao plano e ao eixo deste: 
e nesta liypothese tornam-seellas nas projecções constantes 
de ^ sobre os três eixos coordenados. 

Para que a equação (u) soja comparável á equação do 
plano (u'), convém em geral transformai a em outra equi- 
valente, de modo que a constante que substituir a (D) no 
primeiro membro represente uma linha recta : o que os 



GEOVETATA ANALYnCA. SOI 

coeflicientes constantes das três variáveis que nella entrara 
possam representar funcções circulares da mesma nalurez» 
daquellas, que entram na equação (u']; isto é, que nunca 
excedam a unidade.- 

Para esse fím muliiplique-se a equação (ti) por [h] depois 
de dividir ambos os seus membros por [D) : representando 
(A) uma linba recta, cuja grandeza deve satisfazer ás condi- 
ções precedentes: e ter-se-ha 



ft«ift.^a' + A.-^y'+/i.2j^' 



e 



Faça-se agora 



À fí f 

ft g «" Cos. a; h. ^ = Cos. b; h. ^ = Cos. c 



Elevando ao quadrado ambos os membros destas três 
^Uações, e sommando-as, virá 



D* 



A^^B' + C' 



Determinada assim a grandeza de (h), substílue-se o seu 
^'^íor tirado, desta equação nas precedentes, afim de ler os 
flores, que competem a [Cos. a, Cos. b, Cos. c) : e a equação 
^^i Qcará transformada na seguinte equação do plano. 

ft — ác' Cos. a + j/' Cos. 6 + s' Cos. c 

Se na equação proposta (u) faltasse a constante ahi repre- 
^^ Alada por (D), tomando a equação a seguinte forma. 



^^ i;]yt«4«a»2ii». j«B 'TK^ tw i a iM si^ ■■■• a «■■ Bormal 
l^»^g<( !«!*>. «Ac» a •^mi «Blín o cá* de «miro pbno 
q^ | wtr far^kto áiÇKâe. 

t|>si« k«f(vlk«9« tMim • vaiar do fartor indeterminado 



fc» 




1/^5 -. fp -- C* 

C/)mv!*remfts agora a eqaação 'h' com a do plano, sob a 
fórma '21,'- **^ ^' • equação referida aos traços do plano 
dado no wpaço, sobre dous qoaesquer dos planos coorde- 
nados; 8 saber: 

|yff) i> = lxf + mij + n 

Dando á equação (u) o fórma da precedente, virá 

* = c c^ c 

Representando [l. w], no eqnnçno (u"), as tangentes dos 
an<THlos formados pelos traços do pinno a que ella se refere, 
respeclivoroente com os eixos dos (a), e dos [y] ; é evidente 
que poderão sempre i«-unlar-so as quantidades constantes, 
que enlrom na precedente equação, ás que occupam logarse- 



GEOUETRU ANALTTICA. 203 

mclhanfe na equnção normal (u") : por quanto estas nâo 
tem limite algum do grandeza; a saber: 



A n D 



No caso de faltar a constante (D] na equnção (ti), tomará 
cila uma qualquer das duas seguintes formas ; a saber : 






adro de serem comparáveis is equações normacs nesta by- 
polbese, a saber, [ih] art. ÍV : 






Na primeira destas equações (i4| Bx] representam as tan- 
gentes dos ângulos formados pelas projecções da normal ao 
plano, na origem das coordenadas, com o eixo dos (z), nos 
planos coordenados dos (x, x) e dos (y, z): e na segunda (/i, mi) 
representam as tangentes dos ângulos formados pelos traços 
do plano passando pela origem das coordenadas , com os 
eixos dos [x] e dos (y), respeclivomcnto nos planos coorde- 
nados dos (x, z) 6 dos (y, z). A relação entre uma o outras 
tangentes é dada pelas equações seguintes : 

^i = — /i; Bi = — mi 



SOi REriST\ BRAZILCntA. 

Convém portanto na equação proposta fazer 






OU 



A , Ji 



Determinndos ossim os valores dos cocíTicienles nnrmncs 
das coordenadas (x', xf] na equação proposta, ficará cila per- 
tencendo a um plano que passa pela origem dos eixos coor- 
denados. 

Observarão. Traiamos desta questão com especialidade, 
afim de hera caracterisur as duas differcntes formas da 
equação do plano ; e unicamente no interesse dos princi- 
piantes, os quaes de ordinário não a$ dis;:riminara peifeila- 
mente. 

E é ainda no interesse dos mesmos quo pomos remato 
a este nosso trabalho, deduzindo, por uma construcçâo geo- 
métrica simples, c mfiitocompreliensivel, as duas equações 
do plano (19, '21) art. IV, as quaes derivamos nós da equação 
geral ao angulo plano, dado no espaço; afim de mais forli- 
ticar-lheso espirito na perfeita inlelligencia deste ponto, quo 
édesumma importância na analyse applicada. E' o objecto 
do seguinte problema. 



5.* PROBLEMA. 



Dado um plano, cuja posição é determinada no espaço 
pelos traços nos planos que passam pelos eixos orthogonaes 
(OX, OY, OZ], fig. 5, corta ndo-os nos pontos (/. m, n) : pe- 
de-se uma equação entre as coordenadas [x\ yf, z') de um 
ponto qualquer [s) tomado nesse plano. 



GEOMETRIA ANALYTICA. 205 

Pelo p.inio [n] cm qtic o plano encontra o eixo dos (j), e 
pelo ponto {.<) tomado no plano, tire-se a recta [nsp]; e tirada 
a recto Op lirem-sc (st) parallela a [Oz]; [ré], [pq] parallelas a 
[Oin]. E' evidente que o plano [nOp)^ que passa por (x), é 
pcriKíndicular ao plano [XOY). 

l)esigne-se por (x', y\ i') as coordenadas [Oc], [cr), [rs) do 
ponto [s] : por (/, m) os tangentes dos ângulos externos for- 
mados pelos IraçDS (///), (nm). respectivamente com o eixo 
dos [j] e dos [y] : e por (n) a distancia em que o plano dado 
encontra o eixo dos [z], contada da origem deste eixo, 

Ter-se-ha, pela semelhança dos triângulos [nOp], [srp] 

Up op \ OpJ 

Pondo nesta equação (z, n) em logardo (sr, On), virá 

A semelhança dos triângulos [Oer], [Oqp] dá 

Or Oe cr 

Op" Õq" qp 

Os triângulos semelhantes [Iqp], [lOw], dão 

10 Om 
Pondo nesta cquoção [10 -Oq] em iogar de [Jq); virá 

1-22 a. SL 
10 "^ Oh» 



S36 REVISTA BRAZILEIRA. 

Multiplicando ngora o primeiro membro desta cqiiAção 
por ( A* ) ; o primeiro termo do segundo membro por í — j ; 

c o outro Icrmo por í — j , por serem quantidades i^uios; 



ter-se-ha 






Oá triângulos rectângulos [nOI\, [nOm], dão 

On n 



10 = 



Oin = 



tg. [OlTi] l 

On ^ _ n 

tg. (Omn) m 



FazenJosc as devidas subslituições nas equações D o A, 
ter-sc-ha íinulmenlo 

[C] j2r = /x + my + n 

Esta equação é, como se vè, a mesma que bavemos dedu- 
zido no art. iV, partindo do dados geométricos mui remo- 
tos. 

Passemos agora a deduzir da mesma construcção, repre- 
sentada na flg. 5, a equação do plano referida ao seu eixo. 

Do ponto O, origem dos eixos coordenados, imagine-so 
uma perpendicular tirada sobre o plano , a qual designare- 
nios por ^; e por (a, 6, c,) os ângulos que ella forma res- 
pectivamente com os eixos dos (x), dos [ij), edos (z); e por 
(^i » J/l I '^i) &s suas projecções sobre os três eixos. Imagine- 
se também que a perpendicular ^ é projectada sobre os 



GEOMETRIA ANALÍTICA. 207 

planos lios (x, z], o dos (y, z]\ c designc-so por [A, B] as 
t.'in;;cntes ilis ângulos formados rcspectivaiu3nto por essas 
prtijccçòcs com o eixo dos [z]. 

O |dano considerado no espaço c o plano dos (x, z) são cvi- 
dcnieniente perpendiculares no plano quo passa pela per- 
pendicular /\, e pela sua projecção sobro o segundo daquel- 
les planos : ii»go a intersecção commum daquelles planos, ou 
o Iraço do primeiro, ó lambem perpendicular á direcção da 
referida projecção. Donde se concluo que o angulo formado 
por esta recta com o eixo dos [z] c igual ao angulo inlerno 
formado pelo traço do plano com o eixo dos (x] ; sendo 
ambos agudos: e quo por conseguinte a tangenlo do 
primeiro será igual a tangente negativa do suppleuienlo do 
segundo ; a saber : 

i = -l 

Discorrendo do mesmo modo relativamente ao plano dos 
(y, :], ter-se-ha semelhantemente 

B=s^m 

Por outra parte as equações das duas projecções do /^, re- 
feridas ao eixo dos (z), dão 

Xt^Azx 

Tem-se lambem entre ^ c as suas projecções (X| , yi, xj 
•s equações seguintes : 

0-1 — /^ Ca. a 
yj «ST ^ Co$. b 



808 BEVISTA BRAZILEIRA. 

Es(as trcs equações, combinadas com as duas precedentes, 
dão 

Xx Cos. a . , 

- = 7; S»^ M— ./ 

J/l Cox. b „ 
Si tos. c 



A linha recla que nciraa designamos por [n] é bypolhe- 
nusa do triangulo rectângulo que tem o lado /\ adjacenlo 
ao angulo (r) : donde se tira por conseguinlo 

/\^=znCos. c 

Substituindo na equação [C) os valores de (/, m, n) tirados 
das precedentes equações, ler-se-ha 



(D) /\ = ocl Cos. a + y' Cos. 6 + 2' Cos. c 

£' a mesma equação do plano, achada no art. IV. 
Ás equações C e D podem ser comprehendidas em uma 
só equação, da seguinte forma :- 



i^ '-l + l + é 



Nesta equação as quantidades -4, B, C representam respec- 
tivamente as distancias em que o plano dado no espaço en- 
contra os três eixos coordenados. 

Representando por (^) a grandeza da perpendicular 
abaixada da origem das coordenadas sobre o plano ; e por 



fhmm^inã Anal^a 



1? Estampa 



Pi^.(l) 




ii^.(Tíox)=aAn^. (ifoY)=is An^. (NOz)=y 




Fi^. (2) 



i 



\ 



CEOMEinU ANALYTia. ZCRÍ 

(t, /), r] OS ângulos fornindos resp3Cti varo ente por essa por« 
penJicuIar com os trcs eixos; ter-se-ba 

1 

Icos. e « ^ 



(C C\ 

pelas tangentes representadas por ( — /), { — m); virá a equa- 
çào((:). 

Eliminando na equação [E] as quantidades {A^ D, C) por 
moio dai equações (£'), ler-sc-ba a equação (£))• 



rd^ de /aiieiro, 2 de oatobro de iS^O. 

C Qapxista D'Oursiaju 



14 



BOTÂNICA 



ARTOGABPEA. 

SOARESIA nítida — SPEC. GEN. QUE NOVUM. 



NOMEN TRIVIALE : OITI, SIVE OITI-CICA. 

DIOEGIA. 

Arbores cum celsioribus aemulantes; trunco cylindra- 
ceo, inferne 3-4 pedalis diametri, 40 pedes et amplius al« 
tiludinis ; coroa dense foliosa; cortice extus cinereo-ni- 
grescentr, irregulariter rimoso, vastis lenticellis transver- 
sis asperato, lactis albi, spissi, innoxií pleno; ligno denso» 
ponderoso, dúrabilí, coloris lateo-fuscati. Rami nascen- 
tes subgeniculati, epidermide brunea glabra vestiti. Gem- 
mae, lente observatae, puberulae. 

Folia alterna disticha, plus minus incurvata, in másculo 
2 - 2 T poli. longa , pollicem pene lata , in foemina am- 
pliora; petiolis 3-4 linearibus, antice canaliculatís sus- 
tenta, ovato-oblongata, basi rotundata, . ápice acuminata, 
ambitu integra, glabra, superne saturate viridia, nítida, 
inferne albiora, nervo médio dorso prominenti, lutescenti, 
costis vix apparenlibus, parallelis, fere tranversis. StipuI» 
squamaeformes , fugaces. 

Flores perexigui, perfecte unisexuales, e peractorum fo- - 
liorum cicatricubus prodeuntes. Maris ramiflorigeri 1-í^ 



om-cicA. 



211 



pollicaresp leauUer ptibesceotes, leviler geniculali, geuicu- 
lis bracteis munlliâ, e quarum singularum axillis recepta- 
cob aroenlitbrmift, gemino enascuntur. Iteceptacula cyliii- 
dracea 1^-2 poli. looga, bnsi parva porlione oodata » 
cselcro faeiebuá duabus, DpposilÍ3, convexis, slauiinifera/ 
Stamitia numerosa^ solilaria, teguinentis deâtituta f),fossu- 
lis receptaculi inserta. Inter squaiuas pe) talas rainulissí- 
ma§, margine tlmbriatas emergentia: Qlainentiâ brevíbus, 
oiilheris bíiocularibus, subJidymis, loculis oppositis, loa- 
giludiDaliter dehiscenlibiis: polline lenuissimo, 

FcBminíç rami Horigeri ut in niare. Flores e singuloe bra- 
cieiB axilla exeunt geminatini; obque mutuum curvamen 
pedícelloruai parutn irregulares. PediceUi lineares, ápice 
bracteolis qiialar , subpeltatia, squaiuoe forraibas, crucia- 
tiro opposilis, cupulam siruulanlibus munili, Perigonium 
herbaceutn» raonopliyllum, conicum^ apicc poro Qmbrialo 
dpertum, ovarium lotum obtegens* Ovarium uniloeutare» 
ovulum singuhíiti, auãiropurn, latere appeosum continens; 
•pioe lilierum cum siilo conlinualuui, c;ietero cum perigo- 
010 euuUatum : slilo brevi, in cruscula duo , ineequalia, 
iolti^ slígmatosa diviso, per aperturam perigo nii exerto. 

Drupa ovuui columbinum roagoiludine, et forma refe- 
feiís, glabra, líevis, lutea, basi bracteis peduoculi sutTulta, 
apiculu ovaríi poroque perigonii in ^uuimo notala: pulpa 
externa amylacea, fere insípida valde lactescenti, preeser- 
liin a perigonio coustituta: endocarpio membranaeeo. Sé- 
men luagnum, quasi «phericum: epispermio tenuissimoj 
sttblacido; rliaplie chalaíiique reliculato-sparsis, Erabryo 
Blbumtiié deêiiiutusp rectus; colyledonibu^i crassis» plano- 
coiivexÍ!>, inter se ísqualilius , coloris totense viridis / 
Ucte farclis; radieulu brevissima, cónica, apicem fruclus 
jípectanli; gemmula, mininia» dipbylla, 



^ Ar rtfQ perlgODla fnonaadra, iiitrr se eoliereiítla, aqaainb pettatb ettOJi 
reccptmiia tegaitt? Itaque eadem íàbikã tlufllius uuluwiac âexui T 



21? BCTEIA WiTliriBâ. 

H» arbores inter ni» no menotor, quisb^iZss vocamns. 
In ProTÍncia RàO de Jattiro saiis obviae in locís tam monto-' 
lis. qoani depressis: mensibos híemis no$trs folia magna 
ii parte deponont. nonqoam tamen penitus nmlanlur. 
0.'tubre flores emitlont; mataratis Martio fractibus. Mate- 
ríes eamm densa et dorabins, ot snpra dtiimos, construc- 
tJonibas naTalibos, civllibusqoe eiquisita prodest, supe^ 
rans eliam alias moitas qoia Terminibus non aflicitur. 

Q:ioad caracteres genéricos ad Brosimom accedit, scd fa« 
men ab illo distat, roaiime fniclibas omnino distínctis. em-' 
bryonisque forma. I leoqoe typum novi genéris mihi consli- 
tuere booo jure Tidetiir : illudque in memoriam Gahriã 
Soofff propono, Culoni Lusilani. qui aliqiiotannis in Bra« 
silia viiit, terne cullurfi deditos, et historiam satis am-* 
piam rerum nostrarum tam civiliura, quam naturalium' 
composuit. 

1(7 dié'jii]u i»i. 

Franxsco Freiu áulemIo . 



xuii*aa. .213 



ExpUcalio iconis. 

jRgora 1* — Bamus, niagnit. nat*, cum íloribus masculU. 
» 2* — Ramus foemineus, cum fructibus perfeclís « 
mag. nal. 

» 3* — Amenlum stamíniforum, mag. nat. 
t'' (a] Squama peltata. 

i(b) Stameo • 
^ » 4* — Ramus novellus, cum stipulis. 
rt^' » 5* — Ramus florigerus foemineus, mag. nat. 

f 6' — Flqs |[<q8mineus, a|i^.ctus . 

ÍN » 7*. — Idem ante fecundatíopem, longitudui. spcttjs, 
u OTuluineibibcns. 

Pjff -8* — Fructus longítud. scctus. 
ri O' — Semcn. 

» 10' — Embryo. 

11*— Idem, separalis cotyledonibus , u( çorculi 
partes vidcantur. 



r 



HALIGOLOGIA. 



O VAGINULUS RECLUSUS. 



Ha seis annos que o nosso consócio o Sr. Ignacio los^ 
Malta me remetteu ura gorao de taquaruçú , tendo et^ 
sua cavidade alguns molluscos, por lhe parecer o caso cU'' 
rioso e digno de estudo. E' o que boje serve de objecta 
a esta pequena memoria. 

O gomo tinha o vão de três palmos em extensão Iqpg*" 
tudinal, e de duas polegadas em diâmetro, contendo cert* 
quantidade de agua ; e estava furado em dous logarês, %h^^ 
o furo maior do tamanho' que se representa em (a) fig. *?*' 
Dentro estavam dous molluscos da forma e grandeza ({^^ 
mostram as fig. 1* e 2* ; e de mais um cordão de ovos ^^ 
quasi um palmo de comprimento, com 23 ovos, deg(5^ 
mas araarelladas, arredondadas ou ligeiramente ovad^^ 
e por meio da substancia albuminosa collados uns ^^ 
outros em fileira. 

Duas questões se offerecem aqui naturalmente, cuia ^^ 
lução não pôde deixar de ter alguma importância scientifiC^ ^ 
elias dizem respeito á maneira de viver destes anima^^ 

A primeira é : Como e quando entraram estes mollusc^ ^ 
para a sua reclusão ? Provavelmente o fizeram ainda recec^^ 
nascidos, e aproveitando-se dos buracos feitos por outr^^ 
animaes. Esta éuma explicação obvia, mas conjectural;^^ 
entanto o caso parece digno de ser averiguado. A essa qu^^ 



VAGINULUS RECLUSUS< 215 

lin eslá subordinada est' outra ; Será o taquaroçá o logar de 
fifeoda privíitiva dósles aniinaes, ou podem elles habitar 
em outra parte fora dalli 7 

Tenho feito diligencias para descobrir alguma cousa a 
este respeito, já pedindo informações a pessoas cu r tosas « 
já observando por mira, fazendo cortar e abrir em minha 
presença canudos de taquaroçá quando os vou eocontrando 
petos inattos; mas infelizmente, ate agora, nada tenho visto 
nem ouvido que me possa esclarecer, ou guiar-me na ia- 
vesligaçSo deste olíjeclo, 

A segunda questão é : De que se sustentam aUi estes ani- 
tnaes ? Os raraeóes terrestres e puhnoniferos, com os quaes 
elles lem as mais estreitas aíTin idades, nulrem-se de folhas, 
de fructos, de cogumelos, etc, ; ora, no interior dos gomos 
do laquariiçú não vemos senão agua e ar. Esta agua é se- 
guramente uma exhalaçao própria do VPgelaL Trará ella 
eornsigo algum principio nutriente ? Gerar se-hão ahi ani- 
tnalculos iufusorios, atgas ou cogumelos? E dado o caso que 
t$so aconteça (o que só a analyse chimica e microscópica po- 
derá mostrar) será esse alimento suf&ciente ?Emfim, estarSo 
ahi estes molluscos á mercê de alguns vermes ou insectos, 
que casualmente penetrem em sua clausura? 

lia aqui matéria para meditação e curiosas indagações, 
Fiço-as quem se achar em melhores circumstancias do 
que eu. 

Agora passo a occupar-me da descripçSo e classificação 
loologica destes moUuscoi, que foi o que principalmente 
me induziu a apresentar este Irabalho. 

Pertencem elles ao género Vdfjinulm.e são, quanto a mim, 
de uma espécie ainda nâo descripta, e que eu denomino 
Yogimdus reclmu$. O género Faj/mu/íw deFérussac tem sido 
contestado, o Blainville o incorporou no Onchidium rle Bu- 
chanan, em o seu Manual de Malacologia. 

Uãs Ctivier na edição de 1829 do seu Reino animal 



2i6 hevista brazileira. 

conserva o .género Vaginulus dislincto do Onchidium^ e c a 
esta opinião que me encosto. O nome cspeci Pico r(rc/usu5.« 
que proponho para esta espécie ( se ella 6, como cu 
acredito , nova ), me pareceu bem apropriado. E quando 
mesmo se venha depois a veriQcar que esla espécie possa 
.habitar fora do logar em que foi encontrada, julgo qnp 
basta o facto de ser descoberta alli para legitimar o epi- 
tbeto que lhe dou. 

DESCBIPrlO ABRETIADA 

DO VAGINULUS HECLUSUS. 

Corpus oblongum, depressum, 5 poHiccs longum, imnm 
latum, dorso convexum. Velum latera et caput cxcedcns 
.marginansque ; postiço introversus incisum ; colore taba- 
cino, médio dorso, et ad margines obscurioro, depinctum ; 
arenaceis, nigrisque punctis inspersum. Discus venlralis 
quam velum anguslior, antice brevior, postice, ob veli 
emarginaturam, longior. Caput sub marginem veli rccondi- 
lum»tentaculis qualor retractilibus munilum, quorum duo 
superiora maiora, ad apicem versus dorsum, oculifera, duo 
latcralia minora ad extremitntes subbifida : os, serrula cart> 
Inginea, lunulata superno armatum. Apertura ani, piilmo- 
nisque anguliformis, extremo postiço ad dexlram posila. 
OriBciumgenitale foomineum media et dextra parto corporis 
localum. 

Ovula subrotunda, numerosa, ope albuminis in soriem 
aggiutinnfa. 

In cavis internodiorum bambaccB, quíe ab incolis taquarL-' 
ftt nominatur, habitat. 

Rio de Janeiro 1 2 de Setembro do 1 85 1 . 

Francisco Freire Állcmão. 



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TAGIMJLUS RECLU3US. 217 

Erpllcatio iconis. 

-Animal, dorso visum, mngniluil, nat. 
-Idem, invcrsura. 

(n) cnput. 

(li) tenlacula minora. 

((•) tenlacula maiora. 

(d) apcrlura ani et pnlmonis. 

(e) orificium genilalo foemincum. 
-Tentaculum ocnliferum, nuctum. 
-Tenlaculum minus, biQdus. 

-Os. 

(o) serrula carlilaginoa. 
-Ovula. 
-Par intornodii bambiisop. 

(a) oiilicium a vermibus faclum. 



AGRICULTURA. 



fragmentos do relatório dos comiissarios brazileolos 
a' exposição universal de paris em 1855. 

Foi a exposição neste ramo concorrida em grande es- 
cala por quasi todas as nações da terra , que se esmera- 
ram em fazer apparecer a agricultura em todos os estados, 
desde o seu berço até o desenvolvimento mais con^pleto, 
desde a simples lavoura dos indígenas mais atrazados das 
florestas americanas, africanas e asiáticas, em que a na- 
tureza se incumbe de auxilial-os, até esse maravilhoso appa- 
rato de machinas de toda espécie com que o homem ci- 
vilisado centuplica a força de seus braços, e auxiliado pelas 
não menos admiráveis descobertas da chimica arranca os 
meios da sua subsistência a uma natureza, que cansada 
parece obstinadamente querer negar-lh*os. 

Nós não daremos uma descripção completa desses appa- 
relhos de lavoura quea practica já declarou vantajosos, nem 
apresentaremos muitos detalhes sobre o modo por que func- 
cionam, pois entendemos que por ora será inútil rocom- 
mendal-os, por não termos ainda no nosso paiz queoi os 
applique, nem sabermos ainda quaes as circumstancias lo- 
ca es que nos possam obrigar a modificar essa applicação. 

Examinaremos portanto quaes os defeitos de nossa agri- 
cultura, e indicaremos depois os meios mais efEcazes de 
os remover. Seja-nos permittido entretanto observar que^ 



AGRICULTURA . 



219 



iftirabalho que apresentamos não é invenção nem tlieoria 
[)ssa: as idéas que expendemos sao era grande parte resul- 
tados da practica colhidos era paizes em eireunistancias se 
|Ío idêntica s> ao menos mnlto sem elli antes ás nossas» como 
ejam as colónias Hnllandezaâ, Inglezas e Francezas, e os Es- 
tados do Sal da Confedeiaçao norte-americana. 

' Encontrámos em Paris os commissarios de todos esses 
logares, que com a maior boa vontade nos forneceram 
dados de que careciamus para este nosso trabalho, e 
'mostraram -se sempre dispostos a nos ouvir quando pe- 
dia mos informações sobre a marcba da lavoura nos seus 
respectivos paizes, o os revezes que esta soíTreu antes de 

legar ao seu desenvolvimento actuab De tudo quanto 

^BÍB modo pudemos colher Ikemos um lodo , evitando 
longas ei Ia eõeSt repelíecies, eíc^jC se alguma idéa fôraprovei- 

|da a bem do nosso paiz, será isso para nós a mais agradável 

^compensa a que aspiramos. 

Se estudamos a marcba da nossd lavoura desde o seu 
jmeço, conhecemos depressa que na maior parte de seus 
imos ella ficou completamente estacionaria: os primeiros 
tisadores encon Iraram terreno inteiramente virgem , 
luzindo em qualquer logar com fartura tudo quanto nelle 
plantifivam, e por isso viram logo quanto era desnecessário 
«dubal^o, etc-, como o faziam na terra pátria. Accresce a isto 
o diminuto custo dos braços escravos, que formavam um ca- 
pital depressa amortizado, e que com 25 °í^ de seu troballio 
se sustentavam, lic»ndo portanto 75 "/^de serviço para ospro- 
;>rietflrios como rendimenlo esponlaneo, o sem o menor 
iforço. Debaixo destas circumstaneias é muito natural que 
linguem se impor lasse cora os melli oram en tos da lavoura» 
ficasse firmada uma rotina, que depressa fazia esquecer as 
radicões a quem vinha se estabelecer nesta abençoada 
&rra do BraziK Ainda outra circumstancia actuava e fazia 
ím que nào so desse o máximo desenvolvin\ento à lavoura: 



-220 BEVISTA BHVZIIXIRA. 

O mcrcfido da coloniji do Brnyil cfíi a mu! patrui,^ im* 



portnei 



ftiUa 



mú era leila na qiiasi Ininlidnile do reino, c por isso 
inulil ora ougmonlar a produccio. 

Hojo liulo sft Oííha mudado: na vixinhãnçíi cias grandíi*! 
cidiules eslao os leirenos cans.'\dos, e nno proiluzein ás 
vrzos nem a semente que se Ihescunfiíi. Os braços (\m>Í 
graluilos d esnp parece rom, o osernvo representa iitn caiiiiiii 
muito noíavel, que nugmento cada vez fiíje uma nova epi- ^ 
dciiiia vem causar se tis cí^l rogos, O nosso nicrcnílo niío é ■ 
mais tini pequeno ponto da Europa, que comprava c vtn- 
Ah nossos produclos a tiel «prazer, ó sim a ^Eorona in- 
teira fi a America; não ó a pequena esquadra mcreanto 
de uma nação que vem importar os produotos nianufacln* 
reiros que necessitamos, raas sim os navios de lodo uninoJo 
civilísado. 

Tudo isto nos obriga a olhar scri amento para a nassn agri- 
cultura ■ se não n lízcrmo;, brovemcnlD importa romos 
alimento da nossa classe baixa« o feijão, a farinlia c a carne 
sécca dos Estados-Unidos; de li jú recebemos o toucinho ca 
banha mais barata do que a produzida na torra, nOí«la 
terra que produz quasi espontaneamente tanta espécie do 
planta luherosa, o eom tal abundância que se poderia. criar 
porcos para abastecer o mundo inteiro I Já nâo é peqtieno 
contra si^nso o pagarmos a carne fresca pelo mesmo preço qno 
nos paizes onde mais da metade do anno o gado vivecn* 
curralado, sustentado com os productos da lavoura da outra 
metade» nós que vivemos em palz onde o gado se re|>raif u3t 
o vive lodo o onno no campo I até queijo o mauteígi impor- 
tamosdo estrangeiro 1 O quanto ganhariamos com n expor- 
Inção deste género se aprecia suííjcientemenlc lemliratiílõ 
que a Lombardia, quo caíjc um par de vezes na nossa pro* 
vinda do Bio do Janeiro, por si s6 produz cm artigo qu^ijii 
cinnunlmentc cerca do Í(>,OOD contos, quo são peli mofar 
pai te expor^doszó a quinti parte dj nosia pro ju^^ao d^ café * j 



ACRlCÍltfunA» 2H 

Na proiluceno de súãã (tio qiis t rali remos era arliga D5pc- 
ciol) somos nmlíi; n0 entretanto n Europii importa liuje 
ptira cimn \ie 100,00') conloíí! vjÍ hiHcil a Alé ni Chinn, pi- 
gnnJu um frcl*í ihiplo e riic>iiiu irijjla ílaquL^Uc que pngariti 
»e n imporlnsso do Bra7.iI, quo poderia protíii/JI-a com 
grnOíle abunítancia, Eiíciii|>lns senielluintes nimln se pode* 
rizitn eí lar muitos, e sempre com o mesmo resu liado. 

Nus clamamos eonlra n fnlíride braços de um Indo, doDulro 

pedimos vias doconimunicaçio, cuslc o que ciislar, para qiio 

os brtiços que possam vir tenliam laiiibeTii para onde mandar 

õ restiliado de^eus e^fureos. Tudo isto o bcmcalculad k n:lo 

lia duviíta; ms^ se nâo procurarmos miid ir o naiso systt?ma 

de agiiciillura, e se o mio fixcrmus com Ioda a energli, acre- 

ditiiiiios quo as nossas cstradafi de Terni, em vez de nos serem 

uteis, vi'iiõaser prejudiciaes. Em turno da no^sa ca pilai 

nâo vemos senSo collinas ci)berlas de capoeiras; os seus 

ma ti 03 primitivos desapparecernm, e lambem as lavourns 

que ^e Ibes sub^tiluirom : litíju eshí o terreno exlinuslo o im- 

proiluclívo, cqnemquer bonHCollieilas^ai para longe procu* 

nir terrenos virgens. Os aifesacs proxirnns á betra-mar, quo 

sintlii Itn vínle annos ernm rendosos, lioje esslâo desprezados^ 

o nao crescem ouiros ; só serra acima é qnc a producção 

é c%eelJGnte« mas no Qm da alguns annos landjoin lú será 

preciso ubandonar o solo cansado para Ijiiscar uma zona 

fúrlil ninis afuslaila, o que fará cora í|ue as cslradíis lenha m 

do olmvessar muilas léguas de terras era descanso para sâ 

lin sua extremidade encontrar carga c ligar confros de |>o- 

pulaçâo, os qtiaes licaràô |H>r sua vez doserlo? quando uma 

cí^trndn de ferro passar além, e clles deixarem de ser os 

empórios de uma zona cultivada, S6 com o mellmramenlo 

*í^ lavoura poderemos c vi lar qus as estradas so lurnum 

°*'* iíislrumenlo de devastação» 

ffn Europa o mesmo terreno que foi uma vez cultivado, 
(^^^Uu£ tudus 0% aouoi uma coita quanltdudu do planta; 




â^â REVISTA BRAZILEIRA* 

a necessidade obriga a isso, e a experiência, actividaile e 
seiencia do homem impedem que elle fique cansado. 

Fazemos nós outro ta o to ? cultiva mos ioilos os annus a 
mesmo pedaço de terra ? Não. 

Passemos pois a examinar o nosso syslema de lavoura para 
poder apontar os seus defeitos* Começamos por gastar um ca- 
pital comderrubar matlos virgens, cobrimos deste modo uma 
porção de terreno com folhas e galhada miúda, que pelo $en 
npodrecimento produziriam uma camada humifera conside- 
rável, e lodos os saes alcalinos Scariam nessa camada* Espe- 
rar porém que essa decomposição se faça, e limpar a hérva 
quo começa a brotar com vigor, é muito trabalhoso ; igual- 
mente o é tirar os páos a que nenhuvji destino podemos dar, 
e arrancar os tocos e raizes, para cujo íim ainda não chega- 
ram anos as machinas; e em falta delias simpliíieamos o pro- 
cesso atacando fogo, que consome a folhagem sécca e galha- 
da, desprende os sacs alcalinos que suo levados na maior parte 
pela primeira clmva, losta a camada do liuuio existente, e 
deixa ainda pelo menos 30 7^ da superíicie derribada co- 
berta de troncos e raízes^ que diíHcuUain a plantação e mais 
tarde a colheita. Durante 3 a 4 annos seguidos p6de-se plantar 
nesse terreno» alé que emtim é porém preciso abandonal-o 
para que cresça novo niattOj e só depois de coberto de ca- 
poeira bem densa presla-se á re|}etiçâo do processo* Ora, no 
iim desse tempo deve estar amottizado o capital empregado 
e seus juros, porque é necessário que seja agora occupado 
de novo e da mesma maneira, quando esse seguudo dispên- 
dio seria bem sulHciente para pagar as despezas que se fariam 
com remover toeus e arrancar raízes, o que daria a vaplagem 
que o solo assim preparado oflereceria: 1" um terço mais de 
producção por cau^a do espaço economisado; 2* se prestarta 
ao arado e mais apparelhos de lavoura; 3" produziria colhmlas 
boas pelo menos duranta o lempo duplo, sem haver neceèsi^ 
dade de adubaI*o. O melbodo de plantação é também muita 



AfíniCULTUaA. 



223 



aoti-eeonomico: em uma cova feita com t eniada é plantada 
a semente; a nova plaola germina bem, mas no seu desen- 
volvimeulíi posterior as raízes enconlram um solo duro ere- 
5istenle« de modo que não (iodem penetrar profundamcntei 
e tem qtie se contentar do alimonto que lhes oOerece uma 
camada superítcíal. 

Eiíse alimento só basta para poucas culturas successivas, e 
exigo que nâo bnja longa sêccíi. Ora, as experiências compa- 
TOlívãs lem provado que um arado com uma junta de bois e 
dons bomeas faz o serviço de 20 a 50 enxadas, fazen- 
do Ifãbalho ás vetes que para estas équasi in6xequivel,como 
peeja o revolvera terra até a profundidade de quatro palmos, o 
quo^ iiegundo a praclica moslra diariamente» é lioje necessá- 
rio» principalmente p^-vra terrenos cultivados pela priroeira 
Tez: 1* porque torna a terra permeável para a humidade 
otmospherica; 2° estando ella fofa émais susceptivel de ab- 
sorver acido carbónico e ammonia do ar e dos aduboD, 3' 
periBítte As roizes de penetrar até onde a sècca não lhe$ 
p4'ide tirar o alimento (as ramificações capillares da raiz do 
trigo penetram a maií* de seis palmos de profundidade); 4" 
a camada inferior, quê pelo revolver foi trazida á superficiei 
íicíi exposta k acção dos agentes almosphericos, que a de- 
oompòem, e produzem assim durante muito tempo saes ne- 
cessários á vegetação: além dissa ainda se consegue com 
mais faciUdade um sulco direito com arado, do qu.e as co- 
vas enfileiradas com eniada, o quo facilita as limpas, o 
capinar por meio de macbinas, o chegara terra ás plantas 
taiubein por meio de arados próprios, o que se torna em ex- 
Ire^mo vantajoso para canna, milho, mandioca, etc», permit- 
ttodo ainda empregar na colheita as machinas. 

Nao ó porém só do emprego de processos mecânicos que 
depende o melhoramento do terreno^ e estes reduzirem o 
tralialho de btaçon a pelo menos -*- : admittamos folia de 
Ijoa direcção, e suppouhamos que seja preciso | ; se- 



224 



IIE\15TA ÔRAZTLEinA* 



gue-se que uma Dizcnílsi quehnje preci^n de 130 trabnllia- 
tÍDrcs» cmprcg:máo inncliinaí? fira iiviiÍId inelllDr serviço 
cnm !7, c alii temos uma enorme rcdurçâo ilu C5|>it*o^, 
p(n^ pelo prDço qiio liiíjrí se conipf;nn seis escmvns lem*^o 
toilas ns Tunelnna^í pnra ciilfivnr iimn tcgiin qundiQda dâ tOí* 
reno. O que c porém muito necessário para que se po^sn tor- 
nar um solo qualquer proiluctivci para um:i pbmta qualquer, 
óinttofluzir nella os agLíntes qiio cssn [ilantii preeisa para a 
sua vcgetíiçuo , n gentes esses que vnriam flinila cotti ã 
nalurc^a do produelo que queremos cbler. E' ncceisario 
oihibor as terras ora píirle com estrume, cm parle cnra snli- 
Blancías uiincrnes. Para o priuieini é indií=;pensavel qno a 
lavoura soja sempre aeorajmnliatla Ja cria^'uo ile nlgumguli, 
encurraloLlo regiitarmentc o mais lempo pos&ivcl: esse ga • 
do é nece^^ario para o serviço do eaiupo, como boi$ e tav*fl- 
jo^, ou para criação, sustento tia própria gento de casa, 
como vaceas, carneiros» porcos, galinhas, ete.^as quaes, alem 
de fornecerem o estrume necessário para o ciuípo, aiudi 
obriga rn a pequenas industrias, que parecem Insigriilji;antó«t 
mas ^ão muilu rendosas; estuo neste caso o fabrico de qti ^ijo» 
ma n leiga, lia u ha, presuntos, ele, olém do rendiuienltj do lia 
que o BiazII j;i exporta, e de gado para o curle, DjsIo modo 03 
íavradures da viitinbaoça das cidades poderáô abiste^al-as 
com carne fresen, melhor do que aquelb que ás vcjecs v^m 
de uma dislantúa de 150 l?guas c mais, viagem o^sa qu$ só 
por si absorve a maior pavtã dos lucros dos aeluaes praduí- 
tores. Se a nossa lavoura tòr raciunalmonte conduiidi, 
ainda pode tirar provei lo dos restos desses animaes que 
vàu para o curie, como do sangue, cabellos, unhas» etc, «|U9 
são tnateriaes essencial mo nlc asiotados, c por isso odubof 
cxcellentes, O sabugo dos cbifrese os ossos dão colla mng- 
niíica, ou carvão animal tfui nec^t^ssarto a muita industria 
c!iiinica, e por tim cIIgs ainda p^iam ssr utíHsadoi p^r* fa- 
biico da pbej^pbala dj cal| mo pojca importante para a 



i 




AGRICULTURA. 225 

lavoura. Esses estrumes anímaes são appiicaveis a todos os 
terrenos e espécies de lavoura: não acontece porém outro 
tanto com os adubos mineraes, os quaes reclamam co- 
nhecimento preciso do solo quo se pretende cultivar, e a 
natureza do vegetal que se quer plantar. Disso é que não 
temos a menor indicação que seja: não existe uma só 
analysedo terreno em que melhor dá o café, a canna, a man« 
dioca,porexcmplo;nãoexistemanalysos de terras estéreis para 
essas plantas, de modo que não sabemos qual o elemento 
que existe naquellas e falta nestas, nem mesmo possuí- 
mos analyses das próprias plantas. Segue- se d'ahi que não 
se pôde corrigir terreno defeituoso para umacerla espécie 
de lavoura; é preciso ainda que o lavrador tente uma ex- 
periência, e um resultado bom ou mau lhe dirá se conti- 
nua com o seu trabalho, ou deve abandonalo: muitos dei- 
xam-se guiar por certos indicies que a longa practica já ensi- 
nou, quer do aspecto da terra, quer da vegetação que a 
cobre; esses indicios empiricos não são sempre rigorosos, 
e também não nos mostram quaes agentes faltam ao terreno. 
Muitas vezes um terreno impróprio ou esgotado produz 
vegetação sujeita a moléstias, como tivemos occasião de 
analysar uma canna em estado perfeito, nella predomina- 
va o phosphato de cal; ao passo que outra, de um logar vi- 
naho atacada da praga, tinha falta desse sal: não podemos 
de uma só analyse deduzir ainda que adubar o terreno 
com phosphato calcareo seja um meio de prevenir a praga 
na canna, no entretanto é um indicio que convém verifi- 
car. Outro exemplo temos com a ba^ianeira: analysámos 
Qm pé que produzia fructo pedrado, nelle predominava 
<DagQesia, em quanto um pé da mesma sequeira plantado 
o'oQiro logar produziu muito bom fructo; mas as matérias 
'nopganicas que tinha tirado do chão eram potassa, e sobre- 
todo sulphato de cal . Estes dous exemplos nos mostram já 
Uma relação entre composição da planta e qualidade do 

15 



226 REVISTA BRAZILE1RA. 

prodncto: lornaraos a repclil-o, não são suflSictenles para 
servir de norma para sua cultura, precisam ser veriGcados, 
principalmente nas localidatles que maior differença apre- 
sentam. O concerto do terreno inílue não só sobre a qua- 
lidade dos productos, mas também sobre a quantidade. E 
o quanto se empenham todos os Estados civilisados para 
conseguir este íím, provam de sobra as numerosas amos- 
tras de adubos remettidns para a exposição pela maior 
parte delles. Alli se viam amostras muito variadas de maté- 
rias fecaes das cidades, completamente desinfectadas e 
preparadas para estercar os campos (e quanto seja produzi- 
do com o nome de polidref/e acha compradores); resíduos 
dos açougues preparados para o mesmo fim, ditos de di- 
versas fabricas, guano artificial, etc, assim como havia 
também abundância de saes preparados para melhorar 
terrenos, e muitas dessas composições foram premiadas. 
Oulru prova da necessidade de adubar as terras são os car- 
regamentos de guano que a Europa manda com tanto custo 
e trabalho buscar nas costas do Peru. Nos Estados-Unidos 
o lavrador, sobretudo se vai cultivar terreno novo, manda 
amostras ao laboratório chimico, para que se lhe diga qual 
a sua composição, e manda ao mercado buscar o adubo de 
que carece, e vèem-se todos os dias elogios a esse systema. 
A Inglaterra também manifestou quanto lhe devia, pelas 
ovações que leve Liebig, que praticamente applicou a chi- 
mica á agricultura quando por lá passou. 

Só nós é que nos conservamos estacionários: a nossa la* 
voura, acostumada ao systema de destruição e ao esbanja- - 
mento de forca útil, vai eahindo rapidamente; á medidaHB 
que essa força supertlua vai faltando, o preço dos gene-— e 
ros de primeira necessidade vai subindo n*uma progressão ^ 
espantosa. Nós estamos muito longe para ter contacto cour ^ 
outros paizes, que nos ensinem praticamente melhodg8r—:3i 



AGRICULTURA, 



m 



cioaaes. O nosso clima niuitíH vexes se oppôe a que ap- 
pliqiiettios o qae cm outros dá bom resultado • 

Pelo qae fica exposto vemos o quanto e preciso mu- 
Jiir HO nosso systeraa «gricola: os nossos lavradores certa- 
mente oâo poderíio fazei -o por si só : em primeiro logar, 
porque não foram eduL-ados para isso; depois^ porque re- 
cebm innovaçòes, e sobretudo o serem victimas de especu- 
ladoros que os podem aniquilar completamente com êipa- 
riencias ruinosas. Elles precisam de quem Ihís dê eiem- 
pios tpje possam seguir, que se llies mostre um resultado 
vantajoso, que lenham onde mandar educar os seus Ira- 
ste Uiadoresi habituados á nossa antiga rotina. Como vimos, 
Im muita experiência afazer, cujos resultados ainda serão 
duvidosos; seru duro exigir que os lavrudores so exponham 
II eiles; nós mesmos nao respondemos que essas receitas e 
syslemas, que em climas idênticos aos nossos provaram 
oplimamen(e« aqui façam o mesmo. 

Quem deve tomar a iniciativa a esse respeito é o governo» 
e cremos que deve fazeUo sem perda de tempo. Nós es- 
peramos coloQos de um anno para outro, e em quanto 
^esperamos vào subindo do preço os viveres, e certamente 
que a emigração fugirá de um paiz em que custa tão cara 
1 subsisteneia. 

Passamos pois a propor os meios que ainda hoje s« 
iDOSlram eílicazes na Europa e nas colónias, e que acre- 
dítatuos os únicos que nos poderão dar um impulso utilá 
agrícullura. 

O primeiro passo a dar é a acquisição de um pedaço de 
terreno com bastante extensão, e situado de modo qua 
|iofi^a apresetitar as circumstancias as mais variadas. 

I)t*v6'.<%e ahi tirar amostras de terra de campo, capoeira, 
malto virgem, t^ terrenos cultivados que possam existir, e 
^ulmi*ltebas á analvse cbimica* 



2S8 REVISTA BRAZILEIRA. 

Ignalmenle devem ser analysadas terras de ontras loca- 
lidades, onde cresçam bem as plantas de nossa lavoura. 

Nesses differentes* lofiares deve-se tentar a cultura de 
canna, feijão, milho, mandioca, batotas, etc, era porções 
nunca menores de cem braças quadradas; e para obter re- 
sultados comparativos deverá ser cultivada cada uma des- 
sas plantas em quatro porções iguaes em extensão, porém 
differentemenle amanhadas. Uma, preparada pelo nosso 
methodo ordinário; outra, lavrada com arado e mais ulen- 
silios, porém sem adubo; outra, lavrada do mesmo modo, 
porém corrigida segundo o resultado que se obtiveram das 
analyses; o ultimo pedaço será da mesma maneira prepa- 
rado, porém adubado com os saes e com estrume. 

Identicamente se deve proceder com terreno de capoeira 
ou matto, applicnndo alli as diíTerentes macbinas para ar» 
rançar tocos, sobretudo as que se empregam nos Estados- 
Unidos. 

Do lodo este trabalho feito deve-se tomar nota muito 
minuciosa, assim como do desenvolvimento das plantas, 
do progresso comparativo, e por Gm dos productos, cuja 
qualidade e quantidade deve ser examinada muito con- 
scienciosamente, para que não haja prevenção a favor de um 
ou outro methodo. Todas essas observações deveráõ ser 
publicadas pelo menos semestralmente, afim de que possam 
ser distribuídas pelos lavradores. 

Em quanto as plantações da primeira experiência cres- 
cem, convirá ensaiar os meios para obter prados arliti- 
ciaes, quacs as plantas de forragem que se possam acclima- 
tar entre nós, como luzerna (que cresce muito bem), trevo, ,^ 

esparcelo, etc, e experimentar qual das nossas numero ^ 

sissimas espécies de capim melhor se presta para fazew ^ 
feno, afim de que possamos ter criação de gado encurra-.^^ 
lado; mas isto não ó possivel tentar com vantagem sen^ i 
que se tenha o alimento em abundância, e que seja ec(^^ O' 



AGRICULTURA SS9 

noTOÍco ao mesmo tempo. Em logares pantanosos convém 
plantação do inhame^ cuja follia e raiz são excellenle sus* 
tento para porcos e vaccas. Será também ulil ensaiar 
que partido se pôde tirar das f(»lhas de imbaiba, que al- 
gumas pessoas dão ás vaccas de leite, e pretendem que 
augmcnta consideravelmente a quantidade da nata. As- 
sim também algumas das nossas ortigas bravas Urc- 
rn) podem ser mesmo cultivadas cora proveito para criação 
de porcos caves, como em outros logares se faz com a or- 
tiga commum (Vrticadivica). 

Estes trabalhos encherão bem o primeiro anno; no se- 
gundo póde-se continuar as experiências, rejeitando por 
ora aquellas que deram o resultado menos vantajoso: a 
melhor servirá de comparação para outras que se tentem. 
Nesse anno se podo tratar também de cultivar plantas de 
forragem suíBcienlos para começar criação de gado, bem 
entendido em escala pequena ainda. Podem-se então ad- 
mittir também para o serviço alguns trabalhadores de 
lavradores, que queiram aprender praticamente os metho- 
dos que devem ser applicados, a preparar as teVras , e a 
fazer uso das machinas. Também esse numero de gente 
deve ser limitado, porque o vigial-os, ensinal-os,etc., rouba- 
ria mais tempo do que se pôde sacrificar no principio de 
ama empresa desta ordem , que deve dirigir toda a sua 
attenção sobre experiências, verificar os resultados favorá- 
veis das precedentes, e varial-as debaixo de differenies 
pontos de vista. Entcnde-se também que esses trabalha- 
dores vão aprender unicamente o serviço material; ana- 
lyses, ou receitas para fazel-as, níio se lhes pôde confiar, 
porque elles não terão, na maior parle dos casos, fundo 
Sudiciente para bem opplical-as, e poderão desacredital-as, 
essim como os raethodos preconisados para concertar ter- 
ras can.sadas. 

Um cstabckcimenio dessa ordem , sustentado pelo go- 



230 REVISTA BRAZILEIJIA, 

verno, l€m obrigação de eiperimeotar qualquer syslenia de 
lavoura que seja apresentado» comlnalo que não se mostre áfl 
priori absurdo: essas experiências devem porém ser trabalho™ 
secundário. Se ellas derem resultados negativos, ser%*ein 
para prevenires particulares, que não se podem, nern deveiii 
inetter com ensaios que os prejudiquem; será um peque 
no prejuízo qtie ao governo não pesará, ao passo quo sei 
yma economia lanto mais considerável para os lavrado- 
res, quanto raaior o numero que evilR o ensaio. Dizemos 
que essas esíperiencias serão secundarias, porque o u?»lnbe- ^ 
lecimcnto deve lodos os ao nos repelir aquellas que pro«fl 
varam bera (cora as modifl^ações erigidas pela relação das" 
plantações], salvo no caso de descobrir outros processos J 
melhores» afim de que sirva eonlinuadamente de modelo» ■ 
ou de um rudimento de escola practiea, onde se possa ir 
aprendendo as necessários melti ora mentos* ■ 

Quando sobrar algum tempo, deverá o estabeleci n)eu lo " 
i ratar de formar viveiros de plantas úteis, as que produ- 
zam matéria alimenticia» sobrcludo (que mais adiante pai? 
saremos eta rev is la) para serem distribuídas pelos munici-J 
pios, freguezias » e mesmo a indivíduos que zelem pela 
sua propagação: essa distribuição será feita graluilnmente,' 
ou por ura preço mínimo, que apenas chegue para eobvir^ 
as despezas dos viveiros, pois desde já declaramo:^ que unifl 
estabelecimento neste sentido, fundado pelo governo, tem 
de consumir capitães cuja amortização não so deve eiU 
gir, quando não caduca complelamente o seu principie 
vital , e no momento que se lizer delle uma instituirâc 
de especulação cessa a sua utilidade. As rendas viráõ ienta^ 
menle^e o Estado deverá em prega 1-as para engran*leci menti] 
do estabelecimento, para augmentar a actividade tin mr$^ 
mo^ e não arrecadal-as alim de lhes dar outro destino. 

No mesmo estabeleci mento deve-se desde log.i montar 
uma fabrica completa de machinas do lavoura, a qu 



-'^ - --^ 







AGRICULTURA. 231 

também não será fonte de lucros; já f«rá bastante se 
cobrir cora a venda de seus produclos as despezas, por 
que difficilmente poderá fazer os referidos utensilios pelo 
mesmo preço pelo qual elles nos vem da Allemanha, 
Bélgica c Estados-Unidos : mas o íini principal dessa fa- 
brica deve ser adestrar gente a poder em qualquer logar 
fazer o concerto das macliinas que alli se fazem, pois é 
queiía geral dos lavradores que não lhes serve de muito 
o arado, porque quebrado uma vez, por uma dessas mui- 
tas causas que se dão em terras novas, vêem-se obriga- 
dos a mandal-o de grandes distancias á cidade, ou man- 
dar vir a peso de ouro um machinista para concerlal-o. 
Esse inconveniente é removido de todo logo que possam 
mandar um escravo ou aggregado <la fazenda, que já te- 
nha alguma practica de forja, entrar como aprendiz na 
referida fabrica de macbinas de lavoura. IVahi também só 
devem sahir apparelhos que forem de melhor uso, feitos 
com toda solidez, e empregando os melhores materiaes. 

Logo que o estabelecimento possa, deve fazer dous mu- 
seos , um da colleccâo completa das melhores macbinas 
empregadas na lavoura, e outro dos seus productos, com 
as indicações detalhadas do como foram obtidos , em que 
fempo, a que preço., etc, ele, servindo de documentos de- 
monstrativos dos relatórios que regularmente se publica- 
rão. Útil seria também se pudéssemos obter coUecções de 
producçóes de outros paizes , para comparal-as com as 
nossas, ou cora as que aqui deram; assim, por exemplo, o 
trigo do meiodia da Europa talvez que produza muito 
pouco aqui; no entretanto existe uma espécie em Vene- 
zuela que dá bem na Jamaica, e a única queallí se accli- 
niatou: é muito provável que esta espécie igualmente se 
dé bem entre nós, mas é questão que só ensaios compa- 
Talivos dicídiráò. Se houver grãos oleosos, as amostras do 
^ciseo devem ser acompanhadas de outras do azeite que 



1 REVISTA BRAZILEIRA. 

lies se tira, indicação do methodo qae senrio para sm 
Iracção, custo, ele, ete. 

O estabelecimento deve offerecer também os necessários 
mmodos para receberas pessoas que queiram ir visi(al-o, 
mesmo tt?nbam interesse de se demorar alguns dias; mas 
reveninios desde já o meio de que o governo á^^ vezes 
nça mão : autorisar o director a fazer as dcspezas de 
ospedagem, isto só servirá para distrabil-o e sacriQcaroseu 
f?mpo útil em tratar de liospedes. Estabeleça-se um edi- 
icio vizinbo s6 para bospedogom, e para que os cofres 
públicos nâo (iquem m:iilo lesado^, permitta-se a um par- 
icular de alli especular, não excedendo porém uma tabcllo, 
^ue se marcará com condições razoáveis. 

No lim de dous ou três annos, quando o estabcleciraenlo 
tiver tomado pé firme, coibido uma porção de dados, que 
lhe permitiam estabelecer regras ao menos para uma certa 
zona, SP poderá pensar em organisar uma escola practica 
de agricultura , ondt? soja ensinada a tbeoria rigorosa- 
mente necessária , o o ranis só pracíica e muita prn- 
liça. Quando os lavradores \irem no mercado alguns pra— 
duetos de boa qualidade do estabelecimento, irão clle-s 
mesmos, ou mandarão seus filbos matricular-se na no%'^ 
escola, onde elles deveráò esquecer-se de que tem escra- 
vos em casa; alli deverão fazer por suas mãos todo o servi- 
ço, desde o conduzir a carroça e tratar dos cavallos, at© ^ 
administração de uma fazenda com toda a escnpturaç3C> » 
contabilidade rural. Homens assim formados ficaráòli»- 
bílilados para creoçuo de estabelecimentos idênticos n»^ 
provincias, aproveitando já as experiências que fizeram por^ 
modificar os processos segundo as circumstancias locais 
o exigirem. Estes bomens também dirigindo fnzerm- 
das, formara nellas outras tantas escolas practicas em pon Co 
pequeno, que irão espalbondo em torno de si o melhorai- 
naenlo que praticam. 






AGRICULTUBA. 233 

Deste modo em breve teremos abundância no paiz; os 
alimentos se (ornaráõ baratos; a emigração estrangeira virá 
animada por isso aportar ás nossas praias, e do estado pas- 
sivo era que vivemos se transformará em breve na contrario: 
muitos objectos, que hoje importamos, seráò exportados ; 
a industria, tão varillanle entre nós, começará a tomar pé, 
e então não se dará o facto de mandarmos o nosso algodão 
para fora, comprando-o tecido e Qado depois de ler pago os 
fretes de ida e volta; não mandaremos o couro do nosso 
gado é Europa para nos voltar transformado em sapatos; 
só então poderemos cuidar em tirar proveito de nossas 
immensas riquezas mineraes, que hoje jazem abandona- 
das; nós, os possuidores das minas de ferroas mais ricas 
do mundo, ainda compramos todo ao eslrangeirol 

A execução practicados pensamentos que emittimos parece 
offerecer alguma difficuldade, tanto mais que duas tentativas 
dos nossos dias cahiram apenas principiarani a existir: não 
compete a nós examinar os motivos a que isto ó devido, 
mas agouramos o mesmo fim a toda a empresa dessa natu- 
reza que por agora fôr posta em practica por particulares, ou 
isolados ou formando companhias. 

Pessoal também ainda o não temos habilitado, é preci- 
so que seja formado para esse fim especial, mas formado 
no paiz^ acompanhando posso a passo as experiências para 
desenvolvimento de um syslema racional de lavoura. 

Para formar a gente do paiz que deve dirigir e conti- 
nuar o estabelecimento agricola, e que possa servir mais 
tarde para formar o corpo de professores para a escola, 
devemos mandar vir ura mestre, e nisso sim , concorda- 
mos que ha dííQculdade e muila difficuldade. Os homens 
que estudaram nas melhores escolas e com o maior pro- 
veito, servem para erigir e dirigir estabelecimentos ruraes 
nos paizes onde praticaram; porém para uma nova criação» 
6 diíficil como a proposta , debaixo de certos pontos de 



234 REVISTA BRAZILE1RA. 

vista custará a acertar. Para prova mencioQaremos um 
facto ainda muito recente : Liebig deu a indicação para o 
preparo de ura estrume minorai, e como foi idéa emitlida 
pelo pai da agricultura moderna, tomaram-na logo por voz 
do propheta, o agrónomos muito distinctos fizeram a ap- 
plicaçao, sem darem grande importância a algumas res* 
tricçòes impostas pelo próprio autor: o resultado foi in- 
teiramente opposto ao que se esperava, e o propheta com 
a sua theoria nova atacado vigorosamente : no entretanto 
hoje elle está demonstrando praticamente a utilidade de 
sua proposta n'uma fazenda modelo estabelecida ha dous 
annos perto de Munich , por ordem do governo, e dirigi- 
da por elle Liebig. Se obtivermos um homem com todas as 
habilitações, mas com a pouca constância daquelles agró- 
nomos, arriscamos não tirar desde logo o partido útil 
que uma experiência offerece. 

Conhecemos um professor distincto de uma escola da 
Allemanha, cuja capacidade e caracter podemos abonar, 
por ter sido nosso companheiro de estudos, e que ha onze 
annos se occupa de mecânica agricola, trabalhos e expe- 
riências ruraes : elle também não se negaria a vir para cá 
por três ou quatro annos, comtanto que se alcance licença 
do seu governo, e lhe seja conservado o logar que hoje 
occupa (*). Pessoas no mesmo caso se poderáõ encontrar 
na Prússia, Baviera, Werteraberg. e lambem na Suissa. 

Esse homem que vier será bom que traga comsigo , 
debaixo de sua responsabilidade, os necessários trabalha* 
dores de campo, como os oRiciaes de oílicios para a fa- 
brica de machinas, assim como todos os apparelhos neces- 



n o que cremos não encontrará difficuldades, pois a Áustria, que será 
talvez o paiz mais difficil para semelhantes concessões, jA deu o exem|do, 
cedendo, á Companhia de mineração do Morro Velho, Uocheder, Steigenberger e 
Uelmreichen, que depois de voltarem occuparáõ de novo seus antigos togares; 
mais tarde fez o mesmo com empregados que foram pedidos para o £gyplo, etc« 



AGRICULTURA 



235 



ciarias* A esta gente logo qne chegue deveni*se Ingo dnr 
aprendizes do fmiz em numero bem superior, pnra que 
le filiamos ijueui os sulisiituQ depois de lemiinado o tempo 
do seu engãjauiento. 

Dissemos que os operários devem ser escoUiidos pelo 
próprio individua que lem de vir fundar o estabeleci' 
menlo, porque elle terá interesso em trazer gente que o 
coadjuve, e contribua para o bom esito da empresa. O 
que já não acontece com os nossos agentes diplomáti- 
cos e consulares, que se vêem obrigados a fiar-se era in- 
formações e allestados que se lhes fornece com má fé. 
Agentes especiaes só procuram tifíir n sua eomraissão^ e 
não lem Ditiito empenho em Siirvir bem, sobretudo ao 
Brazil; disso podemos apresentar factos e variados; não 
negamos que haverá excepções, mas o saber onde será dif- 
Ucil, 

O capital que se deverá empregar para o proposto esta* 
belccimento não se pôde marear de antemão, pois de- 
pende: 1**, do custo do terreno ; â*, do engajamento de 
operários; 3*, dos salários e sustento dos mesmos no pri- 
meiro, e (alvcE ainda no segundo anno; e 4*, do custo das 
maehinas. 

i\u preço do terreno devem necessariamente ser inehii' 
dos os editicios tpje seja itidispensavel construir, 

O eufto de machiuas c ferramentas precisas para o fa- 
brico 4I0H apparelhos de lavoura, com fretes, etc, nlo exce- 
derá de 35 a iO contos. 

Os apparelhos para o serviço rural do estabelecimento 
devem constar: *le ntacbinas para arrancar troncos, arados 
e charruas d ifip rentes , pois as suas formas e dimensões 
d Impendem da qualidade do terreno, e da profundidade da 
aradura; devem vir de sohresalenfe, porque pedras e raizes 
existentes em terrenos nunca lavrados proiluzirão quebras 
frequentes; outros para lavrar em morro, e os empregados 



S36 REVISTA BRAZILEIRA. 

para fazer os canaes de deseceamenlo : apparclhos para 
quebrar os torrões e igualar a superfície, para compri- 
mil-a, para semear, capinar, para colheita, tanto de raí- 
zes como de mandioca, balata, araruta, etc, como do ce- 
reaes leguminosos, e para ceifar; outros para debu- 
lhar milho, arroz, e ranis productos. Também devera 
vir machinas para ralar mandioca e outras raízes , 
para preparação da tapioca o do amylo , para extracção 
de óleo de nabo, linhaça, amendoim, girasol (excellente 
para tempero), mamono, etc. ; os residuos desta extracção, 
em parte são bom alimento para o gado, em parle dào es- 
trume de calor, e será necrssario obtel-o, por ser indis- 
pensável á cultura dos ve.etaes que o produzem como 
plantas de rotação. Moinhos de mão, ou apenas da força 
de um cavallo, para fazer fubá, farinha de trigo, etc. ; ap- 
parelhos para descascar e limpar arroz, café, ele. ; machi- 
nas para fazer manteiga e queijo. Todos estes apparelhos 
se podem obter por menos de 20:0008^000: já se entende 
que os últimos mencionados devem ser de capacidade 
suíBciente para satisfazer as necessidades de uma fazenda, 
ou das pequenas povoações ; a sua adopção tem vantagens 
para que o lavrador não se veja obrigado a mandar os 
seus productos a grandes distancias, para receber depois 
pelo mesmo caminho de volta e preparados, podendo elle 
fazel-o quanto baste para si e para vender ás villas vizi- 
nhas. 

Organisado e em bom andamento o estabelecimento 
rural, e organisada também subsequentemente a escolada 
agricultura, e dando os resultados que delia se podem es- 
perar, então, e só então se poderá adiantar mais um passo, 
estabelecer uma cadeira de chimica industrial, e mostrar 
praticamente a sua applicação ao fabrico de assucar, aguar- 
tlente, cerveja, etc. ; empregando sempre os productos alH 
mesmo cultivados. Os methodos de fabricação devem sem-* 



▲GRICULTUBA. S37 

pre ser os mais completos e mais vantajosos, e se appa- 
recerem novas machinas e novos processos que mereçam 
ser introduzidos, deveráõ ser alli postos em practiea, prin< 
cipalmente sd os próprios inventores o vierem fazer, e ga- 
ranlir-se-lhes-ha enlao o privilegio: essas experiências de- 
vem ser feitas n'um centro donde todos possam saber dos 
resultados que dão, com a convicção de que foram obtidos 
conscienciosamente ; o particular nem sempre tefu os 
meios, nem a paciência, nem a conQança precisa para 
introducção de um invento útil, e quando mesmo elle o 
consiga, carece de muito tempo para que se espalhe; uma 
prova são os apparelhos centrífugos, que em poucos mi- 
nutos separam o assucar crystallisavel do mel, permittin* 
do ainda laval-o; no entretanto são muito poucos os se- 
nhores d'engenho que os possuem; a maior parte ainda 
preferem fazer esse trabalho mais imperfeito em formas, 
gastando 20a 40 dias! Nesse caso se acham a maior parte 
das nossas industrias ruraes. 

Outra tentativa, que necessariamente deve ser aconse* 
quencia do estabelecimento rural , é a sylvicultura : na 
capital do Império em 20 annos a lenha quadruplicou de 
preço, c continuará, se com o augmento de população não 
se tratar de producção artificial do combustivel. No mes- 
mo caso estão as nossas madeiras de construcção, que já 
vem de muito longe, e a um preço exorbitante. A cama- 
rá municipal do Rio de Janeiro, nas suas posturas, prohibe 
o emprego do pinho, e apezar disso elle vai-se generah- 
sondo cada vez mais, por ser muito mais barato vindo da 
Suécia , Inglaterra e Estados-Unidos, do que a madeira de 
lei das nossas próprias florestas: com isso irá também 
desapparecendo a segurança de nossas casas contra o fogo. 

O corte de mattas tem grande influencia sobre as aguas ; 
com ellas desapparecem as chuvas em parte, e mesmo es- 
tas quando cahem não encontram mais um chão coberto de 



238 EEViSTA BRAZ1LEÍEA. 

folhas, da camada de hutno, e das fibras das raives Je 
arvores, que impedem o spu correr na superílcie de 
um chão com {jacto; ao cootrario, obrigam a agua a ínlil^ 
Irar-se uo solo, assim alimentando os cúrregas e nas ; 
lambem a sombra do arvoredo impede qtie os raios solares 
dardejem direclamenle uma superfície despida, e Taçam 
evaporar a pouca agua que ainda não teve tempo í)<* pe- 
netrar a unia profundiikde suflTicieute para subtrabir-se 
a esta acção que, multai^ ve?.es, é duplicada por um vento 
quente, que não encontrando obstáculo de foUingens no seu 
trajecto» varre da ^uperlicle do ebâo Ioda a camada de 
vapor aquoso que se forme, lím monlanbas Íngremes for- 
madas de rocbedos cobertos de ténue camada de terra , 
de maneira nenhuma se deve cortar o malto, porque nes- 
sas encontram-sa as nascenles perto dos cimos, e faltando a 
coberta protectora sec:*am as aguas infallivelmente. Além 
disso, as fortes pancadas de cbuvas lavam a pouca terra, 
e vâo entulhar os rios com bancos d*arèa, e as aguas 
achando esse rápido escoamento dão causa a enchentes 
devastadoras, ks pedras a descoberto recebem de dia o ca- 
lor solar, e de noite o emanam lentamente, de modo que o 
clima é alterado, centre nós para paior. Biemplos do tjue 
Qca exposto podemos buscal-os na historia de reoiotos 
tempos : os populosos reinos da Assyria e Ninive, a P«lestÍ- 
na, as costas norte africanas o attestam ; por toda a parte 
onde o homem passou cultivando as gramíneas para seu 
sustento» transformou o solo em deserto, e hoje a custa 
vai recupera ml o o que seus antepassados estragaram. Nas 
restingas dos mares Báltico e do Norte se estão plantando 
mattos pnra fertilisal-as, para quebrar a força dos ventos, 
e impedir que estes acarretem as uréas. Nas orlas Ju So- 
hara se tentou com felix resultado a cultura de arvoredo, 
com elle se chama para jíontos inteiramente estéreis 
sedimentos atmosphericos. Também m Banda Orieiítal a 



AGRICULTURA. 



239 




culiiirn de bosques deu logap a nascentes d'sgun, que an- 
íiís niio exisliatiK Samos de parocer qae nào devennos espe- 
rur alè que «)s aeonlecimenlus^qtje emoulras parles serviram 
de líçãu, venham dar-sa enlte nós; devemos aoles j.>reve- 
0]Ih]h« lístudando de que maneira plantar as nossas arvu- 
rcíi florestíifís para produzirem mais rapidamente: seespera- 
mo^i ]mh\ falia alisohiUi d^i madeira, teremos que esperar 
longo tempo, pois aijuella^ que crescem mais rapidamente, 
cotiio os cedros, ipés» al;^iituas canellas, otc, requerem 
^>elo taenos 60 annos para poderem produiir laboailo sof* 
frivol ; cum as mais, só de l50 annos para cima se pôde 
ontar* Na exposição do Paris, além ile amostras numero- 
ma de madeiras de Ioda a parte do mundo, lia via também 
uma porção tlc arbustos , com indicação das épocas de 
plantaão e qualidade dt» terreno em que foram cultivados, 
mostra mio assim resultado comparativo dos esforços que 
e íizoram jjiira cobrir de ma lios certos logares incidto^, que 
e achavam postos de ahjueive forçado. Java também fez 
díítgencias neste sentida, e entre outros dá*nas um exem- 
plo notável : nas capoeiras de suas montanhas plantou a 
Quina peruviana, e vai crescendo muilo bem: cremos que 
eto muitas de nossas montanhas se poderá alcançar o 
mesmo, e com menos trabalho que os Hollandezes, e uma 
planiaçuo desta seria sem duvida rendosa, pois os Perua- 
Qos empou ha m-se em destruir as suas florestas de qtiínei- 
ras, e o [ueciosa febrifugo vaise tornando cada dia mais 
cari»* Outra arvore que vegeta ria com viço nos nossos m al- 
tos é a que produz a guita percha : nós temos muitas da 
tne^ma lamilia [Sapolacias), entre as quaes o jaouá e al- 
gumas gu3[>ehaâ dào uma es[}etiti daquella matéria, porém 
em quanlida(h; diminuta» Do mesmo raodo conviria tra- 
lar de cultivar hosrpies das arvores que prodii/x^m boria- 
clia, resinas, gommas, olcos, tintas, sobretmlo puo brazil, 
tampeche , ele. Perto das cidades podia-se aproveitar o 



S40 REVISTA BRAZILEIRA. 

matto para plantar no intervallodo arvoredo palmito : pare- 
ce para nós algum tanlo ridícula semelhante pjoposla» no 
entretanto compare-se o quanto subiu de preço esse grelo 
de palmeira nos últimos dez annos; além disso já nos toma- 
ram a dianteira a esse respeito as ilhas de França e as An- 
tilhas, que mandaram á exposição lalas com conservas de 
seu palmito plantado. 

Terienos que se negam a qualquer cultura, e mesmo á 
de bosque, e que pela maior parte são invadidos pela sa- 
mambaia e pelo capim melado, podem-se preparar para 
isso, plantando piteiras, gravatas, yuccas, aloés, ele, que 
dão Qlamentos preciosos para a industria, ou plantar car- 
dos [cactus] e nopaleros, os quaes fornecem fructos que em 
muitos logares se tornam por vezes o alimento exclusivo da 
população, ou servem para criação da cochonilha, que ain- 
da hoje alcança um preço muito elevado. De ambas estas 
plantas com seus productos, tanto fructo como insecto, ha- 
via numerosas amostras na exposição remetlidas de Argel. 



Dr. G. S. de Capanema. 



ii^ipj y Jfif i r * ^ ■* 



COMMISSAO SCIENTIFICA. 



LXSTRLCÇaES PAEÀ A C03I3I)SSIQ SCIEXTIFÍCA 

EICCARUMGADA Dfi EXPIOEAE O IKTfimiOR DE ALGtMAi 

raOflXClAS DO BRA21L MENOS CONHECIDAS. 



Aio de Janeiro. — Ministério dos Negócios do Império» 
cm 8 de Abril de 1857. 

Sua Mngi^ilade olmper&dor, conformando-se com o qii^ 
eipoi o Instituía U isto rico e Geograpliico Bruzileiro : lia 
{>or bom approvar e mandar que se executem as Instruo- 
ções anneiasp por mini assignadas, as quaes tem do ser 
ob^rvadas pela Commissao seientiQca encarregada de ei* 
piorar a iDlerior de algumas provineias menos conhecida?. 

LCIZ PEDRSmA DO COUTTO FêERAZ. 



INSTRrCOÕES. 



■•cfõo boliiiilea* 

A secçlo botânica terá a seu cargo : 

i» O eilwilo dos vcgi-taes silte^lres , parlicufarraenle o 
dis ardores quo fornecerem maddras de consirucçâo, n^ 

IA 



REVISTA CRAElLEIBà, 

sinas , óleos , gomnios , ou outro qualquer produclo ulil ; e 
o das plantas que possani aproveitar na tuedicina e na in- 
dustria. 

Indagará dos homens práticos do logar o nome indígena 
e vulgar de cada vegetal p e seus usos populares. 

Das arvores, além dos ramos, flores e fructos para esta- 
do e formação de hervarios, collieiii nmrHira^ ili madeira, 
refina, oleo, eíc* : de Itido em quantidade s^ufiiciente pam 
ser distribuido pelos muãéos naciuuaeSf e mesmo estran- 
geiros. 

Das plantas que tenliain, ou se presuma terem uso na 
medicina e nas artes» além dos ramos , flores e fructos, co- 
lherá de soas partes activas quanto chf^gue para anaI|io 
chimicae ensaios tlierapeuticos e industriaes. 

De todos os vegeta es mais importantes colherá frutas 
perfeitamente maduras para sementeiras ou tentativas de 
cultura. 

De cada uma destas cousas , não se podendo na occasiao 
cóllier exemplares ou productos, procurará que alguma 
pessoa do lopr se incumba de o fazer, indicandodhe o 
modo de o praticar, e de remetter com segurança. 

Observará o aspecto geral do paiz quanto á sua vegeta* 
cão primitiva ou secundaria, com relação á naturexa ilo 
terreno c seus aecidentes, e ás condições meteorológicas 
ordinárias. 

Em cada localidade notará as espécies que naturalmente 
abi vegetam, cora o fim do concorrer para o delineamento 
da geographia botânica do BraziL 

Emíim , notará jas matas mais ricas em madeiras de 
consiruceSo naval, e era que seja fucil o sua extracção para 
í*erem reservadas. 

S* O estudo dos vegeiae^ ciiltivailos , e o systema de 
cultivo adoptado no paiz ; notando a qualidade dos terrais, 



COMMISSAO SCIBNTIFICA. 



243 



ss influencias almosphericas, e quantos outros accidentes 
forem beneGcos ou nocivos á lavoura, 

Secção neoliisleci e mliíerftloslea* 



I 



No que respeita á parte mineralógica » convém colligir 
lodâ a espécie de mineral que se apresente, quer era gran- 
des massaá, quer como componente de roclias. Quando 
sejam esses raineraes crystaUisados^ se deverá procurar o 
maior numero de indivíduos perfeitos, tendo em vista esta- 
belecer a serie mais completa possivel das combinações 
cry^taHographicas, Se forem raineraes decompostos» inves- 
tigar-se^ba as matrizes respectivas para obter os indivíduos 
na sua forma e composição primitiva, estudando ao mes- 
mo leiíipo as causas de que possa provir a decomposição 
actual* Do mesmo modo se averiguará , ao encontrar mi- 
iieraes isolados, quaes os agentes que possam ter destruído 
ai matrizes, e se essa destruição foi geral, oti se é limitada 
unicamente a certos districtos. 



11 



Mtncraes isolados podem muitas veies ser transportadoa 
ao longe, não só pelas aguas dos ribeiros, mas lambem 
pelas torrentes passageiras no tempo das grandes cbtivas ; 
psles mineraes devem merecer attenção muito especial, visto 
poderem ser indícios de vieiros ou de formação inclinada 
que apoQta na superfície do solo, em um só ou poucos pon- 
los. E no caso de se rcconbecer esses mineraes como in* 
dicios de formação utiU principalmente metallífera, serão 
as pesquisas continuadas até que se encontre o tronco dou* 
(la partiram 



m 



REflStA &EABL£mA< 



ni 



Descobertos jazigos metalliferoSi te procanirá determinar 
a sua possança» direcção^ natureza do matriz, e qiiaesqacr 
outras círcumstãDcias que pofisam ter influencia sobre a sua 
tninerabllidade. Entre estas apontaretnos as forças motrizes 
diiponiveis, a quantidade e qualidade de combustível que se 
encontre nas vizinhanças, distancias dos centros de popn* 
lação ou dos portos mais proiimos, e meios de eommtjni* 
cação : devesse tambcra attender ao abastecimento de inan* 
timentos, que é uma das questOes que tnais poderio in* 
fluir sobre a ciplorabilídade de uma mina. 

Considerações análogas se Car^o para as outras matérias 
dignas de exploração, como mármores, cimentos, carvSn 
de pedra, lenhitos, aspbaílo, schislos bttuminosos que 
|)Ossam ser dístillados para a producção de naphta^ etc. 



lY 



Também devem ser altendidas as tradições reinaoles 
nas diversas localidades sobre existência de mineraes t 
porque alguma lenda de ouro encanlado, terrenos eihalao* 
do cheiro sulphuroso» estouros subterroneos, podem eondu* 
zir á descoberta de minas de pyrites em circurosfonciíis 
favoráveis para supprir de enxofre e de acido sulph úrico, 
ou de pedra-hume« os nossos mercados, que boje cora dilli* 
cutdade são fornecidos pelo estrangeiro, e trazem em de- 
pendência muita industria de grande vantagem. 

Importa examinar com especial cuidado lodos os rio», 
lagos e terrenos salgados^ com vistas de acliar salitro (do 
pQlassa ou soda], bórax, soda, sal de Glauber, caparrosa, 
sul ommuniaco , ele, , que valba a pena exporlar sendo pró- 
ximo ás costas-, ou sal commum indispensável para d uso 
du população e para sustento do gado, sendo oo interior. 



(^SiMlSSlO ICt0fnFIU. 



243 



Nd casei de eii$tir uninerjiçao iiclíva oos logaras qud lem 
da ser vigiladas, ou oiploração matalliirgjca, seraa cstu* 
dados minuciosamente os processos em uso, estabelecida a 
rttnçãn entre prodyclo e forças consumidas, índicando-se 
os defeitús existentes e os melboramentos applienireis. 



VI 



Encon(raiido*se minas ou estabeleci mentos melallurgi<- 
cos abandonndos^ scrâo indagadas as causas desse abando* 
no, se dependem do empcbrecimenlõ do solo , ou de 
feita de gente habilitada para continuar, casos frequentes 
na provincia de Minas, S* Juão de Ypanemai ctc. ; e se es« 
lijdari quanto fôr positivei a historia desces estí»belect* 
mentos e o possibilidade de sua reanimação, fuzendo iim 
calculo aproximado da producçao que promellam para o 
futuro. 

WI 



Na parle geognoslica ter*sG<ba do proceder aosexamei 
leguinlef : 

1* A nalnreta das rochas, a sua eomposiçíio, dimensões, 
direcção c fui ma dos vieiros que possam conter, o rumo o 
a qiiédíi quo seguem, principalmente quando stratifíeadas. 

2^ No fendimenlo primitivo das rochas recommonda-so 
maior cuidado em estudar como faí cheio, ajuntando to- 
dos os dados que sirvam para complemento da tbeoria das 
betas e vietros- 

3* Achando-se rochas diflerentest procurar^se^ha esta^ 
]>e)ecer os lermos de sua superposição, e sua idade rela- 
tivo* 



S46 



HETISTA BEAZ1LEÍRA. 



4* Deveráã ser reunidos todos os dados que possftin for- 
necer esclarecimentos sobre a destruição de formaçòes 
que tenham existido, segundo vesligios actuaes, e se os 
agentes destruidores foram lentos ou violentos» como aguas, 
erupções, terremotos ou acções cliimicas locaes. 

5* Qual a marcba da decomposição presente das rochas, 
seus pro duetos e por que agentes é ella continuada ; qua) 
a vegetação cellular que primeira behe sua existência nessa 
decomposição, e se eita exerce uma acção acceleranle ou 
vagarosa ; e qual è a vegetação subsliluliva que se segue 
até a producção de uma camada suíllciente para alimentar 
vegetação vascular capaz de mudar o aspecto do paiz, 

6* Os productos (lo decomposição deveráõ ser examina- 
dos cuidadosamente nas chapadas, oos declives> nas bacias 
e valles, debaixo das aguas , ponjue póde-sc dar o caso aná- 
logo á decomposição dos granitos do Rio de Janeiro, que 
produzem argillas vermelhas, amarellas, azuladas e bran- 
cas, terrenos barrentos impermeáveis á agua, assim corno 
arcaes, tão differentes em apparcncia, o no entretanto pro- 
venientes todos da mesma origem, 

7' Não se deve perder de vista a procura de fosseis de 
qualquer natureza que sejam, principalmente foraminife* 
ros e infusorios, que muitas vezes representam um pdiiel 
tâo importante na pelrographia de um paiz, além de ca* 
racterisarem perfeilameule as formações em que são «^nr on- 
Irados. 

8* Finalmente devera ser delineadas cora cuidado as sec' 
çòes importantes do terreno, os contornos das nionianíias» 
o maior numero de perfis. Eochas de aspecto carãclcriçtinit 
serão photograpbadas, e lambem se fará um nivelanienio 
geológico^ e um niappa, no qual se procurara marcar, com 
a maior exactidão que as circumstancias permitiam , nt 
limites das differentes formações, a os diversos jazigos o 
balas que nelles se descubram, ficando o cargo da secção 



rX)MMISSAO SCJEímPICA. 



547 



astronamíca fornecer as delerminaçães geodtísicas íjiie se 
lornarcm iiticcssarias. 



viri 



Com referencia á agricultura , se procederá ainda a uma 
collecçao dos difTerentes solos em quanliJade sufíicienle 
para que se possa delermi nar o seu gráo hygroscopico, do 
aqueci menio e conservação das temperaturas, assim corno 
as diíTerentes aDalyses cbímicâs. As amostres deveráõ tra- 
zer as indicações seguintes: se malto virgem, capoeira, 
eapâo» pastOp alagadiço^ elt\ , ou campo cultivado, e nesle 
caso qual a planta que produz melhor nelle , si se acha es- 
gotado para uma ou mais plantas, com quantas eulturis 
SC esgola^ o que tempo leva a re}i;enerar-se. Acompanha- 
rão as ditay amostras uma porção de tronco> folhas e fru- 
tos dos vegetaes que elles de preferencia produzem , afim 
de que se possa analysar as suas cinzas, e determinar á 
priori , á vista de uma vegetação, quaes elementos se de- 
veniõ addicionar ao solo para produzir outra qualquer que 
se iutente, servindo dest^arle o estudo geológico do paiz 
de guia ao agrónomo quo procure cultival-o. 



IX 



Pude dar-se o caso de haver em alguns logares falta de 
agua, que sequem os rios, e seja consequência disso a 
ileHlfuiçao da vegelaçâo, mortandade do gado, e fome ila 
populaçíio, Ahi deverá a secção geológica proceder a eia- 
lues díis localidades vizinhas, estudar todas as circumstan- 
cias que levem a suppor a existência de agua, e cnião 
sondar o terreno para fornecimento de dados práticos para 
abertura dfi poços artesianos. Aproveitar-se-ha igualmente 
esse trabalho de perforamento para estudar as camadas 
sobrepostas do terreno» como lambem para determinar a 



SI8 Qf:T1$TA BRAZILOIU. 

stiB lem perdi ura em diversas profundi Jades* e aeliar a r^m 
distancia da superQcie é invariável o grào do ihirmooiolro» 
e a rapidez com que o solo aquece e esftía. 



Das aguas que assim forem obliJas, bem como da^ cl«is 
rÍ0i e fiintes, se determinará a qunlidado e qnanlídade de 
gnzes que contenham ; e se ellas mostrarem propriedades 
qtie mereçam uma analyse mais rigorosa , apanhar sc-ha 
porçãa suíIicíeDlo, que sem concentrada com todo o ciii- 
dado aftni de que se conservem os saes nellas exií$ tentes 
para ensoio ulleriopp Nos Jogares em que houver aguas mi- 
iiurnes se procederá úsoperoçôps onalylicas que indi.^pen-* 
saruhtietUeilevem ser Toitasnn Tonte^ remetlendo*se purçao 
a|tnnhrida com as precnuções necessárias pnra evitar perd:t 
de gnnes, allm de que sa veiiGque em algum hospital as 
suas virtudes uiedicinacs. 



II 



Cumpre também determinar a quantidade do mnleria 
orgânica que contém as diversas aguas, e a quantidade o 
qualiilade de matéria inorgânica que acarreta ut em siis* 
pensão em difíerentes épocas, para d'Qhi poder calcular o 
vuhimc de terras levadas annualmonle peins rios, e pro-^ 
bubilidado que olTcrecem da formacac de bancos ou do 
deltas. 

Âtlenta a diíGculdade de obter essas observações em 
numero sufficiente, ou em circumslancias sempre propi* 
cias, o resultado necessariamente só será uma aproai* 
mncão á verdade, cujos limites se irão estreitando com o 
anilar doslempos; porém mesmo assim ineiaclo , podo 
fornecer muitas dados de grande utilidade á engenharia. 



couiqssjui sciETcrma* 



140 



XII 



E* eonTctitenle esludiir com cuidado a formação de ban* 
CDi cm rias e no mar pelas aréas transporladas pelo vento. 
Acontece que em alguns logares pequenas lagoas, bebe- 
douro de gado, sSo ás vezes com pleln mente obstruídas, 
clevando*so no seu togar um cômoro d'aréa, e sondo este 
por sua vci removido deixa uma planície eocí^a^ ei pondo 
as$%im as criações á sedo. Bosques mesmo e aidéas inteiras 
são ás vezes cobertas no correr de poucos annos, e uma 
(ai tiestruieão da vegetação e accumulaçáo de um elemento 
oMoril podem em curto espaço do tempo reduzir vastos 
di>lrÍclos a inhospitosdeserlos.Com conbecimenlo, porem, 
daià leis a que obedece esse continuado movimento de enor- 
mes massas do arèa, ce alcançará talvez impedit-o por meio 
díj plantio de arvoredo, como se tem praticado nas res- 
tingas do Biitico o da 11 j1 landa , c como se tenciona 
mesmo ir invadindo o Saliara, á vista dos bons resultados 
que os primeiros ensaios produziram, Hirdy assevera que 
no f**zcr vingar ns primeiras cem arvores eslá toda adiDS- 
eutdade : u sombra c ao amparo destas as outras crescem, 
o com pouco trabalbo. 

XIII 

Nas lagoas enttdhadas podem existir ttirbeiras que sír- 
ram de combuiittvel, o se examinará so depósitos de rios 
não formam lenbitos recentes* 

8««^o znologleA* 
I 



A zoologia nno se Itmila a uma descri peão simples e 
rigorosa dos animaes dialribuidos sobre a superGcie do 



850 REVISTA BRAZILSIRà,.- 

globo terrestre, grupando-os melhodicamente ; nem a co- 
nhecer a estruclura do corpo e mecanismo de suas fane- 
ções physiologicas, seus hábitos e índole, seu modo de vi- 
ver e multiplicar, e transformação das espécies : ella oc- 
cupa-se lambem, e é o mais essencial, do proveito que as 
artes, a medicina e a economia domestica podem tirar das 
numerosas legiões de viventes que povoam o ar, a agua 
e a terra. Goncebe-se assim quão immenso é o dominio 
deste ramo da historia natural, e as vantagens que resul- 
tam do seu estudo, entendido como deve ser. 

II 

Os animaes de qualquer paiz podem pois ser conside- 
rados sob dous pontos de vista : ou geralmente como ob- 
jectos de historia natura] , e deste modo classificados 
segundo algum systema particular ; ou estatisticamente 
como manancial de riqueza, e apreciados segundo a sua im- 
portância. Interessa que sejam estudados de ambas as ma- 
neiras, o que compete ao membro da Expedição scientifica 
encarregado da parle zoológica. 

ni 

Terá portanto a obrigação de descrever exactamente todas 
as espécies de animaes que encontrar, vertebrados ou in- 
vertebrados, com os seus nomes vulgares e synonymia dos 
scientiQcos, discriminando os exóticos dos indigencís. Notará 
a degeneração que no fades dos primeiros fez soffrer a trans- 
ferencia do seu logar natal , assim como as modifica- 
ções relativas á cor, grandeza , costumes, ele, e o lucro, 
que a industria tem obtido, ou provavelmente chegará a 
conseguir da sua acclimatação em maior escala. Quanto 
aos pertencentes ó Fauna do paiz, averiguará o seu habitai 
peculiatt e a sua abundância ou escassez, distinguindo 



COMinssXo SCTÍÍNTIFICA. 



251 



com maior attenção os animaes iinperfeiía mente descri ptos« 
ou de lodo ignotos, dos que já eslão conhecidos, o assig- 
tia tido áquelles pelos seus earac Leres os Ioga r es que lhes 
cabem no systema geral de Cuvierj ou oulro preferido 
segundo a claúse respectiva. 



IV 



O conhccimentr» dos seres organisados avulta de inte- 
resse quando se trata dos mamraiferos, entre os quaes^ a 
homem eneontrfi seus indispensáveis auxiliares, tanto pelo 
admirável instincto, como e não menos pela força. A' frente 
deste primeiro grupo do grande typo dos vertebrados fi- 
gura o próprio homem» tão semelhante áquelles pelo plano 
geral de sua organísação physica, mas tão superior por 
^ssa sublime íntelligeneia, qtie lhe faz contemplar orgu- 
Ihosií a Cddèa successiva da creação nnimal estendida abaixo 
delle até coorundir-se na matéria inorgânica. Ficará po- 
rém o director da secção zoológica dispensado de tratar 
da atithropologia, visto estar privativamente sob a respon- 
i^bilidade de outro membro a parte ethnographica dos 
trabalhos da Com missão scientiQca. 

£' entre os individuos enumerados pela mammalogia 
que se observam as mais estranhas variedades nas formas, 
bem como na estatura. Os grandes mammifcros estão quasi 
todos conhecidos ; mas reina ainda muita incerteza quanto 
ás espécies pequenas , e por isso abre-se um dilatado cam- 
po de descobertas a quem se dedicar ao seu exame. O es- 
tudo dos quadrúpedes não se deve cingir unicamente á 
sua classificação niethodica» coma dissemos a respeito de 
lodosos animaes om geral, pois hoje já se começa a coni- 
prebender que ella é uni meio da facihtar a determina- 
ção das espécies, e não constitua o fim absoluto das invés- 
ligações da scieneia : importa averiguar os seus actos^ as 
condições exteriores que se ligam á sua existência* e a 



— 



451 REtíSTA BBAZILEIlíA, 

ioílaÊDcta que ^xdrcem sobra elles; tudo em umii piliwt 
quanlo concorra a derramar novas luzes sobre a historia 
da sua vida. Mas entre todas as noções quo se procu* 
rar adquirir, merecem primazia, por ímporlanlissima^, as 
que se referem aos serviços que os quadril pedes podem 
prestar, poise a classe de aoimaes que permilte os ninrs 
numerosas applicaçôes ás nossas necessidades: de uns nos 
utilisamosem quanto vivem, do outros só clepots de mar- 
tos, e de muitos tanto vivos como mortos. Neste ponto bem 
longe estamos de haver aproveitada as riquezas quo nos 
oíTerece o nosso fértil paii : õ somma delias é maior do 
que suppomos* 

Náo fa liando dos produetas únicas na seu gonero, quo 
o§ mamroiferos fornecem às artes uleis e de luxo, é copioso 
o numero das espécies selvagnns que, domesticadas, au*í- 
menlariam os nossos recursos alimentares. Lamenta F. 
Co vier p e com razão, qtie a anta [Tapirus amcricãnm) viva 
ainda errante nos bo^^ques, accrescenUHido que quai^i lo^ 
dos 03 pachydermes até hoje no estado de farocidade tem 
propensão para os hábitos domésticos : neste caso estão 
lambem todas as espécie.* dos géneros Cwlotjenyã^ Djxy* 
proãa, Cervm^ ele, , nos quaes se compreliendem as pacas, 
cutias e veados, sem fallar de outras mais ou menos apre- 
ciáveis. O mesmo se dá a respeilo das aves : apenas ai* 
gumas pessoas conservam , por curiosidade, em suas chá- 
caras o quintaes, o Crax a/ec(or, e um ou outro individuo 
dos bellos géneros Petiflope, Tinamm, Pm^hia^f elc« } mas 
ainda ninguém especulou sobre a sua criação em grande, 
imitando o que se pratica com as aves com m uns doi 
nossos mercados. Considerando nas modiQcaçòes e melho- 
ramentos introduzidos pela acção do homem na or^anísa* 
câOf funcções e hábitos dos aiiimaes domes^licos, Cearemos 
cenvencidos que poucos rjuadrupedes mammiferos exísténi 
euja domesticação nào seja mai^j ou menos proveitosa. 



COMmiSSlO SCIEMIFICJL, 



£53 



Immedsalamonlc npós os mammiferos opparecem oo 
cilensD quadro zootogieo os aves, talvez os seres anima^ 
dos que mais tem aUrohido a ai tenção dos povos, já por 
seus coâtumes e maravilhoso instiiicto» já pela sus vidada 
tio seu canto, e sobretudo pela elegância de suas formes » 
grafja de movimentos e brilhante plumagem, 

A ornilhologia braziletra ileve por consequência despertar 
a curiosidade do perscrutador da natureza, que será sem- 
pre indemnisado com usura das suas fadigas por novas 
descobertas, a mór parte inesperadas. Descrevendo flel- 
mente as aves de todas as ordens» não se olvidará de 
regislrar quanto fòr relativo a seus hábitos, sustento, repro- 
ducção, nidificação, incubação e criação da progenitura, 
lauto mais que os costumes da pluralidade dos pássaros» 
maximè da America Meridional, são ainda um segredo para 
o homom« £ como o nomenclatura liesta segunda classa 
dos vertebrados se ache boje bastante confusa, porque, sem 
fãllar do abuso do neologismo, das distincçõés subtis aas 
espécies c dos desmombramentos niio motivados nosgene» 
ro^, dílTerinJo muito as aves segundo sua idade e sexos, o$ 
Auctores tem frequentemente tomado indivíduos da mesma 
espécie por de nutra diversa, dilucidar-se-ha grandes duvi- 
das conseguindo reunir de cada uma^ o quo nem sempre 
será faoil« o macho, a fêmea, e de ambos o novo, o adulto 
o velho. A economia rural, a^í artes e o fasto põem em con- 
tribuição c tiram grande partido de numerosas aves; é isto 
um assumpto merecedor do Ioda a ponderarão para o com- 
mcrcio. 

Com as espécies que vierem preparadas c conveniente r&- 
inetler, semla possivel* os ninhos e ovos pertencentes a cada 
uma, que sáo objectoi um pouco despregados nus muséos, 



254 . BETISTA BBAZn^EIRA^ 

e todavia tão ioteressaotes para o ornithologista como as 
mesma aves : é na construcção dos ninhos que ellas mais 
nos fazem admirar a sua industria e prevenção para que a 
prole não deixe de vingar. Quando na composição dbs 
ninhos entrarem matérias animaes, de que se servem certas 
aves, antes de guardados serão embebidos no licor deSmith, 
em uma solução de acido arsenioso ou de strychnina. A per- 
feita conservação dos ovos, principalmente dos pequenos, 
exige paciência e delicadeza, e em vários auctores se 
encontram os processos a seguir. Nos gabinetes de historia 
natural a collccçâo de ovos não se deve restringir só aos pro- 
venientes dnsavcs; outrosim tem bom cabimento os dos 
Cheloneos, dosSaureos, dos Ophidios, etc. ; é conveniente 
trazer isto em lembrança. 



VI. 



Entramos em outra parte da philosophia natural, bem 
fecunda em resultados interessantes, a ichthyologia, que 
tem por fito o conhecimento completo dos peixes, animaes 
muito variados, e também- dignos em tudo de chamar a 
attenção do naturalista : diversidade de familias abrangendo 
grande numero de espécies, muitas das quaes, a par dos 
mammiferos e das aves, nos abastecem de preciosas maté- 
rias empregadas nas artes e na pharmacia; fácil multipli* 
cação em lodosos climas, como está hoje exuberantemente 
provado pelas repetidas experiências dos mais babeis pis- 
cicultores de França, da Inglaterra e da Âllemanha ; e sobre- 
tudo prodigiosa fecundidade dos individues, a tal ponto que 
certas nações se alimentam quasi exclusivamente de peixes, 
sendo além disso o seu uso recommendado, entre outras, 
pelos dogmas da religião. 

Resalta do exposto que nunca haverá demasia de esforços 
tendentes ao prc^resso da ichthyologia, para o qual oBranL 



COMMISSAO SCi£IV!TIFICi|. 



255 



muito ]\i)de cooperar, pois nossos mares e rios foram sem* 
pre afamados pela variedade de peixes que nelles vivem . As 
ri2oe§ eipendidas accresce a nao menos altendível do achar- 
le o masco nacional mui pobre nesle ramo, e por isso convém 
formar uma boa collecção de peixes, tanto marinhos como 

kOuviaes, consultando na sua classiíjcaçâo os magniQcos tra* 
bulbos de Lacépède, de Mííller, a obra monumental de 
Cuvier e Valenciennes» e notando o que se souber acerca 
di abundância daqueltes animaes, do seu prcslitno, manei* 
_ ra de procrearem, de tudo emfim quanto augmente a massa 
dos conhecímentoi que já possuímos. 

Isto só se poderá obter satisfactoriaoiente inquirindo os 
melhores pescadores, fazendo o sacriGcio de acompantial-os 
em seus arriscados trabotíios, coin preferencia depois das 
grandes e aturadas tempestades, e assistindo pessoal mente 
a essas guerras de paciência e de astúcias, táo ferieis de 
episodioíi, que, senhores dos mysterios do oflicio, elles diri- 
gem contra os habitatiles das aguas, Tornar-se-ha também 
indispensável entre ler uma correspondência regular com 
pescadores de diversas [jaragens, principalmente das mais 
piscosas, dando-lhes as eoavenientes instrucçôes, e pagan- 
do com generosidade qualquer espécie desconhecida que 
apanharem, aOm de interessal-os a novas diligencias. Em-* 
lora muitos peÍ3£es marinhos se encontrem por toda a parte> 
coinludo o tnaior numero pertence a certos golfos, angras 
ou praias; e as espécies de peiíes de agua doce ditTerem» 
não só segundo os paizes, mas e não menos conforme os 
. rios e lagos em que vivem. 

Constituindo a pescaria um avultado líemna riqueza da 
ijualquer pai/, importa observar o seu estado actual, as 
cauaai que empecem o seu progresso e os meios de remo- 
vel-as, descrevendo igualmente os processos e instrumentas 
empregados {tara segurar o [>eixe, da mesma forma odoptada 
por Duhamel e outros que escreveram sobre a pfscariíi prali- 




SS8 



EEIOSTA DEAZIL£tAJI« 



ea, A descri pção desses processas e inslrii mentos^ nn qnil 
le deverá ter em vista as quatra cUsseâ em qae oi divíilíii 
Ltcépède, tornar-se-ha maiscoinpreliensivelse fòr íllustra' 
da de desenhos esactos, ou ainda melhor acompanhada do 
uma coUecçâo de morlelos das diversas espécies de eurraes 
oa cercadas, redes, armadilhas, cestoi ou cóvoSp esteirai, 
etc. Comos modelos viráo também amostras das madeiras» 
cordas, Gbras e outras matérias de que são fdbricadofi em 
ponto grande. Desnecessário é lembrar que os vegelaes 
usados pelos habitantes do interior, e principalmente pelos 
indígenas, para embriagar o peixe, serão contemplada! na 
indagação deste assumpto, tão urgente na actualidade que o 
Governo Imperial se acha autorisado pela^^ camarãs legislali- 
vas a promovera iucorporaçáo d^ companhias para a pesca, 
salga e secca de peixe do líttoral e rios do BrmL 



YII. 



Resta-nos fallar da quarta e ultima classe dos vertebrados, 
a qtiat comprebende os reptis, abundantíssimos no Braxil, n 
divididos pelos erpelologislas em CheloneoÈ, Saureo%^ Batrã- 
ckion e Ophidm. Recommendando em geral o estudo a uma 
colleeção bem conservada de todos, lembraremos de paf:m- 
gem diversas particularidades relativas aos nossos ophidtoi. 

Ao horror e repugno n cia que a maior parte da genle inspi- 
ra a vista e a aproximação das serpentes podamos atlribuir a 
leutiilão dos passos da ophiologia ; mas esse liorror que ellas 
excitam, longe de ser um motivo para nos afastannos do 
seo exame, nos prepara os mais extraordinários espeelacu- 
loA, Díílicilmente acredilar^se-ha que ainda se não acham 
determinadas com certeza as serpentes ironenosas do Bmxilt 
cujo numero é menor do que suppòe o vulgo, noquecofl* 
cordam muitos observadores desprevenidos, 

A discrepância dos nuluralistas na classiíieaçáo das ser* 



COMMlSSâO SaENTTPICA* 



257 



pentes brazileiras, assim como na sua qualidade venenosa, 
procede qnasi sempre da attençiío dada aos nomes triviaes 
com que são designadas do paiz : por exemplo, appellidam 
indtsiiuctamente cobra comi muitas espécies bem diversas do 
verdadeiro Elaps coralUnus: o mesmo snccede a respeito da 
tararam, Surumcú, Caninana, Limpa-muío, Urutu, e outras 
^que se confundem ou variam de nomes segundo os togares* 
Muilô interessa a dilucidaçuo destas duvidas, determinando 
rigorosamente as espécies, e jantando a cada uma a syno- 
nymia dos seus nomes vulgares. Também é de incontestável 
Iranscendencia o conhecimento da forca toxica das que a 
.possuem, e não menos o dos antídotos apregoados como in^ 
falliveis para neulralisal-a. 

Outro ponto bem curioso, pelo qual se pronunciara a 
favor e contra grandes autoridades^ vem a ser o decan- 
tado poder magico ou sobrenatural attribuido ás serpentes, 
qae se acredita geralmente exercerem era distancia uma 
espécie de acção magnética sobre os outros animaes que 
intentara prear, obrigando-os somente com a vista a apro- 
límar-se pouco a pouco até preeipilar-se nas suas fauces ; 
assim como o grão de fé que merecem os nossos psyllos^ 
mandingueiros, ou curados de cobra, os quaea se jactam de 
possuir o segredo de brincar impunes com toda a casta de 
serpentes, zombando do seu veneno, e de fazei -as obedecer 
aos seus momos e assobios- A^cerea da fascinação dos ophi- 
dios é notável o que se lè na Erpeiohgiã geral de Duméril 
e Bibron, até bojo a mais accurada publicação sobre os 
reptis. 

Divergem também os auctores tratando do maior compri- 
mento a que cbegam as nossas espécies de género Boa, enti e 
as qaaes sobresabe a gigantesca Sucury ou Sucuryú [Eunectes 
murifim, Wagler). Haverá talvez opporlunidade de ave- 
riguar isto^ recolbendo ao mesmo tempo as tradições rei- 
nantes entre os sertanejos relativamente a serpentes mons-^ 

17 




258 



REVISTA BRAZILEIRA. 



truosissimaã, que clles alteslom appareceram em cert 
épocas, e de cuja ibrça narram prodígios dignus ile eiornariÊ 
viagens de Syn Jbad o Morioho das Mil e uma Nokes. Não se 
julgue futilidade o conhecimento dessas tradições leratolo^ 
gicas que a crença popular, sempre ávida do niaravíthoso. 
vai traasmittindo de boeca em bocca : arditvadas, quando 
mais nâo seja serviráõ de thema para a poesia brazileíra. 



VMI 



Passamos agora a tratar dos invertebrados, divisão vastis- 
sima que abrange os mnlluseos , crustáceos, araehnídes , 
rayriapod*:*s, insectos, annelides, e termina nos zoephylos, 
subdivisão na qual se encontram esses seres ambíguos^ que 
nos trazem indecisos sobre o limite de dous reinos, esgo- 
tando a paciência dos mais tenazes niicrogrupbos, que nelles 
intentam sorprender oâ primeiros rudinieutos da molécula 
orgânica. 

A respeito dos invertebrados militam as mesmas razões 
expendidas para o estudo aprofundado dos outros animaes 
deorgauisação mais complicada : não repisaremos portauto 
o que tica dito, julgando ocioso e^^pecilicar cumo m deve 
proceder quanto á malactilogia, conchyolofíia, lielrainlholo- 
gia, etc. Exceptuaremos comtudo a entomologia^ a qual, se- 
gundo o pensar de mtiilos, nào éuma scieucia frivola e pró- 
pria somente [»ara satisfazer uraa vua curiosidade, mas sim 
utilíssima e digmi de occupar os mais sérios espiritas. As in* 
dustrias alimentadas pelos piuductos dos insectos, eserevcnj 
Guérin-Méneville, dão trabalho a numerosas pa|iuiaçôeii,l 
rendem sommas considero veis^ e lã^em gyrar lomieosc 
copitaes. Alguns exemplos tirados da estatistica o provarão 
melhor : a cochonilha indispensável para as fabricai de 
França custa annualmenle mais de oito milhões do francos; 
e a seda dá também cada anno mais de 150 milhões de 



COMmSSAO SClENTrFICA. 



239 



francos aos prod actores da matéria prima* e uma som ma 
lUãts que diipta á intiustría propriamente dita, pelas maaU 
pulíições que neçeâsila antes de ser entregue ao consumo. 
Resulta dos mais aulhenticos documentos, e das próprias pa- 
lavras tio relatório do ministro da agricultura em 1850» que 
o ?;ofo francez nâo produz toda a seda necessária para as fa- 
bricas, pois allí se importa por anno mais de 60 milhões só 
de seda desQada , importação que tom subido prodigiosa- 
mente. Isto, e a enfermidade destruidora que tem sollrido 
na Europa a lagar la que prepara tão preciosos fios, explica os 
grandes esforços boje empregados pela França para a accli- 
malação de e^sipeciei exóticas de bicbos da seda na Argélia. 

De sobejo lemos dito para recommendar a indagação dos 
Lepidopteros que produzem j^eda, devcndo-se examinar qual 
a quanlidade delia fornecida por cada espécie, de que vege- 
Ines se sustentam os bichos, qual n temperatura da província 
desde que sabem as larvar até á tbrmaçâo dos casulos, etc, 
Nâo se receie a prolixidade neste assumpto : convém escre- 
ver iudo quanto se souber sobre a vida e costumes destes 
insectos, distinguindo as observações pessoalmente feitas das 
colhidas de outros indivíduos. O verdadeiro bicho da seda 
(Bombix morit L.] não é o único insecto que produz la o pre- 
ciosa matéria^ como se sabe: o Dr. Cbavannes publicou em 
1855 o resultado de suas indagações sobre diversas espécies 
de Saturnias, entre as quaes disti ngue a S. aurota e 5. wlkra ; 
a primeira muita comnium nos arrabaldes desta cidade» ea 
H segunda na Bahia, fornecendo aquella uma porção de seda 
^H 80 te vezes mais considerável que a do Bombix mori ou do 
^H Vynlhia. Além destas espécies, possuimos outras conheci- 
^H das, e provavelmente por conhecer, de que a industria seri- 
^1 cicola multo aproveitaria. Está hoje demonstrado que as 

I raças de bichos da seda, como as dos outros animaes doraes- 

I lícos, são susceptiveis de melhoramento, e que depende da 

^^ vOQiadè do homem fazel-as dar mais seda , assim como se 



260 REVISTA BRAZILEIRA. 

obteve que os bois^ os carneiros e porcos dessem mais carne 
e gordura. 

Na colheita dos Hymenopteros se deverá attender muito ás 
nossas espécies de abelhas, que são numerosas, fornecem 
cera em abundância, e um mel mais ou menos perfumado ; 
e com quanto se não possa avançar que a qualidade de seus 
productos chegue a rivalisar com os da abelha commum 
(Apis meUifica), seria de desejar que se tentasse a sua explo- 
ração. Na ordem dos Hemipteros existem diversos insectos 
do género Coccus, que também produzem ceras , das quaes 
appareceram varias amostras na grande exposição geral de 
Paris, remettidas da China, e tão bellas como o sperma- 
ceti. Os insectos do sobredito género são communs em todas 
as províncias do Brazil ; já muitos curiosos tem fabricado 
velas com a sua cera, e isto presagia um novo ramo de 
commercio. Ha muitos outros insectos úteis, cujo exame 
não julgamos necessário lembrar, como por exemplo as can- 
tharidas; nem também o das numerosas famílias prejudi- 
ciaes á agricultura, á horticultura, á sylvicultura e á econo- 
mia domestica, que nos causam maior damno do que todas 
as outras classes de grandes animaes nocivos. O estudo me- 
lhor dirigido dos diversos ramos das sciencias physicas e sua 
applicação ás necessidades da agricultura tem produzido re- 
sultados de grande importância, que nenhuma pessoa ins- 
truída contesta actualmente, e a entomologia é chamada a 
representar um papel indispensável nas sciencias agri- 
colas. 

IX 

De todas as espécies de animaes coUigirá o numero de 
exemplares que entender (no caso de encontral-os em quan- 
tidade), segundo seu maior ou menor valor scientiGco, 
tendo em vista que, além do musêo nacional desta corte, 
outros existem em algumas provincias , onde convém 



( 



CDMnOSSAO SCtENTLFICá. 



261 



m igiiaímente tlepositãdos, servindo os que sobrareiu 
foxer-se Iroeas cotn musêos estrangeiros. 
Na preparação desses aníoiaes, quer a sécco, quer mergu- 
lhados cm álcool ou em outros liquidos adequados, conibrme 
^fl sua natureza, cumpre que haja o maior cuidado, alten- 
[líendo nâo só á íulura conservaçãOj mas ainda evitando que 
\m tlestruam ou detormem alguns dos caracteres exteriores, 
cuja falta diflicuharia ou impossibilitaria depois a sua das- 
IjMÍicaçáo, Xào será muito avaliarem uni quarto a perda re- 
isttltante do máo methodo com que são preparados e acondi- 
cionados os objectos de historia natural. A Instrucma ar- 
iranjada pela administração do rausêo de París, para os 
Iviajantes a empregados nas colónias, sobre a maneira de 
colher, conservar e remei ter os produclos naturaes, servirá 
de eicellenle guia ; assim como, e em alguns casos mellior, 
^^Qnuúl do naturaVnla preparador de Boitard, e vários ou- 
^B (ralados modernos de Taxidermia, aos quaes se deverá 
fSSguír com os modificações que a experiência própria e as 
icircuinstancias particulares do paiz aconselharem, 

1 Coro quanto a chi mica tenha descoberto processos infalH- 
veis para prevenir que se corrompam e deteriorem os ani- 
jmaes destinados aos muséos de historia natural, todavia 
[muitos detles, por exemplo peixes^ repiíSt ele., iafeiizmenle 
Iperdemou mudam algumas de suas brilliantes cores logo ou 
Ipoueas horas depois de introduitidos nns melhores liquidos 
[preservativos, e mesmo apenas cessam do viver. Havendo 
(certeza, ou desço níiando-se que as cores de alguns animaes 
[fviráõ a ai terar-se, é indispensável fazel-os desenhar imme- 
íiliatãmente com toda a fidelidade de colorido ; e quando 
tqiialquer inconveniente o nâo permitia, recorrer-se-ha a 
notas por meio de uma boa escala chromatica. Se lodos os 
majantei naturalislas assim praticassem, muitas flguras de 
pnimaeSi aliás de correclissimo desenho^ que esmaltam as 
mm esplendidas publicações, não peecariam pelo lado do 



262 



RETJSTA teRAZlLElRA, 



falso colorido, como se observa priaci pai mento na classe 
dos insectos. As estampas nas obras de historia natural náo 
são requinte de laxo, como ba quem acredite ; a ieonnjtra- 
phia quasi sempre economisa o tempo qtio pela simples lei- 
tura se perde em biiscos enfíidonlias e fatigantes, e srippro 
inuilas vezGs a diíliculdado de exprimir ligeiras diíTtírencas 
ecaracteres, inexprimíveis mesmo com OFoccorro ila méllior 
terminologia* 



Concordando todos os naturalistas na necessidade absnluia 
dos estudos osteologicos» muito roais depois qne a paleon- 
tolngia começou a confrontar os ossos das gerações perdidas 
com os das existentes em nossos dias, para mediante essa 
comparação simultânea inferir a que famílias e géneros de 
animaes pertenceram aquelles fosseis, não se desprezurá a 
remessa de esqueletos inteiros, ou pelo menos os craneus e 
algumas outras peças mais imporlanles para as investi«*acões 
da anatomia comparada. Não carece que os esqueletos com- 
pletos venham armados, pois deste modo se embaraçaria sem 
vantagem a sua conducçâo, o até mesmo nunca cbegariam 
perfeitos; basla arrumar cm separado os ossos de cada es- 
pécie diflerente, de maneira que nào chocalhem dentro das 
caixas, e se damniQquem roçando uns nos outros : este mal 
se corrige envolvendo-os era palha, musgo, serradura de 
madeira, ou outras substancias idênticas. 

Uma coUecçâo de visceras das mais essenciaes, presença- 
das era licores espirituosos, é complemento indispensável 
e fácil de execular-se. Não tanto nas formas exteriores , 
como na organisaçlo interno, se deve procurar os c^racleres 
genéricos e especilicos dos animaes, segundo ensina o iin- 
mortal Cu vier. 



COHMISSÃO SG1ENTIFICA. 263 

XI 

Serão louváveis todas as diligencias afim de que os habi- 
tanles do paiz apanhem vivos alguns animaes menos com- 
muns ou mais curiosos, cujos hábitos convenha indagar, e 
os remetterá para esta corte em gaiolas apropriadas, dando 
aos seus conductores as instrucções competentes : entre estas 
se recommendará, como muito essencial, além das maiores 
precauções quando os ànimaes Torem ferozes, o asseio das 
gaiolas; que se evite o excesso de alimentos, extremamente 
nocivo a viventes presos e privados de exercicio ; e de ma- 
neira nenhuma se consinta que sejam instigados ou irrita- 
dos. Quando o Governo Imperial não possa ainda realisar a 
ideado digno director do Jardim Botânico, o Ex*""" conselheiro 
Cândido Baptista de Oliveira, de crear naquelle estabeleci- 
mento um parque de zoologia, á imitação dos existen- 
tes em outras nações cultas, onde melhor se sorprenda os 
costumes dos irracionaes das nossas florestas, e se faculte 
occasião de comparal-os com outros exóticos, serão esses 
animaes offerecidos á Sociedade Imperial zoológica da accli- 
matação fundada em Paris, ou a algum outro núcleo do mesmo 
género, lucrando assim a sciencia e a humanidade. 



XII 



E' da maior vantagem que o naturalista viajante lance 
cada noite em ura livro as notas que houver tomado du- 
rante o dia, pois estas em papeis avulsos facilmente se po- 
dem extraviar. Além dos seus próprios apontamentos, trans- 
creverá no referido jornal as informações que lhe ministra- 
rem os habitantes do paiz, aos quaes consultará segundo o 
conceito de veracidade que lhe merecerem. De continuo 
com a natureza diante dos olhos, elles tem occasião de ob- 
servar os animaes em seu dominio, e por isso fornecerão a 



S6I 



BEnSTA BRàZlLEmà. 



respeito DOticias apreciáveis, Nada omittírá de consignar {lor 
escripto, que do muito lhe servirád para o futuro a.^ sutis 
notas : são tantos os objectos de que vai ficando sobrecar* 
regada a memoria de um viajante observador, que não deve 
contar sempre com ella, por mais feliz que a tenha. 

Secfao fu»lraiionilci» e ireoifr»pltle»> 



Art. 1*- A secção da Commissão eiploradora, inctimbiila 
especialmente dos trabalhos astronómicos e geagraphico^, 
os dividirá em duas classes distinctas; a saber: 

1* classe. Esta classe comprehenderá as observações as- 
tronómicas e operações topograpbicas concerDentes á deter- 
minação da posição geographica dos pontos mais importantes 
do território explorado : e também quaesquer exames e 
averiguações que se fizerem sobre objectos, cujo conheci- 
mento possa interessar directamente á geographia. 

2* classe. Nesta classe entrarão os trabalhos de mera in- 
vestigação , que interessarem immediatamente à physica 
geral do globo; e bem assim os que tiverem por objecto a 
suggestao de importantes melhoramentos maleriaes, de que 
careçam as provincias visitadas pela Coramissão exploradora^ 
uma vez que tenham elles alguma conuexão com a natureia 
dos trabalhos incumbidos á referida secção. 



U 



Especi^mção dos trabalhos da V clame. 

Ari, 2** Sendo que a Commissão exploradora, no seu tra- 
jecto por mar, toque algumas provincias do Império, dii 
gindo-se áquella em que tem de encetar os seus Irabalhoi 



COMMISSAO SCIENTITICA. 



Í65 



coavirá que a secçãa astronómica aprof6Ít6 assa opportuai- 
dade para delermittar a posição geograpliica das cidades ad- 
jacentes aos referidos portos, se for isso praticável durante 
os flías que ahi tiver de demorar-se a eipediçâo scienti- 
Gca. 

Art, 2^. Nas observações concernentes à determinação da 
latitude convirá quej além da altura meridiano, outra se 
observe era qualquer posição da mesma estrella, antes ou 
depois da sua passagem pelo meridiano do logar, e ao mes- 
mo tempoo oorrespondenle azimutli. 

A observação da altura meridiana basta por si só para 
determinar a latitude do logar pelo melhodo geralmente 
praticado, mediante o conhecimento da declinação da estrei- 
ta observada. 

Recommenrla-se porém a observação da outra altura, to- 
mada fofa do meridiano» cora a do azirauth correspondente, 
para o Om de chegar í determinação da mesma latitude» 
empregando os ires ângulos dados pela observarão, segundo 
8 novA formula do C, Baptista, a qual dispensa o conheci- 
mento da declinação da estreita, 

Esle duplicado trabalho tem por objecto, não somente 
subníeller a mencionada formula ás provas praticas, eorao 
lambem apreciar [palas differenças que possam apresentar 
os resultados comparados de um e de outro processo) os eíTeí- 
los da re fracção astronómica, a qual deverá affectar diversa- 
mente o§ elementos empregados nos dousdiíTerentes raodos 
^H de operar, e talvez mesmo corrigir, em alguns casos, decH- 
^^ nações pouco exactas, dadas pelas ephemerides astrono- 
^^ micas. 

^V Art. 4^ Para a determinação da longitude geodésica se 

W fará uso dos chronometros^e das distancias lunares ao mesmo 

I lempo, todas as vezes que estas possam ser observadas. 

^H As longitudes assim determinadas serão» referidas ao me* 

^^ ridiano que passa pelo ponto culminante da rocha, qua 



266 



REVISTA BnAZtLEmA. 



assignala a entrada do parto do Rio de JaQeiro, deDomÍDada 
Pão de Assucar, 

A peculiar situação desse gigantesca moQoliiho, e nãaís 
ainda a circuinstancia de ncliar-seelle descriplo nos annaes 
marítimos de todas as nações, o faiem gingularniente azâdo 
para indicar, por raodo perdurável, a poâíçáo do nosso prí- 
meiro meridiano. 

kvL 5** Afim de fixar a posição do ponto da observi- 
ção, a que forem reportadas a latitude e longitude deter- 
minadas, convirá oriental*o em relaçioa dons outros pontos 
notáveis, que se descubram dislinctamenle no horizonte 
do logar, pelos seus azimutlis observados com o iheodo- 
Uco; úUf o que é a mesma cousa, pelos rumos a que de- 
moram aquelles dous pontos, em relação ao meridiano 
astronómico do logar. 

Na faltii dessas duas balisas naturaeç;, se fincaráô na vi- 
zinhança do referido ponlo da observação três marcos d© 
pedra tosca, de modo que apresentem a menor face rente 
com o châOj e sejam col locados em três pontos quaesquer 
da circumferencia do circulo, cujo centro é o ponto da ob* 
servação. 

Na direcção da vertical que passa por esse ponto, enii 
profundidade de cinco palraos pelo menos, se enterrará 
uma garrafa de vidro commum, fechada hermética menta 
ao maçarico, depois de ser nella depositada uma nota es- 
cripta, contendo a expressão numérica da latitude e longi' 
tude observadas, a variação local da agulha mafínetica de 
declinação, a temperatura e pressão barométrica medias 
do dia da observação. Esta nota será assiguada pelo chefe 
da secção astronómica, 

Art. 6°* Uma vez chegada a CommissSo eiploradora Í 
província era qiJe deverá encetar os seus trabalhos regu- 
lares^ começará a secção astronómica por determinar, dqui 



COMMISSÁO SCJENTtFICA. 267 

a fiossivel exactidão , a posição geograpbica da capital da 
mesma província ^ procedendo do modo acima descriplo. 

Em todos os pontos da província onde houver de íixar-se 
lempora ria mente a Com missão exploradora , a secção as- 
tronumicd fará a detenni nação da posição geographica dos 
logares que o mereçam na opinião delia ; com altençào a 
que laes determinações possam aproveitar para o futuro á 
construcçâo da carta geral do Império, ou venham a ser- 
vir de hase ás operações topographicas que forem executa- 
das em observância da lei que decretou o lombameoto 
das terras nacionaes. 

Art» 7**. Na escolha dos logares, cuja posição geograplílca 
convirá determinar, a secção astronómica dará preferea- 
cia aos pontos situados nas margens dos lagos e dos rios» 
lem nunca preterir os que se referem á embocadura destes 
00 Oceano, ou ás confluencias dos mesmos no interior do 
lerritorio. 

Estes trabalhos deverão marchar de par com as averigua- 
ções relativas á natureza do leito década um dos rios, 
ao volume das suas aguas, eá velocidade da sua corrente ; 
ás condieòes da navegabilidade , ou ao regimen do seu 
curso; e bem assim pelo que respeita ás particularidades 
próprias dos lagos. 

A cnnllgii ração das montanhas notáveis, ou das serra- 
nias lio interior da província, as^sim comu o accurado 
eia me dos portos, bahias, ou angras do seu littoral, serão 
objectos comprehendidos nu desenvolvimento dos traba- 
lhos regulares da secção oslronomica, 

Art. 8". Os trabalhos precedcnf emente especificados se- 
rão com mu os us demais provi nc ias » quo forem visitadas 
successivametite pela Gommissão exploradora. 

Entre as observações meteorológicas, conducentes a ca- 
raclerisar o clima das diversas províncias eiíploradas, de- 
verá merecer particular attençâo á secção astronoioíct a 



168 



RETISTA BRAZILEIAJl* 



apreciação da temperatura meita e niaxima local, em cada 
um dos aieses de regular observação. 

Para esse fim bastará observar o therraoraelro ás 9 ho- 
ras da manhãa^ e ás 3 liaras da larde» em cada dia : visto 
que a media dâs iadícaçòes tharmometricas , lomadis 
naquella primeira hora do dia, representa com aproxima* 
cão satísfactoria a temperatura media década mez; resul- 
tando d'aht que a media dos do2e mezes é, sem erro 
apreciável, u temperatura media annual do logar. 

As indicaçóes thermometricas tomadas às 3 horas da 
farde farào conhecer semelhantemente a máxima tempe- 
ratura aproximada de cada dia, a de cada mez* b a de 
todo o a noa. 

O chefe da secção astronómica encarregará om dos seus 
adjuntos de descrever, era um livro apropriado para ser- 
vir de jornal das operações a seu cargo , cada um doã 
trabalhos executados, com a devida regularidade^ e dis- 
tincçáo das províncias a que dizem respeito, autheotican- 
do-os cotn a sua assignatura e a do referido adjunto. 



nr 



TrabaihOÈ de investigação. 



Art, 9*. A secção astronómica, iodas as vezes que julgar 
opportuQo, fará uma serie de observações de alturas meri- 
dianas de um mesmo astro» em dias successivos ou intor^ 
polados, calculando a latitude geodésica relativa a cadal 
uma das alturas observadas por dous modos differentes; 
a saber: 1*, corrigindo a altura observada do effeito di| 
r^fracção modiíicada pelas d i fie ranças de temperatura 
pressão barométrica da occasião, em relação á tempera^ 
tura e pressão consideradas constantes na construcçâo da 
taboa de refracções astronómicas ; e igualmente da parai 
kie, êB fôr necesgario^ afim de deduzir desse elemant 



COMMISSÃO SCIENTIFÍCA. 269 

asêicn corrigido a latitude do logar ; 2*, fazendo a deduc- 
çSo dessa mesma latitude, sem a correcção devida ás 
indicações do thermomelro e do barómetro* 

A media das latitudes assim calculadas, em uma eou* 
Ira hvpothese, fará conhecer ate que ponto as variações da 
teraperaiura e da pressão barométrica poderão influir nos 
resultados obtidos nas circumslancias suppostas acima. 

Uma investiga çõo semelhante poderá ter logar relati- 
vamente a duas observações de alturas meridianas do 
mesmo astro, feitas em dous estados hygrometriiros diffe- 
rentes da atmosphera» cotiservanío-se proximamente con- 
stantes a temperatura e a pressão barométrica : o que fará 
conhecer, pelos resultados comparados» a conneião que 
possam ter as indicações hygrome tricas comos eíleitosda 
refracção astronómica ; se todavia a atmosphera mais ou 
menoR impregnada de vapores exerce diversa influencia 
sobre o phenomeno da re fracção, o que é contestado por 
experiências physicas, que tem em seu favor a autoridade 
de homens competentes. 

Art, 10'. A secção astronómica deverá tamisem proce- 
der a exames cura para ti vos dos eíTeitos da refracção astro- 
nómica sobre as observações de alturas meridianas^ feitas 
na summidade accessivel de alguma montanha ou serra ^ e 
na planicie adjacente. E bem assim a respeito da lei do 
decresci mento da temperatura, em camadas d iffe rentes da 
atmosplieru, a par do decresci mento da pressão barome- 
Irica, com o fím especial de veriGcar se em algumas cir- 
cumstancias acci denta es tara logar o facto observado por 
homens da sciencia, os quaes asseveram que a variação 
da temperatura nas camadas superiores da atmosphera, 
para uma altura vertical dada , segue em alguns casos a 
marcha inversa da variação da pressão barométrica; isto é, 
oquella crescente, quando esla decresce. 

Convirá por esta occasião comparar as diflfierenças de 



S70 



REVISTA BEAZtLElHJl. 



uivei, dfldas pela formula baronií^lrica de Laplace, era 
differentes dias de observfição.ccim 05i resullados de ope- 
rações hygrometricos feilas para esse Cm : para assim de- 
terminar praticamente as condições em que a referida 
formula pôde ser applicada com proveito, ou gem erro 
attendivel; o que não tem geralmente logar quando é essa 
formula empregada para determinar diíTorenças de nivol 
comparativamente pequenos* 

O extenso e occessivel plateau que coroa o cimo da serra 
do Àraripe, na província do Ceará, no termo da comarca 
do Crato, offerecerá á seccçao astronómica as mais favorá- 
veis condições talvez para levar a effeito os estudos com- 
parativos acima indicados. 

árt, 11-. A secção astronómica fará observações ri^gu- 
lares e accuradas sobre as variações lacaes da agullia mag- 
nética, tanto pelo que respeita á agulha de deeliuaçâo, em 
relação ao meridiano astronómico, como á agulha de in- 
clinação, em relação ao plano horizontal do logar: determi- 
nando a grandeza media de cada ura desses elementos, 
os quaes, com a íntensiilade da força magnética, dedu- 
zida das oscillaçòes observadas, farão conhecer as condições 
magnéticas do território es[jlorado, e servirão para vert* 
ficar por outra parte os resultados da theoria pbysieo-mo- 
thematica do magnetismo terrestre, em relação aos toga- 
res da observação. 

Semelhantemente determinará o mesma secção o com- 
primento do pêndulo simples que bate segundos seiíígesi- 
maes, uas differentes latitudes em que possa ter logar - - i 
operação até o t^quadur. Os resultados assim oblídos «1 
tt intensidade da força da gravidade em cada uma daquel- 
las latitudes, e farão igualmente conhecer a curvatura do 
arco do meridiano^ coraprehendido enfrc o equador e o 
paralielo mais remoto em que se executou a referida de* 
terminação. 



COMMISSAO SCIENTIFICA. 271 

Àrt. 12\ AchanJo'Stí a ComiDÍssãaeiploradora na pro- 
Tincia do Ceará, a qual soffre periodicamente o flngello 
de sèccaâ devásladoras, convirá que a secção astronómica, 
de aeeordo com a secção geológica , faça alli os precií^os 
eiamcs de somlagem , aíiui de descobrir os indicies que 
possam servir de gtiia pfira tentur-se opportunamenta a 
abertura de um poço artesiano, o qual (no caso de surtir 
eireiio essa primeira tentativa} possa ser considerado como 
norma para a abertura de outros poços, de que careçam 
diversas localidades da pravincia* 

Ha doitâ €iemplos recontes de poços artesianos abertos 
em terrenos apparentemente análogos aos doCearátOsquaes 
Qtilorisam , pelos resultados obtidos , a que se proceda 
iiestii província a tentativas desse género; a snber , um 
no Egypto e outro no deserto Sahara na Argélia. Este 
ultimo, que fora aberto até a pequena profundidade de 
cerca de 30 braças, fornece diariamente aos habitantes do 
logíir dous milhões do canndas de agua potável, ou 10^000 
pipas de 200 canadas. 

Art. 13*» A secção astronómica fura finalmente, quando 
tiver opportunidadet uni estudo accurado ; 1*, sobre a con- 
veniência e praticabilidade da abertura de comraunica- 
ções faceais entre os cenlros de producçáo do interior 
da província do Ceará e os seus porlos;!", sobre os me- 
lhoramentos de que carecem estes portos, paru que sejam 
1~ accessiveis ás embarcações que fazera o commercio directo 
com os paiz estrangeiros; devendo merecer-lhe particular 
attcnção as peculiares condições que oíTerece a angra de- 
nominada «Porto de Jaricoacoára í^ situada cerca de 30 le- 
nuas a 0-N-O da cidade da Fortaleza. 
I 



27S 



REVISTA BRAZIIEIBA, 



I 

Os principaes elementos que servem paru distingtiir 
fis raços humanas sào : a organinação phynca^ o earader in- 
íellechial e morah us línguas e m tradições /mtoricm. Estes 
elementos diverâos aâo tem ainda sido estudadoSf sobra^ 
tudo relativamente aos indígenas do Brazil, de maneira a 
assentar em suas verdadeiras bases a scieDcia daethnoto- 
gia. Como é provável qued'aqui a duzentos annos poucoâ 
selvagens existam no seu estado primitivo, torna-se muito 
preciso que desde já se comece a recolher a respeil0 
delles tudo quanto fur possível : alé hoje isto se tem feito 
superficialmente. Além de que> o homem genuíno ameri* 
cano pòdú ser chamado a compartilhar os bens da civilist- 
çâo, e voluntariamente presta r-se á communhâo brasileira, 
se empregarmos os meios consentâneos com a sua indule e 
constituição physiologica nos primeiros tempos. Não 
necessário dizer mais para demonstrar quantas vantagensf* 
resultarão para nós do conhecimento perfeito dosautochibo- 
nes do BraziL 

Q 

Sendo o ponto mais importante da ethnologia* para o 
estudo do homem pliysicOj o conhecimento do typo, sói 
poderá adquirir noções suíTicientes por meio de desenhos* 
tjdelissimos do todo, principalmente da cabeça, os quaes 
deverão ser tirados de face e de perfil, e mesmo de outras 
posições favoráveis á demonstração de certos caracleres 
próprios a distinguir um tjpo particular^ tanto no homei 
como na mulher. 



COMUISSAO SCIENTIFICA. 



273 



ni 



I 



Além desles estudos parciaes» importa hzBv muitos e 
variados grupo^p porque nelles melhor se compara réÕ os 
formas e suas variedades, as altitudes, as physionomias e 
as propof çòes gera as do corpo ; e para mais segurança ha- 
verá o cuidado de medir grande numero de indivíduos 
adultos, assim como os seus ângulos Taciaes, procurando 
por essa occastão verificar se a maior abertura do angulo 
attesta maior inlelligeocia , como alTirma Camper, o se a 
orolba inclinada para a parle posterior dá o mesmo indi* 
cio, como o querem muitos pbysionomistas. 



IV 



Convém igualmente colligir craneos de todas as raças dos 
naluraes do paiz, e moldar no vivo algumas cabeças, para á 
vista de certos dados moraes poder verificar conjuncta- 
meote o que ba de mais positivo no systema de Gall: se ha 
verdade nesta doutrina» a craneoscopia deverá encontrar 
notáveis modilicaeões entre as diversas protuberâncias do 
craneo do índio selvagem e as do índio civilisado ou do 
mestiço, conforme a raça predominante» 

Ao tomar a medida da altura do corpo, será bom avaliar 
sua força por meio do dynaraomelro, ou de qualquer outra 
maneira aproiimativa, senão houver este instrumento* A 
altitude e a tnimica do homem são indispensáveis, porque 
n'uma e n^ ou ira se revelam os hábitos soeiaes e o tempe- 
ramento individual. A posição da cabeça, dos braços e das 
pernas, seja no repouso, ua locomoção ou no trabalho, é 
muito significa líva para um observador, porque por ella» 

I 



274 



REVISTA BnAZItEmA, 



pelos seusmovímeotos, pelo seu assento sobre o pescoço ic 
coDheee o iadividuo, assini como pelo modo eom que moTi 
os braços, pelo que pende as mãos, e pela maneira e ditiiaçâo 
dos pés no caminhar: o ocioso tem altitudes bem dífferen- 
tes do trabalhador* A forma da mão e daspé«s é também de 
muito proveito no estudo das raças^ e portanto deve-se 
moldar também em gesso muitos individues^ para mais 
placidtimente estudar a diíTerença que ha entre as formas i 
dos dedos primeiro e quinto^ do calcanhar» do peita t arct* 
da plantafi etc. 

yi 

Particiilarmenle ás mulheres, não se olvidará apanhar a 
forma geral e constante dos músculos externos que rev6i*| 
lem o sanro e a bacia, porque na forma dos glúteos ha diffe- 
renças notáveis nas raças, assim como na tios seios e sua 
col locação mais ou menos aproximada ao sterno, e mais 
ou menos vizinha das claviculas : cumpre estadar as mu* 
danças destes órgãos, que tem tão intima relação com todoâ 
os phenomenos da sua vida physica. 



Vil 



Para alcançar os desenhos exactos acima recomoienda- 
doB, ha o excellente recurso da heliographia, que á sua 
presteza e fidelidade reúne a vantagem de não ter preven- 
ções favoráveis ou desfavoráveis , pois os seus resultados 
estão livres de toda a intiuencia de escola ou de mauein ar* 
tistica: o instrumento produz tal e qual, e em seus desenhos 
se pôde bem compararas formas de ambos os sexos« issnas 
modiQcações nos dilTerentes períodos da vida, nos diversa»! 
eiercicios, e no aspecto geral da cabeça e das eitremídades, 
onde reside quasi sempre u typo de uma raça. 



COMIálSSÀO gClEKTIFlCA. 



1T5 



VIU 



O estudo da língua é um complemenlo necessário ao es- 
tudo dos caracteres pliysicos. As grammatieas e dieciananos 
que possuímos de algumas lioguas dos iudigenas , assim 
como ?arios vocabulários, serviráõ de base nestas invesli- 
gações de linguistica; e do caso de se encoatrar alguma 
iingua Qova ou dialecto eitremamente pronunciado» se di- 
ligenciará esboçar uma grammatica respeoliva, tratando 
primeiramente do verbo nos seus Ires tempos fundamen- 
taes, presente, passado e futuro, com as modiQcaçòes das 
pessoas e do numero; depois do substantivo^ com as varia^ 
çôei de caso e numero, fazendo conhecer a concordância 
do adjectivo com elle ; os pronomes, as preposições com um 
011 mais regimens, e os advérbios com o verbo. Passar-se-ha 
após a indagar a tiliação dessa língua com outras, estabele- 
cendo tabeliãs comparativas quanto aos sons de todas as pa- 
lavras que representam as primeiras necessidades da vida, 
o nome de todas as partes do corpo, o nome dos parentes, os 
que eipiicam os mais salientes objectos da natureza, c tam- 
bém os nomes dos numeroso a maneira da contar; convin* 
do eiprimiroisons por não baver oribographia. Por esta 
confrontado de vocábulos, que representam ideas com m uns 
i espécie humaoâ, se cbegará a obter alguns resultados. 
Muitas de nossas iribus, como por eiemplo a dos Bolocu- 
doit tem uma língua muito pobre, que contrasta com a ri* 
queza da Guarany, possuidora de locuções para ambos ea 
seioB* 

E Depois dos caracteres physicos e da linguistica se tratará 
dos costumes relativos ao individuo eá familia em geral, 
esludaodo o desde o seu nasci meo to até á sua morte 



IX 



nas 



276 BEYI5TA BEAOLKIlÂ. 

differenfes phases da vida do homem selvagem se conhece 
a marcha de sua educação e o que elle é. Xo sea nascimealo 
assistimos ás ceremonias familiares; oa sua ínfancii aos 
seus deleites e educação; oa puberdade aos seus ensaios e 
inclinações; na virilidade ao sen consorcio, i sua vida in- 
terna e externa ; e na velhice aos seus conselhos, repoaso 
e funeral. E' mister apanhal-o em todos os sens passos, veVo 
nos festins, na caça, na pesca, na guerra, na lavoura, e nos 
âeus trabalhos industriaes ; assim como possuir sens cantos, 
suas nenias e epinicios ; a forma de todos os seus artefactos ; 
a maneira de ferrar-se e pintar-se ; o caracter de seus de- 
buxos ; a forma dos seus moveis, dos seus ornatos festivos, 
e qualidade dos seus arrebiques. 

X 

Não se esquecerá recolher quanto se puder acerca de 
seus conhecimentos estratégicos, de fortificação, de medi- 
cina, decirurgia, e de meteorologia ; nem os hábitos feminis 
em toda esta successão de cousas : são factos que ainda não 
foram methodica e satisfacloria mente consignados. Procu- 
rar-se-ha igualmente o termo médio da vida do individuo 
de ambos os sexos, e se nos seus funeraes e inhumações ha 
differença entre o bomem e a mulher. No estudo do indi- 
viduo está uma parte da vida social, mas esta necessita de 
um estudo mais amplo e desenvolvido ; a planta e forma 
de suas habitações particulares e dos seus aldeamentos; 
o arranjo de suas fortificações, o seu systema de segurança 
mutua, o seu commercio, os meios de que se servem para 
contar o tempo, e os que empregam em suas marchas para 
reconhecerem o caminho na volta, ou para orientar-se nas 
grandes emigrações. Tratar-se-ha de conhecer a extensão de 
sua agricultura, o modo por que a fazem, e as plantas mais 
usuaes de sua nutrição; as farinhas e bebidas que delias 
tiram, a qualidade destas bebidas, segundo as estações e as 



COmOSSÃO SClENTTFlCA- 277 

festas em que saa usadas ; os oieios que empregam na cria- 
ção dos quadrúpedes e aves, que os seguem por Ioda a 
parle t a este resp^ * na cousas muito curiosas. 



XI 



Será curiosa a organisaç5o de um codigozinho de todos os 
actos dos íadigouas qoe se assemelhem a uma espécie de 
Jireito publico ou internacional, para de?lacaI-o do corpo de 
suas leis de relação domestica ou social : nos povos anal- 
pha betes prevalece o direito consueludinario. Occupaodo-se 
da pnrte respectiva ao commercio, cumpre avaliar pelas suas 
permutações qual o género que serve de moeda ou unidade 
de um valor: neste ponto muito convirá saber o gráo da 
sua probidade commerclal, porque desta se pôde avaliar 
o seu estado moraU 



XII 



Será registrado tudo quanto se conhecer a respeito de 
sua religião, crenças e superstições, procurando saber-se por 
que tramites passa o índio que chego a ser Page, e so esta 
espécie de sacerdócio é adquiriria por alguma formalidade 
ou eventos da vida, ou se é transmitlída como sciencia exo- 
térica ou hereditária. Outrosim interessa muito apanhar 
neun contos, lendas e allocuções diversas: talveE que a ar- 
cheolugia por meio das opplicações de Viço e seus meios 
ordinários possa descobrir alguma cousa a respeito de sua 
origem, ou pelo menos de sua historia particular. 

E* igualmente de grande utilidade indagar qual a opinião 
em que elles nos teiUi quaes suas queixas de receios funda- 
mentaes, para estudar os meios de remover este obstáculo 
com o fim de chamar à industria tantos braços perdidos, 
a diminuir o numero de inimigos internos. 




S78 u¥i8fA brauuora. 

xni 

Além das descri pçòes e desenhos, iar-se-ha collecções 
de todos os enfeites, utensílios, instrumentos de musitea, 
armas, de tudo emfim quanto possa servir de prova da 
industria, usos e costumes dos indigenas, inclusive anãs 
múmias e sepulturas, reparando-se, entre outras circnm- 
stancias dignas de nota, na posição que ellas occupavam em 
relação aos pontos cardeaes. 

XIV 

Quanto á parto narrativa da viagem, fará um diário cir- 
cumstanciado, e com toda a fidelidade, descrevendo tudo 
o que vir de curioso e merecedor de memoria durante o 
trajecto da Commissão scientifica. No mesmo jornal irá tam« 
bem notando diariamente tudo quanto occorrer de notável 
relativo á expedição em geral, e mesmo a cada membro em 
particular. 

XV 

Em todas as cidades, villas ou povoações onde a Com- 
missão estacionar, diligenciará obter copias anthenticas 
de documentos interessantes á historia e geographia do 
Brazil, assim como extractos de noticias compiladas das se- 
cretarias, archivos e cartórios, tanto civis como ecclesiasti- 
cos ; e também copias de manuscriptos importantes sobre o 
mesmo objecto pertencentes a particulares, no caso de lhe 
não serem cedidos oe próprios originaes. 

XVI 

A tudo acima recommendado ajuntará finalmente o 
conhecimento do commercio interno e externo da província, 



COMMISSÃO SCIENTIFIGA. 279 

de todos os dados estatisticos que puder, da fundação, prós- 
perídade ou decadência das poToações, procurando avaliar 
a superftcie doe tarrenoa cultivados e incultos, e o ralor das 
áreas occupadas ainda por florestas virgens, por capoeiras, 
pântanos, etc. ; assim como chegar a uma probabilidade do 
numero de selvagens que habitam essas florestas. 

Palácio do Rio de Janeiro em 8 de Abril de 1857. 
Luiz Pedreira do Goutto Ferraz. 



ASTRONOMIA PHYSICA. 



NOTA- 

No appendice das Ephemerides de 1855 e no l' oumero 
da fíevista Brazikira foi publicada a soluto que demos ao 
problema da íletermÍDação da latitude terrestre, servi odo- 
nos somente de duas alturas observadas da mesma estreita , 
seodo uma destas no meridiano do logar, e do azimuth 
correspondente a outra observação; e designando a altura 
observada no meridiano por Ht a outra por h, o angtilo 
aíimutbal observado por a, a distancia angular da cstrellâ 
ao eixo de rolaçâo da terra, ou ao pólo da mesma» por y, 
e a latitude do logar por }., havemos obtido as seguintes 
formulas» que compreheadem a solução completa do pro- 
blema : a saber: 






íff-f — 



1 — CoÊ. H Cos. h Cút. a — Sm. h Sen. fl 
Sen, H €os. h Cot. a — Sen. b Cos, tí 



X=±(ff-f) 

Esla solução é susceptível de general isar-se, observando 
a estrella em três d iffe rentes posições da sua excursfio 
diurna apparenle, tantu pelo que respeita á altura sobro 
o horizonte do logar, como também és duas diíTereiíçai 
azimulhaes correspondentes áâ três ai luras observadas» som 
dependência por conseguinte do conhecimento prr>vio dt 
declinação da estrella, e da posição do meridiano do lagar. 




ASTRONOMIA PHYSTCA. 281 

1/ Sapponha-se que, entre as tres observações da eslrella, 
se&zem duàs correspondentes, o que é sempre praticável, 
cuja altura commum seja representada por h\ e os ângulos 
azimuthaes por -}- a', e — a'. 

Sejam por outra parte ft e a a altura e azimuth da terceira 
observação. 

Ter-se-ha para qualquer das duas observações correspon- 
dentes á seguinte expressão de tg. 9 

.„. 1 — Cos. H Cos. N Cos. a' — Sen. H Sen, h^ 

^^ ^'"f^ Sen. H Cos. h! Cos. a! — Cos. li Sen. tí 

Igualando os dous valores de tg. 9, e fazendo 

/ = Cos. hl Cos. a! Sen. h — Cos. h Cos. a Sen. /i', 
m = Cos. h Cos. a — Cos. h! Cos. ai, 
n^= Sen.h — Sen. h! ; 

ter-se-ha 

(4) l^mSen.H=^nCos.H 

Esta equação subirá somente ao segundo gráo, conside- 
rando-se como incógnita Sen. //, ou Cos. II. 

Por outra parte as diíTerenças azimuthaes observadas 
darão as duas equações seguintes : 

(5) a — a' = í, a+a' = J' 

As tres incógnitas H, a, a', ficarão evidentemente deter- 
minadas pelas tres equações (4) e (5]: e por conseguinte 
pj. (f, por meio da equação ( 1 ) ; e a latitude )., pela equação 

(2). 

19 



S82 REVISTA BKAZILEIRÂ. 

T Supponha-se agora que a estrella é observada em 
ires posições quaesquer da sua excursão diurna, e sejam as 
alturas, dadas pela observação, representadas por h, h\ h"' 
com as differenças azimulhaes d e â\ 

Procedendo, como se praticou na hypothese antecedente, 
ter-se-ha a equação seguinte : 

(6) V+m^Sen.H^n^Cos.H 

As duas differenças azimuthaes observadas darão as equa- 
ções seguintes : 

(7) a — a'-=J. a — a^-^í', 

Âs quatro incógnitas //, a, a', a",* serão determinadas pelas 
quatro equações (4), (6), (7) : e por conseguinte y, e X, como 
no precedente caso. 

Observação. — Mr. Babinet, membro da Academia das 
sciencias de Paris, acaba de publicar uma memoria, na qual 
deduz as formulas precisas para a determinação da latitude 
terrestre, por meio dos azimuths e alturas observadas fora 
do meridiano, ficando porém esse novo processo depen- 
dente ainda do conhecimento da declinação da estrella. 

Kio de Janeiro 1' de Maio de 1857. 



Cândido Baptista d' Oliveira. 



ERRATA 



Paginas. 
Linha i*» debaixo para cima, leia-se : — e semelhantes — depois da pala- 
vra (rectangulares) 131 

Linha 5% debaixo para cima, lela-se : — plano que passa por ^ e a sua 

projecção — em iogar de (plano da projecção de Z\ ) 152 

Linha 11% leia-se : — 20 — em iogar de (19) 153 

Unhas 19' e 24% icia-se : — 21 — em Iogar de (20) 154 

Unhas 5' e 6*, debaixo para cima , nas expressões — Cos. b Cos. c, Cos. b* 

cos. c, — leia-se : Cos. g — em iogar de (Cos, c) 155 

Lhihas 2' e li*, leia>se : — Cos, g — em Iogar de — Cos. c 156 

Unha 7', leia-se : — (l^ o?*) — em Iogar de (j;*) 157 

Linha 3% debaixo para chna, leia-se : — (/|, mj — em Iogar de if^ ^i) . . . 157 

Unha à\ leia-se : — íFi y — em Iogar de (d?i x) 158 

Linha 5*, ieia-sc : — j?* e y* — em iogar de (x) e (ij) 158 

Unha 5% debaixo para cima, leia-se : — g — em Iogar de (c) 158 

Unha 6% leia-se — Cos.^ g — em iogar de (Cos.^ c) 159 

Unha 1% no fim, ieia-se : — Cos. c^ — em iogar de (Cos. c) 160 

Unha 9", leia-se: — 36 — em Iogar de (35) 164 

Unha 16', leia-se : — membros — em Iogar de (termos) 165 

Unha 1% no principio, leia-se : — {xi z) — em Iogar de (y^ z) 17/i 

Unha 26, ieia-se : — 56 — em Iogar de (50) 181 

Unha 3% debaixo para cima, leia-se : — 51 ^Í5 — em Iogar de (50) 181 

Unha 7% debaixo para cima, leia-se : — 51 bis — ^ em Iogar de (51) 183 

Unha 15, debaixo para cima, ieia-se : — uma perpendicular — em iogar 

de (a perpendicular OD) 185 

Unha 12% debaixo para cima, leia-se : — da referida perpendicular — em 

Iogar de (de OD) 185 



— v^^/i^í^éç^NÇ^^^^'^ 



li 



EXPOSIÇÃO IJMVERSAL EU PARIS. 



REUTORIO DO COMMISSARIO BRAZILEIRO 

o SR. DR. ANTÓNIO GONÇALVES DIAS. 



As reflexões que apresento acerca dos objectos sobre os 
quaes me coube dissertar, por accordo entre os Commissa- 
riosque assistimos à Exposição franceza por parte do Brazil, 
são o resultado de algum estudo que fiz dessas matérias^ e das 
informações que me foi possível obter de pessoas compe* 
tentes; mas nem esse estudo pôde deixar de ser superficial 
pela falta de tempo, nem essas informações menos in- 
completas, por dependerem de pessoas estranhas, que rara- 
mente julgavam conveniente prestarem-se com franqueza a 
darem os esclarecimentos que lhes eram pedidos. 

Na necessidade de concluir estes trabalhos de um modo 
menos imperfeito, consultei os escriptos que me pareceram 
mais desinteressados e conscienciosos; e com esse estudo, 
informações e adjutorio, elaborei o presente trabalho, que 
tenho a honra de apresentar ao Governo de Sua Magestade o 
Imperador. 

Paris, 21 de Janeiro de 1856. 

António Gonçalves Dias. 

20 



284 REMSTA BRAZILEtRAr^ 

No sentido genérico dà-se o nome de « géneros coloniaes » 
a todos os productos agrícolas, que não são cultivados na 
Europa, ou cujas espécies foram nestes uUimos séculos im- 
portadas das demais partes do mundo, quer fosse a America, 
IndiaouOceania. Collocamos a America em primeiro legar 
porque, como as colónias ahi estabelecidas foram as roais 
importantes que teve a Europa nesta idade, são principal- 
mente os seus géneros os conhecidos sob essa designação de 
• coloniaes >, e ainda hoje os mais considerados no mercado 
da Europa. O algodão, o tabaco, o café, o assucar, o chá ; as 
tintas como o pàobrazil, o anil, a cochonilha, o urucú; as 
.especiarias, como a baunilha, canella, noz moscada, cacáo, 
pimenta; as substancias vegetae^ alimentícias, ao que podería- 
mos ainda accrescenlar as drogas, todas deveriam pertencer 
^a este capitulo, se nos conhecêssemos com forças para isso. 
t Géneros coloniaes » são eniflm lodos os productos das coló- 
nias, presentes ou passadas, que servem à industria ; porém 
mais especialmente à manutenção do homem. 

Pela rápida resenha que acabamos de fazer, vè-se que o 
Brazíl, prodigamente favorecido, pôde concorrer com qual- 
quer outro paiz, tanto na variedade como na qualidade dos 
productos chamados * coloniaes » . 

Trataremos dos mais importantes. 

Alg^odão* 

O prodigioso incremento que tem tido neste século, e prin- 
cipalmente nestes últimos annos, a manufactura dos algodões, 
promette tão abundante manancial de riquezas para os paizes 
tanto productores como manufactureiros, que a França c a 
foglaterra promovem e favorecem a cultm^a do algodão em 



EXPOSIÇÃO UNIVERSAL EM PARIS, 185 

assuas coloniaa, apezar tle n3o concordarem as opiniões 
QO íavor que merecB do governo destas duas nações aquelle 
ramo da agricultura. 

Apresetilaram-sc na Exposição ricas e variadas amostras de 
algodão, sendo os principacs expositores Eslados-Unidos, Cu- 
pa, Costa Rica, Guyana Franceza, Guadelupe, Umguay, Javae 
Argel, além de nuiitos outros paizes : mas se pódescr curiosa 
lista dos que se occupam actualmente com esta cultura, se- 
rão som duvida mais signiflcativos os algarismos qtie de* 
monstrani qual é o seu consumo na Europa* 

Os Estados-Unidos da America, que começaram a cultivar 
esta planta cm mciados do século passado, exportaram em 
1747 de Charlcsto\^^n para Inglaterm sele balas de algodão; 
j&, quando do mesmo porto, em 1784, se expediram 71 balas, 
^Hindo cerca de dezesete mil libras, o carregamento foi 
apprehendído na Inglaterra como contrabando, por se dizer 
impOí^sivei que em tão curto espaço tivesse semelhante cultura 
prosperado de modo tao assombroso. Todavia a progressão íoi 
sendo mais e mais forte, e nem parece que haja de diminuir, 
apezar de que o desenvolvimento da industria e manufacturas 
dos Estados-Unidos tenda a limitar a exportação desta matéria 
ia. 
les Estados exportaram : 

Em imo !60 milhões de libras. 

1840 316 i i 

1850 896 • • 

1853 1J74 > » 

represenlando o valor de tnais de quinbcntos miUiOés da nossa 
la. 

Estados-Unidos são os mais fortes, porém nao os únicos 
jduclores do algodão. Nesse anuo de 1853^ era que a sua 
exporta^:5o se elevou a 1,174 milhões de libras, o Egypta 
produziu 6^2 nidhues, as índias Orieataes 60, o Ur^il 50« e 



Sfl6 



HETHTA BIUnLEIRA. 



úutrõspaiies 12, dandoo tolal de 1.358 míUiões de libiasJ 
Por conseí]uencia os Estados-Unidos produicm 6 ou 7 vezfô 
mais do que todos os outros paizes que ctiltivam o algodão, O 
valor lolal da producçãoseráde 650 milhões da nossa moeda; 
ecomo este se quadruplica com a mão d'obra« trtnosque 
esta industria representa por si sò a enorme somnia de 2,600 
milhões de cruzados, 

< Concebe se (escreve Tresca, de í|uem exlrahimos eí^le^ j 
dados) que a importância do mercado que se abre á producçao, ] 
deverá tentar fortemente os paiECS aos quae§ as condições 
cUmatericas e agrieolas deixarem entrever a esperança de 
bom exilo com a cultura do algodão* • 

Por este e outros niolivos a Grâ-Bretanha Iralou de pro- 
mover esta cultura nas suas colónias Guyaoa, Austrália e da) 
Índia. A Inglaterra comtudo nâo pugna em favor da prodncçla 
da matéria prima, senão por temer o desenvolvimento das 
manufactunis auiericanas; teme sobretudo pelo seu mercado 
iia China, que conta trezentos milhões de consumidores,— 
mercado que os Estados-Unidos vao já invadindo com a iti* 
Iroducçâo dos seus tecidos de algodão. 

Por este motivo (íliziamos) a tirâ-Brelanha occupa*se doi 
adiantamento da cultora do algodão; mas não parece que os 
seus esforços tenham sido coroados dos mais felizeá resulta- 
dos. A Guyana lugleza, cujo principal género de exportação, [ 
até bem pouco tempo, era o algodão, já recuou aute a produc- 
çâoda America do Norte. A Austrália apresenta excellentesl 
amostras; uiastcme-se lambem que a falta de braços não 
seja obstáculo serio para a realisaçao das\ istas da metrópole. 
- A França, acaso por espirito de imitação, adoptou o mosiuo 
syslemapara ArgeUa, não obstante alguns espíritos reflectidos 
acharem menos vantajosa esta cultura. O poverno francei i 
fornece caroços aos colonas de Argel, compra e promelte 
comprar ate 1857 o que os agricultores produzireuK concede 
recompensas aos qtie alli introduzirem novas macínnas de des* 



EXPOSIÇÃO UNIVERSAL EM PARIS. 287 

faroçar, liistribufi prémios provincines. além de um premio 
grande de viiile mil franca^ para quem colher mais e melhores 
algodões. 

Entemlem porém nulros, e talvez com razíio, que se deve 
anles pninioveraculUira doscereaes para abastecimento da 
França, e de lãs para snpprimenlo de suas manufacturas. 

Em vcrdadi% as amoslras dos algodOes de Argel, quanta 
delias m pude julgar pelo que se vé ao travõz de vidros e 
vidraças em que estão, são de bella apparencia. e rivalisam, 
segundo st^ diz, rorn os alfíodnesda Geórgia ; tuas outros argiu 
'mcnlani ainda que Laes resultados se tem podido conseguir por 
se fazer a cuUura em pequena esr ala, de modo que o fazen- 
deiro vé e zela a sua plantação, o que já nao terA logar com 
o des^m volvi meti tu desle ramo da lavoura, E «jaaíido mesmo 
o ronsigau) ( voltam de novo á sua tlicse)» insistem eni que o 
fnluroila rolonia íleve assentar sobre outras bases para sua 
prosperidade e mnior proveito da metrópole. 

No temp** que medeia desde a nossa independência até 
agora, osEsladns-Uniilos tem centupticado os seus algodões ; 
nus pelo íoutrario abandonamodos aos esforços das menos 
povoádíis províncias do norte, porque parece-me que as prin- 
cipaes localidades productoras do algodão no Brasil são, come- 
çando do norte, iVIaranhão, Ceará, Rio Grande, Parahyba^ 
"— •"* ibuai. I» talvez algum dislriclo das Alagoas* Algumas 
províncias, sirva o \laranlião de exemplo, em vez de 
procurarem melhorar este producto, v3o infelizmente adoíh 
tando a cultura do assucar, que não promelte tanto futuro; 
porquí* a helerralia invade os íuercados da Europa, apoiada, 
em não pequenns direilos, que a protegem* 

O motivo fiu^í para is^o livi^ram os nossos agricultores foi, 

segundo parece, o ter-sedlies feito acredilar que os nossos 

> eram di? r|nãlidad<^ imiilo inferior aos dos Estados 

i H -, opíuirtn i^em rnuila fund.imenlo, porque sei de partidas 

do nú^n aliõdãí) ioirunuín, m;is convenientemente prepara- 



288 



EEVETÂ BnAMiEmA. 



do» reputadas por bom preço na Europa, e recôrda-mc 
visto na faxenrta do P, Nina* estabelecido nas margens do Ila-J 
picurú O, variadas amoí^lras de algodão, e unia entre oulraâl 
proferi vel ao algodão georgia-loiiga-íieda, porque dava maior] 
capulho de algodão, tfio alvo, huslniso e comprido como aquel- 
le> e ípie com mais tucilidadc se destacava do caroço . 

O que vai acontecer, o já eslarà iiconlecendo com a mu- 
danc^a de cultura (porfiue era tão pequí^na que qualquer sd- 
teraçao deverá intlu ir na abastaura do mercado), 6 que os i 
navios de Barcelona que faziam a viagem do Maranhão para j 
esse carregamento, assim como alguns ingleses, necessária- 
menlc tomarão outro rumo» quando alli não acharem car- 
regamento suflicienle , ou su u achem por preços exagerados. 
No entanto largo tempo se terá de passar , antes que para allí^ 
concorram os exportadores de assucares, 

Aquellcs lavradores reconlieceráõ por firn a desvantagem 
da mudança que efíecluaram, quando por experiência sahem 
que o algodão chegando ao mercado tem logo sahida, ainda 
que por baixo preço , em fpianto os assucaresse cõnsen^am 
nos armazéns á espera de navios, ou se repartem lejUaínenlô j 
pelas lojas de consumo , sujeitos a deteriorações e desfalques j 
nio pequenos , com empate dos recursos dos fazendeiros, 

A causa do desanimo dos ruUivadores do algodão nâo| 
dependeu, como elles suppoem, da maior producílo e su- 
perior qualidade dos algodões dos Estados-Unidos, NTio ha , 
em parte alguma algodSe^ empatados, e vendem-se os mais j 
inferiores que appareçam. líaixarauí de preço, mas os nossos) 
baixaram mais do que deviam peUi fraude dos revendedora í 
que ensacavam páos, pedras c caroços de mistura com o| 
algodão, Descobriu-se a má fé do miserável commercio dos 
Bôssos vendilhões, eo género baixou de preç^, não lanlo 
peia concurrencia eslrantia. como principalmente porque o 



{') Õ eitíd éo pajre Nina é uiD pouco arredado án miT^fii lio Ho. 



9& 



eitporlador nstara e está sempre cora receÍD de se achar íliu- 
dido. sendo o mirumo rteslas falsiíkaçSes a mistura usual 
do algodão di^ machina com o de moenda. 

Sc o grovemo impozer fortes penas ao productor caviloso , 
e prinrifKiImciilo aos TWeodedores di^ ma fè, porque sao 
esseí^ cm neral os qw abusam ; si se lizer constar isto na 
Europa , s*i as penas dccrelada^í forem rigorosatnen la cum- 
pridas, não leremos Je perder este género de exportação, 
como já perdemos o anil, e perderemos todos os mais etn 
que se fCir Inlnirtnzindo a falsificação sem que se ilie ponha 
cobro. 

Medidas ha que foram executadas iio regimen colonial , 
e hoje reputadas vexatórias ou cabidas em desuso com gravQ 
prejuízo do paiz : entre e?^tas merecem nola especial as que 
tinham por fim (iscalisar a ifual idade dos prod actos expor- 
tados, e principalmente tio alsodíio. Estas medidas restabele- 
cidas e fortalecidas com uuia justa distribuição de recom- 
pensas, e quando fftr preciso do castigos, scr\iràõ para- 
iuspirar ronliança nos exportadores, e para garantir fora 
do paiz a venda e reputação dos nossos j>rodnctos. 

Anies de concluir este artigo , deverei fazer algumas obser- 
vãíões, que não serão por ventura inteiramente destituidas 
íte interesse. 

Os nossos fazendeiros plantam hs seus algodoaes em um 
anno, e no seguinte ainda aproveitam a capoeira, depois 
da colheita da roca nova ; mas já no terceiro anno deixam 
crescer o ma tio e perder-se o algodoal , quando r^os quintaes, 
qoasi sem Iraballio algum , chegam a prande altura e pro- 
uzeui altuudantemente durante alguns armos. Deixam perder 
a casca, que dá íibras aproveitáveis como matéria lextilye- 
o lenho que poderia servir de combustível : isto porém será 
de pouca monta, porque nem nos falta lenha, nem matérias 
lextis. 

O que é muito mais digno de reparo é que q caroço do 




I 

I 



algodão, exceptuado o qae se reserva para nova plân- 
tacão, não è para o lavrador de ulílidade aigama; ni<is peli) 
contrario um ónus , visto que o tem de mandar p^jr rota ern 
algum monturo » onde não embarace o transito e apodreça 
inutilmente. 

Desles restos, porém , sem préstimo na nossa lavoura te 
aproveitam os Egypcios e Americanos do Norte , fabricando 
excellente azeite , qoe até lhes serve de alimento, 

Na Exposição franceza um agricultor do Cairo e\poE Ires 
differentes qualidades deste azeite — os chamados de I * e de 
2* qualidade, e o impuro ou bruto, do qual se exlrahe o 
de 1* qualidade com 15 */,> de quebra, e o da t^ com 10 %, 
Aquelle é óptimo para alimento, — este para luz , que é in- 
tensa, sem fumo nem mão cheiro, e muito aproveitável no 
fabrico do sabão. O preço de cem kilòs, postos em Mexandria, 
é de 120 francos o de 1*^ qualidade, e de 105 o da â,* 
Do resíduo que deixam esLes caroços, depois de quebrados 
e extrahido o óleo, faz-se urna espécie de tijolo ou pasta 
para nutrição de animaes, ou, convenientemente preparados, 
se aproveitam para estrume. 

Os resultados económicos deste fabrico serão estupendos, 
No Norte cxlrahe-se uma arroba de algodão em pluma á^M 
Ires de caroço, e no Sul de quatro. Supponhamos o menos 
2/3 de caroço; supponhamos ainda que o Brazil , como diz 
Tresca, exportou em 1854 vinte e cinco milhões de kiliis. 
Sendo cada mil kilos igual a 2,i80 libras nossas, 2ã milhões 
de idlus correspondem a 52 milhões de libras , que suppõe^ 
nada menos de 104 milhões de libras de caroço, Suppondo" 
mais que na extracção do azeite está este para o peso do, 
caroço na razão de 1:4 (e talvez a proporção não seja lãoj 
forte) , temos que 104 milhões de libras de caroço, que 
perderam, produziriam, além de 78 mi bõcs de libras dej 
estrume, 2G milhões de libras de azeite; o qual, r- 
não servisse senão para luz, e vendido como se vende u 



I 




EXPOSIÇÃO UjmnERSAL E^ PARÍS. 291 

fOTâinario no Rio , dá o valor amíiUcil de 26 milhCes de cro- 
los!! Estes algarismos nâo precisam de cornrnfiitarlo* 
íassamos a outro assumpto. 

O uso do furno tem-se tornado extraorilinarianicníc popular 

(a Europa e em todas as mais partes do mundo, o pro- 
■tte adquirir ainda maior extensão, ao passo que as classes 
iiieuos abastadas se fi>rem actiando em circumstaucias de 
condescender com a moda * ou quando de todo se não pu- 
derem eximir deste habito, verdadeira e imperiosa necessi- 
, dade para aquelles que o conlrahem. E' uma grande fonte de 
fcjsperidade para os governos da Europa, em cujas receitas 
^|ura o tabaco no vulor de muilos millir>es; e niio será menos 
ímporíanle para o Brazil, como género de exportação. Como 
paiJí donde, segundo todas as probabilidades, foi exportada 
em primeiro logar esta planta, produzintlo-a sem muito custo 
^Ke excelleute qualidade, e podendo d'aUi tirar-se consi- 
Wraveis lucros , merece ser promovida entre nús a sua cul- 
tura, preparação c manipulaçrio, 

O uso do fumo perde-se na noite dos tempos e da barbaria 
auiericaua. Quando os Hespanhúes chegaram a Cuba , no* 

Éam indivíduos de ambos os sexos que tinham na bocca 
rvas sèccas e intlarimiadas, cujo perfume aspiravam, isto 
jíoderia pela novidade ter causado alguma estrautieza aos 
^fcspauhòes, mas não consla que elles exportassem amostras 
^Ktas hervas, cuja introducçâo tão rápida como pouco crivei 
Wria de arrostar com a ma vontade dos governos, que Ivojc 
lucram com ella, favorecida pelos particulares, qu^ no seu 
|€onsumo despendem não desprezíveis sommas. 
HComo quer qne seja , parece que já de alguma forma se 
^■hao fumo introduzido em Portugal , quando em 1560 o 
Wancox Nicot, embaixador do Luiz XIII junto ao rei D. Se- 




bastião, teve delia conhecimento. A lierva do GrSo-PriDr, 
como foi chamada, veifi diplomalicamtmtc à França, e foi 
apresenlada á rainlia Calliarina de Medíeis — tão grande so- 
berana que a nao baíiíu logo da sua real presença» como 
faria qiialiiuer oulra do í^eusexo, mas anlos a receben nn sen 
real agradít e prnlcrrno, como cousa que deviíí render aljíum 
dia uns cem niilhues aunuaes ;io governo úo^ seus succes.^> 
res. Desde esse dia cliamou-se o lidmco — herva da rainha. 
Outra nunha iiâo monos grande mulher do que esla , apezar 
de ser, segundn rezam as chnínica^, e\cessivatnenle apai- 
xonada de essências t? jiiveles, pennitliu que o seu aven- 
tureiro Raleigh disfarçasse na sua presença o cheiro do alcatrão 
de bordo, aspirando e soltando hafnradas daquella cnfâo 
crida panacèa. 

Os príncipes da Igreja ncsle^ jirimeiros tempos não jul- 
garam que Ikasse impuro o breviarin por se impregnar do 
odor do fun^o. O cardeal Santa Croce e Nícoláo Tornal>one, 
legado do Papa em França, :\ mandaram para Itália; ca 
herva dn (Írrin-Priov , a herva da Itaintia, a NicoHana, no- 
bÍtisandO'Se cada vex mais, ajuntou mais dons appellidos ^o 
sen nome , chamando-se — herva de Santa Cnu e de Torna- 
boné: e não contente com isto, foi sendo digniticada mm 
os Utulos mais pomposos de — Panacèa antárctica — herra 
para ludo, o por fim canonisada — hfTva sanía. 

Este favor cedo se íonvcrtcu em terriveís persegniçi>e!*, que 
assim passam as gloriais deste mundo, lacques 1 de Inglaterra 
foi o primeiro i\ anaUiematisaUi , julgandn-a fatal e merece- 
dora de ser extirpada da fare da terra. As vozes d(» throno 
chegnram a Santa Srde; c IrluinoVUl, em Ííiá4, declarou 
analhema e excomnmngartos os ijue Uxessem uso do tabacfi 
dentro da igreja; — tentaçan do demónio , ípn? fazia fugir o» 
sentidos da austeridade religiosa c recolhimento devaio para 
as vaidades do secido e damnaçào da carne, Taes eram os en- 
cantos portentosos desta filha mais nova do demónio. 



I 



i 



siçÂo upífVKRâAL m Pkm^, 293 

A imperatriz Elizabcth, m^nos ííe\ern , mas pouco menos 

djfTíia do que o rei scuirman, e o Papa seu padre em 

hríslo, bania o tabaco das i^Tfijas, e aulorisou os bedéis a 

coíiliscarenl cm proveilo próprio as caixas que sahissem in- 

scrt^lamenlc das algibeiras profanas dentro do sa^Tado re- 

ínlo. Assim estes abençoados filhos da l^^eja tinham por lei 

o direito e a facilidade de se l>esiitd.arem \\p estrirro pelo 

Iamor de Dcos : e ao passo que devotamente sorviam a sua pi- 
kda, ineilavam as píluitas irreverentes dos próximos, e po- 
liam correr e pei^ruUar com olhos malsins quem se deixava 
lencer da leniarao para cahir sol>re elle com Iodas as varas 
B bacalhaos do oflkio. 

Na Transilvania declarou-se a pena de confisco de bens 
contra os ijoe plantassem o tabaco , c uma multa nao pe- 
quena aos que fossem apanhados em fla?i\ante , mostrando 
nos dedos ou nas ventas o indicio d i crime per()elrado. 

Fura da Europa mo era menos activa a perseguição. Consta 

que Amurath IV, rei da Pérsia, e o grâo-duque da Moscovia 

probibiram tios seus domínios o nsn do fnmoe do rape, sob 

eua de perdiíncido do nariz sem appcilação nem ag^ravo ; 

na terrivel, principalmente n'nm paiz e em tempo em que 

sciencia não tinba ainda aprendido a fepor no sen logar 

te ponto culminante da belleza humana. 

Comtudo, a pobre planta perseguida conseguiu achar de* 

nsores: a imprensa, essa grande ilesfaxedoradc afísravos 

injustiças, tomou corajosamente a sua defesa no latim 

âssico de Raphael Thorisio , e na Macarronea de Ferrão. 

epois da poesia veio a sciencia tucdica; depois delia a 

onomia política, e graças ao magico poder dos algarisnlos . 

fialúiilou-se delnulivamente o tabaco, como todo bom 

traficante que chegou a representar na vida o valor de alguns 

milbíies, que podem prestar, mas nlo se cmpresíam , ao 

Estado. 

A França porém parece ter |>rocedido de diversa ma- 




294 



BRAZILEIRA. 



neira: ao principio eslabeleccc um leve dircjto de consnmo; 
depois, crescendo o numero dos fiimistas e tabaquistas , 
Luiz XI\' arrendou n contracto do tabaco por seis annos a 
preço de selecenlos mil francos. Este monopólio foi cedido à 
Companhia das Índias em 1720 por milhão e meio annaaes, 
que em 25 aimo?i subiu a 25 1/2 milbões. Emíim , crescendo 
cada vez mais o consumo, Tez-sc o governo monopolista, 
C4>m o que lucra orna centena de milhOes annualmenle. 

O consumo que faz a Inglalerríi deste género foi nestes 
últimos annos o seguinte : 

Em 1821 — 15.598,152 libras. 
» 1831 — 19.533,841 
. 1841 — 22.309,360 . 
» 1851 — 28.062.841 



A renda deste mesmo paiz, proveniente dos direitos doí] 
tabaco, foi: 



Em 1852 — 
• 1853 — 



4.560,742 libras st 
4J51,760 . 



A continuar a mesma progressão, virá o fumo a ser a 
principal renda de alguns Estados da Europa, como é a 
principal industria de algumas de suas cidades. 

De Hamburgo, por exemplo, lemos ba alguns mezes no 
jornal francez Lc Siède . 

* O fabrico dos charutos é sem contradicrão a mais im- 
portante das industrias de Hamlmrgo, EUa occupa mais de 
dez mil índividuos, pela maior parte mulheres e meninos , e 
confecciona por anuo 15 milhues de cliarutos, que repre- 
sentam o valor de 8 a 9 niílliBes de francos. Uma imprensa 
com numeroso pessoal se emprega exclusivamente na im- 
pressão de rótulos necessários para atar os massos e cobrir 
as caixas de charutos. Além disso, Hamlíurgo importa da 



EXPOSIÇÃO ITMVEESAL EM PARIS. 395 

Havana e Manillia 18 milliõcs de charutos por anno, de sorte 

le entram aniuiaiiiieiUe neste lommercio 168 milhões de 

liarutos, dos quaes 153 sfío exportados , e os 15 milhões 

Eslaiilcs se consoratMo em Hamburgo, o que corresponde 

a 40,000 charutos por dia : algarismo bastante elevado , 

lando se allende a que u populaerio mnsGuhna do território 

!e Hamburgo conta apenas 45/JOO individuos. 

Os Estados-Unidos não expo^çcram taliacos em rama, nem 
aanufacturadus; lousta porem i[ue de 18âí a 1847 eltes 
3ndcram á Europa mais de 4r>0 milliões deste género. 
A Allemanlia cKpoz excellenlcs amostras de fumo e cha- 
iitos bem Iraballmdos: ns do Paraguay sao péssimos; os das 
colónias portuguesas solTriveis, ruas parece que eram feitos 
jie encommenda para a Exposição, itoique desses não os 
3ndem os seus estanques. Os de Hespaniia e suas colónias, 
tcellenles. 

Em Argel esta cultura progride nq>idaujcnte. Em 1845 o 
3verno francez comprou dVilli 85,000 kilús de tabaco , e em 
1847 mais de 400,000 kilòs. 
Os principaes logares productores do tabaco são: 
Na Aínerica — ^ Brazll, Virgínia, Mar>land, Luisiania,, 

Havana, Macul>a e Tabaco, 
Na Ásia — a Cliina. 
Na Oceania — ,toda ella. 
Em Africa — Aigel c Egyplo. 
Na Europa — Hespanlia, França, Itália, AUcmanha, 
HoHauda, Bélgica, o I.evante^ a Sílesia 
e Ikrania, 
Nâo obstante o grande numero de paizes na Europa em 
le se cultiva o tabaco , a sua importação deverá ir sempre 
crescimento, porque é de esperar que as classes menos 
trasladas liojc se aclieui algum dia em circumstancias de 
)derem condescender com as necessidades Qcticias da ci- 
"rilisação, mas tao iuiperiosas como qualquer outra. 



} 



996 REVISTA BRAZILEIRA. 

Deve-se notar porém que o consumo do tabaco em pò 
tem nestes últimos tempos diminuído consideravelmente, 
em quanto que o uso do charuto se tem espalhado de modo 
assombroso. Infelizmente os tabacos do Brazil eram e Ao 
empregados na Europa para preparação dos seus rapés ; e 
comtudo , nem só é reconhecida a superioridade dos tabacos 
da Âmcrícá Meridional , e as propriedades que os tomam in- 
questionavelmente próprios para serem fumados; mas ainda, 
sendo na Europa os mais estimados para esse fim os tabacos 
doPalatinato, e entre elles o chamado— Brazil — de folhas 
muito leves, em forma de coração, que exhala um agradável 
odor do violetas. 

O motivo porém porque os fumos em rama do Brazil 
não são tão estimados como os de outras partes, não è po* 
sitivamente pela sua inferioridade relativa : quer me parecer 
que isso depende de que não preparamos convenientemente 
senão o fumo para cachimbo , e deste os ha no Brazil como 
em parte nenhuma : os do Pará e Piauhy são de superior 
qualidade. 

Os nossos charutos da Bahia são de ordinário feitos sem 
demasiado escrúpulo, como em officinasque não bastam para 
o consumo do paiz. Por esse motivo algumas de nossas pro- 
víncias importam , em pequena quantidade , mas importam 
ordinarissinios charutos dos Estados-Unidos. Para occorrer 
ás exigências do nosso consumo interno , as fabricas da Ca- 
choeira, c de outros togares da Bahia, seccam os charutos à 
estufa, o que os torna detestável mente desenxabidos. Esta- 
belecida a concurrencia em mais larga escala , haverá mais 
cuidado com tal industria, esó de então convirá exportar-se 
esse produc lo, porque o poderemos sem muita desvantagem, 
mesmo quando concorrermos com os paizes que hoje são os 
mais afamados fabricantes de charutos. 



EXPOSIÇÃO UNIVERSAL £M PARIS. 2d7 

Chà«. 

Como se sabe, o chá é a principal riqueza da China : os 
Inglezes o introduziram com algum successo na índia; e 
assim também os Hollandezes, que apresentaram bellissimas 
amostras dos chás de Java, de muitas espécies, e muitas 
qualidades de cada espécie ; sendo as principaes : 

— O Baei , Bohea ou Woo-e , assim chamado de uns ou- 
teiros na provincia de Fokien , onde l cultivado ; 

— O Pongo , ou propriamente Komgfo (trabalho ou perse- 
verança) ; 

— O Kempoei , Campay ou Kienpoey , chá escolhido , sêcco 
ao fogo , formado das folhas mais delicadas da terceira co- 
lheita ; 

*— O Sonchon ou Seaou-choung , também da terceira co- 
lheita , quando as folhas chegaram ao sen estado de ma- 
turidade ; 

— O Pecco , Pekoe ou Pakho , o mais fino dos chás pretos , 
são os arrebentos da planta, antes do apparecimento das 
folhas ; 

— O Thunkay , Toiíkay ou Tunke, da ultima colheita do 
estio ; 

— Skin, Hyson-skin, ou rebute; 

— Hysant, Hyson ou He-chun (feliz flor da primavera) , 
primeira colheita do chá verde ; 

— Uxím, Hyson Júnior (Yu-tseen), colhido antes das 
chuvas, e formado de pequenas folhas muito delicadas, 
são de côr verde-amarellada e de perfume muito agradável ; 

— Imperial, como o chá pérola, mas somente mais grosso, 
porque as folhas são mais largas ; 

— Por flm , o Chu-chá , ou chá pérola. 

Vê-se que neste ramo foi brilhante a exposição de Java , 
e que os Hollandezes fizeram bem em cultivar alli essa planta. 



298 REVISTA BRAZILEIRA. 

Nem todos porém tiveram a mesma fortuna: os ensaios 
feitos pela França para intròducção da cultura do chá na 
ilha de França quasi não tiveram resultado algum ; nem 
se suppõe que o consigam em Argel , onde começam nova- 
mente as suas tentativas. 

Ojury da Exposição de Londres manifestou o sentimento^ 
honroso para o nosso producto , de que lhes não tivessem 
sido enviadas as amostras dos chás da Madeira , e principal- 
mente do Rio de Janeiro, e outras partes onde é cultivado 
com mais ou meno? successo. Na Exposição de Paris apre- 
sentaram-sc algumas amostras nossas, mas chegaram ao co- 
nhecimento de poucos; e além disso, encerradas em pe- 
quenas caixas de papelão, mais pareciam o resultado da 
curiosidade de algum particular do que um género oflferecido 
ao commercio. 

t No Brazil, diz Tresca, conseguiram-se alguns resul- 
tados quanto á cultura, mas não sob o ponto de vista 
commcrcial: isto é, a planta bem tratada alli tem prosperado, 
mas o producto vinha a saliir excessivamente caro , e ficava 
muito longe dos chás da China quanto ao aroma. » 

Tresca foi mal informado : os preços do chá em Paris são 
de 8, 10 e mais francos a libra , e não ha nenhum que 
não seja mais ou menos falsificado. O nosso Paquequer , de 
1$C00 a libra, é certamente preferível ao que aqui se 
compra em retalho a 8 francos, 2$880 da nossa moeda. 
A opinião de Tresca, e dos que pensam de igual modo, 
não obstou a que o governo franccz mandasse de propósito 
ao Brazil estudar a nossa plantação , cultura e preparação 
do chá. 

Na puljlicação que tem por titulo : Compte rendu de VAca- 
dèmie des scienccs de Paris (n. 14 do t. 41), lê-se um 
artigo : t Note sur les nouvelles variétés de théières observées 
dans les plantations du Brèsil , » publicado pelo director das 
culturas do chá em Argel, Mr. de. . . 



EXPOSlÇiO tmiVERSAL EU PARIS. 



399 



íste homem fizera uma viagem ao Brazil , em missão que 
iiiiha por ôbjeí!to o estudo da cultura e preparação do nosso 
chá; c a este propósito faz elle algumas observações, que 
{^assamos a extraclar. 

Os plantadores brazileiros tinham assignalado a existência 
de novas variedades de cliazeiros, produzidas espontânea* 
mente em S. Paulo e nas outras províncias do Império, onde 
esta cultura tem tomado grande desenvolvimento. O padre 
Leandro do Sacramento , que organisou esta cultura no Jardim 
Botânico , para provar as suas asserções acerca das mudanças 
que a planta deveria necessariamente soBfrer nos differentes 
climas do lírazil, publicou uma memoria ^ em 1825, na qual 
cita uma carta do marechal Arouche, de S. Paulo, que 
djm haver alLí três qualidades de cbâs : o de folhas grandes, 
lanceoladas; o de folhas mais pequenas e arredondadas; 
e o de folha tão pequena que se assemelhava ás do myrto. 
O padre Leandro suppunha que estas variações se deveriam 
multiplicar ua razão das variações climatéricas. O autor 
do artigo accresceula qoe ha no Rio quatro qualidades de 
chás, e em S. Paulo cinco. Trouxe para França algumas 
amostras da plantação de S. Bernardo (Cubatlo). 

i Se conseguirmos, diz o autor, acclimatar na Europa estas 
difTerenles raças, é evidente que teremos as mesmas faciU- 
dades que os Chinezes para obter productos variados, seme- 
lhantes áquelles que devemos ao commercio. Isto é o que os 
cultivadores brazileiros parecem ainda não ter comprehen- 
dido : em logar de separar as diversas variedades de arvores 
e de âs coUocar em terrenos differentes em elevação, expo- 
sição , etc. 5 deixam-nas crescer promiscuamenle nas mesmas 
plantações, sem se darem ao trabalho nem ainda de sepa- 

fem as folhas no acto da colheita, privando-se assim das 
ilagens de uma cultura variada , que o acaso parece ter- 
Bies procurado, • 



31 




300 



REVISTA BRAZILEIKA, 



rafe* 



Ainda que desde tempos muito remotos fosse o café usado 
pelos Árabes, não data de muitos séculos a sua introducçâo 
na Europa; ao menos a hisloria recorda a sua introducçâo 
diplomática na corte de Luiz XIV, ofTerecido ao grande rei 
por um embaixador turco. 

Foram os HoUaudezes os que o transplantaram de Moka 
para Batavia» c depois para HoUanda, Da Hollanda foram 
transplantados alguns cafezeitos para o Jardim das Plantas 
de Paris, donde em 17âO se mandaram três pés para Mar- 
tinica. De um destes, que foi o único que chegou ao seu 
destino, deram-se mudas para as Antilhas, e quereni alguns 
que também para o BraziL 

Os principaes produclorcs de café são : Berbice , S, Do- 
mingos, Costa Rica, Braxi!, Manilha e Java. O do Rio é de 
primeira qualidade, e o mesmo que se vende nos mercados 
da Europa com o nome de Moka. Os de Java, quanto se 
pôde avaliar pelas amostras que appareccram nesta Expo* 
sição , são de excellente qualidade. 

Calcula-se que nos últimos áez annos a Inglaterra consumiu 
!5 milhões de kilòs (800 mil qunUaes) de café ; e a França 
16 milhões ou cerca de 850 mil quintaes por anno, Atíen- 
dendo-se A população de ambos estes paizes, vem na In- 
glaterra a caber uma libra por cabeça , e na França 4 5 de 
libra. Nesta exportação a Índia representa 1/4 do consumo ; 
as colónias francezas 7 a à % ; e o resto , que são 66 Voi 
é supprido pelo Brazil e Java. 

Não obstante ter-se generalisado tanto o uso do café, de- 
seja- se que elle se torne de mais em mais geral, tanto para 
interesse das colónias que se applicam a esta cultura , dos 
assucares que a Europa está produzindo, como principal- 
mente por amor da hygiene ; porque o uso do café , como 



< 



i 




EXPOSIÇÃO CTNIVERSAL ESÍ PARIS, 301 

"êíh af gomas partes e era muitos indivíduos se tem observado, 
substitue o das bebidas alcoólicas, cuja producçâo diminue 
na Europa com a moléstia das vinhas , e cujo consumo se 
restringe em consequência dos direitos com que se acham 
sobrecarregadas aquellas bebidas. 

Seria para desejar que o Brazil tivesse concorrido à Ex- 
posição com as Variadas amostras de seus cafés , para mostrar 
a fraude do comrnercio francez , pois que as melhores qua- 
lidades de cafés que aqui se vendem são productos nossos ; 
era quanto o cliamado café do Rio é o rebute desse e de 
outros cafés que se vendem , segundo os nomes que lhes dao^ 
preços mais ou menos elevados, 

SmliJitAiielaA Allnieittietãs* 

Trataremos neste capitulo da conservação e preparação das 
subslanctas alimentares. Ainda que se dé mais ou menos la- 
titude á signiricação destas palavras — preparação e conser- 
vação, — para nòs que nao escrevemos nenhum tratado, e 
só queremos expor brevemente o que neste ramo nos parece 
digno de nota , basta precisar de algum modo o valor dessas 
palavras. 

Definimos exemplificando : 

Preparam-se o chá , o assucar , as farinhas , etc* : conser- 
vam-se as frutas, carnes, legumes verdes , etc. Neste sentido, 
ás comidas submettidas a processos especiaes de conserv ação 
chamamos conservas: taes são as de carnes, de frutas, de 
legumes, de leite, e muitas outras. 

Se é extremamente difficil o estudo dos objectos apresen- 
tados nesta Exposição , accumulados e sobrepostos em um 
pequeno espaço , apenas dislribuidos pela ordem dos paizes, 
le produz não pequena confusão ^ muito mais difficil , 
lo impossível, é a apreciação dos géneros alimenticios^ 




902 



REVISTA BRAZILEIRA. 



4 



qoese mostram encernidos em papel, latas, vidros, barricas 
ou tinas. Para bem julgar rta s^ua qualidade, seria preciso 
confrontakis, proval-os, e muitas vexes sujei tal-os a exames j 
fMSienlificos., dos quaés se deprehendesse a qualidade equan* fl 
tidade do alimento que cada conserva contém. Isto um foi 
possível a ninguém, a não ser aos membros do jnry ín- 
lernacional, que não sei si se deram a semelhante tra- 
balho. 

Contentar-me-hei pois com fazer uma rápida resenha 
destes productos , indicando sunmiariameí\te os processos 
maisusuaes, que modemamenle comeram a ser etnprfgados 
nesta industria. Aos que os quixerera praticar, não Ibes íal* 
tarài5 autores a quem consultem com proveito, 

O que deve merecer a at tenção do philan tropo e estadista 
é a cultura dos géneros que constituem a base do sustento 
de qualquer povo. Os principaes destes géneros sao as fa- 
rinhas: nós temos o arroz , o nrillio, o feijão, a mandioca, 
os inhames, e em summa nma grande variedade de plantas 
feculentas , leguminosas e tuberculosas. Mo tratarei especial- 
mente de nenhuma destas, ainda que nenhum paiz bouve, 
dos que concorreram ;i Exposição , que não apresentasse 
estes ou idênticos productos , revelando por essa forma 
cuidado que lhe merecia este ramo da agricultura. 

Todos esses são cultivados entre nòs, ainda que o po- 
dessem e devessem ser em escala muito mais vasta. 

De três espécies nos occuparemus aqui : a anore do pão* 
o sagíi, e a banana. 

A arvore do pão já é cultivada entre nus , porém mais por 
curiosidade do que por se ler reconhecido a sua utilidade. 
Os Hollãudezes favorecem quanto potlem a sua cuhura 
em Java, e com razão , porque a fertilidade da arvore com- 
pensa o deleixo da agricultura, fornecendo mm pouco tra- 
balho grande copia de alimenta saudável Por este inutÍTa 
#s cotonos inglezes dos trópicos supplicaram do seu governo 



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que 



EXPOSIÇÃO ÍTIflVERSáL EM PARIS. 303 

õnheneficio desta plantação; e o govenio, accedendo ao seu 

ido , tiuinduu para esse fim duas expedições à Oceania» 

e dalli Inyi s|í orlara 111 n\ú e tanlas mudas dessa arvore , de 
cada vez, 

Esla arvore , da mesma família das nossas jaqueiras , pro- 
duz oito mezes consecutivos oo anno , e se reproduz como 
ãâ bananeiras. O íructo é comido assado, em quanto verde , 
como SC poderia fazer com a jaca, ou depois de maduro; 
mas como a jaca tambeni , não será talvez lâo substancial 
ne^le estado , no qual o amylo se Iransíorma em assucar, 

O sagit è o produclo de uma arvore preciosa , que de- 
veriamos procurar introduzir no Brazil , e cuja cultura ahi 
prosperaria sem duvida, porque as melhores espécies das 
que produzem farinha semelhante — o Sagm farinifera e o 
Sugm Euuefii — perlencem á grande família das palmeiras, 
de (jue o Brazil abunda com lanta variedade* 

A arvore do sagú amadurece em sele annos, e produz sete- 
centas libras de farinha : ?ê-se pois que o lavrador ou pro- 
prietário que planlasâc dez destas arvores , colheria no fim 
de sete annos sete mil libras de farinha de sagíi , o que cor- 
responde i producção diária de 2 3/* libras. 

E' principaUnente quando nos vão faltando os braços da 
lavoura que nos devemos aproveitar da fertilidade do nosso 
solo, o mais que puder ser, em modo que se escacearem 
os géneros da grande lavoura c da exportação mais rendosa , 
como parece que infeliscmente terá de acontecer, nao sotlramos 
ao menos necessidades mais graves e de mais funestos resul- 
tados, 

Rir-se-hfto talvez algun:^ deque aconselhemos a [dantacao de 
bananeiras : todavia , se importássemos esta fruta da Europa, 
como impor! amos da França tantos frascos de morangos, peras 
cameiKas, que não valem o í|ue custam , dar-lhe-hiam por 
ventura mais apreço , ainda que na realidade liOS fosse infinita- 
mente menos proveitosa. Nisto, como em muitas outras cousas, 



304 



REnSTA 



terá sido preciso que o estrangeiro nos tenha mostrar qiml è 
a importância dos nossos prodnctos. 

Não tratamos da facilidade desta caltura • mas somente 
do proveito que ella pode oflFerecer 

Humt)oldt, segundo o calculo que Tresca reprodoí , diz que 
uma bananeira p6de dar um cacho de alê 180 fmctos, pean- 
do 30 kilòs ou duas arrobas (e este ainda não è o mâiímo do 
Brazil); mas elle supp5e o termo médio de 17 kilus para 
cada cacho, e acha que uma plantação de bananeiras, em 
uma superficie de cem metros quadrados , produziria cerca 
de 1,600 a 1 JOO kilòs de raateria alimenticia ; em quanto no 
mesmo espaço se não poderia colher mais de 15 kilôsde fro- 
mento ou 45 de batatas: o producto da bananeira , quanto 
ao peso , seria 120 vestes maior que o do trigo ou 40 Tezes 
mais que o das batatas ; de forma que , não obstante a ma- 
téria alimenticia da banana não poder ser em igualdade de 
peso comparada com a do trigo, ou mesmo com a das ba* 
tatás, Homboldt ainda assim cré que n'uma superfície dada 
a producção das bananas alimentaria vinte e cinco iodj* 
viduos mais que a do trigo. 

Não offerece tanta duração, è certo; porém a espécie mais 
producliva. a da banana da terra , conserva-se com summa 
economia, mediante o processo íacil da deseccação ao ar; 
ê assim preparada resiste alguns mezes á acção do tempo , 
e ainda a mudança rápida de temperatura nas viagens de 
longo curso. 

A propósito de frutas , e antes de passarmos adiante , 
notaremos as conservas de ananaz , e. apostas pela Guadelupe, 
Jamaica e Martinica » feitas ha muito tempo, e não parecendo 
terem soffrido alteração alguma, O processo è tão efficax , 
como simples: deitam em um boião um ananaz inteiro com 
casca e só com a rama cortada para occupar menos espaço ; 
enchem o vaso com o sueco de dous outros, tapam-no e 
lacram«no , e esta feita a conserva. 



i 



i 




EXPOSIÇÃO ItNtVERSAL EM PAMS, 

Outros meios de se consenarem fruías vão sendo intro- 
doiídoshoje, de que mais abaixo daremos noticia. 

Verdura a. 






Ainda que a conservação das hortaliças nào seja tão ulil 
para nus como para a Europa , onde sem este recurso as 
povoaçDes se achariam privadas desle regimen hygienico 
durante os mezes em que a terra se recusa a produzil-as ; 
com tudo podem ser vantajosas para uso do exercito > nas 
viagens do sertão» ou para que, imitando nús os processos 
hoje empregados para isso , possamos supphr mais larga* 
mente com os nossos géneros os logares vexados pela fome , 
quando infelizmente essas desgraças se repitam. 

A principal vantagem que terão para nos estas conservas 
de verduras nào è, como na Europa, a possibilidade de serem 
consenadas durante alguns mezes do anno. Coma falta que 
temos de vias commodas de communicação , essa vantagem 
consiste na rediicçâo de volume, e portanto também na 
facilidade do transporte em costas de animaes, o que per- 
ra ilte o uso de taes substancias em viagens por terras mal 
povoadas. 

Os mais antigos , e ainda hoje os mais usados destes pro- 
cessos , são os de Masson , cedidos á casa ChoUet e C/, que 
boje com elles negocia. Este processo consiste na desec- 
cação da hortaliça por meio de uma corrente de ar quente 
da compressSo em uma prensa hydraulica. As hortaliças 
ficam reduzidas a placas lio compactas que o espaço de uma 
vara cubica pòdc conter 27 a 28 mil rações de 25 grammas 
cada uma , que representam o decuplo em legumes frescos. 

E Outro processo, inteiramente differentc desle , é o do ce- 
lebre embalsamador Gannal, que o cedeu a casa Moret 
Fatio e C.® , cujos produclos são já de ha alguns annos co- 
nhecidos no Rio de Janeiro, O que julgam acerca destes dous 



niÊibodos aotoridads aonpdenles è : na proceao Ganua 
o bello aspeclo das borlalit»» e a menor perda da ; 
e DO de Mâssan , a redoc^ dos seus prodoclos a me 
?o)iiiiie , e portanto a [maíar lactUdade do transporte. 
De oairos processos mais recentes trataremos mais adiant 



C«l 



^rvttfmo lie 



Os paizes em que hoje se eieree esla indoslria sla a Ame* 
rica (Buenos-Ayres e Estados-roidos), e Europa (Inglaterra , 
França , e principalmente as Cidades Anseaticas). 

As Cidades Anseaticas , e sobretudo a de Lubeck , gotam 
de merecida reputação neste ramo , como etdadeâ tnari tinias 
que tem de cuidar do ahastecimenlo de fn^ande nuntem de 
navios mercantes. A marinha da Grâ-Bretaiilia reclama 
iguaes e maiores cuidados do governo daquellas ilhas . prln* 
cipalmente na crise por que esta passando com a guerra do 
Oriente , e sustento de um considerável exercito. Na actuali- 
dade se esforçam os seus estadistas para que as Dhas Brí* 
lannicas, applicando-se á criaçTiodos animaes domésticos, 
concorram com as espécies mais úteis para o consumo, em- 
quanto nas colónias favorecem a criação dos mais impor- 
tantes para a industria. Todavia, assim como York, Canadá 
expõe magniflcos presuntos, e a Austrália enonnes barricas 
de carnes salgadas. 

O mcthodo quasi geralmente praticado na Europa alô 
algum tempo para a conservação das carnes era o da ^l- 
moura; mas esse tinha o grave iriconveniente deqtie, es* 
coando-se o liquido preservador, as carnes se damnif Içavam 
promptamcnte;le como se guaidavam e transporUivam cm 
grandes barricas , as perdas eram consideráveis, e ate mesmo 
irreparáveis , quando se dava o caso nos géneros do consumo 
de um navio. Procurou -se obviar a este inconveniente , guar- 
dando-se as carnes em vidros, coraparativaracnte peqtieno 




EXPOSIÇÃO rmVERSAL EM PARIS. 



307 



|C 



redtKíndo-se de alguma forma o seu voluiine com a extracçlo 
dos ossoâ. Já era isso uru progresso ; mas por ventura menos 
ferivet aos meios desde tempos remotos empregados no 
azíl para a conservação das carnes do gado vaccum. A 
ssòca também — carne assada ou moqueada pisada com 
rinha —era usada pelos indígenas, que a transmíttíram aos 
ssos sertanejos. 

No entanto aquelle meihoramenlo, que deixamos consigna- 
do neste ramo da industria europèa, merece occupar por 
gunâ momentos a nossa attençfvo , por ser o primeiro que 
ITereceu um processo geral para a conservação das sub* 
slancias alimentícias. 
Este processo foi devido a um cozinheiro ou pouco menos 
que isso , do qual para louvor se escreveu que tinha 
encoberto o meio de engarrafar as estações. Todavia, por 
não obteve elle em mcompensa mais do que doze mil 
ncos, com a condição de faxcr publico o seu segredo. 
Appert acceitou a condição que lhe era imposta, publicando 
a obra ; IJpfe de tom fes mênages ou art de tomenwr pen- 
dant plmimn année^ túnteê les mbsfances animale$ ou vé- 
gétúfes. 

O seu processo é extremamente simples : põe-se em um 
frasco o que se pretende conservar , lacra-se bem , e colloca- 
se em uma vasilha de agua quente, na qual se conserva 
r certo espaço: depois desta operação, a matéria conteúdã 
vidro se acha resguardada de qualquer alteração por muitos 
annoa. 

Feifa adescobería, a sciencia veríficou-a, e demonstrou 
depois, graças ãs experiências de Gay-I^issac, como por 
este processo se obtinha a conservação das substancias ali- 
mentares — animaes ou vegetaes. 
Os vidros foram substituídos por latas, como ainda se 
m ; e pôde-se facilmente reconhecer nellas , pela appa- 
exlerior , se as conservas estão em bom estado, se a 



í des. 

^^80 

^ran( 




308 REVISTA BRAZILEIRA. 

tampa da lata é concava ; se é convexa pelo contrario , é 
isso indicio de que se manifesta um começo de fermentação. 

Em Inglaterra modifícou-se ligeiramente o processo de 
Appert pelo methodo chamado de Fartier, que consiste em 
fazer um pequeno orifício nas latas de conservas; submet 
tem-se estas à fervura , o ar é expellido pelo oriflcio , e 
quando se julga não conter a lata mais nenhum ar, delia-se 
cahir no oriflcio uma gotta de chumbo derretido. 

E' de notar porém que estes processos não são infalUveis. 
Ha causas inexplicáveis, além das que são conhecidas, que 
influem para a alteração da conserva. As latas fendem-se , 
sem que se adivinhe o motivo ; mesmo sem isso estragam- 
se as conservas , e observa-se nos tempos de cholera que as 
alterações são mais frequentes do que nos tempos ordi- 
nários. 

Outras descobertas se tem feito ultimamente, com as quaes 
parece ter-se conseguido neste particular o mais que era para 
desejar. 

O Americano Gail Borden foi o primeiro que ousou com 
felicidade dar um passo fora da rotina, merecendo a attenção 
do mundo na Exposição de Londres de 1851. Os biscou tos 
de carne, ou também chamados pelo nome do seu inventor— 
de Gail Borden , — compoem-se de farinha de trigo e c^rne 
de vacca. E' um bolo inodoro, que com facilidade se quebra , 
transporta-se , e póde-se guardar sem deterioração por muito 
tempo. O jury inglez confirmou a asserção do inventor , isto 
é, que dez libras deste biscouto, desfeito em uma quantidade 
suíficiente de agua , bastavam , tanto pela quantidade como 
pelas propriedades nutritivas , para renovar durante um mez 
as forças de um trabalhador. 

Á imitação dos biscoutos de Gail Borden, foram appare- 
cendo outros, para cada um dos quaes, segundo o velho 
costume dos pseudo-descobridores de todos os tempos , se 
reclama a primazia , com pomposo elogio de suas inesti- 



EXPOSIÇÃO UIOVERSAL EM PARIS. 309 

fWâveís propriedades. Neste caso está o pão e biscoutos de 
glulen . e os chamados — de Callamand- 

Felizmente resta-nos a consignar progressos mais scnsiveis, 
ainda que os processos que os determinam nâo sejam sufR- 
cíentemente conhecidos, 

A Companhia alimentar de Boenas-A>Tcs, insliluida com o 
fim de se aproveitarem as carnes do gado vaccum na America 
Meridional , expoz carnes, pastas e biscoutos, obtidos me- 
diante processos secretos, privativamente sens* Estas carnes 
Unhara apparecído no mercado de Paris, mezes antes da Ex- 
posiçlio ; e Icm de notável conservar a côr vermelha e o sabor 
da carne fresca, vertendo sangne quando se corta. Dizem 
qoe nesse estado se conserva por tempo indefinido , trans- 
porta-se sem ser necessário tomar-se a precaução de a fechar 
era vasos herméticos. 

As pastas compoem-se da mesma carne no estado de fres- 
cura , isto é , sem ter soffrido a acçfio da agua nem do fogo , 
misturada com uma porção de legumes seccos , de modo 
que em meia hora se pude fazer um caldo substancial e ex- 
cellenle. 

A mesma sociedade confecciona biscoutos, que assevera 
serem superiores aos de Gail tiorden: constam elles de farinha 
e carne fresca ; isto é , nem cozida nem salgada , em pro- 
porções mais ou menos consideráveis, 

^^ Outra sociedade, constituída para o mesmo objecto, é a 
^Blocíedade geral para a conservação das carnes» por meio 
[do principio que se designa sob o nome de comcrvatina. 
^CDosenam-se as carnes — cozida, assada ou crua — por um 
HI00O M menos, e transporiam -se como se quizer, em cai- 
xotes ou expostas ao ar» sem receio dos agentes exteriores. 
A experiência feita sobre urna perna de boi . que seis mezes 
ules havia sido posta de conserva, parece dever Rarantir o 
futuro da sociedade : a carne estava fresca , os ossos , tulano 




^m 



310 



RÊnSTA BRAZrLEIRA. 



6 gordura , como se se tivesse acabado de matar a rez n%- 
quelle monieDto. 

Resta-nos explicar o que se ehaina « conservatina* • Âs 
carnes miúdas , fato, cauda, ossos quebrados em poquenos 
pedaços, mistura-se tudo isto com uma porçSo d'agua na 
razão de dous litros d'agua para cada um kilò de carne ; sub- 
melte-se tudo á acção do fogo , cspreme-se fortemente o re- 
síduo, CO liquido volta novamente ao fogo até loriiar-se 
consistente. Então ajunla-se-Uie assucar e Romma, e está 
feito o xarope ou gelatina, na qual se immcrgcm duas vezes 
e mais , em dias diíTerentes , m carnes que hão de ser postas 
de conserva. 

Outro processo emflm , não filho do acaso » mas resultado 
da applicação de princípios scientificos, é o do Franeez Lam>% 
o qual, entre outras consen as , expoz doas pernas de car- 
neiro, guardadas em perfeito estado, uma ha cinco, outra 
ha dez annos. Vé-se pois que o invento nâo é de data rauilo 
recente , uias por isso mesmo è mais seguro. 

Lamy procede aniquilando a causa do fcrínenlo , e afas- 
tando o oxygenio. Para as carnes menos corruptíveis hasta 
a primeira operação, prolongada por alguns dias, para que, 
segundo o autor, a substancia se torne indetinidamente in- 
alterável Para as substancias rnais delicadas» coma caça* 
frutas e hortaliça . é preciso complelar-se a primeira operação 
com a segunda. 

O processo de Laiiiy não está ainda bastante conhecido, 
mas tem -se publicado ípie ellc procura aniíjuilar o fermento , 
obrigando a jirecipilar-se ou coagirlar-se por meio de certos 
corpos gazosos o principio albuminóide que determina a 
fermentação , e vem deste modo a ser causa da decomposição 
e corrupção das matérias orgânicas. 

O segundo processo consiste em tirar i* o\\ííluuo da 
âthmosphera d'enlorno da substancia que se pretende 



EXPOSIÇÃO UMVllRSAl. EM PARIS. 3il 

servar. Emprega para isso certos saes, que nãõfleara. neiu 
se põem em contacto com o alimento. 

M. Lamy expoz conservas de carnes, de legumes, de 
hortaliças , de fruías, e de leile guardado ha seis niezes pelos 
seus processos, que differeiu dos de AL Ligiiac, ainda agora 
empregados para a conservação do leile. 

Jacta-se t líjlim de conservar as suljstancias mais delicadas 
no seu estado nafural, sem as submctlcr previamente a ne- 
nhum processo d6 deseccaçao , co/J mento ou compressão, 
sem as fechar hermeticamente em vasos privados de ar, e 
em alguns coisos sem íis proteger cotn invólucros de natureza 
alguma. 

Para o Brazíl , que ha já muitos annos se occupa com a 
preparação das carnes séccas, não serão estas noticias in- 
teiramente inúteis; porque, nem só poderá augmentar a 
quantidade , como melliorar a qualidade deste produclo* 

E' certo que infinitas reines se perdem nos nossos sertões » 
por estarem em tal estado de magreza que não seria pru- 
dente a provei Uir- se-lhes a carne quando morrem nesse es- 
tado. Mas isso se remediaria om parte, tratando de as eu* 
gordar um pouco antes de serem levadas ao matadouro, e 
quar»do isso se podesse fazer no próprio togar da criação. O 
que é mais serio inconvenieFile ê a falta, ou pelo menos â 
carestia do sal nesses logares, c o disperdicio que delle ha 
na preparação da carne. Era preciso, creio eu, um paneiro do 
peso de riuatro arrobas de sal para salga de uma rez. cujo va* 
lorse acha deste modo mais que triplicado. Quando falta o sal, 
o qnc não raro acontece nus sertões , as perdas são enormes, 
porque o fazendeiro, para ter algum rendimento, mata muitas 
rezes para lhes aproveitar o couro, e da cante ai>enâs o 
que basta para costeio da fazenda. A necessidade tem a alguns 
ensinado processos ntais económicos , taes como o emprega 
do sal [jisado em nniita farinlta, 

Á vista do cítposlo , concluímos que os meios para a con- 



313 



BEVISTA BILiZILEiM. 



servação das carnes sem o emprego do sal è da mais alta 
importância para o Brazil , mit> su pela variedade dos pro- 
duetos que elle do contrario poderia apresenlar , mas lam- 
bem por se evitarem enormes perdas com que os criadores 
deveriam contar em suas fazendas , priocipalmenle no desei- 
menlo das boiadas em distancias de centenares de léguas; 
porque em taes casos, conio se sabe, lhes ficam pelo caminho 
as cabeças que se extraviam , as mais gordas que cansam, 
e as mais magras que não aturam a jornada, além das mo* 
lestias e mortandades produzidas pela mudança de pastos; 
de modo que uma boiada luzida chega sempre ao seu destino 
no mais deplorável estado. 



A variedade s assim como a importância das applicaçõés 
que a industria Íbz da gomma elástica , lera despertado â 
altenção dos homens da sciencia, e ainda dos curiosos que 
procuram saber quem foi o primeiro que a importou e apre- 
sentou nos mercados da Europa. Divergem a este respeito as 
opiniões, e no entanto a ninguém até agora occorreu inves- 
tigar se antes que essa matéria fosse importada para Ingla- 
terra e França, não era já empregada pelos colonos do Pará, 
e vendida nos mercados de Portugal. 

E* isso elTectivamente muito para suppor; e comtudo n5o 
devemos taxar de incuríosos aquelles que, tratando resumida- 
mente deste ramo de industria , põem de parte os Portugueses, 
nem tratam de saber se porventura nos seus mercados se 
vendia a gomma elástica sob a forma de animaes americanos 
mal imitados pelos indigerias^ ou de objectos que sò eram 
curiosos attendendo-se aos obreiros qoe os fabricavam : ob- 
jectos de utihdade, porém, sò se foram alguns sapatos feitos 
grosseiramente ; porém mais geralmente a gomma eiaslica no 
Pará foi nos primeiros tempos utiUsada para borrachas , como 



EXPOSIÇÃO UMVEftSAL EM PARIS. 313 

'seu nome vulgar o indica; e mais ainda para certos instru- 
menlos, donde íicou ate hoje o nome de — seringueiros — ^^aos 
que vivem de recolher a troniina elástica. 

Não é portanto de estranhar que, quando se traia de his- 
loriaro desenvolvimento desta industria, liquem esquecidos 
nquelies que nao aventaram a sua importância, nem conse- 
quentemente conlrii)Uiram de nenhum modo para que esse 
producto fosse bem ou mal conhecido do resto da Europa , 
que tioje tanto o aprecia , sendo de facto a mais importante 
de todas as industrias de data recente. 

Foi o celebre académico francês La-Condamine quem em 
meiados do século passado descreveu a gomma elástica de 
modo exacto ; mas já nesse tempo era ella empregada em 
França, ainda que fosse quasi nuUo o seu emprego. As bor- 
rachas do Pará , exportadas em quantidades mínimas sob a 
fúrma por que lhes davam esse nome, eram coitadas em tiras 
e serviam para apagar os traços do lapis no papel, ou para 
confecção de brinquedos de criança. 

Não obslanle porém ser melhor conliecido este producto 
depois da viagem de La-Gondamine , o seu emprego conser- 
vou-se estacionário |>or quasi meio século: era isso devido, 
tanto á ignorância em que se estava das suas mais importantes 
propriedades, como ao atrasEO da chimica, que ainda lhe não 
tinha dado o seu poderoso auxilio; e talvez principalmente, 
como se crê, o nao existir a gomma elástica na Europa 
senão em pequenas quantidades , mais como objecto de cu- 
riosidade, do que de utilidade, de forma que não podia ser 
ensaiada com proveito. Foi somente em 1791 (segundo es- 
crevem os Francezes) que Besson começou a fabricar estofos 
impermeáveis, e Champion em Í815; mas estes ensaios 
feitos em pequena escala não prometteram nem tiveram 
jrande resultado: todavia é desde essas tentativas que data 
'realmente o emprego industrial da gomma elástica. 

Hoje porém depois que combinada com outras substan- 




3i4 



RETISTA BMZILEliU, 



cias se tem prestado a usos a que parecia menos proprii 
tanto se tem vulgarisado o seu emprega, que apezar da grani 
quantidade de productos preparados com eUa , que se a 
sentaram na Exposição franceza, aclia-se ella mai repres4íD* 
lada quanto ao numero dos expositores. A França, como era 
de esperar j concorreu largamente apresentando .14 exposi- 
tores , todos cíles donos de estabelecimentos mais ou ftienos 
importantes ; mas fora destes, o catalogo apenas indica 8 da 
Prússia, 4 da Inglaterra, 2 da America, 2 da Hespanlia , 1 
dos PaÍ2es-Baixos , outro da Dinamarca, outro emfiin da 
Bélgica, isto é , pouco mais de metatie dos que apresentara 
a França. Notou-se a abstenção dos Estados da Allemauha . 
e priucipalmente o pequeno numero de expositores inglezes 
e americanos , sendo que estes últimos tanto tem contribuido 
para a voga da gomma elástica. 

Três dilTerenles partes do mundo — America, Oeeanta e 
Africa—produzem gomma elástica. Na America o Pará, 
Guyana Franceza (dizem que também se encontra oo rio 
Mearim do Maranhão), Paraguay e México. — Na Oceania 
Java, Sumatra, Singhapura e Madagáscar, — ^Na Africa a 
Gabou. ^^ 

O producto do Brazit , extrahldo da Siphúnia cachuchm^^ 
(donde veio a palavra franceza — caouichouc — ), ou como 
escreveu Humboldt — Siphoma brazUienm , — é inquestio- 
navelmente superior a todos os outros, e reputado por mais 
alto preço. Chega à Europa bem acondicionado , no estado 
de pureza quasi absoluta ; em quanto o de Java, extrahido da 
Ficus-elmtka , e o de outras parles da Oceania , Tem mis- 
turado com gravetos, pedras, terra e outras impurezas , de 
que é mister purifical-o. Assim, em quanto o do Fará se vende» 
como agora, em França a 5,50, o de Java apenas alcança o 
preço três vezes inferior de 1,80. 

O gabou porém , quasi fora de comparaçio , aproxitm' 
no aspecto á gutta-percha ; mas deUa differe esseaeialmen 



EXPOSIÇXO UNIVERSAL EM PARIS. 31 6 

âftsuas propriedades, nem pôd<^ ainda ser eíftpre?:ado 
tOTfi bons fèStí liados* Vendido no principio a 4,50, hoje cahiu 
a 1/3 do seu primeiro preço « e nem assim é muito pròeá- 
rado. * • ' 

VoUeinos porém à historia das phases por que tem pái* 
lido esta induslria. 

Os grosseiros ensaios dcBesson, assim como os dd seu 
«uccessor Champion, não prometliam nenhum tuluro a esta 
ítKJuBtria^ porque os seus tecidos impregnados de gomttlà 
elástica pouca extracçíío tiveram. Parecia um daquelles irt- 
?enlos que apparecem ricos de pro nessas e de esperanfíis, è 
pouco a pouco SQ v5o desacreditando até recahírem no aban- 
dono. Assim talvo2 aconteceria com a gomnta elástica , a i\lb 
ser um homem em Inglaterra que ^e níio deixoU acobard;ir 
pelos m:\os resultados dos seus antecessores em dilTerentcs 
paíies. Mackintosh dissolveu a gomma elasUcaem certos oleôâ, 
a principalmente no de carvão de pedra, e depois de a reduzir 
a massa, appllcou-a a tecidos ordinários^ submellendo-os a 

ma forte pressão para qae fosse completa a incorporação da 
|omma no tecido. Foi isto em 1820. Ratlier e Giiibal introdu- 
ziram em França o^ processos de Mackintosh, modincando-os 
im parle, melliorando-os com seus inventos; e desde enllo, 
apezar das alternalivas por que passam todas as industrias 
npseu começo, estava decidida a sorte da gomma elástica. 

Os rclaloriosdo governo francez vão confirmar esta asserç!:o, 
se sao verdadeiras as cifras que apresentou o jornal froncez 
ia Pfesiê, Passo a cil:d-o integralmente , na impossibilidade 
em que eslou de verillcar os seus dados pelos documentas 
officiaes de que etlcs sem duvida se terão servido. 

• Em 1830 era ainda insignilicanle a importação da 

gomma elástica : a França comprou nesse anno vlnlc e cinco 

mil francos desse género. Foram subindo essas compras a 

J^Q9,3â7 francos em 1831 , e dous annos depois, em 1833, a 

16^i3S2 francos. Em i834 fabricaram-se produc'os de gomraã 

22 



316 



aEVlSTA BRAZILEmA. 



no valor de 750,000 francos, sendo que mais de mêtâí 
delles se exporlaram para fura do paiz. Em 1839 a França 
comprou mais de 400,000 francos de gorama elástica, e 
retornou com quatro milhões em objectos preparados com 
ella,! 

Todavia a voga de qoe por este tempo fruia a gomma 
elástica esteve sujeita a graves alternativas : aceita e pre- 
conisada ao passo que se ia accommodaodo às diversas zp* 
plicações da industria — estimada sobremodo como matéria 
que se reduz a placa e a flo, que se corla e prepara em 
íórma de tubos e de objectos de toda a casta, e emfim que 
por si mesma se soldava— começou a decahir no coriceito pu- 
blico, e pareceu por um momento» em 1839, que tinha cbe* 
gado ao seu período de decadência. As correias applicadas á 
mecânica eram abandonadas, os instmmentos de cirurgia 
desprezados como màos , e mesmo os tecidos impermeáveis 
como que iam passando de moda. Era isto devido a algumas 
das propriedades da gomma elástica, a que se não tinha dado 
muita altenção ao princípio: ella endurece-se e contrahe^se 
com o frio , e com o calor se amollece e dilata : quanto ás 
correias porém, essas despedaçavam-se com a tracção , ou 
quando menos relaxavam-se e perdiam quasi toda a elasti- 
cidade. A isto accrescia o máo cheiro que dava aos vestidos 
impermeáveis, a viscosidade incommodaao tacto, e por fim, 
o que era mais serio inconveniente que os dous últimos , 
dissolvia-se nos óleos e corpos gordurosos, 

Obviaram-se a estes inconvenientes da gomma elástica no 
seu estado natural por meio do processo que chamam de 
vnlcanhação, e que melhor se diria de $ulpkuri$Qçãú, com 
o qual se obtém da gomma elástica dous productos diffe- 
rentes e quasi oppostos- 

Mistura-se intimamente a gomma elástica com uma pe- 
quena dose de enxofre, a vigésima parte do seu peso, por 
exemplo; submette-se esta mistura a uma temperatura mais 



4 

\ 



i 



^^M 



EXPOSIÇÃO UNIVERSAL ESI PABJS, 317 

OH menos forte, segundo a resistência ou elasticidade que 
se eitige do producto f e o agente chimico se combina com 
a gomma elástica, de modo que a torna insensível aos calores 
tropicaes, assim como aos invernos mais desabridos ; conserva 
a sua propriedade elástica sem augmento nem diminuição , 
Lijualquer que seja a força de tracção a que esteja sujeita. E' 
esla a gomma elástica vulcanisada flexível , e com ella neste 
eslado confeccionam-se vestidos de toda a espécie , instru- 
mentos de cirurgia, tubos de todas as dimensOes, correias, 
papel, etc. 

Reforçando a vulcanisaçao , e ajuntando -se-lhe maior quan- 
tidade de enxofre (a quinta parle) , o Americano Goodyear 
descobriu um novo producto , duro e rígido como o mármore, 
e susceptível do mais bello polimento. Esta mistura suppOe- 
se que pôde também ser feita em partes iguaes de gomma e 
enxofre, a que se junta greda, magnesia calcinada e muitas 
outras cousas, como sequeira, porque parece que a gomma 
elástica a tudo se presta. Esta chama-se * vulcanico-endu- 
• recida* oq simplesmente < rigida > , producto em summo 
grào resistente c desprovido de toda a elasticidade , que se 
pôde empregarem vez do ébano, búfalo, tartaruga, e até de 
metaes, como ferro e cobre, a qae provavelmente será pre- 
ferida em certos casos. 

Os productos da gomma elástica rigida formam um bri- 
lhante contingente da Exposição universal. Goodyear vendeu 
o privilegio que tinha em França a uma companhia , que tra- 
balha a gomma elástica com os seus processos. A companhia 
apresentou na Exposição objectos ricos e variados, que at* 
irahem a attenção pela curiosidade» e se recommendam pela 
utilidade. 

Vêem -se alli coronhas ornadas de baixos relevos exqnisitos, 
cabos de faca e espada esculpidos , pastas de carteira e para 
encadernar livros de luxo » moveis ricamente dourados , moU 
diiras para quadros, pratos com desenhos chioezes; iastru- 



316 



HEnfTA BtAZaUfU. 



lEientos de mosica, iam como Oautas» cornetas, rabocift; 
inslmmentos de cirargíâ; adereços mQD lados de pedras fi- 
nas , anaeis, pulâeiras, tampos de relógio , machina dectnca. 
candelabros» porta-voA ; caixas para costura , para essencial, 
para jóias; chicotes, bengalas fleiiveis, capafieles, íern- 
duras, réguas de desenho , canudos d óculos de alcança, aros 
d'oculos usuaes, barbas para vestido , embo nos para embai* 
cações ; baiio&felevos imitando brk>Qze , imagens imitando 
madeira. Ainda mais: cartas geographicas ippreasas, qua- 
dros , objectos de campanha e viagens por mar ou pof terra; 
barcos insubmersíveis , boías de salvação , barracas Imper- 
meáveis; coliôes, travesseiros, garrafas, cofios, cobertores 
d'agua quente para o inverno ; pontões para o &en iço militar; 
pentes de tecelão preferiveis aos de íerro, que facilmente se 
oiydam com a humidade ; pranchas que pela rigidez, pouco 
peso e custo diniinulo, se pretende empregar em vez do cobre 
para forro de navios; couros de gomma elástica QexiveL que 
poderás ser appUcados a equipamentos militares o arreios t e 
papeis , emflm , para forro dos aposentos húmidos. Para coroa 
desta maravilhosa exposição, vé-seum Uvro com folhas de 
gomma elástica t encadernado ricamente na mesma matéria, 
o qual tem por titulo : Gum-elastic and iís úwrietin witk a 
deíailed accouní of í/s QppUcations and u$ú&, etc, fry Chark^ 
Gúôdyear. 

Nesta industria a America do Norte tem sempre andado 
DO caminho das descobertas , e foi ella a quo concedeu pri- 
meiro um privitegio para a vulcanisiçrio da gomma elasUcA* 
Hayward o obteve era 24 de Fevereiro de 1839; o segundo foi 
dado pela Inglaterra a Hancock em 21 de Novembro de 1843; 
o terceiro pela França, a 8 de Janeiro de 1844, ao Americano 
Coodyear, que durante longos annos sacriQcou sommas 
enormes com ensaios para o aperfeiçoamento deste fabrico. 
Apegar de ter sido a ultima a conceder semelhante privi- 
legio, a França è um dos grandes consumidores deste pro- 



AL ESf n 

ãútíú, em cuja imiaslria lenia rtvalísar com os Americanos 
e la^lezfís. Hutclunson e Hendotãonp íiUmduclores dos pro- 
casaos de Goodyear, c directóres de la Compagnie naíiô' 
nale da caouíchmtc soupk, possaem duas vastas oflicinas 
^a de Langht , que dispõe da força de 250 cavallos de rapor 
e accapa 700 trabalhadores — e a de Paris , que ha pouco 
tempo compraram dos Srs. Wagner^ que emprega a (orça de 
lãO cavallos e 200 homens. E' curioso sabeMe que a officina 
dã Laâghi produz 6,000 pares de sapatos em 24 horas, e a de 
Paris 2,000 uD mesmo espaço ; islo é , 240,000 pares por mei* 
perlo de 3 milhões por anno. 

Mudos de preparação. 

K gomma elástica, ainda mesmo a do Pará, que é de toda* 
a que aqui chega com menos impurezas , passa por diflereatés 
manipulações antes de poder ser empregada. O processo ds 
preparação de Nikes consiste em amollecel-a a vapor, mer- 
gulhal-a em agua quente para a limpar das impurezas , pas- 
sam-na entre eylindros cortantes, e quando se suppõe bem 
purificada ^ è esmagada e amassada em um alguidar de ferro 
dE pequenas d imensões, até que todas as suas partes se tornem 
bomogeneas. Cada um destes alguidares requer a força de 
Ires cavallos para aniassar cincocnla libras de gomma elástica* 
e. já se vé que seriam precisos muitos detles em qualquer oíE- 
cina de alguma importância. Assim . nesses grandes estabele- 
cimentos se começa a usar das macbinas chamadas ameri- 
canas, que procedem nesta operação com mais rapidea e 
proveito. 

Também se afina a gomma elástica fazendo-a passar entre 
os esmagadores mecânicos de Coulurier, Este esmagador com- 
põe-se de dous cyhndros estriados, dispostos horizontalmente» 
e dotados de movimento de rotação: a gomma passando entre 
estes dous cylindros separa-se das pedras que possa coatâr. 



310 



REVISTA BlUZnjEIBA. 



e ccnverte-se em uma lamina enrugada, que se puriQca com- 
plelamenle com uma breve eboUção em um banho alcalino. 
Com primem -se fortemente muitas dessas placas ou pastas em 
um cylindro de ferro fundido , soldam-sc em grandes massas 
cylindricas, e sao depois apresentadas á machina de Guíbal 
ou Couturier (que sò d i [Terem no feitio da faca) , e extrahem- 
se depois folhas para confecção dos estotos, ou tiras para serem 
convertidas em fios, 

Apezar da infinidade de productos que com esta mataria &a 
íabdca, sao os mais importantes sob o ponto de vista com^ 
merciâl os tecidos elásticos, que segundo se diz foram pela 
primeira ve^ ensaiados em Vienna, Em França começaram 
elles a ser fabricados defini tivamentc em 1828, época em 
que Rattier e C/ importaram de Inglaterra os processos de 
Mackintosh de Glascow. Empregam a substancia, não nú 
estado liquido, mas de massa, para que não vare o tecido 
nem o manche do lado opposto. Por esse processo nunca esses 
fabricantes , nem algum outro, poderam obter mais de 150 
melros de tecido impermeável por dia, ainda mesmo dispondo 
de vastas oflicinas. Hoje porém com o emprego das ma* 
chinas usadas na Inglaterra obtem-se cm um espaço cinco 
vezes menor 1,000 metros e mais de tecidos impermeáveis: 
progresso attendivel , não só pela quantidade como pela qua- 
lidade do producto. Em vez da essência de terebenthina, em- 
prega-se essência de canão de pedra , que entra em menor 
quantidade na composição do verniz, evapora-se mais facil- 
mente, e supprime a causa de destruição que a essência de 
terebenthina introduzia no verniz, resinificando-o. 

Os estofos impermeáveis apresentam-se ordinariamenle no 
mercado com uma côr escura, mas pòde*se4hes dar qualquer 
outra que seja : para isso empregam-se muitas tintas , e entre 
outras o vermelhão , os saes de cobre e de urano» e o sul^ 
phureto de cádmio , que substitue o de arsénico ^ supprimido 
por causa de suas propriedades venenosas. 



i 



EXPOSIÇÃO irmTEBSAL EM PAEIS. 321 

Para vulcanisar os tecidos, como elles rão ganham^ e per- 
|dem pelo contrario em serem fortemente sulphurisados, pro- 
'tonga-se o tempo da immersâo com uma temperatura de H5 
a 120 gráos. No entanto offerecia este processo sérios incon- 
Tenieotes para a qualidade e duração do tecido. Ultimamente 
Pakes, de Birmingham, obteve a 25 de Março de 1846 um pri- 
vilegio para vulcanísação a friOj o que conseguiu com o em- 
prego do sulphureto de carbono , c do clilorureto de sulphur; 
roas deve ser muito fraca a dose do clilorureto , porque esta 
t substancia se decompõe ao contacto tfagua, e mesmo em 
presença do ar húmido, para dar nascimento ao acido chlo- 
ridico, que desbota as cores e rúe os tecidos. 

Nesta industria , como em muitas outras, a Bélgica se dis- 
tinguiu pelo baixo preço dos seus artigos : os mantos im- 
permeáveis belgas custam metade e menos do que os fran- 
cezes. Entre os poucos expositores inglezes, Wansborough 
occupa o primeiro logar , tanto pelo diminuto preço dos seus 
paletós , como pelas cores serias , mas variadas , que Ities 
soube dar, e que contrastam com a côr monótona que os 
Francezes empregam. Voigt c Win de e Fonrobert repre- 
sentam dignamente a Prússia, ainda que os Francezes, con- 
fessando a superioridade da sua industria, criticam comtudo 
a preparação que fazem da matéria prima, c acham que 
âquelles devem reformar os seus processos de vulcanisaçao, 
nos quaes superabunda o enxofre. Guibal e Ratlier pleiteiam 
em favor da industria franceza ; Hulchinson e Henderson ex- 
põem tecidos ricos e notáveis. Elogia-se em Guibal a íietU 
biltdade da soa gomma vulcanisada, e em ambos o bom 
gosto dos seus productos ; porque ambos de facto possuem 
esse geito de saber enfeitar e dar realce a bagatelas, que è 
tão próprio da índole dos seus compatriotas. 



32^ 



RpiSTA BftAÍItEaA. 



Catl^perefoii* 



A gulta-percha oq. gonima de uma arvore das índias» âJIi 
CQQUecit^ com as designações de iulmn ou da percha ^ è um 
producto semelhanleá gomma claslica , mas diflcrenle qiiaiMo 
a ítlguraas de suas propriedades, ainda qno rnuilas vwes. 
sâjam empregadas rooíuntauienle, resuUando desta mh- 
tura um composto mcdio que parlicipa das propriedades de 
a^bo3* 

Pareceu-me couvenientc tratar em seguida desta matéria, 
não sò porque se auxiliam , como principalmente porque um 
dos membros da actual commissão è de parecer que o Brazíl 
pçde obler ura producto idêntico d<» sueco de algumas de suas 
arvores, 

A gomma ou gutLi percha é o leite quje dislillam certas 
anoreç da ilha de Singhapura, arvores que também foram 
achadas no litoral do estreito de Malacca e na ilha de Bornèo, 
O Dr, Montgommcry obteve dos Malatos alguns objectos fa- 
bricados com csla matéria, cnviouos para Londres , e teve 
eoi recompensa uma medallia de puro: fii isto ein.lS^â* 
JÃ no anão seguinte corgloçou a iudust^ria a tentar alguns 
er\saio3 sobre eslc producto , cuja existência foi isfaorada em 
França ate 1845, anno em que voltou div China a grandô 
e;ipediçao ai li mandada pelo governo francez. Deram-$e ai* 
gumas amostras aos fabricantes da gomma elástica, e togo no 
íiuno seguiu to (a 30 de Julho de 1846) Cabirol e oiitro$ 
obtiveraru o primeiro privilegio para a sua exploração em 
França, Consta que em 1848 Singhapura exportou perlo do 
três milhões de libras de gutta-percha. 

Esta substancia na o teixi nenhuma elasticidade , è ittata* 
cavei pelos ácidos, invulcanisavel no seu estado natural, e 
principalmente empregada na fabricação de lubos para mn* 
ducção d'aguas, no que c preíerivel aos lubos metallicas, e 



EXFOSIÇáO UinVltSáJt 1S3I PARIS. 3Ê3 

qo»fioã de telegraphôs eléctricas subterrâneos ou submarínhosv 
qM Wffid se sabe são cobertos de guUa percha , tanto para 
OS iw^ervar da li um idade , como por ísercm màos conductora 
de çleotricidade. 

Altíioílíâso é como a gomma elástica empregada em forma 
«lieoricias nas ai tes mecânicas, para Iransmiítsão de movi- 
mento; tendo sobre o couro a vantagem que, si se rompem , 
ficll é soklal-as com um íerro quente. A cirurgia lhe der© 
a perfeição de muitos dos seus inslrumentos; os selleiros fa^ 
boctn com ella arroios, rédeas e freios, que se vendem por 
ppêçoâ roais commodos do que os até aiiui usados, além da 
õfldreeerem mais duração e solidez — motivos porque já iSo 
sendo mapÊf^ém na lavoura iugleza 

Combinada com alguns sáes, nâo è atacavel pelos ácidos 
ô alcalis em temperatura ordinária: e pude substituir com 
QWQomia a porcelana, o vidro e os melaes osuaes no semç0 
domestico. 

Coarem porem notar qae a gutta-percha não é vantajosa- 
mente empregada na fabricação dos tecidos impermeáveis, 
os quaes com ella ficam muito ásperos e duros; nem a 
adhès3o è t5o intima que dentro de pouco tempo a gutla- 
percha não caia em poeira, ou se destaque em fragmentos, 
niinimos. Também para a preparação do couro vegetal , da 
qye se fa^ sapatos, arreios, etc., é preciso que delia so 
faça uma camposiçfio contendo — para uma parte de girttaí* 
percha — trcs de gomma elástica , duas de essência de tere' 
benthiua, uma e meia de estanho. Vê-se, portanto, que neste 
composto entra a gomma elástica como elemento principal, 
e tanto que sujeito ao processo de vulcanisação^ a que a gutta* 

1 percha por si só se não presta , o couro vegetal adquire a ne- 
casaria el^tíeidade. 
Fácil è pois e plausível conjcctiuar que a guita percha^ 
límge de restringir o consumo da gomma elaslica » concorrwà 
pldtpiaMiíBite para augmental-o , si se obviar ao meio ba£^ 



324 



fiEYisTA mAmjmuL 



baro empregado na Oceanía para a extracção da gutta-percha, 
e si se tratar de promover entre nòs a plantação e cullam 
deste importantissimo ramo da nossa exportação. Os Malaios 
derrubam a arvore , arrancam-lhe uma parte da casca , o 
aparam o leita em cocos ^ que eipoem ao ar para soUdificar- 
se. Deste modo, nao praticando o methodo das incisões que 
no Pará se emprega com a seringueira, estragam uma arvore 
gigantesca para somente aproveitarem alguns cocos ou cuiâs_ 
de leite. 

Quanto a nòs, dizemos, é preciso cuidar de t"io ulil cal- 
tura. Ha no mundo climas semelhantes ao do Pará, e as ne- 
cessidades do commercio e da industria poderàO sem grande 
difficutdade transplantar a nossa arvore , ou melhorar as es- 
pécies que possuem; e perderemos por fim esse rama de 
exportação, como jà perdemos outros tSo importantes, e como 
vamos perdendo alguns dos que nos restam , que parece que 
definham. 

Não temos somente a temer a concurrencia do Paraguay , 
que expoE amostras de gomma elástica, ainda que de qua- 
lidade muito inferior á nossa, quanto se pôde julgar pela 
apparencia. Outros paizes da America do Sul poderà5 con- 
correr comnosco , e o México mesmo não es la muito longe 
disso. A índia a produz ; a Oceania pôde cultivaVa ; Java 
sobretudo, Java em poder dos Hollandezes, pòdemonopo- 
Usar esse género na Europa, porque dentro de alguns annos 
a nossa producção nao será de mais sã para o consuma das 
fabricas dos Estados-Unidos, 

A cultura dessas arvores traria ao paiz outras vantagens , 
além do interesse material O seringueiro è um homem de 
vida errante e quasi nómada, que vive entre brejos e pân- 
tanos, onde contrahe febres e moléstias, que lhe não per- 
millem longa vida. Neste anno corta um seringai, no anno 
seguinte outro, e assim vai sempre inconstante , e sô pa- 
rando algum tempo onde os encontra mais commodos ou 



EXPOSIÇÃO UNIVIBSAL ESI PARIS. 315 

mmos eslanqnes* A cuUura os obrigaria a um Tiver mais 
eslâvcl e verdadeiramente agrícola, com vantagens mais du* 
radouras e menor mortalidade. Para os decimar de sobra, 
para aeoroçoal-os nesse viver erradio e sem domicilio certo, 
bastam a indole do indigena (que sao os braços daquella pro- 
víncia, assim como o nervo da nossa marinha) e a procura 
das drogas , de que abundam aquelles sertões. 

Quando porém o interesse moral nada devesse influir 
neste caso, as vantagens materiaes parecem-me de tal natu- 
reza (e mais o serão no futuro do que no presente), que n5o 
I seria prudente deíxar-se este ramo de riqueza publica ^ e da 
prosperidade individual , entregue inteiramente nas mãos da 
ventura, na Ouza de que a grandeza de Deos e a bondade do 
clima farão por nosso amor o que não cuidamos de fazer era 
quanto è tempo disso. 



Artei ffr»phien». 



A maravilbõsa invençlo de Guttemberg tinha apenas nm 
numero bem limitado de annos de existência , principalmente 
se attendemos á lenteza com que as industrias se desenvoh enip 
c jà se estendia por todo o mundo civilisado , admirada pelos 
pequenos, favorecida pelos grandes, e auxiliada pelos es- 
pirílos mais eminentes das épocas e paizes era que ia sendo 
introduzida* Nobres e poderosos , seculares e ecclesiasticos , 
compre hendendo todo o alcance daquelle invento sublime, 
rivalísavam de zelo em patrocinal'0, e nisso punham a sua 
gbria. Era a filha innocente da civilisação européa, que 
prestava o seu apoio á propagação da verdade catholica » e 
á diíTu^o dos thesouros que os talentos de séculos anteriores 
tinham penosamente accumulado em limitadas bibliothecas. 
Não se tinha ainda maculado com as escandalosas aberrações 
do espirito humano, nâo era o instrumento de paixões vis 
nem de interesses mesquinhos , nlo tinha attrahido sobre 



si oàios nem temores que entorpecessem o sen amplo áesén- 
\ohimenlo; e as apprehensrres de Guttemberg, sobre o abuso 
qwe se poderia íaier da sua descoberta , pareciam desvaneeêr- 
se na realisação de suas esperanças, c jusliQcar os motiros 
quão acoroçoaram nos seus trabalhos, e o induzi ram a re- 
velar o seu achado á humanidade. 

• Hesitei ura momento (escreveu cUe), mas considerei de- 
pois que os dons de Deos , bem que tossem alfíumas veies 
p ii i fiil QS, Dao eram nunca niÃos; e que submínistrar mais 
rnn inslrumcnto ã raxão e à nobre liberdade humana, era o 
mesmo que ofTerecer mais vasto campo à íntelligencia e i 
virtude, que são divinas ambas, • 

A posteridade lhe deu razão; e a sua descoberta foi aco- 
lhida como o mais poderoso instrumento do progresso ft 
desenvolvimento da sociedade. Sabe-se, todavia» com qua 
cautelas se fizeram nos primeiros tempos semelhantes ira-' 
balhos, para que se nâodívul|[aâsei» os seus processos, nem 
o segredo sahisse da AUemanha; mas apezar da cautela e 
reserva com que lai segredo era guardado , tinha-se elle es- 
palhado rapidamente por toda a Europa; e antes do fim à(y 
século decimo quinto encontramos a imprensa em Str^btirpo, 
Au sburgo, Colónia, Nurcmberg, Vienaa, Praga, e ainda 
em Paris, Veneza, Florença e Roma, 

Na AUemanha o imperador Maximilianopalrocinoii magnM 
ficamente a arte typograpliica , pondo às ordens do sct 
Impressor Schonsperger os mais hábeis pintores e grw 
dores, de cujo concurso exigia trabalhos, que ainda lioje sãl 
admirados. Os Fugsíers, banqueiros de Augsburgo , ami- 
liaram a publicação de obras, que ainda hoje se não fariam 
senão com extrema difliculdade. Nascida na Alleniauba , 
aUi creada, a typographia moderna altemãa nâo se 
MiJpiar por nenhuma outra. A Imprensa reai e imperial 
Áustria compareceu mafuiricameole na Exposição unii^rsal 
de! Liónilreã. Os iospeêsotes Haa^ — de Praga, Becker — da 



EXPOSIÇÃO raiTEESAL EM PARIS. 337 

Lcâdemíã real das scienciãs de Berlin, Vieweg^ — de Brun* 
^*wich, cidades inteiras como Munkh.c principalmente Leipzig^ 
aode trabalbam Herschferd e Brockliaus, e muitos oulms 
qm âe recommendam pela barateza, assim como pela 
correcção dos seas trabalhos» sustentam a primazia da Alle- 
fíianha na arte typographica. Algumas notas cslatisticas viràõ 
em abono desta asserção. A Baviera conta 126 livreiros e im- 
pressores, com 274 prensas que occupam 900 operários. 
A Prússia mil imprensas, e Allemanha quatrocentas mecani- 
eas. Em Leipzig, o centro do com m creio e impressão de lifros, 
ha trinta estabelecimentos typograplncos , com 58 prensas 
mecânicas e 164 de mfio: conta 147 livreiros, quando no 
principio deste século não tinha mais do que 34 , entre li- 
vreiros e impressores- Brockhaus, possuidor da maior ty- 
pographia parlicular que se conhece, mandou à Exposição 
de Londres uma collecçao de 350 obras impressas no anno 
anlerior (de 1850). Leipzig expede cinco milhões de pa- 
ooles de livros, avaliados em cerca de quinze milhões de 
Ihalers. Emfim, na actualidade, apparecem todos os annos 
seis mil obras novas, alem de 1,300 jornaes, periódicos e 
revistas. 
Continuemos com o nosso bosquejo historicot 
Introduzida na Itália, foi a imprensa acolhida nos mos- 
teiros, hospedada no Vaticano, favorecida pelos Pontífices 
Xisto V» LeFio X e Clemente; nem os bispos e arcebispos 
daí|uelle tempo se tinham lembrado, como alguns dos seus 
successores de hoje, de a encarcerar, cxorcismando-a nas 
obras de Schil ler e Lamenais, por influxo, dizem elles, do 
amor divino e caridade evangélica, dragas àquelle acolhi- 
mento ô favor, Vendelin c Jenson poderam preparar em Ve* 
neia o terreno para os Atdos, que são ainda hoje o desespero 
dos impressores. Turim c Fioretiça conservam ainda as ira- 
.di{oesda sua gloria antiga, queBononi reviveu com esplendor 
.em Únsdo século passadou- 



328 



REVISTA BRAZILEIM. 



Em França íoi a imprensa introduzida em 1470, s 
protecção da Sorbona; e neste ramo adquiriram os EUenae^ 
uma reputação , que quasi os coUocoii a par dos Aldos «H 
Elzeviros. Os Didots, familia de gravadores, fondidores e 
impressores, fizeratn as magnificas adições do Deiphim , 
00 palácio do Louvre, e são ainda hoje os coripheos, assim 
como os decanos da imprensa francês. Com tudo , as soas 
melhores obras serào laUex os seus discípulos Dupou, Won e 
Claye , que obtiveram medalhas na Exposição de Londres. Afl 
Imprensa imperial írancezajundada em 1640 por Luiz XIII," 
ou antes pelo seu ministro, favorecida pelos suceessores da- 
quelle monarcha, e principalmente por LuizFilippe, éiim 
estabelecimento digno dessa alu e antiga protecção, — rival, 
ainda que inferior , ao da Imprensa imperial d'Auslrta. h 

Na Inglaterra, onde a imprensa teria com o tempo de as^ 
sumir a decisiva importância que lhe cabe nos governos re* 
presentativos, appareceu ella apenas foi sendo conhecida na 
Europa; mas os seus ensaios foram rnd s, e conservarara*se 
por mui lo tempo estacionários. Caston imprimiu o seu pri* 
meiro livro cm 1474, mas as suas impressões são mais es- 
timadas hoje como antiqualhas curiosas, do que como tra* 
balhos de mérito. Foi apenas desde meiados do século pas- 
sado que a imprensa alli se começou a desenvolver ; e sò 
no fim desse século é qne Bulmer e Bensley apresentaram 
edições comparáveis ás melhores da Itália, Hespanha e 
França. Na actualidade, a imprensa ingleza parece nSo visar 
senão à correcção typographica e á rapidez da extraeçâ 
Prezam-se sem duvida as obras de luxo, mas o que domina 
a imprensa diária; o que se prefere são as machinas mai 
rápidas; o que admira são essas oíBci nas gigantescas, donde 
espadanam com Ímpeto, como das pennas de umalarbina, 
uma infinidade de jornaes* periódicos, revistas e publicações 
populares, a cujo impulso se move e agita aquelle formi- 
gueiro humano, A imprensa de Cowes* onde dia e noite du 



ar 

I 




EXPOSIÇÃO UNIVERSAL EM PABIS* 339 

machínas movidas a vapor dao impulsa a trinta prensâS 
mecânicas; a do Parlamento, também gigan testa; a do Titms, 
sobretudo I onde funccionam os inventos de Cowper e Ap- 
plegalh , extrahindo por hora 10,000 folhas colossaes im- 
pressas de ambos os lados , e só assim bastando para a ex- 
tracçTio de 60,000 jornaes por dia, que a tanto se eleva a 
tiragem do Time$ , depois do bill da reducção do sello ; isso 
è o que admira, e mais ainda a correcção desses trabalhos ^ 
feitos com tanta pressa que as discussões do Parlamento, que 
ás vezes se prolongam até ás duas horas da manhãa , appa- 
recem reproduzidas no jornal que sabe algumas horas depois, 
na manhaa desse mesmo dia. O Times, porém, é uma em- 
presa excepcional , que tem correspondentes em todas as 
partes do mundo , aos quaes chega a pagar por anno duas 
mil libras ou dezoito contos de réis da nossa moeda ; nem 
recua ante as despczas enormes de sustentar uma linha de 
paquetes a vapor para receber mais de prompto do que o 
governo noticias que possam interessar á Inglaterra. Não se 
argumente pois com esta excepção. 

A Sociedade Biblica de Londres espalhou em 1804 vinte 
e quatro milhões de Bíblias impressas em cento e quarenta e 
oito línguas differentes. Ora quando os particulares, ainda que 
reunidos em uma associação , fazem tal prodígio , o que se 
não poderá dizer de uma industria que tem por auxiliares 
a fabricação do papel e a encadernação de livros ? Só por 
si as fabricas de papel da Inglaterra , Aliem anha e França, 
representam o valor annual de cento e vinte milhões de 
francos, para os quaes coutribue a França com a quarta 
parte. 

Introduzida na Bélgica e na Hollanda, onde em tempos 
tormentosos teria a imprensa de reivindicar o direito da sua 
livre expansão, alli vegetou quasi desconhecida durante sé- 
culo e meio^ até que uo começo do 17^ século (em 1616) os 
EUeviros em Leyde , e depois em Âmsterdam , levaram a sua 




830 



fiBVtSTÂ BRJatLSERI* 



arte & um alto gràc de perfeiç^io, no que fõrám MOtnpâ^ 
nhados de perto pelos Wettslein e Blacow. 

A Hespanba, adoptando esta arte, quasi igualou-se eom 
0$ príncipaes impressores da Europa , cabendo-llie ft honra 
de possuir as primeiras e mais importantes fabricas dõ papel 
que houveram, O impressor do rei loachlm Ibarra adquiriu 
em meiados do século passado uma nomeada, qae m 036 
apagou ainda. Hoje a loi prensa real de Madrid e a nacional 
de Lisboa são nestes doas paizes o foco e viveiro da irte 
typographica. 

Na Exposição de Londres a Russia figurou inesperada- 
mente , e os seus trabalhos mereceram a approvação dí« 
entendidos. Broling Íqz lembrado o nome da Soecla; o 
Ejyplo apresentou 168 volumes impressos no Cairo; a 
Pérsia tem o seu jonial impresso em sua lingna. Nesta et- 
posição, além dos mais paizes, o México mostrou que tem 
imprensas p ainda que más: a Austrália mesmo apreseniou 
os productos da sua imprensa de Hobarl-Town t com typos 
fundidos em Sidne>\ 

Alguns productos que temos visto da America do Norte 
4ão uma idéa elevada da sua imprensa : taes sao a Hisiorm 
naítiral de New-York, e algumas outras publicações feitas pw 
ordem do Congresso dos Estados da União. Mas como na In- 
glaterra, e mais do que na Inglaterra, a imprensa nos Estados- 
Unidos como que se resumo no jornalismo. Em 1 850 tinham 
os Estados- Unidos 2,&00 jornaes, que davam 4â2 milhi)e« 
de íolhas por anno, e consumiam um milhão de resmas de 
papel por dia. Destes jornaes, 350 eram quotidianos, a 2,000 
hebdomadarios. Excedendo ao Times em rapidez de exlrac- 
çào, a imprensa de Weckly-Sun em New-\'orw extrahe 50 
a 60,000 íolhas em trcs horas, empregando apenas 16 afE» 
ciaes I que fazem o trabalho de seis mil com aâ prensas d( 
mâo. 

A America do Sol foi a única que ab&olutame&to se M* 



i 



EXPOSIÇÃO UNIVERSAL &E PARIS. 



331 



quecea de si própria; mas quando se notou esse escjueGi- 
menlo, Tizeram-nos a mercê de não tocarem no nome do 
BfâxiL No seu relatório acerca da imprensa na Exposição 
universal de Londres (relalorio de que extrahimos em boa 
parle os apontamentos para este bosqnejo histórico), M. Didot 
escreveu: • A America Meridional nenhum producto enviou 
á exposição. Nada ha nisso de admirar, porque a quasi tota- 
lidade dos livros hespanhôes , que se vendem nesses paizes» 
são impressos em Paris. * Ora, M. Didot estará persuadido 
de que na America Meridional nao hapaizes senão da língua 
hespanhola , apezar de que um dos membros da sua familia 
teve, e nlo sei se ainda tem , uma loja de livros no Rio de 
lanêiro ? 




Vrpoffraphta moâernR. 



A typographia com alguns annos apenas de existência 
elevou-se ao ápice da perfeição a tal ponto que, sahindo 
da AUemanha» não soffreu nenhum melhoramento conside- 
rável, a nâo ser em 1800 com as prensas de Stanhope, 
associado ao mecânico Walker; e em 1844 com as machinas 
do Saxonio Roenig, o qual, de parceria com Bauar de 
Sluttgardl, obteve com ellas (o que entSo foi assombroso) 
800 a 1,000 folhas por hora, impressas de ambos os lados. 
A invenção moderna mais importante para a typogra- 
phia è a do Dinamarquez Broud: é uma machína de fan* 
dição de typos , como sabemos que existe uma na oflicina 
de Brockhaus^ em Leipzig, a qual produz 4,000 leiras por 
hora. 

Apezar, porém, de nao ter tido a typographia melhora- 
mentos muito consideráveis, hoje comtudo apresenta-se 
rodeada de tantas artes accessorias , para sob todas as formas 
reproduzir o pensamento ^ que o seu complexo forma uma 

33 



332 

ciência, cujos príDctpios s3o tão potieo eoabecidos. como 
são Tulgares os seus produelos. 

Nio temos a presuinpçâo de preencher esta lâcuna , des- 
crevendo os differentes processos pclo^ qtiaes as artes gra- 
phícas se manifestam ; nem somos competentes para isso , 
nem nos sobra tempo para o estudo menos superticial da 
malería , nem espaço para lhes dar o desenvolvimento que 
lada uma delias comporta. Aprovei tando-nos do resumida 
trabalho que apresentou na Exposição universal francesa a 
conselheiro Auer, director da Imprensa imperial e real de 
Vienna , o homem mais entendido nesle ramo em toda a Eu- 
ropa, a minha intenção è dar uma succinla idéa do complexo 
das artes graphicas» 
Dividem-se estas em quatro grandes categorias : 
Impressões em alto relevo . compreheiídendo a gravura de 
punções, a fundição de caracteres, impressão usual, im- 
pressão para uso dos cegos, a stereotypia, a typomelria, a 
xylographia, a chimilypia, e a glypbographía. 

Impressões em baixo relevo, comprehendendo a calco- 
graphía, a siderographia . a galvanographia, a stylographia, 
a hyalographia , a gravura , ornamentação , e redacção de 
placas gravadas, 

A impressão chimica» comprehendendo a lilhographia, a 
chimigraphia, a anastatica.a chromo-litbographia ou impres- 
são colorida em geral. 

A impressão natural, einfim, comprehendendo a galvano- 
plástica, a dagueneotypia » a photographia, e a micro- 
typia. 

Tal è o extenso índice das differentes artes que acom- 
panham a typographia. 

Na primeira categoria, diz Auer , a arte typographica loma ' 
para satisfação de suas necessidades o que lhe convém da 
natureza , das artes e das scíencias. Sob este ponto de vista j 
poder- se-hia allribuir á typographia, além da creação da 



EXPOSIçiO mm^RSAL DE PARIS. 333 

bibliôlhecas , a das pinacothecas e dâs glyptothecas ; em- 
flm tudo o que sao musèos de historia natural e de ar* 
cheologia. Nesta classe diremos algumas palavras acerca da 
stereotypia e xylographia. 

Não queremos dar um esboço da stereotypia desde os sens 
ensaios em começo do século 18**, nem numerar as tenta- 
tivas feitas em differentes paizes até chegar-se ao processo 
de Lord Stanhope , que consistiu principalmente na adopção 
de moldes de gesso ou de alabastro, os quaes, depois de 
convenientemente amdos, eram mergulhados no metal em 
fusão. A galvanoplasUca, ultimamente introduzida nas artes 
pela Allemanha , produz pranchas de cobre obtidas em moldes 
de gutta- percha, que nem só rendem cem vezes mais do que 
as antigas, como sao estimadas por sahir o trabalho com a 
mais desejável perteiçâo, 

A xylographia c a íilha mais velha da imprensa. Gultem- 
berg foi o seu inventor; mas hoje, com o impulso que tem 
tido as artes graphicas, e nao se querendo delias imitações 
senão reproducções do próprio original, a xylographia deverá 
abandonar o vasto campo da realidade, e occupar-se do 
que pertence ao domínio ainda mais vasto da imaginaçíio. 
Figuras, paisagens, objectos que existem na natureza, isso 
já pertence à prancha galvânica. A xylographia continuará 
ainda a ser empregada nas i Ilustrações de jornaes e de livros, 
principalmente dos que forem religiosos, porque nada tão 
bem como ella se presta a taes assumptos. A sua principal 
Vantagem está em ser gravada sobre madeira, cuja superfície 
em relevo se harmonisa e põe ao nivel da dos typos, e pôde 
acompanhal-os na impressão de todas as obras, 

A calcographia usava-se antes da lithographia para a re- 
producçâo de desenhos Qnos e delicados feitos a buril Por 
I este processo apenas se podia obter um pequeno numero de 
exemplares , que por esse motivo eram vendidos caros. 

Siderographiu,^ Descobriu-se ultimamente o meio de gra- 



334 



REVISTA BRASILEIRA. 



yar placas de âço com agua forte. Era isso um grande pro- 
gresso relativamente á calcographia; porque com as placai 
d'aço obtii>ham-SB dez vezes maior numero de exemplareâ 
do que pelos processos calcographicos. Mas quando se ca- 
recia tirar um numero ainda maior de exemplares, dei ou 
yinie vezes mais do que cada placa podia supportar , era 
preciso repetir a gravura dei e vinte vezes; e o gravador por 
Qm não podia apresentar trabalhos que fos^m identica- 
mente os mesmos. 

Começaram enlao a trabalhar no cobre obtido pela corrente 
galvânica. Do original tira-se uma copia em alto relevo, que 
submellida de novo aos processos galvânicos fornece uma 
gravura igual à primeira , própria para as prensas calcogra- 
phicas, e quantas mais placas se queiram, reproduzindo 
exaclissimamente o original 

As placas de aço, graças a um novo descobrimento, po- 
deram rehabililar-se. Por meio de certa massa , que se compõe 
de muitos elementos, mas tâo dehcada e sensivel que re- 
produz os traços os mais ténues^ as linhas e pontos quasi 
imperceptiveis, obtem-se, quando applicada no estado li* 
quido , uma reproducção exacta de qualquer gravura sobre 
aço ou cobre , por mais delicada que seja. Prateando -se a 
superncie desta placa, torna-se ella susceplivelde ser atacada 
pela corrente galvânica, e desde então fácil è obterem-se as 
copias desejadas. 

A galoanographia é um invento admirável para a pintura 
sobre o cobre. O artista pinta sobre uma placa de cobre pra- 
teada com cores de uma preparação particular . mais clara 
ou ruais escura. Depois de applicada a camada de prata, 
e\põe-se a placa à corrente galvânica , e por este meio se 
oblem uma copia lldelissima do original As cores depostas 
pelo pincel em camadas mais espessas apparecem incisas na 
copia, em quanto as outras acham*se indicadas porlogarcs 
mais salientes e mais claros* Deste modo se pode obter tons 



EXPOSIÇÃO UOTVERSAL DE PARIS. 335 

qae o gravador nunca poderá conseguir com o buril , por 
mais perito que seja. 

Tradaxiremos aqui algumas considerações do Sr. Auer, no 
folheto que já mencionámos, tratando deste meio de repro- 
d ocçâ o artística: 

• Poderá pois o artista (diz elle) dar á impressão, ou 
pelo desenha feito em certa massa ou pela pintura sobre o 
cobre, tudo quanto o génio creador do homem occulla ainda 
nas profundezas da sua phantasia ; tudo o que ainda não 
foi representado , sob qualquer forma que fosse ; tudo o que 
ainda na o feriu a vista , ou o tacto humano ; e tudo isto sem 
carecer de gravador, nem de qualquer outra artista, que 
traduza o seu original em alguma placa própria para a im* 
pressão. A technica chegou já a este ponto. 

• D'Dra em diante será impossível a queixa de que o de* 
senho lenha sofTrido com a fabricação da placa de impressão* 
ou do apparecímenlo de defeitos em geral; e de que» por 
consequência, o original esteja imperfeitamente reproduzido. 
Assim como o compositor de musica execula altenlamenleo 
seu próprio pensamento , traduzindo-o no seu próprio instru- 
mento , e podendo com razão censurar a má execução do 
autro, — assim lambem daqui em diante qualquer dese- 
nhador ou pintor gozará da vantagem de revestir por si 
mesmo as creações do seu engenho das formas techn iças, 
sem o concurso de outro. Afastados estes obstáculos , oblem- 
se ainda outra vantagem de não pouca monta ; e é que em 
togar de duas obras o artista não fará senão uma, e assim 
reduzirá de metade os gastos do originai e da gravura , e 
facilitará em fim em summo gráo aos editores a publica- 
ção de semelhantes obras. < 

Stfflographia.— Para os desenhos originaes feitos á penna 
pôde o artista empregar aquella substancia da que acima 
faliámos, por occasião da copia da gravura sobre o aço, 
Sobre esta substancia estenrle-se uma camada de prata om 



e 



CMM» $e om o aatigo 
in. DepQê, por meto do gali 
^ incta , qoe sobníettida à prensa 
de gjrai^or , fornece es- 
> ^0 original que sábio das 



L— Apear da duração qoe as placas de aco 
de Fnatíúfit e Broncis de Uaaofer 
ensaios sofaie uma matéria mais dura , e ao mes- 
flio tempo mats pura do que o aço ; isto è, o vidro. Por 
oieio de dotts eylÍQdros> cuja superfície seja exactameitle 
igual e polida, se p6de tirar um Dumero extraordinário de 
estampas, sem leceio de usar uem de quebrara placa ou 
laiBiua de Tidro , comtanlo que se proceda com alguma pre- 
caução , obteudo-sa deste modo desenhos ião Unos que &ò o 
vidro os pÍMie reproduzir- Todavia , aUeudendo-se a que a 
lamina de ^idro se poderia quebrar , por iuadrerteocia oq 
desigualdade da superiicie dos cylindros, Auer conseguiu 
obter pela Tia galvânica copi^tão eiaclas e perfeitas, que 
o tom da superfície do vidro nem sò se com muni ca á placa 
galvânica , como á impressão sobre o papel. 

Ornamentação por enlace de filetes (Guillochage), — Além 
da impressão pela gravura, ha outro modo de reproduzir, 
por meio de uma machina simples e engenhosa , ornalos ou 
imagens , cuja extrema deUcadeza nao poderia obter a mão 
do artista mais perito cora o instrumento mais delicado. 
Este modo de reproducçao se applica ao desenho de ornalo, 
e pôde ler logar sobre aço , cobre ou vidro , e imprimir-se 
em qualquer das prensas — typographicas , Uthographicas ou 
calcographicas. 

Parece estar terminada a serie dos processos que bastam 
para produ?Jr e muUipUear todas as espécies de imagens; 
mas convcncer-se-ha do contraria quem quizer aprofundar 
seriamente o inesgotável domínio das artes graphicas. 



EXPOSIÇÃO UNIVERSAL DE PARIS. 337 

Eutraroos nos processos da terceira categoria; mas antes 
^eja-nos permiítído accrescentar duas palavras acerca de ou- 
tros modos de reproducçiio , que pertencem á segunda cate- 
goria, ainda que os não consignámos alli. 

O desenhador ou pintor tem recursos , como vemos , para 
libertar- se do ate agora indispensável coadjutorio do gra- 
vador; de modo que basta-lhe o seu buril ou pincel para 
desenhar, e ao mesmo tempo confeccionar uma chapa pró- 
pria para a impressão. Tal è o fim a que se propõe a styio- 
graphia. 

A glyphogrâpliia e cerographia são processos por meio 
dos quaes se chega aos mesmos resultados , mas por diífe- 
rentes maneiras: a substancia è diflferente, e o desenho 
originai apparece inciso nas partes em que el!e se hade ma- 
nifestar na copia galvânica, e em relevo na que não sahe 
impressa. 

l^ltliogra|ilil«. 

^k lithographia revelada por Sennefelder , pobre corista do 
thealro de Munich , tem feito consideráveis progressos em 
todos os paixes, e occupa um jogar importante nas artes ^ 
assim como na industria, devido á propriedade que tem as 
pedras calcareas dt* reter os traços formados com tinta, e de 

Ílraasmiltir ao papel por meio da presslío. 
Senefelder inventou a tinta chitníca, e enriqueceu a sua 
descoberta de quasi todos os processos lithographicos mo- 
dernamente empregados. Obteve primeiramente um privi- 
legio na Baviera, e logo depois, em 1800, na Áustria, donde 
os seus obreiros e associados se espalharam pelífê principaes 
cidades da Allemanha e da Itália. 

Inlroduzitla em França em ! 810 sem resultado, foi preciso 
que o conde jle l^steyrie a fosí^e estudar na Allemanha , e 
dalli a importasse novamente em 1814, Um estrangeiro por 





â38 REVlStA BtU2lLElAA. 

fim, EAgélmann — ^ de Mulhouse, estabeleceu em P&tis as soas 
oíBcínas, que ém dous annos attrahiraiú a attén{^o do gô- 
Terno. Mareei de Serres foi mandado à Allemanha pata es- 
tudal-a, eSennerelder acabou de a popularisar» publicando 
em Paris o Traité de Vart mt la lithographie ; Ho qual» 
com admirável perspicácia , descortina os melboraAientos dé 
que é susceptível a sua invenção, até a anaâtatica e a chro* 
molithographia. 

A lithographia foi usada ao principio para as circulara 6 
impressos da administração : então o seu emprego quasi ex- 
clusivo foi a autographia , ou a reimpresso de paginas es- 
criptas à mão. 

Sobreveio depois o desenho á agulha, cóm que se obteln 
escríptas mais perfeitas e desenhos de notável perfeição. 

O desenho à penna foi' um novo progresso na arte litho- 
graphica: o artista desenha immediatamente sobre apedri, 
que absorve a tinta , e reproduz o trabalho com rara deli- 
cadeza. 

Mas o género que está , e vai a estar cada vez mais em 
voga , é o desenho a craíão , a que matéria alguma Aão se 
presta tão bem como a pedra. Véem-se na exposição estampas 
Uthographadas com as cores mais vivas das flores e borbo- 
letas, paisagens, conchas, petrificações, estudos geognòs- 
ticos , cartas geographicas , monumentos, moléstias cutaneaã, 
copias de quadros a óleo e aquarella. 

Pôde com proveito ser applicada ao estudo da historia na- 
tural, poupando-se dinheiro e tempo, e tomando-se agra- 
dável o ensino para os alumnos. Ha neste ramo muitas edições 
illustradas, mas são caras, e por consequência fora do alcance 
do pobre. A geographia e a historia teriam nella um auxilio 
poderoso : é com isso que se desenvolve a intelligencia, e se 
forma o amor da pátria. 

Ânastatica e chimigraphía é a arte de reproduzir antigos 
manuscriplos, impressos, desenhos, etc. As copias são iden- 



Bi 



IXPOSÍÇÂO UM\^RSAi DE PARIS, 339 

Ifcas aosoriginaes, e imita-se com extrema exactidão qual- 
quer documento ou papel que se queira. 

Zincogrãphia.— kchon-SB que a pedra empregada na li- 
IhograpUia era pesada , e além de pesada frágil ; que o seu 
volume occupavâ muito espaço , e que eram poucas as minas 
de pedras lithographicas de boa qualidade. Então se começou 
a empregar na Allemanha placas de zinco em vez de pedra, 
O zinco grava- se facilmente com agua forte , e haverá abun- 
ncia dclle para todos os trabalhos : sobre elle se tem en* 
lado com bons resultados o desenlio a craíâo e a cores; se 
de uma vez puder ser substituído à pedra, ter-se-ha con- 
seguido a não pequena vantagem de se poder guardar em 
um espaço comparativamente pequeno desenhos de volumes 
inteiros, para serem impressos como stereotypos. Por este 
processo se poderàõ fazer cartas geograpbicas . senão t5o 
boas como as que sao gravadas na pedra ou cobre, ao 
menos mais baratas. 

ChromoUthographia. — Já delia tratámos faltando da sim- 
ples lithograpliia, Kromos (grego) quer dizer cór : é por- 
tanto a chromolithographia uma lithographia colorida,na qual 
o pincel é substituído por tintas applicadas sobre pedras, 
devendo cada uma destas depor a sua côr especial Concebe- 
se quanta diíTiculdade se tem de vencer, e que exactidão de 
contornos é preciso que haja, havendo desenhos que exigem 
até vinte pedras differentes. Esta nova appli cação da litho- 
graphia já tem prestado serviços relevantes ás artes e 
sciencias, e se presta com muita felicidade a todas as suas 
exigências: concebe-se, por outro lado, que variedade de 
tons pude resultar destas successivas superposições de cores, 

e se vão modificando umas ás outras indeniudaniente. 

Comiudo a principal vantagem da chromolithographia está 

ia baratezâ dos seus productos, A p parecem na exposição 

rtâs geographicas, que coloridas à mão custariam como 



340 



ISTA BRAZTLEIRA. 



12, e se vendem por 3, preparadas pelos processos chromo- 
lithographicos. 

Engelmann e GratT apresenlarain na exposição uma serie 
muito notável de imítaçiles de manuscriptos , principalmente 
um em pergaminho, que offerecia não pequena difficnldade 
visto se nao poder liumedecer o pergaminho. Apresentaram 
lambem uma imitação feliz de antigos vidros pintados , qua 
elles conseguiram reproduzir com toda a transparência e vigor] 
de tons que nos oríginaes se admira, 

Hangard Mauge faz muito variada appUcaçao da chromo* 
lithographia : entre as suas principaes producções notou-se um 
desenho da fachada da Alhambra, e uma vista do interior da 
Mesquita. 

A Inglaterra apresentou em Hanhart paisagens magnificas 
e vistas do palácio de cryslal em 1851 , que sâo obras aca- 
badas, principalmente na vivacidade do colorido. Admirou- 
se também na exposição de Vicente Brooks uma Fíiga dê 
Egtfpto^ quo no vigor dos tons foi comparada às obras do 
Veronezo, Digby Wyatt expoz uma serie de modelos de 
mosaicos recommendavel 

A França foi representada por Lemercier, premiado na 
Exposição de 1851, o qual tem publicado lithographias impor- 
tantes : entre ellas Les saintes femmes , le$ Wilis de Fúnoli, 
les Rèformateurs , e íe Caucme pitíoresqae. 

Koeppelin applicou-se Aparte seria da lithographia, e obteve 
a mais bella das recompensas do Jury francez da E\posiç5a 
de 1849, de que o Estado lucrara cerca de dous milhões de 
francos , tendo-se conseguido na pedra , i^elos seus processos , 
o grande e bello mappa geographico da França, executado 
pelos oíEdaes do seu estado maior. O processo Koeppelin (pois 
que se offerece a occasiâo de Iralar deite) é uma espécie de 
lítho-calcotypia, que tem por fim reimprimir, mediante prív 
cessos chimicos, principahnen te lithographias , antigas im- 
etc, A sua exposição se enriquecia com a rei>ro- 



EXPOSIÇÃO UNIVERSAL DE PAHIS, 341 

diicfâo de diplomas e cartas da época merovingíana » edo 
traslado na pedra das obras gravadas por Buillon com o 
titulo de: Le Musée de$ mUiques. 

Distinguiram-se lambem entre os lilhograpbos ; Dopter 
com os seus lenços lithographados,de que são principaes con- 
sumidores a Rússia e as duas Américas ; Guesmi com as 
suas impressões de cartão e papel pintado, no que todavia 
è ainda inferior a Angrand , afamado fabricante desta espe- 
cialidade : emllm Thierry írères. Paul Duponl, e Simon» 
de Slrasburgo, o inventor da Lavis-aqiiarella. Este proces- 
so consiste em assentar sobre a pedra, com tinta lithogra- 
phica mais ou menos aguada , as graduações de cada côr 
que se tenciona empregar. Por este meio obtem-se os effeilos 
do pincel, e se diminue muito o numero das tiragens de 
cada estampa j porque a aquarella mais complicada não pre- 
cisa mais de dez tiragens. 

Passamos a tratar da impressão naluraL 

GalvanoplasHca. — Nâo ha planta, nem mineral, nem 
cousa alguma, quer seja trabalhada cm relevo ou por incisão^ 
ou em uma superfície plana, que se não possa estampar em 
uma matéria preparada para este etTeito, dando de si uma 
copia de pasmosa semelhança. Essa estampa serve para por 
meio do processo galvanico prepararem-se placas próprias 
para a impressão. A Imprensa de Vienna apresentou na Ex- 
posição reproducções de rendas, fosseis, plantas em flor, 
follias, differentes espécies de algas, impressas em cores 
e tão perfeitas que a visla nSo distingue o original da re* 
producçTio. 

E' o próprio original que ministra a copia; è a corrente 
galvânica que obra como uma fundição a frio, dando resul- 
tados que admiram. O aerolitho que cahe do céo, o mineral 
que durante séculos esteve escondido nas profundezas da 
tórra, o producto d arte, o objecto vivo, os reinos vegetal 
e animal, —tudo isso se obtém com uma camada melaUica, 



343 



REVISTA BtlAZILtrmA. 



I 



dâ qual se lira uma placa de impressão. Os AUemâes a des- 
cobriram, e com razão se iifaiiam de que sejam as appli- 
caçSes do galvanismo o mais importante progresso da arta ^ 
de Guttemberg. ■ 

Mas não se limitam as suas applicações á arte typographjca. " 
Com a extrema simplicidade dos processos electro mctallur- 
gicos, as obras-primas do escopro, do cinzel e do buril, re- 
produzidas em um numero infinito de exemplares, e por esta 
forma v ulgarisadas , poderáõ dora em diante affrontar asiii- 
jurias do tempo » e as da mão n3o menos destruidora do 
homem. Sob este ponto de vista a galvanoplastica eslã para 
a estatuária , esculptura e gravura, como a imprensa para o u 
pensamento, ■ 

Ainda mais: debaixo de outro ponto de vista mais mo- 
desto , porém não menos otil, a galvanoplastica pôde acudir 
a muitas das nossas necessidades; por seu intermédio uma 
multidão de objectos ou de utensis, feitos com os metaes 
mais oommuns e facilmente oxydaveis, poderáõ ser cobertos 
de uma camada, delgada nu espessa, do algum outro metal 
precioso e inalterável 

Voltemos porém a galvanoplastica como meio de repro- 
ducção. 

Nada fica fura da sua esphera de acção , porque tudo quanto 
os olhos vêem , quanto o tacto alcança , é propriedade da cor* 
rente galvânica, chegando a copiar toda a espécie de quadros 
nas dimensões que melhor convier, e por tal forma qm a 
placa gravada poderá ser reproduzida atè ao infinito. 

Desde que foi possível copiar-se esta placa, e obter-se rteUa 
copias por preços módicos, dpsappareccu a diíficuldade ou 
mesmo impossibilidade em que estava a gravura de con- j 
correr com a lilhographia, Pude-se extrahir pequeno numero fl 
de exemplares , porquo o processo è pouco dispendioso: pôde- 
se exlrahir um numero infinito delles; pòde-se reduzir oo^ 
augmentar a imagem que se quer copiar, as maiores a um " 



í 
i 



^^£d 




EXPOSIçio UNIA^RSAL DE PARIS. "343 

formato portátil, as menores ás mais latas dimensOes. Re- 
producçrio flel e perfeita dos objectos, desde o mais pequeno 
busto até ás formas mais agigantadas , nâô ha para este 
inventa nem muito grande, nem muito pequeno, pois tudo 
lhe obedece ; e ainda virá tempo em que as obras dos grandes 
mestres, hoje sem iguaes, e sem meios que previnam o seu 
desapparecimento possivel por qualquer acaso, se achem 
espalhadas pelas mãos de todos , por preços que sejam mó- 
dicos. Com isso ganhará muito a arte, mas também não per- 
derás os proprietários (públicos ou particulares) dessas pre* 
ciosas collecções dus trabalhos dos grandes mestres ; porque 
assim como não perde no valor o exemplar antigo de uma 
obra de que se flzeram muitas novas edições, nem o iu- 
dividuo porque se deixa retratar; assim também não per* 
dera, antes ganhará , o quadro que fôr posto ao alcance da 
admiração do maior nunicro. 

< Não contente (diz Auer) de ver como a mão do homem 
tinha já conseguido a imitação das cousas, a própria natureza 
entra d'ora em diante em scena. como creadora, para nos 

jcomraunicaresse modo de rcproducçâo ainda mais simples. 
Sem reserva nos apresenta ella todos os seus thesouros, 
para que a força galvânica os reproduza em milhares de 

I copias , e a imprensa os espalhe em quantidade innumeravel 
peies homens ávidos de instrucção, • 

Daguerreoíypia. — Sabe-se o que conseguiu Daguerre com 
a sua maravilhosa invenção de imprimir pela acção da luz 
sobre placas prateadas* Havia porém o defeito da pouca 
duração da imagem , e de que esta não podia ser multiplicada, 
excepto sendo primeiro gravada. 

Phútographia. — TalboL descobriu então a photographia 
sobre o papel; mas era menos perfeito o resultado por causa 
das matérias heterogéneas que entram na composição do 
papel Kiepce de Saint-Victor aconselhou depois o uso do 



3i4 BETE^A EBAflLEmA. 

vidro, o coílodiô tem de prestar graodes serviços antes qõê" 
se eiiconUe outra matéria tâo sensível e delicada. 

Microíypia.— Pel3i photographia se pôde reduzir, quanto 
sequizer, a Imagem copiada: pela microtypia porém (que 
é a pholographia a microscópio) obtem-se o inverso, isto 
é, o augmento quasi infinito de qualquer objecto micros- 
tópico* A Imprensa de Vienna expoz a imagem cinco mil 
vezes auginentada no momento de sahir do ovo- 

A photographia tem immenso futuro diante de si. prin- 
cipalmente na reproducçâo dos monumentos, vistas, pai* 
sagens, seres e objectos imperceptíveis da natureza. Três 
ições e um bom instrumento, e teremos ao nosso alcance as 
creações de Deos ou dos homens , comtanto que as descorti- 
nem os olhos por qualquer meia que seja; e poderemos 
espalhal-as em um numero infinito de exemplares. 

Não é pois para admirar a extensão que vai tomando a 
photographia, « O retraio por si sò (escreveu a Pres$e) en- 
riquece em Paris a uma corporação de 700 ptiotographos 
especiaes, que vendem, termo médio, três mil e quinhentos 
retratos por dia, e realisam um lucro quotidiano de cem mil 
francos livres de despeza. A reproductão de quadros, mo- 
numentos, gravuras, paisagens, etc. , traz-lhes um rendi- 
mento ainda mais importante. , . Excede a toda a avaliação 
a quantidade de placas que o stereoscopo absorve. De íòra 
chegam-nos as encommendas aos milheiros ; e os nossos ar- 
tistas podem apenas bastar para o consumo dos stereDscopo& 
parisienses. Setenta e cinco casas trabalham agora exclusiva- ( 
mente na fabricação dos productos chimicos necessários á 
photographia, empregando algumas delias até trinta operários 
por dia, » 

A reunião destes diíTerentes processos, (pie em muitos] 
casos se auxiliam, ao espirito innovador e emprehendedori 
que tem manifestado o Sr, Auer, deveu a Imprensa imperial 
e real de Víenna o brilho com que appareceu na Exposí0o , 



EXPOSIÇÃO irjílVERSAL DE PAHlS, 345 

universal de Londres; e deverão triumpho que sem duvida 
a espera em França. Em Londres mereceu ella a medalha do 
conselho para a typographia, declarando os jurados < terem 
recommendado uma medalha somente — não por deixarem 
de reconhecer a excellencia e belleza das provas expostas , e 
a arte e perfeição que a typographia desenvolvera cm muitos 
pontos; mas porque nao apparecéra nenhuma producção 
que t3o claramente tivesse o cunho de novidade de invenção, 
ou nova applicação de princípios conhecidos, dignos de jus- 
tificar semelhante recommendaçao , com excepção dos pro- 
dactos da Imprensa da imperial corte e governo de Vienna, 
que ao mesmo tempo apresentava novidade de inven- 
ção, e um numero de novas combinações na arte typo- 
graphica. > 

Accresccn taram mais estes jurados, tratando do mesmo 
estabelecimento : * A Imprensa inventada em Strashurgo e 
Mayença, e patrocinada pelo imperador Maximiliano, que 
delia ainda em seus rudimentos obteve obras-primas , appa- 
receu nesta Exposiçrio com tal grào de esplendor que in- 
fundiu geral sorpresa. Mo menos protegida cm nossos dias 
pelo seu actual soberano , a Imperial imprensa d^Atistria mos- 
Irou-se na altura dos seus deveres , e accelerou os progressos 
d'arte por numerosas experiências em todos os ramos. A 
gravura, a xylographia, fundição de typos. stereotypia já 
em formas de gesso , jã nas de gut ta- percha, já pelo processo 
galvanicoou electro-nietallurgia.com cujo adjutorio se repro- 
duzem sobre o papel os peixes fosseis e animaes antedilu- 
vianos; a galvanographia, a galvanotypia» e a chimilypía, 
todas estas novas applicaçries da arte e da scicncia , que em 
parte fazem descortinar um futuro desconhecido, acham-se 
aqiii representadas. E a lithographia lambem, essa nova irmã 
da typographia, apparece com os novos auxiliares da chro- 
motypia e chromolilliographia. 

* A rica e bella coliecçao de typds orienlaes, dos quaes 



34fi mrni 

cimtasM» Qoii de cem difléreiíles espécies, tâobem grai 
camo bem fmididas, piofa i|iie na Áustria não sâo me 
aeoroçoados os estudos do que i^ arles. 

f No meio de tãBtos objectos retatkos á typographla, 
pan âdmifar as placâs tTpographícas , cada uma de 540^ 
poleg:adas quadradas» executadas pelo processo galTaníGOi, 
coalendo caracteres de todos os idiomas; das quaes se podenf) 
eitrablr milhòes de coplas , sem que os iypos se cansem ou 
se quebrem. « 

Os jurados dissertaram também , com louvor, sobre o pro-j 
cesso galranoplastico , galvauograpbía , chimitypía , e Ulbc 
chromia da Imprensa imperial de Vieuna, 



Iai|BPeiiMi 



il rr«iie«z»« 



Elogiando a Imprensa imperial de Meuna, escapou ao Jnry 
inglez a manifestação de um desejo , que devia magoar pro- 
fundamente o orgulho francez. Seria para desejar, escr 
veram eiles, que a Imprensa nacional franceza, seguindo 
exemplo da Imprensa imperial d' Áustria, ele, — Esquecei 
absolutamente a França, ainda seria tolerável ; mas era in^ 
soffrivel dizer-se-lhe em lermos claros que ella se achava em 
logar inferior; que lhe era preciso imitar para igu^dar á 
sua inesperada rival ; e isto na typograpbia, nas artes qnQ 
servem para a manifestação e comnmnicação do pensamento, 
lá neste mesmo ramo a Inglaterra e os Cslados-Unidos Ibe 
levavam a palma na rapidez dos seus processos : faltava vir 
a Áustria tomar o primeiro logar oa variedade , na riqueza» 
na perfeição do trabalho I Virem, após ella, os livreiros da 
Allemanha — mal conhecidos em um paiz onde não se conhece 
e mal se estima o que nâo é seu, ou não teve ainda cartft 
de naluralisaçào — disputarem aos impressores parisie' 
a bondade do material, a barateza, correcção e elegaut*^ 
do producto 1 era para fazer desesperar os Didots , os Pior 





EXPOSIÇÃO imn^tR^AL em paris, 317 

OS CSftTes, os malaias da imprensa franceza. E coititado 
è certo que nos impressos de uso diário , nas ediç5es po- 
pulares, nos livros para todos, e por assim dizer de todos 
os dias, — nisso estão longe de offerecer aguella correcção* 
nllideE, bom gosto e baixo preço , de que se pôde vangloriar 
â Allemanha. 

A Imprensa nacional de França poderia lutar na actuali- 
dade CO II a sua rival, se de ha alguns annos estivesse estado 
á sUa frenle um homem da esphera e do espirito do conse- 
lheiro Aaer. Aquella conta já alguns séculos de existência, 
pois foi íundadaem 1640; dispõe de materiaes avaliados em 
muitos milhões, emprega 1,000 operários, possue 94 prensas 
ée mão, 14 machinas, muitas lithographicas, oflicinas de fun- 
dição, encadernação, etc; uma machina a vapor da força de 
30 cavaUos, mm 700,000 kilòs de typos. A de Víenna, fundada 
em 1816, occupa mais de 850 pessoas, possue 3,000 qulntaes 
de leiras, 62,000 vinhetas e estampilhas, 525 espécies de 
caracteres pátrios , 02 de differentes línguas, 126 alphabetos 
e 160 milhões de typos; trabalha com 50 prensas de ferro, 
40 rnachinas, c pôde imprimir annualmente 20 milhões de 
folhas: a sua receita é de dous milhões e duzentos tnil florins 
(cinco milhões e quinhentos mil francos), 

A Imprensa austríaca nao deixaria de acudir ao chamado 
da França I e o seu comparecimento no palácio da Expo- 
sição era como que acceitar o duello na própria casa do ad- 
versário, A Imprensa nacional preparou^e para o combata; 
apresenlou-se brilhantemente, mas nao será a nenhum motivo 
de civilidade, mal cabida nesta casa, nem a bons officios de 
hospedagem , que a Áustria deverá o seu triumpho. 

Louva-se na exposição da Imprensa nacional a sua col- 
taof^o de matrizes de typos francezes e estrangeiros; diversas 
applicações industriaes , taes como a da electricidade para a 
producção de puncções & ornatos. 



348 



BIVISTA DRAZILEIUi. 



Nolaoí-se eiilre os seus produclus illuslradoè a Colleeçio 
oriental, o Bhagavala Purana, e a Iriiitaçlo de Chri^la. 

Trataremos agora da exposição de livreiros. 

De lodos os livreiros iinjiressores da França, Didol merece 
o primeiro logar pela anlif;uidade do seu estabelecimento, 
pelos melhoramenlos que a typo^iraphia deve aos seus aole- 
eessores, e pela importância de suas publicações. Data o seu 
estabelecimento de 1698, e desde então tem sem|>re cami- 
nhado na vanguarda da typographía. A tim de seu$ anti^- 
cessores confluo B. Franklin seu neto, ern 17í*0 , para cjiie lhe 
ensinasse a gravura e fundição de caracteres. O imperador 
Alexandre lhe confiou dous Russos para que aprendessem a 
sua arte. Celebre pelas suas edições stereotypas, as magnificas 
edições chamadas do Lomre porque alH foram impresâas, as 
dos Clássicos francezes em lodos os formatos, do Universo 
Pittoresco, Encyclopedia ínoderna e Biographia geral* Didot 
cedendo o seu estabeleciuiento a seus filhos encetrou a sua 
carreira industrial com a pequena mas soberba edicao de 
Horácio, honrando a França com Ires dos seus melhores im* 
pressores — Dupont, Plon e Clave. 

Mame. — O eslabelecimento de Mame» fundado em Tours 
ha meio século , foi considerado na Exposição de Londres 
como typographia da [jrimeira onlem ; e é, segundo alguns 
Francexes pretendcui, o mais vasto estabelecimento de par- 
ticular que existe na Europa. As galerias de livros encader- 
nados ou cartonados contém dous uiilhôes de volumes, sem 
faliar nas folhas soltas: tem vinte prensas mecânicas , ma- 
chinas de assetinar e de cortar papel, todas movidas a vapor: 
a ofRcina de encadernação pode conter mais de mil operários; 
mas nisto, como no mais, emprega, por todos, 1200, Em 
surama calcula-se (o que não escrevo sem hesitaçTio) que 
elle produz 15,000 volumes por dia, tomandt» por termo 
médio um volume em lâ, de 10 folhas cada utn. Entre os 
productos expostos por esla casa, distinguiu-se a obra illus- 




B^ 



EXPOSlÇiO UíírVERSAL EM PARIS. 349 

la — La Touraine , ktstoire et monumenf^ , — principal- 
mente o exemplar impresso sobre pergaminho por utna prensa 
mecânica. 

Os Ires discípulos de Didol, de que já falíamos, sstão na 
priracira plana da typographia parisiense, e se recommen- 
dam pela nitidez e Itixo de suas edições. 

Clave expoz a sua Historia dos Pintores, e muitas outras 
de notável merecimento. A sua execução typographica é per- 
feita, e fomtudo na sua oíTiciuaemprega-se frequentemente 
a prensa mecânica, que sob a sua direcção parece não 
ceder em cousa alguma ás manaaes, 

Purne, Masson, Amyot e Delalain— o primeiro, editor do 
Mitsro de Versalhes e de Milton \ o segundo, das obras de 
Cmier e medicina ; o terceiro, de muitas obras illustradas; 
o ultimo , de livros para festas e prémios de coUegio : Ha- 
ciíeUe, para os livros de instrucçao; Bachelier, para as ma- 
Ihematicas; Cotillon, para legislação e direito — completam 
esta serie de livreiros recommendaveis. 

Para acabar com a exposição franceza , deixaremos con- 
signado que a typographia e seus ramos accessorios oc- 
cupam em Paris 50 milhões de capital, outro tanto nos 
•eparlamentos ; e cakula-se em cerca de 400 milhões os 
seus productos, 

.%lleitian]ia« 



Leipzig è na Allemanha a cidade onde a imprensa se tem 
mostrado mais activa e mais rica. Brockhaus quasi que é 
para a Europa o que Didot é para a França. Com uma typo- 
graphia vasta, com uma livraria relacionada e acreditada 
era toda a Europa , com numerosas prensas mecânicas e 
manuaes, stereotypias, e fundição de machinas próprias para 
a arte typographica , apparece em Paris como em Londres 
credora de elogios , como quem lia trinta annos trilha essa 
carreira , que deiíiará mais rica do que achou, O Diccionario 



350 BEnstâ wiAznjgiA. 

da conversação (allenião), que serriu de moddo âsi obraa^ite 
igoâl título — ingleza e franceia — , obra exinhida a dn- 

teotos mil exemplares « e que . graças aos suppleoMUoa 
aecresMDtados . se Tai conservando ao nivel dos actaaes 
eonhecioientos ; a Revista da Sociedade dos Orientaliate. 
Allemâes . dirigida por Hermann Brockhans : a Ene jelopedia 
das artes e sciencias , fundada por Erch e Gruber ; a Ency- 
eiopedia de medicina e cimrgia ; os escriptos sagrados de 
Zoroastro , e immensas poblicaçOes da litteratura allemã e 
estrangeua — taes sao os principaes productos desta casa. 

Teubner apresenta a correcta e stereotypa edição das obras 
completas dos clássicos gregos e latinos , tão recommeodaveís 
pelo accnrado do texto , como pelo barato da impressão ; 
pois com 50 tbalers , pouco mais ou menos , se pôde (ri)ter 
estas duas preciosas collec^ões. Hirschfeld expoz a obra mz%- 
niftcade — Oraçdes — . impressa em letras de ouro , da cpial 
8õ eitrabiu quatro exemplares , o da Exposição que lhe per- 
tence , e três outros que foram offerecidos — um ao Pontífice, 
outro ao Imperador da Áustria , e o ultimo ao Rei da Sa- 
lonia. 

Resta-nos, por fim, mencionar Julius Perthes, de Saxe- 
Qotha, o editor do estimado Atlas de Berghaus; e Giesecke 
e Devrient, de Leipzig, cujas impressões, bem que o seu 
estabelecimento date dQ três annos, rivalísam com as me- 
lhores de Inglaterra e França. 

A exposição da typographia ingleza nem por isso avultou 
muito, o que foi talvez devido ao receio de não serem 
os seus expositores admittidos no palácio da Exposição. Rad- 
iaria a Escossia e as typographias de Edimburgo para acre? 
^tar e recommendar a sua imprensa. Esperaram-se , mag 
debdde, os productos de Longmann, Hifi^ey e ChundUlL 



OPOSIÇÃO PNIVEBSAL EM PARIS. 351 

Ehtre bS ^ub poucos expositores notaram*se ãã obras de 
Clowes, o Catalogo illustrado da Exposição de 1851 , e al- 
pimas bellas publicações de Bolm , Bradburg e Ewaur ; Addcy 
e Coh, de Londres; Heigher, de MíAnchester; e Muir, de 
Glascow. Notoa-se por fim , mas como curiosidade, urn tra- 
tado de anatomia em lingua indiana , com o ínglez ao lado , 
publicado em Calcutá pelo Dr, Mouat. 

Belglva. 

Apezar de vexada e achanada pela convenção , hoje €U* 
ropéâ, da propriedade litteraria, que com mais razlo 66 
poderia chamar propriedade typographica , a Bélgica deu, 
ainda assim, neste ramo alguns expositores, que sus- 
tentaram a reputação desse paiz activo e intelligente. Taes 
iSô: Dessain, impressor da Santa Sede, e de excellentea 
obras litúrgicas; Jamar, de Bruxellas, com o seu Rkenúim- 
fmmentaí epittoresco; e Greuse, com a bella edição Acta 
Sanvtoram. Recommendam-se, além desies, Van-Doorselaere, 
de Gand; Carterman , de Tournay ; Haye^ e Parent, de Bru- 
lellas ; e Van-Velsen , de Antuérpia. 

notlaiiAa. 



A Hollanda apresenlou algumas publicaç&es, que mero* 
ceram elogios dos jornalistag francezesr citam-se, entre as 
melhores» a Vida de Guilherme 11, impressão de Fuhrina 
Hâya; o Diccionario universal histórico, etc. , franceie hol- 
landez, da typoijraphia dos irmãos Van-Cleef; as obras dõ 
poeta Vannlen-Vondel, publicadas por Bingen Panhe$, por 
Bcets: as Mulheres Bibticas, por Kruseman dHarlen : as Bí- 
blias em língua javaneza, por FuhriTe Sm i ts ; o Novo Testa- 
mento, eui lingua malaia, por Euschedé dHaarlen; as AcçõH 



352 REVISTA BRAZILEIRA. 

heróicas dos HoUandezes no mar, obra impressa por Buffa 
e Filho , de Amsterdam. 

Encerramos aqui a lista dos paizes expositores , e passamos 
a novo assumpto. 

Fundição de typo». 

A forma de caracteres adoptada na AUemanha depois do 
descobrimento da imprensa foi o gothico ; depois os ângulos 
das letras se arredondaram , e formaram-se os caracteres semi- 
gothicos. Na Inglaterra , Caxton adoptara um género de ca- 
racteres à imitação da letra de mão usada no seu tempo. Na 
Itália , porém , os Aldos adoptaram os caracteres romanos , 
que fizeram cahir no esquecimento os caracteres semi-go- 
thicos. OsElzeviros, Ibarra na Hespanha, eBaskerville na 
Inglaterra, modificaram a forma dos typos, segundo o gosto 
do tempo. Modernamente porém tem elles sido victimas de 
todas as extravagâncias do mào gosto ; compridos, largos, 
delgados ou esparramados , segundo o capricho dos fundi- 
dores ou impressores, para com isso attrahirem a curiosidade 
do publico. Parece comtudo que se procura ir de novo 
adoptando as formas clássicas , com as quaes os mestres da 
imprensa nos legaram as suas magnificas edições. 

Schoeffer inventou a fundição de letras na origem da im- 
prensa , e nenhum progresso fez este ramo alé a adopção da 
forma chamada americana , que permittiu fundir-se um terço 
mais de lypos do que pelo methodo até então empregado. Mas 
não era tudo conseguir-se maior producção, e tal que cor- 
respondesse ás exigências sempre crescentes da typogra- 
phia. As prensas fundidas , a parafuso , chamadas Stanhope ; 
as de alavanca ou colombianas; as mecânicas de cylin- 
dros movidas a vapor, accrescentaram enormemente a 
força da pressão sobre as formas; era pois necessário, 



r 



EXPOSIÇÃO ITjíiVEBSAL EM PARIS. 353 

13o|>lãdas eslas prensas, procurar meios de dar tiiais duração 
resÍÃtcncia ao metal dos iypm. 

Segundo M- Didot, a liga antigarnenle usaila se comiiunha 
100 libras íU^ cliuinbo com 3f> de regulo de antimonio: 
para a sua stereolypia F. Didot viu-se obrigado a empregar 
to libras de cobre. tíO de estanbn e f(Xí de regulo de an- 
limonio* Os caracteres assiui obtidos liribam tiú rigidez que 
podiam ser cravailos em placas de chumbo, que depois 
rviam de matrizes. Todavia uao era isto bastante. 
Em 1840 o fundidor Colson inlroduzíu o ferro com liga 
de estanho na composição do metal dos caracteres da im* 
prensa; processo boje usual (na Inglaterra e França), pois 
quadruplica a duração dos typos, 
Luc Vauder-van-iNewton introduziu a innovaçlo de cobrir 
e cobre o olho da letra pelo processo galvanoplastico; meio 
e augiuenla consideravelmente a sua duração. 
Charles Derriey (Francez) api»licoU'Se ao género diííicil dos 
ornatos, e tem nome pelo aperfeiroamento das vinhetas mo- 
k , ffue serven) para formar certas combinações de de- 
nhos , como os lypos |)ara as palavras. Derriey conseguiu 
também formar traços calligríiphicos de desenlio original e 
perfeito, e sem solução de continuidade nas juncturas das 
peças. 

Charles Laboulaye vai começando a aproveitar a força da 

gãlvanoplaslica : diz-sc que eVle já obteve por este processo 

duas mil madres de letras de corlazes, incomparavelmente 

mais bellas do que as obtidas por meio da fundição, mesmo 

depois dos retoques , que sempre alteram os contornos. 

Sendo os caracteres \\m verdadeiro instrumento de Ira- 

alho . é tão impítriante a sua duração como o bom preço 

or que possam ser havidos. Laboulaye conseguiu dar um 

ande passo empregandí» usualmente, e sem augmento de 

eço , uma matéria ferruginosa muito resistente , que cUe 

istura íi matéria dos lypos em fusSo. Por outro lado , con- 



tOTX» .tftmbem para o baixo preso úí» w» prodiwip» • 
emprego das suas machinas-typos; fabricarão mecimica^e 
produz viote mil tetras por dia. e que podem ser vendidas 
um terço menos do valor dos caracteres obtidos pelos pre* 
cessei ordinários. 

A fundição typographica de Battenberg, mareada em oo^ 
meços de 1843 , compareceu dignamfinte na JEipoâ^o Imh 
eeza: applica-se á parte arUstica desta industria, e o em 
estabelecimento faz grandes supprimentos is príncipn» 
typograpbias de França ^ de fora delia. 

Desde que em vez dos rolos que os anti^^os usaram para 
eosservacSo dos manuscriptos , se começou a iobroduzír eomo 
meio mais eommodo a superposição de folbas , nasceu a 
art0 da encadernação. Existiu pois essa arte antes do des- 
cobrimento da imprensa: e com razão, pois muitos desses 
manuscriptos representavam grandes valores, e taes que 
todos os meios eram poucos para os conservar illesos dâs 
injorias do tempo. Conta-se que a bibliotbeca, então afa- 
mada « de Carlos V da França, compunba-se de menos de 
mil volumes ; e nesse tempo eram elles considerados como 
tão preciosos, que em muitas bibliothecas estavam presos 
ás estantes por correntes. Ainda nos restam, bem que raros» 
alguns desses enormes bacamartes antigos , fechados entre 
duas taboas de carvalho , com pregos e chapas monstruosas» 
e tão pesados que era preciso u ra estante na qual esti* 
vessem collocados ; sendo que o abril-os e fechal-os já não 
era pequeno trabalho. O luxo e aperfeiçoamento das artes 
foram introduzindo novos modos , se bem que mais custosos, 
de se guardarem semelhantes preciosidades : o gravador, o 
brinquinheiro, o ourives, o lapidario, o joalheiro, mil outros 
ofiicios foram postos à contribuição para adorno dos magni* 



1^ 



EXPOSIÇÃO OOVEBSãL m PABIS. 3S& 

TOlumes — cinzelados, gravados , adornados de placas 
ouro , enriquecidos de pedras preciosas. A AUemaaha aioda 
boje apresenta amostras destas encadernações artistícas, 
magnificas sem duvida , mas que pelo alto preço por que 
sabem sò podem servir para presentes de soberanos a so- 
beranos. 

(te Ara±>es, mestres da verdadeira encadernação, qiia devô 
ser ao mesmo lempo ligeira , duradoura e commoda, come- 
çarara a empregar o marroquim , era cujo fabrico Marrocos 
foi por muito tempo afamado. Este modo de encaderaação 
pââsou á Itália, e dallí se estendeu pelo re^to da Europa e 
do mundo; mas os marroquins do Levante ainda são afa- 
mados, apegai" da arte com que os Russos aperfeiçoaram o 
cortume dos couros; apezar das tintas, pào-braj^il, cam- 
peche , âãil , etc, « com que na Europa ha algnns séculos se 

eparam* Depois dos de Marrocos, sao rnais procuradas as 

les de carneiro de Hespanba. 

N^outro lempo a encadernação era uma arte; mas arte por 
demais complicada, por exigir do operário o complexo de 
induslrias , que hoje occupam dúzias de profissões difíe- 
rentes. Ao passo porém que os livros se foram tornando 
de uso mais vulgar, e a leitura como uma necessidade, foi 
preciso que a rapidez da encadernação acompanhasse do 
perto a da propagação dos livros , e que o seu preço não 
fosse exorbitante, O encadernador tornou-se um oíDcial 
mecânico; m^is os seus prodnctos, se bem que muito mais 
baratos do que outrora, estão longe de terem descido nâ 
proporção da barateia por que se estão vendendo os livros. 

Gomludo é tal a vulgarisação da lingua franceza , e o con- 

mo dos seus productos litterarios, que esta industria so- 
mente em Paris occut>a 400oliicinas ; poucas delias realmenle 
boas, mas cujas trausacções, durante o curso do amio, montam, 
segundo se diz, a quatro milhões de francos. Nella s% oc^ 
cupam dous mil obreiros de quasi todos os sexos e idades* 







386 



REVISTA BHAZlLEmA. 



Mas lodos estes prodiictos se assemelham, ao menos m 
apparencia, porque forçaiios a produzir muito e baralo, 
não era possível qne cada um conserv:iSSC u cuiitio de sua 
individualidade. 

No relatório, jà ;tlgumas vezes fitado, de M. Didot, 
aconselha este habil impressor, cuja casa se tem tornado 
notável em todos os ramos da sua profissãt» , o emprego de 
certas cores na encadernação tie obras de certa nalureza ■ 
de modo qxie numa collecçBo de livros bastasse a simples 
inspecção para se conhecer a ordem de matérias contidas 
em cada volume. Esta idéa não nos parece extraordinaria- 
mente proveitosa. 

Pretendem os Francezes iiue as í^iitas encadernações se jkv 
deriam cliamar arííiíífCíiíí , comparadas ás inglezas; com tudo 
os Altemães , que são entendidos neste ramo, confessam ipie 
os Inglezes lhes levam a palma : e de certo são os primeiroí^ 
encadernad^Mes do mundu , lanto em solidez tomo vm per« 
feição, Appareceram na Exposição de Londres encadeniações 
de luxo de 80 libras rada uma : e quanto ás ordinárias 
convém notar-se que , se os livros são mais caros do que em 
França, as encadernações são alli mais baratas. Depende isto 
de querer o encadernador francez executar por suas mãos 
iodas as parles de que se compõe a encadernação, em quanto 
o iUidex divide e simpliíica o traliaUio. creando por assim 
dizer dentro do seu eslabeleciruenlo tairlas outras manu- 
facturas, onde essas differentes típorações se executam. No 
que brilham os Inglezes (porque assim se vendem os seus 
livros de ordinário) é na cartonfigetn. Ha olticinas em Lon- 
dres, taes como as de Rennaut, Leigthon, de Weslley» que 
podem em seis horas dobrar, cozer , cobrir e dourar ato ItOOO 
vohimes, se ja tiverem promplas as capas. Os desenhos são 
ricos e variados (no papel das capas], em liartnonia com a 
matéria de qu6 se trata em cada volume , o dourado ex- 
cellente e a eostura solida. 



EXPOSIÇÃO ITNTVERSAL EM PARIS* 



357 



S3d poucos os expositores iiTglezes neste ramo: excitou a 

riosidade um volume encadernado por FraTieisco Bedford , 

:e Londres, magnifico in-folio, em marroquim verde com 

ornato de ouro e cores* 4M. Riviére expoz o Relatório dos 

Icoinmissarios á Exposição de i85i ; Leigtiton e Hodge uma 
boa colleeçlo, onde se nota o volume • As artes indu&triaes 
lo século \DC . por Wyafl* • 
I Brockhause Devrienl, de Leipzig; Murcjuardt, de Bruxellas ; 
leck.de Stockliolmíi, apresenUiram também magnificas enca- 
lernações. Apresenlaram-se igualmente os Francezes Simier, 
, Lebrun, Curmer, Despierres, Engelmanu, M™" Gruel , de 
Paris, e Mame, de Tours. 

Antes de lecliarmoseste capitulo devemos deixar consigna- 
do que a Inglaterra, Allemanha e Estados-Unidos , apre- 
sentaram differentes modos de encadernação de registros , 
notáveis pela solidez da capa e igualijade do pautado. Me- 
^^eeeu elogio o Livro-meslre exposto por Garliv, de Paris: 
PB solido , elegante , com dorso e cantos metallicos , abrindo-se 
{ facilmenlei apresentando a penna uma su[ierlicie toda plana» 
^fcravejada de botões nos ângulos , que impedem o roçar da 
^^apa contra a mesa. 

Observaremos, por fim , que o luxo e riqueza das antigas 
encadernações foram causa de se perderem preciosidades 
I litterarias; [lorque íiesse^ tempos de lutas c devastações, a 
Htobiça da soldadesca !uio poupava objectos de preço que lhe 
j^Ttalussem debaixo das mans. Causas diflerentes, mas origi- 
nadas do mesmo pruicipií», pniduziriauí hoje iguaes resul- 
tados. O vandalismo moderno , em algum recanto da Europa, 
não poupou as encadernações coinmuns, por isso mesmo que 
' nao tn)bam preço. Em Porlugal , por exemplo , com a ex- 
tincçào das ordens monástica» , assolaram-se impiedosamente 
ricas bibliothecas , de cujos volumes se arrancavam as capas 
para serem vendidos a peso , como papel de embrulho nas 
tabernas. 




358 



RETISTA BlumLEIBJl, 



tíúje ^ o qiie se exige das eacademaçõcs è solidez , CBtoo 
gâimatia de duração: elegância com simplicidade, cofmiKh 
didadee Hgeireza do volume , e bom preço da mao d'obra. 
Os iDglezes , Allemâes e Norte- Americanos^ , parecem ser ai_ 
que de mais perto vio alcançando estes resultados. 

Prenda». 



Asseveram os profissionaes , que ainda que nesta Ef po- 
sição as prensas lypographicas não apresentem nenhum sys- 
tem a realmente novo, muitas, se não todas, se distinguem 
por importantes aperfeiçoamentos e acabada execução. As 
de origem franceza não se prestam porém ás enormes 
tiragens das americanas ou inglezas, pois que a$ mais rápidas 
s5o as chamadas unwer$ae$, de Marinoni, que não dão mais 
de seis mil folhas por hora. 

Ha duas espécies de prensas typographicas, para íaier 
uma divisão geral das que foram expostas: as de ãjUtíãro , 
em que um ou mais cylindros desdobram a sua superficie 
sobre os typos; e as de platina, nas quacs a pressão se 
exerce como nas prensas de mão, ainda que sejam movidas 
mecanicamente* Nestas, como a pressão se exerce simul- 
taneamente sobre toda a forma, lodos os caracteres resistem 
coojunclamente, e por isso não estão tão sujeitos a damno : 
nas de cylindro, porém, a pressTm lom logar em orna aresta 
dos typos, supportada por um numero comparativamente 
pequeno de outros; tem porém a vantagem da raptdeis da 
tiragem, e era por isso exclusivamente empregada na im- 
prensa periódica ou diária, atè que Dutastre, com as suas 
prensas de cylindro, [trovou a facilidade de se tirar mm 
elias obras que reclamavam maior cuidado* 

M. Dupont expoz algumas prensas tle platina, movidas 
mecanicamente. Dermiane. um dos seus operários, expoat 
uma engenhosa machina de tirar provas , í|ue poupa os typos 



EXPÕSIÇjo raiVERSAL EM PAUIS. 



959 



t5JI 



tempo , dando provas tSo legíveis quanto è preciso 
desejar-se, O niesmo fabricante apresentou uma preosa li- 
thographic^, na qual o operário dá a liota e o vapor deter- 
mina a pressão* 

Notaremos de passagem as engenhosas machínas de Lecoq, 
de snmnia utilidade nos caminhos de ferro, onde houver 
mnttacolicurrencia, Uma imprime e numera 10»000 bilhetes 
por hora, ou , lermo médio, 70,W0 por dia, com o trabalha 
de uma s6 pessoa. Outra para contar e verificar estes bi- 
lhetes, permitlindn reconhecer facilmente qualquer subtrac- 
^o ou substiUiiçftt*, e produzindo o dobro daquella primeira, 
isto é, 140,000 por dia. Outra emfuu para datar e dis^ 
tribuir; operação a que se procede poucos minutos antes 
da partida do trem, pontue cada bilhete indica o dia da 
partida e comboi em que vai o portador. Estas podem datar 
mais de l,âOO, ou com mais exactidão, i,350 bilhetes em 
meia hora. 

Concluiremos esta rápida resenha com a noticia de uma 
das machinas mais curiosas que se apresentaram na Ex- 
posição franceza, quíinto á novidade, e talvez mesmo quanto 
a resultados subsequentes. Na typograpbia do Froedelmder, 
jornal de Copenhague, funcciona uma machina de compor, 
semelhante a esta que passamos a descrever* 

Supponha-se um cylindro vertical , com tantas hastes de 
cobre quantos sao os diversos caracteres ou signaes que é 
preciso empregar na composição. Este cyUndro divide-se 
em dons; o superior se move ao impulso de am pedaK 

rando sobre o inferior, e neste movimento de rotação para 
m momerUo, quando coincidem os seus entalhes com os 
do cyliíidro inferior : estes entalhes são difTerentes em cada 
haste, e correspondentes à forma de cada classe de typos. 
Assim , quando os typos agglOToerados no cylindro superior 
que roda chegam ao seu entalhe, cabem na haste do cy- 
lindro inferior, occupada cada uma por unia sò ordem de 



360 REVISTA BRAZILEIRA. 

typos, — a — , por exemplo. Esta machina tem teclado com 
um numero de teclas correspondeutes ás hastes do cylindro, 
e marcadas cada uma com as letras ou signaes que lhes 
compete — a, b, c, etc. 

O compositor , depois de ter enchido as hastes do tylindro 
superior com os caracteres que vai encontrando , sem exame 
nem escolha, assenta-se ao teclado, move o pedaA, o cy- 
lindro gyra, e as letras vão cahindo mecanicamente nas 
hastes ou lios a que pertencem. Se ao mesmo tempo fere 
o teclado , a letra correspondente a cada tecla encontra uma 
aberta, e soltando-se do cylindro inferior , entra por pe- 
quenas divisões , tomando pouco a pouco a posição perpen- 
dicular , e indo eníileirar-se em uma pequena calhe , onde 
formam syllabas , palavras , linhas , que depois se paginam 
com facilidade. 

De todas as tentativas feitas para a impressão mecânica, 
esta é sem duvida a mais importante e engenhosa , porque 
toda a machina não importa em mais de 7,000 francos, 
occupa um limitadissimo espaço , e sobretudo porque o tra- 
balho difficil da distribuição dos typos se faz aqui de modo 
prompto, correcto, e sem perda alguma de tempo. 

BellexLôes aeerca^de uma impreniia modelo. 

Os productos da imprensa moderna , que vimos expostos 
no palácio da Exposição , nos suggerem algumas reflexões . 
com que julgamos dever encerrar estas informações. 

A typographia não é simplesmente como qualquer oulra 
industria, que pude ser exercida por quemoquizer, sem 
mais eíTcito que o de enriquecer o industrial que nisso se 
emprega ; enriquece e illustra ao mesmo tempo a nação onde 
ella se deí?envolve, e é, por assim dizer, o thermometro da 
illustração de qualquer povo. OsVieweg, Brockhaus, Ben- 
tlys eDidots, não são só industriaes intelligentes e felizes; 




)SIÇÃO ILMVÍ 

js5o homens beneméritos da Allemanhâ, da Inglaterra e da 
França , sobre cujos paizes reverte em grande parte a sua 
gloria, e o nome que lu sua arte adquiriram. Por isso 
lodos os paizes , mais ou menos illiislrados, até o México, 
índia e Austrália , apresentaram os productos da sua im- 
prensa romo documento dos passos que vão dando no ca- 
miolio da civilisaçao e do progresso* Por isso todos, ou quasi 
f todos os governos, auxiliaram a imprensa no seu começo, 
; e alguns ainda hoje sacrificam sommas enormes . sustentando 
rastissimos eslabelccimenlos desta ordem : e com razão o 
fazem , porque a imivrensa, como muitas outras das indus- 
trias que mais ou menos intimamente se tigam as bellas- 
artes, parece não poder ctiegar ao pleno descnvolvimenlõ 
^ que cada paiz comporia senão com o auxilio e forte pro- 
^ lecção do governo. E os governos , ijuatquer que seja a sua 
^ forma, não julgam impntitico, mesmo quando cerceam Ioda 
^1 a liberdade á imprensa, dar-lhe todo o adjutorio para qm^ 
ella materialmente se desenvolva e prospere. As cortes de 
Vienna, Paris e lloma, tem magnificas typographias. Em 

IHcspanha e Portugal as melhores imprensas são as do go- 
verno; e quasi o mesmo se pode dixer da — do Parlamento — 
era Londres, 
O Brazil estaria no caso de ter uma lypograpbia ampla- 
mente dotada, comprehendendo pelo menos a fundição, 
impressão , lithogi*aphÍa e encadernação, A nossa forma de 
^governo, quando não fossem outras considerações, exigiria 
Ht*^e saerificio , para nos não acharmos em todas as eír- 
~ cu mst anciãs na dependência dos particulares. As despezas 

I seriam de certo muito grandes: mas convirá altender-se a 
que se não gasta pouco cuiu a piúdicarão dos actos ofliciaes 
e debates das camarás* com o auxilio pecuniário a dívei*sas 
corporações scientiílcas: auxilio que poderia ser diminuído, 
itnprimindo-lhes o governo os seus traballios. 
A verba destas econonnas avultaria exlraordinar lamente. 




302 KÊlflSTA BRÂULESSÍk. 

sl ser attende a que o governo fas imprimir tbn o 9m papd 
seQado, bilhetes do thesoaro, notas ^ passaportes, etc. A 
Itoprensa nacional se poderia encarregar dessa tarefa , cchm 
a Imprensa de Vienna , a qual imprime tao^eor todas » 
obras e trabalhos qne delia exigem as autoridades piiblieasF 
do Estado; acoroçoam as artes e scíencías, noseaswem; 
que nSo bastam os meios dos estabelecimentos partteulaiw; 
e emfim, ao aperfeiçoamento de todas as artes graphieas , m 
que tem conseguido merecida reputarão. 

Ainda uma outra vantagem haveria nisso para nós : é que 
essa imprensa poderia ser , e necessariamente se tomaria , 
com uma boa direcção , uma excellente escola de operarietf 
e artistas, que podessem bastar para as erigenciasr da t^pe^ 
grapbia na corte e no Brazil. 



PHILOSOPHIA. 




BOSSUET E YICO. 



A espada do Apocalypse, que eslá pendente dos lBhiú% 
de Dcos, como uma chave que fecha o sacrário da creaçSo 
e de todas as verdades, foi em 1681 tocada pela mão de 
am theologo, e quarenta annos mais tarde pela de um 
philosopho. O que revehira o Hieologo se acha estampado 
em um Hvro intitulado: Discom^s $ur rhisíoire tiniverselte ; 
e o que observara o phílosopho resumiu-se n'um outro 
livro denominado; Principi di una scienza nuova intorno 
alta natura delle nazioni , li quali ritrovano ali ri principi 
dei dritlo unirersale delle genii. 

O theologo chamou-se Bossuet , e o phílosopho Viço. Bos- 
suet collocou-se fronteiro a todas as idades e tempos da 
terra, circumvoou com olhos aquilinos por sobre todos os 
factos humanos, abarcou-os com a grandeza do seu engenho, 
pautou-os chronologica e rapidamente, e ofTereceu á con- 
templação do pensador esse painel de maravilhas, illuminado 
pelo olho da Providencia, Antes delle nenhum mortal havia 
remontado a tanta alteza, nem havia tentado em tão vasta 
escala , nem mesmo Santo Agostinho, explicar as leis secretas 
pelas qiiaes a humanidade se desenvolve ; nenhum havia 
achado na Biblia a demonstração do problema que resolve 
todas e as mais difBceis questões humanitárias. 

25 



364 REVISTA BRAZILEIRA. 

A resultante das muitas forças que actuaram em todas 
as peripécias do género bmnano, ^rà «He, está no céo. 
A força altriz e motri2 , no dedo de Deos ; e os effeitos, na 
causa providencial. 

Cicero e Platão , os maiores arrojos da antiguidade , 
ficaram muito áquem da águia de Meaux , que ousou balisar 
e assignalar todos os passos da humanidade pelas pedras 
dos altares , certamente os padrões mais significativos do 
pensamento orgânico da sociedade, os seus mais sólidos 
alicerces, eos documentos mais verídicos de sua existência; 
porque reflectem os segredos do coração na vida do pen- 
samento e da carne, na dõr e na esperança, e na corpo- 
rificação das idéas , quando são interrogados pela sã phí- 
iQsophia. 

\ Bossuet, olhado como pensador e escriptor, como pro- 
duetor na matéria e na forma , é o primeiro vulto pensante 
do século de Luiz XIV , e o representante de um cyclo que 
viu florescer successivamente Newton e Leibnitz. O hisío- 
fiador da Providencia vai nas idades do mundo marcando 
as diflerentes épocas , caracterisaudo-as pelos seus mais no- 
táveis acontecimentos , e subtilmente indagando as vias se- 
cretas ^ os designios arcanos pelos quaes fundaram-se, 
floresceram e decahiram tantos impérios ; indaga e como 
l^aixa a luz ou se espalham as trevas, afim de que se 
cumpra a vontade immutavel de Deos; e não contente com 
o haver assistido aos acontecimentos de todas as épocas 
da creação até o dia em que escreveu seu livro, e de os 
ter explicado pelos seus princípios orthodoxos, a sua mente 
p^ece lançar-se no futuro, e mostrar á posteridade a melhof 
9eoda e os meios verdadeiros e mais seguros para se co- 
nhecer a causa c origem de todos os acontecimentos hu- 
manos. 

Naquetla narração 3 tudo se concatena admiravelmente» 
tudo se„(oncentra e se desenvolve como n'uma epopéa, 



AOSSUET 1 Vim.. 



365 






onde a magia d'arte , a força da rariocinio , c a louçania 
e gravidade do estylo , nos obrigam a confessar a acção 
perpetua, única e exclusiva da Divindade sobre o homom, 
íeos é o lifiróe do poema, os séculos seus cantos, a hu- 
manidade a narração , e o maravilUoso aquella plienix 
perpetua que se abram ^ consome-se, e renasce nesse lume 
que marcha do Orienle para o Occidente , e que em cada 
phase de sua orbita providencial recebe uma centelha que 

^0 augmenla e o engrandece progressivamente. 

B Collocado n'uma esphera superior , naquella esphera de- 
sejada por Arcliimedes para apoiar um extremo da sua 
alavanca, ellc vc , ao aceno de Deos, cahireui nações, 
resurgírem de seus túmulos nutras , e a humanidade asse- 
melhar-se ao gigante do Ariosto, que , depois de espedaçade, 
iinía c recompunha todos os seus membros , erguia-se » 

^fcamiohava , e de novo combatia. 

^ Bossuct tinha aquellas virtudes singulares que Michel^t 

Kncontra nos homens da renascença , a que elle alcunha 
e soUtarm, porque elevava tudo quanto via, transformava 
oantí) manipulava , e sublimava tudo o que havia parecidp 
grande nas mãos dos outros. , 

Entre elle e Viço ha um ponto concorde e inalterável; 
^í da divindade d'alma na espirilualisaçrio da humanidade. 
B Viço Dão se coUocou nas alturas das vistas theologícas., 
^■ãõ SB convenceu de que os designios da Providencia erani 
por elle conjecturados , como Bossuet , e não explicou a 
historia como se ella fosse sua feitura ■ austero e positivo, 
iDf acura não sú a lei dos acontecimentos nos próprios acon- 
^Kcimentos, mas ainda a lei de todas as cousas que ex- 
B^rimem o pensamenlo humano , e também aquella em que 
^Çe com prebende o mesmo pensamento. 
^ Bossuet nos ensina a crer pela autoridade c pela revê- 
Biçao ; Viço pelos processos da philosopbia a da razão. 
B^ fióssuet nos apresenta o bomem transmudado de sue- 



: 366 REVISTA BRAZILEIRA. 

cessivas maneiras, mas perpetuamente sujeito áac{ãòim- 
mediata de Deos, quer na sua exaltação, quer no seu de- 
.clinio e no seu aviltamento; sempre o encara como um 
•instrumento nas mãos da Providencia, cujos decretos se 
devem cumprir. Yico, empregando os seus profundos es- 
tudos na historia de todos os tempos e detodapasnac9es, 
com uma rara e arguta philosophia, estabelece os eternos 
princípios da suasciENciA nova, segundo os quaes o homem, 
independente da natureza externa , sempre e por toda a 
parte se desenvolve da mesma maneira; e quasi que se ma- 
nifesta como a argila nas mãos do menino fluminense e do 
africano quando ambos , nascidos e educados em zonas op- 
postas, querem figurar um artefacto, um homem, um animal» 
.que se modela com a mesma apparencia e rudeza de ca- 
racter na imitação. Das leis absolutas do pensamento deriva 
este desenvolvimento após um longo esforço de indagaçOes 
metaphysicas e apreciações subtilíssimas e sensatas. 

O primeiro modo nos conduz à predestinação da theologia, 
o segundo germina em certo modo um fatalismo que repre- 
senta a estrada da razão cultivada: n'um ha um movimento 
de idéas e de consequências systematicas , onde os factos e 
as cousas tomam todas as formas possíveis e justiflcam igual- 
mente todas as theorias , á primeira vista contradictorias ; 
no outro, com quanto seja uma luta continuada do methodo 
geométrico e do methodo de inducção , não deve parecer- 
nos um alTan perpetuo no explicar a idéa do pensamento 
universal que preside em todas as obras, e no assimilar a 
investigação e observação histórica á investigação intimada 
consciência humana. 

Bossuet brilha sempre pela elegância da forma , e Viço 
procede com pouca amenidade, porque é rude e secco como 
um archeologo. 

Bossuet lampeja vivíssima luz , que oflfoscaavista, e ra- 



pidamente esclarece a escuridão que seu génio tornara ve- 
neranda* 

Viço é ant astro viviftcanlc, (lue na pompa de todo o seu 
isplendor diíTunde os seus raias, c tuda aquece e fecunda- 

O tiíeologo írancex explica os eventos da historia como 
um interprete systemalico da Divindade ; e n phiiosapho 
napolitann os explica corno grave e severo indagador, Ambos 
receberam a luz do engenlio^ a missão de edificar o espirito 
na indagação da verdade pelo passado , mas ambos deram 
uma direcçTio diversa á sociedade. Um , clieiu de sentimentos 
religiosos, voltou o pensamento lunriano para o eco; o outro ' 
olhou para a terra com o intuito de felicitar os povos ; mas 
ambos eoncordaram na divindade da tmmanidado pelo ín* 
suflo da Divindade c preexistência de suas leis. 

Amo Bossuet porque me fez entender a Biblia e achar 
em tudo ama causa providencial ; e a Viço porque me 
ilUiminon no caminho da historia, nas pesquizas da verdade, 
já partindo da matéria para o espirito, ou do espirito ca- 
minhando paro a matéria. 

Viço fez um livro [>ara o homem preparado, e Bossuet 
uma historia para toda^i ;is idades, e mormente para a 
juventude, 

Bossuet j no meu fraco entender, deve ser o compendio 
Iiistorico preferido pelo Conselho da Instrucção publica, por- 
que da a razão de todos os acontecimentos , e não desvia 
a educação moral dos meninos das preceitos da religião de 
Jesus Christo, 

A educação sò é prove ilosa quando forma o cidadão e 
sobe dclle á família e á nação, pela equípendencia de seus 
elementos moraes, nao srt na unidade do dogma da religião 
como no da pátria. 

1857. 



ÉÊ^ 



BOTÂNICA. 



DESaiIPÇÂO DA ARTOBE DESCOVINAnA PELO VOjGO 

BAINHA DE ESPADA 

r moACESTh a' ordem naivral das artocabpeas, e proposta 

COMO TTPO DE CM GE5EB0 50Ta 



GE5ERIS CARACTERES. 

Flores dioici. Masculorum receptacula stípitata, cyliii- 
dracea, totó ambitu bracteis peltatis, pedicellalis, ad per- 
pendiculum insertis, slricte cooperta: inter quas flores emer- 
gant numerosi» monandri^ nudi; filamentis crassis, rectis, 
vjx bracteas superanlibus ; anlerae loculis opposíUs , apici 
filamenti obUque dorso adoatis, supra conjunctis, rima 
superne apperienlibus. 

Foeminarum receptacula globosa, pedunculata, bracteis 
desUluta , undique florifera. Fores perigoniati , sessiles. Pe- 
rlgonium urceolatuni» herbaceum ápice incrassato perfo- 
ratum. Ovariam , ante foecundationem superum , postea 
semiinferum, uniceUulare,OYulumunum, anatropum, prope 
verlicom cavilutis pensum , continens. Stylus crassas, in- 
clusus, in lobos duos stigmaticos, latos, exclusos, diver- 
gentes- iíins\is. 



ttmuA m ESPADA. 36^ 

ruclus, perit'onio aucto pulpoâo recônditas, baccje- 
formis. Pericarpiuní iiiembranaceuin, pulpa perigonii semU 
imniersiini. Serninis testa membranacea » chalaza ampla re- 
ticulala, portionem immersam tolam occupanle, insignitã, 
Embryo crassus, ex albuininosus , rectus ; radicula mínima, 
inclusa » supera; colyledonibus hemisphericis, aiqualibus, 
Arbor, cujus genitália hic succinte sunt descripta, afii' 
nitâtcs habet com eis, quse ad Genus Bromium, seu SõrO'- 
ceam, aut Perebmm pertinent: cum aulem síngulis non in 
omnibus caractenbus conveuiat , pneoipuô quoad embry^nis 
conformatjonem atUnet , typum novi generis visa esl ipihi 

Estituere ; eamque denomiaavi : 
ÁcafUhinúphylíum strepiíans. 
.rbor mediocris , lactescens; gemmis, et organls tenellis 
tililerpubescens. Folia alterna, disticlia, matud contacta 
pitantia; peciolo brevi; limbo magno, membranoso- 
Ipapyraceo > glabro , obovali-oblougo , basi acato , ápice 
íabrupte, et longe acuminato , margine remote, et obsolete 
Isinuato-dentato ; denlibus, sicnl et acumine, in aculeos 
rigidos, pungentes desinentibus. Stipulse minimse acutse, 
caducai. 

Masculina receplacula, \\\ poli içaria , numero varia d 
ramulo brevíssimo, axilkiri successivc prodeunt Foemeijina 
autem solitária, 

Ex ovariorum numero pauca sunt fructuosa , cúetera , com- 
pressíonis causa (t) sterilia evadunt, 

Baccíe vivide rubro-aurantiaco culoratíe , tenuiter pube- 
ralae, in syncarpium coalescunl, Embryo laclescens, viride- 
caírnleus. 

Nomen genericum c fonte grsÈCO desumptum , spinosum 
fúHum si^ificat, Nomem specificum strepiíam , quia folia 
tacta slrepitnm edunt. 

iô de Janeiro, Outubro de 1857. 




370 REVISTA BRAZILEIRA. 

Iconum explicatio. 

Fig. 1' — Inflore3centía máscula, nat. magn. 
> 2' — Ejus ramus, seu receptaculam unum . valde 
auclum. 
3' — Stamen, ante polUnis emissionem* 
4' — Id. post emissionem poUinis. 
5' — Braclea. 

6* — Receptaculum foemeninum , nat. mago. 
7" — Id.. valde auctum. 
8* — Fios fcemineus. 
9' — Id, verlicaliter seclus. 
10' — Portio ramí AcantMnophyUi strepitantis , 

fructus maturos gerentis, nat., mago. 
H* — Bacca una separata. 
12* — Eadem dimidia parle perianthii dempta. 
13» — Fruclus, perianlhio denudato. 
14* — Id. pericarpio verlicaliter secto. 
15' — Sémen. 
16' — Embryo. 

17' — Id. colyledone una separata, ut radícula/ 
et gemmula videantur. 






í i 



ESTRtJCmiÀ E USOS DE ALGUTÍS PELLOS, 



37( 



CONSlDERiÇÕES 



lOBEE A ESTRCCTCRA E USOS DE ALGUNS PELL05 
E OROÃOâ AXALÚGOS- 

O estudo dos pellos vegetaes nãô é destituído de attractiTOS; 
e delle podem» sem duvida, resultar noçQes úteis e impor- 
tantes para a physiologia das plantas. Nenhum IrabaUio es* 
pecial e salisfactorio conheço a respeito destes oi^ãos: e 
provavelmente ainda por muito tempo, visto como s5o va- 
riáveis na universalidade das plantas , a sciencia carecerá 
de novas investigações neste assumpto , não sò quanto à 
infinita diversidade de formas , nias também quanto ao co- 
nhecimento de suas funcções na economia vegetal Por pe- 
quena pois que pareça , e á primeira vista insignificante, 
qualquer observação anatómica ou physiologica sobre esta 
parte da sciencia , pude todavia contribuir para o seu adianta- 
mento, E é esta consideração que me anima a offerecer-vos 
este pequeno ensaio. 

As sementes de uma Apoc> nea {Echiíes arbórea () , Vell) 



D F(õra Fiuminensis, VoK 3*, Tab. Zi7. Esla planta é uma verdadeira 
Bchitef , no ta. cl por suas tiroporçéos arbórea?;; algumas (enbo eu visto nat 
inalai virgens de 30 e mais pis de altiirap Foi provavelmente esta circiitii- 
ftlancia que induziu em errooFr. Alfonse d^Gandotle, que jutga ser a planla 
de Velloso a Tab^m^múuiaHa íaeta de Mariius, suppondfi ainda que ba erro 
nu eât*impa de Velioso , por isso que abi ie repfe&eutam as sementes como^ai 
(K:ve(vm figura stminia (dír elie) quít virisimiiitcr dhersissimse spectfL Pfo- 
drom, \ú\. 8°, pag, Mh). F^m tudo islo lia per íeito engan^»* Niio posso dei \ ar 
de tàzis sfuiír neí*ia oi:castâa a sagacíiiade que Velloso muita» veies mo^lroil 
fia déoomba<:ão scíentífici das plantas ; como fip. vé aqui na dtstlncçâo e^pe- 
ciíka — arbórea — i' cm outras nmiiaít occasio^ís , privado como esíava de 
lírros e counethou, Netiiiuiiia outra espécie dai» conbecidas até boje é arvore 
como esta* 



^tlM^ 



todi o coberta da Imifois pellos brancos, 

(A. Êg. 1*). Uma porção do epi* 

tmém ^Igam fàlrn e conserrados 

mbm, é reptesMada, rom grande aiigmeolo* oa fig. 2* 

Té-se de cada ceDoIa da epiderme sàbir um peOo * de b* 

mâoliD rariâvel . gocm se faceia prodaiidos em époci* di* 

Tenfas. Cada om é formado de uma unira ceUula, cuja 

meisbrana perfeitameefa dis^haiia apresenta duas listas es- 

piraeSt ijarallelas, que são saguramêDte detiflns a addga- 

çami^uto dã parede membranosa , ou Tmladeiros solees, A 

fig. 3* mostra uma porçio do peUo em proporcOes exageradas 

para melhor maBifeslar sua e^trurtura. No estado natural 

estio estes petlos cheios de substaueia (razeiforme ou aérea, 

I Elles tem por ftm claramente senirem como de balôeszinhos 

por meio dos quaes suspensas as sementes vagueam no ar 

por mais ou menos tempo , atè que chegam à terra , natural* 

mente disseminadas. 

A acção absorvente destes pellos é admirarei : foi casual- 
meule qne dei por este phenomeno . mas veriRquei-o de* 
pois por observações directas , das quaes referirei as se^ 
gtiintes : 

Tomei um pedacinho tfum pello bem secco, a$sentei-o 
sobre nm vidro , fixando-o , e ao mesma tempo levantando 
as pontas por meio de rolinhos de cera (fig. 4') ; submelli-o 
assim ao íòco do microscópio, lendo antes feito cahir uma 
gotlade agua no \idro, junto ao pello, mas de sorte que n 



n To<l« • m][M•^^fc^, metuit o ntpke « é coberta de peMm i no entftoti^ f»N 
mtilando n G*n, Echitís, éit^m os autora i 4 Srmina ^pp^tsm ^ IJii.— S^mitm 
ad ff^tr^ttitaUm utnbtfíetíi^m eomoãa, Spretifd , Kiinth< — S^fmma má itnt* 
biUtum ctjmoiit , EndUclifr* — Sfmitm supinu comosíi^ De Gand. » E^ dart 
que hà arpii iMrií nda a {sier-w , que íi5o me parece íatíi , f»on|tiaQtfl ciitoa 
Ijí»!!) per%tiatUdí> qtie a no&ia planla é «ma ErJtiUs, Devo amrli ubstrrar qtiç 
["Jndllchpr, expando os caract^^r^ti 1^1? D erices « dlr: « Sinmina íneínsa»^ ma* i 
FMUrs nrb^rea tem »s aniheras enelusas ; d«vo-*e porianto attr«a€Çiiiaf ; # atá 
tmtrttí » dinio intE KuiiHi, mt jiuppriínlr-it esie caracier» tomn ta ^ mm 
tu^>f Alfonse De Ca^tidoíLe. 



BSTRrCTURA E USOS I>E AUiUNS PELLOS, 



373 



Bao molhava, e em quanlo observava fui inclinando o instru- 
mento, para fazer correr a gotta tfagua para o pelio; esla 
apenas o tocou encheu-o completamente, ficando algumas 
bolhas de ar presas [lig. 4* » a a), A embebição foi tão rápida 
que, apezar de toda a altenção , não a pude apreciar. Recorri a 
outra experiência, íazendo-a com um pello inteiro e pegado 
á semente , para que o gaz interior demorasse o phenomeno 
e o tomasse perceptível ; puz para isso uma gotta d'agua 
no vidro, collocado no foco do microscópio; e observando, 
levei a ponta do pello â tocar u'agua [flg. 2* *) ^ e a ab- 
sorpção foi igualmente instantânea e inapreciável ; OcandOp 
cemo no caso precedente, algumas bolhas de ar suspensas 
no liquido, 

Passam-se nesta experiência dous phenomenos , que são 
dignos de alguma discussão, e são : a passagem instantânea 
d'agua alravez das paredes do pello , e o desapparecimento 
da substancia gazoza contida nelle. 

Começarei pelo ultimo. De que natureza será o gaz en- 
cerrado no pello ? Puro ar atmospherico , ou antes algum 
outro, que junle á uma força de tensão igual menor den- 
sidade , em relação ao ar exterior. A ultima destas opiniões 
seria mais consentânea com as vistas da natureza, que sâo 
o transporte das sementes pelo ar; á chimica couipete a 
solução desta questão , se é que vale a pena. iMas , sem 
duvida, o que não pôde deixar de ter algum valor é o 
desapparecimenlo desse gaz qualquer, tão rápido como a 
entrada da agua na cavidade do pello. Que fim levou elle ? 
Oo foieKpellido, ou dissolvido iVagna. A expulsão instan- 
tanea não me parece admissível, quando a experiência so 
fez com o pello inteiro; soria necessário que para isso hou- 
vesse aberturas, que a observação não mostra. Resta pois 



{*) Paia 1130 mulUplicâr a% fíf^tiras « iservi^iiic desta ; m* bem ijua ot eãr 
p^Tleocia Q pello eslava p^cso á ãcmeuie miclra» 



tUlMihk. 



374 nn?TA BfcáaLCTtA. 

a dissoloçSo: mas de doas uma, oq a agna pagando 
paredes do peUo se despoja doâ gaz^â aéreos , ou o gaz in^ 
tenor, sendo de natnreia parttealâf» a agua. mesmo sa* 
torada de ar^ tem ainda capacidade dissolvente para eUe. 
Em quanto a e^cperiencia direcla o não decidir , en me inclínn 
para a primeira snpposi^o; tslo é, que a agua, ao entrar/ 
solta o ar atmospheríco, e vai dissolver a gaz interior alè 
satnrar-se , Qcando o excedente formando as bolhas de que 
tenbo fallado. 

Quanto ao outro phenomeno, ou embebição do pello.o' 
facto é admirável pela extrema rapidei com que isso se fai. 
Não ha abi seguramente rigorosa endosmose ; também não 
sei se a mera capUlarídade o eipllea salisfactoriamente. O 
que porém é mais que provável , é que a embebiçio se tu 
pelos dons sulcos espiraes, onde a membrana do pello é 
delgada. Isto tem logar íguatmente a respeito dos vasos e 
celtulas no inlirao dos tecidos , sempre que é necessário so- 
lidez, e ao mesmo tempo movimento fácil dos líquidos : por 
isso esses orçâos se ajuntam e se correspondem pelas parles 
adelgaçadas, que perniaoecem no mesmo estado, quando 
DO resto as paredes podem tomar grande espessura- 

Em tudo isto nao faço senão apreseular as minhas du* 
vidas , e chamar assim a attençao para este objecto. 

A natureza com admirável sabedoria produz sempre coní^ 
os meios mais simples os effeitos mais variados. Temos visto 
que um dos usos destes pellos é O de transportar ao longe 
e dispersar as sementes; para isso os fez gazeiferos; mas 
fazendo-os ao mesmo tempo emínenleniente liygroscopicos, 
provê a sua germinação: i>Drquanto, lotro que as sementes 
caiam na terra, umagoUa daj/iia, o sereno da noite bastará 
para os encher; e esta funcção» que deve ser continuada, 
fornecerá agua bastante para entreter o proccséo germina* 
tivo. 

Seria curioso investigar-so todas as sementes, on parle 



ESTRUCTURA E USOS DE ALGUNS PELLOS. 



375 



delias ; teria alguma cousa de «análogo a este apparelho de 
absorpçao. Por niinlia parte tenho já outra observação, que 
vem em apoio desta idéa. As sementes da nossa Peroba ver* 
melha [Aspidosperma Peroba, Nobis), que, não conformes 
às das outras espécies deste género , tem uma aza oblonga 
e dirigida para baixo, são de uma superfície lisa, mas que 
eiaminadas com atlenção parecem cobertas d um pò mui 

PsubliL (B. fig. l'*), 
f Submeltida ao microscópio uma porção da epiderme desta 
semente, os pontinhos lúcidos, que tinham uma apparencia 
de pó íiuo, engrandecidos manifestam sua estructura; sSo 
vesículas , quasi orbiculares ou ol jlongas , de paredes re^ 

tticuladas, e formadas pelas celhilas da epiderme (flg. 2*). 
' Estas vesiculas são evidentemente da mesma natureza que 
os pellos da Echite^ arbórea ; e conveiu não esquecer que 
|BStas duas plantas tem grandes affmidades entre si, pois 
que pertencem ambas à mesma ordem natural Aqui na 
Peroba as sementes , sendo providas de azas por meio das 
quaes podem suster-se no ar por algum tempo , os pellos 
não tendo a preencher essa funcçao ficam em estado ru- 
dimenlario , e destinados, como eu julgo, a servir de appa- 
relho da absorpçao durante a germinação, sem que todavia 
I deixem de auxiliar o seu vôo. 
^P Passarei agora de salto a objecto diverso , mas onde se 
achará estructura e funcções idênticas às que venho de 
expor. 
^B As raízes aéreas das Orchideas tem a superfície coberta de 
^■tarias camadas de utriculos reticulados, formando a sub- 
stancia branca , secca e fungosa , que dá um aspecto par- 
ticular a estas raízes (C. fig. 2*]. Ora, sendo estes utriculos 
de estructura mui semelhante à das vesiculas epidermas da 
semente da Peroba (flg. 3^), é mais que provável que 
tenham os mesmos usos ; pois que estas raízes são verdadeiros 




376 



BE\1STA BRAlOLEtRA. 



orglos absorventes , com que laes plantas aéreas bebem m 
atmosphcra agua para sua nutrição. 

A fig. 2* dá uma idéa assas completa da organísâçSo 
destas raízes : [d] mostra cellulas grandes oblongas, repre* 
sentando a medulla — fc) cellolas alongadas , no meio das 
qoacs eslao os fascículos de tubos escalari formes {(f) repre- 
sentando a parte íibro-lenhosa da raiz — \b] tecido cellular 
corticaK por entre o qual se estende uma rede de vasos la- 
ticiferos, de perfeita transparência it/) — (a) moslra Esca- 
madas de utriculos absorventes , formando o envoltório su- 
beroso. 

Nlo achei aqui verdadeiras tracheas, que ciislem nas raives 
de varias plantas monocotyledoneas, mas unicamente vasos 
rajados ou escalari formes [Qg. 4^,: por estes deve a seira » 
ou líquidos absorvidos pelas raízes, ser levada ao corpo da 
planta, c o systema latícifero è provavelmente encarregado 
de trazer a nutrição ou seiva elaborada para u raíE. 

As raízes das Orcliideas epiphyteífâ apresentam a singulari- 
dade de se dirigirem para o ar, em vez de tenderem para 
a terra (tig, !•]. Com que flm isto se íazt Tendo ellas d£ 
exercer suas fencções no seio da almosphera, o dirigírein-se 
para esta ou aquella parte lhes seria índiílereote. Mas não 
trago este facto senão para^fazer sentir quanto mal andaram 
os observadores . aliás cheios de talento e perspicácia , como 
foram Knight e Dutrochet, quando procuraram por meio de 
experiências descobrir a razão da tendência das raízes para 
a terra; nao porque o objecto ntio fosse digno de invesli- 
pçíSes, mas sim porque tanto valia indagar a razão da di- 
recção da raiz para a terra » como a da do caule para o céo; 
e ainda mesmo o porque uma folha, torcido o ramo, ella 
por si se volta atè offerecer o dorso á terra e a face ao 
céo. 

O vicio principal destas tentativas está no desejo dcsê 
âttfibuir â causas puramente physicas phenomenos vílaes, 



ESTROGTDIU E USOS DE ALGTOS PEUOS. 377 

quifts è impossível deixar de roconhecer-se uma sorte 
|e instincto vegetai 

Voltando ao nosso objcclo , creio ter mostrado entre estes 
ttlricttlossuberosos, ou epidérmicos, e os pellos* muila ana» 

jia deestmdura, e provavelmente de funcçOes : e de tudo 

se pôde deduzir que o uso principal dos pellos é a ab- 
sorpíâo d'âguâ , seja liquida, seja em vapor. Outras obser- 
vações vem ainda reforçar esla opinião : assim vemos que 
elles se manifestam em tanta maior abundância, quanto a 
ftecessidade da íUisorpçãoc mais urgente; unia planta ve- 
getando em lopar húmido pôde ser glabra, masella mesma 
transportada para uma posição arejada e secca se cobrirá 
logo de pellos mais ou menos bastos; as partes tenras, os 
grelos das arvores , que precisam de muila agua para a sua 
f^getarao, são quasi sempre revestidos de pellos. 

Emfím , se os pellos não são mais do que uma amplífl- 
èftCSõ das eellulas epidérmicas, cujo tim parece ser aug- 
mentar a superfície absorvente , deve-se também concluir 
que a epiderme no seu estado normal tem também o mesmo 
uso : e quando ella se destrôe nos cmiles idosos» é o lec4do 
suberoso que a substitue como orgao absorvente. 

Isto supposto, julgo conveniente referir o que achei de 
singular na estructura da epiderme de algumas Cactaceas, e 
que parece contrariar a opinião que acabo de emittir. Tem 
essas plantas a superfície lisa, lustrosa, e como se fosse co* 
berta d'uma camada de cera, Submettidas ao microscópio 
apresentam a epiderme revestida de uma membrana assas 
espessa, consistente , e quasi córnea ; ora perfeitamente lisâ 
[D. fig, 1* aj, ora com pequenas intumescências cónicas 
(flg, 2* a). Não tive tempo de averiguar se esla membrana é 
um órgão distincto, ou cutícula epidérmica, ou se era for* 
raada pelo encorpamenlo das paredes externas das cellulas 
da epiderme. Quanto ao seu uso, este órgão parece antet 
levêr servir de obstáculo à sabida dos liquides interiores , 




378 REVISTA BHAZILEnUL 

do que de órgão absorvente, bem que Dão se possa asseverar 
que elle não seja susceptivel de embebiçao. 

Do qiie flca exposto, e do que se pôde deduzir por ana- 
logia, parece-me que me será permittído concluir que os 
pellos são principalmente órgãos de absorpção, apezar do 
diverso pensar de alguns autores, e dos mais modernos , dos 
quaes uns os consideram mais como órgãos exhalantes , outros 
secretores , e alguns como simples partes protectoras. Não 
foi porém com o intuito de sustentar esta opinião que em- 
prehendi este pequeno trabalho; mas sim para apresentará 
idèa, que julgo nova, de funcções dos pellos, como auxiliares^ 
da germinação. 

No correr da penna deixei ás vezes o meu Gto principal^' 
digressando sobre pontos, que bem que não vinham para< 
assumpto , eram todavia suscitados por elle. Disso nenbua 
mal provém, além de certa irregularidade na exposição^ 
mas repito , não tomo a peito tratar methodicamente de 
matérias. f| 

4 de Julho de 1851. 

Francisco Freire Allemão. 




N 



SSTRUGTURÀ B USOS DB ALQIDIS PELL08. 3i7t 

QUAIW — A — 

Fig. 1* — Semçnte da Echites arborf^f vista de foce , 
e do tamanho natural. 

(a) hilo. 

(b) raphe. 

. 2* — Porção da epiderme da mesma semente, con- 
servando alguns pellos. 
(a a a) bolhas de ar n'um pello cheio d'agua. 

• 3* — Porç5o tfum pello, muito augmentada, 

» 4a _ Porção d'um pello dispost?t para se observar 
a sua acção absorvente. 
(a a) bolhas de ar. 

QUADRO — B — 

Fig. 1* — Semente de Peroba vermelha, de tamanho na- 
tural. 

• 2* — Parte da epiderme, muito augmentada. 

(a) epiderme. 

(b) utriculos reticulados, formados pelas cel- 
lulas da epiderme. 

QUADRO — C — 

Fig. 1* — Caule e raizes aéreas d'uma Orchidea epi- 
phytea. 

» 2* — Lamina delgada , cortada no sentido longi- 
tudinal e diametral da mesma raiz, repre- 
sentando só metade. 
(a) Camadas de utriculos reticulados , ou ca- 
mada suberosa* 

26 



380 REVISTA BRAZOLEUUL 

(b) Tecido cellular cortical 
(b') vasos laticiíeros. 

(c) Tecido cellular alongado. 

(c') fascículo de tubos escalarífonnes. 

(d) Tecido cellular medullar. 

Fig 3* — Utriculo suberoso , muito augmentado. 

t 4^ — Tubo escalariforme, muito augmentado. 

QUADRO — D — 

Fig. 1» — Secção transversal da epiderme d'uma Pe- 
reskia. 

(a] Cutícula , ou paredes externas da epi- 
derme. 

(b) Crystaes de forma estrellada. 
» 2* — Idem de outra Cactacea. 

(a] Cutícula, com eminências cónicas. 



PALESTRA SCIENTIFICA. 



EXTRACTOS DAS ACTAS DAS SESSÕES. 



i* seftsão em tS de Junfio ãe 1940» 

PRESIDÊNCIA DO EX"*** SR, CONSELHEIRO CÂNDIDO BAPTISTA 
DE OUVEIRA. 



No dia 25 de Junho de 1856, á urna hora da tarde, acham- 
se presentes em uma das salas da Escola militar os Srs> con- 
selheiros Cândido Baptista de Oliveira e António Manoel de 
Mello, Drs. Guillierme Schuch de Capanema, Francisco Freire 
Aílemão, Manoel Ferreira Lagos, Frederico Leopoldo César 
Burlamaque, e Manoel de Araújo Porto-Alegre. 

O Sr* Dr, Capanema, tomando a palavra, cominunica aos 
mesmos Srs. havel~os convidado para aquella reunião, assim 
como aos Srs. Dr. José Maurício Nanes Garcia e Ignacio José 
Malta, que por incommodos physicos não poderam compa- 
recer, aQm de fundarem uma sociedade com a denominação 
de Palestra Scientifica , a qual se occupe do estudo das 
scieneias physicas e malhemattcas, principalmente com ap- 
plicação ao Brazil; e faz em seguida uma allocução demons- 
trando a urgente necessidade e incontestáveis vantagens que 
devem resultar dos trabalhos da sobredita sociedade. 

Concordando todos com as ídéas do Sr Dr. Capanema, 
declaram estarem promplos a íazer parte da nova associação* 



312 



tlEVlSTA BRA2ILEIRA. 



e dispostos a conoorrereni para a sua prosperidade e bom 
exilo: entSo o Sr. Dr. l^gos apresenta um projeclo de Esta- 
tutos, os quaea sS*) approviulos sern Diuenda depois de varias 
observações de alguns membros; e delibera-se que, segundo 
o estylo, se leve ao conliecimeulo do Goverao Imperial a 
fundação da Palestra Scimtifica , remelteiido-se igualmente 
uma cópia da sua lei orpanica. 

Em oliservancia dos Estatutos approvados passa a occupar 
a cadeira da presidência o Sr. conselheiro Cândido Baptista 
de Oliveira, c é escolhido para secretario interino o Sr, Dr. 
Manoel Ferreira Lagos, 

Resolve a Palestra Scieníifica que as soas sessões sejaiii 
na primeira sexta-íeira do cada niez em que houver reuniSo 
do instituto Histórico e fieographico Brazileíro, devendo 
o Secretario avisar com antet^dencía por eseripto aos Srs. 
sócios, 

O Sr. Dr. Capanema participa que se adia no prelo um 
novo periódico scienlífico e Hlterario, com o titulo de Reimta 
BrazUeira , publicado por ordem e a expensas de Sua Ma- 
gesladc o Imperador, e que o Mesmo Augusto Senhor se 
dignara permittir que nelle fossem impressos os trabalhos da 
Palestra Scientiliai : i> que foi ouvido com granfle satisfação 
e acatamento. 

Annuncia lambem o mesmo sócio que o Sr. Dl José Mau- 
ricio se occupa em preparar com todo o esmero uma coí- 
lecçao de craneos de diversos animaes, a qual tenciona offe- 
recer para o museu da Palestra. 

O Sr, Dr, Freire AUeinão faz leitura da descriptfio , acom- 
panliada dos respectivos desenlios, de duas arvores dos nossos 
bosques bastante conhecidas, e por elle classificadas como 
espécies novas sob os nomes de Ihjeronmfi alckornokles 
(vulgo, Vrumrmtà), e Mijrospertnum erythroxylum (vidgè, 
Okú úenmiho) ; a primeira pertencente à familia das Euphor- 
Waceas, e a segunda á íiimilia das Leguminosas. — Por 



PAU8TRÂ SdENTIFIGA. 388 

decisão uBaoime reaolve-se a publicação destes dous kopor- 
tantes tra]>aUios. 
Le?»nta-6e a sessão às duas horas e meia da tarde. 



ti de Julho de IMa. 

PRESmENCU DO EX'"^ SR. COXSEWEIRO ANTÓNIO MANOEL 
DE MELLO. 

Lida e approvada a acta da ultima sessão , o Sr. Dr Malta 
desculpa-se de não ter comparecido na reunião precedente 
por motivo de moléstia. 

O Sr. Dr. Freire Allemão apresenta e faz donativo á Socie- 
dade de diversos estudos seus sobre physiologia vegetal, que 
já anteriormente havia lido perante a Sociedade Vellosiana. 

O Sr. conselheiro Mello communica acharem-se quasi 
concinidas as tabeliãs das suas observações meteorológicas 
pertencentes ao primeiro semestre do corrente anno, e que 
as entregará para serem impressas na fíevisía Brazileim , 
quando a Palestra assim o entenda. 

Segue-se depois uma longa discussão sobre divei-sos ob- 
jectos de historia natural que necessitam ser melhor estu- 
dados , visto as inexactidões de que abundam a tal respeito 
as obras estrangeiras. 

Levanta-se a sessão às 2 horas da tarde. 



S' «ewAo em • de A«;e«le die I9M. 

PRESroENCIA DO ILL™** SR. DR. FREDERICO LÇOPOLDO CESAR 
BURLAMAQUE. 

E' lida e approvada a acta da sessão precedente. 



384 



RETIDA BRAZTLEnU* 



Depois do expediente , o Sr. Dr. Capanema apresenta um 
microtomo de sua invenção para fazer secções tenuissímas»i 
tão importantes no estudo da physiologia botânica e zooló- 
gica , e eslende-se em considerarues sobre a utilidade e uso^ 
do mesmo instrumento, as quaes sSo ouvidas com atlenção, 

Achando-se a hora adiantada, o III™' Sr. Presidente le- 
vanta a sessão. 



4' «»s«â<» em 4 il« Setetitlifõ de i§10. 



PRESIDÊNCIA DO ILL"" SR. DR. FRANCISCO FREIRE ALLEMÂO. 

O Si\ Secretario faz leitura da acta da sessão anlecedenle, 
que é approvada. 

Por occasião de communicar o mesmo Sr. que está pro- 
cedendo a uma serie de experiências sobre a força toxica 
da serpente vulgarmente appellidada Jararaca preguiçosa , 
o Sr. Dr. Freire AUemao hz algumas considerações verbaes 
sobre o Crotalm hórridas , e principalmente a respeito dos 
cascavéis que rematam a cauda deste ophidio, e maneira com 
que se reproduzem e se acham articulados uns nos outros ; 
e termina convidando ao Sr. Dr. La^íos que se entregue ao 
estudo desse objecto , visto possuir um exemplar vivo da- 
quelle terrível reptil, recebido do Ceará, onde existem em 
grande abundância, e causam mnitas mortes, sobretudo na 
escravatura das fazeiidas, 

O Sr. Dr. Capanema apresenta o principio immediato 
que extrahíra da arvore conhecida na Serra da Estrella j^elo 
nome de Milho cozido (Lycania incana), em razão do cheiro 
da sua madeira, e passa depois á leitura da sua analys*' 
da mesma substancia, à qual appellidou Lycaninã, 

Levantasse a sessão ás 2 horas da tarde. 



palesiua sciEímncA. 



385 






«#p«â9 em IA de Ilícivemliro de ifti€. 

PRESIDEIÍCU DO EX^* SE* CONSELHEIttO ANTOríIO MANOEL 
DE MELLO. 

Approvada a acta da sessão antecedente , o Sr, T)r- Capa- 
nema lé uma extensa carta escripia do Copenliagiie pelo 
disUncto zoologo o Sr. Dr. Reinhardt, director do Museu Keal 
daquella rapilal , fclicitanclo ao Rrazil pela lumínosíi ê feliz* 
idéa de fazer explorar por uma Coniniiss^ão scientifica. conv- 
posla de engenheiros e naturalistas , o interior de algumas 
provindas menos conhecidas, e apresentando varias consí- 
deraçoes sobre os logares que, segimdo sua opinião, devem 
ser visitados de preferencia, assim conm acerca de diversos 
objectos que cumpre averiguar com inaior cuidado. 

Ouvindo com a maior atlençao a leitura da sobredita caria, 
resolve a Palestra que ella seja transmiti ida ao conheci- 
mento dosSrs. membros da Com missão sciontifica eviílora- 
dora , e que se agradeça ao Sr, Dr. Reinliardt as suas lison- 
jeiras expressões, como e não menos o interesse que mostra 
pelo progresso deste paiz, 

O Sr. Dn Lagos offerece um manuscripto original de João 

anso , dalado de S. Paulo em 1 7 de Novembro de 1 798 , 

^dando conta de suas tentativas para a descoberta fie salitre 

minas de ferro naquella provi ncia,— Reme tt ido ao Sr. Dr. 
Capanema para emitlir o seu parecer a respeito. 

O mesmo Sr Dr. Capanema faz leitura de um trabalho 
sobre a Bohmneria íiivea, demonstrando as vantagens e [tro- 
vei lo que no Brazil se pôde tirar da áicclimalãçrio deste 
çgetal ; e termina com as suas observações acerca do pro- 
gresso de algumas mudas da referida planta que trouxe da 
Europa , e se acham plantadas na Serra da Estiella. 



asft 



RinSTA BRÂZ!Li:mA, 



o Sr. Di% Burlamaque leu depois orna memoria sobre al^ 
gumas rothas ft tnineraieâ ile víiriaí^ provindas do Império, 
recebidos no Museu nacional durante o auno de Í855. 

Levanta-se a sessão às 2 horas da tarde. 



S' iiai«m0 em if de neienihro dr iSi#« 

É>flESID£NClA »Ô EX*»* SR. CONSELtfElflO CAKWDO BAPtlSTA 
DE OlitVEmA, 

E' approvada a acta da sessão anterior. 

O Sr, Secretário, dando conta do expe^Uenle* lé o se- 
guinte : 

« Pela Sccretaiia de Estado dos Negócios do Império ^ 
remetle á sociedade Paíestm Scientifim , não su a copiado 
Decreto n. 1,820 de 13 de Setemlwo uHinvo , que approvou 
os seus Estatutos, mas também adosme&iiK>s Estatutos, 

i Secretaria de Estado dos Negocias do luiperio, em 3.> 
de Novembro de 1856, — Famtú Aii4jmti} de Aguiar, » 

t Cópia.— Decreto n, 1,820 de 13 de Selembro de lS5tt. 
— Approva os Eslatntos da sociedade Palestra Seku(ifi€fi , a 
qual tem por flm occupar-se do estudo das soiencias phj • 
Sfcas e matb em atiças , principalfí>eule com applicaçSo ao 
Brazil, 

* Attendendo ao que me i^uoreu o eonselUeiro Camlido 
Baptista de Oliveira, Hei ^Kír bem ãi>provai" os Estatutos da 
sociedade Palesfm Scientifica, a qual tem por fira occvu par- 
se do esiudo das sciencias physicas e fuathematic^» iirin- 
cipahuente c^m appliMção ao Brazil 

i Luiz Pedreira do CkmUo Ferraz, do lueu Cônsellio, Hi* 
nistro e Secretario de Estado dos Negócios do Império . ass|ifi 
o tenlia entendido e faça executar. Palácio do Rio de Jaueir^ 
em treze de SetemlHx) de mit oit^^eentos e cifiooeiíla e sejs^ 



- •^- 



PALESTRA í;ClEMinCA, 38? 

mo-qaiTilo da Independência i* do Império. — Coma 
mtrica úe St a Magiístare n hiPEKADím.— ]Am Pereira do 
Coutto Ferrar.,— Conforme. Fan$to Augmtoée Aguiar. 

Ii Cópia. — Estatutos da snciedndn Palestro Scimtifca : 
* Ari t.^ A Palestra ScieiUifica iem pmtíxn o estxiáoúãs 
íiencias plvyf^icas e malhematkas, principalmente com ap- 
lí cação í!0 líiazil. 
* Ari. 2,* Compor-se-ha de urti nnmero indelerminado 
e sócios effectivoSt de honorários, e de adjuntos corres- 
ondcntes, 
♦ Ari., 3,*" Para âer adniiLtido sócio cíTectivo é mister, 
além de reconhecidos conhecimentos cm qualquer dos ramos 
& sciencias physicas oii malhematicas, apresentar á Pa- 
stra algum trabalho de la\ ra piopria sobre o objeclo de 
us estudos, 

Art. 4.* Serão considerados sócios honorários somente 
os individues respciliiveis por seu saber, que houverem pu- 
blicado trabalhos iniporl antes sobre as scienciiis de que se 
cupa a Palestra. 

• Art, 5.** o título de adjuntos curresiíõndenles será con- 
ferido áquellas pessoas i|ne tlxerem alfíum donativo de valor 
^fcara a bíbUollioca nu museu da sociedade, 
^^ * Ari, 6/* O escripto enviadtí [lor (jualquer candidato i 
admissão de sócio efTecti\ o será subníeUido ao juizo de uma 
^commissão, cujo parecer sobre o merecimento do mesmo 
^^trarà em discussão paia ser afi provado ou rejeitado, pas- 
rsando-se no primeiro caso a votar |>or escrutínio secreto 

fercâ da entrada do candidalu. 
* Art. 7,^ Ninguém será admitlidi» a fazer parte da socie- 
,de obtendo três \úU)S contrários, 
* Art. 8/ Para sociu honorário ou adjunto correspon- 
tienle haverá tamliem votação por cscrulinio secreto, mas 
o proposto somente será recusado por maioria absoluta de 




388 REVISTA BRAZILEIRA. 

votos dos membros presentes. No caso de empate, compete 
ao Presidente decidir. 

« Art. 9.* Toda a proposta para sócio será assignada pelo 
menos por dous membros, e nella será claramente especi- 
ficado o motivo da admissão. 

• Art. iO.^ A commissão encarregada de julgar qualquer 
trabalho será composta de três membros, e nomeada pelo 
Presidente da sessão em que elle fôr apresentado. 

« Art. H.<* O parecer acerca de qualquer candidato ficará 
sobre a mesa por espaço de um mez , para que os membros 
da Palestra, querendo, possam examinal-o. 

« Art. i2.° Igualmente ficará sobre a mesa a proposta para 
sócio honorário ou adjunto correspondente, afim de ser su- 
jeita á votação na seguinte reunião, salvo o caso de algum 
membro requerer urgência motivada. 

• Art. 13.^ Todo o sócio effectivo contrahe a restricta obri- 
gação de apresentar pelo menos um trabalho annualmente, e 
não o cumprindo será despedido da Palestra. 

« Art. 14.^ O trabalho lido por qualquer sócio passará 
também pelo exame de uma conmiissão especial , competindo 
á Palestra , á vista do mesmo , decidir se convém ou não 
ser impresso. 

« Art. i5,^ E' permillido a qualquer pessoa estranha fazer 
feitura perante a Palestra de algum trabalho, com prévio 
consentimento do Secretario. 

« Art. 16.^ No caso do trabalho sobredito ser bem aceito, 
ficará pertencendo n sociedade , que o fará imprimir no seu 
jornal , do qual dará vinte números ao autor. 

« Art. 17.^ As sessões da Palestra terão logar uma vez 
mensalmente, nos dias annunciados, excepto quando oc- 
correr algum motivo extraordinário , à vista do qual o Pre- 
sidente entenda dever convocar a reunião. 

f Art. 18.^ As sessões serão publicas, e annunciadas pelos 
jornaes com três dias de antecedência. 



PALESTRA SGIENTIFIGA. 38& 

t Art. 19.^ A Pa/^síra não tem presidente certo, mas será 
presidida em cada reunião pelo sócio mais idoso, que regerá 
a sociedade até a sessão seguinte , em que passará a pre- 
sidência a outro , e assim por diante , até de novo lhe tocar 
a sua vez. 

« Art. 20.^ Terá porém dous Secretários, que serão per- 
pétuos, um encarregado da correspondência exterior, e outro 
da interior, da expedição dos diplomas e das actas. 

« Art. 21.° Haverá também um Thesoureiro eleito annual- 
mente , a cujo cargo fica tudo quanto diz respeito á receita 
e despeza da sociedade. 

« Art. 22.° A eleição para os dous Secretários e para o 
Thesoureiro será feita por escrutínio secreto, e só serão con- 
siderados como taes obtendo a maioria absoluta de votos dos 
sócios presentes. 

« Art. 23.° No impedimento de algum dos Secretários ou 
do Thesoureiro, será nomeado pelo Presidente outro sócio 
para servir interinamente. 

€ Ari. 24.° As despezas da sociedade serão feitas por co- 
tisação entre os sócios effectivos, a quem compete votal-as. 

« Art. 25.° A Palestra publicará um jornal, redigido pelos 
Secretários, o qual não sahirá áluz em tempo determinado, 
mas sim quando houver matéria. 

« Art. 26.° Os sócios effectivos e honorários tem direito 
a um exemplar das publicações da Palestra. 

f Art. 27.° Além da sua bibliotheca, composta de obras 
relativas aos estudos de que se occupa a Palestra , tratará 
esta também de organisar um museu de productos somente 
do Brazil. 

« Art. 28.° A Palestra resolverá sobre todos os casos não 
previstos nos presentes Estatutos. 

« Art. 29.° Depois de approvados, os actuaes Estatutos só 
poderão soffrer alteração no fim de três annos da fundação 



390 lUEVlSTA MAZILEDIA. 

da sociedade, e para que ella se dé é necessário ser votada 
por dous terços dos sócios efTectivos. 

• Art. 30.^ Os presentes Estatutos serão impressos, e um 
exemplar subirá á presença do Governo Imperial. 

t Rio de Janeiro, 25 de Junho de 1 856.— Conforme. Mor 
noel Ferreira iMçoSy Secretario.— Conforme. Fausto Augusto 
de Aguiar. » 

O Sr. Dr. Capanema occupa a attenção da Palestra com a 
leitura de um trabalho sobre a matéria corante do Ipè, e faz 
verbalmente varias observações em additamento às soas ex- 
periências relativas ao mesmo objecto. 

Levanta-se a sessão á hora e meia da tarde. 



9* 0eMMo em ê de Junho de iM9. 

PRESroENCIA DO EX™* SR. CONSELHEIRO ANTÓNIO MANOEL 
DE MELLO. 

E' approvada a acta da sessão precedente. 

O Sr. Dr. Capanema lê o seguinte parecer : 

« O manuscripto offerecido á Palestra pelo nosso consócio 
o Sr. Lagos , em sessão de 1 4 de Novembro ultimo , vem a 
ser um oíBcio original de João Manso, dirigido de S. Paulo a 
D. Rodrigo de Souza Coutinho em 17 de Novembro de 
1798. 

• No principio tlá João Manso conla da viagem infructi- 
fera que fizera a Sorocaba c Porto Feliz á procura de salitre; 
consigna o facto que morria o gado que se ia cevar no 
barreiro de Inhapopundava ; a tradição da existência de sal 
marinho na vizinhança de Porto Feliz ; e que encontrara 
potassa (alcali vegetal) oin Fort(^ Santa. Pelos exames que 
fizera em barros mandados vir de todas as villas da província, 
achou algum salitre n'uma amostra remettida da villa de 



PALESTRA SCÍENTÍFICA- 



9M 



). Mais adíaula dá loão Uansa algumas idéaa sobre 
fòrmaçSês de i\ilreiras, que alionam o seu saber em chimica, 
sobretudo naquelle lempo (ha 60 iinnos)^ 

i Dá tauibem nuutu das iniiias de ferro que visitara, nega 
íi esi&lencia deste em Arrassícaba , mas lecommeuda o do 
morro da Penha, de que vira amostras, e o do Arasayaba 
que examinara : refere- se a uma rcpresenlação que dá noticia 
de uma fabrica alli erigida Irint^i e quatro annos ante^: 
indica ijorém ouLro uiais vaulajo^o p<>r causa da maior abun* 
dancia. Ijíualmeríle menciona a exii^íen<'ia de pedra irnan , c 
n'um dos grupos do A rasa valia falia em duas escavações 
que eticoíitrãra, sem saber para o que foram feitas (eram 
tahez para proemar a praUt, que outrora se diiía !iaver na- 
quella paragem). Analyson o ferro, o qual achou tão bom 
como o de Danneiuora, sem mistura de arsénico ou enxofre; 
transfornum parte ilelle em aço. 

^ O único ineonvenienifí que Joíio Manso encontrou pam 
producçâo económica de bom ferro foi a carestia dos tra- 
lialhadores, qne ganhavam llKI réis por dial 

' Elle protesta jA naquelle ten>po contra o abominável uso 
«las derrubadas, e reconimenda ao governo que mande con- 
servar as maltas, pelo menos sei^ léguas em lornodamou- 
lanha , para poder-se oiiter o carvão necessário. 

• Vemos pois recommendada com coídiecimenlo de causa 
e com sabias medidas em 171)8 a construcçâo da fabrica 
de Ypanema ao mesmo D. Rodrigo de Soussa CoulinhOi quê 
doze anno^ *lepois. senílo ronde de Linhares, a fez eo* 
ineçar. 

' João Manso nega a existência do estanho, chumbo, 
ouro e prata, qu<í linhaíu demuiciado ao governo: talvex 
fosse uma mystirieacr*o, como ainda ha pijueos annos se deu, 
lendo um individuo mandado tle Santa Catliarina granito 
sem vestigio de mineral metóllico (salvo o ferro da mica) , 
com amostras de estanho qtie pretenderá ler tirado deite* 



i 



392 BEnsTA BB^znjmtii- 

« Jrâo Manso refere as experiências que fizera com pyrites 
de Taboatè tTaobaté?). rilla distante sd vinte legoas de 
Ubatuba. e delles extrahio 121-2 % de enxofre, bom ferro, 
vitríolo e pedra-bome : elle recommenda ao goveroo qoe 
mande trabalbar essa mina, ainda mesmo com prejnixo, 
na esperança de se encontrar na vizinhança algum deporto 
de carvão de pedra, de que elle espera tirará o paiz ím- 
mensas vantagens, e qoando mais não fosse , segurar a exis- 
tência das fabricas de assucar , que se fecbaram por falta de 
combostivel. Oxalá se tivesse dado oavidos a tão oteis 
conselhos! teriamos talvez acido sulphnrico, que nos vem 
da Europa pagando um frete exorbitante , por um preço ra- 
zoável , e mais adiantada estaria por certo a industria. 

« Termina o oificio com a promessa de ir respondendo ás 
ordens que recebera, à medida que as fosse executando. 
João Manso moslra-se homem de conhecimentos muito ele- 
vados para aquella época, e o que mais é, homem conscien- 
cioso : por isso julgamos qu^ seria niil procurar todos os 
trabalhos que delle se possam alcançar, afim de que sejam 
publicados , pois poder-se-ha colher delles muitas informa- 
ções úteis, e ao mesmo tempo rehabilitar-se o mérito scienti- 
fico de um Brazileiro , que no pensar de muita gente não 
passava de um hábil oleiro. — Guilherme Schuch de Capa- 
nema. » 

O mesmo sócio apresenta o desenho, acompanhado da 
respectiva descripçâo, da qual faz leitura, de uma nova 
espécie de alga ainda não classificada, denominando-a — 
Protococcus Híematoccocus; mammillosus. 

Antes de encerrar-se a sessão, o Sr. Secretario lembra que 
estando a chegar a fragata Sovara , conduzindo a Com- 
missão scienliftca encarregada pelo Governo Austríaco de 
executar uma viagem em roda do mundo, julgava conveniente 
convidar os sábios membros da referida expedição para assis- 
tirem ás sessões da Palestra. Foi unanimemente approvado. 



PALESTRA SGIENTIFICA. 393 

a sessão a uma hora e três quartos depois do 



m tt de Affoato de i^ftf • 

-^ ^ MANOEL DE ARAÚJO PORTO-ALEGRE. 

jham-se presentes os Srs. Drs. 
1 rauenfeld e Zelebor, membros da 
iiica austríaca, 
iiiiidade dos Estatutos , occupa a cadeira da pre- 
iii o Sr. Manoel de Araújo Forto-Alcgre. 

Approvada a acta da sessão precedente, o Sr. Secretario 
ofTerece os seguintes manuscrii)tos originacs: Memoria sobre 
as antigas lavras de ouro da Mangabeira (na província do 
Ceará), escripta pelo l)r. naturalista João da Silva Feijó; 
Informação dada em 1798 ao vice-rei conde do Rezende por 
João Alberto de Miranda Ribeiro, sobre as qualidades de linho 
que ha na ilha de Santa Catharina, com a noticia do tempo 
em que se plantam, do seu crescimento e colheita, etc. ; 
deus officios dirigidos em 1788 ao vice-rei Luiz de Vas- 
concellos e Souza , pelo superintendente Manoel Pinto da 
Cunha e Souza, dando conta e remettendo vários docu- 
mentos acerca de tentativas mineraes no Rio Negro. Foi en- 
carregado o Sr. Dr. Capanema de dar o seu parecer sobre 
os três manuscriptos. 

O mesmo Sr. Lagos apresenta também alguns exemplares 
impressos das Instrucções dadas pelo Governo Imperial á 
Commissão scientiGca incumbida de explorar o interior das 
províncias do Brazil menos conhecidas, os quaes foram 
distribuídos. 

O Sr. Dr. Capanema offerece um vocabulário (inédito) 
francez , coroado e puri, organisado em 1850 pelo viajante 



392 



IlEVISTJl BRAZlLEnU, 



I João Manso refere as experieueias que fizera com pyrili 
de Ta!joaté (Taubalè?), villa dislantó «ô vinte legaas d 
Ubatuba, e deli es extrahin lâ l/â % de enxofre, tiom ferri 
vilriolo e pedra-lnuoe : elle lecomníemla ao j^overno q 
maade trabalhar esjsa mina, ainda mesmo com prejuiio,^ 
na esperança de se eorantrar na vixínhança al^^^um depositqH 
de caiTão de pedra, de que elle espera tirarA o paiz im-^ 
mensas vanlageos, e (|uando mais não fosse , segurar a exià 
tenda das fabricas de assucar , que se fecharam por falta d 
combostiveL Oxalá m tivesse dado ouvidos a tao ulei 
conselhos! leriamos lalvcz acido sulphuric^), que nos ve 
da Europa paliando um frete exorbitanlç » por um preço 
Eoavel, e mais adiauliida e&taria pi^r certo a industria, 

• Termina o oiricio com a promessa de ir respondendo 
ordens que recebera, à medida que as fosse executando. 
João Manso moí^tra-se homem de conliecimentos muito ele 
vados para aqnetla época, e o que mais é, horncrn conscieQ 
cioso : por isso julgamos í[ue seria útil procurar lodos os' 
Irahalhos que delle se possam alcançar , afim de que sejam 
publicados, pois poder-se-ha colher delles muitas iníoruia-B 
ções uleis, e ao mesmo lempo rehabililar-se o mérito scienU*™ 
Qco de uru Brazileiro , que no pensar de muita gente não 
passava de um hábil oleiro,— Gmlherme Schnch de Capa 
nema. * 

O mesmo sócio apresenta o desentio, acompanhado d 
respectiva descripçao, da qual faz leitura, de uma nov 
espécie de alga ainda não classificada, denomiu:^ndo-a — 
PrútúcoccuB i,Híematoccocus] mamniiUosús, 

Antes de encerrar-se a sessão» o Sr, Secretario lembra qu 
estando a chepar a fragata Sovara , conduzindo a Com 
missão scienlitlca encarregada pelo Governo Auslriaco d 
executar uma viagem em roda do mundo, julgava convenient 
convidar os sábios membros da referida expedição para asiií 
tirem ás sessões da Palestra. Foi unanimemente approvad 



I 



E^ALESnU SCiENTlFlCÃ, 393 

Levanla-se a sessão a uma hora e três quartos depois do 
meio dia* 



I 



I 



PREÃIDENCU DO ai"^* SR. MANOEL DE ARAlíJO PORTO-ALEGRE. 

Alérii íle vários sócios , adiam -se prcseiUes os Srs* Drs- 
Scherzer, Hoclistetler, Fraueafcld e Zelebor, membros da 
Commissâo âcíentiíica austriata. 

Em conformidade dos Eslatulos , occupa a cadfiira da pre- 
sidência o Sr. Manoel de Araújo Porto- Alegre. 

Approvada a acta da scsí>5o |M'CcedeTde, o Sr. Secretario 
offerece os seguintes mauoscripLos originaes: iMenioria sobre 
as antigas lavras de ouro da Mangabeira (na província do 
Ceará), cscri[>ta peto Dr* naturalisla João da Silva Feijó; 
Inforniação dada em 17ÍIH ao vice-rei ctindc áv Rezende por 
João Alberlo tle Miranda Hibeíro, sobre a^ qualidades de Unho 
que ha na ilha de Santa Calhar i na, com a noticia do tempo 
em que se plantam ^ do seu rrescimento e colheita, etc. ; 
dous oííicios dirigidos cm 1788 ao vice- rei Luiz de Vas- 
concêllos e Souza , jielo superintendente Manoel Pinto da 
Cunha e Souza, dando conta e renietlendo vários docu- 
mentos acerca de tentativas mineraes no Hio Negro. Foi en- 
carregado o Sr. Dr. Capanema de dar o seu parecer sobra 
os Ires manuscriptos. 

O mesmo Sr, Imagos apresenta taml}ein alguns exemplares 
impressos das Instrucções dadas pelo Governo Imperial á 
Commissâo scientifica incumbida de explorar o interior das 
províncias do Bnizil menos conhecidas, os quaes foram 
distribuídos, 

O Sr Dr, Capanema offerece um vocabulário [inédito] 
francéz, coroado e purí, organisado em 1850 pelo viajante 




994 



REVISTA BBAÍtLEIÍU. 



H. R, i\ áe$ Cienetles,— Ao soeio Sr. Malta i>ara emlltir 
jiíizo a respeito, 

O Si\ Dr. Fraueníeld otTcrla os sele folhetos seguintes, 
sobre zoologia , producçao de suapenria: 1^ Die Gattmg 
Caryehimti, com uma estampa; 2^* Dif^ Limenfjallen der 0$* 
(crreichmhm Eiclien. Ein Vermch zur renjhnrhetuíen Be* 
HchreibtttM} der Gnltengebilde, com uma estampa; 3^ Beitrãgeí 
zur Natargesçhkhte der Trypeten neb$t Beschreibung emiger\ 
neuer Árteti, com uma estampa; 4^ ÍVfterftaymondia Fr., 
Strebla \Vd. md Brachytíirsina Mcq. ; 5* Ueher die Pahidineni 
nm der Grappe der Paluditia viriílis , Poh\ , com iima m- 
tami)a; 6" Uber eme neue FVmjenfjntlnmj : Raf/moudin , mui 
der Familie der Corinceen, nebsí fícsrhreihung zweier Artm\ 
derselben, com uma estampa; 7* Bei t mg zur Fauna tínl- 
matieti^. — Recebidos com muito especial atirado, 

O Sl conseUieim Dr, António Manoel de Mello apresenta" 
os quadros de observações meteorológicas feita^í no Imperial 
Observaiorio, de 1851 a 1856, com os desenhos das cunrasj 
de iguaes alturas tanto do tliermometro. como do t)arometm| 
e hygrometro, 

O Sr, Dr. Capanema conltníia a leitura, começada na sessSaJ 
anterior, da soa descripçâo das Algas brazileiras n5ô coabe* 
eidas, occupando-se de nma nova especipí, rpie appellidoti' 
Protocoecm vela t htm. 

O Sr. conselheiro Cândido Baptista commnuicou um addM 
lamenio A sua formula, já publicada, sobre determinaçSo- 
de latitude sem conhecimeuto de declinação, generalisadaj 
agora de modo que bastam três alturas da mesma estreita , 
qualquer que esta seja , observadas em Ires diflerentes pontos 
da sua excursão dinrtia , h vontade do observavor. — To* 
mando o giz, o illustre malbemalico explicou na pedra 
seu novo niethodo. 

O Sr, Dr. Lagos propoz |iara sócios ila Paiesífa os Srsl 
membros daCommissão seientlflca austríaca , a saber: com 



PALESTRA SCIENTIFICA. 395 

iMAore Bernardo de WuUerstorf-Urbair, Dr. Carlos Scherzer, 
W. Fernando Hochstetter, Dr. Jorge Frauenfeld, Dr. Eduardo 
Schwartz e Jo5o Zelcbor. — Unanimemente approvados. 

Antes de terminar a sessão, o Sr. Porto-Alegre dirigiu em 
francez as seguintes expressões aos sábios viajantes pre- 
sentes : 

• Senhores.— Encerrando esta sessão da Palestra Scienti- 
fica, é do meu dever testemunhar , em nome de meuscol- 
legas, a grande satisfação que tivemos com a vossa illustre 
cMipanhia, e na respectiva acta faremos inserir vossos nomes 
tomo uma recordação duradoura deste feliz encontro. Bas- 
tante sinto que nossas reuniões periódicas não possam con- 
tinuar a ser honradas com vossa presença e iHustradas por 

vossas luzes mas ahl em breve desta alliança transitória 

apenas nos restará o reconhecimento e aquella doce lem- 
brança que chamamos saudade , para consolar-nos de vossa 
ausência. 

« Nós vos desejamos , como irmãos , uma prospera viagem, 
e conquistas scientificas que augmentem o circulo dos conhe- 
cimentos humanos e o dominio da intelligencia, dessa pátria 
celeste que fratemisa a todos os que admiram nas obras da 
creação o Creador. 

« Da mesma maneira que aquelles que se amam se en- 
contram a uma hora marcada no espaço olhando para um 
astro, nós nos encontraremos titando a vista n'uma pagina 
de nossos trabalhos recíprocos. 

« Viestes como hospedes, e vos ausentais como irmãos, t 

O Sr. Dr. Scherzer respondeu: 

« Senhores.— Acceito com o maior prazer em meu nome , 
e em nome de meus coUegas , o favor com que vos dig- 
nastes nomear-nos membros de vossa Sociedade scientiflca. 

t Aproveito esta occasião para vos agradecer mui sincera- 
mente o bom acolhimento que nos preparastes nesta capital, 
Na verdade > custa-me a acreditar que me acho a algumas 

27 



396 REVISTA BRAZILEIRA. 

mil léguas distante de meu paiz, de minha família , de meus 
amigos ; por vossa amizade o attenções nos fizestes esquecer 
que o grande Oceano nos separa de nossa pátria ! 

< Senhores ! Em quanto a munificência de nosso monarcha 
nos chama a fazer a viagem em roda do mundo , psura fins 
scientificos, vós não seguis um rumo menos invejável, ex- 
plorando algumas províncias de vossa vasta pátria. E' a vós, 
Senhores membros da Commissão scientifica , que coube des- 
cobrir segunda vez para a meneia as terras do Brazil ainda 
completamente desconhecidas: é a vós. Senhores, que com- 
pete tomar-vos bemfeitores de vossa pátria, patenteando os 
thesouros dispersos no solo abençoado do Brazil , abrindo 
essas terras com suas riquezas innumeraveis á sciencia, ao 
trabalho, ao commercio ! 

t Nós só aspiramos a s(^r coUaboradores em vossos tra- 
balhos , a trocar cá nossa volta os resultados de nossas pes- 
quizas, do nossas investigações e exploraçõe>s , e continuar 
a entreter sempre as mais amigav.ois relações comvosco e 
com vosso bello paiz, por cuja prosperidade e bem-estar 
fazemos os mais sinceros votos ! » 

Levanla-se a sessão ás duas horas da tarde. 



9' «eiMião em ii dr iVovembro de i9St« 

PRESIDÊNCIA DO ILL"*° SR. DR. FRANCISCO FREIRE ALLEMÀO. 

E' approvada a acta da sessão anterior. 

O Sr. Secretario, dando conta do expediente, leu um oíficio 
do Ex"»^ Sr. conselheiro Cândido Baptista de Oliveira, parti- 
cipando nao poder comparecer em consequência de se achar 
incommodado, o que bastante sentia, pois desejava apre- 
sentar um trabalho , a que liga alguma importância pratica; 
a saber: « a determinação dos limites da differença entre 



PALESTRA SCIENTIFICA. 



397 



nma distancia lunar appartínte, e a disUmcia verdadeira, 
deduzida dos dados da observação. * Accrescentou o mesmo 
socío que oíTcreceado esse uuico olijeclo tnalcria para em- 
pregar o lempi* de uma sessão inteira, pedia uma reuniuo 
da Palestra ua proiinia âvmana, se nisso concordassem os 
seus eollegas, afim ih" fazer a expositSo do referido trabalho, 
— A Piílestm vota unanimemente que se satisfará á jusla re- 
quisição do seu sábio e laborioso membro. 
Foram lambem lidos os dous seguiu tes oIBcius : 
Tradução do írancez,— - Ao Sr, Dr. Manoel Ferreira Lagos, 
Seerelario da illustre sociedade Palníra ScieutificíL Rio de 
Janeiro, fragata Socara, 30 de Agosto de 1857,^ Sr Secre- 
tario! Exlreuiatnente agradável e para mim poder exprimir- 
vos, Sr, Secretario, todo o meu reconhecimento pela no- 
meação cnm que a illnstrc soriedade Palcfiíra Seientifica se 
dÍKUOU íiniirar-me. 

* Ufano -me do ti In lo rle membro correspondente dessa 
ilIuslreSoeiedadi^ t' tanto mais satisfeito me acho com tal 
nomeação por isso que tenho, de aljjfuma luaneira, apossi- 
bilidade ile tnc fazer recordar por aquelles que neste bello 
paÍ7^ despendenun taula bondade para comigo e mais mem- 
^^bros da expedição que b^nho a lionra de dirigir. 
^P • Rogo-vos, Sr. Seeretaiio, o obseqiuo de communicar á 
I illuslre Palestra Srientifica. uao só os meus agradeci rneiUos^ 
I como o desejo de jne tornar ulil a uma associação cujo 
I fim B o progresso da^ stúencias, <\^pargind o luxes sobre um 
l paiz onde Deus accuimUou todas as riquexas deste mundo. 
H| * Acceilai, Sr. Secretario, a segurança da rniutia mais alta 
consideração.— O commodore, comniandante da expedição 
a bordo da fragata de S. M. L R. A. ia Novara , Wut- 

LI-IJISTOUF. * 

Traducçao,— • Rio de Janeiro, aO de Agosto de 1857.— 
Senhor ! Agradeço-vos mui sinceramente a honra de ter s^ido 
non\eado membro da Palestra Sâentifim, E' sòmeute uma 



REVISTA BIL^ULIIIU. 



eontinttaçlô das attenções e amizade com qttt dtrabaKi 
embeílecer nossa esfâda em tos» hospitaleira capital 

« Retiramo-noâ todo5. eu fois asseguro, peneirados iji 
mais albi vtneracio pelo tllustre Protector das Bcieímm % 
ijaâ artes , e^es imporlanies agentes para elevar um paw» 
na^ente ao cumulo da civiUsaç5o do âeculo! Hetíram(HiOfi 
faiendo os mais sinceros votos pela prosperidade e progresso 
de íosso bcllo paíz ? Qne nio esteja longe o dia em que o 
ftraiíl . cortado em todos os sentidos por boas estradas e ca- 
minhos de ferro , seus rios navegados por barcos a tapor^ 
suas terras férteis, mas desertas, povoadas por uma enH- 
fraçSo intelUgente e laboriosa, apresente ao mundo o ^peefft* 
colo siiblinie de um paiz o mais rico. o mais prospero, 
mais feliz do globo * 

t Rogo-Tos de ser o inlerprete de mmis senlimentos, qdl 
dto ipalmente os de meus coltegas , p^^rante a PdtafM 
Seimíifim . e que de uòs couser^^is Ião boa lembrança cMia 
a que eonsen aremos sempre de vi^ todos, do vossas ama* 
bilidades, c de tossos serviços amigafeis, 
t * Aceitai, Sr ík^retario, o^ pmteslos da mais alia mmkúê* 
nçio de vosso dedieadf^ amigo e cri ailo— [Ir. Kart Sekermf. 
— Ao Sr, Br, ljig06, eir. , ele, * 

O Sr. Dr. Freire .Ulemão apfwoilou o desenlio , acompa* 
nbado da respectiva deseripçâo . da an ore vulgarmente éeiio* 
minada Bainha ée aspada , pertene*!nte à ordem natural dai 
Artocarpeas, e propõãta por elle como typa de um uof* 
género, 

O Sr. Dr. Capanema (lassou a ler algumas ebserfaçQes a 
notas geológicas aobre o retrocesso do mar ua cosia dõ BraiE 

Levantasse a sessão is f honks da tarde. 



i 



( 



PALESTRA SCiENTtFICA. 



399 



i0* 



i&i> em «tt de IVi»w«ittbr# d# ItiT* 



BosradA 



à Ad^iIa ^etençm ii« Bum ]l«f«ffiftde o Impar^dlvr* 



PRESmENCtA DO EX«^'' Sfl. CONSELHEIHO ANTÓNIO MAN^ÔEL 

DE MELLO. 



Ao meio dia, achando-se presentes todos os Srs. sócios , á 
êieepçlo dos Srs. Dr. Freire Allcmao e Malta, que não po- 
deram comparecer, o primeiro eia consequência de achar-se 
ausciete da cArle « e o segundo por íncommodos physicos , o 
Sr. conselheiro António Manoel de Mello abriu a sesslo , á 
qual também assistiram o Ex^^ Sr. Ministro e Secretario de 
Eôlado dos Negócios da Guerra , Director da Escola militarp 
vários lentes da mesma, e outras notabilidades scientificas* 

Depois de approvada a acta da sessão anterior , o Sr- Dr. 
Lagos, dando conta do expediente, fez leitura de uma carta 
que lhe Í6ra dirigida de Nictheroy pela Sr, Joaquim Harris, 
acompanhando a remessa de uma lagarta em cujo abdómen 
se desenvolvera com vigor um cogumelo. — Recebida com 
especial agrado . e foi mandada conservar no museu da So* 
ciedade. 

O mesmo sócio mostrou á Palestra varias preparações 
ichthyologicas por elle perfeitametite conservadas p commu- 
nicando também estar coíligindo e classificando as diversas 
espécies de peixes qun habitam no interior desta bahia, e 
que em lempo opportuno ofterecerá para o museu da So- 
ciedade a sobredita collecção. 

O Sr, Dr Capanema ofTertou uma cópia das Taboas de 
Kobell para determinação dos mineraes, por elle traduzidas 
para uso dos alumnos da Escola militar desta corte ; e fez 
em seguida uma exposição do sen novo rnelhodo para analyse 
da pólvora, 

O Sr, conselheiro Cândido Baptista de Oliveira, depois de 



400 REVISTA BRAZILEIRA. 

passar em resenha o processo e formulas usadas na determi- 
nação das distancias lunares , que se empregam no calculo 
das longitudes terrestres , indicou o meio pratico de ave- 
riguar se os principios dados da observação se acham cor- 
rectos, antes de instituir sobre elles o calculo das formas. 

Demonstrou depois disso que a dififerença entre as dis- 
tancias apparente e a verdadeira é comprehendida dentro 
de determinados limites ; podendo na maior parte dos casos 
predizer-se o sentido dessa differença, isto é, para mais ou 
para menos, em relação a qualquer das duas distancias. E 
terminou o illustre sócio a sua exposição apresentando uma 
nova formula destinada a verificar os resultados obtidos 
pelas formulas que dão directamente a grandeza da distancia 
fjeocefitrica y ou a verdadeira entre a lua e o outro astro 
observado. 

Levanta-se a sessão às 3 horas da tarde. 



CONHISSÃO SfJENTIFICl 



UELATOUIO 



^0 INSTITUTO HlSTOUtCO E GEOGlíAPHICO líRAZlLElRO 

Pelo í^r* Dr* €•« il« de Cupatteiii» 

Sá sessão PtíDLlGA ANNJ\ EHSAEIA DE 15 DK DErEMBKODE 1S57 






Seiihúics.— Tendo pailiúo do Inslíiulí) Histórico oGeogra- 
phicu Brasileiro a proposta para que sejam exploradas scíeií- 
tiliímiricntir algumas proviorias do Brazil menos conhecidas, 
havendo o (inverno Imperial encarregado ao mesmo insti- 
lo, [mr avisos de 30 de Jiinlioc i" de Outubro do anno 
próximo lindu, rle formular as inslrucções e indicar as pessoas 
ciufi por suas bahilitarues lhe parciesscm nas circumstancias 
de bem desempenhar a i>rojeclada expedição scientifica, 
julgo um dever informar-vt)S do andamentíi dos preparativos 
indispetisaveis para a reahsarlio de Ião ulil idca. 

O Ex"' Sr, constdheiro Luix Pedreira do Coutto Ferraz ♦ 
então Ministro do Império, csereveu-me (lara ipie me in- 
cumbisse daaL-qnisirSo dos objectos necessários á Conninssao 
exploradora. I*restaudõ-n>e de boa vontade a trio honroso 
convite, diritíi as encommendas dos instrmnenlos aos priti- 
cipaes fabricantes de França, da Inglaterra e da Allemanha, 
íiforme a especialidade em í4ue cada um tem adquirido 
ma : assim , mandei fíizcr os apparelhos geodésicos pelos 
successores de Frauenkoíer em Munich ; os instrumentos 
magnéticos por Meyerstein , (pie trabalhou continuamente 
para Gauss e Weber, e foi mais tarde recommendado peto 
neral Sabine de Londres, o qual confessoinjue seriamos 




402 ftEVISTA BBAZILEIEA. 

melhor servidos por aqoelle mecânico do qae pw qualquer 
outro na lo^terra. 

Os microscópios vem de Plossl de Vienna , pois pela ei- 
períeDcia que temos é mesmo superior a Oberfaaoser de 
Paris. Os apparelbos meteorológicos foram pedidos de di- 
versos logares, e lambem os de aualyses chímicas que 
devem ser feitas sem demora. Os vidros para conservação 
de objectos zoológicos em liquidos foram mandados fobricar 
sob a direcção dos chefes das secções do museu de Vienua, 
os quaes estão perfeitamente habiUtados para nos aconselbar 
neste género , pois tem à vista as numerosas coUecções de 
Mikan , de Pohl , e principalmente de Xatterer, que residiu 
17 annos entre nòs , colligindo somente para aquelle museu. 
Os apparelbos para as sondagens , a que iem de proceder 
a secção geológica na provinda do Ceará , foram encom- 
mendados a Degoussé , que ha longos annos se occupa es- 
pecialmente deste importante ramo. 

Pedi ao Sr. conselheiro Pedreira que aproveitasse a estada 
na Europa dos dous membros da Commissão scientifica, os 
Srs. Drs. Giacomo Raja Gabaglia e António Gonçalves Dias, 
encarregando-os de vigiar as encommendas , e de comple- 
tarem , do melhor modo que lhes parecesse , a relação dos 
objectos pertencentes ás suas respectivas secções , tendo em 
vista que o Governo Imperial resolveu fornecer aos membros 
da eiipedição tudo quanto solicitem para o seu desempenho, 
afim de podel-os responsabilisar pelos resultados. Pedi igual- 
mente a S. Ex^ se dignasse coníiar ao autor da proposta da 
expedição, o nosso distincto consócio o Sr. Dr. Lagos, a 
acquisição dos objectos que se pudessem obter nesta corte 
com mais vantagem , quer em relação à sua melhor quali- 
dade , quer ao seu preço : S. Ex^ teve a bondade de annuir 
a esta requisição , facilitando-nos logo todos os meios. 

Em virtude da autorisação dada por aviso do Ministério 
do Império de 19 de Fevereiro do corrente anno, o Sr. Dr. 



COMUISSaO SCIBNTinCA ERAZILEIRA. 

Lagos mandou fazer barracas apropriadas ao pais , t scolheu 
armas para caça e sua compelente munipo, ferramentas, 
utensilioí^, ingrediciiles [^ara as preparações zoológicas, e 
mtulos oiitroâ artigos, cuja longa Hstâ iiao cabe aqui, tanto 
para aso de cada ama das cinco secçõc^s em particular, como 
da expei lição em geraL 

Escusado i* dixer que se não esqueceu dos melhores agentes 
Uierapeuiicos , c em quantidade sufTiciente para que os me* 
dieos empregadas na expedição possam prestar os soccorros 
da sua arle nos lofrares onde houver falta tle Uies recursos. 
Tudo se acha prompto e eticaixotado para seguir viagftm . 
no que elte emprefíou o maior cuidado e segurança ^ nSo se 
poupando a trabalht» algum , e attendenda ainda à economia 
fia compra dos objectos; por esta raz'i o mandíMJ vir alguns 
da Europa, cujo preço é aqui exorbitante , como por exemplo, 
o sulphureto de carbono, que se vende a 4$000, i^hegou de 
França a 240 rsJ 

Por ordem do Ex""* Sr* Ministro da Marinha, nos fomeci^u 
o respectivo arsenal espingardas, pistolas revolvers, sabres, 
pólvora, balas, He., para defesa tia expedição, no caso de 
ser assaltada nos sertões por qualquer tribu de indígenas, 
das quaes todavia sò fará^uso no ultimo recurso. 

Já chegou dos Estados-Unidos uma canoa portátil de gomma 
elástica, destinada para o exame de rios e lagoas nos to- 
gares onde nâo houver veliiculos de espécie alguma , e 
seja difficil e vagarosa a conslruc^io delles. Igualmente re- 
cebemos as sondas para os [loços artexianos. os t^ocaes para 
conservaçio dos productos zoológicos, os microscópios» ete, 
Os cbronometros , devidos a liabeis artistas da Inglaterra, 
já foram verilicados e entregues ao Sr Dr. Ciabaglia, 

Os livros pncommeudados para os trabalhos daCommissSo 
nâo tardam achegar, e seu numero é bastante considerável, 
apesar de somente pedirmos as obras indispensáveis e que se 
riSo encontram nas bibliothecas publicas d&sla cidade , le* 



404 



REVIDA BKABLEntA. 



rando mesmo em eoiila as possuídas por parliculares , e 

que lemos coiiliecinienla: por isííO deixaniDs de pedir as^ 

e^lendidâs publicações de Huinljoldt e Boinpland, de S|ii3 

e Mârlius» de Públ, de Saint-Hihure « e de outros aulor 

C3UsleDt€S ua Bibiiolheca nacioual e na do nosso liistitulo : e 

bem assim as obnísde Reatimur* OliTier. Stlioeiíberr, Fa- 

teiGÍuSt Guèrin-Méiieville , Meigêo , Macipiart , DèjiMn , e 

moitas oulnis bellas monograplifas que [H)s^e o nosso amíi^o 

e eompauheiro da espedição o Sr. Dr. Lagos , em cuja ei- 

CflUeole bibliolheca se encontra tamtiem as preciosas collec* 

ifim ci^mplelas dos Ai mães da Soi:iedade Enlomologka de 

França, da& Siêiíes a Buffon publicadas por Rorei, a Historia 

natural dos p^xes, por Cuvier e Valenciennes, ele., etc 

Relalivamente a iomaesscienlincos, poucos se pediram por 

ora , para não avuttar a despega : porém as series completas 

de muitos sao de absoluta necessidade, pois ncílas se acbam 

insertas namerosíis memorias de imporia nci a sobre a geo* 

grapbia e bístoria natural do Brazil , e cumpre que a Com- 

niissào esteja em dia com ^ses trabalhos, para não dar o 

trislt* *3spectaculu de isolamenlo scienlilico e ignorância do 

que se Ictn escri|)to sobre o próprio paiz, 

O cliete da secção astronómica requisitou aulorisaçfio , qtie 
lhe fui concedida , para engajamento de um operário encar- 
regado de concertar, no caso de desarranjo , os iivslru mentos 
malUemalicos da expedição, á qual elle deverá acompanhar 
munido dos comjH^lentes appareltios e ferramenta. Finda a 
commissão, esse artista será de prande utilidade aqui no 
Rio dê Janeiro , ond« oão lhe faltam lral>alho, ruidando dos 
instrumentos do observatório astronómico, da re|uuliçao das 
terras publicas, da escola militar, da acadeiuia de marinha, 
ele, que hoje flcarn perdidos por falia di^ qmmi os concerte 
capazuieide. 

Os inslnuncntos geodésicos são lioje a causa da demora 
da partida da expedição; foram promettidos pa]*a meiado 



C0MMISS40 SClEXrmCA ríliAZILEmA* 



405" 




Fevereiro próximo futuro, e lUivírtamos que a promessa 
seja cuniprida : lemos pratica nt^sle assumpto > e coiiliecetnos 
a grande. tliUirtildado que h:i eru uhter lions iuslrumcutos 
de con^triictores acreditados, qutí nao os deitam satiir de 
soas otliciíias sem os liaver aules conscienciosatueido veri- 

ado e corrigido, e deteruuuado com a maior exactidão 

os coefficeiítfS daíí (piantidadcs coostanles corn que m tem 

entrar om calculo tendo por argumeiUo i\s oliservatôes. 

Sci assim poderam alcançai cetel)ridade,e conservam desde 
longa data o seu credito, os uômes de Ilamsden . Troughton. 
Rollond, llepsold , Krlel , as otlkiuas da Escola polytechnica 
Vicnnense, ntc. ConceliLí-se tauil>eTu que iiomens dessa plana 
nao se cansam em fazer inslrumenlos para armazenar; li- 
milain-se onicamenle a executar as cncommendas que re- 

Eebem , e mesmo a essas dao vasao muitas vezes por seu 
orno: assim Dollond levou cincn aniios para dar os instru- 
fientos do nosso observatório : e quanto aos theodolifos para 
; Com missão de liuiítes do Sul , foi necessário recorrer aos 
tribunaes afim de que fossem entregues quatro mezes depois 
do tempo promeltido, 
A Escola polytechnica tinlia annunciado uos joniaes que 
^^or espaço de um anuo não receberia encommenda alguma, 
^^ sõ por muito obsequio acceitou alguns pequenos pedidos 
nossos. Não se julgue tiue taes delongas se restringem mera- 
mente ás encommendas !>razileiras. O observalorio de Green- 
wich mandou f^izer em Muni eh uma objectiva para um te- 
Mescopio , a qual lhe foi entregue passados cinco nnnos, 
I Muita gente, mesmo sensata, estranha que se não teidia 
fomprado instrumentos já promplos, os quaes se encontram 
TIO mercado em quantidade: observnremos que esses sao 
próprios para pilotos, que uTio carecem de grande exactidão: 
pnrem tralmlhos como os que se exige daConnuissão explo- 
radora devem reduzir os erros inevitáveis ao rríinimo , porque 
elles se multiplicam, e no Ihn de algumas léguas podem 




406 WKnsTÃ 

umar imiteis as obserraçOes. Alam disso, já lá se lai a 
tempo em que um EsdnregeiQventam lAsenraçOes, diíeodD: 
c Qom as Teríficari? » 

Aecrescentaiemos finalmente qne a responsabilidade é 
nossa, e menos no Branl do qoe na Eoropa, onde a no- 
ticia da Commissio exploradora foi moito bem acolhida: 
sinra de profa, além de ?arios artigos nos periódicos» o 
trecho de mna carta do sábio presidente da Academia das 
sdencias do Instituto de França, o Sr. Izidoro Geoíftoy 
SaintrHUaire , qne se exprimia nos seguintes termos : 

• O Institnto receben com viva satis&tçio a noticia da 
nomeado de mna GommissSo expkmidora no Braúi , e ex* 
primin por parte da sciencia a soa gratidSo para com um mo< 
narcha que mostra tanto interesse em promover os progressos 
ddla no seu império. > 

Rio de Janeiro, 4 de Dezembro de 1857. 

Dr. Guilherme Scrucb de Càpanema. 



POESIA 

o GIQUITIBÁ DA SERRA DE SANTA ANNA. 
BRÍLSII.IANA 

ASmCADA AO 0ft. FAANCISCO flIKIftE AttftMÃQ. 



Quando o Toltecn do pular rlpsi^rto 
Para o faemio do sol inovem os passou; 
Quando Hoi>o cruel, á l\m dj» (lancer. 
No imo ardente oalcinava a infância , 
Como outrora em Garthago n dinis Salurna ; 
Quando Colombo os dellns tU OriíuKo 
Ovante pcriustrava , já o Taninyo 
No pino aiUvo do vircuto iiii*ntt* 
Teu vulto contemplava, dominando 
O Qanco alpestre do Tingiià frontuím , 
E os vaUes, e as coUinas, «! as plaaieíes, 
£ o campo aiul do dilaladíi Uceano, 
Que ao longe umpanam duvidosas nuvena 

Labeo do fraco que aspirava o mando 
Teu cimo fora, quando a tribu acepliala 
Trocava o sceptro pela flecha alada, 
Que em recto surto na leu cimo jugentê 
Abatia o coUbrto variaval , 
Entra as Mt^ mimosa bandoleiro. 



408 REVISTA BRAZILmiA. 

D. 

A mão do colono , o ferro empunhando , 
Da obra do tempo ignara zombando , 

No chão baqueou 
O fliho da terra , Titão da e^[>essm:a 
Que ao grémio do sol altivo devou 

A nobre estatura. 

De sobre a montanha florida atalaia, 
Co a fronte media dos longes a raia ; 

Seu porte avistava 
Saudoso tnipeiro. que ás horas da cdima 
Contente, risonho, alli repousava, 

Creando nova alma. 

As léguas cansadas . e a base do céo 
Coberta de nuvtns. de cénilo vèo. 

Brioso media: 
Seu IWI5S0 dobrava, dobrava a pujança, 
Que^ o grande madeiro , seu hospite e guia 

Lhe dava esperança. 

Aipielle que o raio não pôde vencer 
O vimos ao braço de um bruto ceder : 

Das nuvens cahiu 
O fero gigante, outrora tão fausto! 
A tlamma sou vuUo a pò reduziu 

Em grande holocausto. 

No tianco da rocha batendo medonho 
A rocha no rio rolou como um conho : 

O céo borrifaram 
Âs aguas do valle em franjas ardentes , 



o GIQUITIBÁ. 409 

E as ondas curvando alli rebenlaram 
Ruidosas, frementes. 

Assim cascavel na relva escondida 
Assalta o cacique, devora-lhe a vida; 

O rei desconhece, 
E lança por terra tão grande entidade , 
A gloria aniquila, os louros fenece 

E a magestade! 



111. 



Como um gigante horripilado, ás auras 
Co'a fronte hirsuta, serpeando os braços. 
Eu o vi na montanha : a copa excelsa 
Floreava ao tufão, nuvens cardando : 
E do monte surgia , qual se eleva 
Desmedido condor supino aos Andes. 
Nunca o vigia da mourisca plaga 
Mais alto se elevou, nem campanário 
Que o Rheno mede da altaneira grimpa, 
E tfaguia alpina se equipara ao vfto. 

Rei da montanha , amesquinhava o bosque , 
Quando, supino, no ambiente lúcido 
Sombreava o perfil, e lá nos longes, 
Na montanha azulada e nos convãJles 
Saudava as caravanas tintinantes 
Dos tardos lotes , que o poento guia 
Cantando impelle á turbulenta corte. 

Vi a nuvem do céo toucar-lhe a fronte 
De translúcida facha, e caroavel 
Banhar-lhe os membros de vital conforto , 
Infundir-lhe no cerne evos sem conta; 



410 REVISTA BBÂZILEIRÁ. 

Erguel-0 esbelto ás regiões ethereaft, 
' Para orgulho da selva milleiíaria. 

Para assombro do homem, que por elle 
Aos céos sabia (fum olhar somente. 

Quem do solo varreu seu vulto augusto , 
E em seu throuo assentou rasteira mesiè ? 1 



IV. 



Pejada nuvem de medonhos raios 

O seu ser respeitou ; evos ingenitos 

Co'a natura , de annaes que o cèo colhera , 

Ao embate continuo das tormentas, 

A fúria do pampeiro, não poderam 

Unir-lhe o tope ao chão , vel-o um prescito 

Zoas , que beija a terra fulminado. 

Firmado , como o sol , dos feros Euros 

Constante triumphou : nunca seu tronco 

Levemente tremeu ao largo impulso 

Do flanco do tapir, quando, pungido 

Da mutuca , dispara c no trajecto 

Estala os troncos , a raiz revolve , 

Marca a senda ruinosa, mil segures 

No passo vence , e sobre o chão descreve 

A rota immersa , o fabulado impulso 

Do ingente minhocão, que estala as pedras. 

Desvia as aguas, esboroa os montes. 

Como eras bella portentosa mole 

Da devesa, e do vate que te vira 

— Briareo da floresta — alçando os membros 

Em extasis perpetuo ao céo formoso , 

E aspirando no céo perpetuo lume. 



o GiQurriBÁ. 411 

Grandeza e magestadet e meigos zephyros 

E as aves e as flores nessa fronte 

Odoras harmonias derramarem. 

Mil vezes, ao rugir dos vendavaes , 

Vi teu víilto bradir no ar as franças 

Gomo águia amazónia dormitando 

Em aura etherea, deslembrando o cibo. 

E sorrindo à tempestade, 
Como na estação de amores, 
A serra toda juncavas 
Gom tuas mimosas flores. 

Os ventos furibundos , 
Os mestos turbilhões 
De horrendos furacões. 
Terror da terra e mar, 

Em roda do teu throno 
Humildes circulavam , 
Humildes se amainavam, 
Morriam de cansar; 

Go'a copa grandiosa 
Que em brincos floreavas , 
Os raios perfumavas 
Gom teu brasileo odor; 

E a voz aterradora - 
Do temporal medonho 
Ouvias como um sonho. 
Gomo um carmen de amor. 



38 



442 REVISTA KiAZIUIRA. 



O monte não' coroas, não alegras 
O filho d'Ouro-Preto , nem o servo 
Mensageiro, o Goyano que ledo te saudava 
Das fronteiras dá pátria. Eras a estrella 
D'errante peregrino, o pouso ameno 
Do incansável poento boiadeiro; 
A balisa de amor , o marco aéreo 
Do lesto víandeiro. 

Em vão teu porte 
Magestoso demanda o viajante , 
Em vão à serra o pede , como outr^ora 
Brilhante nos Botaes. Âh ! não o encontra ! 
Infeliz, o não vê, qual vi risonho 
Do alto do Simplão , na bella Itália , 
O bronze de Baveno abençoando 
Da marmórea montanha o lago ameno 
E as férteis veigas da lombarda gente. 

A perda inopinada do que amamos 
N'um tristonho deserto a vida envolve ; 
No fértil campo das visões, no berço 
Amoroso da ardente phantasia, 
No grémio da saudade, retrahida 
Fica nossa alma a prantear ; e geme 
Ante a gleba afflictiva que acoberta 
A doce imagem que comnosco vive 
Nos thesouros douosos da memoria 



VI. 



Quantas vezes à sombra impervia , odora , 
Do florido colosso, ao lume esquivo 



a aiQurriBA. ■ 

Da tacita Luciaa, alli, coiilenles 
Vincularam cos os lábios duas almas 
Ardentes corações , longe do mundo , 
Deslem|>rados da lerra, sòs^ {olizes. 
Como as aves que dormem sobre a nuvem 
Que o vento leva ás regiBes elysias ! 

Quantas vezes, ú tronco, tu do alio 

Igualmente amoroso coroaste 

Esta doce elTusao, esta ventura, 

Cum chuveiro de (lures, sem que o sonho, 

O doce devaneio entrecortasse 

Pio agoureira de sinistras aves? 

Á tua larga sombra , o vate e o sablo 
Em delirante arroubo quantas vezes 
Na esponja cerebral não embeberam 
Esse néctar de luz que o céo derrama , 
Essa fluida harmonia que constante 
A natura ridente e magestosa 
No seu seio fecundo altriz renova? 
E após, rolando os olhos pelos valles , 
Pelas navas que víio no mar perder-se, 
A imagem viam grandiosa c bella 
Do panorama insólito da esphera 
De teu reino sem par, 6 rei da selva! 

Agora, s6 na lóla imaginaria 

Do amigo espaço vejo a larga umbella 

Protectora da selva espiidanar-se ; 

E o polvo immenso da raiz , que o monte 

Com mil braços hercúleos abraçava, 

No chão , troncado , irradiar-se pútrido ; 

E o tronco, que vencia os obeliscos 

De Mempbis, pela terra envolto em cinzas. 



4Í3 



Pôde o ferro de um bnito mais que o tempo ! 

A nova geote , a gerado fatora , 

NoDca mais o Terá! Maldita seja 

A mão profana qoe levanta o ferro, 

E tala insana com bnital sericia 

O padrão millenarío da natora, 

E insulta a terra, qae coroa a retra, 

E ao homem pede da coitara a graça. 



vn. 



De alígeros cantores verde liça 

N" Arcádia aérea quantas vezes foste , 

Antes que o índio , teu coUaço , ás brenhas 

Pedisse asylo contra o ferro luso? 

Quão bello te ostentavas, quando a avicula 

Princeza da floresta ahi pousava 

Sorrindo à luz da aurora, saltitando 

Na florente alcatifa , e retinindo 

Seus floreios risonhos ; quando à tarde 

Cerúleos tingarás ledas choréas 

Por tuas niveas flores espargiam, 

E as flores tfum conjuncto harmonioso 

Ao céo mandavam perfumado accento; 

Quando ao reclamo do canoro encontro 

Formosos gaturamos respondiam 

Com seus áureos gorgeios; quando, oh tempos 

Da virf^em natureza, em tua copa 

Co'a tromba alada buzinava aos ares 

O supino tocano, resplendendo 

A mursa imperial entre as bromelias 

Que teus braços ornavam , como enfeitam 

Do gentio garrido as varias pennas I 



o GiQirrrroA* 

Dir-se-hia que Ganeso do Himalaya 
AUi vinlia saudar o cèo brazíleo. 

Qual ponto cardeal d'ave emigrada , 
Ou cabo que a derrota \erifica, 
Eras tu sobre a serra dos Botaes, 
A meta do descanço e d'alcgria, 
Eras o pouso do nocturno gallo 
Que a verde esquadra dos smjs dirige; 
Da escamigera ímagra , do guaxi^ 
De rubros tapirangm, d^arapongas, 
Cyclopes da floresta. Nos teus ramos 
Não mais veremos , repicando as azas. 
Pendendo o corpo, como o próprio ninlio, 
O canoro japu soltando eudeixas ; 
Nem tao pouco o sublime $abiásifa 
Que ás aves falia em gorgcados hymnos. 
Ao homem co*â palavra animadora, 
E imita os uivos das cruentas feras! 



415 



No arbusto fronteiro, ao largo espaço 
Que oulfora preenchias grandioso, 
Mosqueadas mguerm , compungidas , 
Irão chorar e a rola gemebunda 
Tua ausência sem fim , sem lenitivo. 
Na memoria do vate e no iustincto 
D'avicula celeste, como um sonho, 
O teu porte frondoso, altivo e bello, 
De amazónia grandeza , se retraça. 
Para mim vi virás, pois que em meu álbum 
Em vagas linhas te guardei fatídico ; 
Nesse livro em que o lapís vence a lyra 
Quando a lyra contorna a natureza, 
Alli ao tronco alpino avizinhado» 



41 f BfifTA nuiiLfenuL 

Qoe a oêre biíbe co*a raii maraiorna . 
E de auroras boraMi Mtòá o vértice; 
Junto ao Tãlle amoroso de Alba-limga, 
Ao plátano do Tíbm. ás ttípis do Amd. 
SandnsD ficarás, eonm essas paginas 
One Ml meus olhos eiubebem caroaTeis, 
DeliCiâs que se foram, ju?enlude! 



\Tn. 



Embora sobre a giba acroceratinea 

Do soberbo Tíngui o sol fagueiro 

Se debroca mil annos mâiaote : 

Sobre o monte despido nao te enccntra 

A tuz que te animara em almas dta.^ , 

Que bondosa a seu greoiio te achegava. 

Para mais te aroltar; que a lua sombra 

No iDGnito lançava quando a aurora 

\os valles duvidosa se espalhava. 

Ou quando eulre Itslões de fogo à tarde 

Ao mar de Níctheroy a €4)ndnúa! 

Como em ermo infecundo , no teu sólio 
O venlo ora perpassa , e nem sibila ! 
Auras de amor, estéreis, se deslísam 
Sem colher em leu seio odoro a vida. 

Yedaram-te o libar elemamenlc 
Beijos de luz no thalAnio dos astros, 
E os mimos enícnrlidos, reilímros, 
Dos zephyros vemaes , que em tuas flòrt*^ 
Com pronubas melguites deirnmmYam 
Formosura sem par» amor e vida. 
Sobre ianla grandem agora paêsA 



Tristonha a vista, o coração ianharlol 
No feio descampado ora mal vinga 
Mesquinha palma de barbado niilho , 
E a consócia da relva, tlôr silvestre. 

O fauno da floresta, a sim ia astuta, 
Alli não dançará; nem o harbado, 
Sultão da relva, cantará monótono 
Espumante canção entre as esposas. 
Ao mudo passo do precauto joven 
Que a espingarda' lhe aponta , a fugaz prole 
Não irá escouder~se *entre as grinaldas 
Que á terra descem pelo tronco, e subi la 
Em salto areo se retrahe ao tiro, 
Galgando o valle e a cerrada matta 
Onde etcmo crcpusdo se alimenta. 

Hoje meus olhos no vingar a serra 

Tua imagem não vêem , patriarcha 

Da virgínea devesa» que o teu vulto 

Do céo volveu ao chão, do chão ao nada! 

Choram-te as aves, Ião somente as aves. 

Que a esluUieia em delírio, em rude applauso, 

Tua queda exaltou, tripudiando I 

Envolto em trevas, rfum culpado olvido 
Não te deixo morrer; pois lautas vezes 
Arroubado de encantos, plena a vista 
De tanta magestade, contem piei -te. 
Não serás Iransitorio monumento 
Na vida do meu ser conlcmplativo. 
Nem aos olhos ilo mundo . como nuvem 
Que no cèo descreveu seres informes, 
Passarás. Sim, não vives mais na terra, 
Mas vives na memoria do leu vate : 



it* 




, o ferac bnco 



A li. «iAesto fmn , anfele aniTel 
D? loifi» dà nton, este mea canto 
!b imàt âdva escrito bei dedicado. 
OrnsesBÈt Tiqm tn Mae . ilustre amigo. 



DeK i!itiiilt> t t]c«i <pm era tea seio 
GkEto aii>^?r infoiídir, perpetuo , immenso , 
E 1 teos t<aK^ abfia a natureza 
FrcTij^isa e b^. Tahada e grande. 
A5 fi!<>es fez-le amar como o colíbrio , 
E K> trcfjco attaneiro achar a escala 
C"oe o $er efera ás regiões celestes. 
E^fiosasle uma fl*:«r. e a flor deo frocto , 
E esse frocto, meu Freire, é toa gioria. 

S. Pedro, 14 de Deiembro de 1845. 



PORTO-ÂLEGRE. 



ASTRONOMIA. 



REUTORIO 



Oo» tralkalhõi exeootado* peta ComtniaiAo ««tronomlom «noai^Q^nd* 
peto Governo foiperíml de obtervar na cidade ^e ParanaguA o 
•eltpie total do sol i|iie mhi teve lo^ar no dia 7 de SetemBro di> 



A importância scientiflca da observação deste inleressante 
phenomeno não podia deixar de manifestar-se no Brazil , 
onde devera ser apreciada em grande parte do seu território, 
€ principalmente no Rio de Janeiro, que gozada immediala 
inOueneia do alto Protector das sciencias, e possue já um 
nascente observatório astronómico. Assim, doos artigos ap- 
pareceram logo nas folhas publicas desta cidade, um delles 
indicando Cananéa, e o outro Iguape como o logar da 
costa onde se deveria' observar a phase total e central do 
eclipse. 

No dia 24 de Jullio o Sn director do observatório apre- 
sentou ao Governo Imperial uma tabeliã de seis pontos da 
linha central , os mais próximos da costa , e indicou o porto 
de Paranaguá como apropriado para a observação do eclipse, 
visto que o Governo estava deliberado a mandar uma com- 
missão astronómica para esse firn. 

Em 4 de Agosto leve-se conhecimento por meio de Mr, 
Emmanuel Liais (astrónomo do obsenatorio imperial de 
Paris, chegado da Europa a 29 de Julho, em commisslo 
scientifíca) de um novo calculo do mesmo eclipse , feito por 
Mr. Carrengton , astrónomo inglez , fundado sobre as laboas 



420 REVISTA BRAZILEIRA. 

lunares de Hausen, recentemente publicadas na Europa ; e, 
comparando a linha central determinada nesse calculo com 
a calculada pelo Sr. director do observatório do Rio de Ja- 
neiro, achou-se ficar ella um pouco ao sul desta, porém 
ainda no porto de Paranaguá; e por esta razão nenhuma 
alteração se fez a tal respeito. 

Em 6 de Agosto nomeou o Governo a commissão astro- 
nómica, composta dos Srs.: 

Conselheiro Cândido Baptista de Oliveira. 

Dr. António Manoel de Mello , director do observatório. 

Dr. Emmanuel Liais. 

Capitão Francisco Duarte Nunes. 

Dito Bazilio da Silva Baraúna. 

Dito Rufino Enéas Gustavo Galvão. 

Tenente Jeronymo Francisco Coelho. 

(Ajudantes do observatório). 

Em 18 de Agosto partiram deste porto quasi todos os 
membros da commissão na corveta a vapor Pedro II, le- 
vando os instrumentos astronómicos e physicos necessários. 

Em 20 de Agosto chegou a corveta a Paranaguá, e os seus 
babeis officiaes preslaram-se de bom grado a tomar parte 
nos trabalhos da commissão : reunindo-se a esta como ad- 
juntos os seguintes Senhores: 

Capitão-tenente, commandante, Tlieotonio Raymundode 
Brito. 

1° tenente, immediato, Carlos Augusto Nascentes de 
Azambuja. 

2<* dito Francisco Jorge du Silva Araújo. 

2® dito Geraldo Cândido Martins. 

Commissario Francisco de Paula Sena Pereira. 

Escrivão Francisco Dias tda Motta França. 

Em 23 de Agosto, que foi o primeiro dia de bom tempo, 
fizeram -se as observações preliminares indispensáveis , para 



EcursE DO saL* 42! 

« 

ijelerminar o ponto ila linha cenUal dn ccliiKse , liu^nal ^ 

ileveria eslalK^leicr o (rlisorvalorio. 

Achado eslc (lonltv nu hnv/úxtúe de 48** 26' 58'\95» a otelo 
(1p Cireeuwich, è latiluilo austral úc ar)*^ ;W a;r,24, cormâ- 
pondiiiulo a casa de cãmjio do Dr. suisso Carios Toldas Rei- 
chsleiner, siluada abeini-mar, e sendo essa casa cedida a 
comTnissao pr1n sen liropriotarin, nslabeler en*se o obsertaio- 
rio no jardim da mesma. 

Em 27 di* Ago:sto €on€ordou-se cm distribuir todo o pessoal 
dâ commi^o [m ires difTcrentes cslaçoes, além do observa- 
lorio contrai, a salier: 

1* estavâo, na Campina, posição situada serra-acima, na 
distancia de cerca de it léguas a ôèslõ do observatório 
central e no limite sut da faclia do eclipse tolaK Esta eslacSo 
foi contiada aos Srs, capitries Galvão e Baraúna* que para alli 
IKirtiram no dia 31. 

2** eslavao, na lllia dos Pinbeiíos, distante do oteorva- 
lorio cciUrat cerai de H léguas a nonleste , e jiroxima do 
limite norte da faclia do eclipse totid. Esta c$lai;5o foi con- 
fiada ao3 Srs. capitão- tenente Brito e 2" tenente Araújo » que 
para allí partiram na dia 4 de Setendtro. 

3* e8l;u;âo, a liordo do vapor /VyÍio II , fmvdeadna du- 
Kmias braças para N. N. E. do observatório central. Esta 
estação foi cíuUiada ao Sr. IMen<nito Axambuja, 

Em 4 de SíHeinbro, ti^ndo rln^gado o resto da cmnnnssrio 
na canhoneira a vapiir Tietê, en Iraram em ti nuinem dos 
adjuntos mais drms babeis nllkíatís de marinha, os Srs. i" 
tenente, commaudante. Gaio Pintieiro do Vas9D0tic<?nos < e 
i^ tenente, iumiediato, Aufinsto Nettn de Mendonça. 

No dia (> ilí* Sí^teodiro á nrrtte o eeo se ;tcbava encnherto , 
CJúmo se tinha tonst^rvado ttesde 25 de Aj?osln, tendo sido 
raiw os dias em que nfio ctioveu, e o míio tempo que ainda 
ameaiviva qnasi que kz perder a esperança de se poder 
otíservar o erlipse na manhâa do dia sepuinle. 



SEXISTA BIUZILOIU. 

Xo dia 7 de Setembro, às 6 haias da manhã a, (oram 
c^^Borart^ oâ iostnimentos nos lugares anleriormente pre- 
parados e ensaiados , apezar do céo se conserrar encoberto^J 
As 7 horas eboT^i par alguns minutos , ficando ex( 
m 8688 agniacêtro os observadores e os instramenlos: depois 
dislo cfHBeçoci a daiear, e os observadores aguardaram o 
fbmi/amÊOú na disposição seguinte : 

Na atfumdade de O. do jardim o Sr. Mello obsenrava 
com o redactor do equatorial do Rio, montado parallatica* 
menle, mesmo oa estacão, e munido de um micromelrode 
posição; perto delle, o Sr. Nunes obsenava com um iheo* 
dolito de Gambey, e o Sr. Taâconcellos com um sextante;' 
na proiimidade destes obserradores o Sr. Netlo contava no 
chronomefcpo. 

A sdguns passos do grande equatorial, o Sr. Baptista de 
OliTeira observava cora um C4>mctoscopio montido pãratla- 
ticainente; um pouco mais longe o Sr. Coelho senia-se de 
nm bis rebactor : perlo deste o Sr* Sena Pereira ohserravaj 
no pyrtieliometro e no aelinometro. 

Na extremidade E. da estarão Mr. Liais servia-se de um 
instrumeolo parallalico , composlo de quatro oculofi refrac-g 
tores paralielos , aflo) de que o sol apparecesse em todos ao 
mesmo tempo, e um desses óculos, de 2,184 metros de 
(oco, podia reeeberum caixilho photographico ; outro óculo 
continha divisões, e o mesmo pè sostinha um pholometro. 
Perto de si Mr. Liais tinha uma collecção de polariscopios, 
um theodohto , um apparelho para as rajas do speclix» e um^ 
ehrouometro. Um pouco atrás deste , e na sombra da 
o Sr, iMartins observava o barómetro, o thermometro htnda" 
e o psychrõínen^ funda. 



ECLIPSE DO SOL. 



423 



OBSERVAÇÃO BOS CONTACTOS, 

Primeiro contacto exterior. 



Na estação central de Paranaguá , e na da Campina » as 
nuvens impediram a observação do 1« contacto. 

Na ilha dos Pinheiros , pela latitude a de 25^ 23^ 34", e 
longiludB de 1 r 6 \5 a E. da estação central , ou 5^ 8' 46",45 
a O. tio Rio de Janeiro (longitude referida á da estação central 
por meio do chronometro e no espaço de nm sò dia) o ^^ 
conlacío toi observado ás 9' 36" 13\ 

No imperial observatório do Rio de Janeiro . onde o eclipse 
foi parcial, o 1^ contacto teve logar ás 10'' T* 22\5. 

No observatório do arsenal de marinha de Pernambuco 
observoU'Se esse phenomeno ás l(y'27"47\ 

Primeirú rúntacto interior. 

Na estação central de Paranaguá este contacto foi notado 
pelos Srs. Meho e Nunes fis M' 0'^ 2V,8. 

A bordo do vapor Pedro II notou o Sr. Azambuja este 
mesmo conlacio ás rr O™ 2t\U, A lUfferença entre esta ob- 
servação e a dos Srs. Mello e Nunes poderia provir de ir- 
regularidade na marcha do relógio de segundos do Sr. Aiam- 
liuja, pois que o chronometro de bordo tinha sido levado 
para os Pinheiros pelo commandanle do vapor. 

Na estaçaa dos Pinheiros o I* contacto interior teve logar 

àsHM-^G^2^. 

Na estação da Campina, situada aos 25^30' H" de la- 
titude S., e pelo chronometro a 23' 37",5 para O. da estação 
central , ou 5** 43" 30 ',45 a O, do Rio de Janeiro , este 1* 
contacto interior teve logar ás !0'' 59" Ò\ 

Infelizmente não pôde a hora do chronometro ser deter- 
minada no mesmo dia do eclipse , porque o sol apena3 






SfTmfÃi riMlacf^ munor. 

\í -tãCb^Hii ti^^icrií - k U>«ik* •!& IVdro // , foi o 2^ f oo- 
nasà^ oft^ciir airiaiã: :tH»; ?f€. Aaaibaia ás il^ 1* 33*^3. Os 
iirnnfr lOfit^Pi kD?r^ i& ^su»:* iãi> o notaram . sorprendidos 
4inaGe k^ iiia:^ .>Ct«*!m 2r:f«^ (4iysicas peia reapparíçdo do sol 
9BIIIS vAs^ -ít *^ UKfcaTam •>> cakok». 

5ii ^ac^:!*.- i>? PíjJMTT/s A í- coDtatto interior leTe Io gar 
te II' l" i*í^I 

\i '^&i»*{iij ii. Campõiá esle contacto teve logar ás 10^ 
3^ «> . «t a tt^iurikbie ahi doroa menos de um segundo. 

flft»» contarto exterior. 

Ni rSLAi/riv irfitr^í ^• ultímo conlacto foi notado pelos Srs. 
Mi^:*: ' N-:.r^ ^ •/ íh- 3? ,h. fNjr Mr. Liais a O' 28" 40* ,6, e 
&►> ^i:of frl • >f . Azambuja a O'' 28" 40* ,i. 

P^>f [-r.;'r»:irã« {oi notado N^bre o vidro baço por diversas 

O Sr. M-jlio ♦.tí«>*;rvMU que esle ultimo contacto teve logar 
a 35' do verlioâl do s^jl para lésle. 

O Sr. Nunes observou no theodolito uma serie de alturas 
do s^jl na proximidade dos diversos contactos , além de outra 
serie de alturas em diversos instantes do eclipse , que tam- 
bém (oram observados no sextante pelo Sr. Vasconcellos, 

Estas observaroes poderam servir para o estudo das re- 
fracções anormaes , que a distribuição especial da tempera- 
tura durante o eclipse pôde produzir. 

Nos Pinheiros o ultimo contacto não pôde ser observado 
nor causa das nuvens que encobriram o sol. 

mpina o ultimo contacto teve logar a O** 25" 5\ 



ECLIPSE IM> mL. 425 

No obsenalorio do Rio de Janeiro foi esle contacto a 

Em Pernambuco o allimo contacto observou^e a tf' 51" H\ 

PASSAGKBl DA iUA SOBRE AS UANGHAS DO SOL. 

As maocUas solares foram observadas e desenhadas no 
palácio imperial \h S, Cbristovão nos dias 25 de Agosto 
ás 8' *1fl" da mautiãa , 27 í^ 2'' 45" da tarde , 30 ás 3' HQT' 
da tarde, 3i ;ís 9' 30" da manhaa. â dft Setembro As Í0' 
30^ da numlKia, 3 das 9' \rr ás »' 45'" da manliãa . e 4 ás 
H lioras da maidiãa. De 4 ate 7 o eslado do céo não foi 
favorável, ao menos nas horas om tjue ontras occapaçues 
não distraliíam a atlenção do observador, 

A comparação desses desenhos faz notar grandes va- 
riaçíles na forma, numero e disposÍi;f>es das manchas » o 
(jue indica que nesta époia a si i per fiei i* do sol eslava em 
grande agiLiçfK». 

No dia 3 víu-se uma mancha iissas considerável e redonda 
perlo do centro do astro, dividida por uma lin^ueta da sub- 
stancia luilhante da photopliera. 

No dia 4 esta mesma maníiia, já sem o traço brilhante , 
havia tomado a forma delosaut^o, com os lados um tanto 
curvos; forma que foi igualmente notada em Paranaguá du- 
rante um breve clareamento do cèo. Esta mancha estava 
rodeada de muitas oulr;is u>ais pcíiuenas 

Na manhaa do 7 de Setembro esta mancha era visivet a 
olho nu , na parte sudoeste do sol. sendo precedida de um 
grupo de pequenas mat\chas n segniJa pí*r íinlro composto 
de numerosos núcleos em imia grande penumbra. Viam-se 
algumas facutas pouco lirilhantes perto ilestas maoclias , e 
o pontuado do sol era muito notável e ondulante. 

Na estarão central de Paranaguá notou Mr* Liais que o 
limbo da lua se achava em contacto com a horda da pe- 



425 BET^l 

immbn ào grafai de nuoctos mais proxiiDO do ceotio do 
sol às Uf ir J?.4. 

\<:4«t>a dle mais que. á medida que o limbo da loa ia 
cobrindij ã f^-Dombn , pareeia qoe esta modaTa om pouoo 
de f*>rma. airhataDijt>5e o seo cootonio paralldamente ao 
lífflbj «la lu. Uma semelhante apparencia se reproduzia na 
segoDtla (âfte á^y eclipse, na reapparição das manchas; 
lendo sí«l«> feitas estas observações com a amplificado de 
300 Tezes. O c^bserrailor entende qac nesta apparencia 
existe nm eSeito de irrailíacÃi) ou ile contraste , oa talvez 
de difracçã«3 . oii mesmo de refníccão anormal. O Sr. Coelho 
notOQ que no momento em qne o limbo da lua ia oceultar 
as manchas, estas não m«>straTam alguma variação de in- 
tensidaije, como teria logar se houvesse a interposição de 
uma atmosphera lunar. 

No imperial observatório do Rio de Janeiro, onde obser- 
vavam o> Sr>. ajudantes capitão José Francisco de Castro 
Leal. tenentes Juã»» Baplista da Silva e Glicerio Eudoxio da 
Silva Bíjmfim. nolou-s*? que a mancha do meio. da fórmâ 
de losango arredondado, que era vizivel corii um bom óculo, 
e de còr escura, foi eclipsada às 10^ 25". A terceira mancha, 
de forma oblonga e comfHisla de p^ei^uenos núcleos em uma 
grande f>enumbra. foi eclipsada as 10^ 30" e 8'. Além dos 
grandes grupos de manchas . notou-se três outras pequenas, 
circulares e dispostas em linha recta . que foram successiva- 
mente eclipsadas: a 1*, ás 10^ e 57"; a 2*, às 10^, 57" e 
44^; e a 3* , às 10', 59' e 58* ,5. Todas estas manchas pa- 
reciam gradualmente mais distinctas e augmentando de gran- 
deza à medida que a lua avançava , tendo logar a apparencia 
contraria quando a lua se retirava. 

No palácio imperial de S. Christovão obsenou-se, visando 
o sol por um poderoso óculo munido de vidro verde , que 
quando a lua se approximou da grande mancha e da se- 
guinte, pareceu ver-se espalhada sobre ellas uma cõrama- 



ECUPSE PO SOL* 



427 



rellada. Esta côr paieceu dispersar- se logo sobre o grupo 
das pequenas manchas, quando a lua cobria já a metade 
da gratide. 

Em Paranaguá Mr. Liais noloo sobre o nncleo negro da 
maior mancha nuvens assas numerosas» que permitliani ver 
o núcleo central di> astro, como já anteriormente assigna- 
laram os Srs. Darres e Sechí. 

Esta mancha apresentava lambem sobre a borda um 
grande chanfro, que não se reproduzia na penumbra, Eila 
mudou notavelmente de forma do dia do eclipse para o 
seguinte. 

VISIBILIDADE DA LUA FÓRÁ DO CONTORNO SOLAB. 



No principio do eclipse a lua íoí vista na estação central 
(óra do contorno solar. Com um refraclor de 4 polegadas 
lie abertura, o Sn Mello viu os seus arcos no prolonga- 
mento do crescente solar durante 4 ou 5 minutos, Mr, Liais, 
qoe tinha quatro óculos sobre o mesmo pe, aâo pôde ver 
este prolongamento em um óculo de duas polegadas e am- 
plificação do 60 yezes, nem no seu óculo dividido; porém 
no menor dos óculos, que amplificava 30 vezes, ellepôde 
seguir o contorno da lua fora das pontas do crescente solar, 
até uma disUwicia de 7 a H\ sobretudo perto da ponta appa- 
ren temente inferior. 

Com o óculo de 3 polegadas e a amplificíição de 179 

jvezeSí elle viu o prolong;amento da lua por 1 a 2 minutos 

rflo lado da ponta apparentenieute inferior. Estas observações 

tiveram logar entro 10^ 7^ e 10' lâ"'- Mais tarde o mesmo 

observador procurou de novo, mas não lhe foi mais possível, 

tomar a ver o limbo da lua fura do contorno solar. 

No instante mais ou menos em que se faziam estas ob- 
servações, a imagem da lua projectada sobre um vidro 
baço, por um óculo de 3 polegadas e 2,184 metros de di§- 





428 EEVl^A BRAZILEIBA. 

tancia local , via-se toda inteira e distinctameote. Esta imagem 
pfoiectada da loa fura do contorno solar parecia sobre o 
▼idro baço mais branca do que a região vizinha do cèo. 
Esta apparencia foi ainda vista ás IO** e 40"*, porém já mais 
fraca , e alírum tempo depois já não foi possível tomar a 
vel-a. 

Um phenomeno muito singular e inteiramente novo que 
se produziu , foi a apparição «lesta imagem sobre as pboto- 
graphias do sol, tiradas ás 10" 6- 56'. 4; 10' 8" 1?,9; 
l(f Ur 59\6: e iO^ II- 3fy,6. 

Esta imagem , principalmente sobre as duas primeiras , 
era muito apparente, ainda que fraca, quando as provas 
estavam ainda húmidas, ao sahir do banho do acido gallico. 
Ainda se avistam os iraços sobre as duas primeiras provas 
que UHO entraram no banho de hydrosulphilo de soda, 
para as desiodar, temendo Mr. Liais que esta operação não 
apagasse os iraços da iniafíein hmar, que elle desejava 
consenar. 

As mencionadas i>rovas i»liolographiciiS foram obtidas pelo 
processo sécco sobre vidro collodif>nado c albuminado, dando 
assim provas negativas onde a iniajiein da lua so apresentava 
branca , o ijue indicava ser ella mais escura do que a região 
vizinha do cèo, ao cunlrario do que se produziu no vidro 
baço ; porém sabe-se que a exposição em muilo breve tempo 
dá geralmente sobre o vidro provas positivas : ora, no caso 
em questão, a exposição não passou de um decimo de se- 
gundo, o (pie é insuííicienle para o coUodion sêcco, a não 
ser o cor|»o brilhante como o sol. Isto dá logar a pensar 
que a prova da imagem lunar podia ser positiva , e por 
conseguinte que a imagem da lua era mais l)rilhante do que 
a região vizinha do cèo. 

Na ilha dos Pinheiros Uzeram os Srs. Brito e Araújo uma 
observação curiosa, e que indicaria que a visão da lua teria 
sido alternativamente positiva e negativa ; pois dizem elles : 



ECUPSE DO SOL* 



439 



• A partir do i" contacto, a lua, continuando sempre a saa 
marcha para iéste , se mostrou perfeitamente redonda e 
obscura até as 10^ 5"' e {&, instante em que ella se ap- 
proximava das manclias sombrias que se percebiam no sol. 
Nós notámos que o limbo inverso era mais claro, e que, 
depois que as manchas se encobriram , voltou ao resto du 
astro a côr obscura. * 

No observatório do arsenal de marinha de Pernambuco 
os Srs. capitão de fragata Eliziario António dos Santos , 1*^ 
lenente Manoel António Vital de Oliveira e â^ tenente Manoel 
António Viegas , dizem que logo depois do 1^ contacto elles 
poderam distinguir claramente o disco de um corpo opaco 
que invadia a limbo do sol , e notaram também que no 
momento da maior pbase a parte eclipsada não era muito 
escura. 

C0I.01UÇÂ0 DO CÉO, DO MAE E DOS OBJECTOS TEKRESTHES 
OrHANTE O ECUPSE. 

Em Paranaguá notava-se na estação central desde as IO** e 
27"' que os rostos das pessoas tomavam a côr bronzeada e 
um tanto cadavérica, e que geralmente todas as cores es- 
tavam alteradas. Xs 10- iO*" o céo tinha tomado acima 
(lo sol essa côr azul-escura que no crepúsculo das regiões 
intertropicaes se faz notar entre o 1 ° e o 2*^ dos arcos cre- 
pusculares. 

Perto do horizonte de lésle a côr ainda era azul-clara ; 
para o nort'* e abaixo do sol viam-se nuvens brancas de 
uma còr singular: os seis Jecimos do céo, proximamente, 
estavam então descobertos e os altos, das montanhas ne- 
voados. 

Mais próximo ainda da obscuridade, ás 10'* e 55'". o 
mar tinha tomado a côr amarellada, e o azul do céo se achava 
sombreado. A natureza mostrava um aspecto extraordinário 
e indefiniveL 



430 REVISTA BRAZILEIRA. 

A bordo do vapor Pedro U, o Sr. Azambuja notou que 
a c6r amarellada se tomava predominante a partir do quarto 
do eclipse e á medida que o ar ia escurecendo. Elle notou 
particularmente que as aguas da bahia tinham a superflcie 
côr de enxofre , e que a espuma , proveniente da maré que 
encliia , apresentava a mesma còr mais pronunciada. 

Depois da obscuridade total notou elle que ao descobrir-se 
o sol voltaram os objectos á mesma cftr amarella que ante^ 
tinham , á excepção da espuma do mar, que não apresentou 
mais a cAr de enxofre. 

A's 10'' T).^*" Mr. Liais examinou as rajas do espectro for- 
necido pela luz do dia , e nellas procurou especialmente as 
variações que tinha notado no eclipse de 15 de Março de 
1858, mas não viu o grande enfraquecimento da luz violeta 
que então notara ; porém achou que a luz amarella tomava- 
se mais predominante do que no principio do phenoraeno , 
e que as rajas não tinham variado. 

Na iihíi dos Pinheiros , o.^ Srs. lirito e Araújo notaram 
ás 10'' 29'" \T que as montanhas e o mar do lado de O. co- 
meçaram a mudar de ror, tornando-se de um verde ama- 
rellado, cAr estaque (oníavani todos os objectos de O. para 
E., á medida que o eclipse progredia. As 10*" SO"* 50' todos 
os objectos collocados a oeste do togar em que observavam 
tinham tomado esta mesma còr , entretanto que os de lésle 
ainda conservavam as coros naturaes. 

Na proximidade (lo eclipse total dizem elles: « A sombra 
dos nossos corpos era de uma ròr escura, sobresahindo 
sempre sobre a cAr amarellada do terreno. A cAr que cobria 
os objectos neste momento era em geral mais escura e dava 
aos rostos a tintura cadavérica, sendo esta mais pronunciada 
nas pessoas mais morenas do que nas mais claras. A' medida 
que se operou a emersão , a cAr dos objectos de oeste clareou 
gradualmente , seguindo a luz no mesmo sentido que seguira 
a obscuridade na occasião da emersão. » 



ECLIPSE m SOL. 



431 



No palácio de & Chrislovão ás 11*^ ii"" foi notado no cóo 
ura aspecto côr de cliuníbo azulado , o qual lornoa-se mm 
sombrio ás M'* 44"". 

No obsf^rvalorio do Rio de Janeim notou-s^ que a sombra 
dos corpos projectada sobre os oiuros brancos tornava-se 
lie còr cinzenta , e que as cores dos objectos ficavam ama- 
rellas; acliando-sc todo o horizonte nevoado, eo do norte 
mais carregado. 

Em Pernambuco aoltm-se que durante a maior phase a 
lui do dia se tornou pallida e brancacenta* 

ESTADO IMI CONTOKfSO DA LUA, CONTAS DE ROSAHlO, 

O contorno da lua projectado sobre o sol apresentou em 
Paranaguá , como no observatório do Rio de Janeiro e no 
palácio de S. Christovao , uma regularidade notável. Não 
se via, com amplificações inferiores a 100 vezes, algum 
ponto saliente. Com a amplificação de t302 vezes , Mr, Liais, 
perto da ponta ilu crescente apparenlemente inferior, des- 
cobriu montanhas muito baixas e alongadas: o resto do con- 
torno, mesmo com esta amplificação , parecia assas regular, 
e eram enlão 10^ e 27™, 

Apezar do perfeito ajustamento da ocular sobre o limbo 
rto sol , e nâoobstanle esta regularidade apparcnte do limbo 
da lua, que parecia completa, observou o Sr. Mello no seu 
refiaclor de 4 polegadas de abertura e 72 vezes de am- 
plificação o phenomeno das Baily-Beads, 

No momento em que o sol ia desapparccer , o limbo da 
lua recortou-se , e esses recortes separaram , como pérolas, 
o delgadíssimo crescente solar. 

Na reapparição do astro o mesmo phennmeno sr repro- 
duziu em sentido contrario. 

Este phenomeno dos Baily Beads não foi notado no óculo 
de 3 polegadas e de 2", 184 de foco; neste o crescenle 



432 REVISTA BRAZILEIRA. 

solar desappareceu rapidamente , approximando-se ás ex- 
tremidades. 

Sua intensidade , comtudo , não pareceu igual em todas 
as mais partes , tanto quanto se pôde julgar em um phe- 
nomeno de tão curta duração. 

Durante a totalidade do eclipse foi notado que as pontas 
do crescente foram sempre bem claras e afiladas , sem nunca 
manifestar alguma deformação. Esta observação foi feita no 
palácio de S. Christovão , no observatório do Rio de Janeiro, 
como em Paranaguá , e nestas estações procurou-se cuida- 
dosamente avistar alguns pontos luminosos ou fulguração 
sobre a lua , mas nada se notou. 

INTENSmADE DA LUZ DO SOL SOBRE OS LIMBOS 
DO ASTRO. 

A reapparição do 1^ ponto solar, vista a olho nú, produzia 
o mesmo effeito que a illuminação pela luz eléctrica. As som- 
bras dos corpos se apresentaram muito bem pronunciadas, e 
o pequeno ponto solar pôde ser por 2 a 3 segundos visto a 
olho nú. EUe produzia sobre a retina exactamente o effeito 
do radiamenlo da luz eléctrica. Nâo havia a menor scintil- 
laçâo , e na estação central , sobre os muros brancos da casa 
vizinha, bem como na dos Pinheiros, sobre um panno branco 
estendido para este fim, não se notou algum traço das som- 
bras moventes e coroadas descriptas por Arago na occasiâo 
do eclipse de 1842, tanto no principio como no fim da 
obscuridade total. 

No palácio de S. Christovão a mesma observação teve logar, 
e ainda com resultado negativo. 

Quando appareceu o l"* ponto solar o Sr. Mello supportou- 
Ihc o brilho a olho nú no seu refractor por 1 a 2 segundos , 
mas foi logo obrigado a empregar o seu vidro corado , no qual 
viu outra vez o sol formado de pérolas, e depois o limbo da 



ECLIPSE DO SOL* 



433 



3â recortado como uma serra, e esse limbo se tornou outra 

vez liso logo que se afastou pouco mais, 

^m Aos 6 a 7 minutos antes da oliscnridade total» iiuando o 

^■rescente solar estava nuiiln reduzido e a intensidade da íuz 

Hllwic^^phí^t^ica muito fraca, Mr. Liais collocou sobre o seu 

óculo a amplificatSo de 302 vezes, e depois, afastando do 

campo o crescente solar , lí excepríio da extremidade de uma 

ÍDonta, elle ensaiou se o olho podia supportar o brillio, e 
Klo com o íim de verilicíu se o limbo extremo do sol n5o apre- 
pentãva uma grande diminuiçno de iuteusidade , como pa- 
reciam indicar, tanto uma observação antiga de Halley, se- 
cundo a qual o crescente solar muito reduzido é vizivel a olho 
nú. como as pholographias do sol obtidas em Paris t>oi Mr. 
, Porro com o seu grande óculo, Mr, Liais fez esta observação 
Bior duas ou Ires vezes, e certilicou-se que a olho nú poderia 
^supporlar, com algiun incommodo, a imagem assim am- 
plificada de ílOâ vezes , com a abertura de 3 polegadas ; 
porém * temendo um deslumbramento que lhe obstasse a 
observação do pheuomeno principal que ia ter logar, dentro 
de alguns minutos elle deíjcou essa observação. 



ipítcnsidadk: da luz atmosphehica duraste o 
kcliísií total, 



O planeta Vemis foi visto ua estação central ás IO*" c 51". 
^^ na ilha dos Pinheiros às 10'' 44" 45' de tempo local. 
^Ê No meio do eclipse viu-se ainda Vénus na estação central 
^B ainda Saturno, Syrio , Canopo e três estrellas ao sul, que 
apareciam ser it* e // do l^eutauro e o' da Cruz. Regulo não 
foi visto : o Sr. Mello olhou especialmente por alguns in- 

Istantes na diiecrão do meridiano onde devia achar-se , e não 
It descobriu. 
I Na ilha dos Piídieiros viram, alètn de Veaus , 5 outras 
estrellas , uma a O. S, O, , outra a S. O, . e três a S. S. E. em 





434 REVISTA BBAZOiBIRA. 

ramo magnético. Estes astros desappareceram pouco tempo 
depois da occultação do sol. 

No observatório do Rio de Janeiro mesmo , onde o eclipse 
foi parcial, foram vistos Mercúrio, Vénus, Saturno e Syrío. 

A obscuridade durante o eclipse total em Paranaguá n3o 
foi grande, pois que se podia ler a escripta a lápis, e o 
eèo não era negro , porém de azul plumbeo-cinzento. Durante 
a obscuridade total a lua mostrava-se com disco negro ou 
antes azul cinzento escuro, sobre o qual não se distinguiam 
as manchas do astro. 

A's 40** e 30"* tinha Mr. Liais observado as folhas das 
acácias de uma cerca vizinha da estação central do eclipse, 
e ellas manifestavam uma leve tendência a se fecharem. A's 
Iff" e 55"*, alguns momentos antes da obscuridade, esta 
observação foi repetida , e as folhas não pareceram ter mu- 
dado sensivelmente depois das ltf'e 30". Convém notar, 
comtudo , que a baixa temperatura que havia reinado nos 
dias anteriores, devera ter diminuído a sensibilidade das 
folhas. 

No Rio de Janeiro, onde o eclipse foi parcial, as folhas 
das nogueiras da Africa , plantadas perlo do obsenatorio, 
começaram a fechar-se, e uma sensitiva observada no palácio 
imperial de S. Christovâo não manifestou mudança apre- 
ciável. Neste ultimo logara luz parecia ás li** e 41" como 
ás 6*" da tarde , e ás H** e 44"* a obscuridade parecia ainda 
maior. 

Em Paranaguá um papel albuminado e sensibilisado pelo 
nitrato de prata , como para a extracção das provas pho- 
tographicas positivas, não mudou sensivelmente de côr> 
sendo exposlo durante 30* á acção do sol , entretanto que 
no principio e no fim do eclipse um papel semelhante se 
tinha tornado violelo pallido durante o mesmo tempo. 

No observatório do Rio de Janeiro a obscuridade foi ob- 
servada com o photometro de Rumfard. 



wcimB m scL, 



+35 



Os ourneros seguintes foram obtidoi? , tomando por unidade 
a inlení^idade da luz solar no flm do eclipse : 



10 


0. . , . 


98 


í, 

11 


■Tl 

30. . . . 


87,5 


10 


15. . . . 


'.)8 


11 


45. . . . 


88.0 


10 


30. . . . 


98 





0. . . . 


93,0 


lo 


i'.. 


97,5 





15. . . . 


94,0 


It 


0. . . . 


94.5 





30. . . . 


»5,0 


11 


15. . . . 


92.5 





45. . . . 


100,0 


li 


20. . . . 


87.0 


f) 


55. . . . 


100,0 



aiRÒA. 



Assim que desappareceu o ullinio ponio da photospljera 
solar, tortos os observadores viram itistantaneamenteacorôa 
lamínosa que ciivgni o disco da lua : r* disposição quo elUi 
apresentava em seus raios era excesíiivaniente couiplicada* 
íí a curta durat5o do eclipse não permittui a cada observador 
apreciar todas as particularidades ; assíuh cada um coa* 
centrou sua allençâo sobre certas part*is do ti rabo da loa ou 
sobre certos grupos de raios. 

Um primeiro (acto perfei lamente eslabelecido é a ausência 
de ;mMel definido , formado de luz homogénea , eni torno 
do astro; ausência notada por tortos os observadores da 
estação central A corfta apresenlíiva uma degradação apre- 
ciável de intensidade , de^de o limbo da lua ate o seu limite 
viziveL Esta degradação era rápida a partir de certa dis- 
tancia do iitnbo do astro , e mais lenta depois. 

Os limites da expansão da e4}rfta eram muito mal deílnidos. 
Em sua totalidade ella formava uma imm circular , cuja lar- 
gura, a partir do liuibo da lua, tomava 28 divisfics do óculo 
de Mr. Uais, dividido em ;)tT J>. Do lado de lèsle notou este 
observador que ella se estendia de i a 5 minutos mais longe 
no prolongamento de um feixe de raios paral>olícos que etk* 




ám 



wm 



436 REMSTA BRAZILEIRA. 

ootoa alU. A olho nú a lua parecia orlada de um filete del- 
gado de luz amarella e pallida . cingíndo-a como mn annel 
em tomo delia ; porém esta apparencia annuUar não passava 
da pon^o mais luminosa da coroa vista no óculo. 

Sobre o fundo luminoso appareciam grupos de rsãos , que 
terminavam antes de chegar ao limite desse fundo. O fundo 
não era uniforme . e parecia . segundo notaram os Srs. Bap- 
tista de Oliveira e Liais . ser formado de uma combinação 
de raios de todas as naturezas , apresentando um pontuado 
variável e scintillante como o da superfície do sol , sem que 
:?e percebesse comtudo snbre esse fundo algum intervallo tão 
sombrio como o parecia a superfície da lua. 

O Sr. Azambuja notou em torno da lua 5 grandes grupos 
de raios formando cones com as bases apoiadas sobre a lua- 
Destes 5 grupos appareciam 2 na parte superior do astro, 
um à direita e oulro â esquerda da vertical ; e 2 outros na 
parte inferior, iirualmenle á direila e à est^uerda da vertical, 
e o iiuinto *^rupi> ti* ava â lésle da lua e partia da extremidade 
doiliamelro liorizoiílal. Todos esles grupos terminavam muito 
antes de allingirem o limite exterior do fundo luminoso. Mr. 
Liais notou a mesma disposii^ão iius raios cónicos, e mediu- 
Ihes o comprimento iK>r meio do seu óculo dividido. Elles 
occupavain il divi>oes deste ocul»>. o que lhes dava 13' de, 
comprimento. Segundo Mr. Liais, o raio de leste, sobre o 
qual elle concentrou especialmente a sua altenrao , não for- 
mava coiuo os outn»s um cone imrmal â lua , porém era 
inclhiado e encurvado, tendo a ponta dirigida para cima. 
Em sua base elle cruzava o grupo inferior de leste , e era 
elle mesmo atravessado pt^r um grupo de raios parallelos, 
e ambos projectados sobre um largo grupo iiarabolico de 
raios fracos . que partiam do diâmetro horizontal da lua para 
leste. 

O Sr. Mello , cuja luneta não abrangia o contorno inteiro 
da lua, fez percorrer ao seu instrumento todo o limbo do 



ECLIPSE DO SOL- 



437 



astro, e notou somente 4 grupos de raios cónicos , mas tendo 
um delles duas pontas ; o que parece corresponder ao grupo 
cónico visto por Mn Liais na parte inferior a leste da lua ; 
e que era cruzado pelo 5" grupo inclinado e encurvado , o 
que lhe dava com eíTeito o aspecto de um grupo cónico de 
duas ponlas. Segundo os Srs. Liais e Azambuja, os lados 
destes grupos cnnieos eram curvos c con^exos , o que também 
se achava no desenho do Sr. Melk» r respeito do grupo 
duplo. 

O Sr. Baptisla de Oliveira viu igualmente 5 grupos de raios 
cónicos, e elle notou especialmente que a posição relativa 
desses raios nSo variou em Ioda a duração do phenomeno, 
sendo esta circumstancia confirmada pelos outros observa- 
dores, 

Na [íarte inferior da lua a oeste, um pouco acima do raio 
cónico collocado deste lado , e perto da sua base , partia 
am feixe de raios parallelos normal ao limbo do astro. Este 
feixe visto a olho níi parecia como uni raio largo , mais 
brilhante do ijue todos os outros , e visto no óculo ainda se 
tornava muito notável , parecendo porèrn composto de raios 
tentiissimos. 

Além destes grupos principados notavam-se muitos outros 
raios mais curtos e normaes ao limbo da lua. 

O Sr Baptista do Oliveira notou que a luz nebulosa do 
fundo da con^m era mais brilhante em alguns logares do 
que em outros, formando como espeeaes de nuvens brancas: 
e Mr. Liais notou p^ira a ilireita e assas longe do limbo do 
astro uma destas nuven^^ oii mancluis brarícas , formada por 
uma reunião de raios mistin^a^los e pouco distinctos. 

Na ilha dos Pinheiros os Srs. Brito e Araújo notaram 8 
feixes de raios , sendo 5 os priticipaes. 

Estes feixes apresentavam igualmente a forma cónica de 
lados convexos, correspondendo assim aos 5 feixes cénicos 
observados na estação central Dous destes feixes eram re- 



I 



138 



HEVIfTA BlUZILEtRA. 



uDídOâ nas basais oqye eorre8|>onde ao cooe duplo tiatadú' 
pelo Sr. Mello, 

Sobre o deseiilio do Sr. Araújo nota-se utti grande km 
corresiíoiideiido áquelle de raios paralklos acima meneio* 
nado. 

Em suinina, a disposição geral da corAa íiestis duas^ 
ç5€S parece ler sido idenliea. 

Os observadores da ilba dos Pinheiros fallâiii ainda de ' 
drculo alvacento «lue rodeava a lua e do qual partiam 
raios; comtndo este circulo mo está claramente limitado 
sobre o desenho , e tudo induz a crer qoe só m trata aqui 
da parte mais luminosa da coroa, que na estaçlio central 
apresentava a olho nú o aspeclo de urn tilete dourado, e no 
óculo uma degradagíio continua de intensidade, c rouílo 
fipida a partir de certa distancia da tua, o que sem dotida 
fez julgar â primíMra vista que era um anneL 

Nos Pinheiros, como na estarão cenlraK uma unillidão de 
peqiienos raios luminosos emanavam em todos os sentidos, 
normalmente do limbo da lua para o exterior da regiSo 
mais brilhante da corAa, estendendo-se de 1 a 2 minutos. 
■ Na estação r entrai foi claramente notado que uma part« 
dos grandes raios partiam do limbo mesmo da lua. 

Na Campina o pbenomeno foi tão instantâneo a a atmos* 
pbera tSo pouco favorável , que a coroa nâo pAde sor des- 
criptâ. 

Passemos agora a um plienomeno inteiramente novo e 
muito notável , observado nos Piuliciros pelo Sr, Brito, ^ 
na estação central pelo Sr. Azambuja. Trata-se de um circulo 
corado apresentando as cores do iris, c que mdôaro a 
coroa. 

Segundo o Sr. Azambuja, este circulo eslava um puueo 
fora da corAa» íis côi*es **ram fracas e a vermelha estava 
para o exterior, tendo sido visto o phenomeno a olho no 
e mostrando-se pouco sensível no óculo. 




miíãmp. no sol. 



43« 



la npparencia fosse o i^hcnomeno meteorológico 
\ urttinario da corAa i|ne circuinda o sol e a lua , quando l^ves 
^^pores vesicutart^s estíio sohrepastíis , o estado do pureza 
^Êt céo na estação renlral apresenta diíficuldades a tal ex- 
^■ieavâu. Pod^ir-se-hia pelo eímlrariíi invocar em seu favor 
^B liola feita pelo Sr, Bi i lo, qoc uma nuvem estimada a 25** 
^bra oesl^ do sol tinha tiMnado as nicsína;^ cAres. Esta po- 
^Bção, admittindo nín liyeiro erro í^obre a avaliaõo da dis* 
í landa, correspondB com eITeilo á posição do parhelio ; porém 
^ADld*Be que a eorfla fi o halrt são devidos a nuvens de na- 
^^reza mniloi1Ífrerenle,n qtie i|nasi inmca existem ao mesmo 
I k-nipo: a coosidvraçao da ouvííiI corada visiu pelo Sr, Brito 
^ perde , poi^, todo o seu valor, para dar ao plieooníeno do 
^vÍSi*m torno da corAa solar uma raiisa metenrolof^iia. Talvex 
^«a admissível ijue a mnVd solar, visto a fraf(neza de sua 
^^nz, leutia ptulidi» dar loj^ar ao iiticnoíaeiío da rnn>a me- 

t*?oroÍaííÍ€H com cAres sensíveis , sfduotndo projectando-se 
t sobre o fundo luuVinoso da atToos[itiína : ò o fpie deixamos 
^^deciso; f lalvex mestrío se possa altrilmír n phenomeno 
^K diffracçâo dos raios solares tanííenriando o limlio da lua, 
^" Todos os observad<M'es noíaraoi quo a corna tinlia a cor 
l branca amarellada perlo dí) limbo da lua , e prateada mais 

ao longe , e o Sr. Coellio acliou que era amarella nos seus 

limites. 
A coroa no principio do phenomeno apresentava uma luz 
^nais intensa rio que no llm, e muito menos infensa para 
^■éste do que para oeste. 

^B O Sr. Mello estava preparado para no caso de apresentar 
^^ella nm annel beíu definido meLlil<i de um mesmo lado, no 
I principio e no fim do phenomeno , para saber sobre qual dos 

ttstros era centralisada : poréiíi o aspecto da coroa se oppôz 
esta indagação. 

Mr. Liais fez uma observação, a qual indica que a coroa 
a situada amis úa lua , e por consequência que ella 



440 REVISTA BRAZrLEIRA. 

pertencia à atraosphera do sol : sobre este ponto m i^xprime 
elle assim no seu relatório : 

I Sete a oiío segundos depois do principio da obscuridade 
tplal eu fixei minha altençâo do lado de leste sobre o feixe 
de rains tangentes (que era aquelle dos raios cónicos e cunhos 
que tinha a punia voltada para ciíiia , c tjue no punlo de 
partida laiigeni^iava a tua) , e minha allenção ficou dirigida 
por 15 a 20 segundos sobre c^sle feixe e sobre ama protu- 
berância branca, bordada de prelo, da qual clle parlia. Um 
dos raios do fei^e, í*in particular, locava a exlretnidade 
desta protuberância, e prolouyando-se alem, vinha eu- 
eontrar a lua em uma pequena distancia de â'' próxima- 
mente. Eu vi esUi distanGia desapparecer pouco a pouco . 
ficando comludo o raio Vno na extremidade da protuberância, 
e contrastando por sua claridade cotn a lionladura negra 
desta ullinia. 

- Vi successi vãmente a parle brilhante da protuberância 
desapparecer atrás da lua, ficando um ponto negrp, que des^^ 
apparecen quasi 3 segundos depois, O ponto de i>artida sobre 
alua do rain mencionado se achava nesse iustanli* exacta- 
menle no togar onde esse ponto negro, que se assemelhava 
á pro]ecçao de uma montanlia lunar, desappareceu, » 

Mr. Liais obs<*rvou a condia em seu óculo, sobrcimndo uma 
lurmalinaa ocular, e uotoiíeutâo um enfraquecimeuLo geral 
dos raios e do fundo da coroa, no sentido du eixo da lur- 
malina. Este entiaquecinienlo era pouco pronunciado» porém 
sensiveL Fazendo gyrar a turmalina, este enfraquecimento 
no sentido do iA\n ím notado lodo íi roda do sol , e parecia 
ler igualmente lugar para os raios de loiiíis as naturezas. 
A região da lua não parecia pelo contrario mudar de inlen» 
sidade, o ({ue prova que nao havia polarisavíio almospiierica 
bem apreciável íiesla direcção. O mesmo observador lançou 
depois a olho nú e coui o polariscopio de Savarl um olhar 
rápido sobre a atmosphera na região da lua, Elle notou ab 



ECLIPSE DO SOL. 



441 



guns traços de bandas sobi*e a coroa e nada de aprecíavei 
nos arredores. As bandas eram mnito fracas sobre a coroa, 
e a soa coloração nao era sensiveL 

Nas extremidades du caiiqm do polariscopio começava a 
polarisaçãú aitiK^sphcjiía , \mrèm o sculido não foi deter- 
minado abaixo e acima da lua , attenta a fraqueza da Inz, 
I e esta observação lumaria muito tempo , resultando ilo qua 
precede que a corôa é pularisada, porèrn fracamente. 

Duas observaçMOy foram feilas í^olire a itUernitlade da luz 
da ixiròa: a t* polo Sr. \/.aiiibuja, o tjijal nolou que a corOa 
, não jjroduzia sombras dus cíupos: e a â» [>or Mr. Liais, 
I que em|U't?gou uni pliolometnt ipie imagiiiára para este flm, 
' e que st* romi^unlia di^ uui pequeno óculo rle campo eslreitu 
^^rectangular, collocado snbreo rnesiuo pé dos outros óculos 
Hb mesmo observador» e paraltelo a estes, di^ maneira que 
alie eslava jà apontada para a tua no principio da obser- 

htção. A imaj.'em desse i^ampo i*ra dupliratla [jnr um prisma 
refransíoule, e uma turnialina ííyra\a diauíe deste prisuia. 
^^0 ol>servador couíluziu nqiidauienli^ a lurmalina a uma 
^BSiçâo tal , ipie ita fenda da esipierda a porção desta fenda 
^■le SC piojectava sobn^ a corna Ibe píueceu ila mesma in- 
tensidade ipuí a porcfuí da oulia ima^^eui ila friula, na qual 
se projectava o centro ih lua. Klle deixou depois a turmaiina 
nesta situação, ailiaiMio a ieiiiua paia flepois da vulla do 
sol, e (lassou a outras observações. Aí» depois, quando foi 
I examuiada a posição dada a inrmaiina, elle reconlieceu que 
n seu eivo fazia um anpfiilo de â'' 15' com a secção prin- 

Hipal do [krisma lúrerraugente, 
l A relação da intensidade da luz atmospberica na região 
aa lua. somniíitla com a luz cinzenta, laraa Inz dacoròa 
èpois igual á langeuto d^:; iá"' 15" ou a 0,039, lím outros 
^^rmos , a corOa e aqui se traia da região mais brilbante 
Plbrau melo da totalidade, enao da parte a mais intensa, 
isto é, para leste da lua no priuciiuo do phenojueno, e 




442 



RETISTA BRAZILEIRA- 



I 



< 



pam oestf? no fiin) é qua.^i 35 Testes mais luminosa do qns 
a atmosphera na região da lua . âommaíla com a \m cm- 
zenta* Ora, a iutenâidaJe da luz at rnospheriea sendo medida 
pela visibilidade das estrellas, isso completa a mi^dída ptio- 
tometrica arima. 

Tinham-sfí feito preparativo; para photographar a coroa, 
mas no momento fim que se ia tentar a experiência , e 
ípiando, sngundo o calculo . ainda deviam decorrer 42 se- 
gundos de obscuridade, o sol appareceu, e logo uma viva 
luz eaclieu os catnpos dos óculos, e a coroa deixou de ser j 
visivel para lodos os observadores. Porèra , tomando a pre- ■ 
câuçfvo de afiislar o crescente solar do campo do óculo , aioda 
Mr, Liais avis^lou a coroa por Í8 a 20 segundos depois do 
appareeimcnlo do sol. 

No principio do plienoineno a coroa foi visla por Mr, Liars 
projectada sobre o vidro baço, no íóco de uma objectiva de 
3 polegadas e de %iM melfos de distancia focal O olho 
estava entíio na obscuridade, e nenhuma loz estranba cabia 
sobre o vidro , em consequência das disposições tomadas j 
no ÍDstrumenlo. ■ 

Nenlium pfienomeno concernente á coroa foi visto no Riu 
de Janeiro. 

PHOTCBEÍUNCUS. 

Durante a obscuridade total muitas protuberâncias se 
Iraram sobre o contorno da lua, mas nenhum dosobsí^rva- 
dores notou cM vermelha nesse phenomeno. 

Essas protuberâncias eram umas brancas e outras leve- 
mente rosadas, O Sr. Coelho, que sò fixou a sua atlençãu 
sobre as três do limbo de oeste , foi o único que tíii a ròr 
maia avermelhada. 

O numero das protuberâncias variou na duraçSo do phe- 
nome no. Assim que o sol desappareceu mostraram-se H deRas 




KCUFSE DO SOL. 



4W 



P 

b 

■lari 

1 

¥ 

I 

k: 



>bre o limbo do léslB do astro. Segundo Mr* Liais," qne tinha 
in um dos seus óculos o campo rodeado de cortes para ava- 
ação dos ângulos, a 1* estava a 45*' proximamentô do 
ponto iiiíerior do sol, a 2* a 105^ e a S"* a 135^. Estas 3 protu- 
berâncias eram muito baixas, e mais largas do que altas, prin- 
cipalmcnte a 1'. Elias eram de um braíico vivo, sendo a l*e 
* bordadas de preto, A oeste duas protuberâncias se no- 
am, a maior delias situada a ti O*, e a 2* a 17í> do 
poíitn inferior. Estas doas protuberâncias eram brancasi, 
levemente rosadas, A I» via-se a olho mi como um ponto 
lirilliante e rosado, e foi a única das protuberâncias que assim 
se pôde ver. No ocuto ella se compunha de uma ponta conicaf 
de larga base, de lados arredondados, com uma pequena sa- 
liência junto á base e situada aciraa, Mr. Liais notou que 7 a 
8 segundos depois do principio da obscuridade total ella 
occupava os 8 décimos de uma divisão do seu óculo dividido, 
o que lhe daria enlao 58" de altura. Segundo o Sr. Coelho, 
2* protuberância tinha a forma de um rectângulo alonga- 
do c inclinado salire o limbo da lua. No meio do phenomeno 
as protutjerancias de leste haviam desapparecído: a parte clara 
das protulíeraucias bordadas de negro, tendo desappareddo 
atrás da lua, antcâ da extremidade negra da bordadura, flca- 
rara ainda estas, e a da l* ainda durou 3 segundos depois 
da parte clara, pareceu do-se durante esses instantes com a 
projecçrio de uuia montanha lunar. No mesmo tempo uma 
3' protuberância appareceu para oeste, proximamente a 60" 
do ponto interior do sol ; ella era pouco rosada como as duas 
outras do mesmo lado, e de pequena altura. Segundo o Sn Coe- 
lho, cila se compunha de uni pequeno rectângulo inclina- 
do para baixo, e sobre este uma saliência cónica de lados den- 
tados. No fim da obscuridade total, Mr. Liais mediu de novô 
a protuberância a mais elevada, que já tinha medido, e notou 
qae ella tomava pouco mais de uma divisão do seu óculo, o que 
lhe dava dei' ir a IMS". 

30 




444 REVISTA BRAZILEIRA. 

Esta protuberância, que no principio do phenomeno só 
tinha 2 saliências, apresentava agora 3, e a 1^, que entSo 
apenas apontava, enchia já os dous décimos de .uma dívisSo 
do óculo, ou 14 a 15". 

Apenas se completava esta medida, quando o sol, annun- 
ciado pelo augmento de brilho desse lado da coroa, se mos- 
trou, e as protuberâncias desappareceram, sem que fosse 
possível avistal-as, nem mesmo desviando o disc-o do sol 
do campo do óculo, porque ellas sahiram também. 

O Sr, Mello e o Sr. Nunes notaram na grande protuberân- 
cia, além das três proeminências principaes, muitas outras 
mais pequenas, que alongavam esta protuberância para 
cima. 

Para leste o Sr. Mello só notou uma protuberância, a 
segunda, que era mais elevada desse lado ; isto provém de ter 
esta proeminência desapparecido depois das outras, e de ser 
já a única vizivel quando elle dirigiu o seu óculo para essa 
direcção. 

O Sr. Coelho só nolou as protuberância de oeste, pois 
que a sua aUenção pouco se dirigiu para o lado opposto. 

Na estarão dos IMnhoiros nenhuma protuberância foi 
notada ; talvez por lerem apparecido brancas, e não verme- 
lhas, como se esperava que ellas se mostrassem, fazendo 
parte da coroa. 

Na eslaeão da Campina viu-se para oesle, e na parle supe- 
rior da lua, uma serie de prolubcrancias, occupando toda a 
região situada entre as duas vistas desse lado na estação 
central. Essas proluborancias diz o Sr. (ialvão que pareciam 
chumbo fundido e ciu oscillação ; ellas foram vistas através 
de um vidro vermelho, e o desenho dos Srs. Baraúna e 
Galvão aprcsenl.iva uma linha dentada e com as proeminên- 
cias mais elevadas na direcção da grande protuberância vista 
na estação central. Este phenomeno, tendo sido instantâneo, 
não deu tempo a tirar-se o vidro vermelho. 



ECLIPSE DO SOt- 



445 



Na estação central >Ir, Liais duplicou com um prisma bire- 
frangente â imagem das protuberâncias, sem notar alguma 
differenva de inlensidade entre as duas imagens. O mesmo 
observador notou igualmente a imagem das protuberâncias 
projectada sobre o vidro baço. 

Quasi lodos os observadores notaram no principio da obscu- 
ridade total , do lado em que o sol li o ha desapparecido , e no 
fim, do lado onde iaapparecer de novo, uma linha branca 
muilo eslreila e brilhante, bordando o limbo da lua, eque 
teve a duração de 1 a 3 segundos, e era ondulada sobre o 
limbo. 

Nos Pinheiros, segundo o Sr Brito, viu-se, antes da obscu- 
ridade total e antes que a coroa se formasse » a lua rodeada de 
uma zona muilo estreita Ci'ir de mercúrio e ondulada. Este 
phenorneno foi instantâneo, e immcdíatamcnte depois a coroa 
appareceu- Na eslaçfio central o Sr, Azambuja viu igualmente 
uma franja de íogo instantaneamente em torno da lua. Sem 
duvida taes apparencias se podem altribuir ao deslumbra- 
mento, que ao primeiro momento só deixou ver a parte mais 
brilhante da coroa. 

Segundo Mr. Liais, no principio do eclipse total o arco 
branco era limitado nas duas proeminências extremas do lado 
de leste, e no fim elle excedia um pouco as proeminências 
extremas do lado de oeste. O Sn Coelho notou um arco bran- 
co amarellado com uma teve bordadura vermelha » por fura 
desta uma outra de azul muilo fraco , occupando no principio 
da totalidade o limbo leste do sol , e mestno a parlo superior e 
inferior desse limbo, onde a linha vermellia a oUe se appro:ci- 
mava; o seu óculo era achromalico e visava por vidros azues. 
Na véspera do eclipse o mào eslado da atrnosphera não 
permittira observar as manchas do soL 

No dia seguinte do phenorneno uma nova manclm appare- 
ceu sobre o limbo do sol, muito perto da 3' protuberância de 
leste, mas nao se viu mancha alguma correspondendo ás ou- 




■fi&H^ 



^k-dí^toiAtfKlfi 



446 REVISTA BRAZILEIRA. 

Iras protuberâncias do mesmo lado ; igualmente não se achou 
alguma facula correspondendo ás posições das protuberâncias. 

No dia 9 outras manchas appareceram sobre o mesmo limbo 
do sol , mas não parece possível que ellas podessem correspon- 
der ás posições das protuberâncias. 

Antes do eclipse as manchas solares foram desenhadas no 
palácio imperial de S. Christovão , sendo o ultimo desenho de 
4 de Setembro. Alli se via a grande mancha em losango , que 
tinha mudado um pouco de forma , e era vizivel a olho nú no 
dia do eclipse ; porém não se encontram nesse desenho três 
manchas ou três grupos de manchas que podessem attingir o 
limbo Occidental do sol no dia 7 de Setembro em posições 
correspondentes ás três proeminências vistas sobre o limbo; e 
somente um dos grupos alli se conservou nos dias seguintes : 
teria talvez correspondido á posição da grande protuberância. 

INFLUENCIA DO ECUPSE SOBRE OS HOMENS E OS ANLMAES. 

Com quanto a impressão produzida pelos eclipses sobre os 
homens e os animaes não seja do domínio da astronomia , a 
commissão , coníorniando-se com o uso seguido pelos obser- 
vadores de eclipses anteriores , reuniu os fados seguintes , 
que chegaram ao seu conhecimento : 

As colorações singulares do cèo e dos objectos davam ao 
phenomeno um aspecto medonho para as pessoas que não 
estavam instruídas da existência do phenomeno, ou que não 
comprehendiam a sua causa. 

Não é pois de admirar que na Campina, além das mon- 
tanhas, os observadores notassem ura grande susto em muitos 
dos habitantes. Em Paranaguá mesmo algumas pessoas , ainda 
que prevenidas , ficaram sorprezas ; porém a maior parte da 
população experimentou mui differente impressão, partilhada 
também pelos astrónomos da expedição , que foi a da admira- 



KCUPSE DO SOL, 



447 



ção da f nagnificencia do espectáculo qiie se manifestava a seus 
olhos- 

\a estação central de faranagiiá liouve um grande silencie* 
no momento da obscuridade total; mas, desde que o sol reap- 
pareceu , os pássaros no bosque vizinho , íis cigarras c vários 
orlhopteros tornaram a começar o seu ruído em torno de m$. 

A bordo do vapor Pedro !! notou-se íiiie as i^allinhas, que 
tinham sido soltas , correram apressadas para a cíi poeira , e as 
jaivolaá, íjue esvoaçavam em tornu do navio se reuniram, em 

ipos, pousadas na supcríi cie do mar até a volta da clari- 
dade, em quanto que nos Pinheiros uni cão que tinham atado 
perto dos observadores não manifestou inqiuctaçíio alguma. 

Na Campina no!ou-se que os bois, os cavalloii e outros 
ijuadrupedes con ia(n espantados pelo campa , e que as aves 
de terreiro se recolheram apressadamente para onde costuma- 
vam dormir. Os pássaros silvestres voavam assustados por 
cima dos observadores, procurando um abrigo. 

No palácio imperial de S, Christovao * onde o eclipse ape- 
nas foi parcial , viu-se passarem os urubus para o lado onde 
coslnmam ir pernoitar; os pássaros de gaiola diminuiram o 
seu canto, e cpiasi que emmudecemm , e um cãozinho escon- 
deu-sc debaixo de uma cadeira, como para dormir. A's H"" 
53"* ainda se viam voar os urubus como que aturdidos, 

OBSERVAÇÕES PHOTOGRAPinCAS, 



Foram exlrahidas 15 photographiíis do sol cm Paranaguá , 
por Mr, Liais, em quanto o ecUpse era parcial, 
Foraai ellas obtidas nas horas seguintes: 



V 


9" 


42- 


õ*,6 alguns mimitos depois do [irincipio do 


2- 


iO 


r> 


56, 4 eclipse, quando o snl se mostrou em 


3* 


10 


8 


1 7, 9 um claro. 


i* 


10 


lu 


59,6 


5* 


10 


11 


36. « 



448 REVISTA BRAZILEIRA. 



6" 


10 


39 


23,3 


7" 


10 


40 


2.3 


8' 


10 


44 


17,8 


9* 


10 


59 


16,2 


10» 


11 


6 


23.0 


41« 


11 


11 


56,5 


12» 


11 


15 


19,0 


13« 


11 


15 


54,1 


14« 


11 


56 


58,2 


<5» 


11 


58 


35,7 



58, â / Desejava-se esperar ainda para empregar eitcs doas ri- 
^^ „\ dros, que eram os ullimos preparados ; mis o receio das 
o O, J \ nuvens fez apressar a exiracçâo. 

Immediatamente depois do eclipse tratou-se de fazer appa- 
recer no acido gallico estas provas, obtidas sobre o vidro 
sêcco, coUodionado e albuminado. Doze tfentre ellas, as de 
n. 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 10, 12, 13 e 14 sahiram perfeitas; a 
prova n. 9 nao appareccu, as de ns. 1 1 e 15 appareceram im- 
perfeitas por ter havido algum abalo no instrumento, apezar 
das precauções tomadas em contrario, quando se fez passar o 
obturador de corrediça, onde havia uma fenda para a entrada 
da luz. 

Todas as provas foram obtidas directamente no foco do 
óculo de 3 polegadas, c de 2,18t metros de foco, disposto 
especialmente para este fim. 

Não se fez augmentar a iraa;xem por uma ocular por cansa 
das alterações que assim se produzem na forma da imagem 
e na distribuição da luz. 

A dilTiculdade de sujeitar o instrumento em um terreno 
arenoso nao permittiu a Mr. Liais empregar uma maior dis- 
tancia focal de outra objectiva, da qual estava munido para 
esse fim. 

As provas obtidas apresentam um phenomeno singular. 
Todas aquellas onde o crescente solar c muito pequeno, e 
onde por consequência as pontas deviam ser muito afiladas, 
como apparcciam no óculo, apresentavam pontas um pouco 



ECUPSE no SOL, 



449 



arredondadas, como sa existisse quer am foco chimico, quer 
ama espécie de irradiação pholographica. 

Uma única prova, a de n. 8, faz excepção, porque apre- 
sentou as pontas perfeitamente agudas; o que mostra que 
o phenomeno visto nas outras nâa provinha de um foco 
chimico, porque a mesma distancia focal foi sempre empre- 
gada. Talvez SC possa attribuir este effeito ao aquecimento 
do tufjo do ocalo, o que rnodillca a reíracção do ar interior, e 
sobre o qoe Mr. Faye chamou por muitas vezes a altençio. 

Pòde-se afflnuar comtudo que sobre o vidro baço as ima- 
gens appareceram sempre perfcila^. 

Resulta da discussão dos ângulos de posição da linhadas 
pontas, e do diâmetro norte sul do sol, que a estação de Para- 
naguá estava bem sobre a liulia central do eclipse, E' com 
efTcito evidente que o centro da lua se movia proxima- 
mente em linha recla sobre o soL pois que o aii^^ndo da 
linha das pontas com a linha norte sul du sol nfiu variava, o 
que âò aconteceria se o centro da lua descrevesse um diâ- 
metro do sol ; entretanto que, se percorresse uma corda, have- 
ria grande variarão mesmo para uuia mui fracii excentrici- 
dade, na vizinhança do meio dn eclipse. 

Existe comtudo uma pequena variação do angulo de 
posição no caso de eclipse central, porque o movimento appa- 
rente da lua sobre o sol não é inteiramente em linha recta^ 
porém a curvatura ê mui pequena, e pode ser calculada por 
meio das taboas. 

Ora, acha-se assim que em 7 de Setembro, em nossa esta- 
ç5o, snpposta sobre a linlia central, o angulo da linhadas 
pontas não devia variar entre os instantes das pruvas ns. 8 e 
10, as mais próximas do eclipse cenlral, antes e depois. 

Acha-se, demais, que o angulo da linha dos centros ( que e 
perpendicular á linha das pontaí^) com o diâmetro norte sul 
do sol. (jue era de 48^, segundo o calculo no principio do 
eclipse, devia diminuir até um pouco depois do meio, onde se 



450 REVISTA BRAZILEIRA, 

reduziria a 43<^, para angmentar depois até o fim do phenome^ 
no, onde devia ser de 44^ 

Ora, as doze photograpbias do sol dão os ângulos se- 
guintes: 

s provas. 

50' 

27 

O 

^^ I Média 44o q'. EsUs diua pro?» fortm extrahidis 
j R I com alguns segundos de intenrallo. 

^0 I Média 42° 40'. Estas duas provas Umbem foram 
2Q i extrahidas com alguns segundos de ínterrallo. 

36 

O 
45 
23 

O 

A incerteza sobre estes ângulos é de alguns minutos, e não 
chega a ^^ devido isso a pequenas flexões que certamente 
soffreu o instrumento quando, no momento de photographar, 
era elle sujeitado fortemente com escoras fixas perto do caixi" 
lho e apoiadas sobre a terra ; estas precauções eram indis- 
pensáveis para que o movimento do obturador de corrediça 
não imprimisse alguma oscillação ao instrumento. 

Vê-se comtudo no mappa acima que o angulo da linha das 
pontas e do diâmetro norte sul do sol apresentou uma leve 
diminuição, bastante regular, desde o principio até o meio do 
phenomeno, para crescer depois, c que entre as provas ns. 8 
e 10 apenas houve uma differençade alguns minutos, entre- 
tanto que, para uma bem pequena excentricidade, teriam 
havido muitos gráos. 

Attendendo mesmo ao máximo erro possível sobre os 
ângulos, não se pôde admittir que a differença entre os angu- 



Num. das 


provas. 


^ 


45" 


2 


45 


3 


45 


4 


43 


5 


44 


6 


42 


7 


43 


8 


42 


10 


43 


i2 


43 


13 


44 


14 


42 



ECLIPSE DO SOL. 451 

los das provas ns. 8 e 10 tenha notavelmente excedido 1*; 
ora, na prova n. 10 a distancia dos centros era de 125" pro- 
ximamente, e na prova n. 8, de 358". 

Vê-se, pois, que a maior distancia angular dos centros, que 
se pôde suppôr que tivemos na nossa estaçSo, não excede- 
rá i",5. Ora, esta excentricidade só teria diminuido de 0,'7 
a duração do eclipse : logo, a grande differença de duração 
do eclipse total, entre o calculo de Mr. Carrington e a obser- 
vação, só pôde provir de um erro sobre os diâmetros dos 
astros. 

Esta conclusão é confirmada pelas medidas dos diâ- 
metros dos astros, deduzidas das medidas das cordas, e das 
flexas feitas sobre a prova n. 8, onde não ha traços sensí- 
veis de irradiação ou de foco chimico. A irradiação, que 
augmenlava o diâmetro do sol e diminuía o da lua de uma 
mesma quantidade, foi por outro modo calculada, compa- 
rando-se a differença dos dous diâmetros dados, um pela 
photographia, e outro pela duração da obscuridade total; ao 
depois attendeu-se a esta irradiação, e foi assim que se che- 
gou ao resultado que se acaba de expor. 

Para poder transformar em ângulos as medidas lunares 
feitas sobre as chapas pholographicas, tiraram-se em 9 de 
Setembro duas imagens do sol sobre o mesmo vidro duas vezes 
c a intervallos dados. 



MEDIDAS DAS DISTANCIAS DAS PONTAS DO CRESCENTE SOLAR. 

Além das photographias do sol tomadas em diversos ins- 
tantes do eclipse, e que deram as medidas das distancias das 
pontas, o Sr. Pinheiro de Vasconcellos observou com o 
sextante as distancias seguintes na estação central de 
Paranaguá : 



452 



REVISTA BRAZILEIRA. 



Horas do logar. Distancias das pontas. 



V serie. ^,10 

fio 

VlO 



10" 10- 59',8 
10 11 56,8 

12 39.8 

13 46,8 

14 42,8 



2* serie. 



10 33 2,8 

|10 36 0.8 

|10 37 6,8 

iO 37 43,8 



(10 44 21,8 

3" serie. J 10 45 22, 8 

(lO 46 25,8 

111 16 31.8 

i* serie, hl n 27,8 

(li 18 11,8 

111 45 32,8 

5» serie. Ui 47 11,8 

(H 47 57,8 



O» 27 40" 

O 28 40 

O 27 O 

O 27 50 

O 26 20 

O 32 O 

O 32 10 

O 31 40 

O 31 O 

O 32 20 

O 32 30 

O 32 20 

O 33 30 

O 32 40 

O 33 20 

O 30 O 

O 29 10 

O 28 O 



O mesmo observador mediu ainda as distancias seguintes 
dos limbos da lua a Venus: 



Horas do logar. 

10" 45°- 54',8 

10 56 54,8 

11 3 37,8 
11 4 41,8 



Distancias ao limbo pró- 
ximo dá lua. 
44» 34' 50" 

44 33 O 

Distanc. ao limb. remoí. 

45 1 10 
45 58 20 





ECUPSE no SOL. 










6 5.8 


45 


1 


10 




6 51.8 


45 


4 


20 




7 49,8 


45 


2 


30 




9 3.8 


45 


1 


50 




10 48,8 


45 


3 


40 



453 



No observatório do Rio de Janeiro, e pouco antes da maior 
phase, tomou-se a distancia das pontas do crescente solar. 
A's ^&' 54- 40* Distancia O* 20' 33" 

OBSERVAÇÕES METEOROLÓGICAS. 

Em Paranaguá, na manhãa do eclipse, ventava O. perto 
da superflcie da terra, e as nuvens impellidas nessa direcção 
iam parar nas montanhas. A partir do principio do eclipse 
diminuiu a intensidade do vento, e o Sr. Azambuja no- 
tou a bordo do vapor Pedro II que o vento se acalmou 
totalmente no momento em que principiou o eclipse total. 
Immediatamentc depois do apparecimeiito do sol apontou, 
diz o mesmo observador, um vento fraco da parte de E., 
que pouco a pouco se tornou regular, e impelliu as nu- 
vens, que se achavam formando uma camada inferior. 

Em 7 de Setembro de madrugada choveu abundante- 
mente ; porém ao nascer do sol cessou a chuva , e o ar clareou 
um pouco , ficando o céo sempre coberto de pequenas 
nuvens. A's T 25™ uma destas nuvens deu chuva, depois 
do que o sol apparecia por cima de um grosso de nuvens 
que corriam deE. para N., e formou-se um arco-iris : a 
chuva durou 5 minutos. A's T 35™ o sol se encobriu de 
novo , e só foi apparecendo por intervallos. A's 9*" havia 
numerosos claros , as nuvens eram stratus , e pertenciam a 
camadas distinctas. 

As nuvens occul taram o primeiro contacto. A's 9*" 40™ 53* 
o sol tomou-se perfeitamente vizivel , e começou a enco- 
brir-se de nuvens 30' depois. A's IO** 5™ sobreveio do oeste 



454 REVISTA BRAZILEIRA. 

uma nuvem que deu alguma chuva, e logo depois o sol 
se tomou vizivel e brilhante por lodo o tempo que durou 
o eclipse. A's 10** 40"* os 0,6 do céo , proximamente, estavam 
descobertos, nenhum traço decirrusse via, as nuvens for- 
mavam strato-cumulus , e só se distinguia uma camada. 

Â's li** 55*" algumas delias impellidas pelo vento de este 
ameaçavam invadir o sol, porém dissiparam -se antes de o 
attingir. A serenidade do céo não passava de 0,4. 

A l'' as nuvens tornaram a cobrir o sol, formando claros 
durante a tarde. 

A' noite as nuvens se dissiparam pouco depois do occaso 
do sol , e o céo conservou-se durante a primeira metade da 
noite de uma admirável limpidez. A luz zodiacal era muito 
notável. 

Antes do eclipse , e durante o principio do phenomeno , 
Mr. Liais observou o barómetro, o thermometro funda e 
o psychrometro funda; e achou: 

Bar. aO^ Th.cení. Temão do vapor. Humidade. 

mm mm 

A's. 9' 0^..755,21 16^0 11,20 0,78 

9 30....755,09 17,8 12,00 0.79 

10 0....756,05 

O Sr. Martins continuou estas observações com os mesmos 
instrumentos, e achou: 

Bar. a O*. Th. cent. Tensão do Humidade. 

vapor. 



A'sl0''15"'.. 


..756,04 


17»,25 


13,15 


0,90 


10 30.... 


..756,46 


18,00 


11,59 


0,76 


10 45.... 


..754,93 


18,50 


10,57 


0,67 


11 0.... 


..754,36 


17,00 


11,59 


0,76 


11 15.... 


..754,30 


17,00 


14,42 


1.00 







ECLIPSE DO 


SOL. 


455 


11 30.. 


..754,79 


15,50 


12,25 


0,99 


11 45.. 


..754,61 


16,25 


11,99 


0,98 


0.. 


..754,32 


' 17,00 


10,76 


0,75 


015.. 


..753,98 


18,00 


10,17 


0,67- 


30.. 


..754,37 


18.25 


9,68 


0,62 



Estas observações indicam que o minimo da tempera- 
tura teve logar um pouco depois do eclipse , e que o 
abaixamento devido a esse phenomeno foi de quasi 3^. 

A humidade attingiu o máximo pouco depois do eclipse ; 
e este máximo, resultado provável da fus»o das nuvens, 
fez subir o barómetro, que descia no principio do phe- 
nomeno, mais rapidamente do que a variação diurna. 

O Sr. Senna Pereira, o pyrhelioraetro directo, e oacti- 
nometro de Pouillet ; elle achou : 

Pyrheliometro. Actinometro. 

A's . . 9'' 25'",27«,50 sombra. Constantem» dirigido para o sol. 

9 30... 26, 25 sol (nuvens). 

9 35... 23, 00 sombra. 

9 40.. .23, 50 sol(nimbus). 

9 45.. .21, 75 sombra (chuva). 

9 50... 21, 00 sol (chuva). 

9 55... 20, 75 sombra (nuvens). 
10 0...21, 00 sol (nuvens). Sa^OO 

10 5... 21, 75 sombra. 23,00 

10 10.. .23, 25 sol (nuvens). 23, 50 

10 15...23, 75 sombra. 32, 50 

10 20...24, 25 sol. 31, 00 

10 25... 23, 00 sombra. 29,50 

10 30...23, 50 sol (nuvens). 27, 00 

10 35... 22, 00 sombra (nuvens). 25, 50 

10 40... 22, 25 sol (nuvens). 26, 00 

10 45...22, 25 sombra. 26, 00 



456 REVISTA BRAZILEIRA. 

10 50 ..21, 00 sol (vapores). 23, 00 

10 55.. .20, 25 sombra. 21, 50 

11 0...19,00 sol. 19,00 
11 5... 18, 75 sombra. 17, 50 
1 1 1 0. .. 1 8, 50 sol (névoa). 1 7, 00 
11 15. ..18, 00 sombra. 17,75 
11 20.. .19, 00 sol. 20,00 
11 25... 19, 25 sombra. 22,75 
11 30... 21, 00 sol. 25,50 
11 35... 20, 75 sombra. 28,75 
11 40.. .23, 00 sol. 31,50 
11 45.. .22, 25 sombra. 33,75 
H 50... 25, 00 sol. 36,50 
11 55.. .24, 00 sombra. 39,50 

O O...27,0O sol. 42,00 

O 5... 25, 75 sombra. 43, 75 

O 10... 26, 75 sol. 41.45 

O 15. ..26, 00 sombra. 44,00 

O 20... 27, 50 sol. 41,50 

O 25... 26, 75 sombra. 40, 00 

O 30.. .28, 50 sol. 40,50 

Na Campina , um vento de este fraco reinava desde 
manhãa, e accumulava nuvens nas montanhas. Estas nuvens 
occuitaram o 1" contacto, formou-se depois um claro na 
occasião da totalidade, e na do ultimo contacto. 

Nos Pinheiros o céo eslava muito nublado , e as nuvens 
impediram a observação do ultimo contado. 

No imperial observatório do Rio Janeiro fizeram-se as 
seguintes observações meteorológicas: 



Tb. cent ■ •ontbii. 
b m 


Tb. eeiit. 10 ».>!. 


liai. de Fortín • 0. Dygr. 09 5au*wr* 
inm m 


Ás 10 ...19-.3 


27",9 


766,62 93 


10 5 ...19,4 


25,2 


766,50 93 





ECLIPSE DO SOL. 




i 


10 10...19,5 


25.6 


766,37 


93 


10 15..19,5 


28,1 


766,37 


94 


10 20...19,4 


26,5 


766,70 


94 


10 25...19,5 


25.1 


766,57 


93 


10 30...19,45 


26,5 


766,63 


94 


10 35...19,4 


24,0 


766,70 


94 


10 40...19,4 


23,6 


766,70 


94 


10 45...19,5 


23,6 


766,52 


94 


10 50...19,5 


23.4 


766,52 


94 


10 55...19.5 


22,2 


766,42 


94 


11 ...19.4 


21,9 


766,54 


94 


11 5 ...19,4 


21,3 


766,40 


94 


11 10...19,35 


20.9 


766,46 


94 


11 15...19,25 


20,6 


766,58 


94 


11 20„.19,15 


20.3 


766,66 


93 


M 25...19,1 


20,2 


766,27 


93 


11 30...19,1 


20,15 


766,27 


94 


11 35...19,0 


20,1 


766,39 


93 


11 40...19,1 


20,2 


•766,27 


93 


11 45...19,0 


20,4 


766,39 


93 


11 50...19,1 


20,6 


766,27 


93 


11 55...19,15 


20,9 


766,21 


93 


...19,1 


21.4 


766,27 


93 


5 ...19,1 


21,3 


766,27 


93 


10...19,1 


21,2 


766,27 


93 


15...19,1 


22,1 


766,27 


92 


20...19,2 


22,2 


766,14 


92 


25...19,25 


22,9 


766,08 


92 


30...19,3 


22,85 


765,92 


92 


35...19,3 


22,6 


766,02 


92 


40...19,35 


23,1 


765,96 


92 


45...19,35 


23,6 


766,06 


92 


50...19,5 


24,1 


765,87 


92 


55...19,6 


23,9 


765,90 


91 



457 



458 







REVISTA BBAZILEIHA. 




1 0.. 


..19,7 


24,4 


765,97 


92 


1 5.. 


..19,75 


26,6 


765,81 


91 


1 10.. 


..19,9 


24,1 


765,62 


91 


115.. 


..19,9 


24,1 


765,62 


91 


120.. 


..19,9 


23,9 


765,62 


92 



No principio destas observações o céo estava carregado 
de nímbus sobre o horizonte , alguns cirros e cumulus 
viam-se na direcção do phenomeno, o vento estava de N. O., 
e as nuvens seguiam lentamente para S.O. ás IO*" 10". 

A'3 IO** 30" o vento tornou-se N. E. muito fresco , e ás 
iOf" 36™ 30* começou a diminuir voltando para S. E. ; todo 
o horizonte estava nevoado, e carregado para o N. 

A's lO*^ Sõ"" ventava S. E. muito forte efrio, o que foi 
desembaraçando pouco a pouco o cèo dos cirrus e cumulus 
que se achavam dispersos sobre fundo liimpldo e azul. 

A's H' 4™ 38' continuava o vento S. E. forte : às H' 20"' 
o vento mudou para S. S. E. fresco, c tudo assim se conservou 
até i^ 25™ em que o céo se encheu de cumulus, e as nuvens 
corriam com grande velocidade impellidas pelo vento fortis- 
simo de S. S. E. 

No palácio imperial de S. Christovão o thermometro de 
Fahrenheit abaixou de 1** das W da manhaa até ás IV' 
15*", depois subiu ^^5 ás W 40". O hygrometro, que mar- 
cava 45 ás H'', indicava 46 ás li** 15". 

Em Pernambuco notou-se que a maior phase do eclipse 
fez abaixar o thermometro de Fahrenheit de 2%3. 



NOTA. 



COMETA 



O cometa que ainda se apresenta sobre o nosso horizonte 
apenas pôde ser observado em a noite de 23 de Outubro, 
em razão do estado desfavorável do céo. 

Determinei então pela observação, que se achava elle 
distante de («) do Triangulo Austral — 36^ 20'; de (a) da 
Águia — 25o 48^ 

A cauda, cuja luz era de intensidade uniforme em toda 
a sua extensão , apresentava a grandeza angular de— 4*» 30', 
no sentido do seu comprimento. 

Observatório do Rio de Janeiro, 5 de Novembro de 1858» 

O director, A. M. de MfxlOv