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Full text of "Revista do Instituto histórico e geográfico de São Paulo"

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HARVARD UNIVERSITY 




LIBRARY 

OF THE 

PEABODY MUSEUM OF AMERICAN 
ARCHAEOLOGY AND ETHNOLOGY 

GIFT OF 

Dp# a* Y. Kldder 



ReccivedFebruary 1, 1939 



REVISTA 



DO 



Institato Histórico e Geograpliico 



DB 



SÂO PAULO 



VOLUME VII 



19 2 



S. PAULO 

TTPOQBAJPHIA DO CDIARIO OFFIOIAL» 
1908 



^fCeiVc^ Feio. I , 193:0 



- •^ \ 



índice do volume Vil 



Pags. 

a bernarda dd francisco ignacio 1 

Representação ao príncipe regente pbloi governo pro- 
visório DB 8. PAULO, a 24 de Dezembro de 1821 . 145 

PrODROMOS DA INDEPENDÊNCIA NA VILLA DB YTÚ, pelo dr. 

António de Toledo Piza , . 149 

Documentos relativos aos prodromos da independência 

BM YTÚ 168 

PrODROMOS DA independência na VILLA DE YTlí. . . . 193 

OeynhausbN) pelo dr. Estevaro L. Borronl 213 

Obynhausek, pelo dr. António de Toledo Piza. . , . 216 
As cartas andradisas, pelo dr. Paulo Egydio. . . . 220 
Os MAPPA8 Mais antigos dó brasil, pelo dr. Orville A. 

Derby. 227 

João ramalho bra analphabbto ?, pelos drs. Theodoro 
Sampaio, Orville Derby, António Piza è JoSo 

Mendes de Almeida Júnior 255 

João ramalho, parecer, pelo dr. Manoel Pereira Guima- 
rães 271 

QUBM ERA O BACHAREL DEGRADADO EM CANANÉA, pelo dr. 

Theodoro Sampaio. • . . . . . . . , 280 

Subsidio para a historia db iguape, pelo sr. Ernesto 

Guilherme Young 286 

A propósito de JOÃO ramalho, pelo dr. Theodoro Sam- 
paio 299 

Carta do sócio Horácio de Carvalho 302 

A AS81GNATURA SYMBOLIOA DB JOÃO RAMALHO 303 



n índice PAG. 

O KAF DB JOÃO RAMALHO, pelo sr. Horacio de Carvalho . 308 
João ramalho, contribuição para a sua rehabãitaçãOj pelo 

dr. Francisco de Campos Andrade 369 

João ramalho, sua fé b nobrbza, pelo dr. J. C, Gomes 

Ribeiro 421 

Divisão dbcimal do dia, pelo engenheiro Eduardo Loschi. 439 
Qual foi o principal chbfb da nação tupi bm pirati- 

NiNGA, pelo dr. Jofto Mendes de Almeida • • . 449 

GONSIDBRAÇÕBS SOBRB O LOGAR ONDB, NOS CAMPOS DO YPI- 
RANGA, D. PBDRO PROCLAMOU A IKDBPBNDBNCIA, BM 7 

DB SBTBMBRO DB 1822, polo dr. Antonio Piza • • 458 

' CONTRIBUIÇÕBS PARA A BTHNOLOGLà PAULISTA, polo Sr. Ri- 

cardo Krone 470 

Db 1831 A 1840 — DO 7 db abril ã maioridadb, pelo dr. 

Jofto de Moraes • . 482 

Rblatorio da dirbctoria • • . • 515 

Balanço da rbcbita b dbspbsa do anno db 1902, pelo 

thesoureiro dr. Carlos Reis 518 

RbLAÇÃO dos sócios QUB, DURANTB o anno db 1902, SATIS- 

fizbram a jóia da admissão ••...•• 522 
Rblação dos sócios cujas annuidadbs bstão pagas até o 

FIM DO ANNO DB 1902. • • • 523 

Quadros dos sócios accbitos bm 1902 527 

Rblação gbral dos mbmbros do instituto histórico b 

gbographico db s. paulo. 528 

Actas dís sbssõbs rbalizadas bm 1902 537 

Lista das offbrtas durantb o anno db 1902 • • . . 572 
Discurso do orador officl^l, dr. thbodoro sampaio, na 

sessfto solemne de encerramento 580 



A Bernarda de Francisco Ignacío 



E' de admirar qne em uma publicação official (1) e logo 
nas suas primeiras paginas, viesse uma apaixonada exposição do 
facto histórico — a bernarda de Francisco Ignacio, na qual á in- 
verdade do escriptor sobresabem as louvaminhas, sobretudo aos 
dons irmãos Andradas, José Bonifácio e Martim Francisco; e as 
maiores diatribes ao coronel Francisco Ignacio de Souza Quei- 
roz e ao ouvidor José da Costa Carvalho, depois de Marquez de 
Monte Alegre: a narração não é de historiador, mas de um 
energúmeno; verdade é que o dr. Paulo do Valle era liberal, e 
escreveu em vida dos politicos dibtinctos, mas extremados, José 
Bonifácio e Martim Francisco, filhos do 1.** José Bonifácio. 

A exposição feita pelo dr. António de Toledo Piza, mais de- 
senvolvida no annexo A, também sob as mesmas impressões, 
apresenta as suas apreciações. 

Nos Apontamentos historiais e hiographicos, de Manoel Eu- 
frasio de Azevedo Marques, encontra-se na palavra — Bernarda — 
a descripção viciada do acontecimento de 23 de Maio, concluindo 
Que elle fôra cuma tentativa para voltar ao absolutismo de 
facto e de direito», o que é absolutamente falso. 

Façamos primeiro conhecida a personalidade do coronel 
Francisco Ignacio. Era filho do coronel Francisco António de 
Souza, portuguez, e de d. Isabel Ignacia da Conceição, brasi- 
leira; nasceu em S. Paulo. 

cO coronel Francisco Ignacio de Souza Queiroz gosou de 
elevada posição, a que lhe davam direito um illustre berço e a 
considerável fortuna que herdou e soube desenvolver. Homem 
activo e intelligente, figurou nos acontecimentos politicos de sua 
pátria, na melindrosa época de 1821 a 1830. Foi membro do 



1) Doo*. Jbtiêri, para ahitt, ê eoiíumêê dê S. Púuic—l.^ Tol. 



2 — 

«•ovem o i>rovisono, eleito em 1821 pelo ])ovo e tropa, do con- 
selho geral da |)rovincia, eleitor de parochia em diversas legis- 
laturas do seu tempo. 

«No governo provisório a desunião que lavrou entre os 
membros desso foverno e os acontecimentos que preludiavam a 
completa mudança do absolutismo colonial para a liberdade consti- 
tucional envolveram ao coronel Francisco Ignacio de modo tal, 
que, em i)ouco tempo, acbou-se á testa do partido anti-liberal, 
promovendo e conseguindo que fossem depostos alguns membros 
do mesmo governo. Felizmente para o caracter nobre dos pau- 
listas, o acontecimento que a historia ficou chamando — Bernarda 
de Francisco Ignacio, e que teve a sua manifestação na tarde 
de 23 de maio de 1822, na capital de S. Paulo, «nâo progrediu». 
Apont Jiist., cit. 

Proclamado o governo provisório de S. Paulo, em 23 de 
junho de 1821, ficou composto do seguinte pessoal: 

Presidente, Joilo Carlos Augusto Oeynhausen — Bernarda. 

Vice-presidente, conselheiro José Bonifácio de Andrada e 
Silva — Andrada. 

Secretario do Interior e Fazenda, coronel Martim Francisco 
Ribeiro de Andrada — Andrad. 

Secretario da Guerra, coronel Lazaro José Gonçalves — Andrad. 

Secretario da Marinha, chefe de esquadra, Miguel José de 
Oliveira Pinto — Bernard. 

Deputados pelo ecclesiastico : 

Padre Felisberto Gomes Jardim — Bernard. 
Padre Jofto Ferreira de Oliveira Bueno— (?) 

Deputados pelo commcrcio: 

Coronel Francisco Ignacio de Souza Queiroz — Bernard. 
Brigadeiro Manoel Rodrigues Jordão — Andrad. 

Deputados pelas armas: 

Coronel António Leite Pereira da Gama Lobo — Andrad. 
Tenente-coronel Daniel Pedro ^Itiller — Bernard. 

Deputados pela agricultura: 

Dr. Nicolau Pereira de Campos Vergueiro — Andrad. 
Tenente-coronel António Maria Quartim — Bernard. 

Deputados pela instrucçao publica: 

Padre Francisco de Paula Oliveira— Andrad. 
Tenente-coronel André da Silva Gomes de Castro — Bernard. 

£• R* 



— 3 — 

n 

Desta lista vô-se que José Bonifácio, indicando ostes nomes 
á proelamaçào do povo e tropa, se acreditava na existência de 
doas partidos (reaccionário e liberal), aquinhoou o lado liberal 
com maior numero de representantes, pois no Conselho havia 
(a querer-se uma classificaçào) 6 ou 7 bernardistas e 8 ou 9 
andradistas, sendo ainda seus o vice-presidente e os dous secre- 
tários r mas não o exacto que, ao organisar-se o dito conselho, 
houvesse na ex-capitania de S. Paulo tal divisào de opiniões; 
José Bonifácio nào fez mais do que propor em partes quasi 
eguaes seus amij^os pessoaes ; todos tendiam ao mesmo fim, 
constante do juramento que prestaram — as bases da Constituição 
decretadas pelas cortes de Lisboa, obediência a D. João VI e o 
bem da provincia e da nação — e nào eram as cortes o repre- 
sentante do liberalismo da época? 

Mais tarde, a evolução de todo o conselho foi para o uni- 
forme movimento que, no Rio e Minas, se dava a favor da nossa 
«autonomia», não dizemos independência, porque esta rosolução 
foi posteriormente manifestada ; até 7 de setembro, só se tratava 
do reino-unido de l*ortugal o Brasil ; desse dia em deante, foi 
ue se generalisou o voto pelo império do Brasil. Este ponto 
ia nossa historia politica é liquido ; não tem, pois, fundamento 
a opinião dos que julgam que no Conselho havia um partido 
retroí^ado e outro liberal. 

Diz o auctor dos Apont. Ilis. e Biogr., etc. : 

«O governo provisório mostrou logo o vicio da sua origem 
e heterogeneidade de seus elementos, e que notabilidades favo- 
neadas pela aura popular, «adquirida pelas idéas democráticas», 
(1) acharam-se reunidas e ligadas repentinamente para o mesmo 
fim a indivíduos, cujo prestigio «tinha sido creado unicamente 
pelo favoritismo official» ; daqui, a desunião, a lucta no seio do 
próprio governo provisório, que em breve se manifestou dividido 
em duas fracções irreconciliáveis». 

E elle próprio, em seguida, declara : 

«Cumpre, porém notar que estes dous grupos não se dis- 
tinguiam pelo «liberalismo» de um, ou pelo «corcundismo» do 
outro ; pois em ambos havia mescla dos dous principies, posto 
que o primeiro cparecesse» nuiis retrogrado que o segundo. 



l 



d) Até entfto, Joté Bonifácio e Mtrtim Francisco nfto se distlngrulam pelas snas 
opIoiGes politicas, roas pelas snas investigações scteotificas , o primeiro tinha subsidio 
por dirersos empregos em Portaga!, o qae, depois da independência, continnoa a receber 
dos cofres brasileiros. 



«A luctíi teve origem por motivo mais pegsoaU, isto é, pela. 
preponderância que os irmãos Andradas souberam logo adquirir 
nas decisões e actos do governo provisório, preponderância a que- 
lhes davam direito, naquella época, nào só o logar do seu nasci— 
mento, como a sua illustração e talento, que deviam naturalmente^ 
estimular aquelles que não haviam subido ao poder pelos mesmos, 
tramites, excepção feita do ouvidor José da Costa Carvalho, que 
também era illustrado, e cujo antagonismo com os Andradas, 
tinha outros motivos que não nos cumpre agora indagar. (1) 

O militarismo, consequência de todo governo pessoal, possuia. 
até então o privilegio exclusivo do mando, e por isso não poude 
tolerar a influencia da intelligencia que começava a desabrochar ;. 
eis o que produziu o movimento de 23 de maio de 1822». 

No acontecimento de 23 de maio esta longa explanação e 
considerações sobre militarismo, liberalismo, illustrações e intel- 
ligencias superiores não vêm ao caso ; em regra, em politica^ 
como na vida privada, o simples bom senso e o justo critério 
t^m egual ou maior valor, e mal andariamos, se assim nào fosse; 
a razão do facto foi a apresentada, pura e simplesmente, sem o 
desenvolvido commentario; e antes do auctor indical-a, já os 
muito liberaes e intelligentes Evaristo Ferreira da Veiga e Diogo 
António Feijó a tinham referido, e elles foram contemporâneos e 
eram da maior fé e veracidade — <a lucta teve origem por motivo, 
mais pessoal do que politico». 

Organisado o governo provisório, um dos seus primeiros actos 
foi acerear-se da força precisa para sustentar a sua auctoridade ; e 
a quem encarregaram José Bonifácio, Martim Francisco e os seus 
amigos no govenio a organisação dessa força? Foi ao coronel 
Francisco Ignacio de Souza Queiroz ; a confiança que nelle depo-^ 
sitavam consta dos seguintes actos : 

«O governo provisório nomeia para commandante de toda a 
forçfi armada desta cidade o illmo. sr. coronel do 1.^ regimento de 
infanteria miliciana, Francisco Ignacio de Souza Queiroz, membro 
deste governo, confiando no seu zelo e actividade a segurança 
púbica da mesma. O sr. capitão do real corpo de engenheiros José 
Joaquim de Abreu lhe assistirá com todo o municiamenfo que for 
necessário e pedido ; as auctoridades a quem o conhecimento desta, 
haja de pertencer assim o tenham entendido e cumpram. 

Palácio do governo de S. Paulo, 2 de julho de 1821. — 
Obynhausen — José Bonifácio — Ribeiro de Andrada. 



(I) Nfto é exacto; as razOes eram as me mas; Teja-se a carta de Francisco. 
Ifníacio, pubHcada no CorrHo taniittamo^ em 1880; o ser Illustrado, também o era, por- 
es., o arcediago Manoel Joaqaim Gonçalves de Andrade, depois bispo d» B. Paalo ; se 
08 «oatros motivos» eram o sen casamento com a sogra de Fraadsoo Ignaoto^ este s4 
se realtsou em I6 de jaiho de 1822. 



— 5 — 

m 

Nào era c coronel Francisco Ignacio o único militar no 
governo; lá estavam o coronel Lazaro José Gonçalves, o bri- 
^deiro Manoel Rodrigues Jordào e o coronel António Leite 
Pereira da Gama Lobo, todos amigos particulares dos And radas. 
Nomearam Francisco Ignacio, pela sua popularidade em S. Paulo. 

«O governo provisório desta Provincia, havendo nomeado 
•o sr. Francisco Ignacio de Souza Queiroz para commandante 
<ia força armada desta cidade, o encarrega, além disso, do com- 
inando da força miliciana disponivel, meia légua em circuito 
•desta mesma cidade, obrar com ella conforme convier ao servi- 
<^, As auctoridades a quem o conhecimento desta haja de com- 
petir assim o tenham entendido e cumpram. Palácio do governo 
<ie S. Paulo, 15 de setembro de 1822. — Obynhausbn — José 
Bonifácio — Ribbiro de Andrada. 

«O governo provisório manda prevenir ao sr. coronel Fran- 
cisco Ignacio de Souza Queiro'/., encarregado da organização do 
-Corpo de Infantaria Miliciana que marcha para a Corte do Rio 
de Janeiro, que deve ter muito em vista na mencionada orga- 
nização o determinado na portaria do governo, de 23 de julho 
do anno passado, a respeito da isenção do serviço concedida aos 
proprietários, administradores e feitores dos engenhos de assu- 
car, de aguas ardentes e de outras grandes fazendas de escra- 
vatura, afim de que não sejam contemplados na referida orga- 
nização. Palácio do governo de S. Paulo, 29 de janeiro de 
1S22. — Obynhausbn — Ribeiro db Andrada — Pinto. 

Essas portarias e muitos outros actos mostram a confiança 
que o governo sempre teve no coronel Francisco Ignacio ; a 
«He estava entregue a defesa da ordem publica, e nunca elle 
deixou de corresponder a essa confiança, pois, mesmo no dia 23 
de maio, estando no governo Martim, Jordào e outros amigos, 
ordenou que elle se puzesse á frente das tropas, «para acom- 
modal-as», isto consta da sua correspondência e deve constar das 
actas, se existem. Neste dia, o que estava em causa e provo- 
cara a revolta foi a portaria de José Bonifácio chamando João 
Carlos ao Rio de Janeiro ; havia, é certo, indisposição contra os 
Andradas, mas não conspirações contra elles e, muito menos, 
•contra a ordem de cousas estabelecida. 

Em todos 08 actos do governo provisório de S. Paulo refe- 
rentes á auctoridade do principe-regente, oa á autonomia do 
Brasil, a resolução era tomada por unanimidade; veja-se a re- 
presentação feita, em 24 de dezembro de 1821, aos membros do 
governo provisório em Minas, onde se lê: «Conservamos a con-« 



— 6 — 

soladora esperança de que, por estes dignos meios, as Cortes re- 
conberào a nossa justiça, e que «ainda um só laço, egual e 
venturoso, unirá toda a Monarcbia» ; mas, prevendo o caso de 
havermos sido vendidos, lancemos c desde já» os alicerces da 
uniào indissolúvel, c Sempre fomos portuguezes e queremos ser 
irmãos da Europa, mas nào seus escravos». 

(Assignada por todos os membros do governo.) 

«Sempre fomos portuguezes — um só laço egual e venturoso 
unirá toda a monarcbia» ; estas duas declarações manifestam a 
inanidade dos neo historiadores quanto aos partidos brasileiro e 
portuguez no governo de S, Paulo. 

Na representação, da mesma data, ao príncipe j)ara ficar no 
Brasil, lê-se: 

«Sim, augusto senbor, V. A, R, deve ficar no Brasil, 
quaesquer que sejam os projectos das cortes constituintes, nào 
80 para nosso bem geral, como até para a «independência e 
prosj>eridade futura de Portugal». 

«Nós Ibe rogamos que se confie corajosamente no «amor 
e fidelidade dos seus brasileiros» c mormente dos seus paulistas, 
que estilo «todos» promptos a verter a ultima gotta do seu san- 
gue e sacrificar todos os seus haveres para não perderem o 
principe idolatrado, em quem têm posto todas as suas esjieran- 
ças, bera fundadas, da sua felicidaae e da sua honra nacional, 
etc.» 

(Assignada por todos os membros do governo). 

Os Andradas sempre chamaram a si a auctoria destas re- 
presentações. 

Já vimos que fora o coronel Francisco Ignacio o encarregado 
de organisar a força que devia seguir para o Kio de Janeiro, a pe- 
dido do principe regente, em carta régia de 12 de janeiro de 1822, 
e esta força era para defcndel-o de qualquer aggressâo pelas tropas 
portuguezas , 

Acompanhem-se as datas e ver-seá ininterruptamente mani- 
festada a fidelidade de todo o govenio de S. Paulo e dos seus ha- 
bitantes. 

Na sua viagem a Minas, em abril de 1822, de Villa Rica, de- 
pois de obter a obediência da Junta, fez D. Pedro, a 14 desse mez> 
a communicação na qual se lê : 

«Manda o principe regente participar ao governo provisória 
da provincia de S , Paulo que as contradicções que todos os dias 
observava no governo provisório da provincia de Minas Geraes o 
convencerão da pouca adhesão que o mesmo governo tinha no sys- 
tema constitucional, á união das províncias deste reino e ao reco- 
nhecimento da sua regência, como centro do poder executivo do 



— 7 — 

reino do Brasil, faltando com a mais culposa ousadia á promessa 
que fizera ao govenao de S. Paulo, quando declararam «fazer causa 
commum com esse» e a provincia do Rio de Janeiro . . . 

S. A. R. manda, sem perda de tempo, communicar esta grata 
noticia ao governo de S . Paulo, «para satisfação dessa provincia 
que tfto digna se faz da sua real consideração, etc.» 

Da correspondência do coronel Francisco Ignacio, vê-se qual 
foi o seu procedimento no acontecimento que ficou conhecido por 
— Bernarda (1) de Francisco Ignacio — e quaes os seus sentimentos 
politicos, «como brasileiro» que era» 

IV 

Que foi a expulsão de Martim Francisco da provincia de S, 
Paulo, proveniente, nilo da lucta entre partidos politicos, que en- 
tfto n?io existiam, mas por motivos todos pessoae», os contempo- 
râneos nâo punham a menor duvida, nào obstante os conside- 
randos de José Bonifácio em todos os actos oíficiaes a elle re- 
ferentes. 

Armitage, o nosso historiador mais popular, escreveu á pag. 
59 de sua Historia do Brasil : «O inúncipe havia sahido do Rio 
em 14 de agosto, deixando a regência confiada á Princeza Real... 
e dirigiu-se por via de Santos a S. Paulo, «em consequência 
de discussões occoridas entre o presidente da respectiva Junta e 
a família dos And radas, que motivaram a expulsão de Martim 
Francisco...» 

Narrando o facto, em verdade equi vocou-se Armitage ; D . 
Pedro não veiu a S. Paulo por Santos, mas pela estrada do 
norte, nem recebeu antes de chegar ao seu destino as cartas de 
El-Rei e os decretos das cortes que José Bonifácio remettera; 
Paulo Bregaro, que fora o portador desses papeis, entregou-os 
ao Príncipe no campo do Ypiranga, quando elle voltava de uma 
excursão que fizera a Santos ; e também as dissensões nào eram 
propriamente com João Carlos, ellas provinham da prepotência 
que se arrogavam os Andradas na governança da Provincia, e 
que aliás praticavam na corte do Rio de Janeiro. 

O paare Diogo António Feijó, que ninguém deixará de re- 
conhecer que foi typo do nosso liberalismo nessa época, e muito 
popular em S. Paulo, assim exprimia-se, quando ministro da 
Justiça, em 1832, na Camará dos deputados, em uma discussão 
com Martim Francisco : 



(1) Naqnclic tompo chamava-se cbornarda» todo movimento popular isolado. 



— 8 — 

«Eu disse á assembléa, no meu relatório, que ha homeuR 
<rae julgam ter direito ao empregos do Estado, e que nào duvi- 
dam arriscar tudo pam saciar a ambiçào que os devora e que 
era incompativel á paz e segurança interna, com a presença de 
semelhantes homens. 

«Devo justificar a minha proposição. 

«Nào declarei quaes fossem esses homens. Alguns já foram 
trahidos pela sua consciência ; mas fora desta casa ha mais 
outros . 

« Eu provarei o que disse, «pela experiência passada» e por 
factos recentes. 

« Senhores ! Eu falei francamente, porque devera ser sin- 
cero, principalmente para com a assembléa geral, a quem com- 
pete providenciar, 

«Eu conheço estes homens, desde que se arrogaram o go- 
verno de S. Paulo ; digo que se arrogaram, porque a Provincia 
não os nomeou.» 

«Foram tantos os seus actos arbitrários, foi tal o descon- 
tentamento e a desesperação dos paulistas, que foi alli expulso 
esse senhor que me chamou hypocrita, com luminárias e geral 
prazer. 

«Entraram para o Ministério. 

«Todos nós sabemos o que então se passou. «Tanta foi a 
arbitrariedade e despotismo praticado por elles», que o ex-impe- 
rador, não obstante consideral-os como seu principal apoio, « os 
demittiu», proclamando aos povos esta nova, «como se fora um 
triumpho da razão e da liberdade». 

« Respirou o império, os deportados recolheram-se ás suas pro- 
víncias e tudo promettia prosperidade.» 

Pouco antes, em discussão entre António Carlos e Evaristo 
Ferreira da Veiga, na Aurora Fluminense escrevia este : 

« Começando pelos factos praticados em S. Paulo, por occasião 
da injuria feita a um dos membros do governo provisório, e pelas 
deportações «arbitrarias» de alguns individuos, insiste o sr. Antó- 
nio Carlos em entender que estes não excederam de 13, quando em 
nosso poder estiveram já os nomes de 30, pouco mais ou menos. . . 
A abrigo de uma distincção subtil e escolástica, o sr. António Car- 
los trata de palliar o € odioso de taes procedimentos > e de fazer 
ver que o injusto algumas vezes deixa de ser injusto ; para elle ha 
injusto absoluto, original, fundamental, relativo ou positivo. Mas 
nào é disto que se tratava, sim de saber se a injustiça da sua natu-r 
reza por estas ou aquellas circumstancias, quando o sr. António 
Carlos é o primeiro a declarar que « não approva o desvio das leis 
que estão em vigor, etc. O que ha, porém, aqui muito notável é a 



opinião do nosso illnstre antogonista quando nào crê que «semelhan- 
te remoção» (a de vários cidadãos para muitas léguas longe de suas 
casas e estabelecimentos) «deve ser olhada, não coroo uma pena, 
mas como desgraça», a que os condemnou «sua posição social» na- 
quelles tempos. Com tal doutrina podem ser justificados todos os 
actos arbitrários ; a culpa não é de quem os commette, mas de 
quem se collocou na posição de os sofifrer. [Aurora^ 30 de dez. 1831). 

Respondendo, dizia Antímio Carlos : 

« Bom é, porém, que na relação dos factos queira servir-se 
dos olhos não armados de vidros augmentadores. Melhor ainda 
seria que não convertesse «golpes de Estado» em vinganças 
particulares. Todos sabem, e eu melhor do que ninguém, pela 
minha posição nas cortes de Lisboa, que a revolta de Sào Paulo, 
« que deu causa» aos decretos parciaes, era devida a « opiniões da- 
quelles que preferiam a união com Portugal á independência» e 
que nella nenhuma parte tiveram rivalidades de familia.» Au-* 
rora, 1 de gosto de 1832. 



Já notámos que a idéa da independência é muito posterior : até 
7 de setembro, o movimento geral não era para a indapendeneia 
ou «separação» de Portugal ; só se fallava em «união» com Portugal; 
mas, no mesmo pé de eguldade, queria-se a autonomia do Brasil, 
repellida a recolonização ; eis os termos da proclamação do principe 
regente aos governos e nações amigas, por uma resolução tomada 
no Conselho dos procuradores ou Conselho do Estado, poucos dias 
antes de partir para S. Paulo — 6 de agosto de 1822: «Protesto 
perante Deus, e á face de todas as nações amigas e alliadas, que 
«não desejo cortar os laços de unidade e fraternidade que devem 
fazer de toda a nação portugueza um só todo poder politico bem 
organizado* . 

O próprio António Carlos estava tão longe da idéa da nossa 
independência (separação de Portugal), que, a 7 de agosto de 1822, 
na Cortes de Lisboa, proferira as seguintes palavras: «Se o Brasil 
quizer agora ser «só», que o seja; mas eu «não serei seu conselheiro, 
nem concorrerei para o seu suicidio politico» . 

A's declarações anteriores de António Carlos replicara Evaristo: 

«Que a revolta de S. Paulo, que deu causa aos degredos par- 
.ciaes que mencionamos «não foi devida a desejos de união com Por- 
tugal», mas á má vontade, bem ou mal fundada, que havia entre um 
membro do governo, pertencente pelos laços de sangue ao sr. An- 
tónio Carlos: que a sua perseguição foi o verdadeiro motivo do ter- 
ror com que se cabia sobre aquella cidade, «cousas são que ninguém 



— 10 — 

Ignora», e que o nosso correspondente negn,tnlvez para melhor 
desculpar factos, a aue aliás nílo ousa impor o sello da sua approva- 
çào. («Aurora, 17 de agosto.) 

A 2 de abril de 1892, escrevera Evaristo : 

«Esses homens nâo haviam praticado delicto ; logo nllo podiam 
sofifrer pena, a que lhes foi appHcada nfto passa de «uma desgraça 
de posiçito» ; consolera-se com tão bons raciocinios os que «illegal- 
mente» foram deportados (isto é, removidos) para longe de suas 
casas, estabelecimentos e famílias... (*^ 

«Tal era a situação dos individues que o ministério Andrada 
mandou deportar ou remover; nâo tem, portanto, de que se quei- 
xarem, elles nào foram tratados como criminosos ; soffreram o que 
em Athenas cabia de partilha aos grandes homens; muita honra se 
lhes fez em equiparal-os aos herôes da (irecia antiga. Tal é a dou- 
trina do sr. António Carlos . Todavia um culpado egoista dá logar 
a que taes cidadãos se não reconheçam agradecidos a tanto favor, 
e que preferissem a uma «illustre desgraça» o repouso plebeu de 
suas habitações e famílias. 

«Damos finalmente, a lista das victimas de sua posição que, 
tantas vezes e com tanta dureza, nos tem sido exigida : 

Lista das pessoas deportadas de S . Paulo, no ministério Andrada: 

João Carlos Augusto Oeynhausen Cmembro do governo), Rio 
de Janeiro. 

Francisco Ignacio de Souza Queiroz (membro do governo), 
Kio de Janeiro. 

Miguel José de Oliveira Pinto (membro do governo), Rio de 
Janeiro. 

José da Costa Carvalho (ouvidor). Rio de Janeiro, 

Bispo actual (arcediago Manoel Joaquim Gonçalves de Andra- 
de), Rio de Janeiro. 

Francisco Gonçalves dos Santos Cruz, Rio de Janeiro. 

Frei António Menino Jesus, Rio de Janeiro. 

Daniel Pedro Muller (deputado pelas armas), Tibaia. 

João Ferreira Bueno (deputado eccles?), Bariri. 

Francisco de Paula Oliveira, Juquery. 

André da Silva Gome^ (deputado pelo ministério), Cutia. 

Amaro José Vieira, Cutia. 

António Maria Quartim (deputado pela agricultura), Jundiahy. 

António Cardoso Nogueira, Pirapitanga. 

António de Siqueira Moraes, Nazareth. 

Francisco Alves Ferreira, S. Roque. 



(*) Prancltco Ignacio estere qaas* um aono no Bio de Janeiro, sequestrados os sens 
bens, os próprios moveis, caixeiros presos, sofTreodo grandes prejuízos em suas casas de 
negócios e fazendas agricolas, nas qnaos mandaram-so abrir estradas, etc. 



— 11 — 

Padre Bernardo Conrado, S. Roque, 

Caetano Pinto Homem, Araçariguama. 

António José Vaz, S. Vicente. 

Gabriel Henrique Pessoa, Santos. 

Manoel José Sevilha, Mogy das Cruzes (e lá morreu). 

Pedro Taques de Almeida Alvim, Paranaguá. 

Jayme da Silva Telles, Piracicaba. 

Joaquim Ignacio Ribeiro, Ytú. 

António Floriano Alves Alvim, Itapecirica, (e lá morreu). 

Jeronymo Pereira Chrispim, Sorocaba. 

José Rodrigues Coelho de Oliveira Netto, Porto Feliz. 

Frei José Tundela, S. Caetano, (e lá morreu). 

Francisco de Paula Macedo, S. Carlos, (Campinas hoje). 

João Theodoro Xavier, S. Miguel. 

António Gonçalves Mamede, S. José. 

José Manoel Tralhao, Guaratinguetá. 

Brigadeiro Joaquim José Pinto de Moraes Leme, Parnahyba. 

Os quatro que se seguem foram em commissão (1) ; ficaram no 
Rio de Janeiro por ordem, e um delles foi para a ilha das Cobras : 

José Fernandes da Silva. 

António José da Motta, — é este o fuáo Fadigas que, de 
medo, foi para o Porto, fugido, e que o sr. António Carlos diz 
que fora emissário. 

Raymundo Pinto Homem. 

Francisco António Pinto Bastos, é o que habitou a ilha das 
Cobras . 

N. B. — Além destas, houve três pessoas que foram denun- 
ciadas e estiveram na cadeia, em consequência da devassa de 
quem duvidasse da constitucionalidade de D. Pedro e de seus 
ministros, etc.» 

Disse a auctor dos Apont. Jiist que todo esse pessoal tinha 
prestigio «creado unicamente pelo favoritismo official>. Se tSo 
pouco valiam, por que deportal-os? 

Pereira da Silva, Hist da Fund. do Imp. do Brasil, descre- 
vendo a viagem de D. Pedro a S. Paulo, diz : 

« Conheceu o príncipe que nfto existiam em S. Paulo mais 
que luctas locaes, ódios de famílias preponderantes, idéas politi- 
cas mais ou menos adeantadas em liberalismo, «reunidos, porém 
todos» no propósito firme e deliberado de resistir ás Cortes de 
Lisboa, sustentar-lhe a regência e auctoridade e emancipar in- 



(1) Esta commlssSo tinha sido enviada ao Prioclpo pelo gorerno de 8. Paulo e, 
como a nota foi remettida de 8. Panlo, está o verbo— cforam»— em vcs de— cvieram»^ 
em relação ao Rio de Janeiro, onde escreria Evaristo. 



~ 12 — 

teiramente o Brasil como nação que tinha direitos incontestá- 
veis de por si governar-se. 

Nào descobriu a« «tendências desorganisadoras e retrogra- 
das », cuja existência lhe havia sido communicada no Rio de Ja- 
neiro. Posto que alterasse logo o systema que traçara executar 
em S. Paulo, resolveu-se, todavia, a publicar algumas medidas 
que, sem ofPenderem os ânimos públicos, e nem servirem de pre- 
texto a novos incidentes de discórdia, mostrassem a sua aucto- 
ridade e contivessem os ânimos dahi por deante. Declarou dis- 
solvida a junta existente. Ordenou que se encarregassem da ad- 
ministração interina da Provincia os funcí»ionario3 públicos a 
quem pelas leis antigas ('para S. Paulo o alvará de 12 de se- 
tembro de 1710) cabia o governo na falta dos governadores e 
capitâes-generaes. Destituiu o commandante das armas e passou 
o cargo ao militar mais elevado em patente. Mandou reforçar 
as guarnições de S. Sebastião e Santos. Passou instnicções ás 
camarás e empregados civi» para se sujeitarem escrupulosamente 
ás ordens que em seu nome lhes fossem regularmente transmit- 
tidas 

Determinou que da Capital sahissem e se recolhessem a 
Santos dois dos principaes adversários da familia Andrada, Fran- 
cisco Ignacio de Souza Queiroz e Miguel José de Oliveira Pinto 
(1), contentando-se com parecer assim castigar resistências ille- 
gaes ao seu governo. 

VI 

Em vista do exposto, a verdade histórica sobre o aconteci- 
mento de 23 de maio é que foi uma explosão, por assim dizer, 
provocada pela prepotência e arbitrariedades dos irmãos Andra- 
das ; a deposição de Martim Francisco não foi acto de partido 
politico, e previamente ajustado ; até esse dia não se tinha dado 
uma só perturbação ou procedimento que justificasse a remoção 
ou deportação, para o Rio de Janeiro, de João Carlos, e depois, 
Francisco Ignacio e Costa Carvalho ; aquelles como membros 
influentes do governo eram, é verdade, um obstáculo ás arbitra- 
riedades de Martim Francisco, achando-se José Bonifácio no 
Ministério ; o ouvidor Costa Carvalho, como magistrado não 
satisfazia as requisições de Martim para prisões illegaes (veja-se 
a carta de Francisco Ignacio, de 1° de julho de 1822) ; a com- 
municação que D. Pedro fez de Villa Rica ao governo de São 
Paulo foi nos termos mais amistosos, nenhum vislumbre nota-se 



(1) Nestes dois nomes houve eng»no : o anotor lo primeiro oognominon «Qaeiros 
Telles» e ao segando «Sonia Pinto». 



— 13 — 

da menor deseoBâança de qualquer lucta em Bào Paulo, e de 
passagem observaremos que o secretário de Estado que a fez 
«em 14 de abril de 1822» era cunhado e amigo do coronel 
Francisco Ignacio e estava muito em dia com os negócios de São 
Paulo. 

E) se assim não era, porque, por um golpe de Estado, não 
depoz logo José Bonifácio todo o governo e o commandante das 
forças, substituiu do os por um pessoal todo seu ? 

Porque foi conservado á frente da tropa, na cidade, o coro- 
nel Francisco Ignacio até a chegada do príncipe a São Paulo ? (1) 

Na portaria de 10 de maio o que diz José Bonifácio ? 
Allega, apenas, «por ser precisa», a estada nesta Corte do con- 
selheiro João Carlos Augusto de Oeynhausen, presidente da 
junta do governo de São Paulo, «para objecto de serviço pu- 
blico»: Manda S. A. R., etc.» 

Será esta a linguagem de um governo para com um crimi- 
noso ou suspeito? 

Despacho : Cumpra-se e registre-se . 

Palíicio do Governo de São Paulo, 23 de maio de 1822. — 
Oeynhausen, Ribeiro de Andrada, Pi7ito», 

As portarias de 21 de maio, relativas ao coronel Francisco 
Ignacio e ouvidor Costa Carvalho, declaram: «por assim ser 
conveniente ao serviço nacional e real». 

Não havia base ou fundamento para qualquer accusação que 
justificasse as remoções. 

Antes de proseguirmos, releremos o caso do «Chaguinhas». 
O dr. Paulo do Valle diz : «O motim militar de Santos, de 28 
de junho de 1821, favoreceu, porém, ao partido de Francisco 
Ignacio, e «prof»orcionou-lhe» meios fáceis de conjurar os pau- 
listas contra Martim Francisco». 

O dr. António de Toledo Piza: «Sendo os irmãos Andradas, 
por seu talento e caracter, os membros mais influentes do Go- 
verno Provisório, os «conspiradores» procuraram attvahir sobre 
elles o ódio particular, attribuindo a Martim Francisco toda a 
responsabilidade pelo acto do Governo Provisório, que perdeu 
uma bel la occasião de usar de generosidade para com o desgra- 
çado «Chaguinhas> e de respeitar os precedentes estabelecidos. 

Estavam as cousas neste pé quando chegou a São Paulo a 
noticia da chamada do general João Carlos para o Rio, etc.» 

Notem-se as datas, o governo provisório foi proclamado a 
23 de junho de 1821, a revolta do batalhão dos caçadores, em 



(1) o coronel PnHici«eo Ignacio tinha preparado, i sna omita, a trona para ir ao 
lontro de D. Pedro, qnando este, da Penha, mandoa diapeosal-a, tendo alsnem lhe dtto 
que ells obstaria a tua entrada na cMade ! (Caru de 80 de setembro de 182»). 



— 14 — 

Santos, foi a 28 do mesmo mez e a sentença é d« julho, tudo 
isâo deu-se quasi um anno antes do 23 de maio de 1822 ! £' 
assim que se quer escrever historia! 

Que esse facto (enforcamento do «Chaguinhas») era geral- 
mente imjmtado ás exigências de Martim Francisco, níio ha 
duvida, e o diz testemunha contemporânea e presencial, Diogo 
António Feijó, na Gamara dos Deputados, em face do próprio 
Martim Francisco: «Appello para os que me conhecem, de perto, 
que apontem um só acto da minha vida que denote ferocidade... 
O que entendo por ferocidade é, por exemplo, isto : mandar «en- 
forcar» um homem, tendo ainda recurso legal contra a primeira 
sentença... 

«Senhores ! Ha quem diga (ainda hoje tenho hon*or de pro- 
ferir este pensamento) «o sangue do inimigo é mui saborosa 
para beber-se de um só trago». Isto é que é ferocidade ! 

«Note-se que o desgraçado de quem falei foi julgado no 
conselho supremo, «nào digno de morte», mas já estava morto !» 
(Sessílo de 21 de maio de 1832). 

Não pôde existir testemunho do facto; talvez, porém a ti^a- 
dição tenha transmittido a alguém as ultimas palavras que do 
patíbulo proferiu esse martyr ; uma observação, porém, é cabida : 
se foi Francisco Chagas condemnado por uma insurreição militar, 
como soôreu elle a pena de forca, que não é pena militar ? Não 
lemos o seu processo, mas consta-nos que não esteve presente e 
muito menos foi o cabeça da sublevação em Santos, e que já 
tinha pedido a sua demissão; a execução no civil puniu o pre- 
tenso crime militar; se escapou das balas, apanhou-o a forca. 

Se todos os membros do governo subscreveram a sentença, 
como diz o dr. António Piza, os Andradas, pela sua preponde- 
rância, «como os membros mais influentes», muito podiam e de- 
viam ter pesado na resolução e execução. 

VII 

Voltemos, porém, ao nosso estudo ; para maior esclarecimento 
apreciemos ligeiramente o depoimento mais importante que o autor 
dos Apont, hist. encontrou na celebre devassa, 

A testemunha cap. Bento José Leito Penteado, exercendo o 
cargo de juiz de fora pela lei, quanto ao 1." «quesito», diz que José 
Rodrigues Pereira Netto fora quem mandara tocar o rebate, no dia 
23 de maio, obrigando para isso, com uma pistola, ao tenente Igna- 
cio José de Macedo ; que este assim lhe dissera, e o mesmo affirraa- 
ra o cap, Francisco Cândido Sagalerva ; ao 2.** nada podia affirmar» 
mas «ouviu dizer» que os agentes do motim foram o ex-presidente 



— 15 — 

do governo, João Carlos de Oeyenhausen, os coronéis Francisco 
Ignacio de Souza Queiroz e Francisco Alves Fen*eira do Amaral e 
outros (em cujo numero referem outras testemunhas, também o sar- 
íj^ento-mór Francisco de Paula Macedo, cap. Pedro Taques e te- 
nente Jayme da Silva Telles) ; ao 3.* sabe por haver presenciado 
no largo de S. Gonçalo, que o coronel Francisco Alves Ferreira do 
Amaral para o que fez sahir do quartel a tropa na frente delia o 
brigadeiro Joaquim José Pinto de Moraes Leme, e o coronel Fran- 
cisco Ignacio de Souza Queiroz, além de outros officiaes, cujos no- 
mes nào nos recorda. 

Ao 4." disse que quem commandava a tropa para sahir do quar- 
tel e postal-a no largo de S. Gonçalo, fora o coronel Francisco Alves 
Ferreira do Amaral, pondo em linha de batalha, e estando á frente 
delia, vira logo depois apparecer o coronel Francisco Ignacio, entre 
03 quaes sabe, por ouvir dizer, houve uma disputa sobre o com- 
mando da referida tropa, o que elle, testemunha, acredita ser ver- 
dade, por haver presenciado que o referido coronel Francisco Alves 
pedira uma satisfação ao governo acerca deste acontecimento; (1). 

Ao 5.**, disse que, sendo elle testemunha, presidente da Gamara 
desta cidade, concorrera á vereança extraordinária, no indicado dia 
23 de maio, por força e violência que para isso lhe fez o capitão 
Pedro Taques de Almeida Alvim. . . ; 

Ao G.** disse que sabe por experiência própria que muitas das 
pessoas que assignaram aquelle acto de vereação extraordinária, o 
fizeram coustrangidamente, como elle, testemunha, por ameaças do 
capitão Pedro Taques, de Jayme da Silva Telles, do sargento-mór 
Francisco de Paula Macedo e outros. . . ; 

Ao 7.®, disse que sabe, «por ser voz geral», que os auctores do 
motim foram o ex-capitão-general João Carlos Augusto de Oeynhau- 
sen e o coronel Francisco Ignacio de Souza Queiroz, «por intrigas 
particulares travadas» entre os ditos membros do governo provisó- 
rio e o ouvidor José da Costa Carvalho, com os dous membros de- 
postos, por effeito daquelle motim ; 

Ao 8.**, disse que sabe, «por ouvir» ao capitão Joaquim José de 
Almeida que, já no Rio de Janeiro, se falava que estava para acon- 
tecer o referido motim, mez e meio antes de haver acontecido. E 
nada mais disse. 

Nào sabemos se houve lapso no inquérito, ou na copia, quanto 
ao 8-**, que não consta dos Apont hist, cit. 

Os quesitos que nos interessam são o 2.° e o 7.**; em ambos diz 
a testemunha que — «por ouvir dizer, por ser voz geral» — foram os 
auctores do motim João Carlos, Francisco Ignacio e o ouvidor 



1) Por ordem do Rroverno, qae mandou Praocisco Ignacio accoramodar a tropa, por 
qoe clle ee pazera a frcnti» da mesma -carta de 1.* de janho de 1822. 



.— 16 — 

Costa Carvalho, — «por in tiaras particulares travadas» entre elles e 
os dous membros de|H)stos, Martim Francisco e o brigadeiro Jordão. 

Nào entremos na fé que merece tal depoimento, que nada tem 
de positivo, sendo aliás suspeita pela amizade aos Andradas e ser 
tomado em auto de devassa, sem que pudesse ser contestado pelos 
interessados, mandados ausentar, como era costume, «pai*a liberdade 
das testemunhas», e que únicos poderiam apural-o; mas acceitamos 
a razUo que dá, para demonstrar que nào se tratava de actos, factos, 
ou opiniões politicas tendentes ao regresso do antigo regimen, e op- 
posição á nova ordem de cousas no Brasil . 

O governo provisório de S. Paulo era de eleição popular, se- 
gundo a lei das Cortes de 24 de abril de 1821 ; os seus membros 
não podiam ser demiltidos regular e legalmente, as Juntas das ex- 
capítanias estavam sujeitas «directamente» ás Cortes de Lisboa; o 

Sroprio príncipe regente era o primeiro a reconhecel-o, como se vê 
a portaria de 15 de outubro de 1821, dirigida ao governo de Mi- 
nas Geraes. «Ficando aquelle governo responsável pelo que fizer, 
cimmediatamonte», ás Cortes nacionaes... Esperando, comtudo, o 
mesmo senhor que, conservadas todas as relações necessárias entre 
a provincia de Minas Geraes e o Rio de Janeiro, se lhe «participará» 
quanto occorror e «convier que chegue» ao seu real conhecimento» . 

Por carta regia, que deve existir nos papeis do governo, se es- 
tão conservados, o principe auctorizava o governo de S. Paulo a 
representar-lhe sobre a execução de qualquer ordem que fosse in- 
compativel com o bem da provincia ( 1), e foi este o fundamento para 
o nào cumprimento das portarias de 10 e 21 de maio. 

Em vista da carta regia de 25 de junho e apresentada ao go- 
verno em 16 de julho, deu-se por demittido João Carlos, com a se- 
guinte declaração, digna e respeitosa: 

«Remetto a intimação, que muito fielmente cumprirei e me dou 
por demittido da auctoridade, que só conservei até saber a real von- 
tade do sereníssimo senhor principe regente, que desta carta regia 
consta. S. Paulo, 16 de julho de 1822. — João CitIoa AugtMto 
Oeynha^ixen, 

Não obedecendo a simples portaria, sujeitou-se o presidente da 
Junta á intimação da carta regia. 

Costa Carvalho seguira para o Rio a 26 de julho ; ficara, porém, 
Francisco Ignacio, como já dissemos, no commando da força até a 
chegada do principe a S. Paulo. 

José Bonifácio nunca apresentou um só facto, ou simples acto, 
que depuzesse contra o brasileirismo de João Carlos, Francisco Igna- 
cio e Costa Carvalho, mesmo quando António Carlos e Evaristo da 



(1) Referida por Francisco Ignado, carta de 1.* de Jnlbo de 1822. 



— 17 — 

Veiga travaram larga discussào, que, em muito, se prendeu á remo- 
ção destes cidadftos da província de S. Paulo; entretanto, em todos 
o8 actos otficiíies empregava as expressões — «desorganizadores, re- 
beldes», membros de um governo «illegitimo» (depois que elle e 
Martim sahiram do governo para o ministério) — decreto de 25 de 
junho de 1822 ; «instigadores» de miseráveis e facciosos, «desobe- 
dientes» e «perigosos» — carta regia da mesma data; e na fala do 
Imperador, por occasiào da abertura da Constituinte, mentirosa- 
mente escreveu : «Quando em S . Paulo surgiu, dentre o brioso 
povo daquella agradável e encantadora provincia, «um partido de 
portuguezes e brasileiros degenerados, totalmente affeitos ás cortes 
ao desgraçado e encanecido Portugal (1) parti immediatamente para 
a provincia; entrei sem receio, porque conheço que todo o povo me 
ama; dei as providencias que me pareceram convenientes, «a ponto 
que» a nossa independência foi primeiro, que em parte alguma, 
proclamada no sempre memorável sitio do Piranga.» 

Em falta de base ou fundamento anterior, aproveitou-se José 
Bonifácio do facto de 23 de maio para perseguil-os e martyrisal-os ; 
a manifestação dos sentimentos populares, nesse dia, foi juntamente, 
provocada pela arbitraria e inexplicável portaria de 10 deste mez. 

A veroadeira causa da chamada de Joào Carlos ao Rio de Ja- 
neiro foi para que Martim Francisco assumisse a presidência do go- 
verno de S. Paulo, o que francamente declara a mesma portaria : — 
passando a presidência que exercia ao seu immediato governo ; era 
este o objecto do serviço publico que fazia precisa a estada de João 
Carlos na Corte ! Quanto a Francisco Ignacio, ou nelle fazia pouco 
José Bonifácio, não sendo, pois, pernicioso e perigoso, ou a sua es- 
tada até fins do Agosto era conveniente á provincia. 

vm 

Conhecia o príncipe a nenhuma procedência das accusações 
oae faziam os Andradas a João Carlos, Francisco Ignacio e Costa 
Carvalho ; por isso não se apressou (posto que a fala á assembléa 
dissesse que partira «immediatamente») a visitar a provincia de S. 
Paulo, como fez a de Minas, ainda que desde julho lhe falasse nes- 
sa viagem. (2) 

Ao chegar a S. Paulo, tomou as resoluções referidas por Pe- 
reira da Silva,loc . cit . , entre ellas a remoção de Francisco Ignacio 
€ chefe de esquadra Oliveira Pinto, para Santos ; deixou-os, pois, 
na mesma provincia e em logar perto da Capital, e onde aquelle 
tinha muitas relações pelos seus estabelecimentos commerciaes, que 
tinham sido do brigadeiro Luiz António de Souza. 



(1) Nfto er» e<ta a llngnagen até setembro de 1^22. como ji vimoe. 
2) Carta de Praocilce Igoaclo, de 1 de jalho de 1822. 



— 18 — 

A conservação de Francisco Ignacio em S. Paulo, á testa da 
tropa até íins agosto, ó prova da improcedência das accusações que 
lhe faziam 08 An d radas ; nos Doc5. hí feres., an nexo V, lê-se uma 
representaçíko «de 31 de julho», na qual, «allegando-se a inutili- 
dade de quaesqucr medidas hostis» sobre a província, e «pedindo- 
se que o principe pessoalmente «viesse conhecer dos coravòes fieis 
dos paulistas, por constar que o coronel Francisco I^^nacio, que se 
achava encarregado da força armada da provincia, «pretendia au- 
sentar-se», o que era «muito prejudicial ao socego» que estavam go- 
sando os cidadáos, e em quem «todos confiavam» a sua segurança 
em razílo da muita «subordinação que a tropa e o povo lhe presta- 
T»», requeriam á Gamara para que officiasse ao governo da provin- 
cia «afim de obstar a sua viagem, etc. (1) 

Estào assignados capitào-mór « Eleuterio da Silva Prado » e 
capitão «António da Silva Prado» ; estes dois nomes bastam para 
dar todo o valor e importância á dita representação, como intimes 
que eram dos An d radas . 

Removido pelo principe, seguiu Francisco Ignacio para San- 
tos; acclamada a independência a 7, a 8 appareceu nessa cidade 
uma proclamação, que foi enviada ao governo de S. Paulo, e por 
este remettida, por cópia, José Bonifácio, no Rio de Janeiro, de- 
clarando o mesmo governo que «suspeitava» tivesse sido promovi- 
da por Francisco Ignacio e pelo chefe de esquadra Oliveira Pinto ! 
Daqui a portaria de 22 de setembro, pela qual ordenava José Bo- 
nifácio que, com a maior «segurança» e urgência, fossem esses dois 
cidadãos remettidos para a Corte. 

Esta ordem do ministro é de 22 de setembro ; no dia seguinte, 
o dec. de 23 declarava : «Querendo corresponder á geral alegria 
desta cidade pela nomeação dos deputados á assembléa geral cons- 
tituinte e legislativa, que ha de lançar os gloriosos e inabaláveis 
fundamentos do Império do Brasil : 

«Hei por bem que cesse e «fique de nenhum effeito» a devassa 
a que mandei proceder na provincia de S. Paulo, «peles succes- 
soà do dia 23 de maio» passado, e outros que a este se seguiram, 
pondo-se em liberdade os que estiverem presos. 

«Caetano Pinto de Miranda Montenegro, do meu conselho, etc.» 

Esta idéa de proclamação era uma das mais proveitosas intri- 
gas dos partidistas dos Andradas ; nada mais fácil do que uma qual- 
quer proclamação, pregada á noite em qualquer esquina ; o effeito 
era certo. Não foi só nesta occasião que se serviram de tal expe- 

(1) Na cnrts de PrAncIsco Inácio, de 2 de a^ostn de 1822. 

«Do mesmo termo d^ voreanç» verá qaanto me honram meãs patrícios : eu estava 
prompt) para desappareeor um dia desta cidade, mandando adeantc para essa minha 
famfiia, porém, agora soa de novo embaraçado de cumprir o meu desejo de ir pessoal- 
mente manifestar a S. A. R. a m^nha innocencla denegrida em sua augnsta presença». 



— 19 — 

dientc : logo depois da volta de Francisco Ignacio e dos seus com- 
panheiros a S. Paulo, verdadeiramente libertados pelo decreto de 
16 de julho de 1823, data da demissão do Ministério Andrada, ap- 
pareceu nesta Capital uma proclamação a favor da «uniào com Por- 
tugal» ; em carta de 30 de setembro desse anno, 1823, escreveu 
Francisco Ignacio : «Logo depois da minha chegada, appareceu uma 
])roclamaçào feita «em nome> dos que tinham regressado a esta 
cidade, convidando o povo a se unir com Portugal, fazendo de dois 
interesses um, de dois reinos um. 

Esta revolucionaria proclamação foi entregue ao governo pelo 
padre «Ildefonso» (1) que se julgava ser o seu auctor, o governo o 
recebeu muito bem e nào deu providencias (2) ; mas, sabendo-se 
disso, requereu-se ao governo para que fosse chamado o padre e 
dissesse de quem a tinha recebido, ou onde tinha achado a tal pro- 
clamação, fazendo-se todas as diligencias necessárias para se che- 
gar ao conhecimento do seu auctor ; o governo nada deferiu, e jul- 
gou prudente não bulir com isto, porque ia «recahir sobre os pa- 
triotas». 

IX 

Nào obstante o «decreto» de 23 do setembro mandou calar a 
devassa, ficando de «nenhum effeito» . Sobre o facto do 23 de maio, 
foram expedidas as duas portarias, na mesma data, uma pelo minis- 
tro da Justiça Caetano Pinto de Miranda Montenegro, que consta 
do Bando do governo de S. Paulo — Does. /»íer5.,annexo S, e ou- 
tro do ministro do interior José Bonifácio, mandando «conservar» 
os removidos, por causa da devassa, nos logares que lhes foram des- 
tinados» ! O decreto mandava até soltar os que estivessem presos! 
A portaria do ministro da Justiça refere-seno preambulo aos termos 
do decreto ; o de José Bonifácio, porém, diz — por ter o principe 
«perdoado». Mas de que, se não havia crime, nem presumpçào de- 
crime ? 

O caso é que a perseguição só terminou quando os Andradas 
deixaram o poder, e no mesmo dia. 

Concluimos. Em 1822, nao havia, em S. Paulo, partidos polí- 
ticos, havia sim, bem como no Rio de Joneiro, governistas e oppo- 
sicionistas aos ministros Andradas, dizemos mal, a José Bonifácio ; 
a politica deste ministro era a exterminação dessa opposição e, por 
isso, deportava os mais altivos, no Rio, Joaquim Gonçalves Ledo, 
José Clemente e general Nóbrega (seu ex-collega no Ministério, na 
pasta da Guerra) e outro»; e, em S. Paulo, os amigos e partidaris- 
tas de João Carlos e, sobretudo, de Francisco Ignacio. 



1) Ildefonso Xavier Ferreira, libei ai ex«Itado. 

2) JÁ o mloUcerio era oatro. 



— 20 — 

O liberalismo só appareceu no Brasil, como idéa politica e ban- 
deira de partido, de|)OÍs da reuniào da assembléa, em 182t); Costa 
Carvalho, Feijó, Paula Souza, Vergueiro e outros começaram a 
representíil-o em S. Paulo, mas entào acliavamse deportados os An- 
dradas. Antes, estiveram em opposiçilo, no ministério Andrada, ao 
tempo da Constituinte, Feijó, Vergueiro, Alencar, etc, e todos elles 
foram sempre tidos como dos primeiros e principaes chefes Hberaes, 
já nào falando em Costa Cor valho. 

Dos actos de José Bonifácio, quando governo, só transpiraram 
o arbitrio, a prepotência o o desprezo de todos os principios mais li- 
beraes ou demo2i*aticos ; basta lerem-se as suas portarias constantes 
do livro das ordens secretas na intendência da policia no Rio de Ja- 
neiro. Na representação de Feijó ao Imperador, em 1823, lê-se : 

«Eu, sem ser declamador, desabafava-me com os de minha con- 
fiança, rememorando os factos que «mais escandalisaram ao Brasil, 
como eram — as deportações de tantos homens, que tanto traba- 
lharam, e a tiinto risco, a beneficio da causa da independência — 
as expatriaçôes de outros, que, tendo comniettido erros, «nào tinham 
delinquido seníio contra aquelle ministro e sua familia, etc » (1) 

Mas, para que procurarem-se documentos, quando temos a pro- 
clamação do Imperador, por occasiào da demissão do ministç^rio An- 
drada, em junho de 1823? Sào palavras textuaes, que estào no 
corpo da nossa legi&laçào : 

«Ainda que por ora n?io tenhamos uma constituição pela qual 
nos governemos, coratudo temos aquellas bases, «estabelecidas pela 
Razào», as quaes devem ser invioláveis ; sào ellas — os sagrados 
direitos da segurança individual e de propriedade e de immunidade 
da casa do cidadào. — «Se até aqui» ellas têm sido atacadas e vio- 
ladas, é porque o nosso Imperador nko tinha sabido que se prati- 
cavam «semelhantes despotismos e arbitrariedades», impróprias de 
todos os tempos e contrarias ao systema que abraçamos, etc.» (2) 

E' esta a ultima palavra na questão. 

Demittidos os Andradas, constituíram logo o partido «tamoyo», 
contra a pessoa de D. Pedro, especialmente : «tamoyos» ficaram 
sendo os seus paulistas em S. Paulo ; o congraçamento dos dous 
partidos só começou a fazer-se em meiado de 1824, por occasi&o 
da partida do estimado mareehil Chagas, governador das armas, e 
geralmente tido como uma garantia na provincia; este congraça- 
mento nào podia dar-se se os dividissem idéas ou sentimentos polí- 
ticos ; de um e outro grupo sahiram, pela harmonia das idéas e sen- 
timentos, os que de 1826 em deante constituíram o partido liberal 
em Sào Paulo. 
E, R. 

(1) Curu de 11 de Ahril de lí»24. 

(2) Referift-te »o Ministério Andrftd». 



A Bernarda de Francisco Ignacío 



I 

Aproveito-me da generosa hospitalidade que me concede O 
Coinmercio de São Paulo para dizer algumas palavras sobre os 
acontecimentos de 23 de Maio de 1822, tomando em consideração o 
que no mesmo jornal publicou o cidadão que modestamente se oc- 
cultou sob as iniciaes E. R. 

Vamos por partes. 

Começa o distincto escriptor com a seguinte phrase: «E* de 
admirar que em uma publicação official, e logo nas suas primeiras 
paginas, viesse uma apaixonada exposição do facto histórico — A 
Beriiarda de Francisco Igiiacio, na qual á inverdade do escriptor 
sobresahem as luuvamiuhas, sobretudo aos dois irmãos Andradas, 
José Bonifácio e Martim Francisco, e as maiores diatribes ao coro- 
nel Francisco Ignacio de Souza Queiroz e ao ouvidor José da Costa 
Carvalho. A narrativa não é de historiador, mas de um energú- 
meno, etc.» 

Em primeiro logar, não me parece caso para extranheza o 
apparecimento de um escripto do dr. Paulo do Valle em uma publi- 
bíicaçào official. Queira o cidadão E. R. ler os Annaes da Biblio- 
theca Nacional e ha de encontrar nelles muitos escriptos de parti- 
culares, antigos, coUeccionados e publicados por aquella bibliotheca 
para beneficio do publico e informação dos curiosos; queira exami- 
nar a Remsta do Archivo Publico Mineiro e encontrará muitos ar- 
tigos de escriptores modernos, e ainda ninguém me consta ter 
extranhado a Teixeira de Mello e Xavier da Veiga a inclusão 
desses e?criptos naqnellas publicações offlciaes. 

Se a narrativa de Paulo do Valle não é de historiador, e sim 
de ura energúmeno, quando elle não pertenaia á família And rada 
e somente ao jiartido liberal, que qualificativos devem ser dados 
aos artigos que, com o titulo Estudos Ilístonco-Politicos e subtitulo 
Os AndrndaSy foram publicados pelo Correio Paulistaiw e enfeixa- 
dos em um volume de 120 paginas ha cerca de vinte annos? 



22 

Ora, esses artij^os, comquanto nfto trouxessem nssiírnatura, 
passavam por serem da penna do sr. barão do Rezende e o apreço 
que o Correio deu ao trabalho justificou a jiresum]>çào, que se me 
transformou em certeza pela affirmaçílo do dr. Eduardo Prado, 
ainda pouco antes do seu infausto e prematuro passamento; porém, 
o sr. barào de Rezende é neto da primeira esposa do marquez de 
Monte Alegre, sobrinho da esposa do coronel Francisco Ignacio e 
ainda parente muito chegado deste coronel, por ser filho de uma 
prima c cunhada. 

Neste caso, me parece que a sua opiniSo é suspeita, e a sua 
narrativa deve resentir-se de muita parcialidade; não ]>odemos, por- 
tanto, acceitar sem reservas o seu juizo a resj>eito dos Andradas, 
inimigos do dr. Costa Carvalho e do coronel Francisco Ignacio. 
Temos de ir buscar outras fontes de informaçílo, e foi o que eu fiz 
nos meus modestos escriptos, baseando-me sobie opiniões de homens 
que nao eram aparentados com os Andradas e jíertencentes a 
todos os partidos. 

No folheto mencionado encontram-se como documentos instru- 
ctivos nove cartas do coronel Francisco Ignacio, cai-tas intimas, 
dirigidas ao seu concunhado barão de Valença, cm que o mesmo 
se expande á vontade contra José Bonifácio e seu» irmãos; porém, 
esses documentos são todos graciosos e não provam cousa alguma, 
servindo apenas para demonstrar a intensidade dos ódios que do- 
minavam a provincia naquelles tempos . 

Chega-se ahi a avançar que José Bonifácio e Martim deviam a 
Francisco Ignacio «a sua elevação ao governo» e que Martim ten- 
tou nomear o brigadeiro Joaquim Marianno Galvão governador das 
armas de S. Paulo para pagar com esta nomeação «uma fiança de 
vinte escravos, a 120^000 cada um e por seis annos!» (j>ag. 70.) 

José Bonifácio foi quem escolheu o pessoal do Governo Provi- 
sório e, portanto, quem nelle collocou o coronel Francisco Ignacio; 
iião podia dever a sua elevação áquelle a quem elle tinha elevado. 
A ararmativa de Martim querer pagar uma divida de 2:400S ao 
brigadeiro Galvão com a nomeação deste para governador das ar- 
mas da provincia é tão offensiva ao caracter de ambos e tão con- 
traria á provada honestidade pessoal de Martim Francisco, que nào 
merece o menor credito e a mais ligeira refutação. 

A' pag. 73, lô-se que os Andradas eram uns «tigres ambiciosos 
e famintos e muito baixos para se medirem em honra com João 
Carlos da Oejnihausen.» Só um despeitado ou inimigo rancoroso 
poderia avançar isto, João Carlos pouco tempo esteve em S. Pau- 
lo para bem se conhecer a extensão da sua honradez, e era tão pa- 
triota que preferiu abandonar o Brasil e a sua cadeira de senador 
para acompanhar D. Pedro a Portugal depois do 7 de Abril de 1831. 



— 23 — 

Logo adeante se diz que Martim fez o cofre nacional pa^^ar a 
divida de 900S000, que um tal Merciano devia a António Carlos, e 
que José Bonifácio recebia no Rio de Janeiro o ordenado de minis- 
tro e mais a quantia de 2:400Ç000 por Io*j^ares que nôo exercia em 
S. Paulo ; allega-se que tudo isto se pode provar, mas nuo se encon- 
tra no folheto prova alguma ! 

Também Costa Carvalho foi accusado de ter deixado a regên- 
cia trina por desavença com um dos regentes e de se ter retirado 
para S. Paulo, mas continuando sempre a receber os ordenados do 
cargo de regente, que nilo exercia, nem renunciou. 

Na sua ultima carta intima, conta o coronel Francisco Ignacio 
que o marechal Cândido Xavier de Almeida e Souza, ao entrar na 
cidade, como emissário dos Andradas, teria sido insultado pela popu- 
laça e mulheres, se elle, coronel, nfto o tivesse impedido. 

E' muito provável, porque a cidade estava entregue aos reac- 
cionários e sua gente e corriam perigo real todos aquelles que 
não commungavam nas suas idéas e nos seus planos. Pedro Taques 
^ José Rodrigues andavam pelas ruas de trabuco na míio angarian- 
do proselytos. 

Em Ytú, centro armado do liberalismo paulista, também foi 
insultado o coronel Macedo, emissário de Joilo Carlos e de Francis- 
co Ignacio, e teria sido massacrado pelas mulheres, se nfio tivesse 
sido promptamente soccorrido por Pedro de Brito de Caminha, com- 
mandante da força armada local. 

E aqnella gente era toda amiga de Feijó o Paula Souza, 
assim como a gente que restava em S. Paulo era a dos reaccioná- 
rios ; e quando de parte a parte até as mulheres sabiam á rua para 
insultar e apedrejar os militares do partido opposto, é que se vem 
falar era violências dos Andradas ! 



II 

A primeira serie das cartas do coronel Francisco Ignacio per- 
tence ao periodo de José Bonifacio-ministro ; a segunda serie con* 
tém poucos documentos e se refere ao tempo em que os Andradas 
já nào dispunham do poder ; mas nem por isso a linguagem é menos 
amarga e as accusaçoes sHo menos violentas. 

Começa-se ahi dizendo que «a província toda odeia os Andradas 
e que tropas são necessárias para a segurança da provincia> . Pare- 
ce extravagante que os Andradas, estando ausentes de S. Paulo e 
já não sendo ministros de Pedro I, ainda a provincia se achasse de 
tal modo anarchisada que precisasse de força do Rio de Janeiro 
para apazigual-a. José Bonifácio devia ter nella ainda muitos 



■" 24 — 

araij^os para que tal anarcbia pudesse existir, e nesse caso nfto era 
tào odiado como affirma o coronel Francisco Ignacio. 

Na raesnia caria, tratando dos membros do novo governo, pro- 
segue o coronel : 

« O presidente, o marecLal Cândido, é seu parente (dos Andra- 
de das) e ))or isso nào lhe pode desejar mal ; Anastácio Trancoso é 
« um dos seus maiores partidaristas ... O capitfto-mór João Ba- 
« ptista é parente mui próximo do cónego Joào Ferreira e as rela- 
« çôes destes com os Andmdas sào bem notórias. O vigário JoÔo 
« Gonçalves é muito bom parocbo, deixa-se illudir pelo padre lide- 
« fonso, de quem é tio. Eis aqui as ]>e8soas que compõem o actual 
« governo : todos eJles segxiem mais ou menos o partido dos Andra- 
€ das e perseguem os desaffeiçoados.» 

E' interessante este modo de raciocinar, que aliás tem dois gu- 
mes. Para o marechal Cândido Xavier ser um bom presidente do 
governo collectivo era preciso que nào fosse parente dos Andradas 
(qual era esse parentesco ?) e que lhes deseiasse mal, isto é, era ne- 
cessário que fosse parente e amigo do coronel Francisco Ignacio ; 
entào, sim, seria um bom governador e só perseguiria os affeiçoa- 
dos dos Andradas. 

O coronel Anastácio Troncoso, velho de 71 annos e perten- 
cente a uma antiga e illustre família paulista, também nào 
prestava, ])orque era partidista do» Andradas e nào perseguia 
os seus amigos. 

A respeito do coronel Anastácio lê-se, em nota do rodapé, 
que uma fcrya que Francisco Ignacio tinha equipado a sua custa 
para abrilhantar a recepção do Principe Regente fôra por este 
dispensada em consequência de intrigas. Julgo dever abrir aqui 
um parenthenis: 

Era costume dos tempos coloniaes, até 1822, montarem os 
fidalgos, a sua custa, cornos de tropas, mais ou menos numero- 
sos, conforme a fortuna ae cada um, dos quaes elles tinham o 
commando. A principio esses corpos nào tinham disciplina re- 
gular, nào eram fardados, e os seus armamentos eram das mais 
variadas espécies. O seu fim era a exploraçào dos sertões e a 
caçada de bugres e o seu nome era bandeirantes. Mais tarde, 
tendo cessado as bandeiras, os corpos que se levantavam eram 
regulares, disciplinados e armados com as armas européas do 
temj)o, e seu fim era a guerra contra os castelhanos no Rio 
Grande do Sul. O brigadeiro Joaquim José Pinto de Moraes 
Leme, que depois tomou parte activa em A Bernarda^ ao lado 
do coronel Francisco Ignacio, armou a sua custa um bom corpo 
de tropas, a sua frente marchou para o Sul no tempo do capi- 



— 25 — 

tào-greneral Martim Lopes e muito se illustiou na campanha dt» 
1776-77. 

Ora, aqui ha grande e patriótico serviço feito á pátria, 
porém, no preparo de um corpo de ôoldados mernmente desti- 
nado a abrilhantar as festas de recepçào do Imperador, nào ha 
mérito algum, porque nào é serviço feito ao paiz. Pretendia-se 
lisonjear a vaidade de D. Pedro: porém este, estouvado e 
imprudente como sempre o foi, podia ter de «motu*"proj)rio» 
dispensado aquella lisonja, 8«m nenhuma influencia externa, assim 
como leviana e grosseiramente dispensara os cumprimentos do 
velho e honrado capitào-mór de Ytú, Vicente Taques da Costa 
Groes Aranha. 

O coronel António Leite Pereira da Gama Lobo, que com- 
quanto portuguez de nascimen!;o, foi muito amigo do Brasil, 
pertenceu ao mesmo Governo Provisório de que Francisco Ignacio 
fez parte, prestou serviços na conducçào dos reforços para o Rio 
de Janeiro contra o rebelde Avillez e desempenhou outras com- 
missôes de importância, armou também a sua custa um corpo de 
tropas, sendo aliás pobre. 

Esperava que com os serviços que prestasse pudesse pagar 
a divida que contrahira para o equipamento daquelle corpo ; 
porém ficou logrado : o commando foi dado a outrem e elle ficou 
com as despesas e a divida. Para pagal-a deixou as armas e 
foi negociar com animaes, de Sorocaba para diversas partes ; dei- 
xara a farda e a espada pelo pala e o enxíqueiralj e neste trajo 
se encontrou uma vez com D. Pedro, que o reconheceu e inda- 
gou delle a causa dessa transformação. 

«Foram as fintaçôes de Vossa Magestade», respondeu o dis- 
tincto militar. (1) 

Nào merece, portanto, especial mençôo o facto do coronel 
Francisco Ignacio, fidalgo e rico, ter montado a sua custa uma 
companhia de soldados para os festejos ao Imperador, nem ex- 
tranheza a ingratidão deste. O primeiro facto era trivial, e o 
segundo, próprio do caracter de Pedro I. 

Fechado o parenthesis, voltemos á analyse que o coronel 
Francisco Ignacio fez do pessoal de que se compunha o terceiro 
Governo Provisório de S. Paulo. 

O eapitâo-mór Joào Baptista da Silva Passos, velho de 66 
annos, também não jirestava, porque era parente muito próximo 
do cónego Joào Ferreira, cuja» relações com os Andradas eram 
bem notórias ! 



0) o dr. Joio Mendes de Almeida Jnnior, bisneto duquelle coronel, eonU qne por 
trsdiçfto da famfll» con«ta qne as ooa» palavra foram : «Bstoo pagando as flotaçCes qne 
Vossa Magestade me obrlgon a praticar». 



— 26 — 

Este arrazoado ou argumento é de uma extranlia lógica, do 
um espirito transviado da razào e da justiça; pois, porque o 
oapitào-mór era parente do cónego Joào Ferreira, e este cónego 
tinha o peceado de ter relações cora os Andradas, sogue-se 
logicamente que o capitào-mór Joào Baptista nfto podia prestar 
bons serviços no governo de que fazia parte ? 

Quarenta annos depois que Francisco Ignacio inventou este 
formidável argumento, o grande publicista Laboulaye jocosamente 
dissera que um individuo tinha esj)erança de obter um bom empre- 
go em Paris, porque o primo da prima de um senador do império de 
Napoleão lU, devia certos favores ao pae do dito individuo. 

O padre Jouo Gonçalves de Lima, velho de 60 annos, era mui- 
to bom parocho, mas também nào prestava para o governo, porque 
era tio do cónego Ildefonso Xavier Ferreira e se deixava illudir por 
seu sobrinho. 

Taes eram, na opiniào de Francisco Ignacio, os membros do 
govenio de S . Paulo, em 1823 ; tudo nâo prestava, tudo era ruim, 
porque tudo cheirava á«Andrada», tudo estava infeccionado de 
andradiamo. Era de força o coronel ! 

Passa em seguida Francisco Ignacio a analysar outros perao- 
nagens do tempo ; acompanhemol-o, que a cousa é curiosa: 

« O ouvidor da comarca João de Medeiros Gomes é o homem 
mais perigoso que se acha nesta provincia actualmente » ; é preciso 
que se o tire de S, Paulo porque pode fazer mal a quem quizer, 
sob a capa da lei ! 

A lógica deste argumento não é melhor do que a dos argumen- 
tos relativos ao capitao-mór Joào Baptista e ao padre João Gonçal- 
ves do Lima : mas parece estar baseada em factos recentes : O ou- 
vidor Costa Carvalho se tinha aproveitado do cargo para prejudicar 
os seus inimigos e avançar a sua carreira; removido daqui, fora 
substituido pelo ouvidor Medeiros, que « naturalmente » devia pro- 
ceder da mesmo modo, prejudicando os seus desaffeiçoados para 
servir os Andradas, que já não eram ministros nesse tempo e nâo 
podiam recompensar os seus obséquios e serviços. A cautela, en- 
tretAnto, mandava que se o tirasse daqui. 

O novo governador das armas, César, também precisava ser de- 
mlttido, porque era « bem conhecido », e sabia-se quaes eram as suas 
relações com os Andradas, e ainda deviam ser repreheudidos os 
civis Anastácio, Medeiros, Mello Franco, Jo£o Ferreira, padres Il- 
defonso e Manoel Joaquim e outros. 

Tudo isto, e ainda muito mais que se segue e seria longo men- 
cionar, foi feito em forma de denuncia dirigida ao intendente de po- 
licia do Bio de Janeiro ; a delação estava arvorada em meio regular 
o seguro do supprimir os inimigos pessoaes e poli ticos por aquelles 
mesmos que se queixavam das violências dos Andradas ! 



— 27 — 
III 

Continuando Francisco Ignaoio nas suas delações, conta em 
seguida que desceu a Santos e faz um rosário de accusaçôes contra 
José Olintho de Carvalho e Silva e outros, porque tinham relações 
com os Andradas, e vagamente fala em uma carta de António Car- 
los aos padres Aranha e Diogo (Feijó ?), sem dar a entender qual a 
natureza da matéria da mesma carta. 

Intercede perante o governo imperial a favor do turbulento 
Pedro Taques e fala na reprchensào a este cidadão « honrado » 
« que pugna somente pelo bem da nação e do Imperador », esque- 
cendo-se de que Pedro Taques foi o desordeiro que sahiu á rua no 
dia 23 do Maio, de trabuco na mão, a intimidar os cidadãos e os ve- 
readores ea angariar apoio contra Martim e Jordão e pouco depois 
endoideceu, morrendo, louco vamdo, cerca de quarenta annos mais 
tarde. 

A este pobre doido, perigoso pela sua inconsciência, chama-se 
«cidadão honrado», que não merece reprehensão mesmo quando 
sai a rua de garrucha armada na mão, porque é do seu partido, mas 
a José Bonifácio se qualifica de « tigre ambicioso e faminto ! » 

No documento de folhas 91 e 92 finnado por um Gomide, que 
se diz Thomaz Gonçalves, os Andradas são chamados as « hydras e 
estouvados » e se repete que António Carlos escrevera a Feijó, di- 
zendo que era « republicano >, e que essa carta deveria ser enviada 
ao Imperador. 

Sempre a denuncia e a delação ! Mas Feijó era deliquente 
do mesmo crime ; voltara de Portugal imbuido de idéas republica- 
nas e pouco ortodoxas e não era para admirar que não quizesse de- 
nunciar a António Carlos, que era o único estouvado dos irmãos, por 
um crime em que elle Feijó tinha também delinquido. 

Disse esse Gomide que, para commemorar os nomes dos 
Andradas, não bastava a forca de S. Paulo, onde «houve en- 
forcados» a laço de couro; mas esqueceu-se de nos repetir a 
historia contada por Feijó, que o can-asco de Chaguinhas, ven- 
do que o dito laço de couro não asphixiava depressa o pacien- 
te, cortara aquelle laço e no chão acabara a vida do condem- 
nado. 

Foi este esquecimento uma falta bastante grave, porque 
deixa em duvida a affirmação de Feijó, que diz ter visto tudo 
com os seus próprios olhos. 

Esqueceu-se também o Gomide de nos contar a importante 
circumstancia de que Francisco Ignacio, Miiller e outros ber^ 
iiardUtas do governo provisório tinham tomado parte na con- 
demnação á morte dos sediciosos de Santos, tinham recusado o 



— -js - 

appello ao poder moderador do PrÍDcipe Regente, por ser este 
um dos casos em que tal appello era dispensável, haviam orde- 
nado ou consentido que os sediciosos Joaquim Rodrigues, José 
Maria Ramos, José Correia, Floriano Pires e Joaquim Lontra 
fossem enforcados nas vergas do navio portuguez ancorado em 
Santos e foram solidários com Martim Francisco nas horrorosas 
scenas da execu(;ào, nesta capital, de Joaquim Cotindiba e Cha- 
guinhas. se é que este ultimo foi realmente enforcado. 

Preciso abrir aqui um outro parenthesis para rectificar 
aquillo que julgo ser um engano do cidadão E. R. 

A sediçào de Santos teve logar a 28 de Junho de 1821 ; a 
2 de Julho, já o Governo Provisório estava sciente do facto e 
remettia ])ara lá as forças, que chegaram no dia 6 e destroça- 
ram os rebeldes no mesmo dia. O julgamento dos culpados nào 
se demorou, sendo muitos delles condemnados a camnho perpetuo 
e outros á pena ultima. Destes deviam ser executados em Santos, 
os que fossem filhos da costa do mar e em S. Paulo, os que 
fossem nascidos ou residissem nos districtos de sen*a acima. 

Disse o cidadão E. R. que, sendo o crime militar, devia o 
sentenciado Chaguinhas ser fuzilado, dando a entender que a 
troca do fuzilamento pela forca ainda foi um acto de maldade 
dos Andradas, facto este que nào é verdadeiro. 

Em primeiro logar, se tal troca tivesse havido, seriam tào 
responsáveis ))or ella Martim e seus amigos do Governo Provisó- 
rio, como Joáo Carlos de Oeynhausen, Francisco Ignacio e ou- 
tros bernardistas, porque estes nào fizeram protesto algum, como 
se vê das Acfas das Sessões do governo. 

Em segundo logar, nào houve troca da pena, nem da for- 
ma da sua execuçào: os réos foram condemnados á morte pela 
forca e na forca morreram. A idéa de se enforcarem cinco dos 
sentenciados nas vergas do navio portuguez, que estava no 
porto de Santos, partiu do bemardista Muller e do coronel La- 
zaro Gonçalves, seu companheiro no commando das forças que 
esmagaram o motim d^ Santos. Lá nào havia forca e, para nfto 
se perderem tempo e dinheiro na construcçào de uma especial 
para este fim, tirou-se partido da mastreação e cordagens do dito 
navio e da bôa vontade com que a isso se prestava o comman- 
dante portuguez, 

Muller, Lazaro Gonçalves e a marinhagem do navio eram 
todos portuguezes, emquanto os condemnados eram todos brasi- 
leiros... Cahiu-lhes a sopa no mel. 

Chaguinhas e Cotindiba, trazidos para S. Paulo em Setem- 
bro, dous mezes e meio depois do delicto, só foram suppliciados 
em Maio do anno seguinte, muitos mezes depois da execuçào de 



— 29 — 

Santos, quando José Bonifácio era já ministro e Feijó estava 
em Lisboa. Foi a recente execução de Chaguinhas que deu o 
pretexto para a explosào dos bernardistas e consequente expul- 
são de Martim e Jordão. 

E se assim nào fora, como se pode explicar o facto de José 
Bonifácio nào estar envolvido na inimediata responsabilidade da 
execução e seus horrores e da explosào bemardista ficar incu- 
bada por tantos mezes? 

Se a execuçào era mais antiga, a quem se refere a ordem 
de 11 de Maio de 1822 do Governo Provisório ao coronel La- 
zaro Gonçalves, para que fizesse executar a sentença dos dous 
condemnados do batalhào de caçadores, que ainda se achavam 
na prisão, pelo crime do motim de Santos? 

O governo portuguez, pelo menos nas capitanias de São 
Paulo e Rio de Janeiro, nào fuzilava os militares por crime 
algum, mas os enforcava quando o delicto era de primeira ca- 
beça. As vergenhosas rendições de Castro Moraes, no Rio de 
Janeiro, em 1711, e de Mendonça Furtado, em Santa Catharina, 
em 1777, não mereceram grandes castigos ; porém o covarde 
coronel Thomaz Luiz Osório pagou com a vida na forca as 
patifarias que praticou em Angastura de Castillos, em 1762. 
O costume de fuzilar é de data mais recente. 

Não houve, portanto, troca de supplicio ; os condemnados á 
pena ultima, mesmo por crimes militares, eram executados na 
forca, desde os coronéis até os inferiores e soldados. Em Lis- 
boa, na própria capital do Reino, fora enforcado o general 
Gomes Freire de Andrade. A supposiçào de ter havido troca 
de supplicio, para maior martyrio do condemnado, não tem, 
portanto, fundamento algum. 

IV 

Continuemos na analyse dos documentos históricos contidos 
no folheto Os Andrada.% porque sào curiosos e bem mostram 
«como é que se escreve a historia». 

Na pagina 93, vem uma portaria de Manoel Jacintho No- 
gueira da Gama, datada do Rio de Janeiro, a 27 de Outu- 
bro de 1823, mandando dar a alguns bernardistas umas cer- 
tidões que elles amrmavam que lhes tinham sido nei^adas pelo 
governo de S. Paulo, allegando o ministro que nào deve haver 
segredo em um governo constitucional como o do Império. 

Temos aqui um estadista do tempo affirmando a existência 
de um governo constitucional em 1823, quando a constituição só 
data de 25 de Março de 1824 ! 



— 30 — 

Este lapso do ministro bem domonstra a noçílo que elle 
])Ossuia de um governo constitucional, que dahi a quinze dias 
dissolvia a Assembléa Constituinte e deportava diversos deputa- 
dos. 

Em todos 08 tempos, quando uma auctoridade subalterna 
duvida da conveniência de dar uma certidão sobre matéria que 
julsra j^rave, tem sido costume remetter o peticionário á aucto- 
aidade superior ; portanto, se nào for provado que a negativa 
era intencional e baseada em motivos fúteis, ou reprovados, a 
accusação tem pouco peso contra o governo de S. Paulo, e nenhum 
valor com relação aos Andradas, que nao eram ministros, nem 
membros de governo algum. 

E' muito para admirar essa força magica dos Andradas, que, 
sendo tào offensivos a D. Pedro, ao ponto de serem por elle 
demittidos dos cargos do ministros e tâo odiados de todos que 
até se propunha cassar-lhes o mandato de deputados, ainda es- 
tavam tyrannisando a província de S. Paulo de modo a tornar 
intolerável a vida para os bernardistas ! 

Em nota da redacção, á pag. 104, se diz que, antes de ob- 
terem entrada no governo organisado a 23 de Junho de 1821, 
03 Andradas agradavam e pediam favores e protecção e que 
depois elles fizeram dos seus protectores victimas de deportações, 
e, mais, que destes protectores deportados pelo menos sete per- 
tenciam ao Governo Provisório, a saber: — Jào Carlos de Oey- 
nhausen e Muller — portuguezes-allemàes, António Maria Quartim, 
— anglo-hespanhol, Miguel José de Oliveira Pinto e André da 
Silva Gomes — portuguczes, Francisco Ignacio e padre Paula Oli- 
veira — brasileiros e paulistas. 

Nenhum destes foi protector dos Andradas. José Bonifácio 
foi quem os escolheu para fazerem parte do governo, como se 
vê por todos os documentos do tempo, inclusive as Actas das 
Sf^sões, já publicadas. No grupo acima citado, ha cinco extran- 
geiros e somente dous nacionaes, e ninguém poderá crer que 
aquelles extrangeiros, principalmente os quatro primeiros, tives- 
sem mais amor ao Brasil do quo os membros brasileiros do Go- 
verno Provisório. 

Joíio Carlos, Miiller, Oliveira Pinto e Quartim, além de ex- 
trangeiros, eram officiaes militares educados no regimen da obe- 
diência passiva, estavam no Brasil com commissões remuneradas, 
assim como podiam estar em Angola ou Moçambique, nào tinham 
ligações immediatas e de caracter permanente com o paiz em 
que residiam, e, portanto, eram transitórios os interesses que 
])odiam ter pela sua prosperidade. 



— 31 — 

Amigos da liberdade civil elles nfto podiam ser em parte 
alguma, e ainda menos no Brasil, porque isso seria contrario á 
própria natureza humana : César escravisou Roma, Cromwell a 
Inglaterra, e Napoleão a França, sem falar nas republicas lati- 
nas, onde militarismo e despotismo se tomaram synonymos. 

Vem, em seguida, uma carta de um outro extrangeiro met- 
tido na politica brasileira, contradictoria com os documentos an- 
teriores. Este extrangeiro, Gabriel Ploesquellec, enche-se de 
alegria, a 1." de Agosto de 1823, pela queda dos Andradas, que 
o consideravam como espifto de Portugal, e pergunta « como ó 
que havia de alcançar favores com essa nódoa nas costas ? » 

Diz mais que «escapou de boa e dá graças a Deus por ter 
sabido da batalha sem maiores damnos» . Nào se pode crer 
nestas affirmações, porque é o próprio coronel Francisco Igna- 
cio quem nos diz que a tyrannia continuava ainda em S. Paulo, 
por serem os membros do governo, Cândido Xavier, Silva Pas- 
sos, Anastácio e padre Joào Gonçalves, amigos dos Andradas e 
continuadores das suas perseguições. 

Termina a carta dizendo que « alegria em S. Paulo era 
geral, por estar acabado o tempo do despotismo e das arbitra- 
riedades», donde se conclue que o governo de entio, apezar de 
ser composto de partidários dos Andradas, sabia garantir os di- 
reitos de cada um ; mas em que ficam, então, as accusações an- 
teriores de Francisco Ignacio contra este mesmo governo que 
enche de alegria o coração do extrangeiro Ploesquellec ? 

E «assim se escreve a historia» ! 

Segue-se uma carta de Paula Souza, datada de Ytú, a 8 
de Março de 1824, na qual defende alguns parentes seus de 
certas accusações e acaba dizendo que passa mal de saúde e se 
acha recluso, que, se assim não fosse, «já teria deixado esta pro- 
vincia, onde ninguém pode se julgar seguro presentemente^ em- 
quanto labora a intriga, muito mais tendo inimigos ; porém, que, 
certo da justiça imperial e forte de consciência, entrega-se á 
Providencia.» 

Este documento é importante por ser assignado pelo notá- 
vel paulista, e bastante mys^erioso para merecer uma certa ana- 
lyse, tanto mais que Paula Souza era concunhado do brigadeiro 
Luiz António, e, portanto, aparentado por casamento com o co- 
ronel Francisco Ignacio. 

Ytú, de onde foi datada a carta, era a pátria de Paula Sou- 
za e o centro do liberalismo paulista naquelles agitados tempos ; 
era a cabeça dos raunicipios que se tinham revoltado contra os 
bemardistas e formado uma confederação em defesa dos in teres- 



- SI — 

ses brasileiros e em opposiçào ao predominio dos extrangeiros 
no pfoverno da provinda. O povo aUi era todo composto de 
parentes e amidos de Paula Souza e de Feijó, que lá tinha a 
sua residência habitual. Paula Souza devia, portanto, sentir-se 
at fiome, no meio da sua gente, e nào se percebe qual o moti- 
vo por que tanto se amofinava, a ponto de confiar a sua sorte 
á Divina Providencia. 

Os povos da confederaçái ytuana eram politicamente dedica- 
dos aos Andradas, e com elles estiveram em correspondência di- 
recta desde A Bernarda, a 23 de Maio, ate a vinda de D. Pe- 
dro a esta provincia, em fim de Agosto de 1822. Tendo o Prín- 
cipe Regente substituído o governo berna'-dista por outro de 
três membros e de que fazia parte o ytuano dr. José Correia 
Pacheco e Silva, e apaziguado assim os ânimos, nào havia maia 
motivos para perturbações em Ytú e nos municípios confedera- 
dos ; as desordens, portanto, se davam em outra parte, e nào lá. 
Mas onde é que havia essa falta de segurança pessoal e em que 
consistia o perigo ? 

José Bonifácio e Martim Francisco já nào eram ministros 
desde 17 de Julho de 1823; a Assemhléa Constituinte tinha 
sido dissolvida a 12 de Novembro desse anno, e a 20 desse 
mesmo mez estavam os Andradas em caminho para o exílio oa 
deportaçào, a bordo do navio Luconiaj onde soffreram os horro- 
res, cuja narrativa fizera tremer a penna de Araújo Porto-Ale- 
gre. Homem de Mello e outros escriptores nacionaes. 

Como, entào, se pode explicar a falta de segurança na pro- 
víncia em Março de 1824, até para a pessoa de Paula Souza, 
ãue era aparentado com Francisco Ignacío e amigo dos andra- 
istas de Ytú, Porto-Feliz e outros municípios da ex-confede- 
raçào ? 

Será possível que, desde 17 de Julho de 1823, data da 
-queda dos Andradas do Ministério, até 8 de Março de 1824, o 
governo imperial, composto de inimigos dos mesmos Andradas, 
nào tivesse tido tempo para trazer um pouco de ordem á pro- 
víncia de S. Paulo, arrancando delia as ultimas raizes do an- 
dradisnwf 

Emquanto nào for explicado o pensamento de Paula Souza, 
estando elle no meio dos seus parentes e amigos de Ytú, gente 
•toda também dedicada aos Andradas, devemos suppôr que «a 
presente falta de segurança na província, onde labora a intriga» 
era unicamente devida á reacçào dos retrogados contra o ele- 
mento nacional; tanto mais que Paula Souza defendia contra a 
calnmnía e a intriga os seus cunhados, e estes eram Bento de 
Barros e António Paes de Barros, futuros barões de Ytú e de 



- 88 — 

Piracicaba, genoinoa fidalgos paulistas, descendeutes do bandei- 
rante Domingos Jorge, que nâo deviam ser sympathicos aos re- 
trógrados, principalmente o segundo, que foi um dos represen- 
tantes do Brasil nas Cortes Constituintes de Lisboa. 

Paula Souza era liberal exaltado, e Feijó, que fizera figura 
saliente nas Cortes de Lisboa, não podia ter as sympathias dos 
portuguezes e retrógrados. Destes é que ambos se deviam quei- 
xar pela falta de segurança que havia em Março de 1824, por- 
que então os Andradas já estavam longe do Brasil, em alto 
mar, ou talvez já em território da Hespanba. 

Seguem-se no folheto alguns documentos firmados por João 
Carlos, José Bonifácio e Martim Francisco e muito honrosos 

Sara o coronel Francisco Ignacio; porém, se as assignaturas 
estes dous Andradas trazem a sua solidariedade com João Car- 
los nos conceitos emittidos sobre o coronel Francisco Ignacio, 
segue-se que a assignatura deste coronel em todos os documen- 
tos firmados pelos Andradas também trazem sua solidariedade 
em todos os actos ordenados por elles. 

Martim Francisco foi deposto do governo a 23 de Maio do 
1822 e das 117 sessões do Governo Provisório, havidas desde a 
sua instai lação até esse dia, encontra-se a assignatura do coro- 
nel Francisco Ignacio nas actas de 99, ao lado do nome de 
Martim ou de José Bonifácio, ou de ambos, e em nenhuma des- 
sas 117 actas se vê o menor protesto do dito coronel contra os 
actos dos Andradas. 

Daqui, logicamente, se segue que, ou nunca os Andradas 
praticaram violências quando faziam parte do governo, ou o co- 
ronel Francisco Ignacio foi solidário com elles e deve participar 
de todas as censuras feitas a José Bonifácio e Martim Francisco. 

Devemos presumir a primeira hypothese, porque não se com- 
prehende como é que um homem, rico e que se diz indepedente 
e honrado, pode assistir durante onze mezes a 99 sessões das 117 
realizadas pelo governo nesse espaço de tempo, subscrever as 
actas dessas sessões sem o menor protesto, sem o mais ligeiro 
reparo, e depois vir accusar de violências aos seus próprios col- 
legas do governo por actos com os quaes foi solidário ! 

José Bonifácio é até accusado de não ter tido a primazia da 
lembrança de representar a D. Pedro que não abandonasse o 
Brasil, pertencendo essa gloria a José Clemente e Gonçalves 
Ledo, quando José Bonifácio citava em S.. Paulo, e as exigên- 
cias das Cortes Portuguezas foram aqui conhecidas depois que 
já tinham produzido as manifestações de indignação no Rio de 
Janeiro ! 



— 34 — 

Mas o facto é que o Príncipe Refi^ente só se decidiu a ficar 
no Brasil depois de ter ouvido a palavra aucturizad.i de José 
Bonifácio, e entílo chamou-o para o Ministério para carregar 
com as consequências do seu patriótico conselho. 



Geralmente se diz que toda a comparação é odiosa, mesmo 
quando é feita por um Plutarclio e tem por objecto a elucida- 
ç&o de factos históricos controvertidos. Entretanto a nossa his- 
toria paulista, dos annos de 1821 a 1845, outra cousa nao é se- 
nHo a narração dos ódios que dividiram os homens, e ate as mu- 
lheres, em facções e muitas vezes prejudicaram o serviço publi- 
co, sem proveito para os individues. 

Ha ainda quem, neste começo de século XX, tão distante 
daquellas odientas luctas, em que a nossa independência, a nossa 
liberdade e a unidade nacional estavam em jogo, pergunte de 
onde provem a fama de liberalismo dos Andradas e quaes os 
feitos que glorificam estes patriotas. 

Sei'ia o caso de se perguntar também quaes os actos que 
recommendam á gratidão dos pósteros os nomes do coronel Fran- 
cisco Ignacio o do marquez do Monte-Alegre, 

Até o anno de 1819, José Bonifácio permaneceu na Europa, 
onde residiu cerca de quarenta annos; António Carlos, que fora 
juiz de fora de Santos, tiuha sido nomeado ouvidor de Pernam- 
buco, onde se mettera a chefiar revoluções contra o governo por- 
tuguez, em 1817, pelo que soffrcu quatro annos de rigorosa pri- 
são e teve occasião de ver bem de perto o patíbulo, que devo- 
rou vários companheiros seus; Martim Francisco prestava em São 
Paulo serviços que constam da Revista do Instituto Histórico 
Brasileiro e do Jotirnal des Mines^ e soffria as perseguições de 
alguns capitãcs-generaes ; e de 1821 em deante todos três en- 
traram em plena actividade politica. 

José Bonifácio, tendo assumido a responsabilidade dos acon- 
tecimentos de 23 de Junho de 1821, entrava para o Governo 
Provisório com seu irmão Martim, emquanto António Carlos era 
eleito deputado ás Cortes Constituintes de Lisboa, nas quaes 
teve por companheiros Feijó, Vergueiro, José Ricardo de An- 
drada, Paes de Barros e Silva Bueno. Estes dous últimos sub- 
stituíram Paula Souza, que não tomou assento por doente, e Fer- 
nandes Pinheiro, que optara pelo Rio Grande ao Sul. 

No Governo Provisório de S. Paulo, José Bonifácio e Mar- 
tim nunca praticaram violência alguma que mereça crítica es- 
pecial, e a prova desta affirmativa está nas próprias Actas das 



— 35 — 

Sessões do governo, nas quaes nada se encontra a que se possa 
dar o nome de violência, nada se vê que se assemelhe a um 
protesto, e em todas se acbam as assignaturas de mais de um 
bemardista . 

Em princípios do anno de 1822, José Bonifácio seguiu para 
o Rio de Janeiro com Gama Lobo e outros, como representantes 
do Governo Provisório e da Gamara de S. Paulo, que pediam 
ao Príncipe Regente, que nào obedecesse as ordens das Cortes de 
Lisboa e que nâo abandonasse o Brasil. Desempenhou José Bo- 
nifácio a sua missão e a 16 de Janeiro desse mesmo anno foi 
nomeado ministro de Estado. 

Martim Francisco ficara, na ausência de seu irmão, occupan- 
do a cadeira vice-presidente do Governo Provisório, porém, João 
Carlos de Oeynhausen, chefe dos bemardistas e presidente do 
o:overno collectivo, era tão ciumento do seu cargo, que não fal- 
tou a uma só sessão das 38 sessões que tiveram logar desde a 
partida de José Bonifácio para o Rio até a expulsão de Martim, 
e, portanto, nunca permittiu que Martim occupasse a sua ca- 
deira durante os mezes de Janeiro a Maio de 1822. 

Das actas das 79 sessões que tiveram logar desde a installa- 
<;ão do Governo Provisório, a 23 de Junho de 1821, até 31 de 
Dezembro desse anno, vô-se que o presidente João Carlos só es- 
teve ausente de dez sessões, das quaes oito foram presididas 
por José Bonifácio e duas por Martim Francisco ; porém, a estas 
dez sessões sempre estiveram presentes vários bernardistas — 
Francisco Ignacio, Múller, Quartim, Oliveira Pinto e Paula Oli- 
veira, todos ou alguns, e a ausência de protestos da parte des- 
tes indica que nada houve que merecesse os seus reparos. 

Depois da expulsão de Martim e Jordão, os seus amigos 
deixaram também as suas cadeiras, e os bemardistas ficaram se- 
nhores do governo, como da suii própria casa. Estavam como 
queriam, livres dos embaraços que lhes podia causar a presen- 
ça de uma Andrada e de seus amigos nas sessões. Ficara o go- 
verno reduzido ao seguinte curioso pessoal : 

1.** João Carlos Oeynhausen, fidalgo portuguez. 
2.** Miguel José de Oliveira Pinto — militar e portuguez. 
3.* Daniel Pedro Mttller — militar e portuguez. 
4.** António Maria Quartim — militar o hespanhol. 
5.** André da Silva Gomes — professor, portuguez o muito velho. 
6.** Francisco Ignacio, fidalgo paulista, filho de portuguez, 
educado em Portugual e militar. 

1," Francisco de Paula Oliveira — padre e paulista. 



— 36 — 

Tinham razào de sobra os munícipios paulistas do interior 
para se revoltarem contra um tal .sroyerno, em que o elemento 
nacional estava representado somente por um padre e por um mi- 
litar, filho de portu^uez e educado fóra do paiz, e para se con- 
federarem em defesa propna. E seria necessário que os Andra- 
das fossem ineptos para, como ministros, não tomarem severas 
medidas contra a nova ordem de cousas estabelecida em S. Paulo 
por um governo composto em sua grande maioria de militares 
extrangeiros, que eram necessariamente suspeitos aos que favo- 
reciam as idéas latentes da independência do Brasil. 

Tratavarse já de fazer a independência ; a ouestíio era sim- 
plesmente de opportun idade, D. João VI, ao deixar o Brasil 
em principies de 1821, tinha aconselhado ao filho, que aqui dei- 
xava como regente, que, se o Brasil se separasse da mãe-patria, 
fosse em seu proveito e não a beneficio de algum aventureiro, e 
em todas as representações que se dirigiram a D. Pedro se dizia 

?ue a sua retimda desta colónia importava a sua separação de 
Wtugal, a sua independência. José Bonifácio, ministro, foi 
quem apressou eí»sa orpportunidade e fez a idéa explodir a 7 de 
Setembro de 1822. 

Havia então muita duvida nos espirites quanto á forma de- 
finitiva de governo a adoptar ; basta citar alguns exemplos das 
incoherencias politicas que vieram até depois da maioridade. 

António Carlos, revolucionário ardente em 1817, vacillou 
entre a Monarchia e a Republica, e só se fez monarchista firme 
depois de 1831, quando trabalhou pela restauração de Pedro I e 
pela maioridade antecipada do menino Pedro 11 ; Feijó foi tudo : 
pensador livre, orthodoxo, republicano, déspota e acabou revolu- 
cionário ; Gonçalves Ledo foi republicano, depois fez-se monar- 
chista e cooperou para a acclamação de Pedro I; Costa Carva- 
lho, sempre inimigo dos Andradas, estava do lado contrario a elles ; 
não foi extranho á dissolução da Assembléa Constituinte e á de- 
portação de vários deputados ; parecendo então propender mais 
para os republicanos, não se molestou com o facto ao Imperador 
não convocar os corpos legislativos durante dous annos depois 
de outorgada a Constituição de 25 de Março de 1824, não pro- 
testou contra as atrocidades imperiaes de 1824-25, nas províncias 
do norte, — elle que tanto se amofinava com as violências dos An- 
dradas ; occupou, em 1829, a sua cadeira de deputado, evi obe- 
diência ás ordens de Pedro I, e, entretanto, depois de 7 de Abril 
de 1831, entrou para a regência trina como um dos homens da 
confiança de Evaristo da Veiga, que mais tinha contribuído para 
a queda do primeiro Imperador! 



— 37 — 

A òernardc de 23 de Maio de 1822 foi um facto gravisairao, 
e a puniçào dos seus auctores — ti^es mezes de desterro para di- 
versas povoações dentro da provincia ou para o Rio de Janeiro — 
foi de uma extrema brandura, que mal se compadece com os 
ódios daquelles agitados tempos, em que n&o havia constituição 
que garantisse os direitos do cidadtto, nem leis ordinárias que es- 
tabelecessem normas regulares de processo. 

Dispondo de um poder absoluto, rodeados de inimigos polí- 
ticos e pessoaes, a quem podiam fazilar e enforcar, os Andradas 
são accusados de ter prendido ou deportado Gonçalves Ledo, Ja- 
nuário Barbosa, Nóbrega e outros politicos que não lhes mereciam 
confiança. Na occasião muito mais se podia esperar de um go- 
verno absoluto que tinha sobro os seus nombros uma empresa de 
tamanha responsabilidade, como a realisação da independência; 
entretanto, nem uma só gotta de sangue dos inimigos foi derra- 
mada, e a obra da independência, que elles tinham começado e 
muito adeantado, foi felizmente levada a termo. Tinha, portan- 
to, razão José Bonifácio quando affirmara: 

«Amei a liberdade e a independência 
Da doce, cara pátria, a quem o Luso 
Opprimia sem dó, com riso e mofa. 

Eis o meu crime todo ! 
«Cingida a fronte de sangrentos louros. 
Horror jamais inspirará meu nome: 
Nunca a viuva ha de pedir-me o esposo. 

Nem seu pae a criança ! » 



3 



Realmente, elle não fez orphams, nem viuvas, e este facto 
por si só basta para destruir todas as accusações de violências 
ue lhe são atiradas pelos seus inimigos, dos quaes, ao menos 
[ois, Costa Carvalho, como regente do Império, e Feijó, como 
ministro da Justiça, foram responsáveis pelo espingardeamento 
do povo fluminense dentro de um theatro e pela matança de 
rebeldes prisioneiros era São Christovam, depois de 7 de Abril, 
quando já não estava em jogo a causa sagrada da independên- 
cia e, pelo menos, no papel, havia uma constituição para ser 
observada e um código criminal para ser applicado. Estes, sim, 
fizeram viuvas e orphams. 

Para contrabalançar as faltas e erros que se possam notar 
na carreira de José Bonifácio, tem elle um activo que merece 
ser relembrado e que lhe valeu a fama que tem e mais o ti- 
tulo único de patriargha da independência, em um tempo ém 
que havia marquezes ás dúzias e coronéis aos centos. 



— 38 — 

Elle illustrou o Brasil na Europa com os seus trabalhos 
scientificos, mereceu uma cadeira de lente de Historia Natural na 
universidade de Coimbra e deu brilho ás lettras pátrias com as 
suas producções litterarias; foi chefe de policia na cidade do 
Porto e coronel de um batalhílo de estudantes durante a inva- 
são franceza e defendeu o reino emquanto a familia real fugia 
para uma das colónias ; tomou a direcção do movimento politico do 
2o de Junho de 1821, em Sao Paulo, e fez Governo Provisório, 
que, bom, ou máu, foi obra inteiramente sua, impedindo assim 
que o elemento extrangeiro e militar dominasse íiquella revolu- 
ção popular e a fizesse degenerar em tyrannia ou anarchia; foi 
enviado ao Rio de Janeiro em commissfio politica e, mais do 
que qualquer outro, contribuiu para que o vacillante Príncipe 
liegente desobedecesse as ordens das cortes de Lisboa e ficasse 
110 Brasil, — primeiro passo dado no caminho da nossa emancipa- 
ção politica; como ministro, pela rapidez e energia da sua acção, 
dirigiu os acontecimentos de modo que vieram terminar no grito 
«INDEPENDÊNCIA OU siORTE», uos campos do Ypirauga; rompeu 
a lucta contra o Portugal e, não tendo generaes e almirantes, 
chamou Cochrane, Taylor, Grenfell, Beaurepaire, Labatut e ou- 
tros para defesa da pátria em perigo; fundou o credito nacional, 
lançando o primeiro empréstimo publico para as despesas da 
guerra da independência; curtiu longos annos de amargo exilio, 
porque não soube condescender com os desregramentos e devas- 
sidões do Soberano e tentou moralisar o paço imperial, aparando 
as demasias da cortezan Domitila, que foi um dos agentes da 
dissolução da Assembléa Constituinte e da deportação de tantos 
j)atriotas; e, finalmente, foi o homem honrado e de confiança a 
quem Pedro I, an'ependido e penitenciado, entregou as impe- 
riaes creanças no momento em que deixava para sempre o paiz, 
que tanto o amou o que elle tão mal serviu. 

Armitage, que não era suspeito de andradismo, disse de Josó 
Bonifácio: 

« As suas vistas eram extensas e a sua probidade illibada; 
<s foi elle quem fixou as resoluções do volúvel D. Pedro; quem 
« lhe fez sentir o contraste entre governar um império nascen- 
« te e um reino em decadência; quem reanimou a expirante 
« ambição do Príncipe Regente e conduziu a revolução com muito 
« pequeno sacrificio e quasi sem derramamento de sangue. 

« O desinteresse de José Bonifácio e de seu irmão Martim 
« Francisco é altamente digno de elogio. Honras e riquezas 
« estiveram ao seu alcance; comtudo retiraram-se do poder em 
« honrosa pobreza, sem titulos nem condecorações. Muitos dos 
« seus actos são, com effeito, censuráveis ; todavia, considerando- 



— 39 — 

« se o estado critico do Brasil naquella épocba, devem-se dar 
« alguinas desculpas aos seus erros.» (1) 

Evaristo da Veig:a, inimigo pessoal e politico dos Andra- 
das, influenciado pelo meio em que vivia e pela medonha anar- 
chia que se seguiu ao 7 de Abril de 1831, dissera que «José 
Bonifácio fora pela primeira vez acclamado o Heróe da inde- 
pendência a 7 ae Setembro de 1832, em uma reunião popular, 
— amalgama monstruoso de alguns festeiros das garrafadas de 
Março, de beróes das ceias de camarão, e de vários curiosos.» 

Foi propbetica aquella reuniào: a fama do beróe nt^lla ac- 
clamado se foi extendendo dia a dia, e o seu nome foi deitando 
profundas raizes no coração do povo, de tal modo que, decor- 
rido apenas meio século e acalmada a tempestade de ódios, era 
José Bonifácio elevado á dignidade de Patriarciía da indepen- 
dência, com a sancçfto de Pedro II, pupillo agradecido, e a gra- 
tidão popular levantava um tumulo sobre a sua sepultura em 
uma das egrejas da sua cidade natal e um monumento á sua 
memoria era uma das praças da capital do Império. 

E ainda agora, a 7 de Setembro de 1901, quando raros, 
raríssimos sho aquelles que sabem onde descançam os restos 
mortaos dos seas inimigos, dizem-nos as noticias do Rio de Ja- 
neiro que a força armada sahiu dos quartéis da ilha de Paquetá 
c, formando em frente da modesta casa em que esteve dester- 
rado o Patriarciía da independência, fez-lhe as continências 
militares, com uma salva de vinte e um tiros, emquanto a sua 
estatua e as grades que a cercam, no largo de S. Francisco 
de Paula, amanheciam cobertas de flores. 

E' o justiça da Historia em acção. 

S. Paulo, Setembro 10 de 1901. 

A. DE Toledo Piza. 



1) Manoel do Artnjo Porto Alegre, poeU dot malt illnstres e diplomata, disse de 
Martím Prancisco o segainte: 

«Todos conhecemos o naturalista, o honradíssimo homem de Estado e o babil fi- 
nanceiro, que Bonbe achar meios para sustentar a Incta da Independência. Homem 
exemplar na rigidez do seus rustnmes, na severidade de snas scções. na decência das 
saas paUvras, na unidade do seu tvato e no amor paternal : physionnmia de aguia ta- 
Ihada á antigs, elle era um typo desses homens raros. 

«Como naturalista, faria o orgulho da pátria e de sua fnmilfa se nfio fo^se Irmfio 
de José Bonifácio e como orador faria época notável no parlamento se nfto tivesse por 
companheiro sen Irmfto António Cario-*. A historia da Independência nfto pôde ser et- 
cripta sem o nome deste illustre brasileiro, que mediu com a própria existência toda 
a sorte de vicissitudes humanas... 

«Martím Kraiicisco tinha o privilegio desses sítios amenos, onde um ar saudável 
purifica a saáde e dá i alma sensações nobres e Innccentes: o sen commercio tinba al- 
guma coisa de santo e derramava no coração virgem da mocidade o enthnsiasmo e a 
esperança sob e o futuro da pátria. . . 

. . . Membro nato desse triumvirato de altac capacidades, é um dos orgulhos da- 
quella Illustre cidade, que viu nascer seus dois irrafios, a Alexandre de QusroAo e ao 
Toador...» vide l:êvi$ta do Instituto Histórico Brasileiro, vol. VJ, pags. 560— í:61. 



A Bernarda de Francisco Ignacio 



(CHAGUINGAS) 

I 

Na Revista do Instituto Histórico de S. Paulo, vol, V, dá 
o dr. António de Toledo Piza uma segunda ediçào do que es- 
crevera no vol. I dos Doe. Interes, á hisioria e costumes de S. 
Paulo ; o reparo que já fizemos quanto a publicação de exposi- 
ções apaixonadas de factos históricos, em livros que trazem o 
cunho de ofiiciaes, cabe ainda aos artigos da Fevist/i do Instituto, 
que, parece-nos, devia ser simples repositório de documentos ou 
memorias documentadas de factos que interessam á nossa historia, 
e não de artigos mais próprios para gazetas ou pamphletos. 

Os dous artigos — Chaguinhas — e — Martim Francisco e a 
Bernarda— em fundo s&o variações do mesmo thema — a Bemar' 
da de Francisco Ignacio^ publicada nos Doe, Interes. cit., illus- 
tradas com algumas noticias biographicas dos homens que toma- 
ram parte no governo provisório de Sào Paulo, e sobretudo os- 
tentando os esforços do seu auctor em cercar os Andradas da 
aureola mais brilhante. 

Respeitamos a memoria dos Andradas, sem dar-lhes proemi- 
nência, como a de todos aquelles que patrioticamente coopera- 
ram para a nossa independência. Mas o respeito, diremos mes- 
mo, a veneração por todos esses creadores da nossa nacionalida- 
de não vai ao ponto de procurarmos, em seu louvor, escurecer 
os factos históricos, ou livral-os das censuras, já feitas por seus 
contemporâneos, por actos que não podemos, em consciência, ap- 
provar. 

Tratando da «bernarda de Francisco Ignacio», esquecemos 
alguns documentos que explicavam o que fora esse acontecimen- 
to ; referimo-nos ao supplicio do Chaguinhas, fundado no teste- 
munho do padre Diogo António Feijó ; é, porém, elle testado, 
como falso, pelo dr. Piza ; o con testemunho de Feijó quanto ao 
facto narrado, que é o próprio caso do Chaguinhas, a menos que 



- 41 — 

Martim Francisco estivesse coropromettido em outra execução 
idêntica e da mesma epocha, é revestido de todcs os requisitos 
que pode exigir o historiador mais escrupuloso : 

1.*", a austeridade do seu caracter e inconcussa respeitabili- 
dade ; 

2.^, a posição que na occasião occupava ; 

3.°, a assembléa perante a qual fez a accusação ; 

4.*", ter sido feita perante o próprio accusado ; 

5.**, não ter este negado ou se defendido de modo a destruir 
a imputação ; 

6.**, Malmente, concordar com os factos conhecidos, actos 
officiaes e tradição. 

Os factos de que trata o dr. Pisui nos seus artigos não são 
dos tempos coloniaes, passaram-se quasi em nossos dias, são de 
1821 e 1822; não fazemos a crítica dos seus artigos, apenas es- 
crevemos um estudo histórico, 

Relativamente ao primeiro artigo — O supplicio de Chagui- 
bas — de 47 paginas, só nas seis ultimas é que delle trata, ex- 
pondo a traoição commum, referida por Feijó, e que é conheci- 
da; este ponto, porém, foi mais desenvolvido no se.Q^ndo — Mar- 
tim Francisco e a Bernarda de Francisco Ignacio, e nelle se lê : 

«Chagninhas não estava, de facto, tão envolvido e compro- 
mettido, como pai*ecia, na sedição militar de Santos. 

«Entretanto os Andradas reconheciam a injustiça da senten- 
ça que condemnou Ghaguinhas á morte e entenderam que era 
preciso salval-o a todo o custo, sem comtudo provocar conflictos 
com os portuguezes e retrogados de dentro e de fora do governo, 
e para isso era necessário adiar indefinidamente a execução do 
réo, e dirigir os acontecimentos de forma que se pudesse chegar 
ao resultado desejado sem choques, nem attritos compromette- 
dores. 

«O primeiro passo foi dividir os condemnados em dois gru- 
pos, dos quaes um ficou em Santos e lá foi sem demora enfor- 
cado, sob o pretexto de servir de exemplo para os filhos da 
costa do mar, porém de facto como satisfacção ao elemento retro- 
gado, e o outro subiu a S. Paulo, sob pretexto de ser aqui exe- 
catado para exemplo dos povos de serra acima, mas de facto 
para esperar os acontecimentos... 

«Estava dado o segundo passo, que era eliminar aquelle im- 
pertinente representante do poder colonial (o ouvidor D. Nuno 
Eugénio de Lossio Scilbz) e fazendo-o substituir por Gosta Gar- 
valho, pnrmittir que a execução de Ghaguinhas fosse presidida 
por Nicoláo de Siqueira Queiroz, que não era suspeito aos brasi- 
leiros, conquanto nÍo estivesse no segredo das combinações ..... 



— 42 — 

«E a execução de Chaguinhas continuava adiada para 
melhores tempos. 

KPassaram-se os mezes de Janeiro, Fevereiro, Março o Abril 
de 1822. .... a situação foi-se aclarando e chegou a opportu- 
nidade de executar a sentença que condemnou Chaguinhas á 
morte, e de salval-o dessa immerecida pena. 

(Observa o dr. Piza: aqui é a tradição quem fala. Não ha 
documentos comprobatórios dos factos, mas também não ha pro- 
vas em contrario á tradição^. 

«Era no mez de Maio, entre os dias 12 e 18, naquella es- 
tação do anno em que os dias já são relativamente curtos e as 
manhãs escuras de cerração, no valle dos rios Tamanduatehy e 
Tietê, que banham a cidade de S. Paulo. Chaguinhas foi leva- 
do da cadeia, situada no largo municipal, para o campo da Forca, 
que lhe ficava perto. Era entre 11 horas da manhã e 1 da tar- 
de, e muita gente tinha afíluido ao campo para ver o triste es- 
pectáculo. Depois do ceremonial já descripto, foi o réo atirado ao 
espaço, tendo no pescoço — fraca — corda amarrada ao gancho do 
patibulo. Rcbentou-se naturalmente acorda — amiga — e o pade- 
cente, caindo ao chão, foi coberto com a bandeira da misericórdia; 
eram 2 horas da tarde. O povo desceu ao palácio do governo para 
reclamar a commutação da pena, segundx) o costume do tempo. 
Martim Francisco, directamente interessado no facto, se achava 
em palácio, á espera de noticia. Quando esta chegou, foram con- 
vocados 08 outros membros do governo, residentes em vários 
Soutos da cidade, e até que se reunissem todos ou a maioria, 
iscutissem o caso e tomassem uma resolução, foram-se mais algu- 
mas horas. Negada a commutação, em grande jxirte pela influen- 
cia e pelo voto de Martim Francisco^ voltou o povo descontente 
para o campo da forca; eram 4 horas da tarde, e talvez cinco. 

«Procedeu-se a nova execução com corda nova — não examina- 
da por pessoas entendidas — esta, como a primeira, quebrou-s© 
muito a tempo para deitar no chão o paciente cheio de vida. 
Veiu de novo cobril-o a bandeira de misericórdia ; emquanto o po- 
vo, não somente commovido, mas indignado, horrorisado, descia ou- 
tra vez ao palácio para parlamentear com o governo, que foi de 
novo convocado para considerar o extranho caso. 

cO povo exigia, o governo não cedeu, aquelle insistiu e 
este conservou-se inabalável, e Martim, que não tinha deixado o 
palácio, chegou mesmo a sahir a uma janella © dirigir-se ao povo 
com expressões um pouco ásperas, sustentando a resolução do 
governo de não alterar a pena, que ficou mantida. Foram mais 
2 ou 3 horas, e quando resolvida negativamente a petição po- 
pular, voltou o povo ao logar do supplicio, era já noite avança- 



— 43 — 

da. Martim Francisco, entretanto, tinba tido tempo, por meio de 
agentes secretos, dous dos quaes eram o carrasco e o carcereiro, 
de substituir, na escuridão da noite, o paciente Chaguinhas por 
uma figura humana, — bem preparada para o caso — a qual foi 
pendurada no laço de couro que, ainda para ganhar tempo, se 
mandou buscar no matadouro publico, em quanto Chaguinhas 
era cautelosamente escondido na occasiào, e mais tarde era en- 
viado em segredo para Porto Feliz, a embarcar-se em uma das 
monções fluviaes que, nos mezes de Junho, Julho e Agosto, cos- 
tumavam dalli sahir para Cuyabá, e naquella distante paragem 

ficou elle, sem nunca mais voltar a S- Paulo 

E Martim, que tão injustamente sofíreu por um acto que não pra- 
ticou, soube guardar tão profundo silencio a respeito, que não 
consta que seus propríos filhos tivessem conhecimento da reali- 
dade dos factos. 

Mas elle teve amigos e cúmplices que o auxiliaram na prati- 
ca desta caridosa fraude, e, se alguns guardaram também ab- 
soluto silencio, outros transmittiram o segredo, sob reserva, aos 
seus herdeiros, de modo que hoje a historia appareccu sob a for- 
ma de lenda e para muitos não merece credito...... 

«A tradição da fuga de Chaguinhas está hoje muito gene- 
ralisada, entre os velhos e muitos moços de S. Paulo o Santos, 
e tera-me sido narrada por varias vezes e por diversas pessoas, 
com pequenas variantes em detalhes de pouco importância.» 



Terá a menor verosimilhança esta lenda tão minuciosamente 
descripta, marcnndo-se até as horas do dia em que, pelas três 
vezes, foi suppliciado Chaguinhas ? 

Note-se que geralmente taes execuções são feitas nas pri- 
meiras horas dó dia, e era natural que o governo estivesse reu- 
nido durante a execução, ou que ao menos da primeira vez que 
foi convocado não mais se dissolvesse ou se retirasse para as suas 
casas até a consumação do supplicio 

Por esta lenda, verdadeiramente cómica, o papel que se dá 
a Martim Francisco é por certo muito original ; para proteger a 
Chaguinhas, adia por mezes a execução da sentença, substitue a 
anetoridade que devia presidil-a, e no momento opportuno, nos 
curtos dias do mez de Maio dts 1822, manda cumpril-a; levado 
Chaguinhas á forca, rebenta-se a corda, propositalmente escolhi- 
da, o povo implora clemência, insiste Martim na execução ; segun- 
da vez rompe-se a corda traiçoeira ; de novo vai o povo indigna- 
do e horrorisado supplicar misericórdia para o infeliz ; Martim di- 
rige-lhe palavras ásperas, sustentando a resolução do supplicio; 



— 44 — 

como é noite, então Martim, de combinação com o carrasco e o 
carcereiro, faz substituir Chaguinhas por um boneco, e este é o 
que pela terceira vez conduzem á forca e é enterrado, emquanto 
o verdadeiro Cbagas, por protecção do mesmo Martim, é levado 
em uma monção, para Cuyabá, um, dous ou três mezes depois, 
nunca mais voltando a S. Paulo ! 

Nào desejamos escrever as interrogações que a todos occor- 
rer&o, relativamente a farça tào redicula; bem pouco perspicaz 
foi o inventor de semelhante lenda. 

Martim Francisco era inimigo de Francisco Cbagas ; moço 
solteiro e estimado, as razões particulares dessa inimizade n&o 
interessam á bistoria; era a ella que se referia Feijó nas pala- 
vras attribuidas a Martim :^-o sangue do inimigo é mui saboroso 
para beber-se de um só trago.» 

A lenda que com tanto esmero nos foi descripta faz de Mar- 
tim o protector de Cbagas, nfto pela generosa bandeira da Mi- 
sericórdia, ou pelas instantes supplicas do povo em massa, mas 
por um accôrdo burlesco com o carrasco, carcereiro e de certo 
com o coveiro e o fazedor de bonecos com a figura humana, e 
á sombra de noite tão escura que a todos illudiu : ao juiz que 
presidia a execução, ao confessor, aos amigos e numerosos assis- 
tentes que tanto interesse tinham tomado pelo sentenciado; a 
todos illudiu, antes e depois da execuçào ! 

Quaesquer censuras que «e fizessem, ou faça a historia, a 
Martim Francisco (e qual o homem politico que não as soffra 
merecidamente por alguns de seus actos ? ) o seu caracter sisudo 
e austero repelle o papel que lhe foi distribuido nesta lenda ; pela 
benemerência dos serviços prestados á nossa pátria, e que são por 
todos reconhecidos, devemos consideral-o muito acima ae taes con- 
tos ou novellas. 

A Cruz do Enforcado, erecta por contemporâneos do facto, 
e que ha tantas dezenas de annos recebe a romaria da população 
de S . Paulo, sobre tudo das classes menos abastadas, á qual per- 
tencia Chaguinhas, protege e guarda os restos mortaes aosuppli- 
ciado ou os trapos de um boneco? 

Se os Andradas, como diz o dr. Piza, reconheciam a injus- 
tiça da sentença que condemnou Chaguinhas á morte, e enten- 
deram que era preciso salval-o a todo o custo, muito boa occa- 
sião perderam quando a commissão militar, da qual fora presi- 
dente Martim Francisco, examinou o conselho de guerra que o 
tinha condemnado; ou ainda, se em vez de mandarem que se 
executasse immediatamente a sentença, tivessem cumprido a lei 
que «determinava fossem remettidos, para serem decididos no 
Conselho Supremo Militar, ainda sem appellação da parte, todos 



— 45 — 

08 conselhos de guerra qae se formassem nos corpos miJitares 
das capitanias.» Alvará de 1 de Abril de 1808. 

E' incontestável o supplicio do verdadeiro Chaguinhas em 
S. Paulo; de todos os nomes citados pelo dr. Piza, o que pode 
ser crido, pela sua auctoridade como nistiiriador é Machado de 
Oliveira, contemporâneo do facto, e elle diz : «o denominado 
Chaguinhas a quem se imputava a origem da animação para o 
rompimento da revolta de Santos, e para todas as phases crimi- 
nosas que appareceram de envolta como seu andamento, foi tra- 
zido á capital — e aqui suppliciado — em cujo acto occorreram tristes 
episódios.» E foi isto o que nos disse Feijó, explicando quaes foram 
esses tristes episódios ; com a explicação de Feijó está de accôrdo 
o moderna lenda, só descombinando quanto ao desenlace, referindo 
que o suppliciado nâo foi Chaguinhas, mas uma figura do panno. 

Manoel Eufrazio de Azevedo Marques, nos seus Apont, hist^ 
diz : « O denominado Chaguinhas, um dos cabeças da revolta, 
foi trazido á capital, onde soffreu o mesmo sapplicio, occorendo 
por esta occasião o facto de cortar-se a corda no pescoço do pa- 
ciente mais de uma vez, repellindo o governo provisório as re- 
clamações dos circumstantes, que invocavam o antigo uso da re- 
levação da pena aos pacientes a quem tal acontecia». 

II 

Estudemos o facto pelos documentos officiaes. 

Sessão extraordinaaia do governo provisório, de 12 de Julho 
de 1821. — Tendo-se lido o officio de 11 do corrente dos senhores 
deputados commandantes da força armada em Santos, na qual 
expunham que os menos culpados dos eoldados do 1.* batalhão que 
foi da praça de Santos, foI^sem dispersos... assentou o governo 
o seguinte : 

1 . ** que — quanto antes, feita a separação já ordenada, se 
passe a julgar os menos culpados sobre os quaes este governo 
devia requerer a S. A. R. usasse de Benignidade, commutaudo- 
lhes a pena ultima ... tj^endo os cabeças do motim e os malvados 
que commetteram morte ou roubo castigados com pena ultima, 
para exemplo. . . 

Sessão de 16 de Julho. — 2.° Assentou-se que as sentenças 
proferidas em conselho de guerra contra os cabeças do motim e 
acelerados mais atrozes fossem ^immediatamen te — executadas na 
forma do § 9 do cap. 10 do regulamento militar. 

3." Ordenou -se, outrosim, que, immediatamente, se formasse 
a Junta de Justiça para julgar os corréos paisanos do mesmo 
delicto . 



— 46 — 

Sessão de 23 de Julbo. — 2.** Detenninou-se á Camará desta 
cidade mandasse erigir a forca em que liào de ser justiçados os 
réos sentenciados á pena ultima pela Junta de Justiça. 

Sessão de 30 de Julho. — 2."* Respondendo ao officio da de- 
putação militar de Santos de 28 do corrente, ordenando-se-lhe 
que, concluídos os conselhos de guerra, subissem á presença do 
governo para serem confirmados . . . 

Sessão de 1 de Agosto — 3.® Ordenou 'se á deputação militar 
de Santos que se procedesse a um só conselho de guerra, sobre 
os rebellados daquella villa, cingindo-se nelle a tudo o que já 
foi determinado na sessão extraordinária de 12 de Julho. 

5.° Determinou-se ao dr. juiz de fora da mesma villa que, 
concluídos os conselhos de guen-a e a remessa dos presos para a 
Junta de Justiça, tirasse a devassa sobre os que mfluiram para 
se armarem os marinheiros contra o 1." batalhão, e as causas que 
tiveram para o fazer. 

Sessão de 1 de Setembro — 6.** Foi nomeada a commissão 
militar para examinar os conselhos de guerra que foram remet- 
tidos pela deputação militar de Santos : são membros o exmo. sr. 
vice presidente (Martim Prauciscoy, o sr. chefe da esquadra 
Miguel José de Oliveira Pinto, os srs. coronéis António Leite 
Pereira ãk Gama e Francisco Ignacio de Souza Queiroz. 

Sessão de 3 de Setembro — 7.** Foi nomeado o sr. juiz de 
fora desta cidade (Costa Carvalho) para um dos membros da 
commissão militar encarregada dos exames dos conselhos de guerra 
que foram remettidos pela deputação militar de Santos. 

Sessão de 10 de setembro — 4,° Officiou-se á deputação mi- 
litar de Santos, confirmando e declarando as sentenças do con- 
selho de guerra feito aos officiaes inferiores e soldados do 
extincto 1.** batalhão do regimento de caçadores, réos de motins, 
roubos e mortes perpetrados em a villa de Santos, 

5.** Ordenou-se á mesma deputação que — justiçados — os 
réos que alli devem perecer, e postas as competentes guarnições 
de tropa de 1.* linha nas fortalezas da villa, e de 2.' para 
manter o socego publico da mesma, se retire logo o resto do 2.* 
batalhão de caçadores, e com elle os senhores membros da de- 
putação, por estarem ambos nomeados membros da .commissão 
militar sobredita (commissão para formar o plano de uma nova 
organização das tropas de 1.' e 2.* linha da província). 

Sessão de 26 de Setembro — 2.° Deu-se por finda a sessão 
por chegar de Santos a deputação militar com o batalhão de 
caçadores . 

(Observação. Justiçados em Santos os sentenciados, deviam 
ter sido egualmente justiçados em S, Paulo os que de Santos 



— 47 — 

tinham sido remettidos para soffrerem a pena na capital; nunca 
mais a elies se referiu o governo.) 

E foi por esta occasiào que Feijó, residente em Itú, acha- 
va-se de passagem na capital, tendo de seguir ainda que mais 
tarde para tomar assento nas cortes de Lisboa. 

Sessão de 3 de outubro — 2.° Que sejam mettidos em con- 
selho de guerra os officiaes de caçadores que so achavam ser- 
vindo em Santos com o extincto 1.* batalhão, no tempo do mo- 
tim, roubos e mortes que alli commetteram o dito batalhão, por 
terem abandonado o seu corpo. 

Sessilo de 22 de Outubro — 4.** Ordenou-se para clareza do 
conselho de guerfa a que se mandou proceder (a 3 de Outubro) 
aos officiaes do extincto 1/ batalhão de caçadores, se remetta 
no presidente delle a copia legal do relatório sobre o exame do 
conselho de guerra feito aos inferiores e soldados do predito 
batalhão, e que foi remettido com o conselho a S. A. R. para 
seu conhecimento e final determinação. 

Observação : Este conselho de guerra para julgar os offi- 
ciaes referidos, como se vê, é posterior e diverso daquelle que 
sentenciou Chaguinhas ; o relatório sobre o exame (lo conselho 
de guerra, feito pela commissão do governo (sessão de 1 de Se- 
tembro) e a sentença do conselho que o condemnou á morte é 
que tinham sido remettidos ao principe para seu conhecimento 
e final determinação sobre o resolvido em sessão de 12 de Julho, 
ralativamente aos considerados cabeças de motins, pois estes de- 
viam ser immedietamente executados. 

Foi, provavelmente, pelo exame e estudo de todo o proces- 
sado, segundo o referido relatório e sentença do Conselho de 
GueiTa, que o Conselho Supremo no Rio de Janeiro julgou Cha- 
gttinhas não merecedor da pena de morte, mas já tinha sido 
executado, e por isso disse Feijó : «Note-se que o desgraçado de 
que falloi foi julgado no Conselho Supremo não digno de morte, 
mas já estava morto ! » 

Sessão de 27 de Fevereiro de 1822 — 10."* — Deram-se por 
extinctos os Conselhos de Guerra que se estavam fazendo por 
occasiào do motim de Santos e foram perdoados os corréos do 
mesmo delicto, ainda não sentenciados, e mandados encorporar 
ao seu regimento, assim como todos os destacamentos de caça- 
dores, os quaes foram suppridos por milícias. 

Observação : Ainda em Fevereiro de 1822, depois de pas- 
sados tantos mezes do motim, mostrava se o govenio rigoroso 
quanto aos novos sentenciados, que já não eram os considerados 
cabeças de motim, os quaes todos já tinham sido executados, 



— 48 — 

como crer-se que até eiitào tivesse sido exceptuado Chaguinlias, 
por escandalosa protecção ? 

Esta resolução de per<iào, tomada por occasiào da organiza- 
ção da força que do Rio tinha pedido o principe, refere-se ao 
deliberado em sessão de 3 de Outubro ; o conselho de guerra que 
julgou Chaguinhas e os outros que foram justiçados estava con- 
cluido e acabado, e todos torara julgados em um só conselho (ses- 
sào de 1 de Agosto) ; nas sessões de 30 de Julho e 1 de Agosto 
terminantemente ordenava o governo que, «concluidos os conse- 
lhos de guerra, subissem á presença do governo pam serem con- 
firmados» — que «concluidos os conselhos de guerra e a remessa 
dos presos para a junta de justiça», e porque referia-se a esses 
outros militares, em Fevereiro, perdoados, mandava-os encorpo- 
rar ao seu regimento os nôo já sentenciados. 

O aviso de 11 de Maio de 1822, a que allude o dr. Piza, 
refere-se a estes novos sentenciados, e nunca aos que, como 
Chaguinhas, foram julgados e suppliciados por effeito da sen- 
tença do conselho de guerra, confirmada pelo governo em Se- 
tembro do anno anterior. 

ni 

Recapitulemos as resoluções do governo e o andamento dos 
factos. 

A 16 de Julho de 1821 assentou que as sentenças proferi- 
das contra os cabeças do motim fossem — immediatamente exe- 
cutadas; a 23 mandou que a Gamara erigisse a forca; a 30, or- 
denou que 08 conselhos de guerra subissem ao govei-no, para 
serem confirmadas as sentenças; a 1 de Agosto, que se proce- 
desse a um só conselho sobre todos rebellados (de certo para 
andar mais de pressa o julgamento) e ao juiz de fora determi- 
nou que, concluidos os conselhos de guerra, remettesso os pre- 
sos; a 1 de Setembro, remettidos os conselhos de guerra, pela 
deputação militar de Santos, foi nomeada a commissão militar 
de membros do governo, sob a presidência de Martim Francis- 
co; a 3, foi nomeado o juiz de fora para fazer parte dessa com- 
missão; a 10, ofiiciou á deputação militar ter sido confirmada a 
sentença, e que fossem justiçados em Santos os que alli deves- 
sem perecer, feito o que, voltasse ella a S. Paulo ; a 26 de Se- 
tembro voltou a commissão de Santos, estando concluida a sua 
tarefa. 

Se Chaguinhas não foi, então, executado em S. Paulo, o 
que ficou esperando, quando os seus companheiros já tinham 
soffrido a pena em Santos, e o governo tinha-se mostrado tão 
rigoroso e exigente na immediata execução da sentença? O tal 



— 49 - 

aviso de 11 de Maio de 1822 mostra que, ainda 8 mezes de- 
po-8 das primeiras execuções, o «j^overuo nào diminuiu o seu ri- 
gor contra todos o^ que tomaram parte no motim e }>or todo 
Ciise tem^K) teria deixado era olvido Chaguinhas, tido como ca- 
baia, tjue devia ser executado immediatamente depois da con- 
firmação da sentença V 

Parece que a designaçào do mez de Maio, para a execu- 
ção de Chaguinhas, foi propositalmente escolhido; na verdade, 
essa data tem a vantagem de offerecer os dias curtos e a prora- 
pta noite para favorecer a substituição de um homem por um 
boneco, segundo a lenda; proporciona causa próxima para a 
bernarda Francisco Ignacio e inutilisa, como falso, o testemu- 
nho de Feijó, porque, achando-se era Lisboa, nào podia assistir 
ao supplicio em S. Paulo. 

Mas não; Chaguinhas foi justiçado em S. Paulo no mesmo 
tempo que os seus companheiros em Santos, isto é, depois de 
10 e antes de 26 de Setembro, depois de confirmada a senten- 
ça e antes da volta da deputação militar que em Santos tinha 
assistido á execução da sentença. Por este tempo devia estar 
Feijó em S. Paulo, elle diz que assistiu e viu o supplicio de 
Chaguinhas; tiraremos argumento dos actos do governo [irovisorio. 

Sessão de 8 de Agosto de 1821 — 2.** Determinou-se que se 
participasse a todas as Camarás desta provincia a nomeação dos 
deputados delias e que devendo elles partirem — com brevidade 
— para as cortes de Lisboa etc. 

Sessão de 16 de Agosto. — 2.* Assentou-se que, para os de- 
putados desta provincia apparecerem, nas cortes extraordinárias 
e constituinte» de Lisboa, com todos os conhecimentos necessá- 
rios para essa melhor representação, se expedissem as ordens 
seguintes : 

Sessão de 22 de Agosto. — Propôz o sr. vice-presidente que 
se nomeasse uma comraissão de tre^ membros para fazerem a 
Biinuta das instrucções e desejos deste governo, que os nossos 
deputados ás cortes devem apresentar ás mesraas como voto do 
governo da provincia. 

Sessão de 22 de Setembro. — 2.° O governo provisório, at- 
tendendo aos incomraodos que causa á administração da fazenda 
nacional desta provincia mandar assistir com grandes quantias, 
na corte de Lisboa, aos senhores deputados que a vão repre- 
sentar nas cortes extraordinárias e constituintes da nação por- 
tugueza. 

Sessão de 6 de Outubro. — 1.® Assentou-se que se remetta a 
S. A. R. as instrucções que este Governo — remette — aos srs. de- 
putados nas cortes. 



— 50 — 

Vô-sc, pois, que era data de 6 de Outubro o governo diz 
que — remette as instrucçàes aos deputados ; a 22 de Setembro 
empre^j^a o verbo — vào representar nas cortes ; estes dous verbos 
indicam presença e ausência de S. Paulo dos deputados ás Cor- 
tes ; ora, a data da presença em 22 de setembro coiTespondo á 
da execução dos sentenciados, ponco importa que de facto se em- 
"barcassem os deputados em fim de novembro, ou que a sua pre- 
sença fosse na provincia e nào na capital ; a procedência do ar- 
í^mento c referir a data com a declaiaçào de Feijó, que assis- 
tiu e viu, e mais ser natural que, antes de partirem, os deputa- 
dos procurassem na capital conferenciar com o governo sobre as 
suas instnicçòes, para cuja minuta foi nomeada em 22 de Agosto 
uma commissào de membros do mesmo governo. 

Em um caso destes, é claro que a prova directa só pode 
ser fornecida pelos autos do processo, ou certidão authentica, 
que níio possuimos; mas, tanto que se pôde deduzir dos exposi- 
tores bistoricos e da verdadeira tradição, é incontestável o 8U[)- 
plicio de Cbaguinlias e a sua morte em fim de setembro de 1821. 

Se o borror que, então, esse facto causou na população de 
S. Paulo, concorreu mais tardo para a deposição de Martim Fran- 
cisco do governo ]n'ovisorio, não foi elle explorado pelo partida 
de João Carlos e Francisco Ignacio. e então não foi allegado, 
só o tem sido por bistoriadores ])ostbumos, procurando justifica- 
tivas para o deposto ; tanto um dos membros da deputação mili- 
tar de Santos (Múller), como dous membros do governo que com- 
punbam a commissão para o exame da sentença condemnatoria 
(Oliveira Pinto e Francioco Ignacio), bem como o juiz de fora 
(Costa Carvalbo), membro nomeado para a referida commissão, 
pertenciam ao partido da bernarda ; se bavia culpa na condemna- 
çao e execução da sentença todos eram egualmente culpados; 
como, pois, prevaleceram-se do facto paia a mesma bernarda V 

Não ba razão para considerar-se José Bonifácio ausente de 
S. Paulo, só porque nào se falou em S3u nome, pois que, também 
nenhum outro nome dos membros do governo tem sido citado; 
só pôde attribuir-se a especialisação de Martim Franciosco pelas 
exigências da sua parte, que tanto influiram na execução da 
sentença, e por occasião dos tristes episódios que occorreram, a 
sua pessoa foi que se salientou ; traqueza ou excesío de austeri- 
dade, por tal proceder responde o bomem, e não o politico ser- 
vidor da nossa pátria. 

Concluimos, registrando uma nota relativa a João Carlos, 
do qual diz o dr. Piza, no artigo — Chagidnlias : cera profunda- 



— 51 — 

monte dissimulado e liypocrita, nSo possuindo a coragem precisa 
e o talento necessário para abrir franca lucta com os Andradas 
e seus partidários, nem a virtude da resignação, para acceitar 
com lealdade e sinceridade a nova ordem de cousas, etc.» 

Realmente, nada conhecemos dessa luctíi travada entre João 
Carlos e Andradas, no governo provisório, antes parece-nos que 
liavia entre todos boa harmonia nas resoluções que tomava o 
mesmo governo; o estudo histórico exige factos e nilo aprecia- 
ções arbitrarias e infundadas. 

Joào Carlos era de caracter sincero, mais bondoso do que 
pusillanime, e nem lhe faltavam intelligencia, actividade e dedi- 
cação para prestar muito bons serviços ao nosso paiz, como pro- 
va a eleição para senador, em 1826, por Matto Grosso, Ceará e 
S. Paulo, isto é, por todas as provincias onde tinha servido como 
governador . 

Eis o que se lê na acta da sessão de 4 de Agosto de 1821 : 

< ^laudou-se fazer nesta acta honrosa memoria da espontânea 
cesssão que fez o cxmo. sr. João Carlos Augusto de Oeynhausen, 
presidente deste governo, do ordenado de 4:800§ annuaeb que 
percebia como governador e capitão-general que foi desta pro- 
víncia, em consideração ás actuaes necessidades urgentes da 
mesma, e por desejar que em taes circumstancias ninguém o ex- 
ceda em patriotismo, cooperando quanto puder para a felicidade 
dos povos da mesma província». 

Em sessão de 27 de Agosto : cObservou o sr. presidente que 
os seus desejos e patrióticos sentimentos não haviam sido decla- 
rados cm toda a sua extensão na acta de 4 de Agosto; por- 
quanto era sua intensão, quando fez aquella declaração, que se 
entendesse que elle não só renunciava aos ordenados que com- 
l>etiam ao emprego que tinha exercido nesta província, mas tam- 
bém aos mais pagamentos que por ordens regias se lhe deviam 
fazer nella. Declarando-se, pois, agora assim em additamento e 
esclarecimento daquella acta, disse o sr. presidente se lançasse 
esta sua declaração na acta deste dia, e assim se mandou, so- 
mente para que se faça honrosa memoria do patriotismo do s. 
exa.; mas toaos os membros do governo, unanimemente, agrade- 
cendo a oííorta, não con vieram nella e não querendo, então, s. 
exa. que se declarasse na acta o seu ofiFereci mento, disto mesmo 
se mandou fazer menção, sem que se acceíte.». 

Estas declarações de João Carlos demonstram os seus bons 
sentimentos o a sincera acceitação da nova ordem de cousas es- 
tabelecida . 

João Carlos não desejou mais tarde continuar no governo, 
ou porque estivesse realmente enfermo, ou talvez por achar-se 



— 52 — 

deslocado, mesmo como presidente, em um governo a cujas nor- 
mns nâo estava habituado ; assim, tendo pedido licença ao prín- 
cipe, na acta de 22 de Outubro de 1821, lê-se : « Quanto á 
portaria pela qual S. A. R., o sereníssimo senhor príncipe re- 
cente concedeu licença para o exmo. sr. presidente deste prover- 
no, Jo&o Carlos Aug^isto de Oeynbausen, ir á corte do Rio de 
Janeiro, consultar os professores sohre suas moléstias, o governo 
mandou que se cumprisse — tendo o seu effeito depois da resposta 
de S. A. R. á representação que lhe deve fazer o mesmo go- 
verno». 

Naturalmente, esta representação era no sentido de julgarem 
conveniente e utíl a sua conservação na província e á testa do go- 
verno, ao qual dava, pelo menos, respeito e auctoridade moral. 
Como em outra parte já dissemos, os Andradas nào eram políticos, 
nílo tinham influencia politica, desviavam-n'os as suas investiga- 
ções scientificas, e João Carlos a tinha pelo cargo que exercera na 
província, governador e capitÃo-gencral, já n&o referindo a estima 
ou consideração que geralmente lhe tributavam. 

Tendo chegado a S. Paulo noticia dos decretos de 1 de 
Outubro, um dos quaes mandava que o príncipe se retirasse para 
a Europa, accordou o governo — unanimemente — que se lhe es- 
crevesse rogando a suspensão da execução do decreto emquanto 
nào chegasse á Corte a deputação que levava a representação 
do governo. (Acta de 21 de Dezembro). 

Em sessão de 22 foi nomeado essa commissão, da qual um 
dos memhros nomeados foi Martim Francisco; na acta da sessão 
do dia seguinte (23), lê-se : 

cEm virtude da nova supplica que fez o exmo. sr. presi- 
dente pedindo se verificasse o aviso da licença que S. A. R. se 
tinha dignado conceder-lhe, o governo depois de madura delibe- 
ração e exUme, á vista das considerações feitas pelo sr. secreta- 
rio do Interior e Fazenda (Martim Francisco), resolveu que por 
ora não tivesse effeito, e que o exmo. sr. presidente continue a 
exercer o seu cargo — tão dignamente como o tem exercido — por 
assim o pedir a honra do mesmo exmo. sr, presidente, a honra 
e dignidade do governo, e — sobretudo — a mantença do socego 
publico, pelo qual são responsáveis o governo in solidum^ cada 
um dos memhros de per si, e todas as auctoridades constituídas 
desta provincia; e aqnella licença só teria o seu devido effeito 
quando as circumstancias politicas o permittissem, como por exem- 
plo, na volta dos deputados do Rio. Resolveu- se outrosim que, 
se sua exc. quízer a sua demissão, ella só lhe pode ser dada por 
Sua Magestade, ou pelo Sereníssimo Senhor Príncipe Regente, 
na forma da lei.» 



— 58 — 

Assim, vê-se que João Carlos instava para entrar no goso da 
licen<;a, seguindo para o Rio, em Outubro e Dezembro de 1821 ; 
e nesta ultima data foi o próprio Martira Francisco que, appel- 
laudo para a sua e a honra do governo, insistiu para que Joào 
Carlos ficasse exercendo cargo que tào dignamente exercia, e 
sobretudo por ser necessário á mantença do socego publico ; 
taes manifestações nào fazem adversários ou inimigos pessoaes. 

A que vem, pois, dizer o dr. Piza que Joào Carlos, para 
desfazer-se de Martim, seu mais temoroso adversário, influiu para 
a sua nomeaçào para a deputação que tinha de ir ao Eio de 
Janeiro, e que descobrindo os Andradas o movei secreto de João 
Carlos, foi cedida a José Bonifácio a tarefa? 

Quanto á bernarda Joào Carlos, que nào era paulista, nem 
tinha interesses em S. Paulo, que só tinha ficado no governo a 
instancias dos Andradas, que proveito tiraria em promover a 
desposiçào de Martim, ou tramar a bernarda? 

A historia deve ser estudada com o animo despevenido, para 
que a narração dos factos e suas justas apreciações sejam crite- 
riosas ; as paixões são sempre prejudiciaes á verdade. 

E. K. 



A Bernarda de Francisco Ignacio 



( CHAGUINHAS ) 
I 

Por causa de muita occupação, própria do fim de anno, 
demorei a analyse da segunda serie de artigos que, com a 
epigraphe acima, publicou o cidadão E. R. nas calumnas d' O 
Commercio de São Paulo, 

Continua s. s. a extranbar que em publicações ofliciaes eu 
introduza escriptos de particulares, quando não ha nisso novidade 
alguma e os Ánnaca da Bibliotheca Nacional, a Revista do 
Arcbivo Publico Mineiro e outras publicações officiaes estão 
recheadas de escriptos inteiramente destituidos de caracter oflScial. 
Os governos não assumem a responsabilidade da narrativa dos 
factos que esses escriptos contêm, nem das opiniões dos seus 
auctores, mas fazem a despesa com a sua publicação, porque 
entendem que assim prestara um serviço assignalado, vulgarizando 
factos importantes que provocam a discussão e trazem mais luz 
para a historia. 

A publicação é que é official e não a narrativa. O governo 
de Lisboa publicou as Memorias para a historia da Capitania de 
São VicentCy de Frei Gaspar da Madre de Deus ; a Assemblóa 
Provincial de São Paulo, do anno de 1864, ordenou a publicação, 
á custa do Estado, do Quadro Histórico da Provinda de S. Paulo, 
do brigadeiro Machado de Oliveira, com um lisongeiro parecer do 
conselheiro Duarte de Azevedo, que não era suspeito de andra- 
dismoj e o governo actual está publicando, por conta do Thesouro, 
a Chronologia Paulista, de J. Jacintho Ribeiro, e a Revista do 
Instituto Histórico de São Paulo. 

Todo o documento de valor histórico ou scientifico deve ser 
publicado pelo governo quando o seu auctor, por ser morto, ou 
por ser pobre, não pode fazer a publicação; é um auxilio que 



— 55 — 

concede ás lettras e ás sciencias e um serviço que prest«a ao 
publico. A prova da conveniência dessas publicações está nos 
dandc o próprio cidadão E. A'., que encontrou nellas opportu- 
nidade para trazer a luz sobre muitos incidentes históricos que 
o publico em geral nào conhecia, com o que está prestando 
grande serviço a nós todos. 

Entende o cidadáo E. R. que a própria 7i em /a do Instituto 
Histórico deveria ser unicamente um crepositorio de documentos 
ou de memorias documentadas de factos que interessam á nossa 
historia», sem que nas suas paginas encontrem guarida os 
escriptos não documentados e as opiniões dos seus sócios, hauridas 
nos estudos que tenham feito. E^ tão inadmissivel semelhante 
theoria, que não é acceita por nenhum dos institutos históricos 
do meu conhecimento; veja-se a Revista do Instituto Histórico 
Brasileiro, uma das melhores publicações deste género, e nella 
encontrar-se-fto, não somente muitos escriptos dos seus sócios, mas 
attí discussões sobre pontos históricos controvertidos, cm que cada 
contendor sustenta as suas opiniões e as suas theorias, segundo o 
seu modo de apreciar as fontes de informações a que recorreu. 

Estando de pleno desaccordo com o cidadão E. R. sobre os 
limites das publicações officiaes e sobre a natureza da missão dos 
institutos históricos, não posso acceitar a sua opinião, que está 
isolada, e vou entrar em matéria de caracter histórico. 

Extranhou ainda s, s, que eu fizesse algumas objecções ao 
testemunho de Feijó em relação ao supplicio de Chaguinhas, 
quando elle «possuia um caracter austero e inconcussa respeita- 
bilidade, occupava o elevado cargo de ministro da Justiça, falava 
perante a Gamara dos Deputados e na presença de Martim Fran- 
cisco, que não negou a accusaçào que se lhe fazia, e finalmente, 
que a narrativa de Feijó está de accôrdo com os factos conhe- 
cidos, com os actos officiaes e com a tradição». Mas são exactamente 
estas affinnações que eu contestei, baseado em alguns testemunhos 
do tempo, comparando as datas e os factos e analysando as suas 
circumstancias . 

Parece-me que os requisitos acima não são por si só ele- 
mentos sólidos para a formação de um juizo seguro e que não 
podem satisfazer a nenhum historiador, mesmo mcdiocremente 
escrupuloso. Tanto estes requisitos valem pouco, que Armi— 
tage, Pereira da Silva, Homem de Mello, Machado de Oliveira, 
Abreu e Lima, Mello Moraes e outros historiadores nunca se 
serviram do testemunho de Feijó para os seus juizos sobro o 
caracter, sobre a capacidade e serviços dos Andradas. 

Em primeiro logar a austeridade do caracter, a respeita— 
l)ilidade e a moralidade pessoal de Feijó não eram superiores áa 



— 50 — 

de José Bonifácio e Martim Francisco, quo ainda lhe eram muito 
superiores em talento e instrucçào; em sej^undo logar, a posiçào 
de um ministro que se defende, ou aceusa os seus adversários, 
na Camará dos Deputados, não dá aos factos por elle articula- 
dos maior fundo de verdade do que elles em si, intrinsecamente, 
contêm ; e, se assim nào fosse, todos os ministros teriam sempre 
a verdade do seu lado, nas discussões com os seus adversários 
na Camará, isto é, os governos seriam impeccaveis, infalliveis e 
as opposições nunca teriam razào; em terceiro logar, sào exa- 
ctamente as assembléas politicas as que estào mais sujeitas ás 
paixões, ás exaggeraçôes e aos desvios da verdade, porque os 
seus membros para ellas levam opiniões e idéas preconcebidas e 
raramente fazem justiva aos adversários. Os A7inaes do nosso 
Parlamento estfto cheios das mais violentas e reciprocas accusa- 
ções, que, felizmente para o Brasil, nfto tèm fundamento algum 
— como os contrabandos de africanos, as popelinas, os loyos e 
muitas outras, que seria longo enumerar. 

O ultimo requisito citado merece mençào es|)ecial. Disse o 
cidad&o E. R. que «o testemunho de Feijó está de accôrdo com 
os factos conhecidos, com os actos officiaes e com a tradi<;ào.» 
Qual é o historiador que acceitou, perfilhou e vulgarizou as af- 
firmações de Feijó contra Martim Francisco, relativas ao suppli- 
cio de Chaguinhas? 

Nenhum, absolutamente nenhum. 

Pois se o facto foi táo horroroso, tão revoltante, como nol-o 
pinta Feijó dez annos depois delle occorrido, como se explica o 
facto do coronel Francisco Ignacio e do extrangeiro Ploesquel- 
lec, que eram inimigos figadaes de Martim e delle disseram tan- 
tas coisas inverosimeis, nunca se referirem a essas circumstan- 
cias? 

Ora, se ninguém jamais fez allusào áquelle supplicio cora 
as horrorosas minúcias descriptas por Feijó, a nào ser o próprio 
Feijó, que diz tel-o visto com os seus próprios olhos, quando 
no campo da forca havia muita gente, attrahida como elle pela 
curiosidade, enti»e a qual deviam estar muitos conhecidos, pa- 
rentes e amigos do coronel Francisco Ignacio e do extrangeiro 
Ploesquellec, como se explica este silencio geral de tantas tes- 
temunhas oculares, de todos os historiadores e dos próprios Fran- 
cisco Ignacio e Ploesquellec? 

Um tal Gomide se refere a enforcados á laço de couro, 
quando enforcado com o laço de couro foi um só, Chaguinhas, e 
o seu companheiro Cotindiba já estava morto; ninguém men- 
ciona o facto do carrasco cortar a corda de couro e no chfto dar 
cabo da vida do paciente. Só Feijó teve olhos para Têr isso e 



- 57 — 

coragem para nol-o contar dez annos mais ^arde, quando o seu 
ódio contra os Andradas havia chegado ao seu auge e foi explo- 
dir na Gamara dos Deputados, em 1832! 

Um testemunho isolado nào serve nem para o jury quando 
o seu depoimento nfto está de accôrdo com os precedentes do 
réo, nem com a verosimilhança, ainda mais sendo a testemunha 
inimiga do defendente e transpirando das suas declarações a 
intensidade dos seus ódios. £ ainda quer o cidadão E, R, que 
o depoimento de Feijó, isolado e inverosímil, sirva de elemento 
para seguro juizo de imparcial historiador! 

Accrescenta o cidadào E.R. que os factos de que tratei não se 
passaram nos tempos coloniaes, mas nos annos de 1821 — 22, quasi 
nossos dias. E' extranhavel esta afirmação da parte de tão distin- 
cto escriptor, porquanto em 1821 — 22 o Brasil era ainda governado 
pelo rei de Portugal e a independe». cia só teve logar a 7 de Se- 
tembro de 1822. A deposição de João Carlos do cargo de capitào- 
general e a eleição do Governo Provisório, a sedição militar de 
Santos e a execução dos condemnados, a ida de José Bonifácio 
para o Eio de Janeiro com a Fala ao Príncipe Regente 
para que não deixasse o Brasil, a expulsão de Martim Francisco do 
governo pela caricata Bernarda de Francisco Ignacio^ a reacção 
dos Andradas, a deportação por três mezes dos hernardistas 
para vários pontos da província e Rio de Janeiro, a con- 
federação dos municípios do interior para defesa da liber- 
dade contra os extrangeiros e os retrogados, e avinda de D. 
Pedro a S. Paulo são factos que se deram nos tempos coloniaes, 
não obstante todas as affirmações do cidadão £. R. em contra- 
rio, porque o Brasil não estava ainda independente e era gover- 
nado pela coroa portugueza. O regimen colonial só cessou a 7 
de Setembro de 1822, graças ao patriotismo e energia de José Bo- 
nifácio, que foi, segando Armitage, quem reanimou a expirante 
ambição do Príncipe Regente. 

U 

Reduzindo a escripto a lenda da fuga de Ghaguinhas, se- 
gundo a ouvi narrada por pessoas da mais alta respeitabilidade, 
eu não afHrmei que me responsabilisava pela sua veracidade. Gon- 
tei 08 factos mais ou menos como me foram narrados e procurei ex- 
plicar as causas que deram origem á lenda e que justificam a sua 
duração até nossos dias. 

Revendo o que sobre a nossa historia dizem os escri piores qa« 
delia trataram, procurei toinar evidente que nada elles disseram 
que vá de encontro á lenda e que contrario a ella só havia o tes- 
temunho, ma is que suspeito, de Feijó, que nêo passou de mero es- 



— 58 — 

pectador da execução de Chap:uinbas, como tantos outros que aella 
assistiram e não viram o que Feijó disso ter visto. Feijó n?lo era 
auctoridade policial ou judiciaria para tomar parte na execução, 
não era medico para verificar o óbito do suppliciado e não dispunha 
de elemento algum especial para ficar conliecendo os acontecimen- 
tos mais do que os outros espectadores que estavam ao seu lado. 

Nessa occasiào, clle não era ainda inimi<ço dos Andradas e pela 
obrigação que tinba, como padre, de ser compassivo, ])odia, devia 
mesmo, ter intervindo na tragedia com a sua auctoridade espiri- 
tual e de representante da província nas Cortes de Lisboa; não 
interveiu, guardou silencio por dez longos annos, foi a Lisboa 
com António Carlos de Andrada, com este defendeu os interesses 
do Brasil na metrópole, com elle fugiu para a Inglaterra e com 
elle lá publicou o Manifesto deFalmoutb; por lá imbuiu-se de 
idóas republicanas, muniu-se de livros sobre essa matéria e devolta 
ao Brasil parece que tentou catecbizar os Andradas, entào minis- 
tros do joven Principe Regente. Tornando-se assim suspeito, foi 
espionado, maguou-se com isso, começou a corresponder-se com o 
Principe, a quem adulava, e a falar e escrever contra os Andradas; 
porém, ainda nesse tempo, o episodio do supplicio de Cbagainbas 
ficou guardado por elle com tal reserva que nem o coronel Fran- 
cisco Ignacio, Gomide e Ploesquellec puderam aproveitar-se do seu 
testemunho para encher a meaida das suas violentas acciísações 
contra os Andradas. 

Foram os Andradas demittidos de ministros de Estado, foraiA 
presos e deportados por vários ann os e Feijó estava silencioso, não 
só sobre o supplicio de Chaguinbas, mas também sobre a dissolução 
da Assembléa Constituinte, sobre as violências d e Pedro I, sobre 
as execuções de Frei Caneca, de Ratcliff e outros, sobre a não con- 
vocação dos corpos legislativos por dous annos depois de outorgada 
a Constituição de 25 de Março de 1824, sobre os incidentes 
Cbicborro, em Taubaté, Itapagipe, na Bahia, e sobre as de- 
vassidões da cortezan Domitila, a messalina imperial. 

Veiu o 7 de Abril de 1831, cahiu D. Pedro, e os seus lisongei- 
ros de antes foram se alliar a Evaristo Veiga, para galgarem as po- 
sições de regente do Império e de ministro da Justiça e gosarem os 
proventos do novo regimen, assim como já tinham gosado os do 
regimen anterior, emquanto os Andradas, esquecidos das injustiças 
soffridas, da prisão e do degredo, acceitavam a tutela das imperiaes 
crianças, deixadas á mercê da revolução triumphante, e alistavam- 
se sob a bandeira dos vencidos. Pode ter sido um erro o que prati- 
caram ; porém o passo que deram foi muito mais nobre e cohe— 
rente do que o daquelles que saltaram por cima do abysmo do 7 de 
de Abril e de servidores de Pedro I, vencido, passaram a ser allia— 



— 59 — 

dos e agentes de Evaristo Veiga, vencedor. Foi só então que, se- 
parados pela intensidade dos ódios pessoaes e politico» do tempo, 
lembrou-se Feijó de 1 ançar mão do supplicio de CbaguinLas, como 
arma de guerra contra Martim Francisco, único dos Andradas que 
havia conseguido entrar na Gamara dos Deputados, eleito por Mi- 
nas Geraes, porque na representação paulista não havia logar para 
nenhum dos três illustres santistas, havendo-o, entretanto, para 
Costa Carvalho e Monteiro de Barros, extranhos á província. 

Affirma o cidadão E. K. que as execuções da pena de morte 
eram feitas nas primeiras horas do dia e accrescenta que era natu- 
ral que o governo, então composto de mais de dez membros presen- 
tes na capital, estivesse reunido durante o tempo do supplicio, ou 
que uma vez convocado, em virtude do primeiro rompimento da 
corda, não mais se debandasse até o final da execução. 

A primeira affirmaçào não tem fundamento: as execuções não 
eram feitas de manhã cedo porque eram publicas, o povo devia as- 
sistir a ellas e tomal-as pa ra seu escarmento, e para que o povo 
pudesse ir ao campo da forca convinha que a execução se desse em 
alto dia e não de manhã cedo, ou á madrugada. Havia antes até 
o costume dos capitã es-generaes, por bando ou decreto, obrigarem 
os povos, até as mulheres, a presenciarem o horrivel espectáculo. 
«Sem forca e sem missa não se governam os povos», era máxima dos 
capitães-generaes, e dahi vinha a obrigatoriedade da desobriga an- 
nual, das missas e da presença nas execuções da pena de morte por 
parte dos pobres governados. 

Com o correr do tempo os costumes foram se adoçando, porém 
o supplici o de Tiradentes e a exposição do seu corpo, dividido em 
quartos e decapitado, pela estrada de Minas Geraes e em Villa Bica» 
ainda nos dão uma idêa exacta do que era o regimen colonial trinta 
annos antes da independência. Com a vulgarização das idéas libe- 
raes, que vinham abalando as colónias hespanhola desde 1810, ces- 
sou a obrigação do povo assistir ás execuções, porem o espectáculo 
era ainda publico, afim de servir de licçâo aos povos. O próprio 
Governo Provisório assim o havia declarado, quando ordenou que, 
dos sediciosos de Santos, fossem lá enforcados os que eram filhos da 
costa do mar e que fossem traz idos para S. Paulo os naturaes de 
serra-acima. Aquelles foram suppliciados nas vergas do navio portu- 
guez ancorado no porto da villa, logar o mais publico possivel, 
por ser á vista de toda a praia, e estes foram executados na capital, 
no actual largo da Liberdade, que então era campo aberto e de fá- 
cil accesso. 

Se o supplicio de Chaguinhas e de Cotindíba devia ser publi- 
co por costume, por tradição e mais ainda por ordem expressa do 
próprio governo, para exemplo do povo, como ó que se pretende 



— 60 — 

que tivesse tido logar nas primeiras Loras do dia, quando a maior 
parte do })Ovo ainda es»tá em casa e muitos ainda estào na cama V 

O que nâo era natural é que o numeroso e heterogéneo pes- 
soal do Governo Provisório ee deixasse ficar reunido durante todo o 
tempo da execuçào. O facto em si era muito tinvial, e gente tào 
occupada e discorde em caracter e costumes, nào tendo motivos 
para Puppor que se iam dar tâo tristes incidentes, nâo tinha também 
motivo para se conservar reunida; nào era dia de í-essào, nào ha- 
via negocio a tratar e era natural que cada um estivesse na sua casa. 
Convocados os membros para resolver sobre o caso do romjúmento 
da corda, facto que nào era virgem, tanto que era costume com- 
mutar a sentença nesse caso, ficou resolvido que nào &e accedesse 
ao pedido do povo e que se procedesse a nova execuçào. Ninguém 
podia suppor que haveria novo rompimento da corda, que obrigasse 
a nova conferencia sobre a matéria e, portanto, nào era natural 
que se deixassem ficar reunidos os membros do governo á espera de 
alguma cousa que nào contavam que viesse . 

Analysemos a seguinte curiosa circumstancia : 

Os condemnados á pena de de morte eram dous : Chaguiuhas 
e Cotindiba. Para a execuçào deste ultimo encontrou-se logo 
corda forte, boa, de linho ou de embira, que o as])hyxiou sem demo- 
ra ; porém, para Chaguinhas já nào encontrou corda semelhante e 
foi empregada uma que rebentou logo com o seu peso. 

Kesolvido j)elo governo que se procedesse a nova execuçào, 
devia-se ter a cautela de escolher corda boa, nova e forte, que pres- 
tasse o serviço que delia se pretendia, ou se podia ter usado a mes- 
ma corda que tâo bom serviço fizera no supplicio de Cotindiba; 
porém nem uma nem outra cousa se fez e foi empregada corda 
nova e traiçoeira, que se rompeu como a primeira. 

Para a terceira tentativa de execuçào não se encontrou mais 
corda, ou porque as que havia nào eram de fiança, ou porque os 
vendeiros de S. Paulo, que as tinham, nào quizeram mais vendel- 
as ao governo, que teve de recorrer ao laço de couro, que mandou 
vir do Matadouro Publico ! 

Tudo isto é muito natural, segundo o cidadào E. R., e muito 
próprio da perversidade de Martim Francisco, e ainda para com- 
pletar a naturalidade do quadro apparece o testemunho de Feijó, 
que diz que o laço de couro nào asphyxiava o paciente tào depreg- 
sa como era para desejar, e, por isso, o carrasco, cortando o laço, 
deitou Chaguinhas no chào e alli deu cabo da sua desgraçada vida!! 

Devia estar satisfeita a sede de sangrue de Martim Francisco 
e de todos os bemardistas, seus companheiros de governo, que 
nunca mencionaram a circumstancia do carrasco cortar o laço e 
matar o condemnado no chào. Só Feijó foi quem descobriu esta 



— 61 — 

preciosidade bistorica, que Francisco Ignacio, Gomide e Ploes- 
quellec nào conheciam e que teriam procurado, com a candèa de 
Diógenes na mào, para que pudessem completar a lista das suas 
accusíiçòes contra José Bonifácio e Martim Faancisco- 

A expressão «o sangue dos inimigos é saboroso para beber-se 
de um só trago» vale apenas como amostra dos ódios do teuii)o e 
niguem pode affirmar que fosse inventada e praticada por Martim 
Francisco, que nunca mandou espingardear o povo inerme dentro 
de um theatro, nem trucidar prisioneiros que, em S. Christovam, 
de joelhos e de mãos postas, pediam misericórdia aos seus de- 
tentores. 

Hoje mesmo é muito commum ouvir-se da bocca de gente 
muito pacata e muito honrada a phrase «a vingança é o prazer dos 
deuses», quando, na mythologia, os deuses castigavam o crime e 
recompensavam a virtude», mas não se vingavam, e entre os chris- 
tàos os attributos de Deus podem ser condensados em dous — poder 
e misericórdia, Nào vai nestas phrases nenhum indicio de mal- 
dade da parte de quem as inventou ou as repete. 

Não houve recurso da sentença de moite contra alguns dos 
sediciosos de Santos, por ser esse, como o declarou o próprio Go- 
verno Provisório, um dos casos em que aquelle recurso era dispen- 
sevel, e como todos os bemardistas estiveram de accôrdo sobre essa 
dispensa, as censuras deviam começar pelos milit-ares bernardistas, 
que, por espirito de classe, ao menos, estavam na obrigação de fa- 
vorecer os collegas Chaguinhas, Gotindiba, Lontra, Ramos e outros. 

Suppôe ainda erradamente o cidadão E. R. que a Cruz do 
Enforcado, no meu entender, protege nào o corpo de Chaguinhas, 
mas um boneco. S . s . está enganado : aquella cruz não protege 
cousa alguma de natureza material, mas simplesmente perpetua a 
memoria daquelle mancebo. A cruz está no antigo campo aa forca, 
no logar onde existiu o patíbulo ; porém o cemitério não era alli e 
03 cadáveres, reaes ou artificiaes, dos enforcados eram sepultados em 
logar consagrado e não no campo da forca. 

Pretende o cidadão R. E. garantir que, naquelle tempo de 
ignorância e de absoluta falta de precauções medicas e policiaes, 
era impossível commetter a fraude, que chamei piedosa, de substi- 
tuir um boneco por um condemnado, mesmo quando a fraude fosse 
plauejada e dirigida pelo mais hábil e enérgico dos membros do 
Governo Provisório. 

Hoje, mesmo, quando temos uma policia relativamente bem 
organizada, uma directoria de hygiene activa e enérgica, dele- 
gados de hygiene por toda a parte, médicos illustres e muito 
viajados, officiaes de registro civil intelligentes e expertos, ze- 
losos administradores dos cemitérios e mil outros recursos que 
nào existiam em 1821-22, vimos a facilidade com que Francisco 



— G2 — 

Henrique Cerveira e outros reles gatunos burlaram todas as 
vigilâncias e sepultaram saccos de areia, como se fossem verda- 
deiros cadáveres humanos, para defraudarem as companhias de 
seguros em algumas centenas de contos de réis. Porque é que 
aquella gera^ào, ignorante e ingénua, de 1821-22, nào poderia 
ser enganada por um embuste, aliás piedoso e destinado a sal- 
var a vida de um homem ? 

A affirmaçHo de Feijó vai além da que diz a lenda, porque 
os «tristes episódios» são as varias fracturas das cordas do pa- 
tíbulo, as recusas do governo em conceder a commutação da 
pena e o uso do laço de couro em falta de corda commum. A 
historia do carrasco matar o paciento no chào é pura invenção 
de Feijó, porquanto nem Francisco Ignacio, nem Gomide, nem 
Ploesqu^llec, nem ninguém jamais se referiu a ella. 

lU 

No primeiro artigo de sua 2.' série, diz o cidadão E. R, 
que respeita a memoria de Martim Francisco e termina afiSr- 
mando a «sisudez e a austeridade do caracter deste illustre 
paulista». Esta tardia confissão vem, entretanto, a tempo para 
destruir os effeitos das amargas accusações anteriores, que estou 
refutando, e plenamente justificam as minhas asserções, porquanto 
esse mesma sisudez e austeridade de caracter excluem a possi- 
bilidade de ter elle praticado as perversidades referidas pelos 
seus inimigos e encampadas pelo articulista, e da expressão co 
sangue do inimigo é saboroso para beber-se de um só trago» 
retratar de qualquer modo a sua personalidade moral. 

Segue-se uma resenha do que nas sessões do Governo Pro- 
visório se passou cem relação ao processo dos sediciosos de Santos, 
em que ha eiTo de historia e hypotheses muito discutiveis. 
Nessa resenha vem o seguinte ; 

cSessão de 1."* de Setembro. — G.° Foi nomeada uma com- 
missão militar para examinar os conselhos de guerra que foram 
remettidos pela deputação de Santos: são membros o exmo. sr. 
vice-presidente (^lartim Francisco), o chefe de esquadra Miguel 
José de Oliveira Pinto e os coronéis António Leite Pereira da 
Gama Lobo e Francisco Ignacio de Souza Queiroz.» 

O nome contido no parenthesis deste trecho não está no 
original e foi aqui introduzido como explicação pelo auctor da 
resenha; entretanto, o vice-presidente do governo, nomeado 
para fazer parte da commissão militar referida, não era Martim 
Francisco, mas José Bonifácio, e na própria acta dessa sessão 
lô-se, bem impresso, <g^José Bonifácio de Andrada e Silva^ vice- 
presidente.» 



— 63 — 

José Bonifácio, emqnanto esteve em S. Paulo, foi o vice- 
presidente do Governo Provisório e assiçnava as actas com essa 
declaração; entretanto, na resenha das sessões foi introduzido, 
como enxerto e não sei com que fim, o nome de Martim Fran- 
cisco como occupante do cargo de vice-presidente, que nao era 
seu, e como membro de uma commissão militar para que nào 
fora nomeado ! 

Adeante se diz que o relatório feito poç esta commissão 
sobre os conselhos do guerra havidos em Santos foi remettido 
ao Principe Regente e que provavelmente foi baseado no estudo 
deste relatório e no parecer do Conselho Supremo que Feijó 
disse: «Note-se que o desgraçado de que falei foi julgado no 
Conselho Supremo não digno de morte, mas iá estava morto». 

Por todos os modos procuram os bemardistas e seus admirado- 
res atirar accusaçõos contra José Bonifácio e Martim, até fazendo- 
os, individualmente ou juntos, responsáveis por todos os actos maus 
ou violentos praticados pelo governo, com plena acquiescencia dos 
mesmos bemardistas, e dando a entender que José Bonifácio e Mar- 
tim faziam no governo tudo quanto queriam e os bemardistas não 
passavam de meros instrumentos nas suas mãos. 

Este systema de accusação não salva os bemardistas da res- 
ponsabilidade por esses actos e dá o direito de se formar delles um 
péssimo juizo. 

A commissão militar acima citada fez relatório sobre os con- 
selhos de guerra havidos era Santos ; sobre este relatório baseou o 
Conselho Supremo seu parecer, em que diz que Chaguinhas não 
merecia sentença de morte . 

Daqui se conclue que, se o Conselho Supremo, baseado no rela- 
tório da commissão militar, affirmou que Chaguinhas nào merecia a 
pena de morte, foi porque aquelle relatório obrigava a essa opi- 
nião. Era, portanto, favorável a Chaguinhas; porém, se os Andfra- 
das mandavam e os bemardistas não faziam mais do que obedecer, 
segue-se que o relatório exprimia a opinião de José Bonifácio e só 
por formalidade é que trazia a assignatura dos bemardistas Olivei- 
ra Pinto e Francisco Ignacio, membros também da commissão mi- 
litar que redigiu aquelle relatório. 

José Bonifácio, portanto, era contrario á morte de Chaguinhas 
na forca e não podia tel-o mandado executar de qualquer forma e 
muito menos nos termos em que nos conta o seu inimigo Feijó, 
annos depois. 

E' o caso agora de fazer a seguinte interrogação : — Seria pos- 
sível que José Bonifácio, hábil e instruído como era, porém mandão 
e desposta, como pretendem os seus inimigos, mandasse illegalmen- 



-- 64 — 

te eíiforcar Chaguinhas e depois viesse fazei* um relatório do qual 
se conchiisse que o condemnado nào merecia a pena que soffreu V 
Nào era possível, porque isso seria absurdo. 

Se Chaguinlias tivesse tido o j»rocesso revisto em tempo, veri- 
ficando-se em ultima instancia que elle nào merecia a pena capital, 
teria elle tido a sua pena commutada em carrinho perpetuo, que para 
um homem de ali^ini amor próprio era muito peior do que a pena de 
morte. Se tivesse escapado da forca, teria canido nas galés perjie- 
tuas, com ferros aos pés e ao pescoço e com trabalhos forçados nas 
estradas e nas minas, e nào seria beneficiar ao moço condemnado 
consentir nessa troca de uma pena violenta e injusta, mas momen- 
tânea, por uma outra ignominiosa e perpetua e pouco menos vio- 
lenta. 

Adeant^ vem a seguinte resenha de uma diis sessões : 
«S38SÀO de 27 de Fevereiro de 1822 — 10**. Deram-se por ex- 
tinctos os Conselhos de Guerra que se estavam fazendo por occa- 
siào do motim de Santos e foram perdoados os coitóos do mesmo 
delicto, ainda nào sentenciados, e mandados eneorporar ao seu re- 
gim3nto, assim como todos os destacamentos de caçadores, os quaes 
foram suppridos por milicias». 

Vem esta resenha acompanhada da seguinte observação : 
«Ainda em Fevereiro de 1822, depois de passados tantos mezes 
do motim, mostrava-se o governo rigoroso quanto aos novos senten- 
ciados, que já nào eram considerados cabeças do motim, os quae» 
já tinham sidos executados, como crôr-se que até entào tivesse sido 
exceptuado Chaguinhas, por escandalosa protecção?» 

Em primeiro logar, da resenha acima copiada nào se coUige 
que o governo tivesse sido rigoroso com pessoa alguma, nem que 
tivesse haviado outros condemnados, além dos que tinham sido jul- 
gados em Santos ; jielo contrario, todo o exposto vem confirmar que 
08 únicos condemnados foram os julgados em Santos por Lazaro 
Gonçalves e Miiller, Se houve rigor nas sentenças nào foi da par- 
te do governo, mas da p*irte daquelles dois coronéis, que condem- 
naram 7 á pena de morte e a trabalhos forçados 110. distribuídos 
em magotes de 5, 10, 15 e 20 pelas e^^tradas da província, minas 
de ferro e outras obras publicas. 

Pelos próprios documentos officiaes se evidencia que nào ha- 
via nenhum novo sentenciado e, portanto, a portaria de 11 de 
Maio de 1822 nào podia referir-se a sentenciados nào existentes. 
Perdoar nào é sentenciar e, tendo o governo perdoado a todos 
08 que nào estavam abrangidos nas condemnações de Santos, 
nào havia novos sentenciados a que se podesse appliear o dis- 
posto naquella portaria, que mandou executar os sentenciados 
pelo motim de Santos. 



— H5 — 

Em vez de nos dizer os nomes destes sentenciados, o cida- 
dÃo E. R. limita a sua observação ao seguinte : Justiçados em 
Santos 08 sentenciados, deviam ter sido egualmente justiçados 
em Paulo os que de Santos tinham sido remettidos para soifre- 
rem a pena na capital ; nunca mais a elles se referiu o gover- 
no». Estou de accordo que deviam ter sido jusliçados ; mas a 
questão n^o está em se «deviam ter sido justiçados», mas em se 
«de facto foram justiçados.» 

Nào é com argumentos fracos como este que se poderá de- 
cidir da veracidade de um facto contestado. Parece que mes- 
mo a afl&rmativa «deviam ter sido justiçados» é muito contestável 
porque, se deviam ter sido justiçados por estarem condemuados á 
morte, também n&o devia Ghaguinbas ter sido justiçado, porque 
não merecia a pena de morte, como se concluo do relatório de 
José Bonifácio e do parecer do Conselho Supremo. Exactamente 
destas circumstancias, mysteriosas umas e contradictorias outras, 
foi que se originou a lenda da fuga do Ghaguinhas, quc o cidad&o 
E.R. chamou ridicida e cujos fundamentos não tem conse- 
guido destruir. 

Temos a lenda só dependente da veracidade de Feijó, cuja 
sisttdez e austeridade de caracter são elevadas pelo cidadào E . R . 
á categoria de requisitos capazes de satisfazer ao mais escrupuloso 
historiador, como se um politico odiento, revolucionário, déspota, 
orthodoxo, pensador livre e incoberente, como foi o regente de 
1835 — 37 e o rebelde de 1842, nào pudesse errar, nem se enga- 
nar, e quaudo elle não era auctoridado para intervir na execução, 
nem medico para verificar o óbito do paciente, nem empreiteiro 
de enterros para lidar com o cadáver, nem zelador do cemitério 
para proceder ao enterramento. Era um espectador como tantos 
que lá estavam e não podia ver mais do que os outros, e nem é 
crivei que, se os factos se dessem como aifirmou Feijó, dez annos 
depois delles occorridos, Francisco Ignacio, Gomide e outros não 
os mencionassem nos seus violentos ataques contra os Andradas. 

IV 

No seu terceiro artigo da segunda serie, faz o cidadão E. R. 
uma recapitulação geral dos argumentos anteriores, na qual per- 
siste no erro histórico de dar Martim Francisco como vice-presi- 
dente do Governo Provisório e como membro da commissão mi- 
litar incumbida de relatar sobre os conselhos de guerra havidos 
em Santos, quando das próprias Actas doA Sessões está patente 
que tal cargo e incumbência pertenciam a José Bonifácio ! 

Vale a pena transcrever o seguinte longo período ; 



— 66 — 

«Se Cha^iiinlias nao foi, entào, executado em S. Paulo, o 
que ficou esperando, quando os seus companheiros já tinbam soffri— 
(lo a i)ena em Santos, e o groverno se tinha mostrado tào rigoroso 
e exi-^ente na immediata execução da sentença ? O tal aviso de 
11 de Maio de 1822 mostra que, ainda oito mezes depois das pri- 
meiras execuçòes, o governo não diminuiu o seu rigor contra to- 
dos 06 que tomaram parte no motim, e por todo esto te:i>po teria 
deixado eai olvido Chíiguinhas, tido como cabeça, que devia ser 
executado immediatamente dejiois da confirmação da sentença.» 

A primeira pergunta c respondida pela tradição ou pela lenda: 
«Ficou esperando uma opportunidade para escapar da forca, a 
que fora condemnado pelo bernardista Muller e pelo portuguez 
Lazaro (ronçalves, sem perigo de cahir no carrinho perpetuo, com 
ferros aos pés e ao pescoço, e trabalhos forçados nas obras publicas 
da província.» 

O aviso de 11 de Maio de 1822 n^o mostra rigor algum, da 
parte do governo, que nào estivesse sanccionado pelo julgamento 
do conselho de guerra. Este condemnou e o governo mandou 
executar a pena t nào se referiu o governo aos nomes destes con- 
demnados, como ní^o se referiu aos nomes dos outros enforcados 
em Santos, nem dos 110 sentenciados a carrinho perpetuo. Nào 
havia mais condemnados além destes, segundo se collige das 
Actas das Sessões ^ nas quaes se faz referencia a perdoar aos 
corréos e nao a condemnal-os. A lenda nega que Chaguinbas 
fosse enforcado, e as razões em que ella se funda para essa ne- 
gativa têm muita verosimilhança; aos que affirmam o contrario 
é que assiste a obrigação de provar que elle foi realmente en- 
forcado. «Quem atfirma tem a obrigação de provar>, é axioma 
juridico, applicavel á historia e á politica. 

O seguinte periodo da recapitulaçào é interessante pela sua 
ingenuidade : 

«Parece que a designação do mez de Maio, para a execu- 
ção de Chaguinbas, foi propositalmente escolhida ; na verdade, 
essa data tem a vantagem de offerecer os dias cui^tos e a prom- 
pta noite para favorecer a substituição de um homem por um 
boneco, segundo a lenda ; proporciona causa próxima para a 
bernarda de Francisco Ignacio e inutilisa, como falso, o testemu- 
nho de Feijó, porque, achando-se em Lisboa, não podia assistir 
ao supplicio em São Paulo.» 

Se o mez em que se deu a execução tivesse sido propositalnien" 
te escolhido, como pretende o cidadão E. R., não teria sido o de 
Maio, mas o de Junho, em que os dias são mais curtos, mais 
nevoentos, o as noites mais promptas, e do mesmo modo inutili- 
saria o testeumnho de Feijó, que só muito mais tarde voltou da 



— 67 — 

Europa. Todos os clironistas que so referem á bernarda dizem 
que ella teve como causa ou pretexto o supplicio de Chag^i- 
nhas, cujos «tristes episódios» encheram de indignação o coração 
popular e deram logar á explosão. Logo. o supplicio era recen- 
te, e ninguém, que conheça um pouco de historia, poderá se 
convencer de que a indignação popular ficasse incubada por 
tantos mezes, desde Setembro de 1S21, para vir explodir a 23 
de Maio do 1822. Nào ha exemplo nenhum na historia de uma 
tào longa gestação. Ou o supplicio de Chaguinhas era recente 
e deu origem á bernarda, ou esta não teve por causa a indigna- 
ção produzida pela sua execução, como pretendem os chronistas 
Machado de Oliveira e Paulo do Valle, contemporâneos do facto 
e conhecedores dos seus protogonistas. 

Para estes, assim como para Azevedo Marques, a indignação 
produzida pelo supplicio de Chaicuinhas foi a causa real, ou o 
verdadeiro pretexto, e o falso pretexto foi a chamada de João 
Carlos de Oeynhausen e de Costa Carvalho para o Rio de Ja- 
neiro. Este chamado era de 10 de Maio e devia ter chegado a 
S. Paulo entre os dias 15 de 20 do mesmo mez, porque a via- 
gem por terra do Rio a São Paulo era de 7 a 9 dias, tendo 
José Bonifácio partido de São Paulo a 2 de Janeiro e chegado 
ao Rio a 9, do anuo de 1822. Coincidiu assim a chegada da 
noticia dessa chamada com o supplicio de Chaguinhas, e dahi 
veiu uma excellente oecasião para dar ao movimento revolucioná- 
rio de 23 de Maio um apparencia de popularidade, que deitou 
na sombra o seu verdadeiro movei — o receio de perderem os re- 
trogados, com a sabida de João Carlos e de Co-ita Carvalho, as 
posições vantajosas que oceupavam na província. 

Está claro como a luz do dia que, para os paulistas em ge- 
ral e para os liberaes em particular, a sua situação melhorava 
com a retirada de João Carlos do governo, porque era extran- 
geiro e militar e seria substituído na cadeira da presidência por 
Martim Francisco, que era paulista e civil e estava mais identi- 
ficado com os verdadeiros interesses nacionai^s. Convinha, por- 
tanto, aos retrogados e aos extrangeiros eliminal-o do governo e 
mesmo lançal-o fora da província; para dar, porém, uma appa- 
rencia de popularidade ao movimento, era necessário interessar 
nelle o povo, e dahi veiu aproveitarem-se os bemardistas dos 
«tristes episódios» do supplicio de Chaguinhas para açular o ódio 
popular contra Martim Francisco e expulsal-o de São Paulo. 

Dos expositores históricos e da tradição não se concluo cousa 
alguma de modo certo e inconcusso, e dahi vêm as duvidas, que 
ainda hoje existem, sobre esse periodo da historia paulista. A pro- 
va do que affirmo está no próprio facto do cidadão E. R. nos dizer 



— 68 — 

qne «historiadores postbnmos» introduziram matéria nova nos fa- 
ctos occorridos em 1821-22, alterando assim a historia do tempo e 
difficultando o seu conhecimento . 

Entretanto, Machado de Oliveira e Paulo do Valle foram con- 
temporâneos dos factos e nfto escriptores posthumos, e os seus tes- 
temunhos valem pelo menos tanto como o de Feijó; portanto, se <> 
testemunho de Feijó, inimigo pessoal e politico dos Andradas, tem 
algum valor, por ser contemporâneo e ocular, também merecem 
res[)eito os testemunhos dos dous primeiros, porque foram paulistas, 
distinctos e contemporâneos dos factos. 

Estou de pleno accôrdo com o cidadão E. R. quando diz que 
«em um caso destes é claro que a prova directa só pôde ser fome— 
cida pelos autos do processo, ou certidões authenticas« ; porém, 
como nos faltam esses autos e certidões delles, íica-nos a liberdade* 
de escolher entre os testemunhos dos contemporâneos e dos «histo> 
riadores posthumos» aquelles que nos parecerem mais dignos de> 
consideração. 

Se em caso algum nâo podemos acceitar como inconcusso o> 
testemunho de um inimigo pessoal, muito menos podemos confiar 
na inteira veracidade dos discursos pronunciados no Parlamento* 
em tempo em que a arte tachygraphica era nova no Brasil e mui- 
to imperfeita. Lendo e transcrevendo o trecho do discurso de Fei- 
jó, relativo aos «tristes episódios» do supplicio de Chaguinhas, eu 
preferiria attribuir uma parte do que elle disse á infidelidade ta- 
chygraphica; porém, como elle ainda viveu muitos annos e nunca 
rectificou as suas asseverações, ficam aquellas palavras sendo a òét 
expressão do seu pensamento; e, neste caso, so resta á posteridade 
ajuizar do procedimento do homem que guarda silencio durante 
dez annos sobre um facto de tamanha gravidade, para só vir se 
expandir quando da sua publicidade pôde tirar partido contra uia 
8eu inimigo! 

Porém, neste caso, qualquer estudante da historia paulista tenv 
o direito de rejeitar o seu testemunho, como inteiramente eivade 
de suspeição e absolutamente inacceit^vel para base da verdadeira 
historia. 

V 

O ultimo artigo da segunda série começa por uma affirmação* 
que me parece contradictoria com outras anteriores; é a seguinte t 

«Realmente, nada conhecemos dessa luctA travada entre Jofto> 
Carlos e os Andradas, no governo provisório ; antes parece-nos que 
havia entre todos boa harmonia nas resoluções que tomava o mes-^ 
mo governo ; o estudo histórico exige factos e não apreciações ar- 
bitrarias e infundadas». 



Acabo de reler um curioso livro em que um brilhante escri- 
ptor analysa imr todas as suas faces um certo acontecimento de 
snmma gravidade e procura demonstrar que nào havia rnzào al- 
guma, motivo algum, para que o mesmo acontecimnto se desse. Po- 
rém, como nfto ha eflfeito sem causa, conclue-se da leitura do livro 
•que o facto nào podia ter tido logar; entretanto, o facto deu-se, 
estrondoso e completo, em contrario a todas as conclusões do illus- 
tre escriptor. 

Vem este exemplo ad rem para o caso da bernarda de 23 de 
Maio de 1822. Diz o cidadftn E. R. que nunca soube que houvesse 
discórdia no seio do Governo Provisório e que até lhe parece que 
reinava boa harmonia entre todos os seus membros nas resoluções 
que o governo tomava. Mas, deu-se a bernarda, Martim Francisco 
e o brigadeiro Jordão foram expulsos e os chefes do movimento 
foram Francisco Ignacio, Quartim, Múller, Joào Carlos, Oliveira 
Pinto — todos membros do harmonioso Governo Provisório e auxi- 
liados cá fora por Gosta Carvalho, Ferreira do Amaral, Pedro Ta- 
ques, Jayme Telles e outros já mencionados I 

Das Actas das Sessões n&o consta violência alguma prati- 
<»da por José Bonifácio e Martim Francisco e nellas nào se en- 
-contra protesto algum de bemardistas contra qualquer medida 
que cheirasse a andradismo ; daqui conclue o cidadão E. K. que 
no seio do governo reinava a mais santa paz. Porém é s. s. 
mesmo quem nega a existência dessa pretensa harmonia, quando 
confessa que houve o movimento sediciosí^ de 23 de Maio de 
1822, que Martim e Jordão foram expulsos do governo e que o 
primeiro destes paulistas até foi remettido preso para o Rio de 
Janeiro ! 

De facto, lucta corporal, de braço a braço, de tapas e bofe- 
tões, como aquella que se diz ter havido entre dous regentes do 
Império e que obrigou um delles a retirar-se para S. Paulo, 
nunca houve no seio do Governo Provisório ; porém havia entre 
os membros daquella heterogénea corporação discórdias mal ve- 
ladas, profundos resentimentos e ciúmes mal incobertos, a que 
muitos cbronistas se referem e que foram mencionados por mim 
nas pags. 69, 70 e 71 do volume Y da Revista do Instituto His- 
tórico de S. Paulo. 

Parece-me que o cidadão E. R. não quiz se dar ao trabalho 
de consultar os cbronistas que citei, porque, se o tivesse feito, 
teria verificado que Américo Brasiliense, nas suas Lições de 
Historia Pátria^ diz que «com a ida de José Bonifácio para o 
Rio de Janeiro, ficou João Carlos de Oeynhaosen com mais li- 
berdade de acção e que, para manter a influencia portugaeza, sd 
precisava da eliminação de Martim Francisco». 



— 70 — 

Qnerem mais claro? 

Verificaria mais que Pereira da Silva diz que João Carlos 
e Costa Carvalho eram alliados da oppf)S?ção fluminense contra 
José Bonifácio, ao que eu accrescento, muito logicamente, que 
neste caso nao })odiam estar de harmonia com Martim Francisco 
em São Paulo. Realmente, nincruem poderá crer que João Carlos 
fosse solidário com a opposição que no Eio se fazia a José Bo- 
nifácio, ministro, e que em São Paulo estivesse de accôrdo com 
jis id('as e politica de Martim Francisco, irmão e «'cnro de José 
Bonifácio e com elle estreitamente ligado por todas as formas. 

Verificaria, mais, que Lopes de Moura diz que D. Pedro 
veiu a São Paulo por causa das desavenças en+re João Carlos e 
^ familia Andrada; que Armitage, historiador inteiramíuite in- 
suspeito, affirma que ^lartim Francisco foi deposto do f::;overno e 
expulso de São Paulo por desavenças com João Carlos c que 
Abreu e Lima conta que a vinda de D. Pedro a São Paulo 
foi devida ás dissensões occorridas entre o presidente da junta 
gt)vernista (João Carlos) e Martim Francisco. 

Verificaria ainda que Mello Moraes, na sua Ilhioría do Bra- 
,sil, avança que Francisco Ic^nacio de Souza Queiroz e Costa 
Carvalho minavam os ânimos com insidiosas insinuações o airita- 
ram os espirites, por serem representantes do partido rctrogado, 
ao que accrescento, muito logicamente que, se elles eram che- 
fes dos reaccionários e inimigos politicos de José Bonifácio e de 
Martim Francisco, segue-se que estes últimos eram membros ou 
chefes do partido brasileiro ou progressista. 

As opiniões de Machado de Oliveira e de Paulo do Valle 
estão de accôrdo com as acimas citadas e não as reproduzo para 
não me alongar e porque, não obstante serem ambos contempo- 
râneos dos factos, parece-me que a elles é que foi applicado o 
appellido de «historiadores posthumos», que introduziram na his- 
toria do tempo factos phantasiados para alliviar a memoria dos 
Andradas de merecidas arguições. 

Ora, tendo eu, nos meus modestos artigos publicados no vo- 
lume V da mencionada Revista^ citado nominalmente estes escri- 
ptores, que affimiam a existência de profunda desharmonia entre 
João Carlos e os Andradas, vem o cidadão E. R. declarar que 
nSo lhe consta que houvesse discórdia entre os membros do Go- 
verno Provisório e que até lhe parecia que reinava boa paz na 
seio daquella corporação ; de que se segue que s. s. não consul- 
tou os escriptores citados e, portanto, não tem o direito de di- 
zer que estou fazendo apreciações arbitrarias c infundadas ; pelo 
contrario, não tendo s. s. procurado nem ao menos indagar o que 
sobre esta matéria disseram chronistas conhecidos, como Armi- 



— 71 — 

tage, Abreu e Linica, Américo Brasiliense e outros, está avan- 
çando sobre a pretensa harmonia na direcção do governo juizos 
exclusivamente seus, arbitrários e infundados. 

E assim se escreve a historia ! 

Adeante, diz o cidíidáo E. R. que «Joilo Carlos era de caracter 
sincero, mais bondoso do que pusilhmime» e que«nâo lhe faltavam 
intelliiToncia, actividade e dedicaçí\o para prestar muito bons ser- 
viços ao nosso j)aiz, como j>rova a eleição para senador, em 182G, 
por Ceará, Matto Grosso e S. Paulo, isto é, por todas as ])rovincias 
onde tinha servido como governador». 

Eu nào disse que Joáo Carlos nHo tinha intelligencia, instru- 
cçSo e actividade para prestar serviços, mas affirmei que as admi- 
nistrações relativamente moderadas que elle tinha realizado ha- 
viam-n'o feito estimado dos ])OVOS que governou. Sei mesmo que 
o viajante Saint-Hilaire, que o conheceu em B. Paulo, aíliinia que 
elle era activo, que falava bem o francez e mostrava jiossnir in- 
strucçào e, finalmente, que em S. Paulo elle introduziu a ordom na 
administração, melhorando o seu pessoal e supprimindo avagabun- 
dnirom. Se as suas administrações, em si mesmas, nílo foram más, 
ellns pareceram excellentes aos seus administrados, quando elle, 
mais tarde, foi substituido por outros delegados reaes, da ordem do 
])erverso ^lagessi de Carvalho, que fizeram a desgi*aça dos povos que 
governaram. 

A sua eleição para senador pelo Ceará e Matto Grosso foi uma 
justa prova do amor e gratidfto aos povos pelos bons serviços que 
lhes prestou. Em S. Paulo, porém, a sua posiçSo era muito di- 
versa e o tempo em que aqui esteve era muito differente do;^ cor- 
respondentes no Ceará e Matto Grosso. Tudo foi bem aiê 1821, 
anuo em que aqui cessou o puro regimen colonial, que vinha infe- 
licitando S. Paulo desde 1720. O Brasil era ainda uma colónia do 
Portugal, porém estava jurado um projecto de Constituição que já 
não permittia o governo de baraço o cutello, até entílo posto em 
pratica pelos capitães-generaes. 

Começado o movimento liberal, tinha JoSo Carlos dous cami- 
nhos a seguir: combater aquelle movimento e, vencido, retirar-se 
da provincia, ou pôr-se francamente á sua frente, como fez o seu 
collega de Goyaz, dominar e dirigir 03 acontecimentos, de modo 
que resultassem em alguma cousa proveitosa para a ordem e a li- 
berdade ; porém n^o fez nem uma nem outra cousa. O movimento 
do 28 de Junho de 1821 foi uma verdadeira revolução, cajntaneada 
por dous moços inexperientes ; sahiram á rua o povo e a força ar- 
mada, que tomaram conta da cidade, e o governador, que tinha 
obrigaçáo de agir de forma a suffocar ou dirigir o movimento, dei- 
xou-se ficar em casa, inerte como um mulsumano a esperar o 



l 



— 72 — 

desdobramento dos factos, que teriam tomado outro curso muito 
diverso se José Bonifácio, que estava na cidade, nâo tivesse sido 
opportunamente chamado pelos próprios revolucionários para to- 
mar a sua direcçào e assumir a sua responsabilidade. 

Nos Apontamenros Históricos, pags. 272 — 273, vem uma 
narrativa destes factos, a qual diz Azevedo Marques que foi es- 
cripta por uma testemunha ocular insuspeita ; por ella se vê o 
apel decisivo que José Bonifácio representou na occasiào, a 
irecçào que deu ao movimento, o esquecimento dos ódios que 
recommendou e a qualidade do governo que fez acclamar. E 
Joào Carlos em tudo primou pela ausência, sendo elle o {gover- 
nador da capitania e directamente responsável pela sua ordem e 
tranquillidaae ! 

E isto nâo era pusillanimidade ! 

Ainda mais: quando alguns cidadftos presentes á acclama- 
ção declararam que nâo queriam que fizessem parte do novo 
governo caquelles que até agora têm sido nossos op]>ressore8» e 
tentaram personalizar, foi ainda José Bonifácio quem atalhou 
este começo de discórdia, dizendo : Senhores, este deve ser o dia 
da recfmciliação geral entre todos. Desappareçam ódios, inimizades 
e peixões. A pátria seja a nossa única mira. Oonipletenu/s a obra 
da nossa regeneração, etc. 

Joào Carlos só deixou o seu musulmanismo quando viu que 
estava passado o perigo e que vinham buscai -o para ir á Ca- 
mará Municipal prestar novo juramento como membro do go- 
verno acclamado pelos revolucionários, cuja legalidade elle nào 
tinha o direito de reconhecer officialmente sem ordem expressa 
do Principe Regente. Nào teve a coragem precisa para com- 
bater a revolução, nem para pôr-se á sua frente, nem para recu- 
sar ao novo governo o reconhecimento official ant^ís que tivesse 
ordem superior para isso ; foi joguete dos acontecimentos, que nào 
combateu, nem auxiliou. E nào era pusillanime! 

Faz o cidadào E. R. grande cabedal da renuncia que Joào 
Carlos se propuzera a fazer, em beneficio dos cofres públicos, da 
quantia de 4:800$000 que recebia como presidente do Governo 
Provisório, julgando que isto prova os seus bons sentimentos e a 
sincera acceitaçào da sua parte da nova ordem de cousas. 

Analysemos o mérito destas affirmaçoes : 

Essa quantia representa o ordenado que tinham os capitàes- 
generaes de S. Paulo, que variou entre 8.000 e 12.000 cruzados 
por anno, desde 1710. Deposto Joào Carlos, a 23 de Junho de 
1821, do cargo de capitào-general e eleito, com mais quatorze com- 
panheiros, membro de um governo revolucionário, nào tinha eíle 
mais direito algum a esses ordenados, assim como nào tinham sub- 



— 73 — 

1 sidio 08 seiís collegos do Governo Provisório; portanto, elle nftofez 

^ mais do que uma restituição daquillo que tinha illegalmente rece- 

bido. Era uma questão de mera honestidade pecuniária: quem 
restitue aquillo que não é legalmente seu cumpre simplesmente um 
dever e isso não prova de modo algum que elle tivesse com since- 
ridade acceitado a nova ordem de cousas politicas estabelecida na 
previne ia. 

O seu patriotismo era mais que duvidoso, porque o Brasil n&o 
^ era a sua pátria ; aqui esteve em boas coramissões e em bons em- 

pregos, emquanto lhe conveiu, e nos deixou para sempre, afim de 
acompanhar Pedro I depois do 7 de Abril . Tinha mais amor a D. 
Pedro e a Portugal do que ao Brasil e aos brasileiros. 

16—1—902. A.dbTolbdoPiza. 



A bernarda de Francisco Ignaclo 



I 

A' critica do dr. António de Toledo Piza sobre o nosso escripto 
bem quizeramos fazer só as considerações que ncs parecesse interes- 
sarem propriamente ao acontecimento de 23 de Maio, tendo sido 
esse o assumpto do nosso estudo ; pedimos, porém, permissão para 
alf^umas declarações e rectificações. 

Nunca necfámos que os estudos bistorico-politicos publicados 
no Correio Paulistano^ em 187Í), ou em 1880, e reunidos em folLeto, 
eram de nossa responsabilidade, aliás era isto sabido; o facto de sub- 
screvel-o, com as iniciaes E. R., das quaes costumávamos e continu- 
amos a usar, tem explicação simples : a nossa assiíçnatura nâo dava 
auctoridade para a a})reciaçào desses modestos estudos, e sem ella 
ficavam só os factos para serem acceitos ou contestados ; havia ainda 
uma razão especiaí, que o dr. Piza relevou, o nome próprio acoima- 
ria os artií}^os de suspeitos, posto que procurando cingimos a factos 
e documentos incontestáveis, nenhuma suspeição podia advir pelo 
parentesco com o coronel Francisco Ip^nacio, e quando justamente 
por esse parentesco é que estávamos habilitados a restabelecer a 
verdade pelos documentos que publicariamos ; e, se assim não ó, to- 
das as memorias escriptas por homens políticos, ou publicadas pelos 
parentes e successores, trazem o cunho da suspeição, quando em 
verdade ellas explicam muitas cousas; as cartas de Francisco Tgna- 
cio constituem memorias escriptas, por assim dizer, dia a dia, á pro- 
porção que se davam os acontecimentos, e o seu modo de apre- 
cial-09; elle se referia sempre a factos públicos e a nomes conhe- 
cidos ; para ser contestado não basta lhe ser lançada a suspeição 
,c:eral, só por se ter tomado desafíeiçoado dos Andradas, depois do 
23 de Maio; c preciso que sejam negados os factos, e que as suas 
proposições não estejam corroboradas por outras idênticas de con- 
temporâneos auctorisados, ou por actos officiaes que accordam com 
ellas. 

As cartas publicadas precedem a seguinte declaração : 



— 75 — 

« Damos a publicidade uma collecçao de cartas escriptas pelo 
coronel Francisco Ignacio, pelas quaes ficará bem conhecido o 
inommento do espirito publico na província de São Paulo, nos pri- 
meiros annos da nossa independência, especialmente em relaçtlo á 
família Andrada.» 

Como se ve, ellas serviriam para esclarecimento. Nesses estu- 
dos uão tratávamos, nem agora tratamos de accu^ar os An d radas ; 
mas expor o que bavia a seu respeito . Se para a defesa do coronel 
Francisco lí^nacio referímo-nos a opiniões contrarias aos Andradas, 
e ao seu liberalismo, muito contestado pelos contemporâneos e pelo 
estudo d/)s seus actos, foi por serem intimamente ligadas a ella ; 
essas opiniões e conceitos sâo de auctoridades contemporâneas que, 
melhor do que nós, conheciam as cousas e as pessoas do tempo, e 
podiam, entào, com mais acerto e verdade, ser contestadas ; em 
historia não podemos tudo negar só por amor a uma opinião forma 
da e preestabelecida . 

Quando publicámos esses estudos, ha vinte annos, nesta capi 
tal, eram vivos os respeitáveis conselheiros Martim Francisco e 
José Bonifácio, filhos do velho José Bonifácio, e ainda existiam em 
São Paulo muitas e conhecidas testemunhas contemporâneas do 
facto ; nenhuma contestação appareceu, e entào muito fáceis seriam 
as averiguações ; acreditávamos, entiio, e ainda hoje temos con- 
vicçílo, que, á parte a virulência justificável de alguns conceitos os 
factos eram e são incontestáveis ; as cartas, pois, sào fidedignas. 

Sobre a inserção do artigo do dr. Paulo do Valle, que, aliás, 
como declara o dr. Piza, não é delle, pertencendo-lhe apenas um 
rascunho, feito ás ligeiras, cheio de emendas, entrelinhas e bor- 
rões (1) não foi o nosso reparo ser publicado um artigo histórico 
eui uma revista histórica, mas vir colleccionado nas columnas do 
Archivo do Estado de Sâo Paião, coUecção de documentos officiaes, 
tirados do archivo do Estado, uma exposição parcial e apaixonada 
sobre um facto histórico, só para robustecer opiniões erróneas ou 
contrarias á realidade, quando taes documentos officiaes, publicados 
á custa do thesouro, são offerecidos para conhecimento e estudo de 
todos, sem insinuações ou prevenções. 

* 
* * 



(1> Em aviso &o leitor, escroven o dr* Piza; «Gotre os mannscriptos ileixados pelo 
fAlIecido dr. Paulo do Vallo, lente de Rhctorica na Academia de 8. Paulo, foi encontrado 
«m resumo histórico dos tamnltos havidos nesta capital em 23 de Maio de 1822, a qne 
o povo dea o nome de— A bernarda de ií^ancisco Tgnacio. Como historia dos aconteci- 
mentos desse dia, o escripto é mnito incompleto, nfto expõe as causas qne deram origem 
á bernarda, nem o estado do espirito pnblico na occaslfto, nilo dá conta do todos os 
personagens qne nelle figuraram, nom diz o qne foi feito dos conspiradores. 

Public, off, de Dce. inttres, para a kisf. § coUum, de S, PaitJo, 



— 76 - 

Analysando a correspondência de Francisco Ignacio, parece- 
nos n?io ter sido bem interpretada pelo dr. Piza nm trecho da carta 
de 1 de Julho, por muito ligeira leitura e antecipa^jfto do espirito. 

Eis o que ella diz : «Appareceu, entretanto, uma pequena 
noticia de que o batalhão de caçadores tentava depor do governo 
esses dous intrusos, immediatamente sou chamado para conter esta 
desordem que ia apparecer; então era eu um dos mais honrados e 
beneméritos do governo, porque elles julgaram depender de mira a 
sua conservação no governo, para o que tanto haviam trabalhado. 

cFiz quanto esteve da minha parte, empenhei meus amigos a 
favor desses ingratos, e consegui, do que bem me arrependo, que 
tudo se desvanecesse; estes dous homens, esquecidos de que me 
devem a sua presente elevação, pois que os conservei no governo 
contra a vontade dos habitantes desta cidade, acabam de pagai^me 
esse serviço com a portaria de 21 de Maio, que remetto por copia, 
na qual se ordena que me recolha a essa corte, sendo talvez o meu 
crime a condescendência que tive com elles, ou o não terem podido 
obter a nomeação de Joaquim Mariano Galvão para governador das 
armas, e pagar deste nwdo o sermço que acabava de prestar a 
Martim, íiando-lhe vinte escravos a 120$0(X) cada um e por 6 
annos.» 

E' claro que Francisco Ignacio aqui não diz que a primitiva 
elevação dos Andradas lhe era devida, mas que considerava os 
esforços que fizera para a sua conservação no governo como uma 
nova ou a sua presente elevação. 

EUe não escreveu egualmente que Martim quizera pagar uma 
fiança de 2:400^000 ao brigadeiro Galvão, com a sua nomeação 
para governador das armas da província, mas sim que o seu crime 
para ser deportado foi a sua condescendência com os Andradas, ou 
por não ter podido Martim nomear o brigadeiro Galvão para go- 
vernador das armas, ou ainda que com a tal portaria, de 21 de 
Maio, pagaram o serviço que elle, Francisco Ignacio, acabava de 
prestar a Martim, vendendo-lhe, fiados por 6 annos, vinte escravoft 
a 120$000cadaum. 

Neste trecho nada ha que possa offender a honestidade ou ho- 
norabilidade de alguém : apenas elle demonstra as boas relações 
que, até então, existiam entre Martim e Francisco Ignacio, pois que 
faziam negócios desta natureza, e isto nas proximidades ae 23 de 
Maio, como se deprehende das expressões — acabava de prestar. 

Relativamente á escolha que, diz o dr. Piza, fôra feita por José 
Bonifácio, não passou de uma indicação de nomes, confirmada pelo 
povo da capital ; note^se que não era esta a eleição para a creação 
dos governos provinciaes, segundo a lei das Cortes, 3 por isso disse 
Feijó : € Ehi conheço estes homens desde que se arrogaram o go-- 



— 77 — 

vemo de S. Paulo, digo que se arrogaram, porque a provinda nào 
os nomeou ; » por isao e mais pelo que dissera na carta referida nfto 
é de extranhar que Francisco Ignacio os chamasse de intrusos ; 
para essa indicaçào alguns nomes se impunham para membros do 
governo, os coronéis Lazaro José Gonçalves, António T^eite Perei- 
ra da Gama Lobo e Francisco Ignacio de Souza Queiroz» com man- 
dantes das tropas, aue mandaram a José Bonifácio a deputação de 
três eapitàes convidal-o para presidir á eleiç&o, trocando José Bo- 
nifácio, na occasiào, a funcção de presidente da eleição pelo de ar^ 
bitro indicador de nomes ; assim sendo, poder-se-á dizer que José 
Bonifácio dera alguma posiçào ou elevaçào a Francisco Iprnacio ? 
Não fossem esses três militares, ter-se-ia dado a proclamação do 
Governo Provisório, como foi feita ? 

Quanto a receber José Bonifácio o seu ordenado como ministro 
é a cousa mais natural ; o que Francisco Ignacio notava é que, 
além desse ordenado, elle accumulasse vencimentos no valor de 
2:4005000, de logares que nào servia, o que era illegal ; diz o dr. 
Piza que no folheto nào encontra a prova, posto que Francisco 
Ignacio declara que isto se pôde provar; prolixas seriam as coitcs- 
pondencias, se a ellas tivessem de acompanhar provas e justifica- 
ções do que se escrevesse; felizmente, ha recurso para ocaso, a 
prova do ordenado de ministro é fácil ter-se certidão do thesouro 
nacional, a do subsidio de outras emprezas, na 4.* serie do nosso 
folheto, pag. 64, está transcripto o seguinte trecho de Borges Car- 
neiro, nas Cortes, sessão de 30 de Outubro de 1821, referido pelo 
visconde de Cayrú, na sua Historia do Brasil : 

« Sou informado de que o dr. José Bonifácio de Andrada, ha 
muito tempo ausente no Brasil, recebe annualmente de ordenado 
cousa de doze mil cruzados (4:800$000) de officios públicos que tem 
neste reino, como, por exemplo, de inspector de encanamento do 
Mondego, de inspector geral das minas, de lente de metallurgia, 
etc., etc. Ter muitos offleios e não servir nenhum, tel-os em Portu- 
gal e estar no Brasil, e fazerem-se taes remessas de dinheiro para o 
pais onde elle nasceu, são cousas que não entendo. 

«O dinheiro publico é muito precioso para se desperdiçar. Or- 
nados são tributos impostos á nação, não sei que se possa impor tri- 
hotos para semelhante fins . Proponho, portanto, se diga ao go- 
verno que, emquanto o dito dr. Andrada não vier efectivamente 
para o reino servir os seus officios, mande suspender-lhe seus paga- 
mentos, a excepção dos que lhe tocarem por jubilação, ou aposenta- 
doria.» Estes ordenados constam ainda da acta do Goverho Provi- 
sório de S. Paulo, de 22 de Setembro de 1821. Accreditamos que 
é a taes empregos quo se i*eferia Francisco Ignacio, e eram pagos 
em S. Paulo, nào sabendo nós se José Bonifácio era subsidiado por 



— 78 — 

outros na província, e se os membros do Governo Provisório tinham 
ordenado. 

Que isto era illegal, o próprio José Bonifácio declarou, pouco 
dias antes da data da carta, pelo decreto de 18 de Junho de 1822. 
« Nào tendo sido bastantes as repetidas determinações ordenadas 
pelos senhores reis destes reinos, na carta regia do 6 de Maio de 
1623, no alvará de 1608 e mais ordens regias concordantes com elles 
pelos quaes se prohibe que seja reunido, em uma só pessoa, mais de 
um officio ou emprego, e vença m^iis de um ordenado ... c acontecen- 
do ao mesmo tempo qne alguns desses empregados ou funccionarioa 
públicos, occupando os ditos empregos ou officios, recebem ordena- 
dos por aquelles mesmos que nào existam, etc. Hei por bem e com o 
parecer do meu Conselho de Estado, excitar a inteira observância 
das sobreditas determinações, etc», 

n 

Relativamente aos insultos a que se expoz o marechal Cân- 
dido Xavier de Almeida, em S. Paulo, e aos que soffreu o coro- 
nel Macedo, em Ytú, sào cousas que só podem ser referidas em 
cartas intimas, ou narrativas episódicas de acontecimentos ; não 
devemos sobre ella nos demorar, por serem filhas de odiosidades 
de momento, sem importância para a historia; isto posto, sempre 
observaremos que em Ytú, segundo diz o dr. Piza, fora apedrejado 
um simples emissário ou enviado do governo legal, e em S. 
Paulo apenas ameaçado (qual mais baixo e reprovado insulto ?) o 
commandante de uma força municiada que, por intrucçôes recebi- 
das do Rio de Janeiro, sendo ministro José Bonifácio, tinha a 
disposição de atacar a cidade, senão depor o próprio governo. 

Já que tocamos neste ponto, bom é que fique esclarecido; 
elle interessa o nosso estudo. 

Lê-se na acta da sessão permanente, começada a 29 de Maio 
e encerrada a 17 de Agosto de 1822 : (1) 30.** Soube o governo 



(l) Para melhor conhecimento do facto apresentamos em reiamos os Itens anteriores, 
pedindo attençfto para as daUs : 1>^.<> marechal Aionche foi nomeado go remador 
interino das armas da provind», por d creto de IO de Maio qne elle commnnlcoo de 
Tanbaté por efficio de 6 de Jnnho eo governo respondeu a 11. 

16,0 Novamente a elle orflcion o governo a 15. 

17.0 marechal deliberou voltar para o Rio e pedia licença ao governo ,este a con- 
cedeu e communicou ao príncipe. 

19.« Em oníoio de despedida, remetteu Aronohe cartas regias, e disto deu o governo 
parte ao princ'pe* 

25. « Aroucbe. vindo de B. José a 16 de Jnlho, entregou a carta regia de 25 de Jnnho, 
na qual de novo era ordenada a sabida de Jofto Carlos e Costa Carvalho. (Koi prompta> 
mente cumprida). 

28. « A 15 d* Julho cnmprin-se o decreto de 21 de Junho, que despachou o marechal 
Cândido para governador d» praça de Santos. 

29. o A 16 de Julho, cumprindo a carta regia que nomeou Arouche governador daa 
armas da provinda, doslgnou-se para a po«te o dia 20, o qne se sutpondeu por ter 
feito a 19 o marechal Cândido a sua marcha sobre a capital* 



— 79 — 

no dia 19 (de Julho), das 7 para 8 horas da noite, por parte 
que deu o senhor coronel Francisco Ignacío de Souza Queiroz, 
commandante da força armada, que concorria o povo armado ao 
quartel, em consequência de se haver espalhado noticia de que o 
marechal Cândido Xavier de Almeida e Souza, governador da 
viUa e praça de Santos, marchava com um corpo de tropas e 4 
peças de artilharia para a cidade. 

Pouco depois, chegou a parte do commandante de S. Bernardo 
de que na Ponte Alta estava uma guarda avançada da tropa 
do marechal, que embaraçava a commnicaçâo das pessoas que vi- 
nham daquella villa para esta cidade, e depois disso foi apresen- 
tado, pelo brigadeiro Francisco António de Paula Nogneira da 
Gama, o tenente-conel de milicias reformado Joaquim Aranha 
Barreto, o qual apresentou o officio do marechal Cândido Xavier 
datado de Santos a 17 do coiTcnte, no qual dava parte da sua 
marcha, com a qual noticia mais se amotinaram o povo e a 
tropa, concorrendo em maior numero, armados, ao quartel. 

O governo que, aos primeiros avisos, se apresentou no quar- 
tel, encarregou a boa ordem delle ao sr. coronel Francisco Ignacio 
de Souza Queiroz, o que este desempenhou com toda a energia: 
fez partir para o caminho de Santos o sr. coronel do real corpo 
de engenheiro, Daniel Pedro Múller, membro do governo com 
o brigadeiro dito Francisco António de Paula Nogueira e um 
ajudante de ordens, acompanhado de official, no qual se exigia 
que a tropa fizesse alto ; e leu-se uma proclamação no quartel, 
com o fim de aquietar o tumulto, o que se conseguiu, náo queren- 
do, porém, ninguém deixar as armas, emquanto nào obtivessem 
certeza da retirada daquella tropa. 

31.** A tropa e o povo conservaram-se em socego toda a 
noite, mas armados, dizendo que eram leaes e não necessitavam 
de tropas extranhas para os obrigarem a observar as ordens de Sua 
Alteza Beal, e que isto seria uma nódoa na sua reputação; e 
no dia 20, vendo que tardava a resposta da deputação, quiz ir 
livral-a, na persuação de que estava presa, o que foi obstado 
pelo governo, mandando outro ajudante de ordens ao encontro 
da mesma, e novamente recommendando que a tropa de Santos 
fizesse alto, e que o marechal viesse á cidade, o que se effec- 
tuou no dia 21, á noite. 

32."* Comparecendo o marechal Cândido Xavier de Almei- 
da e Souza, na presença do governo assentou que não podia 
resolver sobre a diligencia de que vinha encarregado por S. A. 
R. (pela portaria de 23 de Julho, do próprio punho do excel- 
lentissimo senhor marechal Joaquim de Oliveira Alvares, secre- 
tario de Estado da guerra, da qual ficou copia na secretaria do 



- 80 — 

governo) sem ser egnalmente presente o marechal José Arouche 
de Toledo Rendon, de accordo com o qual devia obrar; e cha- 
mado este, se concordou na retirada das tropas, vinto teretn-íte 
cumprido ast ordens de S. A. R. apenas apresentadas ^ do que se 
lavrou o competente termo, e se mandaram copias a todas as 
yillas, aílm de pacificar os ânimos, que deviam inquietar-se com 
as noticias mandadas desta cidade ; logo que no dia 22, de tar- 
de, chegou parte de que as tropas de Santos, em consequência 
dos .avisos do marechal Cândido Xavier, se tinham retirado, 
principiou também a destroçar o povo e tropa, que se achavam 
no quartel. 

33." E no dia 23 de Julho, quando o governo ia tratar de 
dar posse ao marechal José Arouche de Toledo, do governo in- 
terino das armas, apesar de requerer a mesma tropa e povo que 
n&o convinham em se lhe dar, recebeu o governo um officio do 
predito marechal que desistia de a tomar, não obtante o qual 
ordenou-lhe o governo viesse empossar-se do posto que S. A. R. 
lhe conferia, ou assignar termo de sua livre e espontânea de- 
sistência, o que elle executou em o dia 24, declarando que acha- 
va conveniente e mesmo necessário nas actuaes circumstancias 
deixar de tomar a dita posse, e por isso assi>rnou com o gover- 
no o termo da sua desistência, desonerando o governo da res- 
ponsabilidade de lh'a n&o ter dado. Então se retirou toda a 
tropa que se havia unido ao destacamento da cidade ; e também 
por chegar noticia de que a de Santos tinha embarcado no 
porto do Cuba tão. 

34.'' Chegando noticia a este governo, no dia 26, de que 
a Camará de Ytú, esplanando noticias vagas e mal fundamen- 
tadas, de que reinava anarchia nesta cidade, ordenava aos com- 
mandantes de milícias que retivessem as praças de milícias, que 
deviam destacar para esta cidade, no mez próximo foturo, o go- 
verno expediu logo, sobre este objecto, officios que providencias- 
sem medida tão arbitraria e incompetente, enviando para este 
fim áquella villa o sargento-mór do regimento de sartanejos, 
Francisco de Paula Macedo, 

(Observação. E^te é o emissário que o dr. Piza diz fora 
apedrejado ; elle ia cumprindo uma ordem do governo legal e 
para objecto de ordem publica. 

Recordemos também que foi por esta occasião, em vereança 
de 31 de julho, na capital, que se reuniram cidadãos de todas 
as classes e representaram á Camará mandasse á Corte do Rio 
uma deputação de 6 membros, dous por parte da tropa, dons 
pelo corpo ecclesiastico e dous pelo commercio, representar a 
8. A. R« que esta província estava em paz e não submergida 



— si- 
na atiarehia, como talvez estivesse mal intormado o mesmo Se- 
nhor por pessoas mal affeetas á mesma província e inimi«j;as ás^ 
boa ordem, rogando ao mesmo tempo que suspendesse quaesquer 
medidas hostis sobre ella, supplicandt) com toda a energia que 
pessoalmente viesse conhecer os corações âeis dos paulistas ; e 
que, egualmente, a Camará oficiasse ao governo provisório no 
«eutido de obstar a retirada de S. Paulo do coronel Francisco 
Ignacío, em quem todos confiavam a sua segurança, pela muita 
subordinação que a tropa e o pcfoo lhe prestavam \ além dos sígna^ 
tarios capitào mór Eleuterio da Silva Prado e capitào António 
4a Silva Prado (barào de Iguapej, muito amigos aos Andradas, 
« entre outros nomes respeitáveis, está o do arcediago, depois bispo, 
Manoel Joaquim Gonçalves de Andrade. 

35.° Voltando este e participando ao governo, por officio 
«de 5 do corrente mez de Agosto, que o tenent^-coronel comman- 
•dante do regimento Pedro José de Brito nào quizera attender 
nem dar execução ás ordens do mesmo governo, o qual asseve- 
rava estar depjstfj por S. A. R., e que assim obrava em obser^ 
mincia de ordens de que se dizia munido, mas que nào mostrava, 
nem dizia de quem, tomou o governo a deliberaç^lo de partici- 
par aquelle successo a S. A. R., por officio do predito mez, 
xogando ao mecmo augusto senhor viesse com promptidàf) á pro- 
TÍncia, para com a sua desejada presença socegar estes tumultos ; 
rogativa que reiterou em officio de 12 do mesmo mez, fl) por 
baver recebido o do tenente-coronel commandante do regimento 
•de milícias de Sorocaba, Joào Floriano da Costa, datado de 5 
«do mesmo mez e o da Camará da dita villa, de 6, que egual- 
mente repugnaram cumprir as ordens do governo, e também por 
«er presente, ao mesmo governo, c officio original que a Cama- 
rá de Ytú dirigiu á desta cidade, em data de 6, com a cópia 
4o decreto de S. A. R. de 25 de junho próximo passado, (2) 
tconvidando-a a desobedecer ao governo e participando que ia for- 
mar um governo temporário naquella villa, até a insta^açào do 
novo governo provisório, que o predito decreto manda oleger, na 



(1) D. Pedre partia do Bio ft 14 de Agosto. 

(2) Neste deoreto e na Carta Regi» da mesma data, José Bonifácio par» vingar-ee 
•da deposiçAo de Martim Pranoisco, lança toda a sna bilis sobre os bernardistas do go- 
Temo de 8. Panlo -«desorganizadores rebeldes qae, por desgraça da província, se acham 
no seu governo ; pelo decreto cassa o governo e rnanda qne depois de elegerem os de- 
patados para a assembléa conscUuince, os eleitores de paroohias passem a nomear nm 
j^verao provisório legUimo^ comoosto de 5 membros ;» a eleiçfto dos consttnintes só se 
srealizon em dotembro, e o novo governo tomou posse em Janeiro de 1823 ; mas Ytú e 
43orocaba estavam manidas de ordens para installarem novo governo 1 

Nenhuma necessidade tinha José Bonifácio de cassar aeintoiamtnte o governo pro- 
visório, pois que, como se vê da acta de 2i de Desembro de 1821, elle só esperava o 
dêerth para no9a organnaçào do gowmo para m proceder á eonoocação doi êUítorê* dê 



— 82 — 

&l8a idén de que o actual governo estava deposto por S. A. R. 
ainda antes da sobredita installaçào. 

(Observação. Tem cabimento o seguinte tópico da carta de 
Francisco Ignacio, de 1 de Agosto : 

«A noticia da chegada da tropa em Santos e da coragem 
que desenvolveram os habitantes desta cidade, para repellirem 
uma tal violência, fez grande choque nas villas desta provincia ; 
umas representaram immedíatamente ao governo sobre a neces- 
sidade de se crear novo governo que as dirigisse, emquanto a 
cidade estava invadida ; outras mandaram reunir tropas, dando- 
se como motivo a necessidade que esta capital tinha de ser soccor- 
rida; muitos quizeram desamparar sua habitações. 

«Veja quantas desordens suscitadas pelas sabias e bem combi-^ 
nadas ordens dos srs. Andradas ; esta provincia certamente já 
estaria nadando em sangue, se o governo pradente e vigilante 
nào tivesse transtornado os fins de semelhantes ordens, e mode- 
rado o ardor dos seus habitantes.») 

36.** Havendo noticias, por cartas do Rio do Janeiro, de que 
S, A. R. vinha com toda a brevidade á provincia, deram-se de 
novo as j^recisas ordens para se apromptarem, tanto pela estrada 
como nesta Cidade, todo o necessário para o mais pomposo re- 
cebimento do mesmo augusto senhor, e que para isso se ajuntassem 
os milicianos dos cinco regimentos da cidade, e as camarás e capi- 
taes-móres das villas mais visinhas mandassem suas deputações para 
cumprimentarem o predito sereníssimo príncipe regente. 

37.** Comparecendo na sessão do dia 17 do corrente o reveren- 
do padre João de Santa Cândida, guardião do convento da vilJa de 
Santos, da ordem de S. Francisco, que nesse dia chegou da corte 
do Rio de Janeiro, e certificando a próxima e desejada vinda de S. 
A. R. a esta cidade, onde lhe affirmara havia de chegar no dia 22 
(pois que encarregou de fazer apromptar os poisos), o governo, re- 
cebendo com particular satisfacçào e agrado tão plausível noticia, 
passou a completar as ultimas providencias para o recebimento, no- 
meando uma deputação de dois de seus membros, para ir ao encon- 
tro do mesmo augusto senhor prestar-lhe os mais ardentes votos de 
seu respeito, obediência e homenagem. 



forochias para nomeação doa %ttê membros que deviam compor o diio tjoverno ; e fsto de- 
via saber José Bonifácio, pois qae se achava em 8. Panio e era vIce-presideDte do mes- 
mo governo ; esta docísSo fora tomada por moção de ilartim Francisco. 

Parece, qne, em vez de tantas arbitrariedade praticadas do 10 de Maio cm deante, 
tendo elle asrnmido, como diz o dr. Piza, o poder abeoltUo^ podendo aii mandar fuzilar 
« enforcar a qacm qnizesse, teria evitado o incororaodo qae iiie causavam esses desor- 
çaaizadores rebeldes, mandando iromediatamente proceder á eleiçAo do novo governo, 
corto de qne, com a assignatnra do principe regente, todos se sujeitariam, e qnando nfto 
«e sujeitassem, alii estavam as instrucções para a itrrivel ameaça e para inctrucçOes 
^sobre a eleição, havia os avisos de 14 de Agosto e 20 de Setembro de 1821. 



— 83 — 
UI 

Nestes itens está o histórico do governo provisório, nos mezes 
de Julho e Agosto. Mas, disse o dr. Piza, referindo-se ao que Fran- 
cisco Ignacio escrevera em carta de 1 de A*^osto : — é muito prová- 
vel que houvesse o insulto contra o marechal Cândido, porque a 
cidade estava entregue aos reaccionários o sua gente, e corriam 
j>erigo todos aquelles que não cotnmnngavam com as suas idéas 
€ planos '^ mas que reacçào e planos eram esses que ninguém conhe- 
ce, ou se é capaz de desvendar por qualquer acto ou facto ? Nào 
eram o próprio governo e povo de Sào Paulo que repetida e insis- 
tentemente pediam ao princi])e regente viesse á provincia verificar, 
pelos próprios olhos, o que havia de falso nas informações que lhe 
eram prestadas (pelos Andradas) e que o levaram a decretar medi- 
das violentas, desnecessárias e injustas ? 

De taes planos e reacçào só temos noticia pelas vagas accu- 
saçòes de José Bonifácio e de seus posthumos admiradores ; de tudo 
quanto se fazia e se passava na provincia, o governo dava parte ao 
principe regente, para pôl-o no conhecimento dos factos, sobretudo 
depois do acontecimento de 23 de Maio ; mas qual o procedimento 
do ministério Andrada, ou antes, de José Bonifácio, passamos a 
ver: 

A 10 de Maio, estando ainda Martim Francisco no govenio, 
que marchava todo em boa harmonia, como consta das suas actas, 
inopidamente é chamado á Corte João Carlos, sob pretexto de la 
serem necessários os seus serviços : neses mesmo dia (10) é nomeado 
o marechal Arouche (partidista dos Andradas), governador interino 
das armas da provincia; este, porém, náo se apressa, e só a 6 de 
Junho faz de Taubaté communícaçao por officio dasuanomeaçílo; 
responde-lhe o governo a 11, e a 15 torna a officiar ; volta elle, 
|>orêm, por deliberação própria, para o Rio, despedindo-se do go- 
verno ; a 16 de Julho toi que se apresentou em S. Paulo com a 
carta regia que de novo ordenava a sabida de João Carlos e Costa 
Carvalho (níio fala de Francisco Ignacio) ; em vista desta carta, 
promptamente obedeceu Joào Carlos, e foi marcado o dia 29 para 
a posse do marechal no cargo de governador dar armas interino. 

No dia 15, egualmente cumpriu-se o decreto, entilo apresen- 
tado, de 21 de Junho, que nomeava o marechal Cândido governador 
da praça de Santos; o primeiro acto deste foi municiar a sua força, 
armal-a com 4 peças de artilharia e communicar ao governo, a 17, 
que ia marchar sobre a capital, começando por interceptar, no 
dia 19, as communicações entre esta e a cidade de Santos ! 

Que explicação poder-se-ia dar á tal ostentação da força ar- 
mada do marechal Cândido Xavier ? Havia alguma desordem em 



— 84 — 

S. Paulo ? Ne^pavase o governo ao cumprimento das ordens do 
príncipe re<^ente V O governo da provincia, ou o governador das 
arma^. para cuja posse esUiva marcado o dia 20, requisitaram al- 
guma força? O simples governador de uma pra<^ podia deslo- 
car a tropa sem ordem superior? 

Disse o marechal Cândido que havia uma portaria do próprio 
punho do ministro da guerra, de 23 de Junho (1) que lhe orde- 
nara aquella diligencia, a qual dependia do concurso do marechal 
Arouche ; chamado este, concordaram na retirada das tropas de 
Santos, visto se terem cumprido as ordens de S, A, i2., apenas apre- 
sentadas ! 

Mais minuciosas foram as instrucções dadas ao marechal 
Arouche ^2) ; mas é singular que, por elles, toda essa ostentaç&o 
militar náo devia passar de uma terrível ameaça, e só de ameaça, 
emquanto nào se manifestasse de^^obediencia formal ás ordens do 
príncipe; entretanto, a 16, eram cumpridas essas ordens, e a 19, 
o marechal avançava sobre a capital ! 

Tomadas as medidas preventivas, nomeação do marechal 
Arouche para governador das armas da provincia, e do marechal 
Cândido, j>ara governador da praça de Santos e a 23, dadas as 
instrucçòtís, é que foi lavrada a carta regia de 25 de Junho; e 
na mesma data, o decreto pelo qual, querendo dar prompto re- 
medir) ás desordens e attentados que diariamente iam crescendo. 



(1) Atíso. 8aa altess re«l o prinoipe regents tendo acabado de dav ama prova 
Irrefragavel do malto qae apreoia o caracter honrado de v. s. e os serviços relevantes 
qae tem prestado ao Estado na sna carreira miUur, conferindo-lhe a offectividade do 
posto de marechal de ca «pó, qner ainda dar nm novo testemunho disto mesmo, eiioarre- 
gando-o do governo da vllla e praça de Santos, pondo-o nas oircnmstanclas de ser na 
dos mais valentes apoios da causa, cvnrauma fracção dêitruidora da uniáo dou povoê ê 
da btmmerita provincia de São Puuio • do reino do Braêil. 

«Bm consequência, manda 8. A. R., e confia que assim r executará, qne v. s. com 
o marechal de campo, governador interino das armas, se eotmbin$ de mancirm qu» por me- 
de êuoê $lfleaM9i mcdidoê m regtabêhça a ordem e restitua a paã e êoeego a etea provincia (i) 

Persuade-se 8. A. R. que bastari que dessa vllla, de acodrdo com o referido gover- 
nalor das armas, marche o corpo de artilbarla, sob o commando do mi^or José Olinto de 
Carvalho, levando quAUto seja possível suas peças de três ou de calibre m«i8 ligeiro que 
ahi se achar. 

Mas, se droumstancias Imperiosas exigirem forças mais respeitáveis da marinha, om 
da beira mar, 8. A. R. deixa a comblnaçfto de v. s. e do referido marechal a escolha 
de Qlteriore9 disposições, etc 

{!) V. Bxc apresente uma terrível ameaça aos inimigos da ordem, mas que eoa 
effeito nito passe de ameaça, emiuaato n&'> se manifestar o ma desobediência formal ia 
suas reaes determinações... 

c A celeridade, a prudeoela, o estratagema e a força real ou apparente sfto os meioe 
de qne v. exc se deve vervir, e que 8. A. R. recommenda a v. exc pira se eê'abeleeer 
a ordem na cidade e na provincia^ a pique de ver envolvida em uma guerra civil por uma 
triste facçfto desorganizadora, de que sfto os priucipaes motores o presidente Oeynhaasea, 
ouvidor da comarca de 8. Paulo e o coronel Francisco Ignaclo, os quaes V. Bxc re- 
metteri logo que lhe fôr p:)ssivel a esta CÒrte. 

< Previna, poU, V. Bxc. a reuniito de força da p«rte delles, deeacreditey na sua paa- 
sagem, quanto lhe couber, os ncalewolas preiençôee dee'a facção^ dtstipe aquella mtriga e 
sen o oidadfto libertador da sua pátria I » 



— 85 ~ 

houve por bem o príncipe regente cassar o governo provisório e 
ordenar a eleição de um outro legitimo f Ora, eis ahi : nas ins- 
trucçôes ao marechal pretendia-se unicamente umaterrivel ameaça^ 
para o caso de haver desobediência por parte do govenio pro- 
visório, e por decreto da mesma data castigava-se o governo, 
porque nelle havia desorganisadores e rebeldes que, por desgraça 
da provinda, se achavam entre as seus membros ! Mas que re- 
beldes eram esses, que nem ao menos mostravam desobediência? 
Quando José Bonifácio considerava a cidade em perigo de anar- 
chia, a população da mesma, que era mais interessada na sua 
tranquill idade e garantias, representava ao príncipe que pessoal- 
mente viesse verificar a paz e a ordem que existia na provin- 
cia, e rogava a conservaçào de Francisco Ignacio. 

Era José Bonifácio pessimista e açodado nas medidas extre- 
mas : daqui, a origem de todos os actos que muito o impopula- 
risavam, e que constituem o libello accusatorio do seu governo 
até 1823 ; os seus sentimentos e intenções seriam os mais puros, 
mas tinha em pouco as garantias dos direitos dos seus concida- 
dãos; a máxima do seu governo foi sempre — os fins justificam 
o arbítrio dos meios mais cruéis. 

Os movimentos do povo e tropa de S. Paulo a 23 de Maio 
e 19 de Julho de 1822, provam os sentimentos dvicos naquelle 
tempo e não revoltosos; si houve revolta, foi contra o arbitrío 
© attribuladas ordens do governo ou do ministério Andradn. 

Quando, depois de tão instantes rogos do governo, veiu o 
príncipe a 8. Paulo, verificou que nada havia de sério e ver- 
dadeiro, e só o que encontrou, da parte de todos, foi o maior res- 
peito, obediência e homenagem ; nem de qualquer modo tran- 
spiravam 08 descontentamentos provocados pelas celebres portarias 
que occasionaram o 23 de Maio e consequentes deportações. 

IV 

Não queremos nem podemos crer que seija proposital a in- 
versão, já uma vez notada, do que escreveu Francisco Ignacio, 
emprestando-se-lbe proposições que não são suas ; elle não disse 
que fossem precisas tropas do Rio de Janeiro, para apaziguar-se 
a província ; as suas palavras sàc : «eu me persuado que não é 
preciso que marchem tropas sobre esta província, visto que a 
mas!ta geral do povo é toda inimiga ou pouco affeiçoada dos 
Andradas» . 

A apreciação que elle faz dos membros do governo são con- 
ceit-os one devemos respeitar, si desejamos que os nossos sejam 
respeitados e isentos de jocosidades ; Francisco Ignacio estava 



— so- 
no seu inconcusso direito, emittindo-os sobre os lioraens do seu 
tempo e em momento de effervesceneia partidária ; elle procu- 
rava mostrar a necessidade da mudança de pessoal do governo 
de S. Paulo, c sen do todo composto de pessoas affcctas aos An- 
dradas, ou que presumiu naturalmente tacs, pelo muito próximo 
parentesco com ellas, o que se dava com o capitáo-mnr de 
Santos, João Baptista da Silva Passos. Os Andradas, quando 
ministros, tinham montado a seu p:osto a administração da ]>ro- 
vincia, os membros do governo que entrou em exercício a 8 de 
Janeiro de 1823 tinham sido por elles indicados, ou eleitos por 
sua influencia ; justo era que, demittidos, o novo ministério que 
nào acceitava a sua politica procurasse infonnar-se do pessoal 
do governo da província, e nesse sentido Francisco Ignacio es- 
creveu a carta do 30 de Setembro de 1823 ; era então o inten- 
dente geral da policia responsável pela tranquillidade publica em 
todas as províncias, ou, ao menos, o agente por cujo intermédio 
o governo nellas exercia a sua acção policial ; que muito era, 
pois, que o mesmo amigo pessoal de Francisco Ignacio pedisse 
taes informações, e este por sua vez as fornecesse ? Qualifica- 
ram-se taes informações de delações, E' iniquidade; neste terreno 
pessoal, permitta-nos o illustrado dr. Piza, ntlo podemos acom- 
panhal-o : elle é muito apertado e escabroso e não se presta a 
estudo histórico, no qual, aliás, o reconhecemos demasiado versado. 

De passagem diremos, relativamente ao rodapé, que não foi 
citada a circumstancia de ter Francisco Ignacio fardado á sua 
custa a força com a qual pretendia ir encontrar o j)rincipe, por 
vaidade ou para ostentar serviços ; não precisava Francisco Igna- 
cio de tal allegação : a distincção que sempre recebeu em sua 
carreira, ou a sua fé de officio era o que bastava para um mili- 
tar brioso, e como cidadão tinha-os de outra natureza ; bem de 
perto conhecemos exemplos citados, e a importância real de tíies 
serviços ; o fim da citação foi unicamente demonstrar as suas 
boas disposições quanto ao príncipe ; não havia nisto lisonja, 
nem elle estava no caracter altivo de Francisco Ignacio ; fez o 
que todos fazemos ao receber qualquer hospede que desejamos 
distinguir; e nisto também tinha sido, por assim dizer, estimu- 
lado pela resolução do governo — item 3G.° da sessão permanente. 

Quanta ao supplicio de Chaguinhas na forca, e não 2>elo 
fuzilamento, julgámos cabida a observação que fizemos, por ser 
o crime militar, e na fc que o conde de Líppe não decretou a 
forca para execuções militares ; não houve intenção de julgar 
ser substituído, por maldade dos Andradas, o arcabuz pela forca; 
nem se pode inferir do que ficou escripto senão que Chaguinhas 
tinha do perecer pelas balas como militar, ou i)ela forca, caso 



— 87 — 

fosse certo o facto de ter elle pedido a sua demissão, como lemos 
num ligeiro apontamento que tínhamos em mào ; nào tem, porém, 
isto importância ; confessamos acceitar a licçào dos exemplos ex- 
postos pelo dr. Piza, considerando apenas, quanto á execuçfto do 
martyr da liberdade portugueza, a cuja memoria foi, em 1853, 
levantado um monumento na explanada da torre de S. Julião, 
loí^r do seu supplicio, Gomes Freire de Andrade, que o seu 
julgamento não foi em conselho de guerra, mas em alçada de 
desembargadores, tribunal civil, e, portanto, condemnado, tinha 
de morrer pela forca. 

Sobre o republicanismo de Feijó e sua orthodoxia, em 1828, 
em representação ao imperador dizia elle : «tanto amo o gover- 
no monarchico representativo, como abomino a democracia pura»; 
depois de 7 de Abril, como ministro da Justiça e regente, foram 
os seus principios monarchicos que o elevaram a essas altas posi- 
ções. 

Desculpe-nos o dr. Piza uma franqueza : nos são de maior 
apreço as dissertações históricas que demonstram o minucioso 
e aturado estudo das nossas cousas e dos nossos homens, sobre 
08 quaes tem uma opinão a seu sabor, mas ellas o têm desviado 
da promessa feita logo em começo da sua critica — dizer algumas 
palavras sobro o acontecimento de 23 de Maio, foi este o ponto 
histórico de que tratamos. As cartas do coronel Francisco Ignacio 
que, com tanto azedume, têm sido esmerilhadas, constituem cor- 
respondência particular; nesta, é promettida a expansão dos sen- 
timentos individuaes ; os conceitos nellas manifestados, si encon- 
tram apoio em factos conhecidos, ou em actos oíHciaes, têm o 
cunho da verdade ; si a elles se contrapõem, não constituem 
depoimento histórico; á parte minuciosidades da vida intima so- 
cial, por assim dizer, o que só contemporâneos poderiam attes- 
tar ou contestar, os factos principaes referidos na série dessas 
cartas acham-se comprovados por documentos históricos por nós 
citados ; como, pois, por minuciosidades de uma posthuma aprecia- 
ção exagerada, estando modificadas as idéas do tempo e sem o 
conhecimento individaal das pessoas, procurou-se illaquear o 
que ellas têm de verdadeiro e aproveitável, para esclarecimento 
do acontecimento de 23 de Maio e suas consequências ? 



* 

Não nos damos á polemica, mas ao estudo histórico ; pouco 
pois, poderemos dizer ao muito que escreveu o dr. Piza nesteft 
artigos. 



- 88 — 

O reparo de ter Manoel Jacintho Nogueira da Gama n^aiTo 
das expressões — governo constitucional — em 1823, quando só ena 
1824 tivemos uma constituição, nfto é justo ; o ministro as escre- 
veu muito correctamente : na coUecçôo das nossas leis encontra- 
mo-las a cada passo desde o decreto de 8 de Junho de 1821, na 
qual se lé : «Tendo eu adoptado e jurado as bases da constitui— 
çào portugueza para terem observância neste reino do Brasil, 
servindo provi sfjriamente de Cf/nstituição» ; mais convincente ao 
dr. Piza será a leitura da portaria de 11 de Novembro de 1822, 
na qual José Bonifácio se refere á devassa judicial contra os. 
que ousavam, temerários, com o maior macliiavelismo calumniar 
a indubitável constitncionalidade do nosso augusto imperador e 
dos seus mais fieis ministros, etc. 

Sobre a dissolução da Constituinte lembraremos que ella foi 

Íropriamente acto do imperador; os ministros do império, José 
oaquim Carneiro de Campos, marquez de Caravellas, da fazen- 
da, Manoel Jacintho Nogueira da Gama, marquez de Baependy, 
e da guerra, Joào Vieira de Carvalho, marquez de Lages, por 
nào concordarem com esse golpe, sahiram do ministério, sendo a 
10 de Novembro substituídos por outi-os que a realisaram. 

Quanto á negativa das certidões por j>arte do governo pro- 
visório (que é o mesmo eleito no tempo do ministério Andrada, 
e de cujos membros tratara Francisco Ignacio em carta de 30 
de Setembro de 1823) e da junta da fazenda, é uma questào de 
facto, provado por documentos officiaes ; e os Andradas se acha- 
vam entào deportados, os seus amigos, que continuavam no go- 
venio da província, insistiam na má vontade contra os bernar— 
distas, vendo-se os novos ministros obrigados a chamalop á or- 
dem e ao cumprimento dos seus deveres ; este governo subsistiu 
até Abril de 1824, data da posse do primeiro presidente da pro- 
vincia, Lucas António Monteiro de Barros, visconde de Congo- 
nhas do Campo. 

Não sabemos por qne considerar inferiores no amor ao Brasil 
08 extrangeiros que abraçaram a nossa causa, sobretudo os por- 
tuguezes, dos quaes eram os filhos ou descendentes ; persistir-se-á 
ainda nas odiosidades de outros tempos, de zelos e prevenções ? 
E porque nào poderão ser os militares amigos da liberdade civil, 
si a elles se recorre para revoluções e esta^:eJecimento de insti- 
tuições politicas. 

Eelativameute á carta de Paula Souza, devemos uma decla- 
ração : por uma inadvertência, ou iiTcflexão, para nós mesmo 
inexplicável, escrevemos, em nota, referir-se ella ao assumpto das 
cartas de Francisco Ignacio, quando sobre diverso foi que escre- 
veu Paula Souza, e é o seguinte : 



— 89 — 

Sabe-se o descontentamento produzido pela dissoluçfto da 
Constituinte : em Sào Paulo, unirara-se pelas idéas e sentimen- 
tos Paula Souza, Feijó, Vergueiro, Costa Carvalho, Arouche e 
outros ; a maior effervescencia era notada em Ytú e Sorocaba ; 
fosse ou nào exacto, constou ao imperador que havia planos polí- 
ticos e subversivos ; daqui a ordem deste ao intendente da poli- 
cia para uma devassa ; transcrevemos esta ordem, e releve o dr. 
Piza 08 termos da carta, que não foi escripta para ser publicada, 
e o fazemos só para esclarecimento; nào estamos na época anor- 
mal dos primeiros tempos da independência e de organização do 
paiz. 

«Convindo devassar-se em S. Paulo sobre a correspondência 
dos tamoyos e tramóia que elles tinham armado para o dia 12 
de Novembro (1823), para installarem uma Republica; é necessá- 
rio que v. m. me mande uma relação daquelles que será neces- 
sário removerem-se da província, para melhor se poder devassar, 
sendo com especialidade algumas cabeças de vento que ha em 
Ytii e Sorocaba. Boa vista. 18 1/224». 

N&o houve remoção de pessoa alguma ; foi aberta a devassa, 
e o resultado é o que communica Paula Souza, nessa carta, re- 
ferindo-se aos seus cunhados, António Paes de Barros, barão de 
Piracicaba e irmão; Francisco Ignacio era sobrinho e nada tinha 
com o facto; não se trata aqui de retrógrados ou bernardistas, 
08 quaes por esse tempo já não existiam pelo congraçamento entre 
08 antigos adversários, como prova estarem Costa Carvalho e 
Arouche de mãos dadas. 

Si Paula Souza escreve que desejava retirar-se da pro- 
víncia «onde ninguém pôde julgar-se seguros presentemente:^^ 
accrescenta logo ^emqimnto labora a intriga^ muito mais tendo 
inimigos»; mas isto é natural e próprio das épocas de efíerves- 
cencia de sentimentos políticos ou partidários, como estamos tes- 
temunhando ha doze annos, e em 1901 a educação política não 
devia ser inferior cu egual á de 1824. 



A assígnatura de Francisco Ignacio na» 117 actas do go- 
verno provisório, si mostra a sua solidariedade com os Andradas 
nas actas do governo, mesmo a que dava execução á poiiaria 
de 10 de Maio chamando João Carlos ao Rio (acta de 2B de 
Maio), isto prova que não havia lucta no mesmo governo, antes 
do accôrdo em todos os actos nem embate de idéas liberaes e 
retrogradas: é o que temos aíBrmado contra o que escreveu Ma- 
lioel Eufrazío — Apont. hist. — verb. Bernarda: «o governo para 



— 90 — 

logo mostrou 03 vicios de sua origem e hecterogeneidade de seus 
elementos... díiqui a desuniào e lucta no seio do próprio gover- 
no, que, em breve, se manifestou dividido em duas fracções in- 
conciliáveis, etc», e contra o que escreveu o dr. Piza, Doe, In- 
teres,, pag. 1." : «A intimidade fraternal dos Andradas e a 
solidariedade que elles ostentavam em seus actos tomavam a 
posição de !Martim Francisco no governo provisório perigosa para 
si e para todos. A opposiçào affrontava-o quando seus actos admi- 
nistrativos tendiam para a energia; era impossivel comprimir a 
vontade nua de um grande homem tantas forças reunidas. Xo 
aoio do governo provisório essa opposição officialisou^se nas pes- 
soas do presidente João Carlos Oeynhausen e do vogal pelo Com- 
mercio, o coronel Francisco Ignacio de Souza Queiroz» ; e antes, 
nenhum membro do governo provisório reconhecia on- obedecia a 
necessidade de modificar suas opiniões, ou mesmo de sacrificar 
seus caprichos para a segurança coinniuni e felicidade do povo, 
e entre elles havia, comtudo, caracteres de probidade romana>. 

Termina o dr. Piza dizendo que José Bonifácio é até accv- 
nado de nSo ter tido a primazia da lembrança de representar a 
D. Pedro que nílo abandonasse o Brasil. (1) 

Ninguém accusa por isso a José Bonifácio ; o que não se 
acceita é desvirtuar-se um fado provado, com o fim de se lhe 
dar uma gloria que nSo tem, e da qual aliás não precisa para 
ser tido como um dos patriarchas da nossa independência. 

E' natural que não fosse José Bonifácio o primeiro a co- 
nhecer os decretos das cortes; do Rio de Janeiro é que veiu a 
noticia para S. Paulo, alguns dias mais tarde ; na representação 
do governo provisório ao principe, em 24 de Dezembro, lô-se 
que foi pela Gazeta extraordinária, de 11 desse mez, que se co- 
nheceram em S. Paulo os decretos de 29 de Setembro, um dos 
quaes mandava o principe regressar para Portugal. Logo qiie che- 
gou a noticia dos taes decretos ao Rio de Janeiro, por iniciativa 
de José Marianno de Azevedo Coutinho e do advogado José Joa- 
quim da Rocha, general izou-se a idéa de representação ao principe 
2)ara que não obedesse ás cortes, isto antes do dia 15; a 20 e 22, 
sahiram emissários do Rio para Minas e S. Paulo ; a 27 de De- 
zembro e a 2 de Janeiro, já as camarás de Barbacena e Mari- 
anna tinham remettido as suas representações adherindo. 

Na mesma data da representação ao principe (2) ofiSlciou o 
governo de S. Paulo ao de Minas ; este, porém, antes de rece- 
ber essa communicação e convite, já tinha mandado sahir o 



(1) Este erro hiatorico nota-se também em Manuel CnArazio— Apont. Hitt. 

(2) Esta data ó da carta de lei que manda executar os decretos das cOrtec de 20 de 
Setembro. 



— 91 — 

seu vice-prosidente, José Teixeira da Fonseca Vasconcellos, vis- 
conde de Caethé, para conhecer quaes as medidas de que se de- 
via lançar mào, segundo as occorrencias que no lUo se apre-* 
sentassem. 

O visconde de Cayrú, testemunha presencial, na Historia 
do Brasil, diz que a 29 de Dezembro, no escriptorio do advoga- 
do José Joaquim da Rocha, estava aberta ás assip:naturas uma 
representação ao principe, para ficar no Brazil ; nella lia-se : «O 
))ovo do Rio de Janeiro julga que o navio que reconduzir S. A. 
R. apparecerá sobre o Tejo com o pavilhtlo da independência 
do BrasiU ; diz o mesmo historiador : cemquanto se tratava de 
apresentar estes requerimentos, o povo de o. Paulo coincidiu em 
egual sentimento. 

A dita representaçilo, com mais de 8 mil assignaturas, foi en- 
tregue SL 2 de Janeiro ao presidente da Camará, José Clemente 
Pereira, o qual logo a reuniu e pelas suas resoluções pediu elle 
uma audiência ao principe, e ficou marcada para o dia 9, que 
é a data do—fico; a representaçào de S. Paulo foi apresentada 
postenormente. 

Diz Pereira da Silva que a Camará de S. Paulo, convo- 
cada pelo ouvidor Costa Carvalho, nomeou a commissào que de- 
via seguir para o Rio de Janeiro, José Bonifácio, coronel Gama 
Lobo e marechal José Arouche ; na acta do governo provisório 
de 21 de De/.embro, le-se: 1.° Com a chegada da Gazeta ex- 
traordinária do Rio de Janeiro, e nella o decreto de 1 de Ou- 
tubro deste anno ... o governo accordou unanimemente que se 
escreva a S. A. R. e se lhe rogue suspender a execução de taes 
decretos, emquanto nào forem chegados á corte do Rio de Ja- 
neiro seus deputados que, sobre estes dous objectos, lhe váo re- 
presentar por parte deste governo. E sendo convocada a Cama- 
rá desta cidade e ouvida sobre o mesmo objecto, respondeu que, 
em sessão de 19 , ella já tinha tomado o mesmo accôrao que agora 
toma o governo \ e que ella nomeava para levarem suas repre- 
sentações a S. A. R. os dois senhores deputados nomeados pelo 
governo, além de um terceiro que ajunta a estes. 

(A assignatura de José Bonifácio nesta acta ractifica ter a 
Camará, a 19, tomado a mesma resolução que o governo a 21). 

2.® Accordou-se mais que se officie ao governo de Minas 
Geraes, para que de mãos dadas com este governo represente a 
S. A. R. sobre esta matéria...» 

Xo dia seguinte (22) foram nomeados os membros da depu- 
tação, Martim Francisco e o coronel Gama Lobo. A 31, foi lida 
a fala que se devia fazer a S. A. R. 



— 92 — 

A 3 de Janeiro «em consequência de objectos qne deviam 
ser tomados em consideração, convocou-se sessão extraordinária, 
por moçfio do senhor secretario do interior e fazenda, e podero- 
sos motivos que expoz se revogou a nomeação feita do mesmo 
senhor secretario para ir á corte do Rio de Janeiro, nomeando- 
se para esta commissão ao exellentissimo senhor vice-presidente 
(José Bonifácio). 

Assim, pois, fica liquidado o seguinte ponto — a representa- 
ção que tinha de ser apresentada ao príncipe, por parte do go- 
verno de S- Paulo, foi lida e approvada em 31 de Dezembro, 
e José Bonifácio ainda nesse dia achava-se em S. Paulo, e as- 
signou a respectiva acta ; a 3 de Janeiro, é que elle foi no- 
meado, em logar de Martim Francisco, membro da deputação 
que tinha de ir ao Rio de Janeiro ; mas já na véspera, a 2, 
José Clemente tinha j)edido audiência a D. Pedro, a qual foi 
marcada para o dia 9; José Bonifácio partindo a 4 de S.Paulo 
não podia estar no Rio antes de 10 ou 12, sinão mais tarde ; os 
historiadores são accordes em dizer que quando elle foi nomea- 
do ministro, a 16, acabava de chegar de S. Paulo : assim, não 
foi depois de ter o principe ouvido a palavra autorizada de José 
Bonijacio que resolvera ficar no Brasil. 

Temos, mais a portaria circular de 17 de Janeiro, a qual 
diz: «Tendo resolvido S. A. R. o principe regente, no dia 9 do 
corrente, suspender a sua sabida para Portugal, por entender á 
vista das diíferentes representações (1) que se dirigiram á sua 
real presença, que assim convém ao bem geral dos povos, e ao 
importante fim da união dos dous reinos : Manda o mesmo au- 
gusto senhor, pela secretaria do Estado dos negócios do reino 
participar esta sua determinação ao governo provisório de Minas 
Geraes e remetter o incluso exemplar do termo de vereação da 
Camará desta cidade^ do referido dia, para sua inteira intelli- 
gencia. 

Não se refere aqui o principe á representação de S. Panlo; 
no decreto de 26 de Fevereiro, convocando procuradores, é que se 
lê: Tendo eu annuido aos respectivos votos e desejos dos Jeces 
habitantes desta capital e das provincias de S. Paulo e Minas 
G^eraes, etc.» 

A representação de 16 de Fevereiro que o senado do Rio 
dirigiu ás cortes, requerendo a derogaçAo dos decretos de 29 de 
Setembro, diz : «No dia 9 de Janeiro, que o Brasil celebrará 
sempre como dia regenerador, apresentamos, a S. A. R. o i»rin- 



(1) Na cKpItal nfto honv» nm» só, ma» diversa* re|iresenfcaçfiea bo mesmo aeatido e ê 
oomo se explica terem recebido 8.(00 assignacsraa. 



— 93 — 

cipe regente os votos deste povoj e h)ave o mssmo senhor por 
bem annuir a elles, declarando que iicava neste reino, pela for- 
ma que vem expressa no termo de vereaçãj daquelle dia.» 

Na carta que o mesmo Senado, a 17 de Fevereiro, dirigia 
aos deputados do Rio nas cortes, lê-se: 

«Diremos só de facto que, parecendo cortada aquella espe- 
rança pelos dous primeiros decretos de 29 de Setembro e pelo 
outro que extinguiu todos tribunaes deste reino, levantou-se um 
grito universal, declarado no manifesto deste povo que acompa- 
nha, exigindo de nós que requerêssemos a S. A. R. o príncipe 
regente que suspendesse a sua sabida para Portugual, até nova 
determinação do soberano congresso, e fazendo, em virtude delle^ 
no dia 9 de Janeiro, a representaç&o ao mesmo senhor, que 
consta do termo de vereaçào junto, houve S. A. R. por bem 
declarar que ficava neste reino. 

«Omittimos a expressão extensa das poderosas razões que 
justificam este passo, porque vossas excellencias as poderão ver 
na fala, também junta, que naquella occasiào tivemos a honra 
de dirigir a S. A. R. o príncipe regente, pcZa voz de presi- 
dente de8te Senado . 

«S. Paulo e a província de Mina*: Geraes vieram ao mesmo 
tempo, unidos em sentimentos, e chegaram noticias de que a 
Bahia tem expedido uma deputação egual, que não tardará em 
chegar e outra se espera de S. Pedro do Rio Grande do Sul.» 

Este ponto da nossa historia foi minuciosamente exposto por 
José Clemente, na Gamara dos deputados, em sessão de i4 de 
Janho de 1841. — Estud. hist. polit. 4* serie. 

E' também certo que José Bonifácio não foi nomeado mi- 
nistro para que carregasse com as consequências do seu patriótico 
conselho, como diz o dr. Piza; o príncipe nomeou-o por ter de 
demittir os ministros que se lhe haviam mostrado adversos naa 
suas resoluções contra as tropas portuguezas, commandadas por 
Jorge Avilez, e querer substituir o Ministério portuguez por ou- 
tro que fosse b asileiro ; José Bonifácio inspirou-lhe confiança, 
e para o príncipe era de muita valia ter junto a si um repre- 
sentante da província de S. Paulo ; nomeou-o, pois, eis o facto. 

Temos sido prolixo, talvez, mas a historia escreve-se com 
documentos, e tínhamos necessidade de transcrevel-os, mesmo por 
serem algus pouco conhecidos; ella procura a verdade, repellindo 
nole m€ tangere, 

A justiça da historia só apparece depois de calmo e impar- 
cial estudo das acções dos homens, isentas do deslumbramento 
que lhes emprestam a amizade e o enthusiasmo: o beu melhor 
monumento é a gratidão dos povos ; esta nunca falta, mesmo a es- 



— 94 — 

ses modestos operários, sem os qnaes não se podem fundar e 
organizar as nacionalidades, que trabalham só em cumprimento 
do seu dever e satisfacçao do seu patriotismo, o que por isso 
nào têm ciúme e inveja dos monumentos que a alguns exige a 
sociedade. José Bonifácio, como todos os promotores da indepen- 
dência e organizadores da nossa nacionalidade, na gratidão dos 
brasileiros tinha e tem melhor monumento do que esse que lhe 
foi erigido na capital do Império, e para cuja elevação não foi 
nem é mister que se procure rebaixar caracteres ou desconhecer 
o patriotismo de outros, tão bons servidores como elle, mas para 
cuja exaltação não tiveram a ventura de occupar a posição de mi- 
nistro ou da alta administração, cm 1822. 

E. R. 



A Bernarda de Francisco Ignacio 



Sou de opinião que nas narrativas de caracter puramente 
histórico o testemunho de parentes e amigos dos proto*^onistas 
è do mais subido valor. Tácito, o mais severo dos historiado- 
res, escreveu extensa biographia do seu sogro; Fernando Osó- 
rio escreveu a historia de seu pae, o lendário general que tanto 
honrou o Brasil nas guerras de 1864 — 70, c Joaquim Nabuco 
está nos dando, em Um Estadista do Império^ o mais bello es- 
tudo sobre a personalidade de seu illustre pae e a politica do 
segundo Império. 

Porém o folheto que, com o titulo Estudos Historico-Poli^ 
ticos e sub-titulo Os Andradas, appareceu ha pouco mais de 
vinte annos, é uma publica^jílo anonyma, que nào traz o nomo 
nem as iniciaes do seu auctor. Se na primeira publicação, feita 
no Correio Paulistano^ estavam as iniciaes E. R., usadas pelo 
escriptor, na reproducção em volume essas iniciaes foram sup- 
primidas e nada ficou em seu logar. O jornal, como a sovada 
rosa de Malherbe, dura somente um dia e o folheto, que é in- 
teiramente anonymo, foi o que ficou para transmittir ás gera- 
ções vindouras as opiniões e os sentimentos de quem o escreveu, 
relativos aos irmãos Andradas, e todo elle foi evidentemente 
escripto com o único fim do deprimir a memoria daquelles pau- 
listas . 

Logo, na primeira pagina, á guiza de prefacio, lê-se o se- 
guinte : 

«Não nos propomos a um estudo biographico sobre estes 
illustres cidadãos, mas tão somente recordar alguns factos histó- 
ricos dos primeiros annos da nossa independência politica e lem- 
brar aos esquecidos o papel que representaram, animados pelo 
seu 2^tr'oiismo e amor á liberdade,-» 

Estas palavras gryphadas, logo nas primeiras linhas do fo- 
lheto, são muito suggestivas e de sobejo indicam qual foi o es- 



— 96 — 

pirito que dictou a obra toda, que é um verdadeiro libello ac— 
cusatorio contra os Ând radas. Termina o prefacio com as se- 
guintes palavras: 

«Pois bem: Ledo, Evaristo e Feijó dirnos-ao o que foram 
os Andradas, hoje tào endeosados como patrióticos democratas 
dedicados aos principios das liberdades puhlicíis,y> 

Estes novos gryphos vêm completar as suggestòes dos an- 
teriores e o periodo todo patenteia, á saciedade, quaes eram as 
disposições de espirito do auctor quando escreveu o folheto em 
Questào. Pois quem pretende, sem parti prvf, fazer o processo 
dos Andradas e che«:ar á verdade histórica vai logo, antes de 
tudo o mais, buscar os testemunhos de Gonçalves Ledo, de Eva- 
risto Veiga e, sobretudo, de Feijó, seus mais figadaes inimigos 
políticos e pessoaes? 

Nào; o folheto Os Aiidradas, como o tenho deante dos 
olhos, é um livro anonymo e ve-se que, tendo sido publicado 
em 1880, quando o partido liberal subia ao poder fora das re- 
gras parlamentares e havia ódios contra o presidente Baptista 
Pereira e o seu partido, é mais um livro de combate do que 
um repositório de informações históricas úteis para imparcial 
historiador. 

Dizendo o cidadão E. R. que, quando publicou esse folhe- 
to, eram vivos Martim Francisco e José Bonifácio, filhos do 
velho José Bonifácio, nenhuma contestação appareceu e, por 
isso, acredita que as accusações s&o veridicas, commetteu s. s. 
mais um erro de historia e chegou a mais uma falsa conclusào. 

Martim Francisco e José Bonifácio, que estavam vivos em 
1880, eram alhos do velho Martim Francisco e nào de José 
Bonifácio e, se n%o contestaram os factos de que seu pae e avô 
eram accusados, nào foi porque concordassem com a sua vera- 
cidade, mas sim porque tinham formado o propósito de não le- 
vantar a luva e deixar que a posteridade agradecida fizesse 
justiça aos seus progenitoras. 

Elles nào acreditavam no aphorismo de um certo politico, 
que «é verdade tudo quanto nào é contestado» e, por isso, n&o 
se propuzeram a contestar o que, entào, se disse àoó seus an- 
tepassados, sem que, comtudo, dahi se possa concluir que «quem 
cala consente». Alguns da familia ainda es tào vivos e, com- 
quanto estejam guardando silencio, sei de conhecimento próprio 
que nào es tào de accôrdo sobre a verdade daquellas accusações. 

Vou reproduzir e analysar o seguinte trecho da carta do 
coronel Francisco Ignacio, por ser importante : 

«Appareceu, enti^etanto, uma pequena noticia de que o ba- 
talhão de caçadores tentava depor do governo esses d^jus intrusos; 



— 97 — 

»âÍJUanente seu chamado para conter essa desordem que ia 
appÊorecer; entào, era eu um dos mais honrados e henomeritos 
do g^eVemo, porque elles julgavam depender de mim a sua 
eenservaçâo no governo, para o que ianio haoiam trabalhado. i^ 

Em primeiro logar os gryphos são meus e marcam impor- 
tantes amrmaçòes : a noticia que appareceu era pequena e 9k de- 
sordem ia-se dar^ mas n&o se deu. O batalhão de caçadores ti- 
nha como seu commaiidante o coronel Lasaro Gonçalves, que 
«ra respensavel pela sua disciplina e era membro do governo. 
Não nos diz Francisco Iguacio quando teve Logar essa tentativa 
de leyante, nem onde estava o coronel Liazaro, que não provi- 
denciava sobre a premeditada rebellião, como era do seu dever. 
Se Lasaro estava ausente da capital e o commando acephalo, 
qualquer membro militar do governo estava no caso de ir ao 
quartel applicar as medidas repressivas. Foi Francisco Ignacio, 
e«mo poderiam ter ido Miiller e Garoa Lobo, militares e membro» 
do governo, e o servido prestado foi ao governo e não ás pes- 
soas dos Andradas. 

Se Lazaro Gonçalves estava na cidade, a intervenção de 
Francisco Ignacio era supérflua, porque aquelle tinha capacidade 
para arcar com as dificuldades do mom<»nto e para muito mais, 
eomo prova o âtcto de ter elle sido escolhido para ir, com Múl- 
ler, sufiocar a rebellião de Santos e para ir, com Gama Lobo, 
defender o Rio de Janeiro, ameaçado pelas forças portuguesas 
do general Avilez. 

Demais o batalhão de caçadores, aqui mencio^pdo, que era 
e 2.*, estando o 1.** aquartelado em Santos, tinha o habito da 
revolta e já no dia 3 de Junho de 1821 se tinha rebellado por 
gestões de pagamento de soldo. 

Era, então, João Carlos governador itnico de S. Paulo e 
centra elle foi que se rebellou o batalhão, por questão de di- 
okeiro e não por desconfiança politica* Se a revolta a que o 
coronel Francisco Ignacio se refere não é esta, mas outra de 
que não nos quiz dar a data e os pormenores, não foi feita con- 
tra os Andradas determinadamente, mas contra todo o governo 
e teve por motivo a falta de pagamento de soldos, que já tinha 
dado origem a<» motins de 3 de Junho, era S. Paulo, e de 29 
àt Junho, em Santos. Os Andradas, pessoalmente não ficaram 
a dever favor algum por isso ao coronel Francisco Ignacio, que, 
eamo militar e memoro do governo, era tão responsável como os 
iQBa collegas pela manutenção da ordem e da segurança publica. 

Em segundo logar, José Bonifácio e Martim Francisco não 
podiam «julgar depender do coronel Francisco Ignacio a sua 
teaservaçfto ao poder, para o que tanto haviam trobalhado^^y não 



— 98 — 

somente porque este coronel nSo era assim tilo senhor da situa— 
qUo que fosse membro do governo só quem elle quizcsse ç havia 
outros militares de confiança, como Lazaro Gonçalves e Gama 
Lobo, que valiam tanto como elle, mas porque também os solda- 
dos de entào nào estavam contaminados pela politica ao ponto 
de distiup^uir no governo entre Joào Carlos e os Andradas. 

O 2." batalhão de caçadores se rebellára em S. Paulo, a 3 
de Junho de 1821, contra Joào Carlos por motivo de soldos 
atrazados, e o 1." batalhão dos mesmos caçadores se revoltara 
em Santos, a 2í) do mesmo mez, contra o Governo Provisório 
pelo mesmo motivo e nenhum delles jamais se rebellou por cau- 
sas politicas, que eram desconhecidas para os soldados boçaes do 
tempo. Os soldados eram brasileiros, emquanto os commandan— 
dantes, geralmente severos e ásperos, eram quasi sempre portugue- 
zes; daqui se segue que, se havia ódios nos corações dos solda- 
dos, eram ódios de nacionalidade e n5.o ódios políticos, e qual- 
quer explosílo da parte delles seria mais contra João Carlos b 
seus amigos portuguezes, do que contra os Andradas e os brasi- 
leiros do governo. 

A prova da verdade desta hypothese está na própria accla— 
maçílo do Governo Provisório, quando alguns cidaaadâos presen- 
tes disseram a José Bonifácio que não queriam no novo gover- 
no aquelles que até agora têm sido os nossos oppressorcs». Ora, 
José Bonifácio e Marti m Francisco nunca tinham governado e 
tyrannizado os povos, nem eram commandantes de força armada 
para applicar^aos pobres soldados as severas penas do regula- 
mento militar do conde de Lippe. Aquelle protesto dos cida- 
dãos, portanto, sò podia se referir a Joílo Carlos e aos comman- 
dantes portuguezes e denota que, se ódios havia, eram contra os 
retrógrados e não contra os Andradas. 

Ao coronel Francisco Ignacio, além de clareza na exposição 
dos factos, falta lógica para tirar delles os justos corollarios. 

Insiste elle ainda em afíirmar que os Andradas trabalharam 
pela « sua conservação no governo », quando o governo foi feito 
por José Bonifácio, chamado á Gamara Municipal especialmente 
para isso, e foi approvado pelo Principe Regente, por decreto 
de 30 de Julho de 1821, e não estava no poder do Francisco 
Ignacio conserval-o ou derribal-o, a não ser por meio de òer- 
nardas semelhantes úquella que deu com Martim e Jordão fora 
do governo, mas que também trouxe a demissão de todos os 
membros do governo e as deportações de alguns delles para 
varias partes. 

Ora, é evidente que quem teve força para fazer o Governo 
Provisório e de|K)is teve ainda força para demittil-o e dispersar 



— 99 — 

os seus membros, tinha forças para manter intacto esse governa 
contra toda a má vontade do coronel Francisco ígnacio, que 
parece ter tido uma idéa muito exaggerada do próprio prestigio 
militar e politico. 

n 

Proseguindo na analysc da carta do coronel Francisco 
ígnacio, transcreverei o seguinte trecho, que é int^eressante» 
sendo do original os gryphos : 

«Fiz quanto esteve da minha parte, empenhei os meus ami- 
gos a favor desses ingratos e consegui, do que bem me arre- 
pendo, que tudo se desvanecesse: estes dous homens esquecidoii 
de que me devem a sua presente elevação, pois que os conser- 
vei no governo contra a vontade dos habitantes desta cidade, 
acabam de pagar-me este serviço com a portaria de 21 de Maio, 
que remetto por cópia, na qual se me ordena que me recolha a 
essa corte, sendo talvez o meu crime a condescendência que 
tive com elles, ou o nSo terem podido obter a nomeação de 
Joaquim Mariano Galvão para governador das armas, e pagar 
deste modo o serviço que acabava de prestar a Martim, fiando^ 
lhe vinte escravos a 120$ cada um e por seis annos,* 

Da redacção obscura do íinal deste trecho, se conclue que 
quem fiou os escravos a Martim foi Joaquim Mariano Galvão e 
que Martim quiz pagar-lhe esse serviço, nomeando-o governador 
das armas da provincia, mas que, não tendo podido fazer esta 
nomeação por opposição de Francisco ígnacio, dirigiu contra 
este os seus rancores e ódios. Tinha eu, portanto, razão para 
protestar contra esta afirmativa, porque Martim e Galvão esta- 
vam muito superiores a semelhante insinuação. Agora, se a re- 
dacção está errada e quem fiou os escravos a Martim foi Fran- 
cisco ígnacio, como diz o cidadão E. K., acceito a rectificação 
e passo a outros pontos do trecho citado, 

A carta citada ó de 1.** de Julho de 1822, quando José Bo- 
nifácio e Martim já não eram membros do Governo Provisório, 
nem mais estavam em S. Paulo. Como é, então, que Francisco 
ígnacio vem dizer «estes dous homens esquecidos de que me 
devem a sua presente elevação,.. » f 

Quer se refira ao cargo de ministro do Príncipe Regente, 
que José Bonifácio então occupava, quer ao cargo anterior d» 
membros do Governo Provisório, occupados por José Bonifácio 
e Martim Francisco, esta afirmação do coronel Francisco ígna- 
cio o absolutamente inacceitavel, porque os Andradas não lhe 
deveram um só sequer dos cargos que exerceram, e se allude á 
li pequena noticia co motim que ia se dar » do batalhão de caça— 



— 100 — 

dores, já íicoa explicado qtte o coronel Lazaro Gt>iiçalves, seu 
eoromandante, providenciaria e na sua falta Gama Lobo e Mui— 
ler estavpm á mão, não sendo o serviço feito aos Andradas, mas 
a todo o goveiTio. 

Para bem se comprehender como o espirito do coronel Fran- 
cisco Ignaeio estava absorvido pelo rancor e pelo ódio contra os 
Andradas, quando escreveu a carta em questão, basta ler o se- 
guinte trecho da mesma carta: 

«Deixando em silencio o modo por que José Bonifácio e 
Marti m Francisco, esse dous ambiciosos do governo, se introdu— 
siram no Governo Provisório desta província, que certamente não 
lhes é muito airoso . . . etc . » 

O povo e a força armada se reúnem no dia 23 de Junbo 
de 1821» na Gamara Municipal, e enchem o pateo vizinho» de- 
põem o capitão general João Garlos e tractam de acclamar um 
novo governo ; enviam uma commissão de três militares á casa 
de José Bonifácio, para pedir-lhe, em nome do povo e da tropa, 
que venha presidir á eleição dos membros do governo ; apenas 
a commissão apparece na Gamara, trazendo comsigo José Êoni- 
facio, «aquelle illustre sábio da nação», os ares retumbaram cora 
o grito, muitas vezes repeti to : viva o senhor conselheiro ! — 
Uma vez dentro do paço municipal, José Bonifácio, dirigindo-se 
ao povo disse : Seiíhores, sou muito sensível á honra que me fa^ 
zeiSf elegendo-me para presidente da eleição do Governo Provisória 
que quereis installar. Pela felicidade da minha pátria eu farei 
oê mcàs custosos sacrifícios, até derramar a ultima gotta do tneu 
sangue, 

A resposta a esta declaração foi um geral — viva o sr. cox-^ 
0BLHEIRO ! Animado por esta approvação José Bonifácio cob— 
tÍBUou: «Esta eleição, senhores, só pode ser feita por acclamaçJlo> 
unanime ; descei á praça e eu, da janella, vos proporei aquellaa 
pessoas que, por seus talentos e opinião publica, já por vós ma— 
nifestada, me parecem dignas de ser eleitas». Foi então que 
alguns cidadãos declararam que não deviam entrar para o novo* 
governo «nquelles que atá agora têm sido nossos oppreseores» ; 
porém antes que pudessem citar nomes, como pretendiam, Joaé 
Bonifácio os atalhou, dizendo : 

« Senhores, este deve ser o dia da reconciliação geral: 
« entre todos. Desappareçam ódios, inimizades e paixSes. A Pa^ 
« tria seja a nossa única mira. Gompletemos a olnra da nessa re^ 
« generação politica com socego e tranquillidade, imitando a glo— 
« riosa conducta dos nossos irmãos de Portugal e do Brasil . 

« Persuadido de que liáveis posto em mim a vossa confiança^ 
« €teeeitei o convite que me fizestes e aqui estou prompto a tra-^ 



— 101 -^ 

c balhar pela cansa publica. Se, de facto, confiaes em mim e 
« estaes resolvidos a portar- vos como homens de bem, eiitào ea 
« me encarrego de procurar a vossa felicidade, expondo a pro* 
« pria vida ; mas, si outros s&o os vossos sentimentos, si o vosso 
f fito nào se dirige somente a bem da ordem, si pretendeis man- 
« char a gloria que vos pode resultar deste dia e projectaes de- 
« Bordens, então eu me retiro^ ficae e fazei o que quizerdes,* 

« — Não, senhor, responderam, a uma voz, nós temos toda 
« a confiança em v. exc, toda, toda.» — Pois bem, replicou José 
« Bonifácio, descei á praça e approvae daqyelles que eu nomear 
« os que mais vos vierecerem,* Sahindo a uma janella, dirigia 
ao povo, que estava no pateo, uma exbortaç&o para que se 
portasse de modo ordeiro e honroso e apresentou em primeiro 
logar o nome de Joào Carlos de Oeynhausen para presidente do 
novo governo. Sendo approvada com «vivas» esta proposta, gri- 
tou o povo: «Para vice-presidente queremos a v. exc, senhor 
conselheiro», e assim ficou resolvido. Seguiram-se entfto as elei- 
ções de Martim Francisco, para secretario do Interior e Fazenda, 
do coronel Lazaro Gonçalves, para secretario da Guerra; de Oli- 
veira Pinto, para secretario da Marinha e ouiros. 

E a tudo isto é que o coronel Francisco Iguacio chama 
desairoso / E ao homem illustre, que dirigiu os acontecimentos 
acima descriptos, é qíio o mesmo coronel chama «ambicioso de 
governo» ! ! 

Os trechos foram fielmente transcriptos, tanto da carta do 
dito coronel como da narrativa que Azevedo Marques nos diz 
ser da penna de uma testemunha oecular fidedigna, para que o 
leitor possa bem ajuizar se houve em tudo isso alguma cousa 
desairosa para José Bonifácio e Martim Francisco. 

Se esta eleição do novo governo, por ser revolucionaria e 
n&o estar de accordo com a lei das Cortes, nfto foi regular, o 
epitheto de intrusos caberia mais a Francisco Ignacio e outros, 
que tomaram parte na revolução, do que a José Bonifácio, que 
só foi chamado para sanccional-a, e do que a Martim Francisco, 
que nella não tomou parte alguma. Demais, lodo o feito foi 
legalizado por decreto do Príncipe Regente, de 30 de Julho 
desse mesmo anno, e só por um deplorável estrabismo politico 
é que Feijó e outros pretenderam atirar sobre os Andradas a 
pecha de intrusos, que abrangeria todos os membros do gover- 
no, inclusive Francisco Ignacio, se fosse verdadeira e applicavel 
ao caso vertente. 

Entende o cidadão E. R. que três nomes, os dos coronéis 
Liazaro Gonçalves, Gama Lobo e Francisco Ignacio, se impu- 
nham para membros do Governo Provisorío, acclamado a 23 de 



— 102 — 

Junho de 1821, porque eram commandantes des corpos armados 
que tomaram parte na revolução e enviaram a commissâo de 
três á casa de José Boni:acio a convidal-o para vir presidir á 
eleição e, mais ainda, que, em vez de eleição, se fez acclama- 
çâo e que José Bonifácio deixou o papel do presidente pelo de 
arbitro da reunião . Examinemos estas affirmações : 

O acto que se estava praticando era essencialmente revolu- 
cionário, contrario á mencionada lei das Cortes, c não obedecia 
a nenhum preceito previamente estabelecido ; por isso mesmo foi 
que aquelles três militares foram indicados e acceitos para mem- 
bros do governo. 

Se a eleição fosse legal, os soldados não poderiam votar, 
porque soldados não tem direitos politicos, e o povo talvez não 
os elegesse, porque elles pertenciam ao numero daquelles «que 
até agora têm sido os nossos oppressores», segundo foi ouvida 
na mesma reunião; para deputados e supplentes ás Cortes de 
Lisboa e á Assembléa Constituinte não foi eleito militar algum,. 
3, não ser o general Rendou em tempo em que não commanda- 
va corpo algum e era um paulista dos mais distinctos por si 
mesmo e por sua numerosa familia. A inclusão daquelles tre& 
nomes no pessoal do governo foi um erro de José Bonifácio,. 
2)0Ís deu começo ao grave mal da intervenção do militarismo na 
]>olitica, que nos tem causado não poucos dissabores. 

José Bonifácio, lealmente, declarou que o pessoal do gover- 
no só podia ser escolhido por acclamação e até propôz retirar-se 
da reunião, deixando que a assembléa agisse como entendesse. 
Oppuzeram se a que elle se retirasse e acceitaram a escolha do 
pessoal por acclamação; não houve ahi nenhuma censurável 
pressão sobre a consciência popular, e absurdo seria se a assem- 
bléa quizesse proceder como entendesse e exigisse que José Bo- 
nifácio se responsabilisasse pelos seus actos, permanecendo nella 
e sanccionando os seus feitos com a sua presença, 

Acceita pelo povo a proposta da acclamação, mas sujeitos 
os nomes indicados á approvação do povo, reunido na praça pu- 
blica, se José Bonifácio não tivesse indicado o nome de Fran— 
cieco Ignacio, este não teria entrado para o governo, como não 
entraram José Innocencio Alvim, chefe popular do movimento. 
Ferreira do Amaral e outros, a quem não faltava importância pes- 
soal, mas que não foram por elle indicados. Affirmei, portanto, 
com razão, que Francisco Ignacio é que devia a José Bonifácio 
a sua entrada para o governo, e pela narrativa acima citada 
vimos que José Bonifácio foi o único directamente acclamado 
pelo povo, que exigiu que elle fosse o vice-presidente do novo 
governo. 



— 103 — 

Pergunta o cidadão E. R. se nao se desse, como se deu, a 
interven<;ão daqiielles militares no movimento de 23 de Junho, 
ter-se-ia dado a proclamação do Governo Provisório, como foi 
feita? Entramos agora no terreno das conjecturas, mas ainda 
assim a resposta nSlo é difíicil de ser dada. 

A primeira obrigaçlio daquelles militares era permanecerem 
fieis ao capitão general e esperarem de promptidão as suas de- 
terminações, porque a disciplina e a obediência ao seu superior 
hierarcbico ó o primeiro dever da força armada, e João Carlos 
era o governador legal de S. Paulo. 

Se as tropas seguissem o exemplo de inércia que lhes deu 
o capitão general e se deixassem ficar nos quartéis, José Inno- 
cencio e Joaquim Alvim, chefes populares", teriam dado ao mo- 
vimento a direcção que lhes aconselhassem as suas idéas politi- 
cas e a sua inexperiência ; mas se, sabindo os militares á rua e 
tomando parte na revolução, não chamassem José Bonifácio para 
seu guia e dominassem os acontecimentos, por serem represen- 
tantes da força, poderiam elles então fazer tudo quanto quizessem, 
como fizeram os militares sediciosos de Santos; porém da victo- 
ria do militarismo rebelde poderiam surgir a tyrannia e a anar- 
chia e nunca a liberdade alliada á ordem. 

Se José Bonifácio se recolheu ao Brasil sem licença e apo- 
sentadoria, a que teria direitos por seus trinta annos de serviços 
ao governo portuguez, e continuou a receber aqui o ordenado 
do emprego que lá deixara, entendo que não andou bem ; mas 
também parece-mo que não tem o direito de atirar-lhe pedras 
aquelles que nunca accusaram Costa Carvalho por abandonar a 
regência do Império e continuar a receber, em S. Paulo, o or- 
denado do emprego que deixou de exercer. O que é crime em 
José Bonifácio não pode ser virtude em Costa Carvalho, 

m 

O governo do Príncipe Regente era legal, delegação muito 
legitima de seu pae, rei do Reino Unido de Portugal, Brasil e 
Algar ves. 

Os generaes Cândido Xavier e Arouche Rendon, delegados 
do Principe Regente e encarregados de importantes de impor- 
tantes commissões em S. Paulo, eram os representantes de um 
governo legal e legitimo, de que José Bonifácio erá ministro. 
Como taes, elles tinham o direito de entrar em S. Paulo, em 
cumprimento de ordens superiores, de depor o governo e até de 
prender todos os seus membros, criminosos pela sedição de 23 
de Maio de 1822, se tivessem ordem para isso. 



— 104 — 

Gonte&tar-lhes esse direito 8ei:ia contestar a legitimidade da 
sua delegação e, portanto, a própria legitimidade dos poderes e 
regalias do Príncipe Regente, que entào se snppnnha serem de 
origem divina. Nâo podiam, por conseguinte, os bemardistaB, 
que estavam senhores do governo de S. Panlo, oppôr-Ihes legi^ 
mente a menor resistência e mnito menos ameaçar de qualquer 
violência ao general Cândido Xavier. 

Não se dava o mesmo com o coronel Paula Macedo, enviado 
a Ytú pelos restantes membros do Governo Provisório. Pastes, em 
virtude dos factos de 23 de Maio, se tinham tornado delinquen- 
tes pelos decretos do 25 de Junho de 1822, que lhe cassou os 
poderes, como se vê dos Anne3ix}8 N e O, do vol. I do Arcàdvo 
do Estado de S, Paulo (Bernarda de Francisco Ignacio). 

Sendo este um governo sem poderes, nào podia mais mandar 
emissário em seu nome tratar com Pedro de Brito Caminha, 
militar e commandante da força armada de Ytú, que se tinha 
posto á disposição do Príncipe Regente, directamente e sem o 
intermédio do governo de S. Paulo, cuja legitimidade elle agora 
desconhecia. 

O povo de Ytú, que também se tinha rebellado contra os 
bemardistas e formado com os povos de outros municípios uma 
confederação para a defesa dos interesses brasileiros, em opi>o8Í— 
ção aos extrangeiros acastel lados no governo de S. Paulo, re- 
sentiu-se justamente dessa missão, que foi logo divulgsda, e en— 
xotou da cidade o emissário que foi apedrejado até por senhoras 
da melhor sociedade do logar. 

Oppondo~se á entrada em S. Paulo dos generaes Cândido 
Xavier e Arouche Rendon, o Governo Provisório commette« 
mais um acto de premeditada rebeldia, mais um delicto, contra 
ordens expressas do Príncipe Regente, legitimo governador ào 
Brasil, e, enxotando de Ytú o emissário de um governo delin- 
quente e com poderes já cassados pela auctoridade superior, os 
ytuanos praticaram um acto legal e em legitima defesa, sendo 
somente para lamentar que chegassem ao excesso de apedreja-lo, 
facto este que patenteia de sobra o ódio que havia no interior 
contra os bemardistas da capital. 

E' muito para notar que em todos os actos de desobediên- 
cia do Governo Provisório ás ordens do Príncipe Regente, de-^ 
pois da bernarda, o coronel Francisco Ignacio fez saliente agora. 
Militar, metteu-se na rel»ellião para depor João Carlos e con- 
cordou que José Bonifácio fosse chamado e tomasse a direcção 
do movimento ; mas logo fez liga com o mesmo João Carlos, 
abriu lucta com os Andradas, quando se apanhou dentro de go- 
verno, levando o. desembaraço ao poato de desobedecer ás oi^ 



— 105 — 

deus do Prmeipe Regente, e aind* se jnlga com o direito de se 
queixar por ter sido chamado ao Rio de Janeiro para dar expli- 
cações do sen proceder! 

Para elle e para todos os bemardtstas do governo as ordens 
do Prineipe Regente eram illegaes, por virem referendadas pelo 
ministro José Bonifácio, como se D. Pedro fosse obrigado a su- 
jeitar á aprovaçfto deilee as nomeações que tivesse de fazer de 
sens ministros; mas, quando este governo, dissolvido e despres- 
tigiado pelos decretos de 25 de Junho de 1622, soube que o 
Prineipe vinha a S. Paulo, com o fim de apaziguar as discór- 
dias provocadas pelos auctores da bernarday apressou-se em de- 
clarar nas actas das suas sessões que tal visita seria recebida 
com muita satisfacç&o e agrado! 

Em nota diz o cidadào E. R. que, nos decretos de 25 de 
Junho, José Bonifácio «lançara toda a sua bilis sobre os ber- 
nardistas do governo de S. Paulo», dando assim a entender que 
D. Pedro assignava de cruz tudo quanto o seu ministro es- 
crevia ! 

Sempre na mesma affirmativa ! Em S . Paulo, os membros 
do governo, inclusive Joík) Carlos e uns seis bernardistas, eram 
uns irresponsáveis j que, sem protesto, assignavam tudo quanto 
03 Andradas queriam, e no Rio até o Prineipe Regente subscre- 
via de cruz documentos officiaes que continham a hilís de José 
Bonifácio ! 

Entretanto, D. Pedro era homem de caracter exaltado e 
violento e em mais de um documento firmado ]>or elle e não 
referendado por José Bonifácio encontra-se a mesma linguagem 
dura e áspera, que se nota nos decretos de 25 de Junho de 
1822. Na proclamação de 12 de Novembro de 1823, relativa á 
dissolução aa Assembléa Constituinte, usa elle das palavras «-de- 
satinos de hfjmeiís allucinados pela soberba ~e ambição..., as 
prisões são feitas para poupar a vida desses desgraçados . . . etc»; 
em outra proclamação lê-se: «o génio do mal inspirou damnadas 
tenções a espíritos mal intencionados. . . scenas trágicas e hor^ 
rorosas... apoiados escandalosos.,, horrível estampido... fúria 
dos partidos... ódio nacional... sede de vingança... a mais 
hydropica ambição... etc.», tudo referente aos Andradas e seus 
amigos da Assembléa Constituinte, e na proclamação datada de 
Ouro Preto, a 22 de Fevereiro de 1831, dirige D. .Pedro a Eva- 
risto Veiga e á sua gente palavras egualmente acerbas ; entre- 
tanto, nenhuma destas proclamações foi redigida por José Boni- 
£kío, de que se segue que o hUioão não era elle, mas o pró- 
prio Prineipe Regente» 



— 106 — 

Era seí^uida, vem o seguinte trecho que, embora isolado, 
vale por si só : «... pelo decreto (de 25 de Junho) cassa o go- 
verno e manda que, depois de elegerem os deputados para a as- 
sembléa constituinte, os eleitores da parochia passem a nomear 
um governo provisório, composto de cinco membros ; a elei<;ào 
dos constituintes só se realisou em Setembro e o novo governo 
tornou posse em Janeiro de 1823 ; mas YUl e Sorocaba estavam 
vuinidas de ordens j^cira ivstallarem um novo governo /» 

Os gryphos sSo meus e, os empreguei para chamar a at- 
tenção do leitor sobre as affirmações finaes, que contêm graves 
erros da historia paulista. Cassados os poderes dos bernardistas , 
estes continuaram de facto a governar, até que se elegesse ou- 
tro governo, e ainda estavam no poder quando D. Pedro veiu a 
S. Paulo e aqui proclamou a independência; porém, partindo 
para o Rio de Janeiro, D. Pedro aqui deixava um novo gover- 
no, composto do bispo D. Matheus, do marechal Cândido Xa- 
vier c do ouvidor José Correia Pacheco e Silva, inaugurado a 
10 de Setembro de 1822 e nâo em Janeiro de 1823, como affir- 
ma o cidadão E. R. Este triumvirato governou a província 
desde 10 de Setembro de 1822 até 8 de Janeiro de 1823, quan- 
do foi substituído pelo governo de seis membros de que faziam 
parte o marechal Cândido Xavier, presidente, o dr. Manoel Or- 
nellas, o padre Gonçalves Lima, Anastácio Trancoso, o capití^o- 
mór Silva Possos e o coronel Correia de Moraes, que, por velho 
o doente, nâo tomou posse. 

Ao tempo em que se installou em S. Paulo o governo do 
triumvirato, de que era chefe o bispo D. Matheus, isto é, a 10 
de Setembro de 1822, já D. Pedro tinha acalmado todos os âni- 
mos e já nào mais existia a confederação dos municípios do in- 
terior, com sede em Ytií; aquelles povos tinham deposto as ar- 
mas e voltado á communhào politica de toda a província, sob o 
governo dos triumviros acima referidos. 

Como então vem o cidadão E. R. nos dizer que ainda «em 
Janeiro de 1823 as camarás de Ytú e Sorocaba tinham ordens 
para installarem novo governos, quando todos os municípios já 
estavam em paz e obedecendo ás ordens dos governos de S. 
Paulo e do Rio de Janeiro ? 

As discórdias no interior foram provocadas pelos auctores 
da bernarda^ cassados os seus poderes e empossados os triumviros 
do governo, voltou a paz na proviucia e todos entraram na 
obediência devida ao novo governo, que era legal e inspirava 
confiança aos povos. Adeante, ainda na mesma nota, vem o se- 
guinte trecho, que é uma faca de dois gumes : 



— 107 — 

«NenLuma necessidade tinbn José Bonifácio de cassar acin- 
tosamente o governo provisório, pois que, como se vê da acta 
de 23 de Dezembro de 1821, elle só esperava o decreto para a 
nova organização do governo para se proceder á convocaçã dos 
eleitores de parochias para nomeação de sete membros que deviam 
compor o dito governo ; e isto devia saber José Bonifácio, pois 
que se acbava em S. Paulo e era vice-presidente do mesmo go- 
verno; esta decisão fora tomada por moção de Martim Fran- 
cisco.» 

Pois, se a 23 de Dezembro de 1821, estando José Bonifá- 
cio em S. Paulo, estava o governo dos intrusos á espera do de- 
creto para a eleição do novo governo, porque o Principe Re- 
gente não expediu esse decreto? José Bonifácio não estava no 
Rio para dominar D. Pedro e impedil-o de expedir essa ordem, 
e, portanto, se ella não foi expedida seria porque D. Pedro en- 
tendia que o governo dos intrusos estava bem legalizado pelo 
seu decreto de 30 de Julbo de 1821 e não era necessário fazer 
a eleição de um outro governo. 

Quem cassou os poderes do Governo Provisório foi D. Pe- 
dro e não José Bonifácio, que simplismente referendou o seu 
acto; não bavia ainda Constituição fazendo os ministros respon- 
sáveis pelos actos do Principe e este, cassando a auctoridade do 
govcnio beniardista, nAo procedia acintosamente, mas o punia 
pela rebellião de 23 de Maio. Foi um castigo e não um acinte; 
mas os bernardistas, senbores do governo de S. Paulo, não se 
sentiram maguados no seu amor próprio pela linguagem que com 
elles usou D. Pedro nos decretos de 25 de Junbo de 1822, não 
se demittiram dos seus cargos e até passaram a preparar festas 
para solemnizar a vinda do Principe a esta capital! 

Oito dias depois da sessão mencionada, José Bonifácio se- 
guia para o Rio e nunca mais voltou a S. Paulo; um mez de- 
pois, partiam também os coronéis Lazaro Gonçalves e Gama 
Lobo, que foram levar os Leaes Paulistanos ao Rio, e Verguei- 
ro pouco frequentava as sessões do governo, em que os bernar- 
distas ficaram em consiante maioria. Porque estes não puzeram 
em pratica a moçãp de Martim Francisco r Porque não trataram 
de obter a expedição do decreto sobre a eleição do novo gover- 
no V Seria porque José Bonifácio no Rio e Martim em S. Paulo 
não o consentiram ? 

Mas nas Actas das Sessões não se encontra uma só declara- 
ção, um só protesto, dos bernardistas no sentido de estarem coa- 
gidos por qualquer forma de pressão que sobre elles exercessem 
os irmãos Andradas. Devemos antes acceitar sobre este ponto a 
opinião de Américo Brasiliense, que, «com a sabida de José Bo- 



— 108 — 

nifaeio, o presidente João Carlos e os bemafdistas se sentiram 
melhor no governo, e, para completar o predomínio dos retró- 
grados e da influencia portugueza, só restava eliminarem Mar- 
tim Francisco e Jordão», o que fizeram a 23 de Maio. 

Passamos ao final da nota, que é curioso: 

«Parece que em vez de tantas arbitrariedades praticadas de 
10 de Maio em deante, tendo elle assumido, como aiz o dr Piza, 
o poder absoluto, podendo até mandar fuzilar e enforcar quem 
quizesse, teria evitado o incommodo que lhe causavam esses de- 
sorganizadores rebeldes, mandando immediotamente proceder á 
eleiçào do novo governo, certo de que, com a assignatura do 
Principe, todos se sujeitariam. .. etc.» 

Nào nos diz o cidadfto E. R. quaes foram e^sas «tantas ar- 
bitrariedades» praticadas depois de 10 de Maio, as quaes nfto 
constam das Actas das Sessões Se a referencia é feita á cha- 
mada de João Carlos, Francisco Ignacio e Costa Carvalho para 
o Hio de Janeiro, eram elles funcionários públicos e militares 
sujeitos ás ordens do Principe, que ob chamou por conveniência 
do sei-viço publico, nacional e real. 

Não conheciam a natureza desse serviço publico e deviam 
obedecer e nèo discutir a sua natureza, porque não tinham com- 
petência para tanto ; desobedeceram sem saberem de que se tra- 
tava e querem desculpar-se da desobediência allegando que tal 
chamado era uma arbitrariedade ! 

A assignatura do Principe Regente obrigava a todos, menos 
aos bernardistas, que se rebellaram contra o general Cândido 
Xavier, portador de ordens do mesmo Principe. 

Quem desobedecia ás ordens de D, Pedro, trazidas por 
Cândido Xavier para certos fins, podia continuar a desobede- 
cer ás ordens do Principe referentes á eleição do novo governo. 
Como argumento, a hypothese é fraca e tem contra si os factos 
occorridos com aquelle general. 

Eu disse que José Bonifácio, ministro em 1822-23, qxumdo 
ainda não havia uma constituição e leis reguladoras dos direitos 
e deveres dos cidadãos, não enforcou nem fuzilou ninguém, e 
que Costa Carvalho, regente, e Feijó, ministro da Justiça, em 
tempo em que já havia constituição e leis, se fizeram responsa* 
veis pela matança do povo fluminense em um theatro e pelos 
asspssinatos de prisioneiros inermes em S. Christovam. Âquelle 
não fez viuvas nem orphams, é um tyranno ; estes que derra- 
maram o sangue dos seus irmãos, são liberaes austeros! 



— le» — 

IV 

Passemos ao terceiro artigo da ultima série, em que ba al- 
guma conta a respigar. Começarei pelas seguintes interrogações r 

«... mas que reaeçào e planos eram esses que ninguém 
conhece, ou se é capaz de desvendar por qualquer acto ou facto ? 
Nào eram o próprio governo e o povo de S. Paulo que, repe- 
tida e insistentemente» pediam ao Principe Regente que viesse 
á província verificar, pelos seus próprios olhos, o que havia de 
fisko nas informações que lhe eram prestadas (pelos Andradas) 
e que o levaram a decretar medidas violentas, desnecessárias e 
injustas ?» 

A reacção «ra a Bernarda de Frandêco IgrèoeiOy muito co-> 
uhecida de todos quantos estudam a historia paulista, facto gra- 
víssimo, que merecia punição muito mais severa do que os pou- 
cos mezes de degredo que sofireram os seus auctores, e o plano 
era aqnelle que nos fala Américo Brasiliense, de «eliminar Mar- 
tim Francisco e Jordão do governo e restaurar a infiuencia dos 
portugueses». E tanto eram verdadeiras as accusaçôes, que o 
Principe Regente veiu a S. Paulo, a chamado dos bemardistas, 
ouviu-os, conheceu dos factos, manteve o seu acto cassando os 
seus poderes e só deixou S. Paulo no dia em que te installou 
um novo governo^ de três membros, dos quaes um era o bispo 
diocesano e os outros dous eram paulistas dos mais distinctos. 

8egue-se a historia dos factos oceorridos entre o governo 
bemardista e o general Cândido Xavier, pela qual te vê que o 
governo de S. Paulo queria tratar o governo do Príncipe Re— 
gente de egual para egual e era um governo de tniruMOã, se- 
gundo elles se Qualificavam a si próprios, querendo deprimir os 
Andradas, quando José Bonifácio foi o único directamente accla- 
mado pelo povo na reunião de 23 de Junho de 1821. 

O general Cândido Xavier era governador da praça de 
Santos e, com força bem municiada, marchou para S. Paulo por 
erdem do ministro da Guerra de D. Pedro, como elle affirmou 
• consta das papeis do tempo existentes no Arehivo do EiStado. 
Era um acto de franca desconfiança do governo do Rio contra 
SB bemardistas de & Paulo, e estes, que deviam tomal-o como 
uma formal exauctoração e renunciar os seus cargos, &ieram-te 
Iwtea netta capital e resistiram, não permittindo que o general 
entrasse na cidade. 

Vieram os decretos de 25 de Junho de 1822, que cassavam 
os setis poderes e usavam para com os bemardistas da mais ás- 
pera linguagem; mas elles não se deram por eféndi(kw nem 
desaoetorados e continuaram no governo, que pareciam conti- 



— 110 — 

derar como propriedade sua. Desappareceu, finalmente, o go- 
verno com a chegada de D. Pedro a S. Paulo, e entào só res- 
tavam quatro de seus membros, que insistiam em funccionar e 
eram Oliveira Pinto, Miiller Quartim e Francisco Ignacio — três 
extrangeiros, um filho do extrangeiro e militar educado em 
Portugal e todos bernardistas. 

Pergunta o cidadão E. R. se havia alguma desordem em S. 
Paulo que justificasse a ostentação da força armada por parte do 
marechal Cândido Xavier, se o governo dos bernardistas tinha 
i*equisitado alguma força, se as ordens do Príncipe eram desobe- 
decidas e se podia um simples governador da praça de Santos 
deslocar a tropa sem ordem superior. 

A tudo isto se responde que havia desordem em S. Paulo, 
porque a bernarda foi uma desordem, a deposição de Martim e 
Jordão foi uma violência, pois eram membros tão legaes do go- 
verno como qualquer bernadista ; que o governo estava legali- 
zado pelo Príncipe Kegente, qualquer acto de rebeldia contra o 
governo de que elles faziam parte era um ataque á auctoridade 
de D. Pedro, e o marechal Cândido tinha ordem superior para 
deslocar a tropa sob o seu commando, como consta de documen- 
tos officiaes. 

Francisco Ignacio, membro do governo, se mette a chefiar 
a rebellião e expelle do governo dous membros tão legaes como 
elle ; os seus partidários do governo remettem Martim preso para 
o Rio de Janeiro, tudo isto sem ordem do Príncipe Regente, e 
ainda se diz que em S. Paulo não havia desordens ! Os muni- 
cípios do interior se rebellam contra os bernardistas e formam 
uma confederação para a sua defesa commum, e não havia des- 
ordem na província 1 

Resiste o governo de S. Paulo ao marechal Cândido Xa- 
vier, como se este fosse delegado de uma nação extrangelra e 
não do Príncipe Regente ; tem os seus poderes cassados por um 
decreto que o desmoralisa, mas não larga o poder ; vem D. Pedro 
a 8. Paulo o cuve as suas razões, mas não retira o decreto e 
faz eleger e empossar novo governo, e volta a ordem a toda a 
província, que realmente estava a pique de ser envolvida em uma 
guerra civil, como bem se disse nas Instrucções dadas ao gene- 
ral Arouche. 

Se os movimentos do povo e tropa de S. Paulo a 23 do 
Maio e 19 de Julho de 1822, foram manifestações «de sentimentos 
cívicos e não revoltosos», como pretende o cidadão E. R,, que 
representam, então, os movimentos dos municípios do interior em 
contrario aos da capital e chefiados por genuínos paulistas e exe- 
cutados por brasileiros pacíficos e sem ambições do governo ? 



— Ill — 

Os movimentos da capital, tendo sido dirigidos principal- 
mente por extrangeiros e qnasi extrangeiros contra genuinos 
brasileiros, eram manifestações reaccionárias e perigosas para os 
interesses nacionaes ; as manifestações dos municípios sim, eram 
do mais puro e ardente civismo, porque partiam de genuinos 
paulistas e eram dirigidas contra os extrangeiros acastellados no 
governo de S. Paulo em seguida ao 23 de Maio. Cassados os 
poderes desses extrangeiros, que se tinham feito fortes no go- 
verno de S. Paulo, cessou toda a discórdia na provincia e todos 
entraram na obediência ao novo governe inaugurado a 10 de 
Setembro de 1822. 

PT interessante o seguinte trecho, que é contradictorio com 
outro anteriormente copiado e nào está de accôrdo com a ver- 
dade histórica : 

«Era José Bonifácio pessimista e açodado nas medidas ex- 
tremas: daqui a origem de todos os actos que muito o impopu- 
larisaram e que constituem o libello accusatorío do seu governo 
até 1823 ; os seus sentimentos e intenções seriam os mais puros,, 
mas tinha em pouco as garantias dos direitos dos seus coiv- 
cidadãos ; a máxima do seu governo foi sempre <(-os fins justifi- 
cam os arbitrios dos meios mais cru€isr>. 

Trabalhando para realisar a independência do paiz, que era 
consequência obrigada do celebre «fico», luctando com inimi- 
gos externos e internos e vendo o Brasil dividido pelas Cortes 
de Lisboa em circumscripções politico-administrativas, com go- 
vernadores e commandantes militares portuguezes immediatamen- 
te dependentes de Portugal e independentes do Príncipe Re- 
gente, e ainda alguma vacillação nos espíritos sobre a forma de 
governo a adoptar, José Bonifácio nSo foi pessimista e açodado, 
mas cauteloso e enérgico nas medidas de segurança que meditou 
e poz cm pratica. 

Emquanto o governo de Lisboa fortificava a sua influencia 
no Brasil, dividindo a colónia em varias partes e dando a cada 
parte governador e commandante militar portuguezes e da sua 
absoluta confiança, enfraquecendo assim a força e o prestigio do 
Princi])e Regente, que ficavam limitados ao Rio do Janeiro, 
Minas Geraes e ás províncias do sul, teve José Bonifácio de 
combater todo o elemento portuguez da Europa e do norte do 
Brasil e ainda tinha de vigiar os procedimentos de Gonçalves 
Ledo, Januário Barbosa, Feijó e outros, que já pensavam em 
formas de governo, quando ainda náo estavam asseguradas a 
independência e a unidade nacional. 

Entretanto, elle cuidou em tudo, salvou tudo, fez a inde- 
pendência, assegurou a unidade nacional e nào enforcou nem 



— 112 — 

fuzilou ninguém. Dons annos depois, D. Pedro, para manter a 
integridade do Brasil, teve de fuzilar Frei Caneca e de enforcar 
Ratcliff e outros, e, depois de 7 de Abril, Gosta Canralho e 
Feijó massacravam o povo no theatro e degollavam pnsioneiroi 
inermes, qnando nfto se tratava da independência nem da uni- 
dade nacional ! 

Se as ordens de prisão de Ledo, Januário Barbosa e ontrot 
foram actos que trouxeram, no tempo, alguma animosidade con- 
tra os And radas, a posterior comparaç&o dot seus actos con os 
ministros de D. Pedro, em 1824—25, e com os úm regência, de 
1831 — 40, trouxe a reacçào do espirito nacional e fez com que 
a sua memoria subisse na estima publica e íbsse elle elevado 
á honra única de Patriarcha da Indbpendmscia, com uma 
estatua na capital do Império. Foi a comparaç&o que ealvou a 
memoria de José Bonifácio da animosidade a que pretendeu 
atiral-a o ódio dos seus inimigos; e os ministros de D. Pedro, 
de 1824 — 25, e os governos regenciaes depois de 1831 se 
incumbiram do fornecimento dos factos para o parallelo. Em 
1822 — 23 trata se da independência do paíz e da sua integridade 
territorial, ameaçada pelas Cortes de Lisboa; ha espionagem e 
algumas prisões de individuos considerados suspeitos por seu 
exaggerado liberalismo; em 1824 — 25, já não se trata da inde- 

Sndencia e somente da integridade nacional, mas fhzila-se Frei 
meça, e são enforcados Ratclifi, Bezerra Cavalcanti e vários 
outros, e de 1831 em deante os motins populares no Rio de Ja- 
iMiro são suffi>cados em sangue derramado no thefitro, nas nu» 
e nos arrabaldes, não se respeitando a vida de prisioneiros des- 
armados ! 

EiU treta» to, a José Bonifocio é que se appliea o conhecido 
aphortsmo «o fim justifica os meios», que se a alguém cabe é 
exactamente aos ministros que o substituíram no governo de D . 
Pedro e aos que subiram ao poder depois de 7 de Abril de 1831. 



Passando ao quarto artigo, preciso diser que nãoé do meu 
caracter inverter as intenções alheias e muito menos âizer graça 
ou pilhéria sobre os argumentos daquelles que pensam e es- 
crevem em contrario ás minhas opiniões. As faltas e defiútos, 
que o coronel Francisco Ignacio encontrou no pessoal do gorenio 
que tomou posse em Janeiro de 1823^ são tão dostituidos de 
Ãindamento, que ninguém poderá acceital-os come a expressão 
da verdade histórica. 



— 118 — 

Basta lêr a própria carta para se conhecer o sen nenaum 
valor como fonte de informações sesruras sobre as pessoas accu- 
sadas, e, para bem caracterisar o meu conceito sobre o seu mé- 
rito como documento histórico, citei um argumento análogo, 
usado por Laboulaye, quarenta annos depois, sem pretender com 
ifôo duvidar da sinceridade do auct^r da carta, quando a escre- 
veu. O assumpto é digno de toda a ponderação, e só é para 
lamentar qae os ódios do tempo desvairassem o espirito do co- 
ronel Plrancisco Ignacio ao ponto de empregar argumentos da 
natureza daquelles, que até justificam a duvida sobre a veraci- 
dade do outros de caracter mais solido. 

Descrevendo o estado da provincia, a imprestabilidade do 
pessoal do governo e a falta de garantias oflTerecidas pelo ou- 
vidor e pelo commandante das armas, todos accusados de an- 
dradiataSj disse Francisco Ignacio: «Eu me persuado que por 
•ora nào é preciso que marchem tropas para esta provincia. . 
comtudo muita gente anda bastante assustada por ver nos pri- 
meiros legares aquelles oue os perseguiam . . . , etc . » 

Daqui se collige o desejo que elle tinha da vinda de tropa 
A S. Paulo e da substituição do pessoal accusado de andradista; 
a limitaçào por ora exprime um desejo, e nào uma necessidade 
urgente, sendo a tropa conveniente para acalmar a gente ass^is- 
iada, e nào necessária para debellar uma revolta pronunciada. 
Nào inverti, portanto, o pensamento do dito coronel, mas tirei 
■das suas palavras a illaçào que me pareceu mais applicavel ao 
«aso. 

Nào neguei que Francisco Ignacio tivesse uma honrosa fé 
•de officio como militar e que como particular fosse um dos mais 
honestos; mas contestei algumas das suas affirmações sobre fa- 
ctos importantes da historia paulista, por julgar fracos os seus 
argumentos e fortes as minhas razões. Filho de fidalgo portu- 
guês, educado em Portugal, official que foi do exercito portu- 
^ez, militar ainda em S. Paulo e metttdo aqui em politica, 
nào podia deixar de trazer para ella todos os defeitos de sua 
•edneaçào militar. Conhecemos de sobra a influencia mais que 
perniciosa dos quartéis sobre a politica em todas as nações, e 
Francisco Ignacio nào seria uma excepçào. 

O facto deste coronel fardar á sua custa um corpo de tropa 
ipara os festejos da recepçào do Principe Regente foi um erro 
grave que elle praticou e.que tinha razões evidentes nara nào 
praticar. D. Pedro vinha a S. Paulo com o fim de synaicar so- 
bre o movimento revoltoso de 23 de Maio, no qual Francisco 
Ignaeio tinha sido magna pars; tinha este de ser um dos syn- 
^cados e, em vez de modestamente conservar-se na sombra e 



— 114 — 

esperar o resultado do inquérito, ao contrario, veiu para a fren- 
te com um luzido corpo de tropa, formado á sua custa, coUo- 
cando assim D. Pedro em obri«jaçào ])ara com elle e tornando 
difficil e mais penosa a tarefa do Principe na syndieancia dos- 
factos que forçaram a sua vinda. 

Foi-lhe recusada a honra por um dever de consciência da 
parte de D. Pedro, que nâo devia, nào podia, coUocar-se em 
estado de gratidão para com um dos mais compromettidos na 
bernarda. Se o Principe nao era de consciência bastante deli- 
cada para sentir escrúpulos dest^ natureza, era, entretanto, suf— 
íicientemente estouvado para recusar aquella cortezia por mera 
leviandade; e para corroborar esta hypothese. citei o facto do- 
capitÃo-mór de Ytú, Vicente Taqucs, velho de 80 annos, muito 
respeitável por seu caracter e por sua familia e para o tempo 
muito instruido, latinista e poeta, que sahiu da sua terra a ca- 
vallo, pelos maus caminhos de outrora, e veiu a S. Paulo cum- 
primentar o Principe e dar-lhe as boas vindas. Foi mal recebido 
por D. Pedro e voltou a Ytú, acabrunhado de canceira da lon- 
ga viagem e de desgosto pela descortezia que sofíreu. Seria por 
intrigas dos Andradas que o estimável velho passou por t^o 
amarga decepção? Com certeza não foi, porque Vicente Taques- 
era paulista dos mais genuínos e fez parte da confederação 
ytuana que sustentou os Andradas contra os bernardistas de São 
Paulo. 

Francisco Ignacio estava em condições muito menos favo- 
ráveis do que o capitão-mór de Ytú para ser bem recebido por 
D. Pedro, e não o foi, nem devia sel-o, sem que para isso fosse 
necessária a intervenção de José Bonifácio. 

O coronel Francisco Igna»!Ío escreveu, em data de 30 de 
Setembro de 1823, quando os Andradas já não estavam mais no 
poder, uma longa e minuciosa carta ao intendente de policia ào 
Rio de Janeiro, accusando de andradisias cinco membros do go- 
verno e o governador das armas de São Paulo e de «homem o 
mais perigoso» ao ouvidor da comarca, insinuando ainda que 
deviam ser reprehendidos o coronel Anastácio, membro do go- 
verno, o cónego João Ferreira, ex-membro do governo, os pa- 
dres Manoel Joaquim do Amaral Gurgel e Ildefonso Ferreira e 
outros por promoverem desordens e insultos. 

Eu chamo a isto uma denuncia^ uma delação, e o cidadão 
£. K. vem nos dizer que tal qualificativo é uma iniquidade e 
que eu estou descendo a um terreno pessoal, em que declam 
que não me acompanhará. Leiam os estudantes da historia pau- 
lista a carta citada e verifiquem por si mesmos se ella não é 
uma denuncia, uma delação, com todos os seus requisitos, feita 



— 115 — 

sem conlieci mento dos accusados e dirigida ao intendente de 
policia do Rio, delegado de um governo absoluto por falta de 
uma constituição, que ainda não estava outorgada, e inimigo 
dos Andradas, que lho faziam acerba opposição na Assembléa 
Constituinte. 

Tendo o cidadão E. R, na sua primeira critica, cliamado 
energiuneiws algumas das auctoridades históricas, em que me 
baseei, e dado a entender que os seus testemunhos não valiam 
por serem de amigos e partidários dos Andradas, usei da mais 
legitima defesa analysando o conteúdo do folheto Os Andradas, 
atirado á publicidade para servir de «começo da devassa que pre- 
cede á enunciação do juizo severo e imparcial da historia», e 
mostrando que tudo quanto elle contem é innaceitavel, por ser 
de inimigos pessoaes e poli ticos dos mesmos Andradas. 

A severidade da critica ao folheto é justificada pelo azedu- 
me das accusações que elle encerra, sem que haja nada de pes- 
soal da minha parte, porque os meus antepassados não tiveram 
o menor attrito com os bemardistas e a menor dependência dos 
Andradas . 

E' importante o seguinte trecho do quarto artigo da ter- 
ceira série: 

«As cartas de Francisco Ignacio constituem correspondência 
particular ; nessa é permittida a expansão dos sentimentos in- 
dividuaes : os conceitos nella manifestados, se encontram apoio 
em factos conhecidos ou em actos officiaes, têm o cunho da ver- 
dade ; se a olles se contrapõem, não constituem depoimento his- 
tórico» . 

Ora sendo uma correspondência particular, cujos conceitos 
só tem o cunho da verdade quando de accôrdo com os factos 
conhecidos e com os actos ojiciaes, é supérflua como base da 
historia, visto que os factos são já conhecidos e a historia é já 
sabida, e si a elles se contrapõem, precisam ser analysadas para 
se evidenciar que não estão conformes com os factos conhecidos 
e com os actos officiaes, e que, portanto, não constituem valio- 
sas contribuições para a historia. 

Como pretende o cidadão E, i?. qno aquellas cartas sirvam 
de fundamento para uma devassa histórica sobre o caracter e as 
acções dos Andradas quando c s. s. mesmo que restringe o seu 
mérito histórico dizendo que elles só valem se estiverem de accôrdo 
comos factos conhecidos e com os actos officiaes ? Neste caso são 
inúteis, poríjue nada adeantam sobre os factos conhecidos ; e no 
caso contrario são antes prejudiciaes á historia por não estarem 
de accôrdo com os mesmos factos conhecidos e com os mesmos 
actos officiaes. 



— 116 - 

Em Junho de 1821, foram juradas as Bj,ses da Constituição do 
Reino de Portugal, Brasil e Aliçarves, que tiveram vigor até 7 
de Setembro de 1822 ; nesca ultima data foi proclamada a inde- 
pendência, e aquellas Bises^ ipso facto^ foram derogadas, orde- 
nando-se a eleiçào de uma Assembléa Constituinte para fazer 
outras Constituição ; porém, tendo sido essa assembléa dissolvida 
a 12 de Novembro de 1823, sem nada ter realizado de definitivo, 
foi uma Constituição decretada a 2õ de Março de 1824 ; portanto, 
de 7 de Setembro de 1822 até 2õ de Março de 1824, nào havia 
Constituição que estabelecesse a forma de governo e assegurasse 
os direitos dos cidadãos. 

Era o governo absoluto nesse intervallo de tempo, e, como 
tal, não tinha obrigação alguma de dar publicidade a certos 
actos seus, ou antes, a todos os seus actos sem reserva alguma, 
como pretendia o ministro Nogueira da Gama, que allegava, em 
1823, que «em um governo coní»tituicional, como o presente^ 
deve haver toda a publicidade*. Era uma quentão de fôrmc^ e 
o ministro estava errado, porque a forma de goveimo, em 1823, 
era ahsjluta e não constitucionil. José Bonifácio pretendia que 
ninguém tinha o direito de contestar a constitucionalidade ^ a le- 
gitimidade dos poderes do Principe Regente e, como estes pode- 
res eram legitimos, seguia-se que também eram legaes e legi- 
timos os poderes dos seus ministros. Era uma questão de 
fundo e não de forma, e a natureza dessas funcçôes esta- 
va acima da critica popular. José Bonifácio tratava da legi^ 
timidade das funcçôes exercidas por D. Pedro e censurava 
aquelles que duvidavam da constitucionalidade dos seus poderes; 
estava, portanto, correcto ; mas Nogueira da Gama tratava de 
cópias de pxpeiòj mat^eria de simples expediente do governo ; 
estava, portanto, errado, porque um governo absoluto como era 
o de então, não tinha obrigação alguma de tornar publico todos 
os seus actos. 

Estão no archivo do Estado os livros de registros e das actas 
da Gamara Municipal de Ytú, dos annos de 1821 — 22—23 e por 
elles se verifica que Paula Souza foi um dos chefes da confede- 
ração ytuana contra os bemardistas de S. Paulo; era, portanto, 
um amigo dos An d radas e, por isso, extranhei a introducção de 
uma carta sua, inintelligivelmente queixosa, na collecção das car- 
tas do coronel Francisco Ignacio. Acceito e agradeço a expli- 
cação que desse facto acaba de dar o cidadão E. R. 

Entendo que, sendo o amor da pátria um sentimento innato 
nos corações dos naturaes de um paiz, não podem os estrangei- 
ros sentil-o de modo algum e muito menos estando o paiz de 
adopção em lucta com o paiz de nascimento. Pode haver am- 



— 117 — 

zade dos extrangeiros pelo paiz de adopção, mas nunca pátrio^ 
iúmo, e tanto esta é a idéa geral, que em todas as Eepublicas 
nào se permitte que occupe a cadeira presidencial quem nào seja 
natural do paiz, sem que neste facto haja o menor indicio de 
jacobinismo. Podem os extrangeiros occupar todo» os cargos 
públicos, menos a presidência da Republica, exactamente porque, 
em caso de um conflicto entre o paiz de adopçào e o do nasci- 
cimento, serão elles solicitados por dois sentimeníos oppostos, e 
como o do amor da pátria é o mais forte, faltarão ao cumpri- 
mento dos deveres a seu cargo. 

Estávamos neste caso em 1822 — 25: a lucta do jovem im- 
perador contra Joào VI foi cbeia de fraquezas e de vacillações, 
exactamente porque era contraria á natureza humana — lucta 
desnaturada do filho contra seu pae e do portuguez contra sua 
pátria. João Carlos, portuguez como D. Pedro, tinha mais amor 
ao Principe do que aos brasileiros ; deixou-se ficar no Brasil para 
servil- o emquanto aqui permaneceu e com elle retirou-se para 
Portugal de])OÍs de 7 de Abril. 

Não tinha elementos que o liga?sem solidaniente ao Brasil, 
como Vergueiro, José Clemente e outros; exerceu entre nós boas 
commissões e elevados cargos emquanto o paiz esteve sob o do- 
minio portuguez e sob o impeiio de um principe portuguez ; mas, 
no dia em que o Brasil entrou no dominio de si mesmo e pas- 
sou a ser governado pelos poli ticos do paiz, aliás seus amigos e 
coligados de dez annos antes contra os Andradas, sentiu-se mal 
e deixou-nos para sempre. Mal procederam os paulistas que o 
acompanharam na bernarda, lucta que elle, como portuguez, tra- 
•vara contra o elemento brasileiro era época em que os interesses 
da colónia abriram conflicto com os da metrópole. 

VI 

Paíisarei agora a examinar o quinto e ultimo artigo da serie, 
que começa pela transcripçào de dois trechos de auctores conhe- 
cidos. No primeiro, que é de Azevedo Marques, lê-se o seguinte: 

«O governo logo mostrou os vicies da sua origem e a hete- 
rogeneidade dos seus elementos... daqui a desunião e a lucta 
no seio do prítprio governo, que em breve se manifestou dividido 
em duas fracções irreconciliáveis.» 

Aqui está uma auctoridade paulista, que considero insuspeita, 
affirmando a existência, no seio do Govenio Provisório, de dis- 
córdias, que trouxeram a derrubada de Martim Francisco e do 
brigadeiro Jordão; esta auctoridade é sustentada, nessa opinião, 
por Américo Brasiliense, Abreu e Lima, Armitage e outros, e 



— 118 — 

o cidadão E. R. vem nos affimuar que nào lhe consta a existên- 
cia dessas discórdias e que até lhe parece que reinava boa har- 
monia entre os seus membros, confessando, comtudo. que Martim 
e Jordão foram expulsos e que Francisco Ignacio foi um dos au- 
ctores dessa expulsão! 

O segundo trecho começa assim: «A intimidado fraternal 
dos Andradas e a solidariedade que elles ostentavam em seus 
actos tomavam a posição de Martim Francisco no governo pro- 
visório perigosa para si e para todos. A opposiçâo affrontava-o 
quando os seus actos tendiam para a energia... etc.» 

Ora, isto foi nscripto pelo dr. Paulo do Valle e está publi- 
cado na pag. 6 do vol. I do Archico do Esiado de S, Paulo. 
Porque quer s. s. dar-mo a paternidade daquillo que sabe com 
absolutA certeza que nílo 6 da minha penna e que tem deantc 
dos olhos? Eu acceito a opiniílo de Paulo do Valle como bom 
elemento para a historia do tempo, porque foi contemporâneo 
dos factos; mas, aproveitando-me do sen testemunho e publi- 
cando-o para conhecimento dos estudantes da historia paulista, 
nào posso nem devo ser apontado como seu auctor, tanto mais 
que o nome de Paulo do Valle está affixado na publicação! 

No folheto Os Andradastj pag. 3, lô se : 

« Não foi, pois, José Bonifácio o primeiro que se lembrou 
de incitar a opposiçâo ao cumprimento de taes decretos ( das 
Cortes de Lisboa), não fora elle que dera o primeiro passo que 

Srecedêra aos successos, cuja solução final foi a nossa indepen- 
encia politica». 

Este trecho importa claramente em uma accusação e evidente- 
mente com este fim é que foi introduzido no folheto. Quanto José 
Bonifácio teve, aqui em S. Paulo, noticia daquelles decretos, já 
elles tinham produzido a reacção no Rio de Janeiro; a que vem, 
portanto, allegar que não foi elle o ])rimeiro a incitar a reacção 
contra aquelles decretos, quando geographicamente, physicamente, 
era-lhe impossivel ser o primeiro a agir sobre esta matéria ? 

Não ha nesta minha affirmação nenhum erro de historia, como 
pretende o cidadão E. R., que aliás desfaz o efi*eito do mesmo tre- 
cho, quando diz que era natural que José Bonifácio não fosse o pri- 
meiro, porque a noticia lhe veiu do Rio. Porque, então, citou o 
facto de não ser elle o primeiro, quando disso não vem mérito ou 
demérito algum a José Bonifácio ? 

Sobre a representação do Governo de S. Paulo, cuja entre- 
ga ao Principe Regente foi posterior ao celebre «fico», segundo 
nos diz o cidadão E. R., lia muitos testemunhos contrários ao seu, 
dos quaes citarei os seguintes, cujas opiniões devem ser melhor 
conhecidas pelos paulistas : 



- 119 — 

Abreu e Lima diz: c Entretanto, D. Pedro preparava-s© 
para obedecer a ordem de sua retirada no meio dos sustos e cla- 
mores de todos 08 partidos. A desapprovaçílo da partida do Prín- 
cipe torna va-se geral . . . Na cidade de S. Paulo, onde os pa- 
triotas eram em maior numero do que na capital, as cousas le- 
varam caminho mais prompto e seguro. José Bonifácio, vice- 
presidente da Junta Provincial, informado da próxima retirada 
■do Principe, convocou os seus collegas ás 11 horas da noite do 
^4 de Dezembro e conseguiu que assignassem uma representa- 
•ção em que se fazia ver a Sua Alteza Heal que a sua partida 
«cria o gignal da separação do Brasil». (1) 

Por esse trecho se v6 que no Rio estavam demorando a acção 
-e que José Bonifácio foi o primeiro a se mover e arrastar comsigo os 
seus collegas de S. Paulo. Pereira da Silva dá a entender que as 
^liversas acções foram quasi simultâneas e contA o seguinte : 

c Pretendia o Principe obedecer ás Cortes; niio poude, porém, 
Tecusar-se ás rogativas e representações de povo e camará do Rio da 
Janeiro e das juntas provinciaes de Minas e S. Paulo, do bispo e 
<la camará desta ultima cidade, inflm^nciada pelo ouvidor Costa 
Oarvalho. Declarou que nfto cumpriria as ordens da Corte . . . etc.» 

Daqui também se vê que o «fico» foi posterior ás representa- 
1JÕC8 paulistas. Joaquim Manoel de Macedo, antigo professor de his- 
toria, vai mais longe e nos conta que Pedro Dias Paes Leme partiu 
para S. Paulo a promover representações contra os decretos das 
CJôrtes e accrescenta: 

« A provincia de S. Paulo acudiu logo ao patriótico convite ; 
a sua Junta Provisória, de que era vice-presidente José Bonifácio, 
representou, em 24 de Dezembro, e o Senado da Camará a 31. A 
representação da Junta Provisória de S, Puxão foi apresentada 
no dia 81 de Dezembro ao Principe^ que ainda dous dias antes 
protestara fidelidade ao rei», donde se collige que a entrega da re- 
presentação feita pelo governo de S. Paulo foi nove dias anterior 
ao «FICO». 

Moreira de Azevedo nos conta que, «no dia 1.° de Janeiro e 
não no dia 31 de Dezembro, como diz o afamado bisforiador Var- 
nhagem, recebeu o Principe a representação do governo de S. Pau- 
lo, datada de 24 de Dezembro», e que D. Pedro remetteu a seu pae, 
em Lisboa, uma cópia dessa representação, acompanhada de uma 
<arta, que começa assim: 

cMeu pae e meu senhor: — H ontem, pelas 8 horas da noite, 
<hegou de S. Paulo um próprio com ordem de me entregar em mão 
própria o officio que ora remetto incluso, para que Vossa Magestade 



(1) Esta representaçlU) yae adeante traosorlpta porque é importante, vae-ie tornando 
tara e deve aer melhor conhecida dos paulistas. 



— 120 — 

conheça e faça conhecer ao soberano Cong.-esso quaes as firmes ten- 
ções dos paulistas e por ellas conhecer quaes as geraes do Brasil». 

Náo allude o Principe a representações de outres partes ; mas 
dá a entender que as opiniões dos paulistas synthetizavam as de 
todo o Brasil. Vê-se que Vanihagem está de accôrdo sobre a data 
da entrega da representação e que Moreira de Azevedo discorda por 
um dia, mas todo^ três affirmam que foi anterior ao «fico>. O actual 
baràodeRio Branco, um dos homens que mais conhecem a nossa his- 
toria, como o provam as suas victorias nas questões das Missões e do 
Amapá, diz que, « a 9 de Janeiro de 1822, Dom Pedro respondendo 
as representações do Rio e de S. Paulo, declarou que ficava no paiz»; 
logo a entrega da representação paulista foi anterior ao «Firo». 

Xavier Pinheiro refere que apenas constou que D. Pedro se 
inclinava a obdecer as determinações das Cortes, os patriotas ds S. 
Paulo representaram-lhe que tal nào fizesse, e que o mesmo acon- 
teceu por parte de Minas e do Rio, resolvendo-se entào o Principe a 
ficar no Brasil. Perdigão Malheiros diz que o povo fluminense re- 
quereu á Camará que representasse ao Principe, e quasi ao mesmo 
tempo chegavam representações de S. Paulo e Minas e que D. Pe- 
dro, attendendo a todas as reclamações, resolveu-se a ficar no Brasil. 
Machado de Oliveira, falando das diversas representações dirigida» 
ao Principe, assim se exprime : 

«Por virtude dessas mensagens, a que se accumularam uma de 
Minas e outra da Camará do Rio, a cujo pessoal se uniram as depu- 
tações daquellas e da província de S. Paulo, dirigiram-se todas na 
dia 9 de Janeiro de 1822 ao Principe Regente. . .», que se resolveu, 
a permanecer no paiz. 

Temos aqui um chronista contemporâneo dos factos, que nos- 
diz que as deputações reunidas de Minas, Rio de Janeiro e S. Paulo 
se dirigiram ao Principe Regente, no dia 9 de Janeiro, e o con- 
venceram de que devia ficar no Brasil. Moreira Pinto também 
fala na vinda de Pedro Dias Paes Leme a S. Paulo para tratar da 
representação ; diz que a província de S. Paulo foi a primeiía a 
responder ao patriótico appello, fazendo representações a Junta 
Provisória e a Camará Municipal, e accrescenta que os patriot^is do 
Rio de Janeiro, acoroçt)ados pela decisão dos paulistas, enviaram 
também uma representação ao Principe, que mandou dizer ao povo, 
por intermédio de José Clemente, que ficava no Brasil. 

Homem de Mello abunda nas mesmas idéas e todos acima 
citados afíirmam que a representação paulista, que «echoou no 
Brasil com uma fulminação poderosa atirada á face das Cortes de 
Lisboa», foi anterior ao «Fico», e todos sabemos que foi José 
Bonifácio quem a redigiu e quem convocou o governo ás 11 horas- 
da noite para approval-a. 



VII 

Tendo-se conseguido convencer a D. Pedro de que devia re- 
sistir ás ordens das Cortes de Lisboa e ficar no Brasil, estava dado 
a primeiro passo na senda que nos devia levar á independência e, 
pelos testemunhos de todos os escriptores atraz citados, vimos que, 
official mente y José Bonifácio foi o primeiro a enveredar por aouelle 
caminho, arrastando comsigo os seus collegas de governo ae S. 
Paulo. Foi nlle quem teve, officialmente, o mérito da primazia e 
foi o seu exemplo seguido por Minas Geraes e pela Gamara Muni- 
cipal do Rio de Janeiro. 

Si, na apparencia, José Clemente Pereira foi quem teve as 
honras derivadas do «Fico», foi porque era elle o portador da 
representação do povo carioca, com 8.000 assignaturas, e fez o 
discurso obrigado da occasiào; a elle respondeu o Príncipe: 
«Diga ao povo que Jicfj*, porém o que mais influiu sobre o es- 

Íirito do D. Pedro foi a representação paulista, escripta por 
osé Bonifácio, «obra prima pelo seu estylo enérgico e pelas 
excellentes idéas nella contidas». Seria extravagante que D. 
Pedro se tivesse deixado convencer pelo talento e prestigio de 
José Clemente e fosse chamar para primeiro ministro José Bo- 
nifácio (1). 

Silva Maia, membro do Instituto Histórico Brasileiro, disse 
na respectiva Revista^ que a «memorável representação deci- 
diu o Principe a ficar entre nós» e que o Ministério dos An- 
dradas foi que resolveu, mesmo na ausência de D. Pedro do 
Rio de Janeiro, fazer a independência do Brasil, e a respeito 
deste acontecimento ainda diz; 

«Este facto, sendo ainda pouco conhecido e de muito in- 
teresse para a historia do Brasil, precisa de mais algum desen- 
volvimento, o que vamos fazer, assegurando a sua veracidade 
por noa ter sido referido por um membro dessa administração, 
que ainda hoje vive (1846). Achando-so naquella época reuni- 
da em conselho toda a administração pela princeza D. Leopol- 
dina, o sr. Martim Francisco ministro entào dos Negócios da 
Fazenda, propoz que o Brasil devia se declarar independente 
de Portugal, visto a má conducta das cortes portuguezas para 
com elle; esta idéa foi energicamente defendida pelo sr. José 
Bonifácio, ministro do Interior e dos Negócios Extrangeiros, e 
apoiada pelo resto do Ministério, ficando o dito sr. Martim Fran- 



(\\ o próprio 4oAé Cl eme -te, na fala qae dirigia a D. Ped''o, dese: 
« 8.^0 Paulo sobejamente mnnifestoa os tentiraentos livres que pos^ne, ras politicas 
lastracçOes qae diotoa aos sea« niu8tre« depotado*. Ella ahi corre a expre»8al-o mais 
positlramente pela voz do ama depataç&o que «e apre sa a apresentar a Vossa Alteia 
Real ama representação e^oal a desse poro.» 



— 122 — 

cisco encarregado de mandar o officio declarando esta decisão ao 
Principe, quo então se achava em S. Paulo. O que logo tudo 
teve logar, decidindo ao Principe a praticar a heróica acção do 
campo do Ypiranga, pela qual os brasileiros lhe devem ser 
eternamente gratos.» 

Por estas citações se verifica que a José Bonifácio, principal- 
mente, se deve o famoso «Fico», primeiro passo para a nossa 
independência, e a Martim Francisco, segundo Silva Maia, devemos 
o grito patriótico de ^Independência ou moi^ie-» nos campos do 
Ypiranga, e a ambos a unidade nacional com a expulsão de to- 
dos os governadores e commandantes militares portuguezes das 
provincias do norte, sequestradas da communhão brasileira pelas 
Cortes de Lisboa, seiTiços pelos quaes < devemos ser-lhes eterna- 
mente gratos.» 

Proseguindo no exame do ultimo artigo da quinta serie» 
noto uma aflSrmaçào que está em contradicção com tudo quanto 
foi dito por todos os chronistas acima citados; é a seguinte: 

«Assim, pois, fica liquidado o seguinte ponto — a represen- 
tação que tinha de ser apresentada ao Principe, por parte do 
governo de S. Paulo, foi lida e approvada em 31 de Dezembro 
e José Bonifácio ainda nesse dia se achava em S. Paulo e as- 
signou a acta. A 3 de Janeiro é que elle foi nomeado, em 
logar de Martim Francisco, membro da deputação que tinha 
de ir ao Rio de Janeiro ; mas já na véspera, a 2 José Cle- 
mente tinha pedido audiência a D. Pedro, a qual lhe foi mar- 
cada para o dia 9. José Bonifácio, partindo a 4 de São Paulo, 
não podia estar no Rio antes de 10 ou 12, senão mais tarde; 
os historiadores são accordes em dizer que quando elle foi no- 
meado ministro, a 10, acabava de chegar de São Paulo : assim 
não foi depois de ter o principe ouvido a palavra auctvrizada 
de José Bonifácio que resolvera ficar no Brasil». 

O cidadão £. R. está confundindo factos diversos e dando 
assim por liquidado um ponto controvertido. A representação do 
Governo Provisório foi escripta a 24 do Dezembro de 1821 e 
remettida por um próprio ao Principe Regente, que a recebeu 
no dia 31 ou no dia 1.** de Janeiro seguinte. A fala, que de- 
via ser recitada perante D. Pedro, é oue foi lida e approvada 
na sessão de 31 de Dezembro, e a 4 de Janeiro já o governo 
do Rio avisava ao de S. Paulo que aquella ropresentação tinha 
sido recebida e já estava viajando para Lisboa a bordo do navio 
correio Infante D, Sebastião, conforme documento offlcial exis- 
tente neste Archivo do Estado e de accôrdo com a opinião de 
Moreira Azevedo, acima transcripta. 



~ 123 — 

Oâ portadores das representações tinham de fazer uma faJ^ 
ao Principe ; mas a representação paulista foi adeante, chegando 
ao Rio no dia 31 de Dezembro ou 1." de Janeiro, e José Bonifácio 
seguiu depois, levando a fala, como se verifica da própria acta 
da sessfto, na qual vem o seguinte : — 3.** Leu o senhor secretario 
do Interior e Fazenda a fala, que deve fazer a Sua Alteza 
Real, e foi approvada.» 

Com o que diz este artigo 3.** da Acta, com as opiniões 
acima transcriptas de Joaquim Manoel de Macedo e Moreira de 
Azevedo e com o officio do governo do Rio, de 4 do Janeiro de 
1822, avisando ao de S. Paulo que nessa data já a representa- 
sào paulista estava em caminho para Lisboa, a bordo do navio 
Infante D. Sebastião, fica destrui da a affirmaçào do cidadão E. R. 
e o ponto liquidado de modo contrario ás suas affirmações. 

Na sessào de 21 de Dezembro de 1821 resolveu o Governo 
Provisório officiar a D. Pedro que suspendesse a execução 
dos decretos das Cortes de Lisboa emquanto não chegassem ao 
Rio os seus deputados, que lhe iam representar sobro esta ma- 
téria ; porém, como a ida dos deputados podia se demorar e D, 
Pedro podia agir com precipitação sobre tào importante assumpto, 
resolveu o Governo Provisório remetter adcante, por um próprio, 
a representação redigida por José Bonifácio, devendo seguir de- 
pois, com mais vagar, os delegados do mesmo governo, que 
levaram somente & fala, como se vê da Acta,e talvez um oflScio 
de apresentação das suas pessoas. 

José Bonifácio não assistiu ás sessões de 2 e de 3 de Ja- 
neiro de 1822 ; é possivel que, estando em preparativo para a 
viagem ao Rio, se sentisse muito occupado para assistir a essas 
sessões; porém a sua nomeação no dia 3 para essa commissão 
não quer dizer que elle só poderia ter partido no dia 4, por- 
quanto podia ter partido no mesmo dia 3, e até i.o dia 2, se a 
substituição tivesse sido particularmente combinada no dia 2 e 
officialmente ratificada na sessão do dia 3. 

E' mera hypothese, mas tem a seu favor o testemunho ci- 
tado de Machado de Oliveira, quando disse que as deputações 
reunidas de S. Paulo, Rio e Minas se dirigiram no dia 9 de 
Janeiro ao Principe Regente, que então se resolveu a ficar no 
Brí^sil . 

Demais, ha palavra falada e ha palavra escripta; se José 
Bonifácio, como affirma o cidadão E. R. em contrario a Macha- 
do de Oliveira, não chegou ao Rio com tempo de assistir á scena 
do «Fico> e tomar parte nella, a representação, que elle tinha re- 
digido e feito seguir com urgência para o Rio, já tinha chegado 
a 31 de Dezembro ou a 1.® de Janeiro e D. Pedro tinha apre- 



— 124 — 

ciado a ena palavra escrípta, de tal fornia que a mandara a seu 
pae, em Lisboa, como a expressão dos sentimentos dos paulistas 
6, portanto, de todos os brasileiros* 

Diz-nos ainda o cidadào E. R. que esse ponto da nossa His- 
toria foi minuciosamente «xposto por José Clemente na Camará 
dos Deputados e que José Bonifácio não foi nomeado ministro 
para realizar os conselhos que bavia dado ao Principe e as idéas 
que pregou na representação que escreveu O ponto está, de 
lacto, bem elucidado por todos os cbronistas acima referidos e 
por vários outros que consultei e que por nào aloiigar-me nào 
menciono, e, estando com elles, sinto-me em boa companbia. 

D. Pedro tinha um Ministério cujos membros nào se accom- 
modaram com a resistência ás ordens das Cortes e com o «fico» 
e por isso deixaram o poder. José Bonifácio foi, segundo os 
auctores já citados, quem mais eloquentemente advogou a idca 
da resistência áquellas ordens e quem mais contribuiu para o 
«FICO» ; foi chamado ao ministério, com alguns outros, para sub- 
stituir os demissionários e realizar as idéas que advogou, e nem 
Be poderia comprehender que elle fosse chamado ao poder para 
executar idéas que não fossem suas e que nào tivesse defendido- 

Porque, na occasiáo, nào foi chamado José Clemente Perei. 
ra, a quem se pretende dar toda a gloria dos factos occoridosno 
dia 9 de Janeiro de 1822 e das suas importantes consequências? 
Com a resolução de D. Pedro de ficar no Brasil desgotam-se as 
tropas portuguezas aquarteladas no Rio ; o Ministério, também portu- 
guez, se mostra egualmente descontente, é demittidoe substituidopor 
um oturo, de que faz magna pars José Bonifácio, o defensor mais 
eloquente e enérgico das mesmas idéas que desgostaram o mi- 
nistério portuguez e as tropas portuguezas; mas, para o cidadào 
E. R., José Bonifácio nào foi chamado ao ministério para reali- 
zar as idéas que tinha defendido e aconselhado e, sim, porque 
era brasileiro e ao Principe convinha ter um ministro de São 
Paulo! 

A D. Pedro, na occasiáo, convinha ter José Bonifácio no 
ministério, nào somente porque era brasileiro e paulista, mas 
também porque era o mais hábil defensor dos interesses da co- 
lónia em conflicto com os da metrópole, porque tinha cérebro, 
energia e reputação européa e era o homem talhado para n occa- 
siáo. Nào se podem explicar grandes factos dando-lhes causas 
min imas e os motivos da preferencia de José Bonifácio para o 
cargo de ministro, como foram dados pelo cidadào E. R., nào 
guardam proporção com a gravidade das condições politicas do 
•Brasil naquelle importante momento histórico, nào fazem a de- 



— 125 — 

vida justiça ao preferido, nem est&o de accôrdo com as suas 
idéas, já expendidas, sobre a exclusão dos extrangeiros. 

Entende s. s. que os extrangeiros podem ser tào patriotas 
como os naturaes do paiz, mesmo nas luctas entre a pátria ado- 
ptiva e a pátria nativa, e, por conseguinte, o facto de José Bo- 
nifácio ser brasileiro e paulista nfto devia pesar em seu espirito 
ao ponto de justificar da sua parte o emprego do argumento 
usado. Para s. s., José Clemente, comquanto portuguez, podia 
ser tão patriota como José Bonifácio, era babil, foi protogonis- 
ta dos acontecimentos, estava á mio e podia ser cbamado ; nfto 
o foi, porque? Simplesmente por ser portuguez e, como tal, 
impróprio para a occasiào, e José Bonif>icio era brasileiro e pau- 
lista e representava o espirito da reacçfto nacional contra os 
extrangeiros que queriam se perpetuar no Brasil ; passada a 
crise podiam ser e foram aproveitados todos os homens de boa 
vontade, sem exclusão de ninguém. 

Ainda hoje não falta quem procure desmerecer no caracter 
e nos serviços dos Andradas, citando contra elles exactamente 
06 testemunhos dos seus figndaes inimigos. Para se apurar a 
verdade histórica é necessário a analyse desses testemunhos e 
mostrar-se a sua imprestabilidade como subsidio histórico. Ke- 
duair esses depoimentos ao seu justo valor foi o meu único fim 
e terminarei, como o insuspeito Armitage, dizendo que se OR 
Andradas tiyeram algumas faltas, estas lhes devem ser descul- 
padas attendendo-se ao tempo e ao meio em que Yive^'am. 

A. DB Tc^BDO Piza. 



A bernarda de Francisco Ignacio 



o supplicio de Chaguinlias nao foi facto de tal importância 
que os historiadores tivessem necessidade de estudal-o ; quando 
muito, poderiam referÍl-o, como referem os clironistas paulistas. 

Affirma o dr. Piza que Chaguinhas fora enforcado no mez 
de Maio, e que fora esta a causa real ou o verdadeiro pretexto 
da bernarda ; mas a testemunha referida por Azevedo Marques, 
e que é a principal da devassa, diz que mez e meio antes da 
bernarda, isto é, desde Março, se falava no Rio que estava para 
acontecer o motim ; e André da Silva Gomes, membro do go- 
verno provisório, em escripto mencionado pelo mesmo, diz que 
havia rumor popular, segundo o qual ficou transferido o motim 
do dia 4 para 13, e, afinal, para 23 ; ambos nada dizem quanto 
ao supplicio; ó que tal supplicio nada tinha com a bernarda, 
nem sobre ella influiu, tendo-se dado 8 mezes antes, nào obs- 
tante a contestação do dr. Piza á affirmaçào de Feifó, quando 
diz que assistiu ao enforcamento de Chaguinhas, ao qual só 
podia presenciar no mez de Setembro, tempo em que foram 
executados os outros sentenciados em Santos. 

Referindo-se ao laço de couro, ao qual escolheu-se para o 
supplicio, diz o dr. Piza : 

«Tudo isto é natural, segundo o cidadão E. R., e muito 
próprio da perversidade de Martim Francisco, etc.» 

Não cremos ter manifestado tal conceito, ou escripto taes 
proposições . 

O laço de couro não foi invenção de Feijó ; 9 annos antes 
da sua narração, já Thomaz Gonçalves Gomide tinha referido 
esta circumstancia, como vê-se da sua carta de 9 de Outubro 
de 1823. 

Os historiadores nunca se serviram do testemunho pessoal 
de Feijó para seus juizos sobre os Andradas, uns porque os 
estudaram nos factos notórios e nos documentos, outros foram 
oontemporaneos, conhecendo-os pessoalmente ; entre estes, cita- 



— 127 — 

reinos Armitage, que é o nosso historiador mais popular; ora a 
opinião de Armitago foi citada, em ura dos artijços anteriores, 
como elogiando os Andradas, foram transcriptas as suas palavras 
de íl. 90, mas n&o referiu o dr. Piza as duas linhas anteriores, 
por elle escriptas, e que completaram o seu conceito, e sâo: 

«Cumpre ao chronista ser imparcial, força é por tanto con- 
fessar que quando revestidos do poder, foram arbitrários, e 
quando decabidos, tornaram^se sediciosos'^ mas as suas vistas 
eram extensas, etc»; este resto é que, só, foi transcripto. 

Concorda com a opiniào de Feijó ; Pereira da Silva, vol. 3, 
pa^. 144, Fun. do Imp. do Brazil, diz : Nào era só a provincia 
do Rio de Janeiro que sup portava este dominio arbitrário. Para 
S. Paulo se mandaram ordens idênticas, e lá nâo faltaram pro- 
cessos, nem prisões, e nem deportações dos inimigos dos Andra- 
das, etc.» 

Concorda com Feijó. 

Nào confundamos as apreciações do procedimento politico 
dos Andradas com o conceito sobre o seu caracter e qualidades 
pessoaes; a estas nunca nos referimos, para que o dr. Piza se 
julgue no direito de dizer que tardiamente reconhecemos a 
austeridade e sisudez do Martim Francisco; as nossas conside- 
rações tem sido sempre relativas á actos politicos, especialmente, 
neste estudo, á bernarda de Francisco Ignacio; tratando-se do 
supplicio de Cbaguinhas, no qual dá-se a Martim Francisco 
parte saliente, apenas emittiraos o seguinte juizo : «fraqueza ou 
excesso de auctoridade, por tal proceder responde o homem, e 
nào o politica servidor da sua pátria.» 

A distrahida troca do nome de José Bonifácio, vice-presi- 
dente do governo, pelo de Martim Francisco, como membro da 
commissão que examinou o conselho de guerra que condemnou 
Chaguinhas, não altera a exposição do facto e considerações 
feitas . 

A exploração do dr. Piza, quanto ao relatório da commissão 
do governo, tendo-o como favorável a Chaguinhas, o qual por 
elle foi julgado innocente no Conselho Supremo do Eio, vê-so 
bem que é hypothese gratuita, só para argumentar; o caso é 
que todos os membros do governo, andradistas e bemardistas, 
assignaram a confirmação da sentença, da qual havia entretanto 
recurso legal e necessário; por essa injusta execução tanto res- 
pondem os Andradas como Francisco Ignacio, e todos os mem- 
bros do governo, e é este um dos nossos argumentos para não 
acceitarmos, como causa, pretexto, ou influindo para a bernarda, 
o supplicio de Chaguinhas ; o alvará de 1 de Abril de 1808 não 
admittia excepções, todos os conselhos de guerra que se formas- 



— 128 — 

sem na capitania, á excepçào do Pará e Maranhão, pela gi^ande 
distancia da capital, deveriam ser remettidos ao Conselho Su- 
premo Militar, para serem obedecidos. 

Nào se pode crer que Feijó mentisse em plena Gamara, 
dizendo que assistira ao snppHcio de Chaguinhas; Martim Fran- 
cisco o desmentiria de prompto e vantajosamente; a tradição de 
tal supplicio nào foi por elle creada. 

Parece-nos que Azevedo Marques náo dá o supplicio de 
Chaguinhas como causa ou pretexto da bernarda, c elle folheou 
os autos da devassa, estudando os depoimentos das testemunhas 
que, por certo, nào calariam tal circunistancia, se fosse real. 

Quanto ao dr. Paulo do Valle, diz-nos o dr. Piza, no — 
Aviso ao leitor — Doe. Interes., vol. 1., que elle nào expõe, no 
seu manuscripto, as causas que deram origem á bernarda, nem 
o estado do espirito publico na occasiôo.» 

Nào temos á mào o Quadro Histórico de Machado de Oli- 
veira, mas foi nelle baseado, como fonte histórica, que escreveu 
Azevedo Marques, Apont. Hist. verb. Sediçào, o que já trans- 
crevemos em artigo anterior, nào indicando ligaçào alguma en- 
tre o supplicio e a bernarda. 

Américo Brasiliense, Hist. Pátria, á fl. 236, diz: «A' capital 
foi trazido e ahi suppliciado o denominado Chaguinhas, consi- 
derado o principal responsável pelo rompimento da revolta, e 
por outros attentados que se deram na occasiào;» e tratando, 
depois^ da bernarda, pags. 240 e segs., nada diz sobre o mes- 
mo, ou sobre a influencia que teve no acontecimento de 23 de 
Maio, só dando como causa a tal opiniào da uniào com Portu- 
gal, a qual entretanto, como já expuzemos era por todos susten- 
tada, e consta de todos os actos officiaes e representações do 
tempo. 

No seu ultimo artigo refere-se o dr. Piza a um trecho do 
nosso escripto, quanto á harmonia que existia entre os membros 
do governo provisório, nas resoluções que tomava o mesmo go- 
verao, sem embate de idéas e sentimentos liberaes e retrógrados; 
é claro que nos referimos ás resoluções politicas, áquellas que 
interessem a historia da nossa independência, entre outras a re- 
presentação ao príncipe relativa aos decretos de 29 de Setembro, 
ao governo de Minas para procederem de accôrdo, a remessa de 
tropas pedidas pelo prineipe para guamiçào e defesa da Corte 
por nào confiar nas tropas portuguezas, etc, e isto de conformi- 
dade como os actos do mesmo governo. 

Nos primeiros artigos, firmámo-nos em documentos ineon- 
testáveis para provarmos: 



— J29 — 

1.* que nào havia partidos politicos em S. Paulo em 1822, 
sustentando um a união em Portugal, em contraposição a ou- 
tro, liberal e democrata, que propugnava pela nossa emancipa- 
ção politica, porque todos, a começar pelos Andradas, accei ta- 
ram essa união, até Setembro de 1822, e que portanto era um 
erro Liátorico attribuir-se a bernarda á tal divisão partidária. 

2.** que a mesma bernarda foi provocada pelo arbitrário aviso 
de Joi-é Bonifácio, chamando João Carlos á Corte; e que, pela 
devassa o movei denunciado eram questões pessoaes e não poli- 
ticas; e a propósito transcrevemos a discussão entre António 
Carlos e Evaristo. 

Pouco importa que essas questões pessoaes proviessem de 
discórdias mal veladas, profundos resentimentos, ou ciúmes mal 
encobertos, como diz o dr. Piza; no governo tratando-se dos 
interesses geraes elles não dividiam os seus membros em campos 
diversos, para justificarem os avisos e as dcjortaçôes havidas ; 
existiriam divergências em matéria administrativa ou no expe- 
diente do governo, provocando esses resentimentos ; mas disto não 
temos nota official, só encontramos algumas vagas allegações nas 
cartas de Francisco Ignacio. 

Não ha governo collectivo entre cujos membros não se dêem 
divergências, que podem ser mais ou menos profundas, sem que 
entretanto affectassem as deliberações e resoluções politicas: rela- 
tivamente a estas é que evidenciam as actas a harmonia entre 
os membros do governo provisório de S. Paulo, á qual nos re- 
ferimos ; o meio regular ae evitar taes divergências ou fazel-as 
desapparecer não são as arbitrarias decretações : com o aviso de 
Maio de 1822 José Bonifácio provocou a bernarda ; elle demittiu 
arbitrariamente João Carlos, e chamou-o a Corte, por sua vez o 
povo e tropa depuzeram Martim Francisco do governo. 

O dr. Piza cita Pereira da Silva referindo á opposição li- 
beral fluminense, á qual, diz, achava-se alliado João Carlos ; 
muita auctoridade reconhecemos em Pereira da Silva, mas não 
cremos fundada esta sua opinião, nem ella pode ser accei ta pelos 
aue tem João Carlos como um retrogi*ado ou corcunda, na phrase 
de Azevedo Marques; o caso de S. Paulo é isolado; os bernar- 
distas nada tinham com o partido de Ledo, á parte os sentimen- 
tos geraes de todos os brasileiros ; e nem este partido, no Rio 
de Janeiro era perseguido em Maio de 1822, pois qne até um 
dos principaes, Luiz Pereira da Nóbrega, fora em Junho nomeado 
ministro da guerra, servindo pois no ministério de José Bonifa- 
cic, e Ledo servia como secretario no conselho dos procuradores 
ou conselho de Estado, representando o Rio de Janeiro ; a per- 
seguição de Ledo e dos seus partidistas data do tempo da accla- 



— 130 — 

mação ou da reintegraçào dos Andradas no ministério, em Ou- 
tubro de 1822 ; esta perseguição sim, é que liga-se ás deportações 
de S. Paulo, por serem dictadas pelo mesmo domínio arbitraria 
de que falia Pereira da Silva, á pag. 244 acima citada, sendo 
S. Paulo a primeira victima. 

Extranhou o dr. Piza termos escriptos que os factos passa- 
dos em 1821 e 1822 nào eram dos tempos coloniaes, porquanto 
diz, em 1821 e 1822 o Brasil era ainda governado pelo rei de 
Portugal, sendo nossa independência de 7 de Setembro de 1822; 
nào julgamos estar em erro : o Brasil deixou de ser colónia, e 
foi elevado á cathegoria de reino pela lei de 16 de Dezembro 
de 1815, e de facto já era tido nessa cathegoria pelos governos 
extrangeiros. 

«Reconhecendo quanto seja vantajosa aos meus fieis vassa- 
los, em geral, uma perfeita uniào e identidade entre os meus 
reinos de Portugal e dos Algarves e os meus dominios do Bra- 
sil, exigindo este aquella graduação e cathogoria politica. . . na 
qual já foram considerados pelos plenipotf*nciarios das potencias 
que formaram o congresso de Vienna, etc 

1/ Desde a publicação desta carta de lei, o Estado do Bra- 
zil seja elevado a dignidade, proeminência e denominação de Reino 
do Brasil, etc.» 

Foi por ser já um reino que, principalmente, tomaram os 
brasileiros como pomo de discórdia o decreto das cortes que 
que ordenava a partida do principe regente para Portugal, e de- 
dicaram todos esforços, á principio, para a conservação da sua 
autonomia, e posteriormente declararam-se pela emancipação po- 
litica. 

E. R. 



A Bernarda de Francisco Ignacio 



o supplicio de Chaguinhas nào foi, realmente, um facto de 
tal importância que merecesse ser elevado á cate<^oria do um 
Acontecimento que attrabisse a attençflo dos historiadores, mas 
foi sufficien temente importante para Gomido e Feijó se occupa- 
rem com elle em detrimento da reputaçào e da austeridade do 
«areeter de Martim Francisco em vários tempos e até annos de- 
pois do facto occorrido. 

As testemunhas históricas referem a existência de rumor 
popular de que haveria algum motim e Francisco Ignacio até 
nos conta que uma pequena noticia havia chegado aos seus ou- 
vidos. Davam origem a esse rumor as desharmonias no seio do 
Governo Provisório ; mas era necessário que apparecesse uma outra 
causa qualquer que viesse dar ao planejado motim uma apparen- 
cia de popularidade, isto é, precisava-se de um pretexto, que, na 
opinião de Machado de Oliveira e Paulo do Valle, nào tardou 
em apparecer no supplicio de Chaguinhas, e veiu a bernarda 
de 23 de Maio realizar o que estava no desejo dos reaccionários. 

E* o que tenho sustentado, baseando-me nos testemunhos de 
dois distinctos paulistas contemporâneos dos factos. Américo Bra- 
fiiliense acceita e reproduz a opniào de Machado de Oliveira re- 
lativa á bernarda, e como considero todos três insuspeitos, pre- 
^ro os seus testemunhos ao de Feijó, que era directamente in- 
teressado na causa e veiu muito tardiamente e em condições 
muito más para merecer credito. Além disso, o perd&o dado no 
mez de Janeiro a todos os co-réus do motim de Santos e a ordem 
de 11 de Maio de 1822, mandando executar as sentenças dos 
condemnados que ainda restikvam do batalhão de caçadores, por 
«ausa do mesmo motim, são outros tantos indicios vehementes, 
senão verdadeiros testemunhos, em contrario ás affirmações de 
Feijó. 



— 132 — 

Referindo as circumstancias extraordinárias e mysteriosas: 
qne rodearam a execução de Chaguinhas, eu conclui com a se- 
guinte phrase: «Tudo isto é muito natural, segundo o cidadão 
E. R. , e muito próprio da perversidade de Martim Francisc<^»^ 
porque s. s. aceitou como expressão da verdade o testemunho de 
Feijó, que achou aquellas circumstancias, não mysteriosas, mas^ 
próprias do caracter perverso de Martim Francisco. 

O empreg^o io laço de couro na execução não foi invenção- 
de Feijó; o cidadão Thomaz Gomide já tinha feito menção do 
seu uso e eu mesmo citei o seu empreg^o no vol. V . pag. 58, da 
Revista do Instituto Histórico de S . Paulo, porque é uma das 
circumstancias mysteriosas e indica que, de propósito, não qui- 
zeram se servir da corda que asphixiou Cotindiba, nem procurar 
na cidade outra que servisse para o acto. O que contestei for- 
malmente foi a asserção de Feijó quando disse que o laço de 
couro não asphixiando depressa o paciente, o carrasco cortara a 
dito laço e no chão deu cabo da vida do condemnado, facto 
este que só elle viu havendo entretanto muitos expectadores no 
campo da forca! 

E' parte da funcção do carrasco, quando a corda não sufíoca 
depressa, saltar ao pescoço do paciente e com o seu peso apres- 
sar a morte por asphixia ou por deslocação das vértebras ; roaa 
Feijó, esquecido disto, inventou um carrasco que substitue a 
forca pelo punhal e desvirtua a sentença dos tribunaes, transfor- 
mando uma execução legal, no cadafalso, em um assassinato 
commum, no chão e por punhal ou outro qualquer instrumento^ 
cujo nome não nos quiz transmittir para completa sciencia da 
posteridade ! 

Cândido José da Motta, homem intelligente e de bastante 
instmcção, um tanto litterato, rebelde em 1842 por ser compa- 
dre e amigo de Feijó, cuja oração fúnebre escreveu e está pu- 
blicada no vol. II da Revista do Instituto Histórico de S. Paulo,, 
descrevendo as scenas que se passaram em Sorocaba, quartel- 
general dos rebeldes, por occasiâo da chegada do barão de 
Caxias áquella cidade, exprimiu-se do seguinte modo, tomado 
publico por um seu distincto filho. 

« Foi um dia de juizo ! Mulheres de familia, velhas, moças- 
€ e até crianças, com trouxa na cabeça, homens a pé e a cavallo 
«com outros homens na garupa, tudo ia fugindo da cidade sem 
« olhar para traz. Que tristeza ! . . . No meio de toda essa desgra- 
« ça, um padre velho, com cara de doente, pregado numa janelkiy 
« vendo tudo, ria, ria a mais não poder, e de repente parava de 
« rir e gritava : — Correi, correi, sem vergonhas ! — e principiava 
« a rir outra vez ! » 



-- 133 — 

Este padre velho, com cara de doente, que de uma janella 
ria-se dos fugitivos e os insultava, era ura dos chefes reconhe- 
cidos e acceitos daquella tresloucada rehelliào : 

Era Diogo António Feijó ! 

A phrase de Gomide : «basta para monumento de seus no- 
mes a forca de Sào Paulo, onde Jwuve enforcados a laço de couro, 
€ outros em Santos, a louza lhes cobre de duradoura memoria», 
dada no folheto Os Andradas como appl içada a José Bonifácio 
e Martim Francisco, ou é mera explosão de ódios ou cabe 
igualmente a Joào Carlos, Oliveira Pinto, MuUer, Quartim, Fran- 
cisco Ignacio e mai* bemardistas do Governo Provisório, porque 
foram solidários com os Andradas em todos os actos officiaes, 
como se vê d&a Actas das Sessões. 

E' arbitrário tudo quanto uào está sujeito a uma lei que o 
regule. O governo do joven Imperador foi arbitiario de 7 de 
Setembro de 1822 a 25 de Março de 1824, porque náo tinha 
uma constituição a obedecer e leis ordinárias que estabelecessem 
normas regulares de processo. Os Andradas, investidos do poder, 
foram arbitrários pela natureza mesma do poder concentrado nas 
suas mãos ; porém nào foram violentos, porque nào se aproveita- 
ram desse poder para fuzilar e enforcar aquelles que elles jul- 
gavam inimigos da pátria e desconhecodores da legitimidade das 
funcções régias de D. Pedro I. 

Arbitrarias foram elles porque tinham nas mãos um poder 
absoluto, incontrastado, e violentos foram os ministros que o suc- 
cederam no poder e, principalmente, os governos regenciaes, que, 
tendo constituição jurada e depois leis ordinárias e código cri- 
minal, fuzilaram, enforcaram, espingardearam e massacraram 
aquelles que duvidavam da legitimidade dos seus poderes. 

Cabidos do poder, podiam os Andradas ter-se tornado oppo- 
sicionistas á outrance, impertinentes mesmo, porém nào foram 
sediciosos, porque nào capitanearam rebelliões, como alguns dos 
eeus inimigos, entre elles Feijó, o déspota de 1832 — 37 e o se- 
dicioso de 1842, que no poder sufiocava em sangue os motins 
populares e delle decahido ia se fazer chefe de desastrada e in- 
justificável rebellião ! 

O qualificativo sediciosos, applicado a José Bonifácio e Mar- 
tim Francisco, depois de apeados do poder, está errado uela própria 
definição do termo e está ainda mais errado debaixo ao ponto de 
vista histórico, porque António Carlos foi o único que se metteu 



~ 184 — 

em rebelliào, mas isto mesmo em tempos cólon iaes, quando ser 
rebelde contra o governo de Lisboa era antes um indicio de pos- 
suir sentimento de patriotismo e nào de ser anarchista. O es- 
pectáculo das desgraças que affligiram o Brasil desde 12 de No- 
vembro de 1823 até 1842 havia-os convencido da necessidade de 
restaurar a ordem com o exercicio directo das funcçôes majestá- 
ticas; dabi o facto de, nào tendo podido fazer a restauração de 
Pedro I, serem encontrados chefiando a revolução pacifica que 
realizou a maioridade antecipada de Pedro 11, e de primarem pela 
ausência na rebelliào de 1842, quando elles eram os mais offen- 
didos por terem sido acintosamente apeados do ministério pelo Im- 
perador, ainda menino. 

Reprodu/o integralmente o seguinte longo trecho do ul- 
timo artigo do cidadào E. R., por ser importante e por conter 
uma censura que julgo nào merecer : 

«Nào confundamos as apreciações do procedimento politico 
dos iVndradas com o conceito sobre o seu caracter e qualidades 
pessoaes; a estas nunca nos referimos, para que o dr. Piza se 
julgue no direito de dizer que tardiamente reconhecemos a aus- 
teridade e sizudez de Martim Francisco; as nossas considerações 
têm sido sem})re relativas a actos politicos, principalmente neste 
estudo — A bernarda de Francisco Ignacio. Tratando-se do sup- 
plicio de Chag-uinhas, no qual dá-se a Martim Francisco parte 
saliente, apenas emittimos o seguinte juizo : «fraqueza ou exces- 
so de austeridade, por tal proceder responde o homem e não o 
politico servidor da sua pátria». 

No folheto Os AndradaSy cuja paternidade pertence ao ci- 
dadào E. R., nào se dá aos três irmãos qualidade alguma polí- 
tica que 08 recommende ao respeito dos pósteros, mas se diz 
que eram arbitrários^ perseguidores , vingativos^ tigres famintos e 
ambiciosos, intrigantes e trahidorps ; que Martim mandava pa- 
gar dividas particulares com dinheiro do Thesouro (pag. 74) q 
era um ingrato, porque perseguia politicamente a quem lhe ven- 
dera escravos fiado, e que António Carlos era um bêbado (pag. 
96), estando esta affirmaçào corroborada pela seguinte nota na 
rodapé, escripta pelo auctordo folheto: 

«Deveríamos talvez nào publicar este trecho, mas fazemol-o 
para mostrar a baixeza dos Andradas, quando tinham em mente 
diffamar seus desaíFeiçoados, assim como até onde foi a perse- 
guição feita ao respeitável patriota Francisco Ignacio de Souza 
Queiroz, ao qual attribuiaro juizos e attribuem historiadores igno- 
rantes sentimentos que nunca teve, e cuja fé de officio são os. 
serviços reaes e relevantes em bem de causa nacional e do Im- 
pério.» 



— 135 — 

Os ^ryphos são mens e foram empregados para salientar o 
contraste entre as afirmações de vinte annos atraz e as de hoje. 
Em 1880 acceitou e encampou o cidadão E. R. o qualificativo 
de behadoy dado a António Carlos e por sua conta cbamou hai-^ 
xos e diffaniadores a todos os Andradas, e agora faz menção de 
sisudez e da austeridade de caracter de Martim Francisco e diz 
que este era um politico servidor da sua pátria ! 

Nào podendo conciliar estas contradictorias affinnaçôes, eu 
acceitel a ultima como a expressào do seu juizo maduro e final 
e diss9 que, comquanto tardia^ ella veiu a tempo para desfazer 
o mau effeito da primeira e corroborar as minhas asserções rela- 
tivas ao caracter do grande santista. Eu tinha, portanto, razão 
quando me exprimi do modo porque o fiz e não me acabe a cen- 
sura pelo emprego das palavras «tardia confissão», que foram 
bem app] içadas. 

n 

A troca do nome de José Bonifácio pelo de Martim Francisco 
como vice-presidente do Governo Provisório e membro da commis- 
são militar referida, e a outra troca inversa destes mesmos nomes 
como o do pae de José Bonifácio e Martim Francisco, que es- 
tavam vivos ha vinte annos, foram lapsos da historia paulista, 
que julguei dever corrigir para que não passassem em julgado 
e não porque influissem sobre o resultado da minha argumen- 
tação. 

Eu não exploreiy como pretende o cidadão E. R., o relató- 
rio da mesma commissão militar nas suas conclusões quanto á 
gravidade do crime commettido por Chaguinhas, como um dos 
sediciosos de Santos ; pelo contrario, puz bem patente que, sen- 
do José Bonifácio o relator do parecer, que apenas foi sub- 
scripto pelos dous bemardistas, seus collegas da commissão, era 
impossivel, por absurdo, que elle mandasse enforcar, ou visse sem 
protesto enforcar um homem por crime que elle confessava não 
merecer a pena de morte. Ainda sobre este ponto preciso men- 
cionar o seguinte facto, que representa um outro erro de histo- 
ria, ou palpável contradição, acompanhado de muita animosi- 
dade contra Martim Francisco : 

Reproduzindo, no folheto os Andradas^ o discurso de Feijó 
na Camará dos deputados, no ponto em que o orador diz: «No- 
te-se que o desgraçado, de que falei, foi julgado no Conselho 
Supremo não digno de morte, mas já estava morto», faz o ci- 
dadão E. R. uma chamada e põe no roda-pé (pag. 25) a se- 
guinte nota: «Esta execução foi feita em Santos por Martim 
Franciájo Ribeiro de Andrada». 



— J.i6 — 

Nos artigos que tenho procurado refutar, o cidadão E. R. 
deu a entender que a referencia era feita á execução de Cha- 
guinhas, a qual affirma ter f^ido presenciada por Feijó aqui em 
S. Paulo; entretanto, na nota mencionada, s. s. nos conta que 
essa execução teve logar em Santos, onde não podia ter sido 
testemunhada pelo mesmo Feijó, que lá não estava na occasiào. 

Demais, a execução não loi feita por Martim Francisco, 
porque elle não estava em Santos e não era o carrasco, mas so- 
mente um dos quinze membros de que se compunha o Governo 
Provisório de S. Paulo. Porque não disse s. s. que a execução 
foi feita por João Carlos, Oliveira Pinto, Múller, Quartim, Fran- 
cisco Ignacio ou outro qualquer bernardista do governo? Qualquer 
delles era tão responsável como Martim pelo facto, e João Car- 
los o era muito mais por ser então o presidente do governo 
coUectivo; mas quer-se á fina força chamar a odiosidade sobre 
Martim Francisco e para alcançar este fim é elle isolado dos 
seus companheiros do governo e carregado com a responsabili- 
dade dos actos considerados maus de todo o Governo Pro\i- 
sorio ! 

Não conheço chronista algum que positivamente affirme que 
a heimarda de Francisco Ignacio fosse motivada pelo horror 
oriundo do supplicio de Chaguinhas; mas muitos, dos quaes ci- 
tei alguns, garantem que a causa real foram as discórdias no 
seio do governo e alguns, como Machado de Oliveira e Paulo 
do Valle, dizem que aquella execução foi o pretexto escolhido 
pelos heróes do acontecimento. Acceitei os seus testemunhos 
porque foram contemporâneos dos factos, sem estarem nelle en- 
volvidos, eram paulistas distinctos e tinham motivos para saber 
o que affirmavam. Azevedo Marques folheando os autos da de- 
vassa á que se procedeu sobre a bernarda^ devia encontrar nas 
suas paginas a causa real do movimento de 23 de Maio, ipto é, 
a desharmonia entre os membros do governo, brasileiros em 
maioria de um lado e extrangeiros em maioria do outro, e não 
o pretexto, que foi o horror produzido pelo recente supplicio de 
Chaguinhas e explorado pelos bernardistas em proveito da reacção 
que premeditavam. 

Pretende o cidadão E. R. que no seio do governo houve 
harmonia, porque nas Actas das Sessões não se encontra indicio 
de «embate de idéas e de sentimentos liberaes e retrogados», 
isto é, que os membros do governo mantinham harmonia offir 
ciai, relativa a tudo quanto era pertencente ao serviço publico. 

Ora, se em relação ao serviço publico havia boa vontade e 
concórdia entre os membros do governo, segue-se, logicamente, 
que a bei*narda foi uma genuina explosão de ódios particulares, 



— 137 — 

sem proveito para o serviço publico, dos portuguezes e semi- 
portuguezes contra os brasileiros e paulistas Martim e Jordào, e 
está longe de ser uma «manifestação de civismo», como s. s. nos 
affirmou. 

Para haver lucta de nacionalidades, entre portuguezes e 
brasileiros, nào era rigorosamente necessário que houvesse do 
lado destes plano formado de fazer a independência do paiz e 
do lado daquelles a idéa de impedir pela força a separação 
da colónia. Esta discriminação em partiaos bem definidos só so 
podia dar depois de 7 de Setembro de 1822 ; mas podia haver e 
de facto houve em vários tempos Inctas dessa natureza, das quaes 
citarei alguns exemplos: 

A guerra dos Mascates foi uma explosão dos ódios do ele- 
mento popular contra os privilégios aristocráticos mantidos pelo 
governo ae Lisboa. A guerra dos Emboabas foi uma Tiolenta 
manifestação da animosidade existente entre os genuínos paulis- 
tas e os intrusos ou emboabas, luctas de nacionalidades que ti- 
veram logar mais de um século antes da independência. As ten- 
tativas de revolta de Felippe dos Santos e de Tiradentes, ambas 
em Minas Geraes, mas auxiliadas por muitos paulistas, foram 
reacções do elemento nacional contra o despotismo extrangeiro 
exercido aqui pelos seus delegados, e a matança dos bvavas em 
Cuyabá, em 1834, bem mostra que doze annos depois da inde- 
}>endencia e três depois da queda de Pedro I, ainda eram in- 
tensos os ódios entre os brasileiros e portuguezes. 

A bernarda foi ainda uma explosão desses ódios, mas em 
sentido contrario; quem então fez a reacção foi o partido retro- 
grado para rebaver em S. Paulo a influencia que tinha per- 
dido com a deposição de João Carlos e com a escolha de um 
outro governo em que os paulistas entravam com os melhores 
elementos nas pessoas de José Bonifácio, Martim Francisco e bri- 
gadeiro Jordão. 

A aspiração á independência existia em todos os corações e 
já se tinha manifestado abertamente, por factos materiaes, em 
Villa Rica, com Tiradentes, e em Pernambuco com António 
Carlos e outros, nos annos de 1789 e 1817. Como pretende o 
cidadão E. R. que, no anno de 1821, não houvesse em S. Paulo 
aspirações á independência e que esses desejos não dividissem 
os homens em dous partidos, embora ainda mal definidos ? 

Idéas assentadas de fazer a independência, planos organiza- 
dos para realizal~a, não podia haver ainda, porque em parte 
alguma não havia o conveniente e indispensável preparo; porém 
estavam as idéas tão generalizadas e o espírito publico tão bem 
preparado que a independência veiu dentro em poucos mezes e 



— 138 — 

foi por toda parte recebida cora festas e todas as formas de 
manifestações de alegria. A idéa estava, portanto, madura e 
prompta para explodir ; faltava somente uma opportunidade ; esta 
foi logo otferecida pelos acintosos decretos das Cortes de Lisboa e 
depressa aproveitada por Martim Francisco, segundo nos conta 
o chronista Silva Maia, já mencionado, e o 7 de Setembro foi 
a consequência. 

De facto, estavam os brasileiros tào bem dispostos para a 
independência, que José Bonifácio achou meios de obter dinheiro, 
de arranjar esquadra, soldados, almirantes e generaes, e poude 
sem violências, apenas com alguns actos arbitrários, abafar as 
resistências e expulsar os governadores e commandaptes milita- 
res portuguezes, que estavam senhores de todo o norte do Brasil, 
e restaurar a unidade nacional, destruida pelas Cortes de Lisboa. 
A" animosidade pessoal nào foi, como pretende o cidadão 
E. R., o único motivo que levou os bernardistas aos excessos de 
2ó de Maio de 1822. Antes da deposição de Joào Carlos e da 
acclamação do Governo Provisório havia, senão concórdia, ao 
menos paz entre elles e José Bonifácio, como prova o facto 
deste ser chamado para dirigir o movimento de 23 de Junho 
e apresentar ao povo os nomes de alguns delles para membros 
do governo e de accei tarem elles os cargos para que foram eleitos, 
A inimizade começou dentro do governo e foi originada não do 
desaccordo sobre o serviço publico e sim da preponderância que 
aos Andradas asseguravam o seu talento, instrucção superior, 
energia e rapidez de acção, a sua intimidade fraternal e osten- 
tosa solidariedade ; mas, como todas estas grandes qualidades 
Êertenciara a dous paulistas e estavam em serviço da causa do 
irasil, era muito natural que despertassem a inveja, o ciúme e 
o ódio dos portuguezes do governo e seus alliados, que já en- 
treviam o poder escapando das suas mãos e com a perda do 
poder o descalabro do seu predominio. 

Américo Brasiliense definiu em poucas palavras a situação 
do governo de S. Paulo em Maio de 1822, quando disse que, 
com a ida de José Bonifácio para o Rio de Janeiro, ficara João 
Carlos com mais liberdade de acção e cresceu-lhe a esperança 
de manter a influencia porttigueza, que para bem firmar~%e só 
precisava da eliminação de Martim Francisco; porém, Jordão era 
pauhsta e amigo de Martim e de José Bonrfacio e precisava 
ser expulso também, com o que ficaram os extrangeiros e seu 
alliado Francisco Ignacio senhores do governo, como se fosse 
propriedade sua. 

Não explica e muito menos justifica a bernarda o facto de 
José Bonifácio, quando ministro, ter chamado para o Rio de 



l 



— 33í) — 

Janeiro o general Jofto Carlos e Costa Carvalho, por portarias 
de 10 de Maio de 1822. Em primeiro logar. quem os cliamou 
foi o Principe Regente e elles nâo tinham o menor direito de 
criticar e ainda menos de desobedecer a essa ordem, que vinha 
de uma auctoridade 8uj)erior e legitima ; e em segundo logar, 
tanto elles mesmos reconheciam que nào lhes assistia direito 
algum de reagir, que obedeceram mansamente a umas segundas 
ordens, aliás insultuosas, que lhes cassavam o poder, e sem mais 
replica marcharam para o Rio de Janeiro, onde, entretanto, nào 
foram mal recebidos, nem sofFreram violência alguma. 

A bonhomia, com que receberam e obedeceram as ásperas 
portarias de 25 de Junho de 1822, dá origem á hypothese, mais 
ue provável, de que os bemardistas suppuzeram que, com a 
errubada de Martim Francisco do poder e sua expulsão da pro- 
víncia, o Principe Regente ficaria acreditando que os Andradas 
eram realmente odiados em S. Paulo e despediria José Bonifácio 
do Ministério. Ficariam elles assim fora do poder e fora da 
provincia, que se tornaria um paraizo para os extrangeiros e seu 
alliado Francisco Ignacio, acastelledos no governo; porém, tudo 
falhou, porque José Bonifácio, na expressão de Armitage, tinha 
imprimido um pouco de estabilidade no caracter vacillante de 
D. Pedro e feito o Principe comprehender a realidade da situa^ 
çào politica em S. Paulo. A confederação dos municípios do 
interior fez o resto e os bernardistas se guardaram para tomar, 
com o auxilio da cortezã Domitila, estrondosa desforra em No- 
vembro de 1823, com a dissolução da Assembléa Constituinte e 
a deportação dos patriotas, não por três mezes, mas jíor seis 
annos ! 

Nào foi longo o tempo que tiveram de esperar pela des- 
forra e esta foi muito além da gravidade da offensa. Podiam, 
com satisfacçào, repetir que «a vingança é realmente um pra- 
zer digno dos deuses >. 

III 



Nào supponho que o historíador Pereira da Silva acredi- 
tasse em uma alliança combinada entre os bernardistas de S. 
Paulo e aquelles que, no Rio de Janeiro, faziam opposiçào a 
José Bonifácio, ministro; a referencia deve ter sido feita ao /a- 
cto e nào á idéa^ porque nào podia haver idéa commum a Gon- 
çalves Ledo, Januário Barbosa e outros ultra-liberaes fluminen- 
ses, todos brasileiros e propensos á independência, e Joào Car- 
los, Múller, Quartim, Oliveira Pinto e André Gomes, exti-angei- 



— 140 — 

roa no |?oso de posições oíHciaes e que nada ganhariam com a 
separação da colónia; mas, como os ultra-liberaes do Rio e os 
ultra-conservadores de S. Paulo faziam opposiçfto a José Bonifá- 
cio, elles estavam ligados de facto para o fim commum de derribar 
do poder o grande paulista, e depois far-se-ia aquillo que as cir- 
cumstancias aconselhassem. 

Foi neste sentido que tomei a phrase de Pereira da Silva 
e nem podia ser de outro modo, porque era evidente que havia 
conflictos entre os interesses brasileiros e os de Portugal e se- 
ria impossível que houvesse liga de idéas entre Gonçalves Ledo 
e JoÔo Carlos. Costa Carvalho devia sentir-se bem em qualquer 
dos lados, porque, como diz Drummond, estava bem com Ledo 
por ser brasileiro e com Joào Carlos por ser inimigo dos An- 
dradas. 

A elevação do Brasil á categoria de reino, como parte in- 
tegrante do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves, foi 
simplesmente uma honra que nos fez o governo portuguez; o 
regimen e as leis continuaram a ser os mesmos, dictados pelos 
interesses da metrópole e em detrimento da colónia; não nos 
trouxe nem mais autonomia, nem mais liberdade politica e in- 
dividual e não passou de uma ficha de consolação que nos foi 
dada de muito má vontade, em tempo em que as colónias hes- 
panholas estavam em plena revolução para a independência. 
Foi uma peneira com qie se nos quiz tapar a luz que poderia 
nos mostrar o bello espectáculo que então se observava na Ame- 
rica, desde a Argentina até o México, dos povos estarem sacu- 
dindo o jugo da metrópole, que havia tresentos annos que es- 
tava pesando sobre os seus hombros. 

Já por occasião da guerra dos Emboabas, em que os pau- 
listas foram traidos e massacnidos pelos intrusos^ o governo por- 
tuguez conseguiu apaziguar o seu animo irritado concedendo as 
honras de cidade á villa de S. Paulo; era um signal de boa 
vontade para comnosco e os ingénuos paulistas se satisfizeram 
com isso, quando de tal honraria não lhes vieram nem mais li- 
berdade, nem mais direitos, nem allivio dos pesados impostos 
que pagavam de dinheiro e de sangue, devorados pelo fisco vo- 
raz e pelo feroz militarismo daquelles ominosos tempos. 

Em 1815—22 o Brasil não passava de uma colónia, como 
sempre tinha sido, não obstante o honorifico titulo de reino que 
que lhe foi dado; e tanto o regimen colonial continuava inal- 
terado, que Pernambuco se revoltou no anno seguinte em favor 
da independência e o Brasil todo em 1822. O facto de D. Pe- 
dro ter sido aqui deixado como regente não foi devido a ter o 
Brasil o titulo de reino, visto que não havia pragmática que a 



— 141 — 

isso obrigasse e que collocaria o Algarves também no direito de 
ser governado só por um príncipe. O facto mesmo das Cortes 
de Lisboa ordenarem a retirada de D. Pedro prova que a sua 
estada no Brasil era inteiramente arbitraria e não determinada 
por lei escripta. 

Se os brasileiros se oppuzeram, a principio, á retirada de 
D. Pedro, nào foi porque receassem perder a sua autonomia, 
visto que nào podiam perder aquillo que nunca tiveram. A 
permanência entre nós do Principe Regente, herdeiro forçado 
da coroa real, devia fazer com que as Cortes de Lisboa nos 
tratassem com mais respeito e attendessem com mais solicitude 
aos interesses da colónia, por consideração para com elle, que 
viria a ser o rei de toda a nação. 

Comprehendiam os brasileiros que, ficando aqui mais annos, 
o Principe se tomaria familiar com o caracter e as necessidades 
dos povos e que uma representação sobre o serviço publico, par- 
tindo delle, futuro rei, teria muito mais força e seria mais 
promptamente attendida do que se partisse de um qualquer vi- 
ce-rei. Trabalharam para esse fim e obtiveram delle o «Fico», 
que era o quanto bastava na occasião, visto que o paiz não es- 
tava ainda materialmente bem preparado para a separação ; 
porém, como os abusos das Cortes continuaram, tornando-se acin- 
tosos, e foram alcançar até a pessoa de D. Pedro, a indignação 
popular explodiu e seguiu-se a independência como a única 
reacção possivel e como lógica solução dos conflictos travados 
entre a colónia e a metrópole. 






Allegou o cidadão E. R. que a chamada para o Rio de 
Janeiro de João Carlos, Costa Carvalho e Francisco Ignacio, 
fànccionarios públicos e militar sujeitos ao arbítrio do governo, 
foi uma violência que provocou a reacção de 23 de Maio. Pro- 
vei que não tinha fundamento algum essa hypothese, tanto que 
08 chamados acabaram por obedecer em condições muito menos 
honrosas para elles, que pretenderam reagir contra o vienor ag- 
gravo e pacificamente se sujeitaram ao maior, como se a cha- 
mada de um subordinado pelo seu superior, para matéria de 
serviço, estivesse sujeita á critica do primeiro e fosse causa jus- 
tificativa de uma rebellião. Agora vou demonstrar que o argu- 
mento é ainda inconsequente, applicando o simile ao caso que 
produziu aquella inintelligivel queixa do velho Paula Souza. 



— 142 - 

Em Janeiro de 1824 já a Assembléa Constituinte tinha si- 
do dissolvida, com o concurso dos bernardistas, os Andradas es- 
tavam deportados o em viagem para a Europa ; devemos presu- 
mir, portanto, que o Brasil estava livre de chamados arbitrários 
e que em S. Paulo a ales^ria era 2:eral, como nos conta o ex- 
tran^reiro PIoesquellec. Entretanto, a 3 daquelle mez e aiino, 
sendo ministros de D. Fedro ainda alg;un8 dos que tinham dis- 
solvido a Assembléa Constituinte e deportado os Andradas e ou- 
tros patriotas, foi expedida do Rio uma portaria intimando para 
que sahissem da provincia e seguissem para a capital do Impé- 
rio Bento Paes de Barros, António Paes de Barros e Francisco 
Xavier de Barros, paulistas distinctos e dos mais genuinos, cu- 
nhados de Paula Souza, um delles ex-representante de S. Pau- 
lo nas Cortes de Lisboa e nenhum delles funccionario publico 
ou militar sujeito ao a^*bitrio do governo. 

Isto, sim, foi uma violência e a sua causa foi bem exposta 
pela Camará Municipal do Ytú em um longo officio, que, por 
ser interessante para a historia do tempo, transcrevo aqui na 
sua parte principal ; diz assim : 

«Senhor, os capitães Bento Paes de Barros, António Paes 
de Barros e Francisco Xavier de Barros foram avisados em con- 
sequência da Portaria do Ministro da Justiça ( Sebasti&o Luiz 
Tinoco da Silva) para com toda a brevidade sahirem desta pro- 
vincia para essa Corte. 

«Com que assombro nào ouviu este povo semelhante noti- 
cia ! Três irmãos tão conhecidos desde a sua meninice nesta 
villa pelo seu caracter sério e modesto ^ amigos da ordem, da paz 
e da traiiquiUidade publica, não tendo jamais tomado parte nas 
commoçôes politicas da Provincia senão quando se tratou de sal- 
var a honra da mesma, unindo-a á obediência de Vossa Mages- 
tade Imperial, como chefe da Nação Brasileira, concorrendo para 
isso com as suas pessoos e bens; o tenente Francisco Romano, 
que igualmente se mostra honrado patriota, envergonhando^e do 
procedimento da Capital (S. Paulo), que arrostou perigos não 
pequenos para induzil-a ao caminho da honra e do dever : Es- 
tes homens, que acarretaram sobre si o ódio e as declamações 
desde aquelle tempo, Senhor, são estes mesmos que, em premio 
do seu patriotismo, da sua honra, dos seus trabalhos e da adhe- 
são constante á causa do Brasil, são agora expatriados, deixan- 
do mulheres, familias, negocio!>, propriedades e uma mãe avan- 
çada em idade e viuva, cuja casa está na administração de um 
destes filhos ! 



— 143 — 

c Senhor, o titalo de Fidelissimâ, com qae Vossa Magestade 
Imperial quiz condecorar esta comarca, parecia-nos um titulo 
indelével com que Vossa Magestade Imperial quiz trausmittir á 
posteridade a briosa conducta deste povo, mas quem o pensará 
assim veiido os tnais beneméritos conduzidos para longe de sua 
pátria c/jmo criminosos ou suspeitos f 

€ Senhor, a conducta de um dos ex-ministros de Vossa Ma- 
gestade Imperial (José Bonifácio) mereceu a execraçào publica 
pela expatriaçíio ae tantos cidadAos sem culpa formada, apezar de 
manifestamente envolvidos iws factos da Capital, de 23 de Maio 
de 1S22. Appareceram entào manifestos symptomas de desobe- 
diência a Vossa Magestade Imperial ; mas o povo, que, esmaga- 
do pelo despotismo, havia proclamado o systema constitucional 
(Bases da Constituição das Cortes), se hcrrorisou quando viu 
aquelle ex-ministro trilhar a marcha antiga da arbitrariedade e 
nào se considerou mais ?eguro... 

« Quaes nào serfto, pois, a consternação, o susto e o triste 
presagio de um futuro desastroso, quando o mesmo povo vê se 
lhe arrancarem, nesta villa e em outras e na capital, seus de- 
fensores, os mesmos que talvez mais sofPreram por bem da po- 
breza, em tempo em que a Província se achava tranquilla, sem 
a mais pequena apparenoia de commoção, ainda que em algu- 
mas partes contristada ! 

«Quão difíerente vem a ser a sorte do homem de bem, do 
patriota honrado, do súbdito obediente e a do cidadão temerário 
ou pelo menos imprudente ! 

« Estas são, senhor, as expressões do publico, estes, os ge- 
raes sentimentos do povo, que levamos á consideração de Vossa 
Magestade Imperial para que, inteirado da verdade, em desem- 
penho da sua Augusta Palavra, queira restituir ás suas casas os 
nossos quatro concidadãos, castigar os intrigantes que perturbam 
a paz publica só em vista de fartar ás suas tringanças, pois de- 
claramos a Vossa Majestade Imperial que, desde a dissolução da 
Âssembléa (Constituinte), já se ouviu dizer que da capital, desta 
villa e de outras deviam sahir certos cidadãos enviados em uma 

relação a essa Corte. Senhor, por esse acto de justiça 

etc.» 

Os griphos e os parenthesis são meus. 

Eis aqui o motivo da queixa de Paula Sousa : os seus três 
cunhados eram perseguidos por serem paulistas dedicados á causa 
do Brasil e terem, como elle, tomado parte na confederação 
ytuana em defesa dos interesses nacionaes contra os extrangei- 
ros que, por audacioso coup de main, tinham se apossado do 
governo de S. Paulo ! 



— 144 — 

A camará de Ytú, andradista como era e representante do 
espirito paulista contra a invasào dos extrangeiros no governo 
da provincia, soube elevar-se acima do sentimento partidário 
para censurar o procedimento arbitrário de José Bonifácio nas 
deportações por três mezes dos bernardistas, sem culj)a formada, 
quanda era patente, notório, o crime de rebelliào que tinbam 
commettido ; porém, os auctores da sediçào e seus adherentes, 
acceitando aquelia censura que Ibes aproveita, nào ficam satis- 
tisteitos com a dissolução da Assembléa Constituinte e a depor- 
tação por seis annos de José Bonifácio e seus irmãos, vão ain- 
da interferir, mezes depois, no socego de Paula Sousa e de seus 
cunbados, porque tomaram parte na confederação dos munici- 
pios e se fizeram defensores da causa nacional contra os retró- 
grados. £ querem por força que os Andradas tenbam sido os 
arbitrários e violentos ! 

E assim se oscrave a historia ! 

A. DE Toledo Piza. 



Bfiin3i!it8ç& 8B Príicíie Reteiite io Brasil peto BeTerno ProTí- 
im ie Sio Pitio, 61 24 le Dezeitoo te 1821 



c Seubor: — Tinbamos já eseripto a Yoesa Alteza Real an- 
tes que pelo ultimo correio recebêssemos a Ocuseta Extraordinária 
do Rio de Janeiro de 11 do corrente: e apenas fixámos nossa 
aAteuçfto sobre o primeiro decreto daf» Cortes acerca da organi- 
sacão dos governos das provincias do Brazil, logo ferveu em 
nossos corações uma nobre indignaç&o, porque vimos neiles exa- 
rado o systema da anarcbia e da escravidão ; mas o segando, 
pelu qual Vossa Alteza Real deve regressar para Portugal, afim 
de viajar incógnito somente pela Hespanba, França e Inglaterra, 
canaou^nos um verdadeiro borror (1). 

« Nada menos se pretende do que desunir-nos, enfraque- 
eerHM>s e até deixar-nos em misera orpbandade, arrancando do 
seio da grande Família Brasileira o único Pae commom que nos 
restava depois de terem esbulbado o Brasil do benéfico fandador 
deste reino» o Auj^nsto Pae de Vossa Alteza Real. Enganam* 
se; aasim o espenmos em Deus, que é o vingador das injusti- 
ça»; Elle nos dará coragem e sabedoria. 

c Se pelo artigo 21 das Bases da Constituição, que appro- 
vamos e jurámos por serem principies de Direito Publico Uni- 
versal, os deputados de Portugal se viram obrigados a externar 
que a Constituição que se fizesse em Lisboa só obrigaria 
por ora aos portugi^ezes residentes naquelle reino e quanto aos 
que residem nas outras três partes do mundo, ella somente se 
Ines tomaria commum quando seus legitimes representantes de- 
clarassem ser esta a sua vontade; como agora esses deputados 
de Portugal, sem esperarem pelos do Brasil, ousam já legislar 



I IhtM dMPetw têm ft dat» d» 1.» d« Ost«bco ds 1821 e Tèa n* oottoeçio dM 
l«ii àò Bi Mil, dfella uno. Pelo l.« destes decr«toe atsin ereados nss prorinoUs go- 
TWMdofee e eomi—a d —tas militares, só dependentes do governo de Lisboa. yX, da R.) 



— 146 — 

sobre os interesses mais sap^rados de cada província e de um 
r(;ino inteiro V Como ousam desmembral-o em porções desatadas 
e isoladas, sem lhes deixarem um centro commum de força e de 
uniuo ? Como ousam roubar a Vossa Alteza Keal a logar-te- 
nencia que seu Augusto Pae, nosso Kei, lhe concedera ? Como 
querem despojar o Brasil do Desembarco do Paço, Mesa de 
Consciência o Ordens, Conselho da Fazenda, Junta do Commer- 
cio. Casa da Supplicaçào e tantos outros estabelecimentos novos 
que já promettiam futuras prosperidades ? Para onde recorrerão 
os Povos desgraçados a bem dos seus interesses económicos e ju- 
diciaes ? Irào agora, depois de acostumados por doze annos a 
recui*sos jn^omptos, sofírer outra vez, como vis colonos, as delon- 
gas c traspaças dos tribunaes de Lisboa, atra vez de duas mil lé- 
guas do oceano, onde os suspiros dos vexados perdiam todo o 
alento e esperança V Quem o crerá depois de tantas palavras 
meigas, mus dolosas , de reciproca igualdade e felicidades futuras ! 

« Níi sessão de 6 de Agosto passado disse o deputado das 
Cortes, Pereira do Carmo, (e disse uma verdade eterna), que a 
Constituição era o pacto social em que se expressavam e decla- 
ravam as condições polas quae«i uma nação se quer constituir 
em corpo politico, e que o fim desta Constituiçào é o bem geral 
de todos os individuos que devem entrar neste pacto social. 
Como, pois, ousa agora uma mera fracçào da grande nação por- 
tugueza, sem esperar a conclusão deste solemne pacto nacional, 
attentar contra o bem geral da parte principal da mesma, qual 
o vasto e riqaissimo reino do Brasil, despedaçando-o em miseros 
retalhos e pretendendo arrancar por fim do seu seio o represen- 
tante do Poder Executivo e anniquilar de um golpe de penna 
todos 03 tribunaes e estabelecimentos necessários á sua existên- 
cia e futura prosperidade V íCste inaudito despotismo, este hor- 
roroso perjúrio politico, de certo ní\o o merecia o bom e gene- 
roso Brasil. Mas enganam-se os inimigos da ordem nas Cortes 
de Lisboa se capacitam que podem ainda illudir com vans pa- 
lavras e 020S pliantasmas o bom sizo dos honrados portuguezes 
de aml)Os os mundos. 

«Note Vossa Alteza Real que se o reino da Irlanda, que 
faz uma parte do Reino Unido da Gran Bretanha (apezar de 
ser infinitamente pequeno em comparação do vasto reino do 
Brasil) e está separado da Inglaterra por um estreito braço de 
mar, que se atravessa em poucas horas, todavia conserva um 
governo geral ou vice-rcinado, que representa o poder executivo 
do Rei do Reino Unido, como poderá vir á cabeça de ninguém, 
que nílo seja ou profundamente ignorante ou loucamente atre- 



— 147 — 

vido, pretender que o vastíssimo reino do Brasil haja de ficar 
sem centro de actividade e sem representante do Poder Execu- 
cutivo, como igualmente sem uma mola de energia e direcçilo 
das nossas tropas para poderem obrar, rapidamente e de máos 
dadas, a favor da defesa do Estado contra qualquer imprevisto 
ataque do inimigos externos ou contra as desordens e facçõe& 
internas, que procurem atacar a segurança publica e a uniào 
reciproca das provincias. 

«Sim, Augusto Senhor, é impossivel que os habitantes do 
Brasil, que forem honrados e se prezarem de ser homens, e 
mormente os paulistas, possam jamais consentir em taes absurdos 
e despotismo. Sim, Augusto Senhor, Vossa Alteza Real deve 
ficar no Brasil, quaesquer que sejam Ob projectos das Cortes 
Constituintes, nilo sô para nosso bem geral, mas até para a in- 
dependência e prosperidade futura do próprio Portugal. Se Vos- 
sa Alteza Real estiver (o que nào é crivei) pelo deslembrado e 
indecoroso decreto de 2í) de Setembro (1), além de perder para 
o mundo a dignidade de homem e de principe, tornando-se es- 
cravo de um pequcTio numero de desorganizadores, terá também 
que responder, j>erante o céo, do rio do sangue que de certo 
vae correr pelo Bnuil com a sua ausência, pois seus povos, 
quaes tigres raivosos, accordaruo de certo do somno amadornado 
em que o velho des2>otismo os tinha sepultado e em que a as- 
túcia de um novo machiavilismo constitucional os pretende agora 
conservar . 

«Xós rogamos, portanto, a Vossa Alteza Real, com o maior 
fervor, ternura e respeito, de suspender a sua volta para a Eu- 
ropa, por onde o querem fazer viajar como um pupillo rodeado de 
aios e de espias; nós lhe rogamos que se confie corajosamente 
no amor e fidelidade dos brasileiros, e mormente dos seus pau- 
listas, que eàtào todos promptos a verter a ultima gotta do seu 
sangue e sacrificar todos os seus haveres para nào perderem o 
principe idolatrado, em quem tem posto todas as esperanças bem 
fundadas da sua fidelidade e da sua honra nacional. Espere, pelo 
menos. Vossa Alteza Real pelos deputados nomeados por este 
governo e pela camará desta Capital, que devem quanto antes 
levar a sua Augusta Presença nossos ardentes desejos e firmes 
resoluções, dignando-se acolhel-os e ouvil-os com o amor e at- 
tençilo que lhe devem merecer os seus paulistas. 



1 Est» data é » 4a lei fraccionando o Brasil, como foi yotada pelat Cdrtet de 
Liiboa; o decreto qae a manda execatar ó de l.» de Oatabro de 1821. 

(X, da JL) 



— 148 — 

cA AngUAtA PegBoa de Vossa Alteza Real guarde Deus 
nraitos annos. Palácio do Governo de S. Paulo, 24 do Desem- 
liro de 1821. João Carlos Augusto Oeynhausen, presideate. — Joié 
Bonifácio de Andrada e Silva, vice-presidente. — Marfim Fran^ 
cisco Ribeiro de Andrada, secretario. — Lazaro José GonçaUMi, 
secretario . — Miguel José de Oliveira Pinto, secretario. — Mamoel 
Modriguea Jordão. — Francisco Ignado de Souza Queiroz^ — Joào 
ferreira de Oliveira Bueno, — Atitonio Leite Perora da Chima 
Lobo. — Daniel Pedro MiUler. — André da Silva Gomes. — Fran-^ 
dsco de Paula Oliveira. — António Maria Quartim, 



GHaOSÍIGÁ DOS TEMPOS GOLONIÂIIS 



Ppodromos da Independência na Villa 
de Ytú 

A yilla de Ytú, creada em 1657, foi sempre notável entre 
as demais povoações da capitania e provincia de S. Panlo pela 
sua prosperidade e abastança e pelo espirito progressista e libe- 
ral ae sens habitantes, unido a um profundo sentimento de res- 
peito pelos poderes legaes da naç&o. 

O facto da rebellião de 1842 tendo extendido até lá os seua 
desastrosos effeitos não é prova contra esta affirmaç&o, porquanto 
o povo ytuano era representado pelos filhos do logar e nâo por 
forasteiros e immigrados, e daquelles bem poucos foram os que 
nella tomaram parte, arrastados pela influencia do padre Feijó, 
que não era natural da villa, mas que lá residia e era um espi- 
rito errático e incoherente, porém um caracter forte, luctador e 
magnético, que fascinava as seus amigos e os levava a se sa- 
crificarem pelas causas que elle defendia. 

A grande maioria dos ytuanos foi contraria áquella rebellião. 
Extranhos a ella foram até Paula Souza e os Paes de Barros, aliás 
amigos de Feijó e parentes chegados de Raphael Tobias, chefes 
reconhecidos e acceitos do movimento revolucionário, e sabemos 
que o notabiiissimo padre António Joaquim de Mello foi nomeado 
bispo desta diocese em consequência dos vigorosos e profundos 
sermões que contra elle pregou alli mesmo nas egrejas de Ytú, 
onde foram ouvidos com respeito e admiração, O imperador 
Pedro I, com justiça, deu á villa o titulo de Fideíissima^ em 
1823, e todos conhecemos aquella quadra. 

O sincero acolhimento 
Do fiel povo ytuano 
Gravado ôca no peito 
Do seu grato soberano, 



— 150 — 

que d. Pedro 11 dirigiu aos ytuanos durante as grandes festas 
que lá se realizaram por occasiào da visita que o imperador fez 
áqueda villa em 1846 — quadra que serviu de mote para glosa a 
alguns poetas que entào se achavam presentes, inclusive o dr. 
Martim Francisco Ribeiro de Andrada, que era o juiz municipal 
do termo e mais tarde se tornou lente da Academia de Direito, 
deputado provincial e geral, conselheiro de Estado e ministro. 

As egrejas do logar s?>o muitas, algumas esj>açosas e bellas, 
e o clero era numeroso, relativamente instruido e um tanto íi- 
dalgo, pois a maioria dos seus membros pertencia ás mais im- 
portantes familias da villa e da capitania ; a instrucçíío alli era 
mais desenvolvida do que nas outras povoações e a villa contou 
sempre bons collegios em que se ensinavam humanidades e muito 
latim. O padre Manoel Floriano era filho do capitiio-mór Vi- 
cente Taques, mas nílo desdenhava de exercer as funcçòes de 
mestre-escola, sendo bom latinista, assim como seu ime, que 
também era poeta de merecimento; o padre António Joaquim de 
Mello, que depois foi bispo e fundador do Seminário Episcopal, 
também era fidalgo por nascimento, primo de Paula Souza, ta- 
lento robusto, caracter solido e espirito liberal moderado ; o pa- 
dre Miguel Archanjo do Amor Divino, que mais tarde passou a 
se chamar ^liguei Archanjo Ribeiro do Castro Camargo, era 
oriundo de família aristocrática, professor abalisado, e ainda hoje 
existem alguns velhos que foram os seus discípulos e que ainda 
se lembram com respeito e saudades da sua pessoa e de suas 
licções do lalim; o padre João Paulo Xavier ensinava o idioma 
romano por compendio seu e methodos próprios, muito aprecia- 
dos pelos seus alumnos, e os padres Jesuino de Monte Carmelo 
e António Pacheco da Silva eram homens tào superiores quo 
mereceram ser biographados no volume 11 da Revista deste In- 
stituto, não mencionando muitos outros clérigos que, ])or serem 
vienos conhecidos, nSo deixaram de ser homens de valor moral 
e verdadeiros representantes do elevado meio em que viviam. 
A musica era também alli milito cultivada; a família Lobo cele- 
brizou-se pelo génio artístico dos seus membros e as producçoes 
musicaes do padre Jesuino, esquecidas hoje, tiveram fama no 
começo do século passado. 

Feijó, que era nascido nesta capital ou nas suas vizinhanças 
e tinha pequena lavoura de assucar em Campinas, residia habi- 
tualmente em Ytii, porque sabia apreciar o meio intellectual, social e 
religioso dos seus habitantes. Cândido José da Motta. homem in- 
telligente e i Ilustrado, escriptor dramático e enthusiasta da liber- 
dade, veiu de Minas Geraes se estabelecer naquella villa, onde 
durante um quarto de século tomou parte cm todos osmovimen- 



— 151 — 

tos liberaes e mesmo revolucionários do tempo, como compadre 
e amic^o que era do reg^ente de 1835 — o7, passando de lá para 
Porto Feliz, onde nasceu o seu illustre neto, dr. Cesário Motta Jú- 
nior, que tanto illustrou o Estado de S. Paulo e este Instituto, co- 
mo seu primeiro presidente. Alvares Macliado, o grande medico, 
orador e politico, lá foi estabelecer-se e lá lançou os fundamen- 
tos da invejada reputaçfto que adquiriu como estadista e homem 
de sciencia; só mais tarde foi que elle transferiu a sua residência 
de lá para Porto Feliz e de])0Í8 para Campinas, onde se ligou á 
sua familia o notável naturalista Hercules Florence. 

Foi nesta atmo8j)bera saturada de religião, de musica, de 
latim e de sentimento de respeito ao principio da auctoridade, 
alliado a uma vaga aspiração á liberdade, que brotou, cresceu o 
desenvolveu-se a intelligencia brilhante de Paula Souza, esj)irito 
forte, alma generosa, san e enthusiífstica, encerrada em um corpo 
fraco e doentio, que por muitos annos o impediu de prestar á 
sua pátria os serviços que ella tinha o direito de esperar da sua 
robusta mentalidade e da pureza do seu patriotismo. O seguinte 
documento é interessante e, parece-me, inédito: 

« Francisco. — A treze de Junho de mil setecentos e no- 
venta e um baptisei e puz os Santos Óleos a Francisco de Paula, 
filho legitimo do doutor António José de Souza, natural da fre- 
guezia de Nossa Senhora da Boa Viagem, do bispado do Porto, 
e de Gertnides Solidonia de Cerqueira, natural da freguezia de 
Araçarijruama ; foram padrinhos o guarda-mór Calixto de Mello 
Souza Eego o sua mulher D. Maria Paes de Cerqueira. — O vi- 
gário coadjuctor, Francisco Xavier de Carvalho,^ 

Perdeu seu pae quando ainda era menino e teve como tutor 
o capitào-mór Vicente Taques, que em these era profundamente 
absolutista, mas sabia amenizar as asperezas do mando por uma 
justa combinação dos seus deveres com os seus sentimentos de 
justiça e de humanidade. Sem deixar a sua terra natal soube 
Paula Souza instruir-se e adquirir aquelles vastos conhecimentos 

3ue o habilitaram mais tarde a brilhar no parlamento como um 
os nossos melhores oradores e mais babeis políticos e a luctar 
com yant-agem com os mais afamados chefes conservadores de 
seu tempo. 

c Vossa excellencia é formado nas areias de YtÚ2>, dizia-lhe 
ironicamente Dupin Almeida, futuro marquez de Abrantes. Era, 
de facto, formado nas areias de Ytú, não tinha diploma de nen- 
huma academia, mas podia dar e muitas vezes deu licçòes de 
sabedoria e de sciencia politica a mais de um diplomado na uni- 
versidade de Coimbra. 

Possuindo bens de fortuna, pertencendo a uma familia nu- 



— 152 — 

merosa e abastada e movendo-se em um meio que lhe era pro- 
picio, pôde Paula Souza dar inteiro desenvolvimento á sua na- 
tureza expansiva e absorvente, sem outro embaraço mais do que 
a fraqueza da sua saúde, e dedicar^-se ao preparo da sua intel- 
ligencia, ao cultivo das suas faculdades moraes e á propagaçfto 
das idéas liberaes, de que era entbusiasta e que iam ganhando 
terreno dia a dia, para em breve corporiíicar-se na indepen- 
dência do Brasil, 

Em cada noticia de mais uma conquista liberal re4ilizadano 
Rio de Janeiro, sob o reinado de D. João VI, ou em Lisboa, 
sob a influencia das Cortes Constituintes, encontrava motivo para 
manifestações de sua alegria e enthusiasmo, e n&o era raro, nos 
seus momentos de patrióticas expansões, chocaivse elle com o seu 
ex-tutor, chegaado a ir, á noite, com musica, fazer serenata e 
dar vivas á liberdade sob tis janellas da casa de residência do 
capit&o-mór, que só transigia com as idcas novas depois que 
ellas tinham avassallado o espirito publico e se haviam transfor- 
mado em factos consummados. 

Aos trinta annos de edade já Paula Souza gosava em toda 
a província de uma invejável reputação pela sua grande intel- 
ligencia, variada illustração e ardente patriotismo; foi por isso 
eleito, em 1821, deputado ás Cortes Constituintes de Lisboa, 
com António Carlos, Feijó, Vergueiro, Fernandes Pinheiro e 
José Ricardo de Andrada. Não pôde, entretanto, ir tomar pos- 
se da cadeira porque a sua saúde, sempre em estado precário, 
não lhe permittia supportar os inconvenientes da longa e peno- 
sa travessia marítima em frágil e incoramodo navio de vela. 
Tendo Fernandes Pinheiro optado pelo Rio Grande do Sul, fi- 
caram vagas duas cadeiras de deputados por S. Paulo, as quaes 
foram occupadas pelos supplentes António Manoel da Silva Bue- 
no e António Paes de Barros, sendo este ultimo um ytuano de 
familia illustre, filho do fidalgo António de Barros Penteado e, 
portanto, cunhado de Paula Souza. 

Deixando-se ficar em Ytú, continuou elle a sua propagan- 
da liberal e não tardou em ser considerado em politica como 
«a encarnação da opinião publica na sua província natal». Um 
circumspecto chronista nos conta que co primeiro acto official 
em que apparecem escriptas as palavras hidependencia do Bra^ 
8il foi do Senado da Camará de Ytú, que em 1821 requeria ao 
Senado da Camará de S. Paulo pam que fossem dados plenos 
poderes aos representantes desta provinda nas Cortes de Lis- 
boa para tratarem da nossa emancipação politica, sendo esta 
proposta feita por Paula Souza, que, com a sua palavra semp^re 
eloquente e com o prestigio de que gosava, dava desenvolvi- 



— 15a — 

meato e direeç&o ás idéas da época de modo a cooseguir-se a 
emaneipaçAo politica do Brasil». 

O juramento das Bases âa CoiistítuiçãOy adoptadas pelas 
Cortes de Lisboa, a deposição de Jo&o Carlos de OeynhaBsen 
do CMgo de capitfto-general de S. Paalo, em 23 de «fnnbo de 
1S21, a eleiç&o de um governo collectivo, composto em sna maio- 
ria de brasileiros e de paulistas distinctos, como José Bonifácio, 
Martim Francisco e brigadeiro Rodrigues Jord&o, a resoluç&o 
tomada pelo Príncipe Regente de ficar no Brasil como seu per- 
petuo defensor e a entrada de José Bonifácio para o ministério 
foram factos «jue encberam de alegria e de entbusiasmo o co- 
ração do povo ytuano e vieram satisfazer em parte as aspira- 
ções de Paula Souza, que agora via o absolutismo limitado pelo 
arremedo de uma carta constitucional e o governo do Brasil e 
de S. Paulo efficazmente influenciado pelo elemento nacional, 
insuspeito á liberdade e capaz de proaeguir na vereda que de- 
via nos conduzir a uma completa independência. 

Mas o facto naesmo do elemento accentnadamente nacional 
e genuinamente paulista ter motivos para estar satisfeito com a 
marcha dos acontecimentos políticos no paiz em geral e nesta 
província em particular, era forte razão para os elementos es- 
trangeiro e retrogrado, ainda influentes em S. Paulo e senho- 
res das mais importantes posições ofiiciaes, estarem descontentes 
e tentarem de commum accôrdo reagir, sinão a favor da res- 
tauração dos antigos privilégios que lhes concedia o velho re- 
gimen colonial, ao menos para estorvar e retardar a successão 
dos factos e reter o poderio, três vezes secular, que se ia esca- 
pando das suas mãos. 

Essa reacção appareceu no dia 23 de Maio de 1822, diri- 
gida por João Carlos de Oeynhausen, Oliveira Pinto, Daniel 
Pedro MuUer e António Maria Quartim, extrangeiros, utembros 
do governo collectivo de S. Paulo, associados ao coronel Fran- 
cisco Ignacio, também membro do governo, e a Costa Carvalho, 
ouvidor da comarca, que parecia interessado em remover os An- 
dradas do seu caminho politico. 

Rebellou-se a força armada e sahiu dos quartéis para a rua 
sob a direcção do brigadeiro Joaquim José Pinto de Moraes Le- 
me e dos coronéis Francisco Ignacio de Souza Queiroz e Fran- 
cisco Alves Ferreira do Amaral, emquanto os sargentos-móres 
Francisco de Paula Macedo e José Rodrigues de Oliveira, o ca- 
pitão Pedro Taqnes de Almeida Alvim e Ja3nne da Silva Tel- 
les corriam as ruas, de trabuco na mão, e intimavam aos ve- 
readores para que se reunissem em camará e pedissem ao go- 
verno collectivo que delle' fossem expulsos Martim Francisco e 



— 154 — 

o brip^adeiro Jordào e que Joào Carlos e Costa Carvalho deso- 
bedecessom ás ordens do Príncipe Regente, que os cbamava para 
o Rio de Janeiro, e se deixassem ficar era S. Paulo no exer- 
cício dos seus respectivos cargos ; mas, para que a sedição ti- 
vesse uma apparencia de popularidade, os amotinados, usando 
de violências (1), compelliram alguma gente a comparecer na 
sala da camará, emquanto um desordeiro, alcunhado o Bexiga^ 
tocava a rebate e reunica a plebe no pateo do conselho munici- 
pal (2). De lá se mandou a intimaçílo ao governo. 

Deixaram Martim e Jordão o governo e os amotinados vi- 
ctoriosos passaram a exigir mais, que Jordào deixasse esta ca- 
pital e que Martim fosse posto fora da província, retirando-se o 
primeiro para Santos e seguindo preso o segundo para o Rio de Janei- 
ro. Demittiram-se espontaneamente os outros membros andra- 
dístas do governo, que ficou entregue a Joilo Carlos, Oliveira 
Pinto e Muller, militares portuguezes, a Quartim, militar hes- 
panhol, e a Francisco Ignacio, paulista, mas filho de portuguez, 
educado em Portugal, ex-alferes da tropa de linha portugueza 
e coronel de milícias em S. Paulo. 

Todos os nossos chronistas, como Paulo do Valle, Machado 
de Oliveira, Azevedo Marques, Américo Brasiliense e conselhei- 
ro Olegário, sào concordes em dar a esta sediçfto, conhecida na 
nossa historia com o nome de Bernarda de Francisco Ignacio^ 
o caracter de rebellíão dos quartéis, sem nenhuma feiçSo popu- 
lar, e os depoimentos existentes do capiào Leite Penteado e de 
Audró Gomes, portuguez velho e membro do governo, ambos 
insuspeitos, aflSrmam que os vereadores e a plebe nella tomaram 
parte em consequência das ameaças de violências de que foram 
victimas. O clero, as classes conservadoras e o elemento genui- 
namente ])aulista foram inteiramente extranhos ao movimento 
sedicioso de 23 de Maio e nfto poderam reagir porque ficaram 
sob a pressão de um regimen de terror. 

António Pacheco da Fonseca, membro de importante famí- 
lia ytuana e vereador em Ytii, estava em 5. Paulo nesse dia e 
teve occasião de presenciar os factos que entào se deram e que elle 
considerou graves e vergonhosos para a historia paulista ; apre- 
sou-se, pois, a voltar á sua terra natal e a transmittír aos seus 
patrícios a noticia do que se passava nesta capital. 



(1) vide MachAdo de Oliveira. Quadro Hiitorieo ; Aseyodo Marqnes, Áponiamtntoi 
Riêlorieoh artlfço Bernarda ; oonselhetro Olegário, Biograpkia do padre Amaral Unrgtlt e 
Doeumentoi Jntiretsantêi, Tol I. 

(2) Axevedo Marquei, citado, artigo Btmarda, depoimento de André Gom38, mem- 
bro do proprio governo coUectlvo. 



~ 155 — 

Foi geral o sentimento de indignaçilo e de borror que essa 
noticia produziu entre os ytuanos e logo, no dia 28 de Maio, 
foi convocada uma assemblóa dos vereadores, auctoridades civis 
e militares, clero, nobreza e povo para se lavrar um termo de 
protesto contra aquella sedição e de solidariedade com o Princi- 
pe Regente, sendo as resoluções tomadas nessa reunifto remetti- 
das no mesmo dia aos extrangeiros senbores do poder em S. 
Paulo e a D. Pedro e seu governo, no Rio de Janeiro (1). 

Entretanto, o goveiiio bernardista de S. Paulo, tendo com- 
mettido o attentado a 23 de Maio, só no dia 29 desse mez foi 
que se lembrou de participar ás camarás municipaes da provin— 
cia o acontecimento e as causas que o motivaram e, julgando-se 
ainda com o direito de ser por ellas obedecido, determinou-lhe» 
que vigiassem os inimigos da ordem e do socego publico para 
que espirites mal intencionados não promovessem a desunião e 
a anarcbia entre os povos (2). A 1 de Junho respondia o mes- 
mo governo ao officio da camará de Ytú, extranbando-lhe seve- 
ramente o seu procedimento e prohibindo que os vereadores 
se communicassem directamente com o Principe Regente. Alie- 
gavam os membros do governo que continuavam a ser fieis o 
obedientes ás ordens de D. Pedro, nào obstante terem recusado 
cumprir as portarias de 10 e de 21 de Maio, pelas quaes João 
Carlos e Costa Carvalho eram chamados para o Rio de Janeiro, 
e que toda a correspondência entre as camarás desta província 
e o governo do Principe Regente devia ser feita por seu inter- 
médio; isto é, allegavam os extrangeiros acastellaaos no gover- 
no de S. Paulo, de que se íizeram exclusivamente senhores pela 
sedição de 23 de Maio, que precisavam estar bem informados 
dos sentimentos dos paulistas a seu respeito e ficar senhores dos 
segredos da sua correspondência com D. Pedro e com Joaó Bo« 
ni^acio, ministro do Principe e inimigo daquelles mesmos ex- 
trangeiros (3). 

A camará de Ytú, porém, não se intimidou e a 7 de Junho 
replicava ao governo de S. Paulo que o direito de petição e de 
representação era a todos garantido pelo art. 14 das Bases da Con- 
stituição, sem necessidade do intermédio dos governos das pro- 
vincias, e que a representação que tinha feito ao Príncipe Re- 
gente, tendo já sido expedida pelo correio, não podia mais ser 
sustada, como exigia o governo (4). 

No dia 9 de janeiro de 1822 D. Pedro, accedendo aos pe- 



0) 
(2| 
(3) 
(4) 


Vide ÁHnexo A. 

Vide ÃmiHxo B. 

Vide offeio n. 3, da Ckroniea tegnlnte. 

Vide Officio «. 4, dâ Ckroniea seguinte 



— 156 — 

didos que de diversas partes lhe foram enviados e attendendo, 
principalmente, á representação paulista, escripta por José Bo- 
nifácio a 24 de Dezembro do anno anterior, havia declarado 
que ficaria no paiz; a 16 nomeara José Bonifácio ministro; a 
13 de Maio acceitára o titulo de defensor perpetuo do Brasil; a 
23 do mesmo mez fizera solemne declaraçào que convocaria uma 
assembléa constituinte logo que tiAesse a certeza de ser essa a 
vontade do povo brasileiro, e a 13 de Junho tornou eftectiva 
essa convocação. 

Tantas noticias boas com relação á politica nacional ha- 
viam enchido de alegria o coração dos ytuanos, amantes da li- 
berdade, e serviam de compensação ou de lenitivo ao pesar que 
lhes ia na alma pelos factos occorridos nesta capital a 23 de 
Maio e dias seguintes. Era-lhes, entretanto, necessário conside- 
rar como iniciada a lucta entre a camará de Ytd e o governo 
hemardwta de S. Paulo e tratar seriamente dos meios de de- 
fesa, já guarnecendo a villa com força armada, já angariando 
bons alliados nos municipios vizinhos, que eram directamente 
interessados na questão entre paulistas o extrangeiros, mas que 
se mostravam demorados no seu pronunciamento. 

A 24 de Junho fez a camará uma sessão extraordinária, 
para a qual foram convocadas todas as auctoridades civis e mi- 
litares e muitos cidadãos, tanto seculares como ecclesiasticos, e 
na qual foram tomadas importantes resoluções, a saber: — agra- 
decer a D. Pedro a convocação da Assembléa Constituinte e ou- 
tros actos que havia praticado em beneficio do paiz, protestan- 
do-lhe inteira adhesão e significando-lhe a indignação de que se 
achavam os ytuanos possuídos pelas occorrencias desta capital; 
adherir firmemente a este plano de conducta e pedir que tropas 
brasileiras não fossem mais retiradas do Brasil; pôr-se o povo 
ytúano em communicação com os dos municipios da província, 
pedindo a sua cooperação na defesa da causa commum; e, fi- 
nalmente, que todos fossem vigilantes e tratassem de impedir 
que os facciosos perturbassem o socego publico (1). 

No dia seguinte, 25 de Junho, foram dirigidos officios enérgicos 
e enthusias ticos ás camarás de Sorocaba, Porto-Feliz e Campinas, 
pedindo o seu apoio para as resoluções tomadas e rogando a 
cada uma dessas camarás que transmittisse egual pedido ás ca- 
marás que lhes ficavam além, no caso de estarem de accôrdo 
cora as mesmas resoluções e se sentirem dispostas a tomar uma 
parte activa na defesa dos interesses brasileiros (2). Ao Princi^ 
pe Regente também foi communicado o vencido nessa sessão. 



(1) VldA Ofíjlcio n 6, da Chronica segafiita. 

(2) Vide Offieio m. O, da Ghroniea segointe. 



— 157 — 

No mesmo dia em que a camará de Ytú expedia estes offi- 
eios, em <*4mtrarío aos interesses dos bemardisiaa de S. Paulo, 
maitdaTa D. Pedro pnblicar o Beguiiite 

DBCRBTO DB 25 DB JUNHO DB 1822 

cSendo o primeiro dos Meus mais sagrados deveres -vigiar 
sobre a salvação do Estado, uni&o e tranquill idade dos povos 
me Me foram eoniiados como Regente e Defensor Perpetuo do 
Reino do Brasil, n&o me podia ser indifferente o viodo iUegal 
e faeeioêo com que os chamados Povo e Tropa da cidade de S. 
Panlo, inxtigados por alguns desorganisadores e rebddes^ que por 
ieêgmça da Provinda m acham entre oa membros do seu actual 
governo, se têm ultimamente comportado: Querendo, pois, dar 
prompto remédio a taes desordens e attentados, que diariamente 
Tio crescendo, Hei por bem cassar o presente governo e orde- 
nar que os eleitores das parochias, convocados nas cabeças dos 
districtos, segundo o Meu decreto de 3 do corrente e Instruo- 
çdes a elle annexas, depois de procederem a nomeação de De- 
putados para a Assembiéa Geral Constituinte e Legislativa des- 
te Reino do Brasil, passem immediament^ a nomear um Grover- 
no Provisório legitimo, composto de um presidente, um secreta- 
rio e cinco membros, cuja apuraç&o se fará pelo mesmo me th o-* 
do com que se devem apurar a nomeação dos deputados para a 
aisembléa geral na camará da capital, a qual passará logo a 
dar-lbe posse. A este governo provisório, assim nomeado e ins- 
tallado, fica competindo toda a auctoridade e jurisdicção, que 
exercerá segundo as leis existentes na parte civil, económica, 
administrativa e policial, como uma delegação do Meu Poder 
Executivo. As auctoridades, a quem competir a execução deste 
decreto, o tenham assim entendido e façam cumprir debaixo da 
tua maior responsabilidade. Paço, em 25 de Junho de 1822. — 
Com a rubrica de Sua Alteza Real o Prin«;ipe Regente. — José 
Bonifácio de Andrada e Silva, 

Ekte decreto, severo pelo espirito e áspero pela linguagem, 
foi remettido a todas as camarás municipaes da província de São 
Paolo, afim de que fosse cumprido na ultima parte, relativa á elei- 
^ de um outio governo que viesse substituir este, cujos pode- 
res ficavam cassados. A copia do mesmo decreto, que foi re— 
nettida ao governo bemardista desta capital, veiu acompanha- 
da da seguinte carta, que merece meditada leitura, porque, con- 
frontada com os £Rct08 posteriores, nos dá uma idéa do caracter 
e das disposições de espirito dos detentores do governo desta 
capital: 



— 158 — 

«Deputados do Governo Provisório da Provincia de S. Pau- 
lo. — Eu, o Príncipe Reg^ente vos envio muito saudar. Seudo-me 
presentes os vossos officios de 24 de Maio e 11 do corrente, em 
que me participastes as duvidas que occorreram e se vos offere- 
ceram para nào cumprir as Portarias de 10 e de 21 do dito 
mez de Maio, em que se vos ordenava que fizésseis partir im- 
mediatameute para esta Corte ao Presidente do Governo e ao 
Ouvidor nomeado para essa Comarca de Silo Paulo (1), debaixo 
do falso pretexto de que assim vos requereram o Pot^o e Tropa 
dessa cidade e porque assim o exigia o socego publico dessa 
Provincia, rogando-Me por isso que Houvesse de Approvar se- 
melhante medida. Informado Eu, porém, dos verdadeiros motivos 
que deram causa ao motim de 23 do dito mez, em que a Tropa 
Miliciaua (2) e um punhado de miseráveis e facciosos dentre o 

Povo FORÁM INSTIGADOS E SEDUZIDOS POR ALGUNS DE VÓS B OU- 
TROS VOSSOS APANIGUADOS, com manifesta desobediência e rebd- 
€lia á Minha Real Aucioridade^ como Principe Regente deste 
Reino do Brasil e seu Perpetuo Defensor, e contra o juramento 
que Me prestastes no dia da installação desse governo: Portan- 
to, Desejando Eu que fique para sempre illibada a honra dessa 
brix)sa e leal Provincia de S. Paulo, a quem Eu e este Reino 
do Brasil tanto devemos pela fidelidade e energixi de seus senti- 
mentos e nobres acções: Vos ordeno que logo, logo, deis fiel e 
prompta execuçfto ás ditas Portarias, debaixo da mais rigorosa 
responsabilidade para co'Migo e para com a Assembléa Geral 
Constituinte e Legislativa que Mandei convocar; o que Me pa- 
receu participar-vos para vossa cabal intelligencia e fiel execu- 
ção. Escripta no Palácio do Rio de Janeiro, em 25 de Junho 
de 1822. — PRÍNCIPE reqente. — José Bonifácio de Andrada e 
é^ilva,r> 

Nâo se poderia dar mais violenta desauctoração ás pessoas 
dos bernardistas senhores do governo de Sào Paulo, nem mais 
formal e áspera reprovação dos seus actos no dia 23 de Maio e 
seguintes ; porém, nào se deram por offendidos em seus brios e 
deixarum-se ficar no exercicio dos cargos como si nada tivesse 
havido que denotasse descortezia para com as suas pessoas, des- 
confiança de sua capacidade e censura ao seu procedimento ; 
apenas João Carlos Òeynhausen obedeceu ao chamado e partiu 
para o Rio de Janeiro, declarando que guardou o poder sómen- 



(1) o presidente do govenio collectivo er% Joffo Carlos de Òeynhausen e o on- 
▼idor era Costa Carvatho, chamadoi ao Rio pelas porurlas dectas datas. 

(2) A tropa miliciana sediciosa era commandada pelo coronel Prancisoo Is^n»- 
cio de Sonsa Qaeiroz, membro do fovemo, e pelo brigadeiro Joaquim José Pinto de 
Moraes Leme, auxiliados por diversos offlciaes de patentes superiores a tenente. 



— 159 — 

te até c^mhecer qual era a vontade do Príncipe Regente, como si esta 
não estivesse patente nas portarias de 10 e 21 de Maio. Com a sua 
retirada de S. Paulo ficou o poder entregrue a Oliveira Pinto, 
MuUer e Quartim, extrangeiros, e a Francisco Ignacio, brasilei- 
ro, todos bemardistas incluídos na censura contida na carta 
acima transcripta, os quaes, longe de se sentirem maguados com 
as expressões duras e insultuosas que Ibes dirigira D. Pedro e 
que registraram na secretaria do governo, em data de 16 de 
Julho, se apressaram a expedir ás camarás a seguinte suggestiva 

CIRCULAR 

«Tendo recebido este Governo a Carta Regia de 25 de 
Junho ultimo, na qual, nào obstante os officios que dirigiu ao 
Berenissimo Senhor Príncipe Kegente em datas de 24 de Maio 
e 11 de Junho, o mesmo Augusto Senhor manda que se dirija 
á Corte do Rio de Janeiro o exmo. sr. Presidente deste Go- 
verno, Joào Carlos Augusto de Oeynhausen, o mesmo Governo 
acJum ser do seu dever, attento ao respeito e obediência que prés- 
ta a Sua Alteza Eeal, pôr~l1ie o «Cumpra-se» afim de se lhe 
dar a sua devida execução ; o que participa ás Camarás, espe- 
rando egualmente que ellas, apezar destas alterações, concorram 
a promover o socego publico na lórma que se lhe recommendou 
em officio de 29 de Maio do corrente anuo. Palácio do Gover- 
no de S. Paulo, 17 de Julho de 1822. — Pinto — Quartim — 
Bueno. (1). 

£nti'etanto, continuavam a camará e povo de Ytú rebellados 
contra o governo de S. Paulo e recebiam a adhesRo das cama- 
rás de Porto-Feliz, Mogy-mirim e Campinas e a declaração da 
camará de Sorocaba que, comquanto não considerasse necessá- 
ria a liga dos raunicipios para uma acção combinada contra os 
bemardistas da capital, sympathizava com o movimento da rea- 
cção que se devia limitar a uma attitude de espectativa ea es- 
l)erar o desdobramento dos factos. Até de Curytiba receberam 
os ytuanos votos de animação, denotando que o sentimento de 
revolta contra o dominio dos extrangeiros se extcndia também 
aos Campos Geraes. 

A 19 de Julho renovaram-so na capital as desordens, sob 
o pretexto de que o marechal Arouche, suspeito aos bemardistas, 
vinha tomar posse do commando das armas da província e de 



(1) Padro JoSo Ferreira de Oliveira Bneno. vflho intelligeiíte. qne deixou 
trabalhos sobre catcchese , era descendente de Amador Baeuo e icraiide proprietário de 
terras do manlcipio de Forto-Peliz, lioje pertencentes ao de Capivary. 



^ 160 — 

qtie o marechal Caa£«b Xavier marchara èe Santos sobre a 
cidade á frente de qbm fórça armada — desordens q«e se prolon- 
garam por alguns din» e teriam trazido derramamen-to de aan^e 
sr nào fossem a pradeaeia e tino politico daqnelles distinctos 
paulistas, que preferiram com temporizar com os sedieieeos e es- 
perar que a vinda, varias veoes annunciada e sempre retardada, 
àe D. Pedro a S. Paalo aeahnasse os ânimos e pnzesse fim ài 
hostilidades entre os liberaes e reaccionários» 

Tendo chegado a Ytú a noticia das ocoorrencias desta ca- 
pital, reuniu-se a camará a 23 de Julho e tratou de combinar 
com a força local os meios de pôr a villa em segurança e de 
communiear ás camarás alliadas que a cabeça da provincia se 
achava em anarchia e que <fcon vinha tomar as preèfmçdes e es» 
treitar oe laços de solidariedade entre todas (1)* Ao mesmo 
tempo dirigiu ella aas eommandantes dos corpos de Milieia e 
dos Úteis o seguinte 

ÓPFICIO 

«Sendo constante uesta villa, por muitas uotieias» que ua 
capital se desenvolve a mais horrível anarchia, cujo mal se deve 
atalhar com a brevidade poisivel, e uma vez eerU> aquelle infe- 
liz estado fica comprovada a pouca força moral do governo e 
por issso impossibilitado de desvanecer as facções que alli ma» 
chinam ; portanto, esta Camará se julga no dever de rogar, 
depreear e instar a vv. ss. para que quanto antes apromptem a 
gente dos seus commandos para se achar apta a operar em bem 
da pátria e da naçfto. Muito certos nos patrióticos sentimentos 
de w. s»., esperamos que remiam as suas tropas nesta villa 
quanto antes para se evitarem as calamidades que se nos pre- 

rEun. Deus guarde a vv. ss. Ytú em Gamara de 23 de Julho . 
1822. — Eufrasno da Arrtida BaMho* — António Pacheco da 
Fonseca. — Salvador Partira de Almeida, — Francisco ff ornem de 
Mello, — Joaquim José de Mdlo.^^ 

Antes que se encerrasse a sessSo, em que a camará tomou 
estas deliberações, compareceu perante ella o velho capitfte-mór 
Yicente da Gosta Taques Ooes e Aranha, a quem foram lidas 
as resoluções adoptada e que affirmou estar de aecordo com o 
vencido e concluiu dizendo que, como commandante militar e 
de combinação com os corpos das ordenanças, declarava inimigos 
p«ftbIicos todas as auctorídades civis e militares e hom^is sem 
excepção alguma que não prestassem prompta, fiel e cega obe- 
diência ás ordens do Príncipe Regente e que estavam, eUes e 



a> vid« 



— 161 — 

seus comniandados, promptos a derramar até a ultima pinga de 
san^e pelo mesmo Augusto Senhor, a quem tributava o mais 
pnro e intenso amor, incontrastavel lealdade e cordial veneraçào. 

Em sessão do dia 28 de Julho resolveu a camará que, «em 
consequência de representações do povo da villa e da continuada 
desobediência do povo da capital ás ordens do Principe Regente, 
sem que possa ser contido», era necessário repetir aos commandantes 
militares que conservassem na villa toda a força disponível, 
para estar prompta a operar em favor da ordem e bem geral da 
província, ncando a força de promptidão até á eleição do novo 
governo ou até novas ordens do Principe Regente, e que se 
•eommunicassem estas rnsoluções ás camarás confederadas para 
sua intclligencia e imitação, si estivessem de accôrdo com ellas. 

Entretanto o governo hemardwta, com o fim de enfraquecer 
•e inutilizar o movimente patriótico dos municípios, havia ordena- 
do aos commandantes das forças de Ytú e de Sorocaba que re- 
mettessem parte do suas tropas para esta cai>ital e, não sendo 
obedecido, julgou praticar um acto de sagacidade politica man- 
dando, a 26 de Julho, o sargento-mór Francisco de Paula Ma- 
cedo, um dos mais compromettidos na Bernarda, para Ytú, onde 
secretamente se devia entender com o commandante local, Pedro 
de Brito Caminha, e obter delle que abandonasse a causa dos 
•confederados do interior e fizesse parte de sua força marchar 
para a cidade de S. Paulo, onde viria reforçar a causa dos ber- 
nardistas contra os mesmos confederados e contra o marechal 
"Cândido Xavier, que tinha vindo de Santos e ameaçava esta ca- 
pital, ficando o mesmo Paula Macedo em Ytú como commandan- 
te da outra parte da força que lá ficasse e com ella esmagando 
•OB revoluncionarios patriotas. O plano era bem traçado, mas 
não sortiu o desejado efieito. 

Chegou Paula Macedo a Ytú, assim um tanto sorrateiramen- 
te, e foi se hospedar na própria casa de residência de Pedro de 
Brito Caminha, que era o quartel general da força, sendo re- 
•colhidos ao quintal os seus cansados animaes de montaria. Não 
tardou em espalhar pela villa a noticia da chegada do menta- 
eeiro hernardisia ; o povo alvoroçado, correu á casa do comman- 
•oante local, que era um sobrado grande, ainda existente, da rua 
-da Palma, e ai li reunido exigiu que Pedro de Brito puzesse na 
Toa o recem-chegado. Procurou o dono da casa parlamentear 
•com o poro e ganhar tempo, mas acabou cedendo ás suas exi- 
4^ncias com a condição de que Paula Macedo não seria maltra- 
tado na sua retirada. 

Ensilhados de novo os animaes, Macedo partiu pela rua da 
IPalma acima, como quem, de facto, se dirigia para S. Paulo ; po- 



— 162 — 

rém, não desanimado com a experiência do dia, deu volta pelo 
alto da villa e entrou nella outra vez pela quârii deserta rua de 
Santa Rita, tratando cautelosamente de p^anhar a estrada para 
Porto Feliz, onde pretendia renovar a tentativa de seducçào e 
de suborno da força armada, que se tinha mallogrado em Ytii- 
Nllo conseguiu, entretanto, levar avante o seu intento, porque, 
sendo lofço reconhecido, soltaram o alarme e deram-lhe caça, e 
como estivesse com os animaes fatigados, não pôde galopar e foi 
alcançado antes de ganhar a estrada geral para Porto Feliz. 
Trazido para a villa bem escoltado, teve de atravessal-a toda su- 
bindo pela rua Direita, que é uma das mais centraes, debaixo 
de tremenda vaia e grossa assuada, chegando algumas senhoras» 
aliás das melhores famílias do logar, a jogar-lhe pedras, que fe- 
lizmente nfto o offenderam muito. Assim escoltado, foi levado 
até longe fora da villa e só o largaram na estrada para S. Paulo» 
pelo lado dos campos de Pirapitinguy, onde montaram guarda 
para evitar que elle ainda tentasse voltar (1). 

Chegado a esta capital a 4 de Agosto, Paula Macedo nSo 
se apresentou ao governo, mas officiou-lhe no dia seguinte di- 
zendo que «o tenente-coronel commandante do regimento de Ytii, 
Pedro José de Brito Caminha, nàó quizera attender nem dar 
execução ás ordens do mesmo Governo, que asseverava estar de- 
posto por sua Alteza Real, e que assim j)rocedia em observan- 
<da de ordens de que se dizia munido, mas que nem mostrava, 
nem dizia de quem». «Tomou então o Governo a deliberação de 
participar este successo a Sua Alteza Real, por officio de 6 do 
predito mez, rogando ao mesmo Augusto Senhor viesse com 
promptidão á Provinda para, com sua desejada presença, soce- 
gar estes tumultos, rogativa aue reiterou em officio de 12 do 
inesmo mez por haver recebido o do tenente-coronel comman- 
dante do regimento de Milicias de Sorocaba, João Floriano da 
Costa, datado de 5, e o da Camará da dita villa, de 6 do mes- 
mo mez, que egnalmente repvgimram cumprir as ordens do Go- 
verno; e também por ser presente ao mesmo Governo o officio 
original que a Camará de Ytú dirigiu á desta cidade, em data de 
C, com a copia do Decreto de 25 de Junho próximo passado (2), 



(\) Vido amfzo H, em qao a própria camará de Ytú fai refcrenolat a esta expal- 
«Io. Anncs depois o mesmo Pania Macedo teve necessidade de ir reuldir em Ytú e nflo 
:6Te receio de levar comsigo a fiaa famUIa. uma das senlioras qne o haviam apedrc-js- 
do te tornoa uma das melhoreii amiiras da familía do sargcnto*mór, o qnando uma occa- 
siSo se otTereccn a Macedo, este recordoa á illnstre ytnniifc as pedradas qae Ilie havia 
at(rado. «Nfto atirei pedras sobre a pessoa do cidadilo Paula Macedo, mas sobre o men- 
sageiro do governo da Bernirda»^ foi a resposta da respeitável matrona paulista. 

(2) Decreto qne cassava os poderes do governo Urnardisla e mandara eleger 
oatro de sete membros. 



— 103 — 

convidando-a a desobedecer ao Governo e participando que 
ia formar um jçoverno temporário naquelia vilia até a installa- 
^ào do novo Governo Provisório, que o predito Decreto manda 
eleger, na falsa idéa que o actual Governo estava deposto por 
sua Alteza Real ainda antes da sobredita installação (1).» 

Comprebendeu finalmente o governo beniardista que estava 
abandonado pelos paulistas, tendo pela frente as camarás dos 
municipios do interior, mas, nJio querendo largar o poder, nem 
capitular deante das mesmas camarás, uppellou para a vin- 
da de D. Pedro a esta provincia como o único meio de fazer 
uma retirada menos desairosa. Entretanto a camará de Ytú con- 
tinuava em plena atividade, mantendo a coiTespondencia com a» 
outras do interior e incitando-as a estreitarem as mutuas relações 
politicas e proverem de commum accôrdo a defesa da causa na- 
cional, que aifirmava estar em perigo (2). 

Na sessào de 4 de Agosto tomou a camará, de accôrdo com 
o povo que a ella concorreu, algumas importantes resoluções, a 
saber : — considerar cassados e nnllos os poderes do governo ber- 
iiardista de S. Paulo e negar-lbe obediência; tomar todas as 
medidas necessárias para reprimir qualquer tentativa de anarcbia 
e assegurar o socego publico ; nomear um delegado da camará 
que fosse incumbido da execução destas medidas e de tratar com 
08 delegados dos municipios confederados sobre as providencias que 
fossem aconselhadas pelas circumstancias, o recommendar aos 
cidadàos que se armassem e municiassem para reforço da tropa 
regular e que guarnecessem as entradas da villa para se evitar 
surpresa (3). Paula Sou-^a foi eleito delegado ou procurador da 
cam&ra e Cândido José da Motta seu supplente, sendo ambos 
considerados desde já como empossados desses cargos. 

Na sessào do dia 9, a que esteve presente muito povo, Paula 
Souza, delegado eleito, propoz : 1.** que com urgência fossem con- 
centrados nas suas mãos os poderes necessários para dirigir com 
presteza as operações, ficando todas as auctoridades á sua dispo- 
sição ; 2.** que logo que estivessem reunidos na villa dois dele- 
gados municipaes se iustallasse uma junta, a que ficariam aggre- 
gados os supplentes das diversas villas até que houvesse três 
proprietíirios ; S.** que a junta sem demora organizasse e apresen- 
tasse um plano das suas attribuições e que esse plano ficasse em 
vigor até que obtivesse a final approvação do povo, depois da 
qual prestariam os delegados o necessário juramento ; 4.* que se 
organizasse o serviço das finanças da junta e tratasse de obter 



V) Vfile Doeumenios Interenantu, Tol. II, pag. 156 e 157. 
(2» Vide Anntixo» M, N, 0, P, e Q. 
[i) Vldelnnejro R. 



— lt<4 — 

dos homens ricos empréstimos em dinheiro ou mesmo em assa-- 
cares; 5.° que á junta fosse facultado escolher um secretario 
da sua confiança e que cópias destas resoluções fossem enviadas 
ás camarás das villas colligadas. Approvadas estas indicações, fi^ 
zeram-se as mencionadas communicações, e Salvador Pereira de 
Almeida, cidadào distincto, que tem muitos descendentes nesta 
capital e no interior, se oflFereceu para ser o thesoureiro da junta, 
ofierta que foi recebida e acceita com vivas e saudações pelo 
zelo e patriotismo que revelava da parte de quem a fez. 

Gom o moUogro da miss&o secreta que o governo bernardista 
havia incumbido ao sargento-mór Paula Macedo nas villas de 
Ytú e Porto-Feliz, passou o governo a tratar de simples expe- 
diente e de ganhar tempo, esperando que a chegada de D. Pedro a 
S. Paulo viesse tiral*o do becco sem sabida em que se havia 
mettido, e entre essas matérias de expediente estava o prepara^ 
tivo de festas solennes com que pretendia receber o Principe e 
collocal-o em condições de ficar devendo gratid&o ao? msmbro» 
do mesmo governo e assim di£cultar*lhe a tarefa de syndicar 
dos factos de 23 de Maio, causa única da anarch ia existente nes- 
ta capital e da colligaçào dos municipios do interior. Continua- 
vam a figurar como membros do governo Oliveira Pinto, Muller, Quar- 
tim, extrangeiros, e Francisco Ignacio, todos bemardistcut muito com- 
promettidos nos factos de 23 de Maio e intensamente aborrecidos 
pelos paulistas do interior, como se verifica por vários documen- 
tos publicados adeante. 

Si nesta capital se cuidava mais nas festas da recepção do 
Principe do que em politica, havia grande actividade no inte- 
rior, onde os municipios ainda não se julgavam seguros contra 
qualquer tentativa de ataque da parte do governo e por isso se 
tratava de fortalecer a causa commum e de augmentar os seus 
meios de defesa. Ytú, como cabeça da comarca, era o centro da 
maior actividade e para ella convergiam todas as forças dispo- 
uiveis dos confederados. 

No dia 9 de Agosto houve sessão da camará, a que assis- 
tiram Paula Souza, como delegado dos ytuanos, o sargento-mór 
José Custodio de Oliveira, como delegado da camará e povo de 
Porto Feliz, e o capitão Júlio César de Cerqueira Leite e o pa- 
dre José Francisco Aranha de Camargo, como representantes da 
camará de Campinas. Foi então resolvido que se mantivesssem 
os municipios em attitude hostil ao governo de S. Paulo em- 
quanto este não fosse substituido pelo outro que ia ser eleito, 
ou emquanto o Principe Regente não mandasse o contrario; 
que a junta dos municipios, reunida na villa do Ytú, tivesse 
attribuições bastante amplas para o bom desempenho da sua 



- 165 — 

missfto; qae a junta a todo custo trabalhasse pela causa do 
do Brasil em geral, pela manutenção do socego publico nos mu- 
nicípios colli^ados e pelo restabelecimento da ordem no muni- 
cipio da capital, usando para este íim de todos os meios conci- 
liatórios, e que todos prestassem perante a camará o seguinte 
juramento: €juro em meu nome e em nome da camará que re- 
presetito cumprir o presente accôrdo^y sendo copias destas reso- 
luções remettidas no mesmo dia a D. Pedro e mais tarde ás 
camarás colligadas. 

No dia 20 chegou de Piracicaba Domingos Soares de Bar- 
ros, delegado daquelie município, trazendo comsigo força armada 
para reforço da guarnição da villa. Os delegados de Campinas foram 
substituídos pelo padre José Teixeira Villela, como proprietário, 
e pelo padre Miguel Archanjo Ribeiro de Castro Camargo, como 
snpplente, estando ambos na villa de Ytú nesse dia, e de Porto 
Feliz vein o capitfto Sal viador Martins Bonilha, como supplente, 
juntai'-se ao proprietário José Custodio de Oliveira; como re- 
presentantes de Ytú continuavam Paula Souza e Cândido Motta, 

A' sessão extraordinária, havida naquelle dia, assistiram os 
delegados dos municípios e nella foi resolvido que, além de se 
despachar todo o expediente, se apresentassem era vereação geral 
do dia 24 do mesmo mez todas as medidas combinadas para se- 
rem approvadas pelo povo, que seria convidado para isso, bem 
como todas as auctoridades; que se convidasse a camará de So- 
rocaba, que estava agindo isoladamente, mas no mesmo s<»ntido 
de desobediência ao governo de S. Paulo e defesa dos interes- 
ses brasileiro!, a enviar um delegado que a representasse nas 
solemnn idades desse dia, visto que havia uniformidade de senti- 
mentos e de idéas entre as duas camarás. A 22 foram remetti- 
das a D. Pedro cópias da corresponder cia que se tinha trocado com 
as camarás colligadas para que ficasse em dia com as disposições 
do espirito em que se achavam os paulistas de todo o interior 
da província. 

Em sessfto do dia 25, a que concorreu nraito povo, foram 
lidos o decreto de 1 de Agosto, em que D. Pedro declarava ini- 
migas as tropas vindas de Portugal, e um officio de sympathia 
do cap*tlio-mór de Guaratínguetá. Essas leituras foram muito 
applaudidas pelos circumstantes, que proromperam em cvívas» á 
Sua Alteza Real, á união dos brasileiros e á liberdade, e ulti- 
mou-se o acto com poesias análogas, recitadas á musica instru- 
mental, estando a sala da camará ricamente ornamentada de seda 
e flores e assistindo á ceremonia co melhor do Povo, enthu- 
siasmado pela causa do Brasil e de Sua Alteza Real e possuído 
de excessiva alegria.» 



— 1G6 — 

A 27 tiveram os ytuanos notícia certa de que o Príncipe 
Regente havia chegado a S. Panlo a 25, e logo os vereadores 
officiaram ás camarás de Campinas, Sorocaba, Perto Feliz e Pi- 
racicaba, communicando a cópia de uma carta recebida de D. 
Pedro e a resohiçílo que haviam fonnado de irem incorporados 
a S. Pauio cumprimentar o Príncipe, sendo marcado o dia 2 de 
Setembro para se fazer a jornada. A viagem dòs ytuanos se fez 
com o acompanhamento dos vereadores de Camj)inas, do ouvidor 
da comarca, do capit&o-mór Vicente Taques e de um corpo de 
tropa ai-mada, composta de paulistas, que foi trazido para servir 
de guarda para a pessoa de D. Pedro, visto nHo merecer con- 
fiança a força armada existente nesta capital, influenciada como 
se achava por commandantes heniardisias e acostumada a pra- 
ticar actos sedicioíios, como os dos dias 3 e 23 de Junho de 1821, 
de 23 de Maio e 19 de Julho de 1822. 

Com a presença do Príncipe Regente em S. Paulo desap- 
])areceram os restos do Governo Provisório, que tantas esperanças 
despertara no coração dos paulistas quando foi acclamado a 23 
de Junho de 1821 e e que tiio cruéis decepções e tantas desor- 
dens occasionou no curto prazo da sua existência. Com a desap- 
paríçào desse govenio de extra ligeiros e com a nomeação de 
um tríumvirato composto do bispo D. I^Iatheus, do marechal 
Cândido Xavier, que era um paulista distincto, e do ouvidor 
José Corrêa Pacheco e Silva, ytuano dos mais illustres, voltou 
a paz entre os paulistas, os municípios depuzeram as armas e tndo 
entrou na obediência ao novo governo, que a todos inspirava 
confiança. 

Foi entfio que D. Pedro, tendo descido a Santos, onde se de- 
morou um dia, encontrara na volta, nos campos do Ypiranga, os 
mensageiros que lhe traziam a correspondência de Lisboa e as 
cartas da ])rinceza Leopoldina e de José Bonifácio, que o deci- 
diram a proclamar alli mesmo a independência do Brasil, no dia 
7 de Setembro de 1822, a que esteve presente um representante 
de Ytú, o padre Melchior de Pontes Amaral. 

A independência foi a consequência immediata e necessária 
do procedimento impolítico, leviano e grosseiro das Cortes de 
Lisboa para como Príncipe Regente e os brasileiros. Ella se fez 
naquelle dia porque José Bonifácio e Marti m Francisco estavam 
no governo para «fixar e dar estabilidade ao caracter volúvel 
de D. Pedro» e tornar lógicas e coherentes as suas idéas e re- 
soluções politicas, levando-o na primeira op})ortunidade a sepa- 
rar o Brasil de Portugal e fazer delle uma nova nação; porém, 
si nfto se tivessem dado a revolta dos ytuanos contra os 6er— 
nardistas de S. Paulo e a consequente confederação dos muni* 



— 107 — 

cipios do interior, o Princijie Rebente nfto teria vindo a esta 
capital e a proclamação da independência n&o se teria dado nos 
campos do Y piranga, mas em outra j)arte. Si alguma gloria La 
para os paulistas em tor partido do seu solo, para ecoar }>or 
todo o paiz, o grito «Ixdepexdexcia ou morte!», elles a devem 
aos ytuanos, que foram os que entre nós iniciaram a lucta do 
nacionalismo contra extrangeiros audaciosos que, por um atrevido. 
coup de vmin, se tinham apossado das rédeas da administraçtio da 
provincia e pretendido nos governar á feiçílo dos seus interesses, 
que não eram os nossos, e ]>rolongar um regimen que, comquanto 
modificado, nos vinha infelicitando havia já três séculos. 

Ainda mais: tendo-se em consideração o caracter leviano, 
irrequieto e vacillante de D. Pedro, que não tinha interesse em 
fazer a independência j)orque, sendo herdeiro jiresumptivo da 
coroa, naturalmente preferiria reinar sobre a monarcbia toda a 
ser rei ou imperador só do Brasil, deviamos receiar que o Prin- 
eil>e, sem a enérgica reacção dos ytuanos e seus confederados 
em favor dos Andradas, ficasse suppondo que José Bonifácio « 
^lartim Francisco eram realmente odiados pelos paulistas, como affir- 
mavam o coronel Francisco Ignacio e seus companheiros da J5er- 
nardCf e os despedisse do ministério, entregando o poder aos seus 
inimigos ou a gente menos capaz. José Bonifácio f5ra chamado 
ao ministério porque foi quem redigia o celebre manifesto 
de 24 de Dezembro de 1821, que tanto impressionou o espirito 
de D. Pedro, e porque era considerado como a pei^sonificação 
das idéas e dos sentimentos dos paulistas; porém o próprio 
Princepe Regente afhrmára, em carta dirigida a seu pae, que 
os sentimentos dos paulistas eram a synthese do sentimento ge- 
ral do povo brasileiro. 

Sem a reacção dos ytuanos a victoria dos hernardintas seria 
certa e completa e destruiria o prestigio politico dos Andradas, 
fazendo desapparecer a sua razão de serem ministros de Estado 
e justificando a sua despedida do poder. Em tal caso a inde-> 
]>endencia não deixaria de ser feita, porque as idéas liberaes 
estavam maduras e o espirito publico sentia-se cançado de sup- 
portar o jugo colonial, mas com certeza far-se-ia com mais de- 
mora, com mais vacillaçôes e talvez em condições menos hon- 
rosas para os brasileiros; e não teria tido existência a lenda do 
Ypiraiíga, que hoje é parto integrante da nossa historia e fórraa 
um precioso património que os paulistas devem cultivar com 
amor e carinho e transmittir intacto as gerações futuras como 
o expoente do valor civico e do patriotismo dos seus maiores. 

A. DB Toledo Piza. 



1822 



ANNEXO A 

Tormo de Vcreança da Camará do Ytú 

Aos 28 dias do mez de Maio de 1822, nesta villa de Ytú e^ 
casa da Camará Paços do Conselho onde vieram o Juiz Presi- 
dente e mais oíHciaes da Camará abaixo assignados e sendo ahi 
convocados por edital desta Camará o Clero, Nobreza e mais. 
auctoridades e Povo, se propoz : 

Que sendo constante nesta villa que na capital alguns fa- 
ciosos obrigaram a Camará e illudiram a Tropa a requererena ao- 
Governo Provisório a deposição de dois Membros do mesmo em 
desobediência as ordens de Sua Alteza Keal, pretextando ser 
esta a vontade geral da Província, e como jamais tivemos parte* 
em semelhante attentado, antes protestamos a mais leal submis— 
são aos mandos de Sua Alteza Real; portanto é nosso parecer 
participarmos ao mesmo Augasto Senhor nossa geral repugnân- 
cia ao attentado, implorando o prompto remédio que as circum— 
stancias exibem, assim como participarmos ao Governo para a 
resalva de nossos direitos. E por assim haverem representada 
lavrei o presente termo que depois de lido asignaram aCaman», 
Clero, Auctoridades e Povo. — Bento Dias Pachec . — António I^a^ 
checj da Fonseca, — António Vicíoríano de Azevedo. — Lourenço 
de Almeida Prado. — Joaquim José de Mello, — Cândido José da 
Motta, juiz almotacé. —Pedro José de Brito Caminha, tenente-- 
coronel. — Padre Manoel Joaquim da Silveira, — Padre José GUmI^ 
vão de Barros frança. — Padre Luiz Mendes da Silva. — Padre^ 
João JFaião Xavier. — Padre Francisco Novaes de Magalhães, — 
Padre Miguel Archanjo do Amor-Diímw. — Padre José Joaquim 
de Quadros Leite. ^Francisco de Mello Rego. — Elias António 
Pacheco. — Ifrancisco Galvão de França. — Fernando Dias Paes 
Jjeme, alferes de milicia. — Francisco de Almeida Prado, tenen- 



• 169 — 

te. — Joaquim Dias Ferraz, capitão. — Jrxtquim de Almeida Bar- 
ros. — Bento Paes de Barros. — Ildefo7iso de Campos Almeida. — 
Carlos José Nardy de Vasconcellos. — Joaquim Fhiriaiw de Bar- 
ros. — Francisco Xavier de Barros, capitão. — Salvador Pereira de 
Almeida. — Jodo Galvão de França. — Melchior de Pontes Amaral 



ANNEXO B 
Circular do Governo Pr<»visorio ás Camarás 

Havendo determinado Sua Alteza Real por portaria de 10 
do corrente, expedida pela Secretaria de Estado dos Negócios 
do KeinO) que o Exm. Sr. Conselheiro João Carlos Augusto 
de Oeynhausen, presidente deste Governo, fosse a Corte do Rio 
de Janeiro a negocio do serviço do Estado, a Camará, Povo e 
Tropas desta cidade na tarde de 23 do corrente pediram ao Go- 
verno que o dito Exm.* Sr. Conselheiro continuasse na presi- 
dência até sua Alteza resolver uma representação, q^ue a esse 
respeito iam levar á sua Augusta Presença ; e outrosim fossem 
depostos de memhros do Governo os Senhores Coronel Martim 
Francisco Ribeiro de Andrada, Secretario do Interior e Fazenda, 
e o Brigadeiro Manoel Rodrigues Jordão. 

Para socego publico conveio S. Ex.* em ficar até segunda 
ordem, e aqueiles dous membros immediata e voluntariamente 
deram a sua demissão; e o sr. coronel Martim Francisco, por 
effeito de nova requisição do Povo e Tropa, vae partir para o 
Rio de Janeiro, ae que se tem dado parte a S. Alteza Real. 
O Governo, não querendo que espiritos inquietos e inimigos da 
ordem e da tranquillidade dos cidadãos abusem do que ha acon- 
tecido para promoverem a desordem na Provincia, participa a 
Vossas Mercês todo o succedido e lhes recommenda, muito poíi* 
tivamente e debaixo da maior responsabilidade, que vigiem a 
conducta dos mal intencionados, no caso de os haver nesse dis- 
tricto, e promovam a união dos cidadãos com o Governo e o 
socego dos Povos, na certeza de que este Governo não perderá 
de vista meio algum de procurar a felicidade dos honrados Pau- 
listas, sempre fieis ao juramento que tem prestado de obediência 
a S. Mag.*, ás Cortes, e a S. Alteza Real o Príncipe Regente 
D.' G.' a V. M.'\ S. Paulo a 29 de Maio de 1822.— Jí>íío Car- 
los Augusto de Oeynhausen, presidente. — Miguel José de Olivei- 
ra Pinto, secretario. — Daniel Pedro Milller. 



— 170 — 
ANNEXO G (1) 

Oflieio da Caini^tra do Rio <lc Janeiro á Camura 

de Ytú 

III.'"*** Senhores: — O Senado da Camará desta cidade tem 
a honra de remetter a Vossas Senhorias o termo de vereação 
extraordinária que celehrou no dia 23 do corrente, com a re— 
presentaçfto que pela sua via levou o Povo desta cidade a pre- 
sença Augusta de Sua Alteza Real o Principe Regente Consti- 
tucional e Defensor Perpetuo do Reino do Brazil, e falia que o 
mesmo Senado dirigiu neste acto á Sua Alteza Real, pretenden- 
do e requerendo que Este mande convocar uma Assembléa Ge- 
ral das Provincias deste Reino. 

E porque esta medida é a única que se offerece capaz de 
consolidar a unilio de todas as mais provincias deste grande 
império, de as salvar dos males da anarchia e divisão, que estão 
imminentes, e de evitar que se rompa a sua união com Portu— 
52:al, que convém manter e segurar : Nao duvidamos que Vossas 
Senhorias, cujos sentimentos nào podemos deixar de julgar idên- 
ticos, se apressem em dirigir a Sua Alteza Real uma represen- 
tação igual, afim de que a convocação e reuniílo desta Assem- 
bléa Geral se verifiquem cora a maior brividade possivel porque 
se ella se demorar talvez já chegue tarde. 

O Senado da Camará desta cidade protesta á face de todo 
o Brazil e de mundo inteiro que no passo que tem dado só tem 
em vista promover a felicidade deste Reino e manter a sua 
união com o de Porlugal. Deos Guarde a Vossas Senhorias. 
Rio de Janeiro em vereação de 25 de Maio de 1S22.— José Cle- 
mente Pereira, — João Soares Bulhões. — Domingos Vianna Crtir— 
<jél do Amaral, — Domingos Antunes de Guimarães, — José Anto^ 
nio dos Santos Xavier, 

ANNEXO H 

Resposta í!a Camará de Ylú á Camará do Rio de 

Janeiro 

jlj mo» Senhores: — A Camará da villa de Ytií accusa a 
recepção do muito honroso e patriótico officio de Vossas Se- 
nhorias de 25 do passado, acompanhado do termo de vereaçôo 

t'1) Os documentos ano, por sua ordem rhroTiologfcM. deviam representar (MAnmerfíg 
C, I). E, P e O. sffo os dos numeres 3, 4, 5, 6 e O da CIronica qoe segue, neste mesmo 
Tolome.— (N. da R.) 



— 171 — 

extraordinária, representação do Povo dessa cidade e falia de 
Vossas Senhorias a Sua Alteza Keal, requerendo uma Assem- 
bléa ÍJeral das Provincias do Brazil. 

Era de esperar, Illustrissimos Senhores, que Sua Altoza 
Keal, Pai e Defensor Perpetuo do Brazil, annuisse a tão justas 
e leaes representações, conhecendo ser sem duvida semelhante 
medida a única capaz de nos salvar dos horriveis precipicios em 
que nos iamos despenhando. 

Com a maior ternura lemos a copia do memorável decreto 
para convocaç&o da Assembléa Luzo-Brazileiro. E' entUo que 
testemunhamos o enthusiasmo dos nossos concidadãos desta villa, 
os quaes, não ]>odendo conter os impulsos de gratidão de que 
se achão possuídos, em vereança geral requereram que esta Ca- 
mará levasse a Augusta Presença de Sua Alteza seus votos de 
reconhecimento, gratidão e fidelidade, por tão eminente bene- 
ficio. Nós o fazemos neste momento e assim provamos que estAo 
identificados nossos sentimentos com os de Vossas Senhorias, e 
desempenhamos o fim de tão honroso officio que nos dirigiram. 

Não podemos deixar de significar a Vossas^ Senhorias nossos 
agradecimentos, não só pelo muito que, desde 9 de Janeiro, tem 
feito pela cauza publica, como também pelos termos civis e muita 
contemplação com que nos honraram. Votsas Senhorias podem 
sempre contar com a nossa firme adhesão a justa cauza da Pá- 
tria, muito certos que o povo ytuano é leal, respeita as leis e 
se gloria de fazer conhecer estes sentimentos ao mundo inteiro 
86 for possivel. Deos Guarde a Vossas Senhorias. Ytú em Ca- 
mará de 25 de Junho de 1822. — Bento Dias Pacheco — António 
Victoriano de Azevedo — António Pacheco da Fonseca — Lourenço 
de Almeida Prado — Joaquim José de Mello. 



ANNEXO I 

Decreto convocando a Assembléa Constituinte 

Havendo-me representado os Procuradores Geraes de algu- 
mas Provincias do Brazil, já reunidos nesta Corte, e difterentes 
camarás e povo de outras, o quanto era necessária e urgente 
para a manutenção da integridade da monarchia portugueza e 
justo decoro do Brazil a convocação de uma Assembléa Brasi- 
leira que, investida daquella porção de soberania que essencial- 
mente reside no povo deste grande e riquissimo continente, 
constitua as bases sobre que se devam erigir a sua independência, 
que a natureza marcara e do que já estava de posse, e a sua 



— 172 — 

união com todas as outras partes integrantes da grande família 
portugueza, que cordialmente desejo ; e reconhecendo eu a ver- 
dade e a força das razões que me foram ponderadas, nem vendo 
outro modo de assegurar a felicidade deste Reino, manter ajusta 
igualdade de direito entre elle e Portugal, sem pertubar a paz 
que tanto convém a ambos e tfto própria é de povos inoàos : 
Hei por bem, e com o parecer do meu Conselho de Estado, man- 
dar convocar uma Assembléa Geral Constituinte e Legislativa, 
composta de deputados das Provincias do Brazil, novamente 
eleitos na forma das instrucções, que em Conselho se accorda- 
rem e que serão publicadas com a maior brevidade. José Bo— 
nifacio de Andrada e Silva, do meu Conselho do Estado e do 
Conselho de S. M. Fidelíssima, El-Rei o Sr. Dom João VI, e 
meu Ministro e Secretario de Estado dos Negócios do Keino do 
Brazil e Estrangeiros, o tenha assim entendido e o faça execu- 
tar com os despachos necessários. Paço, 3 de Junho de 1822. 

Com a Rubrica de S. A. R. o Príncipe Regente 
José Bonifácio de Andrada e Silva. 



ANNEXO K 

Circulap da Governo frovisopio ás Camarás 

Pelo correio que chegou hontera a noite nesta cidade, vindo 
do Rio de Janeiro, recebeu este Governo a Portaria de 21 de 
Junho ultimo, expedida pela Secretaria de Estado dos Negócios 
do Reino, pela qual S. A. R., o Sereníssimo Senhor Principe 
Regente e Defensor Perpetuo do Brazil, mandando remetter ao 
Governo os exemplares aos Decretos de 1.** e 3 do dito mez, das 
Proclamações do mesmo Augusto Senhor, do Discurso dirigido a 
sua Real Pessoa pelos Procuradores Geraes e Conselheiros de 
Estado, reunidos na 1.* sessão do Conselho, e, finalmente, das 
Instrucções a que se refere o citado decreto de 3 para as 
eleições dos Deputados á Assembléa Geral Constituinte e 
Legislativa : Espera S. A. R., pela confiança que tem noa 
patrióticos sentimentos que animão o mesmo Governo a favor da 
causa sagrada da união e independência deste Reino, que dará 
sem hesitação o devido cumprímento pela parte que lhe toca ás 
Reaes Determinações, de cuja observância e execução depende 
essencialmente a solida felicidade do Brazil, fandada na posse 
seguri dos seus sagrados direitos, por tantos modos sagazmente 



— 17:J — 

violados, mas qne sempre ser&o protegidos e sustentados por seu 
Perpetuo Defensor. 

Portanto, desempenhando o Governo quanto está da sua 
parte o alto conceito que merece ao .mesmo Real Senhor, 
remette as Camarás os officios da Secretaria de Estado dos 
Nef^ios do Reino, que a elles pertencem, reeommen dando a 
eada uma das Camarás a sua exacta e prompta execução, pois 
que delia depende a felicidade geral do Reino do Brazil e em 
particular desta Provincia. E para que este Governo fique 
inteirado da fiel entrega dos ditos officios e circular, cada uma 
das Camarás passará recibo nas costas desta, o que cumpra-se. 
Palácio do Governo de S. Paulo a 21 de Julho de 1822.— 
Pinto — Quartim — €hme$. 



ANNEXO L 

Ollieio da Camará de Ytú ás Camarais <le Sorocaba, 
Porto Feliz «^ Caiii|»iiias 

As noticias proximamente vindas da Capital annunciam o 
desemvolvimento da mais decidida anarchia, sendo e'&te o mal 
peór que pode haver em um Estado; cumpre que todas as 
auctoridades se esforcem em atalhar os seus eíTeitos. Esta Camará, 
como interprete da vontade publica c summamente zelosa do 
bem, tranquilidade e ordem da Provincia, deu o passo que, por 
copia, remette a Vossas Senhorias e com a maior instancia roga de 
Vossas Senhorias a identificação de sentimentos dos quaes nào 
duvida pela certeza que tem da decidida adhes&o que todos os 
povos tem mostrado á justa cauza da Pátria e a Sua Alteza 
Real, digno dos maiores desvelos e sacrifícios. D.* g.* a Vossas 
Senhorias. Ytú em vereação extraordinária de 23 de Julho de 
1822. — Eufrásia de Arruda Botelho. — António Pacheco da Fon- 
seca. — Salvador Pereira de Almeida» — Francisco Homem de Mello» 
—Joaquim José de Mello, 

ANNEXO M 

Ofíicio do Governo Provisório á Camará de Y^tú 

O Governo Provisório, a vista do que essa Camará expõe no 
seu offieio de 13 do corrente, sohre os motivos porque não con- 
vém que do Regimento dessa villa venha o numero de praças, 
que se pediu ao tenente-coronel commandante, para fazer por 
hum mez o serviço da guarnição desta capital, responde que ha- 



~ 174 ^ 

vendo já representado isto mesmo o referido tenente-coronel, se 
lhe manda dizer por oíHcio de 18 deste mez que se não fosse a 
urgente necessidade que ha de dar alt^m descanço aos três Re- 
gimentas desta cidade, que effectivamente tem feito ntio só o 
serviço da mesma guai*niç&o, mas tamhem parte da expedição que 
marchou para o Rio de Janeiro, este Governo não incommoda- 
ria as pessoas dctsse districto, e que por isso elle completasse o 
numero pedido de soldados, vindo somente officiaes e inferiores, 
que não fazem maior falta aos seus estabelecimentos ; porem 
querendo o mesmo Governo mostrar a essa Gamara a attenção 
que lhe merece a sua justa rogativa, convém em que não ve- 
nbão 08 officiaes, nem o numero pedido de inferiores e soldados, 
mas somente destas duas classes aquelles que, não fazendo falta 
sensivel nessa villa, ajudem a fazer o serviço nesta cidade aos 
demais regimentos. E isto fará sciente essa Gamara ao dito te- 
nente-coronel comm andante, de quem o Governo espera que faça 
esta escolha com aquella prudência que o caracteriza. Deos 
guarde a V. S.'" Palácio do Governo de S, Paulo 24 de Julho 
de 1822. — MirjiLel José de Ohveira Pinto, presidente interino 
— Daniel Pedro MilUer, secretario — Francisco Ignacio de Souza 
Qneirot. 



ANNEXO N 

OlYicia da Camura de Sorocaba á Camará de Yiú 

Recebemos o officio de 23 do corrente em que V. S/" nos 
communicam os passos e providencias que deram para precaver 
as desordens manifestadas na capital desta Provincia, rogando- 
nos ao mesmo tempo a identidade de sentimentos, o que to- 
mando em consideração nos reunimos em sessão extraordinária 
de hoje, vereadores e cidadãos de todas as corporações abaixo 
assignadas, para concordarmos sobre as medidas que se deviam 
pôr em pratica contra as desordens que desgraçadamente nos 
consta terem-se manifestado na capital da Provincia, e depois de 
breves reflexões todos concordamos unicamente no seguinte : 

l.« 

Que a Gamara desta villa de Sorocaba convide as Gamaras 
visinhas, desta Gomarca, para no caso de continuarem as ditas 
desordens passe cada uma a nomear um cidadão dos mais bene-> 
méritos de cada villa para organisação de um Governo Tempo- 
rário na cabeça da Gomarca, o qual de commum accordo tome 



— 175 — 

as medidas que forem convenientes a direcção da marcha que 
se deve se^ipiir para se alcançar a tranquilidade dos habitantes 
desta Provincia, com especialidade tudo quanto for conciliatório 
debaixo da mais restricta obediência ao Principe Regente o Se- 
reníssimo Senhor Dom Pedro de Alcântara, Constitucional e 
Perpetuo Defensor do Reino do Brazil, sendo este Governo Tem- 
porário creado somente ]>ara este fim, no qual convindo as 
mencionadas Gamaras se installará o dito Governo logo que três 
membros se acharem reunidos, os quaes elegerão um presidente 
e secretario jmra entrarem no exercicio de suas attribuiçâes, a 
qaem serào sujeitas todas as auctoridades constituídas. 

Que se oíEcie ao Governo Provisório de 8. Paulo com todo 
o respeito manifestando nossos sentimentos e aversão que temos 
ás desordens alli desenvolvidas, rogando ao mesnio tempo as 
SUC8 instrucções. 

3/ 

Que se faça ver aos Povos os ponderosos motivos que obri- 
p:am a tomar estas medidas, visto o estado de desordens da 
Provincia 

4." 

Que installado o Governo Temporário, deverá este dar im- 
mediatamente parte a Sua Alteza Real dos motivos que nos 
obrigaram a assim obrar, pedindo-lhe ao mesmo tempo um per- 
dào geral para todos os indivíduos que se desencaminharam dos 
seus deveres. 



Que se officiem aos commandantes das tropas milicianas 
desta villa que, debaixo de responsabilidade ao Principe Regente 
e ás Cortes que se vão installar no Brazil, nào façào marchar 
um só soldado para' a capital da Provincia emquanto níio constar 
evidentemcuto achar-se restabelecida a tranquilidade na mesma 
Capital, e que passem a avisar as tropas de seus commandos. 



Que se officiem aos commandantes das ordenanças para que 
convoquem a todos os beneméritos de sua corporação para que 
ao primeiro aviso se reunam aos regimentos dos seus districtos 
para o que fôr urgente. 



— 176 — 



7/ 



Que as Gamaras das villas collígadas tomem todas as pro- 
videncias sobre a pólvora e chumbo que houver nas villas mais 
próximas da Comarca, com as munições de boca para os officiaes 
inferiores e soldados. 

E por assim concordarmos unanimente se lavrou e^te termo 
(Segiiem^se as assignaturas dos vereadores e 50 pessfjos, inclusive 
padres). Sorocaba 26 de Julho de 1822. 



ANNEXO O 

Olficio da Camará de YHú á Camará do Porto* Felis 

Recebemos um officio da Gamara de Sorocaba, no qual no« 
communica que em razào da circular do (Joveruo Provisório 
devia tudo seguir na maneira ordinária, ao que respondemos 
como verão pela inclusa (1). O nosso parecer é que por forma 
alguma se augmente a força physica na capital, e por isso lem- 
bramos respeitosamente a V. S.^ para representarem aquella 
camará para nào irem as companhias pertencentes a aquella villa. 
Nós nos persuadimos que o destacamento não marchará para a 
capital em consequência da nossa resposta ; porem, nos parece 
acertado rogar também a V. S." que fortaleçc\o nossas opiniões 
attentas as suspeitas publicas. Ytú em Gamara de 3 de Agosto 
de 1822. — António Pacheco da Fonseca, — Salvador Pereira de 
Almeida. — António Victoriano de Azevedo. — Francisco Homem de 
AfeUo. — Joaquim José de Mello. 



ANNEXO P 

OfHcio da Camará de Ytú á Camará de S€»ro«ai>a 

Recebemos o officio de V. S.*' de 1.» do corrente, no qual 
nos communica o estado de socego e tranquilidade da capital e 
que por isso julgam dever tudo seguir a marcha ordinária; ao 



(1) E«te offleio d» CftiDAra de Borncab» tem a dftU de 1.« de Agosto de 1822 e dls 
que m noifoiM d» capital «fto boas, segando os offlclos e circalares do Gov.« Provfsone, 
e qse por Isso tado deve segolr a retina ordiaar'» e nfto havia necessidade de medMas 
exoepelonaes. 



— 177 — 

mesmo tempo dignando-se V. S/* congratalar-se comnosco. 
Muito zelosos da causa justa e obrigados pelos sentimentos de 
unidade de V. S.^, julgamos do nosso dever communicar a Y. 
8.** o que se tem feito 

Em consequência da circular do Governo Provisório, estan- 
do o eommandante militar desta villa para mandar algumas 
pra^^ para destacarem na capital, foi tal o alvoroço do povo, 
muito roais agitado pela insurreição dos negros na fazenda Sào 
Luiz, que se fez numeroso assignado, no qnal se exigiu para 
segurança do paiz que o destacamento aqui se conservasse, o 
que conseguiu attestar as poderosas razões que se allegaram, e 
aqui se acha para proteger e segurar a tranquilidade publica. 
Este povo está unicamente receoso de novas noticias da capital, 
visto que não consta de quem são os agentes que ali os tem 
maquinado, e muito mais por ter rebentado em S« Luiz a insur- 
reição que multo se temia e receava nesta villa. Portanto, para 
não termos de ser incre pados de pouco cautelosos avisamos 
a y. S." para tomarem as medidas que a crise melindrosa aponta. 
Podem y. S.** intimamente se persuadir que nossos desejos em 
tudo e por tudo é coincidirmos com y. S.*' nas vontades, assim 
eomo evitar as responsabilidades que temos pelo soeego publico. 
D.' g.' a y. S." Ytá em vereação de 3 de Agosto de 1822.— 
António Pacheco da Fonseca. — Salvador Pereira de Almeida. — 
António Victoriano de Azevedo. — Francisco Homerude Mello. — 
Joaquim José de MeUo. 

ANNEXO Q 

4Hfieio6 da Camarst de Pmpt^-Felix á Camará de Ttú 

Recebemos o offieio que y. S." nos dirigiram em 28 do 
corrente e a aeta de vereação extraordinária dessa illustre Ga- 
mara. Todos os seus artigos coincidem com os nossos sentimen- 
tM, e protestamos a y. S/' não pouparemos os meios para a 
sua execução. D.* 6.' a y. S." Porto-Fèliz, em Gamara de 29 
de Julho de 1822. — Manoel José Leite de Moraes. — Anix/nio Fer- 
nandes Leite. — Ankmio José de MeUo. — José Correia Leite de 
Moraes. — António de Arruda Paes. 



Já dêmos os passos que estão a nosso alcance, offieiando ao 
tesente-eoronel eommandante de Sorocaba e á Gamara da mes- 
iBa villa, em que deprecavamos não fizessem sahir o destaca- 
mento. Resolutos a defender a honra da nossa Província e fa- 



— 178 — 

zer respeitar o Grande Heróe Brazileiro, nos defenderemos, sen- 
do atacados, repolUremos a força facciosa e, quando as nossas 
forças nào bastem, renovaremos os dias de Numancia, perecendo 
antes do que deixar de cumprir as ordens de Sua Alteza Real. 
Nisto podem ficar V. S.'"; porém. Senhores, este Povo olha a 
installaçào de um Governo Provisório, como lembrou Sorocaba, 
como a base de todos os nossoi movimentos. D.* G.*" a V. S.*** 
Porto-Feliz em vereança de 4 de Agosto de 1822. — Aiitonio 
Leme da Silva, — António Fernandes Leite. — António de Arruda 
Sá, — António de Arruda Paes, — José Corrêa Leite de Moraes. 



ANNEXO R 
Vorcançs\ Extraordinária da Camará M.*' de Y^tú 

Aos 4 dias do mez de Agosto de 1822, nesta villa do Ytú, 
cabeça de Comarca, e Paços do Conselho delia, onde vieram o 
Juiz Presidente e officiaes abaixo assignados, convocados para 
fazerem a presente vereança extraordinária, e sendo ahi primei- 
ramente fizeram lavrar um edital ))ara que no mesmo dia de 
hoje, á uma hora da tarde, se achassem neste acto os Republi- 
canos, Nobreza e Povo desta villa, o que assim aconteceu, e 
logo, sendo presentes as Autoridades, Nobreza e Povo, foi apre- 
sentado e lido o Decreto de S. A. R. de 25 de Junho deste 
anno, e exigindo a Camará do Povo o seu parecer, todos una- 
nimente responderam que o mencionado Decreto devia ser exa- 
ctamente observado, e que na conformidade delle reconheciam e 
declaravam por uuUo e cassado o Governo Provisório da Capi- 
tal (S. Paulo), e por consequência izentos de sua obediência. 

Foi igualmente accordado que sendo de summa importância 
attender-se as medidas fortes para centralisar os ânimos e evi- 
tarem-so os terríveis males das divisões e anarchia, conservan- 
do-se perfeita paz e tranquilidade publica; se assentou nomear 
um procurador para esta Camará, a quem se dessem os poderes 
necessários para, junto com os das villas colligadas e que ne 
quizerem colligar, effectuar estas ditas medidas, assim como fa- 
zer o plano das suas attribuições para serem aprovadas pelo 
Povo, ficando desde já com poderes para isto, e todos se obri- 
garam a assim o cumprir. 

E passando-se a eleição deste procurador sahiu eleito a plu- 
ralidade de votos Francisco de Paula Souza e Mello, sendo re- 
solvido que em seu impedimento servisse o seu immediato em 
votos Cândido José da Motta; e os consideram já empossados 



— 179 — 

destes cargos e determinaram se lhes passassem os seus compe-^ 
tentes diplomas. 

Também se deprecoii aos Commandantes militar e de orde- 
nanças reforço de tropas e aos cidadãos o apresentarem-se com 
armas e munições, e contribuição para os respectivos soldos dos 
destacados; e que se puzesse uma guarda avançada nas estra- 
das. Determinaram mais que se remettesse copias desta verean— 
ça ás camarás e ás villas colligadas, e que fosse despedido o 
escrivão João Luiz Leitão Freire e em seu logar fosse nomear- 
do José Mendes Ferraz, proprietário do tabellionato da villa. 
E para constar, etc. — (Assignados) — Fonseca — Azevedo — Prado— 
Mello — Vicente da Costa Taques Góes e Aranha, capitào-mór 
commandante — Pedro José de Brito Caminha, tenente coro- 
nel — Cândido José da Motta — P.* José de Pinna e Vascon^ 
cellos, vigário encommendado — P." José Qalvão de Barros Fran- 
ça— P.** Manoel Ferraz de Camargo — P.** António Joaquim de 
Mello — P.'' Mias do Monte Carmelo — P.* Jerónimo Pinto Bo^ 
drigues — P." José Joaquim de Quadros Leite — P.* Manoel Joa^ 
quim da Silveira — P.*' Melchior de Pontes Amaral — P.* João 
Pardo Xavier — P.*' Luiz Mendes da Silva — P.® Miguel Archanjr^ 
do Amor Divitio — P.*" Félix António do Amaral — Manoel Pinto 
Ferraz, capitão — Francisco António Bom^ano, alferes — Manoel 
José Gonçalves da Costa Ferrugem, sargento — José Carlos Duar- 
te, sargento — José Leite de Cerqueira, capitão — Joaquim José 
de Castro — Aiitonio José de Babo Broxado, cirurgião — Francis-' 
CO José de Castro, capitão — José Manoel de Souza, alferes — An^ 
ionio Carlos Pacheco — Melchior Pereira de Almeida — António 
Corrêa Pacheco e Silva, tenente — José Luiz do Monte Carmdo 
^Joaquim Floriano de Barros, alferes — Francisco de Assis Pa- 
checo -^Joaquim de Almeida Salles — José Manoel de Mesquita — 
Iristão de Abreu Rangel — Vicente Francisco da Costa — Joaquim 
Manoel Teixeira da Fonseca — Bento Dias Pacheco, capitão— 
Manoel de Campos Almeida, tenente — Joaquim Galvào de Fran- 
ça, tenente — Joaquim José de Andrade, capitão — Francisco Xa- 
vier de Barros, capitão — Reginaldo de Quadros Leite, tenente — 
Francisco de Paula do Espirito Santo — Joaquim Fernandes da 
Fonseca — Luiz Manoel da Luz Targino — Manoel Vidal Gxmçcd-^ 
ves-^Carlos José Nardi de Vasconcellos — Thomaz da Silva Dt^ 
tra — Francisco db Paula Souza Mello— Jbse Rodrigues de 
Amaral Mello — Francisco Xavier Pacheco, 



— 180 — 

Este tePRM» de vereança foi remettido á camará de 
Campinas acompanhado do fe»ef|uinte olEicio: 

« Tendo o Povo desta villa legalmente representado a esta 
Camará a necessidade de nm destacamento municiado nesta 
villa para conter o espirito publico, sobre-maneira exaltado, e- 
causar respeito aos escravos para não se rebellarem, como- 
proximamente o fizeram em S. Luiz, e tendo levado á presença 
do Tenente-Coronel Commandante esta mesma representaç&o, á. 
qual houve de annuir, dando parte ao Governo do seu. 
procedimento, o que tudo temos feito ver a Y. S/' em nosso», 
officios. 

Succede que o Governo, nào annuindo á cousa alguma^ 
mandou ao Sargento-Mór Francisco de Paula Macedo com officio 
ao Tenente-Coronel-Gommiindante para que este impreterivelmente- 
marchasse para a Capital com a gente pedida para o serviço da 
mesma e que entregasse o Commando do Regimento a elle, dito 
Sargento-Mór, que deveria fixar nesta o seu Quartel. O* 
Tenente-Coronel, penetrando o fim dessa miss&o e medidas, que 
tendiam a desesperar o povo, immediatamente reunido em grande 
numero defronte do seu Quartel, fez ver ao Sargento-Mór que 
nào podia annuir visto que tinha cabal conhecimento da 
necessidade da força aqui destacada e, sendo logo repellido pelo 
Major como ordem do Governo (1), viu-se o Tenente-Coronel 
na precisa necessidade de declarar nullo e de nenhum direito- 
para o mandar o Governo, pelo Decreto de Sua Alteza Real de 
25 de Junho, a quem devia só obedecer na crise actual, por 
isso que a causa que sustentava seria do seu Real agrado, e- 
firme nesta resolução despede-se o Sargento-Mór. 

Passamos em silencio os ultrajes do immenso povo áquelle 
ofilcial, lançando-o fora desta villa com o titulo de traidor, cheíe- 
de rebelliões, etc. ; expulso assim o Major, sem que fosse possível 
conter a indignação popular, deram todos immensos « Vivas á 
Sua Alteza Real e, depois, ao Tenente-Coronel e á tropa ». 

Estes acontecimentos são de tanta importância que assentiBsoSy. 
d^ois de maduras reflexões e conferencias de pessoas cordatas,, 
que desta maneira exaltado o espirito publico, o qual já 
soffire obediência ao actual Governo, contra o qual 



(1) Mtujwr aqoJ Tale por •argento-nór. Bate aUegara que cnmpria orden do goren»» 
« for isso ofto podia deixar de proceder como Cuia. 

{N, da B.) 



— 181 — 

desabridAmente) e vendo nós que estamos a borda da anarcbia e 
guerra civil se o Governo tentar hostilmente contra este povo, 
e sendo geralmente abraçada a sabia lembrança da villa de 
Sorocaba do governo temporário ; portanto, vista a extrema 
necessidade de um centro de operações e attenta á urgeneia de 
manter unanimes os sentimentos dos povos, em tudo adheridos 
á causa de Sua Alteza Real (ao menos os desta comarca), e 
finalmente a precizão de se fazer um só ponto o seu firme 
espirito, por tudo isto fazemos ver a V. S." que est&o 
identificados nossos sentimentos, rogando Lajam de nomear um 
procurador para vir a esta tratar dos meios, attribuiçôes e 
medidas que mais convierem no momento ou aquillo que de 
accordo com os mais procuradores das villas colligadas se 
assentar, e como é necessário ao menos dous ou três dias para 
a reunião, julgamos acertado que V. S/' responsabilizem para 
com Sua Alteza Real o chefe da força armada dessa e mais 
commandantes para não mandarem força alguma para a capital, 
tomando desde já as medidas precisas de precaução e de defesa, 
até que se decida entre os ditos procuradores o que se deve 
£izer neste importantissimo negocio. 

Sendo ainda esta a vontade de Y. S/' e desses briosos 
povos, é a nosso ver justo que tomem já a attitude defensiva 
em que actualmente está esta villa. Rogamos a V. S." com a 
maior brevidade a resposta para a vista da mesma se marcar o 
dia da reunião. Esta participação fazemos já as mais villas 
colligadas. 

Pela copia inclusa verão V. S.*' o decisivo passo que 
dêmos para a salvação da pátria e não duvidando da prompta 
cooperação de V. S.*", rogamos quanto antes a V. S." bajam de 
enviar o benemérito Procurador, para quanto antes entrar em 
soas funcções, das quaes temos a maior esperança. Significamos 
qne é esta a vontade geral de todo o povo desta villa, o que 
muito breve faremos conhecer legalmente. D.* g.* a V. S." 
Ytú em Gamara de 4 de Agosto de 1822.-111."^*" Sen." Juiz 
Presidente e mais officiaes da Gamara de S. Garlos. — António 
Pacheco da Fonseca, — António Victoriano de Azevedo, — Fran^ 
eisco Homem de Mello. — Lourenço de Almeida Prado. — Joaquim 
José de Mello. 



~ 182 — 

ANNEXO S 

OfHcio da Caniara de Ytú á de S. Paulo 

Certissimos do patriotismo de V. S.*' e por conseguinte de 
seus zelos pela causa publica tomamos a ousadia de outra vez 
nos dirigirmos a V. S.*' incitados pelo amor da ordem e salva- 
ção da Provincia, cada vez mais convulsa e dependente de 
promptos e immediatos remédios emquanto nào chegam os efi- 
cazes que nao devem tardar, filhos da summa sabedoria e bon- 
dade do Augusto Regente e Defensor Perpetuo do Brazil, nosso 
adorado Salvador. 

Desde que constaram nesta villa os desastrosos factos de 23 
de Maio na capital desenvolveu-se Jogo o espirito piihlico de seus 
habitantes, encarando-os covi desesperação e horror como directa'^ 
Ttiente opposto ao bem ser do Brazil, e, por conseguinte, da 
Provincia, pois que, desobedecendo-se a Sua Alteza Real, se 
começava a quebrar a majestosa cadeia que atava as províncias 
do Brazil, sendo necessária consequência a desunião da nação. 
Temia-se com razão a anarchia e tanto mais se temia porque os 
agentes públicos da facção eram destitui dos da opinião publica 
e eram suspeitos sobre seus sentimentos patrióticos. 

O Povo desta villa, pois, reunido nesta Camará, fez que se 
representasse a Sua Alteza Real nossa ignorância e fidelidade (1). 
Bem depressa este passo foi seguido por outras Camarás da Co- 
marca. Fluctuava entretanto o espirito publico no temor, na 
suspeita e na desesperação ; estes sentimentos cada vez mais 
recresciam em consequência das noticias que vinham dessa ca- 
pital, que marcavam o progresso e insolência da facção e o 
menoscabo com que se pronunciava na capital o nome de Sua 
Alteza Real, mas tanto mais exasperou-se por constar que elle 
não só não foi ahi apreciado, como até abocanhado publicamente, 
o que mais confirmava as suspeitas contra a facção, manifestava 
seus occultos fins e enfurecia os ânimos honrados e fieis. 

O povo então tornou a representar os sentimentos de sua 
gi-atidão a Sua Alteza Real por via desta Camará, o que tam- 
bém outras camarás da comarca quasi a um tempo fizeram, tra- 
tando entretanto de reciprocamente se colligarem visto que o 
Governo da Provincia já começava a perder a força moral, úni- 
ca capaz de conter um povo que já se contempla livre. Afer- 



1) «Tgiiorancla dos factos qne Iam se dar na cidade doS. Paulo no dia 23 de Maio» 
isto é. qne os ytoanos nflo tiveram nellcs parte algama e continuavam fieis a d. Pedro 
« » sen governo, como se dcprehende de outros documentos. (3\ da /?.) 



— 183 — 

rados, porém, estes Povos ao religioso respeito que professam ás 
auctoridades legalmente constituídas, elles procuravam combinar 
suas persuasões com sua obediência, cada vez mais forçados por 
alguns actos do Governo quo pareciam sinistros. E' entfto que 
constaram as noticias dos factos que tiveram logar com a clie- 
gada do marechal Arouche (1), e a um tempo as villas tomaram 
medidas para nâo serem cúmplices ou instrumentos da facção, 
sem porém ainda faltarem á obediência ao Governo, apezar de 
já se achar absolutamente perdida sua opinião entre estes Povos. 
Esta Gamara, tendo pouco depois recebido o Decreto de 25 
de Junho, que por copia vae e a Regia Portaria que o acom- 
panhava, entendeu dever reserval-os á discussão da Junta Elei- 
toral da comarca, esperando que entretanto chegassem provi- 
dencias regias para não exasperar-se mais o espirito geral da 
comarca e afastar-se a horrivel idéa da anarchia. Mas, infeliz- 
mente, o Governo, apezar dos officios das camarás, que demons- 
travam a absoluta necessidade de não sahirem das villas para a 
capital suas tropas, apezar de já muito exaltado o enthusiasmo 
geral, teve a imprudência de mandar ao Sargento-Mór Francisco 
de Paula Macedo levar as tropas das villas ou fazel-as expedir, 
o trazer outras ordens que se interpretavam funestas e assolado- 
ras, teve a imprudência de embater de frente a opinião de mais 
de sessenta mil habitantes. Foi então que o Tenente Coronel 
viu-se na necessidade de explicitamente declarar o dever em que 
se achava de cumprir já aquelle decreto e o povo em massa 
arrastado por aquelles movimentos impetuosos de enthusiasmo, 
próprios de taes crises, respeitando a pessoa daquelle il/ajor, não 
respeitou a sua dignidade, com bem magua de todos os sensatos 
desta e o lançou da villa para fora ; e no dia seguinte, reunin- 
do-se com todas as auctoridades na camará, exigiu a leitura e 
publicidade do citado decreto. Unanimente foi accordado que o 
Governo estava cassado e nullo desde já de direito e que o devia 
ficar sendo para esta villa e comarca desde já também nullo de 
facto ; que, tendo tantas vezes reiterado nossos juramentos de 
fidelidade á Sua Alteza Real, ficaríamos réus de rebellião e perju- 
ros se continuássemos a obedecer ao Governo já cassado; que, 
portanto, se devia installar instantemente um centro de operra- 
rações geraes da comarca, e que, finalmente, se devia, além das 
Milícias, armar todo o povo em massa, sem reserva, para sus- 



(1) NomeJido o marech»! José Aronche de Toledo Rendon commiindante das Armas 
da Provinda, o governo procnroa embaraçar-lhe a posse. Cândido Xavier vein de 8an- 
tos com força e o governo fez revoltar a tropa desta capital, sob as ordens de Francis- 
c«i Ignacio, para !mpedir a vinda do mesmo general o sna entrada na cidade ~ sempre 
afirmando ser obediente ás ordens do Principe Regente ! (A', da R.) 



— 184 — 

tentar dignamente noesa justa cauza, a custa de todos os sa- 
crificios . 

Tudo logo se poz em pratica e sem demora as villas vi- 
zinhas imitaram e seguiram á risca os mesmos passos e milhares 
de homens estUo armados e furiosos pela sua defesa. Logo que 
entre em exercício a junta do centro geral se communicará ella 
com as auctoridades da provincia, depois de se ter dirigido á 
Augusta Presença de Sua Alteza Real, único e immutavel Norte 
das nossas vontades e acções. Eis, em suroma, Illmos. Snrs., o 
quadro actual do espirito e do estado da comarca. 

Esta Gamara, entretanto, pungentemente affectada pelo es- 
tado actual da provinncia, accesa pelos ardentes desejos da sal- 
vação puhlica e horrorizada pela terrível idéa da anarchia, não 
pode resistir ao desejo de participar a V. S." que o único alvo 
destes Povos é a verdadeira e espontânea unidade de toda a 
Provincia dehaixo da religiosa e firmíssima obediência ao Au- 
gusto Regente do Brasil; que elles lastimam e se doem que o 
honrado Povo dessa capital e districto, innocente sem duvida, 
esteja sendo instrumento ou victima de alguns desvairados indi- 
vidvos e seus apaniguados ; que elles aspiram que V. S.'", com 
sua madura reflexão e illuminado discernimento, adoptem aquel- 
las medidas que colliguem os difPerentes districtos da Provincia 
na necessária unidade, afastando os obstáculos, que, ateiTando-os 
surdamente, os têm alienado quando, sem duvida, a generalidade 
paulistana tem unidade de sentimentos, queremos dizer, tem os 
mesmos sentimentos de adhesão á causa do Brasil, inabalável 
obediência, fidelidade, amor e gratidão ao melhor dos Príncipes, 
que temos a ventura de possuir Regente. 

NíSs conjuramos a V. S.*" em nome da Pátria, da Provincia, 
do Brasil e da Nação, em nome do nosso adorado Defensor, em 
nome do Supremo Arbitro do Universo, queiram tomar medidas, 
quaesquer que ellas sejam e quaes melhores parecerem, afim de 
que se consiga o bem geral e se não vejam scenas de horror, 
muito mais quando não devem tardar as saudáveis e patemaes 
providencias de Sua Alteza Real. Rogamos, finalmente, a V. 
S." fazer-nos a honra de responder, e se assim não tivermos o 
resultado que desejamos restar-nos-ha ao menos o testemunho de 
nossas consciências de que fizemos todo o possível pelo bem ge- 
ral. Deos guarde a V. S.'" VíUa de Ytú, em Gamara de 6 de 
Agosto de 1822. — António Pacheco da Fonseca — António Victoria- 
no de Azevedo — Carlos José Nardy de Vasconcellos — Lourenço de 
Almeida Prado — Joaquim José de Mello, 



— 185 — 
ANNEXO T 

OfUcio da Camará de Sorocaba á Camará de Ytú 

Accuaamos a recepção do offlcio de 4 do corrente, acompa- 
nhado do termo de vereança da mesma data, de que ficamos co- 
nhecendo o passo que Y. S." deram, convidanoo-nos para dar 
entro ipial, ao qnal assentaríamos nós voluntariamente se nfto 
temêssemos ser taxados de leviandade e inconsequência. 

Porquanto, vendo a irresoluçào em que V. S/" se achavam 
no momento em que urgia tomar-se i^al medida, assentamos 
novamente officiar ao Governo, declarando a imperiosa necessidade 
qne obrigava-nos a deter o destacamento, como conhecerão da 
acta de vereaçfto inclusa, do que dávamos parte a Sua Alteza 
Real, e que nada mais se fizesse senào tomar as cautelas preci- 
sas emquanto nào tivéssemos resposta; ]K)rtanto estamos tolhidos 
emquanto não a tivermos, porque com efíeito levamos ao conhe- 
cimento do Governo as nossas deliberações, emprazando-o para 
que n&o influa nas eleições que se vão celebrar, as quaes são as 
verdadeiras medidas para terminarem os males imminentesecon* 
solidar a tranauílidaae publica. 

Se comtudo a necessidade augmentar podemos certificar a 
V. S.** que nos acharão promjitos para tudo que exigir a Salva- 
çào Publica, em unidade de sentimentos com V. S.**, a quem 
Deus guarde. 

Sorocoba em Gamara de 7 de Agosto de 1822. — Joaquim de 
Madureira Campos — Manoel Joaquim de Almeida Mello — Ignacio 
Dias Baptista — António José de Madureira e Souza — João Leite 
do Canto. 

COPIA 

Termo de Vereança extraordinária. 

Aos 4 dias do mez de Agosto de 1822 nesta villa de Nossa 
Senhora da Ponte de Sorocaba, comarca de Ytú, em Gasa da 
Gamara e Paços do Gonselho delia, onde se juntaram o Juiz 
Presidente e Officiaes da Gamara e mais cidadãos de todas as 
corporações, abaixo assignados, para assentarem o que se devia 
&zer em consequência do officio do Governo Provisório de 29 
de Julho próximo passado, em que remette por copia o ofiicio 
qne dirigiu a Gamara de Ytú para lhe servir de regra visto que 
se tem constituido emdenticas circumstancias (segundo diz o 
mencionado officio) quanto a suspenção da marcha do destaca- 
mento que do Hegimento desta villa deve ir para a capital da 
Província; e tendo-se lido ioda a correspondência que tem ha vi- 



— 186 — 

do a este respeito, e particulannente o officio que tivemos a hon- 
ra de dirigir a Sua Alteza Real na data de 29 do passado, re- 
flectindo sobre o Decreto e Carta Regia de 25 de Junho próxi- 
mo passado, em que apezar nosso náo se pode duvidar das si- 
nistras intenções que se occultam na capital desta Provincia, e 
nao tendo em menos consideração a desconfiança que agita os 
habitantes desta villa, receosos não só que seus imiàos sejam na 
capital desvairados, ou tomem por caminho igualmente funesto, 
como se tem divulgado, de insubordinação nas praças que tem 
a seguir, como também qus os nossos inimigos domésticos se 
aproveitassem da opportunidade que lhes podia oflerecer qual- 
quer falta de cautela, assentaram unanimente nos artigos se- 
guintes : 

1 

Que se officie ao Governo Provisório em termos respeitosos 
que conhecemos, que não temos mais autoridade do que dá o Regi- 
mento das Camarás; porém, que animada pelo bem publico como 
pelo exemplo que tem dado outras Camarás em idênticas cir- 
cumstancias, vemo-nos na necessidade de não ser simples espe- 
ctadores das desordens que nos ameaçam, o que nos ordena im- 
periosamente suspender a marcha do mencionado destacamento 
emquanto esperamos resoluções de Sua Alteza Real, em cuja 
Augusta Presença temos levado este negocio, ou na installaçào 
do novo Governo conforme o dito decreto, e que se faça nos 
termos mais expressivos que o Governo se vença da lealdade de 
nossos sentimentos. 



Que se officie aos commandantes dos corpos milicianos desta 
villa debaixo da mesma responsabilidade a sua Alteza Real e 
as Cortes Brazileiras que não façam seguir uma só praça em- 
quanto não vier qualquer daquellas respostas, e que tenham to^ 
das as praças de seus commandos promptas para o primeiro avi- 
so se reunirem com todo o povo e que conservem rente a villa 
uma guarnição sufficiente para manter o socego e tranquilidade 
publica, para cuja sustentação todos os bons cidadãos concorrerão 
com uma subscripção voluntária, providenciando-se o aquartela- 
mcnto e tudo o que for concernente ao alojamento da mesma 
guarnição. 

3 

Que se tomem medidas para que nenhum dos cidadãos que 
sentirem a nessidade destas providencias sejam insultados ou per- 



— 187 — 

çeg^uidos do modo algum por cffeito de sua opinião, como é de 
esperar-se na providencia do Governo. 



Que s<» levem com toda a brevidade a Augusta presença 
de Sua Alteza Real os ponderosos motivos que ni>8 obrigaram a 
ingerir-nos neste negocio, rogando sua Real insinuação que será 
em todo o tempo assente ao nosso comportamento, e nesta mes- 
ma occaziao reiterar os protestos de adhesão e respeito que lhe 
consagramos. 

E, por assim o haverem deliberado e concordado se lavrou 
este termo e eu Luiz de Pedroso de Almeida escrivão que o 
escrevi. Assignaram os dois juizes, Joaquim de Madureira Campos 
e Alexandre Caetano Tavares, vereadores e procurador, vigário 
e almotaçés, capitào-mór e mais sessenta e três cidadãos, entre 
clero, milicianos e ordenanças. 



ANNEXO U 
Termo de Vereança da Camará de Ytú 

Aos 9 dias do mez de Agosto de 1822, nesta vi!la do Ytú, 
cabeça de Comarca, nos Paços do Conselho, onde se acharam 
reunidos o Juiz Presidente o mais officiaes da Camará, compa- 
receram os Deputados da Camará e Povo da villa de S. Carlos 
(de Campinas) o Rev.^^P." José Francisco Aranha e o Capitão 
Júlio César de Cerqueira Leite, munidos dos seus Diplomas, e 
igualmente o Procurador da Camará de Porto-Feliz, o Sargento- 
mor José Custodio de Oliveira, e o desta villa Francisco de 
Paula Souza e Mello, e conferenciando entre si sobro os meyos 
de dezempenharem o objecto de suas commissôes, accordaram 
que devião esperar a decisiva deliberação e resposta da Camará 
e Povo de Sorocaba para, em consequência delia, installar-se e 
entrar em exercício o necessário centro geral das operações da 
Comarca; mas, que entretanto devião accordar e jurar ás Bases 
daquillo que se faria para ficarem desde já solidários e colliga- 
dos ; e portanto, depois de discussões e reflexões, accordaram 
nos seguintes artigos : 

1.** Que era de absoluta importância e necessidade instal- 
lar-se já e entrar em exercício, debaixo de qualquer denomina- 
ção, um centro geral de operações da Comarca, ao qual só se 
prestaria e juraria obediência até que ou legalmente entrasse 
em exercício o novo Governo Provisório mandado eleger (crear) 



— 188 — 

por Saa Alteza Real, ou houvessem ordens directas do mesmo 
Augusto Senhor. 

2.° Que este centro ^eral teria as attribuiçoes necessárias 
para o desempenho dos fins da sua creaçào, e por conseguinte: 

3.° Que tomaria a seu cargo a custa de todos os sacrifí- 
cios salvar a cauza do Brazil e de Sua Alteza Real, e portanto 
vigiar (zelar) pela religiosa obediência e fidelidade devida a Re- 
gência do mesmo Augnsto Senhor e seo decoro; salvar a se- 
gurança e prosperidade da Comarca, esforçar-se em cooperar 
por todos os meios conciliatórios para o restabelecimento ao an- 
tigo e perdido socego e bem estar da Capital (S. Paulo), procu- 
rar finalmente por todos os meios obter a tranquilidade geral da 
Provincia e sua necessária unidade. 

4 . ** Que todas as auctoridade prestariam obediência ao cen- 
tro, installado como accôrdarem os Deputados das villas, em tudo 
quanto estiver na orbita das suas attribuiçoes. 

Em consequência destas resoluções passaram a prestar oju- 
ramento de obediência ao dito centro nas mãos do Presidente 
desta camará, do modo seguinte : — «Juro em meo nome e em 
nome da Camará que represento cumprir as Bases sobreditas». 

Accordaram mais que ficaria nesta vi lia como procurador da 
villa de S. Carlos (Campinas) o capitão Júlio César de Cerquei- 
ra Leite até que viesse quem fosse nomeado para o substituir, 
e assim se deu por finda a sessão. E para constar, etc. 

(Assignados) . — Fonseca . — Pacheco . — Azevedo, — Vasconcellos. 
— Mello, — José Francisco Aranha de Camargo — Júlio Cezar de 
Cerqueira Leite. — José Custodio de Oliveira, — FRANCISCO DE 
PAULA SOUZA E MELLO. 



Copia deste termo de verança foi no mesmo dia enviada a 
D. Pearo, e também ás camarás da provincia foram remettidas 
copias acompanhadas do seguinte officio : 

Temos a honra de remetter a a V. S." o que foi accor- 
dado pelos enviados dessa Camará e Povo e os Procuradores 
aqui reunidos. Agradecendo a V. S.*' a parte que tem tomado 
e tomam na lucta gloriosa em que estamos envolvidos a bem da 
causa do Brasil e de Sua Alteza Real e temos satisfacção que as 
nossas irmãs da Provincia e do Brasil, farão justiça ao vosso 
proceder e que teremos o premio próprio das grandes almas, que 
é a estima e o respeito dos nossas concidadãos e as bênçãos da 

Srosteridade . D.* G** a V. S." Ytú em Camará de 9 de Agosto 
e 1822 . — Bento Dias Pacheco. — António Pacheco da Fonseca. — 
António Victoriano de Azevedo. — Carlos Nardy de VasconccUós-. 
— Joaquim José de Mello. 



— 189 — 
ANNEXO V 

Vereança extraordinária da Camará de Ytú 

Aos 29 dias do mez de Setembro de 1822, nesta villa de 
Ytú, cabeça da comarca e paços do Conselho, onde se reuniram 
o Dezembarçador Ouvidor Geral e Corregedor desta comarca, 
João de Medeiros Gomes, o Juiz Presidente e mais officiaes da 
Gamara, os Reverendos Vigários da. Vara e da Igreja, o capitão- 
mor das ordenanças, o tenente-coronel das milicias e os cidadãos 
desta villa, se fez a leitura de um oíHcio do Senado da Cama- 
rá do Rio de Janeiro convidando esta Gamara e Povo para quan- 
to antes dar-se o passo de invés tir-se Sua Alteza Real, o Ser- 
missimo Senhor Príncipe Regente deste Reino, do effectivo exer- 
cício de todos os attributos e poderes que, pela constituição de 
uma Monarchia Representativa, competem ao summo chefe do 
Poder Executivo, visto que attentas ás actuaes e urgentes cir- 
cumstancias do Brasil é de summa necessidade aquelle passo para 
se poder ultimar a grande obra da independência e constituição 
brasileira. 

Ouvida a leitura deste officio e consultadas as opiniões e von- 
tades dos circumstantes, foi por todos unanimemente e com o 
maior enthusiasmo respondido que se assentisse e concordasse com 
o illustre Senado da Gamara do Rio de Janeiro, auctorisando-a 
da nossa parte a proceder nesta conformidade e que igualmente 
86 representasse a Sua Alteza Real rogando-lhe que se digne 
annuir aos votos geraes do Brasil. Assim se deu por finda a 
•essão, e para constar se lavrou este termo, etc. — João de Jfc- 
deiros Gomes, ouvidor da comarca — Eufrasio de Arruda Botelho 
— António Pacheco da Fonseca — António Victoriano de Azevedo 
— Lourenço de Almeida Prado — Jaquim José de Mello — P.' José 
de Pina e Vasconcellos — P.* Manoel Ferraz de Camargo — P.* 
Manoel' Ferraz de Sampaio — P.* José Joaquim de Quadros Leite 
— P.' Francisco Leite Ribeiro — Vicente da Costa laques Ooes 
e Aranha, capitão-mór-commandante — Pedro José de Brito Cor^ 
minha, tenente-coronel comandante — Nuno de Campos Bicudo e 
8á — Francisco de Mello Rego — Francisco José de Castro, capitão 
— Joaquim Oálvão de França, tenente — João Manoel de Souza, 
alferes — Joaquim Bento Ray mundo de Souza — Cândido José da 
Moita, almotacel — Francisco Xavier de Barros, capitão — P.* José 
Oalvão de Barros França — Francisco Mariano da Costa — Bento 
Dias Pacheco — P.* Melchior de Pontes Amaral — António Corrêa 
Pacheco e Silva, tenente — Joaquim José de Castro — Thomaz José 
Ferreira de Carvalho, qjuírteil^mestTQ — José Rodrigues do Amaral 
Mdlo — José Manoel de Mesquita — Joaquim de Almeida Salles — * 



— 190 — 

José de Barros Dias — Melchior Pereira de Almeida — Lticio Mu- 
noel Félix dos Santos Capéllo — António José de Babo Broxado, 
cinirgião — Felippe José de Castro — José Leite de Cerqueira — Ma- 
noel José de Souza Neves — Bento José de Andrade — Bento Paes 
de Barros — P.* Jeronymo Pinto Rodrigues — irancisco Xamer de 
Lara Qoes e Aranha — Pedro Alexandrino Rangel — Joaquim Pin- 
to de Arruda — José Manoel da Fonseca — José Manoel Lobo — Sal- 
vador Pereira de Almeida — José Carlos Duarte — Francisco db 
Paula Souza b Mello. 



ANNEXO X 

Auto do Acelainaçáo e Juramento 

Anno do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Cbrísto de 
1822, aos 12 dias do mez de Outubro do dito anno, nesta villa 
de Ytú, cabeça de Comarca, da Provincia de Sam Paulo, e nos 
Paços do Conselho, onde se reuniram o Desembargador Ouvidor 
Geral e Corregedor Jofto de Medeiros Gomes, os Juizes Ordiná- 
rios, Vereadores, Procurador, Autoridades Ecclesiasticas e Mili- 
tares, e mais cidadãos desta villa de todas as classes, para se 
proceder a Acclamaçào do Sereníssimo Senbor Principe Regente 
Dom Pedro de Alcântara a Primeiro Imperador Constitucional 
do Brasil, visto que era esta a vontade geral do Povo e Tropa 
desta Villa, e tão manifestada que já em um dia do mez passado, 
no fim da sessão do coUegio eleitoral deste districto, o tinham 
acclamado como tai, e mais energicamente manifestada depois 
que se divulgaram nesta villa as noticias de que também neste 
mesmo dia de hoje faziam esta acclamação a Camará da Corte 
do Rio de Janeiro e outras mais Camarás do Brazil : Portanto 
perguntou o Desembargador Ouvidor da Comarca, presidente da 
Assemblea se era vontade de todos que se fizesse esta accla- 
mação pela maneira e forma com que a fizesse a Camará do Rio 
de Janeiro, sendo condição essencial a manutenção da Consti- 
tuição monarchica representativa, visto que era de summa im- 
portância e de absoluta necessidade dar-se este passo como o 
único capaz de fazer a segurança, prosperidade e gloria deste 
vasto Império Brasileiro, passou o sobredito Desembargador a 
fazer a Acclamação gritanao: <iiViva o Sereníssimo Senhor Dom 
Pedro de Alcântara^ Primeiro Imperador Constitucional do Bra- 
sil», a que responderam todos com os mais festivos e cordiaes 
vivas, transbordando em todos os semblantes o mais enthusias ti- 
co prazer ; e feitos três veses estes vivas, gritou também o mesmo 



— 191 — 

Desembargador : «Viva a Augusta Imperatriz do Brasil — Viva a 
Assembléa Geral Constituinte e Legislativa do Brasil — Viva a 
liberal Constituição, que ella fizer» ; correspondendo immedia- 
tamente ao primeiro viva a Tropa com descargas, e igualmente 
o costello, arvorando-se nelle uma Bandeira Imperial, e dando- 
se todos os mais signaes do jubilo commum, estando sempre pa- 
tente o Estandarte da Camará. Feito isto passou-se o jura- 
mento solemne que ratificasse este acto. Entào prestou o dito 
Desembargador o juramento dos Santos Evangelhos na mào do 
Reverendo Parocho José de Pinna Vasconcellos, e depois pres- 
taram a Tâmara e mais Autorida(Íes, Povo e Tropa, sendo elle 
do theor seguinte : — «Juro fidelidade b obediência ao novo 
Imperador Constitucional do Brazil, o Senhor Dom Pedro 
DE Alcântara, bem como defender ainda a custa da própria 
vida o acto agora celebrado». Feito isto passaram todos á Igreja 
Matriz a celebrar os actos religiosos por tào importante motivo. 
E por esta forma bouve elle Ministro o Auto por concluído e 
nellrt assignou com todas as pessoas presentes, e eu José Men- 
des Ferraz, escrivão que o escrevi. — João de Medeiros Gomes, — 
Eufrasio de Arruda Botelho, — Bento Dias Pachecfj, — António 
Pacheco da Fonseca, — António VicUjriano de Azevedo, — Lourenço 
de Almeida Prado. — Joaquim José de Mello. — Cândido José da Mot- 
ta. — P.* José de Pinna Vasconcellos, — Manoel Rodrigues Jordào, — 
Vicente da Costa laques Góes e Aranha. — Pedro José de Brito Cami- 
nha — Caetano José Gomes Carneiro — António Corrêa Pacheco e Sil- 
ve—João Manoel Martins César — João de Alm^eida Prado — Francis- 
co de Paula Aranha — José de Barros Penteado — Thomaz José Fer- 
reira — José Leite de Cerqueira — Joaquim Ignacio Ribeiro — Joaquim 
José de Andrade — Francisco de Salles Borralho — Francisco de 
Paula do Espirito Santo — Nuno de Campos Bicudo e Sá — P.** 
Pedro da Anunciação Chaves— PJ^ Francisco Novaes de Maga-- 
Ihaes—P.'' Manoel Ferraz de Sampaio Botelho — P.* José Joa- 
quim de Quadros Leite — P.* Jerónimo Pinto Rodrigues — P." 
Joaquim José de Araújo — P.' Manoel Ferraz de Camargo — P. 
José Galvão de Barros França — P.* Félix António do Amaral 
—Martim de Mello Toques — Francisco José de Castro — Elias 
António Pacheco — Joaquim da Costa Garcia — Francisco de Mello 
Rego — António José de Babo Broxado — José Rodrigues Pereira 
^Bento José de Andrade — Francisco Xavier Pacheco — Bemar-- 
do Luiz Gonzaga de Góes Aranha— Manoel Novaes Araújo — 
Bento Dias Pacheco — Manoel de Campos Almeida — António José 
Barbosa — Tristão de Abreu Rangel — Manoel Pacheco Gato — Ma- 
mei Pinto Ferraz— Francisco Mariano da Costa — José Ferraz 
Leite — João Manoel de Souza — P.* Joaquim Duarte Novaes — 



— 192 — 

José Manoel de Mesquita — Manoel José de Almeida Leme — Joa- 
quim Bento Raymwndo de Souza — Joaquim de Alineida Barros 
— Joaquim de Campos Arruda — Carlos José Nardi de Vascon^ 
eellos — José Manoel de Aguirra — José Manoel da Fonseca — -áw- 
tonio Rodrigues Jordão — Manoel José da Silveira — José Vi* to-' 
rino da Rocha Pinto — Francisco Xavier de Lara — Francisco Xa- 
vier de Barros — Francisco db Paula Souza b Mello — Joof^ 
quim íloriano de Bancos — Bento Paes de Barros — António Pires 
de Almeida — Manoel Dias — Joaquim Novaes Portella — João Lei- 
te Ferraz — Vicente Francisco da Costa — Francisco Homem de 
Mello — Pedro Alexandrino Rangel — José de Campos Pacheco — 
Manoel Francisco Xavier — Caiidido de Almeida Lara — José Joar 
quim de Mello — António Paes de Barros — Manoel José de Sou^ 
za Neves — José Galvão de Barros — José Ignado de Mattos — José 
Marcelino de Barros — Joaquim Pinto de Arruda — José Galvão 
de França — Manoel Joaquim Bueno — José de Barros Dias — Fi^ 
delis José de Barros — Salvador da Silveira Leite — Bento Mc^ 
noel de Moraes — Manoel José Vaz — Ignado Alves de Almeida — 
Francisco de Pavia Ribeiro — Salvador Rodrigues Fam — Bento 
de Almeida Leme — José Cirino de Almeida — Joaquim Corrêa 
Leme — António de Campos Bicudo — Vicente Ferreira de Camar- 
go — Joaquim de Oliveira Leme — Joaquim Marcelino de Oliveira 
Netto — António Manoel Bicudo — João Gonçalves do Nascimento 
— Francisco Pinto Leite — Francisco de Paula Barboza — António 
José de Carvalho — Manoel Ribeiro de Almeida — José Manoel 
Lobo — Custodio Manoel Ferraz. 



Prodromos àa independeneía na villa dô Ytú 



Narração do proeedí mento da vi Ha de Ytú em eon« 
sequencia des factos de 23 de Maio de 1822, 
na eida<ie de S. Paulo (1). 

Apenas constaram nesta villa os acontecimentos de dia 23 de 
Mato na capital, desenvolven-se a maior indignação em seus habi- 
taatesy dando motivo á Gamara Municipal para fazer uma vereaçào 
extraordinária para deliberar-àe acerca das providencias que a tal 
respeito se deviam tomar para tranquilidade publica. 

No dia 28 de Maio se reuniram nos Paços do Conselho bastan- 
tes cidadãos morig^rados e depois de ser proposto pelo Juiz Presi- 
dente o objecto da reuniào e exigido o documento que provasse a 
sua veracidade (que foi o responsabilizar-se um vereador por ter 
sido testemunha oéular) ( 2 ), se deliberou fazer subir á Augusta 
Presença de sua Alteza Real nossos sentimentos, como se vê 
dac«pian.** 1, assim como a participaç&o ao Governo Provi- 
sório, copia n. 2f que foram logo remettidas e v&o abaixo trans- 
criptas : 

COPIA N.* 1 

Senhorbs : — Gonstando á Gamara da ViUa de Ytú, da pro- 
vincia de Sào Paulo, que em sua capital alguns facciosoS) illudin- 
do ou forçando a Tropa e a Gamara, atacaram e insultaram ao go- 
verno, depondo dous de seus membros, com manifesta desobediên- 
cia ás ordens de Vossa Alteza Real, pretextando ser aquelle o voto 
geral da província ; e convencida aos leaes e firmes sentimentos 
dos habitantes que representa, convocou, logo o Clero, Nobreza e 



(1) Pretame-M ^ae etta DarratíT» é d» pernia de Caadldo José d* Mott», toA' 
sBtIr» teteUlf^te, compadre e «oiigo de Feijó, realdante em Ttú e testemanlu ocular 
dot tetM. O escrfpto fof remetltdo a D. P«^ro e apparecea logo publicado ; é repro- 
dviio aqai per loteresaar i hte'oria paolUta, por ler boje sma raridade liittorica e 
porfie completa a narratíva anterior. 

(2> Bsie Teresdor era Aaloirio Padieoo da Fonfteca. ytaaoo multo dfstlocto peia 
twmmm a «ne perteacia; eifeeve em 8. Paslo> e aastotíB aoa factos de ^ de Sfaio de 
ld22, qae o encheram de indignação. (N. da M.) 



— 194 — 

Povo para ouvir seus pareceres sobre um objecto no qual se vê en- 
xovalhados a honra nacional e o brio paulistano, e unanimemente 
foi accordado que esta Camará, sem perda de tempo se dirigisse 
com seus ardentes votos a Vossa Alteza Real, implorando remédio 
aos m<iles que se nos preparam e significando com a maior energia 
os sentimentos de veneraçào e respeito que tributam á Augusta 
Pessoa de Vossa Alteza Real, pae benigno do Brasil e seguro pe- 
nhor da nossa gloria. 

Quando consideramos, Senhor, os rasgos da sabedoria e bonda- 
de com que Vossa Alteza Real tem sempre livrado nossas provín- 
cias dos horrores da anarchia ; quando contemplamos a presteza 
com que Vossa Alteza Real tem voado a suflFocar os males que es- 
pirites revoltosos cogitarani ; quando finalmente. Senhor, nos re- 
cordamos da distincta contemplação com que Vossa Alteza Real 
tem marcado o nome paulistano, nós nos possuimos da mais acerba 
melancholia com a idéa do attentado novamente commettido na ca- 
pital, e a esperança consoladora que resta é o asseverarmos a Vossa 
Alteza Real, nào só a nossa innocencia em semelhante procedimen- 
to, como o respeito, a submissão e a Melidade que nos animam 
para com Vossa Alteza Real, a quem respeitamos, amamos e obe- 
decemos como Augusto Regente do Brasil, como Anjo Tutellar de 
nossos destinos, como garante inabalável de nossa liberdade. 

O povo Ytuano, Senhor, nós o repetimos, não teve parte al- 
guma nesse horrivol parto da insubordinação ; elle se persua4e 
igualmente que também a não tiveram os honrados habitantes da 
capital, que talvez, suffocando os gritos de seu revoltado patriotis- 
mo e fidelidade, gemem em silencio no opprobrio do seu paiz. E^te 
povo, Senhor, tendo a honra como património do seu ser e a fideli- 
dade como baliza de suas operações, implora com toda a submis- 
são a Vossa Alteza Real o^ emcazes remédios de que necessita a pro- 
víncia no estado convulsivo e anarchico que começa a se desenvolver; 
elle espera das providencias paternaes de Vossa Alteza Real, tantas 
vezes libertadoras do Brasil, o socego e tranquilidade que perde- 
mos e que só a sabedoria de Vossa Alteza Real é capaz de nos res- 
tituir. Se o Augusto Nome de Vossa Alteza Real tem já grangea- 
do a mais distincta veneração dos Povos, se a gratidão dos mesmos 
augmenta a gloria dos grandes Principes, o remédio, Senhor, que 
imploramos, levará á mais remota posteridade sua memoria e a re- 
cordação destes feitos derramará a alegria nos sensíveis corações 
de nossos presentes e vindouros. 

A Augusta Pessoa de Vossa Alteza Real guarde Deos muitos an- 
nos, como nos é mister. Ytú, em Camará de 28 de Maio de 1822. — 7ien- 
pj Dias Pacheco — António Pacheco da Fonseca— António Victoriano 
de Azevedo — Lourenço de Almeida Prado — Joaquim José de Mello. 



— 195 — 

COPIA K.** 2 

III."**'* e Ex."***" Senhores:— Constando nesta Villa que alguns 
fa:ciosos obrio^aram a Gamara e Tropa dessa Capitania a exigir de 
Vossas Excellencias a deposição de áous membros do Ex."*" Gover- 
no, em desobediência ás ordens de Sua Alteza Real, esta Camará, 
tomando parte na justa magua e indignação de Vossas Excelleneia» 
(1) e considerando a ignominia que de semelhante attentado resul- 
ta á provincia, e muito mais por constar que para aquelle acto se 
serviam do nome e voto de todo o povo da mesma, immediata- 
mente convocou o Clero, Nobreza e Povo desta para consultar o 
que SC deveria obrar e, reunindo-se, foi unanimemente assentado 
dirigir á Sua Alteza Real a rogativa que inclusa remettemos a 
Vossas Excel Iene ias por copia, muito certos de que assim anticipá- 
mos a vontade de Vossas Excellencias. Deos guarde a Vossas Ex- 
cellencias por muitos annos. Ytú, em Camará de 28 de Maio de 
1822. — Benti Dias Pacheco — Antfjnio Pacheco da Fonseca — Ân^ 
ionio Victjriano de Azevedo — Lourenço de Almeida Prado — Joa-^ 
quim José de Mello. 

No dia 5 de Junho a Camará de Ytú recebeu do Governo 
o seguinte officio : 

COPIA N. 3 

Sendo presente a este Governo o officio que Vm.c«« lhe di- 
rigiram em data de 28 do mez passado, acompanhado da copia 
da representação que julgaram necessário enviar a Sua Alteza 
Real em consequência dos factos que occorreram nesta cidade 
no dia 23 do mesmo mez, o mesmo Governo, amante e respon- 
sável pelo socego publico desta provincia, na qual seus leaes e 
bons habitantes tanto se tem distinguido na presente época» 
náo pode deixar de ver sen&o com muito sentimento que essa 
Camará se dirija directamente ao mesmo Augusto Senhor sem 
ser i>or meio da intervenção deste Governo, visto que semelhan- 
te medida tende a desfazer e divergir os recursos das auctori- 
dades desta provincia, que para a boa ordem na mesma se de- 
vem reconcentrar : portanto, exige que o dito officio não seja 



(\) Ao redigir este offlc'o a camará de Ytú nfto sabia ainda qae os membros 
extrangeiros do governo, de ra.ios úAá»» com o coronel Francisco Ignaoio de Sonsa Quei- 
rós e com o ouvidor Co«ta Carvalho, foram 04 anctores da Bernarda e por isso snppoa 
qae o governo ejtava magnado com os factos de 23 de Maio* 

(M dm B.) 



— 196 — 

enviado afim de não perturbar as providencias já expedidas conn 
a maior instancia e desinteresse para socego destes Povos, pe- 
dindo-se até, para se consolidar mais o voto e representação gerali 
dos mesmos, que Bua Alteza haja de installar nesta província, 
um novo governo provincial, da maneira que parecer mais legal 
e conveniente. O Governo, finalmente, depois de ter enviado & 
Vm.««« o officio de 29 do passado, torna novamente a recommen- 
dar-lhes quanta convém no presente momento manter a tran— 
quillidade e uni&o, pela qual Vm.««« ficam responsáveis, visto- 
que ahi, sendo próximo o recurao, se deve esperar prompto re— 
médio do providente animo de Sua Alteza Real e que, }K>roon- 
sequencia, esta medida em nada tolhe o direito de representara 
que julgarem mais conveniente a bem de seus concidadãos pelo»- 
competentes canaes. Deus guarda a Vm.<^®« Palácio do Gover- 
no de S. Paulo, 1/ de Junho de 1822. — João Carlos Augusto^ 
de OeynJuiiisen, presidente — Miguel José de Oliveira Pinto,, se- 
cretario— Oanic/ Pedro MtUleTj secretario». 



A resposta da Gamara de Ytú consta do seguinte officio :: 

COPIA N. 4 

X]]mo8 e Ex."»<* Senhores: — Tivemos a honra de i*eceber o. 
officio de V. £x/* da data de 1."* de Junho, no qual manifestamj 
y. Ex.** a sensibilidade que tiveram pelo que praticámos em- 
consequência das noticias dos factos do dia 28, annunciados no> 
no8i»o officio de data de 28 do passado. 

Esta camará, exemplificada pelas de Minas Geraes nas di- 
rectas representações a Sua Alteza Real, quando aquella provia- 
cia offerecia convulsões, e escorada no artigo 14 das Bases da. 
Gonstituição, julgou fazer um dever sagrado á província, qual o 
de implorar remédios effieazes ás desgraças que a ameaçavam^ 
enviando quanto antes a rogativa a Sua Alteza Real, que por- 
copia remetteraos a Y. Ex.*", significando assim quanto se inte^ 
ressa no credito, reputação e tranquillidade da província. 

Jamais, Ex."*^* Senhores, foi da nossa intenção exorbitar doe- 
limites que nos são presentes. A representação a Sua Alteza. 
Real foi remettida pelo correio próximo passado e, portanto, não. 
nos é possível estorvar aquella remessa ; e nós nos persuadimo»^ 
que a. mesma apressará as sabias providencias que V. Ex.^ re- 
quereram a Sua Alteza Real. 

Esta Gamara ratifica a sua adhesão á ordem e bem geral de- 
toda a província, assim como o seu respeito e submissão a V^ 



- 197 - 

Ex.** Deus g^uarde a V. Ex." por mnito» annos. Ytú, em Ca- 
gara de 7 de Junho de 1822. — Bento Ditts Pacheco — António Pa-- 
checada Foffseca — A7itfmio VictoHano de Azevedo — Jyjurenço de 
Almeida Prado — Joaquim Jo»é de Mello. 

Divul^fou-se neste tempo por esta villa que a representa- 
•çào feita a' Sua Alteza Real tinha sido extranliada e suifbcada, 
•o que causou bastante dissabor a todos os seus bons habitantes 
pela demora de cheo^arem á Augusta Mào de Sua Alteza Real 
•08 votos de fidelidade que com a brevidade possivel demons- 
traram na dita representação. Pouco tempo ae}>oÍ8 constou o 
lançamento do Coronel Martim Francisco para fora da provin- 
•cia, noticia que causou a mais vehemente dôr a todos os hon- 
rados ytúanos, por conhecerem o fim, crescimento e audácia da 
facção na deposição daquelle tão benemérito cidadão, e todos 
*fíxaram unicamente suas esperanças nas promptas, sabias e pa- 
temaes providencias de Sua Alteza Real. 

Foi então que appareceram cópias do immortal Decreto de 
^ de Junho e Falas de Sua Alteza Real (1). A Gamara imme- 
diataraente convocou por editaes aos cidadãos da villa e por of- 
íicio as differentes auctoridades para, em vereação geral serem 
lidas aquellas preciosas peças, cujo preço o mesmo Brasil não 
paga. No dia 24 de Junho se reuniu a assembléa, que se tor- 
nou luzida e respeitável pela concorrência de innumero povo e 
todas as auctoridades, ecclesiasticas, civis e militi\res. Leu-se em 
primeiro logar o sempre grande e memorável Decreto de 8 de Junho 
« logo depois as benignas e paternaes Falas de Sua Alteza Real. 
Foi então que se viu rebentarem lagrimas de prazer e gratidão 
dos circumstantes, que rapidamente rompendo os diques de seu 
•enthusiasmo bradavam com a maior energia repetidos «Viva a 
Sua Alteza Real», como o único meio de patentear os paté- 
ticos sentimentos de que se achavam possuidos. 

Leu-se depois o honroso officio do Senado da Camará do 
Ko de Janeiro, em que convidava esta Camará a pedir á Sua 
Alteza Real aquillo mesmo que nos deu o dito decreto e que se 
•ia agradecer e concluiu-se este respeitável acto com novos e pa- 
^oticos vivas e a deliberação que consta do seguinte termo de 
'Vereação: 

CÓPIA N. 5 

Aos 24 dias do mez de Junho de 1822 annos, nesta villa 
•de Ttú, cabeça da comarca, Casas da Camará delia e Paços do 
'Conselho, onde vieram o juiz-presidente, vereadores e procura- 



— 198 — 

dor, abcaixo assignados, com a assistência do ouvidor pela lei, o 
sargento-mór Eufrasio de Arruda Botelho, e mais cidadãos, assim 
ecclesiasticos como seculares, que também abaixo assignam ; e 
sendo proposto o objecto desta assembléa accordaram todos e pon- 
deraram a bem da felicidade deste reino com reconhecida obe- 
diência e fidelidade ao nosso Augusto Príncipe Kegente, o Se- 
nhor D. Pedro de Alcântara, defensor perpetuo deste reino, nos 
artigos seguintes : 

I 

Agradecermos á Sua Alteza Eeal tantos heróicos feitos prati- 
cados em beneficio do Brasil e muito especialmente a convocação 
de Cortes, que era o alvo de todos os uofsos desejos, como úni- 
ca medida capaz de nos salvar da actual tempestade politica, 
conservando a integridade da nação. 

II 

Reiterarmos a Sua Alteza Real os nossos vivissimos protestos 
de amor, obediência e fidelidade e nossa indignaçílo pelos factos 
da capital em desobediência ás suas Augustas Ordens. 

III 

Accoi'darmo8 de firmemente seguirmos esta linha de conduc- 
ta, apezar de quacsquer obstáculos, servindo-nos de todos os re- 
cursos j)ara sempre sermos devotíssimos da causa do Brasil, 
identificada com a Augusta Pessoa de Sua Alteza Real, e, por- 
tanto, pedirmos ao governo todos os recursos que parecerem 
necessários, sendo indispensável entre elles o não sahir tropas 
fora do paiz, pelos motivos ponderosos que se allegaram e sào 
patentes. 

IV 

De tudo isto communicarmos ás mais villas, exigindo saber 
seus sentimentos e, sendo idênticos, sua cooperação a todos os 
passos dados. 

V 

Finalmente, pedirmos ao corregedor da comarca, como in- 
tendente da Policia, expeça circulares, editaes, recommendando 
a paz, unido e aferro a Sua Alteza Real, como Defensor Per- 
petuo do Brasil, ordenando que vigiem e desprezem aos faccio- 
80«, e no caso de perturbarem o socego por acções ou palavras 
crimino8€S, ameaçando-cs com as penas da lei (1). 



(1) Aqii Tem nina not» declarando «que antes de se escreTor o objecto prepondera- 
do estavam preientet as auctorldades, assim ecclesiasticas como oItU e militares.» 

{N. da R.) 



— 199 — 

E sendo lidas a todos as ponderações declaradas neste ter-^ 
mo, foi por todos quantos se achavam presentes e abaixo assig- 
nados approvado, mostrando-se o maior enthusiasmo e adhesào 
ao nosso Angusto Regente e Defensor Perpetuo do Brasil. Para 
constar se lavrou o presente termo de sess?io extraordinária, em 
que assignam o presidente, ouvidor pela lei e Camará, com as 
auctoridades e cidadãos, e eu, Joào Luiz Leitfto Freire, escrivão 
da Camará, que o escrevi. — Eufrásia de Arruda Botelho, ouvi- 
dor pela lei — Bento Dias Pacheco — Salvador Pereira de Almei" 
da — Carlos José Nardy de Vascoiicellos — Lourenço de Almeida 
Prado — Joaquim José de Mello — Cândido José da Moita, almo- 
tacel — Vicente da Costa Taques Góes e Aranha, capitão-mór 
commandante — Pedro José de Brito Caminha, tenente-coronel 
commandante — O vigário, José de Pinna e Vasconcellos — P^ Elias 
do Monte Carméllo — P.* Jerónimo Pinto Rodrigues — P.*" Pedro 
d(* Chaves — P.* José Joaquim de Quadros Leite — P." Manoel 
Ferraz de Camargo — P." José Galvão de Barros França — P.' 
António Joaquim de Mello — P." Manoel Joaquim da Silveira — 
P.*" Melchior de Pontes Amaral — P.® Luiz Mendes da Silva — P.° 
Joaquim Felicio da Costa — P." Miguel Archanjo do Amor Divi- 
no — P.* Braz Luiz de Pinna — Francisco de Mello Rego — José 
Ribeirão de Araújo, capitão — Joào de Almeida Prado, sargento- 
mór — Ignacio Xavier Paes de Campos, sargento-mór — Manoel 
Pinto Ferraz, capitão — António José Babo Broxado, cirurgião — 
Balduíno de Mello Castanho — Joaquim Manoel Teixeira da Fon- 
seca — Melchior Pereira de Almeida — José Maiwel de Mesquita — 
Francisco Xavier Pacheco — Francisco Mariano da Cosia — Fran- 
asco Galvão de França, capitão — Francisco José de Castro, ca- 
pitão — José Manoel de Souza, alferes — Thomaz José Ferreira de 
Carvalho, quartel-mestre — Bento Paes de Barros, capitão — Fran- 
cisco DE Paula Souza b Mello, eleito deputado ás Cortes pela 
provincia — Francisco Xavier de Barros, capitão — José de Barros 
Penteado, capitão — Joaquim Floriano de Barros, alferes — Joa- 
quim José de Castro — Joaquim Bento Raymundo de Souza — 
Joaquim José da Costa Fortunato — José de Barros Dias — An- 
tónio José Barbosa — Joaquim de Campos Arruda — Fiufrasio de 
Arruda Sá — José Francisco de Paula — Sebastião Homem de 
Mello — Joaquim Pinto de Arruda — João Bicudo de Almeida — 
Manoel Pacheco Gato — José de Camargo Penteado — José Manoel 
Lnòo — José Joaquim de Almeida — Possidonio Luiz Leitão — Lu- 
do Manoel Félix dos Santos Capello — José Rodrigues do Ama- 
ral Mello — Camillo de Camp(js Almeida — P.* Francisco Novaes 
de Magalhães — Estanislau de Campos Arruda — António Pacheco 
da Fonseca — António Victorino de Azevedo — José Leite de Cer- 



— 200 — 

queira, capitào — Francisco de Paula do Espirito Santo, t^iente 
— Joaquim de Almeida Salles — Francisco António Romano, alfe- 
res — Francisco de Almeida Prado, tenente — Vasco António de 
Toledo PMJa,ajudante. 

Os puros e fervorosos agradecimentos á Sua Alteza Real 
constam do seguinte officio : 

CÓPIA N. 6 

Senhor: — Quando esta Camará da villa de Ytú, provincía 
de S. Paulo, em nome dos seus habitantes, tinha de oirigir-se 
ao Augusto Throno de Vossa Alteza Real a agradecer tantos e 
tào sublimes rasgos de sabedoria e bondade de Vossa Alteza 
Real, e muito respeitosamente expressar que a vontade deste 
povo é tal qual a do povo illustre da Corte do Rio de Janeiro, 
relativamente á sua representaçiU) do dia 23 do próximo passado 
mez de Maio, eis que extraordinariamente nos chega a faustis- 
sima noticia de que Vossa Alteza Real já nos tinha concedido 
no dia 3 do corrente aquillo mesmo que ardentemente desejáva- 
mos e deseja todo o Brasil (1). 

Ah ! Senhor ! Como poderíamos enunciar os sentimentos 
de que ficamos tansportados ? Como poderíamos descobrir ex- 
pressões capazes de significar o nosso enthusiasmo ? Lavrou 
instantemente o fogo do mais ardente amor e gratidão em todos 
os nossos corações ; reuni u-se logo nesta casa uma apsembléa de 
todas as auctoridades e cidadãos; lagrimas involuntárias demon- 
stravam intenso prazer, e ainda balbuciantes ao transporte de 
nosso jubilo accordámos que esta Camará immediatamente se 
dirigisse a offerecer á Vossa Alteza Real, com o mais profundo 
respeito, as cordiaes oblações da inabalável fidelidade, obediência, 
amor e gratidão do povo ytuano. 

Sendo a fidelidade, obediência, amor e gratidão aos seus 
príncipes o caracter distinctivo da nação portugueza e sendo os 
desta província talvez no mais subido gráo, como assaz o prova 
a sua historia, ainda em seus tempos os mas infantis, quanto 
mais elevados não devem agora ser aquelles sentimentos para 
com Vossa Alteza Real, que, pela força da sua sabedoria e pa- 
triotismo, tem lhe servido de baluarte inexpugnável para se nfto 
despenhar no abysmo que lhe estava preparado ? 



(1) Befereni-*e i conTocaçfto da Ássembléa CoDsUtaJnte, qno tmitas espersoçu de»- 
perton iim corações paulistas. 

(AT. da a.) 



— 201 — 

A luiçào desconfiada entre si e ameaçando uma roinosa se- 
])araçfto ; o Brasil dividido e retalhado ; suas províncias nào só 
desligadas de um necessário centro commum, como prenhes de 
facções ; o innocente amor da nova liberdade luctando com o 
medo do ^ elho despotismo ; o génio da discórdia e anarchia es- 
preitando e tentando os meios de estabelecer o seu throno ; o 
aever e a virtude gemendo em silencio e só confiando e conso- 
!ando-se nos reconhecidos talentos de Vossa alteza Real, — tal é 
o quadro anterior. 

Agora, Senhor, cahiram por terra todos esses monstros que 
nos ameaçavam ; o espirito publico já é unanime ; o Br»sil todo 
vae já sem duvida formar o magestoso circulo de que Vossa 
Alteza Real é o centro, e a nação inteira vae conservar sua 
desejada unidade, sem perder sua mutua independência, e o 
venturoso, o benéfico e sempre saudoso Rei, o Senhor D. João 
VI, pae commum de toda a famiiia portugueza, sentirá o doce 
prazer de ter um tal filho; e o mundo inteiro, estupefacto, ad- 
mirará o novo heróe, que ainda na verdura dos annos já escu- 
rece a gloria de todos os maiores heróes. 

Ma», ah ! Senhor, que |)ro funda raelancholia nos occupa si 
se contrasta tudo quanto noâ tem Vossa Alteza Real liberalizado 
com os vergonhosos factos da capital desta provineia no dia 23 
de Maio passado ! . . . O que nos pode consolar, Senhor, é que 
Vossa Alteza Real ha de sem duvida conhecer que esses factos 
nào são productos nem ainda do honrado povo da capital (1) e 
muito menos da provineia inteira, que está e estará sempre 
promptissima a fazer todos os maiores sacrificios pelo seu idola- 
trado Principe Regente, Defensor Perpetuo do Brasil, e único 
sustentáculo da sua cara e bem entendida liberdade. 

A' Augusta Pessoa de Vossa Alteza Real Deus guarde e 
felicite por muitos annos, como nos é mister. Ytú, em vereação 
de 25 de Junho de 1822. — Bento Dias Pacheco — AnUmio Pa- 
checo da Fonseca — António Victoriano de Azevedo — Lourenço de 
Almeida Prado — Joaquim José de Mello, 



(M Tinha raxfto » cAinara de Ytd: Os sedlcfosoa de 23 de Halo foran Jofto Carlos 
de Oejnhaasen. MfiUer. Oliveira Pinto, Qaartlm, extran^iros, Praaclcoo IgiMicfo, Costa 
Carralho, brigadeiro Moraes Leme, corocel i^erreira do Amaral, o&pilA^ Hodrtgne^ de 
Oliveira, Pedro Taqnes e Paala Macedo e poucos mais. Nfto tomaram parte na Hemardat 
o bispo e todo o alto clero paoiista. os generaes Cândido Xavier e Aronche Rendon, os 
brigadeiros Moraes Abreu, Costa Ferreira e Gavifto, os coronéis Pinto Ferrai e Neves 
de Carvalho, o dr, Ornellas, Bleater^o Prado, António Prado, José Inoocencio Alvim, 
Joaqaim Alvim, Bilva Passos e oolros. Os qoatro extrangeiro* aelma citados e os brasi- 
leiros Pranelsco Ignacio, Costa Carvalho e Moraes l^eme foram os chefes da sediçfto, qae 
tuit» hidlgiiaçfto canson aos paulistas do interior. 

{ir. dm JL) 



— 202 — 



A CamarA, em consequência da indicada deliberação, dirigia 
ás Gamaras das villas visinhas o seguinte officio: 

COPIA N.° 7 

Quando nós, enthusiasmados pelos sublimes e heróicos feitos 
de nosso Augustissimo Regente, o Sereníssimo Príncipe Real, a 
bem da causa publica, especialmente nos dias 13 e 23 de Maio 
e especialmente no dia 3 de Junho, estávamos a dirigir ao 
mesmo Augusto Senhor uma representação, interprete dos nossos 
cordiaes e ardentes sentimentos de fidelidade, amor e gratidão, 
aconteceu que recebêssemos então um officio do Senado da Ca- 
mará do Rio de Janeiro convidando-nos a dar o passo único ca- 
paz de nos salvar do actual abysmo politico. 

Passámos, pois, reunida uma assembléa geral das auctorida- 
des e cidadãos, a fazer o que consta da Acta de Vereação in- 
clusa por copia e tudo o mais que devia ser o resultado da 
mesma. 

Nos momentos presentes, em que toda a indifferença é um 
crime, seriamos muito reprehensiveis si tivéssemos a temeridade 
de disputar e estimular os patrióticos sentimentos de V. S.**, 
sentimentos hereditários na familia paulistana desde a sua ori- 
gem; é por isto que só rogamos a V. S." queiram fazer-nos a 
honra de participal-os e, sendo idênticos como esperamos, coope- 
rar igualmente, dando iguaes passos afim de que, consolidada 
a união da provincia, se consolide a união do Brasil e por este 
meio a bem entendida gi^ande união nacional, alvo a que deve 
atirar todo o membro da heróica familia portugueza. Esperamos 
também que V. S.'* se dignem de dar igual passo relativamente 
á primeira Gamara que se seguir, pedindo-lhe que dê igual re- 
lativamente á immediata, até á ultima das Gamara da comarca. 

O dever e a honra abonam o nosso proceder perante V. S."* 
e nos afiançam sua necessária cooperação. Deos guarde V. S.'* 
Villa de Ytú, em vereação de 25 de Junho de 1822. — Bento 
Dias Pacheco — A7itonio Pacheco da Fonseca — António Victoriano 
de Azevedo — Lourençfj de Almeida Prado — Joaquim José de 
Mello. 

A'8 Gamaras das villas das outras comarcas da provincia foi 
dirigido um outro officio, cujo teor consta da seguinte: 

COPIA K.** 8 

Quando esta Gamara, por parte dos seus habitantes, estava 
a dirigir-se a Augusta Presença de Sua Alteza Real para signi- 
ficar-lhe que os sentimentos deste povo são os mesmos que os 



— 203 — 

do illnstre povo da Corte do Rio de Janeiro, relativamente á 
sna representação de 23 de Maio próximo paBsado, aconteceu 
termos a gratíssima noticia de já ter sua Alteza Eeal annuido 
áquella representação pelo Decreto de 3 de Junho corrente. 

Foi tal o enthusiasmo publico desta villa por tal medida, 
como a maior que encaramos capaz de salvar a nação da horro- 
rosa tempestade em que labora, que, reunida nesta Casa de 
Conselho uma sessão extraordinária de todas as auctoridades e 
dos cidadãos mais respeitáveis de todas as classes, unanimemente 
accordou-se que no mesmo momento se dirigisse a Sua Alteza 
Real uma muito repeitosa representação, expressiva de nossa 
obediência, amor, gratidão e reconhecimento por tão importante 
beneficio, e que igualmente se communicasse esla Camará com 
as outras da comarca, convidandoas a tão louvável fim; e as- 
sim se fez. 

Certos, pois, dos patrióticos sentimentos de V. S.*", nós te- 
mos a temeridade de nos dirigirmos também a V. S."* dando 
parte deste nosso pa«so e rogando que se dignem ter a bondade 
de ]íarticipar-nos si são idênticos os seus sentimentos, como es- 
peramos, e, sendo taes, cooperar a pagar a Sua Alteza Real a 
mesma divida de gratidão e de amor de toda a província, com- 
municando-se para o mesmo fim com as Camarás dessa comarca. 

Talvez sejamos na vei-dade muito reprehensíveis ])or ousar- 
mos des])ertar em V. S.** sentimentos ae que sempre noa têm 
dado licções, e porque já V. S."* terão ha muito dado os pas- 
sos que agora nós demos; mas é tal a vehemencia do prazer 
de que estamos extasiados que não podemos resistir-lhe, e a con- 
íratemidade paulistana é o motivo que deve relevar-nos de cen- 
sura. Deos guarde a V. S.*" Ytú, em Camará, 29 de Junho de 
1822. — Bento Dias Pacheco — Anionio Pacheco da Fonseca — An^ 
ionio Vicioriano de Azevedo — Lourenço de Almeida Prado — Joa-^ 
quini José de Mello, 

OflSciou a Camará também ao benemérito desembargador 
ouvidor da comarca, que ha muito se achava fora da villa em 
serviço, o qual já tinha officiado á mesma Camará, agradecendo 
os seus passos patrióticos e honrados. 

Por toda a villa se via o prazer retratado nos semblantes 
e cada um cogitava de expressões para demonstrar o seu conhe- 
cimento pelo rasgo de sabedoria e bondade com que Sua Alteza 
Real se declarava pela santa causa do Brasil e, por conseguinte, 
l>elo bem de toda a nação. No dia 29 de Junho já se achava 
nesta villa o benemérito desembargador ouvidor da comarca, o 
que espalhou um prazer geral por ser já constantes quaes eram 
seus honrados e patrióticos sentimentos. 



-^ 204 — 

Entretanto onze cidadãos de reconhecida probidade e par- 
triotismo planejaram e realizaram a festa qae passamos a nar- 
rar com toda a verdade e individuação, e isto para prova do 
patriotismo, fidelidade e gratidão ytnana. 

Não me demorando em descrever o franco desinteresse o 
fervoroso zelo com que se prestaram para o desempenho da fes- 
ta todos quantos foram necessários para a mesma, descreverei 
sua execução no dia destinado, 30 de Junho, devendo-se notar 
que a sua própria lembrança e detalhe foram do dia 24, em que 
se generalizou a faustissima noticia, objecto delia. 

Nesse mesmo dia 30 de Junho, antes de dar-se principio á 
festa, fez o benemérito ouvidor uma nova reunião de toda»- as 
auctoridades e de grande numero de cidadãos na Casa do Con- 
selho, decentemente ornada, e ahi aquelle liberal magistrado fez 
a seguinte proclamação: 

COPIA N.* 9 

« Que torrente de doce emoção inunda o meu coração, 
transborda hoje sobre o meu rosto quando, em qualidade de pre- 
sidente desta comarca, alço a minha débil yoz para falar a pau- 
listas illustres, cuja divisa é a honra, cujo timbre é o heroísmo ! 

Que transporte do mais subido enthusiasmo esquenta a mi- 
nha imaginação, quando me recordo que, estando á testa de^ta 
comarca como seu corregedor, estou á frente do patriotismo, da 
fidelidade personalizada! 

Beneméritos Ytuanos! Eu não venho plantar em vossos co- 
rações virtudes novas e desconhecidas; longe de mim tal pensa- 
mento. Seria até ardimento meu contemplar vos como estatuas 
inanimadas que se pretendam electrizar, quaes tochas apagadas 
que se querem incendiar. Não; de longe vi o vosso bem enten- 
dido, enthusiasmo, de perto venho applaudil-o; de longe vi o 
vosso amor, fidelidade e adhesão extrema ao Augusto e Incom- 
parável Principe Regente, o immortal Senhor D. Pedro de Al- 
cântara, de perto venho hoje fazer-vos sensivel minha cordeal 
congratulação, venho entre os mais ternos abraços assegurar-vos 
que o vosso nome será nos fastos do Brasil, atravez de todas as 
idades, pronunciado com respeito e ouvido com admiração. 

Oh! A ninguém é desconhecido que vós respeitaes e até 
adoraes o Augusto Principe Regente, e com que sobeja raz&o! 
Elle, com braço poderoso, quebrou os ferros que outrora vos al- 
gemavam; Elle esmagou os grilhões com que de longe vos 
ameaçavam; Elle dissipou em um só dia, oh dia immortal! por 
seu decreto, todas as facções internas, que pretendiam desunir- 



— 205 — 

TOS, enfraquecer-TOs e, por fim, dilacerar-yos ; Elle ergueu e le- 
Tantou o majestoso edifício da nossa liberdade o independência! 

Oh, Brasileiros, caros compatriotas! Nunca mais sereis es- 
cravos, nem vis colonos! Graças vos sejam dadas, oh Jovem 
Augusto! Vosso nome no templo da Immortalidade terá sem du- 
vida o primeiro logar, a par dos Titos, Trajanos, Antoninos, 
Pedros e Henriques! 

Ah! Senhores! Si nos cumpre, respeitando as leis que nos 
devem governar, reconhecer um poder supremo que as faça exe- 
cutar, respeitemos e proclamemos com unanimidade de senti- 
mentos e com uma só voz: — Viva a nossa Santa Reli{iiÒo! Viva 
o Senhor Dom João VI, Rei Constitucional do Reino Unido de 
Portugal, Brasil e Âlgarves! Viva o seu Delegado e digno Filho, 
o Príncipe, a gloria immortal, o Perpetuo Defensor do Brasil! 
Viva a Serenissima Prínceza, digno renovo da immortal Maria 
Iherezaf Viva a Assemhléa Legislativa, que já se vae vistallar tio 
Brasil/ Vivam os heróicos Brasileiros ! Vivam os honrados Ytuor' 
nos e todos os habitantes da comarca, que marcham pela estrada 
da honra e do patriotismo! Ytú, 30 de Junho de lá22.— O De- 
sembargador Ouvidor da Comarca, João de Medeiros Gomes. 

Findo este acto seguiram todos para a Egreja Matriz, onde 
eelebrou-se uma solomne missa em acçào de graças pelos emi- 
nentes beneficies concedidos por Sua Alteza Real ao Brasil, e 
depois delia recitou o padre-mestre Marcondes, guardiào do convento 
de S. Luiz, nesta villa, uma eloquentíssima oração, em que sedei: 
xavaassaz ver ofogo do seu patriotismo e gratidão, terminando tudo 
com solemne Te Deum, muito majestoso e devotamente cantado. 

Concluída a solemnidade religiosa, três membros dos onze 
da sociedade, e entre elles o nomeado presidente da mesa, ío* 
nm rogar ao benemérito ouvidor que fizesse a honra de tomar 
essa presidência, como assaz digno pelos liber*^es e generosos 
sentimentos que fazia notórios. 

A*s 2 horas da tarde, ao signal de uma gyrandola de fogo 
(com que também se assignalaram os mais actos) se vieram reu- 
nindo os convidados, que eram recebidos por uma com missão de 
três membros na casa do banquete, que devia começar ás 2 hof 
nw e meia. Continha essa casa três grandes salas, seguidas, ri« 
camente ornadas de sedas e damascos, com muito gosto dispos- 
tos. A primeira era destinada para a recepção, a outra para o 
doce e outra para o jantar. Nesta se viam, do lado direito e 
debaixo de ricas cortinas de sedas e artificiosa armação, o re- 
trato de Sua Magestade El-Rei, o Senhor D. João VI, e de ou- 
tro lado o de Sua Alteza Real, o Sjnhor Príncipe Regente, 
guarnecidos de flores, sedas, galões, etc., tudo de óptimo gosto. 



— 206 — 

A' hora marcada deu parte a commissào respectiva ao pre- 
sidente da mesa que podia dar principio ao jantar, e tomando 
este o seu assento, assim como o vice-presidente e convidados, 
abriu o presidente o jantar com o seguinte discurso : 

COPIA n/ 10 

« Illustres Compatriotas ! O dever e a gratidão hoje nos re- 
únem neste logar para celebrarmos os heróicos feitos do nosso 
Augusto Regente, Constitucional e Perpetuo Defensor, o Sere- 
nissimo Principe Real. A indifterença pelos grandes benefícios 
que, nos dias 9 de Janeiro, 13 e 23 de Maio e 3 do corrente 
Junho, dias sempre memoráveis que elle prodigalisou ao Brasil 
(1), seria um crime e por isso incompativel com o nobre ca- 
racter paulistano, sempre nohre e constante, mas fiel e grato. 

Eu lanço, cheio ae prazer, as minhas vistas sobre toda esta 
illustre assembléa e minha alma se transporta de jubilo vendo 
brilhar em todos os semblantes aquella doce alegria que só a 
gratidão e o patriotismo sào capazes de inspirar. Não é novo 
este nobre enthasiasmo no povo ytuano, que tem sempre mar- 
chado pela espinhosa vereda da justiça e da honra ; cumpre-nos, 
portanto, Senhores, nunca jamais recuar, nunca jamais esfriar. 
O tempo insta, os benefícios desafíam, a própria felicidade esti- 
mula. Seja sempre o nosso único norte esse joven Heróe dos 
nossos dias, esse respeitável Pae, esse generoso Amigo, esse 
salvador do Brasil, digo, esse immortal salvador do Brasil ! 

Dêmo-nos, pois, hoje. Senhores, dêmo-nos com toda cor- 
dialidade, mutuamente, os parabéns pela nossa ventura; ratifi- 
quemos nossa fídelidade, juremos nossa eterna constância e so- 
bretudo dêmos por nossa conducta um exemplo que desperte nos- 
sos caros vizinhos e confunda nossos detestáveis inimigos. Beria 
uma temeridade lembrar a esta illustre asembléa a devida mo- 
deração . 

Dêmos, pois, principio á festa.» 

Nos competentes logares foram propostas e feitas as segxiin- 
tes grandes saúdes, todas respondidas pelo coro da musica, com 
sua quadra allusiva, e por g^Tandolas de fogo, tudo na forma do 
plano predisposto. 

(1) No dift o de Janeiro de 1822 D. Pedro, sccedendo aos votos dos brasileiro*, de. 
claroa que ficava no Brasil. Pol o primeiro passo dado no caminho qae devia nos levar 
Á independência. No dia 18 de Maio aoceiton elle o tltalo de «Defensor Perpetao do 
Brasil», qne lhe foi olfereoi lo pelo povo e tropa do Rio de Janeiro • ratificado pela 
oamara manicipal. No dia 23 de Maio fes o Principe pnblica e solemne promessa de 
convocar nma Assembléa Constltninte, qae de facto oonvocon por Decreto de 3 de Janbo, 
tndo do anno de lS2t, 

{N. da R.) 



— 207 — 
I 

Á SOBERANIA DA KAÇAO 

Viva, gritemos 
Com energia, 
A nacional 
Soberania. 

II 

A BL-REI 

Viva o saudoso 
Sexto Joào, 
Que se venera 
De coração. 

III 

Á SUA ALTBZA REAL 

Do Brasil viva 
O Defensor, 
O Pae, Amigo 
E Libertador. 

IV 

Á ASSEMBLÉA BRASILIENSE 

Viva a suprema 
Nossa Assembléa: 
Illuminada 
Seja de Astréa. 

V 

 UNIÃO DOS DOUS HBMI8PUBRI0S 

D'ambos os mundos 
Viva a uni&o: 
Seja uma sempre 
Toda a nação. 

VI 

Á TODOS QUAVTOS DETESTAM O DESPOTISMO 

Viva quem jura, 
Inabalável, 
Ao Despotismo 
Guerra implacável. 



- 208 - 

Todas estas quadras foram cantadas em musica própria, sen- 
do summamente notável o ^reral entliiisiasmo com que foi ap- 
plaudida a «Saudd» do nosso amabilissimo Rebente, em cuja oc- 
casí^ se descobriu o seu retrato, bem como o de Sua Majestade 
na segunda «Saúde»; e findas estas grandes, que foram feita? do 
pé, declarou o presidente que se podiam fazer as saúdes }>arti- 
culares, fazendo-se-lbe logo a primeira, que foi proposta pelo 
vice-presidente. 

Entre as baudes particulares foi unanimemente applaudida, 
com o mais vivo prazer geral, a saúde : «Aos dois respeitáveis 
Paulistas, que tanto bonram e tanto têm servido a Provincia e 
ao Brasil, o Illustrissimo e Excellentissimo Senbor Ministro de 
Estado dos Negócios do Reino, José Bonifácio de Andrade e 
Silva, e o Illustrissimo Senbor coronel Martim Francisco Ribei- 
ro de Andrada». Também foi muito applaudida a seguinte : 
«Aos II lustres Deputados ás Cortes desta Provincia e delles par- 
ticularmente aos que sào de Ytú.» (1) 

Findo o jantar, levantou-se o vice-presidente e recitou o 
seguinte discurso : 

COPIA N. 11 

Si a bonra e a gratidão, Senbor Presidente e muito respei- 
táveis concidadãos, si a bonra e gratidão sdo o melbor orna- 
mento das almas nobres e si estas virtudes ardem em nossos 
corações, devíamos sem duvida patentear as demonstrações de 
jubilo que boje temos manifestado. 

Um Príncipe, grande por sexi sangue, grande por suas ac- 
ções e muito maior por suas virtudes, tendo a mira na felicida- 
de de seus povos, atravez de mil perigos lança a pedra funda- 
mental da gloria brasileira. Debalde tramará o impio partido 
da discórdia, tentará mil vezes contaminar as almas bem forma- 
das ! Elle verá em uma perpetuidade eterna consolidada nossa 
liberdade e independência, sem quebrar-se a nossa uniào *:om os 
portuguezes da Europa, nossos patriarcbas, nossos irm&os, nos- 
sos amigos. 

O Brasil, Senbores, vós o não ignoraes, offerecia um quadro 
sombrio e assustador: a cada momento vulcão infernal amea- 
çava suas bellas províncias ; espíritos dominados pela discórdia 
forjavam a soa mina, que parecia inevitável ; a náo do Esta- 



(1) Doi deputado» pMilItUu ás CortM de LIsWft, Ptiria Bonsa e Paes Barros eram 
ytoanos e conliados, « Peljó. filho de 8. Paalo,iMMaTa em Ytú, tendo pequena lavoura 
em Campinas. Doe deputados i Assembléa CoBstitainte eram ytaaoos o mesmo Pania 
Booia e José Corrfta Paobeoo e Bfiva. 

(AT. áa R ) 



— 209 — 

do flactaava em nm oceano que, em cada onda, oferecia um 
cachopo terrivel de sua perda ; n naçc\o, entre suspeitas, receava 
o jugo de quem o trahia e o cidadào honrado, em silencio, ge- 
mia |>ela desgraça de sua pátria (1). Tudo, Senhores, parecia 
cavar a nossa ignominia, a nossa ruina ; os pulsos, ainda roxos 
das infames algemas com que ha três séculos nos opprimiu o des- 
potismo, não se viam livres de novos ferros que artiâces mais 
hábeis nos preparavam. Em uma palavra : nós nos víamos no 
ponto de soasobrarmos com o peso de nossos males e de sermos 
talvez contados no numero das províncias extrangeiras e o no- 
me «Brasil», no correr dos tempos, seria esquecido na historia 
das nações e os nossos filhos, com saudosa memoria, se lembra- 
riam sem fructo de seus antepassados. 

Mas, ah ! Senhores ! Graças ao Soberano Arbitro dos Im- 
périos, à» noites tenebrosas succederam dias risonhos e aprazives; 
as masmorras de opprobrios sucumbiram para sempre ; nós nâo 
seremos mais escravos Sua Alteza Real, seguro, vive entre nós ; 
receios de uma invertida e tenebrosa politica já se desfizeram ; 
possuímos com toda a segurança um Garante Augusto e em to- 
dos sentidos respeitável de nossa integridade, de nossa ventura 
e de nossa gloria. 

Um encadeamento de successos, circumstancias pouco criti- 
cadas, prejuízos inveterados, paixões particulares e mil outras 
cousas, que ficam em silencio, deram sem duvida motivo aos fa- 
taes decretos de 29 de Setembro (2). O brasileiro honrado en- 
carou sanhudo este passo, que o conduzia á t»ua infame degra- 
dação ; o espirito publico se desenvolve rapidamente e o campo- 
nez pacifico se toma logo bravo soldado ; prefere a morte á es- 
cravid&o ; o som estrepitoso das armas inquieta o centro das pro- 
vincias (3), voam os nossos brados ao sublime Penhor da Liber- 
dade e s&o escutados, porém nào cessam os espinhosos receios ; 
«speranças consoladoras se misturavam com suspeitas assom- 
brosas. 

Foi nesta lucta de idéas e paixões, foi neste estado de con- 
traste, que resoaram em nossos ouvidos as memoráveis delibera- 



(1) Pmrece oontradlotoriA etia afllmi tçfo oom o qne atru se diste, porqne fonun oe 
poTtag^nesas. chamados «oosees Irmios e «mf^os», qoe rednstram o Brasil a este mísero 
estado. Adeaate se procara ezpl'oar a appareate coatradfoçfto. 

(2) Bio desu data os decretos das Cortes de Lisboa fhioelonando o Brasil e dando 
is*fraoçOas eommaadaotes militares indeneadeotes do Prineipe Regente e só sujeitos ao 
fOTenio portngves. 

^ Refere-ee á revolta militar do general Arniec e ao aaxUio mandado a D. Pedro 
feios i»aiiUeta«. 



— 210 — 

coes do Decreto de 3 do corrente ! Oli prazer ! Oli gloria ! 
Oh gratidão ! Uma Assembléa Legislativa no Brasil ! Ura Prin- 
cipe offerecendo a vida a bera da naçào ! Ah ! Senhores ! Eu 
não tenho expressões que assaz manifestera raeus sentimentos !... 
Ministros infames da intriga, fugi, fugi espavoridos !... Frustra- 
ram-se vossos sinistros e horrorosos inventos ! 

Pátria minha ! Alça majestosa frente ! Extende generosos 
braços a nossos irmílos ! Consolida o grande negocio da unÍ2\o I 
Conheça o mundo que portuguez e brasileiro devem ser syno- 
iiymos. Si duas mil léguas de oceano dividem suas pátrias, 
sagrados direitos de amizade fraternal estreitem e liguem seus 
corações heróicos. E' sem duvida desta uniào mysteriosa que deve 
nascer a honra nacional ; é desta unino, nunca interrompida, 
que deve emanar o bem a todos nós e a nossos filhos : sào es- 
tes laços politicos que desfazem os planos de ávidos e orgulho- 
sos extrangeiros que sobre as cinzas da nossa mina geral ten- 
taram edificar os alicerces de suas prosperidades (1). 

Pezemos, pois, honrados Cidadílos, a importância do seme- 
lhante beneficio, do qual pendia a sorte de nossa i)atria. Nossos 
direitos garantidos, uma lei justa e regulada, segurança pessoal, 
igualdade politica, punição i^ara o crime, premio para a virtude: 
eis aqui a torrente de venturas que esperamos. Já podemos 
lançar os braços aos nossos queridos filhos sem susto de que ve- 
nham a ser victimas do capricho e da ambiçào desses monstros, 
cuja memoria será sempre odiosa á mais remota ])osteridade, pois 
elles já crescem na época brilhante da liberdade brasileira. 

Compatriotas ! Seremos insensiveis aos altos beneficies com 
que nos enriquece o nosso amadc Regente ? Nao o possível . . . 
Marchemos, pois, confoi*mes na estrada da honra e da fidelidade ; 
soltera-se os diques do nosso enthusiasmo e do nosso reconheci- 
mento. 

Príncipe Augusto ! Si eu tivesse aquella eloquência que 
tantas vezes, trovejando nas tribunas de Roma, salvou a pátria 
das mãos de Ímpios i)arricidas. Vós conheceríeis. Senhor, qual a 
minha ternura, minha fidelidade e minha gratidão ... Mas si esta 
me foi negada n?lo me resta mais sinSo protestar perante Vossa 
EflSgie, perante esta Assembléa, perante a Nação, perante a Ter- 
ra e os Céos, que emquanto circular em minhas veias a ultima 



(1) B«tai Allosôofl estAo om Unto obsooras e podom se roferlr tanto ás Cortes de 
Lisboa, que tent«Tam recolonizar o Brasil, como aos extrangeiros bernardislat do governo 
de H. Panio, qno expulsaram dolle os paulistas o se fizeram exclusivos senborcs da 
«dmlaistraç&o da província, provocando a reaç2U) dos municípios do interior. 

(iV da i?.) 



— 211 — 

gotta do meu sangue, ella se derramará sempre por VÓ5, Senhor, 
o melhor de todos os Príncipes, o precioso penhor da nossa glo- 
rio, o poderoso sustentáculo da liberdade brazileira. 
Assim o juro ! » 

Com tal energia e enthusiasmo foi recitado este discurso 
que, findo elle, sentiu-se electrizada a assembléa, que gritou a 
um tempo : «todos juramos», concluindo com repetidos vivas ao 
salvador da liberdade do Brasil e, finalmente, com o Ilymno 
PaulistanOy sendo uma scena tocante ver as expressões de amor 
e gratidào que em todos os semblantes transluziam. 

Seguiu-se logo a mesa de doce e antes de principiar-se 
pediu o reverendo ecclesiastico padre Pedro da Annunciaçào Xa- 
vier licença ao presidente para proferir um bem trabalhado dis- 
curso, análogo aos acontecimentos políticos do tempo, desempe- 
nhando-o com toda a força. A* noite bellissima illuniinaçào dei- 
xava ver os retratos de Sua Majestade e de Sua Alteza Real, a 
quem saudaram muitos, entre os quaes alguns reverendos eccle- 
siasticos, com obras poéticas, a que sempre respondia a musica 
com peças próprias, preenchendo-se o tempo com outros con- 
certos harmoniosos e entretendo-se a companhia, ora assistindo, 
ora applaudindo das janellas aos instrumentos da banda do Ee- 
gimento, que na rua, entre innumero 2)ovo, tocava o hymno, ge- 
ralmente acompanhado. 

Toda a casa tinha, dentro e fora, geral e vistosa illumina- 
çào, illuminando-se também, espontaneamente, a casa da Gama- 
ra e muitos outras da villa. 

Terminou-se tudo quasi á meia-noite com esplendido chá, 
sendo notável em toda a funcçíio a profuzáo e a magnificência. 
Assistiram á primeira mesa mais de sessenta cidadãos e depois 
muitos outros e por fim numerosa pobreza, de propósito convida- 
da, havendo ainda mnitas sobras que todas se repartiram e man- 
daram a pobres e dando-se de mais a mais, individualmente, es- 
molas pecuniárias, e até lançando-se das janellas da sala de doces 
grandes porções delle á plebe na rua, e reinando sempre a maior 
moderação. 

Concorreram á mesa todas as auctoridades, táo conhecidas 
por sou franco patriotismo. Nesta reunião appareceu de sobra o 
fogo do liberalismo deste honrado povo, cuja grande paixão é 
«Ódio aos desastrosos factos da Capital» (1; e, por conse- 



(1\ Rdforo-te aind» á Bêmiria d^ Pranciâco Igaaolo. qne, libado a varlot extran- 
Seirj.'* expnlsoa do governo Martlrn FrancUco o o brigadeiro JordAo, c^oQídos paulistas, 
e se eathròuizou com eUes oo podor em B&o Paalo. 

(X da R.) 



— 212 — 

giúnte «Ardkntb amor á liberdade do Brasil e ao nosso aina- 
bilissimo Regente». Tal é taniben) o espirito publico das mais 
villas da comarca, muitas dos quaes já tem participado officiai- 
mente identidade de sentimentos e de conducta e Heu desempe- 
nho a todo o custo ; tal é, nfto menor, o espirito geral da pro> 
vincia nas outras suas comarcas, e si nem todas as suas camarás 
têm oficialmente annunciado taes sentimentos é porque estão 

ABAFADAS PEI^O 8VSTEMA DC TERRORISMO BNTHRONIZADO B DOMI- 
NANTE NA Capital, consolando-se os seus honrados cidadãos em 
gemer em silencio, á espera do seu idolatrado libertador, e em 
appiaudir os esforços dos seus impávidos irmàos da comarca de Ytá. 
Nem outra cousa mais se podia esperar dos descendentes de 
um Amador Bueno e de mil outros heróes que tanta gloria de- 
ram ao nome paulistano. 



FIM. 



Oeynhausen 



No segundo dos seus interessantes artigos sobre o senado do 
Império, escreveu o Estandarte Catholico, em sua edição de 1 
do corrente : 

«Entre os senadores do Ceará citaremos o marquez deAra- 
« catv, Oyenhausen Gravenburg, cuja fidelidade inabalável á 
« pessoa de D. Pedro I levou-o a resignar a sua curul, afim de 
« acompanhar o monarcha ao exilio, e celebre como capitào ge- 
neral de varias partes do Brasil.» 

Permitta-me esta illustrada redacção algumas linhas sobre 
Oeynhausen, a quem tanto maltrata o ei-udito historiador pau- 
lista sr. dr. A. de Toledo Piza, em seus luminosos e parciaes 
estudos, ultimamente publicados no Commercio de 8. Paulo, 

O escriptor do Estandarte Caiholico escreve erradamente 
Oyenhausen-, o mesmo fizeram Hercules Plorence, em seu Esho- 
ço da Viagem do cônsul Langsdorff, publicado na Revista Tri-- 
mensal do Instituto Histórico do Brasil (1) e seu traductor. 

Não admira; quando na própria secretaria do governo de 
S. Paulo existem cópias officiaes com aquella orthographia viciada. 
Mais tarde, o visconde de Taunay, em 1895, em um estudo 
histórico que me remetteu sobre esse governador, estudo de sum- 
ma importância, destinado ao meu malíogiado 8» Paulo Histórico, 
corrigiu o erro e explicou a traducção com grande abundância 
de erudição. — «Deve ser Gravenherg e não Gravenburgit, diz o 
visconde de Taunay. Entretanto o dr. João Severiano escreve 
Gravenherg. — Gravenherg é uma povoação perto de Krems, na 
Áustria. 



í\) Eshoço ds vlRíTPm feita pela sr. de Iianfcsdorfl no interior d^ Brasil, deide Be- 
terobio deU2.'> até Março de lí-iO. Kscripto em ori»rín-l francez pe'o 2.» dcsenh-sta 
da Cfmmi^hSio scientifica ro»sa Hercules Florence e traduzido por Alfredo de Escra- 
gnolle yi*v^*y 

Vidí» / r^-nléã Flor*w$. por Eatevam Leílo Bonrronl, 1 vol. de 760 pagtf., typ. An- 
prade ^iCliu & Ccropautaia, B. Paulo, 1901. 



— 214 — 

Nos bandos e editaes constantes (por cópiaj do arcbivo da se- 
cretaria do governo, lê-se ora Grevemhxirg, com m, ora GreveU'-' 
hurg^ com n. 

Saint-Hilaire, que viu a assignatura autographa do illustre 
brigadeiro, attesta ser — Oerjnhausen. 

« O nome ffiynliausen é con*^tantemente citado errado, pon- 
dera o visconde de Taunay em a nota 2, à pag. 54, de seu cu- 
rioso e attrahente livro sobre A Cidade de Maito-Gi^osso (antiga 
Villa Bella), pondo-se o y antes do c, o que im2>ossibilita o diph- 
tliongo allemáo cey ou melhor õy.» 

Dever-se-ia entào escrever Òynliausen, com õ grande tra- 
mado. 

Joílo Carlos Augusto de Oeynhausen Grevenburg, afilha- 
do da rainha D. Maria, governou o Ceará de 1799 a 1806, 
e o Matto-Grosso, de cuja capitania tomou posse a 18 de No- 
vembro de 1807, em Villa Bella : governou 11 annos, 1 mez e 
21 dias ; foi seu oitavo governador. 

Fora hábil administrador nas colónias portuguezas, onde 
grangeou fama, que ainda perdura, bem como em Matto-Grosso, 
onde «deixou excellente nome, o que nHo aconteceu com o fa- 
tal Francisco de Paula Magessi Tavares de Carvalho, cuja lem- 
brança ainda hoje é ominosa a todo o Matto-Grosso e princi- 
palmente á cidade desse nome.» 

«Oeynhausen, escreve Augusto de Saint Hilaire, de feição 
gei-manica, pois era filho de um conde allemílo e de uma se- 
nhora portugueza de alta gerarchia, tinha educação aprimorada, 
falava bem francez e mostra va-se homem de sociedade (de bonne 
compagnie)f embora um tanto desleixado no trajar. Fez excel- 
lente administração em Matto Grosso. 

Todo o contrario fora o marechal de campo Francisco do 
Paula Magessi Tavares de Carvalho, valido do conde de Linha- 
res, especie de gigante com uma cabeça redonda em pescoço 
muito curto, brutal, de maus custumes e casado com uma mu- 
lher, com quem vivera muito tempo amancebado. 

Foi tomar conta da sua capitania acompanhado de uma 
chusma de verdadeiros salteadores, estado maior que no cami- 
nho praticou xim sem numero de tropelias, tornando-se também 
notável a mulher pelo espirito de baixa ganância a mandar ven- 
der em Goyaz fazendas. Afinal foi ignominiosamente expulso de 
Cuyabá quando se proclamou a independência.» (1) 



(1) Vide A. Saint HlIaire, Xoyace dans Ict rrctfrc» de SaM raul ei Saini$ Cathê- 
fim, pags. 278 e 279, tomo I. 



— 215 — 

A 14 de Julho de 1817 foi o dr. Joáo Carlos nomeado para 
o íToverno de S. Paulo, do qual tomou posse a 23 de Abril de 
1819. (1) 

Si nas possessões portuíruezas, no Ceará e em Matto-Grosso, 
JoJlo Carlos deixou boas tradições de sua administraçAo, melho- 
res ainda deixou-as em Sfto Paulo, em que jiése a meu erudito 
ami^o e mestre dr. A. do Toledo Piza; em S. Paulo, onde, re- 
fere Sainte^IIílaire, (2) — auetoridade incontestável, pois conheceu 
pessoalmente a Joíio Carlos — «mosti*ava-se em tudo o pae do seus 
jurisdiccionados.» 

Servira primeiro na Africa como disse, com grande brilhan- 
tismo. Depois de proclamada a indepencencia, paua o que muito 
COOPEROU EM S. Paulo, foi nomeado visconde o marquez de 
Aracaty. 

Quando a 22 de Janeiro de 1826, o primeiro imperador es- 
colheu os membros do senado, Oeynhausen o foi pelo Ceará. 

Após o 7 de Abril de 1831, (esse jçolpe de Estado civil-mi- 
litar ])rovocado, preparado e consummado por D. Pedro I), o mar- 

3uez de Aracaty acompanhou D. Pedro I á Europa e a sua ca- 
eira de senador foi declarada vaga por ter elle sabido do Impé- 
rio sem licença, — a 19 de Maio de 1831. 

Iria longe neste recordar de factos. Quiz apenas fazer uma 
rectificaçíio de nome e de datas. E aqui termino. 

O brigadeiro dr. Jotlo Carlos Augusto de Oyenhausen Gra- 
venburg é uma das figuras históricas syrapathicas dos nossos an- 
uaes paulistas. 

Brevemente mandarei a esta illustre redacção alguns aponta- 
mentos sobre este benemérito administrador. 

Xào é uma rehabilitaçào que pretendo fazer ; c apenas uma 
reivindicação. 

S. Paulo, 3 de Março de 1902. 

EsTEVAM Leão Boltiroul.- 
(Extrahido d' O Estado de S. Paulo). 



0) PliBrro. Mam, Hisi. YUI, 291. 

(2) A 8aln>Hil»Ife, obra cit., I, c»p. 7. pag. 270. 



Oeynhausen 



Pe^o ao meu illustrado amigo dr. Estevam Leào Bourroul a 
necessária vénia para oppôr algumas ligeiras objecções ao seu 
artigo publicado em O Estado de S. Paulo de hontem, com o 
titulo que encima estas linhas. 

No arcbivo a meu cargo ha centenas de documentos fir- 
mados por João Carlos Augusto de Oeynhausen, capitdo-general 
de S. Paulo de 1819 a 1821, porém nunca encontrei um só em 
que elle accrescentasse ao seu nome o appellido Gravenberg ou 
òravenburg ; portanto, se elle tinha esse sobrenome, muito rara- 
mente o empregava nos documentos oíHciaes. Em cerca de cem 
actas das sessões do governo provisório, de 1821-22, já por mim 
publicadas, vem o seu nome sem o additivo Gravenberg ou 
Uravenbourg, 

Se elle próprio fazia tào pouco caso deste ultimo sobrenome, 
nâo sei porque alguns escriptores tanto têm insistido em deslin- 
dar esta duvida sem a min ima importância. A graphia Oge- 
nfuiuseii parece antes ser um erro typographico, deixado passar 

Í)elos revisores e perfilhado por alguns chronistas, porquanto a 
ettra de Jofto Carlos não era positivamento má e em todas as 
suas assignaturas lê- se claramente Oeynhausen. 

Não maltratei o capitâo-general de S. Paulo nos modestos 
escriptos que tenho ])ub1icado sobre a historia paulista do tem- 
po; antes estou convencido de ter-lhe feito justiça. Entendo 
que elle foi um bom capitào-general do Ceará, de Matto-Grosso 
e mesmo de S. Paulo durante o regimen de baraço e cutello 
dos tempos coloniaes ; porém, em que pese ao meu distincto 
amigo e erudito dr. Estevam L. Bourroul, entendo também que 
foi um máu presidente do Governo Provisório em uma época de 



transiçào para o regimen constitucional, e dei com franqueza as 
raasões em que me baseei para formular este juizo, que nilo vae 
de encontro com o que sobre João Carlos de Oeynhausen disse 
o viajante Saint-Hilaire. 

O citado viajante affirmou que Oeynhausen fez boas admi- 
nistrações no Ceará e em Matto-Grosso, onde só deixou saudades, 
com o que estou de pleno accôrdo ; porém, em relação a S. Paulo, 
tenho algumas notas a accresoentar. 

João Carlos tomou aqui posse do governo a 25 de Abril de 
1819 e seis roezes depois, quando muito ]>ouco serviço tinha elle 
ainda prestado, chegou Saint-Hilaire a S. Paulo, no dia 29 de 
Outubro do mesmo anno. O naturalista trancoz demorou-se nesta 
capital pouco mais de um mez, gastando quasi todo o seu tempo 
em herborizações e no reparo do seu trem de viagem para se^ 
guir com destino a Santa Catharina; esteve em palácio umas 
cinco vezes, quasi sempre em companhia de mais pessoas ou em 
dia de festa e jantar politico, ou de representação dramática, 
sendo o theatro de então uma dependência da casa do governador. 

Que tem|>o, que opportunidade poderia elle ter tido para es- 
tudar a fundo o caracter do capitão-general, as suas qualidades 
de administrador e os serviços públicos realizados ? 

Não podia ter e não teve tempo para esse estudo e a sua 
opinião não pode ser de tanta valia que nào soflFra contradi- 
cta, nem o seu testemunho é absolutamente insusi-eito. 

Deixava as suas explorações nos campos e mattas dos arre- 
dores da capital para vir jantar em palácio em boa companhia; 
tinha ahi boa prosa da melhor gente da cidade '■ era fidalganien- 
te obsequiado pelo capitâo-general, que falava bem o francez, 
quando elle entendia mal, muito mal o portuguez, como elle 
mesmo confessa, tanto que nôo pôde comprehender uma poesia 
recitada por um conviva ; ficara agradecido ao capitão-general, 
que lhe deu passaporte, depois de Vavoir comblé de btmtéSj e 
transmittiu ordens a todas as auctoridades, ao longo da estrada 
pela qual elle tinha de viajar, para lui preter main-forte et liii 
fournir des vivres et dea chevaux. 

Nestas condições, elle devia ver cor de rosa tudo quanto se 
referia ao capitão-general e o seu juizo deve ter algum tanto 
de optimista. 

Entretanto, ainda estou de accôrdo que João Carlos foi um 
bom governador, emquanto governou só a j)rovincia de São 
Paulo e o regimen era do mais absoluto despostismo, principal- 
mente quando se compara a sua administração com as dos seus 
antecessores Franca e ITovta e Bt^mardo de Lorena. 



— 218 — 

Era homem afíeito ao regimen despótico, que elle sabia 
amenizar, moderar, abrandar, por sua boa educação e por um 
certo fundo de bondade natural. Foram estas qualidades que o 
tornaram estimado dos povos do Ceará e de Matto-Grosso e o fa- 
riam eji^ualmente querido dos paulistas se clle tivesse deixado 
€sta provincia nas vésperas do 23 de Junho do 1821. 

Porém, deixando-se ficar em S. Paulo, teve a fraqueza ou 
n pusillanimidade de se deixar dcpôr do poder pelo povo e pela 
força armada, sem a menor resistência ; faltou-lhe a coragem para 
se ]H)r á testa da rcvoluçilo, guial-a aos seus fins e manter o seu 
prestigio ; sem dar o menor signal de si, foi o objecto de especial 
cousideraçílo por parte de José Bonifácio, que o fez presidente do 
Governo Provisório, eleito pela revolução victoriosa, e, apparen- 
tando imparcialidade, que de facto não guardou, foi, segundo 
dizem Machado de Oliveira, Paulo do Valle, xVmerico Brasilien- 
se e muitos outros chronistas, o chefe real da celebre Bernarda^ 
que tantos males fez a S. Paulo e, talvez ao Brasil todo, pela 
influencia que exerceu sobre a dissolução da Assembléa Consti- 
tuinte e deportação de tantos patriotas, emquanto elle ia sentar- 
se na sua cadeira de senador, recebia o titulo de marquez e 
logo depois, limpando da sola de seus sapatos a terra brasileira, 
<leixava-nos ])ara sempre, para acompanhar ao Portugal o ex-im- 
perador, a quem amava mais do que ao Brasil e aos brasileiros. 

Vou citar um exemplo quo me parece vir aã rem : A fre- 
^ezia de Araraytaguaba foi elevada á villa em 1797, com o 
nome de Porto Feliz, e o seu primeiro capitão-mór foi Francisco 
Corrêa de Moraes, paulista das mais distinctas familias, bisavô 
<lo actual vice-presidente do Estado e muito considerado ])ela 
sua alta respeitabilidade, tanto que foi eleito membro do Go- 
verno Provisório que assumiu o poder cm Janeiro de 1823, não 
tendo tomado posse por velho e adoentado. 

Servia elle o espinhoso cargo de capitão-mór desde 1797, 
3\ contento dos governadores e da maior parte dos seus júris- 
ficcionados, quando, em 1821, foram juradas as Bases da Con- 
stituição das Cortes de Lisboa; ficou o capitão-mór embaraçado 
e escreveu ao governo de S. Paulo dizendo que nSo sabia como 
manter a ordem e o prestigio da auctoridade, visto que enten- 
dia que, pelas Bases aa Constituição, não podia mais metter gen- 
te no tronco e passar a palmatória nos desordeiros. Deixou o 
cargo, reformanao-se em coronel, e a sua memoria é ainda hoje 
respeitada na cidade de Porto Feliz como a de um bom cida- 
<lao e de um capitão-mór justiceiro. Como João Carlos de Oeynhau- 
sen, governava bem os povos, moderando os rigores do regimen 



— 219 — 

pelo seu próprio arbítrio e boa constituição moral ; porém, não 
era homem para se conter, de boamente, dentro dos limites con- 
stitucionaes, por mais amplos que fossem esses limites. 

Fico á espera dos apontamentos promettidos pelo illustrado 
dr. Bourroul, os quaes certamente liào de trazer nova luz sobro 
este personagenm, e, como não sou mestre em historia, nem dis- 
cipulo pyrrhonico, espero appronder alíçuma cousa mais e tar 
occasião de agradecer ao meu distincto amigo o seu inestimável 
concurso para a propagaçfio dos conhecimentos da historia pau- 
lista. 

A. DE Toledo Piza 
S. Paulo, alarvo 5 de 1902. 
(Extrahido d'0 Estado de S. Paulo), 



As cartas Andradinas 



Db 1824 A 1829. Billiotheca naciokal, vol. xrv 



Na intençào de procurar apoio solido á theoria que temos 
de formular sobre as tendências da nossa sociedade em o nosso 
livro em preparo — A psychologia do povo brasileiro, fomos lêr 
com attençào, entre muitos outros trabalhos e documentos, as 
Memorias de Drumond e as Cartas AndradiíULSyMiiVvimente tào 
pouco familiares, ao que nos parece, aos nossos escriptores e, 
muito menos, aos nossos homens politicos. Umas e outras de- 
vem ser cuidadosamonte lidas e estudadas nào somente pelos 
eruditos, como por todos os que se occupam sisudamente da 
historia do nosso paiz e doa que estào encarregados de o diri- 
gir praticamente pelos processos politicos. Nào se com pre- 
bende que se possa dirigir um paiz, com esperança de siiccesso 
e de uma maneira racional, sem o conhecimento profundo dos 
seus precedentes históricos, como sào indicados em suas boas 
fontes. 

Deixando aqui as impressões que recebemos da leitura at- 
tenta desses documentos, temos também em vista prevenir áquel- 
les que lerem o nosso livro da importância que attribuimos a 
tào interessantes escriptos, dos quaes muito nos serviremos para 
a elaboraçào da synthese histórica do nosso glorioso periodo so- 
cial de 1822 a 1840. 

As Memorias de Dnimond foram dictadas por seu illustre 
auctor, já ferido de cegueira, a fim de servirem de subsidio á 
historia da época mais memorável do nosso paiz. António de 
Menezes Vasconcellos Drumond foi um dos patriotas brasileiros 
que mais souberam honrar o nosso paiz nào só pela parte notá- 
vel que, desde muito moço, tomou nas nobres luctas da pro])a- 
ganda pela independência, como pelo nome e realce que lhe 
grangeou entre as grandes nações da Europa, quer no tempo 
do exilio, quer depois, graças a seus magnificos escri])tos sobre 
o Brasil, aos quaes as mais sabias associações da França, da 



~ 221 — 

Allemanha e de outros paízes cultoá tributam considerável apre- 
ço, distinguindo o seu auctor com as maiores honras scientifi- 
cas. Eleito deputado á Assembléa Constituinte e filiado ao par- 
tido dos Ândradas, com os quaes tora sempi^e perfeitamente so-* 
lidario, fundou elle e redigiu, com o desembargador França Mi- 
ninda, o famoso jornal O Tatnoyo^ para defender e suatentar a 
inde|>endencia brasileira e o governo constitucional que, como 
áqaelles, lhe parecia correr sérios perigos p^las machi nações do 
I)artido absolutista. 

O golpe vibrado pelo impera»ior contra os Ândradas e seus 
mais Íntimos partidários, o qual, dissolvendo a Constituinte a 12 
de Novembro do 1823, os mandara prender e deportar, devia 
também terir, como ferira, o illustre patriota. Druraond foi, com 
effaito, indigitado e diligentemente perseguido a fim de ser pre- 
so e seguir caminho do exilio, em companhia de José Bonifácio, 
Martim Francisco, António Carlos, Rocha e Montezuma. 

Conseguindo, porém, escapar ás activíssimas pesquizas dos 
que se lhe puzeram ao encalço, retirou-se para a Bahia, onde 
se demorou algum tempo até que, julgando-se em perigo pela 
exacerbação a que ehegara a província, emigrou para a Europa 
e estabeleeeu-se em Pariz, onde ficen a salvo do furor dos seus 
persesTuidores, 

Em 1828 pôde regressar Drumond para o Brasil, onde,con- 
fratemisando sempre com os Ândradas, que também voltaram, 
começou logo a exercer de novo larga influencia sobre os ne- 
gócios políticos. 

De|)ois de algum tempo entrou para a diplomacia e nesta 
carreira conquistou para seu paiz e para si a mais brilhante 
nomeada. 

Finalmente, após uma longa vida, cntremeiada de tantos 
successos e peripécias, cançado, cego, ajuntou, dictando, uma 
co{)ia de notas á sua biographia escrípta em 1836, umas rectifi- 
cando factos, outras esclarocendo-os, outras narrando episódios 
ricamente illustratívos, e, todas ellas, dando uma côr tào viva e 
píttoresca aos acontecimentos da época em que florescera, que a 
physionomia do seu tempo e perfíl dos homens políticos, seus 
contemporâneos, ficaram nítida e perfeitamente desenhados. 

Amizade, tâo pura, t&o devotada que Drumond consagrava 
aiM Ândradas, principalmente a José Bonifácio que, era compen- 
sação, prestava-lhe uma conflança illímítada e uma aífeição toda 
filial, se revela também ahi a cada passo em sua inteira gran- 
deza. 

A biographia de Drumond assim exuberantemente an notada 
fn publicada pela Bibliotheca Nacional em seu T&lurae XUI. 



Kào conhecemos escripto algum nosso sobro esse notabilissimo 
trabalho. Entretanto, a auctoridade e o prestigio do seu auctor, 
um dos protogonistas da época que esse bello trabalho descreve 
e elucida, dào-lhe o cunho da maior authenticidade e veracidade. 

Vamos, porém, ás Cartas Andrculinas. Estas Cartas j ao con- 
trario das Memorias de Drumond, nuo foram escriptas para serem 
publicadas, á excepçào de uma ou outra de Martim Francisco. 
Consistindo na correspondência epistolar dos Andradas com seus 
dois bons amigos Drumond e Rocha durante os seis longos annos 
de seu exillio de 1824 a 1829, foram ellas escriptas para sa- 
tisfazerem, mais quo tudo, esta necessidade que todos nós sen- 
timos de vasar nossas alegrias ou nossos pezares em coraçòe» 
bondosos que saibam comprehender-nos e sentir comnosco a» 
provações por que passamos. 

Destarte, níio se encontram nellas nenhuns laivos de arte 
litteraria, nada que se pareça com os atavios da linguagem, com 
a elegância da forma; muito ao envés, fere-nos logo a attenção 
a impropriedade determos, a incorrecção da phrase e, algumas 
vezes mesmo, a inconveniência do modo de dizer, como, com 
raz&o, notou um distincto escriptor nosso, sr. José Veríssimo. 
Taes cartas foram adquiridas do nosso operoso compatriota sr. 
dr. Mello Moraes Júnior, pela Bibliotheca Nacional que, nua- 
mente, sem nenhuma annotaçâo, as publicou em seu volume XIV. 

Sobre ellas escreveu o auctor brasileiro já citado, o sr. José 
Veríssimo, um excellente artigo sob o titulo José Bonifácio iias 
suas Cartas^ e que se encontra em seus Estudos Brasileiros pu- 
blicados em 1804. 

E nada mais conhecemos a respeito. 

O sr. José Veríssimo estuda apenas, em seu bello trabalho^ 
os cartas de José Bonifácio e em nenhum ])onto se refere ás 
de Martim Francisco e ás de António Carlos. 

Todavia, se aquellas pintam, como bem diz o brilhante es- 
criptor, a physionomia daquelle grande brasileiro, desse homem 
verdadeiramente raro, senfto único em a nossa historia, as destes 
completam também a biographia de dois varões tiio illustres que, 
como alguém o disse, seria cada um delles o maior homem do 
seu paiz se elles nuo fossem irmàos de José Bonifácio. As Cai^ 
ias Andraclinas devem, pois, ser lidas conjunctamente ; e, assim 
apreciadas, ellas nos mostram em nitido relevo essa tríade ad- 
mirável, sem exemplo nos annaes dos outros povos. 

Durante os compridos annos de residência em Talence e Bor- 
déus que abrange a sua correspondência epistolar com os ami- 
gos e companheiros de infortúnio Drumond e Rocha, viveram 
aquelles homens gloriosos sob a pressào penosa das tristes cala- 



>— 223 — 

midades que se desencadoavam sobre a sua pátria e cujas can- 
sas elles attribuiam á nefasta influencia que os absolutistas, uni- 
dos aos demagogos, conseguiram ganhar sobre o animo do impe- 
rador, á nenhuma dedieaçào e civismo dos partidos que domi— 
navam, á ignorância e incapacidade dos ministros de Pedro I. 

E, para conforto nos duros dias de desterro, para linitiva 
ás sinistras apprehensòes pelos destinos do seu paiz, entrega- 
lam-se afanosamente os três nobres exilados á leitura e ao es— 
tudo da litteratura e das sciencias em que eram profundamente 
versados. 

E que vida intellectual, intensa e fecunda, foi entílo a sua ! 

António Carlos, que era jurista, lia todas as obras novas que 
86 publicavam em Pariz sobre direito publico, direito constitu- 
cional, sobre educação e outros assumptos semelliantes, que o obti- 
nha por intermédio de Drumond. Martim Francisco, de seu lado, 
ora expunha em longa carta a Drumond para ser publicada em 
Londres, a propósito do empréstimo que o governo de Pedro I 
pretendia effectuar naquella praça, os principaes fundamento» 
que, sobre a tbeoria dos empréstimos, elle havia sustentado 
como ministro da Fazenda e que ainda entào sustentava em con- 
trario áquclla operação projectada; ora, explanava-se, em outra 
carta também destinada á publicação, sobre as condições illegaes 
o ruinosas do tractado que, por intervenção da Inglaterra, ia o 
governo do Brasil celebrar com o de Portugal para o reconhe- 
cimento da independekicia do nosso paiz. E, respondendo a Dru- 
mond sobro a sua biographia, que este lhe enviara, dizia-lhe 
Martim Francisco que conhecia seis linguas e que, entre seus 
escriptos scientificos, podiam citar-se: as suas «Viagens minera- 
lógicas» que fizeram conhecer todos os productos nacionaes da 
provincia de S. Paulo ; uma Memoria sobre as minas de ferro de 
Sorocaba, do onde nasceu a creaç^o da actual fabrica de ferra 
do Ypanema; outra sobre os meios de civilisar os índios dos 
campos de Guarapuava. 

José Bonifácio, esse acolhia-se ao seio das musas e, apezar dos 
seus achaques, desenvolvia extraordinária actividade intellectual, 
estudando tudo o que se publicava de novo sobre physica o 
chimica, historia natural, historia geral, chorographia e historia 
do Brasil; compondo grande numero de poesias, principalmente 
odes, saphicas, anacreontic^is e pindaricas, sobresaindo entre estas 
as duas famosas, a ode aos Gregos e a ode aos Bahianos que, 
em carta, remetteu a Drumond. 

Promovia José Bonifácio, sempre por intermédio deste seu 
illustre amigo, a impressão pelas revistas scientificas de Pariz 
da sua « Viagem mineralógica de Sao Paulo », de sua c Noticia 



- 224 — 

do interior da Africa », do seu « Curso do Nig^er » e dos sen» 
opúsculos sobre a civilisaçiV) dos indios e sobre os meios de «e 
extinguir gradualmente a escravidi\o no Brasil. Este ultimo 
opúsculo, publicado e prefaciado por Drumond em 1825, contém 
uma representação ou uma exposição de motivos sobre aquelies 
dois importantíssimos assumptos e o celebre projecto sobre o 
commercio da escravatura e sua emane ipaçào gradual, quo nào 
pôde ser apresentado á Assembléa Constituinte e Legislativa de 
1823, em consequência de sua dissolução. Prefaciando-o di^ 
Drumond : « este opúsculo é escripto com uma eloquência varonil, 
concebido era um plano tal de conhecimentos e experiência que 
elle leva comsigo o typo da sabedoria e a expressAo do (latriotismo ». 
Escrevendo a Drumond, que lhe cônsul tu va sobre a sua biographia, 
dizia~lhe José Bonifácio que conhecia onze lingua& e falava seis. 
Kecommendava-lhe em outra carta que guardasse com cuidado 
certos papeis que elle pretendia aproveitar para as suas Me^norias 
politicas. E assim, nessa lida continua e interessante, [procuravam 
esses verdadeiros gi'ande8 homens suavisar os amargores do 
desterro. Mas, as Cartas Atidríidinas nol-os apresentam ainda 
sob outras perspectivas. 

E' de notar-se a perfeita identidade de vistas, o pleno 
accordo de sentimentos políticos {\ne caracterisam os três irmftos 
e se traduzem em suas cartas pela mesma vehe meneia de 
expressão, ])elo mesmo tom enérgico e vibrante. A indignaçào de 
que se possniam contra o imperador e os homens que o serviani 
chega a seu auge e se exprime em apostrophes terríveis, em 
lanses violentos, em epithetos affrontosos. 

Elles n&o os estigmatisam assim t&o duramente só porqve 
tinham sido os auctores de sua desgraça, mas porque os 
consideravam algozes do seu paíz, os fautores das calamidades 
que o assoberbavam. 

A condncta immoral do imperador, os erros e de^itínos dos 
seus ministros, o cortejo de injustiças que praticavam, a derrama 
de condecorações e de titules inconsideradamente distribuídos, a 
postergaçào dos homens bons e a elevaçAo dos maus, os desastres 
lamentáveis da guerra que sustentávamos contra a Cisplatina e 
o Rio da Prata, tudo isso era o thema das graves accusaçòes dos 
Andradas, era sua correspondência com Drumond e Roclia, «m 
homens que governavam o paiz. Elssa indignaçào e a maneiía 
de exprimil-a nfto podiam elles conter nem mesmo colorir, porq«e 
isso nào se compadecia com a sua tempera varonil, franeamevte 
aberta para as fortes sensações. Causa viun -lhes as coisas do paiz 
«ma tio pungente aíHlcçào, que ellas arrancavam a José 
Bonifácio, em soa carta de Janeiro de 1826i, estts palavras éò 



— 225 — 

deaconibrto : «O' meu bom Deus, porque mè oonaérvas a vida 
para yêr o Hieu pais enxovalhado a tal ponto I » E» o que era 
mais» o ermltfto de Talenee, como elle mnitas vezes se clúimava, 
oníe n&o tinha ovtara ambiç&o sin&o a de passar os teus cansados 
dias juneto aos onterinliOB de sua terça natal^ senlia-^se já sem 
esperança, por soa edade adiantada e pelo desengano dos homens 
e do mando, de poder prestar a sen paiz o bem qne tào 
ardorosamente lhe aesejava. 

Mas, o velho patriota suspirava por vêr o seu paiz oercado 
de homens instruídos e puros qua o livrassem da adversidade 
q«e sobre elle pesava. Era isto que insistentemente pedia a 
Dromond que o fizesse, quando este se despedia por carta e lhe 
commanicava a sua volta para o Brasil. 

Os Audradas, em suas cartas, já nào se atterravam ante a 
sorte do imperador, mas sim ante a da monarchia constitucio- 
nal, que elles consideravam como a forma politica conveniente 
ao desenvolvimento de sua pátria. 

A sorte do imperador, pensavam elles, elle próprio a tinha 
decretado a 12 de novembro de 1828, com a dissoluçáo da Con- 
stituinte. Conhecem todos as celebres palavras de José Boni- 
fácio ao general Moraes quando este, ao deixal-o preso e pres- 
tes a se embarcar para o exílio, delle se despedira. E durante 
o desterro, a medida que a situaçào do paiz se complicava, que 
os males públicos recrudesciam, não cessava o nobre exilado de 
repetir que a estrella de Pedro I se offiíscava e que o dia da 
vingança popular nào tardaria. O que mais preoccupava os 
Andradas era que a queda do imperador podesse arrastar a de 
seu íilho, do throno e do paiz, se os negócios públicos conti- 
nuassem entregues aos homsns e ao partido que dominavam. 
Eis ahi porque José Bonifácio, na carta de despedida a Dru- 
mond, á qual já alludimos, dizia-lhe estas palavras : «Pobre Por- 
tugal e pobre D. Pedro, que nào teve ao lado quem lhe abrisse 
os olhos sobre a infernal politica da Europa, assim como nào 
teve sobre a bestial guerra de Buenos Ayres. Para que nào 
succeda o mesmo ao successor do throno, grite, meu bom amigo, 

Sue lhe dêm quanto antes um aio, homem de energia, probida- 
e e saber. Sem educaçào, quem nos assegura que nào saia 
um novo D. Miguel para infelicidadade sua e do império?» Es- 
ta carta é de 2 de Abril de 1829. 

Coisa notável I Dois annos depois, o homem de energia, 
probidade e saber que Pedro I nomeou tutor de seu filho foi 
José Bonifácio ! 

Qaando chegou para o imperador o dia do infortúnio, tào 
previsto por José Bonifácio, foi a este que elle denominou o 



— 226 — 

seu verdadeiro amigo, pedindo-lbe em carta, que acceitasse a 
tutoria de seus filhos, para qtie Tião vivesse elle atormentado. 

Eis ahi algumas das mais edificantes revelações que nos 
dão a conhecer as Cartas Andradinas. Estas cartas expõem, em 
desalinho e singeleza, a vida tào pura e tào heróica desses três 
grandes homens, cujos feitos gloriosos est&o associados ás acções 
mais memoráveis da nossa sociedade. 

E é por isso que ellas têm o caracter de um documento 
publico de inapreciável valia para a psychologia individual e 
para a psychologia social. 

Nós, os homens públicos de hoje, não devemos cessar de 
estndal-as com carinho, para que nos possamos inspirar nos. 
surtos de heroicidade que são o traço radiante da vida desses 
varões incomparáveis. 

Paulo Egydio. 
Março— 1902. 



(Extrahido d'0 Estado de Soo Paulo), 



Os mappas mais antigos do BrasH 



Entre o numero relativamente pequeno de mappas, repre- 
sentando os primeiros descobrimentos na America, que escapa- 
ram á acção destruidora do tempo e, boje, acbam-se conservados 
entre as maiores preciosidades das bibliotbecas europeas, ba qua- 
tro que são de mais especial interesse para o Brasil. Devem 
esta proeminência ao facto de serem os mais approximados á 
época da descoberta por Pinzon e por Cabral, em 1500, do lit— 
toral brasileiro, e de serem quasi contemporâneos destas primei- 
ras explorações e das que immediataiàente Ibe succederam nos 
annos de 1501 a 1503. De cada uma destas notáveis explora- 
ções bouve, é de presumir, um mapoa, ou esboço de mappa, ori- 
ginal e authentico, que, na pbrase âe Harrisse, serviu de pro- 
totypo para o alluvião de mappas compilados, emendados (mui- 
tas vezes para peior), augmentados ou simplificados que lhes 
succederam até os nossos dias. E* opinião corrente, entre os 
melhores conhecedores do assumpto, que, com uma única exce- 
pção, todos estes prototypos têm desapparecido e que não co- 
nhecemos hoje nennum mappa organisado debaixo aas própria» 
vistas de qualquer um dos primeiros grandes descobridores de 
nosso continente, nem mesmo copia absolutamente authentica 
desseò mappas originaes. A excepção notada ó o celebre map- 
pa de Juan de la Cosa(l), del500, justamente considerado a mais 
preciosa reliquia da cartographia americana, que, em yarte, re- 
presenta um levantamento feito in situ pelo seu próprio auctor. 

Os quatro mappas em questão e que me proponho aqui a dis- 
cutir são indubitavelmente tão approximados pelas datas aos 
seus respectivos prototypos que, ainda considerados como copias, 
podem, sem risco, ser tomados como sendo quasi tão authenticos 



(1) Este mappa. descoberto nama loja de euriot em Paris em 1832, foi adqnlrldo em 
lellio pelo gOTemo hespaohol pela qoaatla de 4.020 francos e aeha-se hoje conHerrado 
no Mosen Naval de Madrid. Tem sido rarlas veses reprodosldo e hoje acha-se aeeea- 
tível aos e^adiosos do Brasil no maipilfloo atlas que acompanha a exposlçfto feita ao 
arbitro da qnestfto do Oyapock pelo bário do Rio Branco. 



— 228 — 

como estes próprios prototypos, havendo mesmo forte probabili- 
dade que, para a maior parte da costa da America do Sul, fo- 
ram delineados com as informações verbaes ou graphicas de pes- 
soas que tomaram parte nas expedições descobridoras. 

Estes quatro mappas, na ordem provável de antiguidade, sfto : 

l."" O de Juan de la Cosa, com o nome do auctor e a da- 
ta de 1500. 

2.* O conhecido pelo nome de Mappa de Cantino^ por ter 
sido feito por encommenda de Alberto Cantino para o duque de 
Ferrara, a quem foi remettido em 19 de Novembro de 1502 (1). 
E' obra de um cartographo anonymo de Lisboa. 

o.** O mappa anonymo reproduzido sob o numero 11 no 
Atlas de Kunstmann {Die Entdeckung Amerikas)^ publicado em 
1859. 

4.' O raappa anonymo n. III, do mesmo atlas. 

A data do acabamento dos dois primeiros destes mappas 
pode ser fixada com h approximaçào de semanas, senào de dias. 
E* sabido que Juan de la Cosa s6 esteve na Hespanha em 1500^ 
entre oè mezes de Junho e Outubro, no intervallo de duas via- 
gens, e a data da entrega pelo auctor anonymo do mappa de 
Cantiiio devia ter sido bastante anterior ao dia 19 de Novem- 
bro para permittir a sua viagem de Lisboa a Homa. A data dos 
dois mappas de Kunstmann é certamente posterior a Setembro 
de 1502 quando chegou a Lisboa a informaç&o nelles represen- 
tada, e provavelmente anterior a Junho de 1504, quando che- 
garam noticias que tomaram tristemente celebre a ilha de Fer- 
nando Noronha, que n&o se acha representada nelles. 

Comparando os quatro mappas entre si, quanto ao seu 
aspecto geral, ou estylo, nota-se logo que representam dois typos 
ou escolas diíferentes. O de la Cosa e o n. 11 de Kunst- 
mann, na parte americana, sào desenhados com traços largos, 
mostrando pouca preoccupaçâo com os pequenos detalhes artis- 
ticos que os desenhadores de profissão julgam indispensáveis e 
que nào foram desprezados nos outros dois mappas, nem na par- 
te européa e africana destes. Esta diiferença é perfeitamente 
explicável pelas circumstancias conhecidas em que foram prepa- 



0) 1!>te niftppft, conservado *ié 1692 d» eatft dneM de Ferrara, fot transferido para 
Modena, onde om poaaiildor moderno o aproveitoo para forrar nm biombo. Bn 1869 
doraate nm iomnlto popnlar em qne fo'. saqneado o palácio em qne eaura gnardado (1) 
o biombo de^appareoea, sendo encontrado annos depois nnm acoo^e pelo sr. BeÒK 
director da Biblíotheoa RstenKe, qne o recolheu para e«ta bibliotheoa onde se aclui 
acmslmente. Foi roprodasido por Barrisse oas soas dnas obras Le$Cort»'B4al ei Imtn 
90gaçe$, Paris, \f^, e Thê Di9Gfmry of Hortk América, London, 1892. (^ 



— 229 — 

rados os dois mappas de Juan de la Cosa e Cantino. O pri- 
meiro, obra de um cosmographo navegante que a teve de pre- 
parar no curto intervallo de duas viag-ens e no meio de prepa- 
rativos para uma nova saida, representa o typo do cosmographo 
que é, antes de tudo, marinheiro e descobridor. O de Cantino, 
obra de um cosmographo sedentário que nelle trabalhou durante 
dez longos mezes, é do typo que era de esperar nestas condi- 
ções, e ao qual pertencem a maior parte dos mappas antigos da 
America, hoje conservados. Comparando comesses dois typos, cuja 
historia é conhecida, os dois mappas anonymos do Atlas de Kunst- 
mann, dir-se-hia que o auctor ao n. II era presumivelmente ho- 
mem nas condições de Juan de la Cosa, ou cosmographo mili- 
tante, ao passo que o do n . III era, como o auctor do mappa de 
Cantino, um cosmographo sedentário. Com tudo esta observação 
só tem applicaçào á parte americana dos mappas de la Cosa e 
de Kunsimann n. II, o que parece ter sido encaixado apressada- 
mente e por outra mão (ou pelo menos debaixo de outra inspi- 
ração) num mappa já esboçaao e parcialmente delineado por um 
profissional no desenho de mappas. 

Comparando os mappas quanto ao seu conteúdo, rê-se que 
são obras completamente independentes ; nenhum delles mostra 
ser copiado dos outros nem (nas partes que nos interessam) do 
mesmo pro to typo. O de Juan de la Cosa representa a costa da 
America do Sul desde a saliência oriental perto do Cabo São 
Roque até o promontório ao oeste do Golfo de Venezuela, sendo 
prototypo para o trecho entre este ultimo e as proximidades da 
foz de Orenoco, levantado por elle próprio na viagem de Hojada 
em 1499-1500, e copia de um mappa (ou talvez um simples ras- 
cunho) fornecido por algum membro da expedição de Vicente 
Yanez Pinzón (ou de Diego de Lepe) para a parte restante. O de 
Cantino representa estes mesmos dois trechos de modo di^rente 
no desenho e na nomenclatura, e em prolongamento para o sul dá 
uma representação pouco detalhada da costa sul do Brasil, eviden- 
temente baseada em mappa ou informações colhidas da expedição 
de 1501 que estava de volta em Lisboa poucas semanas antes da 
entrega do mappa. O n. II do Atlas de Kunstmann começa no 
mesmo promontório de Venezuela e é detalhado até um pouco 
além da foz do Orenoco, onde se despe de nomes e mais ou me- 
nos afinal de desenho também, na altura do equador, no Cabo 
São Koque, para começar de novo e continuar rico em detalhes de 
desenho e de nomes até Cananéa. Sendo neste mappa differen- 
te o desenho e a nomenclatura da costa de Venezuela e da 
Ouyana das dos mappas de La Cosa e Cantino, é evidente que 
>o auctor de Kunstmann n. II teve informações independentes so* 



— 230 ~ 

bre a viagem de Hojada nesta costa, c que nenhum detalhe teve 
sobre a de Pinzón ou Lepe, sendo porém amplamente informado 
sobre os detalhes da expedição portugueza de 1501. O auctor 
de Kunstmann n . Ill, talvez por patriotismo, porém mais prova- 
velmente por falta de informações sufficientemente detalhadas, só 
representou descobertas portuguezas, deixando em branco os tre- 
chos, já então conhecidos, descobertos pelos hespanhóes Hojada, 
Pinzón, Lepe e Colombo na costa septentrional do continente e 
nas Antilhas. . No sul do Brasil a sua representação difíere bas- 
tante da de Kunstmann n. II e de Cantino para ser referida a 
outro prototypo ou fonte de informações. 

Bem que a representação da costa de Venezuela e Guya- 
na differe no desenho e nos nomes, é quasi absolutamente certo 
que neste trecho todos os três mappas se baseiam nas informa- 
ções colhidas numa só expedição, a de Hojada em 1499 — 1500. 
O mappa authentico (o de La Cosa) desta expedição termina, 
na sua parte detalhada, ao oeste, na costa occidentíil do pro- 
montório de Maracaibo (1) e representa duas ilhas imaginarias 
ainda ao oeste deste promontório. Os dois outros mappas tam- 
bém deixam de ser detalhados neste mesmo ponto e representam 
na mesma posição uma ilha que não existe na realidade, indo o 
auctor do mappa de Cantino ao ponto de lhe applicar dois no- 
mes : Tamarique e Ilha Eigua (2). No trecho entre o seu ul- 
timo nome ao oeste e a fóz do Orenoco, Juan de la Cosa collo- 
cou 23 nomes, sendo 5 em ilhas e 18 na terra firme. Neste 
mesmo trecho o mappa de Cantino tem 9 nomes na torra firme 
e 9 nas ilhas, sendo 2 na referida ilha imaginaria ; e o de 
Kunstmann tem 11, todos na terra firme, embora represente pelo 
desenho as mesmas ilhas (Aruba, Coraçoa, Margarida, Tcstigos 
e Trinidade) que figuram nos dois outros mappas. Entre estes 
nomes os que podem ser considerados como substancialmente 
idênticos são, indo de oeste para leste, os seguintes : 

1.* — Vejiecuela (no fando de um golfo). — La Cosa. 
G. (olfo) de Uenetia, — Kunstmann II. 
2.*— Y. (lha) do Brasão—La Cosa. 
Ilha do Brasilf — Cantino. 



(1) o QUlmo nome. Santa KoDbemfa, parece Indicar que a expedíçio esteve necta 
«osta no dia 3 de Setembro. Oveido dá a data de 30 de Agosto como a em qne Hojada 
deixou a costa para ir chegar em Haiti em 5 de Setembro. 

(2) Na terra firme, em frente destas ilha», Jnan de la Cora poz o nome <8ato de 
TJerboB», que Harriíse trados Saco «forma antiga de gembrado) do yervas, isto é. lastrado 
de berva (sargasso). Dahi se pode, provavelmente, concluir que os navegantes foram 
•Bganados por ilbas finctnantes de sargasso vistas de longe. 



— 231 — 

3.*— Y. (Iba) de Gte. (Gigante),— La Cosa. 
Bha do Gigante^ — Cantino. (1) 
4.** — Mar de agua duce^ — La Cosa. (2) 
Questo lago é de aqva dolce, — Kunstmann II. 
Rio grande^ todo este mar de agua doce^ — Cantino. 
Além destes os seguintes podem ser considerados como se- 
melhantes, ou referentes aos mesmos incidentes da viagem : 
1.** — M. (orro) alto, — La Cosa. 
Monte retondOf — Kunstmann II. 
Montanbis albissimaSj — Cantino. 
2.* — P frechado, e aldeã de ttcrme, — La Cosa. 
Aide uenada (aldeã vencida conforme Harrisse) Kunstmann II. 
Costa de Gente hraua, — Cantino (8). 
o.**— rres or (4)— La Cosa. 
Três testigoSy — Cantino . 
4.* — R, de la Posesion, — La Cosa. 
— de aZe^ro^a,— Kunstmann II. 
Cabo deseadOf — Cantino. (5) 

As coincidências acima apontadas entre os três mappas são 
bastantes para justificar a conclusão de que todos elles provêm 
de uma so viagem de exploração. Do outro lado, porém, as dis- 
cordâncias ainda mais notáveis, indicam que nesta expedição 
liouve, pelo menos, três individuos que delinearam a costa cada 
um por si, applicando-lbe os nomes que lhe vieram á phantasía 
ou, mais provavelmente, os que eram correntes entre os tripo- 
lantes dos quatro navios que tomaram parte na expedição. E* 
sabido que entre estes se acharam dois cosmographos, Juan de 
la Cosa e Américo Vespucci. O primeiro assignou um dos map- 
pas e é razoável suppôr que o segundo delineou ou, pelo me- 
nos, forneceu um rascunho em que se baseou qualquer um dos 



(1) Sobre % tlh» dcsf^nadit com o nome de «Brasil» (hoje Arnba), L» Cosa tem tam> 
bem ft palavra «Gigan» qae explica a saa contracçlo «Gte.» na próxima ilha (hoje Co- 
raçoa). A ilha de Bra«Il de La Coia é o Gigante de Cantino e yice-yersa. 

(2) Foz de Orenoco 

{c) Póde-8e sappõr qne estes nomes se referem a algnm encontro hostil com os Ín- 
dios. Â posiçfto nos três mappas é substancialmente idêntica. 

(4> Barrisse traduz esta abreviaçAo por «Três hermanos». Conforme a mesma au- 
ctoridade o nome Três Testigos, qae ainda hoje se conserva, foi dado por Colombo na 
■«a terceira viagem, em que descobria a terra firme do continente no golfo da f aiia. 
B«te ultimo nome apparece no mappa de Kunstmann na forma C. depario». mappa de 
Cantino tem um rutro nome columbino, «Ia panta do Ia galera» na ilha da Trlnidade, 
que ainda hoje se conserva. 

(5) A po.*lçAo destes três nomes é na terra alta, logo ao norte da fox do Orenoco, 
onde se pode sappdr que com muita satisfacçfio a expediçXo aportou e tomou posse for- 
M*l depois da longa e enfadonha viagem (de 200 léguas conforme o próprio Bojada) na 
eocta dft Ouayana, em que nfto se achou ponto favorável para descançar. 



— 2^2 — 

outros, seja este o de Cantíno- on de Knnstinanii. Ao qne pa- 
rece, devia ter havido também na expedit^o outra pessoa, cujo 
nome a historia não tem registrado, que notou cora fidelidade e 
minudência eguaes ás dos dois mencionados todos os accidentes 
da costa percorrida e todos os incidentes da viagem. 

A historia conhecida do mavpa do Cantino permitte for- 
mular uma hypothese plausivel sobre a origem das difierençaB 
nos quatro mappas e sobre as fontes de informações em que 
cada um dos seus auctores se baseou. Conforme refere Barrisse 
(1), Hercule de Este, duque de Ferrara, pediu ao seu embaixa^- 
dor em Lisboa, Alberto Gantmo, um mappa representando as 
descobertas feitas pelos portuguezes e hespanhóes. Em Dezem- 
bro de 1501 Cantino contractou com um cartographo residente 
em Lisboa a organização do mappa desejado pela quantia de 
doze ducados em ouro. A 19 de Novembro de 1502 Cantino, 
estando em Roma, escreveu ao duque uma carta, ainda conser- 
vada, remettendo o mappa, que, portanto, devia ter sido acaba- 
do em Lisboa algumas semanas antes, provavelmente em dias 
de Outubro. 

Pela inspecção deste mappa vê-se que o seu auctor teve 
elementos para representar mais ou menos^ satisfactoriamente as 
descobertas efiectuadaB nas seguintes viagens, contando do norte 
para o sul: 

. l." A de Giapar de Corte Real, que partiu de Lisboa para, 
a região árctica, no ver&o de 1500. 

2.** A de algum explorador desconhecido na costa oriental 
dos Estados Unidos, que talvea fosse João Caboto, que, partindo 
de Inglaterra em 1498, ccmreu esta costa até á Florida, 

3.^ A de Colombo, ou outros navegantes hespanhóes, nas 
Antilhas até á ilha de Maria Galante. 

4.** A de Hqjada^ ou ovtro navegante hespanhol, na costa 
das Pérolas. 

5."* A de Pinzon ou de Lepe, na costa nordeste do Brasil, 
em 1500. 

6.*" A da expedição portugueza de 1501 na costa sueste 
do Brasil. 

Destas diversas viagens as informações que se pode chamar 
de cofficiaes», accesMveis em Lisboa, seriam apenas as referentes 
á primeira e á ultima. Entretanto, o cartographo de Cantino 
obteve de algum modo elementos para representar os resultados 
das expedições hespanholas de Colombo, Hojada e Pinzon de 



(1) DooQtaeat Itaeâft eopeennwt Vmco d» Qaom, Parto, T^69 : Tkê Déteomrp •/ 
Xoríh Áuuriemy LondoHt 1892, p. 492, 



-- 238 — 

uma maneira pouco ou nada inferior á do mappa que se pôde 
chamar oíficial de Jaan de la Cosa, e de íigarar os de uma ou- 
tra expedição, que se não foi ingleza devia ter sido hespa- 
nhola, num trecho da costa que passa por ter sido descoberto 
bastantes annos depois pelos hespanhóes. Como podia elle ter obtido 
estas informações? A hypothese mais plausível é que era cor- 
rendo 06 cáes de Lisboa indagando de qnanto marinheiro en- 
contrava por onde tinha andado, e no caso de achar um que 
tinha estado em partes não representadas no seu mappa, obten- 
do delle um esboço desta parte, ou, pelo menos, informações 
que lhe permittissem esboçala (1). Assim, nos tempos actuaea, 
um viajante no sertão do Brasil, correndo os ranchos dos tro- 
peiros, obtém elementos para representar muito regularmente as 
regiões por elles percorridas, sendo neste , caso a ^ua fonte de 
informações não um mappa prototypo, mas simples noticias ver- 
baes, ás vezes desenhos na areia, que elle próprio figura gra- 
phicamente em mappa. 

^ Em vista da facilidade com que os grandes exploradores 
mais eraevidencia naquelle tempo, como Colombo, Vespucci, Caboto, 
Magalhães e outros, passavam, ou procuravam passar, do ser\iço 
de uma das grandes potencias marítimas para outra, nào é de 
extranhar que o nosso cartographo conseguisse encontrar nas 
praias de Lisboa representantes de todas as viagens importantes 
de novas descobertas que se tinham até entAo effectuado, fosse 
qual fosse a sua bandeira. Para o fim que elle tinha em vista não 
era preciso que este representante fosse official, ou pessoa instruí- 
da. Um simples marinheiro analphabeto, mas intelligente e bom 
observador, podia lhe ter servido de informante, do mesmo modo 
por que o geographo, no sertão de hoje, obtém em regra geral 
melhores elementos para seu mappa dos tro()eiros ignorantes do 
que das pessoas lettradas da localidade. Seja como for, certo é 
que elle obteve dados que não provêm de nenhum documento 
escripto ou desenhado qae tenha chegado ao nosso tempo, e que 
provavelmente nunca antes tinham sido confiados ao papel. 

A comparação entre si dos diversos trechos acima apontados 
do mappa de Cantino, quanto ao caracter do desenho e da no- 
menclatura, confirma até certo ponto a hypothese acima apre- 
sentada. O trecho Corte Real no extremo norte acba-se repre- 
sentado por um modo extremamente perfunctorio, com detalhes 
no desenho que são evidentemente phantasticos e sem nomencla- 



(1) Na oplniio auotorlsada de H&riisse, Diacottrjf of North AmeHea pp. 125-133 

-kovTe, aléa ujw expedições qae se podem cbanar de «offlc1ae89. diversas partícutares 

aaolor.sadas « olandettiiias, das qnaes parte do pessoal podia ter appareddo em Lisboa, 



— 234 — 

tara alguma ; o trecho Caboto (?) é rico em detalhes de cabos» 
rios, bahias e ilhas, e contém 22 nomes ; o trecho columbino nas 
Antilhas é representado de modo que Harrisse qualifica de egual, 
senão superior, ao de Juan de la Cosa, que o tinha percorrido 
pessoalmente, e a mesma observação quanto ao desenho topo- 
graphico se applica ao trecho hojadiano ; o trecho pinzo- 
niano c também perfunctorio no desenho e sem nomenclatura, 
salvo duas inscripções descriptivas, mas tem dous j)rofundos gol- 
fos (o de Maranhão e da foz do xYmazonasV) que indicam infor- 
mações segaras de quem tinha percorrido esta costa, e final- 
mente a costa sueste do Brasil é representada de modo ainda 
mais perfunctorio no desenho e com sete nomes apenas, os quaes, 
conforme notou Harrisse, estão em lettra cursiva differente da do 
resto do mappa, parecendo ter sido accrescentados como lem- 
brança do ultimo momento. Com referencia a este ultimo trecho 
temos, na collocação da bandeira portugueza na altura de Porto 
Seguro e na inscripção que se refere exclusivamente a Cabral, 
indicações de que a costa foi figurada até ahi antes da volta da 
expedição de 1501 e que os nomes e prolongamentos da costa 
para o sul foram accrescentados quasi no momento da entrega 
do mappa. Junto á outra bandeira limitando ao norte as des- 
cobertas portuguezas na posição do Cabo S. Agostino ou São 
Koque, ha escripto por duas vezes o nome «Cabo de Sam Jorge», 
que não figura em nenhum outro mappa conhecido, nem mesmo 
no de Canerio que foi visivelmente calcado sobre o de Cantino. 
Ao que parece, este nome foi provavelmente suggerido pela coin- 
cidência do dia do desembarque de Cabral, 23 de Abril, na costa 
do Brasil, com o de S. Jorge no calendário, sendo esta uma 
lembrança do cartographo e não dos exploradores. (1) 

A inspecção cuidadosa dos dois mappas de Juan de La Cosa 
e de Kustmann II indica que estes também foram compilados por 
um processo análogo. Além da difieronça já notada no desenho 
e no estylo geral na parte africana e americana destes trabalhos, 
o primeiro destes mappas apresenta na nomenclatura americana 
difierenças de escripta indicativas de dois collaboradores na parte 
puramente material do desenho. Quanto á parte intellectual, 
ambos os mappas apresentam partes evidentemente esboçadas por 
simples informações, sem nenhum mappa anterior, ou prototypo,. 



(1> E' de presnmtr qao pelo mesmo modo o cartogrApho introduzia por sua conta e- 
rlaoo o nome «Cabo de Santa Maria» em posiçfto de corresponder approximadamente a 
«Cananor ou Cananéa» dos mappas mais detalhados da viagem de 1501. Parece muito- 
ponco proTavel que este s^a o famoso cabo de Santa Maria da entrada do ettnario da 
La Plata. Canerio» qne copion qnasi servilmente os nomes do mappa de Cantino, eUni- 
noa tanto nm como o oatro dettes nomes. 



— 235 — 

para guiar o desenhista. Assim, por exemplo, no de La Cosa a 
«liba descoberta por Portugal» indicativa da descoberta de Ca- 
bral na costa do Brasil, só pode significar que ao conhecimento 
do auctor tinha chegado uma noticia vaga desta descoberta, e a 
mesma observação pode ser feita com referencia á figura da Terra 
Nova, descoberta por Côrte-Eeal, no mappa de Kunstmann, da 
qual La Cosa parece nfto ter tido conhecimento (1). 

Também a julgar pela collocaçào, desenho e nomenclatura 
do trecho expressamente attribuido aos inglezes (viagem de Jo&o 
Caboto de 1498 ) no mappa de La Cosa, é difficil acreditar que o 
auctor tivesse á vista um prototypo esboçado pelo italiano chefe da 
expedição ou por qualquer membro da mesma. Entre os 21 nomes 
só ha 2 (Cano de Inglatei*ra e C7.** de 8, Jorge — padroeiro da Ingla- 
terra ) que suggerem uma origem ingleza, mas com redacção que 
tanto tem de portugueza ou hespanhola como de italiana. Dez 
ou onze outros nomes são portuguezes ou hespanhóes e os res- 
tantes são tào estropiados que é impossivel determinar a sua origem, 
sendo, porém, de presumir que fosse ingleza (2). E', portanto, de pre- 
sumir que La Cosa, (como o auctor do mappa de Cantino nas praias 
de Lisboa) colheu em Cadiz noticias de um ou mais dos marinhei- 
ros de Caboto e representou a seu capricho os dados obtidos no 
mappa (3). 

(t) Pelo contrario, o mappa d. III de Knnstmann e o de Pedro Reinei (n.« I do 
Atlas de Kanstmann que só representa esta parte) parecem ter sido traçados em vistA 
de um prototypo ou de informações bast%nte minuciosas e authenticas. Entro os Dome« 
do primeiro e <<s 17 dotegnndo, 3 sfto idênticos. 

(2) Observação qoasi idêntica se applíca aos 22 nomes no trecho norte-americano do 
mappa de Cantino, qne nfto tem nome alcmm qne se possa identificar com os de Jnan de 
la Cosa. mas tem um (Cabo de buena beniura) idêntico com um do mappa de Pedro Rei- 
nei das descobertas de Cdrte*ReaI. 

Julgados pela recra do calendário as representações das descobertas de Caboto por 
Jnan de ia Cosa e das de CÔrte Real por Pedro Reinei apresentam ein^rnlares coincidên- 
cias e discordâncias. Na de la Cota os nomes Cauo de 8. lohan (Sfto Jofto) e C, de 
Santa Luzia indicam a presença do descobridor em dias de Jnnlio (Í4 e 21)) e esta é pro- 
vavelmente a verdadeira data; podendo também ser em l;ezerobro (27 e15): mas Ula de 
la Trinidat e S, Origor (8. Gregório ?) indica nma data em Maio (25), C. de S. Jorge 
uma em Abril (23; e S, Xicolas uma em Dezembro (6) oo no principio de Junho (2). lo 
mesmo modo Reinei tem S. Ioham{Q. Jo&o), 8, Pedro e talves B, de Sania Citta (Luzia ?)^ 
qne oollocam a descoberta de Cõrte-Real na mesma época, em Junho, qne as de Caboto, 
nas com a B. da Concesçà ha indlcaçfto de uma data em Dezembro iH; e com o R. de 
Sam Draticisco de uma em Outubro ^4) ou em Abril {2). Kunstmann, no lII, tem tamben» 
Cabo de San antonio (IZ de Junho), Baj/a de Santa Cyria (Luzia, 25 de Junho?) e Ca6o 
de Consepeion, trazendo a mesma confusfto nas datas. Beria provavelmente temerário con- 
cluir dahl que haja confnsfto de duas ou mais viagens, sendo mais plausível a hypotheso 
de qne cadA auctor recebeu informações de duas ou mais fontes de deseg^al authenticidade. 

(3) B' bem possive! que as informações para o mappa de Cantino fossem colhidaa 
também entre o pessoal que acompanhou Caboto e que a collocaçlo do trecho em po«i- 
çfto de representar a costa da Florida e das Carolinas fosse simplesmente obra do acato. 

Dois nomes dados por La Cosa, 8. lohan e Trenidat, tem forte cheiro de ailemfto, e 
lembrando quo um companheiro de Caboto, Johan Ruysch, teve relações com cartogra- 
phos portuguezes (a parte sul americana do seu mappa-mundi de 1508 é evidentemente 
eopiado do mappa de Cantino ou de Canerio) nilo é Impossível que fosse esto o Infor- 
■unte de La Cosa ou de Cantino, ou de ambos. 



— 236 — 

PasBemos agora ao exame detalhado da parte propriamente 
brasileira destes quatro mappas, estudando separadamente ostrecboB 
da costa descobertos pelos bespanhoes ao norte e pelos portn- 
guezes ao sul. Os primeiros vem r<»presentados no mappa de 
origem bespanbola de Juan de la Cosa e nos de origem portu- 
guesa de Cantino e de Kunstmann n. II; os últimos no de Can- 
tino e Kunstmann ns. II e III, sendo que este ultimo limira-se á 
representação das descobertas dos portuguezes na Aft*ica e nas 
dua^ Américas, deixando em branco as dos bespanbóes. 

Nos dois mappas de La Cosa e de Cantino, que nas partes 
norte e nordeste do continente sul americano representam o con- 
juncto dos resultados das viagens de Hojada e de Pinzon ou Lepe, 
ou de ambos, nào ha discriminação dos trechos devido a cada 
uma destas viagens. No de Kunstmann n.** II, pelo contrario, te- 
mos nesta parte pura e simplesmente a representação do trecho 
da costa percorrido pela expedição de Hojada, sem indícios de 
informações prevenientes de qualquer outra fonte. 

Hojada no seu depoimento no processo Colombo, em 1513, 
(1) affirmou que tinha descoberto 200 léguas da costa ao sul do 
cabo Paria. Esta distancia (contada conforme as léguas da época 
|ue vêm representadas na recontrucção pelo barão do Rio Branco 
.0 mappa padrão hespanbol de 1536), daria o ponto do primeiro 
descobrimento da terra nas proximidades da foz do Oyapock, ou 
um pouco mais ao sul ; em todo caso um tanto ao norte da foz do 
Amazonas. Este ponto nos mappas modernos é um tanto mais dis- 
tante do Cabo Paria do que é o Cabo de la Vela, que era o outro 
extremo da viagem de Hojada. De completo accôrdo cora esta 
affírmação, o auctor do mappa de Kunstmann n. H representa 
um trecho ao sul do Cabo Paria um tanto mais comprido do que 
o trecho ao oeste daquelle cabo, sendo para notar que não figura 
feição topographica alguma que possa com certa probabilidade ser 
referida ao Amazonas. O desenho deste trecho da costa neste map- 
pa é bastante tosco e denteado, dando cinco indentações maiores 
que evidentemente figuram barras de rios, das quaes somente 
uma (rio de Aues) é distinguida por um nome. Destas a 
mais septeutrioual, pela sua posição com referencia ao Cabo Pa- 
ria e a ilha de Trindade e ainda mais pela inscripção referente 
á agua doce, representa indubitavelmente a foz do Orenoco. A 
que segue ao sul, com o nome do rio de Aues (Aves), deve en- 
tão ser o Essequibo, e neste caso a terceira, situada no fundo 



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(1) CiUdo na SemUncê ãu OohhíI Federai Suii$$ dom la Çueãtion dt* Drontiên dê 
\a Buifanê Françaim êt du BrêiOt p, 468. 



— 2H7 — 

àd mna grande inflexão da costa (1) deve ser o Corentyne ; a 
qoarta o Oyapock, e a quinta e nltima (bem coioo a maior) de- 
Te ser a bahia de Maricá. Conforme esta identificação o ponto 
em que a expedição encontrou primeiro a terra devia ter sido 
na Ilha de Maricá, ou no Cabo do Norte ; e, correspondente com 
esta identificação, a reenti^ncia do desenho acima referida á barra 
do Corentyne se acha eollocada correctamente a cerca de meia dis- 
tancia entre o extremo su) do trecho representado e o Cabo Paria. 

Se assim for, o mappa de Knnstmann n. U representa ape- 
nas nm pequeno trecho da costa septentrional do Bra»il, situado 
entre a barra do Oyapock e o Cabo do Norte, e assim mesmo 
de um modo (sem nomes e sem detalhes identificáveis no dese- 
nho) que pouco interesse offerece para o presente estudo. 

A sua principal importância consiste em permittir identificar 
com certo grau de probabilidade até que ponto se acham sobre- 

Fwtoe nos dois outros inappas os dados colhidos na viagem de 
inzon (ou de Lepe) aos da viagem de Hojada. 

Nos dois outfoe mappas o desenho da costa entre o Cabo 
Paria e as vizinhanças do Cabo de S. Eoque é essencialmente 
idêntico e t&o pouco caracterizado, que somente duas feições po^ 
dem ser identificadas com certeza. São estas uma grande in- 
dentação em posição correspondente á foz do Amazonas e iden- 
tificada com esta pela inscripção «rio grande» e . «todo este mar 
é de agua doce» no mappa de Cantino, e pelo nome «elmacareo» 
(pororoca) no de La Cosa, e uma outra grande indentação, ou 
golfo, mais ao sul com a inscripção c golfo fermoso» e «caui- 
bales» no mappa de Cantino e sem nome no de La Cosa. Esta 
ultima feição, pela distancia relativa, parece representar o gol- 
fo de Maranhão no primeiro mappa e o de Pará no segundo. 
Fora destas inscripçôes o mappa ae Cantino não tem nome al- 
gum neste trecho, ao passo que o de La Cosa tem cerca de 40, 
que são os seguintes, estando grtphados os escriptos com lettra 
que parece differente da corrente do resto do mappa. (2) 

Í Estes dois nomes acham-se collocados 
numa grande indentação com um rio 
mar ae sgo» aoce. i no fundo que evidentemente represen- 



ta a foz de Orenoco. 



r.* dei obpã . . . Rio dei Obispo conforme Harrisse que o 
identifica com uma das boecas do Orenoco. 



Íl) Na representaçfto desta caraoteristioa fnflexilo da oocta o mappa de Knnel 
e Cantino (onde é exa^^radai »Ao maiio saperiores ao de Jnao de la Cosa. 

(2) B' para not%r qae os nomes ^phados, sendo pela maior parte de rios on i 

éa kttrraa de rios» eabos e ithas, ivitleam maior preoeeitpaçilo geoj^raphica da parte do 
aoB aaeter do «ae os outros qae na saa maioria sfto simples desi^nsçOes descrfptlTaa. 



— 238 — 



plaia de cordoba. 
«•.• de holganca . 



tierallana 
arcafes , 
plaia anegat. 

c. de S, de^. 



Ilanos • 
motes. 



liis plmiosas, 

tierra de s. ambrosío. 



costa anagada. 
elmacareo. (pororóca)l 
c. de Stm,*' 
tierallana. 
yslas de Stelmo, 

(S. Elmo), 
mas alta la mar que la| 

tierra, 
costa piai da 



anca 



plata. 

costa da arena 



r.* de arboledos. 



costa pareja. 

m. negro. 

plaia. 

r.* negro. 

G. de orenfes 



Este pela posição corresponde ao Rio de 
le aues do mappa de Knnstmann e é 
provalmente o Esseqnibo. O nome tal- 
vez indique um desembarque neste pon- 
to, que foi seguido por um outro na 
foz do Orenoco, onde se procedeu aos 
actos possessórios. 

Arrecifes, conforme Harrisse, 

Cabo de san Diego ?, ou talvez S . De- 
métrio, cujo dia (9 de Abril) correspon- 
de melhor com o nome de S. Ambró- 
sio (4 de Abril), mais ao sul. 

Montes. Esta denominação, conforme 
demonstrou o bar&o do Rio Branco, 
refere-se aos celebres Montes d'Argent 
ao norte da foz do Oyapock. 

Conforme Caetano da Silva este nome 
indica a data de 4 de Abril, mas podia 
ser também a de 20 de Março. 



O desenho da costa e a referencia á po- 
ror oca indicam que estes nomes se refe- 
rem á foz do Amazonas e do Rio Pará. 



A primeira parte deste nome falta por 
causa de um grande rombo no mappa, 
que talvez incluísse alguns outros nomes. 

Conforme Harrisse, mas a palavra á anna 
na rcproducção do mappa dada no 
atlas do barào do Rio Branco. 



Esta palavra é assim claramente escripta 
no mappa do atlas do barUo do Kio 
Branco. Harrisse, que tinha á vista 
uma photographia do original, dá are- 
cifes. 



— 2S9 — 

r.* de sefallo buatriz, (r,** de se Judio hua cruz, conforme Harrisse) 
panta dei medano. 
c. de Sim*'. 
motes arenosas 
r.' de baziabariles 

Ílaia de arena. 
' . formoso 



s. 



C O resto do nome está destruído por um 
* * l rombo no papel. 

Logo adeante do ultimo nome da lista acima o desenho re- 
presenta uma forte inflexão da costa, quasi em angulo recto para 
o sul, e depois um longo trecho correndo a sueste até terminar 
num cabo extremamente agudo, onde ha outra inflexào ainda 
mais forte para o sueste. Entre estes dois promontórios, mas 
mais approximado ao do norte, ha a inseri pçllo ; cEste cauo se 
descobrio en ano de mil y IIII. XCIX (1499) por Castilla siendo 
descobridor viantians» (Vicente Anes). A configuração do pro- 
montório septentrional coiTesponde muito regularmente com a 
vizinhança do Cabo Sao Roque, e nenhuma duvida pôde haver 
que o informante do cartographo tinha uma idéa mais ou menos 
clara da configuração geral desta secção da costa. O mesmo, 
porém, não se pode dizer a respeito do promontório meridional 
que representa o Cabo Santo Agostinho, mas com tal exaggero 
na forma e na distancia que é quasi certo que o cartographo 
nenhuma informação certa tinha a respeito da costa ao sul do 
presente Cabo São Roque, e que só por um feliz acaso a figurou 
com uma inflexão para o sudoeste. (1) A falta de nomenclatura 
confirma esta deducção tirada do desenho. Resulta dahi ser 
pouco provável ter o informante do auctor do mappa dobrado o 
Cabo São Roque para o sul, sendo a sua representação do trecho 
da costa entre este Cabo e o de Santo A'^oâtinho, embora apre- 
sentando uma rude approximação á verdade, tão destituida de 
base certa como a deste ultimo ponto para diante, a qual é vi- 
sivelmente phantastica. Assim sendo, o limite meridional das pri- 
meiras descobertas hespanholas na costa brasileira devia ter sido 
nas vizinhanças do Cabo São Roque e não nas do Cabo Santo 
Agostinho, como suppunham muitos historiadores baseados na 
affirmação do próprio Pinzon que é suspeita por ter sido feita 
alguns annos depois que este ultimo cabo se tornou conhecido 
pelas descobertas portuguezas. Mais adeante, na discussão dos 
auctores prováveis da nomenclatura do mappa de La Cosa, se 
encontrará uma confirmação desta hypothese. 



(1) Haia adeante o mappa fígnr% outra Inflexfto para o oeste que é de pura phantaeia. 
Salvo a circamstanoia de ter acertado melhor com a verdadeira conflgaraçÃo da costa, 
nada indica qneaa oatras daas inflexOe« sejam meãos phantasticas do que esta. 



— 240 — 

O trecho da costa descoberto pelos primeiros navegantes 

Sortugiiezes acha-se perfeitamente discriminado nos dois mappas 
e K,unstmann, onde figura isoladamente, e no de Catítino, que 
apresenta uma bandeira portugueza com o nome de Cabo de 
Sam Jorge (referente como já se notou ao desembarque de Ca- 
bral), na posição do cabo Santo Agostinho, ou de S&o Boque. 
As coincidências na nomenclatura dos três mappas mostram que 
as fontes de informação, embora diversas, deviam ser referidas á 
mesma expedição, e esta não pode ser sinão a que, partindo de 
Lisboa em Maio de 1501, esteve de volta em Setembro de 1502, 
com tempo de fornecer dados ao auctor do mappa de Cantino, que 
foi entregue em Outubro ou Novembro daquelle anno. 

Comparando os três mappas, quanto ao desenho, vê-se que 
nenhum delles foi copiado de qualquer um dos outros, nem pro- 
vavelmente do mesmo prototypo, podendo haver, porém, uma du- 
vida sobre este ultimo ponto com referencia aos dois mappas de 
Kunstmann. A configuração, approximada á verdadeira da costa 
nos dois mappas de Kunstmann, conjunctamente com a riqueza 
em detalhes ae desenho e de nomenclatura, indica que este tre- 
cho foi traçado, ou ])elo menos esboçado, por quem o conhecia 
de vista ; ao passo que a configuração periPunctoria e a probreza 
de detalhes e de nomes no mappa de Cantino indicam que o auctor 
se guiou principalmente por sua própria phantasia, mais ou menos 
auxiliada por informações vagas e incompletas. Quanto ao de- 
senho, o n. n de Kunstmann é indubitavelmente o melhor e 
mais completo dos três, embora o mais exaggerado nos detalhes 
topographicos, sendo também o mais rico em nomes (1). 

Dando na lista abaixo os nomes que figuram nos três map 
pas aqui discutidos, })areceu-me conveniente accrescentar os do 
mappa de Canerio que dá uma tentativa contemporânea de cor^ 
rigir 08 nomes do mappa de Kunstmann n. U, donde são visi- 
velmente extrahidos, sendo e desenho e o resto do mappa copiados, 
pela maior parte, do de Cantino (2). 



1 ) o D. ni de Kustmaiiii ftprmenta um ooiíobo despreio do lado geogr^plrico mà 
HroT do artífltloo. Nello, nn oonsÍder«Tel trttUto da oooU (Ba TMnhança da BaMa) • 
diTonoi nomes foram sacrifleadoe para dar logar a nma il|^a oraameatal perteaceatei 
iSde dos mmos dos ventos e perfeitamente dispensatel. 

2) Na tna generalidade (e esveciatmente nas fnserfpcõee) o mappa ae»fgMido mu 
bSo datado de Canerio (L. OaUoIs ; Lê Portulan dê A'tcêlaê dê Cmmêrio^ BolletiB de la 
Bocieté de Oeographíe de Lyon, 1890, IX, p. 97), é tfto approzimado so de Cantino ^ne 
deTH ser considerado eemo nma ediçio nora do mesmo. Os dados para as corrif«»das • 
aoerescimos seriam mais faoilmeate oolliides em Pertnical do qne em Itália e é provarei 
qne. em logar de ser copiado do exemplar entresrne por Cantino ao dnqne de Ferrara, fosse 
Mite« 4e nma copia, on raoonnlio, conservado em Lisboa. NJIo é me«mo ImposslTel qne 
fosse Caberlo o anotor de ambos os maepas. argumento mais TaHoso contra esta by- 
potbese vem da maior correcçiU) no emprego da lingna portagnesa qne oaracterfsa o map- 
pa de Cantino, mas pód * moito bem ser que esu differença corra por conta de copistas 
OB i^iadantes encarregados pelo oartograpbo da parte escrípu de nm e de ontro mappa. 



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— 243 — 

Estando conservada a maior parte destes nomes e sendo pou- 
co provável que estes tenham mudado de posição, podemos tentar 
a identificação, pelo menos approximada, dos que têm desappare- 
c:do dos mappas modernos, estudando-os por trechos determinados 
pelos pontos bem fixados dos cabos Sào Roque e Santo Agostinho, 
rio Sáo Francisco, Bahia de Todos os Santos, Cabo Frio e Ca- 
nanéa . 

O cabo Silo Roque, conforme o almirante Moucliez, é um 
ponto pouco saliente e pouco notável, situado 25 milhas ao sueste 
da grande inflexão da costa á qual muitos geographos applicam 
o nome, mas que verdadeiramente tem o de Calcanhar. 

Do completo accôrdo com esta descripçao, os mappas collocam 
o nome numa secção quasi recta da costa, donde se conclue que 
o seu ponto é o mesmo de hoje e que os navegantes portugue- 
zes de lõOl não foram bastante ao norte para perceberem a brusca 
mudança de direcção que tem logai» no cabo Calcanhar. Entre 
este ponto e o cabo Santo Agostinho os dois mappas de Kuns- 
tmann collocam um mente denominado «São Vicente» e *duas lo- 
caHdadcs designadas com o nomo de «Santa Maria» com diversos 
additivos. Estas eram, provavelmente, pontos de desembarque. 

O mais septentrional, denominado Santa Maria de Agoadia 
(Aguada?) no mappa n. II de Kunstmann e datálaia (de Atalaia) 
no n. III, era provavelmente logar onde se tomou agua e levan- 
tou uma atalaia ; e o outro, Santa Maria de rápida ( n . II ) ou 
rabeda ( n. III ), parece ser nomeado em allusào ao sanctuario 
celebro pela estada de Colombo na véspera da sua memoriavel 
viagem. 

O nome São Vicente indica uma data ( 6 de Agosto ) ante- 
rior á de São Roque ( 16 de Agosto ), donde se conclue que a 
espedição de 1501, depois de avistar terra a 6 de Agosto, a cos- 
teou para o norte até o dia 16, e então dobrou para o sul, pas- 
sando o cabo Santo Agostinho a 28 do mesmo mez. Assim, o 
monte de São Vicente deve ser qualquer das pequenas ele 
vaçôes, de 100 a 130 metros do altura, conforme Mouchez, da 
visinhança de Parahyba (1), e o ponto ao norte antes do cabo 
Sào Roque, mais favorável para o desembarque e tomada de agua 
seria, então, a barra do Rio Grande do Norte. E' provável, 
portanto que seja este, a «Santa Maria de Agoada» ou «datalya» 



(1) TaWes o Cabo Branco, on o morro de 125 metros de Altnra n» soa ylzinhaoç», 
notado por Monchcz como nma baliza desta costa. nome Cabo Branco apparece, em- 
bora em posiçAo deslocada, devido á coafbsfto entre o cubo Bfto Roque e o de bnnto 
Agostinho, DO mappa de Tnrim de 153H,e tem sido conservado até hoje. Ha também nm 
raerro ao norte do rio Parahyba e nm ponco pela terra dentro qne serve de balisa e 
que podia ser o monte Silo Vicente dos mapnas antigos. 



- 244 — 

dos mappas de Kunstmaiin, alterada para «Santa Maria dn Gracia» 
no de Canerio. Ao 8ul do m^ama ponto até o cabo Santo Agos- 
tinuo, 03 pontoa mais tavoraveis para desembarque sào: a barra 
do Parahyba, o canal de Itaraaricá e o porto de P»-,mambuco 
(í\ podendo ser qualquer destes a «Santa Maria de Rabedo» 
dos mappas. Entre estes o primeiro, pela sua posiçào, cerca de 
meia distancia entre os dois cabos, corresponde melbor com a 
collocaçào do nome dos mappas. 

O nome de cabo de Santa Cruz, dado no mappa n. II de 
Kuastmann e copiado no de Canerio, ficou conservado por al- 
guns annos nos m.ippas italianos e allemies, que tiveram este 
nltimo mappa como tbnte principal de informações. Nos de ori- 
gem portugueza e hespanhola, o de Santo Agostinho do n. III 
de Kunstmann ficou preterido e a final prevaleceu. Já foi refe- 
rido o motivo provável da applicaçào pelo auctor do mappa de 
Cantino do nome Sào Jorge a este cabo, o qual se originou e 
terminou com este documento. 

Em frente deste trecho da costa e em posiçào que corres- 
ponde muito regularmente com a da ilha de Fernando Noronha, 
o mappa de Cantino traz uma ilha com o nome exqnisito de 
«Anaresma». Nenhum outro mappa anterior ao anno do 1504, 
que p.issa por ser o da descoberta da ilha de Fernando Noro- 
nha, traz esta ilha ou nome, que ficou eliminado na copia cor- 
rigida do mappa de Cantino feita por Nicolay de Canerio. 

No trecho da costa entre o cabo Santo Agostinho e o rio S. 
Francisco todos os três mappas têm o nome cSào Miguel» e«- 
cripto em varias formas, e o n. III de Kunstmann tem o de 
«Serra de S:into António». Oi mappas modernos têm um Sào 
Miguel dos Milagres ao norte de Maceió e a Barra de Sào Mi- 
guel ao sul. A posiçào, mais approximada ao Sào Francisco òe 
que ao cabo, parece indicar este ultimo ponto. O dia deste 
santo, 29 de setembro, indica que a expediçào demorou 32 dias^ 
entre o cabo e a barra d»* Sào Miguel, indo em 11 dias dabi 
á barra do Sào Francisco ('4 de outubro). As montanhas no in- 
terior visiveis neste trajecto sào, conforme Mouchess, o Morro 
Sellado (3H0 metrosj perto do cabo e as serras Forquilha, San- 
to António e Barriga (400 metros), logo ao norte de Maceió. O 
dia de Santo António (13 de Junho) nào combina com as outras 
datas da expediçào e é possível que o nome fosse dado por 
qualquer outro motivo, talvez por semelhança na forma com al- 



(l) o nome Periuuabaoo, qae oertenee a este trecho da- costa, appareee pela primai* 
r» vex nç* mappas conheoiílos. n» forma de «Pemflbaa» no n. IV do Atlas de Knnstmaaa* 
qae é attríbaido ao anno de 1618 oa 1620. 



— 215 — 

guina outra serra de Santo António conhecida pelos navegantes. 
Neste trecho da costa o nome Santo Aleixo, que se conservou 
até hoje, apparece nos mappas já citados de Kunstmann n. IV 
e de Turim. 

No trecho entre a barra do S. Francisco e Bahia, tomando 
como certo que o Punto, ou Porto, Real é a ban-a do Eio Real, 
temos para este rio o nome de «rio de Caxa», ou «caixa», con- 
forme a correcção de Canerio. Ao norte existem três barras 
maiores, as dos rios Vasa- barris, Cotinguiba e Japnratuba. 
O mappa mais rico em nomes (n. II ) dá na mesma ordem, 
de sul para o norte, «rio de pereira» e «bafra barill», parecen- 
do haver ahi uma transposição de nomes. Neste caso, o rio de 
Pereira (tíilvez nome de algum membro da expedição) seria o 
Cotinguiba ou o Japaratuba, provavelmente o primeiro. Ao sul 
do Porto Real até Bahia o mesmo mappa dá três nomes : «rio 
de sào hereonomo» (Itapicuru), «rio de ódio» (Inhambupe) e crio 
de melo» (1) (Jacuhype). A serra de Santa Magdalena da 
Graça, cujo dia (22 de Julho) também nào combina, é }>rovavel- 
mente a de Itabaiana, que se avista em toda a costa. O cmonte 
frcgoso», pela sua posiçào, deve ser o Ponto Itapuan, logo ao 
norte da Bahia. Pela regra do calendário a viagem da bana 
do S. Francisco á Bahia teve logar entre as datas de 4 de Ou- 
tubro e 1 de Novembro. 

Os seis rios do trecho entre Bahia e Porto Seguro (nome 
este que vem da viagem anterior de Cabral), sendo identificados, 
como é razoável, com os maiores que ahi existem, serào : «rio 
de S. Jacomo» (Jaguaripe ou talvez Jequirica), «rio de s. agos- 
tino» (rio de Contas), crio de s. helena» (Ilheos), «rio de cos- 
mes» (Una), «rio de uirgine» (virgens. Pardo), crio de san johan» 
(Jequitinhonha). O calendário dá as datas de 21 de dezembro 
(as 11 000 virgens) e a 27 de dezembro (Sào Joào Evangelista) 
de accôrdo com as outras desta viagem, mas os dias de São Ja- 



(1) Can«>r1o dá «mexo» que nfto melhora o sen Ido. Os mappa* de Maiollo (1519) 
e de Turim 15i3 . qae ne«ca parte copiaram pela maior parte a nomenclntiira de Knnet- 
mann n. 11. enminaram nm destes dois rios e apelKdaram o outro «Rio da Vidoa* (Ma<- 
o(W.) e *Rto da DoTida» (Tarim). O nome primitivo «ódio» e, lalvei «melo» escripto er- 
radamente por «modo», indicam provavelmente um enrontro bostil com os indgenas. que 
foi tradu2i<in «m «duvida» poral^em informado do* ioc»dentes ou tiadivíie» da viagem. 
A corrigenda d« 31 lollo nao faz sentido, quer se leia, com Harrihse, «Rio da Vtdoa^ lar- 
besto»). quer «Rio a vidova» «viuva), que vem em alguns outro* mappas. Oproirio Mai- 
oUo no seu mappa de 1527 mudou este nome para «Rio de Mezo» tirado de Canerfo. 

Bendo o dia de Hfto Jeronymo {Zv de Ketembro) anterior ao de t*fto ranoisco {4 d ta 
OuMíbro), Kohl no seu erudito e tudo dos mappas de lõ27 e Vã\i (De beiden alteai )n 
Gfnerai Kan**.. von Amerika. p. 141) opina q«e Uives nm dos trea navio» da expeuiv^e 
•6 tíveso adeauiaJo aos outros. 



— 24G — 

como (25 do Julho), Santo Agostinlio (28 de Ap^osto) e Santa 
Helena (18 de Agosto) nào combinam com estas datas. (1) 

Ao sul do Porto Se^ro a identificação torna-se difficil por 
falta de pontos absolutamente fixos. A cllba de Santa Luzia» 
do mappa de Kunstmann n. Ill é provavelmente os Abrolhos, 
e neste caso o nome da mesma santa, dado a um rio no outro 
mappa, deve pertencer á barra fronteira a estas ilhas, ou do 
Mucury, o o nome crio de brazil» a qualquer um dos pequenos 
rios Peruipe, Caravellas, Itanhaen, Jurunicii ou Craninuam. A 
posií^rio do nome ao norte do Monte Pasqual combina melhor 
com este ultimo, mas provavelmente não se deve lig:ar dema- 
siada imj)ortancia a esta circumstancia. «Barefres vermege» e 
evidentemente «Barreiras vermelhas», como Canerio interpretou, 
e estas devem snr as loí^o ao sul do Porto Seguro. Se «barro- 
sa» deve também sor lido «Barreira», é provável que a refe- 
rencia seja ás próximas á villa de Prado, e esta identificação 
combina regularmente, ])elas posições relativas, com a dada aci- 
ma, para o rio de Brasil. O «Rio das Ostras5> de Kunstmann 
n. III é presumivelmente idêntico com o «rio santa luzia» do 
outro mappa. (2) 

O n. III de Kunstmann apresenta uma ilha com três ilho- 
tas com o nome de «acenssam» (ascenção) em posiçAo a repre- 
sentar regularmente a Ilha de Trinidade, que passa por ter sido 
descoberta alguns annos mais tarde do que a data dos mappas 
aqui discutidos. O já referido mappa n. IV de Kunstmann tem 
03 nomes de «acensamy>j €air?nidaffc» e <ímartinhaz», ]>arecendo 
registrar uma descoberta verdadeira destas ultimas duas ilhas, 
copiando ao mesmo tempo como distincta a figurada no mappa 
n. III. E' provável que aqui houvesse um equivoco com o auctor 
deste ultimo. O navegante João da Nova, saindo de Lisboa em 
1501, tomou para a índia a derrota Cabral e approximou-se, mas, 
conforme Harri^se (cuja auctoridade nestes assumptos é preemi- 
nente), não tocou na costa brasileira. Voltando em 1502 trouxe 
a noticia da descoberta da ilha de Ascension na costa africana, 
sendo possivel que o cartographo, sabendo por alto desta novi- 



(1) A hypothese qoe estoi nomes Ao calendário qae dSo combioam com os coiros 
foram dados pelo umissarlo que Cabral maitdou voltar com a noticia da sua descoberta 
e que talvez andou abeirando a costa, fica cxclnida pela epocba do anno qne os mesmos 
nomes indicam. Esta é de Jnnho (Sa^to António) até Agosto (Santo Agosunhol emqQâii- 
to a referida viagem devia ter sido em Abril e Maio. 

(2) Ostras abandam em toda est% costa, mas é do presumir que o nome fosse 8Qgge~ 
rido por ama abundância extraordinária desces mollascos. Poucas milhas ao sul da bar 
ra do Mucury ha um riacho das Ostras, notado por Hartt no sua Qcology and Pk^iical, 
Qeography of Brasil^ pg. 124. 



— 247 — 

<lade collocasse a nova ilha no seu mappa, mas erradamente e, 
por um feliz acaso, em posição de representar a ilha de Trini- 
dade ainda não descoberta. Os mappas liespanhóes de 1527 e 
1529 figuram as duas ilhas de Trinidade e Martim Vaz com o 
nome de «Yls. de Santa Maria de Agosto» indicando a sua des- 
coberta em 15 de Agosto de um anno desconhecido, mas certa- 
mente anterior a 1519. 

O nomo «serra de santhome» pi*ovavelmente se refere ás 
serranias altas que do mar se avistam por de traz do cabo que 
conservou a denominação. E' possivel que este ultimo seja* o 
«cabo frio da Itama» do mappa n. III, embora este no desenho 
se ache collocado quasi em frente das ilhas dos Abrolhos. 

Neste caso um outro nome especial deste mappa cG (olfo) de 
Rodes», seria a enseada entre os cabos São Thomé e Frio, sendo 
este mappa o único que traz este ultimo nome, bem que o n. 
n tenha o cabo desenhado com vigor grandemente cxaggerado. 
Logo ao norte da enorme saliência que representa o Cabo Frio 
o mappa n. II figura uma grande barra com a denominação do 
«rio de arefens» qiie deve ser o Parahyba. O mappa de Cane- 
rio tem aqui um dos seus dois accrescimos á nomenclatura do 
n. II de Kunstmann em «Alepego (archepelago) de Sam Paullo». 
O dia de São Paulo (15 ou 25 de Janeiro) não combina com as 
outras datas da viagem de 1501, e como em outros mappas an- 
tigos (1527 e 1529) se encontra uma referencia á pescaria (baxoa 
de los pargos) é possivel que haja aqui um lapso e que o nome 
deva ser «Alepego de los pargos». Em todo caso este parece ser 
nome baseado em tradições da viagem e não em documento escri- 
pto . Pela posição, a designação parece ser destinada ás pequenas 
ilhas ao norte do Cabo Frio, mas neste caso ella devia ser collo- 
cada ao sul e não ao norte do «rio de arefens» (Parahyba). 

Logo em seguida ao Cabo Frio o mappa n. III tem o «Rio 
da Rama» (não «Ranie», dado por Harrisse), sendo esta a se- 
gunda vez que este nome exquisito apparece neste mappa. 

Ao sul do Cabo Frio vem, nos dois mappas de Kunstmann , 
a feição topographica mais bem caracterizada de todo o desenho 
da costa numa grande bahia quasi circular e fechada, cheia de 
ilhas, que tem sido geralmente identificada com a do Rio do 
Janeiro. Ella traz, porém, no mappa n. III a denominação do 
«Amgra (Angra) dos Reis:^, e Canerio, corrigindo para «baie dos 
reis» o incomprehensivel «bova de cris» de Kunstmann n. lí, 
mostra referir-se á mesma bahia. Dentro desta bahia o mappa 
n. n traz além do nome já citado, os dois outros egualmente 
exquisitos de « rio jordan » e «pináculo detencio». Tem sido 
«uggerido que o nome Jordão foi dado em allusão ao baptismo 



— 248 — 

de Christo e, sendo assim, podemos achar, por analogia, no se- 
frundo nome, uma allusào á tenta<;ào (o mappa de Turim dá esta 
interpretação na forma o «pináculo da tentaçà), applicado a 
qualquer um dos picos altos na visinbança de Angra dos Reis, 
talvez o mais imponente entre elles, boje denominado «O Frade». 
Seja como for. a occorrencia deste nome nos primeiros mappas des- 
troe por inteiro a engenhosa e plausível hypothese de Varnbagen de 
ser esta a inscripçào «Gon. Coelho detentio» (1) estropiada. 

Em seguida á Angi*a dos Reis vem «rio de sào antonio » 
(Santo Anton ?, 17 de Janeiro) no mappa n. II de Kunstmann ; 
«cabo da paz» no n. III, e « porto de Sto. Sebastiam » (20 de 
Janeiro) no de Canerio, sendo esta a segunda e ultima inteqH)- 
lação deste auctor na costa brasileira. O cabo da Paz é talvez 
o cabo Joatinga na entrada sul da vasta bahia de Angra dos 
Reis e Paraty, e o tío Santo Antonio qualquer das estreitas 
reentrâncias desta ultima. «Punta de san uincentio» (Kuns- 
tmann II), «Rio de Sambicente» (Kunstmann III), evidentemente 
se refere ao porto de Sào Vicente ou de Santos, que devia ter 
sido alcançado no dia 22 de Janeiro e que conservou o nome 
até hoje. Ao sul de S. Vicente o mappa n. III tem «Ilha de 
Goanas» que nfto vem no outro mappa e que em toda esta longa 
nomenclatura é a única palavra que apresenta alguma probabili- 
dade de ser de origem indígena. Finalmente, temos nos mappas 
de Kunstmann «rio de cananor», no n. U, e «Rio de Cananea» 
no n. III. Como na generalidade dos nomes este ultimo mappa 
é o mais correcto no emprego da língua portugueza, é quasi 
certo que a forma «Cananéa» fosse a empregada pelos primeiros 
navegantes. Sendo assim, o nome foi provavelmente aado, se- 
gundo a opinião de Kohl (2) e Rambaldi (3), em commemora— 



(I) Sobre ft mnito ditontid* qaeatfto d* origem do Doroe Rio de Janeiro é ínta^ 
ressAnte notar qn^t os nossot mappas indicam qoe raníto provavelmente a expediçlo d» 
1501 passoQ a estreita entrada desu bahia sem a perceber, ou pelo menos sem entrar 
nella. mappa de MaioUo de lítlP (?), qne é o mais antigo, entre os conservados, do* 
qne snccedeism « volta (4 de Setembro de 1I>16) da expediçAo de Juan IMas de 6oIi«. 
trás em segaida ao Cabo Frio as denomlnaçOe»: «terra de santa Inzia» (IH de Deiceni' 
bmi e «irn de eaceo» (Barrisse dá «ree-o») que X nto pód* s<>r estropiamento de «J*- 
Beiro», c mo de qnalquer outra coira. e qne no sen mappa de 1127 f i corrigido pelo 
próprio Maiollo em «geaero». O mappa de Turim (i5i:^) di «rio de paneiro» onde é 
evidente a troca de um p por um j. Neste uliimo mappa ba uma mistura de nomes da- 
dos por Solis e por MagalhAes ^ .V.o), mas como este ultimo esteve a 10 de Janeiro ba 
tot do Prata é pouco provável qne pudesse ter estado nas vizinhanças do Rio de Ja- 
neiro no dia 1 do ra^smo mes. Parece, porUnto, que o nome é posterior á vingem de 
1501 e anterior á de Martim AfTonso de Honxa em 1531. Os mappas hespanhoes de 1527 
e 15-9 nfto o irazem, mas tem no logar competente a designaçilo esquisita «R. de la 
Judia» que tanto pôde ser estropiamento de «Rio de Janeiro», como, conforme lerabrov 
Kohl. de «Danta Luxia» que vem no mappa de Maiollo e que provavelmente origína-s» 
4a viagem de Solis. 

(.) Op. cit. p. 144. 

(3) Américo Vespucci, Firenze, 1896, p. 146. 



— 249 - 

çào do primeiro Domingo de Quaresma que no anno de 1501 
cahiu, segundo Rambaldi, no dia 17 de Fevereiro. 

Em posiçào que corresponde approximadamente com a de 
Cananéa nos outros mappas, o de Cantino dá um promontório 
muito saliente com o nome de «Cabo de Santa Maria», identifi- 
cado por alguns auctores com o celebre cabo de Sapta Maria na 
entrada do estuário do Prata. Como já foi referido, a represen- 
tação das descobertas })ortuguezas é neste roappa perfunctoria, e 
provavelmente este nome, como o de «Cabo Sam Jorge», deve 
ser lançado á conta exclusiva do compilador do mappa. 

Passemos agora a considerar a questào de quem serAo os 
auctores prováveis dos diversos trechos aqui considerados destes 
mappas. No de Juan de la Cosa é quasi certo, como temos 
visto, que somente a Costa das Pérolas ( conforme a nomencla- 
tura antiga) é contribuiçào pessoal deste navegante, embora o 
seu nome figure como auctor do mappa inteiro. A representação 
da costa nordeste do Brasil só pôde ser baseada em infoi mações 
coibidas entre o ])essoal das expedições de Pinzon e de Le|>e em 
1499 e 1500, únicas conbecidab antes dn data do acabamento 
doB mappas. De facto, parece que ainda por muitos annos depois 
eram estas as únicas viagens hespanliolas effectuadas nesta costa, 
embora diversos historiadores acreditem que foi costeada em sentido 
inverso na volta da expedição de Pinzon e Solis, de 1508 a 1509. 
8obre este ponto é importante a inseri pção no mappa organizado 
por Diogo Ribeiro na Casa de Contratación de Sevilha em 1529, 
que declara que depois de uma ou duas viagens logo de])ois da 
descoberta das índias nunca mais se voltou a esta costa. Sendo, 
como é de suppôr, esta referencia ás viagens de Pinzon e de Lepe, 
o director da repartição hespanhola especialmente encarregada de 
colleccionar e coordenar os resultados das viagens de descobertas, 
não tinha conhecimento de outras, sendo de presumir que não 
as houve, pelo menos com a bandeira hespanhola. Entretanto os 
mappas de Maiollo de 1519 e 1527 e o de Turim de 1523 dão 
muito maior numero de nomes do que os mappas ofiiciaes de 1527 
e 1529, tendo poucos (mais no de Turim do que nos de Maiollo) 
em commum. E* possivel que os cartographos hespanhóes su- 

Srímissem diversos nomes do seu prototj^po, mas mesmo assim é 
ifficil acreditar que Maiollo (es])ecialmente nc seu mappa de 
1519) e o auctor do mappa de Turim não tivessem á vista um 
outro prototypo, além do que servia para os mappas hespanhóes, 
e provavelmente proveniente de outras viagens. A nomencla- 
tura entre o Amazonas e cabo São Roque, no mappa de 1519 
de Maiollo, é caracteristicamente portugueza e nada tem em com- 
mum com a dos mappas hespanhóes. E' portanto quasi certo que 



— 250 — 

antes de 1519 bouve uma ou mais expedições portug^uezas ao 
longo desta costa. Dos 18 nomes dados por Maiollo nesto tre- 
cho, Maration (corrigido para Maranon em 1527) é o presente 
Maranhilo ; Cabo O/rso, que continuou a figurar em alguns map- 
pas até 1834, é identificado no mappa de Brué deste ultimo anno 
com a Ponta do Retiro Grande^ entre as barras do Mossoro e 
Jaguaribe, e o (1. (olfo) de S. Lucas talvez desse o nome Fort 
St. Lue, ou >S'. Lucar que figura em alguns mappas francezes, 
em posiçilo de Ceará ^ Lapie 1814 ) ou de Aracaty ( Guillaume 
d'Lisle, 1703). Os nomes S. Lucas (18 de Outubro) e S. Domi- 
iiico (4 de Agosto ou 20 de Dezembro) também indicam uma 
viagem que nào era de Pinzon ou de Lepe. Assim sendo, a 
configuração e a nomenclatura tanto do mappa de Ribeiro, 
que traz esta declaração, como do de La Cosa, devem ser 
<lerivadas do uma ou de outra destas duas expedições. En- 
tretanto, os nomos, cerca de 40 cm cada um, sEo completamente 
differentcs, salvo um ou outro caso de designações puramente 
descriptivas, como plaia, tierra Uaiui o arboledcs, etc. Ainda mais 
dois mappas, os de Maiollo e de Turim, intermediários em data 
entre o de La Cosa e o de Ribeiro, apresentam outras nomencla- 
turas, tendo mais pontos de divergência entre si e com os men- 
cionados do que de coincidência. A conclusílo é obvia que bou- 
ve diversos esboços desta costa, tendo cada um a sua nomencla- 
tura própria, mas sendo todos, (pelo menos os de origem bespa- 
nhola) presumivelmente, referiveis ás viagens de Pinzon e de 
Lepe. Destes esboços, o que serviu de prototypo para o mappa 
de Ribeiro devia ter sido considerado oflScialmente como sendo de 
maior autlienticidade do que o aproveitado por Juan de la Cosa. 
A questão que mais nos interessa no presente estudo é a de 
serem da viagem de Pinzon ou da de Lepe a configuração e a 
nomenclatura deste trecho do mappa de La Cosa. Um documen- 
to contemporâneo da maior auctoridade e authenticidade, o acto 
de doaçào (capitulaiion), datado de 5 de Setembro de 1501 e 
assignado pelos reis da Hespanha, menciona cinco nomes dados 
por Vicente Yanez Pinzon, servindo estes nomes para a discri- 
minação do território concedido a elle, o sendo, portanto, indi- 
cados, provavelmente, por elle próprio, como os que considerava 
de maior importância. Sào : Santa Maria de laConsolacion, Ros- 
tro Hermoso (1), Santa Maria de la Mar dulce, «rio que se nom- 
bra marina tubalo» e Cabo San Vicente. Era de presumir que 



(1) No laudo dos árbitros de Genebra ip. 84) este nome é referido ao dia da festa 
da Verónica^ ^anc^a faekg) qae, conforme nm velho calendário hespanhol, cahio no dia 4 d« 
FtTereiro. 



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em qualquer mappa inspirado por Pinzon haviam de figurar todos 
e^tes nomes. No de La Cosa só ha as duas Sant<i Marias, e 
íiasim mesmo em forma abreviada e escriptas por lettra dififerente 
da corrente no resto do mappa, como se fossem accresc imos lem- 
brados por um extranho num trabalho quasi acabado sobre dados 
fornecidos por outro. A conclusão seria que o mappa foi con- 
feccionado com referencia á viagem de Lepe e emendado por 
Pinzon, ou algum dos seus companheiros, se níio fosse que com 
a mesma lettra se acham diversos outros nomes, dos quaes um — 
rio de se fallo una cruz — claramente indica uma expedição pre- 
cedida por uma outra, como era a de Lepe pela de Pinzon. 
Assim desta diíferença da lettra e dos accrescimos da ultima 
demão da obra não se pode tirar conclusão positiva, sendo pos- 
sível que houvesse estas emendas referentes a uma e a outra 
viagem. A falta do nome Kôstro Hermoso (não se pode consi- 
derar como idêntico o «P. formoso > do mappa por causa da 
sua forma portugueza e da sua posição á leste e não ao oeste 
de Santa Maria), ao qual se ligava importância não somente no 
referido acto da concessão como também nos depoimentos em 
1513, de Pinzon e dos seus companheiros, e bem assim a de 
«Marina tubalo» e São Vicente (1) são significativas e offcrecem 
um argumento, bem que inconcludente, a favor da hypothese 
que o informante principal de Juan de la Cosa pertencia á tri- 
polação de Lepe e não á de Pinzon. 

Se assim fôr, póde-se suppôr que o ultimo nome, infeliz- 
mente em parte destruido, do mappa era « rio s. julian 
dado nos depoimentos de 1513 como o extremo sul alcançado 
l>or Lepe. Seja como fôr, o estudo do mappa torna extrema- ' 
mente improvaval que qualquer dos dois navegantes hespanhoes 
avistasse o cabo Santo Agostinho, ou mesmo que dobrasse o 
cabo São Roque. O mais provável é que o ponto de encontro 

(I) Estes nomes faltam também nos mappas de 1527 e l.'>29, que se pôde presnmir 
terem sido compilados á visia dos mappas anthenticos, se é qne os hoave. da viagem do 
Pinzon e de Lepe. £' de presumir qne na casa de Contratacion de bevilha se conser- 
vassem dados roais positivos e estudados da viagem, tanto de Pinzon coroo de Lepe, do 
<)ne os commnnicados apressadamente a Jnnn de la Cosa imroediataroente depois da ter- 
ninaçfto das viagens, e assim se explica, talvez, a notável diffcrenca na moroenclatura 
«ntre o mappa de l&OU e os de 1527 e 1520. Havendo no archivo de Sevilha dados ou 
mappas de ambas as viagens, é possivel qne os de Lepe fossem preferidos por merece- 
rem mais confiança on, talves, sympatbia. Sejft como for, nenbum dos três mappas of- 
ferece evidencia interna do representar em primeira rofto as descobertas de Pinzon, 
ant»s. peto contrario, suggerem graves dnvldas a este respeito. Os mappas italianos, mas 
derivados de fontes portngnezas, de MaioUo e de Tnrim, apresentam ainda ontra nomen- 
clatura em que se nota também a ausência dos nomes característicos dos documentos 
conhecidos relativos a viagem de Pinzon. Ha apenas «a terra, (on rio) dos fumos», que 
talvez tenha referencia aos fogos vistos ao longe referidos na carta de Trevisan de 1^01 . 
O nome «Parlcara» applicado á costa septentrional do Amazonas apparece pela primei- 
ra vei no mappa de Maiollo e apparentemente vem do depoimento de Pinzon e outros, 
e nSo de um mappa prototypo. 



— 252 — 

encontro da terra por Pinzon fosse ainda bastante ao oeste deste 
ultimo cabo (a posi<;ào do nome « c.° de Sta ma. » no mappa 
indica a costa qp Ceará), e que Lepe aportando mais ou menos 
no mesmo ponto e indo para o leste, conforme declararam as 
testemunhas de 1523, chegou a reconhecer a inflexôo da costa 
para o sul no cabo S. Roque, mas nào o dobrou, voltando de 
lá para oeste. Assim sendo, póde-se suppôr que o ponto onde se 
achou uma cruz fosse o «Rostro Hermoso» de Pinzon, onde con- 
forme Garcia Hernandez e outras testemunhas, se effectuaram 
actos possessórios, inclusive a fincaçào de uma cruz. 

Quanto ás datas da viagem de Pinzon, tem-se identificado o 
dia de Santa Maria de la Consolacion «om o 2 de Fevereiro, o 
do Rostro Hermoso com o 4 dia do mesmo mez, o de Santa Ma- 
ria de la Mar-dulce com a festa da Annunciaçào a 25 de Mar- 
ço e o de Sào Vicente (Ferrer) com o 5 de Abril. Estas iden- 
tificações apresentam a desejável sequencia e combinam com a 
data da sabida do porto de Paios em principies de Dezembro 
de 1499. Na presuposiçío de que os nomes do mappa de La 
Cosa vem principalmente da viagem de Lepe, o nome «tierra 
de s. ambrosio* podia ter sido dado por este, indicando a sua 
passagem ao norte do Amazonas a 4 de Abril, ou apenas al- 
guns dias atraz de Pinzon. O único nome perfeitamente autben- 
tico da viagem de Lepe é, porém, o de Sào Juliào, dando o na- 
vegante na costa uns vinte e tantos dias atraz do seu prede- 
cessor, que tinha sabido da Hespanha com este intervallo ap- 
proximadaraente. 

A origem provável das informações em que se baseou o 
auctor do mappa de Cantino para a representação da costa bra- 
sileira ao sul do Cabo Sào Roque já foi indicada, bem como o 
facto de que estas informações eram tào vagas que podiam ter 
sido fornecidas por qualquer tripolante intel li gente da expedi- 
ção de 1501. Os dois mappas de Kunstmann, pelo contrario, 
mostram informações de ordem superior e presumivelmente acom- 
panhadas poi* um raficunbo da costa percorrida, no qual os rumos, 
distancias, accidentes topograpbicos e nomes foram mais ou me- 
nos cuidadosamente registrados. Provavelmente houve no pes- 
Boal da expediçào diversas pessoas que podiam ter fornecido es- 
tes dados, e a com])araçào dos mappas indica pelo menos, dois 
informantes, egualmente competentes, mas independentes, visto 
que em diversos casos nomes differentes foram applicados á 
mesma feiçào topographica. Destes informantes só se pode dizer 
que um (o do mappa n. II) era evidentemente italiano e que 
o outro era portuguez ou que, pelo menos, empregava a lingna 
portugueza como tal. 



— 2^3 — 

Com referencia ao mappa n. II podemos além disto adian- 
tar qne, na bypothese provável de um só informante pam a 
parte sul americana, este era italiano que tinha ticom^ianhado a 
expedição hespanhola de Hojada. 

Nas condições acima apontadas, a historia escrípta só tem 
conservado o nome de uma pessoa, o celebre florentino Américo 
Vespncci, que, por um capricho da sorte, ligou o seu nome ao 
continente descoberto por Colombo. Teria sido este muito dis- 
cutido, e ainda discutível, personagem o auctor ou inspirador de 
qualquer dos mappas aqui considerados? O que corresponde 
melhor com os enigmáticos dizeres das cartas que correm com 
o seu nome é o de Cantino, que contém trechos que combinam 
mais ou menos regularmente com os dados vagos e confusos des- 
tas cartas. Assim o trecho hojadiano deste mappa combina muito 
regularmente com a primeira viagem descripta nas cartas ves- 
puccianas, e, além disto, temos o precioso testemunho do próprio 
Hojada que o florentino era um dos seus companheiros ; o 
trecho entre os cabos Paria e S. Roque é pelos melhores crí- 
ticos (Humboldt, Barrisse, Sophus Ruge, etc.) identificado, bem 
que com reservas, com a primeira parte da muito problemática 
segunda viagem, e o trecho portuguez combina regularmente com 
a terceira, inclusive a viagem, real ou imaginaria, ao sul de Ça- 
nanéa. Na bypothese, porém, de ser Vespucci o informante em 
quem se inspirou o mappa de Cantino, é incomprehensivel que, 
tdndo sido minucioso e exacto na representação do trecho corres- 
pondente á sua primeira viagem, deixasse de o ser nos outros dois, 
sendo especialmente nestes que havia as maiores novidades para 
figurar. De mais, Canerio, que era evidentemente pessoa bem 
informada a respeito das viagens portuguezas, e muito provavel- 
mente relacionado com o auctor da mappa de Cantino (se nfto 
era este próprio auctor) na sua revis&o deste eliminou, ao sul de 
Cananéa, o trecho que, sendo real, constituia a maior gloria do 
descobridor. Sendo assim, dificilmente se pode attribuir a Américo 
Yespucci collaboraçiio directa ou indirecta na confecçào do 
mappa de Cantino. 

O mappa de Kunstmann n. II, além dos caracteris ticos acima 
mencionados, apresenta ainda o já apontado de ser, muito pro^ 
vavelmente, obra de um cartographo navegante, o que justifica 
a bypothese de ser confeccionado, ou inspirado, por Vespucci. 
Para admittil-a, porém, é preciso considerar como apocripha a 
segunda viagem, da qual níio <«e encontra indicio algum neste 
mappa ; ou, como fazem muitos historiadores, tomar a respectiva 
narrativa como nova e confusa reediçào da primeira. Ainda 
mais, o auctor ignorou, ou supprimiu propositalroeiite, toda a 



— 254 — 

indicação da viagem ao sul de Cananéa, sendo esta justamente 
a parte mais importante, caracteristica e problemática da ter- 
ceira viagem referida nas cartas attribuidas a Américo Vespucci. 
A mesma observaç&o se applica ao auctor do mappa n. III, no 
qual nfto ha motivo de suspeitar intervenção vesimcciana, sendo 
que este auctor, tendo, apparen temente, o empenbo patriótico de 
salientar aa descobertas portuguezas, nào teria omittido este ul- 
timo trecho se tivesse tido elementos para o representar, ou para 
se convencer da sua realidade. 

Se fôr admittida como plausível a hypothese, acima apre- 
sentada, a respeito do modo por que os cartographos colheram 
os dados em que se basearam estes mappas, isto é, catando-os 
entre os marinheiros do porto de Lisboa, somos obrigados a con- 
cluir que os três auctores dos mappas de Kunstmann e de Ca- 
uerio, empregando este processo, nào somente nào receberam in- 
formações do próprio Vespucci (1) a respeito desta notável parte 
da sua viafzem, mas também não encontraram entre os mari- 
nheiros consultados informação alguma fidedigna a respeito que 
os levassem a representar, ainda que hypotheticamente, esta 
viagem nos seus map})as. Entretanto, a viagem para as regiões 
antárcticas, a ter-se effectuado, foi feita, conforme as declarações 
das cartas, em navios portuguezes (sejam os da expediçilo de 
1501 ou outros dos quaes a historia nâo conservou noticia) e 
com pessoal portuguez, não podendo, portanto, faltar em Lisboa 
noticias mais ou menos exactas e minuciosas. O facto dos 
auctores dos dois mappas de Kunstmann nada indicarem a este 
respeito, e de Canerio, tendo no seu prototypo (o mappa de 
Cantino) um traço vago que podia ser interpretado como indi- 
cativo de uma tal viagem, tel-o eliminado, cria graves duvidas 
sobre a sua realidade, o conjunctamente sobre a authencidade 
das cartas attribuidas a Américo Vespucci, ou, sendo authenti- 
cas, sobre a sua veracidade. 

Faltam-me elementos para entrar nesta complicada questão, 
que já tem occupado a attenção dos mais abalizados críticos e 
sobre a qual ainda ha muito que dizer. Também a sua consi- 
deração nào entrava bem no plpno do presente trabalho, que é 
apenas verificar até que ponto estes mappas podem, por evi- 
dencia interna, elucidar a historia do descobrimento do Brasil. 
Aos mais competentes cabo applicar esta evidencia, se ó que 
nestas considerações ha alguma coisa de aproveitável. 

Orville a. Derby. 



<1) E' cerco qoe nesta época c aos iatervallos das soas viagens Amercio Vespneci 
rMidía em LUboa. 



Joáo Ramalho 



ALCAIDE-MÓR DE SANTO AND1.É DA BOKDA DO CAMPO, ERA 
ANALPHABETO ? 



Vem hoje solicitar a nossa attenção, provocando o nosso es- 
tado, a figura lefçendaria do primeiro europeu que outr'ora ha- 
bitou estes campos em que hoje floresce S. Paulo e assentou 
entre selvagens a sua tenda humilde, inicio, na verdade, pouco 
promissor de uma civilização nova. 

A Historia ainda não pronunciou o seu julgamento sobre 
quem foi esse aventureiro que para uns era um infame crimi- 
noso, inimigo da religião e dos seus ministros e para outros um 
homem audaz e valente para quem se appellava em occasiões 
difficeis, enti*egando-se-lhe o commando de expedições arriscadas 
contra os inimigos da colónia nascente. 

João Hamalho, que os loco-tenentes do donatário fizeram 
alcaide-mór da Borda do Campo, a primeira auctoridade nestas 
terras altas onde a civilização apenas despontava, é elle próprio 
um enigma indecifrável perante a Historia. 

Quem era este homem? 

Em que epocha teria chegado ao Brasil? 

Em que condições aqui appareceuV Seria algum criminoso 
degradado, algum judeu perseguido que as primeiras armadas 
exploradoras deixaram no Paiz para apprenderem a lingua dos 
naturaes e darem razão da terra? Seria acaso algum naufrago 
que deu á costa como succedeu ao Caramiirú, e a tantos outros 
naquelles tempos de audaciosos commettimentos, ou seria um 
simples caixeiro de feitoria como tantos houve depois de 1505, 
quando se multiplicaram ao longo da costa os estabelecimentos 
commerciaes desse typo? 

Seria João Ramalho um homem culto? 

Seria elle mesmo o celebro bacharel de que nos falam os 
primeiros chronistas e viajantes? 



— 256 — 

Todas estas questões nào respondidiis tornam a vida do al- 
caide de Santo André uma coisa obscura e quasi sem logar na 
Historia. 

Na verdade, porem, nào era um liomem de silos princípios, 
nào os conhecia mesmo. 

As chronicas pintam-n'o violento, vivendo ás soltas entre 
Índios e christàos com uma requa de filhos mamelucos tào vio- 
lentos e criminosos como elle. Descreve-o Simào de Vasconccllos 
r.estfts termos: — nn h/j me ni por graves crimes infame e actual-- 
mente exco m mangado. 

Era seu mister saltear índios, captival-os em guerras injus- 
tas, vendel-^^s para os portos do littoral, commercio entào licito 
e praticado desde muitos annos antes da fundação de Sào 
Vicente. 

António Herrera refere que, em 1527, por occasiào da via- 
gem de Dioí^o Garcia, contractavam-se em Sào Vicente escra- 
vos Índios para serem levados para a Europa. 

A maior opposiçào que os jesuítas encontraram na sua cm- 
eada a favor do gentio, quando inauguraram o seu apostolado 
na America, veio de Joào Ramalho e de seus filhos. 

Estes chegaram mesmo a tentar contra a vida do padre 
Leonardo Nunes, o Abarébebé dos selvagens. 

Ao levante geral dos índios em 1562 contra S. Paulo de 
Piratinínga nào é extranha a influencia de Joào Ramalho e de 
seus filhos residentes em Santo André. Basta isso para bem 
pintar qual a índole desto aventureiro. 

Quanto á data da sua chegada ao Brasil deve ser procu- 
rada entre os annos de 1512 a 1517. 

Debalde tem ou frei Gaspar da Madre de Deus demonstrar 
que a vinda desse aventureiro para a America precede até á 
do próprio Colombo. O que parece provável e até apoiado em 
documento é que essa vinda nào é anterior a 1512. ComeíFeito, 
em documento publico, qual a carta de sesmaria das terras de 
Tecoapava^ vertenttss do Geribatiba, ao oriente de Santos, pas- 
sada por Martim Affonso de Souza, a 15 de Outubro de 1532, 
a fkvor de Pêro Gt)es, diz o escrivão Pêro Capico que para a 
respectiva demarcaçào e divisa — levara com^tigo a Joào Ramalho 
e António Rodrigues, línguas destas terras^ já de qmnze e vinte 
annos estantes nesta terra. 

Portanto, si em 1532, já os dois sobreditos lingnas conta- 
vam quinze e vinte annos de permanência neste paiz, é qoe 
para aqui vieram de 1512 a 1517, quando já navegavam os ma- 
res do Brasil as armadas hespanholas que ou procuravam uma 
passagem i)ara o mar do sul ou iam ao lio da Prata ; quando 



— 257 — 

já aqui fasdam frequentes escalas. as náes pbrtugrueaas ou as ar- 
madas da índia; quando já os francezes vi&itavam a miúdo as 
costas brazileiras, fazendo o seu trafico com os naturaes do paiz 
e quando já estava em vigor o contracto do pau-brazil que da- 
va k>^ar a um trafego regular. 

Qaanto ás condições em que aqui teria apparecido o famoso 
aventureiro n&o se pode £azer sinào conjecturas. 

Como acima -vimos, nào era insignificante o trafego mariti- 
mo ao longo das cestas do Brasil ao tempo em que aqui teria 
aportado o fundador da villa de Santo André. 

As viagens de exploração se succediam a peqnenos inter- 
vallos, quer da parte dos castelhanos, quer da dos portuguezes. 
O trafico com o gentio da terra era cominunissimo. As feito- 
rias para esee fim creadas nho eram poucas, posto que de epbe- 
mera duraç&o. A j)re8ença de europeus entre os selvagens, já 
como prisioneiros destes, já eomo agenteE compradores, já como 
degradados ou como desertores do serviço de bordo, já emfim 
como feitores nas feitorias, náufragos ou tripulantes de navios 
avariados em que eram forçados a deixar entre os bárbaros parte 
de sua equipagem para salvar a outra parte, é um facto que as 
chrouicas e relações de viagem desea epocha longinqua nos at- 
testaro. 

Nào é jMreeiso recorrer ás circumsl anciãs de um naufrágio, 
como commummente se pensa, i)ara explicar a presença de um 
europêa entre os selvagens do littoral brazilico nessa epocha. O 
commercío que já entào se fazia com os naturaes explica o fa- 
cto perfeitamente. 

Parece-me que Jofto Ramalho deve ser contado no numero 
daquelles que, como António Rodrigues, se estabeleceram no paiz 
pi^ra fins commerciaes. Eira um desses aventureiros, como tan- 
tos houve outr'ora, que buscavam a vida, arriscando-a desassom- 
bradamente, e procurando entre perigos um viver libérrimo, dis- 
soluto, gosado sem as peias de uma sociedade regular e sem tes- 
temunhas importunas. 

Nesse tempo, as solicitações desta natureza eram intensas 
e, para alguns individaos, irresistiveis. Chega va-se a estabele- 
cer em regulamentos que se não consentisse irem a terra os 
marinheiros, porque de ordinário os que o conseguiam não tor- 
navam, deixando-se ficar entre os selvagens amigos, seduzidos 
da vida dissoluta das aldeias. 

Demais disso, não havia auctoridades nem policia. Cada um 
vivia por si e a seu bel-prazer. Podiase ter muitas mulheres 
e escravos, sem o respectivo trabalho de provel-os ; antes, pelo 
contrario, a estes é que cabia o dever de alimentar o seu se- 



— 258 — 

nhor. A terra era abundante, dava bem para passar sem misé- 
ria, e, com um pouco de diligencia, até a fortuna se podia con- 
seguir com o trafico de escravos, com o commercio de pelles, 
de animaes e aves, tào apreciados na Europa, e talvez com o 
ouro e a pedraria dos sertões, de que já vagamente se falava. 

Jofto Ramalho nâo é nenhum naufrago nem tampouco um 
degradado, circumstancias que jamais se esquecem na vida. A 
chronica, que nEo perdeu outros feitos desse aventureiro, certo 
nfto teria esquecido um facto como o do naufrágio, que já fez 
legendário um compatriota delle, níio menos feliz, o Caramurú, 



Seria acaso Joílo Ramalho o famigerado bacharel^ desterra- 
do para o Brazil, de que nos falam as chronicas e narrativas 
daquelles primitivos tempos ? 

Por mais de uma razào nfto o era e nllo podia sel-o quem, 
como ello, era mui provavelmente analphabeto. 

O viver desse homem entre selvagens, ainda quando por 
crimes tivesse sido desterrado do seu paiz, nilo era de um ho- 
mem culto. 

Os seus hábitos e costumes eram incompativeis com as exi- 
gências do um espirito affeito ás lettras. Demais, os jesuitas de 
quem fora elle acérrimo inimigo, chronistas e narradores dessa 
epocha, nfto teriam esquecido a mençào desse facto que frisava, 
pelo contraste, a villania de quem sendo lettrado era j)or grave» 
crimes infame. 

Além disso, nos papeis públicos da épocha em que se faz 
mençilo desse individuo, nenhum tratamento se lhe dá, por 
nenhum titulo scientifíco o qualificam, quando é bem certo que 
naquelles tempos era isso um invariável costume, praxe por to- 
dos os escrivíles observada, e que de certo se observaria para 
com esse homem, si, de facto, lhe assistisse o direito. 

A razáo decisiva, porém, é a que se deduz dos documentos 
]mblico3, como sejam as actas de vereança da extincta villa de 
Santo André da Borda do Campo, e as de S. Paulo de Pirati- 
ninga, por onde se vê que o velho alcaide-mór nâo assignava 
de seu próprio punho, ora decerto analphabeto, como muito bem 
opinou, em uma das nossas sessões anteriores, o nosso illusire 
consócio — dr. Joáo Mendes Júnior, e como o verificou do livro 
das actas existentes no archivo da camará municipal desta ca- 
pital a commissão nomeada para esse fim, e composta do referi- 
do consócio, dos doutores António de Toledo Piza, Pereira Gui- 
marães, Orville A. Derby e do signatário destas linhas, que 
nisso está servindo de relator. 



— 259 — 

Eis a acta dos trabalhos e investigaçaes a que se entregou 
a mesma commissão, no desempenho da tarefa que lhe confiastes. 

ACTA 

Aos vinte o seis dias do mez de Abril de mil novecentos e 
dois, na Repartição do Archivo da Camará Municipal desta ci- 
dade de S. Paulo, compareceram os cidadãos drs. António de 
Toledo Piza, João Mendes do Almeida Júnior, Manoel Pereira 
Guimarães e Theodoro Sampaio, membros da commissão nomea- 
da pelo Instituto Histórico de S. Paulo para verificar as assigna- 
turas de João Ramalho nos cadernos de vereanças da antiga 
villa de Santo António da Borda do Campo, existentes no Ar- 
chivo da Camará Municipal desta capital ; e, dando cumprimen- 
á incumbência, pediram ao presidente da mesma camará, dr. 
José Getulio Monteiro, ahi presente, a necessária licença. De- 
ferido o pedido, foram-lhe apresentados os dois livros mais antigos 
de vereanças existentes no dito archivo, pelo archivista sr. Oli- 
veira Mendes. Em seguida, em mesa especial, passando a pro- 
ceder ao respectivo exame, verificaram que só existem as actas 
de vereanças de Santo André desde 22 de Julho de 1555, es- 
criptas com penna de ave em folhas de papel muito estragadas 
pela traça, cujo estrago foi contido, pelo que se vê, em 1880, 
anuo em que foi ordenada a encadernação delias em um só livro 
ou volume ; do sorte que, somente dahi em deante, tendo sido 
creado o logar de archivista municipal, passou este livro, como 
todos os outros, encadernado com folhas em branco de permeio 
das escriptas, a ser conservado com regularidade. 

No alto central da primeira folha desse livro, está, em lettra 
antiga e que parece ser a do texto, a data lõõõy com uma parte 
do numero /, o primeiro õ quasi completa, o segundo apenas 
com parte da volta de baixo e o ultimo 5 perfeito. Também 
no alto da folha, porem na extremidade da esquerda de quem 
lê, está, em lettras menos antigas o seguinte: LJ^ de V. (o resto 
destruido), e mais a nota, com essa mesma lettra, — 1555 até 1558, 

Faltam, portanto, as vereanças relativas ao tempo decorrido 
de 8 de Abril de 1553 a 22 de Julho de 1555 ; pois, a commis- 
são, rememorando o que refere frei Gaspar da Madre de Deus, 
nas Memorias para a Historia da Capitania de S. Vicente^ I, ns. 
157 e 158, tem como certo que a villa de Santo André foi man- 
dada crear em 1553 pelo governador geral, Thomé de Souza, 
. . . «comtanto, porém, que antes disso o fortificassem com uma 
trincheira e quatro baluartes, onde se cavalgasse artilharia. Deu 
João Ramalho cumprimento a estas condições, fazendo á sua 
custa a trincheira, baluartes, egreja, cadeia e mais obras publicas 



— 260 — 

necessárias. Depois de tudo concluido subiu a serra António de- 
Oliveira, loco- tenente de Martim Affonso, acompanhado do pro-i^ 
vedor da fazenda real, Braz Cuoas, e levantou pelourinho na po- 
voação de Ramalho aos 8 de Abril de 1553, em nome daquelJe 
donatário, dando-lhe o titulo de Villa de Santo André. Delia 
ficou aendo alcaide-mór o referido Jofto Ramalho, que já exerci^ 
tava o cargo de guarda-mór do Cam))0. » Também a com mis- 
são rememora que na obra de frei Gaspar da Madre de Deus ha, 
em nota, uma referencia ao archivo da camará de S. Paulo, caJ. 
I da Villa de Santo André, tit. 1553 e pag. 1 até 11» ; e sem 
affirmar que o notável monge benedictino paulista, tendo con- 
sultado esse caderno, deixasse de restituilo, a verdade é que 
tal caderno nâo está no archivo. 

Felizmente, para o caso sujeito ao exame, nào faltam ele- 
mentos de apreciação ; pois o nome de Joào Ramalho apparecea 
nas actas de 1555 em deante, nào menos de dezenove vezes^ 

A acta de 22 de Julho de 1555, que é a primeira do livro- 
existente, segundo uma trangcripçào que, em entrelinha, appar- 
rece em lettra nova e que uns attribuem a Azevedo Marques e 
outroR a Machado de Oliveira, é assim iniciada: «E depois disto,, 
em os vinte e dois dias do mez de Julho da sobredita era, fizeram, 
camará os officiaes delia nas casas da camará desta dita villa e eu, 
Gaspar Nogueira, escrivão da dita camará que o escrevi». Em se- 
guida, vêm os capitulo» da acta, que principiam assim : «E logo 
na dita camará etc.», terminando com o encerramento pelo mesura 
escrivão, havendo ainda a assignatura de Garcia Rodrigues (as- 
signatura de cruz), de Paulo de Proença, de António Fernandes, 
estas do próprio punho. O nome Garcia Rodrigues está sempre 
com a cruz entre os nomes Garcia e Rodrigues, mas a lettra des^se& 
nomes em três dos capítulos manifesta caracteres completamente- 
diffe rentes. Ha também a assignatura de cruz do almotacé Fran-«^ 
cisco Pires V 

Nas outras actas até o fim do anno de 1555 apparecem as mes^ 
mas assignaturas, e mais : a de Álvaro Annes nas de 24 de Janeiro- 
e 24 de Julho, a de Braz Cubas nas de 29 de Julho e 2 de Outubro,, 
a de Balthasar Nunes na de 20 de Setembro, assim como as cmzes 
de Joào Gonçalves e de João Rodrigues nas de 12 de Setembro e- 
16 de Outubro. 

No anno de 1556, a 11 de Janeiro, apparece outro escrivão^ 
Simão Jorge, para servir na ausência de Gaspar Nogueira. A acta 
de 11 de Janeiro é assignada por Braz Cubas, Álvaro Annes (que^ 
o archivista Moura interpretou Alonso Annes) e Garcia Rodrigaes^ 
este sempre de cruz. A segunda acta desse anno é de 18 de Janeiro- 
e assignada pelos mesmos, parecendo ser lavrada por escrivão diffe-^^ 



— 261 — 

rente. A terceira acta éa 22 de Janeiro. Ahi ap parece Jofto Rama- 
lho; e, por isso, convém transcrever essa acta, cujo texto é ©seguinte: 

«Em os vintfe e dois dias do mez de Janeiro da era de mil 
quinhentos e cincoenta e seis annos foram juntos os officiaes desta 
camará para fazer e concordar em coisas necessárias para bem do 
povo, e estando assim todos juntos em camará, mandaram chamar 
a Joáo Ramalho, capitào e alcaide-mór deste Campo, e a Garcia 
Rodrigues e Gaspar Nogueira e Balthasar Nunes com outros 
'mais do povo e, estando assim todos juntos em camará, lhes pa- 
receu a todos bem que puzessem a medida do alqueire da fari- 
nha a seis vinténs o alqueire, porquanto adita medida era muito 
grande e se aqueixava todo este povo de tamanha medida e tão 
pouco preço como ora um tostào e assim o dito procurador do 
«conselho em nome de todo o mais povo requereu aos ditos offi- 
ciaes que puzessem a dita medida ao dito alqueire a seis vinténs 
e de como assim lhes pareceu a todos bem esta postura manda- 
ram 08 ditos officiaes que a tanto valesse sob pena de dois tos- 
'tões e de como assim isso tudo accordaram o assignaram todos 
aqui com ditos officiaes e eu escrivão que o escrevi. (Assigna- 
do) Braz Cubas ; João Ramalho, sendo o nome escripto em bre- 
ve e tendo em seguida uma curva ^^ em forma de ferradura 
'Com a abertura para a esquerda e depois o appellido ; Garcia 
Rodrigues (com cruz bem visível) ; Álvaro Annes ; Joào Rodri- 
gues (com ci*uz); Balthasar Nunes (com cruz); Francisco Alyes 
(com cruz) e outros nomes illegiveis. 

Surgiu logo a duvida seguinte: 

Si o signal .^^ era um signal substitutivo da assignato. 
ra de próprio punho ou um ornato do E de Ramalho, f«ito pelo 

{>roprio signatário, tanto mais quanto, nos outros signaes de il- 
ettrados havia sempre uma cruz, formando ângulos mais ou me- 
nos rectos, ângulos ou cruzes mais ou menos inclinadas, algumas 
simples, outras cercadas por uma circumferencia, outras cercadas 
com pontos, outras duplas, triplas, isto é, em linhas cortadas por 
duas ou três outras, mas sempre em linhas cortadas. A' vista 
disso, passou a cqmmissão a verificar outras assignaturas do mes- 
mo João Ramalho, e encontrou diversas, no geral bem legíveis, 
todas com aquelle característico signal curvo, em forma de fer- 
radura, bem distincto, as mais vezes muito distante entre o no- 
me e o appçUido do signatário, quasi sempre lançado com traço 
"mais grosso do que o da lettra da assígnatura, 

Examinando á commissão dezenove destas assignaturas de 
•João Ramalho, distribuiu-as para melhor estudo em quatro gru- 
pos constituindo typos bem distinctos pelo caracter da lettra, cu» 
.908 fac-similes Áo os seguintes: 



— 262 — 



t: 



o 
a 



^ i 



" o' 



CM 



"^^ 




— 263 — 




«5 



— 264 — 



J 






O 

o» 



O 



(1 






ts 






«5 












•§. 



«b 
^ 



4 

o 



«^ 



•2êh 



O 

a 






— 266 — 

Logo, á primeira vista, se reconhece que nâo sáo do mesmo 
punho os quatro typos de assignatura acima indicados. Examinan- 
do-se o caracter da lettra de cada uma e comparando-se com a 
lettra do texto das actas de vereança ou com a de outros vereado- 
res que então serviram, se verifica haver, ora com uma, ora com 
outra, nào só a mais accentuada similhança, como até identidade. 

Assim, por exemplo, a assignatura na referida acta de vere- 
ança de 22 de Janeiro de 1556, à fl. 19, cujo caracter apresen- 
tamos como o primeiro typo e se reconliece nâo ser o da lettra 
do escrivão, o qual a escreveu de modo diverso no texto da acta, 
é comtudo. idêntica no caracter da lettra A de Braz Cubas, que 
assigna com procedência e que, decerto, se prestou a asâignar 
]>elo alcaide-mór depois que este fez no papel o seu signal, isto 
é, traçou a curva em forma de ferradura e que se interpõe ao no- 
me e ao appellido. 

E' bem digno de nota, no t^xto dessa acta de vereança, o 
nome de João Ramalho, escripto por lettra do escrivão o sobredi- 
to signal. A assignatura de Joào Ramalho, no requerimento feito 
em camará, a 8 de Janeiro de 1557, ao capitão-mór e ouvidor 
Jorge Ferreira, á fl. 3G v. , da qual o caracter da lettra cons- 
titue o segundo typo, é evidentemente do punho do escrivão 
Diogo Fernandes, o qual também assignou por João Annes, que 
assignava de cruz. O caracter da lettra nas ditas assignaturas 
é o mesmo do texto da acta; o nome João, escripto em ambas as 
referidas assignaturas é não só idêntico no caracter da lettra 
como na maneira de abreviar. 

Na mesma pagina, onde vem lançada a acta de vereança de 
5 de Fevereiro de 1557, vê-se ainda o nome Joào Ramalho es- 
cripto por lettra do escrivão, ainda que com traço mais grosso, 
mas de forma idêntica, salvo o nome João que estii por extenso. 
Não se vô alli aquelle caracteristico signal curvo que sempre 
apparece na assignatura do alcaide-mór. 

A mesma forma e caracter de lettra apparecem mais tarde 
nas actas de vereança e auto de pauta a fl. 44 e 44 v. ; mas 
sempre as assignaturas de Joào Ramalho estão escriptas pela lettra 
do escrivão Diogo Feniandes, o que se verifica do próprio texto 
do auto de pauta de 9 de Março de 1558, onde se acha o appe- 
lido Ramalho na oitava linha a contar de baixo, com graphia 
idêntica á da assignatura lançada no alto da pagina. 

As assignaturas do terceiro typo apparecem com caracter de 
lettra mais regular, mais nitido e bem differente da lettra do 
escrivão, notando-se-lhe uma bem accentuada similhança e ató 
identidade com a lettra de Simão Jorge, o qual apparece sempra 



— 267 — 

assigaando do próprio punho antes ou logo após a assignatura 
do alcaide-inór. 

A abreviatura do nome Joàoé alii sempre feita com o y gre- 
go e com um pequeno o superposto. As lettras como a e m são 
ep^uaes ás da assignatura de Simão Jorge. Basta comparar, á íl. 
41 V. , quasi no meio da pagina, a assignatura de João Eamalho 
com a graphia desse mesmo nome tal como se vê lançada pelo 
pnnbo do escrivão três linhas mais abaixo, para se reconhecer 
immediataraente a differença. Entretanto, á fl. 39 v. se verííica 
sem hesitações que quem ahi assignou a acta por João Eamalho 
depois deste ter feito o seu signal, foi o referido Simão Jorge, e 
iaso ainda mais patente se toma, no anverso da folha, onde se vê 
Simão Jorge, que se prestou a assignar pelo alcaide-mór, rematar a 
iinna deste com as mesmas rabiscas com que terminou a sua 
própria. 

O quarto typo de assignatura de João Ramalho é o que se 
encontra a âs. 46 e 47, onde as actas são lavradas pelo escrivão 
Diogo Fernandes e as assignaturas do alcaide-mór também, ain- 
da que estas traçadas por iirma difierente da que usou o mesmo 
escrivão em annos anteriores e de como as escreveu no texto 
que estamos examinando. 

De facto, as assignaturas do alcaide-mór nas actas de 30 
de Março de 1557 a fls. 45 v. e 46 e nas seguintes fls. 47 e 
47 V., estão ahi traçadas pelo punho do escrivão, e ainda que o 
modo de abreviar o nome JoãOy simulando um H ou K^ seja 
bem diverso daquelle que o dito escrivão usou em annos ante- 
riores. Mas si se examinar cuidadosamente o typo da lettra, s« 
verificará que é ella a mesma do escrivão Diogo Fernandes, pois. 
que o appellido Ramalho, por elle escripto no corpo da acta, é 
idêntico ao da assignatura, ainda que o nome João ahi esteja 
por extenso e com lettra inicial egual á das assignaturas classi- 
ficadas no segundo typo. 

Resulta, pois, do exame feita : 

1.° Que as assignaturas de João Ramalho, por baixo das 
actas de vereança, ou são do punho do escrivão ou de algum 
vereador que então servia com o alcaide-mór; 

2.** Que todas estas assignaturas encerram um signal cur- 
vo, ou arco em forma de ferradura, com a abertura voltada » 
esquerda, interposto ao nome e ao appellido, signal feito pelo 
próprio João Ramalho, e do qual se evidencia, pela grossura do 
traço ou pela maneira de o figurar, que o alcaide-mór não tinha 
habito de escripta ou melhor que não sabia escrever; 

3.° Que esse signal não é nenhum ornato ou appendice dtt 
lettra, porquanto apparece elle invariavelmente em todas Si& 



— 268 — 

Assipiataras, ainda que estas sejam escriptas por panhos difS»- 
rentes, isto é, pelos escrivàes ou outros vereadores; 

4.** Que o si^al referido é de facto o que para si adop- 
tara o 8^caide-mòr, porque só em assignaturas é que esse signal 
apparece, nào se o âgurando jamais no corpo das actas quando 
occorre escrever se o nome João Ramalho. 

O facto de nào se;r esse signal em forma de cruz, como 
commummente se usava, mas em forma de arco, suggeriu ao mem- 
bro da commiss&o, dr. Jofto Mendes Júnior, a hypothese de 
que Joào Ramalho talvee nào fosse christào, sendo provavel- 
mente judeu. 

Esta hypothese, longe de ser impertinente, é até muito 
plausivel e de accôrdo com o que se sabe da vida do alcaide- 
mór. 

Sabido é que a assignatura de cuz dos illettrados vale por 
um appello á sua fé religiosa. O individuo que nào sabia es- 
crever, fazendo de seu próprio punho uma cruz no papel, como 
que jurava valer por sua própria assignatura a assignatura por 
outrem escripta. A lei, ou a praxe costumeira, assim o enten- 
dia. 

Naquelles tempos, em que a idéa religiosa dominava todos 
os espiritoii e armava as nações em cavalheiros cruzados para 
se baterem contra os infiéis ou impellil-os para longes terras, a 
dilatarem por mares nunca dantes navegados a sua fé e impé- 
rio, a cruz era um symbolo altamente significativo. 

Porque a nào empregava, na sua assignatura, o celebre al- 
caide-mòr, conforme a praxe observada por outros vereadores 
illetrados como elle ? 

Será porque, nào sendo christào, nào podia empregar aquel* 
le signal de fé ? 

A duvida é tanto mais eabivel quanto é certo que Joào 
Ramalho, segundo os chronistas, nào era um espirito religioso 
e crente. 

Delle e dos seus filhos nasceu a maior opposiçào contra os 
padres jesuítas, quando estes iniciaram em S. Vicente os tra- 
balhos de catechese do gentio, e a nobilíssima campanha pela 
restauraçào dos bons costumes e da moral religiosa entre os 
colonos. 

Por influencia delle, Santo André se tomou rival de 3« 
Paulo de Piratininga, fazendo até perigar esta colónia nascente 
em 1562. 

A desneito de quanto affirraa em suas Memorias frei Gas- 
par da Mauro de Deus, nào havia em Santo André egrejã, nem 
culto regular. Nào consta ter alli havido um parochp, e bem aio^ 



— 269 — 

contrario disso, o que se sabe é que a população da villa co- 
Dieçou a retirar-se para S. Paulo, por n&o haver alli quem ce- 
lebrasse missa e ministrasse os sacramentos. 

Joào Ramalho parece que se nào im [portava com taes coisas, 
para elle, decerto, indiâerentes. 

Também nào é descabida a bypotbese de ser judeu o ce- 
lebre fundador de Santo André. 

Naquelles tempos, sacudido havia pouco o ju^o mouro na 
península hespanica, Portugal estava insado de judeus e de 
christãos novos. 

Grandes eram as animosidades contra elles; muitas as per- 
seguições que soflíriam e tudo era pretexto para os punir e 
castigar. 

Não raro, òccultavam a sua raça e a sua fé para soffi*e- 
Tem menos no seio de uma sociedade intolerante e desconfiada 
como a desse tempo. 

Intelligentes, viajados, dados ao commercio e por isso af- 
feitos ao trato social, eram, nào obstante, os judeu» os melhores 
e mais babeis agentes a que então se recorria para as missões 
arriscadas, longinquas, e para o trato com os |>ovos bárbaros ou 
incultos. 

João Ramalho não teria sido porventura um destes agen- 
te?? Nào seria um destes traficantes de escravos, que então se 
estabeleciam obscuramente na America como na costa africana, 
captivando Índios no campo e remettendo-os para a feitoria do 
littoral, a mesma onde Diogo Garcia em 1527 contractava gran- 
de numero de escravos para a Europa ? 

£* bem possível, posto que ^ifficil de provar do ponto de 
vista com que a Historia escrupulosamente procede; o que, po- 
rém, está fora de duvida é que o celebre alcaide-mór da Borda 
do Campo nào sabia escrever o seu próprio nome, usava ape- 
nas de um signal para a sua assignatura, que outros completa- 
vam, e que, portanto, não podia ser elle o afamado bacharel, 
cuja identidade jamais se provou e de quem nos falam as rela- 
ções de viagem dos primeiros tempos da conquista. 

Foi este o resultado a que chegou a commissào abaixo* 
subscripta. 

S. Paulo, 16 de Maio de 1902. 



Thbodoro Sampaio, servindo de relator. — Orvillb A. Dbr- 
BT. — António de Toi,bdo Piza. — João Mendes de Almeida 
Júnior. 



João Ramalho 



PARECER 

Precisar o conhecimento do passado ; completar, por meio 
de novas sciencias auxiliares esse conhecimento ; exliumar, sem 
preoccupaçòes de idéas próprias, os mortos, para exhibil-os, taes 
quaes foram ; visar, de preferencia a tudo, a verdade ; é o 
lidimo fim da historia, é a cúspide a que deve alçar-se o espi- 
rito pesqnizador, enthusiasta de extinctas eras. 

Entretanto, nem sempre assim acontece. 

Aqui é o chronista, que só diz o que ama ou o que detesta. 
Alli o que se nfto oôusca, que nào encobre a sua personalidade, 
para em plena luz deixar apenas o assum]>to que tenteia com- 
prehender e explicar. 

Graças á critica, porém, as sciencias vào hoje soffrendo real 
modifícaçílo. A missão do historiador nilo se reduz á narração 
simples e árida de factos, que se dizem occorridos em tempos 
determinados. Procura conhecer as causas desses factos : guia-o 
então a philosophia da historia. Recorre a methodos diversos, 
a processos de investigação e de confronto, . que substituam por 
?io<;Ões mais rigorosamente exactas as versões convencionaes da 
historia ; ahi, uma se iene ia moderna, a diplomática, serve-lhe 
na analyse das fontes — diplomas, cart-as, actas, autos, etc. 

Sobremodo honrado com um posto numa commissilo que 
deveria elucidar um facto já de ha muito referido pelo visconde 
do Porto Seguro — que J. Ramalho era analphabeto — julgamos 
do nosso dever seguir os methodos modernamente empregados, 
adoptando como nossa a opini&o de Luciano Cordeiro — «que a 
critica nâo se molda j)elas prosapias de aristocracias pergami- 
nhosas; que uma critica cheia de fiducias fidalgueiras não é 
verdadeira critica; contradiz a missão de que se diz encarregada; 
exautora o sacerdócio que proclama; é, sobre falsa, contra-pro- 
ducente, sobre inútil, ridicula » — CoUocado sob ponto de vista 
diverso, tivemos necessidade de abandonar os nossos il lustres 
companheiros de commissão, porque se nos afigurou que o bri- 



— 271 — 

lliAtite parecer, lido em sessão de 20 de Maio, desdenhando 
empregar os actuaes methodos scientiíicos, não só nada adean- 
tóva sobre o assumpto, como ainda era inacceitavel em certos 
pontos. 

Logo de começo a illustre maioria da commissào diz que — 
J. Ramalho niio era um homem de sãos principies, que não os 
conhecia mesmo ; diz que tem em seu apoio as chronicas e que 
o padre Simão de Vasconcellos attribue-lhe a pratica de capti- 
var Índios para vendel-os no littoral ; cita depois Herrera, fala 
na opposição de Ramalho á cruzada dos jesuitas em favor do 
gentio e termina afiançando que ao levante dos Índios contra 
Piratininga em 1562 J. Ramalho não foi extranho. 

O cbironiftta S. de Vasconcellos parece ter sido o auctor 
predilecto da illustrada maioria. 

A primeira condição exigida num chronista ou historiador, 
para merecer todo o credito, é a imparcialidade. Possuia essa 
qualidadf^ o padre Simão ? 

A diversidade de palavras que emprega para estygmatizar 
os vicios dos leigos e os dos ecclesiasticos ó uma razão poderosa 
para pormos em duvida essa imparcialidade. 

J. Ramalho era — infame por crimes graves e excommungado 
•^infame iws vicios, amancebado publico por quasi 40 armas e 
de ordinário por essa causa excommungado. Chron. da Com^ 
panhia de Jesus, L. 1 ns. 77 e 126. 

Os portuguezes — licenciosos com a vida soldadesca viceja-^ 
vam em vicios públicos que serviam de escândalo a toda terra — 
n. 85. 

Si o vicioso ó um ecclesiastico, não ha um adjectivo para 
qualifica 1-0 — «uma mulher que gasta parte da vida escandalo- 
samente com um ecclesiastico» — n. 12 (Este não é criminoso nem 
infame, n. 16). 

Si é um discípulo: — delinque, exaggeram-lhe a culpa — n. 129. 

Os grandes crimes de Ramalho consistiam na mancebia in- 
veterada, pois que nenhum outro encontramos nos chronistas, 
nem mesmo em S. de Vasconcellos. 

A illustrada maioria deixou escripto que Ramalho era ini- 
migo da Companhia de Jesus. Esta era poderosíssima, tinha por 
principal bemfeitor el-rey D. João 3." Vasc. p. 2 n. 26. 

Mem de Sá, governador do Brazil, ao chegar á Bahia a i.* 
coisa que fez foi recolher-SQ a um dos cubiculos dos religiosos da. 
Cia. — Vasconc, cit. p. 2 n. 49, e «senão foi da Cia. perecia-o 
pelo respeito que tinha aos Jesuitas, especialmente ao padre 
^lanuel de Nóbrega, a quem consultava em tudo, e sem cujo 
conselho nada obrava». Ibid. 



— 272 - 

Ora, si Kamalbo era um grande criminoso, por outros cri- 
mes, si a Com^mnhia tinlia tal prestigio, como n&o fazia abrir 
devassa a respeito ? Si Hamalba era um grande criminoso, Jorge 
Ferreira, cavalheiro de mór linhagem, não desposaria tuna das 
suas filhas, sabido como é que — na aristocrática capitania de S. 
Vicente, as familias princípaes, fazendo timbre de sua origem, se 
extremaram sempre, evitando cãliança com indivíduos cujos pre^ 
cedentes não conheciam. P. Seguro, Hist. Geral do BrazU cap. 
XIV p. 225. 

Si Ramalho era um grande criminoso, como tel-o-ia Martim 
Affonso nomeado guarda-mór da campo, cargo que só poderia 
recahir em pessoa de eollocaçâo. — Livro dos regimentos ael Rey 
Dom Diniz para os oífíciaes de guerra e casa — e na companhia 
do donatai'io vinham fidalgos de alta estirpe ? Como foi-lhe de- 
pois dado o posto de alcaide-mór, para cuja investidura dever-se-ia 
attender ás Ord. do Reino — Carta de doação a M. Affonso e 
Foral da Capitania, clausula 13.*? 

Si Ramalho era um grande criminoso, era natural que pro- 
curasse recolher-se ao centro da capitania, que evitasse o con- 
tacto com os yK>rtuguezes, que dissuadisse o donatário de ahi 
estabelecer-ce. Entretanto, deu-se o contrario. Foi Ramalho quem 
persuadiu a Martim Affonso que devia subir a serra e erigir noe 
campos uma povoação. 

Egualmente sem base julgamos a existência de trafico de 
escravos feito por J. Ramalho no littoral. Mello Moraes con- 
testado com boas razões. A citação de Herrera não faz referen- 
cia a J. Ramalho e contém demais um anachronismo. Si o nome 
de S. Vicente foi dado por M. Affonso, por occasião da sua via- 
gem era 1531, como poderia Diogo Garcia, em 1527, isto é, qna- 
tro annos antes, contractar escravos indios nessa capitania? 

A própria cruzada em favor da liberdade e dos indios é 
contestada por nmitos escriptores. Porto Seguro, cit. 1.* vol., 
pag. 215, cita trechos do (ladre Manoel da Nóbrega e de J. de 
Anchieta, em que dizem que — a experiência mostra qtie deixar 
os indios em liberdade e vontade é nada querer fazer com ettes^ 
— -porque mais por temor se hão de converter que por amor. 

Pouco crivei também nos parece a asserção de fazer Ra- 
malho opposição aos jesuítas. EUe dispunha de influencia real 
sobre Tebyreçá, ao ponto de dissuadil-o de oppor-se ao desem- 
barque dos portugnezes; dispunha de enorme influencia sobre 
os indios. U. Schmidel, na sua Historia verdadeira de uma vior- 
gem curiosa, diz que J. Ramalho era tão poderoso que poderia 
pôr em campo até 5.000 indios, ao passo que não se reuniriam 
2.000 sob os estandartes reaes. Ora, si elle fazia opposição aos 



— 273 — 

jesuitas, 81 dispunha de tal prestigio, era natural que procu- 
rasse impedir a destruição de S. André e a mudança dos seu» 
habitantes para Piratininga. No emtanto, mudjou-»e paci&ca— 
mente para esta com a. sua família. 

Nem verdadeira é a aífirmação de nào ser Ramalho estra- 
nho ao ataque dos Índios a Piratininga em 1562. 

O projirio S. de Vasconcellos, tâo inimigo de Ramalho, nfto 
ealar-se-ia sobre um tal facto. O principal dos Índios que se 
assignalaram no combate, diz elle, foi um que depois do baptis* 
mo tomou o nome de Martim Affonso, p. 2.* n. 81 . Ora, esse 
tal M. Ai!onso er» o próprio Tebyreçá, sogro de J. Ramalho. — 
u. 134. — «A este principal (M. A.) e a toda a sua geraçào mui- 
to deve a Companhia» cit. n. 139. Mas, recorramos a outras 
provas:— 24 de Maio de 1562 — «J. Ramalho ó eleito pela ca- 
mará e pelo povo de S. Paulo para capitào da gente que tem 
de ir á guerra contm os índios de Parahyba.» Azevedo Mar^ 
quês — C/tronologia. 

Archivo da camará de S. Paulo, livro de vereanças — 1562. 

Temos, pois, allí, uma fonte diplomática, apoiando uma for- 
mal contestação ao parecer. Estas mesmas provas op pomos á ri- 
validade, em 1562, entre S. Paulo e S. André, destruída em 
1580. Outra fonte diplomática, em contestaçào a essa hostilida- 
de dos habitantes de S. André, é uma carta do padre Manoel 
da Nóbrega, escripta em li '56 a S. Ignacio de Loyola, em que 
encontramos o seguinte trecho: «a villa de 8. André, que he 
de cristãos, e todos os cristãos desejam ir alli viver, se lhes 
dessem licença.» 

A razão de preferirem os índios ir viver em S. André, era, 
diz o brigadeiro Machado de Oliveira, a brandura com que o« 
tratava Ramalho, que sairia logo de través a qualquer abuso que 
houvesse na concorrência das duas raças. 

Si havia divergência entre os habitantes de S. André e os 
de Piratininga não era ella devida á influencia de Ramalho, e muito 
menos á falta de religião dos habitantes do extincto povoado. 

Os padres da Companhia tiravam os índios do poder dos 
portuguezes e mestiços; estes, por sua vez, retiravam as esmo- 
las de que viviam aquelles — S. de Vasconcellos n. 200; procu- 
ravam affastar os índios, que trabalhavam para aquelles— Vasc. 
cit. ns. 73, 75, 130, 146 e 161, attri buíam aos primeiros e aos 
discípulos crimes péssimos — eit. n. 126 e 161, sendo certo que 
uma vez um desses crimes foi confirmado id. 129. 

O abandono de Piratininga, porém, provinha de outras causas : 
ás vezes a moléstias — cit. n. 160; ás vezes á sua natural incon- 
stância — id. p. 2.' n. 11, M. de Oliveira, pag. 37. 



— 274 — 

Outros, além desses, foram os motivos da extincçao da villa 
de S. André. Na doaçfto das cem léguas de terras concedidas 
a M. Affonso, d. João 3." estabelecera que— por dentro de terra 
firme, pelo sertão, nào poderiam ser feitas villas, a menos de seis- 
léguas uma da outra, sem licença regia. 

Ora, Piratininga, ficando a pouco mais de três léguas, e não 
tendo sido fundada com essa licença, teria necessariamente que 
desapparecer, que ceder o passo a S. André, que fora elevada a 
villa em 8 de Abril do 1553 — Frei Gaspar — Memorias. 

O primeiro golpe desfechado contra a primogénita de M. Af- 
fonso nos campos de Piratininga foi a resolução de Mem de Sá^ 
a instancias dos padres dos quaes era hospede, mandando que 
os Índios se ajuntassem em povoações grandes, em forma de 
republica. — Vascouc. n. 50. 

Quanto ás condições de apparecimento de Ramalho, prefe- 
rimos collocar-nos do lado daquelles que, como Southey, Baltnazar 
Lisboa e muitos outros, attribuem esse facto a um naufrágio^ 
naufrágio que Beauchamps diz ter acontecido durante a expedi- 
çilo de Coelho. O próprio Vasconcellos — Noticia das coisas da 
Brazil — L. 1. n. 19 — refere que Gonçalo Coelho recolheu-se a 
Lisboa, de volta do Brazil, com dois navios menos. 

Deixando do lado mais algumas considerações geraes sobre 
o parecer, vamos entrar na questão de saber si effecti vãmente 
J. Ramalho era analphabeto. Permitta-nos a illustre maioria que 
logo de principio extranhemos que fosse acceitando, sem mais- 
analyse, uma traducção interlinear das actas de S. André, feita 
por P. Taques ou por Frei Gaspar, segundo pensa P. Seguro^ 
traducção essa errada em vários pontos, feita ninguém sabe em 
que epocha, nem por quem. Perguntamos: não conhecendo o& 
nossos illustres consócios, que firmaram o parecer impugnado, a 
paleographia, para poderem ler o original dos documentos, coma 
podem garantir a veracidade da traducção? 

Apenas uma obra sobre diplomática o-^GIossariwn de Du 
Cange, reimpresso pela congregação de S. Maur, — é encontrada 
na principal bibliotheca desta capital, nac.a possuindo sobre pa- 
leographia, nem mesmo as «Dissertações chronologicas de Ribeiro»^ 
que bons serviços poderiam prestar, principalmente a 15.*, rela- 
tiva á paleographia portugueza. 

Julgamos perigoso o acceitar uma traducção anonyma, feita 
de original desconhecido. Para que o Listitvtfj possa avaliar a 
fidelidade da tradiicção, basta que refiramos que a assignatura 
do tabellião publico e escrivão da camará, Gaspar Nogueyra» foi 
traduzida por Paulo de Proença ! E a illustre maioria, talve2L 
fundada em Azevedo Marques, acceitou essa traducção. 



— 275 — 

Quem era osse Paulo de Proença, do qual ning-uem fala, 
Bem P. Taques, tào minucioso na cnumoraçiio de quanto Proen- 
ça veiu á Capitania ? Examinadas as actas da Camará de 
S. André, veremos que foi um personagem creado por uma tra- 
ducçiio errada, irmão siamez do Gaspar Nogueyra, que só appa- 
reçe quando este apparece, que se recolhe aos bastidores, desde 
que Nogueyra sàe da scena. 

Quem visse as actas de S. André admirar-se-ia de que, 
sendo ellas lavradas por Gaspar Nogueyra, nâo contivessem a 
assignatura delle, mas a de Paulo de Proença, e que esta assig- 
natura fosse circumdada pelas siglas •§*, empregadas pelos notá- 
rios e escrivftes, como o era a sigla S ou a nota tironia L, para 
exprimir signum, signum manum etc. Giry — La diplomatique. 

Ainda outra consideração occorre-nos, e para ella pedimos 
a benévola attenção do Instituto. No anno de 1556, G. No- 
gueyra ausenta-se, e é nomeado para substituil-o como escrivão 
Simão Jorge. Pois bem ! Com a ausência de G. Nogueyra 
coincide a ausência das assignaturas de P. de Proença. Si nos 
dermos ao trabalho de examinar a assignatura de P. de Proença, 
veremos que antes do P da palavra Paulo existem uma perna 
de um G e um s, e que a primeira perna do P é a ultima penia 
do G.; que a palavra Gaspar está escripta em abreviatura. Po- 
deríamos mesmo dizer, sinão tivéssemos receio de que a memoria 
nos pudesse ter trabido, que nas actas da Camará de Piratinin- 
ga reapparece a bella assignatura de G. Nogueyra, sem as 

siglas, que são substituídas por — If-, e isto porque abi jii não 

era escrivão. Muitas outras assignaturas são traduzidas errada- 
mente, entre ellas a de Garcya Rodrigues, cuja ciniz é fácil de 
distinguir, mas deixamos de m»ncional-as para não abusar da vossa 
attenção. 

Era João Eamalho analpbabeto ? Não é de boje, nem pe- 
culiar do Brazil o julgar o uso da eseriptura e das assignaturas 
coisa fora do commum. Perez de Gusman, numa brilhante série 
de artigos publicados xm Illustracíoíi Espaflola y Americana, sob 
o titulo de — «Grafologia Real de Espana», discutindo as ques- 
tões : — si os primeiros reis da Hespanba souberam escrever e 
assignar o si as assignaturas usadas, quer pelos reis e príncipes, 
quer por todas as dignidades ecclesiasticas e civis, são verdadei- 
ros manogrammas, escreveu o seguinte, que bera poderíamos 
considerar uma advertência : «En la historia de la escritura, 
se han consentido machos errores que estan sancionados por el 
uso en calidad de cosajuzgada, y sin que ni la observación ni 
la critica racionnal se hayan aplicado todavia á desvanecerlos, 



— 276 — 

slgaen arraii^ando las creencias que de ellas han emanado en 
Io3 libros que se destinan á educar una juventud que aspira ai 
ran^^o de facultativa y cientifica. En el número de estos errores 
se hiillan las dos falsas nociones de que los monarcas primitivos 
de los anti^uos Estados soberanos, que se formaran en nuestra 
península después de la invasion mahomontana y hasta casi el 
siglo XII, no supieron escrir, y de que los nombres con que 
dejaron confirmaaos los documentos públicos, que pasaran por 
sua respectivas cbanciUerias, fueran de inseri pción de mano 
ajena». 

A illustre maioria da commissào assim respondeu á pergunta: 
«está fora de duvida que o celebre alcaide-mór da Borda do Cam- 
po nào sabia escrever o seu próprio nome, usava de ura signal par- 
tictilar para a sua assignatura que outros completavam». — Aventa 
em seguida a hypothese de uer judeu o celebre fundador de S. 
André. 

Em que pese á illustre e sabia maioria, o nosso voto discor- 
dante, aqui o lançamos nho simplesmente como fructo da convicção, 
mas como tosca b:ise para estudos dos competentes. 

Nos ensinamentos da Diplomática, sciencia geral de que faz 
parte a paleographia, alentou-se essa convicção. 

A assignatura por meio de uma cruz ou de um signal symbo- 
lico qualquer nem sempre indica que aquelle que o empregou é 
analphabeto. 

Era commum até o século XII, referem -nos H. de Pensey, 
Giry e outros, as assignaturas serem lançadas nos actos públicos 
pelos escrivães e tabelliães, lançando as partes apenas cruzes ou 
outros signaes autographos. Os próprios notários fizeram desses 
signaes meios de validação profissional, não escapando desse nu- 
mero os notários da egreja. «Ges siiui de notaires, auxquols certains 
érudits ont appliqué abusivement la dénomination de signet et 
qu'il vaut mieux appeler seigns manuels, furent d'abord assez sim- 
ples et de petite dimension : par ex, quelques entrelaces dont le 
point de dópart était souvent deux ss, abreviation du mot subs- 
cripsit, et plus souvent la croix, á laquelle, pour se distinguer les 
uns des autres, les notaires ajoutèrent bientôt des ornements et 
appendices. Depuis la fin du XIII et surtout au XIV et au XV 
siècle ces marques s'agrandirent, se développerent et se transfor- 
mèrent en figures». — Giry cit. 

Depois nos dá o referido escriptor uma série de, signaes usa- 
dos pelos notários para servirem de assignaturas, signaes sem let- 
tras. Uma das consequências da generalização de emprego da as- 
signatura, continua elle, adeante, foi no século 16, o reappareci- 
mento a principio das cruzes para uso dos illet trados, depois dos 



— 277 -— 

9igna particulares, que foram chamados marcas^ e de que se ser- 
viam nào só os que não sabiam escrever, mas ainda outros perfei- 
tamente lettrados que acharam nesse forma um meio commodo de 
particularizar as suas assignaturas. Mostra-nos Giry neste ponto o 
signal particular com que costumava assinar os seus trabalhos o 
celebre impressor Pedro Schoeffer. O Instituto sabe melhor do que 
nós que muitos primores da cerâmica têm por assiguatura de auctor 
apenas signaes particulares. O mesmo acontece com trabalhos de 
pintores afamados. Giry cita-nos o caso do papa LeÔo IX pôr ao 
lado do usual JBenevalete uma virgula ou komma gigantesca, acom- 
panhada de t-es pontos do lado superior, á esquerda. 

Perej^ de Gusman, na sua obra já referida, dá-nos assignatu- 
ras de cruz do imperador Carlos V e do rei Phelii>pe II, quando 
reis de Aragão e ae Castella ; assignaturas de cruz dos infantes d. 
Pedro e d. Martim, filhos de d. Pedro IV ; assignaturas de cruz de 
d. Fernando I, de Castella e da rainha d. Sancha ; e de d. Raymun- 
do, arcebispo de Toledo; assignautras por meio de signaes, symbo- 
licos — de d. Martim ; bispo de Oviedo (um braço empunhando um 
báculo) Cartnlnrio de Belmonte ; do cónego João, thesoureiro do 
cabido da cathedral de Lugo (uma chave) Cart, cit, etc, etc. 

Affiançar que todos esses personagens, pelo simples facto de 
não usarem de assiguatura por meio de signaes calligraphicos, 
eram amilphabetos, é contradizer a historia e os factos. 

No livro de actas que examinamos, encontramos 130 assigna- 
turas de cruz, cruzes de varias espécies, desde a latina até a 
papal, de tríplices braços, desde a decuspnta ou de Santo André 
até a de Malta, sem que deparássemos uma vez ao menos com 
algum signal particular servindo de assiguatura. 

Ora, si todos os analphabetos ahi assignaram de cruz, por- 
que Ramalho abriu uma excepção ? A illustrada maioria enten- 
deu que assim procedia pt r ser judeu. Verdade é que, esque- 
cendo-se desse modo de pensar, a fls. 2J, escreveu — «Não raro 
occultavam a sua raça e a sua fé para soífrerem menos no seio 
de uma sociedade intolerante e desconfiada como a desse tempo». 

Si os judeus occultavam a sua raça e a sua fé, e si Fama- 
lho era judeu, procurai*ia, ao assignar o seu nome, não differen- 
çal-o das assignaturas dos christãos, mas nunca, nessa epocha de 
desconfiança o de fanatismo, empregaria um signal que hoje, 
mais de três séculos depois, ainda attrae a attençao. 

E' conhecida a grande odlosidade de que no século XVI 
eram victimas os judeus em Portugal. Oliveira Martins — «His- 
toria de Portugal», L. 5 — refere o rigor cora que eram punidos 
03 christàos novos que judaizavam, A Ord. Manuel. L. 5 T. 2, 
estatuía : Pêro se algú cristão leiguo ; qr antes fosse judeu ou 



— 278 — 

mouro qr nacesse cristào : se tornar judeu : ou mouro : ou d ou- 
tra secta ; e assi lhe fôr provado : nos tomaremos conhecimento 
d' tal casuo este : e lhe daremos apena segudo direito ; porq 
ayp:reja nà haja aqui q conhecer si erra na fe ou nà : e se tal 
caso fôr q eles se torne ea fe ahi signa aos prelados delhes 
darê suas penitencias espirituaes — (Penas graves). 

Em 1548, em Goa, sob o governo de Martim Aff.* de Souza, 
que presidia como ouvidor a mesa secular, o arcebispo condemnou 
um réu de hei^esia a ser queimado vivo, refere O. Martins. As 
Ords. prohibiam expressamente que se levassem armas para as 
terras dos infiéis. 

Si Ramalho fosse judeu, o padre Simfto, tào rigoroso na 
apreciação dos seus actos, não deixaria em silencio um facto tào 
importante, nem a inquisição consentiria que vivesse livremente e 
impunido um homem, que se recusava a traç^ir no papel o signal da 
santíssima cruz, heresia ou judaísmo punido com pena gravíssima. 

Si Ramalho fosse judeu, o mesmo Martim Aff,", que vimos 
envolvido num acto de subido rigor, não nonieal-o-ia guaida— 
mór do campo. 

Si Ramalho fosse judeu os povos de Piratininga, onde im- 
peravam treze padres da Comp.*, não confiar-lhe-iam ainnas e 
muito menos dar-lhe-hiam o commando de christãos em 1562. 

Julgamos mais razoável «acreditar que João Ramalho, pri- 
meiro personagem de S. André, usasse por commodidade um si- 
gnal particular para assignar as actas da Camará, a exemplo dos 
grandes personagens, papas, reis, bispos, cónegos, dos notários, 
dos escrivães, etc. etc. 

Isto no caso de não serem suas as assignaturas que vimos 
nas actas, que poderiam variar, devido a circumstancias diver- 
sas, como posição do assignante, condições de saiíde, temperatu- 
ra etc. etc. 

Julgamos que já é tempo para a critica de procurar compreheji^ 
der e de explicar os factos^ em vez de louvar ou censurar ; ou para 
nos servirmos das palavras de Perez de Gusman — obra citada : 

«Ya es tiempo de que estas cuestiones, que no son nimias 

Í)ara la integridad de la ciência, entren en la órbita racional de 
a critica y que se adelanten y contribuyan a otras más amplas 
rectificaciones que la historia reclama com urgência». 

Uma rehabilitaçâo da memoria de João Ramalho impõe-se. 
Ninguém poderá negar os inestimáveis serviços prestados 
pelos jesuítas na catechese dos Índios e em prol da unidade 
brazíleira. Mas a justiça manda que se renda preito á memo- 
ria do velho alcaide-mór de Santo André, que foi o primeiro a 
conter os índios com a fortificação de seu arraial. 



— 270 — 

Sim! Esforçado fronteiro de S. André, foste tu quem de- 
teve o braço possante de Tebyriça, prestes a cahir sobre os com» 
paabeiros de Martim Affonso, poupando-lhes porventura a fu- 
tura sorte dos companheiros de Ayres da Cunha, de Pereira 
Coutinho e de Fero de Góes. Fizeste ver ao gentio que, nas 
<infunadas velas da lusitana frota, achava-se esmaltado em ver- 
melho o mesmo signal que á noite rutilava no céu sobre a sua 
«abeça. 

Sim ! Valente fronteiro da Borda do Campo, esse si<^na1, 
*u o trouxeste para os campos de Piratininga, abrigaste-o no 
teu entrincheiramento, hasteaste-o alfim sobre a egreja, onde á 
noitinha reuniam-se os christ&os para entoar louvores a Jesus e 
•à, Virgem Mãe. 

Depois, a ingratidão, esquecendo os inestimáveis serviços 
•qne prestastes, lançou sobre o teu nome as suas lias, chaman- 
4lo-te infame criminoso ! 

Depois, destruíram S. André, a tua filha querida ! 

Depois, tu, que com um aceno podias anniquillar a nas- 
cente Piratininga, foste viver no meio dos teus perseguidores ! ! 
Eras um judeu, dizem; mas tu soubeste perdoar como um chris- 
tko ! 

Eras um judeu, mas a camará e o povo de Piratininga es- 
colhiam o teu balsào para guia daquelles que deviam arvorar 
Avaute, nas margens do Parahyba, a cruz que levavam nos pu- 
nhos das espadas ! 

E hoje, nesta soberbissima Piratininga, onde avultam os pa- 
lácios brincados dos primores da architectonica, attestando o nos- 
so progresso ; onde multiplicam-se os campanários das egrejas, 
4tôsellando a nossa santíssima fé, hoje, o teu nome e os teus 
serviços sào quasi desconhecidos. 

O historiador, porém, indagando qual aquelle que mais se 
4ipproxiaiou da doutrina do louro filho de Nazareth, — o que sof- 
freu e perdoou, e o que, esquecendo-se da sua missão de paz e 
4le perdão, foi, além da tumba, perturbar com accusações infa— 
mautes o somno dos mortos, pela certa preferirá, ás chammas 
<las fogueiras que matam na contorsão da dôr, as chammas que 
aredimem, que fazem viver nos júbilos da concórdia e de per- 
<lào, chammas do coração do Divino Mestre. E a sua decisão 
«erá: — Honra ao teu nome, João Ramalho 

S. Paulo, 5 de Junho de 1902. 

M. Pereiiia Guimarães. 



Quem epã o bacliarel degradado em Gananéa?^'^ 



Da exposição que o Instituto acaba de ouvir, e que muita 
luz vem lançar sobre a tào controvertida individualidade do fft» 
moso bacharel de Cananéa, desta interessante investigação, de- 
vida ao nosso digno consócio o sr. Ernesto Guilherme Young, 
se infere, mui provavelmente, que o bacharel de que se trata 
nào é sinào Cosme Fernandes Pessoa, por tratamento mais usual 
conhecido por mestre Cosme. 

O illustre auctor da Ilistoría Geral do Brazil, Adolpho Var- 
nhagen, julga, porém, nào ser este o mesmo individuo de que 
falam as primeiras relações de viagem, mas um outro bacharel, 
apparecido em S. Vicente depois da vinda de Martim Afionsa 
de Souza. Esta opinião do abalisado historiador, constante de 
uma nota da primeira ediçào de sua obra, nào foi, porém, re- 
produzida na edição seguinte, o que faz crer que Varnhagen on 
a abandonou por improvável ou nutriu duvidas sobre a authen- 
ticidade do documento que lhe deu origem. O que é facto é 
que não mais se referiu a este assumpto, continuando, ao con- 
trario, a opinar por Gonçalo da Costa, como sendo o bacharel 
portuguez degradado em Cananéa em 1501 e alli deixado pela 
primeira armada exploradora da costa. 

Cândido Mendes de Almeida, em eruditíssimo estudo sob o 
titulo — Notas para a Historia Pátria (2) — , deixa de discutir a in- 
dividualidade de Mestre Cosme, visto que a sua apparição, no 
Brazil ou em S. Vicente, é posterior ao estabelecimento de 
Martim Afibnso, afastando assim esta questão, aliás digna de 



Qt Apresentando ao Instituto Histórico de 8. Paiilo os Subridio$ para a hiMÍoria dê 
Iguape e seus fundadores, do sr. Ernesto Gnilberme Yonng. em 1602. 

(21 Cândido fendes de Almeida. — Xota» para a Htuforia Pafria, segnndo ar*lgo— 
0$ primeiros povnadore$. Quem era o bacharel de Cananéa ? (Memoria lida perante o Ins- 
titato Historiòo e Geographico oa srss&o de 7 de Julho de 1876). Rev. Inst. Hist.,tom(k 
40, p. 163. 



— 281 — 

maior in vesti ga<^ào, para quebrar lanças por Joào Ramalbo, que 
elle procurou demonstrar ser o tào afamado bacharel. 

Vê-se bem que tanto Vambageu como Cândido Mendes não 
enfrentaram a questào do mestre Cosme, além de outras razões 
já citadas, talvez por insufficiencia de provas documentaes. A 
carta de confirmaçào, passada por António de Oliveira, conce- 
dendo terras a Pêro Corrêa a 25 de Maio de 1542 era, com 
effeito, o único documento a dar razào em favor da bypothese 
que as recentes investigações do sr. loung foram a pôr em foco. 

Por esse documento se verifica que Però Corrêa, bavendo 
por devolutas as tenas próximas do Porto das NáoSy da outra 
banda da ilha de S. Vicente, as obteve para si no tempo em 
que era loco-tenente do donatário Gonçalo Monteiro; mas, tende 
em viagem perdido os respectivos títulos, solicitou e obteve de 
António de Oliveira, então preposto de Martim Affonso de Souza, 
a sobredita carta de confirmação na qual se lê a seguinte refe- 
rencia: «Faço saber aos qae esta minha carta de confirmação 
virem, como por Pêro Corrêa, morador desta villa de S. Vi- 
cente, me foi feita uma petição em que diz que, por Gonçalo 
Monteiro, que aqui foi capitão, lhe foram dadas umas terras da 
outra banda desta ilha, que é o porto das náos, terra que era 
dada a mestre Cosme, bacharel, e outra de onde chamam Ferch- 
hybe, e é dez ou doze léguas desta villa...» No meemo docu- 
mento, algumas linhas adeante, se repete, por estas palavras, a 
referencia ao mesmo bacharel: «as demarcações delias, as quaes 
eu escrivão dou fó e digo ser verdade, que no dito livro do 
tombo são duas cartas registradas da terra que Gonçalo Mon- 
teiro, sendo capitão, deu ao dito Pêro Corrêa, e partem em esta 
maneira: a 1.*, que foi dada, que é defronte desta ilha e villa 
de S. Vicente, que era antes dada pelo governador a vm mestre 
Cosmey bacharel, que o dito Pedro Corrêa hímve por devolutas ; 
começa a partir do porto das náos, partindo com terras de António 
Rodrigues até ir partir com terras de Fernão de Moraes, defunto, 
ou com cujas forem daqui por deante, e a melhor declaração, as- 
sim como se achar que o dito bacharel y mestre Coi^vie partia, por- 
que pelas próprias declarações que lhe era dada, a deu ao dito 
Pedro Corrêa, e onde começou a partir, que ó no dito porto das 
náos, ficará um rocio de tiro . de arco, assim como foi mandado e 
ordenado pelo senhor governador, que fique livre e desembargado 
para quando as náos alli ancorarem» (1). 



(I) Man el Enplirasio de Ascredo Marques,- iljxm/amefi/of prra a hiatori^ etc. de 
9. Paulo- parte II, p. 'i8. 



— 282 — 

Do exposto se vc que o próprio Martim Afíonso de Souza, 
antes de retirar-se para o reino em 1533, fez concessões das terras 
vizinhas do porto das náos e fronteiras a Tiinitirú a mestre Costme, 
hacharel, e a António Rodrigues, ficando ambos os concessionários 
vizinhos confrontantes, mas deixando livre e desembaraçado um 
trecho de terreno, equivalente a um tiro do arco em roda para 
nelle se vararem as náos, o qual ficou desde entào pertencendo ao 
Conselho. 

Frei Gaspar da Madre de Deus, nas suas Memorias (1), refere 
que, por uma petição de Jeronymo Leitílo, para construir um tra- 
})iche no porto das náos, foram concedidas por sesmaria, a An- 
tónio Rodrigues, as terras fronteiras a Timiurú, reservando-se um 
pedaço delias para ahi se crenarem as embarcações. Nào cita o 
auctor das Memorias o nome de vieatre Cosme, mas dahi nílo se 
deve inferir que a este se nào concedessem também terras no 
mesmo logar. 

Uma explicação mui razoável ha para isso. O bacharel 
degradado vivia, ha muitos annos, estabejecido com uma espécie 
de feitoria nas terras próximas ao que depois se chamou o 
porto d(is uãoft e vizinho do velho António Rodrigues. Com a 
vinda de Martim Affonso para S. Vicente e a nova ordem de 
coisas, os dois aventureiros, que já ahi se achavam, solicitaram 
logo do donatário as terras de que já estavam de posse, havia 
longos annos e as obtiveram. 

Mas o novo regimen, já ntlo convindo, por quaesquer mo- 
tivos, ao bacharel, habituado como estava a um viver libérrimo 
e sem pêas, fez com que este, deixando o seu primeiro estabe- 
lecimento em S. Vicente, fosse viver em sitio mais apartado o 
quiçá para algum outro estabelecimento que porventura já havia 
iniciado para os lados de Iguape. Ahi ficaria mais longe do 
império da lei e, decerto, continuaria a reinar entre os seus 
Índios e a fazer o seu trafico como dantes. 

Ficaram assim em abandono as terras que lhe pertenciam, 
junto do jx}rto das mios, e então é que Pêro Corrêa as houve 
])or devolutas, solicitando-as de Gonçalo Monteiro, capitào e 
íoco-tenente do donatário. 

Tudo leva a crôr que o bacharel de S. Vicente é o mesmo 
de Cananéa ou de Iguape, o mesmo individuo cujo nome nenhum 
viajante nos transmittiu e que só agora se descobre debaixo da 
poeira de velhos documentos. 

Essa carta de confirmaçtio de Pêro Corrêa, com quanto da- 
tada de 1542, onze annos depois da fundação de S. Vicente, 



(1) MemorÍM para a Historia da Capitania de 8. Vicente. $ Ú8, p. 27. 



— 283 — 

tem indubitavelmente o mérito da revelação, transmíttindo-nos 
o nome do famoso bacharel, o qual, nas condições em que esse 
documento o apresenta, nílo é nenhum outro bíicharel apparecido 
depois em S. Vicente, como opinaram Varnhagen e Cândido 
Mendes, mas o mesmo individuo, de^i»;rndado em 1501, cuja no- 
toridade, pelo facto de ser elle um lettrado ou legista, foi tão 
;í;rande, no seu meio social, que o titulo veiu a sobrelevar ao 
próprio nome, obscureceu do-o ou deixando-o no olvido. 

O que o bem provável é que o referido bacharel degradado 
podia ainda estar vivo em 1542, contando a edade presumida 
de setenta e cinco annos, nho sendo preciso recorrer á hypo- 
these de um outro individuo para explicar o documento ou carta 
de confirmaçrio a que temos alludido. As epochas sào mui pró- 
ximas, e além disso, a identidade dos legares induz á identidade 
de pessoa. 

Investigações posteriores, como estas do sr. Young, de que 
acabaes de tomar conhecimento, confirmam a existência de mestre 
Cosme em Iguape, onde a tradição e os documentos locaes são 
accordes em consideral-o o primeiro e mais antigo possuidor de 
terra alli, citaudo-se-lhe o nome ora como Coame Fernandes y 
ora como Cosme Fernandes Pessoa, que morreu deixando des- 
cendentes, aos quaes se deve a doação do terras para o rocio da 
villa. 

A carta de confirmação de Pêro Corrêa, de 1542, a que nos 
temos referido, já não é documento único, depois das investiga- 
ções a que se entregou o nosso consorcio E. G. Young. A indi- 
vidualiclade de mestre Cosme, bacharel, que aquelle documento 
agitou, parece-mo que fica sufficiontemente comprovada com os 
documentos e as tradições correntes em Iguape. 

E' de esperar que, das aturadas pesquizas do nosso laborioso 
E. G. Young, outros documentos appareçam demonstrando á evi- 
dencia e corroborando as conclusões a que chegámos, isto é, que 
o mestre Cosme, badicrel, do documento de Í542, é o mesmo 
Cosme Fernandes Pessoa, o mais antigo possuidor de terras em 
Iguape, o fundador dessa cidade, co hmnem de grandes mereci- 
mentos que deixou em seu testamento declaração de que suas 
terras ficavam oneradas com a pensão annual de uma missa para 
todo o sempre pelo descanço da sua alma, sendo como era de um 
grande criminoso ...» 

Tudo nos leva a crer que o mestre Cosme, bacfiarel, do do- 
cumento de 1542, é o mesmo Cosme Fernandes Pessoa de Iguape, 
o mesmo bacharel deixado em degredo em Cananéa em 1501. 



— 284 — 

Nào terminaremos sem fazer algumas considerações aqui, 
agora muito a propósito, sobre « individualidade de Joíio Rama- 
lho, que segundo opinam alguns hibtoriadores, era o bacharel 
degredado em Cananéa desde a primeira viagem de exploração 
da costa do Brazil. 

Este aventureiro era, porém, illettrado. 

Está averiguado que nào sabia sequer assignar o seu pró- 
prio nome, que nas dezenove assignaturas suas, encontradas nas 
actas de vereança da villa de Santo André, por elle fundada, o 
que Ee vê e se reconhece feito pelo próprio punho de Eamalbo 
é um signal curvo interposto ao nome e o appellido, signal em 
forma de ferradura, de traço grosso, como que feito por uma mào 
pesada e ás vezes tremula, sendo o mais escripto por lettra do es- 
crivão Diogo Ferimndes, ou àe Simào Jorge ou de Braz Cubas, 
vereadores que com elle serviram. 

E nem se diga que por sua avançada edade recorresse elle 
a este expediente, porque, pelos annos em que taes vereanças se 
realizaram (1), o celebre alcaide-mór da Borda do Campo ainda era 
um homem forte, pelo menos ainda capaz de commandar em 
guerra, pois que em 1562 era eleito pelo povo para capitão da 
gente que foi fazer a guerra aos indios do rio Paranahyba. 
Mui provavelmente, estaria entre os 68 e os 75 ânuos o fundador 
de Santo André, quando assignou aquellas actas de vereança, e, 
nessa edade, o individuo que não éanalphabeto bem pode assignar 
por seu próprio punho, não carecendo de recorrer ao expediente 
acima apontado. 

JoíVo Ramalho era, pois, anaíphabeto ; não podia, portanto, 8er 
o bacharel degradado em 1501, conclusão a que também chegou o 
illustre historiador Varnhngem, como se vê da sua nota annexa 
ao fim do l.** volume da sua Historia Geral do Brazil, donde 
também se vê de uma carta do padre Balthasar Fernandes, de 
1568. que o celebre aventureiro, apezar de sua avançada edade, 
não qtieria nada de Deus, pois nfto é outro sinôo João Ramalho 
o individuo a quem na citada carta se faz referencia. 

O trecho dessa carta, escripta da capitania de S. Vicente a 
22 de Abril de 1568, diz assim : 

« Hum homem branco, que ha 60 annos que está nesta terra 
entre este f^entio, que agora hé quasi de cem annos (2) estando 
entre os indios e vivendo nào sei de que maneira, e iião que- 
rendo nada de nossas ajudas nem viinisterio, deu-lhe Deus de 
rosto com hum accidente, além de muitos corrimentos e pontadas 



(1) An-h'vo da Camâra de 8. Paulo, l.lvm de vereança?, tit. Ifi6\ 

(2) Tena provavelmente aeas noT(nt& a: nod. oa maito perto disso. 



— 2>^5 — 

qae tinha: veio em tanto hum filho seu que pousava daqui hama 
légua a diser-nos que seu pae morrera, e suspeitando nós que 
nào seria ainda morto : foram dous padres cedo a correr por arruas 
que estavam pelo campo por onde haviam de passar por ser 
grande cheia. Chegados á casa do miserável velho que não que- 
ria nada de Deus, veio Deus a visitar com os nossos, porque o 
que estava d^antes já morrendo, em máo estado, acodío-lhe Deus 
com a confissão que elle fez boa, pondo-se em bom estado e 
commungando ; mas nào morreu daquelle accidente, se nào anda 
para isso apparelhado e posto na verdade, esperando por sua hora. 
Cedo lhe virá». 

Esse velho quasi centenário, que vivia entre os Índios ha cerca 
de 60 annos ; que dos padres nào queria nada das suas ajudas 
nein ministério ; que nào queria nada de Deus, é bem o próprio 
Joào Ramalho, que o chronista nos diz ter sido excommungaao e 
que sempre moveu guerra aos padres da Companhia de Jesus. 

Este homem velhíssimo, este miserável velho que só se recon- 
cilia com Deus, Í7i articulo mortin, e a instancia dos religiosos nào 
podia ter sido um judeu? Nào seria um destes israelitas que oc- 
cultam a sua raça e a sua crença, exercem empregos, ganham as- 
cendência na sociedade em que vivem, e . . . expirando se conver- 
tem? 

A hypothese nào é repugnante, tanto mais quanto, por infor- 
mações que collígi, aquelle signal curvo usado na assígnatura do 
fundador de Santo A.ndré é uma lettra cabalística, — o kafyS, primei- 
ra lettra áymboUca da segunda ordem em que se divide o alpha- 
beto hebraico, significando - um Deus participando da natureza 
humana, provavelmente o Mensias. Assim sendo, o kaf) dos iraeli- 
tas bem pode substituir a cruz com que, naquelles tempos de 
ardente fé christan usavam fazer a sua assicrnatura os illet^rados. 

O mesmo signal também é encontrado nas moedas hebraicas, 
denominadas shekél e, segundo me informam, com significado 
syníiSDlico, tradazindo-se — com o auxilio de Jehovah. 

Nào irei mais longe. Basta o que deixo ex|)osto para se ver 
que a hypothese aventada pelo nosso consócio, dr. Joào Mendes 
Júnior, nào é impertinente. Ella ahi fica desafiando a investigação 
dos estudiosos. 

S. Paulo, 5 de Junho de 1902 . 

Theodoro Sampaio. 



Subsídios para a historia de Ignape 



SEUS FUNDADORES 



No Esboço histórico da fundação de Ifjuape, procurei escla- 
recer certos factos, comprovados por documentos, desconhecidos 
pelos historiadores em geral e que tivessem relação com a nossa 
historia local ; ao mesmo tempo, deixei da salientar muitas tra- 
dições locaes, algumas das quaes sào relacionadas com os funda- 
dores de Iguape e em grande parte corroboradas por documentos. 

lia tanta divergência nas obras históricas referentes aos fa- 
ctos occorridos no começo do século dezeseis, que c necessário 
usar do maior escrúpulo na transcripçuo delles. 

Pelos chronistas antigos sào citados nomes de diversas pes- 
soas, como existentes neste districto do littoral do Brazil, cora- 
prehendido entre S. Vicente e Cananéa, antes do anno de 1532, 
quando Mnrtim Affonso de Souza estabeleceu aquella villa, den- 
tre cujos nomes podemos citar os de Joào Ramalho, António Ro- 
drigues, Francisco de Chaves, Duarte Peres e Aleixo Garcia. 

Sobre a data da chegada destes homens a nossa historii» é 
omissa, ntlo tendo sido possivel encontrar dados sufficientes 2)ara 
podennos precisar taes acontecimentos ; porém, em vista das di- 
versas obras que tratam deste assumpto devemos julgar que 
João Ramalho chegou a S. Vicente no anno de 1510 ou 1512, 
como também deve ter-se dado por essa epocha a chegada de 
António Rodrigues. 

Nilo ha nada com relaçílo a estes homens que nos faça sup- 
pôr terem sido elles moradores de Iguape ou da Cananéa. 

A resj)eito do Francisco do Chaves, nào ha duvida que elle 
era morador da visinhança de Iguape no anno de 1531, conhe- 
cendo legares onde existiam mineraes preciosos e falando bem 
a lingua dos indigenas. Havia na sua companhia um bacharel 
que trinta annos viveu nestas paragens e cinco ou seis castelhanos. 

Nào ha certeza do tempo da chegada deste Francisco de 
Chaves aqui, nem provas positivas da sua nacionalidade, podendo- 



— 287 — 

se, porém, suppor que fosse portuguez pela distincçâo que faz o 
auctor do Diário da navegação da armada sob a capitania de 
Martim Affonço de Souza, quando diz : « Francisco de Chaves 
e o bacharel, e cinco ou seis castelhanos». 

De Duarte Peres, os poucos dados que possuimos são insuf- 
ficientes para se poder affirmar qual o logar onde este homem 
foi encontrado ou a epocha certa deste facto. Também nfto deve- 
mos considerar o nome de Duarte Peres como sendo o do ba- 
charel desterrado em 1501, pela mesma razào da falta de evi- 
dencia, e, ainda mais, Charlevoix não declarou ser elle um ba- 
charel, mas, sim, «hum cavalheiro portuguez chamado Duarte 
Peres». 

Em relação a Aleixo Garcia, temos noticias mais fidedignas 
de ter elle dirigido uma expedição para o interior deste continente, 
constando, porém, que esta expedição partiu de S. Vicente. 

Não é acceitavel esta historia em toda a sua integra, visto que 
seria difficil a elle ter feito similhante expedição, composta infalli- 
velmente na sua maioria por indígenas, sem que o celebre João 
Ramalho tivesse tido conhecimento delia ; tanto mais que este 
homem vivia na melhor harmonia com os indígenas próximos a 
São Vicente, tendo por mulher uma das filhas do poderoso Tibi- 
riçá. Outra facto que depõe contra a idéa de ser São Vicente o 
lK)nto de partida, é terem ido na companhia de Aleixo Garcia mais 
homens europeus. Ainda mais, se João Eamalho soubesse desta 
expedição deveria também conhecer o roteiro que ella seguia e 
teria commun içado esse facto aos portuguezcs, com os quaes elle 
viveu de 1532 a 1580, anuo em que falleceu. 

Que houve esta expedição antes da chegada de Martim Affon- 
so de Souza, não devemos duvidar, e, fazendo deducções dos do- 
cumentos existentes, é natural suppor que ella partiu de Iguape e 
não de São Vicente. 

Ruy Dias de Gusman deixou bastantes detalhes relativos á 
expedição de Aleixo Garcia, mas não provou á minha satisfacção o 
ponto da littoral donde partiu. A simples affirmação de uma pes- 
soa, baseada em tradições, ou sobre contos de terceiros, como, por 
exemplo, de filho de Garcia, que Ruy Dias do Gusman declarou 
ter encontrado em Assumpção e que escapou da sorte de seu pae 
por causa da sua tenra edade, não é sufficiente para ser acceita em 
todo o rigor. 

Temos ainda um outro ponto relativo a este homem e que não 
está esclarecido pelos historiadores antigos. 

Dizem elles que a tal expedição foi dirigida por um portuguez 
de nome Aleixo Garcia. 

Donde vem esta affirmação de sua nacionalidade ? 



— 28S — 

Do seu nome ou da noticia de ter partido a expedição de S&o 
Vicente ? 

Pode ser que me engane ; mas parece-me que o sobrenome de 
Garci i é de origem hespanbola, como também o é o nome de 
Aleixo. 

Em 1526, mais ou menos, bavia uma frota bespanbola, com— 
mandada por Diego Garcia, de que o erudito cbronista Adolpho 
de Varnbagen diz : «aportou em S. Vicente ; e tantos mezes ahi 
se demorou que parecia esquecer-se do seu destino, que era subir 
o Rio da Prata. Por meio da relação que da sua viagem nos tranft- 
mittiu, nàe se nos recomnienda como bomem verdadeiro, nem j>o— 
lido, nem superior á mesquinba inveja, e deve ler-se com pre— 
CAUçào». 

Infelizmente ainda nào tive o prazer de ler a relação desta 
viagem, e talvez abi exista alguma ligação com a nossa bistoria, 
que, j)or falta de outros dadoâ, escapou á percepção do sr. Var- 
nbagen. 

O Aleixo Garcia do qual elle, em sua Hist')na Geral do 
Brazil, diz: «que segundo a tradição, aprisionado joven, veia a 
prestar importantes serviços na colonisação do Paraguay», é 
indubitavelmente o filbo do cbefe da dita expedição e que foi 
encontrado por Ruy Dias de Gusman em Assumpção. 

Roberto Soutbey, era sua Historia do Brazil^ tratando da 
viagem de Diego Garcia, diz: «Gbegou á babia de San Vi- 
cente, onde um Portuguez, que tinba o grau de bacbarel, o 
abasteceu de carne, peixe e outros géneros, que o paiz offere— 
cia, dando-lbe demais um genro seu, que servisse de interprete 
no Rio Solis». Também em referencia ao Aleixo Garcia diz: 
cGrande pena é não se ter conservado a bistoria deste aventu- 
reiro portuguez; bomem deve elle ter sido de extraordinários 
dotes, para com sós cinco europeus ter levantado um exercito». 
Na nota que acompanba este trecbo encontra-se o seguinte : 
«Ruy Dias de Gusman, na Argentina, põe esta jornada no anno 
de 1526. Segundo este escriptor também Garcia foi enviado de 
S. Vicente por Martim Affonso, em raz^ da sua proficiência 
nas linguas guarani, tupy e tamoya. Alcançou o Paraná e o 
i'araguay, e á testa de uma força indiana penetrou até aos con- 
fins do Peru, donde, apesar de recbaçado pelos Cbarcas, voltou 
carregado de despojos. Cbegando outra vez ao Paraguay, mau-^ 
dou Garcia dous do3 seus três companbeiros adeante com amo»- 
tras das riquezas do paiz. Voltaram estes salvos a S. Vicente; 
entretanto, foi elle assassinado; e os mesmos Índios que o tinbam 
morto fizeram outro tanto a Sedenbo e a sua gente, que seguia 
as pegadas daquelle». 



— 289 — 

Confrontando o que diz YamliAgen com a narraç&o escn- 
pta por Sontbey, relativa ao estádio de Diego Garcia em S. 
Vicente, verificámos que aquelle nào £az menção do encontro 
de GUreia ccmi o bacharel, e, em vista da afflrmaç&o de Sou- 
they, de ter este homem fornecido géneros e um interprete ao 
commandante da frota, é uma circumstancia a favor de nossa 
idéa de ter sido em Cananéa e n&o em B. Vicente onde Dieg^ 
Garcia demorou tanto. Também no que diz Southey a res- 
peito dos companheiros europeus de Aleixo Garcia, encontramos 
apoio para nossa asserção de ter a dita expediç&o partido de 
Iguape, ainda que ha uma pequena discordância entre o que 
diz áouthey e a nota de Ruy Dias de Gkisman. Aquelle diz: 
ccinco europeus», e este, que Garcia mandou «dois dos seus três 
companheiros adeante com amostras das riquezas do paiz». Seja 
qual fòr o numero, devemos considerar que alguns voltaram e 
que foêse destes que Francisco de Chaves recebesse as noti- 
cias, ainda que elle nào fosse um dos actuaes participadores das 
peripécias da viagem, donde resultaram as informações dadas a 
Hartim Affonso em Agosto de 1531. 

Nfto ha a menor duvida que Francisco de Chaves c o bacha- 
rel desterrado em 1501, com mais cinco ou seis castelhanos, fo- 
ram encontrados por Pedro Annes na vizinhança de Iguape, e 
Sor documentos existentes está provado que o dito bacharel viveu 
urante alguns annos na villa velha de Iguape, situada ao pé de 
ura pequeno monte conhecido pelo nome de «Oiteiro do bacha- 
rel». Egnaimente, as informações dadas a Martim Affònso ^r 
Francisco de Chaves, relativas á existência de mineraes precio- 
sos, foram de tal importância e cunho verídico, que aquelle 
eommandante mandou Pcro Lobo com oitenta homens em pro- 
cura desses mineraes. 



EiStudando um pouco este facto, parece impossivei que Mar-« 
úm Affonço desfalcasse a sua frota de tantos homenb para essa 
expediç&o, que se contava duraria dez meses, sem que tivesse 
provas positivas da existência de mineraes que compensassem os 
laeoramodos que lhe ia &zer a falta destes homens em suas via-* 
gens futuras. 

C<m8Íderando que Francisco de ChaTes tinha pleno conheci» 
mento da existência de minas de ouro naquella epoeha, poderíamos 
suppôr que fossem as do río Ribeira ; porém contra esta supposi- 
çfto ka um facto que é necessário tomar em consideração. 

As minas de ouro, que mais tarde fbram exploradas durante 
muitos annòs, na zona do río Ribeira, s&o todas situadas em dis- 
tancia máxima de um dia de viagem a pé da margem éo dito río, 



— 290 — 

otL de algum dos seus affluentes, navegáveis por canoas. A maior 
distancia a percorrer em canoa e por terra do logar onde se achava 
fundeada a frota de Martim Affonso, n&o levava além de doze dias, 
e, como entre as informações dadas devia naturalmente contar-se 
o tempo necessário para a viagem, é natural concluir que si fossem 
as minas tão perto, o próprio commandante havia de ir pessoal- 
mente examinal-as com Francisco de Chaves. 

Reparando na asserção de Ruy Dias de Gusman referente a 
dois companheiros de Aleixo Garcia, ver-se-á que elle diz : c Vol- 
taram estes salvos a S. Vicente; entretanto foi elle assassinado ; e 
os mesmos Índios que o tinham morto fizeram outro tanto a Se- 
denho e á sua gente, que seguia as pegadas daquelle». 

Acceitando esta asserção como verídica, devemos desprezar 
parte da de frei Gaspar da Madre de Deus, em suas «Memorias 
para a historia da capitania de S. Vicente», onde tratando de 
Martim Affonso, diz : «A sua ultima acção memorável no Brasil 
teve por ohjecto o descobrimento de Minas. Constando-lhe, por 
informação dos indios, que nas vizinhanças de Cananéa havia ouro, 
apromptou uma Bandeira de 80 homens, e por elles mandou exa- 
minar o sitio indicado das Minas, mas com successo infeliz ; 
porque os bárbaros Carijós, senhores do Paiz existente ao Sul do 
rio de Cananéa, mataram os Exploradores das Minas, antes de 
as descobrirem. Nas vésperas do embarqae de Martim Affonso 
chegaram a S. Vicente as noticias desta derrota ; e não lhe sendo 
possivel castigar pessoalmente o insulto do Gentio, como desejava, 
ordenou que os aggressores fossem punidos com mão armada, or- 
denando para Capitães de Guerra os Fidalgos Pedro de Góes e 
Ruy Pinto». 

Ha manifesta illusão em parte desta historia de frei Gaspar, 
visto ter sido em 1.'* de Setembro de 1531 que partiu de Cananéa a 
expedição composta de 80 homens em procura de ouro, e, portanto, 
anterior á fundação da villa de São Vicente, ultima acção memo- 
rável de Martim Affonso no Brazil. 

Tomando em consideração o facto que, entre a partida da- 
quella bandeira de Cananéa e a chegada da noticia da derrota 
em São Vicente, que, conforme frei Gaspar, era na occasião da 
partida de Martim Affonso para Portugal, decorreu o espaço de 
18 a 20 meses, duplo do tempo marcado por Francisco de Char 
ves para a duração da viagem, devemos concluir que a expedi- 
ção seguia o roteiro de Aleixo Garcia, e que fasse a mesma da 
qual Ruy Gusman declara: «e os mesmos índios que o tinhão 
morto âzerão outro tanto a Sedenho e a sua gente». 

Si a mortandade destes homens tivesse sido nas minas de 



— 291 — 

Ribeira oa nas de Curitiba, n&o devia ter demorado tanto tempo 
para chegar a noticia a São Vicente. 

Para que a noticia dessa derrota fosse transmittida, a Mar- 
tim AfiEbnso, devemos suppôr que alguém que acompanhou a ex- 
pedição voltasse ; porém, si este era europeu ou indigena não- 
ba indicio certo. 

Em relação ás expedições e com especialidade á que foi 
dirigida por Aleixo Garcia, lia um facto que pode servir de 
corroboração a historia de ter elle chegado aos confins do Peru, 
e de volta, mandar adeante algum dos seus companheiros com 
amostras da riqueza do paiz. Este facto ó ter-se achado no rio 
Ribeira, logo abaixo de Xiririca, num logar chamado Ilha-raza, 
um machado de bronze, o • qual, descoberto pelo sr. Henrique 
Ernesto Bauer, ha annos se acha collocado no Museu Nacional 
do Rio de Janeiro. Consta-me ser considerado o dito machado 
como sendo peruviano e, assim, podemos julgar que fosse perdi- 
do na volta dos companheiros de Aleixo Garcia que vieram ade- 
ante trazendo amostras da riqueza do paiz. 

Deixando agora os acontecimentos já descriptos em diversas 
obras, vejamos o que dizem as tradições locaes a respeito dos 
primeiros moradores europeus e de seus feitos, procurando em 
seguida corroborar estas noticias com documentos ; porque, geral- 
mente, as lendas e tradições são fundadas em factos históricos, 
ainda que pelo correr dos tempos fiquem corrompidas. 

Como citei no Esboço histórico da fundação de Iguape, cons- 
ta por tradição que em tempos remotos um bacharel desterrado 
estabeleceu-se ao pé de um pequeno monte, situado em frente á 
barra do Icapara, monte em que elle levava dias inteiros as- 
sentado, olhando para o lado do mar, até que chegaram mais al- 
guns homens, náufragos de um bote, e com os quaes elle for- 
mou o núcleo da antiga villa de Iguape. 

Outra tradição, ou lenda, diz que existe próximo de Iguape 
uma grande caverna deslumbrante, onde os primitivos moradores 
se escondiam em occasião de perigo, e, que, chegando esta ao 
conhecimento dos prímeiros europeus aqui vindos, estes utiliza- 
vam-na para esconder nas suas profundezas muito ouro em pó 
6 outros objectos de valor, sendo por elles depois tapada a en- 
trada quando foram obrigados a fugir daqui e, como nunca 
mais voltaram, ficou por esta razão desconhecido o logar da 
entrada. 

Uma outra lenda, que foi transcripta ha annos no Livro do 
Tombo da Camará, diz que havia uma grande caverna no mon- 



— 292 — 

te próximo á villa, habitada durante muitos aimos por duas co- 
bras enormes, que faziam grande damno aos moradores na YÍsi- 
nhança e que, para acabar com ellas, os homens fizeram uma 
peça de madeira chapeada de ferro, com que, dando um tiro ma- 
taram uma das cobras, voando a outra pelas mattas, derrubando 
arvores e abrindo um sulco profundo na terra, de cujo facto 
provém o nome de Koycoara e que, depois da morte da dita 
cobra, os homens entulharam a bocea aa dita caverna. 

E' provável que estas duas lendas tivessem sua origem num 
só acontecimento, sendo possivel que haja alguma caverna que oa 
primeiros europeus utilizavam como esconderijo em occasiõea op- 
portunas, forjando a historia das cobras para afastar os indigenaa 
daquelle logar. 

Ha uma outra tradição, constando que o primeiro morador 
branco de Iguape, sendo degradado da sua terra q n&o podendo 
mais voltar a ella, sob pena de morte, consagrou annos da ao* 
vida em ajuntar ouro em pó, e que, na occasião da sna morte, 
cumprida a expressa vontade deixada, foi enterrado numa grande 
cova aberta em rocha viva, sendo seu corpo rodeado e coberto com 
o dito ouro em pó e tapada a cova com uma grande lage de pedra. 
Esta tradição é tão conhecida do povo que não é raro ouvir uma 

Sessôa, batendo por acaso sobre uma pedra que produza som oco,, 
izer : «Quem sabe si aqui não foi enterrado o tal homem?». 

. Não podemos duvidar que esta lenda refere-se ao bacharel 
desterrado, tanto pela referencia que faz do primeiro morador bran- 
co de Iguape, como relatando o facto de ter eido desgraçado e n&o 
poder mais voltar á sua terra. 

No cartório desta cidade, entre os papeis velhos e nos livros 
antigos, existem bastantes transcripções de vendas de terras, de 
requerimentos de medições e demarcações de sesmarias concedidas,, 
testamentos, doações, etc., comprovando a existência de maltas £a- 
milias no fim do século dezeseis ; como também ha documentos na 
archivo da camará municipal no mesmo sentido^ pelos quaes pu^ 
demos compilar a lista seguinte de nomes i 

António de Barcellos. 
Carlos Munis de Gusman. 
Francisco Gonçalves, pae de 
Bartholomeu Gonçalves. 
Agapito Garcia, pae de 
Manoel Dias Garcia. 
Prancisco de Ozedo^ pae de* 



— 298 — 

Braz de Ozedo. 

BomÍBgos de Aguiar, pae de 

António de Ozedo. 

Francisco Alvares Marinho. 

Francisco de Pontes Vidal, pae de 

Francisco de Pontes Vidal (designado «o mosso-». 

Joào de Auhaya, pae de 

Fernando de Anhaya. 

Trindade de Anhaya, irmão de João de Anhaya* 

António de Anhaya, irmão de João de Anhaya. 

Domingos Rodrigues Cunha. 

António Pereira Nunes, pae de 

Diogo Pereira Nunes. 

Domingos Dias. 

Paschoal Peres, pae de 

António Peres. 

Domingos de Veras, pae de 

Innocencio de Veras 

Bernardo Chaves 

Ildefonso Tinoco, pae de 

Bartolomeu Tinoco. 



Por esta relação ver-se-á que geralmente os filhos usaram do 
sobrenome dos seus pães, principiando, porém, nessa epocha a ser 
este costume alterado, como ha de ser demonstrado, e, em vista 
deste costume, podemos acreditar que os mesmos sobrenomes vie- 
ram dos seus progenitores. 

Entre estes nomes ha diversos de origem hespanhola, como 
também encontramos alguns de pessoas occupando posições de 
confiança, naquella epocha, de nomes Garcia e Chaves. 

Não serão estes descendentes de Aleixo Garcia e de Francisco 
de Chaves ? 

Dos nomes citados existem representantes das familias de 
Garcia, Francisco Alvares Marinho, Pontes Vidal, Cunha, Nunes 
e Veras, todos os quaes se consideram como descendentes dos 
primeiros moradores de Iguape. 

Seja como fôr, não é nossa intenção estabelecer parentesco 
entre os moradores de Iguape de 1600 com os de 1Ô30, sinão 
na parte que diz respeito ao próprio bacharel, esperando assim 
derramar alguma luz sobre o seu nome. 

Ha muitos documentos existentes em que se declarava ter 
sido o primeiro possuidor de terras em Iguape um homem char* 



— 294 — 

mado Cosme Fernandes. Em uns referem-se a elle por aqnelle 
nome, emqnanto que em outros dizem «Cosme Fernandes Pessoa»; 
porém, creio que a addicçâo de «Pessoa» ao seu nome é sim- 

{>lesmente o effeito de engano de transcripçâo, usando a pa- 
avra como nome próprio em logar de ser em referencia á sua 
pessoa. 

Na egreja matriz havia La poucos annos um livro de Tombo, 
aberto e nibricado por Antoí»io Ribeiro, vigário collado da villa 
de Iguape, por ordem do reverendo d. Bernardo Rodrigues 
Bueno, bispo da diocese, no anno de 1725, em que diz : «Cosme 
Fernandes Pessoa de grandes merecimentos deixou em seu tes- 
tamento declaração de que suas terras íicào oneradas com a pensão 
annual de uma missa para todo e sempre pelo descanço da sua 
alma sendo como bé de um grande criminoso iicando o pa- 
rocbo encarregado de arrecadar esta dita pensão dos seus 
herdeiros». 

Por um termo do doação de torras para o rocio da villa, 
lavrado num livro de cVereança do conselho da camará da villa 
de Nossa Senhora das Neves de Iguape», que achei entre pa- 
peis velhos no archivo da\ camará, verifica-se que os senhores 
capitães Francisco de Pontes Vidal e Manoel da Costa de- 
clararam em 1679 serem herdeiros de Cosme Fernandes. (An- 
nexo n. 1). 

Pelo documento n. 4, que acompanha o laEsboço hisioríco da 
fundação de IgnapeT», passado em 1660, ver-se-á que o capitão 
bernardo Rodrigues Bueno requereu á camará desta villa, pedindo 
attestado de como foi verdade que seu sogro Francisco Alvares 
Marinho fez a mudança da villa e deu as terras onde ella 
existia. 

Para esclarecer a relação existente entre Francisco de Pon- 
tes Vidal e Manoel da Costa, que fizeram doação legitima das 
terras para o rocio da villa, e Francisco Alvares Marinho, é 
necessário tratar da genealogia deste durante algumas gerações. 
Não me foi possível saber dos seus ascendentes, sinão que elle 
foi herdeiro de Cosme Fernandes ; porem, em relação aos seus 
descendentes, toma-se mais fácil, em vista do grande numero 
de escripturas de vendas de casas e terras que existem. 

Não consta que Francisco Alvares Marinho tivesse filhos, e, 
ainda que os tivesse, não existiam na occasião da doação das 
terras, como se infere dos documentos ; mas, tinha duas filhas, uma 
casada com Francisco Pontes Vidal e a outra com Bernardo Ro- 
drigues Bueno. Este Francisco de Pontes Vidal era o mesmo ao 
qual se referiu o requerimento feito em 1637^ pedindo uma sesmaria 



— 295 — 

de duas léguas de torra, com a desígnaç&o — «o mosso» (Vide do- 
cumento n. 2 do Esboço Hitsiorico)^ e é desnecessário de monstrar 
agora a prole delle, visto ser um dos próprios doadores das 
terras. 

Bernardo Rodrigues Bueno, genro de Francisco Alvares Ma- 
rinho, tinha uma íilha, de nome Anna Maria das Dores, que casou- 
se com Manoel da Costa, de cujo matrimonio nasceram diversos 
filhos e filhas, entre os quaes um de nome Sebastião Eodrigues 
Bueno, que occupou diversos cargos na administração da villa, e 
casou-se com Maria Nunes Chaveiros. 

O referido Manoel da Costa, em virtude de seu casamento com 
Anna Maria dos Dores, filha de Bernardo Rodrigues Bueno, tor- 
nou-se herdeiro da metade das terras pertencentes a Francisco Al- 
vares Marinho, sendo que a outra metade pertencia, como herdeiro 
deste, a Francisco de Pontes Vidal, por parte de sua mulher. 

Podemos inferir que a dadiva feita á camará na occasião da 
mudança por Francisco Alvares Marinho, certificada pelos officiaes 
da camará no requerimento de Bernardo Rodrigues Bueno, fosse 
verbalmente; porque, no dia 2 de Julho de 1679, a camará decla- 
rou ao capitào-mór, e ouvidor da comarca, Luiz Lopes de Carvalho, 
que ella não possuia terras, e neste mesmo dia, sendo chamados os 
senhores Francisco de Pontes Vidal e Manoel da Costa, estes deram 
á camará 250 braças em quadro de terreno cuja demarcação foi 
feita como consta o documento annexo n. 1. 

Sendo este documento de doação assignado por Francisco de 
Pontes Vidal e Manoel da Costa o não constando que existissem 
outros pretendentes ás terras do fallecido Francisco Alvares Ma- 
rinho, ó razoável affirmar que não havia outros herdeiros einão 
aquelles que assignaram a doação, e seus descendentes. 

Egualmente devemos inferir que até áquella data os herdeiros 
de Francisco Alvares Marinho, ou, como dizem no termo da doação : 
«erdeiros de Cosme Fernandes», não tinham repartido entre si as 
referidas terras, sinão não havia razão dos dois assignarem a es- 
criptura; porém mais tarde, entre os annos de 1679 e 1696, as 
terras de Cosme Fernandes foram divididas, ficando Manoel da 
Costa e seus herdeiros com a parte que fazia frente para o 
Mar-pequeno, e os herdeiros de Francisco de Pontes Vidal com 
a parte que fazia frente para o Rio Ribeira, sendo a linha 
divisória em distancia approximadamente égua] entre o Mar-peque- 
no e o rio Ribeira. 

Além desta doação de 1679, houve outras era diversas epochas 
posteriores, augmentando a quantidade do terreno pertencente á 



— 296 — 

villa, das quaes existem alguns documentos referindo-se ao primeiro 
dono Cosme Feraandes. 

No anno de 1830, em audiência do. juiz de paz, José In- 
nocencio Alves Alvim, do dia 18 de Setembro, houve uma con- 
ciIia<^ão relativa ás terras no porto da Ribeira, entre partes : 
Ignacio António de Souza por si e por sua mãe, e Seoastifto 
Rodrigues, Lima e outros, em cujo auto consta o seguinte: O 
herdeiro Salvador respondeu : Que sendo seus ascendentes se- 
nhores das terras do Porto, por titulos legítimos, aconteceu vir 
a esta villa hum Ouvidor por nome Manoel de Mello Godinho 
Manso, o qual mandou queimar os ditos titulos. Que passando 
um grande numero de annos tendo varias pessoas tomado posse 
de parte das ditas terras no porto da Ribeira, o seu pae, delle 
supplicado, por nome Raimundo Rodrigues Pereira, fizera uma 
justificação para mostrar que aquellas terras lhe pertenciam, cujo 
documento existe no cartório desta villa, e é o único titulo que 
ora ha dessas terras». Mais adeante, no mesmo auto de audien* 
cia, encontra-se o seguinte : «Que além de todas estas circums- 
tancias existe mais a favor do supplicado uma, e vem a ser:— 
Que estando aquellas terras oneradas com a pensão de uma 
missa annual pela alma de Cosme Fernandes Pessoa somente 
elle supplicado, e seu fallecido pae, cumpriram aquelle ónus, 
sem que os mais herdeiros contribuíssem para isso». 

Não devemos duvidar aue o bacharel que viveu tantos an- 
nos entre os indígenas, tendo pelo menos uma filha, sinão não 
podia ter fornecido um genro seu para servir de interprete ao 
Diogo Garcia, tivesse escolhido para si e sua família um doa 
legares mais apropriados para sua vivenda; e o logar mais apra- 
zível próximo á antiga villa é o logar onde mais tarde se acha- 
va estabelecido Francisco Alvares Marinho e onde actualmente 
existe a cidade de Tguape. 

Não podemos ter a mínima duvida sobre ser o dito Fran- 
cisco Alvares Marinho o herdeiro de Cosme Femandeá, em vista 
de tantos documentos que existem, provando que os descenden- 
tes delle se consideravam como heraeiros de Cosme Fernandes. 

Agora: não é possível ter elle sido o bacharel desterrado 
em 1501? 

Perguntamos mais : de onde vem a notícia que ha na nota 
numero 10 do primeiro tomo da Historia Geral do Brazil, por 
Adolpho de Varnhagen, onde diz : «Em S. Vicente havia pou- 
co depois outro bacharel que chamavam Mestre Cosme ?» 

Basta estudar um pouco a historia para fiear convencido 



— 297 — 

Que Gonçalo Monteiro, capitão commandante do littoral, nomea- 
do por Martim Afionso de Souza, mandou reunir eni S. Viccente 
08 moradores europeus de Iguape, cuja ordem foi cumprida pe- 
los portuguezes aqui existentes, entre os quaes o bacharel. 

Desejava muito saber a origem da noticia dada pelo sr. 
Varnhagen a respeito do bacharel Mesti-e Cosme, cujo trata- 
mento parece-me sufficiente para chamar a attençfto de qualquer 
pessoa, devendo-se lembrar que, si nós, hoje, damos nos homens 
de pergaminho a importância que merecem, tanto mais era o 
respeito, na era de 1530 a 1540, do povo para um bacharel, e 
que ninguém ousava chamal-o simplesmente «Mestre Cosme.i 

Estarei, talvez, enganado; porém acredito que Cosme Fer- 
nandes de Iguape é o mesmo Mestre Cosme de Sào Vicente, 
sendo elle o bacharel desten*ado em 1501. 

E* possivel que haja algum documento entre os papeis jurí- 
dicos em Portugal, que possa provar o seu nome, e dar votos para 
que seja encontrado um que prove o nome do celebre bacharel que 
aqui em Iguape é considerado como sendo seu fundador. 



Iguape, 1902. 

Ernesto Guilherme Young. 



— 298 — 

ANNBXO N. 1 

Termo do rodo desta villa 

Aos dois dias do mez de Julho de mil Seis Senttos e setenta 
e nove annos e nas cazas do Senado desta Villa os officiaes da Ca- 
mará delia os abaixo-aSignados requireram ao Capitão-Mor Ou- 
vidor Luiz Lopes de Carvalho que esta Camará não tinha terras 
medidas nem demarcadas que para se saber o que hera do conse- 
lho lhe mandasse medir o que fosse licito para se fazerem cazas in- 
do esta Villa em au^çmento e pelo dito forào mandado chamar o 
Capitão Manoel da Costa e o Capitão Francisco de Pontes Vidal 
por serem os herdeiros de Cosme Fernandes Pessoa de quem as di- 
tas terras forâo, e lhes pedio em nome do Senhor Conde Donatário, 
de que elles quissessem dar terras para Rocio desta, ao que elles 
responderam herão contentes e davão de suas livres vontades du- 
zentas e cincoenta braças craveiros de terras em quadra para Rocio 
desta Villa, as quaes começão da Barra do Rio Ypiranga da banda 
nordeste e acabaria para a banda do sudueste, e logo pelos ditos 
Officiaes da Camará em presença do dito Ouvidor e adoadores 
forão medidas as ditas duzentas e cincoenta braças, e acharão aca- 
barão adiante da casa de Francisco Guedes, aonde está na Rebu- 
leira de mato alto e outro tanto se intenderá para a banda do no- 
roeste e de como assim os ditos adoadares deram as ditas terras 
para o Conselho e Rocio desta Villa de suas livres vontades os di- 
tos Offlciaes da Camará aceitarão, mandando fazer este termo onde 
todos aSignarão. E eu, Jerónimo de Araújo Escrivão da Camará 
que o escrevy. — Valemtim Rodrigues. — Francisco de Pontes Vidal. 
— Manoel da Costa. — António Franco. — Cruz + de Belxor Forâo. 
— Felipe Perera. — Manoel Martins de Miranda. — Luiz Lopes de 
Carvalno. 

E. G. YouNG. 



A propósito de João Ramalho 



Mens Senhores, 

Bem acertado andon o Instituto, em uma das suas sessões 
anteriores, não encerrando o debate motivado pelo parecer da 
commissão nomeada para examinar, em papeis públicos do Ar- 
chivo da Camará Municipal de S. Paulo, a assignatura de João 
Ramalho. 

O assumpto nfto estava, de facto, exgottado, e seria pena 
pôl-o assim á margem sem esperar, depois de publicado o pare- 
cer, pelo esclarecimento ou elucidação da questão por parte de 
outros estudiosos das cousas pátrias. 

Que as investigações proseguiram, prova-o esta valiosa con- 
tribuição que ora tenho a satisiacção de apresentar ao Instituto, 
feita pelo nosso digno consócio, o sr. Horácio de Carvalho, di- 
rector do Diário Official do Estado, o qual, possuindo conheci- 
mentos da litteratura oriental, e por mim cônsul tado^sobre aquelle 
signal curvo verificado na assignatura do famoso aventureiro, 
deu-se ao árduo trabalho de investigar, e fel-o com tanto inte- 
resse e largueza de vista, que escreveu essa monographia, teste- 
munho bem real da sua erudição e competência na matéria. . 

Declaro ao Instituto que, no intuito de aprofundar o as- 
sumpto, deixando-o extreme de toda duvida, cheguei a appellar 
para alguns especialistas extrangeiros e tenho a promessa de um 
delles de que a questão do signal symbolico, submettida a 
orientalistas competentes, terá em breve uma solução satisfacto- 
ria, confirmando de certo os resultados a que chegou o nosso 
erudito consócio. 

O trabalho deste, como vedes, é longo e tão enriquecido de 
citações, desenhos e signos, como a matéria o exigia, que difficil, 
sinâo impossível, será ao auditório comprehendel-o sem ter cada 
qual deante dos olhos o próprio texto com todos os seus signaes 
cabalísticos, e caracteres hebraicos, cuja origem e interpretação 
nos dá tão minuciosamente o nosso distincto coUaborador. Esse 
interessante estudo é antes, porém, para ser lido do que ouvido. 



— 800 — 

Entretanto, apresentando-o ao Instituto, para que devida- 
mente o aprecie e lhe dê publicidade em a sua Revista, n&o me 
furtarei ao dever, muito legitimo, de communicar-vos os resul- 
tados a que chegou o sr. Carvalho, chamando ao mesmo tempo 
a attenção do Instituto para a relação hihliographica do fim do 
manuscripto, onde se vê, pelo numero dos auctores consultados, 
quão longo e escrupuloso foi o estudo a que se entregou o 
auctor. 

No parecer que a commissào de que fui relator apresentou 
ao Instituto, tinhamos chegado á conclusão de que as assignaturas 
de João Ramalho, examinadas no Archivo da Camará, não eram 
de seu propr o punho, e que tão somente o signal curvo, feito 
a traço grosso, interposto ao nome e ao appellido é que se podia 
attribuir ao famoso alcaide-mór. 

O exame desse signal curvo deu então logar á hypothese 
bem plausível de que fosse elle um symbolo judaico, isto é, o 
kafi ^J , equivalente á cruz, e que João Ramalho, sendo anal- 
phabeto, empregando-o, se revelava judeu. 

Este estudo do sr. Horácio de Carvalho teve por fim, como 
elle próprio o diz, habilitar-me a sustentar, pelo menos, o Esote^ 
rismo do signal kaf^ ^ , exactamente equivalente ao signal + 
e, portanto, seu substituto legitimo segundo a interpretação his- 
tórica do judaismo primitivo. 

Quanto ao valor cabalístico do signal usado pelo alcaide- 
mór, eis o qtfe nos diz o Sr. Carvalho : 

«Si o signal da sua assignatura é o kafy ^ , elle, João 
Ramalho, dada a hypothese kabbálistica^ oppunha, com a inscrip- 
ção desse signal, a sua fé á fé catholica, apostólica, romana, dos 
padres com quem teve de se chocar nas novas terras recente- 
mente encorporadas aos domínios ultramarinos de Portugal. Num 
dos actos mais solemnes, mais graves da vida, porque se referem 
ao caracter, ao sentimento da justiça e do direito ; no acto em 
que, lançando a sua assignatura, escrevendo o nome da sua pes- 
soa, affirma o Homem a sua individualidade, a destacar-se da 
de seus similhantes — nesse acto salva João Ramalho a sua con^ 
sciencia, assignando de ^fc nas actas e demais documentos 
públicos de então. Conhecedor do novo meio social em que 
vivia, talvez o fizesse elle cora a certeza absoluta de que nin- 
guém surprehenderia uaquelle pantaculo hermético a significação 
que os kabbalistas lhe ensinaram ; talvez o fizesse certo de que 
não veriam no symbolo mais do que um simples signal differen- 
ciai dos outros signaes então usados. E assim sendo, elle não 
se revelaria o que era, evitaria a possível perseguição, sem dei- 



— 301 — 

xar de continuar a ser, perante Deus e a sua consciência, o se- 
ctário da cruz hebraica, secreta e symbolica, do ^J ideographi- 
00, do Christo em espirito, nunca humanado, idêntico ao Pae ou 
a Deus . . . 



cjoão Ramalho tinha, pois, no ^^ a cruz oceulta, E si elle 
não empregou a cruz romana, foi certamente para não ser em 
seu credo religioso confundido com os sectários do Romanismo» . 

Quanto ao valor do ^, como synthese, como realização, 
eis o que nos revela o nosso estudioso consócio : 

Elle, o Eàf, € é a cruz tetra-grammatica, n-j-rí, o symbolo 

i»ggfavel da Scibnoia Sbcrbta, do ensinamento e do poder dos 
iniciados; é a realização dessa sdencia, o talisman que facilita 
o dominio e que rasga o caminho á rtquezaT>. 



cO Kaf^ ^ , é pois, nesta terceira hypothese, uma gran- 
de synthese magica, um pantaculo hermético, um talisman de 
Altissimo valor kabbalistico — o symbolo escolhido para a signi- 
ficação da sua £e religiosa. 

cjoão Ramalho o inscreveu de permeio á sua assignatwa em 
Bame talvez dessa grande e purissima fé primitiva e em nome 
também das suas aspirações de Poder ^ Domínio, Felicidade e 
Biqueza >. 

E, pois, apresentando ao Instituto esse trabalho do nosso 
digno consócio, seja-nos licito esperar que elle provoque a at- 
tenção dos competentes, quer daqui, quer do extrangeiro, e que 
o problema histórico tenha a condigna solução. 

S. Paulo, 4 de Outubro de 1902. 

Theodoro Sampaio 



Illustrb amigo Dr. Th. Sampaio. 

Para satisfazer ao seu desejo, tratei de examinar tudo que 
pudesse referir-se ao aignaly rubrica^ hieroglypho ou hierogramnia 
tnonogrammatico do mysterioso Joào Ramalho. 

Nào perdi de vista que o que vocô queria de mim era ex- 
clusivamente tudo que pudesse ibrtalecèl-o na convicção que se 
está formando em você — de que Joào Ramalho era judeu, 

O meu trabalho foi nesse sentido, com intuito de habilital-o 
a sustentar pelo menos o esoterismo do signal Káf^ ^ , exacta- 
mente equivalente ao signal cruz, "T", e, portanto, seu substi- 
tuto legitimo segundo a interpretação histórica do judaismo pri- 
mitivo. 

Isto, — no caso de ter sido o káf a lettra empregada por João 
Ramalho. 

Nào são grandes e nem provavelmente indiscutíveis os co- 
nhecimentos que tenho hoje dessa matéria, formados longa e pa- 
cientemente numa certa ordem de estudos que é sympathica e 
salutar ao meu espirito. Pondo esses pequenos conhecimentos ao 
alcance de sua mão — delles tirará o seu formoso talento conclu- 
sões importantíssimas, que, com certeza, eu nem siquer prevejo. 

Tive que ser longo, porque nào poderia deixar de fazer-lhe 
um resumo da parte histórica do Esoterismo, resumo que, por sua 
natureza, apesar de o encurtar o mais que pude, ainda assim 
excedeu bastante os limites por mim imaginados. 

Seja como for, ahi vai o meu estudo. Si elle nào estiver 
na altura do fim a que se destina, quero merecer-lhe o favor de 
m'o emprestar depois — para eu tirar uma cópia. 

São Paulo, 21 de Agosto de 1902. 



Am."* obr.*» 
Horácio de Carvalho 



 AS8IGNATIRA SYMBOLIGi 



DE 



JOÃO RAMALHO 

INTERPRETADA COMO SI FOSSE O KÁP HEBRAICO — 3 



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o KAP, :: , DE JOÃO RAMALHO 



Primeira Parte 



o Káf^ D 9 de João Ramalho 



PARTE HISTÓRICA 



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\ o «Sr á o sÍR 



TTicre are mor« tkings in Jiaven and earth 
Tan are dreamt of in our philosopky, 

— Shakespeare. 



Nada irapede que, mesmo sem ter sabido ler e escrever, até 
mesmo sem ter comprehendido a ideia secreta do symbolo ou 
pantáculo hebraico, o tenha João Ramalho empregado. 

Em Symòolica. o Homem e a Humanidade não procedem de 
outro modo. 

Milhões de seres humanos fazem o signal da cruz todos os 
dias. Rarissimo é no emtanto aquelle que, mesmo entre os mais 
sábios sacerdotes, sabe qual a ideia esotérica que está por 
detraz do pé (vertical) e da travessa {horizontal) da cruz. Dentre 
os mais preclaros, o que alguns sabem é apenas a exterioridade^ 
o exoterismo de similhante symbolo, e naida mais. 

Entretanto, — tudo é symbftlo na Natureza, na obra infinita 
e hylozóica da creação, e na obra. finita do Homem. Nem elle 
mesmo, o Homero, escapa á fatalidade de ser um symbolo. Â 
disposiç&o anatómica e symetrica do seu corpo ; as séries espe- 
cificas e numéricas dos seus músculos, ossos, tendões; a divis&o 



~ 809 — 

e o trabalho physiologico dos seus orgams e apparelhos, em cuja 
correspondência vê o philosopho o effeito de um plano admirá- 
vel e prévio, ou, si quizer, a ^finalidadei^y a que n&o pôde fugir 
o espirito genial e bubtil de Claude Bemard : a forma sónica da 
palavra falada, seja em que língua fôr; a forma graphica da 
palavra escripta, em todas as linguas e até em todos os dialectos ; 
a digitação das suas quatro grandes extremidades, como numero, 
oppostas duas a duas ou dez a dez; a constituição kabbalistica- 
mente mathematica do encephalo, em isómera polaridade com o 
apparelho da procreação, nào menos mathematico ; a linha 
deacripta pelo gesto; os desenhos da express&o physiognomonica; 
a luz e a maneira do olhar; a distribuição quinaria dos cinco 
sentidos ou portas do homem de dentro, portas cuja correspon- 
dência entre si obedece a leis immutaveis ; a centralização 
monarchica, cerebral, de tudo, numa synthese triplicemente 
orgânica, physiologica e psychica : — tiído no Homem é stmbolo, 
tudo expressão do pensamento sbm palavras, —a viva e eterna 
ideographia do Universo ! 



TUDO É STMBOLO EM TUDO. 



O symbolo começa no corpo mais denso, mais bruto da 
Natureza, no plano mineral; — continua no plano vegetal-, penetra 
no plano animal e por eile sobe até ás mais altas cumiádas do 
pensamento humano. Em cada um dos quatro planos fixa o 
symbolo um caracter geral, que traduz a qualidade, a especifica- 
ndo ; caracter que, conforme as divisões e subdivisões do dito 
plano, também varia na particularidade, na quantidade . 

Si, pois, a assignatura convencional de Ramalho é o káf, ^, 
e, a não ser elle, nenhum outro hieroglypho conheço com 
tal forma, claro ficará, parece, que o meio religioso de João 
Ramalho era o Mhio judaico, sumptuosa e scientifícamenta 
creado por Moysés, como a mais notável, a mais grandiosa e 
duradoura expansão histórica do hermetismo egypcio. 

Empiricamente, inscientemente, apenas infide, Ramalho pede 
pois, ter assignado de kaf, 2, signal graphicamente symbolico 
da sua religião. 

Para lá chegarmos, você me vai permittir a liberdade, aliás 
necessária, de uma digressão elucidativa e que não será fora de 
propósito. 

Assim, supponha que o capitulo 11, que se vai seguir, é um 
parenthesis nestas ensossas investigações. 



— 310 - 
II 

Univereal concepção philosophica, syntlieticamente scienti» 
fica, a chamada «Doutrina Occulta> se apresenta como um sys- 
tema completo dos conhecimentos que o homem pode ter de Si, 
DA Natureza e de Deus ; — um systema, portanto, de SCIENCIA- 
INTEGRAL. 

Todas as cousas do Universo, nesse systema, são, para os 
seus philosophos, pensamentos objectivados , que passaram de po- 
tencia a acto ; — «fórmas-pensadas », transitórias ; — pensamentos 
sem syllabas, naturados ; — idéas sem palavras Tudo evolve, tudo 
muda e se transforma, menos o «Pensador». 

Dos primeiros homens a Hermes progrediu constantemente 
esse modo de vêr, e os philosophos desse cyclo matinal da his- 
toria da Humanidade conseguiram reduzir as leis do Homem, da 
Natureza e de Deus, a 75 symbolos graphicos, que outros ele- 
varam a 78, e que, de reducçào em reducção, conforme as cou- 
sas dos três planos, chegan sempre á unidade^ isto é, ao prin- 
cipio^ — ao numero irreductivel. Quer dizer: — ficou material 
e universalmente fixada a ideographia da Causa Primeira e de 
todos os seus effeitos nos quatro planos — {mineral^ vegetal^ ani-- 
mal e psychico). ^lais tarde, conseguiu a velha sciencia egy- 
pcia reduzir os 75 ou 78 symbolos a 22 signaes apenas, que fi- 
caram sendo definitivamente as 22 lettras emblemáticas ao al- 
phabeto hebraico, — 4 das quaes congéneres ao primeiro plano 
da organização do Univei-so ( de baixo para cima ou do centro para 
a peripheria), 8 para o segundo, e 10 para o terceiro e ultimo. 
O quaito plano (o plano psychico) confunde-se com o terceiro; 
pois é, por assim dizer, o seu gérmen, a sua base, a sua origem. 
No plano superior, uma lettra-màe, que é a raiz primordiai. 
das outras — a raiz de todas as cousas ( >5 ); no segundo, logo abai- 
xo, a segunda rtiãe ou raiz serial, já derivada, (73) — e, no ter- 
ceiro, também serial e derivada, a terceira raiz ou terceira 
mãe (*c). Vêm depois as 12 simples, que moram nas casas ilo 
Zodiaco, e as representam e com ellas se identificam, — e as 7 
duplas ou bipolares, que representam os sete planetas primitivos 
( 3 + 12 + 7 = 22 ). Como, porém, para os kabbalistas são 32 
(3 + 2=^5) os caminhos que levam ao conhecimento total 
e perfeito de todas as cousas visíveis ou não, á Scibncia 
Integral ou Absoluta, — claro está que elles deviam de ter 
ainda uma década para addicionar ás 22 lettras ideographicas 
( 10 + 22 = 32 ), completando assim os 32 caminhos. Essa dé- 
cada existe superposta á década do alphabeto hebraico, e é de- 
nominada — 08 Dez Sophiróthes. Entre elles e as lettras ha 



§: 



— 311 — 

jombinaçòes matliematicas que obedecem a regras occultas, com- 
binações cujo resultado são outras tantas chaves com que os ini- 
ciados vtto abrindo as portas do desconhecido. 

Dado o relativo livre-arbitrio de que o Homem gosa na 
vastissima, mas, ainda a«?sim, limitada esphera de sua acçfto — 
em 81, na família, na trihu, na cidade, na pátria, no continente 
e no planeta, por isso mesmo só deveria a doutrina hermética 
ser ensinada aos bons, aos puros e mais intelligentes, a todos 
capazes de comprehender e praticar o bem ; porque, com as 
mesmas armas ou elementos de acção, os maus tríumpharíam na 
pratica do mal. E foi o que aconteceu nos tempos primitivos 
do HERMETISMO, quando o ensinamento da synthese universal era 
dado sem véu, na illusào de que os homens eram eguaes. Só 
se chegou á comprehensào, e á dolorosa e bestial prova desse 
erigo, depois de uma lueta de muitos séculos, de uma tremen- 
a e inolvidável expiação. Foi, pois, preciso cobnr, velar ou- 
tra VEZ, isto é, liE-VELAR o que a scicncia tinha descoberto, 
DES-VELADO ao penetrar nos profundos enigmas do Universo ; foi 
preciso revelar todas as suas conquistas, as conquistas da Scikn- 
ciA Antiga, já então tumultuariamente desnaturadas, mutiladas 
em sua pureza original, invertidas para a obra do mal, para os 
triumphos da morte eterna, para uma anniquilaçào que seria 
total. Estavam quasi perdidas as o^chaves», as fontes dessa 
seiencia integral, e buscal-as no vórtice em que se afundavam, 
fixal-as indelevelmente — foi a obra ideographica do abecedario 
egypcio, transcendentemente ideado para formar a Língua Sa- 
GiUDA ou EscRiPTA HiERATiCA do sacerdocio daquella epocha. 

O verdadeiro ensino, a interpretação exacta dos três planos 
ou mundos ( que não são logares, mas estados da Unidade na 
Multiplicidade) passou a ser ministrado nos «Santuários», ver- 
dadeiras universidades do então, onde o tirocínio era de 12 annos, 
e onde o discípulo recebia o ensino integral : — sciencias, seguindo 
a ordem da sua importância crescente, das mathematicas á psy- 
chologia e á moral ; artes c industrias, — tudo em fim, de modo 
que o homem era ao mesmo tempo o medico ( therapeuta ) , o sa- 
cerdote, o mechanico, o artista e o industrial. Lá, eram edu- 
cados, para saberem governar, os herdeiros do throno, das velhas 
e gloriosas dynastias que illuniinaram de tão extranho clarão a 
tantas vezes millenaria historia do Egypto, — e é porisso que ao 
lado da Arte Sagrada ou Sacerdotal, e, ás vezes, quasi con- 
fundida com ella, encontra o egyptólogo a Arte Regia ou Real, 
ambas idênticas no ideal que as formulou , e só diversas na for- 
ma ou na roupagem. 

Estava, pois, creada a « Iniciação », a mais remota origem 



— 3J2 — 

da Maçonaria^ que nem mais sabe qnaes foram as suas fonte» 
reaes, e qne absolutamente ignora o Esotrrismo brilbante do» 
seus symbolos. Estava, sim, creada a c Iniciação », rb-velada 
a Natureza viva e eterna, creada e increada, um dia sacrilega- 
mente despida deante do olhar irreverente e mau do Homem na 
aurora das Raças; creada a « Iniciação 2>, dado o ensino integral 
do Universo infinito, — de novo descido o véu sagrado e virginal 
da Tsis procreadora, da grande alma immortal da Natureza. 



Diz a tradição que foi a Lbmuria o primeiro continente em 

Íue o Homem surgiu, terceiro na ordem numérica, — e que a 
[omem lemurianOy insignificante diferenciação da animalidade em 
aperfeiçoamento, se transformou lentamente, durante séculos, no 
Homem da Atlântida, quarto continente e quarta raça. A este 
continente já se referem alguns dos mais antigos historiadores, o 
o dão como submergido no seio do oceano Atlântico, num cata- 
dysmo colossal, próprio da infância geológica do nosso planeta^ 
próprio de todos os mundos, satellites, estrellas ou soes. 

Mas já os Atlântidas se tinham expandido até ao delta do 
Nilo, e a velha terra de «Mitsraimyy surgia dentre os lótus sa^ 
grados para o gloriosissimo cyclo de sua civilização immortal. 

E assim como, nos últimos tempos do Brazil-Colonia, tinham 
08 brazileiros que ir a Coimbra receber o ensino de então, — da 
mesma maneira o iam receber na Atlântida os filhos das famí- 
lias abastadas do Egypto, 12.000 annos antes da era christan,. 
segundo o disse um grego illustre, que o ouvira de um sacer- 
dote de Sais. 

Mitsraim ( = D"'^iS7:. ), significativo nome hebraico do Egypto^ 
pois nelle está a ideia de termo ou fivi para que foi creada a 
terra de Hermes, — Mitstraím tinha, pois, herdado a civilização 
do quarto continente desapparecido, civilização cuja cultura in- 
tellectnal seria levada ao seu mais remoto e mais perfeito fim 
ou limite ; e, elevando-a com o correr dos séculos ao apogeu 
de si mesma, chegara philosophicamente á concepção monistica 
ou unitária do Universo como essência e como forma, como pen- 
samento e como cousa pensada. 

O foi então que, no cimo intellectual desse assombroso de- 
senvolvimento, abotoou e floresceu /Zi^rme^-TRiSMEGiSTO, Hermes 
três vezes grande, — Philosopho, Propheta e Rbi, contempora- 



— 318 — 

neo de Abrab&o, crTl3í(> em cuja obra monamental, «Sépher- 
lÉTztBAH» (= ni^^if» ^>tC) ou Livro da Creação — se lhe nota 
o sopro vivificador ; — Hermes, que suggeriu a Louis Ménard o 
seu notável livro do mesmo nome ( ^ Hermes- Irimegístoi^ ), primor 
de critica e erudiçfto philosopbica, coroado pela Academia das 
Inscripções e Bellas-Artes^ — pelo Instituto de França. 

Foi esse o Hermes que systematizou graphica e symbolica, 
mathematica e syntketicamente^ todos os conhecimentos anterio- 
res, tradicionalmente oriundos de raças e continentes desappa- 
recidos : — graphica e symbolicamente, porque usou de signaes 
intellectualmente imitativos ; — inathematicamente^ porque redu- 
ziu o pensamento desses signaes a números^ os symbolos k gran- 
deza das cousas, sem uma só excepção que fosse, — «mathemati- 
ca absoluta», — as «mathematicas occultas» de Pythagoras, Hoene 
Wronski e Èliphas Léví ; — syniheticamente, porque só fixou os 
principies e as leis, só cuidou da essência, que é eterna no tempo 
6 infinita no espaço. A forma . . . 

Ah, a forma é 4íMáya»,—Sk Contingência, — a ILLUSÃO. 

Hermes, a fructificação psycbicamente universitária da Scien- 
eia e do Sacerdócio Egypcio, o mais quintessenciado producto da 
ARTE-SAGRADA e da ARTE-RÉGIA, — ao dar o ensino se- 
creto operou a re-velação (1\ a occultação das verdades eternas, 
dos principios sem fim, das íeis e dos phenomenos da Natureza; 
— classificou cada cousa em sua categoria, em seu plano de 
acçào, conforme é elle mineral, vegetal, animal, humano ou de- 
vino, e a essas cousas lhes deu os nomes, que sào as traducções 
dos seus signaes individuaes, — da sua existência, — do seu fim. 
Da lei da Unidade {nav ro ttqv)^ numero por numero, e se- 
guindo todas as suas derivações, foi até á lei do Denario (10), 
que é a volta á Unidade, e outra vez ^tudo em tudo^, = nav 
TO nav, 

Mitsraím fundiu-se, pois, nesse molde unitário, nesse sábio 
monismo bipolar em que o Espirito é o phallus, a força positi- 
va, creadora, e a Matéria o cteis, o polo negativo, o vaso sa- 



^ ( 1 ) — Do prfmitiTo Terbo composto latino re -j^Velãrê o nÍo do posterior 
r6V6lãr6 de sigBlfleaçio diametralmente opposta. 

Mo primeiro, o prefixo ré leva a acçfto retroactiva de VelãrO ( = eobHr, oc- 
«ultar, por «mm véu tobré) até ás origens théo-cosmogonicas do Universo, fixadas nas 
22 lettras do abecedario hebraico, — na ideographia oocolta. — No segundo, perdido o 
sentido E80TEBIC0, primitivo, floon a ideia de *dêsccbrimini0; a errónea ideia de 
^nvêlação» no sentido da tbeologia christan. 



grado e o seu conteúdo, a obra, o acto, a inanifestaçlio do Es- 
pirito, o seu pensamento objectivado ou Forma pensada ; — 
íundiu-se nesse molde que deu á sua civilização a unidade po- 
litica^ religiosa, artística e industrial, — nesse molde que levou 
a felicidade a todos, que fez os homens irmãos e bons, o a vida 
um dever sagrado a cumprir. 

Brotou assim o Monothcismo da consciência nacional, o as- 
sumiu as proporções mais altas a que tem cbegado na Humani- 
dade a ideia de Deus — Um e Único. 

E o que se deu com os filhos de Mitzraim, quando iam pe- 
dir á Atlântida a luz serena da verdade eterna, começava agora 
a dar-se com os futuramente gloriosos filhos da Héllada pujante, 
que, cantando, vinha nascendo por entre o languido e voluptuo- 
so embate das duas ondas claras do lônio e do Egôu. Sob a 
pata veloz do alífero Pégaso jà Hippocrône tinha brotado, em 
cujas aguas crystallinas e magicas iam os poetas buscar o estro 
sagrado. Kios, florestas, montes, valles, se povoavam de divinda- 
des, soberba e portentosa personificação das energias vivas da 
Natureza. Orpheu, Ilesíodo e Homero, depois Pythagoras e Em- 
pédocles, depois Sócrates que ensinou a Piatlio, e depois Platão 
que ensinou a Aristóteles, — todos lá tinham ido, á millenaria 
Mitzraim, beber da agua esotérica da sabedoria perfeita e integral. 

Formou-se assim a Héllada pujante e gloriosa, depositaria e 
salvadora da Scie:ncia Egypcia. a Héllada embalada por deus 
mares, illuminada pela luz de Hermes, envolta na harmonia de 
suas fontes, na vivificação divina de seus bosques, vibrando ao 
frémito suave e perfumado de seus zephyros — e sonhando á mu- 
sica solemne e edificante de seus ideaes. 

Antes, porem, já lá fora a Kaldéia educar-se, e o Babylonio, 
o Assyrio e o Phenicio guardam nos seus cylindros e nas suas 
esteias, nos monumentos plásticos da sua archeologia, os traços 
immorredouros da passagem de Isis por seu solo, a sombra in- 
delével da Ihis religiosa nascida ás margens do Nilo, ao brando 
aroma do lótus ou nenuphár sagrado. 

Já Moysés tinha lá ido, 15 séculos antes de Christo, a pe- 
dir aos «ineffaveis» e subterrâneos «Mysterios» das Pyramides e 
das Esphinges a força magica com que modelou mais tai*de o 
povo-Eei da Judeia, a gloriosa e immortal Israel, bfcí^C"^, = «2h- 
telligencia ou Espirito de Deus», representada em sua expressão 
graphica por números cuja somma é 10, — o cyclo perfeito e com- 
pleto, a synthese e a analyse, a partida da Unidade para a Mui-— 
TiPLiciDADE infinita, e a volta da Multiplicidade á Unidade, 



— 315 — 

— Ttav TO Tzav ! ; — Israel, a equivalência verbal do Infinito^ do 
Illimitado ou Ain-Sóphy í^iO rfií, Deus em si e nas suas obras, o 
Eschema-Hamphorasch TrrtT^ ^ quaternária e crucialmente repre- 

sentado pelo symbolo da cruz, fj-J-pf, o TetragbamSia-Ixeffavel. 

Feita essa digressão, agora nSo mais Ibe faltará o élo que 
o ia impedir de ver na sua integra, ainda que pela rama, toda 
a cadeia histórica do Symbolismo, Ideographia ou Cosmoglyphis- 
mo Universal, 

Podemos, pois, com Moysés, reencetar a interpretação do 
supposto káfy 5 , de Joào Ramalho. 



m 



A «SciExciA AN'TiaA>, integral, uma e única, sciencia tri- 
unitaria, de Deus^ do Universo e do Homem, sciencia ue-velada 
na obra symbolica de Mnysés, escripta por meio de combinações 
das 22 lettras hebraicas, cuja sorama ou synthese é — 4, o Te- 
TEAORAMMA Hin"» ( lôdy Hê, Vô, lU ), como já se viu, — donde 
lévcj lôvtty Jeôváh; a cSiexcia Antioa>, sciencia viva, eterna 
no tempo e infinita no espaço, vai dar-lhe, si me não engano, a 
chave secreta da mysteriosa assignatura monogrammatica de 
Ramalho . 

Foi no decimo quinto século antes de Christo (15Q0 annos) 
que Moysés organizou o seu «Sépher», composto de cinco livros 
escriptos todos elles com caracteres hebraicos. Nos dez primei- 
ros capitules do primeiro livro {^Sépker BeréschiU), nessa «cfé- 
cada sagrada-» y segundo Fabre d'01ivet, «estó encerrado, como 
sciencia, tudo que foi, é e ha de s€i*>. Esse livro é o Génesis , 
a Cosmogonia mosaica, e nelle se encontra a origem do Univer- 
so, da terra e do Homem. O Sépher é uma cryptographia sa- 
grada. A sua composição obedeceu a um plano secreto, a uma 
ccAare». Foi feito em <t escripta hierática-» ou Língua Sagrada», 
isto é, — feito de modo que cada palavra íicou com três sentidos: 
«Tw, absoluto^ verdadeiro, occulto ou esotérico, para os Grandes 
Iniciados, os que tivessem triumphado de todas as terriveis pro- 
vas impostas á «inicução completa» ; outro, que exprimia o ter- 
mo médio do ensinamento, e que dava o sentido relativo, figura- 



— 816 — 

do, destinado aos ^iniciados incompletos'^'» ; e o terceiro^ de sen- 
tido vulgar, material, externo on extrínseco, — para o povo, inca- 
paz de asc^der ás grandes especulações abstractas, metapbysi- 
cas, do pensamento. Tomado o Sépher em qualquer desses 
sentidos, satisfaz e edifica, é lógico, perfeito e completo, 

A's traducçôes que delle se fizeram é que se deve o absurdo, 
o paradoxo, a falsiíicaçào do pensamento de Moysés. 

O legislador dos Hebreus previu, porém, tudo isso. Elle teve 
a ante-visão de que o seu ensino ia ser desnaturado com o correr 
dos séculos. E, para que tal se nfto desse in-totum, para que a 
sua obra cbegasse esotericamente perfeita e completa até á derra- 
deira raça bumana da Terra, formulou elle ent&o a c Lbi Oral» 
da « chave », e a transmittiu c de viva voz a homens de toda a 
confiança e de toda a fidelidade fij ». A esses discípulos, Grandes 
Iniciados, « determinou elle que, no segredo dos « Santuários », 
por sua vez a fossem transmittindo a outros discípulos, os quaes, 
também por sua vez, a iriam transmittindo de edade em edade, 
' — de modo que ella pudesse chegar á mais remota posteridade (2) ». 

Estava nascida a « Kabbala ». 



IV 

A Kabbala foi, é e será em todos os tempos a única expli- 
cação possível, única e exacta, do Sépher, para os occultistas. 

E^ nella que está a cbave dos dous sentidos, figurado ou re- 
lativo, e absoluto ou esotérico ( secreto, irrevelavel ) : — o sentido 
central, irreductivel, original, occulto ou antes occultado, re-velado, 
só dado iniciática e ritualmente aos mais dignos e illustres discí- 
pulos dos « Collegios Sacerdotaes » ; — e o figurado ou symbolico, 
capaz de satisfazer a intelligencias de menos envergadura e a 
caracteres menos tenazes. O sentido material ou externo, própria 
ou francamente exotérico, esse foi creado com a preoccupaç&o 
de tangibilidade, para bastar ao inferior nivel intellectual das 
massas populares retardadas em seu desenvolvimento psycbico e 
moral, e para detel-as em seus impulsos animalmen te instinctivos. 
Applicada a cbave, vê o solitário estudioso que as três interpre- 
tações do enigma do Universo s&o barmonicas, correspondem umas 



<1) Fabbb d'0LlYBT. — ^ Langue /*(Va#fM# i?«j<i<ic«f. — 1816, — VoL l,->pftgt. 
{iy — Obra citada. 



— 817 — 

ás outras em todos os pontos da sua linha evolutiva, e s&o abso- 
luta e perfeitamente analógicas ; — vê que o mesmo grupo de 
symbolos, que tiver fixado a ideograpbia de um facto psychicp 
SBM CBRBBRO, tèl-a-á dado de um facto humano, de um facto 
animal, vegetal ou mineral. Verificará elle que, com Moysés, 
cada ezpress&o hebraica se intellectualizou e é, ora a represen- 
tação do Principio, donde emanam as Leis, — ora a da Lbi, 
donde emanam os Factos, — e ora a de um Facto com todas as 
suas consequências : — porque factos e leis podem ser successiva 
e alternadamente effeitos-causas ou causas-segundas, terceiras, etc. 
Verá, pois, o cyclo perfeito; terá a visão do Todo sem passado 
nem futuro, frente a frente com a Eternidade aue é o Presente 
sem limites, immutavel e perenne ; — e, manejando os números em 
si ( acima, nos seus supra-multiplos, e abaixo, nos submultiplos), — 
terá então a ideia do accidente, do transitório^ de Máya ou a 
Illusâo. Não se illudirá, pois, ou só se illudirá si tiver sido me- 
nos attento. De um, 1, ou o numero sem antecedentes, o numero 
irreductivel e eterno, irá elle a 2, a 3, etc, e, percorrido o de^ 
nário sephirótíco, terá voltado á Unidade-máter, ao infinito 

A+TOMO-TuDO, hermeticamente representado pelo cyclo perfeito ou 

10 symbolico, = T • J — unidade na infinita variedade. Deus em 

si e na sua obra, tudo em eterna transformação, mas tudo vivo 
e immortal. 

Spinosa lobrigou a verdade, mas, ainda assim, passou bas- 
tante longe delia. 

Traçado 1.500 annos antes de Ghrísto, como já foi dito, o 
SáPHBR, essa ^ década sagrada -^^ no dizer de Fabre d^Olivet, 
encerra, pois, á luz da Kabbala, c tudo que Foi, E* e Ha-db-svr». 

Escriptos os seus livros, unificado o povo judeu, cumprida 
emfim a sua missão após o êxodo, morreu (1585) Moysés aos 
120 annos de edade, no alto do Nébo, tn: j á vista da Terra 

Promettida, de Chanaan, (ir:D, Kanaagn\ ou melhor — Kanaan. 

Foi isso no século dezeseis anterior a Christo, cinco annos 
antes das innundações da Thessalía, produzidas pelo diluvio de 
Deucalião. 

Morto Moysés, o povo hebreu foi perdendo com o correr 
dos séculos a sua homogeneidade linguistica, religiosa e philo- 
sophíca ; teve que sustentar diversas guerras, e se viu succedido 
em seu prestigio e em sua civilização, primeiro pela alta cultu- 
ra dos Âssyrios e Babylonios (povo kalaôu), depois pelos Persas, 
e depois pelos Gregos, que foram os iniciadores históricos da ci* 
viHzação Occidental. Da morte de Moysés ás conquistas de Ale- 



— 318 — 

xandre Magno (1585—323 a-J.^C) quasi treze séculos se es- 
coam, cujos factos mais importantes foram : o reinado de Sesos- 
tris no Egypto ( 1673 ); a expediçào dos Argonautas á Kólkbida 
( 1226 ) ; a tomada de Troya ( 1183 ) ; a fundação de Carthago 
pelos Phenicios (1137); o apparecimento dos Etruscos na Histo- 
ria ; a fundação de Roma ( 754 ) ; — a emigração phenicia para 
as terras do norte, marginaes do Mediterrâneo (séculos VII e VI), 
levando a navegação, o commercio e o alphabeto ( — hebraico — ) 
até ás costas da Inglaterra ; — a conquista da Média, da Lydia, 
do Babylonia ( cujo captiveiro, dos judeus, durou 72 annos, — de 
608 a 536) e de todo o occidente da Ásia, por Cyro, o fundador 
do grande Império Persa, já então submettido o Egypto; — a to- 
mada de Jerusalém e o incêndio e destruição do celebre Tem- 
plo de Salomão por Nabucbodonozor (587); — a era de Zara- 
tbrusta (Zoroastro, V século), que fixou no seu binário mazdeis- 
ta do Ahura-Mazda e de Agra-Maim/us (ou Ormuzd e Ahri- 
man ) a bipolaridade mosaica do Principio Vital do Universo ; — 
a altíssima cultura grega dos tempos amadurecidos de Sócrates, 
Platão e Aristóteles ( V e IV séculos ) , cultura que precedeu 
immediatamente a extraordinária expansão bistorica ao génio 
marcial de Alexandre Magno... 

Durante esse lapso de ' quasi 1300 annos, — scindido a prin- 
cipio em tribus adversas, depois em luctas civis e com o ex- 
trangeiro, e depois successi vãmente obumbrado pelo Assyrio, pelo 
Babylonio, pelo Persa e pelo Grego, o povo judeu assim dividi- 
do, assim bieraticamente espbacelado até á medulla de sua raça, 
tinha perdido o Sépher atravez de tào longa e decadente i>cre- 
grinaçào. Varias vezes baviam as tribus judaicaí> appellado para 
esse livro, como quem appella para um Supremo Tribunal : — es- 
tava perdido o symbolismo que o vivifica, o esoterismo que o 
anima. E dessa morte apparente de 13 séculos nasciam então 
para o mundo as primeiras luctas religiosas — filhas da contro- 
vertida exegese hebraica. 

A «INICIAÇÃO», porém, instituída por Moysés, levava secre- 
tamente para o futuro, como uma raiz subterrânea, o broto que 
mais tarde teria de surgir do solo, adeante, nos mysterios do 
porvir, restaurando, á luz da civilização alexandrina, o velbo 
ensino secreto. 

E' que a Verdade, a Justiça e o Direito, podem dormir ás 
vezes, — mas não morrem nunca. 

O amplíssimo império do discípulo de Aristóteles, vencedor 
de Dário III, o Codomano, com quem se esboroou a dynastia 
dos Acbmênidas ; o grande Império de Alexandre, que se dilatou 



— 819 — 

do Egypto ao Tigre e ao Euphrates, e do Hellesponto ao Indus, 
estava agora fraccionado, e o primeiro Sotér^ Ptolomeu, filho de 
Lago8^ fundava no throno do Egypto (UI século) a dy nas tia dos 
Lágidas, e Seleuco^ no throno da Sytia, a dos Sbleucidas. Ini- 
ciára-se a epocha dos pharaós gregos, da linhagem de Ptolomeu, 
rei cujo throno era na cidade de Alexandre, em Alexandria y 
fundada em 331 sob um traçado moderno e superior ao das ci- 
dades da Grécia, pomposamente construida para ser a capital 
intellectual do mundo, como de facto o foi. Na sua bihliotheca, 
que chegou a ter 400.000 volumes, havia, fielmente copiadas, 
todas as obras celebres de todas as civilizações precedentes. O 
auctor ou proprietário de quaesauer manuscriptos era obrigado a 
apresental-os ao bibliothecario de Alexandria, e este a mandar 
tirar uma cópia, pagando-a. Havia entfto os copistas, como ha 
hoje 08 typographos. 

Estava, porém, perdido o Sépher. Os herdeiros do ensina- 
mento mosaico luctavam entre si, julgando cada qual estar com 
a verdade. 

Dentre as diversas seitas uma havia, no emtanto, que, ape- 
sar de desapparecido o Sépher, era a depositaria iniciática da 
sua chave kabbalisticay e, mesmo que o livro não reapparecesse, 
])oderia recompôl-o por pensamento e no seu pensamento, assim 
como com um millimetro se recompõe o metro, se mede o raio 
da terra e se traçam as parallaxes; poderia restaural-o, graças á 
chave ideographica que é o seu methodo e a sua linguagem. 

Essa seita era a dos Essênios, terra fecunda e esotericamen- 
te mondada para nella nascer, florir e fiTictificar o ensino secre- 
to do Sépher. 

Um dia, porém ( — diz a tradição — ), foi o Sépher desco- 
berto no fundo de um velho cofre ou arca, no tempo de 
Artaxerxes Longimâno, rei da Pérsia, 5.° século antes de nossa 
era. Esse tempo era também o tempo de Esdras ( =rs;y ) , então 
rabbino dos judeus captivos em Babylonia. Esdras tinha conse- 
guido de Artaxerxes a abolição do capitiveiro, que já-t;ontava 72 
annos de existência, e que vinha do precedente reinado de 
Cyro, o Moço. Esdras viu de relance a grande aurora que se lhe 
rasgava ao seu sonho de pastor social ; —voltou com seus com- 
patriotas para Jerusalém, tomou do Sépher encontrado, e con- 
verteu-se em S. Paulo do Mosaisnio, Esdras verteu o Sépher 
para o dialecto então falado pelos judeus, o sjrriaco-aramaico ; 
commentou a própria versão, e com taes commentarios lhe adulte- 
rou de todo o ensino esotérico, exactamente o que se deu com 
8. Paulo em relação ao ensino verbal de Jesus ( ^t <^' rr» i = 



— 320 -> 

2Q __ ffr- ^/V/ ^ ) sete séculos depois. Esdras, exoterizando o 

Tr 7 
Séphbk, S. Paulo, exoterizando o christianismOi — o fizeram no 
em tanto de boa fé . . . 

Com Esdras acabava, pois, de nascer a RIblia Judaica. 

O celebre rabbino de Babylonia levou então os seus compa- 
triotas para Jerusalém, expulsou da cidade as extrangeiras, e 
puniu severameniie os judeus que com ellas se haviam casado. 
Poz-se á frente do povo, e lhe foi lendo o Sépher a pouco e 
pouco e em dias determinados, agora commentando-o, logo de- 
pois paraphraseando-o . E assim restaurou Esdras a hiorarcbin 
do sacerdócio, e impoz de novo a publica e regular adoraçào do 
Deus. Auxiliado por Nehemias, remodelou a alma e a nação ju- 
daica, e creou com 120 membros a Syiiagoga, para ser a indefi- 
nida mantenedora da sua obra ou renacionalizaçâo judaica. 

Estava, pois, fundado o judaísmo propriamente dito, mate- 
rialização do MosaismOj sua desnaturação, tal qual como Paulo 
de Tarso fundara 700 annos depois o catholicismo ; e nem um 
nem outro representam o pensamento profundo e genial de 
Moysés, — o profundissimo e completo pensamento de Jesus. 

A traducção de Esdras, com seus commentarios e parapb ra- 
ses, ficou sendo os taroúns ( = D::'7^ €traduzir:», interpretar). 

A «Bíblia» acabava de nascer com Esdras. é verdade, — 
mas exotérica e mundana, como exotérico, mundano e politico é 
o catholicismo e as demais religiões nascidas do Christianismo 
puro, formas externas do pensamento um e único — a Reliqião. 
A Bíblia surgia com Esdras, não ha duvida ; mas a lingua he- 
braica já tinha desapparecido, passara a ser lingua morta duran- 
te o captiveiro de Babylonia, e foi então ]>reciso crear-lhe os 
pontos-vogaes , — Acabava a Bíblia de nascer como a mortalha 
cortada para um cadáver. A mortalha o envolveu, é certo ; mas 
atravez delia via o Essènio^ no corpo immobilizado e frio, não 
um morto, mas um vivo que dormia o seu somno de mais de 
mil annos, só comprehendido pelos iniciados, e de que um dia 
despertaria ao rumor da «cAaye» na fechadura do Síipher. 

O grande Livro Cosmogonico de Moysés tinha sido encon- 
trado e vertido para um dialecto do kaldaico ; mas o seu senti- 
do continuava perdido para os profanos. Depois também o tra- 
duziu o Samaritano, o Grego e o Romano, e nenhum delles 
conseguiu erguer o véu de Isis corrido por Moysés no vestíbulo 
do Santuário. Continuava perdido para os Pharizêus e Saddu- 
cêus, — para todos, menos para os Éssênios, depositários iniciá- 
ticos da «Le^ Oralr^ ou — Kabbala. 



— 321 — 

Elles, Essênios, tinham a chave senaria do Séphbr ( = Kalh- 

hala, = ^3P ,0, = ^^tóC ) ® agora também O tinham comsigo, 

em sna pureza original, na obra de Esdras, desprezados os conv^ 
mentarios e paraphrases ( = Targúns, ^1^ ). Nào mais o per- 
deriam, como de facto o n&o haviam perdido, graças á preyis&o 
de Moysés. Para elles o Séphbr tinha corpo e alma: — o corpo 
para os profanos, ( — sentido material, graphico), — a alma para 
08 iniciados ( — sentido secreto, esotérico). 

Para os Saddacêos, que se denominavam € justos » ( = « Tsa-^ 
doitn », = D''T7X), o SâPHBR só tinha corpo, e por isso os Saddu- 
CÔU8 foram os materialistas da Judéa. 

^Schismaticosi^y € dissidentes i^, <^ separados *, o Séphbr con- 
tinha para os Pharizêus ( = Pharush = "»3T^.B ) a immortalida- 
de sob o manto do resurreccionismo. Os Pharizêus, portanto, n&o 
tinham a chave do enigma. 

Por conseguinte, como verdadeiros Iniciados, só os Essênios 
iam de 1 a 10 e de 10 a 1, «lo abstracto para o concreto e vice- 

versa, do ponto para a peripheria, e desta para o ponto — Ç*)9 

Só elles nào desprezavam os dous inânitos, bi-unoa aspectos da 
Natureza, escholastica ou philosophica, mas falsamente denomi- 
nados EspnuTO & Matkriâ, dous extremos em si inaccessiveís ao 
conhecimento humano, — e que têm sido e ainda serão por lon- 
guissimas edades o pomo de discórdia das raças deste planeta. 
Só elles sabiam o segredo da progressão constante e dynamica 
da energia inicial e amorpha até aos estados mais densos, mais 

ponderáveis das fói*mas momentâneas da Natureza /\ — e dahi 

o regresso, ascendendo semjire V l A ^ VV -■ )( ^ \ 

até á mesma e irreductivel Unidade, o ponto e o circulo, a syn- 
these e a. analyse, o liíFimTO, qio rí< ; numa palavra: — (^. 

Portanto, nem Sadducêus nem Pharizêus poderiam abrir o 
Séphbr e nelle penetrar. 

Feita, porém, a versão de Esdras nos meados do 5.* século 
antes de Christo, foi ella durante ainda 200 annos o livro sagrado 
dos Judêos e dos demais povos sectários da sciencia mosaica. 
Depois, traduzida da de Esdras já tinha também apparecido a 
c Bíblia Samaritana», que ainda existe. 

Levada aos mais longínquos povos conquistados a civilização 
da obra colossal de Alexandre Magno, — dentro em breve uma 



— 322 — 

versão grega seria infallivelmente feita, porque a kaldaica e a 
samaritana já não satisfaziam, visto que o idioma agora falado e 
escripto é o grego em todas as terras conquistadas. 
E assim foi. 



Passados esses 200 annos, o século que está correndo é o 
in anterior a Cbristo. 

A civilização grega derramou-se por todo o Oriente. Todos 
os olbares convergem para Alexandria, que 9e vai celebrizando 
pela importância crescente do seu commercio e pela expansfto 
das suas industrias, artes e sciencias. Está fecundado o óvulo 
do Neo-Platonismo, e de seu throno dirige o segundo L/ágida, 
Ptolomeu o Philadelpho, os grandes destinos desse novo e gran- 
de povo. Principe illustre pela cultura e liberalidade da intel- 
ligencia, magnânimo pelos dotes do coração, o seu reinado im-> 
primiu nas cousas materiaes e intellectuaes da pátria um impul- 
so verdadeiramente magico. 

Alexandria cresceu, prosperou a plbos vistos, e dentro em 
pouco impoz-se ao mundo. 

Judeus* gregos, o povo alexandrino já n&o podia ler e nem 
entender a VbrsAo sbphérica de Esdras. Era preciso, pois, dar- 
Ibe uma cBiblia qrbga», uma Biblia escripta na lingua qne 
elle falava e lia. 

E* agora que vfto apparecer os Essènios^ os guardas secre- 
tos e silenciosos do «Santuário». 

Si os 72 annos do captiveiro de Babylonia bastaram para 
que os judeus esquecessem a lingua bebraica, successiva e ra- 
pidamente substituída pelo syriaco-aramaico, que é o dialecto 
Kaldaico da Versão db Esdras, — agora com muito mais razão 
esqueceram elles o dialecto dos Targúns, a lingua empregada 
por Esdras, — porque a belienização a que estavam submettidos 
já andava por 200 annos, 

E foi o que se deu. 

Em Alexandria, na Grécia, nas Colónias Gregas, no Epiro, 
nos Reinos Hellenicos do Oriente, na Galácia, no Ponto, na Bi- 
tbynia, em Pérgamo, na Gappadócia e na Bactriana, por toda a 
parte reina a confusão religiosa, e os bomens não mais se en- 
tendem quanto ás cousas de Deus contidas no Séphbr. Essa 
situação se vai tornando cada vez mais complicada e mais diffi- 
cil, como que a exigir uma prompta solução. 

E foi então que Ptolomeu assumiu a sympatbica responsa- 
bilidade, ao mesmo tempo tanto religiosa como politica, ae dar 



— 323 — 

a seu povo o Séphbr na língua por elle falada, — uma ^delissw 
ma traducçfto do «Livro dos Livros». 

Para esse fim mandou o Lágida illustre convidar a cinco 
dos mais afamados doutores do Essbnismo contemporâneo, os 
•ouaes, acceita a incumbência, foram nomeados e se entregaram 
-desde logo a tamanha tarefa. 

Tomaram os Essenios a obra de Esdras e, riscando nella 
^do que nào era de Moysés, reconstruíram primeiramente o Sé- 
PHBR, restaurando-o inteiro em toda a sua pureza original. Dos 
•commentarios, parapbrases, notas e interpolações de Esdras não 
cuidaram elles, ou, si cuidaram, o fizeram aparte, de modo que 
nào se confundissem com a restauraçào do livro mosaico. Con- 
cluído este primeiro trabalho com o maior escrúpulo e sob a 
•chave e a scíencia de iniciados, passaram então os Essenios a 
traduzir para o grego a Versão Sbphérica de Esdras, que era, 
•como já se disse, em dialecto syriaco-aramaico. 

Terminada a traducçáo, uma vez entregue a Ptolomeu Phi- 
ladelpho, foi ella posta ás ordens do sacerdócio, que começou 
•então a divulgal-a. 

Foi abí que o judaísmo alexandrino, que já não lia e não 
-entendia o dialecto dos Targúns, lançou mão da obra dos Esse- 
nios, da sua versão para o grego, e, juntando-lhe em appendice 
-o que era propriamente de Esdras, mandou tudo ao Sinhédrio, 
para examinar e resolver como entendesse. 

Donos da escripta hierática ou Língua Sagrada fossilizada 
no Séphbr, donos também do aramaico de Esdras e do grego 
«ntào falado, os doutores essenios tiveram o cuidado de conser- 
var em sua versão, com toda a fidelidade, as formas maieriaeAj 
graphicaSf do Séphbr, representadas por absoluta equivalência 
da forma grega. Assim o fizeram para que os profanos não vis- 
sem nellas mais do que o que lhes é dado vêr, e para que os 
Iniciados pudessem vêr, além e debaixo delias, a altna do Grandb 
Livro, — o eiisíno integral, a synthese de tudo que existe em 
acto e em potencia. 

Composto de 70 Juizes, o Sinhédrio approvou finalmente a 
tradacção dos Essenios e também a dos commentarios de Esdras, 
Jantados como appendice. 

Estava nascida a Bíblia db Albxandria; é essa a «Versto 
dos Setenta». 

Dahi por deante (276 a^J.-C.) até á traducção latina de S. 
Jeronymo (1) , 7 séculos se passaram de luctas tremendas (681 



(1) — Peita de 886 a 407 de nossa era, s 21 aanos. 



- 324 — 

itnnos justos) no Mundo Romano. Desdobrada ao longo das cos- 
tas do Mediterrâneo, a civilização pbenicia, contemporânea da 
de Homa em suas origens, desde o século YII, opjpunha ás gran- 
dezas romanas a importância avassaladora de Garthago e Nu- 
maneia. Era preciso impedir a hegemonia phenicia, e dahi as 
três celebres guerras púnicas que duraram, a primeira 22 annos- 
(264^242), a segunda 18 (219^201), e a terceira (149^146) 3, 
a qual terminou pelo sitio, tomada e destruição das duas cidade» 
pbenicias . 

O pensamento mosaico fixado na Bihlia de Alexandria^ na 
Ybrsão dos Setenta, perdia-se de novo, lentamente e pouco 
a pouco. O paganismo greco-romano como que distendia as azas- 
triumphante. Conquistadas as Gallias (58^50) por César, numa. 
epopéa militar de 9 annos ; esboroada a Eepublica Romana (29),. 
— dahi a 6 lustros se iniciava a era actual com o advento ao 
Messias promettido, do humilde e immortal reformador das so- 
ciedades humanas. 

A Humanidade ia realizar o seu symbolo : ^" yj^^ ^ 

rr y 

Neste meu intuito de acompanhar, atravez das mutaçõe» 
históricas do mundo, o Jio esotérico que trouxe até nós, puro o 
illeso, o pensamento secreto e integral de Moysés, eu aousaria 
cruelmente da sua paciência si lhe viesse aqui rememorar em 
minúcia as luctas religiosas dos primeiros séculos de formação- 
objectiva do Christianismo, desde a propaganda dos Apóstolos,, 
desde a obra de S. Pedro e São Paulo até á traducçâo latina 
de S. Jeronymo no V século. Maior ainda seria o abuso si nm 
desse ao trabalho de esmiuçar os factos da tomada de Jerusalém 
por Tito (70) após as grandes revoltas e dissenções politico-re— 
ligiosas dos Sadducêus e Pharizêus, em breve convertidas em- 
sanguinolenta guerra civil — que foi a brecha por onde a Loba 
Romana entrou, insaciável em sua divisa imperialista. Sabe você 
que foi por essa abertura que as Águias de Rómulo penetraram 
e seguiram, até levantar nos escombros da velha Sião, sobre os 
cadáveres ainda quentes de 600.000 judeus {13ô\ a Nova Jeru- 
salém ou ^lia-Captolinâ, da qual, bem como de toda a Ju- 
deia, foram expulsos os judeus, e na qual ficou terminantemente 
prohibida a religião de Moysés. 

A conquista romana fez-se e alastrou-se por toda a parte^ 
e, frente a frente e na mesma arena do sentimento religioso^ 
dous athletas luctavam sem tréguas, um para impedir que a sua 



— 325 — 

Mythólogia se esboroasse, o Paganismo, e outro para substituil-a 
pela € Nova i^<é », — o Christianismo. E a obra do segundo 
■crescia mais ou menos rápida e na proporção da perda de ter-^ 
reno bavida pelo primeiro. E a pouco e pouco se foi o judaís- 
mo impregnando das doutrinas cbristans : — eram os « judeus 
convertidos », os « christãos novos », feitos pela palavra ardente, 
convicta e inflexível dos grandes doutores cia « Egreja Nascenter^ ; 
'Cram, por assim dizer, os discípulos da n^va corrente phíloso* 
phica partida de Alexandria desde Ammonius-Saccas, e na qual, 
umas mais, outras menos platónicas, brilharam deslumbrante- 
mente as projecções íntellectuaes de Tertiiliano, Origenes, Ire- 
nêu. Clemente de Alexandria, S. Cypriano, Longino, Plotíno, 
Porfírio, Santo Agostinho e tantos outros. Essa nova corrente pe- 
, netrava fundo na consciência dos povos de então, e, umas após 
outras, iam surgindo as seitas religiosas nascidas da controvér- 
sia travada entre os exegetas do Velho e do Novo Testamento. 
A alma humana, sequiosa de fé inabalável, se agitava e entu- 
mescia em colossal fermentação, tão grande, intensa e profunda 
como jamais se dera, — e o maior erapen»»o dos philosopbos estava 
-em conciliar o novo com o antigo ensino. 

Tal qual hoje, o livro dos judeus já era então o Talraud, 
<!ujo apparecimento ninguém sabe ao certo em que data foi. 

E' no emtanto sabido que as suas origens remontam á reor- 
ganização do judaísmo após a tomada e destruição do Templo de 
Jerusalém por Nabuchodonozor no VI secnlo que precedeu a era 
chrístan. E* também certo que a sua origem assenta na Kahhala 
•quando ainda não escripta, na Kahhala verbal, tradicional, só 
communicada por iniciação no impenetrável segredo dos San-" 
ctuarnoSy dos Ôollboios Sagerdotabb da antiguidade; assenta, 
pois, na Mischna do grande rabbíno Juda, escripta depois, e 
«que enfeixa e systematiza todos os tradicionaes ensinamentos do 



A controvérsia accêsa no seio do judaísmo primitivo versa- 
Ta geralmente sobre tudo isso, todas essas tradições e ensinos, e 
particularmente sobre a Maasseh Merkahah (segunda parte da 
Kabbala), que ó tão subtil e transcendente, que até parece theo- 
logia para os profanos; porque, quanto á primeira parte ( — Ma- 
^isseh Bereschit — ), em geral todos acceitavam o génesis nella 
contido, esse génesis esotérico que, para muitos, é, por assim di- 
zer — o mais simples, o mais completo, o mais natural e accei- 
tavel de todos os sys temas existentes de explicação da Natureza, 
uma vez que se não faça questão dos nomes e só se encarem 
-os factos. 



— 326 — 

Antes do Talmudi Babeli ( Talmud de Babylonia ), 
composto pelo rabbino Asce, para acabar de vez com a contro- 
vérsia que lavrava entre os judeus (1), havia o Talmud Je- 
rui^alini do rabbino Jocbanan, e que foi posto de parte pelo^ 
primeiro, nào só porque o primeiro era mais completo, como tam- 
bém mais bem escripto. Dabi por deante outros rabbinos foram, 
lenta e successivamente melhorando esse grande e hoje único 
livro do judaismo militante, livro cuja historia e cujas transfor- 
mações parecem ter seguido uma linha parallela á da historia e 
das transformações da Biblia, 

Nos primeiros séculos da era vulgar a exegese judaica en- 
tra em grande lucta em Hespanha e Portugal durante o domí- 
nio árabe. Ha escholas que debatem e que julgam estar cada 
qual com a verdade. O judaismo primitivo vai perdendo a in- . 
telligencia, o espirito dos seus textos. E como a lettra mata o- 
espirito, dia a dia se exoteriza, como que vive só pela fórmOy 
perdido o segredo, a chave da sua «essência. 

E emquanto, como Religião, assim se materializa e se per- 
de o sentido intimo, original, do judaismo primitivo, como Scien- 



(1) Mais tarde, nos primeiros séculos da era actual, vai-se encontrar eesa contro- 
vérsia no seio do Judaismo introduzido na Hespanha pela Invksfio a^abe. 

Nos tomos segundo e terceiro das Memorias de Litteratura Portugubza (da 
Academia de Scitnciat de Lisboa), António Ribeiro dos Santos estuda minuciosamente esse 
luminoso periodo da Península Ibérica sob o grande e civilizador impulso do dominio árabe. 

6fto três Jfemoricu da Litterafura Sagrada dot Judeus Portuçuezes^ desde os primei' 
ros tempos da Monarchia a'é os fins do século XV. û duas primeiras vêm no segundo- 
tomo e vilo respectivamente de paginas 223 a 295 (72 paginas), e de .'33 a ^90 (&7 p*> 
glnas) ; a terceira vem no terceiro tomo, e vai de paginas 227 a 373 (146 paginas). 

Nellas estada Ribeiro dos Santos as três escho as Judaicas (hlspano-portoguesas) doa 
Talmudistas, dos Rabanan e dos Oueonim^ mostrando a corrente intellectnal que entá» 
se estabeleceu e se manteve por longuíssimo tempo entre o Judaismo da península e as- 
academias judaicas de Xabardéa e Sorá, no Euphrates, Pombedifa e Jíehasiakf em Baby- 
lonia, até que se fundou na Hespanba a Academia de Córdova (848 da era vulgar), ^í> 
meira no género, e á qual se seguia depois a fnndacfto de varias outras. 

Nessas Memorias estuda o anctor todo o movimento Judaico das referidas eacholaf, 
de suas dtvisõts ou seitas, de seu progrei>£o, do prestigio dot seus trabalhos perante o- 
mundo,— movimento sempre ascendente e que dnrou mais de 5 séculos, — 544 annos 
Justos, de Judaiémo propriamente hlspano-portuguez (94d-U92), e em que se sncoederaa» 
e dominaram as AV>m edades dos fíabbamm da Hespanha^ Iniciadas com a fnndaçáo da 
Academia de Córdova pelo raábino Moseh e seu filho Hanoc, dons mestres vindos de- 
Pombedita, e depois pelo rabbino e primeiro 'gaon 8amuel Hallevi, e terminadas com a 
partida de Isaac Aboab para Portugal (ultimo gaon dos Rabbanimy da Hespanlia), após a 
ezpuisfto geral dos árabes. 

Hespanha e Portugal foram, pois, os vehlculos do Judaísmo entre o Oriente eoOcci- 
dente, e tudo que ha de mais flno e mais authentíco nessa velha e edificante litteratura 
bíblica primeiro se encontra nos annaes destes paizes qne, somente depois, succesaiva » 
lentamente o foram espalhando pelas outras terras da Europa. 

Nascido no extremo Oriente, o Judaísmo se foi alastrando pelas terras africanas nar- 
glnaes do Mediterrâneo, até que om dia transpoz esse mar, penetrou principalmente n& 
flespanha e se derramou por toda a Buropa. 

E' diflloilimo, si nfto impossível, separar o Judaísmo primitivo do dominio árabe, pec- 
manente durante tantos séculos na Peolnsnla Ibérica. 



— 327 — 

cu elle permanece sob a guarda de sociedades secretas, entre- 
gue aos cuidados da iniciação. 

Materializado, perdido outra vez, ou antes obumbrado em 
seu ineffiavel sentido, o esoterismo que vinha de longe, da lon- 
ginqua e hermética Mitsraím, já se tinha introduzido na exegese 
do i.° sectdo com o emanacionismo de Simão o Mago, de Menan- 
dro, Cleóbulo e outros, reminiscência gnóstica que se accentuou 
no 2.** século com as doutrinas de Saturnino, Basilídes, Valentim, 
Praxéas, os gnosticos-séthicos, os gnosticos-cainítas e os gnosti- 
cos-ophítas. A serpente do Sépher, o «Aur», ( = ^ín ) , da velha 

Symbolica mosaica, a alma-JíyZè do Mundo, Ç--^ , resurgia 

da poeira do passado, filha de cAod», ( tiôí , = A , = /\ ) 
que é o Pae^ o Principio Gerador das Formas, e de «Aob» ( ^^^^ , 
= Q =\ / ) que é a Mãe^ o Vaso Sagrado em que se opera 

ã subsianciação, a materialização do Pae Intangivel ; — surgia com 
elles, e passava ao 3.** século com Plotino, Longino, Poi*firio 
e Amraonius-Saccas, até que o Donatismo e o Arianismo^ ar- 
rebentaram no 4,^ século^ atacando de frente o dogma da Tri- 
Unidade, — tão claro, e de tão fácil e tão racional comprehensão 
para os iniciados. 

A lucta religiosa estava accêsa, e nella se encarniçavam os 
doutores das egrejas rivaes, então representadas por Constanti- 
nopla e Alexandria. Brilharam nessas pugnas theologicas os 
santos e padres João Chrysostomo, Epiphanio, Jeronymo, e Cy- 
rillo ; o primeiro, bispo de Constantinopla ; o segundo, doutor da 
Egreja Grega; o terceiro, doutor da Egreja Latina, e o quarto, 
patriarcha de Jerusalém, sob cujo patriarchado se deu o tre- 
mendo lynchamento de Hypathia, obra do fanatismo religioso 
insurgido contra as doutrinas de Aristóteles e Platão, por ella 
publica e brilhantemente leccionadas. 

Como no tempo de Ptolomeu, todos sentiam agora a neces- 
sidade urgente de dar aos povos do Império Romano uma Bí- 
blia escripta na lingua que elles falavam... Não somente viria 
essa Biblia provar que em essência não ha diversidade de vistas 
entre Moysés e Jesus, mas também viria fixar, por meio da clara 
significação dos vocábulos latinos, a justa interpretação do en- 
sino sagrado, a verdadeira exegese hierática. Parecia a todos 
que uma Biblia em latim supprimiria as controvérsias surgidas a 
cada passo da palavra grega da Versão dos Setenta. 



— 828 — 

E foi entòo que se impoz á Egreja Latina, para esse mister, 
a culta, elevada e enidita estatura moral e intelleetual de S. Je- 
ronymo. 

Varias cópias havia, em hebraico, do Sépher encontrado no 
tempo de Esdras, já em poder dos Essênios, já no de outras seitas 
mais achegadas ao primitivo ensino mosaico. Uma dessas cópias 
era a da celebre bibliotheca de Alexandria, incendiada depois 
por Omar, em meados do século Vil. Também já havia em la- 
tim uma ou outra parte da Biblia, talvez mesmo a maioria das 
suas partes ou livros. Para outros ]& havia até a traducçÃo latina 
chamada — Versão Itálica. 

S. Jeronymo, que desde moço vivia a estudar a Biblia e os 
auctores religiosos de entào, já tinha percorrido o Oriente e con- 
vivido com 08 grandes mestres da exegese bíblica ; já tinha es- 
tado no deserto sete annos, estudando o hebraico com um judeu 
convertido, e, de volta a Roma, onde exerceu junto do papa S. 
Dâmaso o cargo de consultor religioso, exigido pelo grande nu- 
mero de consvdtas que a Santa Sé recebia de todas a partes do 
mundo, — ia elle fazendo a traducçào da Escriptura Sagrada 
ao mesmo tempo que se batia contra os hereges. Essa traducçâo 
começou segundo Petin em 386. Em 410 Dâmaso o incumbiu 
« de rever sobre o texto grego a traducçào latina dos Evange- 
lhos », e elle o fez. c Corrigiu também o resto do Novo Tesia-^ 
mento, e de entào em deante a sua traducçâo foi a única em uso 
no mundo catholico. Revista a traducçâo latina do Velho Tes- 
tamento, tratou de traduzil-o inteiro do hebraico, e em 390 
começou pelo Livro dos Beis, fazendo depois a traducçâo das 
outras partes da Biblia. Só em 407, após 21 annos de trabalho, 
pôde elle completar ( com as ultimas traducções do Pentateuco, 
de Josué e de Esther ) a traducçâo da Biblia » . E', em sum- 
ma, o que diz Petin sobre esse assumpto. O padre Diogo do 
Rosário ( Fios Sanctorum ) discorda um tanto de Petin nas datas, 
mas com elle concorda quanto aos factos. 

Para tirar a limpo os pontos controversos da Bíblia dk 
Alexandria ( = « Versão dos Setenta », feita em grego ), en- 
tendeu S. Jeronymo que devia começar por ler o Sépher na 
sua lingua, sem o que seria impossível um estudo comparado, e 

Sortanto impossível finnar qualquer doutrina a respeito. Estu- 
ando o habrnico, S. Jeronymo lacaria egualmente dono do dia- 
lecto de Esdras nos Targúns, e compararia as duas traducções 
(aramaica e grega) com o original ou Sépher. 

Dahi se explicam os 21 annos que S. Jeronymo consumia 
nesse tiabalho colossal ( — 386-407 — ). 



— 329 — 

Uma vez, porém, oficialmente entregue a elle essa rude ta- 
refa, foi como 8Í anoitecesse em toda a esphera do christia- 
nismo : — soara a hora do repouso, feita de aescanço e especta- 
tiva ; — cessara a actividade bellicosa dos credos contrários e, já 
confiantes, todos os espíritos adormeceram á sombra da grande 
e vitalissima promessa. 

Nào levou muito tempo para chegar S. Jeronymo á firme 
convicção de que os próprios judeus já nào sabiam patavina do 
hebraico conservado nas cópias do Sépher... Já os judeus nào 
eram « mosaistas » no sentido completo do vocábulo, e, si como 
taes se impunham, cabiam em palpável illu&fto ; — pois como dic- 
donario da « lingua sephérica » só tinham a traducçào grega, 
só e exclusivamente a Versão dos Setenta. Grande decepção 
a de S. Jeronymo, que se viu assim impedido de ir philologica 
6 linguisticamente ás longuinquas origens das Sagradas Escrip^ 
turas. Fez, pois, o que }»ôde, tomando por ponto de partida a 
Bíblia Grega, de que já havia algumas traducções latinas, mais 
que suspeitas ao novo mundo christào. 

S. Jeronymo passou para um latim mais civilizado a Versão 
DOS Setenta, e a isso se limitou afinal de contas o seu traba- 
lho de 21 annos, além do qual nào poderia absolutamente ter 
ido, mesmo que se. tivesse dado a hypothese de haver elle deci- 
frado o sentido esotérico da Bíblia Alexandrina. — E* que en- 
tíio, por toda a parte, era essa Biblia encarada como verdadeira 
« revelação divina ». 

E foi assim que 872 annos depois da versào de Esdras ou 
primitiva Bíblia Judaica {46ô â~J~C\ e 683 depois da dos 
Setenta, Grega ou de Alexandria ( 216 A-J-C\ desta nasceu 
a Versão Latina de S. Jeronymo {407) — que é a Bíblia 
Catholica, a — VULGATA. 

Espalhou-se a Vulgata por cópias e, durante quasi mil an« 
nos, do V ao XV século, os copistas, como era natural, alteraram 
profundamente a obra de S. Jeronymo, até que, descoberta a im- 
prensa, se imprimiu em Moguncia a primeira « Bíblia » ( — la- 
tina — ), no anno de 1462, desnaturada em sua pureza pri- 
mitiva. 

E assim como, após a Versão dos Sbtenta (e nella calcadas) 
se seguiram a Versdo de Aqnila^ judeu que a concluiu no anno 
120 de nossa era ; — a Versão de Simmaco, judeu-christão do 
fim do segundo século, natural de Samaria; a Versão de Tkeo^ 
docio de Epheso, também do segundo século; a de Origenes, a 
gothica de Ulphilas, a Eslava e as Orientaes^ — do mesmo modo, 
agora, depois da Vulgata (e nella calcadas) se seguiram a 
Edição de Moguncia (1462 ^ primeira Biblia impressa), — a de 



- 330 — 

Emmmbrik (1465) — a de Augsburgo (1466), — a de Reutlin- 
GBN (146 9) y — a de Roma (147 1), — a segunda de Moguncia 
(1472), — a de Nápolis (1476), — a de Pariz (1476) etc. (1). 

Cada vez mais desnaturadas com o correr dos tempos, aa 
Bíblias chegaram ao seçulo XV divei-sas umas das outras e 
grandemente infiéis ao original de S. Jeronymo, apesar das re- 
visões de Alcuino (Fim do século 8,** e começo do 9,"*), Lanfranc 
(1089), Saintcher e outros. 

Assim sendo, fácil é comprehender que a controvérsia theo— 
lógica estivesse outra vez de pé. Era a hicta das Bihlias; quer 
dizer: — a lucta das seitas, — a Guerra das «Heresias». 

Accresce que, desde a invasão dos Árabes em 711, todo a 
Occidente começou a assimilar as doutrinas orientaes, scientifico— 
religiosas, e já ia longe nessa infiltração hierática. Já as Cm^ 
zadas se tinham organizado contra o Oriente avassalador num 
grande afan de desforra, imposto pelo espirito da nova civiliza- 
ção christan; já a obra de Wiclef, João Huss, Jeronymo de 
Praga e Luthero galopava ruidosa e infrene pelas planicies e 
alcantis do novo credo, numa lucta de conquista e exterminio^ 
e já Ignacio de Loyolla, morto Calvino (1530), fundava em 1541 
a Ordem dos Jesuítas, tão celebre nos fastos humanos dos sécu- 
los 16 e 17. 

A Egreja Catholica viu-se, pois, na necessidade urgente de 
( — na esphera de sua jurisdicção — ) limitar a religiosa liber- 
dade de pensamento ou, antes, dizer ás suas ovelhas qual o seu 
verdadeiro pensamento, qual e como a sua fé, o seu livro, o 
cânon do seu credo. E, realmente, não havia outro meio de 
fazer a selecção, de formar a unidade catholica. E* que, coma 
nos partidos politicos, as Biblias são divisas, bandeiras, program-^ 
mas relisriosos. 



(1) Quero censnlur as Já citadas Hêtnoriím de A. Ribeiro dos Santos, veri qne^ 
muitissitio aoies que em qualquer outro povo europeu, e isto df>vido ao dominlo árabe 
—Já haria na Hespanha e em Portugal numerosas cópias (em hebraico) das diversas 
partes da Biblia. Essss cópias, posto que fragmentadas, sempre foram tidas como aa 
mais fieic, as mais simples e mais perfeitas, e até as mais bellas ou esttaeticas, devido- 
ao cuidado com que, para tal flm, lá se ensinavam os eopUtas, ammantumti ou eãcriboi^ 
creados num meio de puro Judaísmo. 

Em sua noU (a), ps. 243, Tomo lí, do referido trabalho, cita A. Ribeiro dos Banioa 
o livro hebraico Arbáh Turim do judeu Jacob beu Aser como impresso em Venesa em 
1428, segundo o testemunho de outro Judeu, José Coen, — o que fae recuar 8 annos a. 
data geralmente aoceiu da descoberta da imprensa (1436). 

Beja como for, a imprensa foi introdusida em Portugal era 1479, e Portugal foi e 
primeiro paiz da Europa qn-a imprimiu em hebraico. Desde entfto as veihas cópias ou 
manuscriptos hebiaicos, hispano-luzitanos, foram sendo sucoessivameote impressos e reim- 
pressos, e todoá esses trabalhos foram considerados pela critica como modelos no género.. 

Seria fastidioso citar aqui o apparecimento e a evoluçfto da Biblia na PeninsulA. 
Ibérica até á sua impressfto definitiva e em um só corpo. O que convém nio esquecer é 
que isso foi obra quasi exclusiva do illustre e emdicto Judaísmo hispano português da^ 
quelles tempos. 



— 331 — 

E foi então que para esse fim se reuniu em 1546 o Obn- 
cilio de Trento, preoccupado com a invasão crescente das dou- 
trinas de Luthero, Zwingle e Calvino. E, ao mesmo tempo que 
decretava a autheniicidade da Vulgata como a mais fiel ex- 
pressão das « Sagradas Escripturas », lan<;ava a excommunhão a 
todos que lhe negassem a autheniicidade agora decretada, e de- 
terminava que, após escrupulosa revisão, feita por uma commis- 
são de theologos competentes, fosse a dita Vulgata reimpressa 
pura, expurgada de todos os vicios adquiridos atravez dos tem- 
pos e mantidos pela ignorância dos impressores ou pelo interesse 
dos dissidentes. Assim, sob o pontificado de Sixto V foi ella 
revista e de novo impressa ( — 1590 — ) ; mas, terminada a edição, 
verificou-se que ainda havia erros a expurgar, defeitos a corri- 
gir. Coube essa tarefa a Clemente Vlll, que condemnou a 
Vulgata de 1590 ou de Sixto V, e que, após segunda revisão, 
mandou imprimil-a pela segunda vez, em 1592. 

Prompta esta segunda edição, deu-se o mesmo que com a 
primeira. Apesar de todos os cuidados, ainda tinha erros e de- 
feitos, que não deveriam permanecer no livro que se destinava 
a ser o livro-mestre, a «Bíblia Catholica». Nova revisão. Des- 
ta vez foi a cousa feita com todas as regras, com todo o rigor 
necessário a uma empresa de tão alto e melindroso valor. 

Purificada, cuidadosamente revista e corrigida em seus últi- 
mos erros, teve então a «Vulgata» a sua definitiva edição, ter- 
ceira revista, feita em 1593 e que é, portanto, a decretada como 
legitima, authentica, pelo Concilio de Trento, — a única, tn- 
discutivel e verdadeira — Biblia do Catholicismo. 



Segunda Parte 



SEGUNDA PAETE 



KTOLUÇÃO DO BSOTBRISMO. — IDEOGRAPHIA KÁFICA 

Vê-se, poisy qne em todas essas Bíblias ( judaica, muçulmo' 
na, latína ou catholica) os seus sectários só vêem o sentido gro9^ 
atiro ou material, externo, extrínseco ou exotérico do Béphbr, pro- 
positalmente rb-vblado, afim de que a €chave truuna* do Ab* 
SOLUTO, da SiBKCiA Intboral, nào fosse parar nas m&os dos 
profanos. Mas também já se viu que a transmissão histórica do 
pensamento esotérico yeiu. atrayez dos tempos e de todas as 
TÍcissitudes dos povos, como um fio secreto, sem interrupção e 
sem perdas de qualidade e de quantidade; — veiu até nós e irá 
até ao ultimo privilegiado que tiver a missão de descobril-o aos 
povos do futuro, já evolvidos até ás culminancias da perfectibi- 
lidade moral, intellectual e social. Também já se viu que a 
€chaveT^ desse saber é transmittida por «iniciação», por socieda-» 
des secretas, as quaes, no Occidente, só começaram a ser conbe-* 
cidas por occasião dos Templários, e que sob diversos nomes 
pullulam boje em todos os paizes civilizados, trabalhando homo- 

Seneamente para um grande e nobre fim, que só será conheci- 
o — depois, muito depois de realizado. 

Mas, após a rb-vblação desse ensino, ficaram indelevel- 
mente gravadas na consciência e na tradição popular ( como 
reminiscências atávicas, inconscientes) figuras, formas oraphi- 

CAS, PANTACULOS, PALAVRAS INCOMPREHBNSIVEIS, TALISMANS, AMU- 

lbtos b symbolos — que jamais desapparecerão, e que, vivas, 
são transmittidas como «superstições», de individuo a individuo, 
de povo a povo, sem mais vislumbre de seu sentido primitivo. 
Veja, por exemplo (citarei apenas 3 factos, e sem maior analyse 
psychologica), o que se deu com : 



— 334 — 

V í — o M da palma das mãos, 

^ ^ e o numero 13; 

, s ( — o ^cannêloT^ ou ferradura velhas 

^ { cabida do casco do animal, — e 

c) — < — o trevo de 4 folhas. 



a) — O «Emmb» 

Signal originariamente ideographico da feminidadeem todas 
as cousas da Natureza, — symbolo quaternário da Matéria, por- 
tanto da Maternidade, e da Morte (1), — a lettra M, o ibf Ae- 
hraico ( 73 ), cuja numeração é 13, ( = 4, a Matéria e as suas 
formais, a morte transitória ), — passou a sôr visto como M laH" 
no nas quatro grandes linhas palmares da mào, indicando (Chi- 
romância popular) revida curtais , ^m/)rte breve», si as linhas forem 
mais ou menos superíiciaes ou apagadas, pouco distinctas, mas 
bem unidas umas ás outras. 

Concomitantemente a essa reminiscência fóssil de um symbo* 
lo outrora vivo, e altamente significativo e philosophico, ficou 
também como reminiscência o «id», mas já sem o seu caracter 
grammatico, sem a sua significação e sem o seu valor alphabe- 
nco de M ; pois apenas conservou a sigaificaçào de <íMorte» li- 



(1) Nio devemos perder de rist \ qne, etymologicftmente, e latim M A T B R I A 
expansfo do latim MatbR (= Mãê ). veia o grego jLiaT1]Q^ por eu» vei expti- 
■lo do anltgo grego /iCC ( = Mãê ). 

Ora, este jjxi é o ^12 ( = ^àê) hebraico (segundo Fabre d'01ivek), ci^a nnmeraçlo é 
4 ( n 73>, ou a Matéria, a Mdê, o elemeuto femíniDo, passivo, — e 1 ( = ((). o ele- 
meoto activo, fdonndador, masculino, o ^Homem Univêrsalt o Otnêro ffum%nOt o Sir ao- 
minador da Terra ( — P de 011 vet). VÔ-se, pois, em íí*3 ( ^MU «= UaUria ^MorU) 
a unifleaçfto do Principio Creador com a cousa oreada, desde o mineral até ao HonieB. 

Be fi<'2 — 08 derivadAs-equivalentes 12^2 ( =s|f<»to^ia. Moimento) ou n72 ( ^morU, 
conforme o sentido esotérico em qne fdr tomado), — porque o primeiro é 4 {1212 e 4), e 
o segundo é 8 (n73 «8). 

Assim, de Matéria^ Hãê e MorU é symbolo o M, por etymologia dos dons primelrot 
e equivalência mental dos três ; pois temporariamente indicam: ~ Matéria, b coM^Mita- 
Çáot UmUação da energia, no êipaço § no tempo ; — MÃE, b maUrialieadora da Bnergim 
Catueiente e Btema na come ( ■■bnmaoiíaçAo) ; e — Mobtb, » porque etea kuinamtamç4o, 

ena materialiMoção da Energia T^y^'TV equi9ale a uma verdadeira marte temporária- 

B assim me referi á ^Quéda adamiea* ou •Involução*, que, apesar disso, continua A 

ser um «Abcako»w • . 



— 335 — 

gada ao quaternario-Materia, mas sem consciência dessa ligaç&o 
na alma popular. Dahi : — a «mortb> de um dos convivas de um 
Jantar, quando elles são em numero de 18 (1). 



h) — A «Ferradura» 

A ferradura velha, g&sta, cabida do casco do animal; — 
o cannáo encontrado nas ruas, nos caminhos, nas estradas, c traz 
felicidade », e é apanhado com respeito e alegria, e com fé pen- 
durado num prego, atraz de uma porta . . . , quasi sempre da por^ 
ta da rua, que é a porta de entrada. .*• 

— Porque ? ! 

— Qual a perdida psychologia desta « superstição » ? 

— Pegada de certo geito, a ferradura representa um káf 

um tanto alongado, ^^j , lettra de phantasia, mas, em todo 

o caso — sempre um káf. 

Ora, D é o Poder ( = ^-«aD = PoteTis), — a Força, o Domínio, 
idéas e virtudes que implicam felicidade : — domínio, governo 
de si e dos outros, domínio do Homem e da Natureza, Mas esse 
domínio tem que partir do Homem, do sêr por excellencia religio- 
so ; e a organizaçllo psycho-physica do Homem é septbnnaria (2), 
4 -^ 3 =z 7 : — 4 para a Matéria, 3 para o Espirito f3), que 

vem a ser : -J- ou LJ mais A , egual a AA ou x ^^ 
ainda 



(1). _ o «/afi/ar» (i=refeiçfto) é o acto dfarío mais material, menos intellectnal dos 

fldres ôrgaoizadot. Feia refeiç&o é que ellei synihetizam em si a natureza externa, 

' tjne é quaternária ( = *• = + ) i representada por seus 4 aspectos geraes: — POGO 

L-O^ l\\ - AGUA (= a =l\ ) - TEEEA (= t^ = ^ 

(2) — k ferradura tem 7 craPM » ~ i de am lado (qne deve ser o lado de baixo) e 
S do outro, on 1 1 e A :— 4 rêpre$entando a Matbbia, e 3 o Rspibito. 

•* MSKS AGITAT MOLBM. 

(3) _8io empregados os termos Matéria e Espirito era falta de ontros que, em nos- 
caa línguas oooidentaes, dêem ama ideia mais on menos »pproximada desses extremos, 
tOMOS dons êttadot MpolarUy antípoda*, da Matubbza. 



— 336 — 

E si o 13 (que é = 4) tem por syntbese symbolica a cnií, 

+ que, como já se viu, é signal de morte, de encarnaçõOy — 
' a ^assignatura^ do cannêlo ( Aa/, d ) (1) vai completar-se no 

SBPTBNNARIO feitO DE 8BTB (2; lÔDS (') DB FBRRO ( — 08 «CraVOS») ; 

— no SBPTBNNARio, rcpito, uníndo-so assim os dous mundos 



{visível e invisível) num c Todo » inseparável : /y)\ > = ^+^ 
{1 no centro do pantaculo, representado pelo ponto) = 7. 

A superstiç&o ficou, mas o esoterismo da sua origem, esse 
perdeu- se na memoria popular. 

Perdido o segredo genético do facto, a representac&o gra- 
phica da ferradura, como talisman, jamais poaerá ser lançada 
no papel no sentido do haf^ d i — porque a superstiç&o exiee 
que 03 objectos a que ella se liga sejam representados segundo 
a sua orientação natural. 

E' por isso que a ferradura é pendurada com o rompAo 



para baixo ; assim : — ^3 . 



C) — O «TREVO» DB «4» FOLHAS 

Já o trevo normal, de B folbas, só por si é bistoricamente 
um talisman popular. Além da ideia da «Trindadb» nelle con- 
tida ( cPcrfre, Filho, Espirito-Santo^), ou lôd, Ilê, Vô ( in-» =IEV) 
como diria um hermetista^ ideia que se liga ao tríumpho no jogo, 
no amor, em tudo, — encerra também as ideias de it represália, 
vingança, desforra ou despique», victoriosamente exercidas con- 
tra alguém ou alguma cousa. 



(1),-Lettr» dopl», Wpoíor, o S é 11 (mas 11 é 1 ^1 __ 2) ; portMito é 2 g^- 
não de 1 J_ 10, — o^Mi^f « paeUntt em acção, — crêoiura direeíamtniê ligada ao erêo^ 
dor : — « HypôúaH *, diria um iheologo. 



(2) 



—I6d, decima letra hebraica ('^t= 10, = 1, = (*]| nfto é < MÃB » como 

\S^, 1^, ^ ^, A., M • S, — mas é « PRINCIPIO » : portanto, é mais que llfd«, e portanto 
representa o « Principio EipirilutU Uterno *, — a « Infinita Força Crêadora », — e é 
por ÍB8o visto como o siznal graphieo, ptaysico, indicativo do Absoluto, isto é — d« 

DEUS. 

lôd 6, graptaicamecte, a representaçAo cansai do ponto que se expakdiu ( *« ), 
rtfraetando «m noto mtio ; é a potenculidadb QUE se realizou, — o MAo^eb m 
tua ênHflcaçâOf — a ESTÁTICA na Dynamiea, o HOMOGÉNEO no Heterogéneo, o AB- 
STRACTO MO Concreto, o ABSOLUTO no Relativo, — DEUS NA NATUREZA 



— 337 — 

Nas variedades chamadas trevo bra7icOf encarnado e do cam- 
po, variedades européas, estão respectivamente contidas as vir- 
tudes de afazer pensar em si ( « Pensa bm mim » ), de « solicitu^ 
de, previsão e previdência ( cVbngbrbi» )», e de « quietação abso- 
luta, desforra ou desaffronta ( c Kbpouso & Movimbnto» , d von-- 
iode ; Passividade & Actividade conscientes )». Os naipes de paus 
dos baralhos descendem intellectualmente de uma folha de trevo 
(1), e o esculptor das cathedraes da edade média talhou conscien* 
temente os trevos da sua esculptura ideographica. 

Mas nfto é desse trevo normal, desse trevo de três folhas, 
que cuida esta hypothese. 

Deixando-o de parte, e tomando o de 4 folhas, póde-se, 
por analogia com a analyse psychologica de todas as €supersti- 
ções:> geraes ou universaes, amrmar que o prestigio do trevo 

azedo ou azedinha ( 3 O /i/ " dnf f ) ^^^ nossos quintaes 
n&o se filia somente ao caso raro, provavelmente teratologico, de 
se encontrar uma haste com quatro folhas, quando só é próprio 
de cada haste o ter trbs folhas : — porque si assim fosse, todas as 
raridades seriam talism^ns, 

O creador desse elegantíssimo e mimoso talisman que, como 
berloque, invadiu as vitrinas dos joalheiros e, pousado no collo 
das senhoritas, fez a volta do mundo, — deve ter visto na hu- 
milde e delicada plantinha, amante da meia-luz e da humidade, a 
viva representação botânica do Tmtragramma Sagrado mm » = 
Ihoah, = Jeovah, sobre o qual já ficou dito o que convinha 
dizer. 

Assim pois — ha sempre uma psychologia em cada ««wper- 
stiçãoT* e náo ha tsuperstiçãOT^, por mais abstracta que seja, que 
n&o possa, em ultima analyse, ser graphica, symbolicamente re- 
presentada. 

Visto das altas cumiadas do Esoterismo, é assim o mundo, 
nas formações naturaes como nas obras humanas, nas paginas 
vivas do reino mineral como nas do reino vegetal, na cerâmica, 
na musica, na architectura, em hemldica, em numismática, — em 
tudo emfim. 



(1).— a hUiorI» iD;ellectaal d06 baralhos remooU^de phase em phaee, á épooha dos 
^Mgitêrioi Egypcioi ».— Âssfm, paut tem a saa verdadeira origem no lôd (^); — eopa» 

DO Hí ( *n ); — êipadoê no Vô { T ), — e ouroi ( = ^dinheiro*, ^moêda*, = f V 
firma circular Hm principio nem fim ) no 2? Hl ( n ) do TetbaOBAICMA. ( mn^ )t 
•ymbolo do Infiitito ( ^^ nio 2"^^ ) no T9mpo e no E$paço, 



— 838 — 

A cousa existe e tem sua razão de ser. E' a rubrica, a 09- 
signatura ideographica da Força ou Intblligbncia que traçou 
o poema de seu advento á matéria no grande livro infinito da 
Natureza. 

A difficuldade só está em interpretar as ^assignaturas-». 



Esses três exemplos foram escolhidos para moctrar que João 
Ramalho, a priori^ pôde ter empregado inconscientemente, em- 

Siricamente o káf, no caso de não ter sido um judeu lettrado, 
ada a hypóthese de ter sido judeu. Esta hypóthese só será 
acceitavel depois de justificada com documentos propriamente 
históricos , 

Quanto ao sen aiwlphabeUsmOy desde que se trate de um 
«JUDEU», será difficil, posto que não impossível, proval-o, — por- 
que, desde tempos immemoriaes, são os judeus obrigados a appren- 
der a ler e escrever, e nenhum delles deve ignorar o hebraico. 

Admittindo-se, entretanto, que, por singularissima excepção, 
o supposto judeu lusitano João Ramalho não soubesse ler e es- 
crever nem o portuguez pem hebraico, ainda assim pôde ter ello 
affirmado com o káf a opposição do seu livre sentimento reli- 
gioso ao sentimento do catholicismo que se transplantava na 
nova terra descoberta; pode têl-o também empregado como si- 
gnal que, talismanicamente, lhe desse ao mesmo tempo a força, 
o domínio de si, o dominio dos outros e da Natureza, domínios 
esses resultantes da mais alta focalização da Vontade, por meio 
de um talismaji; — pôde ter assignado «de káf-p em vez de ter 
assignado «cie cruzi>, sem com isso em nada augmentar ou di- 
minuir as grandes ou pequenas qualidades que porventura se 
consigam provar da sua intelligencia, dos seus sentimentos e da 
sua vontade. 

E* possível que a muitos repugne e seja antipathica a these 
«si Ramalho foi ou não judeu» . Entretanto, o ter sido e o ser 
judeu, de modo algum deve ser encarado como labéu a ouem o 
foi ou é. Philosophicamente, no desapaixonado dominio oa com- 
paração histórica, tão digno de respeito é o judeu, o buddhista, 
o lutherano, como o protestante, o catholico romano ou qual- 
quer outro de qualquer outra crença. Em assumpto de religião 
nenhum credo é infamante, porque, phillologica e historicamen- 
te, todas as religiões (no plural) são apenas formas diversas de 
um attributo, de uma unidade psychica, irreductivel e universal, 
do sentimento humano, — formais da Religião (no singular) uma 
e única, verdadeira, indivisível e eterna. Portanto, a questão 
aventada do judaísmo ou não judaísmo de Ramalho não deve 



— 339 — 

ser encarada sob esse mesquinho e estreito ponto de vista, — 
mas apenas como uma simples verificação histórica a fazer. 

Assim encarado, si foi cjudêu», o foi material, concreto, em* 
pirico, de outiva, apenas como um producto dos meios commer- 
ciaes judaicos que então existiam nas grandes cidades de Por- 
tugal, da Hespanha, da França, da Bélgica, da Inglaterra, da 
Allemanha e da Hollanda, rebentos da invasão moura, — e não 
por conhecimento esotérico da doutrina mosaica, — por qualquer 
preoccupação de ordem philosophica. Si foi, o foi como e pelo 
mesmo motivo, e pelo mesmo processo psychico por que é ca- 
tholico o nosso caipira, o guasca do Rio Grande do Sul, o ta- 
baréu da Bahia e o matuto de Minas. Mas, mesmo assim, si o 
signal da sua rubrica é o káf (1), hieroglypho vivo da Lingua 
Sagrada, ideographic*!, sem o saber affirmava João Ramalho 
com isso a existência, em seu tempo, dos restos do velho ensino 
hermético dado por iniciação secreta nos subterrâneos da Es^ 
phitige, \igdkào% aos subterrâneos e aos grandes salões — symboli- 
ca, geométrica e astrologicamente abertos nos subterrâneos das 
Pyramides; talvez não somente «e^ restos* desse ensino, mas 
de todo elle então transfundido na sciencia vigente dos alki- 
micos e dos astrólogos. 

Vejamos si ])óde ter sido de qualquer desses modos, — e qual 
delles será o mais acceitavel, o mais resistente á critica. 



II 

Com a civilização árabe, moura ou sarracena, desdobrada 
no Occidente após a invasão e a osmose etbnica dos povos da 
Europa e da Ásia, principalmente dos da Hespanha, — a velha 
Sciencia de Hermes teve o seu «Renascimento» sob dois aspe- 
ctos principaes que se chamaram ; — Alkímia e Astrologia (2). 
Esse renascimento data do segundo e terceiro século de nossa era, 
do c Nbo-Platonismo » da «ESCHOLA DE ALEXANDRIA», 
e teve por principaes representantes, por indefessos propagado- 



(1) B, 8i o era, Jofto Ramalho o eeorevia seg^iodo a forma qae lhe deram os Ma- 
fo«, e que é uma variante da sua forma hebraica. Qaem se qaizer convenoer disto nfto 
terá qae faser mais do que abrir as obras de Eliphas LevI, Btanislas de Qaaita e de to- 
dos 08 graodes esoteristas, e examinar nellas os pantácalos em qae existe essa lettra. 

O alphabeto dot Magot (forma typographica) ó encontrado na «Maqía.», grande • 
notaTel obra de P. Christfan, a ps. 177. 

Ha mor parte das obra» kabbaUsticas é esse alphabeto preferido ao hebraico para 
as representações Ideographicas. O que nelle differe do alphabeto hebraico é só a forma 
das lettras. A nnmeraçfto é exactamente a mesma. 

<2) — Dada a etymologia da palavra Aickimioy seria melhor qae se escrevesse com 
i ena vea de cK e qae se dissesse em portagaez àSkimica e AUtimieoi em vei de AlcU- 



— 340 — 

Teg, os Onosticos, cujos guias intellectuaes foram ent&o, entre 
outros de menor valor, Ostanes, Synesio, Zósimo, Geber, — e de- 
pois Avicêna, Alpbidio e Avenzoar. Com a volta dos CruzadoSy 
penetraram na Europa não somente as obras de Aristóteles, mas 
também as obras árabes, que tratavam da ^ZHTnaa. Foi por esse 
tempo que surgiram os vultos gigantescos de Alberto o Grande, Ro- 
gério Bacon, S. Tbomaz de Aquino e Raymundo Liilio, — no ter- 
ceiro século. Dahi começou então a progredir a Alkimia pelos 
séculos em fora, até que no 17.** tocou a seu apogeu, para de- 
cahir logo e lentamente no 18,* cedendo logar á Chimica, sua 
£lba legitima. 

Assim, no tempo de João Ramalho ( século 16."* ) a Alkimia 
e a Astrologia dominavam toda a Europa, e a Inglaterra, a 
França, a Allemanba, já tinham apresentado á admiração do 
mundo nomes como os de Georges Riplee e Norton, Nicolau 
Flammel e Bernardo Trevisano, Trithemio, Ulsted e Sultzbach. 
Foram também da mesma epocha Isaac o Hollandez, e Basilio 
Valentim — que introduziu a Kabbala na Alkirnia^ e dentro 
em pouco surgia o extraordinário génio creador de Paracelso, 
que encheu o mundo com seu saber (1) e que formou eschola. 
Beconstruido o Hebbibtismo por esse verdadeiro génio, por esse 
M. Divino Paracelso T»y como lhe chamavam os seus discípulos e os 
seus biographos, — enorme foi a serie de « philosophos hermeti'^ 
cos » que dahi veiu até ás raias do século 19, e cujos nomes 
deixo de citar para não extender ainda mais esta noticia histó- 
rica do R80TERISM0 EGYPCio atravéz dos povos do Occidente To- 
dos elles vieram afiirmando a Unidade da matéria^ a Unidade 
da Natureza, e a IllimitaçÕo do espirito humano sob certas con^ 
dições secretas, estabelecidas e verificadas pela « iniciação » ; to- 
dos elles tinham a chave senária, kabbalistica, do Séphbr, gra- 
phica e numericamente contida na lingua secreta de Hermes, e 
quasi todos elles foram judeus no sentido psychico , esotérico, da 
palavra. A Astrologia, que tinha invadido os próprios palácio» dos 
reis, descia então, de mõos dados com a Magia, ás ultimas camadas 
Bociaes, e ambas triumphavam na consciência daquellas épochas. 

Na Hespanha e em Portugal já o dominio árabe tinha to- 
cado a teu termo, dominio em verdade começado muito antes 
das grandes invasões da Historia, muito antes da fundação da 
AcALFMiA Jui>AiCA de Córdova. Quando as invasões históricas 
começaríim a dar-se no século VIII, fundindo em grande escala 
o sangue, a alma e a civilização oriental no sangue, na alma e 
na incipiente e diversa civilização ibérica, romana de origem^ 

(1) - A« saif obrM completas, etcriptu em Utlm, foram ba pouco vertidas para o 
iH^es por Waite. 



— 841 — 

mas modificada pelo impulso dos Burgiindos, dos Francos e dos 
Vizi godos, desde o secmo V, — isso se deu porque o Mouro, já 
derramado aos poucos por toda a Hespanha, já influente nella, 
tinha levado aos seus patrícios da Africa, e estes aos da Arábia, 
a noticia de que a futura terra do Cid ora conquistavel, e que 
essa conquista podia transpor os Pyrenêus e ir até á Galiia. • • 
Elle, o Mouro, nfto contava com Carlos Martel (732), que o 
obrigou a n&o dilatar o seu domínio além da Hespanba. Aqui, 
pois, fundou o Árabe o seu império, que é um dos mais lumino- 
sos da Historía Universal ; enriqueceu, illustrou toda a Península 
Ibérica com as suas artes notáveis, dentre as quaes sobresahiam 
a arcbitectura e a esculptura ; trouxe-lhe as sciencias e a religiáo 
pbilosophica, e imprimiu-lbe um impulso tal, que ainda é, nos 
uias que correm, o mais glorioso passado da terra hespanbola. 
Nos séculos X e XI, porém, formados os reinos christàos de 
Aragáo, Leào, Navarra, Barcelona, etc. ; colligados os príncipes, 
directores desses reinos, para o anniquilamento dos mouros, a 
Incta começou entre os cbristãos e os árabes, lucta de séculos, 
e que só devia terminar com a reconquista da Hespanba por 
meio da expulsão geral do invasor. Desde muito que a exegese 
romana Ibes ia ( a elles — árabes, judeus quando pbilosopbos e, 
na pratica — mab o metanos ), lhes ia limitando a área de acç&o, 
cerceando a espbera das liberdades tanto civis como religiosas. . . 
£ foi assim que a 16 de Julho de 1212, ganha pelos reis 
<^hristàos de Aragão, Navarra e Castella, a famosa batalha de 
Navas de Tolosa, commandada pelo emir Mohammed-el->Náser, já 
acaram os árabes só circumscriptos a Granada e a Córdova, ao 
passo que Castella e Aragão foram com isso subindo ao fastígio 
io poder, e começaram a incorporar a seus domínios os demais 
príncipados hespanhoes. Dous séculos e meio se consumiram 
nessa lucta que tendia á unificação politica e religiosa da Hes- 
panba, ideal que só se realizou em 1469 com o casamento de 
Fernando V, o Cathólico (de Aragão), com Isabel de Castella. 

A perseguição aos árabes continuou então sem tréguas, até 
que em 1492 perderam elles Granada, o seu ultimo reducto na 
Hespauha, com a rendição de Boabdil. 

Seguiu-se então o edito que os obrigava a uma das duas 
pontas deste dilemma : — Conversão ao caÚwlicismo ou sabida da 
Hespanha dentro de 4 mezes f 

E' desnecessário dizer que os judeus preferiram o êxodo. 

Foram, pois, expulsos da Hespanha, e dentro em breve o 
seriam de Portugal. A contiguidade dos territórios determina 
quasi sempre a unidade do pensamento, das ideias e dos senti- 
mentos : — a geographia tem também a sua osmose, e a Curii^ 



— 342 — 

Somana, sagaz, jesuíta e elástica como os tentaculos do polvo^ 
era entllo o cérebro da Península Ibérica. 

Mas, antes e por diversas vezes, pei*seguido na Hespanba, 
nielbor sorte não encontrou o judaísmo em Poitugal, apesar de 
lá ter vivido, durante quasi 300 annos, uma existência livrej)ro- 
gressiva, principalmente emquanto i*einaram D. Affonso U, o 
Gordo^ — b. Sancho II, o Capêllo (filho do primeiro), — D. Di- 
niz, o Lavrador (filho de Affonso UI), — D . Pedro I (filho de 
Affonso IV e amante de Ignez de Castro), — D . Affonso V, o 
Africano, — e D. Joào II, seu filho, cognominado o Príncipe 
Perfeito (Séculos XIH e XIV). 

Os judeus hispano-portuguezes, dignos filhos do judaísmo- 
árabe, tinham dado á litteratura bíblica um impulso verdadeira- 
mente colossal. Exegetas, doutrinadores, commentadores, kabba- 
listas, talmudistas, traductores, — floresceram nesses três séculos 
nomes de tamanho brilho e de t&o grande e tão legitima esta- 
tura, que se impuzeram á historia do pensamento humano, e 
nella se immobilizaram para sempre, indelevelmente, numa crys- 
tallização de estrellas mortas. Os seus livros abundavam, pri— 
meiro escriptos em caracteres hebraicos, simples, os caracteres ou 
lettras quadradas, depois em caracteres rabbinicos, depois em 
grego, que foi enti\o a língua mais falada, depois em latim, que 
lhe succedeu, e finalmente em hespanhol e portuguez daquella» 
epochas. 

Eli es não dispensavam a Bihlia hebraica, fosse em que paiz 
fosse que estivessem e propagassem a sua fé; mas, ao lado 
dessa Bíblia, semeavam a sua traducção na língua do paiz em 
se achavam. Era uma praxe, uma quasi lei, á qual se refere 
Maimonides (1), celebre rabbíno do século XIH, nas suas obras 
Mischna Thorah e Mor eh Nehocim, 

Já eram então manuscríptos populares (copias) as traducções 
bíblicas, hespanholas, dos rabbinos Kimchi e Abrahão Aben Hesra ; 
a de Bonifácio Ferreira (1408), feita em dialecto valenciano; e 
muitas outras. A riqueza dessa litteratura manuscripta orçava 
por centenares de obras diversas, das quaes as mais importantes 
começaram a ser impressas logo depois da descoberta da im* 
prensa . 

Para só citar nomes portuguezes, porque si os citasse hespa-- 
nhóes avolumaria demais este trabalho, que não deve ser longo^ 
por se destinar talvez á Reviata; — para só citar nomes portu- 
guezes, repito, Portugal pôde ufanar-se de ter tido na historia 



(1) — Ciudo por António Ribeiro dos 8aoto8 dm saas Memorias, trabalho atse qo» 
loe vai g^iar «aasi ad HrUum na seguinte enameraç&o dos grandes Jndeos portngneiea. 
4e 9ntit. 



— 343 — 

intellectual do seu passado, dos séculos XIV e XV, judeus do 
alto valor destes seus filhos: 

— Abrah&o Ghajen, que escreveu o Ombboth Tahoroth ou 
« Sermões Puros » ; 

— Abrahâo Sebá, que escreveu o Zeror Hamor ou « Ra-- 
milhete de myrra », obra de puro kabbalismo zoárico ( 1 ), 
e o Zbror Hacbseph ou € Ramilhete de prata », segundo o 
Génesis, C. 42, v. 35, — commentario kabbalistico ao Cântico 
dos Cânticos; 

— David Gedaliah ben Jacbia, rabbino e jurista, que escreveu 
o QuiBUR DiNiM ou c Composição dos juizos », o Maamar Hal 
DiKB Tbraphot ( « Tratado dos juizos das viandas j ) e o Schal- 
SCHBLST Hakkabbala OU « Codeia da tradição » ; 

— David Jachi^, que foi um grammatico hebraista, um phi- 
losopho e um poeta, e que viveu na intimidade de D. Affonso V ; 

— David ben Salomão ben David ben Jachia, poeta e tal- 
mudista, commentador e grammatico, apreciado auctor d' c O 
Siclo do Santuário » ; 

— Gedalia ben David Jachia, reitor da Academia Judaica de 
Lisboa, medico, philosopho e jurista, depois chefe da Synagoga 
de Constantinopla, e auctor de uma obra em que commenta « Zor 
charias » e expõe as « Sete sciencias sagradas » ; 

— Jacob Jachia ( o « Ràbenú TJiam » dos judeus, que quer 
dizer « Nosso Mestre Perfeito » ), filho de David Jachia, como elle 
douto, e que escreveu o Thehilah Lbdavid ou « Louvores de 
David >, mosaista, genesista, theologo e philosopho ; 

— José Chivan, talmudista, commentador dos Psalmos e auctor 
do MiLÉ Aboth (€ Sermão dos Padres^), em que commenta o 
talmudismo do livro Pirké Aboth ou € Capitules dos Padres » ; 

— Abrabanel ( Rabbi Izaak — ), sem duvida o mais notável 
dentre os notáveis doutores do judaísmo hispano-portuguez, 
lisboeta, nascido em 1437 e fallecido em 1508 ( 2 ), em Veneza, 
aos 71 annos de edade. 



( 1 ) — Segrnndo o methodo próprio do Zohab ( oa « í1 L%u » ), deue que é lun dos 
mais importantes litros kabbalisticos, no diser de Ad. Franek, — obra do Jndên Moysés 
de Leio. 

Knorr ▼. Rosenroth imprimiu em 1667 a sua Kabbàla. Dekudàta, qne só em 1P95 
toi Yertida para o francês por Henri Chatean, sob o mesmo titulo latino, mas com o sub- 
fitulo Le Zohàb. 

ConsnUe-se também a substancial e notarei obra de 8. Karpe — Eiudê tur Ui ori* 
ffimeê tt la naiurê du Zohar, publicada em 1901 por Feliz Aloan, — Paris. 

( 2 ) — Das difBcnldades da lingna hebraica vein o escrever-se de vários modos o 
nome desse ^ande rabbino do Judaísmo português. Conforme os auotorec que a elle se 
referem ( e numerosissfraos sfto elles ), é «sse nome fircapbado, ora Ábarbanêl, e ora — 
Á^abaniel, Ábarbifui, Álfravanêlj e até BarbanêUa e Batanêlln, 

A meu v6r, Abbàbakel é a melhor representaç&o graphica do nome hebraico. 



— 344 — 

£' uma das mais salientes figuras do judaísmo universal, nào 
somente pelo critério philosopbico que palpita em todas as pa- 
ginas das suas numerosas obras, como também pela erudiçção, 
pela intellectualidade das expressões, pela subtileza da sua tbeo- 
logia e pelo vigor com aue sustentou as tradições judaicas contra 
o novo credo. Dabi o dizerem uns que elle foi sábio e grande 
como Maimonides, e outros que o foi mais e maior que o Platão 
dos judeus, illustre filbo de Córdova. 

Das suas numerosas obras muitas se perderam, outras foram 
impressas, e algumas, ainda em manuscripto, são encontradas numa 
ou noutra bibliotbeca europeia, onde figuram como verdadeiras 
relíquias. 

As mais citadas slio : • 



— Marchbvéth Hammischneh (=:€ Se- 
gunda carroça ou O que é a segunda pessoa 
do Estado depois do Rei » ), impressa em 1551 
( Como já ficou dito, estas e outras obras, exis- 
tentes muitissimo antes da descoberta da im- 
prensa, circulavam por meio de cópias ). 

Mas esta, que é um commentario ao 
DeuteronomiOy foi eecripta em 1457 e, du- 
rante muito tempo, — liaa e explicada, publica 
e didacticamente, na Synagoga de Lisboa; 

— Perusch ha Ti Thorah, commentario 
geral ao Pentateuco, impressa pela 1.* vez 
em Veneza em 1579. Teve varias edições; 

— Perusch hal Nebjim Risbronim, ter- 
minada em 1484, impressa om 1493 em Na* 
polis, e depois reimpressa varias vezes. Ahi 
commenta o rabbino lisboeta os « Primeiros 
Propbetas » dos judeus, referidos em Josué^ 
JuizeSy Samuel e Eeis ; 

— Perusch hal Nebjim Aharonih, em 
que commenta os «Propbetas posteriores», 
oora terminada em 1490 e tantos, e impressa 
pela primeira vez em 1511, em Pesaro. Va- 
rias edições em diversos legares ; 



— 345 — 

— Mahbnb ha Jbsuhah (ou Fontes da 
salvação), commentario a Daniel, terminado 
em 1497, impresso pela primeira vez em 1551, 
c depois reimpresso diversas vezes em vários 
logares. Ahi responde Abrabanel ás obje- 
cções dos christàos, e o faz de modo cabal 
para os judeus, com grande luzimento para a 
doutrina judaica ; 

— RosH Amanah (ou as Bases da Fé), 
em que firma os pontos fundamentaes do ju- 
daismo, analysa e acceita Maimonides, de cuja 
exegese se afasta em alguns pontos, e refuta 
Chasdai e Albo. 

Impressa em 1506, muito tempo depois 
de escripta; 

— Masghmia Jbsuhah (ou o Pregoeiro 
da salvação), terminada em 1498, impressa 
pela primeira vez em 1526, e reimpressa de- 
pois muitas vezes. Ahi explica o celebre 
rabbino portuguez as propbecias dos 17 pro- 
pbetas (BalaãOy Moysés, Isaias, Jeremias, Esse- 
chiei, Oséas, Joel, Amos, Abdias, Michéas, 
Habacuc, Snphonias, Haggêu, Zacharias, Ma- 
lachias, David e Daniel) sobre o Messias, e o 
faz para consolidar a fé judaica na sua espe- 
rança de se ver um dia restituida á mfte pátria; 

— Nachalath Aboth (ou a Herança 
dos Padres), obra terminada em 1496, em 
que commenta o tratado Pirké Aboth (que 
águra na ediçào da Mischna) e que só foi 
publicada em 1567. Antes, porém, de publica- 
da, foi traduzida em latim por Surenbusius ; 

— Hatbrêth Zbkbnim (ou Qorôa dos 
Anciãos), escripta durante a sua mocidade, 
sobre o Êxodo e sobre Malachias, e só im- 
pressa em 1557 ; 

— Zebach Pesach (ou o Sacrificio da 
Paschoa), em que explica os ritos paschaes es- 
tabelecidos no livro Haogadáb Schbl Pésach. 

Obra terminada em 1496 e impressa pela 
primeira vez em 1506 ; 



— 346 ~ 

— MiPHBHALOT Elohim (ou As oòtos de 
Detis), livro que só foi impresso muito tarde, 
em 1592, e no qual* discorre Abrabanel sobre 
a creação do mundo, dos anjos, e sobre a Lei 
de Moyses ; 

— Teschuboth (ou Respostas) y obra só 
publicada em 1574, em Veneza, e em que 
responde ás Dose questões philosophicas que 
lhe foram propostas pelo rabbi allemão Saul 
Gohen, relativamente a certas passagens obs- 
curas do livro MoREH Nebokim (ou o Guia 
dos que duvidam) ^ de Maimonides ; 

— M ACHAZEH Shaddai ) OU a Visão do 
Omnipotente), obra perdida pelo auctor du- 
rante a sua fuga de Portugal, perseguido 
por ser judeu; 

— TzEDBK OLAMiM (ou a Justiça dos sé- 
culos), obra perdida nas mesmas condições e 
pelos mesmos motivos acima expostos. 

O fim do mundo, Ob ritos da festa de 
anno bom e do dia da Purificação, o Paraizo, 
o Inferno, a resurreição dos mortos e o juizo 
final eram os assumptos de que ella cuidava ; 

— Lbchakat Hannebiim (ou a Congrega- 
gaçõo dos prophetas), em que, tratando de 
vários propbetas, refutava passagens do Mo- 
REH Nebokim de Maimonides, e completava 
ensinamentos iniciados (ou não existentes) 
no seu livro anterior Machazeh Schaddai ; 

— Jemoth Haolam (ou os Dias do sé- 
culo), obra cbronologica, em que acompanha 
as viciscitudes do povo judaico, desde seu 
apparecimento até ao tempo do auctor; 

— Sepher Samaiim Chadasim (ou o Lt- 
vro dos novos céus), em que restabelece e 
analyza a cosmogonia mosaica; 

— Jesuhoth Mesichó (ou a Salvação 
do Ungido), livro em que se encontram as 
tradições dos antigos rabbinos sobre o Mes- 
sias (tradicções enfeixadas no Talmud). 



~ 347 — 

Só aqui, nessas obras de Abrabanel, que rica seara para 
judaísmo portuguez dos séculos XIV e XV! Mas nâo terminam 
ahi os grandes vultos debse judaísmo nos tempos de João Ea- 
malho, e isto sem citar a grande corrente judaica alimentada 
anteriormente pelas obras vindas da Hespanba para Portugal. 

E assim é que a velha Lusitânia podia ainda ufanar-se de 
ser a mãe de rabbinos illustres como o foram: 



— • Jehuda ou Judas, nascido em 1390 em Lisboa, 
e que escreveu o Kina (ou as Lamentações)^ obra lithur- 
gica que também faz parte do Máchzor hespanhol, 
editado em Veneza em 1656 (1) ; 

— Moseh ben Chabib ben Schen Tob, egualmente 
lisboeta, da Synagoga e da Academia Judaica daquella 
cidade, e que além de trabalhos grammaticaes relativos 
á Lingua Sagrada, escreveu o Machaméh Elohim (ou 
os Reaes de Deus), obra philosophica e theologica, e o 
KoL Jbhovah Bbc(>ach (ou a « Voz de Deus em Forta- 
lezas*)f commentario biblico, em que examina o auctor 
a doutrina exposta pelo rabbi Jedaliah ben Abrahão 
Hapenini no seu livro Bbchinath Holam ( ou o Exame 
do Mundo). Hapenini era barcelonez. Impressa em 
1546 em Veneza, e depois reeditada em muitas outras 
cidades ; 

— Schem Tob ben José Schem, da Synagoga de 
Lisboa^ auctor do Sepher Emunáh (ou o Livro da Fé), 
em que firma as bases da fé judaica ; auctor ainda dos 
seguintes livros: — Praticas sobre a lei (Veneza 1547); 

— Commentarios Kábhalisticos sobre as lettras do alpha^- 
beto hebraico ; — e Commentario ao Moreh Nbbokim do 
rabbi Samuel ; 

— Jacob ben Chabib R, Selomoh, que escreveu os 4 
seguintes tratados analytícos das 6 ordens da Misehna : 

— Hbn Jacob, (ou o Olho de Jacob), — Hbn Israbl (ou 
o Ollio de Israel), — Bbth Jaacob (ou a Casa de Jacob), 
e — Bbth Israel (ou a Casa de Israel), 

Muito importante deve então ter sido esta obra para 
o povo judeu, dado o grande numero de edições que 
ella teve em diversas partes da Europa ; 



(1).— Hftcbaor (ou as Prtegi Judaicai), 



— 348 — 

— José ben Schem Tob, philosopho, jurista, arabista 
e hebraista, auctor do Cebôd Elohim (ou a Gloria de 
Deus). 

E quantos — e quantos outros ! 



Mas para que augmentar esta lista ? — si o que abi fica já 
basta para demonstrar que 

— No TEMPO DE João Ramalho havia 
EM Portugal o meio judaico, e que, por- 
tanto, É muito provável que Ramalho tb- 

NHA feito parte DESSE MEIO. 

O edito de D. Manoel, em virtude do qual foram os judeus 
expulsos de Portugal, veiu cinco annos depois do edito que ex- 
pulsou os judèos da Hespanba. Lá, o facto se deu em 1492; cá, 
a 30 de Maio de 1497. 

Bafejada por esse decreto, a persegui çáo cresceu violenta- 
mente em Portugal, — nâo somente a de caracter publico, ad- 
ministrativo, como a de caracter particular. A retirada dos ju- 
deus era ás vezes imposta súbita, summariamente, da noite para 
o dia, principalmente nas pequenas cidades, nas villas, nas al- 
deias. Ser judeu passou a ser synonymo do que bavia de mais 
baixo, de mais indigno na espécie bumana. O judeu era o as- 
sassino do Cbristo, o algoz da innocente víctima do Calvário. 
Ao judeu negava-se páo e agua, pois era elle o mais ignóbil, o 
peior dos bomens. 

A intolerância cbistan, nascida do exoterismo que vinba 
de Roma, dessa Roma mundana, sempre audaz e monopolizadora 
do céu, como si Deus não fosse pae de todos — não pôde mais 
supportar que nas aguas do Tejo e do Douro medrasse e flo- 
risse a flor immarcescivel do velbo Hermes, o Lagos da Isis 
eterna, perennemente fecunda, — solemne e deslumbrantemente 
immortal. 

E o êxodo então começou. 

Seguiam os judeus para as outras terras da Europa ; uns, 
para a Itália; outros, para a França; estes, para a Allemanba, a 
Mol landa, a Inglaterra e a Bélgica; e aquelles, para a Turquia, 
para o Oriente, para toda a parte. 

Eram familias inteiras que abandonavam seus lares e lá se 
iam caminbo em fora: — artistas, escriptores, typograpbos, poe— 



— 349 - 

tas, médicos, pbilosophos, juristas, — todos levando comsigo as 
soas obras e os seus velhos e inéditos manuscriptos hebraicos, 
que foram enriquecer as bibliothecas de tantos outros paizes; 
levando comsigo as typographias, tudo que lhes era o seu meio, 
a SIM vida, o seu judaísmo, . . 

O êxodo durou annos. Em massa, no começo, foi se rare- 
fazendo depois. Muitas famiiias judias, muitos judêos, por este 
ou por aquelle motivo, quasi sempre por falta de recursos, e até 
confiando em que melhores tempos não tardariam muito a vir — 
foram se deixando ficar no seio da mãe desnaturada, que, esque- 
cida de sua maternidade, os expulsara como si não fossem seus 
filhos. Foram se deixando ficar, até que, perdida a esperança, 
reunido o pecúlio de que precisavam para a expatriação, um dia 
partiram como os outros, e lá se foram por Todo o Mundo — 

2ue é a sua illimitada pátria, a sua Israel de hontem, de hoje, 
e amanhan, — de todo o sempre ! 

Portanto : 

— Foi incontestavelmente esse o meio em que viveu 
João Ramalho até vir para as terras de Santa Cruz. 



Descoberto o Brazil inicion-se o periodo das expedições. 
Depois da de Oonçalo Coelho (1501), a de Christovam Jacgues 
(1503); depois desta, a hespanhola de Solis e Vicente Pinzon (1508); 
depois desta, ainda a hespanhola do mesmo Solis (João Dias de — ), 
em 1515 ; e depois desta a portugueza de Joõo da Costa, em 1517« 

João Ramalho, quer tenha ido para a Hespanha, quer tenha 
ficado em Portugal, pode ter vindo na primeira (1508) ou na se- 
gunda (1515) expedição de Solis^ ou mesmo na expedição-Cò«ía, 
de 1517 ; — pois como se sabe, deve elle ter aportado em terras 
brazileiras durante o septennio de 1510 a 1517. 

Si foi esse o meio, vejamos quaes as hypótheses mais accei- 
taveis em relação ao signal com que authenticava elle a sua 
assignatura. 

No ponto de vista particular em que me tenho col locado, 
com o pensamento preso ao supposto judaismo de Ramalho, só 
me cabe tratar das hypótheses que eu denominarei : 

a ) — hippica (1), em falta de melhor termo ; 

b ) — horoscópica ou astrológica ; e 

c ) — kahhalistica ou propriamente esotérica. 

Examinemol-as summariamente : 

(1) -^ A da Ftrradura. 



— 350 — 
* ) - HYPÓTHE8E HIPPICA 

Na peqaenina esphera dos meus conhecimentos ha uma falha 
que, em meio de muitas outras, vejo agora o quanto é digna de las- 
tima : — ignoro a historia e a evolução da assignatura do homem. 

Estou, porém, informado (e sem saber com que fundamento, 
ao menos extrínseco) de que a representação graphica da fer- 
radura fy foi usada em certo tempo e por certos homens como 

signal identificativo de seus nomes escriptos. 

Assim deve ter sido, porque, entre os numerosos symbolos 
que, em heráldica^ se encontram em escudos e hrazões, existe a 
ferradura e, digamos desde já, também se encontram a erva e o 
trevo. Notável approximaçào destas três insígnias ; — pois já se viu 



que a + ^ ITíTt ; — a WJÔ , o septennario humano ou domínio 
do espiHto sobre a matéria^ do Homem sobre a Natureza] — e o 
trevo Uj) , ainda íTiíT^ ! Três symbolos absolutamente synony- 



mos em sua ideographia, — três representações da mesma idéa. 
Si porventura parecer a alguém que o septennario não se reduz 
a 4 ou 4- (cruz)^ basta ler as notas (2) e (3) da pagina 335, e 
(1) e (2) da pagina 336, com a parte do texto a que pertencem, — 
para se convercer dessa reducção. Assim reduzido o septennario á 
lórma da ferradura, está representada a matéria na sua passividade 
feminina, e tomados em sua significação os 7 iôds : — eis o Es- 
pirito creador, a actividade analogicamente masculina . . . Isso, 
para o plano cósmico. Para o plano biológico, eis, de um lado, 
o Jiomem e seu corpo, e do outro — a Natureza e suas formas. 

Deixou João Ramalho a pátria querida para ir tentar a 
vida em nova e extranha terra. Por toda a parte o desconhe- 
cido, a escuridão impenetrável. Que iria ser feito delle, atirado 
ás solidões selvagens do Novo Mundo, á mercê do Homem ame- 
ricano — ainda impulsivo e rudimentar em seu desenvolvimento 
psychico ? A que apegar-se o portuguez expatriado, rude e 
ignorante, ferido assim pelo destino cruel ? Nessa lucta intima, 
em que tudo é movei, instável como o oceano, — qual a sua 
taboa de salvação, o rochedo em que lograsse por o pé, o talis- 
man em que condensasse, focalizasse a sua vontade, afim de 
ganhar nessa pugna a energia que estava em bancarrota ? 

— A FERRADURA troz FELICIDADE. A ferradura será o meu 
symbolo, o meu signal, pensou comsigo João Ramalho . . . 



— 351 — 

E annos depois insculpia essa auto^suggestão graphica e Juh 
minizadora de permeio aos seus dous nomes : 




— Mas, então, si foi a ferradura o symbolo, o talisman de que 
se serviu nos actos officiaes de Santo André da Borda do Campo, 
— porque a inscreveu elle contra a sua orientação natural ? 

Eis uma das razões por que a hypothese hyppica me parece 
inacceitavel. 

Com effeito, todas as cousas são representadas pelo homem 
nas suas posições naturaes. A posição natural da ferradura de- 
senhada numa folha de papel será sempre de cima para baixo, 
isto é, com a abertura para a parte inferior. E é assim que 
como ornato figura ella nos brazões e escudos da edade média. 

Na psychologia das superstições é lei verificada que os oZm 
jeetos são representados no sentido natural de sua orientação. 
Os feiticeiros invertiam os talismans mágicos, feitos para a obra 
do Bem, para servir á Magia Branca ou Theurgia ; invertendo- 
os, elles procuravam o polo op posto. A obra dos feiticeiros, 
sabe-se de sobejo, era a obra do Mal, da Magia Negra ou Goécia, 

Porque havia João Ramalho de inverter até ao meio a po- 
sição natural da ferradura ? Não sabia elle que, deslocando-a, 
mesmo na distancia de um quarto de circulo, como o fez, annul- 
lava no talisman a virtude nelle buscada ? 

Posse o seu signal a representação da ferradura — e elle 
não o teria ignorado. As superstições têm exigências que o 
supersticioso jamais deixa de satisfazer. 

Fosse, porém, a ferradura o seu signal, e teria então sido 
o symbolo da vontade focalizada, que é a Fé. E sl fé é tudo ; 
tem feito, faz e fará tudo, — porque abala as montanhas, agitai 
melem, e o homem sem fé é um pedaço de terra incubando um 
espirito que dorme. 

O Homem se faz. João Ramalho ter-se-ia feito nesse mo- 
mento . 

Mas isto é a hypothese do rude, do igtiorante, do aruúpha^ 
beto, — hypothese que depende da prova anterior desses três 
termos ; e si João Ramalho foi judeu, João Ramalho deve ter 
sabido ler. 

Eis a supersticiosa e inacceitavel hypothese hypica, — hypó^ 
ihese da ferradura . 



- 352 



b ) - HYPÓTHESE H0R08CÓPICA OU ASTROLÓGICA 

O João Ramalho desta hypóthese é já bastante mais culto 
que o da antecedente. Apesar disso, póde-se ainda suppol-o 
anaipbabeto . Mas elle já sabe, com o seu meio e a gente do 
seu tempo, que os céus contêm o destino dos bomens, e que 
nos astros, que presidem ao nascimento dos seres vivos, estão 
contidas as possibilidades do futuro. 

— ASTRA INCLINANT. NON NBCBSSITANT. 

Si OS astros predispõem e nào obrigam, é bom saber as pos- 
sibilidades adversas do futuro, para evital-as em tempo. Desvia- 
se do atoleiro o sujeito que sabe onde o atoleiro está. 

E', portanto, bem possível que elle tenha ido pedir a al- 
gum astrólogo ambulante (S quào communs não eram elles en- 
tão 1) a palavra do seu destino, — o levantamento do seu horós^ 
copo. 

Hoje não mais se sabe quando nasceu João Ramalho; por- 
tanto, si hoje houvesse astrólogos, nenhum delles poderia dizer 
qual o seu logar no Zodíaco, qual o seu ponto de incidência das 
influencias planetárias que o impelliram durante a vida. Haja 
no em tanto ura astrólogo, e nem tudo estará perdido. Como parte 
do thema genethliaco, elle tomará o nome — João Ramalho ; 
passal-o-á para o hebraico ou para o latim, e veriiicará que a 
somma de «Iõhãnnês é 14 (=5) e a de Rãmãle» 47 (= 11). — 
Io hannês é o substantivo^ o Twrne de baptismo ; — Ràmàley o 
qtudijicativo desse substantivo : — 5, que representa o nome, ó 
ao mesmo tempo a forma orgânica mais aperfeiçoada, mais zoolo- 
gicamente synthetica do nosso planeta, — e 1 1 , que representa 
o qualificativo^ é o modo de ser daquelle nomey a sua qualidade 
especializada num individuo. Ora, o 5 ou n hebraico é o sym- 

bolo hermético do Hometti ^/V como Matéria & Espirito 



(symbolo que, antropologicamente, ahi figura inserido nc texto); 

— e o 11, numero qualificador, derivado de 

héth n ( = vida elementar), que, por sua vez, ^oeo 

vem de Hê, rr , ( = vida potencial, em abstra-- ^P^^Gj^ 

cto, em absoluto) , é káp, ^ , como já se sabe . A9UA^*^í''*AeuA 

— 11 ligado a 5 ( = effeito ligado á causa, KÃgsHfSCÇ 
qualidade ligada a substancia, sobrenome liga^ A 

do ao nome), só pôde indicar, neste caso de ^^^ ^"^tp 

individu^izaçõo astrológica, « RIQUEZA » e /^^ ^^^ 

€ domínio » depois do 5. ^ ^ 



— 353 — 

No horóscopo de João Ramalho tinha que ser fatalmente 
consultado o quadro astrológico dos A^^canos maioreSy nos núme- 
ros de ordem 14 e 11, que lá figuram em cifras romanas. 

Pois bem : — XIV é o <iiarca7iOT^ dos grandes perigos para 
os apathicoSy para os irresolutos ( influencia provinda de Scorpio 
e do Sol ) ; XI é o arcano das empresas arrojadas seguidas de 
bom êxito, o arcano dos obstáculos vencidos ( Influencia de Virgo 
e Marte ). 

Que Ramalho nào foi apathicoy prova-o toda a sua vida. 

— «^Uomem que sbrá rico, — hmaem que dominará», talvez 
lh'o houvesse dito o astrólogo entre as demais cousas indicadas 
por seu horóscopo. 

E então, dos signaes ou symbolos astrológicos traçados nas 
casas de seu thema genethliaco, guardou Ramalho de memoria, 
supersticiosamente, o d , capaz de lhe dar o «domínio e a ri- 
queza». 

E um dia, quando teve de authenticar a sua assignatura 
binômine, nella intercalou o káf^ separando os dous nomes ; e 
ficou escripto : — JoAo D Ramalho. 

Essa — a Hypóthese astrológica, que de modo algum exclue 
a meu vêr% ideia de Judaísmo. 

Como com o In hoc signo vinces da visão de Constantino, João 
Ramalho seria vencedor com o d : — dominaria, seria rico e feliz. 



o) -HYPÓTHESE KABBAU8TICA 



OU PROPRIAMENTE ESOTÉRICA 



Esta hypóthese já requer de João Ramalho uma ordem de 
conhecimentos muito superiores aos das duas hypótheses prece- 
dentes, mesmo que por uma excepção quasi absoluta (si é per- 
mittida essa expressão) te» ha elle sido analphabeto. 

Si o foi, não ha excesso de imaginação em suppol-o ligado a 
kabbalistas amigos, que, muito interessados por seu futuro, lhe te- 
nham soprado aos ouvidos as risonhas possibilidades do seu porvir. 

Todos nós conservamos facilmente de memoria aquillo que 
nos agrada. O negociante que não confia nas suas conjecturas 
sobre um dado negocio ; a esposa que tem receios de um cami^ 
nko por onde o marido começa a deslizar; o rapaz que, pela 
primeira vez, se aventura a qualquer cousa perigosa, como, por 
exemplo, uma viagem longa, por mar, um pedido de casamento, 



— 354 — 

de resultados duvidosos ; a senhorita que, esquiva e melancholica» 
espicha o olhar saudoso e languido por um sonho além, que 
parece n&o ter fim, — todos conservam admiravelmente de me- 
moria os oráculos da cartomante consultada, a huena-dicha que, 
meio em transe, lhes leu a chiromante na palma das mãos. 

A' força de repetidamente ouvir as possibilidades de seu 
futuro, pode João Ramalho tel-as conservado de memoria ; pôde 
ter juDAizADO COM os JUDBUS DO 8BU MEIO, kahbalistas ou não; 
porque, em ultima analyse, & fé é um verbo que se conjuga, 
mas que se não escreve. 

Em seu tempo, a lucta contra o judaísmo estava acirrada. 
Não nos esqueçamos disso. 

Não nos esqueçamos também de que, com os padres jesuítas 
que vieram de rortugal para cá,* esse velho ódio, talvez aqui 
latente, poderia converter-se em lucta de um momento para 
outro. Com eífeito, esses missionários vinham pregar a nova re- 
ligião e erguer por toda a parte a mesma cruz em cujo nome 
foram os judeus (na Hespanha e em Portugal), primeiro perse- 
guidos, e depois expulsos. 

Não nos esqueçamos de que, a qui, eram os padi^s que man- 
davam então. 

Si o signal da sua assignatura é o káf, d > elle, João Rama« 
lho, dada a hypóthese kahhaLisiica^ oppunha, com a inscripção 
desse signal, a sua fé á fé catholica, apostólica romana, dos pa- 
dres com quem teve de se chocar nas novas terras recentemente 
incorporadas aos domínios ultramarinos de Portugal. 

Num dos actos mais solemnes, mais *?raves, da vida, pontue 
se referem ao caracter, ao sentimento da justiça e do direito; 
no acto em que, lançando a sua assignatura, escrevendo o nome 
da sua pessoa, affirma o Homem a sua individualidade a desta- 
car-se da de seus similhantes, — nesse acto salva João Ramalho 
a sua consciência^ OÃsignando de d . nas actas e demais documen- 
tos públicos de então. Conhecedor do novo meio social em que 
vivia, talvez o fizesse com a certeza absoluta de que ninguém 
surprehenderia naquelle pantáculo hermético a significação que 
os kabhalistas lhe ensinaram ; talvez o fizesse certo de que não 
veriam no symbolo mais do que um sim^ples sianal differencial 
dos outros signaes então usados. E assim sendo, elle não se 
revelaria o que era, evitaria a possivel perseguição, sem deixar 
de continuar a ser, perante Deus e a sua consciência, o sectário 
da cruz hebraica, secreta e symbolica, do D ideographico, do 
Christo em espirito, nunca humanado, idêntico ao Pae ou Deus... 

Então, nesta hypóthese, assignou elle c de káf >» porque : 



— 855 — 

I. — Quarta f 4 := ^"rrí) das 7 lettras dnplas da Historia 

Esotérica da Crbação, só por isso já contém o d a ideia de cruz^ 
ideia qne se repete na sua numeração binaria (11 = 2), que é 2, 
isto é, o Principio (10, = 1 , = "» ) Materializado (1 + 1=2) 
(Essência <& Forma), representado o primeiro termo por um traço 
vertical, | , (1* numero depois da década ou primeiro um do nume- 
ro 11), e 2, somma de 11 (1 + 1 = Í2), segundo numero de ordem^ 
sjmbolicamente representado por um traço horizontal m^. E como 
um e dois são indissoluvelmente ligados, porque são o creador se 
objectivando em sua obra nos três planos da Natureza, — o que 

resulta dessa ligação é a cruz^ "T ^ mais tarde figurada pelo 
«LíNGAM Saorado», por sua vez composto do phaUus, 1 , e do 
cteis, m^ ( I + ■" » ^^^ T ) ' — representação binaria das for^ 
ças embryogenicas do Universo, 



João Ramallio tinha pois no D a cruz cocculta», 
E si elle não empregou a cruz romana foi certamente 
para não ser em seu credo religioso confundido com os 
sectários do Romanismo. 

Era como si dissesse de si para si : 

— Judêu^christão, sim ; judeu caiholico, nunca. 



n. — Elle assignou <tde káf^ porque, nos mysterios do 
íl^iS"»— nqo (Séphbr Ibtzirah), káf é a ^assignaturai^ do Poder, 
do Domínio, da Riqueza ( i-^aD ), e indica, physica e espiritual- 
mente, o olfacto. Talvez não seja extranha a isso a expressão 
€ ter faro » para qualquer cousa. 

Káf ( = D , = 11 ) vem de Hét {:= n , = 8 ) que, por sua 
vez, vem de JJé ( = n , = 5 ), e, em sua significação ascensio - 
nal, evolve até Ouimel ( = :i , = 3 ), completando o SEPTEN- 
NARIO no Homem (8-[-5 + 3=^^í = ^) ® o novenario ou 
NONARIO na Natureza, (7 + 11, numero cio D , = 18, = 9). 

Para completar o dbnario (•), só falta uma unidade : — essa 

unidade é o lôd ( •> , := 10, = l ), a lettra-PiUNOiPio, a in- 
effavel c Mãe » das três « mães » e de todas as outras, — a 
Causa das causas, sem a qual — nada existiria. Káf, d , está» 
pois, ligado a iôd, "^ . 



- 856 — 

O talisman de João Ramalho devia, por- 
tanto, extender a sua acção aos quatro ân- 
gulos da Natureza — á immensidade da Ma- 
téria como á infinidade do Espirito^ — abran- 
gendo assim o Cyclo eterno ou perfeito. 

Este modo de vêr está de pleno accôr- 
do com o ensinamento hermético. 



ni. — As quatro lettras symbolicas objectivadas, syntheti- 
sadas no d , s&o pois, descencional ou involutivamente (Vide o 
alpJiabeto) : 



1/ 



lôd 
10, = 



•> , lôd, a Causa Primeira, o Principio db 
TUDO, a « Màe » das três lettras « mães » do 
alphabeto hebraico, e que, por uma espécie de 
atavismo, se manifesta em todas as lettras de 
sua descendência, em condições sabidas pelos 
iniciados. 

lôd é o symbolo do Poder manifestado, 
e representa a mão (em geral) e o dedo indi- 
cador (em particular); symboliza a Força, a 
Intelligbncia em estado potencial. O dedo — 
mandando, ordenando, ^ 

E' Virgo, \X^ , no Zodiaco, 6.'' signo^lL^^ 

e na 10.* lamina de ouro do cTarot Hermé- 
tico» [1] é a ^^Roda da Fortuna", gyrando 
entre os três planos do Universo ( ::= Deus^ 
Natureza e Homem); 

lôdy pois, na ontologia pratica, porventura 
ensinada a João Ramalho, será o João Rama- 
lho espiritual, isto é a — "fixação, na matéria 
orgânica, de um raio da luz eterna emittída 
por Adão-Kadmon ( pa^p— ?21N ), — o evitemo 
cAndrógyno». 



(1). Nos banlhot oaitomantfcot ohsmados ^Tarof* on *Jogo do Taroi» etti oon- 
tíÚM toda a doa rioa occalte, no diíer úoa mestres — quMdo esses baralhos (de 7S 
cartas) sio a fiel repr«Nlaoçftc> das 22 laminas de ouro do ^Tarot Bermêtico», 



— 357 



Ghtimel 
G, Gh, Gu» 



3/ 



n 



Hê, E 
= 5 



( — i , Guímelj a Garganta (Larynge e 
Gloité) DO Homem, íwdo que puder ser func^ 
ção dos orgatns e dos nervos. Como garganta 
é o óvulo em que o Pensamento , desceu do 
do cérebro, se vai materializar em palavra : — 
Guimelf :i , o Verbo crbabor, encarnado, — 
a Humanização. 

Isto, no plano subjectivo, abstracto. 

No plano concreto, no dominio do Ho- 
mem, a representa a mão meio fechada^ no 
momento de pegar qualquer cousa : — a «Ac- 
ção» ;= o «Movimento», o «Trabalho». 

E' VeiiuSj 9 y ^^ emhryologia hermética 
da Natureza trinitaria^ e a sua lamina taro- 
tica representa o effeito do que é activo sobre 
o que é passivo: — o Equilíbrio, a Fecundi- 
dade, o Amor. 

Nos mysterios do ^Sépher letzirah^ ( = 
!l^"»SS— ^DO »), a dupla a pode ser a paz ou a 
guerra ; é o olho direito (que corresponde ao 
nemispherio cerebral (1) da palavra) e é ainda 

Júpiter^ jZc , o signo astrológico das «Hon- 
rarias, do Bom-bxito no que tentar, e da 
Riqueza » ; 

— íi , Uè ou E, tudo que anima^ vivifica 
e determina : — o Hálito (2), o Ar, o Espirito, 
— a Vida -Universal. 

Nos mysterios do IW^ 'nco é a Vista, 
tanto physica como intellectual : — a <ímsão^ . 

ri é o symbolo do ^Iniciado tornado Ini- 
ciador» ; e, ideographicamente representado 



H on E 



na quinta 



i-ú) 



lamÍ7ia do Tarôty é o 



1)- 

ração). 



Poder, a Religião, a Fé, — a acção trium-- 

pTiante no inundo das formas. 

Nos mysterios do Zodiaco é Aries, "Y^3 

cuja sede é nas faculdades cerebraes, e que 

indica ^* Audácia, Coragem, Ambição, Honrar- 

rias, Bom-exito* ; 

-Lobato etqaerdo, 3.» circamvolnçfto de Broca. 

•0 *háliio» ao seatido do pheoomeao duplo da bbspibaçIo ( Inspiração A Expi- 



— 858 



4.V 



Eéte 

n, = 8 

HêtyKhyCk, 

(guttural) 



, — n, Héty guttural e aspirada, := CA, Kh. 

I A esphera physica da acção do Homem, do» 
seus esforços, do seu trabalho ; — augmenta 
ou reforça o Equilíbrio de a , e indica uma 
acção legislativa normal. 

Como numero (Kabbala), symboliza a eacw- 
tenda elementar (a em que entram os 4 ccZe- 
m^ntos*), — a materialização quaternária da 
Existência Potencial : = 4 = mrr^ . 

Na oitava lamina de ouro do Livro Taro- 
tico de Hermes, a figura desenhada representa 
a Justiça, — forma absoluta do Equilíbrio 
(Latim: íEqui + Librium, = o cpbso-bgualj^ 
para todos). 

No Sépker letzirah ( íi^T^it ^DO ) ó a Pa- 
lavra, no momento opportuno, — o Silencio,, 
quando é preciso: — Prudência, cBom-senso»^ 
c Juízo» • 

Nos mysterios do Zodiaco é Câncer, ^^j. 

que indica ^* Viagens por agud!\ ^^ForturuC\ 
^^Boa-sorte^\ ^^ Supremacia^ \ — e é tambemi 

Libra, ^^ , a Justiça ( já registrada ). 



E ahi tem você as quatro lettras, cujas ideias devem de estar 
contidas no Káf. O Káf será, pois, a synthese philogenica dessa 
ideographia parcial. 

Afim de que tudo se destaque a seus olhos perscrutadores,, 
vou, antes de encarar o Káf como synthese, reduzir os attribu-- 
tos ou qualidades desses symboloa herméticos (ligados á indivi- 
dualidade de Jo&o Ramalho) a um quadro comparativo contenda 
as quatro lettras hebraicas, quadro em que o signal H indicará 
nas columnas das lettras os seus respectivos attributos e em que^ 
verá você como esses attributos se repetem, já synonyma, jà 
yerbalmente, como que se reforçando caaa vez mais. 



— 359 — 



Eis o quadro, com os attributos cm ordem alphabetica: 






ATTRIBUTOS 

( = Qualidades, = Poderes ) 



l 
2 
3 
4 
5 

6 

7 

8 
9 

10 
11 
12 

13 
14 
15 
16 
17 
18 
19 
20 
21 
22 
23 
24 
25 
26 
27 



Acçào (Movimento, Trabalho) • 

Ambição 

Audácia 

Boas funcções orgânicas, Saúde (i) . 
Bocca {A palavra^ o verbo realiza- 
dor) (2) 

Bom êxito, Successo .... 

Dedo indicador (Cominando^ Ot'- 
dem) 

Equilíbrio {Justiça) 

Força 

Honrarias (Distincções) , 

Intelligencia 

Juízo {Ponderação^ Bom-senso, Cri- 
tério) 

Legislação normal {Cargos de — f), 

Luctas, guerras 

Mão {Acção sobre o mundo) . 

Poder manifestado (3) , ... 

Prudência 

Religião, Fé 

Riqueza 

Roda da Fortuna . . . . . 

Silencio {quando necessário) . 

Sorte {Felicidade) 

Supremacia 

Viagens por agua 

Vénus {Amorj Fecundidade) . 

Vida intensa (4) 

Visão {de grande alcance, pkysica 
ou mental) 



(1) — Deduildas dot nomeros de ordem 8 e 9, 

(2) — A •Palavra iugêitivot ertodora», o «7«ròo rêaUMador»^ tfto tyno- 
nymos do «Amím* mamfutcuío* do n. 16, de triplice ezIttoDoia em lôd, &%<- 
mêl e Hé, 

(3) — Btte mpoder» te eocontra, pois, reforçado not números de or- 
dem 1, 3, 6, 6, 9, 13, 20, 28 e 27. 

(4) — A •Vida ktUnêa» esti também contida Implicitamente em Tarios 
ontroe attribntot do quadro, oomo por exemplo, nok doa ns. 1, 9, 14, eto. 



— »60 — 

Um rápido olhar n,o quadro mo8tra os suppostos attributos 
que devem reapparecer no káf. Assim, pela ordem da inten- 
sidade, isto é, dos maiores para os menores, esses attribntos 
serão : 



•^jíjT, n 



'—'PS» 



— Acção eppicaz, poderosa, sobre o mundo ex- 
terno, como reflexo do mnndo interno ou subjectivo. 

E* a synthese do quadro. 

(Com efifeito, são 4 lettras ou symbolos, cuja somma 
( 17 ) é exactamente a mesma de míT^ ; 1 7 é porém 
1 -)- 7 = 8, que é o numero dos dous quartenarios 
(o visivel e o invisível), o numero kabbalistico do 
Tetragramma crucial ( = -{-) simultaneamente tomado 
na sua òi-polaridade, — a potencial e a real ). 

2.° 



% ^, i^ i' — Manifestação, realização desse attributo, agora 

-so 1 contida em objectivaç&o nas três lettras ou symbolos 

II ) "* » ^ > © !i I cuja somma é O , o tríplice ternário do 

fá ( Homem, da Natureza e de Deus, 



3; 



li 



— A palavra suggestiva, o verbo realizador, isto 
é, a capacidade de convencer, de se fazer acreditado, 
crido. Vêem-se no quadro 6 binários correspondentes 
aos ns. de ordem 5, 6, 8, 10, 19 e 25. Em quatro del- 
i les (ns. 5, 8, 19 e 25) a somma kabbalistica de cada 
\ um é sempre 11 (=d)ouÍ2 finaL Nos dous outros 
(ns. 6 e 10) a somma é 8 para cada um. A somma 
dos quatro terminados em 11 ou 2 flnal é também 8, 
quer se somme um ou outro numero. 

Portanto: Equilihrio, Justiça, Bom-exito e Riqueza. 

Assim, pois, os attributos principaes contidos potencialmente 
no supposto D de Kamalbo, são : 

Capacidade de agir eppicazmente sobre 
o mundo externo, já por meio da palavra, 

JÁ PELA acção PHYSICA, JÁ PELOS SENTIMEN- 
TOS DA JUSTIÇA E DA EQUIDADE, B JÁ FINAL- 
MENTE PBLO DINHEIRO. 



— 361 — 

Mas, além desses reforçados attribntos de que, esoterica- 
mente, foi elle o ponto de convergência^ muitos outros houve, 
secundários, isolados, mas que nem por isso deixam de ter a 
sua signiflcaç&o (1). Com eôeito, qualquer ou quaesquer que se 
tomem, todos elles virào enriquecer ainda mais a já opulenta 
ideographia desta hypóthese. — Esse facto é altamente signifi* 
cativo para todos aquelles que tiverem lido e comprehendido 
as obrae, propositalmente obscuras, que tratam deste assumpto. 

Mas, como ficou dito ha pouco, tudo isso ainda está em 
estado de capacidade, de potencialidade, estado que vai descer 
ao mundo da acção, das formas, ao estado db rbalidadb com 
o apparecimento do d. 



O Kál 

IV. — Eis agora o d como synthese, como realização (2). 

Por ser a quarta das lettras duplas (2 X 4 = 8) contém 
nesse caracter de duplicidade o octonario (8) que elle eleva ao 

denariOj f •) > ou Cyclo completo com a addição do seu valor 

(2, somma theosophica de 20) próprio ou formal: 8 + 2 = IO. 

— Eil-o ! E' a cruz tetragraramatica n-pn, o symbolo ctn- 

effavd » da Scibncia Secreta, do ensinamento e do poder dos 
iniciados ; é a realização dessa Sciencia, o talisman que facilita 
o domínio, e que rasga o caminho á riqueza. Repare que ex- 
tranho e illimitado poder nâo é o seu ! Si evolve, si sobe até á 
sua primitiva origem, passa pelo Homem e com elle se confunde 
plenamente como septbnario ( n + í^ + ^ = 16, = 7), e já o 
transpõe e se derrama em toda a Natureza como nonario ( 7 
hominal, mais 11 káfico = O), para integrar-se logo na Unida- 
de- Principio ( •', lôd), a Causa das causas, o Deus dos ^ndeu^ 
ses 7>, = OTÒN », — o « Deus » como a humanidade o concebe ! 

Eil-o em hebraico, escripto por extenso em seu nome al- 
phabetico : C)D , = 10, = 1 ! E' a unidade potencial ; é tudo, 
Expandiu-se ? manifestou-se ? — então é o duplo de si mesmo, 



(1) Bm namoro de 19, os qae vfto doa ns. de ordem de 1 a 4, e 7, 9, 11, 12, 14 
17 « 24, e 26 e 27. 

(2) Continaam ainda as conclusões começadas na pagina 355 e numeradas com, 
algarismos romanos. 



— 862 — 

^ 20 (=2) em aiithmetica; — symbolo do Podbr, da Victoria, 
da Felicidade : — ^"«nD, = «potens» rico, poderoso; — symbolo 
da segunda pessoa da Trindade, o «Filho» ou «Mittátron» 
( iT^tíÇTa )j ;=: 8, o « 8 » das c Maihematicas occultas » de 
Pythagoras, Wronski, Lacuria, Eliphas Léví e outros ; — Mit- 
tátron ou o Pae no Filho, a Luz em sua sombra^ o Pensamento 

na cousa pensada : — HJ — - . 



— Eil-o! Nas possibilidades do destino humano ó elle re- 
presentado pela mõo direita meio fechada i/t^3í » ^*^ ^^^ 

mento de agarrar, srgurar com força qualquer objecto : — ideia de 
masculinidade^ positividade^ correspondente a Aod, m». = 11 = 2 ; 
portanto: — FORÇA, — PODER. 

— Eil-o em Astrologia, das margens do Nilo ás ribas do Eu- 
pbrates, das aguas do Hellesponto ás aguas do Tibre, á eivilizaçfto 

romana, ao Occidente inteiro : — é o Sol i = T • J I roysterioso, 

a fonte segunda do calor, da luz, da electricidade, da vida. 

— Eil-o em Alkímia. Continua sempre inviolável em seu 

hermetismo. E' o hieroglypho do Ouro 1= (•) l» o symbolo 

da RIQUEZA, donde talvez, como me infomaram, a sua existên- 
cia no siclo (1), cuja numeração pode indicar tanto 7 como 313 
unidades . 



— Eil-o nas garras de leão da Esphinge, quando significa 
a €audacia>; — nos sens flancos de tourOy si ó a €forçai^; — na 
na sua cabeça humana, si é o pensamento, a cFoTitoáe» ; — nos 
seus seios de mulher, si é o amor, si é €VenvÃ^, que cria, ele- 
va, confraterniza; — nas suas azas de águia, si é a ^intelligen^ 
cia*, a ^imaginação» alada ao Ideal, o ^usilencio^ que engendra 
a Meditação e liberta o espirito da matéria. 



1) o siolo, bplZ^ oiB latim, 8'ie lui, é ao mesmo temyo um peio e uma moeda. 



— 868 — 

— Eil-o nas «Glavbs b Clavículas» de Salom&o, nesse li- 
vro admirabilissimo, quasi sem palavras, luminosamente recon- 
stmido por Eliphas Léví, o grande iniciado, o mestre sem rival 
ào renascimento esoterista da actualidade. Ahi, o D é o nu- 
mero da €Sciencia do Bem e do Mah em H^ ou o Iniciador, o 



■■IB'- 



Hybrophantb, I T 1 ; — é a Quintessência em Alkímia ; a 

Lettrada Mulher e da Religião; — o Pentagramma da Theurgia 
ou da Ooéda. Ahi, em Hár, eÚe é o Quaternário multiplicado 
pelo Binário (4x2 = 8), outra forma do nav xo nav^ a Justiça 

absoluta, J/Fá i o Tetragramma e o seu reflexo: — 2 — 

Ahi, em Guímbl, 5. o :d é o Ternário ^ , a Agua ^\7 , a Mãe 

fecunda, a Geração, a Espada f\ _ {quaternário crucial), 
o Primeiro grande numero sagrado (3, Trindade), o Triangulo 
de JeJiovah, o Mercúrio dos sábios ( = matéria prima da ^Gran^ 

de Obrais) ou Azóih )^ , (1). — Ahi, em Iôd, elle é o numero 

da Creação (Cosmogonia) e do Reino de Deus, m5b72 ,= Malkut^ 
do Rei-Supremo ^73— "«SIN i = Adonai-Mdek, — reino visivel, prinr- 
cipio natural das cousas (ditas) sobrenaturaes ; é a Eoda da 
Fortuna gyrando em suas transformações eternas, sobre um eixo 
que só é revelado pela iniciação. 

Até aqui, como lettra. 

Depois, nesse mesmo livro extraordinário, mas agora como 
symòolo mathematico, káf é egual a: 

__ I — Binah ( = íiria ) bm Guimel ^ {= |J^ em mau- 
I ritano: = Ç ; = ^ ) : — Intblligbncia. 

o 

— Oeburak ( = íi^iai ) bm Hê, n , = ^"^^^^ ou 

o o 
rrirr— D^ ( = Adão^Eva, = Humanidade ) ; — Justiça ; 



(1) =; «DiMolYente «nlvonal.» 



D = 



— 364 — 

— Hód (= iisi ) BM Hét, n ; \^^ : — as Basbs, 
o Alicerce, o Fundamento ; 




— Malkut ( = mDbía ) em Iôd •> ; é l ^"i ° ) , de onde »d 

ís = { extrai Rota, Taro ( 1 ) , Tarôt e Atór. Em Hód, o 
« REINO » ou « MALKUT >, o que não tem principio 
nem fim, — ainda r|io-rN ; e 



D = 



Em si {'D em D ) é a Unidade synthetica, — o Nwnero 
da Força, o Homem feito de verdade, a Edade da 
Razão. 



E como si tudo isso ainda não bastasse nessa stnthetiza- 
çÃo kabbalistica, lá está elle, com os mesmos attributos, nos tra- 
tados de alkimia de Arnaldo Willeneuve, Raymundo Lúlio, Ro- 
ferio Bacon, Theophrasto Paracelso e Alberto o Grande. Chave 
o «OURO POTÁVEL», é ollo um dos symbolos do <fielixir de longa- 
vidai> da famosa «Medicina Universal». Elle é o repouso e o 
movimento na Natureza; o dia e a noite; o somno e a vigilia; 
o continente e o conteúdo, o macho e a fêmea, em todas as cou- 
sas, em todos os planos, em todas as accepções. — <iChave de 
todos os impérios, segredo de todos os poderes», no dizer de Eli- 

Shas Léví, elle vivifica as paginas profundamente desveladoras 
o Talmud, e, em Magia, — attrai, coagulando, — transforma, e 
objectiva, dissolvendo,.» Foi elle a visào opbidica do Éden. Em 



(1) a palavra *Tarot», escripta á franceza, é originaria do sáDskrito Tar^, qae 
qner dizer — Bttrella-fixa 

Bm aea livro intitulado Let XXII lamê* hermeíiquet du Tarot DMnatotrê ponta B. 
Paloonnier qae tal nome se refere á estrella polar, porque na antiga astrologia essa ee- 
trella era o «ymbolo da tradição immtUavel ( =:: ettrella-fixa) , 

Acho, pois, qne a palavra deve ser escripta e proannoiada Taro em português, tanto 
mais quanto é certo que a figura supra é um paoticulo, um symbolo hermético de va- 
lor quaternário em si, e septennario na somma das 16 lettras dos seus quatro seguintes 
anagrammas kabbalisticos : — Rót<h Taro, Atór e Tora. 

Os aUemftes escrevem de dons modos essa palavra: Tarock ou Tarokt que pronun- 
ciam «tároc» (A BiRMANir,— Z>ice. all.-francet). Oé inglezes (Diee, de Webster) escrevem 
Tarot e pronunciam «tárôt» e também escrevem Taroc por causa dos respectivos bara- 
lhos italianos Taróceo e Tarocekit e para os quaes ainda tem o vulgo uma terceira pa- 
lavra : — Minchiati, 

N&o comprehendo, pois, porque se repete o —I—, dando cinco leUras a ama palam 
que, etimologicamente, só tem quatro. 



— 365 — 

cada facto da Biblia ha um signal da sna passagem, um echo 
da sua intelligencia . Integral, «divino», inefável como a Cruz 
PsYCHiCA que o Homem ideographou no lenho, no ouro, no már- 
more, na prata, no cobre, etc, elle é a alma das duas columnas 
do Templo de Salomão, Jakin <& Boaz e foi elle quem separou 
08 sexos íque eram unidos) muitos mil annos antes que a mo- 
derna emoryologia nos viesse dizer que os seres vivos foram hi- 
sexuaes em sua origem. Elle é a condiç&o de êxito, sine qua 
non, das mysteriosas «Cadbias magicas» dos Adeptos, dessas 
formidáveis baterias vivas, que, no dizer dos Iniciados, proje- 
ctam, de um extremo a outro do mundo, a vontade collectiva, 
magneticamente dynamisada, si delia precisa a obra do Bem. S. 
Jo&o o re-vdou nas paginas allegorícas do cApogalypsb», e 
Hermes na sua cTáboa db Esmeralda». Elle está nos «Versos 
ÁUREOS» de Pythagoras, em todos os pensamentos dos poemas 
orphicos, nas doutrinas de Flat&o, nas cogitações de Santo Agos- 
tinho e em toda a vasta historia dos Uluminados. 

Esdras materializou o Mozaismo e S. Paulo desni^turou a 

Sura doutrina hermética de Jesus, o discípulo e a divina hóstia 
08 Essenios, votada desde o berço para a humanização de ni '^' m 
( Iesua ) . Era, porém, já tarde para que tudo se perdesse da 
memoria dos homens. Os symbolos, os pantáculos e o ensino 
secreto persistiram, e são o suppedaneo eterno e deslumbrante 
da tradição, sobre o qual IsiSj formosa entre as mais formosas, 
continua a dirigir os destinos do mundo, sob o seu manto es- 
trellado. 

Na opulenta synonymia dos pantáculos um desses symbolos 
é o D ou Cruz Hermética^ de ideographia universal, e que, em- 
pregado por João Ramalho, pode ser traduzido como o signal 
secreto do seu judaismo, 

O káf é, pois, nesta terceira hypóthese, uma grande syntese 
mcíffica^ um pantáculo hermético, um talisman de altissimo va- 
lor kabbalistico, — o symbolo escolhido para a significação da sua 
fé religiosa. 

João Ramalho o escreveu de permeio á sua assignatura, em 
nome talvez dessa grande e puríssima fé prímitiva e em nome 
também das suas aspirações de : 

— Podep, Dominio, Felicidade e Riqueza. 



fim 



BIBLIOGRAPHIA 

Auctorea e obras que, salvo erro de interpretação, 
me habilitaram a escrever esta monographia : 



Fabre o'OLivrT : 
La Ungne hebraiqae reetitnée (2 voL 
1815) 

Eliphas Livi: 
Dogme et Rltael de U hante Magie 
Histolre de la Magie 
La olèf des QraDds MystèreB 
Chnet ê Clavieulat de Salomfto 

Louis MáNARD : 
Hermes Trlsmegiste 

8TANI8LA8 OK QuAITA: 

An seail dn Mystòre 
Le Berpent de la Oenèse 
l.a clèf de la Magie Noire 

Barlct : 
L'évoiatioa de ridée 
L'In8tratinii Intégrale 
Essai de chimie tyDthetiqae 

Bkrthblot : * 

Lm originee de rAlchioiIe 

Louis FiauiBR : 
Le secret d'Hennè8 

A.— P. Sinnbtt; 
Bsoteric Baddhisiii 
Tbe occnlt world 

A. Besant : 
The Seyen Prinoiplea of Man 
Kanna 

E. Boso : 
Isit deyoiló 
DictioDDaire d^Ooonltiame 

Ao. Frank : 
La Kabbale 



Raqon : 
La Messe et ses Mystères 

8aint-Yve8 o'Alvkyorb : 
La mission des jnifiB 

Dr. Th. Pasoal : 
Les sept priaoipes de THonime 

BoLUFER : 
Bãgãyad-Gfta (tradnoç&o do t&nskrito) 

LávfeQUE : 
La Boience de riovlsible 

A.— R. Wallaoe : 
The miraolee and modera spiritnaiisoi 

Albert de Rochas: 
L'extériorÍ8atíon de la senslbilité 
L'extériori8atioo de la motrícíté 
Les états profonds de Thypnote 
La lévitatlon dn corps hamain 
Les efflnves odíqnes (d'après Beichen- 
bach) 

RoísEL : 
L'idée spiritnaliste 

Dupuis ; 
Origea de los cnltos (tradnoçfto do 
fraooee) 

Walkkr ; 
Lo que es la Theosophia (tradnoçio 
do iagles) 

A. Haatam : 
Astrologie Jndiclaire 

FOMALHAUT : 

Mannel d' astrologie spheriqne et Jn- 
díoiaire 



— 367 — 



Star : 
Mystèret de THoroscope 

RoQCRio Baoon : 
Le6 prodiget (tradacç&o do inglei) 

F. voN Baader : 
Let enselfi^neineiito téereti de Marti- 
nes de Paqnally 

Q. DC Lafont : 
Le BaddbiBme 
Le Maidéisme 



^ 



La huntère d'B^pte 
La dynanUqae celeste 

Vcrncuil: 
Dietioimaire des Symboles 

C. DC Planoy : 
Diotiinnaire iofenial (2 Yof., 1818) 

M. N. Ph. Sanocr : 
Difitíoimaire hóbrea-françaia 

J. VioIre: 
Le propbéte de TApocalypee 

H.— P. Blavatsky: 
Clave de la Theosophia (tradncçflo do 
inglea) 

QiBiER (Dr. Paul—) : 
Analyse des chosee 

Q. 0*ElCHTAL : 

Lee BTaogilefl 

J.— B. ROUSTAINQ : 

Los 4 BTaogellot (tradaoçfto do franoee) 

Paul RIola : 
Jetns de Nasaréth 

Ch. Drbyss : 
Obrojologie UoiYenelle 

MONNICR : 

L' Art aacerdotal Antiqne 

MiQNE : 
Diotion laire det Sciences Occnltes 

Pbrmety : 
Lee fsblee eeyptienaes et erècqnes 
dévoílées (1758) 

P. Flambart: 
Bsaai d'astrologie experimental e 

Dbuaoroix : 
Dietionnaire historiqne dee cnltet reli. 
gleox (8 ToL) 



EuafeNC Nus : 
Ctaoees de Tantre monde 
Les dogmes noveanx 
Les Qrands Myetèree 
Viviseotion da CathoUoisme 

La revne Annalet dêt ScUneu P»^ 
chiquêi, do começo (1891) até hoje 

La reyae «Initiation» 

La revne «L'HYPBRCHIMIE, BOSA- 
Alkbmica» 

QuiNQSLAND : 

La base esotérica dei Cbnstianismo 

E. Mancra : 
Nosce te ipsnm 

Ballesteros : 
Fnerzas de la vida 

BONNEMàRE : 

El alma y «ns manifestacionee á través 
de la Historia (tradncç&o do francei) 

Florenoio Pol : 
Inexistência de la matéria 

A. KiNosroRD : 
La voie parUite et le Cbrist ésoteri- 
qne (tradncçfto do Inglei) 

HéLioN : 
Bociologie absoine 

Athanasius Kiroher : 
De la Kabbale seraceaiqae (tradncçlo 
do latim) 

P. Christian : 
Histoire de la Magie 

Coulomb : 
Le secret de TAbsoliL 

Maro-Haven : 
Oenvres d'Amaiid de Villenenve 

F. Arnold : 

La Lnnière de V Asie (tradaoçlo do 
inglês) 

F. Q. Laouria : 
Les harmónios de 1' Btre 

pAuoèRE ; 
La créatlon de TBtre 

R. Faloonnier : 
Les XII lames hermetiqnes dn Tarot 
Dévinatoire. 

Chateau : 
Kabbala Denndata (Le Zokar) 



— 36ft — 



PáTiN : 
Diotionnaire hagiographiqne 

PcRRiN : 
Origine des dieax« des héros des fa- 
bles et des mystères da paganisme 

J. Karppc : 
Btnde tar les oiigiaet et la oatnre do 
Zohar 

OioQO 00 Rosário : 
PI 08 Banotoram 

A. P0188ON : 

Theoríes et Bymboles dea alchimistes 

Cinq traités d'Alchiiiiie (Partcelse, Al- 

bert le Grand, Rogério Bacon, Ray- 

mando Lnlio et Arn. de Vllleneave) 

Micolas Flamel 

OuRANo (De Oros) : 
Le merveilleax «oientlflqne 

DcLBCEur : 
La matière brate et la matíère yivante 

Caithncm : 
La TheoBophie Univeraelle 
Interprétation etoteriqoe des livres 
sacrés 

A.— Jhounky : 
Le Royaame de Diea 

A. CosTC : 
Les phenomènes psyoblques oocnltes 

M.— T. Faloomkr : 
Introdaction aa 8prit«alÍ8me experi- 
mental modeme 

H. Blano : 
Le Merveilleax 

Equilaz : 
Teoria de la Immortalidad dei alma 

R.— Q., CT M. Qarrkoi : 
Let Messies Bsteoieni 



L. Mavou : 
Le secret des Pyramidet 

Cl. Bcrnard : 
Boience expérfmentale 
Phenomènes de la yle 



H. 81CAR0 . 
L' évolation sexaelle 
Hamaine 



dans rsipèce- 



L0UI8 RouLK : 
L'embryologie générale 

Raul Pictst : 
Etade critique da Matérialisme et da 
Spiritolisme par la Physiqne Bxpé- 
rfmentale 

Matqioi : 
Traité des inflaencee errantes de Qaaa- 
gds& (Esoterismo chinês) 

Emilc 80L01 (1) : 
La Langae Baorée — La Cosmoglyphie 
— Le Mystère de la Création (1897), 
gr. — 677 ps., iUostrado 

Eo. ScHURá : 
Les Qrands Initiés 
Banctaaíres d'Orient 
L'Ange et la Bpbinge 

Papus : 

Sciêntia OccuUa (Traité methodiqne 
de la- ) 

La Kabbale 

Le Tarot des Bohemiens 

Traité élementalre de Magie Pratique 

Les Arts dévinstoires 

Chiromancie 

Traité élementaire de scienoe oocalte 

Mart^nésisme, Willermosisme et Mar- 
tin isme 

Anatomie philosophiqae 

Martinez de Pasqnslly 

La Boience des Mages 

Lonis Glande de Baint-Martin 

La Magie et THjpnose. 



(1) — Membro das Mi«s6es Artísticas e Bcientlflcas do Ministério da 
Instraçio Pabllca e Bellas Artes da França. Dtpoit dê 20 annoi (1874^1894) 
dê eitudoi comparados, no Oriente^ na ÁmêHcay na Kuropa^ «/c, eonfimum a 
êxiêtencia da Ungua Sagrada ê aprêtêniou $$u imporíaniiêiimo Inro áquêllt 
Miniiterto. 



João Ramalho 



CONTRIBUIÇÃO PARA SUA REHABILITAÇÂO 

( Servindo de prólogo ) 



Pablicando a presente Memoria em o Estado de S. Pavio 
dos dias 2, 3, 6 e 16 de Novembro de 1902, âzemol-a preceder 
das seguintes linhas : 

« No dia consagrado pela Republica á commemoraçào dos 
mortos, não deixa de ser opportuno virmo s render preito e ho- 
menagem á memoria de um morto que, como tronco mais anti- 
go e venerável das aetuaes gerações paulistas, deve reunir em 
yolta de seu nome o respeito e a veneração delias. Nelle per- 
sonificaremos essa homérica plêiade de antepassados que grandes 
e inolvidáveis serviços prestaram, descrê ven ao embora em traços 
mal distinctos, no mappa da America do Sul, as fronteiras da 
Pátria. Progenitor dessa heróica geração de bandeirantes que 
indeléveis vestígios deixaram de sua passagem, poder-so-á dizer 
que foi elle o gérmen fecundante que, neste pedaço da terra bra- 
zileira, fez brotar este povo, em cujo seio, no dizer de Elizeu 
Eeelus, pulsa com mais força o coração da nacionalidade portugueza. 

Eis porque encetamos, em dia que vem a propósito, a pu- 
blicação ao presente trabalho que tivemos a honra de apresen- 
tar ao Instituto Histórico de S. Paulo ». 



A figura legendaria do alcaide-mór de S. André entregue, 
pelo Instituto Histórico de S. Paulo, como convidativo objecto 
de indagações históricas, ao estudo de seus membros, de tal modo 
despertou a attenção dos que se interessam por assumptos desta 
natureza, que nos parece ficai desta vez totalmente dissipada, com 



— 370 — 

o embate de tantas opiniões, a nebulosidade que a envolve, creada 
pelas informações transmittidas pelos sócios da Companhia de 
Jesus, sua tradicional inimiga. 

Assumindo o compromisso de rehabilitíil-o moralmente, nSo 
precisamos de outras armas além das fornecidas pelos seus pró- 
prios adversários. Com ellas jogaremos, inspirados por dois sen- 
timentos : o desejo de fazer a luz sobre a historia desse calumniado 
heroe da infância de nossa nacionalidade, estudando-a com ver- 
dade e justiça, e o de estimular no coração da actual geração o 
nervo do patriotismo adormecido, interessando-a na evocaçào de 
uma das mais bellas pagin:is de nossa historia. 

Si o defendemos da supposiçâo hypothetica de que fosse 
judeu, nào o fazemos por julgar essa qualidade um defeito moral. 
Quando outras i-azões de ordem moral nào bastassem, seria sufi- 
ciente para merecer toda nossa sympathia, caso o fosse, o facto 
de pertencer á raça dos opprimidos pela intolerância religiosa, ao 
rebanho das victimas sacrificadas no altar do fanatismo, á classe 
dos candidatos ás fogueiras do Santo Officio. 

Acompanhada, porém, a hypothese de judaísmo de accusações 
vehementes contra a integridade moral do velho alcaide-mór, a 
imputação que se lhe fazia vinha contaminada de maldade, de ma- 
levolencia. Portanto, julgamos também um dever incluir a im- 
pugnação da já celebre hypothese como parte integrante desta 
obra de reparação. 

Si é verdadeiro o conceito de um dos mais notáveis scientistas 
do nosso continente — o Dr. Ernesto Quesada, que « la piedad por 
nuestros antepasados y el respeto por nuestros héroes se aquilata 
haciendo brillar sus méritos verdaderos, y no empanando sus 
figuras históricas com relumbrones de oropel » ; si, no dizer do 
mesmo, « las agrupaciones humanas, como las famílias, deben co- 
nocer a sus progenitores, con miras de mejorar la condicion de 
los descendientes y corrigir los atavismos heredados », não deixa, 
pois, de ser imperativa a necessidade de acceitar como lendas 
os fructos da odiosidade partidária, todas as imputações deprimen- 
tes, architectadas sem base, sem a comprovação de factos claros, 
documentadas, incontroversos. 

Eis porque, antes de darmos começo a esta tarefa, sentimos 
necessidade de justificar a nossa conducta aos olhos daquelles que 
julgarem pueril o assumpto que tem occupado a at tenção do 
Instituto Histórico. 

Somos daquelles que consideram a Historia um repositório 
de materiaes que servem de subsidio para as inducções e veri- 
ficações de todas as sciencias sociaes, e talvez por isso mesmo 



— 371 — 

julgamos a inílaencia moral de um individuo ou de uma asso- 
ciação como poderoso factor ou modificador do ambiente social 
e dos destinos de uma agglomeração humana, de um núcleo de 
civilização. 

A rehabilitação da memoria de antepassados que contribui- 
ram, na medida de suas forças, e sob a influencia do meio ethno- 
graphico, do seu tempo, para a formação de uma nacionalidade 
como para o progresso da civilização, não pode ser coisa indif- 
ferente a nós, que somos de hontem, que apenas contamos qua- 
tro séculos de existência. 

Rebater, com bons e sólidos fándamentos, as falsas e injustas 
apreciações sobre o movei da conducta dos homens, protagonistas 
nos dramas do passado ; reduzir ás suas justas proporções o papel 
que cada um delles representou, descrevendo-os taes quaes ío* 
ram, sem a roupagem que a paixão dos coevos, seus comparsas, 
quiz emprestar-lhes, — é a tarefa que nos impuzemos, ao con- 
tribuir para a rehabilitação do famoso alcaide-mór de Santo 
André. 

Foi para este trabalho, apparentemente improfícuo, que 
quizeraos fazer convergir grande parte dos nossos esforços. 

Não pretendemos haver exgottado o assumpto. No nosso 
encalço virão outros que com mais brilhantismo chegarão ao 
mesmo fim. 



ERA JUDEU? 

A propósito da investigação histórica, no intuito de averi- 
guar si João Ramalho era ou não analphabeto, a illustro com- 
missão do Instituto Histórico de S. Paulo, encarregada de fazel-o, 
abordou outras questões que se relacionam com a individuali- 
dade do progenitor dessa raça que, no dizer de Augusto St. 
Hilaire, parecia ser de gigantes. 

Um dos mais distinctos membros dessa commissão, em cujas 
veias, sem que o saiba, corre o sangue do accusado (1), aventou 



(1) Dofa fmembrot dessa Commissfto, os drs. Jofto Mendes Jnnfor e AntoDfo Piía, 
descendem do Velho Alcalde*mór. A este resnlUdo chogon nos seus «ístQdos de ^nealo- 
gis pftolisto o Illostre snccessor e continuador do anctor da Nobilíarchia Paulistana, o dr. 
Lais Oonsaga da Bilva Leme. dr. Jofto Mendes, nas suas Notas Genealógicas, dá cono 
aatepassaao de »eas filhos a Amador Bneno — o acciamado. Ora, é facto qae este se 
casara em 8. Panlo om d. Bernarda Lnis, fliha de Domingos Lais. ( o carvoeiro ) e de 
d. Anna Camacho. R em documento anthentico encontrado pelo dr. Lnis Oonsaga acha- 
se a comprovaçAo de que esta d. Anna Camacho descende de J. Ramalho. Esse docu- 
mento é um assento da ascendência materna do padre dr. Guilherme Pompeu de Almeida, 
escripto e assignado por elle em seu livro Rasio. 



— 372 — 

a hypothese de que, nfto assignalando este a sua assignaturat. 
com uma cruz, que c para os illettrados vale por um appello 4. 
Bua fé religiosa», antes salientando-se dos demais pela sua ex^ 
centricidade, usando de um signal em forma de ferradura, o yelho- 
alcaide demonstrava que « talvez nào fosse chríst&o, sendo pro^ 
vavelmente judeu ». 

Os argumentos até agora apresentados para comprovar esttk 
csserçào nào podem servir de fundamento para uma decisào- 
favorável aos partidários delia. 

Si « naquelles tempos Portugal estava inçado de judeus e- 
christàos novos », si c grandes eram as animosidades contra elles;. 
muitas as preseguições que soíFriam e tudo eram pretextos para. 
os punir e castigar » ; si c nào raro, occultavam a sua raça e a. 
sua fé, para sofb-erem menos no seio de uma saciedade intoleran- 
te e desconfiada como a desse tempo » — , a conducta de Ramalho^ 
em lucta com os padres, conforme é narrado pelo padre SimAo^ 
é a prova mais peremptória de que aos intelligentes filhos de 
Santo Ignacio nÃo seria difficil desconfiar, ao menos, de que elle- 
procurava occultar a sua fé. 

Si realmente se preoccupassse em occultal-a, nfto se teria, 
lembrado de lançar na sua assignatura um signal differente do- 
usado por todos (?) os catholicos analphabetos. Seria descobrir e- 
não occultar a sua fé. 

O signal ^ , ainda que pudesse ser o kàf a primeira 
lettra symbolica da segunda ordem em que se divide o alpha- 
beto hebraico, significando « um Deus participando da natureza 
humana » e neste sentido ter sido empregado por João Ramalho» 
esta nào seria a única significação que naquelle tempo se poderia 
ligar ao signal. 

Este foi também um signal maçónico, ou ao menos o eia 
naquelle tempo. 

A maçonaria, que só em melados do século passado foi 
«natbematisada pela Egreja Catholica, já era velha no tempo- 
delle. Não seria, portanto, o signal usado um symbolo maçónico^ 
para assim dar-se a conhecer aos seus conterrâneos? E si essa 
maçonaria nasceu no seio do christianismo, que é filho ou pro- 
longamento do judaísmo, não poderá o kaf hebraico ser t ornado- 
eomo um signal pela maçonaria catholica? 

Supponhamos mesmo que a significação que lhe dá o sr. 
Horácio de Carvalho, de « ambição de dominio, para adquirir- 
riqueza », fosse a que lhe emprestava o alcaide- mor. Aindai 
neste caso devia ser em sentido que lhe dava a maçonaria O 
seu emprego, porém, como adeante veremos, jamais foi usado por- 
elle como symbolo de judaísmo. 



— 373 — 

A hypotbese de que o usasse seui ligar-lbe qualquer signi^ 
*& cação, mas apenas como um signal distinctivo das funcções que 
«xercia, n&o nos parece para despresar. De duas uma: ou liga- 
va-lhe uma significação elevada, complicada, e neste caso não 
«e comprehende que fosse illetrado; ou, si era analphabeto, não 
devia usal-o sinão conforme esta hypotbese. 

Além disso, si realmente Kamalbo era analpbabeto, não 
podia ser judeu. E' facto asseverado pelos israelistas de nossos 
<aias que a primeira condição para se poder ser considerado tal 
é a de saber lôr a Biblia no original. O ritual judaico obriga 
o neopbyto, ao fazer a primeira communbão, a Zér em tom de 
^anto um trecbo qualquer do velbo testamento. 

A própria vida de Ramalbo, mais que qualquer outro género 
tle prova, fomece-nos elementos de sobra para livral-o de mais 
esta pecba, que aliás não é desairosa. 

Ao lundar Santo André, o velbo alcaide foi obrigado a des- 
pender de sua fazenda com a fabricação das obras necessárias, 
para oue, de simples povoação, pudesse alçar-se á categoria de 
villa. Súbdito de um rei catbolico, devia saber que a primeira 
condição para a consecução deste desideratum era a construc* 
ção do paço da camará, da cadeia e do edificio que symbolisava 
« fé religiosa da nova sociedade (1). 

« Naquelles tempos era que a idéa religiosa dominava todos 
os espiritos» seria legal a elevação, a concessão de foral de villa 
sem que primeiro nessa povoação fosse levantado o templo ca- 
tholico ? Absolutamente não. 

A falta de preenchimento desta formalidade seria mais que 
motivo de suspeição de judaismo, seria a própria confissão do 
peecado da época, e algum outro Tenebrero poderia então facil- 
mente dizer: Dá-me o judeu, que eu t'o darei queimado. 

Ramalbo, portuguez, teria sido, neste caso, um judeu que 
á própria custa teria erguido um temblo ao Deus dos christãos... 
E de que egreja tel-o-ia mandado sair o P. Leonardo? O 
cbronista, a propósito, somente diz — « bavia em S. Vicente 
(capitania ou villa ?) um João Ramalho » ; mas, si este morava 
em S. André ? ... 



(1) — Par» qae Santo Áodré fosse ei orada a rlUa, Thomé de Sonsa impôs como oon- 
'4içfto qne «a rortHIoaBBem com uma irinchêirm « quatro bahtarUiy onde cayalgasse arti- 
Ihaiia ». « Den Jofto Ramallio comprimento a estas oondiçOes, fazendo a ena cneta 
trimrhêirat baluartêt tgrêjat cadeia § maii obrai publicai necêuariat» . Pelo facto de nlo 
constar harer ai li nm parocho nfto se segne qne nfto fossem feitas as obras publicas 
neceisarias. BI os Jesuítas para li n&o mandaram nenhnm dos sens, porqne desejaram 
m extiooçfte da rilla, nfto se pode dahl tirar a cooclnsfto de qne em 8. André nfto liaria 
^gnj%, Nfto jieria a primeira abandonada por falta de padre. Trincheira e baloarleft 
v wm . «ondiçõee dó ihomeato, e êgnja e cadeia eram condiçOee legaee. 



— 374 — 

Si era judeu, que tería elle ido fazer dentro de um templo 
catholico ? 

Ainda mais: — que necessidade teria de occultar este segredo 
ao seu companheiro de vinte annos na convivência isolada entre os 
guayanás? Seria António Rodrigues outro judeu? Nào, porque si 
assim fosse, o dr. João Mendes não lhe teria feito verdadeira apologia. 

As próprias armas com que atacam a nobre victima da in- 
justiça dos contemporâneos e da ingratidão dos pósteros servi- 
rão para sua defesa. 

Já velho, não podendo mais prestar os seus serviços á 
villa fundada por seus adversários, capitaneando os seus contra os 
Tupiniquins do Parahyba, que a haviam atacado em 1562, guar- 
dando naturalmente resquicios de seus antigos resentimentos 
contra os seus inimigos. Ramalho procurara um canto retirado, 
onde pudesse tranquillo terminar seus dias. Alquebrado pelo 
peso dos annos, cançado de luctas pela dilatação do dominio lu- 
sitano, sentiu talvez que seus dias estavam contados, que che- 
gara a sua vez de dizer adeus ao mnndo. E foi num desses 
prenúncios da mudança definitiva que vieram encontral-o dous 
padres da Companhia. 

Vejamos si a naiTativa de um destes pode dar logar a que 
se tire a conclusão contida na hypothese aventada, E' a carta 
do padre Balthazar Fernandes, escripta da capitania de S. Vi- 
cente a 22 de Abril de 1568 ; eil a: «Hum homem branco, que 
ha 60 annos que está nesta terra, entre este gentio, que agora 
é quasi de cem annos, estando entre os Índios e vivendo nào sei 
de que maneira, e não querendo nada de nossajt ajudas nem 
ministério, deu-lhe Deus de rosto com um accidente além de 
muitos corrimentos e pontadas que tinha : veio emianto um 
filho seu que pousara daqui uma légua a dizer-nos que seu 
pae morrera, e suspeitando nós que não seria ainda morto, fo- 
ram dous padres cedo a correr por aguas que estavam pelo 
campo por onde haviam de passar, por ser grande cheia. Che- 
gados á casa do miserável velho que não queria nada de Deus, 
veiu Deus a visitar com os nossos, porque o que estava d'antes 
já morrendo em mau estado, acodio-lhe Deus com a confissão que 
elle fez boa, pondo-se evi bom estado e commungando; mas, nâo 
morreu daquelle accidente, senão anda para isso apparelhado e 
posto na verdade, esperando por sua hora. Cedo lhe virá (1). 
Só lhe veiu mais de 12 annos depois. 

(1) V. Porto Seguro, vol. T. notas mais essenoiaes. 

Nfto é absnrdo que, embora Telho e restabelecido de uma grft^o enfermidade, ainda 
pudesse viver mais 12 aonos. 

que nio ó absnrdo é duvidarmos que o volho a que so refere o P. B. Fernandes 
fosse o Alcaide*mór. 



— 375 — 

Si esse miserável velho havia sido excommungado pelos 
padres que domiDavam a capitania, nHo é maravilha que por sua 
vez elle nad-a quizesse das ajtidas e ministério desses ministros 
de Deus, e dahi o dizerem estes que elle nada queria de Deus... 
A ser assim, todos os paulistas da capitania de S. Vicente, que 
expulsaram os jesuitas em 1640, deviam incoiTcr na mesma censu- 
ra. Ora, é sabido, a Companhia era guerreada e odiada por quasi 
todas as outras congregações religiosas. Também estas nada que- 
riam de taes ajudas e ministério. Logo, nada queriam do Deus... 

Si Ramalho não fosse catholico, não só seu filho, que neste 
caso teria sido educado no ódio ao padre, qualquer que elle fosse, 
não se teria lembrado de caminhar uma légua somente para ir 
dizer aos padres que seu pae morrera, como o respeito ao modo 
de sentir do seu progenitor o teria impedido. 

E como admittir-se que nada queria de Deus si fez boa 
confissão ? Como poderiam isso saber os dous padres, si o velho 
quasi centenário estava em tal estado, que seu filho o julgara 
morto, «estava dantes já morrendo, em mau estado > ? Como po- 
deria um homem, tão velho, que a persistência n& sua fé judaica 
deveria ser inveterada e fortalecida por tantos annos de luctas, 
fazer bôa confissão, pondo-se em bom estado e commungando ? 

Na edade em que era visitado pela morte devia, si fosse 
judeu, aífrontar os que o haviam excommungado, porque in ar- 
tículo moriis não podia temer as fogueiras do Santo Officio. 

Como conceber-se a conversão de um judeu quasi centenário 
que, somente nesta edade, fosse apparelhado e posto na verdade 
esperando por sua hora? 

De documentos existentes no archivo da camará de São 
Paulo consta que Ramalho, quatro annos antes, em 1564, havia 
sido eleito vereador, desta então villa. 

Si era um excommungado e facínora, como se explica que 
os jesuitas, que a dirigiam espiritual e temporalmente. . . con- 
sentiram na sua eleição V Podia um excommungado, despojado 
de seus direitos civis e políticos, porque taes effeitos tinha a 
excommunhão, exercer cargos públicos da immediata confiança 
dos senhores absolutos da terra ? 

Os vereadores eram eleitos annualmente pelos homens bons. 
«Homens bons» eram os individues que tinham exercido a go- 
vernança e devidamente qualificados pelos corregedores e juizes. 
Em S. Paulo, devido á liberalidade dos juizes, nessas qualifi- 
cações (de eleitores) só não eram homens bons os operários, os 
mechanicos, os degradados, os judeus e os extrangeiros » (1). 

(1) J08é JaciDibo Ribeiro, Chronologta Paulittat pag. 39. Jofto Mendes Jnnlor, Muni' 
tifio dê 8. Fáulo, pag. 14. 



— 376 — 

Pergunta-se : poderia um excommungado, infame por gra- 
ves crimes, ser mais que eleitor, entre os homens bons, eleito 
representante de um povo catholico, dirigido pelos padres da 
Companhia? Si foi eleito e exerceu cargos públicos, era natu- 
ralmente qualificado entre os homens bons e n&o podia ser 
jíídeu e degradado. Podemos mesmo duvidar que houvesse sido 
excommungado seriamente . . . 

Eleito em 1564, quando o assalto a S. Paulo de Piratinin- 
ga teve logar ajmnas dous annos antes, Ramalho não foi o es- 
pirito wau— instigador de Araray, conforme asseveram os drs. 
João Mendes e Brasilio Machado (1); antes, ao contrario, teria 
sido mui provavelmente um outro Ozorio, no memorável assalto 
de 10 de Julho de 1562, si não fora escolhido, a 24 de Maio 
do mesmo anno, pela Gamara e povo de S. Paulo, para capitão 
da gente que teve de ir fazer a guerra aos Tupiniquins que 
haviam posto cerco e atacado a villa. O assalto de 10 de Julho 
não foi, pois, o único desse anno. Os Índios que nelle tomaram 
parte eram guayanás, tupys e carijós. Si, portanto. Ramalho 
não se achava presente nesta emergência, foi porque deveres 
superiores o prendiam na guerra contra os Tupiniquins do Pa- 
ranyba. 

O homem que assim procedia não podia ser um homen mau. 
Paraphraseando o parecer da illustre comraissão do Instituto, po- 
demos dizer — um homem já velho, o perseguido de outr'ora, si 
não fora um homem de sãos principios e que não os conhecesse» 
não teria acceitado tão pesado encargo. 

A inquisição, cujo estabelecimento em Portugal teve por 
base a bulia de 17 de Dezembro de 1581, só teve principio no 
anno seguinte, governando d. João III. As perseguições e mor- 
ticinios que assolavam os filhos do povo hebreu já vinham dos 
tempos ominosos de d. Manoel. No dizer de A- Herculano «atten- 
ta a irritação dos ânimos, o único meio de conter a anarchia 
eonsistia em offerecer bastantes victimas no altar da intolerân- 
cia ; consistia em substituir uma crueldade tranquilla, mas activa 
e inexorável, á ferocidade turbulenta do vulgacho fanatizado (2). 

E nesse mesmo anno, extraordinária coincidência, funda-se 
a capitania de S . Vicente, tendo por donatário o fanático Martim 
Affonso de Souza. 

Do modo brutal, deshumano e antichristão, por que eram 
vistos e tratados pelas leis do reino os fiHios dessa raça infe- 



(1) Notu Genealogioos, pftg. 18; III oentenario de Anchieta, pag. 68. Azeredo Marques 
Apontamentos Históricos e Chrooologia. A illustre oommissfto do Institato laborou no 
Mesmo eograno. 

(2) Fiêtoria da Inquitiçâo êm Portugual v. /, pag. 264. . 



— 877 - - 

Hzy que tem pago, até meemo em nossos dias, com o sacrificio 
de milhares homens, o crime de seus antepassados, de haverem sa- 
crificado o Justo, dá-nos uma amostra a lei de 14 de Junho de 
1532, promulgada para regulamentar as iuncções do Santo Oficio 
cPor ella (deixamos a palavra ao historiador portuguez) amplia- 
vam-se e punham de novo em vigor os alvarás de 20 e 21 de 
Abril de 1599 (1), suscitando-se ao mesmo tempo a rigorosa 
observância da ordenação do reino, que, em harmonia com a 
limitaçào imposta na carta de lei de 1 de Março de 1567, pro- 
hibia a passagem dos cbristAos novos para a Africa. Esta caria de 
lei era, porém, revogada indirectamente na parte favorável á 
raça hebréa. ' 

«Todos os individues dessa raça, portug^ezes e hespanhoes, 
qner fossem dos primitivos conversos, quer fossem filhos ou 
netos destes, ficavam inhibidos de sahir do reino, não só para 
terra de mouros, mas também para qualquer paiz onde domi- 
nasse o christianlsmo. A própria mudança para os Açores ou 
para outras ilhas e coloniais portuguezas lhes era prohihida. Com- 
minavam-se aos contraventores maiores de 11 annos a pbna ulti- 
ma e o ooNFisco, e aos menores uma pbnalidadb arbitraria. 
Aos que lhes dessem adjutorio ou os conduzissem para além da 
fronteira de Kespanha impunha-se o dbgrbdo b perdimbnto db 
BBNS, e os capitães e mestres de navios que os transportassem por 
mar aos outros -paizes da Europa, além da perda da fazenda 

SBRIAM CONDBMNADOS Á MORTB, etC. » (2). 

Ora, Pedro Taques, historiador consciencioso e verdadeiro, 
embora cahisse muitas vezes em contradicçào comsigo mesmo, por- 
que não teve tempo de rever a sua obra collossal, que deixou 
inédita, sempre que se refere a Ramalho diz que era «homem 
nobre» que «tinha o foro de cavalleiro», baseado em documento 

Sue encontrou no Archivo da Gamara de S. Paulo (3), — Livro I 
os registros da villa de S. André. 

Si é verdade que o homem nobre podia ser excommungado, 
pergunta-se : — permittia a lei portngueza que o judeu pudesse ter 
toro de cavalleiro, quando «era obrigado a trazer carapuça ou 
chapéu amarello, para que fosse conhecido, sob pena de pris&o, 
multa e confisco ae bens»?; quando só podia ser testemunha 
em certas causas? 



(1) Bstw dons alvarás prohibíam aos nataraes e extranseiros que DOgodassem com 
M christios novos sobre mercadorias ou dinheiro e ordenavam qae os negócios Já 
feitos fossem denunciados dentro de oito <iias ; que ninguém lhes comprasse bens de 
lals sem licença regia especial; qae nenham dos novos conversos sahisse do reino com 
malher, filhos e casa. A pena de confisco sancoionava todas estas disposições ditadaa 
pela realesa catholioa, christianissima. (fllst. da Inqnis., V. I., pag. 140.) 

(2) Obra citada, V.I. pag* 266. 

(3) Rev. Trim. do InsL Hist. Efãã. Tomo .88 parte £.' Titulo Alvarenga, pag. 802. 



— 378 — 

Si era homem nobre, é fácil de ver que todos os portugue- 
zes que delle se approxiinavam, ou que com elle conviviam, 
seriam curiosos de conbecer-lhe os antecedentes, a sua historia 
e a da sua familia no tempo em que vivera no reino. Aos je- 
suítas, como a todos os outros nào seria difícil descobrir si per- 
tencia a alguma familia de judeus ou cbristãos novos. 

E si era judeu, é extraordinário que um homem, sobre 
quem recahiam penas tão graves, pudesse occupar os mais ele- 
vados cargos da republica e os de maior confiança ! 

Ao judeu disfarçado, e impenitente christão novo que sahisse 
do reino, a lei punia com a pena ultima e o confisco, era ine- 
xorável, e Ramalho usava, apezar disso, de um signal que os estu- 
diosos de nossos dias suspeitam que fosse symbolo de judaísmo !... 

Pois bem; fomece-nos o illustre jurista e historiador Cândido 
Mendes, a prova cabal, decisiva, de que o oxcommungado do P. 
Leonardo Nunes era um fervoroso catholico, embora não lesse 
pela cartilha dos padres da Companhia. 

No intuito de demonstrar que Ramalho, por occasião da extin- 
cçào da villa de S. André, em 1560, já nào vivia, o nosso his- 
toriador transcreve o trecho de uma carta escripta em hespanhol 
pelo irmão da conjyanhia, António de Sá, dirigida, provavelmen- 
te de S. Paulo, aos irmãos da mesma Companhia, na Bahia, com 
data visivelmente errada, de 13 de Junho de 1559, porque em 
1580 ainda era vivo o excommungado judeu, cujo testamento 
traz a data desse anno. 

Vejamos o trecho da carta ; é irrespondivel : 

« Um Índio que llama Belchior está puesto en ayunar (jejuar) 
iodos os dias que manda la Iglesia y sin yo le hablar nadie 
(sem insinuação), pergunto-me que le hyziesse saber los dias de 
ayuno y qual no se comia canie, dizendo-me que antes que mu- 
viesse Juan Ramalho que bl se lo dizia y ayunava todos los 
DIAS que la Iglesia manda, y parece que el senor se lo dixo^ 
por que aqnel mismo dia que el me dixo esto, me dixo d padre 
que le dixiesse que avia de ayunar, etc, » (1). 

De mais este peccado está absolvido o excommungado por 
graves crimes. . . que jejuava todos os dias que a egreja manda, e 
que isto ainda ensinava com o exemplo aos índios. . . 

A hypothese, pois, aventada por um illustre descendente do 
accusado e que se ufana de catholico, desfaz-se, rue por terra, por 
falta absoluta de base. 

Possa elle doravante, jubiloso, auxiliar-nos com a exu- 
berância de seu talento, e amor da verdade, nesta obra de 
patriotismo, de reparação e justiça. 

(1) Rev. Trimen. do lostit, toU 40, pags, 359 e 300* 



— 879 — 
II 

ERA « POR GKAVBS CRIMES IMFAMB » ? 

Quaes seriam esses crimes? De que natureza seriam elles 
que, pela sua gravidade, o fizessem tão infame, que o chronista 
padre Simão de Vasconcellos não teve coragem de enuncial-os ? 
Teria o velho portuguez commettido algum homicidio ? Atten- 
taria contra a propriedade alheia ? Faltar-lhe-ia um dos ele- 
mentos que caracterizam a espécie humana — o senso moral, nas 
duas únicas faces de sua manifestação : probidade, com relação 
ao direito alheio ; piedade, com respeito á vida humana ? Teria 
levado uma vida tão licenciosa que a sociedade, onde c os sacer- 
dotes viviam escandalosamente amancehados, tendo o peccado 
por lei e costume, com muito maior escândalo», não pudesse 
tei«o em seu seio ? 

O chronista, que é tão minucioso quando narra as atroci- 
dades, os escândalos acontecidos na colónia ; tão prolixo, quando 
expõe as virtudes milagrosas de seus irmãos, é confuso, duvi- 
doso, e sohretudo apaixonado e falso quando insinua factos da 
vida do € famoso e rico » João Eamalho. Limita-se a lançar- 
Ihe o lahéo de «amancehado puhlico por quasi quarenta annos>, 
quando ó verdade que, se vivera casado clandestinamente, sob 
o ponto de vista cathoHco, antes da organização civil e eccle- 
siastica da colónia, não deixou de legitimar á face da egieja a 
sua união com a consorte que lhe dera o régulo guayaná, ape- 
zar de ser ella considerada valida pela própria egreja. 

Accusa-o de ser « um homem por graves crimes infame, e 
actualmente excummungado », mas não nos conta quaes foram 
esses crimes, nem o nome de quem lhe lançou a excommunhão. 

Nas chronicas do P. Simão têm-se baseado quasi todos os 
historiadores pátrios, e com ellas apadrinhou-se a illustre Com- 
missão do Instituto, para affirmar que c Ramalho não era ho- 
mem de sãos principies e que não os conhecia mesmo». 

Pedimos vénia para contestal-a, e para, com o acatamento e 
respeito que lhe são devidos, dizer : — a fonte onde foi be- 
ber ensinamentos contém impurezas que vieram perturbar-lhe a 
bôa digestão histórica. 

O copioso chronista não merece fé, com suas narrativas, por- 
que não as fundamenta em factos que possam ser considerados 
crimes, e não nos diz em que informações ou documentos se ba- 
seou para lançal-as no papel. Escrevendo em 1663, cento e três 
annos depois da mudança dos habitantes de S. André para a 



— 380 — 

villa de S. Paulo, a sua chronica fabulosa não traz o cunho de 
authenticidade. Fabulosa e suspeita. 

Fabulosa, porque toda ella está recheada de contos dignos 
de figurar em livros deste género litterario. 

Como os exemplos se contam ás centenas, daremos al- 
guns extrahidos das — Noticias sobre as coisas do Brazil — pu- 
blicadas como preambulo á chronica. Vejamos ; são soberbos : 
€ s&o vistos darem-se as mãos dois rios em uma lagoa famosa.»» ; 
«as nações que habitavam a circumferencia do rio e seus gran- 
des braços, não podiam contal-as, não só pelos dedos das mãos e 
dos pés, por onde costumam contar, mas nem ainda com os sei- 
xos da praia » ; « nações monstruosas de anõe?. . . » ; «de gente que 
nasce com os pés ás avessas, de gigantes de 16 palmos, de Ama- 
zonas, mulheres guerreiras,' que vivem por si sós sem commer- 
cio de homens, etc.» (1). 

Tudo isto, como todo aquelle amálgama de historias phan* 
tasticas, a Chronica inteira, o padre Simão impinge como moeda 
verdadeira, nestes termos: «Todas estas coisas contavam os ín- 
dios áquelles primeiros descobridores; e todas dias e muito 
maiores descobriu o discurso do tempo . . Varias relações outras 
tive diárias em meu poder, de excursões, que por este rio fize- 
ram os moradores da capitania de S. Paulo; e todos concordam 
e dizem coisas maravilhosas, e tão grandes que nenhum pecca- 
do commetteriam os que dissessem que juncto a este rio plantara 
Deus Nosso Senhor o paraizo terreal. > 

O bom do P. Simão, em tudo isso, assimilhava-se a um velho 
com a alma crédula de uma ingénua e simples creança, porque, 
a mesma facilidade com que eugulia os carapetões que lhe im- 
pingiam os ousados bandeirantes, seus coevos, lendas colhidas 
da bocca dos selvagens, os transformava em contos do vigário^ 
em que eram também metamorphoseados os fastos da colónia, 
para os transmíttir aos historiadores estudiosos dos vindouros 
tempos. 

Suspeita também é a Chronica, porque, além de pertencer 
o seu auctor á corporação inimiga do accusado, escrevia, com 
certeza, mediante informações em forma de lenda, legadas por 
pessoas que haviam movido contra a villa do alcaide-mór conti- 
nua e implacável guerra. 

Pois bem; estudemos a individualidade dessa «arvore ruim, 
peiores fructos», desse «miserável velho» ; esmiucemos-lhe a vida, 
quanto nos fôr dado fazel-o, em relação ao meio social em que 
viveu; desvendemos a sua figura de accôrdo com a piurticipação 



(1) LIT. X ftft 22— S2. 



— 381 — 

f)ue teve nos factos da colónia, com o critério da mais estricta 
justiça e da mais calma imparcialidade, e si as conclnsões a que 
chegarmos nào confirmarem as accusações da Gommissfto do Ins- 
tituto, apadrinhadas pelo padre Sim&o, absolvamos o réu, para 
que em vez de cser enforcado... em effigie, para escarmento» seja 
collocado num pedestal de gloria como patriarcha da Pátria 
Paulista 1 

Que ao padre Sim&o faltam as qualidades essenciaes exigi- 
das num historiador, além do aue já dissemos e das provas apre- 
sentadas pelo illustre membro da commissão que delia divergiu, 
em brilhantíssimo parecer, em separado, o dr. M. Pereira Oui- 
maràes, adduziremos outras que o vem demonstrar de modo ir- 
reiragavel. 

Referindo-se a Diogo Alvares — o Caramurú, que na Bahia 
vivera vida egual á de João Ramalho, alliando-se maritalmente 
á Paraguassú, que no baptismo tomara o nome de Luiza (e não 
Catharina), como Bartira, o de Izabel, diz o «famoso chronista» : 

cAssentou (Diogo Alvares) suas casas naquelle raso, que hoje 
se vê em Vil la Velha, além de Nossa Senhora da Victoria, cu- 
jas minas ainda agora dão signaes. Teve aqui grande familia e 
muiias mulheres (1); porque não se havia por honrado o prin- 
cipal que com elle se não tinha apparentado. Houve muitos fi- 
lhos e filhas que pelo tempo foram cabeças de nobres gerações 
(2). Nestes termos estava, quando chegou a esta Bahia uma náu 
franceza, determinou passar nella a Portugal por via de França, 
e carregando-a de páu Brazil, embarcou a mais querida de suas 
mulheres, dotada de formusura (B), e princeza daquella gente. 
Fez-se á vela, não sem grande inveja aas que ficavam (4). Del- 
ias contam alguns que chegaram a lançarse á náu, com perda 
de uma que ficou afogada nas ondas (5). Chegado á França, foi 
ouvida sua historia do rei e da rainha coro satisfação, como coi- 
sa tão nova ; folgavam de ver a bsposa (6), individuo extranho 
de um mundo novo. Trataram de baptisar a ella e casar a am- 
bos na face da Egreja (7). Celebrou estes sacramentos um bispo, 



(1) E«te nXo é nm *amame«bado publico por qnasi qoarenU âiinot» com nma só 
alher . é nm polygamo. . . divíaizado I 

Deliciosos mictofl de alguma arvore do paraíso terreal... 
Talves faltasse esu prenda i Bartira... 

Rsuva a pedir a nm vate de valor que esereveMe um poema... 
I-o Santa Rita Dorio. 
(6) Por cansa de Ramalho nenhuroa afogon-se no Anhemby ao ve-k> marokar eapi- 
ttaeando os portugueses e guaynás em defesa da villa da Companhia de Jesus contra 
«• Tnpintqnins do Parabyba. 

(6) Note-se, esposa -antes de casada i face da egreja... embora o termo seja tam- 
Iwm empregado significando -noiva, virgem ivjnstada para casar... 

(7) Isto está de accôrdo coro o direito canónico. Ao bsptifmo de pessoa adulta, 
teada por mnlher do cbristAe seguia-se em acto contínuo o casamento religioso. B a 
jropotito : — , te Bartira toi baptisada Isabel e era tida por mulher de Ramalho... 



— 382 — 

dignando-se de serem padrinhos os próprios reis. Houve ella por 
nome Catharina Alvares, sendo o do Brazil — Paragnassú. 

«Deram-lhe, a rainha e outros senhores titulares, ricos vestidos 
e muitas jóias, mas não consentiram passarem a Portugal» (1). 

Neste diapasão continua o P. Simão a glorificar o casal de 
heróes, emulos de Ramalho e Bartira, fazendo de Catharina Al- 
vares uma milagrosa devota, (2) 

Quão diversa é a sua linguagem quando fantasia a vida de 
João Kamalho no seio da familia guayaná! 

Graças ás eruditas investigações de Vamhagen, a legenda- 
ria viagem de Diogo Alvares Corrêa (Caramurú) e de sua mu- 
lher d. Catharina (Paraguassú) á corte de França, onde reinava 
Henrique H, é uma fabula da estofa dos «graves crimes prati- 
cados pelo amancebado, rico e famoso excommungado » alcaide- 
mor de S. André. 

Pois, quem fantasiou esta historia pittoresca e tantas outras 
novellas fabulosas pode merecer credito quando assim se refere 
ao sogro do nobre Jorge Ferreira, loco-tenente de Martim Af- 
fonso na Capitania?! 

Pode merecer té quem de tal maneira se expressa com re- 
lação ao homem que mereceu do donatário o titulo de guarda- 
môr do campo, pelos relevantíssimos serviços que lhe havia 
prestado, sem cujo concurso os portuguezes e, portanto, os pa- 
dres da Companhia não teriam podido, tão facilmente, estabele- 
cer-se no planalto e interior do território dominado por elie 
como genro de Tebiriçá? 

Pode merecer credito quem assevera que Ramalho «com a 
caterva de seus filhos, muitos em numero e de má casta, ma- 
melucos illegitimos e desalmados com arcos, flexas e gritarias, 
fazendo gente e desinquietando a villa contra os padres, espa- 
lhando de alguns delles crimes péssimos, etc.», quando é certo, 
como bem observa o dr. António Henrique Leal (3), que Ra- 
malho não se atrevena a isso Tia presença do governador e « nem 
o chronista diz que parte tornou este no negocio^ sendo tão amigo 
dos padres e pelo menos tão cheio de sim auctoHdade como quem 
estivera na Indiaf*, 

Como podem ser verdadeiras as formidáveis accusações do 
padre Simão, quando é certo que, querendo M. Aífonso que os 
portuguezes não privassem os indios de sua liberdade, determi- 
nou que «nem a resgatar (negociar) com os indios pudessem ir 
alli os brancos sem sua licença ou dos capitães-móres, seus loco» 

(1) § 37 pag. 26. 

(2) § 4') pag. 27. O nome mesmo de Catharina é fabuloso ; o yerdadeiro era 
^Lniza— segando Frei Vicente de Salvador, coetâneo da ParagaasKÚ. 

(.^) Rev. Trim. do Inst. Hist. Brasileiro, tomo 34, parte 2,«, pag. 231. 



— 383 — 

tenentes, a qual se daria com muita circumspecção, e unicamente 
a sujeitos morigerados», exceptuando desta regra a Ramalho «que 
além de residir entre os índios, por amor a estes, sabiria logo de 
través a qualquer abuso que bouyesse na concorrência das duas 
raças?» (1). 

Refere Fr. Gaspar (pags. 70 e 71) que D. Anna Pimentel, 
como procuradora do donatário, seu marido, passara um Alvará 
em 1554, doze annos depois da fundaçào de Piratininga (Santo 
André) restringindo a probibiçfto imposta pelo donatário de c não 
poderem ir os brancos ao campo sem sua licença, ou dos capi- 
tães, seus loco-tenentes». Ora, si é incontestável que S. Vicente 
e Piratininga foram as primeiras povoações europeus creadas por 
M. Affonso, facto este attestado por Pêro Lopes, testemunha de 
vista, segue-se que a prohibição de irem ao campo resgatar, 
deve ter surgido depois que os portaguezes de Santo André 
«vieram viver ao mar». 

O facto, portanto, de ser Ramalho excluido da prohibição, 
não pode soffrer contestação. 

Como acreditar-se nas catilinanas do P. Simão, quando é 
certo que, a 8 de Abril de 1553, Thomé de Souza dá a Rama- 
lho o titulo de alcaide-mór em substituição ao de guarda-mór 
do campo? 

Mas, perguntar-se-á : si era dotado de tão nobres qualida- 
des, que mereceu a honra de ser sogro do governador — o fidalgo 
de linhagem Jorge Ferreira ; si se mostrou tão generoso e pres- 
tante para com seus patrícios, acolhendo-os de braços abertos, 
quando poderia repelil-os facilmente, si houvesse querido « pro- 
curar entre os perigos um viver libérrimo, dissoluto, gozado sem 
as pôas de uma sociedade regular, e sem testemunhas importu- 
nas »; si preenchia, na opinião do donatário e dos governadores 
geraes, os requisitos necessários para poder exercer, de conformi- 
dade com as leis canónicas e civis, as funcções de guarda-mór, 
capitão-mór e alcaide-mór ; si era então considerado um cidadão 
prestante, um verdadeiro benemérito, a quem todos deviam fa- 
vores e attenções: — como se explica que, logo após o desem- 
barque em S. Vicente, em 1549, dos padres da Companhia, fosse 
elle considerado, não mais o homem útil e necessário á segurança 
e desenvolvimento da colónia, e antes, ao contrario, se visse posto á 
margem como um ente tão infame, que deveria logo ser excom- 
mungado ? 

Não é difficil a resposta. 

Aspirando os recemvindos, os novos apóstolos, á nobre e ele- 



(1) M. de OUvelrft-Qaadro Hiit, pag. 19. 



- 884 — 

Tada miss&o de reformar os costumes de uma sociedade desre- 
grada, 08 desmandos do clero e da alta hierarchia catbolica do 
XVI século; desmandos tào escandalosos que determinaram o 
appareci mento da grande Reforma que tomou o nome de protes- 
tante, entenderam que só poderiam cumprir a sua missào si a 
anctoridade toda, absoluta, lhes viesse ás m&os. Alvejando, por- 
tanto, como meio para a consecução de seus fins, a absorpção dos 
poderes espiritual e temporal, julgaram necessário um bode ex- 

Siatorio do desregramento geral, e principalmente do clero, no 
izer de Nóbrega, e, para esse fim, nenbum outro em melbores 
condições do que o nobre e generoso portuguez, cujo prestigio 
precisava de ser abatido, nullifícado, cujo poderio urgia desappa- 
recesse, para dar logar ao delles. Na capitania de S. Vicente, a 
sua figura de aventureiro ousado e de guerreiro intrépido, ten- 
do vivido tantos annos afastado do convívio de seus patrícios 
attrahia sobre si as mais fantásticas conjecturas, as mais graves 
suspeitas de uma vida dissoluta e licenciosa. Nenbum outro, 
pois, apparentemente, melhores requisitos offerecia para servir de 
victima sacrificada pela remiss&o dos peccados dos filhos da velha 
Europa e dos novos inn&os, desvendados aos olhos dos insoffridos 
missionários pela própria victima, como o velho portuguez. 

Sabiam os novos apóstolos que Ramalho aqui vivera mari- 
talmente com a filha de Tebiriçá, e embora já agora casado com 
ella á face da egreja, éra natural que, cheios de nobres inten- 
ções como de bôa fé, bisonhos no meio de uma sociedade intei- 
ramente extranha para elles, lhes viesse á mente a snpposíçAo 
vebemente de peccados commettidos e n&o confessados. Ouvindo, 
provavelmente, da bocca de portuguezes que de « S. André vie- 
ram a viver ao mar, mas já agora todos arrependidos », e que 
viviam em discórdia com o guarda-mór, accusações contra elle, 
eivadas de suspeição, julgaram acertado condemnal-o c para es- 
carmento dos outros ». Excommungai*am-n-o, — allegando que 
commettera graves crimes, ou que vivera amancebado publico 
por muito tempo, tempo que, mais de um século depois, o P. 
Simão computou em quasi quarenta ânuos . . 

Esta justiça — retroactiva, era quanto bastava para servir de 
pretexto a novas accusações e novas luctas. 

Ramalho, pelo prestigio que lhe davam as funcções da au- 
ctoridade que exercia no planalto e interior da capitania, pela 
influencia de que dispunha sobre índios de índole mansa e pa- 
cifica, pela magia seductora com que soubera imf)ôr-se aos selvi- 
colas da tribu a que pertencia sua esposa e companheira, podia 
servir (julgavam os padres) de obstáculo sério ao novo poderio o 
domínio que aspiravam, como meio á propagação da fé. 



- 885 — 

Conta o cfaronista que «Havia em 8. Vicente um JoãoRa- 
mallio (Si escrevesse hoje, diria — nm Jo&o Ninguém) homem por 
graves crimes infame, e actualmente excommnngado . Mandou^- 
lhe o padre Leonardo pedir com cortezia/o«ae servido sair-se da 
egreja^ porqne pudesse elle celebrar o sacrificio, pois não podia 
em sua presen^ : — fel^o assim, e celebrou o padre . Porém, dois 
filhos sens mamelucos, dados por afirontados, determinaram cas- 
tigar no servo do 8enhor a injuria que tinham por fbita ao 
pae ; e levados de sna natural barbaria materna^ esperaram-n-o á 
porta da egreja, onde, chegando um delles, fez golpe sobre o padre 
com a espada núa ; poiém, em vào, porque lançando-se o servo 
de Deus de joelhos, para aparal-o, ficou-lhe o braço suspenso 
( qual o de outro Abrahào ) ; ou fosse porque ficou attonito com 
tfto rara espécie de piedade, ou porque Deus entào o quiz evitar, 
etc. » (1). 

Quereria o chronista maior prova de piedade filial, própria 
embora de semi-selvagem, do que a revolta que sentiu esse ma- 
meluco contra a dolorosa afironta feita a seu pae? Entào, o 
mandar a um velho cheio de serviços prestados á colónia nascenta» 
de que se locupletavam os padres da Companhia, que fosse ser- 
vido sair-se da egreja, nôo era irrogar uma gravissima injuria 
á honra de um pae ? 

Pois, bem ; quem nos dirá que não foi o honrado e pacifico 
velho quem, tendo a calma precisa para obedecer inconiinenU á 
ordem do padre, sem um protesto, usou da sua auctorídade pa- 
terna para impedir que o filho manchasse no sangue do ofiensor 
a sua espada? Este milagre, narrado assim, mais de um século 
depois do facto, cheira á fabuloso . • . 

São deste jaez o» crimes do aluaide-mór. . • 

E' intimado a sahir da egreja, obedece; e dispondo de cinco 
mil mdios que lhe eram dedicados, elle, que por quarenta annos 
fizera a guerra ao gentio contrario aos da tribu gnyaná, ampáca 
com o prestigio de sua auctorídade, com o manto de sua geno- 
roftidade e grandeza d'alma, a vida de seu perseguidor ! . . • 

Estava preparada, pelos primeiros missionários de 1549, a 
estrada por onde os de 1554 deviam passar para estabelecer-se 
tranquillamente na coUina onde se acha a actual cidade de & 
Paulo. 

Bem sabiam os padres que, na doação feita por D. João IH 
a Martim Affonso, ficara estipulado que c por dentro de terra 
firme, pelo sertão, não poderiam ser feitas villas, a menos de sen 
léguas uma da outra, sem licença régia >• Como se explica, pois. 



(1) Cbrunioa, c«p. 1, n. 77. 



— 3ft6 — 

quo estando a povoação de S. André fundada, havia muitos annos, 
e elevada a villa em 1553, viessem os padres, sob as ordens de 
Paiva e a mandado de Nóbrega, em 1554, fundar S. Paulo de 
Piratininga a pouco mais de três léguas da villa de Ramalho ? 

Porque nào seguiram o conselho do grande apostolo S. Paulo, 
tÃo preconizado pelo P. Simão c que devemos primeiro trabalhar 
pelos que são de nossa fé, e depois pelos de fora delia; como 
também porque da conversão dos portuguezes dependia em muita 
parte a dos indios » ? (1). 

Porque então se negaram os padres a estabelecer-se em S. 
André ou a mandar para lá alguns dos seus, afim de converte-^ 
rem ou emendarem a João Ramalho? 

O exemplo e as prédicas do padre Leonardo contribuíram 
para que os moradores de S. Vicente mudassem de vida? (2). 

Si não julgavam as condições topographicas de Santo André 
favoráveis a defesa contra as investidas dos gentios Tamoyo e 
Tupiniquin, era mais curial que procurassem convencer aos seus 
moradores da necessidade de uma melhor e mais estratégica col- 
locação, e, quando isso logo não conseguissem, mandassem ao 
menos alguns dos seus para, no meio delles, poderem captar-lhes 
diplomaticamente as boas graças. Não se tratava da conversão 
de um só, — porque em Santo André viviam dezenas de portu- 
guezes. 

Como amostra do extraordinário processo usado para a con- 
versão dos maiores impenitentes na pratica do peccado e dos ma- 
ravilhosos resultados obtidos por elle, contanos o chronista o 
caso «de um homem ecdesiastico dos mais nobres da terra, que 

vivia COM ESCÂNDALO GRANDE do todo aquello povo, HAVIA MUI- 
TOS ANNOS, em occasião de peccado de portas a dentro ; e tão 
OBSTINADO, que nem inspirações do céo, nem advertência de ami- 
gos, nem temor do inferno, nem censura de prelados, nem amea- 
ças do rei, foram bastantes a refreal-o. Avisado de todas as 
circumstancias, o que faria o pobre peregrino ? (o padre Nóbrega.) 
Cora que auctoridade combateria um coração igualmente senhor 
DO LOGAR QUE DO VICIO ? Era grande o animo de Nóbrega : 
vae visitar uma e outra vez o nobre ecclesiastico, camo aco^ 
Ihendo-se ao seu amparo em terra estranha; ferve-o, acompa- 
nha-o, chega a fazer-se amigo seu familiar ( porque na bôa con- 
formidade das vontades assenta melhor a persuação do entendi- 
mento). Assim succedeu no nosso caso ; porque em sentindo o 
destro zelador affeiçoada aquella vontade, começou logo a com- 



0) N. 67. 
(2) N. 68. 



— 387 — 

batel-a, no principio com suavidade, propondo-lhe diante dos 
olhos o perigo em que vivia, a vileza do estado em que estava, 
a infâmia de uma pessoa tfto bem nascida, o escândalo de todo 
aquelle povo, e o que é mais, o risco de sua perdiç&o eterna. 
Estava por^m, aquelle crjração um duko brokze : ouvia somente 
por respeito, mas não o penetravam as vozes (que ainda as do 
próprio Deus não são bastantes, quando não quer o homem, que 
é senhor do seu alvedrio). Não desiste o hospede : e como tem 
o ouvido por si, a2)plica razões mais efficazes^ da morte, do in- 
ferno, de castigos asperHmos em casos semelhantes : que a tudo 
dava lugar a cajKL da bôa amizade; porém, d vista do mncvXo 
Tnais forte de torpeza tão envelhecida, não tinha força o de ami- 
zade tão moderna, resolveu-se o bom bcclesiastico (!) em que o 
2)adre lhe não faltasse mais na matéria, sob pena de lhe tirar 
A TIDA, sem respeito d amizade, Sacerdócio ou Religião^» (1). 

Opera-se o milagre. O ecclesiastico, tão inveterado na pra- 
tica do peccado, que chega a ameaçar de morte ao padre Nó- 
brega, volta a ser mais tarde «wm exemplar de honestidade, um 
raro esjyelho de virtude, agradecido sempre ao padre Nóbrega, e 
por seu respeito a toda a Companhia » ! 

Porque não usou o padre Leonardo de idêntico processo 
para chamar João Ramalho ao bom caminho (si ó que precisa- 
va disso ), em vez de excommungal-o e enxotal-o da egreja ? 

Como prova do seu poder milagroso para a regeneração dos 
peccadores, o padre Simão nos narra um facto extraordinário, 
idêntico ao da conversão do nobre ecclesiastico. 

Querendo o infermo desaftrontar-se do padre Leonardo, mais 
ás claras, «tomou por meio um homem, não tão velho na eda» 
de, como envelhecido em meios da carne. Tinha o jKidre traba- 
lhado com este muito tempo havia por que largasse a má occa- 
siâo de portas a dentro, em que vivia, com muitos filhos, e não 
menos escândalo dos que haviam melhorado a vida : deu-lhe uma 
e muitas batarias, primeiro em secreto e depois ao daro ; porque 
onde tomava forças o escândalo era força que não enfmqueces- 
sem os pregadores evangélicos. Quando um dia, levado de fu^ 
ror diabólico, cego do amor da lascivia, esperou^ o padre no meio 
de uma rua este perdido homem, e tirou de um páu que le- 
vava PARA ESPANCA L-0 : sem duvida o fizera, porque o servo de 
Deus estava tão fora de fugir, que antes posto de joelhos esper- 
tava o golpe, como da parte da justiça divina, por suas faltas ; 
porém um filho que se achou presente, envergonhado dessa ao- 



(1) N. 16, pagfs. 12 e 13. Porqno n^o o coatemplaram também com a ezcommn- 
Bkio ? 



— 888 - 

ção, reparou a pancaday e lhe tirou o páu das mãos, fmstranda 
assim a intenção do pai, mas nào o merecimento do padre» (!)• 
' O trecho é longo, mas interessantíssimo ; — porisso, nfto noa 
podemos furtar ao desejo de transcrevel-o todo, para que maia 
patente fique a injustiça de que foi victima o homem cuja m»^ 
moria exige uma i*ehahilitação . Continiía o chronista: 

€ Nfto tirou o inimigo fructo desta empreza ; porque o ho^ 
mem, cahindo na conta do mal que âzera, corrido de si e edifi- 
cado do servo de Deus, converteu a paixão em amor, fez-se amigOy 
e favoreceu sobremaneira a companhia naquellas partes ; e o que 
mais importa, cahiu em seu perigo, lançou de casa a occasi&o, e 
depois de bons dias, com cento e tantos annos de edade, passou 
a melhor vida^ com bons signaes de sua salvação. Um dellea foi 
que, emprestando-se-lhe copia de cera de umas confrarias para a 
sea enterro, e officio, com condição que depois se pagasse por 
peso o dispêndio, durou o acto tempo considerável ; e com estar 
sempre accesa, quando depois veiu ao peso, não houve que pagar^ 
porque pesava mais então ( que com taes tochas sabe morrer o- 
que soube viver com taes obras ). Faz menção desta maravilha,, 
como milagrosa, o padre José de Anchieta, attribuindo-a a signal 
da salvação deste homem » . 

Para o fim que temos em mira, seria melhor não commen» 
tar. Entretanto, não podemos deixar de observar que mai*avilha^ 
tendo o padre Leonardo, assim como todos os da Companhia, tantcv 
poder persuasivo, e sendo tão auxiliados de Deus na obra da. 
regeneração, que com tanto êxito levavam avante, que nem ao* 
menos tentassem regeneral-o ou convertel-o dos taes graves cri- 
mes de que as chronicas e a historia não nos transmittiram noticia^ 

Outra ex]>licação não encontramos para esta falta sinte- 
aquella a que já nos referimos: a necessidade que sentiam oa 
padres de annullar o poderio do homem que conquistara o pai%^ 
Excommungando-o, deixavam-no isolado dos demais portugnezea. 
Que eram acima de tudo catholicos, e, conquistando as sympathiaa^ 
dos régulos, estariam por sua vez senhores da colónia. 

Referiu do-se á guerra que entre si faziam os Eamalhos e oa- 
padres da Companhia, diz o chronista que tem occupado anosaa. 
attenção : « Entre as alegrias e parabéns com que o povo ro~ 
cebia por hospede o padre Nóbrega, andava elle ( Ramalho ) coini 
a caterva de seus filhos ete., espalhando de alguns dos padres, 
crimes péssimos e indignos de seculares, quanto mais de peasoaa 
religiosas, e destes mesmos foram accusados por elles até o mea- 
mo padre Nóbrega, etc. > ; accrescenta que este € poz em juizes 



(1) C. I, n. 76. 



— 889 — 

diante do vigário geral a decis&o do caso, mandando que as par« 
tes o provassem, e se julgasse severissimamente; etc. »... Fez-se 
assim, diz elle « tiraram-se as ttsiemunhas da mór parte do povo ; 
porém nellas tiraram os accusadores um libello diffiEtmatorio de 
fluas mesmas vidas etc. » ( 1 ). 

Como deveria ter corrido regular esse processo em que as 
testemunhas eram tiradas,,, escolhidas a aedo entre os juría- 
diccionados, espiritual e... temporalmente pelos accusados!! .•. 
Nào podemos calar aqui uma circumstancia que naturalmente 
deveria ter contribuido para que os jesuítas dos meados do sé- 
culo XVn manifestassem tanta animosidade contra o adversário 
da Companhia dos meados do século anterior. O chronista P. 
Simào nào podia d<)ixar de achar-se possuído de grande indigna- 
ção contra os descendentes do velho português que haviam, vinte 
e três annos antes da elaboração da celebre chronica, expulsado 
os irmãos da famosa Companhia. A frente do celebre movi- 
mento, que comprehendia todos os habitantes da Capitania, de 
origem européa, achavam-se José Ortiz de Camargo, Amador 
Bueno da Ribeira, Domingos Luiz, o moço, e outros aparentados 
ou descendentes do velho Alcaide. 

Não podia deixar de tel-os em mente ao usar do expressivo 
e amável conceito — peiores fructos de uma ai^vore ruim. 

Não acreditamos que n)ssem verdadeiras taes accusações 
contra os padres, mesmo porque os Ramalhos, em pequeno nu- 
mero, não teriam coragem para tanto, justamente num momento 
de «alegrias e parabéns» pela chegada do provincial da já então 
poderosa Companhia. E note-se que, como vimos atraz, este 
vinha á Capitania de S. Vicente na comitiva do Governador 
Oeral do Brazil, Thomé de Souza (2), o mesmo que nesse mesmo 
anno e nessa mesma occasião ractificou a nomeação feita por M. 
Affonso e um dos seus loco- tenentes, do calumniador, pilhado 
em flagrante (!), para os cargos de capitão-mór e mais tarde 
^caide-mór de Santo André ! . . . (3) . 

Aquelles que julgam verdadeiras todas as accusações a este 
feitas nas chronicas do padre Simão, entendem acertado fortale- 
•cer a sua convicção com o trecho de uma carta do venerável 
Anchieta, datada do anno seguinte ao facto acima referido, 1554, 
4inno da fundação do collegio de S. Paulo. Reza a carta : «Una 
certos christãos, nascidos de pae portuguez e de mãe brasílica^ 
^e estão distantes de nós nove milhas, em uma povoação de 
portuguezes, não cessamy junctamente com seu pae, de empregar' 



(1) N«. 126 e 127. 

(2) N«. 124 e 125. 

<3) Maohado de OUveíim pag. 47. 



— 390 — 

€ontiniu)8 esforços para derrubarem a obra que, ajudando-nos a 
gi-aça de Deus, trabalhamos por edificar, persuadindo aos próprios 
catecLumenos com assíduos e nefandos conselhos para que se 
ajmrtem de nós, e só a elles, que também uzam de arco e flechas 
como elles, creiam, e nào dêem o menor credito a nós que para 
aqui fomos mandados por causa da nossa perversidade. Fazem 
estas e outras semelhantes, para que uns nào acreditem na pré- 
gaçào da palavra de Deus, e outros, que já viamos entrarem 
para o aprisco de Christo, voltem aos anti<ços costumes, e fujam 
de nós para poderem mais livremente viver» (1). 

Ainda que as narrativas do chronista pudessem ter sido 
forjadas, tendo por base referencias como esta, do venerável An- 
chieta, entretanto, do seu estudo desapaixonado e da comparação 
do conteúdo delias com este trecho acima, chegamos a conven- 
cer-nos de que o padre Simào, ao narrar os contos, accrescentou 
uns pontos, e de que a imputação que se faz a Ramalho não 
tem a gravidade, a importância, o cunho criminoso que lhe 
querem dar. 

O empregar esforços para derrubar a obra que os padres 
trabalhavam por edificar devia consistir em represálias contra os 
maus conceitos que faziam a respeito delle e dos seus, e em 
reacção contra os esforços que faziam os padres pela extincçáo 
de sua villa, facto este registrado por historiadores do valor de 
F. Gaspar, Brigadeiro Machado de Oliveira e outros. 

Outra conclusão não se pôde tirar das próprias palavras de 
Anchieta : esforços que consistiam em conselhos para que se 
apartassem, deixassem a povoação dos padres. 

O dizerem os Ramalhos que os padres para aqui foram man- 
dados por causa de sua perversidade, nào destoava da linguagem 
usada por estes contra o chefe delles. 

Ainda mais : — si, para o chronista, os mamelucos de Santo 
André, os filhos de Ramalho, são •peiores fructos de uma arvore 
ruim, uma caterva de filhos de m^í casta, mameculos illegithnos 
e desalmados», para Anchieta, que os conhecia de visu, eram 
«CHRiSTÃos nascidos de pae jyortuguez e de mãe brasílica-». Si 
aquelle dá a entender vagamente, insinua aéreamente que o por- 
tuguez abusava da polygamia, e os filhos eram pagãos, este, 
mais digno de credito, mais authentico, diz que os filhos eram 
christãos, nascidos de uma só mãe. 

Si eram os Ramalhos que, auxiliados por seu pae, aconse- 
lhavam os Índios a fugirem ao dominio dos padres, afim de po^ 
derem mais livremente viver, segue-se que Ramalho não os tinha 



(1) 111 Centeoulo de Anchieta, edioçto Ailland & Comp.» pariz. 



— 391 — 

e não os tratava como escravos. Além do mais, fandára, havia 
muitos annos, a povoação que, em 1553, obtivera o foral de villa, 
um anno antes de virem os padres estabelecer-se nos campos 
de Piratininga (S. Paulo); nella, com o auxilio dos Índios e de 
portugaezes, despendera os seus haveres na construcção das for- 
tificações e mais edificios próprios de uma cidade. Era natural, 
portanto, que havendo sido enxotado da egreja pelo P. Leonardo, 
não pudesse ver com bons olhos aquelles que acintosamente mo- 
viam contra a sua villa surda e manhosa guerra, guerra que só 
terminou pela sua extincção em 1560, e, note-se — com o as- 
sentimento então do próprio excommungado, conforme mostrare- 
mos em outro logar. 

A appaiente contradicção que talvez queiram aqui enxergar 
no seu procedimento, lá terá a sua cabal justificação. 

Ainda mais : — o próprio Anchieta, em outra carta escripta 
em 1556 (1), conta que «em a doutrina e solitos exerçiçios, ensi- 
nào-se todos os que vêm á Igreja de sua vontade, aos que kós 
OUTROS TRAZEMOS POR FORÇA bautizão-se OS inocêtes que seus 
pães offrecê dos quaes algus, deixada a morte, se partem a uida. 
E poruentura que esse he o mayor fruyto que desta uinda se 

Soae colher, o qual não hé pequeno, pois que, nascendo como rosas 
e espinhos regenerados pola augua do bautismo, são admittidos 
em as moradas eternas, porque não somête os grandes homôs 
E molheres não dão frui to, não se querendo aplicar afee E dou- 
trina Xpãa, mas ainda os mesmos mochacos que quasi criamos 
a nossos peitos cõ o leite da doutrina Xpãa, depois de serê Jabem 
m&trmàosy segue a seus pais (refere-se aos selvagens) primeiro em 
a habitação E despois em os costumes. Porque os dias passados 
apartando-se algus destes a outras moradas levarão consigo boa 
parte dos moços. E agora a mayor parte dos que ficauão se 
mudou aoutro lugar, onde possa viver livremente como soya aos 
quaes necessariamête âo de imitar os f*". asi diuisos, nô se po- 
dem ensinar nê elles m (mais) o desejão. E ainda não ha quê 
queira ser ensinado, E se muytas uezes não uiessem á Igreja 
algus escravos de Portuguezes que aqui uêe, tocarsehia a cam- 

Êainha pr demais, E não averia nhú dos índios que se ensinasse. 
)emanera que os meninos, que antes aprendião, andão de quaa 
para la, E não somête não aprôdô nada de nono, mas antes per- 
• dem o Ja aprendido ; mas não he isso marauilha pr que quasi 
he natural desses Índios núqua morar em hú Lugar certo, senão 
que, despois de auer aqui uiuido algum tempo, se passão a ou- 
tro lugar, E d*ahi a outro. Algus dos que uiuem Em o Campo 
cm suas fazendas os dias de festa uem as missas». 



(1) Vol. I, fascicalo 2.« dos Annaes da Blbliotheoa Nacional^ 187G-1877, pag. 266. 



— a92 — 

Deste longo trecho transcripto dedazem-se facilmente as 
seguintes conclusões : 

1.*) Os padres da Companhia reconheceram ser necessário 
o emprego da força para que a cathechese tivesse resultados, e 
delia faziam uso ; 

2.^) Por um instincto de liherdade innata, os catechumenos 
eram levados a libertar-se da sujeição ecclesiastica, preferindo 
jKJolherem-se á auctoridade paterna, seguindo os pães em habi- 
tação e costumes; 

3/) Os próprios pães levavam comsigo boa parte dos 
moços ; 

4.*) A maior parte dellea mudava-se para outros legares, 
onde pudesse viver livremente (sob a protecç&o de Ramalho, por 
exemplo) ; 

5.*) O próprio Anchieta disto se não maravilhava; achava 
natural dos selvicolas a vida quasi nómada, inconstante, que 
levavam, mesmo porque a satisfacç&o das necessidades da vida 
quotidiana pela caça e pela pesca a isto os obrigara, os habi- 
tuara... e ainda desta vez coníirmavase o proloquio que diz que 
a habito é uma segunda natureza. 

O mesmo venerável Anchieta, o thaumaturgo da America, 
que tão grandes e inolvidáveis serviços prestou á civilização doe 
Índios, ainda nos fornece material para a rehabilitaçco de Ra- 
malho, rehabilitação que se impõe com a mesma necessidade com 
que a delle foi feita, a despeito daf accusações que lhe foram 
irrogadas pelo mesmo chronista, quando, julgando eleval-o aos 
olhos dos catholicos e recommendal-o á gratidão dos brazileiros, 
fal-o praticar um acto que, com santa simplicidade, qualifica de 
cfina caridade» (1). 

Dizia o thaumaturgo, em carta datada de Abril de 1557, 
depois de referir-se às ameaças que lhes fizera um catechumeno : 
€ E não somête este, mas também outros dos cathecumenos, nos 
ameaçarão com a morte, mas não são para tanto, que perfeiçoem 
taes obras. Nos outros, apparelhados para tudo o que vier, tendo 
ao senhor p.*" defensor, niada tememos, E elle (sic) amansando 
sua ira nos mostrão amor e nos fazem esmolas de seus fruitos. 
A mayor parte destes (como em as passadas disse) fez outras 
moradas não longe daqui, onde aoora vivbim, p.' que ultra de 
elles não se mouerê nada as cousas divinas, persuadi o-se-lhes 
agora Awa diabólica imaginação que esta Igreija he feita para 



(1) E de mn mtdo brilhantíminiA por oooMlfto do len Til centenário. Bm o aota- 
TOl trabalbo do r. p. Amerioo de Noymb flcon exabersoteraente provado <|iie a exeoi- 
çSo de Boles, narrada pelo P. Simfto *i timplttmênfê utna Ugtnda,* Bdiçfto Ailand Ik 
Geapanliia, pag. 104 Iít. 111 n. 116. 



— 898 — 

sua destruição^ em a qual os possamos encerrar. E ahi aijudan* 
donos dos portuguezes matar aos que n&o s&o bautizados, E cu)S 
já bautizados fazer nossos escravos y isto mesmo lhes dizem outros 
Índios § (christàos, segando a copia do Inst. Hist.) que os ensina- 
mos para que a elles, fos. e molhares façamos cativos. E são eUes 
de tal naturaleza E condição qtte mais crêe a qualquer mentira 
dos seus, que a quãto lhes pregamos E se lhes diz isto algú de 
seus feiticeiros a que chamão Puges^ nhâa cousa tem pr, viai» 
verdadeira ainda qae destes nhú ousa uir aqui senão ocultamôte 
porque os reprendemos mny grauemête. Polo sertão auda agora 
hn ao qual tf)dfjs segue E uenerão como ahil grande santo E 
dão- lhe quãto tem, por que, se isto não fazem, crêem que elle cõ 
seus spâ {espíritos) os matara logo* (1). 

De todo este aranzel, que, antes de tudo, faz resaltar a 
solicitude com que Anchieta se dedicava a christianização dos 
selvagens, sobresáe não só a mais cathegorica prova da innocen- 
cia do velho portuguez, como a mais evidente suspeição e apai- 
xonada parcialidade dos que o accusavam. Não podemos, en* 
tretanto, deixar de fiazer-ihe alguns commentarios, para qae 
melhor se esclareça o assumpto, e mais patente âque a adulte- 
ração dos factos feita pelo padre Simão, ainda que também se 
evidencie a suspeição do venerável thaumaturgo, aliás muito 
natural em quem também era parte nos acontecimentos. 

Assim, Anchieta, no trecho acima citado, conta-nos que o 
ódio que animava o espirito dos selvagens era insuflado pela 
maior parte de seus próprios discípulos, persuadidos de uma dia- 
bólica imaginação ; diz-nos que essa maior parte fez outras 
MORADAS Tião longe do collegio, onde agora vivem ; srarante-noa 
qae esse ódio era fomentado por outros índios ; narra nos que 
são os feiticeiros ou pagés que os seduzem, aos quaes veneram 
como a grandes santos a cujos espíritos (conselhos) devem obe^^ 
diencia sob pena de morte. 

Ora, já não é Ramalho que os insufla, nem estas outras 
moradas eram Santo André que, havia já muitos annos, existia. 

Logo, como conciliarem-se estas narrativas tão naturaes, ve- 
rosímeis e incontestáveis, com as lendas das guerras dos Rama- 
lhos contra os padres, narradas pelo padre Simão? (2) 

Os ccontinuos esforços» e «nefandos conselhos» de que nos 
fala Anchieta, perdem inteiramente a sua importância crind- 
Bosa, deante das narrativas do próprio thaumaturgo. O que pro- 
va qae si este era um homem sujeito á paixão e ao erro, do- 
minava-o, acima de tudo, a máxima sinceridade e boa fé. 

(I) kf^^BM d» Blbllot NftCtoaaU V. 1 hMO. 2.o. 1876-1677, pag. 271. 
i2) ChroDfeft— s. 101. 



— 394 — 

Si os Índios, mais por temor que por amor, se faziam cbrls- 
tãos, nào admira que fossem tratados como escravos pelos pa- 
dres, embora a dureza do trato, (bárbaro muitas vezes entre os 
portuguezes) fosse suavizada nos seus estabelecimentos pela do- 
çura do doutrinamento cbristão. 

A antipathia pelo alcaide-mór de Santo André, por meio de 
um modo se explica: Os padres precisavam «repreender os Ín- 
dios e Pagés muy gravemente», para poderem obter delles a 
mesma norma de conducta que entre si usavam — a obediência, 
passiva. . embora forçada. O nosso bomem, ao contrario, n&o 
sendo padre, não tinha obrigação de catechisal-os, e, morando 
nesta terra, havia cerca de quarenta annos, contentava-se em 
exercer real e efficaz influencia sobre mais de cinco mil índios, 
pela brandura de seu coração, accrescida pela convivência de 
tantos annos no seio de uma sociedade onde havia constituído 
família. Não gosaria de tão grande influencia sobre elles si os 
houvera tratado barbaramente. Quando assim fosse, era natural 
que dessem preferencia á convivência dos padres em S. Paulo. 

E de como o que affirmamos é a expressão da verdade histó- 
rica convencer-se-á o mais recalcitrante lendo o que em carta a 
S. Ignacio escrevia o padre Nóbrega em 1554 : que o collegío 
de S. Paulo estava « pei-to da villa de Santo André, que é de 
christãos e todos os christãos desejam ir allí viver, si lhes des- 
sem licença : alli foi a primeira povoação de christãos que nesta 
terra houve em tempo de Martim Affonso, e vieram a viver ao 
mar por razão dos navios, do que agora todos se arrependem». 

Não censuramos aos padres pelo facto de conservarem os 
índios ãob seu poder a titulo de administrados, quando não pas- 
savam de verdadeiros escravos, não só porque a escravização 
constituía uma verdadeira necessidade histórica, como meio in- 
dispensável de civilização, como porque o regimen usado, diver- 
so do dos colonos, era o mais humano possível. Isto, porém, 
não obsta que o processo de catechese usado por elles encon- 
contrasse da parte dos catechumenos vehementes repulsas. A 
aversão que então sentiam, manifestavam-n'a aos pães e aos da 
tribu a que pertenciam. Dahi as guerras que moviam contra o 
Collegío e c% preferencia que manifestavam pela villa de Santo 
André. 

A lucta^ portanto, entre os Ramalhos ( que não podiam ver 
com bons olhos a nova povoação de S. Paulo ) e os padres da 
Companhia (que não podiam tolerar que S. André prosperasse 
em distancia que não era permittída por disposição régia) , se- 
guia o seu natural curso de intrigas e desconfianças reciprocas: 



— 395 — 

muito longe, porém, estava das proporções boUicosas que llie 
queria emprestar o celebre chronista. 

Em contraposição á sua ramalhophobia, daremos mais uma 
prova da sua parcialidade cntétée^ pondo em parallelo as narra- 
tivas feitas por elle e pelo venerável Anchieta sobre um mesmo 
facto. 

Lê-se na cbronica : 

cA terceira perseguição foi de guerra ( A primeira foi a 
peste, a segunda o ódio... dos Kamalhos). Esta excitou, ou o es- 
pirito infernal, ou o daquelles mesmos mamelucos ; de qual na- 
cesse iião ha noticia certa. O certo é que se accendeu entre os 
Índios moradores de Piratininga e seus comarcões; e que estes, 
feitos em um corpo, vieram accommettel-os. Sahiram contra elles 
os pirapitininganos armados de seus arcos e frechas (Note-se de 
passagem — não eram somente os Eamalhos que usavam de taes 
armas) e não menos de confiança em Deus, a quem já conhe- 
ciam, porque eram christuos ou catechumenos, grande parte 
delles. Porém, chegados á vista do inimigo, entraram em pavor 
e desconfiança de acommetter uma tão grande multidão de gen- 
te, qual nunca tinha imaginado . Esta desconfiança notou a mu- 
lher do capitão-mór de todos (a sogra de Ramalho), a qual, se- 
gundo o costume antigo desta gente, ia ao lado do mai'ido : e era 
baptisada, grande christan e de animo varonil; e virando-se aos 
soldados receiosos, os animou e lhes disse assim: Que cobardia 
é esta! ó soldados! Não vos lembrais que pelejamos já da parte 
de Christo, e como pessoas pertencentes ao céo? E que estes 
que vedes são gentios, tragadores de carne humana? (Os ma- 
melucos de Santo André, segundo esta narrativa, comiam carne 
humana !...j Fazei todos aquelle signal que os padres vos tem 
ensignado, da Santa Cruz; e, com elles confiados, acommettei; 
que o Deus, que seguimos, nos ha de dar victoria contra estes 
pagãos» (1). 

Agora a narrativa de Anchieta: 

« Estos Índios tienê (Positivamente não são ... os mesmos ma- 
melucos) grandíssimas guerras entre si, utioã naciones cõ otras, 
(O padre Simão entendeu, escrevendo cem annos depois, que, 
si não era o espirito infernal, deviam ser os mesmos) lo que es 
comúr em toda la índia dei Brasil y d'spues que aqui estamos 
fíieró ala guerra, y un dia antes dela batalla (E' o mesmo ata- 
que a S. Paulo, de que fala a chronica) hizieron una cabana 
aegu su costúbre, donde pusierõ una calabaça hecha ai modo de 
rostro humano, ataviada con plumas ; los hechizeros que hazê 



(1) L. I, D. 162. 



— 396 — 

esto llamft Fagés para sacrificarle y pergantarle dei successo dela 
guerra etc.» íl). 

Segue a descri pção, já daqui em deante mais ou menos 
idêntica á da chronica, do episodio da intervenção benéfica da 
mulher de Tebiriçá. Deixamos de transcrevel-a por ser mui 
longa. O que ahi fica ó o suficiente para se fazer uma ideada 
imparcialidade do padre Simào de Vasconcellos quando se refere 
ao velho alcaide-mór de Santo André. 

Nesta obra de caridade e justiça, qual a da rehabilitaçfto 
da memoria de um antepassado, ao profligarmos os erros, ta 
inadvertências de protagonistas comparsas no mesmo drama, so- 
.mos obrigados, obedecendo aos mesmos dictames que nos impul- 
sionaram até aqui, a coUocar acima de tudo o amor da verdade. 

E*, pois, com satisfacção que aqui deixamos consignado : Na 
perseguiçào feita pelos padres da companhia ao portuguez, não 
os movia nenhum sentimento baixo ou vil; os seus actos alme- 
javam sempre a propagação da fé, e, para attingir este fim, não 
escolhiam os meios : eis a justificativa que os salva aos olhoB 
da Christandade. 

Aos olhos, também, da Historia, si taes meios não merecem 
louvores, são, entretanto, relevados, porque o fim que tiveram 
na escolha de melhor local para o estabelecimento da villa ser- 
taneja que devia servir de ponto ao mesmo tempo de resisten- 
•cia aos ataques dos selvagens, e de irradiação para a conquista 
do interíor do paiz, talvez houvesse fracassado si se tivessem 
concentrado na desabrigada povoação de S. André. 

E ao abandonar temporariament-e a celebre chronica, não 
podemos deixar de dizer delia o que da Cyropedia de Xeno- 
phonte diz hoje a opinião unanime dos historiadores : o seu ao- 
t^tor tanto desdenhou a verdade, que a sua Historia de Ramalho 
•não passa de um romance moral (2). E paraphraseando o dr. 
Pedro Lessa: o tal auctor, quanto á fidelidade da exposição, na 
chronica, imitou o pae da historia com fabulas e lendas entre- 
tecidas de factos, compoz os seus qtiatro livros, consagrados á 
glorificação da Gompanaia, e que mais se assemelham aos cantos 
Áe uma epopéa do que aos capitules de uma historia. 

De tudo quanto dissemos na analyse critica das accusações 
feitas pelo padre Simão de Vasconcellos e pelos historiadores que 
lhe seguiram as pegadas, « ao patriarcha de todas as actuaes 
familias da nobreza paulista» na phrase do competente dr. Lais 
Gonzaga da Silva Leme, resulta que ellas são falsas, porqna 
são apaixonadas, suspeitas, parciaes e contradictorias. 

(1) AnuMS da Bib. NaoioaaU vol. Ill, fase 2.« 1877-1887. 

(2) Dr. Pedro Lessa -B' a historia uma soiencia ? opnsciilo, paginas 5 e 6. 



— 397 — 

Taes imputações gào contrarias pois, á verdade histórica. 
E do que adeante expuzermos, virá ainda mais a confirmação 
da opinião que sustentamos. 

III 

FOI POLYGAMO? 

E, facto attestado por qnasi todos os historiadores, e hoje, 
ponto incontroverso da historia pátria, que esta victima da in- 
gratidão dos homens e da maledicência de seus inimigos gra- 
tuitos viveu maritalmente com uma das filhas do régulo Tebi- 
liçá, desde o tempo em que aportou a S. Vicente. Também é 
fitcto, que aqui deixaremos comprovado cabalmente, que esta união 
que, até á chegada de Martim AfPonso, em 1532, era legitimada 
pela única auctoridade então capaz de fazel-o, a de pae e rei 
exercida num meio selvagem, o fora novamente, aos olhos da 
sociedade nascente, com a celebração das cerimonias religiosas da 
egreja. 

Um dos mais illustres historiadores pátrios, o teuto-paulista 
Yamhagen, assevera, baseado não se sabe em que documentos, 
que Ramalho « abusava da polygamia » em Piratininga (1). 

Em contraposição a esta accusação surge a lógica dos factos ; 
não conjecturamos. Para ter o velho portuguez usado e abusado 
da polygamia, como pretendem os seus detractores, seria neces- 
sário que o facto fosse materialmente possivel, dada a organiza- 
ção civil de uma sociedade de costumes simples, mas severos, qual 
a da tribu que o acolhera em seu seio 

Ora, além do valioso testemunho do douto general Couto de 
Magalhães que, no seu clássico livro — O selvagem — (2), de- 
monstra que os antigos chronistas foram exaggerados e até mes- 
mo fiftlsos quando davam a polygamia como instituição reconhe- 
cida entre os indígenas do Brasil, ainda temos o do venerável 
Anchieta e de Hans Staden, que nos dão noticias authenticas 
sobre o rigor da moral observada pelos selvagens, com relação 
aoB limites impostos a tal instituição. 

« Em muitas viagens, diz o general C. Magalhães, tenho já 
estado em mais de cem aldêas selvagens ... De minhas obser- 
vações tem resultado sempre — que na familia indigena existem : 



Uí 



de Porto Begnro—Hittorift de Bnwil, V. I, pag. 307. 



— O padre Sfanfo de VMOoooelloi nu tau — Notidu sobre ootaat do Bnuil— 
dis, por exemplo» que os Índios «tr-mam muita» mulheres; e oo«o entre ellet nfo le 
Irmta de dote, cuidam qae faiem muita graça em casarem com eUasn Mfto noa dii, po- 
Him, em qae tribo encontroa este costome. 



— 398 — 

desde as instituições rigidas e de unia severidade de costumes 
que excedem a tudo quanto a historia nos refere, até a commu- 
nhão das mulheres. Refiro-me ao indio que nào está catecbiza- 
do ». E accrescenta — « Ntlo se entende por communismo de 
mulberes, alguma coisa semelhante á prostituição... naquellas 
mesmas tribus onde ba esse communismo as prostitutas sào tidas 
em grau de desprezo ». 

Confirmando esta rigidez de instituições o severidade de 
costumes com relação ás tribus dos arredores de Piratininga, o 
venerável Anchieta nos narra o facto do nascimento de « uma 
creancinha monstro, que o pae mandou enterrar viva, assim que 
nasceu ; porque com esse género de morte castigam também os 
que julgam terem sido concebidos em adultério (1) » ; e Hans 
Staden que, como prisioneiro, viveu entre os Tamxjyos cerca de 
dez mezes, attesta que « a maior parte delles têm uma só mu- 
lher ; alguns têm mais (naturalmente caciques de 2.° grau) ; mas 
alguns dos seus reis têm XIII ou XIV mulheres » (2). 

Chegando a idênticos resultados em suas eruditas investi- 
gações, o illustre dr. João Mendes também nos ensina que ca 
polygamia era uma pratica limitada a alguns principaes ou ca- 
ciques; os mais da aldéa, ou da nação, eram obrigados á mo- 
nogamia ; e esta lei se cumpria á risca», e nota que mais de 
uma vez o padre José de Moraes assignala este privilegio dos 
principaes, na Historia da Companhia de Jesus na extincta pro- 
vincia do Maranhão e Pará» (3). 

A narração uniforme dos costumes domésticos das tribus em 
geral vem confirmar aquillo que íacilmente se deprehende das 
noticias que os chronistas nos transmittiram da morigeraçào dos 
costumes do gentio guayaná. 

Assim é que o próprio Tebiriçá que, como cacique, tinha o 
direito, segundo os costumes de muitas tribus selvagens, de 
possuir muitas mulheres, delle nos contam as chronicas e cartas 
dos padres da Companhia que era casado com uma só mulher, 
e nada dizem si antes de entrar para o grémio da egreja fora 
polygamo. Também sào todos accordes em affirmar que Ramalho 
e António Rodrigues viviam maritalmente com as filhas dos 
régulos, cujo nomes são conhecidos, 

O auctor das Notas Genealógicas chega a avançar a proposi- 
ção de que Ramalho sempre foi monogamo, até que, com a or- 
ganização da colónia, os costumes se depravaram ao ponto de 



(\) Ediçfto Commomorativa do 4.o Centenário— Carta tradozida pelo profesaor Jo&o 
Vieira de Almeida, pag. 49. 

(2) Idem, idem, pag. 129. 

(3) Notas Genealógicas pag. loO. 



— 899 — 

serem os próprios ecclesiasticos os modelos no desregramento 
geral (1). 

Consignemos já aqui, e gostosamente, esta confissão de 
que elle foi um exemplar chefe de família, emquanto, sem a 
coparticipaçâo de christãos europeus, viveu no seio da tribu 
guayaná. Ora, quando Martim Affonso foi recebido por elle, já 
o encontrou com filhos casados (2). 

Era, portanto, em 1532, um homem mais que maduro, de 
cincoenta annos approximadamente, sinão mais. 

Em 1568, no dizer do padre Balthazar Fernandes, tinha 
elle «quasi cem annos». Sendo eleito vereador em 1564, recu- 
sou, allegando ter mais de 78 annos ; estaria com quasi 80 ânuos, 
ou mais . Na época, pois, da vinda dos primeiros padres da Com- 
panhia, em 1549, já devia ser um homem velho, de 60 a 70 
annos, edade em que o instincto da conservação da espécie já 
teria nelle desapparecido, ou, pelo menos, já havia passado a 
época das paixões desordenadas. Argumentamos com factos e da- 
tas que não podem soffrer contestação. 

Fr. Gaspar affirma que o testamento de Ramalho trazia a 
data de 1580 e que nelle attestava o alcaide-mór ter «cerca de 
90 annos de assistência nesta terra». O f. Bathazar Fernandes 
assevera que «o miserável velho» em 1568 tmha < quasi cem 
annos » . Em 1492, si não houvesse exaggero ou engano nestas 
informações, devia contar cerca de 20 annos, e não sería absur- 
do que em 1580 pudesse contar 110 ou 115 annos. Não seria 
o nnico que com essa edade pôde viver na colónia. 

Conta o P. Simão (L. I n. 76) que o P. Leonardo conver- 
tera na Capitania de S. Vicente a um velho que «com ceiito 
e tantos annos de edade passou a melhor vida »... Parece-nos, 
entretanto, muito mais acceitavel a versão de que a affirmativa 
de Fr. Gaspar fosse consequência de algum engano ; porque em 
1564, sendo Kamalho eleito vereador, recusou-se, allegando ter 
mais de 78 annos, conforme consta de documento existente no 
Archivo da Camará de S* Paulo (3). Isto está de accôrdo com o 
que se vê declarado na carta de sesmaria de Ruy Pinto e com 
as noticias deixadas pelos padres da Companhia* 

Todos estes dados servem, outrosim, para corroborar a opi- 
nião de que devera ter vindo na armada de Gonçalo Coelho. 



(1) Pag. 310 e note i pag. 311 

(2) Carta de sesmaria concedida a Ramalho, segnndo Pedro Taques. 

(3) Joio Ubkdes imaOR—Xunieipio dê H. Paulo, pag. 14.. 



— 400 — 

Si Ramalbo, conseguintemente, não podia ter sido polygamo 
durante o tempo era que viveu isolado ae seus patrícios no seio 
da famiiia guayaná, porque forçoso lhe era observar com todo 
o rígor a pureza dos costumes delia, sob pena de so£Erer as con- 
sequências de um proceder incori ecto ; por outro lado, no tempo 
da sua convivência com os padres da Companhia, já nào podia 
levar uma vida licenciosa, que exigisse medida repressiva t&o 
aviltante como seja a excommunhão. 

A asserveraç&o do dr. João Mendes de que Ramalho «só 
depois da chegada de Martim Affonso de Souza a Pirátininga 
foi que animmi^se a ter mais de uma mulher, nào passa de 
conjectura é simplesmente gratuita e isenta de base. O proprío 
padre Simão de Vasconcellos, que maiores accusações, em forma 
ambigua e obscura, lançou contra elle, nào chega a affirmarque 
fosse « amancebado — com muitas mulheres ; qualifica-o de 
amancebado publico por quasi 40 annos, e em geral por esta 
causa excommungado » ; mas, si a mancebia consiste na cohabi- 
taçào com uma só mulher, segue-se que não o accusou de po- 
lygamia, aberta e claramente. 

Em consequência do que vamos expor ficará cada vez mais 
evidente que o velho alcaide-mór foi victima de uma injustiça 
dos contempomeos, que deu logar á meledicencia dos pósteros. 

Suppouhamos, por hypothese, qae pudesse dar-se a polygar 
mia, porque, como genro de Tibiriça, poderia ser classificado 
entre os principaes, que em algumas tribus gosam desse privi- 
legio. Q,uid inde ? 

Neste caso, si foi polygamo, o foi ... porque o devia ser. 

Não tendo feito votos de castidade, soffiTOU a infiaeHeia do 
meio selvagem e observava os costumes, ou, podíamos mais 
acertadamente dizer, as leis da sociedade em cujo seio vivia. B 
si era judeu, como erradamente pretendem algims, n&o infringia 
as leis de Moyses, exercendo a polygam&a. Patnarcha, nesta 
hypothese, da famiiia paulista, nào procederia de modo diversa 
de seus longinquos antepassados, obedecendo, qual outro Abrah&o, 
ao preceito biblico : — crescite et multípUcaminL 

E, entretanto, a malévola affirmaçào de que foi polvgamo 
é tão faha como inveridica é a hypothese de que era judeu . 

Na própria obra do historiador que o accusou de abusar da 
polygamia vamos encontrar elementos para justificar a con- 
ducta do nobre portuguez, antes de prestar a sua mão forte ao 
estabelecimento e defesa da nova colónia. 

Assim, si fosse verdeira aquella aecnsação, mesmo depois de 



— 401 — 

celebrado o seu casamento religioso com Bartira ou Mbycy, n&o 
£uria mais que acompanhar aquelles que deviam dar o bom 
exemplo. E assim que o insuspeito padre Nóbrega e o gover- 
nador geral «instavam com o governo da metrópole pela vinda 
de um bispo, para consagrar óleos e chrismar, ou pelo menos de 
um vigário geral, para castigar e emendar muitos abusos dos sa- 
cerdotes, que seguiam em todas as capitanias, vivendo escanda- 
losamente amancebados. 

« Os seculares, dizia Nóbrega com toda a r^&z{lo, tomam o 
exemplo dos sacerdotes, e os gentios o de todos. Da própria 
capitania de Pernambuco, apezar dos esforços do donatário, qae 
ora por velbo pouco mandava, diz elle que alH viviam mui 
seguramente nos peccados de iodo o género, e tinham o pecca- 
do por lei e costume, e que entre os ecclesiasticos se fazia mui- 
to mais escandaloso» (1). 

Si o peccado n&o era lei somente entre os guaynás; si antes, 
ao contrario, o exemplo partia de sacerdotes, de ministros de Deus, 
sujeitos ao celibato, e que, apezar disso, faziam do peccado de 
todo o género lei e costume, com muito maior escândalo, porque 
fazer-se carga contra um ancião, venerável pela sua grandeza de 
alma, quando de braços abertos recebera a Martim Affòuso, ser- 
vindo ao mesmo tempo de mediador e protector da gente lusitana ? 

A verdade, porém, está com a quasi totalidade dos historia- 
dores que affirmaji que Ramalho se casara com Bartira, filha do 
cacique da aldeia de Inhàpuambuçú (2). 

Yamhagen, depois de nos contar que foi a aldôia de Pira- 
tininga, cujo nome Ramalho depois mudou para o de S. André, 
que M. Affonso escolheu para fundar a colónia ou villa serta- 
neja cujo governo militar confiou a João Ramalho, com o pom- 
poso titulo de guarda-mór do campo, accrescenta: « Ouçamos 
agora o que nos diz Pêro Lopes de Souza, testemunha de 
vista, durante os primeiros quatro mezes de vida das ditas coló- 
nias : Repartiu o capitão-mor a gente nestas duas villas (S . 
T^icente e Piratininga) e fez nellas officiaes; e poz tudo em boa 
ordem de justiça ; do que a gente toda tomou muita consolação 
por verem povoar villas e ter leis e sacrifícios, celebrar matri^ 
monios e viver em communicaçào das artes ; e ser cada um 



(\) V. Porto Seguro, obra cit. V. I. pags. 246 e 257. 

(2) Dicoionario Geo. e Hitt de Milliet de Saíat Adolplie. rol. I, pag. 508 ; Constoncio. 
pagr. I0'>: Sonthey, rol. I. piig.62; Abreu e Lia», pag. 29-, padre R. Oaiaotl, Líç6e« de HIat. 
do Braiil. pag. 9; Américo Brasilienae, pag 8 ; Machado de Oliveira. Qaadro HUt, pag. 
12; Ax. Marqme-, ApootameoUx HUt; Fr. Gavpar d« Sfadre Ueaa, Memnriaa, § 49 : Ee- 
««elianip, rol. l.s pag. 118. 



— 402 — 

senhor do seu; e investir as injurias particulares; e ter todos os 
outros bens da vida segura e conversavel» (1). 

Desta pittoresca noticia resulta que devia haver egreja em 
S. André, ou, ao menos, uma casa quo servisse para cas cerimo— 
nias dos sacrifícios religiosos, como para a celebração dos ma- 
trimónios»; seria o que chamamos, hoje, uma capella, ou santa 
cruz. E si se celebraram matrimónios com consolaç&o de toda a 
gente, como duvidar que o guarda-mór de Piratininga se hou- 
vesse casado com Bartira á face da egreja? Nào trouxera M. 
Affonso sacerdotes comsigo ? Nào deixara como viprario da ca- 
pitania a Gonçalo Monteiro, seu primeiro loco-tenente ? 

'Attendendo-se ao espirito religioso do donatorio, que tocava 
ás raias do fanatismo intolerante (de que deu provas na índia) 
(2), tona elle nomeado a João Ramalho guarda-mór do campo 
sem que este primeiro desse o exemplo de obediência ás pre- 
scripçòes da egreja, fazendo celebrar o seu casamento religioso 
com a filha de Tebiriçá? Note-se que esta celebração seria ape- 
nas uma exigência supérflua por parte do donatário, porque, em 
face da moral theologica, essa união era considerada pela egreja 
como casamento clandestino, mas valido, «embora sempre o de- 
testasse . » 

O padre Simão de Vasconcellos, usando da expressão «ainan- 
cebado publico por quasi 40 annos», não só falseou a historia, 
como se esqueceu de que a egreja, antes do concilio de Trento, 
admittia a legitimidade dos casamentos denominados clandesti- 
nos. Este concilio, aberto em Trento em 1545, depois de varias 
interrupções, encerrou-se em 1563, e talvez antes de 1510 já 
havia Eamalho celebrado o seu casamento com a sancção da 
única auctoridade capaz de fazel-o. 

« Matrimonio clandestino, diz o padre Gury, é o que se con- 
trae sem a solemuidade requerida pela egreja, sem assistência 
do parocho e pelo menos duas testemunhas» (3). Mesmo depois 
da publicação das resoluções do concilio, o c^isamento clandes- 
tino é considerado valido «onde essa publicação foi omittida, 
quer culpável, quer inculpavelmente, porque nesses togares eram 
vcdidos antes do concilio^ c, nesta mesma condição devem ser ahi 
considerados, como eram antes, como se vê do mesmo decreto 
do concilio, que fere com anathema os que negam o seu valory 
eraquanto a egreja os não irritar». Ora, precisamos ter em vista 
o seguinte : a) Tebiriçá celebrara o casamento clandestino de 



(1) V. de Porro Be^nro, v. I. p»g. 186. 
(9) 0. Martins- Hift de Portngal. 

<3) Theologia Moral— Tradncçáo do presbytero Joaquim Paes Sobral, Tice-reitor do 
somiiario de Visea, tomo 1I« y. IV, pag. 157. 



— 403 — 

Bua filha com João Ramalbo 40 ou 50 annos antes das resolu- 
ções do concilio de Trento ; b) não consta que taes resoluções 
pudessem ter effeito retroactivo ; c) nâo podendo vigorar no 
seio das tribus indigenas, a própria egreja sempre considerou 
validos estes casamentos, e ainda boje os considera. 

Si, pois, Ramalho foi excommungado pelo facto de viver 
cerca de 40 annos «amancebado» com a filha de Tebiriça, no di- 
zer do padre Simão, é lógico concluir que foram summamente 
injustos para com elle, porque a sua união era legitimada pela pró- 
pria lei da egreja. 

Voltemos, porém, ao facto da celebração de matrimónios do 
que nos fala Pêro Lopes. 

Quaes seriam os outros portuguezes, além de João Rama- 
lho e António Rodrigues, que estariam promptos a casar religi- 
osamente com mulheres selvagens ? Não é mais natural que 
houvesse certa prevenção, por parte dos portuguezes recemvin- 
dos, em se unirem perpetuamente com mulheres cujos costumes 
e lingua ignoravam? I)a armada de M. Affonso o único que 
veiu casado e com mulher foi João Gonçalves, facto que depois 
aliegou, como serviço especial, para obter sesmarias de terra (1). 

E, caso 08 portuguezes deliberassem casar com as bellas 
moçoilas brazilicas, tão «fermosas, que não hão nenhua inveja 
ás da rua nova de Lisboa», no dizer de Pêro Lopes, estas não 
se sentiriam tomadas de desconfiança, si acaso Ramalho se es- 
quivasse a dar-lhes o exemplo ? Mas, não ! A duvida que pode- 
ria pairar sobre o nosso espirito, pela leitura de Vamhagen 
e Cândido Mendes (2), é inteiramente dissipada pelas narra- 
tivas feitas por Pedro Taques e frei Gaspar do Madre Deus, e 
comprovada pela transcripção que fizemos do tredho da noticia 
dada por Pêro Lopes. 

Na sua Historia da Capitania de S. Vicente, diz o mais 
laborioso e um dos mais conscienciosos historiadores pátrios, 
Pedro Taques : «Fundadas as villas de S. Vicente e do Porto 
de Santos, João Ramalho, homem nohre^ de espirito guerreiro 
e valor intrépido, que já muitos annos antes de vir Martim 
Affonso de Souza a fundar a villa de S. Vicente em 1531, 
como fica referido, tinha vindo ao Brazil, e ficando na praia 
de Santos, e tendo sido achado pelos pirapitininganog, o trouxe- 
ram a seu rei Tebiriça, que por provid^encia de Deus se agradou 
delle e lhe deu sua filha, que depois se chamou no baptis- 
mo Lsabel, e quando Martim Affonso de Souza chegou a S. 



(U Pr. GMper — § 63. 

(2) Rev. Trimensal do Inst. Hist. Brasileiro do Rio de Janeiro, t. 40, pag. 243. 



— 404 — 

Ticente lhe foi falar o dito João Bamalho, e já com filhos ca- 
Bados, o qtis tudo assim consta de uma sesmaria que o dito Mar* 
tim Afionso concedeu ao dito Joào Eamalho em 1531 na ilha do 
Guaihe (S. Amaro)» (1). 

Do documento a que se refere Pedro Taques se infere o 
seguinte: 

A) Joào Bamalho veiu ao Brazil por um impulso próprio 
de seu espirito guerreiro e valor intrépido, predicados estes que 
caracterizavam a nohreza de Portugal no grande século de suas 
glorias immorredoiras. E isto está de accordo cora a ahalisada 
opinião do dr. Theodoro Sampaio. Si fosse naufrago ou desterra- 
do, circumstancias que jamais se apagam da memoria elle as 
teria narrado aos contemporâneos, e estes, por sua vez, as teriam 
transmittido aos pósteros. 

B) Vivia maritalmente com a filha de Tebiriça, havia tantos 
annos, que, quando Martim Aflonso o encontrou em S. Vicente, 
já tinha filhos casados, segundo os costumes da tiibu a que 
pertenciam. 

O) A mulher com quem Ramalho vivia maritalmente foi 
haptisada, depois da chegada de Martim Afibnso, com o nome 
de Izabel, por algum sacerdote da comitiva do donatário. 

Ora, si ella foi então baptisada, si no dizer de Pêro Lopes 
«toda gente tomou muita consolação por verem celebrar matri-- 
monioSy e ter leis, sacrifícios, etc», forçosamente não se limitou 
a ser somente baptisada, deveria ter consentido na celebração do 
casamento religioso, embora dispensável, couh) já vimos. Outros 
não poderiam ser os matrinK)nios que então tiveram logar. 

Quando não bastasse a força probateria da — sesmaria—* 
concedida a Ramalho, outras razões ainda viriam fortalecer esta 
nossa convicção. 

Si a filha de Tebiriça foi baptisada com o nome de Izabel, 
este facto só poderia ter logar antes que o guarda-mór tivesse 
a desdita de ser anathematizado pelo padre Leonardo Nunes. 

Antes da chegada a S. Vicente aa primeira lé^a de padres 
da Companhia, de que este fazia parte, não consta que outros 
qnaesquer tivessem vindo a esta capitania. 

O seu baptismo e casamento, pois, só poderiam ter sido 
celebrados pelo loco-tenente, o vigário Gonçalo Monteiro. 

Com estes mesmos fundamentos, e seguindo idêntico rácio— 
cinio, folgamos em reconhecer que já antes de nós, e sem que o 
soubéssemos, o iilustre dr. João Mendes de Almeida havia chegado 
ás mesmas conclusões, com relação a António Rodrigues (2). 

(1) Idem. V. IX. 

(2) Algamas NotM Oeoealo^eM, pag. 35 e nota i pa;. 368. 



— 405 — 

Só por equivoco ou mal informado poderia Pedro Taqueft 
escrever que a filha de Piquiroby, que ee casara com este, fôra 
baptisada pelo padre Anchieta, com o nome de Antónia. 

Como muito bem observa o dr. João Mendes — «o padre José 
de Anchieta, confrontados os tempos, não podia ter administrado 
o baptismo á filha de Piquiroby; a não admittir-se que ella 
estivesse á espera de que o grande thaumaturgo se habilitasse 
a administral-o. O padre José de Anchieta nasceu em Tene- 
riffe a 7 de Abril de 1534 ; ainda em 1560, quando foi destinado 
ao apostólico ministério das missões em S. Paulo, não tinha 
todas as ordens sacras, pois que, só em 1566, as foi receber na 
Bahia, das mãos do segundo bispo do Brazil, d. Pedro Leitão. . . 
Só d. Mécia Fernandes, neta de António Rodrigues, poderia ter 
sido baptisada pelo padre José de Anchieta» (1). 

Três annos antes do nascimento do tbaumaturgo já haviam 
João Kamalho e António Rodrigues sido encontrados por M. 
Affonso, vivendo maritalmente com as filhas dos régulos de Pi- 
ratininga. Não é crivei que ambos esperassem mais de trinta 
annos para que seus consórcios fossem celebrados conforme o 
ritual catholico. Demais, devemos crer na palavra de Pedro 
Taques quando nos diz que— da sesmaria passada por M. Affonso 
em 1531, em favor de Ramalho, consta que a mulher deste fôra 
então baptisada com o nome de Izabel. E já agora precisamos 
ponderar que, posto devessem ser considerados validos os con- 
sórcios de ambos os portuguezes, por serem verdadeiros casamen- 
tos clandestinos, era natural que, como catholicos, os desejassem 
Vêr sanccionados pela egreja. 

A verdade que sobresai da narrativa do genealogo paulista, 
tundada num documento diplomático, é ainda comprovada por 
um outro documento, de não pequeno valor, encontrado em Itú, 
que traz a data de 1613. As cnronicas do padre Simão, escri- 
ptas mais de meio século depois, não têm o mesmo valor, não 
merecem o mesmo grau de authenticidade. 

O notável brazileiro adoptivo dr. Ricardo Gumbleton 
Daunt offereceu uma copia delle ao Instituto Histórico do Rio 
de Janeiro, fazendo-a acompanhar de uma carta preciosa. 

Dirigindo-se naturalmente ao secretario do Instituto, dizia : 
«Junto V. exc. encontrará a copia que, ha mais de trinta annos, 
mandei fazer em Itú, de um manuscripto que trazia data de 
1613, que foi redigido por um desconhecido genealogo, com o 
fim de guardar noticias de alguns dos primeiros cruzamentos 
dos europeus com mulheres indígenas. Não enviei logo esta 



(1) Idem. NoU a pag. 389. 



— 406 — 

copia ao Instituto, porque, ficando por este papel demonstrado 
que algumas famílias, hoje mui importantes, não quereriam saber 
si entre suas avós tinham de contar uma tapnya resgatada, pois 
todos querem descender só de filhos caciques. Entretanto, o 
documento é t&o interessante e minha edade tão avançada (ca- 
minho para 69) que sinto seria pena cu morrer e o documento 
se perder. Não me lembro quem me proporcionou vista do ori- 
ginal, mas de sua authenticidade e antiguidade nenhuma duvida 
Sode haver; devido a estragos de edade do papel alguns nomes 
e indivíduos e aldeias estavam indecifráveis ; ás faltas no as-- 
sento do casamento de João Ramalho posso supprir ; appellando 
para tradições, e mesmo por um papel que já vi, o nome da 
mulher de João Eamalho, em paj^So, era Mbycy ; haptisando-se, 
tomou o nome de Isabel e appellido Dias, por amisade a seu 
cunhado Pedro Dias. O sogro de Joào Ramalho todos sabem 
que foi o Tebiriçá, e o assento {melhor conservado) de Pedro 
Dias mostra que a aldeia de que era cacique se chamava Inba- 
puambuçú; Pedro Dias foi leigo da Companhia de Jesus, e nào 
podia casar ; mas foi tal a sympathia que o gentio lhe votava, 
e tal a insistência de Tebiriçá de tel-o por genro, que elle, 
obtida a precisa licença, casou-se com a princeza Terebé, que 
foi baptisada Maria e tomou o appellido de 6ran, pelo respeito 
que votava ao padre da Compannia Luiz da Gran». 

O documento a que se refere o dr. Ricardo reza assim ; 

cExplicaçào da geração de Pedro Affonso — Da povoação 
«de S. André, donde povoaram a de S. Paulo que primeiro tive- 
«ram os homens que vieram povoar, os quaes casaram nas al- 
cdêias com as filhas dos principaes. 

«Domingos Luiz Grou, Pedro Affonso, Gaspar Affonso, Braz 
«Gonçalves, João EamaUio, que era capitão entre os mais, e 
«Pedro Dias». 

1.° Domingos Luiz Grou, casou com a filha do principal 
da aldeia de Carapucuiba, por nome Fulana Guaçú. 

2.** João Ramalho castm em . . . com a filha do principal . . . 

3.^ Pedro Dias casou com a filha do principal de Inha- 
puambuçú por nome Tebiriçá. 

4.° Braz Gonçalves casou com a filha do principal de Vi- 
rapueira. 

5.^ Pedro Affonso resgatou uma tapuia da nação., .a qual 
levou para S. Vicente, onde filiou as quatro filhas, que abaixo 
se declaram em seus capítulos» etc. (1). 

Occorre ponderar que o genealogo evidentemente quiz 
asseverar que Ranialho casára-se muito antes dos outros. Outra 

(1) Revista Trlmensal do Intt. Hitt. e Geog. Brai. L. 1, parte U, paga. 91 ft 94. 



— 407 — 

coisa não pode significar a distincçâo salientada no modo de fazer 
o assento do casamento deste. A parte consumida pelos estragos 
do tempo, logo em seguida á expressão — caswi em , . , denota 
que devia ter sido preenchida com a data e logar em que foi 
celebrado o casamento. 

Sendo este documento uma relação dos que se casaram com 
as filhas dos principaes das aldeias indigenas, e affirmando cathe- 
goricamente que, em certo tempo ou em determinado logar 
(que não se lê por achar-se o papel roido pelo tempo), João Ra- 
malho se casara com a filha do principal, que todos os historia- 
dores certificam ser o Tebiriçá, é forçoso concluir, e agora 
sem medo de contestação, que o padre Simão não foi verdadeiro 
quando disse que o velho e benemérito portuguez era um «infa- 
me nos vicios, amancebado publico por quasi 40 annos e de or- 
dinário por esta causa excommungaao» (1). 

Que as referencias deste celebre chronista com relação a 
João Ramalho são suspeitas, por serem parciaes, demonstrou- o 
o illustre secretario do Instituto Histórico de S. Paulo — o dr. 
Manoel Pereira Guimarães, e o fez de um modo brilhante e evi- 
dentissimo. 

Que, além de suspeitas e parciaes, são injustas, inveridicàs 
e apaixonadas, continuaremos nós a demonstrar. 



IV 
Oppõz-sb sempre á extincção de Santo André? 

No anno da fundação da primeira casa no local escolhido 
pelos padres da Companhia de Jesus, onde se acha actualmente 
o palácio do governo de S. Paulo, em 1554, escrevia o padre 
Nóbrega ao rei, referindo-se a nova installação: — « e do mar 
dez léguas, pouco mais ou menos duas léguas de uma povoação 
de João Ramalho, que se chama Piratinin, onde Mariim Affon- 
so primeiro povoou ajuntando todos. . . ! ». 

Em outra carta escripta no mesmo anno a S. Ignacio dizia 
Nóbrega que a nova casa estava « perto da villa de Santo André, 
que é de christãos e todos os christãos desejam ir alli viver, se 
lhes dessem licença ; alli foi a primeira povoação de christãos 
que nesta terra houve em tempo de Martim Affonso, etc». • 

Deante destes dous trechos citados não podemos deixar de 
dizer com o distincto professor de historia, o reverendo padre 



(1) ChronicftL. 1 n. 126. 



— 408 — 

Eaphael Galanti: «Não se pode duvidar ser esta a villa que 
Martim Affonso, além da de S, Vicente, inaugurou» (1). 

Opiniào esta corroborada por Yamhagen quando diz : cFoi 
a aldeia de Piratininga que M. Affomo escolheu para fundar a 
colónia ou villa sertaneja, cujo governo militar conâou a Jo&o 
Ramalho com o pomposo titulo de guarda-mór do campo. Eis a 
origem européa da actual cidade de 8. Paulo» (2). 

Nesta ultima proposição está incluída uma verdade históri- 
ca: — primeiro — porque foi com a mudança dos christã^s de Santo 
André que tomou novo e vigoroso impulso a povoação fundada 

Selos padres; segundo, — porque «a villa de Piratininga, dentro 
e dez annos mais, foi tranaferida para melhor local» (o). 

Só depois de 1560 é que a povoação de S. Paulo passou a 
chamar se S. Paulo de Piratininga. 

Com muito boas razões entende o illustre sr. dr. João Men- 
des Júnior que, em vista da divergência entre Pedro Taques e 
Varnhagen com relação á data da concessão do foral de villa 
para a povoação junto ao collegio de S . Paulo, é mais verosímil 
a opinião de Américo Braziliense que pensa que ^tranaferiuse 
o foral de villa de Santo André para a povoação junto ao 
collegio» (4). 

No cumprimento da tarefa que nos impuzemos, qual a de re- 
habilitar a memoria de João Hamalho, como patriarcha de S. 
Paulo, e com justiça um dos mais poderosos factores de nossa 
nacionalidade, rebabilitação que se impõe como se impôz a do 
seu, não diremos rival, mas emulo e cooper