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Full text of "Revista do Instituto geographico e historico da Bahia ..."

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REVISTA 

DO 



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T|i$l0riío hn ^n\\n 

FUNDADO EM 1894, RECONHECIDO DE UTILIDADE PUBLICA 
PELA LEI N. 110 DE 13 DE AGOSTO DE 1895 

Máxima sunt (iocumeiíta equideni rcs tcniporis adi 
Id proísens, validusque in vcniens stimulus. 



ANNO VIII 



DEZEMBRO DE 1901 

VOL. VIII 



N 27 




Typ. Encadei-naçúo— Empreza Editora 

Rua Oons. Saraiva — n. 38 



1901 



24^954 



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REVISTA 



DO 





iico e 

DA BA.HIA 




Ànno YIII Dezembro de 1901 Num. 27 



O TUPI NA GEOGeÀPHIH NACIONAL 



C) 



I 



Não é novo, antes, pelo contrario muito frequen- 
temente debatido é o objecto do presente estudo. 
Sobra-lhe, poróm, interesse histórico, exalça-o nota- 
velmente o valor que assume na geographia naciona 
e, sobretudo, o recommenda a attençào sympa- 
thica que sempre logrou despertar no nosso meio 
litterario. 

Encarando-o agora por uma face nova, outro nâo 
é o nosso intuito, aliás despretencioso e modesto, 
que não o de methodisar, ou subm» tter a regras 
esse estudo linguistico que por ahi anda ao bel- 
prazer das phantasias de uns e ao desazo dos que 
menos familiarisados com a lingua dos primitivos 
iiabitadores desta terra a deturpam e desfeiam, 

(•) £xtr. da Memoria lida no Instituto Histórico e Geogra- 
phico de S. Paalo. pelo nosso illustrado consócio Dr. Theo- 
doro Sampaio. 

R. I 



vttrrbi>i'^do-lhe aos vocábulos sentido e significados 

'.\al>surdos ou procurando interpretar aquelles já 

'."•'adulterados ou assimilados pela dicçuo vulgar por 

processos extranhos ás leis gottologicas que regem 

a matéria. 

Não ha quem desconheça a predominância do 
tupi nas nossas denominações geographicas. As 
nossas montanhas, os nossos rios, as cidades como 
os simples povoados trazem geralmente nomes bár- 
baros que o gentio, dominador outr'ora, lhes ap- 
plicou, que os conquistadores respeitaram e que 
hoje são de todos preferidos, pois, não raro, se 
trocam, se substituem nomes portuguezes de antigas 
localidades por outros de procedência indígena, ás 
vezes lembrados ou compostos na ocçasião, ás vezes 
restaurados pelos amadores de coisas velhas e tra- 
dicionaes. 

Mas essas denominações geographicas, explicáveis 
e naluralissimas numa época em que o tupi era a 
lingua geral, uu a mais fallada no paiz, são agora 
para as modernas gerações verdadeiros enigmas 
que as alterações quotidianas ou as inevitáveis cor- 
ruptellas vão tornando indecifráveis. 

Portanto, preservar-lhes a graphia verdadeira, e 
a verdadeira pronuncia, fixar-lhes o significado, in- 
ter[)retado através do véo obscuro dos metaplasmas, 
vale tanto como resguardar um monumento histórico. 
Sim, porque si a geographia pôde passar intan- 
givel por um nome fossiiisado ou cru'^lmente adul- 
terado peln correr dos annos, com a Historia já não 
succederá o mesmo sem damno sensível para a 
perfeita comprehensão dos successos com que ella 
evoca as oras passadas 

Já ninguém desconhece o valor da phílología nos 
estudos históricos, a qual, como é sabido, explicou 



as migrações dos povos, anteriores a qualquer tra- 
dição oral ou escripta. 

Simples vocábulos, diz Cezar Canlú, revelam ou 
confirmam, ás vezes, uma circumstancia importante 
da Historia. 

CarlííS von Martius, na sua dissertação sobre 
a como se deve escrever a Historia do Brazil », con- 
sidera a língua dos iridios como documento mais 
geral e mais significativo, e accrescenta: 

o Pesquizas nesta actualmente tão pouco cultivada 
esphera não podem járnais ser suffioientemente re- 
commcndadas, e tanto mi)is que as linguas ameri- 
canas não cessam de achar-se í*ontinunmenle em 
uma SÓI ia fusão, do sorte que algumas delias em 
breve estarão inteiramente extinctas). (') 

Quando isso não bastasse; quem é que viajando 
a nossa terra se não tomará de curiosidade a mais 
justificada e não indagará pelo significado de tantos 
nomes bárbaros applicados aos logares, ás regiões 
que vae atravessando? 

Quem de nós não terá, por vezes, inquirido pelo 
significado de tantos nomos extranhos, cuja pronun- 
ciação já corre adulterada e cujo sentido já ninguém 
comprehendel? 

E são, todavia, vocábulos doces e sonoros, longos 
muitas vexes, excellentes em geral como designa- 
ção de lugares, mas que muito perdem do seu valor 
por se não saber o que exprimem, o que recordam, 
o que nos revelam do sentir e do génio do povo 
primitivo que nol-os legou. 

E como na America esta triste verdade se assi- 
gnalou tão breve? 



(•) Carlos von Martius— Revista do Instituto Histórico e 
Geographico Brasileiro, vol. (;<». paof. 389. 



No Brazil nem sequer a língua do gentio desappa- 
roceu totalmente. Nos seus vastíssimos sertões ainda 
vagam numerosos os representantes das nações sel- 
vagens que, ouir'ora, os possuíram. 

As vozes tupis se escutam ainda hoje nas margens 
do Amazonas, como nos campos do Paraguay e do 
Paraná. Mas, o esquecimento dessa língua, que os 
cultores de outr'ora acharam tão rica e tão bella, 
lavra intenso no seio da moderna e culta sociedade 
que lhe desconhece o valor e atira para o rói das 
coisas enigmáticas e incomprehensiveis os nomes 
com que designa as cidades opulentas em que ora 
vive e prospera. 

Comtudo, nesse diluvio de esquecimento, alguns 
espíritos de eleição se ergueram com os seus traba- 
lhos litteraríos, pondo em contribuição os thesouros 
de poesia e de inspiração que se encerram nos 
costumes e nas scenas pittorescas da vida selvagem. 
Gonçalves Dias, Domingos de Magalhães, José de 
Alencar, cultores do americanismo na litteratura na- 
cional, logram despertar entre os seus contemporâ- 
neos o gosto pelos estudos relativos áraça indígena. 

Mas, si com o exemplo delles, os escriptos de 
Anchieta, Luiz Figueira, Montoya e Restivo lo- 
graram reviver aos esforços de abalisados cultores 
como Couto de Magalhães, Baptista Caetano, Bar- 
bosa Rodrigues e Mendes de Almeida, todavia o 
gosto por estudos deste género se não generalísou 
ou tão largamente se não diffundiu que viesse a re- 
clamar dos competentes a creação de escolas onde 
se aprendesse a lingua dos aborígenes, ou cursos 
especiaes onde se preparassem os que, para taes 
estudos, mostrassem predilecção. 

Estudos, porém, systematicamente guiados para 
o fim de extirpar o vocabulário geographico de pro- 



cedência tupi, poucos cultores têm tido, bem que 
não raros o tenham tentado. 

Frei Francisco dos Prazeres Maranhão foi, ao 
que nos consta^ o primeiro a encetar taes estudos, 
mas fel-o tão incompletamente e sem aquella in- 
dispensável e criteriosa analyse que a matéria re- 
queria, que as swdiS Etymologias Brasileiras, publica- 
das no volume 8.** da Revista do Instituto Histórico, 
não têm outro mérito que o de uma obra de iniciação. 

Antes delle alguns chronístas e viajantes tentaram 
parcial ou isoladamente o mesmo assumpto, mas, 
no geral, sem resultado apreciável. O padre Simão 
de Vasconcellos dá-nos,na sua Chronica da Compa- 
nhia de Jesus, taes interpretações de vocábulos tupis 
que se chega a duvidar dos conhecimentos linguis- 
ticos do celebre jesuita. 

O Dr. Francisco José de Lacerda e Almeida, como 
se veriBca do seu «Diário de viagem pelas capita- 
nias do Pará, Rio Negro, Matto-Grosso, Cuyabá e 
S. Paulo, nos annos de 1780 a 1790», é um dos 
viajantes que, com mais interesse e competência, 
tractou desta matéria. As suas etymologias brazi- 
leiras, constantes das notas do citado «Diário», são 
tão numerosas e interessantes que bem se pôde 
consideral-o ura precursor nestes estudos. 

O trabalho de frei Francisco dos Prazeres si, de 
facto, não é tão copioso e exacto nas interpretações 
como o objecto comportava, é, comtudo, o único 
systematisado e tal que, como diz o seu auctor: 
c(. . .não deixará de ser de alguma utilidade, ou por- 
que dará principio a uma obra nova, ou porque 
alguma coisa accrescentará a essa obra, talvez já 
principiada.» Tal era a importância por el!e ligada 
ao objecto que não só se suppunha precedido como 
achava que a obra por outrem emprehendida devia 



:V 



ser de vulto, isto é, em ponto grande para usar das 
"^ suas próprias palavras. O certo, porém, é que, do 

ponto de vista de um estudo methodico e systema- 
tisado, frei Francisco dos Prazeres Maranhão não 
teve predecessor como bem poucos foram os seus 
continuadores. 

O Dr. Francisco Freire Allemâo, em uma Me- 
moria, publi.^ada na Revista do Instituto Histórico 
(tomo 45, pag. 351) em 1850, tractou do assumpto 
sob o titulo: «Questões propostas sobre alguns vo- 
cábulos da lingua geral brasiliana», mas, como o 
próprio titulo o manifesta» o seu trabalho não pas- 
sava de uma investigação sem nenhum caracter de 
generalisação, e setn methodo, embora exhibindo 
erudição e conhecimento da matéria. 

Braz da Costa Rubim segu'-u-lhe os passrs com 
processo idêntico e idêntico resultado, como se veri- 
fica do mesicio volume da citada Revista. 

O senador Cândido Mendes de Almeida occupou-se 
da matéria exhibindo critério seguro, vasta erudi- 
ção e notável penetração nos poucos estudos que 
publicou sob o tiiulo — Notas sobre a historia pa- 
tria, na já citada Revista O seu irmão, o Dr. João 
Mendes de Almeida, era outro dedicadissimo cultor 
do brazilianisnio, si assim podemos designar a ma- 
téria do presente escripto. e consti mesmo que 
deixou a respeito obra inédita de copioso cabedal. 

O general Couto do Magalhães tinha a peito e 
em muita conta os estudos deste género. Varias 
publicações fez explicando o significado de muitas 
denominações geographicas de |)rocedencia tupi, e 
mais recentemente, numa das ultimas sessões do 
Instituto Histórico a que assistira, e quando apre- 
sentou o seu plano commemorativo do quarto cen- 
tenário do descobrimento do Brazil, indicou, como 



dos mais importantes assumptos e dos mais ade- 
quados para essa commemoração, o estudo das 
etymologias brazilicas, isto é, do brazilianismo, feito 
em collaboração com alguns cultores da língua tupi 
que o fallecido general indicaria ou convidaria op- 
portunaménte. 

Ricardo Burton, annotando a traducção da obra 
de Hans Staden, em 1874, enriqueceu esse livro 
com abundantes e preciosíssimos estudos sobre os 
vocábulos indigenas referidos na sobredita obra. 

O Dr. Frederico Hart, tão cedo roubado ás in- 
vestigações scientificas de que fizera theatro predi- 
lecto o nosso Brazil, enriqueceu também alitteratura 
do brasilianismo com as mais eruditas e criteriosas 
interpretações ou contribuições. 

Baptista Caetano de Almeida Nogueira, nas suas 
annotações á Narratioa epistolar de Fernão Cardim ; 
Barbosa Rodrigues, nos seus vários escriptos sobre 
a língua do gentio, são dois cultores do brasilia- 
m«moque se recommendam pela sua erudição, senso 
critico e especial critério nas interpretações. 

O trabalho, porém, de maior monta que até aqui 
se ha publicado sobre esteobject) é, incontestavel- 
mente, o do Dr. Carlos von Martius, trabalho pu- 
blicado em annexo no Glossaria Linguarum Brasi- 
liensium. Era o Dr. Martius, a quem tanto deve a 
botânica brazileira, mui versado na língua tupi, 
tinha muito viajado o nosso paiz, possuia vasta eru- 
dição scíentifica e os melhores elementos para um 
trabalho de vulto nesta questão da origem e inter- 
pretação dos vocábulos tupis usados na geographia 
nacional. Infelizmente não lhe pôde o illustre sábio 
dar o preciso desenvolvimento, nem aprofundar as 
suas investigações como era mister, lendo as chro- 
nicas^ as relações antigas de viagem, isto é, consul- 

R. 2 



10 



tando o elemento histórico para descobrir a verda- 
deira graphia primitiva dos vocábulos, muitos dos 
quaes, sem isso, jamais seriam explicáveis ou 
traduíiveis no ponto de vista etymologico. 

Comtudo, procuramos sempre no presente traba- 
lho seguir os passos do naturalista bavaro. Mas, se- 
guindo-o tão de perto quanto possivel no que respeita 
ao exame etymologico, preferimos o processo critico 
de Freire AUemào, reconhecendo primeiro a iden- 
tidade do vocábulo, discutindo as suas alterações 
subsequentes antes de traduzil-o ou dar-lhe o respe- 
ctivo significado. 

Fiz, por isso, preceder o trabalho propriamente 
interpretativo e etymologico de uma rápida aprecia- 
ção sobre o caracter da lingua tupi, a sua extensão 
na America, e especialmente no Brazil, as suas al- 
terações sob a influencia do portuguez, analysando 
ao mesmo tempo o processo segundo o qual se deram 
as ditas alterações na phonetica dessa linguçi. 

Não presumo com isso dar a ultima palavra na 
questão. Mas acredito ter adiantado alguma coisa, 
firmando alguns principios que, no futuro, hão de 
servir a outros e melhores investigadores, e elimi- 
nando umas tantas obscuridades que aíTectam a 
graphia e, portanto, o significado ou sentido de não 
poucos vocábulos indígenas com applicação á nossa 
geographia. Terei, entretanto, levantado uma ponta 
desse vôo de esquecimento que pesa sobre a memoria 
do povo desapparecido a quem succedemos no do- 
minio desta terra, cujas vozes barbaras, na sua 
lenta e secular fossillisação, perdida a primitiva e 
o.riginal estructura, já não tôm sentido nem ex- 
pressão, designando as prosperas cidades dos novos 
dominadores. 



11 



II 



Da expansão da língua tupi e do seu ptedomiliio 
na geograpliiia nacional 

A vasta superfície que, por um exame geogfaphico 
do nosso paiz, se reconhece ter sido avassatlada 
pelo íupi, não pôde, de modo algum, ser attribuida 
á força de expansão, própria da raça primitiva, que 
dominava no littoral e em grande parte do interior 
ao tempo do descobrimento pelos portuguezes. 

Vastissima, na verdade, era a região por onde 
dominou a língua tupi no novo continente; no Brazil, 
porém, deve-se a sua mais notável expansão aos 
próprios conquistadores europeus, ás numerosas 
expedições ou bandeiras que penetraram nos sertões 
para descerem escravos Índios, e para a pesquiza 
do ouro; deve-se principalmente á catechese que 
tornou geral esse idioma bárbaro e o cultivou. 

Occupavam, com effeito, os povos da raça tupi 
o littoral quasi todo, por cerca de seiscentas léguas, 
donde haviam expellido outros povos, sem duvida 
conquistadores antes d'elles, e que por sua vez ti- 
veram de ceder diante de forças mais numerosas 
e aguerridas ; dominavam ainda o valle do Paraná- 
Paraguay na sua média zona, onde se limitavam 
cora outras nações de procedência andina e lança- 
vam colónias através dos valles do Araguaya, .Ta- 
pajós e Madeira, alcançando o Amazonas cujo curso 
disputavam e partilhavam com outros povos desde a 
foz até grande extensão em direcção ás cabeceiras, 
e ainda para além das Guyanas, no valle do Orinoco, 
e nas Antilhas, entre os carahibas, se encontravam 
representantes delles. 



12 



Nas chapadas centraes, nas regiões de solo roais 
ingrato, nos grandes valles interiores roenosaccessi- 
veis quedavam-se como encurralados os povos da 
raça vencida que os tupis denominavam commum- 
mente iapuyas, equivalente a bárbaro ou extrangeiro, 
como vieram a chamar tapuytinga, ao europeu e 
tapuyuna ao africano. 

Ao europeu, porém, ou aos seus descendentes 
cruzados que realisaram as conquistas dos sertões 
é que se deve a maior expansão do tupi como lingua 
geral dentro das raias actuaes do Brazil. As levas 
que partiam do littoral a fazerem descobrimentos 
fallavam, no geral, o tupi ; pelo tupi designavam 
os novos descobertos, os rios, as montanhas, os 
próprios povoados que fundavam e que eram outras 
tantas colónias espalhadas nos sertões, fatiando 
também o tupi e encarregando-se naturalmente de 
fundil-o. 

O portuguez era, sim, a lingua official, como ainda 
hoje o hespanhol no Paraguay, a lingua do com- 
raercio nos portos do littoral, nas cidades e villas de 
mais importância, e no seio das familias propria- 
mente portuguezas, mas ainda ahi apparecia o tupi, 
fallado pelos fâmulos quasi lodos indios ou de des- 
cendência Índia. 

Nos povoados mais apartados, a catechese, ini- 
ciada e desenvolvida pelos jesuítas, ia dando á 
lingua barbara os foros de um vehiculo civilisador. 
Paliavam os padres a lingua dos aborígenes, es- 
creviam-lhe a grammatica e vocabulário e ensina- 
vam e pregavam nesse idioma. Nos seminários para 
meninos e meninas, curumins e cunhatains, filhos dos 
indios, mestiços ou brancos, ensinavam de or(jiinario 
o portuguez e o tupi, preparando deste modo os 



13 



primeiros catechumenos, os mais idoaeos. para le- 
varem a conversão ao lar paterno. 

Até o começo do século XVI 11 a proporção entre 
as duas iinguas falladas na colónia era mais ou 
menos de três para um, do tupi 'para o portuguez. 
Em algumas capitanias como em S. Paulo, Rio 
Grande do Sul» Amazonas e Pará, onde a catechese 
mais influiu, o tupi prevaleceu por mais tempo ainda. 
Nas duas primeiras fallava-se entre os homens do 
campo a lingua geral até o fim do século XVIII. 
No Amazonas e no Pará ainda é commum o tupi 
no seio da população civilisada dos íapuyas, como 
vulgarmente ahi se appellidam os Índios. 

Mas, naquelles tempos, quando o desbravamento 
dos sertões apenas começava e as expedições para 
o interior se succediam com a obstinação das coisas 
fataes e irresistiveis, o tupi era deveras a lingua 
dominante, a lingua da colónia. 

Todos a (aliavam ou a comprehendiam. Parecia 
mesmo haver certa predilecção por ella. (") 

Saudavam-se no tupi, dizendo: Enecoêmay que 
quer dizer bom dia, a que respondia o interlocutor, 
repetindo a mesma saudação, ou dizendo simples- 
mente: — Yauê, 

Ao toque da Ave Maria, o christão da America 
erguia-se persignando : Santa Ciiruçá rangaua recê, 
que quer dizer: pelo signal da Santa Crus e repetia 
na sua lingua a oração da tarde. 



(•) O Padre António Vieira em 1G94 escrevia: "E' certo 
que as famílias dos portugaezes e índios em São Paulo, 
estão ligadas hoje umas com as outras que as mulheres 
e os fílhos se criam mystíca e domesticamente, e a lingua 
que nas ditas famílias se fala é a dos índios e a portu- 
gueza a vfio. os meninos aprender á escola; ...^ (Obras 
Varias, I, 249). 



14 



Adoptavam os próprios portuguezes os usos e até 
o fallar brazilico, preferindo as expressões tupis 
aos dizeres da própria lingua, em que, aliás, não 
faltavam vocábulos e locuções egualmente expressi- 
vas e adequadas. 

Appellidavam-se muitas vezes pelo tupi ('); e ti- 
nham cantarese folguedos nesta lingua, ou num mixto 
coqpprehensivel do portuguez e do indio. A conhe- 
cida canção popular Carangueijo andou uatd vem 
desde este tempo. 

Alteravam-se aò contacto dessa lingua barbara a 
prosódia como a sintaxe portugueza. Desappare- 
ceram as vogaes mudas ou breves c prevaleceram 
as graves e agudas. Os verbos tupis modelaram-se 
pelos do portuguez, incorporando-se em grande 
numero neste ultimo, como incorporaram-se os 
liomes de plantas, animaes, fructas e objectos de uso 
domestico. 

Fazia-se a conquista tendo por vehiculo a própria 
lingua dos vencidos, que era a lingua da multidão. 

As bandeiras quasi que sô fallavam o tupi. E si 
por toda a parte onde penetravam estendiam os 
dominios de Portugal, não lhe propagavam, todavia, 
a lingua, a qual só mais tarde se introduzia com 
o progresso da administração, com o commercio e 
os melhoramentos. 

Recebiam então um nome tupi as regiões que se 
iam descobrindo, e o conservavam pelo tempo adian- 
te, ainda que nellas jamais tivesse habitado uma 
tribu de raça tupi. E assim é que no planalto central, 

(*) Pela época da independência voltou o uso dos nomes 
e appellidos de procedência tupi. Muito conhecidos se torna- 
ram depois os de Francisco Gê Acayaba de Montezuma, 
Dendé Bus, Sucupira, Japyassd, Tupinambá, Jaguaripe, 
Jucá, Piragibe, Cuim Atua, Pitanga e tantos outroSr 



15 



onde dominam povos de outras raças, as denomi- 
nações dos valles, rios e montanhas e até das 
povoações sào pela mór parte da língua geral. 

Bem poucos, na verdade, são os nomes de pror 
cedência tapuya, conservados na Geographia Nacio- 
nal, e estes mesmos nas regiões centraes onde a 
catechese jamais penetrou, ou se iniciou muito tarde 
por motivos particulares que atrazaram a conquista. 

Tomando-se uma carta do pai2 e examinando-a 
quanto ao que diz respeito ás denominações geogra- 
phicas, reconhece-se para logo o predominio do tupi 
em toda a região littoral; nota-se que elle penetra 
fundo nos sertões pelo valle dos grandes rios, onde 
se tornou fácil o accesso do lado do mar; nota-se 
mais que elle assignala através dos divisores das 
grandes bacias fluviaes o trajecto costumeiro dos 
bandeirantes ou descobridores; reconhece-se também 
que elle persiste como vestigio indelevol da cate- 
chese, onde quer que, ou isoladamente ou seguindo 
uma sério de estações intermediarias, penetrou o 
christianismo pelo trabalho apostólico dos missio- 
nários. 

Consideremos, por exemplo, essa parte do Brazil 
entre o rio de S. Francisco e o Maranhão. Notamos 
logo no littoral e nos valles mais accessiveis e 
férteis os nomes tupis em grande numero, ao lado 
de alguns nomes portuguezes designando os logares 
e os vários accidentes topographicos; no interior, 
porém, as denominações tapuyas prevalecem, desi- 
gnando as aguadas, e as feições mais salientes da 
região. As montanhas e as chapadas se designam 
em grande extensão pelo nome Cariry, do povo mais 
numeroso que outr'ora as possuiu. Os rios do in- 
terior, que não alcançam directamente o mar, donde 
lhes podia vir a denominação tupi, prevalecente 



16 



no litloral, tèm nomes tapuyas: Moxotó, Ororohá^ 
Choco, em Pernambuco ; Piancô, Gurunhem, Catolé, 
na Parahyba; Mossoró, Seridó, Caycó, no Rio Grande 
do Norte; Quixeramobim, Quixadá, Quixelô, Quixossó, 
Quinquilerêy no Ceará; Jaicós, Gurgueia, Longa, 
no Piauhy. 

Nesta região, cujo interior reveste um aspecto mais 
áspero e as seccas periódicas tornam o viver in- 
certo e atormentado, as levas dos conquistadores 
atravessam sem encontrar algures o que as retenha, 
sem descobrir uma mina cuja riqueza determine ou 
justifique um estabelecimento permanente, ou um 
solo fértil tentando a cobiça dos aventureiros. Elles 
passam sem intenção de ficar. 

Só o gentio adaptado ahi permanece como que 
protegido pela própria inclemência do sólo. 

O tupi ahi nâo penetra como não penetra o por- 
tuguez senão depois que o* gado invadindo as ca- 
tingas áridas e entranhando-se no deserto abriu as 
veredas e guiou o vaqueiro até as várzeas onde se 
assentaram as primeiras fazendas. O gentio, sem 
grande resistência, submetteu-se então, e assim se 
explica como alguns vestigios da sua lingua per- 
duraram nas denominações dos logares, recordando 
a raça dos vencidos. 

Desça-se, porém, das chapadas áridas e asso- 
ladas pela secca, e procure-se mais além ou o 
curso do Parnahyba a Oeste, ou do S. Francisco 
mais ao Sul e, para logo, apparecem de novo os 
nomes tupis designando osaccidentesgeographicos. 

Transpondo o S. Francisco em direcção ao Sul, 
penetra-se de novo numa região ingrata pela incle- 
mência do céo, evae-se atravessando a bacia elevada 
do Vasa-Barris, antes de ganhar os trechos esparsos 
e mais deprimidos das chapadas bahianas que, de- 



17 



pois do salto de Paulo AíTonso, depois de Canudos 
e de Monte Santo, levam á Itiuba, ao Tombador e 
ao Assuruá. Ahi, nesse trecho do pátrio território, 
aliás dos mais ingratos, onde outr'ora se refugiaram 
os perseguidos destroços dos Orizes, Procás e 
Carirys, de novo apparecem, designando os logares, 
os nomes bárbaros de procedência tapuya que nem 
o portuguez, nem o tupi logrou supplantar. Lêm-se 
então no mappa da região com a mesma frequência 
dos accidentes topographicos os nomes como Pambã, 
Patamoíéy Uaua, Bendegô; Cumbe, Massacarà, Co- 
corobó, Geremoabo, Tragagó, Canché, Chorrochô, 
Quincuncd, Co«thó, Ceníocé, Assuruá , Chique- Chique, 
Jequiéf Sincorà, Catulé ou Catolé, Orobó^ Mocugé e 
outros, egualmente bárbaros e extranhos. 

Mais para o Sul, peneirando já na região mineira, 
entre a zona littoral e a Serra do Espinhaço, que 
foi o paiz dos bolocudos, dos purys e de numerosas 
tribus (apuyas, já a raridade dos nomes selvagens 
na geographia local resalta logo. Prevalecem de- 
nominações portuguezas entre alguns nomes tupis. 
Difficilmente se encontrará ahi um nome tapuga, 
boíucudo, pury oxxcamacan, designando um monte, 
um rio ou um povoado. Jequitinhonha, Chopotó, 
Pujichá, Norek são bem [)oucos vosligios da lingua 
dos primitivos dominadores acaso salvos do diluvio 
tupi ou portuguez que o bandeirante ou missionário 
estendeu por toda a parte. 

Levando a pesquiza para as regiões do Sul, e do 
centro, na larga superfície pela mór parte deserta, 
como na mais densamente povoada, observa-se logo 
que o tupi é a lingua dominante na geographia. Em 
Minas Geraes o portuguez leva vantagem ao tupi. 

No Rio de Janeiro as duas línguas se equilibram. 

Em S. Paulo o predomínio do tupi ó quasi com- 

R. 3 



18 



pleto, notando-se o mesmo do Paraná para o sul 
até o Rio Grande, e para o centro, em direcção ao 
valle do Paraguay. 

Rarissimas são as denominações tapuyas perdidas 
na grande torrente tupi-portugueza que alastrou por 
toda a parte. Os nomes Chopin, Chapecô, Chancherê, 
Goyó, Coprà, na região dos Coroados, dentre o 
Iguassú e o Uruguay ; Nioak e alguns poucos entre 
os Guaycurús de Matlo-Grosso ; e os nomes dos rios 
da bacia superior do Amazonas, eis tudo o que Se 
salvou das linguas barbaras dos tapuyas diante da 
invasão tupi impulsionada pelos portuguezes. Eis 
porque para o objecto que nos occupa não é mister 
discriminar as regiões que serviram de habitat a 
cada raça selvagem; basta reconhecer no tupi ge- 
neralisado na geogra|)hia nacional o effeito da in- 
fluencia civilisadora dos europeus. 

Theodoro Sampaio. 



Riqueza minerardo Estado da Balia 



Fhenomenos geológicos e mineralógicos, especialmente na zona 
de Santo Amaro C) 



o Jornal do Commercio, o orgào mais importante 
sul-americano, tratou por vezes da grande riqueza 
mineral de Minas-Geraes,' dando a esse Estado a 
primazia da riqueza mineral do Brazil. 

Pois bem; muitos annos de estudos que fiz nas 
diversas zonas dos terrenos, julgados metalliferos, 
do Estado da Bahia em milhares de amostras de 
rochas, cascalhos, terras, areias e argillas, que 
possuo, resultados das minhas pesquizas no sul, no 
norte e no centro do Estado da Bahia, auctorisam-my 
a asseverar que a riqueza mineral da Bahia em nada 
é inferior á de Minas-Geraes; pelo contrario, a 
Bahia possue até alguns mineraes que nâo existem 
em outra qualquer parte do mundo, nem em Minas 
Geraes, a'ém de diversos, mui interessantes e raros 
phenomenos geológicos e mineralógicos, que perten- 
cem exclusivamente ao Estado da Bahia. 

Os minérios são os seguintes: 

1.*^ As celebres areias monazitiferas do Prad'^, 
concedidas ao Sr. Gordon, por tempo indeterminado, 
e cuja posse pertencia ao Estado da Bahia. 

2.^ Os famosos carbonatos, pedras pretas crysla- 



(*) Este trabalho foi lido Da sessão do Instituto do dia 
10 de Março. 



20 



Usadas, com superior valor dos diamantes, um ver- 
dadeiro monopólio. 

3.0 Uma terra branca, polurenta, com descom- 
munal peso especifico, sem cheiro, sem gosto» 
misturada com cryslaes brancos, opact s, parecendo 
pertencer, pela côr e crystalisaçào, á lamilia dos 
«Albites», mas, devido ao seu extraordinário peso 
prova que é um novo metal desconhecido. 

4.0 Phenomenos geológicos e mineralógicos. 

a) Existe no Museu do Rio de Janeiro o celebre 
«Bendegó», celebre meteoro, descoberto em 1784, 
pelo Sr. Domingos da Moita Botelho, proprietário 
da fazenda «Anastácio», distante cerca de 6 léguas 
de Monte Santo, no riacho denominado Bendegó : 
os naturalistas Spix e Martins examinaram esse me- 
teoro, em 18 de Março de 1817, declarando que o 
peso era 17.300 libras allemães, e levaram para o 
museu da cidade de Munchen diversos pedaços 
grandes. 

6) Acha-se no museu de Lisboa uma grande e 
volumosa pedra, que parecia ser ouro, mas, exami- 
nada, foi reconhecida ser cobre metallico nativo. 
Esta pedra foi descoberta em um pequeno riacho, 
no sitio denominado Mamoeabo, pertencentes essas 
terras hoje ao Sr. Major Olympio Barretto; a pedra 
teve um peso de 304 kilos e foi remettida para o 
Reino [)elo então juiz de direito da Cachoeira, o 
Dr. Manuel Silva Pereira, em 12 de Julho de 1799. 

Muitas pesquizas, feitas no logar da descoberta, 
não deram indicios da existência de minas de cobre, 
e provavelmente foi um meteorite. 

c) Possuo no meu museu um curioso aerolitu, 
que representa uma grande massa de ferro com- 
pacto, crystalino, com 150 kilos de peso, 0,"'68 de 



21 



altura, e 0,"^õ4 de diâmetro, cheio de erosões e pe- 
quenas cavidades, parecendo com escorias de ferro, 
e parece certo que o mineral é de origem da forma- 
ção cósmica. 

d) Columnas de ferro iiydratadas. 

Ao longo da costa da cidade do Prado, até a po- 
voação «Pixame», existe um mui interessanie phe- 
nomeno mineralógico, que espanta o viajor inlelli- 
gente e bom observador, vendo levantadas, em 
alguns logares da costa, enormes massas de ferro 
carbonatado e hydratado, crystalisado, e com aspecto, 
mais ou menos, de columnas ou guardas, talvez 
para defender as enormes e ricas terras monaziti- 
feras: parece que o levantamento das três columnas, 
em pontos determinados, no começo, no centro e 
no fim da zona mineralógica, foi originado por mys- 
teriosas, e por nós desconhecidas, manipulações do 
interior do globo terrestre, que teve o capricho de 
collocar o primeiro colosso no logar chamado «Ta- 
pemirim», onde começa, espalhada á flor das terras 
da praia, immensa camada de areias brancas, ama- 
rellas e pretas, misturadas ; estendem-se até o rio 
de aOuro», onde existe o segundo colosso, e deste 
ponto em diante começam os depósitos riquíssimos 
das minas de areiasamarellas, ondese extrahem, com 
grande facilidade e rapidez, as areias, durante as 
horaí^ da vasante, depositadas quasi na flor da terra, 
nas fraldas dos barreiros próximos, que têm, nestes 
pontos privilegiados, pouca altura ; essa rica zona 
prolonga-se até a povoação de Curumuchatiba, de- 
posito geral das areias extrahidas, e nos riachos 
Peixe Grande e Peixe Pequeno começam em grande 
extensão os mesmos depósitos de areias amarellas, 
misturadas com brancas de Tt^pemirim, e perto do 
ponto aPixame» existe o terceiro colosso. Esses 
enormes e possantes depósitos de ferro vedam, nas 



22 



enchentes das marés, o único transito para Santa 
Cruz e Porto-Seguro. 

e) Crystaes. 

E* digno de mencionai um curioso phenomeno, 
que se observa perto da cidade de «Caelité», onde 
uma grande zona da estrada geral é lastrada de 
grandes crystaes brancos, chrisolitos, aguas mari- 
nhas, triphanas e principalmente amethistas. 

/) Aguas ihermaes. 

Tôm grande valor iherapeutico as celebres aguas 
thermaes do Sipó, perto da Villa do Soure des- 
cobertas em 1836. e opinam gei-almente que as aguas, 
convenientemente applicadas prestam importantes 
serviços aos doentes, garaniindo-se o seu valor thera- 
peutico igual ás afamadas aguas de Carlsbad. 

g) Lagoa Branca. {") 

Devo á gentileza d'um intelligenle e dislincto ca- 
valheiro os seguintes apontamentos sobre a exis- 
tência de uma curiosa e encantada lagoa, denominada 
oLagôa Secca», de forma oval, cercada por peque- 
nos morros de pouca altura, medindo cerca de 6 
kilometros, cujas aguas são brancas, côr de leite, 
e da mesma côr são os peixes, as argillas e as 
terras visinhas; as aguas não são calcareas e nas 
terras e morros visinlios não existem rochas ou 
terras calcareas; nove kilometros distantes da pri- 
meira Jagôa, existe uma segunda, denominada «Gon- 
zaga», nas mesmas condições. 

As aguas não são nocivas, e ignora-se a nascente 
e o esgoto delias, provavelmente devido a olhos de 
agua existentes no fundo da lagoa' 

O terreno é geralmente de «taboleiroso. Convinha 
examinar as aguas das duas lagoas, que talvez pos- 
suam alguma utilidade therapeutica uu industrial. 

(*) A lagoa Branca dista da cidade do Inhambupe cerca 
de 4 kilometros. 



23 



Historia e origem das argillas 

E' geralmente conhecido que a definição exacta 
e completa das argillas silo rochas moveis, com- 
postas de particulas microspicas, mecanicamente 
misturadas, cujo volume se reduz, em muitos casos, 
ao das moléculas chimicas de que se compõem, e 
os principaes elementos são subhydrato de sílica 
e alumina, silicatos de alumina, mais ou menos 
hydratádos, e algumas vezes hydrato de ferro e 
subhydrato de magnesia ; são portanto a silica, a 
alumina, o ferro e a magnesia os principaes ele- 
mentos que entram na composição das argillas, de 
combinação com a agua. 

Refiro-me às argillas européas que contêm também 
cal, ao contrario das argillas brazileiras que tém 
muito ferro, ora como oxydo, ora como hydrato, e 
consta que até hoje ninguém fez ainda estudos e 
analyses sobre a argilla brazileira. 

E' difflcilimo explicar a verdadeira origem das 
argillas, mas muitos geólogos affirmam que a origem 
das mesmas é devida á terra vegetal : o geólogo 
André Deluc conjecturou que as argillas se pode- 
riam ter formado de fluidos elásticos, escapados do 
seio da terra e condensados depois, pjr effeito de 
combinações chimicas; e, por falta de melhor idéa, 
geólogos modernos acceitam a trituração das rochas 
pelas aguas, o que é pouco verosimil, pois o mo- 
vimento das aguas diminue as formações da ar- 
gilla, visto que as dissolve e separa em suas di- 
versas partes, segundo o peso que estas tôm, e as 
areias no Brazil se destacam e produzem-se, como 
as próprias argillas, da vegetação. 

As argillas vermelhas escuras, denominadas «Mas- 



24 



sapé», contem 30 a 40 7o àe ferro, com o sal de 
bôa qualidade, e, auxiliado por agua salgada, produz 
um eífeilo hydraulico superior e mais rápido nos 
seus effeitos do que os cimentos artificiaes. 

Empreguei essa liga, com o melhor suceesso 
possível, nas grandes obras da rua da Montanha, 
na construcçâo das duas ruas novas na Praça do 
Ouro e do longo cães alé ao pharol, na povoação 
da Barra, 

O tanà e os massapés 

Um surprehendente phenomeno apresentam as 
maravilhosas terras de Santo Amaro, que uns 
chamam argllla cretácea, e outros dizem — Tauá e 
Massapé; terras mysteriosas e nunca estudadas, 
que possuem elementos desconhecidos e tào po- 
derosos que, ha mais de 400 annos, fornecem aos 
lavradores grandes e ricas safras, sem necessitar o 
arado e o húmus europeu, e é de suppôr que a 
grande e constante fertilidade dessas extraordinárias 
terras é devida a desconhecidas, e por nós incom- 
prehensiveis, manipulações dos fluidos athmosphe- 
ricos. 

Ainda não houve engenheiro ou geólogo que 
soubesse explicar os reaes elementos destas terras, 
e a causa da maravilhosa drenagem subterrânea que 
existe e o modo da collocação da mesma. 

Não ha no mundo inteiro terras tão maravilhosas 
e tão mysteriosas nos seus elementos. 

Exame das terras 

Disse no livro que publiquei ultimamente, sobre 
a geologia e a mineralogia, e especialmente sobre 
as maravilhosas terras da zona de Santo Amaro, que 



25 



pretendia estudar o curioso e raro phenomeno dos 
terrenos, que, ha mais de 400 aniios, produzem, sem 
auxilio de adubos e de correctivos, a preciosa canna 
de assucar. Hoje posso confirmar que esse pheno- 
meno estende-se também ázona de Sào Francisco 
da Barra de Sergipe do Conde, que em parte per- 
corri nas duas freguezias de São Gonçaio e Monte. 

Ahi pude fazer algumas analyses qualitativas de 
terras e rochas dos engenhos Gurgaia, Santa Cruz, 
Vera Cruz e Engenho Novo, e por ellas, e pelo que 
consegui observar? posso dizer que a formação 
geológica das rochas da maior parte desta 
grande zonaagricola é, na camada superior, a terra, 
denominada vulgarmente «massapé», producto da 
decomposição do «Tauáí), proveniente de fragmen- 
tos de lages de um chisto argilloso, rocha molle 
e quebradiça, de côr cinzento-claro, composto de 
diversos elementos, e tem propriedades particulares, 
dignas de serem estudadas com muito cuidado. 

Encontrei no engenho Gurgaia, em um morro de 
cerca de 250.00 m. de altura acima do nível do mar, 
uma mina de ferro oligista, carbonatada, que mede 
45.00 m. de altura, cerca de 70.00 m. de largura e 
cerca de 120.00 m. de comprimento, com blocos de 
ferro, contendo manganez, o ferro oligista, espe- 
cular e compacto, de tacií exploração, por se achar 
o mineral, aberto no cume do morro, visivel a 
olho nii 

As terras visinhas do morro são argillas silicosas, 
ferríferas, onde nascem diversas vertentes de aguas 
ferrogiferas, que se dirigem para o rio de Joannes, 
que ahi perto tem a sua nascente. 

Todos os terrenos desta gr*ande propriedade são 
compostos da melhor qualidade do ar'gilla vermolho- 
hydr-aulica, denominada amassupe», 

R. 4 



26 



Nu Engenho Novo encontrei uma rocha estra- 
tificada, aberta, devido a grandes desmoronamentos, 
composta, em toda sua extensão e altura, de enor- 
mes depósitos de chistos silicosos da furmação 
terceira, de côr cinzento-claro, o em grande parte, 
na flor da terra, em completa deeomposiçlo, re- 
duzida a terra vegetal cm húmus ou «Tauá», que 
se transforma, por sua vez, em matéria argillosa. 

A estructura do morro, que tem quasi 160 melros 
de altura e cerca de 80.00 m. de largura, é curio- 
sissima e surprehendente, pois» o morro, rachado, 
em tempos idos, por enormes tempestades, desde 
o seu cume ató a flor do solo ficou dividido em 
duas partes iguaes, produzindo no vácuo, no fundo, 
um leito, formando um riacho com cerca de 6.00 m. 
de largura e cerca de áoO.OO m. de comprimento, 
sendo o lateral, á direiía, coberto em toda a sua 
altura e largura, com plantas silvestres, e o lateral, 
á esquerda, em completo caminlio do decomposição, 
e a parte supenor, reduzida em parte a pequenos 
moluculos térreos. e sendo complotamonte denudado, 
apresenta ao espantado viajor um phantastico, mas 
maravilhoso, panorama, representando o aspecto 
d*uma enorme casa industrial, com numerosis 
prateleiras, representadas por enormes lages de 
pedras cinzsntas, manejada por seres invisíveis, e 
produzindo, dia e noite, o tão valioso e tão necessário 
«Tauá», origem da extraordinária fertilidade das 
soberbas terras sant'amarenses. 

A formação exterior do morro é um cliisto argiloso 
silicoso, representado por enormes e extensas lages 
de grossura media de 0,30 m. aȎ 0,32 m, e contei 
na parte visivel c metamorphisada a existen^Ma de 
30 lages, em parte em plena decomposição, em parte 
em bom estado, collocadas na face da rocha paralella- 



27 



mente, parecendo uma escada com os seus degráos, 
com a differença que, entre a capa e lapa de cada 
par de liges. existe uma camada de verdadeiro 
húmus, reprt?Sfc»niado por uma terra escura. Hna, 
solla, trabalho cuja manipulação provavelmente 
6 devida aos fluidos atmosphericos, que com 
o seu oxigénio e o acide azotico concedem a estas 
terras saes fecundantes. Parecia-me que em algum 
ponto destas maravilhosas terras encontraria uma 
drenagem subterrânea, e realm^^nte vi esse extra- 
ordinário phenomeno, que julgo devido a enorme 
porosidade do otauá», mas confesso que é necessá- 
rio fazer novos estudos, para mais ou menos expli- 
car o modo curioso e engenhoso por que a grande e 
poderosa natureza soube construir uma maravilhosa 
drenagem subterrânea com extraordinária perfeição, 
e beíleza sobrenatural. 

A cata destes interessantes, difficeis e pouco 
vulgares estudos fez perder a um dos mais notáveis 
engenheiros brazileiros as suas esporas, nas trai- 
çoeiras lamas de Santo Amaro. 

E* fora de duvida que todas as argillas conheci- 
das no mundo terrestre são dos mesmos princi- 
pios das plantas, e parece que a origem d^ellas sâo 
as mesmas plantas, formando a terra vegetal e o 
próprio húmus, que, por modos mysteriosos e 
desconheci los em matéria argillosa, denominada 
« massapé •>, podia-se denominar «argilla hydrau- 
lica brazileira». 

No leito do riacho do Morro encontrou-se uma 
pedra calcarea, que é indicio da provável existência 
de depósitos í^alcareos ; mas esle facto, por ora spo- 
radico, não auctorisa denominar as terras em 
geral, «Cretáceas», conforme julgaram diversos 
geólogos e naturalistas, principalmente por não ler 



28 



eu encontrado ainda a espécie dos fosseis, que 
deternninam a formação «Cretácea»; tive porém 
noticia de que existe pedra calcarea no «Bom Jardim» 
e no engenho Pindobeira, e, logo que seja per- 
mittidô, pretendo estudal-a. 

Chamo a attenção do Governo e do intelligente 
secretario das obras publicas sobre a riquíssima 
zona de Sáo Francisco, que com toda a certeza 
dará á estrada de ferro de Santo Amaro a renda 
que lhe falta, dobrando a actual receita, com pouca 
despeza administrativa, ligando-se a actual linha 
férrea de Santo Amaro á industriosa e tuturosa 
villa de São Francisco, e um pequeno ramal para 
São Sebastião, duas zonas de immensa vantagem 
agricola e industrial, zonas importantes e que 
possuem cerca de 30 engenhos, quasi todos em 
plena actividade, e uma relativamente numerosa 
população, cuja grande maioria é composta de 
lavradores muito laboriosos e muito instruidos. 

A zona das terras de «tauá» e «massapé» é a 
jóia mais rica que o Estado possue, e, repito o 
que disse, não ha no mundo inteiro terras milagrosas 
similhantes. 



Devo ao distincto cavalheiro, o talentoso e mui 
estudioso engenheiro, Dr. Gonçalves Júnior, a grande 
fineza de informar-me de curiosíssimos e surpre- 
hendentes phenomenos produzidos por essas mila- 
grosas terras, que provam, com toda a evidencia, 
quanto é difficil de saber o modo e a causa d'esses 
curiosos, mas inexplicáveis, effeitos geológicos, que 
mais pareceriam lendas, si não existissem os 
seguintes factos, que se deram na zona da linha 
de ferro, em 1892. 



20 



Sendo rigoroso o inverno desse anno, o intelli- 
gente e previdente engenheiro, onlio director, 
percorreu, certa manhan, o trecho de Santo Amaro 
a Jacuipe, afim de verificar si a linha se achava 
em boas condições e voltou na hora da partida 
do trem. 

Deu ordem para o trem partir, pois que tinha 
deixado a linha desimpedida. 

Minutos depois da partida do trem, recebe aviso 
de que este tinha parado n3 logar denominado 
Catacumba, em virtude de estará linha desmoronada* 
Foi logo ao logar e qual não foi o seu espanto e 
admiração ao encontrar um pequeno trecho do 
leito arqueado, em forma de um monticulo. 

O o massapé» havia soífrido o mesmo eífeito que 
um pão lançado em agua: inchou e cresceu de 
volume. 

No mesmo anno, sumiu-se de repente, sem deixar 
o menor vesiigio uma possante e profunda muralha, 
construida com as melhores regras da arte, pelo 
hábil e conhecido engenheiro austríaco Júlio Pinkas, 
no logar denominado Catacumba, nas proximidades 
dos engenhos Macacos e Pindobeira. 

Um bambuzal, mandado plantar na encosta de 
um aterro pelo engenheiro Fernandes Pinheiro, 
tem sido transportado, pelo incessante e mysterioso 
movimento continuo dessas extraordinárias terras» 
para grande distancia e continua a mudar-se para 
o fundo do valle do engenho Pindobeira, levado 
pelas inquietas terras em tempos chuvosos. 

Julgo difficilimo explicar a causa e o modo por 
que as terras produzem phenomenos tão curiosos, 
que são grandes enigmas para o melhor geólogo 
e naturalista e digno de graves e prolongados 
estudos. 



30 



Pc»róm é certo que a classificação, dada por 
notáveis geólogos estrangeiros, denominando-as 
«topinaçio cretácea», é menos exacta, e a verda- 
deira existência de antigos depósitos de lenhite, 
em diversos engenhos, algumas minas de ferro em 
outros pontos, e quasi sempre acompanhada de 
chistos nrgillosos silicosos, parece, baseado na 
iheoria geral das terras, que a zona pertence á 
formação terciária e em parte também quaternária; 
mas, saber e dizer a verdadeira e completa analyse 
destas maravilhosas e realmente mysteriosas terras 
6 prematuro, pois ellas prcduzem phenomenos tão 
surprehendentes, que embaraçam o espirito do 
melhor investiga'tor, e confesso que me espantou 
encontrar neste mundo terras que engolem mura- 
lhas e obras feitas de alvenaria grossa e cimentada, 
que engordam e emmagrecem ao seu bel prazer, 
e que mandam passear os valentes bambuzaes, sem 
licença de ninguém, e compromettem também a 
fama e o saber do melhor engenheiro hydraulico, 
que não pode vencer estas bravias e indomáveis 
terras. 

Bahia, 1901. 

Henrique Praguer. 



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SÉCULO XVII 

E' incoQlestavtílmente um nome de trágica tra- 
dição na historia colonial da Bahia o do temido e 
odiado alcaide raór Francisco Telles de Menezes. 

Evoca, logo que se o pronuncia, una época de per- 
seguições e de vinganças, uma autoridade desme- 
dida, um orgulho que estimulava todos os desman- 
dos, todas as arbitrariedades. 

Nobre pelo nascimento, poderoso pelas allianças 
de sua familia com as mais illustres e antigas da 
capital do vice-reino, intangível quasi pela sua ele- 
vada posição militar e civil de alcaide-mór de uma 
cidade como a do Salvador, omnipotente durante 
o governo de António de Souza Menezes, «o braço 
de prata», o soldado brioso das longas lulas de Per- 
nambuco, mas sem tino politico, sem conhecimentos 
de administração, e sem talento para exercer o 
cargo para que o nomeara o regente de Portugal, 
D. Pedro, em 1682, tornara-se Francisco Telles de 
de Menezes o alvo de todos os ódios e de todas 
as revoltas dos mais conceituados moradores e fun- 
ccionorios da cidade, fatigados da sua ambição, 
feridos dos S3us insultos, deshonrados pelas suas 
accusjções e perseguições. Anteriormente á época 
da sua influencia directa nas cousas da Bahia, en- 
contramos os vestigios do seu caracter indomável, 
das suas inclinações e ambições desregradas. 



32 



E no entanto não faltavam serviços rcaes a Fran- 
cisco Telles; em 1652, podendo ler 18 annos, veri- 
ficara praça de soldado, e daqiiella data á de 1065 
como alferes e capitào-mór de infanleria achara- 
se em vários recontros com os inimigos que de 
continuo surgião nos mares e no recôncavo da Bahia. 
Não lhe faltavão até as peripécias, as emoções, 
os perigos e o renome de ter sido roubado e feito 
prisioneiro pelos piratas em 1659, quando o navio 
que o levava para o reino fora subitamente atacado, 
saqueado e aprisionado, ficando captivo dos temi- 
veis salteadores do mar, que o levaram para a Gal- 
lisa, onde permaneceu longo tempo prisioneiro. 

De volta a Portugal, naturalmente em recom- 
pensa, D. Aff Miso VI, em 1664, dera-lhe uma com- 
panhia de ialanleria de Presidio da Bahia, vindo 
logo assumir o seu commando. 

Governava então o Brazil com o titulo de vice- 
rei, D. Vasco de Mascarenhas, conde de Óbidos. . 

Parece que não tardou muito que c então capi- 
tão Francisco Telles dósse signal de seu gonio 
irrequiet»» e ambicioso. No seu espirito trabalhavam 
grandes paixões que explodiram finalmente na te- 
merária conspiração tramada para depor o vice-rei, 
prendel-o e remettel-o para Portugal. 

Muito poucus são, infelizmente, os dados que 
nos ministram as chronicas -antigas, os monumen- 
tos que guarda o nosso Archivo, a tradição colhida 
por nossa historia. 

Não sabemos também a data precisa da conspi- 
ração; o certo é que de 1664, anno em que volta 
á Bahia, á de 1667 em que deixou o governo o conde 
vice-rei, Francisco Telles de Menezes auxiliado 
por Lourenço de Brilto Corrêa, chamado o velho 
Queiroz,que julgo ser António de Queiroz Cerqueira, 



33 



cavalleiro da ordem de Chrislo, capitão pago do 
regimento velho, e Alvâro de Azevedo que, também 
por cálculos e deducções chronologicas, me parece 
ser aquelle de quem diz um historiador que servia 
bem ao rei e á republica e que por seu mereci- 
mento chegara a ser mestre de campo de um terço 
na Bahia, que governara interinamente com o Chan- 
celler e António Guedes de Britto, por morte de 
Affonso Furtado de Mendonça, a 26 de Novembro 
de 1675, tenta depor o vice- rei por motivos desco- 
nhecidos. 

Por mais minuciosas que fossem as pesquizas 
relativas aos companheiros de Francisco Telles 
nesta conspiração, nada de verdadeiro, de indiscu- 
tivel encontramos; na época a que nos referimos — 
não figuram outros com os nomes de Queiroz e 
Azevedo além <los citados; e não seria de estranhar 
que esses fossem os cúmplices do futuro alcaide- 
mór, pois, companheiros de armas, e numa socie- 
dade resumida como a daquelle tempo, podiam ter- 
se conhecido, comprehendido e, levados pelo mais 
emprehendedor e ambicioso, projectassem o atten- 
tado. 

Houve, porém, um traidor, o capitão Damião de 
Lançóes, como o chama um chronista, e por pre- 
mio da revelação foi feito sargento-roór. 

Francisco Telles de Menezes e seus cúmplices 
foram immedialamente presos, seguindo aquelle 
para o reino na frota prestes a largar, permane- 
cendo os outros nas prisões da Bahia. 

Chegado a Portugal o principal accusado, valendo- 
se das suas relações e dos serviços anteriormente 
prestados, conseguiu a sua soltura e que o seu 
processo fosse archivado. 

Foi então que Francisco Telles comprou a Henri- 

R. 5 



34 



que Henriques de Miranda a alcaidaria-mór da Bahia 
que a este fora dada por D. AflFonso VI, por Carta 
Regia de 9 de Abril de 1666, sendo approvado esse 
acto pela Carta Regia de 16 de Março de 1667. 

Coincidiu quasi a sua nomeação com a termina- 
ção do governo do conde de Óbidos, que foi sub- 
stituido pelo velho e doente Alexandre de Souza 
Freire, em 13 de Junho de 1667. 

Com este governador veio novamente Francisco 
Telles á Bahia, provido em um dos mais altos e 
importantes postos do Brazil, e do qual fez preito e 
homenagem em 18 de Junho de 1667, nas mãos do 
novo governador, como vê-se do precioso e antigo 
livro existente no Archivo Publico. 

A nova dignidade não fez senão estimular os de- 
sejos de vingan(;a e a altivez desmedida do nosso 
heroe. 

No período que vae de 1667 a 1682, isto é, du- 
rante os governos de Alexandre de Souza Freire, 
do visconde de Barbacena, do triumvirato interino 
e de Roque da Costa Barretto pouco se ouve falar 
no temido alcaide-mór; apezar disso, porém, se o 
accusa de ter instigado um seu sobrinho a tirar 
represália de um insulto que lhe fizera António de 
Brito. E a represália foi tremenda. De emboscada, 
ao dirigir-se António de Brito com seu irmão para 
o Carmo, foram-lhe disparados vários tiros de ba- 
camarte, travando-se lucta tenaz na qual sahiu o 
aggredido gravemente ferido. Foi este o prologo 
de um drama ainda mais sangrento. 

Como era natural, sobre o alcaide-mór recahiu 
a censura e reprovação geral de tal attentado, 
principalmente porque António de Brito Castro era 
mui liberal e geralmente estimado. Era filho do 
tenente-general do mesmo nome, cavalleiro pro- 



S6 



fesso na ordem de Christo, cujo foro herdou, tendo 
vindo como capitão na armada real, no anno de 
1625, no navio «Sâo Bartholomeu»>, comraandado 
por Domingos da Camará Pinto, a cmililar contra 
os hollandezes»). Foi ainda o tenente-general, pelo 
seu casamento com D. Leonor de Brito, provedor, 
cargo que recebeu em dote, e no qual foi confir- 
mado pelo alvará régio de 7 de Maio de 1640, to- 
mando posse em 12 de Janeiro de 1641. 

Como vê-se, era uma família illustre e conceituada 
aquella que o alcaide-mór atacava directamente. 

Isto davâ-se pouco antes de ser nomeado gover- 
nador e capitão general António de Souza Menezes, 
conhecido por «Braço de Prata», em 1682. Come- 
ça então á influencia e intervenção fatal de Fran- 
cisco Telles de Menezes nos negócios públicos da 
Bahia. 

O governador e o alcaide-mór conheciam-se da 
Corte, onde intima amisade os ligara, sentimento 
esse que renovaram e que serviu de base a 
Francisco Telles para dominar completamente o 
fraco governador. 

Arbitro da sua vontade, com a mais requintada 
perversidade o alcaide-mór explorou as paixões 
do seu amigo em proveito das próprias, começan- 
do então a época do terror para os inimigos do 
poderoso valido e para todos aquelles que com elles 
eram aparentados. 

Os mais illustres funccionarios do Estado, aquel- 
les que pelos seus serviços ou pelo nome que usa- 
vam mereciam a consideração e a estima geral, 
esses foram as primeiras victimas do vingativo 
senhor. 

André de Brito Castro, provedor da Alfandega 
da Bahia, e seus irmãos, principalmente aquelle An- 



36 



tonio de Brito, atacado e gravemente ferido pelo 
sobrinho do alcaide-mór; Gonçalo Ravasco Caval- 
canti de Albuquerque, tão conceituado, tão illustre, 
pertencendo a uma família que honrava a pátria, 
commendador da Ordem de Christo, alcaide-mór, 
depois de seu Pae, da cidade de Assumpção do 
Cabo-Frio, e a quem devia succeder no cargo de 
secretario de Estado, para que fora nomeado por 
D. João IV; António de Moura Rollira; Manoel de 
Barros da Franca; João Gomes Carneiro, escrivão 
da camará; o da fazenda real Francisco Dias do 
Amaral; os capitães de infanteriado Presidio, Dio- 
go de Souza Camará e José Sanches de Elpoço; 
eis a principal lista dos condemnados, eis os no- 
mes illustres dos proscriptos, dos presos, dos 
marcados com a cruz á tinta vermelha pelo punho 
do alcaide-mór. 

Com a chegada do novo governador que se sabia 
ser intimo de Francisco Telles, o temor nascera 
em todos os ânimos ; e logo que André de Brito 
foi privado do seu cargo, pela devaça e apparente 
culpa que se lhe fez ; desde que Barros da Franca, 
vereador do senado da camará foi preso na enxo- 
via e transferido depois para a fortaleza do Morro ; 
desde que todos os acima nomeados foram priva- 
dos dos seus cargos, escapando alguns á prisão 
por se terem recolhido ao Collegio dos Jesuitas, 
um rumor surdo de oceano encapellado começou 
a envolver o alcaide-mór, uma animosidade cres- 
cente e terrível acompanhava o autor de todas essas 
desgraças que promettiam ir ajém, ferindo a todos, 
indistinctamente, não se respeitando o mérito eos 
serviços nos Ravascos, a farda doexeicilo em Ca- 
mará e Elpoço, a representação do senado da ca- 
mará em Barros Franca, a magistratura suprema 



37 



no desembargador João de Couto de Andrade re- 
fugiado corno os outros no collegio da Companhia, 
convertido em Asylo Romano, a cujas portas pa- 
rou finalmente a acção governamental^ a vingança 
do alcaide-mór. 

Essa situação horrenda não podia continuar. Â 
população toda pedia no intimo das almas um 
vingador, e este appareceu em António de Brito 
Castro, aquelle mesmo que conservava como uma 
religião o dever da represália, e que tinha por es- 
timulo as cicatrises suggestivas do corpo. 

Francisco Telles estava condemnado; embora 
recebe avisos de amigos revelando attentados; quem 
se atreveria a offendel-o durante o governo de An- 
tónio de Souza Menezes, a elle, a segunda auto- 
ridade do Estado, poderoso, nobre e temido ainda 
que odiado? 

Póde-se dizer, porém, que o momento psycholo- 
gico havia chegado; não era António de Brito o 
assassino. Era a Bahia, pelo seu povo representado 
em todas as classes opprimidas que armava o bra- 
ço do mais offendido e do mais forte. Insensivel- 
mente, lentamente os successos, as vexações, os 
crimes, tinham preparado esse desenlace fatal, ti- 
nham marcado o dia, escolhido o monrento, armado 
do punhal libertador a mão de um representante 
inconsciente talvez da vontade e da aspiração da 
multidão. E nada poderia salvar o alcaide-mór. No 
dia do crime recebe uma carta pedindo-lhe que 
não sahisse á rua; mostra-a ao governador, que 
treme por sua vida c offerece-lho escoltas, guardas, 
que são regeitadas com orgulho, e altivo, e cora- 
joso desce as escadarias do Palácio e reclina-se 
mudo e arrogante na sua serpentina dourada e 
desapparece sob as cortinas lavradas de brocado 



38 



da índia. Os lacaios, levando nas vestes as cores 
das armas do poderoso amo, levam-no e escoltam- 
no, através da Praça antiga de Palácio, tão diver- 
sa do que hoje é, e encarainham-se para a rua di- 
reita atrás da Sé, onde subitamente foram atacados 
por oito homens mascarados que dispararam três 
ou quatro bacamartes, matando um lacaio e ferin- 
do outros. 

A serpentina foi abandonada e para ella avan- 
çou António de Brito que arrancara da mascara 
para matar, a rosto descoberto e ^om honra, o ar- 
rogante alcaide-mór, que procurava erguer-se e 
que sentiu naturalmente o sangue gelar-se-lhe ao 
vôr a face pallida e resoljuta de seu immortal ini- 
migo por entre as cortinas de brocado da índia, 
que as mãos tremulas e frias de António de Brito 
apartavam em procura do poderoso valido, em 
quem o vingador cravou profundamente o punhal. 
Levado moribundo para sua residência falleceu na 
tarde do mesmo dia. 

Lentamente, descoberto, acompanhado pelos seus 
companheiros que se conservaram mascarados, se- 
guiu António de Brito até o Collegio dos Jesuí- 
tas, onde se recolheu. 

Não tardou o governador em ter noticia do inau- 
dito attentado e á sua colora só egualou a sua 
dôr pela perda incomparável do amigo caríssimo. 

Dominou-o, nesses momentos, o coração e, a com- 
postura perdida, praticou actos violentos, lançando 
na enxovia ao secretario de Estado, o velho res- 
peitabilissimo Bernardo Vieira Ravasco, cercando 
estreitamente a casa de André de Brito e o CoUe- 
gio de Jesus. 

Insultou e appellídou de cobardes aos seusoffi- 
ciaes e não sabemos o termo da explosão do seu 



39 



sentimento si a Corte Portugueza conhecedora da 
situação nâo o fizesse substituir por D. António 
Luiz de Souza Telles de Menezes, Marquez das 
Minas, em 1684. 

Logo após a morte de Francisco Telles de Menezes, 
em 1683, o governador, querendo dar ainda uma 
prova de quanto lhe fora caro o amigo que per- 
dera, e usando das attribuições que tinham os de 
sua qualidade e posição, nomeou para substituir 
o alcaide-mór fallecido ao irmão deste, A'itonio 
Telles de Menezes, por Carta Patente de 20 de 
Junho daquelle mesmo anno. 

Nesse documento vê-se o desejo do governador 
de salienlar os méritos do escolhido, procurando 
tornar natural a nomeação e successão na alcai- 
daria-mór do irmão do funccionario fallecido, des- 
tacando os seus serviços como capitão de infan- 
teria da ordenança do districto de Paripe, na con- 
quista do gentio do recôncavo e como soldado, 
alferes e capitão. Aos 30 de Junho do mesmo anno 
nas mãos do governador fez elle preito e home- 
nagem daquelle alto cargo. 

O Marquez das Minas, ao assumir o governo do 
Estado, fez soltar todas as victimas injustamente 
presas, acalmar os ânimos, restabelecer a paz. 

Dizem as chronicas antigas que o infeliz Antó- 
nio de Brito andou muitu tumpo homisiado. An- 
tónio Telles partira para Portugal a queixar-se do 
assassinato do irmão, gastando nisso os seus ha- 
veres e voltando à Bahia onde acabou mui pobre, 
tendo perdoado a António Brito, em Portugal, a 
pedido de D. João de Lancastre que, em 1692, 
voltara do governo de Angola e que já estava in- 
dicado para governar o Brazil, como etTectivamente 
o fe/., em 1694. 



40 



D. Pedro II perdoou igualmente ao infeliz assas- 
sino do alcaide-mór a pedido do Pontifice Inno- 
cencio XII que, por sua vez, queria comprazerão 
Grão duque de Florença e ao cardeal d'Este que 
lh'o tinham solicitado. 

Poude, finalmente, em 1694, após 11 annos de 
desterro, voltar á Bahia, onde falleceu em 1699, 
António de Brito Castro. 

Archivo Publico, 1900. 

Innocencio Góbs. 



EPHEMERIDES CACHOEIRANÂS 

POR 

Aristides A. Milton 

V de Dezembro 

— Em 1889, se começou a executar n'esla cidade 
6 na freguezia de S. Félix, lioje cidade também, 
a postura municipal, que prohibe enterramentos 
nas egrejas. 

Custou muito, entretanto, que fosse adoptada 
similhante medida, reclamada aliás pela hygiene 
e pela civilisação. 

Quando os pequenos povoados possuiam já seus 
cemitérios, em que eram todos — indistinctamonte — 
sepultados, Cachoeira e S. Félix toleravam ainda 
as inhumações nos templos. E estas eram feitas 
com uma solemnidade profundamente lúgubre, por 
noite, ao clarão de muitas toclias, e dobre de vários 
sinos. 

Até à data que ora recordo, os cemitérios aqui 
existentes, excepto o acatholico, serviam para des- 
canso apenas.... de indigentes. 

Não obstante, a carta régia de 11 de Janeiro de 
1801 tinha já prohibido as inhumações dentro de 
egrejas e capellas. 

O preconceito, portanto, Iutt»u com a lei por es- 
paço de quasi um século! 

Eis porque o povo brazileiro, apezar de nâo pa- 
recer, é na lealidade um povo eminentemente 
conservador. 

R. 6 



42 



2 de Dezembro 

— Em 1845, o rio Paraguassú, transbordando, mais 
uma vez espraiou-se pelas ruas doesta cidade, e 
de S. Félix. 

Passados poucos dias, as aguas voltaram ao seu 
leito; mas, a 23 tornaram a sobrepujal-o, si bem 
que declinassem logo depois; finalmente, horas 
após de novo subiram para baixar dentro em pouco. 

Assim, n'esse mez o Paraguassú teve tros cheias^ 
com todos os inconvenientes e prejuízos, que en- 
tão sóe acarretar ás populaí;ões ribeirinhas. 

—Em 1851, houve uma explosão de pólvora, em 
casa de José António Pimenteira, nesta cidade. 

O facto occorreu ás 7 horas da noite, e além 
dos damnos materiaes, causou a morte da mulher de 
Pimenteira, bem como a de um operário seu, victi- 
mas ambos de queimaduras do primeiro grau. 

—Em. 1876, foram officialmente inaugurados o 
trafego do ramal da Feira de SanfAnna, e os 
trabalhos do viaducto do Batedor, no ramal da es- 
trada de ferro Central da Bahia. 

O viaducto referido tem 55 metros de comprimentOf 
9 de altura das columnas, 27 48 centímetros de 
altura total do primeiro pilar, 26 e 1 centimetro do 
segundo, e 18 metros e 13 centimetros da primei- 
ra escarpa. 

3 de Dezembro 

— Em 1822, o Conselho interino do governo da 
Bahia, cuja sôde era aqui, resolveu crear uma li- 
nha de correio, por paradas, para o Rio de Janeiro. 

Assim, o estafeta respectivo ia d'esta cidade, 
então villa, até ao arraial do Tijuco ( hoje cidade 



43 



de Diamantiaa), em Minas Geraes, a encontrar o 
correio de Villa-Rica (presentemente cidade de 
Ouro-Preto); e d'ahi seguia enlao para o Rio. 
Na mesma data, foram expedidas as insírucçôes, 
necessárias para esse serviço. 

—No dicto anuo, o general P. Labatut, commu- 
nicando ao supradirto Conselho os feitos que, dos 
pontos de Itapoan, tinha a tropa brazileiía realisa- 
do sobre o forte de S. Pedro; enviou-lhe a rela- 
ção dos presos, durante essa façanha tomados a 
uma jangada pelo coronel Felisberto Gomes Cal- 
deira. 

Sem contar esses [)resos, foram feridos muitos 
luzitanos, e sete ficaram mortos no campo da acção. 

4 de Dezembro 

— Em 1704, o Governo ordenou ajs ofRciaes da 
camará doesta cidade, então vill.i. que fizessem 
prender e guard.ir na cadeia todos os atravessa- 
dores, que compranam farinha de mandioca para 
revendel-a por mais da taxa. 

Como se está vendo, a luta com o monopólio 
vem de muito longe. 

—Em 1822, o general P. Labatut se dirigiu— 
por officio—ao Conselho interino do governo da 
Bahia cuja sede era aqui, se queixando da falta 
de satisfação aos seus pedidos ; e, ao mesmo tem- 
po, lhe dando conta dos feitos praticados em Pi- 
rajá, no dia anterior, disse— que «lhe constava 
terem os cônsules estrangeiros ido para bordo de 
navios de guerra das suas resi)eclivas nações, e 
reinar grande desgjsto na cidade da Bahia ». 

— Em 1822 também, o mencionado Conselho, offi- 
ciando ao alludidr» general sobre a nomeação de 



44 



commandante das armas d*esta cidade, então villa, 
exigiu— que se procurasse, em casos taes, o ac- 
cordo prévio do mesmo Conselho. 

— Em I8â4, o lenente-coronol Rodrigo António 
Falcão Brandão foi nomeado commandante de po- 
licia, em todo termo desta cidade, então villa. 

Além das attribuições concernentes á manuten- 
ção da ordem pnblica, o tenente-coronel Rodrigo 
Brandão, cujo patriotismo e actividade a ninguém 
pediam meças, foi encarregado de inspeccionar a 
força de linha aqui destacada. 

— Em 1837, a camará municipal doesta cidade re- 
cebeu um oflScio, em que o secretario do governo 
da provincia lhe communicava que, a 30 do mez an- 
terior, os rebelde? da Sabínada haviam atacado o 
acampamento do Pirajá, sendo porém repellidos 
com grandes perdas. 

Das forças legaes, que tinham feito sete prisio- 
neiros, apenas um soldado ficara fora de combate. 

O presidente da provincia pernoitara no enge- 
nho Cabrito. 

— Em 1879, falleceu na freguezia da Moritiba, 
onde morava, o tabellião do termo d'esta cidade — 
Frederico José da Cunha, que era homem inoffen- 
sivo e bom. 

— Em 1889, talleceu também, na villa da Puri- 
ficação de cuja comarca era juiz de direito— o nosso 
conterrâneo Dr. Inno'jencio de Almeida, contando 
54 annos de edade. 

Fora chefe de policia, interino, da provincia, hoje 
Estado. 

— Em 1891, íinou-se em Pariz L). Pedro de Al- 
cântara, que fora o segundo e derradeiro impera- 
dor do Bra7il. Nascera a 2 de Dezembro de 1825. 
A 28 de Julho lie 1840, subira ao ihrono donde a 
revolução de 15 de Novembro de 1889 o derribara. 



ib 



Honesto e patriota, D. Pedro teve um reinado 
feliz, que se tornaria de certo glorioso si sua 
magestade não desconfiasse tanto dos homens de 
seu tempo, e preferisse as altas cogitações da po- 
litica ao estudo poeiico dos astros. 

Em todo o caso, D. Pedro foi muito accusado de 
exercer o poder pessoal, e nos últimos dias do seu 
governo não faltou quem exagerasse o estado de 
sua mentalidade para fazel-o passar como instru- 
mento passivo nas mãos de seu genro, e de um 
medico de sua imperial caiKiara. 

Falou-se mesmo, sem rebuço, n'uma certa con- 
spiração, tramada no próprio paço, com o fim de 
obter a abdicação do velho monarcha, em favor 
da princeza D. Izabel. 

E' occasião de assignalar— que a revolução trium- 
pliante tratou o ex-imperador com iodas as de- 
ferências, possiveis no momento; e que na Con- 
stituição da republica foi votada uma pensão para 
elle, que entretanto, por escrúpulos muito louvá- 
veis e dignos, não a quiz acceitar. 

Os restos morlaes de D. Pedro jazem ao lado 
dos de seus illuslres avoengos, em Portugal. 

— Em 1892, foi sepultado na cidade de Caldas, 
Estado de Minas-Geraes, onde se achava, o Dr. 
Gregório Mauricio Bellas, que era natural d*esta 
cidade. 

Homem de talento o de acção, se linha formado 
primeiramente em [)harmacia, e de|)OÍs em medi- 
cina, pela Faculdade do Rio de Janeiro. 

Começara sua vida como caixeiro de uma casa 
commercial aqui, e tão á sua tenacidade e ao seu 
mérito deveu a conquista do grau scientifico de 
que se exornava. 

Contava apenas 38 annos de edade. 



46 



5 de Dezembro 

—Em 1697, chegou á Bahia D. João Franco de 
Oliveira, bispo que presidiu esta diocese ató 28 de 
Agosto de 1707, quando partiu para Lisboa, por ter 
sido removido para o bispado de Miranda. 

Foi elle quem creou a freguezia de Nossa Se- 
nhora do Rosário, desta cidade ; e o primeiro pre- 
lado que realizou penosa viagem pelo sertão, chris- 
mando a esse tempo para cima de 40.000 pessoas. 

Por tão valioso servi(;o, D. João recebeu do con- 
cilio de Trento merecido elogio. 

— Em 1822, fel creada — por carta imperial— uma 
junta, que succedeu ao Conselho de governo, in- 
stalado n'esta cidade, então villa, com o fim de de- 
fender a independência nacional, promovendo a 
prompta expulsão das tropas portuguezas. 

Essa junta provincial, lendo tomado posse em 
Junho, só se dissolveu depois que o general Ma- 
deira de Mello, a 2 de Julho de 1823, se retirou 
da provincia, com as torças de seu commando. 

E ella era composta por Francisco Elesbão Pi- 
res de Carvalho, (depois barão de Jaguaripe), pre- 
sidente ; Joaquim José Pinheiro de Vasconcellos, 
dr. ( depois barão de Mont-Serratt ), secretario ; 
Joaquim Ignacio de Siqueira Bulcão, ( depois ba- 
rão de S. Francisco) ; José Joaquim Moniz Bar- 
retto de Aragão, (depois barão de Itapororocas ) ; 
António Augusto da Silva, dr. ( depois desembar- 
gador da Relação da Bahia); Manuel Gonçalves 
Maia Bittencourt e coronel Felisberto Gomes Cal- 
deira. 

—Ainda em 1825, o imperador expediu um aviso, 
mandando que a villa de Sant'Anna do Catii, e 



47 



todas as da comarca de Jacobina se unissem, quanto 
ames, ao governo que fora estabelecido aqui na 
Cachoeira, capital interina da província, e onde 
portanto se deveria apurar a eleição de um go- 
verno provisório, composto de sete membros, que 
na mesma data ticava marcada ; salvo si já então 
« a cidade da Bahia estivesse livre de seus bár- 
baros inimigos ». 

—Em 1837, o coronel Rodrigo António Falcão 
Brandão dirigiu-se — por officio — ao presidente da 
provinda, asseverando-lhe— que na Feira de Sant- 
Anna v< não havia senão intrigas e algtms descon- 
tentes » ; dando assim a entender — que nada se 
tinha a receiar pela ordem publica. 

Nove dias depois, porém, o mesmo patriota con- 
fessou — que recebera aviso de ter Hygino Pires 
Gomes, adepto da Sabinada, constituído um gran- 
de partido dentro d'aquella localidade, ao qual — 
com surpresa de muita gente— pertenciam juizes 
de paz e camaristas, dispostos a coadjuvar os re- 
beldes, no caso de abandonarem estes a Bahia, 
acossados pelas tropas legaes. 

—Em 1837, também, foi publicada a proclama- 
ção, que o commandante das armas rebelde — Sér- 
gio José Velloso dirigiu aos seus subalternos. 

D'esse documento se colhe— que o verdadeiro fim 
da Sabinaday conforme já íiz ver aliás, era a sepa- 
ração da Bahia, s6 durante a menoridade do im- 
perador Pedro II. 

6 de Dezembro 

— Em 1899, foi organizada a relação dos juizes 
de direito, que tôm servido n*esta comarca da Ca- 
choeira, a contar da promulgação do Código do 
processo criminal. 



48 



E' a seguinte : 

lo Dr. Innocencio Marques de Araújo Góes, (de- 
pois Barão de Araújo Góes ) ; 2^ Dr. Manuel Joaquim 
Bahia ; 3° Dr. António Ladisláu de Figueiredo Ro- 
cha; 4° Dr. Policarpo Lopes de Leão ; 5<* Dr, Igna- 
cio Carlos Freire de Carvalho ; 6° Dr. Domingos 
Ribeiro Folha ; 7^ Barão de Anadia ; 8<* Dr. Da- 
niel Luiz Rosa ; 9^ Dr. Manuel Alves de Lima Gor- 
dilho; 10. Dr. Joaquim José de Oliveira Andrade; 
11. Dr. António José de Castro Lima; 12. Dr. Hor- 
mino Martins Curvello; 13. Dr. José Machado Pe- 
dreira ; 14. Dr. Joaquim António da Silva Carvalhal. 

D'estes o Dr. Castro Lima serviu até ao fim da 
monarchia, e nos primeiros annos da republica. 

7 de Dezembro 

— Em 1837, o Coa^titucional Cachoeirense narrou 
minuciosamente o ataque, dirigido pelos rebeldes 
da Sabinada contra os pontos fortificados de Ca- 
brito, e Campina. 

As forças revolucionarias montavam a 900 praças, 
e de 300 era a força legal, que defendia Cabrito. 

Ahi se achava um piquete de 20 homens da ex- 
pedição d*esta cidade, commandada pelo tenente 
José Raymundo de Figueiredo Branco. 

Em Campina, estava uma guarnição de 60 praças 
do corpo de policia, sob as ordens do major José 
da Rocha Oalvâo, cachoeirano do comprovada bra- 
vura. 

Coube á legalidade a victoria, em toda a linha. 

— Em 1900, falleceu n*esta cidade o Dr. Henri- 
que Alvares dos Santos, com 72 annos de edade. 

Era natural da capital do Estado, e residia aqui 
a muito tempo. 



49 



Clinicava, e publicou vários jornaes, todos po- 
rém de vida ephemera. 

8 de Dezembro 

—Em 1822, o tenente João Francisco de Oliveira 
Bottas, que d'es1a cidade, então villa, havia sido 
mandado pelo governo provisório á ilha de Itapa- 
rica, afim de organisar uma força na/al, conseguiu, 
felizmente, pôr a salvo 18 barcos e lanchas. 

Estas embarcações estavam no porto de Cote- 
gipe, carregadas de mantimentos, com destino às 
tropas, que se batiam pela independência nacional. 

O tenente João Bottas teve que aífrontar um 
alentado fogo de parte da esquadra portugueza, 
composta da escuna « Emilia d, brigues «Audaz», 
e « Promptidão », duas grandes barcas, oito canho- 
neiras, e mais alguns lanchões. 

—Em 1876,morreu n^esta cidade, de onde era filho, 
o tenente-coronel Fructuoso Gomes Moncorvo, 
abastado capitalista, que fora negociante, tanto 
aqui, como na capital do Estado, então provincia. 

Tinha exercido vários cargos públicos, entre os 
quaes o de vereador da Camará Municipal. 

Chegou a ser o homem mais rico do municipio. 
Seus herdeiros, porém, não poderam conservar 
essa fortuna. 

9 de Deitembro 

— Em 1864, em festejo á Nossa Senhora da 
Lapa, houve em São Félix quinze dias seguidos 
de mascaras á pé! 

Ainda hoje, quer n*aquella, quer n'esta cidade, 
muitas festas de egreja sâo precedidas d'esse singu- 

R. 7 



50 



lar... divertimonto. Mas,circumstancia digna de nota, 
pelo carnaval quasi ninguém a toma careta x>, á 
excepção das pessoas, que fazem parte dos «clubs». 
Bem original. . . 

— Em 1889, o arcebispo da Bahia fez expedir 
uma «portaria», prohibindo que se fizessem as 
lavagens de egrejas com a solemnidade então em 
moda. 

Uma porção de mulheres, pertencentes em regra 
á classe baixa, levando á cabeça potes enfeitados, 
precedidas de musica e queimando foguetes, per- 
corria as ruas, entoando a chulas », e erguendo 
acclamações e «vivas». 

Com o correr dos tempos, essa. . . festa assumira 
proporções de uma bacchanal. 

Para maior desgraça ainda, as « lavagens», nesta 
cidade, chegaram a ser feitas á sombra de parti- 
dos, que quasi se engalfinhavam por amor de tão 
grande extravagância, a que não era extrànha a 
politica local I 

Apezar da portaria » prohibiliva do arcebispo, 
ha logares onde ainda hoje «as lavagens» continuam 
com o mesmo ardor e. . . brilho de outr'ora. 

10 de Dezembro 

— Em 1704, D. Rodrigo da Costa, que então nos 
governava, accusando a recepção da carta, em que 
a camará d'esta cidade, villa a esse tempo, lhe 
havia communicado a descoberta das minas do 
Serro-frio (Minas-Geraes) , que pertenciam á Bahia 
« por ficarem para a parte do rio São Francisco », 
ordenou á mesma camará— «que impedisse os 
descobrimentos de minas, que estivessem nos ser- 
tões da jurisdicção de saa capitania ». 

Que estadistas e que patriotas, . . 



51 



— Em 1822. o Conselho interino do governo da 
Bahia, cuja sede era nesta cidade, então villa, 
recebeu communicação da camará de Porto-Seguro. 
acerca de uma rebellião de Índios, que lá irrom- 
pera contra a causa do Brazil, e fora excitada pelos 
portuguezes. 

Felizmente, a cousa não teve consequências. 

— Em 1852, foi sepultado o capitão Manuel José 
da Silva Lemos, portuguez de nascimento. 

Era negociante, e se casara n'esta cidade, por 
cujo progresso bastante se interessava. 

A seus esforços devemos o «sino grande» da 
egreja Matriz, que elle mandou vir de Lisboa, 
quando serviu de juiz da festa do Santissimo Sacra- 
mento. 

11 de Dezembro 

— Em 1822, foi publicado um decreto do Go- 
verno imperial, mandando «pôr em effectivo se- 
questro os bens e propriedades dos súbditos do 
rei de Portugal, existentes em poder de negociantes 
do império ». 

O acto do governo de sua magestade causou 
grande reboliço entre a população doesta cidade, 
então villa, onde era extensa, e simultaneamente 
opima, a propriedade pertencente a portuguezes. 

A 28 de Janeiro seguinte, o Conselho interino 
do governo da Bahia, cuja sede era aqui, mandou 
cumprir o citado decreto. 

— Em 1864, foi lançada a primeira pedra para 
construcção do cemitério da irmandade do Rosário, 
ao Monte-formoso, d*esla cidade. 



52 



12 de Dezembro 

— Em 1822, o Conselho acima indicado se dirigiu, 
por officio, aos ouvidores da Cachoeira, Ilhéus, Ser- 
gipe d'El-Rei, e Jacobina, para que participassem ás 
camarás e justiças respectivas a solemne acclamação 
do príncipe D. Pedro, como Imperador constitucional 
do Brazil, effectuada a 12 de Outubro do mesmo 
anno, no Rio de Janeiro. 

— Em 1847, ás 7 horas da noite, foi ferido por um 
tiro, que lhe dispararam traiçoeiramente, o Dr, 
Carolino Francisco de Lima Santos, que nascera 
e clinicava n'esta cidade. 
Empregaram na viclima 24 caroços de chumbo. 
O Dr. Carolino, entretanto, se restabeleceu ; 
mas transferiu logo sua residência para Pernam- 
buco, donde muitos anãos depois passou-se para 
o Rio de Janeiro. 

O crime foi motivado por questões de imprensa 
partidária, que n*aquella época se limitava a uns 
pasquins pornographicos de baixo quilate. 

— Em 1883, fallecen em Nicteroy, Estado do 
Rio de Janeiro, o Dr. Augusto Teixeira de Freitas, o 
« Cujacio brazileiro ». 

Nascera nesta cidade, então villa, a 19 de Janeiro 
de 1817, e teve por progenitores o barão e a baro- 
neza de Itaparica. 

Em 1837, tomara o grau de bacharel em sciencias . 
.sociaes e jurídicas peia academia de Olinda, e, nesse 
mesmoanno, viu-se envolvido na « Sai)inada)), pelo 
que foi processado send») porém absolvido polo jury 
da Bahia, em 25 de Janeiro de 1839». 

Tendo transferido seu domicilio para a cidade 
do Rio de Janeiro, em breve conseguiu lirmar invejá- 
vel reputação, como advogado e jurisconsulto. 



53 



A' historia do direito civil brazileiro estai sem 
contestação, ligado o nome do immortal cachooirano 
que, em 1858, pnblicou a 1.** edição de sua im- 
portantissima obra « Consolidação das Leis Civis», 
tazendo-a seguir por outras de não menor valia. 

Sendo escolhido, em 1859, para redigir o «Projecto 
do Código Civil Brazileiro», apresentou o seu notável 
w Esboço do Código Civil»), que —em grande parte — 
serviu de modelo ao Código civil Argentino, con- 
fo^^me confessa Velez Sarsfeld; e ao Código civil 
do Uruguay, por cuja commissão revisora foi con- 
siderado como «o trabalho mais notável de codi- 
tícaçáo, por sua extensão, e pelo estudo e meditação 
que revela. « 

Mas, tendo o Dr Teixeira de Freitas desistido 
de apresentar o Codigc. foi rescindido o seu con- 
tracto, em 18 de Novembro de 1872. 

Suppõe-se — que o motivo desse alvitre fo»am 
as idéas, concebitias pele jurisconsulto, e repellidas 
pelo governo, de organizar-se dois Códigos, um 
geral, e outro especial, e refundir o Código com- 
mercial no civil. A primeira delias, comtudo^ está 
proclamada por jurisconsultos europeus como ver- 
dade já victoriosa; e a segunda conta presente- 
mente, na Itália, defensores de nomeada e \alor. 

O retrato do Dr. Teixeira de Freitas figura no 
«Instituto da Ordem dos Advogados», do Rio de 
Janeiro, c no « Tribunal de Appellação e Revista da 
Bahia»; e provavelmente ha de ser collocado em 
muitos outros legares, como significativa h(jmena- 
gem de admiração e apreço, devida ao saber do 
preclaro cachoeirano. 

O Conselho Municipal desta cidade, por proposta 
do Dr. A. Milton, mandou collocar uma lapide com- 
raeraorativa no prédio, onde aqui nasceu— para 
honra do Brazil— o eminente bahiano. 



54 



— Em 1886, falleceu em São Félix o tenente- 
coronel João Baptista Pamponet, que ali possuia 
antiga e acreditada pharmacia. 

Deixou fortuna regular. 

O tenente-coronel Pamponet servira sempre cor- 
rectamente diversos cargos públicos, e chegara aos 
80 annos de edade. 

13 de Dezembro 

— Em 1553, chegaram cora o 2.o governador ge- 
ral do Brazil — D. Duarte da Costa os 16 primeiros 
jesuítas, que vinham catechisar o gentio. 

Devemos á famosa ordem de Loyola, sem con- 
tar outros serviços, a edificação da egreja e do con- 
vento de Belém, que ficam a 6 kilometros appro- 
ximadamente d'esta cidade. 

Do convento só existe hoje a memoria, resta 
porém a egreja, que está regularmente conservada. 

Os jesuitas, em tempo, calçaram cuidadosamente 
a ladeira da Cadeia, por onde d'aqui subiam para 
seu delicioso retiro. Nem mesmo essa obra, de 
utilidade inquestionável, soubemos nós conservar I 

— Em 1835, falleceu na cidade da Bahia, onde 
se achava temporariamente, o senador por Minas- 
Geraes — Manuel Ferreira da Gamara Bittencourt, 
proprietário do engenho de assucar denominado 
Ponta, situado na freguezia do Iguape, do muni- 
cípio e comarca doesta cidade. 

Nascera em 1762, no Serro, que é hoje cidade, 
também, d'aquelle laborioso Estado ; e se formara 
pela Universidade de Coimbra em leis e philo- 
sophia. 

O senador Camará era um homem de saber, e 
consummado mineralista. 



55 



Havia percorrido a Europa, ao mesmo tempo 
que o primeiro José Bonifácio, seu muito illustre 
amigo. Publicou monographias importantes, e dei- 
xou preciosos manuscriptos, cujo paradeiro se 
ignora completamente. 

— Em 1843, o major José António da Silva Cas- 
tro, estando em S. Félix, então do municipio 
d*esta cidade, ordenou, na sua qualidade de com- 
raandante da força em diligencia para Pilão Ar- 
cado, que o capitão António dos Santos Castro 
continuasse a marcha para o sertão, aonde o 
encontraria, si bem que tivesse de tomar outro 
caminho. 

Essa força se dirigia para o rio S. Francisco, 
em cujas margens estava se desenrolando um dra- 
ma sangrento, occasionado pelas rivalidades, que 
haviam surgido entre duas familias poderosas : a 
de <s Militão » e a dos « Guerreiros ». 

Pouco depois, com o mesmo destino subiu, le- 
vando mais soldados, o major Joaquim Rodrigues 
Coelho Kelly, de primeira linha, nomeado -com- 
mandante do corpo expedicionário ao centro da 
Bahia. 

Como delegado de policia, em commissão espe- 
cial, foi mandado o Dr Álvaro Tibério de Mon- 
corvo e Lima, nosso honrado conterrâneo. 

Por sua vez, a comarca de Urubu foi theatro 
de uma luta de egual natureza, tendo como proto- 
gonistas membros da familia Guimarães, 

—Em 1870, foi sepultado na capital da provin- 
cia, agora Estado, para onde tinha ido tratar da 
saúde, o Dr. Joaquim Moreira Sampaio, que resi- 
dia em S. Félix, e era um medico recommendavel 
pela intelligencia e pelo tino. 

Fora, por vezes, vereador da camará, e supplente 
do juiz dos orphãos, d'esta cidade. 



56 



14 <le Dezembro 

— EiQ 1822, o general P. Labalut, que estava no 
seu quartel-general ao Engonho Novo, se dirigiu 
por officio ao Conselho interino do governo, esta- 
belecido n'esta cidade, então villa, c»onvidando-o 
«a se harinonisarom como dantes, abrindo mão 
de falsos pundonores, e com os oUios na pátria 
cuidarem mutuamente de auxiliar seus justos es- 
forços » . 

— No mesmo anno, o major António de Souza 
Lima, que commandava as forças nacionaes em 
Itaparica, se vando em sérios apuros para defender 
este ponto, pediu providencias adequadas e pro.n- 
ptas ao Consellio ialeriíi) do governo da Bahia, 
cuja sele or\ n*esta cila la, entlo vílla. 

— Em 1881, falleceu a*esta cidade o pDrtuguez 
António Lobo da Cunha, que deixou quantioso le- 
gado á respectiva Santa Casa de Misericórdia, da 
qual é tido como um dos mais dignos bemfeitores. 

Contava edade superior a 70 annos. 

16 de Dezembro 

— Em 1900, o carmelita frei Marianno Gordon, 
hespanhol de origem, mas brazileiro naturalizado, 
deu começo ás obras de reparação do frontespicio 
da egreja do Carmo doesta» cidade. 

Antes d'isto, o activo religioso havia renovado 
todo o telhado do mesmo tem|)lo, collocando-lhe 
na torre um pára-raios ; e continuou no louvável 
empenho de restaurar tanto a egreja, como o con- 
vento, que achavam-se quasi por terra. Era pena, 
entretanto, que se perdessem ; sobretudo a primeira. 



57 



cuja frontaria representa um trabalho artislico de 
valor inestimável. 

Manda a justiça— que se louve o ardor e des- 
interesse, com que a população se houve, acur 
dindo ao appello, que ao seu espirito religioso e 
generosidade fizera o laborioso sacerdote* 

16 de Dezembro 

—Em 1822, o Conselho interino do governo da 
província da Bahia, que funccionava n'esta cidade, 
então villa, queixou-se ao imperador Pedro I do 
general P. Labatut, allegando— além de outros fa- 
ctos — que o dicto general conservava comsigo todo 
o dinheiro de ouro e prata, que fora encontrado 
nos engenhos dos Teixeira Barbosa, calculado aliás 
em 300 contos de réis. 

Convém recordar— que as questões, oriundas desse 
dinheiro, atravessaram até á republica ; e só então 
foi paga a indemnisaçào, que os interessados re- 
clamavam pelo desvio d'aquella somma 

—O Conselho alludido, entretanto, a'aquella mes- 
ma occasião pediu a s. magestade « o estabeleci- 
mento de modo solido e estável da administração 
civil, e principalmente da militar, da provincia ; 
a remessa de uma esquadra correspondente á por- 
tugueza, que infestava os nossos mares; a demisssão 
de todos, quer brazileiros, quer portuguezes, que 
notoriamente haviam tentado contra a causa do 
Brazil ». 

O Conselho ia mais longe ainda. Solicitava do 
imperador— « providencias acerca da pessoa e bens 
dos portuguezes, presos e transportados para Per- 
nambuco, por causa da acclamação do príncipe 
regente ». 



58 



O Conselho, pedia, finalmente, a o chamamento 
á ordem das villas do Rio das Contas, e Caetité, 
que faziam economia separada ddLfamilia provincial, 
subtrahindo-se á autoridade do mesmo Governo 
interino ; a remessa para esta cidade, então villa, 
das peças necessárias ás officinas de fieira e cu- 
nho da casa da moeda, que estava se preparando 
aqui, e bem assim a determinação do valor, typo, 
e peso da nova moela imperial ; a nomeação de 
ouvidores para as comareasde Ilhéus, Porto Se- 
guro e Sergipe » . 

— Em 1893, as aguas do rio Paraguassú se avo- 
lumaram bastante * e no dia seguinte innundaram 
parte d'esla, e da fronteira cidade de S. Félix. 

Aqui chegaram ellas até ao meio da rua 25 de 
Junho, antiga Direita da Praça. 

17 de Dezembro 

—Em 1822, o Dr. Miguel Calmon du Pin e Al- 
meida, secretario do Conselho interino do governo 
da provincia da Bahia, que funecionava aqui, diri- 
giu carta ao imperador Pedro I, se queixando do 
general P. Labatut. 

Por sua vez, este havia - iio dia anterior — es- 
cripto ao ministro José Bonifácio, se queixando 
das intrigas e machinaçòes de seus inimigos, ao 
que não era estranho aquelle Conselho. 

— No citado anno, cliegou a esta cidade, então 
villa, o brigadeiro graduado José Egydio Gordilho 
de Barbuda, encarregado por carta régia de 9 de 
Julho do desempenho de uma importante com- 
missão. 

Trouxera do Rio de Janeiro 57 dias de viagem, 
e 46 de marcha. 



50 



O Conselho supradicto escreveu logo ao ministro 
José Bonifácio, communicando-lhe o facto, bem 
como a conferencia que tivera com o brigadeiro, 
E. para não perder o ensejo, encaminhou áquelle 
cidadão documento comprobatório de abusos, com- 
meltidos pelo general P. Labatut. 

— Em 1830, chegou a esta cidade, então villa, o 
marechal João Chrysostomo Callado, que andava 
inspeccionando a força militar existente. 

Viera por Santo Amaro, onde tinha estado — por 
alguns dias — occupado no mesmo serviço. 

— Em 1868, falleceu na capital d'este Estado, então 
provincia, o nosso estimável e distincto conterrâneo 
— Dr. Álvaro Tibério de Moncorvo e Lim<^, que 
nascera a 16 de Fevereiro de 1816. 

Depois de bacharelado em direito, o digno cachoei- 
rano aqui se demorou por algum tempo, advo- 
gando, sem deixar entretanto de se immiscuir nas 
lutas politicas locaes. 

Transferindo sua residência para a cidade da 
Bahia, ahi continuou o Dr. Tibério a exercer a sua 
profissão, com fortuna e lustre. 

Em 1843 foi mandado em com missão de grande 
responsabilidade ávillade Pilão- Arcado, no caracter 
de juiz municipal e delegado de policia. 

Mais de uma vez, o prestimoso cachoeirano 
occupara o governo da província, como seu vice- 
presidente; e, afinal, na qualidade de presidente 
effeclivo, lhe coubera por sorte enfrentar a tremenda 
epidemia do « cholera-morbus » , que aliás forneceu- 
Ihe ensejo de prestar serviços públicos da maior 
valia, e que não serão jamais esquecidos pelos 
bahianos de coração e de caracter. 

Deputado provincial, presidente da Camará Muni- 
cipal da Bahia, deputado á Assembléa Legislativa 



60 



Geral, e mais de uma vez contemplado em lista 
tríplice para a escolha de senador, o Dr. Tibério 
recebia assim as mais inequívocas provas da sympa- 
thia e confiança, que merecia de seus concidadãos. 

E por amigos e admiradores a sua morte toi con- 
siderada como verdadeira calamidade. 

18 de Dezembro 

— Em 1845, falleceu o advogado Loke Regadas 
de Farias, deixando alguns bens de fortuna. 

— Em 1888, desembarcou aqui o engenheiro 
António Plácido Peixoto do Amarante, commissio- 
nado pelo governo, da então província, para estudar 
os melhoramentos, que se fazem precisos afim do 
tornar mais desembaraçada a navegação do rio 
Paraguassú. 

Ao relatório, que odiío engenheiro, em tempo, 
apresentou, tomo as seguintes informações: 

« O rio Paraguassú. ... é o maior e o mais impor- 
tante dos rios, que desembocam na Bahia de Todos 
os Santos. Banha a cidade da Cachoeira, que demora 
a 40 kilometros de sua fóz. na margem esquerda, 
e fronteira a ella a freguezia (hoje cidade) de São 
Félix, na margem direita. 

Ponto inicial da c< Estrada de Ferro Central ». e 
unidas pela importante ponte «D. Pedro II >». são 
estas duas localidades muito notáveis, e florescen- 
tes pelo grande commercio, que entretém com os 
centros productores do interior. 

D'ali para baixo o rio Paraguassú, descrevendo 
largas curvas, segue o rumo geral de S. E., e, 
correndo em leito quasi sempre empedrado, aper- 
tado entre altas montanhas, com a largura de 300 
a 2.000 metros, córma o lago (outros chamam 



Gl 



mais propriamente bacia) do Iguape, a 20 kilo- 
meiros de sua fóz, e continua até lançar-se no mar. 
As marés se manifestam n'este rio até muito acima 
da Cachoeira, attingindo sua altura a 2 m. 3, 
observada na escala, que fincámos no porto. 

Profundo, e offerecendo navegação franca e se- 
gura, desde sua embocadura até ás proximidades 
das povoações de Nagé e Coqueiros, na margem 
direita, somente d'ahi até o porto da cidade apre- 
senta largos baúcos, ou coroas de areia, que em 
muitos pontos difficultam a navegação, na baixa- 
mar, tornando o canal sinuoso e estreito, principal- 
mente no logar denominado «Pedreiras», onde as 
embarcações só encontram accesào em curva aper- 
tada, junto ás pedras da margem direita. 

Efifectuámos n'este trecho do rio 300 sondagens, 
que indicaram canal com a largura de 30 a 100 
melros, e profundidade de 1 a 3 metros, sendo 
também encontrados alguns pontos com profundi- 
dade maior de 5 melros. 

O porto da cidade acha-se muito obstruido por 
bancos de lama, areia, e cascalho; e seu canal 
approxima-se mais da margem esquerda do que 
da direita, tendo apenas na baixa-mar a largura 
de 30 a 60 metros, com profundidades que variam 
de 1 a 2 m. 3. 

O melhoramento para uma navegação franca e 
segura exige dra^^jagem, em alguns bancos de areia, 
6 talvez a remoção de alguns cabeços de pedra 
para aprofundar o leito, alargar e rectificar o ca- 
nal, e o balisamento deste, desde Nagé até á 
cidade. 

No porto, será necessário estender a dragagem, 
em quasi toda a largura do rio (300 melros), 
afim de augmentar a sua profundidade, e facilitar 



62 



O movimento de embarcações, principalmente junto 
á ponte de embarque e desembarque. 

O produclo das excavações poderia ser ulilisado 
no aterro do largo do Calabar, á montante da em- 
bocadura do rio Pitanga, na cidade; cujo cães já 
começado deveria ser concluido até á ponte Pedro 
II : e este melhoramento, favorecendo as condi- 
ções hygienicas do porto, traria também o embel- 
lezamento d'ell« ». ( * ) 

O engenheiro Luiz de Souza Mattos veio, em 1893, 
explorar — por sua vez— o rio Paraguassú. Traba- 
lhou desde a ponte Pedro II aló ao engenho Vi- 
clorin, sendo suspensos depois os estudos, em con- 
sequência de se haver esgotado a verba a elles 
destinada. 

— Em 1892, teve logar a primeira eleição para 
membros do Conselho, e par.i intendente munici- 
pal d'esta cidade, de accordo com a legislação da 
republica. 

Foi eleito intendente o tenente-coronel Manuel 
Martins Gomes. 

19 de Dezembro 

— Em 1778, a camará doesta cidade, então vil la, 
designou a Casa do riacho, que pertencera a José 
Pereira, para deposito da pólvora, que houvesse 
de ser vendida a retalho. 

Ora, vejam como são as cousas... 



(*J Por iniciativa da muDicipalidade. e com auxilio 
do Estado, o cáes está coucluido (1000); e o aterro, a 
que se refere o engenheiro Amarante, vae se fazendo re- 
gularmente, apezar de nao se tor ainda excavado o rio. 

D'essas obras foi encarregada uma comniissao, composta 
do Dr. Aristides Augusto Milton, coronel Manuel Martins 
Gomes e major Francisco Mendes Magalhães Costa. 



63 



Hoje, quando já temos progredido assas, e parece 
pois que tudo deveria andar melhor, a pólvora se 
encontra, e é vendida, em qualquer ponto da ci- 
dade, a despeito dos gravissimos perigos, a que 
todos assim ficamos expostos I 

Nem Qiesmo a tremenda catastrophe do Tabuão, 
na cidade da Bahia, suggeriu ás autoridades com- 
petentes um bom movimento, no sentido de se 
cortar o abuso, que pode ser fatal a uma popula- 
ção inteira. 

Provavelmente, querem por tal modo demon- 
strar, mais uma vez, —que o c< brazileiro só fecha 
a porta depois de roubado ». 

— Em 1822, o Conselho interino do governo da 
Bahia, que funccionava nesta cidade, então villa, 
se dirigiu por officio ao ministro do Império José 
Bonifácio de Andrada e Silva, lhe communicando 
a chegada do brigadeiro José Egydio Gordilho de 
Barbuda ; e repetindo, ao mesmo tempo, suas queixas 
contra o general P. Labatui, nellas envolveu o nome 
do coronel José Garcia Pacheco Pimentel de Moura 
e Aragão, a quem o Conselho, embora qualifique de 
«ignorante e fácil», proclama como um dos bene- 
méritos da provincia. 

— Em 1839, testemunhou esta cidade a maior 
cheia, que tem tido o rio Paraguassú, que o povo 
conhece por « enchente grande ». 

Durante o mez de Novembro, as aguas do mesmo 
rio tinham a pouco e pouco crescido, até que afinal 
transbordaram ; causando o atropello e susto, que 
nessas eventualidades costumam sempre reinar. 

Eraquinta-feira. 

A's 8 horas da noite, copioso aguaceiro desabou 
sobre a cidade e seus arredores ; e, de então por 
diante, o Paraguassú foi subindo cada vez mais : 



64 



de sorte que, ás 11 horas, era já grande o numero de 
casas invadidas pelas aguas, a confusão e o pavor 
dominavam por Ioda parte. 

No dia 20, o rio linha alcançado já — pela rua das 
Flores— a casa, em que morava uma certa Maria 
Magdalena, ao lado esquerdo de quem sobe, e 
presentemente figura sob n. 53. 
No dia 21, as aguas ainda subiram mais. 
No dia 22, o rio, que avançava sempre impetuoso, 
achava-se —ao começar da tarde —em {rente á casa 
onde residia José dos Santos Baptista, árua Rodrigo 
Brandão (outr'ora do Fogo), a qual fica nos fundos do 
sobrado sob n. 2 á rua Formosa. Nesta rua, as aguas 
haviam attingido á esquina, formada pelo prédio, 
então, de Jerunymo José Albernaz, que hoje tem o 
n. 5 e outros prédios ao lado. 

Ao mesmo tempj, o rio tomava a rua Marechal 
Deodoro (antiga doo Curraes-velhos) , passando além 
do matadouro, que existia ahi. 

No dia 23, as aguas baixaram cerca de 60 melros ; 
mas, no dia seguinte tornaram a se elevar, e com 
tanta força, que ás 9 horas da manhan penetravam 
ellas no becco da «Viuva Motta», que communica 
pela parte de cimaas indicadas ruas Rodrigo Brandão 
e Formosa. Descendo, então, por esta, só estaciona- 
ram defronte do sobrado de dois andares, que tem 
presentemente o n. 29. 

Simultaneamente, outra porção de agua, subindo 
pela citada rua Formosa, só parou defronte do 
sobrado n. 18. que era propriedade de José Pereira 
Nogueira, e fica um pouco acima da entrada do largo 
dos Amores. 

De modo que, pouco faltou para se encontrarem 
as duas línguas do rio, que se bifurcara, e tinham 
penetrado em sentido opposto na dita rua Formosa. 



65 



Pela rua 25 de Junho (antiga Direita da Praça), 
o Paraguassú subiu também muito ; tanto que cobriu 
5 1/2 degráos da escada de pedra, que existe em 
frente á cadeia. 

No sobrado n. 14, que faz quina para a rua 13 
de Maio (então rua de Baix ^) , onde residia João José 
da Silva e Azevedo, faltaram apenas m 0,22 para as 
aguas tocarão respectivo assoalho. Mas, exactamente 
mO, 22 chegaram ellas acima do assoalho de outro 
sobrado, o de n. 9 sito ao largo dos Arcos. 

A corrente qne subia pela rua da Matriz, e a que 
descia pela rua da Ponte-velha, por differença de 
ra 0,11 não se juntaram na praça da Regeneração. 

Por differença, também, de O m,22 o rio deixou de 
entrar pelo 1.® andar do gi*ande prédio de dois anda- 
res, existente á rua 13 de Maio (então rua de Baixo) , 
onde em 1859 foi hospedado o imperador Pedro 11; e 
tem hoje o numero 13. 

Em alternativas de augmento e diminuição, se 
mantiveram as aguas até o dia 30 quando se ira- 
mobilisaram por algumas horas, Hcando approxi- 
madamente m 2,50 abaixo do sobrado á rua Formosa 
n. 2, que pertencia a Bento José de Almeida. Pelo 
correr do dia, porém, começando de novo o rio a 
subir, alcançou a esquina fvjrmad.\ por aquelle prédio. 

As aguas haviam invadido tambf.ím a egreja Matriz, 
cuja porta principal cobriram até á altura de m2, 0. 
Si tivessem crescido mais um [)ouco, O m22, o altar- 
mór ficaria alagado. Em todo o caso, o Santissimo 
Sacramento foi transferido para a capella de Nossa 
Senhora d'Ajuda, o mais antigo templo da cidade E, 
por aquelle motivo, não se celebrou em 1839, missa 
de Natal, na matraiz ; o que se repeliu aliás, em 1900, 
sem causa justificativa. 

R. 9 



66 



Embarcado, era o único meio possivel de se chegar 
á rua da Conceição do Monte. 

Além da matriz, as aguas penetraram egualmente 
nas egrejas do Convento, e da Ordem Terceira do 
Carmo ; cobrindo os primeiros degráos das respecti- 
vas capellas-móres. 

As casas térreas, situadas ao pé do rio. tanto nesta 
cidade, como na de Sào Félix, então simples povoado, 
ficaram — mais de meio telhado — cobertas de agua. 
Dentre ellas, cerca de 100 desabaram: e se contou 
grande numero de deterioradas. 

Podem -se apontar os pontos desta cidade, poupa- 
dos pela enchente grande. E foram estes : alto do 
Caquende, ladeira da Mangabeira (então chamada 
rua do Assobio), ladeira da Cadeia, largo d' Ajuda, 
rua do Amparo, praça da Regeneração (do lado 
do chafariz publico), rua da Pitanga, ladeira da rua 
da Conceição do Monte, rua Formosa (trecho com- 
prehendido entre as duas línguas de agua, a que 
acima alludi), e Recuada ( pontos extremos). 

A 1.** de Janeiro de 1840, as aguas começaram a 
baixar seguidamente, até que no dia 9 o rio retomou 
seu leito. 

No dia anterior, entretanto, a Gamara Municipal 
se tinha reunido para providenciar, como lhe fosse 
possivel em similhante emergência. 

Não falando em outras medidas, que tomara, 
a Camará havia deliberado, sob proposta do vereador 
Ribeiro Guimarães, despender 200$000 na compra 
de lenha e alcatrão, com que se fizessem fogueiras 
para desinfectar as ruas. 

Na sessão de 15 de Janeiro, a Camará resolveu ele- 
var ao duplo essa quantia. 

O presidente da província, hoje Estado, mandou — 
por officio de 7 de Fevereiro de 1840 — emprestar 



67 



á raesroa Camará 400$000 para « continuação da 
limpeza das ruas da cidade ». 

O Arcebispo — D. Romualdo Anloiiio de Seixas, a 
3 de Janeiro do referido anno, expediu pastoral elo- 
quente, ordenando « preces para que cessasse a 
enorme calamidade, e Deus preservasse os habitan- 
tes da peste e da fome, consequências que ella 
poderia produzir. » 

A verdade é — que morreram, então afogadas 
varias pessoas; e assim que as aguas baixaram se 
desenvolveram, como aliás era esperado, febres de 
máo caracter, que viclimaram diversos cidadãos, 
entre os quaes contou-seo padre Malachias Ribeiro. 

Foram quantiosos os prejuizos, motivados pela 
«enchente grande o ; mas nenlium roubo se registrou, 
durante aquelles dias de confusão e terror. 

Ha memoria, também, de outra enchente exce- 
pcional do Paraguassú. succedida em 1792. Essa, 
comtudo, foi menor do que a de 1839, pois apenas 
attingiu três degráos da cadeia. 

— Em 1890, aportou a esta cidade o Dr. Manuel 
Victorino Pereira,!.^ governador do Estado da Bahia, 
no regimen republicano, que linha sido recente- 
mente inaugurado. 

Teve estrondosa recepção, tal qua! pouco antes 
haviam feito ao conde d 'Eu, consorte da princeza 
imperial; se notando a coinciJencia de ser amphi- 
Iryào de ambos o mesmo cavalheiro, que em sua 
própria casa os recebeu fidalgamente. 

20 de Dezembro 

— Em 1712, o senado da Camará d'esta cidade, 
então villa, recebeu do mestre-carapina Manuel 
Garcez, por estarem promptas e completas, as obras 
do seu paço. 



G» 



— Em 1799, o ouvidor-geral e provedor d'esta ca- 
mará — desembargador João da Costa Carneiro de 
Oliveira, por um proviraeniô muito bem deduzido, 
recomraendou a cultura do anil, da pimenta da 
índia, e da canella, « fora a dos mais géneros de 
primeira necessidade». 

Mas, qual ! o provimento « virou canella ...» 
Nós importamos, ainda, lanto essas especiarias, 
como palitos e vassouras também. Só entendem, 
os lavradores de cá, do cultivo do fumo, ou taba- 
co ; e nem se lhes fale n'outra cousa : principal- 
mente depois que, em 1899, venderam a safra até 
á razào de 30$000 por 16 kilogrammas da estimada 
solanea, embora no anno seguinte nào encontras- 
sem, durante alguns mozes, quem a comprasse por 
preço algum. 

Verdade é — que da pimenta possuímos uma va- 
riedade espantosa, sobresahindo — entre ellas — a 
« malagueta » ; condimento assas apreciado na 
cozinha bahiana que, não por isso, mas por ou- 
tros titulos indisputáveis, arranca sempre mere- 
cidos gabos, e na republica ioda goza de justa no- 
meada. 

Mas, além de espe^^iarias, ha muito em que se 
possa, e deva, aproveitar o solo ubérrimo de nossa 
pátria. 

— Em 1808, uma carta régia, expedida de Portu- 
gal, agradeceu e louvou a todos os lavradores do 
termo desta '^idade, então villa, os quaes, por ini- 
ciativa do juiz de fora José Raymundo de Passos de 
Porbem Barbosa, tinham contribuído com impor- 
tantes donativos para soccorrer a metrópole portu- 
gueza. 

— Em 1822, o Conselho interino do governo da 
provincia da Bahia, hoje Estado, cuja sòde era 



69 



nesta cidade, então villa, cumprindo as ordens 
imperiaes, transmiltidas por aviso de 15 de Outu- 
bro, nomeou José Egydio Gordillio de Barbuda, 
brigadeiro, para commandar — na qualidade de ofíi- 
cial general— a 3.» divisão do exercito pacificador. 
Esta era composta pelas tropas das villas da Ca- 
choeira, Santo Amaro, Maragogipe e S. Francisco, 

E approvou o plano e a proposta, que o capitão- 
raór João Dantas dos Reis Portátil offerecera para 
organisação da guarda cívica, destinada á defeza 
d'esta cidade, então villa. 

— Eni 1839, o cidadão Bernardo José das Neves 
arrematou por 29:865$752 a obra da nova ladeira 
da Muritiba, orçada em 36:515$7õ2. 

A ladeira citada tem consumido muitas outras 
sommas, despendidas pela administração publica, 
e serve ao transito de centenares de pessoas, dia- 
riamente. 

A intendência municipal de S. Félix melhorou 
muito o estado da ladeira da Muritiba, que em 
quanto não fôr toda calçada, me parece, ha de con- 
tinuar a exigir concertos, mais ou menos custosos 
mas provisórios também. 

21 de Dezembro 

—Em 1857, falleceu — bera moço ainda— o tenen- 
te Manoel Balbino da Costa Brandão, que era in- 
fluencia eleitoral e juiz de paz de S. Félix, então 
pertencente ao termo e comarca desta cidade. 

Tão infausto e prematuro passamento foi geral- 
mente sentido. 

—Em 1859, a população doesta cidade despertou 
profundamente impressionada por um facto grave, 
que á noite havia occorrido. 



70 



Tinham tentado incendiar o edifício em que, á 

rua da Matriz, funccionava a «Caixa Commercial». 

Na porta principal, diz o auto de corpo de de- 

licto a que se procedeu, foram encontrados «dois 

logares queimados interior e exteriormeilte». 

E hccrescenta a peça judiciaria, «n'um montão de 
paus, que estava contiguo á mesma casa, achou- 
se uma fogueira, que fora alimentada com pequenas 
maravalhas, e porção de agua-raz; havendo frag- 
mentos de uma garrafa quebrada, que continha 
aquella substancia, e um embrulho com porção de 
phosphoros.» 

Como autor doesse crime foi indigitado João Pe- 
reira da Costa, que annos depois cumpriu — na 
Bahia— pena de prisão, como falsificador. 

— Em 1872, foi publicado o novo recenseamento 
da população doesta cidade. 

N*esse trabalho, sem duvida imperfeito, pois que 
não passava de um simples ensaio no género, attri- 
buiu-se á Cachoeira uma população de 11.223 al- 
mas. Doestas pertenciam 4.847 ao sexo masculino 
e 6.376 ao feminino. 

Verificou-se, egualmente, a existência de 2.100 
fogos, distribuídos por 2.850 prédios, a saber: 5 
sobrados de dois andares, 236 de um só andar, 
1.478 casas térreas dentro do perimetro da decima 
urbana, e 131 fora d'esta. 

A esse tempo, contavam-se oito pessoas maiores 
de 100 annos, com residência entre nós. 

A se crer em Ayres do Casal (Geographia brasí- 
lica), esta cidade, em 1804, tinha somente 894 fogos 
e S. Félix- 202. 

Uma noticia, escripta pelo tenente-corouel J. Ar- 
nisáu, faz certc» — que, em 1825, a Cachoeira con- 
tava já o duplo d'esses fogos. 



71 



Em 1866, foram arrolados aqui 233 prédios de 
sobrado e l.Oõl térreos, nào incluindo 150, que fi- 
cavam fora do perímetro da decima; ao todo— i. 434. 
Mais 540, portanto, do que no anno de 1804, e 
menos 44 do que em 1872. 

Em 1891, foi levantado um novo recenseamento, 
que produziu aliás o mesmo resultado do de 1900 
no Rio de Janeiro, quando serviu de assumpto a 
uma troça monumental, e teve de ser rectificado. 
Segundo elle, a população da Cachoeira havia des- 
cido, sem motivo algum conhecido, a 8.250 almasl 
Entretanto, conforme dados officiaes colhidos em 
Dezembro de 1900, a Cachoeira conta 2.053 pré- 
dios, dos quaes 249 são de sobrado, 1.613 térreos 
e 191 estão fora do perimetro da decima urbana. 
Assim, no espaço de 34 annos, a edificação aug- 
menlou de 619 prédios. 

Quanto á população, o recenseamento procedido 
no dito anno de 1900 dá para a cidade uma popu- 
lação de 12.000 almas, cifra redonda. 

22 de Dezembro 

—Em 1881, teve logar a collocaçào da primeira 
pedra da ponte Pedro II, que liga esta cidade á 
de S. Félix. 

A referida ponte mede 353."^ de comprimento, 
está construida na costa 0"\50 acima do nivel da 
maior enchente que já teve o rio Paraguassii; e 
consta de 4 vãos, a saber: 2 centraes, de 91"'50, e 
2 lateraes de86"'0, tendo o estrado 9"'0 de largura. 

A secção central é destinada á passagem de trens, 
carroças, carros e animaes e as duas lateraes ser- 
vem para o transito de peões. 

{Vid, Ephemerid. de 7 de Julho.) 



72 



— Era 1881, também foi lançada a primeira pe- 
dra do novo comiíerio que a irmandade da Sancta 
Casa de Misericórdia deliberara edificar n'esta ci- 
dade e desde muito está funccionando. 

Presentemente, a Cachoeira possue quatro ce- 
mitérios, que são: o da Misericórdia, o do Rosá- 
rio ao Monte-Formoso, o da Ordem 3.* do Carmo, 
e o dos acatholicos. 

23 de Dezembro 

—Em 1822, o general P. Labalut, contrariado 
com a nomeação do brigadeiro José Egydio Gor- 
dilho de Barbuda, eíTectuada no dia 20, pediu seus 
passaportes ao Conselho interino do governo da 
Bahia, cuja sede era n'esta cidade, então villa. 

Por sua vez. o referido Conselho, em oíficio di- 
rigido ao ministro do império— José Bonifácio de 
Andrada e Silva, representou contra aquelle gene- 
ral, «por ser sô capaz de perder a província e não 
de salval-a, por ser sO capaz de fazer armar ao 
infame Madeira, por se mostrar mais bárbaro e 
imprudente que este monstro.» 

—Em 1858, finou-se o major António Ferreira 
Souto, que fora sub-delegado de polícia, juiz de paz 
e vereador da camará municipal desta cidade, onde 
dispoz de alguma influencia eleitoral. 

— Em 1881, foi aberto ao transito publico o tre- 
cho que vae de S. Félix ao Curralinho (agora Ci- 
dade Castro Alves) na estrada de ferro Central da 
Bahia., 

— Em 1893, falleceu na capital do Estado o padre 
Salvador Calixto de Barros, derradeiro vigário 
oollado da freguezia de S. Félix. 

Era septuagenário. 



73 



24 de Dezembro 

—Em 1654, O conde de Atouguia deu regimento 
ao capitâo-mór Gaspar Rodrigues Adorno, manda- 
do ao sertão da Bahia para fazer guerra ao gentio 
bárbaro. E, juntamente, marcou a successão, que 
deveria ter esse explorador, caso desapparecesso — 
por qualquer accidente— na jornada, que ia em- 
prehender. 

Por aqui teve de passar o valente capitão, cuja 
edade era então de 30 annos, pois que tinha nas- 
cido em 24 de Juuho de 1624. 

Em 24 de Setembro de 1664, o vice-rei conde 
de Óbidos encarregou o mesmo Gaspar Adorno de 
trazer para as cabeceiras de Iguape, Maragogipe, 
Jaguaripe, e Cachoeira as aldeias então existentes 
em Jacobina o Payayases; fosse por bem, ou fosse 
a poder das armas. 

Também, não havia pessoa aquém os aborigenes 
mais respeitassem, pela tradição e conhecimento 
que tinham de seus avós... 

E tal medida foi tomada, exactamente porque 
aqueile gentio costumava descer do sertão para 
hostilisar os habitantes do recôncavo. 

— Em 1822, o general P. Labatut fez espalhar 
um manifesto, datado do seu quarlel-general ao 
Engenho-novo; e por meio delle, dispensava o co- 
ronel José Garcia Pacheco do commando da força 
armada, existente n'esta cidade, então vil la. 

No mesmo documento, não sei bem a que pro- 
pósito, o general declarava innocente, e de lodo 
iilibado o procedimento do capitão-mór José Paes 
Cardoso. 

—Em 1889, foi inhumado em S. Félix o cadáver 

R. 10 



74 



do importante industrial Francisco José Cardoso, 
portuguez de origem, mas brazileiro— havia muito 
já -naturalizado. 

A custa de trabalho insano, conseguira elle mon- 
tar uma fabrica de charutos — A Juventude — que 
chegou a ser a mais acreditada do paiz. 

O serviço que Cardoso assim prestou, desenvol- 
vendo a industria nacional, e simultaneamente tor- 
nando o seu estabelecimento o ganha pão de muitas 
familias pobres, mas honestas, não se pode enca- 
recer de mais. 

O prestante cidadão que, além de tudo, era um 
homem pacifico e chefe de família dedicado, attin- 
giu a 74 annos de edade. 

25 de Dezembro 

—Em 1899, a farinha de mandioca foi vendida ao 
preço de 800 réis cada litro, a carne-verde a 1$200, 
e o charque a 1$500 o kilogramma. 

O sertão era assolado por secca inclemente, que 
tangeu para esta cidade e as outras do recôncavo 
uma população numerosa e faminta. Âssistiu-se 
ali a um êxodo tremendo e acabrunhador. E de 
miséria orgânica morreram então centenas de 
pessoas. 

Para soccorreros retirantes, que de todo o cen- 
tro aqui chegavam, foi organizado um Comité po-^ 
pular, que no convento do Carmo distribuiu, duran- 
te algum tempo, géneros alimenticios aos necessi- 
tados. 

^ Dessa feita, o governo se limitou a dar passa- 
gem gratuita, em vapor ou estrada de ferro, a quem 
queria. . . mudar de ares. 



75 



26 de Dezembro 

— Em 1837, partiu desta cidade o coronel Rodri- 
go António Falcão Brandão, com 50 praças do 
batalhão de coluníarios, par^ a Feira de Sant'Anna, 
onde se receiava um próximo rompimento, annun- 
cíado em clubs, e por meio de proclamações, dos 
adeptos da Sa binada. 

As outras praças, componentes do citado bata- 
lhão, pouco antes haviam seguido, sob o commando 
do capitão J. de Meirelles, para o Pédrão, com o 
fim de auxiliar os respectivos juizes de paz na per- 
seguição e captura dos turbulentos que, a serviço 
dos rebeldes, por ali vagavam. 

— Em 1891, foi celebrada na capella da Saneia 
Casa de Mizericordia, desta cidade, uma soíomne 
missa em acção de graças, por haver a respectiva 
irmandade conseguido solver todos os seus débi- 
tos, que eram relativamente crescidos. 

A esse brilhante resultado se chegou por meio 
de esmolas, que obtivera no Rio de Janeiro o pro- 
vedor da mesma irmandade — Dr. Aristides Augusto 
Milton. 

A Meza respectiva, em testemunho de seu reco- 
nhecimento, mandou collocar na sala de suas 
sessões o retrato do dicto provedor, que se encon- 
tra ao lado dos retratos de outros bemfeitores da 
Sancta Casa; commendador Pedro Rodrigues Ban- 
deira, commendador Manoel Galdino de Assis, João 
Amaro Lopes, coronel José Ruy Dias de Affonseca 
e commendador Rodrigo José Ramos. 

27 de Dezembro 

— Em 1834, o tenente-coronel Rodrigo António 
Falcão Brandão officiou ao presidente da província 



76 



lhe communicando— que Innocencio José Galvão, 
complicado em o negocio do batalhão dos Periqui- 
to8y achava-se nesta cidade, então vilia, e só sahia 
á noite, vestido de padre, e em cadeira de arruar, 
seguido sempre de escravos com archotes. 

Eis como, nesses bons tempos andavam— de noite 
— as pessoas de distincção... 

—Em 1837, entrou no povoado de S. Gonçalo 
dos Campos, hoje cidade, o mesmo patriota Ro- 
drigo Brandão, que já era coronel, com a força 
daqui sabida debaixo do seu commando. 

Dirigia-se para a Feira de Sant'Anna, cuja attitu- 
de a favor dos rebeldes ali confirmou-lhe o respec- 
tivo commandante superior da guarda nacional. 

Em S. Gonçalo, reuniram-se mais 80 homens á 
sobredita força. A seu turno, o presidente da pro- 
víncia — Barretto Pedroso mandou reforçal-a com 
177 praças. Algumas outras foram chegando de 
vários pontos, enviadas pelas autoridades locaes. 

Foi com um total de 280 homens, que— poucos dias 
depois— o coronel seguiu para a Feira de Sant Anna, 
animado das mais lisongeiras esperanças, como 
partidário da legalidade, que sempre foi. 

— Em 1872. falleceu— contando 38 annos de edade, 
— o nosso conterrâneo Dr. Manuel Cândido de Araújo 
Lima, que estava de passeio nesta cidade. 

Era empregado na secretaria do governo e mem- 
bro da assembléa provincial da Bahia. 

28 de Dezembro 

— Em 1822, o Conselho interino do governo da 
Bahia, cuja sede era n'esta cidade, então vilIa, man- 
dou prender o revm. fr. José de S. Jacintho Mavig- 
ni«r, por bem 4o, tranquillidade publica. 



77 



Com certeza, o bom do monge fizera algum es- 
tardalhaço sensacional. . . 

— Era 1865, foi assignado o contracto, entre o 
súbdito inglez John C. Morgan e o governo impe- 
rial, para construcção da estrada de ferro Para- 
guassúf convertida ao depois na Central da Bahia 
de que foi emprezario outro súbdito bntannico, o 
engenheiro Hugh Wilson. 

Essa estrada começa na fronteira cidade de São 
Félix, e tem um ramal para a da Feira de Sant'An- 
na, com o ponto de partida aqui. 

— Em 1877, falleceu de congestão cerebral, quan- 
do se dirigia numa canoa para o vapor, que o de- 
veria conduzir até á cidade da Bahia, o nosso con- 
terrâneo Dr. José Germano Mangabeira, promotor 
publico d'esta comarca. 

Estava ainda em todo o vigor da mocidade. 

—Em 1881, corto cidadão desconhecido andou a 
convidar padres, músicos e diversas outras pes- 
soas para acompanharem um enterro. 

Mas, á hora aprasada, os que compareceram no 
logar indicado verificaram ter sido victimas de um 
logro pyramidal. 

O gaiato, que se divertia assim com a morte, 
desappareceu d*aqui no mesmo dia, sem que mais 
nunca podesse ser ao menos lobrigado , . . 

— Em 1893, a cidade amanheceu innundada em 
vários pontos. Desde dois dias antes, o thermo- 
metro subira desmedidamente, e o calor se tornara 
insupportavel. 

Durante a noite de 27, a chuva que ás 8 horas 
tinha começado fina e moderada, foi a pouco e 
pouco engrossando; e ás 2 horas da madrugada 
despejava-se em bátegas, tão copiosas quanto in- 
cessantes. Raro foi o telhado que poude resistir ao 
peso da agua, que cahia em verdadeiras catadupas. 



78 



A população despertou sobresaltada, e de muitos 
ângulos da cidade eleva ram-se gritos de conster- 
nação e soccorro. Não poucas pessoas abandona- 
ram suas casas atabalhoadamente. Enfermos e ve- 
lhos, foram conduzidos ás costas de amigos e pa- 
rentes para fugir no perigo que os ameaçava. 

Diversos commerciantes, cujas casas de negocio 
foram invadidas pelas aguas, registraram prejuizos 
enormes. Alguns prédios ficaram damnificados. 

Em S. Félix, a tromba ainda maiores estragos 
produziu. A ladeira da Muritiba, recentemente con- 
certada soffreu bastante. 

O Paraguassú avolumou logo sua corrente e os 
trens da estrada de ferro Central da Bahia não po- 
deram, por alguns dias, correr. 

Não houve, felizmente, desgraça pessoal a se 
lamentar. 

29 de Dezembro 

— Em 1848L, o presidente da província, hoje Es- 
tado da Bahia, communicou á camará municipal 
desta cidade ter sido removido, da cadeira de rhe- 
torica de Minas do Rio das Contas para a desta 
cidade, o professor Francisco de Assis. 

Naquelle tempo, o Governo mandava ensinar a 
rhetorica, até pelo sertão I 

Foi, talvez, o que nos perdeu 

30 de Dezembro 

—Em 1804, ancorou no porto da Bahia o 5om- 
Despachoy navio em que regressavam os escravos, 



79 



mandados a Lisboa vaccinar, com o fim de intro- 
duzir entre nós a grande invenção de Jenner. 

Desde logo se tratou com afinco de aproveitar o 
excellente meio nrophylatico para impedir nova in- 
vasão da repugnante peste, que já por vezes havia 
assolado o paiz 

Notadamente em 1666, a variola fez milhares de 
victimas, tendo começado por Pernambuco sua mar- 
cha desoladora e cruel. 

Quando, ao depois, ella irrompeu no recôncavo 
da Bahia, occasionou uma verdadeira hecatombe. 
Bem poucos foram os homens pretos, que então 
escaparam. De tal modo, que muita gente cuja 
fortuna consistia em escravos, tanto aqui, como 
em S. Francisco, e Santo Amaro, ficou reduzida 
á penúria. 

Deve-se a meia dúzia de negociantes da praça 
da Bahia, e sobretudo ao marquez de Barbacena, 
cujo busto foi por isto inaugurado— em 1859— no 
Instituto vaccinico do Rio de Janeiro, aquella idéa 
de fazer vir de Lisboa a vaccina, passando-a de 
braço a braço, durante a viagem dos pretos ; pois 
então se acreditava— que somente assim a lympha 
podia ser conservada. 

Os avisos de 1 de Outubro 1802, de 10 de No- 
vembro de 1804, e outros, referiram-se ao impor- 
tante assumpto, que ainda hoje desperta a atten- 
ção dos scientistas. 

—Em 1822. sahiu da cidade da Bahia, com des- 
tino a esta, que era então simples villa, o cónego 
José Cardoso Pereira de Mello, a quem veio se 
juntar— dias depois— o secretario do governo civil 
— Francisco Carneiro de Campos ; ambos desgos- 



80 



losos da desconsideração geral, a que tinha des- 
cido o mesmo Governo. 

A verda'le é— que os negócios públicos foram, 
de dia em dia, se complicando mais ; aggravada 
a situação pela falta de numerario,e de mantimentos, 
na praça. 

Nessas circumstancias, indubitavelmente melin- 
drosas, appareceu uma proclamação anarchica; se- 
guida de vários pasquins, em que o general Ma- 
deira de Mello era tratado por madeira podre e 
cobarde. 

A tensão dos ânimos foi — de hora em hora— se 
accentuando mais , a ponto que, no dia 8 de Maio 
de 1823, o general eflfectuou concorrida reunião 
militar, cujo fim foi declarar a Bahia o praça do 
guerra, em estado de sitio ». 

Assim o estado de sitio, declarado pela monar- 
chia constitucional, e tantas vezes pela republica, 
é instituto que muito de longe conhecemos. ... 

— Em 1822, também, o general Labatut se diri- 
giu, por officio, ao Conselho interino do governo 
da Bahia, cuja sede era nesta cidade, então villa, 
informando— que o dinheiro de ouro e prata, arre- 
cadado nos engenhos dos Teixeira Barbosa subia 
á somma de 113:000$000, conforme havia já com- 
raunicado ao Governo imperial. 

Foi o Governo provisório da republica que man- 
dou indemnizar os herdeiros dos Teixeira Barbosa 
dos prejuizos, que lhes havia causado o exercito 
pacificador, conforme já notei. 

Sessenta e tantos annos tinham despendido os 
interessados a reclamar de balde o pagamento 
dessa divida. 



«1 



— Em 1822, também, o referido general P. Laba- 
tut exonerou o brigadeiro José Egydio Gordilho 
de Barbuda do commando da 3* divisão daquelle 
exercito, e nomeou logo em seguida para o logar 
de inspector geral das tropas em operações. 

Assim praticando, o general teve em mira— mos- 
trar ao Conselho interino do governo, existente 
nesta cidade, então villa, de quem era a compe- 
tência para fazer o detalhe das forças em campa- 
nha ; pois que os duis andavam disputando prefe- 
rencia de attribuições. 

31 de Dezembro 

—Por um trabalho official, publicado em 1799, 
se apurou — que neste anno tinham sido exportadas 
da capitania da Bahia para Portugal, Costa de 
Africa, e outros portos do estrangeiro, mercadorias 
no valor de 5.:J15:484$430. 

Comparada esta somma com a da exportação do 

anno anterior, accusava um augmento de 

2.201 :027$070. 

—Em 1800, de accordo com as ordens expedi- 
das por D. Fernando José de Portugal, depois mar- 
quez de Aguiar, governador da Bahia, foram lota- 
dos os officios de justiça d'esta cidade, então villa, 
do seguinte modo: 

Cada tabellião— 300$000, de rendimento annual» 
o escrivão de orphãos— 500$000; o da provedoria— 
400$000; o inquiridor — 240$000; a cada meirinho — 
80$000; ao alcaide que era carcereiro também — 
100$000; o escrivão da camará e almotaçaria— 100$, 

E' o que consta do officio, expedido pelo citado 
governador em 20 do Março de 1801. 

R, U 



82 



—Em 1822, foi verificado— que a flotilha, prepa- 
rada em Itaparica para combater com a esquadra 
portugueza, que queria obstar á independência da 
Bahia, constava de nove vasos, afora algumas lan- 
chas baleeiras de abordagem e de varias bombar- 
deiras* todas com uma guarnição constante de 900 
praças. 

Figurava, entre os primeiros, a escuna Cachoei- 
ray que tinha a bordo 109 homens, dos quaes 70 
eram daquella ilha, e 39 haviam seguido desta 
cidade e seus arredores. 



Cachoeira y 1901. 



A. Milton. 
(Concluir-se-hu) 



lidas das sessíís ^ ir|qías 



-*- 



82* SESSÃO EM 10 DE MARÇO DE 1901 
Presidência do Sr. Covs. Dr, Saloador Pires 

Aos dez dias do mez de Março de 1901, nesta 
cidade do Salvador, Bahia de Todos os Santos, 
no salâo do Insiituto, á 1 hora da tarde, presentes 
os sócios Cons. Drs. Salvador Piros de Car- 
valho e Alburquerque. presidente ; João Nepo- 
muceno Torres, 1^ secretario ; capitão Francisco 
Gomes Ferreira Braga, thesoureiro ; Dez. Thomaz 
Garcez Paranhos Montenegio, Drs. Bonifácio de 
Aragão Faria Rocha, Joaquim dos Reis Magalhães, 
Cons. Dr. José Botelho Benjamin, Pharmac. Luiz 
Anlonio Fiigueiras e Comm. Joaquim Manuel de 
Sant^Ani.a, Comm. Salvador Pires de Carvalho e 
Albuquerque, Henrique Praguer, Padre Luiz da 
França dos Santos. Francisco Pires de Carvalho e 
Alfredo Octaviano Soledade, foi declarada aberta a 
sessão, occupando o logar de 2o secretario o supp- 
lente Luiz Fiigueiras na ausência do effectivo, dizen- 
do o 2^ secretario que a acta da sessão anterior não 
estava lançada no respectivo livro, mas que exis- 
tia sobre a mesa os appontamenlos para a mesma, 
os quaes passou a ler ; suscitou-se uma questão 
de ordem, ficando resolvido afinal que depois de 
lavrada fosse ella submetiida á discussão e votação. 

O expediente constou do seguinte : 



84 



Officios : — de António Toledo Piza, director da 
repartição de estatística de S Paulo, remettendo 
um oxempi ir do relatório d'aquella repartição, re- 
ferente ao anno de 1898, contendo dados sobre as 
condições demographicas, económicas e moraes 
da população paulista ; de F^rancisco Ferraro, offe- 
recendo medalhas e illustrações commemorativas 
das festas ao Presidente Campos Salles por occa- 
sião de sua visita á Republica Argentina, o que 
foi mandado agradecer; do Cônsul da Republica 
do Uruguay, remettendo um exemplar do convite 
do Comité encarregado da reunião do 2.^ Congresso 
Scientifico-latino-americano, em Montevideu, ao que 
o Sr. Cons. Presidente informou haver nomeado o 
nosso sócio correspondente, alli, Pedro M. Reviere, 
residente naquella cidade, para representar o Ins- 
tituto naquella solemnidade, telegraphando-lhenesse 
sentido ; de Josino Menezes, secreiario do Governo 
de Sergipe, remettendo seis volumes de leis, de- 
cretos e regulamentos daquelle Estado, de 1835 a 
1880, de 1889 a 1893 e 1897 a 1900 ; de Fahricio 
Diniz, secreiario do Centro Caixeiral do Estado 
do Maranhão, accusando a recepção de um exem- 
plar da revista commemorativa do 4.® centenário e 
remettendo a quantia de 12$, importância da assi- 
gnatura da mesma revista ; do Dezembargador 
Paulino Nogueira Borges da Fonseca, accusando 
a recepção da Carta de Pêro Vaz Caminha, Pin- 
dorama, drama Descoberta do Brasil e uma meda- 
lha ; da Sociedade beneficente « União das Classes », 
do « Lyceu de Artes e Officios » e da « Associação 
Commerciai da Bahia», communicando a ftleição 
e posse de seus novos funccionarios eleitos para 
o corrente anno ; do Secretario do Gabinete Por- 
tuguez de Leitura, convidando o Instituto para as- 



85 



sistir a sessão litteraria em homenagem á memo- 
ria do seu illustre consócio Thomaz Ribeiro, sendo 
nomeada uma commissao composta dos sócios dr. 
Braz do Amaral, cons. Anlonio Carneiro da Rocha 
e Damasceno Vieira para representar o Instituto ; 
da o Sociedade Geographica de Lisboa», commu- 
nicando o pezar que teve com a perda do eminente 
cidadão Luciano Cordeiro ; do secretario da com- 
missao de demarcação de limites com a Bolivia, 
remettendo um mappa da região norte desse paiz, 
até então desconhecida; do secretario do a Archivo 
Publico D mineiro, agradecendo os sentimentos de 
pezar do Instituto pelo desapparecimento do seu 
glorioso chefe José Pedro Xavier da Veiga, e do 
sócio correspondente, Dr. Lindolpho Rocha, fazendo 
uma rectificação do seu officio de Outubro ultimo, 
sobre o nome dos descobridores das capoeiras e 
do novo rio, Alexandre Cachoeira e níio Juão Fran- 
cisco. 

Uma carta do Dr. Silva Lima, remettendo uma 
curiosidade histórica e uns alfarrábios, que julga 
de interesse para o Instituto , um cartão da Vis- 
condessa Cavalcanti, escripto de bordo do vapor 
allemão, neste porto, mas sujeito á quarentena, 
visitando o Instituto e desejando possuir uma me- 
dalha commcmorativa do 4.** centenário ; carta de 
Belisario Pernambuco remettendo um folheto rela- 
tivo ao 4^ centenário; um livro do Brazil pre-his- 
lorico a respeito do seu descobrimento e centenário, 
pelo cónego Raymundo Ulysses Pennaforte, foi a 
commissao de redacção. 

Foram apresentadas tros propostas para admis- 
são de sócios, sendo ellas enviadas á respectiva 
commissao. 

Em seguida o sócio Sr. Henrique Praguer leu 



8G 



uma memoria sobre as riquezas mineraes da Bahia, 
memoria que será publicada na Revista. 

O thesoureiro, Sr. Francisco Braga, leu o de- 
monstrativo da receita e desposa, referente ao anno 
lindo, sendo o mesmo demonstrativo remettido á 
commissão de contas para a qual foi nomeado, in- 
terinamente, o Dr. Paria Rocha, em substituição a 
um dos membros que se acha ausente. 

Foram lidos e approvados três pareceres da com- 
missão de admissão de sócios, sendo acceítos para 
sócios effectivos os seguintes senhores : cpronel 
Dr. José de Siqueira Menezes, director das obras 
militares, neste Estado, Francisco Ferraro, in- 
dustrial, Casimiro Cesimbra, capitão Ignacio Mendo 
Filho e João Ramos Soledade, e para sócio corres- 
pondente o Dr. José Manuel Cardoso de Oliveira, 
Cônsul Brazileiro, em Berne e ali residente, João 
Baptista Perdigão de Oliveira, residente em For- 
taleza, e o vigário José Cupertino de Lacerda, 
residente em Bomfim da Feira, Senador Estadual. 
Nada mais havendo a tratar foi encerrada a sessão 
e, de tudo, para constar eu, 2.° secretario, escrevo 
a presente acta pelas notas que me forào enviadas, 
e consigno que foi marcada outra sessão para o 
dia 3b do corrente, e assigno— Isaias de Carvalho 
Santos — Approvada em sessão de 31 de Março, 
de 1901 ,— Salvador Fires de Carvalho e Albuquer- 
que -João Nepomuceno Torres — Isaias de Carvalho 
Santos. 

83^ SESSÃO EM 31 DE MARÇO DE 1901 

Presidência do Snr. Cons, Dr. Salvador Pilhes 

Aos trinta e um dias do mez de Março de 1901, 
nesta cidade do Salvador, Bahia de Todos os San- 
tos, no salão do Instituto^ ã 1 hora da tarde, pre- 



87 



sontes os sócios cons. drs. Salvador Pires de Car- 
valho e Albuquerque, presidente, Jono Nepomuceno 
Torres, i.^ secretario, Isaias de Carvalho Santos, 2,o 
secretario, dez. Thomaz Garcez Paranhos Monte- 
negro, drs. Braz Hermenegildo do Amaral, Alfredo 
Cezar Cabussú, Joaquim dos Reis Magalhães, Inno- 
cencio Góes, Bonifácio de Aragão Faria Rocha, 
Egas Muniz de Aragão, José Júlio de Calasans, 
cap. Francisco Gomes Ferreira Braga, padre Luiz 
da França dos Santos, comms. pharm. Joaquim 
Manoel de Sant'Anna e Salvador Pires de Carvalho 
6 Albuquerque, Horácio Urpia Júnior, pharm. Luiz 
Filgueiras, Alfredo Octaviano Soledade, Joào An- 
tunes de Castro Menezes, Damasceno Vieira, prof. 
João Joaquim dos Santos Sá, Francisco Pires .ie 
Carvalho, coronel Gonçalo de Athayde Pereira e 
Alfredo Requião, foi declarada aberta a sessão, sen- 
do lidas e approvadas, sem debate, as actas das ses- 
sões de 18 de Novembro de 1900 e de 10 de Março 
do corrente anno. 

Em seguida foi, pelo Snr. «Jons. Dr. 1» secretario 
lido o expediente, que constou do seguinte: 

Ojfficios:-^ do dr. Guilherme Pereira Rebello e sua 
consorte, oflferecendo o retrato a óleo, em tamanho 
natural, do fallecido brigadeiro Rodrigo António 
Falcão Brandão, barão de Belém, avô paterno desta, 
e cujos serviços ao paiz tornaram-se salientes por 
occasiâo das luctas da independência politica; do 
Inspector do Thesouro do Estado do Pará commu- 
nicando a sua nomeação para esse cargo; do sr. 
Alberto F. Rodrigues, de Pelotas, accusando o re- 
cebimento do numero 25 da nossa Revista, e en- 
viando um exemplar do Jornal do Commercio, do Rio 
de Janeiro, commemorativo do 4** Centenário do 
Pescobriroento do Brazil; do director bibliothecario 



88 



do Centro Caixeiral d(^ Maranhão accusando a re- 
cepção de uma carta de 24 de Janeiro do corrente 
anno, acompanhada da Carta de Pêro Vaz de Ca- 
minha em retribuição á importância remetlida para 
assignatura da Revista, e agradecendo a remessa 
grátis da mesma Revista; do bibliotecário do Museu 
Nacior ai de Slokolmo, Suécia, accusando recebida 
a Revista, VII vol. ns. 2^*i— 25 e a caderneta rela- 
tiva á Commemoração da Descoberta do Brazil, e, 
fazendo, ao mesmo tempo, sentir que seriam rece- 
bidas com especial satisfação as publicações an- 
teriores e <»fferecendoa Revista mensal do referido 
museu. 

Cartas: do sócio correspondente, sr. Cândido 
Costa, dirigida ao sr. capitão Francisco Gomes Fer- 
reira Braga, offerecendo a quantia de 500$000 em 
beneficio do monumento a erigir-se em memoria de 
Pedro Alvares Cabral, com a clausula de reverter 
essa quantia em beneficio do Instituto si, no praso 
de vinte annos, não se levar a effeito o referido 
monumento; do sr. Pedro Callorda y Acerto com- 
municando haver remettido uma circular relativa 
ao serviço internacional do cambio, acompanhada 
de uma lista das publicações que ainda tem para 
attender ao dito intercambio e lamentando não 
poder repetir a remessa, e declara que pode o 
Instituto indicar o titulo das obras que de- 
seja possuir, para serem remettidas prompta- 
mente ; do Dr. José de Siqueira Menezes, accu- 
sando o recebimento da participação de ter sido 
approvado sócio eflfectivo do Instituto, declarando 
acceitar e agradecendo, e um cartão de convite da 
commissão da Escola Polytechnica da Bahia, con- 
vidando o Instituto para assistir a sessão solemne 
no dia 17 do expirante, ás 12 horas do dia, no 



HO 



edifício da mesma escola afim de testemunharem 
ao exm. sr. Dr. Severino dos Santos Vieira o seu 
sincero agradecimento pelos relevantes serviços 
prestados á referida escola. 

O sr. cons. presidente — disse ter nomeado uma 
commissão composta dos socius Drs. Braz do Ama- 
ral, Bonifácio Faria Rocha e Cons. Filinto Bastos 
para representar o Instituto. 

Continuando-se no ex pediente foram lidas duas 
propostas, devidamente ajjoiadas, indi(!arido para 
sócios correspondentes os seguint(ís cavalheiros: 
Dr. J. C. Branner, professor de jj^eoloi^ia da Uni- 
versidade de Stranforil, na Cahfornia, chefe da ex- 
pedição «Agassiz») ao Brazil; l.)r. Zeferin<3 Cândido, 
litleralo e historiad)r, re>identLí na Capital Federal ; 
Guimarães Passos, lilterato e poeta, também resi- 
dente na Capital Federal ; [)rof. Amâncio Pereira, 
da Escola Normal da cidad'3 da Victoria (Espirito 
Santo); Alberto Ferreira Roflrigues, litterato e dire- 
ctor do Almanack Popular, residente na cidade de 
Pelutas: e Dr. Virgile liossel, (>rofessor cathedratico 
da Universidade de Berne (Suissa), jurisí^>nsulto 
notável e critico. 

Pelo 2,"^ secre-tario Isaias Santos Foram oíTereci- 
das para a collecouj do liístiiuto duas cédulas de 
100$OOO, sendo uma já re«'olhida e ouira falsa; duas 
de 2()$000, muito antii^as e ri^(»olhida> ha muitos 
annos; uma de 10$()00, já recolhitia e cinco de 1$000, 
todas muito antigas, sendo quatro carimbadas como 
falsas. 

Em seguida foi li-io o pare(!er da commissão de 
fundos e orçamento cujo tt-or é o seguinte : 

A commissão de fundos e orçamento, examinan- 
do attentamente as contas da receita e despeza pres- 
tadas pelo sr. thesoureiro Francisco Gomes Fer- 

R. 12 



90 



reira Braga, durante o anno findo em 31 de Dezem- 
bro de 1900, assim como a respectiva escriptura- 
çio, as julga merecedoras da approvação da assem- 
bléa geral. 

No balançu junto apresentado pelo mesmo sr. 
thesoureiro, e extrahido da referida escripturaçSo, 
estão descriminadas as verbas de receita e despeza, 
importando aquella em Rs. 22:297$500 ( vinte e dois 
contos duzentos noventa e sete mil e quinhentos 
réis) e esta em Rs. 22:212$848 (vinte e dois contos 
duzentos e doze mil oitocentos quarenta e oito réis); 
pelo qu3 verifica-se um saldo de Rs. 84$652 (oiten- 
ta e quatro nui seiscentos e cincoenta e dois réis) 
para o anno seguinte. 

Bahia e sala das sessões do Instituto Geographico 
e Histórico, 28 de Març > de lUOl. — (Assignados) 
5. Pirc^ de Carcallio c Albuquerque —Horácio Ur- 
pia Júnior —Bonifácio de Aragão Faria Rocha, 

As contas a que se refere o [carecer da Commissao 
são as do demonstrativo seguinte: 

RECEITA 

Subvenção municipal,Janei- 

ro a Dezembro de 1900. . 1:000$000 
Idem estadual, Dezembro 

de 1899 a Agosto de 1900. 4:500$000 
Idem federal, Outubro de 

1899 a Setembro de 1900. 5:049$500 
Producto de 12 loterias. . 4:800$000 
Mensalidades de sócios . l:30õ$000 
Jóias de sócios .... 360$000 
Remissão de sócios . . . 100$000 
Assignalura da Revista . . 108$000 
Vendagem da Revista . . 75$000 
Empréstimo por lettra, Ban- 
co Auxiliar das Classes . 5:000$000 22:297$500 



91 



DESPEZA 



Aluguel da casa— Dezembro 
de 1899 a Março de 1900 

Ordenado do amanuense 

Idem do porteiro . . . 

Idem do cobrador . . . 

Commissão ao mesmo . 

Juros e amortisação da let- 
ira do Banco Auxiliar das 
Classes 

Impressão da Revista, nú- 
meros 21 a 23 

idem da Revisla-Indepcn- 
dencia da Bahia, para o 
Cenienario 

Despeza da secretaria, inclu- 
sive geraes 

Seguro do prédio. . . . 

Compra de livros . . . . 

Idem de moveis e utencilios 

Pago a diversos — niateriaes 
para o prédio .... 

Idem ao Thesoureiro Fran- 
cisco G. F. Braga, como 
empréstimo 

Saldo para o exercicio se- 



540$000 
960$000 
720$000 
399$996 
164$700 



376$000 
2:745$000 



guinte 



400$0Í)0 

1:838$000 
115$800 
300$000 
899$010 

ll:730$27õ 



1:023$507 22:212$848 
84$(>25 



O guarda livros (Assignado) João Jcaquim Santos 
Sá. — Bahia e sala das sessões do Insliiuto Geogra- 
phico e rlistorico da Bahia, 10 de Marco de 1901. — 
O thesoureiro (assignado) Francisco Gomes Ferrei- 
ra Braga, 

Posto em discussão o parecor e lulo havendo quem 
pedisse a palavra, é approvado. 



V>2 



O sócio Dp. Faria R-^cha, membro da Commissão 
de Fundos e Orçameiuo, peiiindu a palavra, leu o 
seguinte parecer firmado por toda a Commissão: 

A Commissão de Fundos o Orçamento verifican- 
do não serem prosr)eras as condições financeiras do 
Instituto, e tendo em vista quo, no exercicio de 1900 
não foram amortisadas as dividas por liypotheca e 
letra ao Banco Auxiliar das Ciasses, e que, nem ao 
menos, foram pagos os respectivos juros, o que 
aliás consta da ex[)Osiçã() feita pelo Sr. Thesou- 
reiro, em documento por elle lido, em sessão de- 
10 do cadente, e annexado ás contas apresei^.tadas 
por aquelle funccionarin ; 

Attendendo a que também não foram pagas di- 
versas contas relacionadas no alludido documento, 
na importância total de r):042$0()0 ; 

Atíondendo ainda a que com a rescisão do con- 
tracto celebrado com o coronel Júlio Telles da Silva 
Lob«», pei'deu '.*sta associação uma das melhores 
fontes de renda, quai <> produ(!to das loterias con- 
cedidas em seu bcMieíicio ; 

Attendendo, consoquentcmenlí», (|iie ó de neces- 
sidade ur^i^ente c imprescindível, remediar-se de 
alguma sorte essa alHictiva situação ; propõe: 

1.*^ Ficam pr jvis'>iiame!ite elevadas a 2$000 as 
mensalidades dos sócios, sendo mensal a cobrança 
dessa contribuição. 

2/' D Sr. Tiiesourciro (.Mn|)regarâ os mais dedica- 
dos estV)rços para í|uh íj.juom em dia as alludidas 
mensalidades, devi^ndo o Sr. 1." Secretario avisar, 
por escripto, aos qur» se acharem em atrazo, que 
serão (íxcluidos, ii.i forma do art. 54 dos Estatutos 
a(juelles que não se quitarem em prazo nunca su- 
perior a trinta (30) dias. 

3.'> Ki(!a a Mt^za autoris.uia a chamar concurren- 



93 



cia e firmar contracto com quem mais vantagens 
offerecer para a extracção das loterias do Instituto; 
b j a entender-se com o Banco Auxiliar das Clas- 
ses, no sentido de reformar a lettra de que é cre- 
dor do Instituto, augmentando o debito com as 
importâncias devidas por juros da hyt)0theca do 
prédio e da referida lettra, até a época em que for 
efíeciuada a operação; 

c} a promover por si ou com auxilio da Com- 
missãoque entender de nomear, concertos, kormes- 
ses ou quaesquer diversões ou espectáculos [)ubli- 
cos em beneficio da associação, sendo o producto 
de taes festa? destinado ao pagamento dos actuaes 
credores, não pudendo lançar mão desse recur- 
so para outras dos[>ezas em quanto aqutlles nãv) 
forem, por com[)leto, embolsados de seus cré- 
ditos ; 

4.^ As quantias ;)roveriientes das subvenções con- 
cedidas pela Unia'.) e pelo Kstado serão, exclusiva- 
mente, destinadas á amortisação e pagamento de 
juros devidos ao Banco Auxiliar das Classes. 

5.® Para as demais des[)ezas do Instituto a Meza 
empregará, além da subvenção municipal as outras 
rondas ordinárias í|ue forem arrecadadas, observan- 
do a mais severa eon^mia e autorizando somente 
as despezas de caracter absolutamente inadiáveis 
com restricta observância dos aris 28, § 5* e 32 § 
2.° dos Estatutos. 

6.'^ Fica suppresso o logar de servente. Ao portei- 
í*o incumbirá a limpeza dos moveis, sendo encar- 
regado do asseio das dependências reservadas e das 
^'arreduras da casa um ganhador, contractado mas 
occasiões em que se fizer mister esse serviço, pa- 
gando-se-lhe de cada vez a quantia ajustada. 
Saia das sessões do Instituto, 31 de Março de 



94 



1901. (Assignadosj Salvador Pires de Carvalho e 
Albuquerque— Horácio Urpia Júnior — Bonifácio de 
Aragão Faria Rocha, 

Em discussão, falaram sobro a proposta o Sr. 
Thesoureiro, osDrs. Cabussú, Reis Magalhães, J. 
Culasins e o Cons 1* Secretario, sendo apresen- 
tada a seguinte emenda ao n. 4 : cdas subvenções 
federai e estadual será destinada a quantia de oito 
contos de réis (8 000$000) para amortisaçâo do de- 
bito contrahido com o Banco Auxiliar das Classes»), 
—Bahia, 31 de Março de 1901. ^Assignado) João 
Torres. 

Em votação, são approvados os n^. 1, 2, 3 e 5. 
a errienda t* su|)presso o n 6 da proposta, era tem- 
po retirado a pedido da Coramissão. 

Foram approv.:dus em escrutínio secreto os pa- 
recei*es sobre a admissío de sócios, sendo accei- 
tos os seguintes: Para sócios effectivos os Drs. 
Clemente de Oliveira Mendes, juiz de direito apo- 
sentado, Guilherme Muniz Barreito de Aragão, Ur- 
bano Pires de Carvalho e Albuquerque, Francisco 
Prisco de Souza Paraíso, José de Oliveira Leite, 
Francisco Cardoso e Silva, Affunso Pires de Car- 
valho e Albuquerque e o rvm. cónego Lino Pereira 
da Fonseca; e para sócios correspondentes os Drs. 
Carlos Reis, secretario do Instituto Histórico de 
S. Paulo e Eduardo Prado, litterato e historiador, 
ambos residentes naquelle Estado; D. Raymundo 
Britto, bispo de Olinda, a Exma Sra. D. Voridiana 
Prado, fazendeira e capitalista em S. PauU) c o Sr. 
Belisario Pernambu(i«», r<'sidonto na Capital Federai. 

Nada mais havendo a tratar foi encerrada a ses- 
são e de tudo, para constar, eu, 2.^ Secretario^ la- 
vrei a presente acta e assigno. — Isaías de Carvalho 
Santos. 



95 



Approvada em sessão de 13 de Maio de 1901.— 
Saloadjr Pires de Carvalho e Albuquerque.-- João 
Nepomuceno Torres, — Isaías de Caroalho Santos. 



U,^ SESSÃO EM 3 DE MAIO DE 1901 
Sessão magna commemorativa no anniversario 

DA INSTALLAÇÃO DO INSTITUTO 

Presidência do Exm, Sr. Dr. Severino Vieira 

Aos 3 dias do mez de Maio de 1901, nesta ci- 
dade do Salvador, Bahia de Todos os Santos, á 1 
hora da tarde, presentes os Srs. Drs. Severino 
Vieira, sócio do Instituto e G<.>vernador do Estado, 
José de Oliveira Leite, secretario do Thesouro e 
Fazenda do Estado, Salvador Pires de Carvalho e 
Albuquerque Junio^ Secretario da Policia e Segu- 
rança Publica e Josó Eduard<j Freire de Carvalho, 
Intendente Municipal ; o representante do Sr. Ge- 
neral Commandante do 3.^ districtc nnilitar ; coni- 
missões dos Tribunaes e dn diversas associações, 
6 os sócios Cons. Drs. Salvador Pires de Carvalho 
6 Albuquerque, [)residente, Joào Ne[)omuceno Tor- 
res, 1.0 secreiario, Braulio Xavier da Silva Pereira e 
António Carneiro da Rocha ; Drs. Braz Hermenegildo 
do Amaral, Manuel Pedro de Rezende, Júlio da 
Gama, Guilherme da Conceição Fa^ppel, Augusto 
Góes. Joãu Pimenta Bastes, Francisco Muniz de 
Aragão, Satyro Dias, Alfredo António de Andrade, 
Ernesto Carneiro Ribeiro, Bonifácio de Aragão Fa- 
ria Rocha, Egas Muniz Barreilo de Aragão, José 
Júlio Calasans, Alfredo César Cabussú, Aurélio 
Pires de Carvalho e Albuquerque, Dez. Manuel 
Jeronymo Gonçalves, Barão de S. Francisco, Pro- 



96 



fessores António Alexandre Borges dos Reis e Ma- 
noel Raymundo Quorino. Phariri. Comm. Joaquim 
Manuel de SanfAnna e Alfredo A(!CÍoly do Prado, 
coronéis Gonçalo de Athayde Pereira, AíTonso Pe- 
dreira de Cerqueira e Martiniano de Almeida, có- 
negos Manfredo x\lve.s de Lima e Joio Paranhos 
da Silva. Paires Dr. Samu^^l Elpidio de Almeida 
e Luiz da Frauí^a dos Santos, capitão Francisco 
Gomes Ferreira Braga, Alfredo Octaviano Soledade, 
Damasceno Vieira, comm. Salvador Pires de Car- 
valho e Albuquerque, Nicolau Tolentino Carneiro 
da Cunha, Isaias de Carvalho Santos, 2. *> secretario 
e Silio Boacanera Júnior, foi, pelo Sr. presidente, 
Cons. Dr. Salvador Pires de Carvalho e Albuquer- 
que, declarada aberta a sessão e convidado o Sr. 
Dr. Severino Vieira [»ara assumir a presidência, o 
quo este tez. 

Em seguiiia o mesmo Sr. Cons. Dr. Salvador Pi- 
res, com a palavra, leu extenso e substancioso dis- 
curso, pondo em saliência os factos [)rinci|!aes oc- 
corridos no ultimo anno, o progresso do Instituto e 
a dedicação di^s Srs. sócios, com os quaes se con- 
gratulava; e logo depois o Sr. C(ms. Dr. Joào Tor- 
res, 1.^ secretario, obtendo também a palavra, leu 
minucioso relatório, individuando factos e aconte- 
cimentos do anno íindo, seguiiido-se cnm a pala- 
vra os Sr^v Silio Bo;'(!anera Júnior, como represen- 
tante do Grémio Litterario, Dr. ligas Muniz, como 
representante de joi*naos allemâes e Damasceno 
Vieira, os quaes saudaram o Instituto, e por ultimo 
o Dr. Braz do Amaral, orador do Instituto, que, na 
forma dos Estatutos, fez o el(»gio dos sócios falle- 
cidos. 

E, nâo havendo mais quem pedisse a fialavra, foi 
encerrada a sessão, e de tudo, para constar, eu, 



97 



Isaías de Carvalho Santos, 2r secretario, lavrei a 
presente acta e assigno. --ísaias de Carvalho Santos. 
Approvada em sessão de 12 de Maio de 1901.— 
Salvador Pires de Carvalho e Albuquerque. ^João 
Nepomuceno Torres. — Dp. Egas Muniz Barreito de 
Aragão, secretario interino. 



DISCURSO DO PRESIDENTE 

Exm. Sr. Dr. Governador do Estado. 

Exms Srs. 

Srs. sócios do Instituto Geographico e Histórico 



E' urna grande verdade experimentada quotidia- 
namente por toda gente, mas que só ao emérito lit- 
terato portuguez Pinheiro Chagas foi dado crystali- 
sal-a nas vibrações eloquentes de seu talento : « nós 
vemos quasi sempre a natureza pelo prisma do nosso 
coração; ou envolvemos a paisagem no luto de nos- 
sos pezares, ou adornamol-a com o risonho manto 
de nossas alegrias ». 

E' assim que por mais que me concitem ás 
alegres expansões d'alma as galas que revestem o 
recinto em que pairamos neste momento, e a im- 
ponência desta solemnidade commemorativa do 7.* 
anniversario do « Instituto Geographico e Histórico 
da Bahia x>, eu sinto que, hoje mais do que nunca, 
em idênticas festas, a voz se prende nas fauces, e 
emoções diametralmente antagónicas, ora confran- 
gem o meu coração em cruciantes dores, principal- 
mente naquella parte em queCamillo Casiello Bran- 
co imaginou ter o anjo dos allivios depositado o 

R. 13 



08 



pranto: ora dislendem-no como para o sensório 
receber em toda plenitude a sinistra impressão das 
attribulações angustiosas da Pátria, as quaes por 
eífeito reflexiv) envolvem a todos nós brazileircs na 
lúgubre diaphaneidade de sombrio crepe 

E não pareça inopportuna a manifestação das 
apprehensões que assaltam o meu, e talvez nossos 
espiritos. não; porque vejo ante mim homens capa- 
zes de submetter a uma rigorosa analyse as occur- 
rencias da nossa vida social o palpar a sede e origem 
do mal que invadiu seu organismo, fazer a diagnose da 
enfermidade, e determinar as prescripções therapeu- 
ticas; não, porque não estamos em um salão de 
baile, onde os perfumes e abelleza conspiram pela 
narcotisação de todo sentimento que não seja volu- 
ptuoso, ou em um opiparo banquete em que o ol- 
facto estimula pelo aroma dos acepipes o estômago 
para um repasto de Epicuro, o estômago que já 
Menenio Agrippa, no seu tempo, chamava o «cen- 
tro da vitalidade dos membros»; não, meus senho- 
res, porque nos achamos constituídos n'um centro 
litterario, corporificamos uma instituição scientifica, 
que tem por objectivo a historia, mas a historia 
pátria, particularmente a historiado grandioso Es- 
tado da Bahia; e a historia não se constroe sinão 
registrando e concatenando os factos, nomeando 
os seu? protogonistas, assignalando as datas, pes- 
quizando omnimodamente a verdade para com estes 
elementos fundir e burilar o cMeo monumento que 
se chama -Historia. 

Oxalá que as solemnidades com que festejamos 
os nossos anniversarios, nas quaes os bellos orna- 
tos da eloquência e o deslumbrante rendilhado 
das phrases porfiam pelos louros da lethorica, fos- 
sem substituídas por uma confercicia de sábios 



99 



historiadores e chronistas, cada qual trazendo na 
corbelha modesta de seus labores os mais formosos 
ponios de sua seara, ou na fronte um foco de luz 
para iliuroinar no íuiuro a liistoria do presente I 

Oxalá que, tornados mais [íralicps, os nossos.es- 
pipitos baixassem das interminamente elevadas re- 
giões da phantasia, e pairassem, e estudassem os 
phenomenos nas suas orif^ens, e na apreciação dos 
factos históricos, por minúsculos que sejam appa- 
rentemenle, applicassem-lhes a mais criteriosa in- 
vestigação para obter a exacta relação de causa 
e effeito, evitando as falsas e incompletas conclu- 
sões que commodamonte explicam pelo acaso a 
emergência de factos cujo movei e objectivo pare- 
cem inexplicáveis ao primeiro aspecto ; porque o 
acaso perante a historia não existe, como não pode 
existir perante a philnsophia um effeito sem causa 
e elle nao ô, como disse o sábio Littré «senão o 
efleito [)roduzido pelo encontro de cousas entre si 
iuílependentes»), mas que devem ser averiguadas, 
pois, conforme em termos mais precisos, já outro 
philosopho dissera, a o acaso não è senão a causa 
ignorada de um effeito conhecido »>. 

Mas, senhores, o í»rogramma de nossas fastas 
não foi ainda modificado, e, pois, cumpre-me obe- 
decer aos estylos da nossa instituição. 

E'já passado um anno depois da trasladação do 
«Instituto Geographico e^Historicu da Bahiio de seu 
primitivo e modesto berço para esse elegante edi- 
fício, cujas portas pela vez primeira, como se fo- 
ram de um tempi >, festivamente abriram-se, para. 
no seu tabernáculo penetrarem os próceres do saber, 
as culminancias da administração publica, os re- 
presentantes de differentes nações, emfim, os abne- 
gados levitas do progresso, vindos de procedências 



100 



diversas, mas trazendo todos as oblatas do suas 
inestimáveis gentilezas ao motivo mais que sublime 
da solemnidade, que não era simplesmente comme- 
morativa do 6.- anniversario do Instituto, senão a 
rememoração quatricentenaria de um grande acon- 
tecimento geographico-historico, a descoberta de um 
treclio do globo nfio ainda traçado no mappa-mundi 
conhecido, de uma região ignota ou mal suspeitada, 
tão expressivamente comparad.i, por um dos mais 
possantes talentos poéticos do Brazil, o inditoso 
Franco de Sá, a um indio gigante, nascido entre 
selvas, ao sopro dos vent ^s, ao som das cascatas, 
cuja collossal dimensão resumiu em ardente alle- 
goria na mais mimosa de suas estrophes: 

« de zonas ardentes, de frigidas zonas, 
o vasto collosso se estende atravez ; 
repousa-lhe a fronte no immenso Amazonas , 
e as aguas do Prata murmuram-lhe aos pés. » 

O que foram aquellas sumptuosas festas, a im- 
pressão vibrante de patriotismo que gravou no 
animo da população toda dest i capital, desde o 
nao.ional até o estrangeiro, desde o sábio ao mais 
rude, do artista, do operário ao opulento industrial, 
do mutuário ao banqueiro, no clero como nas for- 
ças armadas, nas altas regiões officiaes como nas 
associações liilerarias e beneficentes, o que foram 
ellas não serei eu que ouse restaurar na vossa re- 
miniscência; que o façam por mim o echo das bri- 
lhantes peças oratórias que se fizeram então ouvir, 
o colorido das expressões enihusiasticas de toda a 
nobre imprensa desta capital; e si alguma rememo- 
ração me ó dado fazer consista na reiteração do 
profundo reconhecimento do Instituto a todos quan- 
tos contribuíram para a imponência -e sumptuosida- 



201 



de dps alludidos festejos, nomeadamente .á Cora* 
missão, que, arcando contra mil difficuldades, ga* 
ihardameAlte mediu o desempenho pela grandeza o 
extensão da incumbência. 

E, foi este o facto mais notável do ultimo anno 
social, passando o Instituto a desiisar em seu viver 
normal e sereno até i|ue transpoz o magestoso hum- 
bral do século XX, tão solemnemente preconisado 
pela sciencia, pela egreja. pela humanidade em ge- 
ral, que avidamente aguardam a vindima dos bons 
e máos fructos semeados no século ido. 

Não foram nelle raras as construcçòes, demoli- 
ções e transformações qu« em todos os campos da 
actividade do homem operou aquelle século, quer 
na vida iatima, quer na internacional dos povos; 
nas leis e costumes, nas artes e industrias como 
na sciencia em geral, na paz e na guerra, na cí.- 
vilisação como na evangelisaçâo dos povos; ora ex- 
tinguindo pequenas suzeranias e transformando-as 
em nações poderosas pela força de aggregação; 
ora desaggregando de grandes colossos pequenos 
territórios, que extremecem e heroicamente deba- 
tem pela sua independência; alli, metamorphosean- 
do os pequenos estados italianos em uma grande 
nação— a Itália Una, a grandiosa concepção do emi- 
nente estadista o conde de Cavour; mais ao norte 
um Rrupo de principados e ducados, Hlhos Ja ve- 
ll^a «mãe dos povos» a Germânia, cuja historia apre- 
senta uma serie de transformações, como diz Max 
Nordau, equivalentes a outras tantas mortes e re- 
surreições, depois de um esphacelamento quasi com- 
pleto, renasce no pequeno ducado da Prússia, que 
se faz reino, e guiada pelo rijo braço de Bismarck, 
o grande «chanceller de ferro», atravez de Sadowa 
e Sedan, a Prússia chega à Allemanha, iransfor- 



102 



•fnaadr^-á Confederação Germânica no poderoso im- 
fíçrio allemão, cujo território e commercio dilata-se 
'•por lodosos os continentes ; cuja nnarinha luzida e 
bem apparelhada pretende o dominio dos mares: 
cujo exercito disciplinado e instruido simultanea- 
mente impõe a ordem interna e assegura a paz 
externa. 

Mas, srs.. si prodígios tantos operou o s^eculo 
XfX, não menos alongada e luminosa será a rota 
do actual século airavez do espaço infinito, tangido 
pela força e tendência irreductiveis do progresso 
o da perfectibilidade humana, e as prophecias ahi 
estão : cada sábio ou philosopho, cada astrónomo 
ou maihematico, cada publicista ou jurisconsulto 
prevê pelo prisma de suas locubrações a incom- 
mensuravel, a deslumbrante trajectória do século 
XX, approximadamento calculada pelo vigoroso 
impulso que traz do precedente século. 

Comquanio, porém, muito liaja ainda por fazer 
na vida material dos povos, é comtudo certo que 
o progresso moral e social da humanidade tem 
attingido um gráo bastante elevado para que, sem 
prejuizo do aperfeiçoamento de que cada uma na- 
ção em particular ainda seja susceptivel, já possa- 
mos nos agrupar em torno do lábaro da fraternisa- 
çHO geral dos povos pela approximação das leis e 
costumes, das religiões e normas administrativas, 
pela uniformisação do commercio e industria, pela 
segurança, emfim, da paz universal, de modo a 
preparar a solução do arrojado problema proposto 
ao futuro no século passado pela vibrante voz de 
seus mais sábios pensadores, do grande vidente 
€ virtuoso padre Lamenais, que nos reptos de sua 
mystica eloquência synthetisara como o bem su- 
premo : 



103 



o Um só Deus no céo, e na terra uma só pátria 
para os homens ». 

São estes, meus srs. os votos do « Instituto », e 
de envolta com elles dignae-vos acceitar a sua sin- 
cera gratidão á lineza de vossas presenças a esta 
sessão. 



RELATÓRIO DO CONS. 1-° SECRETARIO 

Sr. Presidente: 

Hlnstres Consórcios: 

Ainda uma vez tenho a honra e o prazer de vos 
trazer o relatório d'esta instimição, referente ao 
anno social que hoje findou. 

Mandatário de vossa generosa confiança, a dele- 
gação que, renovada, recebi para o exercicio das 
funcções de 1.' secretario procun» cumprir com a 
máxima satisfação e o maior esforço. 

E' inútil salienlar-vos os elementos de vida que 
impulsionam o nosso Instituto na elevada missão 
que lhe cumpre como guarda avançada da nossa 
historia: testemunhas que sois dos relevantes ser- 
viços por elle prestados a esta causa, bem conhe- 
ceis quaes as forças motoras da actividade por elle 
desenvolvida. 

Ainda no curso do anno que agora termina, tal- 
vez, esquecido, se tivesse [)assado o quarto cente- 
nário do descobrimento do nosso paiz, si, em nobre 
e alevantado impulso, não partisse do seio do 
nosso grémio a idéa de condignamente comme- 
nnoral-o. 



104 



A Bahia, primeiro pedaço do solo brazileiro pi- 
sado pelo ousado descobridor,'que como mãe cari- 
nhosa soube gloriosamente acolher o seu hospede, 
abrindo as portas da immensa e desconhecida re- 
gião á civilisacào humana, não podia, quatro sécu- 
los depois, deixar de relembrar este felí/. momento 
celebrando a sua commemoraçào. 

Mas, a vida actual é de preoccupações presen- 
tes e futuras, pouco se deixa levar pelo passado; 
e esta indiíferença deixa o maiornumero esquecido 
dos seus deveres civicos para com as datas que a 
historia aponta como dignas de serem lembradas 
e mesmo glorificadas. 

Entretanto, para contrapor a este pouco caso pelas 
cousas mais serias, temos, felizmente, mantido o 
nosso Instituto que, incumbido de zelar pelos nos- 
sos dias de outr'ora, gravando na estima dos novos 
a lembrança viva dos memoráveis factos do passa- 
do, não podia ficar quedo e mudo ante este acon- 
tecimento. 

A Bahia, pelo seu órgão histórico, quiz e devia 
render homenagem ao grandioso commettimento, e 
os primeiros ensaios partidos do nosso meio encon- 
traram logo a a-dhesào sympathica de todas as clas- 
ses e do governo do Estado e do Municipio, que nos 
deram o auxilio preciso para levarmos a effeito o 
nosso intento. 

Assim, apoiados pela vontade da opinião publica 
e, dispondo dos recursos capazes de fazer face ás 
grandes despezas necessárias, conseguimos cele- 
brar a data commemorada com magnitude excep- 
cional, já pelas festas populares, já pela eloquência 
tribunicia dos oradores que encarregaram-se de 
realçal-a. 

A' semelhança do que fizemos com o centenário 



105 



da morte do grande evangelisador e sábio padre 
António Vieira, completamos a commemoração com 
a publicação de um numero especial da nossa ox- 
cellenle Revista, contando notáveis trabalhos origi- 
naes e outros transcriptos, que pela sua importân- 
cia assim exigiam. 

A vida normal do nosso Instituto, a despeito da 
crise económica que ataca o nosso Estado e que 
reflecte-se sobre todas as classes, vae correndo 
em regulares condições, dependendo, em grande 
parte, do concurso dedicado de todos os consócios 
que não devem esquecer o auxilio devido á sua 
manutenção. 

Agora, em obediência aos Estatutos, passo a 
recatar- vos as principaes occuirencias havidas du- 
rante o anno social que findou. 

N*esse periodo celebrou o Instituto 7 sessões 
ordinárias e uma extraordinária. 

A sessão anniversaria de 3 de Maio de 1900 foi 
celebrada com o maior brilhantismo, tendo deixado 
no animo de quantos aqui estiveram presentes a 
mais viva impressão, porque n^esse dia era pelo 
nosso illustrado presidente declarado inaugurado o 
novo edifício do o Instituto Geographico e Histórico 
da Bahia». 

Fazendo referencia a esse facto com que a Meza 
Administrativa procurava dar maior realce á festa 
que se commemorava, disse eu então: «Alliando 
á data do descobrimento do Brazil a da inauguração 
do nosso edifício, cumprimos um dever histórico, 
rendendo a melhor das homenagens que nos era 
licito prestar». 

Logo após o discurso do orador official, foi a 

R. 14 



106 



tribuna occupada successivamenle pelos intelli- 
gentes consócios Professor Alexandre Borges dos 
, Reis que leu uma substanciosa memoria sobre os 
usos e costumes dos indigenas da Bahia, João Da- 
masceno Vieira Fernandes e capitão Arthur Gomes 
de Carvalho que discorreram sobre o descobrimento. 

Na sessão de 13 de Maio, teve logar, na forma 
dos Estatutos, a eleição da Meza, que foi reeleita, 
e das differentes commissões, sendo lidos vários 
officios de congratulações pelas festas do 4.- cen- 
tenário do Brazil, propondo a Meza Administrativa, 
outro sim, que se lançasse na respectiva acta um 
voto de louvor e agradecimento á commissão exe- 
cutiva do centenário pelo modo por que se houve 
ella no desempenho de sua árdua tarefa, aos Po- 
deres Públicos e a todas as classes sociaes, cor- 
porações e indivíduos que contribuíram para o realce 
das mesmas festas. 

Na sessão de 1/ de Julho é lida a communica- 
ção feita [)elo secretario da commissão executiva 
do centenário de que a mesma commissão oppor- 
tanimenle apresentaria relatório circumstanciado 
dos seus trabalhos, resolvendo-se, sob proposta 
do 1." secretario, que fossem enviados á commissão 
de biographías os papeis e jornaes existentes no 
archivo, relativos ao grande patriota Dr. Cypriano 
Barata, bem como a certidãt» de óbito e outras in- 
formações que o Instituto recebera da capital do 
Rio Grande do Norte, onde elle fallecera no dia 1.* 
de Junho de 1838. 

Resolveu-se ainda, sob proposta escriptado sócio 
Dez. Manuel Maria d » Amaral, que fossem transcri- 
ptos na « Revista » todos os escriptos relativos á uma 
cidjids :\bind )na'la, que existiu xi) centro do Es- 
tado, e sobre a conveniência de novas pesquizas 
e explorações serem feitas n'esse sentido. 



J07 



Na sessão de 12 de Agosto é lido e approvado 
o parecer sobre as contas apresentadas pelo sr. 
ihesoureiro, e apresentado o novo orçamento, que 
é discutido, sendo votado na sessão seguinte do 
dia 26 do mesm > mez, com um additivo sobre a 
creação do logar de servente, cuja necessidade foi 
então justificada em virtude da acquisição do novo 
prédio e installaçâo dos differentes serviços do In- 
stituto. 

N'essa mesma sessão de 26 de Agosto procede- 
se ú. eleição de um supplente de secretario e de 
dois membros da commissão de admissão de só- 
cios, por fallecimento do professor Austricliano 
Coelho e por ter o Dr. Abílio de Carvalho transfe- 
rido sua residência para o Estado do Rio de Ja- 
neiro, sendo eleitos— supplente de secretario o 
Pharm. Luiz Filgueiras, e membros da commissão 
de admissão o Pharm. Comm. Joaquim Manuel 
de Sant'Anna e o Coronel Gonçalo de Athayde 
Pereira. 

Na sessão de 18 de Novembro lô-see 6 transcripla 
na «Revista» interessante communicação enviada 
pelo nosso consócio Dr. Lindolpho Rocha sobre a 
existência de grandes « capoeiras » no districto da 
«Boa Nova», habitadas por selvagens, onde exis- 
tem minas de diamantes e talvez de prata, junto 
(ias quaes devem restar as ruinas de uma feitoria 
abandonada, e de que a el rei D. João V já falla- 
va, em 15 de Julho de 1731. o explorador mestre 
de campo João da Silva Guimarães. 

Na sessão de 10 de Março o Cons. Presidente 
informa que em resposta ao convite do Comité en- 
carregado da reunião do 2.^ Congresso Scienliíico 
Latino-Americano de Montevideo havia nomeado o 
sócio correspondente, ali residente, Dr. Pedro M. 



108 



Reviére para represealar o Instituto n'aquella í;o- 
iemnidade. 

O sr. Thesourei PO apresenta o demonstrativo da 
roceita e despeza durante o anno tindo, e o sócio 
engenheiro Henrique Praguer lê unia memoria so- 
bre as riquezas mineraes da Bahia, especialmente 
sobre os phenomenos geológicos da zona de Santo 
Amaro, deliberando-se que ella fosse publicada na 
« Revista ». 

Na sessão de M de Março é lida no expediente 
a carta do illustre consócio Cândido Costa, dirigida 
ao sr. Thesoureiro, em que o autor das a Duas 
Américas » fazia entrega da quantia de 500$ para 
o monumento a Cabral, revertendo essa quantia 
para o « Instituto », caso esse monumento nào fosse 
erigido no espaço de 20 annos, resolvendo-se que 
essa carta fosse transcripta na acta. 

Em seguida a commissão de orçamento apresenta 
o seu parecer sobre as contas do exercicio finan- 
ceiro, findo em 31 de Dezembro de 1900, o qualé 
discutido e approvado, sendo votadas outras cne- 
didas economicasproposlas pela mesma commissão, 
taes como a que eleva provisoriamente a 2$000 a 
mensalidade dos sócios, o applicação da quantia 
de 8 contos das subvenções para a amortisaçâo 
annual do debito hypothecario. 

Do balancete apresentado na sessão de 10 de 
Março, na forma dos Estatutos, verifica-se que a 

receita rxi exercicio de 1900 iniportou em 

22:297$500 e a despeza em 22:212$848 inclusive a 
quantia de 11:730$ com as obras do prédio. 

A importância despendida com o prédio do las- 
tituto até o anno passado quando foram ultimadas as 
obras, monta em 62:000$000. 

O nosso honrado e zeloso thesoureiro capitão 



101) 



Ferreira Braga convidado pela commissàc execu- 
tiva do centenário do Brazil para servir o logar 
de thesoureiro da mesma commissão, recebeu no 
Thesouro do Estado, por conta da verba de 30 
contos votada ()elo Congresso para as despezas do 
Centenário, a quantia de 24:679$'200, conseguindo 
pagar contas na importância de 29:409$200, por 
ter-se apurado a quantia de 4:730$000 com as «Cartas 
do Vaz Caminha », editadas pela commissão Exe-. 
cutiva. 

Resta ainda pagar-se :i quantta de 7:300$000 de 
dois prémios e outras poquenas despezas. 

Além dos sócios fallecidos no biennio de 1898 a 
1900, cujos nomes constam do ultimo relatório, 
falleceram mais durante o anno social os seguin- 
tes sócios : Professor Austricliano Francisco Coe- 
lho, a 9 de Julho, sócio effectivo e fundador; 
Comm. José Pedro Xavier d-x Veiga, publicista e 
historiador, a 8 de Agosto, na cidade de Ouro Preto, 
onde exercia o cargo de Director do Archivo Pu- 
blico, o Dr. César Augusto Marques, litterato e 
historiador, a 5 de Outubro, na Capital Federal. 

E, embora o Instituto tenha recebido novos ele- 
mentos de força com a acquisiçào dos sócios ulti- 
mamente approvados, não pode deixar de lamentar 
a perda d'aquelles que com elle collaboraram desde 
a sua fundação, dedicando-lhes palavras de saudade 
e gratidão. 

Em breve a palavra justa e eloquente do nosso 
orador salientará os serviços por elles prestados á 
pátria e ao Instituto em particular. 

Foram approvadas varias propostas de nomes 
que se impunham á nossa escolha pelo seu reco- 



110 



nhecído mérito litterarío ; entretanto a associação 
conta hoje com 298 sócios, a saber : 1 benemérito, 
8 honorários, 170 effeciivos e 119 correspondentes. 
Dos eífectivos são remidos apenas 16. 

Do livro das offertas constam os importantes do- 
nativos que no anno findo receberam a nossa bi- 
bliotheca, o museu e o archivo que já conta grande 
numero de manuscriptos e autographos. 

Essas valiosas oí!ertas feitas pelos sócios, pelas 
sociedades congéneres e pessoas outras que se in- 
teressam pela nossa associação são minuciosamente 
publicadas na « Revista » que ja conta 26 fasciculos, 
em 7 volumes. 

No anno passado live occasiào de fazer um ap 
pello ás commissões para a installação ilas pre- 
ciosidades que já possuímos,— «que toda a dedica- 
ção, todo o devolamento, agora que tinhamos um 
prédio próprio, era uma necessidade, — e do que 
contribuísse cada um na medida de suas forças 
dependia a nossa prosperidade e o nosso futuro ». 

Eu repelirei ainda hoje, trabalhemos todos em 
esforço commum, e concluirei com as palavras de 
D. Diogo Orliz, quando pregava a 8 de Março de 
1500 na legendaria ermida de Belém diante da 
Corte e dos intrépidos navegadores : — « a coragem 
e a perseverança sno poderosos elemontos de re- 
sistência que fortificam o coração do homem para 
as maiores o mais arriscadas emprezas o. 



DISCURSO DO SR. SILIO 60GGANERA 

Orador io Grémio Lítterario 

Exm. Sr, Dr. Governador do Estado : 
Exm, Sr, Dr. Intendente do Município : 
Eann, Sr, Cons, Dr, Presidente do Instituto : 

O meu mais profundo respeito e alta consideração I 
Permitti que as minhas palavras sejam dignas 
de vós « desta illustrada allembléa ! 

Senhores do Instituto Histórico e Geographico : 

Acceitae as cordiaes felicitações que vos trago, 
em nome do <f Grémio Litterario di Bahia», e as 
que ainda vos dirijo, no caracter particalar de ob- 
scura sócio fundador desia edificante instituição, 
que, pelos seus fins de alta importância para a 
sciencia, para a historia e para as leltras pátrias, 
é digna do mais franco apoio, da mais sincera adhe- 
são e ingentes esforços de todos os que trabalham 
pelo alevantamento social desta terra, de todos os 
que nutrem a salutar e patriótica idéa de elevar 
a Bahia, já disiincta por muitos títulos, á altura 
que possa ennobrecel-a, sempro e sempre, perante 
o Brazil e peranie o estrangeiro. 

Solemne, solemnissima é a festa que ora aqui 
celebraes. 

E' a festa do progresso, da civilisação — do mar- 
char da humanidade. 

Em taes occasiões, dirigira i)alavra aos que são 
capazes de apreciar o que é bom, justo e bello— 
ennobrece ; mas demanda, meus senhores, compe- 
tência, e essa competência me fallece. 



112 



lia postos honrosos que são verdadeiros sacri- 
ficios. 

Este 6 um delles, pela grande responsabilidade 
moral que lhe é inherenle. 

Interpretar os sentimentos do « Grémio Littera- 
rio » neste momento, interpretar os sentimentos 
de seus illustres representantes em dia de tão ma- 
gno rugosijo [)ara esta casa, cercado como ora me 
vejo de tão conspicuos cavalheiros, qual de mais 
brilho na intelligencia, qual de maior grandeza na 
illustração e no saber -audácia fora pensal-o. 

Fallar-vos, porém, com verdade e sentimento, 
isso tende por seguro; e fal-o-ei com intima satis- 
fação. 



Salve ! « Instituto Histórico e Geographico da 
Bahia » I 

Já não é uma utopia tua existência! 

Para honra desta terra, tão rica de tradições his- 
tóricas, que se remontam aos primitivos tempos 
do seu descobrimento, a idéa gei'minada, como 
centelha divina, no cérebro de homens superiores 
aos cálculos do egoísmo e do indifferentismo, su- 
periores ás torpes gananciaes do mundo material, 
fortes pela vontade, fortes pelo querer— transfor- 
mou-se em realidade um dia, e desde então, sete 
annos são decorridos, seus sectários, escudados 
sempre na mais louvável e admirável coragem, sem 
um só momento de rjesanimo na penosa jornada, 
marcham impávidos caminho de novas glorias, pela 
estrada larga e confiante da perseverança, guiados 
pela fé, que arma heroes, pola fé, que não conhe- 
ce impossiveis. 

Oh I bem hajam aquelles apóstolos da civilisação 
que lançaram a pedra angular deste Templo! 



113 



Gioriíi a vós, meus senhores, que, de facho em 
punho, espancaes a trova do antro do obscuran- 
tismo I 

O « Grémio Litlcrario », fremente de enthusias- 
mo, congralula-se comvosco I 

Elle pensa comvosco, meus senhores, e comvosco 
sente : não podia, portanto, faltar á vossa festai 

Náo podia ainda faltar porque fora esquecer o 
passado que, por estreitos laços de amizade, vin- 
culou-o a esta instituição. 

Em seu seio, bem o sabeis, recebeu elle os pri- 
meiros alentos de vida do « Instituto Histórico e 
Geographico da Bahia s>. 

Em seu seio guarda, qual amoroso pae, os pri- 
meiros vagidos da creança sublime, talhada desde 
o berço, « para as grandezas, para crescer, crear, 
subir», na phrase do poeta. 

E a creança não tem mentido á prophecia. 

Tem crescido, como soem crescer os gigantes 
de envergadura de condores. 

Tem creado : dizem-no seus annaes, affirmam-no 
seus archivos, proclamam -no seus museus. 

Tem subido, e ha de subir ás regiões da luz, 
ás espheras resplandecentes dos espiritos adianta- 
dos, onde paira, não o amor dos sentidos, que gera 
vicios e crimes, mas o amor da alma, que inspi- 
ra obras primas e virtudes, no dizer de Lamartine. 

Salve! ©Instituto Geographico e Histórico da 
Bahia » I 

Já não é uma utopia tua existência ! 

• 
* * 

O dia de hoje marca mais uma nova phase á exis- 
tência desta útil Instituição. 
Elle é o marco milliario de nova jornada, na con- 
R. 15 



114 



quista de novos Iriumphos — pelo caminho da per- 
severança— único possível de salvação numa terra 
em que, infelizmente, as sociedades que se fun- 
dam, por mais úteis e edificantes, são qaasi sem- 
pre victimas— ou da vaidade, ou do indififerentismo 
dos homens. 

Incontestavelmente, meus senhores, as grandes 
conquistas são sempre filhas da perseverança. 

E* ella que, segundo as leis de sua architectura 
moral, levanta fortalezas inexpugnáveis em torno 
do nosso espirito, para defendel-o dos ataques do 
erro, da ignorância, do egoismo, da inveja ou in- 
credulidade. 

Ella tem sido o santelmo desta casa como o tem 
sido de sua irman em lutas— o « Grémio Litterario », 

Não fora a perseverança, a gr mde perseverança 
de seus fundadores, e esta Instituição jà teria de 
ha muito desapparev^ido nas chammas destruidoras 
desses incendiários das boas obras humanas, como 
muitas tém desapparecido. 

« Não são só os carrascos que matam, não são 
somente os bandidos que povoam os cemitérios, 
não meus senhores ; a ignorância, assim como a su- 
perstição e o indififerentismo, fazem diariamente 
horrendas hecatombes ». 

Instituições desta ordem devem ser respeitadas 
e apoiadas por todos os philosophos, todos os homens 
intelligentes, todos os pensadores, almas grandos,íco- 
raçòes generosos, amigos do progresso moral e in- 
tellectual. 

Instituições desta ordem estão espalhadas por 
toda a superfície do globo ; não havendo Estado, go- 
veiM3,povj i^ivilisalo, livre e grande, que a não ame 
que não colha deila seus fructos benéficos de vida. 

Entretanto, progresso moral do século I ainda 
ha quem as desvirtuo, quem as accuse de inúteis. 



115 



im(>ondo, desfarte, os mais ingentes esforços e 
sacrifícios da parte dos que trabalham pela exis- 
tência das mesmas. 

Ainda ha liomens, e homens intelligentes, que 
se dizem amigos do progresso, das idéas nobres 
e alevantadas, porém que apunhalam a justiça e 
a verdade — assassinos do bem social, attestado 
pelos povos ! 

Estãu no seu papel, é certo, cumprem a triste 
missão. 

E' contra estes, meus senhores, é contra estes 
que precisaes estar em guarda : são os vossos e 
nossos inimigos. 

Dar-llies-emos, porém, batalha, como sempre ; 
seremos vencedores, e como sempre os fulmina- 
remos com a nossa possante arma de guerra— a 
perseverança I— alavanca dos fortes e dos crentes 
que tudo esmaga, c com a qual espedaçaremos o 
alvião que pretender derrocar as nossas instituições. 

Animo, pois, meus senhores! 

Afastae-vos de tudo e de todos que representam 
a negação do amor puro, e marchae confiantes, 
desassombradamente, caminho do futuro, guiados 
pela fé, que ha de conduzir-vos á posse de bens 
immorredoiros, apanágio do mundo das intelli- 
gencias. 

Alto é o papel que vos cabe I 

Santa é a vossa missão ! 

Para longe os tenebrosos de todos os tempos, 
monstros capazes de despirem Templos para ce- 
varem vinganças, coveiros da religião do bem e 
do amor— e trabalhae pelo « Instituto Histórico » 
com esse mesmo afan com que outros lêm traba- 
lhado afim de que elle prosiga triumphanle. 

Trabalhae com vossa palavra e com vosso exemplo. 



IIG 



Reduplicae d'esforoo de intelligencia, do vontade 
e de acção — e avante ! 

Avante I E Deus, e as gerações futuras vos bem- 
dirào. 

Quanto aos indifTerentes, esses condemnados sem 
salvação do inferno dantesco, para quem nenhuma 
esperança existe na terra— o nosso esquecimento, 
peior que o despreso. 

«Fama di loro il mondo esser non lassa: 

cMisericordia e Giustizia gli sdegna : 

«Non ragioniam de lor, ma guarda e passa. » 



Senhores : 

Na ordem physica, como na moral, tudo está 
sujeito, bem o sabeis, ás leis da harmonia e da 
equidade ; e por isso nenhum homem, nenhuma 
instituição deve reputar-se o non pliis ultra. 

{) Instituto Geographico e Histórico da Bahia 
ainda não está collocado na altura que vossa mente 
ambiciona e, entre doces esperanças, vos afTaga o 
porvir. 

Muito tendes feito, 6 certo ; muito, porém, é o 
que ainda vos cumpre fazer. 

Tenho fó, porém, que o dia de hoje vos dealba 
novos horisontes de prosperidades. 

E lenho fé porque Deus está comvosco para vos 
fortalecer, para vos encorajar contra as intenções 
suspeitadas, a intriga e a calumnia, elementos que 
si não servem sempre de coroa aos esforços dos 
que luctam e trabalham por uma causa justa e 
santa— nlo rara vez ameaçam a dculicaçâo dos mais 
estrénuos propugnadores do bem. 

Comvosco est{'i também a vossa consciência. 

E* quanto basta, meus senhores, para contribuir- 



117 



des poderosamenla para todo o esplendor e engran- 
decimento desta bella instituição. 

E* quanto basta para proseguirdes em vossa obra 
de eivilisação, elevando este Templo á culminância 
que todos nós sonhamos. 

E' quanto basta para poderdes legar aos vin- 
douros uma instituição scientifica digna da terra 
que deu o berço a Castro Alves, e, que em seus 
aseios titânicos de heroina» ainda estreitar pode, 
com orgulho e sem inveja, filhos da estatura de 
Ruy Barbosa e Manoel Victorino. 

E' quanto basta, meus senhores, porque onde 
não ha Deus nem consciência, tudo cae, tudo se 
perde— abatendo o homem em seu orgulho e esma- 
gando-o, humilhando-o em suas ambições de glo- 
ria ou fastígio, de riqueza ou talento. 

Sinão, vôde, rr eus senhores: 

Houve um grande império -Roma. 

Houve muit )S imperadores poderosos —Nero, Ca- 
lígula, Heliogabalo. 

E o império cahiu, e os imperadores tornaram- 
se miseráveis. 

Porque 1 

Porque un?— incendiários e matricidas; outros — 
déspotas e tyrannos; — irreligiosos, porém, todos 
esquecidos de Deus e dos seus deveres, não tinham 
consciência, e, portanto, só o que podiam fazer, 
só o que de facto fizeram — foi a desgraça dos seus 
governados, sempre as viclimas do arbítrio, da 
prepotência e da crueldade, quando não sabem ou 
não têm valor para reagir. 

Entretanto vôde em contraposição, meus senho- 
res, os eífeitos do amor e da justiça. 
Houve também um Tito. 

E que fez elle ? — as delicias de Roma, 



118 



Houve também um Chrislo. 

E que fez ? — a felicidade do género humano. 

Mas de que modo ? 

Pelo amor e pela paz, pela tolerância e bons 
exemplos; embora ensinasse entre phariseus. em- 
bora soubesse que seria crucificado. 

Grandes e edificantes exemplos! 

Lecções sublimes de fecundo ensinamento para 
os que se esquecem, ou se não querem convencer 
de que sobre a tnrra «só ha uma justiça— ô a que 
sahe da consciência: só ha uma verdade— é a que 
vem de Deus ! 



Sacerdotes da religião do bem, enviados á terra 
em missão social I 

Eia! Avante I 

Cumpre a cada qual de vós proseguir, intemente, 
arrostando, embora, as iras dos Attilas e Torque- 
madas, dos inimigos selvagens e inimigos jesuiias. 

Não descoroçoeis diante de escolhos que, im- 
previstos, surjam; procurae, antes, tornar-vos for- 
tes nessas diííicudades. 

Não percaes de vista o futuro: elle é a vossa 
gloria. 

Forte cada qual em sua consciência! ea victo- 
ria será completa. 

E si mesmo assim fordes vencidos, si mesmo 
assim tombardes victimas. ainda tereis iriumphado. 

Morrer martyr de uma idéa ou de um principio 
é virtude: é parecer Christo. 

Honra a vós, meus senhores, «^ue com a vossa pre- 
sencia neste logar, provaes eloquentemente que o 
sentimento civico na Bahia não está de todo per- 
dido. 



119 



Honra a vós que, a despeito de atravessarmos 
uma ópoca de indifferentismo para tudo que não 
seja o sórdido egoismo, daes o solemne testemunho 
de que um punhado do homens sempre existe 
que de seus maiores não herdaram vicios, mas 
virtudes I 

Honra a vós, espíritos cultos e su|)eriores, que 
sabeis, com a coragem dos illuminadcs, fugir 
ás chammas lethiferas dessa nova Gomorra social 
dos tempos hodiernos, onde a corrujjção tem seus 
alti»res erguidos á Hypocrisia, á Mentira e á Ingra- 
tidão I 

Senhores do Instituto Geographico e Histórico 1 
Em nome do Grémio Literário da Bahia— eu vos 
saúdo. 

Illustres e dignissimos senhores consociosi Eu 
me congratulo comvosco. 

Silio Boccanera. 



DISCURSO DO SR. DAMASCENO VIEIRA 

Exm, Sr, Dr. Got^ernador do Estado : 
Exm, Sr, Conselheiro PrcmdeiUe do Instituto : 
Senhores Consócios : 
Meus Senhores: 

Em meu nome eem nome do « Instituto Histórico 
e Geographico do Brazil », venho trazer as minhas 
congratulações ao c< Instituto Geographico e His- 
tórico da Bahia o pelo facto de commemorar hoje 
o sétimo anniversario de sua existência. 

Sete annos de luctas e de sacrifícios para im- 
plantar um estabelecimento exclusivamente consa- 



120 



grado a ietlias e á diffusâo de conhecimenlos que 
interessam o progresso de nossa pátria I 

Pela persistência de seus esforços, de que a 
compra deste edifício 6 o testemunho mais elo- 
quente, o « Instituto o bahiano impõe-se á consi- 
deração de todos os espiritos <!ultos, que devem 
sentir gloria em congregar-se em torno desse lá- 
baro que tem como emblema uiu escudo e como 
uma estrella a expandir urbi et orbi scintillações 
que supplantam as trevas e vào, atravez dos mares, 
levar a centros scientificos a certeza de que o Brazil 
os quer acompanhar em sua marcha triumphal para 
o futuro ! 

Compenetremo-nos, Srs., das responsabilidades 
que assumimos como collaboradores do novo sé- 
culo. Neste anno em 'jue elle surge como uma 
alvorada ridente de promessas, unamos as nossas 
actividades, para que se desenvolvam associações 
desta ordem, como uma aspiração não já de um 
paiz como de toda a humanidade. 

Pela lei da evolução, que impelle em escala as- 
cendente o espirito humano, o século 20, alentan- 
do de novos e vigorosos estímulos, realisará maiores 
conquistas que o século anterior ; v um dos pro- 
blemas sujeitos á sua analyse e solução é aqueile 
que se relaciona com a fellicidade geral dos povos : 
é a confraternisação das nações. 

No centenário da morte de Voltaire, o grande 
poeta Victor Hugo, uma das mais brilhantes per- 
sonificações do século 19, proferiu palavras sole- 
mnes que deveriam ser decoradas pelas poderosas 
potencias de todo o mundo. 

« A força chama-se violência. A guerra senta-se 
no banco dos réos. A civilisação, ouvindo as quei- 
xas do gíMiero humano, instrue o processo e ins- 



121 



taura os grandes autos criminaes contra os con- 
quistadores e chefes. 

«A realidade severa apparece. Em muitos casos, 
o hepoe guerreiro é uma variedade do assassino. 
Os povos comprehendem a final que a amplifica- 
ção de um crime não pode ser a sua diminuição; 
que si matar é um crime, matar muito não pode 
ser circumstancia attenuante ; que si roubar é uma 
vergonha, invadir não pode ser uma gloria. Não se 
muda a physionomia do assassino, porque, em vez 
do barrette de grilheta, lhe põem na cabeça uma 
coroa de imperador». 

Estas palavras do immortal poeta da Legenda 
dos séculos devem circumdar o orbe como aquelle 
palpitante annel luminoso que envolve o planeta 
Saturno. 

A conquista de Cuba e das Philippinas, a hor- 
rorosa guerra do Transvaal, o pretendido retalha- 
mento do império chinez, são factos degradantes 
que fazem equiparar a nossa civilisação à dos po- 
vos bárbaros que, impellidos por eguaes ambições, 
ensanguentaram as paginas da Edade Media. 

Sejamos, Srs., os paladinos da nova cruzada, que 
tem por fim demonstrar a inutilidade da guerra e 
a necessidade de occupar milhões de soldados em 
misteres dignos do presente século, como coope- 
radores do progresso, nas fabricas e nas officinas, 
na agricultura e nas artes, nas escolas e nos ins- 
titutos, formando todos grandioso concerto, como 
um enorme Te-Deum erguido á gloria de todas as 
nacionalidades 1 

Esta deverá ser, dentre todas, a mais imponente 
conquista do século XX ! 

Como Gallileu proclamando que o mundo move- 
se, demonstremos que o mundo social não se man- 

R. 16 



122 



tém estacionário e é também arrastado por leis do 
equilíbrio para proporcionar ao borrem a relativa 
perfeição. 

Tal o ideal que o « Instituto Geographico e His- 
tórico da Bahia » deverá ter em vista ao erigir um 
marco de existência na nova era. 

Como fecho á homenagem que lhe tributo, con- 
densei em dois sonetos as idóas que expuz ao 
illustrado auditório : 

A Paz Universal 

A paz universal I Será chimera, 

Utopia, phantaslica miragem i 

c<0 homem — disse um vate — é sempre a fera 

Faminta, insaciável de carnagem »>I 

Os sentimentos de unifio reagem 
Contra a crueza da sentença austera I 
Em breve novas leis—leis d'arbitragem — 
Darão mais honra e brilhantismo á era I 

Todo o rude arsenal d'armas perversas 
Ha de fundir-se em machinas diversas 
Em prol da Sciencia— victoriosa liça I 

A formar dos soldados — operários 
Seguirão as nações por modos vários 
O bello exemplo que oíTerece a Suissa! 

Eterno Templo 

Subamos firmes a marmórea escada 
Que nos conduz ao templo da Sciencia 
— A Deusa eternamente illuminada ! 

Curvemos o joelho, em reverencia, 

Perante a galeria aureolada 

Dos gentios em perpetua florescência I 



123 



Ruja da guerra a indómita cohorte 
Em torno ao templo; as ambições terrenas 
Travem, bramindo, ensanguentadas scenas, 
Em que o justo é vencido pelo forte I 

Indifferente ao bellico transporte, 
A Deusa arfante de alegrias plenas, 
Tendo por armas diamantinas pennas. 
Vive na Historia que supplanía a morte ! 

Bahia, 3 de Maio de 1901. 

Damasctno Vieira, 



DISCURSO DO SR. DR. RRAZ DO AMARAL 



Exm, Sr. Governador : 
Senhores : 

Agradeço, em nome do Instituto, aos que se di- 
gnaram acceder ao convite para comparecer aqui 
e assistir a esta sessão, com a qual marcamos 
mais um estalão e um posto no caminho que nos 
traçamos, e que prova haver ainda quem com- 
prehenda solemnidades destas, indifferentes para 
tanta gente, nesta terra da Bahia, outr'ora tão fe- 
cunda e tão inclinada ás festas da intelligencia. 

Reunimo-nos hoje, os fundadores desta institui- 
ção e os continuadores desta obra magnânima para 
rememorar os trabalhos dos que se foram e o que 
fizeram por ella. 

Tenho, durante os últimos annos, dirigido regu- 
larmente a saudação que os estatutos mandam seja 



lU 



teita neste dia. mas. ppopositalmente, nunca me 
referi á vida própria da sociedade. 

Achava pouco I Achava pouco o tempo decorri- 
do, um lustro, e pouco o que existia I 
E não me parecia adequado proclamar louvoresl 
Si hoje me refiro a isto é porque sinto deveras 
que já representa um esforço enorme o que se ha 
conseguido porque é uma verdade indubitável que 
só o facto de viver uma sociedade litieraria e sci- 
entifica, como a nossa, no meio detestável em que 
vivemos, e entre as diffieuldades de toda a sorte 
que manietam ou assaltam os que a dirigem, quer 
dizer uma victoria ingente. 

Não quiz a fortuna adversa que o espirito ini- 
ciador desta instituição e que parece, a meus olhos 
amigos, estar presente ás nossas prosperidades e 
aos nossos pezares, como uma visão benéfica, pre- 
sidisse hoje a esta commemoração, que elle ideara, 
como um preito de justiça que se paga aos mor- 
tos, e que é a primeira que se faz aqui, na casa 
da associação, bem sua, no seu home, como 
em um lar se fala dos que faliam a uma so- 
lemnidade, a uma das festas nobres ou doces da 
familia 1 

Felizmente, no tempo que passou, no ultimo pe- 
riodo do S3culo findo, si alguns zelos arrefeceram 
não foram muitos e houve, se não uma legião de 
honra, pelo menos uma legião de combate, que tem 
supportado as agruras e veníudo os primeiros 
saltos. 

Resta, porém, ainda tanto a fazer, que é preciso 
coragem para enfrentar a vereda, antes de subir á 
montanha. 

Falta ainda orginisar tudo, catalogar os livros, 
classificar as collecções, agrupal-as separada e sei- 



125 



entificameale graças aos commodos de que dispo- 
mos agora, para que, neste repositório da historia 
pátria, ache, fácil e adaptailamente, o erudito os 
elementos que se irão aqui accumulando para a 
descripção da prehístoria e da vida politica, da 
sciencia, da litteratura e da arte, da geographia e 
da geologia deste pai'/.. 

Dentre os que nos deixaram, avultam alguns que, 
ou pela sua actividade nos tempos da organisaçSo 
deste Instituto, ou pela influencia que exerceram 
no meio em que se passou a sua vida, não podem 
deixar de ter uma mensão. embora muito succinta. 

Havia-os notáveis pelo saber, pela dedicação á 
causa publica; havia-os absorvidos pelos labores 
da vida, operosos e perseverantes, simples e tena- 
zes, agindo, como átomos, na grande massa da vida 
social, constructores das boas causas do progresso 
pacifico da lenta evolução das sociedades : houve- 
os enlevados na vida por alguma dessas correntes 
de sympathia ou de amor, pelas causas politicas, 
sociaes ou humanas, que lá, no sou intimo, nos 
recessos do seu cérebro e do seu coração, lhes 
pareciam as melhores. 

Entre os que hoje commemoramos, perdeu esta 
terra um poeta, que era uma das organisações mais 
genuinamente bahianas, assim como um dos génios 
mais curiosos e especiaes que tenho conhecido. 

No .seio deste povo triste, quasi sempre a poesia 
é melancólica, como a fraqueza da raça de que sa- 
hiu, cheia da nostalgia do meio em que vem cantar. 

Ha, por isso, muita originalidade nos vorsos de 
Guimarães Cerne e é elle um dos poucos poetas 
nossos, em que vibra o sainete irónico de Gregório 
de Mattos Guerra. 

Reproduzindo os conceitos de um dos nossos 



126 



mais conscienciosos poetas e um dos eriticos mais 
finos da nossa pequena roda liiteraria, o Dr. Ma- 
noel Joaquim de Souza Brito, julgo fazer sobre 
Guimarães Cerne o melhor e mais seguro juizu. 
Era poeta lyrico e satyrico. Como lyrico, é subjecti- 
vista e seu lyrismo é puro e fluente; não é um 
choramingas sentimentalista de 1850, nào tem a 
alma triste, « como as arapongas no sertão deserte »; 
pelo contrario, sempre alegre, as suas producções 
lyricas quasi todas tôm' uma pedrinha de humo- 
rismo. 

Como satyrico, era mordaz e cáustico, á seme- 
lliança de Gregório de Mattos, seu mestre, humo- 
rista e chistoso como Nicolau Tolentino e Fausti- 
no de Novaes, seu?? auctores predilectos, e é mais 
por essa face que elle se recommenda entre os 
poetas. Tinha facilidade enorme em produzir neste 
género, chegando até a improvisar. 

Sua cbra pode ser dividida em duas partes : a 
primeira, que vae de 18G2 a 1870 e que está toda 
em seu livro Facos c Travos publicado ,em 1870, e 
a segunda que vae de 1870 a 1898 e se encontra 
nos Pufs de um sertanejo e nas obras inéditas — 
Diluculos e enigmas para creanças. 

Das producções de G. Cerne as que tiveram mais 
voga foram o dialogo O estudante e a visinha e 
Aphorismos aca demicos. 

Dos inéditos, os Etàgmas foram o que de mais 
primoroso produziu o auctor. 

De génio irrequieto e folgazão, sempre levando 
tudo a riso, algumas vtv/^es, u sua poesia, quando 
lyrica e seria, e, ainda mais, quando cantava a pá- 
tria, seus vultos e seus factos, resentia-se de des- 
leixo e até erros d'arte ; lá ap[)arecia, de vez em 
quando, um verso frouxo ou prosaico, destoando da 
harmonia do conjuncto. 



127 



No humorismo, porém, pandego e brejeiro ou na 
satyra, mordaz e cáustica, não se encontram taes 
defeitos 

Foi ao mesmo tempo um magistrado muito inte- 
gro e muito illustrado 

Os seus concursos e o seu trabalho sobre as «Or- 
denações Philippinaso, provam-no de sobejo, no 
dizer dos entendidos. 



O Dr. Cezar Augusto Marques nasceu em Caxias, 
n'aquelle Maranhão, tão celebre pela cultura de seus 
filhos. Fo:. contemporâneo da grande crise da inde- 
pendência e dos Factos relevantes que se seguiram: 
as revoluções do primeiro império e da regência ; 
a longa paz do segundo império e a corru[)çào 
profunda, que caracterisaram o tim deste periodo 
politico. 

Era um cultor delicado e dedicado da historia e 
trabalhou nesta sciencia por toda a sua vida fe- 
cunda, apresentando monographias e memorias pre- 
ciosas, publicadas na «Revista» do Instituto Geo- 
graphico e Histórico Brasileiro. 

A mais im[>ortante de suas obras foi o « Dicciona- 
rio Histórico, Topographico e Esiatistico do Mara- 
nhão» que foi o premio opulento e nobre com que 
este filho illustre pagou á terra nata) a ventura de 
o ter visto nascer. 



José Pndro Xavier da Veiga, nosso sócio corres- 
pondente também, como César Marques, era mi- 
neiro, pois tinha nascido n'\ Campanha, em 1846. 

A principio, dedicado pelos seus ascendentes ao 
commercio, troçou esta vida pelos trabalhos e as- 



128 



pirações litterarias, fundando, com outros, a So- 
ciedade de Ensaios Litterarios, no Rio de Janeiro. 
Mais tarde foi escrivão da comarca de Lavras e de- 
putado á assembléa provincial de Minas. 

Dedicou-se, por este tempo, á imprensa e fun- 
dou o jornal intitulado Provinda de Mmas, que se 
transformou r\'A Ordem, após a proclamação da 
Republica . 

Foi um dos representantes do povo no congresso 
mineiro e um dos redactores da «Encyclopedia Po- 
pular», assim como do «Almanack do Sul de Minas» e 
oEphemerides Mineiras.» 

Era, ao mesmo tempo, poeta lyrico, delicado e 
director do Archivo Publico Mineiro. 

• • 

Nesta triste galeria, pela qual somos obrigados 
a passar tão rapidamente, perdemos ainda alguns 
operosos e infatigáveis companheiros. 

Um delles foi justamente quem me transmittiu 
o pensamento da creaoão do Instituto e a quem 
por isto devo uma especial lembrança. 

Foi Olavo de Freitas Martins. Não era propria- 
mente o que se podo chamar um erudito, mas era um 
^ntelligente, um espirito aberto e sympathico a to- 
das as concepções adeantadas e nobres, por mais 
difíiceis que fossem e por maior que fosse também 
o sacrifício que eile tinha a empregar para ajudar 
a obra. 

* 

• • 

A nossa associação viu desapparecer também um 
dos raros sobreviventes do antigo « Instituto Geo- 
graphico e Histórico da Bahia» e um dos fundado- 
res do actual na pessoa de frei Francisco da Nati- 
vidade Carneiro da Cunha. Não se pode deixar de 
reconhecer que elle era um altruista. 



129 



Na edade media teria sido templário. Vivendo 
em um meio muito diverso áo que era adequado 
ao seu temperamento, quando soou, nas moíitanhas 
de Pindorama, a tuba guerreira, o soldado se re- 
velou no frade e elle partiu com a intrepidez do 
voluntário, que não mede o perigo. 

Neste dia de [»rovações para a pátria, deixou o 
claustro o religioso, que trocara o quieto remanso 
da vida conventual pela aspereza das agruras da 
vida de soldado em campanha. 

Propunha-se edificar os que iam morrer, ou 
era o mesmo ímpeto generoso do patriotismo que 
inflammava os seus discursos, que o impellia para a 
abnegação e os perigos estuantes da guerra? 

Provavelmente uma cousa e outra. 

Era um jornalista e polemista de força e tinha 
sido fundador e collaborador de diversos jornaes, 
quasi todos de discussão e de combate. 

Conheci-o como uma relíquia, mas uma gloriosa 
relíquia, que se exaltava e que contava, graças á 
sua prodigiosa memoria, tudo o que linha visto, 
ouvido e feito, na sua longa carreira. 

A sua obra, porém, mais meritória, a que lhe dá, 
só por SI um logar distincto, no circulo dos bene- 
méritos, tão raros entre nós, foi a fadiga, o cuida- 
do, o desinteresse, o generoso sacrifício com que 
creou e manteve um asylo para educação de meni- 
nos desamparados (»u pobres. 

A isto dedicou elle todo o seu tempo, até que a 
moléstia quasi o impossibilitou de ser útil. 

Com esta obra tão grandiosa, tão simples e tão 
bella, sem espalhafato, nem reclamo, soube coroar 
a sua vida de patriota e grande cidadão 1 

Um outro, que nos fez falta, foi o advogado Fran- 
cisco Rodrigues Monção. 

R, 17 



150 



Tendo, em 1872, concluido os seus preparatórios, 
matriculou-se na faculdade de Olinda, esta mãe 
dos legistas do Norte, e obteve numerosas distin- 
cções, no seu curso, brilhante e feliz. 

Alli, coUaborou, com os seus collegas Rosa e Silva 
e José Marcellino, n'A Lucta, e fez-se admirar, na 
sua terra natal, pelas Carias de um bahiano^ escri- 
ptas para o Correio da Bahia. 

Foram ellas que o fizeram admittir na assembléa 
provincial, na legislatura de 1878 a 1880, como re- 
presentante do partido conservador, pelo terço, pois 
é bem verdade que jA houve um tempo em que os 
partidos não eram agrupamentos, que se collavam 
á pessoa do governante, como porções de matéria 
cósmica que se incorporam á cauda dos cometas 
periódicos, e sim forças constituidas que acompa- 
nhavam' a evolução politica e social da nação, que 
se faziam respeitar pelas administrações, não en- 
trando nos cargos públicos pela condescendência 
ou interesse destas, mas, pela sua própria força ou 
pela da moral, de modo que conservavam a sua 
liberdade e independência. Julgava-se até oftensivo 
á dignidade do paiz que não tivesse representação 
a expressão das minorias divergentes e vergonho- 
sas estas unanimidades, tão incompativeis com o 
espirito das democracias liberaes, que parecem 
indispensáveis hoje a quem governa, mas que tal- 
vez venham a pôr um dia em perigo a integridade 
e até a estabilidade da Republica! 

Outra vez, deputado em 1882, notabilisou-se por 
discursos pronunciados alli, que revelam a força 
de seus estudos nas questões importantes da época. 
Já então tinha abandonado a carreira da magis- 
tratura, depois de exercer, por pouco tempo, a sub- 
stituição da vara de orphàos e o nosso foro con- 



131 



servará, ainda por muito tempo, a recordação dos 
seus talentos e erudição jurídica, com advogado. 

Trabalhava ultimamente, com ardor, numa obra 
sobre direito commercial « Leiras de cambio e ci édi- 
tos mercantis » que não conseguiu, infelizmente, 
terminar, e que viria collocar o seu nome entre 
os dos mais notáveis jurisconsultos. 
• Era poeta lyrico, primoroso e muito delicado, 
mas não queria dar publicidade a seus versos, dos 
quaes só foram impressos os que compoz em Ser- 
gipe, saudando os saldados que voltavam da expe- 
dição de Canudos. 

Foi, principalmente, na visinlia cidade de Itapa- 
rica, onde nascera, e da qual era intendente, quan- 
do falleceu, que o Dr. Monção deixou traços fundos 
da sua dedicação á causa publica e desvelado 
interesse. 

Aquella localidade prestou ao seu cadáver, em 
29 de Setembro de 1898, o preito de justiça que elle 
merecera, pela dedicação e honesto escrúpulo, sem- 
pre revelados na sua administração. 



O Instituto registra ainda, com pesar, a morte 
de Alexandre Garcia Pedreira, advogado muito co- 
nhecido; de Christino Ramos de Oliveira, que pres- 
tou, especialmente na phase inicial da associação, 
modestos e úteis serviços; de José Maria Barretto 
Falcão; do Dr. Pedro Noiasco Buarquo de Gusmão, 
correspondente, e fallecido no Rio de Janeiro, a 16 
de Janeiro de 1899 ; de António Moreira de Góes, 
e do sócio correspondente Josó Machado Pedreira. 

Não sendo possível estender-me sobre cada um 
delles, sobre a sua vida e seus feitos, porque não 
cabe numa resenha necrologica e oral trabalho deste 



132 



fôlego, menciono os seus nonies com a lembrança 
da gratidão do Instituto, que não poderá esquecel- 
os, pela justiça quo elles lhe merecem e pela honra 
de tel-os possuido entre os seus. 

O professor Austricliano Francisco Coelho foi 
um homem dotado de espirito muito atilado e pres- 
tou serviços relevantes a este Instituto, do qual foi 
um dos fundadores, assim como da Academia de 
Bellas-Arles, á qual sempre se dedicou, como em 
geral, ás causas pelas quaes se interessava, com 
devotamento e ardor. 

O melhor e mais nobre altruísmo, porém, da sua 
vida, foi a parte que tomou na lucta abolicionista, 
naquella grande e gloriosa lucta legal, que é a 
maior honra da nossa pátria no periodo imperial. 

No tempo em que o partido abolicionista, aqui, 
era o partido dos pequenos e dos pobres, ao qual 
se oppunham os interesses dos que tinham que per- 
der, como se dizia então, era preciso coragem para 
defender a causa dos captivos e enfrentar com os 
ricos, que eram os que, em geral, tinham mais van- 
tagem no detestável trafico. 

Quando mais tarde a victoria bafejou a bandeira 
que cobria os (\\xe. tinham sido tão calumniados, des- 
presados e guíMToados, lodos se arrogaram a gloria 
da victoria, mas só os humilhados de outros tem- 
pos, os que tinham tantas vezes sentido a amargu- 
ra das decepções podiam contar a quem custara a 
campanha da abolição. 

Um dos soldarlos mais p^NMuptos desta cruzada, 
deverecebero logarque lhe pertence. 

O Dr. João B;.ii)ti.sta de Sá (» Oliveira foi também 
abolicionista dos primeiros tempos, e a sua dedi- 
cação a esta nobre causa d-i realce a seu nome na 
historia desta terra. 



133 



Era medico muito caritativo e carinhoso, e a lo- 
calidade onde viveu boa parte de sua existência, 
teve, da sua dedicação, milhares destes grandes e 
ignorados sacrifícios que só conhece quem pratica 
a medicina entre as classes pouco favorecidas. 

Acostumara-se a ser muito laborioso, assiduo 
no trabalho e consciencioso até o escrúpulo, mas 
um tanto acanhado. 

Foi secretario do congresso constituinte do esta- 
do, após a Republica, e serviu neste posto com 
dislincção e honra. Collaborou também no jornalis- 
mo, e publicou uma memoria sobre os Índios Ca- 
ma quans ádk comarca de Ilhéos, que foi apresentada 
ao 3.*> Congresso Brazileiro de Medicina e Cirurgia 
reunido aqui em 1890, além de outras, algumas das 
quaes bem meritórias. 

Estes trabalhos, de accordo com o seu tempera- 
mento litterario e com o pendor de seu gosto por 
estudos desta natureza, indicam até onde poderia 
ter chegado, si houvesse tido tempo para isso. 



O conselheiro Diogo Velho Calvacanti de Albu- 
querque, mais tarde visconde de Calvacanti, foi 
por muitos títulos, um dos personagens mais no- 
táveis do segundo reinado. 

Natural da Parahyba e formado em direito, na 
faculdade de Olinda, elle estreou na carreira da 
magistratura, carreira que abandonou depois pelas 
agitações da vida politica, pois, como bem diz um 
dos seus biographos, tinha mais o temperamento 
do politico do que o do magistrado 

Filiado ao partido conservador, fez parte de mi- 
nistérios nas pastas do commercio e obras publi- 
cas e da justiça e negócios estrangeiros. 



134 



Foi depois eleito senador, no tempo em que o 
duque de Caxias linha a presidência do conselho, 
e, nesta occasião, foi a sua escolha o ponto em 
torno do qual se bateu o partido, numa das luctas 
politicas mais interessantes do império. 

A sua casa era, no Rio, o ponto de reunião da 
elite da intelligencia, o lar amigo dos homens de 
talento, aos quaes attrahia a cultura sensata do 
visconde e o tino espirito, a vcrvo íçraeiosa e deli- 
cada de sua esposa, nossa consócia também e se- 
nhora tào notável, pelo seu elevado gosto atheniense 
como pelos predicados com que encantou, consolou, 
e conservou a vida do visconde, no meio dos ata- 
ques da velhice e das tristezas da cegueira, que 
o atormentou nos últimos annos de uma existência 
tào útil, como nobremente dedicada ao serviço da 
pátria. 

Estava representando o Br^zil na exposição de 
Pariz de 1889, quando se fez a proclamação da 
Republica, o desterro dos imperantes e a disso- 
lução do senado. 

O visconde de Calvacanti foi um dos poucos que 
tiveram vergonha de adherir, com o desembaraço 
e a rapid^^z açodados, com que muita gente se 
atropf»llou, agarrando-se á Republica nascente, 
como se agarraria a qualquer cousa que appare* 
cesse e que soubesse vencer. 

De lá, daquella Europa longínqua, elle nos en- 
viava, ora um presente precioso, ora uma lem- 
brança delicada, como os beijos que mandamos aos 
nossos filhos atra vez os mares e os espaços, quan- 
do, isolados em terra estrangeira, nos lembramos 
com intensa saudade dos que ficaram e dos que 
amamos; lá, na pátria distante, sob o seu céu ful- 
gurante, que testemunhou as illusões e os risos da 



135 



juventude e os pesares do hom-»m, recordações 
que são os últimos consolos dos prosc^riptosl 

Elle o visconde de Calvacanti, fica como um 
exemplo da coherencia pundonorosa, que se torna 
cada vez mais rara, mais rara ainda porque já ha 
quem tenha acanhamento de confessar que a sen- 
te, esta dignidade correcta e decente dos caracte- 
res honestos. 



O Dr. José Macedo de Aguiar, fallecido em 23 
de Outubro de 1899, foi um magistrado muito pro- 
bo e professor muito distincto. 

Depois de honrar a sua toga, como juiz, em di- 
versos logares, foi elevado a um dos mais altos 
tribunaes do estado, onde se noiabilisou, nào só 
pelos seus talentos e estudos de jurisconsulto, como 
principalmente, pela attitude sobranceira, que man- 
teve contra o governo, quando era exercido por 
um homem, o sr. conselheiro Luiz Vianna, diante 
de quem quasi toda a gente, quasi todos os órgãos 
de publicidade, porfiavam nos agrados que lhe fa- 
ziam por obras, palavras e pensamentos. 

O conselheiro Macedo de Aguiar foi um dos 
poucos que se ergueram contra a administração de 
então e esta sua posição fel-o destacar ainda mais 
pela inclinação exagerada da grande, da esmaga- 
dora maioria. 

Seria esta attitude motivada pelo prejuizo que 
resulta da approvação incondicional e da estimu- 
lação tacita da autoridade que se vae tornando, 
por isso, cada dia mais illimitada, com acquiescen- 
cia de todos, e que elle julgava altamente perigosa 
para a magestade das attribuições do poder judi- 
ciário, do qual era um dos depositários? 



13G 



Seria porque elle possuía esta espécie de pudor, 
susceptível e irritadiço d iquelles que são genuina- 
mente independentes diante da brutalidade das 
unanimidades e das felicidades omnipotentes, da- 
quelles que se envergonham de fazer coro no lou- 
vor, justamente porque é um coro i 

Ou este espírito culto se aterrava, notando a cor- 
rente de vassallagem, cada dia maior, este temivel 
indicio da moléstia que mata as republicas, que 
foi na antiguidade a origem e o incentivo das ty- 
rannias e que se traduz pelas condescendências 
louvaminheiras dos jornaes, que mais blasonam 
independência, destes sopliistas que adivinham a 
a vontade dos governantes, para ir ao encontro dos 
seus desejos, dos que garantem a felicidade das 
|)rovidencias futuras o a excellencia dos pensa- 
mentos dos seus Ídolos, dos que regulam a fideli- 
dade |)elo tempo que estes terão de permanecer ainda 
nos altares, mais ou menos pacientes até aos màos 
tratos, conforme u costume daquelles fâmulos, que, 
sopitando a insolência, toleram a rabugice dos pa- 
trões emquanto é opulenta o generosa a casa ! f 

O nobre juiz não escoridia a sua irritação, não 
dissimulava a sua cólera, rjuando entendia que 
devia reagir contra o que (ílie considerava inob- 
servância das Íeis, e altamente manifestou-se, entre 
outras occasioes com energia, quando se tratou 
da questão de um habeas-corpus, que ficará cele- 
bre nos annaes do nosso foro, e que a seu tem- 
po, servirá do curioso estudo, especialmente com- 
parada a certos acontecimentos posteriores, para 
se avaliar a orientação democrática eo critério da 
opinião neste paiz e para se ajuizar, mais uma vez, 
do que valem as garantias escriptas nas leis, en- 
tre os povos que não têm madureza suHiciente para 
coraprehendel-as I 



137 



Conta-se que, um dia, quando referiam a Marco 
Bruto uma das costumadas tergiversações de Cí- 
cero, julgando, com acerbo azedume, o orador de 
Arpinum, tão grande na tribuna, pela magia po- 
derosa daquella bocca eloquente, que pronunciou 
as Philipicas, e tão pequeno pelas fraquezas a que 
o arrastavam, ás vezes, o interesse ou a vaidade, 
elie exclamara: o Cicero não se importa de ter um 
senhor, comtanto que seja um bom senhor ! Eu, 
porém, não! Ou hei de viver livre, ou hei de dei- 
xar de viver»! 

Lembro-me de evocar, nobres consócios, as pa- 
lavras fortes do altivo republicano, para applical- 
as ao nosso illustre companheiro, porque elle era 
também um dos que não podiam ter senhor, por- 
que a sua resolução, intransigente e corajosa, na- 
quelle tempo, em que muito poucos a tinham, honrou 
a elle e ao poder ao qual se oppoz e porque, po- 
de-se ter a certeza, si tivesse vivido mais, si ti- 
vesse avistado um dia que não estava longe, em 
que a fortuna mudou e uma revira-volta se deu, 
elle teria sabido conservar a attitude circumspe- 
eta e decente, digni e correcta, cheia daquelle 
respeito de si mesmo, que separa o homem ele- 
vado das grosserias do povo e que este admira, 
mesmo quando não o comprehende ! 

« • 

O general Frederico Sólon Sampaio Ribeiro, nas- 
ceu no Rio Grande do Sul, em 1842. 

Entrou para o exercito em 1857, e serviu na ca- 
vallaria, por occasião da guerra paraguaya, toman- 
do parte em todos os combates da campanha. 

Era major e commandava o 9.° regimento da 
mesma arma, estacionado no Rio, em Novembro 
de 1889, época em que entrou, de chofre, na car- 

R. 18 



138 



reira politica, do modo tal que, diante do seu 
nome, ha de parar, d'ora avante, quem tiver de 
escrever a historia do Brazil. 

Parece que foi em 30 de Outubro que teve scien- 
cia do pronunciamento, que se preparava, por 
Menna Barretto e Sebasti lo Bandeira, e, logo no 
outro dia, ou no dia 5 do mez seguinte, entrou 
em relações com o general Deodoro e com Ben- 
jamin Constant. 

O partido liberal subira, em 6 de Junho daquelle 
anno, ao poder, e o visconde de Ouro Preto, pre- 
sidente do conselho, começara a g^wernar com o 
orgulho e a temerária energia de um Strafford 1 

Diante delle e contra elle subia a irritação altiva 
e crescente dos militares, que yÁ tinham tomado 
o pulso á fraqueza do governo imperial, derrubando, 
pouco antes, o ministro Alfredo Chaves, por uma 
destas manifestações desabridas e arrogantes da 
força, que só se podem explicar, sem justificar, 
pelo estado lastimoso a que tinha chegado a ad- 
ministraçfxo, e o esmorecimento, cada dia mais 
derivante, da monarchia, em consequência da hos- 
tilidade da classe dos proprietários agrícolas, que 
fora, em todos os tempos, o seu melhor apoio, 
já irritada e logo empobrecida pela abolição. 

Havia também em todo o [)aiz uma propaganda, 
a cada momento mais arrojada e vehemente, que 
o exemplo do triumpho próximo da propaganda 
abolicionista exaltava até o extremo, eá qual per- 
tenciam, em regra geral, toda a mocidade que sa- 
bia das escolas e muitos militares. 

As ironias pungentes com que o sr. Gomes de 
Castro ílagiciara, na camará, o novo ministério, 
na sessão memorável de 11 de Junho, e o discur- 
so intrepidamente fatídico do padre João Manuel, 



139 



indicavam que o espirito conservador deixava agir 
a vingança e era o braço armado do gladio que 
ia desfechar o golpe I 

Teriam feiío bem os quatrocentos e tantos sol- 
dados que proclamaram a Republica ? 

Ainda é cedo para julgar a revolução, apesar 
das misérias do presente. 

Naquelle tempo já havia uma desastrada e real 
fraqueza em cima, e o poder, apesar de moderado 
nas leis, era sempre, de facto, absoluto no fundo; 
mas, os que governavam, não sabiam, nào queriam, 
ou tinham pejo de fazer dos parlamentos estes es- 
cravos dóceis, acorrentados a seus pós I 

A tyrannia já era mesquinha, e os abusos que 
ella produz pesavam sobre a nação ; mas, todos 
nós que alimentáramos o sonho querido da Re- 
publica, não pensávamos em cousa ()eor: na amar- 
gura dos máos dias, dos dias das orgias do onci- 
lliamento e das orgias da degolla. 

O sombrio erro é que não prc>viramos que não 
conseguiríamos, depois de dois lustros, o mesmo 
ideal que a nação ingleza, ha cerca de dois séculos 
e meio, também não logrou alcançar, em doze annos 
de Republica — um parlamento que não fosse njan- 
dado peh^s governantes, um parlamento sem majo- 
res generaes e sem certificados de admissão, um 
parlamento livre emtimi 

O visconde de Ouro Preto não dissimulava con- 
siderar como inimiga a gente da milicia e que as 
ordens para o seu afastamento eram medidas po- 
liticas. 

Foi em casa do major Sólon que se reuni- 
ram os conspiradores, no dia 3 de Novembro, e 
foi elle quem, ás 7 horas da tarde de 14, mandou, 
por Joaquim Ignacio, prevenir que estivessem todos 



140 



promptos para aquella noite, porque o governo 
descobrira tudo, e toi ainda em torno delle, no seu 
quartel de S. Christovão, onde chegou, á meia noite, 
que se agruparam os revolucionários, desde Ser- 
zedello Correia, que veiu, por ordem de Benjamin, 
incorporar-se ao movimento, até o tenente-coronel 
Telles, que devia commandar a 2.» brigada revol- 
tada. 

Foi alli que, pelas 5 1/2 horas da manhã, apeou- 
se Benjamin Constant com Lauro Múller e um cla- 
rim, dizendo : 

«Agora, estou entre os meus amigos. Chegou o 
momento de ver quem sabe morrer pela pátria » I 
O major Sólon trouxe o seu regimento ao Campo 
da Acclamaçiio, commandando a vanguarda, arris- 
cando-se abertamente ao crime de rebellião, e in- 
cumbiu-se depois da perigosa honra de guardar 
preso, no seu paço, o imperador e de levar-lhe o 
decreto da deposição. 

Não era proporcional ao posto a embaixada, 
mais era-o de sobejo o homem ! 

Havia nesta dupla missão duas tremendas res- 
ponsabilidades e era preciso ter uma alma soli- 
damente lemperada para encarregar-se delias. 

A historia das [)roscripções politicas tem muitas 
particularidades ora cómicas, ora sinistras, desde 
a de Ricardo Cromwell, recommendando que trans- 
portassem, coii» todo o cuidado, a mala que levava 
os protestos das dr.dicaçõcs ilU/nitadas, que re- 
cebera por occasião da sua elevação ao protecto- 
rado, por conduzir, conforme elle dizia com o seu 
humorismo de saxnriio, a vida e a fortuna do bom 
povo de Inglaterra, até a de Maximiliano, acom- 
panhada pela lembrança daquellas promessas, que 
deviam ter por cumprimento o sorriso com que o 



141 



responsável pela trágica aventura se esquivou mais 
tarde perante o dramati-ío, o sublime desespero 
da esposa do destitoso fusilado de Queretaro I 

Nenhuma delias, porém, se parece com a que 
este soldado levava num papel dobrado, em gran- 
de uniforme, á frente de um piquete de cavallaria, 
naquella tarde de sabbado, IG de Novembro, que 
ficará, na historia do Brazil, como o dia da ancie- 
dade e do espanto e que era a ordem de uma pro- 
scripção, que devia ser eternal 

Conta-se de Luiz XVI que, si tivesse possuido, 
na madrugada de 10 de Agosto, a coragem reso- 
luta e guerreira, digna de um neto de sessenta reis, 
si tivesse podido vencer o pendor do seu próprio 
organismo, inflammar os guardas nacionaes hesitan- 
tes e corresponder á fria bravura dos suissos, 
talvez tivesse repellido, nos arredores das Tulhe- 
riâs, os bandos de Westermann e de Santerre. 

Si Pedro II, lambem, mais moço, mais resoluto 
e valente, se tivesse, violando as ordens das sen- 
tinellas, dirigido á tropa e ao povo ; si tivesse lem- 
brado a uns o seu juramento áquella bandeira, que 
fora sempre a bandeira das victorias ; si, falando 
aos marinheiros e aos soldados, lhes tivesse recor- 
dado Itozoró e Riachuelo, e evocado a tradição 
daquelles gloriosos exércitos, que, diante dos es- 
trangeiros, sabiam morrer, como em Pirajá e Monte 
Casftros, saudando com vivas o seu imperador ; si, 
com um grupo de convertidos, pudesse sahir á 
rua, e, expondo-se d morte, se tivesse dirigido ao 
povo, por maior que fosse a prostração moral e a pusi- 
lanimidade deste, e pudesse agitar as poderosas 
sympathias que tinham por elle, tão grandes que 
ainda não se desfizeram, é possivel que tudo se 
tivesse mudado. 



142 



Isto, porém, não se deu e foi ainda sob a espa- 
da deste grande rebelde, victorioso e bravo, que, 
naquella madrugada de domingo, 17 de Novembro, 
escura e trágica, filas dobradas de soldados som- 
brios, no meio de linhas densas de baionetas palli- 
das, passou o coche negro, o coche que conduzia 
para o mar o velho descoroado da véspera que ia, 
aos 70 anncs, começar, em terra estrangeira, uma 
vida do expatriado, a vida da pobreza e do exiliol 
Quando, em 1660, a restauração dos Stuarts deu 
ensejo para se revelar lodo o servilism.» de que 
eram capazes os políticos e os particulares, quan- 
do a reacção monarchica era tanto mais inconsi- 
derada e cruel no parlamento inglez, quando se 
accommoda bem á covardia dos homens diluir o 
odioso da tyrannia e dos crimes, no meio da de- 
bandada geral, do repudio de todos os antigos 
compromissos e de todas as velhas amizades, quan- 
do conduziam numa carroça, [)ara Charing Cross, 
o coronel Harrison, um miserável, insolente ou 
desapiedado, gritou da turba, para insultar o velho 
republicano: «Onde está agora a tal boa causa»?. 

«Levo-a aqui», respondeu o valente soldado, ba- 
tendo no coração ! 

E continuou a avançar para o supplicio, altivo 
e heróico, como costumava avançar á frente do seu 
regimento I 

Seria muito temerário suppor que todos os que 
estabeleceram a foima polittca, que ha doze annos 
aqui se mantém, respondessem <t mesmo em cir- 
cumstancias idênticas. 

Um, porém, fal-o-hia de certo, si vivesse e si 
ella, pur desgraça encontrasse um Monk. 

Era o general Sólon. 



143 



8ò\ SESSÃO EM 18 DE MAIO DE 1901 
Presidência do Snr. Cons. Dr, Saloador Pires 

Aos trinta e um dias do mez de Março de 1901, 
nesta cidade do Salvador, Bahia de Todos os San- 
tos, no salão do Instituto, á 1 hora da tarde, pre- 
sentes os sócios, Cons. Drs. Salvador Pires de 
Carvalho e Albuquerque, presidente e João Nepo- 
muceno Torres, 1 ^ secretario, Drs. Braz do Ama- 
ral, Augusto de Araújo Santos, Joaquim dos Reis 
Magalhães, Aurélio Pires de Cai*valho e Albuquer- 
que, Guilherme Fooppel, Manoel Alfredo de Carvalho, 
João Pimenta Bastos e Júlio Barbuda, Pharms. 
Joaquim Manoel de Sant*Anna, Luiz Filgueiras e 
Accioly do Prado, Professores Elias de Figueiredo 
Nazareth e Francisco Torqualo Bahia da Silva 
Araújo, Padre Luiz da França, Damasceno Vieira, 
capitães Francisco Gomes Ferreira Braga e Manoel 
Quirino, coronel Gonçalo de Athayde Pereira, Sal- 
vador Pires de Carvalho e Albuquerque e Isaias 
de Carvalho Santos, 2.^ secretario, foi aberta a 
sessão. 

O expediente constou do seguinte : 

Officios: do Cônsul de Portugal, da Provedoria 
da Santa Casa da Misericórdia, do Conselho exe- 
cutivo do Centro Operário, do Presidente do Tri- 
bunal de Appellaçào e Revista, das sociedade B.»- 
neficencia Caixeiral e Euterpe, agradecendo o convite 
para a sessão anniversaria do Instituto, sendo q u 
a Beneficência Caixeiral envia a lista dos funccio- 
narios para o corrente anno. 

Cartas: á^ sócio capitão de mar e guerra An- 
nio Alves Camará communícando não poder, por 
molivd de moléstia, comparecer á sessão anni- 



144 



versaria; do presidente da commissão promotora 
dos festejos do 4.« Centenário do descobrimento 
do Brazil, em Belém do Pará, Dr. Gentil A. do 
Moraes Bittencourt, oflferecendo um:i collecçào das 
quatro medalhas comraemorativas que a mesma 
commissão mandou cunhar, em bronze ; da Dire- 
ctoria da Escola Polytechnica, deste Estado, com- 
municando que, por ter recebido tarde o convite 
para a sessão anniversaria, deixou a Congregação 
de fazer-se representar na respectiva solemnidade; 
do Dr. Carlos Reis communicando que acceita o 
logar de sócio correspondente para que foi eleito 
e offerecendo os seus préstimos, em S. Paulo ; da 
Viscondessa de CaUacanti, escripta de Ron)a, accu- 
sando a recepção de uma carta acompanhada da 
medalha commemorativa do descobrimento do Bra- 
zil e explicando o motivo por que dirigiu ao In- 
stituto uma carta ao passar por esta cidade ; ura 
cartão da directoria do Centro Operário, congra- 
tulando-se com o Instituto pelo anniversario da 
sua installação : uma carta do sr. Gustavo Alexandre 
Joys, escripta da fazenda Santa Cruz do Chixiú, 
em Cannavieiras, fazendo um largo histórico sobre 
as riquezas mineraes daquelle municipio e pedindo 
auxilio para a exploração de diversas jazidas, carta 
que foi a respectiva commissão porá estudar o as- 
sumpto. 

Offerías: do secretario geral do governo do Es- 
tado de Sergipe, enviando, com officio de 22 de 
Março ultimo, um exemplar da Colleccão de leis 
e decretos do anno de lUOO ; do consócio Dr. Pedro 
M. Riviere, jornaes que trazem a descripção das 
festas e trabalhos do «Congresso Latino-Americano», 
e communicando que acceitou a incumbência de 
representar este Instituto naquella solemnidade, o 



145 



que tudo consta dos offlcios de 13 de Março e 3 
de Abril do corrente anno, enviando taaibem a me- 
dalha do referido Congresso; do Dr. Ribeiro dos 
Santos, um quadro dos deputados e senadores ao 
congresso Constituinte do Estado da Bahia ; do 
Dr. Foeppel, trinta e uma moedas antigas estran- 
geiras e sete modernas; do Dr. Joviniano Avelino 
Pereira Duarte uma cédula de 20$000 amarella ; 
do photographo Sr. Vargas, a [)hotographia do edifí- 
cio do Instituto ; do Cons. Torres uma collecção 
do jornal ©Revista da Semana» e os volumes das 
leis flConsolidação das leis do processo civil, cri- 
minai e commercial do Estado da Bahia». 

D Sr. Cons. Presidente communica o fallecimento, 
em Abril, do professor Adriano Augusto de Araújo 
Jorge, lente do Gymnasio de Maceió e presidente do 
Instituto Geographico de Alagoas e do historiador 
Josó Arthur Montenegro, fazendo justas referencias 
a tão illuslres consócios, propondo que se inse- 
risse na acta um voto de profundo pesar, o que 
foi approvado. 

O Cons. Torres fez também referencias aos dois 
consócios fallecidos e particularmente ao consócio 
Montenegro e propõe que o Instituto faça um ap- 
pello aos demais Institutos para auxiliarem a pu- 
blicação de uma obra sobre a guerra do Paraguay, 
escripta por elle, e a mais completa no assumpto. 

Em seguida passou-se aos trabalhos da eleição 
que deu o seguinte resultado : 

Para presidente, Cons. Dr. Salvador Pires, 21 
votos; Dr. Satyro Dias 1. 

Para l.<> vice-presidente, Dr. Satyro Dias, 21 ; 
Cons. Torres, 1 . 

Para 1.** secretario. Cons. João Torres, 19; Dr. 
Reis Magalhães, 2. 

R. 19 



146 



Para 2.^ secretario, Dr. Isaiasde Carvalho Santos. 
20 ; ,Aloysio e Faria Rocha, 1. 

Para supplentes de secretario, major Aloysio de 
Carvalho, 20; Dr. Reis Magalhães, 18. 

Para thesoureiro, capitão Francisco Gomes Fer- 
reira Braga, 20; Eloy Guimarães, 1. 

Para orador, Dr. Braz Hermenegildo do Amaral, 
19; Dr. Araújo Santos, 1 e Cons. Filinto Bastos, 2. 

Para supplenie de orador: Cons. Filinto Justi- 
niano Ferreira Bastos, 20 e Dr. Octaviano Bar- 
retto, 2. 

Para commissão de admissão de sócios: Dr. Al- 
fredo César Cabussú, 22; Comm. SanfAnna, il; 
Gonçalo de Athayde, 21 e Eloy Guimarães, 1, " 

De fundos e orçamento: Dr. Bonifácio de Aragão 
Faria Rocha, 22; Horácio Urpia, 22; Comm. Sal- 
vador Pires de Carvalho e Albuquerque, 21 e Dp. 
Araújo Santos, 1. 

De redacção da Revista: Cons. João Torres, 21 ; 
Dr. Reis Magalhães, 21; Dr. Ini.ocencio Munhoz, 
21; Dr. Fiancisco Calmon e Luiz Filgueiras, 1 voto 
cada um. 

De manuscriptos e documentos : cónego Man- 
fredo Alves de Lima, 22; Cons. Filinto Bastos, 22 
e Dr. Egas Muniz, 22. 

Geogra[)hia e Historia : Dr. Francisco Marques 
de Góes Calmon, 22; professor Borges dos Reis, 
22; Luiz Filgueiras, 21 e Isaías Santos, 1. 

Estatistica : Professor Nazareth 21; Aurélio Pires 
14; Dr. Júlio Gama, 10; António Calmon, 8 e Júlio 
Barbuda, 12. 

Topographia : Pimenta Bastos, 22; professor Tor- 
quato Bahia, 21; Accioly, 18; Dr. Glycerio Volloso, 
6 e Dr. Calmon, 1. 

Numisn^atica : Dr. Guilherme Foeppel, 22; pro^ 



147 



fessor Quirino, 22; Ferraro, 22 e Damasceno Viei- 
ra, J. 

Mappas: Capitão de mar e guerra Alves Gamara, 
82; Octaviano Soledade, 22 e Dr. Júlio Caiusans, 22. 

Biographias : Dr. Manoel Brito, Damasceno Vieira 
e Dr. Guilherme Rebello, 22 votos cada um. 

Pelo sócio capitão Ferreira Braga, Ihesoureiro, 
foi dito ser necessário o concerto de uma viga no 
salão da bibliolheca, concerto esse orçado, com as 
obras necessárias, pelo sócio Dr, Pimenta Bastos 
em sete centos mil reis, no máximo, pedindo para 
isso autorização. Apoiado o pedido pelo sócio Dr. 
Reis Magalhães, foi approvado pola assembléa. 

E nada mais havendo a tratar foi encerrada a 
sessão, do que eu, 2.^ secretario, lavrei a presente 
acta, que vae por mim assignada. -Isaías de Car- 
valho Santos. 

Approvada emsessâ) de 14 de Julho de 1901.— 
Salvador Pires de Carcallio e Albuquerque. — João 
Nepomuceno Torres. — Gonçalo de Athayde Pereira. 

86.» SESSÃO EM 14 DE JULHO DE 1901 

Presidência do Sr. Cons. Dr. Salvador Pires 

Aos 14 dias do mez de Julho de 1901, nesta ci- 
dade do Salvador, Bahia de Todos os Santos, no 
salão do Instituto, á 1 hora da tarde, presentes 
os sócios Cons. Salvador Pires de Carvalho e Al- 
buquerque, presidente, João Nepomuceno Torres, 
1 *^ secretario, Drs, Egas Muniz Barretto, Alfredo 
Cabussú e João Pimenta, capitão Francisco Gomes 
Ferreira Braga, Comms. Salvador Pires do Car- 
valho e Albuquerque e Joaquim Manoel de Santa 
Anna, coronel Gonçalo de Athayde Pereira, Alfredo 



148 



Soledade e Henrique Praguer, abriu-se a sessão, 
sendo lida e approvada a acta da sessão anterior. 
O expediente constou do seguinte : 
Officios : do general Pina Vidal, secretario geral 
da Academia das Sciencias de Lisboa, enviando 
varias obras para a bibliotheca ; do secretario ge- 
ral da sociedade de Estudos Colioniaes de Bru- 
xellas, enviando um boletim e pedindo permuta 
da Revista; do presidente da Associação Commer- 
cial, enviando um exemplar do Relatório do anno 
findo; dos secretários do Grémio Litterario e da 
sociedade Nacional de Agricultura, enviando a re- 
lação das novas directorias; da commissão de 
exéquias em homenagem ao Juiz de Direito Arthur 
Leal Ferreira, pedindo o comparecimento do Ins- 
tituto (foi nomeada uma commissão composta dos 
sócios Drs. Braz do Amaral, Guilherme Rebeilo e 
Cabussú); da directoria do Instituto Agronómico 
e Industrial da Bahia, convidando o Instituto para 
assistir à solemnidade de sua installação no dia 14 
do corrente (foi nom^^ada uma commissão com- 
posta dos sócios Drs. Braz do Amaral, Pimenta 
Bastos e Affonso Maciel); do Provedor da Santa 
Casa de Misericórdia, enviando o Relatório con- 
cernente ao biennio de 1899 a 1900 ; do Dr. José 
Manoel Cardoso de Oliveira, secretario da legação 
brazileira, em Londres, acceitando e agradecendo 
a sua eleição do sócio correspondente deste Ins- 
tituto ; da commissão encarregada dos festejos do 
dia 2 de Julho, convidando o Instituto a tomar 
parte no cortejo civico ao parque «Duque^de Caxias», 
onde se acha o Monumento da nossa emancipação 
politica: do U^nmo Sr. Ai cebispo desta Archidio- 
cese ; do General conunandonte do 3.o districto 
militar ; do Cônsul Portuguez; dos Drs. Secretários 
da Segurança Publica e da Viação e Agricultura; 



140 



dos Directores das Faculdades de Medicina e de 
Direito ; do Dr. Inspector Geral do Ensino ; do Dr. 
Intendente Municipal ; do capitào de mar e guerra, 
capitão do porto Alves Camará ; do Inspector da 
Alfandega ; dos presidentes da Associação Com- 
raercial e da Junia Commercial ; do Provedor da 
Santa Casa de Misericórdia ; do l.* secretario do 
Grémio Litterarie ; do Presidente do Conselho Exe- 
cutivo do Centro Operário ; dos presidentes do 
Instituto Archeologico Alagoano, Instituto Polyte- 
chnico Brazileiro, sociedade de Geographia do Rio 
de Janeiro, do Instituto Histórico de S. Paulo e 
do 1.- sucrelario do Instituto dos Advogados Bra- 
zileiros, todos accusando o recebimento da com- 
municação da nova directoria do Instituto Bahiano 
e manifestando votos de prosperidade do mesmo 
Instituto. 

Foram lidas duas cartas do sócio correspondente 
Carlos Ferreira de Mello, residente em Berlim e 
professor alli, datadas de 16 e 27 de Maio do 
corrente anno, vindo esta ultima acompanhada de 
uma outra carta do Sr. Cari Chum. 

Na primeira aquelle consócio comrnunica que 
está proseguindo em seus estudos geographicos e 
generalisando a lingua como professor particular; 
e, confirmando as carias anteriores do 1.2 e 13 Ju 
Fevereiro, diz que julga ser fácil alcançar gratui- 
tamente obras para a bibliotheca do Instituto, uma 
vez que sejam remeltidas á sociedade de Geogra- 
phia de Berlim as publicações ofíiciaes, tendo mes- 
mo promessa, nesse sentido, da referida sociedade, 
e enviou os provas do titulo e do índice da obra 
que escreveu e que está se editando, pedindo ao 
Instituto que a recommende no seu boletim ; na 
segunda propõe-se o referido sócio a mandar pre- 



150 



parar peia casa Cari Chum inappas escolares de 
geographia physica e polilioa, segundo o plano e 
ppGço que indica e também mappas geraes com 
todas as minudencias nossivois. pliysicas e poli- 
liticas, com o traçado dos limites dos municípios 
e das estradas e caminhos de ferro, lembrando 
que a desp«za poderá ser feita pelo Estado, por 
tratar-se de serviç.^ publico, e serviço remunera- 
dor, uma vez que o listado poderú vender as cartas 
por conta própria. E a carta do Sr. Cari Clium é 
no mesmo sentido. 

Em seguida foram lidos os [careceres da com- 
missão de admissão de sócios, ficando adiada a 
Viitação para a sessão seguinte por falta de nu- 
mero legal de sócios para a votação. 

E por nada mais haver a tratar-se, foi encerrada 
a sessão, e de tudo para constar, lavrei a presente 
acta, que vae por mim, 2.' secretario, assignada. 
— haias de Carvalho Santos. 

Approvada em sessão de 25 de Agosto de 1901, 
— Salvador Fires de Carvalho e Albuquerque- João 
Nepotmuteno Torres— Gonçalo de Athayde Pereira. 

87.*» SKSSAO, EM 11 DE AGOSTO DE 1901 

Presidência do Sr. Côas. l)r Salvador Pires 

Aos 11 dias do mez de Agosto de 1901, nesta 
cidade do Salvador, Bahia de Todos os Santos, 
no salão do Instituto, á 1 hora da tarde, presen- 
tes os sócios Cons. Salvador Pires de Carvalho e 
Albuquerque, presidente, e João Nepomuceno Torres 
1.' secretario, Drs. Alfredo César Cabussú, João 
Pimenta Bastos, Joaquim dos Reis Magalhães, 
Cons. Filinto Justiniano Ferreira Bastos, Pharms. 
Alfredo Accioly, Lui:' Filgueiras e Comm. Joaquim 



151 



Manoel de SanfAnna. capitão Francisco Gomes 
Ferreira Braga, Ihesoureiro : coronel Gonçalo de 
Alhayde Pereira. Nicolau Toleniino Carneiro da 
Cunha, Alfredo Octaviano Soledade e Isaias de 
Carvalho Santos, 2.- secretario, abriu-se a sessão, 
sendo lida a acta da anterior, que foi approvada. 

O expediente constou do seguinte : 

Ofjicios ; do secretario da sociedade Beneficente 
União dos Artistas, communicando o resultado da 
eleição dos novos funccionarios ; do Director da 
Bibliotheca Nacional do Rio de Janeiro commu- 
nicando achir-se naquella trese (13) pacotes de 
publicações procedentes da America do Norte e 
da Europa e destinados a este Instituto. 

Lidos os [)areceros sobre as propostas de ad- 
missão de sócios, foram sub nettidos á votação, 
por escrutinio secreto, sendo approvados para só- 
cios eflfectivos us Engenheiros Francisco Lopes da 
Silva Lima e José Maria das Neves, e correspon- 
dentes os Drs. VirgiJe Rossel, J. C. Branner, Ze- 
ferino Cândido, Guimarães Passos, Alfredo Rodri- 
gues e Arno Philipp e o Prof Amâncio Pereira. 

Foi lida e remettida á respectiva commissão a 
proposta para sócio etiectivo do engenheiro agró- 
nomo Luiz da França Imbassahy da Silva. 

Offertas : de duas pennas de pato que pertence- 
ram ao fallecido D. Pedro II, ex-Imperador, pelo 
sócio coronel Rogociano Pires Teixeira ; do ma- 
xilar superior de uma tartaruga encontrada a mil 
metros de distancia do Pharol da Barra, pelo ca- 
pitão Vitalino de Almeida; e de diversos mappas 
pelo sócio Cons. António Carneiro da Rocha. 

Em seguida, pedindo a palavra o Comm. Santa 
Anna, explicou o seu voto na proposta do Dr. 
Vipgile Rossel, e disse que rejubilava-se com o 



152 



Instituto pela acquisiçrio de tão illustre sócio, que 
muito contribuirá na questão Amapá para o reco- 
nhecimento do nosso direito áquella parte do ter- 
ritório nacional. 

E por nada mais haver a tratar, encerruu-se a 
sessão e de tudo, para constar, lavrei a presente 
acta e assigao. — Isaias de Carcalho Santos. 

Approvada em sessão de 25 de Agosto de 1901. 
— Salvador Pires de Carrulho e Albuquerque, — 
João Nepomuceno Torres —Gonçalo de Athayde Pe- 
reira, 

88.»^ SESSÃO ExVI 25 DE AGOSTO DE 1901 
Presidência do Sr. Cons. Dr. Salvador Pires 

Aos 25 dias do mez de Agosto de 1901, nesta 
cidade do Salvad- r, Bahia de Todos os Santos, no 
salão do Instituto, â 1 hora di tarde, presentes 
os sócios Cons. Salvador Pires de Carvalho e Al- 
buquerque, presidente e João Nepomuceno Torres, 
secretario, Drs. Egas Moniz, Alfredo Cabussú, Au- 
rélio Pires íle Carvalho e Albuquerque, Joaquim 
dos Reis Magalhães e José Júlio de Calasans, Comm. 
Salvador Pires de Carvalho e Albuquerque, Hen- 
rique Praguer, Alfredo Accioly, capitão Francisco 
Gomes Ferreira Braga, thesoureiro, António José 
Gonçalves Neves, Alfredo Soledade e coronel Gon- 
çalo de Athayde Pereira, foi aberta a sessão, sendo 
lidas e approvadas as actas das sessões de 14 de 
Julho e 11 de Agosto do corrente anno. 

O expediente constou do seguinte : 

Officios : dos secretários do Grémio Bibliophilo 
Barrense e da Associação dos Empregados noCom- 
mercio de Pernambuco, communicando a posse 
dos novos funccionarios eleitos para o anno social 
do 1901 a 1902, e da Sociedade Nacional de Agri- 



153 



cultura acompanhado de um regulamento do Con- 
gresso de Agricultura. 

Foi lido o parecer da commissào de admissão 
de sócios sobre a proposta, para sócio eífectivo, do 
engenheiro Luiz da França Imbassahy da Silva, que 
deixou de ser votada por não haver numero legal. 
Foram lidas e enviadas á respectiva com missão 
as seguintes propostas: para sócios correspondentes 
os litteratos : Arthur Vianna, director da bibliotheca 
do Pará, António Lobo, director da bibliotheca 
publica do Maranhão e o escriptor portuguez Fran 
Pacheco, autor do «Sangue Latino»; e para sócios 
efifectivos os Drs. Joaquim Augusto Tanajura, me- 
dico, João Gualberto Nogueira, deputado estadoal, 
e António Ferrão Muniz de Aragão, advogado, e 
a Exma. Sra. D. Maria Elisa Valente Muaiz de 
Aragão, todos residentes nesta cidade. 

Em seguida, procedeu-se a eleição para o pre- 
enchimento da vaga de um membro da commissãode 
orçamento, sendo recolhidas quatorze cédulas, que 
aparadas deram o seguinte resulta«io : Dr. Alfredo 
Cabussú, trezti voios, Dr. Reis Magalhães, um voto. 
Finda a eleição, foi lido o projecto de orçamento 
para o corrente anno, apresentado pela respectiva 
commissão, sendo adiadas a discussão e votação 
para a sessão seguinte, por não haver numero le- 
gal de sócios. 

E nada mais havendo a tratar, foi encerrada a 
sessão, e de tudo, para constar, eu, 2.* secretario, 
lavrei a presente acta e assigno. — Isaías de Caroa- 
lho Santos. 

Approvada em sessão de 8 de Setembro de 11)01. — 
Sahadur Pires de Carvalho e Albuquerque. — João 
Nepomuceno Torres. — Isaías de Carvalho Santos. 

R. 20 



89^ SESSÃO EM 8 DE SETEMBRO DE 1901 
Presidência do Snr. Cons. Dr. Salvador Pires 

Aos oito dias do mez de Setembro de 1901, 
nesta cidade do Salvador, Bahia de Todos os San- 
tos, no salão do Instituto, á 1 hora da tarde, pre- 
sentes os sócios, Cons. Drs. Salvador Pires de 
Carvalho e Albuquerque, presidente, e João Nepo- 
muceno Torres, 1 ® secretario, Drs. Joaquim dos 
Reis Magalhães, Alfredo César Cabussú, José Júlio 
de Calasans, Joaquim Pires Muniz de Carvalho, 
Egas Muniz Barretto de Aragão, Francisco Alexan- 
dre de Souza e Henrique Praguer, Pharm. Joaquim 
Manoel de SanfAnna, coronel Gonçalo de Athayde 
Pereira, capitão Francisco Gomes Ferreira Braga, 
thesoureiro, João Antunes de Castro Menezes, Al- 
fredo Octaviano Soledade e Isaias de Carvalho 
Saniros, 2.- secretario, foi aberta a sessão, sendo lida 
e approvada, sem debate, a acta da sessão anterior. 

O expediente constou do seguinte : 

Três propostas apresentando para sócios eflFecti- 
vos os Drs. José Gonçalves de Castro Cincurá e 
José Sabino Pereira Filho, o Pharm. Clemente 
Tanajura Guimarães e o litterato bahiano Xavier 
Marques; e para sócio correspondente o Dr. Antó- 
nio Augusto de Lima, Director do Archivo Publico 
Mineiro, as quaes foram remettidas á commissão 
respectiva. 

Foram lidos os pareceres da commissão de ad- 
missão de sócios, opinando pela acceitação para 
sócios eíiectivos da Exma. Sra. D. Maria Elisa Va- 
lente Muniz de Aragão e dos Drs. Joaquim Augusto 
Tanajura, João Gualberto Nogueira e António Ferrão 
Muniz de Aragão, e para sócios correspondentes 



1S6 



dos 5Srs. Arthur Vianna e António Lobo, Directores 
das Bibliothecas Publicas dos Estados do Pará e 
do Mai^nhão, e Fran Pacheco, escriptor portuguez, 
redactor da «Revista do Norte», não sendo submet- 
tidos á votação por não haver numero legal de sócios. 
O Sr. Cons. Dr. João Torres, 1.' secretario, pe- 
dindo a palavra, propoz que se inserisse na acta 
um voto de sincero e profundo pezar pelo falleci- 
mento do notável litterato e historiador brazileiro, 
Eduardo Prado, o que foi approvado. 

Em seguida, é lido o parecer da commissão de 
orçamento sobre a receita e despeza do anno de 
1901, como se segue: 

«A commissão d^ orçamento do Instituto Geo- 

graphico e Histórico da Bahia submette á appro- 

vação da Assembléa Geral o projecto de orçamento 

para ocorrente anno de 1901, sob as seguintes bases: 

Art. 1.- A receita é fixada em 16:326$500, a saber: 

§ 1.- Subvenção estadual .... 6:000$000 

§ 2.- Dita federal 5:000$000 

§ 3.- Dita municipal 1:000$000 

§ 4.' Ditas de exercícios anteriores 
não recebidas, a saber : 

a) estadual 1:500$000 

6) municipal 500$000 

§ 5.' Mensalidades de sócios sendo, 
a) de 9 sócios que devem de 
diversas épocas a contar de 
Julho de 1894a de5:embr.)del90l 526$000 

6 j de 40 sócios que devem de di- 
versas épocas a contar de Ja- 
neiro de 1899 a Dezembro de 
1900 (409$000j dedusindo bO J^ 



14:526$000 



156 



Transporte 14:526$000 

presumiveis não serem recebidos 
na respectiva cabrança. . . . 254$500 

c) de 151 sócios eífectivos não in- 
cluidos os 9 de que trata a lettra 
a) e dedusidos 50 ^/^ presumi- 
veis não serem recebidos na 
respectiva cobrança das men- 
salidades dos 40 sócios de que 

trata a lettra 6) 1:572$000 

§ 6.* Jóias de sócios 300$000 

§ 7.- Donativos ^ 

§ 8.- Remissão de sócios .... ^ 

§ 9.- Producto de kerniesses, con- 
certos e espectáculos públicos $ 



16:326$500 

Art. 2,' A despeza ó fixada em 16:317$240, a saber: 
§ 1.' Juros e amortisaçao do debito 

por hyfiOtlieca e lettra do Banco 

Auxiliar das Classes . . , . 8:000$000 

§ 2.- Seguro do prédio 115$800 

§ 3.' Pagamento a credores, sendo : 

A João Primo Campello 771$400 

Francisco Ferraro 1:170$000 

Joel & C 272$540 

Companhia Serraria a vapor e ma- 

teriaes de construcção . . . 468$500 

Costa Santos & C 460$000 

Em preza Editora 700$000 

Guarda-livros 200$000 

Joaquim Manso & C 479$000 

12:637$240 



157 



Transporte 
§ 4." Ordenados, sendo : 

a) do amiinuense 

b ) do porteiro 

c) do cobrador 

GÍ) do servente 

§ 5.' Commissão do cobrador . . 
§ 6.' Despezas da Secretaria, inclu- 
sive agua e sellos 

§ 7.' Impressão da ^Revista», inclu- 
sive a publicação da «Historia 
da Independência» pelo Dr. Ma- 
noel Correia Garcia. . . . . 



12:637$240 

800$000 
720$000 
360$000 
300$000 

$ 

300$000 



1:200$000 



16:317$240 
Art. 3.* A impressão da Revista será feita por 
meio de concurrencia publica. 

Art. 4.* Não far-se-i\ despeza alguma que não 
esteja prevista neste orçamento, nem que exceda á 
verba no mesmo designada. 

Art. 5/ O sr. the.soureiro não poderá realisar 
pagamento de despeza alguma sem o «visto» do 
sr. secretario e o «pague-se» do Presidente. 

Art. 6.' Si no correr do exercicio verificar-se 
algum saldo, será applicado exclusivamente á atnor- 
tisação do debito hypothecario. 
Art. 7.- A porcentagem do cobrador será de 15 %. 
Art. 8.' As mensalidades dos sócios voltarão a ser 
de 1$000 e, nesse sentido, serão dadas as devidas 
providencias relativamente aos sócios que acceita- 
ram o ultimo augmento para 2$000. 

Bailia, 24 de Agosto de 1901. (Assignadosj Sal- 
vador Pires de Caroalho e Albuquerque — Alfredo 
César Cabussú. 
Em discussão esse projecto, o sr. Cons. Torres 



158 



propõe que se faça a discussão e votação por ar- 
tigos. 

O Dr. Cabussú, relator da commissão de orça- 
mento, diz que, como projecto que é a proposta, 
não tem propósito em que sejão aeceitas todas as 
idéas ahi apresentadas, julgando que a assembléa 
pode adoptar o que melhor se offerecer sobre o 
assumpto; e, depois de ligeiras explicações, é ap- 
provado o projecto na parte rela*iva á receita. 

Lida a 2.* parte, relativa á despeza, o Cons. Tor- 
res apresenta uma emenda ao § 3 • do Art. 2.' nos 
seguintes termos: «Aos srs. Júlio Telles da Silva 
Lobo & C. t:000$000 da fiança de seu contracto 
para a extracção das loterias na conformidade da 
clausula 3 *», fazf«ndo o histórico do referido con- 
tracto. 

Pedindo a palavra os Drs. Reis Magalhães e 
Cabussú acham inopportuna a discussão, desde que 
o Instituto resolveu que o assumpto fosse estudado 
pela meza administrativa. 

E' approvado o Ar. 2.* e prejudicada a emenda, 
bem como o Art. 3.*. São rejeitados os Arts. 4.- 
e 5.-. Em discussão o Art. 6.*, o Dr Reis Maga- 
lhães mostrou-se contrario a esse Art , declarando 
o Dr. Cabussú que a commissão nâo dispoz uma 
inutilidade ; entretanto, sciente a commissão de que 
já existem despezas feitas, propunha a seguinte 
emenda : 

«Applique-se o saldo ás despezas já feitas e ás 
verbas excedidas : o mais como está. — E' appro- 
vado o Art. com a emenda. 

São approvados os Arts. 7.* e 8.'. 

Por escrutinio secreto procede-se a votação do 
parecer relativo á admissão do Engenheiro Luiz da 
França Imbassahy da Silva, sendo approvado, e 
proclamado sócio effectivo. 



1^9 



Nada mais havendo a tratar, é encerrada a ses- 
são, e de tudo, para constar, eu, 2.' secretario, lavrei 
a presente acta e assigno. — /sa/os de Caroalho Santos. 



OFFERTAS 

Além dos Jornaes e Revistas, nacionaese estran- 
geiras, que permutam com a «Revista», recebeu o 
Instituto durante o anno muitas outras offertas de 
livros e opúsculos, cuja relação consta do livro 
respectivo. 

Mencionaremos aqui as principaes, e que são as 
seguintes : 

—Em Janeiro : 

Historia da Independência da Bahia, pelo Dr. 
Manoel Correia Garcia, Bahia, 1900 ; Obras re- 
ligiosas e profanas do vigário Francisco Ferreira 
Barretto (Recife); Plano topographico de la re- 
gion norte Argentina limitrofe com a Bolívia ; Álbum 
de Estatistica Graphica dos caminhos de ferro por- 
tuguezes das províncias ultramarinas, 1898, Lisboa; 
Revista do Instituto Histórico de S. Paulo, edição 
commemorativa do 4 • centenário do descobrimento 
do Brazil. 

—Em Fevereiro . 

Brazil Prehistorico, Memoria a propósito do 4.* 
centenário, pelo cónego Uiysses Pennafort; Com- 
pilação das leis provinciaes de Sergipe de 1835 a 
1880, e do mesmo Estado de 1889 a 1900; La Re- 
publica Argentina y Chile— historia de la demar- 
cacion de sus fronteras, 2 vols. ; Frontera Argen- 
tino-Chilena, memoria apresentada por Valentín 
Virasoro; Limites Argentino-Chilenos— El divor- 
tium aquarum continental ante el tratado de 1893, 



160 



—Em Março e Abril : 

L'Or a Minas Geraes (Bresii) par M. Paul Ferrand, 
vol. 2.' ; Annaes do Congresso Nacional e Re- 
latórios de ministros, 14vols.; Funeraes da Rainha 
Victoria I, na Capital Federal; O Acre, Direito da 
Bolivia, Rio, 1900 ; Uma collocção de «Revistas», 
trabalhos dos annos de 1873 a 1895 da Real Aca- 
demia de Bellas Artes o Archeologia de Stockol- 
mo ; Ephemerides do Ceará, pelo coronel Joào 
Erigido, com um estado sobre a região e costa 
do mesmo Estado ; O descobrimento do Brasil 
pelos Portuguezes, por Capistrano de Abreu ; O 
Muyrakyià e os Ídolos symbolicos, por J. Barbosa 
Rodrigues, 2 vols. : O Annuario Illustrado do Jor- 
nal do Brazil para 11)01 ; Estudos sobre o Pará 
— Limites cum os Estados do Amazonas e Matto 
Grosso, por Arthur Vianna. 

Pelo sócio Dr. P. M. Riviére,— a medalha com- 
memorativa do Congresso Latino Americano. 

Pelo sócio coronel Raymundo C. Alves da Cunha 
— Paraenses Illustres, 2.* edição. 

Pelo sócio Dr. Reis Magalhães, retratos de Cha- 
teaubriand e do patriota Henrique Dias. 

Pelo sócio Dr. Guilherme Fceppel — varias moedas 
romanas antigas, e modernas da Europa. 
—Em Maio : 

Annaes da Bibliotheca Nacional, vol. 22, 1900; 
Annuario Fluminense, e Obra com memorativa do 
4.° centenário do Brazil, pelo Dr. Ferreira da Rosa ; 
Repertório da legislação sobre o serviço sanitário 
do Estado de S. Paulo ; Revista do Instituto Ar- 
cheologico Alagoano, vol. 3.\ 1901. 

Pelo cons 1. secretario, Consolidação das Leis 
do Processo do Estado da Bahia, 4 vols. 

Pelo Dr. Joaquim Ribeiro dos Santos, um quadro 



161 



com os retratos dos membros do congresso Coq- 
stituÍDte da Bahia em 1891. 

Pelo sócio Dr. Henrique de Santa Rosa, 4 me- 
dalhas commemoraiivas do 4/ centenário no Estado 
do Pará. 

—Em Junho e Julho : 

Relatório da Santa Casa de Misericórdia d'esta 
capital em i900 ; Modelos de atlas geographicos 
para escolas elementares, por Cari Chun ( Berlim) ; 
La Ropublica Argentina y Chile ante el Arbitro ; 
Partes Officiaes e Documentos srelativo a la guerra 
de la independência Argentina pelo sócio Dr. Ma- 
riano Pelliza ; Revista do Archivo do Municipio da 
Capital da Bahia ; Guia Policial^ pelo Dez. Cardoso 
da Cunha ; Discurso do Dr. António Cândido por 
occasião do 4.* centenário do Brazil na cidade do 
Porto ; Noticias e documentos para a historia de 
Damão ; Revista do Instituto Agronómico e Indus- 
trial da Bahia, vol. 1*. 

Pelo Dr. Manuel Freire de Carvalho, duas pho- 
tographias commemorativas do enterro do Cons. Al- 
meida Couto e da missa do Dr. Augusto A. Gui- 
marães. 

Pelo sócio Cons. Carneiro da Rocha, carta geral 
da costa do Brazil, indicando os pharoes e pha- 
roletes em 1888. 

Pelo secretario geral da Academia de Sciencias 
de Lisboa, Cartas de Aífonso de Albuquerque, 2 
vols. ; Trabalhos Náuticos dos Portuguezes, 2 vols.; 
Padrões dos descobrimentos portuguezes em Africa; 
Elogio de Latino Coelho; Relatório da sessão da 
mesma Academia em 1898. 

—Em Agosto e Setembro: 

Annuario da Escola Polytechnica de S. Paulo para 
o anno de 1901 ; Relatório dos trabalhos do Tribu- 

R, 21 



162 



nal de Appellaçào e Revista da Bahia em 1900 ; Re- 
vista da sociedade de Ethnographia e Civilisação dos 
Índios (S. Paulo) n. 1, 1901 ; Jornal dos Agricultores 
( Rio ) 1901; Revista do Commercio (Rio) 1901 ; Bo- 
letin de la Officina Nacional de iníiníiigracion,estadis- 
tica y propaganda geographica, ( Bolivia ) anno 1, 
1901 ; Estudo descriptivo das estampilhas fiscaes, 
pelo engenheiro Victor Maria da Silva ( Pará ) 1901 ; 
Mensagem dirigida ao Congresso legislativo do Pará 
pelo Dr. Augusto Montenegro ; Revista do Archivo 
Publico Mineiro ; Revista do Instituto Histórico de 
S. Paulo. vol. 5.', 1900. 

— Em Outubro e Novembro : 

Boletim do Museu Paraense, vol. 3 •, 1901 ; Calen- 
dário Perpetuo, por Adolpho Amaral Lisboa; Um 
bloco de carvão de pedra da Bohemia ; Relatório das 
secretarias de Agricultura e Fazenda do Estado da 
Bahia, em 1900; A Questão das Philippinas, pelo Dr. 
J.Branner; A Maçonaria (Bahia) anno 1.', 1901 ; 
Cartas de Pariz pelo Dr. Manuel Victorino, Bahia, 
1901 ; Álbum das aves amasonicas, organisado pelo 
Dr. E. Goeldi, director do Museu do Pará; Relatório 
do Intendente Municipal da Bahia, Dr. José Eduardo 
Freire de Carvalho, em 1901 ; Revista Agricola, 
órgão da sociedade de Agricultura, anno 1*, 1901; 
Boletim da Academia Brazileira de Lettras, 1897 
a 1901. 

Pelo sócio Cons. 1.- secretario,— Parecer apre- 
sentado pelo engenheiro Miguel Argollo no con- 
gresso de engenharia e industria, commemorativo 
do 4.* centenário ; A Giria Portugueza por Alberto 
Bessa; A Giria Brazlieira por J. T., Bahia, 1899. 

Pelo sócio Dr. Virgilio Cardoso de Oliveira, se- 
cretario do Interior do Estado do Pará, 155 vols., 
entre os quaes : L'Etat du Pará, Explorações pelo 



163 



engenheiro Henrique Coudreau, As Regiões Àma- 
zonicas, A Escola ( Revista OfBcial do Ensino ) , 
Motins Politicos do Dr Rayol, Album do Pará, 
Pará e Amazonas ( questão de limites ) , Relató- 
rios e Mensagens. 

• -Em Dezembro : 

O Tupy na Geographia Nacional, pelo Dr. Theo- 
doro Sampaio ; Uma pelle de veado branco encon- 
trado nas mattas da Villa de Jequié (Bahia); Mo- 
nographias sobre a herva matte, o café, a cultura 
das plantas textis, a industria pastoril, o aperfei- 
çoamento da canna de assucar, pela Directoria 
da Sociedade Nacional de Agricultura ; João Ca- 
boto e a descoberta da Terra Nova ; Revista do 
Grémio Litterario da Bahia, vol. 1.-. 

Pelo Dr. José Félix da Cunha Menezes, duas moe- 
das antigas gregas. 

Pelo sócio Cons. Manoel da Cunha Lopes e Vas- 
concellos, — Um estadista no Império ( Nabuco de 
Araújo, e sua época ) 3 vols. 

Pelo litterato bahiano Xavier Marques, os seus 
romances JannaeJael (Praieiros) , Boto & Comp., 
Holocausto e Insulares, e vários manuscriptos, có- 
pia de diversas poesias do iilustre latinista ba- 
hiano Professor Guilherme Baldoino Embirussú 
Camacan. 



NECROLOGIA 

Viscofliie de Parãyuassfi 

O decano dos jornalistas brazileiros 

Falleceu no dia 25 de Junho ultimo, em Hamburgo, 
onde residia ha longos annos, o venerando brazileiro, 
cujo nome encima estas linhas. 

Não nos sendo possível, numa simples noticia 
necrologica, dizer minuciosamente quem foi o vis- 
conde de Paraguassú, limitar-nos-emos a traçar- 
Ihe a summula biographica, salientando os princi- 
paes feitos que lhe hão de valorisar para sempre 
a benemérita memoria. 

O Dr. Francisco Moniz Barretto de Aragão Me- 
nezes, visconde de Paraguassú, nasceu neste Es- 
tado a 11 de Agosto de 1813. 

Era filho do commendador Salvador Moniz Bar- 
retto de Aragão Menezes, barão de Paraguassú, e 
de sua mulher D. Thereza Clara Vianna Muniz de 
Aragão, baroneza do mesmo titulo, filha do Dr. 
Francisco Vicente Vianna, barão do Rio de Contas, 
primeiro presidente, na ordem chronologica, da 
então provincia da Bahia. 

Seus avós paternos foram : o capitão mór Antó- 
nio Moniz B. de Aragão e Menezes e D. Luiza 
Zeferina Coelho Ferreira, filha do famoso Mestre 
de Campo Luiz Coelho Ferreira, da illustre Casa 
de Balsemão e um dos homens mais conceituados 
e esmoleres da Bahia, no século XVIII. 



166 



Na longa lista dos seus antepassados, pertencen- 
tes á mais antiga nobreza de Portugal e Hespanha, 
constituida no fragor das batalhas e nas vicissitudes 
heróicas dos grandes descobrimentos, salientare- 
mos de passagem : 

Dom Egas Muniz o symboio da Honra, celebri- 
sado pelo rei dos poetas portuguezes nos Luziadas; 
Dom Jayme Moniz, que, postado em uma das portas 
de Lisboa, impediu sosinho a entrada das tropas 
inimigas ; Dom Balthazar de Aragão, Alcaide Mór 
da Bahia, que, ás suas custas, construiu, armou e 
equipou galeões de guerra para varrer dos mares 
brazileiros a armada hoUandeza, desapparecendo 
mysteriosamente no alto mar ; Almirante Salvador 
Correia de Sá e Benevides, 3 vezes governador do 
Rio de Janeiro, um dos vultos legendários da His- 
toria Pátria, terror das caravellas de Hollanda e 
um dos restauradores da Cidade da Bahia em 1625 ; 
Dom Francisco Barretto de Menezes, governador 
geral do Brazil, o inolvidável heroe das batalhas 
dos Guararapes. 

Descendente d'aquelles que não sabiam regatear 
o imposto do sangue nos campos de batalha e 
cuja fortuna e haveres foram a todo instante sa- 
crificados em prol da Pátria, que collocavam acima 
de tudo e de todos, o Visconde de Paraguassú 
procurou sempre durante a sua longa e benéfica 
existência honrar ciosamente tão nobilitantes tra- 
dições. 

Educado na Allemanha, onde ouviu os mais ce- 
lebres Mestres, recebeu, em 1836, na Universidade 
de Heidelbrg o grau de Doutor em Sciencias 
Jurídicas e Sociaes, merecendo ser approvado, em 
these, com a nota de distincção e louvor. 

Regressando ao Brazil, tentou, com os mais ar- 



167 



duos esforços, dignos de melhor sorte, moder- 
nisar os processos da lavoura de canna e da in- 
dustria assucareira. 

Desanimado, porém, pela incurável apathia dos 
seus patricios que o alcunhavam de utopista, vol- 
tou para a Allemanha, depois de publicar uma 
interessante obra : «Manual do Fabricante de As- 
sucar», offerecido aos proprietários de Engenhos 
e aos mestres de assucar da Bahia. 

Esta obra. f^ primeira no género, publicada em 
lingua portugueza, foi impressa em Pariz natypo- 
graphia de W. Remquet & Comp. 

Distribuida gratuitamente, em ampla copia de 
exemplares, trazia 31 lithographias de apparelhose 
machinas destinadas á industria assucareira. 

«Feliz de mim, se algum dia se podesse dizer 
que cooperei para o melhoramento da industria do 
meu paiz e que nào passei sobre esta terra, sem 
pagar o meu tributo á sociedade», escrevia elle no 
prefacio. 

Foi o Visconde de Paraguassú, não ha negal-o, 
o iniciador da moderna industria assucareira no 
Brazil. 

Aos seus conselhos, a antiga casa allemã F. 
Hallstroem de Nienburg construiu não só os pri- 
meiros apparelhos modernos para a fabricação e 
refinação do assucar, como mandou imprimir* e 
distribuir gratuitamente um tratado sobre os pro- 
cessos dessi industria, dedicando-o, a pedido do 
mesmo Visconde, ao a Centro da Industria e Com- 
mercio de assucar no Rio de Janeiro » . 

Convém mais assignalar que a primeira turbina 
e o primeiro vácuo montados no Brazil o foram a 
esforços do Visconde de Paraguassú, ainda exis- 
tindo essas reliquias do trabalho no Engenho Vi- 



168 



ctoria Paraguassú, naquella época propriedade do 
Comm. Egas Muniz B. de Aragão, irmão do fal- 
lecido. 

Além da interessante monographia acima citada 
escreveu e publicou : « Informações sobre a posi- 
ção commercial dos productos do Brazil em Ham- 
burgo; Navegação e Commercio entre o Brazil e 
Hamburgo». 

Foi um dos fundadores da Escola Agrícola da 
Bahia e um dos mais assiduos collaboradores d'0 
Século, orgam liberal que se editou nesta Capital, 
no meiado do século passado. 

Os seus numerosos artigos denotavam a mais 
solida erudição e o mais extrenuo patriotismo. Fos- 
sem elles cí^lleccionados e dariam volumes, onde 
se encontrariam copiosas licçôes de educação ci- 
vica, hoje quasi olvidada. 

O visconde de Paraguassú era por consequência 
o glorioso decano dos jornalistas brazileiros, que 
nelle perdem um dos mais bellos padrões de ci- 
vismo e de illustração. 

Collaborou em diversos jornaes allemães, sempre 
defendendo o Brazil contra os ataques de certos 
jornalistas e diplomatas mal informados. 

Mal surdia uma noticia, um artigo, um telegram- 
ma que lhe parecia melindrar o brio dos brazilei- 
ros, pegava logo da penna e, na própria lir.gua dos 
atacantes, que manejava com mão do mestre, fazia- 
os calar, ora com a lógica de factos positivos, ora 
com a armado ridículo, attrahindo desfarte sobre 
os articulistas contrários a gargalhada do publico. 

Serviços desta ordem são bem raros e louváveis, 
maxime quando o brazileiro que vae á Europa, em 
geral, cuida mais em divertir-se do que em ser útil 
á sua pátria, alcançando por isso as honras do palco 
das revistas, sob a figura grotesca do rastaquoére. 



169 



Nomeado pelo governo imperial para o espinhoso 
cargo de cônsul geral do Brazil em Hamburgo, 
soube honral-o dur3nte cerca de 40 annos de ines- 
timáveis serviços, merecendo as commendas da 
Ordem da Rosa, de Christo e os titulos de barão 
e visconde de Parat^uassú. 

Tão criteriosa e benéfica foi a sua attitude nas 
relações entre os governos allemão e brazileiro que, 
por intermédio do imperador Guilherme I, foi agra- 
ciado com a commenda da Ordem badense do Leão 
de Zachringue e outras mais. 

Gosava na corte imperial allemã de tal conceito, 
que, por occasião de ser inaugurado o Canal de 
Kiel, o actual imperador o coliocou á sua direita 
indicando-lhe um dos logares de honra, durante o 
grande banquete en^ào realisado em Hamburgo. 

Essa distincção foi tanto mais sensivel ao velho 
brazileiro quanto já não occupava nenhum cargo 
ofiicial. 

Quando se fez a proclamação da Republica em 
15 de Novembro de 1889, o visconde de Paraguassú 
foi o um dos raros que tiveram vergonha de adherir 
com desembaraço e rapidez açodados com que 
muita gente se atropeilou, agarrando-se á Repu- 
blica nascente, como se agarraria â qualquer cousa 
que apparecesse e, que soubesse, vencer ». 

Dois dias depois, mandava pedir por telegramma 
a sua exoneração do cargo de cônsul geral, que 
lhe foi logo concedida, sendo então aposentado, 
depois de perto de 40 annos de serviço, com a 
quantia de cem mil réis mensaes! 

Costumava referir-se ás vezes, na intimidade, a 
essa munificência do novo governo com a seguinte 
phrase : « Si eu não houvesse herdado alguma 
cousa, estaria hoje, em avançada idade, e depois 



170 



de tantos annós de serviço á Patríji, era bem frios 
lençoes » I 

E acrescentava com resignação evangélica: «Não 
me queixo, mas acho singular que outros muito 
mais moços e com menos serviços do que eu, per- 
cebendo pingues ordenados, bradem tanto contra 
a sorte. Si males alheios podem consolar, deve- 
riam olhar para as condições em que fiquei collo- 
cado» 

Que luminoso contraste com alguns dos nossos 
funccionarios públicos contemporâneos, enricados 
da noite para o dia, á custa do erário da Nação, 
tão mysteriosamente canalisado para as famélicas 
algibeiras, aos olhos esbugalhados do Povo que 
paga tudo e se cala. 

De hábitos excessivamente modestos, a sua resi- 
dência, á rua Innocentiastrasse em Hamburgo, rea- 
lisava a mais decente simplicidade. 

O homem que mandava reproduzir por pintores 
notáveis os retratos de D. Francisco Barreto de 
Menezes e do almirante Correia de Sá e Benevides; 
o homem que pagava a riquíssima tela represen- 
tando Cathaiina Paraguassú, e ofiFerecia depois 
estes quadros á Camará Municipal da Bahia, onde 
hoje se encontram; o homem que tantas dadivas 
valiosas enviou á Escola Agricola deste Estado ; 
esse homem dormia numa alcova, ao lado da qual 
a cella mais austera de um monge nada tinha a 
desejar. 

De uma generosidade fidalga, nunca negou a sua 
bolsa e os seus conselhos a todos os brazileiros 
que visitavam Hamburgo, onde constituia uma das 
figuras mais queridas, não só da alta sociedade, 
como do povo, que se descobria quando o via pas- 
sar, como si avistasse a encarnação da Honra, do 
Dever e da Caridade. 



171 



As suas idéas, quer politicas, quer .económicas 
foram sempre do mais criterioso liberalismo. 

Richard Cobden, John Roussel e Gladstone en- 
contraram no benemérito brazileiro um fervoroso 
discipulo que, apezar de nobre, sempre se conser- 
vou separado por um abysmo dos innumeros pseu- 
do democratas aurifamintos e cynicos — principaes 
factores da infelicidade deste bello paiz. 

Apesar da sua avançada edade, conservou até os 
últimos dias o perfeito equilibrio das faculdades men- 
taes, como o demonstram as suas cartas, cuja ul- 
tima, escripta em maio próximo, èum poema de dor 
e desespero em face do lastimável estado actual da 
pátria brazileira que tão ardentemente idolatrava. 

Terminando esta incompleta noticia, enviamos as 
nossas condolências á Pátria, ao jornalismo brazi- 
leiro, e á illustre familia do benemérito Visconde 
de Paraguassú, representada neste Estado nas pes- 
soas do Dr. Francisco Moniz B. de Aragão, Barão 
de Mataripe, Dr. Egas Moniz B. de Aragão, En- 
genheiro Francisco Moniz B. de Aragão Júnior, e 
Dr. Guilherme Moniz B. de Aragão, pela grande 
perda que acabam do soffrer, e apontamos ás ge- 
rações brazileiras presentes e futuras a elevada per- 
sonalidade do grande bahiano, com o imperecivel 
exemplo do mais nobre e verdadeiro civismo e da 
mais inflexivel coherencia politica de todas as épo- 
cas da nossa vida nacional. 
( Extr. d'A Bahia, ) 



NOTAS E INFORMAÇÕES 

Com o titulo Instituto Histórico escreveu o illus- 
tre jornalista Henrique Cancio, no Diano da Bahia, 
o artigo que se segue, a propósito de um benefi- 
cio promovido pela Mesa Administrativa. 

Instituto Histórico 

c( Um bello dia, homens illustres pelo saber e 
virtudes civicas resolveram construir uma arca sa- 
grada, onde se guardassem as taboas da lei, das 
tradições, a chronica e a legenda do passado da 
Bahia. 

E se ergueu de novo, da minaria augusta de 
quasi meio século, em cujas muralhas partidas e 
derrocadas fulgiam os nomes de D. Romualdo e 
de frei Carneiro, o actual Instituto Histórico e 
Geographico Bahiano, 

E' um archivo venerável, onde mãos sagradas e 
bemditas têm procurado armazenar documentos 
que relembram façanhas altas, o fulgor mental, a 
structura spartana desta terra. 

Esta obra, em cuja paciente e benemérita edifi- 
cação empenham-se o amor da tradição, o culto 
dos grandes nomes e dos grandes feitos desta por- 
ção da pátria, merece o apoio, o applauso, a effe- 
ctividade do concurso de todos os bahianos, de 
todos os brazileiros, emfim. 

Existisse o Instituto, na época em que presidia 
a província, sob o segundo reinado, o sr. marquez 
do Paranaguá, e a Bahia não seria despojada do 
melhor, do mais precioso de seus archivos. 

Despojaram-n'a, para uma exposição de historia 



173 



egeographia com que o imperador procurou doirar 
a sua passagem no throno. 

Alfaias e maau?cn|»t«>s, tudo que positivasse uma 
época, tudo porque se podesse aferir o esplendor do 
passado, foi trancado na Bibliotheca Nacional ; e 
egotistas houve que, para a sua riqueza pessoal 
bibliographica e de autographos, guardaram, indi- 
gnamente furtados, documenios como a Ode de 
José Bonifácio, pelo seu próprio punho, agradecendo 
a Bahia o consolo que lhe levou no exilio, elegendo-o 
seu representante no parlamento. 

Pois bem, sob a Republica, ao impulso da bôa 
vontade e da nobreza de sentimentos de eminentes 
patriotas, fundou-se o Instituto que, Deus louva- 
do, dia a dia se vae tornando um repositório ri- 
quíssimo do passado deste pedaço de continente, 
de onde irradiaram as bandeiras da conquista, os 
apóstolos da catechese, deste trecho da America 
que é o berço e a mesquita sagrada da familia 
brazileira. 

O que é preciso, o que urge é que todos ampa- 
rem e protejam esse grande commettimento. » 



( Henrique Cancio. ) 



BRAZIL PREHISTORICO 

MEMORIAL ENCYCLOCRAPHICO 

Muito curioso o livro que o Sr. Cónego Ulysses 
de Pennafort, do Ceará, acaba de publicar e que 
teve a bondade de oíferecer ao Instituto um vo- 
lume, pedindo que lhe fosse remettido o numero 
da Revista em que déssemos noticia do seu rece- 
bimento. 

O autor é um sacerdote, e, como tal, sectário 
convicto da origem monogenista do homem segundo 
a Biblia, cujas asseverações— desde os dias da 
creação, paraiso terreal, quedado primeiro homem 
até a confusão das linguas em Babel sustenta com 
ardor. 

Mas não é somente isso que torna curioso o Me- 
morial Encyclographico: équeo seu autor, mostran- 
do conhecer a moderna theorii scientiflca sobre a 
origem da terra e do homem, mostrando conhecer 
Lamark, Darwin e Huxley, harmonisa-a com a 
narração biblica e nos apresenta a civilisação egy- 
pcia irmã de uma outra que existiu na America, 
cujo solo regorgita de monumentos imponentes 
que aattestam; oriundas as duas da elevada cultura 
dos povos da Atlântida que fundaram e povoaram 
o Egypto, como povoaram a America continental II 

Essas civilisações, continua o ethnologo cea- 
rense, extinguiram-se com o cataclysma que ex- 
tinguiu a Atlântida e então, uma outra, a phenicia- 
carthaginesa atravessa o Atlântico e recivilisa a 
America, onde «levanta soberbos monumentos cujas 



175 



minas vão se descobrindo paulatinamente, exis- 
tindo aqiii traços inextinctos de mongoes, celtas, 
judeus e púnicos o 1 1 

Considera ainda o autor do Eneyclographico a 
lingua tupi como a lingua primitiva da humanidade 
e, singularidade notável, em nota á pagina 6 apre- 
senta-nos essa lingua prímitwa — oriunda do hebrai- 
co e affim do sanskrito e do grego I 

O Sr. de Pennafort falia, portanto, ex-cathedra 
em seu livro de tudo isso ; e, sobre as intricadas 
questões da origem do homem, raças, civilisações 
etc, etc, não tem mais duvida alguma, resoive-as 
com as doutrinas e conclusões q ue acabamos de 
summariar. 

E', portanto, curiosissimo o livro que nos veio 
do Ceará e cuja remessa agradecemos ao seu eru- 
dito autor. 



IMPORTANTE DOCUiVlENTO 

«Dá-nos a Republica, da Fortaleza, noticia de 
que na ultima sessão da Academia Cearense o Sr. 
barão de Studart communicou a acquisição feita 
pelo conhecido livreiro inglez Bernard Quaritch 
(Julho de 1901 ) de um documento de verdadeiro 
valor principalmente para os estudiosos da histo- 
ria do dominio holandez no Brazil. 

Trata-se de um manuscripto de Hessel Gerritsz, 
e com desenhos, contendo extractos de jornaes 
inéditos e perdidos de viagens emprehendidas ao 
Brazil por Jan Baptiste Syens (1600), Claes Adrian- 
sen Cluyt (1610), Rincke Pieters (1626), Dirk Sy- 
monsen e outros. 



176 



Com relação ao Ceará ha muito que aproveitar 
no precioso manuscripto, porquanto elle encerra 
também noticias e informações colhidas por Kilian 
Van Rensselaer da booca de naturaes do Brazil, 
como, por exemplo, Gaspar Paraupaba e André 
Francisc(s que Hessel Gerritsz diz serem ca/i Siara 
e que figuram ao lado de outros indigenas como 
Pedro Poti (da Bahia da Traição), António Quixa- 
vassana, António Francisco, ele. 

O livreiro londrino pede pele» documento 42 li- 
bras que equivalem hoje a cerca de um conto de 
réis. 

Noticiando essa nova acquisição, que por certo 
virá aclarar pontos obscuros da nossa historia, o 
Sr. barão de Sludart chamou a attenção dos seus 
confrades para a maneira como graphava Gerritsz 
em 1627— 29 a palavra Siara, assumpto sobre que 
estão escrevendo no momento presente vários dos 
nossos homens de lettras.» 

(Extr. do Diário do Rio Grande de Outubro de 
1901.) 



Os Carbooatos nas Lavras Oiamaotioas 

Em 1895, publiquei no Correio de Noticias, uma 
ligeira descripçâo sobre o grande carbonato appa- 
recido na 2.* companhia de Mineração das Lavras 
Diamantinas, no Brejo da Lama ; descripçâo que 
tive a felicidade de ver aproveitada na nossa Re- 
vista do Instituto Geographico e em um dos jor- 
naes de Pariz. 

Não ha muito, lendo o primoroso trabalho do 
Deputado Federal— Dr. Aristides Milton— Epheme- 
rides Cachoeiranas », vi cora admiração e prazer as 



177 



referencias sobre factos das Lavras Diamantinas 
desde a sua feliz descoberta até a noticia do grande 
carbonato a que me referi e que encheu de admira- 
ção aos habitantes das Lavras, á toda esta cidade 
e até á Europa, conforme se vê na Reoue des Be- 
Dues do mesmo anno. 

N'esta capital esteve elle exposto por longos dias 
na joalheria dos Srs Kahn & C, onde foi apre- 
ciado a ponto de inieressar-se um distincto cida- 
dão pelo seu formato em prata massiça, obra de 
lavor vinda de Pariz, e offerecida ao Instituto por 
sua digna esposa, já quando elle houvera sido ines- 
peradamente roubado do seio dos vivos e á sua 
pátria que muito perdera com o seu desappare- 
cimento. 

Lá no museu do Instituto está esta preciosidade, 
para attestar a riqueza e superioridade de nossas 
minas e o incitamento aos nossos ousados minei- 
ros, para as constantes tentativas contra antigas 
montureiras e areiaes desprezados, onde jazem im- 
inensas riquezas e que só com muita coragem e 
grandes capitães, poder-se-hia conseguil-as. 

Já 57 annos são passados, e os nossos proces- 
sos de trabalho de mineração são quasi os mes- 
mos com pequena modificação; entretanto as Lavras 
lêm sido visitadas sempre por grande numero de 
estrangeiros, alguns dos quaes lôm-se fanatisado 
por ellas. Engenheiros de alto valor scientifico, 
vindos expressamente vèl-as, ali estudaram os ter- 
renos e suas conformações, a possança das jazidas 
e escreveram relatórios que correm mundo, nos 
quaes proclamam a superioridade de nossas mi- 
nas, principalmente pela abundância do carbonato, 
salientando sempre que os nossos processos são 

todos primitivos. 
R. 23 



178 



Levados por esso fanatismo, os Srs. Jacob e 
Chatrian, cidadãos francezes, escreveram bella mo- 
nographia sobre o diamante, que muito vale para 
os créditos das nossas Lavras. 

Ainda ha pouco, tivemos a felicidade de vêr ali 
engenheiro habilitado, que pretende formar um bom 
syndicato para explorar as riquezas do Mar de Hes- 
panha, e oxalá que elle em breve tempo esteja des- 
viando as aguas do Paraguassú, para extrahir as 
tão proclamadas riquezas ali existentes I 

Filho d*aquella terra, encho-me de orgulho quan- 
do vejo commettimentos d'essa ordem, que virão 
trazer para aquellas paragens riquezas e progresso. 

Pudessam os habitantes das Lavras gosar de fa- 
cilidade de transporte e de communicação fácil para 
o seu commercio;dispuzessem de machinismos apro- 
priados para os misteres de suas lavras e muito se 
poderia esperar d'aquella prospera terra, onde for- 
tunas tôm-se levantado de um dia para outro, e 
também desapparecido nas mesmas circumstancias. 

Não é raro, vôrem-se rochas engastadas de pedras 
a modo de amendoim»conhecidas nd^giria por pedras 
em rochas de mundubi, nas quaes devem existir 
diamantes e carbonatos, tal qual se encontra o 
ouro nos cristaes ou em pedras outras como acon- 
tece em Minas Geraes. 

A prova é que, agora mesmo, acabamos de presen- 
ciar uma originalidade, digna de ser apreciada por 
quantos têm amor ao estudo doesse ramo de ser- 
viço. 

Nas proximidades dos Lençoes, na Serra da Es- 
trella do Céo, caminho do Capão Grande, acaba 
de ser encontrado um carbonato engastado n'uma 
d'essas rochas mundubis» que deve pesar mais ou 
menos 15 kilates, e com muita habilidade apanhado 



179 



com parte da pedra, o que lhe dá immeiíso valor, 
sendo comprado pelo capitalista coronel Francisco 
de Mello por 1:500$000 e por elle remeltido para 
Pariz, sem que fosse tal preciosidade apreciada 
por entendidos e colleccionadores d'essas raridades. 
Era meu desej :> que essa pedra fosse desenhada 
tal qual continha o carbonato, salientando-se o 
seu formato, afim de figurar como mais uma das 
raridades das Lavras Diamantinas em nosso Insti- 
tuto ; rnas, quando me decidi a falar com o nego- 
ciante, já era tarde, pois elle havia-o remettido 
para Pariz e assim passou despercebida essa bel- 
leza para os qu*3 apreciam-na, e que muito converia 
figurar nos nossos museos. Uma coasa, porém, 
aproveitou-se ! — d'ora em diante os nossos ousados 
garimpeiros não respeitarão mais as rochas mun- 
dttbis. Serviu-lhes a lição. 
Bahia, Maio de 1901. 

G. Athayde Pereira. 



à descoberta da America pelos chlnezes 

Lemos o seguinte em uma correspondência de 
Pariz : 

«Os chinezes, antes de se immobilisarem por 
detraz da muralha celebre e antes de se terem 
mandarinisado, em bocaes de porcellana, foram 
grandes navegadores e descobridores de paizes 
distantes, como os portuguezes do século XV. 

Sabe-se hoje que os chinezes estiveram nas 
ilhas da Malásia, nas margens do oceano indico e 
em todo o golpho pérsico. E ainda mais, os chi- 
nezes, que descobriram a bússola e o compasso, 
visitaram a Europa cinco séculos antes de Jesus 
Christo^ e parece (segundo um documeuto agora 



180 



descoberto em Pekin) que por essa mesma época 
tinham andado pelas Antilhas e abordado muitos* 
logares da America do Norte e do Sul. 

Ha muito tempo que se desconfiava isso mesmo, 
porque os hábitos e costumes dos mexicanos tôm 
similhanças extraordinárias com os dos campo- 
nezes da China. Os Índios do centro do México 
construem as suas casas da mesma maneira que 
os chinezes das regiões das montanhas. 

E as lettras ou hieroglyphicos dos Índios Yu- 
catan do México são completamente idênticos aos 
caracteres figurados da escripta chineza. Ha mesmo 
tribus de indios no interior do México que possuem 
um idioma monosyllabico similhante á lingua 
chineza. Um naturalista americano, o Dr. Saville, 
descobriu na Re[)ublica de Honduras taboas de 
pedra com inscripções e caracteres mongólicos. 

No fundo das ruinas do palácio de Montezuma, 
na capital do México, ehcontraram-se pedaços de 
jaspe das montanhas do Thibet. O celebre pro- 
fessor francoz e archeologo notável o sr. Henry 
provou que ha grandes relações entre os naturaes 
de varias regiões da America e os chinezes. Os 
habitantes do Celeste Império seguiram a corrente 
maritima do Oceano Pacifico e visitaram, durante 
longas épocas, a Columbia britannica,a Calilornia, 
o México e muitas republicas da America Central 
e do Sul. 

Teriam os chinezes descoberto o Brazil antes dos 
portuguezes? Eis uma questão a debater entre os 
americanistas. 

Quando, ha dois mezes, as tropas internacionaes 
entraram em Pekin dois officiaes francezes desco- 
briram na bibliotheca do palácio imperial o doeu- 



181 



mento completo e comprovativo 4^s relações dos 
chinezes no nnno 458 cora os povos do México, a 
que os sábios mandarins chamavam Fou-Sang. 

O fac-simile da historia chineza da descoberta 
da America vae ser enviado para a bibliotheca 
publica de Pariz. 

Ficou comprovado definitivamente que foi, graças 
ao desenvolvimento da civilisação chineza, que as 
civilisações dos aztecas e dos inças chegaram ao 
apogeu, quem sabe, antes do estabelecimento dos 
hespanhoes nas regiões da America latina. 

Quem sabe si no local em que hoj^ se encontra 
a rua Moreira César não andaram de longo rabicho, 
ha dois mil annos, milhares de chinezes de olhos 
recurvos ? 

Pedro Alvares Cabral posto no segundo plano 
por qualquer mandarim desconhecido I Que de 
mysterios ainda a desvendar para o futuro I » 

Porto da Bahia 

o sr. capitão de fragata CoUatino Marques de 
Souza escreveu a seguinte carta ao Jornal do 
Commercio : 

«Não existe porto algum no mundo que possa 
comparar-se, quer em vastidão, quer em segurança, 
quer finalmente na profusão de ancoradouros, cada 
qual mais vasto e inestimável, ao da Bahia de 
Todos 08 Santos, capaz de admittir sem hyperbole 
simultaneamente todas as esquadras do mundo e 
lodos os respectivos navios de suas marinhas 
mercantes. 

Nem mesmo se lhe pode comparar o vasto e 
segurissimo porto do Rio de Janeiro, porque este 
dispõe de uma área que é pelo menos a metade da 



182 



daquelle outro, e essa míismo tem dous terços, da 
sua capacidade empachados de bancos de aréa, 
que são outros tantos terrenos em formação em 
consequência dos detritos derivados da desaggre- 
gação das rochas circumvisinhas, e como um 
exemplo ahi está a Bahia de Botafogo, que tende 
a desapparecer, ao passo que áquelle outro não 
succede a mesma cousa. 

Em seu perimetro de mais de 90 milhas (ou em 
números redondos, 180.000 kilometros) desaguão 
diversos rios, dos quaes o mais importante é o 
Paraguassú, que teift mais de 600 kilometros de 
curso, pois que nasce nas serras do Sincorá e das 
Lavras Diamantinas, no Alio Sertão da Bahia, e 
cujo estuário, que chega até a cidade de Mara- 
gogipe e a povoação de Igumpe pode admittir 
grande profusão de navios como se fora uma doca. 

A extensão Norte-Sul desta bahia é de cerca de 
35 milhas ou quasi 70 kilometros, desde a Ponta 
Garcez no continente e na Barra Falsa, formada 
por ella, e a Ponta de Cçiixa Pregos, no extremo 
Sul da Ilha de Itaparica, tendo a distancia de 
cioco milhas, empachadas por bancos de arèa que 
offerecem canaes de 10 a 12 metros de profundi- 
dade, e a extensão Noroéste-Suéste desde a Ponta 
de Santo António, na Barra da Bahia, atè a en- 
trada do Estuário do rio Paraguassú, sendo também 
de 30 milhas, mais ou menos, ou 60 kilometros, 
pode calcular-se por isso em 500 milhas quadradas 
a extensão coberta pelas aguas nesta immensa e 
profunda bahia, e toda ella quasi totalmente 
accessivel aos navios dos maiores calados de agua. 

Além do vasto e seguro porto commercial da 
cidade ou de barlavento, existe ainda alli o grande 
e bello porio de Itopagipe, propriamente dito, para 



188 



cujo accesso somente precisa-se dragar ura pequeno 
trecho do canal, quasi ao chegar ao porto, e ainda 
o vastíssimo ancoradouro da ilha de Itaparica. 
além da Ponta do Manguinho, podendo os maiores 
navios atracarão respectivo cães, e principalmente 
para a instituição de um grande e inexpugnável 
Arsenal de Marinha, verdadeiro Sebastopol Bra- 
zileiro, o esplendoroso porto da Bahia do Araíã 
a Leste. 

Ora, na costa da Bahia as tempestades do Sul 
são raras. Apenas temos conhecimento da que 
teve logar a 19 de março de 1817, que soprou coro 
tanta violência, que causou muitos desastres na 
cidade baixa. 

Entretanto, quando sopra o vento Sul na quadra 
do inverno, ficam ás vezes cortadas as communi- 
cações com a terra e impedidas assim as cargas 
e as descargas, porque os navios alli não atracam 
ás docas, por não existirem estas para tal fim. 

Ora, o porto da Bahia, si passasse pelos me- 
lhoramentos que planejamos, não só poderia asse- 
gurar sempre iodas as transacções commerciaes, 
e a sua fiscalisação, como poderia melhorar muito 
a área da parte plana do Norte, com o accrescido 
que projectamos, tanto alli como no extremo opposto 
e, o que é mais, tornar-se-hia assim um porto 
altamente estratégico, porque toda a costa da ilha 
de Itaparica, fronteira á cidade, bem como aquella 
que segue barra fora, são guarnecidas de temerosos 
recifes de pedras calcareas, cujo accesso é peri- 
gosissimo, quer fora do. porto, quer dentro da 
barra. 

Pela disposição da ilha de Itaparica, de cerca 
de 21 milhas de extensão Norte-Sul sobre 5 a 6 
de largura, vô-se que a sua ponta Sul chamada 
CaixaPregos, e que, simulando a Poata de Santo 



184 



António da Barra da Bahia, deu logar a chamar-se 
de Barra Falsa, o que não é mais do que a barra 
do rio Jaguaripe prolongada até o mar, e contor- 
nando a parle sul da referida ilha, reconheceram 
os technicos ser esse canal intrincado e profundo 
da Barra Falsa de 10 a 12 melros de profundidade, 
como ficou dito, um poderoso recurso estratégico 
para os submarinos e as torpedeiras collocarem 
em cheque ou mesmo destruirem os navios ini- 
migos, quando porventura conseguirem estes li- 
vrar-se do recife das Cramuães que fica a 5 milhas 
de distancia da costa, na derrota do Morro de S. 
Paulo para a Barra da Bahia, ao longo da costa 
da Ilha de Itaparica, por occasião do tempo 
chuvoso, sem marcações seguras para guiar a na- 
vegação, ou pela inclemência de sondagem desde 
o inicio da derrota. 

Ora, é justamente a um porto desta ordem, sem 
rival no mundo, onde não se vè hoje em dia um só 
navio de guerra brazileiro, e cujo arsenal de ma- 
rinha foi extincto, mas cuja historia gloriosa se 
conta, aliás, por innumeras construcções navaes 
alli feitas outr'ora, taes como, entre outros, a 
fragata Paraguassú, as corvetas Dous de JunhOy 
rf. Francisca, d, Januaria, Isabel e outras ! » 



SUMMARIO DO N. 27 



Paginas 

O Tupi na Geographia Nacional, pelo Dr. 
Theodoro Sampaio 3 

Riqueza mineral do estado da bahia— 
Phenomenos geológicos e mineralógicos, 
especialmente na zona de Santo Amaro, 
por Henrique Praguer 19 ^ 

Francisco Telles de Menezes (Alcaide 
Mór), século XVII. pelo Dr. Innocencio 
Góes 31 

Ephemerides Caclioeiranas, Mez de De- 
zembro, pelo Dr. Aristides Milton . . 41 

Actas das sessões e offertas— (Março 
a Setembro de 1901) 83 

SessAo magna commemorativá— Discurso 

do Presidente Cons. Salvador Pires . 97 

Relatório do Cons. 1* Secretario . . . 103 

Discurso do Dr. Silio Boccauera . . . líl 

Idem do Sr. Damasceno Vieira. . . . 119 
Idem do Dr. Braz do Amaral, orador do 

Instituto 123 

Necrologia— Visconde de Paraguassú, o 
decano dos jornalistas brazileiros . . 165 

Notas e informções -- Brazil Pre-his- 

torico 174 

Importante documento 175 

Os carbonatos nas Lavras Diamantinas. 176 

A descoberta da America pelos Chinezes 179 

O Porto da Bahia 181 



REVISTA 



LO 





e 




DA BAHIA 

FUNDADO EM 1894, RECONHECIDO DE UTILIDADE PUDLICA 
LELA LEI N 110 DE 13 DE AGOSTO DE 1895 

Máxima sunt (locuiuenta iMiuideiii ren teiiipori» adi 
lu praísena, validusquo iu venieu» stimulus. 



ANNO IX 



1902 

VOL. IX 



N. 28 




fj;^>^ 



LTIIO-IYI'. E ENCAUEUNA<;ÃO 1>E HEIS i C. 

Kod Conselheiro Dante:, n. 33 

IWÔ 



REVISTA 



LO 



Instituto GeograpliiGO e Histórico 

DA BAHIA 

FUNDADO EM 1894, RECONHECIDO DE UTILIDADE PUDLICA 
LELA LBI N 110 DE 13 DE AGOSTO DE 1895 



Máxima euiit documenta equidcra res tempori» acti 
In prooseus, validusque in venieus slimuiuR. 



ANNO IX 



1902 

VOL. IX 



N. 28 




LTIIO-IY!*. E ENCADERNAÇÃO DE KEIS i C. 
Baa Coniclhetro Oantai, n. 22 

15)03 



REVISTA 

no 

icõ e 




Anno IX 



1902 



Num. 28 





Innoeeneio Munõz 



^ODOs os que na Bahia sentem sympathias 
pelo que é delicado e nobre lamentam 
'com o Instituto a perda imprehenchivel 
que a sociedade bahiana, as lettras e es- 
pecialmente a bibliographia pátria acabam de sof- 
frerna pessoa doDr. Innoeeneio Munõz de Araújo 
Góes, morto aos 34 annos de edade, ao entrar por- 
tanto no cyclo vigoroso da sua vida de homem. 

Quando elle appareceo aqui, ha cerca de 12 
annos, com a sua formosa edistincta figura de pla- 
tino, todos logo o estimaram e muitos o admira- 
vam e queriam sem que ainda o conhecessem. 

Foram muito alto estas preferencias que elle 
admiravelmente merecia, porque raras vezes tanta 
generosidade, cordura, bondade d'alma, Ihanesa de 
maneiras, fina e delicada organisação de intelle- 
ctuai se enquadraram em physionomia mais bella 
eattrahente.' 



Tornou-se em breve conhecido e amado não 
só pela sua família respeitável e relacionada, como 
pelos seiís próprios méritos e qualidades de «gen- 
tleman». 

Filho de um brasileiro, e homem intelligentís- 
simo, o Dr. Francisco Marques de Araújo Góes e 
de uma oriental, D. Elmira Munõz y Mainz Góes, 
elle descendia portanto pelo ramo paterno do barão 
de Araújo Góes e D. Maria Francisca Calmon e 
Abreo, cujas ascendências são, como se sabe, das 
antigas familias portuguezas Calmon, Góese Aragão 
as primeiras de origem franceza e a de Aragão de 
origem castelhana. E pelo ramo materno era neto 
do celebre general argentino Don José Casemiro 
Rondeau, o mesmo que foi uma das figuras mais 
salientes do Prata nos tempos das campanhas pela 
independência e que figurou na guerra da Cispla- 
tina com tão bellafama e que foi, apesar de estran- 
geiro, nomeado governador e capitão general da 
Banda Oriental do Uruguay, quando em 1828 se 
celebrou entre o Brasil e a Argentina o tratado que 
fixara a independência d^aquella republica, após os 
nossos desastres na campanha feita n'aquelle terri- 
tório, quasi ao terminar o reinado de Pedro i.** 

Tinha nascido em Montevideo, em 5 de Março 
de 1868, sob aquclle tecto delicioso que é o céo da 
Cisplatina, do tempo do nosso i." império. 

O pae, porém, não levou o nascimento do filho 
ao registro da republica do Uruguay e trouxe-o 
para o Brasil onde adoptou a nacionalidade pa- 
terna. 

Kducou-se no Rio de Janeiro no meio de gente 
culta e n'esse convívio de refinados adquirioagraca 
brilhante, as reservas delicadas e o perfume áe 
distincção que n'elle imprimiram até o fim aquelle 
cunho de superioridade elegante e correcção es- 
merada. 



Fez a sua instrucção no antigo collegío Pedro 2.% 
onde seu pae era lente. Ahi cursou até o penúltimo 
anno, não recebendo o gráo de bacharel em lettras 
por causa de circumstancias muito especiaes que 
foram as seguintes: 

Havia a creança desde muito cedo revelado 
certos symptomas que não podiam deixar de alar- 
mar o pae, medico distincto, de modo que foi elle 
mesmo quem fez o diagnostico de uma anomalia 
grave no coração do filho, «permanência do buraco 
de Botai». 

Quando Innocencio Munõz estava a ponto de 
terminar seu curso de bacharelado, com as mu- 
danças que traz a adolescência ao organismo, accen- 
tuaram-se com tanta severidade alguns symptomas 
da anomalia que forçoso foi suspender todos os 
trabalhos intellectuaes e fazel-o vir para a Bahia, de 
cujo clima mais ameno do que o do Rio, espera- 
vam os médicos consultados senão muito bom 
êxito pelo menos mais serena e duradoura a vida 
do moço. 

Melhorando muito aqui estudou Direito e for- 
mou-se em sciencias jurídicas e sociaes em 1896. 

Não consta porém só a existência da necessi- 
dade material e satisfeita e doestas victorias que se 
alcançam pela intelligencia e o esforço. 

Não era feliz e sem querer tocar em coisas par- 
ticulares diante das quaes pára o biographo que as 
respeita, pode-se dizer que era um d'esses entes 
aos quaes, quer os encontremos com uma ruga de 
dòr na fronte, quer com um sorriso na bocca, de- 
vemos chamar os diariamente martyrisados na vida. 

Não aproveitara a sua profissão trabalhando no 
foro, porq^ue lhe repugnavam as cousas positivas 
e interesseiras. A sua vocação era toda para a car- 
reira diplomática. 



Em muitos pontos parecia mais um cavalheiro 
de outras eras, transplantado para este paiz e para 
este tempo, tão pouco harmonisados com a herál- 
dica e o romanesco medievaes. 

Tinha grande pendor para os estudos de biblio- 
graphia, numismática e cerâmica de modo que se 
tornou um dos mais hábeis e competentes auxilia- 
res do Dr. Vicente Vianna, quando este fundou o 
Archivo Publico, sob a administração do Dr. 
Manoel Victorino. Foi por estes bons serviços no- 
meado para o Archivo ao qual sérvio até a sua 
exoneração por incompatibilidade em 1902. 

Foi um dos enthusiastas mais úteis e laboriosos 
na organisacão doeste Instituto, ao qual sempre 
muito se dedicou, sendo um dos sócios de espirito 
mais productivo, collaborando n'esta Revista da 
qual foi um dos redactores, tomando parte em di- 
versos trabalhos de investigação, alguns arriscados, 
pois se deleitava em arrostar com todas as difíi- 
culdades que dependiam de arrojo e coragem e 
onde havia um perigo ou uma cousa ignota e fora 
do commum. 

Em 12 de Novembro de 1899 tinha sido eleito 
membro do Conselho Municipal doesta capital, 
cargo que exerceu até a morte. 

Deu ahi provas repetidas de competência e leal- 
dade e conseguio ser estimado tanto pelos amigos 
como pelos adversários politicos. 

Em Julho de 1902 tinha sido nomeado cônsul 
do Uruguay, n^este Estado, e no exercício doesta 
funcção tão importante e nobre, tão adequada ao 
seu gosto pela diplomacia morreu de asystolia, na 
tarde de 28 de Dezembro. 

E' bem fora de duvida que certos factos que 
lhe torturavam a existência, concorreram para este 
tão rápido e trágico desfecho. 



E tanto quanto é dado ao homem ser grande, 
doce, abnegado, generoso e heróico n^este doloroso 
e terrível transe, elle o foi no meio de circumstan- 
cias tão especialmente pungentes, que nunca mais 
se apagarão da memoria dos que os presencearam. 

Gostava muito de genealogia e tinha feito com 
muito cuidado não só a de sua familia brasileira 
de Góes, Calmon, Abreo e Aragão, como a de sua 
familia argentina. 

Era um coUeccionador infatigável de antigui- 
dades e todas as cousas de outro tempo o apaixo- 
navam ; armas, movtfis, papeis, vasos, etc. 

Possuia muitos e bons autographos, e alguns da 
republica do Uruguay são valiosíssimos, não ha- 
vendo talvez no Brasil muito quem os possua me- 
lhores, porque são dos homens mais notáveis do 
império, do Uruguay e Argentina, especialmente 
do período da independência da Cisplatina. 

Dos seus trabalhos, alj^uns ha publicados n'esta 
Revista e nos órgãos da imprensa diária, na qual 
collaborou; outros, pela maior parte, inéditos; 
alguns não acabados. 

Entre os primeiros occorre-nos citar os seguin- 
tes: «O Bangala, Um Prior do Crato, O Cofre, Nós 
éramos três, Cândia, Francisco Gil de Araújo, Pêro 
de Góes da Silveira, O P^orte do Barbalho, Alcaides 
Mores da Bahia». 

Inéditos tinha: « Uma cadeira de Paleographia 
no Archivo Publico, Doação da Capitania da Bahia, 
El-Mirah, O Crucifixo, Cem annos atraz, Memo- 
rias do General Rondeau, Fundação da Cidade do 
Salvador, O Marquez de Abrantes, Damião de 
Góes, Subsidios para a historia da Diplomacia Bra- 
sileira, A Descoberta da America, 1840, O Archivo 
Publico da Bahia (em parte publicado), A Restau- 
ração da Cidade do Salvador, Um morgado no sé- 
culo i3, Uma Lenda Itaparicana». 



Havia confeccionado com o signatário doestas 
linhas o relatório apresentado ao Instituto sobre 
o subterrâneo de Santa Thereza e tinha se encar- 
regado de elaborar outro sobre o do Taboão, tam- 
bém explorado por ambos. Ultimamente prendia- 
Ihe a attenção um trabalho importante e de grande 
utilidade para o ensino publico, « Mappas históri- 
cos », do qual a i / parte, Mappa histórico da Bahia, 
ia em caminho. 

Possuia também dados sobre a guerra de « Ca- 
nudos» que tencionava completar e estudar em 
todas as particularidades; assim como outro inti- 
tulado ((Notas sobre o império». E foi assim em 
pleno labor, que a morte ceifou vida tão preciosa ! 

13. do ^p^mciral. 



Os indígenas da Bahia 

—Aíemoiia lida a 3 de Maio de 1.900 
na sessão solemne do ^Instituto Geogra- 
phico e Histórico da Bahia», em comme- 
moração do 4,^ centenário da descoberta 
do Brasil, pelo professor António Alexandre 
Borges dos Beis, sócio fundador do mestno 
^ Instituto È.-- 

I 

O homem americano 




INTERESSANTE qucstão do homem americano, 
considerada a par de outras não menos serias 
da Paleoethnologia ou Archeologia Prehistorica, 
ha preoccupado bastante a vários scientistas no sé- 
culo que expira. 

Para uns, comoLubbock (i), a ultima palavra 
não foi ainda pronunciada sobre o momentoso as- 
sumpto. 

Para outros, no terreno desbravado já alguns 
marcos assignalam conquistas positivas. 

Entretanto, a partir do principio inconteste da 
unidade das espécies, não desenvolvidas em um 
ponto único da terra, mas produzidas por trans- 
ai) LTlomoie rróliistorique. 



In 



formações naturaes e successivas em varias regiões 
d'ella, (verdadeiros reinos de creação, na phrase de 
Agassiz, ou reinos de apparição, como os deno- 
minou Rialle) não podemos deixar de admittir o 

autoctonismo de raças americanas. 
> 

Combatem esta opinião, no paiz e no estrangeiro 
— Barbosa Rodrigues, Warnagen, Couto de Maga- 
lhães, Brasseur, Fischer e outros; sustentam-n'a^ 
porém, Morton, Gliddon, Meyer, Lu nd, d'Orbigny, 
Trajano de Moura, José Veríssimo, Silvio Romcro 
e mais alguns. 

Entretanto, quaesquer que sejam as controvérsias 
das escolas monogenista e polygenista em face de 
tão transcendente questão, o. que se não contesta é 
que o homem viveu no continente americano na 
época quaternária, de promiscuidade com mammi- 
feros gigantescos, taes como o «mastodonte», o 
«megatherium», o «mylodon», o «jaguar» e tantas 
outras espécies, hoje extinctase que viveram n'uma 
era assignalada por grandes cataclysmos, entre os 
quaes o período glacial, perfeitamente caracterisado 
em diversos pontos da America do Norte. 

Da alta antiguidade do homem americano cons- 
tituem, entre outras, prova irrefragavel as notá- 
veis descobertas do Dr. Abott, no valle de Dela- 
ware, a de Agassiz, na Florida, e no que diz res- 
peito ao Brasil o resultado admirável das pacientes 
investigações do sábio dinamarqucz Pieter Lund. 

O eminente naturalista, a quem tanto devem o 
Brasil e a sciencia, demonstrou-a após as escava- 



u. 



ções praticadas em mais de 800 cavernas de Minas- 
Geraes, mormente na do «Sumidouro», ondepoude 
reconhecer a contemporaneidade do homem e de 
grandes mammiferos quaternários (2); demons- 
trou-a apreciando em desenvolvido estudo a for- 
mação geológica do planalto Central do Brasil e 
provando ter este existido elevado sobre o nivel do 
mar, quando as outras partes do mundo ainda se 
achavam submersas ou surgiam apenas como ilhas 
insignificantes; demonstrou-a na bella synthese 
comparativa entre as raças «mongolica» e «ameri- 
cana», deduzindo caber a esta a anterioridade, na 
hypothese de communidade de origem, visto os 
caracteres differenciaes que apresentam darem- 
Ihe o local inferior na escala; — laudo esse accorde 
com a marcha da natureza, que procede sempre 
do simples para o composto, do imperfeito para 
o perfeito. 

A hypothese de «Marcius», em seu apreciado 
trabalho — «Sobre o modo de escrevera historia do 
Brasil» — de ser o povo encontrado por Cabral resto 
cie uma grande raça, que, de um estado florescente, 
decahira no de degradação tal qual se apresentara 
QO europeu em sua formula mais brutal — a antro- 
pophagia — a ser admittida, constituirá mais uma 
demonstração da nossa these sobre o autoctonismo, 
por isso que esse processo de degeneração, exigindo 
períodos èxtensissimos em produzir-se, tenderia 

(2) Lund, com a pnideiicia que lhe era peculiar, não considerou a 
inncipio como provada essacoratemporuneidadc, udmittindo-a soraent*? 
depois de acuradas obsorvaçõeí». . , 



12 



apenas a demonstrar a remotíssima antiguidade do 
selvicola brasileiro. 

Couto de Magalhães, em seu mui discutido tra- 
balho — «Região e Raças Selvagens do Brasil», — 
affirmando que o homem americano «apparecera» 
nos altos plateaux andinos, d'ondc emigrara para 
as planicies; — que era grande a sua antiguidade 
visto preceder ás primeiras migrações dos aryas na 
Europa; — que constituirá o tronco vermelho cru- 
zando-se mais tarde com raças brancas do leste e 
do oeste, — destroe todas essas affirmativas, quando, 
baseando-se no frágil argumento da ausência de 
utensis de pedra lascada em nossos depósitos fosseis, 
assevera que o Brasil «recebera» seus povoadores 
por immigração, havendo elles transposto em outra 
«parte de mundo» o período paleolíthico, primeiro 
estádio percorrido pela humanidade! ! 

Essa contradicção exclue, a nosso ver, dos con- 
ceitos do illuçtre ethnologo o cunho de veracidade 
que nos parecia dever existir em suas obras, em 
face do conhecimento que demonstra ter da lingua 
tupy e das importantes viagens e explorações que 
emprehendeu pelos araxas de Goyaz e de Matto 
Grosso. 

E bastaria notar a exiguidade relativa das inves- 
tigações archeologicas e geológicas no continente 
americano, mormente em a peninsula Meridional, 
para não podermos acceitar como decisivo o laudo 
do illustre viajante, si os trabalhos de von Kossç- 



13 



ritz e outros exploradores nos Estados do extremo 
sul do paiz não nos tivessem conduzido já á pre- 
sença de instrumentos de pedra lascada, de envolta 
com evidentes restos do homem prehistorico, en- 
contrados nos sambaquis do littoral, além do grande 
numero de specimens d'aquelles instrumentos, exis- 
tentes no Museu Nacional e que foram descobertos 
em vários pontos do paiz. 



Ao passo, pois, que monogenistas e asiatistas 
como «Fischer» produzem, para justificar suas theo- 
rias, argumentos como os da (cnephrite» eda «jadei- 
te» tão completamente refutados por Meyer, illustre 
professor em Dresde; — emquanto que outros, como 
Brasseur, firmam seus assertos nas lendas da cere- 
brina ponte «Aleutica» ou na «Atlântida» de Platão; 
—os polygenistas demonstram, baseados em factos 
positivos, — estudos craneometricos, investigações 
linguisticas, observações geológicas, etc. — que o 
homem, «sujeito ás mesmas condições de cultura, 
produz por toda a parte os mesmos resultados» ; — 
que não é necessária «uma só origem ancestral pri- 
mitiva» para explicar'^ todas essas normalidades ; e, 
ajuntamos nós, — as pretendidas raizes com que se 
procura provar o parentesco de linguas faladas por 
povos tão dessemelhantes em qualidades anatómi- 
cas, psychologicas e physiologicas não passam de 
piatrizes onomatopaicas, — imitação dos ruidos da 



14 



natureza — primeira e rudimentar associação de 
idêas que feriu o cérebro rudo do selvagem. 

I 

Parece-nos, portanto, justificada a nossa opinião 
— o autoctonismo do homem americano; — isto é, 
do homem produzido no próprio continente, em 
uma ou em varias regiões d'elle,(«reinosdecreação 
ou de apparição») proliferando, grupando-se, con- 
stituindo nações, passando do periodo paleolithico 
ao neolithico, cruzando-se mesmo com immigra- 
çÕes de varias procedências (3) subjugando-as ou 
sendo por ellas subjugados, ate o momento em que 
a civilisação européa o veiu surprehender, condu- 
zida aqui pelas caravellas de Cabral, na expansibi- 
lidade do génio aventureiro e emprehendedor do 

portuguez. 

II 

Os indígenas 

Os VELHOS CHRONISTAS E AS POSTERIORES 
INVESTIGAÇÕES 

|iFFiciLiMO é respigar a verdade em as fas- 
tidiosas, e, por vezes, incongruentes narra- 
tivas, que nos legaram os velhos chronistas, a res- 
peito do povo indigena do Brasil. 

('ò) Não contestamos, como se vê, a possibilidade de iramigrrações 
a8iati(*as a Oeste, admissíveis em faee da.s eivilisavõese tradii»ôe8 tol- 
tekus e azteka^, e das europeas a Leste, estas já em tempos historicoa, 
— (visitas seandinavas); mas iie«j:ar, perante as conquistas positivas «ia 
sciencia, ao continente americano a faculdade de produ/.it o hunoiem é 
o «jue nos parece sobre»tiodo ubsurdu- 




u 



Da extensa bibliographia produzida pelos reli- 
giosos jesuitas, exploradores portuguezes e aventu- 
reiros de outros paizes, que se relacionaram com 
os indigenas, os trabalhos de Gandavo e Gabriel 
Soares são os únicos que parecem se approximar 
da verdade, revelando o consciencioso julgar de 
seus autores ; mas, ainda assim, é tal a sua deficiên- 
cia, que subsidio algum encontra n'elles o estu- 
dioso, sobre as interessantes questões da origem e 
da theogonia dos Íncolas seus contemporâneos, 
com os quaes conviveram, e a quem tanto tempo 
tiveram para investigar e estudar. 

Para uns, era o caboclo uma alma a converter 
para o christianismo, uma ovelha para o aprisco, 
cujos mythos, em sua rudimentar expressão, eram 
forçadamente interpretados ao sabor das idéas ca- 
tholicas; — para outros, era apenas uma alimária 
de trabalho; — para nenhum, porém, um ser hu- 
mano, cuja procedência, civilisação, arte, cultura, 
merecessem estudo. 

Selvagens, brutos, irracionaes quasi, eis em 
geral a adjectivação com que os qualificavam. 

O Dr. Paulo Ehrenreich, em seu criterioso 
estudo sobre a divisão e distribuição das tribus 
do Brasil, traduzido por Capistrano de Abreu 
e inserto na (cRevista da Sociedade Geographica do 
Rio de Janeiro», acccntúa em brilhante synthese 
esse desamor pelas tribus indigenas do Brasil, 
que nem siquer despertaram na alma fria dos 
conquistadores sentimentos de piedade. 



ítí 



Alludindo a tão criminosa indiíFerença, escre- 
veu o illustre companheiro de Von den Stein; 

«Logo no principio do Século XVI, começaram 
as correrias dos paulistas. Bandos de audazes aven- 
tureiros partiram da capitania de S. Vicente, em 
diversas direcções, internando-se pelo sertão. 

A' procura de ouro e á cata de escravos, perlus- 
traram, entre trabalhos e difficuldades indizíveis, 
os territórios imniensos do interior além do alto 
Paraguay, até as cabeceiras do Madeira, a oeste, e 
para o norte até a foz do Amazonas. 

A cupidez e a crueldade destes incendiários 
anniquilaram grande parte da população primitiva. 
O que não poude refugiar-se em brenhas invias 
succumbiu á espada ou á escravidão. » 

Proscguindo nesta analyse, accrescenta o emi- 
nente observador: «Assim, muitíssimo pouco se 
ficou sabendo das innumeras hordas do sertão — os 
tapuyas — como os chamavam os indígenas do 
littoral. )) 

Apenas sob um ponto, a linguagem, nos deixa- 
ram trabalhos de algum valor Anchieta, Montoya, 

ReSTIVO e F^IGUEIRA. 

Fazendo-lhes, porém, esta justiça, reconhe- 
cendo o importante serviço que prestaram, nesse 
particular, á civilisação dos íncolas e aos poste- 
riores estudos ethnographicos, a par de outros não 
menos valiosos, na phase da colonisaçãó em prol 



17 



da liberdade dos indígenas, não podemos deixar, 
entretanto, de lamentar que tão intelligentes espí- 
ritos se tivessem descuidado das interessantes 
questões a que acima nos referimos. 

Foi necessário que surgissem, muitos annos 
depois, espíritos investigadores c esclarecidos, que 
percorrendo o nosso extenso território, explo- 
rando os sambaquis do líttoral, as cavernas do 
interior, estudando a craneologia fóssil, as camadas 
geológicas correspondentes, as línguas, a cerâmica 
exhumada, os utensís encontrados, procurassem 
reconstruir o passado indígena, approxímando os 
typos, grupando-os, confrontando-os, até lançar os 
fundamentos de um estudo consciencioso sobre a 
ethnographía e a sociologia dos nossos aborígenes. 

Louváveis, nunca por demais encarecidos, foram 
os esforços empenhados na investigação desses 
assumptos de alta transcendência, mas não se pode 
affirmar com justiça que elles já nos tenham levado 
á solução completa do assumpto. 

Si os estudos linguísticos contaram afervorados 
cultores, que nos legaram os fructos preciosos de 
suas investigações, não se pode tornar extensivo 
esse juizo aos estudos archeologícos, sendo que, 
mesmo no ponto de vista ethnographico, a maioria 
dos trabalhos conhecidos deve, em grande parte, 
ser considerada apenas rudimentos, aos quaesurge 
addrtar novos subsídios. 
I 



18 



As observações do Príncipe de Wied, tão 
encarecidas pelo Dr. Ehrenreich, são realmente 
dignas de nota, quer pelo mérito de quem as subs- 
creve, quer pelo estado da ethnographia naquella 
época; porém não podem ser consideradas como 
um estudo completo da matéria, pois o sábio inves- 
tigador restringiu-se a simples descripções ethno- 
graphicas das tribus que visitou, dentre asquaes 
avultam, como menos incompletas, as que se 
referem aos aymorés do sul da Bahia. 

Os caracteres anthropologicos desses indigenas 
lhe foram fornecidos pelo celebre « Blumcnback, » 
consoante o methodo descriptivo então em voga, 
pelo estudo apparente de um craneo, que o sábio 
excursionista levara da Bahia; porém não ha nas 
paginas do seu celebre livro «Voyage au Brésil » 
estudo circumstanciado e rigorosamente scientiíico 
sobre aquella c outras tribus indigenas, tal como 
se encontra, sob certos aspectos, no trabalho admi- 
rável de d^ORBiGNY, relativamente á chamada raça 
ando-peruana. 

As investigações realisadas posteriormente par- 
ticipam das mesmas faltas, aliás desculpáveis, 
destacando-se, entretanto, como preciosas as que 
foram levadas a eífeito por Martius, que reuniu 
a maior somma de material então conhecido, e, em 
período mais recente, as emprehendidas pelo sábio 
e cauteloso observador Dr. Pip:tp:r Lund. 

Aoeminentedinamarquez,que soube identificar- 
se intimamente com o nosso meio, cabe a gloria de 



19 



ter enveredado por um caminho novo no estudo 
da ethnographia brasileira. 

Suas explorações nas cavernas da « Lagoa 
Santa,)) mormente na do «Sumidouro,» onde 
poude colher o material necessário para o estudo 
comparativo das espécies extinctas com as espé- 
cies actuaes, elaborando diversas monographias, 
algumas das quaes ficaram infelizmente incom- 
pletas; o precioso achado de craneos c esqueletos 
prehistoricos de promiscuidade com os restos fossi- 
lisadosde mammiferos quaternários, quelhe forne- 
ceram elementos para algumas deducções, reve- 
laram no venerando solitário um investigador capaz 
de illuminar todo o passado dos primitivos habi- 
tantes do nosso continente. 

Tentativas desse género, posto que em esphera 
mais restricta, foram realisadas, por iniciativa do 
Museu Nacional, na ilha de Marajó, que merecera 
antigamente acurado estudo do sábio naturalista 
bahiano Dr. Alexandre Rodrigues Ferreira; 
obtendo-se, nas excavações alli realisadas, grande 
numero de productos cerâmicos, estudados profi- 
cientemente por Hart, Ferreira Penna e outros. 

Não ha contestar que o valioso achado archeo- 
logico, com o qual foram encontrados restos hu- 
manos, trouxe precioso subsidio ao estudo das raças 
que primitivamente habitaram nosso território, 
facilitando deducções lógicas sobre a origem e 
costumes das tribus sobreviventes. 



aa 



* Mas, a anthropólógia, que poderiafacilitar novas 
conquistas á ethnographia, tem-sc mantido, entre 
nós, em sua forma embryonaria, máo grado o ar- 
rojo de alguns exaggeros, que tem pretendido, com 
o auxilio de meros ensaios empiricos, sem cunho 
scientilico, sem methodo, sem material sufíiciente, 
lançar proposições que, a serem exactas, poderiam 
resolver, em grande parte, o magno problema 
posto cm equação. 

Os estudos anthropologicos de maior nota «ntre 
nós são precisamente os que se filiam á anthropo- 
logia criminal, que não guarda relação próxima 
oU remota com a matéria que nos occupa, sendo 
apenas dignos de referencia, quanto á anthropo- 
logia geral, os ensaios do Dr. Rodrigues Peixoto, 
insertos nos Archivos do Museu Nacional, e os 
estudos craneometricos do fallecido Dr. Sa' e 
Oliveira, realisados no gabinete de medicina legal 
da nossa Faculdade, os quaes, si peccam por defi- 
ciência do material, foram, no entretanto, prati- 
cados de accordo com as regras estatuídas pelos 
próceres da anthropologia. 

Salientando, pois, os serviços inestimáveis de 
Martius, Lund, Hart, Ferreira Penna, dos di- 
versos linguistas que mencionamos, aos quaes se 
deve reunir Baptista Caetano, manda a justiça 
que signifiquemos toda a nossa admiração pelo 
sábio VoN DEN Stein e seus continuadores, que 
começaram a imprimir a ethnographia brasileira 
uma feição nova e mais scientifica, á custa de per- 



sa 



severantes laboreis, de fadigas e sacrificias, fiás suas 
excursões ao Xingu. 

Capistrano de Abreu, Couto de Magalhães, 
Barbosa Rodrigues e outros não podem ser olvi- 
dados d'entre os cultores da ethnographia brasi- 
leira, á qual se abrem novos horisontes, graças á» 
orientação scientifica do eminente ethnographo 
allemão, a que por ultimo nos referimos. 

III 

Classiíicaçôes dos indígenas, 

classificações antigas 

leitura dos chronistas contemporâneos dos 
^ exploradores e primeiros povoadores eu- 
ropeus do Brasil ensina-nos apenas que este paiz era, 
n^aquella época, habitado por um povo selvagem, de 
corem geral acobreada escura, cabellos pretos e 
corredios, malar e orbitas pouco salientes, variando 
entre a media e a baixa estatura, falando linguas 
desconhecidas, apresentando-se nus, ornados algu- 
mas vezes de pennas, armados de arco e flexas, 
espadas ou clavas de madeira rija, habitando pro- 
miscuamente,uns em casas de barro, longas eôcas, 
com duas aberturas apenas, outros sob arvores 
ou em covas, possuindo utensis de pedra polida, 
divididos em lutas intestinas, ferozes, epilogadas 
quasi sempre por festas cannibalescas, em que eram 
passivos figurantes os vencidos, ou aprisionados. 




22 



E* esta a synthese da noticia que nos deixaram 
os velhos chronistas sobre a população indígena do 
paiz,que os ventos e as correntes maritimas fizeram 
as caravellas de Cabral, desviadas de sua rota, en- 
contrar a 22 de Abril de i5oo, da era christã. 

Designada pela classificação geral de «tupis» 
e «tapuias», dividia-se essa população em tribus ou 
hordas, cada qual com sua denominação particular. 

As hordas «tupis» occupavam quasi todo o lit- 
toral e raros pontos do interior; as «tapuias» quasi 
todo o interior e alguns pontos do littoral. 

Modernas investigações parecem, porém, de- 
monstrar — ter sido a nação «tupi» um povo invasor, 
que vencera e recalcara para o centro a nação «ta- 
puia», estabelecida primitivamente na costa. 

A hy pothese mais razoável sobre o processo dessa 
invasão é que — o povo tupi, descendo do norte, do 
Amazonas talvez, ou até mesmo da America Central, 
possuindo cultura relativa mais adeantada que as 
hordas tapuias, pudera vencel-as, expulsal-as das 
praias e nestas estabelecer-se ; — que essa invasão se 
etfectuara em levas e em períodos sucessivos, acon- 
tecendo muitas vezes (eahi a principal origem das 
luctas que as dividiam) não respeitarem as levas 
subsequentes os direitos de irmãos já estabelecidos, 
ou não serem bem recebidos por estes ; — que, por 
sua vez, algumas hordas tapuias, recalcadas para o 
interior, tendo haurido novos alentos nas florestas 
onde se acoutaram, poderam romper a linha tupi 
do littoral, mercê mesmo das desavenças que enfra- 



23 



queciam seus vencedores, e nelle íixar-se nova- 
mente, 

E a situação dos nossos selvicolas, em i5oo, 
parece confirmar essa hypothese. 

Estendendo-se pelo littoral, de norte a sul, 
encontraram os exploradores portuguezes: 

Os « potiguaras », entre o Jaguaribe ) tupis 

e o Parahyba do Norte S " 

Os « tabajaras » e os « cahetés, » \ 

entre o Parahyba do Norte e o ' tupis 

S. Francisco ) 



Os «tupinambás, » de S. Francisco/ 
até Camaraú ] 



tupis 



Os «tupiniquins, » de Camamú aO) tunis 

Cricaré ) P 

Os « goyatacazes, » do Cricaré ao) ♦ot^ii^-^o 

cabodeS.Thomé ) ^^P^'^^ 

Os « tamoios, » do cabo S. Thoméi tnníc 

até Angra dos Reis ( ^^P^^ 

Os «guayanazes,» de Angra dos( tannia^ 

Reis até Cananéa ( ^^P^'^^ 

Os «carijós» entre Cananéa e a) . 

lagoa dos Patos ) ^^P^^ 

Pelo interior estanciavam numerosas hordas 

tapuias, com as quaes só mais tarde se encontra- 
ram os portuguezes, distinguindo-se: 

Os « maracás » 
Os « mariquitós )) 



24 



Os «aymorés» 
Os « guerens » 
Os « patachos r> 
Os((aturaris » 
Os ft puris )) 

Os «ubirajaras, » senhores dos pausou homens 
que combatiam com paus; e por entre essas — as 
tribus tupis dos «tupinaés, » «cahetés» e aamoi- 
pirás, )) que, pelas circumstancias já apontadas, 
tiveram de abandonar o littoral. 

Foi sem duvida a identidade de linguagem entre 
as tribus tupis o seguro critério que induziu os 
ethnographos a consideral-as uma nação. 

Esse conceito sobre a linguagem como sobre a 
identidade de seus costumes e de suas instituições 
induziu ainda alguns ethnographistas a ess'outra 
conclusão — o parentesco dos « tupis » com os 
« carahybas » das Antilhas e os « galibis » das 
Guyanas. 

E, de facto, aapproximação do «tamoio » como 
typo — dos «oyampis» de Cayennae dos « galibis » 
das Guyanas parece-nos irrecusável, o que aliás 
accorda-se com a tradição, porquanto o tamoio se 
considerava o mais antigo entre os de sua raça ; e, 
em linguagem tupi, a palavra tamoio significa avô, 
assim como tupiniquim neto, e tabajara cuuhado. 
O parentesco, porém, dos «carahybas » e «tupis » é 
contestado por von den Stein. 



25 



CLASSIFICAÇÕES MODERNAS 

Modernamente, mais de uma classificação tem 
sido feita dos aborígenes americanos. 

Martius divide-os em 8 linguas ou povos. 

« Tupis » 

« Gês ou Krans » 

ft Goyatacazes » 

«Crens» ou «Querens» 

«Gucks» ou «Cocos» 

« Parexis » ou « Parecis » 

w Guaycurús » ou Lengoas » 

(í Aruaks » 

Esta classificação, inspirada aliás em apreciações 
historicase averiguações linguisticas, peca por dema- 
siado extensa, ep virtude de ter o auctor se baseado 
em vocabulários incompletos. 

Subdivide ainda Martius os tupis em 5 grupos : 

Os do norte 

Os do sul 

Os do centro 

Os do leste 

Os do oeste. 

* 

# • 

Tratando, em substanciosa synthcse, das inves- 
tigações ethnographicas de seus predecessores, o 
Dr. Paulo Ehrenreich não se exime de tributar o 
testemunho de sua admiração á grande obra de 
Martius que, no seu entender, lançou o alicerce 
firme para a construcção de umá ethnographiado 
Brasil. 

4 



26 



As faltas de que pode ser increpada sua con- 
cepção, modificada em parte pelos estudos de von 
den Stein, resultam, no conceito do cscriptor refe- 
rido, do facto de não ter Martius conhecido pes- 
soalmente tribus completamente alheias ao influxo 

da civilisacão. 
> 

Das tribus que observou, umas já se achavam 
sob a acção da catechese, e outras, como os c( mi- 
ranhas », no Japurá, já haviam sotfrido a influencia 
do contacto prolongado com os brancos e se acha- 
vam desmoralisadas, quer por esse commercio, 
quer pelo trafico de escravos. 

Como outro factor, entra o que o Dr. Ehrkn- 
RKicH denomina « tupimania » e sobre a qual mani- 
festa-se nos seguintes termos : 

(( Kxaggcra a extensão e importância do povo 
« tupi »; concorre para novas confusões, repetindo 
o velho erro de d^Orbigny, a respeito do próximo 
parentesco entre os carahybas e tupis ; reúne incer- 
tamente tribus de todo separadas, sob o ponto de 
vista ethnologico, na chamada familia « Guck. » 



Alcidks i)"Orhi(;nv classifica deste modo os 
aborigencs da America do Sul : 

Ando-peruanos 

Pampeanos 

Brasileo-Guaranys, abrangendo estes os in- 
digenas do Brasil, 



2? 



Quando a d'Orbigny, oillustreescríptor, a quem 
alludimos, o Dr. Paulo Ehrenreich, evidçncia que 
ninguém soffreu mais os effeitos das generalisações 
relativas aos tupis e attinentes a consideralT-os como 
os typos caracteristicos dos indigenas brasriléiros, c 
sua lingua como lingua geral, da qual derivam 
todas as outras. Accentuando esse facto, que resalta 
em sua inteireza da classificação de <( brasileo-gua- 
ranys » não nega, entretanto, o mérito inherente á 
descripção magistral dos caracteres anatómicos dos 
« ando-peruvianos e « pampeanos feita por aquelle 

notável naturalista. 

* 

VoN DEN Stein que, em sua expedição ao Xingu 
em 1884, abriu novo periodo á ethnographia, ad- 
mitte provisoriamente a seguinte classificação : 

« Tupis » 

« Gés » 

« Goitacá » ( Waitaka ) 

« Carahybas » 

(í Nu-aruak » ou « Maipurc » 

(( Pano » 

(( Miranha » 

« Guaycurú » ( waikuru ). 

Os postulados que serviram de base ao eminente 
ethnologo allemãopara estabelecer os grupamentos 
das diversas tribus e formular nova hypothese sobre 
as suas migrações foram os seguintes : 

!.**)(( Os « carahybas » devem de todo separar-se 
dos « tupis )), ethnologica e linguisticamente. 



â8 



2.**) Legitimas tribus « carahybas » (os «ba- 
cahiris ) ainda se conservam no centro da America 
do Sul, de onde outr'ora seus ancestraes avançaram 
gradualmente até a Guyana/ — resultado a que 
já LuciAN Adam chegara independentemente, fun- 
dado em seus estudos theorico — linguisticos. 

3.") Afamilia«guck)), apresentada porMARTius, 
é como tal insustentável, pois abarca elementos he- 
terogéneos. Alguns delles provaram claramente ser 
«carahybas», a maioria, porém, pertence ao grupo 
«Maipure» de Gn.Lí e Adam, para o qual propõe 
a designação de « nu-aruak» ; « nu », por causa 
do prefixo pronominal tão característico de suas 
linguas; — «arualc», por ter sido esta a primeira 
lingua conhecida da parentella. » 

VoN DEN Stein dividiu ainda os «tupis» em duas 
grandes categorias, em dois grupos perfeitamente 
caracterisados : — um que guarda a lingua tupi 
suficientemente pura, outro, cujos idiomas sof- 
freram tantas variações, que seu parentesco com a 
familia « tupi » chega a ser negado por alguns es- 
criptores, entre os quaes se deve mencionar Lucian 
Adam. 

A doutrina instituida pelo illustrado chefe da i ." 
commissão do Xingu confirma a situação dos 
((tupis», que geralmente bellicosos, guerreiros por 
excellencia, occupavam, ao tempo da descoberta, 
quasi todo o littoral do Brasil, dilatando sua es- 
phera de acção até a embocadura do rio Negro, no 



á9 



baixo Amazonas, dividindo-se cm (í tamoios, tupi- 
nambás, tupiniquins », etc, como dissemos acima. 
Apezar das grandes perseguições de que foram 
victimas, ante a crueldade dos conquistadores, 
existem ainda tupis entre os habitantes da região 
costeira, do Espirito-Santo, Bahia, Pernambuco e 
Pará. 

Na população civilisada do baixo Amazonas 
encontram-se ainda vestigios da familia tupi, cuja 
linguagem os missionários jesuitas, induzidos pelo 
proselytismo religioso, vulgarisaram pelas margens 
do rio Negro. 

Dos cc tupis )) do sul ou « guaranys )> de S. Paulo, 
Rio-Grande do Sul e Uruguay restam ligeiros ves- 
tigios; mas no Paraguay e nas provincias argentinas 
de Entre-Rios e Santa-Fé e nas Missões formam a 
densidade da população. 

Na opinião do Dr. Paulo Ehrenreich, cujas 
observações vimos por ultimo analysando, exis- 
tem ainda no extremo NO da Republica, até o sul 
de Matto-Grosso, como representantes dos « tupis» 
além de outros — os « cainguas» e « caiovas ». 

No Pará é ainda considerável o numero de tupis 
selvagens, occupando os « tembés » a parte leste no 
alto Acará e rio Capim, existindo também á margem 
esquerda do Tocantins, provavelmente a oeste do 
salto de Itaboca — os «pacajás, jacundás» c u antas» 
ou ((tapirauás. » 

Como « tupis puros », ainda são mencionados os 
«mauhés»,naregiãodobaixoTapajós,os((oyampis», 



âo 



AO norte do baixo Amazonas, nos limites com á 
Guyana Franceza. 

Dos «tupis do centro» podem ser apontados 
— os «apiacás» no alto Tapajós, os «camayúras», 
descobertos pela expedição voN denStkin, no Xingu, 
os <( tapirapés », na bacia do Araguaya e os « guaja- 
jaras », no Tocantins. 

Poderíamos alongar nossas considerações sobre 
a concepção de von den Stein, quer no que diz res- 
peito á classificação dos indígenas do Brasil, quer 
no que se refere ás suas migrações, mas nos exi- 
mimos dessa tarefa, para dar logar ao assumpto 
principal de nossa dissertação. 

08 indígenas da Bahia 

IV 

Resava a tradição, que nos foi transmittida por 
alguns chronistas, — terem sido os «tapuias» os pri- 
meiros habitantes do littoral da Bahia, denominan- 
do-se«Maracásosque occupavam o actual sitio da 
capital e seu recôncavo; — que os «tupinaés» tribu 
tupi,sedusidospelafertilidade do mencionado terre- 
no, os expulsaram das praias, após sangrentas luctas 
easoccuparam, refugiando-se os vencidos no inte- 
rior, onde enfrentaram comos caupinambás» ao 
norte eoestc e continuaram a ser perseguidos pelos 
«tupinaés» a leste; — que por sua vez foram os 
«tupinaés» desalojados das posições que occupa- 
ram, pelos «tupinambás», seus visinhos, sendo 



31 



forçados a seguir a mesma rota que haviam feito 
tomar seus antecessores, ficando de tal sorte aper- 
tados entre os velhos e os novos inimigos que, em 
i58o, estavam reduzidos a um pequeno numero, 
sendo afinal assimilados. 

Ayres de Casal affirma terem sido os «quini- 
muras» os primitivos habitantes dos terrenos 
ribeirinhos á bahia Todos os Santos, sendo que o 
autor da chronica — «Jacaré» — «Quassú» — estabe- 
lece a seguinte ordem chronologica dos povoadores 
dos mencionados terrenos — <( quinimuras » — « tupi- 
nacs » e « tupinambás » . 



Foram, portanto, os «tupinambás» o povo que 
os portuguezes encontraram occupando todo o 
littoral do S. Francisco até Camamú, e, do gentio 
da costa, era um dos mais importantes, pelo seu 
numero e valor. 

Segundo Gabriel Soares, sem duvida o mais 
consciencioso dos velhos chronistas, eram esses 
gentios de media estatura, de còr muito baça, 
fortes, bem feitos, sadios, de alegre e bôa appa- 
rencia, trazendo os cabellos da cabeça, únicos que 
permittiam no corpo, sempre bem aparados, em 
excesso lisongeiros, refalsados, valentes, vivendo 
da caça, pesca e lavoura. 



32 



Espalhados pelo littoral da Bahia em aldeias 
distanciadas, por causa das inimizades que os 
dividiam, era sua situação normal a guerra intes- 
tina, ora devorando os vencidos, ora consefvando-os 
em captiveiro. 

Os que demoravam no sitio occupado hoje pela 
capital tornaram-se inimigos dos irmãos residentes 
na costa fronteira, entre o Paraguassú e e Serezipc, 
travando sangrentas batalhas navaes, em grandes 
«igaras» ou canoas, na bacia que se lhes inter- 
punha, e por entre as ilhas das enseadas. 

Veio acirrar esse ódio uma questão particular 
que surgira entre os próprios indigenas do sitio em 
que depois edificou-se a cidade; questão originada 
pelo rapto de uma donzella. 

A familia desta não a tendo podido rehaver do 
seu raptor, apartou-sc da aldeia, passou-se á ilha 
de Taparica, e, como se constituia de indigenas 
principaes, grande foi a clientella que a seguio. 

Esses immigrados alliaram-se aos Íncolas do 
rio Paraguassú, seus antigos inimigos, e crude- 
lissima irrompeu a lucta, agora alimcntadapor mais 
esse ódio de familia. 

Emboscadas, ciladas, ardis de toda a sorte, con- 
serva a tradição dessa tremenda guerra, e a ilha do 
« Medo », que demora entre a foz do Paraguassú e a 
ilha de Taparica, recorda ainda, em sua significa- 
tiva denominação, esse triste momento das luctas 
fratricidas dos nossos aborígenes. 



33 



Estendeu-se a alliança de Taparica ás terras ri- 
beirinhas do Jaguaripe, Jequiriçá, Tinharé e outras 
até a costa dos Ilhéus. 

Assevera ainda Gabriel Soares perdurar até 
aquella época (i582) tão intenso o ódio entre os 
adversários, que esse sentimento não se detinha 
mesmo ante os túmulos. Estes eram escavados para 
o espedaçamento das caveiras, e o consciencioso 
chronista ingenuamente nos relata que os colonos 
acoroçoavam esse sacrílego proceder. . . para ainda 
mais dividir os selvagens ! . . . 

E' também de Soares a affirmativa de não haver 
mais diíferença entre a linguagem dos «tupinambás» 
ea dos a tupinaés », que a fallada entre os moradores 
de Lisboa e os de Entre Douro e Minho. 

Essacircumstancia, o aspecto physico, osusos e 
costumes dos «tupinaés » corroborando a tradição, 
levaram egualmente o mencionado escriptor a con- 
sideral-os irmãos dos «tupinambás». 

E a observação feita, egualmente, pelo referido 
chronista — « de ser um pouco mais rude a linguagem 
daquelles, como ainda mais selvagens os seus costu- 
mes, induz-nos a consideral-os uma antiga familia 
«tupinambá» que, em contacto mais immediato 
com os (( tapuias », a quem vencera e substituirá no 
referido território, sotfrera destes a influencia dege- 
neradòra. 

• » 

Uma outra familia c( tupinambá » que, em perse- 
guição aos « tapuias », se internara mais pelo sertão. 



34 



foi cortada pelos «tupinacs» quando expulsos das 
praias, e de tal sorte vio-se perseguida por estes e 
por aquelles a quem atacara, que obrigada foi 
a transpor o S. Francisco, por elles denominado 
« Pará)),estabelecendo-se em sua margem esquerda. 

Essa familia constituio a tribu dos «amoipiràs», 
por ser esse o nome do seu maioral. 



Seguiam-se pela costa sul, — de Camamu' ao 
Cricaré — os « tupiniquins ». 

Ignacio Accioli de Cerqueira e Silva em sua 
Memoria sobre os aborígenes da Bahia, publicada 
em 1848, diz, sem duvida baseado em velhas chro- 
nicas, que os « tupiniquins » estendiam-sepor toda 
a costa que alonga-se da bahia de Camamú, aos 
i3%53/5\ até Caravellas, possuindo suas princi- 
pães aldeias no território de Porto-Seguro. 

Foram os «tupiniquins» que assistiram a missa 
de frei Henrique de Coimbra, perpetuada na tela 
immortal de Victor Meirellcs, c pertenciam a essa 
tribu os três indígenas que João Lopes Bixorda, 
segundo refere Damião de (jocs, apresentou cm 
i5i5 a D. Manoel, rei de Portugal. 

Gabriel Soares assevera ainda pertencerem esses 
indígenas ao mesmo tronco de seus visinhos, pela 
identidade de linguagem, usos e costumes, se bem 
que entre aquelles e estes fosse constante a inimi- 
zade; facto entretanto pouco admirável, por isso que 



35 



vimos essa mesma rivalidade dividir tão profunda- 
mente a própria tribu «tupinambá». 

Mais domesticáveis e mais sinceros que seus 
visinhos do norte, como assevera ainda o referido 
chronista, foram os «tupiniquins» os primeiros 
Íncolas que se relacionaram com os portuguezes. 



A carta de Pêro Vaz de Caminha, escripta da 
bahia Cabralia a el-rei D. Manoel em i.^de Maio 
de I Soo, documento em que, a par da sinceridade 
do epistolographo, transpira a nobreza de senti- 
mentos do espirito que a redigio ; acta veneranda 
do primeiro encontro da civilisação européa com a 
rudeza selvagem dos Íncolas brasileiros, nol-os 
descreve — como typos bem feitos e formosos, dóceis, 
innocentes, honestos, prestáveis, se bem que alguma 
vez esquivos e desconfiados, condição natural no 
selvagem. 

A pincturesca descripção do primeiro encontro 
com os Íncolas e das subsequentes relações que, no 
littoral da bahia Cabralia, tiveram com elles os 
portuguezes, é feita pelo intelligente escrivão da 
feitoria de Calicut, com aquella sinceridade de 
apreciação e justeza deconceitos, bem justificada em 
sua phrase — « bem certo crea Sr. que para afor- 
mosentear nem afear — haja de poer aqui mais do 
que vi eme pareceu». 

O proceder dos «tupiniquins» já na foz do rio 
Cahy, vindo rijos para o batel de Nicolau Coelho, 



3() 



mas accedcndo promptamente ao aceno deste em 
deporemos arcos, permutando seus artefactos com 
o sombreiro e o barrete de navegante ; — já na bahia 
Cabralia, deixando-se levar sem resistência á nau 
capitanea, quando tomados em uma almadia por 
Affonso Lopes; — a sua indifferença ante o apparato 
com que Cabral e seus capitães os receberam; — a 
confiança que demonstraram em seguida, deitando- 
see adormecendo descuidados na alcatifa do salão 
onde essa singular scena se passava; — a docilidade 
com que nos dias seguintes depunham os arcos aos 
acenos dos portuguezes que para terra se dirigiam; 
— a bòa vontade com que prestavam-se a ajudal-os 
na provisão de agua e lenha; — aattitude que obser- 
varamduranteasmissaseporoccasiãodetransporte 
dacruz; — o prazercom que afinal se misturaram com 
os portuguezes, com estes dançando e folgando; — a 
honestidade com que fizeram restituirão degradado 
Affonso Ribeiro os objectos que um dos Íncolas lhe 
havia tomado; — finalmente, acompletaausenciade 
hostilidades contra o povo extranho que a suas 
plagas aportara, não somente contra os que deti- 
veram-se no littoral, como ainda contra os que 
internaram-seatéa aldeia, a i 1/2 léguas da costa; 
provam suíiicientemente a bondade de seus senti- 
mentos, a generosidade de seu proceder, a sua rela- 
tiva cultura moral, tãodiversamentedescriptas mais 
tarde e tão mal recompensadas depois. 



ri 



Rezam as chronicas que, no momento da coloni- 
saçâo das capitanias de Ilhéus, Porto-Seguro e 
Espirito-Santo, « muitos géneros de trabalhos » tive- 
ram com esse gentio os povoadores, mas que feitas 
as pazes, muito lieis e verdadeiros foram ostupini- 
quins aos colonos. 



Pela orla do littoral que se prolonga de Pernam- 
buco a S. Vicente começou e desenvolveu-se a 
colonisação. 

Das principaes tribus que a occupavam — te tupi- 
nambás, tupiniquins e tamoios » só nos resta hoje a 
memoria do seu sacrifício e da sua rude energia. 

Não é por certo uma das mais bellasapaginade 
nossa historia que relata a perseguição levada a 
esses indigenas, por accordo e ordem dos dous 
governadores Luiz de Britto e António Salema, e 
de que foram máximos executores (jarcia d'Avila e 
Christovam de Barros. 

Depois de haverem defendido tenazmente os 
lares e a liberdade, viram-se obrigados a abandonar 
aquelles e a salvar esta nas densas florestas do norte, 
á margem do mediterrâneo brasileiro, que lhes fora 
alvez originário berço. 

Diz-nos a historia que, dirigidos pelo morubi- 
xaba «Japiassú», tomaram o caminho do norte, e 
estanciaram afinal ás margens do Amazonas. 



\ 



»8 



Ainda hoje a grande ilha «Tupinambaranas» 
lhes attcsta o nome e recorda talvez a estancia 
ultima, a guarida final do seu existir. 



Os tapuias, primitivos habitantes do littoral, 
occupavam por occasião da conquista portugueza 
quasi todo o interior ou, pelo menos, a parte inter- 
média entre o littoral e o sertão. 

E' ainda no substancioso Roteiro da Costa do 
Brasil que encontramos a melhor noticia sobre esse 
povo, naquella época. 

Cumpre entretanto notar que a denominação — 
«tapuia» não significa nome de raça: — os tupis 
davam-na a todos os seus contrários e como o eram 
as hordas do interior que fallavam linguas diversas, 
adoptaram-na os portuguezes, applicando-a exclu- 
sivamente ás ditas tribus. 

Destas as mais conhecidas foram : 

— Os (( maracás » grande cantores e eximios fle- 
xeiros, que occupavam provavelmente a região 
onde demora hoje a villa que lhes conserva o 
nome, no médio sertão do Estado. 

Destinguiam-sc pelo falar tremido, semelhante 
ao soido do maracá, instrumento de uso quasi geral 
entre elles, e pela singularidade de não serem antro- 
pophagos. 

— Os «aymorés» que occupavam a serra assim 
denominada, desenvolvimento da cordileira marí- 
tima nos Estados da Bahia e Espirito-Santo. 



39 



Foi, talvez, das tribus tapuias a primeira que 
se embateu com os portuguezes. 

Habitantes das florestas eram mais alvos, mais 
altos e também mais ferozes que os tupis. 

Tinham uma linguagem rude, gutural, não com- 
prehendida por nenhuma outra tribu. 

Não possuíam tabas, nem casas; viviam sob 
arvores, faziam a guerra de emboscada e admittiam 
as mulheres a pelejar, ao inverso das demais 
tribus. 

Assolaram por vezes as capitanias de Ilhéus, 
Porto-Seguro e Espirito-Santo. 



Tractando dos «ay mores», escreveu em 1848 
Ignacio Accioli, o illustre chronista bahiano. 

«E' esta a única nação antiga de aborígenes que 
ainda se conserva poderosa e pela maior parte 
selvagem, conhecida agora geralmente pela deno- 
minação de «Botocudos» que lhes deram os portu- 
guezes, em virtude do cylindro de madeira ou 
botoque que trazem por enfeite nas orelhas e no 
lábio inferior. 

Ha mais de duzentos annos que occupam as 
adjacências do rio Pardo e estendem-se até ás 
vertentes do Belmonte ou Jequitinhonha, Mucury e 
território da provincia do Espirito-Santo, vagueando 
pelo interior das mattasque bordam o rio Doce. A 
exemplo das demais raças aborigenesdistinguem-se 



40 



entre si por diversas denominações: são estas — 
Engerecmung, Inos, Arary, Naknanuks, que signi- 
fica habitantes da serra, (nome que se dão aos que 
occupam as serranias que ficam entre o Jequiti- 
nhonha eoMucuryiCrecmnú e Pejarurú, adoptado 
por alguns que habitam as adjacências do rio Doce 
e do mesmo Jequitinhonha». 

Alguns escriptores estrangeiros taes como 
Blumenbach,Mawe,Chabert e outros referiram-se 
aos ttaymorés» ou * botocudos, nenhum porem 
excede em detalhes ao illustre excursionista, o sábio 
principedeWiED-NEuwiED, que percorreu extensa 
zona do nosso território, durante o^: annos de 1 8 1 5 a 
1817. 

A zona de distribuição dessa numerosa tribufoi 
traçada pelo eminente naturalista — desde a cesta 
oriental até as montanhas de Minas-Geraes, na vasta 
extensão de florestas comprehendida entre o Rio de 
Janeiro e a Bahia de Todos os Santos, ou entre i3 
e os 23 graus de latitude austral. 

Na época em qucoprincipe de Wied osobser- 
vou, os botocudos dizimados por crudelissimas 
perseguições, a qu2 alludcm Southey e Ayres do 
Casal, occupavam o espaço comprehendido en tre o 
rioPardoeorioDoce, e entretinham communicacão 
de um desses rios ao outro, ao longo dos limites de 
Minas-Geraes, achando-se mais perto das costas 
os (c patachos» e os u machacalis». 

Apezar das perseguições a que acima alludi- 
mos, Maximiliano encontrou hordas de botocudos 



41 



vivendo tranquillamente ás margens do rio Grande 
de Belmonte até Minas Novas. 

O notável decrescimento dessa valorosa nação 
foi determinado quer pelas luctas cruentissimas 
feridas com as tribusvisinhas, quer pela sanha. dos 
primitivos colonisadores, que nunca trepidaram 
em dar-lhe caça, em armar-lhe emboscadas, 
excedendo-os em ferocidade, quando apparen- 
tavam agir em nome da civilisação. 

Já na época em que Maximhjano os visitou 
havia a antropophagia desapparecido dentre os 
botocudos que habitavam o sul da Bahia, mormente 
nas regiões em que elles placidamente viviam ao 
lado dos europeus, sendo que os de Belmonte 
repelliam indignados a censura irrogada aos de sua 
horda, de comerem carne humana. 

Esse factoattesta,de modo efficicnte, a possibili- 
dade por parte dos europeus de os assimillar, 
trazendo-os ao regimen da civilisação, a que facil- 
mentese adaptariam, dotando o Brasil de elementos 
ethnicos muito mais vigorosos do que aquelles que 
resultaram de outros crusamentos. 

Em 1892 foram encontrados diversos botocudos 
á margem esquerda do rio Doce, no Estado do 
Espirito-Santo, acima do antigo aldeiamento do 
«Mutun», já completamente abandonado. 

Tractava-se de indigcnas da tribu « Naknanuk», 
reunidos á alguns da aCh()ps-ch()ps»,que havia sido 
dizimada por indígenas do alto rio Doce, em 

Minas. 

e 



42 



Dirigidos por um chefe naknanuk, cego e 
alquebrado, ao qual, no entanto, prestavam com- 
pleta obediência, viviam da caça e da pesca sem 
incommodar os poucos habitantes civilisados do 
logar, que não raro os convidavam ao trabalho e 
aos folguedos. 

Os «machacalis)), os «patachos», os «mucurysi) 
e os «puris)>, muito semelhantes no physico, 
porem não na linguagem, construiam cabanas de 
ramos de arvores que entrciaçavam curvando-os. 

Os « patachos » e os « machacalis » habitavam em 
1 8 1 5 as florestas das margens do Alcobaça ( Itanhem 
na lingua indigena). 

Pensa Accioli que faziam parte dessa nação os 
«macaxans, minochós, macunis, bacomins, mala- 
bis, mangalos e os manhos», que infestaram por 
algum tempo a villa do Prado, concentrando-se 
mais tarde na zona comprehendida entre aquella 
villa e a de S. Matheus. 

Alem das tribus mencionadas, merece citação 
especial a dos «mongoiós» ou «camacans» que 
occupavao território comprehcndido entre os rios 
de Contas c Pardo. 

Esses indigenasquc mereceram modernamente 
ser estudados pelo illustrc Dr. Sá e Oliveira, hoje 
cxtincto, eram de Índole bellicosa, insubmissos a 
qualquer ideia de domínio, ati que foram derro- 
tados em i8o6 pelas forças ao mando do Capitão 
João Gonçalves da Costa, no logar onde fundou-se 
o arraial da Conquista. 



43 



A diversidade de línguas entre os tapuias emba- 
raça certamente o estudo que se possa fazer sobre a 
sua origem, afastando ao mesmo tempo a possibili- 
dade deconsideral-os ethnicamente uma nação. 

Parece-nos, entretanto, que essa diversidade de 
linguas, certas differenças de costumes, o elevado 
numero de hordas disseminadas pelo vasto sertão, 
a ausência de habitações e de outras relativas com- 
modidadesdo existir, sua mui baixa selvageria justi- 
ficam a hypothese de serem elles os descendentes 
directos dos autóctones das regiões que habitavam 
— o producto do solo: — c a observação de Lund, 
considerando o homem da Lagoa Santa- cuja remota 
antiguidade demonstrou — da mesma raça dos 
actuaes representantes tapuias da localidade — , 
parece trazer a essa hypothese o cunho de verdade 

histórica. 

« 

Emquanto á theogonia dos indigenas muito se 
tem escripto e conclusões positivas ainda não se 
puderam tirar. 

Julgamos, entretanto, com Romkro — que o in- 
dígena brasileiro não passara ainda, na época do 
descobrimento, muito alem do puro naturalismo. 

O Dr. Amedée Moura, que occupou-se com pro- 
ficiência dos indígenas de Matto-Grosso, exprimio- 
se nos seguintes termos sobre o facto em questão: 

« Pour ce quí regarde les manifestations de Tàme 
et Fcxpression des croyances religicuses les Indiens 



44 



nV)nt pas de culte, parce que les lumieres de la foi 
n'ont pas encore éclairé leur ignorance». 

ExHKWEGK affirma que os «guaycurús» têm 
religião e o mesmo se pode inferir dos conceitos do 
príncipe de Wied, com respeito aos «botocudos», 
que chegam a ter opiniões originaes sobre os maus 
espiritos. 

A lua ( tarú ) c para elles objecto da maior 
veneração ; e, consoante sua theogonia, é causa 
determinadora de diversos phenomenos da natu- 
reza, sendo que o sol, o trovão, o relâmpago são 
venerados entre elles. 

No que diz respeito a religião dos « camacans », 
conhecemos a relação mandada ao cónego Benigno 
José de Carvalho e Cunha pelo missionário barba- 
dinho Frei Ludovico, cujo original se acha incluído 
nospreciosos manuscriptosda BibliothecaNacional. 

Assim se exprime o venerando missionário: 

«Os selvagens camacães moradores nas mattas 
do districto de Ilhéus, a vista dos Astros luminosos 
do Firmamento, reconhecem que ha um ser inyi- 
sivel, que preside a elles, que governa seus giros e 
periódicos movimentos o qual ser é chamado em 
lingua delles — Qucggeahorá e vem a serem nosso 
idioma - - Knte Supremo. 

O embrutecido entendimento delles não lhes dá 
logar a discorrer, a descobrir neste Ente Supremo 
aitributos, que o façam digno de adoração, e disto 
segue-se que não se acha entre elles nem Culto nem 
vestigio de Religião. 



45 



Sabem também que existe em ver os fenómenos 
mais sensivèis e este conhecimento se reduz a uma 
ideia confuza que, despida de raciocinio produz no 
seu inculto espirito um sentimento material de 
momentânea admiração e nada mais. 

Admittem a immortalidade da alma e imaginam 
que sendo esta separada do corpo não se afasta delle, 
emquanto não é completamente corrupto e putre- 
facto; julgãoque as almas livresdo corpo percorrem 
as mattas, que assistem ás suas conversas, ás suas 
dansas, e são testemunhas das suas acções: que 
voam pela atmosfera ou pelo espaço que ha entre a 
terra e Lua, que a considerão como a morada 
exclusiva das almas dos seus defuntos e lugar de 
seu descanco. 

Tomão o eclipse da Lua como um signal certo 

da indignação das mesmas almas causado de algum 

crime que elles fizerão e emquanto o planeta não 

clareou totalmente se escondem ese acautelão, por 

não serem oífendidos dos bichos ferozes dirigidos, 

dizem elles, por uma das almas, que entra no corpo 

dos mesmos bichos para com mordeduras, ou com 

estragos vingar-se da respectiva offensa». ( i ) 



Quanto á arte, as investigações archeologicas 
tios tem apenas habilitado a julgar pela cerâmica 
^xhumada, as armas e os instrumentos de pedra. 

( 1 ) Conservamos a ortographia e a f»yntaxe do original. 



46 



Umas e outras provam que arte, propriamente 
dieta, não possuiam os nossos indigenas, sendo que 
na fabricação dos utensis necessários, indispen- 
sáveis á sua vida primitiva, a perfeição cabe sempre 
as tribus tupis e dentre essas ás que habitavam o 
deita do Amazonas; assim nol-o demonstram os 
espécimens encontrados na colina de Pacoval, na 
ilha Marajó. 

E esta demonstração constitue rpais um asserto 
em favor das ideias que despretenciosame.nte aqui 
acabamos de externar. 



 íéb Caplla dos Jesnltas 

NA BAHIA (*) 

\1SK TESAR de estar longe ainda o dia em que o 
^&^ homem de lettras e o que se dedica a certos 
trabalhos da intelligencia possa viver só com isto 
entre nós, por ser ainda, o que se chama a erudição, 
a illustração, no sentido lato do vocábulo, não uma 
profissão, mas uma cousa apenas boni ia, que começa 
a agradar mas inteiramente platónica, como uma 
jóia que nem todos possuem mas que não tem valor 
positivo e real, parece comtudo que não se devem 
desprezar alguns assumptos que em futuro, talvez 
não muito remoto, venham a alcançar a impor- 
tância e o valor que merecem. 

E como estamos no Instituto Histórico, enten- 
demos não fazer obra imprópria, apresentando 
hoje este despretencioso e modesto trabalho. 

A descripção dos nossos monumentos, a exhu- 
mação da viaa do nosso passado estão neste caso. 

Um delles é o Collegio dos jesuitas, fundado e 
edificado nesta mesma praça onde estamos, ha 
35 1 annos, isto é, desde o primeiro século da 
colónia, 49 annos depois da descoberta do Brasil, 
ao mesmo tempo que se fundou a cidade da Bahia 
para capital da nova terra, estabelecendo-se nella 
o primeiro governo geral instituido pelos portu- 
guezes aqui. 

Com o inicio da vida administrativa no Brasil 
regularisa-se também a catechese; e a ordem dos 
jesuitas, cujos serviços á civilisação da nossa pátria 
não se podem negar, iniciava também os seus 
grandes e penosos trabalhos. 

(*) Memoria lida na set-sâo de 3 de Maio de 1902 pelo sócio Dr, 
Braz do Amaral. 



48 



Os primeiros padres construíram uma capella 
de taipa coberta de palha e nesta obra trabalharam 
com as suas mãos, amassando barro, conduzindo 
materiaes, o grande Manoel da Nóbrega, assim 
como os seus companheiros, com aquellas mesmas 
mãos gloriosas que levantaram o crucifixo aos 
olhos dos indigenas e que prepararam assim os 
elementos de paz, de ordem, de moralidade, de 
liberdade, pelos quaes tanto combateram muitos 
dos seus irmãos da companhia e que tanto deviam 
servir para a constituição de uma nacionalidade 
três séculos depois. . . 

Foi em i55i(?) que começaram os padres a 
obra do seu magestoso templo, o chamado CoUegio 
de Jesus, que ali se vê com as suas dependências, 
e que forma hoje a cathedral com a sua bella 
sachristia e accessorios, os commodos da antiga 
Bibliotheca Publica e todo o edifício onde funccio- 
nou n\)utro tempo o Hospital da Misericórdia, até 
1889, quando foi transferido para Nazareth, assim 
como a Faculdade de ^Medicina, que do velho 
collegio dos jesuitas já quasi nada tem, por haver 
sido inteiramente reformada a construcção no 
fundo e na forma. 

Só aqui e ali se encontrará no meio dos mate- 
riaes alguma pedra, uma porta entalhada á antiga, 
um azulejo esquecido, que indicarão ao entendido o 
collegio dos padres dos tempos da colónia. 

A grande peça subterrânea abobadada queservia 
ainda ha poucos annos de deposito d'agua, num 
dos pateos centraes, e que a tradição popular 
assevera ter sido o ponto de partida de um dos 
grandes caminhos subterrâneos construidos pelos 
padres, foi entulhada ultimamente. 

O saguão antigo com as suas lages quadradas foi 
inteiramente transformado, e só algumas delias 
aproveitadas na architectura dos arcos romanos 
que hoje ostentam o i.*" andar. 



49. 



Ainda não ha muito se descobriu casualmente a 
antiga fossa que servia para o convento e que com- 
municava provavelmente com o grande conductor 
de alvenaria que pelo dorso da montanha ia vasar 
os detrictos e aguas servidas no mar, pouco mais 
ou menos no logar chamado ainda Gumdastc dos 
Padres. 

Foi um mestre de obras quem encontrou esta 
fossa, sob um assoalho uue tinha recebido uma 
camada de cimento, e ella se acha actualmente 
por baixo de uma parte do gabinete de chimica 
analytica. 

A velha cryptados jesuitas está ainda lá muito 
ignorada e abafada no meio de uma multidão de 
entulhos ignóbeis; os seus sepulchros rasos, os 
carneiros, como leitos feitos no muro, e o seu tecto 
de estuque já muito maltratado, mas onde num 
canto se percebem ainda vestigios de uma pintura, 
lá existe em baixo da antiga bibliothcca, logo ao 
nivel da terra, em frente do moderno pavilhão de 
anatomia da Faculdade e por detraz da sala 
de direcção que fica a cavalleiro da montanha 
da Faculdade e por detraz da sala e das obras do 
Plano Gonçalves. 

Lá descemos, Munhoz (íóes e eu, quando pro- 
curámos um dos subterrâneos que a tradição diz 
existirem na cathedral, trabalho em que perdemos 
infructiferamente até agora tempo e esforços. 

E' a Bahia histórica, do tempo dos vice-reis 
com as suas intrigas de que se queixam tantas 
cartas ao rei e os seus cuidados pelo desbravamento 
e pela defeza da terra. 

A cella de Vieira também alli se vê ainda ao 
lado do grande corredor que leva á sachristia e por 
cima da crypta ; destas peças é a mais conhecida 
pela vulgarisação que este Instituto deu ao celebre 
padre quando promoveu as festas commemora- 
tivas do seu centenário. 

7 



50 



Pretendemos hoje, o nosso consócio Munhoz 
Góes e eu, nos occupar da capella, que é uma jóia 
architectonica internamente. 

Era a capella particular dos padres e parece 

aue foi construida com o collegio de i55i em 
iante. 

Ku ainda conheci o primitivo corredor e penso 
que a soleira de pedra escura, tirada daqui, da 
costa, cavada pelo attrito dos pés, é a primitiva e a 
mesma que foi pisada pelos luminares da ordem no 
Brasil. 

Ainda ha pouco tempo alli se achava a grande c 
esplendida cadeira de jacarandá, a cadeira do 
Padre Vieira, que se encontra hoje no seminário de 
Santa Thereza para onde foi transferida. 

A capella está encravada nas construcções da 
Faculdade, e quem sobe a escada de mármore em 
curva que hoje dá accesso ao i ." andar passa ao 
lado delia. 

Uma porta antiga de almofadas com 3 metros e 
3o centimetros de altura e i metro e 90 centimetros 
de largura otierece ingresso ao visitante. 

A peça toda tem da soleira até a maior rein- 
irancia do altar que lhe íica em frente 1 8 metros e na 
largura mede 8 metros e 2 centimetros. As paredes 
têm, tanto de um lado como de outro, 2 metros de 
espessura. 

Deve-se addicionar ao cumprimento mais 2 
metros e 95 centimetros que é o que corresponde ao 
altar. 

Toda a peça é assoalhada. 

A capella tem cm lorno, desde o rodapé até i 
metro e 23 centimetros de altura, uma faixa de 
azulejos representando uma série de escudos, todos 
de assumptos religiosos, cxtrahidos do Evangelho. 
O i.^^á esquerda do altar representa o Agnusoccisus; 
o 2.\ Quasi plantalia rosa*; o 3." Puteus aquarum; 
04." TurrisDavid; o 5." Speculum sine macula; o 
6."Stellamaris; o 7." Electa ut sol; o 8/ Pulçha ut 



51 



luna; o 9/ Quasi palma; o 10, Quasi oliva; o i í, 
Fons signatus; o í2, Templum dei; o i3, Ortus 
conclusus;o 14, Aperti sunt oculi. 

Fntre es estudos, os desenhos dos azulejos 
representam o seguinte: o i.", restos de um arco 
romano; o 2.% um viajante apoiado em iim bordão, 
tendo diante desi um poço ; o 3.", um homem andra- 
joso com um cão; o 4/', uma mulher numa estrada 
também apoiada em um cajado; o 5/, um velho 
sentado em uma pedra; o 6.% um moço seguido 
por um cão enorme; o 7/ representa o Lazaro; o 
8.% um homem com um púcaro; o 9." representa 
iim mutilado ; o 1 0°, uma torre diante da qual passam 
navios; o i r é um menino acompanhado por um 
homem com um volume nas costas subindo uma 
ladeira; 12", um rio no qual passam escaleres e ao 
fundo veem-se edifícios grandiosos. 

Acima da faixa de azulejos entre estes e a cornija 
dourada segue-se um espaço de parede caiada que 
mede 2 meiros e 40 centimetros de alto; no meio 
desta parede abrem-se 3 janellas de cada lado, todas 
eguaes, tendo 2 metros e i decimetro de altura e de 
largura i metro e 94 centimetros. 

De cada lado da porta acham-se duas pias de 
pedra vermelha arredondadas e muito elegantes, 
tendo 45 centimetros no maior diâmetro e 3o no 
menor. Foram feitas com a mesma pedra vermelha 
das pias da cathedral, sendo para notar que esta 
pedra vermelha que se encontra em alguns edifícios 
dos séculos 16 e 17 aqui, parecem ter sido tiradas 
de Valença e proximidades onde aífirma pessoa de 
credito haver quantidade d'ella, que era cxtrahida 
e trabalhada nos tempos coloniaes. 

\o alto da parede corre uma larga cornija dou- 
rada em alto relevo, formando arabescos, susten- 
tada por 10 cabeças de anjos, cinco de cada lado. 
Faltam aitida as duas da cornija do altar. 

O tecto é uma belleza ; grandes quadrados pinta- 
dos de cores fínas em que predominam o castanho, o 



52 



preto sobre um fundo branco dão-lhe muita riqueza 
e valor; é pena que este tecto já esteja estragado; é 
mesmo a parte mais estragada da capella. A viveza 
porém das tintas, a sobriedade e perfeição do 
desenho, a boa qualidade do óleo empregado, 
talvez o de nozes, tornam muito interessante este 
trabalho de arte não só pelo que foi esculpido na 
madeira propriamente dita, e que é provavelmente 
cedro, como pelo valor da pintura. Estes quadrados 
estão dispostos em 3 filas; o revestimento de 
madeira que os separa é todo esculpido em baixos 
relevos representando cachos de uvas, volutas 
entrelaçadas, etc. ; nas pontas de juncção dos qua- 
drados, ha maçanetas pintadas e douradas, entre 
elles correm linhas dentadas esculpidas na madeira, 
pintadas de branco, ladeadas por frisos dourados. 

Nos intervallos deixados entre os quadrados e 
as duas cornijas formaram-se grandes triângulos, 
em que se levantam florões em alto relevo doura- 
dos, sobre fundo branco, alternando com outros 
triângulos em que se levantam também em relevo, 
ainda mais elevado, grandes ornamentos dourados, 
á semelhança de capiteis, sendo oito de cada lado 
e quatro nofundo. 

Abaixo desta cornija ha uma outra também 
toda dourada. Alguns podem consideral-as como 
uma só peça architectonica. 

Nós as consideramos separadas para facilitar o 
trabalho e tornal-o mais methodico. 

Ha ainda outro motivo. Entre as duas fizeram 
uma serie de telas, ao lodo 20: 8 de cada lado e 4 
no alto da parede da entrada, onde foi praticada a 
porta; os painéis que são todos bons, se bem que 
não tão finos como os que adornam a magnifica 
sachristia dacathedral, estão entre estas duas faixas 
de altos relevos de magníficos arabescos dourados 
em que a pintura foi combinada com muito gosto, 
porque tanto as telas como os arabescos, apezar do 



53 



seu excesso de ouro, destacam-se sobre o fundo 
branco. 

No fundo esta o altar; altar mór, não sei se 
deva chamar porque é o único da capella. 

Elie é constituído por duas fileiras de columnas 
lisas cobertas de arabescos com relevos altos, dou- 
rados cujos pedestaes têm de largura 7 decimetros 
e de altura 8. São 6 columnas, 3 de cada lado, que 
avançam formando o espaço onde se acha o altar 
com a largura de 67 centimetros. As bases destas 
columnas avançam sobre a plataforma do altar 60 
centimetros. Elías medem 2 metros e 7 decimetros 
de altura e são todas de cedro dourado. 

No meio, sobre a plataforma do altar, mais 
levantado, fizeram um nicho com 2 metros e 4 
decimetros de altura, e por sobre este um outro 
menor sustentado por 4 columnatas terminadas 
por maçanetas grandes douradas. 

Destas 4 columnatas duas são mais salientes e 
duas mais reintrantes; entre ellas quatro cabeças 
de anjos esculpidas na madeira e pmtadas. 

Por cima das columnas grandes que ladeiam os 
nichos ha dous anjos de cada lado sustentando 
arabescos. 

O vértice do altar, no alto, sobre o nicho menor 
ha grande ornamento todo. dourado ao qual entre- 
tece e de onde escapa uma grande fita de ouro. 

No nicho superior encontra-se ainda uma 
imagem de cerca de i metro e 60 centimetros de 
altura, talvez S. Ignacio de Loyola com os para- 
mentos sagrados, tendo na mão um livro aoerto 
onde se lê escripta em grandes caracteres a divisa 
da ordem — « Ad majorem Dei gloriam » . Este livro 
repousa sobre um capitel formado pela cabeça de 
um anjo e terminado inferiormente por um plano 
inclinado de escamas douradas. 

O nicho grande, que fica por baixo do de S. 
Ignacio, é dedicado á Virgem. 



54 



Na cornija que separa os dous nichos, no ponto 
correspondente ao alto do nicho da Virgem, ha um 
escudo azul e ouro com a seguinte ifiscripção — 
«Maria Assumpta estin coelum». 

Mais abaixo no retábulo que forma a base do 
altar ha dous escudos pintados de escuro sobre 
fundo branco com a incripção - « Reliquiaj san- 
ctorum». 

Aqui ha poucos arabescos. 
Sobre elle, porém, o sacrário é todo de ouro e 
ornamento; elle tem i metro e 35 centimetros de 
altura. 

O crucifixo de madeira tem i metro e 4 deci- 
me tros. 

O nicho em que está a imagem da Virgem, todo 
de cedro douraclo, tem 90 centimetros de fundo. 
O Santo Ignacio tem i metro e 45 centimetros e 
o nicho em que elle se acha 1 metro e 70. 

Nos outros dois nichos contiguos ha também 
duas imagens de santos; o da esquerda com j5 
centimetros de altura; e o da direita com 95 ; os 
dois outros nichos externos ( pois são 5 ao todo ) 
estão vasios. 

Suppõe-se que nesta capei la existem os ossos 
do grande Anchieta, pois se sabe que tendoo illustre 
jesuita fallecido no Espirito-Santo foram os seus 
restos trasladados para a Bahia, não se sabendo ao 
certo onde param. Parece que em Roma mesmo, 
os que dirigem a ordem acreditaram até ha bem 
pouco tempo que na Capella do CoUegio estivessem 
os ossos de José de Anchieta, pois o padre Tadei 
recebeu ordem do geral da Companhia para vir 
explorar as paredes da Capella do lado do Evan- 
gelho. Entendeu-se aquelle padre com o director 
da Faculdade e foram levantados alguns dos azu- 
lejos da parede do lado esquerdo sem resultado 
algum. 

Quando andamos estudando a Capella, Munhoz 
e eu sondamos todas as paredes sem que o som 



oo 



revelasse haver n'algum ponto o esconderijo procu- 
rado, porque, sendo muito antiga a ligação dos 
azulejos ao muro, a argamassa muito secca dá por 
toda a parte a mesma sonoridade de parede oca 
sem que o esteja realmente. 

E' crivei que aquelles preciosos restos se achem 
em uma das Capellas da Cathcdral, talvez na 
parede ao lado esquerdo da própria Capeiia mór. 



^r. Srcz do Amaral. 



COLONOS indígenas E ESCRAVOS 
Os jesuítas a ca.techese 

HISTORIA DO BRASIL (*) 




[sTUDANDo a incipiente sociedade brasileira 
' no primeiro período da colonisação em seus 
elementos constitutivos, vemos que estes se distri- 
buiam em três classes: — fidalgos, peões, gentios 
e escravos. 

A primeira comprehendia os donatários ou capi- 
tães mores, verdadeiros suzeranos em seus feudos, 
devendo obediência somente ao Rei, e grande parte 
dos sesmeiros, uns de caracter e costumes mansos, 
outros completos aventureiros, que buscavam em a 
nascente colónia pasto abundante ao exercicio dos 
vicios que as leis da metrópole não toleravam. 

A segunda era constituída pelos colonos pro- 
priamente ditos — agricultores, criadores e mestei- 
raes, incontestavelmente a melhor provida de 
elementos conservadores, mas ainda assim não 
extreme da lia que as justiças portuguezas para aqui 
exilavam, com o ferrete da ignominia que a lei 
lhes impunha. 

A terceira abrangia os indígenas livres, appa- 
rentemente, e os escravos quer indígenas, quer 
africanos. 

Estas classes, podendo ser assim delimitadas, 
não se isolavam, não faziam vida á parte como no 
feudalismoeuropeu:misturavam-se,almagavam-se, 

Memoria lida na sessão de 3 de Maio de 1902 pelo sócio fundador 
Profe88or António Alexandre Borges dos Reis, 
8 



58 



confundiam-se pelo choque, pela exploração, pela 
nota da cupidez e do sensualismo, que era a moral 
dominante de tão encontrados e heterogéneos 
elementos a proliferarem entre a pujança desta 
natureza tropical. 

Em breve trecho, pois, a mistiçagem avolumou- 
se: surge o mameluco, producto cio crusamento do 
portuguez com a indigena, sempre activo e irre- 
quieto, mas nem sempre benévolo e humano: se 
na fundação do arraial de S. Paulo vemol-o 
enfrentar até os jesuitas, o encontramos mais tarde 
como o mais ferrenho perseguidor da raça materna, 
no typo odioso de caçador de indios: junta-se-lhe 
o cunboca, crusamento do ne^ro com a indigena, 
e o mulato, resultado idêntico da negra com o 
branco. 

Ethnicamente, pois, era essa a sociedade; poli- 
tica e juridicamente a feição da colónia na primeira 
phase de sua historia pôde ser synthetisada nas 
seguintes palavras:- o portuguez explorando o 
solo pelo trabalho do negro e exterminando o 
indigena por não se prestar este ao mesmo regimen, 
por vir perturbai o naquella tarefa; situação domi- 
nada pelos princípios os mais absolutos e intole- 
lerantes e sempre intranquilla, já pelas luctas 
intestinas que a própria cobiça accendia, já pela 
repulsa e aggressão do íncola, já, finalmente, pelos 
ataques e assaltos de inimigos externos — francezes, 
hespanhoes, hollandezes, inglezes, a disputarem a 
jóia rica que a sancção papal houvera doado e 
confirmado ás lusas quinas. 

Destaca-se, portanto, neste primeiro período 
de nossa historia, disposticoe soberano, o elemento 
portuguez; porquanto o indigena 6 sempre afinal 
um vencido e rechassado, e o negro é o animal 
domestico que trabalha e chora. 

Estudando, agora, separadamente as três raças 
que foram outros tantos elementos ethnicos a 



59 



constituir o povo brasileiro, já em suas descen- 
dências directas, já pela constituição do novo typo, 
o mestiço, e apreciando a sua influencia em a 
nossa evolução social, vemos que, — de fidalgos 
aventureiros e dissolutos, degradados, soldados, 
marujos e, de envolta, alguns homens bons, consti- 
tuiram-se os colonisadores portugueses, isto é, a 
primeira camada do elemento europeu que veio a 
ser o nosso primeiro factor ethnico, juntando-se-lhe 
mais tarde elementos da mesma procedência, 
porém moralmente mais sãos, quando, com o 
estabelecimento de um governo geral no paiz, 
regulou-se a distribuição da justiça, garanliu-se a 
propriedade, e firmoií-se o dominio do direito e 
da lei. 

Soífrendo a influencia e a modificação do meio 
physico, a alteração produzida pelo contacto imme- 
diato de duas cívilisaçòes inferiores, cujos repre- 
sentantes tinha de \nsncer, subjugar, disciplinar, o 
elemento portuguez nacionalisou-se, e entrou como 
o factor mais preponderante na constituição da 

[)atria nova, pelo seu caracter em extremo assimi- 
ador, pela ascendência li^itima da familia, da 
cultura intellectual, da posição social e politica. 

Sua descendência directa, alimentando-se sem- 
pre na primitiva fonte, dirigindo os descendentes 
das outras duas raças, também pelo mesmo pro- 
cesso alimentados, e o typo intermédio, que 
crearam, atravessa a nossa historia illuminando-a 
de esplendores épicos na integração e na defezado 
pátrio solo, na vingança da honra nacional ul- 
trajada, e nas conquistas luminosas da paz e do 
trabalho. 

E prepara, pela absorpção, pela remodelação 
final, a raça forte que ha de firmar a hegemonia de 
nossa pátria na America latina. 

Emquanto á raça indigena vemos que ella foi 



(» 



na primeira phase do povoamento, como em todo 
o periodo colonial — alliada, inimiga ou escrava. 

Quando alliada, prestava valiosos serviços ao 
colonisador, combatendo a tribu adversa, ensi- 
nando áquelle os ardis, os caminhos, a estratégia 
Íncola, dominada pelo espirito guerreiro que lhe 
constituia a feição principal do caracter. 

Quando inimiga, investia bravamente contra o 
portuguez que a perseguia e expoliava, ou alliava-se 
ao francez que fazia ácjuelle intelligente concurren- 
cia, inspirada no sentimento da vingança, instincto 
natural no selvagem, saciada muita vez na devas- 
tação das fazendas e no morticínio do colono. 

Quando escrava, mostrava-se fraca e indolente 
oara o trabalho, insubmissa ao eito, sempre dis- 
posta a ganhar a selva próxima, guarida da 
iberdade que se lhe arrancava eonde podia conti- 
nuar a vida da natureza, indolente e ociosa. 

Vencido, perseguido, somente utilisado para a 
guerra, destaca-se, entretanto, neste particular, 
heróico e intemerato, o elemento indígena; e os 
seus serviços, no prélio ingente travado com os 
batavos pela intejíridadc do território nacional, 
foram inestimáveis. Fora isso, somente, como 
elemento passivo releva-se cm o nosso progredir. 

Entretanto, os seus descendentes mais immc- 
diatos, os bellos caboclos do norte, os sertanistas 
do oeste e do sul em demonstrações de civismo 
honram bem alto as virtudes guerreiras de seus 
ayós. 

Kmquanto ao elemenío africano introduzido no 
Brasil desde o inicio de sua colonisação, como 
escravo e instrumento de trabalho, vcnios que era 
oriundo da Guiné principalmente, e da região do 
littoral quedahi se estende até Moçambique. Pro- 
cedia, portanto, dos berberes, jalofos, mandingas, 
telupos ou congos, angohis, benguelas, a que mais 






61 



tarde juntaram-se os minas, únicos esses que guar- 
daram mais zelosamente as tradições, usos e 
costumes de sua pátria. 

Arrancados violentamente do pátrio solo, e 
transportados, qual mercadoria, em mfectos porões 
de navios, para extranha região onde a vida lhes 
vinha decorrer bem outra, jungidos ao eito, sob o 
azorrague do feitor, constituíram, entretanto, esses 
infelizes representantes da raça negra um factor 
poderoso da nossa nacionalidade, pelo seu nu- 
mero, pela feição aífectiva de seu caracter, pela 
sua intensa proliferação. 

Raça igualmente vencida e subjugada, mas 
trabalhadora, valente e forte, prestou também á 
integração da pátria nova os mais valiosos serviços. 

Sua porcentagem na constituição do povo 
brasileiro é superior á da raça indigena, e a sua 
influencia em a nossa evolução social é, principal- 
mente pelos seus descendentes crusados, bastante 
accentuada. 

Para a raça forte a que alludimos, para o typo 
brasileiro do futuro, que se remodela, ella levará 
as virtudes primitivas das raças puras e sans. 



Os jesuítas foram verdadeiros bemfeitores da 
humanidade na primeira phase da colonisação do 
Brasil. 

Aportando a estas plagas com o primeiro gover- 
nador geral em numero de 6, dirigidos pelo bene- 
mérito Manoel da Nóbrega, e augmentados sempre 
em consequentes remessas, foram os jesuítas a 
legião que se constituiu a ante-mural do indigena, 
defendendo-lhe quasi sempre com efficacia a vida 
e a liberdade. 



fi2 



Graças a elles a nossa historia não apresenta 
as lúgubres paginas das conquistas do México e 
do Peru. 

Graças a elles, a civilisação poude firmar-se 
mais humanamente nesta parte da America, e o 
povo portuguez, pequeno e pobre, poude asse- 
nhorear-se do território descoberto, donde seria 
fatalmente expellido pela bravura do gentio, unida 
á concurrencia do francez. 

Graças a elles, poude a raça aborigene, com- 
batida em sua fereza pela catechese christã e mais 
por este processo de que pelas armas, em parte, 
submettida, escapar de completo exterminio. 

A Historia, guardando o nome dos 6 primeiros 
apóstolos do bem nesta virgem terra da America, 
— Nóbrega, Aspicuela Navarro, António Pires, 
Leonardo Nunes, Vicente Rodrigues, e Diogo 
Jacome e dos principaes continuadores de sua 
obra, — Anchieta, Luiz da Gran, Vieira e tantos 
outros, presta a homenagem devida aos espirites 
mais cultos e aos caracteres mais nobres, que a 
civilisação occidental da FXiropa enviou a estas 
regiões. 

Apropriando-se da linguagem dos íncolas, apre- 
sentando-se-lhes simples, modestos, resignados, 
humildes, estóicos, dando-lhes o exemplo ae todas 
as virtudes moraes, puderam os jesuitas ganhar o 
animo dos selvagens, iniciar e desenvolver a obra 
de sua civilisação. 

Empregaram para isso os meios mais intelli- 
gentes e eííicazcs, como a musica, as procissões 
apparatosas, as novenas, as predicas suggestivas, 
todas as outras manifestações do culto externo; 
consiituindo-se principalmente seus defensores 
estrénuos, batendo-se até pela liberdade dos que 
eram caçados nas selvas como animaes bravios, 
conseguindo muita vez arrancal-os á ganância do 



63 



colono; fazendo-os abandonar costumes selvagens 
e grosseiros, arregimentado-os em aldeias a que 
chamavam (emissões», instruindo-os na moral do 
evangelho e na religião do trabalho. 

Nessa primeira phase, pois, da nossa Historia, 
a acção dos jesuitas foi benéfica, salutar, huma- 
nissima: 

Foram elles além disso os representantes da 
cultura intellectual da época: foram elles os pri- 
meiros professores deste paiz. 

Se bem que saturadas do espirito de seita, são 
as suas chronicas, os seus escriptos, as suas annuas, 
os documentos por onde pudemos conhecer a vida 
da colónia brasilea, de cujos albores na historia 
foram elles os intelligentes paranymphos. 




o eulto dos Heróes ^*^ 



Íma nação que não cura das suas tradições c 
^uma nação morta» escreveu um dia W. 

Scherer na sua tamosa «Geschichte der deutschen 

Literatur». 

A tradição é o botaréo da F^é e a Fé — o arca- 
bouço intimo de todo o edifício social. 
* 

A coincidência notável entre os eclypses da 
Fce as catastrophes politicas, a periodicidade fatal 
das grandes crises históricas e a isodynamica 
insophismavel do seu modo de acção por intermé- 
dio das quaes se manifesta a omnijpresença de uma 
intelligencia hyperhumana, sollicitaram sempre a 
attenção dos philosophos de todas as épocas. 

Não se abafa impunemente o sentimento reli- 
gioso que a Cultura contemporânea assignala como 
a antithese ridicula do Livre pensamento. 

Ninçuem demonstra, de modo mais irrefutável, 
a nihihdade scientifica dessa concepção, do que 
o autor de <í Sartor Rasartus» — o maior gcnio 
que tem apparecido na Inglaterra depois de 
tt Shakespeare». 

Toda a «psyché» religiosa comprchendc a 
explicação do Cosmos e uma taboa de valores 
moraes, ou por outras palavras, uma Lógica e 
uma Ethica de um parallelismo constante e har- 
mónico. 

E é na alma do Povo, o inimigo irreductivel 
da Fraude em todas as suas modalidades, que se 



(*) Discurso proferido pelo sócio Dr. Egas Moiii/. Barretto do 
Arafrãr». na sosbíIo nnnivorsnrin do 'A il? Mnio <!.• ^0;'l. 

a 



í)6 



delineam as bases dessa Lógica e os preceitos dessa 
Ethica, promanadas ambas da Lei Natural que 
acompanha a Humanidade como a sombra ao 
corpo, na phrasedograndephiIosopho((FeuerbachD. 

Não sei se em tempo algum foram essas leis, 
que devem ser outros tantos pharóes para a Civi- 
lisação, mais cynicamente violadas do que nos 
tempos modernos. 

Borrascoso e triste foi o crepuscular do sé- 
culo XX. 

. A alma da velha Europa nega Deus e negar 
Deus é estabelecer o império do Chãos, é quebrar 
o equilibrio moral inclispensavel ao funcciona- 
mento da Sociedade, c alcandorar o «antipsy- 
chismo» á altura de um imperativo kantiano, é 
solapar toda a magestosa architectura da Civili- 
sação hodierna. 

O severo estudo da pathologia social aponta-nos 
uma terrivel verdade. 

Após 19 séculos de progresso, em pleno apogeu 
de Cultura, quando a Sciencia, máo grado a voz 
agoureira de « Brunnetiére» crea as maravilhas 
das maravilhas : fortalezas de aço e bronze cru- 
zando os oceanos, transatlânticos de 20000 cavallos; 
correntes « polyphaseadas » distribuindo a energia 
eléctrica que se transforma á vontade em luz, 
calor c força ; telegraphos sem fios, de « Marconi » ; 
raios sem luz, de « Roentgen», photographias do 
pensamento conseguidas pelo filho de ((Edison», 
motores de ar liquido, aeroplanos quasi dirigíveis 
e outros mil prodigiosi . . . após este soberbo cyclo 
de triumphos eis reconhecem aquelles que mar- 
cham na vanguarda da Intelligencia que ainda 
permanecemos chumbados ao primitivo «avatar» 
moral. 

O ódio, o insuperável ódio atávico que, já nas 
cavernas prehistoricas, açulava o homem contra o 



()7 



homem, ainda hoje perdura iterativo, omnipo- 
tente, a explodir na ponta da faca de Caserio, a 
gritar no coração lobrego das «i^reves», «a ulular 
nas paginas apocalypticas da Bete Humainel» 

A revolução franceza de c)3 derrocou a Bastilha 
do Feudalismo e sobre as suas ruinas fumegantes 
ergueram uma outra bastilha— a do Cesarismo. 

«Washington» despedaçou os grilhc3es da xMetro- 
pole e o ajingoismo» ofíicia hoje nos altares da 
Plutocracia, assanhando o ódio de raça. 

A rebellião de 1 5 de Novembro d':; i S89 destruiu 
othrono mais democrático que c: .ciu e em seu 
lugar levantaram um edifício qae de modo algum 
merece o nome de Republica. 

Vemos a França, que se considera o cérebro do 
Munio, o (cpalladium» da Civilisação occidental, 
o (( Paracleto dos Direitos do Homem » e crucifica, 
aos berros da canalha, um innocente; faz reviver 
na «Ilha do Diabo» as torturas diabólicas da 
Inquisição e, numa estúpida ressaca de lama e 
ignominia, apredeja a Verdade, na pessoa de 
Emile Zola, matando de nojo e desespero a alma 
intemerata de «Scheurer-Kestner». 

Vemos a Rússia, que pela bocca do Czar, 
aconselha magnanimamente o desarmamento uni- 
versal e massacra como um bando de cães damna- 
dos o povo finlandez que pedia justiça; e expulsa 
de seu território, como se fosse um leproso, o 
Apostolo do Amor o amigo dos «Mujiks», o Sósia 
de Christo — « Leon Tolstoi » I 

Vemos a Inglaterra, o berço das Liberdades 
modernas, armar 3()o.ooo soldados para o assas- 
sinato de 25.000 cidadãos de uma republica consti- 
tuida que, por desgraça, tem encravadas no seu 
território algumas minas de ouro; vemos a Ingla- 
terra, pátria do « Habeas-Corpus » no humbral do 
século XX, tolerar, em todo o « Hinterland» 



()8 



Occidental da Africa, numerosas agencias inglezas, 

Eara o infame trafico dos escravos, escândalo ha 
em pouco tempo denunciado pela «Contempo- 
rary Review ». 

E, ao rebentar das bombas anarchistas, ao 
marulho ameaçador de milhões de proletários que 
pedem pão e' trabalho e os governos mandam 
fuzilar, ao esfusíar das gargalhadas oKscenas dos 
Philisteus da Cultura que pregam a victoria do 
Egoismo e a bancarrota da Moral, cambaleia o 
madeiro, onde ha vinte séculos, está pregado o 
cadáver do Homem-Deus, do Messias do Amor, 
do Demiurgo supremo ! . . . 

A Humanidade lembra, nos tempos actuaes, 
uma cathedral gigantesca sem Deus e sem altares, 
estalando do alicerce ao coruchéu, em cima de 
um vulcão. 

O pêndulo da Razão oscilla, entre um orgulho 
satânico, provocado pelo progresso scientifico e 
uma covardia vesanica alimentada pelo nihilismo 
moral. 

Estaremos sobre a rocha aTarpea^^ ou no 
pincaro de um Thabor. 

Será o crepúsculo de uma noite definitiva ou 
o prenuncio de um formoso dia? 



Ha na antiquíssima biblia scandinava, arran- 
cada das patas dos iconoclastas, pela piedade de 
« SoL-mund )) e «Snoro Sturleson »; ha nas paginas 
sclvagemente épicas dos wh^ddas» um metho 
sublime- -o « Ragnarooiky » que, na mythologia 
germânica, tornou o nome de (((jrx^tterdoemmrung» 
— o crepúsculo dos deuses. 

Eil-a a concepção genial e profunda desse 
mytho : 



69 



Os «Joetuns», as temíveis potencias do Mal, 
depois de mil escaramuças com as divinas poten- 
cias do Bem resolvem finalmente travar um com- 
bate supremo. 

Na Serpente da Treva investe contra o gigante 
«Thor» — o deus do raio. Rancor contra Rancor, 
Poder contra Poder, Forca contra Forca I 

Estala a metralha dos trovões, ziguezagueia a 
espada dos relâmpagos, entrechocam-se o escudo 
de bronze e as escamas do monstro, desembestam 
as Walkyrias desgrenhadas, ao compasso em três 
tempos de um galope phantastico e um crepúsculo 
ensanguentado desce pouco a pouco sobre o 
« Wnallala » que se despenha tragicamente no 
abysmo. . . 

O velho Mundo e os antigos Deuses, arrastados 
n'aquella queda formidável, desapparecem no 
chãos. 

Não tardará porém uma ressurreição porque a 
Vida é a filha da Morte. 

Das tenebras insondáveis do abysmo ha de 
surdir um novo Ceu e uma nova Terra. . . no Ceu 
habitará um Deus mais divino e uma Justiça mais 
justa imperará na terra. 

Eil-o o mytho da velha biblia scandinava. 



Pois bem : todos os grandes pensadores moder- 
nos, de Goethe a Emerson, de Hugo a Barni, 
de Uhithman a Nietzsche — todos os grandes 
optimistas melancólicos acreditam na realisação 
dessa prophecia. . . 

Façamos como Elles; não desanimemos. 

Ergamos bem alto a fronte e os corações. . . 



70 



Trabalhemos e esperemos. 

E em que consistirá esse trabalho ? 

No culto acrysolado dos grandes vultos da 
Pátria e da Humanidade que, na opinião de 
((Carlylc)), ha de substituir um dia todas as velhas 
religiões; nesse culto mais acceitavel do que o 
culto da Humanidade anonyma. 

E' esta a base fundamental da Educação 
civica-relumbrante zaimph sem a investidura da 
qual uma nação se esphacéla e morre. 

Abramos, de par em par, ao Povo, a biblia da 
Historia pátria e seremos beneméritos, porque, 
para Elle e para Ella, trabalharemos, não como 
aquelles antigos sábios egoistas que procuravam 
improvisar um systema metaphysico de casuali- 
dades, em lugar de argamassar para o futuro os 
elementos de uma tinalidade victoriosa e fecunda. 

Isto aqui. Senhores, é um templo e ao mesmo 
tempo uma arena de combate. 

« Luthero » — na Allemanha, cf Knox » na Ingla- 
terra, «Renan» em França, «Ardido» na Itália 
esborcinaram o idolo do Phariseismo antigo ; 
desmoronemos egualmente o idolo da Oligarchia 
moral que, pela tuba do Jacobinismo Brasileiro, 
procura nivelar Christo e Tibério, Dante e Aretino, 
Shakpeare e Cecil Rhodes, Pedro II e Marcellino 
Bispo. . . 

Já o disse outKora a voz isaiaca que syllabou 
a «Legenda do Século»: 

« Por mais que façam aquelles que reinam 
interiormente pelo suborno e exteriormente pela 
ameaça, por mais que façam auuelles que julgam 
pilotear os povos e não passam ac perversos anar- 
chisadores, por mais que façam, a phalange 
sagrada da verdade ha de encontrar sempre um 
meio de cumprir o seu dever até o tim. 



71 



A omnipotência do Mal só pode alcançar resul- 
tados negativos. 

O pensamento escapa fatalmente a quem tenta 
jugulal-o. 

E' como o ar, rebelde á compressão. 

Maravilhoso proteu — refugia-se em formas 
diversas. 

O facho irradia. . . se o apagam, se o atiram á 
treva, o facho transforma-se numa voz e não ha 
noite que esconda a Palavra I 

Se amarram á bocca que falia uma mordaça, 
a Palavra transfigura-se em luz e não se amor- 
daça a luz ! 

Ninguém pode domar a Consciência do 
Homem, porque a Consciência do homem c o 
reflexo do pensamento de Deus»! 



Em meu nome e em nome da revista <( Brasil- 
Portugal» e de «Deutsche-Zeitung», saúdo o 
« Instituto Geographico e Histórico da Bahia », pela 
fausta data em que celebra o 7." anniversario de 
uma gloriosa existência. 

AoaInstitutoGeoçraphicoeHistoricoda Bahia», 
essa benéfica associação que é a salvaguarda 
heróica das nossas tradições, que pontihca, na 
apotheosede um altar, a relipãodos nosos grandes 
homens, que procura reanimar piedosamente a 
pyra quasi extincta do amor da Pátria, transmitto, 
do alto desta tribuna, os applausos sinceros, 
enthusiasticos e unanimes da imprensa portugueza 
e teuto-brasileira. 



(^\(/a3 Ml^cniz. 




HM-CIHIPUS-EstadodeSi 

PREFACIO AO DISCURSO DO Dr. RuY BaRBOSA, PROFE- 
RIDO NA SESSÃO DO Supremo Tribunal Federal, 
DE 26 de Março de 1898 (*) 

(Ao Sr. Rogociano Teixeira) 

'm profunda vacilação se me debateu, por 
\ lonço tempo, o espirito, antes de acceder eu 
ao honrosissimo pedido, com que aprouve distin- 
guir-me o meu illustre co-estadano e amigo. 

Escrever algumas palavras, como preparo ao 
leitor, para que melhor possa apreciar o erudito 
discurso que lhe vae ser posto aiante dos olhos, 
nada menos é — do que erigir um pórtico para o 
monumento, cuja maravilhosa estructura se lhe 
annuncia com inteira verdade, e merecida justiça. 

Para não infringir, entretanto, as regras da 
architectura, que prevalecem também nas obras de 
litteratura, pois o gosto deve ser inseparável de 
todas ellas, muito importa — que as differentes 
peças do edifício obedeçam ao mesmo estilo, 
guardem as necessárias proporções entre si, não 
pequem por contraste de linhas, nem desmereçam 
pelos erros de symetria. 

Sendo assim, comprehender-se-á facilmente o 
embaraço em que agora me encontro para corres- 
ponder á solicitação, gentil mente expressa por meu 
velho amigo. 

Trata-se de uma substanciosa oração, por onde 
filtra a eloquência arrebatadora de uma das pala- 

(*) o Autogrftpho pertence ao Instituto Histórico da Bahia, 
offerecirlo pelo «ócio Coronel Rogociano Pires Teiseira. 



74 



vras mais autorisadas da America latina, e de um 
producto sazonado da maior mentalidade de que 
presentemente o meu paiz se envaidece,. ^ 

Na elevação dos conceitos que emitte, na 
importância cias questões que suscita, na cópia de 
illustração que revela, no emprego da linguagem 
de que se serve; sob todos os aspectos por onde se 
o encare, por qualquer padrão que se lhe ajuste, 
seja qual íor o crysol preferido para apural-o; é 
força reconhecer — que esse discurso basta para 
íirrnar a reputação de um jurisconsulto, a fama 
de um advogado, a superiodade de um publicista/ 

A mime que falta — por meu mal — a expressão 
própria para qualificar tão bem acabado producto 
da arte de falar; a necessária autoridade para 
recommendar a leitura meditada desse relevante, 
trabalho da sciencia do direito; Que as jóias de 
um tal escrínio, formado carinhosamente para 
opulentar o património litterario da pátria, e as 
harmonias de um tal cântico, entoado em honra 
da lei, são tantas e tamanhas, que se torna difficil 
decidir — qual daquellas a mais tentadora e qual 
destas a mais doce e penetrante. 

A verdade, porém, é que — umas e outras 
concorrem vantajosamente para engrandecer e 
idealisar o culto á liberdade. 

E não é isto só. No alvitre, tomado pelo illustre 
senador bahiano, de ir expontaneamente ao Su- 
premo tribunal pleitear as garantias constitucionaes 
de adversários políticos, senão de inimigos pessoaes 
seus, eu descubro uma delicadeza subtil ae senti- 
mentos, que arranca de todos nós os mais sinceros 
applausos. E descubro mais ainda : uma rijeza 
adamantina de caracter, que poderá servir — em 
todas as épocas — de lição e cie exemplo. 

E porque se inspirasse, como elle próprio o 
confessa, nas tradições gloriosas da prohssão,'cu}o^ 



i 

I 



7Õ 



ministério exerce, e que aliás, desde os tempos 
memoráveis da Grécia e de Roma, é a sócia inse- 
parável das reivindicações liberaes; o eminente 
patrono perlustrou assim, o mesmo caminho que, 
com a maior abnegação, souberam trilhar — mais 
modernamente^— os Martignac, òs Sauzet, os 
Berryer, e outros luzeiros da advocacia franceza. 

E ninguém, por certo, ha de recusar seu preito 
de admiração á nobilitante attitude, assumida 
pelos intemeratos juristas, que recalcam seus senti- 
mentos pessoaes para servir desinteressadamente á 
causa da justiça, que elles reputam em perigo, da 
defeza social, que julgam compromettida, e dos 
principios, que consideram prejudicados. 

Mas, a magnanimidade de tão louvável proce- 
dimento depara com um relevo precioso no modo 
grandíloquo, e na competência mdiscutivcl, com 
que o orador trata a these constitucional, que se 
propoz defender. 

Me abalanço até a dizer — que o assumpto 
ficou, magistralmente, esgotado. 

E, circumstancia relevante com certeza, o meio 
que Ruy Barbosa escolheu para levantar de novo 
a questão, de ha muito já discutida entre os consti- 
tucionalistas, foi seguramente dos maisopportunos 
e felizes; como assas apropriado e propicio foi o 
ensejo para explanar elle suas opiniões e doctrinas. 

E' exacto — que o paiz, então, se achava empol- 
gado pela impressão de magua e de terror, que 
havia deixado n'alma nacional um gravissimo 
acontecimento, cuja lembrança ainda agora nos 
enche — a todos* — de dor e de saudades. Nos 
momentos difficeis, porém, é que o civismo deixa 
de ser um sentimento para se crystallisar num 
facto, e a coragem, que alguém accaso ostente, 
lutando contra a opinião publica, por amor apenas 
,dQ direito e da uberdade, não fica sonienos á 



7rt 



coragem do soldado, que enfrenta ás balas do 
inimigo, por effeito da simples comprehensão do 
seu dever. 

Conseguintemente, o papel que o orador assu- 
miu, mais digno, maior, mais significativo ainda 
se tornou. 

Batendo-se pela causa, que com raro cavalhei- 
rismo perfilhava, Ruy Barbosa visou — primeiro 
que tudo — provar o accordo perfeito, que existe 
entre seu senso politico e sua intuição jurídica. 

E eis ahi, sem duvida, escopo assas elevado e 
aspiração bem legitima; pois, como o próprio 
orador pondera, o «de que mais se deve temer 
neste mundo, o homem politico — é dos maus 
precedentes, dos arestos illegaes, das jurispru- 
dências liberticidas». 

Eu quizera — que os publicistas, os magistra- 
dos, os professores, a mocidade que vem surgindo 
e quer aprender, todos emfim gravassem profun- 
damente no espirito o alto critério e a profundeza 
de vistas, com que Ruy Barbosa encarece a impor- 
tância do «habeas-corpus», n'uma analyse rigoro- 
samente scientifica, e scientificamente bella. 

Porquanto, é nesse instituto, votado pelo parla- 
mento inglez sob Carlos II, que os ciaadãos 
encontram a égide para amparal-os contra o 
arbítrio, sempre funesto, e os povos a cavilha capaz 
de manter-lhes a liberdade, divina sempre. 

Que nobres ensinamentos côam pelo verbo tor- 
rencial do nosso patrício preclaro! Como borda-os 
esse insigne buriíador da phrasel 

Nem sei que se possa acrescentar algo de tole- 
rável ao elogio eloquente e meditado, proferido 
pelo orador, em homenagem ao recurso, ha 222 
annos posto ao serviço da rasão e do direito. 

De muito, sabemos nós, que o «habeas-corpusn 
é a clava irresistível, destinada a esmagar todas 



T7 



as oj^pressões e tyrannias. E sabemos também 
que, graças a esse remédio fornecido pela lei 
mesma, o mais humilde cidadão pode zombar da 
prepotência do mais alto funccionario. Sabemos, 
finalmente, que o «chabeas-corpus» é, a um só 
tempo, comporta de demasias, amuleto venerando, 
e couraça impenetrável, ao alcance de todos, 
indistinctamente. 

E por isso me parece, que seelle fosse praticado 
lealmente na França a própria revolução de 8g, 
guando não conjurada, perderia pelo menos o 
movei, que melhor a justifica perante a Historia. 

Pois bem. Calcule-se que o orador, nessa 
soberba peça a aue vou alludindo, se propoz 
explanar quasi todos aquellés conceitos, mas com 
a illustração vasta de que sóe dar provas irrecu- 
sáveis e repetidas; e servindo-se da linguagem 
castiça, que sabe primorosamente manejar. 

E então diga alguém — se ha falta comparável 
á irreverência de não percorrer de um só fôlego 
tantas paginas brilhantes, onde o illetrado encontra 
muito que aprender, e o litterato bastante que 
admirar. 

Poucas homenagens, rendidas ao direito, se 
conhece tão enthusiasticas e suggestivas, como a 
desse discurso monumental. Ouvil-o, foi banhar- 
mo-nòs em grosso jacto de luz boreal. 

E a doce sensação de certo perdura, pois ainda 
hoje — e já são passados três annos — me parece 
gue vibram aos meus ouvidos os echos de tão 
inflammado verbo, com a mesma imponência, a 
mesma energia, e o mesmo calor que o envolveram 
no recinto ao tribunal. 

De resto, a ninguém pode ser indiíferente o 
modo cuidado, com que o orador tratou da 

Suestão principal, submettida então ao julgamento 
os magistrados. 



78 



. A these sustentada é de uma relevância capital, 
mas o seu desenvolvimento nada deixou a desejar, 
cumpre confessal-o. Tanto assim que os juizes 
diviairam-se, quasi por metade, na occasião de 
interpretar o artigo constitucional em litigio. 

E quando o notável advogado cessou de falar, 
pelo auditório inteiro perpassou um frémito de 
applauso convencido, apenas abafado pela consi- 
deração do respeito, devido ao illustre areópago. 

Quanto a mim, posso muito á vontade falar 
da opinião, defendida pelo nosso operoso condis- 
cípulo, que foi também um dos mais esforçados 
collaboradores da lei fundamental da republica. 

Em um modesto livro que publiquei, commen- 
tando «A Constituição», de 24 'de Fevereiro, 
lancei estas duas linhas: «Sabe-se que algumas 
das medidas, tomadas pelo Governo clurante certo 
estado de sitio, continuaram a subsistir, ainda 
mesmo depois da amnistia concedida pelo Con- 
gresso. Por exemplo, a demissão de lente cathe- 
dratico das F^aculdades officiaes. Não me pareceu, 
entretanto, regular esse alvitre, tanto mais grave, 
quanto a demissão mesma fora já um excesso 
condemnavel, que ninguém poderia justificar com 
o nosso Estatuto fundamental, bastante claro na 
restricção, que impõe no )$ 2.'* deste Art. 80;' sem 
falar mesmo no que determina pelo Art. 74 já 
commentado». 

Matenho, ainda, a minha opinião. 

Primeiramente, nunca pude entender por outro 
modo as palavras «durante o estado de sitio», de 
que usa o legislador no referido Art. 80, 5$ 2.** 
Depois, não sei porque, na hypothese figurada, 
se ha de contrariar o apophtegma que diz : Cessada 
a causa, cessa o etfeito. 

Muito ao envez disso, tudo aconselha a que 
elle encontre aqui a consagração .mais solemne. ^ 



70 



' ' Dêsappafécida, cjiie seja, a <( causa» determi- 
nante de uma medida, excepcional ao ponto de 
autorisar a suspensão das garantias constitucio- 
naes, eu não sei porque se ha de pretender pro- 
longar-lhe os eífeitos, irritantes, especiaes, extra- 
ordiarios. 

Imagine-se, comtudo, a satisfação que senti, 

por ver — quanto o meu pensamento se ajustara 

«lo do eminente bahiano; acrescendo a circum- 

>^tancia de ter elle sido desdobrado como brilhan- 

tiismo e a elevação, que S. Ex." costuma emprestar 

ei todos os assumptos de que se occupa. 

Entretanto, está se vendo — que não obedeço 
iRgora simplesmente a uma suggestão, nem me 
<zieixo fascmar por impressões de momento, ainda 
4que felizes e gratas me tenham sido ellas. 

Desde muito, eu me hgvia pronunciado em 
í^avor da idéa, que constitue o eixo, em torno do 
^-^qual gyra a magestosa oração de Ruy Barbosa. 

E, portanto, certa parte dos applausos que lhe 
"^ ributo, e da justa admiração que me arranca, se 
^Sxplica também pela conformidade de sentir, que 
^^^ntre mim e o orador existe no tocante á questão 
^Xfc,'entilada, uma vez que é naturalíssimo se com- 
iorazer nosso espirito com a afíinidade de outros 
^tsspiritos mais cultos e disciplinados. 

Verdade é — que os julgadores a principio rcpcl- 
J^ iram a intelligencia liberal, que nós outros sempre 
^demos ao dispositivo constitucional já citado. E 
^decorreu d'ahi — que Ruy Barbosa não logrou ver 
^::oroados — desde logo — os esforços, que tão gene- 
rosamente empregara na audiência de 26 de Marco 
^e 98. 

Mas, passados poucos dias, o Supremo Tri- 
bunal Federal cantava a palinodia, reconhecendo 
— que claudicara, quando havia divergido da 



V 



80 



doctrina, cujo palladíno estrénuo fora o senador 
bahiano. 

De facto. Naquella data, o coUendo Tribunal 
decidira que «os eífeitos do estado de sitio não 
cessavam, com relação ás pessoas por elle attin- 
gidas, senão depois ae haver o Congresso tomado 
conhecimento aos actos praticados pelo presidentp 
da Republica». 

Entretanto, vinte e um dias depois, a i6 de 
Abril, o mesmo Tribunal sentenciava que «com a 
cessação do estado de sitio cessam todas as medidas 
de repressão, durante elle tomadas pelo Poder - 
executivo, se revigorando e restabelecendo todas 
as garantias individuaes pela cessação daquelle 
estado excepcional e transitório. 

Alguns outros « accordãos », como por exemplo 
o de 20 de Abril também, vieram confirmar a 
boa orientação, que o Tribunal tomou. 

Para que, porém, maior fosse a gloria de Ruy 
Barbosa, o Tribunal acabou por apoiar-se na 
própria opinião do illustre advogado e parlamen- 
tar; chegando a inserir no corpo de um desses 
c( accordãos » palavras textuaes de um traba- 
lho seu. 

Não concebo eu que mais esplendido triumpho 
podesse obter o valente campeão, tanto em pro- 
veito de seus créditos prohssionacs, como da 
justiça mesma, cujos interesses tão altivamente 
pleiteou. 

Muito bem! 

Que a consciência de Ruy Barbosa se rejubile 
diante do resultado, que seu talento, seu civismo e 
sua alta isenção conquistaram. 

Esse novo serviço, prestado á causa sacrosanta 
do direito^ recommenda seu nome ás bênçãos do 
presente e a gratidão do porvir. 



81 



Que todo brasileiro, pois, conheça e decore p 
discurso, que ahi vae mais adiante, e onde as 
scintillaçõesda eloquência se aviventam, mercê da 
attitude arrojada, que o orador assumiu. 

Que não sejam jamais esquecidos os grandes 
ensinamentos, que tão preciosos documentos 
encerram. 

Que fructifique o exemplo, dado pelo notável 
cidadão, quando acodiu pressuroso a defender as 
íórmas tutelares do direito, sem cogitar de inno- 
centes, ou culpados, uma vez que ellas a todos 
Pí^omiscuamente amparam. 

Quanto á reconsideração, que de sua primitiva 
doctrina fez o Supremo Tribunal, só posso me 
referir com os mais acalorados louvores. O Tribu- 
^^U assim procedendo, se mostrou digno de sua 
elevada missão, consciente de sua enorme respon- 
^^abilidade. 

Peço licença para terminar aqui. 

Conta Ariosto a historia de uma bella fada, 
4^^ por lei do destino estava condemnada a appa- 
^^crer, de vez em quando, transformada em vene- 
"^^^^ serpente. 

Quantos aultrajavam nessa triste metamorj^hose 

^'"^m privados para sempre de seus benehcios, 

"^^^ a quem a tratava com piedade e carinho, 

^PeíHar ae seu aspecto hediondo, cila apparecia 

^^is tarde, sob a forma de anjo que lhe era natural, 

P^^í:^ lhe seguir todos os passos, lhe augmeniar 

^^os as riquezas e venturas, e lhe conceder quer 

^^ nobres tropheus da guerra, quer as lindas 

Palmas de amor. A fada que Ariosto assim exal- 

^"^"o, bem se advinha, c a liberdade. 

, Kão maltratemos nunca a liberdade. E' nosso 

^Ver, e será tc.mbem nossa gloria. 

Continue a dispor do coestadano e amigo. 

Aristides >^ DyCillon, 

Hio de Janeiro, 12 de Dezembro de 1901. 
11 



1840 

Manuel dos Santos Martins Vallasques, Senador 
do Império pela Bahia em i835, em sua correspon- 
dência com Manuel Ignacio da Cunha e Menezes, 
Visconde do Rio Vermelho e como elle Senador 
por esta então província em 1827, relata, na inti- 
midade de longa e affcctuosa amisade, os factos 
capitães na politica perturbada daquella phase de 
nossa vida nacional. 

O periodo transitório das regências como que 

f precipitara o paiz em um cháos medonho; ás 
uctas dos partidos na capital do Império respon- 
diam as revoltas continuadamente debelladas nas 
províncias, ora do norte, ora do sul do Brasil. 

O exercito convertido em facção politica 
imperava, consciente da força que lhe deram as 
victorias facilmente obtidas em 1821 e em i83i, 
e estendera sua influencia té enfrentar-se com a 
indomável energia de Feijó, Ministro da Justiça 
do Gabinete de 16 de Julho de i83i. 

Si na Constituinte brasileira, onde a Bahia era 
representada pelos vultos illustres de Silva Lisboa, 
Carvalho e Mello, Montezuma, Costa Carvalho, 
Galvão, Araújo Guimarães, Carneiro de Campos, 
Ferreira França, Miguel Calmon, Brant Pontes e 
Couto Ferraz, os partidos não se degladiavam, 
porque um único pensamento dirigia então a repre- 
sentação nacional, não deu-se o mesmo nas succes- 
sivas assembléas em cujo seio vemos a discórdia 
surgir entre os membros dos partidos políticos. 
Kssas luctas travadas no Parlamento repercutiam 
no espirito publico, e a imprensa, obediente a este 
ou áquelle grupo, dirigia a opinião, fomentava 
paixões e provocava distúrbios. 



84 



N'((A Nova Luz Brasileira» no «Exaltado» e 
no «Jurujuba», o partido liberal exigia reformas 
continuas que tivessem cunho verdadeiramente 
democrático proclamadas pelo povo, sciente do 
direito que lhe dera a revolução; o partido mode- 
rado, porém, batia-se, na a Aurora», a cuja frente 
estava a penna incomparável de Kvaristoda Veiga, 
no (( Independente » e na « Astréa », pela victoria da 
lei, conferindo a uma constituinte o direito de 
reformar a constituialo do império. 

Iam além as conspirações e as luctas politicas; 
sociedades secretas, centros perigosos de aiscussões 
e de não veladas ambições, organisaram-se na 
capital e somente á energia, á actividade, á largueza 
de vistas de Feijó, cadimo na arte de governar os 
homens, se deve o triumpho constante e inaba- 
lável da lei, do direito, e da autoridade suprema 
do Governo. 

Causas múltiplas, desafeições creadas pelos 
governos regenciaes, motivadas na sua maioria 
pela politica enérgica e intransigente de Feijó, 
deram com seu governo em terra e Pedro de 
Araújo Lima, depois Marque/ de Olinda, substi- 
tuiu-o n*aquelle posto que pouco deveria occupar. 
A nação estava cançada das regências. 

As luctas renovavam-s2 em varias Provincias; 
o Rio Grande do Sul tentava sacudir o jugo, 
tornando-se republica independente; o Pará via-se 
dilacerado por commoções intestinas, e na Bahia, 
claramente, firmemente, a revolução de iSSy 
estampa em seu Programma a independência da 
provincia emquanto durasse a minoridade do 
imperador. 

Todos esses factos, todos os descontentamentos, 
todas as ambições impellem S. Paulo, ou antes 
os seus illustres Andradas a levantar no parlamento 
a questão que, vencedora, seria a gloria e o poder 



85 



para uns, e o anniquillamento para muitos. 
Debaixo desse aspecto doloroso surgiu o anno de 
1840. 

Em 3 de Maio a representação nacional reunida 
no senado ouviu a fala do throno; a resposta da 
Gamara foi o primeiro passo para a lucta. Um 
período, novidade nos estylos parlamentares, 
prendeu a attenção dopaiz; a Gamara promettia 
occupar-se de vários assumptos, c( vendo com 
prazer approximar-se a maioriaadedo Imperador». 

E dias depois com a conni vencia de D. Pedro II, 
íi proposta que devia declaral-o maior era apresen- 
tada no Senado pelo Sr. Hollanda Gavalcanti. 

E' a este facto de tão grande importância de 
nossa historia politica que se refere o Senador 
Tallasques na carta que transcrevo: 

Exm." Am.^ e Gollega Sr. Visconde. 

Pelo Hollanda foi no Senado apresentado um 
projecto declarando maior o Imperador: hoje 
entrou em i.' discussão4 e porque ninguém falasse, 
largou a Presidência o Sr. de Paranaguá e falou a 
íavor; ninguém mais pediu a palavra; posto a 
^•otos cahiu o projecto por mais dois votos; eis os 
votantes: 

Pró: M. de Paranaguá, M. da Palma, Vergueiro, 

Hollanda, M. Gaetano, Paula e Albuquerque, 

Lima e Silva, Saturnino, Gonde de Lages, Alencar, 

Jardim, Ferreira de Mello, Manuel Ignacio Souza, 

Costa Ferreira, Paes de Andrade e Francisco de 

Paula Gavalcanti. 

Gontra: Oliveira, Vallasques, Paraizo, V. da 
Pedra Branca, Gassiano, Alves Branco, Gama, 
Kvangelista, M. de xMaricá, V. de Gongonhas. 
Marcos António, Rodrigues de Andrade, António 
Augusto, Araújo Vianna, Patrício, Gunha Vascon- 
cellos, Gameiro de Gampos e Nabuco. 



v 



8<; 



Dos jornaes saberá das noticias do sul, que são 
favoráveis ú causa Imperial; mesmo na campanha 
ou Campos do Rio Grande já andam guerrilhas 
ou bandos de tropas contra os rebeldes; é ver- 
dade que os rebeldes tomarão outra vez a compa- 
nhia, porém tiveram perda. 

Do amigo obrigado. — Vallasql-es. 

Rio, 20 de Maio de 1840. 

Essa questão, porém, concretisava uma bem 
grande aspiração para fenecer logo ao primeiro 
embate. 

António Carlos Ribeiro de And rada Machado 
e Silva, a figura mais valente e o talento mais 
tempestuoso dessa phase de nossa historia parla- 
mentar, na sessão de 21 de Julho, na Camará, 
apresenta idêntico projecto e provoca renhido 
debate terminado pela concessão da urgência 
psdida para a sua discussão. 

Nesse Ínterim a regência, assignando o decreto 
de adiamento das Camarás, rompeu o dique que 
ainda continha as paixões e as ambições das 
minorias das duas casas do parlamento. 

Alvares xMachado, António Carlos, Martim 
Francisco e outros deputados no auge do espanto 
e da indignação, prorompem em vehem^ntes 
insultos contra a regência inconstitucional ; António 
Carlos pronuncia a celebre phrase que deveria 
dar-lhe o ministério pouco depois: (cQuem é 
patriola e brasileiro saia commigo para o senado, 
abandonemos essa camará prostituída»! 

No Senado, deputados e povo, convidam ao 
illustre Marquez de Paranaguá a assumir a presi- 
dência d^ssa sessão única em nossa historia. 

Uma commissão, composta de António Carlos, 
Vergueiro, Marquez de Lages, Alencar, HoUanda 
Cavalcanti, Martim Francisco e Montezuma, é 



/ 



87 



^'i>»-iadaa S. Christovão ao jovcn Imperador para 

«J^ici sem demora empunhe as rédeas do governo. 

^ - • > ncordou D. Pedro II e no dia 23 o Marquez de 

í ^^11 ranaguá, de pé, acclamado pelos deputados, 

•*^^-^ n adores e povo, pronuncia as palavras seguin- 

^^-^>< : ft Ku, como orgam da representação nacional, 

^ *^^ assembléa geral, declaro desde já maior á S. 

-^'^ - Imperial o Sr. D. Pedro II, e no pleno exer- 

^ ' ^:' io dos seus direitos constitucionaes». 

A's 3 e meia horas desse dia de incomparável 
^ ''^'í=i dição, o Imperador comparecia no seio do 
F^ ^"^ í^la mento e prestava o juramento que determi- 
'"^ '^^ ^a a Constituição. 

K terminou assim a lucta mais notável que tem 
*^ ^^ "V- ido no parlamento brasileiro. 



 ^Lh\ 



OCÒ\ 



Exploração do Mucury e Geqoitiohooha 

(COMARCAS DECARAVELLAS E PORTO SEGURO) 




lAJANDo pelos sertões entre as duas ultimas 
Comarcas do Sul desta Província e o Norte 
da de Minas Geraes com o fim de colher dados que 
ponhão o Governo ao alcance de mais conveniente- 
mente curar dos interesses materiaes das mesmas 
Comarcas, muito árdua teria sido a minha com- 
missão, se se tratasse de uma região povoada, onde 
a civilisação tivesse estreitado o circulo, dentro 
do qual pôde uma intelligencia mediocre propor 
melhoramentos. Em um paiz sem população 
ainda, cheio de recursos naturaes, onde apparecem 
apenas signaes de vida em alguns pontos desta- 
cados, a missão do administrador se limita ao 
estudo das posições relativas doestes diversos 
pontos, d'esses mesmos recursos naturaes, e a 
d'elles tirar partido para pôr em relação entre si 
esses germens de vida, ae modo que esta se vá 
propagando pouco e pouco pelos intervallos, e 
assim se vão estabelecendo as grandes artérias, 
d^onde naturalmente partem depois as ramifi- 
cações que formão o detalhe da economia de um 
paiz em prosperidade. He aqui que comecão os 
empenhos da arte apurada, os recursos das sciencias 
do engenheiro e do administrador são então postos 
á prova para o engrandecimento e aperfeiçoamento 
da civilisação do paiz. 

As povoações das Comarcas do Sul da Pro- 
víncia aefinháo ; a falta de uma policia que garanta 
a segurança individual, e que tome contas a 
centenares de indivíduos do máo emprego que 

ÍZ 



90 



fazem do seu tempo, a corrupção dos costumes de 
que he mãi fecunda a pratica do processo das 
eleições, darão cabo d'ellas, se o Governo, empe- 
nhando-se em reprimir os abusos que as flagellão, 
ao mesmo tempo não se apressa em pôl-as em 
relação com a populosa Provincia de Minas, de 
que estão separadas por uma extensa banda de 
terreno admiravelmente susceptivel de proveitosa 
cultura, e abundante de productos naturaes de 
fácil exploração, mas inteiramente abandonado a 
meia dúzia de tribus mingoadas de botocudos, que 
fazem guerra de extcrminio ao ousado industrioso 

ãue se aventura a entranhar-se um pouco, tanto 
a parte da Provincia de Minas, como da nossa, 
em busca de tirar partido do que tão abundante- 
mente alli offerece a natureza. 

Proponho-mepois, n'esta breve memoria expli- 
cativa dos mappas que fazem o objecto dos 
trabalhos da Commissão que tive a honra de 
dirigir: i." dar idéa do estado material das nossas 
povoações das Comarcas de Caravellas e Porto 
Seguro, assim como da parte da Provincia de 
Minas que percorri e que corresponde ao centro 
das mesmas Comarcas: 2." comparar a navegabili- 
dade do Mucury com a do (Jequitinhonha : 3.** 
propor o que mais urgente me parece no intuito 
de estabelecer e facilitar communicações entre as 
povoações da costa e a industriosa e populosa 
Provincia de Minas. 

\a intima convicção de que a primeira necessi- 
dade material das nossas povoações em decadência 
he estabelecer relações com um centro já povoado 
por meio de vias de communicação, não direi, que 
encurtem as distancias, mas queponhão um termo 
ao infinito que as separa, tirando partido do que 
nos otferece a pura natureza, e mesmo estabele- 
cendo algumas picadas pouco dispendiosas por 
onde os emprehendedorcs mais ousados possão 



91 



conduzir seus géneros á costa e assim animem os 
mais tímidos, não tenho a vaidade de acreditar 
que proponho o que ha de melhor; pelo contrario 
estou persuadido que uma viagem de exploração 
de quatro mezes, luctando com mnumeras difficul- 
dades, muito deixa a desejar, além de que é claro 
que, para o traçamento de cada uma das vias de 
communicação propostas, são indispensáveis explo- 
rações especiaes, que muito podem concorrer para 
alteração de um plano geral concebido cm vista 
de um conjuncto, cujo detalhe se não conhece 
ainda bem. 

Entreosparallelosde 15/40' e 18." 7', mais ou 

rnenos, as Comarcas de Caravellas e Porto Seguro 

não são as únicas que constituem o que se pôde 

chamar Comarcas do Sul da Provincia; portanto 

Os trabalhos, que ora tenho a honra de apresentar 

a V. Ex., comprehendendo unicamente a topo- 

f^raphia d^estas Comarcas e de parte da Comarca 

cio Gequitinhonha, na Provincia de Minas Geraes, 

não poderão plenamente satisfazer as vistas de 

V. Ex., quando em suas instrucções ordena uma 

v-iagem ás Comarcas do Sul, no intuito de infor- 

rnal-o sobre as suas mais urgentes necessidades 

tnateriaes. V. Ex. porém comprehende a impos- 

2?^ibilidade de {percorrer maior extensão com pro- 

Ar-eito, sem um intcrvallo de repouzo, que permitta, 

rião somente reganhar as forças perdidas em 

jornadas de tantos solfrimentos, senão também a 

ciigestão de notas que, com o tempo, se vão 

upagando e perdendo. V. Ex. sabe também que a 

lacuna considerável que se encontra no mappa 

f»eral da exploração, em não ter sido estudado o 

liio Pardo, que talvez possa ser aproveitado em 

meio de communicação com a Provincia de Minas, 

foi devida á grande enfermidade de que foi victima 

o meu companheiro de Commissão; desgraça que 

me reteve quasi dous mezes na Comarca de Porto 



92 



Seguro sem que me fosse possível fazer longa 
ausência, qual a que demandaria o exame do 
mesmo Rio Pardo. 

Tendo assim traçado os limites topographicos 
das informações que tenho de submetter á consi- 
deração de V. Ex., vou dizer o que sei a respeito 
da região percorrida, referindo-me aos mapças 
topographicos que, com esta memoria ou relatório, 
serão presentes a V. Ex. 

He facto attestado pela experiência que, para 
que as povoações de uma costa qualquer cheguem 
a estado de prosperidade, he indispensável, pelo 
menos, uma doestas duas condições: i.* um centro 
povoado a cujos productos sirvão de entreposto; 
2/ um certo gráo de desenvolvimento na inaustria 
manufactureira própria que por si só possa fazer o 
objecto de uma considerável exportação. Ora a 
ultima destas condições suppõe um gráo de civili- 
sacão, de que infelizmente estamos ainda muito 
longe; entretanto que não se pode duvidar que 
a industria agricola he de facil estabelecimento 
mesmo nos paizes novos, mormente quando, como 
entre nós acontece, a natureza do terreno nada 
deixa a desejar para o seo rápido progresso. 

Parece que a natureza destinou as costas exclu- 
sivamente para lugares de depósitos onde se 
eífectuem as permutas entre os diversos paizes: os 
seos habitantes, fiados no peixe que lhes fornece 
o mar, habituados a vida do mar, tem muito pouca 
coragem para se entranharem pelo centro e culti- 
varem as terras. Sem o movimento de uma marinha 
commercial que os occupe e empregue, única 
industria para que elles têm suas faculdades apura- 
das, definhão, longe de prosperarem. Na grande 
extensão que percorri no terrirorio do Pará, o 
estado selvagem me parece menos bruto e desgra- 
çado, a medida que me afastava das margens dos 



i)3 



rios piscosos, e dos lugares abundantes de caça; 
esse tal ou qual bem estar do selvagem me pare- 
ceo menos miserável nas cabeceiras dos Rios 
Surumú, e Coatin, dous elementos insignificantes 
do Rio Branco. AUi encontrei uma população 
numerosa, algumas plantações regulares de canna, 
milho, mandioca e outros legumes, e até algumas 
flores de nossos jardins plantadas na frente de uma 
choupana ! Pode-se talvez estabelecer que a popu- 
lação do centro he o mais justo thermometro da 
prosperidade da costa que lhe serve de deposito 
commercial. 

Estes princípios explicão satisfactoriamente, 
com a diminuição dos braços escravos, a deca- 
dência em que vão algumas das povoações das 
C^omarcas de Caravellas e Porto Seguro, e o estado 
c^stacionario em que vegetão outras. Exceptuando 
^3k cultura do café teita por mais de dous mil captivos 
cdos fazendeiros estrangeiros que, ha poucos annos, 
2^e têm estabelecido, com o titulo de Colónia 
Leopoldina, nas margens do rio Peruhipe, bem 
poucas c limitadas são as plantações das margens 
cdos rios d'aquellas Comarcas. Passarei em revista 
X-ima por uma as suas povoações, afim de vêr 
se mais me aproximo de uma idéa justa que 
possa a V. Ex. cabalmente inteirar do sco estado 
material. 



COMARCA DE CARAVELLAS 



«Villa de São José de Porto Alegre». Situada 
^ niargem esquerda do Rio Mucury, junto de sua 



!l4 



fóz, no pararellode 18/ 6/ 43.", (1) está esta viUa 
reduzida a quarenta ranchos de palha mal arran- 
jados e cinco ou seis cobertos de telha, e uma igreja 
em construcção, cujo aspecto se confunde um 
pouco com o de um edifício em ruina, e por isso 
muito em harmonia com o restante da povoação. 
A população de todo o seo districto não chegará a 
25o almas, depois da dissolução da Colónia, que 
alli fazia a sua residência. Duas causas concor- 
rem simultaneamente contra a prosperidade do 
Mucury. A indolência e hábitos de vida que 
desvião seos habitantes de um trabalho regular, e 
a imprevidência no consumo da pouca provisão 

(I) Âs latitudes são aqui delcrmioadas por series de alturas do 
Sol tomadas de manhã, quanto foi possível, junto do primeiro verti- 
cal, combinadas com outras tantas series lomuda^ depois da passagem, 
tão perto do meridiano quanto pcrmillia o instrumento, que foi 
sempre um Si^xlante; com excepção das alturas tomadas na villa 
de S. José de Porto Alegre, em que me servi de um Tbeodolito, quo 
me não dava segundos. Por aqui se vi> que, sendo o tempo appa • 
rente das alturas que entrão no calculo da lalitude, delerm*uado, 
como já disse em outra parte, por essas mesmas alturas, o resul- 
tado das minhas ol serva(;r)es deve e^fnr aíTeclado dos defeitos que 
podem vir da impropriedade do momento em que he determinado o 
tempo verdadeno da segunda observação. Mas esses defeitos, 
quaesquer que elles sojào, são muito menos sensíveis que os que 
vém dl susceplibilidade do relógio em variar de marcha segundo as 
differentes posiyOos em que pode ser transportado ou estar coilo- 
cado, e segundo o estado Thermomctrico da alhmosphera. Oquasi 
accordo entre as minhas latitudes com as do Barão de Jloussjn, 
desde que tive occasiâode observar em pontos por elle determinados, 
me segura nesta persuasão. 

As series tomaJas em Porto Alegre em 8 e 15 de Maio de 1849 
me derâo os seguintes elementos para os cálculos de latitude, que 
fornecerão a media que se acha no texto: 

8 de Maio — Theodolilo — Barómetro — Tbermometro. 

Manhfi 8 •' 17."' 20.", 40. l. v. . . Dist. zenilh. corr, GS." G.' 24", 2\ . 
Tarde 13. 7 25, 65. t. v. . . • « » —38. 58. 35, 60. 

15 de Maio — Theodolilo — Barómetro — Tbermometro. 
Manhã 8 "35.'" 1.% 52. l. v. . . Dist. zenith. corr. 62." 27.' 40", 82. 
Tarde 13. 24, 48, 81. t. v... » » « 42. 29. 45, 82. 
A media afa.sta-.se das latitudes calculdas de O**, 9. 



95 



que lhes vêm de sua mescjuinha lavoura, os fazem 
persuadir-se que lhes he impossível viver com os 
únicos productos da terra, isto he, sem peixe; 
daqui o receio de se afastarem do mar. Por outra 
parte, a barbaridade do gentio que frecjuenta as 
margens do Mucury faria recuar o mais ousado 
que tentasse internar-se um pouco. Estão bem 
presentes os horrores commettidos por estes brutos 
com a família do fallecido Violas, que muitas 
vezes os alimentava, as perseguições feitas a muitos 
outros, e o facto recentíssimo do joven Vital, 
Secretario da Gamara de Porto Alegre, que se 
suppõe ter sido devorado. 

Houve um tempo cm que alguma exportação 
SC fazia no Mucury, seo porto era frequentado por 
uma ou outra embarcação de pequeno porte; 
porém hoje he impossível arranjar-se alli carrega- 
mento para uma lancha. Durante a minha demora 
n^aquelle distrícto procurei mostrar aosseos habi- 
tantes a possibilidade de, por meio de associações 
entre os pequenos plantadores, completar-se o 
carregamento de uma ou duas lanchas por anno; 
baldados porém forão os meos esforços: os que 
parecião comprehender-me oppunhão como diffi- 
culdade o habito commum e pernicioso que tem 
muita d'essa gente de pouco se importar com o 
cumprimento de seos tratos; outros ouvião-me 
com tanta índííFerença que algumas vezes cheguei 
a persuadir-me que lhes estava dizendo alguma 
heresia. 

Hoje toda industria do Mucury está reduzida 
á fabricação de uma ou duas canoas por anno, por 
algum especulador de fora, que n^aquelle trabalho 
emprega os habitantes do lugar, pagando-lhes em 
géneros que leva comsigo. Por aqui pôde V'. Ex. 
ajuisar do estado de miséria a que está redusído 
aquelle distrícto. 



s 



9Í) 



«Villas de Viçosa e Caravcllas». As condições 
topographicas doestas povoações me não permittem 
separal-as. A primeira situada á margem direita 
do Peruhipe, a meia legoa de sua fóz, gozaria das 
vantagens de entreposto dos productos que pelo 
seo no descem da Colónia Leopoldina, se não 
estivesse em relação com sua poderosa rival, Cara- 
vcllas, por um excellente canal natural de quatro 
legoas, mais ou menos, por onde descem muitas 
embarcações do Peruhipe, a fazerem sua sabida 
ao mar pela sua barra, que he superior a de Viçosa, 
mormente quando o destino das embarcações he 
para portos ao Norte da Comarca. Por outra parte, 
os fazendeiros do Peruhipe, recebendo directa- 
mente do Rio de Janeiro ou da Bahia os géneros 
do seo consumo e de suas fazendas, em troca de 
seos productos de exportação que também envião 
directamente, ou abastecendo-se de suas necessi- 
dades mais urgentes, em caso de demora de suas 
receitas, na viíla de Caravellas por ser mercado 
mais abundante. Viçosa fica redusida a percepção 
dos impostos em favor do fisco, e por esta forma 
nenhum impulso recebe dos opulentos habitantes 
do seo pequeno sertão para o movimento commer- 
cial que, no caso contrario, produsiria o augmento 
do material da povoação. Assim o estado da Villa 
Viçosa não he prospero, pareceo-me estacionário, 
e o será em quanto as circumstancias concorrerem 
da forma por que acabo de expor. A sua população 
chegará proximamente a i3(X) almas, e a planta 
respectiva dará a V. Ex. idéa do seo estado 
material, 

Caravellas não tem sertão: tanto vale a falta de 
um rio que afastando-se da costa ponha seos 
mingoados plantadores ao alcance das terras 
virgens do centro, únicas cultiváveis no estado 
actual da industria agricola no nosso paiz. Seo rio, 
distante de cuja fóz está situada, na margem 



í 



97 



esquerda, no paralello de 17," 40/ Si" (i), não 
passa de um bello canal de esgoto, em que se 
escoão as agoasdas baixas que, em pouca distancia 
para o centro, se notão entre os rios Peruhipe e 
Itahen ou Alcobaça, como se pôde vêr no mappa 
especial da Comarca; por isso as suas agoas nunca 
deixão de ser extremamente salgadas. 

Sem sertão, como acabo de dizer, sem industria 
alguma manufactureira, apesar de sua excellente 
barra, não teria sustentado o gráo de importância, 

aue a colloca acima de todas as povoações das 
uas ultimas Comarcas do Sul, se não fosse o 
canal de Viçosa. Entretanto, sem considerar trez 
ou quatro edifícios novos, construidos em melhor 
gosto do que o restante da povoação que he 
bastante antiga, não poderei assegurar que a Villa 
de Caravellas tenha progredido no seo material, 
em vista do quadro comparativo da exportação 
feita por sua barra durante os annos de 1845, 
1846, 1847 ^ Í848, que tenho a honra de submetter 
é consideração de V. F^x. Vê-se ahi que o movi- 
mento commercial do seo porto não seguio uma 
marcha progressiva nos 4 annos contemplados; 



(I) Tendo-me sido difficil voltar a Caravellas dopois que recebi 
ordem de seguir para Minas, apenas tive. para calcular a latitude 
daquelle ponlo, as series de aUuras necessárias para um só calculo, 
que tomei por occasiâo de uma chegada que alli dei para expedir 
ao Governo o resultado dos trabalho^ da Commissílo sobre a exlincta 
Colónia do Mucury. A esperança de ainda voUar áquella povoação 
c a escacez com que se deixava ver o Sol, no dia que destinei ás 
observações, fizerão com que eu não rep(»tisse as minhas series 
da<juelle dia. Comtudo não deixa de me merecer confiança esta 
latitude, em vista do acrordo que ella me apresentou com o detalhe 
da Topographia feito a bússola e referido ã um ponto visinho e 
conhecido. 

Caravellas (junto ã igreja) 30 de Abril de 1849— Sextante. 

Manhã S^ 4-." 11/ 45. t. v. . . Dist. zenilh. corr. 66. 36. 12, 80. 
Tarde 14. 50. 9. 00. t v,.. » . » 53. 4. 25, «. 

X3 



98 



devendo notar-se cjue, de toda esta exportação, 
apenas alguma farinha e coco he producção do 
districto de Caravellas. Estimo a sua população 
em 2.600 almas, e a planta respectiva mostrará a 
V. Ex. a extensão do seo material. 

Doesta idéa approximada das Villas de Cara- 
vellas e Viçosa, cujo complemento se encontrará 
nos mappas especiaes, se vê que esta ultima 
povoação, apezar de ter u m pequeno sertão povoado 
de cerca de 2.000 almas empregadas na lavoura, 
produsindo 60.000 arrobas de café, além de outros 
géneros de importância secundaria, conserva-se 
em estado estacionário, e que Caravellas, usur- 
pando lhe quasi todas as vantagens de entreposto, 
por causa da melhoria de sua terra, nem por isso 
tem progredido. Demoremo-nos um pouco na 
apreciação das causas que para estes phenomenos 
concorrem, afim de que não pareça compromettido 
o principio que acima estabelecemos, isto he, que 
os pontos do littoral de qualquer paiz só podem 
prosperar, ou por grande desenvolvimento de 
industria manufactureira, ou pela circumstancia de 
servir de entreposto aos productos de um centro 
populoso. 

A importação directa que fazem os fazendeiros 
do Peruhipc dos géneros do seo consumo, a con- 
veniência de fazerem subir as embarcações até o 
ultimo ponto ( S. José ) onde o rio permitte, para o 
carregamento do café, o melhor pé de mercado de 
Caravellas, e a commodidade de sua barra, são 
circumstancias, que concorrem simultaneamente 
para o isolamento e falta de progresso de Viçosa. 

A mesma importação directa para a Colónia 
Leopoldina, dV)nde resulta que he extremamente 
insignificante e casual o provimento feito no mer- 
cado de Caravellas por aquelles fazendeiros, o 
decrescimento da agricultura no districto e mesmo 
no de Viçosa, d'onde em grande porção concorrião 



99 



os productos para Caravellas, já por grande dimi- 
nuição nos braços productivos, que são quasi exclu- 
sivamente os escravos, já porque a escacez das 
terras tem afastado muitos plantadores para os 
sertões de Alcobaça, são causas do pouco ou 
nenhum progresso cie Caravellas. 

Mas, convindo remover estes obstáculos ao 
progresso material doestas duas j:^ovoações, seria 
de equidade constranger os fazendeiros do Peruhipe 
a se proverem das necessidades de seo consumo 
nos mercados de Caravellas e Viçosa, contra a 
vantagem de suas posições respectivas, e de suas 
relações intimas que lhes permittem associarem-se 
para se fornecerem mais a seo gosto nos grandes 
mercados do Rio e da Bahia ? Não por certo ; porque 
Qs suas necessidades estão acima do sortimento, 
oue pode ter qualquer casa de commercio d'aquellas 
duas povoações, e se tornaria isto um verdadeiro 
"vexame contra aquelles proprietários. Seria de 
proveito e justiça que se impedisse a subida das 
embarcações até São José, a tazer alli seo carrega- 
mento, como houve quem o pensasse ? Não, porque 
seria isto augmentar o risco do commercio e por 
consequência pòr entraves ao seo desenvolvi- 
mento. O fazendeiro, que tivesse de descer com 
suas canoas carregadas de S. José ao Porto de 
Viçosa, teria de percorrer o caminho de i6 milhas 
mais ou menos, necessitaria de maior pessoal, 
mais tempo, e não conseguiria evitar o augmento 
de probabilidade de accidentes. Os justos deveres 
da authoridade publica não lhe permittem tolher 
o desenvolvimento de qualquer ramo de riqueza 
no intuito de fazer progredir artificialmente uma 
povoação, que não preenche as condições reque- 
ridas por e para esse mesmo desenvolvimento, 
suas vistas e seos empenhos se devem limitar, em 
matéria de industria, a comprchender as tendên- 
cias e facilitar sua realisação, e quando muito 
proteger aquellas indicações que evidentemente se 



itío 



coadunão com os interesses dá mesma industria, e 
cjue só pelo seo atrazo se não tenhão ainda mani- 
testado. 

Em quanto a exportação do districto se limitava 
aos productos dos pequenos cultivadores das visi- 
nhanças da costa, Viçosa era o deposito mais 
conveniente para o carregamento das embarcações; 
mas hoje que o rio Peruhipe reúne em estreito 
limite uma massa de cultivadores produzindo 
sufíicientemente para occupar algumas embar- 
cações no seo commercio, Viçosa perdeo toda a sua 
propriedade de deposito para este eífeito. 

As necessidades commerciaes indicão hoje S. 
José como ponto mais conveniente ; convém pois 
que o Governo, longe de embaraçar, proteja o 
estabelecimento d'aquella povoação. 

Vemos pois que Viçosa e Caravellas, tendo por 
única fonte importante de riqueza, que as alimenta, 
por assim dizer, os fazendeiros do Peruhipe, não 
são susceptíveis de progresso senão tanto quanto 
crescer o numero destes povoadores do rio. Ora, 
hoje não he permittido duvidar do quanto he 
precária a um paiz a riqueza produzida pela 
escravatura, mormente quando se trata de pôr 
termo a este infame commercio. A escravatura 
inutilisa os braços livres, já creando e sustentando 
os prejuisos sob que diíinha a nossa população 
livre, já afastando-a de muitos misteres epor esta 
forma reduzindo os seos recursos para a existência, 
circumstancia única que explica a falta de progresso 
de nossa população. Não preciso sair dos mesmos 
districtos de Caravellas e Viçosa para mostrar um 
exemplo. Com eífeito, he aos productos da escra- 
vatura que devem estas povoações o pé de prospe- 
ridade material a que chegarão ; depois da abolição, 
esta tal ou qual diíiiculdadcque forão encontrando 
os plantadores em substituírem os braços inutili- 
sados ou perdidos, foi os desanimando e atrazando, 



101 



ã piònto de que não he hoje possível ás mesmas 
povoações conservarem a cathegoria a que che- 
garão, apezar da exportação de 60.000 arrobas de 
café que faz pelos seos portos a chamada Colónia 
Leopoldina, com seos 2.000 captivos. 

E pois, se passa a ser uma realidade, como eu 
acredito, a supressão da escravatura, não sei qual 
será a sorte a estas povoações, se o Governo não 
adoptar medidas que as ponhão em relação com o 
centro populoso de Minas Geraes, de modo que 
esta gente industriosa venha descendo a povoar 
os nossos sertões, onde de certo achará terras mais 
vantajosas para a agricultura, do que a que por 
aquelía parte da Província se encontra, e onde não 
lhe faltarão excellentes portos para a exportação 
de seos productos, do que está actualmente 
privada. 

« Villa d^Alcobaça». He a terceira povoação da 
Comarca, a contarão Sul, cinco legoas ao Norte de 
Caravellas, com i.5oo almas proximamente em 
todo o seo districto. A sua planta, bem que reduzida 
a escala do plano especial da Comarca, serve com 
tudo para dar uma idéa approximada da impor- 
tância do seo material. Situada á margem esquerda 
do rio Itahen, junto de sua foz, he, nas actuaes 
circumstancias, o justo entreposto dos productos 
das fertilissimas margens do seo rio, cuja expor- 
tação, pela maior parte feita por braços captivos, 
deVe algum desenvolvimento a emigração dos 
antigos plantadores do districto de Caravelías, que, 
por falta de terras cultiváveis, d'alli se retirarão. 

O quadro comparativo de sua exportação 
durante os annos cie 1845, 1846, 1847 ^ ^^48 não 
attestão uma marcha progressiva na sua riqueza, e 
nada vejo que possa fazer esperar melhoramento 
algum, a não serem as relações que, com o centro, 
possa o Governo estabelecer por meio de commu- 
nicações com a Província de Minas; pelo contrario. 



U)2 



sendo os productos devidos, pela maior parte, á 
escravatura, naturalmente tendem a diminuir com 
o fallecimento dos braços productores. A lotação 
das embarcações que fazem a sua exportação darão 
a V. Ex. idéa das vantagens de sua barra, que sem 
duvida não he das peiores. 

« Villa do Prado». He a ultima povoação da 
Comarca digna de nota. Sua população montará a 
Soo ou 35o almas, e o quadro comparativo de sua 
exportação, durante os 4 annos de 1845, 1846, 
1847 ^ ^^4^ completa a idéa que eu poderia dar a 
V. Ex. do seo progresso material. Os seos cultiva- 
dores também têm sido victimas das incursões dos 
selvagens, e por isso, como os habitantes do 
Mucury, não se alongão muito da costa. Também 
não são livres em geral os braços empregados na 
lavoura. 

Eis o que posso informar a V. Ex. a respeito do 
material da Comarca de Caravellas, acrescentando 

3ue todas as vias de communicação, entre as 
i versas povoações, se limitão as que oííerece a 
costa na baixa mar, e á alguns trilhos em zig-zag 
que obrigão o individuo a andar o dobro do caminho 
que precisa fazer. 

COMARCA DE PORTO SEGURO 

Não são menos sensiveis os cffcitos da falta de 
uma população central e da diminuição dos braços 
escravos a esta Comarca. A escravatura, ao passo 
que alguma cousa produzio para elevar as suas 
povoações a certo gráode prosperidade, inutilisou 
de tal maneira os braços livres que hoje vão em 
sensível decadência com a falta de captivos. 

((Villa de Porto Seguro». A sua povoação mais 
importante, a Villa de Porto Seguro, está hoje 
reduzida ao commercio que pôde alimentar a pesca 
das garòpas, em que tem empregadas cincoenta e 



103 



tantas lanchas, e a construcção de uma ou duas 
embarcações pequenas por anno; por isso já quasi 
toda ella se está mudando para o lugar denomi- 
nado «Pontinha», junto de sua barra. A lavoura 
do seo districto, cuja população se pôde estimar 
em 2. Soo almas, não produz a farinha necessária 
para o seo sustento. A sua barra, uma das melhores 
da costa da Comarca, tem perdido e tende a perder 
completamente o seo fundo pela indifferença com 
que se consentem que particulares vão tirar no 
recifç, que, a semelnança de Pernambuco, forma 
o porto, as pedras que necessitão para suas 
construcções. Grande parte das agoas do fluxo e 
refluxo fazendo sua entrada por brexas assim 
abertas na muralha natural do porto, o movimento 
no canal da entrada das embarcações torna-se 
menos activo, e d'ahi o alteamento do seo fundo 
até completa obstrucção, se se continuar a facilitar 
o movimento das agoas por outras partes. 

Não deixarei a Villa de Porto Seguro sem 
chamar a attenção de V. Ex. sobre a necessidade 
de fazer reparar o edifício que alli serve de cadeia 
e camará municipal. Com a despesa de dous a trez 
contos de réis poderá elle ser completamente 
restaurado, entretanto que se, d'aqui a alguns 
annos, quando elle tiver cohido cm ruina total, e 
o Governo tiver de fazer outro, não o conseguirá, 
igual ao actual, com a despesa de seis a oito contos 
de réis; não tanto pela natureza da construcção, 
como pela singular anomalia, que alli se nota nos 
trabalhos públicos, como já tive a honra de explicar 
á Presidência, informando um requerimento da 
Camará Municipal de Belmonte, que pedia o ajuste 
de contas com a Ihesouraria Provincial, e 
augmento de consignação para a conclusão do 
edifício da cadeia da VÍlla. V. Ex. me permittirá 
transcrever aqui este mesmo documento, que me 
dispensará também de fallar n'este edifício publico, 



104 



quando tiver de passar em revista o material da 
Viila de Belmonte. 

Illm. e Exm, Sr. — V. Ex. me ordena que 
informe o que me occorrer e poder servir de escla- 
recimento ás contas apresentadas á Thesouraria 
pela camará Municipal de Belmonte, afim de lhe 
ser por ella abonado o conto de réis que esta 
despendeo na parte, que está construida, do edifício 
que deve servir para prisão, e casa de suas sessões 
e das do Jury. Empregarei todo o empenho em 
esclarecer alguma cousa; porém desde já devo 
dizer que, não tendo jamais entrado no exame da 
maneira porque os ditierentes depositários d'aquella 
quantia gerião a sua distribuição, não me he 
possivel dar informação alguma, que tenda a fazer 
aesapparecer as justas irregularidades que autho- 
risão a Thesouraria a recusal-as. Mas as contas 
irregulares, como estão, denuncião irregularidades 
ou extravios dos dinheiros confiados áquella corpo- 
ração? Eis a questão a que parece estar reduzido 
todo este negocio, a vista da declaração que faz a 
Gamara da impossibilidade em que se acha de 
fornecer mais esclarecimento algum, e eis sobre 
que eu poderei talvez adiantar alguma idéa. 

A Gamara Municipal de Belmonte, declarando 
que lhe era impossivel regularisar mais as suas 
contas, disse uma verdade aue eu acho natural, 
depois que vi quão poucos individuos se encontrão 
por esses lugarejos que facão idéa do que seja uma 
conta regular, e menos ainda que estejão em 
circumstancias de a organisar. Por outra parte não 
só não ouvi fallar, durante o tempo que me demorei 
na Gomarca de Porto Seguro, de máo emprego 

aue a Gamara de Belmonte tivesse feito dos 
inheirosque lhe forão confiados, como também, 
a vista da necessidade que ella tem do edificio, do 
empenho que manisfestavão todos os seos membros 
de o vçrçrn çoncluido, não posso deixar de suppôr 



106 



que a sua irregularidade não passa além de suas 
contas. Ha porém um facto a notar-se, que poderia 
comprometter apparentemente á Gamara, junto 
de quem ignorasse certas circumstancias locaes. He 
facto que, a obra, que está feita em Belmonte, não 
vale o dinheiro que n'ella se despendeo, e que, se 
ella tivesse sido feita por um particular, ter-lhe-hia 
custado talvez menos de metade do que ella custou 
á Provincia; porém a vista da mesma obra não 
posso dizer que houve desperdicio da parte dos 
seos directores. Primeiramente nós sabemos que, 
o interesse de um administrador de obras publicas, 
pela obra que administra, não o faz descer muitas 
vezes a certos detalhes c particulares, que muito 
concorrem para diminuir as despesas daquella, que 
he administrada por seo próprio dono. Além disto, 
he tal a irregularidade que se nota em todas as 
relações commerciaes n'esses miseráveis lugarejos, 

3ue se dá em qualquer d^elles um phenomeno, que 
esmenteria uma das leis mais positivas da Eco- 
nomia Politica, se não fosse elle mesmo a expli- 
cação do estado excepcional e desgraçado em que 
vivem os nossos compatriotas das Comarcas de 
Caravellas e Porto Seguro. Nestas Comarcas, 
cjuem paga o dinheiro a vista he obrigado a pagar 
mais do que aquelle que paga a géneros. O dinheiro 
^lii não passa de uma unidade imaginaria pela qual 
se regulão os valores dos objectos e serviços pres- 
tados: o pagamento he sempre feito a géneros. Os 
índios, como chamão os especuladores ou regatões 
cjue por lá apparecem, pedem pelo jornal de seo 
t rabalho um preço exorbitante expresso em unidade 
cia moeda do paiz, o regatão que só paga em 
géneros de consumo, como he senhor de pôr o 
preço a sua fazenda, muito pouco se importa com 
essa exorbitância, porque está sempre no poder de 
não pagar mais do que aquillo que lhe convém : 
em proporção faz-lhes a conta dos géneros que lhes 
adianta ou lhes dá em pagamento. D'aqui vém o 

14 



106 



habito em que estão os naturaes de exagerarem os 
seos preços, exageração que se torna muito real e 
positiva para os que tem de pagar a dinheiro. Eis o 
caso em que estava a Camará, cujo agente natural- 
mente entendeo não dever reduzir a consignação 
a géneros para alcançar a vantagem de que gosão 
os seos próprios membros nas suas transações 
particulares com os naturaes do lugar. Deos Guarde 
a V. Ex. Bahia 6 de Setembro de i85o. — Illm. e 
Exm. Sr. Dr. Vice-Presidente da Província, — 
I. V. Perderneiras Capitão d'Engenheiros, Chefe 
da Commissão de exploração do Mucury e 
Gcquitinhonha. 

«Villa Verde c Nossa Senhora d' Ajuda.» Na 
margem esquerda do rio de Porto Seguro, a quatro 
ou cinco legoas da costa, está situada uma aldeia 
com o titulo de Villa Verde e honras de município 
independente. Sua população chegará apenas a i5o 
ou 200 almas e o aspecto de sua povoação mostra 
decadência. Os moradores do districto nada ex- 
portão, a não ser alguma madeira que fazem descer 
para os pequenos estaleiros de Porto Seguro. 

Junto a costa e a mesma margem está também 
a muito antiga povoação de Nossa Senhora d' Ajuda, 
que nenhuma razão tem para prosperar. Sua popu- 
lação chegará a 1 5o almas. 

«Villa de Trancozo.» A trez legoas ao Sul de 
Porto Seguro está a povoação de Trancozo com 1 5o 
a 200 almas. Não tem exportação alguma, mas 
fornece grande parte da farinha do consumo de 
Porto Seguro. 

((Villa de Santa Cruz». A* igual distancia para 
o norte de Porto Seguro está a Villa de Santa Cruz. 
Não he mais feliz do que as outras povoações da 
Comarca, e até mesmo a gloria de haver dado nome 
ao Império parece fenecer com ella. Possueno seo 
porto apenas trez ou quatro garôpeiras, que, conio 
as de Porto Seguro, se empregão exclusivamente 



107 



na pesca. Sua população andará por 5oo almas e 
os edifícios mais importantes, jácahindoem ruinas, 
attestão a sua decadência. 

«Villas de Belmonte eCannavieiras.» São as duas 
povoações que mais proporções reúnem para um 
futuro engradecimento logo que as duas provincias 
de Minas e Bahia, tomando em consideração os seos 
verdadeiros interesses, se dccidão a tirar partido 
de navegabilidade do rio Gequitinhonha. Esta 
mesma circumstancia torna mais lamentável a sorte 
doestas duas povoações. Belmonte he por assim 
dizera mesmaaldeiade ha 3o annos, e Cannavieiras 
algum fraco impulso tem recebido dos exforços e 
actividade doactual Juiz Municipal dosdous termos 
reunidos, o qual alli faz sua residência. A população 
de Belmonte andará por 1.200 almas, sendo a de 
Cannavieiras pouco menor. Exporta Belmonte al- 
guma madeira de construcção, e importa annual- 
mente 20.000 alqueires de sal para o commercio 
de Minas pelo Gequitinhonha; he em que se em- 
pregão sete pequenas embarcações que tem no seo 
porto, e o que tem sustentado a \ illa no pé em 
que se acha. 

Cannavieiras também envia ao Gequitinhonha 
algum sal pelo rio da Salsa e canal Poassii, mas o 
seo principal commercio consiste na exportação de 
algum jacarandá, e outras madeiras de construcção, 
coco e algum arroz. 

«Una.» He a ultima povoação ao norte da 
Comarca, como se pode ver no mappa geral e no 
especial da Comarca de Porto Seguro. Constará de 
1 5o habitantes, e exporta directamente pela barra 
do rio do mesmo nome alguma madeira e coco. 

Não terminarei esta revista das povoações das 
Comarcas de Caravcllas e Porto Seguro sem 
declarar a V. Ex. que, a excepção do que diz res- 
peito á insignificante povoação de Comoxatiba em 
Caravellas, e a villa de Trancozo em Porto Seguro, 



1(>8 



todas as informações torão colhidas por mim 
pessoalmente nos próprios lugares, e as notas 
topographicas tomadas á bússola. 

CENTRO DAS COMARCAS DE CARAVELLAS E PORTO 
SEGURO. COMARCA DO OEQUITINHONHA 

Depois de ter dado alguma idéa do que são as 
nossas duas ultimas Comarcas do Sul na costa, 
convém que percorramos um pouco a região que 
lhes serve de centro, tanto a porção que taz parte 
das mesmas, como a que, pertencendo a Provmcia 
visinha, com ellas contesta pela parte de Oeste. 

Em trez zonas bem distinctas se divide a região 
comprehendida entre Mucury e o Gequitinhonha. 

Uma estreita banda de terreno baixo, de for- 
mação recente, justamente o que os geólogos 
chamão «cordão littoral», guarnece a costa. For- 
mada em geral pelas alluviões transportadas pelas 
agoas do centro, ella se alarga mais ou menos nas 
visinhanças das embocaduras dos grandes rios; e 
assim he que ella se estreita a ponto de desapparecer 
completamente quando seapproxima de Trancoso 
e de Porto Seguro, onde falhão os rios de alguma 
importância. A excepção das Villas de Porto 
Seguro, Verde, Trancozo e Santa Cruz, todas as 
mais povoações da costa são assentes no cordão 
littoral. FYaco, c por isso não se prestando a muitos 
géneros de cultura, este terreno he com tudo o 
mais próprio para plantação da palmeira vulgar- 
mente conhecida pelo nome de coqueiro, e he 
também aproveitado na cultura da mandioca, bem 
que não com muita vantagem. No mappa geral 
das Comarcas V. Ex. achará marcados os limites 
do cordão littoral pelas linhas de nivelamento que 
indicão o começo das alturas. 

Estas mesmas linhas, e a linha mais ou menos 
sinuosa, que liga ás duas primeiras cachoeiras do 



109 



Mucury e Gequitinhonha, formão os limites L. O. 
da segunda zona. Vinte a trinta braças acima do 
mar, sulcada por innumeraveis ribeiros que vão 
desaguar nos rios principaes de toda esta região, 
que são, além do Mucury e Gequitinhonha, o 
Peruhype, o de Alcobaça, o do Prado e o de Porto 
Seguro, esta zona, formando uma superfície ou 
antes chapada quasi regular, he o terreno mais 
productivo d'aquellas Comarcas. As magestosas 
florestas que o cobrem o attestão. He alli que se 
encontrão as arvores seculares que fornece as 
melhores peças de madeira de construccão, tanto 
náutica, como civil, masque são mesquinha e es- 
tragadamente explotadas ; he n'este terreno que as 
destruidoras derrubadas abrem campo para as 
plantações mais rendosas da nossa agricultura; he 
em uma fracção imperceptivel doesto chapada que 
os fazendeiros do Peruhype colhem as suas 60.000 
arrobas de café annualmente, além da farinha e 
mais producto do consumo de suas fazendas. 

Segue-se a terceira zona que começa onde prin- 
cipião a sobresahir as primeiras intumecencias do 
contraforte da grande serra, cujo espinhaço separa 
asagoasdoalto-Mucurydasdoalto-Gequitinhonha. 
Não faltão aqui os terrenos agricultáveis; mas 
começando a ser a superfície occupada por mon- 
tanhas do terreno primitivo, os limites doestas terras 
se vão estreitando á medida que se avança para as 
cabeceiras do Mucury, onde já não são somente 
picos de granito que apontão na superfície, porém 
grandes serranias que apenas deixão a forte vege- 
tação aos seos grandes valles. Menos productivo 
porém se torna o aspecto do terreno logo que se 
atravessa o espinhaço, de cerca de Soo braças acima 
do mar, onde começam as vertentes do Arassuahy. 
Alluvião quasi exclusivamente composta de cas- 
calho, apenas servem as terras altas d*esta parte da 
Comarca do Gequitinhonha para a vegetação de 
um capim amesquinhado pela innumeraveí vari- 



110 



edade de arbustos inúteis, alli conhecidos com o 
nome «catingas e carrascos.» Não pôde ser muito 
proveitosa a creação do gado n'estes campos, e o 
preço porque se vende alli uma rez bem prova a sua 
não* mui grande abundância. A mesma vegetação 
dosValles he bastante fraca, ou ao menos não se 
encontrão n^elles grandes arvoredos que possão 
fornecer peças importantes de madeira para a 
construcção.* Entretanto parece que esta terra hea 
mais própria para a cultura do milho que forma a 
base fundamental de todo o sustento n'aquella 
Provincia. Com etFeito omilhohc o pão do Mineiro, 
o milho he o creador da grande quantidade de 
toucinho e carne de porco que alli se consome, 
finalmente o milho sustenta, pela maior parte, a 
numerosa quantidade de animaes alli empregados 
nos transportes. 

Mas se a fraqueza da vegetação na Comarca do 
Gequitinhonha tormaum perfeito contraste com a 
robustez da dos nossos sertões, parecerá contra 
natural a muita gente, que a civilisação Mineira 
avantage tanto sobre a de nossas costas; entretanto 
sua população crescida, a abundância em que vivem 
seos habitantes a respeito dos géneros de primeira 
necessidade, e sobre tudo o mesmo vigor individual 
annunciãoum bem estar, de que estão longe de gosar 
os nossos compatriotas da costa. Nunca encontrei 
em Minas os embaraços com que luctei na costa 
para achar alimento, apesar da amabilidade com 
que seos habitantes mais notáveis se empenhavão 
em facilitar-me tudo, e mesmo em obsequiar-me. 

A explotação do ouro, do diamante e das cry- 
solitas trouxerão os primeiros habitantes para 
aquelles sertões, e como alli não havia mar que lhes 
promettesse peixe, nem vastas florestas que lhes 
facilitassem a caça, a necessidade lhes foi fazendo 
vêr a conveniência de empregar grande parte desuas 
forças na cultura das provisões indispensáveis para 



111 



seo sustento, em quanto a outra parte se occupava 
da mineração. Qualquer conceberá o cuidado com 

3ue se devião empenhar os primeiros habitantes 
'aquelles sertões em tirar da terra os recursos cjue 
a natureza lhes negava promptos, e á cuja im- 
portação se oppunha a grande barreira da falta de 
communicação. D'aqui o habito de um trabalho 
regular, e a previsão com que se procura produzir 
mais do que urgem as necessidades do anno, afim 
de evitar as privações dos annos pouco rendosos; 
d'aqui a abundância em que vivem os Mineiros, e 
o progresso de sua população. 

He porém forçoso reconhecer que este progresso 
hoje se echa em frente de um forte obstáculo, mas 
que um simples accordo entre as duas Provincias 
limitrophes poderá remover. Sendo as pedras pre- 
ciosas quasi o único objecto de exportação que 
sustenta a Comarca do Gequitinhonha, e talvez as 
do Serro e São Francisco, em consequência da 
diíRculdade de communicações, por onde facão 
sahir quaesquer géneros volumosos da industria 
agricola aos mercados mais convenientes, o paiz 
progredio rapidamente em quanto a raridade das 
mesmas pedras na Europa lhes conservou preço 
vantajoso n'aquelle mercado; porém hoje que este 
ramo de commercio tem perdido muito de sua 
importância, vão aquellas Comarcas ficando re- 
duzidas a buscar recursos ás suas necessidades em 
outra qualquer industria de pouca vantagem, com 
tanto que seos productos sejão de fácil transporte, 
cm vista da quasi absoluta privação, em que se 
achão, de vias de communicação. A creação do gado 
por exemplo, não he a industria mais fácil c con- 
veniente aos habitantes do Gequitinhonha, entre- 
tanto fazem descer uma ou duas boiadas annual- 
ipcnte a costa por péssimos caminhos, por isso 
mesmo que he mercadoria de fácil transporte. 

He portanto evidente que os géneros de expor- 
tação irão apparecendo á medida que as com mu- 



112 



nicações se forem abrindo e melhorando, mormente 
quando se estima a importação annual das duas 
Comarcas (Serro e Gequitinhonha) no valor de 
4.000:0008000 quasi tudo género de producção 
estrangeira. Ora eu creio que ninguém sustentará 

3ue a exportação de pedras e mineraes preciosos 
'aquellas duas Comarcas possa chegar actualmente 
a este valor ; e por aqui julgue-se da necessidade 
aue tem aquella parte da Provincia de outros pro- 
ductos, que exportando, possão vir em soccorro aos 
diamantes, ao ouro e as crysolitas, para a susten- 
tação da sua importação. Tratando-se de um povo 
industrioso, como o Mineiro, está nas mãos do 
Governo a creação d'estes productos; basta faci- 
litar-lhes as vias de communicação. Reviveria a 
cultura do algodão, que encontraria nas fabricas de 
fiar da Bahia prompto consumo; o mesmo milho, 
o feijão, a carne, tanto de vacca como de porco, o 
toucinho, emfim muitos outros productos ap- 
pareceria que, ainda não sendo abundantes, con- 
correrião para completar o valor dos géneros da 
importação estrangeira necessária áquellas popu- 
losas Comarcas. 

Admittindo mesmo que as pedras preciosas 
chegassem para a indemnisação da importação das 
Comarcas do Gequitinhonha, do Serro e de São 
Francisco, bastaria a difficuldade com que lucta a 
mesma importação para chamar continuadamente 
a attenção do Governo sobre as necessidades mate- 
riaes d'aquelle lado da Provincia. Os Srs. Ottonis, 
na sua exposição sobre a conveniência de explotar 
a navegação do Mucury, estimão a despesa de 
transporte das mercadorias de consumo das duas 
Comarcas, Serro e Gequitinhonha, para as fazendas 
em 4 por 7o, 1 5 por "/« para as drogas, 40 por 7o P^ra 
a louça e 70 70 para os molhados: he bem des- 
graçada a condição dos Mineiros do Norte, e muito 
têm elles que esperar do Governo n'este ramo da 
publica administração! 



113 



Entretanto estas mesmas Comarcas vcem-se 
cobertasde um tecido de ribeiros, riachos e rios, que, 
^issociando-se mesmo no seo território, vão mais 
cr>u menos magestosos levar o tributo das agoas de 
55;ua superfície ao oceano; rios hoje mais ou menos 
c::onhecidos, dos quaes são, pelo lado mais próximo 
<do mar, o Mucury, o Gequitinhonha e o Rio Pardo 
< >s mais importantes. Ora, sendo positivo que as vias 
^Je communicação por agoa sãoas mais convenientes 
^AO commercio, não nos será permittido utilisar 
.silguns destes grandes vehiculos naturaes, afim de 
melhorarmos a sorte dos habitantes industriosos 
<lo Norte de Minas, cujas necessidades reclamão 
^urgentemente caminho, pelo qual facão descer seos 
productos a lugar ondppossão encontrar em troca 
os que lhes faltão para seo consumo, e ao mesmo 
tempo melhores condições para sua actual im- 
portação ? Não poderemos nós utilisar alguns 
<i'estes rios, em beneficio das nossas povoações das 
Comarcas do Sul da Bahia, que suspirão com razão 
pela descida dos Mineiros e de seos productos aos 
seos portos como único remédio á sua decadência? 
A estas questões se encontrará talvez solução na 
seguinte parte do meo trabalho, em que me esfor- 
çarei por dar uma idéa exacta da navegabilidade dos 
fios Mucury e Gequitinhonha; restando-me o pesar 
de nada poder dizer a respeito do Rio Pardo, por 
isso que, como já fiz vèr aV. Ex., foi-me impossível 
cxploral-o. 

MUCURY E GEQUniNHONHA 

SUA NAVEGABILIDADE 

Naõ conheço trabalho algum especial e regular 
sobre cada um destes dous rios, por isso, e por 
naõ desejar ser longo n'esta pequena memoria, 
me abstenho de procurar exammar o que até 
aqui se tem avançado sob o ponto de vista de 



114 



sua navegabilidade. V. Ex. ha de porém permit- 
tir que eu considere um pouco uma exposição 
feita á Presidência de Minas em iSBy, por um 
individuo estrangeiro que se assigna encarregado 
da expedição do Mucnry^ aqui publicada pelos jor- 
naes em 1846. 

Esta peça official só he notável pelo mal que 
produzio, já illudindo a boa fé e patriotismo dos 
lUustrados Srs. Ottonis, já desviando a attençaõ 
do Governo do rio Gequitinhonha, como meio 
de communicação d'aquella parte da Provincia 
com a costa. N'esta exposição de cousas triviaes 
que, pela maior parte, podião ser ditas por cjuem 
nunca tivesse ido ao Mucury, balda de idéas 
^rofissionaes e recheada de simplicidades do char- 
atanismo ignorante, toma o seo author por muito 
barato calumniar a navegabilidade do Gequi- 
tinhonha, ao passo que confessa que, apenas 
viajou por parte da estrada que acompanha 
aquelle rio: justamente com a mesma candidez 
com que dá por doutrina muito corrente que, o 
gentio que no Mucury encontrou i^eio em numero 
iinmenso da Azia pel)Cslreilo Uering ha 50 annos; 
diz que procurou informar-se dos mais velhos de 
como tinhí.o vindo; affirma que as frechas do gen- 
tio eraõ /tervadas com nrvcú; finalmente mil ou- 
tras simplesas que denunciaõ bem o estado mise- 
rável a que está ainda reduzida no nosso paiz a 
classe da engenharia, esta especialidade taõ impor- 
tante de todo o systcma de administração publica. 

Parece impossível que só a profissão do en- 
genheiro esteja ainda debaixo do dominio do 
charlatanismo em um paiz, onde, em troca do 
titulo d^engenheiro, se exige de um pobre moço 
sete annos de estudos especiaes, além do tempo 
e despesas consumidas em humanidades prepa- 
ratórias! Ao medico, tanto nacional como estran- 
geiro, para se occupar das funcções desta pro- 
fissão, ao jurisperito para çijtrar na classe 4ps 



115 



magistrados, he preciso munir-se de um diploma; 
ao engenheiro, para dispor dos dinheiros dos 
contribuintes, basta um nome estrangeiro, pre- 
tenções de profissional e sobre tudo muito cnar- 
latanismo, ficando só aos nacionaes a rigorosa 
obrigação de apresentar títulos. Ou a eschola dos 
engenheiros no Brasil he uma pura decepção 
que inutilisa a mocidade, condemnando-a a sete 
annos de estudos sem fructo, e entaõ precisa 
urgentemente ser reorganisada, ou os seos filhos 
não devem ser equiparados, perante a authoridadc, 
a qualquer charlatão estrangeiro que se apre- 
sente com pretenções sem titulo algum. 

Desculpe-me V. Ex. este pequeno desvio a 
que me levou o justo resentimento pela injustiça, 
com que, na pratica do serviço público, se me- 
nospresaõ e postergaõ os direitos da classe do 
nosso paiz, que a maiores sacrifícios he sujeita 
para alcançar um titulo scientifico. Volto ao meo 
propósito. 

Mucun/. O mappa geral das Comarcas do Sul, 
os perfis dos rios Mucury e Gequitinhonha que 
\. Èx. encontrará no alto do mesmo mappa, e o 
que eu já disse da regiaõ comprehendida e ba- 
nhada pelos mesmos rios, me aispensaõ de uma 
longa descripçaõ. 

O rio Mucury se pôde dividir em duas partes, 
considerado debaixo do ponto de vista de sua 
navegabilidade : aquella em que seo leito percor- 
rendo os valles de ruptunt das differentes rami- 
licações do contraforte da Serra, he a cada passo 
desviado e interrompido por largos travessões de 
granito, formando de quando em quando pan- 
cadas de IO, 20, 3o, e 40 palmos de alto ; e a outra 
em que suas agoas, desprendidas dos tropeços 
atrapalhadores de sua marcha se vaõ deslisando 
rápida, porém mansamente, em sinuosíssimo 
leito, dentro de um largo valle de erosão aberto 
sem duvida por antigas inundações mais abu,n- 



116 



jdantes, na chapada alta de alluvião (dilltwium) 

âue sustenta as nossas mais bellas florestas 
'aquella parte, até chegarem ao oceano, A esta 
parte chamaõ vulgarmente rio de areia ; sendo a 
outra denominada rio de pedras. 

O rio d^areia do Mucury só tem contra si o 
ser muito sinuoso e correr com a velocidade 
media de duas milhas por hora. São tantas as 
voltas que elle dá que para avançar i5 legoas no 
seo rumo geral (N. O.) serpentea o cammho de 
24 legoas. Em uma canoa guarnecida de 5 ho- 
mens, dos quaes4empurravaõ á varas, não pude 
chegar de Porto Alegre a sua primeira cachoeira, 
Santa Clara^ com menos de 39.*' e i5 minutos, 
estando o rio quasi nas suas minimas agoas, o 
que equivale a 5 dias de viagem puchada com 
carga. Comparando a subida e descida que eu já 
havia feito até a metade de sua extensão pouco 
mais ou menos achei esta relação 2,475, que 
nos mostra que o tempo necessário para descer 
da Cachoeira de Santa Clara á Villa se reduz 
proximamente a 16 horas, isto he, dous dias 
rnuito aproveitados. 

A mesma difficuldade da subida explica a fa- 
cilidade da descida, e as indicações barometricas, 
dando-me 3i braças (3) para â altura de Santa 

(3) O nivelamento baromctrico perde muito de sua precisão, 
desde que se naõ dá uma tal ou qual simultaneidade nas oiíser- 
vaçOes dos dous pontos cuja altura relativa se quer determinar, 
e ao mesmo tempo a distancia que os separa não lie tal que o 
estado da atlimospjiora fique muito proximamente igual em um 
e outro ponto, afora as ditTerenças que podem vir das posiçOes 
do instrumento no sentido da vertical. A' nenhuma d'eslas con- 
dições satisfazem as observações em que fundo os nivelamentos 
que fiz dos dous rios Mucury e Gequitínlionha, por isso não tenho 
preterições an menor rigor mitliematico. Devo, porém, advertir que 
procurei, sem | ire que me foi possível, comparar as observações 
de dias cujo estado athmospherico me pareceo idêntico ; e que 
08 resultados nunca desmentirão o juizb que eu liia fazendo pelas 
dilliculdades que ia encontrando na navegação. Convém ainda 



117 



Çlaxa sobre o mar, vaõ perfei Lamente, de accordo 
com estas circumstancias. Não sei se naõ será á 
sua longa sinuosidade que deve o rio de areia 
do Mucury um canal sempre franco á navegação, 
ainda mesmo nas grandes seccas; estou porém 
persuadido que uma embarcação de vapor, que 
naõ demandasse mais de 5 pés d'agoa, nunca 
seria interrompida na sua marcha por falta doesta. 
He inútil repetir que as altas margens do 
grande valle do rio de areia do Mucury saõ po- 
voadas das nossas mais bellas florestas. 

A latitude da fóz do Mucury sendo 18/6/43/' 
e a de Santa Clara 17/47/15/' (4) este rio vem a 
avançar para o Norte 19/28/' até o começo do 
rio de pedras, de que passarei a me occupar. 

A segunda parte em que dividi o rio Mucury, 
o rio de pedras, avança proximamente 18 legoas 
no mesmo rumo geral que o rio d'areia, até a 
confluência do Rio Preto, que n'elle entra pela 
margem esquerda. As suas sinuosidades obrigão 
suas agoas a percorrerem o caminho de 29 legoas 

dizer que ao voltar a costa adiei uma pequena alteração na al- 
tura da colamna de mercúrio do Barómetro psra menos ; mas 
Como, segundo todaâ as probabilidades, estn alteração veio do 
tran:?porte do instrumento por terra, que foi no intcrvallo dos 
dous nivelamentos não pôde sor muito sensivcl o seo eíTcito. 

Foi a Ta boa de OItmanns que empreguei neste calculo cujos 
elementos são os seguintes: 

pol. inff. cr. ff. 

Mar B. =30, 55— T. ==24,50-1 =^:5.50. 

S. Clara -.B'.=30. 25-r.= l8,00--.t:=-l9,00. 

O Raromelro estava duas braças acima do mar, e uma sobre 
o nível d*agoa de Santa Clara : 

(4) Caclioeini Santii Clara ^principio do rio de pedras do Mu- 
curv) ém 23 dd Setembro de i849. 

Manhã 7.»» 22.» 53.», 65. t. v. Dist.zenith corr. 70.^ 16.' 56.", 47. 
Tardeis 38. 39. 27. t. v. . . 29 . 58. 9. 88. 

Manha 7.»»5S m 24.», 25. t v. Dist. zenith corr. 61 .« 54.' 56.". 19. 
Tardeis. 33. 6 44. t, v. . » , « 28. 52. í2, 3S. 

Uia e moio que me demorei neste ponlo, o tempo coiiservou-se 
extremamente desfavorável para observações: o sol se mostniva 
apenas por inst.intes, c o único lugar que encontrei para estabc- 



118 



em lugar de 18, e se levássemos em Gonta o 
accrescimo que viria do desenvolvimento do seo 
perfil, teríamos de augmentar este caminho de 142 
braças (5) proximamente, pois a tanto está eleva- 
do sobre Santa Clara o porto de Santa Cruz, des- 
tacamento Mineiro situado na margem direitado 
rio Preto, pouco mais de duas legoas acima de 
sua confluência. Pode-se julgar sem mais detalhes 
das difficuldades com que teve de luctar quem 
para avançar 18 legoas no rio de pedras do Mu- 
cury, com 5 canoas carregadas ,de mantimentos, 
subm 140 braças! Cento e dezoito vezes pucha- 
mos as canoas carregadas, quasi sempre com 
toda a gente n'agoa, e algumas vezes ajudando-se 
reciprocamente as guarnições das diíFerentes ca- 
noas; dez vezes nos foi preciso alliviar a carga 
para este etFeito; vinte e seis vezes tivemos de 
descarregar completamente: onze vezes foi-nos 
forçoso varar por terra com as mesmas canoas 
difficuldades, que nem a approximação doestas 
permittião sem o perigo de as vermos postas 
em fragmentos. Eis o tormento em que empre- 
gamos mais de 3o dias. 

Cumpre porém declarar em abono do Mucurv 

3ue, não lanço somente á conta da diflficuídade 
e sua navegação os 3o dias consumidos; devo-os 

Icccr o mco observatório, sendo um lagedo de granilo cercado de 
mato, onde a ineqor aragem nau vinha mitigar os ardores de u a 
extraordinário mormaço exagerado pelo calor da reflexão e irra- 
diação da roclia primitiva, era o mais contrario a inalterabilidade 
dos instrumentos, principalmente do relógio que accusou alli o 
alrazo espantoso de 11.* proximamente por hora. A discordância 
entre os resultados das series que calculei confírma esta idéa, po*s 
que sendo as que aqui apresento as mais accordes, dào comtudo 
uma media que se afasta mais ou menos 15.* das latitudes cal- 
culadas. 

pol. inir. R. g. 

(5) Santa Clara-B. «30, 55 -T, =18,00— t. =-49,00. 
Sania Cruz-U.W29, 22— T '=-20,00— l.' —21,00. 
O Barómetro estava proximamente 4 brrças acima da super- 
fície d'agoa. 



119 



cm grande parte ás circumstancias de se ter con- 
servado o no sempre secco em maior gríio do que 
aquelle que convém para facilitar a sua navegação, 
a^ necessidade que tinha de distrahir alguns* in- 
divíduos do serviço de canoas para, com os en- 
fermos, comporem a linha de sentinellas que 
guardava os trabalhadores de alguma surprezã de 
gentio, e sobre tudo á falta de um guia que, 
conhecendo os canaes mais convenientes, nos 
dispensasse do estudo preliminar a que éramos 
forçados a cada passo; convindo a tudo isto 
ajuntar o pouco habito de serviço prolongado 
(]ue tem em geral a nossa gente da costa, o qual 
taz com que elles tendão a consumir o tempo 
sem nada fazer. Acredito que com trabalhadores 
activos e práticos muito se poderá diminuir o 
tempo necessário á subida do rio de pedras do 
Mucury com canoas carregadas e bem guarne- 
cidas, talvez mesmo a i5 dias. 

O Rio Mucury de tão diíficil navegação na 
sua parte superior, como acabamos de ver, não 
será suscepiivel de algum melhoramento no seo 
leito^ de modo a diminuir os perigos e emba- 
raços de sua navegação? He a primeira questão 
que se apresenta a qualquer. Não ponho duvida 
alguma em responder afirmativamente a este 
respeito, mas esta questão he subordinada a es- 
toutra: — Devendo os empenhos do Governo em 
abrir communicações que ponhão o Norte de 
Minas em relação com à costa, ser dirigidos 
para o lado que menos embaraços apresente e 
mais promptas vantagens otfereça em compen- 
sação dos sacriíicios feitos, será o Mucury o 
ponto mais próprio para satisfazer a estas condi- 
ções? He o que resta provar. E como cu pretendo 
sustentar a negativa a esta proprosição não entra- 
rei em desenvolviniento algum â rcvspeito da 
primeira. 



120 



Do primeiro destacamento Mineiro que fica 
no parallelo de i6.*'5o/47." (6) situado como já 
disse, na margem direita do rio Preto, mais ou 
menos duas legoas acima da confluência, fiz voltar 
quasi toda a gente do Mucury que me tinha, 
acompanhado; e soube, depois de minha volta 
a esta cidade, que aquelles companheiros de sof- 
frimentos forão muito felizes na aescida, chegando 
á Villa no fim de lo dias de viagem com duas 
canoas vazias. 

Não me demorarei em fallar dos incommodos 
e difficuldades que encontramos em vencer o 
caminho de 40 legoas, pouco mais ou menos, 
que nos separava de Minas Novas, por terreno 
extremamente montanhoso, pela maior parte 
coberto de matas de espinhos e carrascos; mas 
devo dizer que n'estes trabalhos, agravados pela 
estação invernosa, consumimos quasi todo o mez 
de Novembro, e que sem a prestimosa coope- 
ração do Sr. Coronel Honório Esteves Ottoni, em 
extremo teria sido dura a nossa sorte. Estedistincto 
e honrado Mineiro, estabelecido junto do ribeirão 
de Saõ Miguel, confluente do Gravata, no para- 
lello de ló.^^iS.^ig.'' (7), nove legoas a E. de Minas 
Novas, foi quem nos soccorreo com mantimentos 
e meios de transporte, desde a meia distancia entre 



(6) Santa Cruz (deslacamenlo Mineiro na margem direita 
lio Hio Prelo) em 29 de Outubro de 1849 

xManhâ S^ 43.- 13.* 99. l. v. . . Dist. zcnilh corr. 47.« ^S.' 8'\08. 
Tarde 14. 47. 6, 98. t. v. . . » » » 40. 22. 10, 79. 

Manhã S.*" 48." 30, 62. l. v. . . Dist. zenitii. corr. 4(5 <> 12.'30'',54. 
Tarde 14 53. 45. 30, t. v... » . .41 51.21, 97, 

 medida differe das latitudes calculadas de 2'\57. 

(7) Ribeirão de S. Miguel (fazenda do Coronel Honório) 23 
de Novembro de 1849. 

Manhã 7.'* 15.» 35' 62. t. v. Dist. zenith. corr. 60.* 49.' 3o \42. 
Tar.le 14. 30. 5. 48. t. v. . » » 35. 53. 59, 86. 

Hanhã 7.'» 23." 29.' 06. l. v. Dist. Ecnith. corr. 65.« 0., 26'\57. 
Tarde 14. 35. 21, 90. t. v h » • 36. 48. 5, 42. 

A media differe de O*', 87 das duas latitudes calculadas. 



121 



O quartel de Santa Cruz e a sua fazenda, sem con- 
sentir em indemnisação alguma; obrigando-nos 
pelo contrario a aceitar os mesmos serviços, não 
só na chegada que demos a Minas Novas senão 
também na nossa retirada para o Calháo, primeiro 
porto onde começa a actual navegação do Gequi- 
tinhonha. Ao mesmo Senhor Coronel Honório 
devo muitas informações a respeito d^aquella parte 
cia Província; sendo os detalhes topographicosdas 
margens do Arrassuhy entre Minas e Calháo devi- 
dos a informações prestadas pelo Sr. Tenente 
Fagundes, homem encanecido no serviço das 
matas entre as cabeceiras do Mucury e Gequiti- 
nhonha, e por isso insigne pratico, de quem o 
<jOverno de Minas tem ainda muito a esperar 
<j^uando se tenha de occupar dos interesses mate- 
naes d'aquella parte da Província. Apezar de 
^icos serviços quasi proverbiaes na comarca do 
<jequítinhonha está hoje este oíiicíal reduzido a 
commandar um insignificante destacamento do 
riacho de Saõ Miguel, na qualidade de Sargento, 
tendo já commandado outros com a graduação 
c vantagens de Tenente! 

Gequitmhonha. Não entrarei no exame da na- 
vegabilidade do Gequitinhonha sem primeiro dar 
uma idéa das duas povoações Mineiras, Minas 
Novas e Calháo, que visitei antes de começar a 
navegar por este no. 

Como os habitantes de nossas costas, que se 
mudaõ facilmente para onde lhes consta que ha 
mais peixe e caça, assim os Mineiros deixaõ as 
suas povoações facilmente por lugares onde lhes 
consta que a mineração está dando mais. Saõ 
factos comprehendidôs na regra bem positiva em 
virtude da qual procura cada um tirar maior par- 
tido de sua industria ; mas he evidente que qual- 
quer doestas duas espécies de industria he bem 
precária, e que desgraçado he o paiz q^ue n'ellas 
cifra a sua riqueza. Minas Novas fQÍ victima doesta 



132 



condição a que estaõ reduzidos a maior parte dos 
Mineiros por falta de vias de communicaçaõ que 
lhes facilitem outros ramos de industria. Situada 
a 17. •9/24/' (8) de latitude Sul, na confluência do 
ribeiro Bom Successo com o rio Fanado, que 
pouco adiante desagua no Arassuahy, foi o ponto 
para onde se concentrarão a maior parte dos 
primeiros bandeiristas que por aquelle lado da 
Provi ncia andarão a cata do ouro e das crysolitas, 
por isso mesmo que aquelle metal precioso se 
mostrou alli de proveitosa exploração. Prosperou 
algum tempo ate chegar a cathegoria de cidade 
de que gosa, mas as descobertas dos diamantes 
do Sincorá e o já pouco successo talvez que offe- 
rccião as exhauridas minas do Fanado são causas 
da decadência que denuncia o seo estado actual. 
A sua população intra-muros apenas tocará 9 
3.000 almas, isto he, menor do que a que pôde 

(8) Tenho visto em vários escriptos que a luliludc de Minas 
iNovas he 17.»37.'30.''; mas ainda naO encontrei ([ucm nos mos- 
trasse a origem de semelhante latitude. Entretaúto nao sei que 
confiança possa merecer o resultado de observações, a par do 
qual nâo figura nem ao menos o nome do observador, se ellc 
he tal que por si só offereça alguma garantia. He porém ainda 
mais curioso que esta latitude diffira 37/30" (para mais) da que 
o author das Memorias Históricas do Rio de Janeiro attiíbuc ás 
observações do Padre Chapaci. que com Domingos Soares, lambem 
religioso, foi nomeado por D. João 5.° para mappcar as terras 
do Brasil. 

A vi-ta desta divergência não achniraque as longitudes achadas 
no mesmo ponto por Arrow Smilh e lichwcge diffiraõ de 1/40** 
entre ti ! 

Nâo sei até que gráo chega a exactidão da latitude do Padre 
Ohapaci, mas ella tem razaõ para merecer mais fé do que a que 
se apre.ienia anonyma, e bastanle pesar tenho de que as minhas 
observações me não dessem um resultado mais pro.ximo do seo. 

Minas Novas (iunto da Matriz) aos 29 de Novembro de 1849. 
Manha 7.»» 24.- 11/, 30. t. v. Disl. zenith. corr. 6*.'» 41/ 32'', 18. 
Tarde U. 22. 55. 88. t. v. - » )> 33. 55. 25. 21. 

Manhã 7 " 36." 34.*, 04. t v. Disl zenith corr. 61. « 50.* 59". 91. 
Tarde 14. 38. 20, 60. l. v. » » » 37. 30. 26, 37. 

A ipedia faz com as latitudes calculadas a differença de 2/\8|, 



123 



comportar o numero de seos edifícios; o (juè hé 
sem duvida uma justa expressão do decrescimento 
do seo commercio. Pouco tem que fazer o cam- 
ponez em uma povoação onde não encontra mer- 
cado para os productas de sua lavoura; e não 
mais numerosos são os mercadores que queirão 
aceitar, em troca de suas fazendas, objectos que 
ellcs não podem transportar aos seos credores 
em satisfação dos seos compromissos. 

Ha entre iMinas Novas e o Calháo, não longe 
das margens do Arassuahy, outras povoações de 
pouca importância, como são os arraiaes da Cha- 
pada, Sucuriú, Agoa Suja, Ikc. ; ma?, como Minas 
Novas, não são elles próprios para mostrarem a 
população da Comarca. Vivendo os Mineiros hoje, 
em grande parte, immediatamente do producto 
de sua lavoura e de seos próprios teares, estes 
grandes centros, onde se reúnem os habitan- 
tes de um paiz para melhor facilitarem-se suas 
transacções, tornão-se quasi inúteis; a população 
se espalha em grande superfície, esó tenderá a con- 
centrar-se onde o commercio, otFerecendo alguma 
estabilidade, lhe garanta o supprimento, ao menos 
de suas necessidades mais urgentes, já consu- 
mindo alguns de seos productos, já fornecendo-lhes 
em troca os necessários ao seo consumo. A nave- 
gação do Gequitinhonha calumniada, e indevi- 
damente abandonada pelos Governos das duas 
Províncias limitrophes, he hoje o recurso mais 
estável do pequeno commercio que se faz n'aquella 
Comarca, afora o que diz respeito ao ouro e as 
pedras preciosas. Assim heque se vê uma povoação 
nascente, o Calháo, fazer passos de gigante no 
augmento do seo material durante os trez ou quatro 
últimos annos: já conta no casas, pela maior 
parle novas, além de outras em activa construcção, 
e nos dias de festa chega a reunir para cima de 
2:000 almas, o que denota grande população nas 



124 



visinhanças. No paralello de ly.^o/i/-, (9) e a 60 
legoas mais ou menos da costa, esta povoação está 
assentada na margem direita do Arassuany, pro- 
ximamente duas legoas acima de sua afluência 
com o Gequitinhonha. Não me parece a situação 
mais conveniente debaixo do ponto de vista de 
sua hygiene: o seo solo baixo muito terá de soífrer 
das grandes inundações do Arassuahy, além decjue, 
segundo me informarão, aquelle não he o ultimo 
ponto da navegabilidade do rio. 

Passarei ao estudo especial do Gequitinhonha. 

Descer um rio no seo quarto de enchente, 
dirigido por práticos, he certamente vel-o pelo 
lado mais bello; e não se pode dissimular a in- 
fluencia doesta circumstancia sobre o espirito 
d'aquelle cjue tivesse de julgar da navegabilidade 
de dous rios pelas difficuldades ^ue n'elles en- 
controu. N'este caso aquelle que tivesse subido o 
Gequitinhonha nas condições em que subimoso Mu- 
cury, e que depois descemos o Gequitinhonha, 
não teria duvida em concluir que mais commoda 
hea navegação d'aquelle rio. Felizmente possuímos 
meios mais positivos de resolver esta questão, e 
o principal d'elle he a comparação dos perfis dos 
dous rios què V. Ex. encontrará no mappa geral 
das duas Comarcas. As indicações barometricas 
vêem em soccorro do parecer de algumas pessoas 
que têm navegado por um e outro em ambos os 
sentidos, entre os quaes figura o Sr. Tenente 
Fagundes, e por consequência muito competente. 

Como o Mucury o Gequitinhonha he natural- 
mente dividido em duas partes: — Rio de pedras 

(9) Calhao (povoação à margem direita do Arassuahy junto a 
fôz do ribeiro (ialliáo) aos 22 de Dezembro de 1849. 
Míinbã 6.»' 55." 45 % 53. t. v. Disl. zenilh. corr. TO.» 52/ 12", 05. 
Tarde \L 4. 48, 23. l. v. * » » 29. 54. 53, GO. 

Manhã 7." O."" 27/, 08. l. v. Disl. zenilh. cor. 69.» 48.' 43". 63. 
Tarde 14. 13. 0. 12. l. v. . • - 31. 48. 27. 10. 

A differença entre a media e as latitudes caleuladas he O", 07. 



125 



e rio d'areia. O rio de pedras se pôde sub-dividir 
em trez secções, distinctas principalmente por 
serem as suas extremidades occupadas por po- 
voações . 

A parte comprehendida entre o Calháo e o 

arraial de S. Miguel he de dezoito legoas e meia 

em linha recta, porém n ella o rio serpentêa no 

craminho de mais de 28 legoas, descendo 47 braças 

(^lo). Já se vê que não podem ser muitas as ca- 

^^hoeiras d"esta parte do rio, e com effcito creio 

^ue além do lugar denominado labyrinlho perto 

<de S. Miguel, e do Irovcssõo no começo do Aras- 

isuahy, todas as mais difíiciildades se reduzem 

"Sa correntezas fortes alli designadas com o nome 

<:de corridas. 

De Saõ Miguel ao Snlto-grande vaõ pouco 
imais de 21 legoas em linha recta, 27 em desen- 
^volvimento, e 3i braças (11) em descida. Ex- 
<:eptuando a cachoeira do iiiferno, pouco acima 
tío Salto, a qual he uma verdadeira difficuldade 
<^ue obriga ao descarrego tanto na subida como 
xia descida, os embaraços da navegação desta 
parte do rio saõ antes effeito da granáe quanti- 
dade de pedras que atrapalhaõ a marcha de 
suas agoas, do que devidas á differençade nivel. 
He na extremiclade inferior d'esta parte do rio 
de pedras que se acha a celebre cachoeira deno- 
"minada o Sallo-grande^ d'onde tira o nome a 
povoação que lhe fica junto. No caminho de 
cerca de uma milha o rio Gequitinhonha con- 

pol. iuff. g. g. 

(10) S. Miguel — B =59,42-T.=24,()0~t.^25,00. 
Calháo B/=-'29,lO-Y/^20,25-l.Wál,00. 

No Calháo o Baromelro eslava a 2 bra(;as e em S. Miguel 
^ O braças acima da suporfíciu do rio. 

pol. ing. p. ft. 

(11) Salto B. =.29,05 -T. =24,50— t. =25,50. 

S. Miguel— B\=29,42—T\=-24,00-r=25,00. 

O Barómetro eslava dd Salloa 8 braças sobre a agr^a- 



126 



some alli a altura de 21 a 22 braças (12) em favor 
de sua navegabilidade, a qual por certo seria 
menos felÍ2 sem esta circumstancia. Não he uma 
enorme mole d'agoa cahindo de altura maravi- 
lhosa, cujos borrifos produzem um espesso ne- 
voeiro, e cujo fracasso se faz ouvir desde a distancia 
de trez legoas, como exageradamente se escreveo : 
da povoação que lhe íica a pouco mais de 200 
braças nunca vi nevoeiros e nem ouvi bem dis- 
tinctamente o seo ruido. Com tudo naõ deixa de 
ser medonho o aspecto deste ponto do -rio: saõ 
muitas as pancadas, porém succedem-se trez de 
35 a 40 palmos cada uma, as quacs supponho 
que, mesmo descendo, um peixe naõ atravessará 
com vida. As canoas descarregaõ no porto da 
povoação, e, ou passa-se a carga para outras ca- 
noas do porto de baixo, ou saõ ellas mesmas 
arrastadas vasias ao mesmo porto. Este vara- 
douro tem proximamente 900 braças, e a sua 
estrada he susceptível de muitos melhoramentos. 

Segue-se a terceira subdivisão do rio de pedra.^ 
que começa do porto de baixo do Salto, onde 
se diz ser a extrema desta Província, até a po- 
voação da Cachoeirmha onde principia o rio 
dareia. He a mais curta e ao mesmo tempo 
aquella que mais difficuldades oppõe á navegação. 
Com efíeito em 9 legoas em linha recta o rio 



(12) A ilifferença de altura entro o pirto de baixo e o porto ile 
cima do Salto foi tomada com um nivel que mandei fazer aqui 
antes da minha pirtída para fom. o qual consiste em uma regoa 
com um furo no s(Mitido longitudinal e suspensa cm dous cordéis de 
modo a conservar quanto sor possa, a sua liorisonialidade. Costu- 
nío empregar este grosseiro instrumento nos nivelamentos de re- 
conhecimento, quando se trata somente de achai a differenya entre 
dous pontos dislanles um do outro de 900 braças proximamente 
como já disse, e só tenho a fidicilar-me do resultado que alcancei, 
pois apenas differe de mais ou monos meia braça do que achou 
o Sr. Przwodowski, (|ueofez cuidadosamente com instrumentos dos 
mais perfeitos, segundo este Sr. me fez u honra de coramunicar. 



127 



desce n'aquella parte 22 braças (i3), e he ca- 
minho que se faz em quatro horas c meia na 
descida; obrigando a trez ou mais descarregos na 
subida, em que se emprcgaõ dous dias. 

O rio de pedras do Gequitinhonha conta cinco 
povoações em suas margens, as quaes saò, a 
contar de cima: i.** um arraial que se está esta- 
belecendo no pontal d'Òeste da confluência do 
Arassuahy com o Gequitinhonha; 2.0 a povoação 
da Itinga, 7 legoas abaixo da mesma confluência, 
na margem esquerda, junto do riacho do mesmo 
nome; 3/ o arraial de São Miguel que occupa a 
extremidade da primeira subdivisão que fiz do 
rio de pedras, situado na margem direita, junto 
do ribeiro do mesmo nome e a i6%35/35." /14) 
cie latitude Sul; 4.** a povoação do Salto, também 
na margem direita, a i6/3/'35/' (i5) de latitude 
Sul;5/ finalmente a muito insignificante povoação 
da Cachoeirinha collocada igualmente na margem 
direita, no ponto onde se acaba o rio de pedras, a 
16.00/37/' (16) de latitude. 

Todas estas povoações negaõ ares de prospe- 
x^idade, com excepção da primeira, que vai-se 

M. ing. g. g. 

(13) Cachoeirinha —B,= 29,99 -T.=23,50—t.— 24,50. 

Salto B.'=29,65 -T.'=24,50-l.'«25,50. 

O Barromctro eslava na Cachoeirinha a 5 braças acima d*agoa 

(14) Arraial de S. Miguel em 4 de Janeiro de 1850. 
Alanhã O."» 47.» 3.V, 94. l. v. Disl. zenilh. corr. 72.» 59.' 9** 84. 
"Tarde 13. 59. 26, 47. t. v. ,, „ ., 28. 43. 39, 87. 
Alanhâ Q^ 59 " 2», 09. r. v. Dist. zenilh. corr. 70.« 23.* ACy'\ T2. 
*Jarde 14. 4. 11, 27. l. v. ,. ,, ,. 29. 48. 54, 80. 

A media faz com as latitudes calculadas a differença de 9", 10. 

(15) Salto (povoação) cm 10 de Janeiro de 1850. 
Manhã 7.»' 2." 47% 29. l. v.... Dist. ZíMiit corr. 69 « 50.* 42", 86. 
Tarde 13. 59 12, 21, t. v , ,, ,, 28.44. 5, 12. 

(16 Cochínirinha (povoação) em 15 de Janeiro de 1850. 
ilariha 7." 40." 52*, 60. i, v... Disl. ziTiilh. corr. Cl." 13.' i:;", 88. 

T^ardelB. 58. 58, 35 t. v „ „ 28.37.37, 71. 

IManha 1 .^ 47.» 4.8«.« t. v Disl. zenilh. corr. 50.o 47.' 5'', 88. 

Tarde 14. 3. 4l,M.l. v , 29.42.20,17. 

A mcJia hc uuicaoienlc de 0/'07 differeules das latitudes cakula^iad, 



12« 



formando com prejuiso de algumas visinhas, prin- 
cipalmente da Itinga. Esta mesma muito breve 
fará sua parada como as outras, inclusive o 
Calháo, se se naõ tratar cjuanto antes de melho- 
rar a navegação do Gequitinhonha, a qual, como 
adiante mostraremos, naõ lucta tanto com os 
embaraços naturaes e inherentes á sua navegabili- 
dade, como com os que vém do abandono em 
que se acha. 

O rio d'areia do Gequitinhonha avança quinze 
legoas e meia para a costa em linha recta, vmte e 
meia em desenvolvimento, e desce apenas cento e 
vinte palmos (ly^i. Esta pouca inclinação de seo 
leito, a qual diminuindo a sua correnteza facilita 
sua navegação a ponto de poder uma canoa, carre- 
gada e guarnecida de 3 homens somente, subir até 
a Cachoeirinha em trez dias, isto he, pouco mais 
ou menos a mesma distancia que no Mucury uma 
canoa nas mesmas condições e guarnecida de 5 
homens só vence em 5 dias, hc infelizmente causa 
das muitas coroas e baixos que frequentemente 
atrapalhaõ a sua navegação aos inexperientes, 
assim como das difticuldades da sua barra. 

Com elíeito sem um declive forte que, apres- 
sando o movimento de suas agoas, lhes dè força 
para o transporte das areias do seo leito, este 
tende a obstruir-se e por consequência a diminuir 
de capacidade, e como o volume das agoas se 
conserva sensivelmente o mesmo, segue-se maior 
acção doesta sobre as margens, cujaargilla se dilue 
e he facihnente transportada, e cuja areia, não 
obedecendo á fraca acção mecânica das agoas, vai 
augmcntar a grande massa d^este obstruente do 
leito. D^aqui vem a largura extraordinária que nos 
apresenta o Gequitinhonha n^esta parte, quasi toda 

(17) Belinonlc B.— 30,12 -T.--5G, 75— l.^tiT^^õ. 

Ciuliocirinliii-B'--20,OÍ)-T.-23,r)0— l.^24.b0. 
n Daromclro em Djlnionie eslava iluus brayaá acima do mar. 



129 



occupadapor vastíssimas coroas de areia e nume- 
rosos baixos, em que a cada passo se encalhão as 
canoas quando os seos conductores não são muito 
práticos em reconhecer os canaes. 

Não sei se outras causas concorrem com esta 
para nos mostrar como he que a barra do 
Gequitinhonha, rio de primeira ordem, apenas 
oíferece um canal estreito, inconstante e de pouco 
fundo, a ponto de nunca permittir entrada senão 
a pequenos hiates ou lanchas; mas he evidente 
que, se as agoas do rio fossem tocadas de maior 
velocidade, não só se naõ alargaria tanto a sua 
fóz, circumstancia que muito se oppõe a activi- 
dade das correntes nos canaes, senão também 
muito ajudariaõ ellas o movimento da maré no 
seo trabalho de escavação. 

Agora que temos uma idéa approximada dos 

rios Mucury e Gequitinhonha quanto ao essencial, 

senão quanto atoaos os detalhes importantes que 

podem concorrer para o seo cabal conhecimento, 

convém chegar-nos a questão acima proposta, 

isto he: — Devendo os empenhos do Governo em 

abrir communicações .que ppnhaõ o Norte de 

Minas em relação com a costa, ser dirigidos 

para o lado que menos embaraços apresente e 

mais promf>tas vantagens oíFereça em compensação 

dos sacrifícios feitos, será o Mucury o ponto mais 

próprio para satisfazer a estas condições ? Um 

resumo comparativo das vantagens que òfFerecem 

os rios Mucury e Gequitinhonha como meios de 

communicação, bastará para a solução doesta 

questão. 

Vimos que para subir o rio d^areia do Mucury 
nas condições mais favoráveis saõ precisos pelo 
menos cinco dias de marcha forçada, e quç, faci- 
litando muito o rio de pedras, não podemos con- 
ceder menos de 1 5 dias para a mesma operação ; 
aqui temos pois 20 dias para vencermos 3o legoas 
na direcção de Minas Novas até a confluência do 



130 



Rio Preto. DVste ponto ha proximamente igual 
distancia áquella cidade em linha recta ; mas como 
o terreno he extremamente montanhoso devemos 
suppòr que naõ nos será possível fazer uma 
estrada commoda sem augmentarmos pouco mais 
ou menos de um terço esta distancia. Teremos 
pois 40 legoas que uma tropa não poderá vencer 
em menos de i5 dias, contando com o tempo 
necessário aos preparativos no porto para se por 
em caminho. 

Suppondo agora que se possa descer o rio de 
pedras em 8 dias e o de areia em 2, concluiremos 

âue, da fóz do Mucury até Minas Novas, o minimo 
aviagemvémaserde35dias,sendoodavoltade25. 
Vejamos agora o que acontece a respeito do 
Gequitinhonha. 

Desci todo este rio em 68 horas tendo apenas 
dous fracos remadores além do popeiro: ora 
admittindo que este seja o minimo tempo que se 
possa empregar n'esta viagem, e dando dous dias 
para alguns descarregos que se tenha de fazer n"este 
trajecto, segue-se que se pode vir do Calháo a 
Belmonte (18) em 10 dias. 



(18) Belmonte (Villa) em 2S de Janeiro de 1850. 

Manha 7.ii 52."' 2.-, 52 l. v. Disl. zenit. corr. 59 • 2.' A'\ 60. 

Tarde 14. J4.22. 38 1. v. » u » 32. 0.50', 91. 

Manha 7.^ 58." 41, 21. l. V. Dií^t. zenit. corr. 57.o28.'l5'\ 04. 

Tarde M. J9. 28, .r5.t. v. » . • X\. 22. 37. 23. 

A media que he 15,' 51.' 24.'' afasta-sc de 0'\83 dasjalitudes 
calculadas. 

Este he um dos pontos determinados pelo Barão de Koussin, 
o qual lho assigna o parallelo de 15.*'51.'4."; donde se vô que 
a minha latitude differe 20" da que achou aquelle insigne obser- 
vador. Ksta differenya, com quanto pequena, me desanimaria se 
naõ fosse o facto, muito conhecido em Belmonte, de que o rio 
na sua foz tem avançado para o Sul, o por consequência hoje 
occupanaõ pequena parte da antiga povoação, onde naturalmente 
Roussin a^sentou o seo observatório, por si r a que ficava entaõ na 
margem do rio. lia alli um lugar, naõ longe do pontal do Norte, 
que conserva o nome de barra velha, por onde affirma a tradicçaO 
que passava o rio. 



131 



Cita-se no Calháo o exemplo de uma canoa que 
d'alli desceo, e no fim de i6 dias se achou de volta 
com uma carga de sal tomada no Salto ; lanço isto 
no rol das cousas raras, e considerarei o que 
acontece mais frequentemente, isto he, que uma 
canoa faz esta viagem em 20 dias. Ora suppondo 
que estas canoas empreguem na descida o mesmo 
tempo que empreguei, que foi 44 horas, isto he, 
5 dias e dando meio dia para o seo carregamento 
no Salto, teremos que a subida d'aquelle ponto 
ao Calháo se pode fazer em 14 dias e meio. 
-Admittamos i5 dias. Já dissemos que o rio de areia 
se sobe em 3 dias, e que em 2 se pôde chegar da 
Cachoeirinha ao Salto. Reunindo pois estas dilfe- 
rentes parcellas, e ajuntando-lhes mais um dia para 
ser consumido no varadouro do Salto, vemos que 
se pode ir de Belmonte ao Calháo com uma canoa 
carregada em 21 dias. 

Notar-se-ha aqui que eu comparo a viagem 
desde a costa, pelo Mucury, até Minas Novas, 
com a que se faz de Belmonte ao Calháo; mas 
cu ja fiz sentir em outra parte que Minas Novas 
não he o ponto mais conveniente para servir de 
grande centro ao commercio d'aquella Comarca, 
e se o hc ajuntem-se 5 dias ás viagens do Gequi- 
tinhonha, pois tanto gasta uma tropa a chegar 
do Calháo a Minas Novas. 

Vemos portanto que uma viagem redonda de 
Minas Novas á costa pelo xMucury não se pôde 
fazer em menos de 60 dias, e que pelo Gequiti- 
nhonha ella se faz em 3i dias, apezar do aban- 
dono da actual navegação d^este no. 

O nivelamento barometrico que fiz dos dous 
rios confirma estas circumstancias : vê-se por elle 
que o rio de pedras do Mucury, em todo o seo 
desenvolvimento de 3o legoa», comprehendida a 
parte do Rio Preto desde a confluência até o 
quartel de Santa Cruz (proximamente 4 legoas 
desenvolvidas), sobe 142 braças; e a parte correspoa- 



132 



dente do Gequitinhonha, com 65 legoas de desen- 
volvimento, apenas sobe 122 das quaes devemos 
descontar 22 que são consumidas em um só ponto, 
o Salto. Não se pôde otferecer uma medida mais 
justa de quanto a navegabilidade do Gequitinhonha 
he superior a do Mucury ; e se a tudo isto ajun- 
tarmos, a circumstancia de se achar a navegação 
do Gequitinhonha um pouco encaminhada, e já 
possuirem as suas margens alguns germens ae 
população, nada mais precisaremos para concluir 
que o Governo, no empenho de dar porto aos 
Mineiros do Norte, e melhorar a sua sorte, deve 
forçosamente pensar antes de tudo no Gequi- 
tinhonha. 

necessidadp:s mais urgentes 

das comarcas de caravellas e 

porto seguro 

Vimos que a communicaçaõ de nossas povoa- 
ções da costa com o centro, de modo a facilitar 
a descida de productos para seos portos e pro- 
ductores para suas terras, he questão de vida e 
de morte para as mesmas povoações, e que esta 
necessidade torna-se tanto mais urgente quanto 
a diminuição da escravatura as vai privando dos 
seos únicos meios de produzir. Lance-se a vista 
sobre o quadro das embarcações que deixão seos 
portos para irem mendigar cargas nos portos 
visinhos, e ver-se-ha uma prova de quanto a 
marinha de nossa cabotagem do sul vai ficando 
superior á producção que cm outros tempos expor- 
tavão seos pequenos portos, por consequência 
mas um documento de sua decadência. 

Também vimos que não menos vital he para 
os Mineiros visinhos a questão de communicações 
que lhes abrão portos para seos mercados e ao 
mesmo tempo facilitem melhores terras para sua 
agricultura; questão tanto mais importante quanto 



I3â 



o ramo único de producção que sustenta sua 
importação — a exportação do ouro e das pedras 
preciosas — vai descabido consideravelmente. 

Procurei igualmente mostrar que a satisfação 
doesta necessidade commum ás duas Províncias, 
vital e urgente, he favorecida pelas circumstancias 
hydrographicas dos dous paizes, e que o Gequi- 
tinhonha he por se só um grande passo dado 
pela natureza n'este sentido, o qual ao mesmo 
tempo facilita os que immediatamente tem de dar 
os aous Governos no empenho de melhorar a 
sorte desta parte do Império. 

Convém agora que eu ensaie a indicação das 
providencias que a mesma necessidade reclama. 

Custa a comprehender que o rio Gequitinhonha, 
navegável no seo desenvolvimento de 90 legoas 
proximamente, muito navegado em outro tempo, 
tenha cahido em perfeito abandono com prejuizo, 
tanto dos Mineiros que fazem a sua importação 
do Rio de Janeiro com enormes despesas, como 
em detrimento da Provincia da Bahia a quem a 
natureza concedeo o direito quasi exclusivo, não 
só de lhe fornecer os géneros de seo consumo, 
como de encarregar-se dos de sua exportação ! 
A importação de quatro mil contos annuaesque 
fazem as comarcas do Serro e Gequitinhonha he 
usurpada pelo Rio de Janeiro aos portos da Bahia, 
e os Mineiros d'aquella parte estão condemnàdos 
a um acréscimo de despesa de transporte perfei- 
tamente inútil! He por certo isto uma das muitas 
anomalias que soem apparecer nos paizes onde 
o interesse das intrigas politicas absorve exclu- 
sivamente todas as attenções, e onde não só os 
primeiros agentes do poder executivo, como toda 
a porçaõ mais importante do pessoal da publica 
administração se succedem rapidamente, como 
entre nós acontece. Em taes condições não ha 
projecto de longa execução possivel, toda a admi- 
nistração pubhcase reduz ao — Eu e meo visinho — ; 



134 



.0 empenho em que se acha o Governo de segurar- 
se no seo posto e a incerteza de sua estabilidade 
apenas lhe permittem olhar para o (jue tem de- 
baixo dos olhos; he logo surprehendido pelo seo 
successor que ordinariamente abandona, se naõ 
desfaz, o que achou feito; porque emíim outros 
saõ os interesses, outras são as vistas. 

He verdade que, sendo o único objecto de 
exportação dos Mineiros o ouro e as pedras pre- 
ciosas, he natural qucelles, achando mais prompta 
venda, e mesmo mais vantajosa na praça do Rio 
de Janeiro, por ser mercado mais activo do que 
o da Bahia, procurem aquelle em perferencia ; 
mas se se considerar a facilidade de communi- 
cações entre estas duas Capitães, e a grande eco- 
nomia que se faz no transporte dos géneros de 
consumo de Minas pelo Gequitinhonha, esta pe- 

âuena vantagem fica a perder de vista ; e isto além 
a faculdade de exportar outros géneros, que naõ 
somente o ouro e as pedras preciosas. 

Um animal de transporte do Rio de Janeiro 
a Minas Novas carrega oito arrobas, recebe 60S000 
rs. de frete, e leva pelo menos 60 dias de viagem. 
Uma canoa sobe de Belmonte ao Calháo em 21 
dias, como já vimos, carrega 52 arrobas e recebe 
de frete 120 a i3oSooo rs. Vemos por aqui que, 
alem de fazer a viagem em menos de metade do 
tempo, a carga que custa 60S000 rs., do Rio a 
Minas, vem a custar, de Belmonte ao Calháo, 
i6S23o rs. proximamente, concedendo o estado 
desgraçado em que se acha a navegação d'aquelle 
rio. A^ora se ao tempo ajuntarmos os 5 dias ne- 
cessários á viagem do Calháo a Minas Novas, e 
ás despesas os 4S000 rs. que paga cada carga de 
um d^estes pontos ao outro, teremos que o tempo 
não subirá ainda a metade, e as despesas ficaráõ 
em 23833o rs. em lugar de 608000 rs. 

Mas o porto de Belmonte não he mercado 
consumidor e fornecedor, he preciso metter em 



135 



conta as despesas e riscos do transporte de uma 
das Capitães mais visinhas e de forte mercado, 
Bahia ou Rio de Janeiro. 

Naõ creio, nem he possivel, que a civilisação 
Mineira naõ possa ser í?em supprida em todas as 
suas necessidades pela praça da Bahia; portanto 
he d'aqui que devemos considerar os fretes para 
Belmonte, por isso que he a mais visinha d'a- 
quelle porto. O que poderá custar o transporte de 
8 arrobas por mar em uma viagem de ^o horas 
em tempo favorável? Suppondo um consumo 
regular, muito pouco nodem augmentar de preço 
as mercadorias enviadas a Belmonte por uma ou 
maÍ5 casas fortes d'esta praça, principalmente se 
alli se quizer estabelecer um ou mais depósitos 
como naturalmente ha de vir a acontecer. 

Se pois todas as vantagens saõ em favor do 
commercio do Norte de Minas pelo Gequitinho- 
nha, se he lei invariável e rigorosa que o com- 
mercio naõ deixa o melhor caminho para seguir 
o que se oppõe evidentemente aos seos interes- 
ses, como he que este se tem todo encaminhado 
para o Rio de Janeiro, deixando ao Gequiti- 
nhonha somente a importação do sal, que he 
género de insignificante valor? Les entraves, diz 
Baptista Say, compriynent lessor de la production; 
le defaut súreté la supprime tout à fait A falta 
de segurança da pessoa e da propriedade he a 
única causa que explica o desvio para o Rio de 
Janeiro de todo o commercio que naturalmente 
pertence ao Gequitinhonha. Esta falta de segu- 
rança vem I." de embaraços naturaes inherentes 
ao leito do rio e de sua barra; 2.'* de naõ haver 
uma lei ou regulamento que determine bem cla- 
ramente os direitos dos canoeiros, assim como os 
dos donos ou conductores de carga ; 3." da impu- 
nidade absoluta de todos os crimes alli commet- 
thlos por falta de uma força que auxilie as auç- 



136 



thoridades, já na repressão dos mesmos crimes, 
já na protecção dos direitos de propriedade. 

O rio de pedras do Gequitinhonha muito na- 
vegável como vimos oppõe com tudo algumas 
ditficuldades; grandes despezas demandaria o 
melhoramento que o tornasse inteiramente com- 
modo como o rio d"areia; mas felizmente o perigo 
de sua navegação vém pela maior parte de em- 
baraços de fácil remoção. Naõ he na cachoeira 
do inferno, nem em outras pequenas pancadas 
que obrigaõ ao descarrego c(uq se podem perder 
canoas carregadas ; estas difficuldades saõ intei- 
ramente annuladas com uma pequena despeza de 
tempo : as pedras isoladas, muitas vezes soltas, 
que, occupando o alveo de um canal, obrigão as 
canoas, tocadas de forte correntesa, isto he, no 
momento em q^ue o seo governo he mais difficil, 
a fazer um rápido desvio, saõ os escolhos onde 
quasi sempre estas naufragaõ. A celebre pedra 
alli conhecida com o nome de Marahú onde se 
contaõ perdidas onze canoas, está n'este caso*. 

Remover ou destruir estas pedras e. outras que 
muitas vezes obstruem completamente um excel- 
lente canal ; determinar os canaes mais commo- 
dos tanto para a subida como para a descida, 
nos differentes estados das agoas do rio; melho- 
rar os varadouros, principalmente o do Salto, 
cuja estrada hoje praticada poranimaes de car- 
ga hc susceptível de se tornar praticável por carros; 
são os objectos que têm de occupar primeiro que 
tudo a attenção do Governo no que diz respeito 
ao melhoramento do leito do Rio Gequiti- 
nhonha. 

A barra de Belmonte, já o dissemos, he um 
dos maiores embaraços da navegação d'aquelle 
rio, e justamente um d'aquelles que o Governo 
pode, naõ direi fazer desapparecer de todo, porém 
minorar consideravelmente. Quem naõ vê que 



U\'i 



um bom pratico convenientemente pago e muni- 
do dos necessários meios, como por exemplo, 
uma atalaia d'onde possa fazer signal ás embar- 
cações da direcção actual do canal, e mesmo uma 
pequena lancha onde possa sair a tomar fora as 
embarcações quando as difíiculdades da occasião 
o exigirem, tornará quasi insensivel este obstá- 
culo para o commercio? 

Mas naõ parão aqui os recursos que flcaõ a 
uma administração que deseje cuidar dos verda- 
deiros interesses materiaes d^aquella parte do Sul 
da Província: a própria natureza os facilita. A 
distancia que separa as agoas de Belmonte das 
do Rio Pardo naõ chega a uma legoa, como V. 
Ex. verá do mappa especial daquella parte (linha 
encarnada): um canal não, um simples rego 
aberto n'este terreno baixo e arenoso bastaria 
para pôl-as em relação de communicaçaõ. A 
própria maré se encarregaria de o alimentar e 
entreter, e a despeza não subiria a dez contos 
de réis. Doesta sorte as barras de Canavieiras e 
de Patype pertencerão igualmente a Belmonte, 
e a povoação de Canavieiras participará do com- 
mercio de Gequitinhonha. 

Ainda mais nos otferece a natureza. As agoas 
de Patype separaõ-se das de Poxim pela distancia 
insignificante de 90 a 100 braças no lugar deno- 
minado Porto do Mato (linha encarnada), ou 1,160 
braças junto da costa. 

Com estas simplices aberturas a povoação c 
lodo o Rio Belmonte ou Gequitinhonha, Canavi- 
eiras e todo o Rio Pardo, ficarão gosando de seis 
barras, que saõ, a contar do Sul : 1 ." a de Bel- 
monte que naõ he bòa ; 2." a do Pezo que he 
insignificante e apenas dá entrada a canoas; 3.* a 
de Canavieiras que passa por muito bòa; 4." a de 
Patype que lhe he inferior; 5." a dè Poxlm que 

18 



i:í« 



naõ he má; 6/ a de Comandatuba que gosa de 
bòa reputação. 

A remoção da segunda origem dos vexames 
do commercio do Gequitinhonha está inteiramente 
nas mãos do Governo. As relações entre canoeiros 
e patrões ou donos de cargas saõ um complexo 
de desmanchos cada qual mais extravagante. 
Principia pelo propósito constante em que vivem 
de se enganar uns aos outros: o regataõ ou con- 
ductor de carga avança géneros em conta de valor 
exorbitante, o canoeiro obrigado pela necessidade 
os aceita, e em represália exagera inutilmente as 
condições de seo serviço : e, o que hè peior, como 
a responsabilidade he nenhuma, pouco lhes custa 
por vmgança alagar uma canoa. Naõ ha canoeiro 
que naõ deva aos patrões cem, duzentos e até 
quatrocentos mil rs. Naõ ha para esta gente res- 
peito nem aos tratos nem as pessoas: uma canoa 
só sabe quaes saõ os individuos que compõe a 
sua guarnição depois que se põe em marcha; 
ainda assim naõ he seguro, porque nada custa a 
um individuo doestes abandonar urna canoa em 
viagem por qualquer divertimento que encontre 
em alguma povoação ou sitio do caminho, ou 
mesmo porque algum outro regataõ lhe ofFereça 
maior vantagem. 

O patraõ ou dono de carga naõ tem voz activa 
na viagem ; a certeza do que lhe podem fazer 
impunemente á sua pessoa e a sua pequena pro- 
priedade, torna-o um humilde espectador dos 
desregramentos dos canoeiros. Estes, quando 
lhes parece, falhaõ um dia, porque emfim estão 
com pouca disposição para o trabalho ; deixão a 
carga descoberta ao tempo, e muitissimas vezes, 
só para evitar a pena do descarrego, mettem uma 
cariòa carregada em alguma das pancadas que 
naõ dispensaõ esta operação; d'onde véjp frç- 
quentes perdas. 



m 



Um regulamento que determine os canaes mais 
convenientes por onde devem seguir as canoas, 
e os pontos de descarrego forçado, tudo segundo 
as diíferentes condições d'agoas em que se ache 
o rio; que marque as obrigações dos canoeiros 
para com seos patrões, e vice-versa, &c. ; he uma 
das necessidades mais urgentes à navegação do 
Cíequitinhonha. 

Este regulamento porém se tornará inteira- 
mente sem etfeito, se o Governo, principalmente, 
o de Minas, naõ tratar antes de tudo ae destruir 
a terceira fonte de embaraços auealli vexão tanto 
o commercio como a população. Nas povoa- 
ções do Gequitinhonha, principalmente no Salto 
e em São Miguel, a segurança mdividual está so- 
mente ou na força physica do individuo, ou na 
agilidade com que sabe manejar seo bacamarte e 
evitar o do adversário, ou finalmente na humil- 
dade com que se dispõe a soffrer toda a sorte 
de violências dos malfeitores. O bacamarte e a 
faca são aqui o distinctivo do homem respeitável; 
naõ se põe pé fora da porta de noite, que não 
seja armado de ambos estes instrumentos. Dão-se 
tiros e facadas, viola-se o asylo do cidadão, insul- 
ta-se o mais sagrado das familias, e os crimino- 
sos folgaõ e passeiaõ impunes diante das autho- 
ridades a quem falta a força com que se façaõ 
respeitar, soífrendo aquelles* unicamente a priva- 
ção de descerem até Belmonte, onde encontrão 
um Delegado e um Subdelegado que os vaõ re- 
crutando como único recurso em desagravo ás 
leis. Com etfeito, sem a energia dos Srs. Dr. 
António Gomes Villaça e Cândido José de Souza, 
Delegado e Subdelegado de policia de Belmonte, 
os quaes com a pequena força de que dispõe naõ 
poupaõ os que, recommendados pelas authori- 
dades de Mmas, se descuidão em descer até alli, 
não sei se a anarchia dos canoeiros do Gequiti- 



140 



nhonha não chegaria até o exterminio da. popu- 
lação I 

' A estrada lateral do Gequitinhonha continuada 
do Salto a Belmonte seria um poderoso auxilio 
ao commercio do rio, principalmente durante o 
tempo das cheias, em que a navegação para cima 
fica inteiramente parada; mas não he negocio de 
primeira urgência. 

Até aqui as necessidades urgentes do Gequiti- 
nhonha como principal via de communicação 
entre as duas Provi ncias ; vejamos agora o que pre- 
cisamos para o melhoramento das nossas povoa- 
ções mais ao Sul. Ainda aqui vem em nosso soc- 
corro o Gequitinhonha. Um núcleo de povoação 
no ponto mais alto da parte navegável do Rio de 
Alcobaça; uma estrada ligando este ponto a São 
Miguel, e ramificações partidas d'elle aos pontos 
superiores da navegabilidade dos rios Peruhipe, 
do Prado, c de Porto Seguro; um canal de fácil 
execução, communicando as agoas do rio de Al- 
cobaça com as do rio da Serraria de Caravellas; 
formão o segundo passo importante que, a meo 
ver, pode dar uma administração em favor das 
nossas povoações do Sul. 

Quanto aos meios de execução muito se pôde 
discutir antes de chegar ao melhor accordo; mas 
um forte destacamento composto de gente do 
^centro habituada ao trabalho, e não de vadios das 
cidades e pescadores da costa, como a que com- 
punha a celebre colónia do Mucury, pode formar 
o seo estabelecimento no ponto central que mar- 
quei no rio de Alcobaça, com o fim de fundar o 
núcleo de uma Colónia, occupando-se parte na 
cultura das provisões a consumir, parte em abrir 
a estrada principal ao arraial de S. Miguel e as 
ramificações indicadas, e na policia das mesmas 
estradas * contra os attaqucs dos selvagens. Um 
outro destacamento importante na Cachoeirinha 
com o mesmo fim de formar o principio de uma 



\4l 



colónia, abrir a estrada laicral do Salto a Bel- 
monte, trabalhar no melhoramento do leito do 
rio de pedras e fazer a policia entre o Salto e 
Belmonte. Quanto á Província de Minas torna- 
se mais urgente um ijjual destacamento collocado 
em S. Miguel com o hm de fornecer trabalhado- 
res para o melhoramento do rio, fazer a policia 
entre o Salto e o Calháo, e ajudar a da estrada 
de Alcobaça, assim como ao mesmo trabalho da 
abertura ; sendo ao mesmo tempo um meio de 
animar c fazer progredir o commercio e popu- 
lação d'aquelle arraial. 

Eis em resumo o que me parcceo mais sim- 
ples e ao mesmo tempo mais profícuo no intuito 
de melhorar a sorte futura de nossas povoações 
do Sul. V. Ex. concebe que cada uma doestas 
indicações he susceptivel de muito desenvolvi- 
mento; mas, não tendo ellas por fim senão faze- 
rem o complemento ás minhas informações, ajun- 
tando-lhes alguma claresa, julguei que serião aqui 
mal cabidos quaesquer pormenores; muito mais 
quando estou persuadido que á illustração d'aquel- 
les que têm de providenciar sobre os interesses 
materiaes da Província, só faltão os dados do 
problema dos melhoramentos a se fazerem, para 
chegar á sua justa solução. 

Deus guarde a V. Ex. 

Bahia, i o de Fevereiro de i85i. 

111."'^ e Ex.""* Sr. Conselheiro Presidente da 
Província. 

Innoccncio Velloso Pederneiras^ 

Capitão do I. C. de Engenheiros, Chefe da 
Commissão de Exploração do Mucury e Gequi- 
tinhonha. 



A egreja da Ajuda 



Foi esta a primeira egreja edificada na cidade. 

O chronista Simão de Vasconcellos, no seu 
primeiro livro da chronica da Companhia de 
Jesus, pagina 22, ?i 46 conta que no mez de Abril 
de 1549, o governador, que então era Thomc de 
Souza, mudou-se para o sitio que tinha demar- 
cado e que distava mais ou menos meia légua da 
ViUa Velha. 

Ahi fundou a cidade do Salvador e foi forca 
viudarem-se também os religiosos c no mesmo tempo 
em que os moradores edificavam casas, fazer as 
^uas e egreja, no togar ofide hoje se vê a de Nossd 
Senhora da Àjiida, invocação que então lhe puzc- 
ram e foi a primeira que no Brazil teve a Cojn- 
pankia. 

Sem outros recursos mais do que os próprios- 
construiram elles as casas e o templo com as pró- 
prias mãos, pois ainda que quizessem os morado- 
res ajudal-os não podiam pela obrigação em quj 
estavam não só de construírem as casas, alinha- 
rem as ruas, como também de cercarem a cidade 
para a defeza contra o gentio. 

As casas e o templo primitivo eram de taipa, 
cobertos de palha, por isso iam elles ao mato que 
lhes ficava perto, cortavam madeiras e condu- 
ziam-n'as ás costas; cavavam o barro para as 
paredes, e como não tinham meios para o sus- 
tento da vida eram forçados a pedir de porta em 
porta o que haviam de comer e tiravam muito 



144 



pouco por causa da grande escassez que então 
havia. 

A lenha para o fogo e a agua para as neces- 
sidades da vida iam elles mesmos buscal-as para 
o que andavam á ligeira em corpo; que não havia 
entre tanta pobreza tratar de veste ou maniéo; e 
talvez nem sapatos nem cafnisa. 

Feitas as casas c o templo, principiaram os 
exercicios espirituaes até que, chegando no dia i." 
de Janeiro de 1 552 o Bispo D. Pedro Fernandes 
Sardinha com o seu cabido, lhe entregaram as 
casas e a egreja de Nossa Senhora da Ajuda, que 
com tantas fadigas tinham construido e foram 
assentar nova habitação fora da cidade sobre um 
monte que era appellidado Mo7ile Calcário, onde 
hoje se vê a egreja e convento do Carmo. 

Ahi construiram osjesuitas um pequeno hos- 
picio (diz Accioli) junto á pequena ermida que 
já existia sob a invocação ae Nossa Senhora da 
Penha. 

O receio continuo de serem atacados pelos 
Índios os obrigou a se conservarem dentro dos 
muros da cidade; edificando outro hospicio no 
mesmo sitio onde mais tarde levantaram o sum- 
ptuoso templo e o grande Collegio da Companhia 
de Jesus em frente á esplanada que se ficou 
chamando Terreiro de Jems^ e onde se acha 
actualmente a Sé Archicpiscopal. 

Convém notar aqui que a nomeação e confir- 
mação do Bispo preceaeu de quatro annos a 
creação do bispado I 

D. Pedro Fernandes Sardinha, sendo confir- 
mado Bispo em i55i, tomou posse no anno 
seguinte, e a bulia — Super spccula vnUtavtis Eccle- 
site — do pontifice Júlio III, creando, a instancias 
de el-rei D. João III, o primeiro bispado do 
Brazil — só foi expedida em i555. 

Sem embargo, esta c a verdade deste facto 
e suas circumstancias, diz monsenhor Pizarro, 



14Õ 



em suas memorias, que nunca poude obter a 
menor noticia que destruisse as suas conjecturas. 

Mas voltemos á egreja de Nossa Senhora da 
Ajuda. 

Gabriel Soares em seu « Roteiro do Brazil » 
(i57i — iSyS) publicado pelo «Instituto Histórico», 
tomo XV da Revista, pagina 122, capitulo XI, diz 
fallando da cidade do Salvador. 

crTornados á praça, pondo o rosto no sul, 
corre outra rua muito povoada de moradores, 
no cabo da qual está uma ermida de Santa Luzia, 
onde está uma estancia com artilharia. E ao 
longo desta rua lhe fica outra muito bem assen- 
tada também toda povoada de lojas, e no topo 
d'ella está uma formosa egreja de Nossa Senhora 
da Ajuda com sua capella de abobada; no qual 
siiio, no principio desta cidade esteve a Sé.» 

D^ahi se conclue que cm breve tempo o Bispo 
eos moradores construíram um templo de pedra 
e cal no mesmo logar e com a mesma forma que 
o primitivo templo de palha e taipa. 

Faz-se necessária a^ui uma pequena expli- 
cação. 

A ermida de Santa Luzia, diz Mello Moraes 
na sua chronica Geral do Brazil, foi construída 
nos primeiros tempos da fundação da cidade da 
Bahia e achava-se no logar do actual theatro S. João. 

Por alvará de 14 de Janeiro 1807 foi incor- 
porada a egreja da Ajuda aos próprios nacionaes 
e por decreto de 10 de Fevereiro de 1827 foi 
doada á irmandade do Senhor dos Passos, doação 
confirmada pela resolução da Assemblea Geral 
Legislativa n. 5 19 de 12 de Fevereiro do mesmo 
anno, e Carta Imperial de 20 de Fevereiro de 
i85o. 

EXTERIOR 

O templo tem a forma triangular e acha-se 
entre as ruas: do Collegio, de S. Francisco, (esta 

19 



146 



rua foi chamada do Padre Gonçalo e depois do 
Pão de Lot) ea praça da Ajuda. 

E' uma egreja de gosto antigo com porta 
principal e duas lateraes, (antigamente eram duas 
janellas guarnecidas de balaustres de ferro) três 
janellas envidraçadas no coro e uma guarnição 
em forma de S *S itálicos que de cada lado cami- 
nham para cima da soleira do telhado até pren- 
derem a cruz. 

Ao lado esquerdo existe a pequena torre for- 
mada por uma grossa parede onde estão dois 
sinos, com um frontispício ornado com dois 
iS S itálicos prendendo um.^ cruz. 

Em continuação á parede exterior está a casa 
do fiel com porta de entrada e janella com grade 
de ferro e mais duas correspondentes no pavi- 
mento superior, que se communica com o coro. 

A face do templo que dá para a rua de S. 
Francisco tem seis óculos que correspondem a 
outras tantas janellas envidraçadas do pavimento 
superior ; do lado da rua ao Collegio existem 
três janellas envidraçadas, duas pequenas com 
varões de ferro, uma' alta porta com arco e uma 
janella com varões de ferro. 

INTERIOR 

Tem a egreja da Ajuda no seu interior uma 
capella, funda, do lado esquerdo de quem entra, 
onde está a Imagem do Senhor dos Passos. 

Esta imagem á uma obra prima, de tamanho 
natural e perfeitissima, ricamente ornada, e o 
andor é todo chapeado de prata. 

Dizem que antigamente pertencia esta imagem 
ao Convento dos Religiosos do Carmo, a qual 
fora depositada na egreja da Ajuda em conse- 
quência dos concertos que estavam fazendo na- 
quelle Convento, 



147 



Não querendo a irmandade dos Passos restí- 
tuil-a houve renhidas contendas e demanda entre 
os religiosos e a dita irmandade. 

E' tradição antiga que, querendo uma vez os 
frades do Carmo apoaerar-se da imagem quando 
a procissão passava pela Baixa dos Sapateiros, 
apparecera uma nuvem tão serrada de mosquitos 
entre a procissão e os frades que estes, reconhe- 
cendo o milagre, desistiram da empreza e deixa- 
ram a procissão seguir. 

Perto da sagrada imagem existe um cravo, que 
dizem veio de Roma, com o mesmo tamanho e 
forma dos que os Phariseus cravaram nas mãos e 
pés do Redemptor. 

Em seguida está o púlpito, porém não é o 
mesmo onde o grande padre António Vieira pre- 
gou o inimitável sermão contra as armas da 
Hollanda. 

Junto ao arco do cruzeiro existem dois alta- 
res que antigamente não estavam nos cantos, 
mas sim ao lado. 

No altar do lado esquerdo está a imagem do 
Senhor da Redempção. Esta imagem é antiga e 
do primitivo templo! Embaixo e dentro do nicho 
se venera a imagem de Nossa Senhora da Boa 
Nova. 

O altar do lado direito pertence ao Senhor 
Bom Jesus dos Milagres. 

Esteve esta imagem sempre na egreja da Ajuda 
e em 1824 foi entregue á irmandade do Senhor 
dos Passos. 

Em 1842, tendo sido reformado o compro- 
misso d'esta irmandade, ficou ella na obrigação 
de velar na conservação das imagens, fazer inven- 
tariar suas alfaias, finalmente tomar conhecimento 
de todas as esmolas. 

A imagem do Senhor dos Milagres era uma 
das collocadas na egreja da Ajuda, que não tinha 
confraria, e, sendo o Tenente-Coronel José Pereira 



148 



de Castro ó devoto que guardava as alfaias doesta 
imagem, a irmandade houve de exigir que elle 
desse a inventario as jóias e alfaias do Senhor 
dos Milagres, ainda que de novo as levasse em 
guarda. 

Não c^uiz o tenente-coronel prestar-se a fazer 
inventario, indispoz-se com a irmandade e desde 
então concedeu o projecto de privar a egreja da 
Ajuda da dita imagem. 

N'este entretanto succedeu que a irmandade 
mandasse fazer de novo os altares lateraes, em 
um dos quaes achava-se a imagem do Senhor 
dos Milagres, e portanto foi preciso retiral-a. 
Aproveitando-se a esta occurrencia, o tenente- 
coronel pediu em confiança a imagem a pretexto 
de mandal-a incarnar; e o procurador, não obs- 
tante a repugnância da mesa, lh'a confiou sob 
palavra de qbe, concluida a obra, regressaria para 
o seu antigo altar. 

Recebeu elle a imagem ; mas, acabada a obra, 
rogado e instado para restituil-a, com abuso da 
boa fé e confiança do procurador, negou-se ab- 
solutamente á restituição, que veio a ter logar 
Guando o chefe de p:)íicia, por queixa da irman- 
dade e mais ainda pelo alvoroço dos devotos e 
clamor publico, ordenou que restituisse a ima- 
gem, o que fez o tenente coronel, porém guar- 
dando as alfaias e entregando a imagem comple- 
tamente nua. 

No altar-mór está coUocada a imagem de 
Nossa Senhora da Ajuda, que é a do prinieiro 
templo: em um nicho ao lado direito está a ima- 
gem de Santo António e a esquerda S. Gonçalo. 

Por baixo do altar-mór está a imagem do Se- 
nhor Morto, de estatura maior que a do homem 
c de rara perfeição. 

Existem oito tribunas, sendo seis no corpo 
da egreja e duas no altar-mór. 



149 



O interior do templo está todo reformado; da 
antiga Sé existem os azulejos, a porta da frente, 
a do presbyterio, os dois contissionarios, a lâm- 
pada de prata e a pia ; acima doesta encontra-se 
a seguinte inscripção : 



J H S 

1579 



que quer dizer — Jesus Homlnis Salvator — dis- 
tinctivoou brasão d'armas dos jesuitas. 

Por baixo do ladrilho existem varias sepultu- 
ras, porém achamos poucas inscripções; a mais 
notável é a que se acha na capella-mór, onde 
se lê : 

Sepultura do Coronel Domingos José de Carvalho 
e seus parentes que esta irmandade lhe designou 
pelos muitos benefícios que sempre lhe fez seu bem- 
f citar y actual anno de 1196, 

Os quadros que representam a paixão de 
Jesus Christo e que adornam as paredes da egreja 
são do pintor J. Rodrigues Neves (i855); os do 
primitivo templo estragaram-se completamente. 

O corredor e o forro da sacristia são os mes- 
mos do templo primitivo ; os ornamentos d'esta 
parte da egreja foram feitos com as taboas do 
forro da egreja. 

O lavatório, obra prima de mármore, é antigo 
e pertenceu ao templo primitivo. 

Nada mais encontramos digno de menção 
sobre esta egreja que muitos annos serviu de 
matriz. 



A. I. DE Oliveira Rocha. 



As abelhas soeiaes iDdigp.nas do Brazíl 

Illm. e Exm. Snr. Presidente do Instituto 
Geographico e Histórico da Bahia. 

Venho de concluir um estudo que comecei, 
ha 22 annos, no Rio Grande do Sul, sobre a 
biologia das abelhas da familia das meliponidas, 
assumpto até agora insufficientemente conhecido, 

Os meus estudos se referem, especialmente, 
ás espécies do estado de S. Paulo, e o fim destas 
poucas linhas é ver si, por intermédio do «Instituto 
Geographico e Histórico da Bahia», consigo arran- 
jar um ou outro coilaborador, no interior deste 
e de outros estados, afim de completar as minhas 
investigações. 

O motivo deste meu proceder é especialmente 
o facto de ter sido publicado um excellente artigo, 
sobre as abelhas do Rio de Janeiro, pelo incan- 
sável naturalista, o sábio Dr. Theodoro Peckolt 
artigo que, entretanto, necessita modificações, na 
parte systematica, isto é, na determinação das 
espécies classificadas. 

Não obstante a competência do Sr. F. Smith, a 
quem o Sr. Dr. Peckolt mandou as abelhas cor- 
rigidas, deram-se numerosos enganos, de modo 
que a abelha que Peckolt denominou — jatahy — , 
cm verdade, é a mandasaia, e vice-versa. 

Já comecei a estudar as abelhas do estado do 
Rio de Janeiro, mandando o naturalista viajante 
deste museu, Sr. Ernesto Garbe, a Petrópolis, 
onde, auxiliado pelo illustre entomologista Sr. 
Joseph G. Foetterle, conseguiu reunir singular 
collecção de abelhas, trazendo vivos diversos 
ninhos. 

Sendo grande, entretanto, o numero das espé- 
cies que não conheço, preciso começar novamente 
com o assumpto, o* que será possível somente por 



152 



intermédio de pessoas que liguem interesse á na- 
tureza do paiz e que não só me forneçam as 
abelhas, mas também informações sobre o seu 
modo de viver e os nomes triviaes sob os quaes 
sejam conhecidas. 

Desejo de cada espécie 5o ou 6o abelhas, con- 
servadas em um vidro com álcool, como também 
a porta do ninho ou o pedaço do tronco da arvore 
que o contiver. Só os ninhos construidos livres, 
como os de Iraxim, Irapuã, Cupira, etc, é ne- 
cessário mandal-os completos, guardando-os num 
sacco acondicionado em um caixão. 

Excusado será dizer que me otfereço a res- 
tituir as respectivas despezas de transporte, etc. 

Estas abelhas pertencem a dois géneros. O pri- 
meiro delles, Meljpona, encerra as espécies maio- 
res e mais bonitas, as que são de maior utilidade 
e mansas. As azas têm o comprimento do abdó- 
men; a entrada do ninho é feita de barro, como 
também o batumen, o septo, que forma em baixo 
e cm cima o limite do ninho, separando-o do 
resto da cavidade da arvore. 

Pertencem a este género as abelhas denomina- 
das mandasaia, gurupii, mandorim, tujuva, urussú 
e outras. 

Quanto ao segundo género, denominado Tri- 
gona, contrasta singularmente com os precedentes, 
pela grande variabilidade dos seus costumes c 
ninhos. 

Certo numero de espécies constróem os seus 
ninhos ao ar livre, como já anteriormente tenho 
explicado, sendo, entretanto, as respectivas es- 
pécies do Rio de Janeiro, Bahia e outros estados 
pouco conhecidas, como por exemplo: as que são 
denominadas — xupc ou jatahy, bocca de sapo e 
a tubi, ou jatahy da terra. 

Parece-mc que ha algumas espécies, entre as 
que constróem os ninhos no chão, que fazem a 
casca do ninho de barro, como a — cupira e a 
mombuca — mirim. 



153 



Do ninho desta ultima, diz Peckolt, que das 
bolas de argilla que tem lateralmente a sua entrada 
se acham, ás vezes, três ou quatro, uma em baixo 
da outra, sendo provável que cada uma represente 
uma colónia independente e munida de ramha, ou 
abelha mestra. Seria-me summamente interes- 
sante examinar estes ninhos, devendo para fins 
de remessa cada bola ser embrulhada separada- 
mente. 

O Dr. Peckolt publica ainda os seguintes no- 
mes de abelhas, que não conseguiu obter : mar- 
melada branca — , póra — , mondaquin, — sete por- 
tas — , iratin — , cabiguará — , preguiçosa — , bate 
chapéo — , bejui ou migui, — tubi bravo ou bocca 
rasa — , bocca de barro — , atakira — , oariti — , 
coniára e abelha de cachorro. 

E' provável, entretanto, que entre as abelhas 
examinadas por Peckolt haja varias, que não se- 
jam exactamente denominadas; assim por exemplo, 
julgo singular que a abelha tatuira seja mansa, 
quando o nome- mel de fogo — faz suppor que a 
abelha seja a me:ima que geralmente é conhecida 
sob o nome de caga-fogo. 

Um grupo interessante de abelhas é o das que 
assaltam outros ninhos, matando as abelhas e rou- 
bando o mel. 

No estado de S. Paulo conheço até agora 
destas abelhas h'tndidas as seguintes : tujumirim 
(Trigona dorsalis) que constróe na porta um funil 
largo de cera molle; tubuna (Trigona bipunctata) 
cujo tubo de entrada, em forma de funil, feito 
de massa dura e escura, attinge o comprimento 
de i5 a 20 centim.; abelha limão (Trigona limas) 
cujo tubo colossal é por fora munido de numero- 
sas e pequenas protuberâncias. 

Tenho guardado no museu um destes tubos 
de tujumirim, que c collocado em cima da porta 
caracteristica de uma mandasaia, prova de que 



1Õ4 



esta abelha matou a mandasaia e tomou conta da 
sua casa. 

Outro facto singular, por mim observado, é 
que a Trigona fulviventris, denominada aqui — 
mel de cachorro, vive em uma singular symbiose 
com Termitidas, sendo o ninho da abelha por fora 
coberto de cupim. 

Provavelmente o mesmo facto sedará também 
no estado da Bahia. Observo, entretanto, que não 
conheço o nome indígena desta abelha, que, al- 
gum tempo, suppuz ser o de — cupira. 

Mais tarde verifiquei que a cupira em S. Paulo 
constróe o seu ninho em arbustos, sendo elle no- 
tável pela larga abertura de entrada, feita de barro, 
em forma de uma bocca aberta. Estes ninhos 
assemelham-se aos cupins, o que justifica perfei- 
tamente o nome indígena de cupira, ou mel de 
cupim. 

Falta-me aqui mais minuciosidades, mas não 
posso deixar de mencionar, a descoberta de 
que as rainhas só no género Trigona nascem em 
cellulas reaes, grandes como as do género Apis, 
quando no género Melipona se desenvolvem em 
cellulas ordinárias, de modo que a rainha nova é 
do mesmo tamanho ou até um pouco menor que 
a obreira. 

Este facto é tão pouco esperado que já causou 
graves erros, induzmdo, por exemplo, o grande 
mestre da investigação biológica, Fritz MuUer, a 
suppòr que essas rainhas novas sejam abelhas 
parasitas. 

Desejo mencionar, afinal, que um pequeno 
grupo de espécies de Trigona (mosquito jatahy, 
etc. ) constroem á porta um pequeno tubo de 
cera branca, que de noite fecham. 

Não duvido que muito vale estender estes es- 
tudos também sobre outros estados do Brasil, não 
só porque serão descobertos muitos factos novos, 
mas também porque será possível successiva- 



155 



mente reunir pequenos grupos concordantes em 
sua biologia, afim de dar uma base solida á dis- 
posição systematica das numerosas espécies em 
parte muito semelhantes entre si. 

E' esta a razão por que os numerosos dados 
constantes da literatura não têm valor, sendo este 
o motivo por que, por minha parte, desejo todas 
as informações, acompanhadas das abelhas a que 
se referirem. 

Deixando de tratar nesta occasião de minhas 
experiências na apicultura das meliponidas, es- 
pero que me será dado voltar novamente ao assum- 
pto, esclarecendo-o por meio de novas e interes- 
santes observações. 

Quanto ás espécies da Bahia, já varias vezes 
algumas delias foram remettidas á Europa. Era 
especialmente um apicultor intelligente, francez, 
Sr. Drory, em Bordeaux, que, por algum tempo, 
creou algumas espécies delias, especialmente a 
urussú, e publicou diversas noticias sobre as suas 
observações. Estas, entretanto, precisam de novo 
exame visto que as espécies observadas em parte 
não foram exactamente classificadas. 

Seria, nestas condições, muito conveniente 
examinar de novo e de modo mais completo, as 
abelhas sociaes do estado da Bahia, sempre com 
referencia aos seus nomes indígenas e ao seu valor 
económico. 

S. Paulo, 8-9-902. 

H. VON IHERING. 



i Batia ia Saiala do Iiprio 



^cb o titulo «A Bahia no Senado do Império» 
o nosso digno consócio o Exm. Sr. Barão 
de S. Francisco, enviou para o Diário da Bahia 
minuciosa noticia, que pedimos vénia para trans- 
crever, julgando-a de mteresse histórico. 




Illustre sr. dr. redactor — Apropinquando-se 
as eleições de um senador e 22 deputados federaes, 
as quaes se vão proceder no dia 28 de dezembro 
próximo; e a do terço do Senado, — e dos 42 
deputados estaduaes,' que se deverá realisar na 
I' dominga de novembro, parece-me de oppor- 
tunidade relembrar á Bahia, os nomes illuslres 
dos que muito dignamente a representaram no 
Senado do Império desde sua primeira organi- 
sação que foi vasada no decreto do Senhor D. 
Pedro 1, de 22 de Janeiro de 1826. 

Nessa quadra inolvidável, foram eleitos e 
escolhidos Bahianos, que, se pôde afíirmar, figu- 
raram com o maior lustre no seio da nascente 
corporação, que constituio-se com 5o pares, e a 

a uai mereceu ser denominada areópago politico 
o Brasil. 
Como se fez na terceira Republica Francesa 
em i885, erga-se entre nós um Pantheon consa- 
grado ao culto dos beneméritos da Pátria, que 
por seu notável civismo, e pelos bons princípios 
em que se inspiraram, souberam, nas ditferentes 
crises por que passámos, assignalar-se gloriosa- 
mente, assim na imprensa, como, e especialmente, 
na tribuna do que nos dão hoje fiel testemunho 



158 



os preciosos annaes do ex-parlamento brasileiro, 
que tanto praz compulsar aos que comprehendem 
a importância e a necessidade do conhecimento 
da historia nacional. 

Rogo, pois, á illustre redacção do Diário a 
inserção em suas columnas das* notas aue, com 
indisivel prazer, lhe envio. — Bahia, 20 ae setem- 
bro de iqo2. — Barão de S. Francisco. 



A BAHIA NO SENADO DO IMPÉRIO 

Tendo-se, nas varias provincias do ex-Imperio, 
feito as eleições senatorias conjunctamente para 
todas as cadeiras que, segundo o numero de 
seus deputados, a cada uma delias tocaria na 
futura corporação vitalícia, e, na forma da Consti- 
tuição de 25 de março de 1823, por listas de 3 
nomes sobre cada logar, por decreto de 22 de 
janeiro de 1826, o senhor d. Pedro I fez a esco- 
lha dos que deveriam definitivamente formar o 
Senado. 

Pela antiga Província hoje Estado da Bahia, 
foram nomeados dentre os 18 nomes apresentados 
á escolha imperial os seguintes: 

Francisco Carneiro de Campos, José Joaquim 
Carneiro de Campos (depois ^Marquez de Cara- 
vellas), Luiz José de Carvalho e Mello (depois 
visconde da Cachoeira), José da Silva Lisboa 
(depois visconde de Cayrú), Domingos Borges 
de Barros (depois visconde da Pedra Branca) e 
Clemente Ferreira França (depois marquez de Na- 
zareth); os outros doze cidadãos, cujos nomes 
entraram na lista para perfazer o total dos dezoi- 
to eleitos foram: o marquez de Santo Amaro, 
Manoel Ferreira da Camará Bittencourt Sá, Dr. 
António Ferreira França, dezembargadpr António 
Augusto da Silva, Alexandre Gomes Ferrão, 
capitão-mór Joaquim Ignacio de Siqueira Bulcão 



159 



(depois I** barão de S. Francisco), dezembargador 
António da Silva Telles, padre Francisco Agos- 
tinho Gomes, commendador Pedro Rodrigues 
Bandeira, brigadeiro Domingos Alves Branco 
Moniz Barretto, Pedro Marcos António de Souza 
(depois bispo do Maranhão) e cónego José Ribeiro 
Soares da Rocha. 

Por essa occasião, succedendo que diversos 
cidadãos, que entraram na lista da Bahia, fossem 
também contemplados nas de outras Provincias, 
foram escolhidos por Pernambuco o marquez de 
Inhambupe, António Luiz Pereira da Cunha; 
por Alagoas, o marquez de Barbacena, que era 
filho de Minas Geraes, Felisberto Caldeira Brant 
Pontes; por Pernambuco o magistrado António 
José Duarte de Araújo Gondim ; e pelo Pará o 
barão de Itapoan — José Joaquim Nabuco de Araújo. 

Dos escolhidos da Bahia, o primeiro que fal- 
leceu foi o visconde de Cachoeira — Luiz José de 
Carvalho e Mello, á 6 de junho do mesmo anno, 
não tendo mesmo chegado a tomar assento no 
Senado. 

Segui ram-se-lhe no tumulo, o marquez de 
Kazareth, em ii de março de 1827. O visconde 
de Cayrú em 20 de agosto de i835. O marquez 
de Caravellas em 8 de setembro de i836, Fran- 
cisco Carneiro de Campos, em 8 de dezembro 
<le 1842. O visconde da Pedra Branca, que fal- 
leceu em 20 de março de i855, foi o ultimo dos 
senadores bahianos da primitiva organisação do 
Senado. 



A primeira cadeira, a do marquez de Cara- 
A^ellas, teve apenas dois successores: Manoel Alves 
Branco, depois visconde de Caravellas, nomeado 
em i3 de junho de iSSy e fallecido cm i3 de 
julho de i855; e João Maurício Wanderley, 
depois barão de Cotegipe, nomeado em 1° de 



160 



maio de i856 e fallecido em i3 de Fevereiro 
de 1887. 

A segunda cadeira, a do visconde da Cachoeira, 
que, como dissemos, não foi por elle occupada, 
teve por successor o magistrado Luiz Joaquim 
duque Estrada Furtado de Mendonça, nomeado 
em II de maio de 1827 e fallecido em 28 de 
novembro de 1834; por Manoel dos Santos Mar- 
tins Vallasques, desde 18 de agosto de i835 a 
21 de novembro de 1862; por Zacharias de Góes 
e Vasconcellos, de 10 de fevereiro de 1864 ^ 28 
de dezembro de 1877; por Manoel Pinto de Souza 
Dantas, nomeado em 19 de outubro de 1878 e 
fallecido em 29 de janeiro de 1894. 

A terceira cadeira, a do marquez de Nazareth, 
vaga em 1829, foi occupada pelo visconde do Rio 
Vermelho, de 3 de novembro de 1827 a i3 de 
janeiro de i85o; pelo visconde de S. Lourenço, 
de i" de maio de i85i a 10 de setembro de 1872; 
por João José de Oliveira Junqueira, de i** de 
março de 1873 a 8 de novembro de 1887; linal- 
mente pelo barão de Pereira Franco que, tendo 
sido nomeado a 3o de abril de 1888, foi seu 
proprietário até a queda do Império, fallecendo 
a 20 de janeiro do corrente anno de 1902. 

A quarta cadeira, a do visconde di Cayrii, 
fallecido em i835, tem os seguintes occupadores: 
Cassiano Ksperidião de Mello e Mattos, de 23 
de maio de i836 a 5 de julho de 1857; José 
Thomaz Nabuco de Araújo, de 2:5 dj maio de 
i858 a 19 de março de 1878; e Pedro Leão 
Velloso, nomeado em 19 de outubro de 1878, 
ao qual pertenceu até a queda do Império. 

Falleceu este senador em 2 de Março do 
corrente anno. 

Para a quinta cadeira, a do Visconde da Pedra 
Branca, fallecido em i855, foram nomeados: em 
r de Maio de i85(5 Angelo Moniz da Silva Ferraz, 
Barão de Uruguayana, fallecido em 19 de Janeiro 



161 



de 1867; e José António Saraiva, em 12 de Ou- 
tubro ae 1867. E^^^ 4^^ sobreviveu ao império, 
falleceu a 21 de Julho de 1895. 

A sexta cadeira, a de P>ancisco Carneiro de 
Campos, fallecido em 1842, sucessivamente foi 
occupada por José Carlos Pereira de Almeida 
Torres, Visconde de Macahé, de 14 de Junho de 
1843 a 25 de Abril de i85o; por Francisco Gê 
Açayaba de Montesuma, depois Visconde de 
Gequitinhonha, nomeado em 1** de Maio de i85i 
e fallecido em i3 de Fevereiro de 1870, e por 
Joaquim Jeronymo Fernandes da Cunha, no- 
meado em 4 de Abril de 1871. 

A sétima cadeira nova, creada em Abril de 
1837 foi para ella nomeado senador por carta 
imperial de 1 3 de Junho do mesmo anno o ma- 
gistrado Francisco de Souza Paraizo, que a occu- 
pou a 12 de Maio de 1843; por Manoel António 
Galvão, desde 22 de Fevereiro de 1844 até 24 
de Março de 1859 ; e, desde i^ de Maio de i85i, 
pelo Marquez de Muritiba. 

Este, que ainda vivia quando se acabou o 
período imperial, falleceu em 22 de Fevereiro 

de 1896. 

* 

Recapitulemos : 

Foram senadores pela Bahia os Srs. : i^ Vis- 
conde da Cachoeira, 2"* Marquez de Nazarelh, 3" 
Luiz Joaquim Duque Estrada Furtado de Men- 
donça, 40 Visconde de Cayrú, y Marquez de 
Caravellas, 6" Francisco Carneiro de Campos, 7- 
Francisco de Souza Paraizo, 8* Visconde do Ilio 
Vermelho, gVVlanoel António Galvão, 10 Visconde 
de xMacahé, 11 Visconde da Pedra Branca, 12 
Manoel Alves. Branco, i3 Cassiano Ivsperidião de 
Mello Mattos, 14 Manoel dos Santos Martins Val- 
lasques, i5 Barão de Uruguayana, 16 Visconde 
de S. Lourenço, 17 Barão de Cotcgipe, 18 Vis- 
conde de Gequitinhonha, 19 Marquez de Muritiba, 

21 



162 



2o José Thomaz Nabuco de Araújo, 21 Zacharias 
de Góes e Vasconcellos, 22 José António Saraiva, 
23 Manoel Pinto de Souza Dantas, 24 Pedro Leão 
VcUoso, 25 João José de Oliveira Junqueira, 26 
Barão de Pereira Franco. 

Os últimos occupantes dascadeiras do Senado, 
os que sobrevieram ao Império, foram pela ordem 
delias da 2% Manoel Pinto de Souza Dantas, da 
3% Barão de Pereira Franco, da 4", Pedro Leão 
Velloso, da 5**, José António Saraiva, da 6" , 
Joaquim Fernandes da Cunha, da 7', Marquez 
de Muritiba. 

Por occasião da queda do Império achava-se 
eleito e escolhido pela coroa o que deveria na i" 
cadeira succeder ao Barão de Cotegipe, mas não 
tinha ainda sido reconhecido — pelo Senado. 

* 

Dos senadores bahianos trezcollaboraram na 
Constituição Politica de 25 de Março, taes foram 
os Snrs. Visconde da Cachoeira e Marquezes de 
Nazareth e de Caravellas. — A respeito deste emi- 
nente collaborador da Constituição do Império, 
não posso deixar de transcrever — aaui as se- 
guintes palavras do Dr. J. M. de Macedo em seu 
Anno Diographico Brazileiro : 

«Homem de idéas moderadas, liberal de 
principios, mas sem ligações de partidos, foi 
Carneiro de Campos — um dos 10 conselheiros 
nomeados para redigir a Constituição Politica do 
Império c o principal inspirador dos principios 
liberaes que ella íirmou.» 

Do Conselho de Estado creado pela lei de 2 3 
de Novembro de 1841 lizcram parte os Snrs. 
Alves Branco, Visconde de Caravellas e os Vis- 
condes de Macahé e Gequitinhonha, Marquez de 
Muritiba, Galvão, Barão de Uruguayana, Nabuco 
de Araújo, Souza Dantas e Leão Velloso. 



163 



Os Snrs. Zacharias, Cotegipe e Fernandes da 
Cunha recusam a nomeação com que foram para 
taes cargos agraciados. 

Organisaram ministérios como presidentes de 
Conselho, que é instituição de 1847, ^^ Snrs. 
Viscondes de Caravellas ê de Macahé, Barão de 
Uruguayana, Zacharias de Góes (3 gabinetes). 
Saraiva (2 gabinetes), Dantas e Cotegipe. 

Com excepção dos senadores Martins Val- 
lasques, Rio-Vermelho, Cassiano, Pedra Branca 
e Souza Paraizo, todos entraram em composições 
ministeriaes. 

Além destes, teria sido Ministro o Snr. Fer- 
nandes da Cunha se por mais de uma vez não se 
tivesse recusado a acceitar os convites que lhe 
foram dirigidos. 

O Marquez de Caravellas fez parte da regência 
provisória eleita em 7 de Abril de i83i. 

Dos senadores oahianos somente entraram 
em mais de uma lista os seguintes: Cassiano, 
Galvão, Gequitinhonha, Zacharias, Saraiva e 
Franco. 

Todos os mais foram escolhidos na i" lista, 
em que foram apresentados á Coroa. 

* * 

Dos eleitos pela Bahia para membros do 
Senado brazileiro o que por mais tempo occupou 
sua cadeira foi o M. de Muritiba, que nella se 
sentou trinta e oito annos. Seguiu-se-lhe o Barão 
de Cotegipe, que occupou a sua por 33 annos. 

A propósito dessas durações excepcionaes do 
mandato senatorial, que não se podia obter antes 
dos quarenta annos, passo a fazer uma ligeira 
digressão indicando aquelles senadores que, por 
mais extenso período, occuparam suas cadeiras. 

O que morreu tendo sido senador por mais 
tempo toi o Visconde de Suassuna, por Pernam- 



164 



buco. Nomeado em 29 de Setembro de iSSg só 
falleceu em 28 de Janeiro de 1880 — quasi 41 annos 
depois! 

O Snr. senador Souza Queiroz, por S. Paulo 
— também logrou os 41 ! 

E o Snr. Silveira da Mota chegou a comple- 
tar 36. 

Seguem-se o Visconde de Abaete com 35 
e 10 mezes ; Marquez de Sapucahy, com 35 e 3 
mezes ; Duque de Caxias com 34 annos e 8 
mezes ; Marquez de Olinda com 33 ; António da 
Cunha Vasconcellos com 32 annos e 5 níezes ; 
Barão de Pirapama; Marquez de Valença; Nicolau 
P. de Campos Vergueiro ; Joaquim Francisco 
Vianna com mais de 3i ; Visconde do Rio-Grande, 
e Francisco de Paula Pessoa com mais de 3o 
annos. 

Por tanto tempo como muitos de seus pares 
não logrou occupar a cadeira de senador, Miguel 
Calmon, depois Visconde e Marquez de Abrantes, 
que dizia: 

E' tão bòa a senatoria, que cada um de nós 
— deve fazer os maiores esforços por conservar 
a vida afim de gosar por mais tempo das regalias 
e proventos da privilegiada posição. 

Fez parte em iSíy da lista tríplice pela Bahia 
e foi nomeado por carta imperial de 20 de Julho 
de 1840; senador pelo Ceará, falleceu ern 5 de 
Outubro de 1863, tendo occupado sua cadeira por 
mais de 25 annos. 

Se tivermos tempo occupar-nos-hemos, 
n^outra occasião dos importantes serviços pres- 
tados pela maior parte dos nossos senadores, em 
quasi sua totalidade homens conspicuos e alguns 
muito notáveis. 

Passamos agora a mencionar os cidadãos, que 
tendo entrado nas listas tríplices ou sextuplas — 



165 



pela Bahia enviadas á escolha imperial, não con- 
seguiram ser preferidos aos seus concurrentes. 
Vão enumerados na ordem alphabetica: 
Álvaro Tibério de Moncorvo e Lima, António 
Ladislau de Figueiredo Rocha, António Joaquim 
Alvares do Amaral, António de Souza Espínola, 
Barão de Guahy, Caetano Silvestre da Silva, 
Casemiro de Sena Madureira, Eustáquio Adolpho 
deMello Mattos, Francisco José Coelho Netto, 
Frederico Augusto de Almeida, Innocencio Mar- 
ques de Araújo Góes, Joaquim José Pinheiro de 
Vasconcellos, João Joaquim da Silva, José Au- 
gusto Chaves, João Ferreira de Moura, Salustiano 
Ferreira Souto, António Carneiro da Rocha: este 
eleito em lista tríplice foi escolhido no ultimo mi- 
nistério, que foi o do Visconde de Ouro Preto e 
teve a Carta Imperial que foi á Commissão de 
Verificação de Poderes — sem eífeito, — porque 
neste Ínterim foi extincto com o Império — o seu 
Senado. 

Bahia, 20 de Setembro de 1902. 

Barão de S. Francisco. 



POETAS BAHIANOS 



Século XVIII 



VII 




Luiz Paulino de Oliveira Pinto da Franca 



|os poetas bahianos que succederam á Escola 
' Mineira e floresceram no ultimo quartel do 
Século XVIII, occupao primeiro lugar, pela ordem 
chronologica de seu nascimento, Luiz Paulino de 
Oliveira Pinto da França. 

Nasceu este poeta, na cidade da Bahia, a 3o de 
Junho de 1761, segundo Pereira da Silva, ou de 
1771, segundo o Cónego Pinheiro, ou Sacramento 
Blacke. 

A sua decidida vocação para a vida militar, fel o 
abraçar a carreira das armas, na qual muito se 
distinguio, sobretudo na guerra peninsular onde 
foi condecorado com a medalha de ouro da refe- 
rida guerra. 

Diz o seu distincto biographo Innocencio da 
Silva que Pinto da França valorosamente se bateu 
com os francezes, chegando á elevada patente de 
marechal de campo e tendo, assento como deputado 
nas cortes geracs da constituinte portugueza em 
1821, juntando a todas estas honras a de primeiro 
senhor do morgado de Fonte Nova e as com- 
mendas das ordens de Christo e da Conceição de 
Villa Viçosa, cavalleiro de S. Thiago da Torre 
c Fspada. 

A ydeSetembro de 1822, embarcou em Lisboa, 
Pinto da França, no brigue Treze de Maio, em 
demanda á barra do Rio de Janeiro, incumbido de 



168 



uma missão diplomática de D. João VI para o ge- 
neral lusitano Ignacio Luiz Madeira de Mello, que 
não se realisou, e. em 20 de Janeiro de 1824, fal- 
leceu tendo-se mallogrado a sua missão. 

Pereira da Silva, porém, em sua obra Varões 
illiLstres do Brazil Nos Tempos Coloniaes assevera 
que Pinto da França falleceu em Lisboa, no 
anno de 1826. 

Pinto da França foi considerado em seu tempo 
um distincto poeta; pena é que a maioria de suas 
poesias ficasse inédita e se perdesse. 

Como sonetista, porém, por duas obras primas 

que d'elle possuimos, não duvidamos collocal-o 

ao lado de Camões e Bocage e nem julgamos que 

. Cláudio Manuel da Costa hesitasse subscrevel-os. 

Pensamos como Pinheiro e Pereira da Silva a 
este respeito, e o próprio Sylvio Romero, que o 
considera poeta de pouca nomeada, reconhece a 
superioridade dos dous sonetos. 

O primeiro foi recitado pelo auctor em 1808 
sobre o tumulo de D. Affonso Henrique, na Egreja 
de Santa Cruz, em Coimbra, onde se procedeu, 
por ordem de Junot, ao desarmamento dos regi- 
mentos de cavallaria de Chaves e Almeida, occu- 
pando n'este ultimo o distincto pocta-guerreiro o 
posto de capitão. 

Ao protesto do soldado indignado, ao grito de 
indignação do patriota, junta-se a belleza e cor- 
recção dos versos, sahindo do conjuncto um dos 
melhores sonetos escriptos em lingua portugueza. 

Se no primeiro soneto sobresahe a indignação 
do guerreiro, no segundo sente-se a resignação 
philosophica do christão no ultimo transe de sua 
perigrinação por este valle de lagrimas. 

Duas horas antes de succumbir o desditoso 
poeta, escreveu-o. 



169 



O canto de cysne, — Ultimo Adem^ — do poeta 
marechal é tão digno de nota quanto o soneto 
feito em idênticas circumstancias por Bocage; 
nota-se, porém, que Bocage, qUe era impio, tem 
palavras de arrependimento reconciliando-se com 
Deus, Pinto da França, que em sua longa existência 
não tem um só acto que desabone a sua crença, 
é Gstoico como Zenon no seu ultimo threno. 

Além de sonetista era Pinto da França poeta 
lyrico e suas poesias eróticas, se não tinham o 
mimo e a belleza das Lyras de Gonzaga e dos 
Rondou de Alvarenga, nem por isso deixavam 
de primar pelo seu lyrismo puro c natural. 

De Pinto da França conhecemos as seguintes 
composições : 

Sonetos (quatro) — publicados: o i.", em 1808, 
sobre o tumulo de D. Aífonso Henriaues, no 
Jornal de Coimtjra^ n. 22, de Outubro de 181 3; 
o 2." e o 3.0 glosados aos mottes : De Jano as portas 
por desij raça abertas q Entre os horrores da malvada 
guerra^ no dito jornal n. 41, parte 2."; o ultimo, 
escripto duas horas antes de expirar, no Parnaso 
Brasileiro de Pereira da Silva, tomo 2.0, pag. 179 
c no Almanach do Bio-Grande do Sul, para 1901, 
organisado por Alfredo Ferreira Rodrigues, 
pag. 202. 

— O Naufrágio: poesia — no Parnaso Brasileiro 
de Pereira da Silva, pags. 176 a 177. 

- -Commodidades que o marechal de campo 
graduado, etc, olferecc de uma feira nas terras de 
seu engenho, denominado Aramaris e a que se 
refere o decreto de 9 de Agosto de 18 19. Rio de 
Janeiro, 1819, 6 pags. in folio. 

Occuparam-se com este poeta: Pereira da 
Silva, Cónego Pinheiro, Innocencio da Silva, 
Mello Moraes Filho, Januário Barbosa, Varnhagen, 
e muitos outros. 



22 



170 
VIU 

Maouel Ferreira de Iraujo Guimarães 

Xão será a primeira vez que figura entre 
os litteratos de um paiz o nome de um ho- 
mem que só produziu uma obra: Heredia fez 
um livro de sonetos c entrou na Academia, Lapa 
Pinto escreveu o Festim de Balthnzar e tem o seu 
nome na Litteratura Brasileira de Silvio Romero. 

Podiamos citar como estes muitos outros 
exemplos para justificar a entrada em nosso 
trabalho do nome do poeta que emcima estas 
linhas. 

xManuel Ferreira de Araújo Guimarães era 
filho legitimo do negociante Manuel Ferreira de 
Araújo e D. xMaria do Coração de Jesus. 

Nasceu a 5 de Março de 1777, ^^ cidade da 
Bahia, onde estudou primeiras lettras e latim, 
indo completar o curso de humanidades com 
grande louvor cm Lisboa. 

Por falta de meios pecuniários não entrou para 
a Universidade de Coimbra e em 1798 matri- 
culou-sc no I." anno da Academia Real de Ma- 
rinha apresentando no anno seguinte ao ministro 
da marinha a traducção de parte do curso de 
mathematicas do abbade Marie que trata da arith- 
mctica e princípios de álgebra, trabalho que 
examinado pela Academia mereceu applausos. 

F^oi premiado no exame final e no anno se- 
guinte despachado aspirante de piloto. 

Não podendo por pobreza continuar os estudos, 
obteve, em 1799, do governo, uma pensão de 
cincoenta mil réis annuaes. 



171 



Concluido o curso, foi nomeado lente substi- 
tuto da Academia Real de Marinha e teve a patente 
de 2.'* tenente da armada sete annos e meio depois. 

Manuel Ferreira leccionou as aulas do 2.'* e 3/ 
annos, foi membro da Sociedade Militar, traduziu 
e publicou a Analyse de Cousiii^ mas sempre por 
falta de meios não podia voltar á terra natal, 
obtendo para isto, a muito custo, uma licença, 
até que, com a transmissão da familia real para o 
Brazil, graças a protecção do Conde de Linhares, 
melhorou de sorte. 

Foi nomeado capitão do corpo de engenheiros 
no Rio de Janeiro e incumbido de traduzir a geo- 
metria de Legendre para a Academia Militar. 

Em 181 3 foi promovido a Sargento-mór 
effectivo e começou a redigir a Gazeta do Rio de 
Janeiro e o Patriota. 

Em 1821, já coronel graduado, jubilou-se na 
Academia Militar e deixou a redacção da Gazela 
tomando conta da do Espelhe^ que pregava e ani- 
mava a resistência ás tropas luzitanas. 

Foi por este tempo que publicou o avulso — 
Um cidadão do Rio de Janeiro d dioisão auxiliadora 
éuzilana. 

Em 1823 foi deputado á Constituinte pela 
Tiahia, membro da com missão de marinha c 
guerra e deputado da junta de direcção da Aca- 
demia xMilitar. 

Em 1824 foi deputado da junta de inspecção 
<la Typographia Nacional. 

Em 1826 entrou de novo para a Gazela do Rri 
de Janeiro cuja redacção deixou em Abril de i83o. 

Chegou a brigadeiro graduado do corpo de 
engenheiros com permissão de residir em sua 
provincia onde reformou-se em Janeiro de i83i. 

Era cavalleiro da Ordem Imperial do Cruzeiro 
e commendador da de S. Bento de Aviz. 

Em 4 de Março de 1834 foi nomeado professor 
de fíccmelria c mechanica applicada ás artes do 



172 



Arsenal de Marinha da Bahia, para o que traduziu 
a Geometria e Mec/ianica applicada (is artes do Barão 
Dupin. 

Foi membro distincto da primeira assembléa 
provincial da Bahia. 

Estava, porém, reservado o mais cruel dos 
golpes para o ultimo quartel de sua vida. 

Quando a 7 de Novembro de iSSy rebentou 
na Bahia a revolta republicana que foi esmagada 
cm Março de i838, Innocencio Eustáquio de 
Araújo Guimarães, filho do nosso poeta, envol- 
vcndo-se no movimento revoltoso e como militar 
teve em 23 de Junho de i838 de responder a 
conselho de guerra. 

Manuel Ferreira foi defender seu filho e, 
apezar do seu eloquentíssimo discurso que ar- 
rancou lagrimas dos próprios juizes, o major 
Innocencio foi condemnado. 

O brigadeiro Manuel F^erreira morreu de des- 
gosto a 24 de Outubro deste mesmo anno de i838. 

Como poeta, Manuel Ferreira, em 1812, n'um 
elogio que fez ao seu fallecido protector e amigo 
o Conde de Linhares, compoz um epicedio que 
correu impresso com muito louvor. 



IX 

Dominps Borps de Barros 

(visconde dapedra branca) 

Divergem as opiniões sobre a data do nasci- 
mento doeste poeta. 

Macedo diz que elle nasceu a 10 de Outubro 
de 1780; Pereira da Silva marca para seu nasci- 



173 



mento o anno de 1783, Sylvio Romero e o Barão 
de Loreto asseveram que foi em 1779. 

O que não resta duvida é que Borges de 
Barros é natural do Engenho de S. Pedro, termo 
de Santo Amaro da Purificação, provincia da 
Bahia, e filho legitimo e segundo de Francisco 
Borges de Barros, sargento-mór do regimento de 
milícias, e de D. Luiza Clara de Santa Ritta, 
ambos parentes consaguineos. 

Era parente de João Borges de Barros, de seu 
filho José Borges de Barros, poeta por nós estu- 
dado no século 17/, e de outro poeta João Borges 
de Barros, formado em cânones e deão da Sé. 

Rico da grande fortuna que possuiam seus 
pães e do invejável talento com que o dotara a 
natureza, partiu Borges de Barros para Coimbra 
cm cuja universidade foi um estudante distincto, 
formando-se em pouco tempo em jurisprudência. 

Em Lisboa patenteando desde logo seu génio 
pela poesia, metteu-se na plêiade mais brilhante 
d'aquelle tempo e fez de Filinto Elysio, Bocage, 
Xicoláo Tolentino e Agostinho de Macedo seus 
Íntimos. 

Depois de formado empregou o incansável 
poeta seu tempo em estudar poesia, philosophia, 
botânica e agricultura. 

A sua primeira viagem a Paris foi feita em 
1806. 

Em 181 1, de volta a Bahia, foi preso e remet- 
tido para o Rio de Janeiro. 

Dão como causa da sua prisão o ardor que 
nutria pelas idéas liberaes, e por ser amigo de 
Filinto Elysio e de Hyppolíto, redactor do Correio 
líraziliense. 

Em 1820 rebentou a revolução em F^ortugal e 
em 1821, installadas as cortes* constituintes em 
Lisboa, Borges de Barros, deputado pela Bahia, 
advogou a liberdade politica das mulheres, sendo 



1T4 



vencido pela maioria, e retirou-se por não querer 
jurar a constituição votada. 

«Ergueu, diz 6 Barão de Loreto, a potente voz 
contra as tentativas de recolonisação do Brazil. 
Mostrou-se n^aquelle congresso um' dos acérrimos 
defensores dos direitos e foros do reino ameri- 
cano, bem como iniciou reformas tendentes a 
prosperal-o, sugerindo, além de outras medidas, 
a extinção do trafico dos africanos c a emanci- 
pação gradual dos escravos.» 

Saindo da constituinte portugueza, foi o poeta 
para Paris como representante do Brazil indepen- 
dente na França, com a alta missão diplomática 
de conseguir de Carlos V, rei de F" rança, o reco- 
nhecimento do novo império. E soube captar a 
adhesão do monarcha francez á causa da Inde- 
pendência do Brazil. 

Durante este tempo publicou, em Paris, seu 
primeiro livro de versos, em dois volumes, com 
o titulo: Poe.^ias offerecidas ds senhoras brasilei- 
ras por lun hahiano. 

((Parlamentar já provecto, diz o Barão de 
Loreto, foi, pelos votos reteirados de sua pro- 
vinda natal, enviado ás duas Gamaras quando se 
constituiu a Assembléa Geral Legislativa; e, sob 
o império, investido no cargo de senador, figu- 
rou em successos transcendentes do primeiro 
periodo regencial. 

A attitude politica de Borges de Barros, depois 
d^aquella missão diplomática, durante o império 
não é bem conhecida. 

Em cartas cscriptas a Menezes Drummond, 
em 1824, José Bonifácio queixava-s2 amarga- 
mente de Pedra Branca, chamando-o por ironia 
Pedra Parda porque o considerava mestiço dis- 
farçado. 

Eleito c escolhido, contra vontade, senador, 
cm 1825, só duas vezes aprescntou-se na Gamara 
vitalicia. 



175 



Já era barão da Pedra Branca, cjuando, por 
ajustar o casamento da princeza Amélia deLeuch- 
temberg com o imperador D. Pedro I, recebeu 
a gran cruz da Imperial Ordem de Christo, a 
grande dignataria da Imperial Ordem da Rosa 
e a elevação titular de barão para visconde da 
Pedra Branca. 

O novel visconde passou em seu tempo por 
um emérito galanteador e irresistivel conquista- 
dor do bello sexo, qualidades essas que muito o 
distinguiram no paço das diversas cortes euro- 
péas que frequentou até a velhice, voltando então 
á pátria, onde dedicou-se ainda á poesia c á 
agricultura. 

Incansável trabalhador, Pedra Branca ainda 
escreveu as suas Novas Poesias e o poema ele- 
giaco Os Túmulos, foi membro de diversas socie- 
dades scientificas e litterarias da Europa, e do 
Instituto Histórico e Geographico Brasileiro. 

O visconde da Pedra Branca falleceu na Bahia, 
a 21 de Marco de i855, ou segundo Sacramento 
Blake, a 20 do mesmo mez e do mesmo anno. 

Este poeta cultivou quatro géneros de poesia: 
o didáctico, o satyrico, o elegiaco e o lyrico 
subjeetivista. 

Silvio considera-o mediocre nos dois primei- 
ros; límpido, sonoro e forte nos dois últimos. 

Pereira da Silva acha que no lyrico elle foi 
um dos mais suaves poetas portuguezes. 

A nota predominante de sua poesia é, porém, 
o lyrismo. 

Dr. Manuel Brito. 



íúú das Sessjies e Diferias 

90/ SESSÃO EM 23 DE FEVEREIRO DE 1902 
Presidência do Exmo. Snr. Cons. Salvador Pires 

Aos vinte e três dias do mez de Fevereiro de 
1902, nesta cidade da Bahia, no salão do Instituto, 
á I hora da tarde, presentes os sócios Cons. 
Drs. Salvador Pires de Carvalho e Albuquerque e 
João Nepomuceno Torres, o primeiro, Presiclente 
e o segundo, i.** Secretario, o Capitão Francisco 
Gomes Ferreira Braga, Thesoureiro, Drs. Braz 
Hermenegildo do Amaral, Orador, Innocencio 
Mufioz de Araújo Góes e José Júlio de Calasans, 
Padre Luiz da França dos Santos, Commendador 
Salvador Pires de Carvalho e Albuquerque, Eloy 
de Oliveira Guimarães, Professor João Joaquim 
dos Santos Sá, Henrique Praguer, Coronel Gonçalo 
de Athayde Pereira, Alfredo Octaviano Soledade 
e Pharmaceutico Alfredo Accioly, foi aberta a 
sessão, servindo de 2.'* Secretario o Dr. Innocencio 
Munoz de Araújo Góes na ausência do effectivo. 

É lida e approvada, sem debate, a acta da 
sessão anterior. 

O expediente constou do seguinte: 

Officios: do Snr. Cons. Salvador Pires, datado 
de 12 de Novembro do anno passado, passando 
o exercício do cargo de Presidente ao 1 .** Secre- 
tario, na ausência do i." e 2."* Vice-Presidentes, 
por ter de afastar-se temporariamente da capital 
por incommodo de pessoa de sua familia; do Dr. 
Secretario do Tribunal de Conflictos e Adminis- 
trativo solicitando a remessa áquella Secretaria, 
de um exemplar dos Estatutos ; do Presidente da 
Sociedade Nacional de Agriaãlura, enviando a lif ta 
23 



178 



dos nomes dos sócios eleitos para a nova Dire- 
ctoria, do Secretario da Real Sociedade Portugtieza 
de liene/ícencia Dezcí^seis de Setembro, enviando a 
relação dos novos funccionarios da Directoria. 

Cartas: doDr. J.C. Branner, accusando o rece- 
bimento da noticia de haver sido escolhido; sócio 
correspondente do «Instituto», agradecendo essa 
honrosa escolha c promettendo enviar em breve, 
((peq[uena contribuição sobre a geologia do 
Brasil » ; do Provedor interino da Casa Pia c Col- 
legio dos Orphãos de S. Joaquim, communicando 
que vae ser estabelecida alli uma bibliotheca 
infantil e solicitando a remessa de livros, brochuras 
e jornaes; do Snr. M. Marris, Secretario geral 
honorário da Sociedade de (icographia Commercial 
de Bordeaux, communicando que a seu pedido fora 
exonerado do logar de Secretario geral que exercia, 
havia muitos annos, sendo eleito para substituil-o 
o Dr. Lassene, acompanhada de uma outra deste 
cavalheiro, communicando. por sua vez que fora 
eleito em substituição d^aquelle e pedindo que, 
para o bom dcscMiipenho do seu cargo, seja-lhe 
dispensada a mesma coadjuvação que ao seu 
antecessor; um cartão da Sociedade Nacional de 
Agriciillura dei." de Janeiro do corrente anno, sau- 
dando o Instituto no novoanno; um aviso circular 
subscripto peio Governador e Secretario do Estado 
do Parei, contendo o theor do Dec. n. 933 de 3i 
de Dezembro de 1900 pelo qual foi conferido ao 
«Museu Paraense» a denominação de «Museu 
(joeldi » em attenção aos relevantes serviços pres- 
tados pelo Dr. Emilio Augusto Goeldi, Director 
do mesmo Museu, no período de sua organisação; 
um cartão-convite do Grémio Litterario para o 
Instituto assistir a 4." conferencia a ser realisada 
em 24 do corrente mez, ás 7 horas da noite; carta 
do sócio Xavier Marques, enviando exemplares 
de alguns trabalhos do Professor Guilherme 
Baldomo l^mbirussii Cnmacan; finalmente, carta 



179 



do sócio Major Roj^ociano Teixciraj enviando o 
livro que contém discursos, manifestos, etc. do 
Cons. Dr. Ruy Barbosa, cartas estas, cujo theor é 
o sejguinte aqui transcripto, segundo deliberação 
dos Snrs. sócios : 

De Xavier. Marques dirigida ao Cons. João 
Torres, i." Secretario: 

« Com exemplares de alguns trabalhos meus 
que tenho a honra de otferecer a bibliotheca desse 
(( Instituto í>, envio, para a respectiva secção de 
manuscriptos, cópia de diversas producções 
poéticas do illustre bahiano. Professor Guilherme 
Baldoino Embirussú Camacan. Estas cópias feitas 
por mão de meu saudoso mestre e irmão do poeta, 
o Professor Genuino da Silva Rosa hlmbirussú 
Camacan, me foram confiadas, ha annos, para o 
fim de escrever um ligeiro estudo acerca do 
Professor Baldoino, estudo que se acha publicado 
na Revista O Palheon que se editou n^sta capital. 
Era tudo o que restava do espolio litterario de tão 
fecundo espirito e que hoje entrego, por seu inter- 
médio, aos archivos dessa benemérita associação. 

E' justo seja ella a depositaria destes manus- 
criptos, legado daquelle a quem o antigo a Insti- 
tuto Histórico^» rendeu homenagem, approvando 
em sessão de 4 de Setembro de i(S59 o requeri- 
mento do Dr. Alvares da Silva, para que cá 
memoria de Junqueira Freire se unisse a necro- 
logia do Sr. Guilherme Baldoino. como um dos 
nossos homens de lettras». Do sócio Rogociano, 
dirigida ao mesmo Conselheiro, i.- Secretario, 
em 7 de Janeiro do corrente anno : 

a Tive a felicidade de ouvir na larde do dia 26 
de Março de 1898, no Supremo 'Iribunal Federal, 
o nosso* glorioso patrício, Dr. Ruy Barbosa, ler o 
seu monumental discurso impetrando, perante 
aquelle IVibunal, Itabeaf^-corpus a favor dos impli- 
cados nos lamentáveis successos do dia 3 de No- 



180 



vembro de 1897; ^9 '^8^ ^P^*" ^ leitura, pedi-lhe 
o precioso aulographo com o intento de envial-o 
ao archivo do nosso «Instituto», pedido que foi 
logo attendido pelo eminente brasileiro. 

Não o enviei ha mais tempo porq^ue desejafva 
fazel-o depois que algum outro bahiano illustre 
fizesse, sobre o mérito doesse discurso, uma apre- 
ciação, o que somente agora obtive do illustre 
jurisconsulto e digno deputado federal, pelo nosso 
Estado, Dr. Aristides Augusto Milton aue, devo 
confessal-o, accedeu immediatamente e aa melhor 
boa vontade ao meu pedido ; pelo que lhe sou 
muito grato. 

Embora a minha nenhuma competência sobre 
o assumpto, todavia, V., que é mestre de direito, 
verá que o trabalho do Dr. A. Milton está na 
altura do seu saber e que, mais uma vez, assim 
firmou o seu credito de jurisconsulto emérito. 

Para melhor conservação dos autographos 
mandei encadernal-os em* um livro, juntando 
um exemplar da «Revista de Jurisprudência», que 
aqui se edita, em que estão publicados, não só 
aquelle discurso como egualmente a petição c 
a lecção dos dois Accordãos, trabalhos do Dr. 
Ruy Barbosa e todos referentes ao mesmo habeas- 
corpus. 

Envio, também, ao « Instituto » um livro conten- 
do diversos outros trabalhos do Dr. Ruy Barbosa, 
como sejam : « discursos, artigos e manifestos ». 

O «Instituto », por seus sócios presentes, man- 
dou responder e agradecer. 

As oftertas constam do appendice. 

Pelo Sr. Presidente foi communicado o falle- 
cimento dos seguintes sócios: Barão de Pereira 
Franco, na capital Federal, a 20 de Janeiro; do 
cónego João Paranhos da Silva, na villa de Agua- 
Quente, a 3o do mesmo mez, sócios correspon- 
dentes; e do Pharmaccutico Éadoxio Pereira da 



181 



Costa, sócio effectivo, n'esta capital, a 5 de Feve- 
reiro, tudo no corrente anno, salientando os 
serviços prestados ao paiz e ao « Instituto », pro- 
pondo, o que foi approvado, que se inferisse 
na acta um voto de pezar. 

O thesoureiro. Capitão Ferreira Braga, na 
forma dos Estatutos, apresentou e leu o oalan- 
cete da Receita e Despeza do «Instituto», durante 
o anno de 1901, o qual é remettido á commissão 
de fazenda e orçamento para os fins convenientes. 

Foram votadas, em escrutínio secreto, as propôs* 
tas de admissão de sócios, sobre que havia parecer 
da commissão, sendo approvados e proclamados 
sócios effectivos: a Exma. Sra. D. Maria Elisa 
Valente Muniz de Aragão, Drs. João Gualberto 
Nogueira, António Ferrão Muniz de Aragão e 
Joaquim Augusto Tanajura, e correspondentes: 
Arthur Vianna e António Lobo, directores das 
bibliothecas publicas do Pará e do Maranhão e 
Franco Pacheco, escriptor portuguez, residente 
em S. Luiz do Maranhão. 

Foram lidas 3 propostas para admissão de 
sócios e remettidas á respectiva commissão. 

Nada mais havendo a tratar foi encerrada a 
sessão. 

Approvada em sessão de 20 de Abril de 1902. 
— Snlvador Pires de Carvalho e Albuquerque. — 
João Nepomuceno Torres. — Alfredo Accioli do Prado, 
secretario interino. 



91.' SESSÃO EM 20 DE ABRIL DE 1902 

Presidência do Cons. Salvador Pires 

Aos vinte dias do mez de Abril de 1902, 
presentes os sócios, Conselheiros Drs, Salvador 
Pires de Carvalho e Albuquerque, presidente, e 



1S2 



João Nepomuceno lorres, i.- secretario, Drs. 
Alfredo Cabussú, Braz do Amaral, Joaquim Pires 
Muniz de Carvalho, Pedro Muniz l.eão Velloso, 
Júlio de Calasans, Cónego Manfredo de Lima, 
Eloy Guimarães, Capitão Francisco Gomes Fer- 
reira Braga, thesoureiro, António José Gonçalves 
Neves, Commendador Salvador Pires, Coronel 
Gonçalo de Athayde Pereira, professor João Joa- 
quim dos Santos Sá, Alfredo Soledade, pharma- 
ccutico Alfredo Accioli, foi aberta a sessão, ser- 
vindo como 2." secretario este ultimo sócio, na 
ausência do effectivo que mais tarde compareceu, 
sendo lida e approvada sem discussão a acta da 
sessão anterior. 

O expediente constou do seguinte: 
Communicação feita ao Instituto pelo deputado 
federal José Boiteux de que havia apresentado 
um projecto, concedendo franquia postal à cor- 
respondência e revistas dos cli versos Institutos 
Históricos do Brasil ; carta convite para a ^olem- 
nidade da collação do grau aos doutorandos de 
medicina; carta convite do Instituto Agronómico 
da Bahia para a inauguração, hoje, do I.yccu 
Polytechnico da Bahia; oflicio do presidente da- 
Associação Commercial, enviando a relação da 
directoria eleita e empossada a 27 de Fevereiro 
ultimo; do director do Instituto Vaccinico, Dr. 
António Monteiro de Carvalho, communicando 
sua posse nesse cargo, para que fora nomeado, 
em i3 de Março; carta do sócio Dr. Joaquim 
Tanajura, declarando acceitar a sua escolha para 
sócio effectivo; carta do sócio António Lobo, 
director da Bibliotheca Publica do Maranhão, 
dando as razc3es porque não podia, presentemente, 
acceitar o cargo de sócio correspondente. 

Pelo Presidente foi nomeada uma com missão 
para assistir a solemnidade da collação do grau 
aos doutorandos, composta do Dr. Braz do Amaral 
c Pharmaceuticos Diniz Gonçalves e Accioli, 



183 



O Conselheino i.- secretario, deu noticia das 
se^^uintes valiosas oífertas: Da Exma. Viscondessa 
de Cavalcanti, nossa consócia, de 72 volumes de 
obras, inclusive clássicos latinos, offerta cujo 
valor está nas edições, acompanhada de uma 
carta; do Dr. Anisio Circundes de Carvalho, 
professor cathedratico da Faculdade de Medicina 
desta cidade, de um arco artisticamente traba- 
lhado e de uma collecção de. frechas de varias 
espécies, obtidos dos (í Bororós Coroados» de 
Matto-Grosso, e do sócio Dr. Miguel de Teive e 
Argollo de um catalogo movei de classificação 
decimal, e index de Devey. 

Em seguida o sócio coronel Gonçalo de Athayde, 
communicou que o sócio commendador Santa 
Anna não comparecera por motivo de moléstia. 

E' lido o parecer da commissão de orçamento 
c Fazenda sobre as contas do Sr. thesoureiro, 
duranteo anno findo, o qual, submettido a votação, 
é approvado. 

O parecer é do theor seguinte : 

A Commissão de «Fundos e Orçamento» do 

Instituto Geographico e Histórico da Bahia, tendo 

devidamente examinado o relatório e as contas 

'do Sr. thesoureiro Francisco Gomes Ferreira 

Braga, é de parecer que sejam approvados. 

Bahia e sala das sessões do Instituto, 20 de 
Abril de 1902. — A commissão — Salvador Pires 
de Carvalho e Albuquerque. — A. Cabtissú. 

O balancete da Receita e Despeza é este : 

RECEITA 

Saldo do anno de 1900 84S652 

Subvenção estadual 5oo$ooo 

. Idem municipal por 7 5oo$ooo 

Idem federal até Setembro de 1901. 3:7498998 

Mensalidades de sócios 1 17488000 

Jóias de sócios 45o$ooo 

Assignatura da Revista 488000 

7:0808650 



184 



DESPEZA 



Ordenados dos empregados e com- 

missão ao cobrador 2:4698744 

Despezas geraes, inclusive as da se- 
cretaria 458S330 

Diversas contas paeas i:35o$5io 

Ao Banco Auxiliar das Classes, amor- 

tisação da lettra SrySoSiõó 

Seguro do prédio 11 SSSoo 

8:1448950 

Deficit para o exercício seguinte: i:o63$95o. 

Assignado pelo Guarda-livros João José dos 
Santos Sá e pelo Thesoureiro Francisco Gomes 
Ferreira Braga, em 23 de Fevereiro de 1902. 

O Dr. Alfredo Gabussú pedio a palavra e 
em nome da commissão leu o projecto de Orça- 
mento para o corrente exercicio o qual ficou 
sobre a mesa para ser votado na sessão seguinte, 
dando as explicações que julgou necessárias para 
justificar a diminuição de algumas verbas. 

São igualmente lidos vários pareceres da com- 
missão de admissão de sócios, cuja votação é 
adiada por falta de numero legal. 

E' lida e remettida á mesma commissão uma 
proposta para admissão do litterato e historio- 
grapho José Ribeiro do Amaral, residente em 
São Luiz do Maranhão. 

Sob proposta do Conselheiro presidente resol- 
veu o Instituto que no dia 3 de Maio seja com- 
memorado o 8.* anniversario do ((Instituto» com 
uma sessão litteraria, sem convites especiaes, 
sendo publica a mesma sessão. 

Nada mais havendo a tratar-se, foi levantada 
a sessão. 

Approvada em sessão de 18 de Maio de 
1 902 . — João Nepomuceno Torres. — \ Gonçalo de 
Athayde Pereira. — Guilherme CéOnceição Fwppel. 



185 



92/ SESSÃO EM 3 DE MAIO DE 1902 

SESSÃO MAGNA, COMMEMORATIVA DO ANNIVERSARIO 
DA INSTALLAÇÃO DO INSTITUTO 

Presidência do Exm. S)n\ Cons. João Torres 

Aos tres dias do mez de Maio de 1902, no 
salão do « Instituto», á i hora da tarde, presente 
grande numero de sócios e muitos cidadãos, repre- 
sentando todas as classes, a saber: Conselheiros 
Drs. João Torres, i." Secretario, Filinto Bastos, 
orador adjuncto, c Joaquim António de Souza 
Spinola, Presidente do Tribunal de Appellação 
e Revista do fi^stado, o Capitão Francisco Braga, 
Thesoureiro, Isaias de Carvalho Santos, 2.' Secre- 
tario, os Drs. Braz do Amaral, orador, Guilherme 
Foeppel, Ernesto Carneiro Ribeiro, Manoel Pedro 
de Rezende, Presidente do Tribunal de Conflictos 
e Administrativo, Aurélio Pires de C. e Albuquer- 
que, Egas Muniz Barrctto de Aragão, Júlio de 
Calasans, José Francisco da Silva Lima, Inno- 
cencio Munoz, Capitão de mar e guerra Alves 
Gamara, Coronel Gonçalo de Athayde, Engenheiro 
Sampaio Neves, Professor Elias Nazareth, Padre 
Luiz da França, Dezembargador Licinio Alfredo 
da Silva, Dr. Reis Magalhães, cónego I^^lpidio 
Tapiranga, Cons. Dr. Rozcndo Guimarães, Co- 
ronel Saturnino Ribeiro da Costa, Damasceno 
Vieira, Drs. João Cerqueira Pinto, João P>an- 
gelista de Castro Cerqueira, Américo Velloso, Ju- 
venal Silva, Júlio Barbuda, Luiz Anselmo da Fon- 
seca, Celso Spinola, Bernardo Jambeiro, Tiburcio 
Suzano de Araújo, Silio Boccanera, Barão de 
São PYancisco, José Claudino Dias, luigenheiro 
Aloysio Accioli, Professor Prisciliano José Leal, 
Herculano Cunha, Professor António Alexandre 
Borges dos Reis, Acácio Manoel de Jesus, Pedro 
Bastos de Seixas, Theodulo Prazeres, Laudelino 

24 



18G 



Barros^ Ilaul Costa, Cândido Carneiro, Joaquim 
Barretto de Araújo, Francisco Xavier da Silva 
Pimentel, representando a Bibliotheca Publica da 
Feira de Sant^Anna, João Gonçalves do Couto, 
Raul Boccanera e Henrique Canelo, representando 
o Diário da Bahia ^ assumio a cadeira da presi- 
dência o Snr. Cons. Dr. João Torres, i.** Secre- 
tario, na ausência do Presidente effectivo e dos 
vice-Presidentes, servindo de i.'* Secretario o 2.* 
e de J." o Dr. Reis Magalhães, por convite do 
Snr. Cons. Presidente, que declarou aberta a 
sessão, referindo em breves palavras os motivos 
da solemnidade que todos iam presenciar e em 
seguida deu a palavra ao Dr. Pedro Júlio Barbuda, 
Professor do instituto Normal, o qual leu extenso 
e erudito estudo sobre a « Evolução litteraria da 
lingua portugueza no Brazil. » 

Segui ram-se-lhe com a palavra oDr. Braz Her- 
menegildo do Amaral, professor da Faculdade de 
Medicina e do Gymnasio e orador do « Instituto », 
fa/eodo a leitura do trabalho que, em commum 
com o sócio Dr. Innocencio Góes, levou a effeito, 
trabalho descriptivo dos exames e investigações 
realisadas, no intuito de descobrirem a verdade, 
quanto a versão corrente, de que os Jesuitas dei- 
xaram alfaias e riquezas em algum esconde- 
rijo do antigo Collcgio ; e o Professor António 
Alexandre Borges dos Reis, que leu importante 
estudo sob o titulo — (^Colonos indigenase escravos. 
(( Os Jesuitas e a Catechese. c( Historia do Brazil ». 

Por ultimo falou o sócio Damasceno Vieira, 
lendo patriótico discurso, sendo cm seguida encer- 
rada a sessão. 

Approvada cm sessão de 25 de Maio de 1902. 
— Sati/ro i)ííl.s\ — tfaào Ncpomurcno Torres. — 
AloiiMd de Carvalho. 



1X7 

Dincurso do Sr. Damasceno Vieira 

Sr, Presidente. 
Srs. Consócios. 
Meiís Srs, 

Como membro do «Instituto Histórico eGeo- 
graphico doBrazil », membro doeste «Instituto» e 
representante da gazeta A Bahia^ cumpro o dever 
de trazer a esta illustrc associação congratulações 
sinceras pela festa que hoje realiza, commcmo- 
rando o 8.* anniversario de sua existência. 

.Oito annos de continuas luctas, de sacrifícios 
heróicos, para manter de pé uma instituição 
honrosa, tanto para a Bahia como para as lettras 
l^atrias, uma instituição benemérita que tem por 
íim especial investigar e propagar conhecimentos 
históricos, reunir documentos que colloquem em 
relevo òs feitos de nossos antepassados como 
dignos de transmissão ú historia geral de todos 
os povos cuhos, como paginas frementes de civismo 
ede amor por todas as manifestações da liberdade! 

Apezar das mil contrariedades oppostas á 
rnarcna doeste « Instituto», elle deve proseguirer- 
guido sobre os nossos hombros, como aquella arca 
daalliançaemquese guardavam as leis fundamcn- 
taes de uma religião! E é uma religião, Srs., o 
saber manter uma instituição desta ordem, alheia 
completamente ao turbilhonar das paixões poli- 
ticas, e consagrada a investigações superiores, 
que dizem respeito ao desenvolvimento intelle- 
ctual do paiz ! 

Elle deve proseguir, e vencer como desassom- 
bro os óbices erguidos em sua perigrinação de 
apostolo, fortalecido, illu minado pela estrella que 
lhe encima o glorioso escudo, destinada a espalhar, 
urbi et orbi, a luz da scicncia geographica c da 
sciencia histórica, como demonstrações eloquentes 
c perduravei,^ do vigor mental desta terra ! 



188 



Ha 46 annos, Srs., a 3 de Maio de i856, uma 
illustração do clero brazileiro, fundador e presi- 
dente dó antigo «Instituto Histórico da Bahia», o 
eminente arcebispo bahianoD.Romualdo António 
de Seixas, compenetrado do elevado alcance da 
corporação que dirigia, estimulava os seus con- 
sócios, exclamando, com o brilhantismo de seu 
estylo elegantemente litterario : 

«Que relevante serviço não deverá prestar o 
Instituto ás lettras eá sociedade, investigando os 
antigos monumentos c recolhendo os materiaes 
dispersos nos archivos publico- ou no fundo das 
bibliothccas particulares, e alguns já quasi apaga- 
dos, afim de coordenar a historia completa de 
uma provincia tão insigne por sua cathegoria, 
riqueza e população, e onde se passaram tantos 
feitos altamente épicos e gloriosos?» 

Outra voz auctorizada e egualmente emmude- 
cida pela morte — sombra augusta que em pleno 
vigor da mocidade deixou em sua passagem 
n"este«Instituto» inapagaveis vesiigios, um de seus 
esforçados presidentes, o Dr. Tranquillino Torres, 
cuja acenurada dedicação e cultivado talento 
eram columnas desta corporação, dizia, com a 
previsão de propheta : 

c(N()s, que nos reunimos 38 annos depois d'a- 
quella phalange de heróes, homens de estudo, 

embalados no bcrco da civilisacão, e constituímos 

. * •* • 

esta outra agremiação com um programma muito 
mais amplo ; nós sobre cujos hombros pesam 
encargos muito mais penosos, temos o dever de, 
com a licção severissima do passado, empregar 
todas as energias na defeza dos compromissos 
que todos abraçamos.» 

Assim se exprimiram duas queridas mentali- 
dades do antigo e do novo « Instituto >>. 

Si cada vez se accentiia mais a verdade de q^ue 
os vivos sãogoverniidos pelos mortos; si os dcse)Os 



189 



c as aspirações vehementes dos que foram ca- 
minho da eternidade são para nós legados pre- 
ciosos que devemos cumprir: sigamos os dictames 
de nossos illustres predecessores ; unamos os 
nossos esforços para imprimirão « Instituto » o flo- 
rescimento de que é digno; mantenhamos a publi- 
cação de sua utilíssima Revista Trimensal; des- 
obriguemo-nos do ónus que nos pesa com a 
aquisição d'este bello edifício ; contribuamos para 
que o «Instituto ))gosevidaindependente e gloriosa, 
compatível com a magnitude de seu programma. 
Só assim, senhores, terá o «Instituto Geogra- 
phicoe Histórico da Bahia», satisfeitoao seu grande 
ideal, e o nosso desvanecimento será completo 
porque a elle se associará de certo o illuminado 
espirito d'aquelle emérito bahiano que fundou os 
dois Institutos e que em sua irradiante jornada 
pela terra se impoz a respeitos e applausos, sob o 
i^ome de frei Francisco da Nativiclade Carneiro 
cia Cunha.)) 



<rp:>J-í^lH>— 



SUMMARIO DO N. 28 



PAfiS. 

Innocencio Munõz 3 

Os Indígenas da Bahia, pelo Professor Borges dos Reis. y 

A antiga capella dos Jesuítas na Bahia, pelo Dr. Braz 

do Amara] 47 

Colonos Indigenas c Escravos. Os Jesuitas c a catechese. 

Historia do Brasil, pelo Professor Borges dos Reis. 57 

O culto dos herocs, pelo Dr. Kgas Moniz G5 

Habeas-Corpus — Estado de Sitio — Prefacio ao Discurso 

do Dr. Ruy Barbosa, pelo Dr. Aristides Milton . . 73 
Revolta parlamentar de 1840, pelo Dr. Innocencio Coes. 83 
Exploração do Mucury e Jequitinhonha, pelo coronel Inno- 
cencio Vclloso Pederneiras 89 - 

A Egreja da Ajuda 14^ 

As abelhas sociaes indigenas do Brasil, pelo Dr. H. Von 

Ihcring ifn 

A Bahia no Senado do Império, pelo Barão de S. Francisco. i by 

Poetas Bahianos, pelo Dr. Manoel Brito 167 

Actas das Sessões e Ofíertas 177 



REVISTA 



DO 



Instituto (leopaplico e Histórico 

DA BAHIA 



FUNDADO EM 1894, RECONHECIDO DE UTILIDADE PUBLICA 
PELA LEI N. 110 DE 13 DE AGOSTO DE 1895 . 



Máxima sunt documenta equidem res temporis acii 
In proesens, validusque in veniens stimulus. 



ANNO X 



1903 



VOL. X 



N. 29 




LITHO-TYP. E KNC. RKIS Ã: C. 
Rm Dr. Manoel VMorino. 23 o 2^ 

\ í K) '1 



REVISTA 



DO 



liislilnli) Gtomliito c IIíéiím k Balia' 



Anno X 



1003 



11.29 



MEMORIA HISTÓRICA 

Sobre os acoateciiiieotos de 24 de Novembro de 1891 

j\jA B/\Hi/\ n 



||v.3^ENDO o Paiz publicado alguns artigos 
ll^-^C ha cerca de dous annos, sob o titulo 
^ '^ Evangelho da Republica e ultimamente 
transcriptos no Diário de Noticias daqui, 
nos quaes são contados, com certas lacunas e 
enganos, os factos referentes ao 24 de novembro 
de 1891 e que pertencem á historia da Bahia, 
entendi dever fazer uma rectificação sobre estes 
pontos; n'isto, porém, não vae desejo de depreciar, 
de qualquer modo o trabalho em questão, escripto 
por penna hábil e instruida, orientada por cscla- 
reciao espirito de critica e traçado com vigor e 
franqueza . que fazem honra ao* seu author; tra- 
balho útil que descreve os factos mais notáveis de 
uma cpocha, desvendando á sciencia e ao povo 




(*) Memoria lida na sessão magna do 
190^,. pelo orador Dr. Braz H. do Amaral. 



Instituto de 3 de Maio de 



brazíleiro muitos acontecimentos importantes de 
sua vida politica. 

São os seguintes os pontos da contestação: 

— Em primeiro logar o sr. Zama não depoz 
o dr. Manoel Victorino á frente de lim grupo 
de assallariados. 

Em outro dia será a verdade doeste caso resta- 
belecida completamente. 

Quanto ao 24 de novembro convém ficar bem 
claro que não tinha o sr. José Gonçalves grande 
popularidade. 

« Que não foi o que se deu com o Sr. José 
Gonçalves o que se passou com o dr. Manoel 
Victorino e o marechal Hermes. 

Que não foi acclamada junta provisória com- 
posta de Tude, Freitas e Couto. 

Que não foi, depois delia constituida, enviada 
intimação ao governador. 

Que não houve na véspera reunião dos chefes 
politicos, em que José Gonçalves quiz passar o 
governo ao sr. Luiz Vianna. 

Que o sr. Zama não agiu por saber que por 
dctraz d'elle estava o chefe militar da guarnição 
c sim apenas dois coronéis. 

Que á noite magotes de populares e soldados 
não espingardcaram a torto e a direito. 

Que não chegara a palácio, ao mesmo tempo 
a noticia de que milhares de boletins, espalhados 
pela cidade, annunciavam que o commandante do 
districto se vira na contingência deassumir o poder. 

Que a guarnição não se manifestou protestando 
logo no dia seguinte. 

Que o general Tude além do dr. Satyro Dias 
não pretendeu que outro deputado, ou senador 
assumisse a administração. 



Que não foi pela recusa dos magistrados locaes 
que exerceu o cargo de chefe de policia o co- 
ronel Moreira César. 

Que não promoveu o coronel Abreu e Lima 
uma reunião de políticos de ambas as parciali- 
dades, accordando todos em que José Gonçalves 
reassumisse o cargo para renuncial-o depois. 

Mais do que uma rectificação este estudo tem 
por fim provocar provas e estudos, exhibição de 
documentos e de detalhes que servirão para o 
historiador futuro. 

Se conseguir isto nutro a convicção de que 
terei prestado um serviço a minha pátria. 

O sr. José Gonçalves da Silva, o primeiro 
governador constitucional do Estado da Bahia, 
não foi apresentado a este alto posto, quando o 
exerceu interinamente, pela sua parte na propa- 
ganda republicana, nem pelas suas qualidades de 
politico, nem popularidade propriamente, ou ele- 
mentos de capacidade, talentos e pratica da admi- 
nistração que o recommendassem a todo o Estado 
ou á capital, pelo menos. 

Tendo manifestado sua adhesão á Republica, 
após o i5 de novembro, ficara indicado por isto 
como influencia dedicada ao novo regimen na 
zona sertaneja, onde tem suas fazendas de gado. 

Foi o dr. Virgilio Damásio quem apresentou 
o seu nome para substituil-o ao general Deodoro, 
e isto affirmo por m'o ter elle dito. 

Dotado de muita honra como homem parti- 
cular faltava ao novo governador a somma de 
instrucção e tolerância politica, de conhecimentos 
em direito administrativo de qu.e precisava, assim 
como a intuição delicada e fina das mil outras 
comprehensões, sem as quaes não é possível nos 
nossos tempos governar. 



Não era um espirito liberal, nem tinha o pre- 
paro republicano sufficiente para chefe de um 
Estado constituído nos moldes mais adiantados 
da livre America do Norte. 

Homem de bòa fé e lealdade para com os 
seus amidos, não tinha a agudeza indispensável 
aos políticos, nem a reflexão cautelosa de que 
tanto carecem os que dirigem. 

Um episodio cfeu-me muito cedo, ainda no 
tempo do systema provisório no Estado, idéa dos 
elementos de que dispunha o espirito do go- 
vernador. . 

Em uma simples visita de cortezia cahiu a con- 
versa sobre a instrucção e em duas ou três expan- 
sões a suprema autoridade do Estado revelou tão 
completa falta da mais curial leitura sobre este 
importante assumpto, que eu fiquei atterrado. 

E fallava com tanta firmesa, tão sorridente 
e seguro, que não me ficou a menor duvida de que 
estava ali uma alma, que ingenuamente se abria, 
como a de David, sem a comprehcnsão da sua 
insuíficiente cultura ou o receio sequer de que 
estivesse dando razões para que fizessem um juízo 
desvantajoso da sua capacidade. 

Entretanto o governador fazia numerosos ami- 
gos políticos, e se chegou assim ao termo dos tra- 
balhos da constituinte. 

A eleição do sr. José Gonçalves foi, como a sua 
nomeação, uma surpròsci c o resultado de um 
golpe audacioso. 

l)esejava-se no Rio de Janeiro, queria o barão 
de Lucena e queria o marechal Deodoro que o 
governador do novo Estado a se constituir fosse 
o sr. Aftonso dqi Carvalho, velho jurisconsulto, 
então ministro da justiça do governo federal. 

Éra incontestavelmente pelo lado da intelli- 
gencia, da autoridade politica e jurídica, pela 



edade, energia e prudência, uma boa escolha; 
mas aos constituintes da Bahia, aos próceres do 
partido, pareceu humilhante sujeitarem-se a uma 
estréa tão pouco a seu gosto das liberdades e pre- 
rogativas constitucionaes, de que ainda iam gosar. 

Sob o ponto de vista politico era um mal de 
incommensuravfel alcance para o partido federa- 
lista deixar escapar a occasião de ter um homem 
de sua confiança e acceitar um outro oue não 
tinha com esse partido obrigações e que aaria ao 
seu governo um outro rumo. 

Havia a assembléa constituinte do Estado resol- 
vido adiantar seus trabalhos para promulgar a 
constituição, que cila elaborara, no dia 2 de Julho. 

Resolvera também que, feita a promulgação, 
se procedesse a eleição do i .** governador, con- 
firmando nesse cargo o provisório dr. José Gon- 
çalves da Silva. 

Promulgada a constituição no dia 2, no dia 
seguinte se faria a eleição do governador e três 
dias depois seriam elfectuados o juramento e 
posse, porque neste intervallo se preparariam 
festas que os amigos do congresso desejavam fazer. 

No dia i."* de Julho, porém, ás 10 horas da 
noite, o coronel Innocencio Galvão de Queiroz, 
commandante do districto, recebeu do marechal 
Deodoro um telegramma concebido nos seguintes 
termos — Quero Affonso eleito. 

De posse. deste telegramma procurou o coro- 
nel Innocencio o dr. José Gonçalves e deu-lhe 
conhecimento de tudo, tentanao chegar a um 
accordo. 

O sr. José Gonçalves, á meia noite, mandou 
o sr. Manoel da Costa Vianna á casa do dr. Luiz 
Vianna, presidente do congresso, entregar-lhe copia 
do telegramma e as particularidades que, sobre o 



assumpto, se tinham passado com o comman- 
dantc do districto. 

O dr. Luiz Vianna recebendo o mensageiro 
mandou-lhe que voltasse para prevenir ao Sr. José 
Gonçalves que no dia seguinte, ao meio-dia, esti- 
vesse preparado para tomar posge do cargo de 
governador. 

Logo pela manhã foram dadas certas provi- 
dencias e ao meio-dia abriu-se a sessão, tendo a 
palavra o i." vice-presidente, dr. Satyro Dias, 
para ler o artigo da constituição referente aos 
direitos e garantias dos cidadãos, depois do que o 
presidente promulgou a constituição e annunciou 
que, em virtude de disposição constitucional, se 
ia proceder immediatamente á eleição do gòvcr- 
naaor. 

Feita esta eleição o dr. José (íonçalvcs obteve 
5o votos contra ii, quê foram dados pelos depu- 
tados da opposição, ao velho e respeitável repu- 
blicano dos tempos do império Luiz António Bar- 
bosa de Almeida; proclamado o resultado, decla- 
rou o dr. Luiz Vianna que ia mandar oíficiar ao 
governador eleito para tomar posse immediata- 
mente c prestar juramento, nomeando uma com- 
missão composta dos srs. Innoccncio Galvão, 
(íeremoabo e Satyro Dias, para ir buscal-o á 
Victoria. 

Tanto era uma surprcza que o próprio barão 
de (Íeremoabo, intimo do dr. José (joncalves, se 
dirigiu ao sr. Luiz Vianna rcclamancío contra 
aquelle empossamento precipitado, em opposição 
ao que estava combinado c mostrando-se ma- 



goado. 



Quando, portanto, chegou ao Rio, na tarde 
deste dia, a noticia da promulgação da constitui- 
ção bahiana, chegou também a noticia da elei- 
ção e posse do governador. 



9 



Este acto cortava todas as pretensões e o 
coronel Galvão transmittiu ao general Deodoro 
um despacho, pouco mais ou menos, concebido 
nestes termos : 

^Congresso hoje promulgou constituição, elegeu 
José Gonçalves governador, empossou-o. Impossivel 
qualquer providencia eleição Affonso, a não haver 
grandes violências, derramamento sangue. Preferi 
evitar.» 

O novo governador administrou dessa data 
em diante, senão com a larga orientação de que 
. o Estado precisava, para alcançar os melhoramen- 
tos e prosperidades que tinha o direito de esperar 
do novo regimen, então constituidoe livre de peias, 
e que não chegaram a se executar até agora, pelo 
menos com honestidade e economia. 

Assim passaram-se quatro mezes. 

A 3 de Novembro de 1901 soube-sede repente 
que o general Deodoro dissolvera o congresso, ras- 
gando assim de alto a baixo a carta constitucional, 
que havia jurado em 24 de Fevereiro. 

Cosme de Salles no Evangelho da Republica^ 
não poude saber o que se passou na Bahia ; se é 
verdade que muita gente calou a sua indignação, 
e escondeu o seu terror, por medo, para não se 
compromctter, por não ter coragem de dizer como 
pensava, felizmente, tanto na Camará como no 
Senado da Bahia, duas vozes não foram abafadas 
pelo vento da subserviência que no Itamaraty 
. soprara tão rijo que, no palacete da Victoria, se 
sentia os eíFeitos e fazia tudo curvar. 

Destas duas vozes, uma a de um republicano 
da propaganda, de um dos caracteres mais nobres 
e mais altivos que tenho conhecido, vibrava n'uma 
independência temerária e angustiada, quasi como 
quando um soluço interrompe um apostrophc : 



10 



era a de Cosme Moreira; a outra, de um juris- 
consulto, mais ponderada e calma, em que a ma- 
neira diplomática pesa o valor dos termos, mais 
cabeça que falia do que coração que sente ; era 
a do Dr. Eduardo Ftamos. 

Dizia Cosme Moreira na Gamara na sessão 
memorável do dia 5. 

« O Sr. Cosme Moreira (pela ordem e fazendo- 
. se silencio ) : Sr. Presidente, vae para dous annos 
que entre os meus sonhos de moço, entre as 
minhas esperanças de republicano,* despontava 
glorioso um dia que parecia ser o inicio do pro- 
gresso da minha pátria ! Dia grande, auspicioso, 
triumphante para os grandes factores do immortal 
movimento de i5 de Novembro I 

E eu enchia-me de verdadeiro jubilo! 

A minh'alma inundava-se de verdadeira ale- 
gria. . . Depois as esperanças foram-se dissipando 
como nuvens batidas por fortes ventos ; o céo da 
pátria foi se mostrando mais carregado! E aquelles 
aue seguiam com o coração e a intelligencia os 
destinos d'ella foram descortinando as nuvens 
prenhes de grande tempestade [muito bem). E 
parece aue ella acaba de estalar ! O homem que 
foi escolhido pelo destino para occupar a eleva- 
dissima posição de chefe de uma nação livre, 
deixou-se obumbrar, fascinar pelas victorias al- 
cançadas; deixou-se inebriar em doces miragens 
que' para elle, sr. presidente, hão de transformar- 
se em um quadro bastante triste, se a consciência 
de todo ainda não se lhe apagou, porque acaba 
de dar o ultimo passo na estrada perigosa, para 
o abysmo do crime! [Apoiados^ muito bemjj>. 

E referindo-se a um discurso de Silva Jardim 
nacommemoraçãode Tiradentes, cuja explendida 
peroração reproduziu, terminou dizendo: 



Jl 



«A minha voz não foi sagrada pelas acclama- 
ções populares, não despertou osomno das turbas 
para ouvir as suas desgraças, não tem por si auto- 
ridade alguma, mas exprime uma grande convic- 
ção I Silva Jardim não está mais vivo para ir frente 
íi frente ao grande déspota dizer-lhe : rasgaste a 
constituição promulgada que juraste ; dividistes 
a tua pátria em vencedores e vencidos: e eu 
ainda que muito longe do dictador mas com a 
minha consciência de homem livre, que não se 
escravisa, digo: general, a imagem de Tiradentes 
terrível, como o remorso que te rasgará o coração 
condcmna-te para todo o sempre ; general, tu não 
foste forte porque foste covarde, logo não foste 
governo; general, tu não foste bom, foste máo; 
tu não foste povo, destruíste a tua pátria ! » 

Sr. presidente dà camará dos deputados do 
estado da Bahia: — Os últimos actos emanados 
do poder executivo, actos altamente attentatorios 
á nossa constituição federal, jurada solemnemente 
e promettida manter pelo presidente da repu- 
blica, actos que não se justificam, nem como 
ultima ratio da salvação publica, da pátria re- 
publicana em perigo, pois o congresso nacional 
dissolvido não pôde de modo algum ser suspeitado 
de conspirar para a restauração do regimen mo- 
narchico, obrigam-me a depor em vossas mãos o 
mandato de deputado pelo Estado da Bahia. 

Republicano sinto n'alma todas as grandes 
dores de patriota, não desilludido, mas avassa- 
lado por um desanimo moral tão grande que im- 
pede-me, n^este momento, o exercício autónomo 
de minhas faculdades moraes e intellectuaes. 
Joguete como sou, batido por choques tão desen- 
contrados e oppostos, não me julgo capaz de con- 
tinuar a legislar conscienciosa e livremente pela 
felicidade do meu Estado. 



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Suspensas as garantias individuaes, íjuero ni- 
velar-me com o ultimo dos meus concidadãos e 
com elles cahir sob a alçada da lei que sum- 
marissimamente tiver de julgar os inimigos da 
republica ». 

Foi ás dez da noite do dia 3 de Novembro que 
o governador José Gonçalves recebeu o tele- 
gramma do governo communicando a dissolução 
ao congresso. 

Immediatamente convocou clle o Sr. Luiz 
Vianna e o Dr. Satyro Dias para irem a uma con- 
ferencia no dia 4, ás 7 horas da manhã. 

Surpresos pela hora lá se acharam e depois de 
conhecerem o assumpto combinaram responder 
ao marechal Deodoro nos seguintes termos : 

aSciente. Governo se esforçará manter ordem^s^. 

Esta resposta lacónica tinha tudo o que era pre- 
ciso sem estabelecer o mínimo compromisso. 

Na camará já sabemos como a alma intemerata 
de Cosme Moreira se levantou contra a violação 
da lei fundamental da republica. 

No senado, a pérola da sessão foi o discurso 
repassado de patriotismo, illuminado pelo fulgor 
do talento e pela superioridade que dá a emoção 
da liberdade unida a erudição juridica, com que 
o Dr. Eduardo Ramos profíigou o attentado, aca- 
bando por enviar uma moção de completa repro- 
vação ao mesmo. 

K esta a moção. 

(( O senado bahiano profundamente sensibili- 
sado pelo recente acto do governo da União dis- 
solvendo o congresso federal, confia em que o 
f>ovo deste Estado, mantendo-se em attitude abso- 
utamente pacifica, aguarde o restabelecimento, 
que é para desejar, da ordem e do direito consti- 
tucional ; e passa á ordem do dia. — ( Assignado) 
— Eduardo Ramos, 



1t> 
o 



Depois o coronel Galvão e o barão de Gerc- 
moabo fallaram sobre o assumpto e o discurso 
justificativo e quasi congratulatoriò deste ultimo, 
assim como a moção que apresentou, são, no 
género, das manifestações mais extravagante- 
mente curiosas e anti-rcpublicanas que se pôde 
encontrar. 

Foi a seguinte a moção do sr. barão de Gere- 
moabo : 

(( O senado, sciente do recente acto do governo 
da União, dissolvendo o congresso federal, confia 
no patriotismo do povo bahiano e do governo, 
aguardando os acontecimentos com toda mode- 
ração e passa á ordem do dia. — S. R. — Bahia, 
5 díe novembro de 1891. — (icremoabo. » 

Nesta emergência o Dr. Luiz Vianna chamou 
o Dr. Manoel Victorino e fazendo-lhe ver a gra- 
vidade da situação, ponderando que, tendo o 
partido amigos c representantes no Rio de Janeiro, 
cuja attitude não se sabia qual seria, qualquer 
resolução que se tomasse seria prematura, pelo 
que combinaram na seguinte moção de espe- 
ctativa no sentido do telegramma enviado a Deo- 
doro e que collocava a questão aqui sob a lealdade 
que o governador devia á constituição do Estado 
e á da União : 

MOÇÃO 

« O senado confia na lealdade e patriotismo 
do povo bahiano, ria honra e civismo do gover- 
nador do Estado; presta-lhe todo o seu apoio para 
que seja mantida a ordem e respeitadas as con- 
stituições da União e do Estado e passa á ordem 
do dia. — S. R. — Bahia, 5 de novembro de 1891. 
— M. Victorino » . 

Foi esta a moção approvada, mas o senador 
Dr. Horácio César, nobre c digno espirito inde- 



14 



pendente, levantou-se e pediu que se declarasse 
na acta ter votado á favor da apresentada pelo 
sr. Eduardo Ramos. 

Quando pela imprensa da tarde, já de torna- 
viagem, souberam os bahianos do segundo tele- 
gramma do sr. José Gonçalves manifestando 
franca e completa adhesão ao golpe d'Estado, os 
politicos se espantaram e o sr. Luiz Vianna, per- 
guntando ao governador se era verdadeira a 
noticia, da qual duvidava, elle que nada até então 
dissera aos seus amigos, respondeu que de facto, 
enthusiasmado com a leitura do manifesto sobre 
a dissolução, cuja integra recebera na noite de 4 
por telegramma, não se poderá conter e mandara 
o tal compromisso exposto nos seguintes termos: 

«Generalíssimo — Acabo de lêr o vosso mani- 
festo a Nação e podeis contar com a minha leal 
collaboraçáo para o desempenho dos compro- 
missos de honra que galhardamente tomastes para 
com o nosso paiz e o mundo». 

Não foi só, como bem diz o Evangelho da 
Republica, grande o erro dos constitumtes co- 
piando a nossa lei fundamental da de um povo 
adiantado e capaz de comprehender e pôr em 
pratica as suas liberdades; erro maior amda foi 
não terem os constituintes calculado também que 
se ia entregar este machinismo delicado e difhcil 
de manejar, que acabavam de construir, a estan- 
cieiros e sargentões, o que equivalia a entregar 
uma machina finissima a operários inhabeis, dos 
que têm apenas tinturas do otficio. 

Não é o nosso código explicito, na penalidade, 
como devia, sobre os crimes poliiicos da ordem 
do commettido pelo general Dcodoro, e ainda 
menos sobre os seus co-reus e cúmplices. 

Nos arts. 109 a 114 diz, porém, quaes os 
commettidos contra o livre exercício dos poderes 



15 



políticos, c que são os capitulados pelos juristas 
allemães e inglezes crimes de alta traição. 

Pela altitude que àssumio o governador, não 
foi, segundo o nosso código, um co-author do facto 
delictuoso; foi um connivente moralmente res- 
ponsável pela violação da lei magna que applaudiu 
e cuja completa execução ajudou. 

Os processos que sé encontram na historia de 
muitos povos sobre crimes desta natureza são 
variadissimos e ditficeis ás vezes de classificar 
perante as regras normaes do direito. 

Este crime de alta traição tem feito cahir 
cabeças muito illustres, não só dos authores, como 
dos cúmplices, conniventes e outros co-réus, 
sendo muitas vezes encarada a culpa de modo 
diverso daquella pela qual devia ser julgada, ou 
exagerada pela paixão politica. 

Quando por exemplo o sangue de Thomaz 
Wenthworth, conde de StraíFord, tingiu o cada- 
falso inglez, se bem que elle soffresse o supplicio 
por ter auxiliado o seu rei a falsear e destruir 
a constituição daquelle paiz, que estabelece, o 
governo exercido por um rei e duas camarás, não 
o soíFreu justamente, porque, a maioria dos actos 
criminosos attribuidos a StratFord, fizera-os elle, 
por ordem de seu senhor e de tal modo fora evi- 
dente a sua defesa que necessário se tornou, 
adoptando a mais monstruosa tyrannia, que regis- 
tram os annaes politicos do mundo, que o longo 
parlamento pelo celebre bill de attainder, condem- 
nado por todos os jurisconsultos da epocha, o 
tivesse decretado criminoso no processo em que se 
devia apurar a culpa de que era accusado^ ao passo 
que o governador de cá, acceitando a destruição 
da constituição, applaudindo-a e alinhando-se ao 
lado do falséador, e ipso-facto violando também a 
do Estado, subsistente em consequência daquella. 



ií; 



o que íizera muiio por sua vontade, sem ouvir 
sequer os chefes mais conspicuos do partido, teve 
a mais positiva connivencia com o acto crimi- 
noso e, portanto, é por elle moralmente respon- 
sável. 

Foi, voltando de S. Christovão, com oDr. Ber- 
nardino de Campos, depois de ouvirem do coronel 
que commandava aquelle posto, que empregaria 
a força, dado o caso que teimassem em penetrar 
Os representantes no recinto de suas sessões, que 
resolveram estes dirigir um manifesto á nação ; mas, 
como o estado de sitio pesava sobre a capital, não 
foi possivel publical-o no districto federal, razão 
pela qual só poude ser impresso, depois, em 
S. Paulo. 

Combinaram também muitos delles, entre os 
quaes Zama, Custodio e outros, se dirigirem ao 
general Floriano, aue tendo declarado primeiro 
ser o carneiro do oatalhão, com sinceridade ou 
sem ella, como prova de acquiescencia ao acto de 
Deodoro, acabou por ceder ás razões dos outros, 
promettendo auxilio e pòr-se á frente do movi- 
mento que devia restabelecer a lei. 

Dias depois o deputado Custodio de Mello en- 
controu o deputado César Zama, seu patrício, na 
rua do Ouvidor, que ia em companhia do senador 
Almeida Pernambuco, e declarou-lhe que tinha 
assumpto muito grave a tratar. 

Entraram os três n'um café e ahi Custodio 
revelou ^jue se preparava um movimento militar 
para o dia 27 de Novembro, do qual Floriano, 
Vice-Presidente da Republica, era o cabeça, pelo 
que mandava este dizer ao deputado Zama, ser 
urgente a sua partida para a Bahia, porque apezar 
de serem boas as probabilidades de victoria não 
se poderia prever a resistência que opporia o 
governo ; n'esta hypothese o que estava assentado 



17 



era retirar-sc o Vicc-Prcsidentc para um ponto do 
território, que nío podia deixar de ser a Bahia, 
com os senadores e deputados que pudesse reunir 
e as forças de que pudesse dispor, para ahi es- 
tabelecer o governo legal e começar a guerra 
contra a dictadura. 

Era pois a guerra chilena que o Marechal pre- 
tendia reproduzir e pensava muito acertadamente. 

Ora, n'estas condições, forçoso era possuir a 
Bahia sem o governo do sr. José Gonçalves, cujo 
applauso ao golpe de Kstado revelava para o que 
podia elle servir. 

A missão do sr. Zama era, portanto, partir 
immediatamentc para aqui, entender-se com o 
Coronel iMoreira César, commandante de um dos 
batalhões da guarnição e homem de energia c 
vigor, e com outros oíficiaes também já prevenidos 
para derrubar o governo existente, na Bahia, e 
preparar o Kstado, para o caso de ser o centro da 
resistência e da ordem constitucional ; se fosse 
necessário o movimento tinha alguns navios já 
seguros e um destes viria a Bahia por-se ao serviço 
da causa. 

Foi nestas idéas que o sr. Zama e o Coronel 
Moreira César trataram e nestas disposições foi 
convocada uma reunião para a noite de 23, em 
casa do dr. Almeida Couto, a mesma de que falla- 
remos em outro logar. 

A descoberta, porem, da conspiração no Rio de 
Janeiro, e as medidas do governo precipitaram o 
movimento que rompeu na Bahia Guanabara, pelo 
pronunciamento do Biachndo, sob a direcção de 
Custodio de Mello, de modo que no mesmo dia 23 
chegava a noticia telegraphica da resignação do 
General Deodoro. 

Já ha dias, reuniam-se no quarto n. i8 do 
hotel Pariz no aposento do Coronel Moreira César, 

3 



IS 



que chegara de Sergipe, os srs. Jaymc Villas- 
bòas, Cruz Rios, Júlio César, deputados estadoaes, 
e Augusto de Freitas, deputado federal; tratavam 
elles todos patrioticaniente de agir contra o golpe 
de Estado; a todos illuminava com o brilho e com- 
petência de sua cultura e o vigor de sua palavra 
o deputado Augusto Freitas; entre elle e o Coro- 
nel Moreira César estabeleeera-^se mesmo uma 
corrente poderosa de sympathia e de alfecto. 

Estes homens por seu turno ligaram-se ao 
sr. Conselheiro Almeida Couto, chefe do partido 
Nacional, porque bem comprehendiam todos que 
a reacção aevia ser popular e não apenas militar; 
pelo que era necessário que fosse apoiada por um 
partido. 

Na persuasão que a revolução no Rio fosse a 
27 já se tinha convocado para a noite de 23 uma 
reunião em casa do chefe, o Conselheiro Almeida 
Couto, quando se soube no meiado desse dia os 
acontecimentos do Rio. 

A bem entender as cousas, não havia mais razão 
de ser para a revolução da Bahia, porque a resi- 
gnação do iMarechal Deodoro uUrapassara os pro- 
jectos a um tempo sensatos e estratégicos de Flo- 
riano, mas os conjurados entenderam apesar de 
tudo fazcl-a. 

E comprehende-se porque. Ao interesse legi- 
timo de servir tão nobre causa juntava-se agora o 
de não perder a occasião, para se apossarem desta 
autoridade, de que andavam desalojados ha muito 
tempo. Punham-se fora da lei os que pretendiam 
apoderar-se da administração publica, pelo meio 
violento da revolta, pois, acabada a dictadura, 
deixara logicamente de ser delia agente osr. José 
Gonçalves. 

A' essa reunião em casa do Conselheiro Almeida 
Couto em que foi tratada e definitivamente assçn- 



11» 



tada a conspiração, compareceram os srs. Zama, 
Cincinato, Freitas, Coronéis xMoreira Cezar e Sa- 
turnino, drs. Rocha Leal, Rios, Jayme, Capitão 
Júlio César, dr. Landulpho Medrado e outras 
pessoas, cerca de 40, que não tiveram no mo- 
vimento grande papel. 

Nella ticou assentado parte do plano do que 
se devia fazer no dia seguinte. 

Foi no meio desta reunião que compareceu o 
dr. Paula Guimarães, deputado federal, conhe- 
cido pela sua opposicão ao golpe de Estado, que, 
chegando do Rio, dissera sincera e singelamente 
ao sr. José Gonçalves, que o poder dictatorial 
devia cahir e que elle não tinha caminho decente 
e honesto, senão a resignação do cargo. 

Pediu que não fizessem uma deposição vio- 
lenta, declarou que sabia estar o sr. José Gon- 
çalves disposto a resignar e, diante das negativas 
dos conjurados, solicitou-lhes que ao menos espe- 
rassem, antes de resolver, que elle se entendesse 
com o General Tude. 

Foi ao quartel-general e respondeu cerca de 
meia hora depois que nada pudera obter. 

São passados apenas onze annos e sobre muitos 
pontos encontrei eu duas ou três versões, e o que 
mais é, entre os próprios actores da tragedia. 

Neste caso está a constituição da Junta. 

Devia compòr-se dos srs. Couto, Augusto de 
Freitas e Tude, dizem os artigos dos jornaes Ja 
epocha e o dr. Severino Vieira. 

Devia ser composta dos srs. Couto, Freitas 
e Freire de Carvalho, opina o sr. Conselheiro 
Luiz Vianna. 

Não entravao General Tude, affirma o dr. César 
Zama, e sim o dr. Virgilio Damásio, e o mesmo 
affirmam o dr. Rocha Leal, o dr. Landulpho 
c outros que conheciam os negócios projectados. 



20 



O sr. Araújo Pinho não acccitara. 

Na manhã de 24, boatos de tumulto e de depo- 
sição corriam pela cidade e pelas g horas o sr. 
César Zama, cuja popularidade devia ser natural- 
mente o brandão do movimento revolucionário, 
appareceu na Praça de Palácio e foi depois a cidade 
baixa pedir que fechassem os negociantes as portas; 
como sempre, as classes conservadoras tiveram 
medo e fecharam logo. 

O sr. César Zama voliou á Praça cerca de 10 
horas; jí'i o acompanhava uma certa porção de 
gente; cahia por intervallos uma chuva miúda, 
que fazia dispersar os que se agrupavam de novo, 
passada ella, para ouvir o tribuno, querido do 
povo. 

Ali, sobre o passeio da camará municipal teve 
clle uma violenta discussão com o sr. Severino 
\'ieira, deputado federal, que chegara na véspera 
do Rio de Janeiro. 

Inimigo do golpe de Estado, este dizia entender 
que o Governador se achava incompativel, mas 
que estava a seu lado para impedir a violência 
de uma deposição. 

Responsabilisava em altas vozes o tribuno, no 
meio do povo que o cercava, e bradou-lhe aíinal 
que não conseguiria o que desejava fazer. 

O poderoso chefe popular era um dos vultos 
mais sympathicos do antigo partido liberal. 

Por muito tempo elle só, ou quasi só, encarnara 
a opposição legal e por vezes muito brilhante do 
seu partido. 

Cíímbatente sempre disposto e bravo, discípulo 
da escola liberal que respeitando os princípios 
inglczcs, detesta qualquer tyrannia, parta do povo, 
ou parta do governo, profligou elle com vigor a 
perseguição e as sevícias feitas pclaplebe ao Coronel 
Frias-Viilar, desarmado e só. 



21 



Tendo concorrido para a resignação do dr. 
Manoel Victorino clle soube niosirar depois que 
não se sujeitava ás tristes e ignóbeis misérias que a 
Bahia soíiVeu na quadra politica que succedeu 
áquella administração. 

Deputado á Constituinte bateu-se pela repu- 
blica parlamentar e pelos verdadeiros principies, 
em que se estribam as liberdades publicas; inimigo 
do golpe de ICstado elle veio atacar aqui o Gover- 
nador que a elle adherira, mas commetteu o erro 
gravissimo para sua terra e s(u povo de empenhar 
sua popularidade numa revolução, cuja opportu- 
nidade já tinha passado e para o partido o de 
não ter percebido a sua sagacidade que o governo 
nas mãos do general Tude era a perda da batalha 
que emprchendera. 

Tinha o sr. José Gonçalves sempre agradado 
aos militares, e commettera a falta de entregar a 
força do Kstado a officiaes de linha, de modo que 
estando a funccionar no Congresso o sr. Júlio 
César Gomes da Silva, Capitão de infanteria e 
Commandante do Corpo de Policia, e que foi um 
dos filiados ao movimento, estava commandando 
a policia um sargento de linha, Juvencio Rebello; 
como se isto não bastasse, na sua identificação 
com o golpe de Estado, tinha cabido na ingenui- 
dade de entregar o commando da força policial ao 
General Tude, o que lhe custou muito caro, como 
vamos ver. 

Na manhã d\^ 24, quando o sr. José Gonçalves 
precisou do batalhão e o Chefe de Policia dr. Pedro 
Mariani ordenou a vinda de uma força, não foi 
obedecido. 

Não tinham, porém, sido os soldados os ganhos 
pela sedição contra o Governo que serviam, nem 
foi por covardia que o batalhão não sahiu; pois 
não só a guarda da Secretaria e a que tinha subido 



á2 



do commercio, commandada pelo Tenente Ma- 
chado, atiraram até esgotar toda munição, defen- 
dendo a chefatura de policia, como ainda mais 
tarde, quando o Tenente Machado foi perseguido 
e correu o boato de que clle estava a ser feito cm 
pedaços pelo povo, e quando um piquete do 9/ 
foi garanti r-lhe a vida, os soldados de policia qui- 
zeram sahir do quartel para defender ou vingar 
os camaradas. 

Já em alaridos elles se reúnem; já os sabres 
sahem a meio das bainhas, quando o Comman- 
dante Rebello acode, impedindo-os de sahir, tran- 
cando as carabinas nas arrecadações, gritando-lhes 
que o seu armamento é inferior e que serão infal- 
livelmente esmagados pela linha, porque o General 
Tude não quer, etc. 

E realmente, se na hora em que o tumulto era 
mais intenso na Piedade o sr. José Gonçalves não 
foi defendido como devia ser, isso se deu pelo 
seguinte: 

Ou porque viesse ordem do Chefe e o Com- 
mandante não pudesse desobedecer a ella aberta- 
mente, ou porque aos oíiiciaes c soldados pesasse 
deixarem abandonado aos seus inimigos o Governo 
a que serviam, uma torça considerável desceu a 
rampa do quartel que era naquelle tempo, como 
se sabe, defronte do Quartel General. 

Mas quando esta tropa punha o pé na rua, 
caminho do dever, um braço vestido em punhos 
bordados a ouro cstendcu-se da janella do i.** 
andar do Quartel General e a fez voltar. 

E, á voz de esquerda rodar dada pelo official 
que commandava a força, esta tornou a subir a 
rampa. 

Se, entretanto, houvesse tido o sr. José Gon- 
çalves 3o praças de cavallaria ou 100 de infanteria 
na Praça, beni commandadas, dirigidas por um 



23 



Chefe de Policia prudente e enérgico, ali entre a 
sua força e a revolução, esta não se teria realisado. 
c isto sem uma cspaldeirada, nem um tiro sequer; 
não porque o sr. Zama deixasse de fallar ( todos 
na Bahia conhecem o seu arrojo e bravura em taes 
occasiões, bem provadas no tempo do governo do 
General Hermes), mas porque ninguém o acom- 
panharia. 

Entretanto desde pela manhã, sabendo pelo 
dr. Paula Guimarães, que não podia haver duvida 
sobre a revolução e os magniíicos elementos de 
que ella dispunha, instaram alguns amigos do 
sr. José Gonçalves para que elle fosse ao Quartel 
(íeneral, porque conhecedores do caracter do 
General Tude, homem fraco e timido, mas arbitro 
da situação, pela força que chefiava, esperavam 
que interpellado frente á frente, e com energia, 
ou se retirasse prudentemente, ou pelo menos 
tomassem as coisas nova face. 

O Governador, porém, ou porque não com- 
prehendesse a importância e o alcance de um acto 
destes, realisado com diplomacia e vigor ou por 
outro motivo, acastellou-se em recusa systematica. 

Debalde íhe mostravam as vantagens pelo 
menos de convidar o General Tude para uma 
conferencia, mas sempre como resposta obtiveram 
a mesma recusa. 

Acabou, porém, fazendo tarde o que teria im- 
pedido provavelmente a revolução se fosse feito 
cedo, pois a requisiçf.o da força federal, com toda 
regularidade constitucional, collocaria o seu chefe 
na posição difíicilima de manter a ordem, com a 
vigência das autoridades constituidas, ou de faltar 
a uma obrigação restricta, c não era um homem 
fraco, como o General Tude, que faria isso; pondo- 
se abertamente, portanto, á frente da revolta, com 



24 



a qual aliás nada sympathisava e que promcttia 
impedir ainda na tarde de 23. 

Deixamos o dr. Zama fallando ao povo que se 
apinhava na Praça de Palácio, de onde partiu uma 
commissfio indicada por elle, composta dos srs. 
Cincinato Pinto da Silva, deputados Cruz Rios e 
Jayme Villas-Bôas, para intimar ao Sr. José Gon- 
çalves a deposição. 

Incidiam todos no crime de sedição (Art. 1 15, 
g 4.% e ns. 3.^ e 5.*» do Art. 1 18 do Código). 

Não o podiam ignorar, nem também desco- 
nheciam que a revolução nobre, a revolução 
patriótica contra o co-réo no golpe de Estado não 
tinha mais razão de ser, porque a constituição 
imperava outra vez, o congresso nacional ia ser 
convocado e o Governador da Bahia, pelo orgam 
competente de seu amigo, o dr. Paula Guimarães, 
desde a véspera á noite tinham elles toda certesa 
de que se ia demittir. 

E o que é mais: arrastavam com a palavra 
e o exemplo as turbas inexpertas e ignorantes de 
todas estas particularidades á rebeldia e á morte. 

Devolta, esta commissão trouxe a noticia de 
que o sr. José Gonçalves estava rodeado de seus 
amigos politicos, na Secretaria do Governo, á 
Piedade, e que declarara não ceder. 

E realmente não devia cederá violência. 

Então pronunciou o sr. César Zama pouco 
mais ou menos as seguintes palavras « — Meus 
concidadãos, pois que o Governador não quer 
resignar, vamos nós depòl-o.» 

E foram. A turba engrossada então, consti- 
tuindouma massaenorme, dirigiu-separaa Piedade 
em ordem, mas ameaçadora pela imponência do 
numero c pelas disposições. 

Na rua de S. Pedro armaram-se muitos com a 
lenha de umas carroças que descarregavam á porta 



25* 



de uma padaria e chegando á Piedade o povo 
derramou-se pelo jardim e ruas que o ladeiam, 
mais curioso que irritado. 

O sr. César Zama subiu e falou ao sr. José 
Gonçalves intimando-o outra vez a deixara admi- 
nistração do Estado. Esta conferencia foi delicada 
e quasi alegre. Mas o sr. José Gonçalves resistia 
do mesmo modo. 

Neste Ínterim, chegou o capitão de infanteria 
Júlio César Gomes da Silva, deputado, que tra/ia 
da parte do General Tude, um convite para o sr. 
César Zama afim de que fosse ao Quartel-General. 

Ali chegando, o General declarou ao chefe 
ostensivo da revolução, que sabia tratar-se da 
organisação de uma' junta que devia assumir o 
Governo do qual ia ser deposto o sr. José Gon- 
çalves, assim como da resistência deste em aban- 
donar o cargo e pediu um meio de accommodação; 
sendo-lhe respondido que não havia, declarou 
então que acabava de receber uma carta em que 
lhe era affirmado que se elle. General Tude,. fosse 
quem assumisse o Governo, não só a população 
receberia bem o facto como o sr. José Gonçalves 
cederia, ao que o sr. Zama respondeu — Pois sim, 
Generjal, vá fardar-se e vamos. 

Ao sahir o sr. Zama, tinha o Governador 
officiado ao General Tude requisitando a manu- 
tenção da ordem, recebendo resposta negativa, que 
lhe foi levada pelo Tenente-Coronel Luiz Soares 
Wolff, secretario do Com mando do Districto, 
verbalmente;. 

Continuando o tumulto, o dr. Paula (íuimarães 
foi ao Quartel-íieneral c parece ter sido elle quem* 
aconselhou ao General Tude que fosse á secretaria, 
e provavelmente também quem lhe insinuou que 
assumisse o Governo para impedir a formação da 
junta em que se falia va. 



26 



Chegando o General Tude, depois de trocar 
algumas palavras com o Governador, disse-lhe 
que a solução era passar-lhe o Governo ò sr. José 
óonçalves. 

Então o Governador quiz entregar a *adminis- 
tração ao sr. Luiz Vianna, presidente do senado, 
ao aual deu o officio respectivo. 

O hábil senador, porém, recusou a terrível 
investidura que lhe era conferida tão tarde, dizendo 
não ter tempo pára reunir os elementos de resis- 
tência necessários para manter a dignidade do 
carço, pelo que entendia que só a autoridade 
militar podia assumir a responsabilidade daquella 
situação, até que se achasse uma solução raseavel 
para o casp. 

O sr. José Gonçalves que n'esta occasião 

{)rocedeubemem tudo, procurou o outro substituto 
egal, dr. Satyro Dias. 

Este tinha querido ir presidir, como era do seu 
dever, a sessão tumultuosa da camará que se 
celebrou neste dia e voltando não poude penetrar 
na secretaria. 

Repellido grosseiramente, maltratado, esca- 
pando dez vezes de ser assassinado em alguns 
minutos, perseguido até á altura da casa do sr. 
Lacerda, além do jardim, deveu a salvação a alguns 
amigos que accorreram e o escoltaram até a sua 
casa. 

Foi só então que o General Tude assumiu a 
autoridade. 

Entretanto os srs. Couto e Freitas -esperavam 
impacientes em casa do primeiro, ao Caquende, 
que fossem chamados, conforme se combinara na 
véspera. 

Cansados de esperar a massa acclamantc que 
os devia ir buscar, vieram os srs. Couto c Freitas 
até á Praça, cercade duas horas, e ahi o sr. Almeida 



2V 



Couto fez ainda um discurso da janella da casa 
em que funccionava a inspectoria de Terras e onde 
hoje é o consulado americano. Acompanharam-o 
os srs. Virgílio Damásio e F^reitas, quj também 
fallou, as.úm como outros cidadãos depois. 

Mas a gente que ali estava não era a gente de 
acção que tinha feito o motim e sim curiosos em 
sua maioria, que vinham tomar o ar dos aconteci- 
mentos, saber e contar as novidades. 

Aonde elles deviam ter ido era á Piedade, onde 
se dava o combate e onde, se tivessem apparecido 
opportunamente, teriam encontrado o que pro- 
curavam ; a acclamação. 

Aqui cabem ponderações de valor. 

Si o sr. Zama fazia parte de uma conspiração 
que tinha por fim entregar o poder a uma junta, 
como concordou, consentiu, não se oppoz a que 
um só homem e o mais poderoso, assumisse só 
toda a auctoridade publica o que foi causa de 
abortar, detornar-se quasi umcodilho a revolução, 
pois se mudou apenas o sr. José Gonçalves? 

E como secomprehendeque os chefes ijidicados 
para a juntafossemparaa Praça de Palácio, auando 
era para a Piedade que deviapi se ter dirigido, por 
ser alli que se travava a luta, e que se devia resol- 
ver ella? 

E não teria o sr. Zama censentido naquillo por 
se ter visto só, por entender que os seus com- 
panheiros de conspiração sabendo das resistên- 
cias e incidentes que haviam surgido deviam ter 
vihdo para o seu lado, compartilhar das difficul- 
dades, perigos e responsabilidades daquellas horas 
diíííceis? 

Elle não diz, mas sente-se que devia ser assim. 

Questão muito importante constitucionalmente 
é a da intervenção da força federal, para garantir as 
autoridades constituídas nos Estados e neste ponto 



28 



O manifesto das camarás da Bahia ataca energica- 
mente o Getleral Tude. 

Não existe, porém, na secretaria o otficio, como 
devia ser, do Governador requisitando a força ao 
Commandante do Districto. 

O que o General Tude recebeu, conforme 
consta, porque não existe copia noarchivo. foi um 
officio convidando-o a comparecer na secretaria, 
para manter a ordem, já quando o tumulto estava 
no seu maior auge, officio que lhe foi levado pelo 
sr. Duarte de Oliveira. 

Foi após isto que o General se dirigiu para a 
secretaria e que o 9." batalhão occupou a praça. 

Affirma pessoa que acompanhou o General 
Tude nesta quadra toda, que elle mandou dizer 
para os conjurados reunidos em casa do Cons. 
• Couto na noite de 23, que não contassem com elle 
para a formação da junta, que foi o dr. Paula 
Guimarães quem lhe apresentou a idéa de assumir 
elle, autori(Jade militar, a administração tem- 
porária para manter a ordem, o que impediu a 
organisação da junta; e que foi ainda este, assim 
como o (ir. Amphilophio, os que influiram sobre 
elle, desde logo, para que tentasse investir no 
Governo os substitutos legaes do dr. José Gon- 
çalves, o que explica o chamado ao Quartel-General 
do dr. Satyro Dias, no dia 25, e o que se passou 
cntreestee o General sobre tão delicado assumpto, 
por ter declarado o dr. Satyro Dias, assim como 
já o fizera o sr. Luiz Vianna, que só assumiria a 
administração se contasse com a força, ao que 
aliás não accedeu o Commandante do Districto. 

Estes conselhos c a poderosa ascendência que 
sobre o General exercia outra pessoa, sua esposa, 
atemorisada pelos perigos presentes e futuros, 
actuaram na tarde de 24 e explicam ainda o 
seguinte. 



29 



Tinha sido expedida ordem para a secretaria 
do interior afim de ser remettido papel timbrado 
e tudo mais que fosse necessário para o expediente 
logo na manhan de 25, assim como um empregado 
para esse trabalho de gabinete. 

Quando, porém, este empregado, que ainda 
existe na secretaria do interior, Rodolpho Américo 
de Souza, apresentou-se ao General Tude, recebeu 
ordem de voltar para a repartição com os papeis, 
porque ellc não despacharia expediente algum. 

De modo que só um acto de Governo consta 
ter sido praticado pelo (ieneral Tude, e este mesmo 

não teve execução. 

> 

Foi a nomeação do dr. Cândido César da Silva 
Leão, para Chefe de Policia, acto que foi lavrado, 
mas não foi entregue ao nomeado, porque pessoa 
influente no partido federalista dingiu-se ao 
Coronel Moreira César, fazendo ponderações sobre 
aquelle magistrado, que parece tereni sido os 
motivos da permanência daquelle militar na 
chefatura de Policia, até a solução da crise. 

O sentido da demonstração tinha sido a mani- 
festação do receio de que sendo aquelle magistrado 
parente do dr. César Zama, naquella melindrosa 
quadra, podesse trazer isto alguma coacção a certas 
pessoas. 

A partir da tarde de 24 a revolução segue uma 
marcha vacillante e retrograda. 

O poderdo General Tude que não era de direito 
também não o foi de facto, porque elle não assignou 
um só documento em todo o decurso de vinte c 
tantos dias. 

Também para manter a ordem não era ellc 
preciso, porque o homem que fizera o 24, a maior 
popularidade da Bahia, assignava com o General 
c o sr. Moreira César a ordem de não haver viva 
alma nas ruas depois das 9 horas da noite. 



30 



Refere o escriplor fluminense terem havido 
distúrbios e correrias á noite feitas por soldados 
de linha e após os quaes o sr. José Gonçalves 
passou o Governo ao General Tude Neiva.' 

Não foi assim que se deram os factos. 

Naquella noite tempestuosa, cortada pelas 
rajadas de um vento áspero, neera e sinistra, diçna 
noite de um dia em que se tmham commettido 
tantas mortes de innocentes, não bulio um cão 
com a cauda, politicamente fallando, aqui nas 
ruas da Bahia. 

A passagem do Governo, para as mãos da 
auctoridade militar, deu-se durante a estada do 
sr. José Gonçalves, na secretaria do Governo. 

Quando este se retirou para casa de um amigo, 
o negociante Manoel da Costa Rodrigues Vianna, 
ao largo Castro Alves, seriam cerca de 4 horas da 
tarde. 

Durante o dia, até antes das 5 horas, foi que se 
deram os tiroteios e que as victimas cahiram. 

N'uma cidade de que Moreira César era o chefe 
de Policia não podia haver correrias, salvo se elle 
as mandasse fazer; desde que parecia estar no fundo 
victoriosa a revolução, exercia o supremo mando 
a autoridade militar e elle respondia pela policia. 

O que se deu foi o seguinte: 

O chamado do General Tude foi uma diversão 
para a revolta, como se diz na guerra! 

O sr. Zama, sahindo da Piedade deixara ali o 
povo entregue a si mesmo, sem chefe; e factos 
isolados vieram, como tantas vezes acontece nas 
revoluções, tomar o logar dos principaes, ou 
desviar o curso dos mais importantes. 

Quando voltou o sr. César Zama do Quartel- 
General, veio presenciar o resto de factos muito 
graves, que se tinham passado cm sua ausência. 

A guarda da Secretaria da Policia, que fica a 
um dos lados da praça da Piedade e á direita da 



31 



Secretaria do Governo, onde se achava o sr. José 
Gonçalves, fora reforçada pela vinda da Guarda 
do Commercio, Commandada pelo Tenente An- 
tónio Machado. 

O povoléo que cercava o edifício vociferava e 
insultava os soldados; e n'aquelledia em que tinha, 
segundo se dizia, as costas quentes pela protecção 
da linha, a rixa velha da plebe com a policia achava 
pretexto para se expandir. 

Em breve alguns populares mais arrojados 
cortaram o fio telephonico da delegacia, que era 
em baixo, noandar térreo da secretaria-; os soldados 
oppuzeram-se naturalmente mas o fio foi cortado, 
quando, porém, deitaram escadas á parede para 
cortar o da chefatura, no i.** andar, a tropa tomou 
attitude enérgica; d'ahi ás injurias e ás pedradas 
não houve muita demora. 

Ha quem diga que um tiro ou alguns tiros de 
revolver foram disparados contra o edificio, as 
portas e as janellas baixas da secretaria, onde 
estava a guarda. 

Esta respondeu então com fogo de carabina. 

Houve ordem? Quem a deu? 

O Chefe de Policia, dr. Pedro xMariani estava 
com o Governador; restam o dr. Adalberto 
Guimarães, que, segundo algumas versões^ estava 
também na secretaria do Governo, o Capitão 
António Braga, o Tenente Machado ou simples-' 
mente o sargento Angelo Francisco da Silva. 

Como em muitos outros casos idênticos 
ninguém sabe. 

O aue é certo é que a policia foi atirando e ás 
pedradas respondeu com as balas, emquanto a 
munição durou. 

Ahi foram feitas as primeiras victimas. 

Quando a munição se acabou, o que foi logo 
verificado pela gente que cercava o edificio, as 
pedradas, os tiros, as cacetadas recrudesceram e 



32 



começaram a gritar que o verdadeiro seria deitar 
fogo á casa. 

Chegavam já lenha c fachinas, já appareciam 
chammas quando o dr. César Zamà voltava do 
Quartel-General ; a revolução abandonada, como 
tantas vezes acontece, tinha degenerado em 
anarchia. 

O Chefe tenta reassumir o seu poder, pre- 
cipita-se para o incêndio e o faz extinguir, mas 
muitos homens do povo,* irritados pelas mortes, 
escandecidos pela cólera, invectivam o tribuno. 

A secretarra fora invadida e vasculhada, o 
archivo destruido, aguarda fugira, as autoridades 
também, e o illustre deputado via como de uma 
manifestação pacifica se forma um enorme e 
sangrento tumulto. 

Cornetas annunciaram a chegada de uma força. 
Era o 9.- batalhão de infanteria que avançava 
pela rua da Lapa em ordem de batalha. 

A frente o Coronel Moreira César, no centro a 
musica e a bandeira com o seu pelotão dobrado; 
os soldados traziam as patronas cheias de cartu- 
chos, os fechos das carabinas sem o envolucro de 
couro, prompto todo o batalhão para se abrir em 
linha de atiradores em combate, ou se fechar num 
quadrado erriçado de baionetas. 

Quando fez alto, em frente á secretaria, piquetes 
tomaram as boccas das ruas. 

O sr. 1 ude recebeu o Governo da Bahia e o 
sr. José Gonçalves relirou-se para a casa do sr. com- 
mendadorRodriguesVianna, ao largo Castro Alves. 

Ainda na porta o General 1 ude falou em segu- 
rança da sua pessoa, mas o sr. José Gonçalves 
respondeu sobranceiramente que não precisava de 
garantias, cercado como estava, pelos amigos que 
o acompanhavam. 



33 



Ainda assim o General Tude acompanhou a 
cavalloo grupo, á distancia, até o alto de S. Bento. 

O homem que não tinha sabido manter a 
dignidade do Estado que representava, acudindo 
á aquiescência do crime constitucional de 3 de 
Novembro, soube pelo menos manter a própria 
diante das intimações e das vociferações da plebe 
e não se mostrando cobarde ou medroso diante 
da força. 

Pouco depois o 9." batalhão retirou-se e tudo 
parecia ter voltado á ordem, mas certos indiví- 
duos procuravam os policiaes, que tinham atirado 
da secretaria, agora fugitivos. 

O ódio era sobre tudo intenso contra o Tenente 
Machado, commandante do destacamento, que 
subira do commercio e que o povo accusava de 
ter dirigido o fogo. 

Correu como um raio a noticia de que estava 
homisiado em uma casa á rua Pedro Jacome e de 
toda parte corre gente, que tenta assaltar a casa 
para espedaçar o refugiado. 

A gente que mata os desarmados e que nos 
dias de revolução brota das calçadas e dos cantos 
ignorados das cidades atira-se furiosa, e com 
muito custo se aguenta a familia, até que chega 
o piquete, que devia conduzir o fugitivo. 

A' noticia de que continuavam as tropelias 
começadas com o fio de telephone, ordens foram 
expedidas pelo coronel Moreira César, investido 
do cargo de chefe de policia. 

Diversos piquetes municiados sahiram do seu 
quartel; um, com mandado pelo Tenente João 
Paulo, recolheu, pelas ruas do Fogo, Faisca e 
largo 2 de Julho, praças de policia por ali re- 
fugiadas; um outro, commandado pelo Alferes 
Francisco Josç Patricio, sabendo que o tcnentç 



34 



Machado se achava homisiado na casa da família 
Barros, ali recebeu o oíiicial perseguido. 

A este piquete, que se lómna logo em qua- 
drado, se recolhe o Tenente Machado, mas por 
cima dos soldados tenta a turba feril-o. 

Debalde o commandante grita que não se 
adiantem, que se retirem; debalde ainda c 
uma descarga, fogo de alegria, dada para o ar; 
voltando a si do susto, a plebe que tinha a pro- 
messa de que a linha não atiraria sobre ella, pois 
estava do seu lado, se lança de novo sobre o per- 
seguido e uma cacetada o alcança. 

Então o Alferes Patricio orâena o fogo e uma 
descarga de pelotão em quadrado cahe sobre a 
massa prostrando muita gente. 

Um outro piquete, commandado pelo Alferes 
Elesbão José de Souza, que tinha subido pela rua 
Carlos Gomes, ouvindo os tiros, desde a rua do 
Cabeça, avançou d'ahi cm diante a marchc-marche 
atirando e entrou na Piedade, onde juntou-se a 
força do Alferes Patricio. 

Continuando a sotlVer pedradas, o quadrado 
augmentado, tendo no centro o Tenente Machado, 
atirou outra vez. 

Ao ganhara esquina da praça, antes de entrar 
na rua estreita, outra descarga partiu e ainda na 
encrusilhada que íica em frente á casa que é hoje 
Faculdade de Direito, os soldados se voltavam 
para traz e atiravam na direcção da rua do 
Senado. 

Os últimos tiros foram dados na rua da Lapa, 
na altura da travessa dos Barbeiros. 

Seriam 4 horas da tarde. 

A tropa tinha dado talvez umas dez descargas. 

Foram estes tiros da tropa de linha que mata- 
ram muitos do povo, descargas cerradas de pelotão 
atirando sobre a massa que estava nas ruas da 



Sf) 



praça c dentro do jardim, dessa mesma tropa de 
linha que se tinha aftirmado ao povo, que não 
atiraria sobre elle, porque estava do seu lado. 

Se realmente aquella promessa foi feita na vés- 
pera á noite, em casa do conselheiro Couto, pelos 
militares ahi reunidos, ella não foi cumprida c o 
Coronel Moreira César, Chefe de Policia, resta- 
beleceu a ordem com a fusilaria dos seus soldados. 

Nunca se fez a cstatistica dos que morreram 
neste dia terrivel e, o que é ainda mais digno de 
reparo, não consta nos cemitérios da Capital os 
que foram enterrados. 

E não é porque não se fizessem enterramentos, 
mas porque houve propósito em esconder para 
todo sempre a verdade sobre o numero das vi- 
ctimas. 

Na Santa Casa de Misericórdia não consta 
sequer o enterro do negociante de Nazareth Pedr o 
Marques de Jesus, que cahiu varado por uma bala 
na Piedade; verificada a sua identidade, logo 
quando cahiu, elle foi depois envolvido na turba 
dos anonymos, que foram transportados em car- 
roças e entregues a terra por ordem do Coronel 
Moreira César; consta ainda que o capellão de 
um dos cemitérios se oppoz áquellas inhumações 
sem guia, mas, diante da vontade imperiosa do 
sr. Moreira César, a terra tragou as victimas sem 
deixar vcstigios. 

Dos feridos, que não podia ser menos de trinta, 
uns foram para as suas casas, outros para o Hos- 
pital de Caridade e outros que não se podiam 
levantar, recolhidos ao hospital militar, segundo 
dizem. 

Provas, documentos, não ha. 

Correram tão poucos annos e com os mortos 
desappareceram as provas destes factos lutuosos. 



3(i 



O dr. Daltro, auditor de guerra, que passou 
pela Piedade e Lapa pouco depois das descargas 
da linha, calcula em trinta os mortos que viu; 
o sr. Luiz Vianna teve nota de quatorze e o 
sr. César Zama foi informado de terem sido cerca 
de sessenta. 

Acredito serem as notas do sr. Luiz Vianna as 
que mais se àpproximam da exactidão. Já pelas 
cinco horas da tarde quem passasse pelas visi- 
nhanças do quartel general cm toda a extensão da 
rua da Lapa até a esquina da Rua Nova, pouco 
mais ou menos, veria vedetas de infanteria, sen- 
tinellas perdidas, com a carabina carregada e a 
baioneta calada, tal qual como nos arredores de 
um campo fortificado. 

E pelas seis horas, até o serviço dos bondes da 
linha de Nazarcth se suspendia ;*já pouco depois 
das descargas a que deve a vida o Tenente Ma- 
chado, o próprio Coronel Moreira César, acompa- 
nhado do Capitão Júlio César e duas ordenanças, 
todos a cavallo, paravam pelas esquinas das ruas 
do Rosário c adjacentes, onde faziam pregar o 
seguinte boletim : 

AO POVO 

«Os abaixo assignados, responsáveis pela ma- 
nutenção da ordem publica, pedem ao povo que 
continue nos seus labores ordinários, pois a 
autoridade não pôde de modo algum consentir nem 
de leve na perturbação. Hoje ás nove horas, todos 
estarão em suas casas. Confiamos nopovobahiano. 
General Tude Neiva, Governador; Tenente- 
Coronel Moreira César, Chefe de Policia; César 
Zama». 

A manifestação popular dirigida pelo sr. César 
Zama tinha alcançado, pois, um dos objectivos do 



:M 



movimento ; havia derrubado o sr. José Gonçalves 
ou antes expulsara-o do seu palácio, mas não se 
comprehende que homens lieis a um partido 
limitassem a isto os seus esforços. 

Elles não podiam contentar-se com este resul- 
tado pessoal e platónico e sim pretender substituir 
o seu partido cio outro. 

Entretanto, parece que não puderam ou não 
souberam trabalhar, julgando a campanha perdida, 
porque na batalha não assumira a junta politica o 
Governo, e sim o sr. General Tude, ou porque 
fundas dissidências e dissabores impedissem uma 
acção enérgica e combinada. • 

\o Estado da Bahia e no Pequeno Jorna/ fez-se 
uma guerra frouxa, ao passo que do lado opposto 
os elementos se congregaram hábil e fortemente. 

Logo nos dias seguintes, os srs. Paula Gui- 
marães e Severino Vieira publicaram manifestos 
profligando o golpe de Estado, mas estabelecendo 
a questão da Bahia em outro pé, no termo da 
legalidade constitucional, e. embora censurando 
logicamente o Governador sem exercicio, punham- 
se ao lado delle para defeza das leis estaduaes, que 
estabelecem o modo de substituição dos Gover- 
nadores. 

E junto ao Marechal Floriano, pelos srs. Ruy 
Barbosa, Marcolino Moura e Dyonisio de Cer- 
queira foi a questão apresentada sob esta luz nova. 

O deputado Amphilophio Botelho Freire de 
Carvalho, que possuia ascendente sobre o sr. Cus- 
todio de Mello, influia com toda a força sobre elle, 
contrabalançando com vantagem a importância do 
sr. Augusto de Freitas, também amigo do Minis- 
tro da marinha. 

O sr. Arthur Rios foi enviado pelo partido ao 
Rio de Janeiro, para ser o interprete sagaz e activo 



;}s 



entre os homens da Bahia c os srs. Ruy, Dyonisio 
e Floriano. 

O corpo legislativo do Estado, também publicou 
um manifesto e esse trabalho, devido aos srs, Sa- 
tyro Dias e Eduardo Ramos, tem entre outras coi- 
sas importantes a declaração de que o governador 
não se esquivaria de adoptar, após o restabeleci- 
mento -do regimen constitucional, a solução mais 
consoante á dignidade e decoro do seu alto cargo ; 
assim como responsabilisa fortemente o General 
Tude pela não intervenção da força federal para 
manter a ordem, de accordo com o n. 3, art. 6." 
da Constituição da Republica e o art. 3.** do De- 
creto de 2 de Julho de i8qi. 

A habilidade reservada è fria do Marechal Flo- 
riano, a (juem talvez, já vinte e quatro horas depois 
da victoria fácil do 23 deNovembro, pesasse o papel 
impetuoso e vehemente, demasiado poderoso c ab- 
sorvente do ministro da marinha, estudava e cal- 
culava sem se pronunciar, abalado ao ouvir a 
palavra — legalidade, e principalmente ao rcllectir 
cjue não seria acertado deixar cm um Estado tão 
importante a autoridade nas mãos de pessoas que 
a deveriam áquelle ministro. 

Isto é o que explica o ssu duplo jogo. 

E mandou á Bahia, não só um, mais dois emis- 
sários, talvez por uma daquellas inclinações à 
dualidade que foi em tudo a norma politica do 
homem que tinha por divisa confiar desconfiando. 

Um foi o Capitão Servilio Gonçalves; sobre a 
missão que trazia c o que foi encarregado de fazer 
pouco se sabe; auanto ao outro, eis aqui como o 
Tenente-Coronel Moreira César annunciava a sua 
vinda ao sr. Conselheiro Couto, no dia 3o, sete 
dias, portanto, depois da revolução de 24. 

« Sr. dr. Almeida Couto. A pessoa que tem de 
resolver é de minha inteira coníianca. 



30 



O Floriano Peixoto, General Simeão c Cus- 
todio de Mello são seus amigos íntimos. 

Por tudo isto creio que será conveniente rece- 
bermos friamente, para que não digam que veio 
elle consignado a nós e para que tenha mais mere- 
cimento a sua resolução. 

Estou certo que a Bahia licará satisfeita. 

Quando elle nos procure será então conve- 
niente mostrar a carta do sr. Saraiva, para que fique 
convencido que não é questão de monarchismo. 

Adeus. Seu admirador, amigo, creado, obri- 
gado.— -4 n/on/o Moreira César. 

Bahia, 3o — 1 1 — 91. » 

Os primeiros passos do sr. Abreu Lima, foram 
criteriosos. 

Quiz logo ouvir o sr. Saraiva, nome tão ve- 
nerando nos últimos annos do império. 

Mas a edadc e os soífrimentos abatem os orga- 
nismos mais robustos e a posição do Conselheiro 
Saraiva não foi nesta occasião tal como o impu- 
nham a capacidade de seu çspirito e a honra de 
seu nome. 

Parece que o estadista dos tempos da guerra 
para^uaya e o autor da melhor lei eleitoral que o 
Brazil tem tido, não era o mesmo que se assen- 
tara na Constituinte, sem nella impor a influencia 
bemfaseja do seu alto espirito pratico, liberal e sen- 
sato, nem aquelle a quem o sr. Abreu Lima se 
dirigia para ouvir, como a um oráculo, digno de 
toda a attenção e respeito. 

O que o velho liberal sentia era nobre indigna- 
ção pela adhesão ao crime de 3 de Novembro, 
feito, não por um ministro como Straííbrd ou outro 
dependente de um rei ou de um governo, mas 
pelo chefe de um Estado republicano e autónomo. 

Além d'este lampejo, porém, nada mais pro- 



40 



duziu de útil; as suas respostas n'esta occasião 
foram evasivas e incertas. 

Por outro lado os amigos do sr. José Gonçalves 
receberam o emissário do Vice-Presidente da 
Republica com as apparencias de uma espécie de 
cenáculo. 

Tinha-se feito a sala e ella produziu impressão 
como todas as cousas bem preparadas. 

O General Floriano era mformado de tudo e 
reflectia sempre reservado. 

Esta interessante campanha politica, entre- 
meiada de intrigas, de discussões eruditas, sobre 
questões de direito, de manobras para alcançar 
influencia sobre a opinião publica e sobre os 
homens do contra-golpe no governo, foi dirigida 
com muita energia, tenacidade e prudência pelas 
duas cabeças mais sagazes e politicas do partido, 
os srs. Luiz Vianna e Severino Vieira, admiravel- 
mente auxiliados pelos srs. Paula, Arthur Rios, 
Amphilophio, Dyonisio, Ruy Barbosa, etc. 

A grande habilidade da g^nte que constituia o 
partido consistia em procurar logo fazer uma 
opinião c de posse dos meios de conseguil-o inver- 
teram geitosamente as coisas. 

Deixaram de lado a questão primordial, isto é, 
o facto delictuoso, para só apresentar a Bahia 
offendida, ameaçada na sua constituição, nas suas 
liberdades, na sua dignidade e renome; e mano- 
brando com este glorioso escudo faziam chover 
sobre Floriano, que não tinha mais na revolução 
o interesse militar e politico do principio, sobre a 
imprensa daqui com toda facilidade, c a de fora 
por múltiplos caminhos, estas idcas que incutiram 
em tudo e em todos. 

I^ logicamente, por tal ordem de plano, aguen- 
taram a ligara do sr. José Gonçalves e chegaram 
a fazel-a grande e quasi heróica. 



41 



Múltiplos indivíduos, nomes de guerra — João 
da Luz, Acácio Prisco, Viriato d"Assumpção, Sca- 
ramuzzi, Frei Talião, enchiam as columnas dos 
jornaes e o epigramma mesmo em prosa ou em 
verso era jogado, ás vezes com felicidade. 

Gastava-se talento e naturalmente também 
dinheiro. 

A imprensa, que aliás tivera redactores entre os 
oradores do povo no dia 24, desfraldara a mesma 
bandeira do tabernáculo constitucional e cada vez 
mais francamente á proporção que ella avançava 
para a victoria. 

Pelos talentos do sr. Severino Vieira, pelos 
homens que escreviatti parece ter sido elle quem 
exclusivamente ou quasi exclusivamente tomou a 
si esta parte delicada e importante da campanha. 

Também isto não se fazia só pela Bahia, e muito 
menos pelo sr. José Gonçalves, mas principal- 
mente pelo interesse do partido cuja perseverança, 
energia e geiío, repararam não só os erros do 
Governador, tanto quanto foi possivel reparar, 
como também os dos, seus próprios membros, 
commettidos nas primeiras horas e que não foram 
poucos, aproveitando-se da desunião, da falta de 
ordem e plano dos adversários, da sua irresolução 
e modos da sua inércia depois da acção, tão incom- 
prehensiveis como absurdos e incongruentes. 

Promoviam-se por todos os modos manifes- 
tações ao sr. José Gonçalves, cujas qualidades 
communs de honestidade eram exaggeradas. 

E uma vez dado o impulso com a publicação 
das primeiras visitas, que não tinham perigo nem 
compromettiam a pessoa alguma, fácil foi o resto. 

Tornou-se moda passar pela casa do sr. com- 
mendador Rodrigues Vianna e conversar na sala 
em que o sr. José Gonçalves contava o que tinha 
feito no dia 24 e falava com. calor da resistência 

6 



42 



no seu posto, que realmente tinha sido nobre e 
digna de elogios. 

Pouco importava que houvesse relação com 
o grave caso politico que se discutia e com a 
verdadeira questão, que era afinal açora a luta 
pelo poder de dois partidos : tudo servia para avo- 
lumar pelo numero aqui e no resto do paiz, e como 
o acontecimento dava aos visitantes a gloria de 
ter os nomes estampados, no dia segumte, na 
rima e prosa, local c até mais longe, compareceu 
muita gente. 

Foi assim que desde as associações de com- 
mercio até as sociedades mais extranhas ás questões 
politicas, e que nada tinham que ver com o caso, 
vieram manifestar-sc. 

Passavam centenas de pessoas e foram referidas 
pelo Diário dist liahia^ como visitas que exprimiam 
o interesse que taesassociações e indivíduos tinham 
pela integridade das leis da Bahia. 

E como em todas as cousas neste mundo entra 
sua parte de ridículo, até umas senhoras que repre- 
sentavam certa irmandade de Santa festejada em 
uma das capellas desta cidade também enten- 
deram ir agitar seus leques e fazer farfalhar as 
saias naquella sala politica, em que a irmandade 
não tinha íitas a distribuir nem vestidos da Santa 
a bordar. 

Fora estes exaggeros, os bons cidadãos, os 
amigos da constituição, das leis c da ordem, não 
queriam, após o primeiro susto, que viesse a do- 
minar no Kstado um regimen militar imposto. 

Não havia governo algum; era a acephalia da 
administração publica; não havia expediente nas 
repartiçvõese no principio de Dezembro os funccio- 
narios da Secretaria do Interior assignaram as 
folhas do seu propri opagamento. 

O General Tude continuava a não ser, depois 



43 



de ter querido ser Governador e de ter assumido 
esse cargo. 

Nomeara o dr. Cândido Leão, mas a nomeação 
nunca foi levada a etteito, nem o Juiz de Direito 
referido empossado neste cargo, que o sr. Moreira 
César occupava. 

Questões de direito surgiam levantadas pelos 
homens do sr. José Gonçalves. 

Tinham estabelecido a questão da incompe- 
tência do General Tude e sustentavam agora que 
o sr. José Gonçalves passara a este apenas a auto- 
ridade para manter a ordem e não de outro modo. 
pois, os casos da transmissão da administração se 
achavam especificados na Constituição Estadual. 

Mas, apezar desta argumentação e de não oc- 
cupar o cargo o sr. Tude, o sr. José Gonçalves 
também não reassumia. 

Contava-se que depois da chegada do 16." ba- 
talhão, que viera do sul, cujo commandantc era 
um dos maiores amigos do sr. José Gonçalves e 
cujos oíficiaes diziam que o Marechal Floriano 
lhes declarara não vjuerer que fosse de qualquer 
modo lesada a constituição estadual, este batalhão 
levaria um dia o sr. José Gonçalves á sua secre- 
taria, e diz-se que o sr. Luiz Vianna aconselhou ao 
governador que o fizesse. 

Era inconsequente a argumentação comparada 
com a attitude do sr. José Gonçalves, porque a 
ordem estava perfeitamente restabelecida desde 
as 5 horas da tarde do dia 24. 

Ataques rompiam na imprensa obedecendo a 
palavra de ordem, dada pelo manifesto das ca- 
marás contra o General Tude, porque não forne- 
cera a força federal para manter a ordem, de 
accordo com a Constituição da Republica. 

O sr. Abreu Lima, apontado como o arbitro 
da situação, graças á sua qualidade de emissário 



44' 



e homem de confiança de Floriano, era intimo de 
Moreira César, mas parece que este já nãò estava 
tão bem como d'antes com seus companheiros de 
conspiração. 

Ou que a attitude do Coronel lhes parecesse pér- 
fida, por ter elle, que estava compromettido com 
os chefes do partido nacional a traoalhar para con- 
stituil-os em junta governativa, assumido o cargo 
de chefe de policia, ao passo que o General se 
substituia á junta, e passavam-se os dias sem que 
ella fosse eonstituida, ou porque houvessem outros 
motivos de desconfiança, a' discórdia não tardou 
muito a lavrar entre elles. 

Sobre o sr. Zama incidiam também censuras 
semelhantes, e realmente os civis que deviam con- 
stituir a junta, ficavam bem positivamente cada 
dia mais longe do governo. 

Falava-se no presidente do Tribunal, suspeito 
aliás de intimidade com o sr. conselheiro Couto, 
pelo que os adversários apresentaram logo outra 
questão de direito, a saber; que não se podia 
entender com este a substituição do governadoi* 
em 3." logar, por não ser elle o Presidente do Tri- 
bunal do Estado, em virtude de não ter sido ainda 
organisada a sua magistratura e ser esse funccio- 
nario, que ainda não existia, que a constituição 
estadual se referia. 

O Coronel de engenheiros Dyonisio de Cer- 
queira, deputado federal, era um dos baluartes 
mais activos do partido federalista no Rio e amigo 
de Floriano. 

O Coronel Abreu Lima, trabalhando sem du- 
vida pelo sr. Moreira César, resolveu. assumir elle 
mesmo o governo. 

Fora, entretanto, o mesmo que declarara ao 
sr. José Gonçalves e aos seus amigos que elle seria 
apenas um phonographo que o Marechal teria 



4Õ 



aqui na Bahia e que ainda depois, provocado 
por um artigo do Diário de Noticias^ escrevera á 
redacção uma carta em que dizia nãcíser pretençâo 
sua a*poderar-se do governo do Estad!^o, o que 
só se poderia admittir por um accidente da men- 
talidade. 

Na situação a que se tinha chegado e perante 
a irresolução do General Tude insistiram os 
Coronéis Abreu Lima e Moreira César para que 
o Commandante do Districto resolvesse a crise e 
esie, ou fatigado, e desejoso de se ver desprendido 
de tão grandes responsabilidades, ou talvez, acima 
de tudo, magoado porque o Marechal Floriano 
nunca se communicára com elle, propoz aos dois 
passar a administração do Estado ao primeiro 
destes, o que foi immediatamente acceito por 
ambos; e ponderando ainda o sr. Abreu Lima que 
isto não se podia fazer sem que também o General 
passasse o Commando do Districto, elle prom- 
ptilicou-se a entregar esta investidura, da qual já 
pedira demissão, ao Coronel Frederico Cavalcante 
de Albuquerque, inspector do Arsenal. 

Previu logo, porém, o General que Abreu Lima 
não seria feliz, por causa da resistência que en- 
contraria na guarnição. 

Com eífeito, esta resolução foi um ninho de 
perigos. 

O que se conclue é que o Coronel Abreu Lima, 
diante desta lucta de interesses dos dois partidos, 
concebeu a idéa de ser acclamado Governador 
com o consentimento de ambos. 

Fez então um manifesto declarando assumir o 
Governo e nomeou logo um secretario. Este acto, 
porém, despertou indignação e resistência tenaz 
por parte do partido republicano e friesa mesmo 
por parte de muitos membros do partido nacional^ 



46 



que linha deste modo trabalhado para um terceiro 
e cxtranho. 

O que é mais digno de nota é que a guarnição 
federal mostrou-se descontente, e quasi todos os 
officiaes de infanteria publicaram um protesto 
declarando não reconhecer a autoridade estadual 
que se acabava de estabelecer, o que é uma boa 
prova tanto da desorientação como da indisciplina 
e desorganisação a que tinha chegado o exercito. 

Officiaes federaes, das duas parcialidades, 
tinham em mais de uma occasião se manifestado 
por este, ou por aquelle, mas desta vez era um 
pronunciamento enérgico e decisivo. 

O Major e outros officiaes do batalhão, com- 
mandado pelo Coronel Moreira César, subscre- 
veram o manifesto. 

E o único documento que o Archivo Publico 
possue assignado pelo sr. Abreu Lima como 
Governadoréum officio ao Coronel Commandantc 
interino doDistricto remettendo-lhe este manifesto 
afim de que fossem tomadas as devidas pro- 
videncias. 

A imprensa que, á excepção de dois órgãos, o 
Estado da bahia e o Pequeno Jornal^ combatia pelo 
partido federalista, profligou o acto do Coronel e 
atacou-o com vigor. 

Sabiam todos que o 1 6 batalhão era a guarda do 
partido e que além disso havia gente e força para 
tudo, vinda de fora. Procurou então o Coronel 
Abreu Lima o apoio do Governo Federal. 

O Marechal Floriano, porem, respondeu- lhe 
evasivamente dizendo que procedesse de accordo 
com os camaradas. Era contramarchar manifesta- 
mente e tendo, ao mesmo tempo, recebido o 
Coronel um telegramma irritado e enérgico do 
General Dyonisio Cerqueira accusando-o aspera- 
mente e que terminava pela phrase de etfeito — 



47 



respeitae a Bahia — ,dirigiu-se ao sr. José Gon- 
çalves para procurarem um meio de se chegar a 
uma solução rasoavei. 

Foi n'essa occasião que se aventou até a idéa 
de dissolver o congresso estadual, mas o Coronel 
Moreira. César oppoz-se a isto, dizendo que, 
batendo-se a revolução do contra-golpe de Estado 
para defender a autoridade do congresso dissolvido 
não se podia conceber que os seus partidários 
dissolvessem o congresso estadual. 

Foram então entender-se com o sr. Abreu Lima, 
os srs. Luiz Vianna, Geremoabo e Satyro Dias, 
combinando-seumaconferencia para odia seguinte. 
Na previsão, porém, de que alguma coisa im- 
portante se tivesse passado, aproveitaram a t^rde 
.>ara se entender pelo telegraphocom o sr. Arthur 
/lios, o qual respondeu, autorisado pelos srs. Ruy, 
^loriano e Custodio, que ficariam todos satisfeitos 
com a combinação de renunciar o sr. José Gon- 
çalves o cargo perante o congresso que seria con- 
vocado, renunciar o sr. Luiz Vianna perante o 
senado e ser eleito em seu logarum senador, que 
assumiria o Governo do Estado, conforme a con- 
stituição da Bahia. 

Deprehende-se de uma carta dosr. Luiz Vianna, 
publicada no Diário da Bahia e que não foi contes- 
tada ao terminar a crise, tersido elle quem traçou 
o plano da solução, ou deveu-se ella ao próprio 
Marechal Floriano e ao Sr. Ruy Barbosa. 

A perspicácia dos homens do partido repu- 
blicano esteve então em conseguir a acquiescencia 
do contr"almirante Custodio de Mello, o que 
obtiveram propondo-lhe o sr. Arthur Rios que 
exercesse o cprgo de Governador da Bahia um 
oíficial de marinha, o que foi acceito, rasão pela 
qual foi apresentado o chefe de divisf.o reformado 
Joaquim Leal Ferreira, que Floriano lez preferir 



48 



a outro que Custodio desejava mais, talvez só por 
isto. 

Tudo foi definitivamente concordado, pelos 
dois, o Vice-Presidente e o Ministro. 

Quando no dia seguinte a commissão foi ao 
Hotel Paris., o sr. Abreu Lima declarando que a 
imprensa e o partido federalista tinham com- 
prehendido mal a sua attitude, disse que recebera 
ordem do Marechal Floriano para assumir o 
Governo, em prova de que mostrou apartesuperior 
de um teíegramma em que estava escripto — « Deve 
V. assumir Governo. Não tendo sido lido o resto do 
teíegramma, pediu o sr. Luiz Viannaque lhe fosse 
Ql\e. emprestado para mostrar aos amigos, ao que 
se furtou o Coronel Abreu Lima; entretanto, o 
sr. Luiz Vianna tinha de relance conseguido ler 
as palavras seguintes — accordo guarnição, d'onde 
se mferia que se Abreu Lima fizera a proposta de 
conchavo ao sr. José Gonçalves era porque lhe 
faltava o apoio da tropa, o que foi horas depois 
confirmado pelo Coronel Santos Dias, de modo 
que era evidente fazer o Marechal duplo jogo. pois, 
ao mesmo tempo que mandara dizer ao sr. Abreu 
Lima — Assuma Governo accordo guarnição, tele- 
graphava ao sr. Santos Dias — Mantenha Governo 
Legal. 

Propoz então a commissão a solução das duas 
resignações sem dizer que ella já tinha o beneplácito 
do Marechal Floriano. 

Declarouosr. Abreu Lima queiriacommunicar 
ao Governo Federal, cuja resposta foi a acceitação 
como era de esperar. 

Neste sentido fez-se uma reunião a que com- 
pareceram os senhores abaixo mencionados que 
combinaram o que consta da seguinte acta. 



4Í) 



Acta da sessão celebrada a 22 de Dezembro de 
1891, nesta cidade da Bahia, para a solução defi- 
nitiva da crise politica em que se tem achado este 
Estado. 

Aos 22 dias do mez de Dezembro de 1 89 1 , nesta 
cidade e na casa em que reside o sr. Tenente- 
Coronel Abreu Lima, reunidos os srs. Severino 
Vieira, Augusto Freitas, Amphilophio Botelho, 
Zama, Leovigildo Filgueiras, Prisco Paraizo, 
Paula Guimarães, deputados federaes e Tenentes 
Coronéis Abreu IJma e Moreira Gesar, tendo o 
sr. Severino Vieira, por parte de seus amigos c 
o dr. Zama, por parte dos seus, se comppomettido 
a fielmente cumprir o que resolvido fosse, na 
presente sessão, assentou-se no seguinte : 

i."0 sr. José Gonçalves da Silva renunciado 
cargo de Governador da Bahia. 

2." E' acceito para presidente do senado o chefe 
de divisão reformado Leal Ferreira, renunciando 
o seu cargo o dr. Luiz Vianna. 

3." O dr. Luiz Vianna, como presidente do 
senado, em vista das circumstancias excepcionaes 
do Estado convocará immediatamente ocongresso. 

4.** O sr. Abreu Lima entregará o Governo de 
facto ao novo eleito, presidente do senado. 

E, para constar, lavrou-se a presente acta que 
vae assignada por todos. 

Bahia, 22 de Dezembro de 189 1.- (Assignados) 
— drs. ArL<itidesí César Spínola Zama. — Severino 
Vieira.- - AiKjusto Freitaf^, — l^risco Paraizo, — Paula 
Guirnarãe-^, — Leovigildo Filgueiras. — Abreu Lima. 
-Moreira César.— Ainphiloptiio Freire de Carvalho, 
com estas restricções i." Não reconhecendo o 
(jOvernodoTcnentc-Coronel Abreu Lima, acceito 
o expediente da renuncia do sr. José Gonçalves, 
será o congresso convocado pelo sr. Luiz Vianna, 
como substituto legal do Governador resignatario. 



50 



— 2/ Acceito p?ira presidente do senado qualquer 
dos membros d'essa corporação, uma vez eleito 
por seus pares. 

lím cumprimento doeste conchavo no dia 2-3 de 
Dezembro de 1891, o sr. Luiz Vianpa, presidente 
do senado, no exercicio do cargo de Governadcj-, 
convocou o congresso ao qual tpi presente a 
renuncia do sr. José Gonçaíves e também perante 
o senado renunciou o seu logar de presidente, 
elegendo este corpo o chefe de divisão reformado 
Leal F^erreira. 

Deu ainda esta acta pretexto a um tristíssimo 
incidente que poderia trazer funestíssimas con- 
sequências. 

No dia em que o sr. Leal Ferreira tomou posse 
dcT Governo do Estado e quando se encaminhava 
para a secretaria, encontrou ali o sr. Abreu Lima-, 
acompanhado pelo sr. Moreira César e outros 
offieiacs que, ou por não pertencerem ao partido 
republicano, ou por espirito de classe o acom- 
panharam e quando o Coronel tomou a acta e a 
leu, levantaram-se protestos vehementes da parte 
dos. membros do partido federalista que acom- 
panhavam o sr. Leal Ferreira, e o que é mais 
grave, uni Capitão-Tenente da armada, Almiro 
Leandro da Silva Ribeiro, da parcialidade do 
sr. Josc Gonçalves, lançando mão do papel que o 
seu collega do exercito tinha na mão, arrancou-o 
violentamente, o que motivou grande alarido na 

sala e o começo de um tumulto. 

> 

Expressões até insultantes e indecorosas foram 
proferidas e o Coronel Abreu Lima reiirou-se 
precipitadamente. 

Um pouco mais tarde doisofficiaesdeartilheria, 
os srs. Paes Barretto e Sezefredo de Almeida, 
vieram pedir ao sr. Almiro Ribeiro o papel 



õl 



arrebatado, no que interveio o dr. Severino Vieira, 
entregando o sr. Almirò a acta. 

Por seu turno, na rua, o Tenente Alfredo Leão 
da Silva Pedra, do 16/ de infanteria qiie com- 
mandava uma força, que o Coronel Santos Dias ali 
mandara postar, e que era um dos mais ardentes 
partidários do sr. José Gonçalves e do seu grupo, 
ao ouvir o tumulto, manda preparar as armas 
e dispunha-se a carregar, o que daria em resultado 
mais uma vergonhosa e funestíssima coUisão, agora 
entre os militares dos dois lados, quando o sr. Abreu 
Lima sahiu. 

Parece ter sido intuito dos homens do partido 
republicano esconder aquelle parêntesis na vida 
constitucional do Estado, que se acabava de fechar, 
ou apagar os vestígios do accordo que terminara 
a crise, talvez com o pensamento de aue passasse 
tudo isto como resultado só da força do partido e 
sem intervenção do Governo Federal. 

Tão difficil de realisar como tentar esconder a 
verdade c a luz peccava este desejo, porque disse o 
sr. Abreu Lima ter assim procedido authorisado 
por pessoa influente no partido federalista, um dos 
signatários da acta em questão, o dr. Amphilophio ; 
e com effeito não só este não negou o facto quando 
foi interpellado pelo dr. Augusto de Freitas, na 
rua, como não contestou, ao que me conste, a 
narração do 2."* Tenente Sezefredo de Almeida. 

Chegado, senhores, ao termo desta árdua tarefa 
de escrever uma pagina da historia contemporânea 
da Bahia, no meio de difficuldades bem serias, me 
anima a esperança de ter deixado um pouco mais 
desvendado o caminho por onde o historiador 
futuro marchará, facilitando o trabalho da critica 
que restabelecerá os pontos, porventura, ainda 
obscuros ou errados. 



Kncontramo-nos tristemente diante dos eífeitos 
lógicos de certas causas, dos quaes e das quaes 
a historia é o registro eterno. 

Nascida da agitação sediciosa das armas, a 
Republica soítreu aqui, e ainda um pouco menos 
do que em Pernambuco e no Ceará, a pressão 
brutal das armas. 

E' o soldado o arbitro de todas as situações, 
porque sem elle não é possivel dominar. 

E' o braço do General Tude quem faz voltar 
a policia, quando ella marcha para fazer respeitar 
o Governo constituido, entregando-o assim a mercê 
dos seus inimigos ; é elle quem nega o apoio da força 
aos substitutos legaes do Governador que affirmara 
sustentar, ainda na véspera até a seus subalternos. 

Mas não é elle também quem decide as coisas 
como não são sempre os Coronéis que commandam 
n'estas occasiões. 

Nas anarchias é frequente que o poder não 
reside nos que têm as apparencias delle. 

São os subalternos que impõem a sua vontade. 

Irresoluto desde o dia 23, quando reconhecia no 
sr. José Gonçalves administrador probo e em cuja 
quedanãoconscntiria, não a impede no dia seguinte. 

Tendo declarado a um dos seus Coronéis, 
quando se lhe apresentou, o sr. Moreira César, que 
não concorreria para a deposição e tendo altercado 
com elle no mesmodia 24, no quartel do 9.*^ batalhão, 
a poucos passos da tropa formada, assume a 
administração para não exercel-a ao primeiro 
conselho avisado que lhe dão, joguete dos interesses 
dos partidos quem não foi educado na alacrid-ide 
felina delles. 

Entretanto, por causa disto se matou, se feriu, 
íicou-se um mez sem Governo, e ainda quem não 
despachara, porque sabia que não era Governo, 
passou este (ioverno a um outro. 



53 



E são os batalhões que fazem a lei realmente. 

Chega o i6.° e um partido sabe que vae ganhar 
terreno. 

Oíticiaes politicos, protestam contra os seus 
superiores politicos. 

Inferiores mandam uma carta ameaçadora ao 
presidente de um tribunal para que não se realise 
a hypothese, quando foi aventada, de assumir elle 
a administração do Estado, entrando assim sar- 
gentos e furriéis na hermenêutica das consti- 
tuições! 

Não se dissolve o Congresso estadual, porque 
um Coronel se oppõe. 

Todos são os instrumentos dos interesses dos 
partidos, mas assim se dilacera e se humilha a 
dignidade de um regimen e as liberdades de um 
povo I 

Quando se quer fazer uma deposição pro- 
cura-se o apoio da tropa ou a promessa de sua 
desobediência á disciplina e ao dever que lhe é 
prescripto pela constituição da Republica. 

K são os Tenentes e os Alferes que fazem 
pender a balança para este ou para aquelle. 

O presidente da Republica se entende com os 
Coronéis, e o Com mandante do Districto, ao 
demittir-se, prevê que o sr. Abreu Lima não 
conseguirá ser acclamado, porque o 9.** batalhão 
não quer e o 16." já lhe é hostil. 

O chefe do Estado manda que as guarnições 
arbitrem sobre a legalidade. 

E' o Governo Federal quem resolve as questões 
politicas dos Estados. 

Se o partido chamado da legalidade levou a 
melhor, isto é, se manteve as posições e alijou 
delias dcfmitivamente o adverso, foi porque 
Floriano não quiz e a guarnição federal se oppoz, 
sendo isto em grande parte resultado d^aquilio. 



Õ4 



Ou porque o Marechal não fosse adepto da 
politica das deposições que, conforme mandava 
ellé dizer ao sr. Zama confidencialmente, estava 
fazendo máo eífeito, ou porque não sorrisse ao seu 
espirito prevenido e cauteloso, ao seu senso des- 
confiado, a perspectiva de fazer Custodio muito 
poderoso no seu Estado, o que é muito plausivel, 
nunca apoiou a Tude quando elle assumiu a 
administração, nem lhe telegraphou ou escreveu e 
quando quiz terminar a crise dirigiu-se ao sr. Zama 
e pediu-lhe que não se oppozesse á solução pro- 
jectada. 

Ao envez da primeira opinião do Marechal 
Floriano Peixoto, que fora no sentido de vencer 
quem tivesse força para isso, fechou-se a crise por 
uma transacção entre os partidos que se degla- 
diavam no Estado. Eo Governo Federal tornou-sc 
arbitro da situação, solicitado pelos dous. 

De modo que a Bahia, que tinha estreado a 
sua vida constitucional resistindo a uma imposição 
politica do Governo central, submetteu-se também 
ao systema hypocrita e immoral, despótico e 
detestável dos conchavos entre o Governo federal 
e os estaduaes, que hoje domina em todo o Brazil, 
ignominioso para a republica e as leis e pelo 
qual as aspirações nacionaes se abafam, as idéas 
e os homens novos e capazes não logram de ordi- 
nário accesso no caminho dos cargos e das 
honras publicas, senão pela subserviência ou pela 
nullidade. 

O erro do Governador, a sua acquiescencia ao 
absolutismo, desnecessária porque não se fundava 
em qualquer conveniência para um Estado au- 
tónomo e que tanto a este prejudicou, os discursos 
de alguns de seus amigos, a atiitude passiva do 
Congresso, salvo excepções honrosas c raras, bem 
mostram como andava* desgraçadamente a Repu- 



5Ô 



blica, apraveitando os homens viciados, sem 
capacidade e sem cultura, os medalhões do im- 
pério, c que pela adhesão fácil se habilitaram a 
occupar os logares, a gosar dos proventos e das 
posiçc3es, sem estudarem mais cousa alguma, sem 
comprehenderem sequer que a ordem nova das 
cousas importava idéas mais adiantadas e cultas, 
maneiras e processos politicos novos e mais 
delicados, que elles não conheciam, ou eram in- 
competentes para praticar. 

Os interesses dos partidos não se identificaram 
com o povo, porque foram apenas os de alguns 
homens, que se juntaram no dia seguinte, rene- 
gando as suas bandeiras com toda a ligeireza. 

De modo que o povo serviu apenas como a 
carne de canhãoaoimpeto do celebre conquistador 
para obter um resultado falho; de modo que do 
aborto resultou apenas a mudança de uma figura 
mas ficou o mesmo partido, os seus homens e 
idéas, com as mesmas qualidades c defeitos que 
já tinha. 

Em resultado, após este desastre que o collocou 
fora do poder, quasi sem esperanças de voltar a 
elle, sem este incentivo e estimulo, o partido 
nacional não poude mais viver propriamente. 

A sua vida foi d'ahi em diante uma agonia. O 
que tinha sido um exercito transformou-se afinal 
n'um grupo e debandou. 

E como pelo systema eleitoral vigente (*) não á 
possível subir pelas urnas, nunca mais houve uma 

(*} — ÍMíi no tempo da aJministraçno do dr. José Gonçalves que 
se naúgurou o costume de mandar o Governo furtar votos, alterar o 
numero de eleitores, etc, por meio da falsiticação das respectivas actas, 
o que n povo conhece sob a denominação pittorcsca de « ticorio ». 

A primeira eleição, após a Republica, preparada no tempo do. 
CleneiMi Herm-js, exprimiu as diversas opiniões existentes no Estado. 

As eleições preparadas c feitas pelo dr, José Gonçalves iniciaram 
as unanimidades governamentaes por este vicio imprudente de falsificar 
os votos, que tem deshonrado a Republica. 

:\. do qA. 



06 



aggremiação politica capaz de se oppôr ás demasias 
doeste poderoso partido do Governo, que, omni- 
potente, tendeu naturalmente á tyrannia como 
tendem os homens e os partidos em taes condições. 

E aqui, é que está, n'uma lei má, a chave da 
questão, a causa real do movimento de 24 de 
Novembro, que arrastou homens da nobresa de 
sentimentos de Almeida Couto c muitos dos seus 
companheiros pelo caminho torvo da revolta, 
como arrastará ainda outros, até que todos os 
cidadãos tenham uma só crença politica, unanime, 
ou até que todos se resignem a abandonar os 
negócios públicos ou a se bandear, pois é bem 
lógico que, emquanto não forem cumpridas since- 
ramente as promessas theoricas de liberdade e 
verdade eleitoral, se debaterá a Republica nas in- 
trigas estéreis, nas illegalidades e nos crimes 
políticos. 

Os homens que pertenceram aos partidos 
mortos têm entrado na vida do partido do governo, 
mas são homens, não são bandeiras, não são idéas, 
nem programmas que saiam das a^spirações c 
necessidades publicas. 

Corpos que se fundem não possuem mais a 
vitalidade primitiva. 

E^ um mal para o Estado e para a vida normal 
da Republica, para a qual, como para o mar, a 
estagnação será a infecção; que não pôde viver sem 
a lucta das opiniões, que é a vida dos povos livres 
e até para este mesmo partido que se dcsorganisa 
lenta mas seguramente pelas scisões e pelas dila- 
cerações insultuosas c pessoaes; e porque assim, 
andando não tem elle tempo, nem pode attender 
para as grandes cousas que são os alicerces das 
prosperidades, da fortuna, da gloria e da honra do 
Estado. 



Oi 



Força é confessar cjue tanto a policia como a 
linha, atirando a primeira para manter as commu- 
nicaçõcs da repartição que estava encarreirada de 
guardar, e defender o edifício ameaçado pelos 
agentes de uma sedição que estava agindo para 
depor o governo constituido, assim como a segunda, 
atirando para defender ávida de um homem que 
lhe estava confiada, cumpriram o seu dever. 

A responsabilidade do sangue derramado cae 
mais alto, logicamente. 

Senhores, não podemos fazer da historia uma 
mentira convencional, obediente ás nossas relações 
de amisade ou deferência. 

Devemos a verdade aos nossos filhos e só com 
ella a mestra da vida, poderá apontar ao espirito 
da juventude estes principios immortaesde direito, 
de moral e de justiça que são os alimentos da juris- 
prudência e das liberdades das nações. 

Não podemos, nem devemos mentir aos vin- 
douros, porque não é da mentira que poderão sair 
as lições de experiência e de civismo que farão 
no futuro a grandeza desta pátria. 

E pois que, como disse o poeta — «Que o homi- 
cidio, o sangue derramado é o sangue derramado e 
que aos olhos de Deus eterno, não se muda a figura 
do assassino porque em vez de um barrete de 
forçado, se lhe põe na cabeça uma coroa de impe- 
rador», força é dizer como sentimos, pela evi- 
dencia das provas, que se encontra mais alto a 
responsabilidade das mortes e dos ferimentos que 
se fizeram na Bahia, neste dia 24 de Novembro 
de 1891. 

^r. ^raz do Amaral. 



58 
APPENDICE 



Este trabalho motivou uma serie de artigos 
dados á estampa no Diário de Noticias pelo dr. José 
Gonçalves da Silva. 

SÍisceptibilisado porque eu em alguns pontos 
não apresentara o seu procedimento e qualidades 
sob forma agradável e elogiosa, o ijue eu não podia 
fazer por convencido de terem sido as deseraças 
occorridas em 24 de Novembro resultado da sua 
incapacidade para o alto cargo que exerceu, o ex- 
governador entendeu fazer o que se chama uma 
desaíFronta, de accordo com a paixão, a que aliás 
não surprçhende a quem conhece um pouco as 
tendências e fraquezas humanas. 

Infelizmente pelo azedume e violência não foi 
útil como poderia tel-o sido o trabalho do ex-go- 
vernador, como si se tivesse limitado a esclarecer 
ou contestar seriamente as affirmações graves que 
eu havia feito sobre as falsificações eleitoraes (bi- 
corio), sobre os factos que precederam immediata- 
mente o dia 24 de Novembro, incluindo a sua 
adhesão ao golpe de Estado, assim como as razões 
jurídicas ou politicas que a tivessem porventura 
justificado, e a sua attiiude de figura dirigida peles 
outros no período que se seguiu até o restabeleci- 
mento da ordem constitucional e legal do Estado. 

O ex-governador afastou-se em digressões que 
tinham por fim rebater o que eu não havia dito 
e provar uma importância politica na zona ser- 
taneja de Villa-Nova a que eu não me referira, 
por ser cousa inopportuna tratando-se do golpe 
de Estado de 3 de Novembro. 

Fácil seria, citando o que eu escrevi e o que 
escreveu depois odr. José Gonçalves, deixar exhu- 
berantemente documentado o que acabo de 
accentuar. 



59 



Para isto porém seria preciso não só dispor de 
mais espaço n'esta Revista^ como ler os artigos do 
ex-govcrnador (]ue são longos, muitos d'elles dit- 
fusos e acrimoniosos; outros inteiramente fora do 
ponto em discussão. 

E para esta leitura também me fallece lazer. 

Separando a questão do interesse calmo e se- 
reno da historia e do sincero desejo de ensinar 
á posteridade a verdade dos acontecimentos, sem 
a preoccupação convencional de agradar a quem 
quer que seja, não vale a pena gastar palavras, 
perdendo um tempo que pode ser melhor em- 
pregado. 

Foram estes artigos do dr. José Gonçalves a 
que me refiro, que deram causa á publicação da 
parte que vae sob o titulo Appendíce, 



iè0r. O^raz do Mniaral. 



CARTAS DOS DRS. SATYRO DIAS, PAULA 
GUIMARÃES E FELIPPE DALTRO 

((Meu caro dr. Amaral. — Recebi pelo nosso 
amigo Borges dos Reis o discurso que me mandou. 
Sempre obrigado. 

Remetto-lhe a nota junta, escripta pelo Paula 
Guimarães, a propósito do seu questionário sobre 
a bernarda de 24 de Novembro, na Bahia. 

Como verá, é um esboço rápido mas con- 
sciencioso e verdadeiro, do que se passou então. 
E' pena que elle o traçasse tão á voUd^oUeau. 

Sei que já leu no nosso Instituto a sua Memoria 
a respeito desses acontecimentos: li o primeiro 
trecho delia, na edição de 8, do Diário de Noticias^ 
c estou ancioso pela outra. A nota do Paula chega, 



«o 



portanto, tarde; mas não foi possível envial-a a 
tempo. Em todo caso creio que lhe aproveitará 
para a revisão do seu trabalho, ou para a impressão 
delle cm folheto, quando nada o impede de fa- 
zer-lhe as modificações que. por ventura, lhe sug- 
gira o estudo da referida nota. 

Adeus, até breve, pois pretendo ir buscar a 
familia, nos primeiros dias de Junho próximo. 

Sempre com muita estima e grande apreço. 

Do collega e amigo muito aífectuoso. — Salyro 
Dias. 



O dr. Paula Guimarães prefacia as notas com 
a seguinte : 

« Meu caro dr. Braz do Amaral. — Já lhe enviei 
a nota sobre os acontecimentos de 24 de Novem- 
bro, na Bahia, que me pediu por intermédio do 
dr. Satyro. 

Demorada por múltiplos affazeres, deante da 
insistência do nosso rererido amigo, escrevi-a ás 
pressas, currente calamo^ sem mesmo reler o que 
escrevi : d'ahi as deficiências e omissões que não 
podem deixar de existir, por me terem faltado 
tempo e lazer necessários para avivar a memoria 
de factos occorridos ha doze annos. Do que verá, 
porém, pôde o amigo tirar alguns elementos para 
a Memoria que está escrevendo sobre o assumpto. 

Seja sempre feliz e disponha dos poucos prés- 
timos do velho amigo attectuoso e admirador. — 
Paula Guimarães. 



a Ao voltar do Rio, dissolvido o congresso 
nacional pelo golpe de Estado de 3 de Novembro, 



61 



abri os olhos ao Governador, dr. José Gonçalves, 
meu amigo, sobre osperigosda situação, dando lhe 
a entender que se preparava a inevitável reacção 
contra o acto do Marechal Deodoro e aconse- 
Ihando-o á que se manifestasse a favor dos que 
tinham assignado o manifesto, de que lhe dei 
conhecimento. 

Respondeu-me o dr. José Gonçalves que a 
dignidade não lhe permittia voltar atraz, embora 
visse que havia sido illudido. 

Dois ou três dias depois, voltei á Secretaria 
do Governo, em 23 de Novembro, e conversava 
com o Governador sobre o assumpto momentoso 

3ue a todos preoccupava, quando chegou o chefe 
o districto telegrapnico que lhe mostrou o des- 
pacho communicando a renuncia do ^Marechal 
Deodoro e haver o Marechal Floriano assumido 
o governo; o sr. José Gonçalves, ao lel-o, vol- 
tou-se para mim e disse: uVou renunciar o go- 
verno ». 

(í Sinto muito, mas não tem outro caminho a 
seguir», respondi. Sahi logo e fui ao quartel da 
Palma prevenir o Coronel Moreira César e o 
dr. Urbano de Gouveia, então em serviço na Bahia, 
como engenheiro encarregado das obras militares, 
os quaes preparavam o movimento que devia re- 
bentar ahi de accordo com o das outras guarnições 
contra o golpe de Estado, movimento que no Rio 
íòra antecipado por circumstancias especiaes. 

Dei-lhes noticia do occorido, recebida com 
muita satisfação, ficando logo resolvido que o mo- 
vimento milhar não tinha mais razão de. ser c 
por consequência sustada a deposição do dr. José 
Gonçalves. 

Com municado o facto também ao Generallude, 
meu amigo particular, ficou este satisfeito e tran- 
quillo, porque assim evitara-se a desordem que 



(52 



cllc temia. Fui para a Calçada onde estava hospe- 
dado com minha família cá noite voltei ao Quartel 
General. Ahi encontrei o General Tudeatflictoe 
me communicou que os Coronéis Moreira César e 
Saturnino Ribeiro haviam sahido pouco antes e 
que iam reunir-^se, em casa do Conselheiro Almeida 
Goiito, aos politicos que n'aquellà mesma noite 
iam depor o dr. José Gonçalves. Aconseihou-me 
o General Tude que eu fosse á casa do Conselheiro 
Couto, para ver se impedia o que se projectava. 

Lá fui e entrei resolvido a arcar contra tal pre- 
tenção. 

Devo dizer que embora fosse eu contra o golpe 
de Estado, estava ao lado do Governador, nada 
tramando com os politicos da opposição chefiada 
pelos drs. Couto e Freitas. 

Em casa do Conselheiro Couto encontrei muita 
gente, entre civis e militares, sendo d'aquelles os 
conhecidos chefes da opposição no Estaclo e todos 
quantos os acompanharam e dos militares os Co- 
ronéis. Moreira César e Saturnino, o Capitão 
Caldas e muitos outros. 

Pedindo licença ao dr. Almeida Couto para 
falar, dirigi-me ao Coronel xMoreira César evehe- 
mentemente profliguei quererem os militares, que 
protestavam contra o golpe de Estado, fazel-o na 
Bahia acompanhando os que á hora adiantada da 
noite pretendiam expellir o governador do palácio, 
quando elles sabiam e eu o dizia de publico ali, 
que este já tinha prompto o officio de renuncia, 

âue no dia seguinte ia mandar ao senado. Depois 
e troca um tanto excitada de palavras entre mim, 
os Srs. Cruz Rios e Moreira César, depois de 
ouvir que o governo iria passar ao dr. Luiz Vianna, 
presidente do senado, o que seria pcior (diziam) 
que continuar o Sr. José Gonçalves, consegui cjue 
os Coronéis Moreira César eSaturnino, Capitão 



63 



Caldas c outros se retirassem commigo, ficando 
assim abortado o plano da deposição n'aquella 
noite de 23 de Novembro. 

A 24, quando cheguei á cidade, vindo da Cal- 
çada, foi que li o convite do dr. Zama, no jornal 
Estado da Bahia, para o meeting da Praça. 

Fui ao General Tude, a quem preveni para 
manter a ordem, e dirigi-mc á Piedade, onde se 
achava o dr. José Gonçalves na secretaria do 
governo, ficando ao lado doeste. 

Quando chegou a com missão composta dos 
drs. Villasboas, Cincinato e não sei qual o outro 
talvez o dr. Cruz Rios, depois que esta dirigiu a 
intimação ao dr. José Gonçalves, adiantei-me 
protestando em vibrante allocução, dizendo que 
ate na véspera eu estava prompto a um movi- 
mento revolucionário contra o golpe de Estado, 
e que iria até a deposição do meu amigo governador 
da Bahia, mas que agora, após a victoria da lega- 
lidade no Rio, quando não havia perigo nem gloria, 
eu me oppunha a que se ferisse a constituição do 
Pastado com uma illegalidade tão grande como a 
que se tinha feito no Rio, sendo a mesma questão 
de princípios e não de homens. 

Depois de ter eu falado, adeantou-se o dr. 
Amphilophio, que abundou nas considerações já 
feitas por mim. Emquanto se debatia, o dr. José 
Gonçalves declarou, tendo ao lado o General 
Tude, a quem eu havia chamado, pulando pela 
escada, ( e não pela janella ) porque o povo im- 
pedia a quem quer que fosse de sahir da Piedade 
(Secretaria), declarou o dr. José Gonçalves que 
não acceitava a intimação c permaneceria no seu 
posto. 

Retirada a commissão, voltou o General Tude 
para o quartel-general, ficando muita gente com 
o dr. José Gonçalves. 



64 



Foi depois disto que occorreu o incidente com 
o Tenente Machado, a excitação popular, tenta- 
tiva de ataque e incêndio ao Palácio da Piedade, 
recusa do com mandante da policia em obedecer 
ao dr. José Gonçalves, indo eu novamente, pas- 
sando pelo meio dos exaltados, chamar o General 
Tude para manterá ordem. 

O Governador tentou passar a administração 
ao Presidente do Senado e ao Presidente da 
Gamara, que o não acceitaram, por lhes faltarem 
as garantias da força. Em vista do que cedeu elle 
o governo do Estado ao General Tude apara 
manter a ordemt e retirou-se para a casa do com- 
mendador Manoel Vianna, ao largo do Theatro. 

Influi no espirito do General Tude que, como 
toda a família, tinha em mim grande confiança 
como medico e amigo, para que não fizesse « acto 
de governo» e esperasse que se normalisasse a 
situação mantendo a ordem publica. 

De accordo com isto, no dia seguinte cedo 
mandou elle chamar o dr. Satyro Dias, Presidente 
da Gamara, com o qual conversou. Ao chegar ao 
Quartel-Gcneral, sabendo eu do que havia, propuz 
que se reunisse o Senado e tomasse conhecimento 
da renuncia do sr. José Gonçalves; que o dr. 
Luiz Vianna, Presidente do Senado, por sua vez 
resignasse, sendo eleito, por accordo, para a pre- 
sidência um Senador que inspirasse confiança a 
ambos os lados, assumindo o Governo. Indiquei 
um nome, o do dr. Horácio César. A isto se oppu- 
zeram os chefes do movimento da véspera, di- 
zendo o dr. Cruz Rios que a revolução estava 
triumphante e senhora do campo. 

Oppuz-me tenazmente a que o General Tude 
fizesse acto algum de governo, tanto que, tendo 
elle nomeado Chefe de Policia ao Coronel Mo- 
reira Cçsar, poucos dias depois (2 ou 3 ) soube ao 



ÍJÍI 



chegar cedo á sua casa, que estava lavrado de- 
creto nomeando o dr. Cândido Leão; ponderei- 
Ihe quanto de irregular havia em lai acio que 
ficou sem effeito. 

Ambas as parcialidades procuraram o Mare- 
chal Floriano, buscando pòl-o do seu lado. No 
Rio, trabalhavam a favor do dr. José Gonçalves, 
os srs. Ruy Barbosa e Dyonisio Cerqueira. 

O Marechal Floriano resolveu mandar á Bahia 
o Coronel Abreu Lima para informal-o da situa- 
ção. Este a principio parecendo favorável ao dr. 
José Gonçalves, depois, talvez por influencia do 
Coronel Moreira César, foi pendendo para os 
adversários. O General Tude, assediado por todos 
os lados e doente não poude mais e passou o 
bastão ao Coronel Abreu Lima, o qual assumiu 
o g3verno do Estado da Bahia. Protestei logo, no 
mesmo dia, no Jornal de Noticias, fazendo o mesmo 
o dr. Amphilophio, não reconhecendo no Coronel 
Abreu Lima autoridade de Governador da Bahia. 

Passados 3o dias de interregno, hesitações, 
dubiedades, etc, etc, afinal resolveu o Marechal 
Floriano que se fizesse o que havia eu proposto no 
dia 25. Reunimo-nos, creio que no « Hotel Paris», 
amigos c adversários do Governador e ali, em pre- 
sença do (Coronel Abreu Lima, licou resolvido que 
o Senado seria convocado, o dr. Luiz Vianna resi- 
gnaria a presidência, sendo eleito o Chefe de Di- 
visão reformado Leal Ferreira, que assumiria o 
Governo, acceita a renuncia do dr. José Gon- 
çalves. Assignou-se uma acta de que o Coronel 
Abreu Lima disse precisar para mandar ao Mare- 
chal Floriano, acta que tem os nomes dos srs. Se- 
verino, Freitas, Paula, F^ilgueiras, Moreira César 
e outros. 

No dia seguinte, após a posse do sr. Leal Fer- 
reira no cargo de Presidente do Senado, quando 



m 



na Secretaria do Governo ia ellc tomar posse da 
administração, o Coronel Abreu Uma começou 
a ler a tal acta, a que me oppuz em vehemente 
protesto, seguido de tumulto e vozeria, sendo o 
Coronel Abreu Lima levado" por fim pelo braço 
do dr. Amphilophio. Empossado o Chefe cie 
Divisão Leal Ferreira, entrou tudo nos eixos, não 
sendo otfendida a Constituição da Bahia, apezar 
de um eclipse de 3o dias. 

O C()rí)nel Moreira César aconselhou o (íe- 
neral Tude a pender para o lado dos srs. Couto 
e Freitas. 

Não sei que parlamentassem o Coronel Abreu 
Lima e o dr. Amphilophio, sendo que este agia de 
accordo com os seus sentimentos Íntimos e de jus- 
tiça, sempre commigo. 

Não havia quem dirigisse entre os srs. Luiz 
Vianna, Severino, Amphilophio e eu. 

F2sperava-se tudo da palavra do Marechal Flo- 
riano, dominador absoluto no momento e a quem 
a força obedecia. 

Creio que o dr. Vianna conferenciou com o 
Coronel Abreu Lima c também com o Coronel 
Moreira Ccsar. 

Nada sei, porém, ao certo; nem eu tinha, então 
como hoje, outra preoccupação senão a de prestar 
desinteressados serviços á causa da ordem e da 
paz, salvando os principios e a dignidade moral. 

O dr. José Gonçalves era ouvido com as de- 
vidas deferências, mas devido a naturalissima 
excitação nervosa, pouco decidia, nem o podia 
fazer com êxito, em vista das circumstanciasexce- 
pcionaes. 

Lu era ouvido porque não se duvidava da mi- 
nha lealdade, embora não agradasse muito aos 
exaltados gonçalvistas a minha maneira calma e 
imparcial de ver as coisas, minha defeza ao 



«7 



General 1'ude, minha opposição ao ^olpe de 
Estado, etc. 

Recebi, entretanto, sempre provas da con- 
íiança do próprio dr. José Gonçalves, que sempre 
me estimou. * 

A' conferencia a que acima alludo para a es- 
colha do Chefe de Divisão Leal Ferreira assisti- 
ram os cavalheiros acima citados o dr. Amphi- 
lophio, e também, se não me engano, os s.rs. 
Severino, Leovigildo Filgueiras e outros de que 
não me recordo. 

Nada conheço dâ falada missão Servilio Gon- 
çalves. No livro do dr. João Tourinho sobre os 
factos da deposição do dr. José Gonçalves, apa- 
nhado do que então se publicou na imprensa da 
terra, ha artigos meus, sendo que o ultimo docu- 
mento, uma carta ao Capitão Caldas, trata de 
minha visita a casa do conselheiro Almeida Couto, 
na noite de 23 de Novembro. — Paula Guimarães. 



Lendo no Diário de Noticias a «Memoria His- 
tórica apresentada pelo dr. Braz do Amaral ao 
Instituto Geographico e Histórico da Bahia » no 
trecho «acontecimentos de 24 de Novembro de 
1891 « deparei meu nome com a informação que 
prestei a pedido do meu collega e amigo Conse- 
lheiro João l'orres sobre o morticínio que tivera 
logar nesse dia. 

K' um facto histórico e como tal cabc-mc de- 
clarar que não contei os cadáveres, mas não é 
exagerado o numero de 3o entre mortos e feridos ; 
e da própria nota do Conselheiro Luiz Vianna se 
verifica que se das descargas da linha deram-se 



6H 



14 mortes, quantas victimas poderiam dar-sedas 
descargas da policia que, entrincheirada na repar- 
tição central, surprenendeu o povo agglomerado 
cm massa na praça da Piedade ? 

Bahia, 27 de Maio de 1903. — F, Dallro de 
Castro y>. 



LEVANTES DE PBETOS NA BAHIA ('] 



^ J^ dc longe os funestos acontecimentos 

%mL^ de frequentes levantes de escravos africanos 
na Bahia. 
Referem as chronicas que nos primeiros annos 
do século XVI II era bem reduzido o commercio 
de escravos da Bahia com a Costa da Mina, pelas 
hostilidades da HoUanda e de outras nações con- 

3uistadoras. Nos annos de lóSy e 1642 os hollan- 
ezes tomaram os castellos de S. Jorge da Mina 
c de Santo António de Axim, que os portuguezes, 
primeiros descobridores daquella costa, haviam 
nclla erigido. Com as fortificações levantadas por 
aquellas nações em toda a extenção da costa, 
perderam os portuguezes o dominio que nella 
tinham e quasi se extingiu o commercio que faziam 
com os negros da Africa Occidental. 

(jovcrnava a Bahia, pelos annos de 1720 a 
1735, Vasco Fernandes César de Menezes, Conde 
de Sabugosa. Vendo este vice-rei a notável deca- 
dência da agricultura bahiana, pela escassez de 
braços resolveuanimar os negociantes a renovarem 
o commercio de escravos com a Costa da Mina, 
c. mandando construir 24 navios, os repartiu pelas 

( * ) Kxlrahidodo uJornaldoComnicrcio» do Rio de Janeiro, de 26 dc 
.\lai(> de ii>o3, onde foi publicado esse interessante trabalho pelo nosso 
iliííim conterrâneo e consócio Dr. Eduardo dc Caldas Britto. 

Damos em seguida o que sobre o mesmo assumpto publicou o 
tallccido consócio José Carlos Í'erreira sob o titulo— «As Insurreições 
<UiÁ Africanos», e documentos conservados no Archivo Publico da Bahia 
bubre a insurreição dc i83d. 

( NuTA DA Redacção ) 



70 



casas mais opulentas da praça da Bahia, ordenando 
que os artilhassem para resistirem aos ataques dos 
hollandezes. Sendo, porém, pequenas estas embar- 
cações para enfrentarem os navios de guerra ini- 
migos, foram inefficazesosdesejosdaquellevice-rei. 

Creada a mesa da inspecção, em i.** de Abril 
de lySi, o commercio de escravos com aquella 
costa começou a tomar certo incremento; e por 
esse tempo o trafico era monopolisado por alguns 
negociantes e dos mais ricos da capitania. 

No Governo de d. Marcos de Noronha e Britto, 
6."* conde dos Arcos e vice-rei do Brazil, mandou 
d. José I, em virtude da resolução de 6 de Março 
de 1756 do conselhode Ultramar, que se permitíisse 
a todos franca liberdade de commercio com a 
Costa da Mina. Pelas circumstancias espcciaes cm 
que se achava a capitania da Bahia, por ser a 
utiica productora de tabaco em larga escala, tinha 
por isso mesmo o privilegio do commercio com 
aquella costa, onde viviam as tribus mais guerreiras 
de leste d'Africa: aussás, ou ussás, gcges, nagòs, etc. 

No começo do século passado os navios ne- 
greiros alijavam no porto da Cidade do Salvador 
legiões de captivos trazidos da Costa da Mina; e 
nos logradouros públicos essa carne humana era 
legalmente exposta, examinada e vendida a preço 
vil: cem mil réis por cabeça, e das mais validas e 
das mais fortes. Esses negros eram a partilha ou 
antes os despojos opimos das guerras intestinas 
entre as tribus atricanas, espécie de mercadoria 
que se permutava, nos portos dos dominios por- 
tuguezes, por géneros levados do Brazil. Kram os 
braços fortes da lavoura, os únicos, no dizer dos 
administradores coloniaes, que resistiam ás in- 
tempéries, úsardentias do sol brasilico caos penosos 
e rudes trabalhos do bravio campo. 1^ fora essa 
a nossa colonisação. . . que os braços lusitanos 



71 



eram escassos para o manejo das armas em defesa 
do solo conquistado. 

Na primeira década daquelle scculo contava 
a Cidade da Bahia pouco mais de cincoenta mil 
habitantes, divididos em quatorze mil brancos, 
onze mil mestiços e vinte cinco mil negros. O 
trafico era o maior factor do augmento de sua 
população. Só no anno de 1807 entraram na 
capitania 8.0'ij escravos; e não fora menor o 
numero nos annos anteriores. 

Nessa época, dil-o o próprio Governador Conde 
da Ponte, consistia a escravidão, na Cidade, em 
retribuirem diariamente os escravos aos senhores 
com oito até doze vinténs, procurando livremente 
os meios de os haverem ; eaquellcs que os senhores 
empregavam em seus serviços, domésticos ou 
commerciaes, tinham á noite licença para se divertir 
á vontade. Viviam sem sujeição aíguma ( 1 ). 

De dia reuniam-se em grupos nos cantos das 
ruas de mais movimento, mettidos nas calças de 
algodão grosso, camisas sem mangas, carapuças de 
variadas cores á cabeça, ou chapéos de palha por 
clles mesmos tecidos, nas horas de ocio^ sentados 
em tamboretes ou acocorados ás portas, a espera 
dos carretos ou recados, debaixo da direcção de 
um chefe, ao qual chamavam Capitão e a quem 
obedeciam cegamente. As pretas percorriam as 
ruas mercadejando as quitandas do seu exótico 
commercio, braços e pescoço ornados de figas e 
missangas, dependurados os tenros filhinhos aos 
quadris, seguros pelo Panno da Cosia atravessado 
á cintura. As raparigas occupavam-se dos trabalhos 
de casa, sob a guarda das familias, cujo luxo 
consistia em terem ao seu serviço domestico grande 
quantidade delias. E não se misturavam as diífe- 

( I ) Oflicio de iT) de Juniu» de i8o7 da Correspondência dos Gover- 
nadores — 17S3 a 1S07, do Insiiiuto líistorico Gcographico Brasilciri». 



72 



rentes tribus. De dia ou de noite e a toda hora pretos 
c pretas juntavam-se e dançavam e tocavam os 
seus batuques pela Cidade ou nos Casebres^ onde 
occultavam as escrava novas, que os Capitães 
gozavam impunemente. 

Nos domino;os ou dias de festas, nas ruas e 
largos da Cidaae, não se ouviam sinão os toques 
desentoados e atroadores de seus instrumentos, de 
envolta com a monotonia de seus cantos selvagens. 

Os escravos do recôncavo, os da lavoura, eram 
alimárias de trabalho, mal alimentadas e muitos 
delles tendo apenas a tanga por vestimenta. 

Odiavam os senhores, porque estes os mal- 
tratavam pelos mais simples delictos c as vezes 
os ameaçavam com a morte. 

O Conde da Ponte, ao assumir o Governo en- 
controu a Cidade da Bahia cdm estes escandalosos 
costumes, cercada de quilombos por toda parte, 
deondesahiam os negros para roubar os vianaantes 
e as propriedades dos arrabaldes. Tratou de tomar 
providencias para policiara Cidade e evitar suble- 
vações. 

> 

Encarregou, em Março de 1807, ao Capitão- 
mór Severino da Silva Lessa de dar cabo dos 
quilombos. No dia 3o do mesmo mez, o (^apitão- 
móre mais 80 homensdc tropa de linha, escolhidos 
e bem municiados, com o auxilio dos otiiciacs do 
matto e cabos de policia, cercaram varias casas e 
nos arraiaes de Nossa Senhora dos Mares c do 
Cabula prenderam 78 pretos, uns escravos e outros 
forros, destinando todos aos serviços das fortalezas 
e dos melhoramentos da Cidade. 

Com estas medidas de garantias os senhores 
tornaram-se mais cruéis e os escravos irritaram-se. 
E foi este o motivo, naquclle anno, de um levante 
contra os brancos, concertado pelos negros da 
raça Aussa. 



73 



Incendido o ódio implacável no peito desses 
míseros humanos, pelos bárbaros castigos e mãos 
tratos que lhes infligiam os senhores, era natural 
que explodisse uma conspiração infernal. Orga- 
nisaram alguns desses pretos* debaixo de todo 
sigillo, uma confederação, com o designio de 
reunir todos de mão armada, em ajustados logares, 
na Capital e no recôncavo, deliberados a resistir 
e guerrear os brancos, si lhes fosse obstada a fuga. 

A' frente da insurreição achavam-se os pretos 
António, escolhido para embaixador, e Balthazar, 
que commandaria os companheiros na Capital. 
O primeiro era forro, vivia de pequeno com- 
mercio entre a cidade de Santo Amaro, gosando 
de certo predomínio entre os companheiros e da 
confiança e estima do commercio, tanto da Bahia 
como daquella villa; o segundo era um negro 
intelligente insinuante, o capitão^ como lh'o cha- 
mavam os primeiros, escravo do serigueiro Fran- 
cisco das Chagas, morador no Corpo Santo. E era 
este o principal cabeça, quem alliciava os com- 
panheiros para se juntarem á sublevação, commu- 
nicando ao embaixador as disposições da empreza 
e recebendo deste asinstrucçõesdos confederados. 

Projectaram apoderar-se da Casa da Pólvora 
e das Armas, incendiar a Alfandega e a capella 
do arrabalde de Nazareth, para que, desviada 
a attenção da tropa e do povo, que acudiriam 
a esses incêndios, mais facilmente se executasse 
o plano combinado (2). Intentaram ainda enve- 
nenar as fontes, matar os senhores ; e, victoriosos, 
constituir um governo, elegendo um rei, e se 
apossar das embarcações surtas no porto, que os 
transportariam a pátria. 

Teve o Conde da Ponte denuncia, no dia 27 
de Maio daquelle anno, de que no dia seguinte, 

( 2 ) Correspondência do Governo da Rahia, Archivo Publico 
Nacional. 
10 



pelas 7 horas da noite, se efíectuaria o levante. 
A' vista da denuncia c verificados os indicios, deu 
acertadas providencias para obstar o movimento, 
que, embora sem orientação intelligente, seria de 
funestas consequências para os habitantes da 
cidade. 

Depois de ter em uma quinta-feira acompa- 
nhado a procissão de Corpus Clirisli^ dirigiu o 
Conde da Ponte ordens, do seu próprio punho 
escriptas, debaixo de toda a reserva, a cada um 
dos chefes dos corpos da guarnição para que pu- 
zessem de promptidão as patrulhas; eá bocca da 
noite, sem toque de tambores esem que na cidade 
soasse o menor ruido, achavam-se tomadas as 
sabidas e entradas da cidade, distribuidos os offi- 
ciaes do matto em diligencia pelos caminhos. En- 
carregou o seu ajudante de ordens. Capitão do 
I." regimento. João de Chastinet, de cercar a casa 
denunciada, sita á rua Direita do Corpo Santo. 
Dando-se busca nesta casa foram presos i3 pretos, 
os principaes cabeças, e encontrados chuços, fle- 
xas, facas, pistolas, tambores, e outros apetrechos 
bellicos. 

Abriu-se uma devassa; foram ospresos submet»- 
tidos a processo. Os dois principaes culpados, An- 
tónio e Balthazãr, foram condemnados á morte, 
e os demais açoitados na praça publica, a 20 de 
Marco Jc iSoS. 



As respressões legaes, em vez de acalmarem os 
ânimos exaltados dos Aussas, atemorisando-os, 
activaram ainda mais os rancores que nutriam 
contra os senhores. 

Tramaram em 1809, não uma sublevação, que 
o governo e os próprios senhores os vigiavam 
attentamente, mas uma fuga. Mancommunados 



irp 



com os pretos gcges e nagòs, planearam abando- 
nar, em determinado dia, as casas e engenhos e 
consiituirem-se em quilombos nas mattas de di- 
fticil accesso. 

Na tarde do dia 4 de Janeiro daquellc anno 
fugiram da Capital centenas de captivos, que se 
foram refugiar a nove léguas de distancia, nas 
cercanias da estrada de Paripe, próximo ao riacho 
da Prata. Na passagem pelos engenhos, povoações 
e estradas commetteram toda sorte de devastações 
e atrocidades: roubos, incêndios, ferimentos e 
assassinatos. 

Conhecidas do Governador, na manhã seguinte, 
essas occurrencias, que alarmaram a população, 
fez expedir sem demora tropas municiadas no 
encalço dos fugitivos, ordenando que fossem vi- 
giadas as sabidas das estradas quj iam ter ao 
recôncavo, aíim de impedir que a noticia da fuga 
chegasse aos engenhos antes da prisão dos amo- 
tinados. 

Surprehendidos os pretos, na manhã do dia ()• 
pelas tropas, em um matto junto ao riacho da 
Prata, cercados e intimados a entregarem-se, re- 
sistiram, atacando as tropas, as quaes se viram 
obrigadas a lançar mão das armas de fogo, ma- 
tando alguns, ferindo muitos c aprisionando grande 
numero. Durante a acção, muitos delles evadi- 
ram-se. Foram afinal conduzidos para as cadeias 
da Cidade 95 fugitivos, sendo 83 negros e 12 
negras. 

Por essa occasião participava; o Ouvidor inte- 
rino da comarca e juiz ordinário da villa de Jagua- 
ripe o levante dos negros na povoação de Nazareth 
no dia 26 de Setembro do anno anterior, sutfo- 
cado graças á actividade e energia daquelle juiz, 
o qual expediu ordens para dominar os insur- 
rectos, capturando-os e remettendo dalli os prin- 



cipaes cabeças, 23 amotinados. Não houve, feliz- 
mente, desgraças a lamentar em 'Nazareth. 

Próximas á povoação de Itapoan havia, a duas 
léguas de distancia cia cidade, as armações de 
Manuel Ignacio da Cunha e Menezes, depois vis- 
conde do Rio Vermelho, e de um tal Herculano, 
os quaes viviam de explorar a pesca da baleia e 
possuíam algumas dezenas de escravos, na sua 
ma-ioria aussás. 

No anno de 1814 estes negros, flagellados pela 
fome, em consequência da escassez da pesca nesse 
anno, desesperados pelo excesso de trabalho e 
pela habitual crueldade dos feitores das duas pro- 
priedades (3) rebellaram-sc, a 28 de Fevereiro e, 
unidos a outros companheiros que fugiram da 
Capital no dia anterior, assaltaram, armados, c 
incendiaram, pelas 4 horas da madrugada, as 
casas c senzalas daquellas armações. 

Depois de matarem o feitor e a familia deste 
c outros brancos que ahi se achavam, marcharam 
a atacar a povoação de Itapoan, onde também 
incendiaram algumas casas e, reunidos aos pretos 
desta localidade, assassinaram os brancos que 
tentaram despersuadil-os ou lhes resistir. 

Governava então a Bahia D. Marcos de No- 
ronha e Britto, 8.** Conde dos Arcos, uma das 
figuras mais proeminentes da administração co- 
lonial. 

Na mesma madrugada este Governador en- 
enviou ao encontro dos rebeldes um destacamento 
de 3o homens de cavallaria c alguns soldados do 
regimento de infanteria de caçadores, comman- 
dad(\s pelo seu ajudante de ordens Coronel José 
Thoma/ Boccaciâri. Mandou no mesmo dia que 
se aííixassem editaes convidando as pessoas de 

(3) Correspondência do Governo da Bahia, Archivo Publico 
Nacional, 



í 4 



cujo poder tivessem dcsapparecido escravos no 
dia anterior a comparecer na sala de palácio, para 
declarar o numero, nomes e confrontações dos 
mesmos escravos fugidos. E pela lista que sepoude 
apurar haviam dcsapparecido apenas 26 negros e 
quasi todos aussas. 

A noticia destes successos repercutiu rapida- 
mente c chegou ao conhecimento de diversas 
auctoridades dosdistrictos. O Major da Legião da 
Torre Manuel da Rocha Lima partiu sem demora 
para dominar os rebeldes, defender os habitantes 
daquella zona, ameaçados de serem trucidados, 
e impedir que os arnotinados seguissem para o 
recôncavo, onde encontrariam apoio dos compa- 
nheiros colligados. 

As tropas da Legião da Torre tiveram no 
mesmo dia vários encontros com os rebeldes junto 
a Santo Amaro de Ipitanga. Os pretos investiram 
contra ellas, tão desesperados e embravecidos que 
só cediam na lucta quando as balas os prostavam 
em terra ; c durou o combate algumas horas, fi- 
cando fora da acção 5() negros, mclusive os que 
fugiram atirando-se ao rio Joannes, onde perece- 
ram afogados, e três que preferiram se enforcar 
a cahir em poder das tropas legaes. 

lYezc pessoas brancas foram encontradas assas- 
sinadas pelos negros em Itapoan e na armação de 
Manuel Ignacio, além de oito gravemente feridas. 
Foram presos, algemados e conduzidos para as 
cadeias da cidade trinta e tantos negros, que se en- 
volveram no levante, entre osquaes alguns encon- 
trados extraviados nas circumvisinhanças do local 
dos acontecimentos. A's 6 horas da tarde estava 
inteiramente dominada a insurreição e restabele- 
cida a ordem publica. O ouvidor do crime, ou 
intendente geral da policia, Dr. António Garcez 
Pinto de Madureira, seguiu para aquelles logares, 



•78 



afim de fazer os corpos dé delicto e abrir as de- 
vassas para punição dos culpados. 

Accioli, nas suas Memorias Históricas da Bahia, 
refere que, embora se devesse ás providencias do 
Major Manuel da Rocha Lima uma grande parte 
da salvação publica, o Governo increpou-o de 
hacer obrado i>ein ordeirt, empregando arma!< contra 
uns miseráveis. 

Crescia dia a dia, não só na Capital, como no 
recôncavo, o receio de um levante geral da parte 
dos Aussás e demais escravos africanos. Murmu- 
ravam queixas acerbas contra o governo da Ca- 
pitania, pela falta de providencias enérgicas 
contra os Aussás, que desde muito eram um perigo 
para os senhores e uma calamidade para a popu- 
lação. Estas murmurações chegaram aos ouvidos 
do Conde dos Arcos, d qual rcferindo-se ao acon- 
tecimento de 28 de Fevereiro, escrevia em 6 de 
Março ao governo: « Não devo esconder a v. ex. 

3ue alguns empregados públicos, que por seus 
efeitos não têm encontrado acolhimento neste 
governo, tem aproveitado o presente estado dos 
ânimos para invectivarem, indisporem o povo 
contra o governo, dirigindo a murmuração de tal 
maneira, e já com tal publicidade que seria obri- 
gado a tomar contra algum alguma medida fortis- 
sima. para evitar consequências que podem ser 
summamente desagradáveis c funestas ». 

Divulgada na Cidade a noticia da mortan- 
dade dos brancos, os espíritos imaginosos, como 
sóe acontecer em occasiGes de pânico, augmen- 
taram os factos, que não tardaram a ser conhe- 
cidos em toda parte, accrcscidos do boato de uma 
conflagração geral que tramavam os pretos para 
tirar um desforço. 

O Juiz de fora da Cachoeira, Francisco José 
de Freitas, e o senado da camará, representado 



7í) 



pelos Vereadores Simão da Rosa, António Teixeira 
de Freitas Barbosa e António Alves Basto, offi- 
ciaram, em i6 de Março, ao (Jovernador, requi- 
sitando soccorrosde armas e munições e ate peças 
de campanha, para a guarnição dos regimentos 
auxiliares de inlantcria e cavallaria, aíim de pre- 
venirem os habitantes contra um inesperado ataque 
dos Aussás, que abundavam naquella villa e nos 
engenhos de seus districtos. 

Não attendeu o Conde dos Arcos a este pedido, 
convencido de que os negros se rebellavam pelos 
duros castigos que sottriam dos senhores, como 
se vê de suas próprias palavras, relatando aquelles 
acontecimentos: «Ainda não tenho informaç(5es 
miúdas e exactas, porque a gente da Bahia, celebre 
pelo temor que tem dos negros, a quem maltratam 
cruelmente, esta de tal sorte espaventada com este 
successo e com outros muitos, que sua imaginação 
lhe representa próximos e imminentes, que não é 
prudente acreditar nada do que por ora dizem.» 

Esses rumores de futuros levantes que se pro- 
palavam, oriundos do terror de uns e por outros 
forjados com lins sinistros para amendrontar a 
população, eram transmittidos á Corte, revestidos 
das mais sombrias cores, nas correspondências 
particulares de altos funccionarios públicos e de 
abastados proprietários do recôncavo, os quaes 
attribuiam a fraqueza do Governador as hostili- 
dades dos negros, e geitosamente suggeriam me- 
didas de precaução para reprimir novos abusos. 

Dirigiu o Roverno ao Conde dos Arcos o aviso 
régio de i8 cie Março, lembrando a conveniência 
de prohibir-se terminantemente os batuques dos 
negros e ordenando que se dissolvessem os qui- 
lombos, de onde partia o açulamento de frequentes 
insurreições. 



80 



O Gondc dos Arcos tinha posto já em vigor, 
para serenar os ânimos sobresaltados com o terror 
dos actos vandalicos dos pretos, e bem a contra- 
gosto seu, as ordens do seu antecessor, prohibindo 
aos escravos usarem qualquer arma, reunirem-se 
mais de quatro, salvo quando andassem em ser- 
viço na companhia dos senhores ou de seus pre- 
postos, e sahirem á rua á noite depois do toque 
de recolher, sem uma ordem por escripto dos 
senhores. E o escravo que infringisse qualquer 
destas ordens seria vergastado com i5o açoites. 
Na mesma occasião expediu ordens positivas aos 
Capitães-móres, afim de extinguirem os quilom- 
bos que houvesse em seus districtos, ordenando 
aos coronéis de milicias que a elles prestassem os 
soccorros necessários. A todos os commandantes 
de corpos e das fortalezas mandou que vigorassem 
as leis de repressão do seu antecessor o Conde 
da Ponte. Baixou a portaria de lo de Abril, pro- 
hibindo as dansas que os negros costumavam 
fazer, ao som de seus instrumentos estrepitosos, 
nas ruas c largos da cidade, só permittindo que 
se juntassem nos largo da Graça c do Barbalho, 
nos domingos, dias santos c de festas reaes, onde 
poderiam dansar até o toque de Ave Maria, hora 
em que deveriam se retirar para a casa de seus 
senhores. 

Num longo relatório, de 2 de Maio, em res- 
posta áquclle aviso régio, no qual o Conde dos 
Arcos se revela notável politico e contrario ás 
idéas escravistas, dizia porque não o tinha cum- 
prido litteralmente, expondo deste modo as suas 
razões: <( Batuques olhados pelo Governo são uma 
cousa, c olhados pelos Particulares da Bahia 
são outra differentissima. listes olham para os 
batuques como para hum Acto olfensivo dos Di- 
reitos dominicaes, huns porque querem empregar 



81 



seus Escravos em serviçoiítit ao Domingotão bem, 
e outros porque os querem ter naqoelles dias 
ociozos á sua porta, para assim fazer parada de' 
sua riqueza. O Governo, porém, olha para os 
batuques como para hum acto que obriga os 
Negros, insensível, e macbtnalmente de oito em 
oito dias, a renovar as idéas de aversão reci- 
proca que lhes eram naturaes desde que nasceram, 
e que todavia se vãò apagando pouco a pouco com 
a desgraça commum; idéas que podem conside- 
rar-se como o Garante fnais poderoso da segu- 
rança das Grandes cidades do Brasil, pois que se 
uma vez diflerentes Naçoens da Africa se esque- 
ceram totalmente da raiva com que a natureza 
as desuniu, e então os de Agomcs vierem a ser 
Irmãos com os Nagôs, os Gêges com os Aussás, 
os Tapas com os Sentys, e assim os demais, gran- 
díssimo e inevitável perigo desde então assom- 
brará e desolará o Brasil. E quem haverá (jue 
duvide que a desgraça tem poder de fraternisar 
os desgraçados? Ora, pois, prohibir o unicó Acto 
de desunião entre os negros vem a ser o mesmo 
que promover o governo indirectamente a união 
entre eiles, do que não posso ver si não terríveis 
consequências. » 

Parecia terem íierenado os ânimos com as 
providencia» postas em pratica pelo governador, 
quando surgiram novos boatos aterradores. 

Em fins de Maio do mesmo anno o advogado 
Lasso denunciou ao governo que os negros Aussás 
preparavam um grande levante, que irromperia 
em a noite do dia 23 de Junho e nelle tomariam 
porte, além dos ganhadores dos cantos do cães 
da Cachoeira, cães Dourado e cães do Corpo 
Santo, os princípaés cabeças, os do Terreiro e 
do Paço do Saldahha, eque alguns pretos de 
outras raças entravani também na sedição, forros 
e captiyos, tanto dâ cidade como do recôncavo. 

11 



8:^ 



O centro desseí> conluios eram uma capoeira que 
Ikava pdos fundos das roças do lado direito da 
capella de Nossa Senhora de Nazareth, uma roça 
na estrada do Matatii, fronteira á Boa Vista, 
Brotas e os mattos do Sangradouro. O plano com- 
binado era romperem desses logares na véspera 
de S. João, com o pretexto do barulho de seme- 
lhantes dias, matarem a guarda da Casa da Pól- 
vora do Matatú, tirarem a pólvora de que preci- 
sassem, molhando o resto; e quando acudissem 
as tropas e estivessem entretidos com. aquelles 
sublevados, sahiriani os cabeças existentes na 
cidade e degolariam todos os brancos. 

Divergências entre esses pretos, querendo uns 
que a insurreição fosse naquelle dia e outros no 
dia IO de Julho, levaram um delles, de home 
João Aussá, escravo de Manuel José Teixeira, a 
trahir os companheiros. Descoberto assim o plano, 
occultaram tudo quanto pudesse denuncial-os, 
de modo que dando-se uma batida naquelle.^ 
logares não se encontrou vestigio algum. 

Cornquanto o Conde dos Arcos estivesse con- 
vencido de que essas denuncias eram a trama do 
despeito de desalíectos, que procuravam desmó- 
ralisar o seu governo, baixou no dia 20 de Junho 
uma portaria prohibindo expressamente o diver- 
timento de fogos de S. João, mormente ôsbusca- 
pésy rouqueiras e foguetes, punindo o infractor 
desta ordem, qualquer que fosse a sua cathegoria 
social. E para que ninguém allegasse ignorância 
publicou-a ao som de tambores pelas rua^ ímais 
publicas da cidade. 

Em observância da carta régia de 18 de Março 
foram estes processados ; e por accordão da Re- 
lação, de i5 de Novembro, condemnados 39 réos. 
Destes morreram 12 nas prisões; 4 escravos de 
Manuel Ignacio foram condemnados á morte 
natural e enforcados, no dia 18 do mesmo niez. 



83 



na forca que se levantou na praça da Piedade, 
com assistência de toda a tropa de linha da guar- 
nição; e os demais foram, uns açoitados e degre- 
dados para os presidiosde Moçampiaue, Benguelía 
e Angola, para toda a vida, outros, aepois de açoi- 
tados no logar do supplicio dos companheiros, 
entregues aos senhores. 

As ordens emanadas do governo prohibindo 
com severas penas os batuques dos pretos afri- 
canos, só permittidos em aeterminados logares 
e até certa hora do dia, única diversão que lhes 
restava, aos domingos, para matar as saudades 
da pátria e sacudir o torpor das fadigas do pesado 
labutar do campo, horas a fio; o rude trato que 
lhes dispensavam os senhores, quer pela severi- 
dade de bárbaros castigos, quer pela escassez, da 
alimentação que lhes era dada, a ponto de caber 
a cada escravo, dos engenhos á beira d'agua, 
como alimento diário, um carangueijo e um pu- 
nhado de farinha e três quartos de libra de carne 
secca para dez dias aos que eram de engenhos do 
interior ; o desrespeito que soífriam de senhores 
relapsos, que, além de Ines negarem o pão, lhes 
roubavam a honra; e, finalmente, a idéa de nunca 
mais obterem a liberdade, dominados pelo espan- 
talho do tronco e do relho do feitor, produziram 
um grande levante de pretos, creoulos e africanos, 
que surgiu no recôncavo, em engenhos da Vi lia 
de S. Francisco da Barra de Sergipe do Conde. 
Além destas causas existia uma outra impor- 
tantissima. Rigoroso e duradouro o inverno de 
i8i5, houve por isso uma grande mortandade de 
gado vaccum e cavallar em todos os engenhos, a 
maior até então conhecida na Bahia. A parte do 
trabalho que pertencia aos animaes sobrecarregou 
na safra daquelle anno a escravatura, o que causou 
o desespero dos escravos. 

Ajustaram muitos escravos dos engenhos da 



84 



Lagoa, Crauassú, Itatinga, Guaiba e outros utna 
insurreição, eorganisaramneste ultimo um grande 
batuque, num domingo, de onde, reunidos e ar- 
mados, marchariam a atacar e incendiar os en- 
genhos mais próximos. 

A' uma hora da madrugada de segunda-feira, 
!2 de Fevereiro de 1816, após terem cfansado toda 
a noite de domingo, paf tiram en^ magotes ao som 
de trottibetas e atabaques, armados uns de arco e 
flecha, outros de facões e alguns de fuzis, para o 
engenho Cassarangongo, de Salvador Muniz. Pro- 
curaram alliciar os escravos deste engenho; e 
como se recusassem a acompanhal-os, mataram 
alguns e feriram muitos, e atearam fogo na casa 
de moradia e do bagaço. Seguiram depois para o 
engenho Quibaca, do Coronel Jeronymo Muni2 
Fiúza Barreto, ao uual também lançaram fogo, 
nas duas varandas ua casa de morada, no corpo 
do engenho e em algumas caixas de assucar. 

Dormia o Coronel Jeronymo Muniz çiuando 
foi despertado pelas labaredas d.o incêndio, que 
devorava a varanda da casa, e pela fumaça que 
sahia debaixo do porão, onde se costumava guar- 
dar o bagaço da canna que servia de combus- 
tível para as fornalhas. 

Comprehendendo o perigo do incêndio e as 
vozerias dos amotinados, que denunciavam um 
levante, teve Jeronymo Muniz a coragem de aban- 
donar a esposa em desmaio e os filhos em pranto 
para sahir ao encontro dos pretos, cujo numero se 
elevava approximadamente a duzentos. Unica- 
mente com 20 homens bem armados, empregados, 
c escravos dos mais fieis, dirigiu o ataque de tal 
modo, que os rebeldes se atemorisaram e fugiram 
recolhendo-se aos mattos próximos do engenho. 

O Coronel Bento de Araújo Lopes Villasboas, 
do regimento de cavallaria de milicias, tendo aviso 
destes factos ás nove horas da manhã, eachando-se 



85 



a sete léguas de distancia^ apresentou-se, antes do 
anoilecer do mesmo dia, com o seu regimento 
rondando as estradas e acalmando os ânimos dos 
senhores de engenho. 

No mesmo dia do levante o Capitão-mór da 
villa de S. Francisco, Joaquim ígnacio de Cerqueira 
Bulcão, ofíiciou ao Governador expondo a dolorosa 
situaçãoem quese achavam os moradores daquella 
zona,' relatando òs factos nas suas minúcias. No 
dia i3 recebeu o Conde dos Arcos este ofíicio; no- 
dia seguinte um outro do juiz de fora de Santo 
Amaro, Dr. José Bonifácio de Araújo Azambuja, 
acompanhado das vistorias edos corpos de delictos 
procedidos no dia i3. Embora procurasse occultar 
as noticias, afim de não amedrontar os habitantes, 
ellas espalharam-se céleres por toda a Cidade. 

O Conde dos Arcos, nas melindrosas circums- 
tancias em que se viu, ordenou rigorosas medidas 
para castigar os culpados e levar a tranquillidade 
ao espirito dos apavorados senhores de engenho, 
procurando promptamente restabelecer a ordem 
publica. Remetteu pólvora e bala para municiar 
os regimentos do recôncavo, e mandou que ron- 
dassem as estradas, perseguindo os criminosos ate 
prendel-os. 

Não podendo conhecer das medidas necessárias 
para restituir de prompto a plena tranquillidade 
publica, por estar longe do theatro do aconteci- 
mento, baixou uma portaria, em 17 de Fevereiro, 
ao brigadeiro Felisberto Caldeira Brànt Pontes, 
ordenando-lhe que seguisse para a villa de S. 
Francisco e avisasse (embora reconhecesse ser uma 
medida irregular, como declarou mais tarde ao 
próprio Governo) a todos os officiaes superiores 
de todos os regimentos de milicias dos districtos 
paraalli se juntarem; e, reunidos em determinado 
dia, antes do fim do mez, convidasse também a 
outras pessoas intelligentesque}ulgasse conveniente 



8(1' 



ouvir, afim de se discutir e combinar as provi- 
dencias para garantir as propriedades e acalmar os 
senhores de engenho. 

Na mesma occasião baixou, outra portaria ao 
intendente geral da policia, aconselhando medidas 
de ordem publica na Cidade e mandou publicar 
por editaes que todo o individuo que denunciasse 
era segredo de justiça q^ualquer commoção de 
negros receberia um premio de cem mil réis. 

Calmo e previdente, já havia, no dia 1 5, recom- 
mendado ao juiz de fora de Santo .Amaro a 
maior exacção e brevidade nos procedimentos 
ulteriores, afim de que sem demora fossem punidos 
os culpados. 

Abriu-se a devassa no dia 19. 



Entre o então Bri^^adeiro Felisberto Caldeira 
Brant Pontes, dcpris Marquez de Barbacena, e o 
Conde dos Arcos existiam certas rivalidades que 
traziam asduas auctoridades em dcsaccordo quanto 
á orientação que levava o Governo da Capitaniq, 

Aquelle vmha de occupar vários cargos em 
Angola e Portugal, antes de assumir a inspcctoria 
das tropas na Bahia. Era um espirito affeito á dis- 
ciplina militar, educado na velha escola do aucto- 
ritarismo, austero como as leis de seu tempo, 
impassivel no perigo, enérgico, violento ás vezes, 
notável por seus talentos, fidalgo de linhagem e 
mineiro de nascimento. A clle deve incontesta- 
velmente o Brasil serviços de grande monta, que 
o historiador desapaixonado ha de um dia, firmado 
nos documentos meditos dos archivos, inscrever 
nas paginas da historia, apenas esboçada, de nossa 
emancipação politica. 

O Conde dos Arcos tinha sido Governador do 
Pará e vice-rei do Brasil no Rio de Janeiro, 



;87 



qiiando tomou posse do governo?da Bahia. Oriundo 
de uma nobre família portugueza, que contava 
em cada descendente um leal servidor da pátria, 
trazia a longa pratica de administrador emerilo e 
sagaz, perscrutador das palpitantes necessidades 
do desenvolvimento da colónia, alliando a um 
espirito lúcido e culto, embora de um realismo 
a outrancej um coraç£.o magnânimo, generoso. 
O seu grande erro na rebellião de 1817, pelas 
circumstancias da investidura do cargo, deve- 
Ihe ser perdoado, pelos muitos beneíicios que 
prestou ao Brasil; Não quií: que o historiador se 
encarregasse de lhe enaltecer os feitos; clle pró- 
prio esculpiu em vida o seu nome em monumentos 
perennes, que attestar^m os inolvidáveis serviços 
de sua lummosa passagem na administração ba- 
hiana. * ; 

Um e outro divergiam no modo de reagir para 
o inteiro acabamento dos levantes dos pretos afri- 
canos; e fora este o motivo que mais accentuou a 
desharmonia que os separava. 

O Brigadeiro Felisberto Caldeira queria que se 
puzessem em execução medidas enérgicas, que 
cortassem o mal pela raiz, castigando- se com seve- 
ridade a rebeldia dos pretos, para garantir-se a 
propriedade ameaçada de frequentes assaltos. 

Não podendo entrar em lucta franca com o 
Conde dos Arcos, para não romper a disciplina,' 
ao receber as ordens terminantes afim de seguir 
para a villa de S. Francisco, dirigiu ao Marquez 
de Aguiar o officio de 20 »Je Fevereiro, no qual 
se expressava deste modo : «Ninguém melhor do 
que y. Ex. conhece as luzes, virtudes e grandes 

aualidades do meu Exmo. General, e por isso 
esnecessario é que eu me demore em fazer o seu 
elogio. Como, porém, ninguém é perfeito, o aíferro 
que clle tem ás suas opiniões, e auc em geral, e 
até certo ponto, é qualidade indispensável em 



88 



quem governa, concorre no caso particular dos 
negros para eclipsar em parte tanto merecimento. 
Longe de manifestar a sua indignação contra a 
sublevação dos negros, expediu a ordem inclusa, 
que remetto a V. Kx. : que pode resultar de seme- 
lhante conferencia ? O meu compròmettimento, e 
mais nada. Homens pela maior parte ignorantes, 
e todos assustados não têm discernimento, ou san- 
gue frio para discorrer com acerto. Cada um que- 
rerá uma guarda, o que não é possivel, serão 
tantos os votos como as cabeças, ^ o resultado 
será perda de tempo. Dum deliherant res perditur. 
Tudo isto representei ao nieu general, mas de- 
balde, porque manda que eu vá á conferencia 
sabbado, 24 do corrente m, 

\o dia aprazado teve logar a reunião, oa villa 
de S. F^rancisco, presidida pelo Brigadeiro Felis- 
berto Caldeira, á qual compareceram quasi todos 
os oíficiaes superiores dos regimentos milicianos 
do recôncavo, em geral proprietários e dos mais 
ricos daquella vilia, de Santo Amaro, Iguape, 
Pirajá, Maragogipe, Campos da Cachoeira, Jagua- 
ripe e Nazareth. 

Ainda muito viva a recente commoção aue 
abalou os senhores de engenho com o levante aos 
pretos, as propostas apresentadas para tranquilisar 
os ânimos dos habitantes foram, na sua maioria, 
nessa reurrião, demasiado violentas, filhas do pâ- 
nico que dominava os espíritos amedrontados e 
espavoridos. A primeira delias e acceita geral- 
mente com calorosos applausos foi a mudança do 
governador, pelo despeito dos proprietários, por- 
que o Conde dos Arcos entendera negar-lhes am- 
plos poderes para a carnificina dos miseros 
captivos. Muitas houve singulares, como guardar 
cada engenho por um soldado, prender e deportar 
todo negro suspeito, enforcar summariamente o 
escravo sublevado, etc. 



89 



Quando serenaram os ânimos e cessaram as 
virulentas e apaixonadas discussões hessa conie* 
rencia, levantaram-se as vozes liberaes e patrióticas 
dos santamarenses Bernardino Borges de Barros 
e Paulo José de Mello Azevedo e Brítto para 
lembrar medidas como a abolição inimediata do 
commercio da escravatura e a creação de um 
premio para a importação de familias européas, 
afim de excitar nos negociantes do trafico a cobiça 
de transportar em seus navios o braço livre com o 
mesmo furor com que carregavam a mercadoria 
escrava. 

Dirigiram os conferentes, naqucllc mesmo dia 
e depois de agitadas discussões, ao Conde dos 
Arcos uma representação subscripta por 34 pro- 
prietários dos mais distinctos dos districtos do 
recôncavo. 

As medidas suggeridas nessa representação 
eram em geral repressivas, de policia, calcadas nos 
moldes das antigas ordens do Conde da Ponte. 

Si algumas, indispensáveis e inspiradas no bem 
publico, vinham de prompto extirpar os quilombos 
e refreiar as insurreições, outras eram deste feitio: 
nenhum negro poderia estar sentado deante de um 
branco, e o escravo encontrado sem passaporte 
seria preso e immediatamentc entregue ao senhor, 
que em presença da familia castigal-o-hia com 
1 5o açoites, e quando não o fizesse o com mandante 
do districto daria parte ao chefe da cidade. 

Como medida complementar, e para que não 
transparecesse a raiva que os dominava contra os 
escravos, otlereceram o capital necessário para a 
importação de cem familias brancas européas, 
artistas e lavradores. 

Receiosos os conferentes de que o Conde dos 
Arcos não as puzesse em execução, deliberaram 
enviar um emissário á corte, afim de advogar junto 



ÍK) 



ao principe regente a approyação de todas as 
medidas, recahindo a escolha em Alexandre Gomes 
P^errão Gastei Branco. 

O Brigadeiro Felisberto Caldeira, de volta de 
S. Francisco, referindo-se ao Conde dos Arcos e 
dando parte da conferencia ao marquez de Aguiar, 
officiava em 26 de Fevereiro nestes termos: 

« F-m consequência da promessa de V. Kx. 
esperavam todos que depois daquella conferencia 
prohibisse pelo menos qualquer ajuntamento de 
pretos, e manifestasse por alguma ordem a sua 
indignação por tantas sublevações; mas escrever, 
ou dizer S. Ex. uma syllaba contra pretos, é cousa 
impossivel, e sua obstinação a este respeito não 
tem outra explicação, senão a que fazem os 
médicos, isto é que desde a sua grave enfermidade 
licára com a mania parcial substituindo a pre- 
dilecção dos pretos a antiga preoccupação das 
constipações. » 

. íc Las Casas solicitando aos pés do throno da 
Hespanha a piedade Real a favor dos índios, 
Wilberforce e outros advogando no Parlamento 
Inglez a extincção da escravatura, sem duvida são 
bem feitores da humanidade, e dignos de eterno 
louvor, mas aquella mesma linguagem na bocca de 
u m Vice-Rei do México, ou Governador da Jamaica 
provocaria o assassinio de todos os Hespanhoes 
e Inglezes, c causaria a execração do universo. 
Tal é, nem mais nem menos, a nossa situação ! » 

(( Aqui são os negros os dilectos filhos do Repre- 
sentante do Soberano. Não é pois de admirar o 
atrevimento dos pretos, nem o susto e confusão 
dos brancos, que estão entre Sylla e Charibides. » 

O Conde dos Arcos approvou apenas as me- 
didas que julgara mais convenientes c que cabiam 
em sua alçada, e pòl-as em execução por por- 
taria de 27 de Fevereiro. Isso desgostou aos pro- 



yi 



prieiarios do recôncavo, f)rincipalmente ao Bri- 
gadeiro Felisberto Caldeira, que verberou o 
procedimento do Conde dos Arcos, desenvol- 
vendo uma guerra desabrida ao seu governo. São 
bastante acrimoniosas as referencias que o Conde 
dos Arcos fez áquelle Brigadeiro em ofíicio diri- 
gido ao Marquez de Aguiar, em i." de Abril do 
mesmo anno. 

Apoiado nos proprietários do recôncavo, par- 
tiu o Brigadeiro Felisberto Caldeira, em fins de 
Março, para a corte, e conseguio, por aviso ré- 
gio de 27 de Julho, a approvação de todas as 
medidas da representação. Ao regressar á Bahia, 
recebeu do Conde dos Arcos ordem de prisão, 
que foi relaxada á vista do aviso régio. E só fize- 
ram as pazes os dois rivaes quando rebentou a 
rebellião de 18 17, em Pernambuco; mas os resen- 
timcnios de ambos não arrefeceram de todo. 



No levante de 12 de Fevereiro foram assassi- 
nadas pelos pretos seis pessoas, ficando dez gra- 
vemente feridas; consta apenas das partes officiaes 
que morreram cinco sublevados, mas a mor- 
tandade devia ser maior. 

Cercados os amotinados nas mattas de Cabaxi 
c Poucoponto, no dia i5 daquelle mez, onde se 
tinham refugiado após os delictos, prcnderam-se 
apenas oito negros. Cinco foram encontrados 
enforcados. Arrccadando-se, esparsos pelos ca- 
minhos, os seus instrumentos de guerra, foram 
encontrados tambores, atabaques, trombetas, 
arcos, e armas de fogo. 

Os insurrectos, repellidos por Jeronymo Muniz, 
a quem os senhores chamavam o salvador do 



H2 



recôncavo, vendo «jue não sortiam o effeito os 
seus planos, aproveitaram-se da hora e voltaram, 
no mesmo dia do levante, para os engenhos os 
que 'puderam se escapar e outros entregaram-se 
aos seus senhores. 

As diversas auctoridades milicianas do re- 
côncavo organisaram seus regimentos, que mu- 
niciaram e distribuíram em patrulhas fjelas 
estradas para guardar os engenhos e reprimir 
novos levantes. 

O apparecimento de um preto que atraves- 
sava a estrada ou que ia a serviço dos senhores 
ás povoações ou a outro engenho era, certo, uma 
presa ambicionada e disputada pelos caçadores 
vigilantes, qqe a varavam á bala para tripudio 
das armas íegaes e dos senhores covardemente 
apavorados. 

Flscrevia O Conde dos Arcos, referindo-se ao 
medo dos brancos do recôncavo, para demonstrar 
que não eram tão perigosos os escravos : « Salvador 
Moniz mandou 17 escravos conduzir telhas para 
cobrir as senzalas que haviam sido queimadas, 
e sendo vistos estes Escravos, fugiram todos 
os visinhos gritando que estavam levantados 
os Escravos do Cassarangongo ; e entre os fu- 
gitivos estava a familia do Capitão-Mór Bulcão 
embarcada em canoas: e porque a fuga tinha 
sido feita com a mais desacertada precipitação, 
mandaram depois buscar á casa artigos de que 
necessitavam para vestir, comer, etc. ; e tendo 
sahido os escravos com as cargas que se lhe re- 
metiam de casa foram vistos do engenho vis:nho. 
que pertencia a José Diogo Ferrão, que ainda 
não havia fugido; eis que toca o sino que é o 
signal de rebate, segundo as ordens do ditoF^errão 
pegam os escravos todos em armas, marcham 
contra os de Bulcão, que levavam mansamente 



i)â 



as cargas para sua' Senhora; entretanto Bento 
Lopes, Coronel dá Cavallaria de S. Francisco, 
que tivera noticia do primeiro pretendido levante 
de Cassarangongo, vinha marchando com parte 
de um esquadrão junio daquelíe sitio, onde ouviu 
alguns tiros e gritaria, e chegando por isso ao 
lugar donde soava aquelle strepilo felizmente 
apazigou a pendência que sem a sua vinda 
haveria sido mui sanguinolenta, e talvez de ter- 
riveis consequências.» 1 ,. 

« D. Luiza, Mulher do Brigadeiro Pedro Alexan- 
drino, formou 3o Negros em linha, no pasto de seu 
Engenho; poz dous Feitores armaaos, hum á 
direita, e outro á esquerda; e assim os mandou a 
Mataripe buscar formas para o seu Engenho, com 
ordem de não perder aquella formatura nem á 
hida, nem a vinda, pena de morte segundo dizem. 
Já quando este Trosso hia chegando a Mataripe 
hum dos Negros, que hé uma espécie de caturra da 
família, tirou a tanga, e deu hum ai mui desentoado 
e agudo; fogem immediatamente os Feitores 
gritando que os Negros cstavão levantados, foge 
toda a povoação branca de Mataripe, e entretanto 
os Negros de D. Luiza pegarão nas formas, e 
retirarão-se mui .mansamente com ellas para o 
Engenho. » 

«Já era publico o fim desta historia quando 
ainda estavão muitas familias fugidas sem haver 
forças humanas que as fizesse voltar para suas 
casas, huma dasquaesfoi a do Capitão-Mórignacio 
de Mattos, q[ue vivia a bordo de um barco de 
Pedro António Cardoso com i5 filhos, sotfrendo 
sol, chuvas, relento e privaçoens de tudo que hé 
commodo, e necessário á vida humana.» 

As familias dos soldados milicianos tiveram de 
refugiar-se nos mattos por se julgarem indefesas 
nas suas casas, mortas de fome c de medo dos 



94 



negros, lamentando a sorte dos pães, maridos, 
íilhos e irmãos ao, serviço do governo. 

Veio a fome e coiri a fome a miséria. A farinha 
escasseou, qiiadruplicoii de preço. Os senhores de 
engenho ijue dêlla necessitavam para a escravatura 
não podiam mandar buscai»a, temendo que os 
negro^lhè fugissem, indo reunir-se aos levantados, 
ou que a$ patrulhas lhe os matassem nas estradas, 
como succedera duas ou três vezes. 

Em fins de Março tinha voltado a paz ao recon- 
cayo, e as famílias foragidas regressaram a seus 
lares, e os engenhos conunuaram os seus trabalhos. 

Os amotinados foram severamente punidos. 

A urdidura criminosa das intrigas politicas e 
o mexerico da época obrigaram a coroa a afastar 
o Conde dos Arcos do Governo da Bahia, em 
mciadosde 1817. 

Foi este o ultimo levante serio de pretos na 
Bahia, no período colonial. 

A's sublevações dos negros seguiram-se as re- 
belliões dos brancos. 

Eduardo A. de Caldas lirillo. 



isiflSDmJdiiiiiiloiiafricaioiiMBÉa 



•^^TNC ARRECADO pclo sF. dv. Dircctop do Archivo 
;j^J Publico da reproducção de documentos 
*^^ achados nas mãos dos africanos insurgidos 
nesta Cidade nps três primeiros decennios deste 
século, para serem remettidos á Europa e ahi 
decifrados {:>or eruditos especialistas, já que isto 
não foi possivel aqui, tive occasião de familiari- 
sar-me com os documentos da historia dessas 
revoltas, e, tendo feito um quadro com fac símiles 
desses documentos graphicos, que se acha exposto 
á apreciação do publico, merecendo da imprensa 
elogios e animação, pareceu-me conveniente dar 
em largos traços um ligeiro rascunho histórico • 
das principaes insurreições, afim de que melhor 
se possa comprehender a importância daquelles 
documentos. 

De todas as maiores insurreições de africanos, 
foi a de 1798, durante o governo de D. Fernando 
José de Portugal, a de que temos noticia. Mas, 
como a seguinte, do anno de 1807, governando o 
Conde da Ponte, foi nem só mais violenta, como 
a que mais excitou a attenção e o cuidado do 
governo colonial, bom será apreciarmol-a mais 
detidamente. 

Em 16 de Junho de 1807 escrevia este Gover- 
nador ao Visconde de Anadia dando parte dos 



9(J 



contínuos levantes dos negros, c pedindo as pro- 
videncias necessárias á vigilância em que devia 
manter-se a immensa escravatura nesta cidade. 

Bem previa elle que o proseguimento de tão 
escandalosos factos trariam para o futuro mais 
sérios e desagradáveis acontecimentos. 

A Bâhia^ florescente pela' prodúcção do tabaco, 
tinha privilegio exclusivo de negociar com a Costa 
da Mina. A importação de escravos succedia-se 
de dia a dia em grande escala, e só no anno de 
1806 os navios empregados neste trafico trans- 
portaram para aqui oito mi4 e trinta e sete es- 
cravos (8,037), e assim continuava, com pouca 
diíferença de numero, nos mais annos egual 
importação. 

A maior parte destes negros ficava nesta 
Capitania, e considerável quantidade na capital, 
onde proporcionavam o meio dè vida com que 
sesustinham muitas familias, pelos carretos, ou 
officios delles. 

O mesmo Conde da Ponte, em um officio ao 
ministro Visconde de Anadia, criticava « o luxo 
mal entendido entre os habitantes caprichosos, 
e abonados de terem ao seu serviço domestico 
grande numero de negros. 

Nesta mesma época (.1807) conforme o alis- 
tamento feito, existiam 25,5o2 pretos para o nu- 
mero de brancos não excedente a 14,260, 11. 35o 
pardos. 

Este desequilibrio, portanto, das raças havia 
de trazer, sem duvida, anormaes acontecimentos 
á vida da colónia, e assim sedava, porque os 
escravos, na phrase do Conde da Ponte, não 
tinham sujeição alguma, em consequência da falta 
de ordens ou providencias por parte do governo. 

Kra notável a desenvoltura com que se por- 



taram estes negros, na maior parte, de nações as 
mais guerreiras da costa de Leste. 

Ajuntavam-se quando e aonde queriam e em 
maior liberdade possivel ; dansavam e tocavam 
dissonoros e estrondosos batuques por toda a 
cidade, c á toda a hora. 

Nos arraiaes e festas eram clles sós os que se 
assenhoreavam do terreno, interrompendo quaes- 
quer outros toques ou cantos. 

Kste desenfreamento, com certeza, nâo tardou 
a ter funestas consequências. Das praças, dos 
batuques passaram a ter conferencias em logares 
occuhos, onde era vedada a presença de qual- 
quer que não fosse membro destas associações 
mysteriosas. 

Para estas reuniões eram convidados escravas 
de diversos engenhos, e ahi armavam-se coronéis 
c tenentes-coroneis, com festejos, cantorias e uni- 
formes extravagantes. 

F^m diversos ofíicios o Conde da Ponte já lem- 
brava as insurreições do anno de 1798, quando 
era Governador D. Fernando José de Portugal, 
pedindocautelosas medidas para com prudência 
dispersal-os porserdifficultoso fazel-os recuar, em 
um momento, todo o caminho que com tanta 
indulgência se lhes tolerou fazerem. 

Estas reuniões, que eram feitas em logares 
que se chamavam casebres^ tomavam tal incre- 
mento, excitavam os ânimos dos associados, que 
foram nomeados capitães por elles escolhidos, 
em cada bairro da cidade, os quaes coadjuvavam 
a fuga da maior parte delles, tanto nesta capital 
como nos engenhos do recôncavo, e agenciavam 
armas para, no momento dado, fazerem a guerra 
aos brancos. 

Já desassombradamente tratavam destes le- 
vantes de que foi sabedor, por denuncia dada na 

IH 



98 



noite do dia 22 de Maio de 1807, o Conde da 
Ponte que tomou toda a cautela, encoberta com a 
prudência, para frustrar tão funesto piano. 

iMicarregou a seu ajudante de ordens todas 
as providencias, e assim foi que, nos dias 23, 24 e 
25, jíi eram conhecidos os nomes dos chamados 
capitães, e sabido o sitio dos casebres onde se 
ajuntavam ordinariamente. 

Era o dia 27 o marcado para que cada um, 
com as armas que podesse apromptar — , invadisse 
a cidade. 

Depois de recolhida a procissão de Corpo de 
Deus, que eífectuou-se n^este mesmo dia, e a que 
assistia e acompanhava o Conde da Ponte, sem que 
transpirasse, nem desse a conhecer a menor sombra 
do que ideava, dirigiu a cada um dos chefes dos 
corpos de infantaria e artilharia ordens escriptas 
por sua própria mão para a promptidão das pa- 
trulhas; e pelas 6 horas da tarde, sem toques — 'de 
tambor, sem que soasse o menor ruido, acnavam-se 
tomadas as sabidas e entradas da cidade, os offi- 
ciaes do matto em diligencia pelos caminhos, e a 
casa denunciada investida e cercada. 

Foram presos dentro do casebre cercado sete 
negros e acharam-se perto de quatrocentas flexas, 
um molho de varas para arcos, meadas de cordel, 
facas, pistolas, espingardas, um tambor e diversas 
composições supersticiosas a que chamam — man- 
dirtfjas. 

Este nome dado a diversos objectos de formas 
exquisitas e originaes, faz-nos crer que tira sua 
origem do nome Mandingo. 

Esta supposição vem corroborar a quasi certeza 
que temos de crer que os levantes que successiva- 
mente tiveram logar n^esta cidade, foram sempre 
movidos ou tinham' por cabeças chefes malas. 



99 



Os males sem duvida alguma mais civilisados 
que os nagôs, gêges, etc, habitavam a bacia do 
uambia e eram conhecidos por Mali'nkê, que quer 
dizer, homens do Maly, súbditos do império do 
Mali ou Malê, que circumdava a alta bacia do 
Niger. 

Os males pertenciam ao povo Mandingo^ guer- 
reiros destemidos, que conquistaram a maior parte 
dos paizes do Niger, e que foram desbaratados 
pelos Soughai, que tinham por chefe Askia. 

Os documentos achados juntos aos processos 
escriptos em caracteres arábicos, com provam ainda 
uma vez que eram escriptos por males, nação que 
possuia sentimentos e idéas religiosas mais adian- 
tadas, e tinha escripta, que não podia ser outra 
senão a dos árabes, povo o mais civilisado e 
civilisador da Africa e da Ásia Oriental n^aquella 
época. 

•No dia seguinte, 28, o Conde da Ponte fez 
publicar um bando em que ordenava que todo 
escravo que fosse encontrado nas ruas doesta cidade 
depois das 9 horas da noite sem escripto de seu 
senhor, ou em companhia d^elle, fosse preso e 
açoitado nas cadeias publicas. 

Participando ao governo todas estas medidas, 
dizia o mesmo Conde, que « este passo que poderia 
ser reparavel em outra qualquer occasião, foi 
geralmente approvado por todos os habitantes, que 
não podiam por si sós conter a liberdade e falta 
de sujeição de seus escravos. 

Esta enérgica medida trouxe por certo tempo 
alguma tranquillidade, apezar de que nos engenhos 
do recôncavo continuava sempre o fermento de 
rebellião na escravatura, ora abafado pelos movi- 
mentos que se seguiram logo nas guerras da 
independência, e ora excitado por especulações 
politicas, revolucionarias, etc. 



100 



Não tardou, porem, que reapparecessc nova 
insLirreiçSt) noannode 1826. 

E assim foi que, na madrugada do dia \j de 
Dezembro, nas immediaçoes de 1'iraja, termn 
d*esla cidade, o^i negros desenfreada mente com- 
metteram as maiores e mais per\ersas tropelias. 

A tropa que tinha marchado doesta cidade para 
abafar e conter os rebeldes insurgidos, soube, no 
lo^ar chamado Cabúliu, que os nepros estavam 
reunidos, em numero maior de biK em um 
sitif» denominado Oruhn, onde existia um qui- 
lombo, no qual se praticavam extravagantes sceiías 
de feitiçaria. 

Nas investidas que tazi^a a tropa, encontrou um 
capitão de assaltos e mais dous crioulos gravemente 
feridos pelos negros que se achavam na baixa do 
Oriibu. 

Reonindo-se esta tropa a um sargento e 20 
soldados do regimenta) de Pirajá, puzeram e?;tes' 
cerco ao dito quilombo, onde os negros entrin- 
cheirados por detraz de um carro de bois, armados 
de foices, facões, lazarinps, lanças e outros instru- 
mentos curtos, aguardavam o ataque com deno- 
dada resolução. 

Intimados a que se rendessem, lançaram-se 
furiosos e em infernal vozeria aos gritos de mata ! 
mata! vendo-se a tropa na contingência forçada de 
tazer fogo, com o qual conseguiu dispersal-os e 
ertectuar algumas prisões. 

A 20 do mesmo mez, o então Presidente da 
Provincia, Manoel Ignacio da Cunha Menezes, 
fazia baixar uma portaria ordenando ao desem- 
bargador ouvidor geral do crime que procedesse 
immediatamente, em conformidade das leis, contra 
os réos de tão pernicioso crime, e que procurasse 
conhecer por meio de perguntas aos ditos réos o 
fim a que se dirigia tal projecto. 



101 



Todos os inquéritos e subterfúgios postos cm 
acção para conseguir-sc a descoberta do movei, ou 
o lim a que se dirigiam todas estas insurreições, 
foram baldados. 

E assim vivia sobresaltada a população desta 
cidade, esperando e temendo sempre ver explodir 
a qualquer momento novos levantes. 

Nos annos seguintes (ieram-se pequenas in- 
terrupções na ordem publica, e sempre occasio- 
nadas pelos negros, que, depois de rebellarem-se 
contra seus senhores, fugiam para as mattas que 
cercavam esta cidade. 

E assim pairavam as coisas n'este estado de 
agitaçclo e temor, quando veio augmentar as 
inquietações da população nova insurreição, que 
manifestou-se pelas 7 horas da manhã do dia i." 
de Abril do anno de i83o. 

Um troço de 18 a 20 negros fortes e resolutos 
aproveitando a horaem que o movimento nacidade 
baixa.era pouco, invadiram uma loja de ferragens 
á rua da Fonte dos Padres e, á força, roubaram 
doze espadas de copos e cinco facas, conhecidas 
então por parnahybas, ferindo n'este assalto ao 
dono da loja e aos caixeiros, continuando assim a 
roubar armas em outras lojas. Assim armados, 
seguiram pela rua do Julião, commetendo dis- 
túrbios e ferimentos, em procura do armazém de 
negros novos, onde se lhes ajuntaram cm numero 
maior de cem : ferindo n'esta occasião a dezoito, 
que não quizeram acompanhal-os, e com outros 
ladinos que se lhes reuniram foram perpetrando as 
maiores atrocidades e ferimentos, seguindo para 
a Soledade, armados de páos e das armas que 
roubaram, e ahi atacaram a guarda policial, com- 
posta de sete soldados e um sargento. 

Quando marchou ao encalço d^estes rebeldes 
um piquete do batalhão 20, composto de 60 praças, 



lOU 



nâo mais os achou reunidos, e, sim, dispersados 
na mana de S, Gonçalo, onde conseí^uiu apenas 
capturar 41 dos revíjliosos. 

Desde a ladeira da Soledade foram perseguidos 
píír paisanos milicianosealgunssoldadosdii policia 
dispí:rsado^, qm lhes mataram seguramente 5o 
companheiros, o que os embaraçou de fazerem 
mais hostilidades. 

Novas p^squizas e buscas cffjctuavam-se nas 
casas suspeitas, conhecidas por casebres, onde 
sempre tinha luí^ar prisí3es, aprehendiam-se ob- 
jccios origina es que serviam de base para os 
processos instauraaos^em que logo a p pareciam os 
senhores reclamando e apresentando provas que 
comprovavam a não culpabilidade de seus escravos 
HO agora innocentes, quando debaixo da acção 
do poder judicial. 

Não sei se contando com esta protecção da 
parte de seus próprios senhores, que não os queriam 
perder, pois que d^elles usufruíam por dia oito a 
doze vinténs, sem se importarem como elles os 
ganhavam, ou esperançados em alcançarem o seu 
desideratum, certo é que não descuravam de 
reunir-se sempre e tratarem de novas insurreições, 
para que convidavam os pretos novos, persu- 
adindo-os que voltariam para sua terra. 

N'este encadeamento continuo de levantes 
sediciosos vivia esta cidade, sem que os poderes 
competentes coabitassem de tomar enérgicas e 
etíicazes medidas que puzessem fim por uma vez a 
esses desatinos, que ou niscião de fins políticos ou 
tinham sua sede em superstições religiosas de uma 
raça dominada pelo fetichismo . 

Não finalisaram-se ahi as insurreições africa- 
nas; o longo espaòo decorrido em socego que 
parecia ter acalmado os ânimos revolucionários 
desta raça captiva, fomentava e animava a mais 



103 



notável de todas ellas, que teve lugar na madru- 
gada de 24 para 25 de Janeiro do anno de i835. 

Apezar das medidas preventivas tomadas a 
tempo, ella não deixou de trazer a cidade o luto, 
enchendo as suas praças e ruas de sangue e de 
cadáveres. 

Sendo prevenido o presidente da provincia, 
Francisco de Souza Martins, de que ia rebentar 
uma revolução de negros, preparada para aquella 
noite ao amanhecer, officiou logo ao Cheíe de 
policia Francisco Gonsalves iMartins para que to- 
masse todas as medidas que cohibissem similhante 
levantamento. 

Este, depois de providenciar para que ficassem 
os postos da cidade em vigilância, dirigiu-se ao 
Bomfim, onde havia festa e muita gente reunida, 
que convinha defender e livrar de qualquer ataque 
por parte dos insurgidos. 

Recommendou também o presidente ao Juiz 
de Paz dô primeiro districto e ao Commandante de 
Policia que fizessem vigiar o largo de Guadelupe, 
onde suppunha haver um casebre dos taes negros 
que pretendiam atacar a cidade. 

Realmente, á uma hora da noite, pouco mais 
ou menos, o Juiz de Paz, acompanhado de paisanos 
e do Alferes Lazaro Vieira do Amaral, descon- 
fiaram de certo rumor que sahia de uma casa onde 
á janella estava uma mulher de còr parda. 

Intimada esta a que abrisse a porta, negou-se a 
isto com evasiva e disfarces, completando assim 
as suspeitas que tinham nascido no animo dos 
rondantes. 

Obrigada a que abrisse a porta em nome da 
lei, romperam então muitos tiros em descarga 
cerrada, e uma multidão de negros com carapuças 
brancas e saiotes da mesma còr, por cima das 
calças, armados de pistolas, espadas e espingardas 



104 



atacaram a ronda de permanentes e cutilaram o 
Alferes Lazaro Vieira do Amaral, fazendo os outros 
fugirem sem demora. 

Dividi rani"se em dous grupos, um dirigiu-se 
á pntça de Palácio, onds atacando a guarda, cu-- 
lilou um soldado que fazia si!ntine!la á caJcia, 
f nitro tomou adirecçãodoColle^io, atacou também 
a guarda, matou uni soldado e deixou trez crioulos 
mortos. 

Outro grupo mais compacto atacou o quartel 
de permanentes cm S. Bento e a guarda, que, 
depois de trocados muitos tiros, ficou desnorteada, 
vendo-se obrigada a fechar o portão para livrar-se 
dos invasores. 

Um outro vindo da Victoria investiu sobre o 
quartel do Forte do S. Pedro, onde travou-se novo 
combate, íicando no campo um guarda nacional 
mutilado e muitos negros mortos. O quartel de 
cavallaria á Agua de xMeninos também foi atacado. 

O Chefe de Policia, que se achava ahíde volta 
do Bomfim, auxiliado pelo Capitão Francisco 
Telles Carvalhal, que commandava alguns sol- 
dados de cavallaria, conseguiu oppor seria resis- 
tência. 

Então travou-se o mais terrível combale: os 
negros lançavam-se ao mar, outros fugião para 
os mattos da encosta da montanha, deixando o 
campo juncado de cadáveres. 

Os que lançavam-se ao mar, procurando por 
este meio evadir-se, morreram afogados ou forão 
mortos a tiros por marinheiros de um escaler da 
fragata liahiana, que se achava alli postado por 
ordem do presidente da província. 

Pelas ruas da cidade negros avulsos commet- 
tiam mil desatinos, levando assim o terror ao seio 
das famílias que mal attingiam a gravidade do que 
se tinha passado na cidade. 



lOõ 



Ao amanhecer já tinham desapparecido os 
i;rupos, fugindo ou occultando-se nos mattos ri- 
sinhos cm suas casas. 

Nas buscas feitas pela policia acharam-se muitos 
negros escondidos, uns feridos e alguns ainda 
ornamentados com insígnias de chefe. 

Nas pesquizas feitas viu-se que pessoa alguma 
de consideração tomara parte na insurreição, nem 
se pode negar que havia um fim politico nestes 
levantes, pois e]ue não commettiam roubos, nem 
matavam seus senhores occultamente. 

Depois de quieta a cidade, recomeçou-se a afa- 
nosa lida de buscas e apprehensões. Nas casas 
onde morava sempre mais de um negro eram 
achados objectos das maisexquisitas formas; abun- 
davam sempre as carapuças brancas, saiotes enfei- 
tados de pcnnas c guizos, e cm algumas casas 
guardaram, com certo disvelò c cuidado, alguma 
cousa que se parecia com uma coroa ou emblema 
qualquer de chefe. As taboas onde se vião inscri- 
pç(3cs de caracteres arábicos e papeis onde também 
cscrevião e pintavam eram sempre guardados, 
enrolados em muitos envolucros e bem escondidos 
em latns ou arcas. Quando perguntados sobre estes 
cxquisitos objectos, negavam sempre, procurando 
desviar as perguntas do interrogador, ou fingiam 
não comprehender. 

A principio cri que estas inscripções fossem 
somente oraç(3es, mas hoje, depois de apurado 
estudo, convenci-me de que n'ellas ha alguma coisa 
de correspondência politica; as tentativas que 
temos empregado com o fim de descobrir o movei 
que impulsionava estes fanáticos esbarram ante a 
superstição c a desconfiança que ainda tèm os 
negros que lhes possa nascer d'ahi algum mal. 

A tudo presidia o fetichismo. 

14 



106 



Xus minhas conversas com estes nej^ros, mos^ 
irando-Ihcs que conheço alguma coisa de seus 
cosiunies lenho obtido explicações bem interes- 
santes. Assim e que depois de escreverem sobre 
laboas ãdrede preparadas para este íim, c de feita 
a ceremonia da vcriíicação pelo maioral, isto e, si 
a oração esc ri pt a é a verdadeira , a ta boa é lavada 
em aguas que são recebidas com carinho e fé, e 
então bebidas. 

Este liquido tem para clles a propriedade de 
livral-os de todos os perigos e males mundanos, 

O certo é que não consiste só em orações a 
immensa correspondência que possue hoje o Ar- 
chivo Pub)Ící>, e n\Tm dos processos da insurreição 
de i835 deparamos com uma traducção a única que 
ha nestes autos todos, feita por um negro de nação 
IMâ perante as autoridades que presenciavam a 
audiência, que assim di/: 

eque a gente havia de \'irda Mctoria tomando 
a terra e matando toda a gente da terra de branco, 
que passaria por Agua de Meninos até se ajuntarem 
todos no Caorito atraz de Itapagipe, para o que as 
espingardas não haviam de fazer mal. » 

Ha uma outra feita pelo mesmo negro, de um 
bilhete de um insurgido a outro dizendo que: 

«deviam sahir todos das duas até ás quatro 
horas, invisiveis, e que, depois de fazerem o que 
podessem, iriam se ajuntar ao Cabrito, detraz de 
Itapagipe, em um buraco grande que ahi ha, com 
a gente do engenho que fica atraz e junto, porque 
esta gente já tinha feito aviso, e quando esta não 
viesse, elles irião juntar-sc no mesmo engenho, 
tendo muitocuidadode fugirdos corpos das guardas 
para surprehendcl-as até elles sahirem logo da 
cidade. » 

Si estes apanhamentos e noticias estão longe 
do fim almejado pelo interesse histórico, com toda 



107 



a certeza provam a grande importância dos docu- 
mentos aliudidos e justificam plenamente os es- 
forços empregados pela direcção do Archivo para 
o fim de serem completamente decifrados, e assim 
se poder comprehender o verdadeiro movei das 
insurreições do principio deste século e ficar es- 
clarecida a caracteristica d'aquelles tempos. Por 
ser, porém, difficil obtel-a aqui, estão sendo feitas 
fidelissimas copias dos ditos papeis para serem 
remettidos a sábios investigadores de linguas orien- 
taes e africanas, luzeiros das faculdad-es philoso- 
phicas da Allemanha. 

Pelo espécimen exposto na vitrine do estabele- 
cimento Schleier e pelos esclarecimentos que 
á cerca das ditas insurreições me esforcei em dar 
aqui, comprehenderá o publico o subido valor da 
matéria e me desculpará certamente o mal alinha- 
vado das presentes linhas, tendo somente cm vista 
a importância do assumpto. 

Archivo Publico, 26 de Setembro de 1890. — /. 
Carlos Ferreira. 

OFFICIO DO CHEFE DE POLICIA SOBRE 
A INSURREIÇÃO DE i833 (*) 

«111.'"^ e Ex.'"° Snr. Apezar de estar V. Ex." 
scientificadodos acontecimentos que tiveram logar 
nesta Cidade, da noite de 24 para 2? do corrente 
emdiante,cumpre-mecomtudo fazer umasuccinta 
exposição do que tem chegado ao meu conheci- 
mento, para que em um só ponto de vista V. Ex." 
possa inteirar-se das providencias que cumpre 
adoptar a semelhante respeito, para tranquilidade 
da Provincia. 

Com as denuncias, mil vezes felizes, queV. Ex." 

;*j Archivo Publico da Bahia. 



108 

recebeu na noite de 24 do corrente, de que os 
Africanos, particularmente os Nctgòs, deviam in- 
surgi r-sc a* Koque de alvorada, lançando ao mesmo 
tempo fofíu a diversos sitiou da cidade, e atacando 
os Corpos de (Juarda; os Juizes de Paz se puzeram 
na rua, c convocaram logo os cidadãos para a 
policiada cidade; e os Corpos, e (juardas esti- 
veram inimcdialamente debaixo de armas; des- 
tacando o Corpt) dos Pcrmancnics para diversos 
logarcs i orças capazes de rebater qualq^uer prin- 
cipio de tentativa da parte dos ditos Africanos. 

Tcnd(* recebido o OfRcio de V. Kx/ pelas onze 
'horas da noite, depois de haver visitado alguns 
pontos, c ter dado algumas ordens, dirigi-iiie á 
Ladeira da Praça, onde, segundo as denuncias, 
deviam estar reunidos em alguns casebres grande 
parte dos insurgentes, c achei ahl os Juizes de Paz 
dos dous Disírictos da Sc com alguns cidadãos, c 
Municipaes, a dar busca em alguns dosditos logares- 

Então em cumprimento das ordens de V. Ex." 
c achando cjue nenhum perigo poderia haver no 
centro da cidade, no meio dos Quartéis, e Corpos 
de Guarda, e principalmente estando todos pre- 
venidos, e o alarme dado; depois de fazeralgumas 
requisições que achei importantes, fui em direitura 
a Cavaílaria, que achei preparada, e dando ordem 
para que um Piquete me seguisse para o Largo do 
Bomnm, immcdiatamente corri para o dito logar 
emquanto montava o Piquete, por temer que 
qualquer demora podesse ser funesta a tantas 
familias desarmadas, e collocadas talvez na peior 
posição para um semelhante ataque, pela proxi- 
midade dos Engenhos, e separação da grande força 
da Povoação. Apenas tinha dado algumas ordens 
tendentes a acautelar o perigo, que veio a todo 
galope uma Patrulha de Cavaílaria annunciar-me 



109 



que os Africanos haviam atacado alguns pontos da 
cidade. 

Logo que recebi esta noticia, dei ordem a um 
Destacamento Municipal de dezoito homens, cjue 
estava no Bomíim, para que, em cciso de perigo, 
fizesse entrar as familias para a Igreja, e alli se 
encerrasse, defendendo-se de qualquer ataque, até 
que cu os podesse soccorrer. Voltando a Cavallaria 
pelas 3 horas da noite, achei-a em alarme; uma 
força montada, e outra a pé com alguns Guardas 
Nacionaes ; e recolhendo-se logo estes no mesmo 
Quartel para defender a porta, e fazer sobre os 
Africanos fogo pelas janellas; a Cavallaria esperou 
no largo para os atacar. 

Em poucos minutos appareceram com eífeito 
em numero de 5o a 6o, armados de espadas, lanças, 
e mesmo pistolas e outras armas. 

Recebidos a tiros de pistolas e de fuzil, das 
janellas do Quartel, avançaram furiosos, o que 
deu causa a Cavallaria se d!ebandar em seu segui- 
mento, para que não se escapassem pelo caminho 
do Noviciado. 

A este tempo o commandante da Cavallaria, o 
Capitão Carvalhal, que os esperou a pé, foi ferido 
e se viu forçado a recolher-se. 

Voltando eu com alguns cavallos á porta do 
Quartel a carregar sobre os Africanos, que ainda 
por ali estavão, estes se debandaram seguindo-os 
essa porção de Cavallaria, ao passo que a outra 
os continuava a perseguir. Entretanto apparecendo 
ainda alguns Africanos, e auzente o resto da 
Cavallaria, entrei para o Quartel, donde continuou 
o fogo por espaço de um quarto de hora, até que 
de todo succumbiram, devendo-se o principal 
esforço á Cavallaria montada que os carregou com 
valor', forçando-os a se lançarem ao mar, ou a se 
esconderem nos visinhos montes cobertos de capo- 



nu 



eirasj deixando alguns 17 mortos, outros feridos, 
e presos, afora muitos que se afo^íaram, ou feridos 
Ibrão perder a vida entre as ondas; tendo me 
constado que têm apparecido alguns em diversos 
sitios. 

Dissipado o perigo, receíando-se alj;um ataque 
no logar do Bomíim , depois de saber que o restante 
da Cidade estava livre do ataque, fui com a 
Cavai laria a Conceição da Praia, t>nde tomando 
uma força de 40 homens marchei pelo Quartel da 
Cavallaria, e ahi deixando alguns (iuardas Nacio- 
naes, para reforçar o mesmo, fuicomaCavallaria, 
e a força dita já então unida a io Nacionaes, que 
V, Kx. me havia mandado commandados pelo 
Ajudante Mondim, ao logar do Bomfim, onde 
estive até que soube de que nos engenhos visinhos 
não havia movimento algum. Na volta, que era ja 
bastante dia, encontrei no Quartel da (^avaliaria 
40 homens da Fragata que V. Ex. mandava por 
ás minhas ordens, dos quaes mandei que ií>tV>ssem 
embarcados para o sitio de Itapagipe, e ali per- 
manecessem até se restabelecer a tranquilidade. 

Depois, pelas partes recebidas, soube que no 
acto da busca, em uma casa junto de Guadelupe, 
á Ladeira da Praça, por denuncia particular, 
querendo entrar o Juiz de Paz, não lhe quiz abrir 
a porta uma parda dizendo que alli não havia 
pessoa alguma; e como se dispozesse o Juiz a 
arrombal-a, abrio-a, ao passo que outra se fechou. 
Mas, crescendo a desconfiança, e entrando o 
Commandante dos Permanentes, o Tenente I .azaro 
Vieira do Amaral, pelo corredor em direitura a 
porta fechada, repentinamente, a um signal dado, 
dizem pela referidaparda, abrio-se aporta, sahindo 
de dentro um tiro de bocamarte, e após delle um 
grupo de 60 pretos, pouco mais ou menos, armados 
de diversas armas, principalmente de espadas, os 



111 



quaes dispersaram a pequena força surprchendida, 
ferindo gravemente ao referido Tenente Lazaro, e 
a outros que forão encontrando em sua passagem. 

Este grupo se dirigio por Xossa Senhora d' Ajuda 
ao Largo do Theatro, onde foi recebido com uma 
descarga dada por 8 Guardas Permanentes com- 
mandados pelo Ajudante do mesmo Corpo, os 
quaes foram dispersados pelos Africanos, depois 
de ficarem feridos 5. Desse logar correram em altos 
gritos pela Rua de Baixo matando e ferindo os que 
encontravam, constando-me terem feito duas 
mortes em dous pardos, e foram direitos ao Quartel 
de Artilheria, talvez com o fim de fazerem alguma 
junccão da parte da Victoria, como depois se 
verificou. 

Próximos ao Quartel mataram um Sargento 
Nacional do 2." Batalhão chamado Tito, o qual, 
indo em companhia do seu Juiz de Paz, quando 
este procurou o amparo da F^ortaleza, ficou um 
pouco atraz para lhes dar um tiro. 

Receiando atacar a Artilheria, voltaram pelo 
mesmo caminho, e brevemente fizeram a junccão 
com outro grupo vindo do lado da Victoria, e que 
atravessou a estrada nova do Forte, não obstante 
o fogo que lhe fizeram. 

Reunidos foram atacar o Quartel dos Per- 
manentes, onde apenas existião 22 soldados, por 
lerem sido prestados os demais á diversas requi- 
sições. 

> 

Ahi depois de algum fogo, fechado o portão do 
Quartel, e morrerem 2 soldados, tendo outros 
feiidos, tomaram pelo lado da Barroquinha, e 
vieram sahir segunda vez no sitio dAjuda, d'onde 
seguiram para o Collegio, e atacaram a Guarda, a 
qual Se recolheo, fazendo fogo sobre o grupo um 
reforço Permanente, que alli se achava. 



112 



X'csse ]ogar mataram um soldado de Artilhcna, 
que vinha buscar o Santo, o qual antes de cahir 
ícrido defendeO"Se corajosamente, e matou um 
com uni tiro, te rindo a outros muitos. 

Na descida pela Baixa dos Sapateiros mataram 
um pardo, e dÍ2em-me que ainda ouiro^ seguindo 
depois para os Coqueiros, d^onde sahiram para 
atacar o Quartel de Cavai inri li, como já referi a 
V. Ex\ 

Depois do destroço, que receberam n'esta 
ultima paragem, único que tomou a ottensíva^ 
nunca mais se reuniram. 

lísquecia-me dizer a V. Kx/ que na noite da 
insurreição se me apresentou igual mente o 'lenen te* 
Coronel Manoel Antonioda Silva, [nstructor Geral 
dos Guardas Nacionaes, a quem encarreguei al- 
gumas commisscjes: bem como devo communicar 
a V. Ex/ que a parda da casa onde se achavam os 
pretos, c seu marido, estão presos havendo motivo 
para os suspeitar conni^ entes ou sabedores. 

Desde o Quartel da Cavallaria até o Forte de 
São Pedro foram achados muitos Africanos mortos, 
ou feridos, e poucos presos na acto do ataque. 

Calculo o numero dos mortos achados em todos 
os logares, e mesmo entre as ondas, em 5o; havendo 
porém feridos, que de certo não escaparão, attento 
a gravidade dos ferimentos, e o tempo decorrido, 
primeiro que fossem tratados, existindo estes no 
Hospital, para ondeos mandei conduzir, e os outros 
na Fortaleza do Mar. 

Pela manhã foram achados alguns pelos mattos 
visinhos baleados, ou cutilados, dos quaes alguns 
procuravam escapar-se com disfarces. A's seis para 
sete da^m.-^mhan, da casa de João Francisco Ratis, 
sahiram repentinamente seis pretos seus, arm.ados 
de espadas, pistolas e punhaes, vestidos em trajes 
de guerra, á maneira sua; e depois de lançarem 



113 



foyo a casa do senhor, correram em busca d^Agoa 
de Meninos, sendo logo mortos no caminho. 

E' de presumir que estes estivessem no plano; 
porém ignorariam o resultado da madrugada, pois 
Gue foram forçados a romper antes de tempo os 6o 
aa casa corrida ao Guadeluppe. 

Têm sido dadas por mim as providencias neces- 
sárias para serem corridas todas as casas de Afri- 
canos, sem distincção alguma, e o resultado será 
presente a V. Kx." em tempo competente; podendo 
desde já asseverar a V. Ex'. que a insurreição 
estava tramada de muito tempo, com um segredo 
inviolável, e debaixo de um plano superior 
ao que deviamos esperar de sua brutalidade, e 
ignorância. Em geral vão quasi todos sabendo ler, 
e escrever em caracteres desconhecidos, que se 
assemelham ao Árabe, usado entre os Ussás, que 
figuram terem hoje combinado com os Nagòs. 

Esta Nação em outro tempo foi a que se insur- 
giu nesta Provincia por varias vezes, sendo depois 
substituida pelos Nagòs. Existem mestres, que 
dão lições e tratavam de organisar a insurreição, 
na qual entravam muitos forros Africanos, e até 
ricos. 

Têm sido encontrados muitos livros, alguns dos 

auaes, diz-se, serem preceitos religiosos tirados 
e misturas de seitas, principalmente do Alcorão. 
O certo é que a Religião tinha sua parte na 
sublevação, e os chefes faziam persuadir aos mi- 
seráveis que certos papeis os livrariam da morte, 
donde vêm encontrar-se nos corpos mortos grande 
porção dos ditos, e nas vestimentas ricas e exqui- 
sitas, que figuram pertencer aos chefes, e que 
foram achadas em algumas buscas. Também se 
notou que uma quantidade grande de insurgentes 
eram escravos dos Inglezes, e estavam melhor ar- 
mados, devendo-se attribuir estas circumstancias 



114 



a menor coacção em que são tidos por estes 
estrangeiros, habituados a viver com homens, 
livres. 

Além da morte. do Sargento da guarda Nacional 
do soldado de Artilheria, de quatro pardos e 
dous Permanentes, segundo se me informa, hou- 
veram muitos outros ferimentos, e alguns graves. 

Certamente, Ex*"^ Snr., se as denuncias nos não 
tivessem previnido, o resultado seria afinal, sem 
duvida, o mesmo; porém os estragos muito supe- 
riores; pelo que, a bem da segurança nossa, com- 
vinha premiar as pretas denunciantes, dando-lhes 
a liberdade, se ellas a não tivessem, ou um pre- 
mio rasoavel. 

As providencias continuão a ser dadas com 
calor, e por todos os districtos se trata de um 
processo, por onde se possa descobrir os cul- 
pados ainaa existentes para em suas pessoas dar 
um exemplo efficaz a esses Africanos; e para 
melhor o conseguir, tenho procurado encaminhar 
os processos de uma maneira uniforme c regular. 
Depois de taes successos, é bem natural que hajão 
abusos, e estes têm existido a um ponto tal que 
hoje já dão motivos sufficientes a queixas bem 
fundadas, pois que os soldados prendem, es- 
pancão, ferem, e mesmo matão aos escravos, 
que por mandado de seus senhores vão á rua. 
Sobre este objecto tenho oíficiado a V. Ex., e 
tenho dado as providencias a meu alcance. 

Presentemente tudo mais está tranquillo, e 
teremos tempo de, por medidas Legislativas pro- 
vinciaes, providenciar de maneira que não seja 
segunda vez preciso lutar com tal gente, e muito 
menos com Africanos forros, que quasi todos, 
no goso de liberdade, trazem o tcrrctc da escra- 



115 



vidão, e não utilisão nada o Paiz com a sua es- 
tada. — Deus Guarde a V. Ex. 

Bahia, 29 de Janeiro de i835. 

Illm. e Exm sr. Presidente da Provincia. — 
(Assignado) — Francisco Gonçalves Martins^ Chefe 
de Policia.» 



Docuiiieiilos sobre a insurreição f) 

alUm, e Exm. Sr. — Exigindo eu hontem da 
Gamara Municipal que houvesse de nomear hum 
ou dous peritos para examinar o estado em que se 
achava a forca, tive em resultado a informação 
inclusa, á vista da qual V. Ex. terá a bondade de 
dar as providencias que julgar convenientes, para 
com a brevidade que o caso requer se facão nella 
as execuções, para as quaes existem já extrahidas 
as sentenças que passo a remettel-as ao Juiz Mu- 
nicipal, para dar cumprimento a ellas em o dia que 
por V. Ex. for indicado. 

Deus Guarde a V. Ex. — Bahia, 6 de Maio de 
i835. — Illm. e Exm. sr. Vice-presidente desta pro- 
vincia. — (Assignado) — António Simoens da Silva^ 
Juiz de direito do crime e chefe de policia inte- 
rino. )) 



lnfor)nação — Nós abaixo assignados, mestres 
do officio de carpina, attestamos debaixo de jura- 
mento que fomos no dia de hoje chamados pelo 
sr. Inspector das Obras da Gamara Manoel Gon- 
çalves Dormund para hirmos ao Campo da Pol- 

(*) ICxislenics no Archivu Publico lia Bahia, os quacs provam que 
em ii<^? não hovive quem se prjstasjc a enforcar us africanos con- 
demnados a nmriv*. 

Nota (la R. 



116 



vora examinar o estado cm que se acha a forca 
onde são sentenciados os R. R. da pena ultima; e 
com et feito attestamos que ella se acha podre com 
todo o madeiramento em estado de não poder 
servir. 

Bahia, 5 de xMaiode i835. — (Assignados) — Pedro 
Fernandes e Salurnino Joaquim de Mattos. 



PARA O CHEFE DE POLICIA INTERINO 

Em vista do que V. S. representou cm officio 
da data de hontem, tenho ordenado ao tenente 
Paulo Luiz de Menezes que mande com bre- 
vidade fazer uma nova forca, visto achar-sc a 
existente em estado de não poder servir. 

Deus guarde a V. mcc. Palácio do Governo 
da Bahia, 6 de Maio de i835. — (Assignado) — 
Manoel A}itoni) Galvão, 



Ulmo. e Exmo. Snr.— Como até hontem á 
noite não havia individuo algum nas prizoens 
para servir de executor da justiça c convindo que 
os quatro Rcos, que amanhã vão ser executados, 
sotfram a pena na forca, segundo as suaó sentenças, 
lembro-mc que, se se ofterecesse huma quantia 
hum pouco avultada, até "2'), ou l^oSooo se acha- 
ria mesmo iris c.iJja> hum dos prc>o^ prompto 
para esc tim; levo joiíanto a l( n^idcicçío de 
V. cx. para que no caso de ser da sua approvação, 
eu communique immedialamente ao carcereiro, 



117 



para fazer aos presos essa proposição. Deus Guarde 
a V. Ex. 

Bahia, i3 de Maio de i835. — Ulmo. e Exmo. 
Sr. Vice-Presidcnte desta Provincia. — (Assignado) 
— António Simoens da Silva, juiz de direito do crime 
e chefe de policia interino. 



PARA O CHEFE INTERINO DA POLICIA 



Respondo ao officio de V. iMce. que acabo de 
receber datado de hoje, dizendo-lhe que approvo o 
arbitrio proposto de ser offerecida a quantia de 
vinte ou trinta mil réis a algum dos presos que se 
acham na cadeia d'esta Cidade, afim de servir de 
Executorda Justiça, para que os 4 réos que amanhã 
vão ser executados soffram na forca a.pena segun- 
do as suas sentenças, uma vez que não ha indi- 
viduo algum que a isso se queira prestar, con- 
forme V. Mce. representa pelo dito officio. 



Deus guarde V. 



Mce. — Palácio do Governo da 
Bahia, i3 de Maio de i835. — (Assignado) — Manoel 
António Galvão. 



Ilbn. Exnt, Sr. — A\'ista da resposta inclusa do 
Carcereiro das Cadeias da Relação, V. Ex. deter- 
minará o que for servido. 

Deus guarde a V. Ex.— Bahia, i3 de Maio de 
i835. — jilm. e Exm. sr. vice-presidente doesta Pro- 
vincia. -(Assignado) — Anlonio Simoem da Silva^ 
Juiz de direito do crime e chefe de Policia interino. 



118 

RESPOSTA DO CARCEREIRO 

Em observância a portaria de V. S, passei 
a proposta aos presos, e não ha quem queira acei- 
tar; eu ja fiz o mesmo hoje no Barbalho, e na 
Ribeira aos Galés, e nenhum quer por recompensa 
alguma, e nem mesmo outros negros querem acei- 
tar, apesar das diligencias que lhes tenho feito com 
grandes promessas, além do dinheiro. 

Deus guarde a V. S. — Cadeias, i3 de Maio de 
i835 — (Assignado) — António Pereira de Almeida j 
carcereiro. 

PARA O CHEF^E INTERINO DA POLICIA 

Não havendo, segundo V. mcê. me participa 
em seu officio d'esta data, quem cjueira servir de 
executor da justiça apesar das diligencias que se 
tem feito, ordenei que sejam fusilados os africa- 
nos, que têm de soffrer amanhã a pena de morte, 
a que foram condemnados; o que participo a 
Vmcê. em resposta para sua intelligencia. 

Deus guarde a v. mcê. — Palácio do governo 
da Bahia, i3 de Maio de i835. — (Assignado) 
-Manoel António Galvão. 



PARA O COMMANDANTE GERAL 
DOS PERMANENTES 

O Vice-presidente da provincia ordena que o 
sr. commandante geral dos permanentes dê as 
necessárias ordens para que sejam fusilados 
amanhã pelos soldados do seu corpo os africanos 
que deviam soffrer na forca a pena de morte a 
que foram condemnados, visto não haver quem 



119 



queira servir de executor da justiça, apesar das 
diligencias que se tem feito, conforme representa 
o chefe de policia. 

Palácio do governo da Bahia, i3 de Maio de 
i835. — (Assignado) — Manoel Anloy^io Galvão. 



Âclas D oMs ein 1902 

93.- SESSÃO EM 18 DE MAIO DE 1902 

Presidência do Snr. Cons, Dr. João Torres 

[Continuação) 

Aos* desoito dias do mez de Maio de 1902, á 
I hora da tarde, presentes os sócios, Cons." Dr. 
João Torres, i"* Secretario, Isaias de Carvalho San- 
tos, 2'' Secretario, Capitão Ferreira Braga, thesou- 
reiro, Dr. Alfredo Cabussú, Barão de São 
Francisco, Professor Elias Nazareth, Coronel 
Gonçalo de Athayde, António Gonçalves Neves, 
Henrique Praguer, Engenheiro Luiz Imbassahy 
da Silva, Nicolau Tolentino Carneiro da Cunha, 
Comm. Salvador Pires, Drs. Guilherme Foeppel, 
Braz do Amaral, Comm. Joaquim Manoel de 
Sant'Anna, Damasceno Vieira e Pharm. Alfredo 
Accioli, foi declarada aberta a sessão. 

F^oi lido o expediente, que constou do seguinte: 
Cartão do Dr. João Evangelista de Castro Cer- 
queira, enviando cem mil réis por ordem do Ge- 
neral Dr. Dionysio Evangelista de Castro Cer- 
queira para auxilio as despezas do Instituto, offerta 
que é recebida com especial agrado, e mandou-se 
agradecer: Carta convite dos alumnos da 5" serie 
medica para o «Instituto» assistira sessão fúnebre, 
cm homenagem á memoria do pranteado pro- 
fessor cathedratico da «Faculdade de Medicma», 
Dr. João Agrippino da Costa Dória, declarando 

16 



122 



o Snr. presidente que havia designado o socIo, 
pharmaceutico Accioli do Prado, para representar 
o «Institutos; Carta convite do Conselho directório 
do «Grémio Liiterario» para o oInstituU'n> se íiuer 
representar no dia 20 do corrente, as lohorasda 
manhã, na soicmnidade da missa e benção da nova 
.bandeira e ás 8 horas da noite na sessúo magna 
litteraria, actos estes que váo ser realisados em 
commemoração do 42." anniversario da fundação 
dessa instituição. 

Offlicios: do Presidente da Associação Com- 
mercial desta cidade, remettendo um exemplar 
do relatório dos trabalhos da directoria anterior; 
do Snr. Vice Cônsul da Hespanha, communicando 
que fora designado o dia 17 do andante para ce- 
lebração da festa nacional pela maioriclade de 
Kl-Rci D. Affí^nsoXlIi, devendo, por isso, ser 
içado no consulado o respectivo pavilhão; do i**. 
Secretario da Rencticencia Caixeira), enviando a 
relação nominal dos novos funccionarios eleitos 
para o anno social de 1902; do sócio Dr. José 
António Costa, engenheiro civil, remettendo uma 
caixinha com 100 moedas de vários paizes, se- 
gundo a relação que tam-bem remette, satisfa- 
zendo, assim, seu desejo de contribuir para o 
augmento da colleção que o «Instituto» já possue; 
do sócio Cap. de mar e guerra Alves Camará 
offerecendo 4 moedas, sendo i de ouro e 3 de 
prata, adquiridas em Tanger, quando comman- 
dante do crusador Benjamin Constant. 

Pelo Cons. Presidente foi mandado respon- 
der a todos e agradecer as valiosas offertas feitas ao 
«Instituto», e designou os sócios Damasceno Vieira 
e Eng. Imbassahy da Silva para representarem 
o «Instituto» nas festas do «Grémio Litterario». 
Pelo mesmo presidente foi noticiado o fallecimento 
dos sócios Drs, Adolpho Frederico lourinho ç 



123 



José de Oliveira Leite, cuja dedicação ao «Insti- 
tuto» era notória; ao mesmo tempo propoz a 
inserção na acta de um voto de pezar, o que foi 
approvado. 

Em seguida passou-se a discussão do Orça- 
mento da receita e despeza para o corrente anno, 
de 1902, que é approvado com emendas. 

O projecto de orçamento assim approvado é 
o seguinte: 

RECEITA 

Art i/: 

Jí i.*" Subvenção estadoal . . . . 3:oooSooo 

5J 2/ Idem federal. ..... 5:ooo$ooo 

2 3." Idem municipal. . . • . 5oo$ooo 

J^ 4.** Idem de exercicios anteriores 
não recebidas a saber: 

a) Subvenção estadoal 7:5ooSooo 

b) Idem municipal i:oooSooo 

c) Idem federal. i:25oSooo 

?; 5.** Mensalidades de 147 

sócios effectivos 1:7648000 

g 6." Idem atrasados. . . . . 8268000 

JJ 7.** Jóias de sócios 3oo8ooo 

JJ 8." Donativos S 

í{ 9.** Remissão de sócios. ... S 
íj io.° Producto de benefícios 

e concertos S 

21:1408000 

DESPEZA 

Art 2.": 

^ I." Juros e amortisação 

do debito hypothecaVio. . . . 11:0008000 
g 2." Seguro do prédio ii588oo 



124 



g 3.^ Pagamentos a credores, 

por contas 7:7276740 

Ao Guarda-livros 600S000 

g 4/ Gratificação ao Amanuense. . 3oo$ooo 

g 5.0 Ordenados, sendo: 

a) Do porteiro 6008000 

b) Do servente 3oo$ooo 

c) Do G. livros, gratificação. . S 

d) Do cobrador 20 7o com missão . S 
g 6/ Impressão da Revista, 2 nú- 
meros- 1902. . . . . . . KOOOSOOO 

g 7.*" Despezas geraes, a saber: 

a) Com a secretaria, expe- 
diente e sellos 3oo$ooo 

b) Agua. . • 108S000 

c) Carretos e despezas miúdas . . ioo$ooo 
g S.^^Importancia da reclamação da 

restituição de Caução 

de Júlio* Telles da á". Lobo. r.oooSooo 

23: 1 5 1S640 
Bahia, 20 de Abril de 1902. 

A Commissão. — (Assignados) — S. Pires de Car- 
valho e Albuquerque. — A Cabussú. 

Sobre esse projecto de orçamento da despeza 
fallaram o thesoureiro, Capitão Ferreira Braga, o 
Dr. Cabussú e o Coronel Gonçalo de Athayde, pro- 
pondo este o adiamento da discussão, em vista 
da emenda apresentada pela Commissão e das 
ponderações feitas pelo Thesoureiro, emenda que 
é do theor seguinte : 

«Supprima-se o logar de servente si foraugmen- 
tado para 780S000 o ordenado do amanuense, 
até que melhorem as condiç(5es pecuniárias do 
«Instituto». A commissão de Fazenda— (Assignados) 
S. Pires de Carvalho e Albuquerque. — A. Cabussú. 



i2r> 



Esta proposta foi apresentada depois dest^outra 
lida pelo Snr. Thesoureiro: 

((Emenda aos ?^?/ 4/ e 5/doArt. 2.Miga-se: Or- 
denado do amanuense 20 7o sobre 960S 768S000. 

Ordenado do porteiro 20 0/0 sobre 720S000 
576.S000)). Sala das sessões do ((Instituto Geogra- 
phico», em 18 de Maio de 1902. — (Assignados) — 
Francisco Braga.- João Torres. — Braz do Amaral. 

Sendo regeitada a proposta de adiamento, fal- 
laram ainda os sócios Damasceno Vieira, Isaias 
Santos e Dr. Cabussú, que apresentou o seguinte 
artigo additivo ao projecto: 

Artigo additivo: (( Fica a mesa auctorisada a 
((transigir com a loteria que tem, de modo a ser 
paga a divida fluctuante do ((Instituto». A Com- 
missão (Assignados)— A. Cabiissú. — S. Pires de 
Carvalho c Albuquerque . y> 

Encerrada a discussão, foi approvado o pro- 
jecto de orçamento da despeza, salvo as emendas, 
as quaes foram também approvadas, bem como o 
artigo additivo. 

Em seguida foram lidos diversos pareceres 
favoráveis á admissão de sócios effectivos e cor- 
respondentes, sendo por escrutinio secreto appro- 
vados para sócios, effectivos Drs. Américo Pmto 
Barreto Filho, advogado e deputado estadoal; José 
Gonçalves de Castro Cincurá, advogado e depu- 
tado estadoal; (íenesio Sampaio Neves, enge- 
nheiro; José Sabino Pereira Filho, advogado; Ti- 
bério de Figueiredo, advogado ;Dr. Bernardo José 
Jambeiro, medico e deputado estadoal; Padres 
Manoel Bemvindo de Salles, reitor do ((CoUegio 
dos Orphãos de S. Joaquim» e Francisco Fer- 
nandes Badaró; Pharmaceutico Clemente Ta- 
najura Guimarães; Coronel Francisco de Mello, 
capitalista; Herhrique Cancio, jornalista, e profe- 
sor Cincinato Ricardo Pereira da F^ranca, todos 



12G . 

residentes n'esta Capital; e para sócios correspon- 
dentes: Drs. Alberto Santos Dumont, brazileiro, 
residente em Paris; Dr. António Augusto de Lima, 
director do Archivo Publico Mineir©, residente 
em Bello Horisonte; Dr. Von Ihering, Director 
do Museu de S. Paulo, (Ipiranga); Alberto Lóí- 
gren, Director do «Horto Botânico» Cantareira, 
(S. Paulo) ; Dr. José de Campos Novaes, medico ; 
César Bierremback, professor dó Gymnasio, am- 
bos de Campinas; Américo Werneck, literato 
e agricultor, em Lambary, Minas-Geraes; Pedro 
de Queiroz e António Bezerra de Menezes, mem- 
bros do «.Instituto Histórico e da Academia Cea- 
rense», ambos do Ceará; D. Blas Vidal, politico, 
litterato e ex-ministro oriental no Rio; D. Adol- 
pho Basãnez, Cônsul geral do Uruguay no Rio 
de Janeiro; Coronel António Gomes da Silva 
Chaves, engenheiro militar; Padre Dr. Júlio Ma- 
ria, litterato, residente na Capital Federal; Max 
Fleius, litterato e 2° secretario do «Instituto His- 
tórico e Geographico Brasileiro»; José Ribeiro do 
Amaral, auctor de diversos trabalhos históricos 
ja publicados, residente na Cidade de S. Luiz 
do Maranhão; Demétrio Pires de Araújo, jor- 
nalista, residente na Feira de SanfAnna, e Ro- 
mario ^Martins, litterato, residente em Curytiba 
(Paraná). Foi também approvado para sócio effe- 
ctivo o litterato bahiano Francisco Xavier Mar- 
ques, residente n^esta Cidade. 

Nada mais havendo, levantou-se a sessão. 

Salvador P. de Carvalho e Albuquerque.— João 
N. Torres. — /saías de Carvalho Santos. 



127 

94'. SESSÃO EM 25 DE MAIO DE 1902 

Presidência do 7". Vice-Presidentc^ Dr. Satyro Dias 

Aos 25 de Maio de 1902, á i hora da tarde, 
presentes os sócios: Cons. Dr. João Torres, Drs. 
Satyro Dias, Reis Magalhães, Alfredo Cabussú, 
Joaauim Pires Muniz e Manoel Pedro de Re- 
zende, Professores Borges dos Reis e Elias Naza- 
reth, Coronéis Martiniano de Almeida e Gonçalo 
de Athayde, Aloysio de Carvalho, Pharmaceu- 
ticos Joaquim Manoel de Sant'Anna e Luiz Fil- 
gueiras, Cap.™ Ferreira Braga, Manoel Quirino, 
Gonçalves Neves e Comm. Salvador Pires, foi 
aberta a sessão, servindo de 2.® Secretario o sup- 
plente Aloysio de Carvalho, que leu a acta da 
sessão do dia 3 de Maio, sendo ella approvada 
sem debate. 

O expediente constou do seguinte': 

O fficios: da directoria da «Associação dos Em- 
pregados no Commercio», communicando a elei- 
ção e posse de seus novos funccionarios ; e do Dr. 
Intendente municipal convidando o «Instituto» a 
se fazer representar na missa e procissão de Cor- 
pus'Christi a 29 do corrente. O Snr. Presidente 
nomeou os seguintes sócios para esse fim: Cons. 
Dr. João Torres, Cónego Manfredo de Lima e 
Dr. Isaias de Carvalho Santos. 

Cartas: do sócio Cap."' de mar e guerra An- 
tónio Alves Camará, offer^ecendo quinze moedas 
antigas, de cobre, e vinte seis volumes de obras 
diversas, de sua bibliotheca particular, conforme 
a relação feita em nota annexa; do sócio Cap."' 
Manoel Quirino, offereçen^Q três medalhas dg 



128 



Campanha do Paraguay, pertencentes ao Te- 
nente-coronel Feliciano Pimentel, do 54 bata- 
lhão de voluntários; do Provedor do «CoUegio de 
São Joaquim», offerecendo para o museu do «Ins- 
tituto», uma das duas bandeiras do regimen impe- 
rial, existentes n'aquelle Collegio. 

O Cons. Dr. João Torres, pedindo a pala- 
vra disse que na ultima sessão deixara de fazer 
sciente que o «Instituto» encarregara os consócios 
Drs.Braz do Amaral e Innocencio Munôz de Àraujo 
Góes, de organisarem as modernas epheme- 
rides da Bahia, trabalho de alta necessidade, por- 
quanto o que ha a respeito termina em período 
já distante; e aproveitando a opportunidade, pro- 
punha que em attenção a valiosissima oíferta de 
cento e cincoenta volumes de obras diversas feita 
pelo nosso conterrâneo, Dr. Virgilio Cardoso de 
Oliveira, actualmente Secretario do Interior no 
Estado do Pará, lhe fosse remettido o diploma 
de sócio correspondente do «Instituto», indepen- 
dente de contribuição pecuniária, como permittem 
os Estatutos; o que foi unanimemente approvado. 

O Snr. Presidente Dr. Satyro Dias, referindo-se 
em phrase eloquente á morte trágica do inventor 
do balão Pax, e ao anniversario da grande ba- 
talha do Tuyuty, propoz que fossem insertos na 
acta, um voto de pezar pelo fallôcimento do illus- 
tre aeronauta brazileiro Dr. Augusto Severo, dan- 
do-se ao irmão d'este, o Snr. Senador federal, 
Dr. Pedro Velho, sciencia d'cssa resolução para 
que, como chefe da família enlutada, acceite c 
faça transmittir a todos os parentes do inditoso 
compatriota os sinceros sentimentos do «Instituto», 
e bem assim uma menção congratulatoria ao 
exercito nacional pelo facto heróico que se reme- 
mora na notável data de 24 de Maio, sendo ambas 
as propostas approvadas. 



129 



Em seguida, declarado o fim principal da ses- 
são — a eleição da nova mesa administrativa e das 
diversas commissões — independente do numero 
de sócios presentes, em virtude de ser esta a se- 
gunda convocação feita para isso, procede-se a 
eleição, na qual tomou parte o 2/ Secretario que 
em tempo compareceu, sendo apurado o se- 
guinte resultado: 

Para presidente : Cons. Dr. Salvador Pires de 
Carvalho e Albuquerque, 18 votos; para 1/ vice- 
presidente, Dr. Satyro de Oliveira Dias, 17 votos 
e Cons. Dr. João Torres, i voto; para 2." vice-pre- 
sidente, Cons. Dr. Pedro Mariani, 18 votos; para 
I." Secretario, Cons. Dr. João Nepomuceno Tor- 
res, 17 votos e Dr. Reis Magalhães, i voto; para 
2^ secretario, Isaias de Carvalho Santos, 17 votos 
e Coronel Gonçalo Pereira, i voto; para supplentps 
de secretario, Aloysio de Carvalho, 17 votos, Dr. 
Joaquim dos Reis Magalhães, 17 votos e pharma- 
ceutico Accioli, 2 votos; para tnesoureiro, Can." 
Francisco Gomes Ferreira Braga, 17 votos c Eloy 
Guimarães, 1 voto; para Orador Dr, Braz Herme- 
negildo do Amaral, 18 votos; para supplente de 
orador, Cons. Dr. Filinto Justiniano Ferreira Bas- 
tos, 18 votos. 

Para comporem as diversas commissões fo- 
ram eleitos, por maioria de votos: 

Commissão de admissão de sócios: Eloy de 
Oliveira Guimarães, Coronel Gonçalo de Athayde 
Pereira e Pharmaceutico Commeiidador Joaquim 
Manoel de SanfAnna. 

Commissão de Fundos e orçamento: Dr. Al- 
fredo César Cabussú, Horácio' Urpia Júnior c 
Commendador Salvador Pires de Carvalho e Al- 
buquerque. 

17 



1.30 



Commissão de Redacção da Revista: Cons. Dr. 
João N. Torres, c Drs! Innocencio Munoz de 
Araújo Góes e Joaquim dos Reis ^Magalhães. 

Commissão de manuscriptos e documentos: 
Cónego Manfredo Alves de Lima, Cons. Dr. Filinto 
Justiniano Ferreira Bastos e Dr. Kgas Moniz Bar- 
rctto de Aragão. 

Commissão de Geographia, historia e ethno- 
graphia: Dr. Francisco Marques de Góes Calmon, 
Professor António Alexandre Borges dos Reis c 
Pharmaceutico Luiz António Filgueiras. 

Commissão de cstatistica e demographia: Pro- 
fessor Elias de Figueiredo Nazareth, e Drs. Aurélio 
Pires de Carvalho e Albuquerque c Júlio da Gama. 

Commissão de topographia e archcologia: En- 
genheiro João Pimenta Bastos, Professor Fran- 
cisco Torquato Bahia da Silva Araújo c Pharma- 
ceutico Accioli do Prado. 

• Commissão de philatclia, numismático c cerâ- 
mica: Dr. Guilherme Conceição Fccppel, Capitão 
Manoel Raymundo Quirino c Francisco Ferraro. 

Commissão de mappas, retratos c cartas gco- 
graphicas: Cap.'" de mar c 'guerra António Alves 
Camará, Dr. José Júlio de Calasans e Alfredo 
Octaviano Soledade. 

Commissão de biographias: Drs. Manoel Joa- 
quim de Souza Britto, Guilherme Pereira Rebello 
e Damasceno Vieira. 

Foram proclamados c empossados nos respe- 
ctivos cargos os sócios eleitos que se achavam pre- 
sentes. 

Enada mais havendo a tratar-se, foi encerrada 
a sessão. 

Approvada em sessão de 14 de Setembro de 
1902. — Salrfulítr P/7*c's (h* Cnrrallio r Alhiuiner- 
qr/c, — João Nrponiuceno Torrei. ~ -Isaías de Carvallio 
San/os. 



131 



93.» SESSÃO FM 14 DE SETEMBRO 
DE 1902 

Presidência do Exm, Snr. Cons. Dr. Salvador Pires 

Aosquatorze dias do mezde Setembro de 1902, 
no salão do Instituto, á i hora da tarde, presentes 
os sócios Cons. Drs. Salvador Pires, presidente, e 
João Torres, i ."* Secretario, Drs. Braz do Amaral c 
Alfredo Cabussú, Engenheiro Luiz Imbassahy, 
Padre Luiz da França, Professores Elias Nazarcth 
e Santos Sá, Comms. Pharm. Joaquim Manoel de 
Sant'Anna e Salvador Pires, Capitão Ferreira 
Braga, Eloy Guimarães c Isaias Santos, foi aberta 
a sessão, sendo lidas e approvadas, sem debate, as 
actas das sessões anteriores de 18 e 25 de Maio do 
corrente anno. 

Em seguida foi lido o expediente, que constou 
do seguinte: 

Officios : dos Drs. Secretario do Interior c Inten- 
dente Municipal, c do Presidente da « Associação 
Commercial», agradecendo a communicação da 
eleição e posse dos novos funccionarios do Instituto 
eleitos para o anno social de. 1902 a 1903 ; dos 
Secretários das Sociedades «Grçmio dos Internos 
dos Hospitacs », « Club Commercial do Joazeiro », 
«Sociedade de Ethnographia e Civilisaçãodosln- 
dios», de S, Paulo, « Beneficente Académica», c 
« União Philantropica dos Artistas» communicando 
a eleição de suas directorias para o mesmo anno 
social- 1902 a i9o3;datf Sociedade CiVculoCatholico 
Apostólico Romano», desta Cidade, communi- 
cando sua installação e enviando os Estatutos ; do 
sócio Coronel Francisco Félix de Araújo, com- 
municando haver transferido sua residência para 
a Capital Federal; do biblioihecario da « Faculdade 
de Direito» do Recife, reclamando para a sua 



182 



collccçao vários numerps da Revista, ao que 
mandôu-se attender. 

Cartas: do Dr. PeJro Velho agradecendo os 
votos de condolências que o « Instituto » cnviou-lhe 
pelo fallecimento de seu irmão, o Dr. Augusto 
Severo; do Sr, Karlos Weber olferecendo quatro 
moedds de cobre antigas e uma medalha com- 
memorativa do 3/ Centenário de Luiz de Camões; 
do sócio Capitão de mar c guerra Alves Camará, 
offerecendo para a bibliothcca do Instituto ii5 
volumes de varias obras de sua bibliotheca parti- 
cular ; do vice-presidente da Companhia de loterias 
nacionaes do Brazil, solicitando a cooperação do 
" Instituto » sobre o projectoapresentado na Camará 
dos Deputados para a extincção das loterias nacio- 
naes, de que auferem recursos diversos institutos 
sociaes, pios e beneficentes; do sócio Cons. Fran- 
cisco Mariaí Sodré Pereira, offerecendo para o 
archivo do « Instituto » vários manuscriptos que 
acompanharam á Petição de Graça e Perdão que 
o Dr. Francisco Sabino Alvares da Rocha Vieira 
encaminhou, em 1834, á Regência Permanente 
sobre o assassiniodo Alferes José Joaquim Moreira 
no dia 7 de Novembro de i833, n'esta Capital, e 
bem assim vários periódicos do tempo aa Re- 
gência, de cuja lucta politica o delicio indultado 
originou-se ; do cidadão Virgilio Pires de Carvalho, 
offerecendo varias obras, collecçces de leis, equatro 
projectis de guerra que pertenceram* a seu pae o 
Major Salvador Pires de Carvalho e Aragão; do 
académico Joio Carlos Vicente Vianna, offere- 
cendo á guarda do « Instituto » uma obra manus- 
cripta sobre os tempos primitivos da Bahia, es- 
pecialmente da Villa de Jaguaripc, trabalho de 
seu fallecido pae, Dr. Francisco Vicente Vianna, 
com autòrisação para ser publicada na Revista, 
salvo, porém, oseudireitode propriedade, devendo 



133 



os autographos scr reclamados do Sr. Gentil, con- 
tinuo da Inspectoria do Ensino, ao g[ual se acham 
confiados ; do i .** Secretario do <^ Instituto Histórico 
e Geographico» do Rio Grande do Norte, com- 
municando a installaçaodo mesmo « Instituto » a 1 5 
de Junho ultimo. Mandou-se agradecer as ofFertas 
recebidas. 

Finda a leitura do expediente o Snr. Conselheiro 
Presidente agradeceu sua reeleição e communicou 
que fora acceito sócio correspondente do «Instituto 
Histórico e Geographico Brasileiro», distincção essa 
que, disse, foi devida em grande parte ao valimento 
do nosso «Instituto», e leu diversas peças, por cópia, 
da acta da sessão em que foi admittido em visita 
no dia 4 de Julho do corrente anno. Dando em 
seguida, conhecimento ao «Instituto» do falleci- 
mento do sócio eífcctivo Dr. Pedro Moniz Leão 
Velloso, cujo elogio fez, propõe que se insira na 
acta um voto de pezar, o que foi approvado. 

O Dr. Braz do Amaral, em nome da commissão 
que levou a eífeito o concerto vocal e instrumental, 
em beneficio do «Instituto», realisado no dia 27 
de Agosto ultimo e organisado pela Exm." Sra. 
D. Maria Elisa Valente Moniz de Aragão, illustre 
consócia, leu o seu relatório, do qual consta que a 
receita até então arrecadada eleva-se a 2:424Sooo, 
faltando receber cerca de 3ooSooo, e que a despeza 
importa em 462^302 conforme os documentos 
justificativos que apresentava; e declarou que 
acceitava a explicação dada pelo Dr. Cabussú sobre 
o offerecimento de 40S000 feito pelos officiaes de 
rnarinha que compareceram ao concerto, oífere- 
cimento todo espontâneo, pois estavam munidos 
de bilhetes para cadeiras, oíferecidos pelo Dr. 
António Muniz. 

Pelo Snr. Conselheiro Presidente foi proposto 
que se inserisse na acta um voto de louvor á 



134 



com missão pelo modo por que se desempenhou do 
encargo, o que foi unanimemente approvado. 

Foram lidas duas propostas: uma, de sócios, 
que foi rcmettida á commissão, e outra, assignada 
pela mesa, para que, de accordo com o art. i3, g 2" 
dos Estatutos, fosse elevada a sócia honorária a 
sócia eífectiva,a Exm."Sra. D. Maria Elisa Valente 
Moniz de Aragão; e, resolvendo o «Instituto» que 
esta proposta fosse submetiida á votação inde- 
pendente de ir á commissão, foi unanimemente 
approvada. 

Nada mais havendo a tratar, foi encerrada a 
sessão. 

Approvada em sessão de 19 de Outubro de 1902. 
— Salvador Pires de Carvalho e Albuquerque. — João 
l^epomuceno Torres. — Isaías de Carvalho Santos 



OFFICIO DO CONSELHEIRO 
FRANCISCO SODRÉ 

«Exm. sr. conselheiro desembargador Salva- 
dor Pires de Carvalho e Albuquerque, digno pre- 
sidente do «Instituto GeograpHico e Histórico da 
Bahia». — E' bem conhecido c deve estar ainda bem 
vivo á memoria de nossos concidadãos daquella 
epocha e dos da actual a quem tenha chegado a 
tradição, o facto que occupou então a attenção 
inteira da cx-provincia, hoje Estado da Bahia, 
succedido cm y de novembro de i833 entre o dr. 
Francisco Sabino Alvares da Rocha Vieira e o 
alferes de 1." linha José Joaquim Ribeiro Moreira, 
quando este, ao enfrentar aquelle á porta do Paço 
Municipal, o aggrediu e otfendeu com um instru- 
mento aviltante em represália a injuria igual que 
dias antes (3o de outubro do mesmo anno) havia 
inflingido em seu irmão Vicente Ribeiro Moreira; 



135 



O que talvez não seja assaz conhecido, ou já 
esteja talvez esquecido, foi a defeza documentada 
e justificada que acompanhou a Petição de Graca 
e perdão que o dr. Sabino encaminhou em 18^4 
a Regência Permanente, que a deferiu indultan- 
do-o do delicto. 

Sabino, recorrendo das Justiças desta capital 
para as da então villa da Cachoeira, foi ali condem- 
nado por sentença do jury de 29 de julho de 1834 
a pena de 6 annós de prisão com trabalho e mais 
o augmento do art. 49 do Código do Processo. 

Desta sentença interpoz elle Recurso de Graça, 
sendo por decreto de 3 d: outubro de 1834 com- 
mutada a pena em igual tempo de degredo para 
á ex-provincia do Rio Grande do Sul; reconside- 
rado, porém, o Recurso, foi por decreto de 7 de 
novembro de i834 concedido o perdão puro e 
simples, mandando ficar de nenhum effeito o de- 
creto anterior. 

Foi referendário deste o notaveL estadista Au- 
reliano de Souza Oliveira Coitinho, depois Vis- 
conde de Sepetiba, que tanta influencia teve nos 
fastos políticos do paize passou. por ser o creador 
e chefe de um partido auíico ao tempo da Maiori- 
dade, e alguns annos depois gosou ae enorme va- 
limento e confiança junto do ex-imperador e de 
toda sua corte. 

O delicto indultado tirou sua origem nas des- 
avenças das lutas da politica encandescente da- 
quelles tempos da Regência entre os periódicos 
Inve:itigailor Brasileiro ^ a favor e da redacção de 
Sabino, e do Jornal do Commcrcio, contra, e da re- 
dacção de Vicente Moreira, irmão da victima. 

O [aveM.iqador, sustentava a Regência com to- 
dos os consectarios da abdicação de 7 de abril. 
O Jornal do Coinmcrcin^ defendia a Restaura- 



136 



ção do i,*" imperador, a cujo partido se deu o 
appeliido de Caramiirn. 

Similhantes papeis me parecem de algum va- 
lor á chronica aa Bahia por se referirem de perto 
á vida particular de um homem que teve parte 
proeminente nos seus acontecimentos: vindo a ser 
e tornar-se o principal factor da Revolução de 7 
de novembro de loSy, movimento mais accen- 
tuado do espirito e acção revolucionaria e demo- 
crática, que se deu na ex-provincia, e quiçá, em 
todo o resto do ex-Imperio, com excepção do Rio 
Grande do Sul. 

O «Instituto Geographico e Histórico da Bahia» 
devendo ser o repositório de toda sua historia po- 
litica, commercial e social, e de suas chronicas, 
aos seus archivos, supponho, devera ser recolhidos 
os documentos originaes e authenticos que as com- 
provem, como esses a que me venho reportando 
e que, como um dos seus mais obscuro.'» consócios, 
tenho a satisfação de olfcrecer-lhe. 

Desvaneço-me de ser com particular estima e 
elevada consideração de — V. ex. amigo, patrício, 
afFectuoso e constante admirador. — Conselheiro V*'. 
M. Sodré Pereira. f> 



Ooncerto vooal e instrumental 

«Sentimos ainda resoar-nos deliciosamente o 
que ouvimos no concerto hontem realisado em 
beneficio do Instituto Geographico e Histórico da 
Bahia^ no festival organisado peia actividade c 
pelo talento da exma. sra. d. Maria Elisa Valente 
Moniz de Aragão, distincta esposado illustre lite- 
rato bahiano, dr. Egas Moniz Barretto de Aragão 
{Pethion de Villar). 



i:í7 



E' sob a impressão do que a musica alli nos 
proporcionou, de emocionante e de indefinivel, 
que alTirmamos ter assistido a um raro aconteci- 
mento musical, summamente honroso para o nosso 
meio artístico. 

A professora laureada — mentalidade superior, 
consagrada ao que a arte produz de harmoniosa- 
mente bello — a sempre festejada pianista d. Maria 
Klisa enlevou o auditório em todas as peças con- 
fiadas á sua delicadíssima interpretação *e execu- 
ção: no concerto de Chamínade a dois pianos, com 
o dístincto professor Narciso Fígueras; no grande 
capricho hespanhol do compositor polaco Moszk- 
owskí — peça de magnifico efíeito, executada pela 
:>rimeira vez na Bahia; no grande trio de Lachner 
oara piano, violino e violeta e na Arle>iienne^ de 
/iizet, tocada a quatro mãos, com sua graciosa dis- 
cípula, senhorita Angelina Rebello, filha do dr. 
Guilherme Pereira Rebello, lente cathedratico da 
Faculdade de Medicina. 

As enthusiastícas palmas que a festejaram fo- 
ram justas homenagens ao seu talento tantas vezes 
comprovado de modo brilhante. 

A joven Angelina Rebello, pela firmeza da exe- 
cução, revelou apreciável estudo e mostrou dis- 
posições naiuraes de acompanhar de perto a gloria 
de sua professora, o que conseguirá com inteira 

dedicação á arte. 

> 

Fxcellente e promettedora a sua estréa. 

O-^professor Scheel colheu novos louros na exe- 
cução de um solo de Sarasate, em que se paten- 
teou consummado violinista, digno de confronto 
com celebridades eu ropéas. Não exagg^ramos neste 
preito que rendemos ao seu elevado talento. 

O dr. João Martins, pela sua possante, sonora 
c afinada voz de perfeito barytono, impoz-se, por 



138 



duas vezes, aos applausos do escolhido auditório: 
no prologo de Pagliacci e na beila ária Herodiade^ 
de Massenet. 

A senhorita Olga Domschke foi merecidamente 
festejada pela correcção com que executou ao vio- 
lino o Nocturno de Lhopin^ de Sarasate. 

E' realmente uma vocação digna dos maiores 
estimulos. 

A banda musical dos Orphãos de S. Joaquim, 
regida pela competência magistral do professor 
Guilherme Mello^ executou de forma briosa e cor- 
recta a Marcha 2 de Julho do finado maestro por- 
tuguez Barretto deAviz, um trecho triumphal da 
opera Aida e outra do Ernani. 

Ao digno regente enviamos parabéns pelos 
justos applausos com que o auditório galardoou 
os progressos de seus estudiosos discipulos. 

O aproveitamento que hontem revelaram honra 
sobremodo os reconhecidos méritos do abalisado 
professor. 

No final da segunda parte, mme. Maria Elisa 
foi mimoscada com delicada jóia, otferccida f>or 
sua discípula joven Angelina Rebello, que assim 
deu publico testemunho de gratidão a qucrn se 
mostra esforçada por seu adeantamento artistico. 

A directoria do Instituto offereccu elegantes 
ramos de flores ás gentis executantes. 

Concluindo esta rápida noticia, cumprimos o 
dever de felicitar ao illustrado Instituto Geogra- 
phico e Histórico pela festa brilhante, que lhe foi 
hontem propocionada e que tão grata impressão 
nos deixou. 

(/:\v/r. d' A Bahia de 28 de Ago.ito de igo2) 



130 

PROGRAMMA DO CONCERTO 

l" PARTE 

Viarrdto de Aviz — Marcha 2 de Julho, pela ban- 
da dos Orphãos de S. Joaquim. 

I. Mascagni — Ária de barytono, Pagliacci pelo 
dr. João Martins. 

II. Sarasate — Zigeiínerweisen — solo de violino 
pelo professor R. Scheel. 

III. Chaminade — Conccrstuck para 2 pianos, 
mme. Maria Elisa Valente Moniz de Aragão e 
professor N. Figueras. 

2" PARTE 

Verdi — Aidaj instrumentada por Paulus, pela 
banda. 

I. Moszkowshj — Grande capricho hespanhoL Solo 
de piano, mme. Maria Elisa Moniz Valente de 
Aragão. 

II. Sarasate — Nocturno de Cliopin. Solo de vio- 
lino, mlle. Olga Domschke. 

III. Lacliner — Trio para violino^ viola o piano, 
mlle. Olga Domschke, mme. Maria Elisa Valente 
Moniz de Aragão e professor R. Scheel. 

3' PARTE 

Verdi — Ernani^ instrumentada pelo professor 
Guilherme Mello, pela banda. 

I. Bizet—Arldesienne. Suite de conccrt. Piano a 
quatro mãos, mlle. Angelina Rebello e mme. Maria 
Elisa Valente Moniz de Aragão. 

II. Solo de canto, para barytono, dr.v João 
Martins. 



140 



III. Alard — Duo de violinos, mlle. Olga Dom- 
schke e professor R. Scheel. 

Os acompanhamentos forão feitos por mme. 
Moniz de Aragão e professor Figueras. 

O piano de Schiedmayer, grande formato, foi 
gentilmente cedido pelo dr. Pedro Celestino. 

Nos intervallos tocou a banda do i.** corpo 
da Brigada Policial. 



1)5' SESSÃO EM 19 DE OUTUBRO DE 1902 

Presidência do Exm. Snr. Conselheiro 
Dr. Salvador Pires. 

Aos de/enove dias do mez de Outubro de 1902, 
no salão do «Instituto», á i hora da tarde, pre- 
sentes os sócios Conselheiros Drs. Salvador Pires de 
Carvalho c Albuquerque, presidente, e João Tor- 
res, í.* Secretario, Capitão Ferreira Braga, the- 
soureiro, Drs. José Francisco da Silva Lima, Bo- 
nifácio Faria Rocha, Commendadores Salvador 
Pires de Carvalho e Albuquerque e pharmaceutico 
Joaquim Manoel de Sant Anna, Coronel Gonçalo 
de Athayde, Eloy Guimarães e Isaias de Carvalho 
Santos, 2." Secretario, foi aberta a sessão, sendo 
lida e approvada a acta da sessão anterior. 
O expediente constou do seguinte: 
Cartas: do sócio correspondente Dr. H. Von 
Ihering, director do Museu de S. Paulo, offere- 
cendo um estudo sobre «as abelhas indigenas so- 
ciaes do Brazil» ; do Snr. J. M. Pelliza, de Bue- 
nos-Ayres, communicando o fallecimento de seu 
pae, o sócio correspondente deste «Instituto», Snr. 
Mariano A. Pelliza, no dia 11 de Agosto ultimo; 
do Dr. Virgilio Rossel, professor da Universidade 
de Berne, aíçradecendo a sua eleição de sócio; do 



141 



sócio Alberto F. Rodrigues enviando uma edi- 
ção d'«0 Uruguay», de 1900 e o Almanack Po- 
pular para 1908; e um officio do Tenente-Coro- 
nel Dr. António Gomes da Silva Chaves, commu- 
nicando ter assumido o Cargo de Chefe da Dele- 
gacia da Direcção Geral de Engenharia junto ao 
Commando do' 3.** districto militar, em 3 de Se- 
tembro ultimo. 

E' lida, em seguida, uma proposta indicando 
para sócios effectivos os Drs. Manoel Freire de 
Carvalho, Miguel Calmon do Pin e Almeida e do 
General Dr. António de Sousa Dantas, a qual é 
enviada á respectiva commissão. 

Pelo Conselheiro Dr. presidente foi dito que 
o «Instituto» acaba de ouvir ler a communicação 
do fallecimento do esforçado sócio correspon- 
dente. Mariano A. Pelliza, illustre escriptor e sub- 
secretario das Relações exteriores em Buenos-Ay- 
res, e, por isso, na forma da praxe adoptada, o 
«Instituto» devia mandar inserir na acta um voto 
de pezar por tão infausto acontecimento, o que foi 
approvado. 

Pelo Snr. Conselheiro Dr. i ." Secretario foi lido 
o balancete de Janeiro a Setembro ultimo, apre- 
sentado pelo Snr. Thesoureiro, accusando uma 
receita de^ 9:2178000 contra uma despeza de 
8:5928127 e o saldo de 6248873; sendo remettido á 
commissão de orçamento: é igualmente lido o pa- 
recer da commissão de admissão de sócios, favorá- 
vel a acceitação, para sócios, dos Snrs. Albano Pe- 
reira de Carvalho e Dr. Pedro Luiz Celestino, 
effectivos, e correspondentes os Snrs. Barão do 
Assii da Torre e engenheiro Samuel Augusto das 
Neves, ficando adiada a votação por falta de 
numero legal. 

O mesmo Dr. i."" Secretario propoz que fossem 
expedidos diplomas aos sócios correspondentes, 



142 



Dr. Alberto dos Santos Dumont, professor Emilio 
Augusto Goeldi e o Dr. Hermann Von Ihering, 
independente de contribuição, pelos valiosos ser- 
viços por elles prestados ao Brazil, o que foi ap- 
provado. 

Pelo Snr. Conselheiro presidente foi dito que 
em breve achar-se-á entre nós, de passagem para 
a Capital Federal, o illustre brazileiro — Barão do 
Rio Branco — escolhido para occupar o logar de mi- 
nistro do exterior, peloDr. Rodrigues Alves, e que 
não devendo passar despercebido ao «Instituto» 
a estada, embora por pouco tempo, de tão cons- 
pícuo compatriota, por isso nomeava uma com- 
missão composta dos sócios Drs. José Francisco 
da Silva Lima, Domingos Guimarães e Braz do 
Amaral para cumprimental-o a bordo e convidal-o 
para vir ao «Instituto», caso haja opportunidade 
para o desembarque d'csse nosso sócio honorário. 

O Dr. Silva Lima disse que, sem cxcusar-se 
do encargo, todavia bem podia acontecer que, na 
occasião, não podessedesempenhar-sedo mandato 
pelos múltiplos affazeres que sobre si pesam, mas 
que envidaria esforços para cumpril-o. Ainda o 
Snr. Gon-iclheiro presidente, salientando os bons 
serviços do sócio Dr. Silva Lima, agradeceu, em 
nome do «Instituto» mais este que, certamente, 
será prestado. 

E nada mais havendo a tratar, foi encerrada 
a sessão. 

Aprovada em sessão de i6 de Novembro de 
1902. 

Salvador Pirrs de (Carvalho e ÀlhnfjucrqHe.—Jathf 
Nepomacciío Torres. — Joaquim Pires Muniz de Car- 
valho. 



14a 



97/ SESSÃO EM 16 DE NOVEMBRO DE 1902 

l^resiíloicia do Exm. Sm\ Conselheiro l)r. Sal- 
vador Pires de Carvalho e Albuquerque, 

Aos desesseis de Novembro de 1902, á i hora 
da tarde, presentes os sócios Conselheiros Drs. Sal- 
vador Pires, presidente, e João Torres, 1/ secreta- 
rio, Drs. Joaquim Pires Muniz, Júlio de Calasans 
e Joaquim Tanajura, Commendadores, Pharma- 
ceutico Joaquim Manoel de Sant^Anna e Salvador 
Pires de Carvalho e Albuquerque, Capitão Ferreira 
Braga, Henrique Praguer, Eloy Guimarães, Padre 
Luiz da França dos Santos e Coronel Gonçalo de 
Athayde, foi aberta a sessão, servindo de 2.** secre- 
tario o Dr. Joaquim Pires Muniz de Carvalho. Foi 
lida e approvada, sem debate, a acta da sessão an- 
terior. 

O expediente constou do seguinte: Officio da 
direcção do Lyceu de Artes e Otticios convidando 
o «Instituto» a assistira sessão magna commemo- 
rativa do 3o." anniversario de sua installação, a 26 
Outubro ultimo. O Snr. Conselheiro Dr. presi- 
dente declarou que havia designado uma commis- 
são composta dos sócios. Conselheiro Dr. F^ilinto 
Justiniano Ferreira Bastos e Drs. Guilherme Pe- 
reira Rebello e João Pimenta Bastos para repre- 
sentar o «Instituto» n'aquella solemnidade. 

Em seguida foi lida uma proposta para a ad- 
missão de sócios, a saber: Dr. Augusto Flávio Go- 
mes Villaça, medico, residente na Cidade de Ita- 
parica e Dr. António Augusto Cardoso de Castro, 
Ministro do Supremo Tribunal Militar, residente 
no Rio de Janeiro, ambos para sócios correspon- 
dentes. 

Foi também lido o parecer da Commissão de 
sócios, opinando pela acceitação, para sócios effe- 



144 



ctivos, dos Snrs. Drs. General António de Sousa 
Dantas, Secretario de Thesouro e Fazenda do Es- 
taJo, Miguel Calmon do Pin e Almeida, Secretario 
da Afíricultura e Manoel Freire de Carvalho, pa- 
recer que não foi votado por falta de numero legal. 
Pelo Snr. Conselheiro Dr. i.o Secretario foi 
communicadoque o «Instituto» teve três offertas: 
uma do Pharmaceutico Francisco Hermelino Ri- 
beiro—de uma cédula de iSooodo Império, outra 
do sócio Eloy Guimarães, de lavas do Vesúvio e 
55 moedas estrangeiras, de cobre e nikel de 12 pai- 
res dilterentes, e a ultimado sócio Coronel Gonçalo 
de Athayde Pereira, de um fóssil da região ama- 
zonica. 

O Snr. Conselheiro Dr. presidente, usando da 
palavra referiu-se á grande perda que acaba de 
soítrer a Bahia com o fallecimento do Dr. Manoel 
Victorino Pereira, e propoz que se inserisse na 
acta um voto de profundo pezar pela perda de tão 
notável bahiano, communicando também a deli- 
beração ja tomada de fazer-se o «Instituto» repre- 
sentar peia sua Mesa Administrativa em todas as 
homenagens, que lhe forem prestadas n*esta Ci- 
dade. 

A requerimento do sócio Capitão Ferreira 
Braga foi mandado inserir, na integra, a proposta 
do Snr. Conselheiro presidente : 

Snrs.: A Bahia, como todo o Brazil, foi sor- 
prchendida no dia 9 do corrente, pela infausta no- 
ticia da prematura extincção de um de seus mais 
dilectos filhos, o Dr. Manoel Victorino Pereira, 
dotado de invejável talento, servido de uma eru- 
dição tão pouco vulgar e cujas deslumbrantes scin- 
tiliações tanto irradiaram sobre a superfície inteira 
do paiz, que de todos os seus mais recônditos e 
longínquos ângulos porfiadamente parlem mani- 
festações de adhesão ao pezar que enluta a pátria. 



145 



que o bemqueria, á Bahia, que se ufana de lhe ter 
sido o berço, á familia que idolatradamente o es- 
tremecia. Bem se comprehende que o «Instituto 
Geographico e Histórico» não podia quedar-se indif- 
ferente ante o sentimento publico, ante o luto 
geral por tão irreparável perda; e, pois, im mediata- 
mente içou em funeral o seu estandarte, e eu re- 
solvi que a sua mesa faça-se representar em todos 
os actos fúnebres que hajam de ser celebrados 
n'esta Capital até á inhumação de seus venerandos 
despojos; assim como agora proponho que na acta 
da sessão de hoje seja lançado um voto de profun- 
do pezar, dando-se scienciadelle á desolada familia 
do illustre extincto. 

Cumpria-me agora, em rápido esboço, emittir 
um juizo critico sobre os actos e factos que illus- 
traram sua vida intima e publica; mas o que de 
novo poderia dizer-vos que, por uma antecipação 
reivindicadora já não tenha sido feito pela imprensa 
jornalística que, condensando a opinião publica, 
vulgarisou os actos mais salientes e recommcnda- 
veis de sua afanosa existência, desde a sua primeira 
mocidade, quando calejava-se-lhe a mão nos labo- 
res diurnos da officina, ao mesmo tempo que pelo 
amor instinctivo da sciencia velava as noites com 
o livro entre mãos, até sua perfeita virilidade 
mental; que tanto fructificou na tribuna do mestre, 
no gabinete cirúrgico, na arena jornalística, onde 
esgrimiu, erecto e adestrado Athleta, de altaneira 
fronte, que só curvou-se quando o gelado sopro da 
morte resfriou-lhe o suor das luctas? Não; não per- 
turbenlos osomno tranquillo em que repousa exte- 
nuado quem tanto mourejou na vida, que c, no 
dizer de um poeta : 

Medonho pélago de dores. 

Ooa de espinhos que nos dá o berço, 

E que depomos nos umbraes da tumba.» 

19 



146 



Approvada a proposta do sócio Braga, por sua 
vez o sócio Dr. Joaquim Tanajura propoz que se 
telegraphasse aos consócios Drs. Paula uuimarães, 
Satyro Dias e Montenegro para apresentarem á 
Ex."*' Viuva do illustre morto as condolências do 
«instituto», o que foi approvado. 

Por escrutinio secreto foram approvados e pro- 
clamados sócios effectivos o Commendador Al- 
bano Pereira de Carvalho, Dr. Pedro Luiz Celes- 
tino e Barão do Assú da Torre, e sócio Cor- 
respondente o Engenheiro Samuel Augusto das 
Neves, residente em S. Paulo. 

O Dr. Joaquim Pires fundamentou uma moção 
de felicitações ao illustre consócio Dr. José Joa- 
quim Seabra, que foi approvada, sendo expedido 
o seguinte telegrama: 

Meza «Instituto Histórico» nome «Instituto» 
sessão hoje, felicita V. Ex. eminente posição go- 
verno paiz. 

Nada mais havendo a tratar, foi encerrada a 
sessão. 

Salvador Pires de Carvalho e Albuquerque. — 
João Nepomuceno Torres.— Isaias de Carvalho Santos. 



98." SESSÃO EM 21 DE DEZEMBRO DE 1902 

Presidência do Exm. Snr. Conselheiro 
Salvador Pires 

Aos vinte um dias do mez de Dezembro de 
1902, á I hora da tarde, presentes os sócios Conse- 
lheiros Drs. Salvador Pires de Carvalho e Albu- 
querque, presidente, e João Torres, i." secretario, 
Drs. Reis Magalhães e Joaquim Tanajura, Capitão 
Ferreira Braga, thesoureiro, Commendadores, 



147 



pharmaceutico Joaquim Manoel de SantAnna e 
Salvador Pires de Carvalho e Albuquerque, Eloy 
Guimarães, Henrique Praguer, Coronel Gonçalo 
de Athayde e Isaias de Carvalho Santos, foi aberta 
a sessão, sendo lida e approvada, sem debate, a 
acta da sessão anterior. 

Pelo Dr. i.** Secretario, Conselheiro João Tor- 
res, foi lido o expediente que constou do seguinte: 

Um cartão do nosso consócio Dr. José Joaquim 
Seabra, ministro do Interior, agradecendo as con- 
gratulações enviadas pelo «Instituto»; duas Cartas- 
convitek: uma dos empregados do Thesouro para 
o «Instituto» se fazer representar na missa em lou- 
vor de sua padroeira, na matriz de S. Pedro, no 
dia 14 do andante, e outra do Dr. Intendente do 
municipio doesta Capital para o «Instituto» se fa- 
zer representar no acto da abertura da exposição 
escolar, no dia 7, no salão da bibliotheca munici- 
pal. Quanto á i." o Conselheiro presidente decla- 
rou que nomeava uma commissão composta dos 
sócios, professor Torquato Bahia, Dr. Braz do 
Amaral e Capitão Francisco Braga; quanto a 2." 
disse que deixava de nomear uma commissão por 
ter chegado tarde o convite. 

Officios: do sócio professor Elias de Figueiredo 
Nazareth communicando ter sido acceito para só- 
cio correspondente do «Instituto» dé S. Paulo' e 
incumbido de represental-o perante as associações 
congéneres, e outro do «Centro de Sciencias, I.et- 
tras e Artes» de Campinas, communicando a elei- 
ção de sua Directoria. 

Cartas: do Dr. Clodoaldo de Freitas, de The- 
rezina, remettendo varias publicações; do Dr. Al- 
berto Lofgren, enviando trez exemplares do seu 
relatório sobre o «Horto Botânico de S. Paulo»- 
do Dr. José Arthur Boiteux, secretario do «Insti; 
tutode Santa-Catharina, agradecendo a sua eleição 



Uí< 



para sócio correspondenle; do sócio Desembarga- 
dor Licínio Alfredo da Silva, communicando sua 
retirada para o Rio de Janeiro e pedindo para ficar 
inscripto como sócio correspondente, e do Dr. Je- 
ronymo Gonçalves, oíFerecendo dois pares de sapa- 
tos de borracha, feitos na região do Acre. 

E' lida também uma proposta para sócios eíFe- 
ctivos, dos seguintes cidadãos: 

Dr. Menandro dos Reis Meirelles Filho, En- 
genheiro Lino Meirelles da Silva e negociante Vi- 
cente Ferreira Lins do Amaral, a qual é enviada á 
respectiva com missão que, presente, deu seu pare- 
cer favorqveK o qual foi lido, bem como o que foi 
dado á proposta referente aos Drs. Augusto Flávio 
Gomes Villaça e António Augusto Cardoso de Cas- 
tro, ficando, porém adiada a votação por falta de 
numero legal, visto ser esta a i." sessão em qi:c é 
apresentado o parecer. 

Pelo Snr. Conselheiro Dr. presidente foi dito 
que n*esia scssíio devia ser apresentado o orça- 
mento da receita e despeza do «Instituto». 

O Commendador Salvador Pires, membro da 
respectiva com missão, diz que não pode ser apre- 
se ntado o orçamento por se acharem dois membros 
da commissão impossibilitados de funccionar: um 
por doente, e outro por ausente, e por essa razão, 
pedia que fosse adiada a apresentação para a i. 
sessão, o que o «Instituto» approvou. 

O Snr. (Conselheiro Torres propoz, então, e o 
«Instituto» approvou, que ficasse vigorando o orça- 
mento do exercicio anterior até ser confeccionado 
e approvado o novo. 

Foi submettida a votos uma proposta, com pa- 
recer favorável, já adiada de outra sessão, e, por 
escrutinio secreto, foram, unanimemente, approva- 
dos e proclamados sócios elfectivos os seguintes 
cidadãos: General Dr. António de Souza Dantas e 



141)' 



Drs. Miguel Calmou du Fin c Almeida e Manoel 
Freire de Carvalho. 

Nada mais havendo a tratar, foi encerrada a 
sessão. 

— Salvador Pires de Carvalho c Albuquerque. — 
João Nepomuceno Torres. — Isaias de Carvalho Santos. 



OFFERTAS 

Além dos Jornaes, e Revistas, nacionaes e es- 
trangeiras, ^ue permutam com a «Revista», rece- 
beu o «Instituto» durante o anno, muitas outras 
oliertas cuja relação consta do livro respectivo, a 
saber: 

KM JANEIRO — Revista do Archivo do Muni- 
cipio da Capital, n. 7; — Leituras Recreativas (Lyceu 
Salesiano) ns. i a 6; — Almanak de Pernambuco 
para 1902; — Almanak Popular de Pelotas, vol. 9^ 

Do sócio major Rogociano Teixeira — O dis- 
curso autographo proferido pelo Dr. Ruy Barbosa 
perante o Supremo Tribunal Federal impetrando 
habeas-corpus em favor dos implicados no atten- 
tado de 5 de Novembro de 1897, comum prefacio 
do Dr. Aristides Milton; e um livro contendo vá- 
rios discursos e manifestos do Dr. Ruy Barbosa. 

Do sócio Xavier Marques: — exemplares de al- 
guns trabalhos do professor Guilherme Baldoino 
Embirussú Camacan. 

Do sócio major J. Domingues Codeceira — plan- 
ta do Forte Real do Bom Jesus, edificado por Ma- 
thiasde Albuquerque, no Recife. 

De D. Maria José Serva: — dois quadros, o re- 
trato do grande pintor bahiano Velasco, e uma fina 
pintura, obra do mesmo. 



IdO 



Do Capitão Cândido Cardoso — 3 cédulas para- 
guayas. 

Do Desembargador José A. Saraiva: — «Oito 
annos de parlamento c o Conselheiro Saraiva», 
pelo ofFertante. 

Do sócio Desembargador Thomaz Montenegro: 
— O livro do Centenário (i5ooa 1900) 2 vols.; Po- 
litica Commercia! da França, 2 vols.; Magnetismo 
e Somnambulismo, 2 vols.; Emancipação dos es- 
cravos, parecer do Dr. Ruy Barbosa; A deshonra 
da Republica pelo general Honorato Caldas; Annua- 
rio histórico dos povos por Levy; The New Bra- 
sil por Marie Robinson, 1900; A retirada da Laguna 
pelo Dr. Alfredo Taunay; A Campanha de 18 r 5, 
attlas especial pelo general Charrás; A Itália Agrí- 
cola; O problema da pólvora no Brazil; Colonisa- 
ção da Algéria, 2 vols.; Administração financeira 
das Communas, 2 vols.; Historia antiga e moderna, 
2 vols.; A reforma monetária pelo Dr. Amaro Ca- 
valcanti; A Carta do Brazil, projecto elaborado no 
Estado maior do exercito; Historia da edade media 
por Calogcras; Annuario da industria na Bélgica; 
Viagem de um economista na Itália; O marquez de 
Pombal por Clemence Robert; O orçamento do im- 
pério desde sua fundação pelo senador Liberato 
Carreira; Os caminhos de ferro russos de iSSy a 
1862; A Industria na Europa por Luiz Reibaud; 
Economia politica por Fonteirand; A insirucção 
secundaria na França por Passy; Discursos parla- 
mentares por Mattoso Camará; Geoj^raphia do 
Brazil pelo Dr. Praxedes Pacheco; índice da Le- 
gislação geral de 1861 a 1870; Legislação sobre os 
caminhos públicos porGarnier; Almanak Hachette 
para 1901; Profissão das armas pelo brigadeiro 
Sanchez Osório; Trabalhos judiciários do Dr. Cae- 
tano P. Montenegro; O Poder em França por 



151 



Wallon; Exposição nacional e notas pelo Dr. Ro- 
sendo Moniz; Hernâni, drama em 5 actos, por 
Victor Hugo, vertido por Ernesto da Fonseca; e 
vários outros opúsculos. 

EM FEVEREIRO E MARÇO. Boletim de Agricultura 
(S. Paulo) n. 12, 1901; o Arauto, n. i, i902(Bahia); 
«Revista de Lisboa» Dezembro de 1901; Cosmos, 
n. I, 1901(8. Paulo;) A Situação (Bahia), n. i, 1902; 
Relatório apresentado ao governador da Bahia pelo 
engenheiro agrónomo João Silveira em 1901; Regu- 
lamento geral da Secretaria doThesouro e Fazenda 
do Estado; Relatório apresentado ao governador 
da Bahia em 1900 pelo secretario da Viação, en- 
genheiro José Joaquim Ribeiro Saldanha; A «Mala 
da Europa», (1902). 

Do Director da Imprensa nacional — 8 vols. do 
Projecto do Código Civil Brazileiro e os trabalhos 
da Commissão especial da Camará dos deputados. 

Do sócio Dr. Manoel Cardoso Barata — As In- 
dustrias Extractivas. 

Do sócio Conselheiro João Torres — O Binóculo, 
impressões de viagem por Filinto de Oliveira; 
Monarchia e monarchistas pelo Conselheiro Tito 
Franco de Almeida. 

Do Director da Escola de Engenharia de Lima 
(Peru) — Anales de Construcciones Civiles, minas 
e industrias dei Peru; Memorias publicadas por la 
Sociedad de ingenieiros dei Peru. 

EM ABRIL. — «Almanak Illustrado das Famílias 
Catholicas Brazileiras para 1902; Annacs da Bi- 
bliotheca e Archivo Publico do Pará; Relatório 
apresentado ao governador do Amazonas pelo res- 
pectivo director; Relatório do Comité Patriótico 
da Bahia (Campanha de Canudos); Hypnotismoe 
suggestão, these do Dr. Ulysses Paranhos. 



lító 



Do sócio engenheiro Miguel de Teive e Argollo: 
— Um catalogo movei de cíassificação decimal e o 
Index de Devey. 

Do Dr. Anisio Circundas de Carvalho: — Um 
arco artisticamente trabalhado, e uma collecção de 
frechas de varias espécies, obtidos dos Bororós 
Coroados, de Matto-Grosso. 

Do Sr. Romario Martin;: — Limites a Sueste 
(Questão de limites entre os Estados do Paraná e 
Santa-Catharina). 

Do sócio J. C. Branner. — BuUetin of the Geo- 
logical Society of America, vol. 1 3; Geology of the 
Northeart Coast of Brasil pelo otf.; Depression 
and elevations of the Sauthern Archipelagoes of 
the Chile por Francisco Vidal Gormaz. 

— Pela sócia Exma. Viscondessa de Cavalcanti: 
— Obras Clássicas de grande valor: Virgilius Bur- 
manorum (1746). 4 vols.; C.C. Taciti — Opera — 
(1672) 2 vols; Phcdri Fabulae (1667); Ketclius, De 
Elcgantori Latinitate, (1713); Trium linguarum Di- 
ctionarium; Vossios- -Ars Poética (1747); Erasmus, 
Stultitia* Laus — (1676); I^rasmus, Vita et Epistola* 
(1642); H. (irothii, Dissertatií)nes(i()45; J. Pontani, 
Poemata (i5o5); N. Heinsii, Poemata — (1766); Di- 
ctionarium Poeticum apud Stephan; Encomia, 
(1666); Gasparis Barkxii, Poemata; Symbola Divina 
et Humana Pontificum, Imperatorum, Regum; 
Sabini — , Poemata (1(378); De Império Magni Ma- 
golis Carmina Varia (i5i8); Obras de Donoso Cor- 
tes — 5 vols; Grotius— Le Droit de Prise; The Re- 
public of Rcpublics; Bryce-The American Com- 
monwealth — 3 vols; The Theory of our National 
Existence; Her Magestys Colonies. 

EM MAIO. — Annaes do Brazil, n. i a 3 (Rio) 1902; 
— Theses de concurso ao cargo de Conselheiro do 
Tribunal de Appellação pelos Juizes de Direito 
l^zequiel Ponde. Canâido Leão e Arlindo Lcone 



153 



cm 1902; Mensagem do governador da Bahia ao 
Congresso Kstadoal em 1902; Relatório da Asso- 
ciação Commercial em 1902; Idem da Sociedade 
Beneficência Caixeiral em 1902; Estatutos da ((So- 
ciedade Bahiana de Agricultura» 1902. 

Do sócio Dr. José António da Costa- -100 
moedas de vários paizes. 

Do sócio capitão de mar e guerra António Alves 
Camará — 4 moedas adquiridas em Tanger, sendo 
I de ouro e 3 de prata. 

Do sócio Capitão Manoel Raymundo Quirino: 
— 3 medalhas da Campanha do Paraguay, perten- 
centes ao* Tenente Coronel Feliciano Pimentel do 
54 bathalhão de voluntários. 

Do Provedor do «Collegio dos Orphãos de S. 
Joaquim» — Uma bandeira do regimen imperial, 
existente n'aquelle Collegio. 

Do bacharel Aristides de Araújo Maia -Recor- 
dações (Minas), pelo oíiertante. 

Do engenheiro Demétrio de Araújo: — «O Pro- 
pulsor», I vol., encad, correspondente aoannode 
1901. 

Do académico José Teixeira da Matta Bacellar 
— Um cachimbo fabricado na Ilha de Marajó 
(Pará). 

Do Dr. Manoel Pirajáda Silva: L' Histoiredes 
dirigeables, Santos Dumont. 

Do sócio Capitão de mar e guerra António Al- 
ves Camará — Quinze moedas de cobre, do Brazil e 
de outras nações; — La Geographie, par P. F. Bai- 
nier — (Paris),* 1877; Dictionaire de T Economie Po- 
litique — 1873 — 2 vols; Histoire de la Litterature 
anglaise — par H. Taine, 5 vols; Histoire de Napo- 
lion I. par Lanfrey — 5 vols; La Guerre et la 
Paix, par P. J. Proudhon — 2 vols; Histoire des 
Verges, par Louis Jacob — ; La linguistique, par 
A. Horulacque; La Ligue et Henri IV, par M. Ca- 

20 



154 



pefigue; L'esprit nouveau, par Edgar Quinet; His- 
toire des progress du droit des gens en Europe, 
par Henry Wheaton; Histoire de la Civilisation 
en Europe, par M. Guizot; Génio da Lingua Por- 
tugueza, por Francisco Evaristo Leoni— 2 tomos; 
Historia de Portugal nos séculos 18 e 19, por uma 
sociedade de homens de lettras; Philosophia Fun- 
damental por Don Jaymé Balmés, 2 tomos, i85i. 

EM JUNHO— «Revista do Instituto Archeologico 
e Geographico de Pernambuco», n. 56, vol. 10, 
1902; Leituras Recreativas (Lyccu Salesiano), n. 11; 
Estatutos do Circulo Catholíco Romano da Bahia; 
«Mala da Europa», ns. 39 e 40; Publicações do Ar- 
chivo Publico Nacional, vol. iii, 1 902 *e Catalogo 
da Bibliotheca do mesmo Archivo; Correio de S. 
Francisco (Joazeiro), ns. i e 2 1902. 

Do sócio Conselheiro João Torres — Um mappa 
das republicas sul-africanas, iheatro da guerra an- 
glo — bóer. 

Do sócio Conselheiro Filinio Bastos — Duas me- 
dalhas commemorativas do 3** centenário de Luiz 
de Camões e do 4* descobrimento do Brazil. 

Do cidadão Karlos Weber — 4 moedas de cobre 
dos annos de 1761, i8i3, i8i4e 1818, e uma me- 
dalha do 3" centenário de Luiz de Camões. 

Do sócio Engenheiro J. Feliciano da Rocha — 
Uma medalha commemorativa da Exposição de 
Paris, em 1900. 

Do sócio Dr. Aristides A. Milton — A Campanha 
de Canudos, memoria lida no «Instituto Histórico 
Brazileiro». 

Do sócio Dr. Nina Rodrigues — O Alienado no 
direito civil brazileiro, e Apontamentos medico-le- 
gaes ao projecto do Cod. Civil brazileiro, 2 vols. 

Do sócio capitão de mar e guerra António Al- 
ves Camará: — 26 obras em 8g volumes, a saber: 
Encyclopedie moderne, par Firmin Didot Fréres 



15Õ 



27 vols.; oeuvres Complets de BuíFon, 3 vols.; His- 
toire des sciences naturelles par Georges Cuvier, 
2 vols.; Elements de Chimie par Orfila, 2 vols.; 
Du lait par Bouchardat, i vol; Voyage en Chine 
par Lavallée, i vol; Pantheon Maranhense, Hen- 
rique Leal, Lisboa, 4 voJs.; Annaes do observató- 
rio do Rio, I vol.; Relatório da Commissão ex- 
ploradora do planalto central do Brazil, 2 vols.; 
Anno Biographico Brazileiro, 3 vols.; O primeiro 
reinado, ou a Revolução de 7 de Abril de i83i, 
I vol.; O Império do Brazil na Exposição de Phi- 
ladelphia, i vol.; Historia de Rosas e sua epocha 
(Paris) 2 vols.; Poesias de Manoel Maria Barbosa 
du Bocage, 6 vols.; Biographie nouvelle des con- 
tcmporains, 19 vols.; O Economista Brazileiro, 2 
vols.; Histoire deCromwell par Villemain i vol.; 
O Pará na Exposição de Paris, 1889; e outros 
opúsculos. 

Pela Secretaria do Ministério da Fazenda do 
Peru — Padron General de minas; Memorias de 
viaje y datas relativas a los selvajes de la region 
oriental, pelo Dr. D. David Munoz; Informe sobre 
las pertenencias de la mina «Santo Domingo» de 
la provincia de Carabaya por el Ingeniero de mi- 
nas D. José Balta; Informe sobre la operacion 
pericial praticada en el Lavaredo «Santo Antó- 
nio de Poto» por el Ingeniero D. J. Balta; Confe- 
rencia dada en la «Sociedade Geográfica» de Lima 
por el Dr. Manuel Samudis; Memoria que el Di- 
rector de Fomento apresenta ai Snr. Ministro dcl 
Ramo. 

EM JULHO K A(i(Ksio — «Revista do Archivo Publico 
Mineiro») (Janeiro a Junho), 1902; «Revistada Asso- 
ciação Typographica (Bahia), n. 1, 1902; «Revista da 
Legislação» (Rio), n. i; Manifesto á Lavoura (syn- 
dicatos agrícolas); «Mala da Europa», n. 4^ com re- 
trato do principe D. Luiz Felippe; «Revista ítalo- 






tt Americana», n* 2, igaa; O cEsiandarte», ns- 1 e a 
(Forlaleííau lyoj; Rei a tório apresentado ao gover- 
nador de S. Paulo pelo Dr* Anionio Candiao Ro- 
drigues, igo2; As Artes graphicas da Bahia á nação 
Chilena, 1902* 

Do sócio Belisario Pernambuco— A Maçonaria 
c o proletariado (Centenário do Brazii). 

Do sócio Dr. Luiz Gualbcrtn- t^xpostção his- 
tórica— jurídica pelo Dr. iVianoeJ da Silva Maíra, 
questão delimites entre Santa-Catharina e Paraná. 

Do Sr. Ernesto Senna — Conselheiro António 
Ferreira Vianna, sua vida e suas obras, 1902. 

Do Sr. João de Brito— «Rogério», drama em 
3 actos, pelo oífertante. 

Do sócio Philoteio de Andrade — O «Oriente II- 
lustrado Goa», 1899. 

Do sócio Conselheiro Francisco Sodré Pereira 
— Vários manuscriptos que acompanharam a pe- 
tição de graça e perdão que o Dr. F^rancisco Sa- 
bino encaminhou em 1834 a Regência Permanente 
sobre o assassinato do alferes José Joaquim Mo- 
reira, n^esta capital, em 7 de Novembro de i833. 

EM SETKMBRO— Registro Oficinal de Fomento (Li- 
ma); Relatório apresentado ao governador da 
Bahia pelo Secretario de Agricultura e Viação em 
1902; Considerações sobre a Conferencia Âssuca- 
rêira da Bahia pelo Engenheiro Alexandre Góes, 
1902; «Revista do Grémio Paraense», n. i, 1902; 
«Revista do Grémio Litterario da Bahia», n. 10, 
iro2; «Revista da Bahia», n. i, 1902. 

— Pela Directoria do Congresso Latino Ame- 
ricano (xMontevidéo): Organisação e Resultados 
Geraes do Congresso, 2 vols. 

Pelo sócio Dr. Egas Moniz B. de Aragão: — O 
Maranhão e seus recursos por Fran Paxeco, O 
Sangue Latino, Silvio Romero e a litteratura por- 



157 



tugueza, por F. Paxeco; Mais Mundos, por T. 
Braga. 

Pelo engenheiro Miguel Calmon: Applicações 
industriaes do álcool, pelo otFertante. 

Pelo sócio Coronel Raymundo Alves da Cunha: 
Mensagem ao Congresso Legislativo do Pará pelo 
governador Dr. Augusto Montenegro; Polyanthea 
dedicada ao Dr. Firmino Cardoso (Belém.) 

Pelo académico Virgilio de Aragão: Varias 
obras que pertenceram ao seu fallecido pae, ma- 
jor Salvador Pires de Aragão, entre outras as se- 
guintes: Tratado dos reconhecimentos militares 
pelo professor* Unger; Manejo do fusil allemão, 
cm 1888; Manejo da clavina Mauser, modelo bra- 
zileiro; Manual do aprendiz artilheiro, por Antó- 
nio Duarte; Curso da arte militar, pelo general 
Faré; Manual do louceiro por Boyer; A táctica 
das três armas; Consolidação da legislação militar, 
4voIs.; Ordens do dia, exercito em operações no 
Paraguay, 9 vols.; Leis e Decisões do Brazil, 29 
vols.; «Revista Militar», 21 fases.; Os combates fu- 
turos, I vol.; Guerra do Paraguay, por Jourdan, 
1890; A guerra em Campanha rasa, i vol.; A 
ckisse militar perante as Camarás, 1 vol.; Des- 
cripção e applicação dos telephones; Hygiene dos 
quartéis, these do Dr. Calasans; — 2 cartuchos com 
projectis, e i granada para canhão rewolver. 

KM OLTiimo— Relatório do Chefe de policia ^ 
segurança ao governador da Bahia, em 1902. 

Pelo sócio Major Rogociano Teixeira: A situa- 
ção da marinha mercante no Brazil; Relatório dos 
serviços dos Correios em 1900 pelo Dr. Antonino 
Pires de Souza; «Diário do Congresso», n. 17 r, 1902. 

Pelo sócio Alberto F. Rodrigues: O «Almanak 
Popular» para 1903 (Pelotas); «O Uruguay», poema 
cpico. 



1Õ8 



Peio sócio Barão de Studart: 12 exempiares 
do seu trabaiilo — O Padre Martin de Nantes e o 
Coronei Dias de Ávila. 

Pelo sócio Padre Dr. Júlio Maria: O Deus des- 
presado; Apostrophes; A Graça; A Paixão. 

Pelo académico Octávio Brandão: Um pente 
de tartaruga encontrado nas ruinas do seminário 
de Belém, e i barrete de pelle de macaco do 
Amazonas. 

EM NOVEMBRO E DEZEMBRO — «Revista do Gremio 
Litterario da Bahia», n. 11, 1902; Relatório do Ins- 
pector Geral de Hygiene da Bahia, em 1902; Annaes 
da Gamara dos Deputados e do Senado da 
Bahia, em 1902; «Revistada Bahia», n. 2; «Revista 
do Museu de S. Paulo», vols. i e 2; «Revista do 
Centro de Sciencias, Lettras e Artes», de Campi- 
nas, n. I, 1902: Estatutos e Regimento Interno 
do «Instituto Agronómico e Industrial da Bahia»; 
Mensagem apresentada á Assembléa do Ceará pelo 
Dr. Pedro Augusto Borges, em 1902, e Relatório 
do secretario da Justiça, Dr. António Sabino do 
Monte; Informe de los Profesores de la Escuela 
de Agricultura, e notas sueltas, por Dr. Patron 
(Lima); El Peru por António Raimondi, vol. 4.% 
Lima. 

Pelo sócio Dr. J. Branner: Origin of the fins 
of fishes. 

Pelo sócio major Rogociano Teixeira: l\irecer 
do senador Dr. Ruy Barbosa sobre a redacção do 
Projecto do Código Civil Brazileiro; Ligeiras ob- 
servações sobre as emendas do Dr. Ruy Barbosa, 
pelo Dr. Ernesto Carneiro Ribeiro. 

Pelo sócio Dr. Pedro de Queiroz: P^studos So- 
ciaes, O Projecto do Código e o Divorcio, pelo 
ofFertante, 



159 



Pelo sócio Dr. Severino Vieira: Campos Sai- 
Ics — Discursos— Na Propaganda, T. vol.. Na Re- 
publica, 2". vol. 

Pelo sócio Dr. Joaquim Tosta: O Divorcio, o 
Calholicismo e a mulher (Conferencia, Maio de 
1902). 

Pelo sócio Desembargador Jeronymo Gonçal- 
ves: 2 pares de sapatos de borracha feitos no Acre. 

Pelo Dr. Alberto Lofgren: 3 relatórios sobre 
o Horto Botânico de S. Paulo. 

Pelo Dr. Clodoaldo de Freitas (Therezina): A 
Libertação do Ceará; Commemoração do meio 
centenário da cidade de Therezina; Almanak Pi- 
auhiense para igoS. 

Pelo sócio Eloy Guimarães: lavas do Vesúvio 
e 55 moedas, de cobre e nikel de 12 paizes diffe- 
rentes, adquiridas em sua ultima viagem á Europa. 

Pelo sócio Coronel Gonçalo de Athayde: um 
fóssil de peixe da região amazonica. 



SUMMARIO DO N. 29 



PAGS 



Memoria Histórica sobre os acontecimentos de 24 de Novembro 

de 1891 na Bahia, polo Dr. Braz H. do Amaral * . 3 

Levantes de pretos na Bahia, pelo sócio Dr. Eduardo de 

Caldas Britto 9G 

As insurreições dos africanos na Bahia, por José Carlos 

Ferreira 95 

Ofíicio do chefe de policia Dr. Francisco Gonçalves Martins 

sobre a insurreição de 1835 e outros documentos . . 108 

Actas das sessões do Instituto em 1902 121 

Concerto vocal o instrumental em benefício do Instituto . 136 

Publicações recebidas pelo Instituto durante o unno de 1902 lOd 



REVISTA 



— DO — 



|n§titHta teir(iíi|ií0 e iistrò 

H NTíAlwí KM 1894, RECONHECIDO DE UTILIOAOE PUBLICA 
l*é£4.A LEI N. IIO DE l3 OE AGOSTO DK iHfp 

Máxima sunt documenta cquidein res temporis acti 
In pnie^eRs, validusque in wnÚTtô stimuUis, 



AN NO XI 



1904 

VOL, XI 



N. 3o 




BAHIA 

Typographl» BAHIAITA, d« O. MelcbUd«B 
25— Rna do Arsenal de Marinha— 26 

1905 



REVISTA 



— DO — 



lnstitnto iíígroíiliííj t iistnrifo 

VVNlíAIM KM 1894, RECONHECIDO DE UTILIOAOC PUBLICA 

vílla lei n. iio de i3 oe agosto DE 1H93 

Máxima sunt documenta equidetn res temporis acti 
In prcejwns, validusque in veni<'i\8 stimuUis, 



ANNO XI 



1904 

VOL. XI 



N. 3o 




BAHIA 

Typograpbl* BABIAlf A, d« O. M«lclil«deB 
25— Rna do Arsenal de Marinha— 26 

1906 



REVISTA 



DO 



iDsinto GeograpMco e Histórico da Balda 

Anno XI 1904 flum. 30 



MEMORIA HISTÓRICA 

Sobre a Prodamaç&o da Republica na Balda (*) 

I 
A PROPAGANDA 

l^AviA sido tão dura a repressão da revolta 
.jtÍ" republicana de iSSy, tinha sido, após esse 
periodo, durante todo o 2.** reinado, tão astuta- 
mente corruptora e hábil a politica do Império, 
que parecia morta, a não ser um outro pequeno 
rebento, a arvore da Republica Brazileira aqui na 
Bahia até cerca de i888- 

Não era, porém, completamente secca a planta 
nem extincta toda a vida. Havia propriamente 
torpor e para os velhos que ainda se lembravam 
de 1837, reminiscências atemorisadoras e amargas. 
Um ou outro cidadão professava princípios repu- 
blicanos como os Drs. Frederico Lisboa e Henri- 
que Alvares dos Santos que publicaram, o primeiro 
o pequeno periódico Horizonte, e o segundo o 
Santelmo; estes jornaes sahiram e viveram algum 

(*) Memoria Uda na sessão magna do Instituto de 3 de Maio de 
1904, peto Orador Dr. Braz do Amaral. 



fempo mas ninguém os lia, além de um pequenís- 
simo circulo de crentes e enthusiastas talvez. Os 
moços falavam também na Republica emquanta 
cursavam as aulas; em regra geral, porém, depois 
disto alistavam-se nas fileiras de um dos dois par- 
tidos dominantes e eram arrastados por elles. 

O impulso dado pelo manifesto de 1870 esmo- 
recera de todo e havia concorrido jjoderosamente 
para isto a penitencia dos arrependidos, feita pelos, 
seus signatários que haviam acceitado logares nos 
conselhos da coroa e haviam preferido as vantagens, 
das posições sociaes e seus proventos á gloria um 
tanto secca das perseguições. 

Após o manifesto de 1870 houve um movimenta 
republicano nas Provincias que repercutiu aqui na 
Bahia, onde se fundou um club. 

Este club funccionou primeiro em uma casa da 
antiga rua Direita de Palácio, actual rua Chile, 
esquina da travessa chamada de Maria Pires e 
depois transferiu as suas sessões para a rua da 
Lama, onde hoje é o n. 24. Delle faziam parte: 
Mathias Tavares da Gama, ourives-gravador, que 
presidia ás sessões; Frederico Lisboa, orador e 
poeta, homem de talento e coração destinado ainda 
a ser um dos caracteres mais adamantinos pela 
pureza immaculada do seu proceder na campanha 
abolicionista; Júlio Gama, filho do primeiro e 
então estudante de medicina, assim como Aquino 
Fonseca; o Dr. Henrique Alvares dos Santos, o 
capitalista Fróes, o agente de negócios Lycurgo 
Moscoso, o bacharel Teixeira Soares e o artista 
Sulpicio de Lima e Gamara, que deviam pertencer, 
27 annos depois, ao club de 1888; D. Garlos Bal- 
thazar da Silveira, Alipio Pinto, Gassiano HypoUto, 
Alfredo Montanha, Gesar Moniz, Dr. António 
Spinola de Athayde, Lellis Piedade, então estu- 
dante de pharmacia, Eduardo Garigé Baraúna, 
Pamphilo da Santa Gruz, que a revolução de 1889 



devia vir encontrar tão dedicado á mònarchia è 
outros. 

Este club foi inaugurado em 21 de Abril de 
1876, sendo presidente da provincia o sr. desem- 
bargador Henrique Pereira de Lucena, o qual man- 
dou uma força de cavallaria de linha percorrer as 
immediações da casa emquanto que uma outra 
força de infantaria de policia cercou o edificio^ 
obrigando alguns sócios a fugirem pelo fundo* O 
club, porém, apezar de ter chegado a apresentar 
candidatos ás eleições da cidade em 1876, desappa- 
receu em resultado da indiflferença do publico e da 
perseguição das autoridades, o que se compre- 
hende, attendendo a que, pelas leis do Império, 
as sociedades não se podiam considerar organiza- 
das nem tinham existência jurídica sem que fossem 
antes os seus estatutos approvados pelo governo ; 
ora, como, naturalmente, os republicanos não iam 
submetter os seus estatutos á approvação dos repre- 
sentantes do poder imperial, acontecia que este 
podia considerar o club da rua da Lama como não 
existente legalmente, apenas sociedade secreta ou 
união sediciosa, da qual não admittia reclamações. 

O peridioco Tribuna representou por algum 
tempo a propaganda sob as inspirações de Frederico 
Lisboa, Aquino Fonseca, Lellis e Carige' em arti- 
gos assignados — Alma de Tiradentes, mas isso 
depois desappareceu, e os números que encontrei, 
de 1877 em deante, não podem mais pretender este 
nobre papel, porque alguns artigos de tendências 
republicanas são misturados a pasquins, allusões 
pessoaes e grosseiras, linguagem insultuosa e torpe, 
e tudo o mais que revela a degradação de uma 
gazeta. 

A massa da nação até 1889 não estava no caso 
de discutir c escolher uma forma de governo, pois^ 
só para o fim do Império começava a comprehender 
o jogo da monarchia representativa. 



6 

Ainda, porém, a machina funccionava mal e só 
após loannos de appUcação recta da lei eleitoral 
do sr. Saraiva é que ella chegaria talvez á posse da 
sua consciência politica. Foi nestas circumstancias 
que por um processo todo revolucionário se fez a 
abolição do elemento servil, medida aliás altamente 
nobre e humanitária, acima de todos os elogios, 
mas que pelo modo precipitado e imprudente pelo 
qual foi realizada atirou o paiz ao caminho de gra- 
ves aventuras. 

Previra-o o espirito superior do atilado estadista, 
que arrostara o delirio do triumpho abolicionista 
na prophecia que o senado ouviu dos seus lábios 
de vencido. A victoria da opinião publica na ques- 
tão, após uma curta e brilhante campanha legal 
que pôde servir de medida de como nós estavamo- 
nos adeantando em matéria de emprehendimentos 
pelo systema da democracia representativa, não 
podia deixar de abalar profundamente entre os 
prejudicados, que constituíam a classe dos agri- 
cultores, grandes possuidores do solo, que foi sem- 
pre a mais dedicada á monarchia constitucional, 
o respeito pelas leis do Império e o acatamento 
pelas pessoas dos imperantes. Sentira-o de certo 
Pedro II, e não se comprehendem de outro modo as 
suas longas hesitações nesta questão, ellc tão natu- 
ralmente altruista, e tão inclinado ás medidas ou 
reformas que exaltassem aqui e no extrangeiro a 
sua reputação de rei moderno e progressista, e não 
se pôde deixar de admittir^ reflectindo na precipi- 
tação da lei de i3 de Maio, que ella foi principal- 
mente para a regência um meio de popularizar-se, 
preparando com esplendido prenuncio o terceiro 
reinado contra o qual havia muitas prevenções no 
paiz, e que vinha próximo. Causas múltiplas 
tinham enfraquecido o governo e dois factos, 
acima de quaesquer outros, o provam bem: a 
incapacidade manifesta da autoridade e do poder 



judiciário para julgar o assassinato dé Um indi- 
viduo, feito na rua, em pleno dia, porque o crime 
fora commettido por militares; e as tergiversa- 
ções, fraquezas e evidente impotência do governo 
na chamada questão militar, ainda amargurada 
e humilhada assim como todo o prestigio da 
ordem no paiz, pelo triste incidente de que foi 
protagonista um official de marinha reformado 
e cuja prisão, effectuada pela policia em condi- 
ções taes que muitas delias todos os dias se 
fazem, foi pretexto para um desses estardalhaços 
arrogantes, que só se vêem nas localidades domi- 
nadas pelo extrangeiro despótico, a quem as dis- 
pôs içõe^s do direito commum não attingem. 

Conhecia bem todos estes indicies de grave 
moléstia politica o poderoso demolidor que no 
Diário de Noticias abalava, como Sansào^ as 
columnas do templo, que assignara o voto em 
separado no congresso liberal e accentuava a sua 
attitude de guerra sem tréguas no dia seguinte 
áquelle em que subia ao poder a situação liberal, 
pelo gabinete 7 de Junho, presidido pelo visconde 
de Ouro Preto. 

Foi nesses dias que se fez ao Norte a viagem 
do conde d' Eu, como uma espécie de apresentação 
do futuro principe consorte. Acompanhou-o no 
mesmo vapor costeiro, em uma espécie de steeple- 
chase politica, o propagandista republicano Silva 
Jardim. Das duas imprudências devia resultar aqui 
na Bahia lamentável intercurrenc ia. '■ 

Aa idéas republicanas entorpecidas haviam sido 
aqui acordadas por um gmpo de mdços, quast 
todos estudantes de medicina e sulistas. 

Das republicas, moradas de estudantes, de Lan- 
dulpho Machado, mais tarde deputado federal por 
Minas, de Carlos Affonso, fallecido depois tãopre- 
maturamente,>de Leandro Brandão, a que se aggte- 
garam o vatagoano Virgílio de Lemos, o bahiano 



Cosme Moreira e outros, foi que nasceu a resolu- 
ção de se fundar um club republicano federal, á 
semelhança dos que se estavam a organizar rapida- 
mente no sul, após a extincçâo do elemento servil, 
principalmente em S. Paulo, Minas e Rio. 

O club foi fundado em 24 de Maio de 1888 e 
inaugurado em 10 de Junho do mesmo anno, na 
sala das sessões do (íremio Litterario. 

O povo, a imprensa e as autoridades foram de 
todo indifferentes a este club perfeitamente inno- 
cente e impotente para alterar a ordem das coisas. 
Das pessoas interessadas nos partidos monarchicos 
só uma appareceu no acto da inauguração, — o Dr. 
Manoel Victorino. Ou porque fossem estudantes os 
organizadores do club, ou mais poderosamente 
ainda pelo pendor do seu génio que se inclinava a 
tudo que sahia do meio banal em que vivia e que 
era novo. 

Fizeram-se naturalmente discursos em que coi- 
sas do presente e principalmente o partido liberal, 
herdeiro das tradições adeantadas da geração ante- 
rior e que tão mal as conservava, não foram muito 
bem tratados. 

O Dr. Manuel Victorino então tomou a palavra 
para defender o partido no qual militava ha pouco, 
em que fazia as suas primeiras armas a este tempo, 
nas columnas do Diário da Bahia e atacou a 
propaganda republicana por desnecessária e in- 
opportuna. 

A' fundação do club republicano federal cor- 
respondeu um movimento geral de propaganda 
bem accentuada no interior da Provincia, o que 
indica perdurarem sentimentos republicanos que 
só careciam de um centro de energia e acção, 
ou se irem elles formando com rapidez á propor- 
ção que se divulgava a futura ordem de coisas 
como. o único remédio radical ás queixas do paiz 
e ao mal-estar que todos sentiam. Homens dedi- 



cados € de iniciativa, como os Drs. Virgílio Da- 
másio e Deocleciano Ramos, ambos professores 
da Faculdade de Medicina, ou respeitáveis pela 
«dade e tradições como os Drs. José António de 
Freitas e iManuel Teixeira Soares se juntaram por 
convicções ao ixovo club e trataram de dar uma 
organização politica aos elementos existentes na 
Província. 

Foi assim que, em sessões do club de 5, ii, 
17 e 29 de Dezembro de 1888, o Dr. Deocleciano 
Ramos propoz que se fundasse um partido poli- 
tico, o qual publicou o seu primeiro manifesto 
em 12 de Janeiro de 1889, tendo já sido eleito 
um conselho federal provisório, composto dos drs. 
Teixeira Soares, presidente, Virgílio Damásio, 
vice-presidente, Deocleciano Ramos, i** secretario, 
Cosme Moreira^ 2* secretario, sendo vogaes Vir- 
gílio de Lemos e Teixeira da Cunha. 

Assim éque, também logo em 18 de Novem- 
bro de 18880 Dr. Glycerio Velloso funda o club 
republicano de Santo António da Barra o qual, 
no seu programma promette oppor-se ao terceiro 
reinado, e declara adherir ao manifesto de 1870. 

Eguaes organizações se reproduzem em Cruz 
das Almas e Aratuhype, onde o Dr. João Martins 
da Silva agiu no mesmo sentido. 

Já antes da fundação do club da capital se 
inaugurara um na cidade dos Lençóes, do qual 
foi a influencia directriz o Dr. Júlio da Gama, um 
dos filiados á antiga sociedade da rua da Lama 
e agora medico clinico na zona das Lavras, onde 
tinha numerosas relações e amigos. 

Este club dos Lençóes publicou, já em Março 
de 1888, um manisfeto, antes, portanto, da orga- 
nização do club da capital, e outro em Julho de ITO9, 
ambos assignados pelo Dr. Júlio da Gama, Victa- 
Uco Leal, CorncUo de Carvalho e Garcia Sobral. 

No Rosário do Orobó também se organizou outra 



IO 

associação republicana, cujo chefe foi o capitão da 
guarda-nacional Liberino. Na próxima cidade da 
Cachoeira havia um grupo de partidários da nova 
causa, mas não se poude fundar a associação pu- 
blicamente, porque no dia em que se reuniram 
diversos cidadãos convocados pelos srs. M. Adeo- 
dato e Pamponet numa casa em S. Félix, foi esta 
assaltada por indivíduos armados, o que tornou 
impossível a constituição da sociedade politica. 

Em Bom Jesus dos Meiras também se fundou 
um club republicano cujo organizador foi o sr. Ti- 
bério Meira. 

O partido convocou um congresso que se reu- 
niu em 26 de Maio de 1889, tomando parte oa 
representantes do directório "do club dos Lençóes, 
do centro republicano da Cachoeira^ do da Purifi- 
cação dos Campos, de Aratuhype, de Santo Antó- 
nio da Barra, e de Bom Jesus dos Meiras. 

Este congresso, por proposta de Deocleciano 
Ramos, adoptou uma bandeira para o partido, que 
é a actual bandeira do Estado, formada de 4 listas 
horizontaes brancas e vermelhas, alternando-se estas 
cores com a azul, para lembrarem ellas a revolu- 
ção de 93 ; no angulo superior e interno um qua- 
drangulo azul, o qual leva no centro um triangulo 
branco, lembrando a bandeira dos inconfidentes 
mineiros. 

A disposição em listas foi feita para uniformizar 
com a bandeira dos Estados-Unídos da America 
do Norte. 

No interior da provinda, em Novembro de 
1889, existiam centros republicanos em Bom Jesus 
dos Meiras, Andarahy, Lençóes, Riachão de Utin- 
í/a, Orobó, Curralinho, Aldeia, Santo António da 
Barra, Cruz das Almas, Cachoeira, Purificação dos 
Campos, Feira de SanfAnna, além de adhesões 
importantes em Caetité, Cannavieiras, Barra do 
Rio de Contas, Jacobina, Alagoinhas, Amargosa, 



11 

Ilhéus, S, Sebastião de Caetité, S. João, Riacho 
<ie SanfAnna, Poções e outros pontos. 

Em ViUa-Nova formara-se um club que traba- 
lhava com actividade e do qual faziam parte entre 
outros os srs. engenheiros Alexandre Góes, Aus- 
tricUano de Carvalho e Sousa Carneiro. 

A propaganda, pois, se fazia e marchava mesmo 
accelcrada. Si não constituíam ainda os republi- 
canos uma forte aggremiação politica não tardaria 
muito que isso se desse, porque não só a questão 
abolicionista enfraquecera muito o poder, como era 
innegavel a corrupção dos partidos que compu- 
nham as forças poUticaíj arregimentadas do Império. 

Eram quasi todos homens novos, instruídos ou 
que procuravam instruir-se: médicos, advogados, 
estudantes, negociantes do centro, agricultores, 
gente que se afastava dos partidos do Império por 
convicções, pela repugnância que as tramóias e 
meios de opposição empregados por elles faziam 
nascer nos espíritos rectos, revoltados pelas injus- 
tiças e fraquezas que viam, sem interesses pessoaes 
de pescar nas aguas tur\»as de um domínio que se 
afigurava longínquo como um sonho, em ^eral 
gente honrada, sem defecções, deshonras ou mdi- 
gnldades "no seu passado; os seus nomes acima 
citados, são disto as melhores provas. 

No selo do novo partido formavam-se já duas 
correntes ; uns mais soj]fregos e ardentes que dese- 
javam uma revolução, a qual derrubaria a Monar- 
chia e toda a ordem de cousas existente, porque só 
assim seria possível um governo capaz para airigir 
as forças da nação : outros, mais moderados, que 
acreditavam na evolução, querendo a propaganda 
lenta e confiando que a Republica viesse e se 
firmasse pela educação das classes, pela emenda, 
sponíe sua, dos partidos monarchicos, e dos ho- 
mens pela sua própria regeneração. 

A' frente do primeiro estavam sempre os Srs. 



12 

Deocleciano Ramos e Cosme Moreira, a alma da 
segunda era o Sr. Virgílio de Lemos. 

A Republica Federal, que fora a principio or- 
gam do club, sob a redacção dos Srs. Teixeira Soa- 
res, Assis Correia^ Cosme Moreira, Virgilio de 
Lemos e Edmundo Gastão da Cunha e passou 
depois a ser o jornal do partido, sob a direcção dos 
Srs. Teixeira Soares, Vii^ilio Damazio, Deocleciano 
Ramos, Cosme Moreira e Landulpho Machado, era 
apenas lida pelos sócios, estudantes e mais um 
diminuto numero de empregados do commercio, 
entretendo, por vezes, pequenas polemicas com <y 
Diário da Bahia que combateu algumas das suas 
proposições. Até Novembro de 1889 o club da capi- 
tal tinha 160 sócios. A Republica Federal publi- 
cava em todos os números os nomes dos novos fili- 
ados, excepto dos empregados públicos e militares 
para lhes poupar vexames. Entre estes últimos 
estava o do tenente-coronel Senna Madureira. 

H 

O i5 DE JUNHO 

Foi a i5 de Junho que chegou á Bahia o 
conde d'Eu. 

Governava a Província o conselheiro Almeida 
Couto, chefe do partido liberal, que assumira a 
administração na véspera. 

O presidente foi receber o genro do imperador 
com o que se chama o mundo ojficial, e o club repu- 
blicano federal foi também receber o propagan- 
dista Silva Jardim, que devia fazer uma conferencia 
publica no seu club. 

No dia i3 de Junho o conselheiro Luiz A|fonso 
de Carvalho, presidente da Província pelo partido 
conservador, mandou chamar o Dr. Virgilio Da- 
másio, chefe do partido republicano, para dizer-lhe 



13 

que tendo de passar no paquete Alagoas o conde 
d' Eu receiava que, attendendo ao incremento da 
propaganda republicana entre os estudantes, fizes- 
sem estes alguma manifestação de desagrado ao 
principe, para o que lhe pedia interferisse, afim de 
impedir tal facto, dando a entender que soubera 
haver um dos lentes da Faculdade, até então na 
opposição, se referido de modo menos respeitoso 
para com o principe na aula ou á vista de estu- 
dantes. 

Declarou o Dr. Virgílio Damásio que não havia 
da parte dos republicanos o menor propósito de 
manifestar-se de modo injurioso contra o principe 
e sim de receber a Silva Jardim, levando-o para a 
redacção da Republica Federal, á rua das Portas 
do Carmo, onde o propagandista faria uma confe- 
rencia e depois ao hotel de Paris onde lhe estava 
preparado o almoço. 

Ao descer da explicação citada encontrou o con- 
selheiro Almeida Couto, seu collega da Faculdade, 
o qual lhe declarou haver recebido ordem telegra- 
phica para assumir logo a administração da Pro- 
víncia, pelo que vinha entender-se a respeito com 
o conselheiro Aflfonso de Carvalho. Accrescentou 
que lhe havia constado pretenderem os republica- 
nos receber a Silva .lardim e se prepararem também 
para uma manifestação de desagrado ao conde d'Eu, 
o que lhe pedia com toda a insistência não con- 
sentisse; ao que retrucou o Dr. Virgílio Damásio 
dizendo que tal boato era uma calumnia que se 
estava a propalar, pois não haviam até então os 
republicanos desrespeitado a quem quer que fosse ; 
e combinaram até logo no que se devia fazer para 
impedir qualquer desconsideração. Como o prín- 
cipe, para ir á Victoria, seguiria pela rua da Mon- 
tanha, resolveram que os republicanos conduzissem 
Silva Jardim pelo Taboão: que sendo o desem- 
barque do conde no Arsenal, o de Silva Jardim 



14_ 

seria na ponte da Companhia Bahiana; e que a 
lanchinha em que os republicanos deviam ir 
buscar o propagandista não largaria da ponte em- 
quanto não tivesse sahido do vapor o príncipe. 

Assim cumpriu-se tudo. 

Na tarde de 14, porém, realizaram os republi- 
canos uma conferencia no adro da Cathedral, con- 
vidando o povo e os seus correligionários para a 
recepção de Silva Jardim no dia seguinte. 

Manda a verdade também dizer que boletins 
ofensivos ao príncipe e aconselhando desconside- 
rações á sua pessoa foram espalhados nesse dia, 
obra, ou de algum republicano exaltado e impru- 
dente, ou feita para servir á calumnia, e fornecer 
um pretexto ao motim que se preparava. 

Um pouco mais tarde reuniram-se também os 
chamados chefes de freguezia do partido liberal. 

Havia naquelle tempo partidos organisados e 
por isso tinham elles, tanto o liberal como o con- 
servador, chefes dè freguezia que representavam 
uma espécie de commando intermédio dos próceres 
do partido até os seus soldados razos. Alguns 
destes homens tinham verdadeira popularidade e 
influencia nos seus districtos. 

Foram estes chefes de parochia que se enten- 
deram e combinaram definitivamente no emprego 
de certos meios tendentes a não deixar que o prín- 
cipe soffresse algum desacato, si realmente acre- 
ditavam na calumnia que se espalhara, ou a dar 
uma prova de enthusiasmo e reacção ultra-imperia- 
Usta. 

Accrescentam as versões da época que vieram 
de propósito para o que se pretendia fazer, ma- 
garefes do matadouro do Retiro, cortadores de 
baleia de Itapoan e Itaparica, e carregadores do 
cães, dos quaes foi realmente um, um tal Silvino, 
quem arrancou e despedaçou o estandarte do club 
nas proximidades da ponte da Companhia Bahiana. 



16 

Parôce que o logar escolhido para o ataque fòi*a 
a Baixa dos Sapateiros, mas a impaciência dos 
executores precipitou os acontecimentos. 

Sempre foi o conselheiro Almeida Couto homem 
muito honesto para mandar faier uma coisa desta 
ordem, e o Dr. Virgilio Damásio pensa absoluta- 
mente do mesmo modo, acreditando que foi o que 
se chama uma expedição de cabos de esquadra, 
que se aproveitaram da situação, do atabalhoa- 
mento das coisas, em consequência da transição 
rápida pela qual o seu partido occupava aqui o 
poder e que resolveram e fizeram o que suppunham 
talvez um bom serviço á causa imperial. 

Logo pouco depois do desembarque, nos arre- 
dores da ponte da Companhia Bahiana, um preto 
arrancou o estandarte do club que era vermelho, 
com o triangulo branco no centro e o despedaçou : 
d'ahi em diante não podiam os estudantes deixar 
de perceber que se preparava contra elles alguma 
hostilidade para impedir a conferencia do pro- 
pagandista ou para insultal-os e amedrontal-os. 

A manifestação violenta, porém, tomou aspecto 
ameaçador no começo da ladeira do Taboão. 

O povo que cercava e acompanhava o club não 
era o povo pacifico que transita nos seus affazeres, 
mas indivíduos de catadura sinistra trazidos de 
propósito para alguma má acção. Eram dirigidos 
de certo por táctico perverso que deixou enfiarem 
os clubistas pelo primeiro lance da ladeira afim de 
dar começo á manifestação hostil. 

Começou esta por vaias e gritos de ínsultc^^ 
que foram acompanhados de pedradas ; já estavam 
postadas entre o primeiro e secundo lance da 
ladeira carroças carregadas de tenha e pedras, 
como si por acaso alli se achassem; e togo se 
proveram de armas os assaltantes, a cada minuto 
engrossados por outros que accorriam da Baixa 
dos Sapateiros; era gente suja, de roupa grossa, 



16 

coberta de barro e lama, com apparencia de mora- 
dores dos arredores da cidade attrahídos para 
aquella tarefa. 

A elles se juntaram em breve os vagabundos 
ou desoccupados que nunca faltam onde ha uma 
arruaça ou tumulto, tanto mais que se via bem 
claramente ser garantida a impunidade do que se 
fizesse pelas autoridades que cruzavam os braços. 
Sem o medo da policia as más paixões, os grosseiros 
impulsos de uma plebe feroz, tão próxima de povos 
selvagens, como o africano e o indio, irromperam 
com fúria e ultrapassaram em breve as instrucçòes 
da encommenda que lhes fora feita. 

Os republicanos foram atacados com violência. 

Até o segundo lance da ladeira puderam se 
manter^ mas dahi em deante o club debandou e uns 
feridos, outros esbordoados, |oram-se escondendo 
pelas casas e lojas que encontraram abertas ; alguns 
conseguiram fugir até a Faculdade de Medicina, 
onde foram chegando com as cabeças em sangue, 
as mãos escoriadas, os hombros cheios de con- 
tusões. 

A esta noticia outros estudantes acodem e uma 
onda de indignação agita toda a mocidade. 

Suggerem-se alvitres e entre elles predomina o 
de irem todos immediatamente ao palácio do go- 
verno pedir providencias. Com o estandarte da 
Faculdade e dois adjuntos á frente seguem para a 
Praça de Palácio, mas não acham alli o conselheiro 
Couto, que estava com o conde d'Eu. no palacete 
da Victoria, onde tinham ido almoçar. 

O Dr. Manuel Victorino encontrou-se com os 
estudantes nas immediações daquella Praça e se- 
guiu com elles. encarregando-se então de ir á 
Victoria levar ao conselheiro Couto, pessoalmente, 
o pedido de providencias urgentes. 

Voltando para a Faculdade já encontraram os 
reclamantes as ruas innundadas por uma enorme 



17 

multidão que transbordava de todos os caminhos 
»que vindo do Taboão desembocam no Terreiro. E"* 
•que, duranteo tempo necessário para a ida^e a volta 
doò alumnos, haviam outros estudaates conseguido 
5>e escapar dos seus escondrijos e, como as ovelhas 
perseguidas procuram o aprisco instinctivamente, 
haviam corrido para a Escola de Medicina, arras* 
tando após elles a vil matilha que os acuava. 

Em pouco o Terreiro encheu-se e a F^aculdade 
foi atacada a pedradas; o edifício estava em obras 
«e a sua fachada actual toda cheia de andaimes. As 
pedras despedaçavam os vidros do salào nobre e 
cahiam no meio dos que alli se achavam e si o 
edifício não foi invadido isto se deve ao temor que 
os assaltantes tinham nâo só de substancias chi* 
micas que os fulminariam, como dos instrumentos 
de anatomia, envenenados em cadáveres e de que 
os estudantes estavam dispostos a se servir. 

Logo no principio do ataque a porta larga do 
centro foi fechada e um dos alumnos que por acaso 
«estava armado encostou o cano de um revoh^er á 
porta e disparou para fora, obrigando a turba, que 
já se empurrava para a invasão, a futfir desapodera- 
damente até a altura do chafariz. Este facto e os 
dois boatos citados acima salvaram a Faculdade, 
mas ella permaneceu assediada pelos insultos da 
multidão esfarrapada qiie de vez em quando atirava 
p«dras. 

Isto durou todo o dia sem que as autoridades 
fizessem esforço serio para impedir a continuação 
da desordem, o que indica a sua connivencia ou a 
mais lamentável fraqueza para com os assaltantes. 

Uma delias, porém, o promotor publico Dr. 
Augusto de Freitas, aliás filiado ao partido liberal, 
compareceu na escola ^poz-se francamente ao lado 
dos que soffriam um ataque estúpido e defendeu, 
taítto quanto pôde o prestigio pessoal de uma auto-* 



16 

rídade Judiciaria, o edifício puMíco que estava 
sendo aggredido. 

Parece que até na previsão de resistência do 
pequeno gnipo de republicanos haviam os orga- 
nizadores do motim tomado medidas de prevenção^ 
correndo entre o povo o boato de que viriam re- 
forços de saveiristas para ensinar, em argumentos 
sensiveis, uma severa Ucção aos dissidentes da 
unidade imperial. 

Factos não menos curiosos se passaram no 
Taboão, onde se estadeou durante muitas horas 
uma bravura fácil, que se esgotou em explosões de 
fanfarrice, e que fez muita falta á monarchia, para 
defendel-a seis mezes depois quando nem uma 
só voz se levantou por ella e nem um braço se 
ergueu, quando por encanto desappareceu a cha- 
mada guarda negra, como gazes que se evaporam 
pelo calor. 

Na occasíào do assalto os Srs. Virgilio Damásio, 
Silva Jardim, Cosme Moreira e Edmundo Gastão 
da Cunha, estes dois últimos estudantes de me- 
dicina, tinham-se refugiado na loja de um sapateiro 
ao Taboão. Retirando-se dalli um pouco mais tarde 
quando lhes pareceu serenado o tumulto, foram 
outra vez perseguidos pelo povoléo e conseguiram 
abrigar-se na casa n. i6, donde sahiram pelos 
fundos, quando ella estava a ser invadida pelos per 
seguidores, passando por detraz dos prédios, até 
darem entrada, pelo quintal, na de n. 42, de onde 
o Dr. Virgilio Damásio enviou ao conselheiro 
Almeida Couto um cartão, expondo o perigo em 
que se achava e pedindo providencias. Tendo-se 
ferido em uma das mãos, manchou de sangiie o 
cartão que também era tarjado de preto, por estar 
elle de luto. 

A esse tempo o Dr. Deocleciano Ramos, que 
logo na occasião do ataque se separara do club e 
partira para a Victoria afim de reclamar e pedir 



1» 

jjaTaniias para as republicanos^ chegava com o 
chefe de policia momeado ad hoc Dr. Manuel 
Caetano de Oliveira Passos e os Srs, Santos Mar- 
ques e José Gil Moreira, ambos conhecidos chefes 
poUticos Uberacs, o primeiro da freguesia de Brotas, 
o segundo da de Sant^Anna, 

Refere o Dr, Virgílio Damásio dever realmente 
a vida ao Sr. Santos Marques quando appareceu na 
casa n. 42, em companhia do Sr. Manuel Caetano, 
chefe de policia. 

Mostrando-se o Sr, Santos Marques muito in- 
commodado ao ver na<niella situação o Dr. Virgílio 
Damásio disse-lhe — <(iVdo tenha medo» — Medo, 
náo, respondeu o outro, mas neceio bem que nos 
façam o que fizeram no Rio de Janeiro a Apulcho 
de Castro, garantido pela policia. O Sr. Santos 
Marques deu então o braço ao Dr. Virgílio, o Sr. 
Manuel Caetano a Silva Jardim, e o Sr. Gil Moreira 
foi ladeado pelos dois estudantes Cosme Moreira e 
Gastão da Cunha, 

No meio de uma onda de povo que abria estreito 
caminho mancharam assim talvez uns duzentos 
metros. 

Quando os gritos eram mais furiosos ou se 
lançava na frente do grupo algum individuo amea- 
çando os republicanos ou exigindo que dessem vivas 
á Monarchia, o Sr. Santos Marques ou o Sr. José 
(jil falavam-lhe com intimativa, algumas vezes pelo 
nome, e o aggressor se recolhia á turba. Isto, diz o 
Dr. Virgílio, mostra bem quem tinha mandado 
fazer o ataque. 

Foi ainda um agente da autoridade, o tenente 
de policia António Machado, o mesmo que devia 
celebrizar-se depois, em 24 de Novembro de 1891, 
quem entrou na casa do club e redacção da i?e* 
publica Federal^ ás Portas do Carmo, que estava 
prepara4a para a recepção de Silva Jardim, arran- 
cou as bandeiras do Chile, Argentina, Francez^ e 



Suíssa, espedaçou as insignias e aiirou tuda pela 
janella á plebe apinhada em f reate c que disputou 
estes trophéus para os injuriar. 

Ainda um outro facto em apoio da mesma 
opinião, consiste na circumstancia de ter o Sr. 
Santos Marques affirmado ao Dr. Deocleciano, que 
podia retirar os sócios do club da» casas em que 
se achavam homisiados^ porque nada lhes succe- 
deria mais. Officiaes de polícia compareceram no 
Terreiro mais tarde, ostensivamente, por ordem 
do seu chefe, convidando o povo a se dispersar; 
mas, por um desses acasos que se encarregam 
tantas vezes de desmascarar as hypocrisias officiaes, 
foi ao mesmo tempo posta em pratica outra medida 
da mais cómica incoherencia. 

Mandaram musicas tocar na mesma praça do 
Terreiro como para recrear aos que se tinham 
prestado á mashcrca, o que era o meio mais seguro 
de ter muita gente alli reunida. Aquelle apedreja- 
mento foi o grande espectáculo do dia, que muitas 
pessoas vieram ver, até de logares distantes, como 
se fosse um espectáculo grátis- E até á tardinha 
assim foi: Silva Jardim que passou o dia na casa do 
Dr. Virgilio Damásio, á Calçada, embarcou de noite 
no cães da Jequitáia, acompanhado por crescido 
numero de seus correligionários, alguns dos quaes 
o levaram até o vapor. 

ODr. Manuel Caetano, chefe de policia, naquelle 
dia conservou-se sempre a seu lado. A conferencia, 
porém, nào se tinha realizado, apezar das garantias 
que as leis do império promeltiam a todos. 

IH 

OS DIAS i6, 17 E 18 

Foi durante a noite de i5 para 16 que se soube 
aqui da revolução militar que rebentara na Rio na 
manhã de i5. 



21 

O Dr. Manuel Victorino recebeu pela madru- 
gada um telegramma em que era nomeado pelo 
governo provisório governador do Estado da Bahia 
e foi communicar isto ao presidente Almeida Couto, 
o qual, tendo a certeza de que tinha havido real- 
mente grave movimento na capital, mandou con- 
vidar as pessoas que exerciam cargos offíciaes e 
mais importantes pela sua posição politica, sem 
preoccupaçào de partidos, para uma reunião em 
sua secretaria. Pelo meio do dia alli se reuniram 
e, no grande salão que noutro tempo havia no 
palácio, expoz em pé, no meio de um grande cir- 
culo de homens attentos e commovidos pela novi- 
dade do caso, o que sabia da revolução, não 
dizendo aliás que já tivera o governo provisório 
feito escolha de um delegado para administrar a 
Bahia. Neste discurso nobre e simples elle fez 
appello a todos para a manutenção da ordem e da 
lei, accrescentando que o general Hermes da Fon- 
seca, commandante das armas, lhe havia feito saber, 
que a sua espada seria sempre fiel ao governo 
constituído, ao qual havia jurado bandeira, e que 
nestas condições esperava prompto no seu quartel 
para desembainhal-a, em perfeita solidariedade de 
vistas com o presidente, como elle dedicado á 
monarchia. 

A essa reunião em palácio compareceram e nella 
tomaram parte, falando, os Srs. Innocencio Góes. 
barão de S. Francisco, Arthur Rios, Carneiro da 
Rocha, Augusto França, Ramos de Queiroz, Carlos 
de Carvalho, etc. 

Todos esses discursos terminaram por dythy- 
rambos ao imperalismo, por votos de dedicação 
eterna e protestos de inexcedivel resistência. Re- 
solveu-se, pois, enviar um telegramma de protesto 
contra a sedição, e de fidelidade á monarchia con- 
stitucional que o iUustre jurisconsulto Dr. Augusto 
França ficou encarregado de redigir. 



22 

Este documento perdeu-se; foi rasgado em 
pequenos pedaços, os quaes ficaram esparsos pelo 
çháo e foram procurados cuidadosamente no dia 
seguinte por interessados em fazerem desapparecer 
as assignaturas que havia recebido, e que suppu- 
nham naturalmente pudessem servir de obstáculo 
ás suas fortunas na Republica, pois, nos primeiros 
dias se pensava que houvesse mudança radical dos 
homens e coisas e que a retratação e abandono dos 
compromissos e juramentos fossem coisas pelo 
menos notadas e reprehendidas. 

O conselheiro Almeida Couto recebera do ge- 
neral Deodoro um telegramma nos seguintes termos: 
(íDr. Almeida Couto — Como chefe do governo 
provisório façoappello patriotismo V. Exa., povo e 
guarnição da Bahia, afim de respeitar governo con- 
stituído pelo exercito e armada, povo desta capital, 
já apoiado por muitas Províncias. — Marechal 
Deodoro » . 

O presidente Couto respondeu;- ((General Deo- 
doro.- O povo bahiano, representado pelas diversas 
classes sociaes, reunidas hoje em palccio, sem dis- 
tincção de partidos politicos e animado de ardente 
patriotismo deliberou que se faça patente a Nação 
inteira que a Bahia, fiel á constituição e ás leis, 
aguarda nas actuaes circumstancias com firmeza e 
tranquillidade as deliberações dos poderes legal- 
mente consiximáo^- -Presidente da Província y>. 

Bellas palavras que não foram sustentadas por 
24 horas apenas ! 

Pelas três horas da tarde reuniu-se de novo 
muita gente na secretaria do palácio e o presidente 
(>outo, de accordo com as manifestações que lhe 
chegavam, enviou este outro despacho: — ((General 
Deodoro da Fonseca — Como presidente da Pro- 
víncia e em nome do povo bahiano, reunido espon- 
taneamente e por muitos representantes de diversas 
classes sociaes, sem distincçào de partidos poli- 



^ 

ticos, sob inspiração ardente patriotismo, declaro 
respeitar e manter a constituição e as leis do 
Império. — Almeida Conto». 

Muitas pessoas, Associação Commercial á 
frente, adheriam a estas promessas e affír mações de 
resistência. Esta gente toda devia ainda adherir 
outra vez. 48 horas depois, mas em sentido con- 
trario, pela submissão á Republica e foi a que 
falou, proclamou, visitou os governadores e applau- 
diu, porque o povo esteve sempre frio e extranho a 
tudo, apenas curioso, o que aliás não se pôde 
allegar também como coisa que o honre. 

Começaram até a se entender sobre os meios 
práticos de levar a effeito a projectada resistência. 
Falava-se na organisação da força da policia em 
corpo de exercito e na formação de uma brigada 
com voluntários do Recôncavo. 

Apontava-se já o barão de Sergy, veterano do 
Paraguay, onde servira com bravura, para com- 
mandar estas forças da contra-revolução. 

A ouvir todos estes homens era preciso ser 
realmente muito sceptico para crer que não fossem 
sinceros e admíttir que dentro em pouco tempo 
estivessem, por fraqueza, irresolução, medo e 
interesse, a pretender e solicitar na Republica as 
posições que tinham até ahi e as que desejavam 
ainda, acceitando sem mais protestos aquillo que 
tinham repelUdo com tão fingida cólera. 

Muito pela sua vontade, deviam em breve vir 
rogar que lhes fosse imposta a humilhação que o 
génio orgulhoso de Roma lançara pela bocca do 
celebre bispo ao bárbaro ajoelhado — «Curva a 
cabeça, altivo sicambro, d'ora em deante detesta o 
que adoraste ; adora o que desprezaste ! » 

O general Hermes telegraphou ao commandante 
do destacamento de linha em Sergipe ordenando a 
resistência, aâsim como a todas as guarnições do 
Norte até Manaus. 



g 4 _ 

Na camará municipal não foi menos curioso o 
que se passou. Abrindo a sessão extraordinária que 
havia convocado o Dr. Augusto Guimarães, pre- 
sidente, diz não carecer repetir o que se acabava de 
passar na secretaria do governo onde os cidadãos 
mais respeitáveis se tinham manifestado pela 
ordem de coisas estabelecida pela constituição do 
Império e depois de extensas considerações, todas 
no sentido da resistência á revolução, termina 
propondo que a camará se declare francamente por 
ella, enviando uma mensagem de solidariedade 
ao presidente da Província, e publicando um 
manifesto. 

O Sr. Francisco Pires, no fim de um discurso 
extremamente monarchista, propoz também que a 
camará proclame ao povo só reconhecendo como 
legitimo o governo de sua majestade o imperador. 

O Sr. Innocencio (íóes, depois de fazer graves 
referencias aos factos que se estavam passando no 
Rio de Janeiro, propoz que também se telegraphasse 
ao presidente da camará dos deputados, assim 
como a todos os jornaes da Corte e das Províncias 
assegurando-lhes que a Bahia se mantém fiel ao 
governo do imperador. 

Deve-se dizer em honra destes dois cidadãos, 
que foram coherentes com as suas idéas porque as 
tinham sinceramente; que não procederam deste 
modo porque os outros procediam, fazendo dois 
dias depois o contrario porque os outros fizeram. 

Não voltaram mais lá, nem para annuUar em 
i8 o que haviam resolvido a 16 e proclamar o 
Dr. Virgílio Damásio, nem no dia 26 para render a 
homenagem do ctirçiprimento ao Dr. Manuel Vi- 
ctorino. — Conservaram-^e afastados da ordem de 
coisas que haviam maldicto, um até a morte, o 
outrp.até agora. 

Todas as propostas acima foram unanimemente 
approvadas por acclamação. A mensageni dizia: 



— «Paço da camará, i6 de Novembro de 1889, 
— Illm. e Exmo- Sr. — A camará municipal desta 
<:idadc, reunida hoje em sessão extraordinária, 
resolveu por unanimidade officiar a V. Ex. apre- 
:sentando-lhe os seus sentimentos de fidelidade á 
causa da Monarchia e das instituições vigentes. 
Agora que chegam da Corte noticias dos graves 
acontecimentos que alli se estão dando, é dever da 
camará rodear de todo o apreço a cadeira exercida 
por V. Ex. como delegado do governo legitimo, e 
protestar contra o acto de assalto que constituiu o 
intitulado governo provisório. 

Illm. e Exmo. Sr. Dr. J. L, de A. Couto. M. D. 
presidente da Provincia. — Augusto Guimarães^ 
presidente, /. Góes, António José Rodrigues, F. 
Pires de Carçalho^ João R. Germano Filho, João 
S. da Silva Seixas, Luiz José da Silva, Dr. Bellat" 
mino P. da Costa, Manoel Moreiía de Carvalho e 
Silva, F. Luiz de Azevedo, Dr. José Baptista 
Gonçalves, ManuelJ oaquim Cafeseiro, Dr, Vir- 
gílio César de Carvalho f^. 

Aos jornaes do Rio, foi endereçado o seguinte : 

«A camará municipal da Bahia protesta contra 
a tyrannia militar, que, sob o nome de governo 
provisório, se estabeleceu na Corte e affirma sua 
completa adhesão ás instituições e ao imperador. 
Provincia da Bahia, não adhere movimento illegal 
e tumultuario, imposto pela força, e, ao que parece, 
acceito pelo terror. Peço que communique todas as 
folhas. — Augusto Guimarães. — 16 de Novembro 
de 1889))- 

Foi também lavrado o manifesto pelo Dr. 
Augusto Guimarães, que está aqui escripto, pelo 
próprio punho de seu autor e que náo chegou a 
s^r publicado e \^i annexo. 

No dia i5 á noite, o coronel Frederico Chris- 
tiano Buys, commandante de um dos batalhões da 



as 

g^iíarnição da cidade, o 16/ de inrfantaria, recebeu 
noticia da revolução. 

O coronel Buys era um republicano convertido» 
ha tempos, que não podia ntanifestar os» seus senti- 
mentos, segundo costumava dizer, por ser soldado. 

Logo que se soube do movimento, ou procurou 
entender -se com o governo provisório ou recebeu 
communicação do Sr. Benjamin Constant, ao- 
sentido de apoio á causa da republica, pois^. na 
manhã de 16 mandou elle cartas aos Srs. Virgílio 
Damásio e Deocleciano Ramos, os homens mais 
em relevo do partido republicano, convidando-os 
para uma conferencia no quartel do i6,°, ás 11 
horas do dia. 

Não tendo chegado á essa hora o Dr. Virgílio 
Damásio, que compareceu depois, reali30u-se esta 
reunião sob a presidência do Sr. Deocleciano 
Ramos, combinando-se entre o commandante, offí- 
ciaes e os republicanos qui o batalhão ficava desde 
aquella hora ao serviço da revolução ; que alguns 
officiaes pernoitariam naquella noite no quartel 
do 9." batalhão de infantaria, cuja officialidade 
ainda não estava toda resolvida a se unir aos 
camaradas do Rio e cujo commandante, o major 
Francisco de Paula Argollo, era muito ligado ao 
marechal Hermes, cujas opiniões monarchistas 
eram conhecidas; que o batalhão sahiria para 
depor o presidente da Província e proclamar a Re- 
publica, prendendo o general Hermes, si resistisse. 

Resolveu-se também que o coronel Buys com- 
inunicasse tudo isso ao governo provisório e que 
o quartel serviria de logar de reunião e refugio aos 
republicanos e estudantes no caso de qualquer 
tumulto. 

Era a mesmaf hora em que o presidente Almeida 
Couto ouvia os protestos fervorosos dos monarchis- 
tas que reunira, recebia a affirmativa do marechal 
Hermes de que a sua espada continuava fiel ao 



império e que o Dr, Augusto França era encar- 
regado de «screver o m-anifesto que desappareceu. 

Tendo recusado falar na reunião dos chamados 
notáveis, apezar das solicitações dos Drs. Alfr-edo 
Britto e Braz do Amaral, o Dr. Manuel VictcTino 
^ahiu com este ultimo e mostrou-ihe o lelegramma 
do governo pro\âsorio que o encarregava da 
administração do Elstado da Bahia. (Já foi assim 
lienominada a Proviacia naquelVe documento). 

Ao chegarem ao Largo do Theatro encontra- 
ram-5c com o Dr. Virgilio Damásio que vinha do 
quartel do i6/, o qual disse as graves resoluções 
que se acabavam de tomar alli, informando também 
que o imperador tinha embarcado ou ia embarcar 
para o extrangeiro, o que tirava aos monarchistas 
todas as esperanças, accrescentando que isto mesmo 
ia dizer ao conselheiro Almeida Couto. 

Ao passar, porém, pela casa do Dr^ Deocleciano 
Ramos entrou alli e este dissuadiu-o de fazer tal, 
entendendo ser preferi\«el deòcal-o proceder como 
quizesse. 

Pelas três horas da tarde grande ajuntamento 
havia em frente do palácio, e o tom geral e animan- 
do das conversas era o da resistência imperial. ^ — 
Falava-se nos 5oo homens que, segundo se dizia^ 
um cidadão offerecera, assim como no dinheiro 
que outro também propuzera fosse tomado aos ban- 
cos para as despesas da guerra, — Ambos occupa- 
ram pouco depois cargos importantes na politica 
da Republica. Commentava-se com enthusiasmo a 
attitude nobre pela fidelidade ao throno do general 
Hermes e accrescentava-se que telegrammas vindos 
de Pernambuco para o conselheiro Almeida Couto 
annunciavam que naquella Província também não 
se acceitava a tyrannia da tarimba que por surpre* 
sa se apoderara do Rio de Janeiro. 

Boatos começavam a correr de embarque do im* 
perador; mas:, dizia-se que era para aqui que elle 



8S 

vinha com sua ftlha entregar á lealdade dá tenvt 
tradicional da pátria, pelos feitos da Independên- 
cia, sua velhice immaculada e a herdeira do throno^ 
fonte por onde se perpetuaria a dynastia. 

Como sempre acontece em taes casos, o ridículo 
se misturava á tragedia e a nota cómica do facto 
consistia na importância com que pobres emprega 
dos subalternos falavam com pé de egualdade nos 
membros desta estirpe regia que viria para o meio 
de nós e que nós protegeríamos. A esta ternura do 
povo correspondia noutros mais altamente colloca- 
dos lampejos de ambições rapidamente esboçadas 
na mente; e como em tomo de Pompeu nos acam- 
pamentos da Macedónia, já se disputava sobre o 
governo das Províncias, transpareciam em muitos 
rostos sombras dos sonhos que aninhavam pela 
posse dos grandes cargos e das posições lucrativas^ 
fáceis e boas. 

Entretanto em resposta ao seu telegramma da 
manhã recebia o coronel Buys á tarde o seguinte 
despacho: — «Governo provisório fortemente con- 
stituido. Reconheçam governador Manuc^J Victori- 
no.» Uma praça levou logo este telegramma á casa 
do Dr. Deocleciano Ramos, onde se achava o Dr. 
Virgilio assim como outros republicanos. 

Si bem que fosse dolorosa para elles esta no- 
meação porque recahia em um homem que não era 
do partido, e apesar do protesto logo formulado 
com a costumada vehemencia por Cosme Moreira, 
Silvino Moura, etc, resolveram todos se dirigir â 
casa do Dr. Manuel Victorino, pôrem-se ao seu 
lado sem reservas, porque não eram elles que de- 
viam levantar o primeiro obstáculo á Republica, 
e resolver com elle sobre a sua acclamaçáo imme- 
diata e a proclamação da Republica. Seriam cerca 
de 5 horas quando chegaram á casa do Dr. Victori- 
no, em Nazareth. 

Este respondeu que recusax^a á tarde como já 



29 _ 

tinha fecusado pela manha; nesta occasíàó chegou 
um telegramma do Dr. Ruy Barbosa sobfe o as* 
sumpto e elle pareceu ficar abalado, resolvendo-se 
a ir com os outros ao quartel do forte de S* Pedroi 

Para isso tomaram um bonde em que seguiriam 
juntos, saltando Deocleciano, que ficou na Moura- 
ria, onde se foi entender com o commandante da 
policia, Durval Vieira de Aguiar, sobre a attitudtí 
desta força. Quando chegaram ao forte de S. Pe- 
dro, o Dr. Manuel Victorino declarou que ainda 
precisava entender-se com o Còns. Couto, dirigin- 
do-se para a Victoria com o Dr. Braz do Amaral. 
Alli se achavam no grande sala o do andar térreo 
osSrs. Carneiro da Rocha, Monteiro de Carvalho, 
Araponga e muitas outras pessoas, quasi tudo o 
que havia de mais importante ou interessado no 
partido liberal. 

Encostados á grade do terraço conversaram os 
dois por muito tempo e quando sahiu o Dr. Ma-* 
nuel Victorino, disse ao seu companheiro, estar o 
Gons. Couto convencido da importância da revo- 
lução do Rio e da impossibilidade de resistir. 
Quanto ao cargo de que o queriam investir, res- 
pondeu ainda não estar resolvido a acceitaUo. 

Em casa do Dr. Pacifico Pereira, ao Campo 
Grande, para onde vieram, compareceu pouco de-^ 
pois o coronel Buys, o capitão Sarmento e um ou- 
tro official. O coronel Buys estava perfeitamente 
sereno e discorria sobre os factos como si estives- 
se dando o detalhe do seu batalhão. A' pergunta 
do que faria si houvesse qualquer motim expoz as 
medidas que executaria, tendo completa seguran- 
ça de que com a sua pequena força manteria a paz. 
a ordem, e venceria tudo. — Ao ouvil-o occorria o 
pensamento de que aquelle homem commandava 
um exercito. Pouco depois o Dr. Manuel Victorino 
escreveu uma carta ao Dr. Virgilio Damásio, que 
estava no quartel, dizendo-lhe que não podia tomar 



60 

posse da administração antes de receber a respos- 
ta die um telegramma que mandara para o Rio. 

Ouviam-se de fora da velha fortaleza os gritos 
da proclamação. 

Seriam seis horas da tarde. Os offíciaes e sol- 
dados arrancaram dos kepis a coroa, insígnia im- 
perial, e tendo á frente a musica, o coronel Buys, 
os Srs. Virgílio Damásio, Deoclecíano e muitos re- 
publicanos percorreram todas as ruas do quartel, 
dando vivas a Republica. Estavam alli quasi todos 
os 1 6o sócios do club e quasi todos os estudantes 
de medicina e todos fraternizavam, saudando com 
enthusiasmo e esperança a nova era da grande pá- 
tria querida. 

Encontrado o Dr. Virgilio Damásio pelo Dr. 
Braz do Amaral foi prevenido de que se preparava 
um motim, á semelhança do de i5 de Junho, para 
amedrontar os republicanos, de accordo com as 
idéas de resistência correntes durante o dia na pra- 
ça de Palácio. FA\e. porém, não acreditou. 

Estava exaltado e com a sua costumada genero- 
sidade dizia em voz alta.« — E para que? Elles nada 
mais farão porque o imperador já embarcou. Qual 
i5 de Junho. Agora não ha mais pretexto sequer! 
A Republica está feita e felizmente sem luta.» 

Desgraçadamente, porém, não era uma pre- 
venção vã. 

A propaganda republicana não chegara a ser 
popular, e após os factores de i5 de Junho não era 
raro ouvir entre o povo baixo explosões de ódio e 
chacota referentes a estes sujeitos Jos canos^ o 
que não d^ve admirar ao reflectir que se tratava de 
um meio em que é difficil encontrar discernimento 
e razão pelo próprio raciocínio, como o hão de con- 
fessar todos os que o conhecem e quizerem falar 
delle sem o pretenderem explorar ou lisonjear. 

Açulados uma vez contra os. republicanos ha- 
viam-se habituado muitos da arraia : miúda a jul- 



gal-os sempre como caça fácil e bôa para a voraci- 
dade, em que seria objecto de galhofa e gosó ir 
dando de vez em quando algumas dentadas. 

Deve-se lembrar também, para a explicação 
deste ódio, que os inimigos dos republicanos es- 
palhavam entre o povo nào só que a Republica re- 
vogaria a lei de 13 de Maio, reescravizando os li- 
bertos, como que, após ella não exerceriam mais 
posições e empregos civis ou postos militares os 
homens de cor, como acontecia na America do 
Norte. 

Quando os republicanos, após a proclamação 
no quartel, chegaram ás ruas da jreguezia da Sé, 
quasi todos em bonds, e alguns estudantes em 
grupos, romperam insultos e pedradas de grupos 
de populares' que de ordinário estacionam pelas 
esquinas daquella zona. Seguiram-se bordoadas e 
tiros de revolver; alguns dos bonds foram assal- 
tados pelos arruaceiros e as chamadas republicas, 
moradas de estudantes, foram também invadidas, 
sendo em algumas, principalmente numa que exis- 
tia á rua do Bacalhau, despedaçado o que possuíam 
os moradores, como malas, camas, mesas etc, ob- 
jectos que segundo o processo já empregado pelo 
tenente que varejara a redacção da Republica Fe- 
deral^ em i5 de Junho, foram todos atirados em 
estilhaços para a rua. 

Populares, partidos sempre das ruas altas da 
freguezia da Sé, começaram a dar gritos e a com- 
metter tropelias, invadindo tavernas e fazendo corre- 
rias, procurando depois as casas dos estudantes 
para repetir os factos de i5 de Junho. Atraz da 
gente que assim procedia por sentinientos monar- 
chicos ou porque fosse mandada, marchava, como 
em toda a parte, em occasiões semelhantes, mesmo 
em meios mais civilizados, o que se chama as fezes 
das cidades, os ratoneiros^ perversos e vadios que 
surgem sempre por encanto onde não está a força 



82 

da lei que o8 persegue, á qual se achava toda no 
quartel de promptidão. Foi esta parte dos manifes- 
tantes que se exaltando cada vez mais, passou a 
matar e a ferir, prostrando por terra, assassinado, 
un^ homem que se achava sentado a uma porta na 
ladeira da Praça. 

Serviam-se para isto de um degenerado alcoólico 
que tinha uma alcunha grotesca, susceptível de ex- 
acerbar o seu delírio por doses novas de toxico e 
dotado nestes accessos de uma eloquência sangui- 
nária e vehemente; era elle quem reunia os desoc- 
cupados das classes Ínfimas da plebe e capitaneava 
os manifestantes anti-republicanos desde o i5 de 
Junho. 

Um numeroso grupo foi á noite ao largo de Na- 
zareth e pretendeu assaltar a casa do Dr. Manuel 
Victorino. 

Ouvidos gritos, ameaças e pedradas foi dada 
participação pelo telephone ao quartel de policia 
donde veio á pressa uma força de infantaria, a 
tempo de impedir que fossem arrombadas as 
grades do jardim. 

Nesta noite a cidade dormia entregue á perfeita 
açephalia da autoridade e possuída de sobresaltos 
nas suas freguezias mais centraes. 

Urgia sahir desta situação: sentíam-no todos; os 
republicanos muito ameaçados e sobre os quaes 
ninguém sabe o que cahiria; o coronel Buys, 
hpmer» de acção e energia, e os estudantes, em 
gerai refugiados no quartel do i6 de infantaria. 

Pelas 1 1 horas do dia 17 o Dr. Virgílio Damásio 
foi á casa do Dr. Manuel Victorino, o qual conti- 
nuava á reluctar em assumir a administração por- 
que entendia que a elle, Virgílio Damásio, era que 
competia este cargo por causa da sua co-partici- 
p^çao e responsabilioades na propaganda, e por- 
que se achava assediado pela família, que insisten- 



•33 

íemente lhe pedia não acceitasse, inclusive seu velho 
pai, a quem não queria desgostar de naodo algum. 

Resolveram, após longa conferencia, que se 
procederia logo á proclamação da Republica e que 
'O coron«l Bnys, então nomeado commandante das 
armas por telegramma, ficaria provisoriamente 
•exercendo a autoridade civil. Quando se preparava 
o coronel Buys para isto, chegou um outro des- 
pacho, nom-eanoo governador interino o Dr. Vir- 
;gilio Damásio, 

^ Havia até ahi o coronel Buys arrostado todas as 
•difficuldades e perigos da posição que assumira, 
í>endo at^é nomeado commandante das armas. 

E^ta nomeação, porém, foi eph^mera. 

Contra o que se esperava, o marechal Hermes 
resolveu no dia 17 também se pronunciar pela Re- 
publica. Foi o capitão Tranquilino Borburema, 
:se\x ajundante de ordens, quem se apresentou na 
praça em frente ao quartel do i6.% já sem a coroa 
no bonet, dizendo vir da parte do general trazer a 
:sua adhesão. Ella foi annunciada á guarnição nos 
seguintes lermos, 

OKDEM DO DIA 

Foi esta a ordem do marechal commandante das 
armas desta então Provincia, em 17 de Novembro 
de 1889, adherindo á nova forma de governo: 

«Commando das armas da Provincia da Bahia. 
- Quartel-general da cidade de São Salvador, 17 
de Novembro de 1889, 

Ordem do dia n. 539. Em i5 do corrente mtó 
na Corte, os corpos do exercito, armada, policia e 
bombeiros, alli existentes, e o povo depuzeram o 
ministério presidido pelo Sr. visconde de Ouro 
Preto, proclamaram a Republica e constituíram um 
governo provisório. 

S. majestade o imperador não poude organisar 



Si 

novo ministério, que, em nome da Monarchia, go- 
vernasse o paiz. 

A' vista de taes noticias o marechal de campo- 
commandante das armas, recommendou aos- corpos* 
desta guarnição toda abstenção e que se mantives- 
sem em seus sentimentos de adhesãoao monarcha,. 
aguardanda o desenlace fatal do movimenta. 

Hoje, ao meio-dia, o mesmo marechal de* campa 
recebeu um telcgramma abaixo transcripto^ com- 
municando a partida da familia imperial parra a Eu- 
fopa, ficando assim extincta a dynastia imperante; 
e, portanto, adoptado no paiz o regimen republi- 
cano. 

Em consequência^ pois, o marechal de campo,, 
agradecendo aos Srs. commandantes c oflficiaes dos 
corpos a isenção, disciplina e lealdade que tiveram 
durante estes últimos dias, os convida para com- 
sigo prestarem adhesáo e obediência ao governo 
provisório republicano, sob a presidência do Exm. 
Sr. marechal de campo Manuel Deodora da Fon- 
seca. 

São mantidas todas as ordens estabelecidas, — 
(Assignado) íZer/7Zi's Ernesto da Fonseca. y> 

Pela uma hora da tarde do dia 17 na praça que 
se estende em frente ao fosso que havia junto ao 
portão da fortaleza de S. Pedro, quartel do 16* de 
infantaria, subiu o Dr. Virgílio Damásio a um banco 
e cercado pelo coronel Buys, officiaes, republi- 
canos e estudantes proclamou a Republica e foi 
titmbem acclamado governador. 

Os três vivas: — Viva a Republica brasileira; — 
Vivam ds Estados-Unidos do Brasil: — Viva o Es- 
tado da Bahia; — foram correspondidos por longos 
c enérgicos appíausos. 

A banda de musica do batalhão tocou a Mar- 
selhesa^ os soldados brandiram as armas e se- 
guiram todos até o Terreiro, onde o coronel Buys, 



BB 

•que fôra encarregado de manter a ordem, annun- 
♦ciou que a Republica estava proclamada. 

O povo assistiu a tudo isto mudo e indifferente, 
como si não fossem os setus destinos que se mu- 
davam. Havia muita ^ente na rua para ver a pas- 
seata militar, mas o povo qtie delira em gritos pelo 
carnaval não gastou as forças nem enrouqueceu 
em protestos-e applausos, contraste que pode servir 
para medida do estado do seu -espirito pelo que 
diz respeito ás coisas serias -e graves. 

A Republica não tinha popularidade ! 

A Bania de\^ a um só homem, á sua decisão, 
•energia e firmeza a Republica sem sangue, a ordem 
«e a paz. 

E quem-sabe si sem elle, sem o seu pronuncia- 
mento a i6 não teria abortado a própria revolução 
de i5 d€ Novembro? 

Com uma perspicácia que nem todos os mili- 
tares possuam o coronel Buys tinha a intuição do 
que é o povo, insolente quando se sente temido, 
humilde, subserviente at« adivinhar as vontades de 
um senhor quando lhe percebe a mão decidida e 
forte. 

Patrulhas de carabinas carregadas sahtram do 
quartel do i6** e foram estacionar nas praças e lo- 
cares concorridos e suspeitos. 

A altitude da tropa não era de provocação mas 
de sombria decisão. 

Bastou isto. 

Todos os que se haviam mostrado tão bravos e 
affoitos em i5 de Junho, todos os magarefes, savei- 
ristas e desordeiros dos districtos centrais ou sub- 
urbanos sumiram-se, como si a terra os tivessia 
^ngulido, 

A Baixa dos Sapateiros, que tinha sido o the- 
atro dos factos do i5 de Junho, e onde tantas bra- 
vatas se tinham apregoado naquelle dia, ede então 
em deante, ás 9 horas da noite era um deserto onde 



38_ 

sádos, declarou não ter cumprido as determinações 
tomadas no dia i6, por terem ficado mudas e inac- 
tivas as grandes corporações do Estado e por terem 
cedido á força das circumstancias os grandes do 
império, por ter a municipalidade do Rio accla- 
mado o governo provisório, por ter-se o imperador 
resignado á sua sorte e se achar disposto a sahir do 
pai2. 

Porque, por outro lado, os que se declararam 
tão profundamente monarchistas cediam ás exigên- 
cias da opinião nacional, o que tornava impossível 
e inútil qualquer tentativa de resistência e porque 
o governo provisório na sua proclamação promettia 
que o paiz se governaria e porque a camará devia 
considerar que a forma de governo era um meio e 
não um fim. Por tudo isto propunha que a camará 
também adherisse á Republica, proposta que foi tão 
unanimemente approvada como as do dia i6. 

Após isto convidara ainda o presidente a ca- 
mará afim de que á i hora da tarde se reunisse para 
receber o juramento, dar posse e proclamar o go- 
vernador provisório acclamado Dr. Virgílio Cli- 
maco Damásio. 

Como se vé, não era invocada para justificar 
aquelle grave repudio de opiniões expendidas na 
ante-vespera alguma poderosa razão que se articu- 
lasse contra a Monarchia — como um crime de alta 
traição, o derramamento inútil do sangue brazileiro, 
violação expressa da Constituição e leis fundamen- 
taés do paiz, ou conluio com o extrangeiro de que 
resultasse humilhação, guerra e invasão. Também 
não foram citados os motivos pelos quaes se julgava 
agora preferivel uma forma de governo contraria 
áquella que se havia promettido manter, pois nem 
sequer foram apontadas as vantagens politicas, so- 
ciaes e económicas em que se devia ter baseado tal 
mudança de opiniões, pois não se coadunam com a 
moral e a consciência de homens livres e coherentes 



39 

como que tinham resolvido havia 48 horas apenas, os 
argumentos apresentados, tanto mais que exerciam 
elles, os camaristas, um poder essencialmente po- 
pular, e portanto independente do governo do Rio 
de Janeiro, fosse elle qual fosse. 

Tem^se procurado depois dessa época justificar 
este procedimento da camará, assim como de todos 
os mais que se desdisseram em tal occasiào e não 
se mantiveram com a coherencia e firmeza que de- 
viam ter; mas a suspeita sinistra que acode ao es- 
pirito, principalmente quando a reflexão lembra as 
immensas expansões de consideração, dedicação e 
quasi ternura prodigalizadas ao imperador Pedro 11, 
quando voltara pouco antes da Europa, é que si se 
tratasse do allemão ou do americano que nos appa- 
recesse impondo taes retractações e mudanças de 
opinião, depois de uma victoria, é de receiar que 
também, outra vez, todos, camarás, juizes, gene- 
raes, imprensa, funccionarios, arrastando atraz de 
si um povo inerte, sem convicções e sem iniciativa, 
sem coragem e estimulos nobres, resignado a todas 
as dominações como o da índia e do Egypto, tudo, 
todos, acompanhariam o novo dominador e occu-* 
pante, achando também ainda depois palavras para 
desculpar a própria felonia e fraqueza. 

Na véspera tinha sido espalhada a seguinte pro-» 
clamação assignada pelo governador do Estado da 
Bahia, sem que se possa noje por ella affirmar si 
foi escripta pelo Dr. Manuel Victorino ou pelo Dr* 
Virgílio Damásio: 

PROCLAMAÇÃO 

«Cidadãos: — O exercito e a afmada depondo o 
ministério, constituíram governo provisório, ao qual 
tem adherido a camará municipal da Corte, diversas 
Provindas e grande parte das populações. 

A proclamação da nova forma de governo á um 



facto consummado, contra o qual só poderá reagir 
quem queira provocar uma luta sangrenta, sem van- 
tagem para o paiz e com o maior perigo para todas 
as classes interessadas, na plena garantia de vida 
e de prosperidade. 

Todo o empenho dos bons cidadãos deve ser, 
neste momento, velar pela ordem publica. 

Assumindo o governo da Província, proponho- 
me com o auxilio de todos os patriotas a fazer, pri- 
meiro que tudo, respeitar a tranquilUdade desta ca- 
pital, manter a inviolabilidade do domicilio e a se- 
gurança individual e dos bens, e promover a felici- 
dade da Provincia. 

Todos os encargos da Provincia serão escru- 
pulosamente respeitados; todos os funccionarios 
públicos serão conservados nos seus togares, salvo 
exoneração solicitada ou ulterior abuso de confi- 
ança. 

O novo governo não considera de sua Índole, 
nem reputa necessário á sua estabilidade, qualquer 
movimento de reacção. 

Appello para o commercio, industrias, classes 
Uberaes, operários, artistas, emfim para todos os 
elementos de vida, de trabalho, de ordem e prospe- 
ridade, e entrego ao seu nunca desmentido patrio- 
tismo o presente e o futuro do Estado Federado da 
Bahia. 

Bahia, 17 de Novembro de 1889. -O governa- 
dor do Estado da Bahiay>. 

Depois de proclamar a Republica a 17, recebeu 
o Dr. Virgilio Damásio um telegramma do Sr. Ruy 
Barbosa em que este lhe pedia acceitasse a nomea- 
ção interina até que o Dr. Manuel Victorino assu- 
misse a administração. 

Este telegramma causou grande desagrado entre 
os republicanos que já se começavam a chamar 
históricos para distinguil-os dos que, havia 24 ho- 
ras, se entregavam á faina apressada de adherir. 



41_ 

Asseguram também que o Dr. Manuel Victormo) 
recebera um outro despacho em que lhe diziam to- 
masse logo ]^osse do governo do Kstado, por não 
inspirar confiança o Dr. Virgílio Damásio. 

O Sr. Ruy Barbosa appellava para as relações 
particulares de amisade que os uniam. 

Começaram a chover os protestos de adhesâo 
do interior; uns mais honestos, dos primeir^^s dias, 
outros covardes, só expedidos quando a situação 
não deixava mais duvidas sobre a felicidade do pro- 
nunciamento. Muitos indivíduos dos que assim se 
levantavam pela Republica náo tinham desta forma 
de governo a mais leve noção. Em Caetite', por 
iíxemplo, um grupo soltou todos os presos da ca- 
deia, onde havia criminosos graves, por supporem 
que na Republica não se castigavam os ladroes e 
assassinos. Aqui mesmo na capital entre muita 
gente era confusa a distincçào entre a Republica e 
a Anarchia. 

Em Nazareth os Srs. José xMarcelUno, Alexan- 
dre F. Maia Bittencourt e Adriano Francisco dos 
Santos promoveram a proclamação da Republica; 
em Camamú o Dr. Alfredo Martins faz a mesma 
coisa. Em Alagoinhas foi numa reunião popular que 
se manifestou o sentimento de adherir á Republica. 
Em Villa Nova da Rainha o Dr. José Gonçalves da 
Silva também pronunciou-se no mesmo sentido com 
o partido conservador. As camarás municipaes de 
Ilhéus, Valença, Villa da Barra do Rio de Contas, 
Abbadia, Alagoinhas, Santo Amaro e Maragogipe, 
foram mandando as suas mensagens de solidarie- 
dade com o facto consummado, seguindo depois as 
da Feira de SanfAnna, Camamú, Alcobaça, Viçosa. 
Serrinha, Itaparica, Santo António de Jesus, Bel- 
monte e Cachoeira. 

No dia 22, recebeu o Dr. Virgílio Damásio uma 
communicaçàodo Dr. Manuel Victorino, avisando-o 



áe que pretendia no dia seguinte tomar posse dcp 
logar para o qual fora nomeado. Assim se fez. 

Com grande concurso de pessoas de todas as» 
classes realisou-se esta cerenvonia na camará muni- 
cipal, parecendo aos^ homens, de crenças, puras e 
aos patriotas qi»e se ia abrir un* mund!o novo pelo. 
congraçamento de todos os partido*, e pelo impulso 
que toda» as coisas sentiriam no retíinten que ia 
agora enftrar na sua phase fecunda. O governador 
pelo seuperegrino talento, pelas idéas avançadas 
que professava na vanguarda do partido liberal, 
signatário, com a Sr. Ruy Barbosa, da celebre voto- 
em separado, apresentado no congresso daquelle 
partido, do qual andava ha tempos divorciado em 
muitos assumptos, parecia á bôa parte dos cidadãos 
o homem fadado para dirigir a Bahia na \'ida novu 
em que enveredava. 

No dia 2? os Drs. Manuel Victorina, Virgilio 
Damásio, Deoclecíano Ramos e coronel Buys per- 
correram a cavallo as ruas da cidade a frente de 
todas as tropas da guarnição formando uma bri- 
gada: e ao terminar esta passeata, em frente ao 
quartel do i6/, o Dr, Manuel Victorino falou ai> 
povo e aos soldados. Começou então o seu governo. 

Dos republicanos só o Dr. Silvino Moura se le~ 
vantou contra esta nomeação, publicando nos jor- 
naes o seu protesto; os outros se resignaram, pro- 
cedendo com divScipUna e espirito de ordem, como 
raras veies acontece em taes círcumstancias, con- 
scr\'ando-se á distancia, mas sem augmentar com 
uma dissidência funesta as grandes difficuldades 
com que o governo ia lutar; de modo que, em Abril 
do anno seguinte, quando elle acabou, podiam dizer 
que a primeira administração da Republica se fun- 
dara e desapparecera sem elles. 



43 

CONCLUSÕES 

Os factos que acahamos de vêr foram, como è 
íogico, consequência ou «flpeitos de outros e delles 
também haviam de decorrer por seu turno ainda 
muitos outros. 

Um mal de incatculavets consequências foi a 
dissolução do partido republicano logo depois da 
proclamação. 

Si bem que pareça redundância um partido re- 
publicano aa Republica, era elle necessário porque 
a comprchensão da nova ordem de coisas não a 
tinha o publico, nem mesmo a maioria dos que 
•exerciam dahi em diante influencia nos negócios 
públicos. 

Convertidos de surpresa, por interesses, ficaram 
na sua maioria estes homens na situação de adeptos 
•de uma religião da qual não conheciam o cathe- 
cismo. 

Entretanto, si muitos delles s«e tivessem po- 
•dido orientar bem, si tivessem centros por onde 
lhes chegassem as doutrinas que ignoravam, mui- 
tos delles não se teriam corrompido nas mãos dos 
líspeculadores sem escrúpulos que se abateram sem 
piedade sobre esta fácil presa. 

Bastava que nas localidades se formassem gru- 
pos oppostos firmemente a esta hypocrita e desbra- 
gada corrupção eleitoral que ahi se estadeia para 
que não fosse possível o estadeio dos vergonhosos 
vicios poUticos que tanto tém desprestigiado tudo, 
inclusive os cargos de representação. 

E logo no principio os acontecimentos deviam 
ter indicado aos republicanos que por immediato 
interesse e regra de conservação deviam ter proce- 
dido com mais segurança. 

Acabava de vêr-se, não pela primeira ver, poÍ8 
na Historia poucas coisas já não tiveram equiva* 
lentes, uma doutrina nova ir pedir a pessoas fora 



44 _ 

do seu gremácy que a dirigissem. Entretanto as re- 
publicanos como partido não só nào haviam com- 
mettido ainda uma falta como não se lhes podia 
lançar aos hombros esta estupidez do ódio que só 
se encontra nos theologos orthodoxos. Particular- 
mente eram homens de uma pureza de Nida c hon- 
radez como os melhores do paiz. 

Sentiu-se logo um dos grandes inconvenientes 
da precipitação de movimento no facto de nào ins- 
pirarem 09 republicanos confiança uns aos outros. 

A Republica achou-se logo na posição desas- 
trada e falsa de um general que tivesse medo dos 
soldados da sua guarda. Este grande infortúnio se 
originou na ínsuffíciencia da propaganda. 

Aqui só haviamos tido um orgam do j>artido; a 
RcpubliciJ FciicraL 

Ella foi sempre, porem, apenas um jornal do 
expediente da propaganda e nào um grande meio 
de dif]usào de ensinamento, profuso e fecundo. Ti- 
ravam-se i.5(k) exemplares apenas. 

Entre os próprios republicanos ainda não se 
tinha dado a phase completa de discussão e com- 
bate de que devia resultar o equilibrio entre as duas 
correntes que levavam os espiritos. 

Tinha faitado tempo, lucta, soffrimento mesmo, 
embate de opiniões em que se tivessem posto em 
evidencia os homens de merecimento, se tivesse 
completado o partido republicano, disciplinado e 
preparado para a administração, o que o teria im- 
pedido de se deixar despojar e teria permittido por 
em execução um progranima para o governo da Re- 
publica. 

Sob o ponto de vista moral e sociológico a re- 
volução militar de i5 de Novembro foi um immenso 
mal para a Republica porque precipitou um impor- 
tante facto politico que se estava preparando, muito 
ainda em seu começo. Disto resultou que os repu- 
blicanos lodos do paiz nào se conheciam, o que só 



4Õ _ 

seria possível após os congressos e reuniões, geraes 
e troca assídua de correspondência, de ide'as e con- 
vívio intellectual constante. 

Os membros do governo provisório, que em sua 
maioria não eram republicanos, não estavam em dia 
com o estado da propaganda. Delles, três eram offi- 
ciaes superiores, mas do commando para o go- 
verno de uma republica democrática vai grande dis- 
tancia; dos cutros, três eram jornalistas mas nenhum 
delles administrara ainda. Entre todos nem um só 
homem de Estado ! 

O mais eminente, e o que mais concorrera para 
a queda da Monarchia fizera-o como se faz oppo- 
sição, demolindo, sem a orientação de quem vai 
reconstruir, segundo um certo plano. A sua alti- 
tude no Diário de Noticias era a de um indignado, 
que dominava do alto do seu pedestal de Deus, jla- 
gellando sem piedade o mal que via a seus pes; 
nunca a de um propaiíandista que mostra do outro 
lado o caminho do bem, ensinando os meios de 
chegar a elle e aproveitando do que devia ser con- 
demnado o que era susceptível de ser transformado. 

Os governadores, salvo raras excepções, não 
sahírám da propaganda e os que não ageitaram as 
coisas em beneficio de um dos dois grupos ao qual 
pertencia, procuraram aproveitar aquelles que ha- 
viam pertencido ás duasfe's antigas, misturando-os, 
mas procurando enfraquecer os republicanos. Em 
muitos logares mesmo o numero destes era tão pe- 
queno que não dava para as nomeações dos cargos 
da municipalidade e polícia. 

Um mal porém peio." do que todos foi ter-se feito 
a Republica sem que a Nação soubesse o que ella 
devia ser; não tinha a maior parte do pcvo a noção 
mais elementar do que constituía a essência desse 
governo, de modo que o facto de i5 de Novembro 
foi o equivalente de uma legislação que entregasse 



46 

a menores de 1 2 e 1 3 annos a plena posse dos seus 
bens e responsabilidades civis. 

Tinha-se clamado muito no Império por uma 
administração mais simples, menos burocrática: e 
deviamos ver desfilar uma mais complicada e diffi- 
cil de que a anterior, continuando com a mesma di- 
visão territorial e sempre sem meios de communi- 
cação rápida, que foram calorosamente promettidos 
e nunca realizados. 

Das reformas inevitáveis e que se foram decre- 
tando no seu mais fecundo periodo, o primeiro tri- 
mestre, pouco sabia a Nação. Elias eram recebidas 
com alegria, sem duvida, mas numa espécie de des 
lumbramento, sem que percebesse sequer a maioria 
da população bem o que queria dizer aquillo,de modo 
que em conclusão, após o aparato de grande mu- 
dança, em muitos assumptos ficamos na realidade 
mais atracados na solução das questões comple- 
mentares do que no tempo do Império. 

Algumas noções havia sobre a federação das 
províncias porque a imprensa partidária já diversas 
vezes enfrentara esta questão e até em torno de tal 
aspiração se fundara aqui uma liga, que durou 
pouco, mas não antevíamos ainda todas as suas con- 
sequências, nem havia sido discutido o que diz res- 
peito aos impostos munícipaes, federaes e provin- 
cíaes, nem a dualidade da justiça, nem a instru- 
cçào trifronte, nem os impecilhos que a nova vida 
municipal devia trazer ao transporte e livre transito 
das mercadorias e productos. 

Desengano semelhante se viu no que entende 
com os assumptos religiosos, pois oueá formula da 
separação da Egreja e do Estado, pnrase de effeito. 
não corresponderam as vantagens praticas e Uberaes 
para o paiz, que, entretanto, em parte já se tinham 
alcançado, como foi a secularização dos conventoí> 
por e.xtincçào das ordens, e dos bens de mão morta, 
o que se deu porque a Nação não era capaz de bem 



_- ^^ 

julgar sobre o caso, pelo que se contentou mais com 
a apparencia das coisas e a promessa do distico do 
que com o proveito real da conquista. 

Di2em todos os viajantes e observadores do mo- 
derno Japão que elle deve o seu extraordinário pro- 
gresso e poderão modo intelligente pelo qual apro- 
veitou o seu governo a revolução de 1868. 

O objectivo daquella administração foi formar 
professores que deviam reconstruir moral e mate- 
rialmente a nação, para o que não só se serviu de 
extrangeiros que fizeram acompanhar nos trabalhos 
de todo o género para que tinham sido contracta- 
dos, por moços escolhidos para lhes succederem, 
o que lhes permittiu em pouco tempo irem-os dis- 
pensando, pondo de lado, como encheu a Europa 
de nacionaes daquelle paiz, destinados a estudar, 
aperfeiçoar e aprofundar todos os trabalhos prá- 
ticos, profissões, artes, commercio, industrias dos 
povos occidentaes. O resultado disto se viu e está 
se vendo, e não podia falhar. 

Da nossa revolução não pudemos aproveitar o 
impulso para vantagem da nossa pátria. 

Não soubemos fazer professores nacionaes ca- 
pazes, afim de levarem para deante o paiz na di- 
recção do seu destino que devia ser grandioso. A 
precipitação do movimento deixou a direcção da 
sua parte mais difficil, a reconstituição, nas mãos 
de theoricos que não tinham plano nem orientação, 
pelo que não é de extranhar que não pudessem re- 
construir embora tivessem boa vontade para o 
fa:zer. 

Na classe média, do paiz, a que mais le e pro- 
gride, não penetrava pelo manuseio diário dos li- 
vros, pela leitura assidua dos assumptos connexos, 
o gosto pelo estudo da administração das Repu- 
blicas, a comprehensão do seu mecanismo e prin- 
cipalmente a percepção nitida do que era preciso 
fazer para mudar com utilidade e em pouco tempo 



jt8 

o que tínhamos de melhor, adaptando os nossos 
costumes e hábitos de vida económica e politica 
ao que se pretendia crear. Sem isso não era pos- 
sível, como nào foi, o desenvolvimento material e 
pratico que devia ter sido o primeiro objectivo da 
nova era nacional. 

Um despacho, logo nos primeiros dias, annun- 
ciando arrojadamente que toda a America estava 
prompta para sustentar a Republica brazileira no 
caso de algum confUcto dynastico, era coisa por si 
sufficiente para causar apprehensões, que foram 
perfeitamente justificadas depois, quando chega- 
mos á bandeira sectarista, a malbaratar a gravi- 
dade do paíz, cor^o nação que se respeita, pelo 
generalato do ministério, e a elevação do chefe do 
governo a generalíssimo, posto concedido por ac- 
clamação dos soldados, não nos campos da guerra, 
mas na plena paz de uma festa nas ruas da ca- 
pital. 

Dentro em pouco devia ser evidente que está- 
vamos na Republica como exploradores numa 
matta cerrada, em que iríamos correr por muito 
tempo inutilmente, antes que lhe atinássemos com 
os trilhos e clareiras. 

Km matéria de ínstrucção que devia ser a ma- 
china poderosa destinada a deslocar o paiz do 
marasmo em que vivera, só a comprehendiam 
muito lenta, vindo desde a primaria, própria para 
dar fructos em outra geração. Parece que só le- 
varam em conta a instrucção litteraria. A renova- 
ção pratica, profissional, rapidamente levada a ef- 
feito para impulsionar as producções e activar as 
energias pelos processos novos e o tracto das coisas, 
como fazem os povos adeantados, não lhes passou 

f)ela mente ou não souberam promover de modo 
ecundo e geral para todo o paíz. O próprio carro- 
moroso da educação litteraria. que devia ser pu- 
xado como dantes, nunca foi tirado da lama por- 



__J9 

«que ncaham dos homens notáveis da época teve 
força nem tempo para isto, dando-se ajinal o ab- 
surdo, que elles não podiam ter desejado, de pre- 
pararem a desorgamização mais completa, a indis- 
ciplina mais vergonhosa que se tem visto num 
povo christào; esta subversão, partindo das es* 
colas, que attenta contra os comesinhos princí- 
pios de moral e ho^n-est idade, que selvagens se or- 
Agulham de cultivar e praticar, que ahi se vai accen- 
tuando como a lepra repugnante, e o crime impune, 
•que todos fingem não ver, porque ninguém tem 
maisenertfia para reprimir, como acontece ás raças 
degeneradas que se abandonam ao mal, consci- 
entes da sua incapacidade para as impulsões enér- 
gicas e saneadoras, que outras raças mais viris e 
não aviltadas lhes vêm injectar com o sabre e o 
látego do seu dominio, 

Desfalques e insultos dos discentes a seus mes- 
tres vão acompanhando a vida da Republica e 
são, numa escala ascendente, os tristes indícios 
<ia decadência da nossa educação domestica e reli- 
;giosa, que vão revelando como ameaça esboroar- 
se, retrogradando nas pretenções de um pedan- 
tismo que se origina na falsa comprehensão da 
independência, e barbarÍ2ando-se na indelicadeza 
de sentimentos e nas abjecções dos mais grosseiros 
•desrespeitos, uma nacionalidade digna de mais 
nobre evolução. 

Tiveram medo das forças viv»as da Nação e 
procuraram cuidadosamente excluil-a de toda a 
parte, até da representação nacional, onde aliás 
a pequena porção que pôde penetrar não se esta- 
beleceu ou se enervou em pouco tempo. 

A ingenuidade dos republicanos, acreditando 
<jue nada mais havia que fazer e que lhes perten* 
ceria e aos seus ideaes a gestão dos negócios, e a 
illusão generosa dos membros do governo provi- 
sório € outros homens eminentes daquella época 



60 

que tudo se faria como por milagre no sentido de 
uma regeneração espontânea, tornando-se sinceros 
patriotas, de alevantado espirito e intuitos, os ho- 
mens de uma geração politica abastardada, só 
pela creação inesperada das novas normas, revela 
que não foi por falta de amor á sua terra ou de 
generosidade que assim procederam. 

Foi por falta da percepção nitida das circum- 
stancias e de orientação; por medo e pouca reflexão 
sobre o estado intellectual do Brazil e sobre o que 
mais convinha para elle, pela vaidosa persuasão 
de que muito já se tinha avançado, e porque não 
eram homens viajados, perseverantes e práticos, 
filhos da propaganda e da luta que gera convicções, 
mas apanhados á pressa e encarregados de fazer 
aquilío para que não estavam preparados. 

Não julgaram indispensável crear professores 
em todas as especialidades da marinha, do exer- 
cito, da medicina, da engenharia, da agricultura, 
da mineração, da industria, do commercio, como 
faziam a CvSse tempo os japonezes e os argentinos-, 
de modo que esses homens se tornassem os promo- 
tores dessas especialidades preciosas no paiz. 

Perdeu-se por isto uma occasião das que raras 
vezes se deparam na vida dos povos; falhou tudo 
como pecca uma fructa que se colheu ainda não 
sazonada e os que mais culpa tiveram nisso ou 
ficam impenitentes ou expandem em gemidos e la- 
mentos a presença dos males que não souberam 
destruir e a ausência dos bens que não souberam 
promover. 

O deplorável despojo dos republicanos, que se 
começou logo a fazer é filho do ciúme dos que, 
sendo monarchistas trabalharam para que elles não 
viessem a dominar, ciúme egoista e tão absurdo 
que melhor seria ter de novo chamado o imperador, 
já que a Republica não era para os republicanos^ 



_ BI 

parece consequência lógica do pequeno numero e 
da diminuta força real destes. 

Por outro lado a desorientação completa do go- 
verno que não sabia para onde queria ir, e a sua 
absoluta ignorância do estado da propaganda e 
falta de conhecimento dos homens que a faziam, 
devia produzir os maiores contrasensos. 

Por todas estas razões o partido republicano não 
devia ter desapparecido. Foi por nào terem perma- 
necido com as mãos sobre as armas nas suas for- 
talezas que os republicanos não inspiraram confi- 
ança e não se impuzeram ao governo provisório. 
Kste, entretanto, veio a soflfrer coisa muito peior 
do que a asc-endencia dos republicanos que tanto 
parecia temer, cahindo sob o jugo de uma seita que 
a nação não conhecia, que não acceitava nem ac- 
coitou até agora, que nella irrompeu como uma 
violência aos seus sentimentos e crenças, mas que 
tão bem conhecia a sua inércia e submissão ás coi- 
sas já feitas, que lhe coUocou o lemma na bandeira. 

Recusando apoio aos republicanos, contraba- 
lançando a sua influencia onde ella se podia ir for- 
mando, impedindo a constituição de uma forte 
aggremiação politica com os elementos da propa- 
ganda, produziram em politica uma educação que 
preparou as atrocidades da guerra civil do Sul, as 
da revolta da esquadra e as de Canudos, assim 
como se houveram de modo tão inintelligente que 
os princípios básicos da lei Saraiva foram substi- 
tuídos pelos do desprezível regulamento Alvim. 

Quanto ás medidas económicas ellas deviam, a 
breve trecho, fomentar os vicios do ensilhamento 
com todos os seus desenganos e torpezas. 

E' pena, entretanto, que destas origens tivesse 
sahido tão grande copia de infortúnios para a 
Nação, porque o próprio facto de se haver jeito de 
surpresa a Republica, de não terem os homens di-- 
rigentes opiniões communs nem ligações com o 



_ 52 

seu partidb' no passado- nem programmas e conn 
promissos, lhes dava urna latitude á autoridade- 
para fazer o bem, especialmente agindo sobre unn 
povo passivo, como raras vezes tem algum poder 
tido occasião' der exercel-a. 

Dr. Braz do Amaral. 



Em additivo á Memoria Histórica do^ Dn Braz 
do Amaral publicamos em seguida o enérgica pro- 
testo que o pranteado jornalista e notável político- 
bahiano, Dr. Augusto Alvarejy Guimarães, escre\'eu 
em i6 de Novembro de 1889^ como presidente da 
camará municipal desta cidade, para ser dirigido 
ao povo bahíano em nome da mesma, e cujo ori- 
ginal pertence hoje ao archivodo Instituto^ e vários 
outros apontamentos que o illustre socío Dr. Júlio- 
da Gama julgou necessário accrescentar sobre a 
propaganda republicana. 

FRíTrKSTO DA GAMARA MUNICIPAL DA BAHIA PELA PRO- 

CLAMAÇÃíy DA REPUBLICA QUE DEIXOU DE SER AS- 

DIGNADO E NÃO VEIO Á PUBLICIDADE, 

A camará municipal da leal e valorosa Cidade 
do Salvador. 

Bahianos: 

«Noticias desencontradas, transmittidas pelo 
telegrapho, annunciam-nos que graves aconteci- 
mentos se dão desde hontem na Corte do Império: 
que o imperador fora deposto, que uma revolta mi- 
litar proclamara a Republica, que organizara-se um 
governo provisório, e que este, no meio de outros 
actos praticados, todos illegaes, como a origem 



53 

desse preteaso governo, dissolvera o senado, a ca- 
mará dos deputados, o conselho de estado e ameaça 
alluir até as bases nossa organização politica e so- 
cial, que, além de tantos outros benefícios, nos deu 
perto de quarenta annos de paz interna. 

No meio de todas essas noticias, transmittidas 
pelo telegrapho, em poder dos revoltosos, e pro- 
curando agital-as para produzir sensação e adhe- 
são nas Províncias, apura-se um facto que é ver- 
dadeiro: a instituição de um governo provisório, 
acclamado pela tropa armada, em passeio tumul- 
tuoso pelas ruas da Corte, depois da perpetraçào 
de um crime. 

Tal governo não pode ser governo de direito, é 
governo de força, é dictadura imposta pela bayo- 
neta e pela espada, é o regimen da caudilhagem 
que se inaugura de surpresa, nas ruas da primeira 
capital da America do Sul. 

O telegrapho, sequestrado só para uso do go- 
verno usurpador, tem constantemente espalhado 
noticias de adhesoes, que são falsas: ainda hoje o 
governo legal de Pernambuco affirma que todo o 
norte do Império estava em paz, e que as tropas 
das guarnições cumpriam o seu dever correcta- 
mente. E outro não é o dever do exercito do que 
manter a fé, que jurou ao abrigar-se ás dobras da 
bandeira da pátria brazileira, que hoje querem re- 
talhar e fazer descer da altura em que nos coUocou 
a Monarchia constitucinal, creação de nossos avós, 
que combateram pela Independência, até o nivel 
das republicas que têm seu progresso retardado 
pelas constantes guerras intestinas. 

E' esse o progresso que nos vem trazer um go- 
verno, vicioso em sua origem, e que se aproveita 
do pânico natural, que infunde a traição da força 
armada, a defensora natural das instituições, para 
dissolver o parlamento vitalício, onde sentavam-se 



54 _ 

as nossas maiores notabilidadcs politicas e a ca- 
mará temporária ha poucos dias eleita pelo povo. 

Começa pela traição, pelo terror e pela sone- 
gação da verdade ás Provindas, que quer explo- 
rar, transmitindo-lhes noticias de adhesões, que 
não existem. 

Bahianos, quando ha poucos mezes um desassi- 
sado disparou um tiro sobre a carruajíem do impe- 
rador, toda a Europa duvidou do facto: tal é o 
amor que todos sabem, a familia imperial inspira, 
por suas virtudes, por seu patriotismo. Hoje, no 
ultimo quartel da vida, quando o acabrunha a 
moléstia, é o imperador victima da maior das in- 
gratidões, recusando-se-lhe ate o direito de exhalar 
o derradeiro suspiro na terra que lhe foi berço e 
que tanto amou. 

A herdeira presumptiva do throno é uma prin- 
ceza que, ha pouco mais de um anno, era glorifi- 
cada não só pela lei áurea de 28 de Setembro de 
1871, como pela de i3 de Maio, que extinguiu em 
um dia, no meio de applausos e de bênçãos, a es- 
cravidão. A força armada, em paga de tanta bene- 
merência, aponta á redemptora o caminho do 
exilio. 

Povo bahiano ! Ksta Província não pode ser 
enfeudada ás precipitações de um general, que 
crea, de um dia para outro, por arbitrio seu, por 
pesadelo ou por ambição, uma situação nova para 
o paiz, contra a opinião geral delle, dispensando o 
concurso de seus representantes naturaes e legaes. 
Kstejamos certos de que a reacção contra essa di- 
ctadura violenta começará na Corte e se prolon- 
gará pelas Províncias. Este systema, oriundo da 
surpresa e da traição, não pode continuar, porque 
não pode ser apoiado pelos amigos das liberdades 
publicas e dos direitos do povo. 

A camará interpretou fielmente os vossos senti- 
mentos de fidelidade ao augusto e venerando mo- 



55 



narcha, o Sr. D. Pedro II, os vossos sentimentos 
de ordem, de amor ás instituições, que querem des- 
truir, de ódio á guerra civil, que querem estabe- 
lecer como objectivo da dictadura, protestando 
também ao governo legitimo sua adhesáo e pro- 
testando conta essa ordem de coisas, que nunca 
se viu, nem nos tempos primitivos de nossa histo- 
ria politica. 

A camará está prompta a auxiliar o governo 
legal em todas as medidas necessárias para manter 
viva a nossa fé ao principio monarchico, e convida 
todos os habitantes desta cidade para manter-se 
na attitude que deante dessas violências deve con- 
serv^ar um povo livre, que não pode admittir, sem 
sua outorga, mudanças radicaes em suas insti- 
tuições. 

Recommenda principalmente toda a ordem, o 
maior respeito aos direitos individuaes do cidadão, 
á propriedade e pede que confie no governo que 
apoiado no concurso generoso e dedicado de nos- 
sos concidadãos, sem distincção de cor politica, 
ha de saber-se conservar firme no posto que lhe 
confiou o governo imperial, único governo legal, 
que a camará reconhece. 

Viva S. xM. o imperador! 

Paço da municipalidade da Bahia, em i6 de 
Novembro de 1889. — Augusto A. (juimarÃes, P.» 



Nào é licito deixar pairar, no espirito dos vin- 
douros, duvidas a respeito do republicanismo do 
povo da Bahia, como propositalmente têm procu- 
rado incutir exploradores, por conveniência pro 
pria. 

A idéa republicana, na classe instruída de nossa 
sociedade, sempre foi aninhada como esperança 
promissora; e fundados nisto, é que muitos dos que 



5^ ^ 

militavam nos partidos monarchicos serviram-se 
delia por vezes, quando desaguisavam-sc com a 
monarchia, como de um espantalho; e outros ainda, 
intelligentes e sem escrúpulos, delia faziam um 
meio para obterem posições que ambicionavam: 
os próceres dos partidos monarchicos tão bem co- 
nheciam que estes sentimentos e aspirações se 
acham tão arraigados na alma bahiana, que pro- 
curavam arrancal-os a ferro e fogo como aconteceu 
em 37, na revolução chamada Sahinada, verda- 
deira revolução de leões dirigida por um carneiro. 
Não e'. tampouco, licito pensar que, por se achar 
de algum modo intibiado o animo, na geração 
subsequente, pelas atrocidades commettidas n'a- 
quella e'poca, tivesse sido, de facto, extirpada de 
vez a aspiração do coração do povo. e ahi estão as 
provas dadas por cónego Rodrigo, Guedes Cabral 
(pai), França Guerra, que por vezes publicou pe- 
riódicos, como — A Scntiuclla do Povo — cuja es- 
tampa foi gravada por meu pai; eis ahi o — O Ho- 
risonte, — gazeta escripia por Frederico Lisboa, 
(Guedes Cabral (filho,) Paulino Gil e outros; — O 
Santelmo — que si não eram orgam official de 
um partido arregimentado, quede facto não existia, 
eram ao menos um brado do sentimento republi- 
cano, que irrompia de peitos, que já não o podiam 
dominar; e então terçavam elles as armas com a 
gazeta official do partido monarchico nesse tempo. 

A agremiação formal de um partido foi feita em 
1876, com aquelles que em 1870 haviam abraçado, 
aqui na Bahia, o manifesto de Saldanha Marinho. 

Não é sem muita consideração e muita estima 
que menciono aqui os nomes dos meus illustres 
coUegas e amigos os doutores Frederico Lisboa e 
António Spinola de Atahyde, mas força é dizer 
que, depois das primeiras sevssões preparatórias, 
deixaram, não sei por que motivo, de comparecer 
as sessões, mesmo depois de eleitos, o Dr. Frede- 



67 

rico presidente, e o Dr. Atahyde r' vice-presidente; 
dando assim logar a que fossem ellas presididas 
por meu pai, Mathias Tavares da Gama, 2"* vice- 
presidente eleito. 

Não é próprio a um filho tecer elogios a iseu 
pai, nem eu os teço, neste sentido, portanto, não 
devem ser tidas minhas palavras; mas todos aquel- 
les que conheceram o artista honrado e integro, 
sabem nelle a personificação da convicção repu- 
blicana. 

Em a noite da inauguração do Club, sendo, 
como em todas as noites de reunião, vigiada a 
rua pela policia, e nessa mais do que em nenhuma, 
a ponto de muitos sócios, dando ouvidos aos boa- 
tos aterradores que se espalhavam, fugirem, elle, 
porém, era firme e calmo, como o podem attestar 
os que sobrevivem, d'aquelles que tomaram parte 
naquella notável sessão; e muitos eram, dos quaes, 
porém, bem me não lembro dos nomes, senão do 
Dr. Henrique Alvares dos Santos, Aquino Fon- 
seca, Moscozo^ Carigé Baraúna, Pamphilo, LelUs 
Piedade, Júlio da Gama e muitos mais. . . 

Nem um, nem um só destes que haviam ficado 
até a hora da solemnidade, teve a veleidade de 
procurar, deanfe do olhar sereno e convicto do 
crente, fugir, pelo menos naquelle momento, ás 
responsabilidades que contrahiam; e todos circum- 
dando o que representava o centro de attracção re- 
publicana da Bahia, naquella época, e que de mão 
estendida affirma defender as idéas republicanas 
até mesmo com sacrifício da vida, que o seria 
também da familia, pois delia vivia, todos vieram, 
um a um fazer a mesma affirmação sobre a mão do 
artista: deram-se depois defecções, mas elle foi 
firme até a morte. 

Convém não esquecer que é habito dos partidos 
ou facções que dominam, promover ò descrédito 
dos adversários que lhes fazem a critica dos actos, 



_ 58;^ 

ã&s quaes não se podendo justificar^ por não-terem» 
j.ustifica<tiva, lançarem mão do insulto soes e que- 
jandos: e outro não foi o meio de que se serviram os. 
monarchistas da folha officiaU lançando artigos de- 
torpes violências^ em uma gazeta, que^ em outro* 
tempo mais seriav tinha nverecido a honra de ai- 
gtuis escriptos de propaganda republicana^ afim 
de que por esses artigos, fora da Província, se* 
aquillatassem os méritos dos adeptos á republica, 
que taes escreviam; não lograram, porém, sua 
pretensão, pois de todos, taes traças eram conhe- 
cidas; mas hoje faz- se mister que seja isto* clara* 
ixkenie consignado. 



A noticia da conferencia de Silva Jardim, em 
Santos, (a primeira?) tivc-a eunavilla do Bom Je- 
s^us dos Meiras, em Abril de 1888, e aproveitando 
a occasiào em que nos reuníamos em palestra 
amistosa diversos cidadãos 'daquella localidade, 
entre os quaes se achava sempre o distincto ca- 
pitão Tibério Meira, residente actualmente em Je- 
quié, para logo tratei, apreciando a tendência de 
espirito daquelles cidadãos, de crear um núcleo 
republicano na localidade; ficando como patroci- 
nador o capitão Tibério, pelo seu prestigio, com 
a coadjuvação de alguns outros, sendo um dOv<^ 
mais esforçados Bellarmíno JacunJes Lobo, secre- 
tario da municipalidade. 

Preciso é declarar que em i886 já eu havia piei-- 
teado no 10** Jístricto uma eleição, como candi- 
dato, por occasiào da qual, na circular publicada^ 
abri luta com as idéas dos partidos monarchicos, 
fazendo apologia do partido do povo. 

F2is porque ao saber da propaganda de Silva 
Jardim, rompi logo também, a seu exemplo, em 
propaganda republicana, levando-a até o norte de 
Minas. 



j9^ 

T>e caminho, em Santo António da Baffa, hoje 
«cidade de Condcúba, onde cheguei a lo de Junho, 
•tratei de, conferenciando com o meu itrtiito dis- 
tincto amigo e collega, o Dr. Glicerio Velloso, que 
^e achava ahi á frente do movimento abolicionista, 
•convertel-o no mesmo passo, cm propaganda repu-- 
blicana; e assim foi que, em a itoite de 5 de Juliro, 
«em que *se terminavam os festejos de nossa indè- 
penaencia politica, com a tradicional levada dòs 
•carros triumphaes, na occasião em que uma com- 
missão abolicionista de eméritos cidadãos, che- 
fiada pelo Dr. Glicerio Velloso^ fazia entrega da 
carta de Uberdade a um escravo, aproveitei da so- 
ilemnidade para fa^er profissão da fé republicanas 
a elU convidar os habitantes. 

Nesta noite memorável em que o nreti collega*? 
-companheiro Glicerio Velloso eeu commungamos 
na mesma meza de esperanças, pactuamos a mesma 
«crença, a mesma fé, jicou formado o rnicleo repu- 
Hicano, <jue deu íogar ao Club de 1 8 de Novembro. 
O Diário da Bahia d^aqtiella época deu noticia 
desta festa. 

A conselho meu foram creados clubs, pelo ca- 
pitão Liberino, na villa do Rosário do Orobó, e 
no Riacháo da Utinga pelo engenheiro de minas, 
Dr. Joaquim José Pereira, hoje residente na ci* 
dade do Andarahy. 

O que foi o Club dos Lençóes, que já em Março 
de 1888 lançava manifesto e se irradiava por toda 
a parte no sertão, só podem attestar os que sope- 
saram os desgostos e arrastaram as perseguições; 
mas náo convém relembrar factos que degenera- 
riam em ódios ás relações amistosas, entretidas 
hoje com os mcnarchistas de então, actualmente 
ultrarepublicanos: felizmente ha a lei das compen- 
sações. 

As forças do nosso Club estavam em equilíbrio 



60 



dynamico, ellc prosejfuia em sua trajectória recti- 
Utiea. n 

A's eleições que teriam lugar em Dezembro de 
1889, foram apresentados candidatos republicanos 
por todos os districtos; e a mim cabia ainda o sa- 
crifício honroso, de, como candidato pelo decimo 
districto, ferir a luta eleitoral, apezar das ameaças 
em campo serem promissoras do viesencadeamento 
das paixões ruins. 



Dr. Juno DA Gama. 



DISCURSO 

DO PRESIDENTE DO INSTITUTO 

Xyouó. (l/intonio x^aineito da ''ryccha 

NA SESSÃO ANNIVERSARIA DE 3 DE MAIO DE 1904 

Senhores: 

Pela primeira vez cabe-me a subida honra de. 
dirigir- vos a palavra neste dia em que o Instituto 
Geocjraphico e Histórico da Bahia commemora e 
solemniza a data faustosa de seu primeiro decennio. 

Elevado immèrecidamente, ha nove mezes, a 
este cargo pela generosidade dos sócios deste In- 
stituto, não posso ter a satisfação de annunciar-vos 
a prosperidade delle., pois que experimenta e atra- 
vessa as mesmas difficuldades, que outras asso- 
ciações, de idêntica ou semelhante organização. 

Sabeis que pela pobreza do meio, em que vi- 
vemos, e pela insuffíciencia da iniciativa individual 
todas as instituições se organizaram, regularam as 
suas necessidades e se desenvolveram com o auxi- 
lio que recebiam dos cofres públicos, e uma vez 
que esse auxilio tem faltado sof}rem eílas os mes-' 
mos embaraços edebatem-se em eguaes contorções. 

Mas como Rooscvelt, presidente dos Estados- 
Unidos da America do Norte, ao abrir o parla- 
mento americano no anno passado, eu direi: 

«A vossa religião não é a dos fracos, nem a dos 
covardes, o vosso Evangelho é o da esperança e o 
dos esforços triumphantes». 

Com esta divisa não devemos recuar deante da 
luta e pelo contrario mantenhamos e desénvv^lva-* 



62 

mos o culto do passado e busquemos appUcar os 
ensinamentos da Pythonisa, de que somos sacer- 
dotes, e tomemos por modelos esses grandes mo- 
numentos moraes, intellectuaes e materiaes, que 
brilharam em eras, que vão distantes, mas que 
devem ser veneradas pela época que atravessamos. 

E' um rigoroso dever patriótico, éuma necessi- 
dade indeclinável recebermos as inspirações e os 
exemplos desses factos e homens, que illuminaram 
os tempos em que figuraram e fulgiram, fazendo 
perpetual-os na nossa memoria como modelos des- 
sas qualidades e virtudes, que então causaram as- 
sombro. 

Os annos tém passado nessa continua corrente 
interminável da numanidade, mas quem estuda 
certos acontecimentos, quem medita sobre os fac- 
tos, que se vão desenrolando no século passado e 
no que começou a correr, chega a suppor que re- 
trogradássemos ou que não estamos em civilização 
tão adeantada e applaudida. 

Não diremos como CromwcU, ao dissolver o 
parlamento inglez, em 20 de Abril de i653: 

«Existe entre vós uma só virtude ? 

«Ha algum vicio, que não tenhais? 

«Não tendes mais religião que o meucavallo: o 
ouro é o vosso Deus. Qual é, dentre vós, aquelle 
que não tenha barganhado a sua consciência para 
subornos? Ha entre vós algum homem, que tenha 
o menor cuidado ao bem do paiz? Sórdidos ve- 
lhacos.» 

Mas reconhecemos e não podemos deixar de 
reconhecer que no terreno scientifico e industrial 
têm sido innumeros e importantes os progressos. 
Muito temos adeantado nas investigações scienti- 
ficas, principalmente no ramo da medicina ou ci- 
rúrgica, destacando-se os segredos da radiograph ia. 
Grandes tém sido os avanços, mas ainda ha muito 
a investigar^ descobrir e appUcar. 



m 

São extraordinários os adeantamentos sobre a 
electricidade em suas diversas e maravilhosas 
appUcações, cabendo-nos a honra e a gloria de 
ser um brazileiro, o joven Oswaldo de Faria, quem 
descobriu aquillo que o immortal Edison ainda 
não tinha podido attingir. 

Communicamos com espaços longínquos de um 
modo mysterioso e imperceptivel por meio do in- 
vento de Marconi. Registamos outras descobertas 
maravilhosas, como seja a direcção do aerostato^ 
julgada impossivel por sábios astrónomos, pare- 
cendo que a gloria da resolução de táo notável pro- 
blema vem também caber ao illustre e intrépido 
brazileiro Santos Dumont. 

E' verdade que contamos todos esses progres- 
sos, mas, com relação a outros assumptos, retro- 
gradámos á épocas muito remotas. 

A phase contemporânea é, da violência, é a 
força, sendo appUcada sob diversas formas è, 
quando esta não impera, substitue a corrupção. 

Fazendo um retrospecto sobre a Europa vejo 
a França, pátria de tantos homens illustres em 
todos os ramos dos conhecimentos humanos, nação 
de uma virilidade assombrosa e essencialmente 
cathoUca, empregar a violência para varrer de seu 
território congregações religiosas que, na sua mis- 
são evangélica, contribuíram poderosamente para 
o desenvolvimento da instrucção e da caridade e 
em nada prejudicaram o bem-estar e o progresso 
do paiz. O governo francez, desviando-se das suas 
tradições cathoUcas e ostentando a mais extraordi- 
nária intolerância, sacode de seu seio e por meioá 
e medidas irritantes, corporações, que não oppu- 
nham o menor tropeço á marcha da administração 
e ao progresso daquella gloriosa nação. 

A Inglaterra, que até^ pouco tempo vivia feliz, 
com finanças equilibradas, consolidando a paz in- 
terna e procurando desenvolver as suas industrias 



para não precisar das outras^ e realizar o destino 
providencial de estar geographicamente separada 
dos outros continentes, resolve levar a guerra á 
Africa do Sul para apossar-se das innumeras e 
profundas riquezas do Transvaal, cujo povo, po- 
rém, deu exuberantes provas dos maiores hero- 
ismos e da mais adniiravel abnegação. 

A União Americana, parecendo que pelos seus 
assombrosos progressos e engrandecimento devia 
Umitar-se a manter a paz e a grandeza de um povo, 
procurando cada dia mais unir e estreitar as liga- 
ções, com os seus Estados, assalta Cuba e as Phi- 
lippinas e pelo seu poder maritimo submette esses 
dois povos ao seu protectorado, e não contente com 
este procedimento absorvente, a pretexto das 
obras do canal do Panamá, divide a Colômbia e 
sujeita uma de suas partes ou ambas ao seu poder, 
ainda que sob o fingimento de haver contribuido 
para a independência daquelles mesmos povos. 

I^' o imperialismo transpondo fronteiras e ex- 
tendendo territórios sob a mascara de expansões 
commerciaes e de uma politica colonial. 

A Rússia, o mais vasto império do mundo, com 
os seus vinte e dois milhões de kilometros quadra- 
dos de extensão, não se contenta com ser o ante- 
mural da Europa na fronteira do Oriente e ampa- 
rada pelos montes l raes e rio Ural e Mar Caspio, 
ter a chave da porta, que poderia dar passagem 
para o continente asiático, depois de conseguir o 
monopólio do Mar Negro, de trazer acorrentada 
a Polónia, entende que o seu território precisa de 
ser ainda mais ampliado até as muralhas da China 
e para conseguil-o arrasta o Japão á guerra com 
a pretensão de plantar o dominio moscovita na 
(^oréa e depois na China, sendo para notar que o 
Tzar foi quem ha pouco tempo convidara as de- 
mais nações a se reunirem em Haya para acceita- 
rem o arbitramento como o meio único de resolver 



todas as divergências internacioriaes. Felizmente 
vai encontrando serias e terriveis resistências por 
parte do Japão, que com toda razão deseja que 
o Oriente continue a pertencer á raça amarella e 
para isso vale-se dos admiráveis recursos de que 
dispõe, revelando-se ao nivel das principaes po- 
tencias da Europa e da America e ostentando os 
maravilhosos elementos, que a civilização, o patrio- 
tismo e o heroísmo de um povo lhe proporcio- 
nam. 

E o que mais compunge o espirito e o coração 
é que todas essas conquistas são alcançadas com 
o emprego da cobardia, o que, com algumas res- 
tricções, é a guerra moderna. Onde as lutas con- 
temporâneas revelam essa bravura ás vezes ti- 
^rina, que distinguiram e exaltaram as guerras 
de outros tempos? Hoje os exércitos não procu- 
ram encontrar-se; mais feliz é aquelle que bem de 
longe alcança o inimigo e o derrota por meio de 
seus formidáveis canhões de tiro rápido e da maior 
precisão. Peiores são esses encontros em que os 
soldados, á arma branca, corpo a corpo, batiam- 
se, cantando victoria o mais destro, o mais audaz, 
o mais valente. 

Nos combates navaes, as esquadras não se en- 
contram para dar logar ás abordagens em que fe- 
riam-se pugnas as mais sanguinolentas sobre os 
tombadilhos, brilhando a espada, a machadinha e 
a bayoneta. 

Hoje a esquadra mais poderosa e a mais temida 
é aquella que dispuzer de unidades navaes mais 
ligeiras para fugir e de mais resistente couraça 
para zombar do canhão, que vomita mais lontfe e 
com a maior certeza o projéctil mortífero. Qual 
mais possante encouraçado poderá resistir ao tor- 
pedo, arma diabólica na expressão de um general 
turco, ao submarino ou á mina? 

Não vimos o que se passou em Cuba e o que se 



66 

está passando nos mares do Japão? E porventura- 
no emprego desses navios qualquer exercito ou 
marinha revela bravura e valor? 

Como nunca, as visitas e as confabulações doa 
príncipes se repetem, mas não para combinarem 
e assentarem sobre a paz e sobre a fraternidade 
das nações, mas para partilharem e se apossarem 
de territórios desejados, como se deu agora mesma 
com o tratado anglo-francez. 

E que se dá com o nosso querido Brazil? Por- 
ventura as scenas serão outras, differente é o modo 
de pensar, os processos não serão os mesmos ? 

Altera-se a forma de governo, não por vontade 
da Nação, mas pelas ameaças e violências de um 
grupo armado, que age em nome da Nação bes- 
tializada, na expressão exacta e feliz de um doa 
proclamadores do novo regimen, sem que para 
isso recebesse mandato. 

Nos Estados, caricatamente appelUdados de 
soberanos, só se vêem a violência e a corrupção, 
exercidas pelas oligarchias, que os tomaram de 
assalto, notando-se que em quasi todos tem se 
cuidado especialmente do aspecto material das 
cidades, dos seus embellezamentos, pretendendo 
talvez os seus administradores as glorias de Au- 
iíusto, que, segundo Suetonio. recebeu Roma de ti- 
jollo e deixou-a de mármore. Mas Augusto era 
Augusto e. segundo os historiadores, não teve só 
essa preoccupação. 

O Brazil se acha hoje na situação descripta 
por um notável republicano, que se declarou tal 
antes de 1 5 de Novembro e cujos serviços, intelli- 
gencia e aptidões foram aproveitados em diversos 
cargos na Republica. 

Cesário Alvim, que já não existe, disse avSsim: 
((Vivemos, os republicanos dirigentes, propa- 
gandistas e adhesistas a cevar os nossos apetites 
grosseiros sobre tudo quanto a instituição extincta 



67 



deixou accumulado. Dinheiro, credito, moralidade 
relativa das urnas, integridade da justiça no geral 
de seus sacerdotes, unidade de ensino, observan- 
<:ia de escalas pelo estudo, pela correcção do pro- 
cedimento e pelo trabalho na formação de homens 
de estado, tudo, tudo tem sido varrido de tropel.» 

Eis ao que está reduzida a nossa idolatrada 
pátria I ! 

E então não devemos olhar para o passado e 
•cultivarmos a historia e delia tirarmos ensinamen- 
tos para o presente e para o futur-^ ? 

Lahoremus^ tendo deante de nós esse reposi- 
tório abundante e fecundo de exemplos e de factos 
que se chama Historia. 

Vou concluir, porque estais anciosos para ouvir 
a palavra scintillante e sympathica de nosso flu- 
ente orador, repetindo aqui o trecho eloquentis- 
.simo de eximio jornalista: 

«Deus de amor e liberdade, illuminai a minha 
Pátria, afim de que ella seja tão útil aos seus fi- 
lhos e aos que vêm para ella como um pomar em 
flor para quem o cultivou e para as abelhas foras- 
teiras.» 

(O orador é saudado por uma prolongada e una- 
nime salva de palmas,) 



o Padre Dr. Júlio Maria (*) 

Exm. Sr. Cons. Presidente, Exnias. Sras.^ Exm» Sr» 
Padre Dr. Júlio Maria, Meus Senhores: 

O illustrado e eloquente orador desta casa, e 
não o seu humilde substituto, é que devia desem- 
penhar o elevado encargo de, neste momento, sau- 
dar o preclaro missionário apostólico que, com o 
maior desprendimento, obedecendo aos dictames 
da fé e aos impulsos da caridade, abandonou as 
ijlorias da borla e do capello, que tanto soube 
honrar, o Dr. Júlio Cezar de Moraes Carneiro, pela 
modesta sotaina do Padre Júlio Maria. Perderá 
esta homenagem os brilhos de uma palavra erudita 
e arrebatadora; nem por isso desmerecerá em sin- 
ceridade a saudação que este Instituto^ cheio de 
desvanecimento e jubilo, dirige ao seu venerando 
consócio, ao ter a honra de recebel-o em seu gré- 
mio. 

Nos fastos das instituições como na historia dos 
povos, dias ha de excepcional magnitude: são 
aquelles que traduzem a realisação quasi perfeita 
de queridos ideaes, por muito tempo sonhados, a 
corporização magnifica de aspirações altíssimas, 
ou assignalam o triumpho incondicional da justiça, 
elevando, dominadora, um throno á virtude, co- 
roando de louros o verdadeiro merecimento. O In- 
stitnto Geographicoe Histórico ds, Bahia tem hoje 
um desses dias grandiosos. 

A comprehensão exacta dos destinos traçíidos 
pela Providencia ao nosso amado paiz, compre- 

(*) Discurso proferido pelo Cons. Filipto Bastos na. sessão do Inr 
stituto Histórico, de 21 de Junho de 1903. 



_70^ 

hensão que se tem accentuado pelo conhecimento 
de suas condições geographicas, desde o extremo 
sul até ao Amazonas, e que encontra nas lições da 
historia o critério seguro para julgar do porvir, 
pelas circumstancias do momento e pelos feitos 
do passado; essa comprehensão nitida, perfeita, 
da sorte que nos aguarda — povo autónomo ou go- 
vernado pelo estrangeiro — si nos detivermos no ca- 
minho escorregadio por onde nos precipitamos, 
ou si nos deixarmos embahir pelas seducções da 
anarchia ou da corrupção; essa comprehensão ver- 
dadeira e patriótica^ meus senhores, em ninguém 
melhor se evidencia que no nosso eminente con- 
sócio. Superior ás suggestões e aos interesses dos 
grupos audaciosos, que, á sombra de partidos po- 
líticos, sem uma organização legitima, pretendem 
haver recebido do povo brazileiro a delegação do 
governo; alheio ás fascinações das vaidades ter- 
renas, que costumam carminar de mentiras con- 
vencionaes os lábios resequidos e frios do scep- 
ticismo do século; sem esperar os favores, nemre- 
eeiar os enfados e a má vontade dos situacionistas 
felizes; o padre Júlio Maria sacerdote do direito, 
antes que fosse ministro de Jesus, bem pode, alto 
e bom som, auxiliar a nossa instituição com os 
seus conselhos prudentes, com as doutrinas de 
sua sabia experiência, alentando-nos, mostrando- 
nos a senda que devemos percorrer. E seria isso 
motivo mais que sufficiente para justificar o em- 
penho deste Instituto em contar entre seus asso- 
ciados o insigne philosopho christão, fiel amigo 
da Republica brazileira. 

Credenciaes outras, porém, e da maior rele- 
vância, meus senhores, possue o padre Júlio Ma- 
ria, e ellas lhe dariam, como lhe têm dado, ingresso 
franco em qualquer notável instituição. De ha 
muito é o seu nome festejado, no Brazil inteiro, pe- 
los innumeros trabalhos com que tem enriquecido 



_ 71 _ 

a imprensa e as letras pátrias; e emquaittõ publU 
cistas celebres, elegantes literatos, profundos sci- 
entistas, insignes cultores das bellas-artes, têm 
posto seus ideaes na transformação dos program- 
mas de governo, no deslumbramento do estylo e 
no rendilhado da forma, na investigação dos af- 
duos problemas que preoccupam a sciencia, no 
carinhoso aperfeiçoamento das obras estheticas, 
elle firmou o seu alvo muito além, porque o seu 
ideal é a salvação do povo brasileiro, na ordeilx 
politico-social, pela conservação da soberania no 
território integro, e, na ordem espiritual, pela ele- 
vação das almas ao seu Creador, por esse— siir- 
siim corda! — que, único sobre a terra, pode dar 
uma idéa, imperfeita embora, do alvoroço da 
eterna felicidade. 

No regimen abolido em i5 de Novembro de 
1889, como no que lhe succedeu, sua palavra pro- 
phetica, ungida do mais vivo patriotismo, se fet 
ouvir; então, o democrata convicto expunha, em 
toda a sua claridade, a falsa situação da monar- 
chia, e para poupar o Bracil a convulsões, que 
poderiam arrastai o aos precipícios da demagogia 
e do anarchismo, não fazia questão de uma trans- 
formação radical de forma de governo, porquanto, 
qualquer que este seja, inspírando-se na morali- 
dade e no patriotismo, «é compatível com todos 
os progressos verdadeiros e benéficos a que possa 
um povo aspirar.» 

Eis o que, ha quasi dezenove annos, escrevia 
o nosso illustre consócio: («Tão desviado das re- 
gras do justo e do honesto está o prirtcípio aucto-' 
ritario, representado pelos diverso» órgãos sociaes 
do poder publico; tão anómala, éxtravagartte tí 
ignominiosa é a crise actual da politica. impélUda 
por uma longa e antiga serie de desatinos a este^ 
miserável extremo em que os interesses da Pátria 
são discutidos e resolvidos, não na tribuna, mas 



71- - 

nos conventiculos; não pelos partidos, mas pelos 
corrilhos; não por chefes moralisados, mas por 
caudilhos ambiciosos ; tão revoltante e inaudito é 
tudo isto, que parece chegado o momento em que 
ao povo compete dizer aos seus ineptos procura- 
dores: « Senhores, hasta; restitui-me a procuração 
que vos dei; ide para as vossas casas.» Agita-se 
a Nação; convoca-se o pai2 aos comícios elei- 
toraes ; proclamam-se medidas que o parlamento 
deve resolver ; esbulha-se o erário, cujas arcas são 
soldadas com o suor do povo, dos pingues subsí- 
dios com que se locupletam legisladores ociosos ; 
e durante tanto tempo nada se faz, nada se projecta, 
nada se resolve, a não ser o mexerico, a intriga, 
a escaramuça, a conspiração, o assalto das pastas 
e das posições! Oh! isto não é um systema de 
governo : é um pandemonio sem leis nem moral ! >> 

Proclamada a Republica, observa o nosso con- 
sócio que tem ella muitos erros, como o declarou, 
combatendo-os, nas Conferencias da Assumpção. 
Mas^ em vez dos conceitos deprimentes de um 
sectário obcecado, as palavras que promanam de 
seus lábios são as do philosopho que, com impar- 
cialidade e calma, investiga e descobre as causas 
e os motivos dos acontecimentos para, attenuando 
as faltas do presente, encaminhar profícuamente 
os planos de seu patriotismo. 

Assim é que elle, ha alguns annos, escrevia : 
« Esta geração brazileira foi formada em oito 
annos?! Em, oito annos educaram-se todos esses 
corações, cheios de ambição politica?! Em oito 
annos, tempo que não basta para formar-se um 
menino, formou-se um povo ? ! Em oito annos se 

R repararam todos os elementos desta crise social ? 
ião é injustiça esquecer que durante meio século 
o Brazil foi preparado para esta triste situação 
por uma politica racionalista e pagã ? ! 

Já o nosso glorioso conterrâneo, Dr. Ruy Bar- 



73 

>basa, Teferindo-^se á dissolução dos costumes íiõ 
império, havia dito: «Esses costumas saturaram 
^profundamente o «olo, onde se tinha d?e levantar a 
Republica «e deviam empestal-a por muito tempo. 
Os malpes, que hoje nos af|l\gem, sào raízes sobre- 
viventes das enfermidades do império . . . Com a 
Republica mudaxaos de hygiene ; mas náo mudamos 
«de sangue. E os inales do sangae náo se ^extitpam 
•padicalmente ma primeira geração.^) 

Mas, que se deve fazer, meus senhores^ para 
restikiir a esse sangue depauperado as energias 

3ue alentam os orjíanismos validos? Que obras 
evem ser constituidas para firmar^se a Republica 
♦em alicerces inabaláveis ? Eis o que nos tespônde 
o inclyto missionário : « Sem o soccorro de Deus 
mão faremos o nosso edifício politico, ou», antes, 
txão faremos delle cotisa melhot do qtie fízerari^ 
•os constructopes da torre de Babel. Os nossos 
pequenos interesses locaes e parciaes nos dividirão; 
os nossos projectos serão confundidos ; os nossos 
nomes serão o escarneo e opprobrío do futuro; «è, 
o que é petot ainda, impotentes para fundarmos 
um governo só com a sabedoria humaíia, a obra 
ficará abandonada ao acaso, á guerfa ^ á con- 
quista ... Eu não poderia f awr a propaganda quô 
tenho feito sem admittir a harmonia possixnel dâ 
democrac^'a com o catholicismo e sem dar um logar 
na minha pregação ás verdades sociaes do Evan*- 
gelho, » Ora^ estes conceitos se aflfeiçoam por 
completo ao que observara o celebre critico 
Hyppolíto Taine : O christianismo é o órgão es- 
piritual, as duas grandes azas indispensáveis para 
erguer o homem acima de si mesmo, acima da 
existência que arrasta sobre a terra e dos aca- 
nhados horisontes aue delia descortina, para o 
levar pelo caminho da paciência, da resignação e 
da esperança até á calma e ao repouso, para o 



impellir alétiv da temperança, da pureza e dai 
benevolência até á dedicação e ao sacrifício. 
Sempre que, ha i8 séculos, essas azas por si 
mesmas desfallecem ou sào cortadas por outrem, 
os costumes públicos e o^ particulares, se re- 
baixam • 

«Nem a razão philosophica^ nem a cultura 
«sthetica e literária, nem a mesma honra feudal- 
militar e cavalheiresca : nenhum código, nenhuma 
administração, nenhum governo bastariam para 
substituir o christianismo, no que elle pode dar 
ao mundo, em poderio, em brandura de costumes,, 
em humanidade. Nada pode substituil-o como* 
origem social da honestidade^ da boa fé e da 
justiça.» 

Essa convicção profunda do sacerdote de Jesus. 
Christo é, aa mesmo tempo, o palpitar do coração 
do patriota. 

Como ha de mentir a seu paiz o ministro que 
recebeu sua missão apostólica d'Aquelle que 
disse: Eu sou o caminho, a verdade e a vida ? Por 
muito fácil que pareça preconisar-se a verdade, é 
certo que, muitissimas vezes, para fazel-o, mister 
se torna possuirá envergadura dos heróes. Oppor- 
se, a peito descoberto, aos preconceitos, que o 
orgulho, gerador do sophisma e do erro, tem ele- 
vado á altura de principios incontestáveis; des- 
nudar as chagas sociaes, mal cobertas pelos an- 
drajos da impostura, para sobre ellas derramar o 
bálsamo, que as vae curar, embora seja a cura 
precedida de dores cruciantes; dizer ao homem 
que abandone as misérias enganosas das pabcões 
que o chumbam, ainda vivo, ao tumulo da degra- 
dação, e que se volte para a esperança, que lhe 
descortina a salvação suprema ; clamar á pseudo- 
qmnipotencia dos dominadores da terra que a sua 
força, a sua opulência, as ruidosas ovações dos 
aulicos fementidos, serão varridas pelo pó dos 



_ 7o_ 

tempos — porquê, afora Deus e a sua Egreja, ludò 
é vão e caduco; pregar ao povo que a sua liber- 
dade se deve submetter ás leis, mas qu6 as leis 
humanas devem subordinar-^se ás leis divinas, -c 
que, por isso, um povo que, para obedecer ás 
leis da terra, esquece os preceitos da religião do 
seu Deus, é um povo que nào sabe comprehender 
os dons da liberdade : eis, meus senhores, o apa- 
nágio dos espiritos d*e escol, eis o roteiro santo 
que unprimem á sua propaganda as alma^s privi- 
legiadas, -sobre as qxiaes lança o Eterno, a man- 
Kiheias, at? dadivas de suas graças infinitas I 

Debalde procura o homem sobre a terra 
^duradoura e real quietação ; nào raro, o prolongado 
repouso é origem de fundas tristezas, de maguas 
inconsoláveis. Como no mar da agitação da exis- 
tência^ poderá o homem firmar os passos sobre 
u onda revolta que o desequilibra, até arremessal-o 
-ao abysmo ? Ai I do que não procura, para nor- 
teal-o em sua peregrinação, a estreita da fé! 

O nosso eminente consócio tem posto, com 
perícia, as mãos sobre os males que atormentam 
o nosso paiz; e, como o medico previdente e bom, 
nào só tem procurado debellal-os radicalmente, 
mas ainda x\áo se cança de aconselhar o que s^ 
•deve evitar para que não surjam, por imprevidência, 
consequências ainda mais funestas. Quanto se tem 
dito e escripto sobre pretenções de potencias 
t»strangeiras, ao nosso território, querendo reta- 
Ihal-o, a seu talante, como si o Brazil fosse a 
China da America! ! . . . Não faz ainda muito tempo 
que um illustre brazileiro, secretario de uma de 
nossas legações, publicou um livro, que adquiriu 
logo nomeada e recebeu os mais fervidos elogios 
de um eminente compatriota — ministro do Brazil 
em uma das mais notáveis cortes da Europa ; 
nesse livro, estabelecido o confronto entre o allemâo 
e o brazileiro, este é representando como incapaz 



gy 

de se dirigir e governar, especialmente» por essa- 
inferioridade que inoculou no organismo daaueUes^ 
que, mais audazes, pretendiem a supremacia nas' 
cousas publicas^ a gotta de samgue que, recor- 
dando a Africai, lembra também a escravidão ; ao* 
passo qu« o allemào par^e ser indicado como o- 
reformador de nossos costumes, o organisador* 
de nossa futura nacionalidade. E esse livro — Cha- 
naan—m^ece logo de uma das- republicas do- 
Prata a honra de ser traduzido e divulgado^ 
talvez, meus senhores, como homenagem á nação 
amiga, cujo nome se deu ao celebre ginete offe- 
^ecido ao ex-presidente da Republica dos Estados. 
Unidos do Brazil! 

Ninguém ha, a não* ser algum obstinado em 
sua voluntária cegueira^ ninguém ha que, estu- 
dando, mesmo superficialmente, as condições so- 
eiaes do Brazil fique sem apprehensôes ante a 
possibilidade de imprevistos successos, que lhes. 
imprimam completa transformação. Como que se» 
empanou sob nuvens- carregadas o sol do progresso 
da nossa cara pátria, e uma noite longa e escu- 
rissima desceu, funebremente, sobre seus largos, 
horisontes. Não são os carpidores anonymos, os. 
Jeremias ignaros da plebe, que nada tém a perder, 
esses pobres filhos do povo que, como o povo,, 
sentem de rijo os golpes do látego da fome e 
das violências, os únicos que vêem a pátria en- 
volta no crepe da amargura. São também os pró- 
ceres prestigiosos das aggremiações dirigentes que. 
em annunciados banquetes politicos, clamam pela 
restituição do governo ao povo, esquecido pela 
Republica, emquanto outros descobrem o sal- 
vaterio do actual regimen na panacéa da reforma 
eleitoral, que poderá ser manipulada, infelizmente, 
por alguns droguistas da prepotência e das actas 
falsas, perdendo assim a efficacia therapeutica. 



77 

E' que já não se pode esconder que o paiz tacteia 
nas trevas do desgoverno. 

Felizmente, meus senhores, como ponderou Ale- 
xandre Herculano, em seu admirável opúsculo s v 
bre o Feudalismo, «por profundas que sejam as 
trevas em que achemos submerso o espirito hu- 
mano nas épocas tristes da sua historia, sempre 
ha no meio dessa immensa noite intelligencias 
que se alteiem como pharóes e liguem com o^ 
seus clarões, ás vezes ténues, a luz que foi com 
a luz que ha de ser. » 

O padre Dr. Júlio Maria é uma dessas intelli- 
gencias provi Jenciaes : a luz que se irradia de 
sua pregação tem o seu foco brilhante no Evan- 
gelho, e propagando-se pelo ambiente de vida, 
esparge benéficos clarões, graças aos quaes se 
mostra aos olhos do crente a estrada da virtude, 
defrontada pelos sinuosos caminhos da perdição. 
E' uma luz celeste que a todos manifesta a sua 
origem, «luz que purifica sem queimar», que, 
sobretudo, se derrama, sem os perigos do incêndio 
destruidor. Sua palavra é o pharol acceso no cimo 
da montanha da pátria, para mostrar ao povo, 
sobre a terra, o porto de sua liberdade, e mais 
além o Thabor da eterna salvação. Para desvendar- 
Ihe o primeiro, seu verbo é pela pacificação po- 
litica e religiosa. 

Elle não quer a liberdade da republica romana, 
« onde ella não passa, na expressão de Tácito, de 
uma — turbulenta m libertatem — a liberdade tu- 
multuaria )) ; elle preconisa a paz, que, como 
observa illustre critico francez, inspirou uma das 
mais bellas canções de Petrarca — e que foi bem 
definida pelo dominicano João de Vicencia, quando 
clamava perante as multidões: «O', meus irmãos, 
reine entre vós a paz; porque a paz é a justiça,, 
a paz é a liberdade, a liberdade tranquilla ! » 

Para mostrar ao povo o monte sagrado da 



78 

<?terna beatifude, sua palavra apostólica se in- 
jlamma no amor de Deus e do próximo, traduzindo 
as verdades biblícas, reproduzindo as lições da 
tradição cathoUca, argumentando com os exem- 
plos que revoam nas variações dos successos da 
Historia, applicando a cada necessidade, a cada 
desconforto, o supplemento^ a consolação, que os 
attenua, quando os não extingue, e tudo isto de 
tal modo que, posto seu coração generoso junto 
a seus lábios eíoquentissimos, a inspiração do génio 
se confunde com as ternuras da dedicação, e passa 
o homem a olvidar o homem, para contemplar 
somente o sacerdote do F2 terno. 

Felizes os que se deixam attrahir por aquella 
sempiterna luz, de que nos fala o Dante, no Pa- 
raíso: 

O Ince eienuiy chc sola iiite sidi, 
Sola finteinii^ c da te ifitellefa 
Ed ijitendcnti\ te ami ed arridi! 

Bcmaventurados os que se rendem ao império 
do divino amor. 

L^Amor chc innoi^e il Sole e Valtre stelle! 



Exm. Sr. Padre Dr. Júlio Maria: Elste Instituto^ 
cheio de satisfação, por vos ter agora em seu 
modesto recinto, inscrevendo vosso nome glorioso 
entre os dos seus associados, teve (já vol-o disso 
de substituir pelas effusões dos seus mais vivos e 
nobres sentimentos os primores com que altiloqua 
palavra devia exalçar o vosso merecimento exce- 
pcional; mas, vós sabeis dar excusas á deficiência 
da homenagem e não se faz precisa a scintillaçâo 
de peregrina eloquência para o reverbero de vossa 
fama, para o realce de vosso itome, aureolado 
pela suavissima claridade da Stella Maris, e 
repetido por milhares de crentes, que bemdizem 



79 

o vosso apostolado, a vossa divina propaganda em 
prol da Uberdade, inspirada no Evangelho, forta- 
lecida pela Fé. 
Sôde bemvindo ! 

(Uma salva prolongada de palmas vibrou em 
toda a sala, sendo o orador felicitado pela mesa 
do Instituto e demais pessoas presentes. ) 



Decorridos poucos minutos, o presidente da 
sessão deu a palavra ao Padre Dr. Júlio Maria, 
que se levantou para agradecer aquella honrosa 
recepção. (*) 

F'oi na Bahia, foi nesta terra gloriosa que re- 
começou o longo e laborioso apostolado que hayia 
realisado em todo o sul do Brazil; foi aqui que 
deu ás azas de sua fé o voo arrojado que a im- 
pelliu desde a mais bella faixa do Norte até ao rio 
mais gigantesco do mundo . . . Deus quiz darão mais 
bello ideal da sua mocidade esta doce satisfação 
da sua edade madura : — ter feito que a Bahia e 
o Amazonas estreitassem todos os estados inter- 
njediarios no mesmo amplexo religioso. . . 

O orador do Instituto, gloria da magistratura 
e também da nossa geração cathoUca, attribuiu-lhe 
talentos, virtudes, heroísmo que nãó possue, im- 
pellido nisso, talvez, pelo êxito, realmente gran- 
dioso e triumphal, da pregação cathóUco-social. 
a que desde muitos annos se dedicou. Não foi 
nenhuma dessas suppostas qualidades, de qué S. 
Ex. fez tão deslumbrante diadema para offertar- 
Ihe, que tem feito a força do seu apostolado.- 

Si victorias tem tido, (e para que ha de negal-as. 
si são tão numerosas e tão notórias?) o segredo 
delias veiu manifestal-o ao seu nobre auditório. 

:*) o resumo dfesse discurso é dado pelo Jornal de Noticias^ e 
para aqui o trasladamos. 

(Nota da Redacção.)- 



80^ 

Esse segredo é ter sido animado, em todo o seu 
apostolado, por estes dois amores: o amor de Deus 
G o amor da Pátria. 

E quem pode impunemente separar estes dois 
amores ? . . . 

Em longa e vibrante prelecção, que enthusi- 
asmou o numeroso e selecto auditório, o padre Dr. 
Júlio Maria demonstrou a sublimidade da união 
de Deus e da Pátria, provando que, como a falsa 
sciencia não pode eliminar Deus da creação do 
mundo, a falsa sociologia nào pode eliminar Deus 
da formação dos povos. Como a mecânica só explica 
o mundo fotmí2ilo^ mas não 'd formação do mundo, 
a sociologia só pode explicar a organisaçãOy mas 
nào a origem das sociedades politicas. 

\\ por isso, di2 o orador, proseguindo noutra 
ordem de considerações, que a tentativa brazileira 
de uma pátria sem Deus é original, temerária, e 
ate anti-republicana. 

Assim, demonstrou o orador, triumphantemente, 
a tripUce affirmaçào, mostrando que ainda nenhum 
povo, nem no pagnnismo, nem nos tempos mg- 
dernos, fez essa triste experiência; que separar o 
patriotismo da Fe' em Deus é desamal-o ; e que, 
finalmente, os mestres da democracia, na Europa 
e na America do Norte, não comprehendem o re- 
gimen republicano sem o culto de Deus. 

Deus, di2, proseguindo em considerações que 
cada vez enlevam mais o auditório, Deus tem muitas 
e bellas revelações: a revelação da Sciencia, a 
revelação da Arte, a revelação da Poesia; e, em 
quadro magnifico, mostra como na Sciencia — O nu- 
mero, a molécula, a /z/^, o calor, o moçimento, 
o repotisOj a vida, na arte — todas as obas primas 
em pintura, esculptura, eloquência, na poesia — 
todas as inspirações verdadeiras e completas não 
são menos que revelações de Deus. 



jei _ 

A maior, porém, a mais grandiosa das reve- 
lações de Deus, é a Historia ! 

Nessa parte foi ainda maito feUz o eminente 
•conferencista que apreciou a historia com vistas 
largas, e argumentações indestructiveis, fawndo-o 
*com critério philosopkico 'dos gra^ndes historia*- 
dores. 

Assim mostra o elemento humanos o 'elemento 
divino da Historia. Mostra que não só Deus ench« 
-a Historia, como faz que a Historia revele a ver- 
dadeira religião. A verdad^eira religião é também 
a única relitftão histórica. O chrislianismô é todo 
histórico: histórico no fundo ê histórico na fórma^ 

Tão variadas as considièraçõ«$ 'è tão numerosos 
os argumentos com qu« o orador demonstrou as 
^uas affírmativas, que passal-os todos para uma 
noticia ligeira, como esta, seria talvei impossiN^él. 

Depois de uns 40 minutos entrou o orador na 
peroração, bello trecho, que bem mereceu o silencio 
religioso com que foi ouvido e os applausos mere- 
cidos que obteve depois. 

A píeroraçào do discurso de hontem foi sublime 
e o seu thema baseou-se em que o dever presente 
do Brazil é a união de Deus á Pátria. 

Depois de divagações eloquentes e mimosas 
interroga o orador: A quem pedir essa união ? Já 
não podemos fazel-o á politica, porque a lucta glo- 
riosa dos partidos se extinguiu e hoje o predominio 
é de um só partido, o do governo ; não podemos 
ir pedil-a aos homens de estado, pois na sua maioria 
-quasi todos se acham desviados de um plano 
í>eguro de governo; já não podemos esperal-a do 
militarismo, porque, contra a sua própria vontade, 
e' justiça di2el-o, delle arrancaram essa religião, 
separando-o do seu Deus, o Deus dos exércitos ! 

Pedil-a á mocidade, que é o futuro, o enthusi- 
-asmo, a liberdade, o amor, é debalde, porque eíla 
não venera mais com o ardor verdadeiro das gera^^ 



82 



ções passadas as tradições cathoUcas da sua pátria ; 

f>edila-a á imprensa, mas como, si em poucos 
ogares são raros os jornaes cathoUcos ? 

Peçamol-a, suppUquemol-a A^quelle próprio 

âue não é somente a mais alta affirmativa da 
ciência, a mais bella inspiração da Arte, o mais 
formoso ideal da Poesia : é também a mais certa 
das certezas da Historia e a mais bella das tra- 
dições da Pátria Brasileira — Deus I 

(O padre Dr. Júlio Maria foi nessa occasião 
muito felicitado pelo discurso que acabara de pro- 
ferir. ) 



o PRIMEIRO BISPO DO BRAZH 

POR 

(Mõteira de (}Azevedo 



L-/RA corrente que a bulia Super spcciíta mili^ 
/\^ tau tis ecclesico creando o bispado de S. Salva- 
dor, o primeiro do Brazil, tinha a data de k* de 
Março de i555. 

Causava extranhesa que a nomeação e confir- 
mação do prelado precedesse de quatro annos á 
creação do bispado, que devia administrar, mas o 
visconde de Porto Seffuro prova ter sido expedida 
aquella bulia aos 25 ae Fevereiro de i55i. Escreve 
o douto historiador: 

« Verificamos esta data pelo original da bulia 
(Torre do Tombo, armário 12 m. 3i, m. I) que é 
Anno millesímo quingentesimo, quinquagesimo 
Quinto Kalendis Martii, o que pelos auc to res, que 
havíamos seguido antes, havia sido lido i ."* de Março 
de i555, sendo que o Quinto com letra maiúscula 
representa o dia. » 

Ligaram os auctores Quinto a quinquagesimo e 
fuerão 1 555, passando a bulia a ser de i ."* de Março, 
por que é esse o dia das kalendas de Março. Im- 

(*) Offerecida ao Instituto Histórico da Bahia pelo Autor a 12 de 
Dezembro de 1899. Foi já publicada no vol. XXÍIl dos Annacs da Bi- 
bliotheca Nacional (1901), pags. 59—67. 

( Nota da Redacção } 



84; 

pressa pefa primeira vez em. 1806, depoíis« em: 1808,. 
e reproduzida por Cândido Mendes em 1866 em», 
sua obra Direito Civil e Ecclesiastico Brasileiro., 
contém essa buli» q provimento e confirmação do' 
bispo. 

Traz 9 data de i55ov more florentino^ mas foi 

Í assada em i55i, era vtrlgar, por que foi em 3i de 
ulho de i55o que o governo porti^uez dtu ins- 
trucções. ao seu embaixador em Roma, Balthazar 
Faria, para obter a creação do bispado, e o seu 
provimento mi pessoa de Pedro Femande». 

Ainda mais. Foi lavrada a bulia no> segundo* 
anno do pontificado de Júlio III, que cingio a tiara 
«m 8 de Fevereiro de i55o, razões esias^ que con- 
firmào a data exarada pelo visconde de Porto Se- 
guro. 

O nosso amigo Sr. bacharel António Jansen do* 
Paço, digno chefe de secção da Bibliotheca Na- 
cional, chamou a nossa attenção para opost-facio^ 
que acompanha a obra do visconde de Porto Seguro 
^Historia das Lutas com os HoUandezes no BrasiU,, 
2." edição, 1872^ no qual discute o referido histo- 
riador esta questão, e facultou-nos a consulta de 
diversos manuscríptos para escrevermos esta me- 
moria. Gratos nos confessamos ao dedicado chefe 
de secção da Bibliotheca NacionaL 

Para cingir a mitra no Brazil foi designado» 
Pedro Fernandes, natural da cidade de Évora, 
sendo seus progenitores Gil Fernandes Sardinha e 
Lourença Fernandes, filha de Pedro Fernandes^ 
que tinha o foro de vassalo de el-rei, como se 
expressa Barbosa Machado. (*) 

Não se sabe o anno do seu nascimento , mas na 
carta de 20 de Maio de i555 de D. Duarte da Costa 
a D. João III lê-se: 

a Vossa Alteza teve muita razão de dar credito 

(*) Rocha Pita diz que era natural de Setúbal. 



85 

aos papeis do bispo, e ao que lhe de mea filho es- 
creveu, por que parece que um bispo de sessenta 
annos não quereria infamar um mancebo, meu 
filho, e fazer-lhe perder o que merece diante de 
Vossa Alteza, sem causa ; mas tenho por mui certo 
que se Vossa Alteza ouvira as partes ...» 

Vê-se pois que devia ter nascido Pedro Fer- 
nandes em 1495 ou 1496. 

Era clérigo secular do habito de S. Pedro, 
estudou em Paris, recebendo o grau de bacharel em 
theologia. * Passou de discípulo a mestre nas 
universidades de Paris e Salamanca, » diz Barbosa 
Machado. Exerceu o cargo de vigário geral em 
Goa na índia, e era clérigo em Évora quando foi 
nomeado bispo de S. Salvador, cuja jurisdicçào se 
estendia a todo o Brazil e ilhas adjacentes, com 
quanto fossem então seus limites de 5o léguas pelo 
littoral c 20 pelo interior. 

Antes da creação deste bispado pertencia a 
Bahia quanto ao espiritual ao bispado de Funchal, 
mas depois dessa instituição tornou-se suf^raganeo 
do arcebispado de Lisboa. 

« Era Pedro Fernandes pessoa de muita aucto- 
ridade, grande exemplo e estremado pregador», 
diz Gabriel Soares. 

Frei António Roman exprime-se assim: «Pessoa 
de muitas lettras, auctor idade e experiência. » 

D. Pedro Fernandes partio de Lisboa em 24 de 
Março de i55i, como assevera cm carta escripta a 
D. João III de Sanctiago de Cabo Verde em í i de 
Abril desse anno. 

« Partimos de Belém a vinte e quatro dô março 
e aos vinte e sete viemos a vista da Ilha da Ma- 
deira. » 

Por instancia dos cónegos, qtie comsigo trazia, 
desembarcou na Ilha de Sanctiago, permanecendo 
âlli quatro dias «no qual tempo, accrescenta o pre- 
lado, senti o seresta terra mais rica de dinheiro que 



m 

de vji^tude8ye não é muito de espantar pois ha tantos 
annos que carece. de pastor; » 

Coíiferio ordens menores a dous individuos por 
terem.r breves de Roma, e chrismou Soo ou 600 pes- 
soa^. No dia 1 1 de Abril á noite proseguiu na 
viagem. 

Acompanharam o bispo alguns sacerdotes, có- 
negos e dignidades para formar a sd e igreja cathe- 
dral, vindo lambem ornamentos, sinos, objectos de 
prata e alfaias do serxúço da igreja e culto divino. 

A armada em que veio o bispo composta do 
galeão Velho e outros navios mercantes era com- 
mandada por Simão da Gama de Andrade, e 
conducio gente e mantimentos para a nova cidade 
do Salvador. 

Foi este o nome que o rei ordenou se desse á 
nascente cidade e não S. Salvador, «pois foi 
aquelle, escreve Cândido Mendes, o primeiro nome 
da cidade imprópria e inexactamente conhecida em 
nossa época por S. Salvador, que não exprime a 
grandeza da idea da primeira e tão simples deno- 
minação. » 

Em uma certidão passada na Bahia aos 19 dias 
do mez de Julho de lySg, por ordem do desem- 
bargador ouvidor do eivei Bernardino Falcão de 
Oliveira, declara o escrivão António de Sepúlveda 
de Carvalho : 

« E outrosim consta dos ditos autos, assim pelos 
termos judiciaes, como pelas certidões, que nelles 
se achão copiadas, nomear-se em quarenta e duas 
partes esta cidade com o titulo de Salvador Bahia 
de Todos os Santos, e em nenhuma parte com o 
de S. Salvador. » 

E' aquelle o nome que vem exarado em todos 
os antigos livros de registros. 

Discordão os auctores sobre o dia e anno da 
chegada de D. Pedro Fernandes ao Brazil, mas por 
uma carta do padre Manoel da Nóbrega para o pro- 



87 _ 

vincial de Portugal fica^ se sabendo ter chegado o 
prelado á Bahia em 22 de Junho de i55i. 

Escreve Manoel da Nóbrega : 

« Vespora da vespora de S. João chegou o bispo 
a esta Bahia com toda a nau e gente de saúde, posto 
que trouxerão prolixa viagem, e que parecia a todos 
que não viria, de que a cidade era muito triste, e 
muito nos tememos querer Nosso Senhor castigar 
os peccadores desta terra com não nol-a trazer, 
sed tristitia nostra versa est in gaudium, com o 
trazer com tanto, que como todos^^dizem, foi muita 
obra de Nosso Senhor. » 

Era então governador geral do Brazil Thomé de 
Souza, que viera acompanhado dos primeiros je- 
suítas enviados ao Brazil para catechisar os in- 
dígenas. Vieram seis, sendo o chefe da missão 
Manoel da Nóbrega um dos mais illustrados de sua 
ordem. 

Em carta ao padre-mestre Simão expõe elle : 
« Chegamos a esta Bahia aos vinte e nove dias 
do mez de Março de 1549. Andamos na viagem oito 
semanas. Achamos a terra de paz e quarenta ou 
cincoenta moradores na povoação que antes era. 
Receberão-nos com grande alegria. E achamos uma 
maneira de igreja, junto da qual logo nos aposen- 
tamos os padres e irmãos em umas casas a par 
delia». 

Deu o governador principio á edificação da Sé 
e igreja para o culto divino, sendo esta consagrada 
á Senhora da Ajuda., a primeira da nova cidade ; e 
que muitos annos sérvio de matriz. Era de taipa e 
coberta de palha. 

Emquanto nào teve residência própria hospedou- 
se o diocesano na casa dos jesuítas. 

Chegaram com elle quatro sacerdotes da com- 
panhia de Jesus para ajudar os seis, que exiistião 
na colónia j na doutrina e conversão do gentio. 



«8 

Produzio grande contentamento a vinda do 
prelado. 

« Com a vinda do bispo foi a terra mui alegre», 
narra Manoel da Nobretfa. 

Pregou em 29 de Junho na festa de S. Pedro e 
S. Paulo, exercendo sua palavra benéfico effeito 
sobre os costumes. 

Foi passada em Almeirin a 4 de Dezembro de 
i55i a carta de D. Joáo III de apresentação e 
confirmação do bispo D. Pedro Fernandes. Ha 
nessa carta uma postilla de 7 do mesmo mez e 
anno em que se declara: 

« Houve o Bispo D, Pedro pagamento de du- 
zentos mil reis em João Gomes Thesoureiro da Casa 
da índia, do primeiro anno do seu Bispado, que 
acaba em fim de Janeiro do anno que vem de i552. 
E por tanto não ha de haver pagamento dos 200$ rs. 
no dito primeiro anno. A 7 de Dezembro de i55i. 
André Soares. 

Concedeu o governo ao primeiro prelado do 
Brazil o ordenado de 5oo cruzados annuaes, mas 
a provisão de 25 de Agosto de i55i mandou dar- 
lhe mais cem mil reis annualmente, além dos du- 
zentos mil reis, que já tinha. 

Outra provisão marcou lhe a quantia de vinte 
mil réLs cada anno, do dia que chegasse a sua dio- 
cese, para um pregador. 

O primeiro pregador da Sé foi o padre Gomes 
Ribeiro, antigo capellào do rei, e que viera com o 
bispo. 

Ordenou o alvará de iode Dezembro de i55i 
que se desse embarcação ao prelado quando fosse 
em visita. 

Pela provisão de 17 de Agosto de i552 nomeou 
D. Pedro Fernandes os primeiros capellães e moços 
do coro. 

Os capellães foram João de Varzoa, Martim 
Soares, irmão do vigário da Sé e Bastião Pereira, 



«por não achar ao presente, resa a provisão, outros 
sufficientes que possão encher o numero.» Deviào 
ser seis. 

Em moços do coro forão providos João filho de 
João Velho, c Diogo filho de Matheus de Juro 
moradores nesta cidade, accrescenta a provisão. 

Em carta de 22 de Setembro de i552 dirigida 
por D. João III a Thomé de Souza recommendou- 
ihe que mais perto que podesse ser da Sé ou pega- 
das com ella, construisse duas casas para o dioce- 
sano. Expressou-se assim o rei: 

«Muito vos agradecerei fazerem-se as ditas ca- 
sas com a mais brevidade que puder ser, as quaes 
terão ao redor de si um xão, em que se possa fazer 
quintal e jardim.» 

Escriptores antigos e modernos dão ao pri- 
meiro bispo o nome de Pedro Fernandes Sardinha, 
mas nas provisões, livros de registros e outros docu- 
mentos, que compulsamos, não encontramos o sobre- 
nome Sardinha. Frei Vicente do Salvador o chama 
apenas de D. Pedro Fernandes, e no tratado es- 
cripto pelo irmão do prelado, Álvaro Gomes, inti- 
tulado — De Conjugio Regis Anglioecum relicta fra- 
tris sui, — impresso em Lisboa em i55i, vê-se no 
fim um prologo sob o titulo Petrus Fernandus electus 
Episcopus Braziliensis cândido lectore Idibus 
Martii i55i. 

Diz Barbosa Machado que o bispo muito con- 
correu para a composição deste livro do seu irmão. 

Succedeu a Thomé de Souza no governo do 
Brazil D. Duarte da Costa, que chegou a Bahia em 
i3 de Julho de i553, trazendo comsigo dezeseis 
jesuítas, entre os quaes José de Anchieta, que pelas 
suas virtudes e saber mereceu a denominação de 
Apostolo de Novo Mundo. 

Os Índios e emboados na capitania de S. Vi- 
cente o chamavão Nosso Pae, o bispo D. Pedro 
Leitão — de Servo de Nossa Senhora, e Simão de 

IS 



90 

Vasconcellos— de Sal da America, Lur da gentili- 
dade, Honra da Companhia, Gloria dos seus irmãos, 
e Exemplar dos Missionários. 

Procurou D. Duarte tratar bem o bispo «não só^ 
expende elle em carta ao rei, assim por sua digni- 
dade e meu cargo, como por Vossa Alteza m'o en- 
commendar.» 

«Não era fácil a missão do bispo, obser\»a Tei- 
xeira de Mello, numa sociedade composta de ele- 
mentos tão disparatados, em que preponderava o 
uso consuetudmario do indígena mergulhado na 
sua secular barbaria, mal alumiado ainda dos raios 
vivificantes da civilisaçào européa, e da religião de 
Christo; no meio de uma população abandonada 
ao acaso durante meio século, entregues os pró- 
prios colonos a toda sorte de vícios, a que não acha- 
vão freio na observância das leis, que só em estado 
embrionário existião.» 

«O clero que então havia na colónia participava 
da influencia do meio em que vivia.» 

Do púlpito começou o bispo a censurar os máos 
hábitos e vícios do povo, impondo penitencias e 
penas espírituaes e temporaes mais ou menos se- 
veras. O seu procedimento le\'antou opposição e 
descontentamento. 

Escrevendo ao padre-mestre Simão, expende 
Manoel da Nóbrega o seguinte: 

((Neste comenos chegou o bispo tanto de nós e 
de toda a terra desejado, ao qual chegarão logo 
as vozes dos murmuradores.» 

Narra Rocha Pitta : 

«Procedia o bispo com rigor contra alguns dos 
moradores, a quem a liberdade de uma nova con- 
quista tinha feito cúmplices de algum delicto, que 
podia emendar-se com menor castigo.» 

Tinha o governador um filho chamado D. Ál- 
varo da Costa, que em companhia de outros jovens 



Dl 



-entregava-se aos prazeres e ávida dissoluta de uma 
^sociedade mal constituída. 

Avisou o diocesano a D. Duarte para que admo- 
estasse o filho, mas ou porque não attendesse o 
governador ás observações do prelado, ou porque 
o filho não lhe ouvisse os conselhos, começou 
D. Pedro Fernandes a condemnar na tribuna sa- 
grada os factos, que se davão na cidade de|>ois da 
partida de Thomé de Souza. 

Offendeu-se o governador com este procedi- 
mento. 

Em carta de ii de Abril de i554 para D. João 
ni expende D. Pedro Fernandes: 

«Do que me tomou o governador tamanho abor- 
recimento que nunca mais me passou pela rua, a 
defendeu a todos seus pamgodes, que não entras- 
sem em minha casa, nem me visitassem.» 

Relata que D. Duarte favorecera os cónegos 
contra elle, e prendera e carregara de ferros um 
cónego que era de seu partido. 

Prosegue o bispo : 

«De D, Duarte não sei que dizer senão que tirou 
cá o rebuço, que lá trazia de virtuoso, e trocou a 
ordem da policia^ porque o pae obedece ao filho, e o 
filho não tem nenhuma reverencia nem acatamento 
ao pae, e não se faz na terra senão o que D. Álvaro 
manda.» 

Escrevendo ao rei em 8 de Abril de i555 quei- 
xava-se D. Duarte da Costa de querer o prelado 
usurpar a jurisdicção real, de ser áspero e cubiçoso 
nas penas que lançava em terra tão nova e pobre, 
e escandaloso nas grandes excommunhõcs, que 
ordenava por pequenas cousas. 

Procurara aconselhal-o, mas irritou-se o dioce- 
sano e do púlpito e estações começou a fallar contra 
elle e seu filho. 

Tentou fazel-o embarcar para o reino «mas re- 
ciei, pondera o gox^ernador, que me tivesse Vossa 



Alteza em outra caata da que me atá aqui teve, e 
determinei-me de lhe soflprer tudo, porque não lhe 
achei outro melhor remeaio, e não lhe errar pretfa- 
ção nenhuma, e lhe faço a cortezia e honra que The 
|is quando cheguei a esta terra.» 

Informado da conducta irregular de D. Álvaro 
da Costa communicou D. João III por carta ao go- 
\»ernador que muito se descontentara com o proce- 
dimento do seu filho, a quem não castigara em con- 
sideração de occupar seu pae o cargo de governa- 
dor da colónia. 

Enviou D. Duarte o filho a Portugal participando 
a el-rei que assim procedia para que seus inimigos 
não dissessem e escrevessem outras cousas peiores 
por onde parecesse que ambos mereciam ser cas- 
tigados, e para requerer a sua ida para o reino, o 
que muito desejava por sua consciência e saúde. 

Pedia que mandasse tirar devassa de seu filho 
por pessoa sem suspeita, e accrescenta\^ : 

« Perguntem-se aos padres de Jesus, aos quaes 
se não esconde nada, e a todo povo desta terra, 
tirando pessoas que aqui castiguei, que são três ou 
quatro, e se achar delle cousa mortal mande-o cas- 
tigar como merecer e a mim também.» 

^ Terminando esta carta datada da cidade do 
Salvador a 20 de Maio de i555 confessava ao rei o 
seguinte : 

ft Tenho dez filhos e filhas, mulheres em idade 
para casar, e minha mulher muito mal disposta, 
e eu o fico em extremo de disposições, de que foi 
mister bem curado, como lhe meu filho dirá ; não 
vim a esta terra por cobiça nem por vaidade de 
honra, nem em idade para folgar de ver mundos 
novos, (tinha então 5i annos) só o amor do vosso 
serviço me trouxe sem conselho de parente, nem de 
ninguém; peço por mercê a Vossa Alteza que a 
mercê que eu por isto mereço seja mandar- me ir ao 
tempo que me Vossa Alteza limitou, porque se não 



93 _ 

tivera delle já tão pouco por correr, ainda lhe pedira 
que nio encurtara, por nào estar na conversação do 
bispo, porque com todo homem me concertara, 
ainda que fora diabo, sinão com elle, e este pouco 
tempo que me fica daqui até Maio para cumprir os 
três annos, eu trabalharei que o nào gaste todo 
nesta Bahia, por me excusar de tão terrível con- 
versação. » 

Parece que os jesuítas também não presavão a 
D. Pedro Fernandes, pois em carta do padre iMa- 
noel da Nóbrega de 5 de Julho de iSSg, posto que 
julgue o prelado homem virtuoso e zeloso da re- 
forma dos costumes, accusa-o de se dar pouco 
quanto ao gentio e a sua sahaçãOj de quem não 
se considerava bispo* 

Era talvez o diocesano rigoroso em suas medi- 
das e violento em suas expressões. Transformava 
a cadeira da igreja em tribuna de accusação, quando 
era dalli que a sua palavra sagrada podia acalmar 
e guiar os espíritos. O atraso moral e religioso da 
população reclamava calma e prudência, e mais 
suavidade do que rigor. Accresce que transpondo 
os limites da sua jurisdicçào exigia o governador 
as prerogativas do poder real, resultando dahi a 
luta entre as duas supremas auctoridades da co- 
lónia, e formando-se dous grupos, um que apoiava 
o bispo, outro que defendia o governador. 

Em uma de suas cartas relatava D. Duarte da 
Costa o seguinte : 

a E mande-se Vossa Alteza bem informar de como 
é cortez nos púlpitos e nas estações ao vosso gover- 
nador e aos vossos officiaes, porque estes são os 
lugares que o bispo toma para sua vingança, e nes- 
tes se não faz nesta terra até agora nenhum serviço 
a Nosso Senhor, mas nascem do que nelles diz 

Írandes escândalos e prejuízos. Dos padres de 
esus pode Vossa Alteza saber como são delle tra- 



94 

tados, e como os ajuda com suas esmolas* e com os 
favorecer de fora.» 

Attendendo talvez ás queixas do governador, e 
querendo cortar a lucta entre o poder civil e o reli- 
gioso, que tanto prejudicava a colónia, o rei chamou 
o bispo a Portugal. 

Em uma carta de Manoel da Nóbrega ao padre 
Ignacio conta elle : 

« Por este navio que veio soubemos como El- Rei 
mandava ir o bispo de cá; e creio que já o não 
acharei na Bahia.» 

Em 2 de Junho de i556 partio da cidade do Sal- 
vador D. Pedro Fernandes. Ia na nau N. Senhora 
da Ajuda em companhia de António Cardoso de 
Barros, que viera com Thomé de Souza como pro- 
vedor-mór, dous cónegos, duas mulheres honradas, 
como se expressa frei Vicente do Salvador, muitos 
homens nobres e outra muita gente, que por todos 
eráo mais de cem pessoas. 

Depois de qua torce dias de viagem surgio grande 
tormenta, que, arrebatando ancoras e amarras, fez 
o navio sossobrar na enseada chamada dos Fran- 
cezes, entre os rios S. Francisco eCoruripe. O vis- 
conde de Porto Seguro e Joaquim Caetano da Silva 
dizem que o naufrágio deu-sc nos baixos chamados 
de D. Rodrigo, quasi a foz do Rio Coruripe, algu- 
mas léguas ao norte do Rio de S. Francisco, no 
actual Estado de Alagoas. 

Si salvarâo-se do sinistro não Uvrarão-se os 
náufragos dos Cahetés, indios antropophagos, que 
conduzindo-os para um local um pouco mais ao 
norte, na margem esquerda do rio S. Miíuel, os 
mataram e devoraram. Escaparam apenas dous in- 
dios, que ião da Bahia, e um portuguez que sabia 
a lingua do gentio. 

Tratando deste acontecimento em carta de lo 
de Junho de iSSy expende o padre Blasquez o 
seguinte : 



95 

aisto é em summa, reverendo padre, o que o 
anno passado de i556 escrevemos em a nau em que 
ia o bispo, a qual se perdeu sessenta léguas desta 
cidade, não escapando delia senão dez pessoas, 
porque os outros todos os matarão os indios, e 
segundo seu costume, os comerão; agora está esta 
cidade sem bispo bem triste e desconsolada.» 

Parece mais verídica a opinião de frei Vicente 
do Salvador, quanto aos três indivíduos, que po- 
deram Uvrar-se por conhecerem a linguagem dos 
indios. 

O bispo pereceu em i6 de Junho de i556, data 
sobre a qual não pode existir duvida, pois no tras- 
lado da j^rovisão por que 5. A. fez Mercê ao 
Bispo, DignidadeSy Cónegos, Capellães da Sé 
desta c/íiac/e (Bahia) dos Dízimos das Miuças 
das Capitanias desta costa por tempo de cinco 
annos, ha a seguinte postilla : 

(cO Bispo D. Pedro Fernandes falleceu a ló de 
Junho de i556. Certifico assim e puz esta Verba, 
eu Sebastião Alz\ Escrivão da Fazenda. O derra- 
deiro de Dezembro do dito anno. Sebastião Alz\ » 

A morte prematura e desastrosa de D. Pedro 
Fernandes deixou vago o sólio episcopal do Brazil, 
vindo reger a igreja, como visitador e commissario 
geral, o Dr. Francisco Fernandes. 

Si pode haver neste ligeiro trabalho algum me- 
recimento será pela concatenação dos factos sobre 
o assumpto, que merece estudo e culto, e também 
por ficarem fora de duvida certos pontos concer- 
nentes a esta simples chronica. Assim deixamos 
especificada a bulia de 25 de F^evereiro de i55i da 
creação do bispado e nomeação do prelado, a sua 
apresentação e confirmação por carta de D. João 
III de 4 de Dezembro de i55i, a partida do dio- 
cesano de Portugal para o Brazil em 24 de Março 
de i55i, a chegada á cidade do Salvador em 22 de 



_96_ 

Junho do mesmo anno e a sua morte em i6 de 
Junho de i556. 

Além de outros factos relativos á vida de D. 
Pedro Fernandes, que registrámos, vimos ser este 
o nome, que vem nas provisões, livros de registros 
e mais documentos, julgando nós que deve ser o 
adoptado na historia. 

A catastrophe, que causou a morte de D. Pedro 
Fernandes e de seus companheiros, é um dos fac- 
tos tristes e dolorosos dos tempos coloniaes. 

Alquebrado de annos, pois contava mais de 
sessenta, torturado por ver o martyrio e morte dos 
que o cercavão, devião de ser cruciantes os últimos 
momentos do primeiro bispo do Brazil. Mergu- 
lhando o olhar no côo, e balbuciando sem duvida 
ardente prece a Deus, pereceu D- Pedro Fer- 
nandes. 

Sejão estas palavras uma homenagem á memo- 
ria desse infeliz sacerdote, o primeiro que cingio 
a mitra no Brazil, e dos seus desgraçados compa- 
nheiros trucidados pelos índios, ha mais de três 
séculos, em uma praia deserta do território brasi- 
leiro . 

FIM 

Rio de Janeiro 12 de Dezembro de 1899. 

Moreira de Azevedo. 



OBRAS CONSULTADAS 

Apontamentos para a Historia dos Jesuítas 
no Brazil, pelo Dr. António Henriques Leal. 

Annaes da Bihliotheca Nacional. 

Ephemerides Nacionaes, de Teixeira de Mello. 

Historia do Brazil, de Rocha Pitta. 

Historia Geral do Brazil, do Visconde de Porto 
Seguro. 



97 



Simão de VasconccUos, Chrouica da Com- 
panhia de Jesus. 

Historia do Brazilj de Frei Vicente do Sal- 
vador. 

EphemerideSy de Abreu e Lima, 

Direito Civil E eclesiástico Brazileiro, de Cân- 
dido Mendes. 

Revista do Instituto Histórico e Geographico 
Brasileiro, tomos 5, 6, 14, 84, 49, 43, 40, 52- 

Pedro de Mariz, Diálogos. 

Barbosa Machado, Bioliotheca Lusitana. 

Agiologio Lusitano^ pelo licenciado George 
Cardoso. 

Frei António Roman, 

Tratado Descriptivo do Brazil^ por Gabriel 
Soares. 

Historia das Luctas com os Hollaudezes no 
Brajíilj pelo Visconde de Porto Seguro. 

Livro de Provisões E eclesiásticas, manuscripto 
existente na Bibliotheca Nacional, 



-^s^ 



GEOLOGIA DA BAHIA 

Notas sobre a geologia ao longo da Estrada de Ferro 
Bahia e Minas 



POR 



John ^. ^ranner (O 



^u Setembro de 1899 realísei duas excursões 
i^j^pela Estrada de Ferro Bahia e Minas, no in- 
tuito de adquirir algumas noções sobre a geologia 
da região por ella atravessada. As observações se- 
guintes foram colhidas durante estas duas excur- 
sões, e, não obstante os seus manifestos defeitos, 
são publicadas como contribuição para a geologia 
duma parte pouco conhecida do Brazil. 

Comquanto as invesgitações geológicas feitas 
em estradas de ferro sejam proverbialmente pouco 
fidedignas, as presentes foram eflfectuadas em cir- 
cumstancias especialmente favoráveis. O Director 
da Estrada de Ferro (2), do qual fui hospede quan- 
do ali estive, fazia gentilmente parar o trem sempre 
que eu o desejava, sem contar muitas outras para- 
das nas estações, para inspecção e devidas á que- 

(i) o original desta interessante monographia appareceu, em 
1S99, nos Prcccedings ofthe Washington Acaaemy of Sciences, Vol. 
II, pp. i85 — 194, e a presente traducção do inglez e do sócio corres- 
pondente Alfredo de Carvalho. 

(2) Confesso-me summamente penhorado pelas muitas amabili- 
dades com que me distinguio, com referencia a esta excursão, o Dr. 
Joáo Bley Filho, de Theophilo Ottoni, digno Director da E. de F. 
Bahia e Minas. 

N.doA. 



lOQ 

da de troncos de arvoredos ou de postes telegra- 
phicos atravez da Uaha. Afim de melhor poder 
observar a geologia toda a excursão foi feita muito 
vagarosamente e durante o dia. 

As únicas observações geológicas anteriores 
sobre a região atravessada por esta Estrada de 
Ferro foram as feitas por Hartt que, em 1866, foi 
de Santa Clara a Thecphilo Ottoni pela estrada 
de rodagem então recentemente aberta, que atra- 
vessa a região algumas léguas ao sul da Estrada 
de Ferro e corre parallela a esta até próximo ao 
seu extremo, onde ambas, a estrada de rodagem e a 
de Ferro, se acham no valle do Rio Todos os San- 
tos (3). Hartt falia das rochas crystalUnas como 
gneiss veiado de granito. 

A Estrada de Ferro Bahia e Minas deixa a costa 
marítima em Ponta d'Areia, a estação inicial, pró- 
ximo á cidade de Caravellas, no Estado da Bahia, 
e percorre em direcção quasi que a oeste ate a 
cidade de Theophilo Ottoni (outr^ora chamada 
Philadelphia), no Estado de Minas-Geraes, uma 
distancia de 376 kilometros. A região atravessada 
consiste de três zonas bem definidas : uma planice 
costeira chata, uma zona de taboleiros, em parte 
coberta de florestas e em parte de campos, e a 
região das rochas crystalUnas. 

Ao longo dos dez primeiros kilometros a linha 
passa por uma planice costeira, chata e arenosa, 
que se eleva apenas de menos de três metros acima 
da preamar. O ponto mais alto medido nesta planice 
costeira está, próximo á povoação Barra de Cara- 
vellas, 2,"^ 20 acima do nivel da preamar. E' possível 
que existam togares um pouco mais elevados na 
cidade de Caravellas. 

Em Ponta de Areia o terreno mais alto está 



(3) Geology and Physical Geography of Braiil, by C. F. Hartt. 
Bostoziy 1870, ppl I2g—i3^ 



_ 101 

somente um metro acima do nível da preamar. As 
mudanças de nível na superfície da planice são 
habitualmente ou muito suaves ou muito abruptas, 
sendo as encostas extensas, planas e imperceptíveis 
dum lado e descendo abruptamente do outro. O solo 
da zona costeira é todo arenoso. Na superfície 
acha-se escurecido pelo accumúlo de detritos ve- 
getaes, mas de dous a seis decimetros abaixo a areia 
tem o colorido de vários ancenubios do amarello e 
algumas vezes quasi côr de laranja. E' digno de 
nota a este respeito que os grandes bancos de areia, 
em frente á foz do Rio Caravellas, têm a mesma cor 
amarella. Em muitos togares onde foram excavados 
poços nestas areias da zona costeira, foram extra- 
hidas grandes quantidades de conchas marinhas, 
emquanto que em outros togares as formigas e 
outros animaes cavadores trouxeram á superfície do 
solo destas conchas ou seus fragmentos. Em dous 
togares encontrei pedaços de coral na areia tirada 
dos taes poços. Um deites era um fragmento de 
Heliastrcea aperta do tamanho dum punho, um 
coral que cresce abundantemente nos grandes re- 
cifes de coral da costa ; o outro era um pequeno 
specímen da pequena Astrangia solitária; ostras 
e outros bivalves, vermetidoe e gasteropodes são 
abundantes nesta areia. Os restos de moUuscos 
achados nas areias desta planice costeira têm appa- 
rencia muito similar á dos que actualmente vivem 
ao longo da costa, mas, na falta de coUecções, quer 
dos fosseis quer da fauna costeira existente, ne- 
nhuma opinião pode ser expendida com relação á 
idade geológica precisa da planice costeira. Pode 
ser Pleoceno, Pieis toceno ou recente. 

Além do kilometro lo a Estrada de Ferro passa 
gradualmente da baixa planice costeira arenosa 
para os campos abertos e arenosos. 

As areias soltas ao longo desta secção da linha 
são brancas e têm o aspecto de haverem filtrado 



_ loa 

aguas aciduladas. A região é quasi plana e apenas 
pouco mais elevada do que a planice costeira. As 
únicas rochas visiveis são grés pretos tenros que 
affloram nos cortes aos lados da linha ; grés simi- 
lares são encontrados em muitos togares ao longo 
da costa nordeste do Brazil, sempre em niveis 
baixos, sendo habitualmente pretos ou côr de rapé, 
e toda vez que a sua correlação com as rochas visi- 
nhas é apparente, ellas descançam inconforma- 
velmente de encontro aos ou sobre o Eoceno (?) 
eruido. 

Na cidade de Caravellas este grés é occasional- 
mente empregado em muros de arrimo ; fui infor- 
mado que todo elle era trazido em canoas de varias 
milhas rio acima, só podendo ser extrahido na 
baixa-mar; nunca foram encontrados fosseis nestes 
grés pretos ; na linha da Estrada de Ferro os grés 
pretos se acham aqui e ali do kilometro lo até perto 
do kilometro i8. 

No kilometro 19 a linha rasga um corte de três 
a quatro metros numa lombada baixa de argilla 
arenosa vermelho clara, que presumo ser a mar- 
gem Occidental approximada dos sedimentos do 
Eoceno ( ? ). Deste ponto até depois da Serra dos 
Aymorés a Estrada por sobre jazidas de materiaes 
mais ou menos similares; consideramos, com alguma 
duvida, estas jazidas como referentes ao Eloceno (?) 
por causa das observações coUigidas mais ao norte 
nos Estados da Bahia, Sergipe, Alagoas, Per- 
nambuco, etc. Ao longo da linha da Estrada de Ferro 
de Bahia e Minas não foram encontradas jazidas 
fossiliferas ; mas, a apparencia geral e as relações 
estructuraes destas series correspondem ás porções 
decompostas do Eoceno. (?) Nesta região as jazidas 
do Eoceno (?) são brancas, amarellas, còrde rosa, 
vermelhas, de vários ancenubios de cinzento e mos- 
queadas ; constam na maioria de grés tenros e ar- 
gilas arenosas ; somente em poucos logares formam 



103 

estes grés rochas duras : no nivel entre Peíuhype 
e Helvetia, perto do fcilometro 68; na visinhança do 
kilometro i36, 5, perto do Pasto do Godinho, e 
próximo á caixa d'agua, no kilometro 141, 5, onde 
o grés tem uma espessura de quatro a seis pés. Em 
muitos togares as partes superiores das jazidas 
contêm blocos irregulares de ferro ou de areia ci- 
mentada com ferro, do tamanho de dous punhos ; 
estas jazidas sedimentares são tão geralmente hori- 
sontaes que em parte alguma ao longo da linha ha 
apparencia de pendor; entretanto as altitudes da 
ETstrada de Ferro demonstram a existência dum 
suave pendor para o lado da costa. As jazidas do 
Eoceno (?) continuam até e além da Serra dos 
Aymorés, terminando no kilometro 160; a área do 
Eoceno (?) forma extensos campos abertos ou « pre- 
rias » , despidas de arvores, cobertas duma vegetação 
escassa e rachitica, mas, em alguns pontos se- 
meadas de pequenas a ilhotas » de florestas ; em 
outras partes da jazida de Eoceno (?) crescem al- 
gumas das mais bellas florestas que vi no Brazil. 
As grandes florestas começam perto do kilometro 
73 e estendem-se quasi até Theophilo Ottoni, no 
kilonvetro 376. 

Grande numero de troncos de esplendido pau 
rosa e jacarandá apodrecem ao longo da linha, e 
nas florestas abundam estas preciosas madeiras. 

A estação de Peruhype (kil. 65), junto ao rio do 
mesmo nome, acha-se na altitude de apenas seis 
metros acima do nivel do mar, emquanto que o 
fundo do rio, onde a Estrada de Ferro o atravessa 
cerca dum terço de kilometro além da estação, a 
cota é de apenas o, 5o acima do nivel do mar. Para 
chegar a este ponto a Estrada de Ferro faz uma 
grande volta ajim de evitar os pântanos e alagados 
das visinhanças de Caravellas, e, depois de atra- 
vessar as coUinas do Eoceno (?) numa altitude de 



lOá 

sessenta metros, volta a achar-se quasi que ao nível 
do mar. 

As colUnas ao longo do Rio Peruhype tém cerca 
de trinta metros de altura, os topos achatados, e 
descem para o rio em encostas de 35o de inclinação. 
Além da estacão de Peruhype a Estrada de Ferro 
tf alga de novo o cume do planalto sedimentar. No 
kilometro 67 um corte apresenta bem as usuaes jazi- 
das horisontaes, mosqueadas ou coloridas, numa 
profundidade de cerca de dez metros ; no kilome- 
tro 69 a linha acha-se novamente nos campos aber- 
tos do topo do planalto, e d'ahi até o kilometro 78, 
quando a Estrada de Ferro penetra nas florestas, 
continuam os campos. O topo do planalto (kil. 
72-73 perto da estação Hclvetia, é mais ou menos 
ondulado, mas, na realidade consta dum taboleiro 
plano atravessado por boqueirões e valles, visíveis 
apenas de muito per