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A 

J 



> * 



m\m mwMki 

DO 

INSTITUTO HISTÓRICO 

GEOGRAPHIGO E ETHi\OGRAPHlCO DO BRASIL. 

FCNDADO >0 KIO DE JANEIBO 
DEBAIXO DA IMMEDiATA PROTECÇÃO DE S. U. I. 



rrOliMO IKLIKIK. 



IliiC fficit^ ut longos durini bcnc gesta per annoSf 
Et jwssint sei'à poster itatc frui. 




RIO DE JANEIRO. 

RUA DA CARIOCA K. ZA. 



xiàf"^ REVISTA TRIIWENSÂL 



'''fn 



DO 

WWm SISTOBICO, GEOGRAPHICO EETDKOGRAPHICO DO BBASiL 



»»9I08««« 



i.o TBlilIESTRE DE IMO. 

A FRANCA ANTÁRCTICA. 

BOSQUEJO HISTÓRICO DO ESTABELECIMENTO DOS FRANCEZES 
NO Rip OK JANEIRO E SUA EXPULSÃO NO SÉCULO XVI E 
DAS SU\S NOVAS INVASÕES NO XVIII. 

PELO 

Cónego Dr. %. <£• iFrrnanítfií i9inl)fíro. 



O am(yr da patrin e o desejo de contribuir coin o 
noiso fraco contingente para a vulgarisação dos factos 
mais gloriosos da nossa historia^ nos levaram a escrever 
um opv^culo sobre a fundação da cidade do Rio de Ja- 
neiro, hoje capital do Grande Império Americano. 
Folheando as velhas chronicas, vimos que os francezes 
buscaram estabelecer-se nesta terra e lançar os alicer- 
ces d' uma colónia muito antes que os portuguezes pen- 
sassem em firmar o seu dominio na magestosa bahia de 
Nirtheroy. Suggeriu-nos isto a ideia d* examinar quaes 
0$ c^iu^as e resultados da invasão franceza^ tractan- 
do igualmente das expedições de Duclerc c de Duguay- 
Trouin, que, postoque afastadas da primeira tentativa 
de Villegainon por um espaço (te cento e cincoenta e 
einco annoSj formam como que o seu' complemento. 



_ 4 — 

Parpce qne só muito tarde abandonaram os francezes 
a ideia de se estabelecerem no Rio de Janeiro y e ao 
passo que os hollandezes forcejaram por se assegurar 
da posse das capitanias do norte olhava a França 
com olhos de cobiça para a nossa cidade. Quasi todos 
os escríptores que ttactáram doesse assumpto, quer 
nacionaes, quer estrangeiros , são apaixonados , e a 
linguagem da imparcialidade ainda se não fez ouvir : 
não temos a pretenção d'emittir o nosso juizo como 
infallivel; queremos unicamente disperlar Ingenhos 
curiosos, chamando á arena da discussão um ponto 
que tanto nos interessa. 

Todos sabem quão árduo é o trabalho que toma- 
mos sobre nós: quão difficil é o colleccionar docu- 
mentos^ que andam esparsos; ler grossos volumes 
pesquizando um facto, um nçme, ou uma dacta; e 
achar no cahos de narrações desencontradas a verdade 
para sobre ella assentar a pedra do nosso edifício. 
Os nossos chronistas como S. de Vasconcellos Jaboa- 
tão, Rocha-Pitta, Fr. Gaspar, Silva Lisboa e Pizar- 
ro, escrevem sem critica alguma; Thevet e Lery tra- 
vam entre si encarnecida lucta. : Hans-Stadens, mais 
imparcial, de pouco, ou nada nos serciu para o plano 
que haviamos adoptado ; os valiosíssimos trabalhos dos 
Senrs, Ferdinand Dénis, Varnhagen e Norberto nos 
foram porém de grande auxilio: e folgamos de ren- 
der-lhes publico testemunho de nossa gratidão. 

Dividiremos a nossa memoria em três partes: na 
primeira occupar-nos-hemos com o estabclecimeiíto de 
Villegaignon,' e traçaremos wn rápido esboço histórico 



da projectada França Antárctica ; e na segunda e ter- 
ceira tradaremos das expedições da Duclerc e de 
Ihiguay-Tromn. 

Sem amor nem ódio diremos com franqueza o que 
pensamos acerca dos francezes e de seus ensaios de 
colonisação e de conquista ; procuraremos averiguar 
quaes foram os motivos que os trouxeram ás nossas 
plagas^ e a que deveremos attribuir a pouca fortuna 
que tiveram de não se conservarem n^um paiz^ onde 
gozaram de tantas sympathias dos naturaes. 

O nosso trabalho nada tem de definitivo: é apenas 
um estudo histórico; um gymnasio em que quizemos 
adestrar as nossas forças para outros de maior mag- 
nitude, que temos em mente. 

Depois de havermos feito uma singela narração dos 
acontecimentos guiando-nos pelos mais verídicos expo- 
sitores, examinaremos com toda a imparcialidade a 
questão : si a expulsão dos francezes foi útil, ou pre^ 
judicial ao Brasil, inclinando-nos pela primeira hy- 
pothese pelas razões, que exporemos e que julgamos 
que serão partilhadas pela maioria dos leitores. 



-*/v\A/\A/Vv>- 



— 7 — 

PARTE PRIMEIRA. 

ESTABELECIMENTO DE VILLEGAIGNON. 

I. 

DESCOBRIMENTO DO RIO DE JANEIRO. 

iNáo nos maravilha que pairem tantas duvidas sodre os 
factos afastados de nós por uma longa serie de séculos, 
que a Historia encerre problemas de solução quasi impos- 
sivel, quando acontecimentos de recente data dão origem 
à longas e quasi que intermináveis controvérsias. Suscitou- 
se ha pouco tempo na primeira associação litteraria do 
paiz uma importantissima discussão acerca do descobri- 
mento da Terra de Saneia Cruz, e illustres paladinos que- 
braram suas lanças em prol de contrarias opiniões : pre- 
tendeu-se que o acaso presidira a este facto, e sustentou- 
se com não menos talento e erudicção que a esquadra 
portugueza deixara Lisboa com o firme propósito d^apor- 
tar ao novo continente, cuja existência acabava Colombo 
de revelar á Europa. 

A mesma incerteza existe acerca de quem fosse o 
ousado navegador que primeiro ancorou na formosa en- 
seada de Guanabara. Tão importante ponto da nossa His- 
toria parecia ter escapado às investigações d' uma escla- 
recida critica e a maioria dos chronistas abraçavam uma 
versão que como vamos demonstrar, parece-nos inteira- 
mente distituida de fundamento. 

Monsenhor Pizarro nas suas Memorias Históricas do 
Rio de Janeiro e o Conselheiro Balthasar da Silva Lisboa 
nos seus Anna€s, trabalhos de summa importância, que 
serão sempre consultados pelos estudiosos, seguem a 
opinião que a nossa bahia fora descoberta por Martim 



— 8 — 

Affonso de Soiiza, que deixara as aguas do Tejo no dia 3 
de Dezembro de 1530, commandando uma esquadrilha de 
cinco velas na qual se embarcaram fjualrocenlas pessoas, 
tendo por fim o explorar a costa do Brasil até a em- 
bocadura do Rio da Prata. Pretendem que o dia í.° de 
Janeiro de 1531 fora aquelle em que pela primeira vez 
tremulou o pavilhão das lusas quinas aos olhos dos 
absortos Tamoyos. 

Procuremos provar que Martim affonso não foi o 
primeiro portuguez que entrou neste porto; nem tão 
pouco tivera este acontecimento lugar no dia 1.** de 
Janeiro de 1331, não se lhe devendo igualmente imputar 
a falsa denominação que ainda hoje conserva. 

Graças ás lucubrações do Sr. F. A. de Varnhagen, 
ao seu zelo infatigável em elucidar os pontos mais 
obscuros da nossa Historia possuimos hoje um docu- 
mento que prova irrefragavelmenie que Martim Alfonso 
não foi o descobridor do Rio de Janeiro. Rcferimo-nos 
à importante publicação que o mencionado litterato fez 
em Lisboa cm 1839 do Diário da Navegação d* Armada 
que foi á Terra do Brasil em 1530 sob a capilãnia-múr 
de Martim Affonso de Sonsa, escripto por seu irmão Pêro 
Lo\)es de Sousa. O irmão, o companheiro do grande 
almirante portuguez, testemunha ocular das ^uas faça- 
nhas nos mares do Brasil, fatiando da sua chegada à 
nossa bahia assim se exprime: 

« Sabbado trinta dias dWbril, ao quarto (Paiva era- 
• mos com a boca do Rio de Janeiro, e por nos acal- 
« mar o vento, surgimos á par de uma ilha, qm está 
« na entrada do dito Rio, um fundo de quinze braças d'arêa 
« limpa. Ao meio dia se fez ao vento do mar e entramos 
« dentro com as nàos. Este rio 6 muito grand^^ ; 



— 9 — 

tem dentro oito illias, assi muitos abrigos : faz a entrada 
norte sul toma da quarta de noroeste : tem ao sueste 
duas ilhas, outras duas ao sul e três ao noroeste ; e 
entre ellas podem navegar carraças: é limpo, de 
fundo vinte duas braças no mais baixo, sem restin- 
ga nenhuma e o fundo limpo. Na bôcca de fora tem 
duas ilhas da banda de leste, e da banda de aloesto 
tem quatro ilhéos. A bôcca não é mais que d'um tiro 
de arcabuz ; tem no meio uma ilha de pedra raza com 
o mar; pegado com ella ha fundo de dezoito braças 
d'arêa limpa. Está em altura de vinte três gráos e um 
quarto. 

< Como fomos dentro, mandou o capitão J. fazer uma 
casa forte, com cerca por derrador ; e mandou sahir a 
gente em terra e pôr cm ordem a ferraria para fazer- 
mos cousas, de que tínhamos necessidade. Daqui man- 
dou o Capitão J. quatro homens pela terra dentro: e 
foram e vieram em dois mezes ; e andaram pela terra 
cento e quinze léguas ; e as sessenta e cinco delias foram 
por montanhas mui grandes e as cincoenta foram por 
um campo mui grande ; e foram ate darem com um 
grande rei, senhor de todos aquelles campos, e lhes fez 
muita honra, e veio com elles até os entregar ao ca- 
pitão J. ; e lhe trouxe muito christal, e deu novas como 
no Rio de Peraguaij havia muito ouro e prata. O capi- 
tão lhe fez muita honra, e lhe deu muitas dadivas o o 
mandou tornar para as suas terras. A gente deste rio 
ó como a da Bahia de todos los Santos; seriam quanto é 
mais gentil gente. Toda a terra deste rio ó de monta- 
nhas e serras mui altas. As melhores aguas ha neste 
rio que podem ser. Aqui estivemos três mezes toman- 

JANEIRO. i 



— IO — 

« do manlimenlos, para um anno, e para quatrocentos 

f homens que trazíamos ; e fizemos dois bargantins de 

« quinze bancos. 

« Terça feira primeiro dia d'Agosio de mil quinhentos 

« e trinta e um partimos deste Rio de Janeiro cora vento 

« nordeste. Faziamos o caminho aloeste a quarto de sa- 

« dueste. 

D'aqui se deduz claramente que náo foi Martim Affonso 
quem denominou o nosso porto de Rio de Janeiro ; por 
isso que Pêro Lopes, que escrevia o seu Diaiio à propor- 
ção que os acontecimentos se iam dando, como se vê 
pelo seu estylo já assim o denomina ; prova manifesta de 
ser d^épocha anterior esse erro geographico. Acresce 
ainda uma razão que nos parece de grande peso, vem a 
ser que dizendo os chronistas que a origentf do nome 
fora devida à ter aqui chegado o capitáo-mór no dia 1 ." de 
Janeiro de 1531, e sabendo nós pelo referido*í)wiiio que 
a esquadrilha sahira de Lisboa à 3 de Dezembro de 1S30 
seria preciso ter feito uma viagem de vinte oito dias, o 
que é quasi impossível em navios de velas, maxime em 
um tempo, em que pelo escasso conhecimento da nossa 
costa eram as viagens muito longas navegando-se pouco 
de noite. Lembremo-nos também que essa expedição era 
feita no inverno, e que devera experimentar, como de 
facto experimentou, fortes temporaes e ventos contrários. 
O testemunho de Pêro Lopes, que havemos invocado como 
o mais competente para a solução doeste problema his- 
tórico, servirá igualmente para marcar o tempo da che- 
gada de seu illustre irmão às nossas plagas, que segundo 
diz-nos fora n'um sabbado 30 d*Abril de 1531. Está pois 
evidentemente provado não ter Martim Affonso de Souza 



— 11 — 

descoberto a bahia de Nictheroy, nem, por uma falsa se- 
melhança com o Tejo, cognominando-a de rio. 

O chronista castelhano António Herrera dando conta da 
ousada navegação dos celebres portuguezes Fernáo de 
Magalhães e Ruy Falleiro, que se achavam ao serviço do 
imperador Carlos V. serve-se destas palavras. 

€ Y continuando su viage entraron à treze de Deziem- 
« bre (1519) en una bahia muy grande, que chamavan los 
« Portuguezes en la costa dei Brasil la balúa de Género, y 
• los Castelhanos de Saneia Lúcia ; porque en tal dia en- 
€ traron en ella. » (Decad. 2.* Lib. 4.*^ cap. lO.^j. 

fá por occasião da vinda ao nosso porto d'esses dois 
navegadores que a ingratidão da pátria levou a voltar 
contra ella o seu pasmoso génio e grandiosa audácia, era 
elle conheci(}o pelo nome que ainda hoje conserva : e se 
refletirmos que essa viagem de circumnavegação tivera 
lugar doze annos antes da expedição de Martim Affonso 
juntaremos outro voto não menos valioso ao de Pêro Lo- 
pes :. e ficaremos certos de que já em 1519 sabiam os cas- 
telhamos que os portuguezes haviam -nos precedido na 
posse da nossa magestosa enseada, e tinham-lhe dado um 
nome, que talvez por julgarcm-no impróprio, pretende- 
ram trocal-o pelo de Santa Luzia, em commemoraç^o do 
dia em que aqui aportaram. (1) 

Nem tão pouco podemos attribuir tal descobrimento á 
João Dias Solis, que em sua viagem para o Rio da Prata 
em 1515 tocou no nosso porto ; pois que além do silencio 
que guarda Gomara à semelhante respeito, temos a asse- 
veração positiva d'Herrera « de haverem chegado (os cas- 
telhanos) ao Rio de Janeiro na costa do Brasil » É fora de 
duvida que si os castelhanos da expedição de Solis fossem 



- 12 — 

os primeiros a avistarem a nossa bahía não deixariam os 
seus chronisias de fazer d'am semelhante successo ex- 
pressa menção, como sempre practicarara acerca de outros 
sitios de muito menor importância. 

Pensaram alguns escriptores que tal honra coubera ao 
douto florentino Américo Vespucci. Discutamos esta hy- 
potlicse na qual descobrimos mais algum fundamento. (2) 

Sabe-se que Américo Vespucci semu de piloto e cos- 
mographo nas duas primeiras frotinhas enviadas para ex- 
plorar a costa do Brasil : era porém o seu emprego secun- 
dário não podia por tanto dar nomes ás terras descober- 
tas, prerogativa esta que sempre pertenceu aos chefes. 
Pensamos porém que estivera elle ancorado neste porto 
pelos annos de 1302 à 1303. Citemos em abono doesta 
opinião um trecho d'um moderno e illustrado escriptor 
hespanhol o Sr. D. Martin Fernandez Navarrete : 

« De estas declaraciones puede deducir-se que Amerigo 
t navego per la costa dei Brasil, y endo probabelmente 
« como individuo subalterno dei equipage, ó trepulation 
t de alguna de las nãos portuguezas que desde 1301 á 
« 1504 fueran despachadas desde Lisboa para reconhecer, 
I ó poblarlospaizesdescobiertosrecientimente. » (Colec. 
de las viag. y descob. etc. a tom. 3.*^ pag. 320). 

Caminhando de conjectura em conjectura aproximamo- 
nos à épocha do descobrimento do Brasil, e tudo nos in- 
duz a crer que a nossa terra foi uma das primeiras visitadas 
pelos audazes aventureiros, que corriam então a costa afim 
de reconhecôl-a. Pensamos mesmo que apenas distou um, 
ou dois annos, do desembarque de Cabral em Porto Se- 
guro, e que Gonçalo Coelho, chefe da primeira expedição 
foi o verdadeiro descobridor do Rio de Janeiro. Ora, si. 



— 13 — 

como mui jutliciosamonlc observa o Sr. Varnliagen, á 
primeira frotinha exi)lorailora se deve allribuir os nomes 
postos ao Cabo de Santo Agostinho (siiccosso este que teve 
lugar à 16 d' Agosto de 1501) como tambom as outras 
paragens da costa, tendo sempre os exploradores o ca- 
lendário na mão, devoram entrar no nosso porto no mez 
de Janeiro de 1302 talvez que mesmo no dia primeiro 
doesse mez, visto (|iie jà no dia da Epiphania se achavam 
n^altura da Ilha Grande, que chamavam Angra dos Reis, 
proseguindo em sua derrota para o sul. 

Preferimos esta opinião por nos parecer muito mais 
fundada do que as que havemos combalido e formamos 
votos para que um feliz acaso depare á algum estudioso 
com os roteiros, que necessariamente apresentariam aos 
seus respectivos governos os chefes das primeiras expedi- 
ções; documentos estes que lançariam sobre este e muitos 
outros pontos vivamente disputados grande luz, se não 
puzessem logo termo ao debate. 

II. 

ORIGEM DA EXPEDIÇÃO FRANCEZA AO RIO DE JANEIRO. 

O estal)elecimento dos hespanhoes e portuguezes causou 
grande ciúme á todas as potencias maritimas da Europa : 
todas se arrependeram de não terem prestado ouvidos ás 
proposições do navegador genovez. A Inglaterra reparou 
em breve o erro que commettêra apoderando-se da parle 
mais septentrional do novo continente, e a França têl-a-hia 
imitado fundando algum estabelecimento duradouro nas 
regiões recentemente descobertas, si, como muito bem 
observa o Sr. Cantu, não se mostrasse alheia às grandes 



- 14 — 

emprezas, absorvida como estava pelas guerras de reli- 
gião e intrigas de côrle. Todavia alguns aventureiros nor- 
mandos e bretões, seguindo a trilha dos Colombos e dos 
Cabraes, exploraram « os mares nunca dantes navegados » 
e, segundo pensa o Sr. Ferdinand Dénis, já desde 1508 
os marinheiros d^Honfleur visitaram o nosso porto. 

Os normandos, assas conhecidos pelo seu espirito auda- 
cioso, foram os que se avantajaram nessas expedições : tra- 
varam estreita alliança com os selvagens, aprenderam a 
sua lingua, e muitos d'elles renunciaram a vida civilisada 
para vagarem pelas florestas, à imitação dos indigenas. Lu- 
crativo conunercio faziam elles permutando o precioso 
ibirapitanga (3) por vidrilhos e outros objectos de nenhum 
valor. Hans-Stadens, que residio por muito tempo entre 
os Tupinambàs nos pinta o estado degenerado de muitos 
d'esses transfugas da civilisação, que não escrupulisavam, 
para se tornarem bem quistos à seus hospedes, de toma- 
rem parte nos horrendos festins d^antropophagia. (4) As 
narrações d'esses primeiros viajantes exageradas pelo gosto 
romanesco da sua nação deveu a Europa o conhecimento 
do nosso paiz, cuja existência o suspeitoso Portugal dese- 
java occultar aos olhos do mundo inteiro. 

A principio tinham essas expedições um caracter parti- 
cular: eram os armadores que enviavão os seus navios 
para negociarem com os naturaes do Brasil : nenhuma 
ideia de conquista, nenhum pensamento de colonisaçáo, 
ou de permanência existia. Mais tarde quiz o governo 
francez intervir e sustentar os seus pretendidos direitos 
sobre as costas do Brasil e da Guiné. Temos a este res- 
peito um precioso documento citado pelo Sr. Ferdinand 
Dénis. (5) É uma communicação de Marino Cavalli, em- 



!!% 



— 15 — 

baixador de Veneza junto à côrie d'Henrique II, que em 
data de 1^46 assim se expremia : 

€ Com Portugal não pôde haver bôa intelligencia ; pois 
€ que ha uma guerra-surda entre os dous paizes. Os fran- 
« cezes pretendem poder navegar para Guiné e o Brasil, 
f e os portuguezes pensam o contrario. Si se encontram 
« no mar e sendo os francezes os mais fracos os outros 
« atacam e mettem ao fundo os seus navios: o que até 
« certo ponto justifica as cruéis represálias que se com- 
< mettem contra os navios portuguezes. » 

Náo havia declaração alguma de guerra ; as relações di- 
plomáticas náo se tinham interrompido, e um embaixador 
d'el-rei D. João III não duvidava levar a sua condescendên- 
cia à ponto de assistir á uma extravagante festividade, em 
que simulava-se um combale naval no fim do qual um 
navio portuguez era presa das chammas. As esquadras 
porém das duas nações batiam-se no alto mar como acon- 
teceu a que capitaneava Martim Affonso, que aprisionou 
três náos francezas na altura do cabo de Santo Agostinho 
e Gaspar Gomes era detido dous mezes e meio no Rio de 
Janeiro pelo commandante de um vaso d'essa nação. 

Factosde tamanha magnitude náo serviam para desper- 
tar o governo portuguez do seu somno lethargico. e sabe 
Deus porquanto tempo nelle jazeria si a França não pen- 
sasse em firmar seriamente o seu dominio na plaga austral 
do continente americano. 

Como já vimos occupava então o throno de França 
Henrique II, em cujo reinado tomaram maior vulto as dis- 
cussões entre os catholicos e os calvinistas, que havião co- 
meçado no tempo de seu pai Francisco I. Cedendo ás ins- 
tigações de sua irman Margarida, que publicamente abra- 



— IC — 

çára as doulrinas protestantes, favoreceu a Maurício deSa- 
xonia ; pòz-se em hostilidade com a Sancta Sé occupando 
Parma, e declarando que jamais veria no concilio de Trento 
senáo um conciliábulo, á cujos decretos recusava obede- 
cer. Pouco tempo depois tomava um partido diametral- 
mente opi)osto e pelas suggestóes do cardeal de Lorena e 
das famosas Catharina de Medicis e Diana de Poitiers; or- 
denava perseguições contra os huguenotes. e obrigava-se 
j)or um artigo secreto do tratado Cateau-Cambrésis (1559) 
à extirpar a heresia do seu reino. O almirante Gaspar de 
Ck)ligny, à cujo nobre caracter hoje rende homenagem a 
historia, era effectivamente o chefe do partido protestante, 
gozando por algum tempo de grande e bem merecida in- 
lluencia. Testemunha das sanguinárias sentenças lavradas 
pelos tribunaes excepcionaes (chambres ardentes) e com- 
pungido pelas lagrimas das victiraas de Paris e dos Alpes 
pensou em procurar para os seus co-religionarios perse- 
guidos em sua pátria um seguro asylo além dos mares» 
Suas vistas se voltaram logo para a terra de Gmmbàra ha- 
bitada pelos Tamoyos, fieis alliados dos francezes, e julgou 
encontrar em Yillegaignon o homem necessário para táo 
diflicil quão gloriosa empreza. 

Estudaremos mais tarde o caracter doeste chefe e analy- 
sarcmoscom imparcialidade a sua conducta ; contentando- 
nos por agora em citar um trecho de Lery, que mostra cla- 
ramente qual foi a causa da expedição dos francezes ao 
Rio de Janeiro. 

« No anno de 1555 um certo Yillegaignon, cavaJleiro 
t de Malta cuja ordem é também chamada de S. João de 
• Jerusalém, achando-se em França e bastante descon- 
» tente na Bretanha, onde então residia, fez conhecer á 



— 17 — 

€ diversas personagens moradoras em dilferentcs locali- 
€ dades do reino de França, qne ha muito tempo conce- 
« bera a ideia de retirar-se para algum lugar longínquo, 
f onde podesse livre e puramente servir a Deus. conformo 
e a reforma do Evangelho ; e (pie desejava outrosim pre- 
« parar um retiro para os que quizesscm evit:ir as pcrse- 
« guições; as quaes eram reahnente taes, que muitas 
* personagens de todos os sexos e idades eram em muitos 
« lugares do reino queimadas vivas por sentença dos Par- 
« lamentos, confiscados os seus bens por motivo de rc- 
« ligiáo. » (G) 

ÍII. 

FUNDAÇÃO DO FOUTE COLKJNY. 

Nicoláo Durand de Villegaignon, o chefe escolhido para 
essa empreza era jà vantajosamente conhecido em França 
pela sua coragem e sciencia militar. Cilavam-se as suas 
proezas em Argel e a maneira destemida com que trans- 
portara de Dunkerque á França a rainha da Escossia Maria 
Stwart. A esquadrilha, composta de dous navios de du- 
zentas toneladas e de uma chalupa deixou o Ilavre (então 
chamado Vmnciscoiiolh) no dia G de Mai(» de 15Í55, se- 
gundo o testemunho de André Thevet, franciscano d'An- 
goalème, que acorapanliou Villegaignon, por ser elle iin 
homme (jénérenx et auíant bien accompli, sai à la marine, 
soit à (rantres lionnetez. (7) Contratempos obrigaram-no á 
arribar a Dieppe, onde os habitantes lhe ajudaram á repa- 
rar as avarias, que haviam experimentado os seus navios, 
e após uma hmga e perigosa viagem ancorou no nossf> 
porto a li de Novembro do referido anno. 

Não sabemos com que fundamento allirma o eloquente 
jAM:mo. :i 



- 18 — 

autlior (la Historia (lAmerim Portarjueza que o Tice-al- 
miranie da Bretanha vagava com algum mvios á sua 
casta anmdos, buscando presas e estimulado da cobiça, ou 
do valor (8) ; dando assim um caracter particular, e apre- 
sentando como um acto de pirataria o- que só era o 
resultado da politica franceza, que queria estabelecer 
no Brasil uma feitoria que protegesse o commercio que 
de ha muito os seus navegadores aqui faziam. Nâo de- 
vemos menospresar a expedição por compor-se de pou- 
cos navios; porque bem pequena era também a de Co- 
lombo, à qual se deve a desço berta d'America : e todos 
os documentos que havemos consultado nos induzem a 
(Tcr, que Villegaignon sulcou os nossos mares, nâo como 
um aventureiro, mas sim como o representante de uma 
grande nação , cujos projectos acerca da posse do nosso 
paiz podiáo não ser justos, mas certamente justificados 
pelas ideias da épocha. 

Assignalaremos também outro equivoco, que julgamos 
commettêra o referido Rocha-Pitta no lugar supra-citado 
quando diz que o almirante francez desembarcara em Cabo 
Frio, e que contrahira alii uma alliança com os Tamoyos 
regressando á sua pátria mais tarde (em 1560) e com 
avantajado poder apossar -se da enseada do Rio de Jnneiro. 
Semelhante proposição, além de inexacta, encerra em si 
um grande anachronismo. Thevei eLery, que escreveram 
sobre esta expedição, antagonistas implacáveis, concor- 
dam que a chegada de Villegaignon tivera lugar no mez 
de Novembro do anno de 1333, e nenhuma menção fazem 
d'essa viagem do chefe francez partindo de Cabo-Frio 
para regressar cinco annos depois, à frente de forças res- 
peitáveis, para fazer a conquista da bahia de Guanabúni. 



— 19 - 

Neste posilo, como em muitos outros, foi o douto historia- 
dor levado ao erro por falsas informações. 

Suppomos comtudo que Viilegaignon estivera em Calio 
Frio ( paragen\ esta mui frequentada nesse tempo pelos 
francezes) antes d^aproar para o Rio de Janeiro: e só as- 
sim se explica como tendo sabido do Havre a 6 de Maio 
só chegasse aqui à 14 de Novembro, trajecto excessiva- 
mente longo, dando ainda desconto ao tempo que gastaria 
em Dieppe á reparar as avarias; viagem sem exemplo 
para homens que não eram estranhos á arte da navegação. 
Mais curial é pensar que aportaram primeiro a Cabo-Frio; 
iiáo só para refrescarem, como aíim de colherem inlbr- 
macões mais exactas acerca do paiz que demandavam. 
Ora, esse paiz nôo lhes era de todo desconhcoido porque 
muitos annos antes nàos de sua nação haviam-no visitado 
e feito com os selvagens grande commercio, mas como 
era a mesma nça que habitava Cabo-Frio e o Rio de Ja- 
neiro aconselhava a prudência que começassem logo a têl-a 
por alhada aproveitando-se habilmente do ensejo de vive- 
rem em constantes rixas os Tamoyos com os habitantes de 
S. Vicente, offerecessem àquelles a sua amisade. Thevet 
se contradiz neste ponto quando depois de haver dito nas 
suas Simjularklades da França Antárctica que Viilegaignon 
se demorara sò três dias em Cabo-Frio assevera depois na 
sua Cosmõgraphia que ahi estivera por alguns mezes. 

Oiçamos a tal respeito uma testemunha mui qualificada : 
« A' esse tempo, tendo sulcado os mares do Sul Nicoláo 
• Durand de Viilegaignon. francez nobre do habito de S. 
« João, e achando-se em Cabo-Frio, situailo na latitude de 
« 23^ e a longitude 34^^ 3' 27'\ ou na latitude 22^ 35' e 
« longitude de Londres 41^ 15\ facil lhe foi em convir 



— 20 — 

« com aquelles, a quem o oclio contra os declarados con-* 
« trarios fomentou a liga com os taes hospedes, trazidos 

* da fortuna em soccorro da sua defensa, à custa dos 

• fniclos e drogas da terra que lhe promettêram. » (9) 

Levantando os ferros e desferindo as velas chegaram os 
francezcs com prospera navegarão ao Rio de Janeiro, e o 
magestoso panorama da nossa bahia não causou -lhes a 
impressão que se devera esperar. Compararam-na com o 
lago de Genebra, mesquinho paradigma para essa gran- 
diosa enseada, digna de igualar-se ao bello golfo de Nápo- 
les, ou ao sublime Bosphoro. O hieroglypho do futuro 
império do cruzeiro não lhes mereceu senã® o prosaico 
nome de pote de manteiga (pot de beurre), substituído pe- 
los portugaezes por outro não menos impróprio de Pão 
d*Assu€m\ commettendo ura inqualificável erro geogra- 
phico denominaram de rio de Gnanabára, o immenso la- 
gamar que oíTcrecc amplo ancodouro ás esquadras do 
mundo inteiro. E o cosmographo Thevet, chronista oíB- 
m\ da expedição, não protestou contra a impropriedade 
d^esses nomes ! ! ! 

Cercado por uma população que lhe era devotada e dis- 
pondo de tantos lugares onde poderia estabelecer-se com 
fixidade, Villegaignon, para que a disciphna da sua tropa 
fosse melhor observada, desembarcou em um rochedo de 
cem à cento e vinte passos de circumferencia, collocado 
na entrada da barra, batido constantemente pelas vagas, 
tentando ahi construir um forte de madeira. (10) 

Havendo-lhe porém demonstrado a experiência que era 
impossivel conservar-se em semelhante sitio lançou o al- 
mirante as suas vistas para uma pequena ilha, situada mais 
próxima a terra, de c^rca de mil pés de circuito, rodeada 



% 



- âl - 

ilc cachopos, à llòr tragiia, sendo accossivel iinicamentn 
pelo lado de terra. Fortificou esto lugar, já por sua natu- 
reza inexpugnável, o o guarneceu com oitenta homens. (H) 

O Iheologo calvinista João de Lery (chamado individa- 
mente pelo consellieiro B. da S. Lishòa (Vabbmle ), que vi- 
sitou a colónia franceza um anno depois da sua rundação.. 
diz-nos que nas extremidades da ilha existião dous outei- 
ros, onde Villegaignon fez construir duas casinhas, collo- 
cando a sua residência sobre um rochedo de cincoenta à 
sessenta pés de altura. Aplanando as escabrosidades do 
terreno fizeram os francezes algumas praças onde ergue- 
ram a casa da oração, o refeitoiio (o que indica que co- 
miam em commum) e os seus modestos aposentos, cuja 
maior parte era de páo á pique e cobertos de sapé, ao gosto 
dos selvagens que haviam sido seus architectos. (12) 

Para lisongear ao seu protector deu Villegaignon à 
nova colónia o nome de forte Colhjmj, e a toda a terra o 
de França Antárctica, por onde facilmente se deprehende 
quaes as suas vistas de permanência no nosso paiz, que 
devera ser para o seu o que mais tarde foi para Portugal, 
fecundo manancial de incalculáveis riquezas. Tencionava 
mais tarde, depois de mais amplo conhecimento do ter- 
reno, edificar na praia fronteira (talvez que as da Gloria. 
Flamengo ou Botafogo) uma grande cidade, que devera 
tomar o nome do monarcha reinante ( Henri-Ville ) sendo 
porém desviado d'esse intento por graves occurrencias í|ue 
tiveram lugar, e de que mais tarde faremos menção. 

Lery accusa fortemente de falsario h Tlievet por ler 
mencionado em sua Cosmographia h essa cidade como 
•existente, offerecendo uma planta d'ella ao rei Ilenri- 
■que II (13). Somos completamente neutral na lide travada 



— 2S — 

f^ntre os dons chronistas francezes, reconhecemos que 
írnibos tem muito mérito e que prestaram relevantes ser- 
viços a nossa historia, dando conta de factos que sem o 
seu testemunho jazeriam quiçá no olvido : náo podemos 
comtudo dissimular que Thevet sacriíicou neste ponto a 
verdade ao maravilhoso realisando com elle o quod volu- 
mus facile credimm. Segundo a sua própria confissão (14) 
embarcou-se para a França à bordo de um navio comman- 
<lado por Bois-le-Comte á 31 de Janeiro de 1556, havendo 
apenas permanecido na America dous mezes e alguns 
dias, e durante esse período não é crivei que se tivesse 
começado á erigir a nova cidade, estando o chefe da ex- 
pedição à braços com os trabalhos de forlificaçóes a que jà 
alhidimos ; razões estas a que devemos addicionar a asse- 
veração de Lery de não haver nenhum vestigio da pro- 
jectada Henri-Ville, quando d'aqui sahio, dezoito mezes 
depois de Thevet. Note-se que o mencionado Lery appella 
para a reminiscência de todos os francezes que antes e de- 
pois d^elle haviam estado no Rio de Janeiro, e náo nos 
consta que ninguém apparecesse para contrarial-o. O res- 
peitável chronista da Companhia de Jezus, Simão de Vas- 
concellos, tão minucioso sempre em suas narrativas, não 
faz tão pouco menção d'essa cidade, que. á nosso vêr, 
nunca teve se quer um começo de realidade. 

IV. 

ALLIA.NÇA DOS FRANCEZES COM OS INDÍGENAS. 

Jà vimos que desde oanno de 1508 os armadores d'IIon- 
fleur na Normandia expediam os seus navios às terras 
então mui pouco conhecidas do Brasil e citam-se os nomes 
d'um certo Dionysio e do pai do famoso João Ango como 



— 23 — 

dos que mais se destinguiram nessas arriscadas explora- 
ções. Guilherme Tastu, Barre, e o celebre Jacques Soro 
adquiriram a reputação d^ousados navegadores, juntando 
também à ella a gloria litteraria. Dos dois primeiros exis- 
tem interessantes escriptos, como o famoso Roteiro de Gui- 
lherme Tastu, composto em 1355, e as Cartas acerca da 
navegação do cavalleiro de VUlegaljnon , publicadas em 
1337 por Nicoláo Barre, que, como creoSr. Ferdinand 
Dénis, foi provalmente o primeiro documento sobre o 
Brasil impresso em França. (15) 

As relações commerciaes mantidas pelas principaes ci- 
dades marítimas (em cujo numero se contava Dieppe) com 
os naturaes do Brasil trouxe a necessidade d'uma classe 
de homens, que tiveram nessa époclia grande importância, 
queremos fallar dos interpretes (truchements) dos quaes 
trataremos pcrfunctoriamente. 

Ou fosse por despeito para com a sociedade, em cujo 
grémio tinhim vivido, despeito, que tem dado origem á 
grandes aberrações, como os paradoxos de Rousseau e de 
lord Byron, ou levados pela auri sacra fames, viu-se nesse 
século alguns homens p;^netrarem cm nossas florestas, co- 
piarem tão ao natural o modo de vida dos indígenas que 
podiam ser tomados por verdadeiros selvagens. Cobriam- 
se dos mais extravagantes ornatos; perfuravam o lábio su- 
perior e as faces para introduzirem ahi enormes batoques, 
armavam-se d'arco e flecha, revestiam-se de pennase pin- 
tavam o corpo com as mais caprichosas cores. Adheriam 
completamente á causa das aldeias, onde se haviam natu- 
ralisado : esposavam as íilhas dos maioraes, marchavam 
para a gaerra dirigindo os seus alliados com conselhos o 
empregando em seu favor as armas de fogo e a estratégia 



— á4 — 

européas assegaravam-lhes o triumplio sobre os seus ini- 
migos. Já dissemos qre o seu despreso levava-os á tomar 
parle nos festins anlropophagos, excedendo em crueldade 
aos seus preceptores. Adoptando de bom grado a poly- 
gamia pouco se embaraçavam com a sorte da sua progénie, 
que abandonada a seus próprios instinctos perdia até os 
vestigios da sua origem européa. 

A múr pr^rle d'esses homens eram francezes, e especi- 
almente normandos, e as suas informações transmittidas 
aos seus compatriotas, que visitavam táo frequentemente 
os nossos portos, c talvez mesmo (jue algumas cartas, que 
escrevessem para a pátria, sejam as fontes à que recorre- 
ram os que primeiro deram ao m.mdo civilisado noticias 
ílos usos e costumes dos aborígenes brasileiros. Lery e 
Thevet refcrem-se constantemente ao testemunho dos in- 
terpretes ; posto que estigmatisem o seu inqualificável pro- 
ceder, e Hans-Stadens. na relação dos seus soffrimentos 
entre os Tupinambâs dá-nosbem a conhecer qual a sua 
influencia entre os indígenas, quando refere-nos que da 
decisão d"um d'elles esteve pendente o seu destino. (IG). 

D'essi mesma relação do viajante allemáo se deprehende 
quanta estima votavam os selvagens aos francezes ; porque 
dizendo-se elle, no acto de ser aprisionado, pertencente 
a essa nação, deveu a tal circunstancia o não ser condem- 
nando á morte. OsTupinambás c os Tamoyos. que tinham 
uma commum origem, procuravam com avidez a sua ami- 
zade appellidando-os de perfeilOH alliados, e todos os his- 
toriadores são concordes em asseverar que nos mais crí- 
ticos momentos lhes guardavam escrupulosa fidelidade. 

Semelhante resultado devera ser a natural recompensa 
d^esses homens, que deTiamhmlo as nossas plagas com o 




fim de eariíjaeccreni, oa talvez qae pelo espirito de cu- 
riosidade, não se faziam detestar pelos nacionaes: não 
lhes captivavam as filhas, não lhes extorquiam o oiro, a 
que aliás davam os indígenas pouco valor, nem os expul- 
savam à ferro e a fogo dos lugares consagrados pelas mais 
tocantes scénas da vida humana. 

O estabelecimento de Villegaignon no Kio de Janeiro 
nada tem do caracter odioso íFimia conquista : chega como 
alliado e recebe dos Tamoyos nâo equivocas provas de 
jubilo e de affeiçáo. Não expelle os nalaraes das suas tabas, 
e poílendo, como já dissemos escolher os melhores sitios 
para fundar a sua feitoria, fortiíica-se em uma ilha até en- 
táo abamlonada e mostra-sc» severo para com os seus pela 
mais leve infracção dos tractados (juc firmara com os 
filhos do paiz. Esperando que ce;Jo, ou tarde seria ata- 
cado pelos portuguezes, aos ipiaes pela própria confissão 
do Padre S. de Vasconcellos não foi o primeiro á aggre- 
dir (17), e de perfeito accôrdo com os selvagens adestrou- 
os no manejo das armas, fazen lo dellcs excellentes sol- 
dados. 

Sobre o modo porque eram tratados os indigenas 
pelos francezes não podemos citar melhor testemunho 
do que o de Mem de Sá, 3^ Governador Geral da Bra- 
sil, n'uma carta escripta de S. Vicente aos 16 de Junho de 
i360àel-reiD. JoãollI. 

Fallando à respeito de Villegaignon assim se exprime 
o delegado do governo portuguez : « Elle leva muito diíTe- 
« rente ordem com os gentios que nós levamos : é liberal 
€ em extremo com elles e faz-lhes muita justiça, enforca 

< os francezes por culpas sem processo, com isto ó muito 

< temido dos seus, e amado dos gentios : manda-os cnsi- 

JANEIRO. 4 



^ 2C — 

« nnr a todo o género (l'ofliclos e críirmas, ajinla-os nas 
« suas giien*as. O gentio é muito e dos mais valentes da 
• costa era'pouco tempo se pode fazer muito fórle. (18) » 

Grande é o [)eso que deve merecer- nos as palavras do 
illustre Mem de Sà : só a forra da verdade actuando n\mia 
alma nobre como a sua poderia dictar este juizo pronun- 
ciado acerca d\mi inimigo da sua nação, e cujos entrin- 
cheiramentos elle acabava d^arrasar com lanto denodo. 

Em conclusão diremos que os francezes pelas suas jna- 
nciras alTaveis, pelo seu tracto cav;dIieiresco souberam gran- 
gear as sympathias dos nossos indigenas. 



CONDUCTA DE VILLEGAIGNON V\r\\ COM OS CALVINISTAS. 

É tempo de examinarmos o procedimento de Ville- 
gaignon para com os sectários da religião reformada, e de 
verificar si merecida, ou injustamente lhe deram estes o 
ignominioso epitheto de Caim d America. 

Sabemos que o cavalleiro de Malta vivia afastadj da 
corte e esquecidos os seus serviços quííndo pela interven- 
ção do celebre Gaspar de Coligny, aquém o ni Henri- 
que II testemunhava grande estima e veneração, foi elle 
incumbido da tarefa de limiar o dominio fraiicez nWme- 
rica do Sul. Ora, como já referimos, o almiraníe Coligny, 
pertencente á nobilÍ6.>ima casa dr Chatillon era o chefe os- 
tensivo dos protestantes do reino, e o astuto Villegaignon 
apnn^eitou-se doesta circamstancia para inculcando-se con- 
vertido à doutrina de Galviíio ad(iuirir em Coligny um 
protector. Já vimos como pela sua influencia esquipou elle 
uma frotinha com que se apresentou no lUo de Janeiro, e 
como simulando um sentimento que por certo não existia 



— 27 — 

em sua alma, condecorou com o nome do illustre almi- 
rante o rorliPilo em (jue se forlilicára. Quasi todos os seus 
companheiros seguiam a nova doutrina, ou pelo menos 
haviam disso feito promessa, e parece «luc doeste numero 
não se exceptuava o próprio franciscano André Thevet. 

Xa carti eicri[)ta á Calvino e citada integralmenle por 
Ler/ hVsc o seguinte periodo. 

« Poniue os irmãos que tinham vindo commigo de 

€ França para esse fim (o do exercicio da religião) desa- 

« nimadoá pelas difficuklades da obra voltaram jmra o E(j\j- 

< pUh allegando cada qual um pretexto. > Quem estiver 

ao facto da linguagem empregada nas polemicas religiosas 

da épocha saberá que a plirase voltar ^xira o Egijpto era 

synonymade regres.>nr para o grémio da religião catholica; 

e Villegaignon ([ueixando-se à Calvino do abandono em 

que haviam deixado os primeiros operários do Evangelho 

agradcce-lhe a vinda dos novos ministros Richier e Chnr- 

ticr . que traziam em sua companhia alguns outros theolo- 

gos de Genebra, sendo um delles João de Lery, a quem 

S4)mo3 devedores d'um excellente livro, que foi das mais 

abundantes fontes a que recorremos para a confecção doeste 

nosso tosco trabalho. 

Chegando á America o primeiro cuidado de Villegaig- 
non foi o de pedir ministros da religião refoimada jmra 
morigerar aos seus e catheehisar aos selvagem, prestando a 
maior obediência a igreja de Genebra. Náo nos causa 
pasmo que o almirante Coligny, homem de guerra, do 
franco e generoso caracter, fosse iHudido pelas fallacias 
do seu protegido; admira-nos porém que (divino, cujo 
espirito subtil se havia ainda mais aguç-ado nas (juestões 
theologicas, sendo afamado pela sua argúcia, se deixasse 
kidibriar por um hmnem (pie llèe era muita inferior em 



- 28 — 

conhecimentos. Para attenuar porém a impressão que na- 
turalmente causa o ver tantas pessoas honestas victimas 
da mais negra perfídia devemos lembrar-nos que o pro- 
jecto de crcar-sc um estabelecimento n'America era o 
mais popular possivel ; que todos contribuíam para elle 
com enthusiasmo, uns levados por vistas politicas, outros 
por cálculos dlnteresse individual, e finalmente outros, 
entre os quaes devemos comprehender Calvino, pelo vivo 
desejo de propagar a nova crença além do athlantico. 

O venerando Philippc de Corguilleray, senhor Du-Pont, 
cuja honrada velhice se deslisava em Genebra, foi solici- 
tado por cartas do almirante Coligny, e por vivas instan- 
cias de Calvino para dirigir a expedição enviada em auxilio 
de Villegaignon. Esquecendo os inconunodos inherentes 
a uma tal empreza, muito mais sensiveis no inverno da 
vida, deixou as doçuras do lar domestico partindo à 16 de 
Septembro de looC para Chatillon sur Loing, onde o 
aguardava o almirante: de quem elle, e os seus treze com- 
panheiros ouviram as mais animadoras expressões. Após 
um mez de demora em Pariz, onde se lhes reuniram mais 
alguns fidalgos partiram os peregrinos para Honfleur, de 
cujo porto deram à vela para a França Antárctica a 20 de 
Novembro do referido anno. 

Compunha-se a expedição de três navios transportando 
cento e vinte pessoas, sendo o supremo commando con- 
fiado a Bois-le Comte, com o titulo de vice-almirante. Este 
Bois-le Comte, sobrinho de Villegaignon é o mesmo a 
quem o illustrado Author dos Annaes do Rio rfe Janeiro 
chama de conde de Bois, sem duvida equivocado pelo seu 
segundo nome, que é ao mesmo tempo um titulo de no- 
breza e um appellido de familia. (19) 

Sobre a memoria desses homens que tão heroicamente 



— 29 — 

se expatriaram posam mui graves accusações si dermos 
credito ao qae à seu respeito diz Thevet. Oiçamos as suas 
palavras: 

< Esquecia-me de dizer-vos que pouco tempo antes 
houvera uma sedição entre os francezes, occasionada 
pela divisão e parcialidade de quatro ministros da reli- 
gião nova, que Calvino para ahi enviara a fim de plan- 
tar o seu sanguinolento Evangelho : o principal d^elles 
era um ministro sedicioso chamado Richier, que tinha 
sido carmelita e doutor de Paris alguns annos antes. 
Estes ridiculos pregadores não cuidando senão em 
enriquecerem-se e apoderarem-se do que podiam fize- 
ram conluios e intrigas secretas originando-se d'ahi 
que alguns dos nossos fossem por e!les mortos. Porém 
sendo presos alguns d'esses sediciosos foram executa- 
dos e entregues os seus corpos aos peixes : outros sal- 
varam-se, em cujo numero se achava o referido Richier, 
o qual pouco tempo depois serviu de ministro em Ro- 
chella : onde penso que ainda está. Irritados os selva- 
gens por semelhante tragedia pouco faltou para que não 
se precipitassem sobre nós, matando aos que res- 
tavam. 1 (20) 
Para contrariar o libello do franciscano dWngouleme 
senir-nos-hemos d'um documento de que já fizemos men- 
ção, isto é, da carta que Villegaignon escreveu á Calvino 
agradecendo-lhe o ter annuido aos votos que lhe expri- 
mira na sua primeira missiva relativamente á urgente ne- 
cessidade que sentia de novos cooperadores. Posto que a 
tenhamos unicamente lido na obra de Lerj' (Historia d*uma 
Viagem á terra do Brasil, aliás França Antárctica) repu- 
tamo-la authentica ; por isso que diz -nos este escriptor 
que o original escripto em latim e com tincta do Brasil, 



— 30 — 

parava em mãos idóneas havendo já sido impressa uma sua 
traducção. 

Justificando a escolha que lizera da ilhota de SerUjipe 
para o primeiro núcleo da colonisarão, aíim, como já dis- 
semos, d'observar entre os seus a mais restricta disciplina 
cortando-lhes toda a communicaçáo com a terra, povoada 
por selvagens assim se exprime o chefe francez. 

t Aconteceu contudo (pie alguns vinte seis dos nossos 

€ mercenários, estimulados pelos apetites sensuaes cons- 

« piraram para matar-me. No dia porém assignado para 

« a execução foi-me revelada a trama por irni dos com- 

» plices na mesma occasilo em que deligentemente pro- 

« curavam-me para cahirem sobre mim. Evitei o perigo 

t pela maneira seguinte: havendo feito armar à cinco 

• criados meus investimos contra elles, que possuídos de 
« terror e pasmo deixaram-se facilmente vencer. Prendi a 
« quatro dos principaes conspiradores, cujos nomes me 
t haviam sido revelados ; occultando-se os outros depois 

• deterem deposto as armas. Mandei no dia seguinte sol- 
« tar à um para que podesse na maior liberdade pleitear 
« a sua causa ; maspondo-se á correr lançou-se no mar, 
« onde afogou-se. Os restantes sendo conduzidos à mi- 
« nha presença, amarrados como estavam, declararam o 
« que eu já sabia, da boca do complice e dilator: istoé, 
« que um d'elles havendo sido pouco antes castigado por 

• mim por entreter relações illicitas com uma mulher de 
« má vida captou por presentes o pai d'essa mulher para 
« que o livrasse do meu poder no caso d^obstinar-me eu 
« em interromper as ditas relações. Tal foi o primeiro 
« pensamento da revolta. Fi-lo enforcar e estrangular p ir 
« semelhante crime. Gommutei à dois outros a pena de 
« morte na de prisáo com trabalho : e quanto aos mab 



— ;h -^ 

f náo quiz tomar conhecimento do seu delicio alim de que 
« não fosse obrigado à punil-os ; o qae importaria n'um 
■ grande desfalque d^operarios para as obras que tenho 
« emprehendido. » 

Em todi esta narrativa não se faz a menor menção dln- 
trigas e suggestôes dos ministros calvinistas, que por for- 
ma alguma poderiam ter concorrido para a supracitada se- 
dição; por isso que náo tinham ainda chegado ao paiz. 
Esta carta tem a data de 31 de Março de 1357 ; (í sabemos 
(jue os companheiros de Du-Pont clicgáram ao forte Co- 
ligny á iodo referido mez eanno, e os factos referidos por 
Villegaignon passaram-se nos primeiros tempos da sua 
chegada, como se deduz das suas próprias palavras. Si os 
emissários de Calvino se tivessem manchado com tão negro 
crime por certo que Villegaignon náo deixaria de fazer 
amarga queixa d^elles nessa carta dirigida á seu chefe, e 
não nos consta que depois d'essa revolta houvesse mais al- 
guma no estabelecimento francez. É por tanto fora de du- 
vida que é inteiramente calumniosa a asserção de Thevet, 
c que o ódio que nutria para com os sectários da reforma 
foi o único motor de tão cruel quáo infundado juizo. Ora 
esse ódio era tanto mais excessivo, quanto, como já deixa- 
mos entrever, o íilho de S. Francisco parece que não pos- 
suiu sempre uma inabalável convicção acerca da superiori- 
dade da religião catholica sobre todos os cultos dissidentes, 
ou então, o que não lhe é menos deshonroso introduziu-se 
entre os protestantes de Villegaignon, para, á seu exemplo, 
alraiçoal-os e conspurcal-os comas suas falsidades e diatri- 
bes. O antagonismo religioso não deve por maneira alguma 
auctorisar a infracção das leis da verdade. 

Prosigamos no exame da conducta de Villegaignon. 

Com falsas apparencias de grande regosijo recebeu elle 



— sã- 
os seus novos conijiaiilieiros, e convocando a guarnição do 
forte, em uma pequena sala situada no meio da ilha, ouviu 
cheio de compuncção e prédica do ministro llichier, a pri- 
meira, observa Lery, «jue se fez n^America conforme o 
culto protestante. Mandou distribuir pelos recem-chegados 
rações de peixe assado ao modo dos selvagens, raizes co- 
zidas debaixo da cinza e para saciarem a sede foi-lhes dada 
a verde negra e salobra agua diurna cisterna. Alojou-os em 
cabanas cobertas de palln destinando apenas um quarto 
para Du-Pont e os dois ministros Richier e Chartier. Tão 
desabrida recepção foi seguida d'acerbo trabalho a que con- 
demnou os seus hospedes, empregando-os em carregar 
barro e pedra desd'o nascimento até o occaso do sol. Longe 
de soprar o espirito da revolta no animo dos colonos, des- 
contentes por tão bárbaro tratramento, aconselhava-os 
Richier que supportassem as privações com paciência, e 
vissem em Yillegaignon um novo S. Paulo. De facto nin- 
guém melhor do (jue elle sabia representar o papel de 
zelador ardente do Evangelho e de fervoroso apostolo da 
reforma : seus discursos, transcriptos por Lery, são re- 
passados d'uncçáo, e trazem-nos à memoria a linguagem 
biblica de Gromwell nas suas proclamações e ordens do dia. 

Pensamos que a chegada da missão, que elle tão arden- 
temente pedira, causou-lhe grande contrariedade, ou por 
compòr-se de pessoas illustradas, que não deixariam de 
condemnar o despotismo que aqui exercia, dando-se d^elle 
conhecimento à França, ou porque visse em Du-Pont um 
ancião, cuja virtuosa conducta contrastava com a sua, ou 
finalmente porque já tivesse recebido do cardeal de Lorena, 
seu occulto protector, ordem para levantar a mascara da 
hypo^isia. 

M'uma épocha em que os debates religiosos estavam em 



— :]:] — 

grande voga depois que Lulhero proclamara o principio do 
livre exame, que fazia de cada fiel um juiz da sua crença, e 
interprete da palavra divina, não parecerá estranho que um 
official de marinha se ingerisse em questões theologicas e 
exercesse as funcções do pregador. Sustentou contra o 
ministro Chartier uma opinião diversa relativamente á 
Céa (21) ; mas fingindo desejar ser melhor instruído sobre 
este ponto enviou-o á Franca para consultar os doutores, 
e muito principalmente a Calvino. Era este um meio hábil 
j)ara dcscartar-se pouco á pouco dos que lhe faziam sombra. 
Sem se importar com a resposta dos quesitos que fizera 
para a Europa declarou o seu juizo como o único infallivel 
e mudando da linguagem que até então tivera disse publi- 
camente que reputava a Calvino como um herege, e inimigo 
de Deus. Semelhante apjstasia não devera surprehender 
à ninguém ; pois que já uma vez por motivos de mero in- 
teresse abjurara Villegaignon a religião de seus pais;e 
quem assim procede está sempre disposto a regular a sua 
consciência por uma tarifa, mais, ou menos elevada. 

Como que envergonhado de tal proceder tractou os seus 
antigos co-religionarios com o mais excessivo rigor. Exas- 
perados os calvinistas dirigiram-se ao seu conductor (Du- 
Pont) e lhe supplicaramque alcançasse de Villegaignon a per- 
missão para regressarem á seus lares. Du-Pont representou 
ao chefe da colónia que a sua nova abjuração tornando inútil 
o fim para que tinham vindo á America e não existindo 
nqui a liberdade de consciência, que através de mil perigos, 
tinham vindo procurar, lhes fosse ao menos concedida a 
licença que imploravam os seus companheiros de infor- 
túnio. Depois d'alguma hesitação annuiu Villegaignon ao 
peJidoquelhe era feito, e os calvinistas, a[)ós oito mezes 
j.v.NEiRo. y 



— 34 — 

dos mais rudes trabalhos iio fórlc Coligny, passaram ao 
continente, onde ainda, se demoraram dois, aguardando 
um navio que os transportasse à Prança. 

Nutrindo negros projectos de vingança contra esses ho. 
mens, que d'est'arte sesubtrahiam ao seu jugo. dissimulou 
o seu ódio e indignação parecendo approvar o seu desígnio 
dizia que assim como se regosijára com a sua vinda quando 
cria achar nellcs o que procurava ; assim folgava que re- 
gressassem mna vez que nâo podiam estar d^accordo. Entre- 
gou porém a Martin Beaudoin, capitão do navio Jacques, 
(|ue os conduzia um cofre coberto com encerado, onde in- 
cluirá o processo (lue lhes fizera, acompanhado d'mna pre- 
catória ás authoridades do porto de França onde chegassem 
para que fizessem-nos queimar como revoltosos e hereges. 
A Providencia Divina porém que nâo {X)dia concorrer para 
semelhante crime, fez com que aportassem á Blauet, na 
Bretanha, onde dominava o partido protestante,^ que lhe fez 
a mais cordial recepção. 

Remettemos o leitor curioso para a interessante obra de 
Lery, verdadeira odysséa d'essa longa e perigosa navegação 
de quatro mezes e meio, em que elle e seus companheiros 
encaravam de perto à morte, jà vendo o seu navio quasi 
despedaçado nos baixios, jà experimentando as torturas da 
sede e os horrores da fome. 

Quando o Jacqiies, que roçara nos rocliedos submarinos 
fíizia agua por todas as partes alguns viajantes preferiram 
os perigos de terra aos do mar, e desembarcando em um 
escaler voltaram aos domínios de Villegaignon. Bem de- 
pressa tiveram d'arrepender-se de semelhante resolução ; 
pois que cahindo nas garras do irritado tigre [)agavam al- 
guns cojii a vida i\ sua audácia, fugindo oulros para as 



I 



— 35 — 

povoações portitguezas, onde, para viverem, liveram (rahra- 
í;ar ocatholicismo. 

Qual seria a causa cFessa mudança que tão subitamente 
se operara no animo de Villegaignon ? 

Abramos as paginas da Historia de Franga^ e vejamos 
se nos pôde ella dára solução do enigma. 

É geralmente sabido que pela exaltação ao Ihrono d^Hen- 
rique II, os Guises, que no precedente reinado tinham sido 
privados de toda a influencia, se viram rehabilitados nas 
boas graças do monarcha e partilhavam com os Montmo- 
rencys e Chatillons das primeiras posições olliciaes. Entri^ 
as facções diversas que nessa épocha dividiam a França 
oscillava o espirito pouco enérgico do rei : e assim se ex- 
plica como Gaspar de Chatillon, conde de Coligny, reunia 
em si os cargos d\almirante e coronel general d'infantaria, 
em quanto o duque de Guise, commandava o exercito, que 
repellia á Carlos V dos muros de Metz, e seu irmão Cláudio, 
cardeal de Lorena, tinha a suprema administração da fa- 
zenda publica, send;) incontestavelmente a primeira in- 
telligencia do clero. Todas essas ambições rivaes. todos 
esses caracteres oppostos, não podiam viverem harmonia : 
uns procuravam supplantar aos outros no espirito do rei. 
Como era natural o almirante Coligny succumbiu na lucta ; 
e uma intriga urdida pela duqueza de Valentinois (Diana 
de Poitiers) fez com que exfriassem as boas relações entre 
Henrique II e seu virtuoso ministro. 

Foi provavelmente nessa occasião que o cardeal de Lo- 
rena escreveu a Villegaignon para que deixasse o seu dis- 
farce porque nada mais podia esperar do almirante, e que 
se declarasse abertamente catholico ; e este, à imiLação de 
lodos os renegados que querem, por excesso de zelo dar 



— »8 — 

índia carregailos de immensas riquezas, accommelteria as 
principaes povoações do littoral brasilico submeltendo-as 
com facilidade, attento o estado de fraqueza era que se 
achavam. O temor de vêr cortado o commercio do Oriente 
e perdidas as praças mais importantes que possuia na re- 
cente colónia, além do sentimento que lhe causaria a pro- 
pagação do protestantismo, que seria inevitável com o 
triumpho de Villegaignon, que então era geralmente con- 
siderado como sectário da Reforma, influíram poderosa- 
mente no animo do politico e catholico Rei D. João III, 
que deu terminantes ordens para a expulsão dos francezes 
dos seus dominios ultra-marinos. 

Apenas chegou à Bahia cuidou Mem de Sà de dar cum- 
primento à ordem regia ; mas para uma empreza na qual 
a honra nacional se achava empenhada apenas lhe havia 
mandado a corte três máos navios de guerra, abandonando, 
com indesculpável incúria o governador geral aos fracos 
recursos que lhe podiam ministrar os colonos. 

Sobre o estado de penúria em que se achava a capital do 
Brasil interroguemos os chronistas e Rocha Pitta nos res- 
ponderá : 

c Estavam a cidade da Bahia e seu recôncavo faltos de 
f tudo o que era preciso para tanta empreza. Não haviam 
t navios, era pouca agente, por se achar muita noem- 
« prego da conquista dos gentios, cuja guerra, posto que 
• porfiada era mui differente da que agora emprehendia 
f com a nação franceza, tão conhecidamente valerosa : 
« haviam poucos instrumentos próprios e precisos para as 
€ expugnaçôes. Os viveres e vitualhas não eram propor- 
c cionadas para a facção. > (25) 

A' esta falta quasi que absoluta de meios necessários 



— 37 — 

administral-a tom o titulo do governador geral a Mem de 
Sá. desembargador da Casa da Supplicação, varão conspí- 
cuo pelas suas luzes e raras virtudes, que faziáo-no digno 
irmão do grande poeta Francisco de Sá e Miranda, o il- 
lustre emulo de Camões. A esc4)lha de um homem. da lei, 
de um cultor das letras parecia indií^ar que a metrópole 
occupava-se mais seriamente com a sorte dos seus vassal- 
Jos dWmerica, e que ífueria terminar o regimen arbitrário 
que até então nella prevalecera, accedendo às representi- 
ções da camará da Bahia que em 1356 pedia era nome de 
todo o povo que, pelas chagas de Cliristo mandasse com 
brevidade governador e ouvidor geral retirando os que es- 
tavão ; pois que para penitencia de peccados já bastava 
tanto tempo. (24) 

A discórdia que reinava entre os francezes era ignorada 
pelos seus rivaes. que julgavam-nos enraizados no paiz. 
tanío pela sua favorável posição topographica, como muito 
principalmente pelas sympathias que haviam sabido inspi- 
rar aos Tupinambàs e Tamoyos, tribus guerreiras , que 
dominavam n'esta parte do Brasil, e já D. Duarte da Costa 
nos últimos tempos do seu governo pedia reforço a Portu- 
gal para desaloja-los. O que porém julgamos que decidiu a 
corte a tomar uma resolução enérgica a tal respeito foram 
as solicitações dos Jesuítas, que de tudo tinham sido in- 
formados, e que, pela sua inimitável politica, sabiam que 
um corpo de dez mil francezes, flamengos, e aventureiros 
de outras nações, estava prestes a partir para a França 
Antárctica em soccorro de Villegaignon, á quem também 
se attribuia o projecto de ir a Europa -equipar mm esqua- 
dra, com que depois de ter feito grandes damivos ao com- 
mercioportugiiez, íiprisionando os galeões que voltavam da 



-^ 40 - 

Religiosos da Companhia os padres Fernão Luiz e Gaspar 
Lourenro. 

Animados os porlugaezes com os auxílios que acabavam 
de receber resolveram proseguir no malogrado ataque do 
forte Coligny. Forçaram a barra, apezar da tenaz resis- 
tência dos francezes que Ih^a queriam tolher, e fazendo 
entrar os navios c canoas tentaram um desembarque na 
I)raia fronteira da ilha. Esta porém se achava fortificada 
de modo à faze-la enexpugnavel si ás obras d'arte se tives- 
sem junctado o enthusiasmo guerreiro dos defensores, es- 
timulados por um chefe hábil gosando de suas afTeições. 
Xos dois extremos da ilha haviam, como jà fica dito, dois 
oiteiros cobertos de bastiões, no meio um rochedo do cin- 
coenta á sessenta pés. onde se via a c^sa do governador 
abrigada por ameias, seteiras e torrinhas (áO) ; fortes mu- 
ralhas e profundas trincheiras tornavam diíBcil senáo im- 
praticável o seu accesso. Seria uma nova Diu si nella com- 
mandasse algum D. João de Mascarenhas: mas o seu chefe 
e fundador a havia desamparado partindo para a Europa, 
oito ou nove mezes antes, com o fim real ou supposto, de 
agenciar reforços. Não cabe á historia o avaliar das inlea- 
çócs de quem quer que seja ; o sanctuario d'alma fica im- 
penetrável aos olhos dos homens ; só Deus pode nelle en- 
contrar motivos para galardão, ou castigo. A dobrez po- 
rém do caracter de Villegaignon nos faz sus[)eitar que ha- 
vendo perdido as esperanças de constituir-se um grande 
senhor feudal, e quiçá soberano independenle nas lougi- 
í|uas terras da America, e vendo falharem as pmiuessas 
que lhe haviam sido feitas resolvesse partir para a França 
aimunciando aos seus companheiros (jue (lue.hia buscar 
soccorros para roílisar gigantescos planos. D^ahi certa- 



— 41 — 

mente provieram os boatos a que acima alludimos, e de 
que os Jesuítas fizeram sciente â El-rei D. João III. (27) 

Desanimados pela ausência do chefe e pela incerteza 
que pairava sobre o futuro do seu estabelecimento maravi- 
Iha-nos a coragem que ostentaram os francezes na defesa 
das suas fortificações. Havendo-ihes intimado Mem de Sá 
que deixassem a terra, pois pertencia esta a el-rei de Por- 
tugal, responderam-lhe altivamente os da praça ; preen- 
chidas assim as formalidades exigidas pelos estylos da guer- 
ra romperam as hostilidades. 

Desembarcaram os portuguezes na ilha n'uma sexta feira 
13 de Março e durante dois dias e duas noites houve entre 
estes e os sitiados vivissimo fogo. A resistência dos da 
praç>a arrancou a admiraçáo do governador geral que assim 
se exprime na sua participação official : « Porqtie siipposto 
que vy mmto e hj menos a my parece que senão viu outra for- 
taleza tam fúríe no mundo: • tentando um derradeiro es- 
forço, porque sua coragem jà começ^ava a fraquear « can- 
çados da demasia do trabalho e de combate tão vigoroso, 
diz S. de Vasconcellos na vida d* Anchieta, em que erão jà 
mortos muitos e bons soldados e estavam feridos muitos 
mais » escalaram os portuguezes as muralhas i)elo lado do 
arsenal e apoderáram-se à viva força do monte das palmei- 
ras, que era considerado como a sua cidadélla d'onde fa- 
zendo mortífero fogo obrigaram os inimigos á evacuarem 
a ilha procurando salvar as vidas nas canoas nas quaos |>as- 
sàram ao continente, 

Segundo o testemunho do próprio Mem de Sá o numero 
dos francezes que capitularam era de setenta c quatro 
além de alguns escravos ; a cujo numero se jnnctâram os 
que andavam em terra bem como a tripularão do tima iiáo 

JANEIRO. • H 



— 42 — 

franceza aprisionada pela galera Ezaura. Os gentios eram 
mais de mi! e tão bons espUigardeiros, diz o govemador-gc- 
ral, co)no os francezes. Os assaltantes não passavam de 
duzentos e sessenta, entre portuguezes e indigenas. 

Senhores da i;ha apressáram-se os portuguezes em ren- 
dei' graças ao Céo pelo seu assignalado triumpho celebrando 
o sacrifício da missa os dois Jesuítas que tinham guiado os 
índios de S. Vicente. 

Passados os momentos de cnlhusiasmo e de agradeci- 
mento ao Todo Poderoso pela vicloria que havia obtido 
pensou o governador geral ser tempo de também attende- 
rem-se às razões politicas de presidiar, ou arrasar o forte, 
convocando para semelhante fim um conselho dos princi- 
pae5 ofliciaes. Opinaram alguns pela necessidade de deixar 
uma forte guarnição na conquistada ilha afim de impedira 
volta dos francezes, que não deixariam de frequentar a 
terra, onde por (pia tro annos haviam permanecido. A razão 
porém de não ser conveniente dividir as forças de que se 
havia mister, não só para submetter os gentios, como para 
rechassar qualquer invasão estranha prevaleceu. Nesta con- 
formidade ordenou Mem de Sá que fosse totalmente arra- 
zado o forte Coligny e recolhidos aos navios portuguezes a 
artilhería e grande quantidade de despoj(íS do inimigo. 

Feitos todos os preparativos de viagem deixou o gover- 
nador geral o nosso porto desembarcando à 31 de Março 
em S. Vicente, onde a nova dos brilhantes successos ope- 
rados no Rio de Janeiro eda completa derrota dos france- 
zes foi recebida com grande alvoroço dos moradores, e 
mui principalmente por Nóbrega e Anchieta, que tanto 
tinham contribuído para o bom resultado da aniscaiki 
cmpreza. 



— 43 — 
Vil. 

ATAQUE D'uRlÇLMmiM — MORTE dV-STACIO DE SÁ. 

Como muito bem previra Mem de Sà (28) náo tardaram 
os francezes em voltarem ao Rio de Janeiro onde contavam 
com a alliança dos naturaes e achando-o completamente 
abandonado pelos portugiiezes escolheram melhores posi- 
ções fortilicando as aldeias á'Uniçumirim e Parampucu^ 
hy ; (áO) doestas aldeias a primeira estava no continente, 
situada juncto á foz do ribeiro Carioca (30), que como diz 
Gabriel Soares no Roteiro do Brasil, ficava na extremidade 
da enseada de Fra)icisco Velho (Botafoíjo) no lugar hoje 
denominado praia do F/am(?/ií/o devendo o seu nome (PUni^^. 
çumirim, segundo affirma o nosso illustrado collega e ami- 
go o Sr. Norberto, a um chefe indio que alli commandava. 
A segunda (Paranapuctihtj) achava-se n'uraa grande ilha, 
hoje conhecida pela do Governador por ter pertencido a 
Salvador Corrêa primo e successor de Estacio de Sá (31). 

No espaço de vinte annos em que o metrópole deixou 
em olvido o Rio de Janeiro repararam os francezes as suas 
perdas e bem que pareça náo haverem intentado a funda- 
ção de novas colónias continuaram a entreter relações 
d'amizade e commercio com os Tamoyos. a dirigi l-os em 
suas guerras, n'uma palavra a exercer sobre elles uma es- 
pécie de protectorado funesto em todos os sentidos ao 
dominío portuguez. As duas famosas aldeias, que acima 
mencionamos não eram governadas pelos francezes e sim 
por chefes indígenas ; mas defendiam-nas as bonbardas e 
arcabuzes sendo a tatic^ militar dos povos cultos emprega- 
da em sustentar a barbaria contra a civilisaçáo. Tudo pa- 
rece indicar que nessa épocha os francezes já náo pretea- 



— 44 — 

(liam, como no lempo de Villegaignon. fundar um estabe- 
lecimento dependente da metrópole e que servisse de 
núcleo a futuras colónias da sua nação, mas unicamente pro- 
longar o staíu quo com que tanto lucravam, oi)pondo-se 
com todas as suas forças a que os portuguezes, ou qual- 
quer outro povo, conquistassem o paiz. 

Fieis á esse programma vemo-los exacerbar o ódio 
que os tamoyos nutriam contra os successores de Ca- 
bral pondo em perigo as suas recentes povoações. S. Vi- 
qente e Piratininga foram ameaçadas de total extermínio; 
e sem os heróicos esforços de Nóbrega e Anchieta que na 
conferencia álperoUi] presidida pelo prudente Piíulobuçú, 
e a que assistiram ós principaes chefes da confederação 
tamoya, celebraram esse famoso armistício que fez por um 
momento suppur que a paz se hia restabelecer entre os 
antigos e os novos senhores do Brasil. O antagonismo 
porém das duas raças era manifesto e profundo; de modo 
que não podemos ao certo affirmar si foram os portugue- 
zes, ou os tamoyos, que primeiro violaram o tratado. 

A noticia que os formidáveis filhos das florestas tropicaes 
haviam jurado pela boca dos seus pagés cessarem d'hostili- 
sar aos neo-lusitanos causou excessiva alegria por todo o 
Brasil, alegria esta de que participou a própria corte de 
Lisboa. A senhora D. Catharina. irman do imperador 
Carlos V, que governava Portugal na menoridade de seu 
neto D. Sebastião, entendeu que offerecia-se azada occa- 
siáo para povoar o Rio de Janeiro, privando d^est^arte os 
francezes (Puma favorável localidade d'onde tinham em 
constantes sustos os seus vassallos d'além-mar. 

Com o tino governativo, que tanto caracterisava a viuva 
de D. João III, e ajudada pelos conselhos de D. Aleixo de 



— líJ — 

Menezes, náo fui difficil a escolha do homem que devera 
ser incumbido de tão nobre tarcfii. A illustre famiUa dos 
Sàs. offerecia à coroa servidores de provado zelo e dedi- 
cação; assim pois Estacio de Sá, jà conhecido pelos seus 
gloriosos precedentes, recebeu ordem de partir para a 
Bailia com dois galeões, carregados com toda sorte de 
petrechos de guerra, e alli receber as instrucçôes do go- 
vernador-geral para o bom êxito da sua commissão. 

Chegando á antiga capitai do Brasil no principio do 
anno de 1S64 entregou a seu nobre tio as cartas da rai- 
nha-regente nas quaes depois de elogial-o pelos relevantes 
serviços que prestara ao Estado com a tomada do forte 
Coligny e a expulsão dos francezes, recommendava-lhe que 
aproveitando-se do feliz ensejo do armistício dlperohy tra- 
tasse de povoar o Rio de Janeiro desligando para sempre 
os tamoyos dos seus antigos e temiveis alliados. Deu-se 
pressa o zeloso Mem de Sà de executar as ordens de sua 
soberana, e pondo à disposição de seu valente sobrinho as 
poucas forças coloniaes, prescreveu-lhe que se dirigisse ao 
nosso porto, fazendo escala por alguns outros da costa, 
onde podesse receber novos auxilies. 

Obedecendo a estas instrucçôes aportou Estacio de Sá ao 
Espirito Santo, onde pelos esforços do ouvidor Braz Fra- 
goso, poude alcançar a amizade do prestimoso Ararigboia 
chefe dos esforçados tupiminós. encarniçados inimigos dos 
tamoyos. t Cheio d'enthusiasmo, diz o Sr. Norberto, 
t anhelando o feliz êxito de tamanha empresa não Hmitou 
« Ararigboia o seu soccorro em acompanha-lo com gente 
t de peleja que escolheu entre os seus mais bravos guer- 

• reiros; porém administrou também armas para os índios 

• e os favoreceu com abastança de mantimentos. » (32) 



- 4C - 

Determinava o regimento da frota que demandasse esta 
o Rio de Janeiro com apparato bellico attrahindo os fran- 
cezcs para uma batalha naval fora da barra, fazendo semjnr 
jwr conservar as pazes com os hidios tamoyos ; nâo poude 
porém o capitâo-mór dar cumprimento á esta clausula; por 
isso que aqui chegando no mez de Fevereiro soube que os 
indigenas haviam rompido o armistício, e d'isso íeve evi- 
dentes provas com a morte de quatro marinheiros perten- 
centes a um batei, que procurando fazer aguada em uma 
ribeira fora acommettido por sete canoas dMndios ar- 
mados. 

A vinda dos portuguezes era de ha muito esperada: 
todas as praias estavam guarnecidas dMmpavidos guerrei- 
ros vestidos de pennas de guarás e tucanos brandindo ter- 
ríveis tocápes, ornadas as frontes desses lindos cocares, que 
quaes os turbantes dos sectários do Koran, tâo marcial as- 
pecto lhes dava e a quem chamava dos cerros das quebra- 
ílas e dos outeiros 

« A terrível inubia que assignala 

« A hora da investida e retirada » (33) 

A prudência aconselhou ao capitão -mór que com tão 
débeis forças não arriscasse a arrojada empresa ; assim 
pois desfraldou as velas para S. Vicente, onde contava 
com a nunca desmentida fidelidade dos seus liabitantes. 

No porto de Santos, onde em breves dias entrou a es- 
quadra soube com grande regosijo que os tamoyos de Pi- 
ratininga ainda se conservavam addictos ao convénio d^lpe^ 
rohy, e que o fiel Cunhwnbeba continlia em respeito os 
inquietos tupis. Ainda esta vez Nóbrega e Anchieta em- 
pregam o prestigio que as suas sobre -humanas virtudes 



— i7 — 

lhes haviam grangearlo e da exhausta c^ipitaiiia surgem 
novas forns. Com os soc^orros ahi recebidos elevou-se a 
expedição a seis navios de guerra, alguns barcos ligeiros e 
nove canoas de misliços e Índios. 

Ordenara o provincial dos jesuitas no Brasil (34) ao 
Padre Gonçalo d^Oliveira e ao irmão José d'Anchieta quo 
s^mbarcassem nessa frota para animarem os Índios cm 
cujo espirito suas palavras exerciam incontestável influxo. 

No dia 20 de Janeiro de loG6, memorável nos fastos da 
igreja pelo martyrio de S. Sebastião, partiu Estacio de Sá 
do iwrto de Berriquiúca (33) com destino á capitania do 
Espirito Santo, d'onde dcmorando-sc o tempo unicamente 
necessário para receber nova provisão de gente e de man- 
timentos, aproou para o Rio de Janeiro e â áO de Março 
avistou o Pão d'Assucar. (36) 

Juncto â esse natural monolitho, quiçá testemunha das 
primeiras revoluções geológicas do globo, desembarcou o 
capitão-mór não sem grande resistência di parte <los 
francezes e tamoyos. Escolhido este sitio para seu acom- 
panhamento fortiíica-o com fossos e trincheiras, desem- 
barca a artilhería dos galeões e prepara-se para sustentar 
renhida lucta que deve ser coroada pela mais brilhante 
victoria. 

Acerca da posição topographica do campo portuguez, 
que serviu de berço à nossa hoje opulenta capital, não 
estão de accordo os historiadores : querendo uns, como 
Pizarro, que fosse junto à moderna fortaleza de S. João, 
e outros, como Balthazar da Silva Lisboa, na var:íea viú- 
tiha. Pensa o Sr. Varnhagen. e julgamos que com todo o 
fundamento, que pode ser elle assignado no lugar actual- 
mente chamado Praia- Vermelha, onde se ergue o monu- 



— 48 — 

mental hospício, à que um piedoso mouarcha deu o seu 
nome. Ao testemunho, sempre valioso do nosso iliusliado 
e laborioso consócio, podemos juntar, o não menos impor- 
tante, do inspirado contar dos tamoyos. 

« Junto do alto penedo Páo-d'Assucar 

* Balisa natural do immenso golpho. 

« Já o capitao-mór entrincheirado 

« De forte praça os bastiões erguia 

« Na praia que Vermelha hoje chammos (:i7) 

Pouparemos aos leitores a fastidiosa narrativa dos pe- 
quenos combates, verdadeiras escaramuças, sem resultado 
algum definitivo, que tiveram lugar por espaço de dez 
raezes entre os tamoyos, capitaneados pelos francezes, e 
os portuguezes, ao mando de Estacio de Sà. Entre esses 
conflictos avultam a tomada d'uma náo franceza tripulada 
por cento e dez homens que se dísiam catJwlicos, na phrasc 
dWnchieta. e aos quaes permittiu o capitáo-mór o seu re- 
gresso à Europa ; bem como o famoso combate de sele 
canoas portuguezas contra sessenta e quatro indígenas em 
que a victoria se declarou pelas primeiras,, graç^is, dizem 
os chronistas, á ostensiva intervençJo do glorioso martyr 
sob cujo patrocínio pelejavam os luzitanos. Essas a^pa- 
riçóe^ de santos no meio das batalhas estava muifc no 
gosto dos nossos antepassados, que também attribuiam a 
victoria d'Aljubarrota á miraculosa presença de S. Jorge. 
Longe de desenganar o povo, chamando-o a um chris- 
tianismo illustrado, o clero d^essa épocha introdusiacm 
suas chronicas fabulosas lendas, fíivorecendo d'est'arte o 
fanatismo, lâo fatal à verdadeira religião como à impiedade. 
Não transcreveremos tão [)()uco as falias e proclamações do 



— tn — 

<:oramaiidaíite portuguoK poniue ncDliuma fó nos merecem 
semelhantes documentos, cuja falta d'authenticidade reco- 
nhece-sc ao primeiro exame, nâo necessitando grande 
perspicácia para descobrir-so em todas ellas a pcnna do 
padre S. de Vasconcellos , chronista da companhia de 
Jesus. 

Para mostrar aos seus o íirme propósito (lue havia for- 
mado de nâo abandonar o Rio de Janeiro, como já uma 
\'òz imprudentemente se íizéra, ordenou ao capitáo-mór a 
partida dos navios, que haviam transportado a expedição. 

Paliando a tal respeito assim se exprime um illustre 
historiador contemporâneo : 

« Já então tinham os nossos um baluarte de taipa e 
« alguns ranchos e casas cobertas, e feitas em redor da 
€ cerca muitas roças e plantado legumes e inhames ; e o 
« capitâo-mór para prender melhor os seus aterra, e ti- 
« rar-lhes do pensamento a possibilidade da retirada, 
€ despediu todos os navios. Sem os incendiar, como Aga- 
4L tocles era Africa, sem os encalhar, como praticara alguns 
< anãos antes Cortez no México, conseguio resultados 
€ idênticos. » (38) 

Apezarda heróica tenacidade do chefe portuguez, apezar 
dos conselhos, das exhortaçóes e até das [)rop]iecias dos 
Jesuítas, a coragem dos soldados começava a fraquear e 
os índios davam evidentes indícios de quererem regressar 
às suas tabas. Crítica era por certo a posição d^Estacio 
de Sá. 

N'esta conjunctura uma circumslancia, cm si de pouco 
valor para o futuro da colónia, veio apressar o dosfeicho 
da crise. José <rAnghieia, que como já vimos, era simples 
irmão coadjuctor, foi chamado á Bahia pelo segundo bispo 
do Brasil, D. Pedro Leilão, que houvera sido seu compa- 

JANEIRO. 7 



— :jo — 

nheiro na universidade deCoimbya, para completar a sua 
ordenação recebendo ordens sacras inclusive o presbyte- 
rado. Gozava este santo varão de grande estima em todo o 
Brasil ; assim pois foram ouvidos com grande acatamento 
os seus conselhos acerca da urgente necessidade de pres- 
tarem-sc soccorros ao capitáo-môr do Rio de Janeiro. O 
governador, o bispo, e o padre Ignacio d' Azevedo, que aca- 
bava do chegar com a patente de visitador geral dos jesuítas, 
tomaram a peito de seguirem o nobre impulso que lhes 
dava o joven loviUi, a quem a posteridade agradecida devera 
denominar um dia — Apostolo do Novo Mundo, 

Pondo de parte outros negócios, (jue exigiam a sua pre- 
senra na capilal do Estado, os três protogonistas doeste 
drama resolveram invidar todas as suas forças para que 
í^Tandes e promptos auxílios fossem por elles levados ao 
Rio de Janeiro. (39) 

Sahindo da Bahia em Novembro de 156G com destino à 
capitania dos Ilhéos, onde o governador-geral puniu cora 
scv«.MÍdade a revolta dos Aymorés. assegurando assim a 
tranquilidade das vizinhas povoações durante a sua ausência, 
deixou essa capitania no primeiro de Janeiro de 1567 vindo 
surgir defronte da nossa barra a 18 do mesmo mezeanno, 
ante-vespera de S. Sebastião, (juetão estreitamente se 
acha ligado coma historia da nossa cidade, que ainda n'um 
século de geral descrença se ufana de contal-o por pa- 
droeiro. 

Animado Estacio de Sá com o inesperado soccorro, que 
tào opportunamente lhe trazia seu preclaro tio, foi de pa- 
recer que se atacassem as aldeias fortificadas no próprio 
dia do martyr, opinião esta que prevaleceu no conselho, 
adrede convocado pelo governador-geral, incumbindo-se o 
capitão-mór de dirigir o combate. 



— 51 — 

IkMxauilo-se apenas um dia para rofocillar as al(piel>radas 
forçais <los lassos coinbalentes foi tudo disposto para que 
o sol do 20 de Janeiro aliuiniasse a victoria, ou a completa 
ilerrota dos portuguezes. 

O clangor das trombetas e o rufar dos tambores annun- 
^jou logo ao despontar d'aurora um dia de peleja ; mas 
nessa era o soldado catholico não se batia com denodo se 
não contasse com o auxilio do céo, si genuflexu ante os 
altares onde se celebrava o cucharistico myslerio. nãoofle- 
recesse a sua vida em holocausto ao seu Deus, que descia 
ao sanctuario do sua alma, puriíicada pelo sacramento da 
penitencia. Assim, depois de ouvirem missa, coumiimga- 
rem e re<^eberem abençam apostólica, (jue lhes lançou o 
bispo D. Pedro Leitão, accommetteram os portuguezes e 
os seus alliados a aldeia irUruçumirim princii)al acam|)a- 
mento dos inimigos. 

Dirigiu o capilão-mór uma enérgica falia aos seus sol- 
dados lembrando-lhes a victoria em nome do sancto pa- 
droeiro. Encarniçada foi a peleja ; os tamoyos e francezes 
oppuzeram obstinada resistência aos esforços dos guer- 
reiros d^Estacio de Sá ; o pelouro cruzava-se nos ares com 
a ervada sela e a espada encontrava -s(í coma tacape. Era 
uma scena de horror e confusão; uma guerra d(M*anni- 
baes. Os tupiminós cevavam o seu implacável ódio secular 
vingança no sangue dos tamoyos; vendo igualmente os 
portuguezes nos filhos da bellicosa Gallia outros tantos he- 
reges, cujas vidas não lhes era permittido poupar. Assim 
ás crueldades inherentes a todas as guerras— junclava-se 
ainda o implacável furor das contendas religiosas. O de 
lírio do combate os tinha cegado; sua alma se feichára a 
lodos os sentimentos nobres e generosos ; uma só ideia 
sobre elles predominava-a d(» arrazar as aldeias contrarias 



— cíá — 

exterminando os seus ilefensores. — O chronista di Compa- 
nhia diz-nos com plácida indiíTerença que nem um só ta- 
moijo escapou com vida, e dos francezes cinco, que cahíram 
nas mãos dos porlnguezes, furam pendurados em um pau para 
escarmento dos outros ! (40) O que respeitou o arcabuz c a 
bombarda completou o incêndio, que devorou em poucas 
horas as pobres cabanas dos fdhos das palmeiras. Apenas 
perderam os assaltantes doze homens (o que demonstra a 
superioridade de suas armas ) contando entre os mortos o 
capitão de Porto-Seguro Gaspar Barbosa, assaz notável 
pelos seus importantes serviços, e entre os feridos á Esta- 
cio de Sá. (41) 

Era conveniente aproveitar o bellicoso ardor da solda- 
desca ; resolveu-se portanto atacar immediatamente a ilha 
do Governador chamada então Paranapuciày, onde o ini- 
migo possuia um fortissimo reihicto, rodeado de cercas 
duplicadas que o tornavam quasi inexpugnável. Para ahi 
foi pois transportada a artiihería, cujo horrisono estam- 
pido repercurtido pelos cchos da bahia misturava-se com 
a confusa grita dos selvagens e os rôcos sons dos seus ba- 
res. Esse dia devera ser fatal aos adoradores de Tupau : 
tiveram de ceder á fortuna de seus contrários, e abando- 
nando suas aldeias, que o fogo consummia, foram buscar 
nas regiões ainda desconhecidas temporário asylo, d'onde 
também devera expelli-los a desenfreada cobiça dos coloni- 
sadores. Os epenicios da victoria e os cânticos de jubilo 
foram interrompidos para dar lugar ao luto e ás lagrimas : 
o heróico Estacio de Sá acabava de expirar, victima do 
occulto veneno, que lhe trouxera a seta do dextro tamoyo, 
ou quiçá da impericia dos Esculápios da époclia. 

Foi o seu corpo depositado na capella da Villa-Velha no 
meio da geral consternação sendo mais tarde (em 1583) 



— 53 — 

Irnslndados os seus ossos para a igroja tie S. Sebastião do 
Cistello, onde aguardam que a gratidão nacional lhes erga 
um digno monumento, que legue á posteri<laíle a plástica 
lembrança do primeiro capitâo-mór do Uio de Janeiro a 
quem devemos o estabelecimento do dominio luzitano 
nestas paragens. Oxalá que em breve soe a hora da repa- 
ração c que não possa um bardo fluminense dizer um dia 
iFEstacio de Sá o que com toda a razão disse Garret acerca 
do grande épico luzitano, (42) 

VIII. 

FDNDAÇÃO DA CIDADE DK S. SERASTIÂO. — EXPULSÃO DOS 
FRANCEZES. 

Já vimos que Estacio de Sá desembarcando juncto ao 
Pão de Assucar dera começo a uma povoação, que depois 
(Icnominou-se Villa-Velha, sob o patrocínio de S. Sebastião, 
pm lionra do desventurado príncipe, que então occupava 
o sólio alTonsino. Francisco Dias Pinto, nomeado alcaide- 
mór da futura cidade por provisão de 10 de Dezembro de 
1305. empossou à 13 de Septembro do ando seguinte ao 
referido capitão-mór, como resavam as suas instrucções, 
com todas as formalidades então usadis e de que faz ex- 
pressa mensáo o Author dos Annaes do Rio de Janeiro. Essa 
primitiva povoação consistia apenas em algumas cabanas 
edificadas em torno da fortaleza, uma das quaes servia de 
capella, onde se celebravam os officios divinos, e onde, 
como dissemos, fora sepultado o primeiro capitão-mór. 
Tudo tinha ainda o caracter provisório : dependia tudo do 
êxito da guerra. 

Havendo pago à naturesa o tributo de dor que lhe cau- 
sara a prematura morte do seu valente sobrinho cuidou 



— 54 — 

Mem (lo Sà de dar estabilidade à nascente colónia. Não lhe 
parecendo porém próprio o sitio onde fora ella assentada 
deliberou muda-la para um lugar mais visinho ao anco- 
radouro dos navios, e que apenas distava do primeiro uma 
Icgoa. 

O local eleito para n'ellc lançarem-sc os alicerces da ac- 
tual metrópole do Brasil foi no angulo em que vemos hoje 
o Hospital (la Misericórdia a que presidiava o forte de S. 
Thiago (43). Para a defesa da barra construiram-se do 
lado do Pão tT Assacar as fortalezas de S. Diogo e S. Theo- 
dosio (44) e fronteira á elle a de Nossa Senhora da 
Guia (43) no mesmo lugar onde Villegaignon levantara 
algumas ligeiras fortificações. Na montanha que ficava á 
cavalleiro (o castello) erguêram-se o forte de S. Januário, 
a matriz, (45) as casas da camará e do governador, assig- 
nando-se ahi o competente terreno para a edilicação do 
collegio dos padres da Companhia, cuja doação foi aceita 
em nome da ordem pelo visitador geral, padre Ignacio de 
Azevedo. 

Tinha pressa Mem de Sá de tornar á Bahia, onde sua 
presenç^i era reclamada pelos interesses do Estado, por- 
tanto demorando-se aqui somente dois mezes deixou o 
nosso porto havendo confiado a administração da conquista 
a seu sobrinho Salvador Corrêa de Sà, que assaz se distin- 
guira durante a guerra, 

E' pois à este governador que deve a nossa cidade a rea- 
lisaçâo do plano concebido pelo illustre Mem de Sà. Foi 
em seu tempo que começaram a alçarem-se as casas feitas 
de pedra e cal em substituição das humildes choças, que o 
machado e o fogo derribaram os robles seculares para darem 
lugar às ruas e às praças, e que sobre a chlamide virginal 
da natureza veio a civilisaçào plantar seu throno. (47) 



— ;)D — 

Os Índios alliados c os citechumenos dos jesuifas eram 
os operários com que entáo se contava ; porque nessa era 
a escravidão africana, abuso clamoroso da força constituido 
em direito, náo polluia a terra de Santa Cruz. 

O cego empyrismo presidiu à edificação da nossa capital; 
e n'um clima abrasador, debaixo dos raios dardejantes do 
Gipricornio, foram as habitações construidas pelo medeio 
das que existiáo no rehw. O ferro iconoclasta do colono não 
deixou nas praças uma só arvore que abrigasse o cami- 
nhante dos ardores do sol, ea agua, cuja abundância tor- 
na-se indispensável nos paizes cálidos, era escassa e dada 
á golas, á sequiosa população, antes que fosse conduzida 
sobre seu magestoso arco triumphal. 

€ Infelizmente aqui, diz o Sr. Varnhagcn, como jà succc- 
€ dera na Bahia e nas demais povoações adoi)tou-se com 
« servilismo o systema de construcçáo de Portugal e nem 
« da Ásia, nem dos modelos da architectura civil na Pe- 
€ ninsula, isto é do uso dos numerosos pateos com rcpuchos 
« o dos eirados, ou açotéas, houve quem se lembrasse. 
« como mais aproposito para o nosso clima. Para certas 
< vialicas tudo depende do principio. » (48) 

Logo que a terra começou a ser cultivada recompensou 
ella com explendida liberalidade o trabalho do lavrador, e 
as abundantes colheitas trouxeram ao seu casal a satisfação 
intima, que resulta ao pai de familia quando vè em torno 
de si contentes os seres que lhe são caros, e que se pren- 
dem à sua existência, como os liames os annoso tronco. 

A brilhante victoria dos portuguezes levara o desanimo 
ao espirito dos tamoyos ; julgaram ter ouvido em seus ma- 
racás a tétrica vóz d*An1iangá ; e fatalistas, como quasi todos 
os povos bárbaros, resignàram-se á sua sorte com stoica re- 
signação, promettendo aos conquistadores não |)crturbar 



— 56 — 

jamais scusocègo. Debalde procuraram os francezes des- 
pertar- lhes os brios ; foram insensíveis às suas exhortaçôes, 
e cahíram nesse estado de marasmo, de lethargia moral, 
visinho à morte : 
Consamjaineus letisopor como diz Virgílio. (49) 
Apezar de semelhante disposição e receiando que o seu 
despertar seria, qual o do tigre, mandou Salvador Corrêa 
romper as matas para facilitarem- se as communicacões e 
tirar aos inimigos os meios de fazerem ciladas, e, para mor 
segurança, circumvallou a cidade de muralhas. (SO) 

Nâo eram infundados os temores do governador ; porque 
os francezes que poderam escapar com vida, vendo que os 
tamoyos do Rio de Janeiro recusavam prestarem-se á sua 
vingançíi, retiráram-se para Cabo -Frio, aguardando a che- 
gada de navios da sua nação com que podessem de novo 
tentar a sorte, estreitando no entanto as suas relações com 
os naturaes do paiz. 

O dia da vingança, tâo ardentemente desejado, não se 
íez por muito tempo esperar; e a colónia ha pouco fundada 
teria certamente sucumbido sem a dedicação, e a nobre 
conducta do valente Ararigboia, de quem jà falíamos, mais 
conhecido pelo seu nome christáo de Martin Affonso de 
Souza. 

• Recebera este chefe dos tupiminós do politico Mem de 
Sà, terrenos próprios para o estabelecimento da sua tribu 
na plaga opposta á nova cidade para que lhe servisse como 
que de baluarte, e no alto da montanha, onde os jcsuitas 
Gonçalo d'01ivcira e Ralthazar Alvares erigiram uma capella 
dedicada ao martyr S. Lourenço, se desseminàram as pic- 
torescas cabanas dos indígenas^ collocadas como d^atalaia 
[)ara correrem ao primeiro signal era defesa dos colonos. 
« Colloc:\da (diz o seu eloquente historiographo) n'um 



— ÍJ/ — 



I como regaço da montanha dir-se-hia ([uo ella se assen- 
■ tara á margem da enseada de Maruhy fechada como um 
f lago em cujas praias contornadas de montes expiram as 
t ondas plácidas e brandas sem arruido, para tomar sobre 
€ os seus joelhos essa jóia religiosa, que um povo pagão 
t votara ao Senhor, ao abraçar a sua religião, e que altiva 
€ reclinara a sua fronte, cingida do cocar, formado por um 
« grupo de cpqueiros ; . . . ma5 hoje descalvada e ainda as- 
« sim tão bella, se destaca n^um horisonte diaphano e puro, 
€ sem uma nódoa, cujo azul de saphiras contrista com o 
< verde d^esmeralda da gramma de qfte está escamada, e o 
• sol ao surgir parece que por momentos lhe empresta 
€ seus raios para cingil-a tPuma aureola radiante, e ao do- 
€ brar-se no horisonte do accidente ainda seus raios mor- 
t bidos e bellos vem colorir os vidros das janellas de seu 
t rústico templo. » (M) 

O chefe Guaixarà, que havia sido derrotado por Ara- 
rigboia no celebre combate das camas, de que já fizemos 
menção, aproveitando se da opportuna chegada de quatro 
náos francezas foi atacar a aldeã de S. Lourenço, onde se 
achava o seu temível adversário. Sendo porém avisado a 
tempo Salvador Corrêa mandou pedir reforços á S. Vicente 
e dispòz tudo para impedir á aggrossáo dos invasores. 

N'uma bella tarde quando o sol no occaso annunciava a 
approximação d^uma d'essas esplendidas noites tropicaes, 
em que o Cêo tachonado d'estrellas se espelha nas tranquillas 
aguas da formosa Nictheroy, devisou-se á entrada da barra 
uma esquadra composta de quatro náos, oito lanchas, e 
um inlinito numero de canoas. Alvoroçada a pcípiena guar- 
nição da cidade corre a seus postos ; rufam as caixas e tocam 
os sinos a rebate; de todas as parles prccipitam-se os ho- 

JANEIRO. 8 



— 58 - 

mens ás trincheiras, c as mulheres às igrejas. Do alto de 
sua montanha descobre Ararigboia o perigo (|uc ameaça os 
seus alHados e tomando o conselho dos padres Gonçalo 
d'Oliveira e Balthazar Alvares resolve esperar pelos inimigos 
em seu acampamento, defendido por novos fojos, estacíi- 
das e trincheiras. Ahi recebeu elle o soccorro de trinta e 
cinco portuguezes, expedidos pelo governador, e ao mando 
do capitão Duarte Martins Mourão, o que muito estimou, 
por isso que jà podia contar com guerreiros europeos que 
oppuzessem aos francezes armas iguaes. 

Havendo fortificaío a sua aldeia, abrigando-a de qual- 
quer surpresa, que por ventura contra ella tentassem os 
inimigos, foi no meio das trevas da noite offerecer-lhes 
batalha, que teve lugar no sitio onde hoje se ostenta a riso- 
nha Nictheroy, o não na Bica dos Marinheiros, como por 
engano alTirma o Sr. Varnhagen. (52) 

Peçamos a um coUega nosso a descri|)ção d>sle heróico 
feito d'armas ; oiçamos suas palavras, dictadas pelo mais 
ardente patriotismo, e selladas com o cunho da verdade : 

* Despertam os tamoyos ao brado de guerra ; entre o 

« horror da escuridão da noite trava-se combate horrivel, 

• mortífero ; o estrondo d;is armas o grito dos combaten- 
« tes augmcntam aiiida mais a confusão ; o inimigo sem 
« ordem, envolto em si mesmo, volta as annas contra o 

* seu próprio seio como uma serpente que se dilacera 
« com seus dentes, não vendo o damno que causa; c de 
« parte a parte o valor despula a victoria matando, ferin- 
« do; já juncando as praias de cadáveres, já tingindo as 
« areias de sangue; e de parte a parte avançam, atropel- 
t lam-se e a confusão que reinava ha muito entre os ta- 
í paoyos, acaba por obriga-los a procurarem na fuga a 



— ;;9 — 

« .«salvarão »ie suas vitlas: lá protegidos das trevas ganliam 
« as canoas e conseguem se afastar das praias, que deixam 
• ao triumpho das armas (rArarigboia. p (33) 

As nàos francezes não podendo por causa da vasante da 
maré, que as conservava encalhadas e adornadas, usar da 
sua artilharia, solírêram vivíssimo fogo de terra que lhes 
fazia Mm falcão e aproveitando-se do terral da manhan sahi- 
i-am pela barra fora com direcção a Cabo-Frio. Para com- 
pletar a sua victoria entendeu o governador que seria con- 
veniente persegui-los c apresiona-Ios no porto em que se 
Jiaviam recolhido. Quando porém ahi chegou só estava 
ancorado um galeão, que tomou depois de porfiada lurXa, 
Irazendo-o Iriumphalmente para o Rio do Janeiro. 

Não estava porém segura a nossa cidade de novas c re- 
pelidas invasões enquanto não fossem completamente ar. 
razados os estabelecimentos que os francezes possuíam em 
Cabo-frio : o que só teve lugar no tempo de Constantino 
Meneláo. 

Avisado Salvador Correia pelo governador-geral do Bra- 
sil, (íaspar de Sousa, que nàos inglezas estacionavam 
n'aquellas paragens, onde os tamoyos proseguiam em seu 
systeraa de favorecer os seus corsários e d'impedir a fun- 
dação de colónias portuguezas, assentou fortificar Cabo-Frio 
lançando alli os alicerces d'uma povoação. 

Auxiliado por uma força de quatrocentos indiôs de Se- 
petiba e dos portuguezes, que espontaneamente o quizeram 
accompanhar, visitou Meneláo com a sua esquadrilha toda 
a costa, e fundou o forte de S. Ignacio no lugar que os 
francezes haviam escolhido de preferencia para o theatro 
de suas operações. 

A cidade de S. Helena, edificada pelo governador do Kio 



— GO — 

de Janeiro, era uma garantia da permanência do domínio 
portuguez e a aldeia de S. Pedro, situada a duas léguas de 
distancia, c povoada por Índios amigos, era como um forte 
destocado, que impedia aos francezes a continuação das 
suas correrias do lucrativo commercio do ibirapitamja, 

Desacoroçoados em suas infructiferas tentativas parece- 
ram os compatriotas de Villegaignon terem renunciado á 
posse da nossa terra e por largos annos as brisas guanaba- 
renses não enfunaram o pavilhão dos lyrios. 

Antes de terminar esta primeira parte do nosso trabalho 
seja-nos licito lamentar, como jà o fizemos n'outro lu- 
gar, (54) que a intolerância religiosa levasse ao patíbulo 
ao infeliz João du Bordel (55) pelo único crime de ser 
calvinista I Sentimos que no próprio anno da sua fundação 
assistisse o Rio de Janeiro a tão cruel espetaculo, e visse 
o venerando Anchieta, por um zelo funesto e uma piedade 
mal entendida, constituir-se ajudante do algoz ! . . . A di- 
versidade de crença não pôde constituir um delicto ; e o 
Estado não deve por forma alguma erigir-se em Juiz 
d'uma causa cujo conhecimento só à Deus pertence. 

Apezar de ser tal attentado contra a liberdade de cons- 
ciência commettido a instigações de alguns ecclesiasticos, 
a quem os poucos conhecimentos philosophicos impediam 
d^encarar a questão no seu verdadeiro ponto de vista, não 
pôde ser a Igreja responsável por elle ; porque jamais eri- 
giu em dogmas princípios contrários à doutrina do seu 
Divino Fundador. 

Copiemos as palavras d'um grande phílosopho contem- 
porâneo em abono da nossa asserção : 

« Je le díl a Phonneur de TEglise et pour la defense de 
« lEglise: quand (4le se íit oppressive, quand elle invoca 



í\ 



— 01 — 

lo hras séeulier contre Ia liberte de consoienco, olle fiU 
infidèle h son caractere età sa mission. Elle servil les 
passions des hommes el cessa d'obéir a Pinspiration di- 
vine. A ce moment-là elle oublia TEvangile. Le jour 
oà rinquisition fut fondée 11 fut vrai de dire que TEvan- 
gile était trahi . 

« Non, ce n'esl pas le Chrislianisme qui a fondé Fin- 
quisition et fait la saint-Barthélemy. Ceux qui vienneut 
nous dire aujourdMiuy que rinquisition était necessaire 
et que la saint-Barthélemy était juste, calomnient le 
Christianisme. S^ils avaient raison, les ennemis de Ia foi 
n'auraient besoin poiír Técraser que de rhistoire. Ces 
horreurs que vous mettez à la charge de la foi chré- 
tienne, ont été enfantés par Tintolerance et le fana- 
tisme. » (r>()) 



^ig^^g^qft" 



— 63 — 

PARTE SEGUNDA 

INVASÃO DE DUCLERC. 
I. 

MOROSO INCREMENTO DO RIO DE JANEIRO. 

Péssima era a posição climatológica da nova colónia, c 
como muito bem ponderou um autlior inglez citado pelo Sr. 
Ferdinand Dénis, (37) os arredores do calabo^iço eram de 
tal natureza que podiam singularmente comprometter a 
existência de uma grande cidade. Parece porém que por 
largos annos a população circumscreveu-se nos estreitos 
limites que lhe traçara MemdeSá. e receando alguma nova 
invasão não ousava afastar-se do Castello, sua verdadeira 
acropolis. Rodeada de [)aúes. e cobertas as suas colinas 
de densas florestas, que lhe interceptavam a livre circula- 
rão do ar, não admira que a nossa ten\i gozasse da reputa- 
ção de pouco saudável. Vagaroso foi o seu de3envolvimento, 
e podemos datar os seus progressos do íim ds século i7-^ 
quando os emprehendedores paulistas, embrenhando-se 
pelos nossos sertões, descobriram riquissimas minas nessa 
região, que d'ellas derivou seu nome. 

Corramos rapidamente os dedos pelo teclado da sua his- 
toria até o anno de 1710, em que occorréram os graves 
successos, que nos propomos narrar. 

Em seus paternaes braços recebera Salvador Corrêa de 
Sá a nascente colónia ; seu governo foi tal qual convinha 
ao nobre encargo que sobre si tomara. Sua longa adminis- 
tração iMjde aM' comparada ao reinado de Numa Pompilio 



— tíi — 

(jue tão grata recordarão deixou nos annaes romanos, c 
podem ser appiicadas h sua vida as palavras do Evangelho : 
pertranmnl bene-faciendo. Tece-lhe este pomposo elogio o 
illustrado conselheiro B. da Silva Lisboa : 

« Poupou o sangue dos indigenas quanto lhe foi possi- 

« vel, repelliu os inimigos externos, protegeu a innocen- 

« cia, afugentou o crime pelo seu horror e despreso dos 

« màos, ganhando a opinião publica no campo da honra ; 

« pois sem os soccorros de Portugal cobriu a sua fronte 

« de bem merecidos louros. Pc a sua probidade não ou- 

« savam aproximar-se d'elle os reptis venenosos da lisonja 

« afim de envenenarem o ar puro que respirava. » (38) 

A' Christovâo de Barros immediato successor de Salva- 
dor Corrêa deveu o Rio de Janeiro o promover a cultura 
das fazendas, estabelecidas no recôncavo da cidade: e ao 
Dr. António de Salena (que com o titulo de governador- 
geral veio administrar a capitania do Sul, quando entendeu 
a metrópole ser conveniente a divisão do Brasil em dous 
governos independentes) a vigilância em defender as suas 
costas até a Ilha-Grande. sempre infestadas de corsários, 
c o desbarato dos tamoyos de Cabo Frio por uma forra de 
400 portuguezcs auxiliada por 700 indios alliados. 

Martim Corrêa de Sá, nunca esquecido das heróicas tra- 
dições de sua família, contribuiu para tornar defensável 
a nossa capital mandando construir de pedra e cal as for- 
talezas de Santa Cruz, S. Thiago e S. Sebastião, que até 
então eram de barro e madeira. Sob o regimen todo mi- 
litar doeste benemérito varão serve croasis a edificação do 
convento de Santo António, que devera ser um dia o Athe- 
neu (lo Brasil. 

Assignala-se Constantino Meneláo pela expulsão dos 



"» 



— ():> — 

frnncezes do Caha-Frio, c pela fundarão, já anloriormente 
referida, da cidade de Santa-Helena, actualmente conhe- 
cida por Nossa Senhora d^Assmnpção. Foi também em seu 
tempo (|uc teve lugar a conquista dos campos dos Goijtã' 
vazes, hoje uma das mais importantes comarcas da nossa 
ubciTima província. 

Enquanto fruia o bom povo lluminense das doçuras de 
governos justos e enérgicos passava Portugal pelas forcas 
auuimas da occupação estrangeira. Expirara a sua nacio- 
nalidade com o desditoso D. Sebastião na batalha d'Alcaçar- 
Kebir ; e O reinado ephemero do Cardeal-Rei servia ape- 
nas para dar a Philippe II o temjio necessário para asse- 
gurar-se da posse do paiz. Portugal era riscado domappa 
das nações e a vasta monarcliia liespanhóla parecia realisar 
o dourado sonho de Carlos V. 

Tão gigantescos acontecimentos pouca, ou nenhuma re- 
cursáo exerciam na nossa pátria : era-nos indifferente rece- 
ber ordens de Lisboa, ou de Madrid; porque nem uma, nem 
outra corte, cuidava seriamente da nossa prosperidade. 

Guiados unicamente por seus nobres sentimentos e não 
por instrucções da metrópole fizeram estes, e alguns ou- 
Iros governadores, era nosso favor o pouco bem que liies 
era licito fazer. 

A noticia da tomada da Bahia á 9 de llaio de lGá4 pela 
esquadra hollandeza commandada pelo almirante Jacob 
Willekens e a d'OUnda, antiga capital de Pernambuco, 
pelos chefes batavos Loncif Adryens e Wierdemburgh á 
10 de Fevereiro de 1630 causou extraordinária sensação 
no Rio de Janeiro; não só pelo interesse que lhe insi)irava 
a sorte de suas co-irmans como pelo justo receio que igual 
destino lhe estivesse reservado. 

JA-NEIRO. 9 



— CG — 

Um só pensanioiilo — o da defesa do porto e das fortili- 
cacões da cidade — animou a todos os habitantes que deram 
nessa épocha inequívocas provas do seu acrisolado patrio- 
tismo. Não houve individuo que se subtrahisse ao serviço; 
concorreram todos com singular espontaneidade, jcá com 
suas pessoas e as de seus escravos, e já com o seu dinheiro 
para as obras, que sob a intelligentc direcção do gover- 
nador interino Duarte Corrêa de Vasqueanes por toda a 
parte se faziam, sendo entre estas as mais notáveis a da 

fortaleza da Lage, que ainda existe, e a do grande dique 
que da €arioc:i prolongava -se até a Prainha, cujos vestí- 
gios se deixaram ver por mais de um século. (59) 

Era porém feliz esse povo que assim se devotava tão 
nobremente em prol de seus penates 1 E' o que passamos 
a examinar. 

Seu commercio e industria tocavam aos últimos paro- 
xismos; e a olhos vistos definhava a sua lavoura. Si pre- 
cisássemos demonstrar esta proposiçtlo que ninguém, lida 
cm nossa, historia, nos contestaná, bastaria citar o se- 
guinte facto: 

Querendo o governador Rodrigo de Miranda Henriques 
abastecer a cidade d'agua potável, cuja falta tornava-se por 
demais sensível, propoz ao senado da camará o encana- 
mento das da Carioca, para cujas despesas estabeleceu-se 
o imposto de 160 rs. por canada de vinho que fosse im- 
portado. Semelhante imposição porém tornou-se inexe- 
quível por haver tanta carestia doesse género que os pró- 
prios sacerdotes haviam deixado de celebrar ! (GO) Muitas 
eram as cousas que contribuíam para a miséria que tão 
cruelmente se fazia sentir não sendo dos últimos os falsos 
princípios que então predominavam em economia politica. 



— G7 — 

conrclando-sc a liboriladc das tnnsacçoes por meio do ta- 
rifas <jue regulavam todos os preços, como as (pie prohi- 
biam os oleiros de levarem mais de 20:000 rs. por milhei- 
ro de teiliae 3:000 i)e!o de tijolo. Até os boticários tiveram 
um regimeiílo marcando os preços porque deveram vender 
«)s seus medicamentos. Apezar d>stas medidas anti-econo- 
micas o mono{?:)lio, (jual voraz almtre estendia as suas 
negras azas sobre a incauta população , e na lerra da 
abundância fez-se a fome muitas vezes sentir. 

Ura illustre fluminense, Salvador Correia de Sá e Bene- 
vides, empunhou o bastáo de governador em tão difíiceis 
conjuncturas. Seu nome importava um titulo de recom- 
mendação ; c nos archivos da sua nobilissima familia en- 
contraria as melhores normas para bem administrar um 
povo, que tinha-se habituado á ver sahir da casa dos Cor- 
reias de Sá seus mus Ínclitos governantes. 

Tomou-se o nosso benemérito compatriota recommen- 
davel pelos relevantes serviços aqui prestados. Seu zelo c 
actividade eram proverbiacs ; tudo procurava ver, conhe- 
cer, e examinar por si mesmo. Fez immensas concessões 
de sesmarias ; fundou a igreja de S. Salvador de Campos 
nas pictorescas margens do Parahyba ; estabeleceu gran- 
des engenhos de assucar promovendo o cultivo da c mna 
nessa tão fértil localidade; abriu estradas que a communi- 
cassem com o Rio de Janeiro, espalhando por ellas aldeias 
d^indios e colónias d'europeus. Coube-lhe igualmente a 
honra de proclamar aqui a restauração da monarcUia lu- 
zitana na pessoa de D. João IV. 

Sirvam estes preclaros feitos, que somos o primeiro a 
reconhecer de attenuar a triste impressão (jue experiniímta 
todo o fluminense ao lembrar-se que foielle, que pelo seu 



— C8 — 

caracter imperativo, levou o paciíico povo do Rio de Ja- 
neiro á sul)Ievar-se contra a sua autlioridade no dia 8 do 
Novembro de iCGO. 

Em seu terceiro governo vimm seus compatriotas que o 
liabil administrador tinha sido eclypsado pelo denodada 
guerreiro, e que a gloria militar absorvia nelle todos os 
outros. Cuidando unicamente em presidiar a praça contra 
qualquer inesperado ataque volveu as suas \istas parar 
objectos bellicos com completo sacrifício dos outros ramos 
do serviço publico, Augmentar o numero de soldados era 
fácil á um governo que não respeitava a liberdade indivi- 
dual: a difficuldade porém consistia em sustental-os com 
os fracos recursos da fazenda real. Recorreu Benavides ao 
senado da camará para que lançando fintas obtivesse a 
somma que desejava. Esta respeitável corporação, que tão 
fielmente representava o povo, fez-llic respeitosamente 
vêr que as fontes da riqueza pidjflica tinhara-sc seccado 
com a funesta creaçáo da compaiúia decammercio, seu fatal 
previlegio do estanco de todos os géneros. Tal foi o mo- 
tivo da desintelligencia entre o governo e a camará : pro- 
tegendo aquelle o monopólio, que lhe promettêra fornecer 
dinheiro para as tropas, e defendendo esta os direitos dos 
miseros moradores , que se viam ate privados do azeite 
para luz e do sal para adubar a comida. 

Exacerbados crest^arto os ânimos não podia tardar a ex- 
plosão. 

Havendo o governador partido para S. Vicente pareceu 
favorável o ensejo para romper a sedição. A' maneira dos 
romanos retirando-se para o Monte Sayrado passaram os 
sediciosos a bahia de Nictheroy, e armando-sc em S. Gon- 
çalo accommettêram aciíbde: depozéram ao governador 



— 09 — 

interino Thomt; Corrêa dWIvarongn» c forçaram a Agostinho 
Barbalho Rozerra â asumir à governança. 

Reprovamos altamente semelhantes excessos : não cons- 
tituimos a rebelliâo em direito; mas também não desco- 
nhecemos que é ella muitas vezes uma justa reacção contra 
os al)usos <la autlioridade. Em um governo livre, como o 
que felizmente possuimos, onde impera um principe. cujo 
palácio, semelhante »á habitação dos tribunos de Roma. é 
accessivel â todos, tem sempre o povo meios de fazer ouvir 
a sua voz, e levar suas (jueixas aos degráos do throno. 
Quando porém o despotismo impera, quando as válvulas 
da opinião publica são cuidadosamente fechadas, tornam-so 
frequentes e inevitáveis as revoluções. Desappareceram 
ellas da Inglaterra desde (jue a imprensa e a tribuna torná- 
ram-se realidades, e reproduzem-se na Hespanha, onde 
a sinistra sombra da luíiuisição faz empallcdeccr as insti- 
luiçóesHbcracs. 

Pedimos vénia para (hscordar da opinião do esclarecido 
author do Plutardw Brasileiro, que fallando das causas 
doeste movimento popular assim se enuncia : 

«... não eram questões de momento que os ha- 

« \iam armado ( os revoltosos ) ; eram interesses de par- 

« tidos políticos; e podia o partido do infante D. Pedro 

« consentir no governo do Rio de Janeiro a Salvador Cor- 

« reía de Sã e Benavidcs. quando os ânimos dos seus co- 

« religionarios politicos de Portugal trabalhavam por depor 

« o rei D. AíTonso e elevar ao throno o infante? Qualquer 

€ movimento neste sentiilo para se firmar e solidificar, 

« necessitava de ser acceito e abraçado em todos os domi- 

• nios da coroa por tugueza. » (Gl) 



— 70 — 

O nosso digno consócio é muito versado na liistoria de 
Portugal para ignorar (|uo a deposição de D. Âlíonso VI e 
a exaltaçáo ao Ihrono de seu irmão D, Pedro foi uma ver- 
dadeira revohiçm de palácio, em que a naçáo não tomou 
parte alguma; e que os partidistas do infante estavam 
entre os fidalgos de Lisboa c não no Rio de Janeiro, pobre 
colónia inteiramente alheia á essas viscissitudes politicas. 

Não tinha a sedição um programma bem delineado : 
faltava -lhe um chefe ; pois que Agostinho Barbalho decli- 
nara de si essa responsabilidade ; era apenas, como fizemos 
vôr, unia reacção contra os clamorosos abusos do poder. 
As medidas enérgicas de Benavides, seus bandos alterra- 
dores, pozeram fim a agitação popular. 

Foi altamente desapprovado pela metrópole o proceder 
de seu delegado no Rio de Janeiro ; jádando-lheem Pedro 
de Mello um successor, já mandando pôr em liberdade, 
condecorados com o habito de Christo, aos procuradores 
do povo, aos quaes a alçada do desembargador Peçanha 
mandara presos para Lisboa, Note-se que tudo istofazia-se 
ainda no reinado de D. AfTonsoVI, (62) cuja deposição 
só teve lugar em 23 de Novembro de 1667 ; eé sabido que 
pela fidelidade de Salvador Corrêa à causa doesse desgra- 
çado principe soffreu elle dez annos de prisão no fim da 
sua longa e gloriosa existência. 

Demoramo-nos mais do que tencionávamos na aprecia- 
ção doesse episodio da nossa historia porque quizemos, em 
honra dos nossos avós, lavar essa única nódoa que porven- 
tura se queira notar em sua nunca assas louvada fi- 
delidade. 

Pedro de Mello foi a continuação de Benavides— menos 
o prestigio da gloria :— exactor no ultimo ponto só pensava 



— Ti- 
na suslentação do presidio arrancando da camará novas 
contribuições forçou-a a táo impolilicas medidas que o 
próprio ouvidor geral teve de representar contra ellas. 

.Vesses déspotas que flagelláram a nossa terra segiiiu-se 
o patriarchal governo do tenente-general João da Silva e 
Souza. « O novo governador, diz um chronisla, pareceu 
t um anjo tutelar, enviado do Céo para adorar os males 
« públicos, baseando o seu governo na justiça, prudência 
• e religião. » (63) 

Já a miséria n^uma progressão ascendente de modo tal 
que o senado da camará teve de fazer subir ao tlirono uma 
tocante representação expondo-lhe a impossibilidade em 
que se achavam os povos doesta capitania de contribuirem 
com a somma de quatrocentos mil reis annuaes para a Jíí«te 
das Missões , crcada com o píissimo fim d'evangelizar o 
Brasil. ConsuUe-se este importante documento onde vèr- 
se-ha em nobre e singela linguagem o verídico quadro das 
desgraçais que então opprimiam o povo fluminense. 

Como se não bastassem tantos e tão repetidos males 
vieram ainda augmentar a calamidade publica a falta de 
moóda, que paralysava todas as transacções, e a borrivcl 
mortandade de mais de cinco mil escravos, que succumbí- 
ram victimas da peste das bexigas; porque ainda nesse 
tempo nâo havia apparecido Jenner, um dos maiores bem- 
feitores da humanidade. 

Táo cruéis desgraças não podiam deixar de tocarosensi- 
tbI coração do governador, que na impossibilidade de 
remedial-as pranteava com o povo a sua desdita; imia-se 
à camará nas representações à coroa ; e fazia-lhc vôr que o 
monopólio da companliia do commercio exhauria as forras da 
t:o!onia, cujos míseros habitantes tiravam o pâo de seus fi- 



— ia — 

llios i)ara rcmellerem annualmente âcôrle a sua quota para 
o dote (la infanta, depois rainha d'Inglaterra, e para as in- 
demnisações que portugal tinha-se obrigado á pagar à llol- 
landa (]uando assignou a páz com esta nação. Surdo aos 
justos clamores dos seus vassalos americanos ordenava a me- 
trópole ao governador que attemlesse ás fortalezas da bana, 
ex\}ressando-lhe que o menor descuido lhe serveria de culpa. 

Tão estreitamente alliára o general João da Silva a sua 
causa com a dos seus governados, que o não tomaram estes 
solidário com os desatinos minisleriaes. Para deixar aos 
vindouros a memoria de tão egrégio varâo resolveu a ca- 
mará mandar tirar- lhe o retrato coUocando-o na sala das 
suas sessões ; dirigindo-lhe ao mesmo tempo uma allocu- 
çáo concebida nos mais patheticos termos. Digno e hon- 
roso galardão para quem tão bem comprehendêra o desem. 
penho dos seus deveres ! 

Afeita a nossa cidade às scênas d'arbitrariedado experi- 
mentou contudo sentimento de justa indignação ao vôr o 
administrador ccclesiastico, à requerimento do reitor dos 
Jesuítas, excommungar ao senado da camará por sustentar 
este o livre uso dos mangues, onde a pobreza procurava 
allivio á sua miséria, tirando d'elles mariscos, carangueijos 
e lenha para o seu uso domestico. Pretendiam os fdhos de 
S. Ignacio que eram de sua exclusiva propriedade, e olvi- 
dados do seu sagrado ministério, recorriam aos raios da 
Igreja para apoiar os seus mesquinhos interesses ! ! . . . 
Terminou este desagradav(»l incidente pela categórica de- 
terminação da carta regia de 4 de Dezembro de 1G78, que 
mandou conservar aos moradores na posse em que estavam 
dos mangues. Tal era porém a influencia da Companhia de 
Jesus, e o temor que inspirava, (pie não se lè uf^sse documen- 



— Ta- 
lo oflicial uma só expressão condemnando sua reprehensivel 
conducta. ! 

No rápido esboço que fazemos dos principaes padecimen- 
tos, porque teve de passar o Rio de Janeiro no espaço de 
cento e quarenta e três annos não devemos esquecer os fu- 
nestos abusos commettidos pelos seus psemlo-defensores, 
como se depreliende da representação que endereçou a el- 
rei o senado no governo de Duarte Teixeira Chaves para que 
houvesse por bem « mamlar smpender a hospitalidade da in- 
€ fantaria no seio das famílias, pelo (jramle detrimento que 
« com isso soffriam os moradores d'' esta terra vendo perturba- 
« daaharmonia e a honestidade de suas habitações. » A'seme- 
Ihantes queixas pespondia-se-lhe < que ficasse erilendendo 
€ que lio reino se acommodavam, na falta de alojamentos, os 
• soldados nas casas as mais honradas, e sem repararem na- 
€ qiielle inconveniente, e que nesta capitania se devera com 
« mais especial razão praticar-se aquelle soccôrro á favor da 
« infantaria, que sahlra do reino em servir em parte tão dis- 
« tante, largando convenimcias da pátria, em que nascera, 
« fazendo-se por isso mais digna de toda a attenção para não 
« ficar exposta á padecer as incommodidades que do contraiio 
€ experimentaria. » f64) Revoltam tanto aos corações brasi- 
leiros estas palavras que deixalas-hemos sem commentario. 

Foi de tal sórle justo o governo de João Furtado de Men- 
donça que a camará agradeceu ao rei, como uma graça, o 
have-lo homeado c pediu a prorogaçâo do seu triénio. 

D. Francisco Nauper d'Alencastre, que tomou posse do 
governo em 1689 occupou-se unicamente om visitar forta- 
lezas c fazer manejos d\irmas, partindo no anno seguinte 
para a colónia do Sacramento com três companhias em uma 
das melhores náos da frota. 

JANEIRO. 10 



— 74 — 

Á frente dos negócios públicos achou-se èm ÍGOO Luiz 
César de Menezes, que deixou de si tão bòa feputaçlD que 
á seu respeito costumavam dizer os nossos íiniepassadDs :— 
ou César, ouuada.— Curta porém foi a sua henelica admi- 
nistração sendo succedido em 1692 por Afltonio Pnes de 
Sande, varão conspicuo, que seguiu com gldHa a vefèda de 
seu illustre antecessor. Teve o prazer de íazer i>al)lica a 
carta-regia que ordenava a suspensão do dítoativo pela páz 
com a Hollanda e para o dóle da Infanta, ^ tanto ijbhtri- 
buíra para impobrecer esta terra, e dirigindo ao throno os 
seus agradecimentos por tão fausto motivd pedia qUe fosse 
o povo fluminense isempto dos soccorros que incessante- 
mente prestava de gente, dinheiro e munilóe^ par.l a nova 
colónia do Sacramento. Não foi menor o fegosijo do bom 
Sande em pôr em execução a carta-regia dé 12 de Deícmbro 
de 1693, que mandava criar nesta capital uma cítóa dVx- 
postos applicando acamara para este santd fim As sobras do 
imposto sobre o sal c o szeite doce desliriàdo para o soldo 
dos governadores. 

Nos últimos dias do anno de 1694 dfesceu ad tumulo, 
coberto da bênçãos do povo pelas suas egrégias tirtudes, 
António Paes de Sande, e por provisão do govcrnador-geral 
do estado do Brasil de 15 de Novembro doesse mesmo anno 
foi nomeado para succeder-lhc o mestre de campo D. João 
(rAlencastre. Pouco tempo lhe foi dado O empunhír o bas- 
tão do mando tendo de cedô-lo a Sobastlfio de Caslbo escos 
Ihido pela carta-regia de 19 de Abril de Í09rj. 

Por esse tempo começaram a apparecdi* om nosso* portos 
alguns navios francezes com o pretexto de fazon^m hj(uada 
edese proverem de mantimentos mas Chm o principal fim 
dMntroduzirem por contrabando as fa^íbndns que ITaziam 
com prejuiso do lis«:o e contra as leis da moiinrchiíl, que 



— 75 — 

filavam tpJo o coininercio estrangeiro. Causou a sua pro- 
ffinça grande sustes ao governarlor, que recommcndou A 
pamara (Jf Ilha-Grande que lhos recusasse todo o agasalho. 
Corria q anuo de 169Ç guaiido mostrou-se uma esquadra 
à vista (Jn barra derramando grande susto pela população, 
que t0(|Q correu tás arnjas. animada pelo governador que 
eleclr|^ou-lhe a coragem com o seu exemplo, Sendo «f. 
gada f licença que pedia para se refazer de mantimentos 
dirirfu-se á Ilha-Grande onde obteve o que desejava. Re- 
pre^endeu SebífStiâo de Castro ao senado d'essa Villa (hoje 
GÍ(l|dede Angra dos Reis) pelo seu procedimento e recom- 
njf ndou-Ihe a maior vigilância com as embarcações estran- . 
^iras. A chegada da infantaria de Lisboa no começo do 
feguinte anno ca«(||f||p grande enthusiasmoips fluminenses, 
que agradeceram ád Rei, pelo órgão da sua ptlÉ^palidad , 
por tão assignalado favor. Corcordam Pízarròíl» Lisboa 
em tributar os maiores encómios a Sebastiáíí^ Castro^ 
que além d'esforçado capitão era eminente jjiotitico. Não 
faltou porém quem denegrisse a sua conduqíbpor occasiáo 
da invasão franceza solTrendo por isso sequestro em seus 
bens, que só foi levantado quando por sentença da casa da 
supplicação da corte foi reconhecida sua innoccncia. 

Arthur de Sà e Menezes foi o primeiro que governou o 
Rio de Janeiro com a cathegoria de governador e capitáo- 
general ad honorein por carta regia de 8 de Novembro de 
1696. Ligam-seà sua administração muitos factos notáveis, 
taes como a erecção da villa de S. António de Sá nas mar- 
gens do Rio Macaeú ; o estabelecimento d' uma casa da 
moeda nessa cidade ; o dos hospitaes militares e dos lázaros; 
as acertadas providencias concernentes às sesmarias; a 
restituição das terras, que haviam sido doadas para patri- 
mónio dos Índios ; os regulamentos prohibindo que se in- 



\ 



— 7C — 

Jligissem aos escmvos bárbaros castigos devendo estes serem 
sustentados â custa de seus senhores, e muitas outras me- 
didas dignas d'um illustrado administrador : infebzmente 
porém pouca persistência fêz Arthm* de Sá nesta capital ; 
por isso que a recente descoberta das minas e os conflictos 
que frequentemente se davam entre os aventureiros que 
ei^lorâvam-na reclamava a sua presença nessas paragens. 

A prolongada auzcncia do governador, táo prejudicial 
aos negócios, deu motivo ao decreto de 30 de Junho de 
1702 que prohibia nos termos os mais explicites tanto a 
elle como aos seus §uccessòres o irem as minas sem espe- 
cial determinarão regia. O meio poróra mais adequado para 
remediar-se este inconveniente , que resultava da vasta 
extenção do território dependente do ^o de Janeiro con- 
sistia antes aa criação de novas capitanias, expediente este 
que só mais tarde foi adoptado. 

Aos ephemeros governos de D. Álvaro da Silveira e Al- 
buquerque e D. Fernando Martins Mascarenhas d^Alencastre 
succedeu era 80 de Abril de 17 10 o de Francisco de Castro 
Moraes, que já havia substituido o capitão-general Arthur 
de Menezes e Sà durante a sua estada em Minas. Gozou 
apenas do titulo de governador e foi em seu tempo que 
tiveram lugar os graves eventos das expedições de Duclerc 
e de Dugnay Trouin que vamos historiar. 

ÍI. 

CAUSAS DA NOVA INVASÃO FRANCEZA. 

Para bem avaliarmos os motivos que trouxeram os fran- 
cezes às nossas plagas cumpre retrogradar alguns annos e 
examinarmos qual era o estado das relações entre Portugal 
e essa nação. 



-7 // - 

Um dos priíicipaes cuidados de D. João IV. apenas su- 
biu ao sólio dos scns maiores, graças à cavallieiresca de- 
dicação da nobreza liizitana, foi deputar ao rei de França 
Luiz XlIIdois homens da maior confiança, Francisco do 
Mello, vedor-mór do reino, e o doutor, António Cloelho de 
Carvalho ({55) ; afim d'implorar a sua protecção na grande 
lacta, que ia empenhar contra Philii)pe IV. : cuja embai- 
xada foi recebida em Paris com toda a solemnidade. O há- 
bil politico cardeal de Ilichelieu viu com prazer que a 
revolução de Portugal, assim como a da Gathalunha, que 
pouco a precedera, nâo podiam deixar de causar grande 
diversão nas forças da monarchia hcspanhóia, que deseja- 
va humilhar o seu profundo ódio pela casa d'Austria. Pela 
influencia doesse poderoso ministro conseguiram os envia- 
dos portuguezes sentarem-se no congresso de Munster. 
onde ventilavam então as clausulas d'uma paz geral. Som- 
raas consideráveis foram emprestadas pela França para a 
consolidação do throno portuguez, como se prova pela 
correspondência entre a rainha D. Luíza de Gusmão e o 
embaixador de França, o cavalheiro de Jant. Vemos final- 
mente em 16G0 por ordem de Luiz XIV. passar secreta- 
mente ao serviço de Portugal o marechal Frederico de 
Schomberg, à frente de seiscentos officiaes francezes : 
contribuindo poderosa mente para as victorias dWn^^ixial 
e Montes-CIaros, que lavraram o^auto d'emancipaçáo dos 
netos de Viriato, e renovaram d'est'arte os prodígios d' Al- 
jubarrota. 

A influencia franceza dominava em Lisboa contrabalan- 
çando a ingleza e pareceu mesmo tê-la sobrepujado quando 
tratando-se de dar uma esposa ao joven rei D. Aflonso VI 
recahiu a escolha sobre uma princeza d'aquella nação D. 
Maria Francisca Isabel de Sabóia, filha do Duque de Ne 



— 78 »- 



\ 



mours, espirito fino c enérgico, que táo grande parte 
tomou nos successos politicos d'essa épocha. 

Por seu lado a Inglaterra lOontra-minava ^ ihfhiencia 
franceza, já celebrando o consorcio do seu rei Carlos II 
com a infanta D. Gatharina recebendo em dote dois mi- 
lhões de cruzados, além de Bombaim na Ásia, e de Tanger 
n' Africa, já determinando aos Est«do§-Geraes da Hollanda 
á firmarem a paz com portugal, mediante a indemnisaçáo 
de cinco milhões de cruzados, pagos em 16 annos, dos 
quaes coube ao Brasil contribuir com 120:000 crazados. 
Fez a Inglaterra retribuir a sua interferência neste nego- 
cio alcançíindo o previlegio de poderem seus súbditos es- 
tabeleccrem-se na Bahia. Pernambuco, Rio de Janeiro e 
mais dominios portuguezes jias índias occidentaes até o 
numero de quatro famlias com suas casas de negocio ou 
feitorias, gozando das mesmas immunidades de que esta- 
vam de posse os naturaes. (66) 

Semelhantes concessões firiram a susceptibilidade da 
nação franceza, que forcejou por obter outras idênticas, 
allegando os relevantes serviços que prestara a Portugal 
n'uma épocha para elle bem calamitosa ; e depois de mui- 
tas fadigas só ganhou a sua diplomacia que se expedissem 
ordens para que os navios francezes que demandassem os 
nos^s portos lecebessem netles todo -o acolhimento e 
protecção. Foi em virtude de uma tal graça que notou-se 
no fim do século 17.® grande numero de navios d'essa na- 
ção nas aguas territoriaes do Brasil, dando lugar ao con- 
íliclo aqui occorrido em 1696. A noticia de tal emergência 
e mais que tudo o tratado de 1 6 de Março de 1 703 muito co- 
nhecido na historia pelo nome do seu negociador, (67) que 
outorgava as maiores izempções ao commercio britânico, 
com exclusão de todos os outros, indispoz considerável- 



— 79 — 

mente 08 negociantes francezes conlra Portugal e preparou 
assim a empreza dos armadores de Brest contra o Rio 
de Janeiro. 

A' estas razões de interesse particular póde-se addicio- 
nar um grande motivo politico,: falíamos da guerra de 
siiccessão à coroa hespanlióta. 

Todos sabem como Luiz XIV aceitando em favor de seu 
neto o Duque d'Anjou o testamento de D. Carlos II ex- 
clamara perante a sua corte : Não lia mais Pyreneos I (68) 
(íste dito do glorioso monarcha francez despertando os 
ciúmes da Allemanha, Inglaterra e Ilollanda provocou a 
longa guerra que encheu de amargura seus últimos dias. 

Portugal, que apenas acabava de reivindicar o seu lugar 
entre as jiaçóes da Europa 49pois de ter celebrado com a 
JFíanç^ em 1701 uma liga offensiva e defensiva bandeou-se 
cm 1703 para o partido da Inglatorra e da Ilollanda. 

Sua alliança nesta guerra era ardentemente cobiçada ; 
e o seu gladio faria pender a balança para qualquer dos 
lados em que elle se lançasse. Sua posição de potencia li- 
Ihítrophe, a coragem dos seus soldados provada na guerra 
dà independência, náo deveram ser desprezadas nas combi- 
hàçóes politicas da épocha. 

Anhelava o pequeno reino que se Ihe^lTerecessc uma 
bpportunidade para estender a sua csplníra do acção : de- 
sejava por sua parte invadir a Hespanba. « Por duas vc- 
t les, diz ulli eloquente historiador contemporâneo, fò- 
t rtm as luzalB quinas vingar em Madrid a grande afronta 
« que receberam dos leões de Castella, (|uando por GO 
« annos fluctuou o seu pavilhão sobre as torres de Lis- 
* bôa. » (69) 

E' claro pois que o govwiij;) francez, vendo em Portugal 



— só- 
tão poderoso inimigo, longo de cohibir o procedimento 
dos seus armadores animava-os, e protogia-os ; tomando 
mais tarde (em 171 1 ) abertamente parte na empreza de 
apossar-se de uma das suas mais ricas e importantes co- 
lónias. 

' III. 

ATAQUE DA CIDADE — DERROTA DE DUCLERC. 

A opulência da nossa cidade tinlia-sc tornado notória na 
Europa. Sahiam annualmentc do seu porto ricos carrega- 
mento? Jc oiro, diamantes e outras pedras preciosas com di- 
decçáo às praças de Lisboa e Porto : e a tradicçáo popular 
guarda lembrança daesplendida magnificência dos antigos 
fluminenses. Apezar das consUmtes vexações que tinha sof- 
frido a pretexto de defendel-o, ora o Rio de JaTieiro mal 
guardado; pouco respeitadas as suas fortalezas (70) cons- 
tando a sua guarnição de dois regimentos de infantaria (71) 
e duas companhias de artilhería de tropa de linha que de 
mais â mais se achavam incompletos. A essa fon>i juncta- 
vam-se a milicia e as ordenanças formadas de cidadãos ar- 
mados e ignorantes da táctica militar. Commandava á essa 
pequena guarnição um chefe pusillamine, cuja reprehensi- 
vel conducta vamos apreciar. 

Chegando aos ouvidos dos armadores de Brest a situa- 
ção em (pie se achava a rica colónia fluminense enviaram 
contra cila uma expedição composta de cinco navios, uma 
I)alandra, c mil homens de desembarque, commandados 
pelo cavalleiro João Francisco Duclerc. Essas expedições 
mandaflas por simples [)articulares e patrocinadas pelos 
governos eram mui communs então, como infelizmente 
ainda o sá() nos Estados-Unidos, e o mais é que mereceram 
a sancção do direito internaçioaal. {l^z) 



— 81 — 

Á 6 de Agosto de 1710 noiáram os habitantes de Gabo 
frio a passagem de algumas embarcações que navegavam 
para o sul, do que deram immediatamente parte para o Rio 
de Janeiro ao governador Francisco de Castro Moraes, que 
mandou guarnecer ao fortalezas, chamando toda a milicia 
às armas. Em breve conheceu-se que os habitantes de 
Cabo Frio não se haviam enganado; porque á 17 d'esse 
mesmo mez e anno apparecêram os navios francezes á 
vista da barra procurando força-la. Havendo dhe feito sig- 
na) a fortaleza de Santa Cruz para que fundeassem, assim 
o fizeram, seguindo a sua derrota para a Ilha-Grande no 
dia seguinte ao romper da aurora, depois de haverem 
aprisionado uma sumaca da Bahia, que nessa occasião en- 
trava. Ancoraram a 27 na Ilha-Grande occupando-se em 
saquear algumas fazendas ; e bombardearam por dois dias 
a villa, causando-lhe apenas pequeno damno aos conventos 
do Carmo e Santo António. Estava a defeza d'essa villa 
confiada unicamente às ordenanças, mas soube o seu com- 
mandante, o capitão de infantaria João Gonçalves Vieira 
arrostar às intimações do poderoso inimigo, que alli 
perdeu alguns homens, que receberam das mãos dos mo- 
radores o premio das suas rapinas. 

Resolvendo Duclerc atacar a cidade por terra desembar- 
cou a sua gente na Guaratiba fazendo uma penosa maicha 
por caminhos pouco trilhados, afim d'evitar o encontro das 
tropas que o governador havia expedido contra elle. Nessa 
marcha em que, segundo o testemunho de Pizarro, foram 
os francezes guiados por um preto deram derâo elles pro- 
vas de grande constância, ao passo que demostra ella a 
culpável negligencia de Francisco de Castro, que com a 
maior facilidade poderia dcbellar o exercito invasor nos 

JANEIUO. 11 



— 82 — 

cliDiccis (lesliladeiros por que linha de passar. « Os desta- 
« camentos, diz o tenente Nunes, ((ue mandou ao caminho 
< por onde cHes marchavam mais serviram de tetemunhar 
• a sua jornada do que lh\i impedir; pois que em sete 
« dias de marcha náo se lhes disparou um tiro. » (73) 

Expedindo da Guaratiba dois navios e a balandra para 
sondar a costa emquanto o grosso das forças seguia por 
terra desembarcaram alguns homens aguerridos na praia 
da Copacabann (74). onde encontrando vigorosa resistência 
da parte das ordenanças, reforçadas por dois destacamentos 
dos regimentos de linha, e nlo lhes favorecendo a aspere- 
za do terreno tiveram de retirar-se com alguma perda. 

Chegando ao conhecimento do governador a noticia doesse 
desembarque mandou logo tocara rebate accudindo muitos 
voluntários do recôncavo, aos quaes distribuíram-se armas 
para junctamente com as miiwlas da terra defenderem o 
o boqueirão di Carioca (73) onde se conservaram até o 
dia 17 de Septqmbro 

Divulgando-se nesse dia que os francezes, desembarca- 
dos na Guaratiba, caminhavam a marchas forçadas para a 
cidade mandou o governador postar toda a tropa de linlia 
no Campo do Rosw io (76) abrindo ahi uma trincheira cuja 
direita se apoiava no tnorro da CéOnccição e a esíiuerda no 
de »S. António, O Bispo diocesano foi abençoar 03 defen- 
sores nesse improvisado campo, para onde havia allluido 
grande numero de pessoas de todas as classes, principal- 
mente a dos estudantes. Um grave annalisla nosso narra 
por essa occasião um facto, bem caracteristico das ideias 
do lemi)0 ; reliro-me á imlenie de capitão conferida pelo 
(jovernador á S. Anton:o que ale então tinha praça c recebia 
o ^oldo de simples soldado!. (77) 



— s:í — 

No (lia 18 cliegáram os inimigos ao Engenho Velho, fa- 
zenda (los jesuítas, a quem causaram grandes prejuízos 
era gados, assucar e mais productos agricolos e ahi per- 
noitaram. No dia seguinte ao amanhecer tomaram pela 
estrada do Barro-Vermelho, e observando a posição do 
exercito portuguez, que conservava-se impassível no Cam- 
po do Rozario chegaram pelas sete horas da manhan â La- 
goa da Seniinella, (78) em cujo lugar Bastante molestou-os 
o capitão Bento do Amaral Gurgel com a sua companhia 
d'esludantes ; contornando o morro de S.^^ Thereza (7d) 
pela azinhaga de Matacavallos penetraram no coração da 
cidade. Suppondo o governador que tomavam este cami- 
nho para atacarem o forte da Praia- Vermelha (o que seria 
rematada loucura) mandou que o mestre de campo João 
de Paiva fosse em seu encalço. Perguntando esle si devera 
pelejar respondcu-lhe Francisco de Castro que Hw mandava 
defender a fortaleza, e não obstante fizesse o que a ocasião 
lhe pennittisse (80). Resposta digna do um chefe, cuja 
prespicacia igualava a coragem. 

Na descida do morro de S.'^ Thereza foram os francezcs 
investidos por duzentos paizanos armados tendo por chefe 
a um religioso Trino por nome Fr. Francismo de Menezes, 
em cujo ataque tiveram os invasores grande numero de 
mortos e feridos, Aflirma o tenente ^Nunes que Duclerc 
marchava à frente dos seus soldados sem outras armas 
mais que uma rodela e um bastão I 

Apressando a sua entrada na cidade chegaram á igreja 
de Nossa Senhora d^Ajwla onde experimentaram vivíssimo 
fogo no forte de S. Sebastião (81) continuando porém a sua 
marcha para a Praça do Carmo (82) pelas ruas d^ Ajuda e de 
S. José. Procuraram subir a montanha n^um lugar chama 



— Si- 
do Poço (lo Porteiro afim de so apossarem do CasteUo domi- 
nando d\illi Ioda a povoação : não conseguiram porém o 
seu intento polo fogo d'artilheria (fue lhos era feito. 

No seu transito do Largo d Ajuda para a Praça do Carmo 
experimentaram grandes revezes, vendo-se feridos e ipor- 
tos pelas continuas descargar de mosquetaria que recebiam 
das bocas das ruas. Desistindo do intento de tomarem o 
convento do Carmo que se adiava bem guarnecido de 
tropas, fizeram alto na rua Dtreita diante do trapiche da 
cidade. (83) 

Defendia este importante posto o capitão de cavallaria 
António Dutra, que portou-se com extraordinária coragem. 
Nesse ataque deu-se uma occurrencia que poderia ter fu- 
nestas consequências ; fatiamos do incêndio ateado nos 
barris de pólvora, que estavam armazenados n\alfandega, 
contigua ao palácio dog governadores (84), d^onde resul- 
tou a completa ruina d^aquelle edificio c a morte de três 
estudantes. 

Ao ruido da explosão destacou o governador seu irmão 
o benemérito mestre de campo Gregório de Castro Moraes, 
com o seu terço, o qual fazendo juncçáo com os estudan- 
tes, que defendiam a entrada do palácio bateu-se com 
summo denodo até que cahiu traspassado por uma baila. 
Não diminuiu este triste successo o valor dos combatentes, 
que vingaram nos inimigos a morte do seu chefe. 

Vendo-se Duclerc accommettido por forças muito su- 
periores ás suas e havendo sofTrido o desfalque de quatro- 
centos homens que juncavam com os seus corpos o campo 
da batalha, deliberou encerrar-se no trapiche, fazendo-se 
nelle forte com a sua infantaria, o que levou àeííeito depois 
de ter-se apossado de seis peças d'arlilhería, que assesta- 



— 85 — 

das na praia causáram-lhe no principio gramlc damno. 
Um troço de com homens, que tinham ficado de reserva, 
investindo desordenadamente pelas ruas da cidade, foi 
lodo morto pelos moradores, apesar de pedirem a vida com 
vivos sígnaes dimmaildade ; já lançando-se por terra com 
os chapéos nas mãos, como diz Silva Lisboa, jàlevantando- 
os e abaixando-os em testemunho da sua desventura. De- 
vera ser bem profundo o ódio e a indignação que experi- 
mentaram os habitantes do Rio de Janeiro \yeh inqualifi- 
cável invasão franccza para que d'esf arte se esquecessem 
da sua proverbial hospitalidade. 

Quando o governador que até então se consorrára im- 
movel no Campo do Rozario. 

« Qval de ferro fundido esfatm eqmstre, » (85) 
soabeque o chefe inimigo commettêra a temeridade d^en- 
cerrar-scn'um trapiche, resolução esta que só parece dicta- 
da pelo desespero da sua causa, pôz-se em marcha á frente 
das suas cohortes para a cidade, intimando a Duclerc que 
se rendesse a descrição do sen vencedor!! 

Ouvindo porém o commandante francez o repique dos 
sinos, que festejavam a victoriados portuguezes, recusou- 
se obstinadamente entrar em qualquer negociação. Mandou 
então o governador buscar a artilhería da Ilha das Cobras, 
afim de constrangêl-o por este meio a deporás armas sendo 
n^essa occasião morto o capitão de cavallaria António Du- 
tra da Silva, que quíz ser o primeiro a entrar no armazém. 
Por falta de transporte não era possivel que chegassem as 
peças com a brevidade desejada tomou então o expediente 
bárbaro de fazer saltar o trapiche, mandando ahi collocar 
muitos barris de pólvora, o que si fosse levado a effeito 
não somente causaria a morte do todos os francozes alli 



— 86 — 

sitiados, como ainda a de grande numero de moradoresi 
cujas casas licavam próximas. 

É digno dYspecial menção o patriotismo exaltado d'um 
fluminense, alferes A'' ordenanças, que offereceu-se para 
lançar elle mesmo fogo ao trapiche, nâo obstante residir 
na casa contigua com sua mãi. irmans, mulher e filhos ! 
Admiramos, posto que nâo sympathisemos, com semelhan- 
tes acções, mais próprias dos fastos gregos e romanos, em 
que o amor da pátria era anteposto ao da familia. 

Rec4íiando que o governador piizesse em pratica o seu 
ultimatum e para salvar a sua vida e a dos seus compa- 
nheiros d'armas assentou Duclerc em capitular. Entregà- 
ram-sc portanto prisioneiros seis centos e quarenta fran- 
cezes , entre elles duzentos feridos, sendo calculado o 
numero dos seus mortos em perto de quatrocentos. Da 
nossa parte tivemos apenas cincoenta mortos e oitenta 
feridos. (86) 

Foi conduzido Duclerc para o collegio dos Padres da 
Companhia com alguns ofliciaes em numero de treze, ou 
qualorze : sendo distribaidos os soldados', seguros por 
grilhões, pela casa da moeda, cadêa e conventos com sen- 
tinellas à vista, em quanto se lhes não destinava apro- 
priada prisão. 

Segundo o testemunho de Mons. Pizarro não escapou 
do exercito invasor sertão o negro, que lhe servia de guia. 
o qual levou aos navios, surtos no porto da llha-Grande, a 
funesta noticia da completa derrota dos seus compa- 
triotas. (87) 

Dois dias depois (à 21 de Septembro) apparecêram à en- 
trada da barra os navios francezes, que pareciam dispostos 
a bombardear a cidade, quando Duclerc escreveu a seu 



— 87 — 

commandanle pedindo-lhc que sustasse as hostilidades para 
não aggravar a sua triste sorte ; assim como que lhe man- 
dasse à terra alguns cirurgiões para curar os feridos, o que 
se fez com o assentimento do governador. 

O regosijo por tão assignalado triumpho manifestou-se 
por Iodas as formas, entoaram 7V-í)í?m7ís; fizeram-se pro- 
cissões; e declarou-se o dia 19 de Septembro, em que a 
igreja celebra o martyrio de S. Januário, festivo dos muros 
para dentro 

Mal informada a corte do occorrido cm tão longiniiua 
colónia mandou louvar o governador pelo seu valor e tino 
e agraciou-o com uma commenda declarando El-Rei D. 
João V que se dava por muito bem servido agradecendo 
por essa occasião aos briosos fluminenses que unicamente 
o mereciam. (88) 

Monsenhor Pizarro e o Conselheiro B. da Silva Lisboa 
avaliam diversamente a conducta do governador Francisco 
de Castro Moraes : para o primeiro foi clle um chefe inepto 
senão traidor, e para o segundo um leal servidor do Esta- 
do, posto que sem talentos militares, chegando mesmo a 
proferir em seu abono esta CvStranha proposição: t Não 
está a (jloria do general nos sais planos bem dirUjidos contra 
o inimigo mas no bom successo das acções militares ! » (89) 
Cremos ter posto à toda a luz em nossa singela narrativa 
a incapacidade do homem a quem estavam entregues os 
destinos da nossa terra. Não Analisaremos este capitulo 
sem dizermos duas palavras acerca da mysteriosa morte 
deDuclerc. Deixamo-lo no coliegio dos jesuitas, onde de- 
morou-se algum tempo havendo depois obtido do gover- 
nador licença para residir na cidade em uma casa que para 
esse fim alugara. Ahi, na noite 18 de Março de 171 1, foi 



— 88 - 

assassinado por dois sugeilos rebuçados sem que a seme- 
lhante crime se oppuzessem os soldados que o guarda- 
vam : liem deligencia alguma se fizesse para descobrir os 
malfeitores. Copiamos a sua certidão d'obito, extrahida por 
Pizarro dos assentos da freguezia da Sc : • 

• Em 18 de Março ás sete para as oito horas da noite 
« de 1714 annos mataram o general dos francezes que 
í entraram à tomar esta terra: o qual mataram dois rebu- 
t çados que lhe entraram pela porta a dentro estando na 
« cama, e dois £càram guardando a porta da escada e 
« tinha sentinellas para que não .i)asseasse e não lhe valê- 
t ram.; chamava-sc João Francisco, que era o nome da 
t jua, e ^ nome de guerra Moçu de Cré ; está entenr.ido 
« na capella de S. Pedro na igreja de Nossa Senhora da 
< Candellaria. » 

As seguintes palavras de Pizarro que lhe servemde com- 
mentario parecem denotar a existência d'um horrendo 
crime official. Eis como s'exprime o infatigável author das 
Memorias HistoriC/Qs do Rio de Janeiro. 

« M."" Duclerc, pouco satisfeito do seu destino muito 
« contrario aos projectos que formara, intentou conspirar 
• contra o povo depois de passados alguns mezes, e como 
« se descobrisse a trama foi assasinado na noite 18 de 
« Março de 1711. » (90) 

Um illustre historiador inglez attribue a morte de Du- 
clerc à desafronta por algum ciúme que tivesse inspirado 
à alguém, que lançou mão d' um meio traiçoeiro para des- 
ciirtar-se do seu rival. (91) 

Sendo o governador Castro Moraes arguido por Duguay- 
Trouin de complicidade nesse assassinato assim procurou 
jusliíic:ir-se: 



H 



— 89 — 

« Quanto à morte de M.'" Duclerc dei-lho, â pedido 
« seu, a melhor casa doeste paiz, onde foi moito. Não 
€ pude descobrir quem foi o matador por mais deiigencias 
« que se fizeram, tanto da minha parte como da justi- 
« ça; (92) e vos asseguro que si fòr encontrado o assas- 
« sino ha de ser punido como merece. É pura verdade 
« ter-se tudo passado segimdo vos exponlio. » (93) 

Não obstante a denegação cathegorica de Francisco de 
Castro cremos que não foi elle extranho a semelhante cri- 
me, commettido com flagrante violação de todo o direito 
inter-nacional. A presença de Duclerc o incommodava ex- 
traordinariamente e não sabia como desfazer-se d'elle. Jà 
€m data de 9 de Novembro do anno anterior reclamara da 
corte providencias a este respeito e antes que lhe chegasse 
provisão regia, que transcrevemos em nota, era o com- 
mandante francez assassinado com circunstancias taes, que 
si o lú) constituem author doesse attentado pelo menos 
accusam-no decomplicidade. (94) 



JANEIRO. 12 



— 91 — 

PARTE TERCEIRA. 

EXPEDIÇÃO DE DUGUAY-TROUIN. 
I. 

VOLTA DOS FRANCEZES — BOMBARDEAMENTO DO RIO DE JANEIRO. 

O mào êxito da invasão de Duclerc impressionou viva- 
mente OS ânimos francezes : pensaram que a honra nacio- 
nal exigia prompta desforra; e seu espirito audaz e 
aventureiro inspirou-lhes a ideia de virem com forças su- 
periores vingar a afironta recebida. Proseguia com encar- 
niçamento a guerra de successáo à coroa de Hespanha : «s 
duas maiores potencias marítimas da Europa, a Inglaterra 
e a Hollanda, se haviam ligado contra a fortuna de Luiz 
XIV ; e o astro do grande rei caminhava para o seu occaso. 
A marinha franceza, que com tanto esmero formara Colbert, 
soffria constantes revezes : suas rivaes pareciam ter decre- 
tado o seu completo aniquilamento, contra o qual porém 
protestava um valente corsário cujo nome tornou-se popu- 
lar. Jean Bart é o symbolo da gloria marítima da França, 
assim como Bayard o é da sua gloria cavalheiresca. Du- 
guay-Trouin, discípulo e emulo de Jean Bart, forneceu, 
como veremos, uma pagina brilhante para a historia de seu 
paiz e de opprobrio para o nosso. Elle próprio nos con- 
fessa em suas Memorias que a noticia da derrota do seu 
xx)mpatriota lhe inspirara o desejo de vir ao Rio de Janeiro 
lavar a nódoa do seu pavilhão, e colher vantagens pecuniá- 
rias, que animassem os armadores a emprehenderem ou- 
tras expedições. Sabe-se que nessa épocha o thesouro 



— l)á — 

(I'i'l-rei clirisliaiiissirno se ncb.nva em grandes apuros sen- 
<lo-llie suiiimniuenfe penoso o manter os exércitos, que 
pelejavam pelos direitos de seu neto: circunstancia esta 
que de certo teria impossibilitado a expedição projectada 
si Duguay-Trouin nâo se lembrasse de interessar nella os 
negociantes, dando-lhe d^esfarte um duplo caracter. 

Munido do dinheiro preciso, que lhe foi fornecido pelas 
principaes casas de S. Maio dirigiu-se á Versailles, onde 
graçíis á intervenção de Coulange poude obter a eíTicacis- 
sima protecção do conde de Toulouse, grande ahnirante 
de França, e com ella o assentimento do rei que lhe con- 
fiou seus navios e tropas. 

Apezar das precauções tomadas para que o armamento 
se fizesse com o maior segredo ignorando-sc o alvo da ex- 
pedição foi todavia d'elle informada a corte de Lisboa, 
que expediu onlem ás capitanias maritimas do Brasil para 
que estivessem prei)aradas para qualquer agn ssâo. Con- 
seguiram ainda os embaixadores de Portugal cm Londres 
que a rainha Anna mandasse uma esquadra a Brest, d'onde 
se suppunha que parteria Duguay-Trouin ; que illudindo a 
vigilância dos cruzadores inglezes sahiu do porto de Ro- 
chelle à 9 de Junho de 17H. 

Compunha-sc a esquadra de dezoito velas, no numero 
das quaes contavam-se cinco nãos e três fragatas e demais 
de trcs mil homens de tropas de desembarque, ainda assim 
insuflicientes para tomar uma cidade defendida por dez 
mil soldados, posto que infelizmente commandados por 
um péssimo cliefe. As fortalezas, ainda que mal construi- 
das, estavam bem guardadas, e formavam com os baluar- 
tes e trincheiras uma cintura de granito e de fogo. que 
poderiam torna-las iiíexpugnaveis. Quatro nàos e três fra-- 



- 93 — 

gatas dl frota que nesse teni[)o costumava comboiar os na- 
vios mercantes, que navegavam para os portos da me- 
trópole , constituíam outras tantas baterias flutuantes, 
dispostas em linha de batalha desde Sancta Cruz até a 
Bua-Viagem. 

Avisado pelos moradores de (Íabo-Frio da passagem 
diurna numerosa armada deu o governador ordem para 
que todos corressem aos s «us postos ; e por alguns dias 
apresentou o Rio de Janeiro um aspecto de tal modo mar- 
cial, que seria capaz d'incutir respeito aos mais destimidos 
invasores. Semelhante aspecto porém contrariava os há- 
bitos pacíficos do governador , que conhecendo que tinha 
havido engano no aviso recebido, mandou desguarneceras 
fortalezas da barra, cessando todas as cautelas que a pru- 
dência aconselhava, à vista da communicação que se fizera 
de Lisboa e de que fora portador um paquete de guerra 
inglez. 

Quando o perigo parecia conjurado, quando já Francisco 
de Moraes era comprimentado pela energia e tino que havia 
desenvolvido, eis que a 12 de Septembro doesse mesmo 
anno assoma a esquadra franceza por entre um denso ne- 
voeiro. Eram duas horas da tarde. 

Posto que desguarnecidas romperam as fortalezas e ba- 
terias vivíssimo fogo sobre o inimigo que nesse primeiro 
ataque teve perto de tresentos homens fora de combate 
(93). Esta confissão do próprio almirante nos parece do 
grande peso, maximc mostrando-se elle tão ufano de sua 
felicidade em se .apoderar da nossa terra ; e querendo 
apresentar este facto como resultado da coragem e pericia 
dos seus e cobardia dos naturaes; e não sabemos em que 
se fundava Silva Lisboa para dizer (9G) que os mvios fran- 



-- 94 — 

cej^s passárGm pelas nossas fortalems sem, que estas lhes 
dessem um sútiro! 

Verdade é que a resistência foi de curta duração; pois 
que dentro d'uma hora fundeava a esquadra inimiga de- 
fronte da Ilha das Cobras, eas nàos e fragatas portuguezas, 
commandadas por Gaspar da Costa, conhecido pelo Ma- 
qtúmz, vinham encalhar perto de terra buscando o abrigo 
das baterias. Nem ahi julgando-as seguras mandou-lhe o 
Maquinez lançar fogo. do qual apenas escapou uma que os 
francezes puderam salvar. Assim desappareceu miseravel- 
mente uma esquadra, victima da inépcia, ou da traição do 
seu chefe, onde tremulavam as lusas quinas, que haviam 
illustrado os heróes da índia ! 

A única fortaleza que poude receber soccorros de terra 
quando se devisàram as nàos francezas foi a de Ville- 
gaignon , e essa mesma teve em breve de ficar silenciosa 
em razão do incêndio que uma bomba occasionou no paiol 
da pólvora, d'onde resultou a morte de dois capitães, um 
dos quaes era sobrinho do governador, e filho do mestre^ 
de-campo Gregório de Castro, que tanto se destinguira no 
anno anterior. A da Ilha das Cobras, foi abandonada por 
ordem de Francisco de Moraes á pretexto de concentrar as 
forças, e occupada por quinhentos francezes commanda- 
dos pelo cavalleiro de Goyon, que alli se fortificara, cau^ 
sando grande domno a cidade, e principalmente ao mos- 
teiro de S. Bento: o qual todavia era defendido pelas ba- 
terias, que ahi fizera construir um normando por nome du 
Bocage, que se naturalisára porluguez, prestando relevan- 
tes serviços nesta conjunctura contra os seus compa- 
triotas, jh dirigindo acertado fogo sobre as suas embarca- 
ções, já obtendo por meio d'um engenhoso estratagema o 
informar-se do estado das suas forças. 



— 95 — 

No segando dia da sua chegada desembarcaram os ini- 
migos na praia do Vallongo em numero de três mil e tre- 
sentos homens, sem encontrarem opposição alguma, col- 
locando dois mil no morro de S. Diogo, apoderando-se da 
liha do Pina, onde estabeleceram uma bateria, postando 
quatro fragatas defronte do Saco do Alferes. O exercito 
invasor dividiu-se em três brigadas, de três batalhões cada 
uma, sendo a da vanguarda commandada pelo cavalleiro 
de Goyon, a da retaguarda pelo cavalleiro de Courserac e 
do centro pelo próprio Duguay-Trouin, tendo por ajudante- 
de-campo o cavalleiro de Beauve. Para quartel general 
francês foi escoHiido o palácio episcopal da Conceição. 

Em quanto apoderava-se o inimigo dos pontos mais im- 
portantes da cidade conservava-se o governador impassi- 
vel no seu acampamento do Rozario, como na invasáo de 
Duclerc, esperando talvez que os erros dos assaltantes lhe 
assegurassem a victoria como da vez passada. As circums- 
tamcias porém haviam mudado, e a colónia portugueza 
útítA agora de haver-se com um exercito aguerrido, de- 
baixo das ordens d'um chefe hábil e cheio de prestigio. 

Admirados os francezes de tanta inação quizeram cortar 
lun posto do inimigo situado no morro sobranceiro à 
Lagoa da Sentinella ; reconhecendo porém ser-lhes impos- 
possivel em razão dos mangues e pântanos que o cerca- 
vam como se expressa o próprio Duguay-Trouin : « Ap- 
« pliquei toda a minha attenção em reconhecer o terreno. 
« e achei-o tão impracticavel que quando mesmo tivesse 
« quinze mil homens ser-me-hia impossível o impedir que 
# esta gente se retirasse com as suas riquezas para os 
« matos e montanhas. » 

Todas as fortalezas tinham emudecido fluctuando sobre 



— 96 — 

os seus muros o pavilhão dos lyrios, inclusive a de S. Se- 
bastião, que capitulou á intimação d'Auberville, capitão de 
granadeiros da brijjada Goyon. Perderam então os defen- 
sores da praça toda a esperança de poder conserva-la, e 
pensando jà em procurarem a sua salvação na fuga incen- 
diaram uma nào e duas fragatas ancoradas próximo ao 
morro de S. Bento; assim como vários armazéns e trapi- 
ches da cidade. 

O contagio porém da cobardia não contaminou á todos 
os corações: houveram alguns briosos guerreiros que 
protestaram por sua conducta contra tanto aviltamento : 
(listinguindo-se entre estes o capitão Bento do Amaral 
Gurgel Coitinho, que morreu valentemente combatendo 
em prol da pátria no intempestivo soccorro levado á for- 
taleza de S. João. Cumpre todavia confessar, para vergo- 
nha nossa, que os actos de heroismo que assignaláram os 
vencedores de Duclerc foram mui raros nesta segunda 
invasão : e só podemos explicar tal mudanç^^, operada no 
periodo de um anno, pela applicaçáo do engenhoso pen- 
samento do épico lusitano : 

« Lm fraco rei faz fraca a forte gente. » 

e as distincções honorificas conferidas á um indigno go- 
vernador á um chefe i)usillanime pela influencia de seu tio 
o reitor do collegio de S. Antão e valido d'El-rei, deve- 
ram profundamente desmoralisar os seus subordinados e 
produzir um terrível eíTcito no animo dos que ainda se 
gloriassem do antigo nome portuguez. 

Desejando terminar a conquista com a maior presteza e 
receando os funestos resultados que poderiam provir da 
jííTda de tempo mandou Duguay-Trouin um tambòi' como 



— 97 — 

volaliin ao governador enviando-Ihe uma carta em (jue lhe 
intimava que entregasse a praça á mercê d'el-rei de França 
queixando-se do máo trato que haviam recebido os prisio- 
neiros da passado expedição ao que respondeu Francisco 
de Castro dizendo que a defenderia até a ultima (jota de seu 
sangue negando ter maltratado os prisioneiros francezes 
bem como ser complice da morte de Duclerc. (97) 

Semelhante respostíi parecia fazer esperar que o gover- 
nador iria alfim despertar-se do sen somno lethargico e 
sahindo dos seus arraiaes forçar os francezes a procurarem 
asylo em seus navios e levarem ao seu paiz a triste nova 
da sua derrota. 

Nada porém d'isto aconteceu. Reuniu-se com toda a so- 
lemnidade um conselho em que foi decidido ser mais con- 
veniente o abandonar-se a cidade. A tal alvitre oppuzé- 
ram-se o sargento-mór da Colónia Domingos Henriques e 
vários officiaes requerendo-se em nome d'el- rei que se não 
abandonasse a praça : seus votos porém foram supplanta- 
dos pelos da cobarde maioria. 

O governador, depois de haver ordenado que lúnguem 
mb pena de morte abandomsse o sen i)osto, fugiu vergonho- 
samente com quasi toda a tropa de linha para a fazenda 
dos jesuitas conhecida pela denominação áe Engenho Novo. 
Apenas conhecida a resolução de Francisco de Castro foi 
geral a fuga: começando o mestre de campo Balthazar de 
Abreu Cardoso por deixar desguarnecida a cadêa e a ma- 
rinha, que guardava com o seu terço de ordenanças. 

Ao passo que taes acontecimentos se passavam na cidade, 
onde reinava a mais horrivel confusão, onde cada qual pro- 
curava salvar-se ordenava Duguay-Trouin o bombardea- 
mento. O fogo do Céo e o da terra pareciam conjurados 

J.VMilRO. 13 



— 98 — 

para deslruirem as liabitações cios nossos avós : desorevía 
o relâmpago ellipses na abobada celeste em quanlo as bailai^ 
c as granadas sulcavam o ar ; repercutindo os échos da 
bahia em sua hyperbolica voz esta liorrisona orchesta. 
Aterrados fugiam os moradores em direcções oppostas ; 
embrenhando-se uns pelas matas, occuHando-se outros 
nas grutas, c galgando alguns os pincaros dos montes. O 
marido procurava a mulher, a maio filho, o irmão áirman; 
morriam afogadas as crianças nas torrentes, ou transidas 
de frio pela copiosa chuva, que de suas cataractas despe- 
nhava o Céo; envolvendo as trevas da noite com o seu véo 
de crepe este dantesco quadro, digno do pincel de Buo- 
narotti. 

Contava-se 20 de Septembro do anno da graça 1711, jus- 
tamente um anno e um dia depois da derrota de Duclerc. 

Ao amanhecer do dia 21 quando Duguay-Trouin prepa- 
rava-se para dar um assalto geral appareceu-lhe la Salle, 
<|ue fora ajudante de campo de Duclerc, noticiando-lhe que 
a cidade estava deserta existindo apenas nella duzentos e 
tantos prisioneiros da primeira expedição que havendo ar- 
rombado as portas de seus cárceres entregavam-se ao 
saque. 

Tomando as precauções que o caso pedia marchou o al- 
mirante para a cidade onde verificou por si mesmo a vera- 
cidade da informação do seu compatriota e teve de lamen- 
tar a scena de desolação que lhe apresentava uma ix)voaçáo 
ainda ha pouco tão florescente. A mór parte dos moradores 
haviam deixado todas as suas preciosidades, em virtude do 
bando do governador para que ningueni tirasse nada de swts 
casas sob pena de ser tomado por perdido; medida esta que 
parece dictada pela mais negra traição, facilitando ao inimi- 



— go- 
go um rico ílespojo. De facto os prisioneiros apenas se vi- 
ram soltos entraram pelas casas roubando tudo o que de 
melhor achavam, e taes excessos commeltêram que o pró- 
prio Duguay-Trouin viu-se constrangido, para manter a dis- 
ciplina e evitar o contagio de tão funesto exemplo, á man- 
da-los encerrar no forte de S. Bento. Queixa-se elle amar- 
gamente da tendência para o roubo que tinham os seus 
sohJados e marinheiros, tendência esta que zombava de 
suas ordens repressivas, nãor achando outro meio para con- 
te-los senão fazendo-os trabalhar constantemente. Leamos 
a sua confissão. 

« Fiz postar sen ti nellas e collocar corpos de guarda em 
« todos os lugares necessários ; ordenei que se fizessem 
« rondas noite e dia com proliibicáo, sob pena de morte. 
« aos soldados e marinheiros de eritrarem na cidade. Não 
« despresei n'uma palavra nenhuma das precauções prat:- 
« caveis: porém a paixão pelo saque sobrepujou ao temor 
« do castigo. Os que compunham os corpos de guarda e 
« as rondas foram os primeiros em augmentar a desordem 

< durante a noite ; de sorte que no dia seguinte de ma- 
€ nhan três quartos dos armazéns e casas se achavam ar- 
€ rombados, os vinhos derramados, os viveres, mercado- 
« rias e moveis espalhados pelo meio das ruas e pela lama ; 
« tudo emfim n'uma desordem e confusão inexprimíveis. 
« Mandei sem remissão quebrar a cabeçíi de muitos, que 
« estavam incursos no bando publicado; porém não sendo 
€ sufficientes todos os castigos junctos para deter o seu 
€ furor, tomei o partido, para salvar alguma coisa, de fa- 
€ zer trabalhar as tropas desde manhan até á noite car- 
« regando para os armazéns, (para onde o senhor de Ri- 

< couart mandou escrivães e pessoas de confiança ) lodos 
« os objectos que se podessem encontrar. » (98j 



— 1Í)0 — 

Em sua justa imlignac-lo pí^la inqualificável ag{?ressíío 
íle Duguay-Trouiii envolvem os nossos liistoriadorcs todos 
os francezes em suas censuras chamando-os na phrase de 
Tácito, alieimrum rerum cupidissimi. Sejamos porém im- 
parciaes, e reconheçamos que os attentados contra a pro- 
priedade, commettidos por uma soldadesca mercenária, 
eram altamente desapprovados pelo commandante da es- 
quadra. 

Contava assim a França mais uma cidade : pertencia-lhe 
o Rio de Janeiro par le droit de conqiiete : vejamos agom 
como foi resgatado volvendo ao domínio — portuguez. 

II 

VKHGONHOSA CAPITULAÇÃO. 

Estavam os francezes no dia 22 de Septembro definiti- 
vamente senhores da cidade e suas ímmediações havendo 
expedido alguns batalhões pela estrada de Catumby afim 
d'occuparem os postos que os resguardassem d^algum ata- 
que dos portuguezes, que de modo algum cogitavam em 
recuperar o que haviam perdido partindo o governador e 
seus asseclas, por mór segurança, para Iguassú. 

Senhor da nosáa capital cuidou Duguay-Trouin, como 
elle próprio no-lo diz, dos interesses dos armadoí es e sendo- 
lhe impossivel conservar a praça em razão dos poucos vi- 
veres que n'ella encontrara, e da dificuldade de penetrar 
no interior do paiz para se abastecer d'elles; julgou que 
seria opportuno entrar em transação com a gente da terra. 

O saque importara em doze milhões líquidos porque só 
no convento de S. António acharam os invasores dois em 
oiro e prata, n'um sitio chamado sumidouro, que servia de 
caixa económica aos nossos maiores : nâo era porém esta 



— m — 

somma sudicionle para contentar á avidez dos estrangeiros. 
Passava a nossa pátria por uma cidade immensamente rica ; 
fallava-se comemphase das fabulosas sommas que os quin- 
tos produziam para o erário da metrópole ; assim pois en- 
tendeu o almirante que podia exigir pelo seu resgate uma 
considerável quantia. Escreveu ao governador dizendo-lhe 
que si não apressasse em entrar em negociações com ellc 
relativamente a entrega da colónia arrazal-a-liia inteira- 
mente. 

Esta urgência dos francezes explica-se hoje facilmente 
pela declaração que nos faz seu chefe de que estava infor- 
mado por alguns desertores que António d'AIbuquerque, 
ex-governador do Rio de Janeiro e então de Minas e S. 
Paulo, marcliava para o litoral com forças consideráveis, 
que elle calculava em três mil homens mas que os es- 
criptores nacionaes elevam a nove. ou dez mil, queapezar 
de serem de mlicias e^rdemtH^s poderiam contudo arran- 
car-Ihe o triumpbo, que com tanta facilidade obtivera. 

Querendo dar uma prova de que estava disposto à levar 
a effeito a sua ameaça ordenou Duguay-Trouin que duas 
companhias de granadeiros fossem ((ueimar todas as casas 
de campo na circunferência de meia légua : o que realiza- 
ram quasi sem opposiçáo. Dizemos quasi porque foi nesta 
occasião que teve lugar o único feito brioso d'esta guerra 
a que acima alludimos, quando mencionámos a heróica 
morte do capitão Bento do Amaral Coitinho, cujas armas e 
cavallo foram levados como trophéos ao almirante, que tece 
os maiores encómios à sua coragem. 

Não era menos urgente a precisão que sentia Castro 
Moraes de terminar este estado dúbio. Convinha-lhe dar a 
forma de capitulação ao seu cobarde abandono da cidade ; 
justificar pelas leis da guerra actos de que a sua própria 



— 102 — 

consciência não lhe poderia absolver. Lançou pois rnâo com 
toda a solicitude do offereciínento que lhe fazia o padre 
António Cordeiro da Companhia de Jesus, que licàra no 
seu collegio, onde hospedara o almirante e mais officiaes 
para servir de medianeiro n'este negocio. Escolheu o juiz 
de fora Luiz Fortes de Bustunante e Sá e o mestre de 
campo João de Paiva Souto Maior para em mtne do j)ovo 
convir nas condições da capitulação : conferindo-lhes os 
poílêres necessários para ajustarem o resgate da cidade por 
contribuição da fazenda publica e particular. (99) 

Entrando em conferencia os delegados de ambas as 
partes contractantes mostráram-se os francezes summa- 
mentc exigentes e com toda a razão attenta a fraqueza dos 
seus contrários. Pediram doze milhões pela soberania da 
terra (100) fortalezas, aríilheriase cidade entrando os conven- 
tos e tudo o que lhes pertencia : ao que responderam os com- 
missarios portuguezes que não ei^ possível dar mais de 
tresentos à quatrocentos mil cruzados que em tanto im.- 
portavam os redditcs dos quintos, moeda, alfandega e con- 
tractos como poderiam certilicar-se pelos livros e inven- 
tários, que estavam em seu poder. Não querendo annuir 
á essa reducção da quantia arbitrada deram os enviados 
francezes por finda a conferencia promettendo que hia 
ser destruida a cidade. 

Pela segunda vêz intentou Duguay-Trouin intimidar aos 
portuguezes fazendo-lhes crer que executaria o que era 
inteiramente contrario aos seus interesses ; e que certa- 
mente não tinha a menor vontade de fazer. Tendo tido a 
cautela de occupar as alturas e os desfiladeiros mandou que 
vários corpos cercassem as nossas tropas, e contando com 
a cobardia do governador cahiu sobre o seu flanco ; fican- 
do a vanguarda ás ordens do cavalleiro de Goyon ao ai- 



— 103 — 

cance de meio tiro de fusil do nosso accampamento. Ainda 
desta vêz logrou o almirante o seu propósito : humilhou-se 
Francisco de Castro ; enviou-lhe dois officiaes acompanha- 
dos d'um jesuíta a representar-lhe a absoluta impossibili- 
dade de contribuir com maior somma do que a promettida; 
podendo apenas concorrer com mais dez mil cruzados de 
saa fortuna particular, quinhentas caixas d'assucar e o 
gado necessário para o sustento da expedição ; e caso mo 
fosse recebida a stia proposição então o batesse como fôsíie do 
seu agrado, arrasasse a culade e o paiz, ou tomasse o partido 
que bem qmzesse (iOi) Devemos observar que a somma de 
quatro centos mil cruzados, oíTerecida da primeira entre- 
vista para o resgate, fora elevada depois à seiscentos, não 
conseguindo-se nem assim contentar os francezes, que 
como vimos, romperam as negociações, e recorreram aos 
argumentos ad terrorem. 

Recebendo este ultimaium do governador convocou o 
almirante os seus offlçiaes à conselho e alli decidiu-se una- 
nimemente em aceitar a proposta ; porque si quizesse levar 
o inimigo ao derradeiro apuro arriscar-se-hiam a perder a 
ultima esperança que lhe restava. Estipulou-se pois que a 
mencionada quantia seria paga dentro de um prazo de 
quinze dias, fornecendo-se aos francezes o gado de que 
precizassem, ficando dois olTiciaes como reféns da obser- 
vância de taes condições. Como general prudente cuidon 
Duguay-Trouin d'assegurar a sua retirada na hypothese, 
por elle sempre temida, que António dWlbnquerque não qui- 
zesse, â sua chegada, subscrever à clausulas tão aviltantes 
para a sua nação : ordenando que se reforçassem imme- 
diatamente todos os postos militares de defesa e as forta- 
lezas, como as da Ilha das Cobras, Villegaignon e Santa 
Cruz para proteger a sabida dos seus navios. 



— 104 — 

No dia seguinte que se contava 11 de Outubro, chegava 
de Minas António d' Albuquerque para ser mudo e impas- 
sivel testemunha di degradação dos seus compatriotas. 
Não contente de fazer umi morosa marcha quando as cir- 
ciimstancias reclamavam a maior velocidade, não protes- 
tou, como Camillo. contra o vm victis do novo Brenno I 
Parece que o máo fado de Portugal escarnecia dos Albu- 
querqnes terribeis e Castros fortes, que symbolisavam a sua 
prisca gloria í (102). 

Realisando-se o ultimo pagamento no dia 4 de Novem- 
bro foi entregue a cidade a seus primitivos possuidores 
guardando sempre os francezes as fortalezas que lhes per- 
mittiam o seu fácil regresso. Só a mais decidida cobardia 
poderia abandonar uma povoarão de mais de vinte mil al- 
mas defendida por um respeitável corpo de tropas, abri- 
gada por fortes muralhas, bordadas de canhões á merco 
de pouco mais de três mil homens que depois de lhe ha- 
verem imposto as condições que lhes dictou o seu alvidrio 
se retiraram muito a seu salvo havendo-a possuído por 
quarenta e quatro dias í I (103) 

Ainda ficaram os francezes até o dia 13 do dito mez 
em que deram à vela demandando sua pátria tendo-sc 
conservado entre nós dojs mczes e um dia. Sobre a sua 
conducta aqui durante o tempo decorrido entre a capitu- 
lação e a sua partida oiçamos o juizo d'uma testemunha 
occular, que não pode ser averbada de suspeita. Manuel 
de Vasconcellos Velho n'uma carta escripta â seu amigo 
Domingo José da Silveira, assistente em Lisboa, serve-se 
doestas expressões : 

t Em todo o tempo que aí[ui se detiveram depois das 
« capitulações ajustadas nos Iralninos cpmo hcrnianos; 
« ferveram os negócios, compras de navios e fazendas ; e 



— 103 — 

€ não podemos duvidar que o Gabo d' Armada M.^ Dugcl 
« é um famosíssimo soldado ; porque teve muito particu- 
€ lar attençáo a que se não bolisse em sagrado, de tal sorte 
« que chegou a arcabuziar dezoito soldados seus por lhe 
€ serem achadas nas máos cousas da Igreja. E da mesma 

• sorte se teve grande respeito a algumas mulheres pri- 
« sioneiras ; havendo-se com muita piedade com os doen- 
« tes e feridos, que ficaram nos hospitaes, e com muita 
€ lastima do estrago que se fêz nos moradores, dizendo se 
« queixassem do seu governador; pois, ou é que os podia de- 
€ feuder ou imo : se os podia defender para que fugiu? e si os 
€ não podia defender porque não capitulou ? pois com lhe dar 
€ os gastos d' Armada escusava de saltar francez em terra. 
€ Da mesma sorte se haviam os mais ofílciaes e geme mais 
« luzida, que não ha duvida que era toda guerreira e ex- 
« perimentada. » (104) 

Estas palavras confiadas amizade acham-se em perfeito 
accordo com o que a tal respeito diz Duguay-Trouin em 
suas Memorias, jà por nós tantas vezes citadas: 

« Desde o primeiro dia da minha entrada na cidade tive 

€ grande cuidado de ajuntar todos os vasos sagrados, 

« prata e ornamento das igrejas ; fizéra-os guardar pelos 

t nossos capelláes em grandes cofres, punindo com a pena 

« de morte a todos os nossos soldados e marinheiros, que 

• tiveram a impiedade de profanal-os , apoderando-se 
« d'elles. Por occasião da minha partida confiei este de- 
€ posito aos jesuitas como os únicos ccclesiasticos d'este 
€ paiz que achei dignos da minha confiança: (103) in- 
« cumbí-os de entregai -os ao bispo do lugar. Devo fazer 
€ a estes padres a justiça de dizer que contribuíram cllcs 

• muito para salvar esta florescente colónia, induzindo o 

JANKIRO. l't 



— 106 — 

t governador a resgatar a cidade, sem o que eu tél-a-hia ar- 
« razado apezar da vinda d'Antonio d'Albuquerque cora 
€ todos os seus negros. Esta perda que teria sido irrepa- 
€ ravel para o rei de Portugal não seria d utilidade alguma 
< para a minha empreza. » (106) 

Assevera o Sr. Varnhagen que Duguay-Trouin deixara 
no Rio de Janeiro alguns negociantes e um cônsul de sua 
nação: cuja existência é mencionada nas disposições pre- 
liminares da páz d'Uttrech ; os chronistas porém guardam 
sobre esta circumstancias o mais completo silencio. 

Acharam abrigo na esquadra franceza José Gomes, seus 
filhos e alguns outros christáos novos, que a inquisição 
destinava às suas hecatombes e que deveram aos desastres 
porque acabava de passar a sua pátria, o subtrahir-se ao 
cruel fanatismo de que era um dos agentes o bispo dioce- 
sano D. Francisco de S. Jeronymo, que d'est arte s*esquecia 
da sua missão de paz e de brandura. 

Apenas se retiram os francezes o senado da camará di- 
rigiu-se ao convento de S. Bento d'Iguassú onde se achava 
António d'Albuquerque e instou com elle para que tomasse 
conta do governo da capitania de que se mostrara tão in- 
digno Francisco de Castro Moraes fazendo ao mesmo tempo 
subir ao throno uma enérgica representação contra o seu 
proceder na melindrosa crise porque acabava de passar esta 
cidade. Albuquerque annuindo aos votos dos represen- 
tantes do povo assumiu às rédeas da governança não que- 
rendo porém prender o culpado governador, como d elle 
s^exigia, sem ordem expressa da côrle. 

Esta ordem não se fez por muito tempo esperar. O al- 
vará de 22 de Junho de 1712 ordenava ao clianceller da 
Relação da Bahia Francisco de Mello e Silva que imine- 



— 107 — 

flinlamenle embarcasse para esta cidade a devassar sobre 
a sua criminosa entrega sendo-lhe mais tarde ( a 27 de 
Julho) commettido o julgamento dos réos d'alta traição. 

Do minucioso exame a que procedeu a alçada acerca da 
conducta do governador Castro Moraes náo resultou que 
fosse elle traidor, como lhe encrepàram os seus inimigos, 
nem provou-se por forma alguma que entretivesse relações 
com o inimigo. Sua inqualificável cobardia deu motivo a 
suspeitar-se da sua lealdade, parecendo incrível que tantos 
desatinos fossem praticados de bôa fé. (i07) 

A noticia da tomada do Rio de Janeiro pela esquadra 
franceza causou na Europa a maior sensação: ignorando-se 
ainda o resgate da cidade e a consequente retirada de Du- 
guay-Trouin receou-se que o gabinete de Versailles se obs- 
tinasse em possuir a sua França Antárctica compensando- 
se d'est'arte dos últimos revezes que acabava d'experimen- 
tar na guerra da successão hespanhóla. Os diplomatas 
portuguezes, reunidos em Uttrech, para negociarem a paz 
geral chamaram sobre este ponto a attençáo da Inglaterra 
e da Hollanda, que como potencias marítimas eram inte- 
ressadas em obstar os ambiciosos projectos de Luiz XIV 
sobre as colónias luzitanas : e constando então que Du- 
guay-Trouin fizera soíTrer à Bahia a mesma sorte do Rio 
de Janeiro chegaram a lembrar-se da conveniência d'equi- 
par-se uma armada luzo-anglo-hoUandeza para recuperar 
as praças conquistadas pelas armas francezas. O receio po- 
rém, diz Southey, (108) de que em retribuição doesse au- 
xilio pedissem as potencias alliadas algumas vantagens 
para o seu commercio, que iriam ferir o monopólio que a 
metrópole desejava conservar a todo o transe, fez abando- 
nar a ideia ; felizmente sem funestas consequências para o 



— i08 — 

futuro (la sua irnportanlissinia colónia americana : o posto 
que três annos mais tarde (em 1714) pretendessem alguns 
armadores francezes, auxiliados pelo seu governo, enviar 
uma nova expedição á Bahia, commandada por Mr. de 
Cassar, que gosava de grande nomeada, não teve este pro- 
jecto execução , sendo substituído por outros reputados 
mais lucrativos; devendo-se unicamente a esta circumstan- 
cia o íicar a capital do Brasil livre de tão grande cala- 
midade. 

lil. 

EPILOGO. 

Ponhamos aqui termo á nossa descolorida narrativa e 
examinemos a questão si a expulsão dos francezes foi útil, 
ou prejudicial ao Rio de Janeiro. 

Afastando-nos da respeitável opinião do nosso benemé- 
rito consócio, o Sr. Dr. Gonçalves Dias, que pretende que a 
expulsão dos francezes levara comágo muitas esperanças (109) 
procuremos demonstrar o contrario pensando que tanto 
esta como a dos hollandezes foram de summa vantagem 
para nossa pátria e em geral para o Brasil inteiro; porque 
sem isso não seriamos hoje uma nação que pela sua uni- 
dade de raça e de religião começa a pesar tão poderosa- 
mente na balança dós destinos políticos da America, e pa- 
rece pela Providencia chamada a um glorioso futuro. 

Reconhecemos faltando de Villegaignon que os france- 
zes sabiam muito melhor do que os portuguezes captar a 
benevolência dos indígenas : e que unicamente âs suas 
discórdias civis e dissensões religiosas devemos attribuir o 
não se haverem estabelecido com mais permanência na 
ierra de Guanabara, Estamos porém convencido de que 



— lOí) — 

cedo, 011 tarde, teriam do abandonar a sua colónia, ou vcn- 
dendo-a como fizeram com a Liúziama, ou deixando-a 
perder como aconteceu com as suas feitorias nas índias 
Orieniaes, ou finalmente revolucionando-a como succedeu 
com o Haittj. É um facto reconhecido pelos seus próprios 
escriptores que a nação franceza sabe conquistar com va- 
lor, e talvez mesmo fazer-se estimar pelos povos conquis- 
tados ; mas que falta-llie o talento de conservar as suas 
possessões, ou em resultado da natural inconstância que a 
caracterisa, ou porque os seus naturaes tenham grantlc 
repugnnncia de se afastarem do s')lo natal. 

Não é esta uma hypothese gratuita ; pois que a Historia 
traz o seu valioso testemunho em prol do nosso asserto. 
Durante os caliginosos reinados de Carlos IX e de Henri- 
que III, durante o sanguinolento periodo da iuja, como 
poderia a França attender às necessidades da sua colónia 
d^além-mar quando seu próprio território na Europa se 
via ameaçado? quando sem a timidez do Tibério do 
16.*^ século ter-lhe-hia a batalha de S. Quintino aberto 
as portas de Paris? Quem ha ahi que ignore quantos 
perigos correu a integridade franceza antes que as vic- 
torias d' Arques e dlvry servissem de preliminares à paz 
de Vervins? 

Quando por uma feliz casualidade a nascente colónia 
guanabarense, entregue a seus fracos recursos, escapasse 
aos reiterados ataques da população portugueza que a ro- 
deava, atravessando d^esf arte a violenta crise porque pas- 
sava a sua metrópole, poderemos acreditar que não fosse 
mais tarde presa dos hollandezes, ou dos inglezes, que 
arrebataram aos successores de Dupleix, Bussy, e SuíTren 
as férteis regiões que possuíam n\\sia ? O que lhe resta do 



— no — 

sea domínio na America senão algumas pequenas ilhas es- 
palhadas pelo mar das Antilhas e a pestífera Cayenna ? An- 
tes que a marinha militar surgisse ao toque da vara magica 
de Colbert a França Antarctka teria sido riscada do cata- 
logo das suas colónias. Modernamente vimos que Argel, 
ligado a Paris pelos fios do telegrapho eléctrico, foi por 
muito tempo reputado como inútil senão prejudicial, ser- 
vindo apenas de vasto campo de Marte à metrópole onde 
adestrava as suas legiões para envia-las, como ainda ha 
pouco fez, ao Bosphoro Cimmerio, ou ao Chersoneso Cimbrico. 
t Os francezes, diz o douto Cantú, nunca mostraram fun- 
t dando colónias, a paciência tenaz e a constância intre- 
t pida dos hespanhóes e dos hollandezes. » (HO) 

Procede a opinião favorável da contemplação dos abusos 
que praticaram os portuguezes em nossa terra. Longe de 
dissimula-los fizemos expressa menção d'e!les quando apon- 
tamos as causas do vagaroso incremento do Rio de Janeiro, 
fadado pela sua posição geographica, para um rápido pro- 
gresso. Sejamos porém justos, e confessemos à face do 
mundo, que da ignorância mais do que da má vontade dos 
nossos maiores proveio o estado de atrazo em que o en- 
controu o sol do Ypiranga. Soflremos a applicaçáo dos 
erróneos principios económicos que então predominavam : 
o colono era uma espécie de servo de gleba para quem só 
haviam deveres e não direitos, uma força productora, 
destinada a abastecer os mercados da metrópole. A ideia 
de chamar de algum modo à vida politica e civil a homens 
de outra raça, reputados como infiíjis, e por isso fora das 
fronteiras da humanidade, era muito subtil para ser com- 
prehendida e praticada pelos governos d^essa épocha. E 
uQte-se que então eram Portugal e a Hespanha as duas pri- 



— m — 

meíras nações da Europa, que sustinham em suas possan- 
tes dextras os phanaes da civilisaçáo. 

Acerca do systema colonial hespanhol e portuguez oi- 
çamos o juízo que cmitte o grande economista italiano 
Rossi : 

t No ponto de vista económico foram estas colónias sub- 
mettidas ás regras do systema mercantil. Ainda a tal 
respeito as máximas dos governos hespanhol e portu- 
guez eram as mesmas : com a única diíTercnça de que o 
governo hespanhol applicava-as com mais zelosa seve- 
ridade. A primeira d'essas máximas era a absoluta ex- 
clusão de todo o estrangeiro: ninguém podia entrar 
n''uma colónia hespanhóla e ainda menos ahi estabele- 
cer-se se náo fosse hespanhol. A importância dos seus 
capitães, a natureza dos seus talentos, o poder da sua 
industria eram para o estrangeiro outros tantos moti- 
vos para se vêr repellido d'essas inhospitas terras. Náo 
havia mesmo igualdade de direitos para o hespanhol 
nascido nas colónias; também elles eram collocados 
n'uma ordem inferior aos nascidos na Europa. 

t As colónias náo deveram produzir senáo cousas cuja 
producçáo fosse necessária á mái pátria ; abstendo-se 
de tudo quanto esta lhe podesse vender. Ter-se-hia ar- 
rancado o cepo da vinha que o colono plantasse e infli- 
gindo um castigo a quem pretendesse naturalisar a 
oliveira. Assegurando-se assim d'um mercado sem con- 
currencia fixava a metrópole as condições dos seus es- 
cambios com as colónias. » (Hl) 
Só muito tarde a Hollanda e a Inglaterra admittiram em 
suas possessões princípios mais liberaes: devendo-lhes 
aquella a conservação de Sumatra, Bornco, Java e as Mo- 



— 112 — 

lucas, e esta o seu vasto império indostanico, momenta- 
neamente perturbado pela estulta e cruel revolta dos cy- 
jmos, e a fidelidade do Canadá, surdo ás instigações dos 
yankees. 

A ordem natural das cousas exige que as colónias se 
destaquem das suas metrópoles; assim como os filhos dei- 
xam a casa paterna quando emancipados. O Brasil teria de 
constituir-se uma nação independente; teria no futuro de 
separar-se de qualquer nação que o houvesse colonisado ; 
resta a examinarmos si nos seria mais proveitoso o fraccio- 
namento do território entre os francezes, hollandezes e 
portuguezes, ou si a uniâj de todo o paiz debaixo d'uma 
só macionalidade. 

Não haverá um só brasileiro, verdadeiramente amigo do 
seu paiz, que desejasse ver quebrado este magnifico vaso de 
porcellana, na expressão de um moderno escriptor nosso 
(112); que não agradeça á Providencia Divina de ter-nos 
conservado essa integridade, base fundamental da nossa 
futura grandeza. Hollandezes no norte, portuguezes no 
centro francezes no sul seriamos fracos e desunidos ; fal- 
lariamos três línguas, teríamos talvez duas religiões: e o 
gigante dos trópicos, que q^uçà deterá um dia no isthmo 
de Panamá a marcha invasora do audaz anglo-saxonio, 
fazendo recuar a águia do Mississipi, seria olhado com des- 
preso, e nem se quer escutado nos conselhos da America. 

A unidade religiosa e politica do Brasil foi obra de Deus 
e não dos homens : foi o Céo que auxiliou os Vieiras, ao 
Vidaes ao Camarões e aos Dias ; foi elle que nos deu as 
victorias dos Guararapes e Giiaxendiiha, que subtrahiu o Rio 
de Janeiro das mãos de Villegaignon, Duclerc e Duguay- 
Trouin. A despeito dos erros gravíssimos dos governantes 



— ii3 — 

o paiz crescia e prosperava ; entregues a nós mesmos ex- 
pulsamos do nosso solo o estrangeiro todas as vezes que 
nelle se quiz estabelecer. Sem as fogueiras da inquisição 
guardamos a nossa fé religiosa : não respondemos ao appello 
de Minas e Pernambuco quando nos convidaram à trocar o 
sceptro e a coroa pelo barrete phrygio : e só fomos nação 
quando podemos ser império. 

Gloriemo-nos da nossa origem : somos os herdeiros do 
Gama ; falíamos a lingua de Camões ; e vemos sentado em 
nosso throno um neto de D. Manoel, o Venturoso. Somos 
uma raça vigorosa e intelligente ; nascemos na terra da li- 
berdade e fomos embalados com o hymno da independên- 
cia. Sebastianopolis não tem saudades d'FIenri-Ville; o 
Rio de Janeiro não lamenta a França Antárctica. 



lANKlRO. 1-i 



— 113 — 
NOTAS. 



(I; Pigoíetta (jne acompanhou a MagalliJes oní siw Via- 
gem ao redor Jo mundo escrevendo uma Relação iVe^^x 
viagem, que foi publicada em Milão no anno do 180Ò por 
Cartos kmoreiíi, assim se exprime quando tracta da sua 
passagem pela nossa terra : 

« In questo porto (Rio de Janeiro) entrammo iJ di de S. 
€ Lúcia, avendo il sole alio zenit nel i^iezzodi, ed ebbimo 
« nel tempo dei nostro soggiorno cola piu caldo die non 
« n^avevamo provato sotto la linea eçiumoziale. • (Pruno 
Via^gio intorno ai globo terraccjueo fatto dei cavalier ÂJi- 
toftio Pigafetta, patrizio vicentino sulla squadra dei Cap. 
JMlíiggalianes negli anni 13i9— 1522— Lib. I. pag. Í7) 

(2) Na grande collecçáo de Ramusio lemos duas cartas 
d'Americo Vespucci escriptas à Pedro Soderini, Gonfalo- 
niero da Republica Florentinn, dando conta das duas pri- 
meiras expedições á Terra de Vera Cruz. Explicando a 
maneira porque entrara para o serviço de Portugal assim 
se exprime : 

« Stando in Sibilia reposandomi (Ja molto ijjiiie fatiche 
cif in due viaggi fatti per il Serenissimo Re Don Fer- 
nando de Castiglia nell Indiè Occidentali haueuo pas- 
sate e con volontà de rittornar di nuouo alia terra deWe 
perle, quando la Jortuna non contenta dei miei trauagli 
fece che venne in pensiero à auesto Serenissimo Be 
Don Manuello di Portugallo voíersi seruire di me, &. 
stando in Sibilia fuori d'ogni pensiero di venireà Portu- 
gallo, mi venne uu messaggiero con lettcre di sua real 
coronna, che mi comandaua che io venisse qui à Lis- 
bonna, à parlarli, promettendo farmi molte gratie. io 
fu consigliato di non partirmi airhcM^a, & però espe- 
detti il messaggiero, dicendogli chMo stava male. 4 
quando fosse risanato, & che sua altezza si volesse pur 
seruirdi me, che farei quanto mi commandasse, la onde 
che visto sua altezza, che1 non me poteua hauere, deli- 
bero di mandare per me Giuliano di Barlholomeo dei 



~ HG — 

Gioconilo, staiile (|iii in Lisbunna, con commissione che 
iii ()<íni modo mi conducesse, veime il deito Giuliano à 
Sibilia. per la vciuita & preghi dei quale, fu forzato à 
venire : à futenula à male la mie partila da qiianti mi 
conosceuano, per essermi partito di Castiglia, doue me 
era fatto honore, & il Re mi teneua in bona reputatione. 
peggio fú che mi parti insalutato hospite, & appresentan- 
domi innanzi à questo Re, mostro hauer piacere delia 
mia venuta & pregommi cif io andasse in compagnia di 
tre sue naui, che stauano in ordine per andar a scoprir 
nuoue terre, & perche un prego d'un Re, è comanda- 
mento, hebbi á consentire a quanto mi comandaua. » 

(Vide Delle Navigationi et Viaggi raccolte da Gio. Battista 

Ramusio Volume I pag. 128 Venetia. MC VI.) 
D'essa primeira carta consta que a frotinha em que Ves- 

pucci ia de piloto, descobrira o cabo de S. Agostinho no 

anuo de 1501 : 

t Partimmo di questo luogo e comenciammo la nostra 

« navigatione fra leuante esirocco, che cosi corre Ia terra, & 

« facemmo molte scale. & mai trouammo gente, che con 

« esso noi volessino conuersare, óc cosi nauigammo tanto 

• che trouammo che la torra faceua la volte per libeccio, 

« & come voltammo vn cano, ai quale mettemmo nome el 

« capo de Sant^Agostino. 

Continuando a navegar para o sul parece ter entrado no 
nosso porto, cuja posição geographica assignala, posto que 
não o nomee ; assnn como deixa de faze-lo à outras locali- 
dades por elle visitadas na carta meridional do Brasil. 

(3) Páo brasil. 

(4) Histoire fl'um pays sitiié dans le Nouvean Mond nom- 
mé Ainerique por Hans-Stadens d' Homberg. 

(5) Une fete brésilienne. 

(6) Hist, d^un Voy. fakten la terre du Brésil anlremenl 
dite Ameriqm cJuip. I. 

(7) Singularitez de la France Antarcíique pag. 2. 



I 



- 117 — 

(8) Roclia Pitta. Hist. d' Am. Port. livr. IH. §1G. 

(9) Mons. Pizarro Mem. Hist. do R. de Janeiro tom. I. 
livr. L cap. I. pag. 9. 

(\0) Os francezes chamavam a este rochedo Ratier e os 
portiiguezes Lage. 

(il) Denominavam os indigenas a esta ilhota de Se- 
ri(j'q)e. 

{^i) Lery Hist, d*um voij. faiei en la iene da Brésil, 
autremeiít dite Ameriq, chap. VIL pag. 88. 

(13) Lery ibidem. 

(14) LesSiiujularitezdelaFrance Aíitarctiqiie, chup. GO. 

(IT)) Apparece na jà citada Collecção di Ramuzio a Rela- 
ção da viagem d'mu capitão de Dieppe (Pedro Crignon) 
escripta em 1339, que marca a épocha dos descobrimentos 
francezes no litoral do Brasil , recoídiecendo a priori- 
dade dos portuguezes : 

« Questa terra dei Brasile fu primamente scoperta da 
« Portoghesi in qualcho parte, e sono circa trentacinque 
€ anni. L\i]tra parte fu scoperta per vno di Honlleur, chia- 

• mato Dionizio di Honfleur da venti anni in qua. . . » 

Em um luminoso e recente opúsculo intitulado — Exa- 
men de quehiues polnts de I' Historie Geoyraphique du Brésil, 
o Sr. Varnhagen, fallando acerca da prctenção que tem a 
marinln franceza de ter sido a primeira em explorar as 
nossas costas, assim se expressa : 

€ Je suis íoin d'abriter, à propôs de la priorité, ou de 
« rimportance des anciennes navigations françaises au 
« Brésildes idées de jalousie ou d'injustice, que la-dessus 
t je puis bien m^enorgueiUir de pouvoir ré[)ondre avec le 
< grand nombre de faits et de documents que j'ai fait co- 
€ naitre raoi-même, donnant plus de relief et dlmpor- 

* tance aux navigations françaises au Brésil ; et je dois 
« ajouter que queíques ims de ces faits en faveur des ex- 



— 118 -^ 

« ploits (Ic Tancionne marine française, onl été foumis 

« par des documents originaux de ma proprie colleclion, 

^ que j'aurais bion pu conserver par divers moi, et que je 

€ me suis fait un plaisir de publier. 

« Et je respecte tant les aspirations des peuples à gar- 

« der leiír, gloires historiques même ura peu hasardcuses^ 

« que ne puis que louer les Dieppois quand ils pretendent 

« avoir decouvert rAmêriqne avant Colomb. em 1488, de 

t mème que certaines familles du Brésil pretendent en- 

« core que le Portugais João Ramalho etait allé a Saint 

« Paul, à peu prés à la même epoque. également avant de 

« a decouverte de rAmérique par Colond). » 

(1 6) Véníable Histoire et descripHon xtum pays sUué datis 
rAménqiie par Hans-Stadens d'Homberg chap. 26. 

(17) Posto que tão fortificados os francezes náo fa- 
ziam comtudo hostilidades nem guerra ofTensiva aos por- 
tuguezes satisfeitos <x)m gozarem da terra quietos, (S. de 
Vasc. Vid. d^Anch. livr. III. cap. 1.) 

(18) Pizarro Mem. Hist. do Rio de Janeiro livr. I cap. I. 

(ID) B. da S. Lisboa— Anna^s do Rio de Ja«eiro livr. I. 
cap. U. pag. 64. 

(20) The\el — Cosmogr^)l^ie. iom. II. livr. XXI, chap. 
2.™* pag. 908. 

(21) Nome que os protestantes dão à Eiwharistia. 

(22) Une Fète Rrésilienne— Notes— pag. 70. 

(23) Aos 11 de Julho de 1557, na idade de 33 annos 
havendo reinado 35. 

<a4) Hist. Geral do Brasil pelo Sr. F. A.ide Variihagen, 
tomo 4.« Secç. XVII pag. 232. 

(25) Rocha-Pittaflist. d' Am. Portug.Livr.IU, p^g.i56. 



- 119 - 

(36) Este rochedo, que extetia no meio da ilha clia- 
mado monte das palmeiras, foi mandado demolir assim como 
os oiteiros dos extremos por ordem regia de 22 de Sep- 
tembro de 1761 ordenando que continuasse a bateria em 
circulo na forma da planto remettida pelo governador Go- 
mes Freire dWndrada, cuja obra prmcipiou a executar o 
vice-rei conde da Canha e ultimou o marquez de Lavradio. 
(Mem. hist. do Rio de Janeiro pelo mons. Pizarro tom. 7." 
cap. l,^paç. 14.) O Sr. Varnhagen no tom. 2.° secç. 43.^ 
pag. 194 diz que esta obra só se terminara cm 1761, sendo 
apenas esta a data da ordem da secretaria doestado appro- 
vando a planta remettida à curte por Gomes Freire e ao 
concluir-se ella como diz Pizarro, que nos parece bem in- 
formado, no tempo do marquez de Lavradio devera ser 
depois de 1769; pois que à 4 de Novembro do referido 
anno tomou elle posse do vice-reinado. 

(27) Diz o Sr. Varnliagen (Ilist. Geral do Brasil tom. 
1.** secç. 18.* pag. 240) ^uc poucos annos depois recla- 
mava Villegaignon indemnisações ao governo portuguez, 
ás quaes seu embaixador em Paris. João Pereira Dantas, 
aconselhava que se attendesse para o calar, 

(28) Carta de Mem de Sá inserta nas memorias íFEl-rei 
D. Sebastião pelo Abbade Barbosa tom. 1.^ pag. 438. 

(2í)j O Sr. Varnliagen quer que se diga Paramipuana ; 
mas todos os chronistas escrevem como acima o fizemos. 

(30) Actualmente conhecido pelo nome de Catete. 

(31) Xâo saI)emos com que fundamento aíTirma o au- 
IhordoSanctuarioMarianno que a aldeia (rUrHimmivim era 
na ilha depois chamada de Villegaignon. 

(32) Mera. Hist. Docum. das Aid. dos ind. da prov. do 
Bio de Janeiro cap. 2.^ pag. 34. 

(33) Conf. dos Tamouos pelo Sr. D. J. G. de Magalhães 
cinto li pag. 37. 

(34) Que enWo era o padre Manwl da Nóbrega. 



— láO — 

(33) Assim escreve Pizarro dizendo que o seu actual 
nome de Beríiôga é corrompido. 

(36) t Balisa tropical meta lusente, 

€ Throno do Capricórnio, á cujo aceno 
€ O eclyptico galope dos ethontes 
« Pára e recua no celeste circo » 

na bellissima expressão do eximio poeta brasileiro e nosso 
particular amigo o Sr. M. de Araújo Porto-Alegre. 

(37) Conf. dos Tamoyos canto X pag. 325. 

(38) Ilist. Geral do Brasil pelo Sr. Varnhagen Tom. 1.^ 
secç. 19.» pag. 231. 

(39) Consideramos o padre Azevedo como uma perso- 
nagem igual ao governador e ao bispo, pois (jue na sua 
catnegoria de visitador geral era o superior dos Jesuitas. 
cuja influencia é geralmente reconhecida. 

(40) S. deVasc. VidadWnch. livr. Ilcap.XIIIpag. H7. 

(4i) Apartamo-nos aqui da opinião do Sr. Varnhagen 
e da do conselheiro Silva Lisboa que dizem ter sido Estacio 
de Sá ferido no assalto de Puranapuctàij preferindo a de 
S. de Vasconcellos, que assevera que tivera lugar este 
successo no ataque crÚniçumlrim. 

(42) Onde jaz portuguezes o moimento 

Que do immortal cantor as cinzas guarda ? 

Homenagem tardia lhe pagastes 

No sepulchro sequer raça d'ingratos ! 

Camões Poema de J. B. de Almeida Garret canto X pag. 205. 

(43) Depois chamado do Calabouço e onde se acha agora 
o arsenal da guerra. 

(44) Ambas formam a moderna fortaleza de S. João. 



— 121 — 

(45) Actualmente de Santa Cruz. 

(46) A antiga Sj e presentemente igreja e convento dos 
capuchinhos. 

(47) Este quadro é primorosamente traçado pelo Sr. 
Porto- AIegi'e nestes lindos versos: 

t As fouces e os machados manobrando 
* Vão amputando o perystillo umbroso 
« Da verde tenda monumento inculto 
o Que d'indomitas feras foi asylo 
« E os accentos canoros de mil aves 
« Nas perfumadas folhas embebera : 
« Onde em bárbaro coro a simia astuta 
« Outr'ora se embalava, té que a frecha 
« Do certeiro tamoyo o ar fendendo 
« Co' a ponta ervada Ibe enfiasse a morte. » 

(DesL das /lor^sto^— Brasiliana— canto Ipag. li.) 

(48) Hisl. Geral do Brasil tom. l.« secç. XIX pag. 255. 

(49) iEn. livr. VI vers. 278. 

(50) Silva Lisboa Ann. do Rio de Janeiro tom. I livr. I 
cap. Ipag. H6. 

(51) Mem. Hist. e Doe. das Aldeias de indios da pro- 
víncia do Rio de Janeiro pelo Sr. J. Norberto de S. S. cap. 
^.^ pag. 58. 

(52) Na sua erudita Historia Geral do Brasil (tom. 1." 
secç. XIX pag. 256) diz o nosso douto consócio (lue a 
aldeia do Moçarúra Ararigboia estava do lado da cidade de 
S, Sebastião no local depois chamado Bicados Marinheií os ; 
contra esta opinião porém protestam todos os historiado- 
res e chronistas que consultamos, que são concordes em 
assignar à aldeia d' Ararigboia o sitio onde hoje vegetam 
seus miseros descendentes. 

(53) Mem. Hist. e Doe. das Aldeias de indios da pro- 
víncia do Rio de Janeiro pelo Sr. Norberto cap. 2.^ j)ag. 60. 

JWKIRO. IC 



— 122 — 

(o4) Eus, sobre os jesuitas, inserto na Rev. Trim. do 
Inst. Ilist. tora. 18 part. 2.» pag. 128. 

(o3) Pensamos que este é o seu verdadeiro nome. como 
o encontramos em Ler}', e não Boles, como escreve S^de 
Vasconcellos. 

(56) Jules Simon Liberte de Conscieme leçon IV pag. 272. 

(57) Le Brésil pag. 65. 

(38) Annaes do Rio de Janeiro tom. I.^cap. ft.^pag. 318. 

(59) Vide Ann. do Rio de Janeiro por S. Lisboa tom. 11 
pag. 10. 

(60) Ibidem tom. II pag. 18. 

(61) Plutarcho Brasil. Pefò Sr. Dr. J. M. Pereira da Silva 
tom. 11 pag. 52. 

(62) Vide Ann. do Rio de Janeiro tora. IV pag. 72. 

(63) Silv. Lisb. Ann. do Rio de Janeiro tom. IV pag. 225. 

(64) Annaes do Rio de Janeiro tom. V. pag. 9. 

(65) A' 21 de Janeiro de 1641. \'u\e o Qmdro Elem. 
das rei. dipl. entre Portugal e as prindpaes poteiíciasda Eu- 
ropa pelo visconde de Santarém tom. IV Int. pag. 199. 

(66) llist. Geral do Brasil pelo Sr. Varnhagen tom. 2." 
secç. 33 pag. 62. 

(67) Methuen. 

(68) O Sr. Ed. Fournier no seu interessante e recente 
livrinho intitulado — UEsprit dans rUistoire — contesta a 
authenticidade doeste dito attribuido ao rei por Voltaire no 
seu Século de Luiz X/F, e re|)eti(lo depois d'elle pelos 
mais graves historiadores. Referiíido-se ao Jornal de Dan- 
qeau sustenta que somilhantes palavras niuica foram pro- 
feridas pelo rei de França ; mas que o embaixador de lies- 



— lá:] - 

panha querendo convencer a Pliilippe V (duque d'Anjou) 
da comraodidnde da jornada para a sua capital disse-lhe 
que os Pynmneos estavam fumlidos ; o que lhe parece muito 
conforme à emphase castelhana, e também mais verosímil. 

(G9) Vile Mignet Neíjotlatiom relaúves à la succession 
d'Esim(jne som Louls XIV tom. 11 pag. 213. • 

(70) Eram tão fracas e insignificantes as fortalezas que 
houve ideia de fechar o porto com cadêas de ferro, que 
de modo algum poderiam resistir a acção da artilhería. 
Citemos a carta-regia endereçada ao governador do Rio de 
Janeiro no anno seguinte ao da invasão de Duclerc e quando 
o governo portuguez devera estaY- mais amestrado pela 
experiência : 

« Francisco de Castro Moraes— Eu El -Rei vos envio 
i muito saudar. Encommendo^vos procureis vêr si se pode 

• fechar com cadêas essa barra; e quando se possa con- 
« seguir o ponhaes em execução por licar assim esse porto 

• mais defensável; impedindo com isto a entrada aos 
€ nossos inimigos. Lisboa a 5 de Maio de Í7H— Rei— 

• Miguel Carlos— Para o Governador do Rio de Janeiro. » 

(7i) Os regimeti tos velho e novo. 

(72) Vide Vatel— Z)roií des Gens tom. II, livr. III, chap. 
XV, § 21Q—Des annateurs. 

(73) Vide a Mem. do Dose. e Fund. da Cíd. de S. Se- 
bastião do Rio de Janeiro escripla pelo tenente A. Duarte 
Nunes e publicada no tom. I da Rev. Trim. do Inst. Híst. 
Geog. do Brasil. 

(74) Então chamada de Secoj)enopán. 

(75) Assim era conhecido todo o espaço comprehendido 
entre este chafariz e o mar. 

(76) Onde se acha actualmente a igreja do Rozario e 
vulgarmente conhecido pelo Largo da Sé. 

(77) Silva Lisb. Ann. do Rio de Janeiro tom. V cap. VI 
pag. 278. 



— l±í — 

(78) Esta lagoa que hoje já não existe achava-se entre as 
ruas Nova do Conde e a do Areal. 

(79) Então chamado do Desterro. 

(80) Pizarro Mem. Hist. do Rio de Janeiro tom. I cap. 
H pag. 30. . 

(81) OCastello. 

(82) O Largo do Paço. 

(83) Então chamado de Luiz da Motta. 

(84) Chamado áe\)o'\é— Casados Contos, onde estão hoje 
o Correio e a Caixa d^AmorUsação. 

(85) Suspiros poéticos do Sr. Magalhães— Napoleão em 
Waterloo. 

(86) Pensamos que ha equivoco da parte do author dos 
Ann. do Rio de Janeiro quando orça em quinhentos o nu- 
mero dos nossos mortos. Mons. Pizarro, á vista de um 
documento muito authentico, ( o Livro d'obítos da fregue- 
zia da Sé ) assevera terem sido somente cincoenta. 

(87) Vide Mem. Hist. do Rio de Janeiro tom. I cap. II 
pag. 48. 

(88) Munido de uma portaria do Governo Imperial e 
auxiliado pela benignidade do Sr. Commendador Barbosa, 
digníssimo Director interino do Archivo Pubhco deparámos 
nesta repartição, confiada á seu zelo e intelligencia, com 
alguns documentos importantes e relativos às duas ultimas 
invasões francezas. Mencionaremos aqui duas provisões 
regias, uma agradecendo ao governador do Rio de Janeiro 
pela sua conducta por occasião da invasão de Duclerc, e a 
outra ordenando-lne que informasse em segredo sobre o 
procedimento de alguns oíDciaes. Citemo-las integral- 
mente : 

« Francisco de Castro Moraes — Eu El-Rei vos envio 
« muito saudar. Vi a conta que me destes da forma com 



- 12o — 

(|iio nss;jlláram os fraiicezes essa ciilailo e o glorioso 
successo que tiveram nossas armas com a morte de 
muitos inimigos e òs mais prisioneiros, e a noticia que 
os oíTiciaos da camera Me deram do valor com (|ue vos 
portastes no dito conflicto, e a singular disposição com 
que acodistes á toda parle por salvar o nosso perigo : 
E pareceu -me agradecer- vos (como por esta agradeço) 
a honrada acção o valeroso animo com que defendestes 
rssa praça, e. o destroço que fizeste nos nossos inimigos, 
como também as singulares disposições com que vos 
houvestes para se conseguir um tão feliz successo com a 
perda total dos francezes, e para que as mais pessoas, 
que a assignalàram nesta occasiáo, possam ser pre- 
miadas, conforme o seu merecimento e qualidade : Vos 
ordeno Me mandeis uma relação d'ellas com toda a dis- 
tincçâo. Escripta em Lisboa á 10 de Março de 1711.— 
André Lopes de Lavre— Para o Governador do Rio de 
Janeiro. » 

Apezar do propósito deliberado em que pareciam estar 
todos em occultar ao Rei a verdade dos successos aqui oc- 
corridos chegou, não sabemos como, ao seu conhecimento 
a cobardia d algims chefes e officiaes, o que deu lugar a 
dirigir a Francisco de Castro (o mais cobarde de todos) a 
seguinte Provisão: 

« Francisco de Castro Moraes — Eu El-Rei vos envio 
€ muito saudar. Por ser informado de que alguns cabos 
« de guerra procederam na occasiáo que houve comos 
€ francezes dessa cidade com frouxidão e fraqueza Vos 
€ ordeno Me informeis com todo o segre do e mdividua- 
€ çáo jatf^ie particular ; quaes foram para Me ser presente 
f esta noticia. Escripta em Lisboa á 7 de Março de 1711 — 
« André Loj)es de Lavre— Para o Governador do Rio de 
« Janeiro. » 

(89) Ann. do Rio de Janeiro tom. V cap. VI pag. 291. 

(90) Mem. Ilist. do Rio de Janeiro tom. I cap. II 
pag. 34. 

(91) t Duclerc havingbeen at one time lodged in the 
€ Jesiiirs college , and afterwards in fort S. Sebastian, 



— I2G — 

« (ihlaifièil pprmission to take a house, wheve, aboulsix 

« moiiths aftor liis surreiíder, he was found dead oiie 

t moniing, liaving l)een murderêd during the nighl. 

« Tliis assassination assiiredly was not an act of popular 

t fury; it coidd oídy have bèen the work of private ven- 

« geance anil jealonsy, inalllikchood, was the cause. 

• But inquiry was not institued, as it ought to have beea 

« in any case, and more espocially in one wherein the 

« ualioiíal faitlnvould apear to be implicated. » (Soutiiey 
Ilistory o f Brasil— ¥i\rí. III chap. XXXIII i)ag. H3.) 

(9á) Taes dehgencias não chegaram ao conhecimento 
(h)s historiadores nacionaes, ou estrangeiros. 

(9t>) Vide iVfm. de Bmjucnj-Tromii, pag. 185. 

(94) Eis o documento a que acima alludimos, extrahido 
por nós do Archivo Pubhco : 

1 Francisco de Castro Moraes— Eu El -Rei vos envio 
muito saudar. Vendo o que me escreveste em carta de 
9 de Novembro <lo anno p. p. do que determináveis 
obrar com os prisioneiros francezes tomando o expe- 
diente de os mandares nas embarcações que sahíssem 
para outros portos, assi por diminuir esta gente e fi- 
cardes com menos cuidado como também por náo ha- 
ver mantimentos com que se possam, sustentar escre-, 
vendo aos governadores os tenham seguros até minha 
ordem representando-me que o Cabo Mr. Duclerc e um 
rehgioso do Carmo que fora por capelláo dos francezes 
tinheis tenção de mandar para mais longe por serem 
estes dois sugeitos demasiadamente inquietos, e que náo 
convinha tornarem para a França para não moverem o 
seu Rei a outras facções semelhantes; Me pareceu di- 
zer- vos que tendes obrado bem na expedição que to- 
maste em mandar estes prisioneiros francezes para os 
portos do Brasil, advertindo -vos porém que só o façais 
para a Bahia, porque não convém na conjunctura pre- 
sente passem para Pernambuco, e a Mr. Duclerc e ao 
religioso do Carmo enviareis para a mesma praça em 
uma náo de guerra para que se náo dê occasiáo a que 



— 127 — 

t possam fugir, e ao governador da Bahia aviso o (|ue ha 

t de obrar nesle particular. Escripta rm Lisboa a sete de 

« Março de 17il.-^André Lopes de Lavre— Para o Go- 

« vernador do Rio de Janeiro. » 

(9o) Vide Mem. de Duguay-Trouin pag. iG7. 

(96) Vide Annaes do Rio de Janeiro tom. V cap. VI 
pag. 308. 

(97) Eis a integra doestas duas cartas, (jue reproduzi- 
mos neste lugar, apezar de jà terem sido citadas pelo con- 
selheiro Silva Lisboa eo Sr. Varniiagen, aíim d(» tomarmos 
mais completo este nosso trabalho. 

A' 19 de SeptembribDugnay-Trouin mandou um tam- 
bor levar ao governador a seguinte carta : 

« Senhor.— El-rei meu amo querendo alcançar satisfa- 
ção da crueldade exercida com os ofliciaes e soldados 
que fizestes prisioneiros o anno passado, e bem infor- 
mado Sua Magestade de que depois de fazerdes assassi- 
nar os cirurgiões, a quem havieis consentido que des- 
embarcassem dos navios para curar os feridos os deixas- 
tes perecer á fome e à miséria, e <le que havieis tido em 
captiveiro (contra a observância dos ajustes entre as co- 
roas de França e Portugal, ) a tropa que ficou prisio- 
neira, me mandou com seus navios e tropas [)ara vos 
obrigar a ficardes á sua discripçáo, entregando-me os 
prisioneiros francezes, e fazesdo pagar aos habitantes 
doesta colónia as contribuições que forem bastantes para 
punil-os de suas crueldades, e satisfazer amplamente á 
S. M. da despeza que fez para este tão respeitável ar- 
mamento. Não lenho querido intimar-vos que vos ren- 
daes, achando-me em estado de vos obrigar a isso, e de 
reduzir a cinzas o vosso paiz ea vossa cidade, esperando 
que o façaes entregando -vos â discrição d'el-rei meu 
senhor, que me ordenou náo olfender aos que se sub- 
raettessem de bom grailo arre[)endendo-s ^ de have-lo 
olTendido nas pessoas de seus ofliciaes e de suas tropas. 
€ Soube também, senhor, que se fez assassinar a \lr. Du- 
clerc que os coauuandava e não (piiz usar de reprezalias 



— hi8 — 



sobre os portuguczes que cahírara em meu poder, por- 
que a intenção de S. M. não é fazer a guerra d'uma ma- 
neira indigna d'um rei christianissimo ; e ainda que 
estou persuadido de que não tivestes parte naquelle ver- 
gonhoso assassinato, não obstante S. M. quer que me 
indiíiueis os authores para que se faça justiça exemplar. 
« Si não obedecerdes logo à sua vontade nem vossas 
peças, tropas e barricadas, me embaraçarão de executar 
as suas ordens, e de levar a ferro e fogo todo este paiz. 
« Espero, senhor, resposta prompta e decisiva, e sem 
duvida conhecereis que si até agora vos tenho poupado 
tem sido para fugir ao horror d'cnvolver os innocentes 
com os culpados. Sou, ác—Duguaij-Tronin. » 
Ao que lhe respondeu o governador: 

t Ví, senhor, os motivos que i^ trouxeram de França 
a este paiz. Segui no tratamento dos prisioneiros fran- 
cezes os estylos da guerra, não lhes faltando pão de mu- 
nição e outros soccorros ; posto que o não merecessem 
pelo modo porque atacaram este paiz d'el-rei, meu se- 
nhor, e mesmo sem faculdade d'eNrei christianissimo, 
exercendo unicamente a pirateria ; comtudo eu poupei 
a vida a seiscentos homens como o poderão certificar os 
mesmos prisioneiros a quem salvei do furor da espada. 
Em nada tenho faltado ao ^|ue careciam segundo as in- 
tenções d'el-rei meu senhor. 

€ Quanto á morte de Mr. Duclerc, dei-lhe a pedido seu, 
a melhor casa doeste paiz, onde foi morto. Não pude 
descobrir quem foi o-matador por mais deligencias que 
se fizeram, tanto da minha parte como da da justiça ; e 
vos asseguro que si for encontrado o assassino ha de 
ser punido como merece. E' pura verdade ter-se tudo 
passado segundo vos exponho, 
t Emquanto á entregar- vos a cidade pelas ameaças que 
me fazeis, havendo-me ella sido confiada por el-rei, 
meu senhor, não tenho outra resposta á dar-vos senão 
que a hei de defender até a ultima gota do meu sangue. 
Espero que o Deus dos exércitos não me abandonará em 
uma causa tão justa, como a da defeza d'esta praça, de 
que pretendeis assenhorear- vos com tão frivolos pre- 
textos e tão extemporaneamente. 



— láO — 

■ Deus guarde a V. S. de quem sou <5ec.— F/Yí/ímco 
« de Castro Moraes. » ( Mem. de Duguay-Trouin paiç. 
181—185.) 

(98) Memoires de Dmjuaxj-Trouin pag. 190. 

( 99 ) Citemos o termo da nomearão dos negociadores 
escolhidos para esta capitulação, e por nós extrahido do 
Archivo Publico livr. 1.^ dos termos, homemujens e assentos. 

« Em 30 de Setembro de 17M em o sitio do Engenho- 
Novo dos reverendos padres da Companhia do Collegio 
do Rio de Janeiro, onde se achava acampado o gover- 
nador doesta capitania Francisco de Castro Moraes ahi 
convocou as pessoas da nobresa e negocio que se acha- 
vam presentes ás quaes propoz que o general da armada 
d^el-roi de França que tinha entrado na cidade lhe havia 
feito presente a queimaria, e ao paiz, si acaso os mora- 
dores d'ella a não quizessem resgatar contribuindo com 
o preço que os deputados d'uma e d^outra parte concor- 
dassem, para conclusão de cujo negocio cessariam por 
espaço de cinco dias as armas, pelo (|ue era preciso que 
sobre esta matéria accordassem o que convinha e decla- 
rassem si eram contentes que as pessoas que elle para 
esta conferencia com o inimigo havia nomeado eram as 
que elles queriam para o mesmo eíTeito e lhes dava um 
poder para em seus nomes e de todo o mais povo tra- 
tarem doesta capitulação ; o que visto e ouvido por elles 
disseram que approvavam pelo que lhes tocava às ditas 
pessoas que eram o Dr. Juiz de Fora Luiz Fortes de 
Bustamante e o mestre de campo João de Paiva Souto- 
Maior aos quaes concediam os poderes necessários para 
effeituar este resgate, assim da cidade como das fazen- 
das e o mais que lhes tocasse. E pelo que tocava a S. 
M., que Deus guarde, e estava a cargo d'elle dito go- 
vernador lhes concedia os mesmos i)odêres. De que 
mandou fazer este termo que cu Manuel Borges de Ma- 
dureira escrevi em ausência do secretario doeste go- 
verno. — Francisco de Castro Moraes — Luiz Fortes de 
Bustamante — Manuel Pimenta Tello — João de Paiva 
Souto-Maior— João Areias dWguirrc — Manuel Corrêa 

JANKIRO. 17 



— lao — 



^ 



« Vasques-^Christuvão Pereira trAbrcu — Mathias Bar- 
» bosa da Silva. » 

(100) Ainda que o conselheiro B. da Silva Lisboa cite 
um trecho da carta do Juiz de Fora, primeiro plenipoten- 
ciário da negociação, julgamos prestar um serviço aos 
nossos leitores dando-a aqui integralmente e tal qual acha- 
mo-la transcripta no jà citado livro dos termos, hometia/jens 
e assentos : 

« Em os dois dias do mez de Outubro de 1711 estando 
acampado o governador doesta capitania Francisco de 
Castro Moraes no sitio atraz declarado recebeu a carta 
seguinte do Dr. Juiz de Fora Luiz Fortes de Bustamante 
eSá: 

« Meu senhor.— Hoje ( ntramos em conferencia com os 
nomeados pelo general Duguay e de manhan não se 
ajustou cousa alguma, por só gastar o tempo em dispu- 
tar por parte d'elles o grande rendimento que el-rei 
aqui tinha em quintos, moeda, contracto dasbalêas. 
íisco e mais contractos, si acaso os ha, o que eu não 
sei ; dissemo-lhes que tudo isto importaria, segundo 
nossa noticia, em trezentos mil cruzados, o que podia 
melhor certificar-se pelos livros e inventários, que se 
achavam em seu mesmo poder, ao que não quizeram 
dar crcilito, e por lim de contas vieram esta tarde a 
pedir dois milhões pela soberania da terra, forta'ezas, 
artilheríp.s c cidade, entrando conventos e tudo o que 
lhes pertence. Respondi-lhes que si S. S. se não punham 
na razão averiguando o que a terra podia dar de si, e 
conforma ndo-se com a possibilidade d'ella, se rompesse 
a conferencia, porque a impossíveis ninguém era obri- 
gado, e lhe demos a entender que o que poderia dar-sc 
por tudo seria trezentos até quatrocentos mil cruzados, 
e que avisávamos a V. S. para determinar com a gente 
da governança o que com efTeito se daria pelo sobredito 
resgate, e assignâram para isto vinte e quatro horas 
dentro das quaes, ou m:us cedo si fôrpossivel, nosman- 
d u*à V. S. a resolução do que póJe contribuir-si^, para 
vermos o que havemos de assentar. É também neces- 
sário saber-se para o ajuste que a cidade está toda sa- 



- VM — 

qiioíula o os moveis quebrados e inallratadose a fazenda 
que Ilies pareceu recolhida em dez ou doze armazéns a 
qual dizem venderão e quando o principal se ajuste 
virão mercadores a compra-la si quizerem. 
« A' vista da carta o dito governador a propoz às i)es- 
soas abaixo nomeadas para que dando os seus votos se 
tomasse resolução para a resposta, e todos uniforme- 
mente assintiram que pela cidade fortificações, edificios 
e munições sem reserva alguma se podia dar até dois 
milli(3es entrando também as fazendas e mais bens que 
se achassem nas casas e só ficarão de fora para novo 
ajuste aquellas que estiverem misturadas e não se po- 
der saber quem são seus donos. Do que mandou fazer 
este termo que eu Manuel B )rges de Madureira por au- 
sência do secretario do governo escrevi. — Francisco de 
Castro Moraes — João Areias d'Aguirre— Manuel Pi- 
menta Tello— Domingos Henriques— Luiz de Albuquer- 
que Maranhão— Martim Corrêa de Sá— Manuel Corrêa 
Vasques— Pedro de Azambuja RH^eiro- Mathias Bar- 
bosa da Silva— Christováo Pereira de Abreu. » 

(lOi) Vide Annaes do Rio de Janeiro tomo V cap. VI 
pag. 363. 

(102) Podemos encontrar no Archivo Publico o seguinte 
termo da pretendida capitulação entre o governador e o 
almirante : 

« Saibam quantos este nublico instrumento dado e pas- 
sado era publica forma ao officio de mim tabelião virem 
que no anno do Nascimento de Nosso Senhor J. C. de 
17H annos aos onze dias do mez de Novembro do dito 
anno nesta cidade do Rio de Janeiro em pouzadas do 
Dr. Juiz de Fora. Luiz Fortes de Bustamante, aonde eu 
tabelião fui, e sendo ahi por elle me foi apresentada uma 
resposta do Sr. Governador ás capitulações do Sr. Ge- 
neral francez. cujo theor é o segumte : 
t Que promette de pagar seis centos mil cruzados, em 
doze, ou quinze dias ; e aue por não sentir d'onde possa 
tirar mais contribuição aeste povo ofTerece a S. S. cem 
caixas d^assucar duzentos bois e dez mil cruzados em 



— I3á — 

* dinheiro, íicamio com sonlimenlo de não se achar coní 

« mais para lho ofíerccor, e o sobredito ajuste é pelo 

« resgate da soberania da terra, cidade redonda, e suas 

« fortalezas com todas as artilherías á ellas pertencentes. 

« Que a pólvora se comprará aos Srs. officiaes fran- 
cezes. 

• Que pela manhan irão os reféns até satisfazer o dinhei- 
t ro promettido. 

« Que as mais condições se acommodaram com a inten- 
t çáo de S. S. para o embarque das tropas. 

« E que para as mercadorias enviará homens de nego- 
« cio que tenham dinheiro para compra-las, ficando desde 
« hoje em paz, assim com os moradores do paiz, como 
ff com as embarcações que entrarem nelle. — Campanha 
ff 10 de Outubro de 1711 annos — Le Chevalier Duguay- 
« Trouim — Vu pour nous Chevalier et Conseiller du Roy 
« en Ses Conseils, Inspecteur General de la marine et 
ff Conseiller au Parlement de Metz — De Ricouart — João 
« de Paiva Souto Maior — o qual treslado dinstrumento 
ff tresladei bem e fielmente do próprio a que me reporto, 
ff e corri, concertei, escrevi e assignei em publico e raso 
ff nesta cidade do Rio de Janeiro aos onze dias do mez 
ff de Novembro de 1711 annos — João de Carvalho e 
ff Mattos— Em testemunho de verdade.— 

(103) Eis o documento por onde se prova que Duguay- 
Trouin recebera a somma estipulada pelo resgate da ci- 
dade, assim como pela pólvora que os portuguezes foram 
obrigados a comprar aos seus vencedores: documentos 
estes também extrahidos do Archivo Publico. 

ff Nous Chevalier de POrdre militaire de S. Louis, 
ff Commandant General des troupes et de Tescadre des 
ff vaisseaux de S. M dans Ia rade de Riogcnero, et nous 
ff Chevallier et Conseiller du Roy en Ses Conseils, Con- 
« seiller de S. M. en Sa Cour Souveraine du Parlement: 
ff certifions à tous qu'il appartiendra (jue pour les six 
• cents dix mil cruzados dont nous sommes convenus 
ff avecM."" D. Francisco de Castro Moraes, governeur pour 
ff la capitulation de la ville el des forteresses da Riogene- 



— i:í3 — 

« ro noiís avons reçu voiigt six nrrohos et demye et deiix 
• cenls (luatrc-vingt-dix sei)t octaves de ptjudre d\)r sur 
■ le |)rix de quatoi-ze lestons et quatre vingtins Poctave, 
« onze arrobes dix-neuf livres soixante et une octave et 
« iieniye d'or en barres lingots, ou monnayes d'or prestes 
€ a màrquer sur le vingt quatre monnayes d'or et un 
« quart de nouvelles fabrique de quarente huit testons ia 
€ piece; plus nous avous reçu deux cents boeufs pour le 
€ refraichissement des dites troupes et cent caísses de 
€ sucre ; tous les reçus pour le dites sorames de quelaue 
€ espèce quMls soient demeueront nuls: et dans la elite 
€ capitulation de la ville í t des forteresses nous n'y avons 
€ pas compris la poudre. En foy de quoy nous avons 
€ signé le present pour servir et valoirainsy que de raison 
« à bord du vaisseau — le Lys — le sixierae Noverabre 
17H — Duguay-Trouira. — De Ricouart. 

« Nous Chevallier de TOrdre milítaire &ca : certifions a 
€ tous qu'il appartiendra que nous avons reçu pour deux 
€ mil cinquante barrils de poudre a tirer la somme de 
« auarente six mil cinq cents soixante croisades en pou- 
4 (Ire iVor sur le prix de quatorze testons et quatre 
t vingtins Toctave et en barres, ou lingot a seize testons 
€ Poctave. En foy de quoy nons avons signé le present 
« pour servir rt valoir ainsy mie de raison a la rade de 
€ Riogenero le sixeme Novemore 1711 a bord du vais- 
« seau du Roy — Le Lys — Duguay-Trouim. 

(104) Vide Pizarro Mem. Ilist. do Rio de Janeiro tom. 
I. pag. 71—72. 

(10o) Os jesuitas tinham também sabido sMnsinuar no 
animo do almirante francez o oue fez dizer ao menciona- 
do Vasconceilos Velho — os padres da Companhia que em 
toda a ocasião são famosos deixaram ficar no coUegio o pa- 
dre António Cordeiro, &. 

(106) Mem. de Duguay-Trouin pag. 198. 

(107) Dando conta das sentenças proferidas pela alçada, 
assim s'exprime Rocha Pitta : 

t Juntos os ministros procedeu o Chanceller em sua 
« devassa do caso náo faltaram ofiiniões (pie também in- 



Loj^o que recebi o programma tratei de oollier as tra- 
dições que pudessem existir; estas são de duas espécies ou 
mais ou menos verídicas referidas a épocas determinadas, 
e archivadas nas paginas dos historiadores, ou conserva- 
das na bocca do povo, e adulteradas de mil modos: ambas 
porém fornecem dados pouco valiosos para adiantar um 
passo ao menos na solução do obscuro problema. Tradi- 
ções escriptas poucas existem, e estas desde logo me foram 
fornecidas pelo nosso infatigável consócio o Sr. Joaquim 
Norberto de Souza e Silva, o que me foi um poderoso au- 
xilio, pois devo confessar que tenho mais aptid:\o para de- 
cifrar os jeroglyphos com que a natureza gravou a sua his- 
toria desde o tempo da crystallisação dos granitos, até a 
extinção dos mastodontes de que para pesquizar os respei- 
táveis fólios prodiízidos pelo ingenho humano. Quanto «ás 
tradições guardadas pelo povo, suppuz que facilmente as 
obteria escrevendo aos Presidentes de algumas províncias, 
na esperança de que elles me mandassem o que fosse pos- 
sível colher; demoréi-me três annos; e no fim dcUes con- 
venci-me de que esses senhores eram demasiado conscien- 
ciosos, e que não querendo fornecer-me dados incertos, 
esperavam que um dia suas almas depois de libertadas do 
envoltório de chrysalida, que as prende a este mando, 
voem por esses sertões e dotadas do poder de penetrar os 
mysterios do passado, me respondão. Esgotada por fim a 
minha paciência requeri ao Instituto que mandasse pedir 
as informações de que eu necessitava, e cm treze mezes foi 
clle pouco mais feliz do que eu pois só seis Presidentes 
responderam ; os outros nem si quer cum[)ríram os pre- 
ceitos da corlezia. 

Pelo que diz respeito aos vesligios geologiro^. j)».]í^mos 



- 137 — 

dizer que nos adiámos a margem de um vasto oceano, 
dispondo apenas de uma triste canôinha de pescador para 
cxploral-o. Nós podemos, sem o menor receio de que nos 
taxem de exagerado, asseverar que da geologia brasílica 
quasi nada se sabe. pois alguns trabalhos que nos vieram 
a mão tendentes a osclarecêl-a, e devidos a curiosidade de 
alguns engenheiros nossos que percorreram em commis- 
são os sertões, sâo inintelligiveis. Para justificar-me só cita- 
rei algumas amostras : temos a palavra granito , que é 
aplicada as rochas graníticas com os três elementos dis- 
tinctos, e ahi vae o greis, os granitos, syenitos, protogi- 
nos etc, logo que um dos elementos deixa de se apresentar 
com muita saliência, ou se falta então ha uma brilhante 
escapadéla que é o monosyllabo « grés » que significa tudo 
principalmente, p. ex. os pegmatitos, leucinitos, o itaca- 
lumito, as breccias, os trachytos, dioritos, até margas e o 
itabirito e o cipolino ! Atraz deste substantivo universal 
vem muitas vezes uma descripçáo a maneira da nomen* 
clatura de Gaspar Bauhin, qae só serve para vender a obra 
e trahir o author. A palavra schisto também é de muito uso, 
o que ha porém de mais notável é certamente a variedade 
de combustíveis, fosseis que tem sido descoberta, assim já 
vi ura lodo lacustre com 807o de argila e protoxido de 
ferro ser intitulado carvão de pe Ira, com a observação mui 
curiosa, que queima perfellameiite ! Vimos asphalto, le- 
nhitos schisto algum tanto bituminosos, e até psilomelano 
figurarem como carvão de pedra I Também vimos mica 
baptisada • estanho, » gneiz do qual nascia ouro, c mais 
interessante ainda é uma memoria que descreve a riqueza 
fabulosa da Província de Minas em cobre, o bom do author 
olhava como tal a canga que se estende por legoas o legoas 

JANEIRO. 18 



— 138 — 

de terreno, naquelles lugares. Aiada mais: uma pessoa pro- 
fessional, e de capacidade jurou-nos pela salvação de sua 
alma que possuia mineraes do interior com impressões de 
algas marinhas, mas ao dar-me uma amostra reconheci 
serem dondritos de ferro. Ora a vista de tantas brilha turas, 
ou sacrilégios scientificos, creio que nos será permittido 
duvidar da veracidade dos factos relatados pela maior parte 
dos nossos prophetas conterrâneos. 

Vejamos agora o que aproveitámos dos apóstolos da sci- 
encia, que sobre as ondas pelágicas aportaram ás nossas 
praias: Darroin de quem teriamos direito de esperar algu- 
ma cousa valiosa, apenas tocou o nosso littoral. Os papeis 
do Dr. Sellow a que temos bom direito estão se fossilifi- 
cando em Berlin, Helmreichen não concluio os seus tra- 
balhos, e o que delie se publicou é pouco ; as observações 
de Perris se extendem muito pouco. Quanto aos mais 
pouco se pôde esperar de quem vai escrever sobre pedras 
com a arte pratica em mãos, ou de individuos que só es- 
crevem para imposturar e serem tidos por alguma cousa 
quando nada absolutamente valem. Assim p. ex., que cre- 
dito nos merecerá um Pedro Clausen que veio ao Brasil 
como creado do Dr. Sellow, e depois passou de mascate a 
negociante com o nome de Pedro Cláudio Dinamarquez 
de gloriosa memoria nas praças do Rio de Janeiro e Ouro- 
Preto, e que por fim foi buscar um capôllo e pergaminho? 
Devemos por ventura acceitar o que nos revela um Dr. 
Parigot ao qual perguntámos de que modo se apresenta em 
S. Catharina a formação carbonifera, e elle com uma eva- 
siva procurou demonstrar-nos que o povo brasileiro não 
tinha fé, nem dignidade ? talvez nos tomasse por um pobre 
allemão que emigrava para o Brasil ! Devemos por ventura 
prestar attenç-áo a um Sr. De Cislclnau que nos ensina 



— 139 — 

logo no inincipio ile sim obra, que a bahia do Uio de Ja- 
neiro é uma cratera de sublevação'? parece que esse tão 
victoriado viajante só tencionava ser lido nos toucadores 
de Paris. Outros ainda tiveram a franqueza de confessar 
que pouco escrúpulo tinham em commetter erros, por es- 
tarem convencidos que não seriam verificados tão cedo, e 
desfarte a geologia não teve como a botânica o seo S. Hi- 
laire, o seo Gardner e outros distinctos naturalistas. 

É de lastimar (jue no lirasil onde se pensa tanta cousa 
bôa, e grandiosa, ainda se não tenha cuidado em preparar os 
elementos para uma exploração scientifica, de que tanta 
utilidade tirariamos, quando mais não fosse, o sermos 
tratados com consideração, e não com desprezo pelo es- 
trangeiro, a quem até hojj ainda se deve o que a sciencia 
tem descoberto sobre este vasto império. Digo preparar os 
elementos, porque mandar vir exploradores munidos de 
cabedal scientilico de pouco servirá, pois esses homens tem 
outra lingua , outros hábitos , e outra natureza muito 
diílerente da nossa. De modo que os habitantes do inte- 
rior lhes repugnão, no que ficam pagos com usura, e até 
chegam a serem victimas de suas excentricidades. Assim 
tivemos ainda ha pouco tempo a visita de uma notabilidade 
européa, que descendo de sua cathedra, deixando os pa- 
ginados companheiros de sua vida, e concedendo repouso 
à fluente penna que tanto prodigio fizera, aportou às nossas 
plagas com a singular pretençáo de viajar a provincia de 
Minas em malle poste e estudar a natureza debruçado con- 
fortavelmente nas janellas de hotéis guarnecidos de veludos 
e sedas ! esse sábio cahiu por fim de um burro parado, e 
teve a desgraça de fracturar uma perna, equem perdeo foi 
a sciencia e a nossa civilísação como elle mesmo o disse. 
O fallecido Helmreichen foi acolhido com muita hospita- 



— I'i0 — 

lidatle no nosso interior: em troca publicou iimnrtigo na 
Allemanha em que dizia que um fazendeiro de Minas só 
podia ser tido por homem de mérito, depois de ler com- 
mettido um assassinato 1 outros escreveram sobre o Brasil 
informações , que os matutos e sertanejos que encontra- 
vam lhes forneciam, respondendo muitas vezes a perguntas 
scientilicas que elles entendiam lá a seo modo. Outros 
exploradores vindo commissionados com grande aparato e 
estrondo, davam-nos como novas descobertas, cousas tri- 
vices que a muito conlieciamos. Até dignos varões se en- 
contram que pintaram ticoticos e picapàos e os classifica- 
ram como espécies novas, afim de obterem um emprego 
no nosso musêo, e ainda ha quem nesta nossa terra tenha 
taes cliarlatáes por profundos naturalistas. Numerosos 
exemplos poderiamos citar para provar que scientifica- 
mente o paiz deve ser estudado por gente própria, como o 
fizeram todas as nações cultas. 

Em quanto esperamos p t dados, que uma exploração, 
nos possa fornecer, entraremos em matéria colhendo as 
raras e indigestas migalhas que c possivel alcançar, para 
tirar algumas conclusões incompletas e duvidosas. No en- 
tretanto pedimos ao Instituto que nâo desespere, porque 
entáo, se Deus vida e forças nos conceder, apresentaremos 
trabalhos documentados que possam satisfazer cabalmente 
ao que se nos pede. 

Diremos tanJ)em alguma cousa sobre a probabihdadc de 
terremotos futuros no Brasil, para evitar que não appareça 
algum outro programma que nos supponha dotado da 
habilidade do celebre cabildo de Guanaxuato que em uma 
proclamação declarou (pio « eu su sabUluria reconheceria o 
momento do perigo, e aconselharia a fuga ! » 

Só consideraremos aquelles terremotos que tem a sua ori- 



— 141 - 

gem om potoncios ahyssodynamions, dcsdo o mais brando 
ruido subterrâneo até essas niodoniias convulsões da su- 
perfície terrestre cujos eíTeitos sáo mais terríveis e mais mor- 
tíferos (jueas esquadras do Báltico, e Mar Negro reunidas, 
ou da mais vehemenle epidemia que tenha devastado os 
povos. As concussões devidas á desmoramentos de rochas 
e barrancos, á desabamentos de montanhas excavadas por 
torrentes do seu interior, etc. e os estrondos subterrâ- 
neos provenientes da quebra de pedras levadas pelos rios. 
e outros phenonemos semelhantes, não mencionaremos 
visto serem acções inteiram^ nte locaes, e haver a certeza 
de nunca se estenderem além de um limilte certo e muito 
restricto. 

É sabido que os terremotos não são outra cousa, mais 
do que erupções volcanicas, e que se cingem a certos cen- 
tros ou linhas d^erupçáo que formão um pequeno numero 
de zonas, doestas existem três na Ásia : uma partindo dos 
montes Uraes até Irkutrk, a segunda do lago d^Aral até a 
China c terceira parallela as duas precedentes correndo ao 
longo do Ilimalaya. Uma outra zona é a curva que vae de 
Java. Sumatra, as Philippinas, Japão, encontrar-se noar- 
chipelago aleutino com a zona parolica da America boreal, 
a qual termina na Califórnia. Depois desta segue a de Gua- 
temala que atravessa o isthmo do Panamá, corre parallela 
ao declive occidental dos Andes e vae morrer nos gelos do 
Cabo de llorn. Sensivelmente perpendicular a esta até a 
ilha da Trindade domina a pequena porém funesta zona 
venezuelensc, a qual na sua extremidade oriental é cortada 
por uma outra também pequena vinda de Charlestown em 
direcção de SS. E. atravessando Guadeloupe as outras An- 
tilhas, tocando em parte da Guiana franceza, o Cabo do 



— i42 — 

Norte (» al)alaíulo tambom uma porçáo do formiflavol delia 
do Amazonas. Porém de todos os campos de batalha das 
potencias abyssodynamicas, contra a rigidez da crosta ter- 
restre e onde esta tem de ceder vencida é sem duvida aquellc 
que se estende paralieio ao equador desde os Açores até 
a Pérsio, abrangendo do sul até chapadas dos paizes bar- 
barescos, e ao norte o Cáucaso, os Carpathos. os Alpes as 
serranias do meio dia da Franca e os Pyrineos. Além 
dessas existem ainda outras zonas menores como a do 
Rheno, de Islândia, da Groenlândia do va!le do Missisipi. 
Todas estas zonas se caracterisáo pelas cadeias de volcões 
(jue ellas encerram, não só activos como vemos na linha ja- 
vanica, na Guatemala, Períi, Chile, e sul da Itália, mas tam- 
bém extinctos como no Rheno etc. 

Vemos do exposto que a superfície do nosso globo é co- 
berta de uma rede formada pelas linhas de commoçáo, 
contendo essas fontes por onde se esgotáo os productos 
do seo laboratório interno e fechadas ou impedidas de um 
modo qualquer esses benéficos esgotos, logo começáo os 
tremores c convulsões em toda a linha e para felicidade 
nossa o Brasil forma uma malha dessa grande rede tendo 
por defensores contra as concussões no occidente. os Andes 
e no norte as montanhas de Parinje. Este nosso isola- 
mento dos terrenos frequentemente abalados , é ainda 
marcado por uma circumstancia curiosa que mencionare- 
mos porque algum dia poderá ser aproveitada com van- 
tagem por algum poeta, e vem a ser o seguinte : os bo- 
tânicos estudando a distribuição geographica das plantas, 
viram que certas famílias se reúnem de preferencia em 
regiões limitadas, attendendo a isto lembráram-se elles de 
dividir a superfície do globo, sem a menor intenção de 



— 143 — 

offender nacionalirtaiJcs, em diversos reinos e para facil- 
mente recordar os nomes dos viajantes qae o exploraram, 
os repartiram amigavelmente entre si, assim o norte do 
Brasil forma parte do reino dos urumbebas e zaborandis 
pertencentes a Jacquin, o centro, que é o dominio dos co- 
queiros, quaresmas, c pixiricas, sob a direcção de Mar- 
tins ; o sul em lim ó o reino synanthereas arborescentes, 
vulgo das candeias, que foi confiado a S. Uilaire, estes três 
reinos tem por limite ao poente e ao norte o reino das 
quinas (cascas febrífugas bem entendido) de modo que se 
acham por elle abraçados, e o chefe doesse reino ó um dos 
principaes perscrutadores de terremotos , o Sr. Alexandre 
deHumboldt. Ora d'essa nossa posiçSo especial concluímos 
em primeiro lugar que o Brasil provavelmente aindu não 
teve centro de commoçõcs, em segundo lugar temos a favòr 
d'essa nossa deducção a falta completa de vulcões activos. 
e se os ha extinctos não sabemos, pois faltam explorações 
que o provem. Quanto aos numerosos montes encantados 
que por ahi abundam, sempre teremos por fabula toda 
historia íjue d'ellesse refira em quanto não forem estuda- 
dos em regra : doesta espécie são o morro do estrondo no 
Rio Grande do Norte onde se ouvem trovões subterrâneos, 
e que tem no seo cume um rodamoinho de arôa. O sumi- 
douro em Minas que as vezes fumega (algum fogo de qui- 
lombolas) ou o cerro de Butucarahy no Rio Grande do Sul ; 
o qual fumega no verão, ronca como tiro de grosso canhão. 
e sobretudo em noites claras e serenas expelle uma exhala- 
çáo que ao cahir no chão estoira. Segundo me consta o 
Dr. Frederico Sellow subiu este cerro e nada encontrou 
de volcanico. Também S. Catharina e S. Paulo tem as suas 
montanhas tonantes, n'esta ultima provincia é provável 
(fíie os ruidos sejam produzidos pelas catadupas subterra- 



- 144 — 

neas do rio Tiett', e visto o som na terra propiígar-se a 
grandes distancias, como abaixo veremos, é possível que 
seja ouvido em montes bastante afastados do rio. 

Se as agoas thermaesde Goyaz Minas, Paraná e Santa Ca- 
tliarina, devem a sua elevada temperatura a acções volcani- 
cas, ou a decomposições chimicas ainda resta averiguar, 
e é cousa que não depende de sciencia transcendente. 
Em Minas existem tradições de ter-se fendido em vários 
lugares á terra e as vezes com estrondo e ter-se ao mesmo 
tempo sentido forte cheiro d'enxofre : não cremos também 
que este phenomeno seja vulcânico, pois terreno argiloso 
depois d'uma aturada sêcca pôde rachar muito considera- 
velmente, e qualquer phosphorescencia, qualquer vestígio 
de ozon que se espalhe no ar dà vasta matéria para as in- 
venções da superstição popular ; pôde também n'alguma 
camada inferior se achar uma porção de pyrites em de- 
composição, o que desenvolve calor suBiciente para inílam- 
mar madeiras, e sobre a massa quente cahindo rapida- 
mente alguma porção d\igoa infdtrada se reduz logo a 
vapor, rompe pelo terreno levando comsigo algum acido sul- 
furoso dando o cheiro d^enxofre. Oa finalmente pode ainda 
essa tradição ser algum fragmento do terremoto de Lisboa, 
que vendo-se o narrador, que o apanhou, obrigado a dar- 
Ihe patri:i, fal-o em o primeiro lugar que lhe occorre a 
memoria. Em quanto pois se não averiguar o quanto existe 
de real em todas as mencionadas tradições, c phenomenos 
sustentaremos a nossa asserção emittida. 

Em terceiro lugar nos assiste a circumstancia da falta de 
uma tradição ainda que obscura entre os indígenas, os 
quaes conservam a memoria d'um deluvio, o (jue é acon- 
tecimento de nmito menos i^erigo do que um terremoto 



— Wi — 

ora regra, pois aunuacia-se com anlecedeuciu, o sendo de 
uma extençiío como se costuma suppôr não vem por certo 
de súbito como as vezes as inundações cujo circulo activo 
sempre é limitado. Agora de passagem seja-nos permittido 
notar que duvidamos bastando da existência de um diluvio 
no Brasil em tempo histórico, pois já em outro lugar ti- 
vemos occasião de mostrar que os taes chamados terrenos 
alluviaes das nossas formações graníticas são justamente o 
contrario do ijue se suppõe. c que nunca uma das molécu- 
las que as compõe se achou suspensa n^agoa, além d'isso 
a salvação do Deucalião c da Pyrrha americanos n'um co- 
queiro é bem pouco lógico, assemelha-se a alguma d^essas 
edificantes lendas com que os Santos Padres convertiam 
os Índios. 

Se o Brasil antes da descoberta foi re.ilmentc tão povoado 
como no-lo asseveram os historiadores, por ex. NieulolT 
o qual nos conta que em 1545 só o Rio Grande podia apre- 
sentar em campo um exercito de 100,000 homens grande 
estrago por certo n'elles faria algum notável terremoto, 
assim ao menos devemos concluir por analogia dos factos 
conservados pela historia, dos quaes citaremos alguns no- 
táveis. Assim no anno de 5á6, 200.000 almas perderam 
advida na Syria e Ásia menor, em 1693 pereceram 60,000 
habitantes na Sicilia debaixo das ruinas de Catania e 49 
povoações, outros tantos em 1755 em Lisboa, em 1794 
40,000 foram sepultados nas ruinas de Anito; igual nu- 
mero nos terremotos de Uiobamba em 1797, em uma só 
noite 18 villas e numerosas aldèas foram arrazadas na 
Syria não escapando uma só cabana em 18ái2, esse mesmo 
anno em que o Chile foi tão fortemente abalailo, a cada 
passo vem')s mencionadas catastro[)h<Js d'esla natureza 

JAMilllO. 19 



— 146 — 

na historia tias republicas americanas do pacilico, em Ve- 
nezuela, Java, as Philippinas, etc, e se no Brasil tivesse 
tido lugar algum terremoto como os que acabamos de citar 
infallivelmente os selvagens conservariam alguma tradição; 
mas debalde a procurámos. 

Ainda outros são os effeitos dos terremotos que deixam 
signaes indeléveis para marcar a sua passagem na memo- 
ria dos homens, e nas rígidas penedias que mais resistem 
a voracidade do tempo ; doesta natureza são os vehementes 
choques vindos do interior da terra, e dirigidos contra ura 
ponto de sua superfície, sublevando-a com força de modo 
a arremessar edifícios, pedras e homens a alturas superiores 
a 150 pjilmos, como se deo em Riobamba. N'esse movi- 
mento a terra se abre como em muitos lugares, e as fendas 
produzidas, engolem homens animaes arvores para depois 
vomital-os emprensados como as valiosas relíquias e pa- 
drões de gloria de um botânico, como em 1783 acontecia 
frequentemente na horrorosa catastrophe da Calábria ; ou 
bem preserval-os como o cães de Sodré todo de mármore 
em Lisboa, o qual foi submergido com 4.000 pessoas (es- 
capando só a que as contou) as quacs sobre elle buscavam 
refugio para em vindouros séculos reapparecerem petrifica- 
das talvez no meio dos restos dos possantes saveiros, o que 
dará insano trabalho aos sábios geólogos dos quaes BufTon 
dizia que estavam nas mesmas circumstancias dos antigos 
augures que se não encontravam sem se rirem ; e Licthen- 
berg reunindo os conhecimentos geológicos do seo tempo, 
observa que posto não oflereçam material para a historia 
da terra, ao menos contribuem muito para o esclareci- 
mento da historia dos desvarios do juizo humano, não cabe 
essa critica á geologia de hoje em geral, mas no Brasil 
afianço com toda sinceridade, que estamos no século de 



% 



— 148 — 

charia, em todos os sentidos, ahi sj) houve comprador que 
quiz fazer acquisiçáo barata da mesma ilha segundo me in- 
formou pessoa sensata do higar. 

Antes de enumerar os terremotos de que ha noticia no 
Brasil (e as que vieram) e fazer sobre elles algumas consi- 
derações, seja-nos permittido mencionar alguns factos 
observados sobre a sua propagação para fazer abaixo appli- 
cação, 

As erupções abyssodimanicas manifestam-se frequente- 
mente sobre uma extensa linha, lateralmente a ella, aterra 
sobe e desce alternativamente à maneira das ondas do mar. 
e como doestas em grande extençâo se propague o movi- 
mento do solo, são essas elevações taes que as veges arvo- 
res chegam a abaixar a copa até tocar o chão, e levantam-se 
para produzir o mesmo phenomeno do lado opposto. A 
estas oscillações que costumam ser repetidas não resiste 
ordinariamente a consistência da terra pois produzindo as 
phases uma dilatação e compressão alternadas, o resultado 
são fendas etc, também muralhas desabam debaixo doseo 
poderoso impulso ; as erupções centraes são apenas um 
caso especial das lineares. Os effeitos mais devastadores da 
terra undosa se dão quando uma vibração no transito en- 
contra um obstáculo parcial, forma-se então redomoinho. 
que desloca porções inteiras de terreno, transpondo lagos 
d^om lugar para outro como na Calábria, ou edifícios como 
em Riobamba ou torcendo arvores que se achavam juntas. A 
propagação de ondas encontrando serranias não continua 
por ser amortecida pelas lacerações profundas que se acham 
na base doestas diz Humboldt : pedimos licença ao illustre 
sábio para observar que também a diíTerença das massas 
chocadas tem sua não pequena parte nisso, pois os terre- 



— IÍ7 — 

Licllienberg, a respeito de geolufçia. Mns voltando as com- 
moções como ellns rompem a terra, também abrem roche- 
dos c pedregosas serras deixando aberturas permanentes 
em quanto áquellas comos desinoronamenlos e acc-imulação 
de vegetação desapparecem. nas len las dos povos encon- 
Ira-so sempre alguma siguilicação dada a esses indicios de 
terremoto, a exemplo de um rochedo com profunda fenda 
no littoral de Gaeta que ainda hoje é um signal de vene- 
ração para os navegantes d'aqiiellas paragens, pois diz a 
crença popular que ella foi aberta por um terremoto no 
anno da morte do Salvador. Ora em nossas montanhas po- 
derão haver fendas d'essas. que foram porem passadas 
desapercebidas porque nenliuma tradição dos indigenas as 
nota como reminiscência d'um plienomeno assustador; 
pois como tal se devera consiilerar todo terremoto, do qual 
Humboldt diz que varre de uma vez a nossa inabalável 
crença na solidez do solo que pisamos, por isso é tanto 
mais impressionavel nos entes cuja civilisaçáo está atrazada, 
c até mesmo as feras profundamente se recentem, pois os 
silenciosos crocodilhos do Orenoco, n'essasoccasiõescora 
urros medonhos abandonam suas immersas moradias, a 
procurar refugio nas florestas. Apenas encontramos uma 
historia d'uraa pedra que com estrondo se abrira na rua de 
S. Diogo na noite do 7 de Abril de 1831, e patriota houve 
que nos asseverou ter sentido cheiro d'enxofre no campo 
d'Acclamação, a única cousa que se ve éque poderia ter ha- 
vido algum desmoronamento causado pelas chuvas, de que 
mesmo hoje náo ha vestigio. Também não foi terremoto 
que fez desabar o morro do Castello no tempo do Bitu, nem 
tão pouco os recentes bramidos da ilha do Araújo cm qu(^ 
interveio aucloridade que sup|)5z (|ue em breve ella ra- 



— Uí) — 

moios baixos poderam lalvoz s r considerados uma camada 
superficial, em quanto as montanhas forçoso é supjml-as 
dotadas de profundas raizes c essa porçáo colossal de ma- 
téria mesmo no seu interior pode se oppòr á formação 
dos Cxinaes para escoamento dos gazes etc. que as mon- 
lanlias também transmittem abalos provam os terremotos 
que se notam nos Pampas e na Bolivia synchronos com os 
do Chile. Também o Padre Ayres de Cazal nosreferc que 
era Matto-Grosso se sentiu o terremoto que em 1740 des- 
truio Lima e Calláo, o mesmo acontecêo com o grande ter- 
remoto de Cutch em Í8i9. 

Qpanto às distancias a que as commoções se transpor- 
tam temos alguns casos muito notáveis, no dia da^destrui- 
çáo de Lisboa sentíram-se abalos em Stockhohno, em Abo, 
e no mar das Antilhas os marinheiros d^alguns navios fo- 
ram arremessados a altara de i8 pollegadas, n^essas ilhas 
o mar subiu consideravelmente assim como em New-York, 
e as agoas do lago Ontário ; felizmente essas catastrophes 
não perseguiram os nossos antepassados aquém do equa- 
dor. Outro exemplo de propagação ainda mais notável foi 
aquella produzida pelo terremoto do Chile em 7 de No- 
vembro de 1837 que chegou até as ilhas dos navegantes, 
ali em Opolu sentíram-se vários abalos nos dias 7 e 8 que 
foram seguidos por movimentos violentos do mar : em 
Owahn umas das ilhas de Sandwick só se sentiram as osci- 
lações do nivel do mar, o qual em Ilawin chegou abaixar 
14 palmos, mas rapidamente e!evou-se depois 30 acima da 
praia. Mais facilmente que os abalos da terra percorrem 
grandes estenções, os bramidos subteraneos e no chão 
ainda mais rapidamente que no mar, de ordinário estes 
rumores são devidos a erupções volcanicas. assim quando 



— VM — 

o Tamboró Smumbava entrou em actÍTidade em Í815 ou- 
via-se na cidade Javaneza de Djakjukarta que d'elles dista 
95 legoas, um violento estampido de canhão, que fez com 
que se mandassem marchar tropas a toda pressa em auxilio 
d'um destacamento visinho suppondo que elle tinha sido 
atacado, fizeram-se também sahir embarcações para socòr* 
rer navios qje se cria davanj signal de perigo. As deto- 
nações do Conguina em Nicarágua em 1834 foram ouvidas 
como uma forte trovoada em S. Fé de Bogotá em que dista 
d'ella 350 legoas. Os estampidos do S. Vicente nas pequenag 
antilhas em 30 de Abril de 1812 ouviram-se até Carraças, 
Calabozo e mesmo nas margens do Apure, isto é, a 120 le- 
goas. O ruido do Ca topaxi 1744 ouviu-se em Honda que 
dVlIe dista 109 legoas, e está abaixo d'elle 1 7,000 pés. Estes 
ruídos subterrâneos também se manifestam sem apparente 
influencia de um vulcão, como em 1744 em Guanaxuato, 
repetíram-se por muito tempo sem que houvesse mesmo 
o menor estremecimento nem nas montanhas nem nas 
minas de 2, 300 palmos de profundidade, também em 1822 
até o anno seguinte a ilha dalmatinameleda foi o campo de 
trovoadas subterrâneas mui frequentes, e só raras vezes as 
detonações eram acompanhadas de tremor de terra. 

No Chile frequentemente a acção dos terremotos produz 
uma considerável elevação da terra acima do nivel do mar. 
A mesma causa attribue a elevação do templo de Serapis 
perto de Nápoles; cujas columnas carcomidas do bicho 
naostram ter-se levantado 36 palmos. Também a costa 
Oriental da Scandinavia mostra um subir continuado que 
é mais forte em Tornea. 

Volcões extinctos são muitas vezes indícios mais que 
certo d' um plutónio gigante dormindo dfibaixo de frágil 



- 151 - 

crosta terrestre, elles sáo as vedettas avançadas que an- 
nunciam o accordar terrível n'um dia indeterminado. No 
tempo de Plinio o Vesúvio passava por um volcáo extincto 
na sua cratera pastava o gado e nas encostas vegetavam 
viçosos mattos, e na base floreciam Herculano e Pompeia 
sabemos todos qoáo horroroso foi o seu acordar. O vene- 
rando Ararat que no sagrado Epos mozaico nos é apresen- 
tado como o ponto em que foi salvo o género humano» 
nunca por historiador algum foi accuzado de ter lançado 
ao menos gazes, apezar de sua natureza volcanica. O dia 
20 de Junho de 1840 veio destruir a reputada tranquilidade 
patriarchal doesse monte. Anniquilados foram n'um momen- 
to o convento de S. Jacob a aldeia Arghuri e numerosas 
povoações até omar Caspio, com todos os seus milhares de 
habitantes. Arghuri opulenta estava situada n'um valle for. 
mado por penedos que se elevavam até 9,000 palmos, uma 
fonte a abastecia comagoas claras e cristallinas, e na maior 
paz repousavam aquelles lugares encostados ao Ararat, eis 
que no dia marcado antes do pôr do sol, convulsões rápidas, 
e uma trovoada que assombrou toda Arménia, annunciou o 
principio da catastrophe. e em poucos momentos no fundo 
do valle abriu-se uma medonha furna vomitando agoa e 
lodo fervendo, vapores, enormes calháos, no fim d^uiaa 
hora cessou o bombardeamento; de aldeia, convento cam- 
pos, e pomares, nenhum vestigio restava, só na bôcca do 
valle existia uma enorme muralha formada dos projeclis 
c do lodo que as entranhas da terra vomitaram. Essa nova 
bacia foi recebendo as agoas das chuvas, gelos e neves que 
se derretiam, e no fim de quatro dias a pressáo vencêo o 
dique e innundou os campos, levantou em vários pontos 
represas de 150 palmos de altura formadas de cadáveres, 



— I;í2 — 

lerra arvores c pedregulhos que fechavam oleilodo Karasu 
e Araxes. O primeiro destruio em Erivan Bajarid e outroá 
lugares mais de 6,000 prédios, e nas margens e alveos dos 
mencionados rios levantàram-se repuchos lodacentos, re- 
domoinhos, e fendas lançando gazes ; todo paiz circumvi- 
sinho foi transformado n'um vasto pântano e depois de 
sêcco, encontrou-se o valle do Arghuri coberto em muitos 
lugares até altura de 300 palmos de fragmentos de roche- 
dos, e nem da aldeia, nem do convento houve mais notícia. 
A cristallina fonte foi transformada n'uma fétida corrente 
d^agoa sulfurosa. Depois o Arara t calou-se, e nenhuma 
labareda d'esde então indica o seo perigoso caracter. 

As formações geológicas nenhuma influencia tem sobre 
os terremotos ; ellas apparecem nos terrenos graniticos, 
Ião bem como nas formações de transiç^áo, nos cretáceos 
terciários, e nos puramanle volcanicos; a única cousa que 
se dá ó ser o choque quebrado pela resistência das ro- 
chas. Assim Messinaem 1783 sollreu muito mais n'aquella 
parte cuja base era alluviáo marinha, do que a (}ue mais 
no interior assentava sobre granitos. A parte occidental 
de Lisboa erigida sobre calcário hypuritico e basalto pouco 
soílrera em quanto a outra sDbre camadas terciárias foi 
bastante abalada, e a terceira que repousava sobre marg i 
argilosa foi completamente destruída, o mesmo aconteceo, 
com as visinhanças, Queluz e Odivellos, cuja base são ba- 
saltos pouco solfrêram, em quanto Sacavém fundada sobre 
terreno terciário foi consideravelmente prejudicado. Em 
1843, a 8 de Fevereiro conta-nos Deville todas as locali- 
dades da Guadelupe, c sobre tudo Poinle e Pitres que 
surgiam de margas e recifes de coráes, foram destruídas em 
ijuanto, as povoações com base mais solida licáram bastante 
preservadas. 



Vamos agora examinar o que encontrámos no Brasil, c 
como applicar-lhe os factos citados. 

l .^ Vasconcellos Chronica da Companhia de Jesus livr. 
86, pg. 233 em 1560 diz « neste comenos se levantou so- 
bre todas aquellas villas de S. Vicente, uma tormenta a 
mais desusada que viram os homens havia muitos tempos. 
De improviso junto ao pôr do sol, se começou a desfazer o 
céo em ventos chuvas raios e trovões, com espantoso es- 
trondo e tremor de terra horrível, que parecia desfazcr-se 
a maquina do universo toda, e não com pequeno estrago 
porque levava pelos ares as arvores as casas e os próprios 
homens aonde muitos pereciam !! etc, n^uma confusão 
d esta natureza podem pequenos abalos locacs ser pro- 
duzidos, alem d'isso bastante abalado deve estar cm seme- 
lhantes occasiões o espirito d ;s testemunhas para ter o 
necessário sangue frio aíim de relatar os factos sem exa- 
gerarem, por isso essa noticia tão vaga para nós pouco 
valor tem. 

2." Rocha Pitta no seo livro da America Portugucza 
(Livr. 96, pag. 124) menciona a lagoa de Jacuné que tem 
6O0 braças da qual ha tradição fora uma aldeia que alli se 
sovertera. Balthasar da Silva Lisboa (Ânnacs do Rio de 
Janeiro § H pag. 365, e §25 pag. 380 do Tom. l.«) men- 
ciona a Manditiba, uma aldeia de indios n'aquella altura. 
O nosso consócio o Sr. Norberto de Souza e Silva mandou 
pedir informações nas visinhanças e com ellas nada adian- 
tou, outro tanto nos acontece com um facto táo vago, e 
tão isolado que não podemos atribuil-o de modo algum a 
effcitos de forças subterrâneas, quando muito alguma es- 
cavação devida as agoas. 

3.*^ O Padre Ayres em a Con^graphia Brasílica (Umi. i.' 

JANKIRO. 20 



— 154 — 

pag. á(H) diz « a ii de Seplcmbro (de 1744) ao meio dia 
e tempo claro, se ouviu um trovão subterrâneo, e immc- 
diatamonle tremeo a terra dando vários balanços compas- 
sados, que causaram grande susto em todos os lugares do 
Matto-Grosso e Cuyabá. Já n**esse temi>o dominava a sêcca 
que durou até 49. Todos os maltos arderam e na atmos- 
l)hera só se viam nuvens de fumo, todos os viventes pade- 
ceram fome e outras calamidades, do que morreo uma 
grande parte. Esta noticia ó importante, porém nâo é 
suíliciente i)ara nos provar a existência de um foco volca- 
nico iraijuella provincia, somos antes levados a crer que 
esse tremor de terra e estrondo são devidos a alguma erup- 
ção do Sorota ou algum outro vulcão da extremidade da 
serie chilena. O Presidente de Matto-Grosso cita osannaes 
da camará do Cuyabá, ou antes a memoria do advogado 
José Barbosa do Sá e refere-se ao anno de 1747 (24 de 
Seplembro) diz que a terra deo três balanços. —Parece que 
no anno houve erro de cópia. 

Outros indicies ainda ha de terremotos [). ex. n uns 
programmas da sociedade brasílica da academia dos re- 
nascidos fundada no Rio de Janeiro em 1759, apparece um 
com o seguinte texto : Porque causa no Brasil não são gran- 
des e fretjuentes os terremotos como nas mais partes do 
mundo? e mais nâo disse, nenhuma menção apparece so- 
bre os dados que possuíam. \ brilhante memoria do Dr. 
Vieira do Couto nenhuma confiança, nos inspira, pois n'eila 
declara elle ao governo de seu tempo, ([ue tinha alcançado 
mais (}ue os alchimistas d^outr^ora, visto elle ter transfor- 
mado no soo cadinho ferro em cobre. 

As outras tradições existentes provam ter havido terre- 
motos no littoral, e muito principalmente em duas zonas 



— Vio — 

limiladns lima n») an^iilo foninJo |)i'lt» Wu) da lYal 1 1» o 
Oceano, c a outra do Espirito Sanlo alé o iscará. Ksla ul- 
tima talvez se reduza unicamente a terreno comprehendido 
entre a bifurcação da serra de Ipiassaba. que forma as ser- 
ras de Araripe Barlmcêna e hnlmràra. 

Na primeira zona entra Montevideo onde ha noticias de 
dois terremotos um antigo cuja dacta nâo podemos ainda 
obter, c talvez seja o mesmo (pie se sentiu em Porto Alegre 
em 1812 ou 13 de que teve abondade de nos dar notícia o 
nosso consócio o Sr. António Alves Peiuíira C mija ; os 
elTeitos doesse tremor se reduziram a (piebra de garrafas e 
louç^as nas prateleiras, tanto neste como no de ISÍil o mar 
em Montevideo subiu consideravelmente, como o circulo 
d'accão fosse pequeno c a sua acção máxima noiittoral. 
somos levados a crer que essas commoções vieram |)ropa- 
gadas do longe, talvez das torras antárcticas onde existem 
vulcões, ou em todo caso acções submarinas (pie vieram se 
porder nas praias do continente. 

Da provincia do Kspirito Santo existem (Uias cartas a 1.^ 
rcferindo-se a uma memoria do fallecido Luciano da Gama 
Pereira que menciona ter havido um só terremoto n'a(piella 
provincia, no 1.^ de Agosto de 17G7 ás 8 horas da noite. 
a 2.* do commendador Josó Francisco Andrade e Almada 
Monjardim que cita o mesmo dia poróm dá oanno de 17(50 
o que será erro de C('>pia, por(3m que pouco damniti(;ará o 
caso, pois falta o mais importante que seria mencionar at(3 
onde se sentiu o terremoto etc. 

Em Pernambuco ouvimos dizer que também se sentiu 
uma branda commoção. Será por ventura a mesma que em 
8 de Agosto de 1808 se espalhou pela maior parte da Pro- 
vincia do Hio Grande do Norte? O Juiz de Direito João 



— loG — 

Valerilino Dantas Pingo refero sobre ollo osegainlo: no 
anno tlc 1808, cm 8 de Agosl;) pelas 8 horas da manhã na 
povoarão hoje cidade do Assú ouviu-se um grande estron- 
do vago, a maneira de um trovão subterrâneo, que se di- 
rigia de Lesti* a Oeste, e ap:')s elle sentiu-se tremer a terra 
por algum tempo, abalando as pessoas q le mal podiam 
soster-se em pó, e causando choque nos vidros e louças 
que buscavam sahir dos lugares cm que haviam sido 
postos. — Este terremoto foi sentido em todo o sertão do 
Assú, da costa cm busca do sertão até mais de 20 legoas, 
e ao longo da costa até o sertão do Piauhy ; onde se disse 
que attribuiu-se o terremoto a castigo , por haverem 
alli umas mulheres torrado uma criança pagã, pondo-a 
dentro d'um taxo sobre brazas para fazerem feiticeria corá 
suas cinzas !— Passado o terremoto conta-se que ficara o 
céo nublado de cinza espessa que oíTuscára a luz do sol ; c 
que o povo tomava por castigo mandado por Deos tudo, 
ou por signal de grande acontecimento tudo quanto aca- 
bavam de observar.— E sem duvida não foi pequeno acon- 
tecimento chegar nesse anno a familia real ao Brasil. O ul- 
timo phenomeno da maneira como é relatado, de cobrir- 
se o céo de cinza, é muito commum nas erupções volca- 
nicas; mas não os havendo activos n\aquellas paragens, 
talvez fosse alguma forte cerração. Cartas de outros luga- 
res da mesma Província concordam com a data, estrondo c 
tremor de terra sem mais osplicações só a camará muni- 
cipal de Porto Alegre diz que se ouviram estrondos poste- 
teriormenle, porém sem commoção. 

O Presidente da Província do Ceará Dr. Joaquim Vilella 
de Castro Tavares diz (|uo al;i só no dia 2 de Dezembro de 
185^ de 1 para 2 horas da tarde ouviu-se na cidade do 



— IS7 — 

Aracily ninjíranJe estrondo o qiinl foi acompanhado d'um 
ligeiro tremor de terra que augmentou-se para parles do 
Wmo de S. Bernardo fazendo raxar a terra em algnns 
lugares. 

Em iode Janeiro do corrente anno diz-nos a camará 
municipal da villa de Touros no Rio Grande do Norte que 
pelas 7 horas (da manhã ?) ouviu-se ura estrondo que pa- 
recia ser no ár da parte do Leste ; e logo no mesmo ins- 
tante um tremor na terra que chegaria a durar um minuto 
pouco mais ou menos, e deste phenomeno aconteceo tre- 
merem as paredes das casas, erigirem as telhas das mes- 
mas, assim como algumas móbil ias sem que fizesse estrago 
algum nem mal a nenhum vivente, isto pois foi na dis- 
tancia de duas legoas cm circunferência onde percebeo-se 
o mesmo effeito. 

Segundo essas noticias parece fora de duvida que no Rio 
Grande do Norte houve com effeito terremotos, e que todos 
vinham do lado do Oceano, e precedidos de estrondo, o que 
nos induz a crer que elles podem ser devidos a alguma 
erupção vulcânica submarina, o que não deixa de ter 
sua probabilidade pois a duzentas legoas d'aquella costa 
Krusenstern em 1803 e pouco mais distante Ferguson 
em 183G verificaram a existência d um banco com volcões 
immersos activos, e como vimos acima ha exemplos de 
propagação de som e commoçóesa distancias ainda maiores. 

O terremoto do Espirito Santo da mesma forma pôde vir 
do Oceano pois a 180 legoas distante de suas praias existe 
a peqaena ilha da Trindade e mais Assumpção que ambas 
sáo volcões extinctos, e como jà vimos não ha que fiar na 
tranquillidado doestes, tanto mais que fronteiro ás costas 
do Brasil veriíicou-se ler o mar uma profundidade de 



— 158 — 

â7,G00 pés, o que dá sobre cada palmo quadrado no fundo 
uma pressão de 25.000 arrobas, ora por qualquer pequena 
communicaçilo que por um acaso se possa estabelecer en- 
tre o fundo do mar e agum canal igneo (Pessas mesmas 
ilhas, a agoa será injectada com violência, e encontrando 
corpos incandescentes se transformara em vapor com a 
expansão de alguns milheiros de atmospheras a qual pro- 
curará sabida, e poderá achal-a na nossa visinhança mais 
facilmente que em outros lugares. 

Do (jue liça dito veriíic;nnos a nossa sup|>osição ^nitlida 
que no Brasil realmente não parece existir foco subterrâ- 
neo algum, mais sim na sua visinhança, no Oceano 
Atlanthico. 

Um facto bastante notável que merece ser averiguado é 
uma sublevação do terreno da bahia do Rio de Janeiro: em 
S. Christovão vimos um lugar que parecia ter sido ba- 
nhado antigamente pelo mar e procedendo a um nivella- 
mento achámos esse porto 15 palmos acima das altas ma- 
rés. A rua do Sabão da cidade nova apresenta dois palmos 
abaixo de sua superfície areia com conchas, e as altas marés 
ainda ficam consideravelmente abaixo doesse nivel. Para 
porém verificar se realmente existe esse levantamento da 
costa é mister fazer observações em pontos numerosos. 

Vimos também rochas volcanicas que nos asseveravam 
ser de S. Catharina ; se realmente assim fôr, teremos um 
ponto de apoio para attribuir á fricção volcanica, a tempe- 
ratura elevada das agoas thermaes que alli se encontram. 
É porém necessário que também isto seja verificado. Se 
realmente alli se encontrar a má visinha que por ora só 
queremos suppòr, então poderemos contar com o outro 
Ararat n'aquella Provincia. 



— 159 — 

De tudo quanto liça dito concluímos: 1." que realmente 
houve no Brasil terremotos inoffensivos . a maneira 
d'aquelles que os peruanos accolhem com gosto, como 
agouros de chuvas fertilisadoras. 2.® Que esses terremotos 
sô foram emprestados, que por ora não os temos próprios ; 
3.® Que apezar d'isso não estamos livres de peiores. 

Rio de Janeiro, 24 de Novembro de 1854. 



Dr. G. S. de Capanéma. 



«^ ■0 B »' 



TYP. IMPARCIAL DE J. M. N. GARCIA. 

nUA DA CARIOCA N. 34. 



REVISTA TRIMENSAL 



DO 



IHSTITUTO BISTOBICO, 6E0GBAPHIC0 E ETHNOGRiPHlCO DO BRASIL. 



i4@fOf«^i 



t.o TRIUIESTBE HE MW. 

Pt LO 

SR. PHEUPPE JOSÉ PEBEIRÂ LEAL 

SOBRE OS ACOMFXIMEMOS POLÍTICOS (iUK TIVERAM LIGAR 

NO PARÁ EM 18áá— I8á:{. 

As mudanças politicas operadas em Lisboa no dia 15 de 
Septembro de 1820 foram a causi motriz dos successos que 
se vão descrever e deram lugar a que Folippe Alberto Pa- 
troni, estudante que passava as férias n^aquella capital, 
possuiado-se de enthusiasmo pela liberdade do seu paiz, 
interrompesse os seus estudos, se embarcasse para o Pará, 
onde chegou em Novembro d*aquelle anuo, e astucioso, e 
de caracter inquftto empregasse os meios c conseguisse 
formar um partido e dispor o povo e tropa para procla- 
marem no dia i.^ de Janeiro de ISH a Constituição que 
fizessem as cortes Portuguezas. 

Julgando-se por isto com direito a ter ingerência nos ne- 
gócios da provincia estimula-se por não ter sido contem- 
plado Membro do Governo Provisório, que então se ins- 
talou ; e não tendo sido provido no emprego publico, que 
sollicitou, começou a cabalar contra o Governo, que para 
dcsembaraçar-se Av sua influencia o mandou para Lisboa 



— 102 — 

com o titulo (te Procurador, ao Sollicitador dos interesses 
da província, dando-lhe um ordenado suflicientc c corres- 
pondente à sua qualidade. 

Chegando áqueUa cspiíàl preiendeo ser introduzido nas 
cortes como Deputado, mas sendo repeli ido principiou a 
forjar planos e conccbeo o projeGlo da liberdade dos es- 
cravos, o qual fez imprimir no n.® ÍO do Indagador Cons- 
titucional e em separado ; e o maodou distribuir pela gente 
de còr, que pela sua leitura concebco i<leias e esperanças 
de liberdade e a dispoz para a Independência, para que 
elle e outros começavam a trabalhar. 

Patroni, que até então era amado por grande numero 
de Brasileiros, foi desde aquella época considerado pelos 
escravos como seu redemptor, e ao mesmo tempo que es- 
palhava pelo Pará os papeis que fazia imprimir em Lisboa, 
procurava desacreditar o Governo da sua provincia e se- 
mear entre os seus habitantes a descordia por meio de um 
impresso que intitulou— Circular.— Foi um dos primeiros 
paraenses que, logo depois da revolução portugueza, co- 
meçou a exaltar o espirito de seus palricios. dando-lhes es- 
peranças de Independência, inculcando-se como único ca- 
paz de a dirigir e mandando para o ParàT)roclamações para 
dispor os ânimos à Independência. 

Os três irmãos Vasconcellos, que foram presos e remet- 
tidos para Portugal, eram dos seus correspondentes os 
que mais se distinguiram em propalnr taes ideias e espa- 
lhar os escriptos incendiários que lhes mandava e que 
eram causa de que elle não ousasse voltar à sua Pátria em- 
quanto existissem no Governo os Membros da Junta Pro- 
visória, que elle alcafi(;ára desacreditar no animo dos habi- 
tantes do Pará. 



— IG3 — 

Onando nas cortes se tractoii do projecto de organisarão 
dos Governos Ultramarinos, Patroni tornou a julgar-se 
com direito de ser nomeado Membro do Governo que de- 
cretassem ; redobrou seus esforços e correspondências, e 
só esperou a publicação do Decreto do 1.^ de Outubro de 

1821 para regressar ao Pará. onde suas esperanças foram 
novamente illudidas, náo obstante os exforços emprega- 
dos pelos seus amigos, para que fosse eleito Membro do 
Governo Provisório ou Deputado ás cortes: tal era a in- 
fluencia que ainda n^aquelle tempo conservavam os Portu- 
guezes I Entretanto Patroni náo desanimou e electrisando 
os paraenses pela esperança de uma próxima Independên- 
cia augmentou consideravelmente o numero de seus ami- 
gos e prosélitos. 

Esta era a situação politica do Pará quando em Abril de 

1822 chegou o Governador das Armas José Maria de 
Moura. 

No dia immediato ao da sua chegada a Junta Provisória 
lhe requisitou que puzesse ás suas ordens um corpo orga- 
nisado com as mesmas attribuições que em Lisboa se de- 
ram á Guarda Real de Policia; esta requisição, que não 
foi satisfeita por falta de authoridade. foi a origem da des- 
harmonia entre a Junta e o Governo das Armas. 

N'este tempo os partidários e amigos de Patroni deram, 
sem que a Junta o impedisse, em honra da Independência, 
uma ceia. em que só se serviram iguarias brasileiras e se 
lançaram pelas janellas as Européas : um dos principaes 
authores deste festim foi o Arcediago da Sé, que foi victima 
de uma indigestão. 

Em Maio, Patroni constituiu-se redactor do periódico 
Paraense, e chegou do Rio de Janeiro o Marechal de Campo 



— IG4 — 

Manuel Mnrqiies d^Elvns Portugal levando impressos e a 
noticia da próxima chegada da escuna Maria da Gloria cora 
ordem do Piincipe Real para a eleição de deputados ou 
Procuradores das provincias nas côríes do Rio de Janeiro : 
em Junho verificou-se a chegada da escuna ; mas não dando 
a Junta publicidade aos olTicios que tinha recebido, os 
partidários da Independência se prevaleceram da conducta 
do Governo para activamente chamar ao seu partido a opi- 
nião dos habitantes da capital. 

O Governador das Armas, que collocado no Pará por Sua 
Magestade Fidelissima nâo podia obedecer aos Decretos do 
Príncipe Real, e cuja opinião era contraria «^ Independên- 
cia, vendo o silencio que a Junta guardava sobre os ofB- 
cios que tinha recebido do Rio de Janeiro, e considerando 
que a falta de uma prompta explicação devia augmentar o 
numero dos partidários <la Independência, chamou os com- 
mandantes dos corpos para lembrar- lhes seus deveres 
para com o Governo Portuguez, e conseguiu que todos no- 
vamente protestassem que os corpos de seus commandos 
jamais se afastariam da obediência que deviam ao Governo 
de Portugal. 

A publicação desta conferencia, que foi communicada a 
todos os corpos, não só amorteceu o enthusiasmo dos in- 
(lepeniientes como forçou a Junta a convocar para a ma- 
nhâí^ seguinte um conselho, a que assistiu o Governador 
das Armas, que teve o prazer de ver repellidas as preten- 
ções do Governo do Rio de Janeiro e dos partidários da 
Independência, osquaes, faltando-lhe o apoio da tropa, pro- 
curavam desfazer-se do Governador das Armas. A maioria 
da Junln, e com especialidade o seu Presidente, que fa- 
vorecia os independentes necessitando chamar a si a opi- 



— 105 — 

niíU) publica, julgou quo n imprensa deposilnda nas máos 
de Palroni o seus amigos era o melhor meio para conse- 
guir o seu fim e destruir a força moral do Governador das 
Armas, e por isso concederam decidida protecção aos re- 
dactores do Paraense. 

Tendo sido Patroni preso c remcttido para Lisboa em 
virtude de ordem d'aquella corte passou a redacção do pe- 
riódico aos enthusiaslas cónego Joáo Baptista Gonçalves 
Campos e José Baptista da Silva, que, mais enérgicos, 
desenvolveram com mais amplitude a desunião entre Bra- 
sileiros c Portuguezes e começaram a aliciar a tropa e a 
fazer com que os seus comprovincianos ameaçassem os 
Portuguezes com expulsão do paiz e demissão dos empre- 
gos públicos. A Junta empenhada em hostilisar ao Gover- 
nador das Armas protegia e instigava os redactores do Pa- 
raense a escreverem contra clle por acredital-o firme na 
resolução de resistir â projectada independência e de im- 
pedir que a Junta se correspondesse directamente com as 
authoridades que lhes eramimmediatamente subordinadas. 

Em Setembro de i 822 houveram denuncias de que se 
projectava uma revolução para se installar Um Governo 
Independente de Portugal : a Junta prevalecendo-se d'ellas 
insistiu em vão pe!a creação do corpo de Policia. Crescen- 
do as probabilidades do rebentar a revolução denunciada, 
alguns Europeos resolvêram-sc a apresentar ao Governa- 
nador das Armas denuncias escriptas, que foram pela 
Junta mandadas ao Ouvidor, que fez prender os accusados 
e pronunciou o cónego João Baptista Gonçalves Campos, 
Capitão-Mór Amândio Pantoja, Tenente-Coronel de Milicias 
Domingos Simões da Cunha, Procurador de causas João 
Marques de Mattos e outros, que em Novembro foram 



- IGG — 

soltos por acconião <la Jiint;i de Justiça, de que era Presi- 
dente e da Provisória, o Doutor em medicina António Cor- 
reia de Lacerda protector dos independentes. 

A soltura destes liomens junta ás noticias do que se pas- 
sava nas províncias do Sul animou os independentes, en- 
corajou o Panense a redobrar de energia, desacoroçoou 
os (|ue pretendiam jurar na devassa, e fez o Governador 
das Armas tomar medidas para rebater a revolução que se 
dizia dever apparecer em Dezembro, e para separar da ca- 
pital alguns ofíiciaes da primeira e segunda linha que cons- 
tava estarem envolvidos e terem o projecto de assassínal-o. 

Em fins de Dezembro de 1822, ou principios de Janeiro 
de 1823, chegou a noticia da revolução do Ceará ePiauhy. 
a qual encorajou os Paraenses de tal modo que o Governa- 
dor das Armas julgou difficil conservar esta província obe- 
diente a Portugal sem o auxilio de tropa europea, que já 
por mais de uma vez tinha directamente pedido ao Ministro 
Portuguez por estar convencido de que a Junta Provisória 
protegia a tendência dos Paraenses. 

Por esta épocha se jurou a Constituiç-áo : os Brasileiros 
desenvolveram toda a energia e mostraram sua populari- 
dade na eleição para a nova camará de que nenhum euro- 
peo foi eleito vereador: o acto da posse dos novos Sena- 
dores foi um verdadeiro festejo triumphal: por toda a 
parte se ouvia t Está cliegado o tempo dos Brasileiros mos- 
trarem o qtie são eo que podem ; a iwssa camará constitucio- 
nal é composta de gente que ha de fazer vêr aos europeos que 
o paiz é nosso e que elles são estrangeiros. > Isto, e cousas 
semelhantes repetidas publicamente pelas ruas e praças, 
inquietou os europeos, que mais se exasperaram vendo 
que todos os membros da nova camará se apresentaram no 



— 167 — 

acto (la posse com ramos e luvas verdes, o fòram para suas 
casas acompanhados por immenso povo, que lançava ao ar 
gyrandolas de foguetes. Estes festejos continuaram pela 
noite e talvez produzissem desordens si o Governador das 
Armas náo fizesse logo reunir aos quartéis as praças de 
linha e nâo lançasse fortes patrulhas pelas ruas da cidade. 

Os oílicios, que por este tempo se receberam do Go- 
verno do Maranhão descrevendo o estado daquella pro- 
víncia e pedindo auxilio de tropa e a noticia de se haver o 
Príncipe Real acclamado Imperador do Brasil, causaram 
no animo dos Brasileiros uma impressão, que só se pôde 
conjecturar: e si nâo fossem as medidas de ante-mâo to- 
madas pelo Governador das Armas, em fins de Janeiro ou 
princípios de Fevereiro, teria apparecido a revolução para 
a Independência que a Junta Provisória parecia proteger. 

Pensando o Governador das Armas que a segurança do 
Pará dependia da conservação do Maranhão, que estava 
em risco de succumbir ao poder dos independentes do 
Ceará e Piauhy. embarcou e fez seguir no dia 16 de Fe- 
vereiro para aquella província 130 praças da melhor gente 
que havia nos diminutos corpos de primeira linha, que 
estavão fatigados pelos contínuos alarmes. 

Os commandantes dos corpos sabendo que os Brasileiros 
alicia vão seus soldados e que a Junta Provisória dominada 
pelo seu Presidente, Doutor Lacerda tolerava a exaltação 
dos independentes e da imprensa, projectaram depor os 
membros da mesma Junta. Não havendo em cada corpo 
força sufflciente para completar um quarto de guarda, no 
dia 1.® de Março de 1823 era o serviço detalhado por todos 
elles e reunidos no largo do Palácio para se tirarem os 
contingentes, os commandantes mandaram os oCQciaes in- 



— IG8 — 

feriores intimar aos Membros da Junta o da nova camará 
constitucional que não sahissem de suas casas até segunda 
ordem, e aos antigos camaristas e a todas as authoridades 
civis, ecciesiasticas e militares, monos o Governador das 
Armas, para que comparecessem no palácio das sessões da 
Junta Provisória. Reunidas estas authoridades e lido um 
manifesto explicativo das causas porque depunham a Junta 
Provisória, convidaram a camará, authoridades, corpo do 
conunercio e povo alli reunido para elegerem uma nova 
Junta, que por unanimidade licou composta do Governa- 
dor (lo Bispado Romualdo António de Seixas para Presi- 
dente, do Oflicial-Maior da Secretaria do Governo Geraldo 
José de Abreu, do Juiz de Fora Joaquim Correia da Gama 
Paiva, Francisco Custodio Correia, Joaquim António da 
Silva. Theodozio Justino de Chermont e João Baptista Ledo 
para vogaes. 

Este acto sedicioso praticado ás G horas da manhãa, só 
chegou ao conhecimento do Governador das Armas ás 8 
horas quando elle se dirigia ao Palácio, d'onde a esse tem- 
po sahia uma deputação do corpo militar para participar- 
Ihe (jue se achava installada a nova Junta, declarando elles 
que tomavam sobre si a responsabilidade do acto que para 
considerar-se consummado só faltaVa que os novos eleitos 
prestassem juramento de íiJelidade ao Monarcha Portu- 
guez, e com o qual o Governador das Armas julgou ser 
de absoluta necessidade conformar-se. 

A nova Junt?. convidou o Governador das Armas, com- 
mandantes dos corpos de primeira e segunda linha e o Ou- 
vidor da Comarca para se reunirem no dia 2 de Março c 
decidirem (juaes os lugares para onde deviam, na forma 
de unia indicação expressa n • manifesto, ser de|)orlados 



— 109 — 

nlfíiins imlividiioá considerados como chefes da exaltação 
popular. A deposição da Junta e a deportação dos redac- 
tores do Paraense e de alguns influentes assustou e conteve 
por alguns dias os Brasileiros que jà em Cnmctá, Santa- 
rém e outros lugares do interior começavam a defender 
abertamente a opinião da Independência. 

Do I.« de Março ao 1.° de Abril ile i823gozoua capital 
fio Pará de socègo, mas já nos primeiros dias deste mez 
apparecêram denuncias de que haviam em algumas noites 
reuniões de gente armada nos matos próximos à cidade, 
e de que nos dias 4 ou 3 se juntaria no sitio de Bacory 
grande numero de gente de côr dirigida por homens bran- 
cos, (|ue se suppunha terem em vista uma surpreza na 
capital. 

O Governador das Armas foi com alguma tropa reco - 
nliecer o sitio e nada achando acreditou que o partido in- 
dependente, estando de todo desfallecido e não se achando 
em estado de apresentar-se em campo, inventava estas no- 
ticias para cansara tropa. 

Das O para ás 10 horas da manháa do dia 13 do Abril 
foi o Governador das Armas avisado pelo cirurgião-mór do 
Estado António Manuel de Souza e depois pelo Ajudante 
do 1." regimento de melicias, das suspeitas que tinham do 
que na madrugada seguinte se verificasse a revolução (juo 
lhes havia sido denunciada por dous soldados do regimento 
n. 3 de infantaria, os quaes tinham sido convidados por 
outros para se reunirem em uma casa, confiando-lhes que 
de madrugada se lhe reuniria muita gente ao signal de 
dous foguetes do ar. 

Não apparecendo os dous soldados, que o Governador 
das Armas mantlou immediatamente busrar, reunio os 

ABIUL. 22 



— 170 — 

commainlantes liob corpos para prcviui -los da denuncia 
que acabava de receber. ordenou-Ihes que estivessem vi- 
gilantes e reunissem todos os oíliciaes. e determinou ao 
do 3.° regimento, cujo quartel era contiguo ao Arsenal de 
Guerra que, logo que houvesse algum rumor ou toque de 
rebate, reforçasse a guarda do dito Arsenal, c se pozesse 
prompto para marchar. 

Ás 1 1 honis da no*te mandou o Governador das Armas 
observar a casa em que se lhe disse que toria de verificar-se 
a reunião dos soldados do 3.° regimento; depois da meia 
noite foi em pessoa rondar a cidade e quartéis e com es- 
pecialidade os do 2.° e 3." regimentos, contra os quaes ti- 
nha algumas suspeitas; e nada encontrou que podesse 
causar desconOanra. 

Á uma e meia hora da madrugada ordenou ao Tenente- 
Coronel João António Nunes, commandante do corpo do 
artilharia, que fosse com uma escolta examinar a casa de- 
nunciada ; voltando este com a noticia de que só encon- 
trara duas ou três tapuias e combinando esta parte com o 
que tinha visto, persuadio-se de que a denuncia era infun- 
dada ; mas por cautela determinou aos commandantes dos 
corpos que se conservassem nos seus quartéis, concedendo 
recoiherem-se ás suas casas os officiaes que mais o neces- 
sitassem ; e das 2 para as 3 horas voltou para o seu quar- 
tel onde se conservou vestido. 

Depois das 4 horas foi o Governador das Armas avisado 
pelo commandante da sua guarda, de (jue ouvira o estam- 
pido de dois foguetes para o lado do convento de S. Fran- 
cisco o grande algazarra no largo dos Quartéis, e o mesmo 
Governador de suas janellas ouvio gritos e vivas, que a 
distan-ia não permiltif) enteuíler : <lirigio-sr' immcdiata- 



— 171 — 

mente ao e«liticio (un que estavam aquartelados o 1/' e 2." 
regimentos: achou o I.'' formado tendo á sua frente o 
seu ('om-nanrtante, o Coronel João Pereira Villaça, ao qual 
se haviam reuniilo grau Ic parte dos oITiciaes do 2.^ que ao 
si;j[nal dos fogueies se havia formado no cam[)() da parada 
sob o commando de pessoas que a cscurid lo da noite não 
deixou conhecer, e que ao som de vivas ao Imperador e 
Independência do Brasil convidaram os soldados do 1 .® 
regimentíj a unircm-se-lhes ; mas que vendo preparadas 
e aponta-las [)ara ellas as armas do 1 ." tomaram a direcção 
da rua da Cadeia, levando muita gente que se lhes reunira. 

O Governador das Armas immedialamente expedio or- 
dem ao 3." regimento {)ara marchar para o quartel de ar- 
tilheria. O 2/ regimento, e a gente que se lhe tinha reu- 
nido, se encaminhou para o quartel do 3.® com quem 
contava, mas a quem o seu commandantc o major Fran- 
cisco Josó Ribeiro, fez calar os vivas à Independência, 
que deram alguns dos seus soldados, que obrigou a dar 
vivas à Sua Magestade Fidelissima, dizendo-lhes ao com- 
passo de pranchadas — primeiro está o pai que o filho. 

Vendo os conjurados, cujo plano era apossarcm-se do 
Arsenal de Guerra, Deposito da Pólvora, e Parque de Ar- 
tilhería, que o 3.° regimento nâo se lhes reunia, marcha- 
ram pela rua de Santo António para coadjuvarem o ataque 
que parte do mesmo regimento, esquadrão de cavallaria e 
muitos paisanos deviam fazer ao quartel da artilhería, de 
que jà estavam de posse quando o Governador das Armas 
mandou o 3.® regimento em seu soccorro. 

A noite estava tenebrosa, o 1.*^ regimento apenas con- 
tava em forma de 90 a 100 baionetas, ignorava-se o nu- 
mero dos conjurados e si tinham reunido a escravatura 



— I7á — 

(•orno aiilíTionufriíc se havia nnnunciado; o Govomaflor 
«las Armas julgando o Arsenal de Guerra seguro, e prote- 
gido o quartel da artilliería. resolveu esperar que se lhe 
reunissem os soldados que dormiam fora dos quartéis e 
que aclarasse o dia para mandar tocar a rebate. Então se 
ouvio um tiro de canhão e logo depois uma descarga de 
fuzileria para o lado do quartel de artilhería, e pouco de- 
pois recebcu-se a noticia de haverem os conjurados tomado 
aquelle quartel, ferido mortalmente o commandante do 
corpo, cujos soldados foram desarmados, depois da morte 
de um e do grave ferimento de dous. O Tenente-Coronel 
Nunes, que se tinha preparado para repellir qualquer 
ataque conservando as peças carregadas de mitralha e fe- 
chado o portão do quartel, descançava em uma rede 
quando pelas 4 horas bateram à porta e lhe disse a sen- 
tinella que era a ronda superior, que n^aquella noite com- 
petia ao Coronel Villaça com cuja voz o mesmo Tenente- 
Coronel se illudio. Logo que o portão, por ordem do Te- 
nente-Coronel e sem as necessárias cautelas, foi aberto^ 
entrou um grupo de soldados de baionetas caladas condu- 
sidos por um subalterno do â.° regimento gritando— maia, 
inata : atraz deste grupo entraram outros de maneira que 
o Tenente-Coronel foi preso antes de poder prevenir os 
officiaes e soldados que dormiam em seus alojamentos e 
que assim foram desarmados e presos. Os conjurados im- 
mediatamente tiraram para a rua duas peças que estavam 
carregadas e se disposéram a conduzir preso para o Arse- 
nal de Guerra o Tenente-Coronel Nunes, que levado de 
um excesso de desesperação por ter sido surprehendido 
aproveitou-so da proximidade em que estava de uma peça 
IKira lançar mão de um murráo aceso, aponta-la para a 



I 



— 173 — 

lodo em qiio lhe parecro estnr mnis gente, e dar-Ilie fogo : 
a escuridão da noite, a perturbarão e preeipitação com (|ue 
fez a pontaria mallográram seus intentos, ponpie só foi 
gravemente ferido um sargento de cavallaria ; os conjura- 
dos, então, lhe dirigiram uma descarga que dada â queima 
roupa o traspassou com seis balas, de cujas feridas mor- 
reu três dias depois. 

Momentos depois de se ter ouvido a descarga de fusi- 
laria, começaram a reunir-se no largo dos Quartéis alguns 
soldados de linha e milicianos, e apenas ao raiar do dia, se 
tocou are])ate a concurrencia dos milicianos e paisanos foi 
tal que o Governador das Armas se achou habilitado para 
mandar reforçar o 3.** Regimento que não tendo chegado 
a tempo de soccorrer o corpo de Artilhería pôde com tudo 
apossar-se do quartel que os conjurados tinham abando- 
nado depois de prenderem e desarmarem os soldados, 
destacar de 30 a 40 homens para auxiliar a guarda do De- 
posito da Pólvora, a qual já tinha sido desarmada pelo es- 
quadrão de cavallaria, cujo quartel era contiguo ao Depo- 
sito e occupar por um destacamento de 60 a 70 homens o 
reducto e bateria de Santo António para que pela estrada 
de Una não se evadissem os conjurados, que, também pela 
situação queocc upava o 3.^ regimento, não podiam retirar- 
se pelo Largo da Pólvora. O Governador das Armas, sa- 
bendo que os esforços com que o Major Ribeiro tinha con- 
tido o 3.° regimento haviam impedido os conjurados de 
tomar a guarda do Arsenal de Guerra , mandou alli 
apromptar duas divisões de artilhería de calibre 6 para 
coUocxir nas bôccas das duas únicas ruas por onde podiam 
evadir-se os conjurados, e d'onde podia fulminar o largo 
de Santo António, e dividio o resto da força em duas co- 
luranas dando o commando da primeira ao Coronel Villaça 



— 17G — 

fazem sua principal nutrição, seria inevitável a desespera- 
ção dos pòYos e certa uma nova sublevação. 

O Governador das Armas immediatamente preparou 
uma expedição de duzentos homens de infantaria e arti- 
Iheria com duas peças de calibre 3, e exigio da Junta Pro- 
visória (jue posesse á sua disposição um i canlioneira e ca- 
noas para transportar a força, cujo conanando entregou 
ao Major do 3.° regimento Francisco José Ribeiro, o qual 
partio às 7 horas da manhâa do dia 2 de Junho. 

Apresteza da expedição acobardou os revoltosos do 
Muanà, que fizeram alguma resistência mantendo por al- 
gum tempo tiroteio contra as canoas (|ue levavam a tropa, 
mas, succumbindo avista da canhoneira, desertaram, eno 
dia 4 tomou o Major Ribeiro posse da villade Muanà. Esta 
noticia e a de que jà se achavam presos mais de cento e 
cincoenta revoltosos e os outros espalhados pelos matos, 
fez cahir a revolução (jue jà ia lavrando por toda a ilha e 
por algumas povoações do continente, e os chefes da re- 
volução de 14 de Abril vendo o resultado da de Muanà 
socegàram e adoptaram uma apparente conformidade. 

Algumas pessoas ou por modo de uma nova revolução, ou 
para protegerem os presos e pronunciados pelos sucessos 
de 14 de Abril persuadiram a algiins membros da Junta 
Provisória da necessidade de desvial-os do foro criminal e 
mandal-os para Lisboa com aprovação do Governador das 
Armas, a quem dirigiram um oflicio pintando com cores 
atterradoras a urgente necessidade de não serem senten- 
ciados e justiçados os réos n'a(|uella Capital, e fazendo re- 
flexões sobrea|)ouca confiança (jue se devia terna oHiciali- 
dado e tropa. O Governador das Armas res|);)ndeu (jue jà 
mais interviria n*eále negocio que nãí) era de sua oompe- 



— 177 — 

lencia por eslarem os réos entregues ásaullioridmles civis, 
áqiiem cumpria dar-llies o desliuo que determinam as leis. 
Esta resposta desagradou e fez desaparecer a appareule 
harmonia que existia entre o (Governador das Armas e a 
Junta Provisória, que de accórdo com a opinião de um 
conselho , para outros lins convocado, resolveu mandar 
para Lisboa em Julho de 18á3 os duzentos e setenta e cinco 
presos complicados nas revoluções da Capital e Ilha de 
Marajó. 

Desde 14 de Abril se convenceu o Governador das Armas 
de que á vista do progresso que o partido da Independên- 
cia fazia nas Províncias do Sul. da inacção em que pareciam 
estar a tropa e esquadra portugueza na Bahia, e do perigo 
em que se achava o Maranhão de succumbir aos ataques 
das forças Brasileiras do Ceará e Piauhy seria milagrosa a 
conservação do Para sinão fosse promptamente soccorrido 
por tropas portuguezas, que muitas vezes tinha sollicitndo; 
mas para cumprir o seu dever e de algum modo supprir 
esta falia aproveitou-se dos corpos de cavallaria e artilhería 
do commercío, das sete companhias de milícias e da mari- 
nhagem para coadjuvar a força de linlia no serviço da 
guarnição e policia, e fez com que todos os officiaes per- 
noitassem nos seus respectivos quartéis, que clle mesmo 
rondava todas as noites. 

Era este o estado do Pará quando em á4 de Julho en- 
trou o navio Palhaço trazendo a seu bordo o Bispo Dioce- 
sano e noticias exactas dos acontecimentos i|ue tiveram lu- 
gar em Portugal nos fins de Maio e princípios de Junho 
d^aquelle anno. Apenas desembarcou o Bispo exigio o Go- 
vernador das Armas da Junta Provisória uma conCeroncia 
aíim de se fazerem as alterações e muilaiir is (]ue [)areccs- 



— 178 — 

sem mais coiiformos às que Sua Mageslade Fidelissiina 
tinha praticado em Portugal : e aresta conferencia, que 
teve lugar em 25 de Julho, deliberou a Junta não fazer al- 
teração alguma na forma do Governo em quanto não se re- 
cebessem ordens d'aquella Corte : em consequência doesta 
resolução da Junta apparecêram entre os habitantes algu- 
mas dissenções que obrigaram o Governador das Armas a 
proclamar no dia 1.^ de Agosto Sua Magestade e sua Au- 
gusta Familia, e par \ que este acto fosso acompanhado de 
toda a solemnidade derigiu á Junta Provisória e Bispo as 
seguintes cartas. • Illm. e Ex. Sr.— Tendo destinado o 
corpo militar dar amanháa vivas a Sua Magestade El-Rei 
o Senhor D. João 6.^ à Sua Augusta Familia e Dinastia, 
tem o mesmo corpo militar rogado ao Exm. e Rvm. 
Bispo doesta Diocese haja de secundar este acto com um 
Te-deum cantado na Cathedral doesta cidade. Eu c o 
mesmo corpo militar rogamos a V. Ex. se digne honrar 
estes actos militar e Religioso com sua assistência; pro- 
testando em meu nome e em nome das mesmas corpo- 
rações que de maneira alguma nos intrometteremos em 
reformas de Governo, e que si para evitar a versatilida- 
de de opiniões desenvolvidas em Abril o Maio pretéritos 
fôr necessário antes de chegarem as ordens de Sua Ma- 
gestade, nova forma de Governo mais adequado e con- 
forme ás actuaes circumstancias politicas da monarchia 
e que para este effeito se julgue indespensavel minha 
deposição do lugar que exerço, de bom gra<lo e sem o 
menor obstáculo eu e o corpo militar conviremos n'esta 
medida com tanto que por ella se mantenha a indisso- 
lubilidade da grande Nação de que todos somos lilhos. 
O quí» em meu nome e em nome das mesmas cor|>ora- 



— 179 — 

ções militares comnuiriico á V. Ex. rogandi)-lhe haja de 
prevenir á Gamara e mais aathorid ides. Pará 3 1 de Julho 
de I8á3. Illm. e Exm. Sr. Presidente e Membros da 
Junta Provisória. José Maria de Moura.— Illm. eRvm. 
Sr. Náo tendo chegado o navio Epliigenia em que se dizia 
virem as ordens de Sua Magestade para as mudanças 
politicas doeste Governo as quaes se devem pôr em pra- 
tica em consequência de iguaes mudanças praticadas em 
Portugal cuja sorte e systema governativo dezeja seguir 
a generalidade dos habitantes doesta Província, dezejan- 
do eu e o corpo militar do meu commando evitar os ter- 
ríveis resultados da versatilidade de opiniões desenvol- 
vidas nos dias 14 de Abril e 28 de Maio pretérito tem o 
mesmo corpo militar destinado não obstante a opinião 
da Exma. Junta Provisória, que quer se esperem por or- 
dens, o dia de a manhãa para em grande parada dar os 
vivas á Sua Magestade El-Rei o Senhor D. João 6.^ á Sua 
Augusta Esposa a Rainha nossa Senhora, e a toda a sua 
Real Família, antes mesmo da recepção de quaesquer 
ordens, e dezejando que esta solemnidade seja seccun- 
dada por V. Ex. lhe rogo em meu nome e em nome dos 
chefes, ofliciaes e mais praças dos corpos de linha e mi- 
lícias doesta guarnição se digne ordenar que se celebre 
na cathedral doesta cidade um Te-Deum em acção de 
graças. Eu e o corpo militar, em cujo nome officio á 
V. Ex. não nos intrometteremos no systema governativo 
da Província ; porém si ainda antes de chegarem as or- 
dens de Sua Magestade se julgar necessária minha de- 
missão do lugar que occupo, em meu nome e em nome 
de tmlas as corporações do meu commando asseguro á 
V. Ex.. á Fxma. Junta Provisória e ã todos os habitan- 



— 180 — 

* íos <r<'sta l^rovinrin que so para se manter $m tranqiii- 
« liílade é neressario tal demissão de bom grado desístii^ei 
« do empre^ío de Governador das Armas e nenhum dos 
< corpos militares deixará de se conformar com as medi- 
« das que so jid«,'an»m precisas para manter a mesma tran- 
€ quilidade e indissolubilidade com a nação portugueza 
t de que todos somos Mlbos. Deos Guarde â V. Ex. Pará 
« 31 de Julho de Í8á3. Illm. e Rvm. Sr. D. Romualdo, 
t Bispo do Pnrà. José Maria de Moura. » 

Pareceu ao Governador das Armas que adiantando este 
passo mesmo sem consultar a Junta Provisória ou re- 
ceber ordens íla corte satisfaria a um dever para cora Sua 
Magestade. acalmaria a efferveccncia dos espiritos e man- 
teria a pu})lica segurança até se receberem as menciona- 
das ordens. Fez-se a solemnidade da accJamaçâo com a 
maior pompa concorrendo todos os empregados públicos 
e corporações do commercio e agricultura; mas apesar de 
todas as demonstrações de regosijo e de todas as cautelas 
e vigilância policiaes empregadas neste e nos seguintes 
dous dias de festejo para evitar desordens ou outros pro- 
cedimentos do partido descidente, náo se pôde impedir 
que alguns individues dessem vivas ao Imperador e Inde- 
pendencin do Brasil. 

Este procedimento do Governador das Armas náo tran- 
quiiisou os espiritos : os partidos continuarão a bater-se, 
querendo uns que immedialatamente se mudasse a forma 
do Governo Constitucional, outros que se conservasse até 
se receberem ordens de Lisboa pretextando que mudanças 
de tal natureza eráo sempre arrisc^as quando náo tinháo 
por base ordens ligitimas, que desvanecessem a ideia de 
procedimentos arbitrários tanto mais perigosos no Pará 



— 181 — 



quanto a experiência darainenle mostrava a existência 
de um poderoso parliilo que, empenhado em separar 
aquella provincia da nacionalidade portugueza. se prevale- 
ceria de qualquer acto praticado pelas authoridades exis- 
tentes para excitar contra ellas os amigos da Indepen- 
dência. 

O Governador das Armas sabendo destas dissenções co- 
nheceu qu{' si com tempo as nâo atalliasse o partido adhe- 
ente a Portugal se enfraqueceria, e então mais ihividosa 
em a conservação da Provincia; e n'esta convicção no dia 
de Agosto dirigiu à Jfmta Provisória o segiiinte oflicio : 
Illm. e lixm. Sr. O estado de desassocogo em que me 
consta por ditlerentes vias se acha grande parte dos ha- 
bitantes desta cidade opinando uns que se deve conser- 
var o systema governativo civil e militar no pé em que 
se acha até se receberem ordens de Sua Magestade, e 
pretendendo outros mudanças no mesmo systema aná- 
logas às actuaes circiimstancias politicas de Portugal, 
determinarão a convocar hoje no meu quartel todos os 
chefes dos corpos de linha e milícias doesta guarnição 
para accordar com todos o modo mais capaz de evitar 
os effeitos da diversidade de opiniões até que as ordens 
de Sua Magestade venháo acalmar os espíritos. Concor- 
dando todos sobre a necessidade de se tomarem medidas 
de prudente cautela para evitar choques e commoções 
populares o convieram unanimamente em a necessidade 
de convidar a V. Ex. para convocar na salla de suas ses- 
sões uma assembléa composta de deputações militares 
e corporações civis afim de se deliberar si convém mais 
ao socêgo publico conservar o systema governativo mili- 
tar e civil tal qual presentemente existe, ou si dar-lhe 
uma nova forma mais análoga às actuaes circumstancias 



— 18i — 

« politicas de Portugal, julgando-se ao mesmo tempo ne- 
t cessario fazer publico por bando o resultado desta con- 
« ferencia afnu de que os habitantes desta capital e mesmo 
« de toda a Província fiquem ao facto das deliberações 
« que a este respeito se tomarem. Em consequência desta 
« unanimidade de pareceres proponho a V. Ex. a convo- 
« cação da sobredita assembléa rogando com urgência 
t a V. Ex. haja de indicar-me a hora do dia de amanhâa 
« em qne se pôde reunir para fazer os avisos necessários, 
t e caso porém que V. Ex. não convenha na reunião pro- 
« posta exijo que haja de declararm'o para meu governo. 
« Deus Guarde a V. Ex. 4 de Agosto <le 1823. lllms. e 
€ Exms. Srs. Presidente e Membros da Junta Provisória, 
t Josó Maria de Moura. 

No dia seguinte a Junta respondeu pela maneira que se 
vê no offlcicio abaixo transcripto. 

t Illm. e Exm. Sr.— Recebeu esta Junta o officio de V. 
€ Ex. da data de hontem depois das 10 horas da noite, e 
t por essa razão se conveio responder agora que se acha 
t reunida. Esta Junta concorda com a requisição de V. 

• Ex. para se formar .um conselho para se deliberar sobre 

• o objecto que expressa pois que se tem em vista o soce- 
€ go publico, e passa immediaía mente a fazer os avisos 

• necessários para ás H horas do dia. Deus Guarde a V, 
€ Ex. Pará no Palácio do Governo em 5 de Agosto de 
€ 1823. Illm. e Exm. Sr. José Maria de Moura. Joaquim 
« Correia da Gama Paiva, Presidente; Geraldo José de 

• Abreu, Secretario; Franciscx) Custodio Correia; Joaquim 
« António da Silva; Theodosio Constantino de Chennont ; 
« João Baptista Ledo. 

A hora aprasada reuniu-se o conselho, cujo parecer foi 
immediatamente publicado por bando e he do theôr se- 



— 183 — 

guiiite— « Sessão do dia 5 de Agosto de 1823— Abriu-se 
a sessão às H horas; e concorrendo o Exm. Governador 
das Armas que havia exigido um conselho para dehbe- 
rar nas matérias abaixo expressadas, e sendo também 
presentes os que para este acto foram comvocados a 
saber : o Exm. e Rvm. Bispo Diocesano ; o Marechal de 
Campo Manoel Marques. Inspector das tropas; as depu- 
tações da Junta da Fazenda e do Senado da Gamara; o 
Juiz da Alfandega ; o Juiz substituto e vários cidadãos 
como representantes das classes do commercio e pro- 
prietários, foi lido o officio da data de honlem abaixo 
transcripto do Exm. Governador das Armas, e depois 
fallou o mesmo explanando suas ideias, e o mesmo fize- 
ram alguns dos membros do conselho, e julgando-se a 
matéria sufficientemente discutida foi posto a votos o 
seguinte quesito — Convém mais ao socego publico que 
se conserve o systema governativo civil e militar tal qual 
presentemente existe, ou dar-lhe uma outra forma mais 
análoga as actuaes circumstancias politicas de Portugal? 
Decidiu-sc por maioria absoluta, isto he 29 votos con- 
tra 9. que continuasse o systema do governo militar e 
civil como se acha até chegarem as ordens de Sua Ma- 
gestade. Declaro que se abstiveram de votar os Exms. 
Bispo, Governador das Armas, Membros desta Junta, o 
Marechal de Campo Manoel Marques, e o Ouvidor da 
Comarca pela suspeição que alegaram, 
t Entrou mais em votação si seria conveniente ao soce- 
go publico fazer occupar a cadeira de Presidente da 
Junta pelos Exm. e Rvm. Bispo Diocesano, e decidia-se 
unanimamente que sim. Exigiu o Governador das Ar- 
mas a declaração do conselho, si os corpos militares 
podiam usar do laço azul e encarnado em lugar do na- 



— 184 — 

cioiíul ílecretado pc'as còrles. mesmo anlf^s de se rece- 
berem ordens da curte; decidiu-se que sim. pois tal era 
o liso cm Portugal como indubitavelmente já constava. 
Propoz mais o Exm. Governador das Armas que so ape- 
zar das medidas adoptadas n'estc conselho para se man- 
ter o socego publico appare^essem alguns perversos a 
perturba-lo qual era o meio de puni-los. Decidiu-se 
unanimamente que ficavam em vigor as leis existentes, 
que seriam aplicadas convenientemente segundo as cir- 
cumstancias.— Romualdo Bispo do Pará ; José Maria de 
Moura ; Joaquim Correia da Gamma Paiva, Presidente ; 
Geraldo José de Âi)reu, Secretario ; Francisco Custodio 
Correia ; Joaíjuim António da Silva ; Thedosio Constan- 
tino de Chermont ; João Baptista Ledo ; o Marechal do 
Campo Manoel Marques de Elvas Portugal ; Manoel de 
Freitas d'Anlas ; José Thomaz Nabuco de Araújo, Ma- 
noel José Cardozo, Presidente da Camará ; António Pe- 
reira de Lima ; José Ferreira Brito ; Marcello António 
Fernandes; Bernardino José Carneiro da Silva Reis; 
José Caetano Ribeiro da Cunha ; o Cónego José de Or- 
nellas Souza Monteiro; o (Sonego André Fernandes de 
Souza; o Coronel João Pereira Villaça; o Capitão João 
Pedro da Costa; o Ajudante Álvaro Botelho da Cunha ; 
o Major Francisco Marques de Elvas Portug.d, o Capitão 
António Valente Cordeiro; o Alferes José Deziderio de 
Castro; o Capitão Martinho Leite Pereira; o Tenente 
António Marques de Souza ; o Capitão Ignacio Pereira ; 
o Capitão de Artilhería Joaquim Rodrigues de Andrade ; 
o a.® Tenente Manoel Ignacio de Macedo ; o Sargento- 
Mór Jeronymo de Faria Gaio ; o Capitão Manoel Caetano 
Prestes; o Alferes João Rodrigues de Souza; o Major 
Domingos José da Silva; Joaquim Francisco Danim, 



— 183 — 

« Commandanle da ciivallnria volunlaria ; Camillo José de 

« Campos. Commandante dos cívicos de Artilhcría ; Joa- 

« quim Epifânio da Cunha; Francisco Carneiro Pinto Viei- 

t ra do Mello, Ouvidor da Comarca; João Ignacio de Oli- 

« veira Cavalleiro, Juiz Substituto; AíTonso de Pinho de 

* Castilho; Domingos José Antunes; João da Fonseca Frei- 

« tas ; Fernando José da Silva ; João de Araújo Roso ; 

« Francisco Gonçalves Lima; Luiz António Golçalves; 

« Agostinho Brandão e Castro. — Está conforme o 2.® 

« official Manoel Ramos de Carvalho. 

Esta deliberação, que collocou o Bispo na Presidência 
da Junta vaga pelo destino que para fora da provinda teve 
Romualdo António de Seixas, desagradou a muita gente ; 
c por conseguinte não extinguiu o gérmen das dissensões 
que adrede erão excitadas pelos partidários da independên- 
cia para enfraquecerem o partido portuguez, que constava 
ter perdido em 14 de Julho a cidade do Maranhão sitiada 
pelas forças Brazileiras do Ceará e Piauhy, já possuidores 
de todo o continente da Provincia. Esta noticia animou e 
tornou a desenvolver a actividade dos patriotas do Pará, de 
maneira que algims oíTiciaes e soldados dos dilTercntes cor- 
pos e particularmente do 2.® Regimento começaram a dar 
novamente indícios de que estavam dispostos a seguir 
o partido Brasileiro, que [)or sua parte intentou e conse- 
guiu derramar a sisania entre os corpos de linha, que o 
Governador das Armas deligenciava manter em boa har- 
monia empregando toda a vigilância para comprimir na 
capital as demonstrações que já principiavam a apparecer 
pelo sertão. Estas precauções comtudo, não podiam tran- 
quilizar o Governador das Armas, por (luo além do ciúme 
que havia entre alguns dos corpos, a miior parte da tropa, 

ABRIL. 24 



— 186 — 

de (jue necessitava servir-se para sustentar a causa portu- 
gueza. estava possuída da ideia de Independência. O 2." 
Regimento, bem como todo o esquadrão de cavallaria, que 
já se tinham involvido na revolução de 14 de Abril, eo 
corpo de artilhería depois de ter perdido o seu comman- 
dante o Tenente Coronel João António Nunes, já não me- 
reciáo sua confiança ; no mesmo caso estava o 3." regi- 
mento ainda mesmo commandado pelo Major Francisco 
José Ribeiro que substituiu o suspeito Tenente Coronel 
José Narciso. O 1 .° regimento do commamlo do Coronel 
João Pereira Villaça era o único com que o Governador das 
Armas podia contar ; porém a sua força era de duzentas 
baionetas, que não era prudente empregar fora das vistas 
do seu chefe pelo receio de que se unissem aos indepen- 
dentes. 

Este era o estado da capital do Pará quando cm II de 
Agosto de 1823 appareceu n'aquelle porto um brigue, que 
se annunciou como parlamentario da esquadra comman- 
dada por Lord Cocrane. levando oíficios para a Junta Provi- 
sória, e dando a noticia da retirada da tropa e esquadra 
portuguezas que estavam .na Bahia, de ter esta Provincia 
bem como a do Maranhão adherido a Independência, e de 
que o parlamentario tinha por objecto intimar os habitan- 
tes do Pará para que se resolvessem a acceder à Indepen- 
dência ou asollrer oselTeitos d'um bloqueio, para cujo fim 
a esquadra de que elle fazia parte, já se achava [)roxima das 
Salinas. 

Estas noticias, a presença do brigue e a ideia da exis- 
tência da esquadra nas aguas do Pará animaram e decidi- 
ram todos os Brasileiros a se declararem pela indepen- 
dência ; e o partido doesta se fez t;mlo mais forte (juanto 



— 187 — 

se tornou fraco o dos portiigiiezes (*ín quem se divisíivam 
impotentes desejos de sustentar a causa da metrópole. 

Não era necessário o concurso de tantas circumstancias 
favoráveis aos desejos dos filhos do Paiz para os encorajar 
e decidir pela Independência : elles viam todo o Brasil 
desafrontado de tropas e esquadras portuguezas, e procu- 
ravam á muito tempo occasiáo de formar parte integrante 
do Império Brasileiro, do qual o Pará era a única Provinda 
que então estava separada. Esta consideração, que rapi- 
Tlamente electrisou os Paraenses, collocou o Governador 
(las Armas na mais critica posição; porque a força total dos 
corpos de linha, inclusive trezentos recrutas, não excedia 
a seiscentas baionetas existentes na capital, as quaes, além 
da pouca confiança que lhe mereciam, não eram sufficien- 
tes para reforçar a fortaleza da Barra guarnecer as más ba- 
terias do Castello e forte de S. Pedro Nolasco, occupar os 
pontos de Maguary e Iguarapé de Una. por onde facilmente 
se pode entrar na Cidade, pôr á disposição do Intendente 
(la Marinha a força necessária para guarnecer a charrua 
Gentil Americana e uma barca canhoneira que havia, e re- 
servar uma força sufficiente para conter os Brasileiros, man- 
ter a ordem na Capital e accudir onde conviesse. Estes 
preparativos eram indispensáveis e se tornavam impossi- 
veis com seiscentos homens de linha em grande parte re- 
crutas e dous terços dos quaes se reuniriam aos Brasileiros, 
que entravam por metade na& duzentas e cincoenta praças 
de que se compunhão as milicias ; restando as companhias 
de cavallaria e artilhería do commercio que com quanto 
fossem de confiança . faltava-lhes a desciplina necessária 
para habilital-os a entrar em fogo com a ordem que nVstes 
casos 6 mister. 



— 188 — 

Para tomar as providencias mencionadas era necessária 
e indispensável a c(;operação da Junta Provisória, da de 
Fazenda, do Intenílonte da Marinha, authoridades inde- 
pendentes do Governador das Armas; para obter esta 
cooperação dirigiu ellc um officio em que dizia à Junta 
Povisoria que ia reunir no seu quartel os commandantes 
dos corpos aíim de tomar medidas tendentes a eviUir alguns 
tumultos; o que para objecto de segurança do porto e ou- 
tras providencias julgava indispensável uma conferencia 
com a mesma Junta, que não tardou em mandar-lhe a se- 
guinte resposta. « Illm. e Exm. Sr.— Esta Junta accusa rc- 
« cebido o officio de V. Ex. datado de hoje : em conse- 
t quencia dos officios , que recebeu de Lord Cocrane , 

• chefe da Esquadra do Hio de Janeiro, que se acha fun- 

• deado abaixo da barra doeste porto, convocou um conse- 
« lho para deliberar sobre o objecto do dito officio para o 
« qual convida à V. Ex. e a todos os chefes c comman- 
f dantes dos corpos de 1.* e 2.» linha, que V. Ex. se 
f dignará mandar assistir a elle, que terá lugar às sete 

• horas da noite. Deos Guarde a V. Ex. No Palácio Epis- 

• copal em 11 de Agosto de 1823. Illm. e Exm. Sr. José 
« Maria de Moura. Romualdo, Bispo do Pará Presidente; 
« Geraldo José de Abreu, Secretario; Joaquim Corrêa da 
« Gama Paiva ; Joaquim António da Silva ; Theodosio Cons- 
« tantino de Chermont ; João Baptista Ledo. » 

Quauilo o Governador das Armas recebeo este officio jà 
se achavam em seu quartel os commandantes dos corpos, 
e declarando-lhes o seu contheudo ordenou-Ihes que fossem 
com elle assistir à conferencia para que os convidava a 
Junta, de cuja boa fé o Governador das Armas duvidou 
por ter afirmado (pie a esquadra de Lord Cocrane estava 



— 189 — 

funiloada abaixo da fortaleza da barra ao sol posto, o não 

havia tempo de se examinar si com eíTeito estava ou não 

alli fundeada. 
Fez-se o conselho cujo resultado esttá consignado na 

acta que ó do theôr seguinte. « Sessão extraordinária do 
dia 1 1 de Agosto de 1823. Abriu-se a Sessão ás 8 horas 
da noite; e tendo sido convocado um Conselho pela 
Exma. Junta Provisória, composto do Exm. Governador 
das Armas, Senado da Gamara e todas as demais autho- 
ridades civis, eclesiásticas e militares e muitos cidadãos 
probos, em consequência de ter recebido a mesma Exma. 
Junta um oíBcio do Illm. c Exm. Lord Gocrane, chefe 
das forças navaes do Rio de Janeiro, assim como um ma- 
nifesto do bloqueio doeste porto e um oflicio original da 
Exma. Junta Provisória do Maranhão; exigindo o refe- 
rido Lord em nome de Sua Magestade Imperial o Se- 
nhor Dom Pedro, Primeiro Imperador do Brasil, que esta 
Provinda do Grão Pará adherisse ao systema geral do 
Império Brasiliense, os quaes documentos sendo lidos 
pelo Secretario da Exma. Junta assim como também o 
periódico em que se acha transcripta a correspondência 
relativa a Independência politica proclamada no Mara- 
nhão, propôz o Exm. Sr. Bispo , Presidente da Junta, 
ao conselho que o objecto para que tinha sido convocado 
era decidir-se qual o systema que esta Provincia devia 
adoptar nas actuaes circumstancias expondo as suas re- 
flexões de que a utilidade e tranquilidade doesta Provin- 
cia exigia que se adherisse ao systema do Rio de Janeiro, 
como o único meio mais eíDcaz para a salvar dos horro- 
res da anarchia : foi este parecer seguido por grande 
numero de membros que opinavam no mesmo sentido, 
e passando-se à votação se decidia unanimemente que se 



— 190 — 



iTconliecessc a Independência politica do Brasil debaixo 
das ordens de Sua Magestade Imperial o Senhor Dom 
Pedro Primeiro, a excepção do Exm. Governador das 
Armas que declarou somente annuir á esta medida si se 
verificasse a existência e qualidade das forças do blo- 
queio; e propondo o Exm. Sr. Bispo Presidente esta in- 
dicação se decidiu geralmente a expeçáo de oito mem- 
bros que se proclamasse a dita Independência, sem 
imlagação alguma das referidas forças. 
« Finalmente pedio o referido Governador das Armas 
que se lhe admittisse o seu voto em separado edecidiu- 
se que sim. o qual irá aqui transcripto e para tudo constar 
se mandou lavrar o presente que todos os membros do 
conselho comigo assignàram. Geraldo José de Abreu, 
Secretario da Exma. Junta que o escrevi. Romualdo, 
Kispo do Pará Presidente ; José Maria de Moura; o Ma- 
rechal de Cami)o Manoel Marques de Elvas Portugal; 
Geraldo José de Abreu. Secretario ; Joaquim Corrêa da 
Gama Paiva; Joaquim António da Silva ; Theodosio Cons- 
tantino de Chermont ; João Baptista Ledo; José Thoraaz 
Nabuco de Araújo, Juiz da Alfandega Procurador inte- 
rino da Real Coroa e Fazenda ; Manoel de Freitas de An- 
tas. Escrivão Deputado ; Manoel José Cardoso, Presi- 
dente do Senado ; Martinho de Souza Cunha, Vereador; 
António Pereira de Lima. Vereador ; José Ferreira de 
Brito, Vereador; João António Lopes, Vereador; Mar- 
cello António Fernandes ; Bernardino José Carneiro da 
Silva Reis, Procurador ; José Caetano Ribeiro da Cunha, 
Escrivão da Camará ; O Cónego José de Ornellas de Souza 
Monteiro; O Cónego André Fernandes de Souza; O Co- 
ronel João Pereira Villaça ; O Major Francisco Marques 
de Elvas Portugal : O Major Francisco José Ribeiro ; O 



— 191 — 

Capitão Jgnacio Pereira ; O Sargcnto-mór do 1.*» de Mi- 
lícias leronymode Faria Gaio; O Major Domingos José 
da Silva ; Joaquim Francisco Danim, comraandante da 
cavallaria Civica; Camillo Josc de Campos, comraan- 
dante daArtilhería voluntária ; Joaquim Epifânio da Cu- 
nha, Intendente da Marinha; José Lopes dos Santos 
Valadim, Capitão de Mar e Guerra comraandante da Fra- 
gata; Pedro José Corrêa, Primeiro Tenente comman- 
dante ; António Joaquim de Barros e Vasconcellos, Co- 
ronel e Governador de Marajó ; Francisco Carneiro 
Pinto Vieira de Mello, Ouvidor da Comarca ; João Igna- 
cio de Oliveira Cavalleiro, Juiz Substituto; O Coronel 
João de Araújo Roso ; O Tenente Coronel João da Fon- 
ceca Freitas ; O Coronel António Bernardo Cardoso ; O 
Capitão de Milicias José Vasques da Cunha ; Fernando 
José da Silva; Domingos José Antunes, Ambrósio Hen- 
rique da Silva Pombo ; AíTonso de Pinho Castilho ; O Te- 
nente Coronel Luiz António Gonçalves; Manoel Caetano 
Prestes; João Felippe Pimenta ; O Alferes Romão Ro- 
drigues da Silva; Francisco Gonçalves Lima. 

f Voto do encarregado do Governo das Armas do Pará 
na Sessão da noite do dia l i de Agosto de 1823 : O in- 
frascripto sendo informado pela Exm. Junta Provisória 
do conteúdo d'ura oflicio que recebera do lllm. e Exm. 
Almirante Lord Cocrane, comraandante das forças na- 
vaes de Sua Magestade o Imperador do Brasil, e de ou- 
tros papeis que acompanharam o dito ofBcio e que che- 
garam a este porto no Brigue Infante D. Miguel, e ao 
mesmo tempo tendo em vista a deliberação que todas as 
authoridades civis, militares c Municipaes e deputações 
do cori)o do commercio e agricultura tomaram no dia 



— 192 — 

õ (lo corrente votando todas que se conservasse a admi- 
nistração politica no pé em que se achava até se recebe- 
rem ordens de Sua Magestade Fidelissima El-Rei o Se- 
nhor Dom Joáo G.^ sobre os destinos do Pará; vendo 
que mudanças extraordinárias no systema governativo 
podem comprometter a Província e ás authoridades que 
a regem quando semelhantes mudanças náo tem por fun- 
damento urgentes e demonstradas causas e reflectindo 
que a simples aparição d'um navio de guerra, quesean- 
nuncia parlamentario d'uma esquadra não é a mesma es- 
quadra, vota que se expeça immediatamente uma em- 
barcação com officio ao Exm, Almirante Lord Gocrane 
em que se lhe faça ver a deliberação que tomaram no 
dia 3 do corrente as authoridades doesta Província de 
esperarem as ordens de Sua Magestade, as quaes é de 
suppôr conciliem os interesses do mesmo Augusto Se- 
nhor com os de Sua Magestade Imperial, e que á vista 
da resposta do mesmo Exm. Almirante depois de infor- 
mado do estado politico doesta Província, e dos aconte- 
cimentos havidos em Portugal em Junho pretérito, e 
verificada por este modo a existência du esquadra nas 
aguas do Pará a Assembléa delibere o que mais conforme 
parecer ao bem geral da mesma Província, com refe- 
rencia ao estado melindroso em que se acham os povos, 
e aos effeitos que de necessidade devem produzir nos 
espíritos a i)resença da dita esquadra e a mensagem di- 
rigida á Exma. Junta pelo dito Exm. Almirante. 

• Sendo de tal parecer, o infrascripto declara que em cir- 
cumstancias tão melindrosas, quaes aquellas em que pre- 
so» temente se acha o Pará, elle só tem em vista evitar a 
inútil eílusão de sangue, salvar sua reputação e honra, e 



— 193 — 

« hal)ilitar-se para responder pela suaconducta a Sua Ma- 
■ gestade Fidelíssima, que por sua carta Regia o collocou 
t no lugar que até. este momento occupa. Pará 11 de 
« Agosto de 1823. José Maria de Moura. 

Vendo o Governador das Armas a direcção que tomavam 
03 negócios e que lhe faltavam meios de poder interrom- 
per o seu curso, alli mesmo declarou que nâo podendo con- 
servar a Província unida a Portugal, d'esde aquelle mo- 
mento se considerava desligado do commando das Armas. 
Que n^este conselho existiam muitas pessoas dispostas a 
votar pela Independência, ninguém o duvidava, pois era 
manifesto o grande partido que a promovia ; mas que fossem 
as principaes authoridades a quem Sua Magestade Fidelís- 
sima deu empregos de consideração quem decididamente 
encaminhasse por seus discursos os membros do conselho 
á votar pela Independência do Brasil, é o que não se es- 
perava, mas aconteceu : por exemplo ; o Bispo, collocado 
no dia 3 pelo voto unanime na Presidência da Junta como 
affecto a Sua Magestade e á união com Portugal, foi o pri- 
meiro que por seus discursos deciarou ao conselho no dia 
li ser absolutamente necessário que o Pará adherisse a In- 
dependência do Brasil : o Intendente da Marinha Joaquim 
Epifânio da Cunha, que pouco antes tinha sido elevado ao 
posto de Chefe de Devisão, e í|ue na occasião em que de- 
sembarcou o Bispo na presença de povo lançou ao mar o 
laço nacional para substituil-o pelo Real, e que 22 dias de- 
pois arremessou este para tomar o da Independência de- 
clarando ao conselho que ninguém mais do que elle era 
grato a Sua Magestade Fidelíssima, fez os mais enérgicos 
exforços para que os votantes se decidissem pca Indepen- 
dência: finalmente a Junta Provisória, a excepção d'um 
membro, o Governador da iliia xMarajó o muitas outras 
ABRIL. ' ta 



— 194 — 

autlviridades civis, militares e ecclesiasticas so decidiram 
pela Independência: e foi tal o enthusiasmo que os discur- 
sos doestas pessoas communicou à qaasi todo o conselho 
que se fez a votaç lo tumultuariamente e grítando-se está 
vencido, está veticido. 

Esta deliberação acabou de decidir o povo e tropa e pro- 
duziu no animo de todos os habitantes da Capital os mes- 
mos effeitos que produziria e presença de toda a Esquadra 
de Lord Gocrane. O Governador das Armas fez todos os 
exforços para sustentar os direitos de Portugal, empregou 
todos os meios a seu alcance para fazer vêr que esta de- 
liberação era imprudente e até opposta à que se tinha to- 
tomado seis dias antes, tudo foi inútil ; propôz que se 
mandasse verificar a existência da esquadra e sua força, e 
sua indicação não foi acceita. 

Logo que às H horas da noite se dissolveu o conselho 
immediatamente se divulgou o seu resuitado pela cidade e 
quartéis ; em taes circumstancias si o Governador das Ar- 
mas quizesse reunir alguma tropa para se oppôr à delibe- 
ração tomada não veria a seu lado um só filho do paiz, e 
sacrificaria sem proveito da sua causa os portuguezes que 
tivessem a coragem de segui'-o. Si em lugar de seiscen- 
tos homens de tropa do paiz, jà então possuídos do espi- 
rito da Indopenlencia, tivesse ao menos trezentos ou qua- 
trocentos de tropa portiigueza, talvez a decisão do conselho 
não fosse tão opposta aos interesses de Portugal. A decla- 
ração das Juntas Provisória e da Fazenda c do Intendente 
da Marinha, privou o Governador das Armas da coopera- 
ção e soccorros necessários para a deffesa do porto e cidade. 
6 toda a tentativa para conservar a Província na obediên- 
cia portugucza seria chimerica e não faria mais do quo 
augmcntar a cíTervecencia do povo i» tropa. 



— IWii — 

 iin|)íkssibiliil:rle, qat3 tinha o Governa«lor das Armas de 
conservar a Província sob o domínio porln^uez, fez com 
que no dia 12 se dimítisse do seu empreg) e pedisse o seu 
passaporte , o qual lhe foi negado , e elle mandado prezo 
e ín(X)nimunicavel para bordo do Brigue parlamentario. 

Para rebater as prolençõcs de Lord Cocrane e manter a 
segurança da Capitai o Governador das Armas julgava ne- 
cessário reforçar a fortaleza da Barra com 70 a 80 homens 
abastecendo-a de mantimentos para 140 ao menos por 40 
«lias; acabar promptamente as fortificações de Valle de 
Caens, guarnecer esta bateria c fornecer-lhe munições de 
liocca e guerra ; ter à sua disposição lanchões e canoas ar- 
madas e tripuladas ; completar as guarnições da charrua 
Gentil Americina e canhoneira; approveitara fragata nova 
como bateria volante ; pagar em tempo o soldo o etape 
da tropa; e muitas ojtras cousas mais; porém como a 
maior. parte ou quasi t)d )s estes meios eram da exclusiva 
competência das Juntas Provisória e da Fazenda, e do In- 
tendente da Marinha, e estas authoridades se haviam decla- 
i-ado iHíla Independência, conheceu o Governador das Ar- 
mas que era mais conforme a razío, prudência e humani- 
dade e também seria mais do agrado de Sua Magestade 
Fidelissima que se poupassem as vidas e bens dos habitan- 
tes do Pará e por isso cedendo á força e império das cir- 
cumstancias deixou de empenhar-se em uma disacisada e 
desigual contenda, da qual só podiam resultar persiguições 
e desgraças incalculáveis. 

Depois do que se passou na noite de H de Agosto 
mandou a Junta no dia seguinte cumprimentar o comman- 
dante do Brigue e convidal-o para aproximar-se da Capital. 
Com muitos indivíduos, que se achavam homisiados, apre- 
sentaram- se no dia 13 os enthusiastas Cónego João Baptista 



— 196 — 

Gonçalves Campos e Josó Ribeiro Guimarães com indica- 
ções sobre a nova fórnn do Governo que devia instalar-se. 
Entre os diversos planos foi adoptado o de Ribeiro Gui- 
marães para q:ie o Governo da Província fosse elleito pelo 
Povo e composto de cinco membros coma denominação de 
Governo geral da Provincia do Pará e mando sobre todas 
as authoridades e rep:irtições, civis ecclesiasticas e mi- 
litares. 

No dia 1 4 depois de presos o ex-Govern ador das Armas 
e o Coronel Villaça convocáram-se os cidadãos para a ellei- 
çáo do novo Governo. No dia 15 o Castello e a Fragata 
arvoniram a Randeira Rrasileira, houve a grande parada em 
que se fizeram os cortejos militares ao Imperador do Brasil 
e solemne Te-Deum, a que assistiram jà cora laço verde e 
amarello o Intendente da Marinha Joaquim Epifânio da 
Canha, o Governador de Marajó António Joaquim de Barros 
Vasconcellos. o Ouvidor da Comarca Francisco Carneiro 
Pinto Vieira de Mello e o Major Ajudante de ordens do Go- 
verno José de Brito Inglez, que achando-se com parte de 
doente quando appareceu o Brigue Parlamentario se deu 
por prompto logo que o Marechal Manoel Marques tomou 
conta do Governo das Armas e começou a inculcar-se como 
o mais zeloso partidista do systema Brasileiro, forjando 
planos oííerecendo indicações para que o Governo da In- 
dependência incommodasse com pretenções sobre a en- 
trega de papeis c cartas topographicas o General que o tinha 
abrigado em sua casa e finalmente promovendo assigna- 
turas de requerimentos em que so exigia que o ex-Gover- 
nador das Armas fosse preso e remettido para o Rio de Ja- 
neiro : este homem, cujo caracter volúvel e inconstante o 
faz desconhecer os nobres sentimentos da gratidão, eujo 



— i97 — 

espirito ambicioso, vailoso o dnsojoso th liLjurar o trans- 
forma em bandeirinha de todas as nações, julgou (}ue fazia 
a sua fortuna mostrando-se muito oflicioso para com os in- 
dependentes; e com elfcito os serviços que lhos prestou nos 
primeiros dias da installação do novo Govi»rno lhe rende- 
ram o commando cpiasi momentâneo do l.^ Regimento de 
infantaria de linha, que poucos dias depois lhe foi tirado 
pelos despropósitos que fez, e por ser conhecido o seu pés- 
simo caracter até d\aquelles a quem ultimamente prestou 
esses serviços com desprezo dos deveres de vassallo de Sua 
Magestadc Fidelissima, a quem devia a representação e for- 
tuna de que gozava. 

Os festejos e mais signaes de regosijo duraram por mui- 
tos dias : no dia 15 jurou-se obediência ao Imperador do 
Brasil; e fez-se a eleição do Governo Geral da província, 
na qual se regeiláram todas as listas que continham nomes 
de «Europeos e do Bispo apesar de ser Brasileiro e ter to- 
mado a palavra no dia H de Agosto para favorecer a causa 
da Independência, dando-se por motivo desta repulsa ser 
pobre de espirito e homem de pouca confiança pela incons- 
tância do seu caracter. Sahíram eleitos para Presidente 
Geraldo José de Abreu, para secretario José Ribeiro Gui- 
marães e para membros o cónego João Baptista Gonçalves 
Campos, João Henriques de Mattos e Félix António Cle- 
mente Malciíer : esta eleição assustou a todos os Europeos 
e desgostou a muitos Brasileiros, porque n'ella enxerga- 
ram a origem dos males que infelizmente deviam pesar 
sobre a provincia. 

Os rápidos progressos que teve o partido da Indepen- 
dência no Par»â foram devidos ao Decreto das Cortes Por- 
tuguezas do 1." de Outubro de 1821, porque creando em 



— im — 

cada provinda ilo Brasil dons Governos independentes nm 
civil e outro railitar, e náo se lembrando de acompanha-lo 
com Ilegulamentos ou Regimentos que lixassem a con- 
ducta destas duas aulhoridades e marcassem a linha divi- 
sória de suas attribuições. náo reflectiram que os traria a 
conllictos prejudiciaes â causa public:» e era f.icil de prever 
que a Junta do Governo, formada pela eleição popular se 
havia de afrontar com a presença de um Governador das 
Armas de mais representação do que cada um dos seus 
membros e que tinha a força armada á sua disposição. 

Homens que nunca tiveram empregos públicos e que 
em outros tempos apenas aspirariam aos lugares de verea- 
dores ou almotaccs. tirados de suas casas para lugares 
importantes, tornam-se, de ordinário, vaidosos e capri- 
chosos, quando uma boa educação e prudente reflexão náo 
modera estes vicios, e a considoraçáo de que o lugar que 
exercem ou para que foram chamados, é devido à opinião 
do merecimento que delles formaram os eleitores, os faz 
presumpçosos, soberbos e vaidosos : eis o qiie se observou 
nas Juntas das demais Provincias. 

Não tendo Regimento por onde se regulasse no exercí- 
cio de suas funcçóes entendeu que era mais do que o Go- 
vernador das Armas, e assim o inculcaram os periódicos, 
que podia mais e que tinha direito a ser obedecido ; achan- 
do, porém, resistência n'esta authoridade ás invasões que 
ella tentava fazer na sua repartição, entendeo que o Go- 
vernador lhe fazia afronta : eis-aqui um motivo para decla- 
rar guerra ao Governador das Armas, e porque relações 
de amisade e parentesco de sete homens filhos do Paiz ou 
ha muito alli estabelecidos íhes dava um numero de parti- 
distas incomparavelmente maior do que aquelle que pode- 



— 109 — 

ria achiuirir cm pouco tempo uma authoridade estranha ao 
Paiz, a consideração desta superioridade de partidistas 
ainda mais a encorajava a hostilisar o dito Governador ; 
estas armas, porém ainda eram fracas. A sua esperança se 
firmava no auxilio da imprensa manejada por aquelles que 
projectavam predispor o povo e tropa para a Independên- 
cia. AJunta para atacar o Governador das Armas e fazer-Iho 
perder a força moral abriga e protege estes homens, que 
se prevalecem desta protecção não só para hostilisarem 
uma authoridade que temiam e que lhes não convinha na 
província, mas também para propagarem os seus escriptos 
subversivos. O resultado destes ataques, e protecção a 
quem os fazia, foi o que se observou em Agosto de 1823; 
resultado que não appareceria si acaso o Decreto do 1.** 
de Outubro não coUocasse em províncias tão remotas de 
Portugal duas authoridades tão poderosas independentes 
entre si e só responsáveis ao Governo de Lisboa. 

Além dos terríveis inconvenientes que deveriam resul- 
tar e de facto resultaram da instalação do duas authori- 
dades iguaes e independentes em uma mesma província, 
outros ainda maiores trouxeram ao socego dos habitantes 
do Brasil a certesa de que os Governadores das Armas 
jamais seriam nomeados por eleições e que nunca seriam 
escolhidos para estes empregos Generaes ou ofticiaes su- 
periores Brasileiros. Isto os encommodou e afligio porque 
vendo por um lado que se lhes dava a liberdade de elege- 
rem os Deputados ás Cortes e os membros do ôoverno 
civil, ao mesmo tempo observavam que aquella authori- 
dade debaixo de cuja direcção devia ficar a força armada 
sempre havia de ser Européa e escolhida pelo Governo su- 
premo. 



— 200 — 

Coníiar-Ihes a eleição das aulhoridadcs desarmadas, e 
priva-los de, ao menos, proporem aijuellas que tinham o 
poder da força, os pôz em muita desconfiança de que se- 
melhante disposição legislativa tinha fins oppostos ás ideias 
de liberdade, e igualdade de direitos que as extinctas 
Cortes lhes tinham promettido. D'aqui proveio o ciúme e 
até pouco affecto com que eram olhados os Governadores 
das Armas, pois os consideravam como instrumentos de 
que deveria scrvir-se o Governo de Portugal para coloni- 
sa-los e também destas desconfianças nasceram os exforços 
que desde logo começaram a fazer algumas provincias bra- 
sileiras para se separarem de Portugal ; cxforços que tal- 
vez se não verificassem si as disposições do Decreto do 1.** 
de Outubro de I8ál fossem concebidas em termos mais 
conciliadores dos desejos e vontade dos Brasileiros, 

No Pará ainda se poderiam remetliar os maus resultados 
daquele Decreto se quando pelas contas dadas ao Minis- 
tério pelo Governador das Armas, o Brigadeiro José Maria 
de Moura sobre o estado politico da provincia e por cora- 
municações de diversas pessoas alli residentes feitas aos 
seus correspondentes em Portugal, nas ([uaes se descrevia 
o perigo em que se achava a provincia de adherir à Inde- 
pendência do Brasil, o Ministério julgasse conveniente 
mandar alguma tropa Européa com a qual se podesse ata- 
lhar os progressos da opinião Brasileira, 



— áOl — 

WEAfi-SK 

iS CAXOEIRAS DE PiULO AFFOISO. 

Iniprirniinloesta carta do Dr. José Vieira de Carvalho c 
Silva, dirigida ao Sr. Dr Capanem-i, temos em vista tor- 
nar publica essa ijuaiitidade de noticias fiistoricas. geogra- 
phicas, e estatisticas (jiie encerra, e o tributar à memoria 
doeste nosso finado consócio, que lâo heroicamente mor- 
reo em Porto Alegro, victima de sua dedica(;âo e zelo (juan- 
doali invadio a cholera-morbus, um signal de respeito c 
de saudade. 

A família do nosso consócio recebeo dos altos poderes 
do Estado um testemunho do apreço de seus serviços com 
a pensão que lhe foi Címferida. 

Pelo elleito produsido n.i sala do Instituto quando em 
repetidas sessões ahi fora lida esta carta, julguei supprimir 
algumas linhns, que a liberdade do estylo epistolar no cor* 
rer da penna Linçára sem maior reflecção. e ás vozes com 
o único lim de ostentar uma erudição mal cabida n'este gé- 
nero de escriptos, como se verá do que ainda licou. 

As opinioens acerca dos individuos que ahi vão. perten- 
cem ao morto, e o Instituto nâo é responsável por ellas ; 
porque nunca o ha sido de escripto algum, mas tão somen- 
te dos que comportam o seu cunho ollicial. 

Este Itinerário do magestoso rio de S. Francisco desde 
a sua foz até às caxoeiras de Paulo AtTonso terá grand(í valia 
no futuro, mormentíi quando mais civihsadas a(}uel[as re- 
gioens compararem o seu presente com o passado a(}uides- 
cripto. 

O Dr. Carvalho passará na opinião dos homens estudio- 
sos como um pequeno Pausanias doKio de São Francisco; 
e o seu trabalho unido ao do Sr. Halfeld, que também de- 
senhou as caxoeiras de Paulo AlTono, serão de todo o inte- 
resse para os estudos do Instituto e de lodos os (|ue igual- 
mente d'elles se occupam. O itinerário de Cunha Mattos 
não é mais interessante do que este, e de quanta utilidade 
nâo tem sido para os qu(í procuráo saber nossas cois-ts ? 

Rio 24 de Abril de í8jí). 

Poíío-aleíjre. 
.vimiL. JG 



— 20á — 
IIIdi. Sr. Dr. G. Schuch de Cnpanémn. 

Váo quatro aunos que em uma sala das do Museu Na- 
cional se encoutraram dons homens ; o i)iimeiro regia 
uma íiideira da Escola Militar ua Côrle do Império ; o 
segundo devia cm poucos dias partir, para reger uma 
Comarca nas nwrgens do magestoso Rio de S. Francisco 
na Provi ncia das Alagoas. Vesse encontro trocaram-se 
pouca* jKilavras; e uma promessa foi sellada jielo Jurista, 
E'essa promessa que fiz no momento de dar o meu e re- 
ceber o vosso bilhete, Sr. Capanêma, que pretendo cum- 
prir: não espereis de mim cousa digna de vossa espe • 
rança; por quanto são os Juizes estéreis em suas narrati- 
vas; que o agro oflicio de lidar com os inimigos da sociedade 
( os criminosos ) gera um sentimento, que mata o bello 
humor que deve de presidir o trabalho de contar-voso 
que vi, o que me contaram, e o que seja esse soberbo ma- 
nancial d'aguas sem cessar, entornadas pela mão do Om- 
nipotente por sobní este pedregoso— Gigante — Paulo 
Affonso— que, sentado e encarando a Súl. sepnrou-o em 
duas porções, marcando pela sua altura o leito, por onde 
devem correr as aguas da iK)rção inferior, em quanto as 
da superior impellem-se com inaudito fragor ix)r entre 
os braços e penias ; debruçío-se pelos hombros, e se pre- 
típitão enfurecidas no profundíssimo abysmo. Para me- 
lhor satisfazer-vos na descripção do Rio de S. Francisco 
-suppôr-me-hei entrado pela sua barra, e por e!lo nave- 
gando até que dô ao petrificado Gigante a minha ultima 
saudação: direi além disso alguma cousa, ainda que per- 
functoriamente, sobre a minha Comarca. 

Afóz do Rio de S. Francisco demora, em 10 grãos c 
54'' de latitude Súl, corre nordeste, sudueste. Sua— Barra 



?> 



— â03 — 

— senão torna perigosa por alcantilados rochedos que 
ameacem ao descuidado nauta, ou pelos encobertos que 
possão enganar a experiência do mais avisado prático ; 
porém, sendo este Rio im|)etuôso era sua corrente, e ar- 
rastando com e!la as areias de suas margens, fazem-na 
temida pelas estuosas syrtes que se mudâo à sua vontade, 
€ põe sempre incert.i a entrada para— o Navegador— que 
ha pouco (l'ella sahíra. Dias ha em que se a navegará, como 
em um Lago lijíeiramente encrespado por branda viração, 
outros virão cora que a onda encapellada pelos ventos do 
Súl e Nordeste atterrará o mais traquejado marinheiro, 

parecendo que as alpinas Serras se desabão sobre o frá- 
gil lenho, que, afoitado, as envistir ; e como seja um só o 

eanál, e estreito, e sobre, de pouco fundo, é quasi infalli- 
vel pagar o atrevido, com summa usura, a injuria feita á 
sua passagem. Nada direi acerca do aspecto d'ella, vista 
de mar em fora; porém começarei a minha narrativa des 
que as doces aguas separão-se das amaras. 

Destinguem-se as duasraargens do Rio pelas signativas 
palavras de Baliia e Pernarabuco, a esta Província pertence 
a margem esquerda ; a aquella a margem direita; por esta 
explicação ficareis sabendo quaes os logares, Povoações. 
e Villas, e Cidades situadas em uma e outra margem ; posto 
que d^esde abaixo da espantosa Cachoeira, e no riacho 
Chingó se bem divise pertencer toda a margem direita k^f^ 
Provincia de Sergipe d'El-Rei, e a marg^.esquerda á áW 
Alagoas ; que domina d'esde o Rio Moxotó, duas léguas 
sobre a referida Cachoeira onde findáo os meus domínios 
judiciários. Da entrada da fóz do Rio de S. Francisco, fica 
á margem direita, o conhecido parcél do cabeço, cruel ini- 
migo, que raso e humilde, parece afagar os Nautas; po- 
rém triste do que se a elle aproxima, porque é então que 



— 204 — 

tornnnílo a aiToctada brandura om furor, o despodaç^T som 
piedade, com o rancor d'um vilião de quem confiaram o 
cargo. Á margem esquerda está. a cavalleira, o arenoso 
Morro doPonlál, coroado de suas pequenas cabanas, seus 
coqueiros, e raros cajueiros : na sua fralda ancora a Ve- 
leira Catraia, a cujo Palrâo eslá incumbido o cuidado de 
avisar aos que entrâo. e snhem. se lhes será prospera ou 
perigosa a passagem. É a Sybilla da Barra, e ás vezes 
bast intemente usa de suas ambáges, para demonstrar a 
necessidade, e sabedoria de seu emprego. 

Segue pelo cordão do Pontal, e pela esquerda— Sara- 
menha. e o Riacho— Caranha ; e pela direita os Riachos, 
Arambipe, ou Gaú, que communica, por uma valia, entre 
mangues, quasi com. o Rio o mar na Costa do Somíko. e o 
Parapúca. que faz a barra, chamada— Nova:— Estão era 
meio do Rio as Ilhas das Paturis, a da Negra que toma 
diversos nomes, fertilissima , e d'onde vem excellentes 
mangas ; e a de — José Thomé. — São estas Ilhas extensos 
cannavenes, e próprias para toda aplantagem que deman- 
de frescura. 

Corre pela margem direita uma corda de Oiteiros mais 
elevados, e vestidos de grandes mangues e outros arvore- 
dos, havendo nas abas. e perto do Rio. as pequeninas Po- 
voações de— Tauóca— Rezina de Baixo, v Rezinade Cima, 
lívos painéis da miséria ; mas demonstrativos da bondade 
do Creador que dá vida, e vida vigorosa n^este Brasil a 
aqueíles de seus filhos, mesmo que vivem nus e crus sobre 
a terra, tendo a esta por leito, e o Cêo, sempre assetina- 
do, por cobertor. 

Paga seu tributo ao grande Rio o riacho— Paraiina— 
pelo canal do— Souza, — seguindo-se os— Riachão— e Ba- 
gres— formando dilTerentes Penínsulas, e Ilhas em suas 



— 205 — 

enchentes, e rega boas propriedades. Fica pela esquerda 
o riacho— Gurugy também tributário, sendo adiante o— 
Batingas— á borda do qual situou o velho Capitão José An- 
tónio da Costa uma bôa propriedade de Engenho, pondo- 
-lhe o nome do mesmo riacho. Em frente vai o lugar Costa 
do Quebra Costellas. 

Contínuão pela esquerda os três Engenhos— Bôa Sorte— 
Paraizo, e Cerquinha, e logo a Povoação de Piassabussú, e 
pela direita a bella propriedade de Engenho — Mucury— 
sendo seu proprietário o Sr. Telles da Serra, e o ancora- 
douro do— Dendê— e o engenho— Bandara-do Coronel 
João de Aguiar ; ficando entre-meio as Ilhas do— Toco— 
ou da Finada Custodia, e a do Bemvenuto, ou dos Frades 
Bentos. 

Devo aqui dizer que quasi todas as Ilhas do Rio de S. 
Francisco, que estão perto da Barra, pertencem aos Reli- 
giosos de S. Bento, d^onde tirão soífrivel renda. A Po- 
voação de— Piassabussú— é a primeira de importância, 
que se encontra ; poderá conter trezentas e tantas casas 
com uma pequena Igreja no centro, do Padroeiro S. Fran- 
cisco—e um Oratório da Santa Cruz. Foi em 1796^que 
Fuão de Seixas principiou a Povoação. É um districto de 
Paz, e Subdelegado ; seus habitantes vivem decrear, e la- 
vrar cannas e outras plantações ; tem pouco commercio, 
posto que olTereça um bello ancoradouro, e onde fundeão, 
logo que entráo as embarcações, que velejão de barra 
fora. 

Ha alguns Engenhos de fazer assucar, e estabelecimen- 
tos de distillação : O seu mais forte mercado é uma feira 
aos sabbados, porém tão mesquinha que por isso merece- 
ria ma is o nome de quitanda, do que o pomposo de feira. 
A melhor casa e engenho do lado direito é do Exm. Barão 



— á()(> — 

(la (lofiiigiiil).'), cuja caside vivenda, corpo de engeiílio, 
macliiiias e terras sao exccíllentes, e nem éra de esperar 
outra cousa d'um Barão, que ainda tem seus laivos dos 
da meia idade. A vista que olTerece a Barra olhada doesta 
Povoação é bella, e vos envio os traços d'ella, tomados n 
olho, que pois neia |)ossur) eu os instrumentos conhecidos 
por camarás escuras ou lúcidas. 

O ancoradouro do — Dende— que fica defronte de Pias- 
sabussú tem proporções para o fácil embarque dos assu- 
cares de Cotinguiba. e para alli vàoalgims barcos á carga, 
e voltáo da— Bahia carregados do fazendas, c géneros: 
creio (pie nenhuma íiscalisação se exerce, senão a da von- 
tade dos interessados. Corre (fesse lado o Riacho— Ca- 
poeira— que baptiza a Povoação (Feste nome, a qual se 
liga com a do Brejo Grande. Estas duas povoações for- 
mão uma peninsula, quando o Rio grande de S. Francisco 
recolhe -se ao alveo natural ; passa a ser Ilha nas enchen- 
tes; é a reunião dos melhores Engenhos d^esses togares 
com fertilissimas terras para tudo quanto vegeta ; a uva 
branca, a ferral, as mangas, os cheirosos e coroados ana- 
nazes. os melões, cm íim fructas e ílôres pejão os pomares 
e os hortos. 

Os famosos limões alli cheirando, 
Estão virgineas tetas imitando. 

E sobre tudo a canna ò a da melhor qualidade e succo- 
lenta: contem cento e setenta casas pouco mais ou menos, 
contando os Engenhos c uma Capella da Invocação da Con- 
ceição. Pela esquerda se deslisa em fraca veia o riacho que 
faz a barra do— Bongue,— separando o povoado do enge- 
nho— Correnteza— de João de Deus e Silva ; segue-lhe o 



— 207 — 

lugar— Parreiras— sem que nenhuma vido n*elle biolc, o 
pela direita o— Cajuhipe ; creio também que sem um pé 
d'essa espécie de cajii pequenino e d'um ácido forte, muito 
procurado para a confeitaria. Ergue-se de próximo n^esse 
logar um Engenho de propriedade do Major José Nunes 
de Barros Leite, e pelo principio dà que esperar. 

xMedeião uma e outra margem as Ilhas da Tliereza e a 
dos Bois ; a primeira fertilissima, e a segunda além d'isso 
é já um povo de perto de cem vizinhos com uma Igreja 
da Invocação de S. António. Além da fertilidade da inti- 
tulada Ilha do— Brejo Grande— é notável esta porção de 
terra, por aprcscntar-sc pertencente a duas Provincias ao 
mesmo tempo I É, quanto ao ecciesiastico, da Freguezia 
doesta Cidade do Penedo, e quanto às justiças, da Villa e 
termo da Comarca de— Villa Nova ; com tudo sendo os 
eleitores por parochias, votão os habitantes em a Fregue- 
zia de — Villa Nova — e para eleições de que não são fre- 
guezes, isto é, de Sergipe 1 É um doestes contra sensos 
que se depara a cada passo entre a nossa defeituosíssima 
organisação civil e occlesiastica : a estes se pôde bemappli- 
car o anexim— não sabem de que freguezia são.— Acima 
do Cajuhipe está collado o Engenho de outro João de Deus : 
a barra da— Caiçara— sem importância ; o Serrão, e o fun- 
deadouro do Betume. 

É este logar um ancoradouro seguro e commodissimo 
para o embarque das caixas e outros géneros que descem 
pelo riacho da— Goiaba.— De muita utilidade veria a ser 
para as Provincias de Alagoas e de Sergipe a abertura 
desse porto pelo riacho dito, ç aventura-so que com a li- 
gação do dous pequenos canacs, de menos de meia légua, 
far-se-hia communicavel o Rio de S. Francisco com o Rio 
— Cotinguiba , e talvez até a Bahia, se podesse ir sempre 



— á08 — 

por agua. Nada mais direi a respeito por estar fora do 
meu propósito. Acima do logar— Parreiras— está a — Pon- 
ta Grossa,— a Barra das Larangeiras, e a— Ponta Mofina ; 
— este appellido é optimamente cabido, porque na verdade 
é raro aos que sobem de rio acima, ainda com o vento de 
feição, não encontrarem-no ahi mofino e mào I 

Entremciâo esses logares marginaes as Illias do— Gon- 
dim— também chamada do— Gregório— e do Barro:— a 
do Cachimbáo que tira o nome de sua forma, e a do — 
Matlo.— Além do Betume vè-se o logar — Porteiras, Morro 
do Aracaré,— Aracaré— e barra do Aracaré, pequenino 
regato. 

Além da— Ponta Mofina— corre a margem com sitios e 
propriedades internadas até a Cidade do— Penedo — com 
diversas peninsulas que se tornão um archipelago nas en- 
chentes : São essas Ilhas a da— Gallinlia— a do— Barão, — 
á Grande, —a do— Aaraçà— c a do— Bamba : Ha nellas 
outras propriedades de engenhos, a de Luiz Alves, e a do 
Dr. Berkett que é a melhor, etc. 

Quanto à Ilha Grande é ella um Encapellado colhido, em 
bellos tempos, pelas orações dos Benedictinos a dous pios 
devotos : D. Arcangela Brandão, e o Coronel Belchior Al- 
ves Fagundes. A terra é abençoada para creação de gados 
grossos e miúdos, e tem mui ricos massapés. Ao Religioso 
Fr. António de S. Brás Pinheiro deve-se a bella e ampla 
casa de vivenda. Conta esta fazenda de canrias, uma bôa 
— queira— de escravos crioulos e pardos, moços e d'um 
valor subido, e tudo isto para que os frades digão três 
Missas por anno ! —Deus nobis hec otia fecit— dirão em 
suas céllulas os que rezâo contra as cobras e serpentes ! 
Está acima da barra do Aracaré a Villa Nova, cabeça da 
Comarca doeste nome, e coutmua-se a vôr a barra de outra 



—Caiçara,— a Cambraia,— as barras do Zalóque,— e a do 
yueriqnindim. A passagem ó a reunião de poucas e fra- 
quíssimas casas e que licando bem fronteira á Cidade do 
Peuèdo off.^rece o melhor lanço de vista sobre ella. 

Segue-se a— Barra das Tabocas— e a de outro— Bongue, 
e a Povoação do Carrapicho. Toda esta extensio fica pela 
frente da Cidade do Penedo que se estende d'esde o arre- 
balde— Cortume, até o outro do Barro Vermellio; tendo 
de permeií) as Ilhas do— Carrapicho, São Pedro, a do Ca- 
pitão Manoel Joaquim dos Reis. 

Deraorar-me-hei por aqui fazendo [)or desenfado a des- 
cripçáo doestas três povoações,— Cidade do Penedo, Villa 
Nova, e Carrapicho; pois que jà muito venho fatigado da 
viagem da Barra, que contáo sete loguas, duas da Barra a 
Piassabjssú, e d'este logar mais cinco ao Penedo. Situada 
está a Cidade do Penedo, como no vértice d'um angulo, 
cijjas extremidades dos lados pousão cada uma sobre um 
Povoado ; ume a— Villa xNova- e outro— Carrapicho— Am- 
bos estão derramados em duas rasas collinas ; ao passo 
que o Penedo se ostenta sobre alcantiladas rochas de pedra 
arenosa, que parecem cuidadosamente sobrepostas umas 
ás outras ; e assim no meio doestas duas Irmãs se sobre- 
avantaja pelo elevado talhe. Villa Nova se appellida de ca- 
beça de Comarca, mas não è ahi a residência do Juiz de 
Direito que preferio para elia a Villa de Proj)riá— (hoje 
por Lei Provincial doeste anno foi transferida a cabeça da 
Comarca para Própria )—aquella conta diizentas casas, 
uma Matriz em obras do Padroeiro Santo António de Lis- 
boa : poucos são os edilicios dignos de mensão— o Palácio 
do Barão ; que antes de c-iegar ao respaldo parou; se con- 
cluir-se será de feito uma morada Senlioril. Tem um Juiz 
Municipal, Bacharel, e mais authoridades de nossa orga- 

ABRIL. 27 



— áio — 

nisaçiío policial c judiciaria, e uma Mesu de Rondas, cuja 
arrecadarão é deminuta; para não ir mais longe, é um 
feudo no rigor da palavra. 

A Povoação do Carrapicho conta cento e vinte vizinhos; 
tem duas Olarias de fazer louça vidrada. Seus habitantes 
crião e la\Tâo em pequena escala, a pedreira que possuo 
faz a s ia nascente industria que pôde vir a crescer; lavráo 
soleiras, umbraes, e varandas; é a pedreira de óptima qua- 
lidade—a amostra N. 1 .® : É d'ahi que parte a estrada geral 
para a— Cotinguiba— e que segue até a Capital da Bahia 
de S. Salvador. Entre — Villa Nova — e Carrapincho — existe 
o logar— Passagem;— doeste logar que é como disse acima 
o melhor. Tem o Rio de S. Francisco neste logar cinco 
mil e novecentos palmos, com o fundo de quatorze pés nas 
vasantes, pois que até aqui ainda muito influem as marés, 
fazendo -se sensivel o crescimento de ({uatro \)Í6 sobre o 
nivél do Rio nas de lançamento. 

A Villa Nova conta mais a Capella de Nossa Senhora do 
Rosário e Santa Cruz : as casas em geral são mal construi- 
das, e pois que a pedra está â porta, fazem-nas de madei- 
ra, seguindo o rifão de nossos povoadores— ^m casa de 
ferreiro espeto de pão, — 

A Primeira Povoaçíio (Fesde a fóz do Rio de S. Fran- 
cisco até a — Cachoeira de Paulo Ailonso, e a mais impor- 
tante é a Cidade do Penedo, Cabeça de Comarca do mesmo 
nome. A vista da Cidade é muito attractiva por ser esta 
collocada como em um anpliitheatro, e ofTerecer, à pri- 
meira vista, seus melhores edifícios e Templos. Conta ella 
perto de mil e cem casas, das quacs a maior parle é de 
grandes sobrados, alguns de dous andares. 

A edincação é geralmele de madeiramento com as fníu- 
tes de [)edra e cal ; é uma excepção arjuella toda feita de 



— áll — 

cantnria ou alvenaria. A casa mais insigiiificanto é forrada 
de cantaria, e se precisa de degràos, por ser a Cidade mon- 
tanhosa, ou mesmo por um erro antiquissimo de se não 
nivelarem os terrenos antes da edificação ; são elles de 
bôa cantaria, e em algumas parecem mais um átrio de 
Igreja do que limiares. 

As ruas são péssimas no calçamento e nem mesmo as 
Camarás tem sabido aproveitar o soccôrro que lhe submi- 
nislra a natureza, dando quasi ruas inteiras lageadas de 
arenosa rocha nativa, as quaes lornar-se-hião transitáveis 
com o fácil e pouco despendioso aplainamento. A melhor 
das ruas é a chamada da Praia, que corre ao longo da mar- 
gem do Rio, e que seria perfeitamente uma rua de Com- 
mercio ; pois que nella estão armadas as mais fartas lojas ; 
se os negociantes tivessem o gosto que observào os tenta- 
dores da do Ouvidor n'essa Corte, para atrahir Freguezes, 
e se houvesse um Cães que desse-lhc a elegância e afor- 
moseamento, ainda desconhecido nas pequenas Cidades, 
ou para melhor ex[)ressar-me, desconhecido pelos nossos 
homens do interior que julgão que a riqueza, a paz, e a 
segurança de vida, e de propriedade está na mesquinhez de 
tudo, e no monótono— rojão— em que ouvirão marchar 
seus pais, e estes a seus Avós ! « Ninguém ainda fez » é a 
desculpa dos estacionários, porém não qu(Tem vêr que 
para se dizer— já se fez,— e este pretérito servir de exem- 
plo, è de nec/essidade que haja quem diga— vou ou vamos 
fazer,— porque esta é a voz do progresso, a qual tem in- 
corajado os Inglezes e Norte Americanos, para que depois 
das grandes catàsthofres exclamem alegremente— allready ! 
— e sigão para diante ! Com tudo devo em verdade dizer- 
vos que se o génio dos Penedenses dér algum dia para a 
edificação de grandes obras e edificios sumptuosos, elles 



— 212 — 

tem ao |>ê de si os mnleri-^es precisos para uma Cidade de 
Palácios, oauma nova— Génova.— 

Conta a Cidade do Penedo, alf^m da Igreja Matriz da Pa- 
droeira do Rosário, um Convento de Franciscanos e as 
Igrejas, da Corrente, S. Gonçalo Garcia, Rosário dos pre- 
tos e S. Gonçalo de Amarante, havendo de mais os pro- 
priamente ditos— Oratórios da Penha— Santa Cruz do— 
Cortume— e Santa Cruz do— Barro Vermelho,— A Matriz 
é um Templo ha pouco Erecto, espaçoso ; e poderia apre- 
sentar bòa prespectiv;!, se nâio o coUocassem em mào ter- 
reno, ainda que pôde ser reparado esse erro, se lhe sou- 
berem constrtiir o adro, de mnneira ato chegar ao plano 
da pequena praça ou parallelogramo. em que estão igual- 
mente a casa da Camará, e Cadeia, e Aposentadoria dos an- 
tigos Ouvidores. 

De passagem direi quo a casa da Camará é ampla e de- 
cente e nella se celebrão as Sessões do Tribunal do Jury ; 
ainda tem seus estufados de damasco vermelho, e seus respos- 
teiros das cores do tempo do dominio portuguez ; devido 
este asseio ao Desembargador Luiz António Barbosa de 
Oliveira qne foi o [uimeiro Ouvidor. A casa da Ouvidoria 
está bastante arruinada porém ambos os edifícios são no- 
bres ; e poderiáo servir em qualquer outra Cidade mais 
opulenta : a esse respeito o Penedo não deve invejar. 

O Convento dos Franciscanos, no interior e altares e a 
sua Ordem Terceira, é de obra de talha antiqiussima, pois 
tem o Convento era anterior a mil seis centos e oitenta e 
oito, e foi reparada a frente e feito o peristillo em mil sete 
centos e cincoenta e nove, e por isso a preciadissima por 
mim. ainda qu!> à moderna aprecia-se ligeireza e ouropel. 
Fundo esta opinião de ser anterior a mi! seis centos e oi- 
tenta e oito em ter visto e lido em um livro de eleições da 



f% 



— 21:í — 

sua Ordem Terceira uma acta delias la\Tada do Convento 
de Nossa Senhora dos Anjos na Villa cio Penedo em mil 
seis centos e oitenta e oito, a fls. 12; d'onde collijo que 
nas folhas primeiras outras houve. Não encontrei nos 
archivos da Camará documento algum sobre a época certa 
da creaçáo da Villa, porém esse que acabo de citar revela 
que foi antes de mil seis centos e oitenta e oito ; pois que 
declara na Villa do Penedo. O Diccionario de Mr. Milliet 
do Saint Adolphe dà a elevação em mil oito centos e seis. 
porém c um erro palmar. Occorre que mesmo dos livros 
carcomidos da Camará consta uma acta do antigo Senado 
na éra de mil oito centos e tantos, náose percebendo exic- 
lamente o resto pelo estado miserável dos archivos. 

Vou expender- vos tudo quanto tenho colhido acerca da 
primitiva existência do Penedo. 

Nas Instituitjóes canónicas do Dr. Soares Mariz se aflir- 
ma que o Penedo fora elevado a Villa a 12 de Abril de 1836 
— quando igualmente o foi a Povoação de Porto Calvo com 
titulo de Bom Successo, esta, e aquella com o de S. Fran- 
cisco ; seguindo o mesmo Doutor a opinião do Autor das 
memorias diárias. A historia do Brasil por Francisco So- 
rano Constâncio— tratando do anno de mil seiscentos e 
trinta e seis dà a mesma época, dando também como fun- 
dador da Villa a Duarte de Albuquerque. Na Villa Nova ha 
registro d'um offlcio em que a Comarca d'ali disse para a 
d'aqui que a Villa fora fundada em 1G14— o que não pa- 
rece exacto, pois que sendo em 1613—0 primeiro desco- 
bridor, e povoador doestas paragens o Capitão Christovão 
da Rocha, não podia em 1614 estar capaz de ser Villa o Rio 
de S. Francisco. O mesmo Rocha, fimdou a Igreja (hoje 
Matriz) com a invocação de Santo António, e lhe deo uma 
légua de terras, fazendo pião da Igreja, e correndo para 



— ál4 — 

cima ale a Mata d*Alileia, o para baixo a outra meia légua, 
dando de renda dez crusados, sendo a doação assignada 
por Belchior Alves, como seu Procurador, e tendo dado a 
licença o Bispo D. Constantino Barradas, 4.° Bispo do 
Brasil. Duarte de Albuquerque deo para património da 
Villa — 1 — légua de terras — fazendo pião no Piloirinho. 
Sendo esta Comarca tomada pelos Ilollandezes à viva força, 
como o foi toda a Capitania, retiráo-se todos, e até Belchior 
Alves, para Bahia depois voltou elle, e se reunio ao IIol- 
landoz, e apoderou-se <las terras, vendendo e doando. De- 
pois da expulsão dos Hollandezes ; o vigário— Manoel Vi- 
eira Lemos, quiz revendicar as terras, e pleiteou com a 
Camará, e outros que se diziào copossuidores, isto jà em 
1690— e foi Juiz julgador— Josc de Sá Mendonça, que sen- 
tenciou os autos em Olinda a Ití de Setembro do anno ci- 
tado, reconhecendo a obrigação dos dez crusados para 
a Igreja Matriz hoje de Nossa Senhora do Rosário, cabendo 
o domínio á Camará ; porém hoje a terra pertence à Igreja, 
a Camará nada tem e muitos intrusos donos se chamâo 
d>lla. É a sentença qnem muito esclarece, e por compri- 
da não a transcrevo aqui. O reduto, ou forte Ilollandez, 
foi situado a pouca distancia por detrás da Igreja, domi- 
nando o Rio pelo logar rocheira. e a rua hoje do Convento. 
Tem apparecido vestigios doesse domínio Batavo; a Sra. 
D. Anna Felicia de Macedo — escavando para um acréscimo 
da propriedade onde mora, encontrou uma espécie de abo- 
bada de tijolo, e quebrada esta uma cruz dos mesmos ti- 
jolos tendo no feixo da cruz uma telha emborcada, e en- 
caliçada ; quebrado o encaHçamento encontrou uma chave 
grande de forro, antiga, como indicava os ramos, c corta- 
dos da mesma chave no lugar de pegar-se; não se podendo 
dar com a porta cuja era ella. 



— âlo — 

Estou qiio seria tudo isto uma sopallura, e a chave do 
sarcórigo, onde eslarião os restos de algum magnata dos 
conquistadores. 

Dizem mais que corria em direcção doesse achado, um 
corredor, e um ladrilho de grandes pedras, em cujas fun- 
das, introdusindo-se compridas varas não tomaN^áo pé, c 
que temendo-se nâo fosse isso um abysmo, taparão a esca- 
vação. De presente edifica -se uma casa sobre os restos 
do fallado reducto, e se tem encontrado balas ; e caximbos, 
como os da amostra — N. 2.° — Na llocheira, ha algumas pe- 
dras muito altas, e ligadas àroclia nativa, lavradas a picão, 
não se sabendo quem isso fêz, e para (jue. Muitas fabulas 
se narrão a esmo, que escuso n'ellas tocar por incríveis. 
Tem o Convento um claustro de vinte cinco passos (jua- 
drados acolumnaíio e arcado de cantaria, assim como os 
umbraes, frontispício, pateo, escadaria, c adro com seu 
cruzeiro. 

Ha um coro sofrível com os ornatos costumeiros i)ara 
a mesa da oração diante do Senhor dos Exércitos, porém 
jà as vozes deprecantes não resoão pelas naves d'essa casa 
de Deus, e nem tão pouco á hora dada distribuem à porta- 
ria o caldo para os fdhos ou irmãos mendicantes. Tinha 
uma extensa cerca de pedra e cal, hoje tem dado ella para 
duas ruas, e se resume a um estreito quintal. Tem o edi- 
fício dous andares de cubículos e espaçosos Salões, tudo 
re Jusido a ermo ! e posto que seu relógio marque as horas 
de oração, um cântico se quer não se escuta reboar, e que 
trazido pela branda viração toque o coração indurecido de 
alguma ovelha desgarrada, e a faça tornar ao aprisco.— 
Ah! quantas vezes.— 



— ál() — 

No silencio da noite a vóz pungida 
Do Christâo que orações aos céos envia 

Náo me tililla o peito 
E ao íuizo que fiz de ser matéria. 
Náo deo matéria mais p'ra convencer-me, 

Que existe um Deus Eterno ! 1 

São estes frouxos versos d'ura meu escripto debatendo 
o atheismo, náo pude forrar-mo d'aqui enchertal-os para 
remoque aos meus confrades de burel. 

Seria este Convento digno de visita, se a inércia, e irri- 
ligiosidade dos irmãos seráficos não deixassem que a mão 
do tempo ferisse o Templo, e que a vegetação se desenvol- 
vesse tão espontaneamente nos telhados e frontão, que jâ 
náo consente que o gnllo que serve de grimpa á pequena 
torre se volva ao querer dos ventos t São, como os da Or- 
dem, mendicantes; porém da sacola e bordão é do quc 
menos curão I Tenho os visto, mesmo de habito jogando 
no bi har. e nos theatros, com despreso de suas regras, e 
das fulminações dos Concílios. 

Os terceiros tem pobres reditos ; e posto pensem bem 
de sua Capella ao lado esquerdo da Igreja, náo podem, 
ainda querendo, fazer mais; finalmente c Ordem sem 
compromisso ; pois que ainda não o tem approvado. 

A Igreja da Corrente é sit lada bem defronte do cáes de 
desembarque que se limita á entrada da rua desse nome : 
foi ella obra de gosto, feita pelos progenitores da familia 
Lemos: é bem acabada e decente; e melhor brilharia, se 
seus dourados não fossem enegrecidos por dous raios, ca- 
bidos ali ; não sei se alguém fez offrendas impuras no ta- 
bernáculo, e que por isso a mão do Senhor, fez baixar o 
fogo celeste para o|)anir. como contra Nadah e Abiti. 



_ 217 - 

A de S. Gonçalo Garcia, se fosse acabada, seria o maior 
e o melhor dos Templos d'esta terra : é de cantaria parda 
com seus baixos-relevos. Possue nos seis altares lateraes 
|)erfeitas imagens ; não direi que as esculpira o sinzel de 
Phidias ou Canova ou do moderno— Limart,— nem as en- 
carnarão os Tecianos, Raphaeis ou Sanches Coelho, po- 
rém são em vulto exactas representações dos actos doridos 
da Paixão Sagrada do Nosso Redemptor. 

Contra o estillo, e mesmo a fé, sahem estas Santas Ima- 
gens todos os annos na procissão de Sexta feira da Paixão I 
Quando o crucificido espira no Golgotha apresental-o no 
esquife, e vivo ainda em tormentos, é muito affrontar a 
piedade dos chrístãos I Não pára aqui esse absoléto costu- 
me ; o mais censurável é a mercancia que em alta grita faz , 
para cada Passo^um dos que tiveráo a devoção de o carre- 
ar» offerecendo anéis de prata ou de àço— quem troca os 
anéis do Senhor dos Passos, quem os quer do Senhor á 
columna? e as sete vozes dos pregoeiros devotos fazem 
tanta confusão, e nojo que bem valia, por honra ao pri- 
meiro preceito do Decálogo, que se abolisse. 

São christãos : dirá talvez algum herege ; mas como 
não lucrarão nos trinta dinheiros porque os vendemos e 
nem no sorteio das vestes, agora lhe vendem os anéis. 

Foi protector e factor da Igreja um ricaço João Pereira 
Alves, e depois em mil sete centos e sessenta e sete fun- 
dou um hospital de caridade, dando-lhe para sua mantença 
a renda do Capital de doze mil crusados. É um estabele- 
cimento de summa utilidade para a pobreza, mas existe 
ura pouco— prode relictus— c não presta quanto era de es- 
perar : além d'esses juros tem oito casas doa ias para alu- 
gar, e porquanto entende o Thesoureiro: em fim são bens 
de (juem não falia, e dos quaes dizia o General Dora Mar- 

ABRIL. á8 



— 248 — 

C08 de Noronha, Conde dWrcos— quereria ser Administra- 
dor náo sendo Capitão General. 

A Irmandade de S. Gonçalo sob cuja vigilância está o 
hospital tem uma organisação de protectores, que uns 
descanção nos outros, e a cousa marcha mais— sua sponte 
—do que pelo impulso que lhe dà o zelo de tanto Zelador. 
O commodo para enfermaria das mulheres não é muito 
mào ; porém o da enfermaria para homens é muito estreito 
corredor que dá escassamente logar para os leitos, e um 
espaço para o enfermeiro andar enviesado. Ha esperanças 
de melhorar-se por promessa que fez o Dr. Berkett, encar- 
regado da clinica do mesmo estabelecimento pela qual per- 
cebe quinhentos mil reis em moeda sonante, fornecendo 
os remédios. iNâo admittem-se os tocados de moléstias 
contagiosas ; á vista da pequenhez da casa que poderá 
admittir dez a doze homens, e outras tantas mulheres e 
somente com duas enfermarias, acho bem preventiva essa 
medida. 

Tem finalmente seu acanhado jardim, cujos fundos estâa 
à margem do rio. 

A Igreja do Rosário da Irmandade dos pretos é um tem- 
plo por acabar, ainda que espaçoso, não tem cousa notá- 
vel : fica em uma collina rasteira e se o renque de casas 
que lhe fiei á esquerda da entrada não se unisse tanto, 
quasi que lhe encobre a esquina, ficaria ella no meio do 
largo e melhor vista se gosaria. Hum costume inveterado 
faz percorrer as ruas no sabbado o Terço da Mâe de Deus, 
a qual é recebida de todas as janellas, as mais humildes, 
com luzes ; e além do grosso acompanhamento de homens 
que vão na dianteira, outro igual de mulheres e mais bri- 
lhante faz cauda, contando entre essas devotas as principaes 
senhoras da terra. 



- 2li - 

A Religiosidade que se ostenta no culto externo nesl^ 
logar seria signal infallivel de funda moral, se as acções 
reaes não desmintissera as apparencias. 

São Gonçalo de Amarante, o Padroeiro dos casamentos, 
f^stà erecto no logar mais elevado de toda a Cidade que vai 
ella desde as ribas do Rio sempre subindo. Seu Templo 
porém é visto mais pela altura em que o collocaram, do que 
pela altura de suas paredes ; è uma capella de arrebalde, e 
de facto para ahi correm as famílias quando o abanar da ele- 
vada bandeira lhes annuncia que o Velho Ermitão vai ser 
festejado. É o largo mais amplo que teiios cercado de 
soffriveis casas, e que se enchem de familias n'esse tempo 
feliz, quando a donzella apparece formosa e louça sem o 
recato rotineiro da Cidade. Chamáo-lhe aqui o pequeno 
— Bomfim— em arremedo ao da Bahia, que lá também o 
festeijáo, ainda que, se os cotejásseis, a diíTerença seria 
d'um Pigmco para um Gigante : Com tudo bem religiosas, 
ricas, e devertidas que são suas festividades, principal- 
mente quando às reverencias da Igrej:i, se addícionão os 
festeijos chamados de rua, e nelles vemannunciadas as an- 
tigas cavalhadas. As Dulcineas Penedenses mais e mais se 
esmerão para verem (every one as he listes) o seu decan- 
tado cavalheiro da Mancha. Que vos direi dos Cavalheiros ? 
Que se presumem os dozes escolhidos pelo Duque de Alen- 
castro, e dos quaes nos relata os feitos o príncipe dos 
Poetas, a quem parece que fora feichado um olho do rosto 
para se lhe abrirem quatro na intelligencia. Não applica- 
reis a estes heróes de cà os versos que forão feitos para 
os de lá. 

Mastigâo os cavallos escumando 
Os áureos freios com feroz sembrante. 

(Est.— 61) 



— Íá20 — 

Dos cavallos o estrépito parece 
Que faz que o chão debaixo todo treme 
O coração no peito que estremece 
De quem os olha se alvoroça e temo. 

(Est.— 64.) 

E então é a garótice Senhora d'elles, que, atormentados, 
não volláo muitas vezes á liça. Foram os edificadores doesta 
Capella dous Frades Barbadjnhos. que para ahi vieram, e 
ahi morreram : Ha além das Igrejas, como acima digo, 
casas de oração e muitas Irmandades : a mais rica é a do 
Santissimo Sacramento, que possuemn património de mais 
de í 2,000:000 em casas e fazendas, e ornamento de custo, 
sendo a Capella muito decente. As casas de oração não 
merecem que sejáo falladas, cora tudo todas, tanto Irman- 
dades, como Imagens tem suas festas ; e tanto lia que 
fazer a esse respeito, e quem faça vida de agenciar festas, 
e muzicas, e enterros por devoção, que não toca isso para 
qualquer bilhostre : a esses por descargo de consciência 
applicarei o epigrama do— Boccage : 

Procurador não me enganas. 
Tu procuras para ti.— 

Ora visto que fallei em festas, não penseis que tustáo 
ellas grossos capitães, que felicidade ó para os devotos a 
barateza doesse género, pela quantidade da offerta ; porém 
o que vos posso assegurar é ser a muzica adoptada como 
principio de educação, pelo que dou parabéns ; e se não 
fora ella não se adoçaria a rudez d*esta Nayadc. 

Dos que se dedicão a esta arte ha dous grupos que odiáo- 
se como se fossem dous bandos políticos; e ornais galante 
é que nesta rivalidade apparecem as pessoas gradas, e 



— 221 — 

cada uma se empenha por seus Orphêus e Amphyões, a 
ponto de, em casos crus. tocarem uns as festas de graça, 
só para que os. outros não toquemt 

Tenho assistido a Missas cantadas em que entôâo, sopráo 
e tocáo 16 á 20 muzicos por preço de 4$000 ! Claro está 
que não o apreço d'arte nem o lucro, mas o requintado 
igoismo dirige as arcadas I 

Doesta rivalidade (se entre outra gente fosse) tirar-se-hia 
proveito , reduzida ella a emuíaçáo; porque só esta fàz a 
génio percorrer o estádio de sua intelligencia. 

A preguiça de uns, e a falta de meios de outros, final- 
mente o não quererem fazer dMsso uma vida habitual corta 
as azas aos que se ensaiáo para erguer esses voos que ele-» 
varam— Mercadante— Marcos Portugal— e Bellini. 

Atrellão-se a dous ou três glorias de caus, ao memento 
do prezo e muita vez sobe a— 'Sagrada Forma — ao som vo- 
luptuoso das quadrilhas, tiradas da Norma O Espirito 
e o que propriamente appellidáo os hoje súbditos de Na- 
poleão— 3.®— de— amabilidade, se aqui andou algum dia, 
desconfiado fugio ; e a razão de sobra para este juizo é a 
falta de sociabilidade. Força-se quasi um individuo para 
jantar, ou passar algumas horas da noite, c tomar uma 
chávena de chá 1 Os costumes são ainda longe doesse verniz 
do alto, e grande mundo, d^essas complacências que temos 
para não encommodar ás pessoas de certa ordem— a uma 
Senhora— e antes dar-lhe prazer— as vezes com detrimen- 
to, somente por ouvir-mos o pomposo e nobre nome de — 
Cavalheiro.— 

O verniz ainda está por polir, e as complacências apenas 
lampejão. 

Se alguns mettem-se nisso, são pennas de pavão sobre 
a nojenta gralha da fabula; e feitos os primeiros rompan-- 



— 222 — 

tes. desmudáo-se, mostrando cada um para oqueé. Bera 
aventuro, desculpando esse methodo como filho de crassa 
ignorância de alguns— Potencias— que brilhâo como os 
corujões nas frontarias das Igrejas pela parda noite, mas 
que fogem e se irritão com o Sói apino I Cifra -se todo o 
divertimento hoje por mim conhecido em um theatrinho 
particular : náo é um Sing— Song— chinez, nem pela am- 
bulância nem pelo scenario, nem pelas roupagens; poderá 
preencher satisfactoriamente alguns en tremeses. 

Dizem-me sócios que é uma excellente estufa, e que da 
companhia— de curiosos — só tem mérito um cómico gra- 
cioso e que faz nos papeis de bêbado, a cousa muito ao na- 
tural ; com tudo deve-se essa caricatura ao Dr. António 
Gonçalves Martins, quando Juiz de Direito doesta Comar- 
ca : pôde desfazer repugnancias. que tinhão alguns pais 
de familias. talvez imbuidos nosprincipios do Philosofode 
Genebra que tanto guerriou a criação d'uma semelhante 
escola em sua Pátria imitando a Demosthenes. 

 instrucçâo pnblica tem por apanágio duas Cadeiras de 
l .** Letras para o sexo masculino e uma para o sexo femi- 
nino : além de uma Cadeira de Latinidade. Hoje ha outra 
do sexo feminino. Pouco seria para uma Cidade que conta 
mais de 1,000 casas, se o amor dos estudos fosse arrei- 
gado na mocidade: pelo contrario as esperaoças a este res- 
peito sáo agoadas, e é uma lastima a direcção que seguem 
os Jovens, e o espirito de desobediência e desenvoltura 
que apresentão— salvas as honrosas excepções ; pois muitos 
ha morigerados, e que demonstrão as lições recebidas de 
seus Pais ou preceptores. Náo lhes devo negar com tudo 
o talento que reveláo, e só desculpo muitas travessuras que 
por aqui fazem, dignas de correcçáo, applicandoa máxima 
seguinte de— Rochefoncontd.— 



— 2á3 - 

La jeúnesse est une ívresse continulle ; c^est .'a lievre de 
la raison. 

Ha uma Mesa de Rendas Geraes internas, cuja impor- 
tância montou nos 3 annos últimos na quantia de Rs. 
14,402:570— e o recolhimento dos dinheiros de Orphãos 
que importou em Rs. 14,064:914 — bens de ausentes 
131,863— evento 69,000. 

A Mesa Provincial que arrecada a exportação, é impor- 
tante ; e pelos géneros despachados ajuisareís da cultura e 
industria d'estes logares. 

Despacha-se algodão, assucar, sola, couros, pelles 
legumes , azeite de rícino , caroà , cera , lã de paina , 
chamada aqui— barriguda — lã de caianna — óleos purifi- 
cados, etc. 

A quantidade d*estes artigos no exercido de Julho de 
1831 até 1832— foi de 38,505 arrobas e 15 libras de al- 
godão, 34,948 arrobas de assucar, 25,717 meios desola, 
22,872 pelles, 944 couros de gado; farinha de mandioca 
3,012 alqueires, feijão 990 alqueires, milho 6,801 alquei- 
res, arroz 3,93o alqueires, mamona em grão 108 alquei- 
res; azeite 3,370 canadas, óleos purificados 5, 169 canadas; 
caroà 13 arrobas; lã de barriguda e caianna 25 e 1/2 ar- 
robas; o valor da exportação montou a 300,239:420 rs., 
dando de direitos 13,414:352 rs. , no exercício de 
49 á 50 importou em 400,414:845 rs., dando de renda 
18,919:850 rs., 

É necessário fazer-vos uma advertência, que as medidas 
d^aqui são excessivamente grandes, sendo o alqueire maior 
4 vezes que o do Rio de Janeiro, e contendo a canada 10 
garrafas regulares. As casas fortes não são aqui conheci- 
das; duvido que haja capitalista, proprietário, ou negoci- 
ante que possua de seu 100,000:000, não direi em negocio. 



— 2il — . 

porque os ha ile maior somma, porém falfó de fortan<i 
desobrigada, ou por outra forma, sólida. 

O Commercio, cujas casas avQltáo nos algarismos, que 
abaixo darei, no geral é todo a fé de preço, cõmpráo à Bahia 
ou a Pernambuco para revenderem, não ha uma casa que 
propriamente mereça o nome de armaiem, cujas transa- 
ções se facão por atacado ; e algumas que isso tem tentado, 
luctáo com difliculdades, qaasi insuperáveis; porque sendo 
pela mór parte as lojas fornecidas pelo Commercio da Bahij][ 
principalmente, náo faz conta ao Commercio d'ali que ha- 
ja aqui depósitos, ainda que de fazendas lá complradas, 
que absorvão a multidão de immensos Mascates, queabor- 
dâo à margem doeste grande Rio, e percorrem o centro. 

Vai a morrer ó gyro de fazendas, se deixarem-se illudir 
os logistas mais fortes que com àquella Praça commer- 
ciáo ; pois que trazendo estes a fé de preço, e a prasos 
curtos, grandes sommas, e não podendo fazer aqui praça 
de mais extenso mercado, para que nella se abasteçâo os 
Mascates de rio acima, ficarão redusidos ao varejo ; trafego 
que nunca lhes proporcionará meios de pagarem seus etú- 
penhos. 

Demais, estabelecida a pratica dos mesmos negociantes 
da Bahia enviarem para aqui seus caixeiros, ou Propostos, 
carregados com fazendas e géneros mais l)aratos e com o 
pregão de que vão para a Bahia buscar tudo directamente ; 
que terão mais commodo e com os mesmíssimos prasoâ 
concedidos aos maiores logistas, é isso completamente 
empenharem -se em acabar d' uma vez o Commercio d'este 
logar, ou irem-no matando lentamente. 

Existem abertas— 37— lojas de fazendas, e 10 de mo- 
lliados, 3— de marcinerias— muitas de carpina, muitas de 
alfaiates e de sapateiros— duas de funileria, 2 dq tanoaria, 



^ 



poucos Calafates, poucos Ferreiros, duas lendas de Bar-' 
beiros. porém que não podem dizer — Io sono um barbiere 
de qualitá — por serem libertos e mesmo pouco saberem 
de tesourar e raspar queixos, mas prestáo elles para muzica, 
que dous bandos ha d'esses Orpheus, côr da escura noite, 
e que andáo também em continua polemica, como jà vos 
disse. 

Uma botica, nâo porque falte moléstias, porém porque 
a homoBopatbia vai aqui em progresso, eas boticas de al- 
gibeira trazem tanta provisão das ovas de aranha, como 
chama, os miraculosos glóbulos, o nosso Senador e insigne 
Medico — ^Jobim; — que um só frasquinho será capaz de 
curar— urbes et orbes, e digo um erro, porque, segun- 
do a fé da sciencin, basta um glóbulo e que este, segundo 
va sempre dinaraísado— per omnia secula seculorum ! — O 
Dr. Berkett é Eccletyco, isto é, usa d'umae outra sciencia-, 
6 cura á vontade do enfermo com a sua proverbial pa- 
chorra : ainda com este vamos bem porque tem um titulo, 
ou está autorisado para dar até receitas à morte, se per- 
der a foice como dizia o Boccage no seu bellissimo epi- 
grama. 

A morte perdendo a foice 
Crêo sua força desfeita 
Disse-lhe um medico insigne 
Aqui tens uma receita. 

Porém muitos doutores lia por aqui qne tanto homoeopá- 
thica como halopaticamente são mais inconscienciosos que 
o Dulcamara— c também apregoáo— sem a graça do bufo 
fio Elexir — Comprati il mio elexir— Io per pouco velo dou I 

Muitas casas de dislillaçâo existem até bem no meio da 



— 226 — 

população e o bello Camboís faz com que muitos sigáo as 
lições do intemperante — Baccho — contra os sãos princí- 
pios da sociedade de temperança nascida no foco dos — 
grogues — e dos odres de cerveja. A melhor d'esse género 
e a mais bem montada é a de Peixoto Villas-Bôas. 

Algumas prensas de espremer a mamona existem pela 
inór parte depào, eextrahem o azeite preto e nauseabun- 
do—a única que merece o nome de fabrica é a da casa de 
Araújo & Filhos, que trabalha com quatro maquinas de 
nova invenção e de ferro, e que podem espremer 200 ca- 
nadas por dia , e dê óleo de ricino e azeite purificado 
inodoro e ctoro como agua, algumas vezes. 

Tem isso dado grande impulso á plantação de ricino, e 
tanta tem sido a colheita, que fornece já a mais de 10 ou 
12 prensas, sem fallar na de Araújo & Filhos que móe an- 
nualmente 1,200 a 1,600 alqueires doesse grão. 

Os proprietários doesse estabelecimento chegaram a pa- 
gar ao principio, para animar os lavradores, o alqueire a 
10,000 e 12,0001 Hoje o preço regular é de 5,800 a 
6,400 rs. Este anno esteve a mais de 12,000 rs. É um 
serviço importante que elles tem prestado à Provincia, 
promovendo esta cultura, quasi abandonada, e feito cres- 
cer a receita dos dizimos de lavouras que só os d'este 
Termo se arremataram por preço deRs. 2:6008000 haven- 
ilo rendido antes do estabelecimento das fabricas 600,000. 

A praça de mercado é a feira nos sabbados de cada se- 
mana, acciímulão-se à margem do Rio, na Rua chamada da 
Praia, as vezes perto de 300 canoas, e providas de tudo 
quanto cada bofarinheiro pôde aggregar nos outros dias 
para sua exposição sabbatinal. 

Trazem pela mór parte os géneros de primeira neces- 
vsidade, fructos, hortaliças, e até flores ; e é a reunião de 



— 227 — 

feirantes muitas vezes excedente de 2,000 pessoas, porque 
concorrera muitos do centro a cavallo, carroças e a pó. 
Diz a Escriptura que Deus no septimo descançou, e por 
isso aqui também n'esse dia não se trabalha, e somente 
vende-se, e compra-se que comer e o preciso para 7 dias; 
pois nos outros não concorre cousa de que se alimente 
a gente. 

Vamos á própria casa, e direi somente o que é ella aqui 
no Penedo — Fazei ideia d'uma margem de rio estradada 
de canoas de todos os tamanhos, e carregadas de todos os 
géneros vendáveis, d'esde os mais conhecidos até o gini- 
papo bravio, o jaracatiá, etc. Fazei ideia d'uma aglomera- 
ção de pessoas de todas as idades, de todas as cores e tra- 
jos, e até condições, a procurar que comer c em uma rua 
que não terá das casas ao bordo do Rio — cem passos — e 
fareis ideia do mais. Quanto a mim é esse costume o con- 
ductor da necessidade e fome constante, e mào passadio 
de que se rescente esta Cidade, em razão de que o mais 
fresco, o melhor se perde ; ou porque não dura atè sab- 
bado, ou porque no sabbado come-se passado, ou porque 
vem ao mercado, máo, e precoce, para aproveitar-se a 
venda d'essc dia previlegiado, que dá logar a tanta con- 
fusão, e procura precipitada, pelo receio de não se terem 
as cousas ; o que tudo faz que n'esse dia não haja pai por 
filho, nem filho por pai !— É o—dies iroB f Quem viajar o 
Penedo n'esse dia, fará ideia da actividade d'uma Cidade 
Commerciante, ao passo que nos dias seguintes parecer- 
Ihe-ha que são estatuas mudas os logistas e o povo que no 
sabbado corria. É uma vida cm languida modorra, da 
qual se disperta pela diliranto febre de 8 em 8 dias. 

Tenho até aqui descanç-ado, pois que desenfadado e^tou, 
proseguirei na minha viagem de Rio acima, e a farei— 



— tiH — 

paulatiin sed anibulamlo— e dir-vos-hei, ({ue logo com a 
Cidade do Penedo» se liga o engonho—Iboiacica — pro- 
priedade — do Commandante Superior n^formado doeste 
Termo — o finado Coronel José Ignacio de Barros Leite. — 
É um logar aprasivel, e mais se torna nas épocas das va- 
santes pelo grande pescado que dà a Tapagem— que tem 
o mesmo nome, por ser feita no Riacho Iboiacica. Pode- 
ria esta veia, beneficiada pela máo prodigiosa da industria 
humana, ser navegável umas 6 ou 7 legoas, para o centro ; 
que tantas lançâo as enchentes, porém como tudo por aqui 
está na primitiva, só se aproveita e disperdiça com a na- 
tureza. 

Sabeis — Sr. Capanêma — o que é uma tapagem na bocca 
d'um riacho que tanto ao longe hospeda as aguas de tão 
grande Soberano, como é o S. Francisco ; e por isso não 
me demorarei em discrever-vo-la ; porém com tudo força 
é referir que para ahi concorrem em tal numero os povoa- 
dores do húmido elemento, que este anuo foi arrematada 
por I:700í e tantos reis, e que o Tapageiro arrematante 
teve um dia de 18,000 peixes ! I ! Por essa batalha (em que 
ficaram no campo tantos mortos I) conliecer-se-ha que, 
posto tenha a Camará este ramo de receita, o damno é in- 
calculável. Não se pôde fazer uma ideia do furor, com o 
qual um doestes conquistadores das aguas estraga os povos 
conquistados, são os nivaróes de — Terracina — não poupa 
nem sexo, nem idade ! 

A rapidez, com que escoáo-se as aguas às vezes, faz o 
peixe, por sahir, furioso ; e ou seja pela estagnação depois, 
ou pela ira dos conquistados nos espaços de sua liberdade, 
tem sido elles muitas vezes alimento damnoso â saúde pu- 
blica, e apparecido tem as Camarás de sangue, e as ailicas 



entre a população miserável, que mais se farta nos des- 
pojos. 

Contâo-me antigos— que antes das tapagens, o Rio far- 
tíssimo era de pescado c os tenho ouvido— que n'esse tem- 
po as Tubaranas envestião as canoas e alguma dava de 
jantar ou de cear ao accommettido^ que de bom grado 
lhe perdoava o susto pelo bem que lhe sabia : Ora, se assim 
parece ser verdade, uma lei deveria sancionar a abolição 
das tapagens em ambas as margens ; e assim tornara abun- 
dância ao pobre, que fora da épocha de conquista, lucta 
coma tarrafa, noite e dia, sem colher uma — piaba!... 

Ha logo pegado ao Engenho uma Capella abandonada, 
cujo começo indica gosto, é pertencente aos Irmãos da 
rica ordem dos— Bentos— e tem a invocação de S. Amaro 
que não é Sancto nú, e por isso não atino com a razão, por 
que nua deixaram -lhe a casa. Corre pela direita a vargem 
— de Mathias de Souza— origem de duvidas entre herdei- 
ros e novos donos — e entremeiáo diversas Ilhas sendo a 
mais mencionavel a de D. Antónia que conta fertilissimos 
massapés para cannas ; são os cannaveaes d'ahi que ali- 
mentáo a moagem do proprietário jà fallado o mais conta 
dous pequenos Engenhos. A diante do Mathias de Souza, 
vai a Senhora da Saúde, cuja capellinha alva como a co- 
lumba da arca, não lhe assentaria màl — o sic illa ad arca 
reversa est — porque na verdade é também uma certeza e 
uma desejada esperança aos que descem de — Piranhas— 
para o— Penedo. 

Logo que se diz— estamos na — Saúde — sente-se uma im- 
pressão semelhante a que nos causa a palavra — terra — 
quando estamos com longa viagem de alto màr. É collo- 
cada cm uma Povoação ou arraial composta de boas casas. 



— 2:]2 -- 

São de barro, e ainda nus 
Estão ambos os outoens, 
Na térrea còr nâo reluz 
O lindo astro ao nascer 
Vai-se n'elles fenecer. 

Assim ella edificada 
Por paupérrimo devoto. 
De unidos troncos cercada, 
Foi plantada n'este outeiro 
Doeste rio a cavalleiro. 

Isolou sua devoção, 
Como a si esse devoto 
£ lhe põz a invocação 
Da virgem de seus cuidados. 
Que nos perdoa os peccados. 

Entre o mato isoladinho 
Sobre um pincaro firmouse. 
Como Águia firma o ninho, 
E a cruz da redempçào 
Elevou ao céo então. 

9.0 

Doeste mundo segregado. 
Talvez por arrependido 
Do que n'elle tinha obrado. 
Pregou as vistas no céo 
Reformou o peito seu. 



— ^1M\ — 

10.*» 

Só por companheiros linha 
O bosque que dava o fructo, 
O Rio que corre azinha, 
E dentro do coração 
O pensar da salvação. 

Não tinha outro a fazer 
Que adorar a virgem pura» 
A virgem de seu prazer, 
E por isso a appellidou 
J)o prazer com que lidou. 

O feio monte fragoso 
Ornado doesta Igrejinha. 
Esse refugio gostoso, 
Por anliphrase mudou 
Prazeres se appellidou. 

Quem navega nVste rií) 
Busca a vêr esse devoto ; 
Mas ninguém conta que o vio, 
E assim a devoção 
Passou com a tradiccão. 

Pela direita vão as habitações do Mi)rrinho da Pindobít 
— os Morrinhos — e o Sacco — tendo em meio a Ilha das 
graças e a coroa dos Caldeirões. Não povoáo a Ilha as aves 

ABBIL. 30 



que lhe dão o nome ; que apaixonado ou pela caça ahi 
nunca as vi que me excitassem a queimar com ellas uma 
espoleta. 

Depois do Sacco vereis as casas do Midiíi, com seu ca- 
nal, formado com a Ilha da Formosinha, e do lado esquer- 
do o — Arraial — Itinba — com sua Coroa do mesmo nome. 

A Itinba — não gosa bons créditos a bem da ordem e 
tranquilidade publica: o fundador doesse ramo é um serva 
da Ley na phrase dos criminalistas. A diante do — Miahú 
está o— Morro da Càl e pegado a este a grande Villa de 
Própria : tem à vista os Cajueiros-^ Urubu, e a Povoação e 
Matriz do Porto Real do Collegio. 

Deito aqui a ponta de minha canoa, por ser essa phrase 
mais própria ao caso, do que as expressões do author do& 
Luziadas. 

Toniáo velas; aniaina-se a verga alta 
Da ancora o már ferido em cima salta 

e tendo feito outras sete léguas, tornarei a refocíllar, di- 
zendo o que de mais notável se fizer n'estes dous viveiros 
de gente. 

A Villa de Própria é a segunda Povoação doeste bello 
Rio, conta 498 casas pouco mais ou menos, uma elegante 
Matriz cuja capella-mór — é recentemente lavrada de talha 
e bem dourada, d'entro é espaçosa e possue a capclla da 
Sacramento lageada de mármore ebcm decorada. 

Quando visitei esta Igreja, disse-me um dos da terra 
(|ne o mármore do lageado era achado nas ])edreiras do 
logar, o que de alguma forma surprehendeo-me ; pelas 
duas cores de branco, e acinzentado, epelo trabalho opti- 
mamente preparado — não dei credito ao individuo, e veri- 
fiquei ser vindo da Europa. 



— 2:];> — 

A M itriz de Própria foi antiga capella com a invocação 
de S. António do Urubu. 

Tem mais a Igreja do Rosário e a casa de oração dedicada 
à Sancta Cruz. A Villa está dividida em dous bairros cada 
um em sua eollina, sendo no Valle uma Lagoa que sangra 
para o Rio por um canal de— 20 — palmos, está à beira do 
Rio todo o Gommcrcio. As propriedades à margem do 
Rio são quasi todas de sobrado e alguns bem edificados 
ainda que seguem o mesmo prejuiso de despresar a pedra 
que tem à porta, para construírem de úiadeira, que vão 
buscar de algumas léguas longe, c tál é o deleixo; culpa 
da Municipaliílade, que por não ter-se o trabalho de depo- 
sitar alguns milheiros de lages que estão ao pé da Villa, e 
com ellas fazer, pelo menos um càes de pedra secca, tem 
o Rio em suas enchentes levado ruas inteiras I Parece in- 
crível que no século dos progressos materiaes sejâo aqui 
e!les tão esquecidos ; mas é ponjue não é o século que in- 
flue; são os homens do século, os quaes faltão n^estes lo- 
gares entregues à inércia, ou ao acaso. 

Tem uma feira aos sabbados tál qual a do Penedo sendo 
que as medidas daqui para cima são ainda maiores f Á frente 
da Villa tem um banco de arêa que faz com a margem onde 
a acimentarão, um canal ; o notável d'elle é ser um viveiro 
de tão ávidas e vorazes Piranhas que raro é o infeliz huma- 
no que por ali passa inpunemente; não sei se existe algu- 
ma — Calipso — transformada em peixe que também diz aos 
náufragos e viajantes — Sachez. . . qu' on ne vient point im- 
punemente dans mon empire— pois os que se tem salvado 
trazem a reminiscência de seu infortúnio na falta d^uma 
barriga de perna, dedo, e as vezes até no ventre custu- 
radol ! ! . . É a residência do Juiz de Direito que fugindo 
ao feudo da Villa Nova fez por sua segurança d'essa Villa 



— 230 — 

a cabeça da Comarca, hoje confirmada por Lei Provincial 
(Peste anno. Tem ella as auíhoridades de nossa organisa- 
çâo. Civil. Policial e Judiciaria e Ecciesiastica. O adianta- 
mento a lodos os respeitos é abaixo do da Cidade do 
Penedo. 

Não adiantarei mais a respeito doeste logar, para que náo 
commetta alguma inexactidão; por quanto só me demorei 
n^essa Viila umas 24 horas. Muito me arrebatou a figura 
colossal d'um frade — Beneditino que apresenta uma cor- 
fK)lenta arvore inrraisada na ponta do — Morro— da càl, sua 
cimeira destaca-se isolada para as nuvens fazendo um cha- 
peo desabado, o tronco limpo entre o chapeo e corpo da 
arvore, pela claridade do àr, finge perfeitamente o rosto 
alvo d'um homem, e o resto da arvore um apanhado dos 
hábitos, e está como quem desembarcou naquellas pa- 
ragens, evai subindo desafrontado o morro nomeado! 
muito me arrebatou essa ideia fantástica produsida pelos 
contornos d'essa arvore ! 

A Povoação do Collegio foi antiga Missão dos Jesuítas e 
hoje é uma Freguezia com o mesmo nome de Porto Real 
do Collegio. Está assentada em um teso à borda do Rio, 
cujas margens estão orladas de rochedos de granito, e 
bastante fragosos ; terá uns cem vizinhos pela mór parle 
de raça indigena ou mistiços. A Matriz é miserável, e tudo 
vai em ruinas e decadência ! 

Aqui a fama das obras e gosto e velhacaria Jusuitica tão 
temida, ê um real contraste ! O convento terá merecido 
este nome se lambem costumavam assim appellidar a uma 
perfeita espelunca ; pois que é esse edifício rasteiro sobrado 
e de janellas. e portas tão apertadas que mais se parece 
com um pombal, do que com habitação de frades, e da 
que frades ! 



— 237 — 

Penso que os fundadores náo pertenciáo á tál ordem, 
porque náo ha traço ou vestígio que demonstre os dedos 
dos gigantes que só foráo derribados pelo poder de outro 
— o Marquez de Pombal. 

Alguma alegria que o coberto coração do viajante que 
vai ao Collegio pôde ter, é pela vista fronteira, a Villa de 
Própria. — que na verdade fica bem esbelta e senhoril com- 
parada com a sórdida Povoação sua vizinha de frente. 

Concorre muito para essa sua belleza a largura do Rio 
n'este logar sem Ilha alguma de permeio.— É uma das 
maiores bolinas (jue tem a canjar aquelles que sobem ao 
Sertão ; porém o quadro visto em dia claro e com vento 
franco é uma bella passagem. 

Hoje por Lei Provincial d*este anno está mudada a Sede 
da Freguezia para o Povoado de S. Braz. É isso mais um 
dos excessos que commettem as nossas Assembléas, que 
até determináo aos Vigários onde, e quando devem orar ao 
Altíssimo! No seguimento ao Collegio vão os logares— 
Correnteza— e Domingos de Mattos — ficando do outro lado 
— o Lagamar — Pào ôco— Sucuruiú — Morro do Prego — 
Lagoa Tapada— e Campínhos — que é um colle alcatifado 
de verdura em todos os sentidos, á cavalleira do Rio, e co- 
roado d'uma espaçosa casa. residência, no Campo do Juiz 
de Direito da Comarci— de Villa Nova — o Dr. Bernardo 
Machado da Costa Dória, que teve melhor escolha para si- 
tuar seu casal do que os fallados Padres da Companhia, es" 
colhendo o Collegio. 

A estes logares fronteiros estão na margem esquerda os 
do Sampaio, e o Povoado — Tibiry,— cousa insignificante, e 
S. Caetano, e o Povoado de S. Braz com as Ilhas de S. 
Braz, e do Rosário, tendo à vista o— Amparo—com uma 
pequeníssima Igreja e má. — Jaguaripe— João Soares — e 



— áas — 

Rua do Fogo — assim cliamada por ter um renque de pe- 
quenas cas^s, cujos moradores acccndera Iodas as noites 
muitas fogueiras. 

A Povoação de S. Braz conta perto de 170 casas com 
duas Igrejas de S. Braz, o Padroeiro, e N. S. do Rosário e 
um Oratório da S. Cmz. 

Tem uns dous sobradinhos e as casas são mais limpas c 
melhores que não as do Collegio : a forrn dos liabitantes 
da Freguezia e Districto tem concorrido para aqui. Tem 
um grande canal que dá hoje váo, e com uma grande coroa 
em frente, dando assim péssimo desembarque. É extensa 
a criação de porcos, ea factura de sabão da terra, além de 
criação de gados e lavouras. É notável este logar pelas 
scenas occorridas entre os partidos politicos appellidados 
de — Galante e — Caborge. 

Segue-se o Morro do Gaio, dizem os habibantes, ainda 
que parece-me ser uma contraçâo de — Galho — e indica isso 
as grandes arvores que servem de cocar ao pedregoso ou- 
teiro, cujo aspecto se mira no espelho das aguas. As Emen- 
dadas (casas)— e a Povoação da Lagoa Cumprida, queapre- 
senta-se bastante alegre por serem as casas todas á borda 
do Rio, caiadas, e cgm arvores corpolentas pela margem, 
de maneira que formão um sombrio agradável, concorren- 
do assim para que ali se faça, quasi sempre, parada no su- 
bir, ou descer para gosar do fresco dessa alameda natural, 
prodigio de nossa vegetação. 

Tem uma Igreja pobre, mas decente ; e pela frente uma 
grande coroa em que dà muito plantio de arroz pelas lamas 
que lhe deixão as enchentes. São os habitantes pela mór 
parte criadores e cortidores : e finalmente a Lagoa do Reis 
com um pardieiro, que nada tem de régio Solar, para que 
a Lagoa que existe n'elle, tenha tão pomposo appellido. 



— úU9 — 

Com a Rua do Fogo emenda-se a— Borda da Mata— 
antiga fazenda de gados do curandeiro — Capitão Piza, que 
parece fora de grandes interesses pelos curraes de pedra e 
cal; porém hoje methamorfoseada em Engenhos de moer 
cannas do proprietário o— Major Francisco Joaquim da 
Silva Lemos, o qual aventura muito boas safras pelos soc- 
corros dos vizinhos fronteiros do Povoado— Munguengue— 
que serão seus infalliveis lavradores, pela quantidade de 
cannas, que plantão, e que não moíão por falta de força ; 
a qual de presente encontrão na Borda da Mata. 

É o— Munguengue terreno dos melhores para planta- 
ção de tudo, pertence a muitos herdeiros e ainda que do 
Rio se vejáo poucas habitações vão ellas emboscadas de 
beira Rio e para dentro obra de meia légua. lia nesse lo- 
gar muitos cortumes de couros e pelles; e alguém jà cor- 
tio as pellicas perdenJo-se hoje essa industria porque 
morreo com o dono. 

D'esse logar principiáo a apparecer os rochedos Mica- 
cliistos como os das amostras— N.® 3 N.° 4.— Adiante da 
Borda da Mata,— seguem as— Amigas— Covão— Uma ris — 
é Curiaes, pequenas casas. O Covão é um alcantilado ro- 
chedo escalvado por onde no inverno se despenha uma es- 
pumante cachoeira. 

Caminhão por esse mesmo lado muitos morros ate o lo- 
gar— Tijuco— ao passo que pela esquerda preenchem este 
intrevallo os do Ouricury, povoado do Rabello com sua La- 
goa do Toumbury, e os Sítios do— Bode Melado— Co- 
roas— Lagoa Grande e Lagoa Funda. 

O Arraial do Rabello é tão galante como sua nova e pe- 
quenina Capella, é esse logarinho uma bella Cécem aberta 
no meio de Silva. O Tijuco é celebre pelas façanhas de seu 
fundador conhecido por Chico do Tijuco, seus grandes e 



— áiO — 

rendosos meios de vida erãu a lavoura, criaçào e o cor- 
tumc. 

Não fazia elle as atrocidades dos Cavalleiros de— Vi- 
reau — cujos bosques tinháo Cadáveres seccos das victimas 
de saa prepotência, os quaes balançados pelos ventos, cho- 
calhando os ossos, davão esses sons na intitulada — Lyra 
de — Vireau ; porém bem lhe poderíamos chamar um des- 
ses espadachins de temer. 

Contãoque possuia um bacamarte que alcançava a largu- 
ra do Rio, que nesse logar não terá menos de um quarto de 
légua ! Bem poderia supprir a falta do Celebre Casàpo que 
tinha a legenda a— quem meu Senhor oílender a cem lé- 
guas buscarei. 

Ao Tijuco segue-se a Serra da— Tabanga— quefica so- 
branceira às Collinas e Rochedos micachisticos dos logares 
—Marcação— nome tirado do riaclio que por alii desagua 
— Saccão— e Villa do Porto da Folha, conhecida igualmente 
por Traipu. Tenho feito sete léguas, e força ó tomar as velas 
e abicar ao porto, para que mais socegado vos conte a horri- 
vel belleza destas fragoas, e o que seja esta Villa cabeça do 
segundo Termo dos meus dominios judiciários. Ologar-^ 
Saccâo — propriedade do Dr. Antoxio Joaquim Monteiro 
Sampaio é umrazo monte de rocha negra fragosa e em semi- 
círculo, de forma que sua testada para com a coroa que beija 
a longa Serra da— Tabanga,— fazem um perfeito— X— e 
é nesse apertado, e que nas vazantes do Rio terá a distancia 
de um tiro de besta, que correndo todo o Rio, demonstra 
visivelmente um cogulo, tornando-se passagem perigosís- 
sima, visto como são os ventos ahi sempre ponteiros. Se a 
pode bem appellidar de Adamastor do Rio de S. Francisco, 
É de uma rocha micachistica como da amostra— N. S — que 
se desprende por laminas umas doiradas e outras prateadas. 



~ á41 — 

Náo Jhe medi a altura e distancia senão pelo Barómetro— 
e Theodolito— de meus olhos, éum arremedo do Corcova- 
do que faz parte desse Gigante a quem a Voz Divina lhe 
grita — Surge, et Impera. — Ahi o Rio se encapella e 
— falia— horrendo e grosso, que parece sahir la de seu 
fundo. É uma sentinella do soberbo— Paulo Aflonso,— e 
que por ordem delle pode perguntar igualmente aos --Na- 
ve^mtes. 

Pois vens vèr os segredos escondidos 
Da natureza e do húmido elemento? 
Sabe que quantas nãos esta viagem 
(Jue ta fazes fizerem de atrevidas 
Inimiga terão esta paragem. 

Ahi parece que a natureza alteoj a terra: estradou a 
margem opposta de rochedos ; cavou profundamente o rio ; 
es'iureceo as aguas; pôz os ventos ponteiros, e estreitou a 
passagem para atterrar, e ata \\i\r o atrevido homem em 
seus passos 1 ! 

. É a belleza que em vez de— Thotis— encontrara— Ada- 
mastor. 

Um duro monte 

De ásperos matos de espess ira brava 

As sinuosidades que faz a grossa arterea desde os mor- 
ros— Três Irmãos— até a— Tabanga— da-lhes transfigura- 
ções dignas de registrarem-se. Para quem vem debaixo 
estes não ofTerecem outra belleza. mais do que a de Ver- 
des Montanhas, cada uma Cí)m sua casa, mais ou menos 
bem edificada; porém mal que tílias vão ficando pela 
pôppa da canoa» nos parece cada morro um Elephante 

ABRIL. 31 



— i4á - 

♦>nit 3^a— OjoabJfTy — mais, ou menos rico, e a Sem — Ta- 
^1^ — ;]( ttôl desse rebanho ! Esta ao deixar-se lambem 
piM- >íjtt vn^ unindo seii todo ao Outeiro, representa per- 
i ^MtÉÉm ip nâo mais a Elephante entre os íílbos ; porém 
IMIA MDQSlruosa Toninha que, embebendo -se nas doces 
a^juaií;. subio até aqui ; e querendo regressar a seus lares 
sàl^tos encalhou na larga e extensa coroa, e ahi i>etrili- 
ciHhse. Sobre os rochedos que entestão com a Serra su- 
liwmencionada.collocaram seus fundadores a Vd a do Porto 
da Folha, conhecida igualmente por— Traipíi.— Foi ella 
uma fazenda de gados dos antepassados de Manuel dos 
Santos Lima. Fica norte sul. por este lado— corre o S. 
Francisco pelo de leste a Lagoa da Igreja, e pelo oeste a 
Lagoa do (iarlos, e o rio Traipú, formando assim do Po- 
voado nas enchentes uma peninsula ligada com a terra fir- 
me pelo lado norte. Conta a Povoação 212 casas sendo al- 
gumas de sobrado e com a mesma maneira de edificação — 
madeiramento. 

Seguem as ruas as tortuosidades da margem do Rio e 
tem as casas os fundos sobre elle, tornando-se por isso 
sua vista triste como a de objectos vistos pelas costas! 
Possue uma Matriz em obras, sendo toda de pedra e cal : 
pôde vir a ser um soffrivel Tempío, A antiga Matriz foi 
levantada no logar Sacco por D. António de Giquià em 
1760 : dizem que a Imagem da Senhora do O' fugia para 
Porto da Folha, e contradizia assim a teima de a levarem 
para o Sacco. Em 1781 o Padre— Rezende— mudou-a de- 
finitivamente para Porto da Folha— ou Traipú,— e seu so- 
brinho o Missionário PadreFrancisco JoséCorreia- obteve 
a doaçáo de meia legua de terras feita pelo proprietário 
Manuel dos Santos Lima, e sua mulher Rita Maria da Con- 
ceição, estando preso nas cadêas do Penedo, não pude sa- 



— 243 — 

ber porque motivo. Seu genro ainda existente, o Alferes 
António Nunes Coelho , tem 94 annos, e ainda monta a 
cavallo, casou se em 1790, tem 17 filhos, e sua mulher 
Anna Maria dos Santos Lima vive ainda, os filhos sáo 5 
senhoras e 12 homens, e entre estes, netos e um bis- 
neto conto 103 descendentes! O Commercio é soífrivel, 
é a geral occupação dos residentes dentro da Villa, sendo 
a dos habitantes de fora a lavoura, e a criaçáo. 

A lavra de arroz é em grande escálla, e as Lagoas que a 
isso se prestáo dão atè renda para os seus proprietários. 
Aqui também está estabelecida a conquista aquática, e 
rendeo a tapagem do Traipu 400 e tantos mil réis, porém 
este anno os povos conquistados, ajudados pelo favor da 
enchente que foi mesquinha, libertaram-se, fazendo o ava- 
rento e cruel tapageiro perder no preço porque os preten- 
dia escravisar. 

O Riacho— Traipú— não ésusceptivel de navegação; tem 
longo custo no inverno e suas cabeceiras não váo além da 
Serra— Broxa— deixando, desde as das Mãos— até ao logar 
Cachoeira do Traipú,— poços que servem d'aguadas nesses 
borrados Sertões; nelles curtem os coiros, epelles, e la- 
vão o caroá cujos campos são vastos e quasi inesgotáveis. 

Não ha cadêa, e a casa da Camará, que também serve 
para a do Jury, é muito insufflciente. Restão comtudo es- 
peranças pela consignação, que na Assembléa alcançou o 
Deputado— o Tenente-Coronel Theotonio Ribeiro e Silva, 
de 6:000 i 000 rs. para a dita cadêa. Se este canto náo 
tivesse o seu representante Provincial bem creio que náo 
se lembrarião delle. é por essa razão que tive e tenho 
como idéa fixa, que a representação Provincial devia ser 
por Villas, ou Municipios, como é a Geral por Provincias. 

O rochedo que circunda a Villa apresenta varias locas, e 



— 244 — 

algumas tão amplos á borda do Rio que dâo logar a sob el- 
las, abrigarem-se muitas pessoas de uma vez. São logares 
de óptimos banhos naturalmente cavados peias aguas. 

As amostras que envio de N.^ 6 dentro de uma caixinlia 
indica uma mina de granadas, e de algum metal precioso. 

AS amostras de N.° 7 que vâo também em outra caixi- 
nha, s jo tiradas do logar indicado no rosto do embrulho, 
e dizem os habitantes ter uma mina de prata, ou cobre, 
porém inclino-me a pensar que seja de ferro, pela capa- 
rosa ou vetriolo verde. 

A pedra que vai com o N.*^ 8 é achada na Lagoa da Pe- 
dra, 14 léguas para o centro nas terras de Manuel Ray- 
mundo Duarte, e parece ser alahastrina, ou bello már- 
more branco. 

Não digo que semelhante ao de Paris, ou Garrara; mas 
quem sabe se esse cabeço que alveijou sobre a superfície 
do Solo, e donde lascaram um grande pedaço, c.ija peque- 
nina porção me coube, não será a veia de uma rica pe- 
dreira e de preciosissima qualidade? Achâo-se no RiífchD 
— Traipú— em algumas das Lagoas referidas ; e que cer- 
cão a Villa os mariscos que morão nas conchas— sob N.° 9 
e que aventura-se serem os creadores das pérolas. 

Tenho feito algumas experiências, é verdade que talviez 
extemporâneas; porém cousa alguma tenho obtido. 

A concha de amostra indica alguns pequenos tubérculos, 
que não ousei classificar ; pode muito bem ser que na sa- 
zão, que ainda não acertei, produzão; principalmente nno 
havendo lavrado o mexilhão, onde, segundo os entendidos, 
se encontrão muitas vezes as pjrolas. Não ésemappli- 
cação, tempo, e tempo apropriado que se descobrem estes 
thesouros: a um Juiz de Direito e que se de liça a seus 
deveres é isso, de mais, impossiveL 



— 245 — 

Neste logarsão as vargens cobertas de macieiras bravas, 
cujo fructo porém é muito saboroso, feito'd6ce, o qual é 
muito apreciado, maxime o de calda. O terreno dà excel- 
lentemente a batata ingleza e de cada pé vi colher mais de 
25 ! t ! ainda que de tamanho pequeno. 

Bafeja o vento, é preciso aproveitar as primeiras refe- 
gas e seguir. Emquanto a Villa do Porto da Fo'ha vai mor- 
rer nos seus arrebaldes da outra margem do Riacho— Trai- 
pú— observa-a de um alto appellidado— Gordo— uma bella 
casa de uma fazenda de criar, que pertenceo ao manso 
Pastor da Freguezia de N. S. do O', o Reverendo Francisco 
Vital da Silva, e hoje de propriedade do Cidadão Manuel 
xVntonio Gomes Ribeiro. Em frente estão os logares — Bu- 
raco de Maria Pereira—e Covão. E' a separação da Serra 
— ^Tabanga — e Morro do Covão que parece uma valia pra- 
ticada nas serras, e donde constantemente sopra um vento 
em rajadas, e tufões, que assim nominaram. 

Seu aspecto é medonho e máo, e quando por elle se 
desprende o vento, depois de ter-se passado a — Taban- 
ga, — muito arremeda e nos recorda os pensamentos poé- 
ticos. 

Bramindo muito ao longe o mar soou 
Como se desse em vão n'algum rochedo. 

Diversas tradições dão os antigos a esse appellido um 
pouco repugnante. Uns que fora uma celebre Maria l*e- 
reira que cora dous filhos neste buraco resistio ao dominio 
—Batavo— outros que alli vivera em guerra com a justiça 
do Paiz : o certo é q je estava a tal Maria nesse buraco, 
porém sua historia se perde na noite dos tempos. 

Alguém me tem dito que nesse logar e sobre a— Taban- 
ga— tem apparecido balas de artilharia, sobre o que não 



— 246 — 

posso ajuisar com certeza pela falta dos archi vos destas Yíllas 
que não existiram jamais, ou que se destruíram pela mão do 
deleixo I Não é inverosímil que o Hollandez taliasse até 
aqui, quando, occupando as Províncias, ao Norte da Bahia 
até Ceará, furam Senhores do Rio de S. Francisco, como é 
constante na historia. 

Mais tenho escutado, que nessa Caverna que dá sahida 
aos furiosos vendavaes. sem serem os de Éolo, ha uma mi- 
na de salitre e que nella se encontrão pedras de um pezo 
metálico. 

Antes de irmos para diante voltarei à belleza que offerc- 
cem as coroas oblongas que se formão à margem do rio 
para alem logo do Riacho— Traipú— as quaes vestidas de 
plantação de arroz, e igual em verdura e tamanho, repre- 
sentão estes jardins fluctuantes de que nos fallão os histo- 
riadores do— México. 

Visitei a Caverna de Maria Pereira, e o que encontrei 
digno de menção, aqui vai. O leito de um Riacho é o que 
appellidaram de Buraco, e caminha clle estreito entre os 
altíssimos talhados da Serra só depois de mais de quarto se 
depara com moradas, e jà nas baixadas. 

Encontrei na rocha a amostra— N.*^ 10— que não me 
parece salitre e nem cousa semelhante. O que ha de proveito 
é uma rica mina de granadas do tamanho das que lhe envio, 
ê d'ahi para cima, e para muita colheta se a explorarem, 
e ultimamente a pedra da aniostra— N.^ H. — Fundi o pe- 
daço de uma, e deo o resultado que vereis da amostra 
— N.^ 12 — e creio que deo ouro, e ferro. 

Emendão-se— ao Covão— os logares— Lagoa do Cabo — 
Lagoa do meífc— e Lagoa Primeira- e Limoeiro— até à 
povoação crescente denominada— Curral de Pedras — em- 
quanto que pek) lado de Pernambuco correm o — Morro 



— 2i7 — 

ff Areia — Queimados— Lagoa Sêcca — Patos— e Lagoa do 
Tição : — vai ã vista do Limoeiro. 

A Povoação do Curral das Pedias— dà presentemente 
grandes esperanças — contem perto de iOO casas e disputa 
a preferencia de Villa à do Porto da Folha que é actual- 
mente, e que foi antigamente Povoação do Buraco. Per- 
suado-me que o engano que se encontra nas cartas 
Topographicas do Visconde de Villieux — é originada de 
haverem duas Villas do mesmo nome, Porto da Folha — 
uma pertencente a esta Província — e outra à de Sergipe, 
fáz elle menção da Villa de Traipú e do Porto da Folha, 
ambas à margem esquerda, quando o Porto da Folha de 
Alagoas fica na esquerda no ponto — Traipú— e o Porto da 
Folha de Sergipe no ponto chamado por elle— Porto da 
Folha; quem está á margem direita, e perto de uma bôa 
légua para fora da margem do Rio. 

Quem observa visualmente este Rio, conhece perfeita- 
mente as inexactidões do citado Mappa. que, cotejado 
com o material do terreno, crê-se descrever um paiz 
muito differente ; taes sáo as cartas levantadas por infor- 
mações 1 1 Depois do logar — Tiçáo, está a Lagoa dos 
Defuntos, e logo adiante o — Sacco. 

Ha alguma relação entre Defuntos, e Tições, certo será 
que estes são as únicas tochas que levão aquelles para 
esclarecer o caminho do infaliivel transito desta vida de 
podridão, como dizia — Rousseau — para a da Eternidade 
como éde fé. No Sacco estão as ruinas da 1.* collocaçáo 
que deram à Senhora do O', hoje padroeira da Freguezia 
do mesmo nome na Villa do Porto d\ Folha : e ainda se 
distinguem suas paredes em ruina, e em perfeito aban- 
dono servindo somente de alimentar a vida das parasitas. 

As Cabaceiras com seu pequeno pqvôado—Genipatuba— 



— 248 — 

e o Sitio— Porto da Folha— seguem pelo lad j direito, em- 
quanto as fazendas — Riacho Grande— Jacobina— e Mundo 
Novo— pela esquerda. Na Fazenda Jacobina ha. uma bella 
lagoa para o plantio do arroz dá de renda ao dono de lOOS 
a 2008. E' do Sitio Porto da Foi lia que principia o— Mor- 
gado— pertencente a D. Maria Joaquim Gomes Castel!o 
Branco, mâi do Exm. Baráo da Gajaiba, e é desse Sitio 
que tiraram o nome para a Villa de que fallei acima. Tem 
este Morgado 22 léguas de margem, de fundo 12 nos 
logares mais largos, e meia nos mais estreitos, rende de 
eOOg a 7008. 

Com o Sitio do PoHo da Folha emendáo-se os logares 
— Tupete de Baixo — e Tupete de Cima— Curraes Velhos — 
Itanis — e o Morro do Aijó. e com o afundo Novo os 
logares — Cotovelo —^ e Pedregulho. Só as— Itans— que 
é hoje um pequeno Povoado , merece menção, os mais 
são Sitios sem importância. X Povoação das Itans. se 
appellida de Ilha por ciusa de assim tornar-se com as 
enchentes. 

Depois do Pedregiilho— segue-se o povoado do Riacho 
— Panema, cuja extensão tem defronte os logares— Porte- 
rias— Francisca— Bòa Vista— Ilha do Ouro e— Faria— ; 
em meio está a formosa Ilha, e monte dos Prazeres. E' 
um engano do Sr. de Saint Adolphe— alcunhar este monte 
dos Prazeres de Ilha do Ouro. A Ilha das Itans pertence 
ao Morgado ; o Vigário xManuel Joaquim de Lima Cortes, 
por intrigas politicas com o Tenente-Coronel João Fer- 
nandes da Silva Tavares, e a pretexto de que as Ilhas do 
Rio pertencem a D. Antónia de Giquià, e sua descendência, 
comprou a quem sem consciência vendeo o alheio ; cor- 
reo-se grande pleito, e vencêo o Morgado, todo o motivo 
era tirar a influencia de Tavares, sobre os votantes. Elei- 



— yí9 — 

ções em lodo o caso, ora lodos os passos da vida de um 
Brasileiro ! ! . . 

A Povoação do Panema derrama -se pela margem do Rio, 
6 por um e outro bordo do Riacho ; as casas são boas, e 
algumas brilhão por entre copadas Quixabeiras, e Joazei- 
ros, e lhe dão muita graça, pode-se dizer que è a povoa- 
ção formada por mais de 30 Sitios vizinhos uns dos 
outros. O Riacho dá commodo para plantação do arroz em 
suas beiradas e em seu leito muitas vezes. 

A Ribeira é creadôra de gados grossos. O que achei de 
mais raro e digno de aqui trazer, são as tradicções erró- 
neas e fíibíilosas ditas existirem neste Riacho e em suas 
-Serras ! ! Acima de sua foz perto de duas léguas ha entre 
dous talhados um Poro profundíssimo e cercado desses 
talhados que em relação são alterosos : o Poço é extenso, 
mais quasi circular ; basta esta configuração para explicar, 
os sons, vozes, e estrondos que se ouvem em alta noite, 
ao mais brando ciciar do vento, ou á queda da mais pe- 
quena pedra ; comtudo os habitantes o tem por covil de 
espectros, e duendes, e casos narráo de súbitas mortes 
nos que se aíToitaram a ir ali pescar os monstruosos Mon- 
dius e Surubins, que é fama viverem na([uelle Poço en- 
cantado. 

Antigamente na fenda das Serras fizeram uma cerca de 
pedras, como se chamão aqui os muros de pedras seccas, 
e dizem-me ali ter havido uma Cancella, porém as tradic- 
ções attribuem esse feito á invasão Hollandeza, e muito se 
honrão que ella tivesse tocado até tão alto, para allegarem 
8 exaltarem o esforço de justamente terem-na repellido. 

No fim do Poço ha uma subida, como que feita por arte 
na rocha, estes degráos conduzem o viajante a uma furna 
de 31 palmos de comprimento, e 15 de largura, e de 

ABRIL. 32 



— í;ío — 

alliini de mais de um homem com a mão levantada, é divi- 
dida em dous aposentos por uma parede de pedra secca ; 
parece que foi habitada por alguém. 

A mais celebre destas fabulas ó o Poço do Ouro I A famí- 
lia do Rodrigues Gaias que são os proprietários da mór 
parle dessa Ribeira de cima, e desse logar, dizem que um 
Ourives comprara a um tarrafeiro um Vergai hão de íitetal 
que lhe trouxera em lanço a tarrafa, e que tocado se veri- 
ficou ser ouro de subido quilate ; ou fosse assim, ou o 
Ourives quizesse zombar dos simplesados desconhecedores 
dessas riquezas naturaes, o certo é que a fama desse the- 
souro, mergulhado no fundo de um profundo Poço, correo 
e excitou a dormente avareza destas brenhas. 

Alguns tentaram esgotar o Poço; que não venceriâo 
ainda com o invento do parafuzo de— Archimedes ; — pois 
que é elle uma fonte perene das aguas, que continuamente 
minão dos leitos dos nossos rios Sêccos ; e as cubas e ga- 
mellas de toda aquella redondeza se puzeram em acção por 
meio de robustos braços, alimentados por carne e leite t 
O desaccordo e desanimo succedeo a tanto afan, e o des- 
engano occupou o logar do desejo de riqueza. E' de admi- 
rar que ainda até hoje alguns crêem que existe a enorme 
rocha de ouro, donde crescem vergalhõcs ! e só dizem,^ 
para se lhes não exprobar a inércia sobre tanto ouro, está 
hoje areado o poço ! 1 — Areados estão os juizos, não que 
seja impossível, haver ouro no riacho, — Panema — porque 
isso passa por veridico, pois por ser em tanta quantidade 
e volume. Vamos adiante, subamos mais ás suas cabecei- 
ras e encontraremos as tradicções das pedras e o caixão, e 
Arremetcdeira. 

Ha ncllas como que entalhadas umas figuras ou inintel- 
UgivcJs— hieroglyficos que se tomão por indicadores de 



— 2ol — 

grandes riquezas, ahi sepultadas ainda pela mão invasora 
da Republica Balava. 

A Ilha do Ouro é pequeno povoado bem fronteiro ao do- 
Panema ; conta menos de 50 casas : dizem que o nome 
corresponde á riqueza do logar ; porém a esse respeito 
náo vos sei dizer certezas. 

O Riacho que tem o mesmo nome e que nas enchentes 
ilha a Povoação tem de notável dar assim navegação para 
canoas até a Villa do Porto da Folha, conhecida também 
pela do Buraco — , e suas várzeas são campos de arroz que 
produzem milhares de alqueires, e de medida maior ainda 
que a do Penedo ! ! 

Voici des Dieux 
* L^asile aimable, 
Goíilez des cieux 
La paix durable 
(Bernardis) 

Eis aqui dos Deoses 
Um asylo amável, 
Gozai dos Céos 
A paz durável. 

D'un roc penchant et fendu 
La terreur du voisinage 
D'en bas Tagreste ermitage. 

(Bertin) 

Sobre inclinada rocha e jà fendida 
Terror de quem por ella faz seguida, 
Está plantada a campezina Ermida. 

Os versos que ficáo escriptos do gentil Bernardis e Bertin 



— 232 — 

— pinláo assas o Monte dos Prazeres. É um simile da Se- 
nhora da Penha n^essa Baliia de S. Sebastião. 
, E uma penha negra e escarpada pelo lado de cima, alte- 
rosa e vertida de áspera verdura ; tem isolada em seu cume 
a branca Igreja da Senhora dos Prazeres ; pela parte de 
baixo faz como que uma cauda d'uma grande e extensa 
coroa de areia brilhante, e com muitas doestas pedrinhas 
de differentes tamanhos, e cores, como as da amostra N.** 13 
— parecem areias* corridas de terrenos diamantinos pelo 
seu brilho. 

É na verdade um prazer de que sente-se assaltada 
aquella pessoa que subindo até a Capella derrama as vistas 
em redondo I As habitações entre ramagens; seu plácido 
rio, que se deslisa lambendo os verd^ campos de arroz ; 
finas e embastecidas, como o pello ondeante do velludo, as 
reverberantes areias da coroa ; as fazendas, e Povoação da 
margem opposta ; a claridade das aguas n'este logar ; os 
bandos de alvas e rosadas garças, e outras aves, e pássaros 
aquáticos, que se banháo, e mariscâo nas claras e doces 
aguas do S. Francisco ; o doirado e verde — Patury — que 
se infileira nas bordas das correntezas e Ilhas, tudo indica 
que doestes quadros arrebatadores, só pinta a mão prodi- 
giosa da natureza pura e simples I 

As vozes da Nympha namorada, louca por Narciso, — de 
quem pintou tão sublimemente as paixões o Poeta — Cas- 
tilho, estão aqui fugitivas; e com o uso das aguas puras; 
e que não se corrompem guardadas por muitos mezes ; 
afinou ella a vóz sentida de suas queixas amargas contra o 
ingrato. Na raiz do monte pelo lado da casa do Capellâo 
basta subir-se obra de uma braça, para ordenar-se que a 
Nympha repita fiielmente tudo quanto se deseja dizer, ou 
seja prosa ; ou seja verso, ou seja brando, sentido, irado 



— 253 — 

ou choroso I Emfim que dôr não me causou ouvir—Écho 
repetir estas suas queixas contra o tyranno de seu co- 
ração. 

Narciso I, pude eu ter tuas palavras 
No duro tronco menos duro que ellasl 
Eu pude : e os olhos meus desfiz em pranto. 
Por três vezes senti tremer meus lábios 
Fugir-me a lúz, enregelar-se o sangue; 
Três vezes desmaiei junto do choupo. 

Este phenomeno de acústica, sobre que tanto se tem es- 
cripto, sem que se conheça sua verdadeira causa, porém 
que a maior parte dos Physicos accorda em dar-se infalli- 
velmente nos logares côncavos, como nas abóbadas d^uma 
cisterna, ou em circulares tectos, ou entre serras, evalles; 
porque a vóz, embaçando n'ellas, repercute no nosso ou- 
vido, aqui é o contrario I Só ha de montes, o dos Praze- 
res ; o mais sáo Campinas rasas e a coroa plana como uma 
sala de baile 1 1 Outra cousa a notar-se é, que o que falia do 
monte náo ouve as respostas, ou repercuçâo, ao passo que 
aquelles que estáo no plano perto d'elle, duas a três bra- 
ças, ouvem tudo perfeitamente, e como tenho exposto ! ! I 
Os que, embarcados, descem pela calada, ouvem o que 
falláo e as respostas ! ! Com o que mais se admirão esses 
phenomenos. 

A Capella dos Prazeres dizem que foi edificada de ma- 
deira, e cuberta de sola por Maria Pereira — (não sabendo 
se é a mesma do buraco) doou-lhe terras que eráo entáo 
pegadas ao montinho, porém náo ha vestigio dMsso : hoje 
possue a Capella a terra onde está erecta, e a coroa, que 
lhe rende 24 $ 000 rs. annuaes. Depois de Maria Pereira, 
o primeiro Morgado que veio ao Rio S. Francisco chamado 



— 254 — 

Castello Branco— fez o corpo, e capella Mór de pedra e 
càl. de accordo comos habitantes da banda de Pernambu- 
co, e finalmente o Missionário— Corrêa. — fez os corredo- 
res — tem a Capella a era de 1694. 

Corre pela mesma banda do Panema o logar— Varzinha 
— Gruta Grande, e a pedregosa Povoação da Lagoa Funda 
—Salgada como seu riacho— e a— Restinga ;— e pela banda 
da Ilha do Ouro— Maris— e Ponta da Júlia— Tapera e— 
Sipó. 

A pedregosa Povoação da Lagoa Funda, é um povoado 
de mais de 50 vizinhos e collocados sobre rochedos mica- 
chisticos, a sua vista é agradável, e como sejão as casas 
espalhadas pelos Outeiros, que dominâo as grandes várzeas 
e Lagoa, representa muito mais do que na realidade é. 

Tem uma Capella da Senhora do Rosário e Santa Cruz, 
e quasi sempre os povos pagão a um Capellão : compoêm- 
se os habitantes de duas familias. Soares, e Feitozas, que 
se entrelaçáo por afinidades reciprocas; com tudo é tal 
o parentesco, que não podem effectuar qualquer alliança 
sem dispensas. A grande Lagoa que fica ao Norte desagua 
para o Sul, fazendo barra perto do rochedo, que com a 
ponta da Júlia fazem ambos o lugar — Sacco, — além dMsso 
é a povoação cortada de riachos, ou que despejão na Lagoa, 
ou no Grande Rio. Foi o edificador da Capella um Frade, 
cujo nome se perdeo. A Ponta da Júlia é logar notável 
pelos navegantes, como difficil de montar-se na subida, e 
á vela ; somente os peritos em manobras a vingáo sem o 
risco de darem á Costa. 

Nos tempos de enchentes é tida como de grande perigo, 
pela corrente impetuosa, e ondas que se alção como os 
marítimos escarcéos. 

Os habitantes crião, lavráo, e curtem. O Riacho— Sal- 



— 25o — 

gado — ainda é domínio da Lagoa Funda como assim ató 
o Cajueiro, sendo o Morro do Morim, onde está erecta a 
Capellinlia da Senhora do Rosário, pertencente ao Districto 
e Povoação do Limoeiro — Deste logar para cima por Lei 
Provincial de 3 de Março de J8o4 creou-sea nova Co- 
marca de Mata Grande. 

Seguindo-se pelo lado do — Sípó — a várzea e Lagoa do 
Araticú. A Povoação do Limoeiro é situada sobre um ter- 
reno quasi férreo contará 30 casas (se tantas) mas estende- 
se muito por diversas moradas interiores : Tem sua Ca- 
pella de Invocação de— Jesus Maria José— e todo esse Ou- 
teiro é uma mina d^essa pedra esverdiada — a amostra N. 14 
^A Igreja é um encapellado creado pelos avós do pardo 
Manuel de Jesus Barbosa— João Carlos de Mello com mna 
légua de terra e 6 vaccas por património. — N'esse logar 
encontra-se a amostra N. 13 que me parece — guinites. 

A Povoação é fartíssima de criação de aves, e os ovos 
vendem-se de 3 á 4 por 20 rs. A Várzea e Lagoa do Ara- 
ticú é o logar doeste Rio, onde tenho visto mais caça; creio 
que é ahi o viveiro d'onde sahem todos os voláteis, que po- 
voão ambas as margens I 

Não deveis Sr. Capanêma, tomar este meu dito por uma 
hyperbole, podeis crêl-o como de vista 1 

Os patos» garças» marrecões, differentes gaibotas, mar- 
recas, grajáos, patoris, e gaburús, etc. voão, de fazer ru- 
mor» e anuviáo o àr I O grajà tem o bico de tartaruga, 
como vereis da amostra— N.® 16. 

A bravura e presteza com que levantão-se ao presenti- 
rem o caçador, e o esvoaçar em torno d'elle endoidecem- 
no a não saber designar a victima, e o resultado, é soffrer 
o SÓI abrasador, cansaço, e regressar sem os despojos cor- 
respondentes ao inimigo que afronta, estando este inerme ! f 



— 256 — 

Continuâo pela Povoação do Limoeiro os logares— Ta- 
pera— nome tirado do seu riacho - Jacaresinho— S. Thiago 
—com sua lagoa — continuando pelo — Araticú — o Sitio das 
Pedras— Riacho fundo— e a Povoação de S. Pedro Dias, 
que tem lambem o nome de Ilha, por assim tornar-se nas 
occasiões de cheias. 

É notável esta Povoação por ter sido jà Villa. em 1833 ; e 
foi antigamente uma missão bastante populosa. No tempo 
da Omnipotência dos Juizes de Paz — Manuel do Rosário— 
por anthonomozia— Pacú — teve a animosidade de prender 
a Gamara ^Municipal em corpo — e desse despropósito origi- 
nou -se a dâSerção das pessoas mais gradas que se julga- 
ram em risco por este despotismo— resultando que restou 
somente o dito— Pacú— na Villa— sendo por isso esta 
transferida para a Povoação do Buraco, hoje Porto da Fo- 
lha d'onde vinha a nata que abrilhantava a suppremida 
Villa. xNunca um Povo soube punir melhor um déspota 
como este, pondo-o a sós e despresado, a ponto de cahir 
tudo em ruinas, como de presente, que conta apenas 58 
casas, e na frente da Igreja em forma de parallelogramo — 
tendo de saliente o Palácio Imperial que é a residência do 
Imperador do Espirito Santo, cuja festividadde annualéde 
tóm n'esta despresada Villa. 

A Igreja é má e estava arruinadissima. Este anno o Mis- 
sionário Fr. Dorotheu a tem reedificado, e vai melhor. 

Um milagre está depositado n'esta Igreja, digno de nar- 
rar-se. — Uma escolta que mais se podia chamar de assas- 
sinos do que de soldados acompanhavão a um prezo do 
ordem d'um Juiz de Paz para as Cadeias do Penedo— foi 
o prezo assassinado, e para poderem sumil-o, e dizerem 
que se tinha evadido, amarraram no pescoço da victima, e 
nos pés, duas pedras, uma de duas arrobas, e outra de 



— 257 — 

perto disso, e o lançaram no Rio em logar profundo : de- 
pois de três dias appareceu o cadáver encalhado na coroa de 
S. Pedro Dias, e com as pedras ainda atadas nos mesmos 
logares ! I 

Deo nihil impossibile est ! ! 

Foi seu infinito poder que arrancou contra todas as re** 
gras de gravitação o corpo do infeliz— Renovalo, conheci- 
do por— Mandú— e o poz sobre a terra, para que a Jus- 
tiça dos homens punisse seus matadores ! Hoje a Justiça 
Pubhca jà alcançou a punição d'um que foi condemnado, 
sob minha Presidência, no Jury da Villa do Porto dâ Fo- 
lha,, ou Traipú, na pena de galés por 20 annos. 

Grand Dieu, dont la seule presence soutient la nature, 
et raaintient Tharmonie des lois de Tunivers ! 

Exclamava — Buffon— no estasis de suas contemplações 
philosoíicas ! 

Estou convencido como christão e pensador, que em 
tudo neste mundo máo e pequeno— como dizia— Bossuet 
— está a máo do creador ; e se não fora esta, como se re* 
veíariáo os crimes n'este nosso Paiz, coberto de matas ex* 
tensas e serradas, cortado de rios gigantes, e pela mór parte 
despovoado, em que o viajante está entregue a Deus e a 
sua consciência ! 

Mas tál é a força da Omnipotência e sabedoria ce este 
qued'esses ermos e brenhas, como que os troncos e as pe- 
nhas se animão e falláo, para designar o malvado! I 

Senhor! grandes são as tuas obras! dizia o Psalmista 
Rei.— Magna sunt opera tua ! 

Si Dieu n'existait pas, il faudrait Tinvenler 
Que les sages, Tinnocent. et que Ics grands le craignent» 

(Voltaire) 
ABRIL. l33 



— 2:íS — 

Se não existe Deus, força é suppól-o 

A quem se acurve o sábio, o néscio, e o grande* 

As pedras estão na Igreja, e eu as vi e pasmei 1 1 Pelo 
lado da Lagoa S. Tiago— vão os Sitios— Espinhos— Morro 
do Faria— Deserto — Riacho do Faria e Aranha— (Fazenda) 
— e Tororó— e pelo da Ilha de S. Pedro— a Gaissára — 
com sua alterosa — Serra — a Lagoa do Surubim, com seu 
morro do mesmo nome — o ensanguentado — Morro do 
Calvário ! — Mucambo— Jaciobá — e Tapera. 

As tradições sobre o Morro do Calvário merecem bem o 
— horresco referens — do Virgílio. Foi por muito tempo 
esta paragem mn perfeito logar de supplicío: conta-se 
que para alli eráo levadas e executadas as victímas das vin- 
ganças brutaes dos nossos Sertões! É o aspecto do Morro 
feio e carregado ; a natureza, me parece que mais ahi se 
apertou, à vista de tantos crimes, para assim demonstrar 
sua reprovação! Quando ouço semelhante narração, ede 
que algumas d*essas atrocidades foram ordenadas, julgo 
impossivel ser-se Juiz no meio de tanto barbarismo, po- 
rém é um engano manifesto porque tudo nasce da má di« 
recção dos superiores. 

O Brasileiro é summamente obdiente, e segue os bons 
ou màos exemplos, se são exercidos por gente mais alta a 
quem a ignorância gosta de imitar sem apreciar as dividas 
distincções a fazer-se. . . 

Deixarei estes quadros hediondos, descançando das dez 
léguas, que acabo de percorrer do Traipii aqui, e irei vos 
fallar da prospera Povoação de Pão d^Assucar— cujo nome 
tira de sua alcantilada Serra — que fica ao Oeste da Povoação 
4 para 3 léguas ; esta Serra é um arremedo do— Obelisco 
natural que está de atalaia na Bahia da Capital do Império, 
e que serve de pés ao imracnso gigante, com adifferença 



— 259 — 

de que a de cá domina sobre os vastos Sertões com um al- 
cance de mais de 20 léguas em circulo f ! 

A Caverna que Mr. Milliet de Saint Adolphe— em seu 
Diccionario Geográfico do Brasil, chama de medonha e 
impraticável, foi por mim e minha companheira investiga- 
da : a ella descemos, e nada tem de medonha, e até é muito 
praticável sem receio; e pouco profunda. 

As outras sumidades em comparação doesta assemelháo- 
se a pequenos combros disseminados em uma vasta cam- 
pina. Por esta capoeira rasa futurisão alguns o desvio do 
Rio, mas quem isso conseguir — et eris magnus Apollol — 
Mesmo uma estrada de ferro . . . será trabalho muito cus- 
toso e prolongado, ainda que possivel ; com tudo forçoso 
será principial-a de muito longe para nivelal-a. O progresso 
parece que não conhece impossiveis ; eu porém, posto que 
hospede n'estas matérias, vou mais para a opinião de que 
a mais próxima e effectuavel será a estrada para carros de 
quatro rodas , salvo o melhor conselho dos peritos, 

O Arraial do Pão de Assucnr conta 230 casas, o terreno 
plano lhe proporciona o bello arruamento que vai tendo, 
e o Commercio que afflue do centro, lhe presagia um riso- 
nho futuro. Ha alguns bons sobrados, e soffriveis casas. 
ACapella do— Santíssimo Coração de Jesus — está em obras 
ainda de sua edificação, e já está elevada em Freguezia 
por Lei de 1853— de H de Julho N.*^ 227— e este anno 
pela Lei citada, Villa : tanta é a emulação e desejo de reta- 
lhar, e fazer de cada canto um império, se possivel fosse. 

A Povoação nas enchentes torna-se uma península pelas 
Lagoas e riacho que a cercão : nestas ha em grande abun- 
dância o marisco de que acima tenho fallado, e que se 
«uppoe madrepérola, e tanto ha do circular como do 
oblongo. O Commercio é Jiovo, mas activo, e dá csperan- 



- 260 — 

ças de ser nesse ponlo o empório deste Rio, se houver a 
estrada que ligue os dous rios de cima, e de baixo, como 
aqui appellidáo as partes separadas pelas grandes Cachoei- 
ras, e pela de— Paulo Aflbnso. 

Os habitantes são coramerciantes, os da Villa, creadores 
e lavradores, os das Serras, e os do interior. 

Dá muito legume, maxime feijáo, e colhem-se as bellas 
—atas— ou pinhas, que sendo quasi que exclusivas da 
Província do Ceará, aqui também as ha, ou se educáo bella- 
mente nesta secca Campina. O terreno é todo de fresca 
alluvião e de tão fina terra, que no veráo faz parte do 
ambiente que se respira. Cobre todos os objectos e vive 
na atmosphera de tal forma, que excusado é dar-se a gente 
ao trabalho de espanar. O galante é que tem os moradores 
que a poeira faz bem á vista 1 O que devo dizer em abono 
da verdade, é que nem por isso as ophtalmias são muito 
frequentes. 

As enchentes transportando as arêas para frente da 
Povoação, formaram uma coroa que terá cerca de 300 pas- 
sos ao Porto de embarque, com isso suppõe-se o Rio 
muito apertado, porém tem bastante fundo no canal. As 
casas estão nas linhas dos quatro ventos geraes. Pão de 
Assucar antes do Hollandez em 28 de Janeiro de 1665— 
foi sesmaria de 2 léguas com o nome de Jaciobá, feita a 
D. Maria Barboza de Almeida pelo viso Rei e Capitáo-Ge- 
neral de Estado Conde d'Obidos D. Vasco de Mascarenhas 
rectificou-se em 4 léguas, e Barboza vendeo a seu irmão 
Sebastião Barboza de Almeida, passando depois em 1660 
ao Desembargador André Leitão de Mello, passando por 
herança a seus filhos D. Ignez Maria Gertrudes do Valle e 
Mello e outros herdeiros de Lisboa. Em 1821, era ainda 
Fazenda de gados de António Luiz Dantas, depois a fami- 



— 2Gi — 

lia de António Rodrigues Delgado, foi o primeiro povoa- 
dor fazendo casas, etc , António Manuel das Dores conti- 
nuou ; fez a Capella com o Padre Baldaia pondo a primeira 
pedra em 1840— doando 2:0008000 para sua edificação. 
Rosa Benta Pereira e D. Anna Thereza de Jesus, doaram 
as terras. Foi Freguezia em Abril de 1853, e Villa por 
Lei de 3 de Março de 1854, sendo installada à 7 de Agosto 
do mesmo anno. 

A duas leguas-^desta Província — nologarAldêa — Fa- 
zenda do Poço Grande— entrando-se para a Catinga— en- 
contrei em uma Cassimba— Ossos fosseis de Megatheriou, 
ou Mnsthadonte, e assim afllrmo, por ter ido ao logar, e à 
vista da confrontação que fiz do osso que vos remetto — 
Amostra N.^ 17— com o esqueleto debuxado na obra de 
— Bendant— curso elementar de Historia Natural : o qual 
assemelha -se ao humerario. P(3de ser também de Mastha- 
donte. Dizem-mc que deste logar ao da Fazenda da Lagoa 
das Pedras— de José da Rocha Lira, que dista meia légua 
—também ha fosseis, e bem assim nos logares — Salgadi- 
nho—do Padre Simões— Fazenda Velha — de António Ana- 
cleto—e Olho d' Agua das Flores do finado— Padre Antó- 
nio Duarte de Albuquerque. 

E' pena que, não se dando apreço algum a essa rari- 
dade, se tenhâo inutilisado muitos desses ossos! Creio 
pois que para se alcançar hoje um esqueleto completo náo 
se despenderá pouco : faço esse juizo pelos do logar que 
vi onde estaváo ao campo muitos quebrados e inteiramente 
inutilisados. As amostras N.^^ 18 e 19 sáo productos acha- 
dos em Pão de Assucar, onde parece haver também ouro, 
pela amostra N.*^ 20. Este anno o governo ordenou a 
escavação desses fosseis, dessa commissáo estou encarrega- 
do, e hei-de fazer tudo por preenche-la satisfatoriamente. 



— 262 — 

Vou continuar a minha subida pelo Rio e ao— primeira 
bafejar — As velas dando as ancoras levamos. 

Fica pelo lado esquerdo o Morro do Cavallete— que está 
isolado, como uma — pyramide — na extrema esquerda da 
Povoação seguem as Fazendas— Pào Ferro— Algodão, e o 
miserável — Povoado das Trairás — ficando pelo ladooppos- 
to— Sacco Grande — e Lagoa das Pedras— e Cajueiros. 
Aqui é o Rio bastante largo, e bem assim em os logares 
— Riacho Grande— e Genipapo, que ficâo a cima, da es- 
querda a direita banda, váo por esta as habitações— Patos 
— Bom Successo— e Ilha do Ferro, e o povoado perten- 
cente ao Capitão Luiz da Silva Tavares, cuja Tormosa casa 
indica seus possuidores, e sua inftuencia as muitas hiunil- 
des que a cercão: eporaquella — Quixába — ^Boqueirão— 
Sipoálha— e Ilha do Ferro— cujo nome aqui appljca-se a 
ambas as margens. 

Desde aqui vai-se o Rio insando de rochedos negros e 
polidos, como ferro envernizado, e a navegação se torna 
cheia de cuidados. São as primeiras sentinellas perdidas 
de— Paulo AíTonso— que nos dispertáo de que estamos 
não longe de seus domínios, que ficão muito além. Na 
margem direita estão os— Morrinlios— Pào da Canoa, e 
pela esquerda — Riacho das Antas — e Beldruegas : nestas 
paragens estreita-se o Rio, accommodando-se ao leito por 
onde corre entre rochedos e morros, e que parecem feitos 
de ferro, pelo lustroso de suas pedras talhadas como de 
propósito para fácil carreto, e qualquer edificação ! Slo 
inspirados pelo horrivel da terra, e ao correr da canoa, os 
versos abaixo. 



— 263 — 

Mm eoiíjectiira» sobre o» Itlonte» pedrcsoso» 
do Rio de íi. Franeitteo. 

Que seriáo talvez estes penedos 
Quando o liat de Deus fez o universo! 
Seriáo elles já pedrosos montes, 
Ou frondosa floresta onde moravão 
Voláteis bandos, ou louçans Napeyas? 

E quem sabe se as aguas soberbando 
Não occuparam já acima delles. 
E sobre elles rolaram por mil séculos! 
Quem sabe se golfínhos e Baleias 
Nos vales, hoje a luz. nâo depozeram 

Sobre o leito pedroso a infantil cria, 
Emquanto o enorme galeão sulcava 
A salsa veia c' o esporão doirado. 
Pejado dos productos d'algum povo, 
D'algum povo feliz, que em outras eras 

Tenaz, e audacioso conquistava 
Outros povos que estaváo separados 
Por longo espaço, que occupavão aguas ? 
Hoje onde elles ? quem são, ou que memoria 
Deixaram d'existencia? a conjectura, 

A conjectura fallaz eis o que resta 1 
Foram elles quaes são feras, asperosos. 
Ou verdes tapisados lindos combros, 
Habitação de Nymphas que não viram 
Esta raça infeliz que habita o globo 1 

Quem sabe se estas rochas atiradas 
Sobre o dorso dos morros não seriáo 
As paredes das grutas, ou não foram 



— 2Ci — 

Dos erguidos palácios a textura. 
Q' uma grande mudanç-a revolvem t 

Se assim foi, que alamedas não cobrião 
Os ditosos mortaes. que as habitavão! 
Que maviosas falias não fallaram, 
iy estranhas linguas, que ademans estranhou 
Não praticaram, não fallaram esses 

Que nos tempos (Pentão aqui viverão f 
Alli está a vertical muralha. 
Talvez erecta em defensão ; do tempo 
A poderosa mão baixou sobre ella 
E os estragos á vista estão dos evos. 

tiaveria batalhas sanguinosas! 
O fogo, e o ferro nos robustos braços 
Os edifícios, e os homens derrotava I 
Erão ellcs gigantes, oupigmeos! 
A conjectura fallaz, eis o que resta ! 

Oh 1 tu que pensas sempre, e sempre ufano 
De haveres a razão sobre outros entes. 
Se pensas recto, se conheces tudo 
Dize o que foram esses feios montes. 

Emendão-se com o logar — Pào da Canoa*— o do Capim 
Assíi — Mata da Gallinha — Mata da Onça-^^e Papagaio, e 
com as Beldruegas — Curralinho de Baixo— Lagoa — Ca- 
poeira e Pào da Canoa.— Estreita-se outra vez o Rio ; e 
devo dizer-vos que se vai tornando sempre escuro, estreito, 
fundo, pedregoso e medonho, e p!)U(ío povoado, tendo es- 
paços totalmente desertos. 

Pelo lado do Papagaio está o — Pantaleão — Mala Com- 
prida — Bonito— e Sacco, e pelo do — Paó da Canoa— èstà o 



— 265 — 

Curralinho Novo — Morro de Paulo AlToiíso— Capueira— 
Macaca — Bebedor — e Jacaré — tendo em meio a Ilha de Sa- 
bacú. São muitas aqui as pedras. Pelo numero de rochedos 
já se podem chamar as primeiras patrulhas ou piquete de 
descoberta. Passadas estas, está depois do Sacco — a Ban-a 
das Cabaças— e a Povoação do Armazém— tendo do outro 
lado— o Cajueiro. É um deserto — árido— e pedregoso, e 
o Rio cheio de cascalho, bem estreito, e com pouco e tor- 
tuoso canal até o Morrão do Inferno ; e pelo lado direito 
até o Collête — tendo por intermédio — Angico— uma fazen* 
da e pelo lado esquerdo — Remanço— e Alegria. Em uma 
restinga de cascalho está o porto do Armazém— Povoado 
novo, e de pouca importância — com 48 casas e uma pe- 
quenina Capella da Senhora da Conceição, é seu edificador 
— Anacleto de Jesus Maria Brandão, — ainda vivo, e muito 
honrado, e bom Pai de familia. Temo Povoado pouca pla- 
nície, que está captivae abafada entre dousprincipaes Mor- 
ros— tendo em frente Serrarias. 

O Commercio é de poucos, é perfeitamente a porta sobre 
o Rio que tem mais facilmente os productos do Mato 
Grande— hoje Villa, e Comarca. Até aqui fazem 5 léguas 
os que vem de Pão d^Assucar, e os vindos da Barra, ou foz 
como eu, fazem 36 léguas. O nome de Morrão do Inferno 
ó bem cabido por ter um terreno avermelhado no meio de 
rochedos negros, como já tenho dito I Principião deste lo- 
gar as pedras, tão unidas e salientes, que formão um serrado 
esquadrão, e quem vem de longe duvida de que dê o Rio 
pissagem. É bem semelhante á um Cardume das Toninhas, 
que no alto már apparecem as vezes em ordem, todas ne* 
gras e movendo-se com perfeita disciplina; e que c um si* 
gnal de alguma borrasca, e tanto que a(jui tão bem não 
são estas petrificadas de bom agouro ; pois que muito se 

ABRIL. 34 



— im — 

nihnirãi» ns que as vem |>ela primeira vez, e de susId Sf; 
IcHiia o coração do viajante. 

IK) Armazém— a Piranhas— fazem duas léguas de nave- 
garão perigosíssima, c algumas vezes é preciso tomar prati- 
co |>ara evitar desastres, queroccasionados pelos rochedos, 
quer pelos furiosos ventos que conspirão com elles contra 
os atrevidos, que intentão devassar esses bellos horríveis, 
que a natureza se esmera em apresentar aos olhos dos 
homens, para demonstração de seu poder e mais realçar a 
cí)ragem de quem os vinga. Segue-se pela esquerda— o 
Sacco do Sininú)íi — e Magalhães e Montevideo, tendo pelo 
lado direito — Montes de Granito — e o logar— íierimin. 

Entremeiáo estes lognres podras perigosíssimas e conhe- 
cidas por nomes distinctos que se apro[)rião á sua figura, 
tamanho, perigo e qualidade. As mais salientes são as do 
—Sinimbu — do Lima — Cabeço, etc. Não são Magalhães — 
nem o Montevideo esses lognres da America do Sul, a pri- 
meira descoberta por esse intrépido Portuguez — entre a 
terra firme e a terra do Fogo — e o segundo hoje a repu- 
blica — Oriental ; porém ambos os nomes tem sua ligação 
principalmente o estreito. E' só passando as perigosas 
rochas do — Matlieus — e Lima, que se aparta, sempre en- 
tre pedras, â Piranhas — Povoação do lado esquerdo que se 
divide era Piranhas de baixo e de rima— e que fica fron- 
teira aos logares— Canto— e Furado, cada um com sua 
cabana em ruinas, n;fugio de criminosos. 

Com effeíto, somente a pratica, como a do Piloto— de 
que nos falia — Cooper— pôde fazer navegar-se por sobre 
rochedos á noite, e com vento furioso, e em canoas que 
não podem andar à orça. 

A Povoação está sepultada debaixo de altas montanhas 
ou sobre ellas trepada ; ê uméarremedo dos arrabaldes da 



— á67 — 

cidade de Angra dos Reis, pelos seus montes e pedregosas 
margens. E' dividida além disso por diversos riachos, os 
mais notáveis são o Fundo, ou Piranhas e o Tapera ; conta 
a Povoação 93 casas e algumas solTriveis. com sua Gapella 
de Santo António— cujo Instituidor foi António dos Santos 
Brandão, que lhe deo poucas terras de património. 

O Commercio é maior do qne o do Armazém, e apezar 
de sua fealdade, é Piranhas um ponto frequentado por 
todos os habitantes e productos da — Mata d' Agua Branca 
desta Província — Tacaratú— Pajeíi — e outras partes extre- 
mas da de Pernambuco. 

Seus montes, suas rochas em terra, e no Rio, seus vizi- 
nhos fronteiros, tudo concorre para que se appellide este 
logar de feio como uma — Piranha, — a cuja dentadura bem 
imitão as aguçadas pedras que muitas vezos mordem, e 
engolem as canoas. 

A Pedra do Matheus — a mais temivel e notada, é Scylla 
e Carybles, pois os navegantes cojn qualquer descuido, ou 
devem ir de encontro a ella ou serem engollidos pelos 
redomoinhos (panellas) que se vèm em continua rotação e 
que em tempos das aguas estouráo cora horrível estrondo ! A 
catadura feia do logar não apartou deile as riquezas natu- 
raes— talvez para verificar-se o adagio— Fortuna dos feios ! 

Da margem do Rio subindo para os Morros e cortando 
o Riacho — Tapera — emcruz,encontra-se — Pyrites e Quar- 
tzos— bêm à flor da terra, como a amostra N.<* 21 . 

Signaes que indicáo uma rica mina de ouro ; além disso 
sobre a Serra do Tinguihá a amostra N." 22 o que são tur- 
malinas como são chamadas em Minas Geraes. 

Destle o Armazém que entre o cascalho se encontrão — 
ágatas— e a onix, e que apparecem entre as arêas signaes 
de ouro. 



— 268 — 

Nas Piranhas de Baixo subindo a estrada do Sertão ha 
um rochedo que parece estar a esborrondar-se sobre os 
viandantes— Subi nelle, e — com verdade a pequena pedra 
que sustenta a mole de granito está até fendida, e confesso 
que tive meu terror e desci— mais apressado do que fora, 
como nos diz o Camões do seu intrépido — Vellozo— E' uma 
degradação de granito semelhante aos encontradosnas planí- 
cies centraes da França ou nas Cordilheiras do— Limousin. 

Com muita difficuldade ha ainda quem và enfiando peri- 
gos até o logar — Canindé — casa do Coronel Lino, ficando- 
lhe fronteiro e do lado esquerdo a fazenda — Sipó. — O Dic* 
cionario do Exm. Sr. Senador José Saturnino — dá Canin- 
dé, e Agua Branca como pertencentes a Pernambuco, 
quando são, o 1.** de Sergipe, e o 2.° logar de Alagoas, e 
fica 12 léguas apartado da Cachoeira, em parallela. 

Desde Piranhas até ali as pedras alteiáo a queda do Rio, 
e as Panellas que se formão sobre as pedras são immensas 
sendo que as mais falladas são— Garganta — ficando além a 
pedra do — Navio— e do Engenho. Não ousei p6r-me na 
guella de Guião semelhante. 

Até aqui é o Rio de baixo navegável e no logar— Canin- 
dé — faz uma espécie de bacia — mansa como um lago, não 
parecendo crivei que depois de tanto tropeço se encon- 
trasse descanço. Tradicções imittidas por pessoas fide- 
dignas afianção ter o finado Francisco Manuel, dono desse 
logar, tirado bastante ouro em pó de suas margens ; mas 
eu investigando essas arêas, e cascalhos parecem-me serem 
el!as, e aquelles corridos das montanhas com as aguas flu- 
viaes. A amostra N.° 21 indica as arêas ; nellas existem 
pequenos— Jacyntos— microscópicos — escarlates, como as 
gabadinhas de— Bohemia — pyropas— granadas, etc! 

Quebro aqui os remos, e ferro as velas de minha canôíi 



— 209 — 

para proseguir por terra a enfadonha viagem até á Ca- 
choeira. Cortarei a narração do passado neste trajecto — 
de 14 léguas — quasi deserto, e apenas com miseráveis 
habitações de longe em longo ; porque na verdade ter-se a 
noticia desse — Portento — e saber-se que para ve!-o não ha 
uma estrada, e que é forçado o curioso a levar guias, e 
assim mesmo a estragar o fato nos espinhos, e a paciência 
no abaixar-se aos páos, e montar precipicios, é cousa 
reprehensivel para uma Nação tão presumpçosa, como a 
Brasileira II.. No logar Olho d'Agua do Casado 4 léguas 
distante de Piranhas e— 10 da Cachoeira— fazenda do Te- 
nente-Coronel Manuel Severo Soares de Mello — ha uma 
bebida onde existem fosseis de Megatheriuos, e Mastha- 
dontes. 

O Creador, para se apreciar o bello, collocou antes delle 
as difficuldades, como que para occultal-o ás vistas profa- 
nas dos ingratos mundanos. 

As pragas que se rogão, os incommodos que se sofirem 
nas veredas para a Cachoeira, tudo se dá por bem suppor- 
tado . ao avistal-a 1 1 Nisto resumiria o que houvesse de 
dizer sobre o Paulo AlTonso, mas estou que não teria vos 
satisfeito, e portanto, cavalgado sobre um penhasco duro 
e negro, com os olhos espantados, por observar tanta 
grandeza, principiarei a dizer-vos o que seja este logar, 
que tanta bulha tem feito antiga e modernamente, e sobre 
que tanto se tem fabulado. 

Sempre qne ouvi anteriormente fallar da Cachoeira de 
Paulo Affonso pareciáo-me fabulosas as grandezas que 
delia contavão. Não tem ella com efTeito a figura de Caval- 
leiro vista de longe ; não orvalháo seus vapores meia légua 
em roda, não se ouve seu estrondo 6 ou 8 léguas de longe, 
mas por duas vezes, que a tenho observado a minha admi- 



— 270 — 

rarão, e posso dizer- vos, pasmo me Itm feito exclamar 
com Saint Lambert. 

Ouço o som do trováo que estoira ao longe, 
Das ondas o bramir do ar em chammas ; 
Das palmeiras do valle as palmas tremem, 
Echôa o monte o som triste e profundo, 
E o surdo e lento som compunge o mundo. 

Quando se vence a vereda, quasi intransitável, por onde 
se chega ao logar da Cachoeira, o aspérrimo solo onde só 
vôgetáo a jaramataia e a pellada Carahiba, o negro feio de 
seus rochedos escarpados, ora h*zos e polidos como o ferro, 
aqui pont agudos, ali cavados, acolá fendidos, e ame.i- 
çando o observador ; ninguém haverá que náo admire a 
profunda solidão que buscou I 

Ali só Deus, e as suas obras! O homem pensante, o cóo 
puro e ardente, os arbustos torrados, a areia em brasa, e 
os rochedos como monstros que parecem letantar-se con- 
tra o indiscreto que os veio procurar no seu desamparo! ! 
Se os papagaios fazem suas gralhadas ao longe; se o va- 
riado curupião trina seus gorgeios ; se o mocó, sentado 
sobre os pés esfrega com as mãos o focinho e foge guin- 
chando, é para mais nos convencerem de que só elles aU 
habitão ! No logar onde pousei, as pessoas que me acom- 
panharam disseram-me ter havido uma casa e curraes, 
para servir de retiro, mas nem vestigios deixaram estas 
edificações! Náo é sem muita dificuldade que, superando 
os rochedos e pequenos braços do rio, e algumas torren- 
tes se pode aproximar a esta maravilha. 

Nâa vos mentirei dizendo que logares ha bem seme- 
lhantes a esses talhados propyleos granitos das Ilhas de 
Shetiand ! 



— á71 — 

Pensar- se> como sempre suppuz, que se [mk observar 
a Cachoeira de— Paulo AíTonso— como a da— Ti jucá— nessa 
Corte, ou a do— Niagara— nos Estados Americanos do 
Norte — é um erro que para muita gente ainda perdura. 

As aguas corriáo do nivel do terreno do nosso rancho; 
e somente depois que galgamos uns e descemos outros ro- 
chedos, passando por entre fendas, ou vingando-as de um 
salto, ou nos sepultando nos torneados — pilões (trabalhos 
operados pelas aguas em redomoinho) é que nos colloca- 
mos em posição de investigar suas diíTerenles quedas. 

Antes de chegar à Cachoeira, o Rio de S. Francisco 
corre sempre empedrado, e anfráctuoso, mas em um 
plano, a que os francezrs chamão— platcau. É levando 
em suas torrentes as areias que estava > [)or entre as enor- 
mes rochas de Granito, que sua força pode desenterrar a 
ossada do petrificado Gigante— Paulo AlTonso— medindo 
a sua queda principal pela altura do agigantado tronco, 
e debruçando-se entáo sobre elle por cinco aberturas que 
tantas são as vias abertas p^ra sua passagem. Não julgueis 
com tudo que só por estas quedas desce o Rio de baixo 
lento, pois por muitos desvios e pequenos canaes vem elle 
mo6trar-se fronteiro á bania esquerda na vistosa Cachoei- 
ra, cuja estampa — N.® 33 — vos remetto com varias 
outras. Relevo ainda acrescentar que raras serào as vistas 
da Cachoeira de Paulo AlTonso que tiradas em diversos 
dias, mezes, ou annos se irmanem ! ! 

De cada vez que o observador tocar nestas paragens en- 
contrará o Gigante como tendo mudado de posição, por- 
que as quedas lhe parecerão muito modificadas para mais 
ou para menos, algumas torrentes novas, e algumas sup- 
primidas I f Igualmente como a Cachoeira se despenha por 
entre rochedos, qualquer mudança de posiçáo para a ob- 



— 27á — 

senjr» muda inteiramente a vista, ora encobrindo, orâ 
descobrindo a queda das aguas. 

Para vos descrever bem o modo porque se observa a 
iiichoeira, imaginai uma collossal figura de homçm, sen- 
tado C4>m os joelhos e braços levantados, e o Rio de S. 
Francisco cahíndo-lhe com toda sua forço sobre as costas, 
porém ao qual não podeis vér sem estar trepado em um 
dos braços ou em outra qualquer parte que lhe fique ao 
nivel, ou a cavalleiro sobre acabeçi. Parece arrebentar 
de debaixo dos pés, como a formosa cascata de Tivoli junto 
a Roma. 

É um espectáculo assombroso 1 I Os penhascos sobr?, 
que nos firmamos — eu e miíilia senhora — parecíáo fugir- 
nos de sob os pés, e quererem seguir a velocidade das 
correntezas ! 

Um mugir surdo e continuado, como os preparos para 
um terramoto, serve de acompanhamento á musica estron- 
dosa dos variados e diversos sons produzidos pelos cho- 
ques das aguas 1 1 Quer ellas vcnhão correndo velocíssimas, 
ou saltando por cima das cristas das montanhas; quer 
indo em grandes massas de encontro a ellas, e delias re- 
trocedendo; cahindo de borbotão nos abysmos, e delles 
se erguendo em húmida poeira, quer torcendo-se nas 
vascas do desespero, ou levantando-se em espumantes 
escarceos; quer estourando como uma bomba ; quer che- 
gando-se aos vaivéns, (1) e brandamente crescendo, ou 
recuando rapidamente, e com irresistível força: quer ca- 
hindo em espadanas, ou era flocos de espuma alvíssima, 
como arminhos, é um espectáculo assombroso e admirável. 
ObservamoNa ao raiar do dia, e ao clarão da Lua : quando 
observamol-a aos primeiros raios matutinos ; as aguas por 

(1) As aguas que nas beiradas se Rvanção impellidas. porém que para segui- 
rem 6 força da corrente recuão apressadamente e com violência. 



— 273 — 

tíles abrilhantadas ; as nuvens do húmido pó, sobre que 
SC estampavão muitas iris ; os dourados vapoi*es da aurora ; 
o brando vento da manhã ; as alvas neviías que se ião des- 
fazendo ao erguer do Sol, e representando no Céo, antes 
do se esvaicerem, dilTerentes phanthasmagorias ; o quieto 
balançar dos ramos; os cantos matinaes das aves ; o es- 
voaçar dos papagaios, anu-íinas e grandes aves branas, 
como um cysne do encontros pretos, que buscavão beber 
as aguas ; as calvas calieças dos Montes pardos, ou esver-^ 
dinhadas pelo limo, mas agora dourados pelo alvorecer ; 
as arvores e ar])ustos infesados por um perpetuo inverno, 
mas agora praticadas como revérberos de luz: tudo faz o 
complexo do bello o maravilhoso ! ! 

O luctar das agir.s feridas pelo sol ô semelhante a esses 
jogos hydraulicos coloridos (|ue observamos nessa Corte, 
executados em 1839 por Mr. Leroux. 

Se deixamos de contem[)lar este (juadro e volvemos as 
vistas para os abysmos fumegantes, a alma estremece, como 
aborda d'ama cratera. Xão se eleváo aos cêos as provas 
ardentes, nem se derramão torrentes de encendida lava, 
como do Vesúvio ou do Orizaba ; é porém um arremedo 
dos rufos annunciadores da próxima exp!osáo, e os turbi- 
lhões da húmida fumaça sobem além de sua altura. Não ha 
vivente (pie n'elles preci[)itado não succumba ! ! Consta 
que o pei.xe que chega a indireitar carreira pela impetuosi- 
dade, apparece morto no rio debaixo, e muitos casos se 
lem dado semelhantes ! Vista com clarão da Lua é um qua- 
dro lúgubre e medonho, que aperta o coração! A Lua fere 
de leve um ou outro cimo dos pe<lregosos montes; não re- 
flecte nos bosques nem nas aguas que íicão assombreadas 
nas cavidades dos rochedos ; e o ronco continuado e ge- 
mente ; o fracasso das aguas, seus estouros {)ela sua im- 

ABRIL. 35 



— 274 — 

piílsão; e seus recuos, como ondas em planos iiicIinadoSy 
e escarpados pedregallios, fazem-na semelhante a uma 
grande e populosa Cidade assaltada nas trevas, da qual 
arruináo, e dcrrocão os edilicios e os templos, e seus habi- 
tantes surprehendidos levantão em confusão aos céos os 
lamentos de sua inesperada desgraça. 

Três sentimentos tomâo o observador ao chegar-se para 
a Caclioeira, ode medo — o de respeito— e o de prazer, em 
quanto se trepão estes rochedos discon versáveis, só o medo 
d'um desastre irreparável nos encoraja, e nos faz supe- 
ral-os; depois de firmados os pés — o respeito — a vista 
d'essas maravilhas nos força a exclamar com B. Rousseau 
— Grand Dieu ! Oh ! que tes (tnvres soni belles / E é só depois 
de entrar o sangue em sua circulação normal que apparece 
um prazer insaciável ! A altura da grande queda foi calcu- 
lada cm 302 palmos— pelo meu amigo e muito hábil En- 
genheiro o Sr. Fernando Halfeld. E' um erro pensar-sc 
que as aguas da Cachoeira cahem sobre o àlveo do Rio de 
baixo : ellas vão de cachoeira em cachoeini ate o logar — 
Piranhas— onde principia a ser navegável com mais fran- 
queza para as canoas abertas. 

São as Caclioeiras as seguintes, designando-vos as mais 
notáveis — Forquilha — Veados— Ventura — Vaivém — Três 
Inn:los de cima— Trcs Irmãos de baixo— Boa Vista— Gar- 
ganta— Na garganta corre todo o Rio cm largura de 85 
palmos I ! e os rochedos marginaes dão talhados de 700 à 
800 pés de altura I ! São as bellezas horriveis que só ex- 
pressão bem o — ierríblemeni pretij — dos ínglezes ! 

Encantado— Salgado— Riacho fundo— Lamarão— Topo 
—Ouro fino— Veado— Canindó Velho— e Canindé. 

São estas— 17— Cachoeiras verdadeiros degráos do alto 



— 273 — 

throno onde se assentou o Gigante, de quem vos tenho 

por tantas vezes fallado com o nome— Paulo Affonso I ! 

Uma diis melhores vistas é a que observâo as pessoas 
que sobem a chamada furna — e a vista N. 24 — éd'ali to- 
mada. Multas grutas apresentâo rochedos doeste logar — 
Sombrias, arejadas, arruadas de christalinas areias e ba- 
nhadas das frigidas Lymphas ; são perfeitas habitações de 
Fabulosas Nayades. Muito foi para notar-se que nomezde 
Novembro, apogéo do calor n'estes Sertões, de maneira 
tàl que das 9 horas do dia por diante os rochedos da ca- 
choeira se tornáo como o ferro em brasa, pensando encon- 
trar em cada poro uma thermal, as aguas estivessem frias 
como um sorvete, e tão saborosas que as bebiamos por 
prazer ! 1 

Parece que o Rio em suas enchentes assoberba os ro- 
chedos, pois (|ue vi poços extensos e profundos, e com 
aguas tão limosas que indicão estarem estagnadas por 
muitos tempos, e só renovadas pelas alluviões . . . Sobre al- 
guns pequenos e já deseccados encontrei esta pasta de fino 
papel natural que vai na amostra N. 22 — (aj feito do 
certo pelo frequente bater das marêtas d*este már doce. 

Todos os— pilões — frinchas — e cavidades próximas às 
torrentes estão cheias de pedras grandes e pequenas das 
amostras N. 23— N. 24, — e bem posso aventurar que ha- 
bitem os fundos d'essassepulturasalgimsbrilhantes— wmijf^s 
(dizem os matutos) que sejáo como os da Rússia, o Regente, 
e menos como da nossa bagagem, porém de menos quila- 
tes. As amostras N.^^ 25 e 26— indicâo a qualidade dos 
rochedos da Cachoeira c das areias. A amostra N. 27 — 
assemelha-se ao granito verde do— Voges— A furna ou 
Morcegueiro é uma caverna apontada como um assombro, 
e dizião-me que ninguém podia visital-a senão descalça e 



— 27G - 

com muilo cuidado : examinando-a não acliei diíTicuIdade 
nem na descida, nem na siil)ida, fazendo-as com minha Se- 
nhora; e fomos até calcados. A rocha onde o Rio a prati- 
cou é toda dividida em pequenos prismas e como [)or de- 
gráos; náo a compararei <á celebre gimla de Fingal na Ilha 
de Stoffa e nem tem semelhança com esse prodigio : quando 
para ella se desce os rochedos parecem estas grandes cal- 
çadas de gigantes conhecidos na Irlanda, e em Françíi 
entre Vais e Eutraignes, porém sem essa pasmosa regu- 
laridade. 

As amostras N. 28 — indicãoque essas roclias tem — micjx 
— feldspatho, etc. A gruta tem duas entradas, uma menos 
extensa e baixa, e outra mais longa e alta : a maior tem de 
comprimento,subindo-se sempre por um declive doce — 262 
passos, e de largura 23 a 26, e a pequena oitenta, e de lar- 
gara— 16 :— a altura é prodigiosa ! 

Um homem de pulso não fará cliegar um seixo ao tecto! 
Não apresenta nem (Fesses fenómenos conhecidos por — 
Stalactiles. 

As pedras do tecto costumão a destacar-se, e a cahir 
como nos indicaram varias por sua recente queda. São am- 
bas o viveiro de morcegos que assemelháo-sí? aos — pte- 
rodactyles— de que falia— Bendant, mas em logar dos bicos 
de ave tem a cabeça d'um perfeito cão de fila com orelhas 
redondas, no mais igualáo, e são da grandeza de perto de 
dous palmos de cada aza. Na frente da caverna ha um vai- 
vém que é por certo o operário que cada um nas enchen- 
tes trabalha em sua escavação : mostrão-se mesmo em frente 
duas camadas de prismas, uma mais alterosa, e outra mais 
humilde, que altestão terem pertencido â parede que serve 
para divisão das duas grutas. O vaivém traz para esse logar 
Ironcos e páos de todos os tamanhos e de forma variadas. 



— 277 — 

como voreis pelaamoslrn — N. áO. Quando os ohsíTvoi pn- 
recia-mo oslar vondo com um microscópio um som nume- 
ro de — infíisarios— fosseis — segundo a sua prodigiosa, e 
infinita variedade de que nos falia — Mr. Khrenberg. 

São talhados e hnmidos pelo movimento das aguas esses 
páos ; e consta (jue nns enchentes, e quando essa immen- 
sidade de jvios sobre nadão, se ouve uma desarmonia in- 
fernal à semelhançi do coaxar dos sapos, e rãs, e gias dos 
grandes lagos estagnados. 

Pelo damno que fazem os morcegos aos creadores, estes 
lodos os annos ajuntão as lenhas trazidas pelas aguas e 
accendem grandes fogos em que abrasão as furnas, mas 
não extinguem a praga : acontecendo por isso talvez a calci- 
nação das pedras calcarias e as suas frequentes dissoluções, 
que tornão assustadoras as visitas a esses togares. Se qui- 
zesse narrar vos um Romance, dir-vos-hia que os primei- 
ros neophytos ou cathecumcnos. perseguidos pelos Césa- 
res— aqui somente acharam guarida e deixaram para con- 
firmação no presente, de que ahi fora então uma cova de 
christãos, um Ermitão e sou Acólito petrificados I ! 

D'ahi corre o Rio até a Cachoeira da Forquilha muito 
apert^ido em Serranias talhadas perpendicularmente ; e tão 
esquadrilhadossão os penhascos uns sobre os outros, que 
nos pareceo ser fácil sua desmoronação, não de balde lucta- 
mos com os mais insignificantes, apezar de estarem até 
inclinados sobre o Rio. D>ssa paragem de cima do Mor- 
cégueiro nos parecia que o Rio não terií? mais de 8 braç^as 
d'uma a outra serra ; correndo manso, profundissimo e es- 
curo ; lançamos algumas p: dras com toda a força : porém 
não cahião ás vezes nem sobre agua ! ! Só com uma funda 
podemos conseguir, depois de algum tempo, ouvir-se o som 
que produziáo ao ferir a margem opposta. 



— 278 — 

Na— Gurímga— como chamão os naturaes— o abysmo 
fumegante— experimentamos se os seixos vingavão a beira 
opposta, e pareceo-nos que sim : seria talvez por estar o 
Rio no osso, como é fraze technica. O meu Escrivão do 
Jury— o Capitão José Correia Leal, vaquiano d'esses Joga- 
res, e que nos acompanhou em todas as excursões, disse- 
me ter ouvido dizer a antigos que cm um dos rochedos, 
sobre que se dispunha o grande salto, havia uma ponta de 
rocha, a qual, servindo de travanca à livre passagem das 
aguas, causava maior estrondo e repuxo, o que por essa 
razão se viáo de mais longe os vapores, e se ouviáo roncar. 

O que é certo é que tal empecilho não existe, e que es- 
tando nós pela noite na Fazenda da— Cruz, quatro léguas 
longe da cachoeira, ouviamos, por intervallos, um surdo 
rumor que alíirmavão os moradores ser da cachoeira; po- 
rém como seguem outras muitas por diante, talvez se não 
possa aflirmar ser o som da de — Paulo AlTonso.— mas a de 
alguma mais próxima ; pois que dormindo nessa mesma 
noite perto da cachoeira, menos por um quarto de légua, 
não ouviamos esse estrondo tão fallado, e tão pronun- 
ciado. 

Finalmente os rochedos apresentão formas diversas, e 
em certos logares, como os desenhos que vão sob o N.° 30. 
Ao deixar a cachoeira ao ouvir gradualmente sumirem-se 
seus roncos— lembrou-me a oitava 60 do Camões — no 
canto ?).« 

Assim contava com um medonho choro 
Súbito diante os olhos se apartou : 
Desfez-se a nuvem negra e c'um sonoro 
Bramido muito longe o mar soou. 

Tenho dado ao Pedregoso Gigante o meu derradeiro 



— 279 — 

ailfus, e liirno ao Porto de Piranhas para viajar agora de 
ilifferente maneira. Então a minha canoa espi rava os ven- 
tos para seguir avante. Iioje só deseja que o seu tlêspola os 
encarcere, ouvindo o— Quos ego ! 

Et dicto citius túmida irquora plac >t. 
Collectasque fugal nubis. solemqu(^ reducit. 

Cf>mo nos refere o cysne Mantunno; para ([ue piano como 
um espelho todo o Rio, possa minha canoa deslisar ao som 
da torrente até minha residência ! Em quanto a canoa na- 
vega atoa— deitado ou antes encaixotado na tolda irei nar- 
rando-vos as bellezas ribeirinhas, c a forma da navcgaçílo. 
sua importância e as riquezas em pcscính), e no mais que 
correr aos bicos da penna, acerca do graníhoso Rio de S. 
Francisco. 

D'esde— Piranhas até a Barra do Rio navega -se em gran- 
des e pequenas canoas ou solteiras, ou ajoujadas : As es- 
tampas N.^^ IH a 33 mostrão suas formas, e mastreação, c 
massame, que ordinariamente é de nossos tecidos de al- 
godão, e de caruá. O mais notável nellas são as velas c o 
commodo para o viajante— O numero— 1 .** indica a tolda— o 
é esta a melhor camará doestes Navios— o í.*» c o 3.*^ as 
velas que parecem, em comparação da canoa, umas azas ; 
e o modo de encolher uma e outra, ou de as (»stender para 
viajar é singular, principalmente visto de longo e com vento 
fresco : igualo-as a uma branca Garça em vòo rasteiro. 

x\ tolda, e as velas são uma antithese do navegação; [mis 
que acamara melhor está na proa, e as velas ição-scquandr) 
s^as quer ferrar, e arreáo-se quando sas quer abrir! Não 
se navega para cima senão com vento, o qual é providen- 
cial e constante depois de 10 horas da manhã até alta noite, 
cora suas excepções, conforme a estação. 



— i8() — 

As caiiO)as passão onliiiariaiiieiite por uma mclhanior* 
pliose, sorvem primeinsmenlc feixadas, porque sao de um 
só madeiro: depois porem (pic solTreni radias, ou (piai - 
quer lesão no fundo, abrem-se; o que consiste em ra- 
char-se a canoa; e de!la fo'rmar-se outra com cavernas, 
servindo as bandas da que s(» rachou de peças principaes 
nas curvaturas lateraes, de forma que quando velhas iicam 
maiores e mais gordas: segucMJi a regra das mulheres que 
depois de velhas (piasi sem[)re eiigordão*.. Para descer-sc 
ou navegar-se para baixo usâodas vogas, ou deixâo atoa, 
e corre a canoa pela corrente, ou quando solTrem o vento 
contrario, cortão um grande ramo, e o soltão n\agua 
preso por uma corda na pôi)a. A corrente leva o ramo, e 
com a força de leval-o. leva igualmente a canoa e navega-se 
ainda com antithese— de popa ! ! — Quasi senipre a melhor 
descida é pela calada entre a cessarão do vento á noite, e 
em quanto não chega pela manhâa; acho porém bastante 
perigoso este methodo, e è confiar de mais na fortuna, e 
cojno não me supponho— César, ou Napoleão — o Grande— 
procuro sempre trazer remeiros. que em noites de lua até 
me divertem, fazendo seus outeiros improvisados : e ó de 
notar que alguns tem queda i)ara isso. You referir-vos 
algumas quadras destes, cantadas em desaíio e ao som do 
compassado bater dos remos. 

Lá vem a lua sahindo, 
Resplandecendo alegria, 
Tomando os raios do sol, 
Fazendo da noile o dia. 

Debaixo de um verde ramo 
Dorme um somno o passarinho, 
NYio cuides (jue eu te deixo ; 
Vive, amor, descansadinho. 



— á81 — 

Cale lá suas cantigas; 
Và metter n'um forno frio ; 
Com semelhantes cantigas 
Não se canta um desafio. 

Queime lá você as suas, 
iMetten Jo n'um forno quente : 
Que as suas são estudadas. 
As minhus são de repente. 

Náo deixâo de ter muita grara, e de avivar saudades 
essas rimas expressadas em som de solàos em alta noite 
observando-se o ameno clarão da Prosérpina, pintando 
uma facha estrellada sobre as aguas do Rio I 

Tu dos amantes silenciosa amiga 
Que d'amor os mysterios apadrinhas 
O' noite I manda favoráveis auras ! 

(B. Barros,) 

Em tempo de Rio cheio a velocidade como sabeis é 
maior, e posso afflrmar-vos que tenho sabido de Traipú 
pelas— 9— horas da manhãa. descançando das 2 até as 4 
da tarde e chegado ao Penedo ao romper d'alva, fazendo 
pela corrente 14 léguas, que 'tantas são as— comidas pela 
Justiça de um a outro Termo. Regulando mais de meia 
legua por hora. 

Algumas destas canoas abortas tem até 30 palmos de 
comprimento, e 8 a iO de hocca, e carregáo muita carga; 
um ajoujo (tenho visto) levar muitas vezes de 90 a 100 
saccas de algodão, e muitos outros objectos miúdos. Tanto 
os pilotos como as canoas se alugão por dias, ou por via- 
gem, regulando a tripulação — que para cada canoa basta 
ser de duas pessoas— de 500 á 640 rs. por dia, e o barco 
—de 800 à 1 g 000. Sendo por viagem, calculáo pelos 
ABníL. 36 



— 282 — 

(Jiiis a levar conrorme a estação, e firmâo os ajustes; cal- 
culo pelo passado commigo — paguei do Penedo ao Porto 
da Folha 4 8 000, pela canoa e G g 000 por dons Pilotos— 
de Porto da Folha a Piranhas 8 S 000 de canoa e 10 S 000 
para os Pilotos. Do Penedo para a Barra regulou 4 § 000 
da canoa e 6 g 000 de Pilotos ; portanto pôde regular daí 
Barra á Piranhas cada canoa e dous Pilotos de 308000 a 
408000 de despeza, importando quasí de 800 a IgOOO por 
légua. 

Uma outra antithese marítima é que a canoa e a tripu- 
lação navcgáo, tanto na ida como na voíta, por conta do 
fretador, o qual sustenta os Pilotos ! í Acontece algumas 
vezes ( maxime com os fretadores como eu ) voltar a canoa 
vasia e tá disposição dos Pilotos, qiie a carregão, e lucrão 
em seu proveito os fretes ! 

A dilTerençíi que parece excessiva do Penedo â Barra 
em comparação do Penedo no Porto da Folha— é devida á 
razão de que do Penedo para a Barra são as cimòas sujei* 
ta» ao Gusano— Vulgarmente— Bussano : entendo que o& 
donos tem summa razão ; pois que este moUusco. da forma 
de upia minhoca parda e curta, tem o vigor de por o fundo 
das canoas arrenda las !I e só com a galla de enxofre se 
retarda esse damno. 

Tát3 crescido é o numero das canoas em uma e outra 
margem que não exagero, dizendo-vos que montaram a 
mais de 800 de toda a lotaç^âo inclusive as de pesca. Para 
a navegação de — Cabotagem — existem— 6 barcos actual- 
mente a saber— o Paticho Boa Ventura que demanda 14 
palmos e de 190 toneladas; a Sumaca — Deligencia que 
demanda 14 palmos e de 141) toneiadas— Ditta Flor do 
llio que demanda 13 palmos e de 148 toneladas— Dita 
Santa Cruz Defensora «pie demanda 121/2 palmos ede 



— 283 — 

ili toneladas— Dita Nova Andorinha que demaníla IS 
palmos e de 104 toneladas— O llyate Boa Sorte que de- 
manda iO 1/2 palmos e de 71 toneladas. Estes barcos dáo 
regularmente tt viagens por anno. Sahem e entrão nas ma- 
rés vivas, e vão tâo carregados dos géneros de exportação, 
€ principalmente de assucar e algodão que se os visseis, 
não acreditaríeis que podião dar vela sem submorgi- 
rem-se I Tenho os visto carregados de saccas até o— cesto 
de gáveas ! 

Posturas ha ipie prohibem esse modo perigoso ; porem 
a avareza não conhece limites, e por amor delia muitas 
perdas tem havido de fortunas e vidas — o— auri sacra fa- 
ines— do Virgílio — éa lei fundamental do commercio. Não 
vos fallo em um que cahio a pouco, e que se está a mas- 
trear. A carreira seguida é para o Porto da Bahia de S. 
Salvador e desta para aqui, vindo carregados de fazendas 
seccas e molhadas. 

A importação é calculada por bons entendedores em 
mais de 2:000:000 íf 000 rs, annualmente, e o valor da 
exportação jà acima vos dei. Os valores dos fretes estão 
lixados á 200 rs. por arroba, e de 100, 120 e 140 rs. por 
canada de liquidos. De Ganindé até abaixo do Armazém o 
Rio é todo empedrado, dessa paragem para baixo só as ro- 
chas são marginaes, e os empecilhos para a navegação 
reduzem-se ás grandes Coroas que se formão e desman- 
chão segundo a força das enchentes, e que tornão a velejar 
—de zigue zague— dando sempre um constante canal pela 
corrente. 

Não direi que para grandes vapores como o Bengal ou o 
— Queen of the south — ou mesmo para os do porte do 
finado heroe — D. Affonso — possão fazer a navegaçião do 
S I^Yancisco mas estou convencido de que os de lotação 



— 284 — 

como a— Imperatriz— poderão granjar francamente ate a 
Cidade do Penedo, e outros menores e apropriados ate o 
Páo d'Âssucar; pois persuado-me que dá-se um canal 
constante de 10, 20 e de 37 a 30 e mais pés. 

Não contando com os benefícios concernentes a desobs- 
truição dos Rios, As tradições são acordes em que, jà tem- 
po houve, no qual — Sumacas — subiram até — Páo d'Assu- 
car, e apontão ter subido até o Limoeiro o Patacho do 
Mestre de Campo— Caetano de Sá ; e em 1834 para 1835 
dous Hyates — um do Capitão Luiz de França, morador 
no— Peba — e outro de pessoa desconhecida ; comtudo o 
que vos posso afirmar, é que grandes Barcaças chegâo 
até — Armazém, — e que uma pessoa de nome Raymundo 
Jorge— navegou até o— Bonito — com um Hyate ou cha- 
lupa carregada de Sal. 

O Rio de S. Francisco, como vos tenho dito, é muito 
anfractuoso, e de tal forma que, em alguns lanços corre 
de Norte à Sul ; em outros parecerá que corre de Sul ã 
Norte e em outros se fechâo tanto as montanhas, e pontas 
que vos parecerá um angipasto ! Quanto mais se sobe o 
Rio mais é elle augusto, e logares ha onde as correntes 
com os ventos faz( m ondas como as do alto mar, em ou- 
tros ha remansos em que estão as aguas como o mar em 
calma podre ! ! É nesses pacificos lagos que as Piranhas 
(das quaes vos mando a mandibula inferior) fazem sua 
manjua dos infelizes que nelles cahem ou mortos ou vivos. 

São seus montes ou collinas de alta e baixa verdura; 
esveltos e bonitos no inverno ; escarpados, duros e abro- 
Ihosos no verão. As margens e baixas são lindas ; e logares 
ha encantadores. 

Os combros, formados pelas aíliivióes são os terrenos 
abençoados para as lavras de fiuno, rícino, cannas de as- 



— 285 — 

sucnr, milho e todos os legumes. De espaço a espaço os- 
tentão-se arvores corpulentrs e copadas, cujos ramos se 
espe^hão nas aguas, e prestâo sombrios deliciosos. 

As quebradas das Ilhas apresentão uma singularidade 
que é as camadas de terras acarretadas pelas alluviões, e de 
formação em filetes horisontaes, podendo se contar por 
elles os annos das enchentes, e em algumas contei até mais 
de 300 filetes, como na Ilha dos — Coqueiros. 

A plantação do arroz é em verdade miraculosa ! Depois 
das enchentes formáo-se n-^s bordas do Rio — e coroas uma 
terra argilosa, resultado da putrefacçáo dos vegetaes e 
mais objectos decompostos, a que chamão aqui lamas — 
as quaes vão successivamente apparecendo, «^ proporção 
que as enchentes váo abaixando: os cultivadores de arroz 
calculáo exactamente como se fosse a columna graduada iJo 
Lago— deMeris,— a altura e descida das aguas, e com tempo 
preventivo— fazem canteiros, ou sementeiras, no logar em 
que primeiro se mostráo ns lamas — semcião a porção de 
arroz que pertcndem lavrar : esta sementeira com o crés - 
cimento d^um palmo é transplantada para as lamas, que 
progressivamente vão-sc mostrando pelo abaixamento das 
aguas; desta maneira proseguem até final transplantação 
do todo ! Cada pé que c lançado (as vezes ainda sobre a 
lama lavada pelas aguas) faz uma toceirade muitos caixos! 
Sem rotear o solo, nem mais amanho do que o expendido, 
aguardáo tão somente a maturação para seifa I ! É este o 
raethodo usado em toda a beira do S. Francisco, e pelo qual 
só pelo lado esquerdo se faz a colheita da cifra indicada na 
exportação, a f )ra a do consumo I A esses cultivadores se 
não devem applicar os pensamentos do Dr. Sthokler. 

O misero cultor que industrioso 
Do fértil seio da benigna terra 



— ^86 — 

Faz nbrolhar os preciosos fructos 
Que a vida nos sustentáo ; 

Por quanto nenhuma industria empregáo a respeito do 
arroz os felices cultores d'aqui ! O capim de planta chama- 
do de Angola, nasce espontaneamente pelas Ilhas e beira- 
das! Ascannasde assucar, plantadas em alguns Jogares, 
dao mais de 20 folhas, e no Brejo Grande são bens de raiz 1 
o que igualmente me pasmou, foi vêr alguns cannaveaes, 
cujas cannas, com dous e três annos de nascidas, ainda es • 
taváo frescas para a moagem ! Flexão e não se perdem 
como na Bahia e outros terrenos ; antes as d'aqui engros- 
sáo, filhlo, crião pampros (que são cannas quasi pyrami- 
daes) e sem perderem as propriedades sacarinas I ! Oh I 
terra abençoada ! senão és a promettida pelas Escripturas, 
outra não te levará as lampas ! I Remetto-vos as vistas da 
Foz do Rio vista de Piassabuçú, as de Própria e Penedo 
etc, tomadas a olho por mim mesmo, esperando um sin- 
cero perdão pelo atrevimento. Quando aqui cheguei, e fiz 
a minha primeira viagem á Cachoeira— informaram-me de 
que o Rio possuia barreiras marnosas : não me souberam 
explicar onde erâo ellas, e nem sabia eu o que fosse mar- 
ne ; senão pela difinição de marnel que dá o Phylologo — 
Moraes— em quanto não procurei melhores mestres, 
dizião-me uns que era o mame a amostra N.® 29 e outros 
as amostras N.° 30 e N.® 31 . Depois porém que li a obra de 
Raspail, soube o que era, e à vista das suas explicações, 
incHno-me a amostra N.° 32 por ser saponacea dar louça, 
e parecer-me menos inquinada de ferro. O Sr. Halfeld 
affirmou-me que no Rio debaixo não havia minas de 
mame, mas ainda me não desenganei, attento a que as re- 
commendaçóes que para o Presidente desta Provincia man- 
dou o Exm. Sr. Conselheiro— Hollanda Cavalcanti— para 



- 28; — 

«e investigar esse novo estrume , de que uni viajante — 
Francez — fallou asseverando ter tanto, capaz de carregar 
muitos Navios. Se existe esta riqueza ainda a ignorância a 
faz occulta, apezar de que qualquer das amostras applica- 
das como estrume produz effeito satisfatório, sendo a ar- 
gilosa abundantissima por toda a margem. Sobre todas 
estas bellezas, o ftio. Lagoas e Riachos que recebem as 
aguas do Soberanos. Francisco são povoados de peixes das 
seguintes qualidades — Camurupim — Camurim mirim e 
assú— Surubim (peixe de couro) Tu!)arana— doirada e 
branca — Bagre— pocomom—niquim—cumbá, de maior a 
menor (de couro;) uma cousa notável ca reprodução que 
fazem pela bocca. e sabem os filhos, como os que vão no 
frasco com espirito de vinho : E o peíjueno — Bagre— capaz 
de nadar e pegado a um ovo, c<imo a gema d'um pinto ao 
tirar da casca. — Pira (couro) Mandin assú — branco — ama- 
rello— armado— capadinho—e es(|uentado (couro)— Guri - 
mala— Matrincham tem a bocca como aslamprôas— Curu- 
vina, conhecida em Minas Geraos — pelo nome de Paripu- 
tug;i — RubàIo— Traíra— assú e mirim— Matraúé— Piau 
cotia — preto—e branco, de maior a menor— Piranha — 
Pacú — Pirambéba— Lambia, muito parecido com asLam- 
j)rêas — Sardinha — Sara pó — Sabeirú ou Aragú — Gará — 
Piaba de papo — Piaba de carcunda — Piaba ordinária — Acari 
de pedra — de casco— de lama— e de espinho— Mussú — es- 
pecial de caramurú—Jundiá— Solha — vulgarmente— Soia 
— Caborge — é imia espécie do Sapo, caminha para terra co- 
berto de espuma, com a c^lma descança, e vtdta ás aguas 
quando lhe apraz, ou é surprehendido : 

Perto da Barra, ha muitos Tubarões e Botos e nos pân- 
tanos ha Cágados e Jacarés; em todo o Rio ha Pitus — gran- 
dissimos, cuja pata vos remeto N. 32 e pelo dedo se conhe- 



— a88 — 

cera o gigante— Camarão— Aratanha — e Camarão de cor- 
renteza. 

Não tenho ouvido nem tratar se quer dos— minhocões 
— monstruosos, de que falia o Escriptor— Accioli — posto 
que da minhoca é assas abundante toda a margem, e fazem 
delia isca para a pesca, porém nem por isso existem muitas 
amphisbenas. O Camurupim é o peixe maior: tenho-os 
visto de mais de 12 palmos, e os Surubins, maiores do que 
um homem ! ! As— Tubaranas— e Camurins são até de 4 à 
S palmos. Os retratos de alguns peixes vos farão conhe- 
cel-os mellior : maxime a Piranha, digna de todos os res- 
peitos. 

A navegação é constante, ao cahir do vento sahem frotas 
as vezes de, 20 l\0 e mais canoas, e se reúnem, principal- 
mente nos sabbados na volta das feiras, tantas que coalhão 
o Rio ! É então um quadro bello, e ao alongarem-se, da 
costa, duas velas latinas, ou como um quadrado truncado, 
alvas como cysne fazem recordar a cantata do Garção. 

Jà no roxo horisontebranqueaváo 
As prenhes velas da Troianna frota 
E entre as vagas azues do már doirado 
Sobre as azas do vento se escondião. 

Em algumas— Lagoas como na do Goitiseiro, 5 léguas 
desta Cidade, ha sauguexugas. tão boas como as da Euro- 
pa, e muitas apanháo os matutos, porém para espairecerem 
(como dizem elles) e não por viverem disso. 

Se são pitorescas as margens do S. Francisco com as 
aguas baixas e recolhidas a seu leito, se apresenláo paisa- 
gens arrebatadoras, que se debuxão em suas correntes 
crystallinas, o melhor c velo correndo velozmente, 'occu- 
pando todos os logares liaixos, arrastando troncos e 



— á8U — 

halseiros, e com elles formando— líhas—ílucluantcs I 
Apresentando todas as suas— Ilhas — sem areias, todas as 
margens sem ribanceiras, e todo elle sem coroas ; e o povo 
aquático cm innumeraveis bandos festejando a invasão ou 
pequeno deluvio que òs desalojou uc suas liabitações e os 
forçou a descançar ncs bosques! ou a andar esvc.çando 
sem um húmido pouso; e ílepois de sua victoria, de suas 
innundaç<)es para o interi(;r, de muitas léguas, abrir cami- 
nho por duas boccns nos salgados senhorios misturando 
suas aguas doces com as amaras do Grande Atlântico! 
Fazem do magestuso a sua descda, movendo continua- 
mente essas enormes massas de liquido; e depois de visitar 
seus domínios ruraes; de fazer-lhes as doações de força e 
de fertilidade, então plácido e claro como o crystal, reco- 
Iher-se á sua casa de descanço— o seu alveo— costumei- 
ro!! 

É uma missão annual, da qual o braço Omnipotente o 
encarregou, e para que testifique o Infinito poder descri- 
pto nestes grandes versos de— Rousseau — 

II prend sa course, il s'avnce 
Comme un superbe geant 
Bientôt sa marche feconde 
Embrasse Ic tour du monde. 
Et par sa force puissante 
La nature languissante 
Se reanime, et se nourit. ! . . 

A enchente de 1792— subio 49 palmos sobre o nivel! ! ! 
e a de 1838—36 ! ! ! Com tudo tantas são as vargens que 
primeiro que ellas se occupem, tarde ou nunca será toma- 
da a Cidade nas partes altas. 

Estou aqui ha mais de três annos e ainda não me encheo 

ABRIL. 37 



— 290 — 

de |)asino, ou de medo a e evação das aguas deste Neréo 
de Agua doce. 

lÁ estilo á vista as torres da Matriz, os edilicios ainda 
estão nebulados ; porem é a Cidade do Penedo, 

Vou tornar ao meu humilde albergue, e não poderei di- 
zer como o Piloto Melindano 

K se do mando niíiis não desejais 
Vosso trabalho longo aíjui fenece. 

Pois i|ue esttni bem lembrado de que a minha ultima 
promessa foi dizer- vos alguma cousa, ainda queperfun- 
ctoriamente, sobre a minha Comarca. 

A (iOmarca da Cidade do Penedo na Província das Ala- 
goas é situada á margem esquerda do Rio de S. Francisco, 
e segundo infomiações limita-se a cima duas léguas da 
Cachoeira de — Paulo Affonso — com a Provincia de Per- 
nambuco pelo Riacho— Moxotó— Serra do Exú e Riacho 
— Manary : com a Comarca de Anadia, da Provincia das 
Alagoas, pelo logar—C^nòa— cabeceiras do Rio— Panema 
e do Riacho — Capiá, c pelo Kio— Cururypc até sahir na 
Carta do mar, e finalmente correndo a costa do Peba e 
entrando barra dentro do Rio de S. Francisco; seguindo 
o Rio á cima até encontrar outra vez o Moxotó. 

Neste espaço comprehcnde dous termos— o 1.° da Ci- 
dade do Penedo, que é a cabeça da Comarca, e o 2.^ da 
Yilla do Porto da Folha conhecida igualmente por Traipú 
como já vos disse. Compõe-se o primeiro termo das Fre- 
guezias da Cidade e da de Porto Real do Coilegio, e o 
segundo das Freguezias do Porto da Folha, Pão d'Assucar 
(creado este anno) S. Anna, e Mata Grande. 

A Freguezia do Penedo abrange os Povoados da Cidade 
— Piassabussú— Feliz Deserto — Salomé— e Brejo Grande— 



— 291 — 

os qiiaes são districtos de Paz sob duas Subdelegacias de 
Piassabussii e Penedo, e uma Delegacia da Cidade. São as 
Justiças do Brejo Grande pertencentes á Província de Ser- 
gipe d'El-Rei. 

Dà esta Fregaezia— Cl —Eleitores, e sua população 
monta em 20,938 almas, constando só na cidade de 333 
escravos que pagão taxa, e mais 130 exemptos pela idadcí 
menor, etc. 

Não TOS numero a escravatura empregada na lavoura 
que poderá montar talvez de 3 a 4 mil. A Freguezia do 
Collegio comprehende as Povoações do mesmo nome e as 
de Sío Braz, Lagoa Comprida, com dous districtos de jus- 
tiças de Paz. e uma Subdelegada, e dá IS Eleitores com 
3,íX)4 almas, entre livres e escravos. 

A Freguezia do Porto da Folha comprehende os Povoa- 
dos da Villa — Mombaça— ou Preáca— (Serras) Canoa pelo 
centro, e beira Rio — os povoados — Munguengue— Rabello 
— Lagoa Funda— Panema— Limoeiro— e Pão de Assucar, 
hoje Freguezia pela Lei Provincial citada : conta esta Fre- 
guezia três districtos de Paz com duas Subdelegacias, e dà 
24 Eleitores, e tem 17,747 almas livres e escravos. 

A Freguezia de SanfAnna (central) comprehende o seu 
Povoado, tem um districto de Paz uma Subdelegaria, e dà 
12 Eleitores, com 5,31o almas contando escravos — Foram 
os factores da Capella então— Martinho Vieira do Rego, e 
sua mulher Thereza Joaquina doando terras. 

A Freguezia de Mata Grande (hoje Villa) por Lei Pro- 
vincial de 1852 comprehende os Povoados da Villa e de 
Agua Branca, e na beira do Rio, os povoados de Piranhas 
e Armazém, conta trcs districtos de Paz, dá 24 Eleitores, 
e tem 12,633 almas inclusive os escravos. 

As Serras de Mombaça e Priaca indicão mineraesi, e 



— 294 — 

nellas encontrei os crystaes que vão nas amostras N.**^ 32, 
33, e 34. A^ém Ji^so achei as pedras das amostras— 
N.o 3g_a tipella de Mata Granda foi erecta em 1781 
pelo criolo Ant ni» d) Hosarin, e a de Mata Branca por 
Pedro No'asco de Araújo e sua mulher em 1770— outros 
dizem qiio ;jor Faustino Vieira de Sandes. Mata Grande 
foi Villa em 22 df» Janeiro do 1838— supprimida em 1846, 
e restaurada em 1832. 

A Serra chamada— Pellada—é toda da amostra N." 36— 
é alva como nevp. muito mais baixa está do que a da 
Priaca. 

Subindo-se o píncaro da ultima Serra, de que vos fat- 
iei, encontra-se um bosque formado de arvores copadas e 
direitas, e collocadas todas em ordem, e distancias que 
parecem regulares columnas de ordem corinthia, de umas 
para outras descem franças que fingem arcadas, às quaes 
se adherem parasitas, engrinaldando-as com suas flores e 
cores differentes. 

O bosque assenta sobre uma chapada de 30 passos em 
quadrado ; em torno vegetáo arbustos cheirosos e de lindas 
flores, e finalmente é tapisada de gramma verde, e no 
interior a Sambamljaia (ou barba de bode) macia como 
uma enxerga de pluma, dâ o melhor commodo, sobre de- 
liciosa sombra.— E' uma morada de Nympha ! Por qual- 
quer lado (fue se derrame a vista, ávida sempre nestas 
occasiões, descortinão-se vastos Sertões rodeados de ma- 
tas, c de longe em longe habitações. 

Quanta alegria nâo sobresalta o observador quando vô 
um grupo de mais algumas casas, e entre estas alguma 
alvejando, e mais espaçosa f 

Admiramos a constância dos que se internáo, e táo lon- 
ge vivem, fora do que chamamos mundo ; porém é na 



— 293 -• 

verdade tanto maior o sentimento de sociedade, e de ci- 
vilisaçáo que nos salteia, quanto vemos maior reuniáo de 
Brasileiros, quasi no meio das feras, e entregues a seus 
fracos recursos pliysicos, e moraes ! ! 

Pelo lado do Rio é a Serra talhada a prumo, e táo alterosa, 
que salvando muitas outras summidades, avista-se a Yilla 
de Própria, e a Cidade do Penedo em tempo claro, jmis 
que todos estes cumes deitáo pela manha seu branco bar- 
rete de nevoeiro, que só o tirão, em respeito ao Deus dos 
Incas. 

Observei o Rio que parecia um regato, e a Serra— Ta- 
banga um cômoro á margem delle ! I Tudo o mais, não re- 
presenta senão uma campina com alguns tesos e cliar- 
nécas. 

Rolando-se grandes pedras de sobre o talhado da Serra 
levão ellas espaço para tocar o fundo do abysmo, e pelos 
sons, se avalia da profundidade delle, e da altura delia. 

Aquelle que ainda não cavalgou sobre uma Serra Gi- 
gante, e que de seu pináculo, onde se crê isolado no am- 
biente, não espraiou seus olhos pelas vastidões de nossos 
Sertões ; que ainda não contemplou assim o azul de nosso 
Céo puro, e o horisonte immênso que nos cerca, não pôde 
fazer uma idéa do bello maravilhoso, e da magestade do 
infinito ! I Os rochedos da Serra são dispostos em camadas 
horisontaes, brancos e com areias brancas assimilhando-se 
ás deixados pe!o recuo do mar. 

Oh ! quem sabe se a gruta que pisamos 
Não foi a casa d'humida Serèa, 

Que por ordem suprema. 
Ao recuar das aguas, despeijou-a 
Quando o espirito de Dons andou sobre ellas?! 



— 294 — 

Soffrei mais estes da própria lavra, e desculpai; que è 
de mào poeta querer em tudo inserir versos seus. 

Seguindo— o córrego — que tem as fontes nas ditas Ser- 
ras, achão-se areias como as da Amostra N.° 37 e soter- 
radas lages graudes da Amostra N. 38 : 

Ha tradições de que jà se tem extrahido ouro, o que pôde 
muito bem ser. 

No Termo do Penedo ha a Serra — Marabá — que dizem 
é vista do mar. e que serve de balisa aos navegantes, que 
demandão a Barra : ha nella crystaes; e informáo-meque 
melhores, do que os da Priaca; mas não os hei visto. 

O furo do Termo do Penedo compóe-se de um Juiz de 
Direito, um Juiz Municipal e Orphâos, formados em Di- 
reito e è igualmente o Delegado de Policia — dous Subde- 
legados e cinco Juizes de Paz, dous Tabelliáes de Notas e 
Escrivães de geral, que destribuem entre si, sendo parti- 
cularmente um encarregado da Policia, e o outro do Re- 
gisto das Hypothécas; um Escrivão de Orphãos, um pri- 
vativo do Jury. c execuções criminaes, a fora os dos Sub- 
delegados, e Juizes de Paz; e um de Capella, e Residuos. 

Não ha um Advogado formado, excepto o Promotor Pu- 
blico, e por isso as causas são mal defendidas, e sacrifi- 
cadas a rábulas alguns totalmente hospedes de direito. 

Causou-me admiração que esta Comarca dando 7 filhos 
formados em Direito, e 6 em medicina, nenhum se qui- 
zesse estabelecer em sua Pátria ! Estarão com o protesto 
do despeitado da antiguidade; ingrata Pátria, — mn poce- 
debis ossa meu ! 

Dà dous Batalhões de Guardas Nacionaes de mais de 
1,200 praças sob um Commando Superior. Além das Igre- 
jas referidas, conta ns casas de oração de Salomé, Santa 
Cruz do Morro Vermelho, Junqueiro> Igreja Nova, e Pi- 



r% 



— 29o — 

ranga. O Termo <lo Porto da Folha a cjue está ariiiexa a 
Villa da Mata Grande, compõe o seu foro de Juizes Muni- 
cipaes Supplentes— dous Tabelliáes do geral, accumulando 
um os trabalhos do Jur}' e execuções e bens do evento 
e capellas e residuos, e o outro a Policia; um escrivão de 
Orphãos— e bens de ausentes— não tem Advogados — está 
como o Penedo. 

Dá dous Batalhões Nacionaes, sob um (lommando Supe- 
rior contendo ambos mais de 1,600 praças. Além das 
Igrejas ditas ha as casas de oração de — Giraô— Mambaca— 
Priaca—Riacháo— Santa Cruz— do Velho Nunes— Santa 
Cruz de Mestre Félix — e Santa Cruz dos Veados. 

Tem a Comarca — um Juiz de Direito — um Juiz Munici- 
pal—um Promotor Publico— três Delegados— sete Subde- 
legados—e doze Juizes de Paz. 

O dizimo de gados rendeo o— Município do Penedo 
6:2008000-0 de Traipú 9:660g000— e o de Mata Grande 
5:200ÍIOOO— total 2!:080$000. 

O clima dl Comarca é muito variado desde a fóz do Rio 
até a Cachoeira. O desta cidade é doentio, loj(o depois do 
escoo das enchentes, experimenta-se nella alguma semc- 
lhanç4i a essa inconstância da do Rio de Janeiro. 

Também dias apparecem, em que o Rio cobre-se de uma 
serração tão densa que não se vêm os objectos que estão 
ao pé. O Sertão vai mais sadio, e as Serras são salubres, 
e nellas se sente frio tão intenso como o de Minas ou 
S. Paulo, maxime de Agosto até Outubro. 

Os logares mais invulneráveis às febres amarellas foram 
Traipú, e S. Braz ; como me admirei do primeiro, porque 
liça sobre uma rocha que, escandecida pelo sol ti*opical, 
será capaz de evaporar todos os miasmas do mundo, [)o- 
rém de S. Braz sim, porque além de possuir duas léguas 



— 290 — 

próximas do Povovido, c tanta a criação suina qiieexcre- 
mentáo as ruas ao ponto de as porem intransitáveis 1 1 
Creio no que me disse certo ;\lcdico que estes males pro- 
curam antes os limpos, que os sórdidos; sendo o contrario 
das de mais epidemias. 

As febres intermittentcs sâo indemicas, e nâo raros os 
casos de mortes repentinas por estupores principalmente. 

lia ervas, plantas, arvores, e raizes medicinaes— ccmo : 
— contra-erva— lingua de vacca — batata de purga — ma- 
cella — ipecacuanha preta e branca — cainana — que tem o 
effeito do azougue— estramonia — tingui — o louco, planta 
cáustica com mais proveito que a cantharida — quinaquina 
— angelim. ou lombrigueira — ruibarbo — barbatimáo— al- 
caçús, etc. etc. — Manacá— mal vaisco—extragata. etc. etc. 
Ha um sipó chamado cunanám que cortado deita ura leite 
phosphorico. e que queima como agua forte — experimen- 
tei, e à noite em um ranxo veritiquei esse grande pheno- 
meno. 

E' farta de madeiras, como toda a— Provincia — para 
edificação — tem Pào— d^arco de liôr roxa e amarella. Sa- 
pucaia — madeira que se desfiia para ripas— coração de 
negro — Gitay — Louro— ingá, e verdadeiro— Cedro— Man- 
gue — Baraúna — Pào de óleo, de que se extrahe o óleo de 
cupaiba. Para construcções navaes— Louro, Arapiràca— 
Gitay — Cedro — Sicopira — Potumojú— -Páo Santo. Para 
marcenaria — Pào d'Arco — Gitay — Cedro— Jacarandàrana 
— Coração de negro— Peroba — Emburána— Canafistola — 
Condurú— branco— e não vermelho como o da Bahia — 
Gonçaloalves— Angico ( I )— Potumojú — Gijuiba — Tatajuba 
(também para tinturaria) — Bálsamo — Pào de óleo — Gini- 
papo, Joazeiro (que pela sua alvura serve para embutidos) — 

0) o Angico destila gommu optiiDa para as doenvas de peito, e a casca c 
folhas 6 um andidoto para quedas. 



— Ú\)'J — 

Massaraiiduba — Macieira — tão llexivel que serve para ai"cos 
de barril e pipas — é a mesma que dá o fructo para o dôre 
de qu(* fallei, e de que mando aamostra N. 3í) — Vi Cardeiros 
— de tí a 7 palmos de rircumfereucia no tronco, e lendo 
perlo de 70 de hastes : fazem doce do chamado — chique- 
cliique — e cabeça de frade : ha o — Alaslrado — que assado 
parece amacacheira ouaipy, etc. — O propriamente — Man- 
dacazú — dá um pello— da ajnostra N.*' 40, e a capa, ou 
casca um papel que fresco se pôde escrever com facili- 
dade tomando bem a linta, amostra N\° 41 . 

No cardo palmatória, se cria a coxônilha, que ha em 
abundância no centro, e a poucas léguas da beira do Rio, 
é a amostra N. 4i. 

Vou narrar-vos agora algumas raridades. Houve aqui 
um liomem que náo podia ouvir bater ovos, pois que sen- 
li i crescerem-lhe os beiros enormemente. lia ainda um 
que náo come arroz e se o faz padece repentinamente uma 
elefantíase, crescendo-lhe Iodas as extremidades do rosto. 
Ha um para SanfAnna quo a cada palavra dá um bodèjo 
tal, que seria capaz e poderia illudir qualquer — cabra— 
causando aos bodes a sensação de que escreveo o Épico 
Latino— na Bucólica 3.^ 

Novimus et que te.... transversa tuculibus hin^ís, 
Et quo, sed faciles nymphe risêre. sacello. 

Houve aqui um Juiz que inventariou r)4í)?láO toda for- 
lima de um finado, e dividio-a, dando— 315390 para divi- 
das— 298410 para funeral— yOÍ^7Go de custas \m\\ si e 
seus offlciaes ! — e dividio o resto por 31 herdeiros, fazen- 
do quinhões da quantia de ai íí 147— ate 881 réis !!!...— 
de maneira que foi o maior herdeiro do finado !... 

Houve um Jury em que os Jurados tiveram de respon- 
AimiL. 38 



— 298 — 

der a 91 — perguntas— por ter o Promotor ollerecido o 
Libello contra o Réo — Serafim— pelos crimes seguintes : 
— 5 mortes— 2 tentativas do mesmo crime — e 1 roubo, 
com todas as aggravantes do Código, desde 4 até 17 ! ! Ha 
um homem que se jacta de ser Atheu,— Um que bebe agua 
e vinho cada uma bebida por sua vez, e que as lança 
depois á vontade de quem as pede separadas é pciotiqueiro 
innato. — Outro que serve para todos os ofiBcius de letras, 
mecânicas. — Um que blasona de rico — absoluto— mas que 
só possae para pagar o terço das dividas. 

Um que rifa constantemente objectos, porém que se náo 
sabe ainda qua! o feliz que tirasse um premio. Na Mata 
Branca houve um escravo do vigário, hoje de Paracatu — 
o Padre Miguel Arcanjo Torres, que era hermaphrodita — 
tendo os dous sexos bem desenvolvidos. De presente um 
que era havido por senhora ; aos 20 annos largou a saia, o 
veio enliar as calças e os modernos paletós! ! mora em Páo 
d'Assucar, e chama-se Maria, e hoje Mariano. Se conti- 
nuasse com as raridades compor-vos-hia um musêo ; mas 
uma carta não tem salão para tanto. 

Ultimarei esta minha narrativa fazendo algumas refle- 
xões que julgo dignas de attençáo eque só ellas serião ca- 
pazes, em execução, de tirar este soberbo Rio e suas mar- 
gens do abatimento e abandono a (|ue parccco estar 
condemnado. 

A extensão da Comarca do Penedo é de comprimento 
na parte mais septentrional de — 50 a 52 léguas, — e nu 
parte mais occidental de — 26 a 30. 

A Comarca de Villa Nova da Provincia de Sergipe tem 
de longura 40 a 42 léguas e de largura 16 a 20. Seu clima 
c variado, como a cima vos disse ; e as riquezas de seu 
solo dão grandes esperanças : só lhe falta a civilisaçáo, e 



r% 



— 299 — 

que esta espanque as trevas em que os preconceitos tem 
involvido estes bellos, e virgens logares. Instrucçáo, civi- 
lisação, communicaçáó; parece que Deus rimou estas 
palavras para demonstrar que sem ellas não prospera um 
povo. 

A instrucçáo inventa, descobre; a civilisaçáo aceita, usa 
dos inventos e das descobertas; a communicaçáó as espa- 
lha, applica-as em beneficio geral. A riqueM nasce dessa 
reunião, e com ella a satisfacçáo do povo, que, farto e co 
nhecendo o seu, procura respeitar o alheio, e assim reci- 
procamente. A segurança publica é composta de muitas 
seguranças particulares ; náo é senão segurando-se muitos, 
ou a maior parte que a Sociedade Civil tem também se- 
gurança. 

Mas como virá tocar esse futuro ao Rio de S. Francisco? 
me perguntareis vós e eu vos responderei facilmente. 

Abri aos olhos do especulador, e ávido extranho os the- 
souros fechados nestas ribeiras de uma vejetaçáo fabulosa ! 
uni suas duas margens, fazendo uma só Província, que 
tudo apparecerá transformado. 

Náo é possível, como está, nem um augmento ; cada 
margen pertence a uma diíTerente Província, ejurisdicçáo, 
distando da Capital mais de 30 léguas ; e a acção do go- 
verno chega tardia e illudida. 

Tudo de mão em uma, se vasa reciproca e facilmente 
na outra, e estes raáos elementos, conservados e augmen- 
tados por poucos, que tem interesse immediato no atraso 
de tudo, que olhão para a idéa de progresso, cora maior 
horror, do que para uma cascavel, é a maior esterelidade a 
combater, é a peior febre amarella a estinguir. 

É esse o germem de corrupção que arruina a prosperi- 



— 300 — 

(laile. liberdade o segurança, o que mala no berço o espi- 
rito, e o corpo dos Povos. 

Não ha raciocinar alem dos maioraes da terra, e nem 
usar da liberdade a mais legal, sem suas approvações ! A 
morte deste — digamol-o — despotismo — só com uma tal 
transformação, se dará. Desde o decimo quinto século 
que se descobriram estes logares, ha mais de 300 annos que 
os deshabitaram os selvagens, e tudo demonstra a natureza 
pura e singela com as modificações somente da necessidade 
absoluta. Ainda a mão do progresso não poz em acç^lo, 
com a devida sinceridade, tantos recursos I 

As obras que se observáo nesta Cidade do Penedo indi- 
cão que houve mais vida, e hoje os indícios sáo de progres- 
siva decadência. 

É preciso mudar de vida, activar os homens, destruindo 
as rotinas perniciosas, mas, seguidas á risca, e por capricho 
egoistico por quem não conhece os bens provenientes do 
progresso a todos os respeitos, ou leme escurecer-se á 
vista da luz. 

O Quadro do rendimento desta Comarca é animador: 
quero mesmo que não tanto renda a Comarca de Villa No- 
va, comtudo não seria preciso ao Governo fazer despezas 
impossíveis para ter e manter uma nova Província. 

Não podemos cafcular a importação estrangeira ; mas se 
é exacto o calculo de que mais de três mil contos de va- 
lores, entrão pelo S. Francisco nos Barcos de Cabotagem ; 
esses valores triplicarão no commercio com o estrangeiro. 

Um homem creador que se dedicasse ao árduo trabalho 
da prosperidade de luna nova Província ; muito poderia 
fazer em beneficio destes povos governados pela Provi- 
dencia, cujos costumes são ainda rudes, porém porque* 
não acháo exemplos nos maiores.. 



— 301 — 

\s producções naturaes desafião o Colono e fôram so- 
mente ellas que arrancaram ao meu cbarà — ^José Vieira do 
Couto— aqucllas exclamações agouras de prospero futuro. 
Eras virão em que os povos correrão em chusmas sobre 
estas ribeiras, Ac. 

Que não aventuraria elle, se entio esperasse uma linha 
de vapores já em carreira, e que esta será talvez a precur- 
sora de uma via férrea para visitarmos essa assombrosa 
obra da Mão Poderosissima— a Cachoeira de Paulo Affon- 
so! ! Estou que se isto tudo, que indico, dependesse de 
uma só vontade — Soberana — a proveitosa creação, de que 
vos fallo, seria feita, pois que são esses feitos, dos que dão 
renome aos Príncipes, e futuro às Nações; pois o — Rei 
reina e não governa; disse o politico — Mr. Thiers.— Essa 
máxima terrível apoquentou o génio dos Monarchas ; abdi- 
caram o pensamento nos Ministros dos governos represen- 
tativos ; e não se pensa, senão pelos moldes das Consti- 
tuições, e querer delles. 

Feliz do Rei que pôde fazer ao Povo todo o bem que 
imaginar, e que tem bons conselheiros para apartal-o do 
todo o mal 1 

Não sei se poderemos assentar este pensamento entre os 
partidos políticos ? Quantas vezes não desconhecem elles o 
bem de que se podem também aproveitar seus contrários 
só porque não o gozáo exclusivamente! I 

De certo que não vos terei satisfeito com estas informa- 
ções : infeliz do espirito fraco que se arroja a embarcar em 
altas emprezas, por que raras vezes escapa do naufrágio ! 

Sou sinceramente 
Vosso affectuoso Amigo por Sympathia 
José Vieira Rodrigues de Carvalho k Silva. 
Penedo, em 1854. 



injiiAt 



DAS 

6DEBBAS FEITAS iOS PAUABES BE PEBIÂIBUCO 

NO TEMPO DO GOVCHNADOR D. PEDRO DE ALMEIDA 
DE 1673 A 1678. 

(M. S. ojfereddo pelo Exm. Sr, Conselheiro Drummond. ) 

Restituídas as capitanias de Peinambuco ao dominio de 
Siia Alí^/a. livre jà dos inimigos que de fóia as vieram 
(•ònqui.^ i^r; s.^ndo poderosas as nossas armas para saccu- 
diro iniuiigo, que tantos annos nos opprimio; nunca foram 
efficiízes para destruir o contrario, que das portas adentro 
nos infestou; náo sendo menores os damnos deste, do que 
linha sido as hostilidades d'aquelle; nâo foi o descuido a 
causa de se nflo conseguir este negocio ; porque todos os 
Governadores, que nesta praça assistiram com cuidado se 
empregaram nesia empresa; porém as diíTiculdades do 
sitii;, a as[>eresa dos caminhos, a impossibidade das con- 
duções, fez impossível, a quem o valor não fez poderoso ; 
os melhores Cabos desta Praça, os mais experimentados 
soldados desta Guerra se occuparam nestas levas, e não 
sendo pouco o trabalho, que padeceram, foi muiío pouco 
o fructo que alcançaram. 

E para que com alguma evidencia se conheça o incon- 
trastavel desta empresa, brevemente recopilarei as noti- 
cias, que a experiência descobrio ; estende pela parte su- 
perior do Rio de S. Francisco uma corda de mata brava, 
í[ac vem a fazer termo sobre o sertão do Cabo de Santo 
Agostinho, correndo quasi Norte a Sul, do mesmo modo 
que corre a costa do mar; são as arvores principaes Pai- 



— aOi — 

meiras agrestes, ([ue deram ao terreno o nome de Palma- 
res ; são estas tão fecundas para todos os usos da vida hu- 
mana, que delias se fazem vinho, azeite, cal, roupas; as 
follias servem ãs casas de cobertura ; os ramos de esteios, 
os fruitos de sustento; e da contextura com que as pencas 
se cobrem no tronco, se fazem cordas para tolo o género 
<le ligaduras, e amarras; não correm tão uniformemente 
estes Palmares, que os não separem outras matas de di- 
versas arvores, com que na distancia de sessenta léguas, 
se achão distinctos palmares : a saber ao Noroeste o Mu- 
cambo do Zambi, dezesseis léguas de Porto Calvo ; e ao 
Norte deste distancia de cinco léguas o de Xrotíreiíe ; e logo 
para a parte do Leste destes dous Mucambos chamados os 
das Tabocas; e destes ao Noroeste quatorze léguas o de 
Dambrabuwja, e ao Norte deste oito léguas a Cerca chamada 
Subnpim ; e ao Norte desta seis léguas a Cerca Real cha- 
mada o Macaco; ao Oeste desta cinco léguas o Mocambo do 
Osenga, e nove léguas da nossa povoação de Serinhaem 
para o Noroeste a cerca do Amaro ; e vinte cinco léguas das 
Alagoas para o Noroeste o Palmar de Andalaquituxe ; Irmão 
do Zambi ; e entre todos estes que são os maiores e mais 
defensáveis, ha outros de menor conta, e de menor gente ;• 
distão estes Mocambos das nossas povoaçôens mais ou me- 
nos léguas, conforme o lançamento delles, ponjue como 
occupão o vão de quarenta ou cincoenta léguas, uns estão 
mais remotos, outros mais próximos. 

É o sitio naturalmente áspero, montuoso, e agreste, se- 
meado de toda a variedade de arvores conhecidas, e igno- 
tas, com tal espessura , e confusão de ramos , que em 
muitas partes é impenetrável a toda a luz ; a diversidade de 
espinhos, e arvores rasteiras nocivas servem de impedir 
os passos, e de intrincar os koncos; entre os montes se 



— 3()o — 

ospraião algumas várzeas fertelissimas para as plantas ; c 
para a parte do Oeste do sertão dos Palmares se dilatão 
Campos largamente estendidos, porém infructi^eros, e só 
para pastos acommodados. 

A este inculto e natural couto se recolheram alguns ne- 
gros, a quem ou os seus delictos, ou a intractabilidade de 
seus Senliores, fez parecer menor castigo, do que o que 
receiavão; podendo nelles tanto a imaginação, que se 
davão por seguros , onde podião estar mais arriscados. 
Facilitou-lhes a comedia a estancia, e com presas, que co- 
meçarião a fazer, e com persaações da liberdade, que co- 
meçaram a espalhar se foram multiplicando. 

Ha opinião que do tempo que houve negros captivos 
nestas Capitanias começaram a ter habitadores os Palma- 
res;notempoqueaIlolIandaoccupouestasPraç:ís engrossou 
aquelle numero; porque a mesma perturbação dos Senho- 
res era a soHura dos escravos ; o tempo o fez crescer na 
quantidade, e a vizinhança dos moradores os fez destros 
nas armas ; usáo hoje de todas, umas que fazem, outras 
que roubão, e muitas que comprâo ; as que fazem são 
arcos e frechas, as que roubão, e comprâo são de fogo ; 
os nossos assaltos os tem feito prevenidos, e o seu exer- 
cício os tem feito experimentados ; não vivem todos juntos 
porque um successo não acabe a todos, em palmares dis- 
tinctos tem sua habitação, assim pelo sustento, como pela 
segurança ; são grandemente trabalhadores, plantão todos 
os legumes da terra, de cujos fruitos formão providamente 
celeiros para os tempos da guerra, e do inverno; o seu 
principal sustento é o milho grosso, delle fazem varias 
iguarias; as caças os ajudão muito, porque são aquelles 
matos abundantes delias. 

Toda a forma do Guerra se acha nelles, com todos os 

ABRIL. 39 



— soe — 

Cabos Maiores e inferiores, assim para o successo das i>e^ 
lejas, como para a assistência do Rei ; reconhecem-se to- 
dos obedientes a um que se chama o Ganga Zumba, ([ue 
(juer dizer Senhor Grande ; a este tem por seu Rei e Se- 
nhor todos os mais assim naturaes dos Palmares, como 
vindos de fora ; lem palácio, C^ipas da sua familia,é assistida 
de guardas e oíDciaes, que custum o ter as Casas Reaes; 
c tratado com todos os respeitos de Rei. e com todas as 
ceremonias de Senhor ; os que chegão á sua presença põem 
Jogo o joelho no chão, e batem as palmas das mãos signal 
do seu reconhecimento, e protestação da sua excellencia ; 
fallão-lhe por Magestade, obedecem-lhe por admiração; ha- 
bita na sua Cidade Real, que cliaraáo o Macaco, nome sor- 
tido da morte, que n'aquelle logar se deo a um animal 
destes ; osta é a metropoli entre as mais Cidades e povoa- 
ções ; está fortificada toda em ura cerco de pào a pique/ 
com treneiras abertas para oíTenderem a seu salvo os com- 
batentes ; e pela parte de fora toda se semeia de estrepes 
de ferro, e de fojos tão cavilosos, que perigará nelles a 
maior vigilância ; occupa esta Cidade dilatado espaço, for- 
ma-se de mais de mil e quinhentas casas; ha entre elles 
Ministros de Justiça para as execuções necessárias, e todos 
os arremedos de qualquer Republica se achão entre elles : 

E com serem estes Bárbaros tão esquecidos de toda a 
sugeição. não perderam de todo o reconhecimento da 
Igreja ; nesta Cidade tem Capella a que recorrem nos seus 
apertos , e imagens a que encommendáo suas tenções, 
quando se entrou nesta Capella, achou-se uma Imagem do 
Menino Jesus muito perfeita ; outra da Senhora da Con- 
ceição, outra de S. Braz ; escolhem um dos mais ladinos, 
a quem veneram como a Parrocho, este os baptiza c os 
casa : porém o baptismo é sem a forma determinada pela 



— 307 — 

igreja, e os casamentos sem as singularidades, que pode 
inda a lei da natureza ; o seu apelile é a regra da sua elei- 
ção ; cada um tem as mulheres, que quer, ensináo-se entre 
elles algumas orações Christáes, observão-se os documen- 
tos da fé que cabem na sua capacidade; o Rei que nesta 
Cidade assistia estava acommodado com Ires mulheres, 
uma mulata e duas crioulas, da primeira teve muitos filhos, 
das outras nenhum ; o modo de vestir entre si, é o mesmo 
que observáo entre nós; mais ou menos emroupados con- 
forme as possibilidades. 

Esta c a principal Cidade dos Palmares, este o Rei que 
os domina, as mais Cidades estão a cargo de potentados, e 
Cabos Maiores que as governão, e assistem nellas : umas 
maiores, e outras menores conforme o sitio, e a fertilidade 
os convida, a segunda Cidade chama-se Stibupira ; nesU 
assiste o Irmão do Rei, que se chama o Zona, {\)k forti- 
ficada toda de madeira e pedras, comprehende mais de oito 
centas casas ; occupa o vão de perto d'uma légua de com- 
prido. É abundante de aguas porque corre por ella o Rio 
Cachingi; esta era a estancia onde se prepara vão os negros 
para o combate de nossos assaltos : toda a cercavão fojos, 
e por todas as partes por vias aos nossos impulsos, estava 
semeada de estrepes ; das mais Cidades e povoações darei 
noticia, quando lhe referir as ruinas. 

Este é o inimigo que das portas a dentro destas Capita- 
nias se conserva a tantos annos, a quem defendia mais o 
sitio, que a constância ; os damnos que deste inimigo nos 
tem resultado são innumeraveis ; porque com elles periga 
a Coroa, e se destroem os moradores ; periga a Coroa por- 
que a seus insultos se dispovoavão os logares circumvizi- 
nhos ; e se despejavão as Capitanias adjacentes ; e deste 

(IjOsengá? 



— 308 — 

damno iiifallivel se seguiáo outros inevitáveis, como era 
impossibilitar-se a conservação de todo Pernambuco ; por- 
que como occupão os Palmares do Rio de S. Francisco té 
o Cabo de S. Agostinho, ficão imminentesa Pojuca, Seri- 
nhaem, Alagôa? Vna, Porto Calvo, S. Miguel, povoações 
donde se recolhem mantimentos para todas as mais Villas, 
e freguezias, que estão á beira mar; sem cujos provimen- 
tos ficáo todas inc^nservaveis ; porque os fruitos. que dão. 
são os de que mais se necessita : a saber: gados, farinhas, 
assucares, tabacos, legumes, madeiras, peixe, azeites. 

Destroem-se os Vassallos, porque a vida, e honra, a fa- 
zenda, porque lha destroçáo, e lhe roubáo os escravos, as 
honras porque as mulheres, lilhas irreverentemente se 
tratão ; as vidas porque estão expostos sempre a repentinos 
assaltos ; Demais que os Caminhos não são livres, as Jor- 
nadas pouco seguras; e só se marcha com tropas, que 
possão rebater os seos encontros. 

E parecendo fácil destruir-se este damno, foi té agora 
impossivel coaseguir-se este intento : porque depois da 
restauração destas Praças, vinte cinco entradas se fizeráo 
aos Palmares, e malogrando-se nellas grandes cabedaes, 
a si da fazenda real, como da dos moradores, e perecendo 
muitos soldados, nunca se lhe enfraqueceram as forças; e 
para que conste com evidencia o grande cuidado que tem 
dado este negocio ; e os grandes abalos que tem causa- 
do este empenho, refirirei o nome dos Cabos que lá fizeram 
entradas. 

Despojados os Hollandezes destas Capitanias, que injus- 
tamente domina vão pelo memorável Mestre de Campo Ge- 
neral Francisco Barreto, cujo nome não só merece enta- 
Ihar-se nos mármores da eternidade, mas também impri- 
mir-se nas laminas da nossa memoria ; pois foi o farol que 



— 809 — 

nas trevoas do nosso capliveíro. despedindo os raios do 
seu valor, que Hollanda sentio, nos conduzio ao porto se- 
guro da liberdade, que hoje logramos; recolhendo-se 
restaurador de todas estas Capitanias, náo quiz deixar de 
as remir ultimamente de todos os seus contrários ; e a si 
entre os parabéns dos saccessos passados se acendeo o 
brio para os estragos futuros, e prevenindo perto de seis- 
centos homens com tudo o mi is necessário para as mar- 
chas, os entregou á ordem do Capitão André da Rocha para 
que fizesse a primeira entrada por aquellas matas nunca 
dantes penetradas : entrou a gente, começou a desemba- 
raçar os estorvos d'aquellas montanhas, e a buscar os ha- 
bitadores d*aquclles desertos; porém como erão os Capi- 
tães, que entrarão, briosos, e os soldados resolutos, a dis- 
córdia os desunio : do que tendo noticia o Mestre de Campo 
General mandou o Tenente Antotúo Jacome Bezerra para 
continuar o empenho; o que fez com tanto acerto, que al- 
cançou uma famosa victoria. em que acabaram muitos dos 
Palmaristas, e se capti varam quasi duzentos. 

Este foi o primeiro estrago que sentiram aquellespaizes; 
esta foi a primeira fortuna com que se ensaiaram as nossas 
resoluções ; este foi o ultimo applauso com que se coroou o 
Mestre de Campo General em Pernambuco ; tendo a gloria 
de ser o único restaurador destas Capitanias ; e o renome 
de ser o primeiro conquistador dos Palmares. 

Teve circumstancias de prodigiosa aquella victoria ; por- 
que n aquelle tempo, as experiências erão muito poucas, 
e a multidão dos negros era muito grande ; julga-se susten- 
taváo aquelles matos de dezeseis té vinte mil almas ; que 
com este feliz successo foráo declinando, porque ficaram os 
segundos mais descobertos para as nossas entradas ; e os 
negras mais timidos para os seus assaltos. 



— 310 — 

Entraram depois vários Capitães, Sargentos Mores, e 
Mestres de Campo, e todos mereceram louvor, porque so- 
bre os trabalhos que padeceram, causaram damnos que se 
sentiram ; e porque no breve deste papel náo cabe a rela- 
ção do que obraram sirva-lhes só a declaração dos nomes 
para gloria do que mereceram. 

Entraram nos Palmares o Capitáo-Mór Sebaldo Luiz, o 
Capitão Clemente da Rocha, o Capitáo-Mór Christovão Luiz, 
o Capitão José de Barros, o Capitão-Mór Gonsalo Moreira, 
o Capitão Cipriano Lopes, o Capitão Manoel Rebello de 
Abreo, o Tenente António Jacome, o Capitão Braz da 
Rocha, o Capitão António da Silva, o Capitão Belchior 
Alvares, o Capitão Manoel Alvares Pereira, o Capitão Se- 
bastião de Sá, o Capitão Domingos de Aguiar, o Capitão 
Francisco do Amaral, o Mestre de Campo António Dias 
Cardoso, o Coronel Zenobio Acheoli; o Sargento-Mór 
Manoel Lopes. 

Com todas estas entradas ficaram as nossas povoações 
destruidas, e os Palmares conservados; sendo a causa 
principal deste damno a difficuldade dos caminhos, a falta 
das aguas, o descomodo dos soldados, porque como são 
montuosas as serras, infecundas as arvores, espessos os 
matos, para se abrirem é o trabalho excessivo, porque 
os espinhos são infinitos, as ladeiras muito precipitadas, e 
incapazes de carruagens para os mantimentos com que é 
forçoso que cada soldado leve às costas a arma, pólvora, 
bailas, capote, farinha,' agua, peixe, carne e rede com que 
possa dormir; com a carga, que os opprime, é maior que 
o estorvo, que os impede; ordinariamente adoecem muitos, 
assim pelo excesso do trabalho, como pelo rigor do frio ; 
e estes ou se conduzem a hombros, ou se desamparão ás 
feras ; e como os negros são senhores daquelles matos, e 



— 3n — 

experimentados naínicl.'as serras, o uso oá tem feito robus- 
tos naquelle trabalho, e fortes naquelle cxercicio; com que 
nestas jornadas nos costumão fazer muitos damnos, sem 
poderem receber nenhum estrago, porque encobertos dos 
matos, e defendidos dos troncos se livnlo a si, e nos mal- 
tratãoa nós. 

Este era o estado em que achou os Palmares D. Pedro 
de Almeida, quando entrou a governar estas Capitanias ; 
e como os clamores do perigo commum, e a guerra da 
insolência dos negros era geralmente lamentada de todos 
os moradores; logo tratou de acudir ao remédio daquelles 
Povos, e de conquistar a soberba daquelles inimigos; e 
dispondo com ordens as povoações de Sirinhaem, Porto 
Calvo, Vna, Alagoas, erio de S. Francisco: mandou pre- 
venir carnes e farinhas, para as levas que queria mandar; 
determinou a gente que das mesmas freguezias se havia 
de tirar, ellegeo os soldados pagos que havião de entrar, 
prevenio botica, Cirurgião, religiosos e tudo mais que era 
necessário para a jornada, o que tudo entregou à ordem 
do Sargento-Mór Manoel Lopes, cuja experiência, zelo, e 
valor prometteo bom successo as esperanças que nelle se 
fundaram. 

Achou -se na Povoação do Porto Calvo era 23 de Sep- 
terabrode 1675, com 280 homens entre brancos, mulatos, 
e Índios ; em 21 de Novembro partio para os Palmar, s, on- 
de foram grandes os trabalhos, excessivas as necessidades, 
e continuos os perigos que se padeceram até 22 de Dezem- 
bro em que se descobrio uma grande Cidade de mais de 
2,000 casas, fortificada de estacadi de pào a pique, e de- 
fendida com 3 forças e com somma grande de defensores, 
prevenidos com todo o género de armas, e depois de se 
pellejar de uma e outra parte mais de 2 1/2 horas, larga- 



— 352 — 

ram os nossos soldados fogo a algumas casas, que como 
são de matéria capaz de incêndios começaram a arder e os 
negros a fugir. Deram s jbre eres, mataram muitos, feri- 
ram não poucos e prederam 70 ; ao dia seguinte se encor- 
poraram outra vez os negros, e reconhecido pela nossa 
parte o sitio, foram investidos, renhio-se fortemente com 
damno considerável dos Palaiarislas ; até que no seu retiro 
tiveram o sou remédio; Assistio o Sargento-Mór cora 
nrrayal formado perto de 3 mezcs entre os segredos áspe- 
ros daquelle sertão padecendo indesiveis misérias, exces- 
sivos trabalhos, e fomes grandes; campeando sempre 
íiquellas espessuras : grande fracto se colheo desta assis- 
tência do arrayal, porque timidos os negros de táo próxima 
vizinhança mais de 100 peças se recolheram ao povoado 
buscar seus senhores. 

Nestas esperas alcanç>ou por notícias o Sargento-Mor, 
que se tinhão passado os negros 23 léguas além dos Pal- 
mares entre as fragosidades de mis carreiros tão espinho- 
sos e bravos, que parecião incontrastaveis a toda a resolu- 
ção ; porém não os apatrocinou ainda assim a asperesa, 
porque assaltados dos nossos ficaram muitos mortos, e os 
n;ais fugiram, aqui íc ferio com uma bala ao General das 
Armas, que se chamava o Zambi, que quer dizer Deus da 
guerra. Negro de singular valor, grande animo, e constân- 
cia rara. Este é o espectador dos mais, porque a sua indus- 
tria, juizo e fortaleza aos nossos serve de embaraço, aos 
seus de exemplo, ficou vivo. porém alejado de uma perna. 

Chegaram estas novas cora o Sargento-Mór a D. Pedro 
de Almeida, e comprehendendo dos Palmares o sitio, das 
entradas o perigo, dos moldados o descomaiodo, dos 
negros a resolução, das cidades a fortaleza, com madureza 
grande e zelo maior tratou de dar ultimo fim aquelles ini- 



— :í13 — 

migos, e prevenindo todos os estorvos, que os successos 
passados lhe linháo desciiberto com singular resolução, 
tomou a seu cargo esta empresa, e tendo noticia que na 
Capitania de Sergipe d'el-Rei pertencente ao governo geral 
da Bahia, assistia o Capitão-Mór Fernão Carrilho a quem a 
fama tinha feito conhecido nestas Capitanias de Pernam- 
buco, pelos successos felizes, que no Sertão da Bahia tinha 
conseguido, destruindo os Mocambos e Aldeãs dos Tapuyas 
que infestaváo aquellas partes, cujo valor e experiência foi 
a causa da quietação e seguranç^a, que hoje logra aquella 
cidade, eseus arredores, poisjíi estão os caminhos livres, 
os engenhos seguros, as fazendas sem receios, os gados 
quietos, e os moradores gostosos, sendo neste empenho 
tão intentado de muitos, e não conseguido de nenhum, o 
seu assumpto o serviço de sua Alteza, e não o interesse de 
suas conveniências, porque é patente a todo o Brasil, que 
nestas occupações destroçou o seu cabedal, enão rccolheo 
nenhum emolimaento, achando-se por bem pago das victo- 
rias que alcançou com o nome e gloria que universal- 
mente mereceo. 

A este Capitão-Mór escreveo apertadamente D. Pedro de 
Almeida para lhe entregar a Gommissâo deste negocio tão 
considerável ; aceitou com gosto a empresa, e convidando 
alguns parentes e alliados seus partio logo para Pernambuco 
a avistar-se com D. Pedro ; e conhecendo D. Pedro nelle 
valor, e experiência, e satisfeito da pratica com que discorria 
sobre os Sertões, escreveo logo a todas as Camarás destas 
Capitanias, para que dessem o concurso necessário ao in- 
tento que determina conseguir ; empenhou juntamente com 
cartas aos homens nobres e principaes das povoações cir- 
cumvizinhas aos Palmares, applicando-lhes a gloria daquella 
facão ; estiraulando-os cora a honra daquella empresa. 

ABHU.. 40 



— 314 — 

Miiíto facilitou as Gamaras, e a nobresa daquellas povoa- 
ções a cortez industria com que D. Pedro se mostrou 
independente da gloria do uttimo successo, e juntamente 
a isenção singular do desinteresse com que lhes escreveo, 
que a Jóia que se costumava dar aos Governadores, elle 
Ília offerecia para premio do seu trabalho : e só queria ter 
parabém de ver livre estas Gapitanias dos sobresaltos con- 
tinuos, e dos perigos iminentes em que fluctuavão para a 
sua ruina ; e que o seu intento todo era o serviço que 
nesta matéria resultava a Deus, e a Sua Alteza, e o socego 
a seus vassallos; pois ao contrario se seguião duasmons- 
trosidades indignas de se publicarem no mundo, a pri- 
meira levantareni-se com o dominio das melhores Capita- 
nias de Pernambuco, negros cativos, a segunda era 
dominarem a seus próprios senhores seus mesmos escra- 
vos. 

Foráo estas razões pelo que levaram de cortezia e zelo, 
efficazes motivos para obrigar os ânimos dos que as leram, 
e poderosos empenhos para rebater os impedimentos, que 
se lhes oppuzeram ; porque no mesmo tempo, que despe- 
dia D. Pedro avisos para o que se intentava, se despacha- 
vão correios, para estorvar o que se pretendia, sendo toda 
a causa desta contrariedade diflBcultar a empresa, ou reser- 
var o successo para opportunidade, que mal fundadas 
esperanças lingiáo; querendo assim indignamente negar 
a gloria a quem também dispunha os meios, porém a ver- 
dade da causa desarmou as tiras da inveja, que ordinaria- 
mente prevalece mais o zelo para as empresas, que os 
enganos para o estorvo. 

Dispostos desta sorte os ânimos, prevenidos pelas Gama- 
ras os bastimentos, assignalando-se entre todas a da Viila 
de Olinda, c a da Capitania de Porto Calvo, porque aquella 



— 315 — 

assistio com doiis mil cruzados, e esta com fiOOgOOO, e as 
mais com o que poderam. 

Partio desta praça do Arrecife, e da presença de D. Pe- 
dro, Fernão Carrilho levando todas as ordens necessárias 
para a empresa, e todas as disposições convenientes para o 
intento. Causa principal do bom successo que se conse- 
guio : porque no lançamento das primeiras linhas consiste 
a perfeição da melhor fabrica, e como se tinha empenhado 
D. Pedro em sahir à luz com este emprego, estudou muito 
particularmente o modo com que se havia de fazer a guerra 
servia-lhes alguns desacertos das levas passadas, de pre- 
venção para o acerto das esperanças presentes, todas as 
pessoas que tinhão alguma experiência daquellas monta- 
nhas consultou, para colher de todas a resolução mais 
certa para as direções, e assim foi o regimento, mais acer- 
tado ao sitio, e mais nocivo aos inimigos, que até ao pre- 
sente se tinha feito, e como entendeo que a causa princi- 
pal para se conseguir este fim, consistia, em perpetuar 
arraial no coração daquelles desertos, para delles se faze. 
rem assaltos, e terem sempre inquietos os negros ; orde- 
nou a Fernão Carrilho, que todo o seu cuidado havia de 
se perseverar, e persistir com arraial fortificado dentro dos 
Palmares ; e como este empenho era o mais diíDcultoso 
desta conquista, porque a experiência tinha mostrado ser 
impossivel assistir naquelle sertão; pelos frios excessivos, 
grandes descommodos, faltas de mantimentos que se não 
podem prevenir là em cima, e são difiicultosos de conduzir 
das povoações de baixo. Attendendo a tudo D Pedro com 
singular providencia dispoz pelas povoações circumvizinhas 
os mantimentos, de sorte que não faltassem a seu tempo 
aos assistentes no arraial. 

Com todos estes dictames, conselhos e ordens partio 



— 3JG — 

Fernão Carrilho para a Capitania do Porto Calvo, onde o 
estava esperando a gente que se tinha conduzido das mais 
freguezias; que segundo a ordem de D. Pedro havião do 
ser quatrocentos homens : achou Fernão Carrilho muito 
menos, e feita resenha contaram-se cento e oitenta e cinco, 
entre brancos e índios do Camarão ; era tão pouco este 
numero para a multidão dos negros, que difficultou a Ca- 
mará de Porto Calvo se era conveniente fazer- se a en- 
trada : porém como Fernan Carrilho tinha conhecido bem 
o empenho de D. Pedro, atreveo-se a todas as difliculda- 
des, e pedindo se fizesse algum acto de religião para que 
patrocinasse o Céo a jornada. Cantou-se solemnemente 
uma Missa a que assistio a nobresa daquella Villa e todos 
os que haviáo de entrar naquella Campanha. 

Aos vinte um de Septembro de seis centos e setenta e 
sete fez o primeiro passo para os Palmares, Fernão Carri- 
lho sahindo da Villa acompanhado té entrar no mato do 
Capitão Alvares, Christovão Lins, e seu Irmão Sibaldo 
Lins como mais experimentados n'aquellas manhas, e mais 
interessados na boa fortuna que se esperava ; Fernão Car- 
rilho então juntando todos os soldados que levava com- 
sigo : lhes disse : que o numero não dava nem tirava o 
animo aos valorosos, que o valor próprio só faria animados 
os soldados ; que posto a multidão dos inimigos era grande, 
era multidão de escravos, a quem a natureza, criou mais 
para obedecer, que para resistir ; que os negros pelejaváo 
como fugidos, que elles os ião buscar como Senhores ; 
que as suas honras estavão perigosas pelos seus desman- 
chos; snas fazendas pouco seguras pelos seus roubos, suas 
vidas muito arriscadas pelos seus atrevimentos, que ne- 
nhum dos que o acompanhavão defendiáo o alheio ; e todos 
pelejavão pelo próprio ; que era grande discredito para 



— 317 - 

todo Pernambuco, servir-llie do açoute, os mesmos negros, 
que por elles foram muitas vezes açoutados ; que só mu- 
davão da guerra o modo, e não o uso ; por tantos annos 
estiveram com as armas nas mãos sempre contra Hollanda. 
e inda hoje estavão do mesmo modo contra os Palma-: 
ristas; que se o modo de guerrear era diverso por não ser 
em Campanha, era também mais fácil por ser de assaltos ; 
que elle não queria do seu trabalho outro premio mais que 
o bom successo; quem mais semeasse mais recolheria: 
porque as presas para elles havião de ser : que o Governa- 
dor D. Pedro nem jóia queria para si : que a sua melhor 
jóia era a gloria de fazer este serviço a Sua Alteza, e de 
livrar de tão consideráveis damnos estns Capitanias; e que 
se destruissem os Palmaristns terião terras para a sua cul- 
tura, negros para o seu serviço, honra para a sua estima- 
ção ; que o seu intento era ir buscar o maior poder, porque 
queria ou acabar, ou vencer ; porque do contrario se se- 
guiria teremos negros noticia do pouco poder, que levava, 
e zombarem da guerra que lhes fazia: 

Receberam todos os Soldados com bom animo estas 
razões, e logo partiram em demanda da Cerca de AqiiaU 
tune, este c o nome da mac do Rei, que assiste em um Mu- 
cambo fortificado, trinta léguas distante do Porto Calvo ao 
Noroeste, contaváo-se então quatro de Outubro; tanto 
que do Mucambo se sentio a nossa gente precipitadamente 
desampararam a Cerca, deram sobre elles os nossos, ma- 
taram muitos, e sorprenderam nove, ou dez; a mãe do 
Rei nem viva, nem morta appareceo, e passados alguns 
dias, se achou a Dona que a acompanhava morta. 

Sérvio este successo de nos dar Guias, e noticias porque 
pelos prisioneiros constou de certo que estava o Rei Gan- 
gazumba com seu Irmão Gano Jona, e todos os mais poten- 



— 318 — 

lados, e Cabos maiores na Cerca Real chamada Subupira; 
occupa este Mucambo uma grande Cidade muito fortificada 
na distancia de três montes, de páo a pique com batarias de 
pedra, e madeira; distante da Cidade Real cinco ou seis 
léguas, da Villa de Porto Calvo quarenta e cinco ; servia 
então de praça d'armas, e nella intentava o Rei esperar a 
nossa gente, para se defender em forma de batalha. 

Aos nove de Outubro partio Fernão Carrilho para a Cerca 
de Subupira, e prevenidos do necessário foi abrindo aquelles 
matos, té que chegou a ter vista da Cidade, onde mandando 
fazer alto com todo o silencio, e socego, despedio oitenta 
homens a descubrir as circumstancias da Cerca, situação 
da Cidade, e fortaleza das estacadas; voltaram os explora- 
dores dizendo que tinha o inimigo lançado fogo á Cidade, 
e que só as cinzas erão demonstração da sua grandeza ; 
com que se entendeo que tendo os Negros noticia pelos 
fugitivos de Acatirene, que Fernão Carrilho os buscava, 
quizeram mais arruinar a Cidade que por em perigo as pes- 
soas: apoderou-se deste sitio a nossa Gente, nelle formou 
arraial, fortificouse em baterias, e deo-lhe o titulo de Bom 
Jesius, e a Cruz; titulo que elegeo para padrão da sua for- 
tuna, e mandou que se invocasse em todos os successos. 
e encontros ; d^aqui despedio dous soldados a dar noticia 
ao Governador D. Pedro de tudo o antecedente ; pedindo- 
Ihe soccorro de gente, e de mantimentos, pois n'aquelle 
sitio determinava fazer assento ; despedidos os Correios, 
ordenou uma tropa para bater aquelles matos, e combater 
aquelles inimigos ; vagando pelo inculto d'aquellas aspe- 
rezas em descubimento dos Negros ; passados oito dias na 
esperança de alguma fortuna se recolheram desunidos, e 
amotinados, com falta de vinte cinco homens, que ao rigor 
do trabalho se retiraram fugitivos, d'ahi a poucos dias des- 



— 319 — 

tipareceram outros vinte cinco podendo mais o desabrido 
do sitio para os levar, que o brio da empresa para os 
deter ; com que se achou no arraial Fernão Carrilho com 
i 30 homens. 

Chegados os avisos a D. Pedro, e convocando a conseho 
os Cabos Maiores da praça, poz em pareceres a forma que 
havia de seguir no soccorro, que Fernão Carrilho pedia ; 
para conseguir o fim que se intentava, e continuar no sitio 
em que se aquartelara ; resolveram todos, que despedisse 
um Cabo Maior deste exercito com trinta soldados pagos a 
fazer gente pelas povoações circumvizinhas, e para lhe en- 
viar os mantimentos necessários para o arraial ; votaram 
todos na pessoa do Sargento -Mór Manuel Lopes, porque 
a experiência d'aquellc negocio, o tinha bem opinado no 
conceito geral de todos. 

Partio o Sargento-Mór com trinta homens e fez alto nas 
Alagoas para a expedição da gente, e dos mantimentos ; 
acção foi esta em que luzio muito o zelo de D. Pedro, e o 
empenho desta conquista ; porque como desejava levar as 
novas desta fortuna sollicitou os meios mais acertados para 
conseguir esta felicidade. 

Animou-se muito o arraial tanto que teve noticia do cui- 
dado com que o Governador lhe prevenia o necessário para 
o sustento, e lhe multiplicava os companheiros para o tra- 
balho ; despedio então Fernão Carrilho cincoenta soldados 
à obediência de três Capitães Gonçalo Pereira da Costa, 
Malhias Fernandes, e Estevão Gonçalves, a discortinar os 
segredos d'aquelles bosques; os guias seguindo uma trilha 
que descobriram tiveram um famoso encontro com os ne- 
gros, que estavão juntos, de que conseguiram uma me- 
morável victoria ; em que perecerão muitos, e se prende- 
ram cincoenta e seis ; entrando nelles por prisioneiro o 



Ganga muisa mestre de Cani|)o da gente de Angola ; era 
este grande Cossario, muito soberbo, e insolente ; foi tal 
o estrago nesta occasião, que se avaliou o successo mais 
por fíivor do Céo, (jue por esforço dos soldados ; acabaram 
nelle os Cabos de maior fama : como foram Gaspar Capitão 
da Guarda do Rei, João Tapuya Ambrósio ambos Capitães 
afamados e outros a quem a ignorância dos mesmos sepul- 
tou em perpetuo esquecimento; o Rei fugio com alguma 
gente que se livrou do assalto. 

Tanto que a noticia deste feliz successo bateo as portas 
do nosso arraial foi grande o alvoroço que elegeo a todos, 
e maior a resolução com que se animaram para a empre* 
sa; logo se espedio outra leva, a cargo dos capitães Es- 
tevão Gonsalves. e Manoel da Silveira Candoro; e em es- 
paço de vinte e dous dias aos onze de Novembro tive- 
ram noticia que o Rei estava encorporado com o Amaro 
no seu Mucambo; é este Amaro celebrado naquelles Pal- 
mares, e timido nas nossas povoações; habita nove léguas 
distante de Serinhaem, occupa o sitio perto uma légua de 
distancia, inclue mil castas o Mucambo. Aqui se dava por 
seguro o Rei, porém aqui o foi descobrira nossa vigilân- 
cia; tanto que a noss.vgente soube de certo, que nelle esta- 
va o Rei : com tanto Ímpeto investiram o Mucambo, que 
tízeram um notável estrago, tri)uxerão vivos ao arraial qua- 
renta e sete peças; duas negras forras, e uma mulatinha 
lilha natural de um morador nobre de Serinhaem, que ti- 
nha sido roubo dos mesmos negros ; captivaram o Acajuba 
com dous lilhos do Rei, um m^cho chamado Zambi; e ou- 
tro por nome Acainene, e entre netos e sobrinhos do mes- 
mo Rei (pie se captivaram serião vinte; pereceo o Tuciilo 
íilho também do Rei, grande Cossario, e o Pacassa pode- 
rosos Senhores entre elles; o Rei do furor dos nossos Ca- 



— :m — 

pilãcs se retirou fugindo. Ião arrojadamenlc i[Le laryou 

uma pistola dourada, ea espada de que usava; c foi voz 

Tal que uma frecha o ferira com o ferro, e o fizera voar 

^ as penas de todos os negros que se conglomeraram com 

aro a maior parte acabou â nossa faria, a outros sal- 

'la ligeireza. 

los ao arraial estes capitães com as noticias do 
^cendeo-sc o animo dos nossos ; e em seu se- 
io outra leva de cincoenta homens, e (juatro 
. saber, José de Brito, Gonçalo de Siqueira, I)o- 
y)S de Brit ) e Gonçalo Reis de Araújo discorreram 
cstes iH3la vastidão daquelles matos em seguimento das 
reliquias do Mucambo do \maro, não tiveram do Rei 
noticia; jjorém tiveram encontro com uma tropa, que o 
terror de nossos assaltos trazia atemorisada sem domicilio 
certo, nem descanço seguro, porque como delirava a cabe- 
ça do Rei entre os contínuos riscos, (jue os assalta vão 
discorriam os Vassallos por aquellas brenhas sem ordem, 
e sem governo ; captivaram trinta e seis peças, mataram 
muitos, entre os mortos se conheceo o Gone potentado 
entre elles ; e atrevido entre nós. 

Logo sahio o Capitão Mathias Fefnandes com vinte ho- 
mens i^ela outra parte dosMucambos, e grassando aquelles 
€í)ntornos. descobrío alguns que andavão vagos sem se 
atreverem a fazer assento certo; forão matéria ao nosso 
estrago, e íicaram presos quatorze. 

Como a fortuna estava favorável aos nossos intentos, 
todos òs soldados receiaváo sahir aos encontros, para se 
recolherem com despojos, esta foi a causa porque ia com 
menos prevenção se espalhavão por aíjuellas asperesas 
como dominadores, e não como estranhos, e assim o 
Capitão Mathias Fernandes com a sua tropa, sahio animoso 
a::r!l. 41 



— 32á — 

c recoltieo-se animado, porque aos fios cia sua espada se 
alaváo vinte e ura presos, e ficaram por elia enfiados 
muitos mortos ; o mesmo succedeo aos Capitães António 
Velho Tinoco, e Felippe de Mello de Albuquerque, os 
ífuaes lançando-se para a parte do Mucambo do Amaro, se 
recolheram com presas, e ficaram alguns com damno. 

Neste mesmo tempo que o nosso arraial estava domi- 
nante n'aquellas brenhas, cujas vias incultas nunca foram 
examinadas por outros passos, de tal maneira se facilitaram 
as nossas tropas na divagação d^aquelles desertos, que gras- 
savão ião confiados, que não receaváo ser offendidos tudo 
vence o valor, tudo contrasta a deligencia ; tudo facilita a 
constância, d'aqui se colhe por ditame certo, que nenhum 
trabalho é insuperável á resolução intrépida ; c neidums 
soldados repugnão a perigos formidáveis se lhes presidem 
corações animosos: como D. Pedro era a alma que alen- 
tava esta empresa, do seu brio aprenderão os Soldados a 
serem constantes, do seu zelo a serem deligentes, da sua 
vigilância a serem cuidadosos ; da sua disposição a serem 
prudentes : com todas estas influencias do Governador D. 
Pedro se conseguio em quatro mczes, o que se intentou 
ha muitos annos ; p»receo o successo por maravilhoso, 
lisonja que a fortuna lhe quiz fazer; e pesada bemascir- 
cumstancias foi acerto que a prudência soube dispor; mais 
custou a disposição que o successo, pois gastando D. Pedro 
três annos em lavrar estes impossíveis, colheoem quatro 
mezes o fruito destes trabalhos : não deixa de emular esta 
acção prodigiosa a restauração singular destas Capitanias; 
só digo que se na primeira se venceo um inimigo, que de 
fora nos veio conquistar, nesta se superou outro que das 
portas a dentro nos dominava. 

Neste toflipo que se contavão vinte e nove de Janeiro de 



— 323 — 

mil seis centos e setenta e oito sahio do Arraial do Bom 
Jesus e a Cruz, Fernão Carrilho cora um soldado menos que 
morreo, e com alguns feridos que mandou curar, e reco- 
Iheo-se na Villa de Porto Calvo, dando por destruídos os 
Palmares, e por vencidos os Negros. Foi recebido com 
todas as demonstrações do a plauso, e com todos os para- 
béns que merecia triumpho tão desejado; e como na tropa 
dos negros, que se captivaram na guerra se conhecesse um 
negro por nome Mathias Dmnbi, e uma negra Angola por 
nome Magdalena, já de maior idade, que era sogro d'um 
dos filhos do Uei, Fernão Carrilho dando-lhe o necessário 
para o provimento da viagem, os mandou se fossem em 
boa hora a buscar os seus companheiros, e lhes dissesse, 
que o seu arraial ficava fortificado, e que se não rendessem 
todos ao Governo de Pernambuco, logo havia de tornar a 
consumir, e a a cabar o Rei e asreliquias que ficaram ; com 
este recado partiram os dous velhos ; e com a mais tropa a 
si de soldados como negros e com a Camará e mais No- 
breza, e povo da Villa, e seus contornos, se foi para a Ca- 
pella do Bom Jesus, onde se cantou solemnemente uma 
Missa em acção de graças do felicis^mo vencimento com 
que se dominaram aquelles inimigos; e com que se con- 
trastaram aquelles impossíveis ; que na opinião dos cursan- 
tes d'aquelles matos, e dos experimentados n'aquellas mon- 
tanhas, foi o successomais beneficio queoCéo nos fez, que 
fortuna que o valor conseguio. 

Logo conforme a ordem que levava Fernão Carrilho do 
Governador D. Pedro se separarão os quintos para sua Al- 
teza, e as mais peças se repartiram pelos soldados; feita a 
repartição por seis homens desinteressados, com que fica-- 
ram os soldados satisfeitos do trabalho, que padeceram, e 
contentes do desinteresse que enxergavão. Acçáo foi esta 



— ná4 — 

de grande orcdiío para o Govornador D. Pedro, pois nolb 
se conliecoo publicamente o seo intento que era fazer a 
Sua Magestade este ser\iço tão grande, como libertar estas 
Capitanias do jugo tyranno. que as opprimia, sem espe- 
rança outra mais que a gloria de a conseguir. 

Nesta mesma occasiáo chegou aviso em como uma tropa 
que tinha despedido o Sargento-Mór Manuel Lopes, que 
assistia nas Alagoas para a condução dos Mantimentos a 
cargo de João Coelho, c Manuel de S. Paio, para correr os 
Campos de S. Miguel, topara com uma marcha de negros 
retirando-se dos assaltos do arraial; deo a tropa sobre elles 
prenderam quinze e mataram muitos; pelos prezos soube- 
ram que encaminhava aquella leva, o Gana Ioml)a, Irmão do 
Rei negro valoroso, e reconhecido d^aquelles brutos como 
Rei também. 

Logo chegou outra noticia que o Capitão Francico Alves 
Camello, com cento e trinta homens se espalhara pelos 
mesmos Campos, com despezas de sua fazenda, e zelo do 
serviço de Sua Alteza e nelles gastara de assistência perto 
de três mezes, e pelo Rio de Mondau, que lava as faldas a 
dous Montes altos, e incultos encontrara com uma tropa de 
negros, escondidos entre os rochedos, e matos, que o Rio 
e Montes fazem, porém como foram os nossos sentidos, 
escaparam os mais, e morreram alguns. 

Todas estas noticias chegaram a D. Pedro de Almeida 
juntamente com Fernão Carrilho, o qual foi recebido com 
os parabéns e alegrias geraes que pedia successo tão favo- 
rável a todo o Pernambuco : e tomando D. Pedro infor- 
mação particular do que restava nos Palmares, alcançou 
que as Cidades principaes. Cabos, e a melhor gente de 
guerra ficava morta e destruida, e que algum resto que 
ficava em companhia do Rei andava espalhado esperando a 



— :{2:í — 

sua ultima raina ; voando onlão do uma prudento industria 
o razão de estado, mandou um Alferes doutrinado na dis- 
ciplina d\nquellas montanhas ; que subisse aqucl los deser- 
tos, e dissesse aos negros, que ficava preparando Fçmáo 
Carrilho para voltar a destruir as pequenas reliquias que 
tinhão ficado ; e qtie mandava discorrer todo aquclle Ser- 
tão, para que nenhum habitador delle ficasse com vida ; 
que se clles quizessem viver cm paz com os Moradores, 
elle lhe asseguraria em nome de Sua Alteza toda a união, e 
bom tratamento, e llies assinalaria terras para a sua viven- 
da, e lhes entregariáo as mulheres, e filhos que em nosso 
poder esta vão. 

Passados todos estes successos, alegres os povos com 
estes triumphos. livres os soldados destas marclias, socce- 
gados os moradores destes insultos, e recebendo D. Pedro 
os vivas, e parabéns desta tão singular fortuna, correram 
os mezes seguintes de Abril cm que largou o Governo 
destas Capitanias a Aires de Sousa e Castro seu successor; 
era cujos dias brevemente se confirmou a verdade desta 
relação ; e lhe locou parte da gloria que D. Pedro soube 
dispor. 

Porque aos 18 de Junho do mesmo anno em um sabbado 
â tarde, vespora do dia em que na Parochial do Arrecife se 
celebrava a festa do nosso Portuguez S. António, entrou 
o Alferes que tinha mandado D. Pedro aos Palmares cora 
aviso, acompanhado de 3 filhos do Rei com 12 negros mais, 
gs quês se \ieram prostrar aos pés de D. Pedro de Almeida 
com ordem do Rei para lhe renderem vassalagem, e pedi- 
rem a paz que desejavão disendo que só elle podóra con- 
quistar a dificuldade dos Palmares, que tantos Governadores 
e Cabos intentaram, e não conseguiram ; que se vinháo 
ofTerecer a seu arbitrio, que não querião mais guerra. 



— 326 — 

que só procui^o salvar as vidas dos que ficaram, que esta- 
vão sem Cidades, sem mantimentos, sem mulheres, nem 
filhos; e que disposesse dos que rcstaváo como a sua no- 
breza e gosto determinasse. 

Notável foi o alvoroço que causou a vista daquelles 
bárbaros; porque entraram com seus arcos e flechas; e 
uma arma de fogo, cubertas as partes naturaes como 
costumão uns com panos, outros com pelles, com as bar- 
bas, uns trançados, outros corridos, outros rapados, cor- 
pulentos, e valentes todos; a cavallo vinha o filho do Rei, 
mais velho, porque vinha ferido da guerra passada ; todos 
se foram prostrar aos pés de D. Pedro de Almeida, e lhe 
bateram as palmas em signal do seu rendimento, e em 
protestarão da sua victoria ; ali lhe pediram a paz com os 
brancos. 

D. Pedro recebendo-os com grande demonstração de 
alegria, não querendo adoptar a si aquelle applauso, os 
remetteo logo ao Governador Aires de Sousa para que ti- 
vesse também a gloria daquelle rendimento ; prostaram-se 
todos a seus pés, disendo que nâo queriam mais guerra, 
que o Rei os mandava sollicitar a paz, que se vinhão sugef- 
tar às suas disposições: que querião ter com os Moradores 
Commercio, e trato, e queriâo servir a Sua Alteza no que 
lhes mandasse, que só pedião a liberdade para os nascidos 
nos Palmares, que entregariam os que para elles tinhâo 
fugido das nossas povoações, que largariam os Palmares, 
queihes assignasso sitio onde podessem viver a sua obe- 
diência. 

^ Grande foi o gosto com que o Governador Aires de 
Sousa recebeo estes negros, e singular complacência com 
que se vio adorado destes inimigos ; tratou-os com summa 
afabilidade, fallou-lhes com grande brandura, e prometteo- 



— 3á7 — 

lhes grandes seguranças ; mandou vestir alguns e adorna- 
los de fitas varias, com que ficaram os negros contonlis- 
simos ; e o povo todo geralmente applaudio de D. Pedro a 
fortuna, de Aires de Sousa a benevolência. 

Ao dia seguinte que se contavâo 20 de Junho, entraram 
na Igreja Matriz do Arrecife Aires da Cunha e Castro, e 
D. Pedro de Almeida levando diante de si a tropa dos ne- 
gros a dar a Deus as graças e ao glorioso S. António da 
mercê que nos fisera em conseguirmos a vassalagem da- 
quelles bárbaros ; estava a Capella Mór da Igreja ricamente 
de sedas adornada, o Sanctissimo exposto em um throno 
vistosamente perfeito, muito farto de luzes, e mui brin- 
cado de adornos; e mandando-os prostrar o Governador 
Aires de Sousa todos adorâo ao Senhor ; e todos admiraram 
a pompa. 

Aqui foi o applauso avantejadamente crescido, porque 
lodos concorreram a ver aquelia novidade : grandes, pe- 
quenos, brancos, negros e todos com seus clamores e 
tumultos multiplicaram a gloria da festa do dia, e acres- 
centaram o -applauso dos rendimentos presentes ; quiz o 
Governador que logo se baptisassem, para que com a nova 
vida da graça, começassem alegrar os novos beneficios da 
paz : e posto que os negros mesmos desejavão receber o 
baptismo, foi necessário diflirir-se para mais opportuna 
occasião ; para que com mais cuidado se impenhassem no 
intento a que vinháo; e com maiores informações recebes- 
sem o sacramento que procuraváo. Cantou-sc solemne- 
raente a Missa» subio ao púlpito o Vigário da mesma 
freguesia, e náo faltou a dar a Deus as graças, que se lhe 
devião, nem a S. António as glorias que lhe redondavão, 
nem aos 2 Governadores os parabéns que esta vão mere- 
cendo. 



— :]i8 — 

Ao dia seguinte convocou o Conselho, o Governador, 
para se discutir a resolução mais conveniente que se havia 
de seguir; para a segurança da paz que se pretendia; 
acharam-se em palácio D. Pedro de Almeida, o Ouvidor 
Geral Lino Camelo, o Provedor da Fazenda real João do 
Rego Barros, o Sargento-Mór Manoel Lopes, e oSargento- 
Mór Jorge Lopes Alonso ; propoz Aires de Sousa a petição 
do Roi dos Palmares, em que pedia, paz, liberdade, sitio, 
e entrega das mulheres ; D. Pedro de Almeida como tinha 
manoseado todo este negocio, e tinha experimentado as 
diíliculdades da conquista, votou com singular acerto, a 
que todos os mais que estavão presentes se sujeitaram; foi 
o seu parecer, que lhes dessem para vivenda ositioquo 
elles apontassem, e a paz para sua habitação, e plantas; que 
se assentasse a paz; e que o Rei se recolhesse a habitar 
o logar determinado ; que fossem livres os nascidos nos 
Palmares ; que teriam commercio, e trato com os mora- 
dores; e que lograriam os foros de Vassalos de Sua 
Alteza ; e reparando -se no Conselho se seria o Rei Ga7iga 
sumba poderoso para condusir alguns cossarios, que viviâo 
distantes das suas cidades, respondeo o fdho, que o Rei 
condusiria a todos ao nosso dominio, e quando algum por 
rebelde repugnasse a sua e nossa obediência elle o conquis- 
taria, e daria guias para as nossas armas o desbaratarem. 

Com estas advertências se assentou a paz, e sd concluio 
o Conselho, de que tudo mandou o Governador Aires de 
Sousa fazer papel, para que os negros levassem por escripto, 
o que se tinha tractado por conferencia; e assim os despe- 
dio a cargo de um Sargento-Mór do terço de Henrique 
Dias que sabia ler e escrever, para que lesse e declarasse 
ao Rei e aos mais o tractado de paz; reservando o Gover- 
nador á negros para que ficassem em companhia do lilho 



— 329 — 

do liei. que nâo estava capaz de fazer viagem pela ferida 
que trouxera; a este mandou assistir com todo o cuidado 
para a cura ; e aos mais como necessário para o sustento. 
Esta é a relação da ruina em que vieram cair os Palma- 
res tâo temidos nestas Capitanias, e tão poderosos na sua 
opinião, chegou-lhes o tempo da sua declinação, para ter 
Sua Alteza a gloria do seu vencimento ; que como se jul- 
gava impossivel pelas diíflculdades, deve recrescer na 
estimação pela fortuna ; já se correm livres aquellas mon- 
tanhas, que até agora eram impenetráveis a toda a diligen- 
cia ; já se dão os moradores por seguros, as fazendas por 
augmenkidas, os caminhos por desempedidos; e sendo 
este triumpho para Sua Alteza de grandes rendimentos, 
não foi esta campanha para sua real fasenda de nenhum 
custo; porque sem descmbolço, nem despesa do seu cabe- 
dal, seagmentou como lucro dos quintos, que se cobraram 
e com a esperança de multiplicados augmentos que se 
podem colher; por serem aquelles sertões ricos de excel- 
lentes madeiras com vargeas fortissimas para engenhos, e 
pastos estendidos para gados. 

Agora é que concluio a restauração total destas Capitanias 
de Pernambuco, porque agora se acháo dominantes do mes- 
mo inimigo, que dos portos a dentro as inquietava a tantos 
annos ; com tão felizes successos que aquelles mesmos que 
nos destroião com suas armas, nos prometlem servir com 
seus trabalhos. Toda felicidade desta gloria, toda a gloria 
desta conquista soube merecer o zelo generoso: e a pru- 
dência singular de D. Pedro de Almeida, que não reparando 
em nenhum impossivel se dispoz a conseguir esta fortuna; 
seu nome será eterno na lembrança dos filhos de Pernam- 
buco; seu valor aclamado nas incultas montanhas dos Pal- 
mares, seu aplauso estendido nos perpétuos brados da fama. 

ABRIL. 42 



lEEAIEIM 

DB LA YICTORU QUE LOS PORTUGUBbBS DE PERIfAMfiUCO 
ALCANÇARON DE LOS DB LA GOMPANIA DEL BRASIL. EM 
LOS GARBRAPES, A 19 DB FBBRERO DB 16&9. 

Las acciones grandes son más para admiradas, que para 
repetidas ; porque aquello que tiene de mayores, haze que 
no puedan reíirir se como ellas son. Es difícil escrivir el 
engenio con la pluma, lo que el valor obra con las armas: 
una forma sus caracteres con la tinta, yotras los imprimo 
con Ia sangre. Pêro esta dificultad, no es poderosa, para 
que la verdad, como alma de los sucessos, dexe de publi- 
carlo o brado, ya para el exemplo, ya para el aplauso, 
pues tanto, y aun màs, nos incitan las historias presen- 
tes, que las passadas. Tienem estas de vividoras, lo que 
aquellas de espantosas : y seria offender la memoria de tan 
gloriosos hechos, si el receio de no ser igual lo escrito a 
lo obrado, los dexasse sepultados en eterno olvido. 

La victoria que los Portugueses alcançaron ultimamete 
de los de la Compania de Olanda en Pernambuco, es de las 
que merecen eternizar se; pues por grande lajuzgaran 
milagrosa. Y en effeto lo parece, se consideramos, que 
tan inferior numero de gente, desnuda, desproveida, y 
desemparada, venciesse, y desbaratasse aun poderoso exer- 
cito, governado por muchos, y expertos Cabos, cuyas es- 
peranças no eran menores, que la entera conquista de toda 
aquella campana. 

Y porque las relaciones, que delia publicaron los pró- 
prios enemigos, se Iiallan diminutas, y sin aquellas cir- 
cunstancias que la pueden hazer útil, y gloriosa, repitiré 
com senzillez, y sin affecto, la verdad de lo sucedido, para 



— 332 — 

que se conosca no solo el valor, y resolucion de aquellos 
Portugueses, pêro los repetidos fabores, con que el cielo 
acompana de continuo sus armas, y sus victorias. 

Aviendo los navios, que la Compania de Olãda trae en el 
Brazil, quemado algunos molinos de Assucar, en la Bahia, 
dezenganãdo su General de lo poço que podia obrar contra 
aquella placa, y costas, se retiraron ai Recife. Y deseoso 
el Coronel Brinch, que governava las tropas, que alli se 
hallavan. de obrar alguna accion digna de su valor, se re- 
solvió a salir en camparia, y acabar de una vez con los Por- 
tugueses, que la seílorean. Ayudòle este pençanriento la in- 
formacion que le dieron diez Italianos, huydos dei arraya! 
Português ai Recife, affirmando-le, que los Portugueses 
eran poço más de dós mil hombres. y essos sin monicio- 
nes, ni bastimentos. Peroel General Sigismundo, hombre 
de gran valor, y experiência, y que se havia hallado en las 
mayores emprezas de aquelle Estado, le procuro dissuadir 
el intento, assigurando-le, que seria desbaratado, y roto, 
se quiziesse pelear con los Portuguezes en la campana ; 
porque conocia su resolucion, como el avia experimentado 
en la rota que le dieron a 19 de Abril dei ano passado, 
adonde fuera tan mal herido. que aun estava incapaz de 
poder tomar las armas. Representó-le como la gente que 
tenia en su exercito era la mayor parte inexperta, y de va- 
rias naciones, y que los Portugueses peleavan como des- 
esperados: que si en los princípios de aquella guerra, 
bastava solo el nombre de Glandes, para intimidados, tenia 
conocido, que solo la vista de los Portugueses le desbara- 
taria : que su parecer era, dcxar perecer aquella gente de 
hãbre, pues carecia de todo, ó aguardasse mayor socorro 
de Olanda, para hazermais sigura la victoria. Mas el Co- 
ronel Brinch, obstinado en su resolucion, sin atender a lô 



— 333 — 

acertado de aqael consejo, se dispiiso a la empresa, y para 
mostrar la segiiriíláo que teiiia de siibuen sucesso, aposto 
una suma de diiiero con el General Sigismundo, que avia 
de salir vencedor, aun que le mostro la experiência, que 
no sole fue vencido, mas perdió la apuesta con la vida. 

Salió pues dei Recife jueves por la manána a J8 de Fe- 
brero, con más de quatro mil hombres, a saber 3,500 Sol- 
dados de los sinco Tercios. de que eram Maesses de Capo, 
el mismo Coronel Brinch. que los gobernava, Vandebrand, 
Anten, Oitz, y Greveer ; iOO índios, y por su Regidor Pe- 
dro Poty, dos companias de negros, y 300 Marineiros, 
có seis pieças do campana, y el bagage necessário. Dividió 
todo el exercito en nueve batallones, y marchando hasta 
los oteros de los Garerapes, aJonde avia sido la batalha, 
que prrdiera Segismundo, a dos léguas de sus fortalezas 
se hizieron senores de aquellos puestos, como iminentes, 
y avanlajosos; en frente de una trincheira, que los Portu- 
gueses tenian levantado, en el camino que va hazia la Par- 
rochia de Moribeca. 

Advertido el Maesse de Campo General Francisco Bar- 
reto, que el enemigo era salido dei Recife, y teííia ocupado 
aquel sitio, vino el mismo dia con dos mil Portugueses de 
los Tercios de los Maesses de Campo Andres Yi<Jal de Ne- 
greros, Juan Fernandes Vieira, y Francisco de Figueroa, 
seis cientos índios, y Negros de las tropas dei Capitan 
mayor Camaran, y dei Governador Henrique Dias, con más 
dos companias de cavallos, de que eram Capitanis Antó- 
nio de Silva, y Manuel de Arahujo de Miranda. Fue tan 
grande su deligencia que llegó con su gente a la trinchera, 
por Ias ocho de la noche : y despues de alojado, inquiefó 
el resto delia ai enemigo con alarmas, y rebatos. Al dia se- 
gmente viernes le fue a reconocer en persona. acompa- 



— 334 — 

liado de los trez Maesses de Campo, contra los qaales ti- 
raaon alganos cailonaços sin effeto, y como bailasse deffi- 
cultoso, y aun arriesgado poder pelear con el enemigo , 
sin hazer una deshilada grande, por cauza de unos Pânta- 
nos entre la trinchera, y los Garerapes, dió orden ai Ca- 
pilan António Rodrigues Franca estuviesse con su Com- 
pania, a vista dei Olandes, para que le advertiesse de sus 
designios, con atalaias, y corredores por toda parte : y es- 
cogiendo algunas tropas de los mejores soldados, los embió 
a la retaguarda dei enemigo. que fue mucha parte de la 
victoria. 

Dispuesto lo necessário^ por las dós de la tarde dei mis- 
mo viernes 19 de Febrero. dió aviso el Capitan Franca ai 
Maesso de Campo General, que el enemigo avia dexado los 
Garerapes, y se ina la buelta dei Recife, y como el no 
aguardava otra cosa para enbestirle, que verle fuera de 
aquellas eminências, embió ai mismo. instante las dos cõ- 
panias de cavallos, y quatro de infanteria, para que entre- 
tuviess ai Olandis, enquanto il se avansava com il resto dei 
exercito, lo que hizieron con admirable valor, y por algu- 
nos prisioneros que se tomaron subo, que avian desempa- 
rado aquel puesto, para obligar a los Potugueses ai comba- 
te, aun que atas dixeron, se balvion ai Recife, para em- 
presa. Pêro conociose ser lo primero, de la revolucion 
con que de Glandes bolvió a querer hazerse senôr de las 
mismas eminências. Lo que no pudieron conseguir por la 
diligencia grande que il Maesse de Campo General tuvo en 
avansar su exercito, nó con pequena deficuldad, pues no 
podia marchar formado. Maesso de Campo Andres Vidal 
de Negreros se apodero de una eminência a la parte de- 
recha, y Juan Fernandes Vieira con un troço de su Tercio, 
de la íiníestra, a donde socorrió los que estavan peleando 



— 335 — 

en Boqueron, cuya resistência, y oposicion era tán grande, 
que ya la avanguardia Portugueza se retirava. Y porque 
el General entendió, que algunos de los batallones, que es- 
tavan a lo largo, pretendian cortarle, dio ordem a Andres 
Vidal para que se avançasse con sua gente, y peleando con 
ellos, fue rechaçado com muerte dei Sargento mayor Paulo 
de Acuna Sotomayor, y dei cavallo dei mismo Vidal ; que 
subido em otro, y socorrido dei Maesse de Campo Fran- 
cisco de Figueiroa, bolvió de nuevo a la pelea. Ya por 
todas partes estava encendida la batalla, acudiendo a todo 
el General, y los de màs Cabos con aque! valor que avian 
mostrado en tantas, y tá gloriosas ocasiones. No se des- 
cuidava Juan Fernandes Vieira, que assistido de sua Sar- 
gento Mayor, dei Camaran, e de Henrique Dias, hizieron 
acciones dignas de toda alabança. Por esta parte fue la 
primera que los enemigos no pudieron sufrir el valor Por- 
tuguez, empeçando a huir con tal desorden, y miedo, que 
luégo hizieron lo mismo los de más. Fue la rota cruel, y 
sangrienta. y los Portugueses matando a todos los que en- 
contravan ; continuarão la victoria distancia de dos léguas, 
hasta la Barreta, adõde el General dexó algunas companias 
para impedir el passo a los fugitivos. Cançados todos 
unos de huir, y otros de matar, y vencer. Y por espacio 
de trez dias andaran los Portugueses dando muerte, y cau- 
tivando aios qué se avian retirado, y escondido em aquellos 
bosques, y montafias. 

En esta admirable victoria perdíeron los Olandeses màs 
de 2,500 hombres, entre muertos, y presos, com casi to- 
dos los Cabos, y OflQciales de su exercito ; osapando solo 
dós Maesses de Campo, uno dellos herido en la garganta, 
un Sargento Mayor, y quatro Capitancs, mil Soldados, y 
cerca de 500 heridos. 



— 3:W — 

Murieron el Coronel Brincli, que los governava, dos 
Maesses de Campo, el Almirante de la Armada, que se 
avia querido hailar en la balara, con oiros muchos Capi- 
tanes de navios, y Ofliciales de la artilleria. Prisioneiros 
HO en que entran algunos Cabos, y entre ellos el Regidor 
Pedro Po/y, que hizo Ia victoria nicás gustoza, por ser 
aquel índio el que más dano hazia a los Portugueses en la 
campana; y se escapo uno de los dei supremo consejo de 
la companhia uamado Vangot. 

Tomaron los Portugueses las seis piecas de cãpaiía de 
bronze, todo el bngage, municiones, y armas, porque los 
fugitivos las dcxaron, para correr con menos embaraço ; y 
de doze banderas que trahion. solo dos b{);vieron ai Recife. 

La Rclacion impressa em Olanda, dizepordieí^on 151 
Ofliciales, y más de mil Soldados entre muortos, y presos, 
pêro las cartas escritas dei Recife a estos Paizes, repiten 
lo referido; y presos aun que digan, p.^ra deminuir em 
parte, la glória que los Portugueses consigiiieron, fue em 
una emboscada, y no en batalla renida, no dexan todos de 
confessar, quedaran desbaratados, con tão sennlada perdia. 

De los Portugueses murieron el Sargento Mayor Paulo 
de Acúna Sotomnyor, el Capitan de cavallos Manuel de 
Araújo de Miranda, pcrsonas de conocido valor, quarenta 
e sinco Soldados, y cerca de aOO heridos, uno dellos el 
Governador Henrique Dias, y diez Olficiales nienores. Como 
tambien los Maesses de Campos Andres Vidal de Ncgreros, 
y Juan Fernandes Vieira, salieron cõ las sefiales de dos 
balas, no sin particular favor dei cielo, pues parece res- 
petaron el zelo con que se emplean a tantos anos en la de- 
fensa de aquellos miscrables moradores, contra las tira- 
nias, que los de la Compania usavam com ellos. 

Del Maessc de Campo Ceneral Francisco B^irreto, basla 



— 337 — 

dizcr-se que se deve la mayor parte desta victoria, pues 
de su acertada disposicion, valor, y diligencia, resulto el 
alcançar-se tan gloriosamente ; sin querer empenar-se con 
el inimigo ; hasta que deixo aquel eminente puesto que 
lenia ocupado. No siendo menor el valor, y cuidado de su 
Tiniente General Felipe Bandeira de Melo. pues aviendo 
distribuído las ordens necessárias para el combate, se me- 
zeló com los enemigos, hizo sentir a muchos con su espada> 
lo que en otras ocasiones avian experimentado. 

Los Sargentos Mayores António Dias Cardoso, y Hieroni- 
mo de Hinojosa, y los de más Capitanes, y soldados, obraran 
con tanta resoluciõn, y orden, que sobra para su gloria el 
aversalido victoriosos, dando muchoqueembediaratodos. 

Pêro no deve dexar de publicar-se de zelo, y fervor con 
que los Reverendos Padres Fr. Matheus de S. Francisco 
Administrador General de aquel exercito, y Francisco de 
Avelar de la Compania de Jesus, acudieron a todos los 
exercícios Christianos ; alentando aios soldados con sudo- 
trina, confessando a los que en ella mudieron, y curando a 
los heridos com raro exemplo de piedad, y devocion. Lo 
mismo biso el Licenciado Domingos Vieira de Lima VL 
cario geral de aquella Capitania, por su persona, y por la 
de algunos Sacerdotes que embió en esta ocasion, expo- 
niendo el Sanctissimo Sacramento sinco dias antes de la 
batal a. y três dias continues despues delia, todo a su costa, 
y dei clero, para implorar el favor divino, y en hazimienlo 
de gracias por tan felice sucesso. 

Da ré fin a esta Relacíon, considerando lo poço que pueden 
esperarlos de la Compania dei Brasil, de aquel la guerra tan 
arriesgada, y costosa, pues en diez mezes de tiempo perdie- 
ron dos tan celebres batallas, y en ellas más de sinco mil hó- 
bres, con todos los mejores y más expertos Cabos que tenion. 

ABRIL. 43 



AS liTiS DiS iLiGOiS. 

ProTiAenclaft áeerca delias e sua deacrlpção* 

As matas das Alagoas do Sul, que comas mais matas 
desta Capitania de Pernambuco formão um cordão ao longo 
da costa do mar do Norte ao Sul, com extençáo de mais de 
noventa léguas até aos Caricés, ou Taboleiros de Goiana, 
tem todas o seu principio oito léguas ao Norte do rio de 
S. Francisco, que divide esta Capitania da da Bahia, em 
um logar chamado Pescoço, cuja mata tem de comprido 
cinco léguas, no fim das quaes abre dous ramos, um^que 
caminha ao Noroeste chamado Riacho-secco com extençáo 
de quatro para cinco léguas, atè os campestres, ou catin- 
gas do sertão, que neste logar ficáo muito vezinhas: o 
outro ramo se dirige ao Norte com extençáo de sete léguas, 
formando differentes ramos, como sejáo Cururipe, Alagôa 
<lo Páo, Poxim, Jiquiha, ate a beira d'uma grande Lagoa 
jDom extençáo de três léguas, chamada de Jiquiha, que se 
iança no mar ; todas estas matas tem de longitude da costa 
do mar quatro, cinco, e seis léguas, com fundos de cinco, 
e seis para o sertão, em cujos fundos se achâo muitos ra- 
mos de matas de Pào-Brasil, de que se fez em algum tempo 
grande extraçáo pani sua Magestade ; porém no presente 
tempo se aehão todas extinctas, em razão da irregularidade 
4X)m que se lizerão os cortes ; porém darão a mesma quan- 
tidade para o futuro se houver cuidado em defender estas 
matas, por se acharem os antigos cortes com muitas ma- 
deiras novas, de que se poderá fazer a mesma extraçáo, 
passados doze annos. Da Alagôa de Jiquià acima dita, con- 
tinua© as matas para o Norte com a extençáo de sete le- 
goas, até o Rio S. Miguel com os mesmos fundos, e os 
ine^os ramos de matas de Páo-Brasil nos seus fundos. 



— 340 — 

que se acliáo igualmente no estado dos antecedentes. To- 
das estas matas, desde o logar do Pescoço até a barra de S. 
Miguel, com extcnção de dezenove léguas de comprido, 
sáo abundantíssimas de madeiras de Secupiras ; porém 
todas ellas sáo muito curtas, pouco grossas, e de fracas di- 
mensões, que só servem para construções de Navios mer- 
cantis de todi a grandeza ; por serem estes terrenos áridos, 
e seccos; destas matas se prove toda a marinha mercantil 
da Bahia, depois da prohibição das matas dos Palmares, e 
nos portos destas matas se construem muitas embarca- 
ções ; de sorte, que presentemente se acháo sete. ou oito 
no estaleiro. 

Estas matas, sáo as que devem ficar reservadas para a 
marinha mercantil, vista a sua qualidade, c não serem ellas 
capazes de criarem era tempo algum, madeiras de cons- 
trucçáo, a excepção de algum pão. que se acha em alguma 
grota mais fresca ; porém devem ficar feichados, e vedados 
os ramos de matas de Pào-Brasil, que ficáo nos seus fundos, 
dos quaes pode tirar a Real Coroa muitos interesses para 
o fucturo, assim como também se deve vedara Paroba- 
amarella para aduellas, de que abundão alguns logares 
destas matas. 

Do rio de S. Miguel para o Norte principiáo as matas do 
Riacháo, com extençáo de quatro para cinco léguas, no fim 
das quaes 'priçcipião as famosas, e bem conhecidas matas 
dos Palmares, tanto pela fertilidade delias, como pela ex- 
traordinária grandeza de suas madeiras. Estas matas se 
estendem para o Norte até o rio S. Antonio-grande com 
extençáo pelos seus fundos de vinte léguas, formando vá- 
rios, e grossos ramos, como sejáo Tangil, Parangàba, Ma- 
tarâca, Branca. Conceição. Salobro. Cabeça do Cavallo* 
João Dias. Satúba. Canoé. Anhumas. Riachão. Pão-ama* 



— 341 — 

rello. Urucú; Pedra talhada, Golangí, Riacho das Canoas, 
Canudos, Manimbú, Poço da volta, Capapim, Juçaràl, Mi- 
rim, Caxoeira, Cobra, Pôço-grande, Xoqueiro, Porco brabo* 
Nacenças da Saúde, Piabas, Santiago, Cabeceiras de Sa- 
pucahi, Jitituba, Rio do peixe. Pacas, Porco cortado, Per- 
piri : Sáo estas matas cortadas de excellente rios, como 
sejão S. Miguel, o rio do Mirim, e S. António grande; e 
duas grandes Lagoas, uma denominada a do Sul, de que 
toma o seu nome a Yilla das Alagoas do Sul situada a mar- 
gem da mesma Lagoa, que tem de extençáo oito léguas, 
até o mar, onde faz barra ; nella desagoáo os rios Sebauma, 
Salgado, Utinga, e Parahiba ; a outra chamada Alagôa do 
Norte com três léguas de extençáo até o mar, onde faz 
barra junta com a Alagôa do Sul; n'ella desagoáo os rios 
Satuba, e Mundàu, e tanto estes rios, como os outros, 
todos vêem do interior das matas, as quaes ficáo distantes da 
beira-mar dez e doze léguas. Teem além disto as mesmas 
matas seis excellentes portos, quaes sáo S. Miguel, Porto 
do Francez, Jaragoà, o melhor de todos, e de toda esta Ca- 
pitania, Papicàra, Mirim, S. António grande. Ha nos fun- 
dos destas grandes matas, muitas matas de Pào-amarello, 
os melhores, que se conhecem em toda esta Capitania, 
tanto pela sua boa qualidade, como pela grandeza d^elles; 
as quaes ficáo em distancia da beira-mar vinte e cinco, e 
trinta léguas; d'ellas se tem sempre extrahido todas as ma- 
deiras, que nesta Capitania se tem feito para Sua Mages- 
tade. Todas estas matas, tanto de Secupiras, como de 
amarellos, se acháo hoje muito destruidas, em razão dos 
muitos roçados, e fogos, que nellas se tem introduzido : sáo 
ellas as que teem sofrido todas as construcções, tanto 
Reaes, como mercantis, que nesta Comarca se tem feito, 
desde o descoberto destas conquistas : apezar porém de 



— 342 — 

tantos estragos, só elias são as uDicas. que tem suprido as; 
formidáveis madeiras, que tenho mandado construir por 
ordem de V. Ex. para as Náos de cento e dez, oitenta e 
quatro, e setenta e quatro peças ; ainda que se acha oem 
grande distancia de mar, por cuja razão são dificultosos os 
seus arrastos. 

Ao Norte do rio Santo António— grande continuáo as ma- 
tas, formando differentes ramos, como são as de Gamara- 
gibe, que se estendem até as de Porto Calvo por espaço de 
oito léguas ; estas matas, de que os seus terrenos são fer- 
telissimos, capazes de produzirem grandes madeiras, e com 
a qualidade de serem regadas d'um florente rio denomi- 
nado Gamaragihe, se achão hoje de todo destruidas em 
razão dos muitos roçados, que nellas se tem feito pelas 
margens do mesmo rio, pessoas, que nellas se tem intro- 
duzido, sem titulo algum ; porém tanto estas matas como 
parte das de Porto Calvo, sendo vedadas e feichadas po- 
derão para o fucturo restabelecer-so, e tirar delias grande 
utilidade a Real Coroa. As matas de Porto Calvo continuáo 
ao Norte com differentes ramos, como sejão duas boccas, 
vizinhas ao rio Manguàba, Japaratúba, as quaes se achão 
no estado das antecedentes; destas matas continuáo dous 
rsmos, um ao Noroeste denominado Bacha-secca, outro ao 
Norte chamado Piabas, Canhoto, duas barras com exten- 
ção de quatro para cinco léguas : nestes ramos se crião 
muitas madeiras de Secupíras de toda a grandeza, capazes 
de Nàos de Linha do maior porte ; ficão ellas distantes da 
barra grande, porto do embarque destas matas cinco, e 
seis léguas ; porém parte deste caminho ó trabalhoso. Das 
duas barras para o Norte se achão as matas de Pào-ama- 
rello, e Boenos-ayres, que terminão no riacho Precinunga, 
aonde finda esta Comarca ; vindo todos estes ramos, qqe 



— 313 — 

se acháo desde Porto Calvo até Precinunga, formar uma 
extenção de sete para oito léguas, nos fundos das quaes, 
se acháo as matas de amarello de Jacuipe ; cujas matas, 
po4o que fossem das mais consideráveis desta Capitania, 
se acháo hoje quasi de todos destruídas, pela grande ex- 
traçáo, que delias tem feito os Povos ; de sorte que algumas 
que se poderão tirar, seráo por um preço extraordinário, 
como sucedeu na occasiáo em que pertendi tirar madeiras 
delias para Sua Magestade. que tirando taboados de cin- 
€oenta palmos de comprido nas matas dos Palmares á cin- 
coenta mil reis á dúzia, nestas delncuipe, o náo quizeráo 
fazer por menos de cem mil reis, como fiz constar a V. Ex. 
por um termo assignado pelos mesmos Fabricantes. Duas 
legiias ao Norte do riacho Precinunga, onde termina esta 
Comarca, fica o rio Una ; nestas duas léguas se acháo vá- 
rios ramos de matas, que se estendem ao longo do mesmo 
rk) Una caminhando á Oeste cinco para seis legoas, até a 
barra do rio Jacuipe, incravados em muitos Engenhos, 
como sejáo matas de Crauàssú de baixo. Aldeia velha, Ara- 
goàba Crauàssú de cima e outros : tanto estes ramos do 
matas ao sul do Rio Una, como os que ficáo ao Norte do 
mesmo Rio, desde Duas bocas, distante delle duas léguas, 
até a Engenho Ilha grande, Frescondim, Sauhé de cima. 
Cabeça de Porco, sáo de excelentes madeiras de Secupira, 
capazes para Nãos da ultima grandeza. 

Todas estas matas, que ficáo entre o Rio S. Miguel, eo 
riacho Precinunga, onde termina esta commarca, que 
formão uma extençáo de vinte oito léguas ao longo da 
praia, e a de trinta e cinco para trinta e seis, pelo o inte- 
rior das matas, em razáo das suas voltas, se devem desti- 
nar para Sua Magestade, por serem estas matas as mais 
capazes para as construcçôes de Sua Magestade em toda 



— 341 — 

esta Capítaaia a estas se devem unir as duas léguas, qae 
iicáo ao Sul do rio Una, como também as duas, que tição 
ao Norte do mesmo rio, pela sua boa qualidade ; todas as 
mais, que continuáo ao Norte até os Carices, ou Taboleiros 
de Goiana com extenção de mais de quarenta léguas, são 
inúteis para as construções de Sua Magestade, como são 
as matas do Rio-formoso, Serinhaem. Ipojúca, Cabo; as 
quaes se acháo muito destruídas por se arharem occupadas 
de muitos moradores, e Engenhos que se estendem hoje 
muitas léguas pela terra a dentro em grande distancia da 
beira mar; de sorte que algumas madeiras, que se achâo 
ainda nos fundos destas situações, sâo dificultosas de se ti- 
rarem ; não só pela grande distancia em que se achâo ; mas 
também pela asperesa dos caminhos, por onde se deveriâo 
transportar ; muito principalmente por não haverem rios 
livres de Caxoeiras por onde se possão conduzir as ma- 
deiras construídas ; porquanto o Rio-formoso não admite 
navegação de semelhantes madeiras por ser um riacho do 
Engenho para cima : o rio de Serinhaem, e o de Ipojúca. 
se encontrão muitas caxoeiras no curso delles ; de sorte 
que não pôde fazer conta a extração de madeiras de seme- 
lhantes lugares. 

É pôr este motivo, que nunca jamais em tempo algum 
se fizeram madeiras nestes logares, tanto para S. Magesta- 
de, como para o commercio ; o que não succederia assim, 
sem elles as houvessem; porquanto não era natural, que ha- 
vendo madeiras de 15, e 16 léguas as viessem procurar 
nesta Comarca, em distancia de 90 a 80 léguas. 

O mesmo succede as matas, que ficão pelo Rio Capibaribe 
acima, matas de S. Antão, S, Amaro Jaboatão, costeando 
por fora de Moribéca, e Cabo pelo Rio Cabassú, procurando 
cabeceiras do Rio Ipojúca; a excepção das matas da Parai- 



— 345 -^- 

ba, que também seacháo hoje muito destruídas, e distantes 
do porto do embarque, só tem S. Magestade nesta Capita- 
nio as matas de que tenho feito menção para as suas Reaes 
Construções : cuja demarcação, ou toml)o deve principiar 
no Rio de S. Miguel com rumo de Norte até o Rio Una, 
incluindo nella o ramo do Norte de que tenho feito menção; 
e do Rio Una deve correr rumo de Noroeste até os fundos 
das matas do Pào-Amarello do Rio Pirangi-grande, que 
confinam com os Campestres, Catingas do certão : deste 
logar deve correr o rumo de Oeste pelos fundos das matas 
de Jacuipe, Serras de Manguaba, Mariquita, o Carimá, 
pelas Serras do Barriga, Cruatá, Dous-irmáos, Bananal, 
Taipú, Principe, até finalizar nas cabeceiras do Rio de S. 
Miguel, distante da sua fóz, loa 17 léguas, que vem a for- 
mar uma extenção de matas de 30 a 32 léguas de comprido 
ao longo da costa do mar, de que ficão distantes em alguns 
logares 10, e 12 léguas, e em outros 5, O c 7 léguas. 

Dentro desta demarcação, ou tombo ficão incluídos os 
melhores ramos de matas, tanto de secupiras, como de 
amarellos, que S. Magestade tem nesta Capitania para cujas 
matas parece ser de maior interesse para a Real Coroa a 
creaçáo de um supperitendente a quem fique pertencendo 
semelhante fiscalisação com regência de alguns coutei ros, 
ou guardas divididos pelos respectivos destrictos ; si ndo 
corridas por dillerentes patrulhas de índios na forma, que 
tenho exposto com excluzão de outro qualquer uzo. 

Porto de Pedras de Agosto 2 de 1797. 

José de Mendonça de Mattos Moreira. 

Tenho a honra de receber a Carta, que V. Ex.* foi 
servido derigir-me em Ití de Junho do corrente anno, com 
o Edital para todos os Sesmeiros appresentarem suas Ses- 

ABRIL. 44 



— 34G — 

marias, e para tudo o mais que nelle se declara ; delle fiz 
logo exlrahir 16 copias as quaes não só mandei publicar 
em todas as Villas desta Comarca; mas também em todas 
as Freguezias, e Logares públicos delia, para que melhor 
conste delle a todos, c ninguém possa allegar ignorância 
como tudo se faz ver da certidão do Escrivão da Correrão, 
que tenho a honra por na respeitável presença de V. Ex.' 
Náo á Exm. Sr. um meio mais elicaz, para a conservação, 
e augmento das matas, do que é serem da propriedade ex- 
clusiva da Real Coroa todas as matas, e arvoredos a borda 
da costa do mor, ou de Rios por onde cm jangadas, e ca- 
noas possáo ser condusidas as madeiras cortadas; porém 
devo diser a V. Ex.* pela larga experiência, que tenho, e 
conhecimento individual de todas estas matas, e arvoredos, 
que o meio de serem obrigados os Sesmeiros a appresen- 
tarem suas Cartas de Sesmarias, e serem estas unidas ao 
Património Real, indemnisando-se os respectivos Sesmei- 
ros em outros logares no interior do Paiz, achando-se nas 
terras dadas de Sesmaria bemfeitorias, porque se lhe deva 
fazer esta indemnisação. não é ainda o meio capaz de con- 
seguir o fim de tão saudável determinação; porquanto as 
porções de terrenos, que seachão nas mesmas matas usur- 
padas a Real Coroa sâo ainda muito maiores em alguns 
logares, do queaquelles, quesecontempláonas Sesmarias, 
que não farão, nem ainda uma terça parte daquelles, em 
razão' de que muitas pessoas se introdusem no interior das 
matas, as quaes destroem não só com rosados, que nellas 
fazem, e que pela maior parte os não plantão; mas ainda 
muito mais com fogos, que se lhes introdusem ateados dos 
mesmos rosados; de sorte que à muitos logares, onde os 
fogos se atearam pelo espaço de muitas léguas, como eu 
mesmo, tenho sido testemunha ocular; por cuja razão. 



— HM — 

se não achâo hoje matas inteiras, apenas alguns farragios 
delias em dillerentes logares, onde se fazem as Construções 
Reaes : outros dando-se-lhe por Carta de Sesmaria, meia 
Jegua de terra, como nunca a demarcáo na forma que são 
obrigados, se apossáo de 2 e 3 léguas : outros alcançando 
somente ordem da Junta da Fazenda Real para as Camarás 
respectivas passarem Editaes, para ver seá ou não terceiro 
prejudicado, se apossão das lerras perdidas, sem jamais 
tirarem as Cartas de Sesmarias: destes tem V. Ex.' alguns 
exemplos, como fosse Pedro de Araújo que pedindo uma 
légua de terras de Sesmarias no Rio de Camaragibe, e man- 
dando a Junta da Fazenda Real à Gamara respectiva passar 
Editaes do estilo, elle se metteo na posse delias, e de so- 
ciedade çom Gregório de Oliveira Costa erigiram mn En- 
genho, que denunpiando este ãtquelle depois de passados 
muitos annos. lhe mandou justamente a Junta Real passar 
Carta de Sesmaria : destes à outros muitos exemplos, como 
seja António Moreira no mesmo Rio, que tendo somente 
alcançado despacho da mesma Junta para a Camará res- 
pectiva mandar por Editaes, elle. sem se lhe passar a res- 
pectiva Carta, se meteu com vários parentes, e outros agre- 
gados no interior das matasgr onde por espaço de muitos 
annos tem feito os maiores estragos, tanto em roçados, 
como em fogos, que lhes tem introduzido ; e destes ha ou- 
tros muitos que não chega a noticia delles, por se não 
terem feito os exames necessários: outros ha, que tendp 
vendido as terras, que lhe forão dadas de sesmaria, andào 
estas hoje em terceiro, e quarto possuidor, sem que obti- 
vessem Licença da Junta da Fazenda Real. como são abri- 
gados em semelhantes vendas para a obterem, e pagarem 
o justo Laudemio em reconhecimento do directo dominio 
que nellas tem a Real Coroa; por não terem nellas os ses- 



— 348 — 

meiros, se não uso fructo ; sendo ta! o excesso em se pe- 
direm semelhantes sesmarias, que muitos tempos foi entre 
estes povos uma espécie de negociação ; por quanto hou- 
verão pessoas, que por si, e por terceiros alcançarão três, 
e quatro sesmarias, e depois as venderás a outros por dous 
mil cruzados, um conto de reis, e quatro centos mil reis, 
e o que mais admira é, que muitos as devidem, e as ven- 
dem a retalhos de que ha muitos exemplos : outros flnal- 
mente possuem terrenos nas mesmas matas, sem titulos 
alguns , por onde conste a legitimidadade dos seus domí- 
nios ; de sorte que ate o presente tem sido as matas co- 
muas, e livres a toda a pessoa que se quer introduzir nellas, 
e ainda alguns tomarem posse de muitas léguas, sem titu- 
los, como V. Ex. verá da certidão, que tenho a honra por 
na respeitável presença de V. Ex. ; e desta forma se achâo 
rotas, e destruídas as mais bellas matas, que Sua Mages- 
tade pode ter no Brasil ; não só pela grandeza delias, mas 
ainda muito mais por serem estes uns terrenos próprios 
de criarem secupiras, o que é bem raro nas mais matas ; 
e o que mais admira é que todas estais destruições não tira 
a Real Coroa, e o Publico utilidade alguma, por serem ellas 
feitas pela maior parte por pessoas indigentes, e crimino- 
sas, que por escaparem as penas dos seus delictos procu- 
rão o escondrijo das matas, como um azilo seguro ; de 
sorte que a maior parte das sesmarias já dadas, a excepção 
de algumas muito poucas, em que se erigiu algum Enge- 
nho todas as mais não tem bemfeitorias, que lhes devão 
ser indemnisadas, por se acharem mais deterioradas, do 
que quando lhe forâo dadas. Todos estes injustos possui- 
dores se não vem denunciar pelo presente Edital, quando 
muitos, que o mesmo comprehende o não farão, sem se 
recorrer a outros meios ; pois vemos que sendo os Editaea 



r% 



— 349 — 

publicados a mais de trinta dias ainda não houve um só 
sesmeiro, que viesse apresentar a sua Carta, na forma, que 
determina o mesmo Edital; para virmos pois no conheci- 
mento de todos elles ó necessária uma escrupulosa, eexata 
averiguarão desde o luf^^ar, onde principiâo as matas des- 
tinadas para Sua Magestade, até o fim delias ; cujo exame, 
sendo feito com a exacçáo devida na occasião, que se fizer 
o Tombo das mesmas matas, que a ser feito com as for- 
malidades necessárias, se não poderá fazer menos de uns 
poucos de annos. Estes serão, Exm. Sr., os maiores tra- 
balhos deste novo estabelecimento, quando Sua Magestade, 
seja servido mandal-o crear; porque sobre tão escrupulo- 
sas, e laboriosas indagações, é da maior attenção, que 
fiquem separados terrenos para as plantações doPaiz, cos 
necessários para a marinha mercantil, e uso dos Povos; o 
que tudo se pode nwiito bem executar, e estabelecer sem 
prejuizo das matas, e arvoredos destinados para Sua Ma- 
gestade, a vista do estado a que se acha hoje reduzido todo 
este Paiz, por haverem muitas léguas da beira mar para 
o certão, sem matas e arvoredos; por se acharem estes 
lugares povoados com plantações, e Engenhos, sem que 
haja necessidade para o augmento delias de passarem as 
matas, que principiâo hoje longe da costa do mar dez, e 
doze léguas em alguns lugares, depois de acabados os ter- 
renos povoados : estas matas, onde se criáo as secupiras 
tem sete, e oito léguas de largo no fim das quaes principiâo 
as matas de amarello, que vão finalisar nos campestres, ou 
catingas do certão : e ainda que nestas matas de amarello 
se achem algumas secupiras, de'las se não pode fazer uso 
algum, pelaasperesa dos lugares por onde se deveriáo con- 
duzir, muito principalmente por serem os rios, que descem 
n aquelles logares, cheios de muitas caxoeiras:; as quaes 



á 



•tt 



— 350 — 

não admitem conducção de madeiras de coilslrucçáo, e o 
mesmo succede ainda em muitos lugares nas matas de se- 
cupiras. Igualmente se deve proceder com o mesmo es- 
crúpulo nas sesmarias dadas para ter logar aindemnisação 
de que faz mensáo o mesmo Edital ; por ser necessário, 
que conste veridicamente se as terras dadas de sesmarias 
tem algumas bemfeiterias, por que se lhe deva fazer esta 
indemnisação, o que nunca poderá ter logar a excepção 
d'aquelias em que se acharem alguns Engenhos ; antes a 
Real Coroa as receberá em maior deterioraçio, segundo o 
costume gerai de todos os sesmeiros, que é abrirem elles, 
e seus agregados muitos roçados com os qi^aes, ecom os 
fogos, que lhe introduzem destroem as terras, que lhes 
íoráo dadas de sesmaria; por quanto todo o fim de procu- 
rarem elles as matas, e arvoredos nío é pon falta de terra 
para as plantações, que essa^ são infinitas no Paiz, é tão 
somente; porque nás matas evitáo as limpas, que são obri- 
gados dar nas mais^erras, a que chamão capueiras : e desta 
forma por um tão injusto motivo vão destruindo as matas 
até a sua total extinção, como eu pessoalmente tenho visto 
(de que dei parte a V. Ex.) lugares no interior das matas, 
em que destruirão cora roçados, e fogos muito mil pàos de 
construcçâo para Náos da ultima grandeza, e destes ha 
muitos exemplos por toda a extenção das matas. Quanto 
porém aquellas sesmarias em que se achão Engenhos, o 
que Sua Magestade por Sua Real Clemência manda conser- 
var, deverão sempre os Senhores delles serem abrigados con- 
servar todas as madeiras Reaes, que se acharem ns com- 
prehensão dos mesmos Engenhos, como sejáo Secupira- 
mirim, Pào de arco, Getahi, Angelim amargoso, Mirindiba, 
Jetobá, é Sapucaia, de cujas madeiras estão bem conhe- 
cidas as auas boas qualidades, das quaes nio tem neces- 



— 331 — 

sidade os Engenhos para as suas laborações, a excepçáo 
de alguns pàos para obras dos mesmos Engenhos, os quaes 
náo fazem falta as construcçóes ; sendo os mesmos senho- 
res de Engenho obrigados a náo deixarem abrir roçados 
nas malas dos mesmos Engenhos, de que lhe resulta a elles 
um beneficio ainda lAuito maior, do que as mesmas cons- 
trucçóes; porque da destruicção das matas procedeu a ex- 
tinção de alguns, e a decadência em que se acháo hoje 
muitos Engenhds, e pela falta de lenhas para os seus cosi- 
raentos. Finalmente, Exm. Sr., todo o objecto da Real 
Coroa para a conservação da sua Real marinha, da mari- 
nha mercantil, e do bem commum deste Paiz ; cuja riqueza 
consiste na conservacçáo dos mesmos arvoredos, pois 
vemos, que faltando estes, os terrenos ficáo sem valor, ó 
reservarem-se os melhores terrenos para Sua Magestade, 
e nestes haver o muor cuidado de se im{)edir com as mais 
graves p^nas a abertura de roçados, e cortes para particu- 
lares; fazendo- se uma demarcação, oô Tombo Real, e in- 
dividual de todas as matte reservadas, tirando-se mappas 
de plantas baixas de todos os ramos das matas, compre- 
hendidos na demarcação ; cujas matas deverão todos os 
annos ser revistas por um Super-intendente delias, e dos 
Reaes cortes, abrindo-se devassas em alguns districtos das 
mesmas matas, contra os transgressores das ordens, que 
se derem para a sua conservação, destinando-se os terre- 
nos mais fracos para a marinha mercantil, e uso dos povos: 
e como Sua Magestade no interior destas matas tem dous 
Presidies desde o tempo dos negros dos Palmares, quaes 
são os de Nossa Senhora das Brotas na Villa da Atalaia, e 
o de S. Caetano em Jacuipe com sessenta índios em cada 
nm delles, a quem a mesma Senhora paga, sem lhe fazer 
serviço algum; destes deve o mesmo Ministro mandar em 



— 3ÍJ2 — 

certos tcmi)Os do anno dillerenles patrulhas, que corráo as 
mesmas malas com pontos certos de união, procedendo-se 
contra os que acharem ndla trabalhando. 

Desta forma, Exm. Sr. . se conservanlo as matas, que 
ainda existem para suprirem as prezentes construcçôes ; e 
as que se achão destruidas com esta providencia se res- 
tabeleceram para o futuro, como forão em algum tempo, 
e nâo experimentará a Real Coroa falta de madeiras de 
construcção, antes as poderá ter por um preço muito mais 
commodo para o futuro: e seguro a V. Ex. que a faltarem 
estns providencias em muito poucos annos ficarão as matas 
de construcção de todo destruidas, e Sua Magestade não 
terá mais Leames para a factura de suas Náos; porquanto 
ainda que o cordão de malas desta Capitania, que principia 
nas malas do pescoço, e acaba nos Carices, ou Taboleiros 
de Goyanna tenha de estenção, com pouca dilTerença, no- 
venta léguas, apenas se achão em toda esta dilatada dis- 
tancia os ramos de matas dos Palmares, outros no destri- 
cto de Porto Calvo, e alguns farragios de matas encrava- 
dos em mais de quarenta Engenhos na Freguezia de Una, 
donde se podem tirar madeiras de construcção ; porque 
todas as mais matas, umas se achão de todo destruidas, 
outras os seus terrenos são áridos e fracos, as madeiras, 
que nelles se criâo apenas servem para Mavios mercantes, 
e observa-se, que ainda (jue as arvores sejão antigas nun- 
ca crescem, e cngrossáo muito : esta bòa qualidade só a 
têm as matas dos Palmares, onde as Secupiras, e as mais 
madeiras de construcção são pela maior parte agigantadas; 
de sorte que apezar de tantos estragos, que nellas se en- 
contrão, e de terem ellas sofrido todas as construcçôes 
Reaes, e mercantes desde o descoberto destas conquista são 
só as únicas aonde achei madeiras para as Nàos de cen- 



— 353 — 

lo e dez, oitenta e quatro, e settenta e quatro peças de 
quo me aclio encarregado, e todas de Secupira-mirim, 
sem entrar em Ioda esta construcção um só páo de outra 
qualidade de madeira, e posto que estas madeiras se tirão 
hoje em uma tão dilatada distancia do porto do embarque 
eu tenho a gloria de que cilas ficarão para Sua Magesta- 
de pelo mesmo preço; porque se fizeram as madeiras que 
ha perto de quarenta annos se reraettêrão das mesmas 
matas para a construcção das Xâos Sajito António e Madre 
de Deus, e outras que Sua Majestade foi servido mandar 
construir na cidade da Bahia, sendo estas Nàos de muito 
menor porte, e tendo sido tiradas as suas madeiras em 
muito curta distancia do porto do embarque; de sorte que 
algumas delias não exceleo a meia légua de distancia, 
quando as que hoje mando construir, ficáo dez, e doze 
léguas do porto do embarque. 

Tem alem disto as malas dos Palmares a boa qualidade 
de serem cortadas por férteis, e abundantes rios, como 
sejão os rios de S. Miguel, as 2 Lagoas de Norte, e Sul, 
que desagoão no mar; nas quacs desembocão vários rios; 
como sejao na do Sul, o rio Sebauma, Vtinga, Salgado, e 
Paraíba, e na do Norte, os rios Mundau, e Satuba; alem 
destes em distancia de 6 léguas teem os rios Mirim, e S. 
Antonio-grande, e em todos estes togares portos corres- 
pondentes para o embarque das madeiras : com grandes 
fundos nas mesmas matas de Páos amarellos, donde sempre 
se teem feito grandes extrações para S. Magestade, por se- 
rem elles os de maior grandeza, e melhor qualidade de 
Ioda esta Capitania. l*or todas estas razões, que tenho a 
honra pôr na respeitável presença de V. Ex. se mostra a 
difliculdade que se encontra era ser feita com a brendade 
que V. Ex, ordena, uma demarcação, ou tombo circuns- 
ABaiL. 45 



— 354 — 

tanciado com um exame individual de todos os peçuidores 
das mesmas matas, ou sejão por Sesmarias, ou por outros 
quaesquer titulos.que deverão ser appresentados com ave- 
riguação de todas as bemfeitorias, que nas mesmas terras 
Sesmadas se acharem dignas de indemnisaçâo ; a qual deve 
ser regulada pelo valor em que forem julgadas as mesmas 
bemfeitorias ; porque alem de serem precisos annos para 
se fazer esta deligencia com a exação que pede uma maté- 
ria de tanta importância so a pode fazer um Ministro 
creado para este serviço ; por ser incompativel com a boa 
ordem da Justiça, que um Ministro Ouvidor desta Comarca, 
que é obrigado fazer as correçóes das Villas delia, e acudir 
aos negócios públicos das partes, possa este mesmo Minis- 
tro ser encarregado ao mesmo tempo de serviços laboriosos; 
muito mais se for encarregado de tão numerosas construc- 
ções, como as de que presentemente me acho incumbido 
para S. Magestade a ordem de V. Ex. porque sendo a sua 
assistência pessoal necessária nestes serviços, em qualquer 
delles que falte, ou hade padecer o serviço de S. Magestade, 
ou o dos Povos : por esta razão parece ser de maior impor- 
tância ao serviço da mesma Senhora a creação de um supe- 
ritendente das matas destinadas para S. Magestade para 
este encarregado de todos estes serviços, e do todos os 
mais pertencentes a esta repartição, na execução dos quaes 
será forçoso ter um immenso trabalho, alem da pratica e 
conhecimento, que deve ter em semelhantes matérias para 
ser bem regulado um estabelecimento de tanta considera- 
ção. Apezar porem de todos estes obstáculos se V. Ex. for 
servido, que desde ja entre neste serviço, com a determi- 
nação de V. Ex. vou pôr em execução tudo quanto for 
servido ordenar-me. É igualmente da maior diíDculdade 
calcular uma perfeita contabilidade em que se mostre o 



— 355 ~ 

preço certo, porque sahe cada um páo de construcção; por 
ser o valor destes regulado conforme as suas maiores, e 
menores dimenções, a distancia em que se tirão, e a diffi- 
culdade de seus arrastos, que esta ó a despeza de maior 
consideração nas construcçôes, por não haver certeza, ou 
regularidade nos logares, em que se construem ; por cujo 
motivo pode muito bem succeder que um páo com as mes- 
mas vitolas faça differença de outro igual da ametade da 
sua despeza, sendo, por paridade, feito um delles em dis- 
tancia de 3 e 6 léguas, e o outro de 10 e 12; e ainda esta 
differença pode succeder, tirados ambos em iguaes distan- 
cias, sendo o caminho de um delles bom, e do outro escabro- 
so, como nos está succedendo todos os dias ; e ainda muito 
mais havendo um tão grande excesso de preço, como o que 
hoje se experimenta em todo este paiz em todas as cousas 
necessárias, como sejão de Bois para os arrastos das ma- 
deiras, e nos viveres para sustentação dos trabalhadores : 
por cuja razão se tem pacteado com os fabricantes que as 
madeiras lhes sejão pagas por uma justa avaluacáo com 
attenção a estas differenças, fixando-se nella o preço certo 
de cada um dos páos, segundo as suas differentes classes, 
achando-seel!es feitos com perfeição, e com as vitolas que 
lhe foram dadas, e na falia de tudo isto lhe serem pagas 
pela a metade do preço da sua avaluação : quanto porem af 
melhor economia dos cortes será muito útil a Fazenda 
Real, que se abrão alguns por conta da mesma, debaixo da 
inspecç>áo do mesmo Ministro; para este fim se devem 
procurar alguns ramos de matas mais vizinhos a rios para 
maior comodidade dos seus arrastos; cujos cortes devem 
ser separados uns dos outros, em razão da diíBculdade, 
que se encontra de pastos naquelles logares para conserva- 
ção de grandes boiadas para as conduções das mesmas 
madeiras. 



— 356 — 

Além de liilo, quanto tenho tido a honra expor na Res- 
[)eilavcl Presença de V. Ex. será da maior importância, 
sendo Sua Magestade servida criar este estabelecimento, 
e mandar proceder no Tombo das mesmas matas, se facão 
algumas conferencias na Respeitável Presença de V. Ex. a 
respeito de todas estas matérias para melhor se poderem 
pôr em pratica ; em cuja occasião en terei a honra de di- 
zer a Y. Ex. tudo, quanto é necessário, c útil ao serviço 
íle Sua Magestade. 

Deus Guarde a V. Ex. como muito lhe desejo. 

De V. Ex. 
O mais humilde Súbdito 
Josi: DE Mendonça de Mattos Moreiilv. 

Porto de Pedras, :J0 de Julho de 1797. 



TYP. IMPARCIAL DE J. M. N. GARCIA. 

RUA DA CARIOCA N. 34. 



REVISTA TRIMENSAL 



DO 



IHSTITDTO inSTOBIGO. GEOfiRiPHICO E ETHNOfiliPmCO DO BRASIL. 



i4®l096^i 



S.o TBIJIIESTBE DE MM. 

DA CinAnE DO SAIiVADOR 

EsGRiPTÀ POA D. Màmuel deMbnezes 

CHROMSTA MOn E CHROSMOGRAPHO DE SUA MAGESTADE E CAPI- 
TÃO GERAL DA ARMADA DE PORTUGAL NAQUELLA EMPERSA, CÓ- 
PIA COTEJADA COM O MANUSCRIPTO ORIGINAL DE MADRID — POR 

FRÂICISCO ADOLPHO DE TABIHÍ6EI. 

LIVRO PRIMEIRO. 

Dos successos que tentarão fazer em as armadas á vella da 
Ilha de Santiago. 

Enfim me resolvo escrever a protecção que uma parte das 
armadas de Espanha fez ao Brazil para castigar a uma 
ofensa dos Olandeses rebeldes, que esquecidos de Deus, 
da obediência davida ao seu Rei e Senhor natural e de 
suas próprias forças se atreveram e intentavam fundar um 
novo império na parte oriental da America a mais pro- 
porcionada a seus intentos que todas as do mundo su- 
geitas ás coroas desta monarchia. Argumento verdadeira- 
mente da fraqueza do engenho humano a quem os bons 
successos de alguns intentos assim desvanecem, e cami- 
nhando a olhos cegos vem ordinariamente parar em sua 
total ruína. 

JUNHO 4G 



— 358 — 

Esta gente septentrional habitadora de estreitas teiras e 
ainda mal seguras em guerras contra forças do mar oceano, 
pobres de todas as cousas que podem engrandecer qualquer 
província, ajudada porém dos potentados erecticos, e por 
ventura de alguns catholicos invejosos, ou temerosos da 
grandeza de Espanha, ou tomada por instrumento da pro- 
videncia divina infestam já de muitos annos as costas delia, 
e as que a coroa de Portugal conquistoa em Africa, Ásia, 
America, e todos os seus mares. Ordenaram companhia a 
que chamaram oriental em que concorreram os povos e 
os homens de negocio com gram soma de dineiro pêra a 
fabrica e apresto de armadas que enviavam ha muitos an- 
nos para as partes da índia, e Mar Sul. Mas como quasi 
todo o fundamento destas forças não era fixo senão assenta^ 
dos no propósito que lhes avia de resultar de suas pilhagens, 
posto que Deus por ocultos juízos lhes desse alguns bons 
successos com grande damno desta coroa veio, pela des- 
peza que excedeu a receita, e pela pouca verdade ainda 
com agente do Oriente, a descair. Ordenou -se outra aqne 
chamaram occidental para a America quarta parte do mundo 
maior que qualquer das outras com grande excesso, e toda 
destas coroas, nella se discorreu com razões d'Estado apa- 
rentes, não se fazendo conta com as forças do Príncipe 
a que oíTendiam, sobre o modo de que se havia de fundar 
o império que senhoreasse o ^tnundo todo. É a cifra da 
verdadeira desdita ousar em matérias de conquistas muito 
mais do que pôde gente que tem que perder pátria que 
tanto estimam. Vio-se um discorrer do anno de mil seis 
centos e vinte três em Burgo de Hain feito segundo se 
disse feito por João Andréa Noeboseq dirigido ao conde 
Maurício e aos deputados das províncias de Olanda, em 
que se pretendia provar que não podia emprender aquella 



— 3í)9 - 

companhia empresa mais fácil, de proveito mais certo, ou 
de maior gloria que a conquista do Brazil porque a nação 
portugueza moradora n'aquellas terras, que entre as outras 
natural, estrangeira podéra fazer maior resistência era 
grande parte da nação hebrea, nascidos em ódio da Hes- 
panhola, que com facilidade sugeitariam à sua obediência. 
Que se bem a provincia era mui grande não havia em toda 
ella mais que duas praças principaes, Bahia e Pernambuco, 
as quaes uma vez conquistadas, fortificadas e guarnecidas 
ficava segura toda conquista, e a conservação delia. Estas 
se ganhariam facilmente por uma interpresa estando como 
todas as mais ao longo do mar aonde podiam chegar suas 
armadas, e não podiam dar-se a mão pela grande distancia 
d'uma a outra nem esperar soccorro de outras povoações 
por serem fracas, e mui distantes. Mormente que fora de 
ser a gente pela mór parte mal nascida, fraca, carecia to- 
talmente de disciplina militar estava com grandissimo des- 
cuido. Que para que tudo se assegurasse, e fortificasse da- 
ria largo tempo ahi a solucção dos soccorros de Espanha, 
ainda que não fossem prevenidos com armadas de muita 
força d\iquellas províncias, e seus confederados como se 
esperava. Que para a despeza de tudo daria largamente o 
que se achasse n'aquelles portos de navios e mercadorias, 
sem a fazenda e riquezas que El-Rei de Espanha, o clero 
e mercadores tinham n'aquelle estado. Quanto ao proveito 
não podia haver duvida pela fertilidade da terra em que se po- 
diam plantar cana viaes de assucar,efabrica!-os. Tabaco, Gen- 
gibre, Arroz, Algodão : que tudo iria em augmento sendo 
os portuguezes que ahi ficassem conservados em justiça, e 
em sua religião: os hebreus na sua qualquer que fosse sem 
medo de inquisição pelo que soíTriam uns e outros grandes 
imposições e contribuições; faziam estreitas contas de mer* 



— 360 — 

cador do numero das caixas de assucar que o Brazíl dava, 
dos fretes e direitos que se pagavam d'ahi a Portugal, e de 
Portugal a Flandres ; de mais dequasi outro tanto que El- 
Rei de Espanha levava de entradas, e sabidas. Tratavam 
do proveito de reflnar os assucares, do que importava o 
páo-brazil, das rendas reaes edas do commercio que exa- 
geravam muito. Discorriam do augmento d'aquellas pro- 
víncias com táo grossos tratos, do que acresceria de di- 
nheiro peia razão de que os naturaes de Olanda costuma- 
dos a mercadiar em França, Alemanha, Inglaterra achando 
em sua pátria tudo o que buscavam nella o empregariam e 
ficaria tudo em si mesma. Que logo ajuntariam a isto o trato 
do Cabo Verde, Angola e Guiné resgatando marfim, e ou- 
tras mercadorias. Que quando nâo quizesse embarcar-se 
com o trato dos negros não faltariam particulares que o 
exercitassem pagando por cada um os reales que El-Reide 
Hespanha levava do primeiro direito fora os fretes e outros. 
Faziam conta do proveito que teriam da sacca dos assuca- 
res que os Italianos, Francezes, Alemães, Inglezes, e ou- 
tros navios faziam de Olanda faltando-lhes em Portugal 
o que tudo resultava aquellas províncias um proveito im- 
menso, e a Hespanha em perdas irreparáveis com que afio- 
xaria nas guerras de Flandres por se lhe perder grande 
parte de suas índias occidentaes com que ficaria mui di- 
minuída em suas armadas, e Portugal em muito mór aperto 
com a falta do Brazil sustancia de suas alfandegas, e com- 
panhia oriental teria maior mão e conunodídade de Ihè to- 
mar mais terras na Índia obrigando-os acudir com muito 
maior despeza a sustental-as. Ponderavam outra excessiva 
que acrescia a estas coroas pretendendo inutilmente acaba 
de tempos recuperar o perdido fazendo novos fortes pro- 
vendo-os de artillieria e soldados tudo mais que na mate- 



— 361 — 

ria se pôde considerar dizia o discurso longamente com 
particulari dades necessárias ao pouco que queria persuadir, 
e prolixas para este logar. A respeito da gloria diziam vai- 
dades chamando legitimo senhor dos reinos de Portugal 
ao íilho do desditado D. António pertencer antigamente 
delles com o direito que vio. Gosavam antícipada e van- 
mente de victoria presumida contra as forças de El-Rei seu 
senhor inimigo poderoso de sua infidelidade a quem com 
entranharei ódio, e medo sempre pretende offender, as 
vezes offendem, ou porque Deus assim o quer, dando forças 
aos inferiores nellas. ou por a pouca conta que S. M. delles 
faz, cousa damnosissima nas grandes monarchias. e sertã 
ruina nas pequenas. Aprestou n'aquelle anno de 623, a 
companhia uma armada de doze navios do estado mui bem 
aprestado capitana almiranta de quarenta peças de ferro 
algumas de bronze e outros a trinta, a vinte seis, a menos 
de outros tantos fretados pelo mesmo estado e alguns pa- 
tachos, por general delias a Jacques Guilhelme, Hollandez 
maior deannos mestre capitão de navios toda sua vida que 
tinha estado em Lisboa com seu trato muitas vezes. Por 
ahnirante Pedro Peres inglez , por superintendente , e 
como vedor general dos muitos fretados e cabo delles com 
titulo de coronel Joáo Doart, Olandez de calidade e fa- 
zenda, nomeado pelo conde Maurício segundo disseram, por 
governador do Brasil no primeiro triénio. Era de três mil 
homens de mar e guerra por igual numero. 

A despesa comum entre o Estado e mercadores sairam 
deOlandaa 21 de Dezembro. Sobrevindo uma borrasca se 
dividiram, entraram em Pleamua 16 : todos se juntaram 
em S. Vicente Ilha das do Cabo verde. Aqui diz que abri- 
ram ir^strucçôes ; e acharam uma serrada pêra abriren em 
cinquo gráos da parte do Sul. Detiveram-se 7 dias pêra se 



— 364 — 

migo vencedor qae estava de posse delle qae a cotiladas o 
desalojou, e se fora soccorrido poderá ser de grande con- 
sequência seu esforço. Nem é justo fique em sflencio o 
como se ouve Brás da Silva de Meneses» que se tem por 
filho de Fernão da SUva de Meneses, um dos mais califi- 
cados fidalgos de Portugal que sendo capitão da praia e 
forte de Santo Alberto, foi mandado chamar pelo gover- 
nador logo que soube da retirada da gente de cavallo, e 
infanteria da ponta de Santo António não obedeceu ficando- 
se no seu posto, segando o recado com contra senha dado 
por hum ajudante de sargento mayor com ordem de que 
deixado aquelle posto em que não havia resistência fosse 
occupar outro a Seé e o fortificasse^ obedeceo, mas tudo 
sem proveito não achando mais que algumas exportas, 
nem lugar mais que confusão. Acompanhou o bispo d'a- 
quella provincia D. Marcos Teixeira que se retirou para 
uma aldeia vesinha com alguns particulares, desembarga- 
dores, e ouvidor geral Antão de Mesquita de Oliveira, e 
com elie sérvio com muita satisfação, como contou a D. 
Fadrique de Toledo por certidão de sua letra e por sinal 
que D. Manuel de Meneses levou pretendendo se lhe desse 
algum legar onrrado, mas outrem lhe tinha occupado os 
ouvidos com falsas informações e lhe foram antepostos 
alguns muito desyguaes. Retirado o bispo, varão verdadei- 
ramente apostólico, propôz em conselho o miserável estado 
em que se viam, ou por culpas de homens ou por ocultos 
juízos de Deus que pois sua divina justiça asy o permi- 
tirainvocassem sua divina misericórdia acudindo com todas 
as forsas a sustentar as relíquias de uma metropoli da 
quella grande provincia que com gloria dos portugueses 
fora sustentada tantos anos: convieram que comosoffi- 
ciaes da camará retirados por outros lugares signalasem 



— 365 — 

cabeça que os governase, para o que se abriram as vias cm 
que S. M. nomeava sucessor aquelle governo em falta de 
presente, costumo novamente intredusido naquelle Estado 
a imitação da índia. Avisaram que estava na primeira, a 
Mathias de Albuquerque governador de Parnambuco por 
seu irmão Duarte de Albuquerque Coelho donatário da- 
quella grande capitania : e como a distancia dos lugares 
era grande, e danosa a dilação, elegeram Antão de Mes- 
quita ouvidor geral para acodir as acurrencias com titulo 
de capitão mor de Parnambuco despachou logo Mathias 
de Albuquerque a Espanha com aviso a S. M. do bispo do 
ouvidor geral, e dos mais unidos. Chegou a Lisboa a 26 
de Julho, e no ultimo do mesmo à meia noite a Madrid. 
S. M. resignado (como despois mostrou por muitas cartas 
aos governadores de Portugal de 9 de Agosto, de 20 de 
Setembro, de 3 de Desembro) na divina vontade estimou o 
castigo de Deus no preço que muito convém se estime re- 
presentando-se-lhe mais vivamente na memoria o desacato 
de culto divino em mão dos impios despresadores delle 
com a maior barbaridade que nunca se vio : não se esque- 
cendo do que devia a reputação de suas armas, ao remédio 
do trabalho com que Espanha era ameaçada nas coroas de 
Portugal e Castella, e lembrado de alguns successos adver- 
tissemos nos annos próximos passados, perda de Ormuz 
e outros a todos patentes, se oppoz com real animo ao cas- 
tigo de seus vassalos rebeldes. Acompanhou-o com animo 
galhardo o conde Duque seu Sumilher de Corsp. e confi- 
dentíssimo ministro oferecendo a S. M. aquelle pronto e 
rendido animo a seu real serviço con vontade tão experi- 
mentada de antes que escusava novo offerecimento. E sem 
dilação foram avisados todos os conventos de religiosos e 
religiosas sanitas da corte aonde ha muitos pedisem mise- 
juNiio. 47 



— 366 — 

ricordia a Deus pelas ofensas de sua divina magestade, e 
imediatamente tomada a resolução com seus concelhos es- 
creveu em 7 de Agosto aos governadores de Portugal que es- 
tava disposto a soccorrer aquella coroa com todas as forças 
de mar qae em tal presa se podese ajuntar ficando somente 
para guarda das costas dez ou doze navios, acusando que 
as de Portugal se reforsasem empenhando-se e vendendo 
sua real fazenda e estivesem prestes para 20 daquelle mez 
concluindo com as palabras seguintes de sua real mão.— 
No dudo que tales vasallos en obligaciones, amor, y valor 
acudiran en esta ocasion a servirme, y a volver por sy mis- 
mos con tales veras quo aya de aver maior trabajo en atajar 
que no vaian. que en animarles para este pues es cierto 
que yo los estimo, y amo tanto que olgara in con mi persona 

en esta jornada para mostrarles quanto deseo la 

conservacion de essa corona, sino aumentaria, y engran- 
deserla, como tales vasallos mereceu. Logo pelos conse- 
lhos de Portugal, e Castella despachou a D. Fadrique de 
Toledo Ozorio que elegia para aquella empresa aprestase a 
armada do mar occeano, e as esquadras de Biscaya, e qua- 
tro vilhas ; a D. João Faiardo pusesé em orden a sua do 
estreito que avia de levar fazendo oficio de Almirante da 
Armada Real de D. Fadrique : a D. Manuel de Meneses fez 
mercê por carta de 9 de Agosto de o eleger para levar a 
seu cargo a de Portugal ordenando-lhe se fose juntar a D. 
Fadrique de Toledo. A Diogo Lopes de Sousa conde de 
Miranda governador da casa do eivei da cidade do Porto 
pusese muita deligencia com que naquelle porto, em Viana 
e nos outros marítimos de Antredouro e minho se apres* 
tase para a empresa todo o pocivel de navios particulares. 
Grandes defeculdades, antes impocibilidades inpediam 
tanta preç^a porque nas de castella faltavam bastimentos e 




— 367 — 

dinheiro para se aprestar na de Portugal náo avia mais (jue 
quatro navios de porte, e força, e estes trazia na costa D. 
Manuel de Meneses com outros fretados de pouca conside* 
raçáo, e faltos de artilheria esperando a nao S* Thomé que 
vinha da índia com fama de mais rica que náo podia desem. 
parar. Em quanto estas presas que com grande ardor fer- 
viam ordenaram os governadores de Portugal avisar de 
tudo aos infelises moradores da Bahya animando-os não 
tão somente com a esperança de grande soccorro, mas com 
efleito mui importante naquelle tempo. Era tal o cuidado 
que uma deligencia se encadeava com outra. A 8 de Agos- 
to mandaram os capitães Pedro Cadena e Francisco Gomes 
de Mello pessoas de valor e experiência do Brasil em duas 
caravelas com socorro de gente, arcabuzes, monisões que 
poude caber nellas com instrucção que fosse a Parnãobuco 
veleiando todo o pocivel e porque nada se torcia levase à 
Ilha da madeira uma carta de aviso a pesoa que ao presen- 
te a governase; antes de chegar a Parnãobuco fose ao Cabo 
branco tomar lingua do estado daquella praça ; e achando 
que estavam navios inimigos no porto> daquelle cabo de- 
sembarcasem, e por terra se metessem nella com aviso do 
governador do lugar a que se encaminha-se. A Pedro Car- 
dena em particular se dizia no regimento que sendo caso 
cayse em mãos de inimigos tivesse cuidado de afundir os 
despachos, cartas e instrucção que parese náo iam dupli- 
cados, para que não podese vir a suas mãos. A Mathias de 
Albuquerque que escrevia sua M. em resposta de suas car- 
tas de 31 de Maio, do primeiro e 6 de Junho, de28e 31 de 
Julho mostrando os sentimentos da perda da Bahya pelo 
dano que resultava a seus vasalos. e a resolução que tomara 
de lançar o Inimigo daquelle estado com o castigo que me- 
recia, advertindo de muitas coisas tocantes ao bom governo 



— 368 — 

naquelles princípios para que os rebeldes se náo poilesso 
aproveitar de algum descuido nosso. A Francisco Coelho 
de Carvalho a quem tinha enviado por governador do 
Maranhão se detivese em Parnambuco com a gente que 
levava, enquanto fosse necessário. A Mathias de Albuíiuer- 
que que hia o Alvará em que lhe confirmava o governo 
que tinha por sucecáo das vias com ordem de que assistin- 
do em Parnãobuco governase o estado sem embargo da 
provisão pasada sobre os governadores asestice na Bahya ; 
com ella uma informação de Estevão de Brito Freire que 
de parte de S.M. se lhe tinha pedido para que delia se aju- 
dase. Entre tantos cuidados estava S. M. mais lembrado da 
honra de Deus, e consolação daquella gente que de sua 
reputação que tanto estima. Encarecia ao governador o 
cuidado e deligencia, em prevenir que os rebeldes não es- 
palhase algims livros ereticos, o que com maior encareci- 
mento escrevia o bispo mostrando muito sentimento do 
successo pelo particular que lhe tocava estimando o haver 
se retirado para a Aldeã do Espirito Santo para recolher a 
gente, e dar a todos novos brios. 

A Antão de Mesquita eleito capitão mor da Bahya en- 
comendava muito a guerra contra os rebeldes por todas 
as vias para que não saise nem se aproveitasse do coisa al- 
guma, trabalhassen por lhes queimar sous navios, c con- 
servar o gentio se lhe não pasase. A. Marlim de Saã Ca- 
pitão do Rio de Janeiro avisava que lhe mandava seu fdho 
Salvador de Saã com um navio de socorro. Aos demais 
capitães da Parayba e Rio grande avisava fazendo-os certos 
destas prevenções. Com tantas ordens tão continuas de S. 
M. e, vontade com que em seu real nome mostrava o con- 
de duque pronto sempre a tudo o que se propusese, com- 
petiam os governadores de Portugal com a execução pre- 



— 369 — 

tendendo ajuntar gente e forças com que o rebelde enscr- 
rado não saise de seus reparos. Aprestaram três caravelas 
nomearam pesoas praticas, e de valor, D. Francisco de 
Moura com titulo de capitão mor, capitães das outras Hie- 
ronymo Serrão de Paiva, Francisco Pereira de Vargas. A 
pesoa de D. Francisco de Moura abonou muito sua M. por 
carta de 7de Setembro, a Mathias de Albuquerque que in- 
viava por capitão mor do destrito da Bahya para alentar e 
conservar a gente e fazer todo o damno ao inimigo, orde- 
nando-lhe tratase juntos em Parnãobuco do modo com 
que mais seguramente podese cumprir as instruções que 
levava de maneira que sem dilação chegase com o socorro 
ao lugar em que a gente estivesse recolhida donde podese 
usar das ocasiões que o tempo desse de asaltar, inquietar 
o inimigo, e impidir suas fortificações. Avisava como suas 
armadas se ficavão aprestando para com o favor de Deus 
sair na primeira monção. Repetia o escrito ja muitas vezes 
da prevenção de mantimentos en toda a cantydade pocivel 
para a gente que ahy desembarcnse, e porque era necesa- 
rio que a de Parnarabuco e dás capitanias Espírito Santo, 
Porto Seguro, estivese pronto para o que se oferecesse or- 
denase que a gente nobre daquella capitania a do Presi- 
dio das ordenanç^is da vila e do destrito que tivesem 

armas e fosem maisa propósito para as tomar, estivesem 
alistados e prestes repartidos em terços com titulo de mes- 
tres de campo, ou coronéis, e em companhias com seus 
capitães, sargentos mores e mais oficiaes para que os tive- 
se exercitados. Ordenase que os gentios do Rio Grande e 
da Parayba até o rio de S. Francisco estivesse naquella 
capitania a 15 de Desembro armados de frechas para se 
embarcar quando a armada chegase aquella capitania com 
a mais gente d'ella dos navios que tivese juntos não dei- 



— 370 — 

xando sair nenhum represando os que de novo chegSo alé 
a chegada das armadas áquella paragem. Da capitania de 
Seregipe delRei e das mais partes onde ouvese gados se 
íisese toda a cantidade de chacina. Nas capitanias do sul 
ouvese ordem para que em Janeiro seguinte de 025 estive^ 
sem caravelas e navios da costa com farinhas de guerra o 
mais que fosse pocivel ; da de S. Paulo acodisem farinhas 
de trigo, e porcos chãsinados o que tudo se levaria ãBahya 
pêra provisão das armadas. O socorro que se enviase à Al^ 
dea do Spírito Santo para inquietar o inimigo se desposese 
de modo que elle não se aproveitase dos frutos da terra. 
A instrução de D. Francisco de Moura era que fosse 
em direitura do Brazil ao Porto de Parnãobuco tomando 
primeiro língua entre Parayba, e a Ilha Tamaracã por se 
acaso naquella barra estivesen inimigos, conviesse com Ma« 
thias de Albuquerque asentando com seu parecer onde roais 
convynha desembarcar a gente e monições, advertindo que 
Antão de Mesquita avisara que o socorro fosse de mandar 
certo porto da Torre de Garcia da vila, e postas as embar- 
cações a vista tirasem uma ou duas peças para que da ter- 
ra fosse quem as metesse nelle. asentado tudo se partise, 
e chegando ao lugar onde estava a gente unida chmase os 
oíBciaes, e cappitães, e mais gente em presença do bispo 
lhe deciarase como hia por cappitâo mor de todo o destri- 
to daquella cappitania dando-lhes a carta de crença, signi- 
íicando-lhes a comfiança que S. M. tinha de que mostrase 
o valor que delles se esperava, tomase mostra da gente 
portugueza, reconhecese as monições. dando armas aos 
desarmados, vise o posto que tinha tomado se era cómo- 
do para o efeito que se pretendia, e se parecendo-lhe o 
mudase, conservase os dois coronéis que ia estavão nomea- 
dos António Cardoso de Barros, e Lourenço Cavalcante nos 



— 371 — 

ditos officios se entendesse que convinha a seu real servi- 
ço elegese cappitáes dos que levava com patente do cargo se 
conviese, procurase que os Olandezes se não comunicasem 
com o gentio, deste se ajudase contra elles no queenten- 
dese ser de efeito, conservase os negros para os empregar 
no trabalho necesario, trabalhase por impedir-lhe as forti- 
ficações que fasiam segundo se disia; e da verdade se in- 
íormase do numero da gente que tinham, que monições, 
que artelheria, quantos navios, os socorros que lhe fossem 
vindo, o modo com que no mar e terra se guardavam, avi- 
sando de tudo ao governador do estado para que as arma- 
das ali achasen o aviso necessário. Encomendava-lhe a bôa 
correspondência com o bispo pelo lugar que ocupava, co- 
mo pela satisfação que tinha de seus procedimentos; de- 
darase de sua parte as pessoas a que cometese alguma 
empresa digna de se lhe fazer mercê, que cumprindo nella 
o que se esperava lha mandaria fazer conforme ao que 
meresecem, e constasse de suas informaçóis, e por ins- 
trução secreta para comonicar somente com o governador 
lhe ordenava que tanto que chegase ao destrito da Bahya 
tirase em segredo huã de vaca da perda da cidade, e lha 
inviase. Acontecendo que alguns Portuguezes o que náo 
esperava, estivese com o inimigo trabalhase pelos reduzir 
admetíndo-os em seu nome com algum elTeito honroso com 
que mostrase o conhecimento de seu erro com aquella 
mostra de arrependimento. Em H de Setembro lhe es- 
creveu que tanto que fosse no destrito enviasse à Torre de 
Garcia Davila huma pessoa pratica e confidente a que avi- 
saria todos os oito dias de tudo o que com grandes deligen- 
cias podesse alcançar do inimigo por mar, e terra para que 
este avisase pelas embarcações que aly iriam, ou de Par- 
nambuco ou da armada que disto iria advertindo para que 



— 372 — 

tudo alcansase comacertesa necessária fazendo sempre os 
despachos duplicados. A os vereadores e oflQciaes da ca- 
mará da cappitania da Bahya encarregava muito asistise ao 
cappitao mor D. Francisco de Moura cumprindo suas or- 
dens com muito cuidado, e prontidão. A António Cardoso 
de Barros, e a Lourenço Cavalcanty mostrava por carta 
aprovar muito a eleição que de suas pessoas se fizera como 
tinha entendido por cartas do Bispo d'aquelle estado, aven- 
do por seu serviço continuase em o cargo, comprindo com 
as ordens de D. Francisco de Moura, mostrando -lhes a 
confiança que delles fazia. A Antão de Mesquita avisava de 
como mandava a D. Francisco de Moura com o cargo de 
que o desobrigava avendo respeito a sua idade, profição e 
obrigações encomendando-lhe asestisse guardando suas 
ordens. Foi acertadissima a eleição do cappitao mor, e 
cappitães, como consultada pelos governadores de Portu- 
gal que tanto se desvelam no real serviço de S. M. como a 
todos é notório, e pelos mais ministros do conselho de es- 
tado. Todas as pessoas eram de valor e experiência. D. 
Francisco de Moura o tinha mostrado em ocasiões da índia, 
e mares do Sul contra Olandezes, natural do Brazil. pa- 
rente mui chegado do coronel Lourenço Cavalcanty, amigo 
do outro António Cardoso de Barros, muito parente de 
Francisco Gomes de Mello vesinhos de Pernambuco, pra- 
tico das terras como de suas casas, Pedro Cadena morador 
da Parayba, e ahi casado, todos conformes no desejo de 
asertar ; a estes acompanhavam as mais pessoas, ou pra- 
ticas naquellas partes, ou de tal experiência das armadas, 
e melicia d'ellas que facilmente alcançariam a notícia ne- 
cessária. Nisto e em tudo o mais fez S. M. a mercê a seus 
vassalos de Portugal que moraçe atentando como os reis 
antigos portuguez es por tudo tanto que sendo avisado do 



— 373 — 

governa Jor por cartas de 18 de Julho (estando já D. Fran- 
cisco de Moura cm Bellem para partir com aplauso com- 
mum por estas conveniências) que ficava aprestando Fran- 
cisco Nunes Marinho de esa para levar socorro a Bahya, 
e servir nellà de cappitáo mor lhe aprovava a eleição pela 
boa conta que sempre de sy dera aquelle cappitáo e expe- 
riência que tinha da guerra, e a Francisco Nunes escrevia 
o mesmo agradecendo-lhe o bom modo com que a isso se 
despusera mui conforme ao que delle esperava, e ao pro- 
cedimento com que sempre se ouvera en seu real serviço 
encomendando-lhe asestise naquele destrito ajudando, e 
aconselhando a D. Francisco de Moura. Em 29 daquele 
mes avisou ao governador que a nàoS. Thomé que somen- 
te aquele ano partira da índia entrara no porto de Lisboa a 
a? e com cia a armada da coroa de Portugal que sem per- 
der hora de tempo se apresentava, para se juntar á de Cas- 
tella e fazer logo sua viagem. E porque aviam de tomar 
aquele porto para nelle se reforçar, e refazer tomando a 
gente que d^ahi podesem levar Portuguezes, ou índios, lhe 
encomendara tivesse prevenido navios prestes para a levar. 
Nos primeiros de Outubro se teve de Flandres aviso do 
socorro de Olanda para a Bahya de que se fallava varia- 
mente. Pelo conselho de estado de Castella avisou S. M. a 
D. Fradique de Toledo que era de 6.000 homens com apres- 
tos por em terra mil de cavalo. Ao governador do Brazil 
por carta de 13 de Outubro que estivese com cuidado e vi - 
gilancia, porque se chegasse primeira estesoccorro que as 
armadas, o que náo parece pocivel, poderia intentar 
aquelle porto, e se depois, poderia ser que achando os seus 
sitiados delias trabalhase pelas devertir por este meio. Os 
cuidados de acudir a este aperto não livravam d^outros, 
oem ainda dos que paresem podiam dilatarse. Nosmes- 
juMio. 48 



— 374 — 

mos dias a instancias de Francisco Coelho de Carvalho 
mandava a Mathias de Albuquerque lhe desepor contado 
sua real fazenda certas embarcações que pedia para a co- 
monicação das cappitanias, e povoasõis do Maranhão, para 
socorrer e avisa em ocasiões de guerra, e outras ocuren- 
ciasi e se comonicar com a cappitania de Parnambuco 
aonde àquele tempo estava. Partiu por aqueles dias Sal- 
vador de Saâ de Benevides em hum navio com a gente, e 
monisões de socorro a Martin de Saâ seu pai. Este e mais 
socorros chegaram a salvamento, e foram de grande elTei* 
to. As armadas da coroa de Castella se aprestavam com 
muita deligencia, mandando S. M. âquella facção ministros 
confidentes com novas comisões entre as quaes se signa - 
lou muito na deligencia, e intereza Tomas de Ybio Calde^ 
ron veedor general da armada do mar oceano em quem 
estão outras muitas e mui boas qualidades concorrem o 
secretario Bartolomeu de Anaya não falando nos ministros 
ordinários que costumam asistir àqueles aprestos. Nenhu- 
ma inveja tinha a coroa de Portugal a estas ou a outras 
algumas mostras que vassalos em algum tempo desem de 
se abonar com estremos no serviço de seus reis. Porque 
estando mui falta de dinheiro pelas guerras com que suas 
alfandegas perdem a mór parte de seus rendimentos, com 
os sucesos máos das armadas da índia tinha padecido muito 
não vindo o ano precedente mais que uma mui pequena 
naveta, e no presente uma náo deixado o trabalho fatal dos 
passados. A fazenda real mui agitada ia de muitos anos. 
Ao remédio de tanta falta prevenio a devina bondade com 
animo e asistencia dos Governadores de Portugal que ven- 
cia todas as defelcudades. E com a honrrada conpetencia 
entre a cidade de Lisboa como em nome do Estado popu- 
lar, com o eclesiástico, e nobreza. Fez serviço a S. M. de 



— 375 — 

lOOS crusados que foi grande esforço para o estado em 
que estava e curtas rendas que tem pela piedade, justiça e 
igualdade com que se governa sem opresão do povo que em 
outras padece muito em excessivas imposisõis e alcavalas; 
os senhores deram mais que o estado de suas rendas em- 
penhadas permitia. Com quatro regras disia o mayor se- 
nhor vasalo Duque de Bragança D. Theodosio, segundo 
deste nome ao secretario doestado soubese dos governado- 
res a quem se aviam de entregar vinte mil crusados com 
que servia a S. M. o Duque de Caminha Marquez de Villa- 
real D. Miguel de Meneses com quasi igual quantin. O Mar- 
quez de Gastei Rodrigo D. Manuel de Moura Corte Real 
com huma luzida companhia de mosqueteiros única na- 
quelle exercito. O Duque de Villa-hermosa Conde de Fica- 
Iho D. Carlos de Borja com soma de dinheiro de contado. 
O Conde de Castanheira D. João de Attayde com semelhante 
efeito significou sua vontade ; o Conde de Castanhede D. 
Pedro de Meneses quiz mandar seu filho D. António her- 
deiro de sua casa, o que por algumas duvidas e inconve- 
nientes não ouve efeito suprindo este desgosto com sair de 
sua casa a fazer gente que mandou à sua custa. Dom Pedro 
Coiitinho cappitão geral que foy de Ormuz, Francisco Soa- 
res fidalgo riquo, D. Pedro de Alcaseva neto do conde das 
Idanhas, Constantino de Magalhais senhor da Ponte da 
Barra, o correo mór de Portugal António Gomes da Mata. 
acudiram com dinheiro conforme suas rendas avendo mui- 
tas resois para não ser com as pessoas. Tristão de Men- 
doça Furtado còmprio com ambas as obrigaçois por seu 
braço, com hum navio grande à sua custa aprestado da 
gente de mar, e guerra, artilheria e monisois sem soldo ou 
reçáo da fazenda real. Os prelados impedidos por seu es- 
tado a servir pessoalmente trabalharam por suprir com a 



— 37C — 

quafttia de diaheiro pocivel nesta católica impresa. O Ar- 
cebispo Metropolitano de Lisboa D. Miguel de Castro de- 
via de ver-se em grande aperto porque tudo o que contri- 
buise era dos pobres possuidores de sua fazenda, modo 
acharia para dar alguns mil crusado» que ofereceo ; o Ar- 
cebisjK) de Braga Primaz de Espanha D. Afonso Furtado de 
MemloDfça que bem tinha ajudado no lusimento a sea pa- 
rente Tristão de Mendonçí mandou dar mil crusados ; o 
de Évora D. José de Melo; o bispo eleito de Coimbra D, 
João Manuel, o de Guarda D. Francisco de Castro, o do 
Porto D. Rodrigo da Cunha, e outros prelados fidalgos que 
me não lembra. Pessoas particulares se bem não chegaram 
a ígualarr-se na cantidade de dinheiro com alguns senhores^ 
a respeito desua fazenda, nâo ficaram inferiores^. João Fer- 
reira nomeado por S. M. em Provedor da fazenda do Bra- 
zil, Domingos Gil da Afonsecca, António Alvares de Si- 
queira, Manuel Dias Guedes, Afonso de Barros Caminha^ 
largaram o frete de seus navios, e por cappitães foram 
nellesa Lisboa, com diferença que Domingos Gil dWfon- 
secca deu com o navio fretes de vinho, biscouto pól- 
vora e mosquete. Os filhos de Eitor Mendes, os mercado- 
res italianos, os Alenlães, os homens de negocio do Reino^ 
os da nação franceza todos oontribuiram. Desta maneira 
ficou a fazenda real em boa parte alyviada. Os sentores e 
fidalgos de Porlugal poderam fazer gloriosa a- impresa en- 
trando nella quando de si o não fora tanto e posto que cada 
um delles foi emulo da verdade e não das pessoas-, estando 
com tal animo que se não poderá facilmeí>tc dizer (|ual foy 
o segundo. 

Não se pôde negar que foi o primeiro D. Afonso de No- 
ronha (|ue tendo ocupado os poslos de Portugal começando 
por soldado na vhida dos iugteses sendo ja casado, por 



í- 



soldado na armada de Fernão Telles, por capitão almirante 
da armada da índia, capitão geral de Septa, de Tangere, da 
armada real de Portugal, governador do Algarve, eleito 
viso rei da índia aonde navegava e achando-se naquela oca- 
sião com so un filho D. Miguel de Noronha conde de Li- 
nhares, cappitâo geral de Tangere casado com lilha herdada 
de D. Pedro de Meneses e com filhos : e sendo de idade 
posto que não tanto como parece mostram os cargos que 
sérvio saindo do conselho d'Estado, de que he ministro anti- 
go, quando chegou a carta de ElRei de de Agosto 

entrou na casa do consulado, e recebendo pequeno soldo se 
alistou por soldado para a empresa, exemplo uflo necessá- 
rio para a disposição de animo com que estavam os mais 
senhores e fidalgos, mas eficas para os abrasar quando frios 
e esquecidos estivesen. O Conde de S. João Luiz Alvares de 
Távora, podendo escusar a idade, e mandar António de 
Távora seu filho herdeiro tendo poucos se alistou. D. Afon- 
so de Portugal conde de Vimioso que não pode ser o pri- 
meiro de Lisboa para exemplo de todos por estar na corte 
em negócios e pertenções de sua casa importantíssimos foy 
la primeiro a se offerecera S. M. e ao conde duque: o con- 
de de Távora D. Duarte de Meneses moço casado de pouco 
com a filha do conde de Faro, neto de D. Duarte de Mene- 
ses, terceiro neto de D. Duarte de Meneses Viso rey da 
índia, quinto daquelle D. Duarte de Meneses com conde de 
Viana. Duarte de Albuquerque Coelho senhor da Cappitania 
de Parnãobuco, Álvaro Pires de Távora, filho de Rodrigues 
Lourenço de Távora Viso rey da índia, João da Sylva T«lles 
de Meneses senhor de Avoeiras filho de Diogo da Sylva re- 
gedor herdado, D. Henrique de Meneses senhor do morga- 
do e casa do Bourisal, D. Álvaro Coutinho senhor da Torre 
de Almorol, António Corrêa da Sylva senhor de Bolas, D. 



— 378 — 

Lopo 4a Cunha seohor iJe Santar, Buí de Moam Tdks âP- 
nhí>r ^la Poroa e Mealha, D. António de CasleOiraiio se* 
nbordo antigo morgado de PombeilD. Maitím Af^juso de 
(Mirem senhor do morgado de Oliveira, D. Frandsco de 
Portogai comendador de Fronteira, D. João de Sousa al- 
caide mordeThomar, PeiirodaSrlfagOTernadorecapiMtfo 
gerai que for da Mina, filho do Regedor Loorenço da Sjfn, 
Luiz César de Meneses filho herdeiro de Vasco Fernandes 
César provedor do Almaseis e armadas de Portugal, D. Bo> 
drígo da Costa filho de D. Gileanes da Costa cappitáo que for 
da Speta, do conselho doestado. Presidente do Paço, Pedro 
César de Esa filho de Luiz Cezar provedor dos Almaseis, 
Estevam de Brítii Freire, Nuno da Cunha, Hieronvmo de 
Mello de Castro, Joáo de Mello, estes foram casados de qoe 
me lembro náo falando dos ocupados em carregar. Dos 
Síilteiros vieram a minha notícia António Luiz de Távora, 
iilho herdeiro do conde de S. João, D. João de Portugal 
filho herdeiro de D. Nuno Ah'ares de Portugal um dos go- 
vernadores deste reino, cujo filho mais velho D. Luiz de 
PortDgal entrava em religião na ordem de S. Domingos, 
António Telles da Sylva que seu pai Luiz da Sylva do con- 
selho doestado veedor da fazenda ofereceu com Joân Gomes 
da Sylva seu filho primeiro, que por ocupações da Corte 
náo foy na empresa. D. Francisco Luiz de Faro filho mais 
moço do conde de Faro que na armada de Castella trasia 
seu filho segundo D. Francisco de Faro com grande despeza 
de sua fascnda, D. Afonso de Meneses da casa deCatanhede 
herdado, D. Joáo de Lima filho do Visconde D. Lourenço, 
Álvaro de Sousa gentil homen da boca de S. M. Alcaide mor 
da Amieira, filho primeiro de Gaspar de Sousa do conselho 
d^Estado, governador que foy do Brasil, Manoel de Sousa 
Coutinho senhor dos conselhos de Bayáo, e S. Christovão 



— .379 — 

de Nogueira, D. Diogo de Vasconcellos e Menezes, e D. 
Sebastião seu irmão da casa de Penela, Rui de Figueredo 
fdho mais velho de seu pay, António de Figueiredo, e Luiz 
Gomes de Figueiredo, seus irmáos, Lourenço Rodrigues 
Carvalho, herdeiro de seu pay Gonçalo Piz Carvalho pro- 
vedor das obras do Paço. D. Nuno Mascarenhas da Costa, 
Sebastião de Saâ de Meneses herdeiro de seu pay, D. Lou- 
renço de Almada herdeiro D. Diogo da Sylveira herdado D. 
Rodrigo da Sylveira filho herdeiro de D. Luiz Lobo da Syl- 
veira senhor deSerzedas eSovereira Formoza, e Fernão da 
Sylveira seu irmão. D. Henrique Henriques herdeiro de 
Alcasovas, Jorje de Mello filho de Manoel de Mello Monteiro 
mor, Estevam Soares de Mello, Álvaro de Sousa. Francisco 
de Mendonça Furtado herdeiro, Christovam de Mendonça 
seu irmão. D, Álvaro Coutinho, D. Francisco Coutinho fi- 
lhos do Marichal D. Fernando, Simão de Miranda, Brás 
Soares de Sousa, o capitão Ruy Corrêa Lucas, Rodrigo de 
Miranda Henriques, Pedro da Sylva da Cunha. António da 
Sylva filho do chanseler Pedro da Sylva, Martim Afonso de 
Távora filho do reposteiro mor, Manoel de Sousa Mascare- 
nhas, D. João de Meneses, António Carneiro de Aragão, 
Nuno Gonçalves de Faria filho de Nicolao de Faria Almo- 
tacé mor, Pedro Lopes Lobo, António de Abreu. Fernão 
Alvares de Toledo seu irmão, Gonçalo de Tavares de Sousa, 
Joanne Mendes de Vasconcellos filho de Luiz Mendes de 
Vasconcellos governador que foy de Angola, D. Diogo de 

Noronha, João Machado de Brito senhor 

António de Sampayo, D. Manuel Lobo, Ruy Dias da Cu- 
nha, D. Francisco de Esa, Duarte de Mello Pereira com 
dois filhos. Martim Afonso de Mello, e José de Mello, Lo- 
po de Sousa de Santarém, António Pinto Coelho senhor de 
Felgueras, Simão Freire de Andrada, Paulo Soares, Anto- 



— 380 — 

nio TaTeira. Henrkpe Corrêa da Svlva, Martim Carrea sea 
írmáo, FrsDcisco Mana da Sjha, Garcia Velez de Gastei 
branco* Donrte Péíioto da SjlTa, Pedro da Costa Traraços» 
José de Souza de Samparo, e ootros que porqoe não vie- 
ram á minha noticia, não faiando em outras pessoas mor 
calííicadas de (acíl coosa de contar-se por não estaren ma- 
trícjlados nos livros da casa real por seu descuido oo de 
seos aTôs» oa algama rasáo particular. Os ocupados, D. Ma- 
nuel de Meneses general da Armada, D. Francisco de Al- 
meida Almirante, D. António de Meneses da casa de Villa 
real c-ippitáo de infanteria, Tristáo de Mendonça Furtado 
ca{)pítáo de Accabuseirosde quem falamos, D. Rodrigo Lobo 
eappitáo de infanteria e de cm gabão, Ruy Barreto de Mou- 
ra cappitáo de Mosqueteiros do Marquez de castel-rodrígo 
de sua linhage, João Alvares de Moura, seu irmão maisve' 
lho, Manoel Dias de Andrada, Constantino de Mello Pereira, 
Domingos da Cimara capitães de infanteria estes casados. 
António Monis Barreto mestre de campo do terço do socor- 
ro, D. Álvaro de Abranches da Camará, Gonçalo de Sousa» 
D. Sancho de Faro filho do conde de Vimieiro, Symão 
Mascarenhas, Chrístovam Cabral, cappitáes de infanteria, D. 
João Tello de Meneses, filho do gene ral capitão daCapitania. 
A estimação que S. M. fez destes serviços foy mayor que 
todo o merecimento, como significou por palavras nas car- 
tas dos governadores mostrando-se satisfeito com encare- 
cimento, ede seu cuidado, e assistência delles. da vontade 
dos prelados, e do animo da maior nobreza de Portugal ; 
nem foram menos as mercês, fazendo-a aos filhos cujos 
pais falecesen na jornada, do que por elles vagaseda Coroa, 
ou das ordens melitares. e aos que as não tivesem lhe fazia 
equivalente. Mercê que depois ampliou por sua real gran- 
deza declarando com palavras dignas de tam gram monarca 



— 3S\ — 

qiic era servido que onvescn efeito aquellas mercês posto 
que a não mcrcsen, e porque não escapase algum de tanta 
liberalidade por qualquer via, ou contingência. Morrendo 
Francisco de Saã de Menezes em sua casa sem alguns ser- 
viços que eu saiba quando seu filho Sebastião de Saâ 4e 
Menezes ctiegou a ella da Bahya achou duas comendas que 
negavam, uma delias de importância sem que para tam gram 
mercê fossen necessárias petição, ou consultas, porque co- 
mo os reis justos sâo no modo possível retratos de Deus na 
terra quer S. M. seja seu governo retrato da providencia 
procurando -lhe o Conde Duque tudo o grandioso sem al- 
guma extrínseca lembrança. Estavam as coroas de Portugal 
eCaslelIa, em continua competência ciosissimas do serviço 
deEfeus, e de seu rey de sua real reputação nesta empresa, 
quesemdavida foy das mais importantes por não dizer a 
mais de nossos tempos. Do Conselho d^Estodo de Portugal 
se pediam cm principio quinze galeões somente da armada 
do mar oceano, abundante socorro para expunaç^o de uma 
praça que como se cuidava os poucos bisonhos da Bahya 
tinham enserradae S. M. vencendo a proposta por decreto 
a seus conselhos quiz der mais com grande excesso, c a 
pessoa de D. Fadrique de Toledo porque asy se abalase a 
nobreza castelhana. 

A armada de Castcllase dizia estar prestes para sair bre- 
vissimamente fazendo isto muy crivei o não haver sahido 
omtodo o verão, e tanto aporta aguarda necessária da frota 
de Índias, e porque a resolução e afecto era muy conforme a 
importância da empresa queria S. M. que a jornada fosse 
até 20 de Agosto, e conformando-se com as consultas de 
Portugal que ato 20 de Setembro para o que D. Fadrique 
de Toledo com a sua armada que diziam estar aprestada 
fosse a Lisboa sem dilação, vendo -se depois algumas de- 

JUNHO 49 



— 382 — 

liculdades, considerado que era tempo muy conveniente 
octubro resolveu S. M. que em 20 d'aquele mez partisse 
com o que podesse levar de Portugal se a armada não es- 
teve a ponto, como era de querer o que sentiria muito, 
avia continues cercos com que se encarecia a prontidão de 
huma, e necessidade de deligencia na outra, em huma de 
28 de Setembro mostrava clara desconfiança dos aprestos 
na de Portugal avendo verdadeiramente grandes deficul- 
tades, chegar ao porto de Lisboa a 27, cançada a gente de 
andar na costa todo o verão, apodrecida a enxárcia, gas- 
tadas as velas esvaidosos navios, pedia S. M. lhe mandase 
de Lisboa pilotos contramestres, guardiões, homens prá- 
ticos nas costas do Brazil. Mas tal foi assistência dos go- 
vernadores, de Ruy da Silva vedor da fazenda, Vasco 
Fernandes César provedor dos almasens, e mais ministros 
que isto apoyaram com seu cuydado que todas as deficul- 
dades se venceram como S. M. mostrou por carta de 19 
de Outubro agradecendo aos governadores o muito que 
tinham feito; mudado já de opinião assentou que a armada 
de Portugal saysse logo acharia a de Castella no Cabo de 
S. Vicente, e noutro correio que não a achando no Cabo a 
fosse buscar a Cadix. Fervia em Lisboa a obra, no mesmo 
tempo se dava querena aos navios, se reformava a enxár- 
cia, se faziam velas, se aprestavam mantimentos por outra 
parte os pretechos para o sitio, pás, enxadas, machados, 
picos, foucinhos, padiolas rodadas exportas ; no mesmo se 
alistava a gente se faziam as pagas liberalmente, se ajun- 
tavam as munições; outros ministros atendiam a embar- 
rilar pregadura grossa e sorteada, taxas e estopares, es- 
topa gran cantidade de breu, e mais cousas necessárias 
para concertos dos navios na Bahya, indo tudo isto em 
abundantes cantidades de que se valeram alguns navios da 



I 



— 383 — 

Castella no que necessytavam e ficou muito no Brazil. A 
escolha dos maatimeatos era com estremada deligencia 
asestindo pessoas de confiança ao lavrar e embarricar o 
bescouto, a carregação dos vinhos de preço subido, ao 
fazer e compor as carnes de porco, e vaca que foram esti- 
madas; atentava-se náo ao necessário, mas ao regalo, 
amêndoas, pacas, assucar, farinhas, queijos de alentejo, 
fora de resões ordinárias. Obrava Deus com as mãos dos 
homens eíTeitos maravilhosos mostrando em tudo ser a 
causa sua. O conde de Miranda executava o mandado de 
S. M. mostrando notável cuidado, vigilância, e continua 
asistencia, vesitando em pessoa os portos, persuadindo 
com muitas palavras os moradores ao serviço de Deus, de 
S. M. e recuperação da honra jà perdida ; accendeo a emu- 
lação nos moradores de Viana lugar rico, e de gente nobre 
de maneira qnasi viram notáveis exemplos vencer os an- 
tigos gregos, e romanos. Máy nobre e rica que ofereceu 
seu filho único em sua casa e em sua consolaç-ão ; conten- 
das entre pay e filho qual se havia de alistar, alegando o 
pay a experiência da navegação, o filho as obrigações do 
pay, a sua casi, mulher e filhos, outro que impedido man- 
dou seu filho de doze anos com vinte soldados á sua custa. 
Vendo os governadores sua tenra idade o quizeram per- 
suadir se tornase para seu pay indo a gente; respondeu 
que não era aquella a mercê que de tan grandes senhores 
esperava. Todos três irmãos de uma casa honrada se re- 
solveram ir na jornada. Piedade injusta parecia o desam- 
paro que se representava, força que ficasse huma dificul- 
dade mayor de qual seria, tomase por meio a sorte dos 
dados, foram dois João Ferreira e Diogo Ferreira, ambos 
morreram servindo igualmente, desiguais no modo. João 
Ferreira rendido do trabalho no apresto da armada nas 



— 384 — 

couâas tocantes ao seu oficio de provedor niór do exercita 
da empresa e do estado do Brazil, Diogo Ferreira depois 
de muito trabalho no mesmo oficio no Gabo Verde e na 
Bahya o espera uma bala de artilheria estando com a sua 
companhia de guarda nas trincheiras. 

Grande falta para meneo das cousas, grande pêra o ge- 
neral que nelle descançava, se pode chamar-se falta a per- 
da de tal pessoa, grande lastima para sua casa. Sendo Via- 
na dos mais nobres lagares de Portugal, e de taes exem- 
plos, merece verdadeiramente particular memoria, man- 
dou três navios e tresentos homens de mar e guerra entre 
elles pessoas muy principais, João Ferreira, Diogo Ferrei- 
ra, Gonçalves Lobo Barreto, Afonso de Barros Caminha, 
João Casado Jacome, Bento do Rego, capitães deinfanteria 
D. António de Lima, João Barboza de Almeida, Manuel 
de Lima, Francisco Pedroso, Bernardo Velho, Boto, Ma- 
nuel Caminha Corrêa, João de Govêa Corrêa, António Pin- 
to. Manuel do Rego, Jacome da Silva, quatro filhos de 
Pedro Velho Travasos, António de Morim Serrão, João 
Barbosa, Diogo Jacome Beserra, Domingos Ferreira, Bel- 
chior Preoles, Thomaz Fernandes, Fernando Munhos Cor- 
rêa, Gabriel Fajardo Beserra, Valentim de Sousa, Domin- 
gos Pereira Jacome, Domingos Borgueira. Bento Rangel, 
António Branode Távora, Simão Salgado capitão de um 
patacho, Manuel Dias, Manuel Faria, Gaspar Maciel, Lou- 
renço de Amorin, António Borges Pacheco, António Ve- 
lho Gondim. Afonso do Porto, Manuel Corrêa Jorge Pin- 
to, Jacinto de Alpoim, Gaspar Lisio, Baltasar Sisio Cogo- 
minho, Luis Pinto Pedroso, António de Magalhães, Simão 
Fagundes Jacome. João da Rocha Fagundes, Estevom Ro- 
drigues da Rocha a que as oi'dens sacras não tiraram o ai)e- 
tile das armas, cappelão no exercito. 



I 



— 383 — 

Sayo (lo Porto junta esta esquadra de dez navios á ordem 
tle Tristão de Mendonça Furtado, e em Lisboa desembar- 
cou muy lusida gente. O trabalho e cuidado do Conde de 
Miranda neste bom serviço o estimou S. M. e muito, e 
mostrou por carta que lhe escreveu em 2o de Novembro- 
Fez-se toda a armada á vela no Porto de Lisboa com alegria 
commua, esperanças em Deus de bom successo, segunda fei- 
ra pela manhã 18 de Novembro dado fundo em Bethiem se 
deteve para acabar de recolher a gente, e aperfeiçoar alguá 
coisa se faltava como se acontecer em outras de mais bre- 
ve jornada, ate 22 estando aquela manhã os governadores 
em sua falua para desamarrar a capitania se levantou supi- 
tamente um vento nordeste, lesnordeste furioso que cau- 
sou novidade nos mais práticos marinheiros. Disse D. Ma- 
nuel de Menezes que lhe parecia não convynha desamarrar- 
a armada com tal vento, porque se não podia dobrar o ca- 
bo para ir na volta de Cadix, nem nelle espe- 
rar pela de Castella porque em 24 horas desaparelhariam 
os mais navios que eram de particulares de velas, enxárcias 
desporporcionadas aquelle trabalho, nem pairar por serem 
alguns velhos, e mil tratados sem risco notável de se per- 
der parte da armada, ou derotar. Como a. necessidade era 
tão urgente em cousa tão essencial, e por outra parte eri- 
tava os sentimentos da delação, o ver podia sair D. Fadri- 
quc( posto que vulgarmente se disia que estava de vagar, 
não faltando resões para se diser) ou menos cncobriase 
aos olhos o efeito da-deligencia que em Liboa no apresto 
da armada se fisera, começaram os governadores a entra- 
em novos pensamentos se averia porto en que esta armar 
da esperasse a de Castella, das Canárias se desenganaram, 
fallouse em Cabo verde, ouAe pessoa que com grande vay- 
dade se mostrou practico naquellas ilhas Jumtaram-se alguns 



~ 386 - 

pilotos e mestres, D, Afonso de Norona, D. Manuel de Aíe- 
nezes, com os governadores, assentou que a de mayo tinha 
porto capas de todas as armadas, abundantissima de carne, 
fructa, regida de Ribeiros de muy boa agoa. Bera se pode 
esperar de taes pessoas os condes D. Diogo da Silva Doa 
Diogo de Castro qualquer grande resolução, mas ordem 
ílivina foy digníssima de hum gran discurso que naquella 
hora se resolvesse fora do regimento real a que a armada 
fosse naquella volta. Mandaram a Luis Falcão que estava 
presente fisese novo regimento em nome de S. .M se man- 
dava a D. Manuel de Meneses que consideradas as circuns- 
tancias se fizesse á vela em demanda das ilhas de Cabo 
Verde e nellas esperase por D. Fadrique de Toledo. 

Estou como com anciã desjando chegar a estas ilhas não 
para descançar do trabalho de escrever, he a leitura breve 
posto que cansativa, meuda esecn conforme a o nome en- 
talada entre os limites rigorosos da verdade que muitos 
verão e espreytarão sem me poder chegar a elles, tanto 
menos passalos com discursos ou praticas, compostas para 
deleitar os delicados ouvidos deste tempo, que tudo o ai con- 
denam, mas por apregoar as misericórdias de Deus, que 
violentou a vontade dos que a receberam acertos guiados 
por sua divina bondade tommdo por instrumentos delles 
aos orados discursos humanos, temerários atrevimentos ; 
perturba este gosto e sucesso un galeão, dano de amigos 
perda de muita gente que miseravelmente se afogou. Por 
atalhar a tanto fastio me pareceu grande trabalho copiar 
aqui alguns capítulos de cartas que D. Munuel de Menezes 
escrevia a S. M. em que lhe dá conta do sucedido. Esta éa 
primeira ; Foi Y. M. servido por muy justos respeitos que 
para isso ouve de me mandar que com esta armada viesse 
as Ilhas de Cabo Verde. Logo em chegando despachase uma 



^ 



— 387 — 

caravela com aviso de ser chegado. Parti a 22 de Novembro 
com vento nordeste rijo, e se nessa costa cursaraip os 
tempos que passamos, juigaram os práticos por mercê par- 
ticular de Deus a resolução dos governadores, porque 
depois que o nordeste esbravejou cinco ou seis dias ame- 
açou o vento deste que vareou pelo sul com choveíros no 
lugar em que estávamos surtos muito para temer na estação 
do inverno, e deixado o perigo que corria nesta armada, se 
iria com tanta dilação desbaratando, e inpossibilitando 
como o esperar no Cabo de S. Vicente era a total mina, e 
não pequena a detença em Cadix se o tempo fora para to- 
mar aquelle porto, aonde avia de aver inconvenientes, e 
desmanchos, se aly nos entrase o inverno ( o que bem se 
pode presumir pois até oje não chega D. Fadrique de Toledo 
que estava prestes para partir conforme sua carta cuja có- 
pia envio a V. M.) correr esta armada muitos riscos, tantos 
navios juntos os mais de particulares pobres, mal apresta- 
dos de ancoras, e amarras. Vim com mayor cuidado nesta 
armada do que nunca tive noutra porque como se mormu^ 
rou que alguns destes navios oferecidos a V. M. traziam ne- 
gocio e mercancia, como se me apartavam, os dava por 
derrotados, o que agora me alivia suspeitando que alguns 
que me faltam estarão em Parnáobuco. Chegamos a 28 á 
Ilha da Madeira, e a 7 de Dezembro avendo navegado com 
vento mais brando, mas de chuveiros nos posemos na altu- 
ra de Tanarife e passamos por entre ella e a Palnia achando- 
nos em 10 muy perto da Ferro, Aqui começaram alguns 
navios a descuidaren-se da vigia apartandose nos muito 
por uma e outra banda a almiranta, esperava por todos a 
cappitana. Faltounos a caridade, que achamos desveleyados 
até que se entendeu não podia ficar por popa. A 14 indo a 
cappitana com pouco panno passou a Conceição veleyaía 



— 388 — 

ao tope adeantando-se de maneira que de tarde estava a 
vista, c não vimos mais. Outros navios perderam o farol c 
se nos náo ajuntaram posto que navegamos contra aquelle 
mesurado, escuadeira somente, sofrendo por esta causa 
grandes balanços, A 18 em que dizem se perdeu a Concei- 
ção passou a cappilana por altura de 16 quarenta Icguas 
pelo meu ponto a lesnordeste da Ilha de Maio e a desenove 
por quinze e un terço, dose legoas da ilha. As duas depois 
do meio dia se nos mostrou uma sem aver piloto nesta 
cappitana que a conhecesse e da armada uns diziam que era 
a do Sal, outros a de Mayo, podendo ao que mostrava a proa 
passala por barlavento, temendo alguns baixos nos Azemos 
antes da noite ao mar noutra de sudoeste, por náo descair 
com os mares que eram grossos voltamos antes da meia 
noite a noronoroeste. Levado o sol nos ficava como quatro 
léguas, tanto descaymos naquella volta. Vendo-me aquila- 
vento fui de ló tudo o que putie, comtudo ao meio dia ja a 
não viamos achando-nos em quinze graus e meio. Conside- 
rei os erros das cartas e padrões de Portugal, quam neces- 
sário he haver quem as emende para que se navegue sem 
perdições desculpadas, chamei caravelas para me informar 
de outros navios que vinham aportados, mas afora ser o 
tempo tromentoso estavam muy longe e náo acudiram. 
Aquela tarde vimos a ilha de S. Thiago que os pilotos desta 
cappitana opondo-se ao que un dizia afirmaram com jura- 
mentos que era fogo que dizian reconhecer por certos sínaes 
e todos fíilços. Fomos toda a noite correndo com tromenta 
fazendo escassamente o caminho de Noroeste posto que 
apontávamos quasy ao Norte. Na manhã de 21 bem levan- 
tado ja o sol e estando ja mais brando o vento se nos che- 
garam alguns navios e uma caravela, aconselharam que nos 
fizéssemos na outra volta do sueste ; indo nesta largamos 



I 



— :)89 — 

vela de gávea e por puro descuido, e depois por teima de 
algufis se nos quebrou o mastareo grande, e juntamente o 
gariindeo com que ficando sem remédio de bolinar. Indo 
com aquella proa vimos a do Fogo ao Sudoeste, e se serti- 
ficaram q ico era, o que me foy de grande alivio, porque jà 
me requeriam que fossemos a Parnãobuco pois era o ven- 
to geral, e estávamos aguilavento de tudo. 

Foi Deus servido que alargasse o vento quando com 
menos esperança estavam, sem vela de gávea, ultima 
desesperação, e podemos ir alessueste com que nos che- 
gamos ao abrigo da ilha que já tínhamos perdido. A 22 
estivemos perto de terra, e nos chegou a caravela de Mon- 
tearey o que eu tinha enviado diante a pedir piloto, e me 
deu a triste nova do naufrágio da Conceição na liba do 
Mayo ainda estavam muitos dos nossos navios, e no Porto 
de San Tiago a caravela de Sebastião Marques mandado 
sondar ao longo da costa para surgirmos, e sem ordem se 
fora ao porto. Também soube que ficava aly a caravela de 
Cosme do Couto que a nossa partença ficou nesse porto 
de Lisboa. Despachey logo ao governador Francisco de 
Vasconcellos mandase uma ou todas as caravelas para acu- 
dir à perdição da ilha do Mayo indo tudo a ordem de João 
Coelho da Cunha cuja é aquella ilha, c me tinha escrito 
oferecendo-se a V. M. com sua pessoa fazenda, bois, carros 
e escravos. Terça-feira 24 surgimos neste porto da Praya 
duas legoas para a parte de leste de San Tiago guiados por 
um piloto da ilha da Madeira o mais pratico dos que na- 
vegam aquellas ilhas, que estava nesta acaso com seu ne- 
gocio, e trato com uma caravelinha no porto de San Tiago, 
e sem elle mal poderamos escolher este de que lhe mandei 
passar certidão. Chegados ao porto que desejava não posso 
discorrer brevemente no modo com que Deus nos fez tanta 

lUNHO. 80 



- 390 — 

mercê e apesar de tudo o que se ha de amplificar deve ter 
principio no de menor para caminhar ao de maior consi- 
deração, aqui onde tudo é maravilhoso escusado fica qual- 
quer género de artificio. Náo estava aprestada a armada 
de CastQlla tam adiante como se pensava, antes atrasada» 
que se a de Portugal fora a Cadix se pôde ter por certo, 
como muitos intendentes da matéria confessaram que nem 
muitos dias depois que partiu podia partir. Foi a delibe- 
ração, e saida delia humas esporas e aguilhão, causou 
pensamento de que poderia achar-se naquella empresa 
(não se tinha tanta opinião da força do inimigo antes a 
comum juizo não seria achado no Brazil ou é que o receo 
tudo facilita) uma viva emulação ourada inveja que obri- 
gou aos ministros vencer grandíssimas dificuldades; se 
D. Fadrique tardava não avia sair depois pela nova de que 
Inglaterra se armava contra Espanha com grandíssima 

força perdia-se tudo raetendo-se tempo em meio 

o gentio ir constante ao ardiloso Glandes a gente vinda da 
Bahya com esperança próxima de grau socorro se susten- 
tava; se o inimigo não quisesse degolalos, ou desalojalos 
cahyaem necessária desesperação. O inimigo se fortificava 
mui á vontade com os materiaes, pedra, vigas, e tudo o 
mais que os edificios do Carmo, e San Bento lhes dariam 
largamente, desmantelando-os quando se não quisesse can- 
sar nos matos, e nas canteiras, chegando-lhe socorro, na- 
vios de força, artilheria, munições junto ao que tinham, 
deixando presidiada a praça entrava hum exercito pela 
terra dentro para o que tinha pequenas peças de campa- 
nha commodos encavalgamentos, pistolas, peitos, espal- 
dares, selas bridas ; conseguia todo seu intento. Toda esta 
maquina andou sobre este couce de sayr a armada Portu- 
gueza, todo o movimento deu aquella resolução dos go- 



% 



— 391 — 

vernadores, nem parece foi acaso a súbita fúria dos nor- 
destes não è temeridade dizer que tomou Deus aquelle 
meio para que saisse. Os pilotos que facilitaram tudo ofe- 
recendo portos, nada sabiam ; foi necessária sua ignorante 
temeridade ; se tiveram noticia certa da ilha de Maio, não 
aconselharam que se buscasse porque é estéril, provida 
somente de cabras danosissimo mantimento pira gente 
acostumada a outros diferentes ; de nenhumas frutas de 
nenhum regalo, de nenhum morador senão de alguns ne- 
gros do senhor delia que assistem a um pobre feitor para 
matança deste animalejos de que as peles é o principal 
proveito, ainda que pouco. Nos rios, nas fontes, que fin- 
giam se enganavam. No porto não ha agua; a da pobre 
ilha é como lago detido, por larguissimo caminho apartado 
da costa em que se havia de surgir. Aly se consumira a 
gente com descomodos, sedes e fomes, de que se lhes 
avia de causar grandes doenças, o que parece Deus quis 
atalhar não permitindo que a cappitana estando por bar- 
lavento da parte em que avia de surgir dese fundo nella 
fazendo que os pilotos práticos a não conhecessem, como 
também não quis que fose surgir ao porto de San Tiago 
aonde vão ordinariamente os navios marchantes, porque 
indo aly não ouvera de ficar ancora nem amarra nos primei- 
ros dias que se detivesse. Quis S. Divina Magestade asy 
parece, mostrar o ultimo trabalho perdesse esta nào o gar- 
lindeo, e mastareo íicando-lhe jà o porto por barlavento 
para, mudando os ventos geraes, aproveita ndo-se dos se-, 
gredos de certas horas e marés que nenhum dos da ar- 
mada conhecia, aonde em muy bom fundo de poucas 
braças esteve aqueila armada sem perda de amarras de 
que hia mui falta. Acharam-se bastantes regalos, galinhas, 
frangãos, capões, cabritos^, leitões, limas doces, cidraèi, li* 



~ 3íh2 — 

móes, laranjas de toda a sorte excelenles, muito e mui bum 
peixe que pescavam, muitos porcos, vitelas mui gordas, 
carne de vaca gordissima a preço mui baixo, muito arroz, 
manteigas, fructas de muitas sortes, uvas, . figos, melões 
cocos, ribeiras de agua, posto que distantes, mas naquelie 
porto hum pouco inexbasto de que alguns dias depois se 
soube por experiência ser de mui boa agua para a armada, 
assentando-se brevemente, tenha de que sem trabalho ou 
custo se proviam longamente, parte emfim em que se po- 
deram ir fazer chacinas para as armadas, em que com 
muito paze saúde esperou cincoenta dias por D. Fadrique. 
Aqui chegou João Coelho que enviei à de Maio cora 
gente e petrechos na caravela de Cosme do Couto, para ti- 
rar a artilheria ao que tudo se oppunha alegando impossi- 
bilidades : com o vento rijo arribou ao terceiro dia. Man- 
dei logo a de Monteroyo o que levava mestre mui experto, 
e mui boa pessoa ; esta também arribou tendo vista de hum 
pataxinho, vinha este de Guine, e era do governador ; e 
porque o vento se levantou tromentoso não houve remédio 
que esperar abrandasse algum tanto. Tornou em 4 de Ja- 
neiro levando João Coelho, e Egas Coelho seu irmão e o 
auditor geral deste exercito que com mui franca vontade 
se ofereceu, e afirmo a V. M. que é pessoa notável mere- 
cedor de muitas mercês que V. M. lhe fará quando vir seu 
procedimento ; foi com elle João do Loureiro seu primo 
que seguio as letras em direito civil, e é muito para as ar- 
enas, e me parece será de importância para as armadas, o 
que permiti, posto que o auditor leva ofícios, a que con- 
vém assista, persuadido convinha muito ao serviço de S. M. 
ver tudo com os olhos, o estado da nào, o logar em ((ue 
se perdeu, a possibilidade de lhe tirarmos a artilheria e se 
informar de outras cousas. Terra feira 7 do me? abran- 



I 



— 393 - 

dando a brisa tornaram com muitos aprestos, artilheiros 
dos melhores e outros homens do mar todo a ordem de 
Francisco Duarte, mestre do navio em que vem Tristão de 
Mendonça, e neile tem parte Tomé de forças, saúde, expe- 
riência, e notavelmente desejos de entrar no serviço de 
V. M. havendo-o ahy por bem Tristão de Mendonça que 
para este efeito mo largou oferecendo o navio e sua pes- 
soa. Partiram às oito da noite chegaram no outro dia á 
tarde. Terça feira 14 do mez chegou aqui o auditor, fican- 
do lá toda agente com mui boas novas da artelheria dei- 
xandohuma peçaenterrada.huma naprancha,e outra para se 
meter nella. Naquelle dia terça feira mandei Heronymo de 
Gouvea mestre desta cappitania, bom marinheiro e de mui 
boa resolução que se me ofereceu, e a meia noite pouco 
mais chegou aqui com dois carretois que avia na cidade. 
A 15 do mez foy Monteroyo, e Couto com petrechos de f 
novo e mais gente e porque as caravelas se fizeram á vela 
sem levar hum batelão necessário para que com mais faci- 
lidade SC tirar a artilheria. nem poderiam quisais por ser 
pequenas e estar a de Couto aberta pela aguada desta ar- 
mada em que assas se trabalha ; foy necessário mandar 
hum patacho capaz de trazer a artelheria que já agora com 
ajuda de Deosem gran parte estará tirada. Não foi a ca- 
ravela de Marques que é grande é possante porque 

Isto 6 o que passa até agora 16 de Janeiro de 1625. 
Pela devasa que envio verá V. M. como passou a per- 
dição do navio, e afirmo a V. M. que me vejo era aperto 
no que escreva; estou magoadissimo de tamanha perda 
sendo tal a ocasião que carrega tanto sobre mim, e avendo 
que não foy c>ausado o mal por algun dos desastres que no 
mar aconlese, senão por pura fraqnesa e inhabilidade de 
homens mandei prender o mestre e o piloto 



— 394 ^ 

Esta é a verdade do caso, mas por outra parle se hade con^ 
siderar qne não tem aqui logar malicia humana para suspei- 
tar que deixasse os oíBciaes deiigencia alguma para livrar 
o navio do perigo, é desastre que a muitos pôde acontecer 
e a mim a quem o tempo tem ensinado muito a minha arte. 
Estavam naquelles dias aquellas ilhas mui cobertas de né- 
voa, como estão gran parte do anno, não se vendo que de 
mui perto. Corre aquella costa em que o navio se perdeu 
quasi noroeste e sueste, o vento nordeste rijo; pela proa 
que levava bem se cuidava podia costear livremente ; em 
verdade que digo a V. M., o que entendo como se com os 
olhos o estivera vendo, indo com esta intenção apartados o 
que pareceo necessário, viram de longe romper os mares 
pela proa. o que não foy crido pelo piloto, porque não 
esta nas cartas a restinga tanto ao mar, nem os roteiros 
a dão tam afastada da costa ; com tudo se fez na volta do 
noroeste, e como os mares eram grossos e o vento pesado 
voltou-se en roda e com isto se chegou o navio mais a 
terra aonde se vio metido em novo trabalho com outra res- 
tinga pela proa, valeo-se do remédio que o tempo dà, sur- 
gio com huma ancora, e depois com duas juntas. Nada 
lhe valeu, como naturalmente em costa com tal vento não 
podia contrastar ao perigo, engenho ou arte humana ; se 
convinha mandar sindar com um batel, de que ató para se 
salvar fugio a gente entre taes ondas descorrrera os que 
estamos fora do aperto. Vi valentes descuidados em se- 
milhantes trances, de outras cousas mais fáceis. Vi desa- 
parecesse o leme muito antes^ de dar a costa, faltar-me 

quem fosse cortar as boisas, a entena do traquete 

faltar que fosse buscar as amarras com que a meu pesar 
queria surgir, salvar-se os pilotos, e marinheiros em hum 
batel, deixando-mc na nào, inteira, e sem tocar; a nin- 



■0 



— ;i9.j — 

guem castiguei tendo jurisdição de V. M. para o fazer em 

casos de maior crime a2 de Janeiro de 16iS o titulo 

deste livrinho oferece contar algum caso particular quando 
delle se podem tirar avisos para semelhantes ocasiões e 
proveitosas ensinuanças. Posto que todos os fidalgos neste 
naufrágio por diverso modo fizeram seu dever é necessá- 
rio tomar delles por mostra dos de mais. e assim approvo 
muito o procedimento de D. António de Meneses, naquello 
aperto náo inorando que gloria et virtus infensas habet ui 
animus ex propinqtw diversa arguens; fiou-se no galiio de- 
liberado ajudar a salvação de muitos, com huma constância 
digni de imitar-se em transe semilhante. a onde o amor 
próprio perde tudo, e alguma vez a mesma vida, que ar- 
riscada a honra mais estima. Deixey esta carta para ultima 
e remate de contas de nossa artilheria. Feitas as deligen- 
cias entendi que o cuidadoem que a gente estava de que 
podia chegar D. Fadrique e acontecer ficarem-se na iiha, 
seria causa de se apressarem deixando parte da artelheria 
mandei de novo mais gente do que me pediam assegdran- 
do-os por minha palavra esperaria por todcs confiado em 
que não havia Deos de permitir que olandeses que breve- 
mente aportaram naquella ilha para carregar de sal como 
costumam se aproveitasem de tam boa artilheria triumfan- 
do de nossa desgraça. Fez no S. D. M. mercê em três de 
Fevereiro as três hora» e mea depois do meio dia nos che- 
gou a caravela de Monteroyo, com as ultimas peças, repa- 
ros, e algumas muniçois. Cuido que mandando somente 
entre tantas impossibilidades que me punham, e geral de- 
sesperação tenho trabalhado muito , mas nem com 
isto encaresse bem o que fez aquella gente que o executou 
por serviço de V. M., sem declararas circunstancias. He 
aquella costa brava de grande ressaca de mares mui levan- 



— 396 - 

tados neste tempo, o vento travesáo muy rijo sem abrigo 
algum. Estava o corpo do navio combatido dos mares. 
mas entrado delies que quando a gente se sayo por não 
perecer miseravelmente. Entrou esta vencev o temor, ron- 
peu as ondas pondo as mãos ao trabalho. Tirava-se com 
muito perigo a artelheria porque estava mui encostado. 
As pranchadas em que devia de vir a terra sobre serem 
trabalhosas de ordenar vinham com risco grande de se vol- 
tar como a conteceo a huma das primeiras com perigo dos 
que nella vinham. Na praia depois de passados no mar ar- 
recifes perigosos, os espera não huns medões de área solta 
e fdnda deficeis de passar por gente não ocupada. Daly ao 
lugar onde estavam as caravelas o pataxo avia quasy três 
legoas que se passavam com dificuldade e vagar por falta 
de carros e de boys que eram seis somente. Depois de 
tirar a artilheria estava a gente tam pronta a despresar pe- 
rigos que sulcavam os mares espreitando o fundo para ti- 
rar duas peças que o navio alyara antes de surgir, e ven- 
do-se hum sembrante não faltou quem mergulhase e reco- 
nhecesse que era fuste de huma ancora. Salvou-se tudo o 
que se achou, e logo como levaram por regimento, recu- 
peram o costado, entraram no payol do mestre, tiraram 
velas, moretes, paveses, archotes de cera, fio, pregadura ; 
dos camarotes fazenda dos particulares, e com tudo se re- 
colheram a esta armada, João Coelho da Cunha assistio com 
sua pessoa, escravos, e boys, sustentando muitos dias ses- 
senta homens, matando-lhes seus gados com largueza mui 
conforme ao zelo que de principio mostrou pelo que merece 
que V. M. lhe faça mercê de o honrrar. Ao outro dia terça 
feira 4 do mez estando escrevendo esta chega huma fragata 
de S. Lucar, me dá novas que D. Fadrique de Toledo sayo 
ha 22 dias de Cadiz com sua armada, que por esta conta 



— 397 — 

foy a 14 de Janeiro, e jà nos não toma de sobresalto. Que- 
ria eia quanto a de Portugal espera a deCastelia entáo com- 
modo porto contra os sucessos das armas olandesas por 
mar e terra, mas foy táo exessivo o trabalho que nâo ouve ^ 
logar que para padeselo. C ontudo posto que anteponha, 
ou propunliam injusto será ficar em silencio. E se revelas 
hey por relações que tive sem obrigar nelas o escrúpulo 
da certesa com que escrevo. A folhas 27 de Julho de 624 
sayo Jaques Guilhelme da Bahia com onse nàos bem arti- 
lhadas da armada em que fora general, destas se nâo soube 
mais que tornar-sc pêra Olanda com carga de sal; nâo le- 
varam mais gente que a do mar. A seis de Agosto sayo 
outra esquadra de seis navios, e dous pataxos com pouca 
genla de guerra tirada das companhias que ficavam na 
Bahya. Nesta foy Pedro Perez almirante da armada na 
volta de Angola aonde chegou a 30 de Outubro deixando-se 
estar à vista da Loanda 30 dias. Tudo estava prevenido 
por aviso de S. M. e socorro que os governadores de Por- 
tugal, tinham mandado com Bento Banha Cardoso, e pelo 
cuidado, e assistência do novo governador daquella pro- 
vincia Fernam de Souza que entáo chegara ; feita presa de 
huma náode Sevilha, e outros dois pataxos de pouco porte, 
sem dano seu, e ainda sem riscp se fez na voltada costa do 
Brazil, em Março de 62 S entrou no porto do Spirito Santo 
de que aquella cappitania toma o nome de que era dona- 
tário Francisco da Guiar Coutinho que a governava. Que- 
ria Deus livrar esta província de piratas estando aquelle 
porto sem força falto de munições se achou nelle acaso Sal- 
vador de Saâ de Benevides que tinha ido de socorro ao Rio 
de Janeiro, e seu pay Martim de Saâ a mandava com duas 
caravelas e quatro canoas a socorrer a gente unida da Ba- 
hya, dizem, com duzentos homens brancos e Índios de 

JUNHO. 5i 



/ 



— 398 — 

arcabuses e frechas. Juntas as forças sahiram a encontrar 
o inimigo o que apregoando paz em altas vozes hyam mar- 
chando pêra o lugar. Não lhes pareceo aos nossos bom 
partido a escaramuça de arcabuses, de gente pouco practi- 
ca, e de frechas tiradas por índios que tenho por causa de 
nenhum efeito em corpos vestidos, contra cento e vinte 
mosqueteiros que o olandes levava. Mas com resolução 
portuguesa aproveisando-se dos melhores frecheiros os 
envestiram a espada com tanto valor, que deixaram o posto 
fugindo sem ordem, largando mosquetes faltos de animo 
para empunhar a espada. Com despojos se recolheram os 
nossos à povoação, e elles com sua afronta feridos, e es- 
pancadas as suas lanchas, com perda de vinte cinco homens, 
mortos no primeiro encontro. O dia seguinte sentindo uma 
emboscada eni que Salvador de Saâ os esperava não ousa- 
ram tentar fortuna, nem poderam escapar de suas mãos 
pelejando no rio de uma barcaça, e duas lanchas, e o Saâ 
de suas canoas com que os poz em fugida tomando-lhes 
hmna, escapando outra com o remo empunho. Morreram 
querenta do inimigo fora os feridos. Esta esquadra foy na 
volta da Bahya, e achando nella a armada catholica fez sua 
derrota para o norte passando a vista de Parnambuco a 
quatro de Maio. 

No destricto da Bahya ouve por este tempo muitas mu- 
danças de governo. Antão de Mesquita foy eleyto em se 
unindo a gente, por capitão mor para acudir a que o ini- 
migo não sayse da cidade facsão de que nas relasões se faz 
gran caso, e por ventura deu ocasião a grande trabalho, e 
maior risco como se vera. Sendo asy que por muitas in- 
quirições que depois se tiraram e me vieram á mão contou 
que com pena de morte era proybido nenhun saise dos 
marcos da cidade, e por esta conta os que sayam era gente 



(k pouca consideração, e desobediente. Com o novo go* 
vernador foram eleytos cappitáes. Lourenço Cavalcanti de 
Albuquerque, Lourenço de Brito» Diogo da Sylva, Belchior 
Brandão, Belchior da Fonseca. Francisco de Barbuda. Mas 
vista a impossibilidade de Antão de Mesquita por idade e 
achaques os oiliciaes da camará que residiam em Pitanga 
termo da cidade elegeram dois coronéis, Lourenço Caval- 
canti e António Cardoso de Barros pessoas naturaes da- 
quellas terras sem nenhuma consciência a cujo cargo es- 
tivesen as cousas da guerra, e neste tempo deviam os ve- 
readores a modo de sisma de eleger por capitão mor ao 
bispo que deixada a aldeã do Spirito Sancto em que resi- 
dia, se mudou para rio Vermelho huma légua da cidade, 
porque em huma carta de 12 de Setembro em que Antão 
de Mesquita dá novas ao capitão Malhias de Albuquerque 
de ser chegado o capitão mor Francisco Nunes Marinho 
fala como apaixonado e resentido alegando muito o que 
mereceu ao serviço deS. M. na paciência com que desimu- 
lou os agravos que recebia do bispo, a quem carrega muito 
com synonimos gramáticos de ambicioso, se queixa do 
ódio que lhe tinha mui antigo por resáo das contendas com 
a relação sobre querer uzurpar a jurisdição real. Mas foy 
este prelado excelente pessoa, e aquella relação se extin- 
guio por ordem de S. M. Deixou este valeroso prelado 
crescer a barba, vestiu roupa de burel por baixo do joelho, 
chapeo de abas grandes representando nas acções das armas 
hum grande general, hum exemplo de vida na modéstia, 
com hun cruz nas mãos santo do ermo. As armas de suas 
bandeiras, era a ditosa arvore em que o filho de Deus mor- 
reu por nós. xYjuntando a gente achou mil e quatrocentos 
homens brancos, e duzentos e cincoenta indiosque lhe asis'* 
tiam com muito gosto, c cuidado, o que depois da sua morte 



^ 400 — 

mudailo tudo não foi asy. Aquartelouse cm rio VermelliO/ 
ordenou trincheiras de terra, e faxina com seus traveses, 
plantou em certas plataformas seis peças de artilheria. seis 
roqueiras três falcões, com que tudo ficou a seu parecer de- 
fensável da forçai com que o inimigo poderia acocmeter 
deixando o presidio da cidade. No traballio da pa e da en- 
xada era o primeiro exemplo. Deste governo que durou 
quase quatro meses tive algumas relações muito meudas 
de morte de alguns olandeses que se desmandavam, de ou- 
tros que sayam a buscar alguma i^es, ou a lavar sua roupa, 
de alguns assaltos ora no rio ora junto a seus reparos da ci- 
dade. Assinalavase nestes o capitão iManuel Gonçalves, e 
com particularidade o capitão Francisco de Padilha natural 
do Brazil que trasia sua origem de Portugal. Sayo a 15 de 
Junho o coronel João Doart a cavallo acompanhado de al- 
guns soldados tocando trombetinha diante ; acudio esto 
capitão com a gente de sua bandeira, e do primeiro arca- 
busaço matou o cavallo do coronel, e arremetendo sem es- 
cutar rasões, ou promesas lhe cortou a cabeça, e invistindo 
a companhia os poz em fugida, e lhes foy no alcance hum 
gran pedaço. Alguns dos inimigos se acharam mortos, nem 
o numero dos feridos se soube. Em logar do morto coro- 
nel foy eleyto Alberto Scott. Entre os fortesinhos da Ba- 
hya só o de San Phelippe ocupou o inimigo com trinta 
soldados e hum cabo. Está a huma pequena legua da ci- 
dade da parte do norte mandado fazer pelo governador D. 
Francisco de Souza para seu regalo, e entretenimentos. O 
sitio chamado TajKigipe é uma peninsula eminente que 
com trabalho de poucas gastadores se poderá islar, e des- 
mantelada a do Salvador como impossivel de defenderse 
pelos padrastos que a Coroam, epovoarse nella uma cidade 
digna de metropoli daquella gran província. Tudo o que o 



— 401 — 

mar lava em cercuito heresaca, arrecife e costa brava, tem 
huma fonte e avera outra se as buscaren, e a falta delias 
poderão deferir sistemas mui capazes. Não tem padrasto 
donde possa receber dano, sitio excelente, lindas vistas, 
como o porto fronteiro ás armadas que entraren pela barra, 
a terra fertilissima ; meterão-lhe algumas peças de artilhe- 
ria tendo-o como refugio (se é verdade o que este cabo 
disse sendo juridicamente perguntado em Lisboa, do que 
muito duvido ) para se recolher se por má fortuna fossen 
desalojado da cidade. Querendo este cabo regalar com pes- 
cado fresco o novo coronel sayo em 3 de Agosto con três 
companheiros para o tomar a huns negros que tinham atra- 
vessado lium esteiro com parede de pedra solta deixando- 
lhe huma aberta por onde o peixe os rebeldes em barcos 
em que apenas cabiam, em esteiros mui estreitos e os nos- 
sos entrinclieirados por suas margens. D. Francisco de 
Moura quarto capitão mor do exercito dos assaltos, e re- 
côncavo da Bahya, chegou á Torre de Garcia d'Avila em 
sete barcos a 19 ou 20 de Novembro. A 3 de Desembro 
lhe entregou Francisco Nunes Marinho o cargo conforme 
a orden de S. M., e como dono mais próprio dispoz as cou- 
sas com mais vagar e descurso. A Manuel de Souza de Eçít 
que tinha ido por capitão mor do Gran Pará encarregou 
de fortificar alguns portos donde se pudesse acodiras sorti- 
das que o inimigo fizesse apicorea ea dano dos engenhos, 
e por atalhar todas as vias esquipou algumas embarcações 
para guarda dos estreitos por onde se vão aos engenhos. 
Destas fez cabo João de Salazar de Almeida, sinalou ins- 
tancias particulares aos cappitães Francisco de Padilha, 
Lourenço de Brito, a quen dava a de Rio Vermelho, a Ma- 
nuel Gonçalves a de Tapagípe. Serviram nestas ocasiões os 
capitães Pedro de Campos, António de Moraes, Jorge de 



— 402 — 

Aguiar, Diogo Mendes Barradas, António Casemiro Falcalo^ 
Gabriel da Costa, Agostinho de Paredes, Francisco de Cas- 
tro, Cachoeiras, natural deste estado, e outro que não vie- 
ram à minha noticia. Neste governo ouve vários assaltos 
com bom sucessos achando se em alguns delles D. Francis- 
de Moura. 

Os bandos que na cidade havia que ninguém saísse ao 
campo sem licença, agora escreve os crédulos se aper- 
taram mais por av:r jà no exercito muitos mosquetos, mu- 
nisões e infanteria diferente, o que tudo se bem pôde ser 
verdade, foi certissimo caminho para o triste successo 
que depois se padeceu. Náo cuidei que táo largo fosse o 
aparato, pudera reclamar sobre o titulo do livrinho, e não 
menos sobre a proposição. Mas verdadeiramente mais pe- 
sado fora à nação Portugueza prontíssima ao serviço de 
seus reys. e nesta ocasião com tanto excesso das passa- 
das, zeladora de sua real reputação, deixando de escre- 
ver estes successos, do que aprasivel aos engenhosos crí- 
ticos se cortando-os passava a cousas mais sustanciaes. 
Está o animo desejando de levar ancoras, estender ve- 
las das armadas catholicas aos nordestes com que áo de 
sair do Cabo Verde para chegar ao fim do que pretendi 
escrever mas vejo a isto necessária delação. Partiu D. 
Fadrique de Toledo Osório Marques de Vilhanueba de 
Vaulduesa, capitão general da armada e exercito do mar 
oceano, avendo-se cansado com trabalho excessivo, e assis- 
tência continua no apresto de sua armada, de Cadix a 14 
de Janeiro de 62S, e sem cuidado que de uma borrasca 
desembocando o Cabo de S. Vicente, e de hum navio e 
tartana derotados que pouco depois se lhe ajuntaram, che- 
gou ao porto da Praya a 6 de Fevereiro quando se punha 
o sol com pujantíssima armada. A sua cappitana real, a real 



— 403 — 

(lo estreito qiic fazia o o oficio de almirante real, a cappi- 
tana de Nápoles, de Biscaya, de Quatro vilhas. Vinte e 

cinco navios de força, afora e outras de bastante 

artilharia, e ya guiada pelo capitão Cosme do Couto, que 
D. Manuel de Menezes capitão general da armada de Por- 
tugal tinha enviado á ilha de Maio a encontrar a deCastella. 
Ouve as salvas costmnadas, e com excessos nas cortesias 
pela excelente naturesa de D. Fadrique. Não ouve logar 
aquella noite de visitas, por recados ao seguinte a ora con- 
veniente da manhã se embarcou D. Manuel acompanhado 
em sua falua, e noutras que o seguiam da mais em nu- 
mero, mais rica, mais caliiicada nobreza de Portugal que 
em outra qualquer ocasião, em que a pessoa real não fosse 
se tinha achado. Quiz venselo em cortesia o general de 
toda a empresa D. Fadrique, e o venceo, mas por falua 
mais ligeira em que no mesmo porto se embarcou, nave- 
gando cada uma delias para a outra cappitana em copetencia 
qual primeiro chegaria. Chegou D. Manuel a Castelhana 
estando jà D. Fadrique na Portugueza; voltou logo e es- 
perou logo baixasse D. Fadrique para o acompanhar a sua 
capitana como estava obrigado, avendo sobre isto dilata- 
díssimos comprimentos. Obedeseo enfim D. Manuel, re- 
cebeu visita na sua varanda. Acompanhavam a D. Fadri- 
que o general D. João Feijardo, D. Afonso de Lencastre 
filho do duque de Aveiro D. Henrique de Alagon seu so- 
brinho filho de D. Martin conde de São Thiago, e de sua 
prima com irmãa a condesa D. Caterina Pimentel filha do 
Marquez de Távora, o Marquez de Cropam mestre de campo 
general da empresa, e mestre de campo D. Pedro Bócio, 
D. Manuel de Gusmão, e outros muitos fidalgos, e capitães. 
Díspedindo-se não permitio que D. Manuel baixase, mas 
seguindo-o a gran voga chegou antes e subiu a sua cappi^ 



— 404 — ' 

tana, aonde se deteve mu gran espaço. O gosto com que 
estas armadas se ajuntaram se poderam mal engrandecer 
com poucas palavras. Contase que quando D. Fadrique 
descobrio a de Portugal dando graças a Deos pela mercê 
disse Juanes Baptista em martes dia que sempre deseja es- 
colher para suas impresas até nisto se conformarão que 
aquellamesma afeição tem D, Manuel as terças-feiras sendo 
Menezes, e aribas Mendoç^isda casa do du que do infantado. 
Quatro dias se deteve naquelle porto D. Fadrique excluido 
o em que chegou e o em que partio. Nestes fez gran deli- 
gencia em refazer os navios de que faltava, no que ajuda- 
ram com muito cuidado as caravelas de Portugal, em 
quanto esta aguada se fez, porque este tempo se não perca, 
será muy a propósito de ver-se que jurisdição foy S. M. 
servido levassem os generaes de Castella e Portugal que 
toda veo por decretos do conselho de estado de Portugal 
que não quebrou, ou alterou algumas das antigas assenta- 
das por consentimento de ambas as coroas. 

COPIA DO ALVArA sobre MODO DAS BANDEIRAS E OUTRAS 
PREUEMINENCIAS. 

Eu ElRey faço saber aos que este alvará virem que aven- 
do visto o que se me representou por parte da coroa de 
Portugal acerca das preheminencias do seu estandarte, 
quando as armadas delle navegarem em companhia das de 
mar oceano. E querendo dar tal ordem que fosse assentada 
e estabelecida para o diante consideradas as conveniências 
de meu serviço e autoridade da mesma coroa que se ofere- 
cem para aver de ordenar, ei por bem e mando que as 
eappitanas das armadas da mesma coroa assim as que forem 
e vierem da índia oriental , como quaesquer outras que 



— 403 — 

com o nome e titulo de armada real se foren e aprcsentaren 
naquelles reinos por conta delles tragam estandartes qua- 
drados nos calseses com as armas reaesde Portugal, como 
as costumam trazer as cappitanas dos ditos reinos ; sen- 
do a cor dos ditos estandartes azul, vermelhos, ou qual o 
meu Visíi rey de Portugal escolher, náo branca como tra- 
zem as armadas da coroa de Castclla para que aja diferença 
entre umas, e outras e possam sempre ser conhecidas dos 
navios de suas cappitanas c iião trarão as ditas capitanas de 
Portugal estandarte na pcpa o que somente fica reservado 
para a cappitana real do mar occeano, ou sua almiranta em 
sua ausencia.com declaração que as ditas cappitanas de Por- 
tugal quando encontraròn a real do mar occeano ou sua 
almiranta em sua ausência no mar, ou no porto o não sahir 
delle lhe abaterão os estandartes, e a salvarâo com quatro 
peças de artilheria logo que chegarem a vista, e a real lhe 
responderá com duas ; e depois tornarão as ditas cappita- 
nas de Portugal a arvorar os estandartes, e estavão e nave- 
ga vão com elles. e tendo ordem minha particular para se 
ajuntaren, e navegaren com a dita armada no mar oceano 
não levarão farol aseso, e seguirão e guardarão os meus 
cappitáes geraes, ou capitães mores das ditas armadas de 
Portugal as ordens do capitão geral do mar oceano em tudo 
e por tudo no que tocar a viage e guerra, porém o dito 
capitão geral do mar oceano náo terá jurisdição criminal 
sobre os casos que nas ditas armadas de Portugal sucederem 
nem entenderá no governo particular das ditas armadas, 
provisão das capitaneas despesas dos mantimentos e mo- 
niçõos, nem outras cousas semilhantes, e para que tudo o 
conteúdo neste alvará se cumpra e guarde inteiramente — 
10 de Julho do 1618. Sobre os moradores do Brazil ouve 
S. M. por seu serviço que D. Fadrique tivesse jurisdição 

JUNHO 52 



— 406 — 

em matérias de guerra sem dar parte a D. Manuel, salvo 
na gente de guerra que de Portugal tinha ido ao socorro, 
e naquelle tempo melitava com D. Francisco de Moura. 
Do primeiro consta pelo alvará seguinte. 

Eu ElRey faço saber ao governador do Estado do Brasil 
eaos capitães das fortalezas delle, e a todos e a quaesquer 
ofiQciaes de guerra que no dito Estado me serven asy na terra 
como no mar : e aos desembargadores e ofDciaes de justi- 
ça, e de minha fasenda e de todas as demais pessoas que 
nelle assistem e de qualquer calidade, estados condição que 
sejáo a que este alvará for mostrado que enviando eu agora 
ao dito Estado a D. Fadrique de Toledo Osório meu cappitão 
general da armada do mar oceano para recuperar a cidade 
do Salvador da Bahya de todos os Santos que os inimigos 
ocuparam por convir a meu serviço pêra a boa direcção 
dos efeitos que hade emprehender, ey por bem e mando 
que o dito governador, como todos os capitães, ofliciaes e 
ministros meus de qualquer calidade e condição que sejam 
obedeçam ao dito D. Fadrique de Toledo, c guarden e 
cumpram suas ordens, nas matérias de guerra e dependen- 
tes delia, assy na terra como no mar tão inteiramente como 
se por mim lhe foram dadas, sem dúvida nem contradição 
alguma, e que não o fazendo assim, ou avendo para isso 
outra particular resão de meu serviço os possa o dito D. 
Fadrique de Toledo tirar, e por outros quaes lhes parecer 
em seus lugares, para o que lhe dou todo o poder, comissão 
e autoridade que se requer, e quero, e mando que este 
alvará tenha forças e vigor e se cumpra sem em- 
bargo de quaesquer leis 1 de Outubro de 1624. O 

como S. M. foy servido dispor no segundo ponto, consta 
pelas palavras seguintes do Regimento que mandou a D. 
Manuel. D. Francisco de Moura que mandei ao recôncavo 



~ 407 — 

<la Bahya pêra servir aly de capitão mor liade ter a seu car- 
go toda a gente com que aly o achares, ficando porem com 
ella a vossa ordem com a mais gente que levais na armada 
Asy o fez a saber a D. Francisco de Moura. Eu ElRey vos 
envio muito saudar. Tendo por certo que com a vossa che-^ 
gada a essas partes se haverá melhorado t^nto as coisas do 
jmevL serviço nellas que quando com o favor de Deus che- 
garen à Bahya as minhas armadas em cuja companhia 
recebereis esta haja pouco que fazer em desalojar esses 
inimigos se ainda estiveren nas fortificações em caso que 
ahy se achem tanto que o exercito que vay nestas armadas 
for em terra ou com qualquer recado que tiveres antes dis- 
to acudireis logo a ella no que se vos ordenar dando inteiro 
Comprimento às ordens que receberdes com a pontuali- 
dade que de vos confio, advertindo que esta impreza vai 
cometida a D. Fadrique de Toledo e que tudo hade estar a 
sua obediência porém vos com a que tiverdes a vosso cargo 
aveis de eslar á orden de D. Manuel de Meneses general da 
armada da coroa que hade fazer em tudo o que tocara ella 
e mesmo oíBcio, ou seja no mar, ou seja na terra, conforme 
a isto emquanto elle ahy estiver sessarà a jurisdição que 
daqui levastes que hade ficar nelle pêra uzar delia confor- 
me aos regimentos que aqui mandei dar ; e porque de vossa 
inteligência, experiência e valor tenho por certo que nas 
ocasiões que se oflereceren respondereis inteiramente à 
confiança que faço de vossa pessoa, e que os mesmos façam 
os capitães e soldados que militam com nosco, deixo de 
vos lembrar o mesmo que de vos, e delle se espera e o 
cuidado com que deveis procurar que os naturaes deste 
recôncavo, o os moradores dos engenhos dclle sirvam nes- 
ta ocasião, e acuda com mantimentos ao provimento das 
armadas, c exercito 19 de Novembro 624! 



— 408 — 

lie Lintoasyquo S. M. quiz dará D. Manuel de Meneses 
Ioda a jurisdição de sua armada que depois de lhe manda- 
ren seu regimento que dê a D. Fadrique de Toledo o numero 
que \\r convém para o sitio limita com o seguinte!! Com 
que a armada fique segura e provida no mar de maneira 
que não tam somente se possa defender dos inimigos se 
sobrevieren e acometere mais desbarlalose alcançar delles 
a vitoria que espero em Deus e da nobreza que levais com 
vosco tenho por certo que aparte delia que fycaren nos 
navios seguindo nisso as ordens que lhe derdes entendam 
que me serven nisso mais que os que desembarcarem em 
terra ; como da mesma maneira devem de entender os que 
saltaren em terra em comprimento de vossas ordens, que 
me serven nisso mais que em ficnrem no mar ; de modo que 
seja presuposto para uns e outros que a calificação* do 
serviço consiste em não se fezer diferença de uma cousa a 
outra, e que a sustancia e merecimento está em se acudir 
igualmente ao mar c a terra conforme as ordens que nisso 
derdes ; e que este á o ponto a que deven deferir, e em que 
se hade mostrar mais a obediência, e o valor, e o zelo de 
meu serviço E porque conste o de jastira como cons- 
tou agora o da guerra se vê no Alvará segiinle sobre a for- 
ma em que avia de proceder nos casos nelle apontados. 

Eu El-Rey faço sibor a vos D. Manuel de Meneses capi- 
tão geral da armada da costa do Portugal do socorro do 
Br^zil que por asy cumprir a meu serviço e boa adminis- 
tração de justiça, ey por bem evos mando qu^ sendo doente 
ou impedido o bacliarel António Rodrigues de Figueredo 
ouvidor da dita armada demaneira que não possa servir-vos 
possacs nomear outro ouvidor em seu lugar que sirva em 
quanto durar tal impedimento, ou eu nome;:r outra pessoa, 
e os ouvidores por vós nomeados guardarão em tudo o re- 



— 409 — 

gimcnto que tenho mandado dar ao dito António Rodri- 
gues no qual lhe concedo que nos casos crimes que suce- 
derem nesta armada durante a navegação deste porto ao 
Brazil. E asy no tempo qae se detiver naquella província 
tenha alçada em todas as pessons de qualquer sorte e con- 
dição que sejam, sem appelaçáo nem agravo, e nos casos 
de morte ou de cortamento de membro, ou de execução 
de tratos proceda tomamdo por adjuntos três cappitáes da 
ditta armada que vos nomeareis e que também tereis voto 
e náo se podendo ajuntar os ditos capitães o façais com três 
fidalgos, ou outras pessoas graves e de bom entendimento 
que outro sy vos lhe nomeareis, e que sucedendo crime 
em porto onde haja corregedor ou ouvido por mim o sen- 
tenciasse com elle, e com dois capitães presidindo vós que 
tereis voto na forma sobredita, e que cometendo-se os ditos 
casos era qualquer dos outros navios os capitães delles lhe 
remetesse os culpados, para delles conhecer pela sobredita 
maneira : porque asy lho mando pelo dito regimento e que 
estando a armada na Bahya sentencie aos ditos casos con 
cinco desembargadores da Relação do Brazil se os ouvcr, 
e náo avendo tantos os despache com quatro desembar- 
gadores, e náo avendo quatro com dois ; e que navegando 
a dita armada de torna viago para esta cidade proceda com 
os adjuntos que lhes vos nomeardes na forma sobredita 
com as penas ate morte natural inclusive contra aquelles 
que cometerem rebelliáo, motim ou alevantamento contra 
vossa pessoa, ou de vosso navio, ou de não investirem o 
inimigo quando lhe for mandado, ou roubar algumas cou- 
sas dos navios que se visiíarem por averiguar se são de 
inimigos. E asy me praz que vos náo possaes tirar do dito 
cargo de ouvidor ao dito António Rodrigues enquanto eu 
náo mandar o contrario, o sendo caso que elle cometa ai- 



— 410 — 

gum crime, ou excesso porque nos pareça merece ser de- 
posto de seu oflicio fareis disso autos para que possa contar 
das ditas culpas os quaes trareis a esta cidade, e remetereis 
aos desembargadores do Paço, para dahy se mandar fazer 
justiça, com declaração que sendo o crime ou excesso ca- 
pital o podereis prender, e pôr outro ouvidor em seulogar. 
E porque D. Francisco de Moura que enviei com as cara- 
velas de socorro aquellas partes levou jurisdição nas ma- 
térias de justiça e sobre os soldados que com elle foram, 
ey por bem que tanto que esta armada chegar á Bahya e o 
dito ouvidor estiver desempedido para usar de sua juris- 
dição em terra, cesse a jurisdição que nas ditas matérias 
levou o dito D. Francisco de Moura, e que dos delitos dos 
ditos soldados, conheça b dito ouvidor como lhe mandei 
declarar em seu regimento, e vos asy o fareis cumprir. E 
sendo caso que o dito ouvidor seja julgado, ou dando-se 
elle de suspeito a alguma pessoa vos nomeareis outro juiz 
em seu logar que tenha para isso as calidades necessárias. 
E este alvará cumprireis inteiramente come se nelle con- 
tem Lisboa 19 de Novembro 624. 

Por estas formalidades publicas reconhece o gosto que 
S. M. mostrou de honrar a D. Manuel, a estimação que fez 
de sua pessoa. Mas encommendando a D. Fadrique de To- 
ledo sertã impresa avendo logar nas instruções secretas, 
lhe mandava S. M. a comonica-se com elle somente hon- 
rando-o com muitas palavras. O capitulo lhe mostrou D. 
Fadrique em segredo estando em junta particular. Depois 
o disse em conselho não faltando nelle mostras de resen- 
timento. Antes que se íizesse á vela ouve conselho sobre 
se aver de tornar Pernambuco como S. M. mandava. Con- 
siderando a estação do tempo, a dilação procedente se re- 
solveu navegassem em direitura à Bahya avisando de tudo 



— 411 — 

a Mathias de Albuquerque. Despachou D. Manuel o capitão 
Cosme do Coulo em sua caravella com despachos e cartas 
de D. Fadrique, e suas dando-lhe por regimento que não 
se detendo mais que quatro dias em Pernambuco fosse 
buscar a armada da Bahya de todos os Santos. Como che- 
gasse a onze grãos se afastasse da costa oito ou des léguas. 
Chegando a ponta de Itapoan toma-se lingua da terra, 
e não sendo chegado a armada fosse ao morro de S. Paulo 
aonde avia de aguar ordem do que avia de fazer. Encon- 
trando em Pernambuco os navios dos capitães Lansarote 
da França, Bento do Rego ou a caravela de Manuel de 
Palhais, ou qualquer delles lhe desse a mesma ordem. 

(Fim do livro prímeiro.) 



n 



QSEEESPSBlEBiEA 

RELATIVA AOS SUCCESSOS DADOS El PORTUGAL. E HO 
RRASIL, DE 1822—1823. 



N." 1. — Copia da cauta do Sr. Felisberto Caldeira ao 
Desembargador V. J. F. C. da C. dirigida para Sua 
Magestade em 18 de' Setembro de 1822, e que pela 

SUA AUZENCIA DA DITA IlHA FOI POR ELLE RECEBIDA EM 

Lisboa nos prlncipios de Janeiro seguinte. 

Illm. Sr. Vicente José Ferreira Cardoso da Costa.— Meu 
Sr. Tendo de longo tempo a maior consideração, e respeito 
pelos talentos, e caracter de V. S., não sabia com tudo que 
a tão eminentes qualidades ajuntava a de ser Brazileiro, o 
que para mim, e para nossa Pátria é nas circumstancias 
actuaes do maior interesse. Se eu podesse apresentar jà 
com V. S. á testa da Assembléa Legislativa do Rio de Ja- 
neiro faria por certo a todo o Brazil, e ao Princepe Augus- 
to, que se Declarou nosso Protector o mais bello presente 
no momento de fazer a Sua Constituição. Como porém 
tanto bem excede as minhas faculdades, e por outro lado a 
prudência aconselha toda circunspecção na mudança de 
terra ao Homem, que como V. S. se acha casado, e talvez 
com diminuição de saúde, e fazenda em consequoncia de 
tantos trabalhos, e injustiças, que do Governo, c Nação 
Portugueza ha recebido, tomo a resolução <lo me tlirigir a 
V. S. solicitando a sua attenção a favor da nossa pátria, c 
pedindo-lhe que me indique a maneira porque lhe seria 
agradável mudar-se para o Rio. do Janeiro, e que soccorros, 
e meios quereria. Eu conto se S. A. R. não mandar ocon- 

JULHO. 53 



4 



 







— 414 — 

trario retirar-me cm Novembro, e cabe bem no tempo re- 
ceber resposta de V. S. É bem natural que V. S. estranhe 
táo franca, e cordial linguagem da parte d'um homem, que 
não conhece, e em outras circumstancias eu 'me nâo atreve- 
ria a escrever-lhe sem ser apoiado de muitas recommenda- 
ções, mas não ha tempo a perder, e supponho bastante a 
introducção do nosso compatriota o Sr. Hypolito José da 
Costa. 

Estimarei receber boas noticiaç da saúde de V. S., e que 
me dê occasiões de mostrar a consideração e estima com 
que sou. — De V. S.— Patricioeatiento Cmdo.— Felisberto 
Caldeira Brant Pontes.— 18 de Setembro de 1822.— P. S.— 
Eis aqui a minha direcção. — 10— Allsops Buildings— New 
Road— London. 



N.® 2. — Resposta do dito Desembargador á carta 

ANTECEDENTE. 

Illm. Exm. Sr. Felisberto Caldeira Brant Pontes — Meu 
Sr. Somente agora posso responder â Carta de V. Ex., 
datada de 18 de Septembro passado, porque a muito pou- 
cos dias me veio á mão, sendo cila dirigida para S. Miguel, 
quando eu estava em Lisboa. 

É verdade que nasci na Bahia, e tendo a Providencia as- 
sim destinado, que pertencesse por minha origem ao novo 
mundo, nem estava em meu poder alterar os seus decretos, 
nem tão pouco ser indifferente aos destinos, e á prosperi- 
dade, ou desgraça do Brazil. 

V. Ex. verá pelo folheto, que tenho a honra de offere- 
cer-lhe, como o tive sempre diante dos olhos desde os 
acontecimentos Politicos de Portugal em 1820, procurando 
desviar já a desmembração da Monarchia, jà o grande pe- 
rigo de se tomarem ochlocraticas as Capitanias do Brazil. 



— 4IS — 

E quando vi meu nome entre os dez, que no dia 4 de de- 
zembro de 1821 ás Cortes Constituintes forSo propostos 
pela Commissão da Justiça Civil, para delles se escolherem 
sinco, que organizassem o Projecto do Código Civil, es- 
crevi a meu amigo LuizMaitins Bastos, que era da dita 
Commissão, e Deputado pelo Rio, rogando-lhe que pro- 
curasse com seus Collegas conduzir as cousas de modo que 
se desviasse a dita desmembração, porque ella me faria só 
ter lagrimas para dar á difizão da nossa familia, em voz de 
génio para escrever Códigos. Tanto me recordava eu da 
minha Pátria ! E tanto dezejava, que os meus estudos, e 
serviços simultaneamente aproveitassem aos Portuguezcs 
da Europa, e mais da America ! 

Mas 

Vktrix Diis causa placuit t 

e declarada a Independência do Brazil, e inaugurado nelle 
hum novo Império, recebo a de V. Ex., que lizongea o 
meu amor próprio com a idéa de que eu poderia prestar 
muito no estabelecimento daquelle Estado, e em que me 
pergunta — jwrque maneira me seria agradável, mudar-me 
jmra o Rio de Janeiro, e que succorros, e m^ios quereria? 

Vejo pois, que V. Ex. não conhece perfeitamente as 
minhas actuaescircumstancias: e devo informar-lhe delias, 
antes de responder ao referido. Levado a S. Miguel pela 
arbitrariedade, e rivalidade de um dos secretários do go- 
verno de Lisboa em 1810, e que inteiramente o dirigia, 
não obstante as negras apparencias, com que me manda- 
rão, escolheu-me para seu marido a senhora de uma das 
primeiras casas dos Açores, cujo rendimento hia de trinta 
a quarenta mil cruzados. Era até formoza : dos mais res- 
peitáveis costumes : e em idade muito proporcionada á 
minha, porque tinha menos vinte annos do que eu V. Ex. 



— 4i6 — 

acreditará muito facilmente, que o seu consorcio seria 
procurado em S. Miguel por todos, que a elle podessem 
aspirar. E ella lembrou-se de mira, que havia chegado â 
sua Ilha não só prófugo, como Eneas a Carthago, mas re- 
movido de Portugal com ares de muito criminoso. Man- 
dou-me olTerecer, o que outros muito disveladamentc pro- 
cura và o I 

Não he possível pois, que, sem a vontade de uma tal 
mulher, eu disponha de mim p^a cousa alguma, que me 
possa alongar delia. São estes os sentimentos, que Y. Ex. 
achará por mim exprimidos já cm Março de i8iâl na Carla 
impresso a fl. 48 do já referido Folheto. 

Conheço, (|ue minha mulher tem muito pezadas obriga- 
ções para com Augusto Principe, escolhido para Imperador 
do Brazil. Seu Primogénito o Gommendador José Ignacio 
Machado, casado com uma fdha de Pedro José Caupers, 
esteve no Rio, e devem summo favor ao mesmo Senhor, 
quando Principe Real, e até a honra da sua correspondên- 
cia, quando sè retirou para Lisboa. Conheço, que minha 
mulher se recordava disto com summo reconhecimento, e 
gratidão, e que presaria qualquer oportunidade de se mos- 
trar grata a tão distincta bondade, e honra para com seu 
filho. Mas nem os seus receios do mar, nem as moléstias 
nervozas, que padece, e que sua imaginação converte em 
muito graves, lhe permittiráo deixar S. Miguel, para me 
acompanhar por alguns mezes a Lisboa, e muito menos 
lhe consentirão mais longa viagem. E eu nem posso, nem 
devo separar-me delia. 

Se, n'outras circumstancia de mim dependesse mudar- 
me para o Rio, á proposta de V. Ex. responderia muito 
francamente, que para isso me ser agradável nada mais 
seria preciso, do que entender-se, e fazer-sc-me constar. 



— 417 — 

que o Brazíl, a que eu devera o nascimento, confiava, ees- 
l)crava alguma cousa das minhas letras, e dos meus estu- 
dos a pró da sua prosperidade. 

Posso porém desde jà, e sem ouvir minha mulher, se- 
gurar a V. Ex., que o Brazil me achará sempre muito 
prom[)to em S. Miguel para o emprego dos meus taes, quaes 
conhecimentos, quando elles possão concorrer para o bem 
dos Brazileiros. 

Muito dolorosa me é a divisão da nossa familia ! Mas tem 
direito ao meu tal qual préstimo literário assim os Portu- 
guezes da Europa, como os da America, e nem a uns, nem 
a outros hoi-de negar-me, quando entendão, que delle po- 
dem tirar qualquer proveito. É esta hoje a minha profissão 
de fé politicai, que francamente enuncio, sempre que disso 
se oíTerece occasiáo. Quizera, que os meus Irmãos, Euro- 
peos, e Americanos, vivessem unidos: mas, se isto não é 
possivel, dezejo ao menos, que, supposto separados, uns, 
e outros sejão felizes. E arrastado por estes sentimentos 
V. Ex. me permitirá, que estenda alguma cousa mais os 
lemites desta carta. 

Náo posso negar, que alguns Europeos, relativamente 
às cousas do Brazil, mesmo em discursos públicos, tem 
tido muito reprehensiveis abusos, e excessos de frazes, 
que náo podiáo deixar de azedar as mutuas relações, que 
convinha manter entre a Europa, e a America Portugueza. 
Mas quem me dera, que o Brazil se mostrasse superior ao 
ressentimento de semelhantes affecçôes, e que não empre- 
gasse semelhante linguagem nas suas relações com Por- 
tugal ! 

V. Ex. recorda-se na sua Carta do máo tratamento, que 
eu tenho tido do Governo, e da Nação Portugueza. E eu 
nunca soube confundir esta com um, oudous homens, que 



— 4i8 — 

nestas, ou naquellas circumslancias, se acharáo senhores 
do Publico Poder, e que abusando delle, me depremiráo. 
Fui expatriado , como suspeito aos interesses da minha 
Nação ; fui na Magistratura preterido por todos, e até por 
muitos que anda vão nas primeiras aulas, quando meu nome 
já era conhecido no mundo, como o d'um Jurisconsulto 
Portuguez. Entretanto eu seria injusto, se imputasse estes 
à^esultados à Naçáo. E assim que em seu nome se convida- 
rão os Jurisconsultos Portuguezes, para concorrerem aos 
trabalhos do seu Código, Civil, eu appareci logo, promptifi- 
cando-me a servil-a, como a V. Ex. constará pelo Opúscu- 
lo, que tenho a honra de offerecer-lhe. E poderia eu sem 
injustiça, attribuir à Narão, o que era obra de alguns dos 
individuos, que a compunháo? ou tratar aquella, pelo que 
estes me merecíão ? Chego a Lisboa em Septembro. e sem- 
pre que aos Papeis Públicos se offerece occasiáo de fallar 
no meu nome, elle apparece honrado d'uma maneira capaz 
de me dar cuidado, pelo ciúme, que pôde produzir, sem 
haverem alguns outros, queoscontradigão. Era pois acaso 
a Nação, que eu devia considerar para comigo avessa, ou 
injusta? 

Eis aqui, Exm. Sr., como eu dezejava, que também o 
Brazil olhasse para aquellas frazes azedas, ou indiscretas, 
relativamente ás suas cousas, para que ellas não fossem 
tidas como da Nação, nem sobre esta recahisse o ressen- 
timento Brazileiro pelas grosserias d'um par de Europeos 
ou mais inflamáveis nas discussões por caracter, ou menos 
polidos pelo habito da sua vida, oumaiscortezóes, e lison- 
jeiros da multidão, que aplaude quasi sempre aquella lin- 
guagem. Queria V. Ex. acreditar, e inculcar esta verdade, 
sempre que poder, -r-a Posteridade Iwnrará sem duvida a 
aquella das duas partes, que mais moderada, e tolerante se 



— 4J9 — 

mostrar para com a outra. — Isto mesmo scrà o testemunho 
da sua superioridade, e grandeza. E se alguma não come- 
çar com magnanimidade a corrigir os extremos da outra, 
aonde hiráo; Exm.Sr., para os males, e os seus resultados? 
Somos o mesmo sangue, falíamos a mesma lingua, fizemos 
uma só familia, e cumpre mostrar, que fomos, e somos 
Irmãos, ainda quando ella se divida. O Chefe do Império, 
além de tudo, nasceu neste clima, tem aqui seu Augusto 
Pai, e não corresponderá ao lustre, que lhe cabe, se não 
for superior, e insensível ás affecções, que ferem o com- 
mum dos homens. 

A Ochlocracià do Brazil. Exm. Sr., é outro grande 
objecto, que deve merecer toda a attençáo, e que jamais 
se deve perder de vista. É a maior enfermidade, que vejo 
desenvolvida, e que mais estragos ameaça á nossa pátria. 
A vontade individual substitue-sc todos os dias à vontade 
geral ; e então as diversas idéas, e os diversos interesses 
multiplicando ao infinito aquellas vontades, produzem sue- 
cessivos choques d'umas partes do Corpo Politico com as 
outras, os quaes progressivamente o enfraquecem, e se não 
parão, hão-de leval-o infallivelmente a total ruina. Perdeu- 
se a força moral, e é preciso ressuscital-a. E perdida ella 
uma vez, é extremamente difficil esta ressurreição, muito 
mais em paizes tão extensos, c tão deslocados do centro do 
movimento, como 6 o Brazil. Quanto porém mais se dila- 
tar o curativo daquella moléstia, mais rebelde ella se tor- 
nará depois a todos os medicamentos ; porque a repetição 
dos movimentos ochlocraticos ratefica o habito morbozo, 
que forma com o tempo uma nova natureza, summamente 
defllcil de atenuar, ou de mudar. 

Tenho estudado, e reflectido muito sobre o tratamento, 
que convém a esta enfermidade, e reduzi mesmo as minhas 



— 420 — 

idéas nesta matéria a um systema em escritos que conservo 
em S. Miguel. Direi com tudo aqui a V. Ex. em geral, o 
que me pareceria mais útil remédio nas actuaes circums- 
tancias do Brazil. 

Os movimentos ochlocraticos apparecem regularmente 
promovidos por alguns poucos, que delles esperâo tirar 
partido, e interesse, e que para o dito fim se combináo, e 
fazem obrar a multidão, illudida, jà com o excitamento das 
paixões, que a podem aíTectar, já com as esperanças de 
grandes bens, que se lhe anunciáo. £ as lições da historia 
antiga, e moderna tem mostrado, que nem os demagogos, 
e agentes daquelles movimentos chegáo commumente a 
ganhar, o que esperavão, nem jamais deixão de trazer 
desgraças sobre a multidão, que illudem, de que se servem, 
e sem a qual nada poderiáo ter praticado. 

A relação pois destes successos, deduzida dos diversos 
capítulos da Historia, e successivamente divulgados em 
folhas de papel, que se fizessem chegar ao maior numero 
de mãos, que fosse possível, assustaria sem duvida os de- 
magogos, e chefes das facções, para que o não fossem, e 
preveniria a multidão contra as suas illuzões, e tentativas. 
E hum grande remédio se applicaria ao mal na sua origem, 
a luz contra as trevas, verdade contra seductores enganos. 

O Governo deve ser entretanto summamente tolerante, 
moderado, e circunspecto. 

Tolerante para não irritar os ânimos, dispostos a serem 
agitados facilmente, não dando nenhuma idca, nem por 
palavras, nem por factos, de terá uns como de um sys- 
tema, e aos outros do contrario. He o grande conselho d^ 
Demosthenes na celebre Carta ao Senado, e ao povo de 
Athenas— Não invectiveis com acrimonia, lhes diz elle, 
contra nenhuma classe, nem contra nenhum dos indivi- 



— 421 — 

duos, que vos tiver parecido declarar-se pelo systema, que 
vós quereis corrigir, em huma palavra convém o inteiro 
esquecimento do passado. O receio da vossa indignação, e 
da vossa raiva, ha de fazer unir ainda mais os principaes 
chefes do dito systema, e aquelles, que tendo-se declarado 
seus amigos recearem de correr grandes riscos. E livres 
então destes sustos, elles hão de fazer-se mais tratáveis, e 
hão de unir-se mais facilmente ao que pertendeis— A dis- 
crição, e a sabedoria reluz neste conselho 1 

A moderação fará não excitar novas paixões, e novas 
descontentamentos, que sejão outras tantas faiscas capazes 
de atear o incêndio entre materiaes tão inflamáveis. E a 
circunspecção graduando a linha de conducta. que se deve 
seguir entre tão vários, e tão diversos interesses indivi- 
duaes para que intendão todos, que o bem geral, e que a 
justiça he a bússola, que dirige o Governo, acabará de 
extinguira tendências para a Ochlocracia, eoseo alimento» 
ou pertexto que principalmente consiste na desigual admi- 
nistração, exercitada entre os cidadãos. 

Bem quereria dizer a V. Ex. alguma cousa, sobre as novas 
instituições, que as presentes circunstancias hão de trazer 
ao Brazil: mas não o permittem os limites desta Carta, jà 
demasiadamente extensa. Não me dispenso com tudo de 
indicar a V. Ex., que a Natureza deve ser a nossa mestra, 
e que ella nada faz de salto, consumindo muito mais tempo 
naquillo, a que destina mais extensa duração. A cana de 
milho chega em poucas semanas a altura, que o pinheiro, 
ou sobreiro só consegue no fim de annos. Os Estados Po- 
liticos são corpos, cuja vida se deve contar por séculos. 
Não se caminhe pois a seu respeito percipitadamente. Não 
se intente passar do absolutismo para a completa liber- 
dade, de um dia para o outro. E' necessário, que os ho- 

JULHO. 54 



— 422 — 

mens se vão acostumando pouco a pouco a osle alimento, 
para que sejão capazes delle, e não lhe substituão a licença. 
Não destruir tudo, para tudo reedificar de novo. Iláo de 
provocar-se por esse meio reacções immensas, provenien- 
tes dos velhos hábitos, e antigos costumes ; e sem ir ama- 
ciando, e alterando estes, para que se lhe possáo amalga- 
mar as novas instituições, elles anullarão, ou farão inutili- 
sar estas. 

Tenho mostrado a V. Ex. os meus bons desejos pelo 
Brazil ; não posso ser indifferente à sorte dos homens, 
mesmo em geral, e como o seria para com a dos Brazilei- 
ros, com quem me prendeu a natureza pelo meu nasci- 
mento? Estimarei sempre muití) boas novas de V. Ex. a 
quem Deus Guarde mais annos. Lisboa 31 de Janeiro de 
1823 — De V. Ex. Patrício, e muito certo cridido.— Vicente 
José Ferreira Cardoso da Costa, 



N.** 3. — Requerimento para ser apresentado Ás cortes 

EM os FINS DE FEVEREmO, LOGO QUE NA PRIMEIRA VOTA- 
ÇÃO PARA CONSELHO DOESTADO PELO BRASIL O DESEMBAR- 
GADOR V. J. F. C. DA C. VIO SEU NOME COM 38 VOTOS. 

Senhor.— O Dr. Vicente Josó Ferreira Cardoso da Costa, 
vendo inesperadamente seu nome com um crescido nu- 
mero de votos na lista dos que hão de entrar em segundo 
scrutinio para a proposta do Conselho d'Estado pelo Bra- 
zil, deveria apresentar-se perante V. M. só para lhe agra- 
decer muito reverentemente o credito, que V. M. se dignou 
accrescentar por aquella maneira à sua tal qual reputação. 
Mas V. M. hade permittir, que o supplicante junte aos re- 
feridos protestos do seu agradecimento, o que vai expor 
agora na Sua Respeitável Presença. 



— 423 — 

Não só a honra do Supplicante, mas principalmente o 
interesse da Nação pede. que elle realise o projecto do Có- 
digo Civil, de que jà apresentou o prospecto a V. M., e ao 
Publico. A Resolução de V. M., para que o projecto do Có- 
digo Criminal, primeiramente incumbido a uma Commis- 
sáo. fosse também entregue ao concurso dos Jurisconsul- 
tos Portuguezes, conduzio o supplicante à necessidade de 
tomar sobre os seus hombros esta tarefa juntamente com 
a outra; por isso que havia notado no opúsculo, já apre- 
sentado a V. M., o lugar que cabia ao dito Código em um 
completo, e perfeito systema de legislação ; tendo deixado 
esse vazio no seu prospecto unicamente pelo respeito de- 
vido àquella primeira deliberação de V. M., motivo, que 
agora cessa. Por fim a emenda do Sr. Marciano de Azeve- 
do sobre o Decreto relativo ao Código do Commercio, 
sendo adoptada, como foi, por V. M., veio a ser uma letra 
quasi directamente saccada sobre o supplicante, a que cila 
não podia recusar o aceite pelo summo credito dos respei- 
tabilissimos saccadores 

Por tanto o Supplicante dispoz-se a partir logo para S. 
Miguel, com o fim de empenhar suas forças, para satisfazer 
todos os mencionados trabalhos, esperando apresentar a 
V. M. os projectos do Código Civil, do Código Criminal, e 
do Código do Commercio, nas epochas marcadas por V. M. 
Jã pedio para a sua viagem licença a £l-Rei, e o seu passa- 
porte às authoridades competentes. Mas todo o referido 
destino do supplicante se transtornará, em desproveito pu- 
blico, segundo elle entende, se V. M. se não dignar des- 
vial-o da proposta para o Conselho d'Estado, em cujo exer- 
cício mal poderá organisar aquelles Códigos. 

Parecerá talvez. Senhor, a V. M. muito estranho, que 
o Supplicante procure ser excluído d'um dos primeiros 



— 424 — 

empregos na ordem politica da sua Nação : e parecerá da 
mesma sorle estranho talvez ao Brazil, que elle busque 
desviar-se de ser Conselheiro d'Estado por aquella parte 
da Monarchia, que lhe deu o nascimento. Mas sendo os 
seus passos dirigidos, pelo que lhe parece ser mais útil 
serviço da Nação, espera o supplicante. que nem V. M., 
nem a pátria, de que elle muito se preza, os verá com desa- 
grado. Se o Supplicante quizesse olhar para si com pre- 
ferencia e tudo o mais, anteporia sem duvida ás ditas consi- 
derações o entrar na proposta dos lUustres Representantes 
da sua Nação para o Conselho d'Estado : mais não será pos- 
sível, que V. M. crimine, querer o Supplicante antes ser- 
vir, e ser ulil aos seus concidadãos na obscuridade, do que 
luzir nos grandes empregos. 

Isto pois conduz, Senhor, o Supplicante muito reveren- 
temente á Prezença de V. M., para que dignando-se de to- 
mar em Sua Alta Consideração o expendido, achando-o 
digno de attenção, como o supplicante espera, haja por 
bem desviai -o da sobredita proposta, visto estar ainda a 
tempo de o fazer : não reservando o supplicante esta sup- 
plicaparaS. M., receiando, que o Mesmo Senhor se recuse 
a deferir-lhe, quando a proposta de V. M. se junte á pu- 
blica opinião, que tão decisivamente, e por tão diversas 
maneiras se tem proximamente declarado favorável ao 
supplicante ; e por isso.— -P a V. M. haja por bem desviar 
o supplicante da proposta para o Conselho d'Estado, a lim 
de o não desviar da opportunidade de servir os Portugue- 
zes nos Projectos dos referidos Códigos.— E. U. M. — 
Desembargador Y. I. F. C. da C. 



— 42o — 

N.^ 4. — Carta escrita pelo desembargador V. J. F. C. 
DA C. A S. £x. o Ministro da Justiça^ exprimindo, o 

QUE vocalmente LHE DISSERA, QUANDO A S. £x. LHE FAL- 
LOU SOBRE A PROPOSTA PilRA O CONSELHEIRO DOESTADO, EM 
QUE HIA O SEU NOME, PARA QUE S. Ex. A POIÍESSE LEVAR 
AO CONHECIMENTO DE S. M. E MESMO SENHOR REZOLVER, 
O QUE HOUVESSE POR BEM. 

Illm. e Exm. Sr.— Ainda que já vocalmente expuz a 
V. Ex., o que nesta repito agora por escrito, com tudo de- 
terminei-me a fazel-a, para que V. Ex. a podesse levar á 
Prezença de S. Magestade, se assim lhe parecesse. 

O Emprego de Conselheiro d'Estado é de tão grande con- 
sideração, e credito, para quem fôr a elle promovido, que 
não pode haver nem suspeita, de que alguém o busque des- 
viar de si, não tendo justiffcadissimos motivos. Meu nome 
acha-se na Proposta a S. M. para o novo Conselho, e não 
me cabe esperar, que o Mesmo Senhor se lembre de o es- 
colher, indo em terceiro lugar, e no primeiro, e segundo 
outros, que supposto me não sejão conhecidos, tenho como 
de mais préstimo, até porque para isso pouco basta. 

Entretanto porque ali se acha, pode ser escolhido, e isso 
me conduz a rogar a V. Ex. a mercê de levar a Alta Con- 
sideração de V. Magestade o que vou expor-lhe, e que pa- 
rece condemnar-me a ser privado d'uma tão distincta 
honra. Já não me lembro de minha mulher, senhora d'uma 
das principaes cazas dos Açores, e que escolhendo-me para 
seu marido, quando proseguido, e infamado, veio por isso 
a adquirir um incontestável direito a todos os dias da mi- 
nha vida : ella é demasiadamente virtuoza, para que eu 
duvide dos seus sentimentos, mesmo na privação do que 
lhe pertence, e qtie lhe é mais caro^ quando isso importe 



— 42G — 

ao Serviço de S. M., c da Nação. Trato pois somente do 
que tem relação com o publico. É nelle conhecido o com- 
prometimento, em que acho, relativamente à organisação 
dos Códigos, de que a Constituição carece para marchar. 
Sei ; que* ales me não forão particularmente incumbidos, 
e que muitos outros Jurisconsultos Portuguezes poderão 
talvez estar procurando nisto servir a sua pátria. É com 
tudo certo, que eu já lhe prometti nisto meus serviços, e 
que a publica opinião tem seus olhos fitos sobre o cumpri- 
mento de minhas promessas. Faltar a ellas, é-me desairoso, 
e pode ser que em desproveito da Nação, e é-me impossí- 
vel cumpril-as sem dar a este trabalho toda a minha medi- 
tação, o que só posso conseguir no retiro de minha caza 
em S. Miguel. Na copia junta achará também V. Ex. o 
theor da carta, que na minlia ausência foi ter aS. Miguel, 
eque minha mulher abriu, e dl que me remetteu o tras- 
lado. Ella mesma talvez daria naquella ilha noticia deste 
acontecimento, ou desta communicaçáo ; e eu aqui a par- 
ticipei a alguns amigos confidencialmente, para lhes incul- 
car a necessidade que tinha de regressar quanto antes pari 
S. Miguel, a fim de tirar de cuidados minha mulher, que se 
morteficaria muito, se lhe lembrasse, que eu me poderia 
deslumbrar com aquelle convite. As circumstancias de 
Portugal, e do Brazil podem levar ao Conselho muitas vezes 
negócios, em que eu haja de opinar relativos aos dous rei- 
nos. Quem sabe se eu me deixaria alguma vez affectar, por 
insensível, e inconsiderada gratidão, àquelle testemunho 
do caso, que se fazia do meu nome ? Quem sabe se alguma 
vez reputarão os outros, que minhas opiniões são filhas do 
dezejo de agradecer aquelle testemunho? 

Haverá meu voto a inteira confiança de S. M., quando 
SC tratarem cousas do Brazil, sabendo isto? Ou deverei eu 



— 427 — 

occullar-lhc esta circumstancia, quando o Mesmo Senhor 
tem de escolher na Proposta para o seu Conselho d'Esta- 
do, hindò nelle meu nome? 

Se as prezentes circumstancias publicas do Reino nSo 
fossem taes, quaes são, rogaria a Y. Ex., quizessepormim 
supplicar a S. M. a merco de me privar d^umanhonra, que 
sei avaliar, e de que só táo urgentes motivos poderiáo des- 
viar meus dezejos. Nellas porém não me atrevo a mais, do 
que a pedir a V. Ex. queira levar esta ao Seu Real conhe- 
cimento, para que o Mesmo Senhor saiba tudo, e prinr 
cipalmente, que eu não posso fezer os Códigos nfrexerci- 
cio de Conselheiro d'Estado, e depois resolverá, como fôr 
do Seu Real Agrado ; e como entender piais conveniente ao 
Seu serviço, e da Naçáo. 

Aproveito esta opportunidade, para offerecer a V. Ex. 
toda a minha consideração, e obediência. Deus Guarde a 
V. Ex. muitos annos. fcisboa 2 de Março de 1823.— De 
V. Ex.— Muito reverente obrigado Venerador e Criado. — 
Illm. eExm. Sr. José da Silva Carvalho.— V. J. F. C.daC. 

(Seguia-se a copia da Carta do Sr. Felisberto Caldeira, 
que é a que vai no N/ 1 .^ desta collecção.) 



N.° 5. — Carta ao dr. Manoel Alves do Rio, Deputado 

Ás CORTES constituintes DE PoRTUGAL SOBRE AS COUSAS 

POLITICAS DA Monarquia em Março 1821. 

Meu Amigo e Sr. do C. V. S. tem agora pouco tempo 
para correspondências particulares, mettida no trabalho 
das cortes de que temos aqui visto o extracto das Sessões 
até ao dia 8 de Fevereiro, e talvez alguém tenha ainda pe- 
riódico, que refira mais algum dia depois. Cã tenho visto 
as suas moções, e muito gostei da que he relativa aos nos- 



— 428 — 

SOS militares, deixados em França por esquecidos na- Con- 
venção de Cintra : e dice comigo, elle pôde applicar a si o 

Non ignora mali, miseris succurrere disco. 

Era próprio de um do Amazonas acudir ás outras victimas 
da mesm? data. Mas rogo» e insto a V. S. para da sua parte 
conduzir as cousas quanto puder, de modo que Portugal só 
concorde com o Brazil. Tudo pôde ficar bem desta sorte, e 
de outra, temo males incalculáveis para a Nação, e para o 
Rei. A Santa Aliança ha de empregar a força, que puder con- 
tra as idéas liberaes. Os Thronos podem baquear: porque 
os seus exércitos poderão também querer dictar a lei de 
uma. ou de outra vez, como fizeráo os de Hespanha, Na- 
polés, e Portugal, e nesse caso a força moral ha de ceder à 
força real. Mas se isto assim náo for: e se os soldados do 
norte julgarem preferível a tudo viver do sul da Europa, 
como viverão 4, ou 5 annos na França, que desgraças náo 
teremos de vêr? E concordando-se Portugal, e o Brazil, 
podemos ganhar uma Constituição, que haja de garantir 
a nossa Liberdade Civil, e que nos livre in perpetuam de 
Setembrisaidas : que nos dê as nossas Cortes annuaes, de 
que se podem esperar, e de que podem vir todos os me- 
lhoramentos possíveis. S. M. agora ha de vir as boas: 
como João sem terra veio com os Inglezes, quando lhe deu 
a sua Magna Carta, que he a origem das suas liberdades. 
O Rei também a deu, e nem por isso os Inglezes ficarão 
em peor estado, do que estarião, se elles mesmos formas- 
sem para si a dita Carta. Meu Amigo rem, quoirwdo cumque 
rem. Ganhar, o que se pertende,'e o que convém. E náo 
arriscar isso pelo modo de o conseguir. O meio mais fácil 
de o conseguir he o melhor. Eis -aqui um artigo de fé 
politica. Eu náo cessarei de pregar hoje isto para Lisboa : 



— 429 — 

assim como não cessarei de pregar para o Brazil, çíí^av 
roncorde com Portmjal, ainda que possa pela força de seus 
aliados fazer retrogradar as cousas ao que dantes ei^ão. Nestes 
dous mandamentos se incerra toda a minha missão para o 
Velho, e Novo Mundo, e se para sen-ir nella utilmente for 
preciso passar dez vezes a linha, hei de fazel-o de muito 
boa vontade. O tempo mostrará então, se eu era, ou não 
quem me empenhava pelo melhor a bem da minha pátria 1 
O meio do segurar as Constituições para os Estados não ho 
certamente, meu Amigo, o dos juramentos, muito mais es- 
tando este tão vulgarisado, como V. S. sabe. Mirabeau 
disse uma vez na Tribuna, se ternos um juramento, então 
não tem remédio nenhum já a causa da liberdade. Mútuos 
interesses bem combinados, eis-aqui o grande juramento, 
e o único capaz de segurar as instituições politicas. Enten- 
derem todos, que ganhão, e que interessáo. Eis-aqui a an- 
cora, que segura a permanência das Constituições. V. S. 
e seus Collegas estão no theatro ; e de V. S., c delles de- 
pende muito bem, ou muito mal, para a causa publica. Não 
armem grandes classes de inimigos à liberdade ! Arriscão-a 
assim. Tudo se pôde fazer : mas caminhando-se indirecta- 
mente ás cousas. Hindo-sea ellas directamente, chocáo-se 
as paixões, armão-se partidos, e dispoem-se reacções. E 
então depois a sorte, e o acaso he, que decide do resultado. 
E he servir mal a liberdade deixa-la exposta ao jogo dos 
dados. Segurem-a agora : ainda que não seja inteirissima. 
Ganhem o essencial, tem feito grande serviço. Os acciden- 
tes virão depois. E ainda que não venhão, havendo o es- 
sencial da liberdade, pôde passar-se sem os accídentes. E 
se pelos accidentes se arrisca o essencial, fazer-se umjogo 
indiscreto : e ainda que se não perca, não se ganhará o 
credito de bom jogador. Ou governar a Europa toda com a 

JULHO. 55 



— 430 — 

ponta do dedo, ou hir para Santa Helena às ordens, dos 
que se pertendia governar ! Desvie V. S. quanto puder, que 
o nosso Portugal faça agora jogos destes. Grande gloria se 
lhes apresenta para se illustrarem com ella, se salvão a pá- 
tria ! Mas a sua salvação depende de se evitarem os extre- 
mos. Quasi todo o Portugal he agora hespanhol, pelo que 
vejo, e ha de esquecer- lhe então o quieii todo lo quiere todo 
lo fáerde. Os homens extremos em suas pertenções são or- 
dinariamente mais prejudiciaes do que úteis ao partido, 
que abraçâo. Dê V. S. todo o credito, e toda a considera- 
ção a estas vozes da sabedoria imparcial. Eu bem sei. que 
nas actuaes circumstancias não he este o meio de ganhar. 
No Brazil talvez agrade mais, quem fallar na linguagem da 
proclamação de 24 de Agosto. E em Portugal ha de agra- 
dar também com preferencia, quem proclamar illimitada- 
mente as idéas liberaes. He facillimo agradar aos discen- 
tes, e apaixonados : e deflcillimo servi-los utilmente. Aquillo 
consegue-se lisongeando-se as paixões do momento, ou seja 
em boa, ou em má fé : ou seja discreta, ou indiscretamente. 
Isto somente se alcança tendo a virtude de descontares ou- 
tros; e a coragem de dizer verdades. No primeiro caso he 
se egoista, pertende-se ganhar : no segundo olha-se para 
os outros mais do que para si, pertende-se servir aos ou- 
tros, e não tirar delles interesse. Portanto, meu amigo, 
eu bem vejo, e bem sei o que faço. He o mesmo que fazia, 
quando das prizões da Terceira mandei para o Rio as obser- 
vações á Gazeta sabendo muito bem, que là nem mas havião 
de agradecer, nem pagar. Quiz escrever, e assignar com o 
meu nome nos Estados Porluguezes á dez annos, o que 
ninguém nelles então se atrevia a escrever, e assignar, e que 
hoje escrevem, e assignão todos. Não he pois também o 
dezejo de ganhar, que hoje me guia : mas sim a cobiça de 



% 



— MH — 

servir utilmenle a minha pátria, sendo o Quincio Capito- 
lino entre a Naçáo, e o Rei, ainda que ambos se desconten- 
tem de mim. Dem-me o gosto de eu os concordar, e fiquem 
ambos mal commigo. Perdoo-'he isto inteiramente. Assim o 
tenho dito para a Corte, e assim o digo para V. S., e por 
V. S. a todos os meus amigos nas Cortes, e a todo o Por- 
tugal. Cheguem as cousas ás circumstancias. que chegarem, 
se a Portugal for necessário, quem vá ao Rio para esforçar- 
sc em concordar S. M. com a Naçáo, ofiereça-me V. S. que 
eu estou prompto. E igual oílerecimento tenho feito à 
Corte relativamente a Portugal. Se perferirem quebrar as 
cabeças, praza a Deus, que os dias se me encurtem, para 
que eu não veja taes desgraças ! Aqui envio á V.S. uma Carta, 
que vai para o meu copiador, aonde estão as muitas outras, 
que a dez annos tão inultilmente escrevi para o Rio. Deus 
queira, que esta nâo tenha a mesma infeliz sorte ! E que 
náo sirva algum dia, como hoje as outras, para desacredi- 
tar, quem delias não fez casot Acaba-se o papel, e eu a 
Carta, dezejando a V. S. muita saúde, e confessando-me 
De V. S., &c. S. Miguel, 24 de Março de 1821. 



N.*^ 6. — Carta ao Sr. Hippolyto José da Costa em data 

DE S DE ABRIL PASSADO SOBRE AS ACTUAES CIRCUMSTANCIAS 

DE Portugal, e do Brazil ; e a que se remette a carta 
PARA Sr. António Luiz em data de 6 de maio de 1823. 

Illm. Sr. Hippolyto José da Costa. — Meu Patrício Amigo 
e Sr. Já respondi a de V. S., em data de 20 de Septembro, 
por 1 .*, e 2.« via; sendo esta entregue em Lisboa ao De- 
sembargador João Severiano. que ficava a partir d'ali para 
Inglaterra, quando deixei aquella Cidade no meio do mez 
passado. Desembarcando porém nesta ilha achei este 



— 4^2 — 

navio do partida para essa. e delle me aproveito para es- 
crever novamente a V. S. 

Pelos papeis públicos de Lisboa, que terá visto, saberia 
V. S. que as Cortes me propuzerão a S. M. entre os nove 
Conselheiros d^Estado, de que o mesmo Senhor havia 
de escolher três pelas Provindas do Brazil, que ainda se 
náo tinhão declarado separadas de Portugal. E posso se- 
gurar a V. S., que muita consolação me derão, em me con- 
siderarem como pertencendo ainda áquella parte do mun- 
do, que me deu o nascimento, e a que eu dezejarei ser útil, 
e servir em todos os dias de minha vida. 

Nas copias juntas achará V. S. assim a supplica. que di- 
rigi ás mesmas Cortes, tanto me vi comprehendido na pri- 
meira votação para o dito Conselho d'Estado, como a Carta 
que escrevi ao ^Ministro da Justiça, quando elle me partici- 
pou, queS. M. lhe havia dito — aqui temos innboin; — vendo 
o meu nome na dita Proposta (são as copias ns. S.^^e 4.^. 
As circumstancias politicas não me deixarão esperar, que 
podesse ser prestadio. nem a minha pátria, nem a Portu- 
gal, naquelle exercicio, e elle não me podia ser lisongeiro. 
se não quando me desse alguma esperança de ser útil aos 
Brazileiros. e aos Portuguezes. Devia além disso esporar, 
ser chamado ao Congresso Portuguez, como l.^Supplente 
por S. Miguel, visto que um dos seus Deputados so dizia, 
pela sua saúde, inhabilitado para encher o sou lugar, c 
julguei então por uma parte, que não deveria hir muito 
temporariamente ter um exercicio, que pouco depois seria 
obrigado a largar, e pela outra, que no dito Congresso po- 
deria ser mais útil ainda, assim a uma, como à outra parte 
da nossa antiga Monarchia. 

V. S. verá pois da dila 2/* Copia, como fui conduzido à 
necessidade de manifestar a S. M. a proposta, que se me 



% 



— 433 — 

havia feito na Carta do Sr. Felisberto Caldeira. Não mos- 
trei a de V. S., visto que ella continha algumas clausulas 
desagradáveis aos regeneradores, que os indisporião a seu 
respeito, o que me pareceu útil desviar. 

Fallei mesmo pessoalmente a S. M., e lhe li a Carta do 
dito Sr. Felisberto, que elle ouvia com a sua natural bon- 
dade, fallando-me duas vezos no Seu Filho com a sensibi- 
lidade própria d'um tal Pai. 

Já na dita carta entregou ao Desembargador Joáo Seve- 
riano. participava a V. S., que a opinião se tinha em Lisboa 
tornado mais doce relativamente às cousas da nossa pátria ; 
e que mesmo nas Cortes a Commissâo do Ultramar, que 
dantes tão azeda apparecía, sempre que tratava do Brazil, 
se não tinha apressado a aprezentar o seu parecer sobre a 
declaração da Independência, e do novo Império. Um dos 
seus Membros mais exaltados, tratando comigo familiar- 
mente a este respeito, me manifestou discretos sentimen- 
tos, que muito haveriáo aproveitado, se fossem mais tempo- 
ranos : mas, que supposto tardios, tratei de rateficar, quanto 
em mim cabia : e muito lizongeiro me seria, se podesse 
persuadír-me, que esta mudança de espirito publico era 
em alguma parte devida à propalaçáo das minhas idéas, 
sempre avessas à discórdia entre os dous reinos. 

Não me esquece porém nunca o Brazil, levado desgraça- 
damente ás circumstancias, de se estar aniquilando por 
meio de dissenções intestinas, que hão de durar, em maior, 
ou menor gráo, em quanto elle se não entender franca- 
mente com Portugal. Até que isto se verifique, haverá sem 
duvida esperanças no partido Europêo, e disconfianças no 
outro Brazileiro : e estas duas causas produzirão desgraça 
para um, e outro, e vantagens para nenhum delles. 

A Constituição Portugueza, declarado irretractavel em 



— 434 - 

algum (los seus artigos por quatro annos, c decretando a 
integridade da Monarchia no velho, e novo mundo, e as 
Provindas que a constituem em um, e outro, parece tornar 
impossivel legalmente o reconhecimento da Independência 
das Provincias do Su-, que presentemente formão o novo 
Império. Mas não vejo impedimento algum para uma tré- 
gua, que entretanto estabeleça relações amigáveis, ecom- 
merciaes, e faça desde logo cessar aquellas dissenções in- 
testinas; reservando-se para o congresso, passados os di- 
los quatro annos, tratar definitivamente da questão da 
Independência. Assim começarão também a terminar as 
desavenças entre a Hespanha, e as Provincias Unidas ; e 
precedendo uma trégua de doze annos, se me não engano, 
se depois de sessenta foi que aquella reconheceu a Inde- 
pendência destas. Nesse intrevallo porém procederão en- 
tre si, como amigas, sem se hostilisarem mutuamente, e 
veio a ser na realidade nominal o reconhecimento da Inde- 
pendência, que se lhe seguiu. Parece-me, que estamos no 
mesmo caso, e que o mesmo remédio nos pode aproveitar 
agora. O tempo esfria as paixões, e torna mais tratáveis 
todos os ânimos. E uma trégua, trazendo todos os bens 
d'uma paz, salva o amor próprio da Mãi-Patria; quando a 
Filha se lhe tira dos braços. Somos todos Portuguezcs. 
temos quasi todos o m'"smo sangue , falíamos a mesma 
lingua, professamos a mesma religião, e em taes circums- 
tancias nada menos pode convir-nos, do que estarmos der- 
ramando o sangue uns dos outros, e tratando-nos. como 
inimigos. Até felizmente o Pai é reconhecido Rei em uma 
parte, e o Filho Imperador na outra. E quem sabe, se al- 
gum dia os dous Estados virão ainda a fazer um todo debaixo 
d'uma organisação social, que satisfaça os dezejos, c os in- 
teresses de ambos elles ? 



— 433 — 

É ao Brazil porém a quem compete fazer uma semelhante 
proposição, visto ser a parte do todo que se desmembrou. 
Eis aqui tem pois V. S. as minhas idéas sobre as actuacs 
circumstancias da nossa pátria, relativamente a Portugal. 
Se ellas lhe parecerem bem, promova V. S., com que se 
mettão a caminho. E pôde contar tanto com toda a minha 
cooperação para o referido, que, se quizer, pode inculcar- 
me, e cu aceitarei a commissáo de entrar nisso, mesmo 
ostensivelmente pelo Império do Brazil, se ao Seu Augusto 
Chefe agradar, servir-se para isso do meu tal, qual présti- 
mo, ou seja encarregando-me só, ou associando-me a qual- 
quer outro agente. Lembro porém sempre a V. S. nesse 
caso a necessidade de instrucções muito claras, sobre al- 
gumas circumstancias, que se dezejem, para que eu me 
possa conduzir com a segurança de contentar em meu ser- 
viço. Como o Congresso Portuguez me considerou Brazi- 
leiro, na dita proposta para o conselho d'Estado, náo po- 
derá estranhar, que eu figure como tal, para se tratar da 
concórdia dos dous Estados. Ainda quando esta commissáo 
me venha achar nas cortes de Lisboa, sendo necessário, 
deixarei o lugar de Representante por S. Miguel, afim de 
intervir na negociação, como agente do Brazil. Persua- 
dido como estou, de servir nisto igualmente aos Brazileiros 
e aos Portuguezes, não entenderei jamais, que oílendo a 
estas, sahindo da sua representação nacional, para ser o 
conciliador entre uns, e outros. A publica opinião, que em 
Portugal me é muito favorável, poderá ajudar meus bons 
dezejos nesta parte, e prestar à causa da humanidade, que 
tanto interessa nesta conciliação. 

Xáo sei o tempo, que poderei demorar-me por S. Mi- 
guel, o que conviria indicar a V. S., para saber, aonde po- 
deria dirigir-me a sua correspondência. Se as Cortes Ex- 



— 436 — 

traordinarias tiverem lugar em Lisboa, como se destinava 
na occasiáo da minha sabida para esta ilha, e tantas e tão 
poderosas causas parecião fazer indispensáveis, poderes 
estar naquella Cidade pelo meio de Maio, paia o fim de to- 
mar assento nellas. Alias sempre por todo o Julho deverei 
achar-me ah. como prometti na minha despedida, para 
serviço em que me julgarão indispensável, e a que me nâo 
devia negar. 

Sendo porém as viagens do Rio para Portugal pela altura 
dos Açores, seria muito fácil a qualquer Navio tocar em S. 
Miguel na sua passagem, 9 entregar-me as cartas que se 
me quizerem diriigir, no caso de ah me achar, levando-as 
abas para Lisboa, a fim de serem entregues, ou a meu cor- 
respondente Francisco Xavier Vasques, Negociante muito 
conhecido na dita Praça, ou ao meu enteado o commenda- 
dor José Ignacio Machado, residente nacaza, e companhia 
de Pedro José Campos, pelas quaes vias me senão promta- 
mente dirigidas, fosse qual fosse a minha rezidencia. E es- 
te mesmo caminho se deverá seguir, quando, ou por V. S., 
ou do Rio, se me haja de escrver por Lisboa. Hindo as car- 
tas cobertas com sobscritos aos referidos, virão ter à minha 
mão seguramente : mas convirá sempre repeti-los por duas 
vias, para se prevenir o descaminho de alguma delias, o 
que muito importa, tratando-se de cousas taes. 

Nâo sabendo, se V. S. estará em Londres, mando tam- 
bém desta uma copia ao Sr. Felisberto Caldeira: e se 
souber, que do Fayal sabe para o Rio proximamente al- 
gum Navio em direitura como aqui se entende, farei con- 
duzir nclle outra, que possa chegar ao conhecimento de 
S. M., ou seja pelo Sr. José Bonifácio, ou por algum dos 
outros meus amigos, naquella Corte. E cuido ter desta 
sorte correspondido devidamente à honra, que V. S. e o 



- 437 — 

Sr. Felisberto me fizorão nas suas cartas de Setembro pas- 
sado. E concluo com os protestos dos meus desejos pela 
saúde de V. S., e offerecendo-lhe toda a minha obediên- 
cia. Deus Guarde a V. S. muitos annos. S. Miguel, 5 de 
Abril de 1823 — P. S.— Para evitar repetição de copias, a 
que nfio dava lugar a sabida de Navio, escrevo ao Sr. Fe- 
lisberto somente, participando-lhe, que a V. S. mando 
esta, e a direcção porque dia vai. aflm de que elle a haja 
de procurar, receber, e abrir, tendo-a como sua. no caso 
de V. S. se não achar em Londres. E V. S. lhe commu- 
nicará sua matéria, no caso de a receber. As copias jun- 
tas, que envio só para V. S. ser plenamente informado de 
tudo, será servido não lhe dar publicidade, bem que da 
sua substancia, e do facto pode fallar, tendo sido publica 
em Lisboa, e sendo possivel por tanto, que V. S. o soubes- 
se, sem ser de mim directamente. 



IV. ^ 7. — Copia da carta do Sr. IIippolvto José da Cos- 
ta AO Dr. V. J. F. C. daC, datada de Londres aos 
20 de Setembro de 1822. 

Illm. Sr. Vicente José Ferreira Cardozo da Costa.— Re- 
cebi com summo prazer, no principio deste mez, a carta 
que V. S. me fez o favor dirigir em 5 de Julho próximo pas- 
sado, com os valiozos documentos que a acompanhavão; c 
supposto a grandeza de volume não pejmitlisse inserillos 
todos no Correio Braziliense, vai com tudo ja o annuncio 
do seu importante opúsculo, sobro o Código Civil, ao qual 
darei toda a publicidade que puder. 

Os negócios politicos de Portugal tomarão uma direc- 
ção tão alheia do que eu desejava, que desde o meado do 
aíino passado comecei a escrever aos meus amigos em Lis- 
boa, fazendo lhes ver os erros, em que se hião precipi- 

JULHO. 56 



— 438 — 

lando, posto que continiuisse no Correio Brasiliensea sus- 
tentar e apoiar a reforma, que sempre me pareceu não só 
útil, mas necessária á existência da Monarchia, como ex- 
abundante provão os meus escriptos ; mas pelas respostas 
que recebi, e muito mais pelos factos, me desenganei, pou- 
co depois, que as medidas, que censurava, não erão elTeito 
de erro accidental. mas filhas do systema, que se havia 
adoptado por hum partido dominante, o qual olha para a 
união de Portugal à Hespanha, ainda à custa da separação 
do Brasil, como única anchora da salvação dos Regenera- 
dores. 

Convencido disto, preciso foi, que eu mudasse de objec- 
to, e comecei então a dirigir-me ás cousas do Brasil ; por- 
que, prevendo a scisáo da Monarchia ; por dever, e por 
persuazáo forçozo era, que me ajuntasse àquella das duas 
partes desligadas, aonde tinha nascido, e que mais imme- 
diatamente tem direito aos meus serviços, visto que em tal 
caso era impossível ficar neutral. 

Vejo agora pela sua carta, que V. S. é, o que eu não sa- 
bia, também natural do Brazil, e por tanto ouso reclamar 
a sua cooperação a favor do nosso paiz natal. Se as suas cir- 
cunstancias de familia, de saúde, ou outras lhe não permit- 
tem hir para o Brazil, aonde sua reputação valeria mais que 
um exercito em aux.lio daquelle Governo, que sem duvida 
o aprecia, como deve, e que se aproveitaria de seus talen- 
tos, como não souberão fazer os de Portugal; pelo menos 
pode ajudar-nos com os seus escritos, e a pátria necessitan- 
do tanto, tem direito a exigir de V. S. o seu valiozo con- 
tingente. 

Em todo caso, peço-lhe encarecidamente a continuação 
de suas communicações, que me dão sempre tanto prazer. 



- 439 - 

quanta ò a estima com que sou— De V. S. — muito atenito 
venerador e menor criado — Hippolyto José da Costa. 

P. S.— Comrauniquei o contheudo da carta de V. S. ao 
Marechal Felisberto Caldeira Brant Pontes, que se acha eín 
Londres, e ficou cheio de prazer, sabendo, queV. S. era 
Brasiliense por nascimento. Cheio do zelo patriótico que o 
anima,« disse-me que hia escrever-lhe, e eu lhe recommen- 
dei, que o fizesse logo, na idéa, de que, quando se trata 
da causa publica, nenhuma introducçáo ou, conhecimen- 
to prévio é necessário, para communicação que só tem em 
vista o bem publico. 



««•Q^» 



aSFIJL 

DE TRÊS CARTAS DO IRIAO JOAQUII 

EXTRAIIIDA DOS ORIGINAES. 



liouvado seja o Santíssimo Sacramento. 

A paz (lo nosso Bom Deus lhes assista em seus corações 
[)ara que sempre o adorem com rendimentos de uma per- 
petua humildade. Já a Vms. lhes tinha escripto dando parte 
fia minha chegada á esta Cidade, porém de próximo irei 
para Lisboa, que me parece iremos por todo o mez de Ja- 
neiro até os princípios de Fevereiro a concluir a grande 
empreza de que estou encarregado, queira o mesmo Bom 
Deus ajudar-me nella guiando-me sempre com sua graça. 
Eu cada vez vivo cercado das misericórdias Divinas com 
que me tem favorecido, pois certamente não deixará elle 
mesmo de ajudar-me até o fim apezar da minha fraqueza e 
miséria ; náo esqueçáo nunca de pedirem ao mesmo Senhor 
me de o dom da perseverança : a batalha é certa e a fra- 
(fueza é grande ; porém com os socorros da graça tudo se 
vence. 

Hei de estimar que essas meninas se váo criando para 
Esposas do Senhor Deus, a fim de que haja quem desagra- 
ve o nosso Bom Deus, que também espero se faça nessa 
Ilha, ainda que muitos háo de duvidar, porém as obras 
de Deus padecem muitas contradicçóes. 

Vm. mandadará o Livrinho que lhe dei das Memorias do 
Sacramento, que é para dar ao seu dono, que me pedio nes- 
ta Cidade, que pretendo trazer outros de Lisboa ; emfim 



— 442 - 

Nosso Bom Deus hade sempre concorrer com sua costuma- 
da misericórdia. Muitas recomendações ao Sr. Manoel Ro- 
drigues e a Sra. Irma Antónia, e todos em geral. 

Capella da Senhora Santa Anna 10 de Dezembro de 1794. 

Deste humilde servo 

Irmão Joaquim Francisco do Livramento. 



I^ouirado eeja o Santíssimo Sacranieiito* 

Horitem recebi a sua carta, e nella vejo o que Vm. me 
diz, e fico esperando em Deus tudo hade cumprir com sua 
Divina vontade, e agora pelo mesmo portador envio as 
duas varas de renda de ouro fino para o nosso bom Fidalgo, 
elle nos queira ajudar na santa empreza de que ando en- 
carregado. Vms. nâo cessem de orar ao mesmo Senhor 
nos dê sempre a sua graça, para que eu tenha forças de 
poder resistir aos assaltos, que de continuo armão os ini- 
migos contra tudo que é da gloria de Deus. Muito estimo 
que o Sr. João de Âviz se resolva ir para a Charidade, 
porém veja que lá vai achar muitas cruzes, e duvido a 
sua perseverança, nisso tenho muito gosto para quando- 
lá chegar velo. Minhas Irmãs, não cessem de louvar ao 
Senhor Deus, que me tome sempre à sua conta, para que 
vá seguindo em tudo sua vontade Santíssima. Vms. darão 
muitas recommendações à minha querida Mái, dizendo que 
tome esta por sua, e que me lance a sua benção, que eu 
em todos os dias da minha vida não deixarei de orar ao 
Senhor Deus lhes prospere com aquellas felicidades espi- 
rituaes, que tanto lhes desejo, que o mais é terra, immun- 
dicie, vaidade, trabalho, contradicções, e finalmente morle. 



— 443 — 

Eli estou do partida para Lisboa, c náo se admirem caso 
haja mais alguma demora, que talvez seja para maior se- 
gurança da santa empreza : facão humildes suppicas ao 
Senhor, que me dê perseverança. 

Fiz toda a dihgencia para ir a'gum Missionário para essa 
Illia c continente, não pude alcançar por ora, mas licou dis- 
posto para depois lá terem a consolação : o tempo está 
muito calamitoso para andarem Missionários, porém o mes- 
mo Senhor hade permittir que havemos dever bem logra- 
dos os annuncios desta nova Religião do Desaggravo para 
haver homens que zelem a honra de Deus. e reparem a 
nossa Santa Mãi, que è a igreja de Deus. Eu assim o con- 
fio, como Vms. lá o terão lido na vida, da Venerável Padre 
Maria do Lado, e serão ditosos os que o Senhor chamar a 
esta santa obra. As meninas correm muito perigo as suas 
vocações, se ellas não forem acauteladas, pois a mocidade 
do tempo presente vive muito arriscada, pois o demónio 
em seus principies trabalha para derrubar dos bons propó- 
sitos para depois terem de sua mão; diga a ellas que cui- 
dem muito á ser acauteladas; que o Senhor é poderoso 
para ajudar a quem por seu amor offerece a sua vontade, 
e que não deixa de dar as providencias contra os assaltos do 
demónio, mundo, e carne; facão nisto muito estudo, que 
sempre agradem a Deus ; muitos são os chamados, porém 
poucos os escolhidos. 

A minlia Irmã Maria não perca a esperança no Santo Ha- 
bito, e das que hão de servir do Desaggravo do Santíssimo 
Sacramento, Muitas recommcndações a todos, que sendo 
Deus servido nos vejamos cedo. Rio, 22 de Janeiro de 1798. 

De Vm. 
O mais humilde servo inútil 
Irhâo Joaquim. 



— 444 — 

Beiudlto e I<oovm1o «eja o SS. Sacrameiito. 

Sra. D. Rita. 

A graça do Divino Senhor sempre lhe assista para um 

f)erfeito complemento de sua santíssima vontade, alim de o 
ouvar com as suas santas determinações. Ha poucos dias 
fallei com o Rvm. Sr. Padre Mestre Salazar, me deu por no- 
ticia que o Sr. Fr. Manoel «disse Missa nova, e que está o 
Rvm. Padre Provincial muito satisfeito, etc; continue as suas 
santas orações por elle para que seja bom Religioso, e lam- 
bem por mim. Estamos dando principio na Ilha Grande so- 
bre o que queria a muitos annos estabelecer nesta Corte, o 
agora parece que talvez abençoe o nosso bom Deus os meus 
antigos desejos ; e rogo peça a Nosso Senhor me faça um 
verdadeiro humilde, e essas almas que algum tempo queriáo 
desaggravar ao mesmo Senhor, não se desanimem ; se não 
fôr por um modo será por outro; facão muitas orações e 
mortificações, pois o nosso Deus tem sido muito ultrajado. 

Remetto estas relações dos desacatos para oíTerecer às 
ditas almas, para que nestes infelizes dias orem ao mesmo 
Senhor com duplicadas orações e mortificações ; talvez que 
ainda haja alguma casa lá, como desejamos já a muitos an- 
nos. O poder de Deus é o mesmo, e ainda é aquelle que de 
nada fez tudo. Muitas recommendarões à rainha querida 
Mái, ea todos de nossa familia. A Sra. Maria que nunca se 
esqueça de pedir ao nosso Deus Menino se compadeça das 
minhas necessidades, e o mesmo a todas essas almas devo- 
tas. Eu já estive por duas vezes a ir para essa, porém a 
Providencia me embaraçou, e ainda me vai eml>araçando. 

O Bom Deus como verdadeiro Caminho, Viíla, Verdade 
nos conceda a sua Santa paz, para que nos amemos como 
elle quer. 

Rio, de Janeiro 2 de 1810. 

De Vm. 

O mais humilde escravo 

Irmão Joaquim. 

Muitas recommcndações ao Sr. António José. 



"% 



SAflXSEAelt 

FEITA PELO BEI E i RAUHÂ DE HESPAIIA 

CO]II TICEIVTE YAIVEZ PIIVZOIV IVO AIVIVO DE IMi. 



Don Aniceto de la Hlsnera, dei Ilustre Cole- 
-lo de Aliasado09 y de la Soeledad eeonoinlea 
de aiiiiso0 dei Pai» de Sev^illta, Seereterio de 
H. ]fl« y auditor Honorário de Cnerra y Jfiari- 
na^ y Areliiirero dei Cinerai de índias en esta 
Cidad. 

Certifico: que en consecuencia de la Real ordem fecha 
vcintay dos de Enero de mil ochocientos cuarenta y seis, 
por la que se me manda facilitar noticias históricas, rela- 
tivas á America, a Mr. Francisco Adolfo de Varnliagen, 
agregado cntónces à la legacion dei Brasil en Lisboa; por 
su sefialamiento hé reconocido los libros de Registro en la 
Secretaria dei Perii, correspondentes à el ano de mil qui- 
nientos uno y a su folia treinta y seis, he encontrado Ia 
Capitulacion hecha por el Rey y la Reyna con Vicente Ya- 
fiez l'inzon la cual literahnente dice asi. 

Capitulacion de Vicente Janez. — ElRey e la Reyna— El 
asiento que por mestro mandado se tomo con vós Vicente 
Janez Pinzon sobre las islãs ó tierra firme que voshabeis 
descubierto es lo siguiente. 

Primcramente que por cuanto vos el dicho Vicente Ja- 
nez Pinzon vicino de la Villa de Paios, por nuestro man- 
dado, é con nuestra licença, é facultad fuistes à vuestra 
costa ó mision con algunas personas, é parientes, é ami- 
gos vuestros à descubrir en el mar Occeano, alas partes de 
las índias con cuatro navios, à donde con el ayuda de 

JULHO. • 37 



— 44G — 

Dios niicstro Seíior, é con vueslra industria é Iraliajó, ó 
diligencia descobristes cicrtas islãs ó tierra firme, que po- 
sistes los nombres siguientes : Santa Maria de la Conso- 
lacion, c Rostro hermoso, é desde alli seguistes Ia costa 
que se corre ai Norueste fasta el Rio grande que llamastes 
Santa Maria de la Mar-dulce, ó por el mismo Norueste, 
toda la tierra de luengo fasta el Cabo de San Vicente quês 
la misma tierra donde por las descubrir é aliar posistes 
vuestras personas á mucho riesgo c peligro, por nuestro 
servicio, é pasirtes niuchos trabajôs, é se vos recreció mu- 
chas perdidas, é costas, é acatando el dicho servicio que 
nos fecistes, é esperamos que nos haréis de aqui adelante, 
tenemos por bien é queremos que enquanto nuestra mer- 
ced, é voluntad fuere, ayades c gozedes de las casas que 
adelante en esta Capitulacion serân declaradas, é conte - 
nidas; conviene a saber, en remuneracion de los servicios 
é gastos; 6 los daSios que se vos recrecieron en el dicho 
viaje, vos el dicho Vicente Jafíez quanto nuestra merced é 
voluntad fuere seades nuestro Capitan é Gobernador de las 
dichas tierras de suso nombradas desde la dicha punta de 
Santa Maria de la Consolacion seguiendo la costa fasta Ros- 
tro hermoso, é deallé toda la costa que se corre ai No- 
rueste hasta el dicho rio que vos posistes nombre Santa 
Maria de la Mar-du!ce con las islãs questán á la boca dei 
dicho rio que se nombra marina ttibulo ai qual dicho ofi- 
cio ó cargo de Capitan é Gobernador podades usar é eger- 
cer, ó usedes é egercedes oor vos é por quien, vuestro 
poder aviere con todas las cosas anexas é concernientes ai 
dicha cargo segund que lo usan. c lo pueden. é deben 
usar los otros nuestros Capitanes ó Gobernadores de las 
semejantes islãs é tierra nuevamente descubierta. 
Iteu que es nuestra merced é voluntad de que Ias cosas. 



r% 



— 447 — 

ô interesses é provecho que en las diclias tierras de suso 
nombradas, é rios, é islãs, é se oviere é allare é adquiricre 
de aqui adelante, asi oro, como plala, cobre ó otro qual- 
quiera metal ó perlas, é piedras preciosas, ó drogueria é 
especeria é otras qualesquier cosas de animales é pesca- 
dos, é aves, ó arboles, é yerbas, é otras cosas de qualquier 
• natura ó calidad que sean, en quanto nuestra merced é 
é voluntad fuere ayades é gozedes la sesma parte de loque 
nos ovieremos en esta manera : que se nos embiaremos á 
nuestra costa h las dichas islãs é tierra. é rios por vos 
descubiertas algunos navios é gente que sacando primera- 
mente toda la costa de armazàn e fletes que dei interese 
(jue remaneciere, ayaraos é elevemos nos las cinco sesmas 
partes, é vos el dicho Vicente Janez la otra sesma parte, 
ó si alguna, ó algunas personas con nuestra licencia é 
mandado, fueren a las dichas islãs, é tierras, é rios, de lo 
que las tales personas nos ovieren á dar por razon de los 
dichastales licencias ó viajes ayamos é llevemos para nos. 
las cinco sesmas partes, é vos el dicho Vicente Janez la 
otra sesma parte. 

Iten que si vos el dicho Vicente Jafiez Pinzon, quisier- 
des ir dentro de un aiio que se cuenten dei dia de la fecha 
desta Capitulacion ó asiento con algun navio ó navios, á las 
dichas islas, é tierras, é rios, á rescatar é traer qualquer 
cosa de interese é provecho que por el mismo viaje que 
fuerdes, sacando primeramef te para vos las costas que 
ovierdes fecho en los fletes é armazon dei dicho primero 
viaje que dei interese que remaneciere ayamos 6 llevemos 
nos la quinta parte, é vos el dicho Vicente Jaíiez las quatro 
(juintas partes con tanto que no podaes traer esclavos ni 
esclavas algunas, ni vayaes à las islas ó tierra firme que 
hasta hoy son descubiert*, ó se han de descubrirpor naes- 



— 448 — 

Iro mandado, é con nuestra licencia, ni a las islãs c tierrii 
íirrao dei Sereníssimo Rey de Portugal principe nuestro 
muy caro, é muy amado hijo, nin podades delas traer in- 
terese ni provecho alguno, salvo mantenimento para la 
gente que llevardes por vuestros dineros, é pasando le 
dicho ano no podades gozar ni gozedes de lo contenido cn 
esta dicha capitulacíon. 

Iten para que se sepa lo que asi ovierdes en el dícho 
viaje, è en ello no se pueda hacer fraude ni engano al- 
gunç nos pongamos en cada uno de los dichos navios una 
ò dos personas que en nuestro nombre, é por nuestro 
mandado, este presente á todo Io que se ovicre é rescatare 
en los dichos navios de las cosas suso dichas é lo pongan 
por escrito, é fagan dello libro é tengan dello cuenta é 
razon, é lo que se rescatare c ouviere en cada un navio se 
ponga é guarde en arcas cerradas, è en cada una aya dos 
llaves, é por la tal persona, ó personas que por nuestro 
mandado fueren en el tal navio tenga una llave é vos el 
dicho Vicente Janez ó quien vos nombraredes otra, por 
manera que no se pueda facer fraude ni engano alguno. 

Iten que vos el dicho Vicente Janez ni otra persona al- 
guna, ni personas algunas de los dichos navios, ó compa- 
nla delias non puedan rescatar ni contratar ni hnber cosa 
alguna de Ias susodichas sin ser presente á ello Ia dicha 
persona ó personas que por nuestro mandado fueren en 
cada uno de los dichos naviq^. 

Iten que las tales persona ó personas que eu cada uno 
de los dichos navios fueren por nuestro mandado, ganen 
parte como las otras personas que en cl dicho navio fueren. 

Iten que todo Io suso dicho que asi se oviere é rescatare 
en qualquer manera, sin disminuicion ni falta se trava á Ia 
Ciudad ó puerto de Sevilla ó Caéis c se presenten ante el 



% 



— 449 — 

niicstro oficial que alli resídiere para de alli se tome Ia 
parte que de alii avieremos de aver, é que por la dicha 
parte que asi dello ovleredes de aver non pagueis ni seays 
obligado á pagar de la primera venta alcavala ni aduana ni 
almoxarifadgo ni outros derechos algunos. 

Iten que antes que comenzeis el dicho viaje, vos vades á 
presentar à la Cibdad de Sevilha ó Cádis, ante Gonzalo Go- 
mez de Servantes nuestro Corregidor de Xerez, é Ximeno 
de Briviesca nuestro Official, con los navios é gentes con 
(jue ovierdes de facer el dicho viaje para quellos lo vean é 
asicnten la relacion dello en los nuestros libros é hajan Ias 
otras diligencias necesarias. 

Para lo qual facemos nuestro Capitan de los dichos na- 
vios e gente que con ellos fueren, á vos el dicho Vicente 
Yanez Pinzon, evos damos nuestro poder cumplido é jure- 
dicion cevile c criminal, con todas sus incidências, é de- 
pendências, óanexidades, e conexidades, é mandamos alas 
personas que en los dichos navios fueren, que portal nues- 
tro Capitan vos ovedescan, en todos, e por todos, é vos 
consientan usar de la dicha juredicion, con tanto que non 
podais matar persona alguna, ni cortar miembro. 

Iten que para seguridad que vos el dicho Vicente Yaíiez 
Pinzon, c las otras personas que en los dichos navios irán, 
fareis, o complireis, é será complido é guardado, todo Io 
en esta Capitulacion conténido, é cada cosa é parte dello. 
Antes que comenzeis il dicho viaje, deis fianzas lianas é 
abonadas à contentamiento dei dicho Conzalo Gomez de 
Servantes ó de su lugar teniente. 

Iten, vos el dicho Vicente Yanez, ó las otras personas 
que tn los navios fueren, fagados, c cumplades todo lo con- 
ténido en esta capitulacion, é cada casa é parte d*ello, sópe- 
na que qualquicr persona que Io contrario ficiere, por el mis- 



— UiO — 

mo. fecho, aya perdido é pierda todo lo que se rescalare, n 
oviere, é todo el interese é provecho que dei dicho viaje po- 
driavenir sentuplicato, c desde agora lo aplicamos á nues- 
tra camará é fisco é el culpado este â la nucstra merced. 

Lo qual todo que dicho es, é cada casa é parte delia fe- 
chas por vos las dichas diligencias, prometemos de vos man- 
dar guardar é cumplir à vos el dicho Vicente Yafiez Pinzon 
que en ello ni en cosa alguna, ni parte dello, non vos será 
puesto impedimento alguno, delo qual vos mandamos dar 
Ia presente firmmada de nuestros nombres. — Fecha en 
Granada á cinco de Setiembre de mil c quinhetos ó un aíios' 
— Io el Rey. — Io la Reyna. — por mandado dei Rey o de 
la Reyna— Gaspar de Gricio. 

Lo copiado corresponde á la letra con su original á que 
me refiero. I para que conste doy lo presente en seis hojas 
de papel dei sello cuarto. rubricadas en el margen por mi. 
Sevilha quince de Diciebrc de mil ochocientos cincuenta y 
sicte.— Aniceto de la Iliguera. 

Conforme. — Joaquim Maria Nascentes d' Azamduja. 



DOCUIEITOS 

Relativos a JFouo Pereira Ramos e sens irmãos* 



DECRETO. 

Tendo presentes os relevantes serviços do Doutor João 
Pereira Ramos de Azeredo Coutinho, do Meu Conselho, 
Procurador da CiOròa, e Desembargador do Paço, assim no 
laborioso exercício destes lugares, que tem servido com 
fidelidade, desinteresse, e fortaleza própria de um digno 
iMagistrado, como em outras commissôes da maior impor- 
tância, que lhe tem sido encarregadas, como o foi a dos 
Estatutos da Universidade de Coimbra, que formulou, e 
illustrou para melhoramento dos Estudos das Sciencias 
Maiores, mostrando neste trabalho os seus vastos, e só- 
lidos conhecimentos, com tanto aproveitamento dos Meus 
Vassallos, que os cultivão, como he notório: E Tendo 
também presentes os Serviços de seu Irmáo D. Francisco 
de Lemos, Bispo de Coimbra (por elle assim mo pedir) 
que depois de o ter auxiliado na obra dos ditos Estatutos, 
executou como Reformador Reitor da Universidade os mes- 
mos Estatutos, plantando, e creando a nova Reformação 
com tão adiantados, e felices progressos: Querendo grati- 
licallos, e remunerallos com a destincçáo, que elles mere- 
cem, em combinação com os maiores, que se tem remu" 
ncrado na sua ordem, c provar-lhe juntamente a boa von- 
tade com que assim o Honro : Hei por bem por uns, e 
outros Serviços, e respeitos fazer Mercê ao dito Doutor 
João Pereira Ramos de Azeredo Coutinho do Senhorio da 
Villa de Pereira na Comarca de Coimbra, onde tem parte 
da sua Casa ; de uma Alcaidaria Mór, das que houver va- 



â 



— 452 — 

gas; e da Commenda de São Salvador de Serrazcs na Ordem 
de Christo sita no Bispado de Vizeu, tudo em três vidas : 
Confiando do mesmo Doutor João Pereira Ramos, que ha 
de continuar a servir-me tâo dignamente, como até agora 
o fez merecer, como espero, que Eu lhe responda compe- 
tentemente, accrescentando-o em Graças, e Mercês, como 
será justiça, e razáo. Palácio de Nossa Senhora da Ajuda 
em dezassete de Dezembro de mil sete centos noventa e 
dois. — Com Rubrica. 

PETIÇÃO. 

Senhora.— O Doutor João Pereira Ramos de Azeredo 
Coutinho Desembargador do Paço e Procurador da Real 
Coroa de V. Magestade, tem a honra de representar a V. 
Magestade com a mais profunda submissão, e reverencia, 
que tendo elle nascido de Pais Nobres, e Honrados na sua 
Casa de Marapicú, das mais fartas, e bem estabelecidas em 
fazendas do Recôncavo da Cidade do Rio de Janeiro, passou 
delia à Universidade de Coimbra a seguir os Estudos para 
se habilitar para o Real Serviço de V. Magestade, e nella 
se graduou Doutor em Cânones em 19 de Julho de 1744. 
e desde esse dia ate o presente Maio de 1791, tem-se em- 
pregado no Real Serviço pelo longo espaço de 47 annos 
quasi completos, contínuos, e sem interrupção, primeira- 
mente nos exercicios da vida de Oppositor às Cadeiras da 
Universidade, em que senio ao Augustissimo Senhor Rei 
D. João V, nos últimos seis annos da Sua Vida, sendo Al- 
motacépelo Corpo Académico no anno de 1747, Vice- 
Conservador, e Ouvidor dos Coutos no de 1748, e Conse- 
lheiro no mesmo anno. Pondo-se em Concurso em 1749 
a ultimo Cathedrilha de Cânones, ostentou, e fez opposição 



'\ 



— 453 — 

a ella em 44.** Lugar, e pelas acçoens desse Concurso veio 
informado ao dito Soberano com muita destincção. 

Na mesma Profissão da Vida Académica continuou a 
servir ao Augustissimo Senhor Rei D. José I, substituindo 
a ultima Cathedrilha de Cânones por todo o anno de 1751, 
foi creado Deputado no anno de 1754, e tornou a substi- 
tuir a mesma Cathedrilha por todo, o anno de 1754 ; e além 
desses Empregos, que todos sérvio por eleição dos res- 
pectivos Conselhos, substituio também a Cadeira do Sexto, 
c outras ; e todos os sobreditos Lugares por Avizos do 
Reitor em outras occasiões de moléstia, ou auzencia dos 
Proprietários, e eleitos para os servirem ; para o que sem- 
pre rezidio na Universidade, e esteve prompto para a servir 
em todos os cargos, e funcções, em que foi por ella occu- 
pado. 

Vindo a esta Capital depois de Terremoto de 1.® de No- 
vembro de 1755, foi convidado para uma Becca do Collcgio 
de S. Paulo por Carta do Reitor delle de 4 de Maio de 1 758. 
Estando porém ainda nesta Corte no anno de 1750, foi 
nella occupado pelo Conde de Oeiras em Serviço particular 
do dito Augustissimo Senhor, assistindo às Conferencias, 
que sobre a Reforma dos Estudos da Universidade se fazião 
em Caza do Reformador Reitor delia Gaspar de Snldanha; 
e sem embargo de se interromperem as ditas conferencias- 
pela Guerra com Hespanha, sempre ficou empregado no 
Serviço Régio, sustentando-se por causa delle à sua custa 
sem Lugar algum, e renda até 2 de Abril de 1763, em que foi 
despachado Dezembargador da Relação da Bahia, ficando em- 
pregado na Corte em Serviço particular do dito Senhor, 
mandando tomar posse da dita Beca por seu procurador, 
e sendo contado como prezente. Em 7 de Janeiro de 1708 
foi provido em um Lugar Ordinário de Dezembargador da 
jui.Ho. 58 



— 454 — 

Reinção do Porto. E por Decreto de 18 dí) mesmo de Ja- 
neiro foi nomeado Ajudante do Procurador da Coroa ((lue 
era nesse tempo o Sábio, e Egrégio Magistrado, que lioje 
tem a honra de ser Ministro e Secretario de Estado de V. 
Magestade da Repartição dos Negócios do Reino) com fa- 
culdade de o ser, assim para o despacho dos feitos, como 
lambera para os papeis^ dos Tribunaes; e neste exercicio 
iicou fazendo nesta Corte o lugar de Dezembargador do 
Porto. 

Creando o mesmo Augustissimo Senhor nesse mesmo 
anno de 1768 a Real Meza Censória, o nomeou Deputado 
Ordinário delia por Decreto de 9 de Abril, no qual decla- 
rou fazer-lhe Mercê do dito Lugar em consideração do 
merecimento. Letras, e conhecido zelo do serviço de Deus, 
e Seu, que nelle concorriáo. 

Por outro Real Decreto de 17 do Outubro próximo se- 
guinte lhe fez o mesmo Soberano a Mercê de nomeal-o 
Dezembargador da Caza da Supplicaçáo, para nella ter 
exercicio, com a mesma declaração do bem que elle o tinha 
servido ; e tomando posse do dito Lugar em 5 de Novem- 
bro do dito anno, desde então exercitou, na Meza da Coroa 
o Officio de Ajudante delia, em que jà estava provido. Em 
29 de Março de 1769 foi provido Procurador Geral da Santa 
Igreja de Lisboa, por Alvará passado peloCollegio da mes- 
ma Santa Igreja, para vigiar sobre a execução do Novo Re- 
gimento então dado pelo Em. Cardeal Saldanha para a 
administração, e arrecadação da Fazenda delia, tudo coma 
Regia Approvação do mesmo Senhor. 

Auzentando-se o Sábio Pi^ocurador da Coroa seu Coadju- 
tor seu Director, e seu Mestre nas funcçóes, e exercicios 
de Ajudante, em Agosto de 1769 para a sua Quinta do Ca- 
nal, ficou o Supplicante servindo o Lugar de Procuradoí* 



% 



da Coroa, c como Serventuário delie continuou a servil-o 
até 18 de Junho de 1771, em que passou a exercital-o como 
Proprietário do mesmo Lugar, que vagando entáo pela 
promoção do mesmo Sábio Procurador da Coroa para o 
Lugar de Ministro, e Secretario de Estado, foi conferido ao 
Supplicante por Decreto de 7 de Junho, depois de haver 
sido creado Dezembargador Ordinário de Aggravos para o 
servir por outro Decreto de 4 do mesmo mez. 

Havendo tornado a lembrar a urgente necessidade de se 
accudir com prompto remédio a grande decadência, em que 
se achavão os Estudos Geraes da Universidade de Coim- 
bra. Creou o mesmo Senhor Rei Reitor delia por Decreto 
de 14 de Maio de 1770 ao Dr. Francisco de Lemos de Fa- 
ria Pereira Coutinho, Irmão do Supplicante, que sendo 
Juiz Geral das Ordens Militares, Deputado do Santo Ofli- 
cio, da Real Meza Censória, e Dezembargador da Caza da 
Supplicação, e estando nella servindo uma Casa de Ag- 
gravos, fora nomeado Vigário Capitular, sem rezerva, do 
Bispado de Coimbra, e neste interino Governo se achava 
naquella Cidade. Para se cuidar effectivamente naprejec- 
lada Reforma dos Estatutos creou o mesmo Senhor uma 
Junta com a denominação da— Providencia Litteraria— por 
Decreto de 23 de Dezembro do mesmo anno, e no numero 
dos Conselheiros, de que formou, incluio o supplicante, e 
o novo Reitor seu Irmão. Teve a dita Junta a s.ia primeira 
Sessão em 29 de Janeiro de 1771, e trabalhando com o 
mais incansável disvelo na composição de Novos Estatutos 
para R(í forma Geral de todas as Sciencias, se concluio fe- 
lizmente a dita importantíssima obra em 28 de Agosto do 
anno seguinte, approvada, e revestida de força de Lei per- 
petua, e mandada executar, honrando muito o dito Monar- 
cha o exemplar 2e!o, e acerto, com que nella procedeu a 



— 436 — 

mi^^^HKi Junta, e dando a conhecer a grande, e completa 
^lisfa^áo. que delia recebeu, tanto pela grande importân- 
cia da obra. como pelo acerto, com que fora levada á sua 
uhiuKt conclusão. 

Da parte que nesta obra tiverão o supplicante, e o novo 
Reitor, seu Irmão nada diz o supplicante. Ao Régio Gabi- 
nete do Real Despacho de V. Magestade concorrem duas 
testemunhas ambas de vista, e ambas tão superiores a toda 
a excepção, como são os dous Sábios, e Egrégios Minis- 
tros, e Secretários de Estado dos Negócios do Reino, e do 
Ultramar, que depois de assistirem ambos a todas as Ses- 
sões da Junta, e de presenciarem tudo o que nella se pas- 
sava, subião a dar, ou a ouvir dar conta ao Augustissimo 
Senhor Rei D. José dos progressos da obra ; e principal- 
mente o dos Negócios do Reino, com o qual sempre o sup- 
plicaníe conferia as ideias, e planos, que formava, e com 
cujas luminosas, e judiciosas reflexões os aperfeiçoava, e 
se animava a produzil-os na Junta : confissão que o suppli- 
cante faz na Real Prezença de V. Magestade com a inge- 
nuidade que sempre fói característica do seu animo; para 
ficar servindo de perpetuo monumento da sua gratidão, do 
seu reconhecimento, e da justiça, que elle deve ás supe- 
riores luzes do seu verdadeiro Mestre, do seu Director, e 
do seu Bemfeitor. 

Da grande estimação, e apreço que dos novos Estatutos 
fez o xVugustissimo Senhor Rei Regenerador das Sciencias, 
ó evidente testemunho a Regia Carta de Sua Approvação. 
E do alto conceito que deiles fizerão as Naç(3es Sabias, e 
illustradas da Europa, são irrefragaveis tcslemunlios os 
que correm estampados nos Diários, e papeis periódicos 
da Historia Litteraria daquelles tempos, em que chegão a 
dizer, que nenhuma Nação se pode gloriar de ter um corpo 



I 



— 457 — 

de Estatutos de Iodas as Sciencias tão judiciosamente com- 
binado; eque se elles se observarem exactamente na Uni- 
versidade de Coimbra, ver-se-hâo sahir delia Sábios da pri- 
meira ordem ; além de outros semelhantes louvores da 
summa Ghristandade, e Religião, que por todas as partes 
resplandece nos mesmos Estatutos. 

Provido no Lugar de Procurador da Coroa, continuou 
a emprcgar-se no mesmo trabnlho da Reforma que conti- 
nuou ató final conclusão, que foi a 28 de Agosto de i772 ; 
respondendo ao mesmo tempo à numerosa alluviâo dos pa- 
peis das Confirmações Geraes, a que o mesmo Soberano 
havia chamado a seus Povos por Alvará de 6 de Maio 
de 1779. 

No anno de 1774 teve ordem do Marquez de Pombal 
para assistir nas quartas feiras, e sabbados de cada sema- 
na ás Conferencias, que faziáo em sua Caza, sobre Negócios 
do Erário, e duraváo todo o dia, sendo os outros Confe- 
rentes os Ministros de Estado, o Procurador da Fazenda, e 
o Thezoureiro Mór do dito Erário; e este novo trabalho, 
que tirava duas sétimas partes de cada uma semana, durou 
ate a fclicissima Exaltação de V. Magestade ao Excelso 
Throno destes Reinos. 

No mesmo anno de 1774, estando o Cardeal Conti para 
se recolher a Cúria Romana, finda a sua Legação Apostó- 
lica, ajustou com elle o Marquez de Pombal uma Concor- 
data com o Papa sobre os principaes pontos de Disciplina, 
e da Jurisdicçáo, que davão frequentes occasiões a queixas, 
que algumas vezes passarão a rompimentos formaes, com 
^perturbação da paz, e concórdia entre o Sacerdócio, e o 
^Império ; para assistir á composição dos artigos delia cha- 
mou tão somente o supplicante, debaixo de todas as re- 
commendaçóes de segredo ; e com effeito, sendo elle pre- 



â 



— 458 — 

sente em quanto durou a obra, se concluio a tal Concordala. 
e entregou ao dito Cardeal quando partio para Roma. Âc- 
contecendo porém íallecer o Santo Padre Clemente XIV. 
poucos dias depois da chegada de Conli a Roma, ficou a 
dita Concordata sem eíTeito. 

Era Abril do mesmo anno, pendente o trabalho da Con- 
cordata, e chegando o supplicante a Caza do Marquez a tem- 
po, em que com clle estava o Bispo de Beja, lhe entregou 
o dito Marquez um papel, dizenrlo-lhe que o lesse. Prin- 
cipiou o supplicante a lêl-o; vendo porém pelas primeiras 
regras delle, que o dito papel era um Decreto, em que o 
Augustissimo Senhor Rei D. José lhe fazia Merco do Lugar 
de Guarda Mor da Torre do Tombo, parando com a Leitura 
delle, disse ao dito Marquez, que não devia concluil-a, sem 
que primeiro lhe rendesse as graças devidas pela dita Mer- 
cê, que até se fazia muito estimável pela circumstancia 
delle nem se ter lembrado de pedil-a ; ao que respondeu o 
dito Marquez, que quando o merecimento fallava, nâo era 
necessário pedir; etudo presenciou o Bispo de Beja. queâ 
dita resposta do Marquez disse, que ainda assim sempre era 
necessário olhar com bons olhos. 

Pelo mesmo tempo sendo-lhe commettido na forma do 
costume, a liscaUsação dos Breves Facultativos das Graças, 
e Poderes, com que Mons.' Mutti, Arcebispo de Petra vi- 
nha succeder ao Cardeal Conli na Nunciatura Apostólica 
destes Reinos, fez um largo olTicio, em que requereu não 
só que se declarassem abusivas, e infraclorias das Cartas 
reversaes dos Núncios, algumas interpretações, que ellcs, 
o os Ministros da Legacia davão ás restrincções de algumas 
Graças, e Poderes, com que erão admitlidos os seus Breves ; 
mas também que se lhes restringissem de novo algumas 
outras, que não erâo menos prejudiciaes, c nocivas â Igre- 



\ 



— 439 — 

ja, â Coroa, c ao Bem Commiim dos Povos, as qiiaes apon- 
tava; accrescenlando, e concluindo, que lambem sedeviáo 
reformar as Minutas dos ditos Breves, de que vinhão mu- 
nidos os Núncios, formando-se paraelles novo Formulário 
concordado primeiramente com o Ministro de Estado do 
Reino, para que nelies se nâo incluisse Graça Faculdade, 
ou Poder algum, dos que se lhe achaváo já restrictos, e se 
houvessem de restringir quando se formassem. 

No anno de 1773, santificado pela Igreja com o Jubileu 
do Anno Santo, dividindo-se os votos dos Deputados da 
Real Meza Censória sobre a concessão do Régio Beneplá- 
cito á Bulia do dito Jubileu, expedida à Igreja, e á Naçáo 
Porlugueza ; e fazendo-se sobre esta mataria alguns papeis, 
com que os dous Partidos se degladiavâo, e batião com bas- 
tante acrimonia ; querendo o supplicante occorrer a algu- 
mas desordens, e mas consequências de se chegar a pôr 
em votos o merecimento dos ditos papeis ; deu conta ao 
Ministério do destemperado calor, de que estaváo agitados 
os espíritos, requerendo-lhe pozesse termo àquella nociva 
devisão de sentimentos dos Ministros delia. E teve ordem 
para dizer no acto em que se fosse a votar sobre a]dita ma- 
téria, que por Ordem deS. Magestade participada pelo Mi- 
nistro, e Secretario de Estado dos Negócios do Reino se 
achava encarregado de intimar á Meza, que o mesmo Se- 
nhor era Servido de Mandar-lbe, que todos os papeis que 
se havião feito sobre o dito assumpto, se sepultassem no 
mais secreto da Meza, para que delles nada traspirasse ao 
publico; impondo-se com o dito fim perpetuo silencio em 
tudo o que ao dito respeito se tinha passado na Meza ; e 
com esta diligencia cessou aquella indecorosa contenda, e 
se publicou a dita Bulia do Jubileu. 

Empunhando Y. Magestade o Real Sceptro Luzitanopara 



_ 460 — 

Uem universal de todos os Povos, e Vassallos, que Deus 
sujeitou ao Seu Supremo Império, e Havendo-se Servido 
por um puro effeito da Sua Real Benignidade de conservar 
o supplicante no exercício de lodos os referidos Lugares, 
que lhe havião sido conferidos por Seu Augustissimo Pai, 
lem o mesmo supplicante tido a grande, e inestimável 
honra de haver servido, e servir actualmente nelles a Y. 
Magestade, continuando em fiel desempenho do de Procu- 
rador da Coroa a promover, e defender os Direitos da Sua 
Real Coroa com o mesmo zelo, constância, e inteireza, 
com que já o havia feito em todo o Reinado de Seu Au- 
gustissimo Pai, 

Por Seu Real Decreto de 7 de Agosto de 1778 foi V. Ma- 
gestade Servida fazer Mercê ao supplicante de um lugar 
ordinário de Dezembargador do Paço, conservando-lhe o 
lugar de Procurador da Coroa, e em consequência desta 
apreciável Mercê, lhe fez também a do Titulo do Seu Con- 
selho, de que prestou Juramento em 27 de Septembro do 
mesmo anno. Juramento, que elle tem sempre trabalhado 
para cumprir, e observar religiosamente em todas as occa- 
siões, e actos, em que deve guardal-o. 

Achando-se o supplicante sem Ajudante para as fun- 
ções, e exercícios do lugar de Procurador da Coroa, por 
ter sido promovido a lugar ordinário de Aggravos o De- 
zembargador António Teixeira da Matta, que até enlâe ti- 
nha sido seu Ajudante : Houve V. Magestade por bem No- 
mear-Ihe para seu Ajudante o Dezembargador Bruno Ma- 
noel Monteiro, por Decreto de 22 de Agosto de 1783; e 
nelle foi Servida Declarar o que consta do theor do mesmo 
Real Decreto, concebido na forma, em que o supplicante 
o transcreve, para prova do muito que V. Magestade o 
honrou nelle. 



■* 



— 461 — 

« Teiulo Consideração a que os muitos Negócios, e ex- 
« traordinarios. de que Tenho encarregado immediata- 
« mente, c Poderei encarregar ao Dr. João Pereira Ramos 
« de Azeredo Coutinho, Procurador da Minha Coroa, fa- 
« zem impraticável, que elle possa responder em tempo 
« ao grande numero de papeis, que lhe são remettidos em 
« razão do seu olTicio pelo expediente ordinário dos Tri- 
« bunaes : Hei por bem Nomear-lhe por Ajudante o Dr. 
« Bruno Manoel Monteiro, DezembargadordosAggravos 
€ da Caza da Supplicação, para que, como se fora Serven- 
€ luario, haja de responder por si só a todos os papeis, que 
« pelo Procurador da Coroa lhe forem commettidos ; bem 
t entendido, que nunca poderá commetter-lhe aquelles 
« papeis, que pelos Tribunaes lhe forem especialmente di- 
« rígidos. O Chanceller da Caza da Supplicação Ac. 

Querendo V. Magestade reformar a Legislação dos Seus 
Reinos, útil. e glorioso projecto para a felicidade desta Mo- 
narchia, tirando-a da confuzão, em que se acha pela mul- 
tidão de Leis, fez convocar uma Junta de Ministros, a que 
assistio o supplicante; e foi de parecer, que para a pro 
jectada Reforma das Leis se poder fazer em forma digna do 
gloriosíssimo Reinado de V. Magestade, e com maior uti- 
lidade dos Seus Vassallos, se devia proceder à composição 
d'um Novo Código, que fosse um corpo systematico com- 
pleto, e organísado com todas as suas partes, e ordenadas 
pelo methodo natural. 

V. Magestade o incluio no numero dos Censores, e nesta 
qualidade assistio às Conferencias por muito tempo na Caza- 
do Respeitável Sábio, e Circunspecto Visconde, Ministro, 
c Secretario de Estado, e Presidente da Junta. E por quanto 
o Livro 2.® SC achava em lermos de se offerecerá Censura, 
para se apurar, c pôr em estado de se poder approvar, e 

JULHO. 59 



/ 



— 462 — 

authorisar por V. Magestado : Houve Y. Magestade por 
bem Crear Nova Junta de Ministros para a Censura, e apu- 
ração delle, debaixo da Luminosa Inspecção, e Presidência 
do Egrégio Ministro, e Secretario d*Estado actual dos 
Negócios do Reino, na forma do Decreto de 3 de Fevereiro 
de 1789. E Mandando V. Magestade no mesmo Seu Real 
Decreto, que á dita Junta concorra também o supplicante, 
quando para eíla for chamado pelo mesmo Seu Ministro de 
Estado ; foi Servida explicar-se acerca delle com as expres- 
sões, que se lêem no mesmo Real Decreto (ibi.) 

« E por quanto o Dr. João Pereira Ramos de Azeredo 
í Coutinho do Meu Conselho, Dezembargador do Paço. c 
« Procurador da Minha Real Coroa, assim em razão do seu 
« oflicio, como principalmente pelas luzes claras, e supc- 
« rioros, que tem nestas matérias, asquaes elle com zelo, 
« e descripçáo, depois de ser o primeiro, que nestes tem- 
« posas cultivou; foi também o primeiro, que procurou 
• influíl-as, e derramal-as : Hei por bem que assista, e 
t dirija as Conferencias dos ditos Magistrados ; sempre 
« que para ellas for chamado pelo Presidente. 

Expressões verdadeiramente gloriosas para o supplicante 
e summamente dignas do mais alto apreço d'um vassallo. 

Por Decreto de 17 de Junho, e Alvará de 2 de Julho de 
1789 V. Magestade lhe fez a Mercê de Juiz Conservador 
Geral, e Executor do Tabaco. 

O Senhor Rei D. Pedro Hl, qucjaz em Santa Paz, cDes- 
canço, lhe Conferio um Lugar de Deputado da Meza Prio- 
ral do Crato, por Carta de 27 de Agosto de 1784. E por 
extincção da dita Meza Prioral, foi provido pelo Principo 
Nosso Senhor em um Lugar da Junta do Infantado, por 
Decreto de 18 de Dezembro de 1790, no qm\ tem a grande 
honra de servir presentemente aS. A. R. 



n 



— 403 — 

Por Decreto de ál de Novembro de 1789. FoiV. Ma- 
gestade Servida Nomeal-o Ministro da Junta do Exame do 
estado actual, e melhoramento temporal das Ordens Ue- 
guiares. 

E por Alvará de 21 de Abril de 1790 lhe fez V. Mages- 
tade a outra inestimável honra de Creal-o Secretario da 
Princeza Nossa Senhora. 

Sendo tantos, e tão diversos os Empregos do Real Ser- 
viço, em que o supplicante tem sido sempre occupado 
desde que teve a honra de entrar nelle ; tendo elle feito 
tantos, e tão importantes serviços, como sâo os referidos, 
assim ordinários, e próprios dos lugares, em que tem sido 
provido, como também os extraordinários, que por serem 
de outra ordem superior, e não pertencerem ás funções 
da Magistratura, se devem qualificar de mais relevantes; e 
além dos referidos, outros muitos, que expõem, por serem 
constantes, e notórios a V. Magestade, aos Ministros, e 
Secretários de Estado, e ao publico, poderia parecer ao 
supplicante, que por todos, e cada um dos ditos serviços 
se tem elle feito digno na Real Prezença de V. Magestade 
d'uma remunerarão, e premio correspondente, não ao 
valor intrínseco delles, que o supplicante reconhece ser 
nenhum; porque muito mais deve, e deverá sempre o 
supplicante á honrti, que os Augustissimos Senhores Reis 
Pai, e Avô de V. Magestade lhe tem feito de o habilitarem, 
c empregarem no mesmo Seu Real Serviço, eá que V. Ma- 
gestade da mesma sorte lhe tem feito, e faz de o conservar 
nos lugares, em que elle foi provido por Seu Auguslissi- 
mo Pai, e conferido os outros já referidos, com que mais o 
tem honrado, e condecorado ; mas sim tão somente á gran- 
de impressão, que no Generoso, e Liberal Animo de V. 
Magestade costumâo fazer os Serviços obrados por Vassal- 



— I6f — 

I io4u$ iv; erforÇriís possíveis para servir a V. 

rbaani. eomzelu. com lealdade, com justi- 

K com intelligencia, e com desinteresse, c 

.^^•m ^rrilííMndo a bem do Real Serviço com muita 

^í^rti^xjk\ egosto todos os seus interesses, como é publico, 

^ in^MrJo ter feito o supplicante. 

IMrèin» Augustissimo Senhora, para que os Serviços 
«èrsKios pelo supplicante a V. Magestade, e a Seus Augus- 
tissímos Pai, e Avô possão fazer a mesma impressão no Real 
Animo de V. Magestade, faz-se também preciso ao suppli- 
cante mover, e inclinara seu favor a Real, e Incomparável 
Piedade de V. Magestade, e pedir-lhe as Suas Máos Auxi- 
liares com a Sua Real Grandeza. Para esse fim representa 
mais a V. Magestade. que tendo elle tido a honra ãe servir 
a tantos, e tão Generosos, e Magnânimos Monarchas, pelo 
longo espaço dos já numerados 46 para 47 annos, ató agora 
não tem recebido da Sua Regia, e Incomparável Grandeza 
Mercê, ou Demonstração alguma ulil, e fructuosa de lhe 
terem sido os seus serviços bera acceitos. Pois que a única 
Mercê Regia dessa natureza, que tem hido em toda a sua 
vida, é a do simples Habito de Christo com a insignificante 
Tença de 20 S rs. por Mercê do Augustissimo Senlior Rei 
D. João V, de 1729, requerida por seu Pai em premio dos 
serviços d' um parente estando o supplicante ainda na in- 
fância. Nem também o supplicante se tem animado ató 
agora a supplicar a V. Magestade Despacho de seus serviços, 
por se achar plenamente convencido de que o não tem 
merecido, e querer servir mais tempo para poder mais 
merecer. 

O Suppficante. Augiistissima Senhora, está chegado no 
ultimo quartel da sua vida ; vc-sc cercado de filhos ; olha 
para a caza, em que nasceu, c vô-a reduzida do florente 



^ 



— 4G5 -r 

estado, cm que deixou quando delia sahio, tâo somente 
para se empregar no Régio Serviço, ao de uma lamentável 
•decadência, causada por uma parte pela longa auzencia do 
suppiicante delia ha mais de 30 annos ; e pela outra parte 
pelas grossas e avultadas despezas, com que ella lhe tem 
contribuído, primeiramente para a própria sustentação delle 
n(5stes Reinos, c logo depois para a de três Irmáos seus. 
que elle fez vir para a sua companhia para os educar, o 
habilitar para o mesmo Real serviço, em que também tem 
tido a honra de haverem sido occupados. 

E para se não entregar á ultima perturbação do seu es- 
pirito com as tristes considerações da futura sorte dos seus 
filhos, e da sua familia depois das suas cinzas, nem se expor 
a que sendo prevenido pela morte, até lhe falte o tempo 
para pedir a V. Magestade o Despacho dos ditos serviços. 
Recorre finalmente ao mesmo tempo á Soberana Grandeza, 
cá Summa Piedade de V. Magestade, e lhe supplica com a 
mais profunda submissão, e reverencia que Haja por bem 
Attendello, e Despachallo por todos os seus referidos ser- 
viços, com aquellas Honras, Graças, c Mercês, que lhe 
dictarem ambas as ditas Reaes Virtudes igualmente pos- 
suidas porV. Magestade no gráo mais heróico, para que 
honradas, e utilizadas com ellas na própria pessoa do sup- 
piicante as cans por elle adquiridas no Real Serviço de V. 
Magestade (as quaes poucas esperanças lhe dão de poder 
desfructallas por muito tempo) e contemplado também nas 
mesmas Mercês Regias, pela forma, e modo que mais for 
do Real Agrado de V. Magestade, o filho primogénito do 
suppiicante; (que jà frequenta as Aulas de Coimbra, para 
poder também aspirar á honra de servir a V. Magestade) e 
na falta delle, o que houver de succeder na sua Gaza; possa 
o suppiicante passar o resto de seus dias com mais satis- 



— 46C — 

façáo, c socego de espirito ; e cobrando com as ditas Mer- 
cês novos alentos, possa também com maior consolarão, e 
alacridade esperar no Real Serviço de V. Magestade o dia 
fatal, e nelle mesmo exhale os últimos 'alentos da vida — 
E. R. M. 



Relação dos Doemuentos Juntos. 

Certidão dos Serviços de Oppozitor às Cadeiras da Univer- 
sidade feitos nos annosde 1744. até o de 1753. 

Cartas dos Reitores do Collegio deS. Paulo, de que consta 
ter sido acceito Collegial do dito Collegio, de 4 de De- 
zembro de 1738, de 7, e 20 de Fevereiro, e de 3, 21, c 
24 de Maio de 1762. 

Carta do Desembargador da Relaçáo da Bahia, ficando occu- 
pado na Corte no Real Serviço, de 14 de Junho de 1763. 

Carta ao Chanceller da Bahia para se lhe pagarem là so- 
mente as braçagens do dito lugar, por lhe ter S. Mages- 
tade Mandado pagar o Ordenado, e Propinas pelo Real 
Erário, de 2 de Novembro de 1763. 

Carta de Desembargador da Relação e Caza do Porto de 9 de 
Janeiro de 1708. 

Decreto da Nomeação de Ajudante do Procurador da Coroa 

de 18 de Janeiro de 1768. 
Carta de Deputado da Real Meza Censória de 22 de Abril 

de 1768. 
Carta de Desembargador da Caza da Supplicação de 27 de 

Outubro de 1768. 
Alvará de Procurador Geral da Santa Igreja de Lisboa de 

29 de Março de 1769. 



— 467 — 

Carla do Erocçíio da Junta da Providencia Littcraria de 23 
de Dezembro de 1770. 

Carta de um Lugar de Desembargador dos Aggravos de 14 
de Junho de 1771. 

Carla de Procurador da Coroa de 14 de Junho de 1771. 

Carta de Confirmação dos Novos Estatutos da Universi- 
dade de Coimbra de 28 de Agosto de 1772. 

Carta de Guarda Mór do Real Archivo da Torre do Tombo 
de 29 de Abril de 1774. 

Decreto da Nomeação de Conselheiro do Código de 31 de 

Março de 1778. 
Carta de Desembargador do Paço, e Petições de 17 de 

Agosto de 1778. 
Carta do Titulo do Conselho de S. Magestade de 23 de 

Agosto de 1778. 

Decreto da Nomeação do Dr. Bruno Manoel Monteiro para 
seu Ajudante de 22 de Agosto de 1783. 

Carta de Deputado da Meza Prioral do Crato de 27 de Agos- 
to de 1784. 

Decreto para assistir, e dirigir as Conferencias do Exame, 
e Censura do Direito Publico, sempre que para ellas for 
avizado pelo Presidente de 3 de Fevereiro de 1789. 

Alvará de Juiz Conservador da Junta da Administração do 
Tabaco de 2 Julho de 1789. 

Decreto da Nomeação de Deputado da Junta do Exame do 
estado actual, e melhoramento temporal das Ordens Re- 
gulares de 21 de Novembro de 1789. 

Decreto da Nomeação de Secretario da Princeza N. Senho- 
ra de 16 de Novembro de 1790. 

Carta de Deputado da Junta da Sereníssima Caza do Infan- 
tado de 12 de Janeiro de 1791. 



^ 468 — 
PETIÇÃO. 

Senhora. — Além dos próprios Serviços, que o Suppli- 
cante acaba de expor, tem mais os de seu Irmão Clemente 
Pereira de Azeredo Coutinho e Sello, que lhe pertencem 
por titulo de Doação causa mor tis. 

O dito seu Irmão desde os seus primeiros annostendo-se 
applicado às Letras, seguiu a Universidade, onde se For- 
mou, e fez Actos Grandes da Faculdade de Cânones, em 
que deu publicamente todas as provas dos seus bons ta- 
lentos, e da sua instrucção : porém abrasado no dezejo de 
se empregar com mais promptidáo no Serviço do Seu So- 
berano, e ser útil ao Estado ? parecendo-lhe vagaroza a car- 
reira, que seguia, e em que via o supplicante, e que lhe re- 
tardava os passos do seu animo propenso à Profissão Mili- 
tar; procurou servir no exercicio das Armas, como em um 
Elemento próprio para dar toda a extensão ao seu génio. 
Com eíTeito conseguio que o Senhor Rei D. José o Despa- 
chasse Capitão de Dragoens, por Decreto de 28 de Maio de 
1760, levantando uma companhia á sua custa no Piauhy, 
de que se lhe passou Patente em 3 de Junho, e outra do 
1.® de Julho, todas do mesmo anno, para vir exercitar o 
referido Posto, depois de ter ali servido seis annos, pelo 
dito Decreto de 28 de Maio ; pelo que assentou Praça na 
Vedoria desta Corte em 7 de Julho do mesmo anno, ficando 
Capitão Aggregado á Companhia de Cavallaria, de que era 
Capitão o Marquez de Fronteira no Regimento de Cavalla- 
ria de Alcântara. 

Não teve o Irmão do Supplicante nesta Corte mais de- 
mora do que a necessária para a expedição das suas Pa- 
tentes, do armamento, e mais aprestos respectivos á dita 
Companhia; e partio na fi^imeira occaziáo, qee teve de 



— 409 — 

.\avio pan a Cidade de S. Luiz do iMaranhâo, aonde, dispon- 
do-se com a mesma promptidáo a principiar a jornada do 
sertão, que lhe restava, chegou à Capital do Piauhy a 23 de 
Dezembro do dito anno : nelia appresentou as suas Paten- 
tes ao Governador da Capitania, que entáo era João Pereira 
Caldas, c por despacho do mesmo Governador teve naquella 
Vedoria a 27 do mesmo mez assento de Capitão da compa- 
nhia de Dragões, que S. Magestade Mandava Crear de novo. 
Não apparecendo porém outras Ordens mais especificas 
para a creação da dita companhia de Dragões, que não fos- 
sem as referidas Patentes do Supplicante, que elle appre- 
sentou, duvidou-se se elle devia ser só por ellas admittido 
a levantalla : para remover esta duvida sujeitou-se por Ter- 
mo, que fez a estar por tudo quanto o Senhor Rei D. José 
Determinasse a este respeito ; applicando por este modo os 
meios, que lhe erão possiveis para que tivesse prompto 
cíTeito o serviço da dita companhia. Duvidou-se também se 
com elle se deveria praticar o Contrato estabelecido neste 
Reino com os Capitães deCavallo; e reconhecendo elle, 
que esta decizão dependia da Resolução do Senhor Rei D. 
José, a quem o Governador devia informar do que fosse 
naquella Capitania mais conveniente ao Real Serviço; não 
só se absteve de fazer os requerimentos, que Iheconvinhão; 
mas esteve por muitos mezes fazendo á sua custa todas as 
preparações, e concertos necessários á dita companhia, até 
que o dito Governador os principiou a mandar fazer por 
despeza daquelle Almoxarifado ; perdendo elle, não só aâ 
despczas já feitas á sua custa, mas todos os interesses, que 
poderia ter, praticando-se alli as providencias da arca, c 
contrato ; c ficando percebendo naquelle sertão tão somente 
o Soldo de 40 S rs. por mez, que é o dos Capitães de Ca- 
vallos das Terras da Gosta. 

JULHO. 60 



'- _ 470 — 

O dito Irmão do Supplicanto encheu Iodas as condições, 
a que se tinha obrigado: levantou a sua companhia, fome- 
cendo-a toda ã sua custa com os melhores, e mais luzidos 
armamentos, Cavallos, aprestos, e petrechos, como testi- 
ficou o dito Governador João Pereira Caldas na sua Attesta- 
çâo passada no 1.** de Agosto de 1769, em que declara es- 
pecificamente que o Irmão do Supplicante satisfizera com 
muito grande bizarria, não só na que praticou na nomeação 
dos Postos dos seus OflQciaes Subalternos, em que, contra 
o ordinário costume, se dispensou de todo o interesse; 
como também na que igualmente observou na compra, e 
escolha de todos aquelles excellentes, e perfeitíssimos ar- 
mamentos, e mais preparos, e pertenças da dita companhia, 
por ser tudo do melhor, que podia descobrir. E que de- 
pois disso não só se tinha empregado com muita destincçáo 
no Real Serviço, executando exactissimamente todas as or- 
dens, e diligencias, de que o tinha encarregado o dito Go- 
vernador; como também por o ter acompanhado em todas 
as repetidas, dilatadas, e escabrozas jornadas, que por 
aquelles sertões tinha feito abem do mesmo Real Serviço; 
assistindo juntamente á fundação de todas as Villas. que 
por Ordem do Senhor Rei D. José tinha andado erigindo 
por aquelle Governo, eportando-se sempre em todas aquel- 
las, e mais occaziões com muito luzimento, grande honra, 
actividade, e préstimo. 

Por ordem do dito Governador de 24 de Janeiro de 17GG 
foi o dito Irmão do Supplicante acompanhar o Conde da 
Azambuja quando passou a governar a Bahia, passando com 
elle inexplicáveis inclemências, e perigos, pelos riscos da 
jornada por aquelles sertões faltos até do necessário sus- 
tento, e de agoa, que apenas se achava nos pestilentes 
charcos, pela grande sêcca que então havia ; de sorte que 



r^ 



— 471 — 

morrerão os cavallos, e se virão precisados a caminhar a 
pé ; c nesta occazião trabalhou o mesmo Irmão do Suppli- 
cante com grande constância, e valor pondo em execução 
(juanto este Governador lhe ordenou, como elle especifica 
na sua Attestação de o de Maio de 1766. 

Voltando da Cidade da Bahia com uma partida de Solda- 
dos da sua Companhia, que sustentou à sua custa, com- 
prando novos cavallos para a retirada, chegou ao Piauhy 
em 24 de Dezembro do dito anno, como tudo consta da fó 
de oílicio. Preenchidos, não só os seis annos ; mas também 
todo o tempo que vai de 27 de Dezembro de 1760, em que 
assentou Praça na Capital de Piauhy, ató H de Junho de 
1770, em que deu baixa da Praça, que nella tinha obtido, 
de Capitão da Companhia de Dragões, ficou sempre con- 
servando a de Capitão Aggregado ao Regimento de Caval- 
laria da Corte, fazendo nesta jornada muito avultadas des- 
pezas á sua própria custa. 

Tendo de fazer o dito irmão do Supplicante o seu re- 
gresso pelo Porto do Maranhão, sem attender ás commo- 
didades, que lhe resultarião de o fazer por um caminho mais 
breve, e mais seguido, foi voluntariamente á vista de S. João 
da Pernahiba, cento e dez legoas distante da capital de 
Piauhy, encarregado pelo seu Governador; que então era 
Gonçallo Lourenço Botelho, de diligencias muito interes- 
santes ao Real Serviço ; e nesta Villa se deteve o tempo ne- 
cessário a concluillas no meio da cruel epidemia, que in- 
festava, e que levava todos os dias á sepultura muito dos 
seus moradores. 

Feito este serviço, passou o Irmão do supplicante ao Ma- 
ranhão, onde embarcou para esta Corte ; e depois de ter a 
honra de beijar a Augusta Mão do Senhor Rei D. José, foi 
Despachado Governador da Capitania do Maranhão, de que 



— 47a — 

SC lhe passou Patente em 23 de Janeiro de 1774, onde cer- 
tamente faria grandes, e úteis serviços, como já tinha dado 
bastantes provas, se a morto não encurtasse tanto a sua 
vida : ficando inúteis, e perdidas todas as dcspezas, que 
tinha feito para o seu transporte desta Corte, que lhe im- 
portarão em mais de 10 g cruzados, além de mais de 20 $ 
que gastou em ir a Paiz tão remoto levantar a dita compa- 
nhia de Dragões, sem nelles se incluirem os gastos d\ 
creaçâo da dita companhia, os quaes todos tem recaindo na 
pessoa do supplicante, e em sustentar-se por tão longas, e 
repetidas jornadas em procurar os meios mais elTicazes de 
fazer effectivas as diligencias, de que foi incumbido, e em 
manter a independência, e desinteresse, que devem ter, os 
que lem a honra de servir aos seus Soberanos, muito prin- 
cipalmente naquelles Paizes. 

Por todo estes 14 annos de seniços contados desde 24 
de Dezembro de 1760, cm que assentou praça, até 13 de 
Fevereiro de 1774, em que faleceu em actual exercicio; os 
quaes serviços pertencem ao supplicante por virtude da 
dita Doação, espera o supplicante que V. Magostade se 
digne attendello com a Liberdade própria da Sua Real 
Grandeza.— E. R. M. 



Relaçtlo dos Doetimentos Juntos. 

Escriptura de Doaçáo causa mortis celebrada em 8 de Maio 
de 17G5 nas Notas de Francisco Xavier Lino. Tnbellião 
na Cidade de Oeiras, Freguezia de N. S. da Victoria da 
Capitania de S. José de Piauhy. 

Patente de Capitão da companhia de Dragões, creada no 
Piauhy em 3 de Junho de 1760. 

Patente de Capitão de Dragões em o 1 ." de Jullio do 1760, 



n 



— 473 — 

Certidão do dia cm que assentou Praça de Capitão de Dra- 
gões, que foi em 7 de Julho de 1760. 

Fé de OlGcios de Capitão de Dragões no Piauhy em 10 de 
Junho de 1770. 

Certidão do Termo que fez no levantamento da compa- 
nhia &c. em 8 de Abril de 1761 &c. 

Altestação dos serviços feitos no Piauhy em Praça de Capi- 
tão de Dragões em o 1 .® de Agosto de 1769, passada por 
João Pereira Caldas Governador da dita Capitania. 

Attestação dos mesmos serviços, passada por Gonçalo Lou- 
renço Botelho, Governador da dita Capitania em 7 de Ju- 
nho de 1770. 

Certidão passada pelo Conde de Azambuja, Governador, 
e Capitão General da Bahia em 5 de Maio de 1766. 

Certidão do Alvará de folha corrida em 19 de Maio de 1770. 

Patente de Governador do Maranhão em 25 de Janeiro 
de 1774. 

Carta de S. Magestade para se lhe dar a posse, na mesma 
dat:). 

Carta de participação de S. Magestade para os Ofliciaes da 
Camará da dita Capitania na mesma data. 

Certidão de Óbito, que foi a 13 de Fevereiro de 1774. É 
passada pelo Prior da Freguezia de Santos. 



PETIÇÃO. 

é 

Senhora.— O Bispo Conde dezejoso de mostrar-se agra- 
decido a seu Irmão o Desembargador João Pereira Ramos 
de Azeredo Coutinho, ao qual deveu sempre desde os pri- 
meiros annos todos os cuidados d'um bom Pai, vem rogar 
a V. Magestade queira dignar-se fazer ao dito seu Irmáo, e 



f 



~ 474 — 

a seu Filho, que lhe houver de succcdcr na sua caza, 
aquella Graça, que o Supplicante poderia esperar da Gran- 
deza de V. Magestade pelos Serviços que o supplicante 
tem feito a V. Magestade, ao Augustissimo Senhor Rei D. 
José de Glorioza Memoria, e ao Estado. 

O Supplicante conhece o quanto os seus serviços são pe- 
quenos ; elle mesmo não tem animo de os appresentar a V. 
Magestade ; pois que a simples ideia de pedir por elles a 
mais pequena recompensa o enche de pejo, e de vergonha : 
elle ficaria mudo, se a Benignidade de V. Magestade, e dos 
Seus Soberanos Progenitores não tivessem permittido. e 
mesmo mandado pelas suas Leis, que os Yassallos que ti- 
vessem servido ao Estado, appresentassem as provas dos 
seus serviços ; sem duvida, ou para serem recompensados, 
dando-se um exemplo a todos para mais, e mais os convi- 
dar a bem servirem ; ou para serem desprezados, em cas- 
tigo do pouco, ou nada. que satisfizerão os seus deveres. 

Esta Ordem, consoladora para o supplicante, o anima a 
pedir a V. Magestade, se digne conceder-lhe alguns ins- 
tantes para fazer uma breve exposição dos seus trabalhos 
litterarios, e daquillo, de que V. Magestade e Seu Augusto 
Pai e encarregarão. 

O supplicante entrou para o Gollegio dos Militares, como 
porcionista, em 30 de Junho de 1732: passou a ser Colle- 
gial do mesmo Gollegio em 6 de Septerabro de 17o4 ; e no 
dia 24 de Outubro do mesmo anno foi Graduado Doutor 
emGanones. Continuou depois a vida Académica: e sendo 
Oppozitor ás Cadeiras rezidio amargamente ; fez lições 
aos estudantes nos Bacharéis, Formaturas, c Actos Gran- 
des ; argumentou nas Goncluzões Magnas, pelos turnos ; 
substituio Cadeiras; ostentou, c fez Opposição á Cadeira 
do L.o G.® das Decretaes, que'se pôz em Concurso no anno 



% 



— 473 — 

de 1 7Gíj ; o a ludo satisfez na conformidade do Decreto de 
23 de Janeiro do mesmo anno, que deu nova forma para os 
Actos Littcrarios nos Concursos das Cadeiras. 

Sendo Reitor do Collegio dos Militares em 31 de Julho 
de 17GI, promoveu utilmente a adiantamento, e interesses 
do mesmo Collegio. Nos seus exercidos Académicos sérvio 
o Supplicante ao Augustissimo Senhor Rei D. José por 
tempo de doze annos e meio contínuos, desde 1704, cm 
que tomou o Grão de Doutor, ató 29 de Agosto de 17G7, 
em que o mesmo Senhor lhe fez Mercê do Lugar de Juiz 
Geral das Ordens MiHtares ; c vindo logo exercitallo nesta 
Corte, foi, pouco depois, despachado Desembargador da 
Gaza da Supplicaçáo, por Decreto de 18 de Janeiro de 
17G8, com a clauzula de fazer Exame vago antes da posse 
do dito Lugar, por virtude da sua Carta de 16 de Julho do 
mesmo anno, em breves tempos passou a seryir uma Gaza 
de Aggravos, em que trabalhou por mostrar a sua activida- 
de, inteireza e rectidão. 

Por Carta de 29 do dito mez de Janeiro, e anno de 1768 
foi o supplicante provido ein um lugar Extraordinário do 
Tribunal do Santo Oflicio da Inquisição de Lisboa : e crean- 
do o Senhor Rei D. José a Meza Censória, foi o suppli- 
cante um dos primeiros Deputados Ordinários delia no- 
meado na Carta de 22 de Abril do dito anno de 1768. 

Estando o supplicante empregado nos ditos Lugares, foi 
nomeado Vigário capitular pelo Cabido de Coimbra, para, 
sem reserva alguma de Jurisdicção. governar aquelle Bis- 
pado, pelo impedimento do seu legitimo Pastor: o que tudo 
foi approvado pelo Senhor Rei D. José por Carta de 12 de 
Dezembro de 17G8, dirigida no Avizo de 17 de Dezembro 
do mesmo anno. 

Esta commissáo era critica, sem duvida, pelas circums^ 



/ 



— 476 — 

tancias, e desordens, em que as cousas se achavão: alizon- 
ja, e a intriga principiarão logo a fazer os seus oíTicios. 
accumulando males sobre males, que a custa de nâo peque- 
nas fadigas pôde o supplicante desviar, e pôr tudo em paz, 
e no mesmo estado, em que o seu antecessor tinha dei- 
xado. 

No exercido das ditas occupações se conservou o suppli- 
cante até 14 de Maio de 1770, em que o mesmo Senhor 
Rei D. José o Nomeou Reitor da Universidade de Coimbra, 
para a Reforma dos Estudos, aos quaes se hia dar novo me- 
thodo, e bom gosto. Para este fim veio o Supplicante 
promptamente a esta Corte a beijar a Regia Mão Benéfica, 
e prestar o Juramento do seu importantíssimo lugar. E 
creando o mesmo Senhor no dito anno a Junta da Provi- 
dencia Litteraria, para nella se disporem os meios mais 
próprios, e conducentes para se reformarem os Estudos 
de todas as Sciencias, e Faculdades, o Nomeou um dos 
Conselheiros no Decreto de 23 de Dezembro de 1 770. Con- 
cluída a Obra dos Novos Estatutos, foi provido no lugar de 
Reformador por Decreto de H de Septembro de 1772, c 
condecorado com Titulo do Conselho de S. Magestade. 

Depois partiu o supplicante para aquella Cidade a man- 
dar apromptar as cousas necessárias, e as Cazas para o 
Estabelecimento da Reforma encarregada pelo dito Senhor 
.10 Marquez de Pombal; etudo executou promptamente, 
de modo que o dito Marquez pôde facilmente executar a 
Regia Commissão, e recolher-se a esta Capital no breve 
espaço d' um mez. 

O dito Marquez, como Lugar Tenente de S. Magestade 
para a dita Reforma, depois de significar â mesma Univer- 
sidade o quanto o dito Senhor estava satisfeito do zelo, c 
dezempenho, com que o supplicante se tinha comportado 



I 



— 477 — 

nas suas obrigações, o encarregou de tudo o mais, que se 
devera fazer era consequência. Era necessário reformar os 
Estudantes; reformar e fazer de novo muitos edifícios: o 
supplicantc passa a dará V. Magestade uma breve noçáo do 
que pertence aos Edifícios ; depois passará ao que pertence 
aos estudantes. 

Novos Estudos, novas Sciencias pedião novas Aulas, no- 
vos edifícios para a sua boa accommodaçSo . O supplicante 
fez edifícar de novo um magnifíco Muzeu, que em todo o 
tempo, não só fizesse ver a Poderosa, e Augusta Mão do 
seu Autor ; mas também, que tivesse as Cazas necessárias. 
Fez também bom Gabinete de Historia Natural, com salas 
proporcionadas, para nellas se depozitarem as ricas, e raras 
producções da Natureza, destribuidas pelos trez Reinos 
Animal, Vegetal, eMineral.Fezoutro Gabinete de Physica 
Experimental com muitas Maquinas, e Instrumentos ri- 
quíssimos da melhor escolha para todas as experiências. 

Fez de novo um Laboratório Chimico com todas as suas 
Officinas necessárias: um Dispensatório Pharmaceutico : 
um Observatório Astronómico com muitos e diversos Te- 
lescópios : um Hospital com Aulaspara a Medicina Pratica : 
um Theatro Anatómico : uma Imprensa Regia com os ca- 
racteres, e Instrumentos necessários. 

No antigo Paço das Escolas fez renovar as Aulas, e man- 
dou abrir Tribunaes em cada uma delias para os Reitores 
com facilidade, e sem serem vistos, de dentro da Gaza Rei- 
toral verem, c ouvirem quasi ao mesmo tempo todos os 
Exercicios Académicos. Por baixo das abobadas das ditas 
Aulas, e nas lojeas delias, que quasi de nada servião, fez o 
supplicante abrir accommodações excellentes para uma boa 
Caza de Secretaria, e seu Cartório, o para salas do Con- 
selho da Fazenda : uma Caza forte para o Cofre ; reformou 

JULHO. 64 



— 478 — 

a Caza Reitoral ; e fez abrir communicações interiores para 
todas as ditas Aulas, Salas, e Gazas. 

Fez uma Caza para as Audiências da Conservatória, e 
uma Cadeia lavada dos ventos, tudo por baixo da grande 
Livraria da Universidade. Deu principio a um Jardim Bo- 
tânico, para o qual descobriu agua em abundância, e para 
a Cidade: Concertou Aulas, Sellas, e OíTicinas do Real 
Collegio das Artes : fez estabelecer uma Fabrica de Azule- 
jos, e de telhas vidradas para as mesmas Obras da Univer- 
sidade. 

Ao mesmo tempo foi o supplicante também encarregado 
da Inspecção das Obras do Real Convento de Santa Clara da- 
quella Cidade? por Carta Regia de 3 de Dezembro de 1773. 

De todas as obras da Universidade remetteu o suppli- 
cante o Balanço geral com a boa administração da Fazenda, 
que tudo foi approvado, mandando-se continuar o plano, 
que fez dos Balanços no fim de cada mez, para melhor co- 
nhecimento das despezas. Deu -se -lhe faculdade ampla 
para fazer todas as mais obras, que ao supplicante pare- 
cessem convenientes, com a certeza de serem indefecti- 
velmente approvadas, como foráo todas as que o suppli- 
cante completou; assim como também os meios, de que 
uzou para suprir a falta de dinheiro, que então havia no 
Cofre da Fazenda da Universidade : tudo consta das Cartas 
juntas a esta Supplica, escritas ao supplicante pelo Marquez 
de Pombal, Ministro de Estado, que então era. 

Vendo porém o Senhor Rei D. José que as rendas, que 
até então tinha aquella Universidade, não erão bastantes 
para bem encher as suas altas ideias, lhe fez com Mão Li- 
beral uma Doação, digna, sem duvida, da Grandeza de 
um Soberano, e que fará eterna a sua memoria nos Fastos 
d'aquaella Reformada Academia. 



% 



— 47» — 

Pelo que pertence aos Estudantes, conhecendo o suppli- 
cante que as Universidades são Escolas, não só de Letras, 
mas também de virtudes ; trabalhou por uma parte em ex- 
tinguir a abuziva liberdade da dissolução dos costumes da 
mocidade, inspirando-lhes os princípios da boa moral ;c 
por outra parte suscitando-lhes sentimentos de honra, ede 
applicação para os Estudos ; e com effeito foi notável a 
emulação, que se introduziu entre el!es, e o ardor, com 
que principiaváo o seu novo Curso : nas noites observava- 
se um silencio profundo, e náoseviáo Estudantes nas ruas 
no tempo do Estudo. De dia vinhão todas às Aulas, sem fal- 
tarem ; e depois se recolhião a continuar os seus Estudos. 

Todas as suas conversações dentro, e fora de caza erão 
sobre a matéria das Lições. Todos os lugares de distracção 
até ahi frequentadas, e se vião dezertos : não houve bulhas, 
dissensões, prisões, e nem o supplicante teve motivo de 
reprehender ; sendo que em outro tempo não bastavão as 
cadeias, erão necessárias tropas de cavallaria armadas, e 
os mais rigorosos castigos. 

Vai-se a mocidade toda cheia de modéstia, toda apartada 
das antigas liberdades, toda civil, e com uma attençáo 
grande em mostrar melhoramento na sua conducta ; assis- 
tindo ás Funções Académicas, Sagradas, ou Litterarias, 
com gravidade, sizudeza, e Religião ; e dando em tudo 
signaes, que respeita vão a Ordem Publica. 

O supplicante é o mesmo que confessa, que em todo este 
tempo fui supérflua a sua inspecção, e nem se sentio falta de 
Leis de Policia ; porque todos procuraváo satisfazer os seus 
deveres. Este espectáculo de modéstia, de applicação, de 
traníiuilidade, e de ordem era visto com admiração de toda 
a Cidade, a qual cheia de Estudantes, se via como dezerta, 
pelo retiro, e recolhimento dos mesmos. 



— 480 — 

Passados alguns annos, principiou n ir-se sentindo al- 
guma alteração nesta paz, e ordem causada por alguns va- 
dios, que se vestiâo de batina para passarem por Estudan- 
tes. Deu isto occaziáo a uma Representação, que fez o 
supplioante ao Marquez de Pombal ; o qual por uma Pro- 
vizão mandou, que se expulsassem fora da Cidade os ditos 
vadios, e perturbadores, debaixo de penas graves, se tor- 
nassem à Cidade; e que ninguém podesse trazer batina, 
senão os Estudantes, e aquelles, que pertencessem ao Cor- 
po do Clero. 

Para evitar que a relaxação senão introduzisse com 
ruina dos Estudos, e dos costumes, havia providencia de 
se rondarem de noite as ruas, e de se proliibirem as Cazas 
de Jogo ; de impedir-se que não houvesse comedias na Ci- 
dade, e de se prenderem aquelles que se achavão cúmpli- 
ces. São factos notórios, que não podem ser contestados, 
e se colligem das ditas cartas juntas a esta Supplica ; todas 
muito honrozas para o supplicante ; e por não cançar pa- 
ciência de S. Magestade, bastará parte d'uma delias, para 
se ver o muito que o Augustissimo Senhor Rei D. José se 
deu sempre por bem servido de tudo quanto o supplicante 
fez, como lhe significou o dito Ministro de E^^tado nas se- 
guintes palavras. 

t A bem deduzida conta, que Y. Ex. me dirigiu na data 
« de 2G de Outubro próximo precedente, sobre o estado 
« actual dessa Universidade, foi logo prezente a El-Rei 
« Meu Senhor. S. Magestade conheceu com as suas cla- 
« rissimas Luzes serem os meios muito ajustados para os 
« dczejados fins de se crearem nessa Universidade homens 
« sábios, e proveitosos ; e de se esperarem uns progressos 
« Litterarios, que correspondão á Sua Real Expectação. 
« A vigilância, e incansável cuidado, com que V. Ex. não 



i 



481 



« poupa nenhuma diligencia, que possa conduzir aos refc* 
« ridos fins, merece um digno louvor. 

No meio de ludo isto se não descuidou jà mais o suppli- 
cante do Governo do llispado. de que estava encarregado ; 
e cuidou logo na reforma dos costumes das suas Ovelhas, 
contcndo-as na pureza da Religião, e da Fé; e fez conser- 
var em todo o seu cxplendor a magnificência do Culto 
Divino. 

Depois querendo o- Senhor Rei D. José que se provesse 
o dito Bispado de Coadjuctor, e futuro Successor, pelo im- 
pedimento do Bispo, que entáo era, Nomeou o Supplicante, 
o qual foi Confirmado pelo Santo Padre Clemente XIV., 
que expediu as Bulias em conformidade das Instancias do 
dito Senhor. 

Estando o supplicantc no exercicio dos ditos Empregos, 
foi chamado pelo respeitável, e Sábio Visconde (hoje Mar- 
quez de Ponte de Lima) Ministro, e Secretario de Estado, 
por Avizo de 5 de Junho de 1777 para vir da parte daquelle 
Corpo Académico achar-se prezente à Exaltação de V. Ma- 
gestade ao Excelso Throno dos Soberanos Seus Antepas- 
sados; c assistir ao Juramento que S. Magestade se dignou 
prestar, na qualidade de Protectora da Universidade a 
exemplo dos Seus Gloriozos Predecessores. 

E querendo então o supplicante dar Conta a S. Magesta- 
de da sua Administração, apprezentou um volume, em que 
descreveu uma relação geral do estado da Universidade de 
Coimbra, desde o principio da Nova Reforma, até o mez 
de Septcmbro de 1777, em que o supplicante teve também 
a honra de appresentar o Plano das providencias, que ainda 
se fazião indispensáveis para o complemento da grande 
Obra da Reformação dos Estudos. 

Em 16 de Novembro do mesmo anno se dignou S. Ma- 



— 482 — 

gestade Mandar que o Supplicante continuasse no exercí- 
cio do Governo Académico, honrando-o com Expressões 
tão gloriozas para o Supplicante, que elle se náo pode 
dispensar de as referir. 

« Confiando do zelo, e vigilância, que tendes mostrado 
• em adiantar a cultura das sciencias na mesma Universi- 
€ dade: Tenho por muito certo que fareis observar os Es- 
« tatutos delia, promovendo a boa Ordem, e Disciplina, e 
€ os Estudos, que nelle se recommendão ; em quanto não 
«' Mandar dar as Providencias necessárias para mais eili- 
f cazmente se facilitar o mesmo fim. 

Tendo-se porém introduzido algumas relaxações nos 
Exames das Disciplinas Preparatórias, mandou o suppli- 
cante fixar um Edital para as obviar, e destruir, o qual pôz 
na Prezença de S. Magesta le, que achando-o conforme ao 
bom regimen dos Estudos, se dignou Approvallo sem res- 
tricçâo. 

Fellecendoo Bispo de Coimbra, D. Miguel da Anunciação 

em. . .de de deu o supplicante conta a S. 

Magestade, de que na conformidade da Bulia da sua 
Coadjuloria, e fuctura successão, deveria immediatamente 
entrar de posse daquelle Bispado então vago pela morte do 
dito Prelado ; e ao mesmo tempo pediu a demissão dos 
Cargos de Reitor, e Reformador pelas razões, que então 
expôz a S. Magestade, que achando-as muito justas, se 
dignou dispensallo, fazendo prover nos ditos dous lugares 
ao Virtuozo, Sábio, e Prudente Principal Mendonça, hoje 
Em. Cardeal Patriarcha da Santa Igreja Patriarchal de 
Lisboa. 

Estes são, Soberana Senhora, os esforços, que o suppli- 
cante tem feito para bem servir a S. Magestade, e a seu Au- 
guslissimo Pai o Senhor Rei D. José por espaço de 26 annos 



— 483 — 

conlinuos. Os primeiros i4 nos exercicios da vida Acadé- 
mica desde 24 de Outubro de 1734, em que se Doutorou, 
ate 29 de Agosto de i767, em que foi despachado Juiz das 
Ordens Militares; três immediatamente seguintes no ser- 
viço da Magistratura, como Juiz Geral das Ordens, Deputado 
do Santo Ofllcio, e da Real Meza Censória, e Desembarga- 
dor da Gaza da Supplicaçáo, onde occupou a serventia de 
uma Gaza de Aggravos, da qual saliio para o Governo do 
Bispado, conservando todos os lugares da Magistratura, 
que occupava. Finalmente mais 10 para H annos desde 
i4 de Maio de 1770, em que foi Nomeado Reitor, e Gon- 
selheiro da Junta Litteraria, trabalhando nos Novos Esta- 
tutos, que depois fez pôr em pratica, como Reitor, e Re- 
formador ; e sendo também inspector, e Executor de todas 
as obras, que se fizeráo na Universidade até o fallecimento 
do Augustissimo Senhor Rei D. José, e depois no Feliz 
Reinado de V. Magestade. 

Mas, Soberana Senhora, tudo isto é nada. O supplicante só 
espera da Liberalidade, e Grandeza de V. Magestade. Elle 
só põe na prezença de V. Magestade uma divida eterna, 
de que se vê onerado. 

O supplicante lembrado do grande affecto, e amor, que 
desde os seus primeiros annos deveu sempre a seu Irmão 
o Desembargador João Pereira Ramos de Azeredo Couti- 
nho, e do muito que elle contribuio com a sua doutrina, 
direcção, e despezas para melhor o dispor, e habilitar para 
o Real Serviço ; querendo este dar-lhe um testemunho do 
seu reconhecimento, e ser-lhe de alguma sorte agradecido : 
roga a V. Magestade se digne fazer-lhe a Mercê de Despa- 
char na pessoa do dito seu Irmão, e em seu Filho primo- 
génito, e na falta delle, no que succeder na sua Gaza, a 
cada um in soluUm todos os serviços, que elle supplicante 



— 484 — 

tem tido a honra de fazer a V. Magesladc, e a seu Aiigus- 
tissimo Pai nos diversos Empregos, em que elle Suppli- 
cante foi occupado, e para este fim os cede lodos na Real 
Prezença de V. Magestade a cada um delles in solidum. 

E quando a V. Magestade pareça, que os Serviços do 
Supplicante merecem alguma altenção, V. iWageslade com 
um só Despacho fará dous contentes.— E. R. M.— Fran- 
cisco Bispo Co)ide. 



RelAçao dos Doetimentos Juiitofi. 

Certidão dos Serviços feitos na Universidade datada de 2 de 

Março de 1791. 
Dita da Provisão de Porcionista no CoUegio dos Militares 

da Cidade de Coimbra em 30 de Junho de 1752. 
Dita da Provisão de CoUegial no Real Collegio dos Milita- 

res em data de R do mez de Septembro de 1734. 
Dita da Provisão de Reitor do Collegio dos Militares, da- 
tada de 31 do mez de Julho do anno de 1761. 
Dita da Provisão do Lugar de Juiz Geral das Ordens, com 

data de 9 do mez de Agosto do anno de 17G3. 
Dita da Provisão de Deputado do Santo OflQcio da Inqui- 

ziçáo de Lisboa em data de 29 do mez de Janeiro de 

1768. 
Dita da Carta de Desembargador da Gaza da Supplicação, 

com a data de 16 do mez de Julho do anno de 1768. 
Dita da Carta Regia de Deputado da Real Meza Censória, 

em 22 do mez de Abril de 1768. 
Dita da Carta do Cabido, da Nomeação de Vigário Capi - 

tular, em 12 de Dezembro de 1768. 
Dita do Avizo de Participação desta Nomeação, em 17 de 

Dezembro de 1768. 



— 483 — 

Dita (la Carla Regia de Reitor da Universidade, em 14 de 
Maio de 1770. 

Dita da Nomeação de Deputado da Junta da Providencia 
Litteraria. em 23 de Dezembro de 1770. 

Dita da Carta do Titulo do Conselho de S.Magestade, em 2 
de Septembro de 1772. 

Dita do Decreto de Nomeação de Reformador da Universi- 
dade, em 11 de Septembro de 1772. 

Dita do Avizo Régio para continuar na mesma Reformação 
por mais 3 annos, em 2 de Outubro de 1773. 

Dita da Carta Regia de Inspector das Obras do Convento de 
Santa Clara, em 23 de Dezembro de 1773. 

Dita que comprehende varias Cartas, e outros Documentos, 
que servem de testemunhos dos Serviços feitos em os 
Lugares de Reitor, e Reformador da Universidade. É 
passada pelo Secretario da mesma Universidade, em data 
de 27 de Fevereiro de 1791. 



••€M<9» 



JULUO. 62 



REIiAÇAU 



dasdlirerentespeçnedeniuBlca^que ItlarcoB For» 
tusal tem feito desde que H. A. WL. o Prinelpe 
R. nr.S* houve por bem empresal-o no seu Beal 
Serviço % espeelileando as eomposiçôes para 
I9reja9 tanto Instrumentaes eomo de Capella^ 
muslea de theatro tanto em liisboa eomo na 
Itália? onde o dito eomposltor foi por duas 
vesees eom lleença empressa do mesmo Augus- 
to Senhor, devendo as époehas que não vào 
declaradas eoustar ao eerto pelos orlf^lnaes, 
de que a maior parte emlste em liisboa. 

liisboa ItS de Junho 9 no anno de iS09. 

niARcos portijc;ai.. 



Theatro. 
Operas sérias, em diversas partes da Itália. 

1793 — II Cina Era Florença, no thea- 
tro delia Pérgola. 

179G— Zulima • . . Era Florença, no thea- 
tro alia Palia -corda. 

1797 — Ritorno di Serse No mesmo theatro. 

1793 — Demofonte Em Milão, no theatro 

delia Scala. 
1799— I Sacrifizj d'Ecate o sia 

Idante No mesmo theatro. 

1798 — Fernando nel Messico. Era Veneza, no theatro 

S. Benetto. 

1799— Alceste Em Veneza, no theatro 

delia Fenice. 



% 



— 489 — 

1799— Orazj c Curiazj Em Ferrara,no theatro 

novo e na occazião da 
sua abertura. 

Burleiías também em diversas partes da Itália. 

1793— 1 (lue gobbi Em Florença, no tbea- 

tro alia Palla-corda. 

1794— La Vedova reggiretrice Em Florença, no thea- 

tro delia Pérgola. 
179e — LMngano poço dura.. Em Nápoles, no theatro 

dei Fiorentini. 

1 796 — La Dona d'ingenio volu- 

bile Em Veneza, no theatro 

S. Moisé. 
1698 — L'ecquivoco in ecquivo- 

co Em Verona, no theatro 

grande. 
1799— LeNozzediFigaro.f Era Veneza, no thea- 
tro S. Benetto. 

Farças em um sú acto. 

1793 — II Príncipe i|^nzza ca- 

mino Em Veneza, no thea- 
tro S. Moisé. 
1793 — Rinaldo d^Arte Dito. 

1797 — Lc Donne cambiate,o sia 

il Cíabattino Dito. 

1797— La Maschera Fortunata. Dito. 

1798— La Madre amorosa.... Dito. 
1798— II fdosofo Dito. 

179S — L^awenturiere Em Florença para um 

theatro particular. 



t 



■% 



^ 490 — 

Operas seiias, feitas para o theatro de S. Carlos em Lisboa, 

1800— L^Adrasto 

1801 — Semiramide 

1801— Zaira 

1802 — Trionfo di Clelia 

1802— Sofonisba. 

1803 — Ritorno di Serse Differenle musica de 

outra escripta pelo 
mesmo autor, em 
Florença. 
1804 — Fernando nel Messico. . Também quasi toda 

differente de outra 

escripta em Veneza. 
1804— Merope^ 

1804— La Ginebra di Scoria.. 

1805— II Duca (di Foix 

1806— La morte di Mitridate. 

1806 — Artaserse 

1807 — li Demoponte 

Uma Burletta para o m^esm^ tliealro, 

1803— L'ôro non compra anaore 

Cantatas, 

1 809 — La speranza, osia il felice 

augúrio Cantata completa com 

coros : executada no 
theatro de S. Carlos 
em Lisboa no dia 13 
de Maio : annos de 
S. A. R. o Principe 
R. N. S. 



— 491 — 

1793— II natal (l'Uliisse Para se executar no 

Palácio do RealCas- 
tello em Lisboa. 

Cantatas com o único acompanhamento de forte^piano, e so- 
mente a uma voz para pessoa particular, 

L^amor tímido . • Em Lisboa. 

II Sogno Dito. 

La tempesta Dito. 

La danza Dito. 

Uma outra cantata em portuguez com todo o inslrumefital. 

1806 — O génio americano.... Em Lisboa para se 

executar na Bahia. 

1808 — La speranza Cantata a S. A. R. no 

theatrodeS. Carlos* 

1808— L^orgoglio abaltuto . . . Theatro deS. Carlos. 
Burlettas em Portuguez: no theatro do Salitre em Lisboa. 

1790 — A Esposa fingida Traduzida do Italiano 

de uma intitulada— 
le Trame diluse. 

1791 — Os Viajantes ditosos. . . Traduzida do Italiano 

de outra intitulada : 
I viaggiatori felici. 

1792 — o mundo da lua Traduzida também do 

Italiano; mas com 
os reccitativos em 
prosa. 



j 



— 49Í — 

Entremezes no dito theativ do Salitre. 

j ^ O Amor artífice 

^ A Castanheira 

g A Casa de Café 

o 

^ Os bons amigos 

òo O amante militar 

Cl 

S Elogio 

CD» 

:5 Elogio 

í« Elogio 

Alem disto— muitas Árias, Duettos, Tercetos, e outras 
peças soltas, que nào é possivel lembrar. 

Farçãs iw Tlieatro da Rua dos Condes em Lisboa. 

1794 — O Basculho de chaminé. Traducçáo do italiano 

de uma intitulada 
II Príncipe spazzaca- 
mino do mesmo Au- 
tor, mas quazi diffe- 
rente do primeiro 
original. 

i794 — O Rinaldo d'Aste Com as mesmas cir- 

cumstancias. 

1802 — A caza de campo. .... Traducçáo do italiano 

de uma intitulada la- 
villa. 

1802 — Quem busca lãa fica tos- 

queado Traducçáo do italiano 

de uma intitulada 
L'ccquivoco. 



\ 



— 493 — 

1802—0 Sapateiro ( Estas tem muita 

1 analogia cora ou- 

j trás do mesmo Au- 

1 802 — A Mascara ' tor feitas em Itália. 

I\ S. 

1812— A saloia namorada Para se executar na 

quinta da Bella Vis- 
ta pelos Escravos de 
S. A. R. 

Muzica particular, e feita por motu-proprio do mesmo Autor. 

1809— Um Hymno da Naçáo 
portugueza, comoacom- 
panliameuto de toda a 

banda militar Dedicado a S. A. U o 

Príncipe R. N. S. 
1808 — Retro Hymno , cora o 
acompanhamento tam- 
bém de toda a banda 

militar Dedicado a mesma 

Naçáo portugueza. 
Igreja. 

Missas. 

1783- Uma Missa a canto de 

orgáo Para a Patriarchal. 

1784— Dita Dita. 

1784— Dita Dita. 

1780 — Dita com instrumental. Sem destino. 

1781— Dita com instrumental. Particular. 

1782— Dita com instrumental. Executou-se no dia de 

S.*' Barbara na Real 
Capella de Queluz. 

JULHO. 63 



— 494 - 

1791 — Dita instrumenta; Por ordem de S. M. 

em Nossa Senhora do 
Livramento. 
1809 — Dita a 2 sopranos e um 
contralto com acom- 
panhamento de forte 
piano Para capella particu- 
lar. 

Por ordem de S. A Real o Príncipe R, N. S, 

1788— Dita com fagotes, violon- 

cellose órgão Na Real capella de 

Queluz. 

1789 — Dita e da mesma quali- 
dade Dita. 

1802— Dita com instrumental. Dita. 

1804 — Dita com 4 órgãos obri- 

gados Para a Real Bazilica 

de Mafra. 

1805 — Dita da mesma quali- 

dade Dita. 

1806 — Dita breve Dita c na noite de 

Natal. 

1807 — Dita com 6 órgãos obri- 

gados Dita. 

1811 — Dita a grande instrumental para a Real capella 
do Rio de Janeiro. 

1831 — Dita pequena de instrumental, para a capella da 
Real quinta da Bella Vista. 

1816 — Uma Missa de Requien com todo o inteiro ins- 
trumental, para servir nas exéquias da Rainha 
D. Maria I na Real capella do Rio de Janeiro. 



'^ 



— 495 — 

Jogos de vésperas inteiros por ordem de S.A.R,o Príncipe 
R. N, S, 
1800— Um de Nossa Senhora 
com fagotes violoncel- 
los, e orgão Para a Real capella de 

Queluz 

1804 — Dito de S. Francisco 

com 4 órgãos alternadas 

com o coro Para a Real Bazilica 

de Mafra. 

1805 — Dito de S. Francisco 

com 6 orgâos inteiros . . Dito. 

Psalmo soltos, e fora de jogo : sem ser por ordem Real : a 
excepção dos apontados. 

1781 — Dixit a 8 e a canto de 

orgão Para a Patriarchal. 

"^ Dito a 4 Dita. 

Dito Dita. 

; Laudate pueri a 4 Dita. 

! Laudate pueri a 5 Dita. 

Dito a solo de Baixo Particular 

^ Dito a solo de Soprano . . Para a Capella d'Aju- 
i da. (Violani) 

^ Dito a solo de Contralto . . . Dita — ( Martini) 

, Dito a solo de Contralto. . . Dita — ( Venâncio) 
f Dixit, Laudate ; Confitebor 

' *p com instrumental Particular. 

1807— Laudate pueri a 6 órgãos 

obrigados Por ordem deS. A* R. 

na vespei^i do tliu dos 
seus aiinos, Na Hoal 
Bazilica de Mafra. 



à 



— 496 — 

o Confitebor a 4 vozes, e a 

C; canto de orgáo Para a Palriardial. 

S Dito Dita. 

cT^ Dito Dita. 

P Dito Dita. 

1805 — Confitebor tibi Domine 

in verba cordis mei. . . Por ordem de S. A. 

R. para o Real Ga- 
pella da Bemposta. 

o Beatus vir a 4 vozes, e a 

2^ anto d'orgão Para a Patriarchal. 

^ Dito Dita. 

o Dito Dita. 

1800 — In Exituacantod'orgão. Por ordem de S. A. 

R. para a Capella de 
Queluz. 

1800 — Memento Dita. 

18C0 — Deprofundis Dita. 

1807 — Dito com 5 órgãos obri- 
gados e alterados com 

o coro Por ordem de S. A. 

R. para a Bazilica do 
Mafra. 
1807 — Beati omnes dito Dita. 

1782 — Magniíicat a canto d'or- 

gão Para a Patriarchal. 

1783 — Dita Dita. 

1807 — Magnifica ta 6 órgãos obri- 
gados Por ordem Rca! i)ara 

^ Real Bazilica de Ma- 
fra. 



— 497 — 

1807 — Dita da mesma qualidade. Dita. 
1776 — Miserere a 4 vozes, e a 

canto d^orgão Sem destino. 

1782 — Dito a 5 vozes Para a Patriarchal. 

1807 — Dito com O orgâos obri- 
gados Para a Real Bazilica 

de Mafra, e perten- 
cendo aos Respon- 
sorios da 5.* Feira 
Sancta. 
iV. B. 

1807 — Dixií Dominus a 6 orgáos 

obrigados Na Real Bazilica de 

Mafra, 
1810 — Laudate pueri a solo de 

tenor Particular. 

1 81 3 — Um jogo de vésperas, com 
violoncellos , fagotes , 
contrabaixos, e órgão 
para a Capella Real do 
Rio de Janeiro 

1815- Além do orgáo, accres- 
centou o seu autkor a 
este mesmo jogo um 
acompanhamento com- 
pleto de todo o instru- 
mental 

I'com or-J 
fíáo e to-{ Real Capella do Rio 
do o ins-í de Janeiro* 
.trumenlO 



.^ 



cJ 



— 498 — 
Jogos de Matinas por ordein de S. A. R. o Priticipe R, N. S. 

1795— Matinas da Conceição 
com todo instrumen- 
tal Para a Real Capella 

de Queluz em acção 
de graças. 

1802 — Outras ditas Dita e por igual oc- 

casião. 
1804 — Ditas de S. Francisco íi 

4 órgãos obrigados. . . Para a Real Bazilica 

de Mafra. 
1907 — Ditas de Reis a 5 órgãos 

obrigados Dita. 

1813^— Reduzidas a pequeno ins- 
trumental para a Capella 
Real do Rio de Janeiro. 

1807 — Ditas de Santo António 

a 3 órgãos obrigados. Dita 

1807— Ditas de S. Pedro rega- 
lado a 6 órgãos obri- 
gados Dita. 

1807— Ditas que se cantão na 

5* Feira Sancta Dita. 

1813 — Reduzidas a pequeno ins- 
trumental para a Capella 
Real do Rio de Janeiro. 

1807 — Ditas de Defuntos, a 6 ór- 
gãos obrigados Dita. 

1813 — Reduzidas a grande instru- 
mental para as exéquias 
do Sr. D. Pedro Carlos. 



— 49» — 

18H — Ditas do Natal, com clari- 
netes , trompas, fago- 
tes, violoncellos, evio- 
lettas Para a Gapella Real 

do Rio de Janeiro. 
Responso^ios soltos, e compostos sem ser por ordem Real, á 
excepção dos apotitados. 
1789— Dous Resp.®* dos Marty- 

res com instrumental. Para a Igreja deS. 

Julião. 
1809— Três Resp.*>^ de Santo An- 
tónio a canto d'orgâo, 

com fagotes e violon- 

cellos Para a Sancta Igreja 

Patriarchal, em ac- 
ção de Graças pela 
restauração da Ci- 
dade do Porto 
i781 — Si quoeris miracula a 4 

vozes, e canto d'orgão. Sem destino. 

1 809 — Dito a dous sopranos e um 
contralto com o acom- 
panhamento de forte 
piano Para Capella parti- 
cular. 

1807 — Dito com 6 órgãos obriga- 
dos Por ordem de S. 



Â. R. para a Real 

Bazilica de Mafra. 1 



1809— Dous Responsorios de N. 
S. da Conceição com 
órgão obrigado Para o Convento de 

S, Pedro lie Atcnn- 

tara. 



f* 



— 500 — 

1809— Quem vidistis pastores? 
Responsorio do Natal 
com órgão obrigado. . Para o Convento de 

S. Pedro de Alcân- 
tara. 
Por ordem, 

1815 — Dous Responsorios para 
se cantarem no Domin- 
go do Espirito Sancto 
com orgâo e instrumen- 
tos de vento Real Capei la do Rio 

de Janeiro. 
181 — Um te Deum a 8 vozes com 

todo o instrumentai Por convite doEmi 

nentissimo Cardeal 
Patriarcha, para se 
cantar no dia de S. 
Silvestre na Igreja 
Patriarchal. 
1782— Dito a canto de órgão. . . Para a Patriarchal. 
Por ordem de S. A. R, o Prhicipe Regente N. S, em occazião 
de nascimento de Pessoas Reaes, 
1793 — Um te Deum com instru- 
mental No Paço de Queluz. 

1795— Dito com instrumental. . . Dito. 

1802— Dito Dito. 

1807 — Dito com 5 órgãos obriga- 
dos Na Real Bazilica de 

Mafra. 
1814— Este mesmo reduzido a to- 
do instrumental para a 
Real Capella do Rio de 
Janeiro Em acção de graças. 



— 501 — 

Seqiuncias ]H)r ordem de S. A. R. o Pnncipe Regente N. S. 

i807— Victime paschali a 6 or- 

* gâos obrigados Na Real Bazilica de 

Mafra. 
1813 — Reduzida com violinos, 

fagotes . contrabaixos 
o órgão para a Real Ca- 
I)e!la do Rio de Janeiro 

1807 — Veni Saneie Spiritus. . . Dito. 

Í8I3 — Reduzida da mesma ma- 
neira Para a Real Gapella 

do Rio de Janeiro. 
1807— Lauda Sion da mesma 

qualidade mas alterada 

com o coro Dito. 

1813 — Reduzida da mesma ma- 
neira Para a Real Gapella 

do Rio de Janeiro. 
1792— Confirma hoc Deus a 

canto d'orgáo. e a 5 

vozes Esta não foi por or- 
dem Real, mas sér- 
vio na Patriarchal em 

occasiãodeChrisma. 
Motletíos. 

1807 — Uma peça de musica for- 
mada à maneira de 
Mottetto ; extrahida de 
diversos Psalmos, for- 
mando um todo ; a 6 
órgãos obrigados. ... Na Real Bazilica de 

Mafra : em 13 de 

Maio. 

lULHO. 64 



— S02 — 

Esla mesma reduzida a instrumentos de vento 
juntamente com órgão para a Real Capella do 
Rio de Janeiro. 
1796— Um Motteto com ins- 
trumental a solo de so- 
prano Particular (TedeUno) . 

1787 — Dito de Soprano Particular (Toti.) 

1792 — Dito de Baixo Particular (Brizzi.) 

1783— Dous ditos também de 

Baixo Particulares (Taddeo 

Puzzi.) 
Ladainhas soltas. 

1779 — Ladainha a 4 vozes, com 

acompanhamento de 

cravo • No Seminário. 

1807 — Dita com G órgãos obri- 
gados, e variada.... Na Real Bazilica de 
Mafra por ordem de 

S. A. R. 
1808 — Dita a 3 vozes: 2 sopra- 
nos e 1 contralto, com 
acompanhamento de 
forté-piano : também 

variado Para Capella parti- 
cular. 
Ajitiphonas, 

1780 — Salve Regina a canto de 

órgão Para a Patriarchal. 

1780— Sub tuum presidium dito Dita. 
1809— Dito a dous sopranos, e 

um contralto com for- 

te-piano obrigado. . . Para Capella particu- 
lar. 



— S03 — 

1809 — Dito da mesma qualidade Dila. 
Cânticos. 

1806 — Benedictus com 4 órgãos 

obrigados Na Real Bazilica de 

Mafra. 
181 1 — Novena de N. S. do Mon- 
te do Carmo Para a Real Capella 

do Rio de Janeiro. 
1813— Novenade S.João Baptista Para a Real quinta da 

Bella Vista. 
Kalendas. 

1806— Uma Kalenda a solo de 
soprano com todo o ins- 
trumental Para se executar na 

Ilha Terceira. 
1809— Dita com simples acom- 
panhamento d'orgão. Particular. 
Muitas Lamentações da 4S 5^ e 6* Feira Sancta : compos- 
tas em differente épochas ; sendo umas com instrumental, 
e a maior parte com simples acompanhamento d^orgão, e 
para dilTerentes destinos. Além disto também : diversas 
Jaculatórias. 




— 504 — 
COPIA FIEI< 

Do Original em mao do Sr. Dr. J. M. Nunes Garcia 

Em o qual se vê, por notas do próprio punho do Padre 
José Maurício, qtie até o dia 6 de Setembro de 1811 
tinlia elle escripto as seguintes composiçoens mmicaes pa- 
ra a Capella Real : 



BIklU Dominuii 

Coflitebor 

Beatus vir 

I^audate ptierl 

I^audate Boiuiiium 

JUasnlIlra 

lioetatas 

IVlsl Bomlnus oedlllraverlt 

I^aadá Jerusalém 

In euLltn 

BlITereutea paalmofli avulsos. 

memeiUo Boiítinl 

Credidl 

BeatI onínes 

Bomlul probasti 

Ineonvertendo Bomlni 

EnLaltobo te 

Conlltebor quonmlain audlste. 

Psalnios alternados s jogos 

I^adalnlias 

Antífonas 

Ave Beslna eoelorunt 



— 505 — 

Alma Redrntptorl» 

Bei^lna eieli lietare 

Si queris miraeala 

IVIoUetoii da treasena de S. António 

St Abat }llater 

HloUetoii das Boree 

Semana sãnetá: 

Responeorloo e lamentaçoens de 4» S^ 6» ffein 

Toda a Semana Saneta da Sé 

maUnae da Reirarreição* 

Responsorloo 

Ofllelo der defuntos 

lUce Mem 

missa eom grande orquestra 

Bitas a vozes e ors^ano 

Solos avulsos 

Hlottettos eom grande orquestra 

Bito eom violoneellos e fagotes 

-«— a vozes eorgano 

IVovenas t de S. José 

Bita do Coração de Jesus 

do Carmo 

Sequenelas 

Te Beum landamns 

Bitos de violoneellos e flsgotes 

a vozes e organo 

£eee Saeerdos 

O Salntarls hóstia 



— 506 — 

Tantam erso t 

O saerum Coit^lwlntus t 

miiia» do Adweuto e da Quaresma. 

Hlottettoii daa S doinlitsaa da Quareama, e das 

iluatro do Advento. 

Beitedlrtaa « 

DUo de TioloueeUofli e fagotes 

a voses e or^auo 

dasprorlasoeiis 

matinas 

Bita de vloloneellos e fagotes 

a vozes e or^ano 

!Viottettoa |tara a proelasao de Corpo de Beui 
Pançe llnj:a. 

llyninop a vozes M 

Missas lie eaiitoehao Amarado 4 



REVISTk TRIMENSkL 

DO 

INSTITUTO HISTÓRICO» GEOGBAPHIGO B ETHNOGRAPHIGO 

DO 



4.« TBIAIESTBE DK iflft» 




SOBRE Â FUNDAÇÃO DAS FACULDADES DE DIREITO NO BRASIL. 

A diíBculdade de obter todos os documentos relativos as 
Faculdad.es de Direito, e que seriam necessários para fazer 
a historia completa d'ellas desde a sua fundação, ^ tf o recor 
nhecida que eu espero merecer indulgência pelas lacunas e 
imperfeições deste trabalho, que, para ser compIcKfo. siwrfei 
mister que me fosse possivel ir estudar minuciosamente Oí 
archivos das Faculdades de Olinda e S. Paulo e coUigjr todos 
os documentos que sobre ellas devem existir ifii sãeçSò 
respectiva na Secretaria d'Estado dos Negócios do Império. 
Por mais de um motivo me era isto impossivel; e por tanto 
fui forçado a demorar o meu trabalho, podendo só 0M^ 
colher algumas noticias e desenvolvel-o sobre poucâBj%- 
completas, e algumas talvez erradas informações. 

A pouca curiosidade dos nossos patrícios sobre as cousas, 
ainda mesmo as mais úteis e admiráveis de nossa terra» é 
bem notória; apesar do estimulo qiMkeste Instituto procura 
desenvolver, e do qual alguns de seus dignos membros tem 
dado louváveis exemplos em relevantes serviços que tem 
prestado á Litteratura, á Historia, e à Geographia do Brasil, 
e quando as bellezas e as riquezas naturaes do paiz nos tem 

OUTUBRO 65 



— 508 — 

íiílo moslradas por estrangeiros que vem do longe admirai- 
9$ nio DOS devemos surprehender ao ouvir dizer que nada 
se tem coHigido, e que em geral nada se sabe sobre a origem^ 
sob a utilidade, e sob a historia de muitos dos nossos mais 
importantes estabelecimentos, e menos ainda sobre as causas 
que motivaram a fundação de cada um d'elles. 

Está pois em harmonia com o estado de nossas cousas, a 
âífficuldade, ou antes a impossibilidade, de encontrar os 
documentos precisos para coordenar a historia de um*Bsta- 
belecimento de letras no Brasil onde elles começam agora 
à ter mais regular direcção e cujo aperfeiçoamento é de es^ 
perar da solicitude do Governo Imperial para este ramo do 
serviço publico* 

O memorável acontecimento da Independência do Brasil, 
tão fértil em resultados grandiosos de civilisação e de pro- 
gr^síopâraa Terra de Santa Cruz, marco j a epocha do 
fpoMço dis instituições de toda a natureza com que um 
fiíliclp^ Illustrado e Magnânimo adornou a sua coroa de 
gtvrias durante os poucos annos de seu reinado, cada um 
doB (fitííM íicou assignalado na Historia Nacional por fun* 
dações sabias e úteis à prosperidade que então se presagiava 
do novo Império. O commercío crescia com a população 
qaa-^ disseminando pelo nosso vasto continente, hia pene- 
trando as virgens florestas, afugentava os gentios, fazia 
correr para longe as feras, derrubava os vetustos madeiros 
para dar caminho ao génio civilisador, substituía por po- 
voações regulares, as mesquinhas aldeias, ou ranchos de 
primitivos habitantes^ e o homem civilisado da Europa hia 
levar a industria e a cultura ao seio dos desertos ameri- 
oauos, até então fechados pelas cadeias coloniaes à luz da 
civilisação. A fertilidade e riqueza destas terras povoavam 
rapidamente os sertões que gradualmente se descobriram e 



— Õ09 — 

nos quaes novas propriedades se estabeleciam. Mas se por 
um lado a vida do industrioso aventureiro era a cada mo'^ 
mento ameaçada pelo bramir da fera, ou pelo sibillar da 
sétta do gentio do deserto, não menos o era a propriedade 
que elle com tanto esforço e coragem adquiria, e que a co* 
bica de seus próprios patrícios procurava constantemente 
usurpar. Esta lucta do direito de propriedade era natural em 
uma população que pela maior parte tinha sido formada de 
homens da plebe e de criminosos que Portugal degradava 
para os seus domínios do Brasil, à cujos administradores o 
Governo Portuguez dava amplos poderes para castigar, 
salvando somente a pena capital aos nobres para quem 
El-Rei se reservou o direito de decreta-la. Este rigor, este 
amplo poder conferido aos Capitães Gcneraes deixa compre- 
Iiender sufficientementc que tal necessidade era indicada 
pela natureza dos povos que elles governavam. 

Os Missionários mandados em grande numero para todsA. 
as partes do Brasil, onde se assentava uma nova povoaçáb^ 
eram insuflicientes para chamar ao seio da Igreja as hordasde 
selvagens que difficilmente cediam seus desertos e abando^ 
navam sua vida errante para viverem em fraternidade evan- 
gélica com os Europeos, cujos excessos c attentados muitas 
vezes inutilisavam os esforços da cathechese que conaeçata 
apresentar seus benelicos resultados. Por estas razões a 
previdência do Governo Portuguez não mandava somente 
soldados da Igreja, como também mandava os da justiça que 
auxiliassem os Governadores no honroso encargo de garan- 
tir as vidas, e as propriedades dos povos contra os crimes, 
e as tentativas la avaresa. 

Assim cresceo a civilisação, a riqueza e a população do 
território brasileiro até que circumstancias politicas, que 
não cabe aqui desenvolver, promoveram a emanciparão dc^ 



^ 510 — 

Estado colooial que se tornou independente. Este facto 
memorável accrescentou à pouca moralidade e à pouca cíyí* 
lisação dos povos todos os inconvenientes das exagerações 
de princípios e opiniões politicas manifestadas por homens 
que em geral desconheciam os limites do justo e do honesto 
e dos direitos civis que adquiriam com a Independência do 
Brasil, e não nos devemos admirar que isso acontecesse 
então, se até ha bem poucos annos tantas dissenções en- 
torpeceram o florescimento e engrandecimento do Império, 
(porque a ambição de alguns homens se apoiava na igno- 
rância das massas da população para tentar a realisação de 
inqualificáveis e insólitas pretenções), e ainda hoje grande 
porção de povo desta capital, mosirando-se completamente 
ignorante e inappreciadora de suas conveniências mercadeja 
um direito que lhe é conferido pela constituição do Império. 
Os princípios liberaes que presidiram a organisaçâo da 
nossa lei fundamental, eas divisões administrativas de nosso 
Império deram iugar ao apparecimento de maiores e mais 
amplas ambições, e se nos tempos coloniaes os homens de 
mesquinha consciência tentavam senhorear-sc de riquezas 
por meio da fraude e de crimes, vio-se depois a pretençáo 
de honras e de influencia politica em homens que não es- 
tavam em circumstancias de manifestal-a, mas que por ella 
se distinguiram nas pequenas localidades, não duvidando 
para isso pôr em pratica attentados contra as vidas e pro- 
priedades de seus concidadãos. A vasta extensão do nosso 
território e a pouca população muito disseminada neUe 
tomaram uma necessidade as subdivisões politicas e admi- 
nistrativas em harmonia com os princípios políticos estabe- 
lecidos, e a magistratura foi uma grande, e ta vez a maior 
necessidade de então para a fiel e regular execução das leis 
e para garantir os direitos dos povos; porém sendo muito 



— 511 — 

limitado no paiz o numero dos formados em direito, e sendo 
de mister proporcionar aos brasileiros todas as commodi- 
dades e gosos, dando-se-lhes jurisconsultos, e magistrados, 
havendo mesmo necessidade de generalisar a instrucçáo 
em todos os ramos dos conhecimentos, necessidade ur- 
gentissima para o duplo fim de illustrar a população e de 
cumprir uma das promessas de melhoramento que a consti- 
tuição havia annunciado. Estas mesmas circumstancias e a 
imperiosa necessidade de magistrados, reclamada pelo 
rápido augmento da população que se dissemaniva por todo 
o Brasil, foram pois as causas que induziram á fundação de 
Academias Juridicas no Brasil ; e como a extensão do Im- 
pério não removeria a circumstancia da longa distancia da 
fonte da sciencia para os filhos das províncias mais remotas 
d'aquella em que ella fosse estabelecida, o Governo Imperial 
promoveo a lei de 11 de Agosto de 1827, pela qual foram 
fundados dous Cursos Jurídicos sendo um na cidade de 
Olinda em Pernambuco, e outro na cidade de S. Paulo. 

Anteriormente à esta fundação houvera a ideia de cre- 
ar-se uma Academia Juridica na cidade do Rio de Janeiro, 
e para este fim o fallecido Marquez de Inhambupe, então 
Ministro do Império, havia chamado o Dr , José Maria d' Avellar 
Brotéro, formado pela Universidade de Coimbra, o qual foi 
nomeado Lente para Academia de S. Paulo por Decreto de 
12 de Outubro de 1827, e em Janeiro do anno seguinte, 
sendo Ministro do Império o Exm. Sr. Dr. Pedro d' Araújo 
Lima, hoje Marquez de Olinda, e actualmente com a pasta 
do Império, recebeo o dito Dr. Brotéro ordem para partir 
para S. Paulo a fim de abrir a respectiva Academia, o que 
teve lugar no 1.^ de Março seguinte. Em 12 de Outubro de 
1827 também tinha sido despachado Director da Academia o 
fallecido Tenente General José Arouche de Toledo Rendon, 



— 312 — 

e este junto com o então Presidente da Provinda o Conse- 
lheiro Thomaz Xavier Garcia d'Aimeida, o Bispo Diocesano, 
que era o fallecido D. Manoel Joaquim Gonsalves dWndrade, 
authoridades civis e quasí todo povo da cidade assistiram a 
inauguração da Academia, a qual ficou sendo a primeira em 
antiguidade, porque a de Olinda por causas desconhecidas 
só se abrio alguns mezes depois. Doeste modo ficou fundada 
a Faculdade Jurídica de S. Paulo, sendo aberta a aula do l^ 
annoem 1.*de Março, principiando o Dr. José Maria d^Avel* 
lar Brotéro a ler direito natural. O Governo Geral tinha de 
ante mão acceitado a olTerta dos Religiosos de S» Francisca 
e mandado tomar posse, para os trabalhos da Academia» 
do cla.istro do convento. (*) A inauguração e as lições da 
aula tiveram lugar em sala que foi apromptada na anti^ 
sachristia. Foram logo nomeados Lentes para S. Paulo os 
Drs. Balthasar da Silva Lisboa o Luiz Nicoláo Fagundes 
Varellà, por Decretos de 22 de Julho de 1828. com os quaea 
começaram os actos do 1 .' anno. O Visconde de Cachoeira 
havia formulado os estatutos para a projectada Faculdade 
de Direito do Rio de Janeiro, á cuja installaçáo parece 
que obstou o Conselho d'Estado dessa épocha, e esses es- 
tatutos regeram os dous Cursos Jurídicos até 30 de Marca 
de 18ò2, em que foram postos em execução os (**) de 7 

(*) Os Religiosos largaram a final todo o convento aos 8 de No* 
vembro de 18^; tendo sido voliiutariamentc cedido pelo Provinciak 
Isso consta do aviso de 31 de Agosto do mesmo anno. 

(*•) Os esta lutos que regeram o Cur»co Jurídico de S. Paulo appns 
vados pela resolução legislativa de 7 de Novembro de 1831 foram 
assignados pelos Lentes Drs.BrotTo, Fagundes Varella, Carneiro de 
Campos. Fernandes Torres, e Thí)maz José Pinto de Cerqueira (estes 
últimos dous professores pediram suas demissões logo depois. ) O Dr. 
António M:tria de Moura foi despachado Lente Cathedratico de Pratica 



— 513 — 

de Novembro de 1831, e durante o período decorrido desde 
a installaçâo do Curso Jurídico de S. Paulo até o anno de 
1834 foram despachados Lentes, além dos que jà vão men** 
cionados, o Dr. Carlos Carneiro de Campos, por Decreto de 
9 de Fevereiro de 1829, o Dr. José Joaquim Fernandes 
Torres, por Decreto de 3 de Março de 1829, o Dr. Prudencio 
Geraldes da Veiga Cabral, por Decreto de 6 de Abril de 
1829, o Dr. Balthasar pedio sua demissão de Lente em 20 
de Outubro de 1829, foi nomeado o Dr. Clemente Falcáo de 
Sousa, por Decreto de 30 de Novembro de 1830 Substituto; 
e proprietário por Dicreto de 20 de Abril de 1831. O Dr. 
Manoel Joaquim do Amaral Gurgel, Lente Substituto por 
Decreto de 12 de Outubro de 1833 e proprietário por carta 
de 20 de Fevereiro de 1834, finalmente os Drs. Dias de 
Toledo, Pires da Motta por cartas de 22 de Maio de 1834, o 
o Dr. Anacleto Ribeiro Cõbtinho, por Titulo passado em 31 
de Julho de 1834 Substituto ; e Lente proprietário por 
Decreto de 10 de Outubro do mesmo anno. Por Decreto de 
30 de Setembro de 1828 foi nomeado Secretario da Aca- 
demia o Dr. Luiz Nicoláo Varella, com a gratificação mensal 
de vinte mil róis, igual nomeação e com o mesmo venci- 
mento coube aoDr. Pedro Autran para Olinda. A inaugu- 
ração da Faculdade deScienciasSociaese Jurídicas de Olinda 

do Processo— 1.* cadeira do 5.* anno por Decreto de 11 de Agosto 
de 1828. O Dr. Silveira da MoUa, qae depois o substituio está hoje 
neita corte advogando tendo-se jabilado. 

Em qaanto ao eomporlaménto dos estudantes nos Paços da Aca- 
demia é auperior a todo elogio» os estrangeiros que vão vesital^a 
nada tem que extranfaar ou apontar como novo . 

No principio das Academias houve falta de respeito para com os 
mestues, talvei isto pelo principio de om liberalismo mal entendido. 



— 514 — 

teve lugar no dia 15 de Maio de 1828. referindo-me ao que 
me foi comraunicado por escripto pelo seu respectivo fun- 
dador o Exm, Sr. Desembargador Lourenço José Ribeiro, a 
quem ouvi a respeito. Diz S. Ex. em uma carta que tenho 
presente. « A missão de fundar a Faculdade de Direito em 
Pernambuco me foi confiada pelo Exm. Sr. Pedro de Araújo 
Lima, então, assim como hoje. Ministro do Império, e 
Marquez de Olinda, e partindo da corte em 2 de Abril do 
dito anno apresentaram-se quarenta e dous estudantes, que 
se matricularam depois de feitos os exames preparatórios, e 
a Academia insta!lou-se no dia 13 de Maio do referido anno, 
em presença de numeroso concurso e das primeiras au- 
thoridades, proferindo eu um discurso análogo ao objecto. 
Era então Presidente de Pernambuco o fallecido Senador 
José Carlos Mayrinck da Silva Ferrão, que de muito boa 
vontade se prestou a todas as requisições, occupava o lugar 
de Commandante de Armas o fallecido Barão de Tramandahy, 
então Brigadeiro Antero José Ferreira de Brito, que muito 
concorreo para o brilhantismo deste acto, apresentando-se 
em Olinda com toda tropa do seu commando, e um parque 
de artilharia, que salvou depois de concluido o mesmo 
acto. » A Academia foi installada no convento de S. Bento, 
cujos Monges de mui boa vontade cederam a parte delle que 
foi requisitada. Entre os quarenta e dous alumnos que se 
matricularam nesse anno, diz o Sr. Desembargador L. José 
Ribeiro, tive a fortuna de encontrar muitos estudantes dis- 
tinctosque ainda hoje servem ao paizcomsumma distincçáo 
em diversas posições, bem como o Conselheiro d'Estado 
Eusébio de Queiroz, Sérgio Teixeira de Macedo, seu finado 
Irmão Dr. Álvaro, S. Ex. Rev. o Sr. Bispo Conde Ca- 
pellão Mor, Senador Dantas, e muitos outros que muito me 
honram jà na Tribuna do Senado, Camará dos Deputados, jà 



— 515 — 

no Ministério, Conselho de Estado, Diplomacia, Presidências 
de Província, Magistratura Ac. Ac. » 

Quanto a doutrina peio Sr. Desembargador L. José Ribeiro 
professada e os seus actos, diz elie, que melhor podem in- 
formar os seus discipulos, e o mesmo Sr. Marquez de Olinda, 
que sendo alli mandado pelo Sr. D. Pedro 1 .% em j^829, 
para syndicar o estado do estabelecimento, teve a bondade de 
communicar-lhe esta missão, e quanto voltava satisfeito para 
informar à Sua Magestade Imperial. Teve o Sr. Desembar- 
gador a tarefa de analysar no segundo anno a Constitui- 
ção do Império e deste insano trabalho immensa vantagem 
resultou não só aos seus discipulos (como elles diziam) 
como também a toda Província, porque era a Constitui- 
ção alli olhada com horror pelos dous partidos que então a 
retalhavam. Os absolutistas a despresavam receiando que 
pela sua demasiada franqueza viesse a degenerar em um 
Governo Republicano, e os republicanos a detestavam por 
causa do Poder Moderador que consideravam hostis ás 
liberdades publicas e um despotismo encoberto. As lições 
do Sr. Desembargador Ribeiro os desenganaram de seme- 
lhante erro, muito mais quando transcriptas nos periódicos 
correram toda a província, e |foi então que se formou 
o grande partido constitucional que é hoje o maior c o 
mais forte de tola Província. Em 1831 retirou-se para a 
cidade do Recife por incommodos de saúde; e d'essa ci* 
dade partio para a Corte, pedindo sua demissão de Dire- 
ctor do Curso Jurídico, a qual lhe foi concedida em 10 
de Fevereiro de 1832, sendo elle nomeado Secretario do 
Supremo Tribunal de Justiça. Jà a muito que instava pela 
dita demissão depois de alguns acontecimentos que ti- 
veram lugar na Academia. O assassinato do estudante 
do 1.^ anno Francisco da Costa Moreira commettido 
Outubro fi6 



- 516 - 

em 1831 pelo estudaiite do 4.*' Joaquim Sarapião de Can» 
valho, a arbitrariedade do Lente Dr. Manoel José da Sitva 
Porto, que convocava a congregação sem sua licença es- 
tando elle na cidade do Recife, as lutas que teve com o 
Dr. Moura Magalhães, donde resultara a representação que 
este fez ao Governo Imperial como consta das folhas do 
Itfino de 1830, a respeito da qual fora ouvido e se defendera 
eoinpletamentesendo aquelle Lente advertido pelo Groverno, 
motivaram sua retirada da administração da Academia sendo 
Homeado em seu lugar pela Regência em nome do Impe- 
rador, por Decreto de 15 de Maio de 1832, o Dr. Manoel 
Ignacio de Carvalho, o qual tomou posse em 9 de Janeiro 
dô mesmo anno. 

D^e a installaçáo da Academia de Olinda foram no- 
meados Lentes os Drs. António José Coelho, Jansem, 
ífaroos António d' Araújo e Abreo, Manoel José da Silva 
Porto todos estes por Decreto de 22 de Julho de 1828, 
assim como o Dr. Pedro de Cerqueira Lima, e Pedro Fran- 
cisco de Paula Cavalcanti de Abulquerque, e Manoel Maria 
do Amaral por Decreto de 9 de Fevereiro de 1829. 

Em S. Paulo também f) occorreram alguns successos 
entre Lentes e o respectivo Director o General Toledo, 
sendo este quasi compellido a 23 de Outubro de 1829 á 
pedir sua demissáo por virtude da desabrida guerra que 

(*) Em 1935 em S. Paulo sendo Director o Dr. Carlos Carneiro 
de Campos, apparccco uma crise terrivel de anarchia para o que 
ceocorreram causas extraordinárias pessoaes e politicas. Foi então 
que um estudante deo publicamente uma bofetada em um professor, 
(o qnallogo deixou de o ser]. £ste acto foi processado criminalmente, 
pofém o acadcmico não teve o menor castigo, conseguio seu diploma, 
e a Congregação dos Lentes mostrou fraqueza, c nenhum espirito de 
corporação. 



- 517 — 

lhe fazia o Dr. José Maria de Avellar Brotéro. O Governo 
Imperial, certo dos bons serviços que ia prestando o referido 
Director Toledo, fez expedir um Aviso em 1829, sendo 
Ministro do Império o finado José Clemente Pereira, adver* 
tindo o referido Lente pela maneira porque desconsiderava 
o Director da Faculdade. (*) 

O Governo Imperial no empenho de desenvolver todos os 
elementos moraes da educação e da instrucção nacional côa* 
fiada à seus cuidados, e uzando da authorisação que Ihefftii 
confiada no Decreto n."* 608 de 16 de Agosto de 1851 julgou 
ter attendido a mais vital necessidade da Faculdacte Jurídica 
reformando seus estatutos, e foram pois não só ampliados, 
mas melhor distribuídas as matérias do ensino. Estes esta« 
tutos foram dados por Decreto n."" íiZh de 80 de Março de 
1853 e depois delle appareceu outro Decretou."* iS86 de 28 
de Abril de l8oi dando novos estatutos, por virtude da au- 
thorisação dada pelo Decreto n.* 71i de 9 de Setembro de 
1853. £ ultimamente baixou o Decreto n.^ 1568 de 2i de 
Fevereiro de 1855approvando o RegulamoRto complementar 
das Faculdades. Neste intuito, o Governo aproveitou as luzes 
e a experiência das respectivas corporações scientificas e das 
pessoas illustradas. Por occasiáo. da reforma bem convinha 
ter o Governo instituído nas Faculdades uma formatura em 
scíencias sociaes somente que habilitasse para os cargos que 
nío exigem um conhecimento particular do Direito Civil. 
Esta formatura que se poderia fazer em três annos de estudo 

(*) Apparcceo dr pois deste facto o Decreto de 19 de Agoslo de 183T 
marcando a maneira porque devem ser processados academicamenic 
of cstadantesque faltarem.o respeito devido aos professores, deixando 
• julgamento a mercê áh Congregaçâo.Gom os novos estatutos ouiraft> 
providencias foram tomadas. 



— 518 — 

das matérias dispersas pelos 5 annos, assim abreviaria uma 
carreira a mocidade estudiosa, e facilitando as habilitações 
officiaes, dando mais ampla ambição á aquelles que veem-se 
circurnscriptos a carreira judiciaria. 

Com os novos {Istatutos foram creadas duas cadeiras, 
e deste modo foi satisfeita uma das necessidades recor 
nhecidas por todos aquelles que estudam Jurisprudência, 
ainda que por eOeito destas creações se sobrecarregassem de 
Ipbalho alguns annos; estes annos são o l,"" e o 5.* ensi? 
Hando-se neste. Direito Administrativo além de outras 
Qiaterias, e n'aquelle o Direito Romano. Este tem de ser 
invocado não só para esclarecer a nossa legislação civil como 
pnra supprir suas lacunas, e o Direito Administrativo cujo es- 
tudo era ha muito reclamado, por onde se mostra a acção e 
Oômpetencia do poder executivo central e dos poderes locaes 

Antes da reforma dos Estatutos e depois delia tem sido 
nomeados Professores para S. Paulo os Substitutos Drs. 
Coares, Ramalho, e Furtado de Mendonça, sendo nomeados 
pelo Governo Imperial Substitutos os Drs. Gabriel José 
Rodrigues dos Santos, António Joaquim Ribas, e Martim 
Francisco, por carta de 19 de Julho de 185í. O Pr. João 
Dabney d'Avellar Brotero nomeado Substituto por carta 
Imperial de 13 de Junho de 1855 tomou posse na Faculr 
dade de Direito da Cidade do Recife no dia 6 de Outubro de 
1855, foi removido para a Faculdade do Direito da Cidade 
de S. Fanlo por Decreto de 3t d(3 Maio de 18õÇ, e tomou 
posse em 17 de Junho do mesmo anno. Ficaram Substitutos 
OS Drs. João da Silva Carrão e Luiz Pedreira do Couto 
Ferraz, aquelle nomeado por carta de 5 de Julho de 1845, 
e este por Carta de 2p de Outubro de 1839. O Curso Juri- 
diço d'01inda teve vários Directores depois dos dous acima 
referidos: forapa ellos os Srs. Padre Miguel do Sacramento 



— rii9 — 

Lopes Gama, Conselheiro Pedro irAraujo Lipia, Conselheiro 
António Peregrino Maciel Monteiro, Bispo D. Thomaz de 
Noronha, Visconde de Goyanna. Na reforma foi nomeado 
Director o Dr. Pedro Cavalcanti, hoje Baráo de Camaragibe. 
Lente Jubilado da mesma Eschola, por Decreto de de 22 de 
Julho de 1854; tomando posse em 11 do mez de Novembro 
lio dito anno. (*) 

Sáo Professores da Acaderaii Judiciaria do Recife os Drs. 
Autran que alli serve desde 31 de Julho de 1828 principiando 
como Substituto, e Secretraio, e nomeado em l.** de Março 
de 1830 Lente cathedratico do 1.* anno, teve prorogação 
de ensino por Decreto de 4 de Agosto de 185o passando a 
reger a cadeira de Economia Politica, for.io em 1835 nomear 
dos Lentes os Drs. Paub Baptista, Bandeira de Mello, José 
Bento da Cunha e Figueredo, e em 1851 o Dr. Nuno Ayque 
d'Avellos Annes Goés de Brito Inglez, que começou como 
Substituto em 14 de Janeiro de 1837 ; o Dr. Lourenço Trigo 
de Loureiro, que sendo nomeado Professor de Francez do 
Collegio das Artes em 14 de Fevereiro de 1828, e Secretario 

(^j Em S. Paulo tem havido os seguintes Directores: o Tenente 
General José Ârouche de Toledo, do qual já demos noticia, que sérvio 
desde Í827 até 23 d'Agosto de 1813, pedindo sua demissão, â.^* o Dr* 
(^rlos Carneiro de Campos que sefvio desde Agosto de 1833 ale 5 de 
Novembro de 1835, 3.® o Senador José da Gosta Carvalho, hoje Maquez 
de Monte Alegre.que sérvio de 25 de Novembro de 1835 atende Junho 
de 1836, que pedio sua demissão, 4.<^ o Senador Nicoláo Pereira de 
lampos Vergueiro que sérvio desde 8 de Março de 1837 até 1841. Na 
falta dos Directores a é academia governac|a pelos Lentes roais anti- 
gos. Depois do Senador Vergueiro occupou o lugar de Director o Dr. 
Brolero; e actualmente depois de feita a reforma foi nomeado o Dr. 
Manoel Joaquim do Amaral Gurgel que ha três annos dirige os 
trabalhos da Faculdade, onde (ambem é Lente desde 12 de Outubro 
<le 1SI33 a qqe já a dirigia alguns annos antes dosta ultim reforma. 



— 820 — 

interino do Curso Ju^ico em 5 do mesmo mez e do aaino 
de 1833, Bibliolhecaría neste mesmo mez e anno, e Lente 
Substituto em 1.** de Julho de 1840 passou a Proprietária 
por Decreto de 15 de Mj^ío de 1852 e transferido para a 1.^ 
cadeira do i.* anno. 

Na reformi foram nomeados pi^oprietarios os Db. 
Joaquim Vilella de Castro Tavares, que era Substituto desde 
7 de Julho de 1840, o, Dr. Jerónimo VHeHa de Castro que 
era Substituto desde 30 de Abril de 1844, o Dr. Manoel 
Mendes da Canha e Azevedo, e o Dr. Zacharias de Góes e 
Vasconcellos que jà era Substituto desde Julho de 18*0. 
O Dr. Manoel Mendes da Cunha e Azevedo foi nomeado eia 
!.• de Julho de 1854, Professor da nova cadeira de Direito 
Romano, o Dr. João José Ferreira d' Aguiar, por igual De- 
creto, e pela Jubiiaçâo dada ao Conselheiro Zacharias de 
Góes e Vasconcellos foi nomeado Professor da Cadeira dè 
Direito Administrativo, o Dr. Vicente Pereira do Rego quo 
jà era Substituto desde 36 de Abril de 1835. Proprietam 
por Decreto de 17 d' Abril deste anno, tendo a Facoldade 
mais os seguintes Substitutos, todos elles nomeados na 
occasião da reforma, menos o ultimo o que foi em 3 de 
Junho deste anno: sâo os Drs. Braz Florentino Henriques 
de Sousa, José António de Figueiredo Júnior, Joáo Silveira 
de Sousa, José Bonifácio dWndradu o Silva, e Manoel 
do Nascimento Machado Portella. Depois da reforma dos 
Estatutos tem já sido escriptos os seguintes compêndios: 
Da pratica do processo criminal composto para uso da aula 
da segunda cadeira do 3." anno pelo Dr. Joaquim Ignacio 
Ramalho. 

Da Pratica do processo civil, organisado pelo Lente da 
mesma cadeira na Faculdade do Direito do Recife o Dr. 
Francisco de Paulo Baptista, obra recommendavel que tem 



— 521 — 

sido hem acceita em ambas as Academias, merecendo 
justos elogios dos professionaes. 

Da Pratica do Processo Criminal e do Militar pelo Dr. 
Prudencio Geraldes Tavares da Veiga Cabral. 

Compendio de Direito Administrativo pelo Dr. Vicente 
Pereira do Rego. 

Muitos serviços tem sido prestados por vários Profes* 
sores das Faculdades. 

O Dr. Braz, Professor Substituto da Faculdade de Direito 
do Recife, anotando o Código Commercial Brasileiro com 
toda legislação respectiva que se lhe seguio depois da data 
de sua publicação, prestou um valiososerviço ã todos aquelles 
que tem necessidade de consultar frequentemente esse ramo 
da nossa legislação pátria, e que consideram o tempo como 
um capital precioso para não o consumir em buscado Avisos, 
Decretos, Regulamentos disseminados peia nossa jà corpu- 
lenta collecção de Leis. 

ODr. Joaquim Jeronymo Villela publicando as Instituições 
do Direito Publico Ecciesiastico, matéria sobre a qual pouco 
ou quasi nada se tem escripto no Brasil, fez um serviço mui 
relevante à aquelles que estudam as matérias ecclesiasticas, 
porquanto nada existia a semelhante respeito. Este fructo 
de aturada leitura do distincto Professor de Direito veio 
alliviar a situação dos que ignoram os fundamentos da fé 
catholica e entregam-se sem exame a obras fúteis, falsas» e 
ridículas. 

O Dr. Loureiro, Professor da Faculdade de Pernambuco» 
que jà tem enriquecido as lettras pátrias publicando vários 
compêndios sobre diversos ramos de Direito, brindou a 
Academia com uma nova edicção correcta e augmentada 
das suas Instituições de Direito Civil Brasileiro. Era a muito 
tempo sentida a falta de semelhante obra, porquanto é bem 



— 5íí2 — 

sabida a difficuldade que entre nós existe de encontrar-se 
liei. clara, e systemathicamente em ura só compendio toda 
legislação civil pátria. O Dr. Jerónimo Villela, Professor 
da Academia do Recife também publicou uma importante 
obra de Direito Ecciesiastico, e flnalmente entre os Profes* 
sores distinctos da Faculdade de Direito do Recife, apre- 
senta-se o illustre decano d'aquella Faculdade que confiou 
aos prelos um novo compendio de Direito Publico Universal 
e um tratado de Economia Politica. O nome do Conselheiro 
Dr. Autran é náo só conhecido pelas suas producções, 
como bem por ser um dos mais fecundos talentos da Aca- 
demia de Direito do Recife, sempre admirado pe as suas 
doutas e eloquentes lições nas cadeiras de Direito Natiiral^ 
de Direito Publico, e Economia Politica. Eu que tive a honra 
de ouvir suas sabias lições fiquei muitas vezes extasiado e 
encantado de tanta eloquência e erudicçáo. O Conselheiro 
Autran conta uraa idade maior de cincoenta annos, e vinte 
nove de Professor, náo sentio ainda a sua fértil penna en- 
fraquecida pelo uso continuado nem a sua cabeça opprimid»i 
pelo peso dos annos. Cada dia umnovo triumpho distingue 
seu nome, e mais um padrão de gloria lhe ergue a sua 
eloquência e profundeza, ganhando uma memoria que fará 
o orgulho de seus descendentes, e não hoje que quando se 
lê uma obra náo se pensa um instante na cabeça que a 
produziu, nem na utilidade qae delia deve resultar, nem os 
sacrificios que ella trouxe ao seu author. A Europa tem dado 
provas mais de uma vez do apreço em que tem o economista 
Autran é credor, e servindo desde 1828 na Academia de 
Sciencias Sociaes e Juridicas nem um só instante foi o dito 
Conselheiro distrahido de tão honroso empenho, conse 
guindo mediante sja única voncarregada de formar uma 
lista das obras necessárias para poder suppril-as. Nem me 



% 



— 523 ~ 

tade ser hoje o economista admirado e consumado, como 
o sábio da Sciencia. 

O numero dos Bacharéis Formados nas Aciídemias Jurídi- 
cas lio Brasil desde a sua fundação até o anno próximo pas- 
sado anda em 180i; deste numero deve deduzir talvez perto 
de cem que linhâo fallecido, não se podendo considerar 
excessivo, antes pelo contrario é suficiente para as neces- 
sidades do paiz, porque existem milhares de localidades do 
Império que não tem Advogados formados em Direito, tendo 
as Relações dos Destrictos de nomear dentre o Solicitadores 
do foro peio menos três para cada Municipio forense, 

lie verdade que a maior parte d'elles vivem agglomerados 
nas capitães, ao passo que muitas comarcas estão sem um 
Bacharel em Leis, para fazer o mais simples requerimento, 
ainda que muitos destes lugares não desafie a residência do 
Bacharel pela falta de segurança individual e absoluta priva- 
ção das commodidades. Entretanto os poderes do Estado 
tem preferido os formados em Sciencias Sociaes c Jurídicas 
para diversos empregos d' Administração, e muitos delles 
tem sido despachados para Secretarias d'Estado, Corpo Di- 
plomático, empregos de Fazenda, Tríbunaes do Conuner- 
cio, Ac. &c. 

Até 18Õ1 existião formados 1324 

De 1 852 até 1856 480 

Não cansarei a paciência do Instituto com outros factos 
occorridos nas Academias, estado de suas Bibliothecas, que 
não satisfazem ao seo fim. porque possuindo ellas obras 
muito curiosas sobre Theologia, Philosophia; e de antigos 
Jurisconsultos notão-se nellas falta de escriptores modernos 
e que mais comesinhos são nas mãos dos Estudantes, cons- 

ta-me porém que uma Commissâo de Lentes acha-se en- 
Outubro 67 



— 511 — 

eaiTegaila áe formar uma lista das obras ncessarías pam 
suppril-as. Nem me demorarei em mostrarnesta resumida 
memoria a importante missão civilisadora das Faculdades 
Jurídicas, sua grande influencia sobre os costumes, apenas 
direi: o que erâo as letras? o que erâo as sciencias em a 
nosso Bra^'l antes que se estabelecessem na cidade d'01inda 
% S. Paulo as dous ornamentos destas duas Provindas. 
Sobmersos e neglegienciados na obscuridade eram ellas 
t|ixasi objecto de escameo e de despreso, em regra os filhos 
do paiz entregavam-se às ordens religiosas, ao estado cle« 
rical, e a não ser alguns filhos afortunados de ricos fazen- 
deiros oa do abastados capitalistas que demandavam o velho 
mundo e procuravam umi formatura na famosa e decrépita 
Coimbra. Más logo que o patriotismo de alguns dos nosso 
Legisladores erigio estes dous estabelecimentos jurídicos, 
o gosto pelas lettras a[^areceo, as luzes derramaram-se 
pela imprensa, Olinda c S. Paulo dotaram o Império com 
boas Ministros, dístinctos Legisladores, excellentes Magis- 
trados, óptimos \dv(^ados, diplomatas que já nâo nos en- 
vergonham». Estadistas consumados, dedicados esteios do 
D0S80 sábio e adorado Monarcha e ocupados inteiramente na 
prosperídade e engrandecimentoda patría- A terra do Brasil 
de árida que era tem-se tornado fértil, tem visto desabro- 
char no seu seio venlcs e esperançosos loureiros, e os ma- 
gistrados, fillios destas duas Academias, tem sabido honrai- 
as, contendo os génios perversos reprímindo as injustiças 
onde quer que ellas se achem o qualquer que seja a capa 
com que se tenhão encoberto, amigos da lei e fieis execu 
fores delia eUes dáo brilho e ornamento à torra donde sáo 
íUlios; Dão pactuando com a prepotência, e a inequídade 
qualquer que seja o apparato do força, ou de seducçôes de 
que se cerquem; elles tem sabido ciunprir sua missão, satis^ 



— 523 — 

fazendo suas próprias consciências, conservando sempre a 
rasáo serena e fria como o exige a sciencia, e muitos delles 
já eslâo sentados entre aquelles que hontem foram seos 
mestres e hoje são seos pares. Os mocos caminham na 
vanguarda di civilisacâo por toda parte formam-se asso- 
ciações literárias. No Recife e S. Paulo onde estão as duas 
Faculdades, os estudantes delias reunem-se em socieda- 
deslitterarias e estudam as leis que determinam o desen- 
volvimento progressivo dos seres que se movem no mundo 
da liberdade e dos elementos constituitivos da ordem moral. 
Em Pernambuco o Athenôo e o Monte Pio Académico tem 
produzido os fructos que naturalmente deveram esperar os 
seos instituidores, Estes levitasdo Direito, devotão-se ao 
santo e sublime sacerdócio da sciencia, divertem-se pas- 
sando o tempo em discussões sobre o estudo da Jurispru- 
dência tendo elles um jornal no qual se lêem vários artigos 
sobre importantes questões Jurídicas. lie uma escola onde 
a mocidade se ensaia pela palavra e pela penna para as 
grandes lutas da inteligência que um dia o aguardào para 
foro e na tribuna. 

O Monte Pio Académico continuando a soccorrer alguns 
mancebos pobres, mas distinctos pelo talento e reconhecido 
mérito se tem feito depods de todos os elogios. Devem-se 
aos Professores das Faculdades estos benefioos resultados, 
por virtude das doutrinas que elles procurão transmittir a 
mocidade que os escuta. O século cessou de ser politico ; a 
moderação e a concórdia se tem feito sentir em todo o 
Império de tempos a esta parte e vai congraçando todos os 
indivíduos e todas as classes outr'ora divididas pela exage- 
ração e rancor dos partidos. A mocidade estudiosa do 
Brasil caminha no movimento que vae dominando em o 
Império. 



~ 526 — 

Parece poder dizer-se que a segunda metade do século 
19 será toda scientifica e industrial. 

A mocidade comprehendeo bem que, em um p;nz novo 
onde tanto ha a fazer, e que entretanto já se assignala 
por tantos feitos gloriosos não querendo ella ficar atraz na 
carreira do progresso e da civilisação, não lhe sobra tempo 
para consumi!-o em mesquinhos ódios, sendo todo elle 
pouco para o estudo das sciencias, a meditação e a pratica 
dos grandes princípios sociaes. Aquellas associações provam 
do modo mais formal que os estudantes de ambas as Facul- 
dades são dominados por boas ideias, e trilham agora uma 
senda da qual fora para desejar que nunca tivessem o menor 
desvio. 

Desculpae-me, Sonhores, se não cumpri como devia a 
missão que tomei sobre mim, quando me inscrevi o anno 
passado. E' a fraqueza de minha intelligencia que me inhibe 
de não tornar mais methodica, mais clara, e mais correcta 
esta memoria. A Providencia não dá a todos a mesma 
missão; aquellesa quem ella dotou de uma intelligencia 
luminosa e collocou a frente de seos irmãos, como um 
farol, devem preencher esta missão, sejam quaes foVem os 
óbices que tenham que vencer, e as dores que tenham que 
soíTrer. A mim só é dado pedir perdão por ter abusado da 
paciência de N. M. I e de meus estudiosos e caros collegas. 

Rio, 9 de Outubro de 1857. 

Carlos Honório de Figueiredo. 



DA CIDADE DO SALVADOR. 

ESCRIPTA POR D. MaMUEL DE MeNEZES 

CIIRONISTA MOR E CIlROSMOGRAPHO DE SUA MAGESTADfi E CAPI- 
TÃO GERAL DA ARMADA DE PORTUGAL NAQUELLA EMPERSA. CO- 
PLV COTEJADA COM O MANUSCRIPTO ORIGINAL DE MADRID — POR 

FRANCISCO ADOLPHO DE VARNHAGEM. 

LIVRO SEGUNDO. 
Do que aconteceo aié render-se praça. 

A onze de Fevereiro lerça-feira, as oito da manhã, des- 
fraldou a real do inarocceano o que no mesmo ponto imi- 
tou a real de Portugal e foram seguindo as outras. Constava 
esta armada de Portugal de vinte e três vellas redondas, e de 
quatro caravelas. A cappitana, S. António e S. Vicente que 
se algum do mundo podia merecer tanto nome de taes 
santos, era ella verdadeiramente por grandeza, em que 
excedia com grande vantagem as outras reaes do mar 
occeano, estreito mas com muito maior nobreza que nella 
hya, pessoas mui consideráveis por casas e calidades : a al- 
miranta S. José de que era capitão D. Rodrigo Lobo, S. 
João Soldouradode Manoel DiasdeAndrada, S.Bertolameu, 
de Domingos da Gamara, Santa Gruz, de Gonstantino de 
Mello Pereira, Nossa Senhora do Rosário, de Tristão de 
Mendonça Furtado, outro do mesmo nome de Ruy Barreto 
de Moura e Menezes, Nossa Senhora da Ajuda, de Gregório 
Soares Pereira, Penha de França, de Diogo de Varajão, 



— »28~ 

Rosário menor de Xptevão Cabral, Neves mayor, de Do- 
mingos Gil da Aionsecca, Menor, de Gonçalo Lobo Barreto, 
S. Joio Evangelista, de Diogo Ferreira, Nossa Senhora da 
Bonanç^i, de Affonso Barros Caminha. S. Bom Homem, do 
João Cazado Jacomo, Boa Viigemque hya com mantimentos, 
de Symão Dias Salgado, S. António que também liya occu- 
pado, e Rosário menor sem outro navio fretado por Duarte 
de Albuquerque Coelho para sua despenca e matelotage. 
Nas caravelas hyam os capitães Cosmo Couto Barbosa, 
Roque de Monteroyo, Sebastião Marques, náo se achando 
nesta viagem a urca Caridade e outro navio era que hyam 
os capitães Lansarole da França de Mendonça, Bento do 
Rego Barbosa, nem a caravela de Manoel de Palhais quo se 
derrotaram nem a Conceição que fez naufrágio. A sinquo 
de Março passaram estas armadas a linha padecendo por 
aquella parage excessivas calmas a que ajudavam as cesõis 
curtas da agua pela muita gente que levavam os navios, e 
roim aguada que se tinha feito no Cabo Verde pelo risco cora 
queaspipasse embarcaram no porto de Santiago por falta de 
aprestos o tempo, occupada a gente em salvar a artilheria, 
e na armada de Castella pela pressa cora que se fez sem 
conserto algum de lousa. Eníim foram extraordinárias a 
respeito da paragem em que lhes parecia navegavam chega- 
dosà costado Brrsi! estando na verJade mui distantes delia, 
metidos em Guine como depois se coligio pelo que tardou 
a costa aos pilotos Cresceo o enfadamento por a ver tam 
grande cantidade de chinchas e outros sevandijas que mais 
parecia castigo de Deos que fruto de máo tempo, mais im- 
portunos que a mesma navcgaçara. Vio-sc terra do Brasil 
a 27 de Março em altura de doze graus e dois terços. Des- 
pachou logo D. Fadrique de Toledo o capitão José Furtado 
a tomar lingua, e por esta via e pela da torre de Garcia d€ 



^ 



— í)29 — 

Ávila a donde se não descuidavam teve aviso de tudo o qua 
se tinha alcançado por espias ou por alguer outra. A 29 
dava a armada fundo ao noroeste do forte de S. António 
perto de terra, Aliy se soube que a 9 de Janeiro junto à 
barra de Parahyha dera nos baixos de Lucena a urca Cari- 
dade e lhe fora necessário cortar os mastros para se salvar 
o casco e tudo o mais mandando com grande deligencia 
acudir a tudo Mathias de Albuquerque luzindo muito 
naquelle aperto o trabalho de André Velho filho do doutor 
Álvaro Velho do desembargo e camará de S. M. Na- 
quelle mesmo dia entrou Lansarote da França com a sua 
comi)anhia em quatro barcos acomodadas embarcações 
para navegar por aquella costa contra as monsões. Que o 
capilão Bento do Rego entrara no Arecife de Parnãobuco 
daly navegara ao morro de S. Paulo. Este chegou á Bahya 
a 4 de Abril com a caravela de Manuel de Palhais, e outra 
que D. Fadrique despachara da Bahya de Cadiz. Veo D, 
Francisco de Moura capiiáo mor acompanharam-no Lou- 
renço de Brito e alguma gente escolhida. Avisou a D. Fa- 
drique do que tinha alcançado das forças do inimigo e 
ditosos sucessos dos assaltos as relações sobre que se havia 
de fundar o numero e disposição da gente para o sitio d'a- 
quella praça foram varias, e já demenuindo as forças do 
inimigo, ja acarrando causas ao temor. Mas todos convinham 
que a praça fora ja recuperada se ouvera qualquer socorro. 
Huns afirmavam que o bispo com esse pouco poder que 
tinha estivera mui perto de intentar a imprensa ; que outro 
deixara a seo sucessor muitas escadas feitas com que estava 
para cometer o asalto a escala a vista. Poderá aquella pre- 
sunção causar aborrecimento se em outra cousa se cuidara 
que no serviço de Deos de se ajudarem uns aos outros para 
conseguir o que convinha ao real serviço de S. M. Que 



— 530 — 

dentro da cidade averia oitocentos e quando muito nove« 
centos homens; feita a receita dos que disiam ficar nella que 
eram mil e quatrocentos e a despesa de trezentos para 
quatrocentos, que os asaltos e alguma doença tinham con- 
sumido fora muitos enfermos e por isso inútil. Que entre 
todos averia trezentos que tinham praça de soldado. Os 
mais era canalha, a todos faltam mantimentos pelos muitos 
negros que Ih^os ajudavam a comer, que já a necessidade 
os obrigava a comer os cavallos que lhes ficaram. Tam ame- 
drontados todos que seguramente podia o exercito catho- 
lico armar-se a seus reparos com segurança de que não 
sairia dellôs o inimigo. Lembra-me que fazendo-se muito 
caso disto como se fez pecados dos homens ou juízos de 

Deos, a Sanfele tendo ja notado, Sy saldran selos 

apiertan, mas premitio Deus que nem aly entrase nem fosse 
ouvido como devera. Das fortificações da terra havia pouca 
diferença, nas relações se bem que acresentavam cousas, e 
demenuyam o numero das peças, ou que nâo contaram 
bem ou q le depois meteo outras o inimigo. A verdade he 
que imaginando a cidade como um meo ovado ao comprido 
de norte e sul a corcova para levante. A linha direita para 
ponente sobre o mar. nas pontas e na volta averia perto de 
sinquenta peças. Pela linha direita nâo seriam de efeito 
pelo despenhadouro com que se levanta sobre o mar. Avia 
somente no terreiro do governador algumas peças mui 
boas, e junto a see três de ferro em um trinchoirão de 
fraca espalda abocadas para a parte do norte. Todas aquellas 
partes intrincheiradas repartidas com valuaries terraplena- 
dos, traveses e cortaduras. Na porta de Santa Luzia duas 
meias luas mui polidas como era tudo o qne fizeram em 
lugar de parapeito cercado de pipas em ordem dobrada 
terraplenadas. Bella-vista indigna de ser pintada 8 relra- 



— S31 — 

trada como foy, mas para a defença iflutilíssima pela ma- 
téria, tudo adobes de terra que náo tem consistência alguma 
por mais socada ao pilão que seja, nem ainda em seu 
próprio e natural luguar. (Aqui fingiam cappassiciraas abo- 
bedas, e minas para voar os atrevidos.) Para todas as de- 
tenças torriões, traveses, reducto^, plataformas havia ca- 
minho desembaraçado pêra soccorrer pela parte interior, 
avendo para isto desmontado arvoredos, desmatelado casas, 
e edifícios chamados seus cemitérios. Na parte do Norte 
avia outros fortes como os de Santa Luzia quasi yguais em 
altura e perfeitos no artificio como fracos na matéria, huns 
e outros baluartes mui bem terraplenados, coroados de 
pentens daquella madeira que he fortissima cujas pontas 
agudas sayam da escarpa mais de sete ou oito palmos vas- 
tan temente carregados de terra mui bem socada. A estes 
servia de poço huma profundidade natural como a outro o 
vasio que ficou da terra com que levantaram as defenças. 
Ali fingiam estacas de mui forte madeira fincadas na terra, 
de pontas ferradas com que se asseguravam de ser entradas 
por aly sem grandíssima defeculdade* Pela parte de levante 
avia quasi a mesma forma de poço pela terra que tirara para 
as defenças. Mas tudo a formoseava hum lago com dique 
(|ue o atravessava pelo largo com sua inclusa tudo bem feito 
por extremo. A' margem exterior visinha ao dique tinham 
semeado de abrolhos de ferro de três pontas farpadas de 
qual parte caissem igualmente nocivas. Defronte do dique 
porta de socorro entre dois travesôes, quanto a traça tudo 
ordenado por bons mestres. Este lago exageravam fingin- 
do-lhe huma Peça e mea em alto pela muita terra cortada 
apâ, enxada e ferrão talhado, sendo a verdade de huma 
pouca de agua junta de algumas fontes que regavam aquelle 
Tale povoado de pomares de suas frutas desabridas e algumas 

OUTUBRO 68 



— 632 - 

crtas, ajuntando a isto a agua da chuva que sempre aly se 
detinha. Estas aguas enserraram com hum valado grosso 
de terra pela parte do norte por onde costumava desaguar. 
Aqui flngiam barcos com que se pescava pêra regalo dos 
capitães, o que faz parecer-me a partes fundo como dez ou 
doze palmos, e a partes muito menos de maneira que as pe^* 
quenas arvores mostravam em cima das aguas seus delga* 
dos troncos. Contavam que todo o mato ao redor tinha sido 
rossado a tiro de mosquete mas também não vi sinal de tal 
rossado» Das fortificações da ponta do norte baixava direi** 
tamente como bem esquadria huma estacada de ma leira até 
a fonte dos Padres da Companhia que está na praya. Outra 
semelhante das portas de Santa Lusia igualmente distante 
a outra (ao que se podia julgar) até feneser na praya. Estas 
se corriam peia parte de dentro por caminhos mui desem-* 
bancados. Os términos destas palissadas cujas pontas que 
eram agudas, e fingiam de ferro, ajuntavam as fortificações 
da praya que fica como lado direito do ovado que disemos. 
Destas avia informações de pessoa que delia tinham saído a 
principal era de Fernão Florim natural de Lisboa que fiira 
tmnado em hum navio, entrara na Bahya dia de natal e 
tinha visto tudo de vagar. Todas as ruas que desembocam 
na {H*aya estavam intrincheiradas e providas de artilhería. 
No càes dos Padres da Companhia huma plataforma com 
boas pessoas, outras no forte de Santo Alberto, hum pa- 
redão antigo de pedra e cal junto á nossa senhora da Con- 
seição o ocupavam com sete ou oito peças. Sobre as casas 
dos Padres de S. Bento e seu pavimento mui bem fortificado 
outra plataforma com quatro peças abertas as paredes em 
calfaeteiras para mosqueteria, mais para as olarias outra, e 
na ultima ponta do sul duas peças huma de grande alcance 
com que varejam aquella praya por gran distancia. No fortt 



— 5sa — 

novo que tinham sete peças de bronze mas easalsavam estd 
força e maito mais o artificio contando que nelle ha?Í9 
huma fornalha de três bocas para fazer ascua às balas com 
que haviím deabrazar todos os navios que se lhe chegasse. 
Sendo aquella fornalha ordinária para trabalharem os fer- 
reiros em qualquer occurrencia e dizem qoe para fundir 
balas se faltasse. ' Asy passava tudo como costuma em seme^ 
Ihantes ocasiões donde as tezes procedem pelos tempos 
adiante indignas credulidades apesar dos que bem sabem 
duvidar, mas verdade he que aquella era a parte de mayor 
força por donde cuidavam ser aconoetidos por mar, com 
estas relações vinha também a de quatro navios, presas que 
o inimigo tinha cheios de artificio de fogo para qoe com 
Tento em popa se chegar as cs^itanas, e abrasalas para o 
que sempre estavam promptos de verga dTabo Amsyoheceu 
o ditoso dia do ^orioso triumpho e resureição de Jesus 
Christo Senhor Nosso. A vista do mar era bellissima esmal- 
tada das armadas catholicas competin(k> as capitanas e 
almirantas na galhardia de flâmulas, estendarte, armonia 
de doçainas e charamellas mostrava-se a terra infelice, mas 
aprasivel à vista por extremo, a formosa enseada que vai 
apartando montes de frescos e verdes arvoredos. A triste 
cidade do Salvador sobre huma serra muiingrime revestida 
toda de bosques e ervas aprasivelmente verdes, vilmente 
entregue pelos seus a mais inimiga gente que sofre a igreja 
de Deus. Sobre o mais alto da sua igreja cathedral cam- 
peavam e tremulavam as bandeiras de Mauricio, pela mad- 
rinha junto da terra vinte c dois navios redondos de verga 
dTalto. entre elles seis de força quatro grandes e dois 
mayores de seiscentas toneladas com'cantidadedeartilberia 
bastante. Todos os principaes aformoseados de bandeiras, 
flâmulas, e estcndartes, mal se poderá detreminar qual che- 



— 534 — 

garia a mayor excesso de alegria dos espanhoes com a pre-» 
sença dos inimigos que já fingiam vencidos e castigados se 
a tristesa destes vendo não de longe a sua irreparável ruinst 
em luguar do socorro septentrional que esperavam, e com 
a primeira vista desta armada presumiram. Convocado o 
conselho para a capitanarcal de CastellapropozD. Fadrique 
de Toledo por modo mui consertado que de mui boa von- 
tade aqui pusera se a memoria me ajudara. Dava muitas 
graças a Deus pelas graças que fizera a seus servos trazen- 
do-os unidos e inteiros a entrada da Bahya, com que até a 
fugida, ultimo remédio dos miseráveis se tirava aos olan- 
dezes. O praso da jornada era mayor que o tempo poderia 
oferecer pela gloria que de Deus esperava ajudado de taes 
companheiros, de se ver recuperada a praça de mais im- 
portância que todas as do império da Espanha, a qual por 
occultos juízos e permisão divina com ignominia não pe-r 
quena do nome espanhol fora ocupada por seus rebeldes. 
De tal exercito como ao presente se não podia coligir que 
tivesse diante dos olhos outro intento que a gloria de ven- 
cedor. Mas que seu interesse entre tão nobres conside^ 
rações tivesse algum luguar muito grande era o que nas 
mãos se entregava. Porque aquella praça escala degrandis- 
sima parte das navegações do mundo, aonde os olandeses 
pretendiam fundar monarquia a que chamavam nova Olaiida 
tinha conduzido todas as riquezas que podcram ajuntar para 
suas mercancia, e comércios sem as imensas que se lhe 
tinham entregado em suas mãos por aquelle espaço de 
tempo que a senhoreavam os que mui pequena parte delias 
tinham levado; estando tão segos que fozendo tliesouro en^ 
terra alheia e de tão grande Senhor, o tinham todo encer* 
rado na cidade. Fazia exemplo a outros que averiam entrado 
com o navio de Buenos Ayares avaliado em muitos centos 



— 535 — 

de mil crusados em que D. Francisco Sarmento trazia 
sua casa, mulher, filhos e genro. Constava não ter levado 
para Olanda, ouro, ou prata, principal fructo d'aquelle 
empório, nem outras fazendas ricas senão em vinte e oito 
de maio huma nao con assucar, tabaco e cousas de pouco 
preço; e outros quatro navios em julho com a vilesa de 
semelhante carga em que foy o desditoso fidalgo Diogo de 
Mendonça Furtado e o Provincial da Companhia com seus 
companeiros que aly entrara mcegamente na volta de visitar 
as suas casas da parte do sul. As forças que levavam eram 
com grande excessos superiores as do inimigo sobre sal- 
teaílo quando mais seguro estava de seu socorro, e no des- 
cuido com (jue seus esmelos invejosos culpam a monarquia 
de Espanha, pela sua posse (não fallando no socorro do 
ceo que em todas as acções umanas se estima mais que tudo 
e pela divina vontade de Deus estava com o exercito calho- 
lico) militava tudo que nas ocasiões de guerra soen ter toda 
a importância. A terra amiga, muita e muy boa gente nella, 
e muy escolhida a que lhe tinha vindo com os socorros, a 
noticia do paiz como de suas casas, a inorancia que nisto 
padecia o inimigo, que se lhes representava diante dos 
olhos qual animo o mtentaria estando de antes oprimido de 
huma pouca de gente pela mayor parte bisonha, desar- 
mada, e dos frecheiros naturacs da terra expostos as in- 
jurias do tempo, como agora vise defronte de suas cortinas, 
e valuartes aquartelados os pujantes exércitos de Espanha, 
por mais que se cançava na consideração nas forças e braços 
de inimigo ciliado para se opor a humas e desfazer as outras, 
confesí^ava que não podia presumir outra cousa que a certisr 
sima victoria desejada, senão que lhe parecia inferior a im- 
presa a tanta força pelo desalento com que estava o inimigo 
conforme naquella junta se lhe afirmava. As palavras ul- 



- 586 - 

tima$ que disso foram ouvidas com grande aplauso, não ^ 
lemèrando mais que de maldizer a ora que podia haver de 
dilação. Acharam-se naquelle conselho com D* Fadrique 
de Toledo, de Portugal D. Manuel de Menezes general da 
armada. D. Francisco de Almeida almirante, Mestre de 
Gampo António Munis Barreto, D. Afonso de Noronha da 
conselho de estado, os Condes de Vimioso, S- JoSo. e de 
Tarouca, o morgado de Oliveira por ordem particular. D. 
Francisco de Moura. Lourenço de Brito. Da armada de 
Castella D. João Fajardo general do estreito e almirante, o> 
Marques de Cropani mestre de campo general do exercito,, 
o Marques de Torrecusso, D. Pedro Ozorio, D. Joãade 
Orellana mestres de campo, o governador San Feliche. D. 
Álvaro de Losada capitão de cavatlos em Flandres que en-^ 
trava por ordem particular, D. Francisco de Azevedo ge- 
neral da armada de quatro velhas, Martin de Valhesilhav a 
sargento mayor Diogo Rodrigues, o Murga, o Coscou, 
Armeutevos e Sebastião Granero tenentes generaes da 
artitheria de terra e mar. Resolveu-se que posto que pelo 
conselho de Castella vinha deteroúnado que^ a praça se- 
batese por hum quartel com oito canhões somente qua 
hiam pern este efeito, se setiase com dous visto estar ja 
tão chegado ao tempo do inverno, e se batese com mais. 
canhões. Pêra ocupar estes bastavam quatro mil homens,, 
dois mil das esquadras e armada de Castetta, mil e qui-^ 
nhentos de Portugal, quinhentos Italianos, ao qual numera 
se avia de juntar D. Francisco de Moura com sua gente que 
eram mil e quatrocentos portuguezes, e quatrocentos na-^ 
turaes de arcos e frechas. Advirttiu D. Afonso de Noronha 
seria acertada pelas consequências se fizesse saber na cidade 
que a culpa se remetia e se dava livres sayda a todo& de 
qualquer nação que nío fosse Olandeza que quizesse sayr 



— ,>37 — 

á^ cidade. Era tatitá a preca e afervorado o alvoroso de 
cada hum para desembarcar que avendo se assentado le^ 
vase mantimento para três dias foram poucos os Portugueeed 
que o leVaram padecendo depois bastantes fomes porcas^ 
tigo de tão leve culpa que não era contra Deos ou contra 
o próximo. Conhecendo D. Manoel em toda a nobreza o de* 
sejo de sayr em terra em huns o receo, e tfoutros deserem 
se náo sayse julgados variamente dos que desembarcavam, 
e presentindo a defeculdade se quizesse usar de seu regi* 
mento se resolveu em dar gosto a todos fazendo conta que 
sempre na armada ficariam algumas pessoas superiores na 
calidade dos Olandezes que viese na armada de socorro, è 
não inferiores na experiência dos criados que acompa* 
nhavam seus amos« Não deixou de ler o regimento a alguns 
mostrando a estimação que S. M* fazia igualmente de hum 
e outro serviço e o mui grande de que todos obedesesemas 
ordens que lhe dese. Se buscavam perigo e trabalhos, no 
mar o tinham esperando-se cada dia pela armada inimiga. 
A isto com que cuidou que os pigava responderam que sem 
dilaçSo acodiriam. Bem vio que se punha impossibilidades. 
Como aviam desamparar seus postos? que tempo aviam 
mister para chegar? que praya visinha tinham ou sem 
resaca para se embarcar? que armada inimiga podia ama- 
nhecer na barra, e em menos de huma ora e estar embara* 
cada com a de Espai^» que quando esta não chegase tio 
depressa os navios de fogo bastavam para dar cuidado, quô 
estando prontos para se dar á vela quando não alcasase o 
intento de abraçar as cappitanas as aviam de advertir com 
que suas nãos podese sayr, levando os thesouros e gentft 
de consideração (o que se temia muito). Era necessâârio 
seguil-os e desbaratados. Estava tão posto a comprazer a 
toda a nobreza que pretendendo D. Francisco de Almeida 



— 538 — 

almirante da armada obrigado a elia sayr em terra, repre* 
sentaado-lhe porém algumas resois em contrario, e mos- 
trando-liie a fúria d^aquella epidemia o ajudou em seu intento 
com D. Fadrique de Toledo e permitio que do terço da 
armada levase a sua companhia. Sobre esta resolução ouve 
muitas duvidas. António Monis Barreto alegava que era 
mestre de campo do socorro nomeado aliy por S. M. que 
avendo de sayr D. Francisco de Almeida com este nome 
fundado em ser governador do terço lhe ficava precedendo 
por aucianidade. D. Monueldeu de tudo conta a D. Fadri- 
que que não desejava menos de compraser a todos e mui 
particularmente aos fidalgos portuguezes, e com mais cir- 
cumstancia a D. Francisco de Almeida que lhe tinha de 
antes proposta sua pre tenção e elle prometido de o ajudar 
Estando todos quatro juntos se compoz tudo assentando-se 
que se não fazia agravo a António Moniz, ainda que elle 
dizia que tudo o que se desse a D. Francisco se lhe tirava 
a elle pois ficava incluso em seu terço com o nome de so- 
corro. As presedencias tomou D. Fadrique a sua conta 
determinando apartal-os. Que do numero da gente levasse 
António Monis a sua, e D. Francisco os que da armada 
podese ajuntar ató quinhentos homens. Para ajuntar estes 
avia novas defeculdades, porque com as companhias de 
António Monis tenha saydo da armada muito mais gente da 
que se lhe tinha limitado que eram mil homens, e como 
com a gente nobre sayam todos seus criados ficava a ar- 
mada mui falta para poder dar tanta gente. O capitão Gon- 
çalo de Sousa rogado, e persuadido pelo almirante o quiz 
seguir com a sua companhia. Não achou no capitão Cons- 
tantino de Mello Pereira a mesma modéstia ou brandura 
escusando-se que tinha a na veta Santa Cruz a sua conta por 
ordem de S. M., que se D. Manuel mandase obedeceria 



— 539 — 

cnlregandoJIia desencarregado delia e nâo de outrâ maneira. 
Nem pode D. Francisco por aqui venser a defecoldade. Òs 
mais capitães de infanteria do terço eram juntamente ca- 
pitães de navios, avendo em cada hum delles em seu tanto 
o mesmo despejo que na cappitana dâ gente nobre e seus 
criados. O capitão Manuel Dias de Andradã somente estava 
sem navio porque o em que fora por estar inútil estava en- 
tregue a que o fretara, mas nomeado naquella ausência de 
D. Francisco por ser muito para aquelle c^rgo foram tantas 
e tão apertadas as instancias de D. Francisco por varias ma- 
neiras, e a vontade de D. Manuel tão pronta a lhe dar gosto 
que sayo aquelle capitão a terra mais porfiado que persua- 
dido, em cujo lugar ficou Jorge Mexia Fouto sobrinho do 
bispo de Coimbra D. Martim António Mexia governador de 
Portugal capitão que tinha sido de infanteria, e de navios 
por S* M. Começou a desembarcar a gente pela praya junto 
ao forte de S. António, o terço de D. Pedro Ozorio, o de 
António Monis Barreto, o do Marques de Torrecusso, o de 
D. João de Orelhana. Consideravam soldados práticos qual 
era a disposição di terra para impedir a embarcação, ou 
consumir os que desembarcasem. A praya de inumeráveis 
penhas, até mea agua chea mas sempre com resaca, e des- 
coberta a artilheria do forte. Acabada a parte que a maré 
lava comessa hum areal fundo e solto mão de passar por 
qualquer despejada. A este abraça hum bosque de arvoredo 
mui espesso que poderá dar cuidado as valentes que o 
queiram investir avendo nelle duzentos mosqueteiros. Ven- 
cido este fica huma costa bem erguida e logo caminham 
fundos estreitos sercados de arvoredos, e malesa. Facção 
era pêra Olandeses arriscarem duas emboscadas duzentos 
e cincoenta homens, mas injustamente se poderam acusar 
os Portuguezes de culpados menos de onze mezes antes 
Outubro 69 



— 540 — 

que sendo a terra, a cidade, e campanha sua a náo defen^ 
^Dram por aquelle caminho bosque, e areal livres da re- 
saca contra gente estrangeira, ignorante das ciladas tendo 
campanha, terra, e cidade contra sy. Âquella noite pas- 
saram alguns desembarcados por aquelles áreas, aqui foy 
o das fomes que emleavam bebendo agua turba dehnma 
âlagoa mal limpa. Foy o mestre de campo general com 
alguns práticos da terra, com elle D. Francisco de Faro 
reconhecer os portos e fortificações, do inimigo do pouquis-^ 
simo que vio dando-^se por satisfeito trouxe boas novas a 
Dw Fadrique de Toledo mui a gosto dos restauradores. De- 
sembarcou ao outro dia pela manhí com gram resaca que 
lhe voltou huma falua na praya cbea de gente do acompa- 
nhamento. Abateram- se-lhes as bandeiras todas postas em 
armas. Deitou-se dando para devida aos que metesom mão 
& espada, faca, ou adaga. Marcliando a cavalo fez noite em 
a ermida de S. Francisco. Levava novecentos homens, e 
maudouque do terço de António Monis lhe fossem tresentos 
de mosquetes, arcabuzes, e peças em numero igual. Esta 
gente que marchava diante alcançou, e passou acompanhado 
de D. Francisco de Moura, e por largo rodeo se foi meter 
no Carmo como em sua casa. Tal era a confiança que faziam 
da mizeria do inimigo. Encontrava pelos caminhos frechei- 
ros pintados em tropas que lhe engrandeciam os práticos 
muito de animo e resolução. Vagava por tudo como no seu 
agente que primeiro tinha chegado àquella parte do Carmo 
Com liberdade se metia pelo arvoredo a colher limas e la- 
ranjas táo visinhos as fortiíicasõis da cidade que ao ruido 
dos ramos desparavam peças, tiravam mosqueter ia. Naquelle 
dia em que D. Fadrique desembarcou a tarde, sayo quasi 
toda a nobreza de Portugal, muitos criados, muita infan- 
teria que na primeira tarde não poude desembarcar. Fiie- 



- 8*1 ~ 

mm muitos caminhando a mesma conta de mantimento que 
os primeiros, senão que nem levavam ordem de exercitou 
nem marchavam em fileiras. Caminharam toda a noite a pé 
a cavallo como podiam posto qne pessoas grandes quizeram 
caminhar a pé com suas armas as costas. Entretanto vari- 
edade de gente necessária era a desordem, huns passavam 
outros ficavam cansados, alguns por se desembaraçar melhor 
deixavam suas peças ou mosquetes. Era grande o rodeo 
deiundo a montanha que era dorso continuado coroa H 
cidiJ- pelo le^^ante a mâo esquerda .Chegaram o mesmo dia 
que 0. Fadrique ao bairo do Carmo, em que estava a gente 
de [). Francisco de Moura, por onde se agasalharam com 
a mesma segurança. Eram os terços de António Monis 
Barreto que acabou de chegar a dois de Abril, e D. Joâa 
de Orelhana. O marques de Cropani com os terços de D. 
Pedro Ozorio, o maques de Torrecusso, de D. Francisco 
de Almeida tendo o alojamento mais visinho em S. Bento> 
marchou com mellior ordem indo na vanguarda D^ Henrique 
de Alagon, e outros cappitáes. Para este quartd estavam 
tigelados dois mil homens, mas em nenhum dos terços 
avia toda gente porque D. Francisco da Almeida não tinha 
em tem inas que sua companhia e os Gdalgos aventureiros 
de sua almiranta, e a companhia de Gonçalo de Sousa. De 
todos estes nâo averia no quartel quarenta por andarem 
com dos terços deTorrecusso, e muitos de D. Pedro Ozorio 
acapados em conduzir a artilharia que desembarcada na 
praia de S. António pêra ambos os quartéis não se avendo 
ainda feito coula do caminho pelo porto de agua dos me- 
ninos) se levava grandíssima defeculdadepostoquea gente 
da terra acudio cora cuidado pela ordem que tinha dado 
D. Francisco de Moura. Mas com grandissima diferença 
asistio Estevam de Brito Freire, fidalgo riconaquellaBahya 



-- 54S - 

que em Lisboa se ofereceu par^ a impresa vensendo o que 
pirecia impocibiiidade, a fraqueza corporal da convaleseih 
cia de huma larga e grande enfermidade. Muito desejou 
levãu* comsigo a Gaspar de Brito $eu filho herdeiro e casado 
O que não ouye efeito por certo embaraço. Parece que o 
gO^to lhe esforçou a natureza, achando-se no mar com gran- 
de melhoria e depois em terra com saúde. Foi de muita im- 
portância sua presença porque serviu com seus criados com 
dpentos escravos de seus engenhos, barcos, carros e bois 
tudo de mui grande utilidade, porque como em Espanha 
se não tratou m^is que de oito canhões para a expugnação, 
para perto de quarenta que se levaram aos quartéis yam 
mui foltos de carros matos, cabrilhas encavalgamentos, e 
08 mais petrechos inescusáveis, ao que se juntava pouqiusn 
simos gastadores pêra levar artilheria, monições, alhanar 
caminhos, desmontar bosques, faltando quasy em tudo o 
de que tinham informado a S. M., e terem tão fracos 
aquelles negros e naturaes neste género de serviço que 
quatro, sinquo faziam apenas o que hum bom trabalhador. 
Aquella noite depois de desembarcados os fidalgos sayo D. 
Manuel em sua falua reconhecer a marinha, chegando ao 
pè da armada olandesa, avisando ainda a volta a toda a 
armada tivesse boa vigia, estivesse sobre huma ancora 
aboyada que largasse por mão pêra seguir a inimiga fa- 
zendo se à vela. Para assistir a estas e outras ocupações 
se discreptou de toda as outras transferindo em D. 
Francisco de Moura toda a jurisdição que S- M. lhe dava 
em terra e na gente que melitava debaixo da sua bandeira. 
Hyam-se ajuntando aos quartéis, comessavam a ordenar 
suas barracas a quem não coube casa de alojamento. Tal 
foy a apreenção que se fez de que por nenhum caso 
^yria o inimigo que todos se chegaram à cidade sem 



— 518 — 

modo de valados, ou trincheiras, sem disposição de portas 
ou sentinelas, sendo asy que o inimigo se não descuidafSi, 
disparando prodigamente a artilharia sentindo que se lhe 
chegavam. Esta apreenção tenho por causa principal do 
ruim successo de dois de Abril no quartel de S. Bento, 
desgraça para todo o tempo notável, em principio da im- 
presa de muito ruim pronostico, e mayor consideração, 
ocupada a mayor parte da gente em sobir a artilheria, es- 
tava a outra em descuido qual poderia ter em suas casas, e 
porque a calma daquellas partes é grande, e aquelle dia se 
dava a sentir mais pelo cansaso com que tinham chegado 
se começaram a despir descuidando-se das armas. Não perdeu 
a ocasião o inimigo; fez huma sortida que pareseo de 
cento e cincoenta mosqueteiros por baixo da porta de 
Santa Lusía, e rua que vae para S. Bento. Comessaram a de« 
golar sem aver violência. O mestre de campo D. Pedro 
Ozorio como era valente fidalgo, soldado velho, os investiu 
com huma cana na mão dando voses aos seus animando-os 
com resolução digna de seus avos. Acodio o mestre de 
campo general da quem a idade não demenuya o animo 
se bem as forças. Diogo Rodrigues, e Pedro Corrêa da 
Gama sargento menor do terço de D. Francisco de Al- 
meida valentes soldados de Flandres se mo^ravam com 
valor notável. D. Francisco de Faro como estava em 
AJmilha de lenço branco tomando a peça nas mãos com 
que foy exemplo a quatorze ou quinze que o seguiram* e 
com o capitão D. João de Ouviria moço valente e de gentis 
partes que assistio com os mosqueteiros que achou de 
morrões acesos se oppoz ao impeto do inimigo e o susteve. 
O capitão Lourenço de Brito que fora aly mandado asistir 
COO) sua companhia como pratico daquelles postos, e tinha 
na rua por onde passavam o seu corpo de guarda se 



— 514 — 

portoa naquelle aperto como valente soldado: dada sun 
carga se recolheu o inimigo até nisto acordado porque 
levou nos espanhoes que o segiam até os meterem debaixcv 
da sua artilheria, descobertos e de mui perto. Dos reparos 
junto a porta os receberam com muitas balas de mosquete^ 
e da porta que se abrio para recolhei' os seus, com seme- 
Ihlnte carga de artilheria meuda cargada com lanternas, e 
pedaços de ferro com que fizera grande destroso. O Gapitáo. 
Lais da Gama portuguezes se asinalou notavelmente, e nãa 
menos Simio de Vianna alferes da companhia de D. Francisco 
de Almeida, e Francisco Carrilho pardo decôr, mui valente 
soldado se adiantoumuitocom grande valor com que ahyfoy 
morto como os dois que sendo nomeados acharam aly 
Úuarte Rebello, António Rebello e Jo5o de Sousa filho deO 
provedor das armadas navaes do Algarve; feriram António 
Rebello levemente e a Joáo de Sousa de hum mosquetaça 
de que cayo e o tiverampor morto, chegou Duarte Rebello 
e ouvindo esta nova passou adiante sem parar com grande 
pressa dizendo aos que ficavam que o encomendase a dois 
foy desigualissima a perda de D. Pedro Ozorio, morto de 
hum balaso pessoa da mais principaes de todo o exercito, 
por nobreza, por valor, por experiência deixando geral- 
mente sentimento notável como mercse em semelhantes 
ocasiões a perda de tantas partes, e calidades. O habito de 
S. Francisco de quem se não esperáo vanlentias sublimavam 
mais a do pa !re frei {**) confessor e cotinuo companheira 
do Marques de Cropani que com grande constância se an- 
dava metendo aonde era mayor o aperto, e confusão. 
Morreo neste confiito D. Francisco Manuel do babito do 

(*) Não traz o nome o original. 

(**) Falur i^almeote o nome no manuscripto d'ondc se eslrahta 
esta copia. 



- 545 - 

8. Joáo capiláo de infanteria do terço de D. Fran- 
cisco Ozorio. Foram feridos D. AIodso da Gama capitão 
de picas sobrinho do almirante D. Alonso de Moxica e 
morreu ao terceiro dia. D. Pedro de S. Estevam capitão 
de arcabuzeiros sobrinho do mestre de Campo general que 
morreo brevemente da ferida Feriram com um mosquetaço 
na mão direita ao capitão D. Henrique de Alagon fidalgo 
moço de gran calidade, que estava com os de vanguardia. 
Os capitães Diogo de Espinosa. D. Diogo de Bamires de 
Maro, fidalgo rico visinho de Madrid, D. Diogo de Gusmão 
filho de D. Pedro de Gusmão Erdado, sobrinho do patriaca 
arcebispo de Sevilha, D. Diogo de Malva, e outros muitos 
soldados contando-se entre mortos e feridos cento e no- 
venta e cinco pessoas. Alguns pelas espaldes com rumor 
que os espanhoes visinhos que acudiratp tarde atiravam de 
longe 06 matavam. Os Olandezes fizeram sua facção em 
trassa, talor e sem custo. Hum faltou que D. Francisco de 
iFaro amarrou e entregou amarrado Melhor sorte foi Deus 
èervido dar a Espanha nos meos e nos fins. Daly por diante 
se passavam com mais recato senão foi alguma ora a cautela 
demasiada. Contam-se de uns rozins que huma noite se 
soltaram e de hum boy por outra vez que fizeram reparar 
A alguns com a imaginação da sortida passada. Aquella 
hoite desampararam os rebeldes o forte Tapagipe deixando 
Uguma pólvora e monições, e algumas peças de artilheria 
áé que logo correo fama ávida por certa que fora treta pêra 
^r os nossos que o fossem ocupar deixando no meo da 
bfaçahuma abobeda cheade pólvora hum morrão aceso com 
jnedida proporcionada ao tempo que terminaram pêra o 
lUcendio, que a isto acudira Deus por meo de hum soldado 

?ue arrojando-se anticipadamente apagou o morrão. Enca- 
bfcimento como os demais. Tínhamos Olandezes feito 



^ ft46 - 

qaellá abobeda, como tudo o mais, mui a propósito parSi 
conservar sua pólvora enxuta, era forrada de taboado bem 
coberta com um quartel que a defendia das injurias do 
tempo, e de bombas, ou granadas se inimigo lhe lanrase. 
Na mesma noite ja bem tarde levou Chritováo de Mendoça 
a D. Manuel, huma carta de D. Fadrique em que dizia que 
havia dois dias que estava tam junto ao inimigo daquella 
parte do Carmo que a mosqueteria passava pelas cabeça 
sem ter com que se cobrir, o que não se pondo em efeito 
aquella noite seria mui danoso ; pedia que logo lhe man- 
dasse todas as chalupas que podesse carregadas de pás, 
enxadas, picos, machados, fouces, esportas ; que se não deti- 
vessem senão que logo que huma que podesse, se desse preça 
em chegar, que o inimigo era soldado e bem o mostrava» 
mas que esperava em Deos que avia de pagar seu pecado. 
Foy a pressa conforme a necessidade. Na mesma noite em 
breve espaço foy da quelles petrechos grandes cantidade ôe 
carpinteiros juntamente pêra os encavar. Desembarcou tudo 
em Agua dos Meninos aonde estavam duzentos soldados 
de guarda. Já estava reconhecido quanto se enganavam os 
dos assaltos, he mostrar despreso do inimigo cousa danosis. 
sima na guerra ainda que os inimigos não fosse Olandeses 
gente de valor como tem mostrado. Dizia-se depois que 
em estado esteve a gente desaquartelada que se o inimigo 
se resolvera a outra sortida poria tudo em grande risca ; 
o que não pôde negar he que fora peor a tarde que o meo 
dia em que a sortida se fez se quando os primeiros se reco- 
lheram sayssem duzentos de refresco pela mesma porta 
com grande defeculdade se salvariam as bandeiras que 
estavam juntas mas sem ordem de frente nem valado. 
Tal foy a desordem daquella ora que dizia o Marques de 
Cropani (segundo se conta) que muitos dos capitães que aly 



— Sàl - 

estavam eram indignos de guineta por falia, e desacordo 
que sentio. Hyase aquartelando o exercito pela parte do 
Carmo, e S* Bento cora grande cuidado e deligencia mos- 
trava-se natural fervor nos senhores e fidalgos portuguezes 
no cortar e levar as costas a faxina, e mâyor nos que 
foram criados com mais regalo. Estenderam-se ramos de 
trincheiras visínhas ao inimigo, ordenaram-se plataformas. 
Lusia muito o trabalho nas mãos do terço de Nápoles em 
que se não havia mais de mil quatrocentos e cincoenta 
(ficavam os mais na armada) todos mancebos nos annos 
eram soldados velhos relíquia do terço do valente mestre de 
campo Carlos Spineli, cujo sobrinho emitador era o Marques 
deTorrecusso que os governava. Deram-se tal preça que a 
sinquo de Abril alarde comessaram bater a cidade da pri- 
meira plataforma que fizeram na faxalda do monte de S. 
Bento descoberta ao mar. Pela parte de terra se apertava 
o sitio, e no mar era grande a competência a quem mais 
se chegaria ã armada inimiga, e por atalhar excessos 
asentaram os generaes D. João Fajardo e D. Manuel de 
Menezes se coroase dos navios de mais força de fora em 
outra grinalda mais espalhada ficasse os inferiores resolutos 
a alarse por espias para dar carga ao inimigo, e dada 
virar sobre suas ancoras ocupando o primeiro posto. 
Muita artilheria fugou naquella tarde dos navios e forte 
novo, muitas mais balas lhe tiraram os espanhoes foy 
para ver e retratar a ordem em que tudo estava : diante 
as cappitanas reaes de Castella, Portugal e estreito, e a de 
Nápoles, a de quatro vilhas e suas almirantas, e outros 
navios de gram força, a de Biscaya com seu general 
Martim de Valhesilha, estavam outros dois navios de guarda 
na porta de S. António para fazer sinal se visse a armada 
de socorro. Tendo prevenido tudo D. Fadrique como 
Outubro 7Q 



— Ô48 — 

general de l.mta experiencii, e valor sobre sim grande 
calidade; como estavam os n ivos perto fio inimigo faziam 
circumferencia pequena em qae pelos mares se ajuntavam 
demasiadamente, asy acontece i aquelh tarde ficar quasy 
embaraçadas as três roes. Avia onlem precisa que to las 
as noites fossem de guarda algumas chalipis da armada a 
reconhecer os navios ohmleses se avia nelle^ movimento 
para se escaparem. Logo a primeira noite prevenindo as 
faluas se fizeram a vela dois navios aven lo precedido des- 
parar-se alguma artilheria sem balas seria para levantar^ 
fumo com que as velas se encobrissem. O vento era 
leste que as trasia em p.^pa pêra as eappitanas que es- 
tavam naquelle estado. L'>go que se viram se advertio 
seriam as de fogo que ellas não encobriram tirando 
bombas, e coetes e asendendo-se imediatamente fizeram 
notável aparência de fumara la negra espessa e lavaredas 
grandes por entre ella. Com tal vento e boas velas se 
chegaram tão depressa que eslm lo tudo prevenido, an- 
coras aboyadas para hrgar, correram risco a de Portugal, 
e a do Estreito e mayor sfias alinirantas. Jorqe Mexia se 
vio quasy abordado, e mal to mais Roque Senteno almi- 
rantes, fizeram-se to los a vela o a todos pareceu tarde 
posto que eslavam a p )nio que não havia mais que des- 
fraldar t raquete, e cassar escotas. D. Manuel se vio em 
grande aperto pela doença de (íouvea mestre da cappitana, 
posto que asy acu«lio com gran lo resolução animan>!o a 
muitos. Alguns marinheiros dos Bonés tinham saydo sem 
licença a sombra d )s fidalgos cujas de:^penças tinham a 
cargo. Dos inorantes avian muitos que apresentavam a 
confusão uma e outra gente de mar e guerra e embarcava 
feem aver offlcial que acudisse a a-uoí^trar-lhes os cabos 
com que $e avia de marear mostrando os soldados do terço 



mui grande Jesejo de asertar em tudo. 1). Manuel acudia 
sem poder a tudo. Pessoas ouve q le se deitavam ao mar 
nas chalapas e canoas que tinham a bordo, outras acodiam 
às portinholas baixas * p?r:i se deitarem; foy o aperto 
como se po le imaginar. O navio se fez na volta de no- 
roeste c logo ao norte sempre com a senda na máo. 
Acudiram os capitães Diogo de Varajão. e Cosmo doCouto, 
a este encarreg )u D. Man icl fosse ao navio de fogo que 
par^^xia vinha seguindo, elho cortasse a falua que costumam 
trazer para se salvar i}uem g »vei na emquanto o fogo não 
esperta; peru o acompanhar ouve grande competência 
entre s )ldad )s do terro (piorend ) cada um ser o primeiro. 
Com 1 vio quo o incêndio tiniia decimado na maior força, 
mandou voltar sobre clle, e vi»nd'j tudo abrasado acudiu a 
tomar o passo aos navios olanJezcs se acaso fosse aquelle 
ardid p^ra se fazer a vela ; o achando tudo quieto ocupou 
seu posto, e pela manhã estava sobre a ancora que deixava 
aboyada. Os mais navios amanheceram desviados alguns 
mui longe que a tudo do lugar a vasta capacidade da fer- 
mosa Bahya. Considerou-se a desgraça do inimigo, não 
digo no efeito que náo surtiram seus navios, porque ver- 
dadeiramente defecultoso será de conseguir cm bahya tão 
larga, em que a corrente da maré náo ajudava contra os 
principais que pretendia consumir mas de não c^^ir em 
conta tam aohaJa com») esperar qaoos navios se chegassem 
mais e eil »s fazend > pedaços cada dia sem dano seu consi- 
derável, pela diferença que vai de bater de plataforma, e 
ser batido de navios, e sempre lhe ficava lugar se visem 
sesud )s osEspanhoesemnâo ensestir (do que duvido muito 
que fosse) de largar o vento ás velas de seus navios de fogo 
Não foy este o may(3r trabalho que D. Manuel padeceu es- 
tando em sua capitana com poucos que o podessem ajudai" 



— 550 — 

posto que foy mais intenço. Porque se fosse necessário 
acodir combastimentos e vinho a gente de terra nem tinha 
officiaes nem barcos que os levasem estando os dos engenhos 
rotos, metidos pelos esteiros, e os que avia de serviço ofe- 
recidos por seus donos a D. Fadrique, outros tomados por 
seus oíQciaes/ ou de D. João Fajardo para desembarcar a 
artilheria, petrechos, munições, vigas, barrotes, tabões 
para esplanadas, immensídade de taboas pêra almaseis, e 
barracas. Deixada esta deficuldade não tinha oíliciaes que 
na praia o recebesem, almaseis em que os recolhessem, 
quem os levase aos quartéis, quem os destribuise, sendo 
necessário para isto muitos ofliciaesquena armada não avia 
nem pessoas de talento para semelhante negocio. Era ne- 
cessário que o auditor geral fizesse com o seu oíBcio o de 
provedor mor das armadas o exercito e dos pretrechos que 
eram muitos, de veedor general; de tenodor debastimentos 
e despenseiro hum soldado que era escrivão da nao, ordi- 
nário em todos os navios para asistir as resois, porque 
mostrou deficiência ; fazia juntamente o oificio de escrivão 
do auditor, e do officio do provedor. E sendo impocivel 
cada um acudir a tanto, nema mayor parte tudoseesperdi- 
çava. Fizeram muitos sacos de lona gistando-se nisso as 
morretas. e vellas velhas. Estes so um carrinho faziam 
porque em chegando cada hum sargento levava os que que^ 
ria e nunca mais tornavam. Ordenouse levar o vinho 
em botijas porque não acudiam carros ao serviço áa, 
coroa de Portugal, nem avia mais comodidade do que 
se fora de Olanda. Estas tiveram o mesmo fim; tudo se 
repartia avontade dos sargentos, e ainda dos inferio- 
res sem mais limites nas resoes que o que sua boca pro- 
nunciava, nenhuma vedoria, nenhuma contadoria, nenhuma 
Qrdem. Acoi]^tesia chalupas irem carregadas de biscoufo 



— 551 — 

estar dois dias na praya sem aver, como estava consertado, 
quem dos quartéis desse ordem para se tirar e molhando-se 
iicar inútil pêra se levar. Em faltando tudo era queixas a 
D. Fadrique culpando D. Manuel; avia cartas e respostas 
de que se colegia a boa fidalguia de aquelle e desejo de' 
acomodar tudo, e a verdade deste posta em campo contra 
as injustas culpas causadas pela ausência. Diziam que 
mandasem officiaes assistentes em cada quartel y outros de 
pluma para que la gente tuviese sus raciones y no las 
llevase demasyadas. Respondia que em Portugal e suas 
armadas não avia mais pluma que a de hum escrivão para 
fazerem descargas dos navios cada hum no seu, hum só 
despenseiro hum olheiro que na cappitana era o general, 
em cada navio hum capitão que naquella ocasião estava em 
terra. Pedia -lhe fizesse mercê de não crer acusações por- 
que em outra cousa não trabalhava que em mandar basti- 
mentos, o que bem se vio pois quando chegou o biscouto 
em sacos, como sempre avia receios que não fortasem, e 
vinho em botijas ao qqartel do Carmo não avia Ia outro, e 
delle comeram e beberam Castelhanos e Portuguezes; de 
mandar também que do que avia para huns se provesem 
^odos e iria acudindo por todos os modos que achase. Desta 
maneira se concluyo, como se vô nas palavras seguintes de 
de uma carta de seis de Abril. Tengo lastima a V. S.* de la 
poça ajuda con que se alia de ministros y oflQciales y sin 
ellos neguna con se puede executar ny abreviar porque 
alia hade aver quien despache, y aqui quien receba he tra- 
tado que el tenedor de bastimentos dei armada que se halla 
aqui en tierra recibe todo cuanto V, S." Iheenbiar. Sy V. S.' 
gostar dello con que tendra V. S.* descanso, y la hacienda 
buen paradero porque el recebir y entregar se hace con 
cuenta y razon . . . . Yo he mandado que do que aqua tubie- 



^ 55i — 

remos se reparta Satisfeitas ficavam com isto o& 

daquelle quartel. D. Manuel conhecendo o enleo dando-so 
por vencido calava, conhecendo que náo avia tomar mostra 
(le gente, nem baixa de reçoes dos ausentes que eram 
'muitos, espalhados alguns pelos engenhos, outros quecon 
tava na tomarem reção, E contanlo se naquelle quartel mil 
quinhentos c quarenta c oito reçoes, avia queixas de que 
ora menor o numero da gente. Valiam-se das ordens de 
Castella na medida e nas reçoes mostras contra o regimento 
de Portugal. Emfim asy se foy passando entre apertos e 
liberalidade. Verdadeiro é o encarecimento do engenho da 
necessidade. Veo com óculo huma ceada apagada que ape- 
nas aparecia huma parte delia por entre a rama que veste 
a montanha, sobre que está o mosteiro de S. Bento, pare- 
sei-lhe seria caminho antigo que baixase a marinha por 
onde se poderia communicar com grande comodidade coma 
armada aquelle quartel. Dando conta a D. João Fajardo re- 
conheceram o citio a sinquD de Abril, Epor entre o bosque 
seguiram ao quartel a visitar os amigos pos que com grande 
trabalho porque a send.i não passava do meo do caminho (em 
que avia pedreira velh:i) começando do alto Comtudo se re- 
solveram ao trnbilho porque em voltis parece se podia su- 
bir com bastimentos que \mm p^r S. António huma légua 
de mar outra de terra por mãos caminho Puzeram se as mãos 
da gente bicnynha adosm mtar, rossare csplanar, foyse mos- 
trando o caminho airoso coberto de huma e outra parto de 
frondoso arvored). Foi ^oces^ario em algum logar cortar 
eminências, e n'outro encher os baixos, atravessar outro 
com vigotas, c faxina com que udo ficou de maneira que se 
esperou: mais do q le de antes se pretendia. Pareceu que 
por elle subiria a artilheria para o quart- 1 de S. Bento, 
Vieram engenheiros acharam defeculdade (trabalho per- 



-• »53 — 

(lido lhe chamavam) na subida na desembircaçáo impocí* 
bilidades. Afastararase penedos com facilidade, cortouso 
outro pedaço de caminho desmontadose bosque por onda 
pedesse voltar a artilheria em cavalgada ; fese uma caleta 
por onde os bate'õis as deitavam em terra. Mostrou o 
effeito o acerto da traça porque em menos de ora e moa se 
punham em cima peças de vinte e sinquo libras, com pressa 
notável subiam as munições e bastimento. À facilidade de 
tudo dobrava o gosto de servir. Neste trabalho se avantajou 
muito o governador Francisco de Valhesilha, valente sol- 
dado e pratico marinheiro, irmão do general Martim do 
Valhesilha. Pela parte do norte subia a artilheria da praya 
da Agua dos meninos com mayor trabalho, mas supria tudo 
á asistencía do general D. Francisco de Azevedo, que pondo 
âs mãos a tudo molhado e enlodado dava exemplo a quo 
nenhum se escusase. Com a facilidade qae se vio do porto 
a que chamaram Novo, nome que parece lho ficara eterna- 
mente, ordenaram que por elle subisse a artilheria para o 
quartel do Carmo, por um atalho que se descobrio por onde 
se comunicavam os quartéis. A seis de Abril a tarde foi fe« 
rido Martim Afonso de Oliveira senhor do morgado daquelle 
nome no quartel do Carmo de huma bala de artilheria do 
que morreu dentro do vinte horas passadas com grande 
constância entre terríveis dores por lhe averem por boa 
cora (que por o surugiáo mor da armada do Portugal que 
depois chegou por reprovada) serrada a perna caso verda- 
deiramente se ha outro lastimoso. Porque nem foi entrin- 
cheirado nem em conflito de guerra mas asentado em casa 
do Conde de S. João seu cunhado como posto a cavallo 
sobre o peitoril de huma janella, ao parecer de todos mui 
longe de tal perigo. Dísiam fora a bala resortida da parede 
fronteira outros considerando o sitio e achando isto impo- 



^ 6S4 — 

cíTel afirmavam ser tirada com certa elevação, mas com nio 
ouVe outras disiam devia de chegar que brada a força pas^ 
sando paredes e dando por alguns telhados. Era este fi- 
dalgo de honrado valor; e como erdado de sua casa desde 
menino, e casado em mancebo não servia. Mas a affeição 
ao serviço de S. M. se encobre mal em peitos generosos. 
Sérvio depois em muitas ocasiões dando-se grandissima 
pressa como pesoroso do tempo perdido, e temeroso da 
brevidade do futuro. Embarcoa-se nesta jornada afírman- 
do-lhe os surugiões que se arriscava muito por certo 
achaque de qual actualmente se curava. Fugio do pronostico 
burlesco de hum amigo que sempre lhe disia, vendo o 
afeiçoado as armadas, que não queria senão morrer afogado, 
e nio da morte (contingências do tempo) que nellas foi 
buscar. S. M. o honrou muito nas palavras com que ma- 
nifestou o sentimento de sua morte a sua mulher, pessoa 
de muita calydade, irmãa do Conde Sortella. E o Conde 
Duque com outros de igual sentimento, e lembrança de 
satisfação com que S. M. por seus reaes olhos com mercês 
naquella casa. O dia seguinte chegou Lourenço Cavalcante 
de Albuquerque do morro de S. Paulo avendo-se retirado 
a huma abra seis léguas pêra o sul em hum navio grande 
com quatorze peças de artilharia aprestado em Pernambuco 
por ordem de S. M. pelo governador seu parente. Acom- 
panhavam no aventureiro, mui lusidos huns a sua própria 
custa, outros a do capitão : aquella parte se tinha retirado 
de huma briga que tivera vindo para entrar na Bahya com 
hum patacho olandez, segundo disia de dezoito peças de 
que ficava destrossado. Continuava-se da plataforma dos 
italianos a bateria da cidade com quatro meos canhões ea 
da armada inimiga do quartel do Carmo com seis de que 
comessaram sentir o dano alguns navios em alguns paos. 



e obras mortas, estes desemalavam com muitas bandeiras 
galhardetes, e qaízeram atalhar, e atalharam plantando 
algumas peças em hama emínencii» junto ao coUegioda 
companhia com que feriram e mataram alguns edestrairam. 
algumas peças. Durou a períia poucos dias, porque ma-^ 
tando hmncabo que asestia a plataforma ficou desemparadái 
A cappitana olandesa que ficava como alvo de todas as balas- 
sentio o mayor dano, entrando-lhei a agua pela rotura das- 
balas assentou a proa e fioon direita^ e inteira naaparencia^ 
Consideravam os práticos a necessidade de engenheiros, 
por ser aquella plataforma feita em lugar mui alto donde» 
se tirava aos navios compendio qoasy de mea esquadria 
podendo ser quão baixa quizesse e ficar excelente. E bem: 
seria que a tudo dava a mayor pressa pelo temor do tempo 
tão entrado. A esplanada fora pouco funda com que ficou 
com mui fraca espalda decoberta ao inimigo. A novd 
daquelle mes fugio pêra o exercito hum francez que enca-^ 
receu o dano que da parte de S. Bento se faria na cidade, 
derrubando todas as defenças, arruinando as paredes que 
as balas achavam diante. Que avia entre as nações Ing^ezesvi 
Franceses, Allemães, Flamengos descobertas desavenças 
não sé fiando hans dos outros. Que no campo e armada 
não havia que temer se não algum navio de fogo. Que tinha 
pólvora, munições e bastímentos pêra seis meses. Di Fa»* 
drique se cansava muito parecendo-lhe que corria com 
varar o sitio, considerado o inverno visinho, e o tempo 
limitado de monsão pêra a volta de Espanha. Entendeu 
que aprestar muito e com muita brevidade curava tudo,! 
(piiz ocupar outro posto muito a propósito, junto à fonte 
nova, que chamaram das palmas por algumas que^ly aviaj 
Encaregado disto o mestre de campo D. João de Orellana 
pedio mil e quinhentos homens^ sobre o que D- Fadrique 
Outubro 71 



— K» - 

escre?eu a D. MaaiwI que lhe respondca que pedia justiça 
IK Joio. Avisou Ioga D. João Fajardo que ficando as cappi-- 
taas e ainurautas com sua infanteria tirasse dos outros 
navios daquella coroa mil homens e que ficasse com a gente 
do mar» e de guerra a que podesse. D. ioúo dando conta 
disto a D. Manuel lhe pedío socorro de duzentos homens, o 
qual consyderando a pouquíssima gente de alguns naviose, 
a importância daquelle posto tirou a infanteria do navio de 
Bento do Rego, e de outro de Diogo Ferreira e alguma de 
Santa Cruz encheu o numero e a enviou a ordem de seus 
capities. Do posto que se ocupou presentio o dano o 
inimigo por lhe ficar a cavaleiro, e mui vi»nho trabalhou 
por lhe pedir tirando pêra aquella parta muita artilheria. 
As ocupações de D. Fadriqne eram mui grandes tendo 
assaz a que atender no quartel do Carmo, visitando os 
postos muitas vezes e reconhecendo as forças do inimigo, 
pUtaformas que levantava, fortificações que fazia com tra« 
balho de dia e de noite, e tendo em S* Bento o mestre de 
campo general soldado velho de bastante experiência acom* 
panhado das pessoas que havia naquelles terços descançava 
algum tanto nelle, e por ser a distancia grande de hum a 
outro quartel não acudia a visital-o. Terça-feira 13 de 
Abril avistou achando-se com elie D. João Fajardo, e D. 
Manuel de Menezes. Ordenou que daly se desecem homens 
com dois capitães pêra o pDsto que ocupava (o que se 
pode fazer com menos descomodidade pela companhia de 
Lourenço Cavalcanti que D. Manuel mandara aquelle quartel 
logo que chegou] que do Cirmo se deviam de dar três ou 
quatro companhias, com que se prefizesse os mil e qui- 
nhentos homens. Não faltaram invejosos que mudado o 
nome chamaram desunido a falta de tempo de D. Fadrique. 
Alegavam o Marques Spinela mui continuo nas visitas dos 



— 557 - 

quartéis posto que distantes e tivesse tal pessoa em quê 
descauçar como a de D. Gonçalo de Córdova. Ajuntavam a 
isto o de que fariam grande culpa que a armida ficava no u\i 
timo desamparo, porque a de Portugal constava de sinquo ou 
seis navios de força sendo os mais de pouca consyderaçâo e na 
de Castella não avia infanteria n'outras que cappitanas e aN 
mirantas e nessas não mui sobrada; que seria aparecendo o 
socorro que cada hora esperavam? que forças para o vencer 
e porem fugida? impedindo-ihe meter o socorro na cidadel 
Se avia de acodir a infanteria dei.\ando os quartéis e seus 
postos? que oquízessefazercomqae tempo? com que barcos? 
em que prayas de mares brandas se aviam de embarcar? 
que resolução tomariam os sitiados com a vista de 36 
yelas que espera vem vendo despejar os portos pêra socorro 
da armada inimiga? e outras queixas ordinárias de inferio- 
res de que não podem exentarse os superiores ainda os 
de taes procedimentos como D. Fadrique de Toledo. A^ 
que se intentava de lançar com a jusante da maré huma 
caravela e alguns barcos com machinas de fogo costumadas 
pêra queimar a armada Olandeza se mostrou oposto D Manuel 
de Menezes dizendo que não chegariam aos navios que es- 
tavam prevenidos tudo tendo por trincheiras buços velhos 
afundados, que estavam guarnecidos de mosquetería que 
entrava de guarda todas as noites, que como tão espertos 
estarião com toda a yigia necessária, não seria mais que 
dar- lhes matéria de riiso, e mostrar que não cayam os es- 
panhoes nestas e outras prevenções que estavam prontas- 
Pareceu conveniente que o forte de S. António se artilhase 
e presediase. Pará isto tirou D. Manuel da sua armada sete 
peças de artilheria e com o governador Francisco de Valhe- 
silha subiram em o dia sinquo, e deixaram em cavalgadas e 
com ellas o Condestable que tinha ydo no navio S. João, e 



jftínqiK) artilheiros qae lhe assistiam, e as outras duas pêra 
se porem ao outro dia em seus reparos. No quartel de S* 
Bento avia graudes desgostos e desavensas porque levando 
D. Fadríque comsigo o mestre de campo general» deixara 
ordenado que o Marques e D. Francisco de Almeida gover- 
nasem alternativamente (16 Abril) Queixa vase D. Francisco 
de sua desgraça cabendolheem sorte darse nelle principio» 
nque gente italiana ou de outra nação não estivesem a ordem 
da Espanhola. To los os soldados de Flandres disiam que 
nn intredução inevitavelmente guardada que nem hum 
sargento maior espanhol estivesse à ordem de hum mestre 
de campo estrangeiro. Escreveu D. Manuel a D. Fadriqua 
encarecendQlhe as queixas de D. Franeisco, não permitise 
S. S.* que hum fidalgo português que las cans e calydade 
se queixase podendo remediar con justiça clara e sem es- 
cândalo, e ao que se dizia entre os soldados quando D. 
Francisco pretendeu desembarcar em terra que não era 
mais que governador do terço sem título de mestre de 
campo tinha dito a S. S.* que com este o tinha ouvido no- 
mear a Ruy da Sylva do conselho d'E$tado veedor da fazenda 
de S. M. na repartição das armadas . Comtudo não ouve 
remédio para que isto se melhorase pela patente que faltava 
Tendo D. Manuel de Menezes dado para o forte de S. Antó- 
nio a artilheria que podia escusar de sua armada pelo de 
Castella pretendendo fazer junto da praya huma plataforma 
donde prometia fazer grande dano a armada inimiga. Sendo 
aprovado o seu intento se lhe levaram a terra duas peças 
de desoito libras; fez para estas huma plataforma em mea 
ladeira do monte, afunJandoa tanto que pela parte alta ficava 
huma pica, pela fronteira espalda natural imensa, pêra o 
ponente um parapeito para o mar grosissimo de tudo que 
se afundava e de toda a terra (fao se tinha tirado, não só 



— 559 — 

isegura de caohâo mas fora de todo o receo» £ reconhecendo 
outro posto mais a preposito por mais visinho 90 mari e ao 
inimigo fez outra semilbante em que pos buma 4as peçaae 
destas duas plataformas se tirara com grande dano da ar« 
mada inimiga. Vendo que seu trabalho da?a bom frato 
louvado de todos se adiantou mais de cem paços e colB0»« 
sou a esplanar e por em ordem outra plataforma que sendo 
cubicada por D. João Fajardo lha largou reconhecendo na 
mesma ora outro posto adiante melhorado aonde, fez outva. 
£ considerando que o dano notável de duas peças remedi'* 
ava o inimigo acudindo cóm pranctes a seus navios sq adi*- 
anto 1 tanto que sem dar grandes wzes era ouvido^âb; 
entre aqneile bosque fez a quarta plataforma para dqts 
saíres pequenos nem podia ir outras peças porque aviam, 
de romper bosques e passar por despenhaderos» o que coíd 
pequena carga poude pôr em efeito com muito trabalho. 
Estes tiravam saquinhos de balas de mosquete a hum redu** 
cto de muita gente junto à praya da ponta do Siil. Bem traba* 
Ihou o inimigo de estrovar èata plataforma com mais força 
que as primeiras fazendo outra em hum sobrado dâ huma 
^asdalta mui bem escorada aonde plantaram quatro saques, 
com que tirando sempre faziam arisoado o trabalho da 
plataforma. Carregando aly com muita mosqueteria oom 
qne mataram e feriram algunsentre elles a Manoel de Faria 
mui bom soldado do terço que estava de guarda da polvo!r| 
falando com D. Manuel» este morreu de huma bala de hum 
mosquete que Ibe atravessou as fontes. Estava com eUa 
Joáo de Araújo seu irmão que vendo o outro m^to em 
seus braços comessou a lamentalo. O alferes Ignacio de 
Mendonça e Yasconcellos governador da infanteiia qne 
cobria as plataformas tomando-o pelo braço disse : iatonio 
é tempo de chorar vamos vingar a morte de vosso irmáo» 



lemiftaado o Tenabulo levou comsigo os prfaneíros que 
adiou, e passando por tlguma molesa que aly avia se pos 
«m campanha rasa, revestiu as trincheiras e metendose 
pelo bosque com grande valor se posas mosquetadas com 
o inimigo. Foy aquelle dia de grande confusão a huns e 
grande desembaraço a outros, que desemparados os postos 
acolheram seguindo o seu cappitáo. Achavamse emGm com 
as cargas dos sacres os navios desemparados do socorro de 
soa gente, e sussecivamente comessando peios demais 
perto, comessaram a cahir metendo as gáveas no mar, e se 
o jogo durara mais tiveram todos o mesmo íim, porque 
nrâihum durava um dia inteiro. D. João Fajardo visitava 
aquelles portos muitas vezes e trabalhava com grandissima 
assistência em fazer conduzir aos quartéis artilheria, e mo 
nições acudindo com officiaes carpinteiros pêra adereçar 
os reparos das peças que quebravam muitas vezes, na ora 
em que se pediam ao general Martim de Yalhesilha se devia 
mAw parte do facto deste trabalho porque em tudo se 
achou sempre com D. Manuel, ordenando, mandando e 
obrando por suas mãos apontando com elle as peças com 
arte e valor, amanhecendo e anoitecendo com elle muitas. 
Tezes nas plataformas, aonde todos os dias acudia sofrendo 
as calmas do Brazil, enterrado nos baixos da plataforma 
Com elle se achou também Pedro Gesar de Esa acompa- 
nhando sem aver falta todos os dias com o valor erdado 
de seus avôs. Não descansava Torrecusso trabalhado por se 
chegar mais á cidade estendendo os ramos das trincheiras 
ate hum bosque de larangeiras aonde fez duas plataformas; 
a este posto chamaram o do Naranyos pelas muitas laran- 
geiras que aly cortaram; na maior jugação huma camarada 
de quatro meos canhões, e na outra um sacre e um meo 
canhão, com que arrasava tudo o oposto sem resistência 



- 561 - 

nenhuma. Desmoronavamse os baluartes rodando as pipas 
terraplenadas, cayam os ediíicios de pedra e cal, não avia 
peça do inimigo que durasse porque logo em tirando de 
logar novo era desencavalgada. E porque aqaelle posto es- 
tava já visinhode S. Bento com os seus quatro centos eciji- 
cuenta italianos que no trabalho pareciam mil e quinhentos 
abrio hum ramo de trincheira com que se deu a mão com 
aquelle posto que ocupavam os portuguezes. Considerei 
aquella industria e folguei de aprender a caminhar seguro 
das balas de mosquete, estando tão perto que chegariam pis- 
tolas. Em balde trabalharia o inimigo se quizesse canho- 
neala pela grossura de pé em que se fundava era também 
metidi a fachina com a terra que a fazia mossica notavel- 
mente, a escarpa mui bem ordenada. Pelo interior seu fossete 
e banqueta por onde se passava seguramente e os mosque* 
teirosfícavam mui apreposito, não se fazia vara que logo se 
não cobrisse com soldado Toda hya guarnecida de saquinhos 
de terra desencontrados para frontaria e guarda de soldados. 
E posto que esta é a ordem que ordinariamente se deve 
guardar nem sempre se faz a obra com tanta perfeição. 
Lembra-me que em pé passava sem receyo dos italianos 
ao posto dos portuguezes. O terço de D. Pedro Ozoríe 
que estava a cargo de D. João de Betrían seu sargento 
mayor, hya-se por sua parte igualando quanto podia na 
distancia do inimigo com os italianos continuando com 
snas trincheiras. No posto de S. Bento que ocupava D. 
Francisco de Almeida avia menos gente de trabalho, com 
tudo se abriam trincheiras, com grande perigo, e se fez 
huma plataforma para quatro canhões. O posto das palmas 
se ocupou com pouco dano, ordenando-se fronte de ban- 
deiras. Levantaram-sc algumas barracas, lavrou-se huma 
trincheira em meã lua, com terra e fáchina, que o mesmo 



— 5M — 

fogiillhe davt; comèssou^^se outra espalda como ponta.de: 
diamaote. Pêra se levar a artilheria a este posto avia muita 
defeculdade avendo*se de atravessar huma terra alagadissa 
por onde desaguam as aguas do lago que os rebeldes flzeram 
e rio cahyr a agua dos meninos. Aqui se fez huma ponte 
de ^gas arrancadas das casas aonde se achavam acabando-se 
tudo brevemente pelo trabalho e industria de Tristão de 
Mendonça Furtado que a tomara à sua conta. Não iusia 
menos o seu trabalho em levar a artilheria para esta e 
oatras partes. Neste ponto matou huma bala de artilheria 
antes que a sua se planta-se ao capitão Diogo Ferreira de 
Víanna« ouja morte pelas consequências fora princípio de 
algws desgostos entre osgeneraes se fora outra sua natu- 
reza porque avendo pretensor para o gineta porque qualquer 
Biodo que fosse, não achando outro se pedio a companhia a 
D. Fadrique contando se que a prometera. Foi D. Manuel 
avkado de que estava provida. Escreveu a D. Fadrique em 
SQstancia que os officios e companhias que vagase na ar- 
mada e exercito de Portugal avia de prover conforme S. Af . 
^treminara, mormente que a companhia não chegava a 
Tinte e sinquo soldados porque os aventureiros que levava 
estavam em terra desde o primeiro dia que comessou a 
desembarcar a gente ; que estes se podiam repartir pelas 
companhias de Bento do Rego, e Constantino de Mello que 
UStava no mesmo estado. Consydero em algum ocioso, 
visto rú6 p^der ser aqueila ocasião e negociação em odío 
de D. Manuel que o não merecia, se podia tanto o desejo 
de avantajar hum amigo que puzesse em risco a jurisdição 
dè Portugal em ponto de tantas consequências, poderá este 
entremes picar mais por cahir sobre huma prisão que o 
dia de antes fizera o auditor geral castelhano pessoa sezuda, 
de ca^ydade, e boas letras mas nisto arrojado, e não sem 



— 563 — 

risco de D. Manuel, como estava ocupado cora suas plata- 
formas se achava no mar. Queixou-se hum nestiço soldado 
de D. Francisco de Moura a D. Fadrique, que hum mari- 
nheiro lhe relinha serto escravo e como era necessário 
mostrar justiça e favor aos naturaes particularmente em 
matéria de queixa de gente do exercito, mandou ao editor 
fizesse deligencia, indo ao mar achou que eira da caravek 
de Cosme do Couto. Foy a cappitana e como não achou a 
D. Manuel, passou a caravela e prendeu o marinheiro. O 
capitão instantemente apertou a remetesse ao auditor geraí 
de Portugal que estava na cappitana aonde todos três tor- 
naram . O auditor que estava muito enfermo e o espirito 
neste estado do corpo nem sempre esta pronto, não acodio 
com os brios de outro tempo. O marinheiro foy levado e 
preso em corpo de guarda. Mas huma cousa e outra passou 
bem. Amateriadejurisdiçõeshe mui perigosa, e cada hum 
pretende, quando menos, sustentar a sua e mais segura* 
mente os de melhor fortuna, e mal se] defendem os limites 
próprios sem alguma offensa dos confinantes. Pelo quartel 
do Carmo se não tinha inveja aos italianos porque estavami 
abertas muitas trincheiras, feita huma plataforma de seis 
canhões e outra de quatro que se chamou de D. Fadrique 
por ser o primeiro que elegeo o posto donde se fez muitrf 
dano ao inimigo, mas detinha o exercício da artilheria: 
delas ambas pretendendo que todas as baterias se dessem 
juntas, em consideração que descarregando estas sem as 
demais carregaria aly toda a força do inimigo» que entre- 
tanto triunfava bravamente tjendo sobre o dormitório dos 
PP. da companhia, e n'outra plataforma junta oito péçaff 
que mataram e feriram muita gente, o que se atalhava 
com tirar aquella como se vio que em tirando os seis 
canhões e outro da plataforma donde se batiam primeiro os 
Outubro 72 



— 56i - 

oavios se fez tanto dano que sessou quasi totalmente a arti. 
beria olandeza ; e a morte dos espanhões daquelle dia em 
Ique não ouve mais que hum morto e algum ferido, esteg 
fora da bateria ; que nelia era impossivel pela boa espalda 
fue tete. Neste mesmo dia 20 de Abril comessou tirar a 
artilheria do posto de S. Bento que era quatro raeos canhões; 
logo a plataforma de D. ^Fadrique com outros tantos : em 
hnrna parte e n'outra com grande dano das defensas ini- 
migas. Aqui com sucessos notáveis não avendo peça das 
aoas que durasse duas horas sem que logo não fosse desa- 
lojada, e descavalgada. A das palmas tardou mais, mas 
como ficava a cavaleiro, e muy vesinha nio deixava plata- 
forma segura, nem reduto, nem parava nada a seis canhões 
qpie aly avia; mas como era grande a falta de engenheiros, 
6 hum que era o principal fora morto pouco antes no 
quartel de S. Bento por hum balaso (era este João Oviedo 
de nação aragonês de habito de Montera muy boa pessoa, 
disiam que mais destro em artificies de fogo que na forti- 
ficação) sayo a esplanada sobre as canoneiras, e 

por isso de tão curta retirada que ficaram as rodas asen- 
tadas na terra donde se não podiam tirar sem grande tra- 
balho, e logo depois da primeira carga foy necessário re- 
medear-se a esplanada portugueza a falta de outros. Com 
a vinda de Salvador de Saa que chegara pDuco antes de 
socorro do Rio Janeiro com cento e oitenta pessoas, 
disiam que oitenta brancos, os mais indios de arco e frecha 
(e todos passavam ao posto de S. Bento) ouvo novo género 
de alvoroto encarecendo muito a gente do Brasil, a in- 
dustria e destreza daquelles frecheiros, e a facilidade com 
que conseguiam qualquer bom effeito com as canoas em 
que vinham. Contavam de nãos oíandezas, tomadas pela 
presteza com que se lhe metiam debaixo da arlilheria, e 



- 365 - 

os espanliõcs a crer quanto lhe disiam daquella matéria 
não bastando o passado para desenganalos. E verdadei- 
ramente se aquillo se nâo hade crer como de fee, e tem- 
lugar o discurso para julgar, e os olhos licença para ver de- 
fecultosamente se crera o que com facilidade se conta porque 
são estas embarcações hum tronco de arvore cavado mui 
esguias, que se não for o pezo por balança subitamente se 
resolve, os que as governam tristes índios nus todos api-- 
nlioados que a bala que lhe der por proa os irà matando 
em (|uanto qualquer Ímpeto lhe durar, ainda que balas em 
taei corpos seriam mal empregadas. A sua destresa ouvi se 
vira em terra poseram-lhes aos que pareciam escolhidos 
hum colete de anta náo pêra alvo que seria afronta para 
homens que matam hum passarinho pelo ar, cortam com a 
segunda frecha a primeira que tiram por esses ares quando 
vem caindo, mas para experimentar a fúria que encareciam^ 
muito. Erram alguns acertaram dous. Apenas chegou a 
ponta de huraa estando de mui perto a passava ante. Huma 
das fáceis cousas que estes se proposeram foi a queima dos 
navios de Olanda. Salvador de Sa mancebo brioso pouco 
lembrado dos preceitos da íilosophia, despresador da vid^ 
qual fosse a occasião, se oíYereceo e facilitou a empresa que 
aviade fazer em suas canoas contra vaso de guerra, e guerra 
presente mui grandes, mui altas, olandezas aprestaram-se 
faluas em grande numero providas de camizas, lançois, e 
mais petrechos de fogo ; {)or cabo delias o capitão Gaspar 
de Carrassa por terra se signalassam duzentos homens de 
guarda se acodissc o inimigo pela praya a defensa de seos 
navios a ordem deHyerouimo Serra capitão de infanteria; 
e do outro. Isto se passava na tarde de 22 de de Abril em. 
que estando D. Manuel com D. João Fajardo em sua almi-t 
ranta, entrou aquelle capitão, e fallou apartado, Vinhase 



•- 666 - 

dispedir delle. D. João qui2 que D. Manuel soubesse da 
resolução em que se estava, de que elle se mostrou mui 
sentido quando não fora pela perda de tão boa pessoa pa- 
recendolhe que era injusto não avisarem a D. Fadrique 
advertindo de seu parecer ainda que sobre tudo dispuseso 
o qoe lhe parecese. D. João achava o remédio impossive) 
«atando ja o negocio naquelle estado. D. Manuel lhe instou 
que como conselheiro de guerra estava obrigado a dizer o 
ijue lhe parecese melhor covinha ao serviço deS. Jtf- Emfin) 
^m nome de ambos escreveu trazendo alguns inconve- 
nientes; e que se estas não fossem bastantes se dilatasse o 
Intento porque era aq\ielle dia de oposição de lua, e o tempo 
claro. Se esperassem mais dois dias em que entre a ausência 
do soU e chegada da lua averia alguma sombra com que 
4e alguma maneira se encobrisse ao menos de longe aquella 
frota de canoas, e faluas. Escreveo também a Cropani muy 
encarecidamente, e D. Manuel a D. Fadrique estendendo 
mais seu parecer. Que tretas conviriam aos olandezes e nãQ 
nos espanhoesqueapuros canhonasses faziam pedaços sem 
pivios, ao que elle estava determinado de suas plataformas 
de que se hya vendo o fruto com alguns no fundo. Coni 
estas ou semelhantes palavras entendeu satisfazia com suq 
Diagoa, e obrigação, e porque estava ainda bem alto o sol 
ouve tempo para tudo. Menos bastara para persuadir a D. 
Fadrique a que parase o intento, -^ntes porhuma rerpostíi 
se vio claramente que não fora naquella traça que sem 
ordem sua se fizera. No fim da caria escrita ja a vinte e 
Ires, dizia estas palavras. Suplico a V. S.* que por ninguma 
via se trate de la toma dei fortesilho que aviendo-se visto 
(ieaca, y reconocido, y tratadolo todas las personas platicas 
pomos todos de parecer de que isso se intente, Io uno por 
poser puesto necessário para ganarla tierra, lo otro por c;u6 



^ 



— 567 — 

el inimigo holgarâ mucho de ver a V. S.* dentro de el para 
hacerle pedaços siondo paesto sugeto a toda su fuerza con 
solas estas dos rasones no áy que pasar alas de mas. El 
maestro de campo general estando escreviendo esto a ha- 
ccrme sobre el!o nueba instancia, y ay buelvo a suplicara 
V. S.* (]uc dello no se trate por ningun caso. Suponha que 
D. Manuel intentava entrar por sua pessoa como no campo 
SC desia que poderia fazer quando se falava na boa eleição, 
e pressa de suas plataformas, passando tanto pelo contrario 
que fazendo-lhe a sua infanteria que tinha em terra que era 
mui escolhida muita instancia tomando por medianeiros ao 
alferes Ignacio de Mendoça, e Joio do Loureiro para que 
lhe desse licença, os nâo admitio, e por nenhum modo es- 
tando as cousas naquelles termos sem reconhecer os postos 
c forças do inimigo, e sem ordem tal nâo consenteria. 
E de maneira hya a declinação de força nasdefenças que náo 
faltariam atrevidos, o que bemsevio paraaquellesdias. Joáo 
Vidal, Aragonês, da companhia de D. Afonso de Lencastre 
metido entre a malesa chegou ao pé de huma cortina baixa 
e cayda por onde subio ao terrapleno sem aver guarda que 
o vise. Levantou a cabeça vio no poço passear hum a ca- 
vallo faltando com outros de pee, e voltando as costas deu 
dois balanços a bandeira que estava arvorada, e com ella 
baixou pela ruyna. Acodiram vendo fa tar a bandeira, mas 
estava ja metido pelo mato cuberto de mosqueteria e arte- 
Iheria com que lhes varriam todas as defenças. Mostraram 
o sentimento disbarando descobertos muitas balas de mos- 
quete, o que nâo foy com pouca perda sua, mas pouquíssima 
daoutra paite. E tal averia sem se ariscar muito que trzia 
um olandez se podesecom o peso, e este fizesea resistência 
íjas bandeiras. Grande aperto era este em que se viam os 
^iti^(Jos, e o pior que crecia deseonfiancia entre as nações 



— 568 ~ 

desesperados todos de remédio, carregando os olandeses 
mais a obrigação de morrer furiosamente oferecendo seus 
corpos em luguar de parapeitos e trincheiras. À todos se 
lhe representava huma escalada por espanhôcs irritados 
pelo presente pelo passado, a justíssima vingança que os 
tinha condenado, ao cutelo, se a constância durava em 
muitos quilates tinha eido. O coronel que sucedera a João 
Doart coBtam que nío lha parecendo ser ja tempo de tem- 
porisar quiz ciaram ente saber, que spirito animava a cada 
huma das cabeças, confessando em huma brevíssima pratica 
o estado em que se fiam. As forças do inimigo, e os brios 
a que a fortuna alegremente o convidava ; via presente o 
risco a que se puiduim contynuando o emparo daquella 
cidade que o Conde Maurício, estados de Olanda tinha li- 
vrado sobre seu valor e lealdade, confessava o desemparo, 
mas que a armada nío podia tardar quatro dias, que a 
valor daquella nação não se fundava nos socorros que 
podiam faltar, mas emsy mesmo intrínseca e naturalmente^ 
Asy não podiam temer a multidão dos inimigos, sendo 
costumados com a pelejar elles em campanha, fazendo-se 
com inferior numero, senhores de muitos ocupando-lhes 
suas praças ; que contra a parte que eram portuguezes 
cuja a impresa era mui fresca estava a memoria de quaes 
sucessos aly tiveram, deixando innumeraveis exemplos 
assas modernos; que se resolvesse a esperar com valor 
assaltos por algumas partes porque em Deus obrador do 
maravilhas, (entre os quaes não contaria o bom processo 
contra espanhões seus inimigos, e capitães de sua religião) 
esperava que avia de ser aquella ocasião a segurança do 
império pretendido na nova Olanda, e coroa do gloria pêra 
sua nação conhecida no mundo por mais valorosa; que de 
taes inimigos se não podia confiarem amísade reconciliada,, 



I 



— 5G0 — 

nem esperar misericórdia, mas procedimentos os mais 
espantosos que se podesse imaginar. A desesperação era 
o caminho honrado e mais seguro em fortunas semelhantes. 
Não consentiram outros que fosse por diante mostrando 
qual era a praça, qual o sitio, que força a dos sitiadores a 
immensidade da gente, que quando delia matasse quatro 
centos na resistência de hum asalto, e dos seus não morresse 
mais de vinte, o mesmo tempo os avia de consumir. Bem 
se via que naquella armada tinham vindo mais de doze mil 
homens de gjorra (mal se persuadiram que estava erma) 
sem dois mil daquellas terras quando menos delle ajunta- 
vam, c sem a immsdiata que cada dia se podia juntar; que 
o aperto era igual ao de Rembergh (senão que era immensa 
a distancia de suas terras) pois o mesmo era consumir-se 
por incêndio a pólvora de monição que faltar-lhe luguar em 
quea exercitase, igual remédio se lhe avia debuscar quando 
não ouvesse outros que primeiro se atentariam. Não ne- 
gavam a lealdade que deviam a seu principe Mauricio e 
«os estados mais que não se podia esperar que hum fizesse 
maravilhas quando se lhe faltasse com osmeos necessários, 
posives o naturaes. Que armadas, que gente, que socorro 
lhes tinham mandado? adonde sepultaram tantas promessas 
os confederados, que no mesmo tempo e logo iriam armadas 
ao Brasil que outras a destroir e asolar as costas de Espanha? 
cousa era para rir se a miséria presente o premetise 
cuidar que se persuadiam em Olauda que tão pouca gente 
snserrada por mar, e terra com taes padrastos se podia 
sustentar contra tão grandes forças. As defenças em que 
tanto trabalharam todo o anno igualadas com o chão em 
quatro dias. Nenhum luguar seguro para atravesar huma 
rua das mais interiores da cidade. O mar que podia ser o 
ultimo refugio lhes mostrava a ultima desconfiança, pela 



— 570 ~ 

(larte do norte o primeiro navio assentado na área, pelo 
do sol tantos a fundo todos acrivelados, ate o de artiOcios 
de fogo em que algum tempo esperavam fizesse grande 
dano ao inimigo, alagado, sem remédio para cair como os 
demais. Replicava o coronel huma e outra vez lho impe-* 
diam ate que a cólera lhe venceu o sofrimento^ e rompeu 
anameassas com palavras descorteses, a que logo se seguio 
temulto quasy motin que obrigou a meter mão á espada, 
parecendo-lhe mais com tngano, que tinha muitos do seu 
bando, e carregando sobre elle o feriram no rostro, e 
nas máos. Esta é a forma que logo se entendeo. Más por 
informação de alguns Olandezes de que me qoiz informar, 
alcancei, niosei com que verdade que nada disto precedera, 
senão que era aquelle coronel vissiosicimo em vinho, e 
Hiulheres, a que igualmente se entregava quando os sitiados 
mais necesetavam da asistencia de sua pessoa; o que vendo 
o asy os do conselho, o quizeram privar algumas vezes, e 
que a pouca emenda e os disparates cmn que respcmdia 
foram a causa d'aquellas cutiladas. Como quer que fosse 
elegeram outro, e com elle se resolveram a pedir tréguas 
para tratar de consertos. E segunda-feira ^8 de Abril co- 
messando anticipadamente a disparar algumas peças de 
artilheria mui espassadas, da plataforma dos dois sacres, 
logo em apontando o sol cayram sobre hum luguar que pa^ 
recia corpo de guardiã, e tinham coberto com velas innume^ 
raveis balas de mosquete dos saquinhos com que tiravam. 
Alguma mà hora lhes devia chegar com que sayo de debaixo 
do toldo ja mui roto huma tropa de gente com temor de 
segundo perigo. Os italianos que com grande destresa se 
tinham adiantado muito com suas trincheiras sayram delias 
ao descoberto. Daquella parte de S. Bento que ficava 
avista destes movimentos acudiram ao foço desordenados, 



— 671 ~ 

os Alferes Igiiacio de Mendonça Joáo do Loureií^o, entre 
os quaes e italianos avia grandes eompetenciís, e loiniiias 
de qaem primeiro na ocasião subiria as trincheiras inimrgai; 
arremeteu com o seu sargento, e nor^nta e dois soldados 
que tinha de guardiã das plataformas, e chegando a buiti 
pequeno raluarte quasy no fim da palissada o veo á encoft^ 
trar hum soldado mandado pelo capitão que de cima Uie 
pedia se chegasse. Adíantouse o alferes ecoí o sargento» 
João do Loureiro, e Condestable Joio Ribeira, e com eiies 
hum trombeta de D. Fadrique que acpielle dia o tinha ido 
a visitar. O capitão lhe disse que mandasse retirar sua gente 
pêra dizer cousas de importância . e de segredo* Sobio 
primeiro João do Loureiro e dando a mão ao alferes^ 
e sargento entraram todos três somente a» oito oras (pie 
parecera da manhã. Ouve entre os soldados rumor ciiidaÂdo 
de seu alferes, duvidando de algornsoccesso; foram ae 
chegando ao fosso donde o alferes mostrande-se os fes re» 
tirar. Àcudio hum capitão italiano com alguma gente arH 
mando-se pêra eilti^ar pela parte da estacada que ficava mea 
faldra de hum outeiro. Os de dentro não seguros de algmáa 
cilada lhe tiraram por alto dois mosquetassos. O alferes Ih^ 
disse que aquelle forte estava ocupado por .D/ Manuè) de 
Menezes, e convidando que entrasse, mandou ao sargento 
que o guiase. Sobiu e demorandose pouco se recolheufao 
seu posto. Baixou de sima uma grande tropa de gente €m 
que vinha o almirante Sanson. o hum sar^nto maior per- 
guntando da parte do coronel com que ordem se chegara 
tanto respondeu que para vingar a morte de hum soldado 
que estimara muito, eo dia antes lhe mataram. Respondeu 
que trinta e sete lhe tinham morto suas balas. Nem podia 
ser outra cousa que trazer ordem pêra tratar de paas, e asy 
queriam saber qual era o general a quem se avia de acudir 
Outubro 73 



ft 

— 572 ^ 

A. ostas palavras mal entendidas se respondeu que ai). 
Cádcicpie de Tcdedo que alojava no quartel do Carmo. 
PergoDlaram se queria o alferes deterse aly até que tornase 
húmátambor que queriam mandar em nome de seu eoroneU 
O' que consentido pelo alferes ficou com elles de guarda o 
sargento mayor e Sanson. Ouve muitas ^ostras de amisade 
GOnvidados os hospedes com carne de porco fresca, e os de 
fofa com laranjas e batatas cosidas e o trombeta com huma 
br&da de tafetá azul. Serião quasy quatro boras da tarde 
quando veo hum soldado da parte do coronel dizendo que 
ovatambor era tornado com resposta de D. Fadrique de 
tréguas por três horas. Despediram o alferes advertindo 
nSo trabalhasse entanto seus soldados nem se chegassem 
a seus reparos que avendo de ficar inimigas levantariam 
huma baíideira, tirasse elle hum mosquetasso em sipal que 
adtertir, e poderiam tornar as armas como dantes. Em 
quanto estes recados corriam say o D. Fadrique a reconhecer 
de mui perto os postos, e o estado declinante das fortiC- 
caoões avisando antes ao mar a D. João Fajardo» e a D. 
Manuel de Menezes do succedido, mas o aviso chegou j.a 
levado o sol do dia seguinte. Embarcaramse sem dilação 
subiram ao quartel achando tudo em tréguas depois do 
primeiro lemite que foram três horas tiveram muitas con* 
firmações passaram emfim a noite amigavelmente. Avia 
reféns de de huma parte e outra, de Espanha na cidade 
Diogo Rodrigues e o sargento mayor Murga, e no Carmo 
pela do inimigo o capitão Mansfelt olandez e o capitão Quit 
que parecia francez na pronunciação: o que se ordenou na 
noite de antes por junta particular que para isso D. Fadri- 
que convocou. Emquanto se esperava caminhava o atambor 
descoberta pelas cortinas tocando caixa pêra o quartel do 
Carmo; ao |)assarpela pi^rle fronteira ao ik)sIo das palmas 



k 



- 573 — 

mandou o mestre de campo D. João de Orellana posessem 
fogo aos seis canhões em que mataram alguma gente que 
estava sem cuidado pelas cortinas. Ouve grande queixa que 
nem guardava as ordens da milícia nem o costume da& 
gentes. O mestre de campo general mandou estranhar a de^ 
sordem, e mostrar aos daeidade que receberia qualqueo 
recado. Baixou o atimbor acompanhada de dois soidadosi 
foy levado a barraca de D. João de Orellana que esteve mui 
mesurado, e mao de servir, negando-lhe a mão que coiir 
forme aos seus costumes lhe pedia, e daly ao Carmo com 
isto se deixou a ordem de postas e o capitão Lansarote <la 
França que estava de vanguardia, subio pelos reparos e com 
elle Tristão de Mendoça, que logo se retirou porque lhe 
queriam a j)mbos tapar os olhos, metendo a mão a espada 
e se retirou as trincheira aonde contynuamente andava. 
D. Fadrique tinha ido aqueila manhã visitar o quartel de 
S. Bento e passando pela trincheiras da$ Palmas ordenado 
não sessase a artílhería. Com o aviso da vinda do atambor 
sa posacavallo, e a passo apressado veo ao Carmo mui alegre 
no semblante e nas palavras; passando pelas palma aonde 
postos em armas o esperavam se lhe deu a carta seguinte; 

 sua excelência, cl general dei arma y exercito de la 
Bahya de Sam Salvador. 

Nos el coronel y los demas dei consejo desta ciudad de 
Sam Salvador, por aver entendido que da Ia parte de V. Ex." 
ilamaron um atambor mestro para hablar, enbiamos este 
para saber o que V. Ex.* quiere mandar desimos confiados 
en que V. Ex.* nos le boi vera a inviar conforme el uso de 
guerre. Bogando a Dios guarde a V. E/ muchos annos. 
Fecha en esta ciudad de San Salvador em 28 de ibril de 
6á5, asinados, HansFrenet, Biffe, Quanilt Frenst coronel. 
Respondeu D. Fadrique. A los senores coronel y xonsejo 



f- 574 -^ 

euia carta acabo de rccevir su fecha de 28 deste respon- 
4ieBdo à lo qne contiene digo que deste exercito no se ha 
ecbo Uamada. Sy conforme a la costumbre de sitiados Ud 
tíe&e qoe desirme como no sea contra el servicío de Dios 
y de SQ magestad los oyerè con cortesia. Del quartel dei 
OHrmen los 28 de Abril 1625 D. Fadriqoe de Toledo Ozorio 
Enquanto estes recados corriam sayo D. Fadrique de muy 
perto os postos e o estado declinante das fortificações des 
ÍBCfaa&do antes ao niar oom aviso a D. João Fajardo, e a 
D« Manoel de Menezes de que Mo chegou a suas capitanas 
senfo ja levado o sol do dia seguinte. Embarcaram-se su- 
biram ao quartel acharam tudo em tregoas que depois do 
jprtmeiro limite de três horas tiveram muitas reformas, e 
se passaram emfím a noite mui amigavelm^te avendo 
reféns de uma parte e outra, de Espanha na cidade D. 
Diogo Rodrigues, e o sargento mayor Murga, e no Carmo 
peto do inimigo os capitães Mansfeit olandes, e Qoist que 

ni pronunciaçto parecia Irancez avia notáveis de 

mal contentes clamando que logo passada a primeira refpr-r 
ina das tréguas avia d^e contynuar aliateria sem cessar ; que 
o Mais cessando das armas toda uma noite era mostrar de^ 
masiado desejo de concertos, dar lugar a que as fortifica- 
ções fossem por diante, e outras queixas semelhantes náo 
sem risco de outros muitos. Quantas notes (e quasi todas) 
se tinham passado entre estes exércitos sem aver huma 
bala de que motejavam muitos chamando o citio de com- 
|padres> que podiam fortificar os miseráveis no espaço de 
huma breve noite, se o fortificado em humanno reinara em 
(So poucos dias. Aquelle dia como as des horas da manhã 
vseo a cart2( a O, Fadrique, e capitulos seguintes. 

A Su exceienda-^lllustrissimo sennoraviendo recebido 
|a carta de ^ de este y entendido la nobleza de V. 3/ 



— 575 — 

• 

de cuia persona nos confiamos, emos juntado niestro 
consejo e resolvemos de entregar la ciudad sobre las capi- 
tulaciones comprehendidas em los capítulos que com esta 
van sobre los quales aguardamos respuesta de V. E.x^ cuia 
persona Dios guarde, fecha en San Salvador a 29 de Abril 
de 6i5. £1 coronel etc . Capítulos conspirados po el senoi; 
coronel, y los dei consejo en l9 Bahya para oferecera S. E.x* 
D. Fadriquc de Toledo general de S. M. de Espanha. Pri- 
meiramente que nos los sobredíchos residentes en esta 
ciudad de San Salvador le avemos de entregar a S. £/ la 
dicha ciudade ^obre la condicione^ seguientes. a saber, 
Que S. E.x* DOS hade d^ir el tíempo de três semanas para 
que en dicho tiempo podamos concertar queslras nãos que 
p qua tenen^os, y provehernos de mantimentos, agua ,e 
otras cousas necessari£(s, y logo que para eso nos faltare 
para haser a viage para nuestra pátria nos hade proveher 
S. E.* y que será necessário por h multitud de nuestra 
gente otros quatro navios cada uno por lo menos de quatro 
cientas toneladas S. Ex/ nps hade proveher dellos; que nos 
otros todos hemos de sahyr desta ciudad ai cabo dei dicho 
tiempo com todo nuestro hato, bíenes, artelheria, y mo- 
piciones, y los cappitanes y soldados con sus aimfis. Ias 
vanderas súbitas, muron encendido y balas en boca. y I03 
capitanes e marineros en suo^ naos« Que S. Ex.* ai cabo dei 
dicho tiempo, ycuando estubieremos, aperejados mandará 
recoger toda las nãos de su armada de donde agora estoo 
y ancorar detrás de fuerte de San Filipe, para que nos otros 
en el salir de la Bahya tengamos el passage libre, y salyr 
sin nigun dano. Que tanbien todos nuestros eclesiásticos 
saldran con todos sus Ubros. y hatos sin niguna mo lestia. 
Que tambien a oinguno de nos otros en particular ni a 
(odo$ en comum les seram pedidos los bienes conquistados 



— S76 — 

O pillados en la conquista de la ciudad. Ny tanpoco to 
despues conquistado, ó pillado. Tambien algunos portu- 
goezes que por su livre Toluniadan quedado en esta ciudad, 
y nos otros los emos entretenido no tengan por ese mo- 
léstia alguna. Sy S. £x. consenUere e acordare los dichos- 
capitulas, hemos de entregarle la persona dei senor D. 
Francisco Sarmiento de Sotomayor livre y sin rescale que 
ha sido governador dei Potosi, D. Àgustino, y D. Fran- 
cisco sus hijos, D. Juan su hierno y D. Âlonço Barba y 
Verdugo, y mas la muger de D. Francisco, y dos byjas, 
y los demas de su familia que estan aqui presos. Tamibien 
entregaremos a V. E\. el padre frai Visente Palia, y su 
campanero de la orden de S. Agostin confessor dei dicho 
D. Francisco Sarmiento. Que los de mas prisioneros de 
ambas partes seran libertados sin rescate ny costas. Y para 
que de ambas partes se cumpra lo dicho daremos porsegu^ 
ridad persooas de ambas partes principales en confiança; 
y será condicion que S. Ex. no hade llegar mas serca desta 
ciudad con sus trinches y obras de lo que esta de pre- 
sente, ny entrar en la dicha ciudad antes que a hijamos 
salido con mestra gente, y echo volaran nuestros navios. 
Que 9. Ex. nos hade dexar haser mestro viage livremente 
{vara mestra pátria sin dexarnos perseguir con níngunas 
nãos de su armada ny consentir que por ellas no sea hecho 
ningun estorvo, El coronel. A estes capitules e praticas 
propostas pelos embaixadores que amplificavam com mais 
palavras principalmente o capitão Quist, que fallava caste- 
lhano ainda que nHo bem cortado respondeu D. Fadrique 
discretamente com palavras mui edificases engrandecendo 
as forças de seu exercito representando o estado daquella 
praça, louvando os sitiados que a tinham defendido mui com- 
pridamentee com muito valor, cat^ando muito aos estados que 



— 377 — 

os não tivesse socorrido afirmando que nfu) podia achar-s« 
gente tão desemparada como á daquella ciJade, e respondeu 
por escripto.— Al colonel. Hé recebido la r^irta do Ud y 
los capítulos que con ella vienem resueltos por el consejp 
a que respondo en papel a parte. Hé oydo á luís con toda 
la buena corespondencia militar. Syno se conlcnlar con lo 
que concedo que es mas do lo justo volveremos a las armas 
destrocando los rehenes. Guarde Dios a Ud en el quartel 
dei Cármen à 29 de Abril de 1625 anos Don Fadri(|ae. Alo* 
cappitolos. Aios capitolos prepuestos por el senor coronel 
y consejo que reside en la ciudad dei Salvador respondo lo 
seguiente D. Fadrique &. Que se halla en su mísmo pais, 
y los sitiados fuera dei suyo. Que se halla con tanto numeru 
de gente que no ha querido valer-se de la mucha que la 
tierra le offerece, ny ha querido desembarcar mucha parte 
de la que tiene. Que los citiados no pueden tener socorm, 
y cuando le uvieram tendo no era de efeito contra tanto 
poder. Que se halla con três quarteles sobre la plaza com 
treinta y tantas peças de artilheria con que ha entrado a batilla 
por quatro ó sinquo partes con trincheos quasy ai foço. 
Segunto do lo mal, y la costumbre de la melicia, ny los 
citiados pueden pedir lo que piden como soldados, ny I03 
citiadores se lo pueden conseder; pêro mostrando la beni- 
gnidad que su magestad usa con todos se les consede las 
vidas, y pasage para sus tierras, y Ia ropa de su vestido, y el 
vastimento que fuere necessário se les dava dando seguridad 
de la paga. Todos los prisioneros se han de restituir, y en 
primer luguar el governador Diogo de Mendonça Hurtado. 
Los citiados.- A S. Ex.avemos entendido por la carta ycapi* 
tolos de V. Ex. la resolucion sobre lo qual la respuesta va con 
esta: y por ser lo que en ella alegamosjustocontiamosenDios 
que nos hade socorrer, y guardar de todo mal ; y contanto 



- 578 — 

Diosmestro senor guarde a V. Kx. fecha en laciudaddeS.Sal- 
iradoaa29de Abril de l62o. Áloscapitolosi Lossenores co« 
roneliy consejo aviando visto la respuestade S. Ex. D. Fadri- 
que&sobre los capítulos oferecidos a S. Ex. responde Io segui 
ente quenos otrosnopodemosbaserotracosasyno conforme 
lascondicionesemos oferecido aS.Ex." por ser rasonables y 
necessárias para la comodidad de mestroviage e defensa dei ^ 
y que S. Ex. notiene razonde lo rehusar sinoes en abreviar 
el tiempo condicionquenos deu navios sayo bastantes y pr(H 
vehidos para el viage de nucstra pátria sin costas ningunas. 
Qoe de ninguna manera somos de intento de dexar esta 
ciudad tan fortificada, y provehyda como es seu salir dé 
ella sin armas, ny bato siendo resueltos antes de defendela 
como soldados honrados mientras tubieremos sangre. Enlo 
()tte toca á la persona de Diogo de Mendoçá Burlado no 
esta en mestro poder, por estar mucbo tiempo ha eu 
(Handa, y no poder nos outros prescrevir leys a nuestrof 
príncipe y estado roas que S. Ex.* mire por el bien y coú 
servacion de D. Francisco Sarmiento Sotomayor, y los hijos 
fecha en esta ciudad de San Salvador a 29 de Abri de i625 
El coronel. Todas estas propostas e respostas corriam 
pelos reféns Mausfel, y Quist que D. Fadrique ouvia em 
pé presentes os generaes. o mestre de campo general e 
todos os do conselho. E posto que trabalhase por nwstrar 
constância bem se via nelles que se haviam de moderar 
muito mais que as propostas. Vieram emfim depois de 
bem regateado por huma piirte e outra em que se lhes 
dariam navios de que pagariáo fretes, bastiraentos se acaso 
alguns lhes faltase fazendo conta com os que tinham, que 
en luguar de farinhas de Espanha de que havia na cidade 
grande cantydade lhe dariam biscouto, pois eram boas 
para terra e ynutcis para o mar. Vinho e ascites tinham 



— W9 — 

bastantes. Qae a honn lhes parecia nSo tinhan desme^ 
recido Da defença daquella praça, e asy esperavam que 
D. Fadriqoe lha não intentasse demenuir negando-ltaes o 
sayr a embarcarse senão com bandeiras tendidas com suaâ 
armas, e^sínias como soldados honrados. Nisto se mos- 
traram mai constantes declarando por mui bons termos 
qnenão veriam o contrario, antes estar prontos pêra tomar 
as armas. Isto tratavam os reféns autorisando suas pessoas 
obrigandose que por elles asentado ccmflrmariam o do coúf 
selho; e com í;>to se recolheram a seus apozentos aondd 
estavam mui regalados. D. Fadrique se assentou e 08 do 
conselho, mandando que todos os que estavam na saia de 
fora e no corredor visinho do claustro sobre que linha ja 
nelles a sala do conselho despejassem porque como náo era 
pequena e muitos os da junta pudessem votar seguros de 
não ser ouvidos, propoz D. Fadrique representando bem 
quem era por calidade, por valor, juiso, e experiência, dis 
correndo pelo estalo dos citiadores, dos citisKlos, moetran^ 
do quietação e constância de animopera o que se ofereceâd 
de trabalho naquelle citio, de maneira que mais secotegiría 
delle intento de gloria que a inclinação a consertos destti^ 
sidos a nação Espanhola. Viaseque toda a resoluçam andava 
sobre hum ponto de sayr o inimigo com armas, ou desar- 
mado. Discorriam variamente, huns queS. M. ajuntara tão 
gran poder de mar e terra para castigara desobediência de 
seus rebeldes não só pêra recuperação daquella praçá; qpie 
levados desta gloria se resolveram aeáhores, e fidalgos Vor* 
tuguezes a deixar mulher e filhos estando alguns por ^ua 
idade, e outras circunstancias muy consideráveis desobH^ 
gados de servirem em jornadas^ tanto mais emnavegaçSotão 
larga como a do Bra^l quando nella níofosse apessoartaA : 
que eram indignos de misericórdia aquelles Ereges pele 
Outubro 74 



— 580 - 

atrevimento com que primeiro prepopuseram; qiie mais 
poderá dizer um embaixador de um rey de França sendo 
ocupada a praça por seu exercito real. Da clemência de 
S. M. era justo que em todo aperto esperasem vida seus 
vassallos rebeldes, mas verdadeiramente aqueles eram 
indignos delia, e quando se lhes consedessem fossem taes 
as condições, que pêra outra gente que não fosse piratas 
servisse a mesma vida de exemplo do castigo. Que isto era 
o que entendiam convinha a reputação de Espanha . Tivessem 
embora vida posto que não faltou quem quizesse levar tudo 
a sangue e fogo, mas saysem desarmados, descobertos com 
varinhas brancas nas mãos. Estava ali Diogo Rodrigues 
soldado velho de valor conhecido que considerara como 
jttiso o estado daquella praça as horas que nella estava disía 
que os citiados tinham huma grande falta que os obrigaria 
a qualquer coudição que se lhes oferecesem. Perguntavalhe 
que falta eraaquella, ellea nio sabia, mas devia de ser balas 
e outras monições. Com esta opinião de pessoa de muitos 
annos de Flandres, de autoridade, teniente de mestre de 
campo general ficava aquelle e outros votos semilhantes 
mais corevorados, de maneira que havia por esta parte 
muitos caminhantes. Outros descorríam com pensamentos 
mais humanos, alvirtindo-os da inconstância das coisas in- 
feriores ; que os brios com que os olandezes se defendiam, 
ainda em consideração do futuro, eram merecedores de 
honradas correspondências; que a empreza se ordenava 
para recuperar aquella praça, sendo mui honrosa a que con- 
seguia sem intento Nisto estava verdadeiramente a repu- 
tação da Espanha, antes o pretender que com vilesa sayse 
o inimigo era direitamente contra ella, vendose no teatro 
do mundo contra qual gente se occuparam três quartéis, se 
tomaram tantos postos, se ajuntara tanta artilhería com 



— 58Í — 

tanto excesso sobre o que de Espanha se limitara, quanto 
sem causa se desamparara a armado pêra crescer o numero 
dos citiadores; que aquella gente punha injustamente o 
nome de piratas sendo inimigos de Espanha, por cujos pe- 
cados, ou por outros juizos de Deos estavam ingreidos com 
os sucessos que se chamavam, e não nos secretos, os es- 
tados livres das provindas unidas, era hum exercito do 
principe Mauricio e estados de Olanda, gente que tinham 
quartéis defronte dos exércitos católicos, que de gente de 
valor se não quizessem partidos afrontosos, antes se cui- 
dasse que só com ouvidos se evitasse e resolvesse a esperar 
a ultima fortuna defendendose de seus reparos que para 
sustentar assaltos por escala vista eram, pela escala e pen- 
tens mui a propósito não havendo ja que esperar da artí- 
Iheria mais efeito; que naquelle exercito não avia cabeças 
para que faltando esta ou aquella, o que Deus não permitisse 
encher o lugar. Tudo fallando em geral para desembocar 
fossos tapar muralhas, ordenar minas, subir escadas, gente 
bisonha. Que era muito para sentir, e S. M. sentiria mais a 
perda de tantos senhores, e fidalgos espanhoes. Dos de 
Portugal estava visto que sobre ser cada hum o primeiro 
arriscaria a vida, e o que mais é por não ficar o segundo. 
O mesmo se presumia dos de Castella, pois não conhecem 
suprioridade, e a igualdade apenas a sofre cuidarse que a 
praça se renderia no primeiro assalto era sem fundamento. 
Sendo rechassados com muita perda e da gente mais gráua- 
da ou morta ou ferida, como necessariamente avia de ser 
quem ficava para o segundo que as vidas dos taes bem ven- 
didas ficão por serviçiy dos reis na toma de cidade, quando 
he necessário, por escalada mais injustisimamente perdi- 
das por se pretender que tal inimigo saya com desowd; 
que arriscar buma só horaa recuperação da praça era conto 



~;í82 — 

a reputação» contra ô senriço de S. M. umana, e defina que 
m trincheiras mais fisinlias, nSo estavam no fosso e para 
chegar necessitarnn de tempo mais do que algons cuida. 
WÊU outras vinhân coxeando, algumas tais que fora melhor 
Qfo ter principio. Esta mesma delaçáo não era menos pre- 
Indicíal por ser entrado o inferno que por misericórdia de 
Deus tiiúia tardado muito, que nas trinchefras se alagava 
a gente a chuiva importuna seguia calor intolerável e por 
€8ta destemperànça adoecia muita gento que não cabia nas 
grandes enfermarias deputadas. De novo se ocupavam casas 
if» não bastavam; morriam pela umidade, e quentura da 
Itrra todos os feridos, de doenças muitas, alguns quasj ao 
^tosampm^ pela falta de medicamentos, e pela de frangas 
6 galinhas notáveis. Sobre a carestia insofrival, que pêra 
«oprir esta falta acudia com alguma carne de porco por 
regiK por hum abuso da terra semelhante aos demais de 
ser aquelbi carne san pena doentes, não prestando nem pêra 
os sãos, e faitandopera todosainda quebuscatia com solici- 
tnde edeligencia, que o ordinário se supria com carne de 
vaca em todas as mfermarías. Se carregasse o inverno? se 
cresesem as doenças? seenfermase a nobreza que sustentava 
muito? Mas se chegasse o socorro que tardava muito con- 
forme ao que os olandezes aguardavam, e os espanhoes era 
wsio centravam? Alegre comedia se representaria ao 
inimigo quando visse a confusão de gente que acudia aos 
navios desemparando os quartéis, quando se visse socor* 
rido com pouco estorvoque navios fantásticos lhe causariâo 
cappitaaas e almirantas foriam todo o esforço chegando se 
'us inimigos emquanto o fundo de alguns bancos o permit- 
tissem. Que oafinnado por Diogo Rodrigues com sua revê- 
nttút, nenhtun lugnartinha pois nada sabia de serto, qiie 
ttta(agi»aç6esftunatiassã<>a verdadeira inserteza em que se 



— 588 — 

Dáo funde um triste alpendre tanto meno6 edificio tto 
grande, toda a importância da empresa. Adrirtisese ootm 
cousa, quaiqnando este socorro nio chegase addade effifim 
serendesesoem qualquer pequena dilação estava gran raiM 
aparelhada, gastavase a monição, que ja estava aríscada pelo 
tempo que avia mister para carenas de navios velhos, jfàfíí 
pendores dos de mais; que a este respeito somente» quaod»* 
tudo mais se facilitasse e senão fizesse mençlode outra eotiat: 
alguma, não havia outro que se opusesse; que ao itiimigft te 
avia de fazer honra com que cada um sajrse cargado de sm 
mosquete, sobre mechas acesaa, ou apagadas, sobrebagaga 
ouvesse embora disputas, contanto que fossem braivesalgims 
dos 5«nhores portugoezes replicou ao que se desia que ú 
seu sangue se havia de poupar mostrando sentimentos de 
proposta; o que votava sentindo os brios naturaes naqueUa 
nação, parecendo-lhe, que estava respondido com a opiaílo 
commua, quasy não cortou o fio do que desia, comtudo oAo 
faltaram, segundas instancias e ditos mal declaraà)8, que 
todavia se entendiam do que D. ioáo Fajardo que ja tinha 
votado, tomou cólera. Tendo, que aqueUa linguagem eia 
ajudada de algum soldado velho, e entre muitas coiatfl 
disse que se não podia sofrer cpiealgmis fidalgos honrassem 
sua galhardia e bisarrias sobre o siso de outros, o que^e 
tinha tanto de bisarro oomo todos, easy declarava seu toIo 
se não desse luguar ao costume de semelhantes casos, nem 
a clemência ou piedade, fossem todos degolados» eqmado 
alastima vencese saysem despidos,o esbofeteados. Mas logo 
sesson a cólera e yoltou ao votado de antes* Nisto vierani 
todos os soldados vellios e em que se dese armas com que 
saysem com mechas apagadas e sem bandeiras. D. Fa-- 
drique resmoio <pie nislo se ccmformava, mas queaa^arauta 
se Bio desem seoio depois 4e eadMreaios, a quaieala 



— 684 — 

aceitase o partido se lhe consedese. Instou D. Manuel de 
Henezes que com sua licença se defreria muito, que negar- 
lhes armas ou consederlhas não havia ser por gosto, mas 
pér aver para huma ou para outra cousa, fundamento; seu 
par^er era que julgando sua senhoria que não era justo 
dttrenselhes, sempre se lhes negase. Todavia resolveu 
ce«io tmha determinado. Este conselho se acabou com 
moitas oras da noite; e D. Manuel não podendo acabar 
comsigo dormir fora de sua cappitana. chuvendo o que 
bastava para fazer piores aquelles mãos caminhos, baixou a 
Agua de Meninos, sendo jà partido o governador San Feliche 
emk a carta de creensa que se segue para tratar a matéria 
como coronel e com os mais do conselho, c Al sargento mayor 
San Feliche remito lo que se me oferese disir a Vd em res- 
paesta dei papel de 29 deste que cabo de recebir, y como el 
general que tambien passage a echo a Olandeses que he 
tenido prisioneros estare desculpado en volver a las armas 
despues de haser descortesias que Vds han visto guarde 
mestro senor &c 29 de Abril de 1623. • Â manhã seguinte 
se foy D. Manuel pêra D. Fadrique, e tornando-se a 
jantar o conselho se vio que alguns dos que tinham 
votado, vendo, parese, tinham cumprido com sua obri- 
gação, ou pela cidade ou por outras consyderações, estavam 
resumidos ao mais umano. No votar não avia differença, 
proposto, ou ansyanidade, senão por ordem como cada 
hum estava asentado. Cayo o voto a D. Manuel; escu- 
s?iva-se de votar de novo, porque de novo não avia nada 
com a volta de San Feliche, e vinda dos comissários que 
haviam de assistir ás capitulações, na conformidade que 
os reféns no dia de antes tinham consertado. Mas por 
obedecer a D. Fadrique, falando com D. Josepe de Sarabia 
secretario de D. Fadrique que nas juntas fazia o oíficio de 



— 585 — 

secretario delias, lhe díse que escrerèsse o seu parecer 
com as mesmas palavras que o disia para que delias 
constase a todo tempo, apesar que todavia se estava em 
sua fraqueza da noite passada, e na pretenção da avareza 
de tão bom sangue como avia avendo meio pêra se pou{mr, 
recuperando-se a praça e onradamente, e que todas as 
mais rasões do dia de antes dava por repetidas so huma 
acressentava pêra desculpa do temor que mostrava muito 
contra sua natureza; que elle por ordem precysa de S. M. 
asistia cm sua cappitana, e podia asistir, em quanto voasem 
diante as trincheiras, e o sítio se apertase com o bom 
sucesso que Deos lhe daria em seus assaltos, e escaladas, 
que nellas tão grandes, tão fortes como se via pêra 
qualquer caso tinha quarenta e quatro pessas de artilheria, 
monissões bastantes, muitos soldados de valor, e sua pessoa 
que tinha visto e padecido muito e comido acabou aqueUa 
seção e com o seguinte. C^rta dos citiados. Por el sargento 
mayor San Feliche havemos recebido la de V. ^x. ai qual 
remelio V. Ex. logo que se lhe oferecio de sir ai quad 
oymos, y asy mandamos das personas de nuestro consejo 
para responder a V. Ex. vocablemente e representar«lo 
demos de nuestro mtento; de los cargos que ha tenido de 
S. M. y el bien que siempre biso con los nuestros estamos 
advertidos y satisfechos, y que siempre lo usara com per- 
sona tan poderosa aquien Dios guarde a 30 de Abril de 1625. 
Carta de crehencia. A S. Ex. el Senor &. Nos el coronel 
y consejo damos poder, y abremos por bien por isto que 
los senores Guilhelmo Scop, Ugo António, Francisco 
Duquesme personas de nuestro consejo vayam a tratar eop 
su*Ex. el Marques D. Fádrique de Toledo sobre la entr^ 
de la ciudad dei Salvador y consertar c(m S. Ex. los oçri^ 
tulos presentados de mestra parte en la mejor forma qpe 



— 586 — 

j^erom, y lo que los dichos senores tratarem teãdremoa 
por bien, y hecho sy to que cumplíremos puntealmente y 
éOQ sinceridade; fectia en la ciudad dei Salvador a 30 de 
Abril de 1625. Capitulaciones. En el quartel dei Cármen 
ft SO de Abril de 1625 el senor D. Fadrique & parecieron 
los senores cappitanes Guilhelmo Scop, general dei arti- 
Hieria. y Hugo António comissário general e Francisco 
Doqoesme todos três dei consejo los quales truxieron co- 
mission dei senor coronel» y consejo que se hallaa en la 
ciudad de S* Salvador de Bahya de todos Santos para haser 
y concluir las capitulaciones seguientes para entregar a S. 
M. y ai senor D. Fadrique de Toledo en su nombre la dicha 
ciudad de S. Salvador que ai presente poseen« obligados de 
las armas, de S. M.; y el dicho senor D. Fadrique ordeno ai 
senor D. Juande Orellaoa, maestro de campo de infanteria 
espanola, ai seçor D. Francisco de Almeida almirante de 
h armada de Portugal y maestro de campo de otro tercio 
de infanteria espanola, ai senor D. Hieronymo de Quixada 
y Solorzano auditor general dei armada y exercito, ai senor 
Diogo Rodrigues teniente de maestro de campo general, y 
quartel maestre general y ai senor governador Juan Vi- 
eencio S. Feliche todos dei consejo que juntos asistan a 
eonfrir y tratar lo contendo, y asentarem y conclueron Ias 
capitulaciones seguientes. Primeramente que ai senor 
coronel y consejo hande entregar-Ia dicha ciudad de S. 
Salvador ai senor D. Fadrique de Toledo en nombre de 
8. M. en el mismo estado en que se baila oy dia de la fecha 
eon toda la artilheria, armas, vandeiras» y mouiciones, 
pertrechos, vastimentos, y navios que dei puerto y Ia 
ciudad se allare, todo el dinero, oro, plata, yoyas, mercan- 
stas, menage. negros, negras, esclavos, cavaUos, y de mais 
cosas que se allare en la dicha ciudad y navios dequalquier 



I 



— 597 - 

calidad y condiciones que sea; y qoalquier nacion vasalOiSs 
de S. M. qae no tomaron ias armas contra S. M. ny sus 
vasâlos hasta despues de llegara (Manda dr. El senor B* 
Fadriqne de Toledo en nombre de S. M. les consede que 
dichos senores, coronel ministros, capitanes; of^ciales, f 
soldadoS; y sus criados, y toda la gente de mar. y todos los 
demas olandeses, itemengos; inglezes, franceses, aleman^ 
como sean los que tf uxieron comsigo» salgan livremente, 
sin nigun impedimento com toda a su ropa de vestir, y 
dormir, y que los coroneles> y capitanes, y officiales puedam 
Uevar en baúles, y caxas la<licha ropa de vestir, y dormir, 
y no otro cosa, y los soldados con sus mochilas. Que el 
dicho senor D. Fadrique de Toledo, les dará passaporte 
para todos los navios de S. M. paraque no se les haga dano 
niguno, no aliando los fuera dela derota de'sutierra. 
Que el senor D. Fadrique les hade dar vastiméntos neces- 
sários para três meses y médio. Que toda la gente hade 
sahir de la ciudad todos juntos.. Que el dicho senor D. Fa- 
drique hade sinalar per^onas que visitando los dichos sol- 
dados, y demais personas que salierem para que se caso 
que Ueven alguna cosa fuera de lo capitulo que el dicho 
senor D. Fadrique aya de restituir ai dicho senor coronal 
todos los prisioneiros que se allaren en pie aqui. Que 
ningun soldado de los dei exercito dei dicho senor D. Fa- 
drique haya de haser agravio a ninguno de los olandeses 
y gente sobredicha dei dicho senor coronel. Que los hade 
dar los instrumentos de la naveg^cion que tryen en sus 
navios. Que el dicho senor D. Fadrique les aya de dar las 
armas para su defensa en su yiage. Que hasta los dichos 
navios ayande salir sin armas ningunas exceto los capitanes 
que podran llevar espadas. Que el dicho senor coronel aya 
de dar esta noche huma puerta abierta coa su cuerpo de 
Outubro 75 



^tardia ai dicho mm D. FadríqM d^tm da ta tuti^Ila, 
ffl senM- D. Ftfiriqiíe Im de r^^tibs ^ su icòntetitopara 
A segorifltd ^tretanto qtíe esta^ capituiacfoQs ^ cample; 
1Mia<m id qoariiâ dei GariMfn a SO de Abril de 1625. 
Gsta^ c^^^lações £íe eoticliiinam às «fés liaras da tarde, e 
^finnaratti D. F^ríqúè 4è toledo Osório, Guilhclmo Stop, 
Hogo Anteoío, e i^raiK^isco iDuqú^iti<9. 

ÍLIVRÒ tERGEIRO. 

Ofuesmedeuaêegueitsúrmadiístitoriéâasderam 
veia perawka de Espanha &. 

Eitaja ^si scfl t>osto e não podiam acabar de se -tirar 
k%tk<ança§. travessas, atulho •com que as pettas de Santa 
Gáletína por donde bavia^dé «ntmr a ii^ranteria conforme 
ts<»t^talaç6es. Tiradois emfim os impedimentos comqne 
{Nirece ^ fortificaram contra a força de ^Petarde foram en- 
Iriando o 'mestre de campo igeneral, o mestre de campo B. 
VMo^de Orellanacom sinquo companhias; não levaram 
Imodefras, costome observado na entrada de praças que se 
Wítregaím. Lançou-se vanáo qoe nenhuma outra pessoa 
«atrase sob pena devida, e traidor aEl-Rey. E advertido 
O. Fadrique de quem por verttura despois o não guardou, 
tnandou ajuntar ao vando que debaixo das mesmas penas 
Mnhum soldado das companhias que ^travam sayse da 
«asa qoese lhes desse pêra •seualojameifto. D. Álvaro de 
dlbranches £cou com sua companhia ^e guarda da porta 
'{ijpWém ^ia parte de fora) com a -ordem que ninguém 
«tttwise, nem saysse, sem -nova ordem de D. Fadrique, que 
ffály a paiíeo espaço entrou na cidade, y foy alojar as casas 
4o ^overmaddr. D. Mafa:U€(l^']ffe»efií6fs qtie de^ndo o s^ • 



ti4o (I09 vemetedoFCis ocupada em desembaraçar aporta se 
fopai pêra sua cappitana. Foi logo peb manhã a dar o ^ 
raben a D. Fadrique de Toledo da mudança de huma'trí4è 
eeia do Carmo cheia de ciudadoa para aquelta casa do que 
O acbou satisfeitíssima (dizia muitas vezes qua nunca tSa 
J)oa a tivera) por hum jardinote com partido, coriosidadq. 
do coronel João Doart,, e por bums^ sak^ que lavrava o got-' 
vernador Diogo do Meudouça de vista qo topo sobre èHeu 
9 parte da cidade, e boa do mar oceano, mais janelas no 
prolongo sobre a bahya e outras pêra o interior delia» e 
parte 'setentrional todas livres e pcw outras circumstancias 
que acompanham a soberania. Acabada sua visita sayo a 
ver qs ruas qqe pelo que tinha ovido em Portugal imagi- 
nava diferentes. Considerou por toda) as partes as ruínas, 
das defenças, as peças quasy todas dç^neavalgodas, e comQ 
o intento era buscar alguns livros curiosos que não avia 
enfadado de tio triste espetaqulo se tornou. Poderia relatar 
do despojo e de outras particularidades que todos desejaram 
saber, e neste luguar esperam com grandíssima inserte^. 
Mas parece-the que o autor castelhano, que dizem escrevço 
a relação, desta impresa nío foy curto avaliando em 
400 V ( * ) senáoincluio nfeto os navios. íabricas e apreatos 
deiies e as casas da cidade, O que chammente podem 
afirmar é o que lhe dizia hum olandez que mal se poderjit 
imaginar a pobresa daquella gente, porque entrando ei]es 
com tão apresurada entrepresa, e achando as casais iuteiras 
como seus donos as tinham ate* relíquias que traziam aò 
pescooo colgadas das camas senlo aohara ouro, nem prata, 
nem instrumento que arguisse mais que pobresa; e qçí 
nas casas de melhor aparência revolvendo arcas de row' 

(•) érmiro^pt9.89/rfcrs. 



— Sítf- 

branca achavam entre ellas garfbs e colheres algtima lassa 
antiga, alguma cadeasinha de ma traça e pouco valor, 
aigiins anéis velhos e de ruins pedras, nenhum firmai, 
nenhuma garçantilha, nenhuma sinta, que o tomava por 
testemunha de sua verdade avendo de ver o pauco 
que aly se achava, excepto na fazenda do navio de 
D. Francisco Sarmento. Não se pode por este caminho 
arguir pobresa do lugaar, porque ordinário he na gente de 
negocio portugueza da índia e asy o sera na do Brazil em 
seu tanto trazer o seu dinheiro de hum trato era outro não 
no empregando emcalvagidaras, joyas, nem ainda naquellas 
cousas da índia aprasives ã vista. Mas verdideiramente 
considerado bem a fabrica das casa, a traça de todas, bem 
se arguira poucos levantados pensamentos como cortado 
todos por hum nivel mui conforme a isto he omenage e al- 
fayas, os guadaraixinnes, as cadeiras, os leitos, as pinturas. 
Avia muitos negros, e negras, poucos Portuguezes, os mais 
da nação Hebrea, que se acomodaram a fortuna do vencedor 
livres do cuidado quam bem se lembraria Espanha da recu- 
peração daquella cidide. Peças de artilheria avia em canty- 
dade muitas de navios tomados pequenas, e maas, poucas 
boas fora das que na praça avia de antes ; de pólvora e mo- 
nições de todo género bastantemente para muitos mezes; 
munto de selas, bridas, e todo o adresso, pistolas, armas 
ligeiras de infanteria, petos fortes; indicio de pensamentos 
conquistadores em que queriam vencer aos portuguezes, 
que se contentaram sempre em todas suas boas fortunas, 
e conquistas. Nâo era menos de apresto em seus almasis 
^e anxarsea, velas, pregadura, graxa, mas a curiosidade se 
mostrava mais em seus navios de maquinas de fogo grana- 
das de muitas maneiras, bombas, alcansias, roqueiras por 
popa abocadas abaixo se fossem cometidos com lanchas 



- áôf - 

inaumer^teis instratttônios de BaregaçSo. Vioseclaramebfè* 
como se eogaDava Diogo Rodrigoes em sua imagiiiaç3o^' 
gente de guerra mit e trezetits^ e quinze pessoas de nàHt' 
(]uinhentos e seis afora quarenta edois artilheiros; e éii^^ 
coenta e seis oiliciaes, estes mil novecentos e desenovM 
nenhum velho, rarissim^ moços peqúeíic^, todos manceboií 
gente escolhida para luzir entre qualquei^ juíanteifia éd" 
mundo. Bem se pode ppesuttiir que se quizessemretolverse 
onindose conformes (o que com defeculdade seria enti^e- 
tal aperto e variedade de âação ) a esperar hum assaílto quis 
custaria rios de sangue, e vitoria. Não seria umildade dizert 
D. Fadrique o que o outro general, Yini, ni, y Dbs venCiiií^. ' 
Quinta feira primeiro de Maio as dez da manhã tirada iaf^ 
bandeira de Maurício se plantou em seu lugar sobre a see 
a das armas reaes de S. M. e(»a castellos e leões. Materiía 
de notáveis descontentamentos entre os Portugueses, cha^ 
mando aquillo, se foi enavertencia, ódio nos Castelhanos a 
nação portugueza que em tudo se mostrava, e liunca em- 
tão publica aparência. Era aque Ia empresa de Portugal dos' 
cinco mil e oitocentos homens que assistiram em campanha 
os três mil e trezentos portugueses, muitos fidalgos! moita 
mais gente nobre, quasi todos aventureiros, enío da pledDí 
de que as levas se fazem ordinariamente. A nobreasi> 
que mais continuava nas trincheiras, no desmontar mataS; 
carregar faxinas, calejaras mãos com a paa, e eqiadir 
sendo aqui a de Castella sem offlcio, ou cargo entreteni» 
dos cerca de la persona, gente jubilada pêra o trabalho, 
que o pençamento dos conselhos, e governo de Portugal 
fora somente pedir socorro, persuadidos a que tinhaufi 
genetaes; querendo D. Fadrique portuguez pudera mete? 
coín as de Portugal as armas de Castella, com que a? 
quinas reaes dadas por Deosao Mm^ ficando mu^dto- 



— 594 — 

das que avia em casas particulares que pareciam de pilhage. 
e ainda das inventariadas, alguns soldados particulares que 
ipodiam entrar, e sayr rapinavam coisas mui descommodas 
.de levar, pipas inteiras de cebo, alguns oSiciaes, as de 
Vinho, que segundo se contava logo vendiam alasernado. 
Estes e outros taes não tiveram sorte de encontrar caixões 
de sedas, meias e outras coisas de moderado preço. Em 
^quanto estas negociações e trabalhos se gosam, e padecem, 
ibandava D. Manuel recolher a sua infanteria e artilheria 
tque tinha em terra, acodir ao provimento da gente que 
tinha em ambos os quartéis, aprestar taboado que na terra 
não havia e as mais coisas necessárias para querenas, e 
pendores para o que náo havia carpinteiros, e calafates, 
aendo gran parte dos da armada de navios particulares, e 
dd frete que sendo acabada sua obrigação andavam espa- 
lhados pela terra dentro, outros ganhando seu jornal que 
ali he grande, e náo avia desco]|)rilH0s ; nem era de menos 
cuidado a aguada estando as pipas em estado que mui 
pouca, eram de serviço sem muito adresso. O que se dizia 
que na terra avia muitos tanoeiros, e muitos arcos era 
semelhante as outras informações, se não se salva na sim- 
plicidade que verdade he que tanoeiros e arcos se acharam 
pêra concertar louça de navios» marchantes que com o 
euidado de seus donos levaram pouco dano. mas para 
tantas mil pipas que saem de mãos de quem se não doe 
era impocivel aver apresto: tudo era confusão porque 
seus procedimentos na satisfação a todos culpando o de 
que avendo tocado a sua cappitana meo banco de área 
defronte da cidade, não tratava de lhe dar querena. Que 
tudo era alinhar pêra mostrar maiores aparências do efeito 
de seu trabalho porque no mesmo tempo queria acudir a 
tanta coisa; que avia soldados pelas companhias a que 



— 595 — 

faltavam sapatos, e aveado muitos de moníção se lhe náo 
davam. Pera que se poupava o que era pêra repartir? O 
mesmo diziam do dinheiro que não despendiam dando-se-lhe 
pera as necessidades do campo : queria adiantar-se com os 
ministros portuguezes mostrando a torna viagem que lhe 
sobrara; mas elle feitas as contas comsigo entendia que 
acertava, prevenindo o poder-lhe faltar os mantimentos de 
Espanha que haviam de navegar tantos mares. Nenhuma 
cousa o cançava tanto como a preça que avia de ser neces- 
sário no apresto dos navios de Portugal que aviam de 
ajudar a levar os olandezes avendo-se-lhes de dar todos 
meter-se-Ihe logo mantimentos, e pipas pera aguada» 
porque se partissem logo não estariam consumindo os man- 
timentos que avia, e pera se desencontrarem, como se 
pretendia das armadas de socorro que se esperavam não 
via melhor caminho pela diíTerença das derrotas dos que 
com aquella monção partem pera Europa e dos que da 
Europa buscam o Brasil, que detendo-se aly os rendidos 
ate que os socorros chegase não faltaria modo por donde 
comonicasem e consertasem o luguar de se ajuntar ; e que 
com a junta de tais dois mil homens aos de socorro poderia 
aver causa de muito receyo intentando alguma facção de 
que não podiam deixar de vir advertidos de Olanda se 
acaso acliasem a praça rendida, e porque a esta opinião ouviu 
que havia outros opostos a mandou propor a D. Fadrique 
pelo governador San Feliche e que estimaria muito que 
ouvesse junta em que a provocaria aos mais práticos ma- 
rinheiros. San Feliche voltou com resposta e ouve replicas 
e defeculdades com que estrangeiros e espanhoes vieram 
a partir juntamente. Logo que a praça se rendeu ordenou 
D. Fadrique de Toledo mandar a nova a S. M. pera o que se 
aprestou hum pataxo, mui ligeiro, bem espalmado e en- 
Outubro 76 



- 596 - 

sevado, mui boas velas e todas que o mastro podesse levar. 
Era de força e com deseseis peças de artilheria de bronze 
a cargo do capitão Martimde LIanes hya o capitão D. Pedro 
de Porvas com cento cincoenta soldados, mosqueteiros 
escolhidos. Coma nova D. Henrique de Alagon convalecente 
do mosquetaço. Partiu a 13 de maio à noite em direitura 
a Cadiz. D. Manuel que levava em seu regimento que logo 
em chegando ao cabo Verde despachasse caravela com a viso» 
e não executava esta ordem pelas ocupações que aly teve» 
e chegando à Bahya vira mayor inconveniente por não ser 
o mensageiro do infelice principio da empreza. Agora lhe 
pareceu necessário. Mandou dar monte a huma caravela e 
a aprestou pêra a viagem. Dizem que hum portuguez dera 
informação a D. Fadrique que a caravela era embarcação 
mui ligeira, que furava os mares e avia de anticiparse, com 
a nova a Espanha muitos dias, em huma carta dequelle dia 
escreveu o capitulo seguinte : Oy han llegado a desirme 
que parte uma caravela esta noche a anticiparse a levar el 
•aviso e â llegar primero que el navio que lleva a S. M., esto 
parese que la misma rason lo esta desinio que no puede 
seer y asy digo las que asy para no persuadirrae a ello pues 
quando V. S.' gustare de despachar caravela claro esta que 
V. S.* no queria que partiese a tempo que va a hurtar lo 
vendicion, y se en esto ay algo creo muy seguramente que 
será deligencia de algum particular sin orden de V. S.* 
Suplico a V. S.* lo mande averiguar e estorvarlo pues es 
tan claro lo que en esto se deve haser, y ami mande V. S.* 
A este capitulo respondeu que as benções esperava de quem 
as podia dar sem negociações. A partença da caravela tinha 
asentado seria com licença de S. S.*, p depois dado seu 
navio os dias que lhe parecese como o tinha escrito a S. S.* 
em oito daquelle mezdandolhearesáo, que (quando outras 



— 597 — 

não ouvese que eram muitas ) náo era justo que as senhoras 
de Portugal esperasem pelos correos de Madrid somente 
cartas de seus maridos que tinham naquella armada, fora 
de que por ordem de S. M. levava despachar caravelas 
logo em chegando, asy lho tinham mandado os governa- 
dores de Portugal que com dobrado gosto e pontualydade 
obdecia estando ausente. A D. João Fajardo foy ordem to- 
masse as velas as caravelas que não fossem de D. Manuel, 
e como corriam com amizade antiga avendo sido D. Manuel 
soldado de seu pai algumas vezes deulhe conta da ordem e 
depois de mandado executar n'uma caravela que viera a 
D. Afonso de Alencastre; estendendose a pratica com lha- 
neza veio a dizer que a pessoa que levase a sua conta tal 
empreza podiam dar ordens que nenhum outro navio par- 
tisse sobre que ouve largos discursos, e distinções mui 
necessárias pêra semelhantes ocasiões. Mandou aquella 
mesma tarde ao capitão Manuel de Palhares que como de 
si fizesse saber a D. Fadrique que elle erà o nomeado pêra 
ir a Lisboa com o aviso e asy lhe fizese mercê de ocasiões 
de seu serviço. Que a partenca lhe tinha ordenado D. 
Manuel seria quando S. S.* o despachase. O dia seguinte 
à meia noite veo o mestre de hum navio portuguez tomado 
por hum patachinho deOlanda com aviso que ja tinha dado 
a D. Fadrique, que fora mandado pelos olandezes á cidade 
que tinham por sua saber do estado das cousas, com pre- 
ceito tornasse em horas limitadas sob pena que tardando 
padeceriam os companheiros; que aquella com duas presas 
o navio da ilha da Madeira, e outro de Lisboa esperavam 
resposta doutras da ponta de S. António. Sahiulogo Martim 
de Valhesilha com os navios Victoria e S. Catharina, e 
huma tartana, e a sua ordem mandou D. Manuel dojs pata- 
xos que tinha prontos para qualquer ora, e Manuel de 



— 598 — 

Palhaes na sua caravela. Acháramos olandezes a que deram 
cas^ ate a paragem do rio de S. Fraucisco, e os deixaram 
▼endoo intervalo com que os vencia em ligeiresa. As presas* 
que eram ruins de vela prevenindo o olandez tinha man- 
dado se fisesem ao mar. Delas teve vista Manuel de Palhaes 
lhes poz a proa mas o general Valhesilha vendo que era 
tarde lhe fez sinal e se recolheu. Por este homem se soube 
que huma das presas era navio de Lisboa carregado de 
bastimento e trazia cartas a D. Manuel, de serem trinta e 
cinco velas partidas deOlanda em socorro da Bahya. Sentiu 
muito que se recolhese estes navios sem efeito, e como 
lhe hya tanto nos bastimentos todas as deligencias lhe pa- 
reciam pequenas e pretendeu fazei -as com os seus pataios 
somente. Estando com este cuidado de que tinha avisado 
a D. Fadrique o avisou D. João Fajardo com muitas horas 
da noite, que lhe escrevera que ja se exasara a sayda dos 
pataxos que de trabalho os livrava seu sobrinho D. Henrique 
de Alagou que estava surto na barra com as duas prezas. 
D. Manuel lhe pareceu que o portador da nova não seteria 
cançado muito em averiguar, porque parecia que so com 
rede se tomavam com brevidade duas prezas por humnavio 
só e levando comsigo Tristão de Mendonça baixou pela 
Bahya com intenção de chegar á barra; mas com poiícomar 
vencido soube que D. Henrique so estava surto na barra 
aonde se recolhera por ter vista d^aquellas prezas, seguindo 
como disseram, a ordem que levavava que avia de evitar 
encontro de inimigos para assegurar a brevidade da nova 
que levava de leveir. Com esta certeza fez a volta pela cap- 
pitana de D. João Fajardo, e escreveram a D. Fadrique 
advertindos que naquellas presas consistia grande parte do 
remédio da armada de Portugal que daquelle reino partira 
£alta de mantimentos para voltar, Tristão de Mendonça que 



— 599 — 

quiz levar esta carta trouxe ordem de D. Fadrique para que 
hum pataxo da sua armada fosse a seu cargo e acompa- 
nhasse aos dois de Portugal, tudo isto era Ja mais chegado 
a manhã de 18 de Maio que mea noite. Fízeram-se a ?ela, 
e a tarde entraram os dois pataxos ( porque o de Castella 
se não poude desembaraçar tão depressa) com a pressa que 
abordara e rendera o capitão Gregório Soares que na sua 
falua vinha com Tristão de Mendonça, trazendo nove olan- 
dezes que na pressa estavam de guarda, avendo nella treze 
portugaezes. E chegando estes a cappitana sem perguntar 
nada, nem detendo os mais que emquanto os animou 
a seu modo delies os mandou D. Manuel a D. Fadrique 
que por elle soube a sertesa da armada do socorro) o 
por elle o soube D. Manuel. Tinha precedido que D. 
Fadrique tinha mandado pedir ainda no meo do caminho 
dois olandeses a Tristão de Mendoça por dois recados 
differentes. Hum e outro embaixador proposeram a pro- 
posta de Tristão de Mendoça tio cruamente e tanto em 
publico de castelhanos a portuguezes que lhe pireceu 
necessária demonstração publica e mandou não saysse da 
cappitana de D. João Fajardo, almiranta real, o que deu 
matéria de discursos posto que mui breves. Disiam que 
D. Fadrique não tinha jurisdição sem os remetter a D. 
Manuel pêra prender fidalgos portuguezes. Outros que 
sendo tal a pessoa de D. Fadrique, e a quem S. M. come- 
tera aquella empresa fora mui excessivo o termo que 
tomando em forma de descortesia e desobediência era 
merecedor de advertência mais rigorosa. O que tocava às 
jurisdições por mais amplas que fossem as de D. Manuel, 
que nunca soldado seu de qualquer calydade que fosse 
podia ficar isento de guardar grande decoro a pessoa de 
D. Fadrique nem S. M. avia de prevenir caso semelhante 



— 600 — 

sem excetuar no regimento de D. Manuel o em que D. 
Fadrique podia mandar prender naquella forma. Logo na 
manhã seguinte.pediu D. Manuel a D. Fadrique fosse sor- 
tido de mandar Tristão de Mendoça para o seu navio donde 
niosajria sem sua ordem, ou pêra a Almiranta de Portugal 
piras e atalhar o fallar-se em jurisdições pois isto não eraes- 
eosa-lo da prisão; deu-lhe muitas rasões e sobre tudo lhe 
pedio por mui particular mercê emfim sua excellente na- 
tareza, e fidalguia mostrando a D. Manuel muito desejo de 
o soltar estava como violentada em sinquo dias que Tristão 
de Mendoça esteve regalado com U. João Fajardo. Pouco 
depois sayrem os dois pataxos e rendeu o capitão Gregório 
Soares a outra presa. Emquanto vinha mercansia da ilha 
da Madeira, e cantydade de pipas de vinho pêra o Conde 
de Vimioso da sua capitania de machico que lhe foram 
restituidas posto que com alguma falta com muito gosto 
de D. Fadrique e dos generaes sendo ja presa que custava 
a todos. Com os pataxos 4inha ido hum barco ou tartana 
de D. João Fajardo quedepoisde rendida apresa se chegou 
mais que o pataxo, e outra razão lhe meteo alguns sol- 
dados ; depois de surtos no porto tendo aviso da tartana, 
foi o auditor general da armada do estreito como a empa- 
dronar-se do navio que tinha dentro a gente de Gregório 
Soares. Sobrea entrada ouve duvidas e repugnancias doen-^ 
do-se os portuguezos de ver metida jurisdição alhea em 
sua presa; ouve ruido acodiu o auditor general da armada 
de Portugal. E emfim acodio D. Manuel, e vendo que toda 
a barra funda andava sobre pipas mandou que todos os 
soldados portuguezes vencedores se recolhese a seu navio, 
ficando os outros de posse pacifica como desejavam. Aper- 
tavam os comissários com excesso mas visitas que se fa- 
ziam aos olandeses que se hyam embarcando sendo mais 



— 601 — 

moídos do que aqui se pode escrever sem usar termos 
umildes, escandalisava o modo geralmente de maneira 
quasy avisado D. Fadrique. O qual com achaque de os 
querer ver embarcar baixou a marinha e pondo-se a hum 
balcão mandou que fose passando os capitães e os officiaes 
com suas espadas, e os mais desarmados conforme as ca- 
pitulações, fazendo-lhes todos cortesia de rendidos, e 
logo ordenou que livremente lhes deixase levar a estes 
seus vestidos, e aos outros seus baQis, e cofres como os 
tivese fazendo-lhe nisto muita mercê e mui ajustada com 
sua fidalguia e com a necessydade dos vencidos de que 
se deram por mui obrigados louvando muito sua grandeza. 
Pregam que não teve aly seus limites, mas chegou a suas 
terras com outras circumstansyas da nobreza de D. Fa- 
drique de Toledo que re conheceram, de maneira que por 
ordem dos estados se mandou em Olanda se não fallase 
mais naquella matéria ; o que constou p3r carta que a 
senhora infanta escreveu a S. II. . Eram muitos dias de 
Maio, e não cesavam negócios pesados de cançar a D. 
Fadrique que logo nos primeiros comesou a tratar das 
devasas de que S. M. o encarregava, vendo as que se 
tinham tirado sobre que padeceu desgostos Antão de Mes- 
quita ouvidor geral que negava pode-los mostrar sem ex- 
presso mandado de S. M,. e em certa forma; no que se 
gastava muito tempo senJo comprehendida muita gente 
ríquaate que foram sentenciados, e alguns à morte, acodia 
falta de mantimentos de suas armadas mandando Nuno 
Vas Fialho desembargador da relação do Brasil, e commis- 
sarios a sua ordem a Boypeva, ao Morro de S. Paulo. Ca- 
mamu, e rio de Cayru, e a outros portos mais distantes a 
fazer grande cantydade de farinhas de guerra ordinário 
sustento daquellas partes. A Sergype d'El-Rey pêra que 



— 602 — 

Iheviesem vacas para susteato do exercito, e carnes salgadas 
pêra a navegação : não era de menor cuidado que todos 
estes juntos o de avisar aos portos de índias estivessem 
prevenidos porque do socorro de Olanda estava a nova ja 
artificiada ja por governadores de Portugal e por aquelles 
olandezes. Para este effeito que comunicou com D. Manuel 
lhe pedio huma caravella de sua armada, e pessoa que bem 
fosse pêra fazer aquella diligencia pêra que lhe nomeou o 
capitão Cosmo do Couto que sobre a experiência da guerra 
tinha estado por aquellas partes. Partiu na caravela N. S. 
Rosário a vinte e quatro com cartas pêra todos os portos 
de consideração. Na margarita que era o primeiro avia de 
dar três maços, pêra o governador, pêra Porto rico, pêra 
o Presidente de S. Domingos, o qual avia de encaminhar 
os avisos inclusos pêra S. João de Ulloa, Avana, e outros 
portos desviados. Na margarita havia de tomar piloto, 
pêra correr a Costa tomando os portos de Cracas, Rio de 
la hacha, Santa Marta e i(Cartagena. Daly passara a Porto 
fiello. o que não poude fazer por achar ja prestes a frota 
pêra Espanha em cuja companhia avia de vir; mas logo o 
governador Diogo de Escovar despachou huma fragata com 
o aviso. 

Foy esta diligencia de D. Fadrique, escutada por Cosme 
do Couto, de grandissima importância como logo se vera. 
Com tantas ocupações e pela falta de offlciaes se não podia 
asistir as quarenas dos navios e conserto das vasilhas pêra 
a armada com a pressa necessária psra o tempo tão entrado, 
como na armada de Portugal em que avias muito menos 
navios e menos cuidados. Aquella noite em partindo Couto, 
chegou o capitão Apollinario Ferreira morador em S. Tiago 
em Cabo Verde em huma caravela despachado pelo gover- 
nador daquelle estado Francisco de Vasconcellos da Cunha 



% 



— 603 — 

em quinze de Abril com cartas pêra os generaes de que em 
quatoi^e de aquelle mez apareceram sobre aquelia ilha trez 
navios que deram fundo no porto da Praya. e no mesmo 
dia chegaram mais vinte, que náo surgiram e se fizeram 
todos trinta e três a vela na volta que as armadas de Espa- 
nha tinham levado a maior parte daquella armada lhe pare- 
ceram navios de pequeno porte ; da ilha de Maio tivera logo 
aviso de que era a armida de Olanda com duas cappitanas 
por o dizerem oUndezes que desembarcaram em terra como 
costumam, em socorro da Bahya. e lavavam ordem achandoa 
recuperada pelos bespanbos de pasar ao Rio de Janeiro. 
No dia seguinte apareceram sobra a barra da Bahjra as trinta 
e três velas de que o governador de Cabo Vçrde mandara 
mui certa relação navios pela maior parte mui pequenos, treze 
sem artilheria, dose de porte, e neste duas capitanas; o que 
tudo se vio mui claramente do forte de S. António aonde 
algumas veses quizeram desembarcar, como se coligia pelo 
que se chegavam, e não acabavam do sertificarse do estado 
da cidade, nem o poderam alcansar por sy, nem pelo pa*» 
taxo que mandara diante com quanta diligencia fez. Quando 
logo se soube a certezadesta armada foram alguns de 
parecer se usase de ardil disparando algumas peças 
quando chegasem, fingindo bater-se a praça e a bandeira 
das armas de Maurício se puzese no lugar que tinha que 
eom esta confiança entraria a surgir no porto e não cayrin 
em seu errosenáô despoi$de se ver cativa. Outros deferiam 
porque das armas de Espanha se não avia de temer tretas 
avendo algum que se persuadise que $em aquelle seu o eu" 
trariam as trinta e três velas e se atreveriam apresentar 
batalha* A D. Fadrique pareceu que $e oão deviam usar 
árdís senío que com Ihanesa avia de ser investida. E instes 
navioâ chegando a poata de Santo António se fizeram quanto 
Outubro • 77 



— 604 — 

pela bolina pode ser nas voltas de Nordeste e Sudoeste, com 
o vento que era Sueste. Acudiram a cappitana de Por- 
tugal a mor parte da nobreza e a almiranta os camaradas 
do Almirante, c outros; e asy os mais navios se encheram 
muito mais do necessário. Com muitas mostras de alegria 
e iguaes ciunprimentos, mandou D Fadrique dizer a D. 
Gbristovam de Roxas, que das duas cappitanas envistise a 
que quizese e a outra lhe deixase. Alguns amigos davam 
a D. Manuel o parabém de tão formoso dia como se apare- 
lhava; respondia que não seria o dia mais formoso que té 
aly o tinha sido, porque entendia mui bem que os olandezzes 
nSo entravam como se dizia vulgarmente, mas se susten- 
tavam todo o possivel contra o vento. Quem dizia os alcan- 
sara se fugirem, se querem pelejar como não entram? com 
estas duvidas se entravam parecendo em geral aos práticos 
que era mais seguro esperar que entrasem se gastou a 
maior parte da maré jusante de que elles se aproveitaram 
afastandose de maneira qiie a parte de força, se ali a avia 
estavam distantes por grande espaço. D. Fadrique tinha 
ordenado que os navios ligeiros se adiantasem com a maré 
e ganhasem o barlavento pela parte de S. António, como 
o fizeram chegando huns a tiro de canham a alguns do ini- 
migo. E vendo emfim que não entravam se fez a vela, e 
com elle as cappitanas; e posto que a maré ja não ajudava 
muito, comtudo com o vento que aquela tarde dentro da 
Bahya se chamou a Lessueste foram as cappitanas excepto 
a de Nápoles, que como outros navios, dava quarena, na 
Tolta do sul quarta do sudoeste, e se chegava ao inimigo 
que não gosava deste vento que mais chegado à barra era 
Sueste foy abatendo os navios pêra o norte notavelmente, 
e com muito menos força os olandezes por estarem fora do 
canal. D. Fadrique vendose neste estado, e aos navios de 



— 60S — 

importância e sendo ja de noite deu fundo pouco seguro 
de air nos baixos verdadeiramente visto, e considerado 
bem por quem o entende, ho que depois diserara homens 
com muitas barbas, e alguns de muitas cans se forma diante 
dos oltios quam desditosa sorte é a miiicia do mar julgada 
sempre por qualquer em suas acções; porque um bomjuizo 
em tudo quer discorrer, e não ha algum que do seu não 
seja muito satisfeito. O que passa muito pelo contrario em 
qualquer das outras artes. Na mercancia não cumpetira o 
melhor cortesão com o quaixeiro de qualquer mercado e 
nas coisas da corte, e modo de se vistir não admitira que... 
ainda que tenha visto e conhecido a mesma corte, e o seu 
juizo transcendente comprehende os ventos a que não sabe 
os nomes, guia as proas que não saberá encaminhar uma 
alagoa, esta penetrando o íntimo do coração dos generaes 
do mar e se não ha quem sofra este atrevimento num dis- 
creto, como se poderá refrear a cólera em inorantese insen- 
çatos. Mormurou-se com principio na gente do Brasil de 
que e que D. Fadrique ordenara fariam aparências pêra dar 
a entender mui alheo de querer pelejar; porque avendose 
feiamente no cometer não proseguira no adeantarse, e dera 
fundo com que muitos dos navios se abstiveram em pelejar, 
e abordar que o surgir atalhara hum^t acção gloriosa, coroa 
de todo o bom suocesso da Bahya, fora a ultima ruina dos 
rebeldes a perda daquellas relíquias do ultimo esforço do§ 
estados ajudado das contribuições violentas dos povos 
daquellas províncias; pelo contrario estando inteira aquella 
armada, ficava sem alguma segurança toda a costado Brazil. 
Entre os navios que mais se adeantaram foi S. Tereza de 
Castela, N. Sr.' da* Ajuda de Portugal, este deu no lanço 
de S. António, aquella encalhou nos baixos de Tapârica. 
vendose pelo sucesso que sem esperança de salvação dei- 



- 606 — 

tandose muitos ao mar afogados alguú e todos em grande 
risco, nem sayo d^aquelle trabalho senão cortado o mastro 
grande; dos olandezes um dos maiores não podendo montar 
os cabos como estava mais empenhado deu nos mesmos 
btiixos de Taparica donde escapou com grande pena cor- 
tando as obras mortas aleviando tudo ate cousa de pouco 
pôzo, comobarrilinhosde manteiga, cai)Cinhasde Flandres, 
canecas e outras miudesas. Esta foy a causa de que correse 
a noticia de ser perdida humacappítana. A charam-se corpos 
mortos, sete ou oito bateis, e lanchas, em algumas mos-^ 
quetes» ronqueiras, lanças de fogo, e outros instrumentos, 
tanto a btirlavento dos hespanhoes, qual averia nestes su^ 
porse adiantar qui2esem for<^ar os ventos tanto a dentro das 
pontas de S. António, e Taparica? Se os castelhanos pode* 
rio pàlejar, quem lho impedio? Osportuguezes não diriam 
que poderam sem confessar medo porque nenhuma outra 
ordem tiveram que a qiie D. Manuel lhes enviou, e nao 
averà algum que dlgalhe fosse outra que não pelejase. A 
cappitana de Portugal se poude chegar*por que náo pMejou 
pois nSo tinha ordem que lhe estorvasse, e a almiranta ne-* 
nhuma fora da D. Manuel. A manhã seguinte não parecia a 
Armada senão huma ou duas velas que de madrugada se 
viam escassamente; na tarde se juntaram na real a conselho 
e como não se sabia da mormuração, persuadidos todos 
que cada hum tinha feito seu dever na ocasião do dia dantes 
propoz D. Fadrique se convinha ir buscar o inimigo que 
como avia nova, estava no morro de S. Paulo, trouxe todas 
as resões da gloria que era venselo, do risco daquella pro^ 
tincia se ficase inteiros. Acertaram de votar primeiro os 
que não puzeram em duvida a que logo saisse a armada» 
e o consumisse. Ouve logo qtiem advertiu o perigo de sair 
tio grande armada, ^ podese sayr com vento sueste por 



— 607 — 

que desgarrondo huma vez, como era quasi serio nos mais 
dos navios pesados era impocivel não poder cobralo porto* 
E quando tudo acontecesse navegar com sueste pêra o sul, 
chegar ao Morro de S. Paulo, como se avia de permitir que 
saysse huma armada, sem lenha, sem agua, sem mantimen** 
toscos navios abertos, sem querenas, sentados. Outro 
votou conformemente votando que da armada de Portugal t 
que como de menos trabalho estava adiantadas de todas 
o navio S. José terceiro na força estava na querena por 
adrissar; a cappitana ealmiranta por dar pendores com 
grandíssima necessidade delles, e em todas faltava, o que 
se desia da agua» lenha, e demais. D. Manuel estava sa- 
tisfeito daquelles votos que achava se podiam forteficar 
com outras muitas resões» e por muitas persisas ne* 
cessydades de que a armada em que estava toda a gente 
de consyderação, nem por meo dia desemparase aquella 
prassa, e chegandolhe seu giro disse, que naquelie lugar 
lhe convinha vesti rse de piloto, deixada a pessoa de ge- 
neral. Chamados os pilotos mandou que se chegasem; pro*- 
poz qual era a derrota por onde se avia de ir buscar o 
Morro e qual o vento; perguntou-lhes se atreviam abitalo» 
Se era impocivel mal se gastava o tempo averiguar se 
convinha. Todos confessavam que não seria pocivel, exceto 
hum que o fez fácil fazendo-se o vento Leste. A que D. /oáo 
Fajardo que ja tinha votado. No fuera mejor norte y fue- 
ramosen popa? ecomo estava logo pronta objeiçáo se 
perguntou como tinham ido os olandeses? respondeu D. 
Manuel que por serem navios mais ligeiros, melhor des- 
palmados, e que o ultimo medo obrigava a muito, mas 
que duvidava, antes apostaria que não chegaram. A ins- 
tancia que se lhe fez que se tinba feito delles? respondeu 
que estarião encobertos de alguma das pontas. £ que se 



— 608 — 

náo fosse perdidos apareseriam ate amanhan seguinte. 
Durou muito a junta e depois de desfeita estan lo ainda 
juntos em conversação veo o sargento maior Marga com 
aviso de que apareciam sobre a barra. No primeiro de 
Junho apareceram juntos arriba de Itapoana velejando todo 
o possivel pêra o norte disendo-se depois que parte 
daquelles navios se detinham pela parage da Torre de 
Garcia de Ávila. D. Manuel enfadado por ventura, de ver 
que com estas novas da armada detinha D. Fadrique a cara- 
vela dizendo que fosse mui embora, mas que os seus mocos 
não havia de dar arriscado o segredo de que avisava a 
S. M. em buma caravela ã vista de tantos navios, ou enga- 
nado em sua opinião em que estes eram mui inferiores de 
forças ao que depois se imprimiu, ou foi maior a confiança 
nos seus do que outrem jujgaria por justo escreveu a D. 
Fadrique em hum capitulo de huma carta de quatro de 
Junho que os seus olanJeses alli se detivessem des ou doze 
dias com a sua armada o favor de Deus, e licença de S. S.* 
iria desalojal-os isto com toda a singeleza do mundo em 
consideração de estar a de Castela em todo o estremo 
atrasada. Parece que alguém leo aquella carta que acharia 
sobre qualquer bofete náo advertio na dilação que se 
pedia naquella se aviam de prover aquelles navios de mais 
agua da que ja tinham, e entanto dar-se tado a cappitana 
que daly a três dias, e tomando o que hera sem distinção 
publicou que D. Manuel também eraafeissoado a aparências 
e a tirar gloria devaydades; porque estando sobre hum lado 
(representando isto com a mão na ilharga) a sua cappitana 
se oferecia sayr comella contra o inimigo. O que mais disia 
não se sabe donde o achase que D. Fadrique lho prometia. 
Esta fama que eomesou a estranhar-se vindo-lhe dahi a 
muitos dias a noticia, sentio muito, e se queixou a D. 



— 609 — 

Fadrique por carta de qae sua boa intenção, zelo de ser- 
viço de S. M. e gosto de o dar a S. S.* lhe acarrease injus- 
tamente o nome de fanfarrão que aborrecia igualmente 
com todos os mãos. queria por testemunha de que senão 
oferecera senão tomado tempo pêra seu apresto. Como as 
cartas eram de pouca importância, e não se guardaram 
não avia mais provas pêra sua defensão que a fidalguia de 
D. Fadrique que sentiria o que elle sentia em tamanho 
desgosto : e como as verdades andam mal avaliadas tudo 
foi trabalho ; mas depois quando ja a prova era avesada 
por ter o tempo com esquecimento apagado aquelle rumor 
de leviânda le. se achou a mesma resposta de D. Fadrique 
com hum capitulo destas palavras. Emquanto a desalojar 
V. S.* a armada dei inimigo, sy se quisiera detener los dias 
que V. S. disse siempre me parecerá muy bien, y muy fácil 

emV. S.* porque conosco sa valor 4 de Junho de 

1625. Mostrava esta armada a extrema necessidade da 
agua pretçndendo tomala em todos aquelles luguares Rio 
de S. Francisco, Torre de Garcia de Ávila, enseada de 
Vasa Barris. Apareceu depois sobre as villasdePernãobuco, 
e Paraiba, que Mathias de Albuquerque por sua pessoa 
defenderia contra outras maiores forças. Vendo-se sem 
remédio porque em toda a parte achavam resistência em 
luguar de guias, que avia mister correndo a Costa entraram 
na Bahya da Traição, seis léguas a ponente. quasy da Para- 
hiba como em terra deserta habitada somente de pobres 
gentios se aquartelaram ao longo da praya. outros pêra 
huma aldéa donde entravam e traziam algumas vacas. 
Sendo avisado Mathias de Albuquerque se quiz logo pôr ao 
caminho, mas impedido com protestos públicos da Camará 
e Vila, se não auzentase daquella praça de tanta importância 
se resolveu sem dilação mandar toda a força que pudese 



- 6tO - 

escolhendo pêra cabo Francisco Coelho de Carvalho nomeado 
governador do Maranhão, que aceitou com vontade mui 
pronta, Acompanhava-o a gente que levara de Lisboa, o 
outra que se lhe ajuntou, alguma artilheria, munições e 
mantimentos. Desembarcou naquclla costa, alojando junto 
Mananguapo, Rio distante do. inimigo duas léguas. Tomada 
mostrada gente se achou com sete companhias, de Fernâo< 
buço, sua, e da Parahiba e alguns indios frecheiros, que 
acompanharam dois padres da companhia, que o governador 
mandara pêra persuadir aos Tabajares indios visinhos que 
socorresem antes a dos Porluguezes. Dali se levantou o 
inimigo (não saberei dizer com que nimero de navios ali 
chegado porém suspeito que espalhados derrotados, e mal 
tratados de sua miséria navegaram, e por serto tenho que 
iam mui demenutos) e foy com desesete navios somente 
sobre Porto Rico, que estava muito de antes prevenido com 
o aviso de D. Fadrique. Daiy sayram canhoneados da forta« 
leza com perda de buma nao que tocou não deixando feito 
maior dano que pegar o fogo is palhoças daquella povoação 
que chamam cidade. Daly passou a S. Domingos que 
acharam com a mesma prevenção, e desembarcando gente 
em terra lhe mataram alguns, e puseram os mais em fo*- 
gida, e perdido outro navio com grande demenuiçáo em 
fazenda e reputação se retiraram, não alcancei a que portos 
nem quam poucos chegaram a suas terras. Esta nova doestar 
desembarcado o inimigo naquella bahya com toda a armada, 
aquartelado, forlificado, senhor das terras, todo o gentio 
da sua parte {quasy costuma ser em semelhantes ocasiões 
quetai>(o vença o rumor a toda a verdade) tiveram os gene- 
raes a nove de Julho cartas do governador do primeiro 
daquelle mei. Pareceu a D. Fadrique e ao conselho se 
esperace por novo aviso ; p3rque peia informação que se 



- 611 - 

colheu de homeDs práticos não era aquella bahya capaz de 
fazer-se delia praça d'armas nem se qaeria que aly se forti- 
case. Entendendo-se que o que chamava fortificar-se seria 
o que esta gente como tam práticos soldados costumam 
fazer, aquartelar-se logo de qualquer maneira que poude, 
ainda que não seja mais que pêra huma noite. Vendo que 
tardava o segundo aviso hum dia e outro bem se coligio que 
o negocio estava bem parado, porem se ajuntou conselho 
sobre aquella ocorrência, se convinha ir demandar-se o 
inimigo ; discorreu-se sobre a estação do tempo, monção 
gastada pêra demandar a costa de Espanha, o estado dos 
navios, rotos, velhos, e sem querenas. faltos de velas, 
enxárcia, consumido tudo com os maus chuveiros de Guiné 
e do Brasil e do gusano da Bahya, falta de mantimentos na 
armaJa de Castela nem apenas tinha para chegar a Gadiz. 
Lembrava-se muito a necessydade que em Espanha avia 
daquellas armadas, parecendo que pêra guarda daquellas 
costas, averia somente uma esquadra de poucos baixeis : 
era impocivel andar varendo todos os portos aonde desse o 
inimigo com poucos navios tão ligeiros, senão fosse com a 
armada particular pêra aquelle effeito; que todas aquellas 
faltas que padeciam, eram iremediaveis naquellas partes. 
Outros faziam pontas diversas; propunham que era o 
effeito da impresa deslusido deixando inimigos naquellas 
costas, e não respondendo as objeções disiam que tudo avia 
ficar desmontado daquelles ladrões. Quem munto nisto e 
nesta gloria insistia, fazendo-se-lhe brandamente huma 
lembrança por hum dos que tinham votado que lhe res- 
pondese só a huma cousa, que se avia de comer? respondeu 
que taboas. Muitos ouve (posto que ja os Espanhões iam 
aprendendo a sustentar-se com farinha de pao) que repro- 
varam o género de mantimentos; dos gloriosos era o 
Outubro 78 



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o Marquez de Cropani, e atalhando os inconvenientes de fal- 
tarem as armadas em Espanha, se oferecea para ficar com 
huma esqoadra e desalojar o inimigo donde quer que apare- 
cesse. Emfim se assentou que, visto não segundar o aviso, 
3 necessjrdade que os tinha levado a outros luguares levara 
ahy os olandeses a fazer aguada, prover-se do necessário, 
6 teriam levado ferro como dos demais. Que sobretudo se 
trataria conforme a necessidade que o tempo mostrase o 
qne em Pernáobuco se avia de saber aonde aqaeila armada 
avia de ir junto. E pêra se ter de tulo verdadeira informa- 
ção, e achar-se a matéria bem disposta pareceu mandar 
diante pessoa de importância. Partiu o governador S. 
Feliche de cuja procedência se podia fiar muito, com elle 
o governador Francisco de Yalhesilha e Heitor de la Calse 
capitão de infanteria napolitana, com instrucção trabalhasse 
por reconhecer o alojamento do inimigo, alcansar verda- 
deira informação daquella Bahya, de queachandose presente 
duas pessoas honradas que nella estiveram muitos dias, e a 
consideração era tão confuza que cada um variava do outro 
por intervalo immenso. Acontecimento ordinário entre 
Portuguzes a quem os estrangeiros vindos de novo ensinSo 
os sitios dos portos e enseadas que navegam de mais de 
cem annos antes. Estava a armada de Portugal avia dias, 
em seu tanto florentissima todos os navios aprestados com 
grande sobra de mantimentos pela prodigalidade com que 
os governadores de Portugal a socorreram de biscoito, 
azeite, vinho, chasinas, e tudo de estraordinaria bondade, 
que não somente bastava mas também socorreu a de Castela 
com biscouto que se lhe pedio. Foy Deus servido que 
tudo o que mandaram chegasse a salvamento, ou por boa 
fortuna dos que escaparam do encontro do inimigo, ou 
por valor dos capitães de seus pataxos, que das entrenhas 



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arrancavam as presas aos piratas. Só D. Manuel não gosava 
daquella felecidade com descanço. No conselho que se 
ajuntou a três de Junho sobre o numero da gente que havia 
ficar de presidio naquella cidade, e de que nação avia de 
ser, foi de parecer que o numero fose de oitocentos, posto 
que os não poderia sustentar aquelle estado, nem S. H. os 
avia de conservar naquelle numero, fossem portuguezes» 
e os que faltasem das outras nações que avia, castelhanos 
biscaynhos, e italianos. Na mistura ouve muitos daqoelle 
parecer, todos no numero se avantajaram entre os limites 
de mil e duzentos ate dois mil e quinhentos. Mostravam 
pêra isto muitas resões. A extenção da praça trabalhosa de 
defender sem muita gente avendo de aver outra que aco- 
disse as paragens que eram muitas aonde o inimigo podia 
desembarcar a que era necessário dar remédio antes que se 
fortificasse. A instancia que se fazia que confessandose ser 
mui justo que aly ouvesse mais gente de guerra, todavia 
era necessário saber donde se avia de pagar. Do Estado era 
impossível, S. M. não avia de sustentar o Brazil como os 
de Flandres em que a religião catholica se defendia e era 
deixados muitos, a primeira causa e fora sempre desde o 
principio de tão excessivas despesas; respondiase que 
se não tratara do que o Estado não podia; que aquella 
defenção não ficava naquella ocasião por conta de D. 
Fadrique e daquelle exercito; e era necessário ser mm 
bem fundada, S. M. ordenaria despois o que mais conviese 
a seu real serviço. Assentouse ficassem novecentos homens 
esperase juntamente se tratase de donde se lhe aviam fazer 
pagas, porque sem ellas era impossível cuidaram alguns 
improdentes do tempo que avia de ser tirado domais 
pronto que na presa se achase. Mas posto que algum o 
lembrou, nada naquella junta se concluiu. Pouco despois 



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se vio ( o que estava bem claro ) que nem castelhanos nem 
italianos queriam alistarse ou obrigarse a companhias; 
e carregou todo o numero sobre a gente portugueza, que 
pela mayor parte eram fidalgos, e seus criados, ou pessoas 
de sua obrigação, e outros nobres aventureiros que deixa- 
ram a comodidade de suas casas, por servir naquella jor- 
nada, entre estes muitos filhos primeiros de seos pais bem 
afazendados, calydades p^ra não padecer violência em 
lugar de satisfação. Comestes se podiam contar os soldados 
do terço da armada, * que podiam chegar a quatrocentos em 
sinquo companhias; que nunca S. M. violentou pêra jor- 
nada alguma, por mui grande que fosse a necesydade de 
gente, e aos que voluntariamente se ofereceram pêra a 
índia mandava fazer vantage e mercês. O que aqui mais 
danava era que todo o conhecido de qualquer casa, ou de 
fidalgo nos livros d'EIRey se queria eximir da lista. Sobre 
que vinham grandes queixas dos amos a D. Manuel, alegando 
exemplos que os criados de outros não aviam de ficar como 
ficavam os seus. Conferencia na verdade injusta avendo 
senhores e fidalgos que se avantajavam muito por muitas 
circunstancias, e pela grandesa de casa e criados levaram 
a sua custa ; tudo conhecido dos mais que queriam gosar 
da mesma liberdade. Sobre esta defeculdade de pouca gente 
avia a outra de se não sinalar pagas nem ainda de promesí: 
D. Fadrique disia que a ordem de S. M. era que toda a 
despesa correse pela coroa de Portugal. O Estado do Brazil 
estava impocibilitado e pobre pelo que tinha sessadoa Olan 
da a sugeições na Bahya e a falta de comercio geral que é 
tudo que ahy ha nos tempos florentes. Os soldados que la 
militavam principalmente os que tinham ido de Portugal 
podiam ser a cifra da ultima necessidade, curtas, más e 
incertas resóes. Nenhuma paga, a terra carissima era tudo 



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o necessário pêra defender o corpo das injurias do tempo. 
Daqui nascia desobediência insofrível qual se vio que es- 
tando determinado que o capitão Lourenço de Brito fosse 
em barcos a dar guarda à nau Bata, navio grande carregado 
de mantimentos de Portugal mettido por hum esteiro do 
Morro de S. Paulo, nenhum delles que eram naturaes se 
quiz embarcartO capitão Hieronimo Serrão, oferecendo à 
sua que levara de Portugal, e com ella baixou a marinha 
aonde D. Manuel o esperava. Tendo -a embarcado à ordem