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Full text of "Revista do Instituto Historico e Geographico Brazileiro"

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INSAL 
STORICO 

1 DO Btitm 




At 



REVISTA TEIINSAL 

DO 

INSTITUTO HISTÓRICO 

GEOGRAPgiCO E ETONOGRAPIICO DO BRilZIL 

FUNDADO NO RIO DE JANEIRO 
DEBAIXO DA IMMEDIATA PROTECÇÃO DE S. M. I. 

O Sr. D. Fedro II 

TOMO XLVI 

I*AR.TE I 

Boa bali, at l«^aidar»l bau c«u p«r ■ooi 




■IO DE JANEIRO 

TrPOGBAFBU Universal de H. Laekmkbt & C. 

71, Rua dos loTslidoa, 71. 



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í^b9* 



REI3LAÇAO HOMÍHA3L 

Dos sócios actaaes do Institato Histórico e Geográfico 

Brazileíro 

POa OBDXM OB ABTIGUIDADB S DIOLARAÇÂO DA CLÂ88B A QUB 
PBBTinOBX, ORGAiriZADA IX VIBTA DOS ASBBlITAiaDrrOS 009»- 
TAimS DO UYBO DB líATBlCULA B D40 A0TA8 Dl8 BBSBOBB 
PUBLI0ADA8 KA CBEYISTA TRIHBirSAL.» 



S. M. I. o Sr. D. Pedro 11. 

Presidentes honorários 

S. M. o rei de Portugal D. Fernando. 

S. A. o príncipe de Joinville. 

S. A. o conde d*Aquilla. 

S. A. o príncipe real da Dinamarca. 

S. A. o príncipe conde d'Ea. 

S. A. o príncipe duque de Saxe. 

Ifnelonaes 

1838 

1 Dr. Felizardo Pinheiro de Campos Effectiyo. 

2 Conselheiro João Manoel Pereira da Silva » 

8 Dr. Jozé Bernardo de Loiola Correspondente. 

4 Manoel da Conceição Neves » 

5 António Jozé Bodrígues » 

1839 

6 Conselheiro Jozino do Nascimento Silva. Correspondente. 

7 Visconde de Itajubá » 

8 Conselheiro João Lopes da Silva Couto » 

9 Dezembargador Joaquim Jozé Pacheco » 

10 Conselheiro Jozé María do Amaral » 

11 Conde de Baependy » 

18 Francisco da Silva' Lopes » 

18 Dr. Francisco Jozé Ferreira Baptista » 

14 Barão de Javari » 

15 Pedro da Silva Rego » 

16 Conselheiro António Pereira Barreto Pedrozo.. » 



VI 



1839 

17 Joaquim F. Alves Branco Muniz Barreto Correspondente. 

18 Conselheiro Thomaz Jozé Pinto de Cerqueira.. Effectivo. 

19 António Alvares Pereira Coruja » 



1840 

SO António da Costa Miranda Correspondente. 

31 Barão de Lavradio » 

22 António da Silva Lisboa >• 

23 António Ribeiro de Andrade » 

24 Cândido Thadeo Brandão » 

25 João Alves Portella » 

2tí Conselheiro João da Silva Carrão » 

27 Conselheiro João Lins Vieira Cansanção de Si- 

nimbu » 

28 Conselheiro Filippe Lopes Neto EfTectivo. 



1841 

29 Conselheiro D. Francisco Balthazar da Silveira. Effectivo. 

80 João Thoma? de Carvalho Silva Correspondente. 

31 Dezembargador Francisco Marlani » 

82 Barão de Penedo » 

83 Joaquim Norberto de Souza Silva Honorário. 

84 Visconde de Barbacena. Correspondente. 

dó Dr. Maximiano António de Lemos » 

36 Barão de Nogueira da Gama » 

87 Barão do Matozo » 



1842 
38 Dr. António Maria de Miranda e Castro Correspondente. 



1843 

39 Conselheiro Ricardo Jozé Gomes Jardim Effectivo. 

40 Dr. Jozé Jansen do Paço Correspondente. 



1845 

41 Dr . Joaquim José Teixeira » 

42 Dezembargador Quintiliano Jo7é da Silva «* 

43 Jozé Francisco de Andrade Almeida Monjardim. » 

44 Dr. Jozé Joaqaim Rodrigues » 

45 Dr. Maximiano Marques de Carvalho Effectivo. 

46 Senador Álvaro Barbalho Uchóa Cavalcanti.... Correspondente. 

47 Visconde de Abaete » 

48 Barão de Souza Queiroz » 



vn 

49 Francisco Jozé da Silva Correspondente. 

^ Dezembargador João Jozé de Almeida Couto.. » 

51 Barão de Cotecnpe » 

52 Dr. Joaquim Jozé da Cruz Sôcco » 

53 Senador Joaquim Antão Fernandes Leão » 

54 Dr. Joaquim Vieira da Cunba » 

5b Dr. Jozé de Barros Pimentel » 

56 Visconde de Jaguary » 

67 Brigadeiro Jozé Joaquim de Carvalho » 

58 Conselheiro Jozé Tavares Bastos » 

M Jozé Pedro da Silva » 

60 Dezembargador Luiz António Barboza de Al- 

meida n 

61 Conselheiro Manoel de Jezus Valdetaro » 

-62 Manoel Soares da Silva Bezerra » 

^ Barão de São- João Kepomuceno » 

64 Jozé Joaquim da Silva Pereira » 

65 João Jo:é de Souza Silva Rio Effectivo. 

1846 

66 Dr . Jozé Maurício Nunes Garcia Correspondente. 

67 Dezembargador Luiz Fortunato de Brito Abreu 

Souza e Menezes » 

63 Barão de São-Felix » 

1847 

69 Conselheiro Henrique de Beaurepaire Rohan.. Effectivo. 

70 Jozé Joaquim da Gama e Silva Correspondente. 

71 Francisco Jozé Borges Effectivo. 

72 Dr . Francisco Xavier Muniz Correspondente. 

73 Dr . Demétrio Ciriaco Tourinho » 

74 Barão de Macahúbas » 

75 Dr. Ricardo Gumbleton Daunt / » 

1848 

76 Barão de Souza Fontes. Effectivo. 

77 Barão de C ipanema » 

1851 

78 Angelo Thomaz do Amaral Correspondente.. 



1853 

79 Dr . Sebastião Ferreira Soares Effectivo . 

60 Conselheiro Joaquim Maria Nascentes de 

Azambuja » 

1855 

81 C )nego Joaquim Pinto de Campos Correspondente. 

83 Visconde de Bom-Retiro Honorário. 



vnr 



1856 



88 Conselheiro Jozé Maurício Fernandes Pereira 

de Barros £ffectiT€k 

84 Visconde de Mau4 HonorwMw 

85 Gonsellieiro Tito Franco de Almeida Corresponiitnto' 

1859 

86 Capitão de fragata António Mariano de Azevedo » 

87 Barão Homem de Mello fionorari». 

1860 
83 Dr . Ernesto Ferreira França Gorrespoadenle. 

1861 
80 Conselheiro António Joaquim Ribas » 

1862 

90 Cónego João Pedro Gay » 

91 Major João Brigldo dos Santos » 

92 Conselheiro Jozé da Costa Azevedo EffecUvow 

93 Dr. Manoel Duarte Moreira de Azevedo » 

94 Dr. Jozé Vieira Couto de Magalhães. » 

1863 

95 Senador Luiz António Vieira da Silva Correspondente 

96 Barão de Theresopolis » 

1865 

97 Dr. Cesir Augusto Marques EffeetÍYO. 

96 Dr. Jozé de Saldanha da Gama » 

1866 

93 Dr. António Henriaues Leal » 

100 Dr. João Ribeiro de Almeida » 

101 Dr . Domingos António Raiol Correspondestau 

1867 

103 Dr. Jozé Marli da Silva Paranhos EffeetiTa. 

103 Conselheiro Epifânio Cândido de Souza Pi- 

tanga ^ CorresponânAiL. 

1868 

104 Dr. Luiz Francisco da Veiga EffectiYOL. 

1869 

105 Major Alfredo d^EscragnoUe Taunay » 



IX 

1870 

106 Dr. Joaqaim Pires Machado Portella Effectiyo. 

1U7 Ck)QBelhelro Tristão de Alencar Araripe » 

1871 

106 Conselheiro Olegário Herculano de Aquino e 

Castro » 

109 Dr. Ladisláo de Souza Mello Neto » 

110 Cónego Dr. Manoel da Costa Honorato » 

• 1872 

111 Dr. Eduardo Jozé de Moraes Correspondente. 

112 Dr. Benjamin Franklin Ramiz GaWão Effectivo. 

1874 

118 Dr. Nicoláo Joaouim Moreira » 

114 António Manoel Gonçalves Tocantins Correspondente. 

1875 

llõ Dr. Rozendo Muniz Barreto Effectivo. 

116 Commendador João Wilkens de Matos » 

117 Jozé de Vasconcellos Correspondente. 

1876 

118 Senador Joaquim Floriano de Qodoy » 

119 João Barboza Rodrigues Effectivo. 

120 Luiz da França Almeida e Sá Correspondente. 

121 Dr . Manoel Jezuino Ferreira Effectivo. 

1877 

12*3 Domingos Soares Ferreira Penna. Correspondente. 

123 Dr. Américo Brazilense de Almeida Mello » 

1878 

121 Dr. Thomaz Garcez Paranhos Montenegro. ... » 

1880 

1^ Dr. Carlos Artur Moncorvo de Figueiredo m 

126 Dr. Auffusto Fausto de Souza Effectivo. 

127 Bernarao Saturnino da Veiga Correspondente. 

128 Dr. João Franklin da Silveira Távora Effectivo. 

129 Dr. João Severiano da Fonseca » 

130 Dr. Alfredo Piragibe Correspondente. 

1882 

181 Barão de Teíó » 

192 1» Tenente Francisco Calheiros da Graça » 

18i Capitão de Fragata Jozé Cândido Gullhobel. . .. » 

184 Dr. Jozé Alexandre Telxpira de Mello » 



Estrangeiros 

1839 

1 Fernando Denis Honorário. 

2 Príncipe de Garíati » 

3 Príncipe de Scilla. . , » 

4 D. Carlos Zuchi Correspondente. 

5 D. Agostinho Guilherme Charem » 

6 D. Manoel Salas Corvaland » 

7 Sabino Bertholet » 

8 João Water Hoase » ^ 

9 Artur Brooke Honorário. 

10 Barão de Maltitz » 

1 1 Barão Gore Ouseley m 

12 Jared Sparks » 

13 Conselheiro Ouvaroíf » 

14 William Ouseley a 



1840 

15 Pedro Victor Larée Correspondente. 

16 William Smith » 

17 Júlio Victor Armand Hain .... » 

18 Guilherme Hunter » 

19 Larenaudière » 

20 Jozé Barandier » 

21 D. Manoel de Sarratéa Honorário. 



1841 

22 Roberto Schomburgh Correspondente. 

28 Woodbine Parísh » 

24 William Burchell » 

25 D. Maríano Eduardo de Ri vera » 

26 Dr. Marion de Procé » 

27 Pedro Mesnard » 

28 Hamilton Hamilton Honorário. 

29 D. Ambrósio Campadonico » 

80 Dr. Clemente Alvares de Oliveira Mendes de 

Almeida Correspondente. 



1842 

81 D. Filippe Rizzi n 

32 D. Affatmo Longo » 

33 Virgifío von Helmereichen Honorário. 

d& Contra-Al mirante Lutke » 

35 D. Damazo António Larranaga » 



XI 



1843 

86 Príncipe de Ooramittini Honorarío. 

37 Nicoláo de Santo Angelo » 

38 Commendador Ferri (Correspondente, 

39 R. de Rochelle » 

40 Finn Magnusen Honorário. 

41 Fíiippe Victor Touchard Correspondente. 

42 Samuel Datot » 

43 D. Ferdinando de Lucca Honorário. 

44 D. Giuseppe Ceva Grimaldi (marquez) » 

45 D. Francisco Maria Avelino Correspondente. 

46 D. Félix Santo Angelo » 

47 D. Girolamo Perozzi » 

48 D. Francisco Cervelleri » 

49 D. Giacomo Castrucci » 

50 D. Paalo Anamia de Lucca » 

51 D. Rafael Zarienga. » 

52 D . Giovani Semniola » 

58 Duque di Serra di Falco • 

51 D. Luigi Rizzi n 

55 D. Vicenzo Stellati » 

56 D. Luiz Sementini » 

57 D. Isaac G. Strain j» 

58 D. Pascuali Pacini » 

59 D . Pascuali Stanisláo Mancini n 



1844 

60 Mage » 

61 D. Vicente Bocafuerte » 

62 D. Ttiomaz C. de Mosquera Honorário. 

63 Jozé António Pardo Correspondente. 



1845 

64 Alfredo Demersay » 

65 Francis Markoe Júnior » 

66 D. Jozé Vargas. . . . • Honorário. 

6; Marquez de Penafiel Correspondente. 



1846 

63 JoSo Russell Bartlett » 

69 Alberto Gallatin Honorário. 

70 Roberto Greenham Correspondente. 

7i C. Wiet » 

72 B. M. Norman » 

7.< Alexandre W. Bradford. » 

74 Samuel Jorge Morton » 

75 Willlam B. Hodgson » 

76 D . Vicenzo Martillaro (marquez de Villarena). » 



1847 

77 Cicarelli Correspondente. 

78 D. Ulrioo Vnlia » 

79 D. António Ramon de Vargas » 

80 Dr. Francisco Manoel Rapozo de Almeida.... » 

1848 

81 Bernardino Jozé de Lessa Fre itas » 

80 D. André Lamas » 

1850 

88 D. Valentim Alsina » 

1851 

8i William Prescott » 

1853 

85 D. Domingo Sarmiento » 

1859 

86 Ceroni m 

1860 

87 Conselheiro Jorge César de Figaniére m 

1862 
83 James C. Fletcher • 

1863 

89 Frederico FraneiscOí Visconde de Figaniére.. » 

1864 

90 Jorge Martinho Thomaz » 

91 Jorge Bancroft Honorário. 

1866 
9:3 Manoel Liiús Correspondente. 

1868 

93 ViTien de Saint Martin » 

94 Henrique Ambauer Schutel » 



18C9 

95 D. Jozé Rozendo Gutierres » 

1870 

96 Dr. D. Domingo Santa Maria. » 

97 César Cantu » 

1871 

98 D. Bartolomeu Mitre Honorário. 

99 Augusto Carlos Teixeira de Aragão Correspoadanta. 

100 Jozé Victorino Lastarria • 

101 Miguel Luiz Amunategui » 

102 Dioço Barros Arana • 

103 Benjamim Yieuna Makena. » 

1876 

104 Barão G. Schreiner Honorário. 

1877 

lOõ Jozé Maria Latino Coelho Correapondenta. 

1880 

106 Barãode Wildiek Effaetiyo. 

107 Francisco Gomes de Amorim Correspondente, 

1881 

106 Major Alexandre de Serpa Pinto Honorário. 

1882 

109 Alexandre Baguet Correspondente. 

110 D. António da Costn » 

111 Jozé Sily<»8tre Ribeiro » 

112 Paolo Gaflarel » 



■y^ 




■EZA ADnNlSTRATIVii 

DO 

INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRÁFICO BRASILEIRO 

1883 

PREZIDBNTE 

Visconde de Bom-Retiro. 

1* VICE-PRBZIDBNTS 

Commendador Joaquim Norberto de Souza Silva. 

2« VICE-PREZIDENTB 

Barão Homem de Mello. 

3* VICE-PREZIDENTE 

Conselheiro Olegário Herculano de Aquino e Castro 

1* SECRETARIO 

Dr. Manoel Duarte Moreira de Azevedo. 

29 SECRETARIO 

Joaquim Pires Machado Poriella. 

SECRETÁRIOS SUPPLENTES 

Dr. António Henriques Leal. 
Major Augusto Fausto de Souza. 

ORADOR 

Br. João Franklin da Silveira Távora. 

THESOUREIRO 

Conselheiro Tristão de Alencar Araripe. 

COlOflSSXO DE FUNDOS B ORÇAMENTO 

Dr. Maximiano Marques de Carvalho. 
Major Augusto Fausto de Souza. 
Dr. António Henriques Leal. 

COMlflSSlO DE ESTATUTOS B DE REDACÇÃO 

Conselheiro Tristão de Alencar Araripe. 
Conselheiro Henrique de Beaurepaire Rohan. 
Dr. João Severiano da Fonseca. 

COMMISSAO DE BSYIZiO DE MANUSCRITOS 

Barão Homem de Mello. 

Dr. Joaquim Pires Machado Portella. 

Dr. Benjamin Franklin Ramiz Galvão» 



COMiaSSlO DE TRABALHOS HISTÓRICOS 

Conselheiro Olegário Herculano de Aquino e Castro. 
Conimendador Joaquim Norberto de Souza Silva. 
Dr. Manoel Duarte Moreira d*Azevedo. 

COHMISSXO SUBSIDIARIA DE* TRABALHOS HISTÓRICOS 

Dr. Luiz Francisco da Veiga. 
Major Alfredo d*Escragnolle Taunay. 
Dr. Rozendo Muniz Barreto. 

COHMISSÃO DE TRABALHOS OEOORAFICOS 

Barão de Capanema. 

Barão de Wiidick. 

Conselheiro Henrique de Beaurepaire Rohan < 

COMtflSSÂO SUBSIDIARIA DB TRABALHOb OBOORAFIOOS 

Dr. João Severiano da Fonseca. 
Dr. Felizardo Pinheiro de Campos. 
Dr. Manoel Joaquim Ferreira. 

COHMISSlO DE ARCHSOLOOIA E BTHNOÓRAFIA 

Dr. Baptista Caetano de Almeida Nogueira. 
Dr. Ladisláo de Souza Mello Neto. 
João Barboza Rodrigues. 

COMlflSSlO DB ADMISSlO DB SÓCIOS 

Dr. Alfredo d*Escragnolle Taunay. 
Dr. João Ribeiro de Almeida. 
Barão de Souza Fontes. 

COMMISSÂO DE PBSQUIZA DB AIANUSCRITOS 

BarSo de Souza Fontes. 

Barão de Capanema. 

Dr. Ladisláo de Souza Mello Neto. 



Pm POLITICO 



SOBRE o ESTADO DO MARANHÃO 



APRBZENTADO EU NOME DA CAMAIU 



AO SENHOR REI DOM PEDRO SEGUN DO 

POR SBU PROCURADOR 

MANOEL GUEDES ARANHA 

ANNO DB 166S 



CAPITULO I. 

Dão^^e noticias do Maranhão, situação e costumes de seus moradores, 
mandadas pela camará do dito estido, por seu procurador Manoel 
Quedes Aranha . a quem os moradores chamavâo o Pai da Pátria, 
porque para bem cPaquella terra gastou a maior parte de seus 
cabedaes, em procurar e requerer o modo, que devia ter o governo 
militar e político, que podia trazer a conservação d'aquelle estado. 

Fica o estado do Maranhão correndo do Brazil pela 
costa de leste, e começa sua demarcação 65 léguas de 
Pernambuco junto aos baixos de São-Roque em 4 gráos e 
4 minutos do sul; ficando d'ahi ao Ceará 125 léguas, em 3 
gráos e 30 minutos do sul. Do Ceará ao Maranhão ha 120 
léguas, em 2 gráos e 40 minutos latitude do sul, longitude 
338. Do Maranhão á barra do Pará vão 228 léguas, em 
18 minutos do norte; e d'ahi ao Cabo do Norte, que é a 

TOMO ZLTI. P. X. 1 



~ 2 — 

ponta da terra da outra banda em 1 gráo e 50 mÍDutos do 
norte vão 60 léguas, que tem de largo o rio das Amazonas na 
bocây e do cabo do rio de Vicente Pinçon 30 minutos 
norte, latitude que é aonde chega a demarcação da coroa 
de Portugal; e começa a da Espanha, e Caiena em 4 
gráos nortC; que é a primeira habitação de estrangeiros. 

Está situada a cidade de São- Luiz do Maranhão em meio 
quazi da demarcação, d'onde para qualquer parte fica fácil 
a dispoziçâo ; e por todos os respeitos muito proporcionada 
para a cabeça do estado, por onde passito os navios para 
o Pará, os Espanhóes para as índias ocidentaes, e toda 
a navegação estrangeira para as suas conquistas do sul, 
por tudo ficar correndo pela dita co;^ta mais a leste. 

Estáaquella praça^hoje pobríssima, e como sem remédio, 
podendo ser a mais rica e remédio das conquistas, na costa 
do salgado, em um bizarro terrapleno, superior a uma 
grande babia, ainda que d'ella retirado um tiro de mosquete, 
por um braço, que a poucos passos da bahia se aparta 
em dous, um por cada lado, cingindo uma alta ponta do 
diamante e estando a cidade cercada de mar por trc3 
partes. 

É o clima dos mais sadios, e favorável á vida humana, e 
o sitio dos mais acommodados para se fortificar. Da banda 
da terra, se fortificaria cortando de um rio a outro da Fonte 
das Pedra3,pelo curral atraz de Santo-Antonio com um forte, 
e dous baluartes, e um muro de pouca distancia, ficando 
assim muito de dentro para se extender, e edificar o que o 
tempo der logar, da parte do mar ao entrar da bahia 
para dentro da terra, que aparta um dos rios para fora da 
cidade, mas já quazi debaixo d'ella, aonde chamão a ponte 
de João Dias, por junto da qual corre o canal e passâo os 
navios ; ou melhor era um esparcel, que na mesma pas- 
sagem descobre a vazante, ao mar do canal, aonde fi- 
caria um forte livre de poder ser sitiado ; o reedificando-se 
mais duas plataformas, que estão velhas c arruinadas, 
correndo o canal já por baixo da cidade com retirada co- 
berta, de um para outro, e de ambos para o palaciO; que 
em cima d'ellas fica, o que se acrescentaria para a parte 
mais vistoza da caza da mizerícordia, o com um baluarte a 
cada cabeceira, que do dentro se guarnecesse, por não 



— 3 — 

multiplicar ^arnições em logar de outro, que ali fica perto 
sem utilidade. Bem se pudera doesta maneira franque r a 
praça a toda a nação, que por ali se quizesse refrescar, 
trazendo utilidade á terra; o que decerto lhe bastaria para 
ser bem provida pelas ocazi5es que vemos perder cada 
dia, e muito mais teria concedendo franquia. 

Corre aquella babia pela terra dentro mais de uma 
maré, onde se divide em cinco rios, sendo um delles m^iis 
estreito do que um tiro de besta, o qual buscando a costa, 
toma a sabir ao mar, po/ onde entrSio alguns pataxos, a que 
chamSlo rio dos Mosquitos, que faz ao Maranhão ser ilha. 

Os mais rios, que dezaguâo na bahia, facilitâo aos mo- 
radores a cultivança das terras, e são todos navegáveis 
e abundantes de pescado e caça ; e tão dilatados, que a ne- 
nhum se tem chegado ao fím, excepto a um cha- 
mado Maracú, onde está uma aldeia administrada pelos 
religioz 8 da companhia de Jezus, por onde se podia 
abrir caminho para o Pará, por ser o confinante a que mais 
se inclina aquelle rumo. 

Os quatro, que entre estes dous cortão pelo certão 
dentro, são os seguintes: 

Pinaré, onde ha algumas baunilhas, e canafístula, e 
se tem tirado algum cravo, e ha n'e]le muito, mas pela 
terra dentro, com receio do gentio Miaré; é o mais do- 
tado de dilatadas campinas, em que ha muito gado vacum, 
e algumas fabricas de engenhos, e vários moradores ; 
também possue muita madrepérola, em que se tem achado 
algumas pérolas; e dizem se não acha em todos, por lhe mio 
saberem a sazão. 

Moni, rio de boas terras, perto da cidade, mas pouco 
povoado, pelo damno que lhe faz o inimigo Tapuia do mato. 

Tapucurú,jardim que era do Maranhão,as8Ím por ser o rio 
que mais se avizinha á cidade, como por ser o mais fértil, de 
excelentes terras, de melhor pescado, caça da mesma ma- 
neira, muita canafistula, pastos de natureza, em que multi- 
plica, e ha muito gado; e suposto tem hoje algumas 
fabricas de engenhos, e moradores, para o que j& teve, e 
para o que é capaz e dezejado, está como despovoado pelas 
assaltadas e damno, que o Ta^puia do mato por repetidas 
vezes lhe tem dado ; e geralmente todos, ou a maior parte 



— 4 — 

d ell<>s estão hoje deimantelados de suas fabricas, assim 
pelos respeitos referidos, como pela falta, que depois que 
os governadores passarão a assistir no Pará, lhe fízerão os 
poucos Índios escravos, que la lhe chegavão, atenuando- se 
também com o trabalho os forros domésticos, servindo tudo 
de animar os silvestres, aonde os Portuguezes achão pouca 
conta trazerem pretos por tâo alto preço, que parece im- 
possível ganhar um preto em sua vida cem mil réis, que é o 
menos que custâo ; dificuldades, que não parecem pe- 
quenas de remediar. 

E a região em si abundante de mantimentos, carne, peixe, 
arroz, toda a sorte de legumes, e frutas, como de farinha, 
de que se iaz pão tão similhante ao da Europa, que se lhes 
inveja servir do espécie do altissimo mistério de Jezus 
sacramentado. Estas são hoje suas lavouras, e algodões, os 
quaes se produzem melhor n'aquella parte que em nen- 
huma outra da America, e constituem a melhor moeda do 
estado, de que o commun todo uza, assim de vestir pretos, e 
vários phcotilhos, como de roupa branca de toda a sorte ; 
mas por não terem gente de serviço, não lavrão cannas, 
tabacos, e outros géneros, de que as terras são capazes. 

Comp9e-se a cidade de mil e tantos vizinhos, em que 
ha muita nobreza e gente boa, mas muita pobreza ; uma 
matriz, quatro conventos (o collegio. Santo António, Mer- 
cês e Carmo) uma caza de mizericordia, uma igreja de S • 
João também acabada, que na cidade podia servir de hos- 
pital, e uma ermida de N. S. do Desterro em um retiro 
sobre o mar, todas as tardes frequentada de devotos. 

O amor, com que S. M. é servido atender pelo bem e 
augmento do estddo, a experiência o tem mostrado ; mas 
como os pecados têem aos moradores os olhos vendados 
para não verem, nem reprezentar o haver em que andão 
tropeçando, tomarei eu esta confiança. 

Foi em vida do Senhor rei D. João IV, de glorioza me- 
moria, mandado ao estado um Bartolomeu Barreiros de 
Atahide, com os mineiros António da Costa, Veneziano, Justo 
Fortunato, e João Bstaes^ Francezes, para descobrirem ouro 
e prata; e depois de discorrerem pelos certSesdas Ama- 
zonas dous annos, nada fizerão, por desordens de obriga- 
rem a ir com os ditos um Pedro da Costa Favela por 



— 5 — 

• 

soldado razo, havendo iogeitado ir por Bargento-mór; a 
quem os índios rendião muita fé e obediência; assim 
por ser seu natural Pernambucano^ como por haver sido 
seu cabo em boas ocaziSes de guerra, a qual n^aquella 
ocaziSo havia espirado. Mas recolhidos os mineiros ao 
Maranhão, faziSo partido, obrigando-se a fazer ferro, si 
lhe comprassem quanto fizessem a cruzado o quintal, de que 
no Maranhão se nSo lançou mão, temendo*se que fizessem 
tanta quantidade, que não tivessem os moradores com que 
pagar; frívola desculpa, e incapaz de admitir-se ; mas seria 
a principal estarem n'aquelle primeiro tempo tão abundan- 
tes,que de nenhuma couza fazião cazo ; e é tal a pedra, que 
não ha nenhuma pessoa, que venha ao Maranhão com 
alguma experiência doeste metal, que não diga, que é n 
melhor para ferro, que se tem visto; e é em tanta 
quantidade, e tão sabido isso, que os cosmógrafos estran- 
geíroslhe chamão em peus mapas ilha do ferro; e com esta 
certeza não padecia duvida. Também podíamos consi- 
derar mina de ouro, em poupar o que continuamente 
está saindo de Portugal por ferro ; fazendo-se, juntamente 
com excuzar o alheio, melhorar assim as conquistas. 

Duas couzas dificultão ao Maranhão o commercio do 
Brazil : primeira não terem os navios frete com que voltem ; 
segunda não serem ventos e aguas favoráveis, excepto em 
Março ; e dizem, que melhor em Setembro, e Outubro ; mas 
rompendo-se a primeira, se facilita a segunda. Em todo o 
tempo, com bons barcos longos de coberta, capazes de remo, 
em falta de monçSes, vae-se em doze ou quinze dias até o 
Ceará, onde acaba a dificuldade, e se prepararião para 
essa carreira, assim os do Brazil, como os do Maranhão. 
Frequentando-se aquella costa poderião os missionários fazer 
por ella,e pelo Pará-meri, e espaldas do Maranhão, suas rezi- 
dencias, assim como já doBrazíl se vai provendo o Ceará. Si 
com este commercio se fôsse fazendo mais alguma povoação 
no Camuci, por outro nome Giquaauara, servira tudo de uma 
bôa paz, e de facilitar assim a cultivação das terras ; como 
também se poderia dar qualquer socorro, quando fosso ne- 
cessário, e pertencesse ao governador de cada estado o 
quecahisse em sua demarcação ; sendo S. Magestade servido 
mandar por algumas pessoas de experiência beneficiar a 



— 6 — 

fabrica, correndo pela fazenda r^al; a quem poderia vir 
muita utilidade, lançando-se a conta á importância de qual- 
quer pataxo carregado de ferro de cem mil cruzados para 
cima, e não poderia a empenho ser tal que não sucedessem 
outras heróicas emprezas para portos mais remotos, árduos 
e arriscados ; é esta mui fácil a porta jadia, de pouco em- 
penho, e grande esperança, dando pelo Brazil aos navios 
de comboio que levar, ou aos de índia, quando por ahi se 
achassem sem carga ; e si estas fabricas se estabelecessem 
como o preço de ferro tão acommodado que do Brazil lhe 
troucessem o ferro pelo mesmo preço, que lá lhe custasse a 
prata e o mais do que carecem, pelo interesse do ganho 
no retomo, seria negociação de que todos assim partici- 
parião e o Maranhão ressucitaria ; mas para florescer com 
bom sucesso, e se communicar a todos os que dizem são 
pobres, se excuzarião os poucos indios, que já ha propon- 
do-se para a rezistencia dos do mato, aldoando-se nas 
bahias, acommodadas assim a este intento, como para 
outros futuros contingentes, onde se achassem, quando se 
não pudessem excuzar ; e se ocuparião homens brancos 
assim no serviço do ferro, como também no das fortifica- 
ções, concorrendo os primeiros com tão boa conta, que 
a tudo se extendessem os menos sobrados, trabalhando 
os mais com seus mantimentos, e outros aJrainistrando-os. 
E para o Maranhão tomar tão excelente forma, creio 
seria a nobreza a primeira, e o maior com elles o pri- 
meiro; porque si os dias têem doze horas para uns, 
também para outros serião duas, ou trez de manhan por 
exercício e de tarde o mesmo, quando lhes tocasse o seu 
turno de se porem em termo de se poderem fiar de todas 
as nações para haverem os negros, de quem lhes trouxessem 
mais baratos, deixando pagos os direitos assim do que en- 
trasse, como do que sahisse ; além de que o Maranhão com 
Tapuitapéra tem hoje o melhor de dous mil homens de 
armas, o Brazil á porta, e suposto suas melhoras comecem 
primeiro que apareção, não mostra haver grande perigo ; 
e liberdade seria esta (n'aquelle estado) commun, que 
faria aquella alfandega muito rica, e o Maranhão um 
ramilhete. 

Muito me tenho espraiado em arbítrio tão sabido, e 



— 7 — 

<le que tão pouco cazo 86 tem feito ; mas considerando 
o quanto S. M. foi servido olhar para este diamante, 
jardim, ou ramilhete, não me posso sahir d'elle sem notar 
douB defeitos d'aquella cidade, deixando-os per acddens, 
pois de prezente a fatigâo. A mizericordia está sobre as 
fortificações, e tâo chegada ao palácio, que lhe impossibilita o 
melhorar-se; e o convento do Carmo fica em meio da cidade, 
parte mais iminente, devasso e devassando; o melhor seria 
para catedral, apozento de bispo, e seminário de meninos, a 
cuja mudança os religiozos têem dado principio, ha annos, 
e só podem conseguir, mudando- se a franqueza do Maranhão. 

Fica de fronte, da outra banda da bahia em outro alto 
terrapleno, a villa de Tapui tapera, que consta de quatro 
centos vizinhos, matriz, e dous conventos, Carmo, e Mercês, 
em que também seria de muita utilidade alguma fortifi- 
cação. N^aquella bahia o passagem anda um barco de 
coberta ; e da mesma maneira com grande risco passão as 
canoas, que vão do Maranhão, e vêem do Pará, trinta e 
duas bahias tão espaçozas, que em algumas apenas se alcança 
com a vista a terra de uma banda a outra, similhantes a 
do Maranhão, que a natureza d'aquellas trezentas legoas 
reparte pela terra dentro de toda aquella costa, dando 
a mão umas ás outras por braços de limitados rios, por 
onde, entrando com a enxente por umas, e sahindo com a 
vazante por outras, se vencem a remo em trinta dias, 
mais ou menos, conforme as monçdes e a esquipação dos 
remeiros ; o que por terra se poderia andarem oito ou dez. 
Âldeiando-se meia dúzia de cazaes no rio Turiassú, que 
é só o que corta o certão, e no de Gurupí, em que o dona- 
tário podia pôr outra meia dúzia de aldeias, que ahi tem 
perto no Caeté por ser também em utilidade sua, ter-se-ião 
principies de povoações em concurso, a que podião sacra- 
mentar os prelados das religiões, que aquella passagem íre- 
quentão de vizita,no anno oito vezes, duas cadauma,e em vjr 
e ir terião os Índios remeiros menos esta fadiga ; em que 
também se poderião deitar alguns jumentos, para facilitar 
aquella passagem tão necessária á prevenção de futuros 
contingentes. 

Ultimamente está a cidade de Belém na capitania- 
mór do Grfto-Pará, navegando da barra duas marés pelo 



— 8 — 

celebrado rio das Amazonas acima; sita & margem d'elle 
em uma alameda 35 minutos ao sul ; clima sadio, pela 
grande abra, que do rio corre ao norte, e dá logar aos ven- 
tos; que com sua frequência estejSo resírescando a terrai 
como por sua frescura toda está coberta de arvoredo, sem- 
pre verde, natural de toda a America, como primavera, 
dias e noites sempre iguaes ; paiz baixo, rio largo, a que 
permite mais segurança o bom tratamento dos naturaes 
índios do que outras fortificações ; porém ainda assim se 
poderia fortificar um bairro, á que chamão cidade por ter 
mais superioridade, para se lhe facilitar alguma segurança, 
e bom tratamento dos naturaes índios, ainda que ficasse 
desabrigado outro bairro chamado Campina, que se estende 
por uma dilatada planície; e como é conquista, em que cada 
dia se vão descobrindo novos géneros, e algum dia poderia 
ser de muita utilidade, si já hoje nSo é invejado a Portugal, 
como vaticinão instancias de introduções estrangeiras, 
parece ao menos se não devia parar com um forte, a que se 
tem dado algum principio em boa paragem, correndo da 
barra à vista da cidade (e melhor em uma ilha que chamão 
Redonda) ao mar d'aquella paragem, por junto da qual 
corre o canal, e passão os navios ; a que se põe alguma 
dificuldade, que parece se podia suprir^ por melhorar tão 
singular beneficio. 

Doesta ilha se vão continuando para aquelle grande rio 
outras, que facílítão a travessia, e a navegação por todo 
elle, si bem com monções, e seus riscos, onde mais se 
apartão, dando logar á íiiria das correntes, e pelas quaes 
os moradores têem algumas grangearias ; e é principal a 
ilha grande de Joanes, que dizem ter 300 legoas em 
redondo, onde se beneíScia um pesqueiro efectivo pela 
fazenda real, provendo a cidade com quinze òu vinte mil 
tainhas, cada mez ; a qual ilha corre da barra rio acima 
até perto do Gurupá, d'onde dando volta pela banda do norte 
toma a espraiar a costa do mar, com varias nações de índios, 
todos hoje de paz com os Portugueses; mas também dão 
entrada aos estrangeiros, que ordinariamente com elles 
negocião, e com mais familiaridade aos que com estes se 
aviãsinhão do Cabo do Norte; qíie ha a mesma corda rio acima; 
navegando junto da terra os mafes aremo, se gasta oito dias; 



-. 9 — 

e do mesmo modo oito dias, atravessando do cabo do rio acima 
á capitania do Ourupá, que fica na terra, que corre outros 
oito dias do Pará, e trez em atravessar do Gurupá á ca- 
pitania do Cabo do' Norte, por onde ha o cacáo silvestre, 
assim pelas fraldas da terra firme, que vão correndo do 
cabo até a capitania, como pelas ilhas que em toda aquella 
distancia se multiplicão por aquelle mar doce até o Ou- 
rupá ; e d'aquellas paragens passa o cacáo a varias partes 
rio acima como o cravo : as quaes duas capitanias era 
muito necessário povoar com gente branca, ou, pelo menos 
por emquantOy com um forte, com algum prezidio no do 
Cabo do Norte, em alguma das imincncias que descem 
sobre o rio, donde fo seguem as serras, de que é com- 
posta, com seus vales e ribeiras, e tão boas terras, que 
não só 80 lograriSo n^ellas todos os frutos do Brazil, mas 
também os do reino, com vários haveres ; e quem plan- 
tasse cacáo, faria ali grandes fazendas, por ser seu natu- 
ral ; e as quebradas das terras roxas, por onde elle se quer 
ou melhor se produz. Â de Gurupá deve ser bem povoada, 
pois se acha como dezerta ; e na verdade não só pelo que 
demanda a bôa prevenção do estado, como também pelo 
merecimento do sitio, não só pôde haver villa, mas uma 
grande e rica cidade para tabacos, e toda a novidado, que 
se lhe planta. E tão forte terreno, que a todos os mais 
excede na abundância, com que produz. 

O cravo, salsaparrilha, canafistula, e outras drogas tudo 
lhe fica á mão, correndo d'aquellas duas capitanias para 
cima, CO. 1.0 também o cacáo á vista da praça ou fortaleza, 
o melhor, si o quizerem plantar e beneficiar, como já vão 
fazendo os moradores da cidade de Belém, ainda que o 
clima mais apartado dq seu natural, que vai correndo do 
norte. 

Demora o Gurupá em um terrapleno iminente ao rio 
em 1 grão 19 minutos sul, capaz de toda a fortificação que 
se lhe quizer fazer, e muito sadio pelas razdes já apontadas, 
d'onde fortificando-nos, como recolhidos em nossas cuzas, 
poderiamos varejar as fronteiras, sem necessidade de nos 
irmos pôr á barreira, no risco de ficar um dia em cerco de 
qualquer nação, que para isso se preparasse com líiais 
poder, e lhe ficássemos servindo de guias ; sendo que as 

VOMO XLTI P. I. 2 



— 10 — 

terraS; que correm d'aquella banda, nâo são as que mais uti- 
lidade prometem por baixas, e só seriâo de proveito aos Ín- 
dios, que por aquella parte habitâo, e que para a nossa po- 
déssemos retirar com tão bom agazalho, e que uns convi- 
dassem aos outros ; e cacáo sempre fica á mão para em 
seu tempo se lhe ir dar varejo. 

De maneira que como a ilha grande se extende tanto ao 
mar, faz mostrar ao rio duas bocas, e com efeito tem duas 
barras, sendo uma da ilha para o cabo, por onde navegavão 
os Olnndezes, quando ocupavão algumas fortalezas pelo 
Cabo do Norte, e ião pelo Gurnpá acima até o Ta- 
pajoz, quinze dias de navegação pelo rio das Ámozonas 
acima, e também houve já navio portuguez, que, errando 
<a primeira barra, fez entrada pela segunda, e dando volta 
pelo Gurupá veio para o Pará; em que gastou vinte e tantos 
dias. 

Corre a primeira barra pelo Pará, sem mais veredas que 
as ilhas, que vai deixando ; mas passando a cidade se vai 
divertindo pelo certão dentro em sete rios todos cauda- 
lozos, até na ultima parte se irem incorporar adiante do 
Gurupá com a do Cabo do Norte, fazendo-se todo um pelo 
certão dentro, ao qual sempre se vão despenhando muita 
variedade de rios e lagos, por onde os Portuguezes, gas- 
tando dous ânuos com alguma demora, jà chegarão a 
Quito, província da Nova Espanha ; e do Pará mana o 
rio, mas adiante dous dias de navegação de Gurupá, 
se confunde por entre uma confuzão de ilhas, que da barra, 
6 do commercio do Pará ao norte vão ficando, e a terra 
firme, que ao sul vai andando, por onde os rios, como 
braços, vão entrando, e é o ultimo o do Xingu, que pelo 
Gurupá se divide ao certão dos Surunaz, muito largo, o 
dilatado, nfto havendo quem lhe tenha chegado ao fim, 
havendo-se por elle bem navegado, assim ao protesto de 
escravos, como de cravo, d 'onde se tem tirado, e tirará muito. 

Descendo do Gurupá, lhe vai pelas costas cortando o rio 
do Ganapuz de boas terras, d'onde se tem tirado algum 
cravo, o logo abaixo se divide o rio dos Pacajás, simi- 
Ihante ao sobre dito Xingu. 

Chegando mais ao distrito do Pará, corta o rio dos 
Tocantins, por outro nome Cametá, mui povoado de 



— 11 — 

ilhaS; aonde se abrem umas de outras ; escassamente se vê 
terra de uma banda a outra, por sua largura, d'onde se 
tem tirado muito cravo, e ha n^elle muita madrepérola, em 
que se tem achado algumas pérolas ao acazo, sem se lhe saber 
sazRo, em que se faça melhor experiência ; boas terras em 
que fabricâo muitos moradores, para as quaes atravessâo os 
homens de São-Pauio, e fazendo ali canoas discorrem por 
todo ello, levando os indios, que achfto para suas adminis- 
trações, como também ião por elle acima os homens do 
Pará ao resgate ; aonde ha poucos annos se ajuntou uma 
esquadra com outra, sendo cabo da do Pará Francisco da 
Mota Falcão. Mas tão dilatado é este rio, que ainda seu fim 
está incógnito; e dizem, que tem seu principio em um lago, 
d^onde também emana o Rio da Prata. 

A este rio se nSo tem também achado seu fim, haven- 
do-se por elle bem navegado ao cravo, e foi o primeiro, 
por onde se começou a achar, e se tira ainda d'oiie, 
como de todos os mais rios, pelos quaes sempre ha alguns, 
que vão crescendo ; e junto a uma maré até duas se estendem 
alguns engenhos de lavoura, como peio mais, ainda que 
hoje tudo anda mal fabricado por falta de escravos. Su- 
posto cada rio doestes podia acommodar quazi um reino, si 
todos quizessem povoar terras boas e capazes de todos e 
quaesquer fabricos e lavouras, que se quizessem beneficiar, 
produzindo com abundância tudo que se lhe planta, com- 
tudo é necessário muito braço e ferro para romper e der- 
ribar as altas e densas matas, e robustas madeiras, de que 
todas são cobertas, taes que de cada páo se tirão do pé 
setenta e oitenta palmos de comprido e cavacados por den- 
tro se fazem canoas de doze e quinze palmos na boca, como 
galés, que carregão quatrocentas e quinhentas arrobas, com 
quinze ou vinte negros de remo ; do que depende todo o 
commercio, por não haver outras estradas, assim pela difi- 
culdade das matas, como por todos os terrenos estarem 
cortados das aguas. 

Por todos estes rios ha muita caça e varias sortes de 
peixe, em que se singulariza Cametâ, por onde, passando 
qualquer canoa de noite, acendendo luz, é tal a nuvem de 
tainhas que a cerca, e acompanha saltando, como fazendo 
floreio de verem entre si aquella novidade, que do muito 



— 12 — ' 

que se enganâo no salto, e caem dentro da canoa, é neces- 
sário retirar d'ella com brevidade, apagando a luz^para nSLo 
meter a canoa no fundo, e os moradores d'aquelle rio ordi- 
nariamente escuzão mandar^ nem assim, a aqueila pescaria 
pela quantidade que pelas praias d& á costa, uin morto 
outro semi-vivo do violento salto com que se encontra no 
cardume, e também se atribuo a abafar com a muita 
gordura, que tem : é bom peixe. 

Gompõe-se a cidade de Belém de quinhentos mora- 
dores, gente luzida e varia nobreza, em que também não 
falta pobreza. 

lia uma matriz, uma mizericordia, quatro convento^), 
o collegio, Santo Ambrozio, Mercês e Carmo ; uma 
igreja de Nossa Senhora do Rozario, outra de S. João e 
uma linda e bem guarnecida ermida da Exaltação da 
Cruz por invocação ao Santo Christo. 

Entre a gente, que tem alguns servos de que se possdo 
ajudar, e sf não se demaziâo em gastos, e têem conta 
comsigo, é préstimo, e não pobreza, pela opulência da 
terra ajudar a quem d^ella se aproveita, e pela variedade 
de drogas, de que uns e outros se valem, por cuja largueza 
os homens são pouco e os naturaes menos ambiciozos. E cida- 
de mal provida de peixe, por não haver pescadores brancos, e 
80 Índios naturalmente preguiçozos com alguma espécie de 
antipatia, suposto que, quando querem, só elles têem tanto 
préstimo, que, quem faz com elles jornadas, não costuma 
levar mais matalotage que farinha e sal ; e remando de 
pela manhan até o meio dia, como é uzo, tomando terra, 
em quanto se acende fogo, entrão uns pelo mato, e outros 
pela agua, e logo trazem provimento; o que o branco nem 
o negro de Africa pôde fazer ; porque, além de pela maior 
parte não saberem nadar, si entrfto no mato, não sa- 
bem sair ; porém^ sempre alguns negros entre os Índios, 
são de muita utilidade. A cidade também é mal provida 
de carne, por não haver pastos de natureza ; só na ilha gran- 
dO; que não fica fora de mão, ha vinte ou trinta legoas de 
campinas de patàto agreste, que, cultivando-se, se podem 
com o tempo melhor criar, em que já ha bom princi io 
de gado ; e os que os moradores fazem por suas fazendas, 
desbastando madeiras, não superabundão até o prezente ; 



— 13 — 

e 09 tigres são em tanta quantidade, por não haver descam- 
pados; que, em se metendo uma roz no mato, n^o sae ; e 
o mesmo risco corre a gente, si não anda acompanhada, 
pelos rios e lagos, dos jacarés: sâo estes do feitio de la- 
gartos, cabeça de cavalo, e peito mais dobrado, boca de 
câo, rasgada por cada banda mais de palmo ; e toda a pes- 
soa ou animal, que achâo na agua, lhe pegão, e levâo ao 
fundo ; e algumas vezes sae á terra, sentindo caça, de que 
se aproveitão, ou caxorros ; e melhor quando estes ae dei- 
tao á agua atraz da caça; como p(^la terra os tigres, feitio 
de gato, altura de meio jumento, menos barriga, mais com- 
pridos, e mais dobrados de peito e pulso ; armão de salto, 
e descarregando com a mão na cabeça a um homem, boi, 
ou qualquer animal, tudo estendem, como si fosse um raio. 

E esta conquista não só dotada das riquezas já declara- 
das, mas eom largas promessas pelas experiências, que de 
novo sempre se fazem, e algumas de que os pioradores se 
não ''abem aproveitar. Tem muit anoz-moscada, ainda quo 
mais pequena que a da índia, por não ser beneficiada, 
])orem com a mesma virtude, e da cera e óleo d'ella se uza 
obrando em pontadas, corrimentos, resfriamentos, e si- 
milhantes infermidades admiravelmente e não se faz cazo 
da nÒ7., nem carregaç^^o, por se não saber separar do muito 
azeite com qiie está ligada^ e a faz apodrecer em breve 
tempo : baunilhas possue as maiores e melhores, que em 
parte alguma, porém silvestres ; e sem ainda mostrar a ex- 
periência o beneficio^ e utilidade de algumas que os mo- 
radores vão plantando : anil é o primeiro, que renasce nos 
matos, que se cortão, mas como estes pulão com mais 
violência, e não ha campinas de natureza, por onde se 
semeie, é a razão, porque se não beneficia : ha muito páo de 
meri, que dizem ser bálsamo, mas não se sabe fazer, e dei - 
tando-so no fogo qualquer migalha da cortiça, se excuza 
o mais fino pivete : arvore de lacre nasce em muita quan- 
tidade. 

Os mantimentos, que se cultivão,se colhem com singula- 
rissimo sucesso em abundância todo o anno, pelo tempera- 
mento do clima; o maior verão é um mez, sem impertinente 
inverno. Arroz não somente se produz como os mais man- 
timentos plantando-se, mas de natureza o ha em varias 



^ 14 — 

partes pelo rio das Amazonas em campinas, que no inverno 
alagâo, e crescendo sempre á âôr da agua, os conduzem os 
naturaes indios, entra ndo em canoas pequenas por elle, e 
sacudindo-o n^ellas com os reiLOs, antes que o rio o abaixe 
na primavera 

Muita variedade de frutas, assim de cultura, como 
silvestres, sendo rainha d 'estas a mangaba, cheia de uma 
suave massa branca como a neve, e uma pelicula ver- 
melha tSo ténue, que, pondo-se nos beiços, se deixa coar, 
como sorva, pouco maior. 

Das de cultura, é rei das frutas o ananaz, tamanho de 
um melão, feitio de pinha em arvore pequena, com folhas de 
herva baboza, com que faz na ponta da fruta uma coroa, 
e não ha duvida, que na meza de príncipes na Europa 
seria esta fruta estimada ; esbruga-se como nabo (e da 
mesma côr) em talhadas compridas como de melão, com 
que, acompanhando o mais comer, não ha fastio, que se lhe 
atreva. 

E si damas ha no Brazil da meza, sâo as pacovas ; 
fruta de todo o anno, cento e tantas em cada caxo ; a mais 
pintura, a não permite a niodestia; mas bôa fruta para 
gente sadia, e também a todo o doente se dá assada, como 
uma pequena de marmelada. 

CAPITULO n 

Trata-se do tempo em que foi conquistado o Maranhão ; por quem» 
e que governadores o tem governado até o prezente anno de 1685; 
e as reaes leis que tem precedido, e suas consequências. 

Foi de Pernambuco, em tempo do governo de Castela, 
Jerónimo de Albuquerque, nos annos de 1613 até o de 
]615, conquistar o Maranhão dos estrangeiros, que por 
aquella parte se tinhão introduzido, havendo sua santidade 
consignado á coroa de Portugal a conquista do Brazil por 
demarcação do Rio da Prata até o de Vicente Pinçoti, como 
ex-officio por melhor penna será decantado, e sendo gover- 
nado oito annos por capitães mores, logo o primeiro, que foi 
Alexandre de Moura, por noticias que teve do famozo rio 
das Amazonas, fez Francisco Caldeira de Castelo-branco 
passar a descobrir, e situar n^elle o Pará. 



— 15 — 

Chegou depois o primeiro governador do estado Fran* 
cisco Coelho de Carvalho, no anno de 1623, que governou 
23 annos até morrer ; com cujo governo veio o olandez a 
querer prezidir o Gurupâ ; e suposto queimou as cazai^:, 
que estavão feitas fora da fortaleza; voltou bem rexaçado 
das sortidas portuguezas; como também n^este tempo se con* 
quistarão as fortalezas, que pelo mesmo rio, correndo para o 
Cabo do norte, tinhâoaquelles estrangeiros, sendo no Torrego 
uma, outra no Cumahu, e outra no rio de Filipe; com o que 
se dezenganarâo de tomar a reedificar e povoar, como ante* 
cedentemente haviâo feito^ em razão dos repetidos assaltos 
que o capitSlo mór do Pará, Bento Maciel^ lhes havia dado, 
dezalojando uns e prizionando outros, e metendo navios á 
pique, com notáveis e valentozos sucessos. 

A este governador sucedeu, por eleição da camará, o 
provedor mór Jacome Raimundo de Noronha, ao qual, ha- 
vendo governado quazi dous annos, sucedeu por provizâo 
real o governador Bento Maciel Parente, no anno de 
1638» que no anno de 1618 havia já vindo, como fica dito, 
ao estado por capitSo-mor do Pará, de Pernambuco com 
200 soldados e 400 índios. Eeforçando-se no Maranhão, 
castigou o gentio das rebeldias,que havia feito aos primeiros 
conquistadores, escalando um forte em Tapuitapéra, em 
que os Índios matarão 30 homens, e no Priá 14 em uma 
lanxa, que abordarfto ; e outros atrevimentos, de que tomou 
estreita satisfação ; e pondo tudo em paz, d'ahi a poucos 
tempos descobrio-lhe uma india, sua confidente, que todo 
o gentio entre si havia passado palavra para se levantarem 
em uma semana santa, na noite da quinta-feira para sexta, 
e não deixarem vestigio de Portuguezes vivos, pelo qual 
motivo se anticipou, o fazendo chamar todos os principaes, 
08 recolheu a um forte, e em um dia justiçou 24 em bocas de 
peças, e vários suplícios de morte; com o que se dezanimárflo 
os naturaes, e ficou pacifico o estado. 

Mas passando este capitão-mor do Pará a governador do 
estado nos sobreditos annos, tendo quatro de governo, em 
idade já quazi decrépita, entrou o olandez no Maranhão^ 
e tomando-o por entrepreza no anno de 1642, o possuio 
anno e meio em paz; até que os moradores concordados 
com os Índios, levant?.ndo por capitão mór a António Muniz 



— 16 — 

BanreiroS; derâo sobre o olandez com bom successo; e 
morrendo este eapitão-mór, elegerão a António Teixeira de 
Mello, e com igual valor, em um anno e meio de guerra 
viva, á custa de muito sangue de uma e de outra parte, ex« 
pulsarão o inimigo^ indo este com diferente excesso destro- 
çado. 

£ chegando ao Pará, no ultimo extremo da gu rra, por 
governador doestado Pedro de Albuquerque, no anno de 
1640^ desgostado de não haver tomado o Maranhão, por 
não alcançar la falia, havendo feito esta diligencia, e haver 
naufragado na barra do Pará, onde perdeu o navio com du- 
zentos e tantos soldados, vinte religiozos da companhia 
de Jezus, e outros homens do mar, morreu com seis mezes 
de governo; ficando por sua nomeação Feliciano Correia 
capitão-mór do Pará e António Teixeira de Mello do Ma- 
ranhão, o^de n^este tempo havia concluido com a guerra. 

Aos quaes, passado anno e meio, sucedeu Francisco 
Coelho de Carvalho, o Sardo, por governador do estado 
no anno (\e 1647 ; e morrendo com 15 mezes de governo, 
deixou por capitão-mór do Maranhão a António Teixeira 
de Mello ; e no Pará fez a camará por eleiçHo a Aires de 
Souza Xixorro, aos quaes, passados 17 mezes, sucedeu 
LuÍ7. de Magalhães por governador do estado no anno de 
1649, e havendo este governado 4 annos, foi o Sr. rei Dom 
João IV, de glorioza memoria, servido mandar dividir 
o governo em capitanias, com Baltazar de Souza Pereira 

Sor capitão mór do Maranhão, e Ignacio do Rego Barboza 
o Pará no anno de 1652 ; havendo um governado pa- 
cificamente no Maranhão três annos, e o do Pará passado 
á outra vida. 

Mandou S. M. tomar a incorporar o governo, a re- 
querimento do Maranhão, pois entenderão lhe irião assim 
mais escravos, mandando André Vidal de Negreiros por 
governador do estado no anno de 1656, o qual, depois 
de um anno de governo, passou por terra a governar 
Pernambuco, para d'ahi passar Angola, trez governos, 
om que justamente foi despaxado por premio da primeira 
nova, que tinha levado a Portugal, da restauração do 
Brazil^ havendo n'ella, com o posto de mestre de campo, 
alcançado immortal nome. Até o tempo doeste governador 



i^ 



— 17 — 

costumavão assistir no prezidio do Gurupá 40 homens, 
dos quaes revezadamente andavão sempre quatro em uma 
canoa, com alguns indios da aldeia, que servião só de 
guarnição á praça, vigiando, e communicando aquellas 
nações até o Cfabo do Norte. Si achavão alguma demazia, 
nfto a podendo remediar, yoltavSLo com avizo á praça, a 
que se acudia com a diligencia necesaria, com que as 
extranhas nações se reprimião, e os naturaes vivião sujeitos : 
mas já hoje não ha mais dispozição, que tratar cada um 
do seu negocio ; nem mais indios, que para certòes e cravo, 
por onde vâo acabando ; assim só havendo preceito grave 
de se não tratar de tal género por tantos annos, prerece to- 
mariâo os indios alguma fórmi com os Portuguezes ; porque 
de outra maneira dificultozamente se evitarád ruinas de 
quem só trata do vindimar e fugir ; e venha atraz o que 
vier. 

Mas deixando este governador, na forma de seu regi- 
mento, a Agostinho Correia por governador do estado, 
lhe sucedeu D. Pedro de Mello no anno 1658, o qual 
havendo governado quatro annos, tempo em que se alterou 
o povo, contra os religiozos da companhia de Jezus, lhe 
sucedeu Rui Vaz de Siqueira no anno 1662, que fez 
tornar a admitir os ditos religiozos ; e havendo governado 
cinco annos com vários sucessos de guerra, fome, e peste, 
pois não havia prometido menos o sucesso passado, lhe 
sucedeu António de Albuquerque Coelho de Carvalho no 
anno de 1669, o qual, governando seis annos pacifícos, 
e com temor de Deus, se singularizou na restituição da 
aldeia dos Conduríz, obrigando a quem lhe mandou do 
Gurupá ao Maranhão por escravos indios forros, que os 
tomasse a pòr a sua custa em liberdade no certão, onde 
estavão servindo de estalagem, e romeiros dos brancos, 
com igreja, antes da expulção dos padres, em que foi 
sepultado o padre Manoel de Souza, da companhia de Jezus, 
que la morreu, sendo seu pároco ; porem depois que se 
virão alguns dos ditos indios escapados d'estes dezarranjos 
do tal sucesso, e postos nas suas terras, se meterão pelo cer- 
tAo dentro, fazendo liga com outros, e não sabem mais que 
fazer flexaria hervada, para se defenderem dos Portuguezes» 

A este governo sucedeu Pedro Cezar de Menezes, n^ 

TOMO ZLVI, F« Z. 8 



— 18 - 

anno de 1673, ao qual, governando cinco annos, sucedeu 
Ignacio Coelho da Silva, no anno de 1678, que governou 
quat. o, e a quem sucedeu Francisco de Sá de Menezes na 
anno de 1682. 

Por uma provizâo, que trouxe o primeiro governador, 
mandou a Magestade Católica fossem cativos todos os 
gentios, que estivessem preeos e cativos de outros para os 
comerem; e que os taes se pudessem comprar, com decla- 
ração da quantia, que o governador com os mais adjuntos 
assentassem, é seriSo cativos somente por dez annos e de- 
pois ficassem em sua liberdade. 

Antiga é esta lei, e não dizia (como alguns querem) 
quo no fim de dez annos se tirasse indio algum, a quem o 
tivesse, mas como se dicera: passados os dez annos aos 
d'aquella condição se lhes declare sua liberdade, e alvedrio 
para ficarem, ou se irem, como lhes estivesse melhor. Por 
que depois de estarem por cazas dos moradores criando 
seus filhos, e cobrando amor reciproco uns aos outros, 
para se sàhirem assim, ficando os outros, seria necessário 
preceder escândalo grande ou força, sendo que algum 
sofrimento roereciSo estes, que os i?to buscar ao certâo, 
nâo pelo custo do preço, por ser o menos, mas por irem um 
anno fó: a da sua caza, gastando ordinariamente o que não 
tinhão, e quem n 'essas em prezas não morreu, nem adoeceu, 
vem inchado e pallido, havendo mister muito para se curar ; 
e si lá lhe tocarão, por exemplo, 8 escravos, não fazia pouco 
em chegar com 4 escapados da morte e da fugida á sua 
caza, e ahi, primeiro que se naturalizassem, ficava depois 
como Deus era servido. 

Pela qual razão, em virtude do dito capitulo, assentarão 
em junta do governador, provedor da fazenda, e mais 
dignidades seculares e ecleziasticas, feita no Maranhão em 
29 do Setembro de 1626, que os escravos, que custassem 
mais de cinco maxados, ou o valor d'elles, que erão dez 
patacas, senão catiyos por toda a vida. 

Depois fôrão os capitães-móres do Maranhão e Pará 
advertidos por capitulo do seu r^ilamento no anno de 1652, 
que em nenhum cazo pudessem os gentios ser captivos, 
salvo aquelles que se captivassem em guerra, que se lhes 



i 



— 19 — 

mandasse fazer por provizSes reaes, e os que de outra ina* 
neira fossem cativos, se houvessem por livrt;s, na íórma 
de outra lei de 1Õ70^ passada para o Brazil, e que da 
mesma maneira se guardasse no estado do MaranhSo com 
todo o aperto. 

Aqui acudirão os povos com os seus requerimentos e 
embargos, dizendo: 

Que aquella lei devia proceder de má informação a S. 
Magestade, a quem elles querião recorrer, e informar bem, 
e verdadeiramente por seu procurador ; que por emquanto 
se abstivesse na execução d'aquella geral liberdade de 
Índios, que elles estavâo possuindo em virtude de tmia 
provizào real e junta, em que se acharão irei Christovão 
de Lisboa, filho da reformada e seráfica província ca- 
puxa de Santo António, bispo eleito de Angola, e Luiz 
Figueira, da companhia de Jezus, pessoas bem conhecidas 
em virtude e letras, como também o vigário geral, e outros 
prelados e letrados, e bem como o governador, e mais dig- 
nidades de conceito ; que com elles assim estavão fabri- 
cando assucar, tabaco, e outros géneros, e mantimentos, 
com que sustentavão suas familias,e os prezidios do estado ; 
que sem elles não podião ter, nem viver nos matos, como 
é estilo, cada familia na sua ilha, ou no seu igarapé, que 
são os rios pequenos, que dos grandes, como veios, se apar- 
tão, retalhando as terras e bosques^e buscando as paragens, 
conforme o grangeio de cada uma, estavão todos divididos 
com grandes riscos, assim das bahias, e iíiriozos rios, que 
atravessão, como dos matos em que vivião, muito distantes 
uns dos outros, e muito mais das aldeias dos indios forros ; 
que, deixando-os assim esbulhados de escravos, fícavão 
sem commu licaçfto, nem para ainda poderem chegar ás 
aldeias a remediar-se de algum indio fono, quando algum 
lhe tocasse, si bem a poucos tocari ão, e menos os alcança- 
rião. E como, ou de quem se havião de valer, quando o 
gentio do mato desse sobre qualquer iamilia, ou outro 
qualquer inimigo de mar em fora se viesse senhoreando 
da terra? Como se poderião reparar para a rezistencia sem 
seus escravos, companheiros de caza, que erão os primeiros 
que tomavão as armas na mSo, levados do amor da criação, 
oomo tinha mostrado a experiência em todas as ocaziôea 



— 20 — 

de guerrâs no Maranhão e Pará? Aos escravos devemos sem- 
pre grande auxilio, mediante a industria dos senhores, e a 
de Deus primeiramente. £stas guerras romperão sempre 
com admiráveis principies e bons sucessos, primeiro que a 
divulgassem aos forros^ e a outras .gentes, achando-se as- 
sistidos çom os seus esforços até o fim, e muito pelo con- 
trario sucederia, si tivessem escravos; nem estas terras 
erâo como a do Brazil, onde todos os mezes entrava quan- 
tidade de negros ; o que não tinha o estado do Maranhão 
por suas dificuldades. Si os estilos das terras faziâo 
leis, não erâo estas capazes, ainda que algnm tempo tives- 
sem negros, para se viver só com elles, e com alguns iudios 
para guias e pilotos dos mares, por não haver outras estra- 
das, de que os pretos nem a si se saberiâo livrar, quanto 
mais aos brancos, e menos entrar e sahir dos matos com 
a caça, de que no estado se vive, pelo menos no Pará, por 
não haver açougue, por falta de pastos, e ser tudo matos e 
mares, em cujos certdes não deixava de haver sempre 
escravos licites, por ser estilo entre os naturaes cativarem 
em suas guerras, e comerem os cativos, servindo- se de 
outros^ em quanto não os comem ; e si as leis se fazião de 
boa razão, nenhuma parecia justificar estarmos vendo ser 
virem-se aquelles brutos com os seus escravos, e os homens 
brancos com preceito de os não comprarem para reme- 
diar as dificuldades, que só os indios sabem, e podem 
vencer por filhos d^ellas. Não ha lei divina nem humana, 
que prohiba possessão de escravos; e si no mundo ha 
alguns por bárbaros, nenhuns mais que e&tes, incons- 
tantes e sem fé, !ei, nem rei ; além de que que injustiça 
se lhes fazia redimir para o grémio da igreja, ainda que 
fãsse para servir, os que em tal cativeiro tinhão assim ar- 
riscadas vidas e almas com outras similhantes razões, que, 
por seu procurador Manoel Guedes Aranha, mandarão 
reprezentar a el-rei, que não só os ouvio, e piamente 
lhes deferio, mas também os honrou com os privilégios da 
cidade do Porto. 

Mandou el-rei rezolver por lei de 19 de Abril de 1655, que 
08 indios se pudessem cativar em quatro cazos, seguintes : 

Guerra justa ofensiva, e defensiva; si impedissem a 
pregação dos santos evangelhos ; e os que fossem cativos 



-- 21 — 

dos que os venderão pelos haverem tomado era suas guer- 
ras justas, qne tivessem uns com os outros ; na qual lei 
ultimamente declara o seguinte : 

Hei outrosim por bóm, e mando, que nenhum gover- 
nador, ou ministro, que tiver o supremo logar na capi- 
tania do dito estado, possa mandar lavrar tabacos por 
sua ordem, nem interposta pessoa, nem outro fruto algum 
da terra, nem o mandem para nenhuma parte, nem ocu- 
pem, nem repartSo Índios, nem ponhfto capit&es nas al- 
deias ; antes os deixem governar pelos principaes da sua 
nação, e párocos, procedendo n'isto e no mais na forma 
do regimento, que lhes mandei dar. Pelo que mando aos 
gtivernadores, capitâes-mores, oíiciaes da camará, e mais 
ministros, e pessoas do estado do Maranhão de qualquer 
qualidade e condição que sejão, que todos em geral, e 
cada um em particular cumprão e guardem esta lei, etc. 

Com esta prohibição a triennal ambição, que havia até 
aquelle tempo, achava todos os indios poucos para os 
ocupar em suas expedições, e quando chegava a vender o 
serviço de algum, não custava pouco ao pobre morador ; 
mas passando-se depois a interessar- se nos certSes, elegião 
pombeiros de taes consciências, que só era tido por melhor 
o que mais escravos mandava, bem ou mal resgatados ; era 
o menos que se examinava ; e aos que assim fazião, 
como lhes era necessário ajuntar um curral em oito ou nove 
mezes, para de uma embolada se aliviarem de seus en- 
cargos, quando chega vão á mandal-os, erão mortos e fugi- 
dos metade, pelos embarcarem já enfezados como sardi- 
nhas ; e doesta metade chegava abaixo menos de metade 
com um mez ao rigor de qualquer tempo ; e dos que 
assim chegavão quem os comprava o sentia, permanecendo 
como couza violenta e mal adquirida ; e da mesma sorte 
a quem embolsava o dinheiro, não se logrando d^elle ne- 
nhum governador, salvo um que fez justiça, como já se 
dice, si ainda não teve alguma moléstia, que ou fosse 
pelo escravo mal adquirido, ou pelos forros constrangidos, 
e dos pobres, a quem tocão, divertidos : sempre é san- 
gue que clama. 



— 22 — 



CARTA DE SUA MAGESTADE 

JuizeBi yereadorese provedores da camará da cidade 
de Belém da capitania do Pará, eu el-rei vos envio muito 
«audar. 

Mando- vos remeter em companhia d esta carta o parecer, 
que me derão as pessoas a quem mandei communicar a ma- 
téria do cativeiro dos indios dWa capitania e a cópia da 
lei, que nasceu d'aquella consulta ; e porque dezejo muito, 
que esto negocio fique doesta vez ajustado para não alterar 
mais ao diante, por rezoluçâo que n'elle tomei, tão conforme 
a direito, e a segurança da minha, e das vossas consciên- 
cias, como entendereis d^aquelles papeis, e executareis, e 
fareis executar por vossa parte aquella lei, com tal pontua- 
lidade, que se não atreva a haver quem a encontre, ad- 
vertindo que terei d^isso muito desprazer, e mandarei cas- 
tigar os que cometerem este excesso com tal demonstração, 
que sirva de exemplo, para se saber n'essa capitania a forma, 
em que se hão de executar as rezoluçdes, que tomo com tanta 
consideração como tomei aquella. 

Escripta em Lisboa aos 9 de Abril de 1655. 

Debalde tratão os príncipes de assegu ar sua real con- 
sciência, encarregando a quem entendem Ih^a podem des- 
encarregar ; porque quando se não segue algum poder a 
qualquer recommendação, fica servindo só deumaodioza 
contenda sem fruto. * 



PRIVILÉGIOS 

DOS CIDADÔES DA CIDADE DO PORTO CONCEDIDOS AOS DO PARÁ, 
COMO TAMBÉM POR ALVARÁ PARTICULAR TEM A MESMA 
MERCÊ os DO MARANHÃO. 

Dom João, por graça de Deus, rei de Portugal, etc. Faço 
saber a todos os corregedores, ouvidores, juizes, justiças e 
outros quaesquer oficiaes e pessoas de nossos reinos, a quem 
o conhecimento d'esta, por qualquer via que seja, pertencer, e 
esta nossa carta, ou traslado d'ella em publica forma virem, 
que havendo nós respeito aos muitos extremados serviços, 




- 23 — 

que sempre os reis passados recebêrSO; e nós recebido 
temos da nossa muita nobre e leal cidade do Porto e cida- 
dSes d^ella, com muita lealdade e fidelidade, e conhecendo 
d'elles o amor com que nos dezejão servir, e esperamos sem- 
pre sirvSo, nSo menos do que sempre fizerão, por isso, e 
pelo que a nós convém fazer dos taes vassalos por enobre- 
cimento ; e querendo-lhes fazer graça e mercê , havemos por 
bem privilegiar, e privilegiamos a todos os cidaddes que ora 
são em dita cidade^ e ao diante fdrem; e queremos e nos praz» 
que d'aqui em diante para sempre sejâo privilegiados, e que 
não sejão metidos á tormentos por nenhuns maleficios, que 
tenhão feito, cometido, e cometerem e fizerem d'aqui por 
diante ; salvo nos feitos, e d'aquellas qualidades, e nos modos 
que o devem ser, e são os fidalgos de nossos r^^inos, e senho- 
rios, e isto mesmo não possão ser prezos por nenhuns cri- 
mes, somente sobre suas homenagens, assim como o são e 
-devem ser os sobreditos fidalgos. 

Outro sim queremos, e nos praz, que possão trazer por 
todos os nossos reinos quaesquer e quantas armas Ines 
parecer de noite e de dia, assim ofensivas como defensivas, 
posto que em algumas cidades e villas especialmente te- 
nhamos defezo, ou defendamos, que as não tragão. 

Outro sim queremos e no» praz, que hajão e gozem de 
todas as graças, liberdades e privilégios, que são e temos 
dado a nossa cidade de Lisboa, reservando que não possão 
andar em bestas muares, porque o não hav^nos por nosso 
serviço, nem bem do reino andarem n^ellas. 

Outro sim queremos, que todos os seus cazeiros, amos, 
mordomos, lavradores e encabeçados, que estiverem e la* 
vrarem suas próprias herdades e cazaes, e todos os outros 
que continuadamente com elles viverem não sejão constran- 
gidos para haverem de servir em guerras, nem outras idas por 
mar nem por terra, onde gente mandamos, somente com elles, 
ditos cidadSes, quando suas pessoas nos forem servir. 

E outro sim queremos, que não pouzem com elles, nem 
lhes tomem suas cazas de morada, adegas, nem cavalha- 
ricas, nem outra nenhuma couza do seu, contra suas von- 
tades e antes lhes guardem mui inteiramente suas cazaa 
e hajão n^ellas e fora d^ellas todas as liberdades, que an- 
tigamente havião os infançSes e ricos homens. 



- 24 - 

E mandamos a todos os corregedores, ouvidores, juízes e 
justiças, alcaides e meirinhos, e quaesquer outros oficiaes e 
pessoas, a que esta nossa carta for mostrada e o conhecimento 
pertencer, que Ihecumprão e guardem, e façâo inteiramente 
cumprir e guardar assim tâo inteiramente como n'ella se 
contem, porque é nossa mercê lhe seja guardada, sob pena 
de seis mil soldos para nós, para qualquer que lhe contra 
ella for em parte ou em todo os pagar ; os quaes mandamos 
ao nosso almoxarife, ou recebedor de cada um logar, que os 
arrecade, e receba para nós, de qualquer pessoa, ou pessoas, 
que contra esta iiossii carta fôr, e mandamos ao escrivão do 
almoxarife, que os ponha sobre elle em receita, para nós ha- 
vermos delle boa arrecadação, sob pena de os pagarem am- 
bos em dobro de suas cazas. 

Dada em a nossa cidade de Évora ao primeiro dia do 
mez de Junho. Gil Fernandes a fez anno do nascimento de 
N. S. Jezus Christo do 1490. — Rei . 



PROVIZAO. 

Eu el-rei faço saber aos que esta minha provizão vi- 
rem; que, havendo mandado vêr os serviços e razões, que, 
por parte c em nome dos oficiaes da camarada cidade d^^ 
Belém, capitania do GrSo-Pará, se me reprezentarâo, e 
tendo respeito ao amor, fidelidade, e satisfação, com que me . 
servirão, na ocaziâo em que os Olandezes nos annos pas- 
sados entrárSo a cidade de Sâo-Luiz do Maranhão, aonde 
f&rSo de socorro, e assistirão até de todo os expulsarem d'ella 
e d'aquelle estado : hei por bem de lhes fazer mercê de 
que possão gozar dos mesmos privilégios, de que gozão 
os cidadãos da cidade do Porto, esperando d'elles, que, 
animados doesta mercê e honra, que faço, se disponhão a me 
servir nas ocaziões, que ao diante 8eoíerecerem,comod'elles 
confio ; e esta se cumprirá tão inteiramente, como n^ella se 
contem sem duvida alguma, e valerá como carta sem em- 
bargo da Ordenação do liv. 2^ tit 40 em contrario, e se 
passou por trez vias ; pagarão o novo direito. 

António Serrão a fez em Lisboa a 20 de Julho de 1655. 
O secretario Marcos Rodrigues Tinoco a fez escrever. — Rei* 



— 25 — 

Honrão 08 reis aos vassalos, quo em alguma esforçada 
virtude se assignalárão, em que ti verão principio todas as 
nobrezas do mundo ; e assim benignamente sabirào providos 
os do Pará e Maranhfto, por filhos e genros dos conquis- 
tadores do estadO; que a elle passarão com as armas nas 
mãos, e que derramarão muito sangue, tanto na conquista 
da gentilidade e de naçõas estrangeiras por duas vezes no 
Maranhão, como também das fortalezas do Gurupá, e 
Calo do Norte, sem mais dispêndio que o seu valor, e o 
sselo de leaes vassalos . 

Mas mal lhes guardarão os privilégios alguns, e antes por 
qualquer conceito de conveniência ou respeito são descon- 
postos e destruídos, como proximamente sucedeu ao 
vereador mais velho do Pará, largando a vida no degredo 
de Careth, com geral sentimento de todos , assim pela in- 
justiça feita ao companheiro, como por ser um doscidadSes, 
quo muito se signalára, e singularizava no zelo do bem 
commun, porque foi perseguido, até lhe tirarem a vida, por 
uma leve desconfiança do seu ofício^ que era obrigado a de- 
clarar. 



ORDEM 



sobre o governo dos indios do estado do Maranhão em 
29 de Maio de 1649. 

Manda el-rei nosso senhor, que os indios d este estado, 
não sejão obrigados a servir a alguns, mais que a quem 
elles quizerem voluntariamente por seu pagamento; pilo 
que 08 que estiverem em canaviaes, fumaes, ou outro serviço 
oprimidos, se podem livremente ir para as suas aldeias, 
sem que ninguém lhes o impida, e qualquer pessoa, que 
houver mister indios, pôde ir ás aldeias a cone .rtar-so com 
elles á avença de cada qual, e trazel-os por sua vontade 
para seu serviço, e nenhuma pessoa de qualquer quali- 
dade que seja será tão ouzada, que em parte, ou em todo 
encontre esta ordem, sob pena de quatro annos de degredo 
para um dos legares de Africa, e quinhentos cruzados de 
pena, metade para o acuzador, e na mesma pena incorrerá 
quem os oprimir, violentar ou agravar. 

TOMO XLVI, P. 1. 4 



^ 28 — 

Fez nosso Sénior o céo com diversidade de espiritos 
angélicos, e assim logo a terra com varias gentes, para o 
serviço uns dos outros, conformo cada um estado, por 
assim o achar conveniente ao bom governo dos homens ; e 
da mesma maneira a^egiSes com a prevenção necessária, 
para n^ellas se poder viver ; destinando aos reis de Portu- 
gal a remotidade do ultramar para nos levar a ella com 
seu santo nome, tendo-as já p voadas de gente capaz para 
o gerviço d^ellas ; porque si entre os povos tem a nobreza 
muito por si, com mais razão parece em terra de gentili- 
dade se deve respeitar qualquer pessoa branca, creada 
com o leite da igreja e fé de Christo, de maneira que pnra 
viver, vivamos todos uns com os outros, porque assim, 
uns têem préstimo pnra uma couza, e outros para outra : 
nós para lhes levar a fé ás suas terras, polir e doutrinar ; e 
elles para nos servir, caçar e pescar, criados n'e8se exercí- 
cio de marés e matos, com que ajudando-nos nós d'elles 
nos esforcemos, sustentando o estado para elles lograrem o 
bem, que ignorão, de sua salvação ; porém si houvermos 
de ter obrigação refutando-os, e segrogando-os de nós, mal 
poderíamos sustentar o e^stado, nem o estado poderia ter 
padres, nem os padres poderião viver com elles sem nós, 
porque tanto que o zelo não é quartado, já vai perdido, si é 
que a perseverança do bem está na remuneração, assim 
na politica divina como na humana. 

E suposto na America como na índia prevaleça muito 
um pecado, e em Itália uns mais que outros, todos abor- 
recidos de nossa santa fé católica, e que Deus castiga 
uns com herezias, e outros com cidades inteiras a pique, e 
outros com dissoluções, volvendo tudo a menos, ou em 
nada, qual outro Egipto : — Pomitet me fecisse hominem — 
nem por isso os cavadores da vinha do Senhor, que su 
achão em uma parte, tratavâo de separar, mas de lavrar 
o que podem sim ; e os que assistem em outra, de sacri- 
íicarem com as verdades a que só são obrigados, uceite-as 
quem as aceitar ; nem os que rezidem em outra, se devem 
desconsolar, por não sermos todos como deviamos, e não 
suceder tudo como querião ; porque a similhantes jornalei- 
ros, com o explicar o mal, e fazer entender o bem a quem 
o quizer seguir, basta para nilo perderem o jornal, 




antos quanto maior sofrimento, maior merecimento, ainda 
que asdin tenha o livre alvedrio de cada um maior conta 
que dar a Deus: Si me audistis, quare non credidistiaf 

Nfto sendo a dita lei remetida ao governador^que se achava 
no Maranhão, e por elle envi da aos oficíaes da camará do 
Pará, estes a abraçara, registrarão e promulgarão ; porém 
pelo haverem feito sem cumpra-se, sendo que não repararão, 
que o dito governador lhe não havia posto, por se querer pri- 
meiro avistar com elles (como no Maranhão, ogde já se tinha 
embargado a dita lei), fôrão os do Pará prezos e levados ao 
Maranhão, onde os teve divididos até lhe vir sucessor ; 
excepto um dos vereadores Vicente de Oliveira, que antes 
quíz fugir para o reino, de onde depois chegou com o 
habito de Santiago, mas com reprehensão, pela informa- 
ção que do Maranhão se havia dado ; á vista do que, dezani- 
mados os companheiros, se não derão por pouco satisfeitos, 
quando se virão restituídos ás suas cazas, ainda que jamais 
recuperassem as perdas. 

Não houve n'aquelle tempo vontade de opinião secular, 
nem eccleziastica, que se deixasse de grangear com seu 
pombeiro a cada um para o certão ; e como para contentar 
a tantos era forçozj descontentar a muitos, assim sucedia 
aos Índios, que quando lhes parecia buscavão a paz, se 
achavão com a liberdade rendida; não faltando para tudo 
examinantes, t )dos erão bem mais aceitos, porque é peri- 
goza a fií da ambição, ainda que seja em igreja, e difí- 
cultoza de a deixar de acompanhar a quem atravessa o mar, 
como a experiência mostra . 

E continuando-se assim similhantes tragedias doze annos 
com muita compaixão dos paizanos tementes a Deus, se 
tornarão a animar os oficiaes da camará no anno de 1675, 
prometendo o vereador mais velho Manoel Guedes ÁraYiha, 
capitão-mór, que então havia sido doesta praça, seis centos 
mil réis de sua fazenda, como com efeito logo os deu para 
que as leis de S. M. se guardassem; requerendo ao governa- 
dor lhe fizesse dar cumprimento, pois tão notórias erão as 
injustiças, que se fazião; sobre o que houve vários comtates, 
demonstrações, e papeis assignados por parciaes, pois em 
similhantes termos poderozos nunca faltarão, nem faltou 
pretexto de culpar a dqus oficiaes da camará, não aquelle 



— 30 - 

<j'k; a »ui custa havia feito maior diligencia côm o sobredito 
dispêndio, por que já em outro tempo se havia achado na 
oVce por proeurador* qae saberia dar razão de si ; mas 
d<«3 meoas poderosos, e que menos se tinh&o achado em 
oegDekWy nem visto o reino ; e quando o navio já dava á 
vela, ae achou cada um a bordo, sem mais preparação que 
ffrros noe pés, e chegando assim lá sem culpas, se remete- 
rão outra vez ao governador, para que lhes desse livramento 
conforme a culpa ; o qual não andando aliás mui satisfeito 
ca paixão, com que os havia remetido, estimou muito o su- 
cesBor, e ob deixou ir livres, e izentos para suas cazas, 
com lanto que se dezenganassem, cjmo assim o fizerão ; e 
antes que os dous voltassem, concedeu aos ofíciaes da 
camará, que sucederão, dessem regimento ao cabo da 
escolta, que elle mandava ao certão, dos três pela camará 
propostos, como disp(Se a lei ; o que fizei ão com o zelo, 
que nas republicas sempre se acha, na forma seguinte. 

REGIMENTO 

que dão os oficiaes do senado da camará d'esta cidade 
de Belém ao cabo e capitão Francisco de Mota Falcão. 

1.- 

Ordenamos ao dito cabo so haja com toda a caridade 
com os Índios forros, que vão n^esta tropa, não consentindo 
que por nenhum modo sejão molestados, nem se llies falte 
com o sustento ; e com aplicação dos enfermos mandando- 
lhes administrar os sacramentos, e doutrinar a todos, como 
do missionário e sua virtude esperamos. 

Os resgates dos escravos, que íizor, serão eó os conteúdos 
na lista, de que levai*á o traslado, como também os por 
despaxos verbaes nossos, e não fará outros por nenhum 
cazo, com condição de os ropAr dos que lhe consignarmos 
ao povo; e serão feitos com toda a christandado na forma 
da lei de Sua Magostaclo, quo Douh guardo, da qual levará 
o traslado. 




_ 31 — 

3.» 

As peças que remeter, será cada doas mezes por razão 
dos damnos, que a dilação cauza, e com toda a clareza, por 
se evitarem controvérsias, mandando listas de todas elUs 
para se saberem seus donos. 

Na repartição das ditas peças, preferirão as pessoas de 
>^ maior necessidade, e mais pobreza, viuvas, e órfãos alterna- 

tivamente, conforme a quantidade dos resgastes,que na lista 
vão herdando ; e n'este capitulo esperamos obre com o zelo, 
que nossa eleição espera de seu procedimento e este povo 
tenha que Ibe agradecer. 

Todas as discórdias e vexações, que se achar se tenhão 
feito aos Índios d'aquelles certSes, nossos aliados, nos fará 
avizo, para requerermos o castigo, que convier ao serviço 
do Deus e de Sua Mageistade e bem commun;e lhes mandará 
fazer as praticas necessárias á boa conservação. 

6.- 

Será obrigado a seguir viagem ao rio das Amazonas com 

toda a diligencia, obrando o que lhe encarregamos para lhe 

haver por bOa a data, que lhe consignamos; e tendo que ale- 

^ gar, o fará logo para se rezolver o que mais convier ; aliás não 

será admitido a defeza alguma, sem primeiro repor perdas 
e damnos, que do sobredito rezultarem ; e lhe serão tomadas 
todas as peças para o povo, que se achar prejudicado sem 
embargo de qualquer ordem, privilegio ou izenção em con- 
trario a este nosso regimento, o qual será obrigado a guar- 
dar como n'elle se contem. 

Será obrigado a se recolher com a dita tropa até o mez 
de Outubro para nos dar conta do que obrou conforme os 
resgates, que levar e os que trouxer por fazer, para satis- 
fazerem a seus donos dos que trouxer para si. 



— 32 - 

Todas as peças, que remeter, assim do povo, como suas 
e dos mais particulares, o fará a este senado, para n^elle se 
registrarem, e se darem a seus donos ; e as que em outra 
forma mandar, serão tomadas por perdidas para a fazenda 
real. 

Será obrigado aguardar na repartição d^.s peças assim do 
povo, como suas e dos mais particulares este regimento, e o 
fará a este senado por um termo, que n'esta camará se faz, 
em que se achão prezentes as condições d^elle, e de como 
esteve por tudo, eassignou; de que se lhe dará o traslado. 

10.» 

E por falecimento do dito cabo, o que Deus não permita, o 
missionário^ ethezoureiro da tropa elegerão pessoa suficiente, 
e nâo havendo uniformidade, ambos irão continuando com 
os resgates na fórraa d'este regimento, e com os mesmos 
encargos, não innovaráõ couza alguma, antes logo nos avi< 
zarád, para confirmarmos ou provermos de maneira que 
tenhamos que lhes agradecer, e não que estranhar. 

Não se descuidão as republicas do oficio para que fôrão 
creadas, quando podem ; mas quando mais podem as con- 
veniências, sobrepujão, involvendo-se nas diligencias dos 
menores, de balde se canção estes com as mostrar, sem 
poder para as executar, como sucedeu^ que não satisfeito 
aquelle de fazer com esta capa sua negociação honesta e 
christanmente, mas vendo-se bem sucedido, e as pobres re- 
publicas á sua eleição remetidos, largou as rédeas assim 
á ambição como aos salteadores dos certSes, e continuan- 
do-se assim, com pouca christandade^ indecentes impiedades, 
houve depois governador, que fazendo-se legislador, contra 
a forma das reaes leis, não só tirou toda a faculdade dos 
senadores da camará, mas, dispensando só comsigo, trouxe 
todo o tempo de seu governo pelos certSes pombeiros, fa- 
zendo cravo e escravos, sem missionário, nem cabo nomeado 
pela camará, contra a forma da dita lei ; mas prohibio a 
todos 08 mais, ordenando que nenhuma pessoa passasse do 



- 33 - 

Gurupá para cima, e si alguém passou com cauza urgentC; 
comprando áquella imitaçã j escravos , lh'os fazia confiscar 
para a fazenda real, porque só os seus tivessem logar ; do 
que procedeu mandar em seu tempo Sua Magestade prohi- 
bir o cativeiro de indios do toda a sorte, e porisso no fim 
do seu governo os oílciaes da camará derão esta denuncia por 
seu procurador do conselho, que remeterão á corte, por de 
algum modo verem si podiâo exercitar suas obrigações, mas 
como lá, com a poderoza ida do denunciado, ou da muita 
fazenda, que aos povos havia mal levado, deixou o pro- 
curador da camará de alegar seu direito, dando logar a que 
o denunciante procurador do conselho fosse sentenciado em 
três dobro das custas, e em degredo de quatro annos para 
fora do estado ; e não satisfeita a bem aceita ouzadia, passa 
a procurar cartas firmadas da mão real, para as justiças do 
estado não faltarem a tal execução; cauzas todas de não 
haver já executor, que de lei alguma faça cazo, mas de todo 
se ir precipitando, e tendo só que sentir os povos, de todo 
desanimados, e ainda em seu credito defraudados, pelo que 
assim lhe convém, para qu3 o seu se acredite. Raz5es que 
obrigarão os povos a eleger por seu procurador a Manoel 
Guedes Aranha, para que por esse modo chegue a verdade 
aos ouvidos de Sua Magestade, o qual procurador, ainda que 
já carregado de annos, e com a vontade, com que já em 
outro tempo foi á corte a similhantes negócios, com a mesma 
vai n'esta ocazião â sua custa, sem dispêndio algum do povo, 
como sempre heroicamente soube gastar, não só aquelles 
fieiscentos mil réis em uma ocazião, como por varias e repe- 
tidas vezes dispendeo, e tem dispendido sua fazenda pelo 
serviço de Deus e de seu príncipe, sendo perseguido e 
calumniado, como os mais que pelo mesmo zelo têem pade- 
cido, e continuamente padecem. 

Capaz era o estado do Maranhão de agazalhar muita 
gente pobre, como a experiência mostrou, em quanto os 
conquistadores se puderão ajudar dos muitos índios, que 
havia por seu pagamento, de que procedem as cazas, que hoje 
tem alguma substancia ; porém depois que chegarão impe- 
riaes ambições, não houve mais indio avassalado, que dei- 
xasse de ser perseguido e extinguido, e os dos certoes que 
•deixassem de se retirar; missionário, que deixasse de ter 

TOMO XI.VI, P. I. 4 



— 34 — 

escrúpulo de sel-o ; nem pobre, que deixasse de ser sempre 
pobre como hoje estão, principalmente os cazaes das ilnas^ 
metendo-se familias inteiras por caza dos moradores mais 
antigos, estando todos assim oprimidos, sendo uma das 
cauzas, que estes tiverão, o chegarem ao estado no ultimo 
tempo em que se faziSto resgates pelas camarás, as quaes 
tinhão mandado fazer um par para cada cazal principiar 
a sua vida. Houve governador, que chegando n'aquelle tempo 
fez descer os resgates dos pobres, por empregar, para que só 
os seus tivessem logar sem permitir que mais se fizesse 
nenhum, nem admitir réplica alguma das que por repetidas 
vezes lhe fez a camará ; até que a esta foi necessário 
abaixar os hombros, fazendo conceito de tal rezoluçâo ser 
alguma dispoziçâo real, que não dava menos a entender ; 
o que depois deu bem que notar e sentir, vendo-se a prohi- 
biçào dos pobres rezultar em conveniência própria durante 
todo o seu triennio, ficando assim os mizeraveis sem remédio, 
nem mais se atender a suas queixas e gemidos. Quando 
alguma pobre lhe chegava a pedir alguma esmola, lhe res- 
pondia tivesse a menos paciência que pudesse ; ficando se 
rindo, os circunstantes compungidos, e a pobre voltando e 
enxugando as lagrimas. 

Doesta maneira geralmente, onde reina a cubica, se com- 
padece da piedade ; blazonando aquella , quando se vai 
enxendo, que o estado se vai augmentando; tomando esta 
no mesmo tempo com o sangue do pobre a Deus por testi- 
munha do contrario, porque suposto no delirio d 'esta doença 
se descubrâo veias de augmento, ahi é certo o precipício, 
quando a peste é de cabeças, que a todos os membros faz 
sentir, satisfazendo seus apetites por mão de seu coitado 
corpo ; fazendo instrumento de descréditos, e magoas próprias 
afim de lograr sons intentos, e abono na agua turva, ou per- 
turbação de dezabonos alheios, não havendo pedra, que 
insaciáveis tragedias deixem de arruinar, desfazendo-as e 
arguindO'lhe desluzimentos, porque só luzão as suas ; como 
melhor lhe estiver pintar. Coitada da inocência dos pobres, 
sempre auzentes réos ! 

Correrão as dezordens passadas até o anno de 1681, 
quando, chegando aos ouvidos do Senhor rei Dom Pedro Se- 
gundo, foi servido mandal-as atalhar por lei do !.« de Abril 



— 35 — 

de 1680,prohibindo o cativeiro de indios^nSlo porque deixasse 
de ser justo, como declara por justas razoes de direito nos 
cazos exceptuados na lei de 1655, mas pelo máo modo com 
que sefazião, como a dita lei de 1655 já extranha, e pelo 
excesso com que os ministros, que passa vSo ao estado d 
MaranhâO; procedião n'esta matéria. 

E declara a dita lei de 1680, que, ficando o mais em seu 
vigor, revoga só o cativeiro de indios em todos os cazos, o 
que sucedendo quebral-a alguma pessoa de qualquer quali- 
dade, ou condição que seja, o ouvidor geral a prenda, e 
tenha a bom recado,sem no cazo conceder homenagem,alvará 
de fiança, nem fieis carcereiros ; e com os autos, que proces- 
sar, a remeta ao reino entregue ao capitão ou mestre do pri- 
meiro navio que for, para a entregar no Limoeiro, e ser cas- 
tigada conforme a culpa, e fazendo repor nas aldeias de 
repartição os indios a cima adquiridos. 

Quem deixará de confessar tão justificada rezolução! 
Porem os pobres moradores lamentão o pagarem as ovelhas 
pelos lobos, que, devendo ser exemplares e executores das 
reaes leis, o são só dos ódios, de quem n^ellas lhes fala, fa- 
zendo só de suas conveniências justiça apezar da inocência I 

Por carta de 2á de Dezembro de 1677, á instancia dos 
governadores, manda S. M. á camará do Pará o seguinte : 

Fui informado, que por qualquer levecauza costumáveis 
chamar ao senado os governadores, para lhes propor 
algum negocio ; e que elh:s assim o fazifto, sendo contra a 
autoridade, e regalia d 'este logar, em que reprezentão 
minha pessoa ; e me pareceu ordenar- vos, que vos abste- 
nhaes de similhante excesso, pois as camarás não têem esta 
faculdade, nem nas mais partes ultramarinas ha tal estilo e 
abuzo ; e só tem isto logar, quando houver de se tratar algum 
negocio commun no senado, em que sejão chamados os 
estados ecleziasticos, nobreza e povo ; e então para maior 
autoridade assistirá o governador, não por vosso chamado, 
mas indo elle para melhor acerto do negocio ; e nos mais 
que não fôi^m d'esta qualidade, chamando vos para o meu 
serviço, ireis a sua caza em corpo de camará. 

Não faltão as camarás ao mandado real ; com o que já 
não ha negocio commun, mas tudo édo serviço de S. M.,ou 
com esse pretexto, muitos, e é certo, que para os negócios 



— se- 
que intentayilo os governadores, algumas vezes ião propol-os, 
e celebral-os á camará, mas raríssimas vezes erâo chamados. 
Nas republicas de Itália, e outras partes uza-se irem os go- 
vernadores, e vice-reis ás cazas dos senadores, por não serem 
cazas de nenhum particular, mas deputadas para taes actos ; 
e si os governadores reprez então as pessoas reaes, as repu- 
blicas reprezentão os primeiros governos do mundo ; porém 
doesta ventilação me reporto, tocando-me sempre, como aos 
mais, só obdecer, ainda que assim estejão estas remotidades 
desanimadas e dependentes, sendo uma republica por qual- 
quer pretexto ou acidente chamada a palácio debaixo de um 
corpo de guarda e em uma sala posta em pé.esperando quando 
os <iOvemadores lhes querem falar, e muitas vezes o fazem de 
caminho, depois de larga espera, ou, como já sucedeu, saem 
com um p.'io na mão, postos em fresco, de menores, dizendo 
uma semsaboria, com que voltando se ocazionão varias des- 
confianças, em menos credito de uma parte, e prejuizo de 
ambas ; porqne abjt/satisàbyssuminvocat. Assim sucede a des- 
vanecimentos remotos, tanto que toda a rédea alcanção na mão; 
e quando similhantes consult is chegào a ser de alguma uti- 
lidade é para rezolver vontades,e não para consultar acertos, 
porque para que assim fôs8e,isso seria quando as matérias não 
pedem segredo, e se não dão a gostar primeiro que d'ellas se 
peça rezolução ; confesso da minha parte, que si no mesmo 
tempo em que se propõe ordinariamente me pedem parecer, 
digo uma parvoice, de que depois me arrependo. 

iliste nome de senado, com que S. M. na carta próxima, 
como em outra, honra a seus vassalos, lh'a risca no es- 
tado quem lhe parece, que tanta honra lhe prejudica. 
Também a dita carta, fazendo menção de ajuntamento de 
estado para negócios communs de ecleziasticos, nobreza, e 
povo, é desconsiderada,sendo que no estado se não faz menção 
em similhantes funç5es, mais que de ecleziastico, e nobreza; 
razão porque os povos muitas vezes se achão mal contentes 
e exasperados ; e assim parece se devia fazer nas eleiçSeç 
ao menos misteres, que pudessem reprezentar as necessi- 
dades mais communs, como se diz a Yóz do povo, vóz de 
Deus 1 os quaes nos actos públicos tivessem seu logar su- 
cessivo, como em toda a parte se uza, para o bom governo 
das republicas, e também em muitas^onde bem se governSoi 



— 37 — 

lisfto ficar o vereador mais velho da camará por procurador 
da camará do anno seguinte, e não seria esta praxe de 
pouca utilidade no senado da camará do estado do Ma- 
ranhão, ainda que depois ficassem os taes por seis annos 
izentos de tornar a entrar em pelouro, porque sò assim 
poderiSo uns saber, e seguir o que os outros fizerâo. 

Mas si estes houvessem de fazer seu oficio melhor pa- 
rece o íariâo na caza publica da camará, onde se costumâo 
propor, e rezolver os negócios comims, mandando os iraio- 
res, quando tivessem algum recado, ao procurador da ca- 
mará, que em tnl dia e hora se achasse na caza do senado, e 
08 ofíciaes d'ella, quando lhes sucedesse ó mesmo, mandassem 
• reprezentar ao governador, para que, convindo ao serviço de 
S. M , se quizesse achar prezente. Assim lo.i:rando cada um 
a izençâo do seu oficio, o fizesse sem dependência, e 
ainda seria oeazião esta boa forma de todo o bom termo, 
como as ocaziões permitissem, não sendo a caza do se- 
nado capaz para os graves irem a ella, e não demandando 
junta pelo procurador, ou já por dons oficiaes do senado ; 
e em cazo que a todo o tempo seja necessário constar 
por carta, como os tribunaes e senado uzão, pedindo 
por mercê, e da parte de S. M. requerendo com todo o res- 
peito, por não quererem mandar uns a outros; superioridade, 
que só assenta nos maiores, como juizes das forças, e 
para obrigarem a cada um a fazer o seu oficio, si lhes 
não faltâo ao seu, em que parece razão tivessem tatnbem 
algum constrangimento. 

Ha nas capitães praças das índias de Castela um tri- 
bunal, a que chamão audiência, com poder para conservar 
o geral, e emendar o particular, principalmente corrigindo 
aos que se atrevem a profanar as reacs leis; e assim tem sue - 
dido mandar para Espanha vários governadores emprazados; 
e si estas consultas se não puderão fazer sinão em sua pre- 
zença, mal poderião fazer seu oficio independente, e o que 
é dirigido á conservação do bem commun. Não sei em falta 
do tal tribunal, quem melhor lhe poderia substituir, do que 
um magistrado dos homens bons, escolhido de muitos 
pelos povos, a que costuma presidir um ouvidor ; e assim 
parece o intentava o Senhor rei D. João IV com a carta, que 
fica atraz, si com o encargo se coiisidera alguma faculdade 



— 38 — 

com que pudessem exercitar as leis e direito. Quemadmo- 
dum 8Íne legibus respublica esse non potestj ita leges sine 
magistratihíis inutiles sunt ; equidem nervi, arttis reipubliccs 
illi legum custodes, et mndiceê mérito appeUantur. L. 1 
a § hujus studii a just. et jur. 

Chama o direito ás camarás ou ao senado d'ellas guardas 
e vingadores das leis, por serenu os verdadeiros membros das 
republicas formadas por cidadãos, e bons homens, que os 
povos elegem suas cabeças, para em tudo o que poderem 
ter por oficio melhorar o serviço de Deus, e dos prín- 
cipes e bem commun : sem as taes guardas e leis, é im- 
possível permanecer uma couza sem outra. Logo, menos 
pôde permanecer estado, onde os que havi?[o de ser guardas 
sâo oprimidos, e o mesmo é não haver leiS; que nâo se 
guardarem, ou peior ainda, haver, onde só servem de 
ódio e decompoziçâo das republicas, sem estas poderem 
servir jamais do que de obrigada capa. 

Lastimoza conta parece, e assim se experimenta em par- 
tes remotas de recurso, estarem as republicas, quando intentâo 
algumas das sobreditas couzas de seu oficio, nadepencia de 
quem lhes impeça e dificulte, e ainda as argua de pecado, 
quem trata só de desfrutar o bem, com algum pretexto, sem 
atender ao geral mais importante, sucedendo que hajáo de 
preceder as particulares e artificiozas opozições ás infor- 
mações communs. 

Manifesto é o desvelo, com que S. M. é servido justificar 
seu real zelo pelas melhoras doeste seu estado, e dos pobres 
vassalos, mais desgraçados por serem membros apartados. 
Isto em parte bem se poderia remediar, havendo S. M. por 
bem honral-os com penas maiores, similhantes ás do privi- 
legio sobre dito, mas dobradas pelo crecimento da moeda, e 
remitido do recurso de cada um dos oficiaes da camará, 
contra quem se procedesse, não seria castigado em quanto 
estivesse no lugar o governador, ou quando d*elle sahisse 
durante sua maioria ; mas só se deveria formar culpa por 
autos, e remetei -a para no segundo governo se tomar este 
conhecimento, eoivida a defeza, punir, ou absolver confor- 
me seu merecimento. Convinha também mandar, que no po- 
litico o governador se intrometesse sj em castigar quem não 
fizesse sua obrigação, e como juiz das forças, e dispoziçSes 



— 39 - 

reaes, sendo registadas em camará ; que satisfizesse o que 
por estas lhe fosse requerido, segundo a necessidade do 
estado ; e que lhe tocasse o que pertencesse á fortificação, e 
defeza da terra e provimento das vacaturas^ excepto as das 
camarás, como escrivão, ou outro qualquer seu oficial, os 
quaes serverião por provimento da camará, em falta do real. 

Como também se devia mandar, que nenhum maior, ou mi- 
nistro do supremo logar se banqueteasse, ou compadrasse com 
08 particulares, entrando, nem saindo pelas cazas dos ditos, 
e menos fossem a suas cazas os oficiaes das camarás, parti- 
cularmente emquanto servissem, excepto nas funçSes publi- 
cas, para que assim a justiça pudesse de todo em tudo ser 
independente, e as camarás houvessem de informar bem, e 
verdadeiramente, e não^ como muitas vezes sucede, tanto em 
fraude do credito e prejuizo das republicas. 

E acertado seria, que, depois que acabassem os governa- 
dores, os podessem as partes, que se achassem lezas, de- 
mandar, e executar pelas justiças, na forma da Ordenação, de 
maneira que depois por qualquer provizão particular, ou 
clauzula, como costumão, pudesse esta ser revogada sem 
informação da camará, por ser tão justo, como é, pedir jus- 
tiça ; para que não haja má consciência, que de volta tenha 
certeza de o não poderem de mandar até certa quantia limi- 
tada, como sucede; e para quem tiver maior pleito, esse o vá 
demandar aPortugal. Não digo eu,quepor isso sucederá peior; 
mas coitada da pobreza, a quem tudo se dificulta ^e tudo contra 
ella se arma, e só n ella se exercita; todos serão de mui nobre e 
extremada consciencia,porem excelente couza é a prevenção. 

E melhor si forem capitães-móres, para que cada um go- 
vernasse melhor na sua capitania, e regesse em todo o estado 
como governador aquelle por onde o inimigo picasse, em cazo 
que isto sucedesse. Assim poderião estes ser naturaes, eleitos 
pelas camarás nas faltas de provimentos reaes, quando faltas- 
sem do reino cazados a viver no estado com suas famílias 
(pelo menos para o Pará),como fazem os estrangeiros nas suas 
colónias, ainda que se obrigassem com mais annos e soldo, 
como y. M. fosse servido, e ainda que fôsse de uma esfera, 
quando faltasse de outra. Com isto qualquer conquista pÒde 
melhorar muito, ter portos livres, e os pretos que for possível, 
pois, como Cabo-verdo fica á mão, alguns curiozos haverá 



-do- 
para os trazer, si outras fazendas lhes não fizerem tao ex- 
orbitante conta, ut svpra, sabendo que por pretos sempre 
achão o melhor pagamento, e que prefere na carregaçSa 
quem mais meter. 

Governador tinha o Maranhão, quando o olandez entrou 
e o tomou. Depois os moradores portuguezes largando fa- 
zendas, e suas próprias mulheres, pelas não poderem retirar, 
em poder do inimigo, levantarão capitão mór seu natural, a 
cujo socorro acudio logo a gente do Pará^ e com o custo de 
muitos restaurarão logo a pátria ; porque em fim só os quo 
têem n^ella suas familias e fazendas, as sabem perder, e 
pelas defender vendem as suas próprias vidas com cangue ; 
e os mais tirão-lhe. 

Quando é necessário meter mãos ás armas não faltão 
homens; porem quando os particulares tratão de desfazer 
no geral por acrescentar em si, não ha homens ; mas que 
mostras de seu panno mostrão taes mostras ? Si bem que 
os trabalhos, e climas se mudão, gostos não mudão sangue ; 
e com felicidade se prova serem as conquistas povoadas de 
bôa gente : porque si um humilde mais quer servir a outrem 
na sua pátria, do que atravessar mares, a outros, que são 
honrados, não o permite o seu valor ; porque tanto que 
chegão a ser muitos irmãos, os segundos são os que se achão 
pelo mundo estendidos, ainda que seja ao pé de um páo ; 
e assim se achão quando, é necesario. 

Mas muita graça teve certo sugisito, em dar pontos de se 
augmentar o estado com familias nobres, que para elle se 
mandassem; como si as nobrezas, para o serem, necessi- 
tassem mais que de principio e cabedal, e as familias, que 
trouxessem uma couza, tivessem outra, com que fizessem o 
estado. Não seria máo arbitrio ; porem si o estado lhes 
havia de dar com que prevalecer, mal farião ellas ao estado; 
nem o estado, como elle hoje está, sustentaria essas nobre- 
zas, sem que em breve tempo não fizesse todos uns. 

Ha no Maranhão quantidade de familias descendentes 
dos conquistadores, com cinco e seis filhos, e outras tantas 
filhas sem poderem cazar nenhuma pela sua pobreza, e por 
não terem escravo nem escrava, que é a riqueza do estado ; 
porque as terras sempre sobejão cobertas de matos para quem 
as pôde fabricar^ mas si estes veteranos sabendo as linguas^ 



K\ 



— 41 — 

e sendo filhos de pais e avós, que florescerão em procedimento 
e bens, tornarão a declinar pela mizeria do estado, o que 
haviSo de fazer as nobrezas novatas ? Com tudo si hou- 
vera caminho por terra, muito d'aquella mocidade daria ao 
tempo o que era seu, passando ao Pará, aonde multiplica 
menos a gente do que no Maranhão, clima tão fecundo, que, 
si todos pudessem ter modo de vida, bastaria para povoar 
toda a America. 

Por provizão de 18 de Março de 1 662, manda Sua Ma- 
gestade livrar metade dos direitos, qué é estilo pagarem 
os negros de Angola aos Portuguezes, que os metem no 
estado do Maranhão por serem de mais serviço, que os de 
outras partes. E por provizão de 3 de Março de 1681 de- 
termina, que o cacáo cultivado e baunilhas fossem livres de 
todos os direitos por tempo de seis annos, devendo nos 
quatro annos seguintes pagar metade d'elles, como tam- 
bém não pagarião de cacáo bravo por tempo de 4 annos, 
mais que meios direitos, e o mesmo indulto de cacáo cultiva- 
do concede para as mais drogas novas, que se descobrirem 
no dito estado. 

Por carta de 10 de Abril de 1680, manda Sua Mages- 
tade, que os indios de repartição sirvão somente por tempo 
do dous mezos; ao que quizerão os oficiaes da camará repli- 
car, informando a dificuldade de se poder guardar aquella 
dispozição; porquanto por dous mezes se gastava outro 
tanto em ir e vir ás aldeias afim de revezal-os; e conforme o 
estilo do serviço, para se cortar um canavial, ou outra 
couza similhante, o menos que era necessário erão quatro 
mezes;mas como os minis tros,a quem se fez o requerimento^ 
não tinhão muita experiência das couzas, e as leis se ex- 
ercitão nos povos, nem derão logar ao requerimento, nem 
tal lei se guardou, como nenhuma das mais, ainda que santas 
e justas, sucedendo que quanto mais se replica, e informa 
aos príncipes, tanto mais se dão por melhor servidos para a 
razão do castigo, quando depois quebrão-se as suas leis. 
UM estAdamf 

E,como dizem os padres,só se poderia conseguir esta 
praxe de dous mezes, si nas aldêas se evitassem imperiaes 
vinganças e inquietaçSes, deixando tomar forma alei,paraque 
a tomassem os príncipes, consultados os párocos, mandando 

TOIIO XLVI, p. I. 5 



— 42 — 

á cidade índios^ uns quando fôsse tempo de recolher 
outroB, como assim sucede na Europa com os homens de 
serviço que vão oferecer-se a quem lhes paga. Porém, como 
se nâo acaba de satisfazer o commun com a observância 
das leis, nem por esta cauza com o rei, que esta dispõe, por 
se não poderem nas aldeias de repartição ajuntar nunca 
todos 08 Índios, e como ainda em observar-se a lei suce- 
derá o mesmo á terça partie, que, revezada, efectivamente 
deve acudir ao serviço dos moradores, fica mui fácil esta 
satisfação, scílicet, 

Comp5e-se uma aldeia de trinta índios, tocão dez á terça 
parte, mas não se ach^ na aldeia mais que 23. Podiâo-se 
mandar dos repartidores os três com o rol do pároco, em 
que se declarasse o seguinte : Vão 3 índios e tantos, que levou 
Pedro, ha dous mezes, e João 5 em tal mez, que não vol- 
tarão ainda, os quaes fazem 10, que tocão a tal aldeia pela 
repartição d'ella conforme os róes. Deixando os repartidores 
ficares traslados á margem do livro da consignação dos índios, 
deviâo logo e sempre, mandar os próprios aos maíoraes, 
para os fazerem restituir ás aldeias na forma da lei efectiva- 
mente, não de anno em anno uma vez, como se interpetra, 
mas de dous em dous mezes, ou todas as vezes que uns se 
recolhessem ás aldeias, o era seu logar viessem outros com 
um bilhete d'aquellas e dos auzentes, para que assim se desse 
cumprimento a particula efectiva, ou de quatro em quatro 
mezes, si esperarem, que os vão buscar ás aldeias. Em cada 
anno devia haver uma devassa, mas ordinari amentos e 
falta ao commun com a justiça, dependendo dos particulares 
que só a fazem pelos seus interesses, principalmente os que, 
por tratar d estes, atravessão os mares. Parecia razão, que os 
partidores, s-ndo repúblicos, pudessem, pelos seus juizes or- 
dinários ou ouvidor, obrigar os índios principaes para qual- 
quer justificação, sendo commun, eque despaxassem as con- 
signações do índios em corpo da camará, nas vereações que 
em cada 15 dias se fazem ; ou as fizessem todas as segundas- 
feiras, tendo o procurador, ou o escrivão a seu cargo dar as 
petições, e fazendo-se menção,por termo em livro particular, 
do que se obrasse, e á margem do traslado do rol dos páro- 
cos, a quem o maioral não pudesse negar um sargento, que 
conforme o estilo tivesse aquelle préstimo, pedindo-lh'o os 
repartidores, os quaes, para qualquer augmento publico^ 



— 43 — 

parecia de razAo puderem tirar os indios sem intervenção de 
terceiras partes, e so os que fossem nessarios, entendendo-se 
estes só dos que ficassem depois de tirados os que se ofere- 
cessem e fossem necessários para qualquer dispoziçâo commun, 
sendo justificada primeiro em junta real. 

Por alvará de 31 de Março de 1680 manda Sua Ma- 
gestade, que os governadores do estado do Maranhão, por 
si nem por interposta pessoa, não tenhão commercio, mer- 
cancia, nem cultura alguma, nem possão cobrar dividas 
alheias, nem seus criados por si, nem por procuradores 
substabelecidos, nem mandem do certão buscar drogas ; e 
que governador, bispo, nem outra alguma pessoa possfto 
tomar indios das aldeias, e que somente se sirvão dos que 
lhes forem dados em rep?)rtição ; e que no dito estado se 
cumpra a provizão de 27 de Fevereiro de 1673, passada para 
o Brazil, pela qual é prohibido aos governadores e ministros 
da fazenda, justiça e guerra commerciarem, nem intro- 
metei*em-se em bens, que vão á praça e menos nas rendas 
reaes, ou donativos ^sls camarás, nem descaminhem os direi- 
tos reaes, e que na mesma forma não ponhão preço aos gé- 
neros, nem fretes de navios, os quaes sejão livres ao arbitrio 
e avença das partes, e que, quando se não ajustem no preço 
dos fretes de navios, tomem cada um d^elles seu louvado e 
ambos um terceiro, e o que por elles se ajustar se dê á 
execução inviolavelmente. 

Si o negocio fora licito a maiores, havendo-se-lhes de 
remunerar os gastos dos aprestos, meias annata<3, e o pouco 
soldo, menos mal seria, com tanto que não pudessem meter-se 
nos certões, nem assim prejudicar aos particilares, conce- 
dendo-se-lhes esse direito como gente de razão, e não 
como prodigios. De duobus malis^ miniLa est eligendum. E 
não erão estes os que com o seu negocio fazião tanto dam no 
ao estado, como o fazião os atravessadores d'elle. 

Vem a alguém fazenda, ou um mestre com ella, em que 
ganhão ao menos 300 e 400 por cento ; quer se voItar,ou antes 
d'is60, vão algumas pessoas comprar-lhe, e sem mais risco do 

Íue de uma caza para outra ganhão depois dous ou três dobros, 
lusta uma libra de sene no reino seis e sete tostões, vende-se 
no estado cada onça por dez tostões, quando barato: um cha- 
péo de quatro ou cinco tostões vende-se por três mil e 




— 44 — 

quinhentos réis o menos, como de prezente custâo; e assim o 
maÍ8;de maneira que a um pobre homem é necessário fatigar-se 
toda a vida para se poder guarnecer do que não pôde excuzar; 
razão porque uns não medrão, nem outros, nem sua cobiçarem 
quanto vivem, satisfazem; o que se podia remediar em parte 
com pena á toda pessoa^que tivesse ou trouxesse fazendas, e 
as vendesse por mais de 100 por cento do custo do reino, sendo 
gcnero de que se tirasse o mesmo valor, com que hoje está o 
assucar, e o cacáo; e estatuindo que na mesma forma os com- 
pradores da terra não pudessem comprar partidas nos pri- 
meiros seis mezes das chegadas das fazendas, esó o fizessem 
com licença da camará, para saberem como, e em que, e de- 
pois não pudessem ganhar mais de cincoenta por cento, por 
todos os géneros que cada ura fizesse, sendo bem benefi- 
ciados; com pena de quem o contrario fizesse, pelo pouco 
em que se achasse comprehendido, perder todo o emprego 
para as despezas da camará, e a terça parte para o acuzador. 

São as camarás do estado tão pobríssimas, que para 
qualquer função é nece sario aos oficiaes d^ellas vale- 
rem-se de suas fazendas ; por cuja falta correm seus 
negócios ao dezamparo, sem terem que dar a um procu- 
rador, que apareça na corte ; nem podem ter um medico, ou 
cirurgifto, nem fazem despeza alguma das que é estilo faze- 
rem-se para o bom governo e augmento das terras. 

Ha no estado cravo. Vale uma arroba seis mil reis, de que 
se tirão seis centos reis, direitos reaes : não seria muito tirar- 
se duzentos reis de cada arroba de cravo, e cem reis da 
de caca > para a camará, assim como menor quota, si estas 
arrobas e géneros valessem menos ; a qual consignação, 
como tocasse só ás pessoas, que mandão beneficies ou 
géneros, que ordinariameliie são as que mais podem, sem 
que cada uma tivesse grande ocazião de sentimento, faria o 
commun direito reguengo capaz de fazer acamara poder va- 
ler-se da terça parte para as suas despezas, e das duas partes 
fazer uma propina para o maior, aue governasse, mandando 
o fazendo guardar as leis do estado ; e não o fazendo assim, 
se lhe não dódPc, nem se tirasse a seus donos, mais que com 
réis do cravo, o cincoenta róis do cacáo para as despezas da 
camará ; rostituindo-se o mais a quem se tivesse tirado com 
as penas da lei sobredita aos cidadãos, que o contrario 



— 45 - 

zessem; como também, sendo o maior morador, que como 
08 maiB com a gente de sua caza tratasse do seu grangeio, 
se tirasse só o que tocasse á camará. £ também esta 
podia haver cincoenta réis por cada braça de xao, assim 
do em que estào as cazas feitas, como do devoluto, por serem 
datas das camarás, e parece razão, que as pessoas, que 
hajâo de fazer jornadas do Gurupá para cima do Pará, 
ou de qualquer parte fossem para o rio das Amazonas, nâo 
as pudessem fazer sem licença do maior para registarem 
no Gurupá ; nâo podendo seguir para nenhuma parte com 
Índios forros, sem o cumpra-se da camará para o porem, ou 
deixarem de o fazer, informando conforme melhor conheci- 
mento dos tempos e das couzas, para assim se evitarem as 
dezordens, que sempre se experimentão, com a pena da lei, 
ut supra. Toda a pessoa de qualquer qualidade e condição 
que seja que o contrario fízesse. bem como os oficiaes da fa- 
zenda real fossem obrigados a executar, ut supra, sabendo- 
se quaes os agressores. 

É estilo assistir um capitão por cabo da fortaleza do 
Gurupá^ chave do rio das Amazonas, e das nações dos 
Índios, que ficão fora da repartição, fronteiros ao Cabo do 
Norte, e de cuja conservação depende muito o estado, e dos 
quaes os moradores se servem nas viagens das drogas, que 
vão buscar pelos certÕos ; e assim seria conveniente, que 
seu tratamento fosse como fica dito, pois tanto importa á 
conservação dos naturaes. 

E em quanto ao capitão do Gurupá, sendo escoteiro, e 
comendo praça de el-rei, si não guardasse as leis, teria 
pouca desculpa ; porem si tivesse familia, que começasse 
a povoar aquella praça, havendo-se de desenvolver sem 
forma, como o fazem, e tendo os mais exemplos que imitar, 
melhor parece seria, que se pudesse dispensar com elle : 
com relação aos mais moradore9,o que tocasse á defensa do 
estado, e fortificação, e a tudo mais que pelo contrario se 
fizesse, ou fosse adquirido contra as leis reaes por toda e 
qualquer pessoa, fosse perdido para a real fazenda, sendo 
a terça parte para o denunciante ; e conviria, que seus 
oficiaes tivessem a cargo confiscar com as penas, ut supra. 

Convinha também, que qualquer maior ou pessoa do supre- 
mo logar, que se interessasse em serviços de indios contra a 



r 



— 46 — 

forma das reaes ordens e leis^ ainda que dissesse : Eu darei 
conta a S. M. (como costumão), lh'a fosse dar logo, si ac zo 
não mostrasse expressa ordem, e ficasse desde a hora em que 
isso constasse suspenso de seu cargo ; e os ministros, e ofí- 
ciaes da fazenda, justiça, e gueiTa seriâo obrigados a obede- 
cer ao senado, ou á pessoa, que por este, e a votos dos mais á 
cidadãos, iôsse eleita, em quanto guardasse as leis, e S. M. 
fosse servido, com poder para os poderem emprazar, como 
ser os procuradores dos auzentes pelo capitulo 21 do seu 
regimento, como também tem o mesmo os ouvidores, para 
com os seus juizes da coroa emprazar o bispo ou seu 
vigário geral, porque o maior, que não guarda, nem faz 
guardar as leis, e ordens do seu príncipe, aonde governa, 
é só ocaziâo de que ningem guarde as reaes determinações, 
que elle odeia ; como também não fíca capaz de que se lhe 
guardem as suas ; do que nascem continuas e lamentáveis 
tragedias ; e melhor permaneceria, sendo S. M. servido con- 
ceder esta faculdade, com pena de se haver por mal 
servido, e de em todo o tempo pagarem assim o dito maior 
como 08 ministros e ofíciaes da camará, que em contrario 
incorressem, e por cada um d'elles, o dobro do adquirido 
contra a dita dispozição; de maneira que esta clauzula 
nunca pudesse ser revogada sem informação, ut supra, 
ou como S. M. fôs.e mais servido mandar segurar o do- 
zamparo dos Índios, e podessem os compassivos moradores 
descansar com algum desapego ; do que se espera justiça a 
quem nunca se guardou tanto, quanto os pobres naturaes 
experimentarão o rígor da jurisdição dos maiores, como dos 
menores em-qualquer outra jurisdição, sempre perseguidos 
e atenuados. 

Por provizão de 30 de Abril de 1680 mandou S. M., por 
entender conveniente ao bem publico e conservação do estado 
do Maranhão, que houvesse n'elle cópia de ^ente, de 
que se valhão os moradores, conservando-se não só os indios 
livres, que ha nas aldeias, mas procurando-se augmental^os, 
descendo outros do certão, para que sirvão ao mesmo estado; 
e por sor necessário para isto se conseguir, que se rapartis- 
sem os indios, que de prezente se achassem nas aldeias, 
houve por bem rezolver, que a repartição se faça na forma 
seguinte. 



K 



— 47 — 

Que antes de tudo se reconduzão ás aldeias todos os 
índios livres pertencentes a ellas^e que estiverâo divertidos 
para o que os párocos dem rol dos auzentes ao gover- 
nador, e que logo se faça efectivamente restituir, sem ad- 
mitir requerimento nem replica em contrario, e depois 
de reconduzidos, se saiba pelo rol dos párocos o numer *, 
que ha, dos capazes de serviço, e se dividão em três partes, 
uma que lique sempre nas aldeias alternativamente para 
tratarem das lavouras necessárias para suas famílias, e 
para sustento dos indios, que de novo se reduzirem ; outra 
parte se aplique aos missionários, para a condução dos 
novos indios, que hão de procurar descer. 

£ por que convém ao serviço de Deus, e seu, eatendendo 
a sua real consciência, e justos respeito», que moverão aos 
senhores reis predesces^ores a empregar n'estu ocupação os 
religiozos da companhia de Jezus, por ser conveniente que a 
conversâose faça por uma só religião pelos grandes incon- 
venientes, que a experiência do contrariatem mostrado, 
houve por bem encommendar muito, rogar, e encarregar 
aos ditos religiozos da companhia, que penetrem quanto 
for possível os certSes, para que, aos bárbaros, ainda no 
interior de suas terras, não falte o pasto espiritual ; e que 
para assim o conseguirem, criem subjeitos no estado, tendo 
sempre noviciado com vinte noviços , para cuja susten- 
tação é necessário mandar-lhes consignar suas côngruas no 
Brazil. 

E determina, que quando os ditos missionários forem a al- 
guma parte arriscada, o governador lhes mande dar as 
pessoas de armas, que os taes missionários propuzerem por 
mais convenientes, e que melhor se acommodem com elles, 
e com os indios. 

Por carta de 10 de Abril de 1630 manda S. M., que os 
indios sejão governados pelos seus principaes, e párocos ; 
e que a terça parte dos indios d^ella, a fizesse o prelado de 
Santo António, que é o bispo do logar em que se fizer a re- 
partição e uma pessoa eleita pela camará ; e que o ouvidor 
seja juiz das duvidas que se moverem com os indios, sen- 
tenciando dentro de um mez summariamente sem apelação, 
nem agravo. 

Quem poder& deixar de ponderar os meios, que Sua 



— 48 — 

Magestade é servido mandar excogitar a bem de seuB vas- 
salos, mas ^erap^e desgraçados, havendo sempre o caminho 
costumado, e cada vez peior ; muitas cabeças em um corpo 
pequeno, sem umas o pouparem, nem outras o defenderem. 

A chão os padres, que pouco fruto podem fazer em a gentili- 
dade no espiritual sem o temporal, por assim lhes parecer,qae 
não poderão evitar as injustiças, que se fazem aos menteca- 
ptos; masdificultozaéaempreza,em quanto elles tiverem esse 
oficio, e os súbditos a quem fazer vontadeseimitar. E assim 
justamente é, ) orque nem os padres poderiâo satisfazer as 
vontades de todo8,nem todos os que as tiverem deixaráS de ter 
caza sem pâo,e quem a governa não deixado queixar-se, como 
é estilo antigo; e ainda que não haja sempre razão nos povos 
contra reis e imperadores, tirando estes muitas vezes, e 
pondo quem é senhor das vidas e armas, como logo gente 
desarmada poderá prevalecer, ainv!a que anjos sejão, sem o 
risco de exasperações, com o oficio de que depende o com- 
mun ? Sendo que na verdade em quanto se não encarregão 
os padres mais que do espiritual, estão em uma praxe de exem- 
plarissima quietação, por onde assim sempre poderião con- 
seguir sua emprezae para elles também alguns prós, pois sem 
uma couza mal se pôde conseguir outra n'e8ta nova seara. 

Diga-o qualquer de nós, si algum governador nos man- 
dasse a algum certão para domesticar aquella nação, o que 
haveria mister? Canoas, romeiros, sustentes, pagamentos 
e varias despezas, por não serem taes certSes terras por 
onde se possa caminhar a pé, e a caridade nos igno- 
rantes é tal que alguns por ouvirem missa querem 
pagamento, e si uma função doestas não seria de pouco 
empenho^ quanto mais a quem a haja de continuar ainda 
para a conservação entre elles. O secular o faria com a 
voz do governador, e com o temor ; e aos padres é neces- 
sário obrar com a palavra de Deus e amor, para lhes pes- 
carem as almas, e ganhar-lhes primeiro as vontades, que 
com facilidade se rendem ao interesse, por ser gente po- 
bríssima, o nos considerarem senhores do riquezas, parecen- 
do-lhes que o principal intento do lhos irmos assistir é para 
lhes remediarmos suas faltas ; e não lhos sucedendo assim, 

Í*á vBo desgostozos passando a palavra, — que aqnelle 
Tanco ou padre não presta para nada, o quo exouzado era 



s 



— 49 — 

ir ás suas terras^si éra pobre. Isto vão dizendo nâo bó ob pro- 
pinquos a qualquer cultura, mas ainda os exploradores, que 
dos certões e matos mais incógnitos saem a tomar conheci- 
mento do novo trato para a esse respeito se chegarem, levando 
de volta, para mostrar, as mulheres e filhos, e sinSio nada. 

Mas si a justiça se calar, fizera bem seu oficio, para 
que o ecleziastico descansasse no seu, e com mais quietação 
florescerião dificultozas desigualdades, si se ulo acommo- 
darem quartando-se conforme a conservação de cada um 
do commun e dos poucos Índios, que já ha nas aldeias 
avassaladas da repartição, uzando-se d'elles como dispõe 

dita lei. 

Mas convém, que quando d^essa forma se não ocupem 
em necessidades e utilidades communs e o politico as tiver, 
se possa valer dos índios, ut supra, porque os poucos que ja 
se achão na vizinhança dos Portuguezes, nSo parece seria 
fora da raziio, emquanto se não remediar seu augmento^ 
ocuparem-se nos augmentos communs. 

Pagão 08 Portuguezes, e conservão um soldado toda a vida 
para uma ocazião; e não menos conveniente parece conservar 
o lesto de indios, que hoje ha no estado, assim para alguma 
invazâo inimiga, que se pode oferecer, como para levanta- 
mentos de escravos, si ainda os houver, ou qualquer extrema 
necessidade, e conduções dos certões, quando não tiverem 
americanos tigres, onças, macacos, e outros animaes, que na 
America se achão, sendo os mesmos da Africa; e não sabendo 
nós como cà vierão ter, a não se dar cazo que alguma der- 
rota os trouxesse, nem os naturaes da America mostrão pro- 
ceder de uma só nação, de qualquer das apontadas, ou do 
príncipe Arlante, e seu iimão, como diz a nossa Monarchia 
Luzitana, liv. 1 c. 13. 

Porque n^esses tempos os gentios não estarião confundidos 
com tanta variedade delinguas, e teriao alguma politica da 
muita que tinhão aquellas nações, escrevendo as suas me- 
morias, para se acharem em todo o tempo; o que, si fizessem, 
se acharia, e faria d'ellas menção; porem aos indios 
se lhes não achou escrito algum em páo ou em pedra, que 
mostrasse haver entre elles em algum tempo quem soubesse 
ler, nem escrever; mas tão incapazes e faltos de politica, 
que não sabem c(mtar mais que até trez, e d'ahi para cima 

TOMO XLVI, p« i« 6 



— 50 — 

dizem por seu modo, que é já muita couza ; ou fazem menção 
da quantia pelos dedos das mãos e pés ; e tão alheios de 

»vemo, como si não soubessem , que a um dia se havia 
le seguir outro. Matão um veado, ou qualquer outra caça, 
e comem tudo em um dia, sem saberem guardar nada, e o 
que lhes sobeja despendem, passando depois mezes, e mais 
tempo, só com os seus vinhos ; jejuâo nao por devoção, mas 
remissos, oprimindo de todo o modo a natureza, e pela terra 
(ainda que quente) ser tão humida,que qualquer ferro ou páo 
dentro em caza amanhece molhado, os mizeraveis naturaes, 
por não terem para similhantes ocaziues cobertura alguma, 
se levantão desde a meia noite até pela manhan a fazer 
fogo debaixo da rede, e os que n'ella se descuidão com 
somno, ou preguiça, na saúde o sentem ; do que tudo lhes 
procedem varias e mortaes infirmidades, por viverem em 
tudo sem conta; e as mulheres, quando lhes chegão as dores 
do parto, se vão ao mato ou a agua a parir, e depois 
de se levarem, com a criança recem-nascida, vêem para 
caza. Uzão estes gentios peiores disparidades do que si fossem 
terrestres feras, não lhes faltando juizo para maldades. 

Até aqui me não aparto da doutrina do dito autor, nem 
da Chronica da companhia do Jezus do estado do Brazil 
liv. 1 n. 85 até n. 101, em que só acrescenta alguma curio- 
zidade palpável, mas não conclue com certeza al- 
guma, assim pela variedade dos autores, como pela difi- 
culdade de um novo mundo, achado sem archivos, papei, 
nem tinta, d'onde se pudesse inferir noticia certa: ella estriba 
segundo fundamento na opinião dos filozofos, por não 
serem sujeitos que se ocupassem com metáforas ou nove- 
las, mas só com couzas dignas de muita ponderação, e si os 
dous irmãos fôrão senhores da parte atlântica, que mais se 
vizinhava á Europa do que Ãs ilhas, por essa costa não ha ves- 
tigios, e em algumas se não acharão habitadores, como nas 
mais. Seria, porque o terremoto (como diz Platão) cahio do 
céu tão de repente, que alagou a terra, fazendo-a mar, e 
mal poderião os descuidados (nos altos das ilhas, que sem 
mantimento ficarião, ainda que tudo se não cobrisse) ter 
amparo, que rezistisse á fome dos molhados, sacudidos e 
corridos doeste castigo: razão porque se não poderião extin- 
guir os que se acharão pelas ilhas, que correm pelos mares 



V 



i 



— si- 
da zona do meio-dia, que correspondem a Africa tórrida^ 
pois de comer lhes não podia faltar, em consequência do 
tributo, que tal gente costuma dar aos mais iracos, e aos 
de mais força, ainda que sem necessidade, e melhor quando 
a tivessem então por seu regalo, que se mergufharião 
melhor, como aquelles mares quentes lhes permitem, e eiles 
costumão, e assim os Europêos no mar. como os que se 
achão em terra entre elles, despem^se quando chove, e es- 
tão à chuva nus, até passar o couro, e depois se tomão a 
vestir . Mas assim indios como pretos me obrigão a acommo- 
dar-me em parte com a segunda e sexta opinião, não por des- 
cendentes das tribus, nem de Ofrir, neto de Heber, ó primeiro 
que deu adoração a Deus, por que não me persuado, que lhe 
quizesse nosso Senhortão pouco, que dezamparasse tanto sua 
descendência, que, sendo homens, pareção brutos nas obras. 

De mais o estreito de Magalhães^ que divide a Ame- 
rica da Terra-queimada, é pequeno; mas bem poderião pas- 
sar ao reino de Chile e Peru e correrem pelas índias oci- 
dentaes, e toda a America ; mas para da oriental passar á 
Queimada é toda a dificuldade, porque suposto corra para 
o oriente como timbre da America no coração domar em 
seu centro, acaba sem chegar á terra firme, como testimu- 
nhão aquelles mares hoje tão sulcados, assim dos Espanhóes 
da Nova-Espanha, que ao sul da America navegão para Fili- 
pinas por leste da Queimada, como dos Portuguezes e outros 
que a leste navegão para a índia, e deixando a dita terra 
em meio, depois, discorrendo por aquelles mares, se encontrão 
todos em varias conquistas das Molucas e na cidade de Ma- 
nilha, metropolitana das Filipinas, onde ordinariamente vão 
da índia os Poi*tuguezes a seus negócios, Chinezes, Japões 
e todo o oriente, sem mais encontrarem com tal terra, si 
por algum estreito a não cortão. 

E das tribus, que os Judeus divulgarão por perdidas, 
consta só serem por seus pecados cativas e divididas as 
do reino de Israel pelos Assírios em Ninive, e as de Judá 
em Babilónia por Nabucodonozor, d^onde todos fôrão resti- 
tuídos á terra da promissão, como havia profetizado Eze- 
chiei c&p. 37 vers. 22, e a profecia de Esdras atraz apon- 
tada nol-o diz: Unusque regionem suam, e não significa 
perdição. Mas si esse conceito se faz dos indios por suas 



\ 



— 52 — 

inclinações traidores, medrozos, cobardes, e supersticiozos, 
tomando por suas mulheres as cunhadas, que ficâo vivas e 
viuvas,e aos que por mais graves parentes nao matSo em 
vida,queimão na morte e bobem -lhe as cinzas por exéquias; 
tudo o que podem fazer às avessas não fazem ás direitas, 
como si varrem as cazas da porta para dentro não se abaixSo 
para apanhar com as mãos o que podem levantar com os 
dedos dos pés, e algumas palavras que têem, chamando a 
chuva maná, quando se despedem para Gericó, que quer 
dizer — vou-me, tudo bem combinado das ditas opiniSes, 
ainda as3Ím eu dicera, que da mesma maneira que toda a 
Azia e Africa recolhem muitas nações em si, assim dicera 
também, que da mesma maneira poderião passar-se á Ame- 
rica todas aa apontadas nas opiniões afraz, e n'ella viverão, 
quando existia a Atlântida. Mas os indios, que proxima- 
mente se acharão na America, são tão similhantes aos pre- 
tos de Africa era ritos, costumes, e exercicios, como 
si estas duas nações fossem uma; salvo todavia tra- 
zerem seu principio da primeira propairaçiío do mundo e da 
escoria d'elle ; e como seja de fé, que pretos, tribus e indios 
todos descendem de uma parte, ainda que uns já fossem 
escravos e outros senhores, e também que h( uve a divizão 
das Inguas, assim o admitimos; si assim se começou o 
mundo, ut supra] porquo si aquella maldição foi dispozi- 
ção divina, se acha ao pé da letra cumprida assim nos indios^ 
como nos pretos. Quem entre elles é valente, esse é senhor, e 
quem é mais fraco, ó escravo, e muitos escravos de escravos. 

Começou-se a repovoar por aquella parte da Azia menor, 
o mundo de Noé; e seus três filhos Sem,Cam e Jafet, depois 
de multiplicarem com suas familias juntos em a memorá- 
vel Babilónia, se dividirão, indo cada um pelo mundo com 
os seus. Genes. cap. 110. 

Sem se apoderou da Azia, e d'elle procedem as nações 
orientaes, e os Hebreus, tomando o nome de Heber : Jafet 
se apartou para a Europa, de quem procedem as nações 
d'ella, e Cam para Africa, de cuja familia se povoarão os 
seus contornos, como refere Torentilho no discurso uni- 
versal, em a segunda idade . E povoadas as trez partes, de 
alguma d^ellas vierão os indios para a America, quarta 
parte do mundo, que se achou no coração do mar. 



— 53 ~ 

Da Azia menor se mete a Africa em meio, e da maior 
grande distancia de mar ; e suposto d^ella poderiSo passar 
ás Filipinas, para d^ellas se poderem passar á America, é 
necessário gente muito perita na arte marítima para vencer 
as dificuldades d'aquella muita distancia do rígorozo golfo, e 
maior dificuldade dos Jap5es ; nem por aquellas partes da 
índia se acharão vestígios de gento tão barbara, de que os 
Índios procedessem. 

Na Europa é a Irlanda a parte que mais se avizinha da 
America, mas com muita disitancia de arriscados mares, 
por onde também se não acharão vestígios, de que pre- 
cedesse gente de tão pouca razão ; antes, si la acharão 
algumas, como dizem, ou é que aquellas ilhas do norto 
fôrão contiguas á America, quando existio a Atlântida ou 
seria dos que se despenhassem da estrema de Guiné, como 
nas Canárias se acuarão outras, de que hoio procedem 
algumas familias de gente severa, a quem chamão Guan- 
xes. 

E si pelos mares, que estão descobertos, rodearmos a 
terra firme, que das primeiras trez partes do mundo se po- 
voarão e sabemos,que estão unidas a Africa, Azia e Europa, 
buscando também por onde se lhe possa unir a America, 
quarta parte e chegarmos pelo norte aos mares dos Mosco- 
vita8,que contestão com os Tartaros,e pelo oriente aos Ohi- 
nezes, que com os mesmos Tártaros contestão ; e a estes per- 
guntarmo8,BÍ na Azia a Tartaria vai contestar com a America, 
que corre ao norte, ou pelo sul, rodeia tanto a Terra*quei- 
mada ou a mesma Àmerica,por aquella parte incógnita, como 
escrevem alguns autores, que os insulanos japões lhe correm 
da parte de leste, de que ha poucos conhecimentos pela terri- 
bilidade d'aquelles mares, e pela sua firieza inabitavel; e si 
por alguma ou por ambas as partes se vai a terra da America 
fazer contigua á Tartaria, por onde algumas podessem correr 
para a America do meio-dia, de que procedem os indios ; 
responder-noS'ão os Tártaros, que tal gente não pode proce- 
der doestes; porque, suposto que bárbaros, não o são tanto 
que se deixassem cativar e comer uns aos outros, porque 
ainda assim para aquella ruim parte propagou melhor irman • 
dade, enem seria possível dar volta por climas tão desabridos 
gente de tão pouca prevenção. 





— 54 — 

Da parte de oeste, clima ínabitavel de terra incógnita, 
ou mares innavegaveis, norte e sul o que fíca dito; e só da 
parte do leste corre a costa d'Africa pela zona tórrida, 
desde o Cabo-branco até a costa de Moçambique, parelha 
com a dita America, e Terra-queimada, com ventos, e 
aguas, e climas tSU) favoráveis, como se requeria para tal 
gente, de maneira que não avizinhando de mais perto, 
ainda assim, com vinte dias de bom sucesso, podião de 
qualquer ponto de uma costa, de que despegassem, aportar na 
outra, isto é, da de Guiné na da America que corre para o 
norte de Angola,eda de Moçambique na Queimada; por onde 
ambas estas partes do mundo mostrão terem dado em algum 
tempo as mãos uma a outra, como declara Platão, e o dizem 
os mais iilozoibs. Indicio d'isso são as ilhas, que pelos meios 
d^aquelles mares achamos povoadas de pretos, sem em 
nenhum tempo constar por ellas derrota algunm, como ha 
de umas, ou de qualquer das apontadas, ou de outra simi- 
Ihante, que por ali aportasse, e deitasse aquella gente. 

Porquanto fazendo os homens memoria das eouzas do 
mundo, depois que n'elle se começarão a entender por 
seus caracteres em pedras e taboa -, até virem ao papel, 
nunca houve quem de vista desse noticia de taos ilhas, nem 
da zona tórrida, mas só por fé os matemáticos mencionão, 
tendo por impossível o ser habitadas ; e só por navegar 
por altura se descobrirão, depois que se principiou o desco- 
brimento da índia pelos Portuguezes. de quem aprenderão 
as mais nações. Logo como a nação dos pretos, sendo a mais 
barbara, se achou já n'aquelle tempo habitando por todas 
estas ilhas d'esse mar zonido, que fica em meio da Ame- 
rica, e Africa tórrida, mas tão amaradas que muitos 
pilotos hoje, pa.tindo da terra em sua de manda, as errão ? 

E o certo é, que só gente, que não tem lei com seu 
pai, nem sabe dar quartel, podia obrigar aos mais fracos 
e de menos condição por já não acharem terra para onde 
se retirar, a irem buscal-a por esses mares, bem como a 
viver, ou morrer por não dar gosto a seus inimigos, como 
sucede muitas vezes uinda em gente boa. E nota-se, que os 
Índios são tão exasperados, que quando os conquistávamos, 
fazendo-se alguns fortes em algumas cazas, não aproveitavão 
boas praticas de que rendendo-sc os não havíamos de matar 



S 



— 55 — 

a sangue frio, nem comer, e outras similhantes, e como não 
bastasse nada, largando-lhes fogo ás cazas, para que saindo 
d^ellas os apanhássemos, se deixáv^o antes muitos abrazar e 
fazer em cinzas, pegados uns de outros, do que render-se, 
constando-lhes alias o nosso bom trato. 

E si as aldeias do Maranhão tivessem logo de principio 
senhorio, a quem pertencesse sua defeza, não terião levado 
tanto descaminho ao desamparo, e mui diferente se acharia 
hoje o estado para rezistir a qualquer futuro contigente. 

Quizerão alguns dos primeiros conquistadores tratar de 
algumas administrações, ainda de aldeias pacificas sem 
forma ; porém como os pobres moradores tiverão sempre 
quem só tratasse de oprimil-os, como hoje se uza, por 
cada um melhorar seu partido, impôs sibilitou-se o commun, 
sendo que é o mesmo enfraquecer os moradores, que pôr 
o estado em precipicio. Assim com o pretexto doesta 
e d^aquella falta, que provera a Deus as não houvera no 
mundo, pois não veio o nosso Redemptor a elle debalde, 
fôrão os moradores constrangidos a largar as administrações 
para as aldeias dos mais livres ; e em logar de irem ellas em 
crescimento, fôrão a menos ; e tudo está reduzido em nada, 
como caza sem dono, e sem ocazião de viver o zelo publico, 
que antes está em uma continua moléstia, e os padres contra 
si levantão muito ódio, quando cuidão em amparal-as. 

Nem os moradores terião necessidade de se fatigar muito 
com elles, si não se houvessem muito empenhado na com- 
pra, em que gastavão todos os seus cabedaes ; aquelles que 
fazião duzentos mil réis, si assim fizerão somente com cem 
mil réis, serião mais ricos, tendo mais descanso, e o mesmo 
podião dar á sua gente . 

E suposto que n'aquelle8 primeiros tempos havião mu- 
lheres brancas e homens soldados, que não deixarião de dar 
alguma ocazião lasciva, muito fará hoje qualquer pessoa 
em tratar de sua familia; e para os filhos já se ensinão 
faculdades, gramática o outros divertimentos, em que se 
crião com diferente doutrina da primeira conquista. Mas 
raras vezes se acha quem atenda pelo bem commun ! Como 
este não prevalece aos mais, que particular poderá prevale- 
cer ? Pois dÍ88Ípando-se aquelle, quando se não podem 
enclaustrar as gentes, se destroe uma couza sem remediar. 



Sà 



^ 56 — 

porque para ofender a Deus, em toda a parte se acha ocaziZo, 
e mais próxima na pobreza ; pois assim como esta faz vileza, 
uma couza com outra faz de todo perder o pejo ; e só ao ter 
andSo mui annexos os brios, vergonha e estimação; por isso 
ninguém duvida que padece peior creaçSo a pobreza, do 
que a riqueza; e como esta no estado só se entende em 
haver gentes de serviço, si estas fossem tiradas dos matos, 
e descidas á custa dos particulares, os missionários deze- 
jozos dos bens das almas, ali parece as achariSo com mais 
socego, do que a experiência tem mostrado, e a menos 
custo, do que por seus incógnitos e infinitos bosques difi- 
cultozissimos e impossiveis de penetrar, por onde vivem e 
morrem sem remédio algum de suas almas,pois impossível será 
chegar-lhes nunca por suas dihitadissimas profundidades. 

Entre agente politica pouca se acha, que deixe de conhecer 
senhorio, trabalhando com uma mão para este, e com a outra 
para si; e nSo sei, que os indios tennão por si maii razão, 
parecendo mais forçoza a do agradecimento de os polir- 
mos ao nosso trato para viverem em o conhecimento do 
bem, que ignorSo, sendo ao demais indecizos e tão alheios 
da razão, que o senhorio de taes vassallos parecerá mais 
escravo que senhor, por suas mízerias ; mas assim como 
não ha nenhum que reze de sua devoção, mais que em- 
quanto lhe fazem repetir o que lhe ensinão, da mesma 
maneira 6 necessário, para fazerem alguma couza, estar-se- 
Ihe sempre apontando com o dedo, assim e assim, e sinão, 
nada fazem, que se lhes agradeça ; gente sem consciência, 
vergonha, nem consideração ; nem ha e: tre elles quem 
se aplique a oficina alguma, nem a querem saber, e siquer 
para se cobrir tecer um palmo de panno por sua virtude : 
excepto constrangidos da industria dos brancos, para depois 
com elles repartir e remediar os que para si não querem 
prestar, o monos para ninguém, sem queimação de sangue, 
por mais domésticos, antigoa, nascidos e creados, que 
sojão com os brancos, em cuja companhia ainda assim se 
acuKo muitos extremos com melhor fruto que nos matos. 

Não ha muitos tempos, que, comprando eu uma india 
do Kío-negro, acima de Aveça, trouxe ella comsigo uma 
filhinha, que era poucos tempos aprendeu a língua geral, e a 
«nsinou a míli, a qual adoocoudo, o chamando-se-lhe confes- 





— 57 — 

sor, o padre Gaspar Martins, da oompanhia de Jezus, tanto 
que a enferma o vio, de triste que estava S3 alegrou, 
cliamando-o e confessando-se com tanta satisfação, que a 
padre se foi, dizendo níio era doença de perigo ; mas tanto 
que se despedio, logo a innocente expirou com tâo bôa 
morte, que assim Deus m'a dê, quando for servido por 
destinação,porque o confessor, que ainda ia perto, ficou com 
edificação admirado. Adoecendo mais proximamente um 
Índio de maior e diferente nação, que^po/ haver poucos annos 
tinha vindo do certão, e não saber ainda bem a lingua geral, 
não estava instruido nem baptizado, mas como parece vivia 
já com. o dezejo do exemplo, que entre nós via professar, per- 
guntando-se-lhe no artigo da morte, si queria morrer bap- 
tizado para ir gozar da bemaventurança? respondeu por 
seu modo, que sim, com tanto afecto que, até dar a alma a 
Deus, não cessou de dizer sempre — sim, sim, Jezus, sim. 
Bem alheios d'este bem vivem os mizeraveis por suas 
terras, tanto que antes la querem ser comidos uns pelos 
outros, do que serem por nós resgatados; como aconteceu em 
uma ocazião, em que achando os Portuguezes no certão uma 
escrava folgando com seus senhores, filhos de um principal, 
equerendo-a comprar, duvidou o principarvendel-a, dizendo 
estava dedicada para uma festa dos ditos seus filhos; e sendo 

f)elos brancos instada e convencida, a ultima duvida foi, que 
he perguntarão os brancos, si queria, que a comprassem ? 
Respondeu, que antes queria ser sepultada no ventre de 
seus senhores, a quem amava muito por se haver com elles 
criado: 

E achando em outra ocazião uma india amarrada a um 
esteio, e os naturaes em beberroniaparaa matarem, fazendo 
o seu baile, como elles costumão, assim chegavão a ella 
bebendo, e dansando, e a convidavão, e eutão ella tam- 
bém bebia; e voltando elles, ficava ella batendo com os pés, 
e fazendo sua menção para si e cantando com voz sub- 
missa. 

Tratarão os brancos de a contratar com os principaes, 
tendo por sorte haverem chegado n'aquelle tempo, por ata- 
lhar o maleficio, que com dificuldade conseguirão ; mas tanto 
que a moça o soube, vendo que a dezamarravão, voltou o 
contentamento em lagrimas, mostrando que queria antes 

TOMO XLVI P. 1. 7 



► 




— 58 — 

morrer, e deixar nome em tão celebrada festa, do que ser 
escrava dos brancos. 

Porem si esses selvagens, alem das suas barbaridades, não 
sabem, si nós os comemos, nem também o que perdem ou ga- 
nhão em mudar de senhores, de terras e lei, do que tudo 
entre nós o tempo os desengana, e si depois sabendo já todos 
imia língua, tendo avista os oficies divinos, e os nossos exem- 
plos, onde jâ terão menos desculpa, não tratão de sua sal- 
vação , parece ser a sua razão sem razSes, e deve a nossa 
passar a melhores consequências para elles piedozas, e para 
nós. Ainda que a isso nos leve algum interesse de se remediar 
este e aquelle, não parece grande erro, mas tudo virtude, em 
terra onde se não pôde viver sem OBnaturaes,nem o estado ter 
missionários sem seculares, para os poderem salvar sem nós. 

Mas para que tudo melhor se lograsse, se poderião fazer 
os descimentes nos mezes do outono, quando a mãi do rio 
das Amazonas, com os muitos que n'elle se despenhão, con- 
tentando-se com seus nascimentos, dão logar ás praias, e 
permite que canoas por cima das aguas se extendão com 
variedade de pescado, e tartarugas, que em Setembro 
coméção a desovar, e em Janeiro se achão mais filhos, ou 
ovos, como 08 de galinha, e deita uma tartaruga 70, ou 80 
e mais ovos. 

Em uma ocazião, andava eu em uma tropa, de que 
era cabo António Arnau Villela, que no certão dos .... 
ficou morto com dez homens brancos e cento e tantos 
Índios nossos coiTipanheiros por uma traição, que nos armou o 
gentio. Os selvagens dividirão-nos,dizendo tinhão uma aldeia 
de escravos apozentados, que nos querião dar, mas que lhes 
era necessário ajuda de nossas armas; e levando quinze sol- 
dados com cento e tantos indios, os fôrão de noite encami- 
nhando a uma emboscada, aonde derão ao romper da manhan 
no arraial como de paz, e oferecerão a vender umas indias, 
que trazião amarradas com uns fios podres, as quaes pelo 
trato bem mos travão ser suas próprias mulheres, mas não se 
raparou, sinão quando ellas com elles fôrão fugindo, dei- 
xando o cabo já com a cabeça quebrada, e ofendendo ou- 
tras pessoas, que n*aquelle primeiro descarregar com seus 
páos de jucá achárào descuidadas das armas, porém nós 
d^ellas nos valemos e lhe fizemos ainda alguma perda, com 




\ 



\ 



— 59 — 

que se retirarão. Retíramos-nos também ainda da sua fle- 
xaría ervada, de que poucos feridos escaparão, recolhendo 
também alguns, dos que tinhão ido ao mato, e ficarão fora 
da emboscada^ e fora das armas de seus páos. 

Descendo n^aquella ocazião da ilha da Madeira a tropa 
incorporada, ainda toda, com cerca de mil pessoas, em vinte 
e tantas canoas com 16 Índios romeiros, quatro índios cavai- 
leiros, e outros tantos brancos em cada canoa, fora a escra- 
varia que todos trazião, e aportando ante manhan em uma 
praia, que teria 3 quartos de légua em redondo, estava toda 
tão coberta de tartarugas, que se debandarão brancoi e negros 
virando-as de costas, que é o estilo com que se prendem, 
por se não poderem tomar a virar, matando muita quanti- 
dade não só para se comer, e para matalotage de que as can- 
nôas se carregarão, mas também para se fazerem muitas 
manteigas das banhas, como se uza. Pelas dez horas, 
deixamos a praia tão brilhante, e coberta de tartarugas, 
como si nenhuma se lhe houvesse tirado, andando ellas tão 
embebidas no cuidado de fazer covas com as mãos, para 
sepultar os ovos, que nenhum cazo fazião de toda aquella 
gente, que por entre ellas andava escolhendo, e matando; 
sendo que aonde andão muito corridas, como nos rios vi- 
zinhos do Pará, onde os moradores se vão, ou mandão apro- 
veitar d'aquellas arribaçSes,8ão tão advertidas, que,quando 
querem sahir, deitão primeiro duas, ou três a correr o campo, 
e sentindo estas qualquer rumor,se tornão a recolher a agua, 
e nenhuma das mais sae n'aquella noite. E' de notar o tempo 
que aquelles animaes estão sem comer, nem beber, vivendo 
em caza de quem as traz por cinco ou seis mezes ; e os ja- 
botins, que teêm o mesmo feitio de c&gado, vivem um anno. 

Cada tartaruga péza duas arrobas, e algumas mais ; 
carne como carneiro, de que se fazem variedade de gui- 
zados, mas por peixe se comem, e também os jabotins, 
ainda que é caça do mato ; o figado é melhor que o das 
caças, que se tem achado; e também os das tartarugas não 
são máos, ainda que d'elles se não faz tanta estimação. 

Porem sendo este o tempo em que se devião fazer as jor- 
nadas de conduções pelo rio das Amazonas, não davão 
repetidas ambições logar a esperar monção, porque todo o 
tempo lhe parece pouco ; sendo que no inverno são aquellas 



k. 



— 60 ~ 

jornadas matadoras, assim pelo ruim tempo, e pouco sus- 
tento> que então se acha. como pelo agua que então se 
bebe turva das terras, que as enxentes vão quebrando, re- 
volvendo, e alimpando os lagos e matos, que vem batendo, 
d 'onde saem nuvens de pragas a beber o sangue da 
gente, de dia moscas infinitas, e de noite mosquitos sem 
conta ; e taes são que, por melhor que uma pessoa se cubra^ 
tudo passão por chegar ao couro e carne, que atravessão 
sem dar logar a que se possa dormir : por isso os pobres 
Índios romeiros fazem a taes viagens a mais descoberta bar- 
reira, e suposto adoecem brancos e negros, doestes morrem 
mais, tantos quanto com maior diferença lhes custa. 

Mas muito sadio é o rio n^aquelle tempo, quando as aguas 
correm retiradas de toda a praga ; então as praias estão 
apuradas, e providas de todo o bom agazalho, em cinco me- 
zes de bôa monção. Si se subisse pelo natal, e descesse de 
Setembro por diante, sorveria de recreação o que servia de 
ruina ; e tudo assim aproveitaria mediante o Creador, cui 
lau8 9%t virginiquií matri. ('] 



(1) Este manuBcrito, oferecido ao Instituto histórico pelo Sr. Dr. An- 
tónio Henriques Leal, foi copiado de diversos manuscritos sob o titulo 
Obras de vários autores, existentes na biblioteca publica de Lisboa. 

N. DA R. 



k 




OBSERVAÇÕES METEOROLOWS 

FEITAS NA 

TIIXA DO RECIFE DE PEBMitMBUCO 

NOS ANNOS DE 1808, 1809 e 1810 

POR 

ANTÓNIO BERNARDINO PEREIRA DO LAGO 

Sargento-mór do real corpo de eoRenheiros, 

empregado na capitania de PernaniDiico, e n*ella correspondente 

do real archivo militar do Rio de Janeiro. 



Nisi utile est quod facimus stulta est gloria. 



INTRODUÇÃO 

Estas observações meteorológicas, que principiei para 
minha particular instrução, as quaes por serem as primeiras 
e até hoje únicas n'esta capitania, e me parecer d'ella8 se 
poderia colher alguma utilidade, tenho a honra de apre- 
zentar, fôrão começadas achando-se o barómetro e termó- 
metro coUocados em 24 pés e õ polegadas sobre o nivel do 
mar em uma camará com a porta para leste, isto até 
Abril de 1810, e d'ahi para diante, mudando de habitação, 
fôrfto collocados em 34 pés e 8 polegadas sobre o nivel do 
mar em uma camará cem duas janelas para o sul. 

O barómetro é da construção de Nosseda em Pariz, sem 
ter nem aqui haver outro com que possa comparar os resul- 
tados do meu ; a sua graduação é de polegadas e linhas, que 
eu para mais exactidão devidi em décimos. 

O termómetro é do mesmo e tem as graduações da escala 
de Reaumur e Fahrenheit. Muitos fizicos, e principalmente 
os francezes, uzão da escala de Reaumur, porem éhoje ado- 
tado como maia exacto o methodo de Fahrenheit por todos os 



— 62 — 

£ôcas ínglezeB^ o qual segai^ ficando bem fácil com pequeno 
calculo reduzir os gráos de nma escala aos da outra. 

Xâo tÍTe atenção em particular aos ventos, como conheço 
yeruk bom, por que também a nâo podia ter á secura e hu- 
midade da atmosfera, nem ao total das chuvas por me 
faltarem um hygrometro, e mais instrumentos próprios com 
os quaes. logo que os tenha, acrescentarei as minhas obser- 
Taç5e& diárias. 

Comecei observando oito vezes no dia, porem alterei este 
plano por ver a pequena variação, que mostrava o baró- 
metro: o que se deve atribuir a estarmos aqui debaixo 
da zona tórrida, (a) e me contentei em diariamente fazer 
três observações, primeira de manhan, segunda de tarde, 
e terceira de noite, tomando por manhan o es ; aço desde 
o principio do crepúsculo até ao meio dia, por tarde desde 
o meio dia até ao fim do crepúsculo, e por noite o resto até 
á meia noite. 

O anno de 1808 foi observado seguidamente ; o de 1809 
foi 8Ó até Outubro; o de 1810 teve a interrupção até Maio, 
d'onde continuilo as observações. Mostrarei primeiramente 
os rezultados doestes trez annos, depois farei uma breve 
comparação entre o maior calor observado aqui n estes trez 
annos e o de Lisboa e Rio de Janeiro, comparando igual- 
mente as elevações do barómetro, guiado pelas observações 
meteorológicas, que tenho podido alcançar feitas n^aquellas 
cidades. 

N^estes trez annos o maior calor observado no termómetro 
de Fahrenheit foi sempre de 8i", e o menor 75*», este só 
nos annos de 1808, e 1809, pois no de 1810 nunca mostrou 
menos de 76^. Entre os maiores termos de calor de cada um 
d'estes annos não houve diferença; nos menores houve*a de 
P. A diferença do maior ao menor calor n'estes trez annos 
foi de 9». 

A maior elevação no barómetro foi de 28 P. 5 L. 2 D., 
esta só no anno de 1808, e nos seguintes foi de 28 P. 4 L. 

A menor elevação foi 27 P. 9 L., esta só no anno de 1808| 
e é de notar, que nos seguintes annos foi descendo cada vez 
menos, no de 1809 a 27 P. 11 L., no de 1810 só a 28 P. 1l. 



(a) M. Bossut, Trat. de Hydrodinamica g 102. 



K 



— 63 — 

 diferença n^estes trez annos da máxima á minima 
altura no barómetro foi de 8 L. 3 D. 

Também expuz muitas vezes o termómetro em dias 
claros aos raios directos do sol^ e o mais que indicou foi 
de 126^ 

O anno de 1808 foi de muita chuva, e muito abundante 
de mandioca ; a colheita em geral de grSo foi bôa, a pro* 
duçâo do gado multiplicada, e a sua creaçâo feliz : não prós- 
perou assim a plantação de cannas de assucar.pois segundo 
consta da inspecção entrarão n'esse anno n'esta praça 4.271 
caixas ; também não foi grande a abundância de algodão, 
de que só entrarão 26.877 sacas. O caracter do anno foi 
mais doentio que o passado, e grassarão por quazi todas 
as pessoas umas febres do género das remitentes, porém 
benignas, que por qualquer modo tratadas cedião com- 
pletamente e sem recahidas, sendo a sua duração de trez 
a quatro dias, e muito poucas pes^foas d'ellas morrrêão. No 
anno de 1809 já diminuio a quantidade de chuva, e hou verão 
trovoadas correndo do sudeste para o norte, as quaes são 
raras n^este paiz ; a fertilidade foi menor que a do anno 
antecedente,mas em assucar foi a maior, pois entrarão n'esta 
praça 12.801 caixas ; (6) a cultura do algodão foi também 
muito boa, que produzio, segundo a entrada, 47 .012 sacas. 

O anno de 1810 foi muito quente, seco e alguma couza 
estéril; chegarão a diminuir alguns rios, e a estancar algumas 
fontes no sertão, o que obrigou familias a mudar de habi- 
tação. O caracter d'este anno foi sadio, e é experiência 
feita, que n^este paiz a saúde é na razão inversa da muita 
chuva, ao mesmo passo que na razão directa d'esta cresce a 
fertilidade e abundância. A produção do assucar foi bôa, e 
chegou a 9.840 caixas ; porém a do algodão excedeu á 
de todos os annos antecedentes, e foi de 50.103 sacas, (c) 

. (b) Esta conta é verdadeira por ser tirada dos livros da inspeção; to- 
davia não a podemos dar por exacta nem relativamente & produção em 
geral, por não poder entrar em somma o assucar,qae se consome em dis- 
tilações, nem a produção particular do anno de 1809, porque muitaa 
caixas ficarão da safra passada, que os lavradores conduzião n^esteanno 
por convidar melhor a exportação. 

(c) É precizo advertir, que a iroduçâo de assucar a algodão, de oue 
falamos, não ô assim mesmo a de toda a capitania, porque as safras dos 
engenhos da villa das Alagoas até a margem do no d^^ São-Francisco, 
quazi todos, assim como o algodão plantado para aquellas partes não 



— 6* — 

Nota -se n^estes dous últimos annos^ que os grandes ventos, 
costumados a vir em Agosto, ventárão em Julho chovendo 
em Agosto, o que era costume suceder em Setembro, pois 
sempre erão as chuvas immediatas aos grandes ventos, o 
que bem se conforma com o que diz Fabre no seu « Ensaio 
sobre a teoria das torrentes e dos rios. (d). 

Comparado agora estas observações com as de Lisboa 
e do Rio de Janeiro, aquellas que me tem chegado ás mãos, 
vemos, que aqui o máximo calor tem sido 84" pelo termó- 
metro de Fahrenheit, assim mesmo menor 5' que o que 
houve em Lisboa a 16 de Julho de 1786, que chegou a 89®. 

Comparado com o do Rio de Janeiro tem sido menor 
10**, pois que a 9 de Fevereiro de 1 804 n'aquella cidade 
chegou a 94", escala Fahrenheit. Ha porém diferença 
muito sensível nos termos do menor calor, por que sendo 
aqui o mini mo que tem indicado o termómetro 75* era 
Julho de 1808, e em Lisboa 35^ em Fevereiro de 1785, 
vera a ser a diferença ^0" para menos n^aquella cidade . 

No Rio de Janeiro sendo o menor que se observou 52° 
era Julho de 1785, vera a ser a diferença 23** pararaenos 
n'aquella cidade. 

Fazendo tarabera coraparaçâo entre as elevações maiores e 
menores do barómetro, vemos, que a aqui sobe mais relativa- 
mente a Lisbôa,e menos relativamente ao Rio de Janeiro;por 
que a maior elevação u^estes trezannos tendo sido aqui de 28 
p. 5 l.2d. era Janeiro del808,emLisbôaaraaior sòfoide27p. 
11 L., 9 D. era Fevereiro, de 1786, e no Rio de Janeiro subio 
mais 2 L., pois era Agosto de 1785 chegou a 28 p^ 7 L. 

Comparadas as menores elevações d'aqui em Agosto de 
1808, que foi 27 p. 9 L. com a de Lisboa era Janeiro de 
1786, que desceu a 26 p. 6 L.,achamoB a diferença dei p.3l., 
que desceu raais em Lisboa, e comparada esta menor 
elevação com a que se observou no Rio de Janeiro em 
Outubro de 1785 de 27 p. 10 l., se conhece por diferençai 
apenas 1 l., que desceu aqui raenos. (e) 

vem aqui, mais vai á Bahia, nero também falamos do algodão do 
Geará, porque nem todo aqui vem, e nos c<msta, que de if entrarão 
aqui em 1809 8Ómenle 1.710 sacas ; e em IblO fôrão 3.451 sacas. 

(d) Tradução do Sr. Manoel Jacinto Nogueira da Gama. Secção 2 ^^ 
SS38e39. 

(e) Memorias da Academia de Lisboa 




— 65 — 

Eis o que no meio de eommissSes, direcçSes e trabalhos 
topográficos, de que ha cinco annos n'esta capitania tenho 
siao, e sou actualmente encarre^do,tenho podido e continuo 
a fazer. Bem sabida é a utilidade de similhantes observa- 
ções, o cada vez mais dezejadas na mesma razão que o 
augmento dos conhecimentos humanos, como se lê nas 
memorias de todas as academias ; e por todas as naç5es 
hoje da Europa se multiplicão observadores sábios^ que, 
dando-se á sciencia meteorológica, tomão cada vez mais 
interessante a correspondência, que entretêem relativa a este 
objecto, e á aplicação que faz das suas observações. (/) 

Em fim depois de uma serie de annos empregados na 
meteorologia do paiz, que se habita, podem-se tirar utilis- 
simos rezultados, com que se enriqueção e augmentem os 
progressos da fizica^ medicina e agricultura. 

Sendo pois uma das muitas felicidades,com que SuaÂltoza 
Real para sempre assignala e doiraaprezente idade do Brazil, 
o decreto de 7 de Abril de 1808, em que o mesmo augusto 
Senhor mandou crear um archivo militar^ de que tenho a 
honra de ser correspondente, de cujo estabelecimento, re- 
gimen, e adiantamento tão merecida gloria reflecte no Exm. 
Sr. Conde deLinhares,ministro e secretario de estado dos ne- 
gócios estrangeiros e da guerra,parecia-me ser bem de dezejar 
que,nas capitanias em que houverem correspondente d^aquel- 
le real archivo, entre outras instruçSes, que se nos dão, se 
acrescentasse mais o fazerem e remeterem para o mesmo 



{[) As observações meteorológicas de Mr. de Manpertuis em Toméa, 
feitas em 1737, que pur ellas conheceu quanto o frio pôde ser excessivo, 
pois, como elle atesta, desceu n*aquelle anno a um ponto correspon- 
dente a 33« abaixo do principio de craduaçSo no termómetro de 
Fahrenheit, ou 65® abaixo de gelo ; as de Mr. Gisselin na Sibéria, aonde 
muitas vezes, como eUe afirma, desceu a 55* abaixo de cifra, e outras 
muitas derão ocazião, que viesse ao pensamento dos académicos em 
Petersburgo em 1750,que havendo ali n^qaelle anno um frio excessivo, 
o fazerem am misto de neve e espirito de nitro fumante, e outro de 
óleo de vitríolo e neve, que alcançarão um frio tal. que o azougue 
desceu a 1260o abaixo de cifra no termómetro de Lisle ; outras vezes 
com o frio artificial, que produz a mistura do espirito de nitro e neve 
a columna do azougue desceu a 500o abaixo de cifra da escala de Lisle, 
que corresponde a §90» abaixo de cifra em Fahrenheit, vindo a conhe- 
cer-se, que a intensidade do frio pôde ser mais considerável do (jue 

Sensou o mesmo Fahrenheit, e iguaimente que o azougue é susceptível 
e gelai^se e converter-se em uma espécie ae metal solido, mais duro 
que o chumbo. 

TOMO XLVl, P. I. 9 



i 



— 66 — 

archivo annualmente as observaçSes meteorológicas, que 
lhes for possível fazer no meio das suas commissões, ajun- 
tando algumas abservaçSes sobre a abundância ou esterili- 
dade do anno ; o que fará até melhor dezenvolver todas as 
vistas militares na parte que tiver respeito á agricultura, 
e o que se conforma com o regimento do archivo^que baixou 
com o mesmo decreto da sua creaç^. 




t 



— 67 — 
jranelro de i808 



BARÓMETRO 


TERMÓMETRO 1 


ffí 

< 

Q 


MAXHAN 


TARDE 


NOITE 


MANHAN 


TARDE 


NOITE 1 


P. L. D. 


P. 


L. D. 


P. L. 


D. 


Graduação de Fahrenheit 


l 


28 3 


28 


2 5 


28 3 


1 


80 


83 


80 


2 


28 3 2 


28 


2 


28 3 





80 


82 


80 


3 


28 3 5 


28 


3 3 


28 3 





79 


84 


81 


4 


28 3 


28 


3 l 


28 3 


1 


79 


82 


80 


5 


28 3 


28 


3 


28 3 





78 


83 


79 


6 


28 4 


28 


4 


S8 3 


8 


78 


83 


81 


7 


28 4 


28 


4 2 


28 4 





77 


84 


81 


8 


28 3 5 


28 


3 4 


28 3 





79 


82 


80 


9 


28 3 4 


28 


3 2 


28 3 


2 


77 


80 


78 


10 


28 3 3 


28 


3 2 


28 3 


2 


79 


82 


81 


11 


28 3 


28 


3 1 


28 3 


4 


78 


82 


80 


12 


28 3 


28 


3 


28 3 





78 


81 


80 


13 


28 3 


28 


2 8 


28 2 


9 


79 


82 


80 


U 


28 4 


28 


3 7 


28 3 


8 


80 


82 


79 


15 


28 3 2 


28 


3 5 


28 3 


4 


80 


82 


80 


16 


28 3 4 


28 


3 


28 3 





80 


81 


80 


17 


28 3 1 


28 


3 


28 3 





79 


84 


81 


18 


28 5 2 


28 


3 3 


28 3 


1 


80 


84 


80 


19 


28 3 2 


28 


3 4 


28 3 


2 


80 


84 


80 


20 


28 3 


28 


2 8 


28 3 





80 


82 


80 


21 


28 3 1 


28 


3 


28 3 


2 


78 


82 


81 


22 


28 3 2 


28 


3 1 


28 3 





78 


83 


81 


23 


28 4 1 


28 


3 


28 3 


1 


79 


83 


82 


24 


28 3 2 


28 


3 1 


28 3 


6 


80 


84 


80 


2õ 


28 3 2 


28 


3 


28 3 





80 


83 


81 


26 


28 3 


28 


3 


28 3 


1 


78 


81 


80 


27 


28 4 


28 


3 2 


28 3 


1 


78 


82 


81 


28 


28 3 3 


28 


3 3 


28 3 





78 


82 


80 


29 


28 3 1 


28 


3 2 


28 3 





79 


81 


79 


30 


28 3 2 


28 


3 1 


28 3 


1 


80 


82 


79 


31 


28 3 1 


28 


3 


28 3 





79 


83 


80 


REZULTÂDO DO MEZ 










P. L. 


D. 






Mai 


or elevação. 


• • • 


• 1 • 


28 5 


2 


Maior calor . . . 


. . 84 


Mer 


lor elevação 






28 2 





Menor r^ilor. . . 


. . 77 


.. 











— 68 — 
FeTerelro de tSOS 



BARÓMETRO 


TERMÓMETRO 


< 

Q 

1 


MANHAN 


TARDE 


NOITE 


MANHAN 


TARDE 


NOITE 


P. L. D. 


P. 


L. D. 


P. L. 


D. 


Graduarão de Fahrenheit 


28 3 2 


28 


2 4 


28 3 





81 


83 


80 


2 


28 3 4 


28 


3 2 


28 3 


1 


78 


81 


80 


3 


28 2 3 


28 


2 1 


28 3 





78 


83 


79 


4 


28 1 9 


28 


1 


28 2 





80 


83 


80 


5 


28 2 6 


28 


2 4 


28 2 


1 


80 


83 


80 


6 


28 3 


28 


3 1 


28 3 





79 


83 


81 


1 


28 3 5 


28 


3 2 


28 3 


3 


80 


83 


82 


8 


28 3 4 


28 


3 


28 3 





78 


82 


80 


9 


28 3 


28 


3 


28 3 


4 


79 


83 


81 


10 


28 2 3 


28 


3 


28 2 


2 


79 


81 


81 


11 


28 1 8 


28 


2 


28 1 


4 


80 


63 


80 


12 


28 3 


28 


3 


28 2 


8 


78 


81 


80 


13 


28 3 2 


28 


3 1 


28 3 





80 


81 


81 


11 


28 3 


28 


3 1 


28 3 





78 


84 


81 


15 


28 3 


28 


3 


28 3 


2 


80 


82 


81 


16 


28 2 6 


28 


3 2 


28 3 





80 


82 


80 


17 


28 3 


28 


2 3 


28 3 





78 


83 


82 


18 


28 2 6 


28 


2 4 


28 2 





79 


81 


78 


19 


28 3 


28 


3 


28 3 


2 


79 


82 


79 


20 


28 3 1 


28 


3 


28 3 





79 


80 


80 


21 


28 3 


28 


3 


28 3 





80 


82 


81 


22 


28 3 2 


28 


3 


28 3 


2 


79 


82 


78 


23 


28 3 1 


28 


3 8 


28 3 


2 


80 


81 


80 


21 


28 3 


28 


3 


28 3 





79 


82 


78 


25 


28 3 


28 


3 


28 3 


2 


80 


81 


80 


2(5 


28 3 4 


28 


3 5 


28 3 





79 


81 


80 


27 


28 2 8 


28 


2 6 


28 3 





80 


83 


80 


28 


28 3 


28 


3 1 


28 3 





80 


83 


81 


29 


28 2 9 


28 


3 


28 3 





78 


79 


77 


REZULTADO DO MEZ 








P. L. 


D. 






Maior elevação . 






28 3 


8 


Maior calor 


8i 


Menor elevação. 


• • • 


• • • 


28 1 





Menor calor . . 


. . . 77 



k 



Haifo de 1808 



B 


tBOMKTRil 




TKRMOMKTRO 




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P. L. D. 


P. L. D. 


P. L. D. 


Graduarão de Fahrenheia 


j 


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38 3 






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2 


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5 


28 3 


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28 2 8 










Í8 3 5 


28 3 1 


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28 2 1 


28 3 8 


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28 3 


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28 3 


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61 


J8 






28 2 ■; 


78 


81 


80 


29 


38 3 g 


28 3 


28 3 


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8J 


78 


30 


^ 3 » 


38 2 8 


38 3 D 


TH 


8.1 


18 


31 


% 3 


18 3 


38 3 


77 


80 


78 




HEZUL 


TADO DO M 


EZ 






P. L. D. 




Maior eJevaçãu 




38 3 8 


Maior calor 84 


Menor elevação 




98 3 8 


Menor caLor 77 









— 70 — 
Alirll de 1808 



BARÓMETRO 


TERMÓMETRO 1 


< 


NANHAN 


TARDE 


NOITE 


1 
HANHAN TAHDE 


NOITE 1 


P. L. D. 


p. 


L. D. 


P. L. 


D. 


Graduação de FahrdnheiÚ 


1 


28 3 


28 


2 8 


28 3 





80 


83 


80 


2 


3?8 3 1 


28 


2 8 


28 3 





80 


81 


79 


3 


3?8 3 


5Í8 


3 


28 3 





79 


83 


82 


4 


28 3 


28 


3 


28 3 





79 


m 


80 


5 


28 3 


28 


2 4 


28 2 


2 


78 


as 


80 


6 


28 3 2 


28 


3 


28 3 





78 


82 


81 


7 


28 3 1 


28 


2 2 


28 2 





80 


81 


82 


8 


28 2 7 


28 


2 5 


28 2 


1 


80 


81 


80 


y 


28 3 


28 


2 8 


28 3 





80 


83 


82 


10 


28 3 


28 


3 


28 3 





78 


81 


82 


11 


28 3 


28 


2 9 


28 2 


8 


78 


81 


83 


H 


S28 3 


28 


2 9 


28 2 


4 


78 


83 


80 


13 


28 3 2 


28 


3 


28 3 





78 


84 


83 


U 


28 3 2 


2« 


3 


28 2 


8 


78 


81 


82 


15 


•28 3 


•28 


3 


28 3 





79 


83 


80 


16 


2S 3 3 


28 


2 9 


'ÍH 2 


8 


80 


81 


81 


17 


28 3 2 


28 


3 


28 2 


8 


80 


81 


a3 


18 


28 3 


28 


3 


28 2 


9 


80 


83 


a3 


lU 


28 3 


28 


2 8 


28 2 


7 


78 


83 


80 


át) 


•28 3 


28 


3 


28 3 





79 


81 


80 


•21 


28 3 2 


28 


3 


•28 2 





78 


83 


81 


2-2 


28 3 1 


•28 


3 


28 3 





79 


85 


82 


•23 


28 3 8 


^^2 


2 


28 2 


4 


79 


a') 


81 


1 2i 


28 3 


28 


3 


28 2 


7 


80 


84 


82 


•25 


28 3 3 


28 


3 


28 3 





79 


82 


80 


2(i 


28 3 2 


-28 


2 6 


28 2 


2 


78 


83 


81 


27 


28 3 


"■ZH 


3 


28 3 





80 


84 


82 


•28 


28 3 4 


•28 


3 1 


28 3 





79 


84 


82 


29 


28 -2 9 


28 


2 8 


28 3 





78 


83 


81 


30 


28 3 1 


28 


3 


28 2 


8 


79 


83 


82 


REZULTADO DO HEZ 










P. L, 


D. 






Mai 


or elcvaçAo . 


• • • 


« 
• • • • 


íH 3 


4 


Maior calor . . . 


. . 84 


Mor 


ior olevaçAo 




t 


^8 2 





Menor cAlnr. . 


. . 78 


ILh 











s 



— 71 _ 

Maio de 1808 



BARÓMETRO 






TERMÓMETRO 


cn 
< 

Q 


NANHAN 


TARDE 


NOITE 


NANHAN 


TARDE 


NOITE 


P. L. D. 


P. L. D. 


P. L. 


D. 


Graduação de Fahrenheit 

1 


1 


28 3 


28 2 8 


28 2 


7 


79 


82 


80 


2 


28 3 2 


28 3 


28 2 


8 


79 


8:3 


80 


3 


28 3 3 


28 3 


28 2 


9 


80 


81 


81 


4 


28 4 1 


28 3 


28 2 


6 


80 


81 


81 


5 


28 4 2 


28 3 1 


28 3 





80 


84 


82 


6 


28 3 


28 3 


28 2 


7 


78 


82 


79 


7 


28 3 4 


28 3 


28 3 





78 


83 


78 


8 


28 3 


28 3 


28 3 





79 


m 


81 


9 


28 3 


28 2 8 


28 3 





79 


82 


79 


10 


28 3 


28 3 


28 2 


8 


80 


83 


80 


11 


28 4 


28 3 2 


28 3 





80 


83 


79 


12 


28 4 2 


28 3 


2S 2 


7 


78 


81 


78 


13 


28 3 4 


28 2 9 


28 2 


6 


78 


81 


80 


14 


28 3 


28 3 


28 2 


9 


78 


81 


82 


15 


28 3 


28 2 4 


28 3 





79 


8) 


80 


16 


28 3 


28 2 8 


28 2 


3 


79 


82 


80 


17 


28 2 8 


28 2 7 


28 2 


8 


80 


81 


81 


18 


28 2 7 


28 2 7 


28 2 


1 


80 


82 


80 


19 


28 3 2 


28 3 1 


28 3 





79 


83 


80 


20 


28 3 


28 3 


28 2 


8 


79 


«3 


80 


21 


28 3 


28 3 


28 2 


tí 


80 


82 


80 


22 


28 2 6 


28 2 2 


28 2 


1 


78 


81 


80 


23 


28 3 


28 2 4 


28 2 


4 


78 83 


80 


21 


28 2 7 


28 2 3 


28 2 


4 


78 83 


80 


25 


28 3 2 


28 3 1 


28 3 


1 


79 


81 


80 


20 


28 3 


28 3 


28 2 


8 


79 


81 


78 


27 


28 3 


29 3 


28 3 





80 


Hi 


80 


28 


28 3 


28 2 4 


28 2 


3 


80 


81 


80 


29 


28 2 9 


28 2 6 


2H 2 


4 


79 


H'2 


78 


30 


28 3 


28 3 


28 3 





78 


m 


80 


31 28 3 


28 3 


28 3 





79 


m 


78 




REZUL' 


FADO DO 


MES 


5 






P. L. 


D. 




Maior elevação. 




28 4 


2 


Maíoi calor 84 


Menor elevação. 




28 2 


1 


Menor c 


alor 78 









— 72 - 
JTnnho de 1808 





BARÓMETRO 




TERMÓMETRO 


< 
Q 


HANHAN 


TARDE 


NOITE 


MANHAN 


TARDE 


NOITE 


P. L. D. 


P. L. D. 


P. L. D. 


Gradiuição de Fahrenheit 


1 


28 3 6 


28 3 


28 3 2 


79 


80 


78 


2 


28 4 


28 3 6 


28 3 


79 


80 


79 


3 


28 4 


28 3 


28 3 


78 


78 


76 


4 


28 3 8 


28 2 8 


28 3 


78 


80 


79 


5 


28 3 


28 3 


28 3 


75 


79 


79 


6 


28 3 


28 2 8 


28 2 7 


75 


80 


75 


7 


28 4 


28 3 3 


28 2 6 


77 


78 


79 


8 


28 3 6 


28 3 


28 2 4 


77 


81 


77 


9 


28 3 


28 3 


28 2 8 


77 


80 


78 


10 


28 3 3 


28 3 2 


28 2 4 


79 


80 


78 


11 


28 3 


28 3 5 


28 3 


78 


79 


80 


1-2 


28 3 


28 2 4 


28 2 8 


80 


80 


79 


13 


28 3 6 


28 3 


28 3 


75 


78 


78 


14 


28 3 4 


28 3 


m 3 


75 


80 


77 


15 


28 a 8 


28 3 


28 3 6 


75 


78 


79 


16 


28 3 2 


28 3 2 


28 3 


76 


81 


77 


17 


28 3 


28 3 


28 2 7 


76 


79 


80 


18 


28 3 7 


28 3 7 


28 3 


75 


80 


76 


19 


28 4 


28 4 


28 3 


75 


78 


78 


ííO 


28 3 2 


28 3 2 


28 2 9 


75 


80 


75 


21 


28 3 


28 3 


28 3 


75 


80 


77 


22 


28 3 


28 3 


28 2 


79 


80 


77 


23 


28 3 1 


28 3 


28 2 8 


75 


79 


i t 


21 


28 3 


28 2 6 


28 3 


79 


80 


80 


25 


28 3 


28 3 


28 3 


75 


78 


79 


26 


28 3 2 


28 3 


28 3 


75 


81 


80 


27 


28 3 


28 2 2 


28 2 4 


76 


78 


78 


28 


28 3 2 


28 2 4 


28 2 3 


78 


80 


80 


29 


28 3 


28 3 


28 2 4 


75 


79 


78 


30 


28 3 


28 3 2 


28 3 


78 


80 


77 






REZUl 


LTADO DO M 


BZ 










P. L. D. 






Mai 


or elevaçilo 




28 4 


Maior calor . , . 


. . 81 


Mei 


101 elevação 




28 2 


Menor 


calor. . . 


• • TfS 








- 73 — 
«nlho ée 1808 



BARÓMETRO 


TERMÓMETRO 1 


< 
Q 


MANHAN 


TARDE 


N 


.ITE 


NANHAN TARDE 


NOITE 


P. L. D. 


P. L. D. 


P. 


L. 


D. 


Gradtuírào de Fahrenheit 


1 


28 3 2 


28 3 


28 


3 





75 


80 


75 


2 


28 3 3 


28 3 


28 


3 





75 


79 


76 


3 


28 3 4 


28 3 2 


28 


3 





76 


80 


76 


4 


28 4 


28 3 () 


28 


3 





75 


78 


75 


5 


28 3 2 


28 3 1 


28 


3 


2 


79 


78 


78 


6 


28 3 


28 2 8 


28 


2 


6 


76 


80 


77 


7 


28 3 7 


28 3 


28 


3 





78 


8í) 


78 


8 


28 4 


28 3 6 


28 


3 


1 


78 


80 


78 


9 


28 4 


28 3 4 


28 


3 





77 


79 


77 


10 


28 3 


28 3 


28 


3 





76 


80 


77 


11 


28 3 


28 3 


28 


3 





78 


79 


77 


12 


28 4 


28 3 2 


28 


2 





75 


79 


78 


l:} 


28 4 


28 2 6 


28 


2 


4 


78 


80 


77 


U 


28 3 


28 2 8 


28 


2 


8 


77 


80 


77 


15 


28 3 


28 2 5 


28 


2 


4 


77 


78 


77 


16 


28 3 


28 2 6 


28 


2 


5 


78 


80 


77 


17 


28 3 6 


28 3 


28 


2 


7 


76 


80 


78 


18 


28 3 4 


28 2 8 


28 


2 


6 


76 


79 


76 


19 


28 3 6 


28 3 


28 


3 





76 


79 


78 


20 


28 3 


28 2 8 


28 


3 





78 


80 


77 


21 


28 3 


28 2 7 


28 


2 


8 


77 


79 


77 


22 


28 4 


28 3 1 


28 


3 


4 


78 


78 


77 


23 


28 3 5 


28 3 


28 


3 





78 


78 


76 


24 


28 3 


28 3 


28 


3 





76 


79 


77 


25 


28 3 4 


28 2 8 


28 


3 





77 


80 


78 


26 


28 4 


28 2 6 


28 


2 


8 


78 


80 


77 


27 


28 3 


28 2 8 


28 


3 





76 


79 


76 


28 


28 3 6 


28 3 


28 


3 





76 


79 


77 


29 


28 3 3 


28 2 5 


28 


2 


9 


77 


80 


77 


30 


28 3 


28 3 


28 


2 


8 


76 


79 


76 


31 


28 3 2 

m 


28 3 


28 


3 





78 


79 


77 






REZUI 


.TAD( 


) DO N 


EZ 








■ 


P. 


L. 


D. 




• 


Mai 


or elevação. 




28 


4 





Maior ( 


^lor . . . 


. . 80 






Mer 


lor elevação 


- 


28 


2 


6 


Menor calor . . . 


. . 75 



TOllO XLYI; P. !• 



10 



— 74 — 



Agosto de 1808 





BARÓMETRO 






TERMÓMETRO | 


00 
Q 


HANDAN 


TARDE 


NOITE 


MANHAN 


TARDE 


NOITE 


P. L. D. 


P. L. D. 


P. L. 


D. 


Gradun^õo de Fahrenheiã 


1 


28 3 


28 3 


28 2 


8 


78 


80 


78 


2 


28 3 2 


28 3 


28 3 





79 


80 


78 


3 


28 3 4 


28 3 1 


28 2 


8 


76 


79 


77 


4 


28 3 


28 3 


28 3 


2 


76 


79 


76 


5 


28 3 6 


28 3 4 


28 8 


4 


78 


80 


79 


6 


28 3 


28 3 


28 3 





78 


80 


78 




28 10 


28 9 


28 3 





77 


81 


78 


8 


28 3 


28 3 


28 2 


9 


77 


80 


77 


9 


28 3 


28 3 4 


28 3 





76 


80 


77 


10 


28 2 8 


28 2 8 


28 3 





88 


81 


78 


hl 


28 2 


28 2 6 


28 2 


2 


79 


81 


78 


' 12 


28 3 


28 3 


28 3 





77 


79 


76 


13 


28 3 


28 3 


28 3 





76 


79 


78 


14 


28 2 9 


28 3 


28 3 





78 


80 


78 


15 


28 2 8 


28 2 8 


28 2 


7 


78 


80 


77 


16 


28 3 


28 3 


28 3 





77 


80 


77 


17 


28 3 


28 3 


28 3 





78 


81 


77 


i 18 


28 3 


28 3 2 


28 2 


6 


79 


81 


78 


19 


28 2 7 


28 3 


28 2 


7 


76 


80 


77 


20 


28 3 


28 3 


28 3 





76 


80 


76 


21 


28 3 


28 3 


28 2 


9 


77 


80 


77 


22 


28 2 9 


28 3 


28 2 


8 


76 


79 


77 


23 


28 3 


28 3 


28 3 





76 


79 


76 


24 


28 9 


28 2 


28 2 


8 


78 


80 


77 


25 


28 1 


28 2 2 


28 1 


7 


79 


81 


78 


26 


28 2 3 


28 2 6 


28 2 


4 


77 


79 


1 i 


27 


28 3 


28 2 8 


28 2 


8 


76 


70 


76 


28 


28 2 9 


28 3 


28 3 





77 


80 


78 


29 


28 3 


28 3 


28 3 





77 


79 


78 


30 


28 3 


28 3 


28 3 





76 


79 


77 


31 

1 


28 2 8 

1 


28 3 


28 2 


7 


77 


80 


/ i 


[ 




REZUl 


LTADO DO Ml 


KZ 










P. L. 


D. 






Uoi 


or elevação, 
lor elevação 




28 3 


i\ 


Maior calor . . . 


. . 81 


JIAI 

! Mer 




27 9 





Menor calor . . . 


. . 76 


1 








B^ 




■i^Bai 



k 




- 75 - 
têetemhro de 1808 



BARÓMETRO 


TERMÓMETRO 




CU 

< 

Q 


HANHAN 


TARDE 


NOITE 


MANHAN 


TARDE 


NOITE 




P. L. D. 


P. 


L. D. 


P. L. 


D. 


Graduação de Fahrenheit 




1 1 


28 3 


28 


2 9 


28 3 





78 


80 


78 




2 


28 3 


28 


3 


28 3 





77 


81 


78 




3 


28 3 


28 


3 


28 3 





77 


80 


77 




4 


28 2 8 


28 


3 


28 2 


8 


78 


81 


79 




5 


28 3 


28 


3 


28 2 


9 


78 


80 


80 




6 


28 3 


28 


3 


28 3 





77 


80 


77 




7 


28 3 


28 


3 


28 3 





78 


82 


80 




8 


28 2 8 


28 


3 


28 2 


7 


77 


80 


77 




9 


28 2 8 


28 


3 


28 3 





78 


80 


77 




10 


28 3 


28 


3 


28 3 





77 


80 


78 




11 


28 3 


28 


3 


28 2 


7 


78 


81 


79 




U 


28 2 8 


28 


3 


28 2 


8 


79 


82 


78 




13 


28 3 


28 


3 


28 3 





77 


80 


77 




14 


28 3 


28 


3 


28 3 





77 


81 


78 




15 


28 3 


28 


3 


28 2 


8 


78 


81 


78 




16 


28 2 9 


28 


3 


28 2 


8 


77 


80 


77 




17 


28 2 8 


28 


2 9 


28 2 


7 


78 


81 


77 




18 


28 3 


28 


3 


28 3 





77 


80 


77 




19 


28 3 


28 


3 


28 3 





78 


81 


77 




20 


28 3 


28 


3 


28 3 





78 


81 


78 




21 


28 3 


28 


2 8 


28 3 





77 


80 


80 




22 


28 2 9 


28 


3 


28 2 


8 


78 


80 


79 




23 


28 11 


28 


2 


28 11 





78 


81 


77 




21 


28 2 4 


28 


3 


28 2 


8 


77 


80 


77 




25 


28 1 7 


28 


2 9 


28 1 


8 


77 


81 


78 




26 


28 3 


28 


3 


28 2 


8 


78 


81 


79 




27 


28 2 9 


28 


3 


28 2 


8 


79 


82 


78 




28 


28 3 


28 


3 


28 3 





77 


80 


77 




29 


28 3 


28 


3 


28 3 





77 


80 


77 




30 


28 3 


28 


3 


28 3 





77 


82 


79 




REZULTADO DO MEZ 










P. L. 


D. 








Maior elevação . 


■ • • 


• • • 


28 3 





Maior calor . . . 


. . 82 




Menor elevação . 


• ■ • 


• • • 


27 11 





Menor ( 


;alor. . . 


. . 77 






« 









L 



— 76 — 
•ntnbro de 1808 



BARÓMETRO 


TERMÓMETRO 


a; 
< 

Q 


MAN H AN 


TARDE 


NOITE 


MANHAN 


TARDE 


NOITE 1 


P. L. D. 


P. L. D. 


P. L. D. 


Graduução de Fahrenheiã 


1 


28 2 8 


38 3 


28 3 


77 


80 


77 


2 


28 3 


28 3 


28 3 


79 


81 


78 


3 


28 2 7 


28 3 


28 2 9 


77 


81 


78 


4 


28 3 


28 2 9 


28 2 8 


78 


80 


78 


o 


28 2 9 


28 3 


28 3 


77 


80 


77 


6 


28 3 


28 3 


28 3 


79 


81 


78 


7 


28 3 


28 3 


28 2 7 


79 


81 


79 


8 


28 2 8 


28 3 


28' 2 8 


76 


80 


78 


9 


28 2 9 


28 3 1 


28 2 8 


76 


80 


77 


10 


28 2 9 


28 3 


28 3 


77 


81 


78 


11 


28 3 


28 3 


28 3 


77 


81 


77 


12 


28 2 8 


28 3 


28 2 6 


78 


80 


78 


13 


28 2 8 


28 3 


28 3 


76 


80 


76 


U 


28 3 


28 3 


28 3 


76 


81 


78 


15 


28 3 


28 3 


28 3 


77 


80 


77 


16 


28 3 


28 3 


28 2 7 


77 


82 


79 


17 


28 3 


28 3 


28 3 


79 


82 


78 


18 


28 2 9 


28 3 


28 2 8 


78 


82 


79 


19 


28 2 8 


28 3 


28 3 


77 


81 


77 


20 


28 3 


28 3 


28 3 


77 


81 


79 


21 


28 3 


28 3 


28 3 


76 


80 


f"»" 
1 1 


22 


28 3 


28 3 


28- 3 


76 


82 


78 


23 


28 3 


28 3 


28 2 9 


78 


82 


79 


n 


28 2 9 


28 3 


28 3 


76 


80 


77 


25 


28 3 


28 3 


28 3 


77 


81 


78 


2tí 


28 3 


28 3 


28 3 


77 


81 


77 


27 


28 3 


28 3 


28 3 


78 


82 


78 


28 


28 3 


28 3 


28 3 


79 


82 


79 


29 


28 3 


28 3 


28 3 


77 


81 


78 


30 


28 3 


28 3 


28 3 


77 


81 


78 


31 


28 3 


28 3 


28 3 


77 


81 


78 


REZULTÂDO DO MEZ 








P. L. D. 




Mai 


cr elevação. 




28 3 1 


Maior calor 82 


Mei 


lor elevação 




28 2 7 


Menor calor 76 

... 



— 77 — 
Koretahwo de 1898 



BARÓMETRO 


TERMÓMETRO 


os 

< 

Q 
1 


MANHAN 


TARDE 


NOITE 


HANHAN 


TARDE 


NOITE 


P. L. D. 


P. 


L. D. 


P. L. 


D. 


Graduação de Fahrenheit 


28 3 


28 


3 


28 3 





77 


82 


78 


2 


28 2 8 


28 


3 


28 3 





77 


81 


79 


3 


28 3 


28 


3 


28 3 





78 


82 


77 


4 


28 3 


28 


3 


28 2 


9 


76 


8:3 


78 


5 


28 3 


28 


3 


28 2 


9 


76 


83 


77 


6 


28 2 9 


28 


3 


28 3 





76 


82 


79 


•; 


28 3 


28 


3 


28 3 





78 


81 


77 


8 


28 3 


28 


3 


28 3 





77 


Hl 


78 


9 


28 2 8 


28 


2 9 


28 2 


8 


78 


81 


79 


10 


28 3 


28 


3 


28 3 





77 


84 


77 


11 


28 3 


28 


3 


28 3 





78 


82 


77 


12 


28 3 


28 


3 


28 3 





77 


83 


78 


13 


28 3 


28 


3 


28 3 





77 


82 


77 


U 


28 3 


28 


3 


28 3 





78 


82 


79 


15 


28 2 7 


28 


3 


28 3 





79 


81 


77 


16 


28 2 8 


28 


2 8 


28 2 


7 


77 


83 


78 


17 


28 3 


28 


3 


28 2 


8 


77 


83 


77 


18 


28 3 


28 


3 


28 3 





78 


83 


79 


19 


28 3 


28 


3 


28 3 





76 


83 


77 


20 


28 3 


28 


3 


28 3 





76 


84 


78 


21 


28 3 


28 


3 


28 3 





77 


83 


77 


22 


28 3 


28 


3 


28 3 





78 83 


79 


23 


28 3 


28 


3 


'28 3 





78 83 


79 


21 


28 3 


28 


3 


28 3 





77 82 


79 


25 


28 3 


■2S 


3 


28 3 





77 83 


78 


26 


28 3 


28 


3 


28 3 





78 


82 


77 


27 


28 3 


28 


3 


28 3 





77 


8:3 


78 


28 


28 3 


28 


3 


28 3 





77 


8:} 


79 


29 


28 3 


28 


3 


28 3 





79 


82 


77 


30 


28 3 


28 


3 


28 3 





77 


82 


79 


1 

REZULTADO DO MEZ 










P. L. 


D. 






Mai 


or elevação . 


• • • 


• • • 


28 3 





Maior calor. . . 


. . . 84 


,"" 


lor elevação. 


• • • 


■ • • 


28 2 


7 


Menor calor . . 


... 76 



— 78 — 
DezeHilir* 4e 1898 





BARÓMETRO 




TERMÓMETRO 


< 

s 


1 
aA!raA5 


taude 


ICOITE 


XAXHAN 


TARDE 


IfOITE 1 


P. L. D. 


P. L. D. 


P. L. D. 


Graduaçáo de Fahrenheit 


1 


28 3 


28 3 


28 3 


77 83 


78 


3 


28 3 


28 3 


28 2 8 


77 , 83 


i i 


3 


28 2 8 


28 3 


28 2 8 


77 , 83 


Tl 


4 


28 3 


28 2 8 


28 2 8 


77 RI 


78 


5 


28 3 ' 


28 3 


28 3 


77 83 


77 


6 : 


28 2 7 


28 3 


28 3 


77 83 


78 


1 


28 3 


28 3 


28 3 


78 84 


79 


H 


28 3 


28 3 


28 3 


78 81 


78 


y 


28 2 9 


28 2 8 


28 2 8 


78 83 


79 


10 


28 3 


28 3 


28 3 


79 83 


78 


11 


28 3 


28 3 


28 3 


78 8i 


78 


12 


28 3 


28 3 


28 3 


77 , 8:í 


i s 


13 


28 2 » 


2S 2 8 


. 28 3 


77 83 


78 


11 


28 3 


28 3 


; 28 3 


78 82 


79 


15 


28 3 *> 


28 3 


28 3 


-18 1 83 


78 


1*) 


28 2 7 


28 3 


28 2 8 


77 i 83 


89 


17 . 


28 2 8 


28 2 8 


28 3 


79 , Si^ 


79 


18 


28 3 . 


28 3 


28 3 


78 1 82 


79 


11» 


28 3 ■ 


28 3 


28 3 


79 ' a3 


78 


iO 


28 3 1 


28 3 


28 3 


78 , 83 


79 


21 


28 3 


28 3 


28 3 


79 , 81 


79 


i2 


28 3 ' 


28 3 


28 3 


78 1 81 


78 


2^i 


28 3 . 


28 3 


28 3 


77 . 8i 


80 


24 


28 3 ■ 


28 3 


28 2 8 


80 1 81 


79 


25 


á8 3 ' 


28 3 


28 3 


80 


83 


79 


2t> 


28 3 . 


28 3 


28 3 U 


79 


8:1 


79 1 


27 


28 2 9 . 


28 2 8 


28 2 8 


78 


83 


78 


26 ' 


28 3 ' 


28 3 


28 3 


80 


81 


80 


2» 


28 3 


28 3 


28 3 


80 


81 


79 


:ID 


28 3 


28 3 


28 3 


78 


83 


78 


31 

1 


28 3 ' 

1 


28 3 


28 3 

• 


79 


«l 


79 






REZULTADO DO MEZ 










P. L. D. 






Ma» 


or ele^açào. 




28 3 


Maloi calor.. . . 


. . 81 


Hei] 


lor elevaçâa 




28 9 7 


MiMior calor. . . 


. . 77 



- 70- 
Rezultado deste anno de iflON 



BARÓMETRO 



P. l. U. 
Maior elevação jH ff u 

Menor elevação . . . . ^ 9 o 



TKtlMOMKTHO 



Maior ralor , . , . «I 

W'Wfr vHÍnr 'i-t 



k 




— al- 
taneiro de 18 



BABOMETRO 


TERMÓMETRO 1 


5 


.„.„ 


,.«„ I ».„. 


..,...| „™ 


- 


P. L, D. 


P. L. D. 


P. L, D. 


Graduação de Fahrenheit 


1 


ie 3 


28 :! 


28 3 í) 


78 


81 


76 


i 


ÍS i « 


3H :í 


íh í h 


77 


8t 


80 




ír :) 


28 3 


38 2 ^ 




83 






iS í 9 


98 9 8 


IH i 8 




Ri 


78 


5 


i8 3 


28 3 


28 3 


-6 






6 


28 3 


98 3 


98 2 8 


70 


8.*i 


711 


1 


28 9 8 


38 3 


2K 3 




89 




S 


ae 3 


98 3 


9B 3 






78 


9 


28 3 


38 3 U 


98 3 l> 


80 


81 


80 


to 


i8 3 B 


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28 2 9 


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83 


77 


11 


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28 3 U 


77 


81 


79 


li 


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28 3 


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78 


i:i 


SB 3 


28 3 


98 3 H 


78 




80 


U 


2S a 


38 3 


28 3 U 


76 


«3 


76 


15 


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38 3 


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89 


78 


ia 


28 3 


28 3 


38 3 


78 


Hl 


81 


17 


Í8 í 8 


98 3 


28 3 




81 


80 


18 


as 2 8 


38 2 8 




76 


81 


78 


19 


S8 2 9 


28 3 


98 3 


78 


Kl 


79 


80 


28 a 


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ao 


31 


2H 3 




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78 


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80 


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28 3 


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28 3 


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83 


80 


í-i 


98 a 




98 3 8 


76 


83 


77 


il 


il4 2 8 


28 3 


28 3 11 


77 


82 




25 


28 3 n 


98 3 


98 3 () 


77 


61 


81 


36 


28 2 9 




98 2 B 


Ti 


81 


m 


i~ 


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28 3 


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83 


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28 3 




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76 


83 


so 


Í9 


28 3 B 


28 :t 


38 3 




84 


79 


30 


38 3 Q 


Í8 2 8 


2S 2 8 


78 


83 


78 


31 


39 3 


98 3 


98 3 


77 


83 


78 






REZUL 


TADO UO M 


EZ 








r>. j.. D, 




Ma 

Me 


or elevação 
or elevação 






Maior calor 8i 




28 3 8 


Menor calor 76 



- 82 — 
Fevereiro de flSOO 







1 
í? 
3 
4 
5 
ti 
7 
8 
9 

11 ' 

12 

13 

14 

15 

16 

17 , 
18 

19 I 

5?1 I 

2-2 I 

23 , 

24 I 

25 I 
26 

27 ' 

28 I 



2H 2 9 

28 3 O 

28 3 O 

28 3 O 

28 3 O 

28 2 8 

28 3 O 

28 3 O 

28 3 O 

28 2 9 

28 3 O 

28 3 O 

28 3 O 

28 3 O 

28 2 9 

28 3 O 

28 3 O 

28 3 O 

28 3 O 

28 3 O 

28 3 O 



MANHAN 


TARDE 


P. L. 


D. 


P. 


L. D. 


28 2 


8 


28 


3 


28 3 





28 


3 


28 3 





28 


3 2 


'^S 2 


9 


2S 


3 1 


28 3 





2H 


3 


28 3 





28 


3 


28 3 





28 


3 2 



'2S 3 

28 3 

28 3 

28 3 

28 3 

28 3 

28 3 

28 3 

28 3 

28 3 

28 3 

28 3 

28 3 

28 3 

28 2 

28 3 

28 3 

28 3 

28 3 

28 3 

28 :í 



O 
1 
O 
O 
O 
O 
1 
O 
O 
1 
O 
O 
O 
O 
9 
O 
O 
1 
O 
O 
2 



NOITK 



P. L. I). 



28 3 O 

28 3 O 

28 3 O 

28 3 O 

28 3 O 

28 3 O 

2H 3 1 

28 ^ 8 

28 3 O 

28 3 O 

28 3 O 

28 3 O 

28 3 O 

28 3 O 

28 3 O 

28 3 O 

28 3 O 

28 3 O 

28 3 O 

28 3 O 

28 3 O 

28 3 1 

28 3 O 

28 3 O 

28 3 O 

28 3 O 

28 3 O 

28 8 O 



TERMÓMETRO 



MANHAN TARDE 



NOITE 



inaduarão de Fahrenheit 



REZULTADO DO MEZ 



76 


82 


80 


76 


83 


77 


77 


83 


78 


77 


81 


77 


76 


84 


79 


79 


82 


80 


76 


83 


77 


i i 


84 


78 


78 


84 


80 


76 


82 


79 


77 


83 


77 


i i 


82 


78 


76 


84 


79 


76 


83 


77 


76 


83 


78 


77 


83 


79 


78 


84 


80 


78 


84 


78 


79 


84 


80 


77 


82 


77 


76 


82 


77 


77 


83 


79 


78 


82 


78 


77 


83 


80 


78 


83 


79 


76 


84 


77 


76 


84 


80 


77 


82 


78 


« 







P. L. 
Maior elevação '2A 3 

Menor elevação 28 2 



I). 
2 



Maior calor 84 

Menor calor 76 




— 83 — 
Marco de tHOB 





BARÓMETRO 




TERMÓMETRO 


ã 


MANHAN 


TARDK 


NOITE 


1 

MANHAN TARDE 

1 


NOITE 


P. L. D. 


p. 1 


L. 1). 


P. L. I). 


(iraíiuaçh) de Fahrenheim 


1 


1 

' 28 3 


28 


3 


28 -2 li 


78 


82 


80 


2 


28 2 H 


28 


3 


28 8 


77 


8;^ 


79 


3 


■28 2 9 


^8 


3 1 


2H 3 


/ 1 


83 


88 


4 


28 3 


28 


3 1 


28 3 


78 


82 


77 


5 


28 3 


•^8 


3 n 


28 3 


76 


83- 


78 


6 


28 3 


28 


3 


28 3 


77 


82 


79 


1^ 


28 3 


2H 


3 2 


<ÍH 3 


77 


83 


80 


8 


28 3 


28 


3 2 


2« 3 


7« 


81 


80 


9 


28 2 8 


28 


3 ] 


28 :] 


78 


m 


79 


10 


28 l 9 


28 


3 


28 ;j 


76 


8.3 


78 


11 


28 3 


v>8 


3 


28 ;{ 


77 


84 


79 


12 


28 3 i) 


28 


3 2 


28 a 


78 


m 


78 


13 


28 2 8 


28 


1 l 


28 .{ 


78 


8.3 


79 


14 


1 28 3 


28 


1 2 


2H ,\ 


77 


82 


78 


15 


28 2 9 


28 


í 


■2H H 


76 


83 


80 


16 


28 3 


28 . 


i 


28 A 




83 


80 


17 


28 3 


28 . 


t 


28 ;j 




82 


78 


18 


. 28 2 8 


28 . 


< 


28 M (> 


78 81 


79 


19 


28 3 


28 ; 


i 


28 :í 


77 8.3 


78 


•^0 


28 3 


28 • 


i 


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77 ' 83 


78 


21 


28 3 U 


28 : 


i 1 


28 :j 


76 


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78 


22 


28 2 9 


28 • 


1 


28 ;j 


77 


82 


79 


23 


28 3 


28 .• 


í 


28 M 


78 


83 


79 


24 


28 3 


28 • 


{ 


28 3 


77 


83 


78 


25 


28 3 


28 • 


i 1 


2S '2 7 


77 


83 


80 


26 


■2S 2 9 


•28 í 


i 


28 3 


79 m 


80 


27 


28 3 


28 • 


< 


■2H M 


77 


82 


78 


28 


28 3 


28 • 


i 


28 3 


78 1 


83 


79 


29 


28 3 


28 ' 


> l 


28 :j 


78 


83 


80 


30 


28 3 


28 : 


i 


28 M 


77 


83 


80 


31 


28 3 


28 : 


\ 


•28 3 


77 


m 


79 








REZUL 


TA DO DO Ml 


EZ 










P. L. D. 




Mai 


or elevaçào. 






28 3 2 


Maior Cíilor 84 


Mer 


lor elevação 


• • • • 


» • • 


•28 2 8 


Menor calor 7') 



à 



— 84 — 
Abril de 1800 



BARÓMETRO 


TERMÓMETRO 


Q 


MANHAN 


TARDE 


• NOITE 


MANHAN 


TARDE 


NOITE 1 


P. L. D. 


P. L. D. 


P. L. 


D. 


Graduarão de Fahrenheit 


1 


28 2 8 


28 3 1 


28 3 





77 


82 


78 


2 


28 3 3 


28 3 


28 3 





78 1 83 


77 


3 


28 2 9 


28 3 


28 3 





76 Si 


78 


4 


28 2 8 


28 3 


28 2 


9 


78 84 


79 


5^ 


28 3 


28 3 2 


28 3 





77 I 84 


79 


6 


28 3 


28 3 


28 3 





76 82 


78 


1 


28 2 8 


28 3 


28 2 


7 


78 8:3 


79 


8 


28 2 7 


28 2 9 


28 3 





78 83 


80 


9 


28 3 


28 3 2 


28 2 


9 


77 82 


78 


10 


28 2 6 


28 3 


28 2 


8 


77 82 


79 


11 


«8 2 7 


28 3 


28 3 





77 83 


78 


lá 


28 3 


28 3 1 


28 2 


9 


78 82 


77 


13 


28 3 


28 3 


28 3 





79 ' 83 


78 


14 


28 3 


28 3 2 


28 3 





77 83 


79 


15 


28 2 õ 


1 2rt 2 8 


28 2 


9 


76 82 


78 


16 


28 2 H 


' 28 3 


28 3 





76 82 


79 


17 


28 3 


28 3 


28 2 


8 


76 83 


78 


18 


28 2 7 


28 3 


28 2 


9 


78 84 


77 


11> 


28 2 6 


28 3 


28 3 





79 83 


78 


^ 


28 3 


28 3 


28 3 





76 82 


77 


;>! 


28 li ú 


28 3 U 


28 2 


9 


77 83 


78 


^> 


ií^ i *i 


2í< 3 


28 2 


1 


78 83 


79 


y3 


iS •> iS 


'2S 3 


28 3 





77 82 


77 


;>l 


28 3 u 


28 3 


28 3 





77 82 


80 


:>:» 


28 3 


28 3 


'íH 3 





78 83 


8U 


^ 


28 2 8 


1 28 3 


íH 2 


9 


77 82 


79 


!;>! 


' 28 2 8 


28 3 1 


'2H 3 





78 82 


79 


1 ^ 


2^* 3 


' 28 A 


28 8 


t) 


77 83 


78 


1 ;>*J 


2S 3 


28 3 


28 2 


8 


77 m 


79 


1 :w 

t 

1 


28 2 ; 


, 2S 3 {) 


28 3 





78 82 


78 


1 




KK/.r 


I.TADO no M 


KZ 










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1). 






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28 3 


2 


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. . 84 


MtM 


lor oh'\av;\o 


1 \ 1 > • • « 


28 2 


Tl 


Moiior 


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^ 1 







— 85 - 
Halo de ISO» 



BARÓMETRO 






TERHOHET 


BO 
NOiTt 


í 


HINHAN 


T,KD. 


„„. 


MANHAS TAHDE 


P. L. D. 


P. L. D. 


P. L 


D. 


Graduiiíão de Fahrenheita 


1 


38 3 8 


28 3 


38 3 


7 


77 ' 80 


80 


2 


38 3 


38 3 2 


38 3 





77 83 


78 


3 


36 3 


28 3 


28 3 


9 


-H ■ fa 


71) 


4 


38 2 7 


28 2 8 


28 3 





79 84 


78 


5 


88 a 8 


28 3 


28 2 


9 


78 61 


79 


6 


28 2 7 


28 3 1 






7H H3 


60 


^ 


36 3 









7U RI 


60 


6 


28 3 


28 3 


38 3 







79 


9 


28 i 


38 3 3 


28 3 


4 


77 h:) 


76 


10 


28 3 4 


28 3 


28 3 




77 83 


811 


11 


28 3 (1 


88 4 


38 3 


3 


77 83 


78 


19 


38 í 8 


38 3 7 


2/j 3 




78 81 




13 


S8 3 


28 3 a 


38 3 




77 83 


79 


11 


38 3 8 


28 3 Cl 


28 3 


3 


77 61 


78 


15 


38 3 


28 3 3 


28 3 





79 83 


80 


16 


28 3 


28 3 


28 3 





78 82 


79 


17 


28 2 8 


28 3 


28 2 




77 81 


77 


18 


!fi 3 


26 3 3 


28 2 


8 


:» 83 


79 


IS 


38 3 


28 4 


28 3 




77 82 


78 


20 


afl 3 


36 3 


28 2 


g 


78 63 


77 


31 


28 3 


38 3 2 


28 3 




77 83 


77 


a 


38 3 


28 3 


38 3 




78 63 


79 




38 2 8 


38 3 


28 2 


» 


77 82 


78 


n 


28 2 8 


38 3 3 


28 3 





77 83 


80 


Í5 


38 3 


38 4 


38 3 




78 




60 


as 


26 3 U 


38 3 7 


38 3 






81 


79 


27 


38 3 


38 3 


38 3 




78 


83 


76 


^ 


26 3 9 


38 3 


3H 3 





77 


62 


78 


it 


38 3 


38 3 3 


38 3 





79 




80 


30 


28 i 7 


28 2 8 


28 3 


8 


76 


82 


80 


91 


38 a 8 


!8 3 


38 3 


' 


77 


83 


™ 




REZUL 


FADO 1)0 MF 


Z 








P. l. 


„ 






Maior elevação. 




S8 4 


o' 


Maior calor.. . 


. . 81 1 


)||g|inr olnv^olíii 




38 3 


" 


Menor 


alor, . . 













_ 86 — 
^nnho de 180e 








BAROM 


^TRO 






TERMÓMETRO 


92 

< 

s 

1 


MANHAN 


TAUDE 


1 
1 

NOITE 

t 
1 


M A Ml AN 


TARDE 


NOITE 


P. L. I). 


P. 


L. I). 


P. L. 


I). 


Graduação de Fahrenheit 


28 2 8 


28 


3 


28 2 


9 


1 
77 78 


78 


2 


28 2 7 


28 


2 8 


28 3 





78 . 80 


: 79 


3 


28 3 


28 


3 


28 3 





78 79 


: 79 


4 


28 2 7 


28 


3 1 


28 3 





76 1 80 


78 


5 


28 3 


28 


3 


28 2 


9 


77 j 80 


1 76 


6 


. 28 2 9 


28 


2 9 


28 3 





79 80 


: "'S 


7 


28 3 


28 


3 2 


28 3 





78 


79 


79 


8 


28 3 1 


28 


3 


28 3 





78 78 


79 


9 


28 3 


28 


3 


28 3 





76 78 


78 


10 


28 3 


28 


3 


28 3 





78 


78 


78 


11 


28 2 8 


28 


3 


28 2 


9 


76 


76 


! 79 


12 


28 2 8 


28 


3 


28 3 





78 79 


78 


13 


28 2 9 


28 


3 


28 3 





77 80 


77 


11 


28 3 


28 


3 


28 3 





78 79 


79 


15 


28 2 8 


2ti 


3 


28 3 





79 1 80 


• 78 j 


16 


28 3 


28 


3 


28 2 


9 


79 80 


, 79 ! 


17 


28 2 8 


28 


3 2 


28 2 


8 


78 78 


, 80 t 


18 


28 3 U 


28 


2 9 


28 3 





76 . 77 


■ 78 , 


19 


28 3 


28 


3 


28 2 


8 


76 , 80 


; 79 


20 


28 2 7 


28 


3 


28 2 


8 


78 1 80 


79 


21 


28 2 7 


28 


3 


28 2 


9 


77 1 78 


1 78 


22 


28 2 7 


28 


3 


28 2 


8 


77 80 


78 


23 


'2H 2 9 


28 


2 9 


28 3 





79 ' 80 


78 


2i 


28 3 


28 


3 í) 


28 3 





78 , 78 


79 


25 


28 3 


28 


3 


28 3 





77 1 78 


78 


26 


28 3 


28 


3 


28 2 


9 


76 


80 


79 


27 


28 2 7 


28 


3 


28 2 


9 


78 


80 


78 


28 


28 2 8 


28 


3 


28 3 





79 


80 


78 


29 


28 3 


28 


3 


28 3 





77 


79 


79 


30 


28 3 


28 


3 


28 3 





78 


80 


79 








RKZUJ 


LTADO DO Ml 


SZ 












P. L. 


D. 






Mai 


or elevacào . 






28 3 


2 


Maior calor. . . 


• • . íhj 


Mer 


lor elevarão. 






28 2 


7 


Menor ( 


»lor . . 


. • . <o 











— 87 — 
iinlho de 18«9 



BAROMKTRO 


TERMOMKTRO 


< 

Q 


HAVHAN 
P. L. I). 


TARDK 


NOITK 
P. L. I). 


MANHAN 


TARDE 


NOITE 11 


P. 


L. D. 


(irndunçâo de Fahrenheivi 


1 


28 2 9 


28 


3 


28 3 





77 


78 


78 


2 


28 2 8 


28 


2 9 


28 2 


8 


7.') 


78 


79 


3 


28 3 


28 


3 


28 3 





78 


79 


78 


4 


28 3 


28 


3 


28 2 


9 


70 


78 


78 


5 


28 2 t> 


28 


2 8 


28 2 


9 


76 


77 


76 


6 


28 2 4 


28 


2 7 


28 2 


< 


77 


80 


76 


0^ 

1 


28 2 8 


28 


3 


28 3 


2 


76 


78 


78 


8 


28 3 


28 


3 2 


28 3 





75 


80 


70 


9 


28 2 5 


28 


3 


28 3 


K) 


76 


77 


78 


10 


28 3 


28 


3 2 


28 3 





7(J 


76 


1 i 


11 


28 3 


28 


3 


28 3 


2 


77 


7() 


78 


12 


28 2 5 


28 


2 8 


28 2 


9 


76 


78 


78 


13 


28 2 7 


28 


H 


28 2 


8 


7() 


Hi) 


80 


14 


28 3 


28 


3 2 


28 3 





77 


78 


78 


15 


28 3 0- 


28 


3 1 


28 3 





76 


79 


78 


16 


28 2 7 


28 


2 9 


28 2 


8 


77 


78 


79 


17 


28 3 


28 


3 1 


28 3 





77 


76 


80 


18 


28 3 


28 


3 


28 3 





76 


78 


79 


19 


28 2 7 


28 


2 7 


28 3 





77 


79 


78 


20 


28 3 


28 


3 


28 2 


8 


76 


78 


79 


21 


28 2 8 


28 


3 


28 2 


9 


76 


78 


78 


22 


28 11 


28 


1 t 


28 2 


7 


7li 




78 


23 


28 2 1 


28 


2 8 


28 3 





77 


80 


76 


24 


28 2 5 


28 


1 8 


28 2 


8 


76 


78 


78 


2ô 


28 11 


28 


2 4 


28 3 





76 


7(5 


79 


26 


28 3 


28 


3 


28 3 





76 


76 


ii) 


27 


28 2 9 


28 


2 8 


28 2 


8 


75 


78 


78 


28 


28 3 


28 


3 {) 


28 3 





75 


77 


78 


29 


28 3 


28 


3 


28 3 





77 


78 


78 


30 


28 2 8 


28 


3 


28 2 


9 


75 


76 


79 


31 


28 2 7 


28 


3 


28 3 





76 


76 


79 


REZULTADO DO MKZ 










P. L. 


D. 






Mai 


or elevação . 






28 3 


? 


Maior calor . . . 


. . 80 


Mer 


lor elevação 


• • • ■ 


• • 


27 11 





Menor calor. . . 


. . 75 



— 88 — 



BARÓMETRO 


TERMÓMETRO 1 


Q 


XAXHAN 


TARDE 


NOITE 


» 

■ANHAN TARDE 

1 


NOITE 1 


P. L. D. 


P. 


L. D. 


P. L. 


D. 


Gmdmação de Fahremheiã 


1 


28 2 8 


28 


3 


28 2 


9 


t 
78 81 


1 

7*1 


2 ' -JH '2 S 


28 


2 9 


28 2 


8 


78 82 


80 


3 I 3ÍH 3 


28 


3 2 


28 3 





77 1 81 


80 


i 28 3 


28 


3 


28 3 





79 82 


78 


5 


28 3 


28 


3 


28 3 


1 


77 80 


78 





28 2 7 


28 


3 


28 3 





i 4 82 


i i 


1 


28 2 7 


28 


2 8 


28 2 


8 


78 81 


79 


8 


28 3 


28 


3 


28 3 





78 ao 


79 


9 


28 3 


28 


3 


28 2 


9 


79 81 


80 


10 


28 2 8 


28 


2 9 


28 3 





88 80 


79 


11 


28 3 


28 


3 


-28 2 


8 


78 80 


78 


12 


28 2 8 


28 


3 


28 3 





77 81 


79 


13 


28 2 7 


28 


2 9 


28 2 


9 


77 81 


78 


14 


28 2 8 


28 


3 


28 3 





78 82 


ao 


15 


28 3 


28 


3 


28 3 





79 82 ; 80 1 


16 


28 2 9 


28 


2 9 


28 2 


8 


78 81 


79 


17 


28 3 


28 


3 2 


28 2 


9 


77 82 


80 


1 1® 


28 3 


28 


3 1 


28 3 





77 80 


78 


1 19 


28 1 8 


28 


3 


28 2 


9 


78 , 81 


79 


•20 


28 3 


28 


3 


28 2 


8 


77 81 


77 


21 


28 2 8 


28 


3 


28 3 





77 ' 82 


80 


22 


28 3 


28 


2 9 


28 3 





79 82 


80 


23 


28 3 


28 


3 


28 2 


8 


78 80 


79 


24 


28 2 7 


28 


2 9 


28 3 





77 80 


78 


1 25 


28 2 8 


28 


3 


28 3 





78 80 


79 


1 26 


28 3 


28 


3 


28 3 





77 81 


78 


: 27 


28 3 


28 


3 


28 3 





77 82 


79 


28 


28 2 8 


28 


3 


28 3 





78 1 81 


80 


29 


28 3 


. 28 


3 


28 3 





79 


H3 


79 


30 


28 2 9 


28 


3 


28 3 





78 


81 


78 


31 28 3 


1 28 


3 


28 3 





a 


80 


80 


, RKZULTADO DO MEZ | 


1 

1 
1 






P. L. 


D. 




Maior elevação. 




1 


28 3 


2 


Maior calor . . mv 


1 
Men')!* AiAVAriii 






28 1 


8 


Menor c 


alor Ti 




"'- w.^ Y_ — 


^ÊmÊtm 




1 



— 89 — 
SeteMíbro de 1809 



CO 



1 

2 
3 

4 
5 
6 
7 
8 
9 
10 
11 
12 
13 
11 
15 
16 
17 
18 
19 
20 
21 
22 
23 
21 
23 
26 
27 
28 
29 
30 



BARÓMETRO 



MANHAN 



P. L. D. 



28 3 O 

38 2 8 

28 2 9 

28 3 O 

28 2 7 

28 3 

28 3 

28 2 9 

28 3 O 

28 3 

28 3 

28 3 

28 2 

28 2 



O 
O 



O 
O 
O 

7 
8 



28 2 9 



S8 
28 



3 O 
3 O 



28 3 O 



28 
28 
28 
28 
28 
28 
28 
28 
28 
28 
28 
28 



2 
2 
3 
3 
3 
3 
3 
3 
3 
3 
2 
2 



7 
8 
O 
O 
O 
O 
O 
O 
O 
O 
8 
8 



TARDE 



P. L. D. 



28 3 O 
28 3 O 
28 3 O 



28 
28 
28 
28 



2 

O 
1 
O 



3 

3 

3 

3 

28 3 1 
28 3 2 

3 

3 

3 



28 
28 
28 



O 
O 
O 



28 2 8 

28 S 8. 

3 O 

3 1 

3 O 



28 
28 
28 



28 3 O 



28 
28 



2 

3 



9 
O 



28 3 O 



38 
28 
28 
28 
28 
28 
28 
28 
28 



3 
3 
3 
3 
3 
3 
3 
2 
3 



O 
O 
O 
O 
O 
O 
O 
9 
O 



NOITE 



P. L. D. 



28 
28 
28 
28 
28 



3 

2 

3 

3 

3 

28 3 O 
28 3 O 
28 3 
28 3 
28 3 
-28 3 O 
28 2 9 
28 2 
28 3 
28 3 
28 3 
28 3 
28 3 
28 2 



O 
9 
O 
O 
O 



O 
O 
O 



28 
28 
28 
28 
28 
28 
28 
28 
28 
28 
28 



3 
3 
3 
3 
3 
3 
3 
3 
3 
3 
3 



8 
O 
O 
O 
O 
O 
9 
O 
O 
O 
O 
O 
O 
O 
O 
O 
O 
O 



TERMÓMETRO 



MANHAN 



TARDE 



NOITE 



Graduação de Fahrenheit 



77 
77 
78 
77 
77 
78 
77 
77 
76 
77 
78 
77 
77 
•78 
78 
79 
79 
78 
77 
78 
78 
77 
77 
78 



// 
77 
78 
77 
78 
77 



REZULTADO DO MEZ 



P. L. D. 
Maior elevação 28 3 2 

Menor elevação 28 2 7 



81 
82 
81 
81 
80 
80 
81 
82 
80 
82 
82 
81 
80 
82 
81 
81 
82 
82 
82 
82 
82 
81 
81 
82 
80 
80 
81 
80 
82 
81 



79 
78 
80 
80 
79 
78 
79 
78 
78 
80 
79 
78 
79 
78 
80 
79 
78 
78 
79 
79 
80 
79 
80 
80 
78 
78 
79 
78 
80 
79 



Maior calor 82 

Menor calor 76 



TOMO XLVI, P. I. 



12 



— 90 — 
•ntabro de IfMM 





BARÓMETRO 






TERMÓMETRO 


Q 


MANHAN 


TARDE 


NOITE 


MANHAN 


TARDE 


NOITE 


P. L. D. 


P. 


L. D. 


P. L. 


D. 


Graduação deFahrenheim 


1 


28 2 9 


28 


2 9 


28 3 





78 


81 


80 


2 


28 2 8 


28 


3 


28 2 


9 


77 


80 


79 


3 


28 3 


28 


3 1 


28 3 





77 


82 


78 


4 


28 2 8 


28 


3 


28 3 





77 


82 


79 


5 


28 3 


28 


3 


28 3 





76 


81 


78 


6 


28 3 


28 


3 2 


28 3 


2 


77 


82 


79 


7 


28 3 


28 


3 1 


28 3 





78 


82 


79 


8 


28 2 8 


28 


2 9 


28 2 


9 


78 


82 


77 


9 


28 2 7 


28 


2 8 


28 3 





87 


81 


80 


10 


28 3 


28 


3 


28 3 





78 


82 


80 


11 


28 3 


28 


3 1 


28 3 





77 


81 


78 


12 


28 3 


28 


3 


28 3 





77 


82 


80 


13 


28 3 


28 


3 


28 3 





77 


81 


78 


14 


28 2 9 


28 


3 


28 3 





76 


80 


77 


15 


28 3 


28 


3 


28 3 





77 


82 


78 


16 


28 3 


28 


3 


28 3 





78 


82 


79 


17 


28 3 


28 


3 


28 3 





78 


82 


80 


18 


28 3 


28 


3 


28 2 


9 


77 


81 


78 


19 


28 2 8 


28 


3 


28 3 





77 


82 


80 


20 


28 2 8 


28 


3 


28 3 





79 


83 


80 


21 


28 3 


28 


3 


28 3 





77 


80 


78 


22 


28 3 


28 


3 


28 3 





77 


81 


79 


23 


28 3 


28 


2 8 


28 2 


8 


76 


80 


78 


24 


28 2 9 


28 


3 


28 ó 





78 


83 


79 


25 


28 J 


28 


3 


28 3 





78 


82 


78 


26 


28 3 


28 


3 


28 3 





77 


82 


78 


27 


28 3 


28 


3 


28 3 





77 


81 


78 


28 


28 2 8 


28 


3 


28 3 





78 


82 


79 


29 


28 3 


28 


3 


28 3 


1 


78 


82 


80 


30 


28 3 


28 


3 


28 3 


2 


78 


82 


79 


31 


28 3 


28 

• 


3 


28 3 





77 


82 


78 








REZUL 


TADO DO Ml 


SZ 












P. L. 


D. 






Maí 


or elevação . 


• • • 


• • « • 


28 3 


2 


Maior calor . . . 


. . 83 


Meu 


cr elevação . 






28 2 


7 


Menor cíilnp 


. . 76 











\ 



— 91 — 

Resultado deste anno de ISOS 



BARÓMETRO 


TERMÓMETRO 


P. L. D. 
Maior elevação 28 4 

Menor eleTação .... 27 11 


Maior calor 84 

Menor calor 75 





— 94 — 
«unho de IStO 



BARÓMETRO 


TERMÓMETRO 


< 


MANHAN 


TARDE 


NOITE 


MANHAN 


TARDE 


NOITE 


P. L. D. 


P. 


L. D. 


P. L. 


D. 


Graduação de Fahrenheit 


1 


28 2 


28 


2 8 


28 2 


8 


76 


78 


79 


2 


28 2 4 


28 


3 


28 3 





77 


79 


78 


3 


28 3 


28 


3 


28 2 


8 


76 


79 


78 


4 


28 2 7 


28 


2 8 


28 3 





77 


80 


78 


5 


28 3 


28 


3 


28 3 





77 


80 


79 


6 


28 2 7 


28 


2 9 


28 2 


8 


78 


80 


78 


7 


28 2 4 


28 


3 


28 3 





77 


79 


78 


8 


28 3 


28 


3 


28 3 





78 


79 


78 


9 


28 3 


28 


3 


28 3 





77 


77 


78 


10 


28 3 


28 


2 8 


28 2 


9 


78 


80 


79 


! 11 


28 2 8 


28 


3 


28 3 





76 


79 


78 


12 


28 2 6 


28 


2 8 


28 2 


9 


76 


80 


78 


13 


28 3 


28 


3 


28 3 





77 


78 


79 


14 


28 2 8 


28 


3 


28 3 





78 


79 


78 


15 


28 3 


28 


3 


28 3 





78 


80 


79 


16 


28 3 


28 


3 


28 3 





77 


79 


78 


17 


28 3 


28 


3 


28 3 





78 


78 


79 


18 


28 2 7 


28 


2 9 


28 3 





79 


80 


78 


19 


28 2 8 


28 


3 


28 3 





78 


79 


78 


20 


28 3 


28 


3 


28 3 





77 


79 


78 


21 


28 3 


28 


3 0. 


28 3 





76 


79 


77 


22 


28 2 8 


28 


2 8 


28 2 


9 


78 


81 


78 


23 


28 2 7 


28 


3 


28 3 





77 


79 


78 


24 


28 3 


28 


3 


28 3 





77 


79 


78 


25 


28 3 


28 


3 


28 3 





76 


79 


77 


26 


28 2 4 


28 


2 7 


28 3 





77 


78 


78 


27 


28 3 


28 


3 


28 3 





78 


80 


79 


28 


28 3 


28 


3 


28 3 





77 


79 


78 


29 


28 3 


28 


2 8 


28 2 


9 


78 


80 


79 


30 


28 3 


28 


3 


28 3 





78 


79 


78 


REZULTADO DO MEZ | 










P. L. 


D. 






Maí 


or elevação 
lor elevação 






28 3 





Maior calor . . . 


. . . 81 2 


Mei 


• • • • 


• • • 


28 2 


4 


Menor 


calor. . 


. . . 76 B 




ssi^ssssJl 



IS 



— 95 — 
aalfeio de tStO 



BARÓMETRO 


TERMÓMETRO 


•< 
Q 


MANHAN 


TARDE 


NOITE 


MANHAN 


TARDE 


NOITE 


P. L. D. 


P. 


L. D. 


P. L. 


D. 


Graduação de Fahrenheitl 


1 


28 2 4 


28 


3 


28 3 





Ti 


80 


79 


2 


28 2 5 


28 


2 8 


28 2 


8 


77 


78 


78 


d 


28 3 


28 


3 


28 2 


9 


78 


81 


79 


4 


28 2 8 


28 


2 7 


28 2 


8 


77 


78 


78 


5 


28 2 7 


28 


3 


28 2 


9 


78 


81 


80 


6 


28 3 


28 


3 


28 3 





78 


78 


78 


7 


28 1 8 


28 


2 7 


28 2 


9 


76 


80 


77 


8 


28 2 7 


28 


3 


28 3 





76 


78 


78 


9 


28 3 


28 


3 


28 3 





77 


. 81 


79 


10 


28 3 


28 


2 8 


28 2 


9 


76 


80 


78 


11 


28 1 8 


28 


2 9 


28 3 





77 


79 


78 


12 


28 3 


28 


3 


28 3 





77 


79 


79 


13 


28 2 8 


28 


3 


28 2 


9 


78 


79 


78 


14 


28 2 9 


28 


2 8 


28 3 





77 


80 


78 


15 


28 3 


28 


3 


28 3 





77 


79 


79 


16 


28 3 


28 


2 9 


28 3 





78 


81 


79 


n 


28 2 8 


28 


3 


28 3 





78 


81 


78 


18 


28 1 9 


28 


2 9 


28 3 





76 


79 


78 


19 


28 3 


28 


3 


28 3 





77 


79 


79 


20 


28 2 8 


28 


3 


28 3 





76 


80 


78 


21 


28 3 


28 


3 


28 3 





77 


81 


79 


22 


28 2 8 


28 


3 


28 2 


9 


78 


78 


79 


23 


28 2 9 


28 


3 


28 3 





78 


80 


78 


24 


28 3 


28 


3 


28 3 





76 


79 


77 


25 


28 3 


28 


3 


28 3 





76 


79 


77 


26 


28 3 


28 


3 


28 3 





78 


80 


79 


27 


28 2 9 


28 


2 9 


28 3 





78 


81 


79 


28 


28 3 


28 


2 8 


28 3 





1 1 


80 


78 


29 


28 3 


28 


3 


28 3 





77 


79 


78 


30 


28 3 


28 


3 


28 3 





78 


8U 


79 


31 


28 1 8 


28 


2 7 


28 3 





76 


79 


79 


REZULTADO DO MEZ 










P. L. 


D. 






Mai 


or elevação. 


• • • 


• » • 


28 3 





Maior calor . . . 


. . 81 


Mer 


lor elevação 


1 • • • 


f • • 


27 1 


8 


Menor calor. . . 


. . 76 



— 96 — 

* 

Agosto de tSflO 



BARÓMETRO 


TERMÓMETRO | 


00 

-< 

a 


MANIIAN 


TARDE 


NOITE 


MANHAN 


TARDE 


NOITE 1 


P. L. D. 


P. L. D. 


P. L. D. 


Graduação de FahrenheivÊ 


1 


28 2 


28 2 8 


28 2 9 


76 


79 


79 


2 


28 2 3 


28 3 


28 2 8 


77 


80 


78 


3 


28 2 8 


28 2 8 


28 3 


76 


79 


79 


4 


28 3 


28 3 


28 2 9 


76 


78 


79 


5 


28 3 


28 3 


28 3 


78 


80 


80 


6 


28 2 7 


28 2 8 


28 3 


78 


81 


79 


7 


28 1 6 


28 2 8 


28 2 8 


77 


81 


79 


8 


28 2 8 


28 3 


28 3 


78 


80 


78 


9 


28 3 


28 3 


28 3 


79 


80 


80 


10 


28 3 


28 2 8 


28 2 9 


78 


81 


a^ 


11 


28 2 7 


28 2 8 


28 2 8 


77 


79 


% 


12 


28 2 8 


28 2 7 


28 2 8 


77 


80 


78 


13 


28 3 


28 3 


28 3 


76 


79 


79 


14 


28 2 8 


28 3 


28 3 


77 


78 


78 


15 


28 3 


28 3 


28 3 


78 


80 


79 


16 


28 2 9 


28 2 8 


28 3 


78 


81 


78 


17 


28 3 


28 3 


28 3 


77 


80 


80 


18 


28 1 8 


28 2 8 


28 3 


78 


80 


80 


19 


28 2 


28 2 4 


28 2 8 


79 


81 


79 


20 


28 2 4 


28 3 


28 3 


78 


80 


78 


21 


28 3 


28 3 


28 3 


76 


79 


78 


22 


28 3 


28 3 


28 3 


77 


80 


79 


23 


28 3 


28 2 9 


28 3 


78 


79 


79 


24 


28 2 9 


28 3 


28 2 9 


77 


79 


78 


25 


28 3 


28 3 


28 3 


78 


80 


78 


26 


28 2 6 


28 3 


28 3 


77 


79 


79 


27 


28 3 


28 3 


28 3 


78 


81 


80 


28 


28 3 


28 3 


28 3 


79 


81 


80 


29 


'28 2 7 


1 28 3 


28 3 


78 


80 


79 


30 


28 3 


28 3 


28 3 


77 


79 


79 


31 


28 3 


28 3 


28 3 


78 


81 


79 






REZD 


LIADO DO M 


EZ 






P. L. D. 


■ 


Maior elevação. 
MenAr pifívacão 




28 3 
28 1 6 


Maior ( 
Menor 


■*lor ... 81 


calor. . , na 








1 



k 




\ 




— 97 — 
Setenibro de tSftO 



V2 



1 

2 
3 
4 
5 
6 
/ 

8 
9 
10 
U 
12 
13 
11 
15 
16 
17 
18 
19 
23 
21 
22 
23 
21 
25 
26 
27 
28 
29 
30 



RAROMETRO 



«ANHAN 



P. L. D. 



28 2 9 
28 3 O 
28 2 
28 2 
28 3 O 
28 3 O 
28 2 7 
28 2 

3 

3 

3 

2 

3 

3 

3 

3 

2 

28 3 O 
28 3 O 
28 3 O 
28 2 

3 

1 

2 

3 

2 

3 



28 
2H 
28 
28 
28 
28 
28 
28 
28 



28 
28 
28 
28 

im 

28 



8 
8 



7 
O 
O 
O 
8 
O 
O 
O 
O 
8 



8 
O 
O 
4 
O 
7 
O 



28 3 O 



28 
28 



1 7 

2 9 



TARDE 



NOITE 



P. L. D. t P. L. D. 



28 
28 
28 
28 

28 
28 
28 
28 
28 
28 
28 
28 
28 
28 
28 
28 
28 
28 
28 
28 
28 
28 
28 



3 O 
3 O 



2 

3 
3 



8 
O 
O 



3 O 

2 9 

3 O 
3 O 



28 3 O 

28 3 O 

28 2 9 

28 3 O 

28 3 O 

3 

2 



28 
28 
28 2 
28 3 



3 
2 



1 
O 



3 O 

3 1 

3 O 

3 O 

2 9 

3 O 
3 2 



8 
O 
O 



3 
3 
2 



O 
2 
9 



3 O 

1 4 

2 8 



28 


2 


8 


28 


28 


3 





28 


28 


3 





28 


28 


3 


1 


28 


28 


2 


8 


28 


28 


3 


1 


28 



O 
8 
8 
O 

28 3 O 
28 2 
28 3 
28 3 
28 3 O 
28 2 8 
28 3 O 
28 3 O 

3 

3 

3 

3 

3 

2 

3 
28 2 8 
28 3 O 

3 

3 

3 

3 



28 
28 
28 
28 
28 
28 
28 



O 
O 
1 
O 
O 
7 
O 



1 
O 
O 

o 



TERMÓMETRO 



MANHAN 



TARDE 



NOITE 



Graduação de Fahrenheit 



78 

77 
77 
78 

!■»•> 

/ I 

78 
78 

t i 
78 
78 
79 
77 
77 
78 
78 
79 
77 
77 
78 
77 
78 
76 
79 
78 
77 
77 
77 
77 
78 



REZULTADO DO MEZ 



„ . , , P. L. D. 

Maior elevação 28 3 2 

Menor elevação 28 l o 



81 
80 

81 
81 
79 
80 
81 
80 
80 
81 
81 
81 
80 
80 
81 
82 
82 
80 
81 
81 
80 
81 
82 
82 
82 
80 
80 
79 
79 
81 



79 
79 
78 
79 
78 
79 
79 
78 
79 
80 
79 
80 
79 
79 
78 
80 
79 
78 
79 
79 
78 
79 
76 
80 
79 
78 
79 
78 
79 
79 



Maior calor 82 

Menor calor 77 



TOMO XLVI, p. I. 



13 



— 98 — 
Outubro de 1810 



BARÓMETRO 


TERMÓMETRO 


DIAS 


NANHAN 


TARDE 


1 NOITE 


HANHAN 


TARDE 


NOITE 


P. L. D. 


p. 


L. D. 


P. L. 

1 


D. 


Graduação deFahrenhei 


1 


28 3 


28 


3 1 


1 

28 3 





78 


82 


1 

80 


2 


28 2 H 


28 


2 9 


28 3 





78 


82 


79 


3 


28 3 


28 


2 7 


28 2 


9 


i 1 


81 


78 


4 


28 2 4 


28 


3 


28 2 


6 


77 


81 


79 


5 


28 2 7 


'28 


3 


28 3 





70 


82 


79 


6 


28 3 


28 


3 


28 2 


7 


77 


80 


79 


7 


28 3 


28 


3 


28 3 





77 


79 


78 


8 


28 3 


28 


3 


28 2 


7 


77 


80 


79 


9 


28 2 5 


28 


2 7 


28 2 


9 


79 


8:í 


80 


10 


28 2 8 


28 


3 


28 3 





78 


82 


79 


U 


28 3 


28 


1 9 


28 2 


8 


78 


83 


80 


12 


28 2 7 


28 


3 


28 3 





77 


80 


79 


13 


28 3 


28 


3 


28 3 





/ i 


79 


79 


14 


28 2 6 


28 


3 


28 2 


7 


77 


81 


78 


15 


28 2 4 


28 


2 5 


28 2 


8 


7S 


81 


79 


16 


28 3 


28 


3 


28 3 





77 


80 


79 


17 


28 2 7 


28 


3 


28 3 


(1 


78 


82 


78 


18 


28 3 


28 


3 


28 2 


9 


77 


80 


79 


19 


28 3 


28 


3 


28 3 





77 


79 


78 


20 


28 3 


28 


3 


28 3 





i i 


80 


79 


21 


28 3 


28 


3 


28 3 





78 


82 


80 


22 


28 2 8 


28 


3 


28 3 





78 


82 


79 


23 


28 J 


28 


3 


2H 3 





77 


80 


79 


)ii 


28 3 


28 


3 


28 3 





78 


81 


80 


25 


28 3 


28 


3 


i8 3 





77 


79 


79 


2(5 


28 2 8 


28 


2 9 


28 3 





78 


82 


80 


27 


28 2 9 


28 


3 


28 3 





i 1 


80 


78 


28 


28 3 


28 


3 


28 3 







81 


78 


29 


28 3 


28 


3 


28 3 





78 


82 


79 


30 


28 3 


28 


3 


28 3 





78 


81 


79 


31 


28 3 


28 


3 


28 3 





77 


82 


78 








REZUL 


TADO DO Ml 


U 












P. L. 


D. 






Naí 


or elevação . 


• • ■ 


■ • • • 


28 3 





Maior calor . . . 


. . 8:3 


Men 


lor elevação . 


• • ■ 


• • • • 


28 2 


i 


Menor calor.. . . 


. . 77 



— 99 — 
IVoTenbro de 1810 







^ss 










BARÓMETRO 




TERMÓMETRO 


92 


MANHAN 


TARDE 


NOITE 


MANHAN 


TARDE 


NOITE 


P. L. D. 


P. 


L. D. 


P. L. D. 


Graduação de Fahrenheit 


1 


28 3 


28 


3 3 


28 3 


80 


83 


80 


2 


28 2 9 


28 


3 


28 3 


78 82 


79 


3 


28 2 8 


2A 


3 2 


28 3 


78 82 


79 


4 


28 3 


28 


3 


28 3 


80 1 83 


79 


5 


28 3 


28 


3 


28 2 8 


. 78 t 81 


78 


6 


28 2 8 


28 


2 9 


28 3 1 


77 81 


78 


7 


28 3 


28 


3 


28 3 1 


79 82 


80 


8 


28 2 8 


28 


3 


28 3 


80 83 


80 


9 


28 3 


28 


1 


28 3 8 


78 80 


79 


10 


28 3 2 


28 


4 


28 3 8 


79 


81 


79 


U 


■28 3 


28 


3 


28 3 


79 


82 


80 


U 


28 3 


28 


3 


28 3 


80 


83 


80 


13 


28 3 2 


28 


3 


28 3 


80 


83 


81 


14 


28 2 9 


28 


2 9 


28 3 


78 


82 


79 


15 


28 3 


•28 


3 


28 3 


78 


81 


79 


16 


. 28 2 8 


28 


2 9 


28 2 9 


79 82 


78 


17 


28 3 


28 


3 


28 3 


80 


83 


80 


18 


28 2 9 


28 


3 2 


28 3 


80 


m 


79 


19 


28 3 


28 


3 


•28 2 8 


70 , 82 


79 


•20 


28 3 


28 


3 


•28 3 


77 80 


78 


21 


28 3 


28 


3 


28 3 


77 1 80 


79 


22 


28 3 


28 


2 9 


•28 2 9 


79 ' 82 


79 


23 


28 2 8 


28 


3 


28 3 


78 1 81 


79 


2t 


28 3 


•28 


3 


28 3 


80 1 83 


80 


25 


28 3 


28 


3 


28 3 


80 ! 81 


79 


20 


•28 3 


28 


2 9 


28 3 


79 i 83 


78 


27 


28 2 9 


28 


3 


28 3 


79 . 8-1 


81 


28 


■28 3 


28 


3 


28 3 


80 84 


81 


29 


•28 3 


28 


2 9 


28 3 


79 1 82 


79 


30 


•28 3 


28 


3 


28 3 


79 83 

! 


80 








REZU 


LTADO DO Ml 


BZ 










P. L. D. 




Maj 


or elevação 
lor elevação 






28 4 


Maior calor 84 


1 Mei 






28 2 8 


Menor calor 77 












^ 



— 100 — 
Dezembro de 1810 















. 


=j, 






BARÓMETRO 






TERMÓMETRO 11 




MANHAN 


TARDE 


NOITE 


MANHAN 


TARDE 


NOITE 1 


P. L. D. 


P. 


L. D. 


P. L. 


I). 


Gradiui^ão de Fahrenheiti 


1 


28 3 


28 


3 2 


28 3 





78 82 


79 


2 


28 2 8 


1 28 


3 


28 2 


9 


78 82 


78 


3 


28 3 1 


28 


4 


28 3 


4 


79 83 


80 


4 


28 2 4 


28 


3 


28 3 





79 , as 


80 


5 


28 3 


28 


3 


28 3 





80 84 


81 


6 


28 3 


28 


3 


28 3 





79 , 82 


79 


7 


28 3 


28 


3 


28 3 





79 82 


80 


8 


28 2 H 


28 


2 9 


28 2 


9 


77 82 


79 


9 


28 3 U 


, 28 


3 


28 3 





80 84 


80 


10 


28 3 


28 


2 9 


28 2 


9 


80 84 


81 


11 


28 2 9 


28 


3 


28 3 





79 81 


79 


12 


28 3 


28 


3 1 


28 3 





79 82 


79 


13 


28 2 8 


28 


3 


28 3 





78 


as 


79 


14 


28 3 


28 


3 


28 3 





78 


83 


80 


15 


28 3 


28 


3 


28 3 





77 


81 


78 


16 


28 3 


28 


3 4 


28 3 


2 


77 


82 


79 


n 


28 3 


28 


3 2 


28 3 





80 


as 


80 


18 


28 2 8 


28 


3 2 


28 3 





80 


82 


79 


li) 


28 2 9 


28 


3 2 


28 3 


1 


78 


81 


79 


20 


28 3 


2S 


3 


28 3 





77 


81 


78 


21 


28 3 


t ^ 


3 


28 2 


9 


78 


82 


79 


22 


28 2 8 


28 


3 


28 3 





78 


83 


80 


23 


28 3 


28 


3 


• 28 3 





76 


80 


78 


24 


28 2 8 


28 


3 


28 3 





78 


82 


79 


25 


28 3 


1 ^« 


2 9 


28 2 


9 


79 


82 


80 


20 


28 2 8 


1 28 


2 9 


28 3 





78 


81 


79 


27 


28 3 


. 28 


3 


28 3 





77 


80 


78 


28 


28 3 


28 


3 


28 3 





78 81 


79 


20 


28 3 


1 28 


3 


28 8 





77 


83 


79 


30 


28 3 


28 


3 


28 3 





78 


84 


80 


31 


28 3 


'2H 


3 


28 3 





80 


83 


80 






HEZm 


LTADQ DO Ml 


a 












P. L. 


D. 






Nai 


í)r elovacAo. 






28 4 





Miiíor calor 


. . 84 
. . 76 


Mor 


lor elevação 






28 2 


4 


Menor c^ior 




m^m^MM 




•••w» . • , 







• • 




- 101 — 
ReznUado doeste anno de ftSflO 



BARÓMETRO 


TERMÓMETRO 


P. L. D. 
Maior elevação 28 4 

Menor elevação .... 28 10 


Maior calor 84 

Menor calor 76 





r 



L 



( 



V 




\ 



INFORMAÇÕES 

SOBRE 

OS mos BÁRBAROS DOS GERMS DE PERNAMBUCO 

OFICIO DO BISPO DE* OLINDA 
ACOI\'PAI^IHADO DE VARIAS CARTAS 



Senhor. — Eu venho depor aos pés de V. A. R. 
as armas que os índios bárbaros dos certões de Pernam- 
buco e do Ceará vêem por mim tributar á V. A. R. 
em sinal da sua obediência e da sua fidelidade. 

Aquelles Índios^ resto d )S antigos bárbaros^ que já em 
outro tempo fôrSo sujeitos á dominação de Portugal e que 
formavâo uma parte do exercito do famozo indío D. António 
Filipe Camarão, que na guen^a da expulsão dos Olan- 
dezes d'aquelle continente, se fez immortal em defeza dos 
Portuguezes, aquelles indios; digo^depois de serem sujei tos, se 
tomarão à rebelar, e revestidos da sua antiga barbaridade 
fazião muitas hostilidades aos habitantes d^aquelles certões 
e lhes cauzavão grandes danos pela destruição das suas 
fazendas e lavouras, e pela mortandade dos seus gados. 

Pouco depois que tomei posse d'aquelle bispado e do go- 
verno interino d'aquella capitania, de que por V. A, R. 
fui encarregado^ recebi cartas de alguns commandantes 
d'aquelles certoes, em que davão noticias das hostilida- 
des, que fazião aquelles indios, e pedião, que S3 expedissem 
as ordens necessárias para serem autorizados a lhes fazer 
a guerra, como, dizião elles, era de costume. 

£u porém, conhecendo pela historia d'aquelles indios, 
e pelos factos acontecidos na minha caza, que a guerra 




— 104 — 

íeíta aos indiofi; além de ser um meio violento^ é sempra 
ruinoza^ não bó aos índios, mas ainda aos mesmos que lhe& 
fazem a guerra^ que quazi nunca é deciziva,e a paz por ella 
feita nunca é segurado que ounico meio que ha paraos domar 
sSo as armas da beneficência e caridade^ que formão o 
caracter e a baze da nossa santa religião^ armas com que 
ellas tantas vezes têem triunfado da mesma barbaridade, 
propuz a aquelle governo para que mandasse, como mandou, 
aos ditos commandantes, que sustasem em todo o procedi- 
mento contra os ditos indios até segunda ordem ; e conhe- 
cendo as boas qualidades, e virtudes do missionário bar- 
badinho italiano frei Vital de Frescarolo, lhe concedi a» 
faculdades necessárias para instruir, catequizar, baptizar, 
e administrar todos os sacramentos aos novamente conver- 
tidos e o encarreguei d^aquella missão com todas as ordens 
necessárias para que aquelles habitantes lhe dessem todo o 
auxilio, de que elle precizasse. 

Esta missão foi abençoada por Deus, pois que emfim se 
conseguio tudo quanto se dezejava, como consta das cartas do 
mesmo missionário, que com esta tenho e honra de depor na 
augusta prezença de V. A. R.; e esta conquista, por 
si meemo de uma grande utilidade para a igreja e para 
o estado, é tanto mais apreciável, quanto ella foi feita sem 
derramar uma só gota de sangue. 

Os mesmos indios derSo por motivo da sua rebelião os 
máostratamentos,que tinhão recebido d^aquelles moradores^ 
que até os fizerão recolher em um pateo debaixo do pre- 
texto da religião, e os fizerão passar á espada, como diz o 
mesmo missionário na sua carta junta de 4 de Setembro de 
1 802 : eu não sei quaes forflo os primeiros agressores ; por- 
que este facto foi acontecido, segundo me disserão, ha mais 
de 20 annos, quando eu ali ainda não estava: mas comtu('o 
não pôde haver alguma razão atendivel para se fazer 
similhante procedimento, e muito menos debaixo do sa- 
grado nome da religião. 

Aquelles indios, ainda que poucos em numero, são com 
tudo restos de quatro diferentes naçSos barbaras, que, 
conservando- se na sua rebelião entre serras e brenhas in- 
cultas, serião de' terríveis consequências para o estado, por 
isso que elles facilmente fogem, levando comsigo armas e 




I 



L 



~ 105 — 

bagagem, quando encontrão maior força; e tornSo de re- 
pente sobre os seus inimigos descuidados, queimando as 
searas e as plantaçcJes, sem perdoar nem ainda as vidas 
mais innocentes: os negros da ilha de Síto-Domingos acab^o 
dedar ao mundo um exemplo terrível doestas surprezas : 
aquelles Índios serião o ponto de ajuntamento, e apoio dos 
negros fugidos, 6 ainda dos brancos descontentes, si elles 
existissem por muito tempo na sua rebelião. 

Além das armas que rendem a V. A. R. aquelles 
Índios em sinal da sua obediência, oferecem tdlo bem 
os pobres trastes de seu uzo, e dos seus infeites, que 
Gonsistem em uma coberta, um par de sandalhas e dous 
alforges fabricados por elles mesmos, e duas pedras de 
tintas, a que elles chamSo tauáy com que se pintâo a 
seu modo. 

O tecido das suaa obras ainda que é grosseiro, comtudo 
a materia,de que ellas se con põem, pôde ^er de um interesse 
grandissimo para a marinha na parte que pertenço às 
amarras, cabos e velames, por isso que é uma espécie de 
linho a que elles chamâo crauá (talvez mais forte cio que o 
canhamo),de que abundão aquelles sertões, nascido natural- 
mente como vergonteas da grossura de um dedo e de altura 
de dous até três palmos,sem alguma cultura pela distancia de 
algumas léguas, principalmente n:i capitania do Ceará na 
freguezia de Sflo-Mateus ; e se reproduz das suas raizes, 
sendo cortado ou ainda queimado, comtanto que se não 
arranquem as raizes. Este só artigo das fabrica^* do linho 
cânhamo forma uma grande parte da riqueza do grande 
império da Rússia. 

O tauá, e outras muitas tintas finas, com que elles se 
pintao debaixo do mesmo nome de tauáj e de qi e se 
achSo muitas pedras de tintas do diversas cores na fre- 
guezia de Viila-viçoza nos certSes do Ceará, por isso que 
são mineraes, podem ser de grande interesse principalmente 
para os pintores de esca colas e estuques, que as mandão 
vir de fora por alto preço: o exame d'estes objectos não 
pôde deixar de ser de um grande interesse para o co- 
mercio. 

Si nas aldeias d^aquelles novos indios se estabelecessem 
algumas cordoarias^ ainda que para os cabos de menor 

TOMO ZLYI, P. I. H 




— 106 — 

grosura, seria sem duvida um mi^io íacii; não bó de os 
civilizar, mas também de tirar logo d^elles algum partido, 
principalmente dos que já estão acostumados a trabalhar 
n'aquel!e género de linho. 

As manufacturas das cordoarias, que ficassem mais juntas 
às margens do rio de São-Francisco, onde estão situados 
aquelles indios, poderião ser conduzidas pelo mesmo rio 
até á villa do Recife ; as que ficassem mais para dentro do 
certão poderião ser conduzidas em bestas pela nova es- 
trada^que no meu tempo se mandou abrir desde as margens 
d'aquelle rio até a dita villa do Recife, para condução dos 
gados d'aquelles certõeS; que por falta da dita estrada se 
perdião, e hoje são de uma grande utilidade para a sus- 
tentação d'aquel!es povos, e de grandes interesses para 
a fazenda real, como se vê na carta junta de Jozó de 
Barros Falcão de Lacerda Calvacanti, juiz vereador que 
então era da cidade de Olinda. 

O bem do serviço de V. A, R. e do publico não per- 
mite, que eu passe adiante, sem ter a honra de poma augusta 
prezença d 3 V. A. R. o merecimento do dito juiz Lacerda 
Cavalcante, que sem duvida é um dos vassalos de V. A. R., 
que ali achei mais h jnrado, e mais zojozo do serviço de V. A. 
R. e o mais desinteressado, e incansável em promover o bem 
da sua pátria; assim como Custodio Moreira dos Santos, 
que com ioda a prontidão, actividade, e economia fez abrir 
aquella grande estrada de mais de trezentas léguas, sem 
algum vexame dos povos: estes dous homens são muito 
dignos de serem ocupados no serviço de V. A. R., o dito 
Lacerda Cavalcante para os negócios dentro da villa do 
Recife, ou cidade de Olinda, e o dito Custodio Moreira 
para os negócios do certão. 

Eu venho finalmente em nome d'aquelles indios rogar 
á y. A. R. se digne tomal-os debaixo da alta proteção de 
V. A. R., mandando ao governador d'aquella capitania, 
que lhes assine terras para cultivarem, e á junta da fa- 
zenda real, que lhes dê a ferramenta necessária para o tra- 
balho, ficando entretanto conservados debaixo da direção 
dos ministros da relegião, até que elles percão as saudades 
da barbaridade, e se facão aos costumes dos povos civili- 
jsados. 




— 107 — 

Deus, senhor nosso, autor de todo o bem, felicite para 
sempre a V. A. R. e aos seus vassalos. 
Senhor. 

De V. A. R. 

o muito obediente e íiel vassalo, 

D. Jozéj Bispo de Pernambuco, 
Eleito de Bragança e Miranda. 



Exm. e Revm. Sr. — Ainda que longe da respeitável 
e amável prezença de V. Ex. Revma., porque a salva- 
mento o faço n'essa côrtc, e eu, n'estes remontados e bem 
agrestes sertões, comtudo não posso ao menos com esta mal 
escrita aliviar a pena, que de continuo provo em meu 
coração, da sua saudoza auzencia, com relatar siquer o 
que tenho feito acerca dos gentios bravos, que V. Ex. 
Revma. e mais senhores do governo foi servido encarre- 
gar-me da importante diligencia de pacifical-os, instruil-os, 
baptizal-os e aldeal-os, até pôl-os no caminho do céu, e 
ao serviço do rei, porque sei o quanto bem o sou gentil 
coração dezeja a estes pobres indios. 

Aos 7 de Julho sahi de Pernambuco, e aos 31 do dito 
cheguei na capela de Jeritacó, ribeira do Moxotó, e no 
primeiro de Agosto, que era o dia de Sant^Anna, depois 
de ter celebrado a santa missa^ lá vierSo dous dos ditos 
gentios a ter fala comigo, porque jâ estavão notificados 
pelos moradores da dita ribeira ; com muito agrado os 
recebi, e perguntando eu por toda a sua gente, responderão, 
que esta vão todos juntos no mato, esperando por mira, 
mas que não sahião n'essa ribeira por medo da muita 
gente que lá havia, e que só indo eu ao logar chamado 
Jacaré, por ser este logar muito retirado, sem falta 
todos lá sahirião ; e por eu saber que esta é uma gente 
muito desconfiada, e só com paciência, prudência e cari- 
dade se vence, lhe fiz a vontade, e com todo o rigor 



- 108 — 

da seca o da fome, do melhor modo que pude, aos 12 
de Agosto, ao sol posto, cheguei n^este logar do Jacaré, 
sem achar gentio nenhum ; e aos 13, ás 5 horas da tarde, 
ó que aparecerão 4 correios dos ditos gentios, e um d'elles 
era o seu capiitaz ; e chegando, como sinal de respeito 
e de entrega, logo encostarão seus arcos o frexas ao meu 
pobre ranxo. 

Com agrado e alegiúa os recebi, e perguntando eu aonde 
estava a sua gente, respondeu o lingua e capataz, que a 
gente vinha muito devagar em razão da fome, dos velhos 
e dos meninos, mas que amanhan, até depois, sem falta 
ostavão todos n^este logar. Com eieito aos 15, dia da 
gloriozissima assumpção de Maria Santíssima ao céu, ás 
4 horas da tarde, é que tive o inexplicável contentamento 
de vêr-me cercado, e ter na minha prezença 114 gentios 
brabos, que é o numero total d^elles, entre maxos e tVmeas, 
grandes e pequenos. 

Uns tantos d'elles mostravão no semblante, que nenhum 
medo tinhão ; mas uns tiemião de modo que não posso ex- 
plicar, e principalmente as mulheres ; porém assim mesmo 
uns tantos encostarão os arcos ao meu ranxo, e outro'5 
ra'os derâo para guardar. A todos os recebi com ternura 
e alegria, e já revestido de roquete c estola, com velas 
acezas no meu altar, aonde estavão já coUocadas as mi- 
nhas armas, que são o santo Cristo e N, S. da Penha, com 
aquella pouca gente que cá me acompanhou, invoquei o 
divino Espirito Santo, rezando o veni creator spiritus, 
com outras oraç3es próprias, que a santa igreja costuma 
rezar n 'estas e outras similhantes necessidades, e por fim 
lhes dei a benção com o santo Cristo, e os mandei ar- 
ranxar no mato. 

No dia seguinte os chamei todos á minha prezença, 
e por meio de 10 linguas, que tem todo este ranxo de 
vermelhos, principiei a explicar-lhes qual era a cauza 
da minha vinda a estas brenhas ; que era mandado do 
Deus, do rei e do governo para elles se aldearem, bap- 
tizar, instruir na fé católica, servir ao i ei e nunca mais 
viver como bixo no mato, mas sim como christãos em 
aldeia para se salvarem. A isto responderão todos que 
este sempre foi o seu dezejo, nuis que tinhào medo dos 



— 109 ~ 

brancos, e que esta não fosse falsidade minha j co:no já 
foi aquella do riaxo do Navio, do Brejo do Gama e outras, 
que d ice a V. £x. Revina. o anno passado, quando al- 
deei os Índios brabos do Olho d^agua da Gameleira, na 
freguezia do Cabrabó, que debaixo da capa de paz e da 
santa missa, fizerâo d estes mizeraveis tão horrenda carna- 
gem de prender, atirar, xumbar^ acutilar, espancar, matar 
e picar, como si nâo fossem gente da mesma espécie como 
nós. 

Estas palavras, que entre elles passão de pais a filhos, 
de netos a bisnetos, me atemorizarão, e tanto ferirão o 
meu coração, que quazi me faltava o alento píira responder, 
afim de tiral-os d'este imaginário medo e socegal-os ; e só 
com o coração traspassado, dizia comigo : Possível, que 
n 'estes tempos houvesse gente tâo cruel e tão dcshumana 
e tão inimiga de seu próximo, que só dezejasse fartar a 
sua sede com sangue humano? Possivel, que o mais alto 
mistério da nossa santa religião, qual é a santa missa, e 
a santa igreja haja de servir de capa para traições, falsi- 
dades, e derramar o sangue de creaturas tamb3m ellas 
remidas com o sangue de Jezus Cristo ? Grande lastima !... 

Emfim fiz o que pude para pacifical-os, e pedi, que todos 
05 dias de manhan e de tarde viessem aprender a doutrina, 
rezar e ouvir missa, o que sempre fizerão até agora, e 
uns tantos, por ter bôa memoria, já sabem os primeiros 
rudimentos da fé católica, e já baptizei todos os párvulos, 
e estou catequizando os adultos para logo baptizal-os e ca- 
zal-os, e si o sucessor, novo bispo de Pernambuco, me con- 
cedesse licença de crismar estes mesmos indios, fícarião 
mais satisfeitos^ pois até este mesmo sacramento elles me 
pedem. A cabo de dez dias, vendo que já estavão con- 
tentes e pacifícos, tratei com elles aonde baviamos de fa- 
zer aldeia ; e todos juntos responderão, que querião este 
logar do Jacaré, porque ha muito mel e bixo para comer, 
e plantarião mandioca na serra do Periquito, distante 
d'este Jacaré três léguas boas, e já perto da Serra-negra; 
mas porque estas terras estão em litigio entre os senhores 
da torre da Bahia e os Burgos, e j& dei parte aos senhores 
do governo para elles me determinarem o que hei de 
seguir^ por isto ainda não principiei a santa igreja. 



— 110 — 

Para estes pobres índios se aldeiarem carecem do adja- 
torio do rei, .como seria ferramenta para plantar, e vestir, 
pois é lastima vel-os nús, como Deus os creou ; e em- 
quanto não toem plantas, em razão da grande seca, ca* 
recém agora de algum sustento, pois eu e elles padecemos 
o que Deus sabe ; mas pelas minhas informações, que já 
fôrão ao governo, espero em Deus, a tudo darão remédio, 
porque sei, que Sua Alteza Real é muito inclinado á ca- 
ridade, e á piedade doestes pobres mizeraveis indios, que, 
pelo que descubro do seu semblante, estão contentes e vão per- 
dendo inteiramente todo o medo, e querem aldeiar-se, assim 
o dizem os línguas em nome de todos; e uns estão tão firmes 
e tão constantes, que dizem repetidas vezes, que não querem 
mais mato, e, aldeadíis, querem viver e morrer em caza. 
E pelas boas noticias cortas, que tenho, outros gentios bra- 
vos, que andão embrenhados nas cabeceiras do Piancó e 
Terra-nova, travessias dos Cairiris-novos, chamados XocóSy só 
estão esperando noticia certa de ver estes aldeiados, e que- 
rem câ vir a baptizar- se e aldeiar-se com estes, e além 
das duas cartas que já escrevi aos capitães mandantes a 
este respeito, já lhes mandei dous embaixadores d'estes a 
convidal-os, e quando receiarem de cá vir, dando-me Deus 
graça, vida e saúde, não terei duvida, com o mesmo rigor 
da seca, ir a procural-os ; e si toda esta minha dih'gencia 
tiver o seu bom efeito, como espero em Deus, com os 78 
gentios brabos Vouti e Umão, que aldeei o anno passado 
no Olho d'agua da Gameleira, com estes 114 Pipipdes, e 
com esses cincoenta e tantos XocóSy que cá espero,são perto 
de 300 gentios bravos, que, com a graça de Deus, tenho 
conquistado ao serviço do mesmo Deus e de Sua Alteza 
Real. 

Esta é a sincera, verdadeira e leal reprezentação, que 
faço a V. Ex. Rvma., do que tenho feito até agora acerca 
d'este8 pobres índios, não só por consolação sua, como 
também si quizesse aprezentar isto aos Exms. ministros, 
ou a Sua Alteza Real, pois são 22 annos que trabalho 
n 'estas missões, e õá annos que tenho nas costas, e dezejo 
agora o descanço, e tratar de mim, e fará o que elle fôr ser- 
vido. 

E aqui, prostrado aos seus pés, lhe peço a santa 



S 




— 111 — 

benção, e eu, com toda a humildade e respeito, beijo ae 
suas sagradas mãos. Orapro me et vale^ pois sou 

De V. Ex. Rvma. 
o mais humilde servo e obediente súbdito venerador 

Frei Vital de FreacarolOj 
Missionário apostólico capuxinho italiano. 

Jacaré, sertão da Serra-negra, aos 4 de Setembro de 

1802. 



Exm. e Rvm. Sr. — Aos 4 de Setembro do 1802, para 
cumprir o meu dever, dei parte a V. Ex. Rvma. do 
feliz sucesso, que tive com os gentios brabos da nação 
Pipipãoj que andavâo embrenhados no certâo da Serra- 
negra, que á custa de nfto poucos trabalhos cheguei ao 
ponto de aldêial-os no logar chamado Jacaré, logar, que 
elles escolherão para sua nova missão, aonde até agora 
com universal contentamento estão vivendo mansos e 
pacíficos. 

Agora para inteirar este mesmo meu dever devo par- 
ticipar a V. Ex. Rvma., que vendo o bom sucesso obrado 
por Deus por intercessão de Nossa Senhora da Penha em ai- 
dêiar esses gentios do Pipipão^dt, cabo de dous mezes, mandei 
dous embaixadores doestes a notificar, convidar e participar 
do mesmo bem a um resto de gentios brabos chamados do 
Xocóf que andavão embrenhados nas cabeceiras do rio 
Piancó, e travessias dos Oariris-novos, e depois de terem 
consultado uns com os outros aos 8 de Janeiro de 1803, 
ás 8 horas da noite, veio na missão do Jacaré o seu c apataz 
com mais dous companheiros gentios, como se diz, a des- 
cobrir terra ; e vendo que tudo era paz verdadeira, sem 
a mais leve suspeita de falsidade e de bandeira, no dia se- 
guinte, depois da sua missa, vierão á fala comigo, pe- 
dindo-me um passaporte, que sem mais demora ia buscar 
sua gente toda para elles também se baptizarem, e al- 
dôiarem : o que tudo executei ; e aos 14 do mez de Março, 



— 112 — 

dia ein que dei Bolemne posse da nova missão do Jacaré 
aos gentios do Pipipão com suas patentes de postos dos 
Illm. Srs. do governo, de capitão mór, sargento mor, ca- 
pitão e alferes, n'esse mesmo dia é, que veio o dito ca- 
pataz do Xocó cora toda a sua gente em numero de c6,que é o 
total numero dolles, e depois de se baptizarem, e uns tantos 
cazarem, vendo que elles não se davão bem com os do 
Pipipão, vendo que não podiào acostumar-se a caçar em 
matos de tantos espinhos, e ouvindo as minhas desenga- 
nadas explicaç5es que a intenção do rei já não queria mais 
Índios nos matos, e que tudo lhes perdoava, e os deixava na 
total liberdade de escolher qualquer das duas novas miss5esou 
do Jacaré, ou do Olho d^agua da Gameleira e escolherão de 
ir na Gameleira, e com minha licença, e passaporte la fôrão 
agregar-se com elles do Vmão e Vouê, onde até ao pre- 
zente estão vivendo, mansos, pacificos, e socegados; e 
agor i sua Alte7.a Real tem mais este pequeno numero de 
povo alistado debaixo das suas reaes bandeiras, porque 
as três naç3es de gentios Vouej Umâo, e Xocó, estão todos 
juntos na nova missão do Olho d'agua da Gameleira, 
em numero de 130, que é o total d'essa missão e os gentios 
d<*i nação do Pipipão, que sempre foi a nação mais braba, 
e mais numeroza, estão todos juntos na nova missão do Ja- 
caré em numero de 135, que por tudo fazem 263 ; 
pôde V. Ex. Rvma. estar na certeza, que todo este seu 
bispado e vastíssima capitania ja não têem mais gentios 
brabos nos matoS; que possão desgostar os moradores, e 
Sua Alteza Real, mas carece agora, que V. Ex. Rvma. os 
encommende a Deus para que lhes dê o dom da perseve- 
rança, porque não ignora quanto é grande a inconstância 
de todos estes mizeraveis índios, que só pedem padres da 
Penha por seus vigários, 

N 'esses ásperos, secos, e rigorozos dezertos com não 
pouco trabalho, eu estive um anno e mais com elles para 
cultival-os na lei chrístan e civil, mas vendo que a seca, e a 
fome continuavão com o mesmo extraordinário rigor, vendo- 
me já velho, e bem cansado, vendo finalmente, que estava 
morrendo á fome e á necessidade, pedi aos Srs. do go- 
verno e ao padre prefeito licença para me retirar, e por meu 
sucessor mandarão frei Angelo Maurício de Niza, e aos 




— 113 — 

8 doeste mez bem acabado cheguei n^este hospício, e si 
não puder alcançar licença para voltar á Itália^ ou ir 
descançar no hospicio de Santa Apolónia em Lisboa, pe- 
direi a Deus queira aceitar a minha penitencia n^este 
hospicio^ em satisfação das minhas culpas e pecados, 
porque, com 25 annos de continuo missionar, estou bem 
cansado e enfadado. 

Tendo portador seguro, que me parece será o religioza 
D. Pedro do Carmo, cónego regrante, que das miss5es de 
Angola vem para essa corte na galera chamada Sacramenta 
e Conceição, mandarei o V. Ex. Rvma. dous arcos e frexas 
de guerra; que estes pobres indios oferecem humilde- 
mente a sua Alteza Beal, em sinal de rendimento e 
obediência ao augusto senhor. 

Estas são as sinceras noticias, que me vejo obrigado a 
participar a V. Ex. Rvma., e perdoará as íaltas, que em 
mim houve em cumprir á risca a diligencia, de que V» 
Ex. Rvma. me encarregou, e encarecidamente lhe peço me 
encommende a Deus, que aqui prostrado aos seus pés, be* 
jandO'lhe a sagrada mão, lhe peço a santa benção, e sou 

De V. Ex. Rvma. 
seu humilde servo e obediente súbdito. 

Frei Vital de FreacarolOj 
Missionário apostólico capuxinho. 

Pernambuco 10 de Janeiro de 1804. 



Exm. e Rvm. Senhor. — Eu não sei o estilo, com que 
se escreve aos monarcas. Do melhor modo, que soube, iÍ2 
estas duas induzas reprezentaçSos, e escolherá V. Eza* 
Rvma. a que achar melhor, e havendo alguma falta, peçe, 
por quem é, emendal-as; pois dezejo todo o bem a e ses 
mizeraveis. Digo isto, porque os homens d'aquellas terras 
e da sua redondeza, si o rei mandasse um tiranno carre^ 
gado de pólvora e bala para acabar esses indios a ferro e 
a fogo, terião gostado mais que mandar um missionário s 

TOMO XLVI, p. I. 15 



— 114 — 

aldeial-oB com as armas da paz e da mizericordia. Me per- 
doe V. Ex. Rvma.y si escrevo com tanta confiança a favor 
d'esses pobres^ porque a fresca lembrança^ que ainda con- 
servo do que fez V. Ex. Rvma., e mais seu tio lá na sua 
terra, e lá na fazenda no Rio de Janeiro, em favor de uma 
nação de indios gentios, que procurarão por amparo a sua 
illustre caza, e o incomparável zelo que V. Ex. Rvm. tem 
da salvação das almas d'este seu bispado, é que me dão este 
animOf e esta confiança, esperando em Deus de ser atendido 
em tempo, pois eu tenho a summa gloria de ser 

D. V. Ex. Rvma. 
o mais humilde, reverente, e obdiente súbdito 

Frei Vital de Frescarolo 
Missionário capuxinho italiano. 

Recife 15 de Fevereiro 1804. 



Exm.eRvm. Senhor. — Peíiso terá V. Ex. Rvma. rece- 
bido a minha de 10 Janeiro> em que lho dava noticia de ter 
acabado a diligencia, de que fui encarregado por V. Exma. 
e mais senhores do governo acerca dos gentios brabos, que 
andavão embrenhados por esses ásperos certdes, que prezen- 
temente. Deus louvado» estão todos aldeiados n^essas duas 
novas missSes do Olho d'agua da Gameleira, e do Jacaré, 
e pôde agora V. Ex. Rvma. ter esta consolação, que já 
não tem mais gentios brabos n'este seu bispado, que possão 
perturbar o seu rebanho, e desgostar Sua Alteza Real. Agora 
estes indios entregarão a N. S. da Penha seus arcos e frexas 
de guerra como sua conquistadora : e outros, e todos juntos os 
entregAo a Sua Alteza Real^ o príncipe regente, nosso se- 
nhor, em sinal de rendimento» e de verdadeiros vassalos obe- 
dientes a tão augusto senhor. Não vão todos» mas só mando 
dous arcos e 12 frexas de guerra, uma frexa, para vêr 
oom que cação e matão seus bixos» uma esteira de cravatà» 
com que se encobrem de noite no inverno, um aió de era- 
vatá, em que carregão suas caçadas, e as mulheres suas 




— 115 — 

\ 

bagagenS; quando mudão de um logar para outro, duas 
alparcatas de cravatá, calçado com que andâo nos matos, 
e um pedaço de tauá, tinta vermelha, com que costumão 
pintar nos seus infeites. 

Eu nâo escrevo ao Exm. Sr. secretario de ultra-mar, nem 
aprezento a elle estas bagatelas para entregar a S. Alteza 
Real, porque não sei dos estilos da curte, mas quando fosse 
isto precizo, peço a V. Ex. Rvma. falar com elle,efazer-lhe 
minhas desculpas. 

Dezejo a V. Ex«Rvma. perfeitissima saúde para me enco- 
mendar a Deus nas suas fervorozas orações, e aqui de joelhos, 
pedindo-Ihe a sua santa benção, bei]ando-lhe a sagrada mão, 
me prezo ser 

D. V. Ex, Rvma. 
o mais humilde e obediente súbdito 

Frei Vital de Frescarólo 
Missionário apostólico capuxinho italiano. 

Pernambuco aos 15 de Fevereiro de 1804. 



Senhor. — Dizem os pobres índios gentios da nação 
PipipãOy que já ha tantos annos anda vão embrenhados 
n^esses ásperos certSes da Serra-negra, sem mais conheci- 
mento nem de Deus, nem de quem governa este mundo, 
vivendo de selvagens, e como brutos nos matos na pura lei 
da natureza, com irremediável perca das nossas almas ^ 
foi Deus finalmente servido pela sua alta e infinita mize- 
ricordia chamar-nos á luz da fé católica por meio de um 
ministro de seu santo Evangelho, o Revm. preU frei Vital 
de Frescarolo, missionário apostólico capuxinho italiano, 
que depois que com o seu apostólico zelo teve o feliz su- 
cesso de ir conversar, pacificar, instruir, catechizar e ba- 
ptizar as duas naçSes de Índios gentios Vom e Umão, que 
como nós vivião embrenhados nos sertões da Terra-nova,até 
ao ponto de aldeial-os no logar chamado o Olho d^agua da 
Gameleira, aonde até ao prezente estão vivendo mansos, 



— 116 — 

e pacíficos no serviço de Deus, e de V. A. R , o dito mis- 
sionário, tSo empenhado pela gloria de Deus, e pela sal- 
vação das almas, com igual zelo trabalhoU; e procurou 
alcançar de nós o mesmo intento, com efeito depois de nos 
conversar, e de nos convencer com a eficácia do seu zelo, 
nos instruio, catechizou, baptizou, cazou, e nos aldeiou no 
logar chamado Jacaré, que nós mesmos escolhemos por 
logar da nossa rezidencia, aonde nós também já estamos 
vivendo por grémio da santa igreja, e serviço de V. A. R. 

A noticia d'estes dous prodígios obrados por Deus por in- 
tervenção da raihgroza Senhora da Penha, padroeira dos 
missionários da missão de Pernambuco, chegou também 
nos certSes, cabeceiras do rio Piancó, e travessia dos Ca- 
riris-novos, aonde como nós viviào embrenhados um pe- 
queno resto de índios gentios da nação Xocôj porque assim 
que receberão o recado de dous embaixadores da nação 
PipipãOj com que o dito missionário os mandava convidar 
viessem a participar do mesmo bein, que as nossas trez 
nações já estávamos desfrutando, depois que o seu capataz 
com mais dous seus companheiros vierão pessoalmente ao 
Jacaré certificar-se ; e vendo que quanto fazia o dito mis- 
sionário tudo era paz, amor, e caridade sem mais perigo 
de bandeiras, e que unicamente procurava todo o nosso 
bem temporal e espiritual, sem mais demora vierão elles 
também a instruir-se, catechizar-se, baptizar-se, e aldear- 
se ao serviço de Deus, e de V. A. R. e íôrão agregar-se á 
missão do Olho d^agua da Qameleira, cujas trez nações 
Vouê, Umão e Xocó são por tudo cento e trinta, e nos 
da naçSo Pipipão, que estamos aldeiados na missão do Ja- 
caré, somos por tudo cento e trinta e cinco, de sorte que 
oom estas duas novas missões tem mais V. A. R. este 
pequeno numero de povo, duzentas e sessenta e cii co 
pessoas prontas, e dispostas ao seu real serviço. 

Por sinal, que tanto nós da missão do Jacaré, quanto os 
do Olho d'agua da Gameleira, queremos de hoje por diante 
viver no grémio da santa igreja, e sermos verdadeiros 
súbditos, e fieis vassalos de vossa Real Magestade, aqui 
depozitamos aos pés do trono de Y . A . R. nossas armas 
de guerra, e t:imbem oferecemos nossas pobres alfaias, 
que é todo o nosso cabedal, que possuímos, para Y. A. R, 




— 117 ^ 

yêr, e contemplar quanto era grande a nossa mizeria^ a 
nossa pobreza, e a nossa nudez lá nos matos, e esperamos, 
que isto tudo será um objecto mais que bastante para 
Vossa Magestade ter compaixão de nós, porquanto nós 
todos humildes, e rendidos súbditos pedimos, e implo- 
ramos sua real proteçSo. 

Pedimos a V. A. R. muito hu- 
mildemente seja servido de acceitar 
o sacrificio da nossa obediência, e 
deferir a nossa suplica com benevo- 
lência própria da sua real clemên- 
cia. 

E. R. M. 



Senhor. — ^ Uma porçSo considerável de homens sel- 
vagens, que tem vivido até agora a maneira de brutos nas 
ásperas brenhas do certão da Serra-negra, Terra-nova, ca- 
beceiras do rio Piancó, e travessia dos Cariris-novos bis- 
pado, e capitania de Pernambuco, sem conhecimento de 
religião, nem idéa de governo regular, indios gentios da 
nação Pipipão, Vouêf Umão Xocó, forão prezentemente 
ilustrados por mizericordia de Deus com a luz da fé, e do 
Evangelho, mediante o zelo, caridade, e diligencia do Rvm. 
frei Vital de Frescarolo missionário apostólico capuxinho 
italiano, o qual com feliz sucesso, ou antes com vizivel pro- 
dígio avançou o ariscado trabalho de os ir conversar, e 
pratical-os, com efeito até chegar ao ponto de instruil-os, 
cathequizal-08, baptizal-os, cazal-os,e finalmente aldeial-os,a 
saber, os da primeira nação, que são em numero de cento e 
trinta e cinco no logar do Jacaré, que elles mesmos esco- 
lherão, e os outros no Olho d'agua da Gameleira, cujo nu- 
mero monta a cento e trinta, conseguindo reduzir ao grémio 
da santa igreja católica duzentos e sesenta e cinco almas e 
ao serviço de V. A. R. outros tantos vassalos, que presente- 
mente estão vivendo nas referidas aldeias em paz e obedi- 
ência. Estes novos católicos, e novos Portuguezes conver- 
tidos e conquistados só com o poder da verdade não 



s 



— 118 — 

podendo dar outros testimunhos de prazer, com que reco- 
nhecem na augusta pessoa de V. A. R. o seu senhor natural, 
e legitimo soberanoi rendem humildemente e remetem aos 
reaos pés os únicos bens que possuem, que são as armas de 
guerra do seu antigo uzo, e as pobres alfaias, que sâo pe- 
nhor da sua fidelidade e reconhecimento, esperando que 
V. A. R., por um singular efeito da sua clemência, os to- 
mará d 'aqui em diante debaixo da sua real proteção, com- 
padecendo-se da sua pobreza e mizerias, e mandando pro- 
mover, e empregar todos os meios que julgar mais acommo- 
dados á sua civilização, conservação e segurança. 

Pedimos a V. A. R. muito humildemente seja servido de 
aceitar o sacrificio da sua obediência e deferir a sua suplica 
com a benevolência própria da sua real clemência. 

E. R. M. 



Illm. e Rvm. Sr. D. Jozé Joaquim de Azeredo Cou- 
tinho. — Em 9 de Abril tive a honra de receber a carta de 
V. Ex. datada em 7 de Fevereiro d*este prezente anno com 
aquolle gosto e prazer, de que sou a V. Ex. obrigado e 
devedor. Depois que V. Ex. sahio de Pernambuco algumas 
cartas tenho escrito a V. Ex. afim de saber de sua 
saúdo.... 

Estamos exprimentando falta de chuvas; forma-se o 
tempo, que parece dosfazorom-se as nuvens em chuva : tudo 
passa oin sCco. Varias vozes pedi a V. Ex. absolvesse esta 
torra do Pornambuco, onde eu considero muita parte d 'es te 
povo oxcommungado, pois Deus não deixará de punir as 
malodieonciíis o proceaer, com que este povo de Pernam- 
buco tem ultrajado sous ministros ; e agora mesmo tomo a 
pedir a V. Ex. atonda a esta minha suplica. A poder de 
muitas mÍKHrios o prociasnes do penitencia, tem Deus mos- 
tr.ido querer fertilizar a torra, mas vendo a dureza do 
mou coração, também mo não atende. 

Ha um moaohogou o Oustodio Moreira da expedição da 
factura da estrada do «ortão do rio de São-Francisco,o qual, 
alem dao 800 léguas d esto rio, ainda subio outras 300 até 




— 119 — 

cbegar a Sao Francisco das Chagas, distrito aonde se 
aparta o das minas, sendo toda ella nas partes mais es- 
treitas de 40 palmos de largo, e fez trez curraes, que o 
senado lhe determinou, para recolhimento das boiadas n^a* 
quellas partes dezertas, e asrepartio a dous cada um, 
ficando com 150 palmos de frente e 45 de fundo, e de ma- 
deiras de aroeira, e n'estes 30 ou 40 annos não será preciza 
nenhuma reforma. 

Deu inteira satisfação a tudo quanto por V. Ex. e mais 
senhores do governo lhe encarregarão com tal satisfação 
que se duvidou o elle ter concluido. No que descobrio para 
aumento do real erário, muito serviço fez a S. A. Real. 

V. Ex. logo verá o mapa de tudo, e verá d'elle o 
quanto S. A. deve estimar um tão fiel vassalo. 

Os curraes, que o senado lhe tinha concertado para sua 
factura 400^51, os fez com menos de 200^000. Tudo quanto 
elle obrou julgo breve os senhores do governo remeter&5 
a io. A.f» • 

Deus guarde a V. Ex. por muitos annos com as felici- 
dades, que lhe dezeja quem é de V. Ex. muito obrigado e 
fiel servo 

Jozé de Barros Falcão de Lacerda Cavalcante. 
Boavista 2 de Maio de 1803. 



VL 



\ 



\. 



DIREÇtO 

Coi pe ioterinanieiite se levem replar os Mos 

DAS NOVAS VILLAS E LUGARES 

EBECTOS NAS ALDEUS DA CAPITANU DE PERNAMBUCO B SUAS ANNEZAS 



Sendo S. M. F. servido pelos alvarás com força de 
lei de 6 e 7 de Junho de 1755 e 8 de Maio de 1758 
abolir a administraçSlo temporal, que os regulares exer- 
citavão nas aldeias doeste governo, mandando-as gover- 
nar pelos seus respectivos principaes na lamentável rustici- 
dade e ignorância, com que até agora fôrâo educados sem 
terem a necessária inteligência, que se requer para o go- 
verno, nem quem os possa dirigir, propondo-lhes não só os 
meios da sua civilidade, mas da conveniência, e persuadir- 
Ihes 08 próprios ditames da racionalidade, de que tem vivido 
afastados, determino, em execução dos referidos alvarás, 
e para que se verefiquem as suas reaes e pias intenç5es, que 
haja em cada uma das sobi^editas povoações, emquanto os 
Índios não tiverem capacidade para se governar, um director 
que nomeará o governador e capitão-general doestas capita- 
nias, dotado de bons costumes, zelo, prudência, siencia da 
língua e de todas as mais circunstancias necessárias para os 
poder dirigir com acerto debaixo das ordens e determina- 
ções seguintes, que inviolavelmente se observará? em 
quanto o mesmo Senhor o houver assim por bem, e não man- 
dar o contrario. 

Na forma dos mencionados alvarás, houve S. 3f . F. por 
bem, que os Índios existentes nas aldeias, que passarem a ser 
vilas, sejão governados no temporal pelos seus juizes 

TOMO ZLVI, P. I. 16 




— 122 — 

ordinários, vereadores e mais oficiaes de justiça, e nos lega- 
res pelos seus respectivos principaes; porém como só ao alto 
e soberano arbitrio do dito Senhor compete o dar jurisdiçSLo 
ampliando-a ou restringindo-a; como lhe parecer justo, não 
poderão os sobreditos em cazo algum exercitar a activa 
nos Índios^ mas unicamente a que pertence ao seu ministé- 
rio, que é a directiva, advertindo aos juizes ordinários, e 
aos principaes no caso de haver n^elles algum descuido pela 
indispensável obrigação, que têem por conta dos seus em- 
pregos, castiguem os delinquentes com a severidade, que 
pedir a qualidade do insulto, e circunstancias do escândalo, 
persuadindo-lhes que na igualdade do premio c do castigo 
consiste o equílibrio da justiça e bom governo da republica. 

§ 2 

Vendo porém os directores, que são infructuozas as suas 
advertências, e que não basta a eficácia do seu cuidado 
para que os ditos juizes ordinários e principaes assim o 
executem, para que não aconteça, como regularmente su- 
cede, que a dissimulação dos delitos pequenos seja cauza 
de se commeterem culpa? maiores, o participaráõ logo ao 
governador d'estas capitanias e ministros de justiça, que 
procederão n'esta matéria na forma das ordens de S. M. F., 
nas quaes recommenda o mesmo Senhor, que nos castigos 
das referidas culpas se pratique toda aquella suavidade o 
brandura, que as leis a este respeito dirigidas permitem, 
para que o horror da pena não os obrigue a desamparar as 
suas povoações, voltando para os escandalozos erros do 
gentilismo. 

§3 

Não se podendo negar que os Índios doeste governo e capita- 
nias annexas se conservão até agora na mesma barbaridade, 
como se vivessem nos incultos certoes,em que nascerão, pra- 
ticando os péssimos e abomináveis costumes do paganismo, 
não só privados do verdadeiro conhecimento dos adoráveis 
mistérios da nossa santa religião, mas até das mesmas 
conveniência? temporaes, que só podem conseguir pelos 
meios da civilidade, cultura e commercio, sendo evidente 
que as paternaes providencias do nosso invicto soberano se 



— 123 — 

dirigem unícamento a cristianizar, e civilizar estes até 
agora infelizes e mizeraveis povos, para que, sahindo da 
ígDorancia e rusticidade a que se achSo reduzidos, possSo 
ser úteis a. bí, aos moradores e ao estado. Estes três im- 
portantes tina, que sempre fôi^o a heróica eiupreza do in- 
comparavel zelo dos nossos católicos e fidelíssimos monar- 
cas, serão o principal objecto da reãecçSo o cuidado dos 
directores. 

§4 
Para 86 conseguir pois o primeiro ãm, que é o cristianismo 
dos Índios, deixando esta maioria por meramente espiritual á 
exemplar vigilância do Exm. e Rvm, preladod'eâta dioceze, 
recommendo unicamente aos directores, que da sua parto 
dêem todo o favor e auxilio para que as determinaçSos do 
dito prelado respectivas á direcção das almas tonhão a sua 
devida execução, o que os indioa tratem os seus párocos 
com aquella veneração b respeito, que b& devo ao seu alto 
caracter, sondo os referido directores os primeiros que, com 
as exemplares acçSes de sua vida, lhes persuadão a obser- 
vância d'e8to. 

Emquanto porém á civilidade dos indios, a que se reduz 
a principal obrigação dos directores por ser própria do seu 
cuidado, empregarás eates um especialissimo em lhes per- 
suadir todos aqueilea meios, que poas£U> ser conducentes a 
tSo útil como interessante fim, que são os que vou a re- 
ferir. 



Sempre foi máxima inalterável entre as naçSes, que 
conquistarão novos domínios, introduzir logo nos povos 
novamente conquistados O seu próprio idioma, por ser 
indispensável e um dos meios maia eficazes para os apor- 
tar das rnsticas barbaridades do seus antigos costumes, e 
Ilt mo-tr;ido ii (.■xporii^ncia que ao mesmo passo, que se intru- 
duz neltes o uzo da língua do príucipe, que os domina, bq 



>- 



— 124 - 

lhes radica também o afecto, veneração^e obediência; obser- 
vando pois todas as naçòes polidas do orbe este prudente 
e solido sistema, n'esta conquista se praticou tanto pelo con- 
trario,que só cuidarão os primeiros conquistadores de estabe- 
lecer n^ella o uzo da lingua, a que chamão geral, invenção 
verdadeiramente diabólica, para que privados os indios de 
todos os meios que os podião civilizar, permanecessem na 
rústica e barbara sugeição, em que até agora se conservão. 

§7 

Para desterrar este pemiciozo abuzo, Bera um dos 
principaes cuidados dos directores estabelecer nas suas 
respectivas vilas ou logares o uzo da lingua p( rtugueza, 
não consentindo de modo algum, que os meninos e me- 
ninas, que pertencerem á escolas e todos aquelles indios, 
que forem capazes de instrucção n^esta matéria, uzem da 
lingua própria das suas nações, ou da chamada geral, 
mas unicamente da portugueza, na forma que Sua Magès- 
tade têm recomendado tm repetidas ordens, que até 
agora se não observarão com total ruiná espiritual e tempo- 
ral do estado. 

§ 8 

E como essa determinação é a baze fundamental, 
haverá em todas as vilas o u logares duas escolas publicas, 
uma para rapazes e outra para raparigas, nas c^uaes se en- 
sinará a doutrina cristan, ler, escrever e contar, na forma 
que se pratica em todas as das nações civilizadas, ensi- 
nando-se nas das raparigas, além da doutrina cristan, a 
lêr, escrever, íiar, fazer rendas, costuras e todos os mais 
misteres próprios d^aquelle sexo. 

§ 9 
Para subsistência das sobreditas escolas haverá um mestre, 
e uma mestra, que devem ser pesFoas dotadas de bons cos- 
tumes, prudência e capacidade, de sorte que possão dezem- 
penhar as obrigações dos seus empregos, ás quaes se desti- 
nará o emolumento de meio tostão por mez de cada discí- 
pulo, e meio alqueire de farinha por anno na occazião da 



i 



V 



\ 



- 125 — 

colheita; pago pelos pais dos mesmos Índios, ou pelas 
pessoas, em cujo poder viverem, concorrendo cada um com 
a porção, que lhe competir em dinheiro ou efeitos ; o que 
prezen temente se regula em atcnçfto á grande mizeria e 

Eobreza a que so achão reduzidos : no cazo porém de não 
aver nas vilas, e logares pessoa alguma que possa ^er 
mestra de meninas, poderá5 estas até a idade de nove annos 
ser instruídas na dos meninos, na qual se lhes ensinará 
o que a estes deixo referido ; para que, juntamente com as 
intaliveis verv^ ades da nossa sagrada religião, adquirfto com 
maior facilidade o uzo da lingua portugueza. 

§ 10 

Concorrendo muito para a rusticidade dos indios a vi- 
leza o abatimento, em que têem sido educados, pois até os 
principaes, como são capitães-mores, sargentos-mores, 
capitães e mais oficiaes das povoações, sem embargo dos 
honrados empregos que exercitão, erão obrigados a cas- 
tigos indecentes, e misteres indignos dos seus postos, 
com escandaloza desobediência ás ordens de S. Magostado 
Fedelissima, porque foi servido recommendar aos padres 
missionários por cartas de 1 e 3 de Fevereiro de 1704, 
firmadas pela sua real mão, o grande cuidado, que devião 
ter em guardar-lhes as honras, distinções, e privilégios, com 
que os condecora, e tendo consideração a que, nas povoações 
livres, deve necessariamente haver diversa graduação de 
pessoas á proporção do mister, que exercitão, e pedir a 
razão sejão tratadas com aquellas honras destinadas aos 
seus empregos, recomendo aos directores, que assim 
em publico, como em particular honrem e estimem todos 
aquelles que forem juizes ordinários, vereadores, e exer- 
citarem postos honrozos, dando-lhes assento na sua pre- 
zença, tratando-os c >m aquella distinção, que lhes for de- 
vida, e ás suas famílias, conforme ás suas respectivas gra- 
duações e cabedaes, para que, vendo-se os ditos indios 
estimados publica e particularmente, cuidem em merecer 
com o seu bom procedimento as distintas honras, com que 
são tratados, separando-sed'aquelle8VÍcios, e desterrando as 
baixas imaginações, que infelizmente os reduzirão ao pre- 
zente abatimento e vileza. 




A^ 



n 



— 12 — 

§ 11 
Entre os lastimozos príncipios, e pernicíozos abuzos, de 
que têem rezultado nos índios o abatimento ponderado, é 
sem duvida um d'elles, a injusta e escandaloza introdução 
de lhes chamarem cativos, # outros opróbrios, que pelas 
leis se achâo defendidos querendo talvez, com a infâmia e 
vileza doestes, persuadir-lhes que a natureza os tinha des- 
tinado para a escravidão dos brancos, como regularmente 
se imagina a respeito dos pretos da costa da Africa , e por- 
que, além de ser prejudicialissimo e contrario á civilidade 
dos mesmos esse abominável abuzo, seria indecorozo &s 
leis de S. M. Fidelissima chamarem cativos a uns homens, 
que o mesmo Senhor foi servido nobilitar e declarar por 
izentos de toda e qualquer infâmia, habilitando-os para todo 
o emprego honorifico, nào consentiráõ os directores d'aqui 
por diante, que pessoa alguma chame cativo, caboclo e ta- 
puia, nem qne elles mesmos uzem entre si d'e3tes nomes, 
para que, coniprehendendo que lhes não compete a vileza 
dos mesmos, possão conceber aquellas nobres idóas, que 
naturalmente infundem nos homens a estimação e a honra. 

§ 12 

A' classse dos mesmos abuzos se não pôde duvidar, que 
pertença também o inabalável costume, que se praticava em 
todas as aldeias, de não haver um só índio, que tivesse ap- 
pelido, e de uzarem quazí todos de diferentes nomes dos 
que se lhes puzerão no baptismo, distinguindo-se entre si 
pelo de feras, com que se denomínão com escândalo geral 
no desprezo, com que abração estes e deixão aquelles de 
que verdadeiramente devem uzar ; e como de os terem e con- 
servarem Eem apelidos se segue haverem nas povoações mui- 
tas pessoas do mesmo nome, sem qualidade que os distinga, 
de que se origina confuzão e falta de conhecimento neces- 
sário ao uzo das gentes, terão grande cuidado os directores 
de os fazer tratar debaixo dos que receberão no baptismo, 
dando-lhes os apelidos pertencentes ás famílias portugue- 
zas, por ser moralmente certo que todos os de que uzão os 
brancos e mais pessoas, que se achão civilizadas, os procurSo 
por meios lícitos e virtuozos para viverem e se tratarem á 
sua imitação. 




— 127 — 

§ 13 

Sendo também indubitável que para a incivilidade e 
abatimento dos Índios tem concorrido muito a indecencia, 
com que se tratão em suas cazas, assistindo diversas fa- 
milias em uma só, na qual vivem como brutos, faltando 
aaquellas leis da honestidade, que se deve & diversidade do 
sexo, de que necessariamente ha de rezultar maior relaxa- 
ção nos vícios, sendo talvez o exercício d*elles, especial- 
mente o da sensualidade, os primeiros alimentos com que os 
pais de família educão seus filhos ; cuidará5 muito os di- 
rectores em desterrar das povoações este prejudicialíssimo 
abuzo, persuadindo aos índios que fabriquem as suas cazas 
à imitação dos brancos, fazendo n'ellas diversos reparti- 
mentos, em que vivão as famílias com separação, poaendo 
guardar, como racionaes, as leis do pejo e da honestidade. 

§14 

Para o que terão grande cuidado de pedirem aos prin- 
cipaes lhes dêem de cada vila oito índios dos que reconhe- 
cerem com mais aptidão para aprenderem os oíicios mecâ- 
nicos, como sejão aous para pedreiros, dous para carpin- 
teiros^ um para ferreiro e serralheiro, um para sapateiro, 
um para alfaiate e um para barbeiro ; os quaes serão obri- 
gados a remeter aos capitães-móres das antigas vilas ou 
cidades circumvizinhas, para estes lhes darem mestres com- 
petentes a ensinal-os com cuidado, nãi lhes faltando com o 
devido trato e vestuário necessário a poderem commoda- 
mente subsistir em premio do trabalho, que d'elles receberem 
no tempo em que aprenderem os ditos ofícios, como se pra- 
tica entre os brancos; em que terão grande cuidado os mes- 
mos capitães-móres e justiças das referidas vilas, man- 
dando, na mesma forma dos legares, um para cada um dos 
mencionados oficies, por carecerem estes de menos ofi- 
ciaes. 

§ 15 

E para que não fiquem inúteis os do carpinteiro a 
pedreiro, terão um especial cuidado os directores de 
estabelecer fomos de cal, e fabrica de telhas e tijolo, 



— 128 — 

habilitando os mais aptos ao exercido de o fabricarem ; o 
que com pouco trabalho se pode conseguir na abundância de 
lenhas, boa qualidade de barro, que quazi em todos os eitios 
ha, além da pedra para a cal, que na sua falta se faz de 
casco de marisco, como se pratica no Rio de Janeiro, por 
ser sem duvida que faltando estes materiaes se dificulta a 
fundaçSlo dos edificios indispensáveis para formozura e 
ornato das vilas ou logares, além da maior commodidadc 
dos seus habitadores; no que terão grande cuidado os directo- 
res, procurando adiantar esta providencia proporcional- 
mente, segundo a graduação e possibilidade de cada um. 

§ 16 

As pessoas ocupadas n'este trabalho poderão d'elle re- 
ceber ajusta utilidade, que lhes provier dos preços, porque 
correrem nos sítios, em que o fizerem, com declaração po- 
rém que estes se dão relativos aos que o fabricarem para o 
vender, e aquelles que n'elle trabalharem salariados; porque 
a estes só pertencerá o jornal regulado pela lei de Junho 
de 1665, que consiste em ganhar o traoalhador por dia 
uma parte mais do que consome no seu sustento, e o 
oficial duas, alem do que no mesmo dispende, em premio 
de ter dprendido o seu oficio, como por exemplo, si o tra- 
balhador preciza para o diário sustento de 60 réis, deve 
ganhar 120 róis, e o official, que gasta o mesmo, 180 réis: 
o que se regulará segundo a carestia, ou commodidade, 
porque correrem os géneros comestíveis nos sities, em que 
se fizer o dito trabalho; ficando advertidos de quando su- 
ceda não haver nas referidas cidades ou vilas mestres 
competentes a ensinar os ditos aprendizes, m'os remeteráo 
para lhes dar os que forem convenientes. 

§ 17 
Mas concorrendo tanto para a incivilidade dos Índios os 
vicies, e abuzos expendidos, não se pôde duvidar, que o da 
ebriedadade os tem reduzido ao ultimo abatimento por ser 
entre elles tão dominante e universal, que apenas se conhe- 
cerá um s ), que não esteja sujeito á toi-peza doeste defeito ; 
para destruir pois este poderozo inimigo do bem commun 



V 



— 129 — 

do estado; empregarão os directores todas as suas forças 
em fazer evidente aos mesmos indios a deformidade doeste 
vicio, persuadindo«Ihes com a mais viva eficácia o quanto 
será escandalozo, que, aplicando S. M. F. todos os meios 
para que elles vivSo com honra e estimaçSo, mandando^lhes 
entregar a administraçlU) e governo temporal das suas 
povoaçSes, obrem tanto pelo contrario, que se inhabilitem 
para elles, continuando no abominável vicio das suas ebrie- 
dades, ao mesmo passo que só devião cuidar em se fazerem 
beneméritos a tão destintas honras. 

§ 18 

Porém como a reforma dos costumes, e ainda entre os 
homens civilizados, é a empreza mais árdua a conseguir-se, 
especialmente pelos meios da violência e rigor, e a mesma 
natureza nos ensina, que i9Ó se pôde chegar gradualmente 
ao ponto da perfeição, vencendo pouco a pouco os obstá- 
culos, que a removem e dificultão, advirto aos directores, 
que para desterrar dos indios as ebriedades, e os mais abu- 
zos ponderados, uzemdos meios da suavidade e brandura, 
para que niío suceda, que, degenerando a reforma em ex- 
asperação, se retirem do grémio da igreja, a que natural- 
mente os convida de sua parte o horror do castigo, e da 
outra a inclinação aos bárbaros costumes, que seus pais 
lhes ensinarão com a instrução e exemplo, não consentindo 
o uzo de aguardente mais do que para o curativo, e abolindo 
inteiramente o das juremas contrario aos bons costumes e 
nada útil, antes prejudicialissimo á saúde das gentes. 

§ 19 

Finalmente sendo a profanidade do luxo, que consiste 
na excessiva e supérflua preciozidade das galas, um vicio 
dos capitães, que tem empobrecido e arruinado os povos, é 
tão lastimozoo desprezo, elastimoza a mizeria^ com que os 
indios costumão a vestir, que se faz precizo introduzir 
n'elles aquellas imaginações, que os possão conduzir a um 
virtuozo e moderado dezejo ae uzarem de vestidos deco- 
rozoB e decentes, desterrando a desnudez, que sendo efeito, 
não de virtude, mas da rusticidade, tem reduzido este povo 

TOMO XLYI, P. I. 17 



í 



— 130 — 

á mais lamentável mizeria ; pelo que ordeno aos directores, 
que persuadSo aos indios os meios licites de adquerirem 
pelo seu trabalho com que se possSo vestir à proporçSo 
de suas qualidades e das graduações de seus postos, nSo 
consentindo de modo algum andem nus, espeoiídmente as- 
mulheres, como se vê em quazi todas as povo^çSes com es- 
cândalo da razão e horror da mesma honestidade. 

§20 

Dirigindo-se todas as leis, que até agora se expedi- 
rSo, ao bom regimen dos indios, e seu bem espiritual e tem- 
poral, e querendo o nosso augusto monarca, que os mesmos 
permeio do seu honesto trabalho, sendo úteis a 8Í,concorrerÍLo 
para o solido estabelecimento do estado, fazendo entre elles 
e os moradores reciprocas utilidades e communicaveis os 
interesses, como se declara no § 9 do regimento das mis- 
s8es, foi servido mandar entregar aos padres missionários 
a administração económica e politica dos mesmos indios, 
cujos importantes fins só se poderáS conseguir pelos meios 
da cultura e do commercio; de tal sorte se executarás essas 
piíssimas e reaes determinaçSes, que, aplicados os indios 
unicamente ás conveniências particulares, não se permita 
meio algum para os separar do commercio e agricultura ; 
para conseguir pois estes dous virtuozos e interessantes 
fins, observarás os directores as ordens seguintes. 

§21 

Em primeiro logar cuidarás muito os directores em per- 
suadir aos indios quanto lhes fora útil e honrado o exercício 
de cultivarem as suas terras ; porque por este trabalho não 
só terão os meios competentes para sustentar com abun- 
dância as suas cazas e famílias, mas vender os géneros, 
que adquirirem pelo meio da cultura, aumentando por este 
modo os seuscabedaes á proporção das lavouras e plantações 
que fizerem; e para que estas persuasões cheguem a produzir o 
efeito quesedezeja, lhes farão comprehender os directores, que 
a sua negligencia e o seu descuido têem sido cauza do abati- 
mento e pobreza, a que se achão reduzidos, não omitindo 
diligencia alguma de introduzir n^elles aquella honesta e 




- 131 - 

louvável ambiçSo, que, desterrando das republicas o pemi- 
ciozo vicio da ociozidade, as constíkie populosas, respei» 
tadas e opulentas. 

§ 22 

Conseguintemente lhes persuadirá? os directores, que 
dignando-se S. M. F. de os habilitar para todos os empre- 
gos honoríficos, tanto nSo os inhabilitará paraestasocupaçSes 
o trabalharem nas suas próprias terras, que antes pelo con- 
trario o que render mais serviços ao publico n'este frutuozo 
trabalho terá preferencia a todos nas honras, privilégios e 
empregos^ como o dito senhor ordena. 

§23 

Depois que os directores tiverem persuadido aos índios 
essas solidas e interessantes máximas, de sorte que elles 
percebSo evidentemente quanto lhes será útil o trabalho,, e 
prejudicial a ociozidade,cuidará3 logo de regular a cada um, 
segundo a sua graduação, a porção de terra que lhes fica 
pertencendo na forma do regulamento, que para este fim 
determino, e consta do § 101 por diante, na certeaa de 
que sSo as competentes para fazerem suas plantaçSes e 
lavouras, de sorte que por meio d^ellas possão adquirir as 
conveniências, de que até agora vivião privados, ficando 
na inteligência de que, si pelo tempo adiante a experiência 
mostrar terem cultivado e fabricado as ditas terras, se lhes 
dará maior porção proporcionalmente, por ser este o adiaA- 
tamento, que se procura tanto em utilidade do commercio, 
como em beneficio commun do estado. 

§ 2á 

Consistindo a maior felicidade do paiz na abundância de 
pão, e demais viveres necessários para a conservação da 
vida humana, e sendo as terras, de que se compõem este 
governo e capitanias annexas, das mais férteis que se reco- 
nhecem, dous princípios tem concorrido igualmente para a 
consternação e mizeria, que n'ellas se tem experimentado. 
O primeiro é a ociozidade, vicio geral e insuperável a todas 
as nações incultas, que sendo educadas nas densas trevas 



1 



— 132 — 

da sua rusticidade até lhes faltão as luzes do natural 
conhecimento da própria conveniência. O segundo ô o 
errado uzo^ que até agora se fez do trabalho dos mesmos 
Índios, que, aplicados em utilidade particular de quem os 
administrava e dirigia, vinhão os habitantes doeste governo 
a padecer o prejudicialissimo damno de não ter quem os 
servisse, e ajudasse na colheita dos frutos, extração das 
drogas, e consequentemente os ditos indios prejudicados, 
no que por este respeito lhes podia acontecer, além da cul- 
tura das suas terras, em que se devião empregar, e o não 
fizerão por não terem mais tempo do que o quegastavftó em 
beneficio do particular, sem que doeste rezultasse utilidade ao 
publico e adiantamento ao estado. 

§25 

Estes sucessivos damnos, que têem rezultado sem du- 
vida dos mencionados principies, arruinarão o interesse 
publico, diminuirão nos povos o commercio, e chegaráS a 
transformar n'este paiz a mesma abundância em esterili- 
dade nos annos, em que a produção faltar, em correspon- 
dência á de que necessita, vindo por este modo a alterar-se 
a tranquilidade dos povos, da mesma sorte que nos exér- 
citos falta a obediência e diciplina na escassez e raridade 
dos mantimentos, obrigando a procurar o sustento em pai- 
zes remotos, e alimentar-se das raizes contrarias á con- 
servação da saúde com irreparável detrimento das la- 
vouras; manu£Ekturas, trafico, e louvável trabalho da agri- 
cultura. Para se evitarem pois tão pemiciozos damnos, 
terão os directores um especial cuidado em que todos os 
indios, sem excepção alguma, facão roças de maniva, não 
só as que forem suficientes para a subsistência de suas cazas 
e famílias, mas com que possão socorrer abundantemente 
os habitadores das suas circumvizinhanças, e por este 
modo venha a ceder em utilidade dos próprios indios nos 
preços que percebem, vendendo-se pelo maior, porque se 
puderem reputar na forma que se declara no § 29. 

§26 

Alóm das roças de mandioca ou maniva, serão obrigados 
os indios a plantar feijão, milho, arroz, e todos os mais 



V 



1 



— 133 — 

géneros comestíveis, que, com pouco trabalho dos agricul- 
tores, costurado produzir as fertilissimas terras doeste paiz, 
com os quaes se utilizará? os mesmos indios, e se aumen- 
tarás as povoaçSes, fazendo abundante o estado e animando 
os habitantes d'elle a continuar no interessantissimo com- 
mercio dos certSes, que até aqui se seguia com firouxidSo, 
pela falta de mantimentos precizos para fornecimento dos 
combois, ou porque nos excessivos preços, por que se ven- 
dião, lhe diminuião os interesses. 

§ 27 

Sendo pois a cultura das terras o solido fundamento 
d'aquelle commercio,a que se reduz a venda e comutação de 
frutos, e nâo podendo duvidar-se que entre os preciozos 
efeitos, que produz este paiz, nenhum é mais interessante do 
que o algodáo, recommondo aos directores, que animem aos 
indios a que façâo plantações d'este utilissimo género ; por- 
que, sendo a abundância d'elle preciza para se introduzirem 
n'este estado as fabricas d*este pano, em breve tempo virá 
a For este ramo de commercio um dos mais interessantes 
para os moradores d^elle, com reciproca utilidade, não só 
para o reino e Minas-geraes, mas das naçSes estrangeiras. 

§28 

Igual utilidade á das plantações referidas considero na do 
anil, em que a abundância com que naturalmente o produz 
o paiz d'este governo, facilita a sua extração e manufa- 
tura tão útil, como varias nações estão experimentando, 
e de pronta sabida, pelas vantajozas conveniências que 
n'elle se faz. 

§29 

Como regularmente os indios são os que costumão colher 
a ipecacuanha, parreira br^va, bálsamo, mástique, alme- 
cega, gomas e outras drogas e raizes medicinaes, que pro- 
duzem os certSes das suas vizinhanças, e vasto continente, 
vendendo-as ordinariamente por diminutos preços, além do 
que corre no mesmo, a pessoas que, no conhecimento das 
suas virtudes e sabida que tem no commercio, se utilizão 
com prejuízo dos que os colhem, as receberás d'aqui por 




— 134 — 

âiante os directores das vilas ou legares, a que pertencerem, 
dos moradores, que as beneficiarem, por conta, pezo e me- 
dida, tendo estes livros em que lançaráS por entrada o que 
toca a cada um, e juntas, com a devida separação, se re- 
meterás, com a marca da vila^ ou logar respectivo pelos 
directores a entregar n^esta praça aos administradores da 
companhia, para que estes, pelos seus justos preços, as 
tomem, sendo de receber, pagando-Ihes a sua impor- 
tância a dinheiro, ou a troco de fazendas úteis e precizas, 
segundo o que correrem, e relação que mandarem ; e não 
fazendo conta á companhia recebel-as, ou não havendo 
ainda administradores, as poderáS negociar por si os di- 
rectores, procurando sejão bem reputadas; o que efectuarão 
Eela sua parte os referidos administradores, quando os 
ouver, e lhes não sirva para a remessa dos seus efeitos, por 
lhes encarregar, pratiquem a este respeito o que determino 
aos ditos directores, a quem se remeterá o seu importe; mili- 
tando o mesmo pelo que toca ás baunilhas, âmbar, tarta- 
ruga, peles de anta, guariba, onça, tigres, couros de veado 
e lontra, os quaes terão o cuidado de secarem, na forma 
que se dirá no § 38, quando se lhes dificulte o podel-os sal- 
gar, por ser o melhor e mais útil beneficio. 

§ 30 

Igualmente procurarás os directores, que cultivem, e 
beneficiem nos seus devidos tempos o gravata, e para con- 
seguirem, melhorando a sua qualidade, se explicará em seu 
logar como o poderão conseguir sem tanto trabalho como 
até o prezente praticão^ para depois de preparado o reme- 
terem fiado, ou em rama, na forma que lhes fizer conta. 

§31 

Como para colherem todas as referidas drogas, bálsa- 
mos, e outros géneros medicinaes se faz precizo método 
proporcionado a tiral-os em teinpo, em que não percão par- 
te das suas b6as qualidades, se dará com brevidade relação 
do modo e tempo, que a respeito de alguns se deve prati- 
car pela averiguação, a que procedi nos livros, que consul- 
tei, atendendo n^ellea o beneficio e cultura, com que devem 
tratar as qualidades das plantas e legumes, que se lhes 



I 



— 135 — 

fazem indispensáveis para o seu uzo e utilidade, afim de 
que por este trabalho, feito com regularidade e segundo a 
natureza de cada espécie, possSo perceber todo o justo bene- 
ficio. 

§ 32 
O mesmo militará a respeito dos demais géneros, que 
cultivarem, como sSo: azeite de carrapato, de dendê, e 
outras madeiras que serrarem, as quaes terão cuidado de 
cortar nas minguantes da lua^ e no fim do verão, em que 
as arvores se achâo com menos viço ; do que se segue serem 
de maior duração, ficando os indios na liberdade de vende- 
rem as que lhes crescerem a quem Ih^as satisfaça pelos seus 
justos preços, ou remetendo-as para onde possSo ter me- 
lhor sabida. 

§33 

Haverá em cada vila, ou logar sitio de pastos propor- 
cionado com curral (para o que todos devem concorrer com o 
trabalho pessoal] este para recolher os gados pertencentes 
aos seus moradores, aquelles para a sua subsistência ; epara 
que de dia se não desencaminhem, nem prejudiquem as la- 
vouras, se elegerá á proporção do numero das cabeças, que 
houver, os guardas precizos, e os donos respectivos con- 
tribuirão anualmente com quantia por cada uma a faze- 
rem entre todos aos ditos guardas um salário competente 
a se sustentarem, cubrirem e terem uma justa utilida- 
de, além das cabeças, que poderão também ter ; e para que 
estas se não coníundão, ainda que por algum incidente se 
desviem para distancias consideráveis, serão todas marca- 
das com o ferro da vila uu logar, a que pertencerem, e com 
o particular de seus donos, para que se possa conhecer a 
quem tocão, e haverem-se de qualquer parte para onde 
fugirem. 

§ 34 

Os guardas terão obrigação de dar conta do dito gado, 
e suas crias mortas ou vivas, porque a todo o tempo, que 
constar furão maliciozamente desencaminhadas, ou concor- 
rerão para as matar, ficaráõ responsáveis do seu valor, além 



— 136 — 

das mais penas^ que se lhes imporáo, segundo a sua culpa; 
para o que se conservarác!! os curraes sempre reparados, e 
em termos que o gado de noite os não possa romper, sahindo 
a destruir as plantações e sementeiras, no que terão grande 
cuidado o director, passando-lhes revista, e fazendo os exa- 
mes necessários tanto n^estes, como nos da cavalaria, e 
miúdo, que também haverão separados, e com guardas dis- 
tintos. 

§ 35 
De uns e outros gados será conveniente domesticar os 
precizos para as lavouras, condução dos seus frutos para 
onde lhes parecer, e por melhor preço os puderem reputar, 
e para que se facilite o primeiro, e se não perca o segundo, 
terão grande cuidado os directores e as camarás nas vilas, 
e os principaes nos legares em os fazerem concorrer com 
o trabalho pessoal, a que reparem os caminhos precizos nas 
partes circumvizinhas, e do uzo d'ellas, podendo os senhores 
do dito gado alugal-o ao que o não tiver, e d'elle carecer para 
o referiao ministério, satisfazendo-lhes os alugueis, na forma 
que se pratica nas suas vizinhanças, a dinheiro, ou em fru- 
tos respectivos aos que vencerem, e pelos preços que corre- 
rem no logar, quando não tenhão dinheiro para sua satisfa- 
ção ; o que regularàS os directores e as camarás nas vilas, 
e os principaes nos legares. . 

§ 36 
Dos gados que criarem poderão ter talho e açougue, 
quando pareça conveniente ao director e á camará havel-o 
para n'olle se cortar a carne preciza para a subsistência 
dos moradores da vila ou logar, pagando a mesma o rendi- 
mento raciouavel dos mencionados talhos, igualmente como 
se pratica entre os brancos, além do subsidio de 400 réis 
por cabeça, que se arrecadará por administração da dita 
camará para se empregar nas obras publicas e necessárias 
ás respectivas vilas, em quanto S. M, F. não dá outra pro- 
videncia; advirtindo porém, que não lhes fora licito vende- 
rem mais que tam-sómento a carne necessária aos seus ha- 
bitadores, por evitar o preiuizo dos contratos reaes, que de 
prezente o não sentem, por lhe não contribuírem com porção 




— 137 — 

alguma no que respeita ao seu gasto ; para o que poderão 
também comprar gado para cortar, quando o não tenh^ 
de sua própria criação, e ao mesmo director pareça conve- 
niente pelo consumo que julgar. 

§ 37 

Não poderão cortar rez alguma antes de completar cinco 
annos, a que chamão de éra, nem também exceder o seu 
corte, alem d^aquellas que sem prejuízo da criação se deve 
conservar, e das necessárias para a agricultura, e condução 
dos frutos, por não ser justo faltem as precizas á conserva- 
ção indispensável aos dous referidos fins. 

§ 38 

Como as referidas criações dos gados se não podem con- 
siderar em todas as terras com a mesma .igualdade, se 
entenderá meramente n'aquellas vilas ou legares, que por 
distantes dos portos principaes e povoados mais notáveis se 
achão situados em parte, aonde a extensão do paiz, e abun- 
dância de pastos Ih os facilite, conduzindo estes motivos mui- 
to para que nos referidos sitios valha cada cabeça 1^400 
ou li$500 réis, quantia que satisfaz com maior produto o 
couro da mesma, havendo o cuidado de os secar, pondo-os 
ao sol com o carnal para a terra, e o pelo ao Ar, afim de se 
expelir toda a humidade de que se origina a sua corrupção, 
ficando doesta sorte aptos para o cortimento e utilizados os 
donos nos preços,que d'elles provém por quem os quizer com- 
prar, ou remetendo-os aos portos vizinhos por n^estes melhor 
se reputarem, ou como lhes fizer melhor conta, e entende- 
rem 05 directores, que sendo n'esta praça os costumão ven- 
der a 2^000 réis, porção que excede ao custo da rez, e lhes 
facilita darem a carne no de 5 réis a libra, por ser o mes- 
mo que muitas vezes tem no Pau do alho, Goiana, e outras 
partes, pagando-a nos frutos que colherem^ ou pelo que ga- 
nharem, e não quando a rez tiver maior valor; porque n'este 
cazo proporcionalmente se regulará pelo director e camará 
nas vilas, e pelos principaes nos legares, dando-lhe aquelle 
aumento^ que julgarem mais conforme á natureza dos sitios, 
em que se praticar. 

XOMO XLYI. P. I. 18 




< 



— 138 — 

§39 

Como para se estabelecer o regulamento das criaçSes, e 
adiantamento da cultura n^estas povoaçSes nSo bastará toda 
a actividade e zelo dos directores, por ser mais poderoso 
que as suas praticas o inimigo commun da frouxidão e ne- 
gligencia dos Índios, que com a sua aparente suavidade os 
tem radicado nos seus péssimos costumes com abatimento 
total do interesse publico ; o governador e capitão general 
doestas capitanias, informado d^aquelles, que, entregues ao 
abominável vicio da ociozidade, faltarão á importantíssima 
obrigação, que devem ter, em cuidar nos seus gados, cul- 
tura de suas terras, será muito solicito em os castigar á pro- 
porção da culpa em que incorrerem, sem que deixe de louvar 
aquelles, que com o maior zelo se empregarem n'este louvá- 
vel exercício ; para conhecimento do que serão obrigados os 
directores a remeter todos os annos uma lista do adianta- 
mento, que houver nas suas criaçSes e plantaçSes, pela sua 
qualidade, e quantidade e nome dos lavradores e criadores, 
para sem a maior duvida servir na certeza do aumento, a 
que as mesmas povoaçSes tem chegado. 

§40 

Como não é justo fique sem castigo um vicio tão prejudi- 
cial, poderão os ditos directores, quando se qualifique de 
certeza a culpa, obrigal-os a que pelos dias que lhes parecer, 
com a devida moderação, atendendo á sua gravidade,apli- 
qnem os ditos negligentes em cultivar as terras, que em 
toda a vila, ou logar deve haver para subsistência dos po- 
bres, viuvas e orflos, que pela tenra idade doestes, mizeria 
e dezamparo, e queixa d^aquelles se lhes impossibilita adqui- 
rirem os indispensáveis meios para viverem; o qual trabalho 
e colheita dos frutos, que d 'elle provier, será feito debaixo da 
inspecção dos referidos directores, repartindo segundo as 
necessidades de cada um, e tendo d'elles primeiro tirado os 
precizos para alimento dos trabalhadores; com advertência 
porém que estes não estarão sempre sugeitos ao mencionado 
ónus, mas sim pelos dias que justamente merecerem regula- 
dos pela maior, ou menor gravidade de sua omissão, e re- 
petição que n^ellas tiverem^ficando na falta doestes obrigados 
todos os moradores da dita vila, ou logar a concorrer cada 



— 139 — 

um com dons por cento do que colherem e lacrarem em be« 
nefício dos mencionados pobres, para que se oonsiga o 
mesmo efeito; do que haverá cofre com as chaves necessá- 
rias^ livro de receita, e despeza e as mais regularidades pre< 
cizas a se converter sem desordem no justo fim, a que se 
aplica tanto em utilidade dos habitadores das . vilas e 
logares; a que pertencerem ; bem entendido que a mencio- 
nada pena senSo entenderá só pelo que pertence aos omis- 
sos e negligentes, mas aos que encontrarem o bom regimen 
da agricultura, conservação do commercio,e o socego publico 
das suas povoações, contra os quaes procederá o oito di- 
rector determinando-lhes, á proporção da sua culpa, o tempo 
porque hão de trabalhar no sitio dos pobres, em pena dos 
seus delitos, não sendo estes de qualidade tal, que seja pre- 
cizo, para a sua satisfação, se entregue á justiça ; porque 
n^estes termos assim se praticará por se não dever por modo 
algum deixar de seguir aquelle meÍ0| a que por ordinário 
se não pôde faltar. 

§ 41 

Sendo inúteis todas as providencias humanas, quando não 
são protegidas pe!o poderozo braço da Omnipotência divi- 
na, para que Deus nosso senhor facilite^ e abençoe o tra- 
balho dos Índios na cultura das suas terras, e de todas estas 
povoações, será precizo desterrar o diabólico abuzode se não 
pagarem dízimos em sinal do supremo dominio,querezervou 
Deus para si e seus ministros, na decima parte de todos os 
frutos, que produz a terra, como autor universal de todos 
elles ; e sendo esta obrigação commun a todos os católicos, 
é tão escandaloza a rusticidade,com que têem sido educados 
os Índios, que não só a deixavão de reconhecer com este 
limitadissimo tributo, mas até ignoravão a obrigação, que 
tinhão, de o satisfazer ; e para d'elles desterrar este pemi- 
ciozissimo costume, que na realidade por abuzo se deve re- 
putar, por ser matéria que conforme a direito não admite 
prescripção, e para que Deus nosso senhor felicite os seus 
trabalhos e lavouras, serão obrigados d'aqui por diante a 
pagar os dizimos, que consistem na decima parte de todos 
os frutos, que cultivarem, géneros que adquirirem, e 



— 140 — 

gados que cri arem, sem excepção alguma^cuidando muito os 
directores em que os referidos indios observem exactamente 
a constituição do bispado relativa a esta matéria. 

§42 

Mas como a obsoi"vancia doeste paragrafo encontrará algu- 
ma dificuldade, em quanto se não de stlnar método claro, 
racionavel e fixo para se cobrarem os dizimes sem detri- 
mento dos lavradores, nem prejuízo da fazenda real, aten- 
dendo por uma parte a que os indios costumão desfazer 
intempestivamente as roças para fomento das suas ebrieda- 
des, e por outra o pouco escrúpulo, com que deixavão de 
satisfazer este preceito, por ignorarem as censuras eclezias- 
ticas, em que incorrem os seus transgressores com os hor- 
rorozos castigos, que o mesmo Senhor lhes tem fulminado; 
serão obrigados os directores no tempo, que julgarem mais 
oportuno, a examinar pessoalmente todas as roças na compa- 
nhia dos mesmos indios que as fabricarão, levando comsigo 
dous louvados, que sejão pessoas de fidelidade e inteireza, 
uma por parte da fazenda real, que nomearão os directo- 
res, e outra os lavradores pela sua. 

§ 43 

Aos ditos louvados recomendarás os directores, depois 
de lhes deferir o juramento, que sendo chamados para ava- 
liarem todos 08 frutos, que pouco mais ou menos poderão 
render n^aquelle anno as ditas roças, de tal sorte se de- 
vem dirigir pelos ditames da equidade, que se atenda 
sempre á notória pobreza dos indios, fazendo-se a dita ava- 
liação a favor dos agricultores, e concordando os ditos 
louvados nos votos, se fará logo assento em um caderno de 

que avaliando F eF a roça de tal indio, julgarão 

uniformemente, que renderá n'aquelle anno tantos alquei- 
res, dos quaes ficão pertencendo tantos ao dizimo, cujo as- 
sento deve ser assinado pelos directores, louvados, e pelos 
mesmos lavradores: nocazo porém denAo concordarem nos 
votos, nomearás as camarás nas povoações que chegarem a 
ser vilas, enas que ficarem sendo legares os seus respectivos 
principaes terceiro louvado, a quem os directores darSo 




- 141 — 

também juramento, para que decídão a dita avaliação pela 
parte que lhe parecer justa; do que ae fará assento no refe- 
rido caderno. 

§44 

Concluida doeste modo a avaliação do rendimenljo das 
roças, mandarão os directores extrahir do caderno míjncio- 
nado uma folha pelo escrivão da Camarate na suaauzenciayOU 
impedimento pelo do publico, pela qual se deve fazer a co- 
brança dos dízimos, cuja importância liquidamente se lançará 
em um livro, que haverá em todas as vilas ou logares, des- 
tinado unicamente para este ministério, rubricado pelo pro- 
vedor da fazenda real, declarando-se n'elle titulo de receita, 
assim as distintas parcelas que se receberão, como os nomes 
dos lavradores, que as entregaráõ, concluindo-se final- 
mente a dita receita com um termo feito pelo mesmo escri- 
vão, e assinado pelo director como recebedor dos referidos 
dízimos; advirtindo, que nenhum dos oficiaes destinados 
a esta cobrança poderá levar emolumento algum pelas re- 
feridas diligencias, por serem dirigidas á boa recadação d^ 
fazenda real, á qual pertencem em todas as conquistas, na 
conformidade das bulas pontifícias, que o facultão. 

§45 

E para que os ditos dízimos não experimentem prejuízo 
algum na arrecadação dos referidos géneros, que lhes fícão 
carregados em receita, haverá em todas as povoações um 
armazém, em que todos estes efeitos se possão conservar 
livres de corrupção, ou de outro qualquer detrimento, 
fícando por conta dos mesmos directores o beneficiarem os 
ditos géneros, de sorte que por este princípio não padeção 
a menor damnificação, até serem remetidos para esta pro- 
vedoria. 

§ 46 

Em primeiro logar mandaráS fazer duas guias auten- 
ticas, extrahidas fielmente assim do livro dos dízimos, 
como das folhas das avaliações, que remeteráõ junta- 
mente com os efeitos ao provedor da fazenda real, e obri- 
gados a mandar ao governador doestas capitanias as cópias 



— 142 - 

de uma e outra lista, com declaração, que aquelles efeitos, 
como sejão farinhas e outros de crescido volume e pezo, 
que por taes nas grandes distancias, e falta de meios para 
se conduzirem aos portos afim de serem transportados, ab- 
sorveráõ todo o produto do intrinseco valor, os directores 
os farSo reputar pelos mais crescidos preços, que correrem 
nas vizinhanças dks vilas ou legares, em que fôrem criados, 
e mandando certidão autentica de assim o terem praticado, 
e das quantias que produzirão, alem da obrigação de en- 
viar ao governador a cópia da lista do que remeter^ acau- 
telando a remessa de modo que não haja prejuizo, nem 
descaminho algum ; porque verifícando-se que- da parte dos 
directores não houvesse todo o acerto na escolha dos su- 
geitos destinados a fazel-a, por sua conta correrá o risco, 
que por este respeito acontecer. 

§ 47 

Finalmente sendo preciza toda a cautela e vigilância 
na bôa arrecadação dos dizimes, se deve evitar n'esta 
importantíssima matéria qualquer dezordem, e confuzão ; 
para o que, logo que se tízer entrega d'elles n'este almo- 
xarifado, os mandará o provedor da fazenda real carregar 
em receita viva ao almoxarife, declarando n'ella o nome 
da vila ou logar, de que vierão os taes dizimes, e do 
director, que os remeteu, de cuja receita mandará en- 
tregar o dito um conhecimento de recibo em forma ao que 
trouxer a dita remessa, para que sirva de descarga ao di- 
rector e possa dar conta n^esta provedoria a todo o tempo, 
que f(5r removido do seu emprego, pelos mesmos conheci- 
mentos do liquido, que para ella remeteu ; e dada que seja 
a dita conta na forma sobredita, o mesmo provedor lhe 
mandará passar para sua descarga uma quitação geral, 
que aprezentará ao govemiidor doestas capitanias para 
lhe s^ constante a fidelidade e inteireza, com que executou 
as suas ordens. 

§48 

E posto que devo esperar da cristandade e zelo dos 
directores a inviolável observância de todos os para* 
grafos respectivos á cultura das terras, plantações dos 



--I 



— 143 — 

géneros, e cobrança dos dízimos, por confiar d^elles que re- 
putará? pelo mais estimável premio a incomparável honra 
de BC empregarem no real serviço de S. M, F., como ditSo 
as leis da justiça, pois sendo reciprocos os trabalhos e in« 
comjnodos, devem ser communs as utilidades e interesses, 
pertencerão aos directores 6 por cento de todos os firutos, 

3ue os Índios cultivarem, não sendo comestíveis ; porque 
'estes só d'aquelles que os mesmos venderem, ou com que 
fizerem outro qualquer negocio,para que,animados com este 
justo e racionavel premio, desempenhem com maior cuidado 
as importantes obrigações do seu ministério^ e a mesma con- 
veniência particular lhes sirva de estimulo para os dirigirem 
com a possível eficácia ao importantíssimo trabalho da 
agricultura. 

§ 49 

Sendo pois a cultura das terras o solido principio do 
commercio, era infalível consequência, que este se abatesse 
á proporção da decadência d'aquella, e que pelo tracto dos 
tempos viessem a produzir estas duas cauzas o lastímozo 
efeito da total ruína do estado ; para reparar tão preju- 
dicial e sensível damno observarão os directores a este 
respeito as ordens seguintes. 

§60 

Entre os meios, que podem conduzir qualquer republica 
a uma completa felicidade, nenhum é mais eficaz, quo a 
introdução do commercio, porque elle enriquece os povos, 
civiliza as naçSes, e consequentemente constituo poderozas 
as monarchias, consistindo essencialmente na venda ou 
commutação dos géneros, e na communícação com as gen- 
tes, de que reztdta a civilidade d'aquella sua riquezaj^ 
e interesse ; e para que os índios doestas novas povoaçSes 
logrem a solida felicidade de todos estes bens, não omití- 
ráõ os directores diligencia alguma porporcionada a intro- 
duzir n^elles o commercio, fazendo-ihes demonstrativa a 
grande utilidade, que lhes ha de provir de venderem pelos 
seus justos preços as drogas, que extrahirem dos certSes^os 
firutos,que cultivarem, e todos os mais generos,que adquirem 
pelo virtuozo e louvável meio da sua industria e trabalhoi 



í^ 



— 144 — 

§51 

£ certo e indispatavel, que na liberdade consiste a 
alma do commercio; mas sem embargo de ser esta a pri- 
meira e mais sabstancial máxima politica, como os indios 
pela sua mstieidade e ignorância nâo podem oomprdie&- 
der a verdadeira e legitima reputação dos seus géneros, 
nem alomiar o justo preço das fazendas, que h2o de com- 
prar para o seu nzo ; para se evitarem os irreparáveis 
dolos, e as péssimas imaginações dos conmierciantes, que 
têem feito inseparáveis dos seus n^ocios, observaráo os 
directores as determinações abaixo declaradas, as quaes 
de nenhum modo ofendem a liberdade do commercio, por 
serem dirigidas ao bem commiin do estado, e á utilidade 
particular dos mesmos commerdantes. 

§52 

Primeiramente haverá em todas as povoaçSes pezos o 
medidas, sem as quaes se n2o pôde conservar o equilíbrio 
na balança do commercio, e para evitar o prejuizo que 
se segue de os não haver com regularidade, ordeno aos 
directores cuidem logo em que os haja nas ditas povoações, 
aferidos pelas camarás respectivas; porque d'este modo 
nem os indios os poderão &lsificar, nem as pessoas, que 
commercião com elles, experimentar a violência de os 
terem como taes, não o sendo na realidade e estabelecen- 
do-se por este modo entre uns e outros aquella mutua fide- 
lidade, sem a qual nem o commercio se pode aumentar 
nem subsistir. 

§ 53 
Em segundo logar recommendo aos ditos directores, que 
de nenhum modo consintão, que os indios commerciem a j 
seu pleno arbítrio; porque não podendo negar-so-lhes a 
liberaado de venderem, ou commutarem os efeitos, que 
elles tiverem cultivado, e n'aquellas partes, em que lhes 
fizer melhor conta pela maior utilidade, que lhes pôde re- 
zultar, nem prohibír-se aos moradores doestas capitanias o 
commerciar com elles nas suas mesmas povoações, para não 
conservarem a odioza separação, que até agora se praticou 
entre uns e outros, contra as reaes intenções de S. M. e 



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— 146 — 

que se lhes participe, a va logo examinar pessoalmente, le-^ 
vando em sua companhia o principal e escrivão da camará, 
e na sua falta a pessoa que julgar de maior capacidade, e 
achando-a, tome por perdida, que se aplicará para as dea- 
pezas da dita vila ou lo^ar ; do que se fará termo de 
tomadia, e se lançará nos livros da c.imara, assinado pelos 
directores, e mais pessoas que a prezenciárâo. 

§ 56 

Mas porque pôde suceder, que fazendo jornada para os 
certSes algumas pessoas com seus comboeiros, ou para 
outra qualquer parte,em que se lhes faça indispensavelmente 
necessário conduzir algumas frasqueiras de aguardente 
para remédio dos que as acompanhão, deporá^ debaixo de 
juramento, que lhes deferirão os directores, si é para o 
referido fim, para por esse meio se acautelarem os irre- 
paráveis damnos, que do contrario podem seguir nas po- 
voaçcHes, originados por este prejudialissimo commercio ; e 
emquanto n'ellas se demorarem, os directores mandaráô 
pôr em depozito as sobreditas frasqueiras em parte, aonde 
possão ser guardadas com fidelidade, as quaes se lhes en- 
tregaráS, logo que quizerem continuar a sua jornada, assi- 
nando termo de n^ella nSlo contratarem e em nenhuma 
outra povoação fora da necessária para a aplicação re- 
ferida. 

§57 

Da mesma sorte nSo contratará^ os directores com o& 
Índios, debaixo das penas já comminadas, nem por si, nem 
por interposta pessoa, nem lhes comprando ob referidos 
generosy nem estipulando com elles negocio algum directa 
ou indirectamente por mais racionavel e justo que seja, 
além do que lhes fôr necessário para sua subsistência e dos 
seus domésticos, por julgar competente o computo de seis 
por cento, que recebem em premio do seu trabalho na forma 
que fica dito no § 48. 

§58 

E para que os directores possSo dar uma evidente prova. 
da sua fidelidade e zelo, e os índios vender os seus generoa 




— 147 - 

livres de todo o engano^ com que ate agora fôrão tratados, 
logrando pacificamente a sombra da real protecção de 
S. Magestade Fideiissima aqueilas conveniências que na- 
turalmente lhes pôde rezultar de um negocio licito, justo e 
virtuosOjhaverá em todas as povoações um livro chamado do 
conunercio, rubricado pelo provedor da fazenda real, no 
qual 08 directores mandaráS lançar pelos escrivSes das 
camaraSy ou do publico, e na sua falta pelo mestre das 
escolas os firutos, e géneros, que venderem, e fazendas 
porque os commutarem, explicando-se a reputação doestas e 
preços d^aquelles, além dos nomes das pessoas que com elles 
commerciarão ; de cujos assentos assinados pelos mesmos 
directores e commerciantes se extrahirá uma Usta em forma 
autentica, que se remeterá todos os annos ao governador 
doestas capitanias, para que possa examinar com a devida 
exacção a pureza, com que elles se conduzirão, como maté- 
ria da primeira importância, por depender em grande parte 
d'ella a subsistência e aumento do estado. 

§59 

Não podendo duvidar-se que entre os ramos do negocio, 
de que se constituo o commercio d^^stas capitanias nenhum 
é mais intessante, nem pôde ser mais útil, que o do certão, 
no qual não consiste a extracção das preciozas drogas, que 
n'elle produz a natureza, mas as feitorias das carnes secas, 
couramas, e outras doesta qualidade, empregará? os direc- 
tores a maior vigilância, e mais incessante cuidado em 
introduzir e aumentar o referido commercio nas suas 
respectivas povoações e portos, em que beneficião ; e para 
que n'e6ta importante matéria possão os directores regular- 
se por uma regra fixa e inviolável, observarás a forma, 
que lhes vou prescrever. 

§60 

Em primeiro logar se informarás das terras adjacentcB 
e próximas &s suas povoações, e dos efeito que abundão, e 
achando que d'ellas se poderá extrahir este ou aquelle gé- 
nero, esse ser& o ramo ao commercio, a que apliquem todo 
o seu cuidado ; bem entendido, que todo, para se aumentar 
e florecer, deve fundar-se nas duas solidas e verdadeiras 



— 148 — 

máximas. Primeira, que em todo o negocio cresce a utili- 
dade ao mesmo passo que diminuo a despeza, sendo evi- 
dentemente certo, que aquelle género, que pôde fabricar-se 
em menoB tempo, e com menor numero de trabalhadores, 
terá melhor consumo, e consequentemente será bem repu- 
tado. Segunda, que será summamente prejudicial, que 
todas as povoações, de que se compõe uma monarchia ou 
estado, aplicando-se â fabrica ou extracção de um só 
efeito, conservem o mesmo ramo do commercio, nâo por- 
que a abundância d'aquelle género o reduziria ao ultimo 
abatimento em total prejuizo dos commerciantes, mas por- 
que as referidas povoações nãio poderiSo mutuamente socor- 
rer-se, comprando o que lhes falta, e vendendo outras do 
que lhes sobeja. 

§ 61 

Na inteligência d'estas duas fundamentaes e interes- 
santes máximas, recommendo muito aos directores esta- 
beleçSo o commercio das suas respectivas povoações, per- 
sua(Úndo aos Índios aquelle negocio, que lhes fôr mais útil 
na forma que lhes tenho ponderado, e ainda mais clara- 
mente explicarei. Si as ditas povoações existirem próximas 
ás margens de rios, que sejão abundantes de peixe, como 
sucede no de Sao-Francisco, Riò-grande do Norte, e outros, 
será a feitoria de salgas, e secas de peixe, e carne o 
ramo do commercio, de que poderá rezultar maior utili- 
dade aos interessados ; sendo nos contíguos a porto de mar 
os empregaráõ os directores, além da agricultura geral, em 
todas; nas feitorias de carnes, e secas de peixe, couramas, 
e em tirar casca de mangue para os cortumes ; e aos inter- 
nados nos certões nas criações de gados, e suas conduções 
extraç^ de cera, e drogas, que se deixão declaradas, e se 
poderem descobrir, por ser indubitável haver nos mesmos 
grande quantidade de matérias preciosíssimas, que a igno- 
rância, e pouco cuidado têem conservado ocultas á inte- 
ligência, sem que até o prezente se tire o socorro, que das 
mesmas pôde emanar em beneficio do publico, e utilidade 
do commercio ; ficando na certeza de que todo aquelle que 
descobrir alguma até agora desconhecida de virtudes espe- 
cificas e comprovadas pelos efeitos, que d'ellas resultarem. 



— 149 - 

será atendido com preferencia, segundo o seu merecimento 
e serviço, que no dito descobrimento fizer ao publico; o 
que persuadirão os directores da minha parte, tendo 
cuidado de o declararem na relação, que remeterem annu- 
almente ao governador, para os atender na forma expen- 
dida, além da factura das lenhas nas vilas, ou legares, em 
que tenhão conveniência pela proximidade dos engenhos de 
praticar este trabalho. 

§ 62 

Para animar os ditos indios a frequentar gostozamente o 
interessante commercio do certâo, lhes explicará^ os dire- 
ctores a utilidade, que lhes fica rezultando do seu trabalho, 
destribuido de sorte que cada um vem a perceber toda a 
que proporcionalmente lhe competir ; para o que observarão 
08 directores na nomeação, que d'elles fizerem, para o men- 
cionado commercio a forma seguinte. Logo que se concluir 
o trabalho da cultura das terras, que por todas as circuns- 
tancias deve ser o primeiro objecto dos seus cuidados, 
chamará(!l á sua prezença todos os principaes, e mais indios 
de que constarem as respectivas povoações, e achando 
que todos elles dezejão ir ao negocio do certão, os nomearáõ 
juntamente com os principaes, guardando inviolavelmente 
as leis da alternativa, para experimentarem todos o pezo do 
trabalho e suavidade do lucro; bem entendido, que adita 
nomeação se fará unicamente da terça parte dos indios, 
que pertencerem a cada uma das referidas povoaçcHes, como 
abaixo se declara, com cabos destinados pelo director e 
principal a bem os regerem no referido exercício. 

§63 

Mas como não seria justo, que os principaes, capitães- 
mores, sargentos-móres, e mais oficiaes de que se com- 
pSe o governo das povoaçSes, ao mesmo passo que S. M. 
Fidelíssima tem determinado pehis suas reaes ordens 
todas aquellas honras competentes á graduação dos seus 
postos, se reduzissem ao abatimento de se precizarem ir 
pessoalmente á extracção das drogas do certão, poderão os 
ditos principaes mandar ao dito negocio seis indios cada 
um, não havendo mais que dous na povoação, e quatro, 



— 150 — 

quando exceda este numero; e os capitSes-móres e sargentos- 
móresy que queirão voluntariamente ir com os indíos que se 
lhes destribuirem ao referido trabalhoso poderáS fazer alter- 
nativamente^ ficando sempre os oficiaes competentes nas di- 
tas povoaçSes para qualquer incidente, que possa sobrevir. 

§64 

Finalmente como, posta a rusticidade e ignorância dos 
Índios, seria ofender nfto só as leis da justiça, mas faltar ás 
dacaridade,entregando-lhes todo o lucro que ganharem pelo 
seu trabalho, se observará n^esta parte o que refiro no § 73, 
Já que na notória incapacidade, de que se acompanhão, ca- 
recem de quem os dirija, em atenção da qual será obrigado 
o administrador da companhia do commercio, ou na sua 
falta o almoxarife da fazenda a comprar com o dinheiro,que 
lhes pertencer,o que necessitarem, na prezença dos mesmos 
Índios, quando estejão n esta praça, ou o que constar pela 
relação, que mandarem os directores, e elles o pedirem, 
e cardncerem, exceptuando-se n'esta parte inviolavelmente 
aquellas ordens, porque tenho regulado n^ella o seu paga- 
mento em beneficio commun d^elles, para que cheguem por 
este modo a comprehender com evidencia estes mizeraveis 
a fidelidade, com que cuidamos nos seus interesses, e aã 
utilidades que correspondem ao seu trafico, todas dirigidas 
á sua subsistência, e aumento do commercio pela bôa fé 
com que são tratados, ficando na certeza de que será asper- 
rimamente castigado todo aquelle que o contrario praticar 
como inimigo commun do estado ; para o que observar&õ os 
directores as determinações seguintes. 

§ 65 
Ditão as leis da natureza e razão, que assim como as 
partes do corpo fizico devem concorrer para a conser- 
vação do todo, é igualmente preciza esta obrigação nas 
que constituem o todo moral e politico ; contra os irrefraga- 
veis ditames do mesmo direito, se faltou até agora a 
esta indispensável obrigação, afectando-se especiozo pre- 
texto para se illudir a repartição do povo, do que por in- 
falível consequência se havia de seguir a ruina do estado. 



— 151 — 

na certeza de que, faltando-lhes os operários de que neces 
sitâo para á fabrica das lavouras e extraçSo das drogas, 
se havia de diminuir a cultura, e abater o commercio. 

' §66 
Estabelecendo-se n^este solido e inndamental principio as 
leis da distribuição, clara e evidentemente comprehenderáS 
08 directores, que, deixando de observar esta lei, se con- 
stituem réos do mais abominável e escandalozo delito, que 
é embaraçar o estabelecimento, a conservação, aumento, e 
toda a felicidade do estado, frustrando as piissimas inten- 
ções de S. Magestade Fedelissima, , as quaes na forma do 
alvará de 6 de Junho de 175Õ se dirigem a que os seus 
moradores se não vejão precizados a mandar vir obreiros e 
trabalhadores de fora para o trafico de suas lavouras e 
cultura de suas terras, e os índios naturaes do paiz não 
fiquem privados do justo estipendio correspondente ao seu 
trabalho, que d'aqui por diante se regula na forma das 
ordens do dito senhor, fazendo-se entre uns e outros reci- 
procos interesses ; do que sem duvida rezultão ao estado as 
ponderadas felicidades. 

§ 67 

Pelo que recommendo aos directores apliquem um es- 
pecialíssimo cuidado a que os principaes, a quem compete 
privativamente a execução das ordens respectivas á distri- 
buição dos Índios, não faltem com elles aos moradores, que 
os pedirem, sem que seja licito em cazo algum exceder o 
numero da repartição, nem deixar de executar as referidas 
ordens, ainda que seja com detrimento de maior utilidade 
dos mesmos indios, por ser indisputavelmente certo que a 
necessidade commun constitue uma lei superior a todos os 
incommodos, e prejuízos particulares. 

§68 

Para que a referida distribuição se observe com aquella 
rectidão e inteireza, quo pedem as leis da justiça distribui- 
tiva, cessando de uma vez os clamores dos povos, que cada 
dia se fazem mais justificados pelos afectados pretextos, com 
que confundião em tão interessante matéria as repetidas 



— 152 — 

ordens de S. M. F., não se podendo comprehender si era 
mais abominável a cauza, ou prejudicial o efeito, haverá 
dous livros rubricados pelos ouvidores, como seus juizes pri- 
vativos, para que se matriculem todos os indios capazes de 
trabalho, que são todos aquelles, que tendo 13 annos de 
idade, não passarem de 60. 

§ 69 
Um d'estes livros se conservará em poder do governador 
doestas capitanias, e outro na dos ditos ministros, nos quaes 
se irão matriculando os indios, que chegarem á referida 
idade, riscando-se doeste numero todos aquelles que constar 
em certidões de seus párocos tiverem falecido, e os que 
por razão de seus axaques se reputarem por incapazes de 
trabalho, que se deve executar na conformidade das listas, 
que os directores remeterão todos os annos ao governador, 
as quaes devem estar na sua mão até o fim do mez de 
Agosto infalivelmente, ficando na camará, sendo vila, ou em 
poder dos directores, sendo logar,os seus originaes, para que 
se possa regular a repartição mencionada; sem o que se não 
podia pôr em pratica. 

§ 70 

Sendo pois as referidas listas o documento autentico, pelo 
qual se devem regular todas as ordens respectivas á mes- 
ma distribuição, ordeno aos directores as facão todos os 
annos, declarando n'ellas fidelissimamente todos os indios^ 
que forem capazes de trabalho, na forma dos paragrafes an* 
tecedentes, as quaes serão assinadas pelos mesmos directo- 
res e principaes^ com comminação de que, faltando ás leis 
da verdade em matéria tão importante ao interesse publico, 
uns e outros serão castigados, como inimigos communs do 
estado. 

§ 71 

Mas ao mesmo tempo que recommendo aos directores e 
principaes a inviolável e exacta observância de todas as 
ordens respectivas á repartição do povo, lhes advirto se hajão 
n'ella de modo que por nenhum principio faltem á regulari- 
dade devida, não consentindo excedão o tempo da licença. 




— 153 — 

porque os mandarem^ a qual será dada por escrito assi- 
nado pelos referidos directores e principaes, cobrando re- 
cibo dos moradores, que os levarem ; bem entendido^ que 
esta se não estenderá mais que á terça parte referida, por 
ficarem as duas existentes nas vilas^ ou logares em beneficio 
da agricultura, que nimca se deve suspender, e para a ex- 
traçâo das drogas, que com cuidado se devem colher nos 
seus devidos tempos nos certôes adjacentes ás referidas; para 
execução do que serão obrigados a remeter todos os annos 
ao governador uma lista dos transgressores para se proceder 
contra elles^ impondo-se-lhes aquellas penas, que de terminão 
as leis relativas a esta matéria. 

§ 72 

E verdade, que em todas as naçcies civilizadas e polidas 
do mundo, á proporção das lavouras, manufacturas e com- 
mercio se aumenta o numero dos commerciantes, operários, 
e agricultores, para o que concorre muito no prezeute a 
observância das leis da distribuição, de que rezultando mu- 
tua conveniência entre os indios e moradores, sem violência 
se podem empregar uns e outros na parte que lhes corres- 
ponder ao trafico, em que se ocuparem, fazendo reciprocas 
as conveniências, e communs as utilidades, desterrando por 
este modo o poderozo inimigo da ociozidade; para o que 
serão obrigados os moradores, quando receberem os indios, 
entregar aos directores toda a importância dos salários, que 
na forma das reaes ordens se lhes determinão. 

§ 73 

Mas porque da observância d'este paragrafo se poderião 
originar aquellas racionáveis e justas queixas, que farião os 
moradores, na certeza de que deixando ficar nas povoações 
os pagamentos dos indios, dezertarião de seus serviços, ao 
mesmo passo que se achavão satisfeitos com os anteceden- 
tes, que se tinha praticado, viessem os ditos moradores a sen- 
tir o prejuizo que lhes rezultava, e os dezertores com medo 
dos seus delitos não só com o irreparável damno dos povos, 
mas com tal abatimento do commercio, ordeno aos directo- 
res, que, logo que receberem os ditos salários, entreguem aos 
indios uma parte da sua importância, deixando ficar as 

TOMO XLVI. P. I. 20 



— 154 — 

duas em depozito ; para o que haverá em todas as povoa- 
ções um cofre destinado unicamente para o dos ditos paga- 
mentos, os quaes se lhes completará?, constando que elles o 
vencerão com seu trabalho. 

§ 74 
Sucedendo porem dezertarem os indios do serviço dos 
moradores antes do tempo convencionado pelas reaes or- 
dens, na forma do § 14 do regimento a este respeito ; e 
verificando-se a dita dezerçao, que devem fazer certa os 
moradores por alguns documento, ficaráõ os indios perdendo 
in solidum as duas partes do seu pagamento, que logo se 
entregarás aos mesmos moradores ; o que se praticará pelo 
contrario averiguando- se que estes derâo cauza á dita di- 
reção; porque n^este cazo não só perderão toda a im- 
portância do pagamento,mas o dobro d'elle: o para que não 
possão alegar ignorância alguma n'esta materia,lhes advirto 
finalmente, que, falecendo algum indio no mesmo trabalho, 
ou impossibilitando-se para elle por cauza de moléstia, 
serão obrigados os directores a entregar ao mesmo indio, 
ou a seus herdeiros o justo estipendio, que tiver merecido, 
sendo o motivo d'esta providencia a falta de fé, que com os 
mesmos praticavão tanto no seu pagamento como no modo, 
porque lhe satisfariã.0, e por mizcraveis e dostituidos de 
meios se vião impossibilitados a seguir os de direito para 
perceberem o que justamente lhes competia. 

§ 75 

Como pelo paragrafo 6*) d'este directório se concede 
licença aos principaes, capitaes-raóres, sergentos-móres, 
e mais oficiaes das povoações para mandarem alguns in- 
dios por sua conta & extração das drogas, e commercio do 
certâo por ser justo não se lhes tirarem os meios compe- 
tentes para sustentarem as suas pessoas, e familias com 
a decência devida aos seus empregos, observaráõ os di- 
rectores com os referidos oficiaes na forma dos paga- 
mentoSy o que se determina a respeito dos mais moradores, 
exceptuando unicamente o cazo, em que elles, como pes- 
83as mizeraveis, não tenhão dinheiro, ou fazendas, com que 




— 155 — 

posBao profazer a importância doe salários; porque n'esta 
circunstancia serão obrigados a fazer um escrito de vida 
assinado por elles, e pelos mesmos directores^ que ficará 
no cofre do depozito, no qual se obriguem á satisfação 
dos referidos salários^ logo que receberem o produtO; que 
lhes competir. 

§ 76 

Devendo a cautelar-se todos os dolo?, que podem acon- 
tecer nos pagamentos dos indios, recomendo aos directores, 
que no cazo de que os moradores queirâo fazer o dito pa- 
gamento em fazendas, achando os Índios conveniência 
n^este modo de satisfaçflo. não consintão de nenhuma forma 
que estas sejão reputadas por maior preço do que se 
vendem a dinheiro de contado nos sitios aonde fôrem da- 
das, e quando os ditos moradores pretendão reputar as suas 
fazendas por exorbitantes preços, não poderão os directores 
aceital-as em pagamento, com cominação de satisfazerem 
aos mesmos indios qualquer prejuizo, que se lhes seguir do 
contrato ; o que os mesmos directores observaráo em todo 
o cazo, em que os moradores concorrerem por este modo 
com os indios ou seja satisfazendo-Ihes com fazenda o seu 
trabalho, ou comprando-lhes os seus géneros. 

§ 77 

Consistindo inviflavelmente a execuç"io doestes §§ na 
distribuição dos indios com aquella fidelidade e in- 
teireza, que recommendão as péssimas leis de Sua M. Fi- 
delissima dirigidas unicamente ao bem commun de seus 
vassalos, e ao solido aumento do estado, se nFio devem 
illudir estas interessantíssimas determinações para o que 
serão obrigados os directores a remetere todos os annos 
ao governador doestas capitanias uma lista de todos os in- 
dios, que se destribuirão no antecedente, nomes das pes- 
soas, que o receberão, em que tempo, a importância dos 
salários, que ficarão em depozito, e os preços, porque fôrão 
reputadas as fazendas, com as quaes se fizerão os ditos pa- 
gamentos, para que, ponderadas estas circunstancias com 



— 156 — 

a devida reflecçâo, se possão dar todas aquellas providen- 
cias que se julgarem precizas a fim de se evitarem os pre- 
judiciaes dolos; que se havião introduzido no importante 
commercio do certão, faltando-se com escândalo da pie- 
dade e razão ás leis da justiça distribuitiva na repartição 
dos Índios em prejnizo commun dos moradores, e da co- 
mutativa, ficando por este modo privados os indios do ra- 
cionavel lucro do seu trabalho. 

§78 

A lastimoza ruina, a que se achão reduzidas as povoa- 
ções dos indios doestas capitanias, é digna de tão especial 
atençãO; que não devem omitir os directores diligencia 
alguma conducente ao seu perfeito estabelecimento ; pelo 
que recommendo, aos ditos directores, que logo que che- 
garem ás suas respectivas povoações, apliquem logo todas 
as providencias, para que n^ellas so estabeleçâo cazas d(* 
camará e cadeias publicas, cuidando muito em que estas 
sejão eregidas com toda a diligencia^, e aquellas com a poF- 
sivel grandeza. Consequentemente empregarás os di- 
rectores um particular cuidado em persuadir aos indios 
facão cazas decentes para o seu domicilio, regulando-as 
pela mesma simetria nas firontarias e alturas, deixando 
praças competentes, e as ruas em largura tal, que âquem 
com espaço e desafogo necessário, e todas direitas ; o que 
concorre muito para ornato da vila ou logar, e como- 
didade dos seus habitadores, destenvindo por este modo 
o abuzo e vileza de viverem em xoupanas á imitação 
dos que vivem como bárbaros nos inculto dos certoes, sendo 
evidentemente certo, que para o aumento das povoações 
concorre muito a nobreza dos edifícios ; para o que se dão 
as providencias proporcionadas nos §§...; sobre materiaes 
e oficiaes precizos á sua edificação, podendo-se valer par.i 
a despeza do subsidio, que se deixa declarado, rendimento 
de talhos e coimas, emquanto S. Magestade não der outra 
providencia. 

§ 79 
Mas como a principal origem do lamentável estado, a 



— 157 — 

que as ditas povoações estão reduzidas, procede de se acha- 
rem evacuadas ou porque os seus habitantes obrigados das 
violências, que experimentavâo, n^ellas buscavSo o refugio 
dos mesmos matos^em que nascerão, ou porque os moradores 
doeste governo e suas capitanias annexas, uzando do illicito 
meio de as praticar e de outros muitos,que lhes administrava 
uma ambição e mizeria, conservando-os no seu serviço, 
cujos ponderáveis damnos, pende de uma prompta e efficaz 
providencia, serão obrigados os directores a remeter ao 
governador d'estas capitanias um mapa de todos os indios 
auzentes, assim dos que se achão nas matas, como nas 
cazas dos moradores, para que, examinando a cauza da sua 
dizerção e os motivos porque os ditos moradores os conser- 
vão em suas cazas, se lhes aplique todos os meios propor- 
cionados, para que sejão restituidos ás suas respectivas 
povoações. 

§ 80. 

E como para conservação e aumento d'ellas não seria 
bastante o restituirem-lhes aquelles moradores, com que 
fôrão estabelecidas, não se introduzindo n'ellas maior nu- 
mero de habitantes, o que se pôde conseguir, ou reduzindo- 
se as aldeias pequenas povoações populozas ou fornecendo- 
as de indios por meio de descimentes, observar&õ os di- 
rectores n'esta importantíssima matéria as determinações 
seguintes na conformidade das reaes ordens de Sua Mages- 
tade. 

§ 81 

No paragrafo 22 do regimento ordena o dito senhor, que 
as povoações de indios constem ao menos de lõO mora- 
dores, por não ser conveniente ao bem espiritual e tem- 
poral dos mesmos,, que vivão em povoações pequenas, 
sendo indisputável, que a proporção do numero dos ha- 
bitantes se introduz n'elles a civilidade e o commercio ; e 
como para executar-seesta real ordem se devem reduzir asal- 
dêias a povoações populozas,encorporando-se eunindo-se uns 
aos outros,o que na forma da carta dol° deFevereirodelTOl, 
firmada pela realmãodeS.M., se não pôde executar entre os 



— 158 — 

de diversas nações; sem primeiro consultar as vontades de uns 
o outros, ordeno aos directores; que na mesma lista, que 
devem remeter dos indios na forma acima declarada, expli- 
quem com toda a clareza a distinção das naçSes, a diversi- 
dade de <;ostumes, que ha entre elles, e a poziçâo e concór- 
dia, em que vivem, para que, reflectidas todas estas cir- 
cunstancias, se possa determinar o modo com que,Rem vio- 
lência dos mesmos indios, se possao executar estas utilissi- 
mas reduções. 

§ 82 

Kmquanto porém aos descimentes, sendo S. M. servido re~ 
comendal-os aos padres missionários nos §§ 8 e 9 do regi- 
mento,decIarando o mesmo senhor, que confiava d^elles este 
cuidado: por lhes ter encarregado a administração temporal 
das aldeias, como na conformidade da alvará de 2 de Ju- 
nho de 17Ò5, e de 8 de Maio de 1758 foi o dito senhor ser- 
vido remover dos regulares o dito governo temporal, man- 
dando entregar os indios aos juizes ordinários, vereadores' 
e mais oficiaes de justiça, e aos principaes respectivos ; 
terão os directores uma incansável vigilância de advertir a 
uns e a outros, que a primeira e maior obrigação de seus 
postos consiste em fornecer as povoações de indios permeio 
dos vencimentos, ainda que seja á custa da despeza da real 
fazenda de S. M. F., como a inimitável e católica piedade 
dos nossos augustos soberanos tem declarado em repetidas 
ordens, por ser este o meio mais proporcionado para se 
dilatar a fé, e fazer-se respeitado, e conhecido n^este novo 
mundo o adorável nome do nosso redemptor. 

§ 83 

E para que os ditos juizes ordinários, e principaes possão 
desempenhar cabalmente tão alto e importante obrigação, 
ficará por conta dos directores persuadir-lhes as grandes 
utilidades espirituaes e temporaes, que se hão de seguir de 
concorrerem para facilitar, quanto estiver da sua parte, os 
ditos descimentes, e o pronto e eficaz concurso, que se 
acharás sempre nos governadores doestas capitanias como 
fieis executores, que devem ser das exemplares, católicas, e 



— 159 — 

religiozissimas intençSes de S. M.; fazendo perceber aos 
Índios novamente descidos e desintemados do certSo, por 
interpretes a liberdade^que ficão gozando^de se estabelecerem 
nas referidas povoações, reputados em tudo como vassalos, 
e participando dos privilégios^ que correspondem aos bran- 
cos, logrando igualmente terra, e sitio para caza^ e todo o 
mais que têem percebido os que se achSo nas mesmas situa- 
dos; porque ao mesmo passo que fôr crescendo o numero 
de moradores se irão dando os competentes, e místicos ás 
respectivas villas e legares, na forma das ordens do mes- 
mo senbor expedidas a este respeito . 

§•84 

Mas como a real intenção do nosso fidelissimo monarca 
em mandar ajuntar às povoações novos indios se dirige, não 
só ao estabelecimento das mesmas,' e aumento do estado, 
mas á sua civilidade por meio dacommunicação e commer- 
cio, e para este virtuozo fim pôde concorrer muito a intro- 
dução dos brancos nas ditas povoações por ter mostrado 
a experiência, que a odioza separação entre uns e outros, 
em que até agora se conservarão, tendo sido origem da 
incivilidade, a que se achão reduzidos para que os mesmos 
indios se possão civilizar pelos suavíssimos meios do com- 
mercio e da comunidade, e estas povoações possão ser 
não só populozas, mas civis, poderão os moradores d'este 
estado de qualquer qualidade, ou condição, que sejão, con- 
correndo n'elles a circunstancia de um exemplar procedi- 
mento assistir nas referidas, povoações, logrando todas as 
honras, e privilégios, que o mesmo senhor foi servido con- 
ceder aoe moradores; para o que aprezentando licença do 
governador doestas capitanias, não só os admitirão os di- 
rectores, mas lhes darão todo o auxilio, e favor possível 
para a erecção de cazas competentes ás suas pessoas e famí- 
lias, e lhes distribuirão aquella porção de terra, que lhes 
regulo do § 101 por diante, para cultivarem sem prejuízo 
dos direitos dos indios, que, na conformidade das reaes or- 
dens do dito senhor, são os primeiros naturaes senhores das 
mesmas terras, e das que assim se distribuírem, mandaráõ 
no termo, que lhes permite a lei, aos ditos novos moradores 



- 160 ^ 

tirar suas cartas de data, na forma do costume inalteravel- 
mente estabelecido. 

§85 

E porque os Índios, a quem os moradores n^estas capita- 
nias têem posto em má fé e pelas respectivas violências com 
que até agora os tratarão, d'aqui por diante se não persuadão 
de que a introdução d'elles lhes será summamente prejudi- 
cial, deixando-se convencer de que, assistindo n'aquellas 
povoações as referidas pessoas, se facão senhores das suas 
terras, e se utilizará? do seu trabalho e commercio, vindo 
doeste modo a sobredita introdução a produzir contrários efei- 
tos no solido fundamento das mesmas povoações , serão 
obrigados os directores, antes de admitir estas pessoas, ama- 
nifestar-lhes as condições, em que ficão sugeitas; do que se 
fará termo no livro da camará assinado pelos directores e 
pessoas admitidas : são condições de admissão as que vão 
abaixo declaradas. 

§ 86 

1.^ Que de nenhum modo poderão possuir as terras, que 
na forma das reaes ordens de S. M. se acharem distribuí- 
das pelos Índios, perturbando-os na posse pacifica d'elles, 
ou seja em satisfação de alguma divida, ou a titulo de con- 
trato, doação, dispozição testamentária, ou de outro qual- 
quer pretexto, ainda que seja aparentemente licito e ho- 
nesto. 

§ 87 

2.^ Que serão obrigados a conviver com os indios n'aquella 
reciproca paz e concórdia, que pedem as leis da humana ci- 
vilidade, considerando a igualdade que têem com elles na 
razão genérica de vassalos de S. M. e tratando-se mutua- 
mente uns aos outros com todas aquellas honras, que cada 
um merecer pela qualidade de suas pessoas e graduação de 
seus postos . 

§ 88 
3.^ Que nos empregos honoríficos não terão preferencia a 



— 161 — 

respeito dos índios, antes pelo contrario, havendo n^estes ca- 
pacidade; preferem sempre aos brancos dentro de suas res- 
pectivas povoaçSeS; na conformidade das ordens de S. M. 

§ 89 

4.^ Que sendo admitidos n'aquellas povoações para civi- 
lizar 08 indios; c os animar, com o seu exemplo, á cultura das 
terras, buscarão todos os meios licites e virtuozos de adqui- 
rir as conveniências temporaes som desampararem de 
trabalhar pelas suas mãos nas terras, que lhes forem dis- 
tribuídas ; tendo entendido que, á proporção do trabalho ma- 
nual que fizerem, lhes permitirá S. M. aquellas honras, de 
que se constituírem beneméritos os que rendem beneficio 
tão importante ao bem publico. 

§ 90 

5.^ Que, deixando de observar qualquer das referidas con- 
diç5es,8erão logo expulsos das mesmas terras^ perdendo todo 
o direito, que tinhão adquirido, assim á sua propriedade, 
como a todas as lavouras e plantações, que tiverem feito. 

§ 91 

Para se conseguir os interessantíssimos fins, a que se di- 
rigem as mencionadas condições, que são a paz, união, e a 
concórdia publica, sem as quaes não podem as republicas 
subsistir, cuidarás muito os directores em aplicar todos 
os meios conducontes,para que nas suas povoaçOes se extinga 
totalmente a odioza e abominável distinção,qu6 a ignorância, 
ou a iniquidade de quem preferia as conveniências particulares 
aos interesses públicos, introduzio entre índios e brancos, 
fazendo entre elles quazi moralmente impossível aquella 
união e sociedade civil tantas vezes recomendada pelas leis 
de S. M. 

§ 92 

£ntre os meios que julgo mais proporcionados para se 
conseguir tão virtuozo, útil e santo fim^ nenhum me parece 

TOMO ZLYI, P. I. 21 



— 162 - 

mais eficaz, que procurar por via de cazamentos esta impor- 
tantissima união ; pelo que recommendo aos directores, que 
apliquem um incessante cuidado em facilitar, e promover 
pela sua parte os matrimónios entre os brancos e indioB, 
para que por meio doeste sagrado vinculo se acabem de ex- 
tinguir totalmente aquella odiozissima distinção, que as na- 
çSes mais polidas do mundo abominarão sempre como inimi- 
go commun do seu verdadeiro e fundamental estabeleci- 
mento. 



§93 

Para facilitar os ditos matrimónios empregaráO os dire* 
ctores toda a eficácia do seu /cio em persuadir a todas as 
pessoas brancas, que assistirem nas suas povoaç5es, que 
os Índios tanto não são de inferior qualidade, a respeito 
d'elles, que, dignando-se S. Magestade de os habilitar para 
todas aquellas honras competentes ás graduações de seus 
postos, ficão logrando os mesmos privilégios as pessoas^que 
cazarem com os ditos indios, desterrando-se por este modo 
as prejudicialissimas imaginações dos moradores d'este es- 
tado, que sempre reputavão por infâmias similhantes ma- 
trimónios. 



§94 

Mas como as providencias ainda sendo reguladas pelos 
ditames da reflexão e prudência produzem muitas vezes 
fins contrários, e pode suceder, que, contrahidos estes ma- 
trimónios, degenere o vinculo em desprezo, e em discórdia 
a mesma união, vindo por este modo a transformarem-se 
em instrumentos de ruina os mesmos meios, que deverão 
conduzir para a concórdia, recomendo muito aos direc- 
tores, que, logo que fôrem informados de que algumas pes- 
soas, sendo cazadas, desprezão os seus maridos, ou suas 
mulheres, por concorrer n'elles a qualidade de indios, o 
participe logo ao governador doestas capitanias, para que 
sejão severamente castigadas, como fomentadores das 
antigas discórdias, e perturbadores da paz e união 
publica. 



— 163 — 

§95 

D este modo acabarás de comprehonder os índios com* 
toda a evidencia; que estimamos as suas pessoas^ nSk> 
despreza nos as suas alianças e parentesco^ reputamos 
como próprias as suas utilidades, e dezejamos cordial 
e sinceramente conservar com elles aquella reciproca união, 
em que se firma, e estabelece a solida felicidade das repu- 
blicas. 



§96 

Consistindo finalmente o firme estabelecimento de todas 
estas povoações na inviolável e exacta observância das 
ordens, que se contém n'este directório, devo lembrar aos 
directores o incessante cuidado e incansável vigilância, 
que devem ter em tão útil e interessante matéria ; bem en- 
tendido, que entregando -se-lhes meramente a direção, e eco- 
nomia doestes índios, como si fossem seus tutores, emquanto 
se conservão na barbara e incivil rusticidade, em que até 
agora fôrão educados, não os dirigindo com aquelle zelo a 
fidelidade, que pedem as leis do direito natural o civil, 
serão punidos rigorozamente como inimigos communs dos 
sólidos interesses do estado com aquellas penas estabele- 
cidas nas reaes ordens, e com as mais que S. Magestade 
f5r servido impôr-lhes, como réos de um dos delitos tão 
prejudiciaes ao commun e importantíssimo estabelecimento 
do mesmo estado. 



§97 

Mas ao mesmo tempo que recommendo aos directores a 
inviolável observância doestas ordens, lhes torno a advertir 
a prudência, a suavidade e brandura, com que as devem 
executar, especialmente as relativas á reforma dos abuzos, 
vícios bárbaros, e costumes doestes povos, para que não 
suceda, que, estimulados da violência, tornem a buscar nos 
centros dos matos os torpes e abomináveis erros do paga- 
nismo. 



— 164 — 

§98 

' Devendo pois executar-se as referidas ordens com todos 
os indios^de que se compõem estas povoações, com aquella 
moderação e brandura, que ditão as leis da prudência, 
ainda se faz mais preciza esta obrigação com aquelles, que 
novamente descerem dos sertões; tendo ensinado a experi- 
ência, que só pelos meios da suavidade é, que estes mize- 
raveis rústicos recebem as sagradas luzes do Evangelho, e 
ultimo conhecimento da civilidade e do commercio; por 
cuja razão não poderão os directores obrigar aos sobreditos 
índios a serviço algum antes de dous annos de assistência 
nas suas povoações, na forma do § 23 do regimento, 

§99 

Ultimamente recomendo aos directores, que, esquecidos 
totalmente dos naturaes sentimentos da própria conveniência, 
só empreguem os seus cuidados nos interesses dos indios, 
de sorte que as suas felicidades possão servir de estimulo 
aos que vivem nos certões, para que, abandonando os las- 
timozos erros, que herdarão de seus progenitores, busquem 
voluntariamente n^estas povoações civis, por meio das 
utilidades temporaes,a verdadeira felicidade,que é a eterna, 
e procurem se conservar com regularidade nas compa- 
nhias das suas respectivas vilas, ou logares, entretendo-os 
na melhor diciplina e pronta obediência, os soMados aos 
seus ofíciaes, e estes aos seus superiores, aos quaes não 
consentirá, que no exercicio militar e obrigação do ser- 
viço deixem de proceder com igualdade tal, que uns expe- 
rimentem mais alivio, do que outros, mas sim, que, regu- 
lado por escala, cada um faça o que lhe toca. 

§100 

Doeste modo se conseguirão sem duvida aquelles altos, 
virtuozos e santíssimos iins, que fizerão sempre objecto 
da católica piedade e real benificencia dos nossos augus- 
tos soberanos, que são a dilatação da fé, a extinção do 
gentilismo, a propagação do Evangelho, a civilidade dos 
indios, o bem commun dos vassalos, o aumento da agri- 
cultura^ a introdução do commercio, a regularidade do 



~ 166 — 

serviço militar^ e finalmente o estabelecimento, a opulência 
e a total felicidade do estado ; para o que se faz indis- 
pensável o regulamento da repartição das terras, que a 
cada um, segundo as suas graduações, vou prescrever^ 
Bo;n o qual, como primeiro objecto de todo o cuidado em 
novos estabelecimentos, se não podia pôr em pratica o que 
determina Sua Magestade Fedelissima, e o ratificou o dito 
senhor na ilha de Santa-Catarina, além do que se tem visto 
cm muitas nações estrangeiras, pelo que têem praticado em 
algumas das suas colónias, quando pelas mesmas fôrão 
descobertas. Para o que se não deve omitir a diligencia 
de se passarem não só aos indios, como aos moradores que nas 
mesmas vilas e logares se quizerem estabelecer, suas cartas 
de datas, para por ellas virem no conhecimento da parte 
que a cada um corresponde, fazendo-se registrar nos livros, 
a que juntamos^ como fica dito. 

§ 101 

Para se proceder á divizão das terras, que a cada um 
dos moradores das mencionadas vilas e logares se deve 
dar pelos seus respectivos directores com assistência dos 
principaes juizes, vereadores,escrivães das camarás, de que 
se deve fazer nos livros d^ellas termo de demarcação, con- 
dição com declaração de braças quadradas, que tocão a 
cada pessoa, segundo a sua graduação e estado, se adverte, 
que cada braça portugueza se compele de 10 palmos, 
e cada palmo de 8 polegadas, e que a légua quadrada com- 
prehendende n^este continente 2.800 braças de comprido, e 
2.800 de largo, que multiplicando-se o referido compri- 
mento pela mencionada largura, que é o mesmo que quadrar 
na planemetria, vem a dar o seu produto em 7.840.000 
braças quadradas, que tantas tem a dita légua. 

§ 102 

E como não é justo deixe de haver distinção na dita 
repartição, segundo a graduação e postos, que ocupão 
os moradores das referidas vilas e logares, a praticará^ os 
mencionados directores e mais adjuntos, na forma se< 
^uinte. 



— 166 — 

§ 103 

Ao Rvm. TÍgario se dará para o sea passar 100 bra- 
ças de omprido e outras 100 de largo, que vêem a fazer 
10.000 quidradas. 

§ 101 

AoRvm. coadjutor se dará para o mesmo efeito 100 
braças de conpriio e 90 de largo, que vêem a fazer 
9.000 quadradas. 

§ 105 

Ao principal se darSo 100 braças de comprido e 100 
de largo, que vêem a fazer 10.000 quadradas, e por cada 
pessoa de sua familia, incluzive filhos e domésticos, 40 por 
100, que coraprehende 100 braças de comprido e 40 
de largo, e fazem quadradas para cada um 4.000 

§ 106 

Ao capit3o-mór 100 braças de comprido e 90 de 
lai^o, que vêem a fazer 9.000 quadradas,e por cada pessoa 
de seus filhos e domésticos 35 por 100, que comprebendem 
100 de comprido e 35 Ys de largo, que vêem a importar 
quadradas 3.150. 

§ 107 

Ao sargento-mór 100 braças de comprido e 80 de 
largo, que vêem a fazer 8.000 quadradas, e por cada pessoa 
de seus filhos e domésticos 30 por 100 em 100 de com- 
prido e 21 de largo, que fazem quadradas 2.400. 

§108 

Ao capitão 100 braças de comprido e 70 de largo, que 
vêem a fazer 7.000 quadradas, e por cada pessoa de seus 
filhos e domésticos 25 por 100 em 100 de comprido e 
17 7^ de largo, que fazem quadradas 1.750. 



— 167 — 

§109 

Áos alferes 100 braças de comprido e 60 de largo, que 
vêem a fazer 6.000 quadradas, e por cada pessoa de ;Beu8 
filhos e domésticos 20 por 100 em 100 de comprido e 12 de 
largo, que vêem a fazer quadradas 1.200. 

§110 

Áos sargentos e cabos de esquadra 100 braças de com- 
prido e 50 de largo, que vêem a fazer quadradas 5.000 e 
por cada pessoa de seus filhos e domésticos 20 por 100 
em 100 de comprido e 10 de largo, que fazem 1.000 qua- 
dradas. 

§111 
Aos soldados 100 braças de comprido e 40 de largo, 
que vêem a fazer 4.000 quadradas, e por cada pessoa de 
seus filhos e domésticos 18 por 100 em 100 de comprido, 
e 7 ^1% de largo, que fazem 720 quadradas. 

§ 112 

O mesmo para cada morador, ou indio , que assistir, ou 
se agregar ás ditas vilas e legares, não sendo oficiaes ne- 
cessários na mesma povoação ; porque n'este cazo lograráS 
as mesmas porções, que competem aos alferes, a qual será 
reciproca aos escrivães do publico, e aos meirinhos e seus 
escrivães, igualmente com os sargentos; advertindo que, 
para separação da que competir a cada cazal, lhe ficará 
uma braça de baliza na largura por todo o comprimento, 
a qual podem aproveitar em a plantar os algodões, a arvore 
que produz o carrapato para o azeite, e coqueiros. 

§113 

K^esta repartição se não inclue as áreas necessárias para 
08 caminhos, e competentes igrejas, cazas de camará, 
cadeia, de assistência de moradores, e ruas publicas, que 
todas devem ser direitas e cordeadas, tendo n'ellas seus 
quintaes para criações, e logar destinado a recolher gado 
vacum, cavalar de serviço, e miúdo. 





— 168 — 

§114 

Para os curraes se tírará5 as competentes á proporção 
da multiplicidade do gado^ deixando4he sitio para pastos, 
em que os tenhão com desafogo e sem aperto, atendendo 
aos necessários para o de toda a qualidade e suas criações, 
na certeza de que a abundância d^elle fertiliza com os seus 
estercos as terras, e é de grande beneficio ás lavouras. 

§ 115 
Para a subsistência dos pobres, orfôos, e viuvas se 
darão 100 braças de comprido e 200 de largo, que vêem a 
fazer 2.0000 quadradas. 

§116 

Logo que se concluir a dita repartição, se me remeterá 
uma Tista,por onde conste as pessoas a quem se dérão,acom- 
panhada de certidão, que verifique ter-se lançado nos livros 
do tombo das camarás a porção, que a cada uma tocou, 
especificando nos mesmos as suas devidas confrontações. 

§117 

Quando pelo tempo adiante a experiência mostre ser-lhes 
precizas maiores porçSes de terra a cada um dos ditos 
moradores, se lhes dará proporcionalmente, não mandando 
S. M. o contrario, e constando que têem bem cultivadas e 
fabricadas as primeiras datas. 



TERMO QUE FAZEM OS DIRECTORES PARA SATISFAZER AS 
OBRIGAÇÕES, QUE SE LHES ENCARREGAO. 

Aos 29 dias do mez de Maio do anno de 17Õ9 na secre- 
taria doeste governo, em prezença do Illm. e £xm. Sr. Luiz 
Diogo Lobo da Silva, governador e capitão general 
doestas capitanias, aonde veio João Caetano Alvos e Elias 
de Souza Paes, nomeado o primeiro para director da nova 
vila de Mecejana, e o segundo para mestre da escola da 
mesma, aonde pelo dito governador lhes foi dado o dire* 
ctorio, porque se devião regular, e cartilha para a instrução 



— 169 — 

dos meninos, encarrcgando-lhes que bem e verdadeiramente 

t)rocurafisem com toda a inteireza, cada um na parte que 
he toca, seguir em tudo o referido directório, e cartilha 
gradualmente, segundo a natureza dos habitadores, a que 
se dirigiâo as referidas instruções, o permitisse, e fosse con- 
ducente a civilizal-os, como se pretende; para o que lhes 
lembrava ser precizo obrií^al-os, quanto fosse justo, pelos 
meios da brandura e suavidade, afim de que, ajudados com 
a sua doutrina, vençâo as trevas da ignorância em que se 
achão envolvidos, para com o conhecimento da raeâo e do 
beneficio, que se lhes seguia, vir com facilidade a não 
lhes ser custozos os justos meios, que se lhes ofereciíto 
para a sua maior utilidade temporal e espiritual, e que 
elles, director e mestre, têem maior gloria,e devem trabalhar 
com o seu exemplo aconseguil-a^ na certeza de ser o meio 
mais eficaz para se nao afastarem da necessária regulari- 
dade, que pelos seus empregos ficão na obrigaçSlo de lhes 
propor ; e de como assim o prometerão executar, e de não 
tirar dos ditos habitadores directa ou indirectamente couza 
alguma além do que pelo mencionado directório lhe ó per- 
mitido, que só rõceberáS em quanto S. M. Fidelíssima 
houver por bem a sua observância, e concorrer quanta 
couber nas suas forças a fazer entreter entre elles as leis do 
pudor e honestidade, embaraçando toda a liberdade, que 
possa ser de máo exemplo, e conservação d'esta tão essen- 
cial virtude, se obrigarão na parte que lhes é licita e permi- 
tida como a tudo o mais, que fica referido : o que tuda 
iurão não faltar de observar na forma expressada ; de que 
mandei fazer este termo, que os mesmos assinarão para 
a todo o tempo constar, onde necessário fôr. E eu Francisca 
Gonçalves Beis, oficial menor da secretaria o fiz escrever e 
subscrevo. 

Este directório fiz fielmente copiar do livro, que consta da 
certidão dj registro antecedente ; vai sem couza que duvida 
faça; de que tudo dou fé, e fiz este termo, que assinei coma 
oficial maior da secretaria doeste governo. 

Filipe Neri Corrêa. 



TOMO XLVI, P* I. 22 



— 170 — 



RBLAÇIO POB donde CONSTXo 08 NOMES £ VENCIMENTOS 
DO SEVM. VIGABIO, COADJUTOB, DIBECTOB, E MESTBE 
DESTINADOS A NOVA VILA QUE POB ORDEM DE SUA 
M. FIDELÍSSIMA SE MANDA ERIGIR NA ANTIGA ALDEIA 
DE PAUPINA. 

O Revm. vigário, o padre Manoel Pegado de Siqueira, 
tem de côngrua annual pela real fazenda; pagos de trez 
em trez mezes pela provedoria do Ceará 50^000. 

Ao mesmo pelo guizamento que lhe pertence, satisfeito 
na predita forma, e pela referida repartição.... 24i$920. 

Ao dito para a fabrica annual da sua vigararia. 8^000. 

O rendimento da escola, que pertence ao mencionado 
vigário na forma que está determinado, consiste mera- 
mente em uma pataca cada anno por cada cazal, sem que 
lhe possa provir por titulo algum de baptizado, caza- 
mento, mortuorio, outro algum direito parrochial, por 
todos se terem reduzido, e ainda os de conhecença, & dita 
quantia. 

O Revm. coadjutor, o padre . . . . , de côngrua an- 
nual pela fazenda real, paga na mesma forma pela dita 
repartição 25^(000. 

Direétor João Caetano tem de ordenado em cada um anno, 
pago de trez em trez mezes pela mesma provedoria. 52^380. 

£m que se inclue o vencimento de farda e pSo de 
muniçSo, 32^000. 

Toca mais ao dito director capelão 6 por cento de tudo o 
que os moradores das terras com sua direção ganharem peio 
seu trabalho, e adquirirem pela sua cultura e criações, 
em premio de os ensinar a trabalhar, como deve, e tiral«os 
da rusticidade, em que se achão. 

Será msÂs obrigado o dito director a tirar 2 por cento para 
a subsistência dos pobres e doentes, quando para ella não 
chegue o produto do trabalho, a que se destinão os ociozos 
e mal procedidos. 

Mestre Elias de Souza Paes vence de ordenado em cada 
um anno, pago pela mesma real fazenda, 33/$180, em que 
se inclue o fardamento e farinha, que lhe corres- 
ponde... 33^180. 



-^ 171 ^ 

Terá mais, satisfeito pelo pai de cada menino ou me- 
nina que ensinar a lêr e escrever, meio tostfto por cada 
mez. pago a dinheiro, ou nos frutos que o mesmo tiyer, 
segundo o valor da terrai com dedaraçfto que aos que fS- 
rem orfZos, ou desemparados ensinará sem emolumento al- 
gum, em atençSo ao ordenado que percebe pela real fazenda 
de S. M. 

Recife de Pernambuco 18 de Maio de 1759. 

Estava a rubrica 

Registrada no livro 1" de ordens pertencentes ao novo 
estabelecimento das antigas missSes em novas vilas e 
logares; d 'onde se extramio do seu original, que se acha 
registrado desde a foL 12 até a foi. 40. 

Recife em 29 de Maio de 1759. 

FUipe Nêri CorrSa (m) 



(*) Eaie mannscrito foi oíereddo ao Instituto histórico a gdografieo 
brazile Iro pelo seu sócio brigaddro Ricardo Jozé Gomes Jardim. 



l 



NOTA »E TODiS I& UtUimUS 

BM QUB 8B FAZ 8AL 

NA COSTA DO BRAZIL 



Em toda esta costa do Brazil^ domínios de S. A. R., que 
consta de mil seiscentas e tantas léguas de extensão, princi* 
piando acima do Cabo do Norto 2 gráos e meio de latitude 
boreal que divide entre as duas Guianas iranceza e portu- 
gueza, determinadas pelo rio chamado pelos Portuguezes 
Calsoene, e pelos Francezes Vicente Pinson, no artigo 7" 
do ultimo tratad(», e com a America espanhola pelo rio- 
grande do Sul em latitude 31 gráos 55 minutos meridional 
não se conhecem outras marinhas senão as seguintes : 

No Maranhão fabricão algum sal em Tapuitapera na yila 
d' Alcântara. 

No Mossoró ha uma grande salina de sal com pouco 
beneficio; dá grande quantidade e muito bom sal. 

No Assú foi feita pela natureza uma extensão de 2 a 3 
léguas de maneira que em todo este espaço gela o sal em 
grossura de 1 a 2 palmos e meio, quantidade capaz de 
fornecer todo o universo, sem outro algum beneficio e des- 
pezamais que colher; é o melhor sal que ha em toda esta 
costa. 

Na ilha de Itamaracá, 7 léguas ao norte de Pernambuco, 
ha algumas salinas, que tirão sal, e mais ao sul da ilha, 2 
léguas, no Pao-amarélo, também ha salinas, que tirão sal, 
porém pequenas quantidades que todavia fornecem aquella 
costa ató Cabo-branco e vila de Goiana, cujas con- 
duções fazem em jangadas* 

No Recife de Pernambuco, distante meia légua, em Santo 



— 174 — 

Amarinho, ha umas pequenas salinas, cujo sal os que o 
tírav^So erSo obrigados a vender em pequena quantidade ao 
administrador do contrato^ que então havia. 

Na Gutinguiba ha uma pequena salina^que exporta algum 
sal para a Bahia, porém pouca quantidade, e mio sal. 

No Cabo-frio ha umas salinas, que também pouco podem 
exportar, e o seo produto nSo serve para salgas ; porque 
faz arder a carne e o peixe, que é beneficiado com este sal, 
pela muita fortidâo. 

Estas salinas do Assú e Mossoró, que se extendem em 
um espaço de costa desde Agoa-maré até a barra do Assú, 
por 3d léguas, erSo uma costa realenga, habitada por pes- 
cadores, que secavSo o seu pescado e vendiSlo para o Recife 
de Pernambuco e tiravSo sal, que trazião para o pontal da 
barra do Assú e barra dos Cavalos, onde fundeião as 
sumacas, e elles vendiâo o sal cada um alqueire a 60 e 80 rs. 

Frei Manoel, reli^iozo carmelita do convento da cidade 
de Olinda, noanno de 1792, tirou este terreno por sesmaria 
em nome de seu pai, e apozentou-se lá de morada, dando 
200^00 reis ao convento,e com a procuração do pai dezapos- 
sou doesta costa todos os moradores, deixando ficar somente 
aquelles que estiverSo pela dura condição de lhe darem me- 
tade da sua pescaria, depois de beneficiada, e não tirarem 
sal. 

Compra a fazenda de criar gados junto ao rio das 
Conxas, chamada Cacimbas do Viana, por 1 :000f$000 e a 
fazenda chamada Amargozo, 3 léguas acima do rio do 
Assú, por 1:200^9000, e por este modo fica só comoexcluzivo 
do sal, que vendia ás sumacas a 160 e a 200 reis. 

Sabe ganhar amizade dos corregedores da comarca da Pa- 
rahiba e com violência despeja um grande numero dos 
povos, que ali habitavão, tão úteis a Pernambuco pelo for- 
necimento do seu pescado seco ; não obstante do maior nu- 
mero doestes povos terem sido mais antigos em habitar este 
terreno e por isso tinhão a preferencia na conformidade da 
carta regia sobre as sesmarias e Ord. do liv. 4 tits. 57 
e 58, que mandão preferir a posse e donativos das terras 
que contestão sobre aquelle que tirão por sesmaria. 

Finalmente crece a indignação n^estes povos sobre este 
padre e houve uns assassinios, em que ello sahio culpado,indo 



— 175 — 

este processo crime á Lisboa, foi sentenciado para Angola, 
nSto chegando a cumprir este extermínio, porqae morreu no 
anno de 1806. Quinze dias antes da sua morte fes yenda 
d'estas terras e fazendas a Domingos Afonso Ferreira e a 
Bento José da Costa por 12:00O/9^0. 



Do qu$ pôde a fazenda recd utilizar ficando com estas 
salinas do Aêsú e Mossoró e fazendas de gado 

Com quatro sumacas póde-se conduzir para Pernambuco 
150 a 160 alqueires de sal, medida do Assú, que tem 25 
por cento da de Pernambuco. 

A medida de Pernambuco para a Bahia e Rio de Janeiro 
tem de avanço 50 por cento, por isso mesmo que vem a ter 
a medida do Assú 75 por cento sobre a da Bahia e Rio de 
Janeiro ; razão porque 150.000 alqueires do Assú fazem 
265.500 alqueires que a 800 rs« dão a somma de 
212.400^000. Bem entendido quea tirada do sal das salinas 
do Assú pode ser da quantidade que quizerem. 



Da despeza da tirada do sal nas salinas do Assú e sím 

condução do rio para a barra 

A colheita do sal n^estas salinas é do principio de Outu- 
bro até AbriL 

E suficiente para tirar a quantidade acima dita de sal 
40 Índios 08 quaes serão contentes com a paga de 100 rs. 
sendo sustentado ; com cujo sustento a maior despeza será 
1.000 alqueires de farinha pela medida de Pernambuco, 
pois que a carne tem superabundante nas duas fazendas de 
gado, Amargozo e Cacimbas do Viana. Oito canoas grandes 
que custão 50^ cada uma bastão para conduzir em todas as 
marés pelo rio o sal para os armazéns no pontal da barra 
do rio Amargozo e rio dos Cavalos, onde recebem as su- 
macas e carregão pelas pranxas em um só dia. 



— 176 — 

O custeamento das samacas pode-se fazer com o produto 
dã venda do sal^ que se vende para os portos do norte d'a- 
quella costa ; como seja Jaguaribe, Oaracú, Tapagé; Ca- 
mucim^ Pamahíba, Maranhão e Pará. 

Para esse sal podia estipular a fazenda real o preço 
de 400 reis por cada um alqueire para as pessoas que 
ali fossem buscar para os portos acima declarados, pois 
que não era lezivo o preço pela grandeza da medida. 




HEíGíMEíHTO 

PELO QUAL 

O GOVERNADOR BERNARDO PEREIRA DE BERREDO 

MANDOU DESCOBRIR 

O CURSO DO RIO TOCANTINS 

1719 



Bernardo Pereira de Berredo, do conselho de S. Mages- 
tade, que Deus guarde^ governador e capitão general do 
estado do Maranhão etc. 

Atendendo eu, como verdadeiro filho da igi'eja ro- 
mana, e fiel vassalo de S. Magestade, que Deus gnarde^ 
assim a propagação do rebanho católico, como também 
ao augmento doesta monarquia, e considerando, que poderia 
conseguir uma e outra felicidade no descobrimento do ce- 
lebrado rio dos Tocantins, aonde, com uma certeza moral, 
se nos assegura, tanto a redempção de infinitas almas 
lastimozamente escravas do gentilismo, como as importan- 
tíssimas esperanças de preciozos haveres, me pareceu to- 
mar a esta expedição as ultimas medidas ; e mandando 
prontas para ellas dez canoas armadas em guerra, no- 
meei para primeiro comandante de todas a Diogo Pinto 
da Gaia, capitão de uma das companhias de infantaria 
paga da guarnição d esta capitania, esperando do seu hon- 
rado procedimento e sempre louvável dispozição, que saberá 
cabalmente dezempenhar, nos acertos d'ella, a grande con- 
fiança, que faço de sua pessoa; e para atalhar todas aquel- 
las duvidas, que poderão mover-se na devida obediência das 

TOMO ZLYI, P. I. 23 



— 178 — 

snas ordenSy lhe dei este regimento por mim assinado, o 
qual cumprirá, e fará cnmprir tão inteiramente como n^elle 
se contém; e para que venna á noticia de todos, logo que 
passar á aldeia nova dos Tocantins, se pablicará na sua pre- 
zença, não se omitindo nenhum dos capitules d'elle, que 
são os seguintes : 



1.» 

Em primeiro logar levará mui diante dos olhos o temor 
de Deus, que é o principio, que faz sempre gloriozas todas 
as açSes, procurando, tanto com o exemplo, como com 
severidade do castigo, sendo necessário, evitar todas as 
culpas graves e escandalozas. 



2.0 

Fará todas as possiveis diligencias por reduzir todo o 
gentio bárbaro ao grémio da igrejia, e obediência de Sua 
Magestade, rogando-Ihe, e persuadindo-lhe, com o mais 
suave modo, as grandes conveniências, assim espirituaes, 
como temporaes, que ha de conseguir na mudança de vida ; 
e achando-se obrigado, por motivos urgentes, a declarar- 
Ihe a guerra, ouvirá primeiro os cabos inferiores, e to- 
mando com maduro conselho esta rezolução, a executará 
com todo o rigor. 



3.« 

Em segundo logar lhe encomendo muita obediência da 
diciplina militar ; porque, faltando ella, arrisca-se a obe- 
diência, sem a qual não só se malogrão infelizmente as 
ocaziSes de gloria, mas também, com vergonhoza injuria 
do credito de todos, e considerável perda dos interesses, 
e reputação das armas do seu príncipe, periga evidente- 
mente a conservação própria. 




— 179 — 



4J 



Fará executar inviolavelmente todas as suas ordens^ po- 
rém deve empenhar toda a ponderaçSo e cuidado na expe* 
dição d'ellas. 



5.« 

Terá jurisdição criminal até pena ordinária nos cazoê 
maiores, que dispam as leis e regimentos militares, de 
que leyar& copia assignada pelo secretario d'este estado, 
os quaes sentenciará, com o 2.^ commandante por adjunto, 
na prezença do auditor commissario, que ha de ser sempre 
o juiz relator, e que interporá primeiro o seu parecer, 
ezecutando-se o que se vencer por mais votos sem dilação 
nenhuma ; para que ao mesmo tempo, que se considerar o 
delito como geral escândalo, se pondere também como uni- 
versal escarmento o castigo d elle, atalhando-se aquellas 
dezordens, que podem produzir funestas consequências, tão 
longe do remédio na superior alçada. 



6.^ 

Seguirá o rio dos Tocantins até entrar no grande de 
Araguaia, que navegará, examinando sempre com o maior 
cuidado aquellas noticias, que ha tantos annos nos prometem 
e assegurão tão preciozos haveres ; e no cazo que tenha a 
fortuna de encontral-os, despedirá uma canoa das da sua 
conserva ã toda a diligencia, informando-me cabalmente de 
tudo, com todas as circunstancias necessárias; e conti- 
nuando nos descobrimentos, ou conservando-se nos que tiver 
logrado^ sendo mui lo importantes, e parecendo assim ao 
maior numero do votos (em que entrará sempre o padre 
capelão Francisco Ignacioda Silva como um dos principaes) 
esperará na minha resposta novas instruções. 



— 180 -- 



7.^ 



Não fazendo descobrimento do tão grande importância, 
que com razão suspenda a sua viagem, a continuará sempre 
pelo mesmo rio até pôr as suas proas nas cabeceiras d^elle, 
atropelando todas áquellas dificulddes, que pôde chegar a 
a vencer, sem os escrúpulos de temerária, a rezolução mais 
valoroza, o que confiadamente espero da sua, ajudada de 
tão bons companheiros : porém, sem embargo d 'esta minha 
dispozição, no que pertence a derrotas, poderá alteral-as, 
atendendo muito ao roteiro que leva, e muito mais ás 
suas próprias experiências, que são a melhor guia. 



8.^ 

Continuando a sua navegação, informando-se cuidadoza 
e advertidamente dos tapuias do rio, de que nas margens 
d'elle ha alguma povoação de gente branca^ fará todas as 
diligencias por examinal-a; e achando ultimamente que é 
de naturaes (que serão sem duvida das minas de São-Paulo, 
ou da colónia do Sacramento novamente incorporada no 
nosso dominio) procurará logo avistar-se com o governador, 
a quem dará individuaes noticias da sua viagem, e reque- 
rerá todo o favor e ajuda, de que precizamente necessitar 
para a volta d'ella, servindo-lhe de carta de crença este 
meu regimento, que poderá mostrar-lhe: porém no cazo, 
que a dita povoação seja de estrangeiros (porque, segundo 
as melhores noticias, o rio de Araguaia dezemboca no reino 
do Peru, queé das índias de Espanha) seguirá as instru- 
ções, que leva. 



9.^ 

Fará mapa, e roteiro da »ua viagem com toda a exten- 
são, e clareza possivel, e de todas as drogas, que descubrir, 
trará bem justificados testimunhos nas amostras d'ellas, 
para que também se examine a sua qualidade. 




— ISI - 



10. 



Nomeio por commandante doesta expedição em 2* logar 
ao capitão Jozé de Souza, em 3* ao ajudante Ignacio 
Coelho RamoS; e na falta de todos ao auditor commissario 
Antão de Mendonça^ esperando confiadamente de qualquer 
que ocupar o dito cargo, que saberá enxer de sorte as 
obrigações d^elle, que, fazendo um grande serviço á Sua 
Magestade, que Deus guarde, tenha eu o gosto de solicitar- 
Ihe da grandeza do dito senhor o premio merecido, como 
timbem para todos aquelles que cooperarem com fervorozo 
zelo para o gloriozo fim d'eata importantissima jornada. 

E para que a todo o tempo conste das direçSes d'ella, 
se registrará este regimento nos livros da secretaria d'este 
estado . 

Dado n'esta cidade de Belém do Grão-Pará aos 24 de 
Junho, anno do nascimento de Nosso Senhor Jezus Ghristo 
de 1719. 

António Rodrigues Chaves, secretario do estado o fez. 

Bernardo Pereira de Berredo, 



PRECES EM DEZAGRAYO 

FOS UM SACBZLBaiO 



Tendo o Reverendo Dr. vigario-geral, e eu determinado 
fazor-se trez dias preces para rogarmos a Deus o perdão do 
agravo, que lhe fez aquelle degradado povoador da vila de 
Sâo-Joko do Crato no rio Madeira^commungando a sagrada 
partícula, tirando-a e guardando-a embrulhada em uns 
panoS; trazendo-a comsigo, e morrendo declarou, que 
estava no embrulho a dita sagrada particula já enterrada 
no monturo. 

O Reverendo vigário da dita vila o dezenterrou, e achou 
o dito embrulho ainda com particulas da dita saprada for- 
ma, e o logar d^ella, e o dito pároco obrou tudo o que de- 
termina a santa madre igreja em similhante cazo. 

E n^esta conformidade está determinado fazer-se as ditas 
preces nos dias 20, 21 e 22 do corrente á missa, e no ul- 
timo dia ha de haver sermão e procissão de penitencia á 
noite : para maior honra de Deus, e do serviço de Bua Al- 
teza Real assistirás Vmcs. aos ditos actos tão católicos como 
são, para n^elles rogarmos a Deus os auxilies da sua mize- 
ricordia. 

Deus guarde a Vmcs. 

Barcelos 15 de Fevereiro de 180S. 

Sr. juiz prezidente e mais oficiaes do senado da camará 
d'esta vila de Barcelos. 

Pedro de Faria MeUo. (*) 



(*) Maimscrito autografo existente no archivo do Instituto histórico 
e geogr^co sob o titulo « Cartas, oflcios e outros documentos per- 
tencentes Ãs camarás de Barcelos, Tomar, e Moura na província do 
Amazonas: 1797 a 1831. 



FINTA SOBRE A FARINHA 



DAS 



Socas dos moradores da capitania do Bio-negro 



Todos os annoB fintará Vmc.^ para fornecimentos dos ar- 
mazéns reaes, todos os abítantes do seo distrito de qualquer 
classe que seja na terça parte da farinha, que produzirem 
as roças de mandiocas, que cada um tiver, fazendo Vmc. a 
finta sobre a avaliação a que deve annualmente proceder 
nas roças plantadas de mandioca, recebendo Vmc. dos fin- 
tados as fintas respectivas, e dando Vmc. d^ellas as compe- 
tentes entradas ^ nos armazéns reaes para se fazerem em 
consequência prontos pagamentos aos interessados. 

Aos fintados fará Vmc. publico, que a omissão obstinada, 
que se verificar em entregar a Vmc. a tempo as fintas, será 
castigada com a prízão d^elles junto da rezidencia do go- 
verno até que se verifique, por certidão de Vmc, a entrega 
das fintas retardadas. 

E a Vmc. adverte-se, que a dificuldade no transporte das 
fintas para os armazéns reaes deve participal-a a tempo 
ao governo para este providenciar. 

Por esta primeira vez procederá Vmc. já sem demora á 
avaliação das roças de mandioca da antiga plantação, que 
estiverem de vez ou perto d^isso, havendo-se pelo modo se- 
guinte : 

Vmc. comum louvado bastante, que nomeará por parte 
dos abitantes e com outro louvado, que lhe aprezentar no- 
meação por escrito do governo, por parte da fazenda real, 

TOMO XLVI, P. I. 24 



— 186 — 

examinando as roças de mandioca, que estiverem de vez 
ou perto d'isso estimará a quantidade de farinha, que cada 
uma deve provavelmente render, fazendo-se esta estimação 
com toda a equidade para os abitantes, e concordando 
Vmc.entre si e os louvados na discordância d'este. Fará Vmc. 
então lavrar da avaliação um termo assignado por Vmc. e 
pelos louvados, no qual se declare os donos das i ocas e o 
rendimento estimado d'ellas, cujo termo remeterá Vmc. 
com participação sua á secretaria do governo, dentro do 
prazo de um mez, sem relaxação, a qual recahirá sobre Vmc. 

Para o futuro procederá Vmc. á avaliação pelo modo e no 
tempo do anno que para a avaliação de todas as plantaç(!les 
dos géneros do consumo interior em geral serão logo ditadas 
na ordem-circular aos juizes, a qual não tardará em ser 
expedida relativamente á cobrança dos dizimes de ditos 
géneros em geral. 

Ultimamente para tirar a Vmc. de duvidas, advirto, que 
estas diligencias de avaliações pode Vmc. fazer, sendo ne- 
cessariOy á custa dos meios da fazenda real, que tiver á sua 
dispozição, fazendo-se as despezas em taes diligencias com 
toda a economia, fazendo-as entrar nas suas contas respecti- 
vas pela provedoria, para ali se lhe levarem em conta. 

Deos guarde a Vmc. 

Barcelos 15 de Dezembro de 1807. 

Jozé Joaquim Victorio da Costa. 
Sr. juiz ordinário da vila de Tomar. 




EXTRAIO DE UM MAPA 

DAS 
^ ORDENS MONÁSTICAS E RELIGIOZAS 

DA 

CAPITANIA DO RIO DE JANEIRO 

SUAS CAZAS, NUMERO DE EEUGIOZOS, RENDAS 

E 
BENS TERRITORIAES E MAIS SUBSISTÊNCIA 
p o QUAL 

I foi enviado ao governo em Portugal pelo vice-rei Conde de 

i Rezende, em oficio de 5 de Dezembro de 1797 

i 



ORDEM DE SAO BENTO 

1 mosteiro na cidade do Rio de Janeiro, com 53 religio- 
zoB; 210 propriedades de cazas rendendo 10:105f$360, e 
xãos foreiros rendendo 632^9110, 5 engenhos rendendo 
10:235^284, 7 fazendas rendendo 5:645S050, com a ordi- 
naria de 9Of90O0 ; rendimento total 31:707fS804. 



ORDEM DO CARMO 

1 convento n'esta cidade com 29 religiozos e 2 leigos, 102 
propriedades de cazas rendendo 4:872^390, xãos foreiros 
rendendo 58^440; 2 engenhos rendendo 4:991^300, 7 



- 188 — 

fazendas rendendo 1:879^510; com a ordinária de 90i$000; 
total 11.891,$640. 

1 convento na Qha-grande, com 3 religiozos e 1 leigo, 
com um engenho rendendo 961^860^ 2 fazendas rendendo 
86,J500; total 1:048,5360. 



ORDEM DE SANTO ANTÓNIO 

1 convento n'esta cidade com 75 religiozos e 13 leigos; 
tendo de esmolas 13:902í5966, e 90ái000 de ordinárias; 
total 13:992í5966. 

l convento na Hha do Bom-Jezus, com õ religiozos e 2 
leigos^ tendo de esmolas 1:996^565. 

1 convento n •. Ilha-grande,* com 9 religiozos, tendo de 
esmolas 1:010^5240. e ordinária de 90r$000. 

1 convento em Macaca, com 9 religiozos, tendo de esmo- 
las 640^^730, ordinária de 90$000 ; total 730/9730. 

1 convento em Cabo-frio, com 6 religiozos, tendo de es- 
molas 709^1670, e 25 bois, ordinária de 90f5000; total 
759^670. 



BARBADINHOS ITALIANOS 

1 convento n^esta cidade^ com 8 religiozos, tendo de 
esmolas 854f$225. 

TOTAL 

9 conventos . 
197 religiozos. 

18 leigos. 
312 propriedades de cazas. 
Xâos foreiros. 
8 engenhos. 

16 fazendas. 
Os mendicantes tendo de esmolas 19:144^369. 
Ordinária 500^5000. 
Rendimento total 64:1 ]2«$200. 

(Archivo publico) 




MOEDA CIRCULANTE 



Na. capitania do Rio de Janeiro 



lllm. e Exm. Sr. 

Procedendo ás averiguações convenientes para poder 
informar a V. Ex. sobre a moeda, que circula n^esta ca- 
pitania, declarando a que é provincial e a sua quantidade 
ou valor total; ofereço a V. Ex. os dous mapas juntos, 
que me forão aprezentados pelo provedor da caza da 
moeda, nos quaes se mostra a quantidade que se tem la- 
vrado desde o anno de 1768 até 1796, e a qualidade de 
toda a que corre assim nacional, como provincial. 

Quanto porém ao conhecimento do valor d'esta ultima, 
que circula na capitania do Rio de Janeiro, nada se pôde 
dizer com probabilidade, porque, o girando ella por todo o 
Brazil, e não se cunhando só na caza da moeda doesta ci- 
dade, nem é fácil computat-se a que se tem transportado, 
nem a que se conserva nos limites da capitania. 

Deus guarde a V. Ex. 

Rio de Janeiro 7 de Julho de 1797. 

Senr. D. Rodrigo de Souza Coutinho. 

Conde de Rezende. 



— 190 — 



EeLAçZo de toda a qualidade de MOEDAS; QUE CORBEBC 

N^ESTA CAPITANIA 

Dinheiro de ouro nacional que corre em todo o reino 

DobrSesde 24,Í000\ Moedas de ^*^ 

Dobras de 12^800/ ^^^*^ ^® 8^200 

Ditas de 12í51O00( W600 

Moedas de 4f$800) 800 

Dinheiro provincúU de ouro que corre êó no BrazU 
Moedas de 4í$000 réis, de 2$000 réis e de li$O0O réis. 

Dinheiro provincial dt prata 

Moedas de 640 réis -320 réis— 160— 80— e 40 réis. 
600 . — 300 » —150 — e 75 réis. 

Dinheiro provincial de cobre 
Moedas de 40— 20— 10— e 5 réiá. 

Rio de Janeiro 12 de Maio de 1797. 

Jozé Alberto da Silva Leitão, 

(Archivo publico) 



^ 



— 191 — 



Hap le Ma a iinalidaile le netas p idriio ii'ista capitaBJfl. 



^ y 



CUNHADAS NA REAL CAZA DA MOEDA DO RIO DE JANEIRO DO AMNO 

DE 1768 ATÂ 1796 


o 

is 

-< 


MOEDAS DE OURO NAGIONAES 1 


DE 60400 


DE 30200 


DE 10600 


1768 
1769 
1770 
1771 
1772 
1773 
1774 
1775 
1776 
1777 
1778 
1779 
1780 
1781 
1782 
1783 
1784 
1785 
1786 
1787 
1788 
1789 
1790 
1791 
1792 
1793 
1794 
1795 
1796 


2.712:9080800 
2.452:1850600 
2 333:7280000 
2.582:5850600 
2.416:9210600 
2.583:7440000 
2.322:8808000 
2.161:7600000 
2.494:1690600 
2.218:0410600 
2.419:9360000 
2 613:4010600 
2 294:8600860 
2.:jul:79804OO 
2.075:7440000 
2.060:0190200 
2.093:1520000 
1.801:9390200 
1.881:7720800 
1.768:9660400 
1.723:8590200 
1.578:2400000 
1.350:1950200 
1.476:7740400 
1.474:7390200 
1.517:3500400 
1.577:2280800 
1.445:1770600 
1.398:8130200 


















5:0040800 




2:771jif200 
































































































59.132:8930200 


5:0040800 


2:7710200 









— 192 — 



Contimaação 



CO 

O 

-< 


MOEDAS DE OURO PROYINCIAES 


DE 4$000 


DE 20000 


DE 10000 


1768 
1769 
1770 
1771 
1772 
1773 
1774 
1775 
1776 
1777 
1778 
1779 
1780 
1781 
1782 
1783 
1784 
1785 
1786 
1787 
1788 
1789 
1790 
1791 
1792 
1793 
1794 
1795 
1796 








97:488|}000 










31:956)9000 


6:7980000 


1:4440000 


68:2720000 
139:2521000 
225:4520000 

99:0600000 
198:2680000 

10:964)9000 


9:4420000 
11:7460000 




6:0000000 








■•••...>..>•> ••• 


















' 
















• •• ■••■ •••«• •••■• ■ 








1 










***** ' •••• • , 




















































870:7120000 


27:9860000 


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PRODUTOS EXPORTADOS 



Da. cideicle do Rio d.e Janeiro no einno de 1706 



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Illm. e Exm. Sr. 

Recommendando-me V. Ex. no seu oficio de 14 de Se- 
tembro do anno passado entre outras relaçSes, que versão 
sobre diferentes objetos do mesmo oficio, uma, a mais 
exacta que fôsse possivel, da qualidade e quantidade dos 
produtos d'este estado, juntamente com a informação do 
que se exporta dos mesmos produtos, seja para o reino, 
seja para os outros domínios ultramarinos, individuando-se 
os géneros, que do reino se exportSo para esta capitania, 
e notando-se em particular os que sSo produçSes próprias 
de Poi*tugal ; pareceu-me indispensável recorrer aos livros 
da alfandega para- haver o conhecimento que me era ne- 
cessário, afim de informar a V. Ex. com a exaçSo possível. 

Doesta diligencia pois encarreguei ao dezembargador 
juiz e ouvidor da alfandega, que me dirigiu os dous 
mapas, em que se declarão os efeitos, que nos annos 
de 1795 e 1796 forâo exportados para Portugal, e outros 
domínios de S. Magestade, e assim mais uma relação das 
fazendas e géneros vindos da Europa, que se despacharão 
na mesma alfandega em o anno próximo passado: os 
quaes mapas e relação tenho a honra de oferecer a 



— 196 — 

V, Ex. com o próprio original da carta do referido mi- 
nistro, em que se declarâo os motivos porque se não pôde 
dar uma informação tão exacta e individual, como V. £x. 
recommenda, e que eu procuraria efectuar, si fosse pos- 
sivel, para que fossem completamente executadas as or- 
dens de S. Magestade. 

Deus guarde a V. Ex. 

Rio de Janeiro 5 de Dezembro de 1797. 

Sr. D. Rodrigo de Souza Coutinho. 

Conde de Rezende, ^ 

(Archivo publico) 




— 197 — 

Hapft dos efeitos que se transportarão d^est» cidade do Bio de Ja- 
neiro para os portos abaizo declarados no anno de 1796 



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PORTOS 


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11 
12 
14 
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11.070 

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191 


189 

341 

45 

44 


78 
139 

30 
123 


384.077 

445.273 

896 

6.780 


Porto 


Faial 


Viana 


Pernambuco 


Bahia 








100 
402 
200 


Angola 




27 

16 


122 

40 


Benguela 




Somiua 


90 


18.747 


962 


532 


837. 728 














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— 198 — 
Continu.aç ão 



PORTOS 



Lisbua 

Porto 

Faial 

Tiana 

Pernambuco . . 
Babia 

Benguela 

Sonima 



., 551/2 1 
I 21/2 -. 



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— 199 — 



Continuação 



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PORTOS 



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Lisboa 

Porto 

Faial 

Viana 

Pernambuco 

Bahia 

Angola 

Benguela.... 

Somma. . . 



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24 
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1.7731/2 
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5671/2 
6 



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4.9381/2 



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23.792 

136.736 

232 

5.640 

4.176 

3.078 

2.308 

340 

176.302 



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— 200 — 



ContiniiaçêLo 





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1.4741/2 
18 


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509 

4.5361/2 

30 


320 


2 


Porto 


Faial 


1 

1 

11 

15 

14 








Viana 






Pernambuco 


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Bahia 










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ContiniaaçêLo 









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Porto 










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Viana 










Pernambuco 


5.646 

3.218 

1.422 

536 


2.550 

1.600 

1.210 

400 


150 


1.748 
1.14 
84 
160 


Bahia 


Angola 


1.754 
180 


Beniínela 




Somma 


90 


10.822 


5.760 


2.084 


3.136 






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TOMO XLVI, P. I^ 



26 



— 202 — 



Con.tin\aa.çS.o 



PORTOS 



Lisboa 

Porto 

Faial 

Viana 

Pernambuco 

Babia 

Angola 

Benguela.... 

Somma. . . 



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46.726 

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— 203 — 



ContiniaeiçêLO 



PORTOS 



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— 204 — 



Continiiação 



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Pernambuco . . . . 

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Somma tota! 2.570:2541^432 



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O Escrivão da meza grande da alfandega — Dr. Uanoel de Jezus 
Valdetaro. 



MEMOEIA HISTÓRICA 

DA 

OII>AI>E I>E OABO-FfilO 

E DE TODO O SBU DISTRITO 

COMPREENDIDO NO TERMO DE SUA JURISDIÇÃO 

Anno de I 797 



§ 1 

Situação de Cabo-fno 

A cidade de Cabo-frio está situada em uma lingua de 
terra; ou restinga de areia, entre o mar e a lagoa de Âra- 
ruama; na latitude de 22^. e 58"\ a sua longitude é de 842'^ 
e 20*", (*) varia a agulha n'e8ta altura 6** e 50* para o nor- 
destO; segundo as observaçcíes, e fica distante do cabo 1 ^ji 
légua; em linha réta^ e seguindo a volta da praia, 3 léguas 
até a praia do Anjo^ aonde se axa o cabo, que demandâo todas 
as embarcações vindas do norte para o Rio de Janeiro. 

Sua extensão 

O distrito de sua jurisdição é de 29 léguas na sua maior 
extensão, principiando na Ponta-negra da parte do norte, 
seguindo pela costa do mar até o rio Macahé da parte do 
sul, em cujo logar se divide com o dos Campos dos Goaitaca- 
zes; e na sua maior largura tem 12 léguas, dividindo«se do 
distrito da vila de Santo António de Sá em Macacú da 
freguezia do Rio-bonito, que se dividio de Santo António de 
Sá, pelo pequeno rio, vulgarmente chamado da Domingas. 



n Latit.: ou 25o. 
Latit.: ou84áoe27". 

(Nota & margem;. 



— 206 — 
§ 3 

Quando povoada 

Foi povoada esta cidade em 13 de Novembro do anno 
de 1615, quando o capitão Oonstantino de Menelào, gover- 
nador do Rio de Janeiro, por ordem do governador geral 
do estado (na Bahia) Gaspar de Soaza, foi expulsar os 
olandezes, que n'este porto se achavSo surtos^^a negociar 
com os Índios chamados Goaitaoazes, que ocupavão esta 
costa té Santa Catarina das Mós, que terminava este ter- 
reno com o da capitania do Espirito-Santo, concedido por 
donatária a Vasco Fernandes Coutinho por mercê d'elrei 
D. João Terceiro. 

Cnegado o governador D. Constantino de Menelào a este 
porto por mar,acompanhado de vários Portuguezes, e de 400 
Índios por terra, vindos da aldeia da Sepetiba (oje si- 
tuados em Itaguahi) axou com efeito cinco embarcações 
olandezas, que carregavão de páo-brazil. e em terra à 
entrada da barra, da parte do norte, um pequeno forte 
construido de pedra e cal, com peças montadas, cujos ves- 
tígios ainda oje se descobrem no mesmo logar; e na ponta 
da mesma barra, da parte do sul, uma caza de abobada 
construída de pedra e cal, que, antecedente a estes Olan- 
dezes^ avia sido edificada pelos Francezes, igualmente 
negociantes dos mesmos efeitos com os sobreditos indíos ; 
sendo até aquelle tempo conhecido este logar, e denomi- 
nado — Caza de pedra. 

Expulsas as embarcações, e com ellas os negociantes olan- 
de es, tomou posse doeste continente o dito governador, e 
lhe deo a denominação de Santa-Elena, por ser o orago de 
uma pequena igreja, <ue mandou erigir no logar escolhido 
para fundar a povoação existente. Esta posse foi tomada 
pelo governador em nome d elrei de Portugal, com toda a 
solenidade preciza, não só militar, a son de caixa, mas 
judicialmente com assistência de dois tabeliães, que em 
sua companhia levou da cidade do Rio de Janeiro ; e em 
consequência d'ella fazendo demolir a caza dita, também 
mandou, por voto de todos que o acompanhavão, tapar a 
barra com a pedra da mesma caza, sem refletir, q»ie n essa 



-♦ 




— 207 - 

rezoIuçSo cauzaria dano mais considerarei para o futuro aos 
moradores doeste distrito, e a todos que procurassem pela 
navegaçSo a necessária exportação dos efeitos, e produçSes 
doeste paiz. 

Com que titulo foi logo nomeada 

Com o titulo de cidade foi povoada esta terra, quando 
Portugal vivia sujeito á coroa de Castela, e então sabemos, 
que todas as povoações de novo feitas arrogavão a si 
este tiulo. Com e le se conserva oje. 

§5 

Quem foi o primeiro capitão môr 

Logo depois que o governador tomou posse, nomeou 
capitão-mór d'osta povoação a Estevfto Gomes, dando-lhe 
08 poderes plenos de juiz sesmeiro, para efeito de conceder 
sesmarias, o cartas de dada ás pessoas, que se quizessem es- 
tabelecer n'este distrito. N'esse emprego foi immediatamente 
confirmado pelo governador geral do estado, dando-lhe em 
consequência todos os poderes militares e judiciaos, e con- 
cedendo-lhe também a alçada té a quantia de dez mil réis, 
de cuja quantia por diante seguirião apelaçfiU), ou agravo 
para os tribunaes competentes: que poderia nomear um 
escrivão, o qual perante elle serviria para passar sesmarias, 
cartas do dadas, e todos os mais papeis concernentes ao 
judicial; e para que este escrivão fosse reconhecido como 
tal, depois de nomeado por elle capitão-mór, escrevesse o 
seu sinal na camará da cidade do Rio de Janeirj. 

§6 

Creação da camará 

Assim se ex.ecutou, e se conservou este continente de 
Cabo-frio, emquanto foi regido pelo mesmo capitão mór 
Estevão Gomes, e depois d'elie, pelo seu sucessor Jozó Va- 
rela, até o anno de 1661 ou 1662, em cujo tempo se erigio 



— 208 — 

camará, tendo-lhe dado o governador geral da Bahia 
D. Vasco Mascarenhas {*) regimento, para a divizfio 
militar e judicial. 

§7 

Termo da sua jurisdição até o tempo da creação da camará dos 

Campos de Goaitacazes ; sua extensão 

Creada a camará, teve por termo da sua jurisdição até . 

Santa Catarina das Mós, compreendendo todos os campos Hf 

dos Goiatacazes, porém creada e erigida a camará nos 
campos ditos por ordem do Sr. rei D. Pedro Segundo no 
anno de 1675, ficou por termo de ambas as camarás o 
logar xamado Carapebús, no qual se poz o marco dividente, 
que se conservou até o 1 de Junho de 1831, em que se fez a 
medição de ambos os distritos pelo dezembargador Manoel 
da Costa Mimozo, á requerimento dos ilustríssimos viscondes 
d'Asseca, rezultando d 'essa medição o mudar-se o marco 
para o campo de SanfAnna de Macahé, e ficando este 
distrito de Cabo-frio com a diminuição de cinco léguas 
pouco mais ou menos, e coro a verdadeira diviza, que é 
oje pelo rio de Macahé. 

§ 8 

Corpo da justiça secular 

O corpo de justiça doesta cidade compôe-se de dous «^ 

juizes ordinários, cada um dos juizes governa seis mezes ; 
três vereadores, um procurador, e um escrivão, que tam- 
bém serve do publico, judicial, e notas; dous almotacés, 
cada um dos quaes serve dous mezes ; um juiz de órfãos ; 
que serve trienalmente, com seo escrivão ; um alcaide, 
com seo escrivão ; um meirinho d'almotaçaria ; e outro 
de órfãos ; um porteiro ; um carcereiro ; dous vintenarios 
no distrito de cada uma freguezia, que por todos fazem 



(*) D. Vasco Mascarenhas tomou posse do governo na Bahia a 
24 de Junho de 1663 : logo não podia dar o r^giiuento para a divizão 
antes d'esse anno. Seria talvez o antecessor Fr.incisco Barreto. 

(Nota à margem) 



s 



- 209 — 

oito ; dous avaliadores ; dous partidores ; um tezoureiro da 
camará ; outro ditodeorfaos ; um recebedor do subsidio li- 
terário ; outro dito do subsidio das carnes do açougue ; 
um aferidor ; um rendeiro do ver ; um piloto da camará, 
e dous ajudantes ; um rematante do subsidio pertencente á 
camará. Os rendimentos d'esta camará xegâo a 300f$COO an- 
nualmente ; e as mais despezas, a que está obrigada, xegão 
á 200^000. A caza da camará é de sobrado, e este dividido 
em duas salas ; das quaes uma serve para as vereanças, e 
outra para as audiências do juiz : n'estatem um xadrez se« 
parado, que serve de prizâo, e por baixo d'ella, duas enxo- 
vias. Os dias destinados para as vereanças, são as quartas 
feiras, e sábados ; e para audiências do juiz as segundas- 
feiras e quintas. 

§9 

Corpo da justiça ecleziastica 

O corpo da justiça ecleziastica compSe-se de um vigário 
da vara, um escrivão, um promotor, e um meirinho. 

§ 10 

Fogos e povoações 

De 289 fogos e 1494 pessoas do um e outro sexo se 
compõe a povoação d'esta cidade. Tem 349 cazas ; e 
d'estas, exceptuando a da camará, 2 de sobrado, 12 térreas, 
feitas de pecbra, todas as mais são de páo a pique, e muito 
mal construidas ; de sorte que em toda a cidade já ha duas 
xaminés, uma no convento de Santo António, e outra em 
uma das cazas de sobrado : todas essas cazas são do mesmo 
feitio, o muito rezumidas; e as ruas nfto conhecem que couza 
seja alinhamento. 

§ 11 

Aguas, de que fazem uzo, e suas qualidades 

As aguas, de que íazem uzo para beber, são extrahidas de 
cacimbas, e de mào gosto ; e conforme o terreno, por onde 

TOMO ZLVI, P. I. 27 



— 210 — 

se fíltrâo, assim mostrSo suas cores ; porque uma que ó 
muito alambreada, se filtra pelas raizes da tatagiba, muito 
própria para tintas amarelas; outra, que mostra agua 
côr láctea, procede de ser o terreno abuntante de taba- 
tinga. 

§ 12 
Alimentos ordinários 

O commun alimento, de que uzão seos abitantes, é o ^ 

peixe (que nem sempre se axa fresco) feijão, e algumas vezes 
arroz ; o sem embargo de aver um açougue, n^elle só por 
sucesso ha carne ; por que, alem da falta de gados, muito 
pouca é a sua extração. De orfalice nenhuma cultura se 
faz ; por iso não consta do seu uzo : e sendo todo este Brazil 
abuntante de laranjas, bananas, e limões, só n'este distrito 
não se encontrão ; algumas que aparecem por acazo, são le- 
vadas de fora, por isso perdem seu mais espicial sabor, 
quando o trato d^eflas não é mimozo. Algumas arvores d'essas 
mesmas frutas, que em alguns logares so conservão, pelo 
máo beneficio que lhes dfto, parecem ser de todo arvores 
silvestres, e não irutiferas. 

§ 13 

Moléstias ordinárias, e seas curativo? ; quaes sejao os professores de 

medicina e cirurgia v 

Não é izento este paiz d'aquellas mesmas moléstias, que 
em outros logares tem grassado ; a diferença só consiste 
em não serem tão vulgares, excepto as febres periódicas, a 
que chamão sezões muito frequentes, principalmente para 
o interior do sertão. Todas essas moléstias se curão sem o 
beneficio de remédios preparados em boticas, por que as 
não ha n'essa povoação, nem consta, que houvessem desde 
a sua fundação ; alguma^ mulheres de mais experiência 
são os professores de medicina, que administrão a saúde 
a uns, e a morte a outros, por meio do uzo de ervas, 
e raizes de pàos por ellas conhecidas ; por isso os dous 
professores de cirurgia, que ali rezidem, um em distancia 



1^ 



— 211 — 

da cidade duas léguas^ no logar xamado Iguaba, outro na 
fazenda de Campos-novos, distante trez legoas^ pouco 
exercicio têem. O -: sangpradores são de sobra; porém de pro- 
íissftOy um só não ha. 

§ 14 

Aula de gramática latina, e sua utilidade 

No decurso de dez annos (computados de 1797) que 
tantos ha^ que se conserva uma aula de gramática latina 
n^esta cidade, nunca excedeo o numero dos ouvintes a mais 
de quatro ; e não consta, qno d'ella se tenha utilizado 
algum, sahindo aproveitado para seguir outros estudos^ ou 
empregos, que utilizassem a si e ao publico ; não, porque o 
profesbor regio deixe do cumprir com os seus deveres, 
mas pela inconstância dos dicipulos e falta de vontade, e 
muito principalmente pela falta de zelo, e estimules dos 
pais, os quaes se empregão, e a seus filhos nos exercicio da 
pescaria, para que propendem todos. 

§ 15 
Oíicios mecânicos, e aulas das primeiras letras, e sua utilidade 

Isto mesmo acontece nos ofícios mecânicos, que abo- 
minão, por fugir á sujeição dos mestres. Nas duas aulas 
das primeiras letras, que hão n'esta cidade, se vê alguma 
aplicação da parte dos meninos ; e estas são sustentadas, á 
custa dos mesmos meninos, ou de seus pais. 

§ 16 
Regimento de milícia 

Ha um regimento de milicia auxiliar (que em outro 
tempo teve o titulo de terço de infantaria) o qual se com- 
pre de 852 praças, commandado por um coronel, que tam- 
bém teve o titulo de mestre de campo. Este mesmo re- 
gimento tem um sargento-mór, dous ajudantes, e os ofi- 
ciaes competentes de 10 companhias. 

Tem mais um corpo de ordenanças, que se coní 
p5e de um capitfto-mór, sargento-mór, dous ajudantes. 



— 212 — 

com 08 oficiaes competentes de 3 companhias. Pertencente 
ao regimento de cavalaria auxiliar^ han'este distrito uma 
companhia com os seus oficiaes competentes • 

§ 17 

Convento de religiozos 

Existe n^esta cidade um covento da religião de S. Fran- 
cisco sujeito á provincia do Rio de Janeiro, de cujo con- 
vento é orago a Senhora dos Anjos. Foi fundado em 2 de i 
Agosto de 1686, tendo sido requerido ao Senhor rei D.Pedro ^ 
Segundo pela camará^ e moradores da mesma cidade, para 
que os religiozos ali conventuaes fossem seus missionários 
e confessores. 

Seu fimdador foi Jozé de Barcelos, instituindo de ordi- 
nária annualmente para a sustentação dos mesmos reli- 
giozos vinte e cinco bois, que oje sâo pagos pelo coronel 
Jozé Caetano de Barcelos, bisneto d'aquolltí fundador, o 
sucessor do morgado. (*) 

§ 18 
Capela de Nossa Senhora da Guia 

Além do terreno, em que está situado o convento, que lho 
foi dado pela camará, possue também o morro contiguo, 
em cujo cume se vê a capela de Nossa Senhora da Guia 
O prelado doesta C£iza tem o titulo de guardião, e á elle são 
sujeitos o presidente, que faz as suas vezes, e quatorze 
religiozos conventuaes, na forma do estatuto da sua ftinda- 
çâo. Porém ha 10, ou 12 annos se axa alterado este 
numero de religiozos; por que tem só xegado á trez do 
missa, ura leigo, e dois donato^, incluindo -se n'este numero 
o guardião, o prezidentc, e o commissario dos terceiros. O 
computo das esmolas, que recebem dos moradores doesto 
distrito, e dos campos de Goaitacazes, xega de quatro a 
cinco mil cruzados ; e quando o numero dos religiozos era 



(*) Bisneto era Caetano de BHrcelos Mazado, de quem falou 
o Santuário Mari>ino no tom. 10 liv. 1« tit. 2G Jozé Caetano é 
deeendente d'aquelleB. 

Nota á margem). 



K 



— 213 — 

mais avultado, o rendimento d'eBte convento era mais 
excessivo. 

§ 19 

Fieguezias, capelas filiaes, e oratórios 

Em 5 freguezias está dividido este distrito. A 1* d'ellas é 
a doesta cidade, cujo oragão é N. S. da Assunção. O tempo, 
ou anno da sua fundação se ignora; e só consta por tra- 
dição nfto ser o logar, tm que oje existe, o mesmo, em que 
08 povoadores doesta cidade primeiro fundarão a primeira 
parochia ; e sup3e-se, que aquella primeira igreja, erecta 
pelo capitão governador Constantino de Meneláo, fosse a 
mesma, que servisse de parochia n^aquelles primeiros tem- 
pos : porém é certo, que no anno 168Õ, indo em vizita 
ordinária á esta cidade o Illm. bispo D. Jozé de Barros 
d'Alarcão, já axou esta parochia no próprio logar, em que 
<je existe. 

Por ordem do Senhor rei D. João Quinto foi reedificada, e 
para ella mandou o mesmo Senhor, que se dessse um sino, e 
alguns ornamentos; e mandou igunlmente assistir com dois 
mil cruzados para o retábulo do altar de Nossa Senhora da 
Conceição, aparecida em uma grota no boqueirão da ilha do 
cabo da parte do sul, da qual foi trasladada para esta 
matriz, onde se venera no tempo prezente. (*) 

(* ) Da provizâo datada aos 19 de Junho de 1729,que ee aza regis- 
trada â f. 73 do livro do registo da3 ordens regias na secretaria 
doeste bispado, constíi, qae a imagem de Nossa Senhora da Con- 
ceição, recolhida e colocada na igreja rnatrías pela cnmara, fora 
axada mlagrozn mente na costa do mar bravo de Cabo-frío, 
entre uns penedos, em que batia o mar, no dia 9 do mez de 
Seteo[\brode 1721, como fizerão certo os ofíciaes da câmara da mes- 
ma cidade na conta que derão á Sua Magestade em carta de 8 de 
Outubro d* aquelle mesmo anno: e pela ordem de 30 de Janeiro de 1731, 
em que tnsLW ou Sua Magestade, que se desse pela provedoria d'esta 
cidade a quantia de lOOj^OOO réis para a obra da capela dentro da 
igreja matriz de Cabo-frio para a imagem de Nossa Senhora da 
Conceição, se declarou ter sido ax .da a imagem dita no sitio xamado 
o Focinho do cabo. 

Pela ordem de 4 de Novembro de 1730 mandou Sua Magestade 

Sagar a importância dos concertos necessários da igreja matriz de 
abo-frio; e pela ordem de 30 de Julho de 1739 mandou, que se 
fizesse um retábulo de madeira lizo e pintado, á imitação de pedra, 
para a capela-mórda mesma matriz. 



I 



— 214 — 

Esta freguezia foi colada antes do anuo 1678, porquanto 
oonsta do assento á f. 72 do livro 5^ dos mortos, na ãregaezia 
de S. Sebastião d'esta cidade do Rio de Janeiro, que depois 
foi sé; que no dia 2 de Dezembro de 1678 falecera n'esta 
mesma cidade do Rio o arcipreste vigário colado de Cabo- 
frio João Pereira. Por tradição consta, que o primeiro vigário 
colado fora o Rev. Manoel Pereira Pinto, filho de outro do 
mesmo nome, que consta fora o fundador doesta cidade. 

São sugeitas aquella freguezia as capelas seguintes: 

1.^ S. João Baptista, denti^oda povoação, pertencente ao 
mosteiro de S« Bento, e n^ella se não celebra^por não querer 
o dito mosteiro sujeital-a ao ordinário. 

2.^ De B. Benedito, fundada dentro da povoação por 
João Botelho da Ponte, morador n'aquella cidade e em pro- 
vizão de 9 de Abril de 1761 e por sua morte ficou aos mora- 
dores do logar, a que xamão a Pasage, os quaes pagão a 
um Rev. capelão para lhes dizer missa nos dias de preceito. 
O seu património ó uma morada de Cdzas, e os foros de 
outras, que se fizerâo em terreno pertencente á mesma 
capela. 

3.^ De Nossa Senhora dos Remédios, sita na pescaria do 
cabo, na praia do A.njo, fundada por António Luiz Pereira, 
e outros pescadores d'aquelle logar. N^esta poucas vezes se 
celebra o santo sacrificio por falta de sacerdotes. 

4.^ De Santa Anna na armação das baleias na ponta dos 
Búzios, {lindada pelos antigos contratadores: n'ella se nâo 
celebra, por estar abandonada a dita armação. 

5.^ De S. Ignacio, em Campos-novos, na fazenda de 
Manoel Pereira Gonçalves, fundada pelos jezuitaS| que 
forão os senhores d'essa fazenda. 

6.^ De Santa Anna, na fazenda de Gonçalo Marques, fun- 
dada pelos mesmos jezuitas, que igualmente forão os senho- 
res d'essa fazenda. 

7\ De Nossa Senhora da Conceição em Igaaba,na fazenda 
do padre Francisco Gt)mes Rodrigues Cruz, Aindada pelo 
padre Francisco Borges da Oosta, senhor que foi da mesma 
fazenda em provizão de 3 de Junho de 17d1. 

8.^ De Nossa Senhora do Cabo^ na fazenda que foi de 



— 215 — 

Martim Oorrea Vasqueanes, e oje do padre António Gon- 
çalves Marinho^ e no sitio xamado Paratú : foi fundada pelo 
mesmo Martim Corrêa. 

No distrito da mesma ireguezia se axão os oratórios se* 
guintes: 

l.** Na Tapera, fazenda dos padres beneditinos, 2*^. 
no lugar xamado Baixo, em caza de Anna dos Santos, 3^. 
no Cambuatá, em caza do padre António GK>me8. 

2.^ A mesma ireguezia foi até agora sugeita a capelania 
de S. Sebastião em Araruama, na fazenda do padre Joaquim 
Ribeiro. Tendo sido fundada pelos religiozos de S. Fran- 
cisco da provincia da Conceição doesta cidade do Bio de 
Janeiro com esmolas, que para esse íim obtiverâo, elles a 
abandonarão, depois de a administrarem por muitos annos, 
só por não sofrerem a sugeição do ordinário, e por essa 
mesma cauza venderão as benfeitorias, que ali possuião, 
ao Rev. Joaquim Ribeiro. Porque a distancia da ireguezia 
de Nossa Senhora d'Assunção a este logar é notável, e por 
isso padeciflo muita falta de sacramentos os seos mora- 
dores, á requerimento dos mesmos foi desmembrada aquella 
freguezia, e de novo erecta em parochia a capelania de S. 
Sebastião em Araruama pela provizão de. • .de*, .de 1799 
ou 1798 e para seo primeiro vigário foi mandado o Rev. 
André Duarte e Carneiro, atual vigário da vara d'esta 
comarca, e natural deste bispado. 

No distrito doesta nova freguezia, se axão os oratórios 
1® do Revm, vigário da igreja e váára André Duarte Car- 
neiro, em sua caza ; 2^ em caza do capitão Manoel Gon- 
çalves Igreja. 

A 3^ freguezia é a de S. Pedro, da aldeia dos indios, 
fundada pdíos jezuitas no anno de 1630, sendo governa- 
dor do Rio de Janeiro Martin de Sá; em cujo tempo se 
formou, em nome de Sua Magestade, esta aldêia,com os Ín- 
dios Goaitacazes, e outra da Sepetiba, concedendo-se-lhes 
seis léguas de terras por sesmaria, para património da 
aldeia, e para a cultura, que os indios quizessem fazer. 
Com a extinção dos padres jezuitas, passou a adminis- 
tração e direção doesta aldeia aos religiozos de S. Francisco, 



— 216 — 

té que se erigio a parocbia no anno de 1759, por ordem 
de Sua Mage&tade. (♦) 

F' regida prezentemente esta aldêa por um capitão 
mór, um sargento mór, dous ajudantes, e três capitães, 
todos Índios. A ociozidade, em que actualmente vivem os 
mesmos Índios, dispersos por todo o distrito de Cabo-frio, 
faz persuadir, que a sua obediência, e sugeição é nenhuma. 
Elles por natureza são frouxos, e os mais preguiçozos para 
o trabalho da lavoura; e si alguns se propõem a este 
exercicio^ o fruito de seus trabalhos não xega a sustental- 
08 por muitos dias ; ao mesmo tempo que, si fossem dili- 
gentes e cuídadozos, poderião viver com toda a fartura, 
utilizando-se das pródigas terras que possuem. 

A 4* freguezía é a de Nossa Senhora de Nazaret de 
Saquarema, fundada no de 1675. Já existia em 1662, como 
80 verifica do assento á fl 95 do liv. 9. dos óbitos 
da freguezia de S. Sebastião^ oje da sé, pelo ca;)itão 
Manoel de Aguila Moreira, e sua mulher D. Catarina de 
Lemos. Por alvará de 12 de Janeiro de 1775, em rezo- 
lução de Sua Magestade de 29 de Novembro de 1750, á 
consulta da meza da consiencia de 13 do mesmo mez e 
anno, foi creada o erigida de natureza cola ti va, e para seu 
primeiro pároco colado foi aprezentado aos 16 de Janeiro 
de 1755 o Revm. António Moreira, que, depois de colado, 
foi empossado pela provizão de confirmação da 23 de Abril 
do mesmo anno 1755. Para que se sustentasse a lâmpada 
com azeite no altar do Santissimo Sacramento doesta fre- 
guezia, deixou António de Araújo dos Santos, falecido aos 
21 de Março de 1722, duzentos mil réis de legado, os quaes 
determinou, que se pozesem a juros, para de seus rendi* 
mentos se fazer o sustento dito. Consta do referido livro 
15 dos óbitos da sé á fi. 

No distrito d'esta freguezia ha uma capela filial do 



(*) Por ordem de Sua Magestade, para a? crearem freguesias 
todaa as igrejas dos índios admini^- trados p^ los jezuitas, foi creada 
essa* e parii seu primeiro pároco foi mandado, p< r proviz&o de 9 de 
Novembro de 1719, o Rev. António FrAncisco Coelho de Sousa. Em 
Maio de 1758, ae pasaou provialo de vigário ao padre Manoel 
Barboza Leão. 



4 



— 217 — 

titulo de S. Alberto, na freguezía dos religiozos do Carmo, 
no logar xamado Pitanga, fundada pelos mesmos. 

Ha também trez oratórios : 

1.° Na fazenda de Tomaz Cutrim de Carvalho, que 
teve provizâo para erigir uma capela aos 28 de Novembro 
de 1769. 

2.° Na do Padre Jozé Francisco de Carvalho. 

3.® Na do capitão Francisco Leite d' Andrade. 

A 5^ freguezía é a da Sagrada-familia no rio de São- 
João da Ipuca, fundada pelo arcipreste frei Francisco 
Maria, religiozo capuxinho, com as esmolas que adquirio, 
governando esta capitania do Rio de Janeiro o Exm. Conde 
de Bobadela. 

Ao mesmo misionario se deve a formação da aldeia com- 
posta de avultados Índios, que reduzio á fé nos sertões, 
que correm de Macacú para este distrito, alcançando uma 
grande porção de terras para sesmaria, da parte do norte 
do rio de São- João, e lagoa de Juturnuahiba, para patrimo- 
nio da igreja matriz,e cultura dos mesmos indios. Retiran- 
do-se o sobredito religiozo para a Europa, por ordem que 
teve, pagou a administração d'esta aldêa aos religiozos de 
S. Francisco, ou, como lhe xamão, do S. António, e depois 
ao Reverendo vigário da freguezía, como se conserva oje. 

N'esta aldeia já não existem os indios, por que, ha muitos 
annos, a deixarão, retirando-se para os sertões, d'onde não 
voltarão ; de cujo procedimento nasceu o repartirem-se as 
terras que havião sido dadas aos referidos indios, por 
varias pessoas, que oje as abitão e cultivão, nãLo só 
freguezes d'esta fregueziai mas de fora d^ella, que já em 
tempo dos mesmos indios estavão estabelecidos e ii terras 
próprias. 

No distrito doesta mesma freguezía exÍ8t/)m duas ca- 
pelas filiaes, que sao: 1.^ a de S. João B ptista na barra do 
rio de São -João, fundada pelos moradores doeste logar ; 2.^ 
em Capivari, na fazenda dos ordeiros de Manoel da Silveira. 

Ha também dois oratórios : 1.^ em Camurupi, na fazenda 
de Manoel Pereira Gonçalves ; 2.^ na fazenda do capitão 
mór Cipriano Luiz Antunes, sita na lagoa de Juturnua- 
hiba; 3.^ na fazenda do capitão António Ribeiro Vieira em 
Mato-alto. 

TOMO XLVX, P. I. 28 



— 218 — 
§ 20 

Sacerdotes 

Além dos Revds. vigários, seos Revds. coadjatores, e reli- 
giozoB do convento de Santo António doesta cidade ali 
conventuaesy rezidem estabelecidos em diferentes partes 
d'este distrito vários Revds. sacerdotes, que pelo uzo e 
exercício do seo ministério são úteis aos povos, que vivem 
distantes das suas parocbias. 

§ 21 
Terras devolutas e sesmarias 

Não se conhecem terras devolutas n'este distrito, pela 
falta que ha de medicines e demarcações ; e só consta 
averem muito poucas sesmarias medidas^ e demarcadas por 
todos os lados ; por esta cauza acontece estarem uns 
possuindo mais terras do que aquellas que lhes pertencem; e 
outros, despojados ou privados do que lhes compete, porque 
estão por inteirar-se das suas dadas. 

Na restinga, que divide a lagoa de Araruama do mar 
grosso, se tem concedido algumas sesmarias ; porém como 
na creação da camará foi a dita restinga consignada pelos 
bens do povo para commodidade, e bem dos povos, alguns 
d'este8 se utilizão d^ellas para a creação de egoas, gado 
vacum, cavalar, e muar, porque para nenhuma cultura é 
suficiente, em razão de ser toda areenta. 

§ 22 

Capacidade e fertilidade dos terrenos, e suas produções 

O terreno, que se aza apartado das lagoas de Araruama, 
e Saquarema é fértil, e capaz de toda a qualidade de 
legumes, canas d'assucar, mandiocas, arrozes, etc, excepto 
já quando o rigor da estação nega as xuvas, com que 
todas essas produções se nutrem, e quando os nordestes 
(de que é muito combatido este distrito) são continuados 
e excessivos. 



^ 



— 21» - 

§ 23 

Anil 

Em outro tempo foi eate terreno abundante de anil, 
ao ponto de exportar-se para o Rio de Janeiro o 
melhor de 1.500 arrobas por anno: porem oje quazi se 
axa extinta esta plantação pelo atrazo que tem ávido 
na produção d'ella, e apezar dos trabalhos, e idéascom 
que os lavradores têem procurado beneficiar as terras, 
nlo tem correspondido o fruto ao trabalho, ficando em igno- 
rância a cauza do esmorecimento doesta planta depois de 
nascida ; por cujo motivo dezenganados os lavradores da 
pouca utilidade, que lhes rezulta d'este trabalho, se têem vol- 
tado para as plantaçSes de mandiocas, milhos, feijões, 
e arrozes, e com especialidade para as canas d^assucar. 



§ 24 

Goxonilha 

A cultura da planta da coxonilha teve em outro tempo 
muito aumento, por ser o terreno d'este distrito arenoso, 
e muito próprio para esta produção. O Illm. e Exm. Mar- 
quez do Lavradio, sendo vice-rei d 'este estado, foi o autor 
doesta cultura, mandando-a plantar por toda esta marinha, 
e fazendo instruir os povos d 'este continente no método, e 
forma de a cultivar, como também de colher, e preparar 
os insectos para o uzo das tintas; e para melhor animar aos 
lavradores, ordenou^ que toda a colheita, que se fizesse, 
fosse paga pela real fazenda, a preço de 2^560 réis a libra ; 
o que se executou ainda no governo do Exm. Sr. Luiz de 
Vasconcelos, que com muito zelo se interessou no 
adiantamento doesta planta,até que a nimia ambição d'alguns 
lavradores fez perder a estimação^ e o útil doeste género, 
falsificando-o com granitos de farinha, que misturav&o para 
avultar no pezo ; por cujo motivo nunca mais quiz aceitar 
a real fazenda, e menos os omens de negocio, que aban- 
donarão esse ramo de commercio. D'este modo ficou igual- 
mente abandonada a cultura d^essa planta, da qual se 



\ 



— 220 — 

poderia formar uma notável negociação, bem simiUiante i 
que os Espanhoes fazem com este mesmo género. 

§25 

Salinas 

Em varias partes da mencionada restinga, que divide 
o mar da lagoa do Araruama; se axao alguns legares, 
que parece forão formados pela natureza só om utilidade J 

dos povoS; fazendo ajuntar, e crear tanta abundância de ^ 

sal, sem o menor beneficio, que bem poderia fartar todo 
este continente^ si a industria, e a razão da utilidade pu- 
blica tivessem metido o braço n^este género, e não obstasse 
o contrato real das salinas da Europa. 

Contâo-se nove legares próprios, ou nove salinas, desde a 
povoação da cidade de Cabo-frio té o fim d^alagoa d'Ara- 
ruama : 1*. na Ponta do Baixo; 2^ no logar zamado 
Xiqueiro ; 3**. na Ponta da costa ; 4*. na ponta de Perina ; 
5*. 6*. e 7*. na ponta da Massambaba ; 8*. na ponta da Cai- 
eira; e 9^. na ponta do Fula. 

Estas salinas se formão sempre nas pontas de terra, que 
entrão mais o centro da lagoa ; e em algumas d^ellas nfto 
entra agua salgada, e só das xuvas ; e n^esas é bastante 
o salitre do terreno, para as pôr em consistência de sal- 
gadas, como as do mar ; e com a força do sol, avendo seca, 
em pouco tempo se reduzem ao solido do sal. 

Algumas d^essas mesmas salinas já no tempo prezente não 
produzem sal ; e as que o produzem, não prodiçalizão 
aquella mesma abundância, que se via nos tempos passados, 
por cauza da frouxidão, e moleza da maior parte d'esses 
povos, em se não convocarem para a preparação dos 
logares, em que se hão de formar o sal, tirando-lhes o lodo 
6 outras muitas impuridades de ervas já corrompidas ; 
perdendo-se por isso muita quantidade de sal, que fica 
entre o Iodo e ervas nas mesmas salinas. 

Outra é também a cauza da diminuição, que prezente- 
mente se sente em algemas das mesmas salinas ; porque 
a negligencia, e pouco cuidado tem impedido a fexar 
prontamente a barra, por onde se introduzem as aguas 



— 221 — 

para o logar das salinas, afim de evitar, que outra porção 
d'agua vá desmanxar a bôa dispoziçâo, ou fermentação, em 
que 86 axa a primeira, para coalhar : e ainda que da parte 
dos povos não haja aquelle zelo, com que se devem empre- 
gar n'e8te género de tanta utilidade para as salgas das suas 
pescarias, parece, que a camará o deve ter para dar as 
providencias necessárias sobre este importante objeto, 
obrigando a todos os moradores doeste distrito a cuidar no 
aumento e conservaçilo de um género, que se reputa da 
primeira rjecessidade ; e que só esses o desfruitSo todas as 
vezes que o ha, como se vio no ano de 1797, no qual re- 
partio por todos, e com igualdade o juiz ordinário da 
mesma cidade 8.300 alqueires de sal, que tantos renderão 
as 3 salinas, que avião, alem da grande porção que se perdeo, 
por estar envolvido no lodo e terra das mesmas salinas ; 
e renderiào muito mais, si fizessem o que fizerão os Ín- 
dios d^aldôia de São-Pedro, que promoverão uma salina na 
terra firme, aonde xamâo os Apicús, alimpando, e bene- 
ficiando primeiro o seu terreno, para depois lhe introduzirem 
a agua, como fizerão ; e em pouco tempo se formou uma 
salina muito cristalina, que foi repartida para a próxima 
carestia por aquelles que com o seo trabalho avião con- 
corrido para a produção d'ella. 

No tempo dos primeiros povoadores d*este continente 
produzirão estas salinas tanta abundância de sal, que podia 
sustentar bem a capitania do Rio de Janeiro ; porque ainda 
consta de titules antigos declararem os testadores, que 
possuião avultados números de moios de sal em diirentes 
salinas, e de diferentes annos. 

Esse mesmo sal, depois de tirado das salinas, era con- 
duzido para legares superiores ás alagoas, aonde o amon- 
toa vão em pinhas, e queimavão com ramos de goreri, 
de cujo fogo se formava um cascão, que o preservava das 
aguas das xuvas ; e doeste modo conservavão aquelles 
omens essas grandes porções de sal por serem n 'aquelle 
tempo os maiores averes, que possuião; porem cauzando 
essa abundância de sal prejuízo considerável aos con- 
tratadores do Rio de Janeiro, intentarão proceder á se- 
questro, como aconteceu no governo de Luiz Vahia Mon- 
teiro, que, a requerimento do contratador, permitio virem 



— 224 — 

maito pequeno e sem préstimo, em ocazíões de xuyas con- 
tínoadas orroriza aos passageiros ; o que se podia evitar, 
obrigando a camará ao senhorio d'aquciia8 terras, e aos 
mais moradores círcumvizinhosy a reparar essa rnina, e o 
precipício dos viandantes por aquella estrada, onde, mais 
adiante da ponte, ou do rio, se axa, no iogar xamado Cam- 
boatáfl, uma porção de caminho, pelo qual, em tempo de 
aguas, se nâo p<Sde passar a pé, nem a cavalo, sem perigo 
rle alguma desgraça, que bem se podia evitar, mudando- se 
o caminho para o solaes do morro, ou para outra parte, J 

ainrla que ficasse mais longa a jornada, e obrigando-se 
aos vizinhos do Iogar, e muito principalmente ao senhorio 
tio terreno, ao trabalho de tanta necessidade e utilidade pu- 
blica. 

No rio das Ostras deverá aver outra ponte acima da 
barra; por que nas ocazi5es de aguas do monte, e enxen- 
tes da maré, nega a passagem; e o mesmo acontece no rio 
de Una, 

Como o Iogar, em que se axa situada a povoação de Cabo- 
frio, é uma lingoa, ou restinga d'arêa, entre o mar e a 
lagoa de Aruruama, como dice, ficando-lhe o mar da parte 
do sul, e a lagoa da parte do norte, por este motivo toda 
as pasagens da povoação para a parte do norte, aonde se 
axa a terra firme, e doesta para a povoação, fazem os mo- 
radores cm canoas ; e quando a vazante da maré permite 
n'aquelles logares, em que ha váo, também passão a cavalo. 
Junto a essa povoação faz a lagoa uma garganta com 38 ^ 

braças de largo ; e n^esse Iogar seria muito fácil formar uma 
ponte, para a commodidade dos povos. 

§29 

Madeiras 

As madeiras, de que abundão os sertSes doeste distrito, 
são as seguintes : vinhaticos, araribás, cedros, caixetas, 
ceregeiras, canelas, olcos de cupahiba, sapucaias, pinhoans, 
paróbas brancas, e vermomas, cabiúnas, jacarandá- 
tans, guaraens, guarabú, massarandubas, ipés, arcos 
de pipa, goratans, páôs-ferros, goráunas, gorapíapunhas, 



— 225 — 

óleos vermelhos, secupíras, óleos pardos, oitis, marendibas, 
piquiá; íatagibas, de cujas raizes se extrae tinta amarela, 
e com abundância se axâo na restinga de Araruama 
louroS; iricuranaS; angelins, ecahubins. 

Todas estas madeiras estão quazi extintas nos matos 
mais próximos á niarínha, aonde só se encontra páo-brazil 
de trez qualidades, das quaes é a melhor o xamado me- 
rim. 

§ 30 

Serras 

As serras mais consideráveis são as seguintes, princi- 
piando na costado mar: P. da Ponta-negra, a qual pega em 
outra 2*. xamada do Amar-e-querer ; 3^ as de Sa- 
quarema, xamadas do Quilombo ; 1^. a da Sambe ; 5^. a de 
Macacú ; 6^. as de Macahé. 

Todo o mais terreno doesse distrito se compòe do terras 
baixas; e por essacauza é estéril d^aguas puras, e boas para 
se beber, muito principalmente nos legares mais próximos 
ao mar. 

§ 31 

Estradíis 

As estradas n^este distrito, pela costa do mar, não têem 
embaraço algum em tempo de seca ; e o maior incommodo, 
que padecem os viajantes, é o tranzito das praias, pela sua 
extensão e por cauza das areias soltas, e em tempo d^aguas 
dos montes, se vêem precizados a demorar-nse, esperando o 
esgoto dos rios, para proseguirem as suas marxas; o que 
não aconteceria, si n 'estes houvessem pontes, como fica 
dito. 

§32 

Rios 

Os rios mais notáveis, que a travessão aquelle distrito, e 
que são navegáveis de canoas e pequenas lanxas, em que 

TOMO XLVl, P. I. 29 



— 226 — 

86 conduzem os efeitos dos moradores para as suas barras, 
bSo os que vou a referir: 

1.^ O rioMacahé que tem o seu nascimento nas serras 
propriamente xamadas de Macahé. 

Este rio se enriquece com as muitas aguas de outros 
pequenos rios, riaxos, e córregos, que n'elle dezagoâO; 
como sâo o córrego de João Manoel, o córrego da Atalaia, 
outro que xamão Rio-morto, a Lagoinha, a lagoa xamada 
Páo-ferro, o rio de São-Pedro, que é navegável de canoas, 
o rio dos Crubixaes, e n'este o córrego xamado o Omem- ^ 

deitado ; o córrego da Serra-verde, o rio do Ouro, o rio . 
das Aduelas, o córrego de Janipapo, de Alagoa, de Trahíras, 
córrego do Sabiá, o córrego de Jurumirim, o córrego da 
Boa-6Íca, e d'este em distancia de uma légua, continua o 
rio Macahé, fazendo no mar a sua barra, por onde entrão 
as lanxasy e saem carregadas de madeiras, caixas d'assu- 
car, agoardentes, e os maia efeitos. Este rio, do seu nas- 
cimento até á Caxoeira, tem 6 léguas com pouca diferença ; 
e da Caxoeira, até a barra 10 legoas. As passagens, que 
se fazem n'esta barra, d'uma para outra parte, são em 
canoas, as quaes pertencem a quem remata este contrato. 

Na fóz d'este rio está principiada uma povoação. 

Ao mesmo rio, pela parte do norte, xega o distrito de 
Groaitacazes. 

2."* O rio de São- João, que tem a sua origem nas 
vertentes das serras de Macacú, e doeste legar até o mar, 
onde faz barra, tem, com pouca diferença, 2õ legoas de com- 
prido^ e na sua maior largura 15 até 20 braças, e de fundo ^ 
12 até 20 palmos. Este rio se enriquece com as agoas dos 
outros pequenos rios, riaxos e lagoas, que n'elle dezagoão. 

Principiando do seu nacimento pela parte do sul, para 
onde corre o riaxo dos Gaviões, o riaxo do Ouro, a Lagoa- 
feia, lagoa deJuturnahiba, na qual dezagoão os rios Capivari, 
o Bacaxá, o rio Camboropi, o Gragohá, do qual em dis- 
tancia de 300 braças se axa a barra doeste rio, na qual as 
passagens são rematadas á fazenda real por 666^000 réis trie- 
nalmente, e paga cada passageiro 160 réis ao contratador. 
Da parte do norte dezembocão para o mesmo rio dito o 
riaxo de São-Lourenço, o rio das Aguas-claras, e o dos 
Crubixaes, o rio das Bananeiras, o riaxo Maratauan, o rio 



V 



— 227 — 

dá Aldêia-velha na Ipuca^ no qual dezagoa também o rio 
da Capoeira; o da Lontra, e o Rio-dourado. No logar 
da barra, onde se fazem as passagens, tem um desta- 
camento; que se compSe de um inferior, e seis soldados 
pagos. 

§ 33 

Lagoas 

N^este distrito ha seis lagoas. 

A 1.^ é a de Boa-sica, entre o rio Macahé e o das Os- 
trasy que tem na sua circunferência um quarto de legôa, 
com pouca diferença : seu fundo é pouco ; sua agua é sal- 
gada, por estar muito próxima ao mar, que lhe entra, quando 
se abre a barra; por isso é abundantissima de peixe. 

A 2.^ é a de Araruáma, notável e muito próxima ao 
mar. Tem no seu maior comprimento 9 léguas, e na sua 
maior largura 3 léguas : a sua agua é salgada, pela commu- 
nicaçSo com o mar, pela barra de Cabo-frio, e por isso enxe, 
e vaza até a Ponta-grosa, aonde acaba a força da maré; 
d'ali até o logar xamado o Engeitado, onde finaliza esta 
alagôa, andão as aguas com os ventos. Em algumas par- 
tes doesta alagôa tem fundo de 14 e 16 braças, en'ellana- 
vegão as pequenas lanxas e canoas, que conduzem para 
o Cabo -frio 08 efeitos das lavouras. E muito abundante de 
peixe de toda a qualidade, não só dos que criSLo dentro, 
mas dos que entrâo pela barra. 

A 3.* é a Alagôa-vermelha, cujas aguas são salgadas, sem 
embargo de distar um quarto de légua do mar. A sua cir- 
cunferência é de um quarto de légua, e dentro em si não 
se encontra couza alguma útil. 

A 4.^ é a de Saquafema, que tem trez léguas no seu 
maior comprimento, e um quarto na sua maior largura. E 
abundante de peixes de muitas qualidades, que n'ella se 
crião, e fazem o ordinário sustento dos moradores, que á 
ella são vizinhos, além da utilidade que percebem pelas sal- 
gas, para os venderem assim por outros distritos. Esta ala- 
gôa, quando se axa enfartada das aguas, que recebe das 
xuvas, e vertentes das serras de Saquarema, xega a ponto 



— 22S — 

de alagar as cazas; e as estradas, cauzando notável inco- 
modo^ eraina aos mesmos circunvizinhos; e aos viandantes; 
e para evitar todo esse mal, tem os moradores d^aquelle con- 
torno o cuidado de a esgotar^ abrindo-lhe a barra para o 
mar. A única passagem para os mesmos viandantes pela 
costa do mar, é por essa mesma barra, que se faz tranzitavel 
a cavalo e a pé, quando está fexada; e quando aberta, em 
canoas. As suas aguas são salgadas, porque se communicão 
com as do mar. 

A 5.^ é a lagoa Jacuné, que fica entre a Manditiba, e a 
Ponta-negra, tem um quarto de légua cm circunferência, e 
fica distante do mar 200 braças: a sua agua é doce, e o 
peixe, quen'ella se cria, é miúdo e muito pouco. 

A 6.* é a alagôa de Jutumuahíba, ou Inhutruuhiba, que 
tem uma legua de comprido e trez quartos de largo. Esta 
lagoa fica no sertão d'cste distrito, apartada da costa do mar 
sete léguas, as suas aguas são doces, e é muito abundante 
de peixes, não só dos que se crião em aguas doces, como no 
mar: n'ella dezagoão os rios Capivari e Bacaxá, e a mesma 
lagoa no rio de São- João, como disse já. O seu íundo xega 
até seto braças, em que andão canoas de pescaria. 

7.* Pau-ferro. 
8.* de Trahíras. 
9.* Lagòa-feia, 

Destas trez ultimas já se fez menção no paragrafo an- 
tecedente. 

§34 

Portos e praias de dezembarque 

Os portos, e praias de desembarque,em que podem entrar 
embarcações, e as praias, em que pôde aver desembarque 
em toda a costa d'este distrito, são as seguintes: 

Seguindo do rio Macahé pela costa para a parte do sul, 
tem uma pequena enseada^ xamada a Conxa, aonde fun- 
deão sumacas e lanxas grandes. N'esto mesmo logar está 
o forto de Santo-Antonio do Montc-frio construído do pedra e 
cal por ordem do Condo da Cunba, quando vice-reinou 
nWe estado: no forto so conservSo soto poças desmontadas, 



— 229 — 

do calibre 16; e um destacamento^ que se compSe de 
um oficial inferior e oito soldados, por alternativa do terço 
de Cabo-friO; e dos Campos de Goaitacazes, seis morrões^ 
130 balas, e871 ditas de espingarda. 

Ao mar d 'este logar se axâo as ilhas de Santa-Anna : a 
maior d'ellas tem uma légua de circunferência, sortida de 
boa agua e lenha: o seu porto é abrigado dos ventos do 
mar, e n*elle podem ancorar embarcações de todo o porte. 
N^essas mesmas ilhas se abrigavâo antigamente, e ainda oje, 
as embarcações dos piratas, que infestavão esta costa. 
Mais adiante, seguindo a mesma costa, em distancia de 
quatro léguas, fica a barra ou boca do rio das Ostras, por 
ondo só entr&o canoas. Continuando, na distancia de uma 
légua se axa a barra do rio de Sào-Joâo, pela qual entrão 
lanxas grandes, e algumas sumacas do mesmo porte. 

Mais adiante, em distancia de 3 léguas, fica a barra do 
pequeno rio de Una, sem préstimo. D*este logar até á ponta 
dos Búzios, em que se conta uma légua, se axa uma grande 
enseada, abrigada de todos os ventos, e com capacidade 
para n^ella ancorarem embarcações grandes, por ter bastante 
fundo. Ao mar da ponta dita, em distancia de uma e meia 
légua, estão as duas ilhas xamadas da Ancora,, e outras mais, 
que por pequenas nSlo se lhes conhece o préstimo. 

Mais adiante da enseada dita, em distancia de uma lé- 
gua, tem a pequena praia xamada de João Fernandes, 
aonde se pôde fazer qualquer dezembarque; e por esse 
motivo se conserva n^aquelle logar um destacamento auxi- 
liar, para evitar o extravio do.páo-brazil. 

Distante d'essa praia uma légua, se axa uma pequena en- 
seada xamada a Ferradura, aonde pôde aver dezembarque. 
Depois doesta enseada, distante outra légua, tem a barra 
xamada Peró (que dizem os padres beneditinos pertencer- 
Ihes, e por isso a arrendao triennalmente para a pescaria) e 
n'ella se pôde fazer dezembarque. 

Mais adiante uma légua se axa uma grande bahia, e ao 
norte d'ella, xegado á terra, fica a barra doesta cidade de 
Cabo-frio, a qual na sua entrada tem 26 braças de largo, 
e 2 de fundo: advertindo poróm, que a metade da lar- 
gura doesta barra da parte do sul se axa embaraçada com 
a pedra, que lhe mandou lançar o capitão governador do 



— 230 - 

Rio de Janeiro, como dice no § 3, por cuja cauza 
ficou este porto impossibilitado de admitir na sua navegação 
maior numero de embarcações, e de maior porte ; e as que 
só são capazes de navegar, nunca entrao, ou saem senão nas 
ocaziSes de maré parada, pelo temor dos roxedos que lhe 
ficão á uma e outra parte. 

Além doeste obstáculo, com que se axa a barra, acrece 
outro, que pelo decurso do tempo será cauza de se fazer 
innavegavel; e é uma calheta, pela qual se vão introduzindo 
muitas areias, levadas pelas marés para o logar mais aper- J 

tado, que tem a barra. Esses dous embaraços se podem ' 

remediar com mais ou menos trabalho; o primeiro, por 
que procede das pedras soltas amontoadas umas sobre as 
outras, e o segundo, fazendo-se um paredrão na boca da 
calheta, para o qual tem muita pedra no mesmo logar. 
O mestre de campo que foi doeste distrito, Manoel An- 
tunes, mandou fazer essa obra do paredão ; porém os 
próprios abitantes o desfizerão depois, para se utilizarem 
da pedra. 

Junto á esta barra está o forte de São-Mateus, construido 
de pedra e cal, com 7 peças de ferro, uma do calibre de 12, 
duas de 8, e quatro de 6, e já a de 12 montada em reparo 
da marinha, e esse no ultimo estado de ruina. 

A tropa auxiliar, que a guarnece, comp5e-se de um 
inferior, e sete soldados ; doestes, um é de cavalo, e todos 
•2o sujeitos ás ordens de um oficial do terço, ou regimento 
de milicia de Cabo-frio. Este forte domina toda a barra, 
e a bahia ou praia do Pontal até o alcance da sua arti- 
Iheria. 

Seguindo a dita praia até o Pontal, tem 2 léguas ; e n'ellas 
não podem ancorar embarcações algumas, por serem de- 
zabrigadas dos ventos,seu fundo de areia fina e calcada,aonde 
se não segurão as ancoras. 

Mais adiante, em distancia de meia légua, passando o 
Pontal, está a enseada d» Prainha, em que podem aticorar 
até 20 embarcações de todo o porto, por sor abrigada dos 
ventos, bom fundo, e bôa tença. Doesta Prainha corre um 
oostfto inaccessivel, por sor todo do roxa até o boqueirão do 
cabo ; por cujo motivo, seguindo por torrai om distancia 
de meia legua, le vai sair á praia do At\)o. 



^ 



— 231 — 

O dito boqueirão do cabo tem no meio uma ilba, a que 
xamão dos Porcos, e por isso o dividem em dous, dando a 
um o titulo de boqueirão do nordeste, e a outro, de bo- 
queirão de léáte ; por este podem entrar embarcações 
grandes; por ser a sua largura mais de 200 braças ; e por 
aquelle, com mais risco, por ser, com pouca diferença, de 
20 a ÕO braças de largo : porém por qualquer d^elles se 
pôde entrar para a enseada do Anjo, e para a do Forno, na 
qual podem ancorar embarcações grandes, pelo abrigo que 
tem dos ventos, e bom fímdo ; o que não sucede na do Anjo, 
porque o seu fundo não dá logar a agarrarem as ancoras ; 
porém a praia é muito boa para qualquer dezembarque. 

N'esta mesma enseada, ha um cordão de areia, que prin- 
cipia da ponta de leste, e segue direito ao meio da ilha do 
Cabj, porém junto á esta ilha tem um canal, que fica entre 
o cordão e a mesma ilha, com fundo de 15 até 25 palmos 
e vai até o boqueirão do sul, aonde tem 8 braças de 
fundo. 

Também ha n'aquella ilha uma pequena praia, onde tem 
uma pescaria pertencente á camará, que a arrenda triennal- 
mente. Saindo para o mar pelo boqueirão de nordeste, ou 
de leste, se vai passar por fora da ilha do Cabo, até en- 
irentar com o boqueirão do sul ; e á terra doeste tem uma 
pequena Uha xamada do Francez, defronte da qual fica a 
grande praia da Massambaba, bem conhecida e respeitada 
dos navegantes, pelos perigos que n'ella encontrão, e vai 
finalizar no morro de Nazaret, que faz uma pequena 
ponta ao mar. Sobre o dito mcrro está fundada a igreja 
matriz de Saquarema, com que se contão 12 léguas. 

N'este morro pega outra praia, em distancia de 9 léguas, 
que finaliza na Ponta-negra, xeia de arrebentaçSes do mar, 
e incapaz para dezembarque. Esta Ponta-negra é um 
morro de pedras bastantemente elevado, que entra pelo 
mar, pouco menos que quarto de légua, e nas suas vertentes 
da ])arte do norte finaliza toda a jurisdição d'este distrito 
da cidade de Cabo-fiío . 

Do rio de Macahé á dita cidade contão-se 13 léguas de 
caminho, e 16 de Cabo-frio até á Ponta-negra ; porém 
deve-se advertir, que é por terra, seguindo as voltas do 
caminho ; o que não sucede por mar, porque a rumo direito 



— 232 — 

contão de Macahé ao cabo 9 léguas, e doeste á Ponta-negra 
outras 9 léguas. 

§35 

Signaes dos navios 

Em diferentes lugares da marinha d'este distrito se axào 
8 peças» as quaes estão destinadas para fazerem-se os sinaes 
correspondentes ao numero dos navios, que so avistão. A 

?rimeira ó a do cabo, á qual corresponde o forte da barra de \ 

!abo irio ; á esta segue-se a da Ponta-grossa, e á esta a da ^ 

ponta xamada de Frei-JoSo ; segue-se á esta a da Ipitanga, 
e depois a de Saquarema, e á esta a de Manditiba, o ulti- 
mamente a do morro da Ponta-negra. 



S 



REGISTRO GERAL 



DISTRITO DA CIDADE DE CABO-FBIO 

Xefea de famílias ecleziasticos 20 

Ditos cazados 1.105 

Ditos solteiros.* 100 

Ditas solteiras 49 

Ditos viúvos ' 90 

Ditas viuvas .. * 207 

Total dosxefes de familia eclezias-. 

ticos ou fogos 1.571 

Filhos até á idade de 10 annos 1. 076 

Filhas da mesma idade 942 

Filhos de 10 annos para cima 359 

Filhas da mesma idade . • • 663 

Total dos filhos 2.940 

Escravos de todo o trabalho 2 .333 

Escravas de todo o trabalho 1 .690 

Escravos menores 802 

Escravas menores 583 

Total dos escravos 5.408 

Agregados a diferentes cazas 292 

Mulheres dos xefes de famílias 1 . 105 

Total da população. • 11. 316 

ALDEU DE SlO-PEDRO 

Xefes de famílias ecleziasticos 

Ditos cazados 236 

Ditos solteiros 1 

Ditas solteiras 2 

Ditos viúvos 15 

Ditas viuvas 73 

Total dos xefes de famílias ou fogos 327 

TOMO ZLVI| P. X. 90 



) 



~ 234 — 

Filhos até á idade de 10 annos 200 

Filhas da mesma idade 151 

Filhos de 10 annos para cima 107 

Filhas da mesma idade * . • 95 

Total dos filhos 45 55* 

Escravos de todo o trabalho • 

Escravas de todo o trabalho 3 

Escravos menores 4 

Escravas menores 1 

Total dos escravos 63^ 

Agregados a diferentes cazas 

Mulheres dos xefes de famílias 236 

Total da população 1. 173 

Somma geral da população d'este distrito 
deCabo-frio 12.489 



RENDIMENTO ANNUAL 

Caixas de asucar 335 

Feixos de dito * 52 

Pipas de aguardente 183 

Barris da dita 13 

Arrobas d^anil 780 

Alqueires de farinha 78. 133 

Ditos de feijão 9.122 

Ditos de arroz em casca • . •• . 6. 765 

Ditos demilho 6. 966 

Arrobas de peixe salgado 80.000 

Milheiros de telha 180 

Ditos de tijolo.} 33 

Dúzias de diferentes taboados e madeiras 1 .200 



FABRICAS 

Engenhos de asucar 19 

Ditos de aguardente 9 

Fabricas de anil 206 

Ditas de arroz • 

Olarias 24 



1^ 



— 236 — 



GADOS 

Bois 1.546 

Vacas « 1.463 

Cavalos 1.122 

Egoas 172 

Bestas muares. 524 

Ovelhas 325 

Cabras 350 

Porcos 470 



embabcaç5es 

Lanxas que conduzem os efeitos das roças 6 

Ditas mie os transportSo para o Rio de Janeiro. . 12 

Ditas das pescarias 14 

Total das lanxas 32 



EXTENSlO DAS TERRAS EM QUE TRAÉALHIo 

Legoas de terras em que trabalhão 7 

Carros 105 

Canoas 222 



LOGES DE FAZENDAS SECAS E OFICINAS 

Loges de fazendas secas 16 

Ditas de fazendas molhadas ou tavernas 40 

Ditas de alfaiates 10 

Ditas de sapateiros • 8 

Ditas de carpinteiros 6 

Ditas de ferreiros 6 



1 



^ 



— 236 — 



BELIGIOZOS DE SANTO ANTÓNIO 

GhiardiSo 1 

Prezidente 1 

Commissario dos terceiros • • • . 1 

Leigo esmoler » 1 



Total dos religiozos. 



IGREJAS 



Freguezias 5 

Capelas filiaes em atual azo 8 

Ditas sem nzo 4 

Conventos dos religiozos de Santo António.. .... 1 



Total das igrejas • 18 



Oratórios em cazas particulares 11 

Ordem terceira de â. Francisco 1 

Confrarias 9 



SACERDOTES 

Vigário da vara 1 

Ditos das fregaezias 4 

Coadjutores» 1 5 

Clérigos rezidentes em suas fazendas 7 

Religiozos de Santo António 3 



Total dos sacerdotes 20 



Esta memoria nSo traz nome do autor, e foi oferecida ao Instituto 
histórico 6 geográfico brazileiro peio conseltieiro Jozé Paulo Figueiroa 
Nabuco d'Araujo. 

Nota da redaçSo. 




DISTINÇÃO 



BMTBB 



E 

VASSALOS AMERICANOS 



Levei á real prezença do príncipe regente, nosso senhor, 
a carta, que Vmc. me remeteo em data de 10 de Maio 
do prezente anno, e Saa Alteza real nem entendeo o que 
y. Mcê. quer dizer, e significar com a palavra estrangeira 
e exótica, e mal aplicada de primeiro funcionário, nem 
prezume, que haja, ou possa aver dezuniSes, entre as 
pessoas empregadas no seu real serviço, as quaes serão, 
sem duvidas condignamente castigadas, si, esquecendo- se 
do seu dever, procurarem dezunir os diferentes servidores 
do estado nas suas diversas repartições. 

Pelo que respeita ao que Vmc. diz sobre o gover- 
nador de Minas-geraes, Sua Alteza real manda-lhe adver- 
tir, que os seus vassalos sSo todos Fortuguezes, e todos 
igualmente aptos para qualquer emprego em qualquer parte 
dos seus dominios, e que nunca permitirá, que ninguém se 
lembre de fazer entre elles distinções, e que ouze lembrar, 
que o vassalo nacido na Beira não pôde ter e ocupar 
empregos em qualquer lugar, vila, ou povoação dos seus 
dominios : Vmc. poderá advertir, que Sua Alteza real já 
deo as competentes providencias respectivas a algum excesso 
que o sobredito governador de Minas-geraes possa ter 
commetido. 



1 



^ 



— 238 — 

Em quanto ao que Vmc. diz sobre a mundança da 
tropa nas capitanias do Brazil, Vmc. confundio as idéas e 
planos; queseaprezentarSo á Sua Alteza real; e nunca, como 
Vmc. expSe, similhantes planos se deverião executar; 
e em todo ocazo Sua Alteza real em matérias taes, e de tanto 
interesse nunca ha de abraçar, e seguir planos parciaes, 
e só sim geraeS; quando o tempo e circunstancias assim o 
permitirem. 

Estas são as reflexSeS; que em nome de Sua Alteza real 
ofereço em resposta ao conteúdo da sua carta acima 
acuzada. 

Deus guarde a Vmc. 

Mafra em 23 de Outubro de 1799. 

Sr. Luiz Beltrão de Gouvêa de Almeida. 



Observação. ^EsiA minuta de avizo régio é original,e trazia a seguinte 
nota:~Dnra repreensão ao xanceler do Rio de Janeiro. Este santo 
homem, insistindo na Relação pela condenação de. um réo, que os 
juizes julgavão innocente disse:— A pátria não tem crimes; mas ô 
ama desgraça o ser nacido no Brazil. 



SISTEMA PREVENTIVO 



DA 



METRÓPOLE CONTRA O BRAZIL. 



Em um fragmento de uma reprezentaçSo dirigida ao 
rei de Portugal no século passado^ existente no archivo 
do Instituto histotico e geográfico brazileiro^ lê-se^ entre 
outros conselhos ao monarca, o seguinte : 

Mas o cazo maior é dispor^ sem perda de tempo^ a segu- 
rança d^essas colónias. 

8TSTEMA 

Honrar os Americanos nos postos^ cargos e ofícios pú- 
blicos, mas no reino, e nunca na sua pátria. Quando muito 
afastal-os em empregos de suas naturalidades. As capitanias 
da America têem entre si maior emulação, do que ha entre 
algumas provindas do reino. Os do Rio podem ir para Per- 
nambuco, para o Maranhão, para o Pará, etc. Mas o mais 
dezembaraçado é empregal-os no reino. 

Na tropa deve ser maior a cautela, porque n'ella consiste 
a força. De toda esta commoçSo de Minas, a parte mais me- 
lindroza foi a corrução da tropa pelo tenente-coronel. 

A multidfto, suscitada por homens perversos, conta no seu 
grémio os filhos, e os irmãos soldados : e depois doesta parta 
ser contaminada, a revolução é geral e temivel, si não 
fôr irremediável. 

Deve-se pois primeiro que tudo, e logo, estudar naa 
providencias. 



— 240 - 

Lembra pôr em regra impreterível fazer girar os regi-^ 
mentos de cá para lá, e de lá para c&^ de doas em doiis^ ou 
de trez em trez annos. 

Lembra virem os regimentos não inteiros^ mas por ba* 
talhSeS; que depois se incorporarás lá e cá nos regimentos, de 
onde sabirem os batalhSes. O oficial commandante de ba* 
talhão irá servir lá no regimento a que se incorporar. O 
fundamento é para exercitar o regimento, segundo o ultima 
método europeo. E esta misturado regimento de Europeos, 
e Americanos ha de conter a estes mais. 

Lembra sobre tudo estacionar sem alteração ao menoa^ 
S náos de guerra, ou fragatas do reino, assentando que é 
a marinha a que pôde defender a America contra os invazo- 
res; e contra os contrabandistas, e a que só pôde conservar 
em respeito á metrópole os Americanos. 

As tropas da America, ainda que fossem quadruplicadas^ 
não são as que nos havião defender em 800 léguas de costa, 
desde o Oiapoc até o Rio-grande de São-Pedro contra in- 
vazores : e para acautelar que elles se alienem de nôs, sobre 
as providencias, que se lembrarem, si esquecer a marítima^ 
esquece tudo. 

Também o esquecimento, que tivermos de nôs, con- 
tinuando^mi Europa a nossa apatia politica, lhes dará maia 
animo aiR Americanos mal intencionados para se alienarem» 
A nossa importância politica na Europa influirá tudo na 
obediência dos nossos Americanos, aliás de melhor índole, e 
menos turbulentos, que os outros Americanos. A notícia do 
nosso desmazelo em procurar conciliarmos respeito na Eu-- 
ropa, os fará atrevidos para noi-o perderem. 



^ 



PREROGÂTIVÂS E TITULO 



DA 



CIDADE DO RIO DE JANEIRO 



Havendo respeito ao grande amor e lealdade^ com que 
os moradores da cidade de São-SebastiSo do Rio de Janeiro 
me têem servido^ e servem em tudo o que se oferece de 
meu serviçO; bem commun, conservação e defensa do es- 
tado do Brazil^ dezejando fazer-lhes mercê muito conforme 
á bôa vontade, que lhes tenho, e ao que merecem por as 
razões referidas : Houve por bem fazer-lhcs mercê, que em 
auzencia do governador, ou alcaide-mór d^aquella praça, 
faça a camará da dita cidade o oficio de capitSo-mór, o 
tenha as xaves d^ella ; e outro-sim lhes faço mercê do 
titulo de — LeaL 

O dezembargo do paço lhe faça passar n^essa confor- 
midade as doaçSes e mais despaxos necessários. 

Em Alcântara a 6 de Junho de 1647. 

Rei. 



TOMO ZLVI, P. I, 31 



f 



t\ 



BAPTISTA CAETANO 

(kotás de um ÁiaGO) 



Conheci-o, vai para seis annoB; quando elle ainda morava 
no morro do Castelo. Eu escrevera algumas couzas^ que 
lhe tinhSo agradado. Elle começara nos JÈ^aiof da seienda 
aquelles estudos magistraes, que ninguém mais tSo cedo 
poderá igualar, e que provocárSo minha admiraçSo. Havia, 
pois, vontade de parte á parte de travar relaçSes, e estas, 
estabelecidas, nunca mais se interromperão. 

Elle levava, e levou sempre, uma vida muito regular. 
Acabada a repartição, ia directamente para casa, onde já 
achava o jantar pronto. Jantava e sahia com a £unilÍA a 
passeio, geralmente na estação telegráfica do morro, onde» 
a respirar o ar puro, a observar o mar que se movia aos 
pés, a contemplar as serranias que cingem a bahia, ou a 
conversar com os pobres estacionários e a onvir-lnes as 
queixas, demorava até anoitecer. Então diri^a-se para caza, 
onde pertencia exclusivamente á fiimilia. Uommentavão os 
acontecimentos do dia; tocavão um pouco de musica, por que 
elle era doudo; e elle ensinava as liçSes aos filhos que estavflo 
ainda no coUegio ou tomava as dos que aprendião com elle. 
A'8 vezes vinhão vizitas, poucas, porán intimas, e aa 
conversas se generalizavão e animavão. A's 10 oras dea- 
caaçavão todos. 

A noite era para a família, como o dia era para o tele- 
grafo. Sua era apenas a manhan. Tomara o costume de 
acordar invariavelmente ás quatro horas, e era o intervalo 
entre esta e a hora da repartição que dedicava aos estudos, 
que perpetuarão seu nome na historia. 



— 2í6 — 

tender emprego do governo ; mas o seu dezejo era, que seus 
filhos fossem industriaes. Um, que já é chimico muito dia- 
tincto^tem-se preparado para satisfazei' aos dezejos paternos^ 
por estudos sobre a fabricação do vinho de uvas, que tem 
dado rezultado muito satisfatório. 

Sobre o pobro amigo, ha muito que dizer ainda, porém é 
cedo : sirvâo estas palavras de insignificante commemoraçSo 
de sua vida, oje que os seus amigos reunem-se ainda uma 
vez para prantear-lhe a perda irreparável. 

(Extr. da Gazeta de Notidaa 
de 28 de Dezembro de 1882) 



W 




DOMINGOS JOSÉ GONÇALVES OE MAGALHÃES 



Traballio lido em sessão do Institiato 

PBLO SÓCIO EFFZCTITO 



Abrio-se ha pouco mais de um mez uma cova em terra 
estranha^ para receber o cadáver de um cidadão^ de um 
poeta que consagrou sua vida, actividade e talentos á 
pátria. Viveu entregue ao estudo e ao trabalho, e nutrindo- 
se das idéas mais puras, mais sãs, mais rectas e mais 
justas, publicou livros de philosophia christSl e de moral 
irreprehensivel . 

Abraçado com a lyra de Lamartine cantou versos 
sonoros como os de Petrarcha, e aproximando-se dos épicos 
da lingua portugueza compoz grandioso poema a Confed^ 
ração dos Tamoyoa, trabalho rico de bellezas, de inspiração, 
de amor pátrio e de enthusiasmo ; livro que ha de sobre- 
viver, e da posteridade receberá sempre a homenagem 
consagrada aos grandes productos do espirito humano. 

Nascido no Rio de Janeiro em 1811 foi Gonçalves de 
Magalhães na poesia um génio creador. Esquecendo o 



— 243 — 

Íoljtheisino dos Qregos e segoindo a trilha de Chateau- 
ríand, Lamartino e outros^ iniciou no Brazil a escola do 
romantismo, e de saa lyra desferio sons harmoniosos, 
cheios de sentimento, de philosophia, uncçiU), verdade e 
gosto. 

Apreciando Salles Torres Homem um volume de 

1)oe8Ías de Magalhães diz que não é somente uma col- 
ecção de bellas harmonias, porém também um código 
de moral em Bua expressão a mais sublime, em suas 
formas as mais temas e consolador as. 1 

Assim devia ser porque o próprio auctor repetia que ] 

a litteratura de um povo é o desenvolvimento do que elle 
tem de mais heróico na moral e de mais bello na natureza. 

Referindo-se ao nosso inspirado poeta diz um critico : 
< O anjo dos celestes hjmnos acordou nelle as chammas 
do enthusiasmo religioso ». 

Afastarão-no da pátria o amor da sabedoria, o desejo 
de colher licçSes do mundo e idéas para alimentar seu 
cérebro ; e percorrendo povos, como o bardo inglez, vizi- 
tando paizes, procurou fortalecer o talento com o estudo, 
a vida com a experiência e a intelligencia com idéas 
novas. 

Se deixou saudoso as plagas da pátria jamais delia se 
esqueceu em terras longinquas em que vagou ; se quasi 
sempre viveu longe de seus concidadãos que pouco lhe 
reconhecião as feiçSes, sabião estes quanto lhe era a pátria 
devedora pelos seus livros e pelos seus serviços. i 

Ninguém o excedeu nas virtudes e nos talentos; tinha 
a alma generosa de Petrarcha, o juizo profundo de Des- 
cartes, e o coração de Sócrates. 

Póde-se dizer delle que foi o fundador do theatro 
nacional, pois foi o primeiro brazíleiro que escreveu uma 
tragedia, e esta tendo por assumpto cousas da pátria. 
Foi esta tragedia, intitulada — Antomo José ou o Poeta 
ê a Inquirição — habilmente interpretada polo celebre 
actor nacional Jo&o Caetano, a quem dedicou o poeta um . 
soneto em que se lêem estes versos : 



t Uma estatua compnz, dei-lhe a palavra, 
E tu lhe deste o movimento e vida. > 



N 



— 249 - 

Se deu-lhe o anjo da poesia a lyra de Lamartine para 
entoar sonoros cantos, delia servio-se para exaltar o 
merecimento dos bons cidadãos nos raros dias de con- 
córdia e paz, que raiarão depois da revolução de 7 de 
Abril de 1831. 

Inaugurado o Instituto Histórico e Geographioo do 
Brazil por esforços de Januário da Cunha Barbosa, Cunha 
Mattos, tí. Leopoldo, Emilio Maia e outros, escreveu 
Magalhães seu nome entre os dos sócios fundadores ; e 
na carreira académica desta associação deixou sua pas- 
sagem assignalada com a publicação de uma memoria his- 
tórica de subido merecimento e valia, que alcançou ser 
premiada. 

Despertou -nos esta recordação o desejo de prestar 
prompta e ligeira homenagem ao bardo brazileiro perten- 
cente á phalange dos sócios fundadores deste Instituto. 
Sei que em occasião competente terá o orador desta Aca- 
demia de tecer condigno elogio ao douto brazileiro que 
pranteamos ; sejão porém estas palavras tributo de venera- 
ção, e o écho sentido das primeiras emoçSes da pátria pela 
perda de seu filho dilecto. 

Elle que esperava exalar o ultimo suspiro na terra de 
seu berço, que voltando de um estádio da carreira diplo- 
mática, que tanto honrou e onde tanto subio, regressando 
ao Brazil dissera : 

a Adeus ó terras da Europa, 
Adeus França, adeus Pariz, 
Volto a ver terras da pátria. 
Vou morrer no meu paiz ; » 

pereceu em lugar mui longe daquelle em que nascera; 
como António José, Martins Penna, Maciel Monteiro e 
Porto-Alegre vio a noite eterna e:n paiz longe do chão 
natal, das terras hospitaleiras em que tivera o berço. Lá 
emmudeceu para sempre sua lyra, extinguio-se sua voz 
patriótica, disse o ultimo adeus ás terras pátrias, perdeu-se 
o segredo de suas divinas harmonias e subirão ao céo seus 
últimos hymnos. Tendo o anjo da morte lhe arrebatado em 

TOMO XLVI P. I. 32 



— 250 — 

paízes tâo afastados a harpa e a vida sejao ostas palavras, 
gemidos e saudades, que a pátria lhe envia^ repetindo estes 
versos do seu saudoso filho : 

« Philosopho elle foi Ah quem pudera 

Com grave accento ao som da triste lyra, 
Mostrar á pátria e ao mundo o quanto elle era. » 



FIM DO TOMO XLYI, PARTE PRIMEIRA 



Is 



IHBIC3S 

DAS MATÉRIAS CONTIDAS NO TOMO XLYI 

PARTE PRIMEIRA 



Relação nominal dos sócios actaaes do In<^titato Histórico e 
Geográfico Brazileiro V 

Mcza administrativa do Instituto Histórico e Geográfico 
Brazileiro XV 

Papel politico sobre o estado do MiraubSo aprezentado em 
nome da camará ao Sr. D. Pedro Segundo por seu pro- 
curador Manoel Guedes Aranha 1 

Observações meteorológica? feitas na vila do Recife de 
Pernaiibuco,'no8 annos de 1808, 1809 e 1810 por António 
Bernardino Pereira do Lngo 61 

Informaç'>es sobre 03 iudios bárbaros dos certòca de Pernam- 
buco : oficio do bispo de Olinda acompanhado de vari as 
cartag 103 

Direção com que interinamente se devem regular os Índios 
das novas vilas e lug ires erectos na capitania de Per- 
nambuco e suas annexas • 121 

Nota de todas as marinhas em que se faz sal na costa do 
Brazil : 173 

Regimento com o qual o governador Bernardo Pereira de 
Berre Jo mandou descobrir o curso do rio Tocantins 177 

Preces em dezagravo por um sacrilégio 183 

Finta sobre a farinha das roças dos moradores da capitania 

do Rio-negro 185 

Extrati de um mipa das ordens monásticas e religiozas 

da cipitania do Rio de Janeiro 187 



- 252 - 

Moeda drcmlante na capitania do Rio de Janeiro 189 

Mapa de todas as qualidades de moedas, que girSo n^esta 

capital (Rio de Janeiro.) ; , 191 

Produtos exportados da cidade do Rio de Janeiro no anno 

de 1796 195 

Memoria histórica da cidade de Cabo-frio e de todo o seu 

distrito compreendido no termo de sua jurisdição 205 

Distinção entre vassalos europeos e vassales americanos. . . 237 

Sistema preventivo da metrópole contra o Brazll 239 _i 

Prérogativas e titulo da cidade do Rio de Janeiro 241 

Baptista Caetano, notas de um amigo 243 

Biografia de Domingos José Gonçalves de MagnlhSes... • . 247 



L 




REVISTA TRIMENSAL 



} 



^ 



BEÍISTA TBIMENSAL 

DO 

INSTITUTO HISTÓRICO 

GEOGRAPHICO E ETIOGRAPHICO DO BRAZIL 

FUNDADO HO RIO DE JANEIRO 
DEBAIXO DA IMMEDIATA PROTECÇÃO DE S. M. I. 

O Sr. D. Fedro II 



TOMO XLVl 



PAR.TE 11 

Hm fuil, ai l0BC<" dura»! bana | 
Et pMriíit aoi poMrIUW ftnl> 




mo DB JANEIBO 

Ttpogkafhia Universal de H. Laemhebt & C. 

71, Rua dos InvalídOB, 71. 
1883 



s 



o MARECHAL DO EXERCITO 

FRANCISCO DAS CHAGAS SANTOS 

PELO 

MAJOR AUGUSTO FAUSTO DE SOUZA 

80CÍ0 do Institato Histórico e Geográfico do Braiii 



Entre as vantagens que recommend&o o estudo da his- 
toria, avulta a de reparar as injustiças praticadas pelos 
contemporâneos, porque, infelizmente em todas as épocas 
e em todos os paizes, é commum vêr-se desprezado e mesmo 
perseguido o mérito e a virtude, como succedeu com Mil- 
ciades. Sócrates, Galileo, Thomaz Morus, Bameveldt e 
mil outros, ao passo que se tem erigido estatuas a tyrannos 
como Caligula, Nero e Domiciano, 

£ porque, como muito bem disse um nosso illu^tre con- 
sócio, o Conselheiro Araripe(*), os contemporâneos não são 
historiadores, são apenas testemunhas e organizadores do 
processo, e este é, quasi sempre, alterado pelas paixSes às 
época. 

A historia do nosso paiz é ainda curta ; mas já é fieu^il 
encontrar nella exemplos semelhantes : a fama tem por 



(*) Memoria sobre a guerra civil do RUhGrande do Sul, cap. 1 Rev, 
do Inst. tomo xlti. 



— 6 — 

vezes feito soar a sua taba em louvor da mediocridade, ao 
mesmo tempo que o esquecimento tem corrido o yéo sobre 
nomes que adquirirão direito ás bênçãos da pátria. 

Fundado, pois, no interesse da historia, (de cujos ele- 
mentos somos nós, membros do Instituto, os respigadores) 
é que ousamos hoje erguer a lapida de um tumulo ha 
muito esquecido, procurando evocar dahi à lembrança de 
um varão esclarecido, que depois de dedicar ao paiz 60 
annos de serviços relevantes, ainda o serve com os nobres 
exemplos que deixou ; porque, quem reflecte nas acç5es 
elevadas de um morto illustre, não só as admira, como 
sente-se com desejo de imita-las. 

O varão esclarecido, o morto illu tre de que nos vamos 
occupar, é o Marechal do Exercito Francisco das Chagas 
Santos. 

Debalde se buscará o seu nome na galeria dos Varões 
lllustres do Conselheiro Pereira da Silva, ou no Anno 
Biographieo do Dr. Macedo; mas que importa ? também 
iiaquella não figurão Henrique Dias, Amador Bueno nem 
José Mauricio; assim como neste não se faz menção de 
Ayres do Casal, de Arouche, de Evaristo e de tantos 
outros. 

Debalde se procurará o monumento que guarda suas 
cinzas, ou o padrão que o recorde à gratidão da pátria ; 
mas que importa também ? não fôrão os bustos, mas as 
acçSes de Leonidas, de Júlio César, de Tito e de Vicente 
de Paulo, que os fizerão viver na admiração da posteri- 
dade ; nem os citados tyrannos de Roma ficarão glorifi- 
cados pelos altares levantados em sua honra pelo terror ou 
pela adulação. 

Entretanto, forão bem reaes os serviços prestados pelo 
Marechal Chagas, como homem da sciencia, como admi- 
nistrador e como guerreiro ; documentos que não podem 
sofirer contestação, os comprovão ; e a lembrança desses 
serviços deve perdurar na memoria da pátria, e ainda 
mais na do exercito, pois que « o exercito forma uma grande 
familia, todos os soldados são irmãos, e os velhos generaes 
são como 03 venerandos patriarchas desses milhares de 
homens, que tem todos a mesma bandeira, que prestarão 
to 'os o mesmo juramento, que obedecem todos ao mesmo 



I 




\ 



— 7 — 

dever; e quando morre um desses capitães que, com a 
cabeça coroada pela neve dos annos, tem ainda o braço 
de ferro para defender o paiz, o exercito chora um chefe, 
os soldados um pai, a pátria um benemérito. 9 (l) 

Mais de 40 annos tem decorrido depois do passamento 
do velho Marechal ; o anjo da morte tem apagado do li- 
vro da vida, os nomes de quasi todos os que fôrâo teste- 
munhas de suas virtudes civicas e militares, e dos da ge- 
ração actual, aquelles que sabem ter elle existido, ignorão 
o que elle fez. E tempo, portanto, de rascar a nuvem que 
encobre a sua memoria e deixar fulgir a luz de suas ac- 
ções. Nunca é tarde para rememorar os feitos de quem 
dorme o soinno eterno, afím de habilitar a posteridade a 
fazer-lhe imparcial e completa justiça . 



Pelo mesmo tempo em que foi transferida a sede do 
Vice-Reinado para o Rio de Janeiro, exietia aqui uma 
honrada familia composta do chefe, António Manoel dos 
Santos, sua mulher D. Joaquina Maria de Jesus e 6 filhos, 
dos quaes um delles, por nascer a 17 de Setembro, recebeu 
na pia baptismal de Santa Rita o nome de Francisco das 
Chagas, em honra ao Santo patriarcha de Assis e ao pro- 
digioso successo que a igreja catholica nesse dia comme- 
mora. 

Era auspiciosa essa época para a cidade do Rio de Ja- 
neiro, pois que com pequenos interallvos de tempo e de 
distancia, ahi nascião outras três crianças destinadas a 
darem-Ihe gloria sob os nomes de António Pereira de Souza 
Caldas, Fr. Francisco de S. Carlos e Fr. José da Costa 
Azevedo. 

Educado nos severos principios de probidade e de reli- 
gião muito coinmuns ent&o entre as famílias portuguezas, 
o joven Francisco das Chagas tendo cursado as aulas pri- 
marias na cidade natal, foi, ainda em idade bem tenra, 



(1) Discurso do orador do Instituto Histórico dm sessSo de 15 de 
Dezembro de 1868. 



— 8 — 

conduzido por seu pai a Lisboa, afim de adquirir mais 
solida instrucção no Real CoIIegio dos Nobres^ e ahi assen- 
tando praça, applicou-se com ardor ao estudo das sciencias 
exactas. 

Agitava-se então na Península a magna questão dos li- 
mites entre as possessões americanas de Hespanha e Portugal, 
questão que depois de muito debatida desde os Tratados de 
1750 e 1761 produzira ainda o de 1777 ; e, era consequên- 
cia do accordo entre os dous governos, fôra publicada em 
Lisboa a C. R. de 2õ de Janeiro de 1779, repartindo a 
extensissima fronteira do Brazil em 4 divisões, das quae^ 
a 1^ que, por mais importante ficava sob as immediatas vistas 
do Vice-Rei, comprehendia as finhas do sul e oeste desde 
o Arroyo Chuy no Oceano, até a fóz do Igurey no Alto 
Paraná. 

Para as demarcações de cada uma das divisões deveria 
nomear-se um commissario com os necessários engenheiros, 
astrónomos e mais pessoal apropriado. 

O Vice-Rei Marquez do Lavradio recebendo essa ordem 
quasi ao mesmo tempo em que fínalisava o seu governo, e 
n&o dispondo de pessoal habilitado para a 1^ divisão, deixou 
o encargo da nomeação ao seu successor Luiz deVascon- 
celloB, indicando para commissario o Tenente-Coronel Enge- 
nheiro Francisco João Roscio, que se achava então em Por- 
tugal. (2). 

Quer o novo Vice-Rei também encontrasse embaraços 
para eonstituir a 1* divisão demarcadora, quer o governo 
da Metrópole resolvesse chamar a si as nomeações, passa- 
rão-se ainda dous annos, até que em 5 de Fevereiro de 
1781, foi a 1^ divisão fraccionada em 2 secções, uma tendo 
a seu cargo a linha do Chuy á foz do Pepiry-guaçú no 
Uruguay, e a outra deste ponto á foz do Igurey no Pa- 
raná. 

Para l*' Commissario Chefe da divisfto e director especial 
da 1* secção, foi nomeado o Brigadeiro Sebastião Xavier 
da Veiga Cabral; para a 2* secção, o 2^ Commissario 



(2) Relatório do Marquez do Lavradio em 9 de Julho de 1779. — 
Mev, Trim. do Instituto tomo IV. 



\ 




— 9 — 

Tenente Coronel Roscio, o auxiliares astrónomos e geogra- 
phos de ambas, os Capitães Alexandre Eloy Portelli, Joa- 
quim Félix da Fonseca, o Dr. José de Saldanha e o 
Ajudante de infantaria com exercicio de engenheiro Fran- 
cisco das Chagas Santos, promovido a esse posto na mesma 
data. 

Da grande importância que o governo ligava a tal missão, 
éi licito deduzir qual a proveitosa applicaçSo que tivera e o 
favorável conceito que merecera o ultimo dos nomeados, 
attentendo-se a que essa promoção e nomeação recahião em 
um adolescente, que ia ser experimentado em trabalhos 
árduos e em regi Ses quasi desconhecidas e faltas de recursos. 

No dia 19 do mesmo Fevereiro sabia do Tejo a fragata 
8, João Baptista, conduzindo a commissão demarcadora 
para o Rio de Janeiro ; mas aqui chegando foi necessária 
uma demora de quasi S annos, emquanto se obtinha os 
instrumentos mathematicos,se organizavão instrucções e se 
providenciava sobro cavalhada, tropa, deposito de provi- 
sões e outros preliminares para tão vastas e lentas operações; 
de modo que, só em fins de Janeiro de 1784, é que sahio a 
commissão da villa do Rio-Grande para o Chuy, onde os 
esperavão os commissarios hespanhóes D. José Varela e D. 
Diogo Alvear, sujeitos ao Vice-Rei de Buenos-Ayres D. João 
José Vertiz. 

As primeiras operações fôrão executadas com o concurso 
do pessoal de ambas as secções : mas chegando ao acam- 
pamento do Pirahy em 16 de Dezembro de 1786, desta- 
cou-se o pessoal da 2* secção, seguindo o 2® commissario 
Roscio com o Capitão Joaquim Félix e Ajudante Chagas 
para o Povo de S. Borja, e ahi foi incumbido o dito Ca- 
pitão de explorar a linha divisória desde a boca do rio 
Santo António pelo Iguassú abaixo e Paraná acima até o 
Igurey, emquanto o seu companheiro Chagas explorava e 
levantava a carta desde o Pepiry-guaçú até suas vertentes 
e o Santo António abaixo até sua confluência no Iguassú. (3) 

Para cumprir esta commissão e depois de um reconheci-* 
mento geral pelo Uruguay acima a encontrar a boca do 



(3) Correspondência da Capitania do Rio-Grande do Sul 1779—1789 
1. 10. {Árchivo Publico), 



TO 

TOMO XLVl P. I. 



L 



— 10 — 

Fepiry, atravessou Chagas com o seu concurrente hespanhol 
D . André de Ojarvide o território das MissSes Occidentaes 
até Candelária, subio o Paraná, entrou pelo Iguassú até a 
foz do Santo António e seguio por este até ás vertentes, na 
latitude de 26.^ 12'; e continuando além, chegou a umas 
lagoas donde surgia um rio, o qual pela direcção de seu 
curso e em vista do relatório da exploração do Coronel 
Alpoim em 1759, suppozerSo ambos os engenheiros ser o 
demandado Pepiry Tomou-se, porem, impossível levar 
avante a exploração: Oyarvide adoeceu gravemente, o sup- 
primento de boca estava esgotado, todo o pessoal mais ou 
menos enfermos, os recursos promettidos debalde erSo es- 

f)erados; á vista do que, os dous peritos para se justificarem, 
avrárão um protesto declarando as razões de força, maior 
que se oppunhão á conclusão do trabalho, e regressarão 
pelo mesmo Santo António, chegando á barra do Iguassú a 
24 de Dezembro de 1788, todos doentes e em extremo debi- 
litados pelas necessidades que havião sofirido. Reunidos 
nesse ponto ao 2* Commissario Roscio, descerão o Paraná 
até o Povo da Candelária, ficando combinado com D. Diogo 
Alvear encontrarem-se em Santo Angelo, o mais septen- 
trional dos Sete Povos Orientaes, no mez de Fevereiro se- 
guinte, afim de continuarem a demarcação pelo Pepiry 
acima. 

Os serviços prestados por Chagas fÒrão julgados tão 
valiosos, que os Commissarios Sebastião Cabral e Roscio 
rivalisando em elogios, declararão ao Gk)vemo que, esse 
joven official em quasi seis annos que fazia parte da com- 
missfto, se recommendava por sua intelligencia e zelo nos 
trabalhos de geographia, obediência aos superiores, exacto 
em manter a perfeita harmonia tão reconunendada entre 
nacionaes e estrangeiros, pelo que era digno de particular 
attenção e merecedor de ser promovido- (4) Estas rasSes 
sendo attendidas, foi Francisco das Chagas promovido a 
Capitão de infantaria com exercicio de engenheiro, por de- 
creto de 12 de Dezembro de 1791. 

Muitos volumes serião precisos para desenvolver a serie 



— ( 



(4) Correspondência da Capitania do Rio^rande do Sul. Vul. II. 
Docum. 24. 



— li- 
de duvidas suscitadas pelos Commissarios hcspnnhóes 
durante as operaçSes; bastará dizer que, vencidos com 
difBculdade os trabalhos da 1.* secçSo, tendo o Brigadeiro 
Sebastião Cabral de empregar muita prudência e energia, 
tomou-se impossivel proseguir nos da 2.% porque D. Diogo 
Alvear, depois de fazer o Tenente Coronel Roscio esperar 
em Santo Ângelo desde Fevereiro até Outubro, em togar 
de auxiliar as operações, tratou de nullifica-las, averbando 
de errados todos os estudos feitos anteriormente, recusando- 
se a admittir como limite o Pepiry-guaçu, mas sim outro 
rio aguas acima, além do Uruguay-Puit%, conhecido entre 
nós pelo rio Chapecó, o que arrastava também a substituição 
do Santo António pelo Chopim ; e da mesma forma negando 
a existência do Igurej, exigia que fosse elle substituido 
pelo IgwsLtemj. Infelizmente Roscio não possuia as quali- 
dades de Sebastião Cabral ; e apezar das admoestações 
deste e do próprio Vice-Rei Luiz de Vasconcellos, que 
chegou a propor a demissão do 2.® Commissario, as nego- 
ciações ficarão presas em uma rode tSo emmaranhada de 
argucias e difficuldades, apoiadas pelo Vice-Rei de Buenos 
Ayres, que Luiz de Vasconcellos entendeu melhor remetter 
para a Europa tudos os documentos e allegações, afim de 
serem elucidadas e resolvidas as diversas questões pelos 
governos das duas metrópoles. 

Não ficarão, entretanto, ociosos os membros da Com- 
missão, porque exigindo-se continuamente da Europa novas 
investigações e esclarecimentos, que demandavão ás vezes 
novos e urgentes levantamentos e explorações, isto recahia 
em grande parte sobre o Capitão Chagas, que tinha especial 
habilidade para es^e género de trabalhos, assim como para 
operações graphicas e de gabinete ; para melhor cumpri- 
mento dos quaes, foi por seu Chefe mandado para Porto 
Alegre, afim de, sob a immediata direcção do 1." Commis- 
sario e Governador Sebastião Cabral, passar a limpo os 
desenlios e mappas da demarcação. 

Nesta cidade contralâo matrimonio em 29deMaiode 1798, 
com D. Joanna Matilde de Figueiredo, filha do estancieiro 
Thomaz José da Costa e Souza ; e ainda ahi se achava 
quando chegou de Lisboa o decreto de 9 de Janeiro de 1800, 
que o promovia ao posto de Sargento-mór de Engenheiros • 



— 12 — 

No anno seguinte, 1801, rompendo hostilidades entre os 
governos portuguez e hespanhol, tratou o Governador 
Cabral de assegurar as nossas fronteiras, realisando-se 
então, no curto f eriodo de 25 dias, a memorável conquista 
dos Sete-Povos de Missões, que restaurando os limites do 
que nos esbulhara o Tratado de 1777, veio alterar singu- 
larmente a nossa linha divisória do Uruguay, recahindo 
nova serie de trabalhos sobre a commiss^o demarcadora, 
que desde Novembro desse anno passou a ser dirigida pelo 
Brigadeiro Roscio, em consequência do fallecimento de Se- 
bastião Cabral. 

Quatro annos mais tarde, em 10 de Outubro de 1805, 
fallecendo também o Commissario Rossio, foi investido 
nas respectivas funcçoes o seu immediato Chagas Santos, 
que por decreto de 25 de Agosto do anno anterior fora 
elevado ao posto de Tenente-coronel. (5) 

Restabelecida a paz entre as duas naçues pelo Tratado 
de Badajoz, continuarão as negociaçíles sobre limites, mas 
passando-se os annos sem que se chegasse a uma de- 
cisfto. 

Os mappas e documentos da parte dos hespanhóes, havião 
sido conduzidos á Europa pelo próprio commissario D. 
Diogo Alvear; mas tendo-se perdido o seu navio por eflfeito 
de uma explozão, e não tendo o governo portuguez re- 
cebido os da sua commissão, ficarão por muito tempo os 
negociadores sem base para os seus arrazoados ; por cujo 
motivo o Governador Paulo José da Silva Gama recebeu, 
em data de 3 de Janeiro de 1807, ordem expressa de en* 
viar para Lisboa todos os mappas e papeis da demarcação 
existentes na capitania do Rio-Grande do Sul. Tão grande 
importância assumião agora taes documentos, que o Vice- 
Rei Conde dos Arcos comprehendendo que só os podia con- 
fiar â pessoa da máxima confiança, ordenou que o Chefe 
Chagas os fosse levar á corte ; o que este executou seguindo 
logo para Lisboa, mas ao chegar, em fins desse anno e en- 
contrando a cidade em poder de Junot, regressou ao Rio 



(5) Revista Trim. do Jnstit. tomo 41, pag. 296. 



L 




— 13 — 

de Janeiro, entregando os papeis nas mãos do Ministro 
D. Rodrigo, Conde de Linhares, (6j 

Desses mappas e cartas, a maior parte confeccionadas 
pelo Tenente-coronel Ch^■gas, devem existir os originaes e 
cópias authenticas nos Archivos, Publico ou Militar, docu- 
mentos valiosissimos, pois que constituem actualmente os 
«lementos mais preciosos para resolver a questão, ainda la- 
tente, dos rios Pepiry e Santo António. 

Pelas relações pessoaes que entretiverâo com Chagas 
Santos, trio favorável conceito formarão o Príncipe Regente 
e o Conde de Linhares de seu zelo e méritos, que tendo-o 
promovido a Coronel graduado em 13 de Maio de 1808, 
no anno seguinte, por decreto de 4 de Agosto^ lhe foi con- 
ferido a effectividade desse posto e nomeado Comman- 
dante dos Povos de Missões, encargo nessa occasião de 
subido alcance, por se tratar de uma das portas da Ca- 
pitania do Rio-Qrando do Sul, povoada por habitantes 
em condições especiaes e constantemente ameaçada por vi- 
sinhos inquietos. 

Antes de passar além, é de necessidade que nos dete- 
nhamos por um momento, afim de esclarecer um ponto que 
pôde, de alguma sorte, desvirtuar a verdade histórica. 

Compulsando a correspondência dessa época, entre D. 
Diogo de Souza Governador da Capitania e o Ministro D. 
Rodrigo encontrâo-se trechos em que aquelle procura in- 
sinuar juízos duvidosos, tendentes a abalar a opinião favo- 
rável deste Ministro sobre os talentos e capacidade militar 
do Coronel Chagas Santos. A explicação deste facto di- 
mana naturalmente do seguinte : Desde que foi estabele- 
€ida no Brazil a sede da monarchia portugueza, desenvol- 
veu-se forte rivalidade dos militares nascidos na Europa, 
contra os seus companheiros naturaes do paiz, cujos me- 
recimentos podendo agora serem melhor apreciados, isto 
iria prejudicar as promoções daquelles, que até então erão^ 
com raríssimas excepções, os únicos contemplados nellas. 



(6) Officio de Paulo Gama ao visconde de Anadia de 28 de Fevereiro 
de i807 (arXos do tonteltio VHramarino). Volume existente no Inst. 
Hlst.) L'xp. dos trah, que servirão de base d Carta Geral do Império 
pelo Èarào de Ponte Ribeiro, pag. 51. 



L 



— 14 — 

Ebte mesquinho ciume^ chegou a assumir taes proporções 
que^ um Governador das armas da corte, o Brigadeiro 
Vicente António de Oliveira, ousou propor a D. João VI 
que estabelecesse como lei, não poderem os BrazUeiro» 
exercer cargo algum de confiunça, nem serem promovidos no 
exercito além do posto de capitão; devendo reformar -se 
aquelles fue nessa época se achavão em postos superio- 
res. (7) Ora, sendoChagas Brazileiro, Coronel e demais, 
attrahindo por suas qualidades a attenção do governo, era 
lógico que aquelles que adoptavâo tão estreitas idéas, pro- 
curassem metter um cravo na roda da fortuna desse official. 
Felizmente não pensavão da mesma forma, o bem in- 
tencionado Príncipe e seus principaes Ministros Condes de 
Linhares, da Barca e Marquez de Aguiar, os quaes nunca 
retirarão a sua confiança ao Coronel Chagas, que por sua 
parte, nesse mesmo commando de Missas teve occasião de 
prestar, como vamos ver, serviços relevantissimos, teste- 
munhados pelo próprio D. Diogo de Souza, que vio ple- 
namente desmentidos os injustos conceitos que dantes 
manifestara (8). 



n 

Ato então o Coronel Chagas Santos apenas se fizera co- 
nhecer como engenheiro intelligente e íunccionarlo zeloso 
e discreto : com o governo de MissSes, mais vasto horizonte 



Çi) Brazil histórico n. 42 de 23 de Oatubro de 1864— Correio Bra- 
ítiliense tomo XXVIII. 

(8) Nâo admirará, de certo, esse procedimenlo de D. Diogo de Sonza, 
Conde do Rio Pardo, a quem souber dos 2 factos seguintes que lhe 
dizem rrspeito : • « ^ 

1.* Foi elie o Governador do Maranhão que deu em 12 de Outubro 
de 1800 a ordem para ser preso um tal Barão d$ Humboldt, que tentava 
fazer excursões pelos sertões do Estado, devendo obstar-se-lhe suas 
perifirosas indagaçõee politicas e pbilosophicas. 

2.' Tendo por sua morte legado a enorme fortuna de 1200 contos 
forte;:, D. Miguel oue então reinava, mandou confisca-la a favor do 
Erário, visto ter siao ella accumulada por exacções praticadas dursnte 
o tempo em que fora Governador das Capitanias ao Maranhão e do 
Bio-Grande do Sul. (Viagem ao redor do Braxil 2.* pag. 41) 

Talvez este ultimo facto explique também a opposição feita por 
este Governador á administração do integro Coronel Chagas. 



L 




— 15 — 

abrío-se diante delle, permittindo pôr em relevo qua- 
lidades próprias de administrador hábil e ^e chefe militar 
valoroso. 

Tomando conta de seu cargo no Povo de S. Luiz, Quar- 
tel General de seus antecessores, affastada a mais de 12 
léguas do margem do Uruguay ; e considerando quanto 
era superior a posiçSo de S. Borja, o mais meridional dos 
povos das Missões e situado a 2 milhas do rio, transferio 
para este a sede do governo ; medida importante, tanto 
sob o ponto de vista militar, como pela facilidade do com- 
mercio, e em virtude da qual affluirSologo paraS.Borja 
muitas familias de Porto- Alegre, Rio Pardo e sobretudo de 
Santo António da Patrulha, bem como negociantes attra- 
hidos pelo fornecimento da tropa e povo. Conhecedor dessa 
região de que levantara a planta, propôz os melhores li- 
mites para separar entre si os Sete Povos, o que com muitas 
outras providencias, foi approvado pelo governo (9), que 
como prova de sua satisfaçlU) o promoveu a Brigadeiro gra- 
duado, por decreto de 20 de Janeiro de 1813, accrescen- 
tando a clausula, muito significativa, de continuar na com- 
mii^sâo em que se achava. 

Embora muito occupado nos diversos ramos de sua ad- 
ministração, sua vigilância era continuamente attrahida 
pelos movimentos do celebre D. José Artigas que, assumindo 
o titulo de Protector dos Povos Livres do Rio da Prata y 
desde 1811 ameaçava nossas fronteiras do sul, e princi- 

Íalmente a de Missões, cujo território contava reconquistar. 
!m 1816, tendo-se realisado a vinda de Portugal da di- 
visão Lecor, e sua marcha em direcção a Montevideo, re- 
solveu o famoso caudilho pôr em execução um atrevido 
plano de campanha, que ao mesmo tempo que vibrava um 
golpe decisivo nas pretençSes da monarchia portugueza em 
relação á margem esquerda do Rio da Prata, dava-lhe 
possibilidade de effectuar a sua idéa favorita, isto é, de 
apossarnse das Sete Missões Orientaes. 

Consistia esse plano em levantar três divisões para hos- 
tilisarem a nossa fronteira de sudoeste, emquanto Rivera 



(9) HUtoria da Republica Jetuitiea de Uistôest pelo Cónego J. P. 6ay 
Cap. XVII e XXII. 



— 16 — 

e Otorgucz continhâo as tropas dos Qeneraes Marques e 
Lecor, ao passo que o próprio Artigas invadia o território 
brazileiro pelas pontas do Arapehy. Duas dessas divisões 
sob as ordens de Verdun e de Sotello, operando em Cor- 
rientes, entre os rios Arapehy e Ibicuhy, deveriâo passar 
o Uruguay, evitando as forças do General Ourado ; a 3* di- 
visão composta de gente das Missões Occidentaes comman- 
dadas por André Taquary (mais conhecido por Andresito 
Artigas ou Artiguinhas, seu filho adoptivo e que lhe me- 
recia a maior confiança] também atravessaria o Uruguay 
mais acima; bateria as forças do General Chagas, apode- 
rar-se-hia dos Sete Povos, e arrebanhando os recursos 
que pudesse, iria fazer juncç^o com Artigas, que a esse 
tempo o esperaria na margem do rio Santa Maria, já reu- 
nido ás outras divisões. Era pois um plano audacioso, que 
bem succedido iria coUocar em singular embaraço a nossa 
Capitania do Sul ; e o ponto mais delicado delle, achava- 
se na pequena povoação de S. Borja, porta de accesso para 
toda a região ambicionada. 

Tâo profundo segredo guardou André Artigas na for- 
mação de sua tropa, que foi geral a sorpresa quando em 
12 de Setembro, atravessava o Uruguay em Itaquy, á frente 
de 2000 homens, passava a fio de espada a pequena guar- 
da que defendeu heroicamente o pa^so, dispersava uma 
força de 200 cavslleiros que explorava as circum vizinhanças, 
e na madrugada seguinte apresentava-se diante de S. 
Borja, ao som de musicas e gritos enthusiasticos de seus 
Índios, fanatisados pelo feroz Irade Acevedo, que garantia 
a immediata ressurreição de todos aquelles que morressem 
em combate. 

De fracos recursos dispunha o Brigadeiro Chagas em 
t2o apertada emergência : excepto 10 peças de pequeno 
calibre e munições que tinha em abundância, cerca de 200 
praças, das quaes 85 granadeiros e os mais de cavallaria 
miliciana portugueza e guarany^ constituiSLo a totalidade dos 
meios de que podia lançar mão para defender-se de tSo 
formidável inimigo ; longe de 130 léguas da capital e perto 
de 80 da divisão do General Curado, únicos pontos donde 
podia esperar soccorro ; accrescendo ainda, que a mesma 
cavallaria guarany nSo inspirava muita confiança, pois quo 



— 17 — 

dias antes se havia dado a deserção do capítSo Vicente Tira- 
paié, amigo de Andresito, com grande parte dos soldados 
Índios sob seu commando. 

Com tão minguados recursos^ Chagas a quem nunca fal- 
tou valor e presença de espirito (10), tratou de aprovei- 
ta-los do modo mais eíBcaz, assestando uma bocca de fogo 
nas embocaduras da praça e das ruas, mascarando-as com 
trincheiras de couros empilhados, instruindo alguns gra- 
nadeiros no serviço de artilharia, dispondo piquetes para 
defender os sitios mais expostos e a cavallaria no recinto 
da quinta, nomeando Major da Praça o capitão José Maria 
da Gama, e designando 30 granadeiros escolhidos para 
formarem uma reserva que devia acudir aos pontos que 
carecessem auxilio. 

Sabedor André Artigas da fraqueza desses meios, as- 
sim que pôz em sitio a povoaçSo, dirigio vários ataques 
contra os legares que julgava menos defendidos, mas com 
surpreza sua fôrSto elles sempre rechassados com perda sen- 
sivel ; e tendo assim passado duas semanas, vendo que 
nSto podia perder mais tempo, para executar o plano que 
lhe fora ordenado, resolveu tomar a praça de assalto, em- 
penhando todas as suas forças. 

Com effeito, ao amanhecer de 28, dispostas as tropas em 
columnas, carregou com tal fúria sobre vários pontos, que os 
sitiados, não obstante sua heróica bravura, chegarão a re- 
cuar em alguns delles do lado da quinta, cujos muros erão 
escalados a um tempo por muitas centenas de assaltantes. 
Ne?se momento supremo, repellida a nossa cavallaria, os 

gortSes exteriores prestes a serem arrombados a machado, 
hagas ordenou uma descarga geral de metralha, e o effeito 
delia foi tão terrível que o Chefe inimigo mandou tocar a 
retirada, voltando para as antigas posições, resolvendo dahi 
apertar os sitiados pela falta de viveres, emquanto esperava 
reforços que requisitou de Sotello, o qual perto do Ibicuhy, 
se preparava a transpor o Uruguay com a sua divisão. 

Se a posição dos sitiados fora até então apertadissima, 
mais dura se tomou com o proseguimento do assedio, visto 



(10) Palavras textnaes da Memoria do extincto ILegimento de Santa 
€atharina, pelo Major M. J. de A. Coelho. 

TOMO XI.VI, P. I. 3 



— 18 — 

estarem esgotados os mantimentos indispensáveis á vida da 
guarnição e de mais de duas mil pessoas, entre habitantes 
e famílias da campanha que se haviSo reÁigiado na praça; 
mas o grande animo do Brigadeiro Chagas crescendo na pro- 

Sorção das difficuldades, a todos alentava, dando o exempla 
a coragem e d& paciência, fazendo de vez em quando sor- 
tidas para cansarem e entreterem a attenção do inimigo, 
dando occasiâo a que alguns soldados resolutos fôssem a 
uma lagoa fora da povoação, buscar agua para mitigar a 
falta delia, que muito aíHigia a população. 

Embora nos diversos ataques e sortidas a perda dos si- 
tiados fosse pequena, a troco de cerca de 200 inimigos mor- 
tos, a posição daquelles tomava-se mais critica a cada 
momento, quando ao raiar do dia 3 de Outubro se avistou 
da parte do sul, uma columna que avançava a grandes mar* 
chás. A anciedade, extrema a principio, transformou-se em 
delirante jubilo, reconhecendo a força enviada pelo General 
Curado para oppôr-sa á passagem da divisão Sotello, e que 
sob as ordens do valente Tenente-Coronel José de Abreu 
desbaratara 6 dias antes, perto de Itaqui, o reforço que esse 
caudilho enviara a Andresito. 

Contava apenas 653 homens a columna de José de Abreu f 
sem dar, porém, attenção à superioridade numérica do ini- 
migo, nem ao cansaço da longa marcha, formando-a logo 
em batalha atacou com o maior denodo o Chefe Artiguenho, 
o qual contando segura a victoria^ tratou de tomar dispo- 
sições para toma-la decisiva, sendo uma delias destacar 
uma forte partida para immobilisar a tropa do Brigadeiro 
Chagas, impedindo-a de tentar alguma sortida durante a 
acção. Mas seus cálculos fôrão burlados, porquanto dahi a 

Souco tempo suas legiões fugião destroçadas em todas as 
irecçdes, cabendo ao valoroso José de Abreu os louros da 
esplendido triumpho, realçado pela posse de 2 canhões,, 
muito armamento, munições, 1400 cavallos e 400 cadáve- 
res inimigos ; sendo victoriado freneticamente pela briosa 
população de S. Borja, que assim via o termo de seus soffri- 
mentos . 

Mal se manifestara a derrota dos contrários. Chagas, que 
durante a batalha entretívera a partida que lhe estava em 




— 10 — 

frente, divide a guarnição em dous destacamentos e manda- 
08 em perseguição aos fugitivos que se dirigiâo ao Uruguay. 
Neste rio é mettida a pique uma barca artilhada, e ao 
recolherem-se as duas forças a S. Borja, tinhão destruido 
muitos inimigos e aprisionado 42, com cerca de 600 ca- 
vallos. (11) 

Tratando desse brilhante facto da campanha de 1816^ 
diz um escriptor e autoridade muito competente, o se- 
guinte : 

c  guarnição de Missões foi salva no fim de 13 dias 
de sitio, quando pelos repetidos assaltos do inimigo se 
achava já enfraquecida, sendo obrigada por todo aquello 
tempo a uma continua vigilia e trabalho ; a fome, porém, c 
a sede anniquilava excessivamente as tropas, e estava esta 
guarnição a ponto de perecer, por nfto ter forças capazes 
de oppôr á superioridade do inimigo. O Brigadeiro Fran- 
cisco das Chagas Santos, Commandante da fronteira, ali 
se achava ; e ao seu valor e disposições defensivas deve- 
se a conservação daquella povoação e das tropas que para 
ella se retirarão, depois de 11 dias de extraordinários 
esforços para obstar a invasão do inimigo no território ; 
em cujas operações e vários encontros havidos, tendo feito 
algum estrago no inimigo, havia já perdido de suas pe- 
quenas forças, 6 homens mortos e alguns feridos. Á forç«a 
ae 200 homens d'armas fazia toda a guarnição de S. Borja^ 
commandada pelo hábil Brigadeiro Ohagas, que se fez 
assignaladopefa sua firmeza e valor, despresando os esforços 
continues com que o inimigo assaltou o povo. Parece que 
este honrado Brigadeiro acabaria com a sua guarnição 
esmagado pelas ruinas do seu posto, antes que render- se 
ou annuir a qualquer das proposições que lhe fazia o ini- 
migo ; pois que a todas despresava com altivez de soldado 
e decoro de portuguez ; defendia-se ao mesmo tempo com 
intrepidez, discrição e valor, apezar de serem muito geraes 
ou assaltos, entre os quaes foi formidável o de 28 de Se- 
tembro, que todavia não abalou a firmeza do Brigadeiro, 



(11) Y. Partes oíliciaes publicadas na Revista do Instituto Hittorico 
tomo ?•. 



A 



— 20 — 

nem de suas tropas ; que com elle se fizerâo dignas da 
mais alta honra militar e contemplação do soberano.» (12) 
O cónego JoSo Pedro Gay na sua Histaria da Republica 
Jesuítica do Paraguay bem como o autor da Memoria do 
Regimento de Santa Catharina tratando dos apertados 
transes por que passou a guarnição de S. Borja^ affirmuo 
que, official houve da cavallaria que temendo um fim de- 
sastroso, fte atrevera a leínbrar ao General Chagas uma 
escapula rompendo- se durante a noite a linha dos sitiantes ; 
mas felizmente para honra dos portuguezes, tal lembrança 
não lhe merecera resposta ; facto este que confirma a asser- 
ção de Diogo Arouche, de que só ao Brigadeiro Chagas 
foi devida a conservação daquelia praça, chave de toda a 
nossa fronteira de Missões e das vidas de todos os que a 
ella se haviao abrigado ; e o que ó mais, com a sua im* 
perterrita resistência a todas as forças de Andrezito, mal- 
íográra-se o plano em que D. José Artigas fundara tãâ 
grandes esperanças. 

m 

Deseseis dias depois de levantado o sitio de S. Borja, o 
Brigadeiro João de Deus Menna Barreto derrotava o chefe 
Verdun junto ao Inhanduhy, e oito dias mais tarde expe- 
rimentava igual sorte, em Carumbé, o próprio José Artigas^ 
desbaratado pelo Brigadeiro Joaquim de Oliveira Alvares, 
transpondo grande parte dos fugitivos o rio Uruguay. 

O Marquez de Alegrete novo Governador do Rio-Grande, 
assumindo a 15 de Dezembro o commando em chefe do 
exercito, e avisado de que André Artigas tratava de levantar 
novas forças nos Povos das Missões Occidentaes, para com 
ellas vingar-se da sua derrota, assolando vários pontos de 
nossa fronteira, ordenou ao General Chagas, era officio 
datado de 23 desse mez, que org inizando forças sufficientes 
invadisse o território daquellaa Missões, dispersando as 
partidas artiguenhas e inutilisando completamente tudo 
aquillo que pudesse favorecer os projectos de Andresito. 



(12) Memoria da Campanha de 1816, por Diogo Arouclie de Moraes 
Lara. 




— 21 — 

Duas raz5eB justiiicavSo essa nomeação feita pelo Marquez 
de Alegrete : uma de confiança e outra de reparação. De 
confiança, porque depois da attitude brilhante que Chagas 
assumira em S. Borja, onde dera sobejas provas de energia, 
bravura e actividade, bem como pelo conhecimento que elle 
possuia daquelle território, ninguém melhor do que elle po- 
deria cumprir a importantissima commissão que demandava 
o concurso de todas aquellas qualidades.De reparação, porque 
quando o mesmo Capitão General deu parte ao Ministro 
Marquez de Aguiar da deserção do Capitão Tirapaié e seus 
soldados guaranys, accrescentou o seguinte trecho : A indis- 
creta confiança do Brigadeiro Chagas nos índios, o inhabi- 
lita de continuar naquelle governo ; não me parecendo com- 
tudo justo que seja desde já mudado, para não Tnanckar sua 
honra, contra a qnal nada tenho a dizer (13); e a cond cta 
ulterior do Brigadeiro Chagas, bem como a fidelidade dos 
officiaes e soldados guaranys em quem elle depositava con- 
fiança e que se portarão muito bem, desmentindo o conceito 
primitivo do Capitão General, este com a nova nomeação 
dava-lhe publica satisfação, desfazendo assim a impressão 
desfavorável causada por aquelle trecho, que se resentia 
das informações pouco justas do seu antecessor D. Diogo, 
Conde do Rio Pardo . 

As duas novas victorias de Arapehy e de Catalan, ganhas 
a 3 e 4 de Janeiro de 1817, por José de Abreu e pelo propri ) 
Marquez de Alegrete sobre José Artigas e La Torre, aug- 
mentando o numero dos destroços inimigos espalhados pelo 
território além do Uruguay, vierão tomar, mais necessária 
uma prompta e enérgica execução daquella determinação do 
Capitão*General : e assim o entendendo o Brigadeiro Chagas, 
logo no dia 14 sahia de S . Borja á testa de uma columna 
de 550 homens com 5 canhões, costeava a margem esquerda 
do Uruguay até em irente á foz do Aguapehy onde chegou 
a 19, dispondo-se no mesmo momento para atravessar o 
rio em busca de André, que lhe constava achar-se no povo 
da Cruz com 400 homens e á espera de reforços de Entre- 
Rios. 



(13) Y. Ofiicio de 28 de Outubro de 1816, transcripto no tomo 42 da 
demita Trimmíal do Instituto pag. 17. 



^ 



— 22 — 

Com A prudência qae caracterisava seus actos, ordenou 
que a vanguarda sob as ordens do Tenente Luiz de Carvalho 
seguisse pelo passo de Itaquj para cobrir e auxiliar a passa- 
gem da columna ; sendo, porém, este bravo official atacado 
vigorosamente pelo Capitão dezertor Tirapaié com força 
muito superior. Chagas emquanto o soccorria com a remessa 
de um reforço, de tal sorte accelorou a passagem da tropa^ 
artilharia^ cavallos e bagagens, que no mesmo dia 19 occu- 
pava a margem direita do Uruguay e Luiz de Carvalho 
destroçava o seu contrario, que fugio para o povo da Cruz. 

Ao amanhecer de 20, avançou o Brigadeiro com toda a 
columna contra este povo, mas cncontrou-o deserto, por 
haver André Artigas abandonado slu campo durante a noite, 
seguindo com destino a Japejú, oito léguas para o sul, des- 
tacando então o Capitão José Maria da Gama com 330 ho- 
mens para ir procurar o inimigo em Japejú, esse official 
voltou dahi a õ dias, declarando haver destruído a povoação 
que também achara abandonada. Levantando acampa- 
mento no dia 26, depois de inutilizar as casas e mais re- 
cursos do povo da Cruz, seguio o General Chagas para o 
norte e a 31 occupava o povo de S. Thomé, fronteiro a S. 
Borja, o qual assim como os precedentes, se achava em 
completa solidão. 

Estabelecendo neste ponto o centro de suas operações 
militares, destacou duas partidas, uma de 125 homens ao 
mando do Tenente Carvalho, para que tomando a direcção 
do noroeste até próximo da Candelária, destruisse os povos 
onde se accumulavão os inimigos, dispe sando os que en- 
c )ntrasse, varrendo toda a zona desde a Candelária até 
Tranqueira do Loreto ; a outra partida, de 80 homens sob 
as ordens do Tenente Manoel José de Mello, devia con- 
tinuar pela margem direita do Uruguay acima, o ir attacar 
os povos de Santa Maria Maior, S. Xavier e Martjres, 
ao norte das Missões Brazileiras ; ao mesmo tempo expe- 
dio ordem á guarnição do nosso povo do 8. Nicolau^ capi- 
tão Elias de Oliveira, para que transpondo o rio, bntosse a 
guarda de S. Fernando e arrazasse o povo da ('Oncoição. 

Dando prova de politico cautelozo o com o ilm do ovitar 
complicações, o Brigadeiro Chagas ofticiou ao J)iotHdor 
Francia e ao commandante da fronteira do farnguay. 



— 23 — 

explicando suas intenções inoffensivas para com o território 
dosta Republica ; deu ordena positivas prohibindo quaes- 
quer hostilidades contra todos aquelles que nSo favore- 
cessem a causa dos nossos inimigos ; e não contente com 
isto, dirigio proclamações nas linguas castelhana e gua- 
rany aos povos de Entre-Rios e de Corrientes, aconselhan- 
do-os a que não auxiliassem os planos de D. José Ar- 
tigaS; antes seguissem o exemplo do Paraguay, que prefe- 
ria a amizade do Brazil, pelo que gozava da paz e yia res- 
peitado o seu território ; proclamações que fôrão efficazes, 
pois que plantando a desconfiança entre os Correntinos, 
muit3s abandonarão o partido do caudilho; sendo um delles 
o Capitão Esquivei com 100 de seus commandados. (14) 

O plano de invasão do General Chagas foi coroado de 
pleno successo ; o intrépido Luiz de Carvalho tendo derro- 
tado por duas vezes o chefe Mbaivé perto do Loreto e sa- 
queado 08 povos de S. Carlos, S. José e Apóstolos, reunio- 
sc á columna no dia 26 de Fevereiro, conduzindo quan- 
tidade de valores, alfaias e gado, tendo posto fora de com- 
bate cerca de 100 inimigos; Mello, bemcomoo commandante 
de S . Nico'au, portando-se com igual actividade e denodo, 
baterão e dispersarão varias forças, arrazarão os povos da 
Conceição, Santa Maria, S. Xavier e Martyres, arreca- 
dando tudo o que foi nelles encontrado. 

Cumprida assim fielmente a ordem doiCapitão General 
Marquez de Alegrete, o General Chagas, deixando patrulhas 
do observação na margem direita do Uruguay, repassava 
este rio a 13 de Março, e recolhia-se a S. Borja, trazendo 
valiosos despojos que fez immediatamente enviar para 
Porto Alegre (15) e cerca de 6000 cavallos ; com a notável 
circumstancia de não haver, durante a expedição, expe- 
rimentado outro prejuizo além do ferimento de um soldado. 

Historiando a rápida e brilhante campanha de 1816, o 



(U) V. Officio dirigido ao General Curado em de Abril de 1817— 
Rev, THn, do Inst. tomo VJI. 

(15) O autor da Memoria do Regimento de Santa Catharina diz na 
pag. 35, que fôrão para Porto Alegre 65 arrobas de prata e ornamentos 
risos, constando-lhe que dalii seguirão para o Rio de Janeiro, onde 
lhes derão destino. 



V 



— 24 — 

jâ citado Diogo Ârouche termina com estas palavras o pe- 
ríodo da invasão contra as Missões Occidentaes. 

« O Brigadeiro Chagas Santos dignamente escolhido 
para instrumento de obra tão grande e glorioza, tendo-se 
honradamente desempenhado da sua commissSo, verificon 
quanto delie esperavâo os que tinhão noticia de sua ex> 
tensa capacidade^ e se fez recommendavel na opiniSo pu- 
blica^ constituindo-se igualmente digno da contemplação 
do seu soberano. » 

Por sua parte, o Capitão General dando conta ao Ministro 
da Guerra Conde da Barca, dessa expedição, declarou que 
considerava muito vantajosos os seus resultados, e serião 
decisivos, se não tivesse logo necessidade de distrahir tropas 
desse lado, para ir soccorrer a fronteira de Santa Thereza 
a Serro Largo, ameaçada por outras forças inimigas. 

Concluia o Marquez de Alegrete o seu officio, recom- 
mondando ao Soberano as tropas qus tiverão parte nestet 
gloriosos succesaoa, particularizando o Brigadeiro Chagas 
e os Officiaes que, conforme informaçdes do mesmo, tiverão 
occasião de fazerem serviços mais distinctos. (16) 



IV 

Façamos aqui nova pausa e procuremos corrigir um en- 
gano que tem se^ido de base para uma accusaçSo ao Ge- 
neral Chagas. 

Se é certo que, toda a causa por peior que seja, encontra 
sempre quem a apadrinhe, não é menos certo que, á melhor 
causa também nunca faltão detractores que procurem ape- 
dreja-la. Assim, a maneira satisfactoria porque o General 
Chagas cumprio a difficil missão de que o encarregara o 
Marquez de Alegrete, e que mereceu o applauso dos con- 
temporâneos, reunidos á approvação plena de Chefes e Go- 
verno, foi estigmatisada, decorridos muitos annos, por al- 
guns escriptores (aliás dignos da melhor nota) que o accusào 
do bárbaro e de exterminador . 



(16) Officio do Marquez de Alegrete de 24 de Julho de 1817— /?<:t\ 
Tritn, do Inst, Toiíio XLII. 



b 



á 



— 25 — 

Dous historiadores illustres, o Conselheiro Pereira da 
Silva no tomo 4^ da sua Historia da Fundação do Império^ 
e q cónego João Pedro Gay na já citada Historia das Mis- 
sões Jesuíticas, lança o-lhe a pecha de devastador e sangui- 
nário ; e o que é muito notável, tendo-se guiado ambos pela 
estimada obra de Diogo Arouche, tirão conclusão diame- 
tralmente opposta á do illustre Paulista, proâigando aquillo 
mesmo que este considerou merecedor de recompensa. 

O 2° desses escriptores, relatando diversos casos de as- 
sassinatos e sacrilégios praticados pelos guaranys, faz delles 
responsável o General, que nesse tempo se achava em 
S . Thomé e que, longe de autorizar taes factos, prohibira 
o inútil derramamento de sangue e os escândalos de qual- 
quer ordem ; e depois de verberar General e OflSciacs 
termina com o seguinte trecho que repetimos textual* 
mente : (17) 

a Em outro officio avaliava elle (o General Chagas) o 
numero dos inimigos mortos em três mil cento e noventa, 
e em trezentos e sessenta o dos prisioneiros. Tinha feito 
pois, uma guerra de exteiminio. Dizia também ter-lhes to- 
mado cinco canhões, cento e sessenta espingardas, quinze 
mil cavallos, etc. etc. » 

Este horroroso período, base do processo intentado á me- 
moria do benemérito general, e que parece tornar impos- 
sível a sua defeza, visto dizer-se ter sido^rmado por seu 
punho, foi reproduzido com phrases de reprovação, pelo 
sábio e criterioso senador Cândido Mendes, na pagina 3z 
da introducção ao seu Atlas do Brazil. 

Pois bem! Tranquillise-se o sensível coração dos dous 
philantropicos escriptores, felizmente ainda pertencentes ao 
numero dos vivos; esse algarismo aterrador de 3190 ca- 
dáveres (algarismo talvez superior ao de toda a população 
dos povos destruídos (18), esse algarismo, dizemcs, ex- 
prime apenas um lamentável engano commettido pelo 



(17) Hist, da Rep. Usuitica do Paraguay, c.ip. 18. —Rev. Tr, dí* 
Imt,, tomo 26, pag. 6Sâ. 

(18) Em o citado officio do M. de Alegrete lô-se que, grande nu- 
mero de familias desses povos, querendo fugir ao domínio ae Artigas, 
emigrara para aquém do Uruguay, sendo distribuidas pelos povos das . 
Mi88ôe« Orientaes. 

TOMO XLVI, P. !• 4 



N 



- 26 — 

cónego GtBj, ao copiar as notas do Diogo Arouche, publi- 
cadas em 18 i5, no tomo T* da Mevista do Instituto. 

£m primeiro logar, nunca houve o tal outro oficio senão 
na imaginação do cónego Gay; quanto ás cifras accusa- 
doras da crueldade do general Chagas, o illustre chronista 
das MissSes Jesuíticas, por um deplorável descuido, to- 
mou como referente á expedição do Uruguay, o Appenso 
n. 28, no qual Diogo Arouche recapitula a perda total do 
inimigo na campanha de 1816 ; ou por outras palavras: 
os 3190 mortos, os 360 prisioneirosi os 5 canhões, as 1600 
(e nâo 160) espingardas, os 15000 cavallos, etc, etc, re- 
presentão o prejuizo soffrido por Artigas e seus tenentes 
em todas as operações de guerra desse anno, comprehen- 
dendo ainda, a? duas batalhas de Arapchj e de Catalan, 
f<;ridas nos primeiros dias de 1817* 

De semeinanto espécie, é um outro morticínio referido 
pelo visconde de S. Leopoldo á pagina 298 dos Annaes do 
Mio Chrande do Sulj que tivera logar em 1812, praticado 

f>elo commandante de Missões, o qual, á frente de 300 mi' 
icianos e índios investia o povo de S. Thoméj destruio-o, 
deixando mortos 150 dos que resistirão, incendiando as 
casas e lançando ao rio mais de três mil animaes ; acção 
esta que, só tendo origem em jornaes artiguenhos de 
Buenos-Ayres para irritar contra nós as populações, delia 
não se encontra ^stigio na correspondência de Chagas ao 
capitão general, *em deste para o ministro Marquez de 
Aguiar, nem ainda se acha monção de tal incêndio do 
povo de S. Thomé, na minuciosa Historia do cónego G^j. 
E é com fundamentos desta força que se pretendo atirar 
um estigma á memoria de um distincto servidor da pátria, 
quando o gelo do sepulchro impede que elle se possa defen- 
der de seus mal informados ou apaixonados accusadores ! 
Não tem, pois, valor algum a accusação de barbaridade; 
quanto á legalidade da destruição e saque das povoações 
que servião de apoio e de deposito dos nossos inimigos : Nin- 
guém contesta que fôsse violenta essa medida; mas acaso 
são suaves as leis da guerra? ou foi essa a vez primeira 
que se executou operação dessa natureza para tirar recursos 
a adversários ferozes ? E acreditão os chrônistas, que escre- 
•vem no remanso do seu gabinete, rodeados dos gozos e 



i 




— 27 — 

commodidades da vida, que em uma campanha como a de 
1816; contra inimigos do caracter de Artigas, tomados ainda 
mais sanguinários pelos máos conselhos do Padre Monterosa 
(19), fosse possivel obter a paz sem empregar meios muito 
rigorosos, e sem assumir grande responsabilidade aquelles 
que erão incumbidos de os pôr em execuçZo? 

Seja-nos permittido narrar um facto que vem em abono 
de nossa opinião : Durante o sitio da Uruguayana em 1865, 
achavSo-se reunidos junto á barraca do General BarSo de 
Porto Alegre, vários Chefes conversando acerca das passa- 
das campanhas, que tiverSo por thcatro as margens do Uru- 
guay. Tratando-se da invas?lo dos Povos Occidentaes em 
1816, o Duque, entSo Marquez, de Oaxias, que permanecera 
calado até esse momento, tomando a palavra disse com 
vivacidade as seguintes phrases, das quaes logo tomamos 
nota: 

— Li, ha pouco uma obra eji que se censurava o modo 
por que foi effectuada essa operação. Essa censura não tem 
razão. Conheci de perto o General Chagas e posso affirmar 
que nunca foi homem deshumano. O que elle praticou foi 
ordenado pelo Capitão General Marquez de Alegrete e a 
prompta e fiel execução dessa medida, embora dura, era 
de absoluta necessidade. Quanto a mim, o General Chagas 
cumprio muito bem o seu dever. 

Esse juizo da maior gloria militar do Bftizil, do General 
i Ilustre que sempre uzou de magnanimidade para com os 
vencidos, foi ratificado pelos chefes presentes, entre os quaes 
nos recordamos dos: Genoraes Porto- Alegre e Canavarro, 
Coronéis Pedro Pinto e Argolo; e quanto a nós, essa sen- 
tença é sufficiente para desfazer accusaçSes levantadas por 
quem, criticando os factos, esquece-se de tomar em conside- 
ração a força das circumstancias. 

Esses mesmos censores virão 50 annos mais tarde, quando 



(i9) Aisèiie Ua baile na obra Voyage de Buenos Ayret á PortO'Alegre 
em 1835, pinta as for^s de Artigas como compostas de assassinos, la- 
drões e em geral de todas as fez«38 da sociedade ; e convém notar que 
esse escriptor não é muito fivoravel- aos Brazileiros. O mesmo Con- 
selheiro Pereira da Silva descreve com iguaes cores as tropas Arti- 
guenhas, no principio do tomo IVda Historia da Fundaíão do Império, 



_á 



— 28 _ 

o facho da civilisaçâo alumiava todos os ângulos do uni- 
verso, reproduzir-se por mais de uma vez na guerra do 
Paraguay, a necessidade de empregar medidas extremas; 
e o próprio Cónego Gay, muito digno vigário de S. Borja 
no momento da invasão paraguaya, tev.^- occasião de ava- 
liar até onde podem levar as tristes exigências da guerra 
contra selvagens , principalmente quando sâo guiados por 
padres ignorantes e fanáticos como Duarte e os mencio- 
nados Acevedo e Monterosa, que se servem da religião 
como instrumento de sua perversidade. E sem duvida 
os dous illustrados historiadores devera estar hoje capa- 
citados de que, em condiç(5es taes, é indispensável o em- 
prego de meios enérgicos e violentos, muito diversos do 
cavalheirismo que podem guardar entre si, mesmo nu 
guerra, as tropas das nações civilisadas. 



Mal chegara a S. Borja o depois de feitas as com- 
municaçoes ao Capitão General e a distribuição das fa- 
mílias emigradas pelos povos orientaes, teve aviso o Ge- 
neral Chagas pelos bombeiros que deixara do outro lado, 
que André Artigas voltando das Lagunas para onde fora 
repellido, se estabelecera em Apóstolos e ahi aguardava 
reforços para vir hostilisar a nossa fronteira. Julgando 
muito bem o General que éVa de melhor táctica ir atacar 
o inimigo no próprio paiz, frustrando- lhe os designio?, do 
que espera-lo, e sem que o detivessem as consideraç(!les de 
estar adiantada a estação invemosa e de ignorar quaes as 
forças que tinha de combater, reunio 500 homens e trans- 
pondo o passo de S. Lucas, seguio a marchas forçadas para 
o indicado povo dos Apóstolos, onde assim que chegou, a 
2 de Julho, travou encarniçada peleja que terminou com 
vantagem nossa e grande perda doa contrários, havendo 
também alguma do nusso lado, e contuso o General Chagas 
no peito esquerdo. 

Forte desejo tinha este de ir em alcance dos fugitivos, 
tornando mais decisivo o triumpho ; mas o cansaço e ma- 
gresa da cavalhada, a perda de muitas munições por causa 



fe là 



— 21) — 

das chuvas e geadas, a noticia de vir próximo um corpo 
de cavallaria era reforço de Andresíto, e o receio de in- 
ternar-se mais com tão pequena força, cuja retirada 
facilmente poderia ser cortada, fôrâo outras tantas razOes 
que aconselharão Chagas a regressar para S. Borja, o que 
elle fez, deixando entretanto bem guarnecidos os passos 
do rio e exploradores que lhe avisassem de quaesquer in- 
tençSes do inimigo. 

O autor da Historia das MissZes apoiado na Memoria 
do Regimento de Santa Catharína, relata a acção de 2 de 
Julho de 1817 em Apóstolos, como tendo um desfecho 
muito diverso do que deixamos exposto, affirraando que 
tendo ficado André Artigas vencedor, obrigara Chagas a 
bater em retirada, contramarchando pelo mesmo caminho 
por onde avançara. NSo obstante respeitarmos as opiniões 
desses dous escriptores, oppôem-se as duas seguintqs razÔes 
a que prestemos credito a esta asserção : 

P. Às partes ofiiciaes do General Chagas ao Marquez 
de Alegrete, e ofRcio deste (20) datado de 6 de Setembro 
ao Ministro João Paulo Bezerra, no qual depois de noticiar 
a tomada da povoaç^io, as perdas dos combatentes e o 
ferimento do General, accrescenta ser-lhe agradável a obri- 
gação de novamente recommendar este a S. M. por tal 
feito, bem como seus officiaes e toda a tropa, cuja conducta 
foi muito digna de louvor. 

2*\ A difficuldade que encontrarão os d.us citados es- 
criptores para conciliar a pfetendida victoria de André 
Artigas com o facto da immediata internação deste para 
S. Carlos, 4 léguas mais longe, quando todas as razoes 
militavâo para que elle perseguisse activamente a retirada 
do General Chagas, procurando anniquilar a sua cansada 
tropa e cahir sobre a nossa fronteira ; ou ao menos mais se 
approximasse desta, para pôr em execução o seu plano 
favorito que Chagas fora embaraçar. I)e certo não admit- 
tirá tal hypothese, quem reflectir sobre a indole e qualidades 
guerreiras de que Andrésito deu sobejas provas em todo o 
decurso de sua carreira militar. 



(20) C irrespondencia existente no Archivo Publico. O ofticio do 
M. de Alegrete acha-se àpag. 2S da Revista Trimensaldo Instituto, 
tomo XLij,de 1879. 



— 30 - 

É pois fora de duvida que coube ao General Chagas 
os louros da victoria no referido dia ; e emquanto con- 
tinuava a sua administração sem desviar a attençâo da 
outra margem do Uruguay; recebia o Decreto de 24 do 
Julho, pelo qual o Soberano O elevava á effectividade do 
posto de Brigadeiro em recompensa dos serviços do anno 
anterior; e seis mezes mais tarde, o de 6 de Fevereiro de 
1818, promovendo-o a Marechal de Campo graduado. 

!Não foi de longa duração o seu descanso, pois que em 
principies de Março soube que o Chefe José Martinez 
Aranda organizava em S. Carlos uma forte divisão, des- 
tinando-se a ir reforçar D. José Artigas, que premeditav;: 
atacar a divisão do General Curado. Resolvido, como no 
anno anterior, a ir pessoalmente desfazer esse plano, o 
Marechal Chagas colloca-se á testa de uma columna de 12b 
homens e 2 bocas de fogo, sahe de S. Boija a 18 do 
Março, atraveâsa pela 3* vez o Uru . uay e com a maior 
resolução vence as 22 léguas que o sepárâo dos artiguenhos. 
Chegando adiante de S. Carlos no dia 30, tomou disposições 
para o combate na madrugada seguinte, o que realizou, 
cahindo pouco depois em seu poder a povoação, sem grande 
resistência e recolhendo-se os inimigos ao quadro formado 
pela igreja, coUegio dos padres e quinta, cujos edificios e 
grossos muros se achavão de antemão preparados com se- 
teiras, trancados fortemente os portSes e protegidos ainda 
por couros empilhados, tudo em ordem a offerecer a mais 
vigoroza resistência. Mas, ^ o inimigo era valoroso não 
menos o era seu obstinado adversário, o qual dispondo 
suas tropas fora do alcance das balas, estabeleceu aper- 
tado sitio, emquanto com a artilharia e por meio de par- 
tidas de soldados destemidos, procurava arromba? ou in- 
cendiar a porta principal da igreja e abrir brechas no 
muro da quinta. 

O commandante Aranda que, ao approximar-se a di- 
visão dj Marechal Chagas, sahira de S. Carlos deixando 
o commando a Serapio Rodrigues, para ir buscar o au- 
xilio de um corpo de cavallaria de 300 homens que es- 
tacionava a poucas léguas, no dia 2 de Abril achando-so 
de volta, acommetteu os sitiantes, mas foi logo destroçado 
pela nossa cavallaria, com perda do mesmo chefe Aranda 





— 31 — 

e mais 11 mortos (21); ao tempo que era também rechas- 
sada uma sortida da praça; e aproveitando o effeito mo- * 
ral desses revezes, ordenou Chagas que se desse o assalto 
no dia seguinte, designando a cada um o posto que lhe 
competia. 

Ao romper do dia começou uma lucta medonha, quali- 
ficada por uma testemunha ocular (22) como a mais encar- 
niçada que se pelejou em toda essa campanha» Emquanto 
08 inimigos dirigiSo das seteiras vivissimo fogo sobre os 
atacantes, estes sem hesitar e disseminados em varias par- 
tidas, procuravSo arrombar os portSes a golpes de machado, 
outros subiSo aos telhados por grosseiras escadas de mâo; 
outros já de cima das cumieiras das casas íuzilavSo os si- 
tiados, sendo por seu turno fuzilados por baixo através das 
telhas; outros ainda, munidos de archotes ateavâo um in- 
cêndio, que dahi a pouco lavrava com intensidade com o 
favor do vento e dominava o edifício da igreja. Por fatali- 
dade para os sitiados, dentro desta é que havia o depo- 
sito das muniçSes, e com a confusão da peleja nSo sendo 
retiradas em tempo, pouco tempo depois uma horrível ex- 
plosão vinha completar o medonho quadro, desabando o 
edifício c sepultando em suas ruínas grande numero de 
pessoas. 

Depois desta cftastrophe tornando-sc Impossível a re- 
sistência, o Tenente Coronel Serapio Rodrigues capitulou, 
salvando as vidas de 321homens o 290 mulheres e creanças; 
calculando-ee que a perda fora de cerca de 300 indivíduos, 
incluídos 140 pela explosão ; e do nosso lado 12 mortos e 
27 feridos, entre os quaes se contava o bravo Major Ca- 
millo Machado Bittancourt que faleceu dias depois. 

O cónego Gay narrando o ataque de tí. Carlos, diz que 
ahi se achava o Caudilho André Ârtigas, que durante o 
conãicto conseguira evadír-se fazendo uma desesperada sor- 
tida e passando por entre as linhas portuguezas ; nada po- 
rém encontramos nas participações officiaes que auxilie tal 
asserção. 



(21) V. Parte Official do M. de Alegrete de 5 de Junho de 1818. Rev. 
Fr. do Imf, tomo 42 pag, 32. 

(22) O Maior Manoel de Almeida Coelho. Memoria do extincto Reg. 
de SarKa Caiharina. 



\ 



— 32 — 

UjTiíi destas participaj^oes, o officio do Marquez de Ale- 
« greto, datado de 5 de Junho, depois de elogiar os offi- 
ciaes citados pelo General Chagas, conclue desta forma: 

«.... aos seus nomes tenho por obrigação accrescentar o 
do Marechal, devendo avaliar-so a importância desta ac- 
ção pela influencia que ha de ter necessariamente em to- 
das as outras operações. » 

£m attenção a esse feito foi, o Marechal Chagas despa- 
chado coramendador de S. Bento de Aviz por Decreto de 
4 de Julho desse anno, pelo Rei D . João VI, que adrait- 
tia como certa a sentença do grande épico portuguez : 

... .a virtude louvada vive e cresce, 
£ o premio a altos casos persuade. 



i 



VI 

Não se acobardou Andrezito com a severa lição de S. 
Carlos; dous mezes depois, á testa de 1500 homens e 6 
canhões, resolve passar o ÍJruguay pelo passo de Santa 
Maria, onde a 20 de Junho chegou a sua vanguarda ; gra- 
ças, porém, ás enérgicas disposições de Chagas, o furriel 
AntonioPinto que commandava o destacamento desse ponto, 
avizando do prompto e sendo soccorrido pelos outros pos- 
tos do rio, reunio força suí&ciente para desbaratar essa 
vanguarda, no acto de tentar a passagem, matando -lhes 
80 homens e aprisionando 10, com cujo revez André jul- j 

gou prudcnto retirar-se dando de mão, por emquanto, ao 
seu projecto de invasão (23), até que deixando passar 
mais tempo para adormecer a vigilância de nossas guar- 
das,' pudesse tentar alguma operação com mais probabili- 
dade de successo. 

Decorrerão dez mezes ; e em fins de Abril de 1819 An- 
dré Artigas, tendo-se preparado com admirável segredo, á 
frente de quasi 2000 homens, seguio pela serra de MissSes 
até o dostruido povo de S. Xavier perto da margem di- 
reita do Uruguay,vadeava este rio e, por marchas rápidas, 



«i 



(23) Oflacio ao Marquez de Alegrete em 27 de Julho de 1818, exis- 
tente no Arch. Publico. 



— 33 — 

as^nhoreava-se de S. Nicolau, dos outros 5 povos cha- 
mados de cima, e de todo o território ao norte do Pira- 
tiny, conseguindo desta vez illudir & vigilância do General 
que depositou confiança de mais nos destacamentos ao lon- 
go da costa, ou que se cansara de dar credito a repe- 
tidas noticias dictadas pelo medo. Este General, porém, 
que possuía em gráo swidOj valor, presença de espirito e 
outras virtudes que nunca soffrerào eclipse durante a guerra 
ou em todo o decurso de sua vida (24), assim que teve 
certeza da inesperada invasão^ avisou ao Capitão General 
(que era então o Conde da Figueira) que se achava em 
Bagé, bem como ao Coronel José de Abreu commandante 
da fronteira de Alegrete e ao General Patrício Camará 
que guarnecia Santa Maria da Boca do Monte ; e reunindo 
todas as suas forças, que pouco excediâo de 500 homens, 
passou o Camacuan, chegando em 9 de Maio á margem 
•do Piratinj; e eioquanto esperava os solicitados soccorros, 
tratou de cortar as communicaçSes do inimigo para o in- 
terior, atacando e dispersando suas partidas exploradoars. 

As pequenas vantagens alcançadas pelos nossos sobre 
essas partidas, induzirão o brioso Tenente Coronel Diogo 
Arouche commandante do regimento de guaranys a obter, 
se bem que com difiiculdade, licença do Marechal para 
atravessar o rio e ir acommetter o próprio Artigas que se 
achava fortemente entrincheirado em S . Nicolau ; pro- 
jecto ousado a que deu logo execução com grande intre- 
pidez, mas infeliz successo, por quanto ás primeiras des- 
cargas encontrou gloriosamente morte o distincto chronista 
da campanha de 1816, com geral consternação de nossa 
tropa, e que obrigou ao General a fazer tocar a retirada 
c repassar o Piratiny, o que eflFectuou com habilidade, ape- 
zar de hostilisado por Artigas, até qne acampou na mar- 
gem esquerda deste rio para ahi esperar o Capitão General, 
sem perder de vista os movimentos do inimigo. (25) 

O novo plano de D. José Ârtigas iniciado agora pela 



(^4) São palavras do Major Almeida Coelho autor da Memoria do 
£xt. Reg, de Santa Catharina, 

(25) Sobro a morte do Tenente Coronel Arouche F. Biogr. por J. 
J. M. de Oliveira. Rev. Trim, do Inst. tomo viie a citada Memoria 
do Major Coelho. 

TOMO XLYI, p. n 6 



— 34 -^ 

operação de ÁndrezitO; era tão audaz e bem concebido 
como fora o anterior. André invadindo as MissSes pelo 
norte attrahiria para esse lado as forças brazileiras e as 
iria entretendo com algumas guerrilhas, ao passo que o 
Caudilho com o grosso da divisão, seguindo pela serra de 
S. Martinho, iria surprehender o General Patrício Camará 
em Santa Maria da Boca do Monte ; e por um golpe de 
mio assolaria o Rio Pardo, Cachoeira, Triumpho e proxi* 
midades de Porto Alegre ; marcharia depois a reunir-so ao 
chefe Manoel Cahiré que a esse tempo passaria o Ibicuhy, 
e ambos iriâo encorporar-se ao exercito de D. José Artigas, 
entre Lunarejo e Sant'Anna, afim de cahirem sobre as 
forças do General Curado com todas as probabilidades de 
êxito. 

Por fortuna nossa, o Capitão Bento Gonçalves da Silva 
tendo, sm 6 de Maio, batido e aprisionado o famoso coronel 
Otorguez, houve serio transtorno na correspondência entre 
os Caudilhos, ficando Andrczito logo que occupou osj^ouo^ 
de cimãy indeciso sobre o que deveria fazer; nessa hesi- 
tação se achava quando o Capitão General Conde da Fi- 
fueira se reunio a Chagas e a José de Abreu na margem 
o Camacuan, em 27 de Maio, e áfirente de 1100 homens 
tomou a direcção de S. Luiz. A grande cheia do Piratiny 
difficultou muito a passagem da tropa, de modo que ao ap- 
proximar-se do povo, na manhã de 3 de Junho, o Capitão 
General que contava chegar sem ser presentido, apenas en- 
controu um official com 11 guaranys, os quaes me infor- 
marão que Andrezito passara o Piratiny algumas leguaa 
abaixo, talvez com direcção a S. Borja. 

A esta nova, o conde da Figueira destacou logo o co- 
ronel José de Abreu para ir-lhe no encalço, emquanto uma 
forte partida ia bater os occupantes de S. Lourenço, S. Mi- 
guel, S. João e Santo Angelo, conseguindo aquelle va- 
lente coronel derrotar completamente André Artigas, no 
no dia 6 de Junho, quando este transpunha o Camacuam, 
junto ao arroio Itacuruby, causando-lhe dolorosas perdas. 
Quanto ao commandante da partida, regressou nesse 
mesmo dia 6, conduzindo 25 prisioneiros que fizera noa 
mencionados quatro povos. 

Emquanto o marechal Chagas, mais perito nessas 



!V 



— 35 — 

campanhas, impaciente com as demoras, aconselhava o im* 
mediato acommettimento de S. Nicolau, deposito dos inva- 
Bores, o capitão general aguardava em S. Laiz noticias 
do coronel Abreu ; até que, no dia 10, sabendo da victoria 
de Itacuruby, poz-se a campo com penosa e demorada 
marcha, por causa da péssima estaçZo ; e a 12, ao che- 
gar a S. Nicolau, teve o grande desgosto, confessado 
em sua parte official, (26) de verificar que toda a 
guarnição inimiga se escapara durante a noite» re> 
passando o Uruguay no passo de Santo Izidro. Limi- 
tarão-se então as operações á perseguição dos fugitivos, em 
uma das quaes foi morto o tenente-coronel Vicente Tira- 
paié, nosso desertor de S. Borja, calculando-se a perda 
total do inimigo em mais de 700 entre mortos e prisio- 
neiros • 

Finalmente, no dia 24 de Junho, uma occurrencia 
simples, mas que equivalia a esplendida victoria, veio 
pôr fim a esta campanha : o valoroso André Taquary, 
mais conhecido por Andrézito ou Artiguinhas, foi apri- 
sionado por um sargento e um soldado nossos em Santo 
Izidro, na occasião em que, com alguns indios, preparava 
uma jangada para passar o Uruguay ; sendo logo enviado 
debaixo de boa guarda para o Rio de Janeiro, e ahi re- 
colhido á fortaleza de Santa-Cruz da barra. 

Participando ao governo todos esses acontecimentos, o 
conde da Figueira, rendendo preito á justiça, recommenda 
ao marechal Chagas pelo auxilio que assiduamente lhe 
prestara. 

O aprisionamento de Andrézito, incontestavelmente o 
chefe que gozou de mais prestigio entre os guaranys, 
perfeito vaqueano do território de Missões donde era na- 
tural, dotado de grande bravura e constância nos revezes, 
foi nm golpe profundo para D. José Artigas, avivado dahi 
a poucos mezes com a noticia do fallecimento do mesmo 
André, seu filho adoptivo ; e não podendo mais contar com 
emprezas por esse lado, dirigio todas as suas operações 



(S6) Officio ao ministro Thomaz António em 15 dd Junho de 1819. 
-Bev. Tr. do Jtist,, tomo XLII. 



— se- 
para as nossas fronteiras do sul. No anno seguinte, re- 
voltando-se contra elle o caudilho Ramires, e perseguindo 
o chefe Siti, partidário de Artigas, este, chegando ao 
Uruguay em fins desse anno (1820) supplicou ao mare- 
chal Chagas que lhe valesse, salvando da fúria do cruel 
Ilamires a pequena força que protegia a emigração de 
grande numero de famiiias. Chagas prestou logo todo o 
soccorro de que dispunha para a passagem do rio, e fa- 
zendo depor as armas a 27 officiaes e 235 praças que 
compunhâo a força de Siti, distribuio pelos povos de 
S. Lourenço e S. Miguel os emigrantes, em numero de 
1292 (27) entre velhos, mulheres e crianças, provendo 
coma maior solicitude a todas as suas necessidades e meios 
de transporte. 

Com estas providencias deu ainda Chagas um teste- 
munho da bondade do seu coração, o que faz contraste 
com a accusação de barbaridade que lhe assacárito os 
modernos chronistas ; e, para mostrar o apreço em que 
elle tinha os seus companheiros de trabalhos, recordaremos 
a dôr que teve quando falleceu em seus braços o joven 
e valente Diogo Arouche, e o pomposo funeral que fez em 
S. Borja a seus restos mortaes e do bravo major Ca- 
millo Bittencourt, transportadas por sua ordem dos ja- 
zigos em que se achavão, aquelle na margem do Pira- 
tiny, e este junto ao passo de S. Lucas, no Uruguay (28). 
Quanto ao próprio marechal, cansado de occupar um 
posto que exigira continua vigilância, actividade e outras 
qualidades que sua idade já não comportava, sentindo ne- 
cessidade de repouso, agora que se achavão em paz as 
fronteiras, pedio exoneração do cargo que exercera du- 
rante 12 annos, a contento de todos, e no qual, além de 
árduos trabalhos, despendeu de sua algibeira não pequena 
quantia com serviços de exploradores e bombeiros, para 
os quaes nunca lhe fornecerão verba, e delles não podia 
prescindir, para segurança do cargo que lhe estava confiado. 



(*I7) Officio de tenente-general Manoel Marqaes ao governo, em 
d de Fevereiro de 18il {Areh, PM,) 

(28) Memjriat do extincto Regimento dê Santa Catharina, notaa 
68 e 71. 



\ 



— 37 — 

Não nos foi possivel saber ao certo a data em que foi 
rendido no commando de Missões^ pelo coronel António 
José da Silva Paulete ; podemos, entretanto, affirmar que 
esse facto teve logar em principies de 1821, e pessoa res- 
peitável, que foi testemunha presencial do acto da nova 
posse, cDntou-nos que, era tocante o espectáculo que apre- 
sentavão a tropa formada e o povo agglomerado na praça, 
derramando sentidas lagrimas pela separação do velho 
chefe, que sempre lhes fôra amigo e pai extremoso. 

• 

vn 

Mal se estabelecera com sua familia na cidade de Porto 
Alegre, a crise por que passava então o Brazil e o reco- 
nhecido mento impedirão o descanso do General Chagas. 
Em 2 de Junho (lb21) a Junta governativa da Provincia, 
composta do Tenente General Marques de Souza, Joaquim 
Bernardino de Senna e António José Rodrigues Ferreira, 
nomeou-o para commandar o porto, villa e fronteira do 
Rio Grande, acto este que foi approvado pelo Ministro 
Quintella em 18 de Julho. Esse cargo exigia muita vigi- 
lância e energia, afim de obstar que desse porto e fronteira 
sahissem mantimentos ou petrechos de guerra para a Bahia 
e Montevideo, occupados por tropas Portuguezas, contrarias 
à independência e a favor dos quaes se inclinava o ex- 
Governador, e Commandantes das armas João Carlos de 
Saldanha, que afinal foi enviado preso para o Rio de 
Janeiro . 

No exercicio dessas funcçOes se achava o General Chagas, 
quando foi proclamada a independência, successo que fes- 
tejou como bom patriota que era; sendo dous mezes depois, 
em 8 de Novembro (1822) promovido á effectividade do 
posto de Marechal de Oampo ; e em 1 de Dezembro, pela 
Coroação do 1 .** Imperador, agraciado com a ordem dos 
beneméritos, creada nessa mesma data. 

Uma elevadissima prova de apreço que lhe foi conferida 
pelo povo Rio Grandense, obrigou-o a deixar o cargo que 
occupava. O Decreto de 3 de Junho convocara uma Assem- 
bléa Constituinte para assentar os alicerces do futuro 



— 38 — 

Império, e á Província de S . Pedro do Sul tocara dar 3 
Deputados ; correndo a eleiçUo com o maior enthusiasmo 
do j ovo, obtiverão o honrozo mandato^ o citado Joaquim 
Bernardino, o Dr. José Feliciano Fernandes (Pinheiro depois 
Visconde de B. Leopoldo, que se achava então na Europa) 
António Martins Bastos e o Marechal Chagas Santos, que 
tomou assento até o dia 22 de Maio de 1823, em que 
apresentou-se o Dr. José Feliciano. (29) Por essaoocasiâo 
occorreu na Camará um incidente muito honroso para o 
General : Lera-se um officio em que o Dr. José Feliciano 
dixia que, constando-lhe haver sido eleito pelas duas Pro- 
víncias de S. Paulo e do Rio-Grande do Sul, optava por 
esta ultima, mas que não possuía diploma para enviar. O 
General Chagas pedindo a palavra, declara que da sua 
acta constava a legitimidade da eleição do Dr. José Feliciano, 
e portanto lhe competia a cadeira occupada até então por 
elle Chagas. A Assembléa assim o resolveu na sessão do 
dia seguinte, declarando que ficava magoada de ver-^epri" 
vada da companhia do Deputado Chagas Santos. (30) 

Como prova dos bons desejos que o animavão a favor 
dessa generosa Província, diremos que, antes de vir para 
a Corte, o Marechal Chagas officiou ás Camarás Municípaes, 
pedindo que lhe indicassem os assumptos que julgavão 
tendentes á prosperidade do Ilio-Grande do Sul. (31) 

Nomeado nesse mesmo anno, em 12 de Outubro, Go- 
vernador das Armas de S. Paulo, teve ensejo de ir fazer-se 
estimar em outra Província do Império, ganhando de todos 
tal consideração que, sem envolver-se no pleito eleitoral 
disputado por notável plêiade de Paulistas distinctos, 
obteve a gloria de ser eleito um dos Deputados á Assembléa 
Geral na 1* Legislatura, de 1826 a 1829. Em todo essepe- 
riodo fez sempre parte da CommissSo de guerra e marinha^ 



(99) Vem a propósito recordar qae,doas Generaes Flaminenses tèm 
recebido da briosa Província do Rio>Grande do SaU provas dessa 
ordem, como recompensaa brilhantes serviços: Chagas como Deputado 
á 1.* Assembléa Brasileira em 19&, e o Conde de Caxias como Sena- 
dor, por qua<i unanimidade de votos, lof o após a Pacificação, em 1845. 

(90) y. O Btpelho, da Corte, dos dias 28 e 27 de Maio de 1823. 

(31) V. Acta das Sessões da Camará Municipal de Porto Alegre, em 
d7 de Novembro de 1822. 



— 39 — 

tendo por companheiros os seus amigos Cunha Mattos e 
HoUanda Cavalcanti ; devendo notar-se que, de todas as 
sessSes da legislatura^ apenas faltou a uma só, e essa mesma 
justificou por officio. 

Não nos foi possível/ por falta de dt>cument0S| alcançar 
noticia circumstanciada dos actos por elle praticados em 
S. Paulo e que tão expressivamente fôrâo reconhecidos pelos 
seus generosos habitantes; sabemos apenas^ que alliando 
sempre da maneira a mais perfeita, ofortiter in re com o 
suavifer in modo^ o Marechal Chagas teve occasiâo de pra- 
ticar muitos actos de justiça e de beneficência, attrahindo 
sympathias profundas e indeléveis. Tem decorrido mais de 
meio século depois que elle deixou a provincia de S. Paulo, 
e esse periodo é mais que sufficiente para apagar a me- 
moria de beneficies ; entretanto pára em nosso poder uma 
carta recente do venerando Dr. Paulo A. do Valle, caracter 
e illustração de alto valor, o qual referindo^se ao illustre 
Fluminense, assim se exprime: 

c Posso affirmar-lhe que o Marechal Chagas residio 
alguns annos em S. Paulo, servindo como Governador das 
armas de 1823 a 1826, com aprazimento de todos e esti- 
mado por seu caracter nobre e benévolo ; e de tão bons 
créditos gozou que, tratando se de eleger Deputados na 
1. ^ Legislatura, mereceu elle um logar entre os mais dis- 
tinctos Paulistas, como Paula Souza, Arouche e Fernandes 
Pinheiro, sendo preferido ao próprio Feijó- que ficou sup- 
plente. » 

Outro distincto Paulista cultor das letras, o Major 
Bittencourt, que conheceu o General Chagas, affirmater 
sido elle um liomem de principios severos, porém, geral- 
mente bemquisto pela amenidade de seu trato e sua firmeza 
de caracter. 

Taes qualidades erão devidamente aquilatadas pelo Im- 
perador D. Pedro I que o com honrava a sua amizade e 
ainda por occasiâo da chegada da 2^ Imperatriz, em 18 de 
Outubro de 1829, distinguiu-o com o officialato do Cruzeiro. 

VIII 

Agitados corriSo então os dias na nossa capital. O m&o 
êxito de alguns negócios internos e externos, aggravado 



- 40 — 

com a noticia que nos chegou, da queda dos Bourbons em 
França; activou o incêndio das imaginações exaltadas e a. 
luta entre os grupos politicos; de tal modo que, difficul- 
tando a marcha do govemO; os ministérios por melhor inten- 
cionados que fossem; succediâo-se com pequenos enter- 
yallos. 

Por occasião de organizar-se um desses ministérios; em 
fins de 1830; foi por Aviso de II de Dezembro designada 
para assumir as funcçSes de Commandante das armas da 
Corte o Marechal Chagas Santos; e esse cargo alem da. 
grande importância que lhe era inherentC; achava-se muito 
complicado por dous assumptos delicados que muito oc- 
cupavSo então a attenção publica: a dissolução dos três 
batalhões de estrangeiros engajados (2.** de granadeiros; 27'^ 
de fusileiros e 28* de caçadores) ordenada por Decreto de 
20 desse mez; e o exame da nacionalidade de vários oí&ciaes 
do exercito. 

Na solução desses problemas exercia elle a sua habitual 
prudência e justiça; quando infelizmente occorrerão os 
celebres conflictos de 13 e 14 de Março de 1831, conhecidos 
pelas noites das garrafadas, entre nacionaes exaltados e 
portuguezes que festejavão o regresso do Imperador de sua 
viagem à Provincia de Minas; as medidas tomadas pela» 
autoridades afim de garantirem a- tranquillidade, augmen- 
tarão a impopularidade do ministerio; que entendendo 
dever demittir-sc; arrastou na sua retirada todos aquelles 
de sua confiança e quC; como o Commandante das armas 
erSo accusados do grave delicto de serem dedicados á pes- 
soa de D. Pedro I. Na realidade o Marechal Chagas o era; 
e o Imperador que o tinha nessa conta e sabia a que se 
arriscavão os que lhe mostravão affeição, vendo-o no Paço 
auando o foi cumprimentar; tomou-o de parte e declarou- 
Ihe que, não desejando comprometter os seus amigos, resol- 
vera exonera-lo, nomeando em sua substituição o Brigadeiro 
Francisco de Lima e Silva; o que se realisou por Decreto 
de 20, sendo-lhe por outro DecretO; datado de 25; conferida 
a Commenda da Rosa; não obstante haver elle õ mezes antes^ 
declinado a favor de seu filho mais velho^ a Commenda de 
Christo com que D. Pedro o queria agraciar. 

Uma simples observação dará a medida do respeito cm 



I 

) 



B^ 



I. 



— 41 — 

que era tido o Marechal Chagas. Occupando um logar ele- 
vado, que se achava em grande evidencia nessa época, e 
sabendo-se a confiança que merecia de um governo odiado, 
08 periódicos exaltados que não poupavflo nem ainda os 
mais puros caracteres, nunca puzerâo em duvida as suas 
virtudes sociaes e privadas, averbando-o apenas de amigo 
dos LuzitanoH ; mas esse sentimento, longe de ser reprovado, 
era antes um dever de honra, pois mostrava a gratidão quo 
elle dedicava ao povo de que descendia e em cujo seio 
passara saudosos annos de sua juventude. 

Logo depois de sua exoneração, os acontecimentos sue- 
cederão- se com vertiginosa rapidez, sendo o principal delles, 
o nobre acto da abdicação do Imperador; e o velho soldado, 
desgostoso e decidido a recolher-seá vida privada, requereu 
sua reforma, que lhe foi concedida pela Regência em 11 
de Setembro de 1832, no posto de Tenente- General com o 
respectivo soldo, visto contar mais de ÕO annos de serviço. 

Não satisfeito com esse passo, e ambici nando viver longe 
da fermentação das ambições e dos ódios políticos, despe- 
dio-se dos amigos da Corte e com sua familia retiix)u-s6 
para a cidade de Porto- Alegre. 



IX 

Não éra, porem, chegada a estação do repouso; o destino 
reservava-lhe ainda grandes e os mais árduos trabalhos de 
sua vida. 

Pouco mais de um anno habitava emPorto-Alegre, quando 
um accesso cerebral cortou a existência de sua esposa, a fiel 
companheira de 36 annos de bôa e de má fortuna; e o 
extremoso coração do velho General sangrava ainda por 
tão cruel perda, quando o brado revolucionário de 20 de 
Setembro de 183Õ abria nova e profunda ferida no seu 
amor estremecido pela pátria, que elle sempre sonhara 
grande e forte pela união de suas provincias. 

A espada valorosa do Coronel Bento Gonçalves, tão 
temida pelos nossos inimigos, foi nesse dia desembainhada 
em defeza de uma causa injusta: a exigência de que fosse 

TOMO XLYI, P. II 6 



— 42 - 

deposta uma autoridade legal; exigência que devia mais 
tarde transformar se na separaçlo da provincia^ para consti- 
tuir uma nova Republica. 

O Império estremeceu com este acto de loucura, e a 
Provincia di^dio-se logo em dous grupos de adversários, 
tanto mais terriveis quanto mais fortes erâo os anteriores 
laços de amizade e de parentesco. Ás autoridades supe- 
riores forão constrangidas a fugir; a administração foi usur- 
pada pelo 4.** Vice-Presidente Dr. Marciano^ favorável á 
sedição; a cidade de Porto-Alegre occupada por forças 
rebeldeS;VÍo-se abandonada por muitas familtias que, sacri- 
ficando commodos e bens, procurarão refugio longe da capi- 
tal e mesmo longe da Provincia. 

Muito conhecidas erão, de todos os chefes revoluciona- 
rios; ns idéas firmemente monarchicas do Tenente General 
ChagaS; assim como este bem sabia que não era prudente, 
com suas idéas, conservar-se no foco da rebelliãò; entre- 
tanto não pensou em aíFastar-se da cidade, pois que se ahi 
havia perigo, seu logar era junto do perigo, afim de tentar, 
quando fSsse opportuno, alguma cousa a favor da causa da 
legalidade. 

Um historiador írancez fazendo o elogio de Mantaigne, 
diz que era tanta a veneração que inspirava o grande phi- 
losopho que, durante o período das guerras religiosas, 
quando todos os fidalgos erão obrigados a encerrarem^se 
em seus castellos, elle vivia em plena liberdade, igual- 
mente respeitado por catholicos e huguenotes. Da mesma 
sorte o General Chagas gozava de tal consideração, que 
Bento Gonçalves, logo depois do rompimento, mandou um 
oflScial a noticiar-lhe que, ordens formaes havião sido 
dadas no sentido de ser por todos respeitada sua casa e 
tudo o qae lhe pertencesse ; ao que o intransigente mi- 
litar respondeu, incumbindo ao official de dizer ao chefe da 
dessidencia que, o velho General Chagas diãpensava qualquer 
honra ou favor da rebdlião, porquanto fiel sempre á causa 
da entegridade do Império, estava prompto a sacreficar por 
eUa os poucos dias que lhe restavão de existência, (32) 



(32) Este facto nje foi affirmado pelo falleeido Conselheiro e Senador 
Cândido Baptista de Oliveira, genro e admirador do caracter e ser- 
VÍÇ03 do General Chagas Santos. 



— 43 — 

Em os nove mezes decorridos de Setembro de 1835 a 
Junho de 1836 poucos passos adiantou a dissidência; 
além de alguns combates sem importância ; a sede con- 
tinuava em Porto-AIegre, e os chefes occupados na orga- 
nização e propaganda, confiavão no espirito pacifico dos 
habitantes da cidade, que consideravSo inteiramente ads- 
trictos á sua causa. Essa tranquillidade, porém, era apenad 
apparente e filha do premeditado plano de vários cidadãos 
influentes, como os Generaes Chagas, João de Deus, Dr. 
José Feliciano, Maciel, e outros que, sob admirável se- 
gredo e prudência, esperavão o momento propicio para rea- 
lisarem uma reacção. 

Chegado este, preparados os elementos e contando-se 
com o apoio de alguns inferiores do 8* batalhfto e do sol- 
dados legaes prisioneiros, soou o grito na noite de 14 para 
15 de Junho, cabendo ao General Chagas grande porção 
da responsabilidade do plano e sua execução ; o qual co- 
meçou sendo atacadas as guardas, soltos vários officiaes 
aprisionados (entre os quaes o bravo Major Manoel Mar- 
ques, que é logo nomeado major da praça), preso o Dr. 
Marciano e mais autori 'ades il legaes, e repellidos para 
fora da cidade os adeptos da rebellião ; feito o que, Cha- 
gas com a maior modéstia e consultando em tudo o Ma- 
rechal João de Deus, seu velho amigo, consegliio que este 
assumisse o commando da força legal e fizesse as parti- 
cipações ao governo geral ; mas o illustre vencedor de Iby- 
raocay, possuindo muitos louros para querer tomar os que 
competião ao seu amigo, esquivou-se logo após a reacção 
e entregou-lhe o commando, allegando suas enfermidades. 

Este modo de proceder do General Chagas, deu causa a 
que muita gente ignore o conspícuo papel que lhe foi dado 
representar nessa grave emergência, e temos lido relações 
desse periodo de nossa historia em que seu nome nem ao 
menos é citado. E fácil, porém, verificar da correspon- 
dência existente no Archivo Publico, nos jomaes da época^ 
bem como em outras fontes seguras (33), que era o Tenente 



(Hâ) Eatre outros*. Y. Mercantil de P. Aleçre de 15 de Junho; 
Jomaes do Commercio da Corte do 2.» semestre de 1836; as ordens do 
Dia do General Chagas de Julho desse anno; a Biographia do V. de S. 
Leopoldo pelo Cónego Pinheiro, na Rev. Tr.do Inst. tomo 19 pag. 140. 



^ 



U 



~ 44 — 

General Chagas quem dirigia a construcçSo das trincheiras 
ao redor da cidade, quem se achava á testa das forças 
quando os rebeldes fizerâo as intimações e ataques de 27 
de Junho a 20 de Julho, durante os quaes, apesar de seus 
adiantados annos, o denodado ancião desenvolveu a mais 
admirável actividade^ energia e valor, providenciando sobre 
tudo, elevando os ânimos por meio de palavras, exemplos 
e proclamações, achando-se sempre no ponto o mais arris* 
cado, e praticando 

. . . .como sábio capitão, 

Tudo corria e via e a todos dava 

Com presença e palavras coração. (3J) 

Effectuada a restaurarão, as forças contrarias estaciona- 
rão fora da cidade, sitiando-a; e poucos dias depois che- 
gando Bento Gonçalves com reforços approximou-se das 
trincheiras, intimando aos defensores que se rendessem até 
o pôr do sol do dia 27. Desprezada a intimação, Bento 
Gonçalves ordenou um ataque & linha de defesa, que ficando 
sem resultado, foi repetido nos dias seguintes e princi- 
palmente no dia 30, em que a cidade foi acommettida a 
um tempo pelos lados de terra e do rio; mas com tal intre- 
pidez se houverão os legalistas que, depois de trez horas 
de porfiada peleja, fôrão os revoltosos repellidos com gran- 
de perda. Depois de descansarem alguns dias afim de 
repararem os prejuízos, voltarão os sitiantes á carga por 
diversas vezes, sendo constantemente batidos, merecendo 
especial menção a victoria de 20 da Julho, em que rechas- 
sado com vigor o ataque, os defensores tomando aoffen- 
siva, forão em perseguição dos rebeldes até os Moinhos de 
Vento, destruindo as trincheiras que ahi existião. 

Longa seria a enumeração de todos os trabalhos que 
pesarão sobre os briosos moradores de Porto Alegre, que 
revelarão excellentes qualidades ci viças e militares; entre- 
tanto, quem emprehender a tarefa de escrever a historia 
dessa revolução (trabalho esse já conscienciosamente ence- 
tado pelo illustrado Sr. Conselheiro Âraripe) (35), encon- 
trará mui valiosos subsidies nas diversas Ordens do Dia do 



(d 4) Ciimòea-Luxiadas canto IV. est. 36. 

çoò) Guerra ciril do Rio Grande do Sul. iev. Tr. dolnst. tomo 
43. 3.«e4.« trim. 



\ 



— *:> — 

General C^;»^»?, xak^ píVirli!s*^V«i 5^ 1 eT òc Ju»N\ <^\Ihw^ 
tuido o poTo a pyr&Mr ca deft>$ji «!& ci.:a^;^ <» loux^iu^Uv^ 
pda eompaixlo e psedade usada com o» cvwirarkv^ iiH>rt»« 
e íerídos: e na de %, c»>:i£T«tulaDdo-«e )vK^ tr.uiupK<^ d^^ 
20 e Dotíciando a vinda do Commamianu^ da» AmuM^ IW«\I\> 
3lanoel com reforços; doe imentois essM quo t>>r^i^ tran^ 
críptos no Jamal do Comm^rclo da Corte de ái^ e de oO de 
Agosto desse anno. 

A chegada do novo commandante das armas que, al^n* 
donando a cansa da dissidência, vinha auxiliar a Io^hH- 
dado com sen prestigio, dou nova face ás oporav^V» do^ 
rebeldes, que, levantando o assedio da caintnK iratdríto 
de formar outros planos, até que, a 4 do Outubro, o 
mesmo Bento Manoel os derrotou na memorável ho<;1\o da 
ilba do Fanfa, no rio Jacuhy, fazondo-lhos r)("H) jumaio- 
neiros, entre elles o chefe Bento Gonçalves e Oiiofro Piroí| 
que seguirão logo para o Rio de Janeiro. 



X 



A convenção de 4 de Outubro o o aprÍBlonamonio do 
Bento Gonçalves, acontecimentos que parociilo dc^vor ter- 
minar a revolta, produzirão o singular roMuIt/ido do 
alterar-lhe a essência, aprescntando-a Bob ní)V0 caracior : 
a proclamação da republica de Piratinim ; facto eHt(3 (jtui 
verifícou-se na villa desse nome, no dia 6 do Novembro 
de 1836. 

Dous mezes depois, assumindo o briga^leíro Ant<?ro a 
presidência em Porto-Alegre, o povo, ríJuníndo->M) mn 
frente ás casas dos generaes Chagas, Jo3o de iMtm^ major 
Marques e outros que se havíão distinguido na di^feza da 
cidade, manifestoo-lfaes soa gratidão jpor m^;io d/» íU'â*\íí' 
maç5es e musicas ; e tendo o general C7iagas nfMtm mmwo 
dia dado a sua demissão de commandanU; da ((iÈfintU;h9, 
o novo presidente rogou-lbe que, dsanhp maU ufn$i jffff^fi 
do seu patríotimio, conservasse eim^ ^'^^it/h ^^f ^r^^l ^^f 
assignaladoe serviços prestara; accedendo, hfttiíii, o f*'MiO 



— 46 — 

general, com regozijo geral da população porto-ale- 
grense. (36). 

Profundamente despeitado ficara o commandante das 
armas Bento Manoel pela exoneração do ex-presidente 
Araújo Ribeiro, seu parente e amigo, a ponto de correr 
o boato que elle projectara oppor-se á posse do seu sue- 
cesBor ; e, posteriormente^ tendo alguns de seus actos in- 
spirado serias suspeitas a Antero (37), resolveu este vi- 
sitar vários pontos da campanha, para o que, sahindo da 
capital, autorizou ò general Chagas, por acto de 10 de 
Fevereiro, a que, durante sua ausência, providenciasse 
sobre tudo o que fôsse urgente, visto achar-se na cidade 
do Rio-Grande o vice-presidente, Dr. Américo Cabral. 

As consequências desta viagem fôrão inesperadas : 
Bento Manoel, resolvido a bandear-se novamente para a 
rebellião, mas, querendo prestar a essa causa um serviço 
notável, esperou o presidente Antero perto de Caçapava, 
e ahi, no dia 23 de Março, á testa de um esquadrão de 
lanceiros, o prendeu, conduzindo-o para Alegrete ; e, logo 
após, escrevendo ao general Chagas e outras pessoas de 
Porto- Alegre, deolarou-lhes que, tendo em seu poder o 
brigadeiro Antero, assegurava que a guerra civil ficaria 
concluida, se assumisse a presidência o Dr. Joaquim Vieira 
da Cunha, o commando da guarnição o brigadeiro Gaspar 
Menna, e posto em liberdade o caudilho oriental Fructuoso 
Rivera (38). 

Tão graves noticias aterrarão o animo dos legalistas ; 
mas Chagas, em vista das instrucçSes que tinha, e des- 
envolvendo a energia que lhe era própria em occasiSes 
difficeis, officiou immedíatamente á Camará Municipal de 
Porto-Alegre, para que, reunindo-se em acto continuo, 
desse posse da presidência ao Dr. Américo ; deu ordens 
para reforçar as trincheiras, augmtutando a sua artilha- 
ria e defensores ; multiplicou de vi^ancia, por desconfiar 



(36) y. Sentinella da Monarchia de Porto- Alegre de 13 de Ja- 
neiro e Jom. do Commercio de 8 de Fevereiro de 1837. 

(37) Officio de Antero ao gsverno, datado do Rio Pardo em IS 
de Março. (Árch, PubL) 

(38) Officio do Dr. Américo Cabral, datado de 15 de Abril {Árch. 
PubL) 



^ 



— 47 — 

que 08 rebeldes tinhâo alguns adeptos na capital ; e, 
tendo-se dado a fuga de Rivera^ fez prender o brigadeiro 
Gaspar, sobre o qual recahião vehementes suspeitas de 
haver favorecido essa fuga, e de manter correspondência 
com Bento Manoel. Para melhor orientar o governo acerca 
do estado da província, Chagas, além das communicações 
officiaes, fez partir para a Oôrte o Major Manoel Marques, 
incumbindo-o de narrar os factos que se haviSo dado o 
de que fora testemunha (39) • 

Emquanto isto se passava na capital, o vice-presidente 
Dr. Américo, na cidade de S. Pedro proclamava aos 
rio-grandênses, exhortando-os a que confiassem nas auto- 
ridades legaes, concluindo por estas palavras : « A vossa 
capital tranquiUa descçLuça á somhra da vigilância do iH" 
cançavel general Chagas, que, com stias acertadas provi' 
denciaSj mais de uma vez tem feito trtumphar das cavilosas 
insidias dos malvados (40). 

Não menor abalo causarão taes noticias no Rio de Ja- 
neiro; e a regência, approvando plenamente todos os seus 
actos, nomeou o general Chagas presidente e c imman- 
dante das armas, por decreto de 14 de Abril; dando-se 
a coincidência de que nesse mesmo dia, em Alegrete, o 
chefe António Netto era acclamado general em chefe do 
exercito republicano, e resolvia, como seu primeiro feito 
d'armas, a conquista de Porto* Alegre. 

Com effeito, reunindo em sua marcha cerca de mil 
homens e alguns canhões, Netto apresentou-se diante da 
capital no dia 10 de Maio ; a 1 1 intima a seus defensores 
para que, no prazo de 48 horas se submettâo, reconhe- 
cendo a independência da republica; e, á vista do des- 
prezo com que foi recebida a intimação, manda assestar 
uma bateria no alto da Caridade, rompendo a 13 o fogo 
contra a cidade, o qual foi respondido com vantagem 
pela artilharia das trincheiras ; no dia 15, restabelecida 
a bateria, ordena Netto um ataque que ó rebatido com 



(39) Officios do general Chagas, do Dr. Américo e da Camará Mu- 
nicipal de P. Alegre. {Arch. Publ.) 

(40) Jornal do Commercio da Corte, de 22 de Abril e 24 de Maio 
de 1837. 



— 48 — 

denodo ; a* 16, sabendo que Chagas recebera da Corte a 
nomeação de presidente, dirige-lhe uma carta com varias 
proposiçSes, de que nâo tem resposta, seguindo-se no dia 
18 um novo ataque, que é também rechassado; e, no 
acto de retirarem-se os rebeldes, uma vigorosa sortida 
de ÕOO homens os foi hostil isando até uma légua de dis- 
tancia, causando-lhes sensiveis prejuízos (41). 

No dia 24 chegou a Porto- Alegre o chefe da nossa esqua- 
drilha Grecnfell, que havendo cora o Coronel Silva Ta- 
vares, concordado em uma suspensão de hostilidades com o 
chefe Crescencio em Pelotas, vinha submetter o ajuste á 
approvação do Presidente ; porém este duvidando da sin- 
ceridade dos rebeldes, declarou peremptoriamente a 
Gree ifell que, a cousa alguma attenderia sem que Crescencio 
depondo as armas ^ implorasse do Regente, em nome do 
Imperador, o perdão para si e todos os seus (42). 

Censurarão alguns o facto de ser assim interrompida 
essa negociação ; mas o futuro deu razão ao experiente 
General Chagas e á perspicácia com que apreciou as in- 
tenções de Crescencio, porquanto muitas propostas idênti- 
cas, feitas depois a seus successores, nada mais erão (diz 
o Sr. Conselheiro Araripe na sua citada obra) do que 
meios com que huscavão desviar algum golpe imminente, ou 
encobrir algum tentamm dependente de preparos. Mesmo 
pouco tempo d^apois, em um officio datado de 14 de Junho, 
o próprio bilva Tavares, um dos negociadores, dizia estar 
convencido de haver Crescencio obrado de má fé, querendo 
apenas illudir os legaes (43). 

O Governo da Regência, segundo às noticias que re- 
cebia da Provincia, ora se inclinava a uma politica 
enérgica e collocava na Presidência um militar, ora pre- 
ferindo um regimen de promessas e conciliação escolhia 
nm cidadão sympathico e amigo da paz ; e por esse motivo, 
antes que o Pi^esidente Chagas pudesse conseguir alguma 



(41' Todos estes factos oonstSo da correspondência official exis- 
tente no Archivo PubUco. 

(43^ TguAl procedimento teve o General Bar^o de Caxias na con- 
ferencia com Bento Gonçalves, em príncipios de 1815 (V. <viierro 
Civil do Rio Grande por Araripe cap. áà $ V.) 

(tíl) V. Jornal do Commercio da corte, de 14 de Jolho de 1637. 



— 49 — 

coasa de importante, teve seiencia de que lhe fora dado 
um suceessor na pessoa de Feliciano Nunes Pires^ ejdadSlo 
respeitável, muito no caso de presidir em uma época 
normal, porem inteiramente impróprio para tal occa^iilio. 
Ao chegar o navio que conduzia, em 6 de Junho, o novo 
Presidente, foi grande o desapontamento do povo que os- 
perava em logar delle, reforços para a legalidade, e por 
isso 01 ânimos tornarão uma attitude hostil; mas o Ue- 
neral Chagas com sua consumniada prudência e auxiliado 
por outras pessoas, aplacou os espiritos, e Feliciano as* 
sumio nesse mesmo dia a authoridade (44). Quanto a 
Chagas, desapprovando a nova marcha dos negócios o 
precisando de um periodo de tranquillidade, deixou a 
cidade de Forto-Âlegre onde passara dias tilo attribulados, 
e veio para a Corto, onde se achavSio ontílo quasi todos os 
seus filhos. 



XI 

Como era fácil de prever, Feliciano Pires nenhum ro» 
sultado obteve do suas medidas conciliatórias ; e tSo codo 
lhe chegoa o desengano que, onze dias apenas depois do 
ter assumido a administraçilo, officiou ao Governo rtíquí- 
sitando tropa e meios de guerra (45); o este reconhecendo 
também que perdera o seu tempo com a politica do mo- 
deração, quatro mezes depois, substituío a Feliciano pelo 
Marechal António Elisiario que exercia entilo o cargo do 
commandante das armas da Corto. Para prohcncher esto 
logar foi nomeado o velho Tenente General Chagas, que) 
debalde allegou sua reforma, idade avançada o noccHsi* 
dado absoluta de descanço ; mas instado pelo Uogento, tovo 
de ceder á invocação do seu nunca desmentido patriotismo, 
e de novo foi occupar o posto que exercera scite annos 
antes, porém, que agora mais pesava, porquanto a ello 
competia preparar, armar o instruir, oh contingentes <lo 



(44) V. semanário do Ciucinriúto ri* 27 d« ÍO de Agr;«to áti 1H37. 

(45) OfBcío dalad j d<9 17 do iunbo d« 1H:)7, ^xinUsni^ no A.rehiv>> 
Publico. 

' TOtfO ZLTf, P« II 7 



— 50 — 

recrutas e corpos quo erio remettidos para o Rio-Grande 
do Sul. 

Em 6 de Outubro assumio elle esse cargo e nesse mesmo 
dia o Marechal Elisiarío despedindo-se da guarnição da 
Corte, terminava assim a sua ordem do dia : 

« Eu teria bastante a sentir, se por ventura uma parte 
dos militares da guarnição não me acompanhasse a ser- 
vir no sul; e se a outra parte não ficasse commandada por 
um illustre General, cujos serviços tem merecido grande 
nomeada. » 

Um anno e dous mezes esteve o velho General firme 
no seu posto de confiança ; mas o sacrificio tomando-se 
superior ás suas forças e bôa vontade, em Dezembro de 
1838 dirigindo- se ao Ministro Sebastião do Rego Barros, 
expoz-lhe a impossibilidade em que se achava de dedicar- 
se á causa publica, em consequencio do cansaço e pade- 
cimentos inherentes a quasi 80 annos de idade. 

A tfío justas considerações attendeu o Governo, publi- 
cando dous Decretos, datados ambos de 5 desse mez : em 
o 1*, a Regência exonerando-o, louvava^o pelo bom serviço 
prestado no commando das armas da Corte ; em o 2o, a 
mesma Regência em nome do Imperador, tendo em consi- 
dei ação os rehvantes serviços por elle prestados em favor 
da ordem publica e da integridade do Império, em dijfferen- 
tes commissSes que exerceu^ concedior-lhe melhoramentos de 
reforma no posto de Marechal do Exercito. 

Essa recompensa era de ordem muito elevada ; e para 
dar-lhe o verdadeiro valor, bastará lembrar que o De- 
creto de 6 de Julho de 1812 prohibia as promoç(!les aos 
officiaes reformados; mas a Assembléa Legislativa em 
varias sessões de 1838, reconhecendo que era dever do- 
Estado galardoar serviços extraordinários prestados nas^ 
circumstancias especiaes dessa época, concedera á Regên- 
cia a authorizaçSo, de que esta se prevaleceu para dar tes- 
temunho do apreço em que tinha os serviços do benemé- 
rito General. 

Esses dous Decretos terminarão a laboriosa vida publica 
do Marechal Francisco das Chagas Santos, que desde então 
entregue ao amor de seus filhos, vergado ao peso dos annos, 
mas com a consciência leve e tranquilla, vio com placidez. 



— 51 — 

approximar-8e o momento solemne em que a morte, prece- 
diaa por violenta febre, o arrebatou em 12 de Outubro de 
1840y sendo no dia seguinte sepultado na Igreja de S. 
Francisco de Paula. 



xn 

A morte occultando-o de entre os vivos^ nSo conseguio 
rouba-lo inteiramente ao lar da familia. Sua memoria 
venerada, semelhante ás armaduras do ferro dos antigos 
senhores feudaes, que ainda impunhSo respeito aos novos 
castellãos, continuou a presidir os actos de seus descen- 
dentes, dirigindo-os com passo seguro pela senda da honra. 

Da extremosa esposa, falecida em 1834, ficarão-lhe 2 
filhos e 4 filhas que todos lhe sobreviverão^ a saber: 

I. D. Francisca das Chagas de Souza e Mello nascida 
em 1800, casou com o Conselheiro e Senador Manoel Feli- 
sardo de Souza e Mello, de benemérita memoria; enviuvou 
em 16 de Agosto de 1866 e falleceu em 10 de Março de 
1870, profundamente pranteada por todos aquelles que 
puderão avaliar de perto as jóias de finissimo quilate que 
adornarão sua bella alma. 

n. Francisco de Assis Chagas; niiscido em 1802, seguin- 
do a carreira de seu pai, assentou praça em 1819 no 
famoso corpo de DragSes de Rio Fardo, mereceu do Conde 
da Figueira honrosa menção pelo seu comportamento na 
batalha de Taquarembó em 22 de Janeiro ae 1820, sendo 
logo promovido a Alferes; foi em Outubro de 1830 agraciado 
com a Commenda de Christo, em attenção aos serviços de 
seu pai; gozou sempre os foros de homem de bem em sua 
vida publica e privada, e falleceu em Porto- Alegre, no posto 
de Tenente Coronel do Estado Maior de P. Classe, em 24 
de Agosto de 1864. 

III. D. Maria José das Chagas Bomtempo, nasceu em 
1805, foi casada com o Conselheiro Francisco Xavier 
Bomtempo e falleceu no Rio de Janeiro em 1 de Janeiro de 
1859, deixando também grata recordação pela bondade e 
outros dotes que f5rão ornam ento de seu coração. 



> 



— 52 — 

IV. D. A nna Mathilde das Chagas Oliveira, nascida em 
1806, casou com o sábio Conselheiro e Senador Cândido 
liaptista de Oliveira; enviuvou em 15 de Outubro de 1866 e 
ainda hoje é o objecto sagrado da veneração de seus filhos 
que nella vêem a encarnação de todas as virtudes. 

V. D. Joaquina das Chagas Fernandes Lima, nascida 
em 1811, casada com João Hyppolito Fernandes Lima 
honradíssimo servidor do paiz na cidade de S. Pedro do 
Sul, a qual por felicidade de suas filhas e de seu esposo, 
lhes serve ainda presentemente de modelo das mais bellas 
qualidades. 

VI. Sebastião Francisco de Oliveira Chagas, nascido em 
1816, abraçou também a carreira das armas assentando 
praça em 1831; tem exercido oom distincçâo os cargos de 
Vice-Director do Arsenal de Guerra do Sul, 2.® Comman- 
dante da Escola Militar da Corte, Commandante da de 
Porto Alegre, Director da Fabrica da Pólvora da Estrella 
e do Hospital Militar da Corte, e actualmente no posto de 
Coronel, serve junto ao Commando das armas do Rio-grando 
do Sul, gozando sempre de geral estima e Chefe extremoso 
e querido de extensa e esperançosa descendência. 

Nenhum titulo faltou, pois à gloria do Marechal Francisco 
das Chagas Santos. Inteirgencia esclarecida, patriotismo, 
desinteresse, lealdade, valor calmo e sereno, inflexibilidade 
no cumprimento de todos os deveres, amor da justiça, hu- 
manidade até com os adversários; 80 annos de vida pura 
e sem macula, 60 annos de serviços notáveis prestados á 
pátria e a quatro gerações de monarchas, com modéstia 
e sem estrépito; finalmente uma numerosa progénie, que du- 
rante largo periodo fará ainda louvar seu nome ; tudo foi 
apanágio desse militar illustre, digno de figurar entre 
os primeiros, Generaos Brasileiros. 8e suas brilhantes acç^s 
estão quasi esquecidas, se não constão de obras com- 
temporaneas 'nem sempre justas), não são por isso menos 
meritórias; e por ellas, com toda a propriedade, cabe ao 
velho Marechal aquelle distico latino composto ontr'ora 
pára decorar o tiuuulo de um grande cidadão: 

Prcebuit exemplum PalritP tirtuiis honoris^ 
Etnotum facit pi^HUshQbêrt fid0i. 
(De honra e de virtude penhor Drme, 
A Pátria foi Úel, niodòlo em tudo). 



USTl 



MS fiOVErVlMIES, PIEZIDEXTES EGOII&XDANTES DAS AMAS 

Que tom tido * proTinel* du Ali|6u 

desde: o anno de lei© até ití-4 i 



1'ULO MAJOR 



FRANCISCO MANOEL MARTINS RAMOS 

Sócio do Instituto Histórico. 



§ 1 

Sebastião Franclueo de Mello Povoa* 

PRIUEIKO OOVKKNADOli 

Sebastião Francisco de Mello Povoa»^ tcnonto corotiol Hn 
infantaria addido ao estado maior do exercito^ cm virtiidn 
da patente regia de 3 de Abril do 1818; tomou noMO do 
governo da dita capitania em 22 de Janoiro no IHIU^ 
tendo feito preito e homenagem naM mlí<m de cl-roi o MmUor 
D. João VI em 17 de Julho do predito anno do 1818. 

Estabelecea a s^de do govemo na villa de Mac«;i/> 
(ora cidade, e capital da prr/víncia p«la rf:wthu;A'f da nn» 
sembléa l^slativa provincial do (I oo D4as4ifn\fro (Ut IHÍM, 
sob n. 11, sendo rle entAfi 4ím diante %nééUi Aíp gov<?rno^ 
assembléa, tbeisouraría prrnrincial, e aulas wAÍort*M; ; #; titn 
2 anixM 5 meze^ e 18 dia*, qu^ fí/fVfTnum, fm cj/íMrmr 
as baterias de .S, J^^v e Ah ?4, iVyJro, ^^sta na |^«if a /l/í 
Jaraguá, e a/j i^;!!-i na f-r.tra/la d^; Ma/'/rjA ; a /'^^ir/i d;&J finta 



— 54 — 

da fazenda, que ora serve para assento das duas thesourarias, 
de fazenda^ e das rendas provinciaes; o quartel da tropa de 
1.^ linha^ então existente de infantaria e artilharia, e 
ora da companhia provizoria de caçadores de 1.* linha ; o 
armazém do almoxarifado^ o trem real^ poço, caza da 
guarda do mesmo ; caza da pólvora, e da guarda d'ella ; e 
concluir uma caza particular para servir de palácio do 
governo, que é a mesma que actualmente serve. 

Estabeleceu a alfandega no porto de Jaraguá, onde é 
hoje também a meza de consulado e de diversas rendas, e 
no mesmo logar uma caza de arrecadação ; e as mezas de 
consulado nas villas do São-Miguel e Penedo ; fez levantar 
a planta da villa, ora cidade e capital, designando as ruas, 
travessas^ largos, ou praças, que devia ter ; e o mappa to- 
pográfico da província ; fez abrir boas estradas ; e final- 
mente deu varias providencias, todas conducentes ao en- 
grandecimento da provincia ; para cuja segurança creou, 
por ordem regia, 2 corpos linha, caçadores e artilharia 
montada. 

Motivos políticos, occorridos de 2 de Abril de 1821 em 
diante, fízerão com que elle p assasse a sede do governo 
para a, então vilía, e depois cidade dos Alagoas ; e d'alli 
mesmo activava a construcção da corveta Maceió, de que 
tinha sido encarregado por carta régia de 30 de Novembro 
de 1818. 

§2 

Membros da Juitt» ^dir governo provlzlonal. 

Os membros da junta do governo provizional, installada 
a aprazimento dos povos da provincia, manifestado pela 
voz dos eleitores parochiaes, reunidos em junta eleitoral 
de comarca no dia 9 de Julho de 1821 ; a saber : prezi- 
dente o mesmo Sebastião Francisco de Mello Povoas, 
vice-prezidente o dezembargador ouvidor geral da comarca 
José António Ferreira Braklami, cónego vigário geral 
da comarca forane da comarca o parochial da então villa, 
e hoje cidade das Alagoas António Gomes Coelho, o tenente 
coronel addido ao estado maior do exercito Manoel Duarte 



— 55 — 

Coelho, o advogado Jozé de Souza Mello^ o coronel de 
milicias Francisco do Serqueira e Silva, o tenente co- 
ronel das mesmas milicias, António Jozé dos Santos, o 
negociante matriculado Luiz Jozé Lopes Couto, o capitão 
das ordenanças da sagrada religião de malta, Joio Mo< 
reira de Carvalho, e o coronel de estado maior do exercito 
Ignacio Aprigio da Fonseca Galvão, que, sendo secre- 
tario do governo da capitania, foi nomeado secretario da 
mesma junta provizional, tomarão posse do governo (á 
excepção do capitão João Moreira de Carvalho por não 
achar-se na capital) em 11 de Julho de 1821 ; e o dito Mo- 
reira em 19 de Dezembro do referido anno por ter até então 
estado doente. 

§3 

Membroft da Junta provisória do governo. 

Os membros da junta provizoria do governo, formada ou 
creada na conformidade do decreto do confesso nacional 
de 29 de Setetembr.), ou carta de lei do 1. de Outubro de 
1821, a saber: prezidenteo dezembargador ouvidor geral 
da comarca, Jozé António Ferreira Braklami, secretario 
Jozé de Souza Mello, o capitão mór de ordenanças Kicoláo 
Paes Sarmento, o tenente coronel Manoel Duarte Coelho, 
e António de HoUonda Cavalcante ; tomárã posse do go- 
verno^ incluído o commando das armas, em 31 de Janeiro 
de 1822 ; á excepção do membro Nicoláo Paes Samento, 
a quem por estar então ausente, foi depois conferida em 7 
de Fevereiro do dito anno. 

Em 28 de Julho do predito anno de ? 822 pedirão demis- 
são o prezidente Braklami, e o tenente coronel Manoel 
Duarte; e sendo no mesmo acto eleito para o substituir, a 
saber : para prezidente o juiz de fora da villa do Penedo, 
e ouvidor interino da comarca o Dr. Caetano Maria Lopes 
Gama ; e para o outro membro o tenente de milicias Je- 
rónimo Cavalcante de Albuquerque, e para commandante 
das armas da província, com subordinação e sugeição ajunta 
provisória, e com voto na mesma em as matérias, militares 
somente, o brigadeiro graduado Luiz António da Fonseca 



l 



— 56 — 

Machado ; tomarão posse no referido dia e acto ; á ex- 
cepção do prezidente eleito, que por achar-se então de cor- 
reição em uma das villas da provincia, se deliberou, que 
' continuasse na prezidencia o actual até a sua chegada ; 
e lhe foi conferida a mesma posse em 31 de Agosto do anno 
mencionado. 

Sendo prezidente o Dr. Caetano Maria Lopes Gama, 
e o secretario Jozó de Souza Mello eleitos deputados á 
assembléa geral constuinte do Rio de Janeiro, procedeu-se 
á nomeação de dous membros, que os substituissem, no dia 
1.° de Outubro do sobredito anno de 1822 : e gahindo eleitos 
para prezidente o advogado Jozé Fernandes Bulhdes, e 
para secretario Laurentino António Pereira de Carvalho, 
tomarão posse, aquelle no mesmo dia e acto, e este no dia 
20 de Novembro eubsequente, em razão de achar-se doente 
na praça de Pernambuco. 

Em 4 de Dezembro do mesmo anno tomou o governo a 
deliberação de ficar o commando das armas unido ao go- 
verno civil até final decizão das cortes legislativas do Brazil 
e de S. M. I. o Sr. D. Pedro I, que foi acclamado Impe- 
rador Constituôional em 30 de Novembro antecedente. 

Em 31 de Janeiro de 1823 tomou posse do dito co- 
mando das armas o tenente coronel de cavallaria de 1.^ linha 
addido ao estado maior do exercito Joaquim Mariano de 
Oliveira Bello, nomeado por S. M. Imperial para o dito 
logar, por patente de 5 de Fevereiro de 1823. 

Em 29 de Outubro do mesmo anno de 1823 lôrão 
demittidos três membros do governo, António de HoUanda 
Cavalcante, o capitão-mór Nicoláo Paes Sarmento e Lau- 
rentino António Pereira de Carvalho, secretario ; e, em 
seus legares, eleitos no mesmo acto e dia, para secretario 
o reverendo João Luiz Pereira, e para os outros dous mem- 
bros o coronel Francisco de Siqueira e Silva, que tomou 
posse sem o secretario na mesma ocazião, e o reveren- 
díssimo cónego, vigário geral António Gomes Coelho, que 
foi empossado no seguinte dia, 30 do referido mez de 
Outubro. 

£m 10 de Novembro do mesmo anno os dous membros 
do governo, o capitão-mór Nicoláo Paes Sarmento, e 
António de Hollanda Cavalcante, fôrão reintegrados^ 



— 67 — 

6 restitaidos aos seus logares ; ficando 8om effeito a 
nomeação d^aquelles três membros,© Rovm. Coollio, coronel 
Sirqaeira^ e revendo Pereira; e tomou jwsse do secro- 
tario o capitão Francisco de Sirqueira o Silva Júnior 
em 14 do predito Novembro, por Fcr o mais votado, na 
eleiçSo legal do 1 • de Outubro de 1822, depois d'«quolle 
Laurentino António Pereira de Carvalho. 

§ 4 

Membros da Junta do governo temporário 

e do governo municipal 

Em 12 de Novembro dito instailou-se na villa de Porto- 
ealvo uma junta governativa temporária, composta do 
Revm. Lourenço Wanderlei Accioíi Canavarros, pro/J- 
dente, do major de ordenanças Bento Francisco Alves, Luie 
José de Almeida Lins, Joaquim Mauricio Wanderlei e 
António Mauricio de Amaral Lacerda, secretario ; o que 
deu motivo a fazer a junta do governo da capital termo 
de sessão, em data de 5 de Dezembro do mesmo anno, om 
attençSo aos dezejos geraes dos povos, o assentou, que a 
maneira mais adequada para conciliar os espirites, e ros* 
tabelecer a ordem, era depozitar a publica autoridade nan 
mãos do corpo municipal da capital da província aUi a 
installação do novo governo, o que de facto se praticou ; 
sendo então os membros da camará os seguintes : Narcizo 
Corrêa ilachado de Araújo, juiz prezidonte, Joaquim 
Alves de Fontes, Manoel Joaquim líodrigues, Manoel Joíi* 
quim da Costa, e escrivão Felisl^erto Peixoto) de Araújo 
Lima. 

§ í>- 

Hemhroo da nova Janta proirtzorla do 

govermm 

Em 7 de Dezembro menciona-lo convofíf/u a dítacarriara^ 
06 eleítoree -àe parochia para a f;Wu;hf Ah novo gov#?rrio ; 
e reamndo-^e este» a me^ma, e a junta do g^/v^mio U-Mtfj^ 
nuio, em 31 do referido mfiz d*; I>;z^;mbro, nsiUírlUf eU-ÁUp^: 



— 58 — 

paraprezidente o reverendissimo vigário Francisco de Áseta 
Barboza, secretario o Rev. Jozé Vicente de Macedo, 
!.• membrO; o coronel reformado de 2* linha Francisco de 
Sirqueira e Silva, 2,^ membro, o capitão-mór de ordenança 
Manoel Joaquim Pereira da Roza, e para 3/ membro, o 
capitSo de milícias Tertuliano de Almeida Lins. 

No 1^ de Janeiro de 1824 cessou de governar a junta 
do governo temporário com a possb, que tomarão n'este 
dia, e juramento aos Santos Evangelhos, que prestarão 
nas mãos do vigário geral Franco, o reverendo secretario, 
e os trej membros do novo governo, que se achavão pre- 
zentes; prestando juramento, e tomando posse o Revm. 
prezidente em 10 do predito mez de Janeiro, para não 
achar-se prezente ao tempo de sua eleição. 

Esta junta governou até o dia 30 de Junho do dito anno 
de 1824. 



PREZIDEXTES SEGUNDO A CARTA DE LEI DE 

20 DE OUTUBRO DE 1823 

§ 6. 

Domingos Malaquias de Aguiar Pires 

Ferreira 

PRIMEIRO PREZIDENTE 

Domingos Malaquias de Aguiar Pires Ferreira^ primeiro 
prezidente^ nomeado por carta imperial de 25 de Novem- 
bro de 1823; não veio tomar posse do logar pelo mau 
estado de sua saúde, segundo consta da participaç^, que 
fez à junta provisória do governo em officio de 2 de Fe- 
vereiro de 1824. 

§7. 
D. IVuiio BHgenio de liacio e Seilbis 

D. Xuno Eugénio de Locío e Seilbis, nomeado por carta 
imperial de 21 de Abril de 1824, chegando á esta pro- 
vincia, tomou posse do logar de prezidente d ella em o 1* 



— b9 — 

de Julho do mesmo aano, perante a camará da capital e 
aquelle govemO; tendo já prestado o juramento nas mãos 
de Sua Magestade Imperial o Senhor D. Pedro I, gover- 
nou até õ de Maio de 1826. Desde sua chegada até o tírn 
do seu governo foi appellidado sempre — Anjo tutelar da 
provincia. 

Durante o seu governo, e na caza da sua rezidencia 
installou-se o conselho do governo, creado também cm 
virtude da carta imperial de 20 de Outubro de 1823, aos 
9 de Dezembro de 1925, composto dos membros seguintes: 
o sargento-mór Miguel Vellozo da Silveira Nóbrega e 
Vasconcellos, o reverendo Francisco Jozé Corrêa, o capitUo 
José Pinto da Mota Nunes, o tenente-coronol Jozó Gomes 
Ribeiro, o tenente-coronel Jozé Leite da Silva e António 
da Silva Lisboa; tendo sido convocados os dous últimos 
como supplentes por impedimento do capitão Tertuliano 
de Almeida Lins, e do advogado Manoel Joaquim Pereira, 
eleitos com maioria de votos; prestando o juramento dos 
Santos Evangelhos nas mãos do mesmo prezidente. 

Retirando-se este para a corte n^aquelle dia 5 de Maio 
de 1826, para ir tomar assento na assembléa geral legis- 
lativa, em consequência de estar nomeado senador do 
Império pela mesma provincia, que governava, ficou en- 
carregado da prezidencía, na conformidade da lei, o con- 
selheiro do governo mais votado, ou vice-prezidente o 
capitão Tertuliano de Almeida Lins, e a exerceu até o dia 
12 de Fevereiro de 1828. 



§ 8 
Cândida ãmzé de Araújo ^lanna 

Cândido Jozé de Araújo Vianna, nomeado por carta 
imperial de 13 de Novembro de 1826, chegando á esta 
provincia, e já tendo prestado o juramento de estilo nas 
mãos de Sua Magestade Imperial o Senhor D. Pedro I, tomou 
posse da prezidencia da mesma provincia em 13 de Fe- 
veiro de 1828, perante o vice-prezidente, e a camará da 
capitaL Achando, em sua chegada, muito perturbada a 
provincia foi o seu santelmo. Partío para a corte, para ir 



— 60 — 

tomar assento na camará dos senhores deputados, sendo-o 
pela província de Minas-geraes, em 20 de Julho do dito 
anno ; ficando na prezidencia o conselheiro do governo, 
immediato em votos, o major Miguel Vellozo da Silveira 
Nóbrega e Vasconcellos, por achar-se impedido o vice-pre- 
zidente, capitão Tertuliano de Almeida Lins. 

Em 31 de Outubro do mesmo anno de 1828 tomou 
posse do commando das armas, o coronel de 1.^ linha 
Vencesláo de Oliveira Bello, nomeado } or Sua Magestade 
Imperial para o dito logar, por decreto de 28 de Abril do 
anno mencionado. 



§ 9 
Manoel António Galirao 

Manoel António Ga Ivão, nomeado por carta imperial 
de 22 de Setembro de 1828, chegando á esta provincia, e 
já tendo prestado o juramento do estilo nas mãos de Sua 
Magestade Imperial o Senhor D. Pedro I, perante o vice- 
prezidentee a camará da capital, tomou posse da prezidencia 
da mesma provincia em o 1" de Janeiro de 1829. 

Partio para a corte, para hir tomar assento como depu- 
tado á assembléa geral legislativa, em 8 de Abril do dito 
anno; ficando na prezidencia o vice-prezidente Miguel 
Vellozo da Silveira Nóbrega e Vasconcellos pelo mesmo 
motivo já referido. 

O tenente coronel do estado maior do exercito Fran- 
cisco Samuel da Paz Furtado de Mendonça, nomeado por 
Sua Magestade Imperial, o Sr. D. Pedro I, por Decreto 
de 2 de Julho de 1829, tomou posse do commando das 
armas em 27 de Agosto do dito anno. 

Voltando da corte o prezidente Manuel António Galvão, 
o cheganrio à provincia em õ de Novembro de 1829, 
tomou a assumir o governo, e continuou n^elle até 3 de 
Agosto de 1830. Homem de bem, de um grande talento, 
inteiro e circumspecto, mostrou sempre sel-o om todo o 
tempo de sua administração. 




— 61 — 

§ 10. 
¥Í0conde da Vila-Real da Praia-Grande 

O visconde da Villa-real da Praia grande Caetano Pinto 
de Miranda Montenegro, transferido de prezidente da 
provincia do Espirito-Santo para esta das Alagoas por 
carta imperial de 30 de Janeiro de 1830; chegando a ella^ 
e já tendo prestado o juramento do estilo nas mãos de Sua 
Magestade Imperial, o Sr. D. Pedro I, em 11 de Julho, sen- 
do testimunhas o monsenhor fidalgo, e João Valentim do 
Faria Souza Lobato, tomou posse da prezidencia, perante 
o prezidente Manoel António Galvão e a camará da capital, 
em 4 de Agosto do mesmo anno de 1830. 

Já quazi no iim do seu governo, por um súbito movi- 
mento popular, e da tropa reunida, requizitando a demissão 
de alguns officiaes brazileiros, oriundos de Portugal, (mas 
sem derramamento de uma só gota de sangue) foi suspenso 
per deliberação do conselho do governo, em sessão extraor- 
dinária de 3 de Maio de 1831 do exercicio de commandanto 
das armas o tenente coronel do estado maior do exercito 
Francisco Samuel da Paz Furtado de Mendonça, que pouco 
depois se retirou da provincia; e chamado em virtude da 
lei, por ser a maior patente eífectiva, * que se achava na 
provincia, o tenente-coronel de 2* linha Jozé de Mendonça 
de Alarcão Aiála, para servir interinamente aquelle cargo, 
e tomou posse no dito dia 3 do Maio de 1831. 

Com boas maneiras e providencias, que deu, pôde o vis- 
conde da Villa-real da Praia grande applacar, e extinguir 
de todo a commoção, que só teve logar nos dias 1, 2, e 3 
do referido Maio; e entregou a seu successor tranquilla a 
provincia, que governou até 18 do mesmo. 

O oíEcio da cópia authentica seguinte, dirigido n^esse 
mesmo dia á secretaria doestado dos negócios do império 
assim o patenteia. 

nim. Ezm. Sr.— Ante-hontem por noite tive a honra de 
receber a carta imperial com data de 13 de Abril próximo 
findo, pela qual a regência provizoria, em nome de Sua Ma- 
gestade o Imperador, me ordena, dê posse, com as formali- 
dades do estilo, do logar de prezidente doesta província a 



- 62 — 

Manoel Lobo de Miranda Henriq ues, nomeado para prezi- 
dente da mesma provin cia^ e lhe communique as noticias, 
que forem convenientes ao serviço publico. 

O dito prezidente nomeado chegou á vila de Maceió 
antes de hontem mesmo; ha de chegar hoje á esta cidade; 
e tendo elle n. arcado o dia de amanhan^para a referida posse, 
e dado eu para esse fim as ordens necessárias^ espero, que 
elle a tome com satisfação ; tendo-a eu não pequena de 
poder desempenhar quanto me é ordenado na mencionada 
carta imperial; de entregar-lhes a provincia em paz e ^j 

tranquilla, a pezar dos movimentos que n'ella tiverão logar ' 

nos dias 1, 2 e 3 do corrente, dos quaes fiz menção em meu 
oíBcio com data de hontem; e de dizer que, si não a deixo 
feliz tanto quanto desejava, ao menos não levo comigo a 
execração publica, nem o ódio de seus habitantes, que me 
tem tractaao com a maior affeição. 

Deus guarde V. Ex. — Oidade das Alagoas 18 de Maio- 
de 1831 — lUm.e Exm. Sr. — ManodJozédeSouia França. — 
Visconde da Praia-grande. 

§ 11. 
Manoel liobo de Miranda Henriques 

Manoel Lobo de Miranda Henriques, nomeado por carta 
imperial da regência provizoria em nome do Imperador o 
Sr. D. Pedro 11, de 13 de Abril de 1831, chegando á pro- 
vincia, prestou o juramento do estilo, e tomou posse da 
prezidencia d^ella, perante o prezidente Visconde da Vila* 
real da Praia-grande, e a camará municipal da capital, 
em 19 de Maio de 1831. 

Em 21 d'este mez tomou posse docommando das armas a 
sargento mór do estado maior do exercito Miguel Vellozo 
da Silveira Nóbrega e Vasconcellos, nomeado por decreto 
da regência provizoria em nome do Imperador o Sr. D. 
Pedro II de 12, e patente de 19 de Abril do mesmo anno 
do 1831. 

Por decreto da regência em nome do Imperador de 10 de 
Outubro do dito anno foi mandado dispensar do meneio* 
nado commando das armas. 




"> 



— 63 ~ 

Em 21 de Novembro de 1831 tomou posse do com mando 
das armas interinamente o sargento mór de infantari.i de 
1* linha. Manoel Mendes da Fonseca, fm execuçf.o do 
decreto da regência em nome do Imperador o 8r. D. Pedro 
II, de 10 de Outubro antecedente, e sérvio até 28 de 
Janeiro de 1832, por ser extincto o logar em virtude do 
decreto de 5 do Dezembro do dito anno de 1831, que 
manda por em execução o § 3 do art. 15, cap. 5 da 
lei de 15 de Novembro anterior, passando paru a prezidencia 
todo o expediente da repartição extincta. 

Durante a administração do prezidente Lobo houverão 
feuas facções e desgraças, trazidas pela guerra civil, como 
mostrão os dous avizos seguintes, por cópia authentica; o 
primeiro dirigido ao mesmo prezidente Lobo, e o segundo 
a seu successor na prezidencia António Pinto Chichorro da 
Gama. 

lUm. e Exm. Sr. A regência em nome do imperador, a 
quem foi prezente o officio que V. Ex. dirigio á esta secre- 
taria doestado, na data de 29 de Agosto ultimo, dando conta 
do estado actual d^essa provincia, e das facções que a pertur- 
bão, espera, que V. Ex. procure restabelecer na mesma pro- 
víncia a tranquilidade, e bôa ordem observando e fazendo 
observar exactomentoa constituição e as leis. Deus guarde 
a V* Ex. Palácio do Rio de Janeiro em 13 de Outubro de 
1832. — Honório Hermeto Carneiro Leão. — Sr. prezidente 
da provincia das Alagoas. 

Illm. e Exm. Sr. A regência em nome do Imperador ficou 
inteirada do conteúdo nos ofícios, que, seb os números 27, 
31, 32 e 35, dirigio á esta repartição o antecessor de V. Ex. 
datados de 17 de Agosto, 11 e 17 de Setembro, e 3 de Ou- 
tubro doeste anno; e lastimando as desgraças trazidas pela 
guerra civil, que infelizmente tem dezolado essa provincia, 
espera, que essa nova administração d^ella procurará 
empregar todos os seus esforços, afím de pôr termo ás dis- 
sençSes, ódios e vinganças particulares, que ordinariamente 
acompanhão e se seguem á calamidade de uma guerra civil, 
e ha por mui recomendada a V. Ex. a rigoroza observância 
das Leis e da Constituição. Deus guarde a V. Ex. Palácio 
do Rio de Janeiro, em 10 de Novembro de 1832. Honório 
Hermeto Carneiro Leão — António Pinto Chichorro da Gama. 




I 



- 64 — 

§ 12 
Ignaolo Accioli de ¥aseoneellos 

Ignacio Accioli de Vasconcellos, tendo sido nomeado 
por carta imperial da regência em nome do Imperador o 
Senhor D. Pedra II, para suceder a Manoel Lobo de Mi- 
randa Henriques, na presidência d'estaprovincia, não xegou 
á ela por ter sido dezonerado da mesma prezidencia, como 
consta da carta imperial de nomeação de António Pinto - 

Chichorro da Gama de 25 de Outubro de 1832. ' 

§ 13 
António Pinto C/liielioi*ro da Gama 

António Pinto Chichorro da Gama, nomeado por carta 
imperial da regência em nome do Imperador o Senhor 
D. Pedro 11, de 25 do Outubro de 1832, prestou juramento 
do estilo, e tomou posso da prezidencia perante o prezidente 
Mano.l Lobo de Miranda Henriques, e camará municipal 
da capital, em 26 de Novembro do mesmo anno. 

Fez esforços para acabar com a revolta, que já havia-se 
desgraçadamente manifestado no ponto de Jacuhipe d'esta 
provinda. Sérvio até 6 de Julho do 1833, dia em que apre- 
zentou o imperial avizo de 3 de Junho antecedente, pelo 
qual lhe foi concedida a demissão, que pedira, do logar de 
prezidente para retirar-se á corte do Rio de Janeiro. ^ 

O capitão-mór das extintas ordenanças, Pedro António * 

da Costa, conselheiro mais votado, que prezente estava, 
visto achar-se distante o vice-prezidente, ficou encarregado 
da prezidencia da província desde o dito dia 6 de Julho até 
o 1 de Setembro seguinte. 

§14 

Vicente Tliomaz Pires de Figueiredo 

Camargo 

Vicente Thomaz Pires de Figueiredo Camargo, nomeado 
por carta imperial da regência em nome do Imperador o 



— 65 — 

Senhor D. Pedro II, de 4 de Junho de 1 833, prestou o jura- 
mento do estilo, e tomou posse da presidência perante o vice- 
prezidente e a camará municipal da capital, em 2 de Se- 
tembro do anno de 1833. 

Ocupou-secom energia dos negócios da guerra de Jacuhipe, 
e de Panellas, e fez quanto pôde para a terminar durante 
a sua administração, até indo em pessoa Àquelle logar, 
aonde esteve em muito perigo a sua existência. Convidando, 
I em quanto convalecia, o conselheiro do governo mais votado 
, para administrar a província durante o seu impedimento, 
elle lhe entregou a provincia tranquilla e pacifica, como 
consta do officio, que dirigio á secretaria doestado dos negó- 
cios do império em 11 de Agosto de 1834. 

O reverendo vigário Jozé de Souza Machado, vice-pre- 
zidente por ser o conselheiro mais votado, ficou com efeito 
encarregado da prezidencia desde o dia referido até 31 do 
mez de Outubro, em que, retirando-se para sua caza na villa 
do Poxim, communicou a sua retirada, e passou por officio a 
administração ao prezidente Camargo, que ainda nâo se 
achava de todo convalecido, e estava na distancia de trez 
legoas tora da capital. 

Consta pelo officio de participação á secretaria doestado 
dos negócios do imperio,<latado em 4 de Dezembro d^aquelle 
anno de 1884, que no dia 2 de Novembro antecedente, já 
quando era divulgada na mesma capital a noticia de que 
sol^edito prezidente Camargo havia reassumido a adminis- 
tração, suas ordens se dirigião ao almoxarife, e no dia 
seguinte se esperava sua chegada, foi quando nesse mesmo se- 
guinte dia,3 de Novembro^o conselheiro imediato em votos ao 
vice-prezidente apareceu em palacioás dez horas da manhan^ 
e fez convocar, e reunir o conselho do governo, com o fun- 
damento de submetter ao seu conhecimento uma repre- 
sentação feita, e assignada no dia antecedente por quatro 
cidadãos com o pretexto de achar-se a provincia sem governo 
e este abandonado já pelo vice-prezidente que se retirara 
sem haver communicado, nem passado a administração a elle 
conselheiro imediato em votos, e já pelo prezidente, que 
impedido por moléstia não havia ainda ocupado a prezi- 
•dencia, concluindo elles reprezentantes que convocasse o 

TOMO XLVI, p. u, 9 



i 



— G6 - 

conselhO; afim de ser elle reconhecido e colocado na admi- 
nistração ; mas que fôrão baldadas suas esperanças, porque 
reunido o conselho^ e quando já ás duas horas da tarde 
este deliberava sobre a mesma reprezentaçâOi se aprezentou 
em palácio o prezidente^ o qual lhes fez \êr, que havião 
cessado os motivos da deliberação ; e continuou na admi- 
nistração até o dia 6; pois que chegando no dia 5 despachos 
da corte, e entre eíles a dezoneração que havia pedida 
Camargo do cargo de prezidente d'e8ta provincia, e a 
nomeação imperial para ir governar a da Parahiba do 
Norte ; no dia 6 elle communicando ao conselho em sessão, 
e antes da sua abertura, no mesmo acto foi encarregado da 
prezidencia, na auzencia d^aquelle vice-prezidente, o con> 
Eclheiro immediato em votos Manoel SimSes da Costa. 

D aquelle officio do prezidente Camargo de 11 de Agosto 
de 1834 se vê, que na cidade, então villa de Maceió, na 
sua volta de Jacuhipe foi recebido com demonstração de 
publico e geral regozijo ; quazi 100 cavalleiros fôrào ao 
seu encontro ; o prezidente da camará mimicipal dirigiu- 
lhe um discurso, á que elle respondeu satisfactoriamente 
fizerão celebrar um solemne Te Detim laudamus ; as cazas 
illumLoarão-se ; fogos de artifício, cavalhadas, theatro, arru- 
mamento de guardas nacionaes, banda de muzica pelas 
ruas, vivas ao Senhor D. Pedro II, á assembléa geral, e 
á regência patenteavão a alegria do povo pelo acabamento 
da guerra. Os habitantes da cidade das Alagoas, então 
capital, não menos se alegrarão por tão justa cauza, e em 
acção de graças por cilas e pelas suas melhoras, os officiaes 
da secretaria do governo, á sua custa, mandarão cantar 
uma missa e Te Deum laudamuêy que foi acompanhado 
de um discurso sagrado; e ainda hoJ3 os bons Alagoanos 
não falão no seu nome sem saudade. 

Em 18 de Novembro do referido anno houve uma 
commoção popular e de tropa reunida^ que obrigou a deixar 
a prezidencia o dito Manoel Simòes da Costa, e outros 
conselheiros que se lhe seguião; e, por ser o conselheiro 
mais votado, que se achava na capital, o sucedeu n'ella o 
advogado João Camilo de Araújo, o qual esteve na admi- 
nistração desde o dito dia 18 de Novembro até 13 de 
Dezembro do mesmo anno. 




- 67 — 

§ 15 
Jozé Joaqaliii Machado de Oliveira 

Jozé Joaquim Machado de Oliveira, tenente-coronel de 
infantaria addido ao estado maior do exercito, nomeado 
por carto imperial da regência em nome do imperador o 
Sr. D. Pedro 11, de 22 de Outubro de 1834, chegando á 
província, prestou o juramento do estilo, e tomou posse da 
prezidencia, perante o vice-prezidente e a camará municipal 
da capital, em H de Dezembro do dito anno, e sérvio até 
14 de Maio de 1835. 

Logo depois que chegou, e tomou posse, participou á re- 
gência, pela secretaria doestado dos negócios do império, 
que o tinha feito sem o menor obstáculo, e antes sendo cbze- 
quiado pelo povo da capital, e de Maceió, com benigno 
acolhin^ento, e que encontrou a província pacifica no melhor 
estado possivel, e sem que percebesse, que n'ella tinha tido 
logar a commoQâo, de que acima ultimamente se tratou. 

Foi durante a sua administração que se instalou a pri- 
;meira Âssembléa legislativa provincial no dia lõ de Março 
de 1835. N'esse acto reoitou a sua tala, na qual manifestava 
o zelo, que o animava pelo serviço publico e bem da pro- 
víncia. 

Foi também na sua administração, que em sessão de 27 
do dito Março procedeu a mesma âssembléa á primeira no- 
meação de seis cidadãos, para servirem de vice-prezidentes 
doesta província, e um no impedimento do outro, na con- 
formidade do art. 6 da lei de 3 de Outubro de 1834, por 
maioria relativa ; sahindo eleitos pela ordem da votação, os 
seguintes : o proprietário Jozé Paulino de Mello Albu- 
querque (aliás Jozé Paulino de Albuquerque Sarmento) o 
deputado bacharel Manuel Sobral Pinto, o deputado bacharel 
António Luiz Dantas de Barros Leite, juiz de direito da 
comarca de Maceió, o deputado lente de geometria Fran- 
cisco Elias Pereira, o deputado bacharel Francisco Joaquim 
Gomes Ribeiro, juiz de direito da comarca das Alagoas, e 
o deputado major Miguel Vellozo da Silveira Nóbrega e 
Vasconcellos ; e sendo levada a lista dos mesmos á S. M» 
o Imperador, por intermédio do prezidente da província na 



— 68 — 

fónna prescripta pelo ditoart. 6 da mencionada lei, foi deter- 
minada a ordem numérica aos mesmos nomeados pela 
assembléa, por decreto da regen( ia em nome do imperador 
de 3 de Setembro do mesmo anno de 1835. 

Porto u-se em to ^o o tempo do seu governo com uma im- 
parcialidade e sizudeza, que a todos agradou. Fez quanto 
pôde para restabelecer o socego publico, e terminar a 
guerra de Jacuhpe. As cópias autenticas abaixo trans- 
criptas da felicitação e agradecimentos, que lhe dirigio a 
Assembléa legislativa provincial por deputações de seo seio, 
uma em 20 de Março, outra em 15 de Maio, dia em que 
findou a sua administração, patenteiâo melhor os sentimontoa 
de afecto e gratidão, de que estava penetrada a mesma 
assembléa, pela perfeita harmonia com que a coadjuvou 
em seu tirocinio o prezidente Jozé Joaquim Machado d'01i- 
veira • 



ACTA DA SESSlO DA ASSEMBLÉA LEGISLATIVA PROVINCIAL 
DE 20 DE MARÇO DE 1835, REGISTRADA EM O LIVRO PRÓ- 
PRIO Á PL. 18 ATÉ FL. 22, SOMENTE NA PARTE RELA- 
TIVA A DEPUTAÇÃO, QUE DEVIA APRESENTAR AO EXM. 
PREZIDENTE DA PROVÍNCIA O VOTO DE GRAÇA PELA INS- 
TALAçSlO DA ASSEMBLÉA E FALA QUE LUE DIRIGIRA. 



Voltou a deputação perto do meio dia, e tendo a palavra | 

o Sr. deputado Francisco Pereira Fre ro,como orador d'ella, 1 

relatou ter dirigido ao Exm. Prezidente da província o dis- 
curso seguinte: «Exm. Sr. A Assembléa legislativa d'esta 
provincia nos envia em deputação, como orgâos de seus senti« 
mentos a expressar á V. £x. o prazer e contentamento, de 
que mostrou-se possuida no solemne acto da sua instalação, 
e de abertura da sua primeira sessão da actual legislatura. 
Esse momento, em que V. Ex. lhe descobrio seus pensa- 
mentos, e seus dezejos,patenteou-lhe os actos do governo que 
precedeu ao de V. Ex., e a orientou sobre o estado da pu- 
blica administração, dos néscios, que devem fazer objecto 
das suas deliberações legislativas, e das providencias, que 
mais preciza a provincia para o seu melhoramento, momento, 




— 69 -- 

£xin. Sr.; por todos suspirado, nunca sorá mais sincera- 
mente apreciado pela assembléa legislativa doesta provincia ; 
tanto mais que sendo ella coadjuvada pelas informações de 
V. £x., com quem sempre estará em perfeita harmonia em 
tudo que disser respeito ao bem da provincia, e tendo con- 
stantemente em consideração corresponder aos votos do 
V. £x. pela exacta observância do sistema que nos rege 
da lei das reformas e dos limites das suas attribuiçoes, 
espera, que serão satisfatoriamente preenchidas sob as vistas 
da divina Providencia. Eis pois, Exm. Sr., a sincera 
expressão dos sentimentos da Assembléa legislativa d'esta 
província, que perante V. Ex. e o mundo inteiro paten- 
teajios. » Concluio, que o Exm. prezidente recebera a men- 
sagem com especial agrado, e respondera o seguinte : 
c Agradeço sobremodo á assembléa legislativa provincial a 
sua gracioza felicitação, por o motivo de haver-me perten- 
cido a honra da sua solemne installaçílo : e neste passo 
bem se reconhece a prova mais satisfatória dos princípios 
de benignidade, que aniiuílo a assrcmbléa, e do quanto 
dezeja ir de acordo com o governo da provincia para pre- 
encher as altas funcçíJes, de que a tem encarregado o voto 
publico. Dedicado inteiramente a manter esta justa e neces- 
sária harmonia, d 'essa maneira estou certo, que serei com- 
Earticipante da gloria, que pertencerá á assembléa, por 
aver-se consagrado ao bera — ser e prosperidade d'e8ta pro- 
vincia. » A camará ficou inteirada e recebeu com es^K-cial 
agrado . 



ACTA Da sessão DA ASSEMBLÉA LEGISLATIVA PROVINCIAL DE 
14 DE MAIO DE 1835, REGISTRADA EM LlVItO PRÓPRIO 
A FL. 17Õ ATÉ FL. 179, SOMENTE NA PARTE RELATIVA A 
DEPUTAÇlO QUE TINHA DE IR AO EXM. PREZIDENTE DA 
PROVINCLà AGRADECER EM NOME DA ASSEMBLÉA OS SEUS 
BONS SERVIÇOS. 

Pela meia hora depois de meio dia voltou a deputaç^ 
ao seio da camará, e interrompendo-se a discussão, o Sr. 
deputado António Lui^ Dantas de Barros Leite, como orador 




► 



— To- 
da mesma deputação^ recitou o discorso, qae dirigio ao 
Exm. jirezidente da província, que é o que se segue : 

nim. Exm. Sr. A assembléa legislatira proTincial a quem 
foi dirigida a carta imperial do primeiro de Abril d*este 
amio, peia qual a regência em nome do imperador o Sr. D. 
Pedro Segtmdo, houve por bem demittir a V. Ex. da prezi- 
dencia, nos envia a esta s^;unda vez a reiterar a V. Ex. os 
mais puros votos de agradecimento pela pratica activa e 
sempre animada, com que se portou. V. Ex. deaccordo com 
a mesma assembléa em todos os seus trabalhos, e pela soli- 
citude e reconhecido desvelo, que emproou Y. Ex., em con- 
servar a dignidade da provi ncia e de seus reprezentantes . 
Exm« Sr., faltâo-nos expressivas cores para pintar a V. 
Ex. a saudade absoluta, que a par de presentimcntos pre- 
domina hoje nos corações dos reprezentantes da provincia, 
que reconheciâo em V. Ex. um amigo fiel, e um garante 
da paz tantas vezes alterada pelo génio do mal, ou espiritos 
vertigínozos, hoje serenados pelas armas da legalidade, 
e pelos punhaes dos remorsos, Sâo estes, Exm. Sr. pre- 
ziclente, os sentimentos, que fomos encarregados de exprimir 
a V. Ex. pela assembléa legislativa, de quem somos fieis 
interpetres. Aritomo Luiz Dantas de Barros Leite, Francisco 
de Assis Ribeiro, Manod Teixeira da Silva, Jozé Cândido 
e Pontes Visgueiro, João Camillo de Araújo, Jozé Fei-- 
de Oliveira Santos. Concluio, que o Exm. prezidente 
^^^,^^f^^iSamessagem com especial agrado, e respondera o 
9i<«<rtiirite : r^netrado de reconhecimento por esta novo prova 
dii h<)ti<?volenCÍa, que a assembléa legislativa acaba de dari 
^jjj,jj-i,i(lo-ine seus agradecimentos pelo quanto me desvele, 
oin cooperar para o bom êxito dos seus trabalhos, e por 
lirtvor administrado a provincia á sua satisfação, assim 
oonio polft expressSo do sentimento, que lhe cauza o ter sido 
lo?^ouorado d'esta prezidencia, eu lhe consagro a mais iu- 
I ^uva ijratidilo. Outra nHo podia ser a conducta, que o go- 
^ ' / jxyja ter com a representação provincial, attenta a 
^^^.^^ 4tui1a e legal por ella adoptada na sessão, que via 
^s-Tt; ^A^^''* K quem, Senhores, deixará de bem governar 
? >vx\* fc»*íi^Hno tão dócil e conscienciozo ? Jozé Joaquim 
\t 1.J..1.W w Oliveira» A camará ficou inteirada, e recebeu 
^nvW, agrado a resposta de S. Ex. 



i. 



— 71 — 

§ 16 

Anionlo «Voaqulm de Honra. 

António Joaquim de Moura, nomeado por carta imperial 
da regência em nome do imperador o Sr. D. Pedro 11 de 
1 de Abril de 1835; chegando a esta provincia, e indo 
com seu antecessor Jozé Joaquim Machado de Oliveira ao 
paço da assembléa legislativa provincial, que estava ainda 
reunida em sessão ordinária, ahi, recebidos por uma depu- 

^ tacão de membros da mesma assembléa, prestou o juramento 

do estilo nas mãos do prezidente d'ella Floriano Vieira da 
Costa Delgado Perdigão, na iórma prescripta pelo art. 10 
da lei da 3 de Outubro de 1834, o tomou posse da pre- 
zidencia, em 15 de Maio do dito anno de 1835. 

N'esse mesmo dia, depois da dita posse, encerrou a as- 
sembléa os trabalhos do primeiro anno de sua legislatura, 
de que rezultárão vinte e nove actos legislativos, que 
fôrão todos sanccionados. 

O prezidente Moura participou logo á regência pela se- 
cretaria doestado da repartição da guerra o que occorria a 
cerca dos negocias de Jacuhipe, e Panelas, e o bom agouro, 
que havia nos esforços e diligencias apostólicas de S. Ex. 

I Rm. o bispo diocesano de Pernambuco, D. JoãodaPuri- 

tícação Marques Perdigão, que se achava em Agua-preta ; 
reclamou a sua attenção sobre o atrazo, em que estava a tropa 
tanto de soldos, como de fardamentos j e pela dos negócios 

^ do império, que se achava era paz a provincia, e tinha 

esperanças de que assim continuaria, vista a dispozição 
favorável da boa gente d'ella : elle não se esqueceu do pedir 
ao £xm. ministro doesta repartição a remessa de sementes 
de chá, nozes de Bancour, camélia sazangua, araruta, 
plantas de cauella, e girofe, e outras que convinha divul- 
gar, por ser o paiz próprio para tudo isso . 

Em Junho do mesmo anno elle teve a satisfação de ver 
realizadas suas esperanças com a terminação da guerra de 
Panelas, e Jacuhipe, e com a vizita, que fez depois á capi- 
tal o Exm. e Rev. bispo diocesano. 

Movido do dezejo de fazer alguma couza útil, e que distra- 
hisse os povos menos pensadores, passou-se á villa de Ma- 
ceió, onde, tendo mandado levantar a planta, e fazer o 



A 



) 



— 72 — 

orçamento para a ponte decretada pela assembléa para o 
rio Bebedouro, por onde passavSo todos os conductores de 
algodão do interior, e os carros com caixas de assucar dos 
engenhos, soffrendo os maiores prejuízos, a dita ponte foi 
arrematada, e teve principio no seu tempo, e se finalizou 
na seguinte administração. Mandou também levantar a 
planta, e fazer o orçamente para um canal de communicação 
das lagoas do Sul, e do Norte para a villa, ora cidade de 
Maceió, que, com a extensão de pouco mais de meia legoa^ 
tornasse fácil a navegação, e o commercio de mais de doze 
legoas para o interior, d'onde vêem as madeira^ de construc- 
çâo, bem como os materiaes, que abundão nos recôncavos 
das lagoas ; calcuôlou-se a despeza doeste canal em oito 
contos de reis : abrirão-se para isso duas subscripç5es vo- 
luntarias; uma pelo commercio, e habitantes de Maceió, 
e outra pelos lavradores, e senhores d'engenho do interior, 
e pedio para esta obra a protecção do governo supremo ; 
e ser-lhe enviado um official engenheiro com conhecimentos 
hydrauHcos, e alguma pratica do canal da Pavuna. 

Andarão as subscripçSos por mais de 2:600^, epor mais 
de l:200á a do leilão, que se fez de prendas que derãoas 
senhoras de Maceió, e da pessa, que se representou no 
theatro ; tudo a beneficio da obra do canal, que, por falta 
de tempo, só veio a ter effeito na seguinte administração. 

Emprehendeu logo depois ir á villa do Penedo, vizitan- 
do de passagem as villas de São-Miguel, e do Poxim, por 
n^ellas haver couzas do serviço publico, que demandavão sua 
inspecção ocular, impulso, e providencias, como participou, 
antes de partir, ao ministério do império. N^essa mesma 
viagem, á que deu principio no dia 20 de Novembro, 
chegando á villa de São-Miguel no dia 22, depois de 
recíprocos comprimentos entre ele, e o Exm. e Revm. bispo 
diocesano^ que ali se achava no crisma, e ser comprimen- 
tado tam bera dos habitantes de todas as graduações, e clas- 
ses, que applaudirão a vizita de hospede tão dezejado pelo 
motivo delia, passou logo ao principal objecto, que ali o 
conduxio, que era promover a abertura e limpeza do rio São 
MigncI, por onde se faz a navegação^ e commercio d'aquella 
villa, tão obstruído de balsas e ramagens, que já o tomavão 
innavegavel da villa até o porto do Escuro, e mesmo d ali 



- 73 -- 

para baixo apenas franqueia a passagem c^e uma única 
embarcação, que sendo de maior porte occupa todo o leito 
descoberto; quando nos tempos passados as embarcações do 
alto mar vinhíto deitar pranxa á margem da mesma villa. 

Convidados á caza de sua rezidencia por uma circular 
do dia 23 o corpo do coramercio, e demais habitante?», e 
proprietário?, concorrerão todos no dia 24 com a maior 
satisfação c urbanidade; e depois de em um pequeno dis- 
curso demonstrar o prezidente Moura a necessidade e con- 
veniência da abertura do rio, fazendo sentir a mingoa das 
rendas provinciaes para occorrer a todas as nece8^ idades 
publicas, abrio-se a subscripçl\o, e todos furão subscrevi ndo 
para a obra com as quantias que bem quizerào, dando em 
rezultado 834;50OO, alem de 98 dias de serviço d'escravos, 
offerecidos por dous cidadãos, que subscreverão 50^5000, 
cada um; ficando aberta a subscripção para os fazendeiros 
e habitantes da circumvizinhança (que não concorrerão por 
falta de espaço e de convite); a qual no dia seguinte foi 
reforçada com a somraa de 100^000^ quo subscreveu um 
negociante, que não pôde comparecer no dia anterior. 

O prezidente Moura, tendo de continuar a sua joniada 
até a villa do Penedo, nomeou commis(!fe< para promoverem 
a subscripção nao só no distrito de São-Migueí, mas tam- 
bém na vila d^Anadia, e na então povoação, hf»je villa da 
Palmeira dos índios, dependentes do commercio d'aquelle 
porto, e navegação do seu rio. 

Apalavrou finalmente a compra de uma caza, que tinha 
na cidade das Alagoas um proprietário d'aquella villa, para 
palácio do governo; o que se realizou no anno seguinte, logo 
que a assembléa provincial o habilitou com a quantia preciza, 
e então tractou logo de dar começo aos reparos necessários 
para o destino, que hia ter a referida caza, mas não a con- 
cluio no seu tempo. 

D^aquella villa de São-Miguel passou á do Poxim no dia 
27 de Novembro, á povoação de Coruripe, termo da mesma, 
no dia 28, e á villa do Penedo no dia 30,afim de ver o melhor 
meio de evitar o contrabando de páu-brazil, e escravos 
africanos, e apenas chegou a cada uma dVllas expedio 
circulares rezervadas aos juizes de paz tanto d aquella villa, 
como da do Penedo, a cujo termo pertencião ainda as 

TOUO ZLYI, P. II. 10 



— 74 — 

povoações, ora villae do Porto da Folha, e Mata-grande, 
contendo medidas a respeito da apprehensão de páu-brazil, 
6 escravos africanos, e dos respectivos contrabandistas, para 
o que deu as providencias ao seu alcance. 

No dia 29 passou pela povoação de Piassabussú, termo 
tam bem da do Penedo, afim de observar por si a pi rigoza 
barra do famozo rio de Sâo -Francisco, a onde devia colocar- 
seuma catraia^quea lei geral de 24 de Outubrj de 1832, 
art, 47, e recommendaçâo d^assembléa legislativa provin- 
cial mandarão construir para dar entrada ás embarcações», 
e o melhor meio d'eíFectuar-se o fabrico da mesma; soccorro 
este reclamado pelo commercio, e agricultura da referida 
villa; tendo a satisfação de quando deixou a administração, 
ficar já quazi prompta a hir ao mar. Na sua volta do Penedo 
dou as providencias para concertar-se a ponte do rio Niquira 
na barra de Sâo-Miguel, a qual ficou, ainda no seu tempo, 
como feita de novo com mais de 200 palmos de comprimento. 

Recolheu-ee á capital no dia 31 de Dezembro do sobre- 
dito anno de 183Ò, e antes de sahir d'ellaaestas digressões, 
deixou ali amplas instrucções de policia, tropa duplicada, 
e dous officiaes escoUiidos, só no serviço da mesma policia, 
alem da demais guarnição de 1.* linha. Mandou fazer por 
administração as 3 pontes do aterro, que vai da cidade 
para a povoação de Tapjraguá: estabeleu feiras na capital, 
e nas villas de Maceió, e da Atalaia, e na povoação do Pilar: 
entrando porém o inverno, deixara > de continuar. JA tinha 
prompto o plano, e orçamento de outra ponte da boca do 
rio Maceió, de igual necessidade que a do Bebedouro; mas 
não pôde eífectuar a sua arrematação e construcção pela 
sua retirada para a corte. 

Requereu e alcançou do governo central ordem para a 
factura de um grande armazém para depozito das ma^ 
deiras de construcção naval, que se arruinavão, estando ao 
tempo ; requereu mais a construcção de dous vazos de 
guerra no porto de Jaraguá, o tudo, dizia elle, para ter 
aonde empregar braços da provincia, que podião ser muito 
uteiá por este meio : requereu uma embarcação de guerra, 
que cruzasse da Bahia até Maceió» afim de evitar melhor 
o contrabando de p&o-brazil, e escravatura africana, e 
reprezentou sobre o estado deplorável das estradas geraes, 








> 



— 75 -. 

que partem, uma da villa do Penedo á entr.ir na pro- 
vinda de Pernambuco, e outra á sombra do litoral de 
Maceió à entrar em Qaranhuna. 

No dia 10 de Janeiro de 1836 assistio á installação da 
assembléa legislativa provincial, e da fala com que 
abrio a sua segunda sessão ordinária se conhecem bem os 
sentimentos, que nutria a bem da provincia, que fôra con- 
fiada à sua administração. 

Finalmente com a sua prudência conservou em paz a 
provincia, e por todos os legares, por onde se demorava 
na digressão que fez, deixou satisfeitos os povos das villas 
de Maceió, São-Miguel, Poxim, e Penedo, e foi recebido, e 
obzequiado com polidas e affectuozas demonstrações de 
respeito, deixando sinceras saudades a muitos habitantes 
d'esses legares. 

Das cópias autenticas dos avizos abaixo transcriptos, 
da secretaria de e^^tado dos negócios do império, se mos- 
tra com evidencia quanto a regência, e o regente em 
nome de S. Magestade o Imperador reconhecerão os ser- 
viços prestados á esta provincia tanto pelo prezidente An- 
tónio Joaquim de Moura, como pelo Exm. e Revm. bispo dio- 
cezano D. João da Purificação Marques Perdigão, pelo 
mesmo prezidente participados. 

lUm. e Exm. Sr. 

Com o officio de V. Ex. de 23 do mez passado, 
em que participa ter tomado posse da prezidencia d 'essa 
provincia no dia 15 do dito mez, fôrão prozentes á re- 
gência em nome do Imperador as cópias dos vinte e nove 
actos legislativos da assembléa provincial, que tiverão 
logar na sua primeira sessão : e a mesma regência, fi- 
cando de tudo inteirada, manda recommendar a V. Ex., 
que não deixe de sua parte de agradecer ao bispo da pro- 
vincia de Pernambuco os beneficies, que com a bem co- 
nhecida privação de seus commodos, mas com o verdadeiro 
espirito apostólico, tem feito tanto áquella, como k essa 
provinvia. Deus guarde a V. Ex. Palácio do Rio de Ja- 
neiro, em 19 de Junho de 1835. Joaquim Vieira da Silva 
e Souza. — Sr, António Joaquim Moura. 

lUm. e Exm. Sr. — O regente em nome do Imperador, 
ficando inteirado do que V. Ex refere em seu officio de 20 



— Te- 
clo me2 passado ha por bem que V. Ex. remota a planta 
e o orçamento das obras publicas^ que se propõe fazer nessa 
província: e manda communicar-lhe, que se solicitará do Sr. 
ministro da guerra a nomeação de um oífícial engenheiro, 
que tenha os conhecimentos e pratica, que V. Ex. 
exige, para dirigir os trabalhos das ditas obras. Deus guar- 
de a V, Ex. Palácio do Rio de Janeiro em 9 de Novem- 
bro de 1835. — António Paulino Limpo de Abreu. Sr. 
António Joaquim de Moura. 

Illm. e Exm. Sr. — Tendo de responder definitivamente 
ao officio de V. Ex. de 20 de Outubro do anno passado; 
manii o rebente em nome do Imperador o Sr. D. Podro II 
communicar-ihe que, com quanto julgue de grande utili- 
dade as obras, que V. Ex. menciona no referido officio, e a 
cujo impulso se dedica com louvável zelo, nâo é com tudo 
possivel serem soccorridas pelo governo geral, visto que, 
sendo taes obras provinciaes, á assembléa d 'essa provincia 
cumpria consignar meios para a sua execução ; devendo 
recanir sobre ella toda e qualquer responsabilidade moral, 
por assim o não haver praticado : que se faz digra de elogio 
a diligencia com que V.Ex. tem promovido uma subscripçào 
voluntária a favor das mesmas obras, bem como a cautella 
das sedulas, para se não agravar a desconfiança dos povos 
á que abuzos anteriores tem da^lo sobejo motivo ; convindo 
que, aíém d'aquella medida se nomeie mesmo um thesou- 
reiro, em quem elles confiem, para recebimento da re- 
ferida subscripção : que finalmente, quanto ao engenheiro, 
nâo se acha aqui dezocupado algum que possua os precizos 
conhecimentos para a commissão que se indica, cuja direc- 
ção pôde aliás ser commettida á qualquer particular^ que, 
conhecedor das localidades, e instruído praticamente em 
similhantes trabalhos, e apreciador de interesse prove- 
niente delles, melhor e com maior actividade os pôde di- 
rigir, do que qualquer outra pessoa, em quem não concorrfto 
todas ou algumas d estas circunstancias. Deus guarde a 
V. Ex. Palácio do Rio de Janeiro, em 6 de Abril de 1836 
José Jgnacio Borges, —Sr. prezidente da provincia das 
Alagoas. 

Durante a administração do prezidente António Joaquim 
de Meira, esteve elle fora d^ella em um sitio á 4 léguas 



— 77 -• 

de distancia entre a cidade das Alagoas, e a ontSto 
villa de Maceió, por espaço de doze dias, por caussa de mo- 
léstia grave, e passou a prezidoncia ao 4.'' víco-prezidente 
o lente de geometria Francisco Elias Pereira (que se achara 
então nos trabalhos da assembléa legislativa provincial a 
esse tempo reunida) por impedimento dos três aue o pre* 
cediâo pela ordem numérica, o qual chamado pela camará 
da capital, na fórma da lei, prestou juramento do istilo, e 
tomou posse no dia 22 de Fevereiro e sérvio até 5 do 
Março d'aquelle anno de 1835. 



§ 17 

Rodrigo de i^ioiua da mIItb Pontes. 

Rodrigo de Souza da Silva Pontes, nomeado por carta 
imperial do regente em nome do Imperador o Senhor 
D. Pedro 11, de 13 de Julho de 1836, ciicgando a pn>- 
vincia, prestou o juramento do estilo, e tomou posse da pn;- 
zidencia perante o prezidente António Joaquim de Moura, 
e a camará municipal da capital, em 23 de Agosto do dit^i 
anno de 1836. 

Já bem conhecido pelo seu caracter probo, desintoressAfloi 
e justiceiro, desde quando ch-gou á ella a primeira vez na 
qualidade de ouvidor geral, e corr^ador da então m>- 
marca, e ora provincial, a sua nomeação foi de um feliz 
agouro para toílrj« os bon« Alagoanos. 

Principiou .«eu governo por riiBtentar tudo a/juillo qtio 
seu antece&sor António Joaqgim de )Ioura tinha wltn^nálo, 
e mesmo principiado em beneficio da província : f*:z eoii' 
cluir a obra da caza de^^tínada para palácio do gov/^njo^ 
e na secretaria, qa> aquelle tinha deixado em tjom ao/la^ 
mento, e eheío de diisintereí^se, concordou em porem^se na 
tarja ^^bre a portada d/> edificio am inictaes do nome de 
António Joaquim de H^iura. 

Fex acabar de todo, e pôr em exercíeis/ a catraia fa- 
bricada para dar entrada á* embarcaçSes na barra do rio 
de Sio-Fran^rifiea, íaaeodo benzer oom noleomidade no âCto 
de ir ao mar, appdUidaiMio-a Catrmia villa do Penedo ; 



— 78 — 

concluir as três pontes do aterro, que vai da cidade das Ala- 
goas para a povoação de Tapcraguá^ e a do rio Bebedouro ; 
e arrematar a do rio Jequiá da Praia ; e rasgar o canal de- 
nominado da Ponta- grossa com a subscripçao promovida 
para o outro do trapixe da barra, como a anterior admi- 
nistração tinha ultimamente projectado com consentimento 
da maioria dos assignantes (pela difficuldade que offerecia 
este por falta de fon.as na subscripçao) a fim de com mais 
brevidade o publico poder utilizar-se das vantagens, que 
oflferece obra de tanta utilidade. Fez construir uma 
atalaia para signal da sobredita catraia. Fez mais levan- 
tar a planta e organizar o orçamento da ponte do rio Ma- 
ceió; da cadeia da cidade do mesmo nome, e da de Ala- 
goas ; planta e orçamento para melhoramento das aguas 
da Palmeira das índias ; o orçamento das despezas prová- 
veis com a construcção de duas canoas destinadas, uma 
para passagem de pessoas, e outra de animaes na barra 
de São-Miguel ; ordenou, que se procedesse aos exames ne- 
cessários para determinar a coUocação e dimensões das 
balizas na mesma barra ; deu impulso á obra do armazém 
de JaraguÀ, e á construcção da cadeia das víllas da As- 
sembléa, e Imperatriz; promoveu uma subscripçao afim de 
abrir-se um canal, que atravesse a ilha do Porto, ou Sa- 
linas, e vá sahir ao canal da Massagueira, pelas van- 
tagens que devião rezultar ao publico. 

Dirigio ao governo supremo as suas solicitaç^les a fim de 
que puzesse á disposição do governo provincial um ou dous 
oficiaes engenheiros para levantarem os mappas estatistico c 
topográfico da provincia ; e propôz á assemoléa legislativa 
provincial o estabelecimento de uma colónia na povoação 
do Coqueiro- secco, ou no logar denominado Fomão- velho. 

Fez abrir duas estradas, com a despeza somente da fer- 
ramenta^ a sustento dos trabalhadores, por isso que os mo- 
radores d'aquelles legares se prestarão ao serviço por si, 
ou com os seui escravos, debaixo da direcção gratuita do 
coronel^hefe de legião de guardas nacinaes Domingos Jozé 
da Costa Agra, uma que vai da Lage do Canhoto á serra 
do Cacici com seis léguas de extensão, o outra do Reca- 
dinho á mesma serra com igual distancia. Deu as provi- 
dencias para abrir-se uma outra estrada debaixo da mesma 






^ 



A. 



— Tx> — 

direcçio e com as mesmas vanlãu^u^ dt^%Ío o uh>i\ch^\aiÍx^ 
logar do Roçadínho até a ^crra do ^o•J\^\^ u^niio d^i \ ilia 
de Popto-calvo. para d'alu sor lovada a íaat^r juuovAo \Mm 
a estrada geral de Pwnambuco. 

A soa probidade e o muito coucoito |nib)iw« vlo ^)U<i> mhu 
pre gozou, lhe obtiverão o eminonto logar do do)mtado A 
assembléa geral legislativa, em cujo oxeroioio aiudn »o aolm> 
sendo o primeiro por esta província com 3;>2 voto». 

Durante a sua administração instalou-so toivoira vt^ir a 
assembléa legislativa provincial em 12 do JanoíiH) do \Hl\7t 
e n'esse acto dirigio o presidente PontoA á nionina HHMt^n- 
bléa^ na forma do art. 6 da lei geral do 12 do AgoHto do 
1834; a respectiva fala, na qual se conhooia o solo pi^lo hoitt 
da província, que ao seu cuidado fAra contiuda, o a iiiHÍruo 
çKo e pratica dos negócios, que nuiito o distiiiguoui. 

Em sessão ordinária do dia 7 do Kovoroiro do K^forldo 
anno procedeu a assembléa á eloiçilo doK hoín cidiuIltoN^ (|tio 
devido servir de vice-prezidontoH da provinoia o iint no 
impedimento do outro, na f/)rma do nrt. 7 dii loi 1} do ( )ti 
tubro d^aquolle anno de 1834, o f(5rV> noinoadoN oh NogtiinliiM! 
o deputado bacharel Firmino António do Hoii///i, Juiz do 
direito da comarca da Atalaia, o dojiutado lotito do f^ootoo 
tria Francisco Elias Pereira; o doputado major Migiiol 
Veloso da Silveira Nóbrega c VanconcolloM, o do|iutadr> 
tenente Francisco Frederico da Uocha, o dooiítado ailvo 
gado Jozé Corrêa da Silva Titara, c o íM^ronol-olioíW do Ii5|/i to 
Manuel Gomes Ribeiro Júnior* 

Sendo porém levada a lista a H, Mag^^nta/l'; o íutttftrtultr, 
por decreto do r^ente em nom^; do uummh i^r» do 8 w %ÍHtf;o 
do iobredíto amio, foi d';iíínrijria''a a ortinu unmécfff.fí $in 
forma seguinte: o cor^/ri^d^rh^^*? d/? l^^ríSo Míhí^í ^UtftfM 
Blbeiío JuLÍfc, o i*:p'iXí^lo ut^yfT iíiííti^-Á V'íí'/y//^larjív^ífa 
Nobreça eVaíeo:---:.!'/*; od p-tvl// ba/rí^fíl Vinulf^f A'.*/^ 
eí > dft ^^/xra- o C^y. tvJ/> U^.Uí d/; íf^y/fí^rl* yrnkf^útaf^/f )rX,Hn 



— so- 
da provinci::, uma porção do sementes de pinho, o prezi- 
dente Pontes pedio também, que lhe fossem, como forSo 
remetidas as de nogueira da índia, do espinho de Maricá 
c a arvore do pilo. Pedio também laminas de bom pus 
vacinico tanto ao me^mo ministério do império, como aos 
prezidentes de Pernambuco e Bahia, afim de ver livre da 
peste terrível das bexigas os seus governados. 

Dezejozo de ver estes sempre tranquillos, e persuadido de 
que alguns acontecimentos desagradáveis (qne tinhSio tido 
logar no municipio da Atalaia, entre os indios e alguns 
moradores por caiiza de terras, a que os primeiros dizem 
tem direito) tomavâo necessário, qne elle fosse ocularmente 
examinar o estado d'aquella parte da provincia, aproveitando 
o ensejo para instruir-se de perto nas publicas necessidades, 
que ali se pudessem encontrar, como elle participou ao 
ministério do império em ofBcio de 31 do Outubro de 1837; 
e mesmo com o fim de vêr legares, que seus antecessores 
ainda nSo tinha visto ; partio para a villa da Atalaia n'a- 
quelle dia 31 de Outubro, e d'ella passou ás villas da Impe- 
ratriz, Assemblêa e Palmeira dos índios, d'onde voltou e 
chegou á cidade das Alagoas, entSo capital, em 4 de Dezem- 
bro, deixando pacíficos e satisfeitos aquelles povos,que pela 
Srimeira vez virão no logar do seu nascimento o seu prezi- 
cnte, um delegado do governo supremo. 

Ainda se achava na administração da provincia, quando 
se instalou pela quarta vez a assemblêa legislativa provin- 
cial no dia 6 de Janeiro de 1838. A fala, que n'esse acto 
lhe dirígio na conformidade da lei, em couza nenhuma des- 
mereceu á qne havia recitado em 12 de Janeiro de 1837. 

N^esse me^mo anno (primeiro da 2.* legislatura) se repetio 
a nomeação de vice-prezidente da provincia, apezar de ter 
se feito no anno antecedente, por isso que a primeira legis- 
latura durou trez annos na conformidade da lei; e teve 
logar a dita nomeação do modo que consta da acta da sessão 
ordinária de 10 de Janeiro d'aquelle anno de 1838, regis- 
trada no livro competente de pag. 62 verso até pag. 64 
verso, e é como se segue. 

< I?a8sou-se á primeiro parte da ordem do dia. O Sr. 
Bastos mandou ámeza o requerimento seguinte: Requeiro 
86 proceda á nova eleição de vice-prezidentes da provincia. 





í 



— 81 — 

Foi apoíado^e remetido á commissão da constituição e leis. 
O mesmo Sr. depatado, requerendo a urgência, depois de 
alguma discussão^ obteve permissão de retirar seu reque- 
rimento. A commissão de constituiç^lo^ leis e de poderes 
deu o parecer seguinte, copiado do próprio original, com as 
respectivas notas das sessSes. A commissão de poderes, a 
quem foi prezente a indicação do deputado, o Sr. Dr. Jozé 
Tavares Bastos^ em que pede, que se proceda á nova elei- 
ção de vice-prozidente da provincia, tendo em vistas o es- 
pirito da lei do 3 de Outubro de 1834, art.7, em relação ao 
disposto no art. 4 da lei da reforma, é de parecer, que se 
proceda á nova eleição por ser da competência d 'esta legis- 
latura, e não da transacta. Sala das commissões em 11 de 
Janeiro de 1838. Albuqtierque Mello, Pontes Visgueiro. Pe- 
reira Freire. (Nota P) Adiado por pedir a palavra o Sr. 
deputado Titara em sessão de 11 de Janeiro de 1888. 
(Nota 2^) Adiados pela hora em sessão de 12 de Janeiro 
de 1838. (Nota 3*) Aprovado na de 13 de Janeiro de 1838. 

Em consequência d'este parecer, em sessão ordinária do 
dia 15 de Janeiro dito anno, procedeu aassemblóa à eleição 
dos seis cidadãos, na forma da lei, e fôrão nomeados os se« 
guintes : o deputado eleito coronel cbefe de legião Manoel 
Gomes Ribeiro Júnior, o deputado lente de philosophia 
bacharel Jozó Tavares Bastos, o deputado vigário Fran- 
cisco de Assis Barboza, o deputado coronel chefe de legião 
Pedro António da Oosta, o deputado vigário Jozé Caetano 
de Moraes e o bacharel juiz de direito da comarca do 
Penedo Manoel Bernardino de Souza Figueiredo. 

Sendo porém levada a lista ao governo geral para ser 
determinada a ordem numérica, o regente interino em 
nome do Imperador o Sanhor I). Pedro II, por avizo da 
secretaria de estado dos negócios do império com data do 
16 de Abril do mesmo anno de 1838, que principia : « Illm. 
eExm. Sr. — Sendo presente.... em logar da eleição, á que 
procedera a transata assembléa legislativa, que por esta foi 
nuUa apezar de se achar approvada e regulada a sua ordem 
numérica pelo governo geral por decreto de 8 de Março de 
anno próximo passado ; visto persuadir-s3 a mesma actual 
assembléa legislativa provincial, que lhe fora pela anterior 
uzurpado o sou direito e prerogativa especial da eleição, e 

TOMO XLVI, F. II, 11 




— 82 — 

Í)or dar uma inexacta intelligencia ao art. 7 da carta de 
ei de 3 de Outubro de 1834.... manda declarar a V. Ex. 
que devem ter cumprimento tanto. ..., como o decreto de 8 
do referido mez^ não obstando as razões allegadas... as 
quaes só seriSo procedentes, si no art. 7 da citada ei 
em vez de : A assembléa legislativa provincial renovará esta 
eleição cada dous annos — se dicesse : A assembléa legis- 
lativa provincial renovará esta eleição cada legislatura, — 
f)0is que, não havendo expressa esta limitação, cada logis- 
atura, nenhuma razão pôde dar-se para deixar de julgar-ge 
competente, e encarregada da eleição aquella assembléa da 
respectiva legislatura, cm que se findarem os dous annos. j> 
Na mesma acta em questão lê-se, á pag. 63 verso, o se- 
guinte, que é mais uma prova do quanto o prezidente Ro- 
drigo de Souza da Silva Pontes seinteressava no bem da pro- 
víncia das Alagoas: a O Sr. Albuquerque Mello envia á meza 
o seguinte requerimento — Requeiro, que se nomeie uma de- 
putação de seis membros para agradecer ao Exm. Sr. pre- 
zidente da provincia pelos relevantes serviços, que tem 
prestado á provincia, desde que n'ella chegou. Foi apoiado 
e approvado. A pag. 64 se lê : O Sr. prezidente em con- 
sequência do requerimento do Sr. Albuquerque nomeia para 
membros da deputação o mesmo Sr. deputado, autor do re- 
querimento, eos Srs. Dr. Bastos, major Costa, alferes Ro- 
meiro, coronel Pedro António e Arroxellas Galvão ». 

Da acta da sessão de 11 do referido mez de Janeiro, 
registrada do pag. 64 v. até pag. 66, á pag. 65 consta o 
seguinte: <....e entrando em discussão, foi esta interrom- 
pida para ter logar a leitura de um officio do interino 
secretario do governo, era que communica, que o Exm. pre- 
zidente da provincia bastante penhorado pelo testimunho 
honrozo, que a assembléa legislativa provincial quer dar- 
Ihe, de seus esforços a prol da provincia, com a maior 
satisfação receberá a deputação nomeada no seguinte dia 
pelo meio dia. 

Finalmente na acta da sessão de 12 do mesmo mez de Ja- 
neiro, registrada de pag. 66 até pag. 67 v., á pag. 66 v. se 
contêm o que se segue... « e entrando em discussão, foi esta 
suspensa por ter sabido a deputação a dar os agradecimen- 
tos a S. Ex. o prezidente da provincia pelos relevantes 




— 83 — 

serviços prestados a prol da mesma. Por uma hora da tarde 
voltando a deputação, o Sr. Bastos, como orgfto da mesma, 
recita o discurso por elle recitado na prezença do Exm. 
prezidente da provincia, assim como a resposta do mesmo 
£xm. Sr., que a camará ouvio com especial agrado». 

Elle fez todos os esforços para evitar o contrabando do 
páo-brazil, e de escravos africanos. Reprezentou ao go- 
verno geral a precizão de serem beneficiadas as barras do 
litoral da provincia, por duas vezes. Pedio adecizão do 
que seu antecessor tinha pedido a respeito da construcçâo 
de um brigue e uma escuna, cujos riscos e orçamentos, por 
aquelle enviados, estão mostrando a utilidade doesta medida; 
bem como alguma fortificação para fazer observar os regu- 
lamentos do porto e as leis do paiz. Por falta de pessoas 
habilitadas para o intento não collocou na barra de São-Mi- 
guel quatro bóias, que a pedido seu fôrão enviadas do arse- 
nal da corte. Pedio ao governo geral 10 peças colubrinas, 
para que, fixadas sobre o recife, sirvão de espias ás embar- 
cações; pedio a quantidade de armamento, que fosse possí- 
vel para a guarda nacional, que estava organizando, quando 
largou a prezidencia. 

Fez toda a diligencia a ver, si vendião-se na corte, onde 
sem duvida se difBcuIta monos qualquer transacção de 
similhante natureza, as loterias concedidas á camará mu- 
nicipal da cidade das Alagoas pela portaria da secretaria 
de estado dos negócios do império de 21 de Agosto de 1823; 
e cuja venda, fora ou dentro da provincia, foi autorizada 
pela rezoluyão da assembléa legislativa provincial de 9 de 
Março de 1836, designada sob n. 15 ; mas não o pôde 
conseguir por embaraços de duas dispoziçdes do plano, 
que pedio á mesma assembléa para as remover, e que re- 
movidos na ultima sessão, e retirando-se elle pouco depois 
d'ella, não coube n'esse tempo o fazer á respeito quanto 
dezejava. 

Com avizo da secretaria de estado dos negócios do 
império com data de 27 de Setembro de 1838, ao governo 
foi remettido o modelo de uma machina para descaroçar 
algodão (que eUe tinha pedido em seu officio de 7 de Março 
do mesmo anno) acompanhado de um esboço explicado, 
mostrando em prospecto a sua applicação. 



— 84 — 

• 

Empregou todo o sou zelo e religião em proniptamente 
soccorrer algumas matrizes com as quotas para isso des- 
tinadas afim de evitar, que aquellas que, por seu estado 
de pobreza, estão era total abandono e ruina, nSo conti- 
nuassem a soffrer taes males. Pedio e obteve da assembléa 
legislativa provincial, que, além da quota ordinariamente 
desi;^nada para o concerto das matrizes existentes, votasse 
alguma quantia para principio deconstrucçâo de matrizes 
novas. Peílio ao governo geral, pelo ministério da justiça, 
que na corte, pela academia das bollas artes, se levan- 
tasse, e lhe fôsse remettida a planta para a igreja matriz, 
que se pretendia edificar na então vi Ha de Maceió ; e nâo 
só lhe foi enviada uma, como duas de dous soberbos fron- 
tespicios com o avizo da respectiva secretaria de estado, 
com data de 26 de Abril de 1838, que já chegarão no 
tempo do seu successor, acompanhados da cópia do officio 
do dírictor da dita academia, e de uma nota explicativa 
do autor. 

Diligenciou até pôr capellao no arraial do Jacuhipe; pedio 
á assembléa provincial, que o habilitasse para a despeza do 
concerto da capei la, e compra dos paramentos, o vazos sa- 
grados necessários á decente celebração do culto divino, e 
tudo conseguio. 

Finalmente estando próxima a sua partida para ir tomar 
assento na assembléa geral legislativa, pedio sua demissão 
do cargo de prezidente, e lhe foi concedida com a honra que 
consta do avizo da cópia seguinte. 

Illm. e Exm. Sr. — Tendo o regente interino em nome 
do imperador o Sr. D. Pedro II, por carta imperial da data 
d'este, nomeado ao Dr. Agostinho da Silva Neves para su- 
ceder á V. Ex. na prezidencia d'es8a província, concedendo 
á V. Ex. a demissão, que pedira : o mesmo regente não só 
manda louvar os bons serviços por V. Ex. prestados du- 
rante a administração d^ella, mas também signiíicar-lhe, 
para sua intelligencia, que, conservando-os em sua lem- 
brança, tenciona empregar a V. Ex. de uma maneira mais 
conveniente ao serviço publico. Deus guarde a V. Ex. 
Palácio no Rio de Janeiro em 26 de Fevereiro de 1838 
— Bernardo Pereira de Vasconcelloa, — Sr. Prezidente da 
província das Alagoas. 



— 8Õ — 

No dia 14 de Abril de 1838 acbando-ee incommodado o 
prezidente Silva Pontes, e cuidando do seu embarque para 
o Rio de Janeiro, passou a prezidencia ao vice-prezidente 
coronel-chefe de legião Manoel Gomes Ribeiro Júnior, o 
qual a exerceu até o dia 17 do referido mez e anno. 



§ 18. 

j% gostinho da ilIlTa Meves. 

Agostinho da Silva Neves, nomeado por carta imperial 
do regente interino em nome do Imperador o Sr. D. Pedro 
n, de 26 de Fevereiro de 1838, chegando á provincia,pres- 
tou o juramento do estilo, e tomou posse da prezidencia pe- 
rante o vice prezidente Manoel Gomes Ribeiro Júnior, e a 
camará municipal da capital em 18 de Abril do mesmo anno 
de 1838, e sérvio até 9 de Fevereiro de 1840. 

Participou ao governo geral, pelo ministério dos negócios 
do império, em officio de 23 d'aquelle mez de Abril, que a 
província se achava em paz, e que per informações que teve 
de seu antecessor, Rodrigo de Souza da Silva Pontes, o 
outras, que tinha podido colher, julgava, que esta seria 
duradoura; remetendo cópias autenticas dos 33 actos legis- 
lativos da assembléa da provincia, que tinhão sido promul- 
gados na sessão ordinária do mesmo anno. 

Foi logo no principio da sua administração, que tevo 
logar a eleição do regente do império, cujas actas também 
enviou,parà serem prezentes ao regente interino, com officio 
de 23 de Maio do referido anno. 

Participou a existência na capital de duas únicas com- 
panhias de tropa de linha, e cem soldados de policia, sendo 
precizo com esta pequena força ac dir ao serviço das guarni- 
ções, e manter o socego publico, o a segurança individual 
em cinco comarcas differentes, todas de grande extensão ; 

f)edindo aos ministérios competentes augmento de força do 
inha, suprimento de quantias que fizessem face ás despezas, 
e autorização para destacar maior força da guarda nacional 
do que a limitada no art. 2 do decreto de 15 de Outubro 
de 1837 ; tornando a pedir a remessa do engenheiro, que 
já dous antecessores seus tinhão suplicado. 



là 



- 86 — 

Elle fez levantar^ e remeter ao governo geral a planta e 
orçamento da despeza com uma ponte, que devia fazer-se 
sobre o rio Mirim na estrada, que vai d'e8ta provincia para 
a de Pernambuco ; e reprezentou sobre a utilidade, que podia 
cauzar a guarda nacional, si tivesse o competente arma- 
mento ; pedindo este, ou que se marcasse uma quantia 
tirada da d cretada na lei do orçamento geral para compra 
do mesmo. 

Durante a sua administração installou-se pela quinta vez 
assembléa legislativa provincial em 9 de Maio de 1839 ; e 
n^esse acto o prezidente Silva Neves dirigioá mesma assem- 
bléa a fala, que o art. 8 da lei geral de 12 de Agosto de 
1834 prescreve, e n'ella se observava o seu profundo talento, 
e o quanto se interessava pelo, bem estar da provincia a seu 
cargo. 

Em sessão ordinária de 31 de Maio d'esse mesmo anno 
procedeu a assembléa á eleição dos seis cidadãos, que devifto 
servir de vice-prezidente da provincia, e um no impedi- 
mento do outro na conformidade da lei respectiva, e torão 
nomeados pela ordem seguinte: o deputado coronel-chefe 
de le;^ião Pedro António da Gosta, o deputado eleito coro- 
nel-chefe de legião Manuel Gomes Ribeiro Júnior, o reve- 
rendo Jozé António de Caldas, o Dr. João Lins Vieira Can- 
sansão, o deputado bacharel Jozé Tavares Bastos, o ba- 
charel António Qonçalves Martins. 

Deliberando a assembléa, em sessão de 5 de Junho sub- 
sequente, que fossem convocados pela prezidencia da pro- 
vincia os vice-prozidentes nomeados, que se achassem na 
mesma provincia, para prestarem logo o juramento nas 
mãos do prezidente da dita assembl<^a, marcando-lhes este 
um prazo razoável, segundo a distancia do que rezidisse 
mais remoto da capital, não sendo admitido o juramento por 
procurador; e marcando o prezidente da assembléa o dia 27 
d^aquelle corrente mez de Junho, na sessão d'e8te dia 27 com- 
parecerão quatro somente a saber : o coronel Oosta, o coro- 
nel Ribeiro Júnior, o Dr. Oansansão e o bacharel Bastos, e 
sendo introduzidos com as formalidades do estilo, por uma 
deputação de seis membros, na prezença do prezidente e 
deputados, prestarão o juramento de bem servirem o cargo 
de vice-prezidente da provincia (participando o bacharel 




4 

( 



— 87 — 

Oonçalves Martins não poder comparecer por motivo de 
moléstia); sendo o termo de juramento^ que se lavrou, depois 
de aBsignado por elles e pelos membros da meza, na con- 
formidade do regimento interno, endereçado ao prezidente 
da prcvincia, por cópia, aíim de que assim fôsse communi- 
cado á camará municipal da capital para sua intelligencia 
e governo. Sendo pois levada a lista á S. M. I. o Sr. D. 
Pedro II, o regente em nome do mesmo Sr., por decreto 
de 23 de Setembro do anno sobredito, determinou a ordem 
numérica pela maneira seguinte : os cidadãos, o Dr João 
Lins Vieira Cansansão, o coronel-chefe de legião Manoel 
Gomes Ribeiro Júnior, o bacharel António Gonçalves Mar- 
tins, o coronel-chefe de legião Pedro António da Costa, o 
bacharel Jozé Tavares Bastos, o revendo Jozé António de 
Caldas. 

Tinha o prezidente Silva Neves feito de sua parte toda 
a diligencia por estar sempre a provincia tranquilla, mas 
parece, que como por fatalidade estava reservado para o 
tempo de sua administração um desastrozo successo tanto 
mais sentido por todos e estranhado, quanto ainda não 
tinha havido similhante em autoridade alguma mandada 
pelo governo geral, o que elle sentio profundamente, e do 
^ue deu evidentes provas ; a desgraçada morte com um tiro 
do juiz de direito da comarca de Anadia, o bacliarel João 
Jozé da Fonceca Lessa, a qual teve logar no dia 3 de Se- 
tembro de 1838, pelas dez horas da noite em sua caza na 
vi Ha da Anadia, cabeça da comarca, sem que se podessem 
conhecer, ou aprehender os matadores ; e chegando seu 
cadáver ás onze horas da noite no dia seguinte ò, cidade 
das Alagoas, então capital, por terem seus amigos d'aquella 
villa tomado a rezolução de o conduzirem para ali anm de 
ser enterrado com mais decência ; foi com effeito sepultado 
no dia 5 na igreja matriz, assistindo a esse triste acto o 
o mesmo prezidente, empregados públicos e pesáoas gradas 
da cidade. Elle deu todas as providencias ao alcance do 
governo, mas nunca se puderão descobrir os culpados ! 

Por iim oíRcio dirigido á secretaria doestado dos negócios 
do império, em data de 8 de Novembro de 1838, participou, 
que tendo-se agravado a enfermidade que sofria, quando 
chegou a esta provincia, era-lhe penozo no estado em que 



— es- 
se achava continuar na sua administração, o que rogava 
fosse levado ao conhecimento do regente em nome do impe- 
rador, para que se dignasse dar-lhe a demissão do logar, 
que lhe confiara, e nomear logo o seu sucessor. 

EUe mandou orçar a despeza com o concertO; e reparo da 
capella de Jacnhipe, e comprar em Pernambuco os para- 
mentos e vazoB sagrados, commetendo administração da obra 
do capellão, que como pessoa interessada na sua concluzão 
se empenharia por ella. Elle pedio á assembléa uma nova 
quota, que igualasse a quantia do orçamento meneio- 
nado, conclnindo o seu pedido na forma seguinte: « No 
logar, que tanto ensanguentou o fanatismo, convém, que 
um monumento decente seja garante, com povos rudes e 
ignorantes, dos sentimentos religiozos do governo, e atteste 
ao mesmo tempo a vossa gratidão por uma religião, que 
com palavras de paz e consolação somente pôde concluir a 
obra da pacificação. » 

Fez começar- se a ponte do rio Jequiá: ameaçando ruina 
a do rio São-Miguel, incumbio de seu reparo o cidadão 
Rozendo Cezar de Góes, que também o concluio : fez tam- 
bém concluir a obra do matadouro publico da cidade das 
Alagoas ; o lanço de estrada, que vai do Recadinho á serra 
de São-João, encarregada á administração do coronel Do- 
mingos Jozé da Costa Agra ; uma estrada desde esta serra 
de São-João até á villa de Porto Calvo, que a camará 
respectiva reprezentou-lhe ser de utilidade, para abrir uma 
communicação com o termo da Imperatriz, e que o cidadão 
Veríssimo de Mendonça se encarregara d'essa obra pela 
quantia de 600^, suprindo somente o cofre provincial com 
300^, agenciando ella os duzentos por meio de subscripção, 
e se comprometeu por todo o excesso de despeza. 

Estando quazi intransitável a estrada entre a cidade das 
ÂlagCas, e a villa de São-Miguel, incumbio o Dr. João Lins 
Vieira Cansansão do Sinimbu o major Salvador Pereira da 
Roza e Silva, e o cidadão Jozé Barboza de Messias de cura- 
rem do seu melhoramento, fazendo-o com pequena despeza 
por prestarem diversos proprietários serviços de seus escra- 
vos; a dita estrada acha-se já em muito bom andamento. 

Fez concluir a obrada ponte do rio Bebedouro, construida 
depedra,posto que ficou aefeituoza,porque apenas finalizada. 



i 




^ 



— 89 — 

o pilar do meio da ponte abateu por assentar em solo 
apaulado, e aguas do pântano ; vários reparos em cadeias, 
e mesmo em outras pontes, além das referidas, os quaes por 
insignificantes deixâo de referir-se, e por falta de numerário 
nio fez dar principio ás cadeias da cidade das Alagoas, e 
de Maceió, e a ponte do rio d'este ultimo nome, e asnnme- 
rozas obras decretadas nos annos paseadoí) e anteriores. 

Deiejando o engrandecimento da província, que gover- 
nava, e avaliando de quanta vantagem seria para o Brazil 
a descoberta de uma mina de carvão de pedra ; e sendo 
informado de que umas amostras d^elle, que se tinbâo re- 
metido para a corte afim de serem examinadas, fôrSo tiradas 
nos morros de Camaragibe, termo da villa de Porto de Pedras 
doesta província das Alagoas, convidou o Dr Manoel Joa- 
quim Fernandes de Barros, e um joven engenheiro estran- 
geiro Eduardo de Momay, para irem com elle prezidcmte 
iquelle logar, a fim de elles examinarem o terreno,e {azerem 
as observações precizas tendentes a se omhecer se encerrar a^ 
oa nio carvio; prestario-^e com efeito promptamente ao 
seu convite, e o rezultado transmíno á secretaria destado 
dos negócios do império, acompanhado de um vidro com a 
amostra do lígníte:», pedindo ao mesmo temjjo os fundr^» 
iieeesâario$, e os operários iàfmeffn para «e fazerem os poçr/^ 
mineiras, ecc, etc, e teve em re>p<jr*ta o avízo da o^Spla 
seguinte: 

Dlm. e Exm. íír. — Foi prezente ao regente ern none 
do imperatfi*^ o que V. £x., em otBcio de 14 do mez 
^ 1 passado, expende acerca d<> rezult2i':o da.^ índagaç^%», á 

que, por c»>nv:te de V. Ex-, procederão o Dr. Mano<:l 
Joaquim Fernandes de Barro*, e o en^en:.e:n> e** rancei n^r 
Edurdo de Morna v. no terreno d » morro de Carr^aracrl^^^ 
para verífi^-ar a exUteccía da mina de carva/ df ^*Ara'. e o 
flieiHM> regente, nc-indo de :i*«io inteira': o. tt^axAsl rtíf^inder 
a V. Ex«y q jC- ten«io-»e já <^ncajTe$rado ao JJr, J J:o Parígoc 
a rmporsante o>miz;i^^^ de eTiliad«>zaznenre examinar 
a TtUiri*i^ n..:na. e oatnL-*- ci le 4e diz de^^cj^rierta* em áli^':^ 
tentes província*, conio a V. Ex. ae comm ini'roa em avizo 
de 21 do correiite. V, Ex. agra«ie«^ em Q«.m< dâ> goverw> ao 
Dr. Barroi» o va*íi'/zo *err:*;-o por e^e áeí:#> ; esipeiacíí.', ilnrla 
o mcKno sr ^"3'erMi a^-e eile ^j€.zÍLrv!: a treg-^-^**- eoa#l' .vani:-* 



p. a. 



li 




— 90 — 

com as Buas luzes ao mencionado Dr. Parigot^ deven- 
do V. Ex agradecer também ao sobredito engenheiro Mornay 
a sua cooperação ; na certeza de que o governo não terá 
duvida de o empregar, quando se oflFereça oportunidade. 
Deus guarde a V. Ex. Palácio do Rio de Janeiro em 26 
de Novembro de 1839. — Manoel António Galvão. Sr. pre- 
zidente da provincia das Algôas. 

Conservou-se a provincia tranquilla até 26 de Outubro 
de 1839. Motivos politicos, ocorridos nos dias 27 e 28 
do dito Outubro, e uma sedição da tropa e povo reunidos, 
que apareceu ao amanhecer do seguinte dia 29, fizerão 
com que o prezidente da provincia, desde aquelle momento, 
em que acabava de acordar, se achasse sem a guarda de 
palácio, sem ter a quem dar uma ordem, izolado no so- 
brado do mesmo palácio, com um criado e um escravo, e 
ordem de não subir, nem descer pessoa alguma. 

N'este mesmo momento chegou á porta de palácio, a 
querer entrar, para ir ter com o prezidente, o coronel 
de milicias reformado Francisco Manoel Martins Ramos, 
secretario do governo, (nomeado para este cargo por 
carta imperial do ex-Iraperador o Sr. D. Pedro I, de lá 
de Outubro de 1830, e do qual prestou o juramento do 
estilo nas mãos do então prezidente, Visconde de Villa 
Real da Praia-grande, e tomou posse em 12 de Janeiro 
de 1831) ; hezitárão attenciozamente os que esta vão de 
sentinela, si poderia elle secretario 'entrar, segundo a 
ordem que havia ; mas um official de patente, que che- 
gava n^esta occazião disse, que o dito secretario podia 
subir ; e foi a única pessoa a quem n'aquolle dia foi isto 
permitido, e que esteve acompanhando o prezidente até 
nove para as dez horas da noite, pouco mais ou menos , 
tempo em que, entrando para a secretaria do governo, 
aonde já se achava o vice-prezidento, que acabava de 
ser empossado na prezidencia, o bacharel Jozé Tavares 
Bastos ; e, dizendo-lho o referido secretario a incommu- 
nicabilidade, em que se achava o prezidente Silva Neves, 
elle deu iramediataraente ordem para ser levantada tal 
incommunicabilidade, e acatada a pessoa do prezidente; 
e, mandando abrir a porta da secretaria que dá corres- 
pondência para a sala do palácio, disse ao secretario, que, 




- 91 - / 

emquanto expedia certas ordens, para depois ir elle 
mesmo, fosse participar ao prezídente a ordem, que aca- 
bava de dar. 

Abaixo vão transcriptas as cópias autenticas de al- 
guns officioB, que demonstr&o as cauzas da sedição (que 
durou de 29 de Outubro até 12 de Novembro, sem que 
houvesse uma só gota de sangue derramado, um só furto, 
o toque de um só real de uns poucos de contos de réis, 
que existiâo nos cofres das thezourarlas tanto da fazenda 
como das rendas provinciaes), e do restabelecimento da 
ordem ; do presidente deixar de continuar na adminis> 
traçâo da provincia, de ser substituido n'ella por dous 
vice-presidentcB ao mesmo tempo, e de tornar a assumil-a; 
e, finalmente, que demonstrão algumas providencias que 
houverâo, e ordem do regente em nome do Imperador, 
o Senhor D. Pedro 11. 

« lUm. e Exm. Sr. — Resentido o povo doeste muni- 
cipio, por não ter V. Ex. annuido á sua justíssima sup- 
plica endereçada por intermédio do juiz de paz doesta ci- 
dade em 27 do corrente, afim de V. Ex. sobreestar na 
transferencia da thezouraria da fazenda para a villa de 
Maceió, segunda vez se reunio á vista do alarme, prizSo 
feita em um assignante da reprezentaçJio, demissão de um 
oiBcial militar, e outras medidas de perseguições contra 
outros cidadãos assignantcs. Em consequência do que, esta 
camará, temendo não se realize aquillo que em seu officio 
d'aquella data ponderou a V. Ex., e ainda mais, conhe- 
cendo que qualquer recuza da sua ou da parte de V. Ex. 
fará necessariamente rebentar a explozão tanto mais te- 
mível, quanto a confiança que o povo depozitou nos seus 
reprezentantes tem feito estar comprimida essa explosão. 
Pelo que declara a V. Ex, que, a bem da tranquillidade 
publica doeste município, convém, que V. Ex. deixe de 
continuar no exercício da administração da provincia, 
medida esta reclamada pelo povo e tropa reunidos, ficando 
V. Ex.estrictamente responsável para com o governo im- 
perial por qualquer rompimento, que se possa seguir (o que 
não ó de esperar; por cauza da negativa de V. Ex., visto 
que ella concorrerá sem duvida para consequências luctu- 
ozas, e, mais que tudo, derramamento de sangue brazileiro. 



ir 



- 92 — 

DeuB guarde a Y. Ex. Paço da camará municipal 
da cidade das Alagoas, em sessão extraordinária de 20 
de Outubro de 183U. íllm. e £xm. Sr. Dr. Agostinho 
da Silva Neves, presidente da provincia. — João da Costa 
Pinheiro, prezidente. — Jozé de Mello Corrêa, lago Fran- 
cisco Pinheiro, Manoel Joaquim da Costa. Jozé Joaquim 
de Mendonça. Francisco de Assis Ribeiro. Joaquim Jozé 
Toledo Pimenta. Silvestie Domingues da Silva, » 

Illm. e Exra. Sr. — Pela cópia induza verá V, Ex., que 
o Exm. Sr. Dr. Agostinho da Silva Neves tem-se demi- 
tido do governo da prezidencia, pelo que, não convindo 
que esta continue em estado acéfalo, cumpre, que Y. Ex. 
tome conta das rédeas do governo, emquanto se não apre- 
zenta o primeiro na ordem numérica estabelecida pelo go- 
verno geral, que nos consta já se achar na secretaria da 
prezidencia, e que a camará pede a Y. Ex. se digne 
envial-a afim de ser chamado quem de direito íôr. Deus 
guarde a Y. Ex. Paço da camará municipal da cidade 
das Alagoas, em sessão extraordinária tie 2Í) de Outubro 
de 18;í9. — ÍUra. e Exm. Sr. Dr. Jozé Tavares Ba^^tos, 
vice-prezidente d Wa provincia.— -Jbao da Costa Pinheiro, 
prezidente. la^go Francisco Pinheiro. Joaquim Jozé To- 
ledo Pimenta. Francisco de Assis Ribnro Sivlestre 
Domingues da Silva, Jozé de Mello Corrêa. Jozé Joaquim, 
de Mendonça, » 

Illm. Srs. — Achando-me cercado, e prezo no palácio da 
prezidencia por todo dia de hoje, em consequência de se 
ter o povo armado, e de ter-se a tropa existente n'esta ca- 
pital unido a elle para pedir, que eu deixe de continuar na 
administração da provincia, por não ter querido ante 
hontem annuir á petição de vários cidadãos, que insistião, 
que não se fizesse a transferencia da thesouraria de fa- 
zenda para a villa de Maceió ordenada pelo o governo 
supremo, e tomando-se Y. S. interpretes dos sentimentos 
do mesmo povo, e tropa no officio,que acabão de dirigir-me, 
ponderando que, a não annuir eu ao objecto referido de 
sua reclamação, grande responsabilidade pezará sobre mim 
por cauza de sangue brazileiro derramado; tenho a res- 
ponder a Y. S,, que não deferi a reprezentação sobredita 
pela intima convicção em que estou de que não devia 





4 



— 93 — 

sobreestar no cumprimento de uma ordem superior, quan- 
do oa peticionários podião dirigir as suas supplicas ao 
throno para conseguirem o fim de sua pretcnçAo, sendo 
todas as medidas que tomei posteriormente a esse acto 
para satisfazer o que eu julgo de meu dever, e nâo para 
exercer perseguições alheias do meu caracter conhecido ; 
mas que, tendo chegado as couzas ao ponto em que se 
achão, deixo de continuar na administração da província 
e conto, que V. S., que estSío rezolvidos a tomar as provi- 
*S| dencias, que as leis e as circumstancias momentozas em 

que se acha a capital permitirem, segundo sou informado 
pela deputação, que me enviarão, me deixaráo immediata- 
mente seguir para um logar, onde se nSo duvide da minha 
liberdade, até que se offereça occaziSo do transpor tar-me 
para fora da provincia, dando todos os meios de segurar 
minha pessoa. Deus guarde a V. S. muitos annos. Palácio do 
governo das Alagoas 29 de Outubro de 1839. — Illm. Sr. 
prezidente e mais vereadores da camará municipal 
d'e8ta cidade. — Atjostinho da Silva Neven, 

Tendo oDr. Agostinho da Silva Neves deixado a pre- 
zidencia d'esta provincia, por sua declaração dada á ca- 
mará municipal d'esta cidade, com data de hoje, como 
veríto Vmcês. da cópia induza, passei, em confor- 
midade do preceito da lei de 3 de Outubro de 1834, 
artigo sexto, e do officio igualmente induzo por cópia, que 
me dirigio a referida camará municipal com a mesma 
data, a assumir a administração doesta provincia como 
^ quinto vice-prezidente juramentado e mais próximo^ até 

que se aprezente aquelle que me precede na ordem 
numérica nos termos da mencionada lei. Deus guarde a 
Vmcês. Palácio do governo das Alagoas 29 do 
Outubro de 1839. — Jozé Tavares Basto». — Srs. prezidente 
e mais vereadores da camará municipal da villa de 
Maceió. 

Ulm. Exm. Sr.— Esta camará acaba de receber do Sr. 
Dr. Jozé Tavares Bastos, quinto vice-prezidente da pro- 
vincia, um oíRcio com data de hontem, em que lhe par- 
ticipa ter assumido as rédeas do gov rno, em consequência 
de ter deixado o prezidente d esta província o Exm. Sr. 
Dr. Agostinho da Silva Neves ; e como a V. Ex. compete. 



— 94 — 

como primeiro vice-prezidente da provinda, na conformi- 
dade do disposto na lei do 3 de Outubro de 1834, artigo 
sexto, tomar a direcção dos negócios públicos, ocorrendo 
além d 'isto a razão ponderoza de ser V. £x. a pessoa em 
quem todos os habitantes da província mais confiSo, 
para salval-os dos perigos da anarchia; esta camará não 
hezita um instante em rogar a V. Ex. para que tomando 
imediatamente conta de administração da província, 
obre de maneira a salvar-nos dos perigos, que nos ameação. 
Deus guarde a V. Ex. Paço da camará municipal da 
villa de Maceió 30 de Outubro de 1839.— Illm. Exm. Sr. 
João Lins Vieira Cansansão de Sinimbu, vice-prezidente 
d'esta província. — Lourenço Calvcdcante de Albuquerque 
MarankaOf prezidente. Manoel Caetano Tavares Vianna^ 
Joté Joaquim de Mello. Joaquim Manoel Maciel, Fran- 
cisco de Meira Lima. 

Acabo de receber o officio de Vmcês., em que me 
participão da coramunicação^ que receberão do Dr. Jozé 
Tavares Bastos, de achar-se na prezidencia desta provin- 
da em consequência da impossibilidade do Exm. Sr. Dr. 
Agostinho da Silva Neves, e no qual me convidão 
Vmcês. para assumir as rédeas do governo como primeiro 
vice-prezidente, e como aquelle em quem os habitantes da 
provinda mais confíão para salval-os dos perigos da anar- 
chia; tenho de responder á Vmcês., que, louvando a essa 
illustre camará os sentimentos de lealdade, que professa a 
prol da sustentação da lei, e não menos agradecido pelo 
testimunho de confiança com que me honra ; no momento 
em que me chegou ao conhecimento de que a provinda se 
acha acéfala pela illegal e arbitraria coação, á que re- 
duzirão o Exm. prezidente, me julguei habilitado para 
exercer o governo ; e n^este sentido tenho officiado a todas 
as camarás e mais autoridades da provinda, a fim de res- 
taurar a capital anarchizada, e com eila a pessoa do Exm. 
prezidente. Deus guarde a Vmcês. Palácio do governo 
das Alagoas em Maceió SO de Outubro de 1839. — João 
Lins Vieira Cansansão do Sinimbu. — Srs. prezidente e ve- 
riadores da camará municipal da villa de Maceió. 

c Tendo chegado ao meu conhecimento que o Exm. 
Sr. prezidente d'esta provinda o Dr. Agostinho da Silva 



— 95 — 

Neves se achava capturado, cercado de guardas^ e encer- 
rado sem communicaçKo dentro da caza do governo, achan- 
do«se por conseguinte acéfala a província ; e cabendo-mc 
em circuniBtancias taes assumir o governo na qualidade 
de primeiro vice-prezidente escolhido por decreto imperial 
e já juramentado, assim o tenho feito» conscrvando-mo 
n'esta villa, que tenho designíido sede interina do governo, 
até que me conste haver deposto as armas a força, que 
ahi se acha reunida, e posto em estado de liberdade o 
prezidente demetido, sem o que não o julgo de minha dig- 
nidade recolher-me á essa capital : o que lhes communico 
para sua intelligencia, e devida publicidade. Deus guardo 
a Vm*^**; Palácio do governo das Alagoas em Maceió 
em 30 de Outubro de 1839. — JoSo Lins Vieira CansansSo 
de Sinimbu. — Sr. prezidente e mais vereadores da ca- 
mará municipal das Alagoas B. 

Illm. Sr. — Constando-ine que o primeiro vico-prezidento 
da provincia o Dr. João Lins Vieira Cansansão do Sinimbu 
communicára a V. S. achar-se na prezidencia na referida 
qualidade de primeiro vico-prezidente, e em consequência 
da declaraçUo do ex-prezidente o Dr. Agostinho da Silva 
Neves de deixar a administração d'esta mesma provincia ; 
convém declarar para sua intelligencia, que sou e continuo 
a ser o vice-prezidente da provincia, eraquanto não S3 
aprezentar n^esta capital, polo modo regular, que estabe- 
lece o artigo 6 da lei de 3 de Outubro de 1834, o sobre- 
dito primeiro vice-prezidente, ou outro que na ordem nu- 
mérica me proceder nos termos da mesma lei. Deus guarde 
a V. S. Palácio do governo das Alagoas 31 de Outubro 
de 1830. — Jozé Tavares Bastos — Sr. Jozé Corrêa da 
Silva Titara, inspector da thezouraria das rendas pro- 
vinciaes. 

Illm. eExm. Sr. Em resposta ao officio do V. Ex.datado 
de hontem, em que me declara,que pela impossibilidade do 
prezidente d'esta provincia, assumio as rédeas da adminis- 
tração na qualidade de primeiro vice-prezidente nomeado, 
convém dizer a V. Ex., que não parece legal ter tomado 
V. Ex. immediatamento esta rezolução, que tomou, de as- 
sumir as rédeas da administração doesta provincia, uma vez 
que constava a V. Ex., que eu em consequência d^essas 



— 94 - 

como primeiro vice-prezidente < 
dade do disposto na lei do 3 d, 
sexto, tomar a direcção dos neg^ 
além d 'isto a razão ponderoza d 
quem todos os habitantes da 

Earasalval-os dos perigos da «^ 
ezita iim instante em rogar a 
imediatamente conta de adn 
obre de maneira a salvar- nos do 
Deus guarde a V. Ex. Paço 
villa de Maceió 30 de Outubro 
João Lins Vieira Cansansão dí 
d'esta provincia. — Lourenço Ca 
Maranhão, prezidente. Manoel 
Jozé Joaquim de Mdlo, Joaqui 
ciêco de Meira Lima, 

Acabo de receber o officio 
participão da communicação^ q 
Tavares Bastos, de achar-se na 
cia em consequência da impossi 
Agostinho da Silva Neves, 
Vmcês. para assumir as rédeas 
vice-prczidente, e como aquelle 
provincia mais confiâo para salv 
chia; tenho de responder á Vi 
illustre camará os sentimentos d 
prol da sustentação da lei, e nà« 
testimunho do confiança com qi 
em que me chegou ao conhecim 
acha acéfala pela illegal e arb 
duzirão o Exm. prezidente, m 
exercer o governo ; e n^este sen 
as camarás e mais autoridades d 
taurar a capital anarchizada, e 
prezidente. Deus guarde a V 
das Alagoas em Maceió SO de 
Lins Vieira Cansansão do Sinin 
riadores da camará municipal d 
« Tendo chegado ao meu c- 
Sr. prezidente doesta provincia 



„-ddenci •, chamado 

■!n«P*f'.t SOatubrode 
•; á» K oa outro q^e 

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— 97 — 

,^ 'eesa camará ; maa que realizadas me obrí- 

***** r-meá capital da província, continuando no 

''^' pvemo, om que me acho, e empenhando 

'* •• 4" H. 'sforços para calmar os ânimos, e restaurar 

l**'-^*' i; publica iSo gravemente alterada. Doua 

'' ■"*•» Paiacio do governo das Alagoas na vitla 

""■' - le Novfembro de 1839.— JoSo Lins Vieira 

'■ • Muimbú. — Srs. prezideate e mais vereadores 

-■ nicípal da cidade das Alagoas. 

' ta do officio d'essa camará em data deSL 

.em de findar, no qual pelo estado ace- 
reduzida esta província pela capturaçilo, o 
I doExm. prezidento o Dr. Agostinho da 
<ns. me convidão para assumir hs rédeas do 
'ndo-se parame darem posse, o receber jura- 
isto nSo aanuisao a camará municipal acata 
csponder-lhee, que logo que me chegou au 
estado sediciozo da capital, e capturaçSo do 
ijualidade de primeiro TÍce-prezidcnte esco- 
to imperial, e já juramentado pela asse mbléa 
<lição única exigida pelo artigo dez da lei 
ibro de 1834, para entrar no exercicio do 
1 a dita prezidencia, declarando esta vitla a 
governo, emquanto permanecesse a capital 
■diçSo, e n'08te sentido tenho aberto corre^- 
todas as autoridades da província, para 
!iante se diríjSo á este governo em tudo 
t:ncente á administração e serviço publico. 
:ir de louvar a iranca demonstraçilo d'eBea 
iziçSo em que se acha para me coadjuvar na 
ordem legal, assegurando-lh^ que levarei na 
iilo ao conhecimento do governo supremo o 
tão leaes sentimentos. Tenho dado todas as 
;ce8Bariaa para restabelecimento da tran- 
ca alt«rada na capital da provinda, e findo 
iflirt difljioí^lii á ■■iii[in'^iir' todoB 
d'j ríMitaurar o i;ii}"ri'i ila lei, 
•aK-ir esta 
iinurde a 
:-A6 -j l« de 





- 98 — 

Novembro de 1839. — Joào Lins Vieira Cansanção da 
Sinimbu, — Srs. prezidento e vereadores da camará muni- 
cipal da villa de Sâo-Miguel. 

« O vice-prezidente da provincia ordena ao mestre do 
pataxo Dou8 Amigos Jozé Paulo dos Reis, que no cazo de 
se aprezentar á seu bordo o £xm. Dr. Agostinho da Silva 
Neves o receba como prezidente doesta provincia, j ondo o 
dito navio a dispozição do mesmo Exm. Sr. para o desem- 
barcar n^este porto de Maceió, ou qualquer outro doesta pro- 
vincia, que por elle lhe fôr designado. Palácio do governo 
das Alagoas em 2 Maceió de Novembro de 1839— Jo5o Lins 
Vieira Cansansào de Sinimbu. 

O vice-prezidente da provincia penhorado pelo briozo 
desempenho da commíssâo, que dera ao capitão do pataxo 
Dois Amigos o Sr. Jozé Paulo dos Reis, de receber a seu 
bordo e conduzir á esta villa o Exm. prezidente da pro- 
vincia o Dr. Agostinho da Silva Neves, que os facciozos da 
capital pretendiâo deportar, lhe significa pela prezente os 
sentimentos de gratidão, que animâo todos os Alagoanos 
amantes da ordem, e em particular a estima que lhe merece. 
Palácio do governo das Alagoas em Maceió 2 de Novem- 
bro de 1839.— JToaoiín* Vieira Cansansào de Sinimbu. 

« Nilo tendo até o prezente aprezentado-se n'esta cidade 
para assumir o governo provincial na forma da lei o cida- 
dão nomeado primeiro vice-prezidente da provincia, cumpre 
que Vms., sem perda de tempo, chamem para o indicado 
fim qualquer dos demais vice-prezidentes, que n ais prompto 
estiver, e me preceder na ordem numérica. Deus guarde a 
Vms. Palácio do governo das Alagoas 3 de Novembro 
de 1839. — Jozé Tavares Bastos — Srs. prezidente e vereado- 
res da camará municipal d'esta cidade. 

« Congratulo-me com Vms, pelo feliz acontecimento de 
achar-se fora da capturação a que reduzirão os sediciozos 
da capital a pessoa do Exm. Sr. prezidente d 'esta provincia, 
o qual sendo por elles embarcado no porto do Francez com 
destino de ser conduzido á Bahia, dirigio-se á esta villa,. 
onde se acha, continuando no exercicio do governo d'esta 
provincia, de que havia sido impedido pela força armada 
ali existente, tenho de declarar a Vms., que á vista do 
exposto deixo de continuar no governo de vice-prezidente^ 



— 99 — 

entregando a administração da provinda ao Exm« Sr. pre- 
zidente, e convidando a Vms. para prestar ao mesmo 
Exm. Sr. todos os meios e auxilio, afim de o coadjuvar no 
louvável empenho de debellar a anarchia, e restaurar a 
tranquillidade publica, e o império da lei. Deus guarde a 
Vmces. Palácio do governo das Alagoas em Maceió 3 de 
Novembro de 1839. — uoão Lina Vieira Cansansâo de Si- 
nimbu, — Srs. prezidente e vereadores da camará municipal 
doesta villa de Maceió. » 

« lUms. Srs. — £m resposta do officiode V. S. em data 
de hontem, em que exigem de mim debaixo de responsa- 
bilidade, que não entregue as rédeas do governo doesta pro- 
vincia ao Exm. Sr. Dr. Agostinho da Silva Neves, tenho 
de responder-lhes,que desembarcando esse mesmo Exm. Sr. 
antes de hontem & noite n'este porto de Jaraguá ; e reconhe- 
cendo eu n'elle o prezidente d'esta provincia persuadido como 
estou de que não pôde ser desonerado d^essas funcy5es sinão 
pelo governo de S. M. I., que o nomeou, tenho entregado 
ao meâmo Exm. Sr., como era de meu dever, as rédeas do 
governo, acfaando-me desde então desonerado do exercicio 
d^essas funcçSes, NSo é certamente sobre mim, que deve 
cahir a responsabilidade das consequências dos factos cri- 
minozos praticados n^esèa capital, que não tenho feito sinão 
o que nas conjuncturas actuaes me cabia por lei : o sangue 
que se vai derramar ; os horrores da guerra civil, que pare- 
cem iminentes sobre esta pacifica (.rovincia, transformada 
de repente em theatro de guerra, tudo isto achará respon- 
sabilidade mais justa nas pessoas d'aquelles, que, aprovei- 
tando-se da ignorância do povo, e bôa fé dos homens do 
campo, têem arvorado o estandarte da revolta na capital da 
provincia, insultando o governo supremo na pessoa de umi 
seu delegado. Esses sim ! terão de dar conta a Deus, e ao 
mundo inteiro dos males, que têem cauzado, si ainda recal- 
citrantes não se aproveitarem do momento actual, em que 
o governo, uzando de toda a moderação, lhes dá tempo á 
reflexão para deporem as armas, recolfaendo-se ás suas paci- 
ficas occupaçSes. Queirão V. S. mandar afixar a procla- 
mação jimta nos legares d^essa cidade afim de dar-Ihe toda 
a devida publicidade, no que farão um serviço ao publico, 
e em particular ao município que administrão. Deus guarde 



r 



— 100 — 

a V. S. Palácio do governo das Alagdas ein Maceió 3 
de Novembro de 1839. — João Lins Vieira Cansansão de 
Sinimbu. — Ilims. Srs. prezidente e vereadores da oamara 
municipal da cidade das Alagoas, i 

c Sendo n^este momento certificado de que o Exql Br. 
Agostinho da Silva Neves, depois de ter deixado a admi- 
nistração d 'es ta provincia, conforme sua declaração dada á 
essa camará municipal em data de 29 de Outubro próximo 
passado, e retirando-se da mesma província, embarcando 
no porto do Francez próximo á esta capital, tomara a villa 
de Maceió, onde se restabelecera no governo da provincia, 
reassumindo o mesmo governo sob o principio de que a 
referida declaração íôra operada em consequência do vio- 
lento estado de couzas da mesma capital ; e não competindo 
á mim conhecer d'esse passo que dera, prudente ou impru- 
dente^ e quaesquer que sejão as consequências d'elle, e so- 
mente ao governo de S. M. L, tenho por isto deixado de 
exercer a prezidencia da provincia, que assumi depois da 
mencionada declaração de 29 de Outubro próximo findo, 
chamado na forma da lei por officio de Vms. da mesma 
data na qualidade de quinto vice- prezidente mais próximo : 
o que communico a Vms. para sua intelligencia, e o 
fazer contar como convier. Deus guarde a Vms. Palá- 
cio do governo das Alagoas 5 de Novembro de 1839. — Jaze 
Tavare» Basto». — Srs. prezidente e mais vereadores da ca- 
mará municipal d'esta cidade. 

Illm. 6 E«xm. Sr. — Fôrão entregues á esta prezidencia a 
primeira e segunda vias dos officio de V. Ex.de 30 de Ou- 
tubro findo, em que dá parte dos últimos acontecimentos 
occorridos na capital d'essa provincia, e pede auxilio de 
tropa, armamento e dinheiro ; e sentindo bastante que a 
ordem publica fôsse ahi infelizmente alterada, o que jamais 
se poderia receiar á vista da perfeita tranquilUdade, de 
que gozova essa importante porção do império, tenho de 
significar-Ihe, que n^esta occazião me dirijo ao Éxm. presi- 
dente d'e8sa provincia remettendo-lhe o auxilio cequizitado 
á hotáo do brique escuna de guerra Nietercy : sendo de 
esperar que com o referido auxilio, e as acertadas provi- 
dencias que o governo tem tomado^ se restabeleça breve- 
mente a paz e tranquillidade, e sejão ob aedicíozos punidoB, 



— 101 — 

ém conformidade das leis. Concluindo este, não posso deixar 
de congratular-me com os bons Brazileiros pelas enérgicas 
medidas, que V.Ex. tomou durante a prisão do Exm. pre- 
zidente, para salvar a provincia, e pela maneira legal com 
que V.Ex. se houve, logo que teve a noticiado tão infaustos 
acontecimentos. Deus guarde a V. Ex. Palácio do governo 
de Pernambuco 6 de Novembro de 1839. — Illm. eExm. 
Sr. João Lins Vieira Cansansão de Sinimbu, vice-prezidente 
da provincia das Alagoas . — Francisco do Rego Barros. » 

c Illm. e Exm Sr. ^ Sentindo profimdamente, que na 
capital d'essa provincia tenhão apparecido os acontecimentos 
de que trata o officio, que me dirigio o primeiro vice-prezi- 
dente d 'essa provincia com data de 30 de Outubro próximo 
passado, e satisfazendo as requisições que pelo mesmo me 
íôrão feitas, e por V. Ex. confirmadas em seu oficio de 2 
do corrente mez, pois muito dezejo concorrer com os meios 
ao meu alcance para o restabelecimento da ordem n^essa 
provincia, faço n'esta data seguir para essa villa de Maceió 
um corpo de tropas, composto de praças de primeira linha, 
e da força policial sob as ordens d > coronel Jozé Joaquim 
Coelho, já vantajozamente conhecido no império por seu 
valor, intelligencia, e zelo militar, a fim de que por meio 
d^elle possa V. Ex. debellar os sediciozos das Alagoas, cazo 
continuem ainda em seus loucos planos de oppor-se á 
execução das ordens imperiaes, e das autoridades legiti- 
mamente constituídas. Pelo mesmo coronel remeto á 
V. Ex. o armamento e munições de guerra constantes 
da nota, que elle lhe aprezentar, e mais 30 contos de 
réis para occorrer ás despezas urgentes, que por ven- 
por ventura se hajão de fazer, devendo intelligenciar a 
V. Ex., que d^elles será deduzida a importância de douB 
mezes de soldo^ que convém adiantar a dita força á vista 
do seu respectivo pret, afim de que nenhuma falta sofira 
em tão importante artigo. Por esta occazião devo 
observar á V. Ex., que o coronel Coelho parte, não com o 
fim de commandar a força, mas com o de entregal-a á 
V. Ex. e concorrer com os meios ao seu alcance para o 
restabelecimento da ordem, prestando os arbítrios que para 
isso melhor parecerem ; que as praças do corpo policial 
são aqui muito precízas aos fins para que fôrão creadas, e 



) 



I 



— 104 - 

julgasse precizo á vista das infonnaçSes que se seguissem ; 
felizmente os soccorros que V. Ex. recebeu de Pernambuco; 
ue o decidirão a mandar regressar os guardas nacionaes 
o Penedo, me fizerâo sustar a marcha da força, que para 
isso destinava, e de que parte tenho conservado até agora 
em Villa-Nova, até que, por V. Ex. mais bem informado, 
pudesse tomar uma delioeraçâo mais consentânea com o 
interesse do serviço publico n^esta, e n^essa província, o que 
não tendo até agora merecido de V. Ex., lh'o communico, 
bem como que vou fazer regressar á esta capital a tropa 
de 1* linha, que havia estacionado em Villa-Nova. Esta 

f)rovincia continua em paz, e segundo as noticias particu- 
ares, que d^essa tenho recebido, creio restabelecida ahi 
também a paz e ordem publica. Deus guarde a V. Ex. 
Palácio do governo de Sergipe em 3 de Dezembro de 1839. 
— Illm. e Exm. Sr. Dr. Agostinho da Silva Neves, pre- 
zidente da provincia das Alagoas. — Vencesláo de Oliveira 
Bdlo. 

Illm . e Exm. Sr. — Fôrão prezentes ao regente em 
nome do Imperador as noticias por V. Ex. transmittidas 
da sedicçSo, que teve logar infelizmente na capital d^essa 
provincia, arrojando-se os sediciozos até o desatino de 
porem em coacção a pessoa de V. Ex., privando-o de 
sua liberdade: e o mesmo regente em nome do Im- 
perador, depois de lastimar profundamente que a autoridade 
publica fosse por uma tal maneira desacatada; e desejando 
que a impunidade não acoroçoe aos perpetradores de taes 
crimes : ordenou-me, que fizesse signiMcar á V. Ex. a ne- 
cessidade de expedir as suas mais terminantes ordens, 
afijn de que se organizem processos competentes contra os 
envolvidos n^aquella sedicção ; e espera, que V. Ex. por sua 
parte não deixará de empregar a necessária vigilância para 
que as autoridades judiciarias, encarregadas da formação da 
culpa, observem fielmente as leis. Deus guarde V. Ex . 
Palácio do Rio de Janeiro em 26 de Novembro de 1839. — 
Francisco Ramiro de Assis Coelho. — Sr. prezidente da pro- 
vincia das Alagoas. — Cumpra e registre-se. Alagoas 9 de 
Dezembro de 1839. — Siha Neves, 

Illm. e Exm. Sr. — O regente em nome do Imperador, 
a quem fôrão prezentes os officios d'essa prezidencia^ 



ík 



\ 



— 105 — 

datado do lo e 3 do corrente, ficando por ellea inteirado dos 
acontecimentos occorridos na capital d^essa provincia em 
consequência do movimento revolucionário, que alli teve 
logar : manda responderá V. Ex., que, á vista dos soccor- 
ros^ que lhe têem sido enviados das provincias da Bahia e 
Pernambuco, para còadjuval-o na restauração da ordem, e 
da lei, o governo espera, que a esta hora esteja completa-* 
mente supplantada a revolução, e restabelecida a tranquil- 
lidade publica ; e portanto habilitado V. £x. para nos 
termos legaes fazer punir, como muito convém, os amoti- 
nadores que tão escandalozamente a pertubárão. Deus 
guarde a V. Ex. Palácio do Rio de Janeiro era 28 de No- 
vembro de 1839. — Manoel António Galvão.— Sr.Prezidente 
da provincia das Alagoas, — Cumpra-se e registre-se* Ala- 
goas 9 de Dezembro de 1839. — Silva Neves. 

O vice-prezidente Dr. João Lins Vieira Cansansão de 
Sinimbu, primeiro oa ordem numérica, achava-se na então 
villa de Maceió, aonde, por ter sido já juramentado pela 
assembléa legislativa provincial, assumio as rédeas do 
governo da provincia em 80 de Outubro de 1839, e as 
sustentou até o dia 3 de Novembro subsequente, em que 
as entregou nas mãos do prezidente Silva Neves, que desde 
esse dia continuou na administação da mesma provincia. 

O vice-prezidente bacharel Jozé Tavares Bastos, quinto 
na dita ordem numérica, e único que se achava na então 
capital das Alagoas, tomou posse em 29 do referido mes^ 
de Outubro perante a camará municipal respectiva, por 
achar-se igualmente já juramentado como o primeiro, e sér- 
vio até o dia 5 d^aquelle mez de Novembro ; e deixou o 
cargo no mesmo momento, em que constou oíHcialmente, 
que o tinha reassumido o prezidente Silva Neves. 

Logo que foi restabelecida a ordem no dia 12 do men- 
cionado mez de Novembro, era que sem rezistencia alguma 
se dispersarão a tropa e o povo reunidos, e entrarão a che- 
gar ae tropas dA legalidade, o prezidente Neves voltou á 
capital (d'onde tinha sabido a embarcar no porto do Francez 
no dia 2), chegou a ella em 14, e no dia 15 convocou 
extraordinariamente a assembléa legislativa provincial para 
reunir-se em o dia !• do consecutivo Dezembro. No entre- 
tanto fez conduzir para Maceió todos os objectos pertencentes 

TOMO ZLVI, P. II. 14 



- 106 -^ 

á thezouraria da fazenda, a qual se achava separada 
da thezouraria das rendas provinciaes, desde a installaçâo 
doesta em 6 de Setembro de 1839, ficando aquella exone- 
rada da arrecadação, fiscalisaçâo, distribuição e contabi- 
lidade das suas rendas; ordenou á camará municipal da 
villa de Santa-Luzia do Norte o cuidar no melhoramento 
da estrada de Femão-velho, afim de que não augmentasse 
o estrago, que a estava tomando intransitável ; e propor- 
cionou os meios a seu alcance para o concerto das trez 
ladeiras, que existem nas entradas para Maceió. Contratou 
com o engenheiro Carlos de Mornay a direcção das obras 
publicas da provincia. Requizitou por varias vezes do go- 
verno geral armamento para diversos batalhões de guardas 
nacionaes ; estas tiverão durante a sua administração um 
adiantamento e luzimento notável, especialmente a parte 
que se achava jà organizada à^ legião da cidade das 
Alagoas, o l.*" batalhão da legião da então villa de Maceió, 
e o que, antes de dividir-se ern legião, existia na muito 
nobre e sempre leal villa do Penedo, onde já se achava 
creado o commando superior da comarca do mesmo nome ; 
creando-se logo depois para as outras quatro comarcas, 
das ALigôas, Maceió, Atalaia e Anadia. 

Em todos se desenvolveu muito enthuziasmo nos ani- 
versários seguintes: o de Maceió, para onde no dia 7 de 
Setembro de 1838, aniversario da independência do Brazil, 
depois do cortejo ao augusto retrato de Sua Magestade 
Imperial o Sr. D. Pedro II na capital sete legoas distante, 
partio e foi assistir á grande parada, que aquelle batalhão 
fez com a companhia d'artilheria de 1^ linha, que então 
ali existia: a parte da legião das Alagoas no dia 2 de 
Dezembro do mesmo anno, anniversario de S . M. I. o Sr. 
D. Pedro II, em que igualmente formou a grande parada 
com a companhia de caçadores de 1^ linha, que então ali 
tam bem existia, e parte d'aquella d^artilheria; o do Penedo 
no dia 25 de março de 1839, aniversario do juramento 
á constituição do império, em que formou por si só a grande 
parada doesse dia. 

N'este mesmo dia achava-sc o prozidente na dita villa do 
Penedo, aonde foi com o intuito de voltar pela Anadia, 
única parte da provincia, que ainda não tinha sido vizitada 



— 107 — 

por seus antecessores; ao chegar no dia 18 do referido Março 
pelas 6 horas da tarde á povoação de Piassabussú, que fica 
á margem do rio Sâo-Francisco 2 legoas distante de sua 
foz, e cinco d'aquella villa^ da qual é termo; chegou tam- 
bém defronte do seu porto (por um feliz evento !) a pri- 
meira, e única até agora, barca de vapor, que entrou n^aquelle 
rio, que então estava na maior forya de sua innundação, e 
que por isso receava elle prezidente não poder em canoas 
chegar no dia 19, como tinha participado á camará muni- 
cipal. Mandou por tanto immediatamente tratar com o 
commandante de o conduzir n^ella e a sua comitiva; e esta 
circumstancia ainda fez a sua chegada mais interessante para 
aquelles povos, que nunca tinhâo visto esta forma de nave- 
gação. Depois do seu recebimento que foi em tudo similhante 
ao do prezidente António Joaquim de Moira, porque nada 
quizerão fazer de menos, ao desembarcar no cáes do porto 
da igreja de Nossa Senhora da Corrente, aonde o esperava 
a camará municipal, e o grande concurso das autoridades, 
e povos até de fora da villa, que afluirão por tão plauzivel 
motivo, foi conduzido á dita igreja, onde a camará tinha 
disposto, que so entoasse o hymno, Te Deum laudamús, 
e foi assistir em uma das duas excellentes cazas da mesma 
camará; tendo a satisfação de vêr, já irem ao ar girandolas, 
e soarem vivas á sua pessoa na sua passagem, e já ilu- 
minação de noite quazi geral. Por todas as partes por onde 
transitou, desde que sahio da capital até que a ella se 
recolheu, encontrou sempre um acolhimento cordial e 
sincero . 

Pouco antes da sedicção havia pedido ao governo geral 
a creação de uma companhia dWtilheria, e 3 de caçadores 
de primeira linha, visto que a provizoria d 'esta ultima arma 
mandada crear por avizo de 22 de Novembro de 1838, e 
por elle dado o principio de sua creação, depois da partida 
das duas, que existião na provincia, de caçadores e arti- 
lharia, e que por ordens do mesmo governo tinhâo sido 
mandadas para Pernambuco, ainda quando chegasse ao seu 
estado completo^ seria insuficiente para as necessidades do 
serviço publico» 

Foi em tempo de sua administração, que teve recom- 
mendação do ministério dos negócios estrangeiros, de ter 



— 108 — 

todas as attenções dt3 que se fazia digno^ facultando-lfae os 
meios de que pudesse carecer para mais comodamente 
seguir sua viagem, o Conde de Ney, secretario da legaçSo 
de S. M. o rei dos Francezcs na corte do Brazil, que sahio 
d'ella com o fim de viajar por algumas províncias do norte 
do império ; mas que nâo saltou n'esta, depois que elle 
recebeu aquella recommendaçâo, por incomodado, segundo 
respondeu ao ofRcial ás ordens do governo, e á um capitSo 
de 1* linha, pelos quaes o prezidente o mandou cumpri- 
mentar á bordo do vapor, em que viajava. Da mesma forma 
teve ordem pelo ministério do império, de prestar (como se 
prestarão) todos os auxilies de que necessitasse o naturalista 
Doutor Júlio Parigot, para o bom desempenho da commissâo, 
de que se achava encarregado, de examinar as minas que 
se supunha serem de carvão de pedra existentes n^esta 
provincia das Alagoas, Bahia, Santa-Catharina, São Paulo, 
e Minas-geraes. 

Reunio-se a assembléa legislativa provincial por tile 
convocada extraordinariamente para o dia 1® no dia 3 de 
Dezembro: elle lhe dirigio a sua fala, na qual detalhada- 
mente manifestou todos os movimentos que ti verão logarno 
tempo da sedicção; e propoz-lhe a mudança da sede do 
governo para a villa de Maceió, fazendo ver as vantagens 
que disso rezultavão, concluído com dizer: «E nem esta 

< medida, senhores, é uma verdadeira innovação. Quando 
« o primeiro governador doesta provincia foi para a mesma 

< enviado para estabelecer a administração, a villa de 
« Maceió foi o logar escolhido por elle para a sede do 
« governo, apezar das pretençSes da antiga cjibeça de 

< comarca.» 

Na sessão do dia 4 uma commissão especial, que no dia 
3 tinha sido nomeada para aprezentar as medidas legisla- 
tivas, que julgasse necessárias ao bem da provincia, indi- 
cadas pelo prezidente em sua fala, aprezentou dous pare- 
ceres, o primeiro ofierecendo um projecto de rezoluçâo, 
erigindo em cidade e capital da provincia a villa de Maceió, 
sendo d'então em diante a sede do governo, assembléa, 
thezouraria provincial, e aulas maiores ; e o 8* ofierecendo 
outro projecto de rezoluçâo revogando o art. 4, ò e 6 
dl lei provincial de 22 de janeiro de 1838 sob n. 3 e 



— 109 — 

igualmente o art. 2 da lei d 'orçamento provincial de 9 de 
julho do anno corrente de 1839 sob n.'^ 5; elevando as 
gratificações dos commandantes da companhia de policia, 
marcadas na lei provincial de lõ de Fevereiro de 1838 
sob o n. 17; substituindo os mesmos soldos que percebido 
em virtude da citada lei. 

Entrando ambos os projectos em discussão na sessão de 
5 do referido mez de Dezembro, na de 7 passarão em ter- 
ceira discussão, votando nominalmente a favor da rezoluçao 
que transferia a sede do governo para Maceió os deputados 
Elias Pereira, Gomes Kibeiro, Dantas, Martins Ramos, 
iágo, Frederico da Rocha, Pereira Freire, Titara, Ferro, 
Cajue ro, Paulino de Albuquerque, Maranhão, Pereira da 
Roza, Camillo de Áraujo ; e contra os deputados Pontes 
Visgueiro, Braz Romeiro, Albuquerque, EuataquiO; e 
Araújo Lima : o prezidente Perdigão não tinha voto. 

Na sessã de ^ de Dezembro (registrada no livro respec- 
tivo, de pag. 38 até pag . 40) á pag. 39 se lê o seguinte : 
« Pelas 11 e meia horas continua a sessão, e o Sr. de- 
putado Titara, como orador da deputação, recita da ma- 
neira seguinte o discurso, com que fez entregar os actos 
legislativos. 

Illm. e Exm. Sr. A Assembléa legislativa doesta província 
nos enviou em deputação a aprezentar á V. Ex. estes dous 
actos legislativos, que considera da maior importância 
pelos benefícios, que d'elles, se convence, obterá esta mesma 
provincia, e espera, que V. Ex. se prestará a sanccional-os 
por serem bazeados nos sólidos fundamentos por V. Ex. enun- 
ciados á referida assembléa. — Resposta: Os Senhores da 
deputação podem fazer sciente & assembléa, que o governo 
tomando em toda consideração os actos, que lhe apre- 
zentão, não demorará sanccional-os, pois que são de har- 
monia com os principies, que enunciou. — A assembléa 
ouvio com especial agrado. Depois do que o Sr. 1.* secre- 
tario fez a leitura de um officio do interino secretario, do. 
governo, participando ter o Exm. Sr. preaidente da pro- 
vincia sanccionado os dous actos legislativos^ que fôrão le- 
vados á sancção. A asaembléa ficou inteirada, e recebeu 
com especial agrado, e louva a S. Ex. o. interesse, que 
tomou pela província j. 



— 110 — 

Finalmente, assim decretada a transferencia da sede do 
governo para a cidade de Maceió, que marca uma nova 
éra para esta provincia ; remetendo ao regente em nome 
do Imperador pelo ministério do império, na conformi- 
dade da lei, a fala, com que abrio aquella sessão extraor- 
dinária, e cópias autenticas dos dous actos legislativos 
da assembléa provincial, e participando que igual remessa 
fasis na mesma data á assembléa geral legislativa pelo in- 
termédio do respectivo 1.^ seretario, e que já tinha dado as 
ordens para a mudança das repartições, e que nenhum es- 
forço pouparia para conservar a paz na provincia ; teve em 
resposta a dous avizos seguintes : 

Úlm. e Exm. Sr. — Com o officio de V. Ex., de 11 de 
Dezembro do anno próximo passado, fôrâo prezentes ao 
regente em nome do Imperador o discurso, com que 
V. Ex. abrio no dia 3 do mesmo mez a sessfto extraor- 
dinária da assembléa legislativa d^essa provincia, e os do- 
cumentos, á que n'elle se refere ; e o mesmo regente, ficando 
de tudo inteirado, houve por bem aprovar as medidas por 
y. Ex. propostas á sobredita assembléa, e a maneira judi- 
oioza, porque tôrào aprezentadas. O que partecipo á V . Ex. 
para sua intelligencia. Deus guarde a V. Ex. Palácio do 
Rio de Janeiro em 15 de Janeiro de 1840. — Manoel An* 
tonto Galvão» — Senhor prezidente da provincia das Alagoas. 

— Registe-se. Maceió 31 de Janeiro de 1840. — Canaansão 
de Sinimbu. 

Illm. e Exm. Sr. — O regente em nome do Imperador, a 
quem foi prezente o que V. Ex. expende no seu officio de 
13 de Dezembro do anno passado, ha por bem aprovar 
as medidas decretadas pela assembléa legislativa d^essa 
provincia para a remoção da sede do governo da cidade das 
Alagoas para a de Maceió. E assim o manda participar a 
y. £x. para sua intelligencia. Deus guarde a y. Ex. 
Palácio do Rio de Janeiro em 15 de Janeiro de 1840. — 
Manod António Gaitão, — Senhor prezidente da provincia 
das Alagoas. — Registe-se. Maceió dl de Janeiro de 1840. 

— Cansansâo de Sinimbu. 

Governou portanto a provincia das Alagoas um anno 8 
mezes e 22 dias, desde 18 de Abril de 18ò8 até 9 de Jar 
neiro de 1840, em que findou por ter sido nomeado 



— 111 — 

prezidente da província da Parahiba do Norte ; sendo no sen 
embarque obzequiado por seu Buecessor e muitas pessoas 
gradas de Maceió. 



§ 19 
floio Uns Tieira Cansa nsio de SinlmbA 

João Lins Vieira Cansansâo de Sinimbu, bacharel for- 
mado em sciencias sociaes e jurídicas pela academia 
de Olinda, doutor júris utriusgue pela universidade de 
lena, no meado prezidente por carta imperial do regente 
em nome do Imperador o Sr. D. Pedro II,de 21 de 
Dezembro de 1839, achando-se na província prestou o ju- 
ramento do estilo, e tomou posse da prezidencia d'ella pe- 
rante o prezidente Agostinho da Silva Neves e a camará 
municipal da cidade de Maceió, em 10 de Janeiro de 18áO. 

Foi o primeiro prezidente depois da sedicçâo de 29 de 
Outubro de 1 839, e da transferencia da capital da cidade 
das Alagoas para a de Maceió; é o 1.° vice-prezidente, e 
foi quem n'aquelle mesmo anno, durante a referida sedição, 
administrou a província nos dias em que se achou impedido 
o prezidente, dirigindo o movimento das forças legalistas, 
como já se disse : oriundo da villa de Sâo-Míguel, comarca 
das Alagoas, foi o primeiro prezidente filho d'esta provinda^ 
que a governou. 

O primeiro passo, que deu na sua administração, foi 
afiançar ao ministério, para fazer sciente ao regente em 
nome do Imperador, que não deixaria de empregar todos 
os seus esforços, e quanto em si coubesse, para satisfazer e 
desempenhar a confiança do governo, velando na exacta 
observância das leis, e promovendo o bem, e a prosperidade 
dos povos, que lhe erão confiados ; participando por fim que 
a província gozava de tranquillidade. 

Dezejozo de elevar a mesma provincia ao maior estado de 
engrandecimento, um dos primeiros actos de sua pre- 
zidencia foi a celebração do contrato de arrematação 
para a abertura do rio Ooruripe, em conformidade da lei 
provincial de 24 de Fevereiro de 1836. Á vista do 



- 112 - 

orçamento a que dantes se tinha mandado proceder, contra- 
tarão três cidadãos o bacharel Joaquim Serapião de Car- 
valho, o tenente coronel da guarda nacional Francisco 
Manoel de Carvalho, e Francisco das Chagas Lima Lessa, 
a abertura do rio em toda a sua largura, e desde a foz 
até o logar das caxoeiras no sitio do Benguela em dis- 
tancia de quatro léguas, mediante a quantia de seis contos 
de réis ; e não somente o terreno então alagado pelas 
enxentes do rio, restituindo com a sua abertura aos 
misteres da agricultura, mas também á exportação de 
madeiras preciozas, que existem n'aquella parte da pro- 
vi ncia, serão os rezultados immediatos da execução d^essa 
empreza, que estava já om muito adiantamento, quando 
deixou o governo. 

O reparo da estrada das pedreiras nos limites do mu- 
nicípio de Maceió com o de Santa-Luzia do Norte, a duas 
léguas e meia de distancia da capital, inteiramente obs- 
truida pela escavação de pedras, e desabamento das bar- 
reiras da coUina immediata, éra de necessidade urgente 
para o commercio do interior, que via-se forçado a atra- 
vessar um espaço, aliás curto, por dentro da lagoa, á cuja 
borda segue a estrada, acontecendo por muitas vezes serem 
os géneros molhados ; expedio ordens para ser feito o dito 
reparo^ encarregando o engenheiro da provincia de tirar 
a planta, proceder ao orçamento, e dar direcção aos tra- 
biuhos ; achavão-se estes em actividade, quando largou a 

f)rezidencia, e bem adiantado esse reparo, permitindo já 
ivre transito fora da agua aos viandantes, que não cessão 
de bemdizer quem lhes promoveu tão publico e saudável 
beneficio. 

Mandou fazer todas as obras necessárias para acom- 
modarem-se as repartições, que se transferirão das Alagoas 
para Maceió, e que ainda não tinhão sido ordenadas por 
seu antecessor ; convidou o Dr. Júlio Parigot a fazer as de- 
vidas e precizas indagações sobre a possibilidade de se 
estabelecer uma fonte publica na cidade de Maceió por 
meio de poço arteziano, aprezentando um orçamento das 
despezas que tinhão de fazer-se com esse trabalho. 

Mandou pelo engenheiro da provincia levantar uma 
nova planta do canal da Ponta-grossa, que liga á cidade 



— 113 — 

de Maceió á Lagoa do Norte, por isso que o mesmo en- 
genheiro^ examinando, achou bastante imperfeito o serviço 
existente, pois que não se tinhão observado os principies 
mais triviaes da sciencia hydraulica, tendo-se apenas pro- 
fundado um vallado antigo por onde as aguas do esgoto 
da cidade se lançava na lagoa na occazião do inverno, 
sem o necessário talude, e aterro dos lados para proteger o 
canal contra as correntes da maré, e onxentes da mesma 
lagoa ; faltando-lhe todas as outras cautellas precizas para 
garantir a conservação o duração da obra. A nova planta, 
tendo por baze uma linha recta, encurtou talvez um quarto 
a distancia do referido canal ; mas quando o trabalho co- 
meçava com mais vigor, foi obrigado a sobrestar por cauza 
do inverno, ficando adiado para o verão seguinte . 

Filho obdiente, temo e attenciozo para com aquelles que 
lhe derão o ser natural, a divina Providencia quiz pôr-lhe 
á prova o coração, quando contava apenas três mezes e 17 
dias de sua administração ( isto é, no dia 27 de Abril de 
1 839 ) com o fatal golpe, que, depois de mais de um anno 
de padecimento, e não menos de um cuidado extremozo de 
sua parte, foi descarregado sobre a vida d'aquella, a quem 
elle como que adorava n'este mundo, sua mài, sua prezada 
mãi ! Elle se achava então organizando a fala, que tinha de 
dirigir a assembléa legislativa provincial no dia de sua 
installação, a 3 de Maio subsequente, na qual a instrui a 
dos negócios públicos da provincia, e das providencias do 
que ella mais precizava para seu melhoramento. Enternecia 
a todos, que o vião lutando com a dor e com o dever. 

Deu todo o impulso para concluir- se a ponte do rio 
Jequiá, e mandou fazer ao arrematante o tenente coronel da 
guardas nacionaes Manoel Lino da Silva Tavares o segundo 
fornecimento, achando-se em m ús de metade da sua cons- 
trucção ; constando-lhe por pessoa de conceito, de quem 
tinha indagado á cerca da obra depois de concluida, que 
ella estava feita em conformidade da planta respectiva ; e 
que ainda excedia esta na segurança de sua construcção. 

Exigio os esclarecimentos necessários da camará mu- 
nicipal da villa de São-Miguel e o orçamento do que po- 
deria importar a abertura do rio do mesmo nome ; o da 
mesma forma da camará municipal da villa do Norte 

TOMO XLVI, p. n. 15 



— 114 — 

acerca da abertura do rio Satuba ; e mandou satisfazer as 
despezas feitas pelo juiz de paz d'aquella primeira villa 
com a caza, que servia de cadeia e de corpo da guarda do 
destacamento ali existente^ e os alugueis vencidos, e que se 
fossem vencendo. 

Sendo-lhe communicado em avizos da secretaria do es- 
tado dos negócios do império de 3; e da dos estrangeiros 
de 6 de Fevereiro de 1840, que o regente em nome de 
S. M. Imperador esperava de sua reconhecida urbani- 
dade a prestação de todas as attençSes, obzequios, e de- 
licadezas ao conselheiro Lomonosoff, encarregado de ne- 
gócios de S. M. o Imperador de todas as Russias n^aqueUa 
corte do Rio de Janeiro, e ao Barão de Rouen, enviado 
extraordinário e ministro plenipotenciário de S. M o rei 
dos Francezes na mesma corte, quando tocassem n^esta 

Íirovincia na viagem, que intentavão fazer pelo norte do 
mperio, em razão não só de assim se fazerem dignos 
pelas qualidades pessoaes, que os adomavão, como também 
por seus caracteres públicos, altas funcçSes que cxercião 
n'este império, e pelas relações de amizade, que felizmente 
subsistião entre as trez cortes, fazendo quanto julgasse ne- 
cessário para que lhes fosse agradável a sua estada n^esta 
província, o Dr. Cansansão recebeu, tratou, e despedio 
estes dous diplomatas, tanto na sua passagem para o 
norte, como na sua volta para a corte, de uma maneira tão 
delicada e officioza, como era de esperar da hospitalidade de 
que são merecedores os encarregados dos governos amigos, 
além de recommendação tão alta e digna de seu maior 
apreço. 

Também lhe foi mui recommendada pelo regente em 
nome do imperador, em avizo da secretaria doestado dos 
negócios da justiça de 18 de Janeiro de 1840, toda a pro- 
tecção para com frei Julião Bovo e irei Bartolomeu Mar- 
ques, dous religiozos da ordem dos menores da regular ob- 
servância de S. Francisco, competentemente autorizados a 
pedir esmolas na America meridional para conservação do 
santo sepulcro do Salvador, e sustentação dos religiozos 
existentes nos legares santos, havendo por bem o mesmo 
regente, que elle expedisse as suas ordens afim de que os 
religiosos sobreditos pudessem desempenhar a missão de que 



— 115 — 

86 achaySo incumbidos, sem que se lhes oppozesse o mínimo 
obstáculo da parte das autoridades da província, por serem 
credores d'aquella proteção/ como sacerdotes da religião de 
Jezus Chrísto, e missionários apostólicos incumbidos de tão 
edificante ministério. Estes reUgiozos porém até o prezente 
não chegarão á esta provincia. 

Igualmente lhe foi communicada por avizo da secretaria 
doestado dos negócios estrangeiros com data de 24 de Abril 
de 1840, para sua intelligencia e satisfação, e para que lhe 
desse a devida publicidade (como pontualmente cumprio) a 
fausta noticia de ter o governo imperial recebido a commu- 
nicação official de haver o governo de S. M. o rei dos Fran- 
ceses mandado evacuar os postos, que occupava com as 
suas forças militares na margem meridional do rio Oiapoc. 

Fez trocar a rezidencia do governo da provincia e sua 
secretaria, e expediente das ordens, para a caza onde rezi- 
dio também o primeiro governador Sebastião Francisco de 
Mello Povoas, por achar assim mais conveniente ao ser- 
viço publico ; servindo aquella que d^antes ocupavfto os 
prezidentes, e que no tempo do Povoas era o assento da 
junta da fazenda publica, para o das duÀs thezourarias da 
fazenda e das rendas provinciaes, convenientemente dividi- 
didas ; obtendo para tudo a aprovação do governo geral, 
ficando a cargo ao ministério do império a despeza com 
o aluguel, porque foi contratada aquella caza ; fazendo 
apromptarem-se todas as obras necessárias para os arranjos 
de todas as trez repartições, etc. 

Das bóias que tinhão sido destinadas para a barra do 
rio São-Miguel, e que até então não tinhão tido o competente 
destino, fez, á beneficio do commercio e navegação do porto 
de Jaraguá, colocar as que servem de orientar os navios em 
sua entrada e ancoragem ; e mandou fazer os reparos e 
concertos necessários na catraia <r Villa do Penedo », desti- 
nada a dar entrada á embaraçSes no rio São-Francisco, á 
vista do orçamento a que se procedeU| e da requizição da 
camará municipal respectiva. 

Participando ao regente em nome do imperador, pelo 
intermédio do ministério do império, o dezejo que lhe mani- 
festavão algumas camarás municipaes, e lavradores d'esta 
provincia de possuírem sementes de bôa espécie de chá, 



— 116 — 

cravo, cacáo e pimenta da índia, e bem assim de qualquer 
outra planta^cuja cultura pudesse offerecer vantagem á agri- 
cultura, fôráo-lhe remetidos, com avizo de 26 de Maio de 
de 1840, seis caixões, contendo dous sementes de chá, quatro | 

sementes de cravo da índia, e uma lata com sementes de 
tabaco, afim de serem destribuidas pelas camarás munici- 
pães e lavradores ; e mandado communicar, que em occazifto 
oportuna se lhe enviariâo sementes de outras plantas, cuja 
cultura devesse convir á esta provincia. 

Mandou aplicar a quantia de 400(9 mais para concIuzSo ^ 

da abertura da estrada^ que vai da cidade dás Alagoas á '\ 

villa de São-Miguel, que se achava quazi intransitável, que 
teve principio em tempo de seu antecessor, e que no verSo 
de ]H39 foi entregue ao uzo publico, faltando -lhe todavia 
o espaço de duas léguas ; mas foi paralizada a dita abertura 
pelos inconvenientes da estação, esperando seus adminis- 
tradores a cessação das chuvas para lhe darem o devido 
andamento, visto ser de grande utilidade ao commercio^ e 
transito publico a sua concluzâo. 

Promoveu o adiantamento de trez estradas, cuja abertura 
gratuitamente tinha-se offerecido a administrar o reverendo 
Manoel Teixeira da Silva, da villa de Anadia, e a que deu 
principio no tempo de seu antecessor, sem outra condição 
mais do que a quantia de ÕOO^ para sustenção dos traba- 
lhadores. As ditas estradas partem d'aquella villa, uma na 
direcção do municipio da Palmeira até o logar Lages no 
rio Lunga, na distancia de seis léguas ; outra em procura 
da villa de Atalaia até á barra da Tapuia, em distancia de ^ 

trez léguas; e a terceira com distancia de dez léguas na 
direcção do municipio da Assembléa até o sitio Xorador ; 
quando largou a administração achavão-se abertas d'aquel- 
las estradas o espaço de dez léguas na direcção principal, 
que demanda o municipio da Assembléa, e onde as outras 
se vão reunir, faltando somente nove léguas paia conclazão 
de todas estas estradas abertas com largura de trinta pal- 
mos, aparados os troncos das arvores na superficie da terra, 
grande parte inteiramente nova, e o mais recta possivel, 
tendo-se gasto somente 320^, comprehendido o concerto 
e reparos dos instrumentos e utensis. 

Sendo-lhe mandado pelo regente em nome do imperador 



l 



— 117 — 

participar; em avizo da secretaria doestado dos negócios do 
império com data de 25 de Março de 1840, que S. M. I. o 
Sr. D.Fedro U soi&eu no dia 23 do dito mez um incommodo 
em sua precioza saúde, o qual o privou por alguns minutos 
do uzo dos sentidoB; mas que achara-se logo na manhan do 
dia seguinte perfeitamente bom) o que lhe era participado 
para seu conhecimento e satisfação dos povos doesta provincia) 
elle immediatamente officiou ás camarás, ordenando-lhes de 
assim o fazerem constar aos povos de seus respectivos muni- 
cipios; recommendando-lhes de illuminarem suas cazas^ etc., 
e portrez dias illuminou-se esta cidade por edital da camará; 
houve um solemne Te Deuniy a que elle assistio com a ca- 
mará e pessoas gradas, etc., respondendo como se vê da 
cópia seguinte: 

lUm. e £xm. Sr. — Sendo tão manifestos os senti- 
mentos de amor e adhezâo, que os povos doesta provincia 
consagrâo á pessoa de Sua Magestade, nosso augusto im- 
perante o Sr. D. Pedro II, não foi sinâo com muito pezar 
que receberão elles a nova, que a esta prezidencia foi com- 
municada por avizo de V. £x. de 25 do mez passado, de 
ter o mesmo augusto senhor no dia 23 do referido mez 
soffirido um incommodo em sua precioza saúde, o qual o 
privou por alguns minutos do uzo dos sentidos : pezar que 
só podia ser desfeito pela certeza, que nos deu V. Ex. de 
se achar Sua Magestade logo na manhan do dia seguinte 
perfeitamente bom : noticia esta extremamente agradável, 
e que derramou o mais cordial prazer no seio dos povos 
d'esta provincia, que reunidos a mim congratulamos-nos 
por tão feliz acontecimento, dirigindo ferverozas preces ao 
Altíssimo para que se digne conservar intacta a precioza 
existência de Sua Magestade, penhor sagrado dos futuros 
destinos d'este Império. Deus guarde a V. £x. Palácio do 
governo das Alagoas 16 de Abril de 1840. — Ulm. e Exm. 
Sr. Manoel António Galvão. — João Lins Vieira Cansansão 
de Sinimbu. 

Elle propoz ao governo geral, em informação que deu 
por intermédio do ministério da marinha, a construcção de 
vazos de guerra no porto de Jaraguá ou no de Pajussára, 
quatrocentos passos distante do dito porto de Jaraguá, onde 
já se construirão a corveta Maceió, e o brigue-barca São 



— 118 — 

ChrÍ8tovão,poT haver para isso toda a possibilidade^ além de 
ter um constructor, que tem toda a capacidade para en- 
carregar-se de similhante trabalho, porque reúne aos co- 
nhecimentos d^arte bastante honradez, e zelo pelo serviço 
publico. Elle ponderou, por essa occaziSo, as vantagens 
para o estado, e particularmente para a provincia das 
Alagoas, do estabelecimento de um arsenal de marinha no 
dito porto de Pajussára, ao menos para a construcção de 
vazos menores, inferiores á lotaçSk) de corveta ; e além das 
outras vantagens, que referiu, foi uma o interesse, que tira- 
ria a provincia do derramamento das sommas applicadas 
a este trabalho no meio de seu ainda acanhado cammcrcio, 
e recente industria. Esta propozição foi repetida em officios 
de 20 e 30 de Março de 1840, reclamando toda a consi- 
deração á respeito. 

Propôz mais quanto seria conveniente ordenar.que todos 
os navios empregados no transporte de madeiras, sabidos 
da corte para o porto doesta provincia, fizessem os seus las- 
tros com pedra, não só porque de volta teriSo maior espaço 
para condução das madeiras, evitando por conseguinte a 
r^conducção do lastro, como porque essa pedra seria aqui 
mui vantajoza para ser empregada na construcção de 
edifícios nacionaes, visto que de outra sorte seria mais 
custozo obtel-a. 

Propôz igualmente em seu officio de 14 de Maio do dito 
anno de 1840, que para registro do porto doesta cidade, 
conservação da ordem publica^ transporte dos recrutas 
existentes em depozito, o muitas outras medidas de utilidade 
geral, seria justo, que o mesmo ministério da marinha, 
reconhecendo o alcance e importância doesta medida, e to- 
mando em consideração o seu pedido, ordenasse de vir 
estacionar n'esta provincia ás ordens daprezidencia um vazo 
nacional commandado por official de confiança. Este pedido 
foi novamente feito em officios de 3 e 19 de Junho do mesmo 
anno, tocando mais claramente, além das outras medidas, 
no meio de evitar-se o inveterado, e enraizado abiuso do 
contr^ibando de madeiras de páo-brazil. 

Trabalhou durante a sua administração para dar á 
guarda nacional, única força a bem dizer que existia na 
provincia (porque toda a força de linha consistia na 




— 119 — 

companhia provizoria de caçadoroB ainda muito incompleta) 
tal ou qual gráo de organização e disciplina, que podesse 
offerecer garantias á publica tranquillidade. 

Constando-lhe que a cadeia da villa do Penedo (que 
aliás passa por ser a melhor da proyincia) achava-se arrom- 
bada,mandou proceder a orçamento,quemontoual:521f9i440| 
e expedio as ordens para seu concerto, confiando esse tra- 
balho ao cuidado do juiz de paz d'aquella villa o major de 
legião de guardas nacionaes Manoel Gomes Ribeiro. A da 
Tilla da Assembléa, arrematada pelo cidadão Manoel de 
Faria Cabral, e principiada em tempo de seus predecesso- 
res, ficou prompta ainda em tempo de sua administração. 
Tinha feito ajuste com o proprietário de uma caza suf- 
ficiente n'esta cidade, o capitão Jozé Hilário Pereira, para 
alugal-a, afim de a mandar preparar para a reunião da 
assembléa legislativa provincial, cuja installação, na con- 
formidade do regimento interno, e da lei provincial de 15 
de Fevereiro de 1838 sob n. 12, devia ter logar no dia 3 
de Maio d'aquelle anno de 1840; tinha ajustado ser o 
aluguel annual de 250/$, em logar de 400/9, que primeiro 
pedio o dito proprietário, ficando porém a seu beneficio 
toda a obra que se fizesse n'ella, que estava ainda toda 
aberta por dentro, e só com as paredes de fora : mandando 
orçar a despeza com a obra, que se devia fazer , chegou 
esta a 1:800^000. 

Vendo o prezidente Cansansão, que com pouco mais 
podia fazer uma caza própria, e connado em que a assem- 
bléa votaria quantia sufiSciente para aquella factura, e 
também porque o mestre das obras das repartições publicas, 
que estavão entre mãos, lhe fez vêr, que á face dos jorna- 
leiros capazes que havião, talvez não coubesse no tempo 
apromptar-se, ainda mesmo largando de mão as demais 
obras ; houve lembrança de preparar-se o consistório da 
igrdja de Nossa Senhora do Rozario, que estava quazi 
prompto. 

N'este intuito foi com outras pessoas e o mestre das 
obras vêr o consistório; e assentando-se que podia servir» 
ao menos para a sessão d'aquelle anno, e pretendendo expor 
isto mesmo á assembléa^ com quem então estava ainda de 
bôa intelligencia, pedio o consistório á irmandade, que da 




— 120 — 

bôa vontade lhe o cedeu, e mandou preparar tudo ; conhe- 
cendo entSo, mas em tempo que já não podia remediar-se, 
que as galerias tinhao ficado sem a largueza, que o pova 
dezejaria. 

Ko dia 1^ de Maio reunio-se a assembléa, efez a sua pri- 
meira sessão preparatória, na qual sahio eleito prezidente 
o cidadão Floriano Vieira da Costa Delgado Perdigão e 
secretario o cidadão Jozé Bernardo de Arroxellas Galvão ; 
o secretario da assembléa, de ordem da mesma» ofiiciou ao 
do governo para fazer certo ao prezidente da provincia, que 
achava-se prezente o numero de dezeseis deputados, e que o 1 

prezidente da meza tinha indicado as onze horas da manhan ^ 

do dia seguinte afim de irem os deputados em corporação 
á igreja matriz satisfazer os actos religiozos e prestar o jura- 
mento do estilo, requizitando que o prezidente da provincia 
houvesse de mandar apromptar o que fosse precizo para 
esse solemne acto. 

O prezidente da provincia ofíiciou ao pároco da freguezia 
n'este sentido, para mandar apromptar a igreja matriz com 
o que estivesse de sua parte, afim de verificar-se o acto, e 
o encarregou de ajustar a muzica para o mesmo, certo de 
que a despeza, que fizesse, seria satisfeita á vista da conta, 
que elle aprezentasse. O secretario do governo de ordem 
d'este participou ao da asssembléa para lhe fazer prezente, 
que estavão dadas todas os providencias para que tudo esti- 
vesse prompto á hora designada. 

A essa hora passarão os deputados para a igreja matriz, 
assistirão ao acto religiozo, prestarão o juramento, e vol- ^ 

tárão ao salão da assembléa ; e pouco depois recebeu o se- 
cretario do governo officio do d^assembléa, de ordem d'e8ta, 
para pedir ao prezidente da provincia declarasse a hora em 
que devia ter logar no dia seguinte a installação d'assem- 
bléa legislativa provincial, o secretario do governo tinha 
recebido a resposta do prezidente da provincia sobre a hora; 
tinha-a escripto já, e ia envial-a ao secretario da assembléa, 
quando recebeu do mesmo o officio e requerimento, que se 
lêem nas cópias seguintes: 

c Illm.Sr. — Em aditamento ao meu officio doesta data soli- 
citando a declaração do governo da provincia da hora, em 
que deve ter logar amanhan a installação doesta assembléa 



— 121 — 

legislativa, o que adiantei; não por deliberação da caza, mas 
por estilo até o prezente adoptado : communico a V. B., para 
que se digne o fazer contar ao mesmo Exm. govemO; que 
n'e8ta occazião acaba de deliberar a mesma assembléa sustar 
o exercicio de suas funcçSes legislativas, comoverá do reque- 
rimento por cópia induza, que foi aprovado* Deus guarde 
a V. S . Faço da assembléa legislativa provincial das Ala- 
goas em Maceió 2 de Maio de 1840. — Illm. Sr. coronel 
Francisco Manoel Martins Ramos, secretario do governo. — 
Jozé Bernardo de Árroxellas Oalvão, secretario das sessões 
preparatórias. » 

« Requeiro, que em vez de participar ao governo para 
declarar a hora da abertura e installaçâo da sessão no dia 
de amanhan, que se lhe communique antes, que esta assem- 
bléa, julgando indecorozo a si, á S. Ex., á província e 
a esta cidade em particular, dar principio aos seus tra- 
balhos n'uma caza tão indecente, quanto acanhada, e incons- 
titucional, que impede a livre e franca inspecção publica- 
contra o principio da publicidade dos trabalhos legislativos, 
garantido pela constituição do império, além de outras cir- 
cumstancias bem notáveis, que privão a livre acção d'e&ta 
assembléa, tem deliberado, que, em quanto não se der uma 
outra caza decente, e arranjada no espirito constitucional, e 
não cessasem essas circumstancias, não poderá dar principio 
aos seus trabalhos^ e que portanto se retirão os deputados 
para suas cazas. Maceió 2 de Maio de 1840. O deputado 
Santos. Foi apoiado e aprovado na sessão preparatória de 2 
de Maio de 1840. Está conforme. — Jozé Joaquim do Espi- 
rito Santo j official maior. r> 

Logo que o secretario do governo recebeu este officio, o 
foi aprezentar ao prezidente da província no mesmo mo- 
mento, o qual immediatamente officiou por si ao prezidente 
da assembléa, declarando-] he que tão inesperada deliberação 
da parte da assembléa não deixava de surprehendel-o, e 
depois de dar suas razSes concluía recomendando- lhe mui 
pozi ti vãmente, que a fi^sesse reunir de novo e immediata- 
mente para os trabalhos da sessão ordinária, dando parte ao 
governo de se achar ella reunida para que no dia 3, ou no 
dia subsequente pudesse elle comparecer para sua installação, 
ficando qualquer rezultado, que por sua omissão pudesse 

TOMO ZLVI P. II. 16 



í 



— 122 — 

acontecer^ sob sua responsabilidade; ou dos membros da 
assembléa, que se não quizessem reunir. Tendo-se porém, 
quando foi esse ofiicio, retirado á sua ca^a, fora doesta ci- 
dade, o dito prezidente da assembléa, no dia seguinte foi 
que o recebeu, e respondeu negativamente, dando também 
as raz5es em que se fundava. A vista da resposta do pre- 
zidente da assembléa legislativa provincial, ou das sessSes 
preparatórias da mesma, assentou o prezidente da pro- 
vincia de levar o negocio ao conhecimento do regente em 
nome do Imperador, afim de que em sua alta sabedoria 
rezolvesse como mais conveniente achasse, instruindo o 
seu officio com vários documentos por cópia, cópias do officio 
que dirigio ao prezidente da assembléa, e da resposta d'este 
e com os documentos constantes das cópias seguintes; e 
teve em resposta o avizo de 6 de Junho, que se se lê á 
final também por cópia. 

Cumpre á bem do serviço publico, que Vm. passe a 
examinar sem perda de tempo na igreja de N. S. do Ro- 
zario doesta cidade as salas destinadas para os trabalhos da 
asse*nbléa legislativa provincial, para commiss^es, e para 
secretaria, e a saleta, que fica contigua e em seguimento 
das galerias, e o mesmo logar destinado para necessária, o 
corredor da escada, e até esta ; e de tudo levante uma planta 
com designações dos palmos de cada uma, e das pessoas 
que poderão caber tanto nas ditas galerias, como na saleta 
contigua o em seguimento d'ellas. Deus guarde a Vm. 
Palácio do governo das Alagoas 6 de Maio de 1840.— 
Joào Lins Vieira Cansaneão de Sinimbu. — Sr. Carlos de 
Momay, engenheiro engajado para as obras publicas 
d'esta província. 

Illm. Sr. — Tendo a assembléa legislativa provincial deli- 
berado em sessão preparatória de 2 do corrente mez, sobre- 
star no exercicio de suas funcçSes legislativas pelo motivo 
constante do requerimento junto por cópia ; cumpre a bem 
do serviço publico, que V. S. com os 12 cidadãos, a quem 
n'esta mesma data officio a tal respeito, se achem no dia 8 
do corrente mez, pelas 11 horas da manhan, em o consistório 
da igreja de N. S. do Rozario doesta cidade, que é a caza 
em questão, e que este governo preparou, para este anno 
somente, para os mencionados trabalhos da assembléa, afim 



— 123 — 

de examinarem com imparcialidade, e emitirem franca* 
mente saas opiniões acerca de tal objecto. Deus guarde a 
V. S. Palácio do governo das Alagoas 6 de Maio de 
1840. — João Lins Vieira Cansansão de Sinimbu. — Sr, 
Francisco Emigdio Soares da Camaray inspector da the- 
zouraria da fazenda. 

Do mesmo teor, mutatiê mutandis, para mais 11 cidadãos 
membros da mesma commissSo . 

lUm. e Exm. Sr. — A commissão nomeada por V. Ex., e 
encarregada de examinar e emitir o seu parecer sobre o 
objecto, de que trata o requerimento da assembléa legisla- 
tiva d'esta provincia, aprovado na sessão preparatória de 2 
do corrente, depois de haver procedido a um escrupulozo 
exame, achou, que a sala destinada para os trabalhos legis- 
lativos da mesma assembléa tem toda a sufficiencia e 
indispensável decoro para esse fim ; e posto que o logar des- 
tinado para 03 espectadores possa acommodar somente 50 
individues, incluindo os que ficarem em frente na sala con- 
tigua e fora do recinto da assembléa, todavia não res- 
tando a menor duvida, á face da constituição do império, 
e conforme os principies e espirito de direito publico cons- 
titucional de que a publicidade dos actos de uma assembléa 
legislativa não depende do maior ou menor numero de es- 
pectadores, que a ella concorrem, mas sim da maneira 
tranca e á portas abertas, com que ellas se praticão ; a 
com missão não pôde encontrar essa inconstitucionalidade 
vagamente enunciada no predito requerimento, e que n^elle 
se allega como impedimento da livre e franca inspecção pu- 
blica. Outrosim a commissão declara, que a secretaria, e 
salas das commissões da mesma assembléa têem o espaço e 
commodo sufSciente para preencher os seus fins. Com o 
exposto parece á commissão ter cumprido os trabalhos, de 
que foi encarregada. Deus guarde a V. Ex. Cidade de 
Maceió 8 de Maio de 1840. — lUm. e Exm. Sr. Dr. João 
Lins Vieira Cansansão de Sinimbu, prezidente d'esta pro- 
vincia. — Francisco Dias Cabral, inspector da alfandega. 
António Joaquim Veras, juiz municipal. Ignacio Fran- 
cisco da Fonseca Calana Galvão, juiz de paz do 1.^ dis- 
tricto. Francisco Pereira Freire, procurador fiscal da 
thezouraria. João Luiz Pereira, juiz de direito interino. 



— 124 — 

Joaquim Soares Corrêa, juiz de paz do 2.^ distrito. 
Francisco Emigdio Soares da Camará, inspector de fazenda» 
João Camillo de Araújo, procurador fiscal e promotor 

Sublico. Francisco Elias Pereira, lente de geometria, 
ozé Corrêa da Silva Titara, inspector da thezouraria 
provincial. António da Siva Lisboa, inspector da caza 
de inspeção do algodão. Manoel Lourenço da Silveira, 
juiz de orfòos. Joaquim Jozé Domingues da Silva, vi- 
gário encommendado d'esta freguzia. 

Os membros da commissao Francisco Pereira Freire, 
Francisco Elias Pereira, e Jozé Corrêa da Silva Titara 
são deputados da assembléa, o {)rimeiro nSo se achava 
ainda na reunião ; mas os dous últimos esta vão prezentes. 
c Havendo-se reunido no 1* do corrente na sala do 
consistório da igreja de Kossa Senhora do Rozario doesta 
cidade o numero de 16 membros da assembléa provincial 
para em* conformidade do art. 7 da lei de 12 de Agosto 
de 1834 e art. 3 da lei provincial de 15 de Fevereiro 
de 1838, procederem á installaçOo e abertura da mesma 
em a sua primeira sessão ordinária doeste anno no dia 3 
doeste mez : depois de sua primeira reunião n'aquelle refe- 
rido dia, e no subsequente tendo elles assistido na confor- 
midade do regimento á missa do Espirito Santo, e ultimado 
as sessões preparatórias; depois de ter este governo 
recebido convite da mesma assembléa pelo intermédio 
competente para assistir a sua installação no dia seguinte, e 
achar-se designada a hora, em que devia ter logar o acto 
da abertura, a requerimento de um membro da caza 
apoiado e aprovado por dez votos contra seis deliberou a 
mesma assembléa sobrestar em seus trabalhos a pretexto 
de ser pequena e indecente a caza destinada para sua 
reunião, como verão Vms. da cópia junta, retirando-se 
cada um membro para seu domicilio. Este facto talvez o 
primeiro nos annaes da historia parlamentar de se dissolver 
uma assembléa incumbida do mais religiozo de todos os 
mandatos, deixando em abandono e desprezo os negócios 
públicos do paiz, pelo frívolo motivo de ser pequena e in- 
decente a caza destinada a seus trabalhos, e isto depois de 
dous dias de sessão preparatória, indica má vontade da 
parte dos referidos dez membros em desempenharem a 



— 125 — 

homroza missão, de qaeíoiio investidos por seus repreten* 
tentes, sendo ao mesmo tempo pemieioio esremplo de deso* 
bediencia e falto de acatamento ás leis do pais e nossas 
institaiçSes. Este governo fez ainda uma tentotiva para 
rennir os referidos meroliros dissidentes» offioiando ao pre- 
zidente da assembléa para os convocar, e ehamal-os ao 
comprimento dos seus deveres ; mas foi sem finicto, porque 
esse negou-se, alep&ndo ter expirado sua poEiçUo ae pro- 
zidente depois da suspensão dos trabalhos dos outros 
membros. A' visto do exposto nSo permitindo o regimento 
da assembléa, que sejão convocados membros supplontes, 
porque não dá meios para serem estes juramentados sinilo 
depois de reunida a maioria de seus membros; nSlo po* 
dendo este governo achar uma caia, que satisfizesse os 
dezejos da maioria juramentoda, nem estando competente- 
mente autorizado para construir um edificio próprio» 
sendo verdade que o referido consistório tem todos os 
coromodos para reunião da assembléa, como verSo Vms. 
pelo exame, que mandei proceder, e por cópia junto ; tenho 
rezolvido levar este negocio ao conhecimento do regente 
em nome do Imperador, afim que em sua alto sabedoria 
rezolva como mais conveniente achar : o que tu-^o com- 
munico a Vms. para sua inteira e devida intelligencia. 
Deus guarde a Vms. Palácio do governo das Alagoas, 
10 de Maio de 1840. -—</o^ Linê Vieira Cansansào dê 
Sinimbu. — Srs. prezidente e mais veriadores da ca- 
mará municipal doesta cidade de Maceió. 

Do mesmo teor, mutatiê mutandiy para todas as mais 
camarás da provincia. 

Por espaço de 5 annos, que trabalhou a assembléa na 
entSo capital das Alagoas, onde as galerias erSo mais 
espaçozas se vio, que, fora do dia da installnçSo, em que 
se enchião aquellas, muitas e muitas vezes, durante os 
trabalhos, via-se uma, duas, trez pessoas asssitindo e 
não mais. 

AVIZO DA SECRETARIA DESTADO DOS NEGÓCIOS DO IBIPERIO 

nim. e Exm. Sr. — Sendo prezente ao regente em nome 
do imperador o que V. Ex., em officio de 14 de Maio próximo 



— 126 — 

findo, expende a respeito da deliberação tomada pela as- 
sembléa legislativa d 'essa província de interromper os seus 
trabalhos pelos motivos exarados no dito officio; e ficando o 
mesmo regente de tudo inteirado, manda responder a V. 
£x., não só que deve convocar de novo a referida assembléa, 
ordenando á camará municipal da capital, que, na forma do 
art. 8 § 8 das instrucçSes de 26 de Março de 1824, ex* 
peça diplomas aos suplentes a quem tocar, para substituirem 
os deputados, que se acharem legitimamente impedidos, 
que houverem morrido, ou que estiverem prezos, como tam- 
bém que a esta deliberação não pôde oppor-se a dispozição 
do art. 2^ do regimento da mencionada assembléa; por- 
quanto não pôde esse regimento alterar, ou revogar uma 
lei geral, qual é a das eleições dos membros das assembléas 
geral e provinciaes. Deos guarda a V. Ex. Palácio do 
Rio de Janeiro em 6 de Junho de 1840. — Joaquim Jozé 
Bodríguea Torres. — Sr. prezidente da província das Ala- 
goas. — Campra-se e registre-se. Maceió 30 de Junho 
de 1840. — Cansansão de Sinimbu. 

O procedimento da maioria da assembléa legislativa 
provincial em nada alterou a paz e tranquillidade, de que 
gozava a província; esse acto foi quazi geralmente repro- 
vado; contra elle se declarou a indignação dos homens sérios 
e sisudos; até mesmo muitas pessoas o considerarão como 
um beneficio para a província; isto é uma verdade evi- 
dentíssima 1 

Pelo que respeita ao prezidente o Dr. Cansansão, em 
couza nenhuma se entibiou o dezejo, que nutria de fazer 
á província o bem, que estivesse a seu alcance; elle conti- 
nuou em sua marcha louvável, e digna de si; e não haverá 
quem o ouvisse queixar-se dos que, sem motivo justo, o 
deprimião. Joven estimado de todos que o conhecem desde 
a sua puerícia, por seus dotes naturaes, e qualidades recom- 
mendaveis, pelos seus talentos não vulgares, sua reconhecida 
prudência^ seu patriotismo, e a merecida influencia que tem 
na província, tem seu credito já estabelecido; e na eleição 
para deputados geraes do quatríennio de 1842 a 1845 foi o 
segundo votado depois do prezidente actual com 407 votos; 
na de deputados provinciaes do biennio de 1842 a 18^3 foi 
o terceiro com 433 votos; na antecedente do biennio de 



I. *». 



— 127 — 

1840 a 1841 foi o primeiro votado com 407 votos; e na 
lista dos vice-prezidentes doeste mesmo biennio, foi o pri- 
meiro na ordem numérica decretada pelo regente em nome 
do Imperador. 

Ordenou ao engenheiro das obras publicas da provin- 
cia, que levantasse a planta e orçamento de um edifício 
próprio para alfandega em conformidade das ordens im- 
periaes^ pedio autorização ao ministro da fazenda para 
compra de uma barca, que servisse de guarda do porto, e 
pudesse satisfazer todas as mais dispozições estabelecidas 
no capitulo 7^ do regulamento de 22 de Junho de 1836, 
visto que, augmentando o commercio estrangeiro, justo 
seria, que se proporcionassem á alfandega os meios de fis- 
calizar os direitos e rendimentos nacionaes. 

Ordenou, que se recolhessem a esta capital os objectos e 
petrexos beUicos, que se achavão dispersos por alguns 
pontos da província, especialmente nos municípios do Porto 
de Pedras e de Porto-calvo em consequência da guerra de 
Jacuhipe e Panelas : remetteo para Pernambuco todo o 
armamento arruinado, afim de ser ali concertado. 

Foi durante a sua administração, que uma commissão 
composta de trez cidadãos, o commandante superior da 
guarda nacional da comarca de Maceió Lourenço Calva- 
cante de Albuquerque Maranhão, o tenente da extincta 
cavallaria de 2^ linha Jozé António de Mendonça, e o the- 
zoureiro da thezouraria da fazenda António da Silva 
Lisboa, nomeado para levar á effeito a creação da nova 
matriz desta cidade de Maceió, lhe offereceu, para ser por 
elle aprovado, o plano que havia concertado para esse 
fim, e a pessoa eleita para administrar a obra, o zeloso e 
activo cidadão Manoel Gonçalves Anjo, que também era 
administrador da obra da capella de Nossa Senhora do 
Rozario da mesma cidade, e convidou-o para lançar a 
primeira pedra do edifício ; ao que respondeu por uma ma- 
neira tocante^ aprovando tanto o dito plano, como o ad- 
ministrador da obra, aceitando o convite de lançar a pri- 
meira pedra, pedindo-lhes para lhe concederem o ser eUe 
o primeiro em ajuntar seu nome a lista dos subscriptores 
da obra, e exhortando-os, afim de não desacoroçoarem 
em tão louvável empenho. A subscripçflo no primeiro dia 



— 128 — 

montou a mais de 6:OOOj5WOO, mas a gloria de lan- 
çar a primeira pedra não estava rezervada para elle ; pois 
que essa veio a ter logar no tempo da administração de 
seu digno suceessor. 

Em consequência da resposta do regente conteúda no 
imperial avizo, que recebeu em 30 de Junho d'aquelle 
anno de 18iO; n'esse mesmo dia expedio portaria, con- 
vocando novamente a assembléa legislativa provincial; e 
designando para sua reunião o dia 19 de Julho subse- 
quente ; transmitindo cópia á camará municipal da capital 
para fazer sem perda de tempo as devidas participaçSes^ 
e expedição dos diplomas aos Huplentes, que devessem 
reunir-se em falta dos membros legitimamente impedidos, 
que houvessem morrido, ou se achassem prezos ; com- 
municando a todas as outras camarás da provincia a dis- 
pozição d'aquelle avizo imperial para sua intelligencia, e 
conhecimento dos habitantes de seus res[ ectivos municipios. 

Mandou reparar a antiga caza da pólvora, que & mujtos 
annos estava arruinada, e não servia para este mister, a 
qual ficou prompta ainda no seu tempo ; e construir uma 
outra na proximidade da primeira para alojar a guarda 
d^ella, e estabelecer um telegrafo para noticia das em- 
barcações, que apparecessem ao longe fora da barra, etc. 
Mas doesta caza apenas se principiarão os alicerces no 
tempo da sua administração; assim como o reparo das 
trez ladeiras, que descem para a boca do maceió, para o 
qual trabalho destinou a camará municipal da capital o 
dinheiro proveniente do arrecadação do imposto de 40 réis 
sobre bebidas espirituozas e elle prezidente offereceu a 

f>edra, que sobrasse do concerto e reparo do quartel mi* 
itar, O reparo das duas ladeiras mais estreitas ficou feito 
no seu tempo, faltando somente calçar de pedra ; a mais 
larga porém não coube n^elle a sua concluzão* 

Também se não concluio o concerto, e reparo total do 
quartel militar, por ter-se extinguido a quota para isso 
destinada pelo ministério da guerra; mas ficou quazi 
rompto no tempo de sua administração ; estabeleceu n'elle 
ospital para os soldados, que adoecessem fazendo tras- 
ladar para ali os utensis do antigo, que tenha sido es- 
tabelecido na cidade das Alagoas, quando capital. 



i 




— 129 — 

Foi incançavel em fazer propagar o puz vaciníco, man» 
dando ás praças de Pernambuco, e da Bahia, requizital-os 
aos prezidentes d'aquellas provincias afim de evitar as con- 
sequências do terrivel flagello das bexigas n'aquelles que 
forâo confiados á sua administração, a favor dos quaes deu 
outras muitas providencias, que por minuciozas se om- 
mitem : sendo certo que durante o seu governo, a ordem 
e tranquiiiidade publica jamais fôrâo alteradas ; e que 
ninguém poderá dizer, sem calumnia, que houve um só 
contrabando. 

Finalmente tendo administrado a provincia por espaço 
de seis mezes e sete dias, desde 10 de Janeiro até 17 de 
Junho de 1840, e tendo sido desonerado do cargo por carta 
imperial de 2 do dito mez, e n'aquella data de 17 deu as 
necessárias ordens para a posse de seu successor, que teve 
logar no dia segui nte, com todas as formalidades do estilo. 

Antes porém de sahirem para a igreja matriz, onde 
devia ser o acto solemne (para o qual convidou particular- 
mente todas as pessoas gradas que não erão obrigadas a 
iissistir, por não serem autoridades nem empregados 
públicos), communicou â todas as camarás da provincia, e 
commandates superiores, recommendando a estes que o 
fizessem por elle aos chefes de legião e commandantes 
de batalhões de guardas nacionaes de suas respectivas 
comarcas, que ia fazer entrega da administração ; e 
concluía dizendolhes que lhes agradecia os patrióticos 
serviços, que havião prestado á cauza publica, durante o 
espaço de seis me es do seu governo, e os sinceros dezejos 
que sempre manifestarão de auxilial-o na árdua tarefa 
de cumprir os seus deveresi e que, si como filho e habi- 
tante da provincia, um titulo tinha ainda para invocar os 
seus generozos sentimentos, serviria este para pedir-lhes, e 
recommendar, que proseguissem invariavelmente a carreira 
<5ivica, que tinhãj encetado, obedecendo a Jei, e prestando 
a seu digno successor o apoio e coadjuvação devida ao dele- 
gado do governo imperial, e que tão necessária era para 
promover-se e alcançar a prosperidade e ventura doesta 
provincia. 

Ao ministério do impdrio dirigio o officio da cópia se- 
guinte : 

TOMO XLVI, P. 11. 17 



— 130 ^ 

nim. e Exm. Sr. — Em obsrrvancia da carta imperial de^ 
2 do corrente, pela qual o regente em nome do imperador 
nomeou o Exm. Manoel Felizardo de Souza e Mello, prezi- 
dente d'esta província, de cujo cargo houve por bem desone- 
rar-me, tenho a honra de dizer a V. Ex., para ser prezente 
ao mesmo regente, que logo que recebi a referida carta, 
expedi as convenientes ordens para ser o dito senhor devi- 
damente empossado e juramentado da administração com 
as formalidades do estilo, o que hoje mesmo terá logar. 

No momento de finalizar a commissSo, de que me quiz 
encarregar o governo imperial, confíando-me por seis me- 
zes a prezidencia d esta provinda, é do meu dever com- 
municar a V. Ex., para o fazer chegar ao conhecimento 
do regente em nome do Imperador, que tenho a satisfa- 
ção de passar ás mãos do meu digno successor as rédeas 
da administração da mesma provinda, deixando-a no es- 
tado da mais perfeita tranquilidade ; e que, si alguma 
gloria me cabe d'este governo, é sahir com a consciência 
segura de ter sabido desempenhar meus deveres, susten- 
tando com honra e dignidade a autoridade do cargo, que 
me fôra confiado. Deus guarde a V. Ex. Palácio do go- 
verno das Alagoas 18 de Julho de 1840. — Ulm. e Exm. 
Br. Joaquim Jozé Rodrigues Torres. — João Lins Vieira 
Cansansão de Sinimbu. 



§ 20 

Manoel Felizardo de Sonza e Mello 

Manoel Felizardo de Souza e Mello, bacharel formada 
em mathematicas pela universidade de Coimbra, m ijor do 
imperial corpo de engenheiros e lente da escola militar do 
Rio de Janeiro, nomeado por carta imperial do res^nte em 
nome do Imperador o Sr. D. Pedro 11» de 2 de Julho de 
1840, chegando á provinda em 16, prestou o juramento do 
estilo, e tomou posse da prezidencia perante seu anteces^ 
sor, o Dr. João Lins Vieira Cansansão de Sinimbu, e a 
camará municipal da capital em 18 de Julho do dito anno. 

Amestrado na grande arte de reger os homens, pelo co- 
nhecimento que adquirio nas duas prezidendas anteriorea 



— 131 — 

das províncias do Ceará e Maranhão, não podendo em tão 
curto espaço de tempo ser inteirado de todos os negócios 
da provincia e das providencias, que ella mais precizava, 
para o seu melhoramento, afim de poder, no dia seguinte 
ao da sua posse (19 do dito mez de Julho) instruir d'elles 
a assembléa legislativa provincial, tendo, havia menos de 
dous mezes, deixado a mesma assembléa de continuar seus 
trabalhos, etc., etc . ; o primeiro passo que deu, logo que 
tomou as rédeas da sua circumspecta administração, foi o 
de expedir portaria, pela qual, uzando da faculdade que 
lhe conferia o art. 24 § 2 do acto addicional á Constitui- 
ção do Império, adiou a referida assembléa, conc!uindo que 
a convocaria oportunamente, officiando ao mesmo passo á 
camará municipal da capital, para que, sem perda de tempo, 
assim o communicasse aos deputados e supplentes que ti- 
nhão sido convocados para o indicado fim, participou a sua 
posse ao governo geral, e o adiamento da assembléa, c 
que, segundo as informações de seu antecessor, nenhuma 
razão havia para temer-se quebra de continuação do socego 
publico. 

Da mesma forma communicou a todos os juizes de di- 
reito e municipaes, camarás e commandantes superiores, 
e a estes para que o fizessem constar aos chefes de legião 
e commandantes de batalhões das guardas nacionaes de 
suas respectivas comarcas, o haver tomado posse da pre- 
zidencia, esperando do zelo e lealdade de todos prompta e 
franca coadjuvação em objectos do serviço publico, que 
relação tivessem com as attribuições que lhes |.ertencião, 
em razão dos empregos que occupavão. Estas dispoziçOes, 
e especialmente a do adiamento da. assembléa, fôrão muito 
agradáveis a todos os provincianos de todos os modos de 
pensar; e desde então elles conhecerão, que não podião 
deixar de ser felizes sob a direcção de um tal governante. 

Outro passo deu também o novo prezidente, que não 
deixou de agradar aos amigos da ordem, e foi o susten- 
tar tudo aquillo que tinha achado principiado por seu 
antecessor, e que julgava util á provincia. Elle mandou 
examinar, pelo engenheiro das obras publicas da mesma 
provincia, a ponte de Jequiá, eoncluida em tempo do dito 
seu antecessor; e com informação d'aquelle engenheiro 



— 132 — 

satisfazer ao arrematante da obra, fez distribuir frequente- 
mente laminas de puz vacinico pelos encarregados de o 
aplicar aos povos, e activar o recrutamento, tanto para o 
exercito, como para a marinha, assaz recommendado por 
ordens imperiaes ; enviando para esse fim destacamentos 
de tropa da 1^ linha, e de policia, em falta doesta, aos pon- 
tos onde erSio requizitados pelos respectivos encarregados 
do mesmo recrutamento e pelas autoridades policiaes para 
dezempenho de suas funções. 

Fez continuar a construcçâo da caza para alojamento da 
guarda da caza de pólvora até a sua concluzSlo ; estabeleceu 
o telegrafo n'aquelle ponto, que é uma collina, qne fica 
sobranceira á cidade, d^ondese avista o mar em grande dis- 
tancia ; e pedio ao ministério da marinha se servisse de 
autorizar os gastos, que se houvessem de fazer com um, 
ou dous candieiros ali coUocados para servirem de signal 
aos paquetes e mais embarcações que se aproximão á bar- 
ra de Jaraguá durante á noite, e que por falta d'essa pro- 
videncia não podem entrar e lhe foi respondido, que Sua 
M« o Imperador o autorizava a despender com uma luz 
até a quantia de 120/$ annuaes, n3lo obstante não ser si- 
milhante somma contemplada nas despezas d'estaprovincia. 
Pedio mais, pelo mesmo ministério, autorização para con- 
cluir-se o telheiro, principiado por um de seus predeces- 
sores, para depozito e guarda das madeiras de construcção, 
e que ficou em menos de meio por exaurir-se a quota que 
para ( lie foi consignada ; repetio este pedido de tanta 
necessidade afim de não arruinarem-se as madeiras, e mes- 
mo o madeiramento do telheiro, que se acha exposto ao 
tempo, enviando o orçamento da despeza que se julga 
preciza afim de ultimar-se aquella obra ; e tem toda a es- 
perança de que, como tão justa, não deixará de ser atten- 
dida a sua suplica. 

Incansável no cumprimento de seus deveres, vizitou to- 
das as repartições publicas, e deu parte ao ministério da 
fazenda do estado, em que tinha achado a thezouraria da 
fazenda d'esta provincia. Igualmente participou e pedio a 
expedição das convenientes ordens, por aquelle ministério, 
para ser satisfeita á thezouraria das rendas provinciaes a 
fiomma de 30:000/$000, que a lei do orçamento geral de 20 



— 133 — 

de Outubro de 1838 consignou para as despezas peculiares 
d'esta mesma provincia; assim como um suprimento por 
qualquer das duas vizinhas ou pela quantia destinada para 
o troco das sédulas^ em razSo do atrazo, em que se achavão 
no pagamento de seus ordenados os empregados públicos^ 
e nâo haver esperanças de rendimentos de importação e 
exportaçr;o. Esta participação e pedido fòrão repetidos em 
outro oâicio, no qual também falou em falta de pagamento 
d o pret da tropa. 

Uma gloria sobre-maneira fausta estava rezervada para 
o tempo da administração do digno prezidente Manoel Fe- 
lizardo de Souza e Mello, a maioridade de S. M. L 
o Sr D. Pedro II ! Por avizos de 25 e 26 de Julho do 
1840; aquelle da secretaria do estado dos negócios do 
império, e este da dos negócios da justiça, lhe foi par- 
ticipado, que o mesmo augusto Senhor tinha assumido no dia 
23 d'aquelle mez de Julho, em consequência dos gloriozos 
acontecimentos que tiverâo logar na capital do império, 
a plenitude dos poderes, que pela constituição do estado 
lhe competem. 

Esta noticia foi recebida e communicada por elle, no 
mesmo momento de sua recepção, a todas ob camarás mu- 
nicipaes e mais autoridades da provincia, que a receberão 
como maior entuziasmo e prazer, distinguindo- se nas de- 
monstrações externas de tão louváveis sentimentos as ci- 
dades de Maceió, das Alagoas, e a villa de São-Mi- 
gucl (a cujos festejos elle prezidente pessoalmente assistio) 
e a muito nobre e sempre leal villa do Penedo constou-lhe 
de certo, por que o commandante superior da comarca do 
mesmo nome, João da Silva Mainard, lhe pedio per- 
missão para grande parada da guarda nacional do seu 
commando d'aquelle município, no dia do solemne festejo, 
quo ali houve. 

No oíiicio a camará municipal da capital ordenou, que 
convidassem os cidadãf)s d'ella á illuminarem por três noites 
as frentes de suas cazas ; que havendo no dia iO de 
Agosto grande parada, deveria também entoar-se na 
matriz em acção de graças ao Omnipotente o hymno Te- 
Deum,às 11 horas. Dando tão gratas e transcendentes 
noticias, elle se congratulou com os bons Alagoanos, e 



— 134 — 

determinou â dita camará e a todas as mais da província, 
que as fizessem constar em seus respectivos municípios 
com a maior celeridade possível. 

Âo commandante superior da comarca de Maceió Lou- 
renço Cavalcante de Albuquerque Maranhão ordenou, que 
houvesse grande parada de guardas nacionaes do seu com- 
mando, que pudessem para isso ser avizados ; e a todos 
finalmente convidou para assistirem á solemnidade e ao 
cortejo^ que devia &zer-se ao augusto retrato do S. M. 
Imperial na sala do palácio do governo para isso destinada. 
Tudo isto se executou com o maior prazer possível. 

A companhia de artilharia de guardas nacionaes deu 
as salvas do estilo ás seis horas da manhan e da tarde, 
e logo que principiou o solemne cortejo. O cidadão Jozé 
Francisco de Borja Cacarlos, tenente da extincta 2^ linha, 
deu um excellente e rico chá a vários outros, que convidou ; 
e depois, com uma banda de muzica, sahirão pelas ruas os 
ditos cidadãos a darem os competentes vivas acompanhados 
de gírandolas, que a troavão o ar, e fazião mais notável o 
publico regozijo ; devido tudo isto á influencia d'aquelle, 
a quem ora se achão confiados os destinos da província. 

jParticipando aos reteridos ministérios o entuziasmo 
com que fôra recebida n'esta província aquella fausta nc- 
ticia, recebeu pelo dos negócios da justiça o honrozo avizo 
da cópia seguinte : 

nim. e Exm. Sr. — Âccuzo o recebimento do officio de 
1 1 do mez próximo passado, que V. Ex. me dirigiu, no 
qual expende, que fôra recebida n'essa província, com 
extraordinário entuziasmo, a noticia de estar Sua Mages- 
tade o Imperador no pleno exercício dos poderes^ que pela 
constituição lhe competem, finalizando V. £x.. o seu offici) 
com as mais lízonjeiras frazes acerca dos melhoramentos, 
que conta obterá o paiz com a actual ordem de couzas ; e 
tenho a declarar a V. Ex., em resposta ao dito seu officio, 
que o governo imperial confiou sempre nos sentimentos de 
fidelidade e adhezão dos habitantes d^essa província, bem 
como na pureza das expressões de V. Ex. Deus guarde 
a y. Ex. Palácio do Rio de Janeiro em 9 de Setembro 
de 1840. — António Patdino Limpo de Abreu. — Sr. pre- 
zidente da província das Alagoas. 



— 135 — 

Dozejando quanto antes convocar a assembléa legisla- 
tiva provincial, e nSo o podendo fazer sem ter um perfeito 
conhecimento das necessidades de cada um dos municipios 
para seu melhoramento, que (dizia elle) fazia, desde o dia 

2 de Julho de 1840, em que foi nomeado prezidente, o prin- 
cipal objecto de sua solicitude^ determinou observar por si 
mesmo ao menos os municipios mais vizinhos : partio para 
a cidade das Alagoas na manhan do dia 1 3 de Agosto, e 
d'ali para as villas da Atalaia, Imperatriz, Assembléa, Ana- 
dia o São-Miguel. 

Na cidade das Alagoas foi recebido com o maior entu- 
ziasmo e prazer d^aquelles habitantes, fazendo-lhes elles toda 
a qualidade de agazalho e obzequios possíveis ; e foi entSo, 
quando assistiu aos festejos, que ali se fizerâo pela maiori- 
dade de Sua Magestade o Imperador, como acima fica dito ; 
depois passou para as outras villas, e em todat ellas foi 
acolhido com a maior cordialidade, deixando a todos, por 
onde transitou, penhorados de sua urbanidade e agrado; 
pois. é dotado de excellentes qualidades amáveis ; e só sen- 
tirUo ser tfto curto o espaço, que entre elles se demorava. 
Depois de dar varias providencias occurrentes em cada 
uma d^aquellas povoações, em 17 dias, contados de 13 de 
Agosto, fez toda essa digressão e recolheu-se á capital na 
tarde do dia 30 do dito mez. 

Logo que chegou á capital mandou proceder ás eleiçSes 
úe deputados geraes, conjuntamente com as de deputados 
provinciaes, segundo o disposto no art. 1 da rezoluçSo da 
assembléa legislativa provincial de 22 de Janeiro de 1838, 
sob n. 1 ; e convocou novamente esta, por portaria de 5 de 
Setembro de 1840, designando o dia 18 de Outubro 
para reunião dos respectivos membros n^esta capital, orde- 
nando & camará municipal d'ella, que fizesse aos mesmos 
as participações devidas e expedisse diplomas, si já não o 
tivesse feito, aos supplentes, que devião suprir as faltas 
dos que se achassem legitimamente impedidos. 

Ordenou aos juizes de orfSos da Anadia, Atalaia e 
Maceió, a devida execução dos avizos de 14 de Setembro e 

3 e õ de Outubro d'aquelle anno de 1840, que rocommen- 
davão a elle prezidente a expedição das convenientes 
ordens, afim de serem postas sob a immediata inspecção, e 



— 136 — 

vigilância da respectiva autoridade, uma africana livro de 
nome Gabriella, que trouxe do Rio de Janeiro o bacharel 
juiz de direito da comarca da Anadia, Matheus Cazado de 
Araújo Lima Amaud ; um africano livre de nome Cornelio, 
que trouxe o bacharel, juiz de direito da comarca de Ata- 
laia, Francisco Joaquim Gomes Ribeiro ; e outro africano 
livre de nome Izaias, que trouxe o bacharel, juiz de direito 
d'esta comarca de Maceió, António Luiz Dantas de Barros 
Leite ; todos deputados por esta provincia das Alagoas á 
assembléa geral legislativa doeste império. 

Teve logar na sua administração o recolhimento á capi- 
tal de uma peça de bronze de calibre 3, que existia lo- 
Bocadinho, e que para ali tinha seguido na luta contra os 
cabanos, e seu antecessor havia ordenado, que para aqui 
fôsse recolhida; cuja medida e despeza, com ella feita, 
fôrão aprovadas por avizo imperial do ministério da guerra 
de 19 de Agosto de 1840. 

Foi na mesma sua administração, que elle reprezentou 
ao ministério do império a necessidade de um quadro, que 
contivesse a verdadeira efígie ^de S. M. I. o Sr. D. Pe- 
dro II, visto que o que existia era desfigurado, guarnecido 
da competente moldura e cortina; e pedio igualmente 
um tapete, e teve a satisfação de tudo lhe ser remettido 
com avizos d'aquella repartição, em um dos quaes o auto- 
rizava a despender a quantia necessária com o docel, sob 
o qual tinha de ser collocado o retrato do mesmo augusto 
senhor. 

Ordenou, que se fizesse uma clarabóia na sala do livro da 
porta da secretaria do governo, que, pela pozição em que 
se acha, ficava um tanto escura, e isto em beneficio das 
partes que ali vão consultar o mesmo livro á respeito dos 
despachos e deciz5es de seus requerimentos ; e fez ultima- 
rem-se as obras, que ainda faltavão na caza destinada para 
palácio do mesmo governo, e as que erão ainda precizas no 
hospital militar ; e repetiu suas ordens sobre a propagação 
da vacina, recommendando á todas as camarás da pro- 
vincia que organizassem posturas, em que se impozessem 
aos pais de familia multas, quando dentro de um prazo 
razoável, que ellas deverião fixar, deixassem de levar á 
vacina, havcndo-a no termo, os seus filhos e fâmulos. 



k^ 




— 137 — 

Fez dar toda a publicidade na província á proclamação; 
dirigida aos Rio-grandenses por S. M. o Imperador o Senhor 
D. Pedro II ; ordenou á thezouraiia da fazenda, remct- 
tendo-lhe os autos á respeito para proceder, como fosse de 
lei, acerca da propriedade denominada Trindade do 
município de Porto de Pedras, a qual sendo denunciada ao 

{'uiz de direito interino do mesmo município, o bacharel 
Trancisco Joaquim da C.sta Pinto, que era um bem va- 
cante, j)roseguira este ás averiguações precizas, e colhendo 
quanto constava dos mesmos autos, fizera com que o juiz 
municipal procedesse á sequestro por parte da fazenda pu- 
blica. Não deixava sem um agradecimento lizongeiro e 
obrigante a todos aquelles encarregados do recrutamento 
para o exercito e marinha, que se distinguirSio na remessa 
dos recrutas. 

Teve a honra de mandar o major Luiz António Favila 
á corte do Rio de Janeiro beijar a excelsa mSo á S. M. 
o Senhor D. Pedro II, pelo fausto successo do dia 23 de 
Julho de 1840, em que foi declarada a maioridade do 
mesmo augusto Senhor ; sendo esta missão em seu nome e 
do da província. 

Durante a sua administração, fôrão perdoados os réos de 
1^ e 2^ dezerção simples da armada, e corpo de artilharia 
da marinha, por decreto de 5 de Agosto de 1840 ; o crimo 
de 1* e 2^ dezerção aos militares dos differentes corpos de 
linha do império, por decreto de 6 do dito mez ; as penas 
em que pudessem ter incorrido os guardas nacionaes, que, 
chamados a destacar para auxiliar o exercito de P linha, 
se subtrahirão a esse dever^ e dos quaes tratava o outro 
decreto de 8 ; e amnistiados todos aquelles que por qual- 
quer maneira estivessem envolvidos em crimes políticos 
commettidos até a publicação do decreto de 22 do mesmo 
mez e anno. 

Devendo reunir-se a assembléa legislativa provincial 
no dia 18 de Outubro de 1840, como fora por elle prezi- 
dente convocada, aquella jamais se reunio pelos motivos, 
que melhor constão das seguintes cópias dos officios, que 
fôrão á tal respeito dirigidos. 

Para melhor arranjo da assembléa provincial, preci/.o 
se toma fazer-se alguma obra no consistório da igreja do 

TOMO XLYJ, p. ir. 18 



— 138 — 

Rozarioy e esperO; que Vms. a ella annuSo, ficando os 
cofres provinciaeB responsáveis a repor tudo no antigo es- 
tado, cazo não lhes faça conta o que ora se prc tente fazer. 
Deus guarde a Vms. Palácio do governo das Ala- 
goas em 1 de Outubro de 1840. — Manoel Felizardo de 
Souza Mdlo. — Srs. juiz e mais mezarios da confraria de 
Nossa Senhora do Rozario. 

Tendo a irmandade de Nossa Senhora do Rozario doesta 
cidade a honra de receber do governo doesta provincia um 
officio datado de 24 de Março doeste corrente anno para lhe 
conceder o consistório da mesma irmandade para os tra* 
balhos da assembléa provincial; cedeo a irmandade de 
muito bôa vontade^ servindo-se gratuitamente do modo em 
que prezentemente se acha, nSo é do gosto da irmandade 
desfazer o que está feito ; porém esta irmandade tem 
summo gosto e prazer^ que o governo sirva-se no estado em 
que se acha sem estipendio algum ; é o quanto temos de 
responder ao officio de V. Ex. datado do V deste cor- 
rente m?z e anno. Deos guarde a V. Ex. muitos anno?. 
Em consistv.rio do Rozario, em meza de 2 de Outubro de 
de 1840. — Ulm. e Exm. Sr. Manuel Felizardo de Souza 
e Mello. Joaquim da Silva Paranhos, Juiz. -^Joaquim Oomes 
do Regoy escrivão. — Alexandre Moniz de Souza, ^Jozé i2í- 
beiro da Rocha Boatos. — João Narciso de Magalhães.-^— José 
Feliciano Botelho, — Jozé Maria Monteiro, — Jozé da Mocha 
Cavalcante, — Jozé António dt Faria, — Joaquim Jozé Ribei- 
ro, — Manod Gonçalves Duarte. — Bdizario Jozé Pereira 
da Costa. 

lUm. e Exm. Sr. — Tendo os abaixo firmados aprezen- 
tado-se n^esta cidade, como membro da assembléa legis- 
lativa da provincia ; em consequência da convocação feita 
por V. Ex., julgSo de dever levar á consideração de V. Ex. 
os embaraços, que sentem, de fazer os seus trabalhos no 
consistório do Rozario doesta cidade, que, por acto da as- 
sembléa de 2 de Maio ultimo, foi julgado impróprio da 
dignidade da mesma assembléa, e do decoro da provincia, 
que reprezenta, visto que á indecencia, e falta dos pro- 
cizos commodospara os trabalhos legislativos, reúne a no- 
tável inconstitucionalidade de nSo permittir a livre e franca 
inspecção publica. V. Ex. se dignará de remover, do modo 



\ 




\ 

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I 



V 



— 139 — 

o mais conveniente, este embaraço em que se achão os 
abaixo firmados, quejulgilo do seu dever aprezentar estes 
seus sentimentos á V. Ex. ; sem que este acto indique a 
menor desarmonia com o governo da provincia, a quem 
estão firmes em dar a necessária cooperação. Deos guardo 
a V. Ex. Cidade de Maceió 19 de Outubro de 1840.— 
lUm. e Exm. Sr. Dr. Manuel Felizardo de Souza e Mello, 
prezidente d'esta província. — Jozé Tavai es Bastos. — Fran- 
<nsro de Assis Ribeiro. — Afonso de Albuquerqite Mello. — 
Jozé Bernardo de Arroxellas Galvão. — Idgo Francisco 
Pinheiro. — Ignacio Hyppolito Oracindo. — Jozé Fernandes 
de Oliveira Santos. — Joaquim Timóteo Romeiro. — Fran- 
cisco de Assis Barhoza. — Floriano Vieira da Costi Del- 
gado Perdigão, — Joze Caetano de Moraes. — Luciano 
Pereira de Lira. 

Insistindo 12 membros da assombléa legislativa pro- 
vincial em não quererem trabalhar no consistório do Ro- 
zario, que julgão não ter os precizos e decentes commodos 
para as suas sessões ; não me L mbrando de edificio que 
com facilidade possa ser acommodado para caza da mesma 
assembléa a não ser a que ora occupa a camará muni- 
cipal ; tenho a exigir de Vms. , que me informem si 
n'ella ha as necessárias e decentes acommodações, tanto 
para os deputados, como para os expectadores ; e no cazo 
pozitivo tratem de arranjar outra caza, em que continuem 
a sua sessão ordinária, e facão no dia designado as apura- 
ções de deputados geraes e provinciacs. Deus guarde a 
Vms. Palácio do governo das Alagoas em 20 de Outubro 
de 1840. — Manuel Felizardo de Souza e Mello. —SrB, pre- 
zidente e mais vereadores da camará municipal doesta ci- 
dade de Maceió. 

lUm. eExm. Sr. — Respondendo o officio deV. Ex. de data 
de hontem, em que, nos communicando insistirem 12 mem- 
bros da assembléa provincial, em não quererem trabalhar no 
consistório da igreja do Rozario,que lhes fora destinado para 
n'elle exercerem suas funcçSes na sessão d*ei^te anno, por jul- 
garem não ter os precizos e decentes commodos, ordena, 
que informemos, si o edifício, em que celebramos nossos 
trabalhos, tem as acommcdações necessárias e decorózas, 
que exigem os referidos membros da assembléa, tanto para 




— 140 — 

sua commodidade, como para dos expectadores, e que na 
cazo pczitivo tratemos de arranjar outra caza^ em que con- 
tinuemos no exercício da sessão ordinária, em que nos 
achamoS; e no dia em que já por V. Ex. nos foi desig- 
nado façamos as apurações de deputados geraes, e mem- 
bros da assembléa provincial ; temos a honra de dizer a 
V. Ex., que, si os 12 membros da assembléa, que afirmarão 
na prezença de V. Ex. não ter o consistório da igreja nova 
do Rozario a decente commodidade para seus trabalhos 
julgão em consciência, que não podem exercer seu religiozo 
mandato sinSo dentro de um edifício grande e pompoza- 
mente adornado, é fora de toda duvida, que se não quereráS 
jamais sugeitar a trabalhar na humilde caza em que gos- 
tozamente exercitamos nossas modestas funcçoes ! porque 
além de ser esta pouco decente, por ser térrea, forrada so- 
mente da metade, pouco lim{.as as paredes, ter o pa- 
vimento alguma couza ja obstruido, não tem ante-sala para 
recepção, consiste toda ella em um salão, contendo apenaa 
nos fundos dous pequenos e acanhados gabinetes, e que 
nunca poderião servir para os trabalhos da secretaria e das 
commissoes. 

A esta verídica informação acrescentaremos mais a Y. 
Ex., que ainda quando tivesse esta caza os commodos 
o decência, que exigem os 12 membros da assem- 
bléa provincial, como não seria possível ceder-lhes actual- 
mente o uzo, sem que d^isso rezultasse manifesto prejuízo 
ao serviço publico, pois que achando-se esta camará em 
sessão ordinária, e tendo de mais para cumprir as ordens 
de V, Ex. de proceder brevemente á apuração dos depu- 
tados geraes e provinciaes, e não sendo fácil arranjar-se 
n'esta cidade uma outra caza capaz de servir para os tra- 
balhos de uma corporação, é claro, que nos acharíamos no 
maior embaraço para desempenhos dos nossos deveres, si 
acazo fossemos obrígados a dezalojar. 

E o que temos a honra de responder a V. Ex., a cujas 
ordens e dispoziçSes esta camará gostozamente se sub- 
mette, promettendo assim como é de seu dever, dar-llie 
mais prompta e fiel execução. Deus guarde a V. Ex. Sala 
das sessões da camará mum'ci|.al d'esta cidade de Maceió 
22 de Outubro de 1840. — lUm. e Exm. Sr. Dr. Manoel 




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— 141 — 

Felizardo de Souza e Mello, prezidente d'esta província. — 
Lourenço Cavalcante de Albuquerque Maranhão, prezi- 
dente. — Manoel da Costa Moraes. — António Alvares Mon- 
teiro, — Thomé da Rocha Cunha. — Manoel Apolinário de 
Araújo. — Luiz Corrêa de Menezes, — Francisco de Meira 
Lima. — Manoel Caetano Tavares Vianna, 

Illms. eExms. Srs. — Não me sendo estranhas as con- 
testações anteriormente occorridas por cauza de mais ou 
menos propriedade do consistório da igreja do Rozario, tratei 
de fazer algumas alterações no salão das sess5es,com as 
quaes muito ficaria elle melhorado; mas a irmandade do 
Kozario oppôz invencível rezistencia ; e não encontrando 
n'esta cidade outro edifício, que ao menos iguaes acommo- 
dações offerecesse, e faltando-me de mais tempo e autori- 
zações para grandes despezas necessárias para arranjar 
outra caza, impossibilitado fiquei de tomar providencia 
alguma á respeito. 

Depois do dia 1 8 do corrente, designado para abertura 
da sessfio da assemblóa legislativa provincial, recebi o officio 
de V. S., em que de novo reprezentão contra a impro- 
priedade do referido consistório, e querendo dar ainda 
uma prova do quanto dozejo proporcionar todos os meios 
á meu alcance para que não passemos o anno sem reunião 
da assembléa, oficiei á camará municipal, que me respondeu 
segundo a cópia junta, e avista d 'elle impossível, e ainda 
mais indecorozo seria fazer-se da caza d'esta corponção o 
assento da assembléa. Constando- me que o cidadão Fran- 
Francisco de Meira Lima em algum tempo falava em 
alugar a caza de sua rezidencia, chamando-o em minha 
prezença, declarou-me, que lhe era impossível ceder agora 
sua propriedade por motivos particulares, e que me pare- 
cerão justificáveis. A vista pois do exposto, não se podendo 
em Maceió com presteza e sem considerável gasto de di- 
nheiro proparar-se um edifício cora as precizas e decentes 
repartires para os trabalhos legislativos provinciaes, ouzo 
esperar, que V. S. attendendo á utilidade publica, não 
se recuzem a reunír-se no supradito consistório, certos de 
que a localidade pouco pôde fazer avultar a consideração, 
que a alta missão da assembléa faz sobre ella reflectir. 
Deus guarde a V. S. Palácio do governo das Alagoas 




— 142 — 

22 de Outubro de 1840. — Manod Felizardo de Souza e 
Mello, — Srs. Jozé Tavares Bastos, Francisco de Assis 
Ribeiro, Âffonso de Albuquerque Mello, Jozé Bernardo 
de Arroxellas Galvão, lágo Francisco Pinheiro, Ignacio 
Hyppolito Gracindo, Jozé Fernandes de Oliveira Santos, 
Joaquim Timóteo Romeiro, Francisco de Assis Barboza, 
Floriano Vieira da Costa Delgado Perdigão, Jozé Caetano 
de Moraes, Luciano Pereira de Lira. 

Illm. Sr — Reunindo-se hoje na caza destinada para o& 
trabalhos da asserabléa numero menor do que o exigido 
na constituição do império, e no regimento interno da 
mesma assembléa, pela falta dos Srs. deputados já jura* 
montados Francisco de Assis Barboza e Salvador Pereira 
da Roza, não se pôde por isso deferir o juramento a ou- 
tros membros, que se achavão prezentes, em consequência 
do que se faz necessário, que V. S. se digne levar o ex- 
posto ao conhecimento do Exm. Sr. prezidente da pro- 
vinda, afim de que, com a possível brevidade, faça chamar 
aos referidos Srs. deputados juramentados, ou, na falta, dê 
as providencias em ordem, que se constitua a mesma as- 
sembléa, como tanto se faz mister. De.TS guarde a V. S. 
Paço da assembléa legislativa provincial das Alagoas 
em 23 de Outubro de 1840. — Illm. Sr coronel Francisco 
Manoel Martins Ramos, secretario do governo. — Jozé Ber- 
nardo de Arroxellas Galvão. 

Participando-me o secretario interido da assembléa 
legislativa provincial, pelo intermédio competente, que 
reunindo-se hoje, na caza destinada para os trabalhos da 
mesma assembléa, numero menor do que o exigido na 
constituição do império, e no regimento interno respectivo, 
e que pela falta dos membros já juramentados, o Revm • 
Francisco de Assiz Barboza e Salvador Pereira da Boza, 
não se pôde deferir o juramento a outros membros, que se 
achavão prezentes, toma-se necessário, que Vms. com a 
possível brevidade convoquem os referidos membros jura- 
mentados, afim de que se installe a assembléa, como tanto 
se faz mister. Deus guarde a Vms. Palácio do governo das 
Alagoas em 23 de Outubro de 1840. — Manuel Pelitardo de 
Souza e MeUo. — Srs. prezidente e mais vereadores da ca- 
mará municipal doesta cidade de Maceió. 




V 

i-v 



— 143 — 

Illm. Sr. — Levei ao conhecimento do Illm. Exm. Sr. 
prezidente o officio de V. S. doesta data^ e em resposta 
sou autorizado a dizer a V. S., para que se digne de fazer 
contar á assembléa legislativa provincial, que n^este 
mesmo momento acaba S. Ex. de expedir as con- 
venientes ordens á camará municipal d'esta cidade, para 
que, com a possivel brevidade, convoque os Srs. de- 
putados juramentados Rcv. Francisco de Assis Barboza o 
Salvador Pereira da Roza. Deus guarde a V. S. Secretaria 
do governo das Alagoas em 23 de Outubro de 1840. 
— Illm. Sr. Jozé Bamardo de Arroxellas QalvSo, secretario 
interino da assembléa legislativa provincial. — Francisco 
Manoel Martins Ramos. 

Illm. Sr. — O lUm. e Exm. Sr. prezidente da provincia me 
ordena, participe a V. S., para chegarão connecin^en to da 
assembléa legislativa provincial, que em tomo da caza 
das sessões da mesma assembléa se achâo postadas duas 
patrulhas á dispoziçâo do Sr. prezidente d'ella, afim de 
manter a ordem e fazer repeitar as deliberações do corpo 
legislativo provincial. Deus guarde a V. S. Secretaria 
do governo das Alagoas em 29 de Outubro de 1840. 
Illm. Sr. Jozé Bernardo de Arroxellas Galvão, secretario 
interino da assembléa legislativa provincial. — Francisco 
Manoel Martins Ramos. 

Uma guarda de linha e policia é posta nas vizinhanças 
da assembléa provincial para fazer respeitar os actos 
d'esta corporação, e a seu prezidente se fízerão as com- 
petentes participações. O que communlco as Vms. para 
sua inteligência, e ao mesmo tempo tomar as convenientes 
medidas afím de que a segurança publica se não perturbe. 
Deus guarde a Vms. Palácio do governo das Alagoas 
em 29 de Outubro de 1840. — Manoel Felizardo de Souza e 
Mello, -Sr. Dr. António Luiz Dantas de Barros Leite, cUefe 
de policia d'e8ta comarca de Maceió. 

< Illm. Sr. A assembléa legislativa provincial foi con- 
vocada para o dia 18 do corrente mez,e conta-me,que depois 
da sessão preparatória de 27 alguns membros da mesma 
assembléa se têem auzentado, e muito poucos têem com- 
parecido. Queira pois V. S. communicar-me o que a res- 
peito ha, fazendo-me a narração do que houver até hoje 



— 144 — 

occorrido. Dous guarde a V. 8. Palácio do governo das 
Alagoas em 31 de Outubro de 1840. — Manoel Felizardo de 
Sousa e Mello. —Sr. Floriano Vieira da Costa Delgado Per- 
digâO; prezidente da assembléa provincial. 

lUm. Exm. Sr. — Manda V. Ex. por officio de 31 de 
Outubro findo, que eu, na qualidade de prezidente das 
sessões preparatórias da assembléa legislativa d'osta pro- 
víncia lhe communique, a respeito da mesma assembléa, o 
que houver occorrido ; pedindo-me de tudo uma fiel nar- 
ração ; por quanto, tendo V. Ex. em virtude da lei, con- 
vocado para o dia 18 a mesma assembléa^ e havendo se 
já decorrido 13 dias, ainda nSto fora V. Ex, convidado, 
em conformidade da mesma lei, para ir abrir a sessão. 
Para melhor obedecer a V. Ex., seja-me permittido dar 
a V. Ex. como sciente dos acontecimentos de Maio pró- 
ximo passado, e entrar na narração dos factos de agora, 
pela ordem que me forem occorrendo â memoria, sem 
assignalar dia certo . 

Logo depois do dia 18 se reunirão no questionado con- 
sistório do Rozario d'esta cidade os seguintes membros ju- 
ramentados da assembléa provincial, a sabor : os Srs. Dr. 
Jozé Tavares Bastos, vigário Jozó Caetano de Moraes, lente 
Franciscode Assis Ribeiro, Luciano Pereira de Lira, vigário 
Francisco de Assis Barboza, Jozé Fernandes de Oliveira 
Santos, Jozé Bernardo de Arroxellas Galvão, Eev. Aflbnso 
de Albuquerque Mello, professor lago Francisco Pinheiro, 
IgnacioJoaquim Passos, ígnacio Hyppolito Gracindo, com- 
mandante superior Francisco Elias Pereira; e como eu não 
devo esperdiçar tempo em minha repartição, mandei saber 
na secretaria da assembléa, si estarião prezentes quatorze 
membros juramentados, para eu também comparecer afim 
de formar caza, e ter logar officiar-se a Y- Ex. pedindo- 
Ihe dia e hora para a abertura da assembléa. E sendo -me 
respondido que não, foi-mo ao mesmo tempo aprezontada, 
para eu assignar, o que fiz, uma reprezentação a V. Ex. 
dirigida, em nome de alguns membros prezentes, fazendo 
ver, que, sem se mostrarem infensos á administração de 
V. Ex., querião uma outra caza, sem ser o con.sistorio, 
pelas razões anteriormente expendidas ; mas não posso dizer 
a V. Ex. nem todo o contexto d'esta reprezentação, nem 



\ 



— 145 — ' 

o numero certo dos assignantes, por me ficar d'ella fraca 
reminiscência; o que V. Ex. poderá, supprir, por ter em 
sua secretaria a reprezentaçâo. 

No seguinte ou subsequente dia^ compareci no logar 
designado para os trabalhos da assemblóa ; e feita a cha- 
mada, acharão-se prezentes 11 membros juramentados, e 
de mais constava estarem na cidade os membros Titara^ 
Pereira e Marques ; então fiz ver, que, em cumprimento do 
art. 52 do regimento interno, que é lei da assembláa pro- 
vincial, eu não podia juramentar aos Srs Dr. Cajueiro, 
Maranhão, Romeiro, Cansansão e Buarque de Gusmão, 
que prezentes se achavão ; e que portanto eu passava a 
mandar officiar a V. Ex. para instar, por todos os meio 
a seu alcance, com os Srs. vigário Francisco de Assis 
Barboza e Salvador Pereira da Roza, para comparecerem 
a formar caza, para eíFeito, ao menos, de se juramentarem 
os membros prezentes, ao que sem discussão annuirão, e 
levantou-se a sessão preparatória. Devo logo aqui mencio- 
nar a V. Ex. um precedente, qual o de um grande con- 
curso de povo nas apelidadas galerias. 

Nos dias subsequentes limitei-me a continuar a trabalhar 
na minha repartição, e tam somente mandava saber na 
secretaria da assembléa, si havia membros em numero 
de completar caza, por me ter constado que V. Ex., com 
urgência, oiBciára á camará d'esta cidade, para esta chamar 
os douB apontados membros ; e isto assim continuou, até 
que no dia 27 de Outubro, constando-me estar n'esta ci- 
dade o Sr. Salvador Pereira da Roza, dirigi-me á caza 
designada para as sessões da assembléa pelas 10 1/2 horas 
d'aquelle dia. Feita a chamada, acharão -se prezentes no re- 
cinto 11 membros juramentados, e logo depois o Sr. 
Francisco Elias Pereira, faltando os Srs. Titara, Marques, 
Assis Barboza e Salvador. Aberta a sessão preparatória, 
esclareci aos membros prezentes, que continuavão a exis- 
tir os mesmos embaraços antecedentes, e foi então entregue 
á meza uma participação do Sr. Pereira da Roza, dizendo 
achar se bastante enfermo, e por isso forçado a voltar ao 
seio de sua familia ; e que, logo que melhorasse, compare- 
ceria.Persuadi-me, que a simples observação, por mim feita, 
por ser cazo muitas vezes julgado pela assembléa provincial 

TOMO XLVI, P. II . 19 



— 146 — 

das Alagoas, em virtude do citado artigo do seu re- 
gimento; nenhuma discussão suscitaria. Mas o contraria 
sucedeu, porque pedio a palavra o Sr. Dr. Tavares Bastos, 
fazendo ver que o cumprimento d'aquello citado artigo 
nada menos importava do que ficar a provincia privada, 
na prezente legislatura, dos importantes trabalhos legisla- 
tivos ; que era urgente sahir doestes embaraços por um meio 
extraordinário, qual o de derogar-se o regimento, e que eu, 
como prezidente, juramentasse os Srs. Dr. Cajueiro, Ma- 
ranhão, Romeiro e Buarque de Gusmão, que prezentes se 
achavão ; ideia que foi recebida pelos membros do credo 
do Sr. Dr. Tavares Bastos com apoiados. 

Este requerimento vocal chamou-me a tomar parte na 
discussão, não só para expender meus princípios, como 
para desenlutar a minha reputação, por meus inimigos 
afixada de vacilante e dúbia. 

Não ó portanto agora o meu fim repetir perante 
V. Ex. todo o meu discurso, e somente aprezentarei os 
tópicos : 

1. *^ — que eu, como cidadão e membro da assembléa 
legislativa, reconhecia o seu regimento como lei, e lei ga- 
rantidora dos direitos poli ticos da provincia. 

2. ® — que o art. 52 do regulamento tinha sido cons- 
tantemente por mim contestado, por antever os emba- 
raços que por ventura um dia deveria suscitar, mas que : 

3. ^ — nem por isso deixava de pugnar para que elle 
não fosse illegaf, e por uma forma insólita derogado ; por- 
quanto : 

4. ^ — que, ainda que ou reconhecia, que a pozição 
dos membros da assembléa era melíndroza e embaraçada, 
e que muito convinha sahir d 'este estado de anciedade^- 
comtudo o salus populi nem sempre era para mim sagrado, 
maxime quando a crize fosse motivada por aquelle que ti- 
vesse de exercer essa medida heróica, muitas vezes valha- 
couto de déspotas e tiranos ; e por conseguinte que de- 
zejava, sim, que vencêssemos os obstáculos, porém por 
meios legaes. 

õ. ® — que a crize tinha sido creada pelos membros 
prezentes, quando em 2 de Maio próximo passado, consti- 
tuídos em assembléa, ideet, em numero legal, e juramentados 



— U7 — 

segundo a lei, dezignárão a sala consignada para os 
trabalhos da assembléa de indecente e anticonstltucional, 
e se retirarão ; que então, sem eu tomar sobre mim, na 
qualidade de prezidente das sessões preparatórias, a res- 
posabilidade do julgar, si era ou não suficiente a sala, sus- 
tentei comtudo, que o arbítrio tomado pela assembléa es- 
tava no circulo de suas atribuições. 

6.® — que este arbítrio foi então taxado de caprixozo, 
e que agora parecia-me indecorozo, por envolver manifesta 
contradicção, quererem os mesmos membros trabalhar na 
mesma caza, que havião reprovado ; que eu, si tal tivesse 
votado, nada seria capaz de fazer-me entrar n^aquelle edi- 
fício, para não verificar a mancha de caprixozo : 

7." — que a ideia de legislar extraordinária e caprixo- 
zamente trazia por coUorario a desobediência também 
por caprixo ; e que era summamente perigozo quererem 
12 membros da assembléa tomar a iniciativa de derogar 
uma lei, ainda que com o honestado fim de utilidade, por- 
que tempo viria, que ainda menor numero de membros, 
acobertados com o mesmo principio de utilidade, dero- 
gassem aquellas leis, que acoimassem suas paixões. 

8.® finalmente — que firme n 'estes principies continuava 
a sustentar a letra do regimento, como sempre, na qua- 
lidade de prezidente da assembléa legislativa da provín- 
cia, havia sustentado, bem como mostrei, fiel aos meus 
principies, em Dezembro de 1839 e Maio doeste anno, nas 
administrações transactas dos Srs. Drs. Neves e Cansansão, 
épocas bem diversas e assignaladas na historia da província, 
em que nem as insinuações e rogativas da amizade, nem o 
pezo da odiozidade, que lançarão sobre mim, fôrão capazes 
de fazer com que arripiasse em sustentar a dignidade da 
assembléa provincial, cumprindo com o seu regimento ; 
e que, si agora tranzigisse, eu me cobriria do oprobio de 
versátil, e de connivente de um partido, que criara a caza 
de indecente e anti-constitucional, e prezentemente mos- 
trava afan de n'ella trabalhar. 

Este meu discurso em suas fazes mereceu apoiados, já 
dos membros da assembléa, e já das galerias, em que pro- 
miscuamente estavão assentados, talvez por assim o que- 
rerem, os quatro ainda não juramentados membros da 



I 



. — 150 — 

vulnerável a quem d^ellas se havia servido: lembrei o exem- 
plo do celebre projecto da — rolha — , lembrei o mesmo cazo 
vertente do art. 52 do regimento, de que se servirão para 
manietar a administração, e que agora o mesmo artigo, 
a seu turno estava manietando ; que não quizessemos 
inventar uma outra arma ainda mais acicalada, e por isso 
tanto mais perigoza ; que deixássemos o governo pedir ao 
poder legislativo medidas legaes e preventivas para este e 
outros cazos, que a pratica e a experiência irão lembrando. 

E' de notar, que, durante este meu discurso, augmentou 
o concurso de povo nas galerias, e repetidos apoiados, 
mormente na ultima parte d'elle, se ouviâo de todos os lados 
bem como as vozes, que invocavão a ordem. Occupando 
eu a cadeira da prezidencia, âz, não sem custo para com 
alguns dos membros de dentro do circulo, restabelecer o 
silencio. Obteve a palavra o Sr. Santos, e lendo para as 
galerias o art. 161 do regimento, continuou dizendo : que 
inspirado fora, quando em 2 de Maio aprezentara o seu 
requerimento, porque agora convencido estava de que a 
assembléa provincial não poderia livremente trabalhar na 
cidade de Maceió. Si no seu começo, continuou o orador^ 
si nos trabalhos preparatórios o povo de Maceió já amea- 
çava a assembléa. ..A estafraze — ameaçava — responderão- 
Ihe das galerias — ninguém aqui é capaz de ameaçar ou 
insultar os Srs. deputados — e o orador disse : não conti- 
nuarei a falar, e logo depois sentou-se. 

Durante esta scena, repetidas e continuas vezes, fiz 
ímpôr silencio, mostrando-se mais contumaz o Sr. lago, que 
bradava ordem, e me requeria, unido ao Sr. Dr. Bastos, 
que levantasse a sessão. Fiz-lhe vêr o perigo, que havia 
de levantar*se uma sessão, quando de mais eu não via 
simptomas de desordem ; e que me achava revestido de 
bastante força para impor silencio ás galerias^ com tanto 
que, elles membros, principiassem a dar o exemplo de obe- 
diência e amor da ordem, que elles mesmos interrompião e 
invocavão. Restabelecido finalmente o silencio, o Sr. vigário 
Moraes propoz a medida extraordinária de celebrar uma 
nova missa, ao que por um aparte se oppôz o Sr. lago, 
dizendo que eu não era homem de adoptar medidas extraor* 
dinarias : respondi-lhe, que agradecia a honra,que me fazia; 



— 151 — 

Hjue na verdade um homem constitucional por princípios e 
convicção nunca adoptaria medidas excepcionaes em cazos 
vulgares, e que eu lhe offerecia o meu voto para elle ser 
prezidente, e seguir taes medidas, e d^ellas colher o fructo. 
Finalmente fechou a discussSlo o Sr. Passos, instando que 
eu, na qualidade de prezi dente, sustentasse os principies 
emittidos e o artigo do regimento, até por decoro da assem- 
bléa legislativa provincial. 

Dada uma hora da tarde, levantei a sessão preparatória, 
iirme em esperar o comparecimento de mais alguns mem- 
bros dos juramentados, que completasse o numero exigido 
no art. 78 da constituição para juramentar os demais 
membros, e pedir-se a V. Éx. dia e hora para a installaçâo 
da assembléa. 

Persuado-me de com toda a verdade e seus pormenores 
ter expendido a V. Ex. o que occorrera no dia 27 ; não 
podendo unicamente lembrar, de um discurso do Sr. vigário 
Moraes, mas recordo-me de lhe ter dito o Sr. Maranhão, 
quando fallava : Padre, assim não pregava você á vez 
passada. 

Si porém alguma outra circumstancia não mencio- 
nei, creia V. Ex., que a deve attribuir a esquecimento 
de minha fraca memoria, e não de cazo premeditado, por 
ter em todo o curso de minha vida mostrado bastante for- 
taleza e coragem para publicar a verdade. 

Consta-me, e posso declarar como certo, que no dia 28 
de Outubro, e nos subsequentes se retirarão os Srs. Assis Ri- 
beiro, Romero, Santos, Albuquerque Mello, Pereira de Lira, 
lago e Arroxellas Galvão; que, segundo dizem, também já se 
retirarão os Srs. vigário Moraes e Bastos; que não foi possivel 
que comparecessem .os Srs. Salvador e vigário Assis 
Barboza ; e finalmente que só se achão prezentes os Srs. Ti- 
tara e Marques com parte de doentes, Elias, Passos e 
Perdigão. Quanto aos membros não juramentados, nada sei 
dizer a V. Ex., sin^Ko que aqui são moradores os Srs. Gan- 
sansão, Cajaeiroe Maranhão. 

Com a minucioza e verídica narração, que levo escripta, 
eu deveria julgar completamente satisfeita a exigência de 
V. Ex., si não houvesse apontado como um incidente o 
grande concurso de povo, que assistio ás duas sessões 



\ 



— 152 — 

preparatórias; que deixo expendidas. Mas quero ainda, por 
esta veZ; sacrificar no altar da pátria o socego do meu 
espirito, chamando sobre mim, por ser apostolo da verdade, 
a odiozidado de alguns de meus conterrâneos, e quiçá 
si não de alguns meus intlmos amigos, que, um dia 
livres das vergonhozas cadeias das paix3es, reconhecerás, 
que nunca fui mais digno d'este titulo gloriozo, do qu& 
quando arredarão de mim a sua estima. 

E desgraçadamente próprio do homem, Exm. Sr«, um 
dezejo de vingança ; um poeta já denominou esta paixão o 
verdadeiro néctar dos deuzes ; e por isso é conselho da 
prudente sabedoria não exaltar-lhes as paixSes para não 
ibrçal-os a perigozos conflictos, que caro escarmentão os 
povos. Si o prazer da victoria quazi sempre não embria- 
gasse o vencedor; si este reconhecesse, que o vencida 
tem direitos, que devem ser respeitados, nunca na historia 
das naçSes figurarião reacções, que tom innundado a terra 
de cadáveres. 

Longe de mim a idéa de querer com recriminações 
acender essas tumidtuozas paixões, que, como Brazileiro,. 
reconheço serem destruidoras da prosperidade do meu 
paiz, no qual se tem dezenvolvido uma tendência funesta 
para a desordem e anarchia, não pelos xeques dos poderes 
politicos da naçã j, que proourão adquirir o seu justo equi- 
líbrio, sim por paixões individuaes levadas á exagerações. 
Portanto seja-me permittido, ao menos no remanso de 
minha consciência, dizer, que os habitantes das Alagoas 
fôrão, depois de vencidos na luta da transferencia da ca- 
pital, menoscabados por alguém n'aquillo mesmo que, como 
vencidos, tinhâo inauforivel direito a ser-lhes respeitado. 
Esta falta de politica, a auzencia total da delicadeza em 
adoçar-lhes a cruel sorte de vencidos, a privação de certas 
regalias, e mingoa de seus interesses individuaes, exa- 
cerbou-lhes o bem conhecido espirito de bairrismo, a ponto 
de ultrapassarem os limites, que consign3o o verdadeiro 
patriotismo, que tem por única baze o bem -ser da humani- 
dade. Então elles sonharão vinganças, projectarão ligas, e 
unisonos em um só corpo almejão volver as couzas ao antigo 
estado — Volte a capital para a cidade das Alagoas — eis 
o seu desideratum. 



C 



▲ 



— 153 — 

AllucinadoB por esta paixáo, elles eseurecem o direito 
de procedência de ter sido a cidade de Maceió, onde de 
facto e direito teve principio a existência da capital da 
provincia ; esquecem-se, que, sem ordem soberana, o pri- 
meiro governador transferio a capital para as AlagOas, sem 
ser n'este passo anti-politico e criminozo obstado pelos ha- 
bitantes de Maceió ; negSo, o que mais é, a primazia da 
localidade, que faz de Maceió o ponto central do com- 
mercio, e por isso o mais importante da provincia, por 
ser susceptível de fácil e progressivo augmento ; finalmente, 
desconhecem, que, si elles propondo todas estas razões dig- 
nas da ponderação do homem calmo e conscienciozo, que 
si elles, embriagados pelo espirito de vingança, antep($em 
os interesses do bem geral á satisfação de um caprixo, e 
por caprixo querem tamsómente levar a effeito a trans- 
ferencia, que os antoja, vão encetar uma luta de reacções 
interminável entre si e os habitantes de Maceió, devo- 
tados a ella, para também por caprixo defenderem o di- 
reito, que por um cazo fortuito reivindiciárão em 9 de 
Dezembro de 1839, por o haverem illegalmente perdido 
em. . .• de de 182. . . 

Não se illuda V. Ex. ; não se persuadão os minis- 
tros de S. M. I., que, levadas as couzas ao gráo de 
vertigem em que se achão, o povo da cidade de 
Maceió veja de sangue frio triunfar o caprixo alagoano ; 
assim como não será possível, que os habitantes d'aquella 
cidade justamente irritados no seu amor próprio por ac— 
cintozos, si bem que pequenos procedimentos, nem sempre 
inevitáveis da parte do vencedor, sacrifiquem já, no altar 
da razão, as paixões rancorozas, que nutrem e afagão no 
coração, sem que sejão antecipadamente indemnizados 
das regalias, que perderão. Esperar, ou querer o contraria 
é não conhecer a duradoura irritabilidade, de que é 
susceptível as fibras do coração humano. 

Não é crivei, Exm. Sr., que a razão prezontemente sa- 
ture as idóas de homens, que tudo podem aventurar, certos 
da impunidade que lhes garante as antinomias do nosso 
sistema judiciário. Em tal ensejo qual deve ser a norma 
das pessoas e autoridades não contaminadas do simptoma 
vertiginozo ? Sacrificarem espontaneamente a própria 

TOMO XLVI, p* n. 20 



I 



— 154 — 

reputação ; sugeitarera-se de bom grado a receberem ul- 
trajes; mas que se fechem as portas de Jano ; e que se 
se esperem do governo de S. M. I., e da sabedoria da as- 
sembleia geral providencias salutares, ditadas pela pru- 
dência, que devem possuir os responsáveis pelo bem-ser 
dos povos. E o tempo, que irá neutralizando os interesses, 
acalmando as paixões dos habitantes doestas duas nascentes 
cidades, fará com que elles um dia proclamem por bene- 
méritos da pátria aos que hoje assim pensão, e tiverâo 
valor para o publicar. Deus guarde a V. Ex. por muitos 
annos. Cid ide de Maceió, em 5 de Novembro de 1840. 
— Illm. e Exm. Sr. Manoel Felizardo de Souza e Mello, 
prezidente doesta provinda. — Floriano Vieira da Costa 
Delgado Perdigão. 

Illm. e Exm. Sr.-— Querendo saber com certeza o que se 
passou no intervallo dos 10 dias decorridos desde 18, época 
por mim marcada para a reuniSo da assembléa, até 27, em 
que houve entre os deputados a pequena questão, de que 
se aproveitarão para abandonarem a caza, e retirarem-se a 
seus domicilies, officieí ao prezidente da assembléa, que 
me respondeu, segundo V. Ex. será da cópia induza. 
Como o prezidente da assembléa note por duas vezes no 
sou relatório o grande concurso de espectadores, devo 
declarar a V. Ex., que, segundo as informações que obtive, 
erão estes em grande parte, si não em totalidade, da gente 
mais grada da capital, e que nem por um momento foi a 
ordem perturbada, nem insultos soiFrerão os deputados. 
Dous que mais se havião destinguido na sessão do dia 27 
fôrão os que se conservarão ainda por mais seis dias, e 
longe de soffrerem injurias fôrão obzequiados e bem tra- 
tados. Aproveito a occazião para fazer chegar ao conheci- 
mento de V. Ex. a circular, que fiz ás camarás municipaes 
da provincia, e juizes de direito, pois que me conta, que 
pessoas mal intencionadas pretendem inverter os factos 
occorridos, e tirar d^elles proveito. Deus guarde a V. Ex. 
Palácio do governo das Alagoas em 1 de Novembro dei 840. 
Illm e Exm. Sr. António Carlos Ribeiro de Andrada 
Machado e Silva. — Manod Felizardo de Souta e Hélio. 

Tendo convocado a assembléa provincial para o dia 
18 do mez findo, chegarão a reunir-se na capital mais de 



i 



— 155 — 

20 deputados effectivos, e supplentes chamados para su- 
prir a falta dos legitimamente impedidos, e com- 
parecendo na caza destinada pam os trabalhos da as- 
sembléa pela segunda vez, no intervallo de 10 dias a 27 
do mesmo mez;. depois de leve discussão em que as ga- 
lerias derílo signaes de aprovação e reprovação, levantou- se 
a sessão, quazi todos os deputados que não rezidem em Ma- 
ceió retirarão-86 as suas cazas^ sem fazerem a menor parti- 
cipação. A tranquillidade e segurança . publica e individual 
não foi um só momento alterada ; nenhum deputado foi 
insultado ; os dous que mais falarão na sessão de 27, o 
reverendo vigário da Palmeira, e Dr. Jozé Tavares Bastos 
ainda se conservarão por mais de seis dias na cidade, 
sem que recebessem signaes alguns de desgosto, ou in- 
jurias. 

O successo que acabo de referir, podendo ser invertido 
por pessoas mal intencionadas com o fim de pertubar a paz 
e ordem, o communico a Vms. a fim de que pérfidas 
invenções não produzão efFeito e saiba a provincia o que 
na realidade occorreu. Facão por tanto Vms. publicar 
no seu município este meu officio, afim de se conseguir o 
fim que deixo dito. Deus guarde a Vms. Palácio do 
governo das Alagoas em 9 de Novembro de 184tO.^ Manoel 
Felizardo de Souza e Mello. — Srs. prezidente e vereadores 
da camará municipal doesta cidade de Maceió. 

Do mesmo teor ás demais camarás da provincia, juizes 
de direito, mutatis mutandiê, para o fazerem constar aos 
juizes de paz de suas comarcas. 

lUm. eExm. Sr. — S. M. o Imperador fica inteirado de 
tudo o que, em officio de 7 do raez próximo findo, V. Ex. 
refere sobre o concurso de circumstancias, que tem ser- 
vido de pretexto para até aquella data não se haver ins- 
tullado a assembléa legislativa d 'essa provincia. E o mes- 
mo augusto Senhor me ordena, responda a V. Ex., que, 
não havendo outra alguma providencia que expedir, alem da 
que consta do avizo de 6 de Junho do corrente anno, di- 
rigido a essa prezidencia ; cumpre, que V. Ex. novamente 
procure dar-lhe execução, convindo que, quando do que 
n'elle se determina não rezulte o effeito, que se dezeja, 
V. Ex. informe circumstanciadamente com as razSes da 



I 



— 156 — 

falta do rezultado. Deus guarde a V. Ex. Palácio do Rio 
de Janeiro em 15 de Dezembro de 1840. — António Carlos 
Ribeiro de Ajadrada Machado e Silva. ^ Sr. prezidente da 
provincia das Alagoas». 

Incansável em promover o bem de todos os que estão 
confiados á sua administração; elle ordenou aos juizes de 
órfãos respectivos^ que^ em virtude do decrecto de 3 de 
junho de 1831; dessem as providencias & seu alcance para 
que não scjão esbulhados do terras^ que lhes pertencem, oa 
Índios dos arraiaes de JacubipC; Santo-Amaro, Porto-real; 
Palmeira, communicando isto mesmo aos directores dos 
ditos Índios repetindo a remessa do destacamentos de tropa 
de linha e policia á todos os pontos, aonde lhe participâo aa 
autoridades locaes, que ha dezordeiros e pertubadores da 
publica tranquillidade. 

Em iS.0 pouco tempo do seu governo se tinha já acredi- 
tado tantO; por seus talentos não vulgares, sua reconhe- 
cida prudência, e seu patriotismo ; era tal a influencia, que 
já tinha na provincia, e estavâo já os povos tao penhorados 
de sua urbanidade e lhaneza, que na eleição á que se 
procedeu para deputados á assembléa geral legislativa, 
no quatriennio de 1842 á 1845, obteve o logar de pri- 
meiro deputado pela provincia sua administrada, com a 
maioria de 517 votos. 

Pedio novamente pelo ministério da marinha, e obteve 
a quantia orçada para completar-se a obra do telheiro, que 
tem de servir para guarda das madeiras de construcçao, e 
que havia tido começo em tempo de outrem, como já se 
disse ; e ordenou a concluzão de tão necessária obra, e se 
acha em andamento. Assim como reprezentando pela repar- 
tição da guerra a necessidade que havia de duas bandeiras 
nacionaes, uma para os dias de grande gala, e outra para 
o serviço ordinário, lhe foi respondido em avizo de 27 de 
Novembro de 1840, que tinha sido expedida ordem ao ar- 
senal de guerra da corte para lhe serem remettidas : repre- 
zentou mais pelo ministério da fazenda, e lhe foi concedida 
a compra de uma barca para fiscalização dos direitos da 
alfandega, e meza do consulado, coUocada em Jaraguá. 

Não se achando no porto, por ter ido à Pernambuco em 
commissãO; a embarcação de guerra, que se achava n'elle 



— 157 ~ 

para o cruzeirO; afim de ser apprehendido, ou ao menos 
obstado o contrabando ; e constando lhe que um brigue 
barca inglez, que esteve quazi dentro do me-mo porto, e se 
retirou, fora para o de Cururipe carregar de páo-brazil , 
dirigio immed latamente ao juiz de direito da comarca res- 
pectiva o oíHcio da cópia seguinte, e tendo em resposta o 
da cópia subsequente, passou a dar outras providencias, e 
entre ellas a que se contém^ no officio da cópia transcripta 
em terceiro logar : 

Constando-me que uma embarcação ingleza se dirigira 
ao porto de Cururipe, naturalmente com o intuito de ex- 
portar clandestinamente páo-brazil, cumpre, que Vm., 
sem perda de tempo, se aprezente n'aquelle logar com o des- 
tacamento, que ahi se acha, e proceda na forma da lei contra 
os contrabandistas. Deos guarde a Vm. Palácio do go- 
verno das Alagoas em 14 de Outubro de 1840. — Manoel 
Felizardo de tíouza e Mello, — Sr. Dr. Matheus Cazado 
de Araújo Lima Amaud, juiz de direito e chefe de policia 
da comarca de Anadia. 

Illm. e £xm. Sr. -^ Acuzo a recepção do officio de 
V. Ex., datado de 14 do corrente, ordenando-me que, sem 
perda de tempo, me dirija com o destacamento, que aqui 
se acha, ao porto de Cururipe, afim de obstar ao contra- 
bando de páo-brazil, que naturalmente vai fazer essa em- 
barcação ingleza, de que fala V. Ex., e proceder na forma 
dii lei, contra os contrabandistas, ao que não posso dar 
cumprimento, por me achar, ha dous ou três dias, bastante 
atacado (creio que de sezões); e nem mesmo posso dar 
alguma providencia, que proficua seja, por £alta de um 
official de confiança, a quem dirija minhas ordens. Entre- 
tanto si n'estes dois dias meu estado de saúde m'o per- 
mittir, executarei fielmente o que V. Ex. me ordena. Deus 
guarde a V. Ex. Anadia 16 de Outubro de 1840. —Illm. e 
Exm. Sr. Manoel Felizardo de Souza e Mello, prezidente da 
província. — Matheus Cazado de Araújo Lima Amaud. 

Constando-me que na barra de Cururipe se acha um 
brigue-barca inglez carregando de páo-brazil, logo que 
Vm. este receber, tendo lenha, agua e mantimentos pre- 
cizos, se fará do vela para aquelle logar, seguindo no 
mais as instrucções constantes do meu officio de hontem. 



i 



— 158 -^ 

Deus guarde a Vm . Palácio do governo das Alagoas em 
23 de Outubro de 1840. — Manoel Felizardo de Souza e 
Mello. — Sr. António Xavier de Noronha Torrezâo, 1**^ 
tenente e commandante do pataxo Patagonia, 

Tendo cabido o commandante do pataxo (cuja honra 
e probidade tem em muito o prezidente) á mencionada 
commissãO; no dia 31 d'aquelle mez de Outubro, partici- 
pou não ter encontrado navio algum no porto de Cururipe, 
para onde tinha sido destinado ; sabendo apenas por 
um jangadeiro, cuia jangada fez atracar a seu bordo, que 
na sexta-feira tinha ali estado um brigue, é sahira no 
sabbado sem ter carregado. Elle prezidente, por esta oc- 
caziâo, observou ao ministério da fazenda, que, si fosse 
permittido elevar-se o preço do páo-brazil a 8^, era de 
prezumir, que o contrabando cessasse, porque o pequena 
lucro, que d'elle poderia provir, não cobriria de certo o 
premio de seguro pelo risco, a que o commercio illicito é 
sujeito, quando ha vigilante fiscalização. 

Tendo cahido um lanço de estiva da ponte do rio SSo- 
Miguel, elle mandou fazer imediatamente o devido concerto. 
Fez avizar com tempo para a grande parada do dia 2 de 
Dezembro de 1810, faustissimo natalicio de S. M. o Impe- 
rador, as praças, que estivessem fardadas, dos dous batalhões 
do guardas nacionaes do municipio de Maceió, e as dos bata- 
lhões dos municipios de SSo-Miguel e de Santa-Luzia do 
Norte ; expediu convenientes ordens ao agente d'esta pro- 
vinda na cidade da Bahia afim de que empregue os meios 
a seu alcance, e de acordo com as autoridades locaes, afim 
de não serem defraudados os direitos das Alagoas ; e ofii- 
ciou ao inspector da thezouraria da fazenda para tomar as 
medidas, e dar as providencias que julgasse convenientes á 
respeito da nova arrecadação, creada na povoação do Passo 
de Oamaragibe do municipio de Porto de Pedras. 

Para o prezidente Manoel Felizardo de Souza e Mello 
estava rezervada a gloria de lançar a primeira pedra em a 
nova igreja de Nossa Senhora dos Prazeres, matriz doesta 
cidade de Maceió, capital da provincia das Alagoas (quo 
está sendo erecta á imitação de um dos riscos, que havia 
pedido para a corte, como já disse, seu predecesor o dezem- 
bargador Rodrigo de Souza da Silva Pontes). 






— 159 — 

Convidado para esse fim, logo que fôrão abertos os ali- 
cerces pela própria commissâO; que outr'ora havia também 
convidado para o mes mo a sen antecessor, o Dr. JoiSo Lins 
Vieira Cansansâo de Sininbú, aceitou de boa vontade o con- 
vite ; e o dia para isso determinado foi o de domingo 22 
de Novembro de 1840, dedicado á Santa Cocilia virgem e 
mártir, festejada em todas as partes d'este império pela 
corporação dos muzicos, com o fim de que as virtude de uma 
tão preclara santa fizessem memorável a solemnidade d'esse 
dia. 

Chegado elle, e a hora designada, achando se já reunidos 
o clero, e as irmandades das diversas confrarias da cidade, 
sahio do palácio o prezidente da província com grande 
acompanhamento do comandante superior de guardas na- 
cionaes da comarca e da gente mais grada, e chegou á 
pequena matriz velha (que ha de fazer parte da nova), por 
entre um grande numero de pessoas, que concorrerão á 
prezenciar uma função, que a todos interessava. No meio 
do cruzeiro junto ao arco da capella-mór se via uma cre- 
dencia, e sobre oUa um bem preparado andor, onde estava 
coUocada a pedra, que se havia de benzer e lançar,com uma 
cruz esculpida no meio; fez o vigário encommendado, o 
Rev. Joaquim Jozé Domingues da Silva, a benção d'ella 
acom panhadodos seus assistentes, observando as cerimonias 
do ritual romano. 

Logo que foi concluída a benção, se formou uma procisssão 
encaminhada para o alicerce da igreja, e sitio, onde se 
havia de lançar a sobredita pedra, carregando o andor, onde 
èlla ia coUocada, o prezidente Manoel Felizardo de Souza 
Mello, o comandante superior Lourenço Cavalcante de 
Albuquerque Maranhão, o juiz de direito da comarca de 
Maceió, bacharel António Luiz Dantas de Barros Leite e 
o secretario do governo coronel de milícias reformado Fran- 
cibco Manoel Martins Ramos, os quaes tirando então a pedra 
do andor descerão para o fundo do alicerce, e a fôrão colocar 
no logar para isso destinado, pondo sobre ella outra pedra de 
igual tamanho, onde se achava esculpida a éra de tão deze- 
jada fundação ; .concluindo o reverendo vigário o acto com 
varias orações, e com todas as mais cerimonias ordenadas no 
dito ritual romano. 



f 



~ 160 — 

Estava rezervada também para o tempo do seu governo 
a satisfação de ser o primeiro prezidente, que tenha con- 
seguido fazer-se uma aprehensão de contrabando de páo- 
brazil ! Dezejando embaraçar este contrabando, sinâo des- 
truil-o completam ente, tinha empregado, como alguns outros 
seus predecessores, todos os meios ao seu alcance para 
capturar as embarcaçSes, que se empregão n^este commercio 
illicito, e mesmo aprehender a madeira cortada que se 
achasse em terra prompt.a para embarque ; infructuozas 
porém tinhâo sido suas diligencias, como já tinha aconte- 
cido a aquelles. 

Por duas vezes pôz tropa á dispozição de juizes de 
direito, e nada também havia conseguido ! Âpezar porém 
de saber os riscos, em que se mete o empregado publico 
encarregado de prohibir tal ramo de negocio, e ainda 
mais aquelle que vai fazer aprehensS,o da madeira ; cons- 
tando-lbe que em Cururipe estavSo carregando algumas 
€mbarcaç5es, tomou medidas tSo ajustadas e de prompto, 
que os officiaes encarregados da diligencia, partindo em 
duas barcassas com tropa, aprehendêrão um brigue «francez 
com parte de carga de páo-brazil, conseguindo escapar-se 
um pataxo, por não haver embarcação própria para o per- 
seguir. 

Sabondo que o pataxo, que se havia evadido no dia 
18 de Novembro, tinha o mastro de ré rendido, e que por 
tanto não poderia navegar para barlavento; não contente 
com ter officiado aos ministros da fazenda, marinha, guerra, 
dos negócios estrangeiros e ao prezidente da provincia da 
Bahia, determinou, que o pataxo Patagonia, logo que re- 
gressou de Pernambuco, explorasse todos os portos ao sul 
de Cururipe, e capturasse aquelle outro pataxo, cazo o en- 
contrasse. 

Infelizmente porém, navegando o Patagonia até a en- 
seada do rio de São-Francisco ou Yazabarris, nada achou. 
Tendo por tanto novas communicações de que aquelle pa- 
taxo evadido se achava no mesmo rio de São-Francisco a 
oito léguas da fóz metendo mastro, e achando-se então 
incommodado, entendendo- se com o vice-prezidente o Dr. 
Cansansão, que por quatro dias tomou conta da adminis- 
tração, este fez logo sahir de novo o Patagonia com trinta 



t 



— 161 - 

praças de linha e instrucçdes convonientes para o mesmo 
fim de capturar o pataxo, e ordens a todas as outoridades 
locaes, e ao patrão da catraia ViUa do Penedo para 
prestarem-se a todas as requíziçSes, que da parte do seu 
commandante, o Sr. tenente António Xavier de Noronha 
Tori'ezâO; lhes fossem feitas ; mas voltando aquelle no dia 9 
de Janeiro corrente, o dito commandante participou, que 
nâo foi possivel *encontral-o. 

Aparecendo por espaço de 4 dias um navio bordejando 
fora da barra, e que cauzara desconfiança, dirigio no dia 
1 2 do corrente mez ordem ao commandante do pataxo Pata" 
gonia, que sahio para Pernambuco a conduzir recrutas, que 
logo que largasse fosse dar caça ao dito navio ; e este lhe 
respondeu, que era um brigue, que ia também para Pernam- 
buco, e que pedira pratico para este porto, visto que não 
podia vencer para norte em consequência das calmas, e 
grandes correntes para o sul; o que na verdade existia como 
experiraentiira, quando sahiu. 

Em 11 do dito mez de Janeiro pedio ao ministério da 
guerra houvesse de ministrar os fundos precizos para ser 
levado a eíFeito o levantamento da bateria de São-Pedro, e 
coUocar n^ella quatro peças de artilharia para compelir os 
mestres das embarcs^çSes de commercio á observância das 
leis, e evitar abuzos, que tinhão sido participados ao minis« 
terio da fazenda por ofiicio de seu predecessor, o dezem- 
bargador Rodrigo do Souza da Silva Pontes, de 26 de No- 
vembro de 1826, sob o n.* 44, visto que ainda subsistiãe 
as mesmas razões, que então fazião necessária esta obra, 
que fôra concedida por avizo da mesma secretaria de 18 de 
Janeiro de 1837, e que não tinha tido execução por falta de 
dinheiro. 

Finalmente achando-se a provincia em paz e tranquili- 
dade,elle convocou extraordinariamente a assembléa legisla- 
tiva provincial por portaria do referido dia 12 de Janeiro 
de 1841, parareunír-se no dia 1* de Março próximo futuro, 
afim de deliberar sobre as matérias, que na fala da aber- 
tura serão aprezentadas ; ordenou á camará municipal da 
capital não só para fazer os competentes avizos, como para 
chamar os suplente dos membros da mesma assembléa, que 
se acharem legitimamente impedidos, que houverem morrido, 

TOMO ZBVI, p. n. 21 



) 



- 162 — 

ou estiverem prezos ; e participou na mesma data ao 
ministério do império, dizendo que julgou conveniente dar 
o intervalo de mez e meio, nâo só para que pudessem ser 
avizados todos os deputados, comj porque este intervalo de 
tempo é o mais precizo para a agricultura, e os proprie- 
tários de engenho não podem desamparar suas cazas durante 
a moagem ; e concluia dizendo ao mesmo ministério o 
seguinte : 

c Si ainda d'esta vez a assembléa provincial nâo traba- 
lhar, não será decerto cauza d'isto o poder executivo, nem 
seu delegado n'esta provincia, que hão empregado os 
meios ao seu alcance para que a mesma assembléa se reúna 
e trabalhe, v 

Tal tem sido até hoje 22 de Janeiro de 1841 a admi- 
nistração do prezidente actual, e tal se espera, que seja- 
em quanto elle permanecer no mesma administração, deio 
xando-se em silencio mil outras providencia económicas do 
seu governo e pormenores, pois fica turto subentendido no 
que se tem propalado. O: Alagoanos sinceros, e dezejozos 
do bem-estar da sua provincia respeitão os quilates de seu 
entendimento, primor, merecimento e virtudes, confino na 
sua justiça, amão-o cordialmente e já presentem com sau- 
dade a privação, que um dia hão de ter da prudente e cir- 
cumspecta administração do benemérito prezidente Manoel 
Felizardo de Souza e Mello. 



§21 
RECAPITULAÇÃO 



Governador 

Junta de governo provizional. 
Juntas provizorias de governo. 
Junta de governo temporário. 
Grovemo municipal. . . • 
Prezidentes que têem governado 
Ditos que não tomarão posse. 
Vice-prezidencias .... 
Commandantes das armas. . 



1 

j 



1 

2 
1 
1 

12 
2 

12 
6 



— 163 — 

§ 22. 
LAPSO DE TEMPO E FONTES DOESTE TRABALHO. 

Por decreto de 16 de Setembro de 1817 foi a província 
das Alagoas desmembrada da capitania de Pernambuco, 
izenta absolutamente da sugeição, em que até então esteve 
do governo d'el]a; e erigida em capitania com um governo 
independente, que a regesse na forma praticada nas demais 
capitanias independentes. 

Comprehende este trabalho o espaço de 22 annos, que 
decorrerão desde o dia 22 de Janeiro de 1819 até 22 de 
Janeiro de 1841. 

A lista é extrahida dos assentos, que existem nos livros 
da secretaria do governo da mesma provincia n^este anno de 
1841, e dos da assembléa legislativa provincial no de 1839. 



í 



GUERM CIVIL 

DO 

Hío ghahoe; oo sul. 

MEMOBIA ÁCOyFÁNBABA DB BOCUlfSNTOS, LIDA NO INSTITUTO ISTORICO 

B OEOQRAFICO DO BRAZIL 

POR 

TRI8TÃO DE AL.ENCAR ARARIPE 



PABTB DOCUMBNTAL {*) 



§7 
2/ PREZIDENOIA DE ANTÓNIO EUZIARIO 



3 DE NOVEBfBRO DE 1837 
Proclamação por oeazião da posse do prezidente da proYincia 

Bio grandenses ! Depois de eu haver, na forma da lei, 
tomado posse da prezidencia d'esta provincia, e de ter 
implorado no templo do Altissimo ao Espirito Santo me 
inspirasse os meios de poder dezempenhar dignamente os 
meos dificeis deveres, como prezidente e commandante das 
forças d^ella, é o primeiro cuidado aprezentar-vos a procla- 
mação de 6 de Outubro ultimo, que o regento interino em 
nome do Imperador vos envia. 

Na qualidade de delegado do governo religiozamente se- 
guirei o que n'ella se declara, e o que a constituiçSo refor- 
mada e as leis marcSo. 



(*) Vide a Revista Trimensal de 1881 e de 1882. 



— 166 — 

Plena proteçSo aos legalistas, acolhimento franco e leal 
a todo o cidadão, que, até aqui iludido pelos rebeldes^ venha 
sinceramente arrependido buscar guarida nas bandeiras da 
legalidade, e guerra constante aos sediciozos, que, esqueci- 
dos da pátria e das leis da humanidade, emperrados conti- 
tinuarem a nutrir o monstro da anarchia, que tem vilipen- 
diado e destruído esta província, eis o que me cumpre e o 
que hei de praticar. 

É na prezença de um considerável aparelho bélico, e 
quando de todos os ângulos do império vêem as forças de in- 
fanteria e cavallaria convergindo n'esta província para a 
reduzirem á ordem, que o regente interino em nome do 
imperador manda suspender a espada da justiça, que devia 
vingar a lei, para benigno oferecer a paz aos iludidos e um 
total esquecimento dos seos passados erros. 

Eia, Kio grandenses ! É tempo de aproveitardes tão fe- 
liz ensejo,e de escutardes o génio da concórdia, que em frater- 
nal abraço nos pretende unir de um modo inseparável aos 
demais cidadãos brazileiros,para que o trono augusto do Sr. 
D. Pedro Segundo, imperador constitucional do Brazil, seja 
inabalável e firme a integridade do império ao abrigo da 
constituição politica que juramos, e da santa religião dos 
nossos maiores. 

Palácio do governo em Porto-alegre 3 de Novembro de 
1837. 

António Eliziario de Miranda BriiOj 
Prezidente e commandante das forças. 
[Povo n. 22 de 14 de Nov. de 1837) 



4 DE OUTUBRO DE 1837 
RecommendaçÕes ao zefe da força naval 

Dhn. Sr. 

Partindo n'esta ocazião para essa província o marexal de 
campo António Eliziario de Miranda Brito, na Qualidade 
do prezidente e commandante das forças, que ali ae azSo 
em operaçSes, cumpre, que V. S. o reconheça como tal, e 



— 167 — 

com elle se entenda em tudo quanto diz respeito á impor- 
tante commissãO; de que está encarregado, observando pon- 
tualmente as instrucçdesy que se lhe derSo em 4 de Ja- 
neiro de 1836. 

£ pois que o governo tem antes que tudo a peito pa- 
cificar essa desgraçada província, onde o espirito de re- 
beldia tantos males ha cauzado, e é por isso indispensável, 
que aja a maior armonia entre as diferentes autoridades, 
espera o regente interino em nome do Imperador, que V. S. 
concorrerá, emquanto estiver de sua parte, para que se 
ella mantenha, e empregará todos os seus esforços, para 
conseguir-se tão nobre fim, tomando-se por este mpdo cada 
vez mais digno da atenção e confiança do governo im- 
perial. 

Previno a Y. S. não só de que ora se remete para essa 
província os objetos constantes da relação junta sob n. 1, 
e de que no pataxo Pojuca já fôrão os mencionados na 
relação n. 2, ficando asr^im satisfeita a requizição, que 
y. S. fizera em seos oficies de 4 de Julho e 17 de Agosto 
próximo findo, mas ainda de que n^esta ocaziOo se lhe 
envião 40 praças de marinhagem para serem distribuídas 
pelos navios da dívizão do seu commando. 

Deus guarde a V. S. 

Palácio do Rio de Janeiro em 4 de Outubro de 1837. 

Joaquim Jozé Rodrigues Torres» 

Sr. João Pascoe Greenfel. 

(Correio Oficial n. 84 de 11 de Outubro de 1837) 



6 DE OUTUBRO DE 1837. 
Proclamação, concitando os Bio-grandenses & paz 

Río-grandenses ! 

As dezordens de vossa província têera consternado o co- 
ração de todos os Brazileiros. 

Unidos pelos sagrados vínculos da mesma religião, da 
mesma lei ÃLndamental,dos mesmos interesses e reoordaçSes 



- 168 — 

gloriozaSy elles sempre considerarão próprias as desgraças 
de quaesquer dos membros grande familia. 

Interprete fíel dos seos e dos nossos próprios sentimentos, 
zelozo guarda da monarchia constitucional, e integridade 
do império, condições essenciaes da nossa actual e futura 
felicidade, o regente interino em nome do Imperador o Sr* 
D. Pedro Segundo, vai de novo esforçar-se em restaurar a 
paz e o império da lei, que alguns omens insidiozos ou ilu- 
didos têem calcado aos pés em vossa provincia. 

De diversos pontos do império marxfto forças o forças 
suficientes para tão dezejado efeito, e não receeis, que vos 
faleção jamais os recursos necessários para o triunfo da or- 
dem e da liberdade. 

Rio-grandenses I O regente interino em nome do Impe- 
rador, não tendo em vista a vingança nem a perseguição, 
ao mesmo passo que arma os generaes com a espada, tam- 
bém lhes entrega o ramo da oliveira. 

O mais gloriozo feito das armas imperiaes será o de 
conciliar irmãos. 

O recurso ás armas só terá lugar contra aquelles que, 
inteiramente surdos á voz da razão e da justiça, surdos 
á voz dos seus próprios interesses e de seus compatriotas, 
que lhes oferecem o abraço iratemal, continuarem na car- 
reira da anarchia e da dezonra. 

Rio-grandenses ! o governo imperial fará quanto deve, 
cumpre, que o coadjuveis. 

A divina Providencia, que vela sobre os preciozos dias 
do nosso joven monarca, bem como sobre os destinos do 
Brazil, coroará os nossos esforços com o mais feliz sucesso. 

Viva a religião! 

Viva a constituição e o acto adicional ! 

Viva o Imperador ! 

Vivão os Rio-grandenses defensores de tão sagrados ob- 
jetos. 

Palácio do Rio de Janeiro 6 de Outubro de 1837. 

Pedro de Araújo Lima. 
Bernardo Pereira de VaaeonceUos. 
{Correio Oficial n. 81 de 7 de Outubro de 1837) 



l 



— 169 — 

7 DE OUTUBRO DE 1837 
Prizão do coronel João Orizostomo 

nim. e Exm. Sr. 

A vista da opinião do conselho de investigação, datado de 
7 de Julho do corrente anno, sobre o procedimento do coro- 
nel João Crizostomo da Silva na provincia do Rio-grande 
do sul, ordena o regente interino, em nome do imperador, 
que V. Ex. mande recolher o dito coronel immediatamente 
a uma fortaleza. 

Deus guarde a V. Ex. 

Paço em 7 de Outubro de 1837. 

Sebastião do Rego Barros. 

Sr. Francisco das Xagas Santos. 

(Correio-Oficial n. 84 de 11 de Outubro de 1837) 



21 DE OUTUBRO DE 1837 

Armamento para os esquadrões de São-P»alo 

Receba Vmc. do commandante do vazo de guerra, que 
se axa n'esse porto, o armamento que leva, e o faça seguir 
com a maior orevidade para Ooritiba, segundo as ordens 
que tem o prezidente da provincia de Sáo-Pa lo, afím de se 
armarem os esquadrões da guarda nacional, que devem 
marxar para a provincia do Rio-grande do sul em defeza da 
legalidade. 

Deus guarde a V. Ex. 

Palácio do Rio de Janeiro em 16 de Outubro de 1837. 

Sebastião do Rego Barros. 

Sr. Prefeito da vila de Paranaguá. 

(Correio Oficial n. 93 dò 21 de Outubro de 1837) 



TOMOXLTI, P. II. 22 



— 170 — 

31 DE OUTUBRO DE 1837 
Ataque na Vacaria 

O prezidcnte de Santa-Catarina, JoSo Carlos Pardal; em 
oficio de 27 de Novembro de 1837 communica; queem 31 de 
Outubro antecedente nova força commandada pelo capitão 
Cândido Pereira da Silva Alano destroçara na Vacaria uma 
força de rebeldes composta de 130 omens, matando 30 a 40 
e aprizionando 12, induzi ve o capitfto Lara^ que os comman- 
dava; restituindo esse distrito ao governo legal. 

(Extrato do original) 



13 DE NOVEMBRO DE 1837 
Sobre a xegada do uma força de cavalaria a Porto alegre 

ORDEM DO DIA 

O marexal graduado, prezidente e commandante daj9 
forças doesta província, congratula-se com todos os ourados 
habitantes d 'ella, especialmente com os das diferentes classes 
militares^por aver no dia 11 decorrente segado a esta capital 
Exm. Sr. marexal de campo Sebastião Barreto Pereira 
Pinto, commandante geral da força de cavalaria,na qual apa- 
recem vários ontros beneméritos, entre os quaes sobresaem 
os Srs. brigadeiro D. Bonifácio Izas CalderoUi tenente-co- 
ronel António de Mello Albuquerque, sargento-mór Bel- 
xior da Costa Ribeiro Corrêa da Silva, Vidal Jozé do Pi- 
lar, Bernardino Jozé Lopes e outros. 

É inexprimível o prazer, de que estápossuido o mesmo 
marexal graduado, por ter junto a si o Exm. Sr. marexal 
Sebastifilo Barreto, que fôra seo companheiro por mais de 
dous annos n'e8ta província, e cuja bravura e constância, 
o tomão digno de nfto vulgares encómios. 

A sua prezença lhe é oje muito mais apreciável quanto o 
seo grande prestigio é tomivel dos sectários da anarchia, e 
lizongeiro á causa da legalidade, que tSo afincadamente 
defendemos. 



i 



— 171 — 

Si ella nos anuncia em pouco tempo a extirpação da 
anarchia, que flagela a pi-ovincia, não devem todavia ser 
estes 08 únicos motivos, que têem os legalistas para mutua- 
mente se felicitarem. 

Cidadãos armados voluntariamente se reúnem em dife- 
rentes pontoS; e buscando os xefes mais conspicuos para 
que os dirijftO; formão corpos de cavalaria numerozos, com 
que virão engrossar a força das trez armas, que o dito Sr. 
marexal ha de commandar, ou a que, composta também das 
trez armas, se axa colocada sobre as margens do rio São- 
Gonçalo. 

Ha pouco foi sorprendida uma partida insurgente, com- 
mandada por um facinorozo, que com mais de 70 omens, 
como elle alucinados, f )rão todos prizioneiros. 

De São-Paulo vem em marxa uma força regular de ca- 
valaria e que já se axa na raia doesta provincia. 

E finalmente o Exm. prezidente de Santa-Catarina faz 
marxar para as Torres uma considerável força, a qual não 
só evitará quaesquer recursos, que por intermédio de 
omens immoraes podem obter os insurgéntes, mas ainda 
obrará ostilmente em campanha em combinação com o nosso 
exercito, quando sua precizão lhe fôr indicada. 

Quartel general do commando das forças da provincia 
em Porto-alegre 13 de Novembro de 1837. 

António Eliziario de Miranda Brito. 

(Correio Oficial n. 140 de 19 de Dezembro de 1837) 



10 DE NOVEMBRO DE 1837 
Felicitações ao regente do império 

Illm. eExm. Sr. 

A assembléa provincial do Rio*grande do sul tem a 
onra de dirigir-se e felicitar a V. Ex. pela sua elevação 
ao eminente posto <^ regente do império. 

Certamente os destinos do Brazit não poderião ser con- 
fiados a mãos mais dignas, e pela marxa incetada por V. Ex., 



— 172 — 

nomeando o ministério esclarecido e experiente, que actual- 
mente existe, foi conhecido, que era possiYel, que a bôa fé 
e a sabedoria prezidissem ao governo ; e desde esse mo- 
mento os Rio-grandenses conceberão a lizongeira esperança 
de vêr salva esta infeliz provincia, até aqui abandonada 
pelos cálculos da ambição e da perfídia. 

Sim, a ninguém são desconhecidos os esforços do actual 
ministério para restabelecer a ordem no Rio-grande do 
sul, e a assembléa legislativa d'esta provincia faltaria, 
tendo esse conhecimento, aos deveres de gratidão, si não 
viesse oje render graças a V. Ex. pela feliz escolha dos 
varões ilustres, que de acordo com as vistas patrióticas de 
V. Ex. mandão socorrer esta provincia, e lhe estendem 
benigna mão para a livrar do abismo, em que as sepultou a 
maldade. 

Digne-se por tanto V. Ex. de receber os sinceros 
parabéns da assembléa provincial do Rio-grande do sul 
pela feliz inspiração, que o xamã ao alto emprego, que 
ora exerce, e ao mesmo tempo seu grato reconhecimento 

Sela nomeação do novo gabinete, em quem o Brazil tem 
epozitado todas as suas esperanças, e com especialidade 
os Rio-grandenses, que já começarão a experimentar sua 
benigna influencia. 
Deus guarde a V. Ex. 

Paço da assembléa legislativa da provincia do Rio- 
grande do sul em Porto-alegre 10 de Novembro de 1837. 
nim. e Exm. Sr. Dr. Pedro d'Araujo Lima, regente 
interino de império. 

Tomé Luiz de Souza, prezidente. 

Vicente Jozé Maia, V secretario. 

Patricio Correia da Camará, 2® secretario. 

( Correio Oficial n. 140 de 19 de Dezembro de 1837) 



11 de JANEIRO DE 1838 
Antero de Brito restitaido á liberdade 

nim. e Exm. Sr. 

Participo a V. Ex., para levar ao conhecimento do re- 
gente interino em nome do Imperador, que fui conduzido 



— 173 — 

ultimamente, sempre prezo, da costa do Quarahim e Uru- 
guai ávila dePiratinin, e d'ali á capela de Viamão, distante 
d'esta cidade quatro legoas: no dia 5 do corrente se pro- 
poz a troca da minha pessoa pela do coronel Francisco Xa- 
vier do Amaral Sarmento Mena, e no dia 9 é, que pôde 
ser verificada por este governo. 

Estou já na diligencia de seguir para essa corte ; entre- 
tanto devo ser grato ao governo imperial pelos esforços, que 
me consta ter feito por me salvar, ainda que nenhum re- 
zultado aparecesse. 

Deus guarde a V. £x. muitos annos. 
Porto-alegre 11 de Janeiro de 1838. 

nim. e Exm. Sr. Sebastião do Rego Barros, ministro e 
secretario de estado dos negócios da guerra. 

Antero Jozé Ferreira de Brito. 

(Archivo publico) 



31 DE JANEIRO DE 1838 
Iniciação da campanha pelo prezidente legal 

De 31 de Janeiro a 14 de Fevereiro de 1838 — o preziden- 
te António Eliziario sae de Porto-alegre, e faz o que elle 
xamã c passeio militar de 15 dias». 

Era seo intento cercar os rebeldes em Viamão e batel-os. 

Os rebeldes porém retirárâo-se de Viamâo em partidas, 
e passão o Gahi, seguindo para a campanha. 

Os rebeldes tinhão então no assedio de Porto-alegre de 
1.500 a 1.600 omens. 

(Extrato do oficio ao ministério da guerra, de 16 de 
Fevereiro de 1838 : Archivo publico) 

O plano de campanha do prezidente, segundo ent&o elle 
dizia, era — c acabar a guerra dispersando os rebeldes sem 
derramar sangue em batalha campal». 

(Extrato do oficio ao ministerioda guerra: Archivo publico) 



- 174 — 

6 DE ABRIL DE 1838 

Minuta das forças rebeldes 

Commandantes Cavai. InfanL 

António Neto 500 

Domingos Crecencio 300 

Silveira lõO 

Teixeira, Melo, e Leão 800 

João António 150 

David Canabarro, 200 

Carneiro, Guedes, e Valença 300 

Transfiigas na Serra com Marcelino 

do Carmo 300 

Manoel Lucas r . . . . 300 

Transfugas na Serra com o dito 

Marcelino do Carmo 400 

Da força de António Neto 320 

2.500 720 
Total 3.220 

Alem do pessoal, tem : 

Bocas de fogo 10 

Doestas forças estão ora ao mando de Bento Manoel talvez 
1.300 praças nas margens do Jacuhi, e o resto em dife- 
rentes pontos da provincia. 

Porto-alegre 6 de Abril de 1838. 

António Eliziario de Miranda Brito. 
(Archivo publico) 



6 DE ABRIL DE 1838 
Método e meios para acabar a guerra 

António Eliziario dizia ao minisiro da kuerra em 6 de 
Abril de 1838: 

« Como esta luta é bem diferente das outras guerras, eu, 
a exemplo do governo imperial, a dezejo terminar do modo 
que por mim foi começada, isto é, ganhando terrono e 



^ 



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\ 



— 175 — 

omens^e evitando^quanto possível fôr^que o sangue brazileiro 
manxe esta província ; o que faria conservar por muitos 
annos resentimentos e ódios. » 

Na mesma data pedia : — 1.200 infantes e 20 artilheiros 
c para terminar a luta » 

Em oficio de Fevereiro de 1839 dizia ao ministro da 
guerra : 

c Só por via da^ armas se poderá destruir os rebeldes. » 



80 DE ABRIL DE 1838 
Combate do Rio-pardo 

A força legal constava de 2 batalhSes de infantaria e 
2 corpos de cavalaria com 8 bocas de fogo 

Assim disposta : 

DivizSo 9 

Brigada. . 6 

Oorpo de cavalaria 99 

1* Batalhão de caçadores 405 

2« Dito idem 485 

Guarda nacional; infantaria. . . 200 

Guarda nacional, cavalaria. • . 268 

Guarda nacional da Serra. ... 84 

Total 1.556 

Prontos, fora doentes e empre- 
gados na cavalhada 1 . 200 

(Mapa junto ao oficio do prezidente ao mi- 
nistério da guerra de 1 de Maio de 1838) 



30 DE ABRIL DE 1838. 

Combate do Rio pardo 

Oficiaes mortos : 

Coronel Luiz Maria Cabral de Teive. 
Major Epifânio Ignacio da Lua. 



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— 176 — 

Capitão Francisco Jacinto Pereira Jorge. 
Alferes Luiz Manoel da Roxa. 

» Manoel António Peixoto. 

» Luiz Pedro Leite. 

» Jozé Pedro da Silva. 
Coronel Guilherme Jozé Lisboa. 
Capitão Jozé Pereira Lagos. 

» Cláudio Jozé dos Santos. 

1 Jozé Cordeiro da Silva . * 

Em Março de 1838 António Eliziario ocupava o Rio- 
pardo; d'onde avia sahido Bento Manoel; e retirando-se 
d'ali deixou o marexal Sebastião Barreto no commando 
geral; sendo commandante da infantaria o brigadeiro Fran- 
cisco Xavier da Cunha e da cavalaria o brigadeiro Boni- 
fácio Calderon. 

Não seguio para a campanha pelo máo estado da cava- 
lhada. Assim se rezolveo em conselho militar a 18 de Março 
de 1838. 

(Extrato do oficio de 21 de Abril de 1838) 



30 DE ABRIL 1838. 

Participação da derrota da força imperial no Rio- pardo. 

Ulm. e Exm. Sr. 

Tenho o desgosto de participar a V. Ex.^, que oje foi 
destroçada completamente a nossa força existente em Rio- 
pardo : aqui xeg&o agora o marexal Sebastião Barreto, e 
os brigadeiros Francisco Xavier da Cunha, e Bonifácio Cal- 
deron, e algumas praças de cavalaria. 

Deus guarde a V. Ex*. 

Bordo do pataxo Leopoldina em firente á vila do Triunfo 
30 de Abril de 1838. 

nim. e Exm. Sr. António Eliziario de Miranda Brito, 
prezidente da província. 

GhíUherme Parker, capitão de fragata. 

(Archivo publico) 



V 



— 177 — 

3 DE MAIO DE 1838 
Dezastre no Rio-pardo ; defeza da capital. 

lUm. e £xm. Sr. 

No dia 30 de Abril, de madrugada, os insurgentes no Rio- 
pardo destruirão a nossa divizSo, commandada pelo marexal 
Sebastião Barreto; ella constava de 2 bons batalhões de 
caçadores, de 2 corpos de cavalaria, e de 8 bocas de fogo, 
que compunhão uma bateria, a que nada faltava. 

N^estes termos estou reforçando o entrinxeiramento da 
cidade, porque o inimigo vem em marxa para ella; e 
como ficamos com pouca gente aqui para a defeza, o povo 
está consternado ; e eu da força, que está em Sâo-Gonçalo, 
e que mandei passar para a margem direita d'aquelle rio, 
não posso destacar a menor parte, por ser aU a xave do 
£io-grande. 

Por isso espero prontas providencias, e remessa de gente, 
de armas de cavalaria, e mesmo algumas de infantaria, pol- 
Tora, cartuxame, e fardamento para a tropa ; prevenindo 
eu a V. Ex.* que a impressão, que este acontecimento fez, 
foi tão forte, que demanda muita brevidade na remessa dos 
«ocorres referidos. 

Eu não posso relatar a V. Ex.^ os acontecimentos do 
Rio-pardo ; pois que ninguém d^elles bem pôde informar ; e 
6Ó direi a V. Ex.% que da força ali estacionada tam-sómente 
«stão aqui o marexal Sebastião Barreto, os brigadeiros Bo- 
nifácio Calderon, e Francisco Xavier da Cunha, e ainda 
alguns oficiaes de cavalaria das guardas nacionaes. 

Felizmente o regimento 8.°,o menos numerozo dos trez, re- 
gressou para aqui, porque estava distante do Rio-pardo, e 
algumaspraças de cavalaria, que o acompanhavão. 

Quando tive a noticia de estar o Rio-pardo ameaçado, 
foi ás 8 oras da noite de 29 do passado, estando 16 legoas 
distante da cidade, organizando a cavalaria, que comanda 
o coronel de legião Manoel dos Santos Loureiro ; e estando 
A embarcar no 1® do corrente para seguir para o Rio-pardo, 

TOHO XLYI, P. II. 23 



— 178 — 

levando a força que podia^ entSo soube d'aquelle não espe* 
rado dezastre, couza que espanta , atenta a boa infantaria- 
e o valor e perícia doscommandantes dos batalhões^que antes 
preferirão morrer com seus soldados do que dezamparal-os. 

Deus guarde a Y. Ex.^ muitos annos. 

Cidade de Porto-alegro 3 de Maio de 1838. 

Illm. e Exm. Sr. ministro e secretario de estado do» 
negócios da guerra. 

António Elizario de Miranda Brito. 

(Archivo publico) 

No oficio de 11 Maio de 1838, n.*^ 61, ao ministério da 
guerra, vem a copia das participações minunciozas do 
sucesso etc. 



4 DE MAIO DE 1838 
Combate e tomada do Rio-pardo pelos rebeldes 

Illm. e Exm. Sr. 

Privado n'este momento de minuciozamente commu- 
nicar a Y. Ex. os pormenores da ação de 30 do pretérito, ora 
me apresso a faze-lo, rogando a V. Ex. dispence esta falta 
involuntária. 

No dia 2õ do pretérito, tendo feito junção de toda a forga, 
fiz marxar o coronel David Oanabarro com o 3° batalhão do 
caçadores, 1^ corpo de cavalaria de linha, e alguns esqua- 
drões de guardas nacionaes, que prefazia o numero de oito- 
centos 6 tantas praças, com direção ao Faxinai das Oli- 
veiras, a passar ali o Rio-pardo, fazendo abrir picadas para 
sahir no fundo do rincão nacional ; pozição que devia ocupar 
para proteger a passagem do exercito, o que felizmente con- 
seguio, sem que o inimigo percebece seo movimento : a 26 
marxei oom toda a força, deixando unicamente os piquetes 
á frente do inimigo para ocultar a operação, verificando a. 
passagem do rio n^este dia e no seguinte. 



— 179 — 

Na manhan de 27 o coronel David Canabarro^ sorprenden- 
do duas patrulhas do covarde Jozé Joaquim, por ellas foi in- 
formado, que eeu imbecil commandante se axava acampado 
com cento e tantos omens na entrada do rincão; em conse- 
quência do que marxou a sorprendel-o amanhecendo sobre 
elles ; e infalivelmente o conseguiria, a n&o ter sido preve- 
nido por um individuo das referidas patrulhas, única que 
conseguio evadir-se^ o que motivou sua precipitada fuga, e 
apenas pode ser alcançado por uma guerrilha, que o acoçou 
até junto ao Barro-vermelho ; fazendò-lhe alguns prizio- 
neiros^ e ficando em nosso poder toda a cavalhada exis- 
tente no rincão, que montava a mais de 1.000, posto que não 
todos em bom estado : n'aquelle mesmo dia foi o dito coronel 
ocupar o passo do Coito, cortando d'est'arte a retirada do 
inimigo, e obrigando-o a estreitar sua linha. 

Releve V. Ex., que faça um breve bosquejo de quantas 
dificuldades tiverão a vencer nossos bravos soldados, n'esta 
árdua operação ; o rio em ambas as margens era circun- 
dado de pântano, que atolava excessivamente, e só com 
extrema dificuldade conseguirão os animaes vencel-o, e a 
grande corrente e nado : alem d'isto no centro de um espesso 
mato, cercado d^ iguaes pântanos, avia um forte arroio 
com barrancos de excessiva altura, e profundidade em sua 
madre ; em pouco uma larga picada tomou franco o tran- 
zito, tanto em uma como em outra parte do arroio ; e no 
curto espaço de dez oras foi sobre este eregida uma ponte 
espaçoza, pela qual passou todo o exercito: finalmente, Exm. 
Sr., força é confessal-o, que só o esforço de nossos bravos, 
só a convicção da justiça de nossa cauza fornecia cons- 
tância para superar tão rude trabalho ; porém o doce nome 
de liberdade adoçava todas as fadigas, e gostozos a ellas 
se arrostavão, lendo-se em seus semblantes a lizongeira 
vitoria. 

Emquanto nos ocupamos n^este trabalho, os imbeceis 
generaes realistas em estranha indolência dormitavão n'esta 
praça, confiando que estavão em plena segurança pelos na- 
turaes obstáculos, que tinhamos a vencer ; a tanto xegou 
a inaptidão de seu xefe e sua imperícia, que senão atreveu a 
fazer reconhecera força, que aparecesse em sua frente : pre- 
venindo que ouvesse este reconhecimento, aliás indispençavel 



} 



ido a6za.tre, .00». 

preterirão m»"»"»' 
DeuBgawde.V 

Cidade ae Port,^al, 
Illi». e Ex-»- Sr. 
■ = Aa guerra, 
negócios cu* & 



No oficio de U Maio ■ 
guerra, ven» ^ 

BUCeSBO «tc- 



4 DE 

lUm. e Exni. Sr. 
Privado n'e8te momen, 

'■"fe5■dopr..»i^.e, 
&m.r«r o coronel D.y,dC 
Sídore., l"»"E«>'!«<»™l 
Seedeiíardaí nucionae., ,, 

Shirio fundo do nncaonaoion 
par. proteger a p.Ȓgom doe, 
Lgmo,«>mq<.6om.migonerc, 
marzel com toda a força, ae«., 
à frente do inimigo para ocult, 
passagem do rio n este dia e no 







— 181 - 

cavalaria ; e o mesmo aconteceu & noBsa, que fazendo o ter- 
ceiro tiro não pôde continuar por já ae asar a eese tempo 
ocupada a eminência da colina do combate por nossos 
bravos, emquanto a orda de realistas, que a ocupava, se 
avia posto em vsrgonhoza fuga, sem que ouzasee fazer a 
menor rezístencla, sendo os ineptos e covardes xefes, Sebaa- 
tiSío Barreto, Francisco Cunha e Bonifácio Calderon, oa 
primeiros a fugar, como costumSo no lance de perigo: sua 
imperícia em tudo igual á sua timidez, acelerou o golpe, 
que os poz por terra, pela má disposição de suas forças, 
que com incrível erro de estratégia íBrâo isoladas, sem que 
mutuamente se podessem socorrer, e eem nenhuma re- 
zerva i deixando centro apenas guardado pela artilharia, e 
mui pouca guarnição; do que rezultou perderem-se com esta. 
Fõrão prizioneiroB e aprezentados depois da derrota até 
"Rto momentg dois coronéis, um tenente, dois majores, e 58 
'liciaes subalternos, como se depreende da relaçSo nominal 
(nta,e oitocentos e tantos soldados: mortos 370, entre estes, 
II coronel, três majores e mais de 20 subalternos: tanto dos 
metros como dos segundos, maior será sem duvida o seu 
líiiro, visto que diariamente aparecem, e se apre- 
so. 
li sensível me tem sido este patético quadro, e lamento 
IU330B infelizes patrícios e iludidos Brazíleiros, ainda 
-crvem surdos á voz da evidencia e da razllo ; o quo 
ilvez reproduzir novas senas lutuosas, quaes as de 
Al.ril. 

1103 preza de uma rica banda de muzica, que feliz- 

'uu intacta, todo o parque em muito bom estado, 

iiiiçSoearmamentos, como se depreende do mapa 

'■ igualmente encontrado algum dinheiro e porção 

is; para a arrecadação d'eBtes objetos, e execução 

lei de 11 de Novembro de 1836, fiz nomear uma 

■locid»ii;u.s|,n,l.,«,.-.,.v/,ultiul>..l.'^..ii-.tril,,a!liOH 

t(* serào |i'. íMiiluvcinuMilM •)•■ V. Kx. A 

iL-aliatns ■ i)hj.'!i' )(i'jiito a 

ilecriizii'' 

lo, Exm. 




— 182 — 

os ofíciaes superiores, como subalternos e soldados, todos 
finalmente dezempenharSo com onra e valor o glorioso 
titulo de republicanos rio-grandenses o general Bento 
Manoel muito me coadjuvou, bem como o incansável aju- 
dante-general. 

Nossa perda consistio em 17 mortos e 36 feridos; e bem 
que em similhante ação fosse extrema nossa felicidade, 
todavia doloroza me tem sido pelo muito que prezo o sangue 
brazileiro. 

Avendo entre os prizioneiros alguns infelizes, que rece- 
berão no combate graves ferimentos, muitos d^aquellas viti- 
mas que o governo brazileiro tiranamente tem arrancado do 
seio de suas familias e províncias, para precepitaUos nos 
errores da sacrílega guerra, que imolará a quantos ouza- 
rem talar o terreno rio-grandense ; vendo que seus males 
minorariSo, quando lhes fossem abilmente empregados soc- 
corros da arte, o que não tinhamos em abundância, rezolvi 
enviar 49 doestes para Porto-alegre, aonde lhe não faleciSo 
os precizos recursos. 

Rogo a y. Ex. dispense esta minha rezoluçSo, a que me 
não pude negar, vendo a doloroza situação d'aquelles infeli- 
zes, que terião de sucumbir no cazo de permanecerem 
n^este ponto, por aver falta de medicamentos, e mesmo de 
professores. 

Esquecia-me de dizer a V.Ex.,que a bateria colocada sobre 
o Jacuhi produziu mui bons rezultados, conseguindo unica- 
mente por aquella parte evadirem-se algumas pequenas ca- 
noas e escaleres, favorecidos de passar animaes, uma caro« 
nada de calibre 6, e alguma munição, bem como mil outros 
objetosy que depois tudo será patenteado a V. Ex. 

Deus guarde a Y. Ex. por mu itos annos, como á pátria 
é mister. 

Quartel general em Rio-pardo 4 de Maio de 1838. 

nim. e Exm. Sr. general Bento Gonçalves da Silva^ 
prezidente do estado. 

António Neto. 
(Manuscrito] 



— 183 — 

6 DE MAIO DE 1838 

Proclamação dos rebeldes anunciando o revez das armas imperiaes 

no Rio-pardo 

O general prezidente da republica ao exercito de ope- 
rações em Rio-pardo. 

Guerreiros e companheiros d'armas! Vossas recentes 
açSes militares cobrem de gloria a republica; acabâo de 
immortalizar-vos. 

O dia 30 de Abril levará a memoria de vosso estrondozo 
triunfo á mais remota posteridade, e a vossa decenden- 
«ia, orgulhoza de pertencer- vos, dirá, xeia de ufania, assina- 
lando sobre a carta do antigo continente a famoza pozição 
do Rio-pardo: — Aqui fizerâo morder a terra a seos inimigos 
nossos briozos antepassados; aqui derão golpe mortal ao 
despotismo, que pretendia devorar-nos; aqui firmarão nossa 
independência, e convencerão nossos tiranos da impotência 
de dominar-nos; aqui plantarão os pendSes da republica so- 
bre montSes de cadáveres; aqui, passado o conflito, ainda 
i^obertos de sangue de seus cruéis verdugos, alargarão-lhes 
a mão protetora da clemência, e ensinarão ao pérfido feroz 
aristocrata a não manxar a espada dos valentes no sangue 
d'um inimigo dezarmado. 

Não o duvideis, camaradas; os altos destinos da repu- 
blica rio-grandense serão completos. Bem depressa purga- 
reis o solo sagrado da pátria da prezença injurioza d'esses 
restos fugitivos, que em vão pretendem escapar-vos; bem de 
pressa, forçados em seos últimos entrinxeiramentos, arroja- 
dos para sempre das nossas praias, irão levar ao despótico 
governo, que os envia, a confuzão, e a vergonha de tão as- 
sinaladas derrotas, e a convicção irrezistivel de vossa su- 
perioridade. 

Defensores da republica, confiae no governo; uni- vos em 
annel firme aos generaes e xefes encarregados de guiar-vos, 
repeli para longe de vós a feia intriga, quando intente su- 
plantar- vos... 

Eis o vosso mais temivel inimigo;... só ella poderá sub- 
jugar- vos, só ella poderá trocar em funéreo manto e em ferros 



f 



— 184 - 

TOS da escravidão e de opróbrio tantos triunfos, tantos louro» 
tão custozamente adquiridos, tantos titulos á gloria, e á 
admiração do universo.. ..vossa liberdade e independência a 
preço de tantos sacrificios conquistada. 

Republicanos ! mais um esforço ainda; mais um momento 
de constância, de circunspeção e de prudência; a pátria, 
será livre e nossa independência para sempre firmada. 

Do meo quartel general no Ervalem frente do inimigoaos- 
6 de Maio de 1838. 

Bento Gonçalves da Silva, 

(Archivo publico) 



6 DE MAIO DE 1838 
Combate do Bio-pardo ; derrota da força legal. 

lUm. e Exm. Sr. 

N'este infausto dia (30 de Abril de 1838) a força da 
divizão, que esteve em combate, se compunha de 560 omens 
de infantaria, 870 de cavalaria, e pouco mais ou menos de 
60 artilheiros. 

O exercito inimigo, segundo as diferentes relações, e o 
que vi, póde-se, sem exageração, avaliar em 2.500 com- 
batentes, sendo de 800 a 900 de infantaria. A artilharia 
inimiga poucos tiros nos dirigio, cuja pozição nada tinha 
de vantajoza. 

Grande parte da nossa cavalaria oonseguio ganhar o porto 
do Rio-pardOy e margem do Jacuhi, e embarcar-se naa 
poucas canoas e lanxSes, que avião ; ali sofrerão vivíssima 
fogo dos rebeldes, e já não foi possível seguir a barca grand& 
de passagem. 

Deus guarde a V. Ex. 

Porto-alegre 6 de Maio de 1838. 

nim. e Exm. Sr. António Eliziario de Miranda Brito» 

Sebastião Barreto Pereira Pinto» 

(Archivo publico) 



— 185 — 

11 DE JUNHO DE 1838 

Imprensa rebelde ' 

Em oficio de 11 de Junho de 1838 o prezidonte António 
Eliziario dizia ao governo imperial : 

« Manoel Oribe protege aoertamente os rebeldes ; tera- 
Ihes mandado pólvora^ muniçSes, e mais misteres, incluindo 
imi prelo, que já está trabalhando ; e parece, que Fru- 
tuozo Rivera, talvez julgando-os fortes, pretende entrar 
com elles em relaçSes. 9 



8 DE JUNHO DE 1838 

o general prezidente da republica convida os Hio-grandenses 
reunir-se em prol da causa republicana. 

Aos cidadãos Rio-grandenses, e Brazileiros reunidos nas guar- 
nições de Porto-alegre, Rio-grande, e Norte sob as insignlas do governo 
imperial. 

Compatriotas brazileiros de todas as condiçSes e esp- 
iados, desgraçadamente submetidos ao jugo ignominiozo 
de um despotismo execravel, a vós me dirijo, com vós 
outros Tmicaraente falo! 

Por que fatal prestigio vos vejo oje reunidos aos nossos 
communs tiranos, aos nossos inimigos implacáveis ? Nâo 
temos sofrido bastante? 

Âs severas liçSes da experiência só a vós não terão podido 
aproveitar? Tende olhos; e os cerraes á evidencia da 
razão e da justiça, que escudão nossa cauza? Tendes ou- 
vidos ; e não os ferem os brados clamorozos de tantas 
vitimas inocentes; ao caprixo ás paíxSes, e ao interese 
de uma cabala odioza indigna de govemar-vos? Sois 
Brazileiros; soisRio-grandenses; e não coraes de vergonha, 
consentindo que prezidão nossos destinos esses pérfidos e 
orgulhozos estrangeiros, que jamais vos perdoarão a se* 
paração e a independência, que de seu jugo vos libertará? 

TOMO X&VI, p« u. 24 



— 186 — 

Tendes um coração, e só elle em toda a extensão do con- 
tinente americano não palpita pelos interesses da pátria? 

Compatriotas brazileiros ! Já o dice um filozofo do nosso 
século: Tudo n'este mundo tem um termo^ até a cruel paixão 
do ódio... 

Aproveitai o favorável ensejo e instantes preciozos, qae 
a amizade e o amor fraternal querem ofertar- vos^ dezatai o 
laço vergonhozOi quebrae as pezadas cadeias, que compri- 
mem vossos pulsos roxeados, ouzae ser omens e elevai-vos 
a altura magestoza^ em que os livres se colocarão ; elles 
vos cobrirão com seus escudos^ ou vos defenderáõ com suas 
espa las. 

£ tempo ; e este tempo mais rápido^ mais ligeiro, que 
o livi-e pensamento, apenas apercebido no circulo das oras 
logo dezaparece, e dezaparece para nunca mais voltar. 

Só á vós me dirijo ; mas também pela ultima vez com 
vosco falo ! cumpre-vos optar entre a ignominia e a glo- 
ria, entre a felicidade e as mizerias, entre a virtude e o 
crime, entre a escravidão e a liberdade, entre um opres- 
sor orgulhozo e injusto e irmãos livres e carinhozos, que 
vos estendem a mão bem fazeja de uma proteção eficaz* 

Ora sus! Decidi-vos; declarai- vos... 

O dia temerozo se aproxima, em que a província, 
cançada de sofrer tiranos, pronunciará a terrivel sentença 
de seo exterminio totaL 

Irmãos e amigos! Não nos forceis a confundir o sangue 
d'csses monstros com um sangue, que nos é tão caro, por 
que não averá mizerieordia para os que nos rezistirem; 
por que seremos inexoráveis para com os vis assassinos 
da nossa vida, onra, e liberdade ; por que similhantes ao 
fogo do céo, desprendido da nuvem precursora da tempes- 
tade, reduziremos a pó nossos verdugos, como elle prende 
e reduB a cinzas nossas florestas dissecadas ! 

Compatriotas, filhos da terra de Santa-croi! Que pôde 
demorar-vos? 

Cerrae os ouvidos ás pérfidas insinuações d*esses mi- 
zeraveis, que substituirão a falácia, e a calumnía á exatir 
dão e á veracidade dos factos. 

Comparae a sua conduta com a nossa, e julgai-nos. 

Si jugum malvado tem aparecido em nossas fileiras, nós 



— 187 — 

o temos punido ; ou a expulsão o tem ignominiozamente 
segregado ; em quanto vossos opressores se não peijão de 
os admittir nas suas fileiras, agravando com as immora- 
lidades d'esses tigres as atrocidades e os errores da guerra, 
que nos fazem. 

Quereis um exemplo de nossa moderação e generozi- 
dade? 

Correi aos campos de batalhas, testimunhas de nossa 
gloria; perguntai aos abitantes de Pelotas, Seival, Erval, 
Cassapava, Cruz-alta, Triunfo, Inhanduhi, Rio-pardo, 
si soubemos respeitar a vida do inimigo dezarmado ; 
questionae a multidão dos prizionoiros, que temos res- 
tituido ao seio de suas familias ; e vinde vêr com vossos 
olhos como entre nós são tratados ! 

Perguntae a esse ornem escapado de nossas prizSes, e 
oje commandante das vossas guardas, si, apezar de seus 
crimes, foi sua existência respeitada ? 

Como respondem vossos tiranos a estes actos repetidos 
de virtude, de moderação e generosidade? 

Centenares de patriotas sepultados em orridos e immun- 
dos calabouços, expostos aos mais rudes sofrimentos, 
serão eterno monumento de sua sevicia e crueldade ; nu- 
merozos prizioneiros liberaes infamemente assassinados 
por esses monstros atestão sua covardia e nimia perver- 
sidade. 

Filhos do Rio-grande! Brasileiros! correi a nossos braços : 
não duvide fazel-o aquelle que d'entre vós teve a debili- 
dade ou a fraqueza de trahir, e estilizar a sua pátria. 

Revestido dos poderes extraordinários da republica, eu 
lhe afianço olvido e eterno esquecimento do passado. 

Compatriotas ! deveis conhecer-me ; nossos mesmos com- 
muns inimigos ainda nflo fôrão assaz vis, e desfaçados 
para pòr em questão a minha fé, ou a religião de minha 
palavra. Apressai-vos a partilhar os altos destinos da 
republica.... é coroada de louros, rodeada de triunfos, xeia 
do poder e de força, que ella vos convida a entrar na 
erança glorioza, que tantas fadigas e sacrifícios lhe cus- 
tarão. 

Vinde respirar em meio de vossos irmãos e amigos o 
ar puro e salutar da liberdade ; vinde repetir com o 



— 188 — 

republicano rio-grandense justamente orgulhozo doeste 
titulo sublime. 

Viva a republica rio-grandense ! 

Viylo 08 bravos defensores da pátria I 

Bento Gonçalves da Silva. 
Piratinin 8 de Junho de 1838. 

(Impresso avulso) 



30 DE JUNHO DE 1838 
PrÍ7ão do brigadeiro Francisco Xavior da Cunha 

lUm. e Exm. Sr. 

O regente interino em nome do Imperador ha por bem 
determinar, que V. Ex. passe ordem para se recolher prezo 
ao quartel o brigadeiro graduado Francisco Xavier da 
Cunha, até justificar o seu procedimento no Rio-pardo, 
abandonando a força do seu commando, quando ella re- 
zistia ainda aos rebeldes. 

O que participo a V. Ex. para seu conhecimento e exe- 
cução, previnindo-o que se aguarda o conselho de investi- 
gação, que deve vir da provincia do Rio-grande do Sul, 
para servir de baze ao conselho de guerra. 

Deus guarde a V. Ex. 

Passo em 30 de Janeiro de 1838. 

Sebastião do Rego Barros. 

Sr. Francisco das Xagas Santos. 

{Correio Oficial n. 3 do 4 Junho 1838) 



JULHO DE 1838 
MoTÍmentos militares. 



Em oficio de 2 do Julho de 1838 participou António Eli- 
síario ao ministério da guerra: 

Que, depois da xegada dos 700 omens vindos ultimamente 



— 189 — 

cia corte, se têem reunido alguns voluntários para defeza da 
legalidade. 

Que depois do dezastre do Rio-pardo (30 de Abril) os 
rebeldes têem tido pouca actividade. 

Que assim vae aparecendo entuziasmo pela cauza legal. 

Que os rebeldes tinhao 2.000 omens com artilharia no 
Ervaly d^onde ameaçâo Pelotas. 

Em oficio de 24 de Julho de 1838 participa o mesmo 
António Eliziario: 

Que Bento Manoel com 2 peças etc. sitia Porto-alegre. 

Que Francisco PedrO; capitão da guarda nacional, com 
62 omens, tomara aos rebeldes um iate armado em guerra, e 
uma poça, que estes mandavSlo do Rio-pardo para Camaquan. 

Em 20 da Dezembro de 1838 líento Manoel estava no 
Rio-pardo; mas parece, que seguiria para Cruz-alta e depois 
para a Vacaria, afim de impedir a reunião da gente legal, 
que vem de São-Paulo para o lado de Lages etc. 

Em 20 de Novembro de 1838, Francisco Pedro sahio de 
Porto-alegre com 300 omens, vae a Santo-Amaro, surpre- 
ende os rebeldes, mata alguns, e recobra o coronel Lopo de 
Almeida, prezo no combate do Rio-pardo a 30 de Abril, 
toma gados, cavalos etc. além do Jacuhi. 

Por ordem do governo imperial forão submetidos a conse- 
lho de guerra, em razão do dezastre do Rio-pardo em 30 de 
Abril de 1838: 

O marexal Sebastião Barreto, commandante geral das 
forças. 

O brigadeiro Francisco Xavier da Cunha, commandante 
da infantaria. 

O brigadeiro Bonifácio Calderon, commandante da cava- 
laria. 



20 DE SETEMBRO DE 1838 
Soltara dos oflciaes prezos no Rio-pardo. 

PORTARIA 

Em dezafronta aos orrorozos insultos feitos á umanidade 
pelos bárbaros e ferozes satélites da intitulada legalidade 



— 190 — 

fluminense em diversos pontos do Brazil, que nos precederão, 
ou seguirão nossos passos para a independência e liberdade, 
o governo da republica rio-grandense, sempre firme nos> 
principies filantrópicos, que tem adotado, em recordação do 
laustozo dia 20 de Setembro de 1835, manda, que sejão sol- 
tos os oficiaes e cadetes, e assim mais os soldados seos 
camaradas, que fôrão prizioneiros na batalha do memorável 
dia SO de Abril ultimo em Rio-pardo; permitindo-lhes re- 
gressar ao seio de susis familias. 

Secretaria do estado dos negócios da guerra em Pirati* 
nin 20 de Setembro de 1838, S° da independência e da 
republica. 

Jozé da Silva Brandão 

(Pavon. 7 de 22 de Setembro de 1838) 



4 DE OUTUBRO DE 1838 
Estado das forças legaes e rebeldes. 

António Eliziario em oficio ao ministério da guerra de 4 
de Outubro de 1838 participa: 

Que a força armada na provincia era de 6.398 omens. 

Que os batalhões provizorios, os voluntários e parte d'ar- 
tilharia de linha ocupâo-se especialmente nos entrinxeira- 
mentos de Porto-alegre, Rio-grande e São-Jozé do Norte. 

Que, descontando os doentes, ficão disponiveis para o ser- 
viço do campo 3.844 praças. 

Que 08 rebeldes terão Õ.200 omens em armas, sendo quazi 
4.000 de cavalaria, e o mais de infantaria. 



15 DE OUTUBRO DE 1838 
Sobre o periódico Povo 

nim. Sr. 

Tendo aparecido n^esta capital vários números de um pe- 
riódico intitulado o Povo^ escrito e publicado pelos re- 
beldes em Piratinin; e sendo a sua introdução não só pre> 
judicial á magna cauza da legalidade, como também 



— 191 — 

contraria ás terminantes ordens de S. Ex. o Sr. prezi- 
dente da província^ transmitidas a V. S. em ofício de 30 de 
Junho do corrente anno; cumpre portanto,de ordem do mesmo 
£xm. Sr., que V. S., pesquizando com o maior escrúpulo 
quaes as pessoas que aparecerão com similhantes papeis, 
saiba d^ellas de quem os ouverão, para a estas serem 
aplicáveis as penas recommendadas no sobredito ofício. 

Deus guarde a V. S. 

Porto-alegre 15 de Outubro de 1838 

lUm. Sr. Dr. Manoel Jozé de Freitas Travassos 

Jod4> Dias de Castro. 
( Povo n. 48 de 13 de Março de 1839) 



NOVEMRBO DE 1838 

Força 

Em avizo de 19 de Novembro de 1838 se remete o 
decreto de igual data, autorizando o prezidente do Rio- 
grande do Sul (António Eliziario] a destacar 3.000 guardas 
nacionaes por um anno. 

O ofício do prezidente ao ministério da justiça de 30 de 
Dezembro de 1838 acuza o recebimento do dito avizo. 



1 DE JANEIRO DE 1839 
Proclamação anunciando o indulto imperial. 

Abitantés da campanha do Rio-grande I 

Mais uma prova de benéfica generozidade axareis no in- 
dulto, que vos confere o decreto abaixo transcrito. 

N'elle com «spanto verão os abjectos caudilhos da re- 
belião, autores de tantos males, e os desgraçados incautos 
Rio-grandenses, a quem iniquamente seduzirão, que o gover* 
no imperial almeja poupar o sangue brazileiro, congrassando 



lamv 




— 195 — 



2 DE FEVEREIRO DE 1839 



Ataque e tomada de daas canhoneiras e de um lanxSo pelos rebeldes 

no rio Gahi 

nim. e Exm. Sr. — Em data de ontem me dirigi a V. Ex. 
communicando-lhe sucintamente o rezultado do ataqae, 
que empreendi contra as canhoneiras imperiaes n. 7 e 9, 
e o lanxão armado n. 2 na madrugada do 1^ do corrente. 

Agora porem devo estender-me sobre os pormenores de 
tal empreza. 

Depois de uma marxa seguida de 9 a 10 legoas, xegamos 
sobre a margem direita do Cahi, e immediatamente se 
postarão duas emboscadas do 3^ batalhão, que rompeu o 
fogo mais vivo, entretanto que se colocava uma peça de 
artilharia sobre a barranca, commandada pelo tenente 
França, avendo-se colocado outra mais abaixo, sob o com- 
mando do tenente Bento Gonçalves, para impedir a reti- 
rada das canhoneiras, no cazo que isso tentassem ; mas 
logo veio secundar o fogo outra peça. 

O inimigo não deixou de fazer-nos bastante fogo ; porem 
não puderão sofrer a bravura irrezistivel de nossos soldados, 
e precipitadamente abandonarão as embarcações, lançando- 
se ao rio, ganhando a margem oposta. 

A maior parte da guarnição pereceo no fogo, escapando- 
se apenas 8 ou 10 a pé, pelo mato. 

Foi morto o commandante da canhoneira n. 7, e ficou 
prizioneiro o commandante da canhoneira Primeiro de Fe- 
vereiro {outr'ora n. 9), incluzive 10 feridos, e passando-se 
dous. 

O lanxão trazia dous morteiros, um de ferro, e wai de 
bronze de calibre 3. 

A canhoneira n. 7 tinha dous rodizios, um de bronze, 
outro de ferro ; e a canhoneira n. 9 uma peça de 9 refor- 
çada em 12, e uma columbrina, e mais trez escaleres. 

Ficou immensa quantidade de pólvora, 620 tiros de arti- 
lharia, sendo a maior parte de metralha, uma porção de 
cartuxame, e perto de 50 armas de infantaria, não mencio- 
nando vários outros objétos, que pouco interessão. 




— 196 — 

Os feridos inimigos os fiz seguir para Porto-alegre, e o 
commandante da canhoneira n. 9, que é filho do Marquez de 
Inhambupe, como o encontrasse muito abatido, e xorozo, 
me conpungi do seo estado lastimável, e o soltei, dando-Ihe 
passagem para aquella cidade, certo de que V. Ex. me des- 
culoará este acto de filantropia e umanidade. 

A canhoneira n. 7 ficou mui esbandalhada do fogo de 
artilharia, fazendo agua por toda a parte, apenas nos deo 
tempo para tirar a pólvora, indo depois ao fundo com uma 
peça, tendo-se salvado outra com muito trabalho : a dita ca- 
nhoneira fica no mesmo logar, isto é, no passo do Contrato^ 
e prezumo, que o inimigo não se atreverá a vir busca-la. 

As outras embarcações as fiz seguir pelo Cahi acima, até 
onde possSLo ficar sem risco de serem tomadas. 

Axo mui acertado, que V. £x. mande algum oficial de 
marinha e marinheiros tomar posse d'ellas, pois ainda nos 
podem servir de muita vantagem ; compor-se a outra, e 
conservar-se n'este rio, até que em uma ocaziSo favorável 
possão ganhar o Guahiba, e subir por elle acima. 

K^esta jornada toda a tropa se conduzio o melhor pos- 
sivel, como mostro na ordem do dia junta por cópia, que 
V Ex. se dignará mandar imprimir no jornal da re- 
publica. 

A nossa perda foi de 2 homens mortos no fogo, depois 
de feridos, e feridos levemente, incluzive um oficialdo 3* 
batalhão. 

Deos guarde a V . Ex. 

Quartel general no passo do Pesqueiro 2 de Fevereiro 
de 1839. 

Bento Manod Eibeiro. 

Illm. e Exm. Sr. general Bento Gonçalves da Silva, 
prezidente da republica. 

(Impresso avulso) 



— 197 — 

2 DE FEVEBEIBO DE 1839 
Ataque e tomada de um lanxSo e 2 canhoneiras no rio Cahi 

ORDEM DO DIA 

Quartel general no passo do Pesqueiro 2 de Fevereiro de 
183i). 

O cidadão general comandante das divizSes da direita 
e centro do exercito republicano, possuído do maior entu- 
siasmo, tem assaz gloria em patentear ás forças do seo 
mando o briozo comportamento do valente 3* batalhão de ca- 
çadores^do forte contingente de artilharia, e do distinto esqua- 
drão de nacionaes do comando do cidadão major Duarte, e 
em suma de todos os que se empenharão no ataque dirigido 
contra o lanxão armado n. 2, e canhoneiras imporias ns. 
7 e 9, na madrugada do dia de ontem. 

Nada é mais satisfatório ao general comandante do que 
louvar com justiça bem merecida a valentia de tão destemi- 
dos patriotas, que depois de uma marxa seguida de 9 a 10 
legoas acometerão ao inimigo com aquelle valor e sangue 
frio inalteráveis, que caracterizão o soldado veterano, pró- 
prios de quem defendo a liberdade e independência, e s& 
adorna do onrozo titulo de Americanos. 

Detalhar distintamente a conduta de cada um importaria 
o mesmo^ que particularizar a bravura, impavidez e cora- 
gem, com que todos se desenvolverão á vista do inimigo, 
carregando-o a peito descoberto sobre a barranca do rio, 
tanto os caçadores, como os artilheiros, e o esquadrão de 
nacionaes, que com suas terceirolas coadjuvarão a seos 
companheiros, todos sugeitos á fuzilaria e canhonada ini- 
miga. 

O general comandante não pode deixar de preconizar o 
denodo, pericia militar e prezença de espirito, com que se 
portou o bravo coronel Onofre Pires; a quem se deve em 
grande parte o triunfo adquiiido. 

O comportamento do Sr. tenente-coronel Cardozo trans« 
cende a todo o encómio; o do Sr. major e mais ofíciaes do 
3^ batalhão é superior a toda a expressão. 

A intrepidez dos Srs. ofíciaes d'artilharia pode servir de 



— 198 — 

exemplo. O cidadão major Duarte, e mais oatros oficiaes 
adquirirão nm novo titulo á recomendação da pátria. 

Os ajudantes de ordens do general preenxêrSo completa- 
mente as funçSesde seos postos, expedindo todas as ordena 
com rapidez, e audácia por entre o xuydro de balas, que 
arrojava o inimigo. 

Todavia a neâium se pôde dar a preferencia em tal jor> 
nada, e em suma o general se felicita por comandar tio 
brioza quão valente tropa, e está seguro e convicto, que com 
tão nobres guerreiroe tudo se pôde empreender. 

O goieral aproveita este ensejo de agradecer em nome 
do governo os sacriiicios e solicitudes, com que todos traba- 
IhárSo genericamente em prcJ de seos dirmtoe, e da verda- 
deira liberdade, certos de que a gratidio da pátria lhes oon** 
ferirá o titulo de beneméritos. 

Benio Manoel Ribeiro» 
(Impresso avulso) 



8 DE FEVEREntO DE 1839 

Plano dos rebeldes; tomada de canhoneiras, lanxSo e boles no rio Gahi; 

destroço de Joca Cipriano em Yacacahi 

Priwteiro boUUm do govermo em wtarsa para CaMStipat^u 

O inimigo dezafiava-nos, ameaçando sahir de seus es- 
oondrijoe. Seu novo plano era manifesto. Mostrava querer 
acometer nossas poziçSes de campanha. Jsòs o oonbeoe- 
mos, e inunediatammite os xeíes do exercito, que com 
tanto denodo defendem nos campos do continente rio-gran* 
dense a liberdade brazileira, aconselhárSo, que melhor 
era inspirar-lhe confiança, fingindo retirar-se. 

O prezidente imperial deixou-se efectivamente seduzir, 
como quando vierSo procurar a sua vergonha nas ruas do 
Rio-pardo. Sahio a campo; atreveu-se a marxarem 
secuçSo do coronel David Canabarro, que, tendo 




— 199 — 

levantado o cerco, encaminhava-se, como si quizesse evi- 
tar a açSo, para o lado da serra. 

O coronel Bento Manoel, que com a sua costumada acti- 
vidade, para melhor enganal-o, havia atravessado em pou- 
cos dias todo o território da republica, logo que recebeo as 
comunicações que esperava, com uma extraordinária ceie- 
ridade, de Missões, onde se axava, precipitou-se sobre a 
margem direita do Cahi, intencionando passar aquelle rio 
no Passo do Negro, e, voando, cahirsobrea retaguarda da 
coluna inimiga. 

Porém o general-prezidente António Eliziario avia entu- 
lhado o Cahi com nuraerozas embarcações. Carecia então 
vencer o obstáculo, que ellas oporião á sua passagem; e o 
veterano Bento Manoel não ezitou. 

O dia 1.° de Fevereiro raiou gloriozo para a istoria de 
nossa revolução ! Duas canhoneiras, um lanxão e trez bo- 
tes não puderão estar diante da impavidez de nossos 
bravos 1 

Este feliz principio de nossas operações faz esperar assaz 
próximo o termo das calamidades, o fim dos dias deafliçfto. 

O intrépido general Bento Manoel passou a esta óra o 
Oahi, e provavelmente conseguio com isso cercar o per- 
verso António Eliziario, o cruel dominador de nossas cidades. 
Elle e todo o seu exercito são nossos, e Porto-alegre não 
tarda a cahir em poder de nossas armas. 

Rio-grandenses ! Deos protege manifestamente a nossa 
<^auza. O Ímpio está a receber a punição de seus crimes. 

Alguns sacrifícios mais, e cedo ireis gozar da paz no 
«eio de vossas familias, á sombra de vossos lauréis. 

Uma partida de facinorozos, pertencente ao caudilho 
Jucá Cipriano, foi igualmente destroçada nas immediações 
de Vacacahi, ficando no campo seis homens mortos, e em 
nosso poder dous prizioneiros; cavalos, arreios, armas, e 
munições. Esperava-se, que o próprio Jucá Cipriano, ja 
<^rcado, seria batido no dia 5 doeste mez. 

8 de Fevereiro de 1839. 

Domingoê Jozé de Altneidtm, 



— 200 — 

16 DE MARÇO DE 1841 

Jozé Mariano volta ao exercício de ministro 

SSo-Gabriel 16 de Março de 1841^ 6® da independência 
e da republica. 

DECRETO 

Terminando o motivo^ pelo qual o cif^adão Jozé Mariana 
de Matos fôra interrompido no exercicio do emprego do 
ministro e secretario doestado dos negócios da guerra, 
marinha; e exterior, o prezidente do estado o ka por bem 
reentregal-o no referido emprego. 

Domingos Jozé d'Almeida, ministro e secretario de 
estado dos negócios do interior, e fazenda, interinamente 
encarregado do expediente de justiça, assim o tenha 
entendido e faça executar com os despaxos necessários . 

Bento Gonçalves da Silva. 
Damingoê Jozé d* Almeida. 

(Cópia autentica) 



16 DE MARÇO DE 1841 
Bento Gonçalves Tolta á prezidencia 

ORDEM DO DIA N. 40 
Quartel-general em SSo-Gabriel 16 de Março de 1841. 

S. Ex« o Sr. general commandante em xefe manda fazer 
publico ao exercito o decreto do teor seguinte : 

c SSo-Gabriel 14 de Março de 1841 , 6® da indepen- 
dência e da republica. 

Cessando os motivos pelos quaes o £xm. general 
prezidente da republica tomara o com mando em xefe do 
exercito em 23 de Novembro de 1839, o vice-prezidente 
da mesma lhe devolve a administração do estado. 



— 201 — 

DomÍDgos Jozé d'Almeida, ministro e secretario doestado 
dos negócios do interior assim o tenha entendido, e faça 
executar com os despaxos necessários. — • Jo%& Mariano de 
Afatos, — Domingos Joté d' Almeida. > 

S. Ex. manda igualmente fazer publico, que em conse- 
quência das actuaes circumstancias e do parecer do conselho 
de seus ministros, continua no commando do exercito. 

Tem passagem p&ra o 1^ corpo de guarda nacional ao 
Dias d 'Oliveira Corte, guarda nacional do 6° corpo do 
cavalaria. 

Ulhoa Cintra^ 
' P deputado do general xefe do estado-maior. 

(Cópia autentica) 



21 DE MARÇO DE 1839 

Excita os Lageanos a declararem -se pela republica 

Lageanos! A noticia da generoza cooperação, quo 
prestasteis ás armas republicanas, foi ouvida pelo povo 
rio-grrandense com a expressão de reconhecimento e de 
verdadeiro entuziasmo : a Republica vos rende por taes 
feitos sinceras ações de graças. 

Irmãos ! correi aos nossos braços : não sereis certamente 
dos últimos a desprezar o pendão da independência, e dar 
aquelle grito sempre pavorozo &os tiranos da popular 
liberdade. 

Já 03 briozos Paulistanos fazem tremular aos olhos dos 
seus opressores aquelle pendão sagrado; cinco das suas 
principaes vilas têem vin^ido nos escrayos de um coroado 
déspota 16 annos de vexação o arbitrariedade. 

Os briozos Catarinenses, escudados por nossas vitoriozas 
falanges, não tardaráS èm imital-os ; o Ceará e Sergipe 
encetarás a magestoza carreira de rezistencia ao infamo 
governo, que os maltrata ; o Maranhão se dispõe e prepara 
para tão onroza empreza ; o Pará e Bahia jurão sobre as 

TOMO XLYI, P. II. 26 



— 202 — 

cabeças ensangaentadas de seos filhos, sacrificados & vin- 
gança do partido lusitano, mil vezes mais formidáveis ; o 
vacilante império brazileiro, carregado de vicios, próximo 
a uma estrondoza bancarrota, prestes a sucumbir ao pezo 
ingente de uma enorme divida publica, devorado pelas 
facçSes, que o dilacerSo, esse edificio monstruozo de 
corruçáo e de crimes, se desmorona e parece cabir por toda 
a parte. 

Ora pois, Lageanos, ás armas ! 

Fazei troar no meio de vossas montanhas o brado gloriozo 
da vossa emancipação absoluta; despodaçae o imperiozo 
grilhão do despotismo, e xeios de indignação lançae-o 
fora. 

Que podeis recear, contando-nos a nós e aos nossos 
poderozos aliados no numero dos vossos amigos ! 

Vossa pozição geográfica, vosso caracter, vossos abitos 
e uzos, tudo concorre a irmanar-nos para sempre em um 
anel firme : sejamos um e o mesmo povo ; pois a Provi- 
dencia, que a todos os omons fez livres, não deixará 
(porque é justo abençoar os nossos esforços) de fazer 
prosperar as nossas armas. 

Dada em minha rezidencia prezidencíal de Cassapava 
aos 21 de Março de 1839, i? da independência e da 
republica. 

Bento Oonçalveê da Sãva, 

(Manuscrito) 



20 DE ABRIL DE 1839 
Expedição ao Gamaquan 

ORDEM DO DíA 
Quartel-general em Porto-alegre 20 de Abril de 1839. 

• • . Oje se recolheo o Sr. major Francisco Pedro de 
Abreu de uma expedição, a que f5ra a Camaquan com 
140 cavaleiros, que depois de averem xegado ao lugar, 
em que estavão os lanx5es inimigos, de averem morto 



— 203 — 

14 rebeldes, ferirem maior numero, e feito encerrar em 
uma caza 50 marinheiros, tentou o dito Sr. major lançar 
fogo á caza, que não pôde conseguir incendiar por ser cons- 
truida de tijolo e cal. 

Avendo muito fogo da nossa parte e da do inimigo, 
quiz a infelicidade, que fosse fendo no braço direito o dito 
Sr. major, e mortos quatro dos nossos bravos e igual 
ntunero de feridos ; e como uma considerável força de 
cavalaria se aproximava, prudentemente se retirou a iiossaj 
para que podessem ser curados os feridos, e aqui xegou 
em melhores cavalos do que os em que foi. 

O marexal prezidente e commandante das armas da 
província, fazendo constar isto ao exercito, com elle sente 
a privação, que aver& por algum tempo da prezença e 
cooperação do ilustre e ourado companheiro d^armas o 
St, major Francisco Pedro d'Abreu, que pela segunda vez 
derrama sangue no serviço do império. 

Seos feitos são dignos de encómios, seo patriotismo 
excede a toda a expressão, e suas virtudes sociaes e moraes, 
iazem despertar por este joven militar a admiração e 
interesse não só de seos camaradas e companheiros, mas 
de todo o Rio-grandense, a quem bate o coração pela 
pátria. 

António Eliziario de Miranda Brito. 
{Correio Oficial n. 104 de 10 de Maio de 1S39) 



— 204 — 

§8 

1.* PREZIDENCIA DE SATURNINO DE SOUZA 

OLIVEIRA 



24 DE JUNHO DE 1839 
Proclamação concitando & confiança no governo 

Bravos defensores da legalidade! 

Xamado pela confiança do governo imperial para o pe- 
noso encargo da preziden.cia d'e8ta província, eu não m& 
atreveria a tomal-o, si não contasse com a vossa bravura e 
esforços, com a vossa cooperação e obediência. 

Ajudado pelos dignos xefes das forças de mar e terra, 
que vêem trabalhar comnosco na pacificação da provincia, 
nós não precizamos sinâo de mutua confiança, plena armé- 
nia, respeito e subordinação á lei e ás autoridades, e certo 
de vosso valor e patriotismo nada mais tenho a recomendar- 
vos para conseguirmos o bom êxito da glorioza empreza, 
em que nos achamos empenhados. 

Armado de poder descricionario pela suspensão de garan- 
tias, e da faculdade de anistiar, eu serei parco e escru* 
pulozo no exercicio d'aquelle poder, e folgarei, si tiver de 
uzar d'esta faculdade para com os iludidos que abandona- 
rem as fileiras rebeldes. 

Brazileiros, confiai no governo imperial, e unamos-nos 
estreitamente em defeza do trono e da integridade do im- 
pério ! 

Viva a constituição do império ! 

Viva o nosso joven imperador o Sr. D. Pedro Segundo 1 

Vivão os bravos defensores da legalidade, e os leaes Rio- 
grandenses. 

Palácio do governo em Porto- legre 24 de Junho de 
1839. 

Saturnino de Sovza Oliveira. 

(Impresso avulso) 



- 205 — 

1 DE JULHO DE 1839. 

Abuzo no suprimento de gado para as tropas rt^publicanas 

lUm. e Exm. Sr. 

Quando o governo da republica fez promulgar o de* 
creto de 9 de Abril do anno passado, ratificando o direito 
de propriedade, determinando em consequência pelo ai*t. 2, 
que objeto algum lOsse tirado a bem da guerra, que sus- 
tentamos sem que o proprietário previamente se munisse 
de documento da couza recebida, e n'elle se declarasse o 
preço ajustado, não podia prever, que tal preço jamais se 
afastasse do corrente no mercado, ou d'aquelle sempre mais 
vantajozo pelo mesmo governo estabelecido, muito parti- 
cularmente depois que com tanto sacrificio conseguio ex- 
tirpar da republica a moeda de cobre do Brazil. 

Este cazo, porém, aparece perpetrado pelo tenente co- 
ronel Camilo dos Santos Campelo, que a 10 de Fevereiro e 
5 de Março últimos nâo se envergonhou de firmar docu- 
mentos do gados para o corpo de seo comando recebidos 
vacas a 4^ e novilhos a 6j$400, correndo aquelas no con- 
sumo a 2^880, o estes a 3j$200, e sendo pelo tezouro aquel- 
las pagas a 3f$, e estes a 4^500. 

Para prevenir, pois, semelhante abuzo, e o prejuizo da 
nação, determina S. Ex. o Sr. prezidente do estado que 
y. Ex. recomende a todos os comandos de divizSes, 
brigadas, corpos e partidas, que ao axarem os documentos, 
de que trata o referido art. 2 do decreto de 9 de Abril de 
1838, não se afastem do preço do mercado corrente ou 
d^aquele no tezouro estabelecido. 

Deus guarde a V. Ex. 

Secretaria de fazenda encarregada do expediente da 
guerra em Cassapava ao 1^ de Julho de 1839. 

Domingos Jozé de Almeida. 

Illm. e Exm. Sr. António Neto, general comandante 
em xefe do exercito republicano. 

{Povo n. 80 de 3 de Julho de 1838) 



— 206 — 

10 DE JULHO DE 1839 

Assalto dos farrapos em Cerro-largo 

Aquém de Jflguarão reunirão-se 50 a 60 omens, e na 
manhan de 10 de Julho de ] 839, assaltarão o povoado de 
Cerro-largo, e prenderão alguns indivíduos intitulados ca- 
ramurúsj sob as ordens do capitão rebelde Domingos Amaro. 

Depois d'esse assalto alguns soldados embriagarão-se, e 
fízerão roubos; dando isso lugar a que gente d'aquella po- 
voação se reunisse e fizesse retirar os agressores. 

Em face de reclamações dos prejudicados, Domingos 
Amaro fez restituir parte do roubo; parte porém foi sub- 
trahida pelos assaltantes. 

£m caminho (de regresso) 4 dos soldados assaltão uma 
caza de negocio, roubão uma porção de onças, pano fino, 
baeta, xap^s, etc, no valor tudo de 1.400 pezos. 

Esta gente destacou-se da força de Manoel Lucas d'01i- 
veira, o qual queixa va-se ao general em xefe d^aquelesque 
seduzião a gente para taes atentados, com descrédito da 
republica. 

Manoel Lucas escrevia do Gandiota, a 21 de Julho de 
1829 ,dando conta do cazo. 

(Extrato de uma carta) 



29 DE JULHO DE 1839 

Ddfeza de Santa -Catarina 

£m ordem do dia de 29 de Julho de 1839 o prezidente 
de 8anta-Catarina João Carlos Pardal: 

Xamã ás armas todos os guardas nacionaes da capital, 
rezervas, empregados públicos, etc ; 

Encarrega da defeza marítima da provincia o xefe d^es- 
quadra Miguel de Souza Mólo Alvim ; 

Encarrega do commando das forças de terra reunidas na 
capital, e na ilha o' brigadeiro Francisco de Melo Albu- 
querque ; 

Encarrega do commando do corpo civico, formado de 



% 



í 



— 207 — 

todos os cidadãos que nSo são guardas nacionaes do serviço 
ativo, o coronel Joaquim d^Almeida Coelho. 

{Correio Oficial n. 44 de 22 de Agosto de 1839) 



18 DE JULHO 1839 
Bento Manoel despeitado abandona a cauza da republica 

Illm. e Exm. Sr. 

Depois de aver feito sacrificios quazi superiores ao es- 
forço umano na defeza da integridade do Brazil, em cujo 
serviço avia encanecido^ me vi forçado a abandonal-o pela 
ingratidão, que se uzou comigo; e sobretudo por não com- 
portar um dezaire, que a estupidez do brigadeiro Antero de 
Brito, e perversidade de seus conselheiros me destinavão por 
galardão. 

Sabe-o a província inteira^ e sabem-no até os vizinhos 
estados» 

Entretanto minha pozição social não tolerava ficasse eu 
então neutro no meio da violenta agitação, em que estavão os 
espirites ; nem jamais o meu carater lhano me permitiria 
o figurar de ipócrita ; e além d'isso meus bens (que avultavão 
no estado) e a conservação d'elles a bem de minha nu- 
meroza familia reclamavão a minha adezão & cauza, que 
começou ^a contar d'essa época a maioria do paiz por si. 

Dediquei-me pois a ajudar os republicanos, porém foi o 
meu intento servil-os na classe de simples cidadão, sem 
exercer cargo algum. 

Yirão-me todos prestar meus serviços ao lado do coronel 
João António e de outros dignos Rio-grandenses, expon- 
do-me assim ás amargas sátiras dos meos inimigos, sem 
outro objeto mais do que ser útil ao Rio-grande. 

Por fim, avendo regressado do seu extermínio o Exm. Sr. 
prezidente, nos encontrámos em Rio-pardo; marxámos até o 
Padre-etemo, e retrocedemos juntos para a vila doTriunfo. 

No decurso d'esta jornada ocupei-me somente em exi- 
mir-me do commando das divizOes para que S. Ex. me 
avia nomeado ; já o coração presago me anunciava fu- 
turos dissabores : já bastantes ingratidões avia sofrido 
d'aquelles a quem melhor tinha servido, e eu não duvidava 



— 208 — 

quão brevemente m^as cauzaríâo esses que então tanto me 
lizongeavão. 

Afinal sacrifiquei minha opiniSo, e meus principios a uma 
pura condocendencia com aquelle Exm. Sr. 

Eis que sem distar muito tempo vejo já realizados meus 
presentimentos, notando com estranheza no n. 79 do PovOj 
jornal da republica , publicado um decreto referendado 
por V. Ex., onde nomeia para tenente coronel e comman- 
dante do 2.» batalhão de caçadores Francisco Jozé da 
Róxd, dezairando-me d'est'arte aos olhos de todo o paiz^ 
pois é geralmente sabido, que repreendi asperamente esse 
insubordinado BahianO; indigno até de cingir a banda^ que 
desdoura. 

Dedicado desde os meus primeiros annos á carreira mi- 
litar, me tenho n^clla avantajado, não pelos meios do servi- 
lismo, sinão por ações de esforço e inteligência ; e servindo 
n'esses tempos com os generaes D. Diogo de Souza, 
Conrado Jacob, e tantos outros, que temos o costume de 
xamar déspotas, nenhum d'olles jamais me dezairou. 

Ali estão os Rio-grandenses todos testimunhas do apreço 
e consideração, com que sempre me onrárâo, sem que eu 
soubesse curvar-me à prepotência. 

^j^7 j^ próximo á sepultura, e xeio de cans ganhadas 
em árduos serviços á pátria prés tados, não posso nem devo 
tolerar, que por um obscuro Bahiano fira V. Ex., nem o 
Exm. governo minha onra, e pundonor militar. 

Pelo que levo ao conhecimento de V. Ex. para sua inte- 
ligência, que desde a data doesta me reputo demitido da 
graduação, que tenho na republica, e exonerado do ser- 
viço militar; ambicionando a onra de ser considerado 
sempre como um simples cidadão rio-grandense, favor a 
que meus serviços me dão algum jus. 

Deus guarde a V. Ex. 
Caxoeira 18 de Julho de 1839. 

nim. e Exm. Sr. coronel Jozé Mariano de Matos, ministro 
e secretario de estado dos negócios da guerra. 

Bento Manoel Ribeiro. 
( Povo n. 86 ) 




— 209 — 

24 DE AGOSTO DE 1839 

Tomada dos lanxões rebeldes 

Em oficio de 24 de Agosto de 1839 o commandante das 
forç 18 navaes imperialistas Joào Pascoe Greenfel, escreven- 
do de bordo da barca Águia, dizia ao ministro da mari- 
nha Jacinto Roque : 

Que no dia 24 xegára ao lugar Lagoa-formoza, oito lé- 
guas da barra ; 

Que ali apreendera os lanzSes rebeldes Rio-pardo, Inde- 
pendência e Setembrina, e duas lanxas, tomando em um 
capão próximo os mastros, aparelhos,etc. e terminava assim: 

Julgo que esta noticia será muito agradável á V. Ex. 
« ao commercio doesta província, por tanto tempo incom- 
modado por estes piratas. 

[Correio Oficial n. 58 de 9 de Setembro 
de 1839). 



31 DE AGOSTO DE 1839 
Tomada da Laguna pelos rebeldes 

Parecer do conselho de invettigação tohre a evaeuaçáo da Laguna. 

A vista das informações e exames, a que procedeo o con- 
selho de investigação, e que teve por suficientes para ficar 
inteirado do facto da retirada das forças de terra e das de 
mar, que defendião o ponto militar da vila da Laguna, 
parece manifesto ao conselho, que no dia 21 de Julho do 
corrente anno aparecerão forças rebeldes na barra da 
mesma vila, no lado do Sul, que entrarão em tiroteio com 
o lanxSo armado Lagunense, e que se retirarão quando em 
«ocorro doeste se aproximou a escuna Itaparica ; 

Que no dia 22, descendo o rio Tubarão a canhoneira 
Imperial Catarinense, fora atacada por forças rebeldes no 
ponto da Carniça, a uma legoa da vila da Laguna ; 

TOMO XLVI, P. II. 37 



— 210 — 

Que se defendera valerosamente, e que tendo gasto at& 
o ultimo cartuxo, cauzando bastante estrago no inimigo, o 
comandante lhe lançara fogo ; 

Que tendo feito sinal, de socorro esta canhoneira durante 
a acção^ lhe fôra mandado a esse âm, depois de alguma 
ezitaçâO; o lanxSlo Lagunense, que, mal dirigido cahira em 
poder do inimigo ; 

Que as forças rebeldes não xegariao a seiscentos omens; 

Que as imperiaes, contando as tripolaçSes dos navios ar- 
mados, não erSio inferiores a este numero ; 

Que estas estavão intactas^ e animadas do melhor espi- 
rito ; 

Que ainda depois de perdidas a Imperial Catarinense, o 
a Lagunense, restavâo armadas a escuna Itaparica, o brigue 
escuna Cometa^ e canhoneira Sant'Ânna; 

Que tendo o comandante superior convocado um con- 
selho consultivo no dia 22 de Julho, ás duas oras da tarde^ 
e tendo-se concordado n^elle, em que só se fazia a retirada 
em cazo extremo, e quando sinSlo pudesse continuar a re- 
zistencia, prevenindo antes ao corpo do comercio e famí- 
lias para se porem em salvo e seos efeitos^ sem ninguém 
ter sido prevenido, nem mesmo as autoridades, o coman- 
dante se retirou com as forças de linha a seo mando e ca- 
valaria rio-grandense, ás nove para ás dez oras da noite do- 
mencionado dia vinte e dous. 

Que esta retirada, quando ainda si axavão intactas as 
forças legaes de terra, quando ainda avião na sua reta- 
guarda, em Vila-nova, as forças de cavalaria e infantaria 
da guarda nacional ao mando do major Jozé da Silva 
Ramos, e em Maruhi o destacamento, que comandava o- 
major Liiiz Lopes Botelho de Lacerda ; quando ainda res- 
ta vão três ombarcaçSe 3 armadas, e quando nâo avia forças 
inimigas em pozição de poderem cortar a retirada, segundo 
o que unanimemente afirmão três testimunhas ; quando 
todas estas forças se axavâo ainda do outro lado da lagoa 
para o sul, sem fazei*em preparativos para o atravessarem ;. 
julga o conselho ter sido prematura, que deo cauza a per- 
derem-se^ e axarem-se oje em poder do inimigo a vila e 
municipio da Laguna, e ameaçado o resto da província, e 
a perderem-se e axarem-se do mesmo modo dous vasos de: 



— 211 — 

guerra, algumas bocas de fogo, muitos armamentos, muni- 
ções de guerra, petrexos, soldados doentes, familias que 
pretendiào retirar-se, e efeitos de particulares, que talvez 
se pudessem salvar-se, ou si se fizesse a rezistencia, que 
ainda era possivel, ou se dessem para a retirada providen- 
cias, que a tornassem menos dezastroza. 

Julga portanto outrosim o conselho, que o tenente coronel 
Vicente Paulo d' Oliveira Vilasboas, que estava encarregado 
do comando militar da vila da Laguna, e das forças de 
mar e terra destinadas a sua defeza, é responsável pela 
retirada, que fez no dia 22 de Julho do corrente anno, e 
pelas suas consequências, para por ella responder compe- 
tentemente. 

(Correio Oficial n. 52 de 31 de Agosto de 1839) 



29 DE SETEMBRO DE 1839 

Ataque na Pinheira e Massiambú com tomada de embarcações rebeldes 

Em oficio de 29 de Setembro de 1839 Frederico Mariat 
participou ao ministro da marinha Jacinto Roque a o feliz 
rezultado da operação feita contra o inimigo no rio Mas- 
siambú e Pinheira. » 

Que combinara com o tenente-coronel Jozé Fernandes 
marxar este por terra, ao passo que elle Frederico Mariat 
iria por mar no dia 27 de Setembro de 1839. 

Que ao romper do dia se efectuou o dezembarque, o 
inimigo tinha carregado mais para o lado da Pinheira ; e 
apezar do vivo fogo de cavalaria e infantaria em numero de 
lõO, teve o inimigo de perder as embarcações que ali tinha, 
fazendo-se-lhe 3 mortos e nós 2 feridos. 

Que tomarão-se ao inimigo « pelo ataque da Pinheira 6 
pandos canhões e pelo da Massiambú 7 canhSes, 2 baleeiras, 
18 canoas grandes e pequenas e 1 lanxão no fundo ; o que 
tudo monta a 33 embarcações. > 

{Correio Oficial n. 100 de 28 de O utubro de 1839.) 



— 212 — 



17 DE OUTUBRO DE 1839 

Ataque na praia da Pinheira 

Ulm. e Exm. Sr. 

Em virtude das instrucçSes de V. Ex., puz a coluna em 
marxaás 4oras da manhã; e ao romper do dia forcei o passo 
de MasBÍambú; coadjuvado pelo xefe Frederico Mariat, e em 
menoá do 1 ora se passou toda a força. 

Segui o inimigo até a praia da Pinheira, onde reunidos 
sobre 400 omens de cavalaria e 150 de infantaria, quizerâo 
desputar-nos o terreno ; porém sendo carregado por mim 
com parte da nossa cavalaria e 2 companhias de caçadores, 
que fazião a vanguarda, xegamos interveirar-nos com elles, 
e matar-lhes o capitão Enrique Marcos da Roxa, e 3 solda- 
dos rebeldes, fazendo muitos feridos e matando muitos cava- 
los da nossa parte tivemos 1 alferes ferido e 1 

soldado. 

Deus guarde a V. Ex. 
Imbaú 17 de Outubro de 1839. 

nim. e Exm. Sr. Francisco Jozé de Souza Soares d^An- 
dréa, marexal de campo e prezidente da província. 

Jozé Fernandes dos Santos Pereira, tenente-coronel. 

{Correio Oficicd n. 100 de 28 de Outubro de 1839) 



19 DE NOVEBCBBO DE 1839 
Tomada da Laguna e força legal ali existente. 

Em oficio de 19 de Novembro de* 1839 dizia o presi- 
dente de Santa-Oatarina Soares de Ándréa ao tenente-ge- 
neral Manoel Jorge Rodrigues : 

«No dia 15 do corrente foi tomada a Laguna por uma 
combinação acertada de movimentos de mar e terra. 



— 213 ~ 

Eu tenho oje mais de 2.000 omens na Laguna^ de todas 
as armas; e bem que não seja uma força combinada e ar- 
ranjada como deve ser, não é para desprezar; e si o briga- 
deiro Francisco Xavier Cunha tiver, como me aviza o 
Exm. ministro da guerra uns 2.000 omens, e vier a unir- 
se a esta força, haverá é.OOO omens, que podem em marxa 
seguida xegar a Forto-alegre, e fazer junção com as tro- 
pas d'essa provincia, tSo depressa como por mar, e dar tSo 
rápido apoio aos projetos de V. Ex. do que mesmo mar- 
xando os dois batalhSes por via do mar.» 

(Impresso) 



23 DE NOVEMBRO DE 1839 



Tomada da Laguna 



Tenho a honra de participar aV. Ex... 

Em menos de uma ora estava o inimigo derrotado, 

vencido, e algumas embarcações em fuga: ellas se axavão 
ao pé da fortaleza em semi-circulo, sendo as escunas de 
guerra Itaparica, Lihertadwa, Cassapava, e canhoneira La* 
gunefise, e õ embarcações com fuzilaria, e logo se seguirão 
o palhabote de guerra Seival^ e a canhoneira Santa Annay 
as quaes fugindo, em breve tempo fôrão prezas da escuna 
Bda Americanaye lanxões n. 1 e 3, sem que se podesse apa- 
nhar as guarnições por fugirem por cima de baixos. 

Mandei abordar as embarcações, porém o inimigo pegou 
fogo nas escunas Itaparica e Libertadora] comtudo ata- 
Ihou-se o fogo de um pataxo novo, e a escuna Cassapava 
foi ao fundo pelos rombos, que recebeo, porém já está sobre 
fundas para ser levantada. 

Completa foi a nossa vitoria, e derrota dos inimigos; pois 
até fôrão mortos todos os comman dantes, menos o seo xefe 
Jozé Garibaldi. 

Tomamos õ peças de artilharia da fortaleza, posto que 
estivessem na praia 5 peças da escuna Itaparica^ e três ro- 
dízios das canhoneiras. 



— 214 — 

Finalmente a relação n. 1 mostra as embarcações mer- 
cantes tomadas ao inimigo^ bem como as muniçSes de guerra, 
e a n. 2 as embarcações que tiverSo mortos e feridos. 

Toda esta glorioza ação nos custou 17 mortos, 30 feri- 
dos (♦) de nossos bravos companheiros, o aparelho das 
embarcações todo cortado. 

Deus guarde a V. Eif . por muitos annos. 

Bordo do pataxo Desterro, surto na Laguna, 23 de No- 
vembro de 1839. 

Illm. e Exm. Sr. Jacinto Roque de Sena Pereira, mi- 
nistro e secretario doestado. 

Frederico Mariat, 

Capitão de mar e guerra. 



Relação das embarcações aprezadas 

N. 1 

Palhabote de guerra Seival, com um rodizio de ferro de 
calibre 8. 

Canhoneira Sant^ Anna, com um rodizio de bronze de 
calibre 9. 

Canhoneira Lcígunense, com um rodizio de bronze de ca- 
libre 6. 

4 sumacas. 

7 iates. 

4 escunas. 

1 pataxo. 

3 lanxSes. 

Muniçiies de guerra 

1 caixão de moxilas, 1 caixSo de correame, 50 baionetas, 
20 espadas, 1 caixão de cantis, 20 caixotes de bala e me- 
tralha, 100 lanxas, 25 pistolas, 2,000 cartuxos embalados^ 
97 balas razas de diferentes calibres, 230 metralhas de dife- 
rentes calibres, 4 peças de calibre 12, 5 peças de calibre 9. 



C) k relação d. 2 dá 88 feridos. 



— 215 — 

1 caro nada de calibre 9, 3 caronadas de calibre 6, 7 lana- 
is e soquetes. 

Frederico Mariat, 
Capitão de mar e guerra, xefe da divizâo. 

{Correio Oficial n. 141 de 17 de Dezembro de 1839) 



25 DE NOVEMBRO DE 1839 

Obrigadeiro Francisco Xavierda Ganha concita os Serranos a 

nnirem-se a elle 

Serranos ! 

Á vanguarda da coluna do Rio-negro, que como por en- 
canto se organizou e armou na extrema diviza da província 
de S3o-Pavilo em menos de 60 dias já piza aquém do sertão ! 

O general, que marxa á sua frente, munido de instruo- 
çSes do governo imperial, não nutre em seo peito sentimen- 
tos de vingança, não alimenta idéas de extermínio. 

Serranos ! Â franqueza e lealdade, sendo sempre a sua 
•diviza, elle julga indigno de si a dissimulação e artiâcioi 
próprios unicamente para alienar a confiança. 

E com taes sentimentos, que o general offerece a todos 
os brazileiros desvairados o mais generozo e fraternal aco- 
lhimento, o inteiro esquecimento do passado. 

Á coluna do Rio-negro, composta de aguerridos emigra- 
dos, de leaes e valentes Paulistas e cavaleiros Coritibanos, 
não tem outro pensamento que o do seo general, si os mal 
intencionados o contrario vos dicerem, não os acrediteis. 

Eia, serranos; reuni-vos a estes bravos; elles vos rece- 
beráS como irmãos. 

A efémera republica vae acabar; e por isso gritae comigo: 

Viva a constituição do império ! 

Viva o nosso joven imperador o Sr. D. Pedro Segundo! 

Viva a integridade do império ! 

Vivão os defensores da legalidade ! 

Quartel general em marxa no campo do Corisco 25 de 
Novembro de 1839. 

Francisco Xavier da Cunha, 

{Correio Oficial n. 145 de 21 de Dezembro de 1839) 



— 216 — 

28 DE DEZEMBRO DE 1839 

Bento Gonçalves á tesm do exercito ; Antonio Neto xefe do estado 

maior. 

ORDEM DO DIA 

Quartel general na vila Setembrina 28 de Dezembro de 
1839. 

O general prezidente do estado, e commandante em xefe* 
do exercito, em seu decreto de 23 do pretérito, enunciou 
as razoes, que o induzirão a rezignar temporariamente o 
timão do estado nas mãos do Exm. yice-prezidente, e 
desprezando perigos e sacrificios voar ao seio do exercito, 
julgando, com seus esforços, poder coadjuvar a seus dis- 
tintos companheiros de armas, quando nenhuma falta en- 
tende se pôde seguir na marxa administrativa dó governo. 

O general prezidente se extazia de nobre entuziasmo no 
seio do exercito, vendo em tomo de si os distintos sus- 
tentadores da independência e liberdade, e se apressa por 
si e em nome da nação, que reprezenta, a louvar e agra- 
decer ao benemérito e Exm. general António Neto os dis- 
tintos serviços, que tem prestado, não só desdo o começo 
da revoluçflo, como durante o tempo, em que tem dezempe- 
nhado a alta missão de commandante do exercito, em> 
prego em que dignamente dezempenhou a justa confiança^ 
que n'elle avia depozitado o governo : igualmente louva e 
agradece ao Exm. general Bento Manoel, e a todos os Srs. 
commandantes de divizSes, brigadas, corpos, oficiaes su- 
periores, subalternos, e inferiores, e em geral a todas as pra- 
ças, que o compSem, não só pelo eroismo e valor, com que 
têem encarado os perigos e privações, como a morigeração 
e constância manifestada em todas as crizes da nossa luta ; 
e convicto que taes principies seaxão identificados em todos 
os corações rio-grandenses, se limita a advertir a seus 
camaradas, que a constância, subordinação a seus su* 
periores e diciplina devem ser o fanal, que indique suas 
açSes; e doesta arte não só derrocaremos a este realista, 
que ouza aparecer-nos, como conseguiremos o respeito e 
consideração do Brazil e dos povos estranhos, que com 
interesse nos encárão. 



— 217 — 

O Exm. general António Neto d'ora em diante é o xefe 
do estado maior, pelo conduto do qual devem ser inde- 
ressadas ao quartel do g( neral prezidente todas as par- 
ticipações dos Srs. commandantes de divizSes, brigadas, e 
corpos do exercito, que directamente, se devem em tudo 
dirigir ao meemo xefe do estado maior. 

O general prezidente muito recomenda a fiel execução 
da ordem acima, para melhor regularidade do serviço. 

Bento Gonçalves da Silva. 
(Cópia autentica) 



12 DE JANEIRO DE 1840 

Combate da Forquilha 
Illm. e Exm. Sr. 

Depois da infausta açSio do Rio-pardo, em a qual fui 
prizioneiro de guerra com muitos dos meus camaradas, me 
conservei no municipio da Cruz-alta, de cujas forças eu 
era commandante ; ha quatro annos, que dura a luta á 
espera de momento oportuno para tomar a inipunhar as 
armas, até que com o aparato da marxa da divizão do 
brigadeiro Francisco Xavier da Cunha fizemos reaçâo do 
dito municipio a 2 de Dezembro, por ser o natalício do 
nosso adorado Imperador; e em muito poucos dias me 
axei á testa de 600 omens para a defeza do trono constitu- 
cional ; e quando me preparava para fazer junçí:o com 
aquela divizao, tivemos a uoticia de aver sido destroçado 
o dito brigadeiro em Santa Vitoria pelas forças do coronel 
Joaquim Teixeira, e Joaquim Mariano Aranha. 

Izolado inteiramente, e na vizinhança de avultadas 
forças do inimigo, e sem esperanças de poder reunir-me 
para Porto-alegre ou Rio-grande, dezesperado me atirei 
com a força para o mesmo lado, ondo se axava o inimigo 
triunfante da nossa divizão. 

Pintar, Exm. Sr., os trabalhos e privações que afron- 
tamos, seria tentar um impossivel. 

TOMO ZLTI, P. II. 28 



— 218 — 

Serras escabrozas, e quazi intransitáveis, caudalozos 
rioS; fome, nudez, tudo arrostamos, e conseguimos xegar a 
este ponto dos Coritibanos com 400 omens. 

Foi n'este ponto, Exm. Sr., que o mesmo rebelde 
Joaquim Teixeira, á frente de 450 omens, induzi ve 120 de 
infantaria^ me ofereceo batalha. 

A poziç^o do inimigo era vantajoza, não só por ser um 
terreno escabrozo, como pela infantaria, que na mesma avia 
colocado. 

NSo ezitei, Exm. Sr.; carreguei sobre as forças, apezar 
da dezigualdade ; pois que somente pude conseguir meter 
em açâo 300 omens, mais ou menos : fui rexassado com 
perda de 1 morto e 4 feridos ; e depois de um longo tiroteio, 
que durou mais de 4 oras, fingindo uma retirada 
precipitada, consegui enganar o inimigo, que acreditando 
real a retirada, carregou-me com energia. 

Foi n^estas circunstancias, que todos os bravos da 
imperial brigada da Cruz-alta a meu mando, tendo á frente 
dos dous corpos os bravos coronéis Melo Bravo e JoSo 
Gonçalves Padilha, e seos valorozos oficiaes, carregarão 
corajozamcnte o inimigo, e o pozerão em completa derrota. 

Parece impossível, Exm. Sr., que tão completo triunfo 
alcançasse uma tropa fatigada, depois de tão penoza 
marxa, e com a cavalhada em um estado, que se pôde 
supor, depois das marxas forçadas, que fizemos; mas o 
céo, que protege a justa cauza, fez com que triunfássemos 
dos esforços de rebelião. 

Nunca tivemos n^esta província uma ação tão disputada. 

Da nossa parte (com magoa o digo) perdemos 5 omens 
mortos, e 20 feridos, entre os quaes se encontrão o tenente- 
coronel Melo Bravo, o capitão Borges, e os alferes Lucas e 
Maxado. 

A perda do inimigo foi considerável : perderão 60 mortos, 
entre estes õ oficiaes, e 3 prizioneiros, que não remeto, 
por se axarem feridos ; e o estandarte republicano, que foi 
tomado e que remeto, para ser posto aos pés do trono 
imperial em sinal de nosso amor e lealdade. 

y. Ex., em atenção ás nossas atuaes circunstancias, que 
y. Ex. bem pôde calcular, digne-se melhorar a nossa 
fiorte, filha do nosso amor ao Imperador e á ordem legal. 



— 219 — 

por quem estamos dispostos a derramar o sangue, que nas 
veias nos circula. 

l^ara organização doesta força, vi-me obrigado a sacar 
letras contra a provincia do Rio-grande, e o nosso encarre- 
gado de negócios em Montevideo. 

Para melhor arranjo e disciplina da força do meo com- 
mando, organizei dous corpos, e nomeei interinamente 
oficiaes. 

E' quanto tenho a onra de participar a V. Ex., afim 
de que me faça a onra de o levar á prezença do Regente, 
em nome do Imperador o Sr. D. Pedro Segundo, para 
conhecimento dos sacrifícios, que fazem seos leaes súbditos 
n'estas longinquas partes. 

Consta-me, que o inimigo se está reunindo para 
atacar-me, tendo-se deslocado o coronel Joaquim Aranha 
para me meter entre dous fogos ; e diz -se também, que 
David Canabarro tenta subir á Serra para vir a este 
ponto. 

Também se diz, que tentSo alguma couza contra 
São Paulo, o que duvido ; porém, não se deve desprezar 
taes noticias. 

Deu3 guarde a V. Ex. muitos annos. 

Campo dos Coritibanos 12 de Janeiro de 1840. 

lUm. e Exm. Sr. ministro e secretario doestado dos 
negócios da guerra do império do BraziU 

António de Mdo Albuquerque, 
Commandante da imperial brigada da Cruz-alta. 

{Correio Oficial n. 32 de 10 de Fevereiro de 18iO) 



3 DE FEVEREIRO DE 1840 

Combate da Forquilha: resposta do governo geral 

Illm. Sr. 

Foi com a maior satisfação, que recebi o seo ofício de 
12 de Janeiro findo, datado do campo dos CoritibanoB| 



— 220 — 

d'onde conta os felizes sucessos das armas imperiaes sob 
seo comando contra nmnerozas forças rebeldes comandadas 
pelo intitulado coronel Joaquim Teixeira, que forão com- 
pletamente destroçadas ; e tendo apressade a levar á pre- 
zença do Regente, em nome do Imperador, tão gostozas 
noticias, recebi ordem para dar a Vmc. e aos oficiaes e mais 
praças, que acabão de praticar tSo distinto feito d'armas, 
os merecidos louvores, e significar-lhes, que o mesmo re- 
gente em nome do Imperador, em ocaziSo oportuna lhes 
dará um testimunho publico de quanto apreciou o seo bom 
serviço ao império. 

Dcos guarde a Vmc. 

Palácio do Rio de Janeiro em 3 de Fevereiro de 1840. 

Conde de Lages» 
Sr. António de Melo Albuquerque. 

(Correio Oficial n. 32 de 10 de Fevereirode 1840) 



1 DE FEVEREIRO DE 1840 

Pedro Labatut anuncia a sua nomeação para commandar a divízão 

Paulista 

Paulistas ! Nomeado pelo governo do regente em nome 
de S. M. I. o Sr. D. Pedro Segundo para commandar-vos 
pela falta do brigadeiro Francisco Xavier da Cunha, venho 
pôr-me á vossa frente, xeio da maior confiança. 

Em um soldado a obediência é sempre um dever, em- 
bora dificil seja ; mas n^esta ocaziâo o dever é facilitado 
pelo prazer. 

Como deixar de ensoberbecer-me de ser escolhido para 
commandar a mais brava tropa do Brazil ? 

Paulistas ! Camaradas I Eu não vos adulo ; os factos 
quazi miraculozos da istoria de vossa província estão ro- 
xeados de feitos gloriozos que apregoao vossa intrepidez, 
vossa paciência nos trabalhos, vossa exemplar fidelidade a 
vossos reis ; vós fosteis o baluarte das possessões portu- 
guezas ; vossas armas e emprezas correrão o Brazil em toda 



— 221 — 

a sua extensão e largura ; vosso braço fez sangrar o orgu- 
lhoso espanhol, quando ouzou atacar-vos, ou correr de 
enfiada ao vêr-vos somente. 

E que inimigos ora se nos aprezentão ? 

Bandos, sem duvida, guerreiros, cujo ardor militar é 
acendido pelo sangue quente paulista, que ainda corre nas 
veias da mór parte d^elles. 

São filhos de Paulistas, mas filhos degenerados de tSo 
onrados pae;) : nunca um Paulista verdadeiro insultaria 
a orfandade de seo soberano. 

Nossa cauza é a mais justa ; eia, corramos ás armas ; 
façamos sentir aos filhos desnaturados que a pátria ainda 
tem campeSes dos seos direitos. 

Paulistas, cu e ella contamos comvosco para tâo justo fim. 

Eu de vós espero a vossa paciência, subordinação cos- 
tumada, a vossa coragem inaudita, a vossa fidelidade ex- 
perimentada. 

Vós em mim axareis um camarada, que vele sobre vossos 
cómodos, que atenda a vossas necessidades, e um general, 
que vos guie solicito ao alcaçar da gloria pelo caminho da 
onra. 

Correspondei á minha espectativa. 

Viva a religião catolicai apostólica romana ! 

Viva a dignidade e integridade do império do Brazil ! 

Viva o nosso augusto Imperador constitucional o Sr. 
D. Pedro Segundo! 

Viva a leal e valente província de SSo-Paulo ! 

Quartel general do comando da divizSo na cidade de 
Santos em o 1* de Fevereiro de 1840. 

Pedro Labatut, general. 
{Correio Oficial de 1840 n. 40) 



— 222 — 

2 DE MARÇO DE 1840 

Movimento de forças rebeldes 
lUm. Sr. 

N^este momento me foi entregue o ofício de V. S.* com 
feixo de 28 do pretérito, em que me communica os movimen- 
tos do inimigo pela parte do norte ; o que confrontado com a 
sahida de sua força para ocupar a margem direita do Cahi, 
prova exuberantemente, que pretendem simultaneamente 
carregar o nosso exercito: o que será a maior ventura que 
pôde sobrevir-nos. 

Cumpre pois, que V. S . , reunindo toda a sua gente, ca- 
valhada e boiada, se ponha em atitude de marxar, apenas o 
inimigo avance, devendo repregar-se sobre a força do co- 
ronel David Canabarro, a quem se expedem as convenientes 
ordens para se dirigir a fazer junção em ponto próprio^ 
mediante seo avizo, certo de que S. Ex. ' o Exm. general 
em xefe tem arr^jgrado para fazermos a junção geral de 
todas as forças, logo que o inimigo ouze avançar, e deta- 
lhadamente bater e escarmentar suas colunas. 

Precizo é V. S. communicar-me, e ao referido coronel 
todoB os movimentos, que o inimigo fôr dezenvolvendo, na 
inteligência de que do pronto avizo pende o bom êxito do 
golpe, que lhe aguarda por momentos. 

Deos guarde a V. S. 

Quartel general, junto ao Passo do Feijó 2 de Março de 
1840. 

Ao cidadão tenente coronel Domingos Gonçalves Xaves, 
xefe geral da policia de Mostardas. 

António Neto. 
(Impresso) 



3 DE MARÇO DE 1840 
Propozições de paz 

nim. e Exm. Sr. 

Em resposta ás propozições vei^baes, que V. Ex. me 
faz da patente de S. Ex. o Sr. prezidente imperial em 



\ 



— 223 — 

nosáa conferencia de ontem, cumpre-me dizer-lhe, que, so- 
brando-me dezejos de vêr terminada a guerra de um modo 
digno tanto do governo imperial como dos Rio-grandenses^ 
forçozo me é dizer a V. Ex. 

1.^ Que nada posso tratar difinitivamente, sem que V. Ex. 
se me aprezente plenamente autorizado para o eleito ; 

2.^ Que, verificado isto, o prezidente imperial faça im- 
mediatamente regressar para Porto-alegre a força, que fez 
estacionar em o rio Cahi^ e do mesmo modo para o Rio- 
grande. Norte, ou Canudos as que por ventura tenhão 
avançado d'aquelles pontos, tem o que jamais poderia fazer 
com que se evite a continuação do derramamento de 
sangue, e V. Ex. sabe, que os nossos patrícios são in- 
capazes de ceder, quando ameaçados. 

3.' Finalmente verificado quanto exijo nos artigos ante- 
cedentes, eu igualmente farei retirar as forças ora des- 
tinadas ao encontro das que menciono, e desde já retro- 
cedem as que avia feito avançar por esta parte ; o que bem 
deixa vêr a bôa fó e empenho em concluir de pronto os 
males, que pezão sobre o nosso paiz. 

Nos artigos acima claramente deixo vêr quanto por 
agora tenho a ponderar a V. Ex. , acrecendo que 
quando isto se tenha de fazer, será o mais breve pos- 
sível ; o visto que o momento do combate se aproxima, 
como já fiz vêr a V. Ex. , não devo nem posso trepidar 
em aceitai -o. 

Outrosim si o Sr. prezidente julgar acertado fazer in- 
tervir em negocio de tanta transcendência uma outra 
pessoa qualquer, peço, que seja alguma das que me- 
reção nossa confiança. 

No commando da linha avançada continua o Sr. coro- 
nel António Melo do Amaral, com quem V. Ex. se enten- 
derá, afim de que me seja de momento remetida a con- 
testação, que me servirá de governo. 

Deus guarde a V. Ex. como lhe dezeja quem é com es- 
tima de V. Ex., Rim. e Exm. Sr* Gaspar Francisco Mena 
Barreto, patrício^ amigo e camarada. 

Bento Gonçalves da Silva. 

Campos 3 de Março de 1840. 

(Copia autentica) 



— 224 — 

4 D£ MARÇO 1840 
Propozições de paz 

O prezidente da província do Rio-grande do Sul, abaixo 
assinado, recebea as propoziçSes, que, por intermédio do 
Exra. Sr. raarexal Gaspar Francisco Mona Barreto, fez 
o Sr. Bento Gonçalves da Silva, e pela contestação que so pede 
responde, que não só não mandará retirar forças algumas 
do Cahi, e de outros pontos, como que não mandará parar 
quaesquer movimentos e operações, que tem a fazer com as 
forças imperiaos, sinao para receber e perdoar a qualquer 
que deponha as armas, e se acolha ás bandeiras imperiaes, 
som excepção alguma. 

O governo imperial não pôde ser mais generozo e benigno 
do que em dar um completo perdão e esquecimento do passado 
a todos os Brazileiros, r>ue se mostrarem arrependidos, e 
garantir-lhes a conservação de suas onras e postos legaes^ a 
segurança de suas pessoas, e os meios de subsistência : isto 
é mostrar summo dezejo de evitar o derramamento do 
sangue brazileiro, e não querer mais vitimas. 

Para os que quizerem aceitar este generozo perdão não 
é precizo demora, não é precizo tratar com outros ; a cada 
um fica livre acompanhar os primeiros que derem o 
oxemplo. 

O prezidente garante o mesmo perdão, e as mesmas se- 
guranças a todos os que ao Sr. Bento Gonçalves dezi- 
gnar, umavezqueelles o aceitem dentro de 3 dias, depois 
que lhes fôr intimado, e deponhfto as armas. 

Aquelles que recuzarom tSo generozo procedimento, e 
iSrem cauza de se derramar mais sangue, e sacrificar mais 
vitimas para desgraçarem a sua pátria e perpetuar a 
anarchia, esses só serão os responsáveis perante a pátria, 
e perante o Supremo Architecto do universo, pelos males 
que fizerem. 

Porto-alegre 4 de Março de 1840. 

Smíumino de Sauta OUvdra^ prezidente 
da província do Rio-grande do Sul. 

(Impresso) 




\ 




— 225 — 

22 DE MARÇO DE 1840 
Entrada em Gassapava por força legal 

Ulm. e Exm. Sr. 

Em cumprimento das ordens, que recebi ultimamente, 
marxei a este ponto, onde encontrei uma partida de anar- 
chistas composta de 25 homenS; que logo fugirão, tendo-se 
retirado na noite antecedente o vice prezidente da intitu- 
lada republica Jozé Mariano de Matos, que, abandonando com 
tamanha precipitação aquelle ponto, deixou 1 peça, 2 obuzes, 
* porçSes de pólvora, enxofre, e salitre, todo o archivo per- 
tencente ao arsenal, parte de tipos, e papelame em grande 
porção, 24 arreamentos de artilharia, 150 armas de infan- 
taria desconcertadas, 1 ferraria com 8 tomos grandes, 2 
fóIes, 25 quintaes de ferro e aço, segundo se avaliou : o que 
tudo mandei inutilizar, si bem que as artilharias pouco 
poderião servir aos rebeldes por terem os reparos velhos e 
iirruinados ; aos tomos grandes mandei tirar as roscas e 
lançar n'agua, e os armamentos e mais objetos combustiveis 
mandei queimar. 

Axarão-se ultimamente 6 lombilhos e 14 meios de sola, os 
quaes mandei distribuir por algumas praças, que estavão 
necessitadas doestes artigos. 

Deus guarde a V. Ex*. 

Cassapava 22 de Março de 1840. 

lUm. e Exm. Sr. brigadeiro Bonifácio Izás Calderon. 
Manoel dos Santos Loureiro ^ coronel de legião. 

(Archivo publico) 



ABRIL DE 1840 
Forca lega] estacionada no Gahi e disponível para marxar 

Praçât 

l"" Batalhão de caçadores 374 

5« Dito ^ . ... 244 

5^ Dito ' 487 

ۥ Dito 489 

1.694 
TOMO XLvi p. n. 29 



— 226 — 

Transporte. . . . 1.594 

It^ Batalhão de caçadores 294 

Companhia de Toluntarios alemães 81 

2^ Kegimento de cavalaria de 1^ linha. ..... 118 

S^ Dito 1 1 »» » 75 

Esquadrão do Faxinai 50 

Corpo de artilharia a cavalo 225 

b"" Batalhão de artilharia a pé 326 

2^ Dito provizorio de guardas nacionaes 284 

Esquadrão ligeiro 110 

5° Corpo de cavalaria da guarda nacional 319 

Coluna de cavalaria 1.460 

Força na Serra pronta a marxar 150 

5.066 
(Nota avulsa) 



ABRIL DE 1840 
Força dos rebeldes 

Força com que marxou Bento Gk>nçalves para transpor a 
Cahi: 

Infanteria : 



1« Batalhão 310 

2^ Dito 120 

3^ Dito 404 

4*> Dito 82 

Companhia de marinheiros commandada por Jozé Ga- 
ribaldi 58 

Artilharia comandada pelo major Jozé Maria .... 95 

(*) 1.069 

k) Esta força coinpanha-se : 

scravoB * 819 

Passados em Tarios pontos da revolação da Bahia 150 

Passados da do ParA 80 

Prizioneiros de Gassapava e Rio-pardo 520. 

1.069^ 
(Nota avulsa) 





— 227 — 

Cavalaria : 

Lanceiros libertos 322 

1° Corpo de carabineiros 185 

Piquete de S generaes 90 

Guardas nacionaes de diferentes distritos 503 

1.100 

Forças com que António Neto passoa o Taquari. 
Guardas nacionaes de Jaguarão, Piratinin e outros 

logares; comandados por Domingos Crecencio 590 
Guardas nacionaes de SSo-Gabriel, Caxoeira^ Santa 

Maria comandados por João António 290 

Guardas nacionaes de Taquari^ Triunfo^ e Santo 

Amaro commandados por Joaquim Pedro. . • • 320 

1.200 



4 DE ABRIL DE 1840 
Entrada de forças legaes em Cassapava 

Devendo a entrada do inimigo n'esta capital ter produ- 
zido no animo dos abitantes doesse municipio impressões de- 
zagradaveis e talvez dezalento pelo colorido, que lhe derão 
os simulados amigos da cauza rio-grandensC; de ordem de 
V. Ex. o Sr. vice-prezidente da republica passo a dar- vos 
um sucinto detalhe de tudo quanto precedeo e motivou a 
retirada do governo, entrada do inimigo^ sua precipitada 
fiiga; regresso do mesmo govemo; e dano que sofreo a 
republica no curto espaço de tempo^ em que esta capital 
foi preza dos seus invasores. 

Aparentando o inimigo em principios do mez passado 
dirigir todas as suas forças sobre a coluna^ que sitia 
Porto-alegre, e postando-se em consequência a divizâo da 
esquerda em lugar apropriado para disputar-lhe a marxa e 
reforçar a referida colima; cumprindo assim a parte do plano 
de operaçSes da prezente campanha, que se lhe dezignou. 



- 228 — 

pôde, como premidítava; sem obstáculo verificar a sua 
passagem nos Canudos ali do mesmo mez e com ve- 
locidade inaudita aprezentar-se em Bagé, e acampar-se em 
Pirahi a 16, d^onde partindo a 19, na tarde de 21 axou- 
se de posse da capital, que foi deixada pelo governo na 
manhan doesse dia, pelos motivos que passo a expor : 

No começo do dia 17 recebeo o governo do xefe geral 
da policia do Piratinin a primeira participação, de que o 
inimigo na tarde de lõ se achava nas Pedras-altas; poucas 
oras depois o major Mariano Gloria, por ofício de 16, o 
dava, na manhan doesse dia, no passo de Menezes em Ja* 
guarâo ; e o tenente coronel Feliciesimo Jozé Martins 
em ofício da mesma data, recebido também pouco depois 
d'aquelles, o dava já acampado em Pirahi. 

Segundo a direção e velocidade da marxa do inimigo, 
fácil loi prever, que o seu dezignio era sorprender a 
capital indefeza, emquanto que não reunia as forças do 
seu derredor, perpetrar n^ella os errores do costume, e sem 
trepidar lançar-se sobre a coluna do centro, para onde 
convergião todas as mais forças do império. 

Para embotar pois este golpe, para demorar a junção 
iVesta colima ás mais forças do inimigo ou mesmo para 
derrotal-a, no próprio dia 17, ordens terminantes expedioo 
governo para a divizão da direita ocupar o passo dos Enfor- 
cados, afím de que junta á da esquerda e á 3.^ brígada,cuja8 
marchas se mandou acelerar, operar como conviesse. 

Volvêrão-se os dias 18 e 19 sem que participação alguma 
orientasse o governo acerca da derrota do inimigo ou se o para- 
deiro, quando, pelas 2 oras da manhan de 20,recebeo este um 
oficio, que de Santar-Tecla, e ás 8 oras do dia anterior 
lhe dirigio o coronel comandante da divizão da esquerda, 
participando que n^aquelle momento o inimigo, em nu- 
mero de 1.400 omens incluzive 200 infantes, levantara 
seu acampamento em Pirahi-grande e marxando na di- 
reção do Rodeio-colorado, teria d^ali de encaminhar-se para 
esta capital ou São-Gabriel ; mas em sua frente, em 
qualquer dos cazos, andaria o major Mariano Gloria, elle 
no flanco direito, e o major Ismael Soares na retaguarda. 

O governo se reunio a aquellas mesmas oras, e assen- 
tando conservar-se na capital em razão das forças com que 



V 



i 



— 229 — 

contava na frente; e flanco direito do inimigo, determinou ao 
conimandante da divizâo da esquerda, que d'ella destacasse 
à marxa forçada para a capital uma força qualquer e o 
commandante da direita a vinda de toda ella, para unidas 
á guarnição, defendel-a doeste bote : e n^esta diligencia para 
o forte e para a igreja matriz, que lhe fica contigua, 
mandou passar os archivos das secretarias e tezouro, 
objetos bélicos e parte dos géneros existentes no trem de 
guerra. 

A' noite todos os membros do governo, empregados pú- 
blicos, povo e operários do trem guarnecerão o dito forte 
o igreja, bera dispostos a defender este ponto importante, 
por isso que contavão na frente do inimigo com as forças, 
de que fiz menção. 

Pela 1 óra da madrugada de 21 porém xega o capitão 
Felinto. de Oliveira Santos, e asseverando ter andado á 
vista do inimigo ás 10 oras do dia anterior, quando o 
deixara aquém de Lavras 1 légua, e não aver visto 
força alguma nossa em sua frente ou flanco, decidio-se em 
conselho de ministros a pronta retirada do governo uma vez 
que d^aquelle. ponto e a áquellas oras não só podia o ini- 
migo ter tomado as avenidas da capital, como ainda privar 
a vinda das forças com que se contava para sua defeza, 
ou arriscal-as por isso a um combate dezigual e fime&to. 

Derão-se em consequência as ordens para a retirada, que 
se efectuou pelas 3 da manhan, e* o inimigo ocupou a 
capital pelas 4 oras da tarde do mesmo dia. 

Ainda a 22 é que a divizão da esquerda fez sua «completa 
junção á vista da capital, e ás 10 oras do dia, tempo em que 
esta foi evacuada pelo inimigo, depois de lançar ás xamas 
08 archivos do tezouro e trem, que se não puderão salvar, 
algumas peças da tipografia nacional, reparos, sola, 
correames e tudo pertencente ao estado; mas não insultou á 
familia alguma, e não commeteo por falta do tempo os 
errores do costume, e a 29 se recolheo o governo e em- 
pregados á capital. 

Taes forão, cidadãos, as vantagens obtidas pela coluna 
inimiga em toda esta jornada violenta, podendo ser des- 
truida, si o aceleramento de suas marxas a nSlo acober- 
tasse do pezo das espadas dos nossos guerreiros. 



I 



— 230 — 

O cofre do tezouro; a livraria do gabinete de leitura e quazi 
tudo que se achava na igreja e nos armazéns do trem, se ha 
salvado por diversas cazas; e em pouco mais de 
12.000f$ se orça o prejuizo da republica, posto que de 
monta o archivo da contadoria do tezouro. 

A coluna do centro se axa reforçada com mais de 4.000 
combatentes das trez armas, as divizSes da direita .e es- 
querda com mais de 1.500 veteranos de cavalaria e voando 
de todas as partes ao combate as demais forças e cidadãos 
da republica, teremos em breve de umilhar nossos inimigos, 
d'uma vez selar nossa independência, contra a qual ora 
emprega o tresloucado governo do Brazil seos últimos e im- 
ponentes esforços. 

Deos vos guarde, cidadSos vereadores. 

Secretaria do interior em Cassapava 4 de Abril de 1840» 

Domingos Jozé d' Almeida, 

Ao Cidadão prezidente e mais vereadores da camará 
municipal da cidade de Piratinin. 

Igual a todas as demais camarás municipaes do estado. 

(Povo n. 52.) 



3 DE MAIO DE 1840 
ComlMits do Taqnaii 

Praças da divizSo rebelde de artilharia e infantaria feri- 
das, mortas, e extraviadas no combate de 3 de Maio de 
1840, segando o mapa datado de 7 do dito mez aprezen- 
tado pelo coronel rebelde Marcelino José do Oarmo: 

Feridos Mortos Extraviados 

l."" batalhão de caçadores 52 16 21 

2.* » » » 3 

3.* » » . Ô9 19 7 



Total 114 35 28 

[Bosquejo isiorico) 



i 





— 231 — 

2 DE MAIO DE 1840 

Os rebeldes^ sabidos de Viatnão, passSo o Gahí; movimento do general 
legalista; tiroteio de forças legaes e forças rebeldes. 

Illm. e Exm. Sr. 

No dia 2õ de Abril forçarão os rebeldes o passo do Pes- 
queiro^ o em seguida * o de Maratá, e conseguirão por este 
ponto p&ssar o Oahi, sendo favorecidos em ter tirado na 
véspera uma companhia de oaçadores para com mais brevi- 
dade passar no mesmo dia o Cabi para o outro lado para os 
atacar, bem contra a minha opinião^ como tenho indicado 
em meos anteriores ofícios,de cujo movimento elles rebel- 
des estavão bem informados pelo que disserão no sitio da 
Fortaleza, e outras combinaçSes ; o que efectuarão sofrendo 
sempre fogo em retirada todo o dia e noite, e depois de esta- 
rem já fora do mato, no mesmo dia 25, pude reunir a 1^ bri- 
gada de infantaria, a divizão da cavalaria, e marxar para 
os rebeldes, e no dia 26 acabarão de reunir-se as nossas for- 
ças em virtude das marxas, que fiz, ficando por muito á re- 
taguarda a bagagem e cavalhadas de cavalaria, por se aver 
antes colocado sobre a Ponta-raza do Jacuhi, afim de efe- 
ctuar a passagem do Cahi sem aquelle pezo; e só no dia 29 
se reunio. 

No dia 26 se reunirão também os rebeldes á força de 
Domingos Orecencio, que António Neto tinha ido buscar, 
que dizem ser de 1.200 omens, e outros que pouco passa- 
rião de 900, entre estes alguns Orientaes, que perteneerão 
a João António Lavalleja com muito boa cavalhada e bem 
armados. 

No dia 25 pernoitamos na xarqueada do Passo do Leal; 
no dia 26 e 27 no passo do Azevedo para junção do gado; 
no dia 28 no arroio de Sanfa-cruz, e no dia 29 muito cedo 
xegamos ao passo dos Pinheiros no arroio doeste nome, onde 
axamos postados os rebeldes em uma forte pozição com in- 
fantaria emboscada, que para ser atacados éramos tornea- 
dos e atacados pela retaguarda, observando pela tentativa, 
que fizemos, embaraçando-nos muito mais termos a baga- 
geme cavalhada miúda á retaguarda, ainda que todos já mal, 
e n^essa noite marxamos para o arroio do Moinho, passanda 



I 



— 232 — 

em outro passo mais abaixo no . arroio dos Pinheiros, 
e tomamos posição mais forte á frente dos rebeldes, que 
oonservarSo a mesma; avançando mais. 

No dia 27 a nosea descoberta de 30 omens de cavalaria 
se bateo com 150 dos rebeldes, que Atacarão, estando a 
mais de legoa do campo. 

Tivemos o tenente Jozé Félix do á* corpo de cavala- 
ria de guardas nacionaes gravemente ferido, um soldado 
morto, e outros feridos; dos rebeldes, segundo se observou, 
tiverâo 4 mortos, e soubemos, que õ feridos, sendo 1 oficial. 

Desde o dia 29 temos tido fortes guerrilhas sem perda de 
nossa parte, e temos feito dois prisioneiros, além de doi» 
passados. 

No referido dia 27 tivemos a infelicidade de perdermos o 
onrado e benemérito brigadeiro Bonifácio Izás Calderon 
morto de apoplexia aguda. 

Deus guarde a V. Ex, 

Quartel general junto aos subúrbios da vila de Taquari 
2 de Maio de 1840. 

Illm. e Exm. Sr. Conde de Lages, ministro secretario 
d'estado dos negócios da guerra. 

Manod Jorge Rodrigues. 

(Impresso) 



3 DE MAIO DE 1840 
Combate de Taqnarí 

Illm. e Exm. Sr. 

No dia 2 de Maio corrente, aiente do estado dos nossos 
cavalos, convoquei um conselho consultivo para se decidir, 
si era possível, apesar do abatimento dos cavalos, atacares 
rebeldes, e no cazo negativo o que convidia fazer. 

Assentou-se, que se devia passar o Taquari, porque seria 
certa a nossa perda pelo estado dos cavalos, estando oa re- 
beldes em bom estado, no cazo de atacarem • 




vi 



— 233 — 

Pela 1 óra da manhan do dia 3 se deo principio á pas* 
sagem, tendo embarcado a artilharia, menos 2 peças, e as 
bagagens para decerem o Taquarí. 

Passou a cavalaria primeiro, ficando a infantaria susten- 
tando as pozições, que cobrião o embarque, e o esquadrão 
ligeiro de guardas nacionaes na frente, o qual desde as B 
oras até ás 12 da manhan, sustentou um forte tiroteio: a 
esta óra fôrão as nossas poziçdes fortemente atacadas por 
mais de 2.000 omens, sendo 1.200 de 4 batalhões de caça- 
dores e o resto de clavineiros apeados com alguns lanceiros 
para mais aterrarem com seu numero de omens, e previa- 
mente embriagados oom caxaça. 

O primeiro impeto foi terrível, e nossos caçadores 
flanqueados cederão o terreno; mas mandando 2 compa- 
nhias pela direita, e 4 pela esquerda do 6.^ batalhão de 
caçadores, cederão immediatamente o terreno, pondo-se em 
vergonhoza iúga, e a mesma cavalaria, que ficou montada 
na retaguarda, se retirou a trote, deixando o campo se- 
meado de negros e dos cavaleiros apeados: entre todos os 
mortos, que se virão, se conhecerão serem 4 dos seos oficiaes, 
supondu-se morrera Marcelino do Carmo, commandante da 
infantaria, ou Jozé Luiz, a quem fízerão grandes onras fúne- 
bres na freguezia : durou o vivo fogo cinco quartos 
d'ora. 

Dizem os prizioneiros, que blazonavão, que a vitoria 
avia de ser mais completa do que a do Rio-pardo; porém 
não permitio assim o senhor dos exércitos. 

O mapa junto mostrará a V. £x o quanto custou esta 
vitoria, que alcançamos : todos calculão a perda dos 
rebeldes no triplo da nossa, em vista dos mortos que fica- 
rão no campo, estando amontoados aos 4 e aos 6, e em parte 
alguma um só; seu orgulho deve ter ficado muito abatido, 
e perdida a sua força moral mais ainda do que a fizica. 

Recolhemos 8 prizioneiros, d'estes 5 feridos, muitas ar- 
mas quebradas, 2 lanças, algumas patronas, e apresenta- 
rão-se 2 prizioneiros nossos. 

A marinha imperial tomou a parte, que lhe foi possível 
n'esta vitoria, dirigindo por elevação 3 tiros d*artilharia 
para os rebeldes a barca, em que se axava o xefe da divizão 
João Pascoe Greenfel. 

TOMO XLVI, P. II. 30 



— 231 — 

No geral estoií satisfeito com o comportamento dos caça- 
dores; são dignos de louvor e do premio, que o governo de 
S. M. o imperador julgar justo. 

O brigadeiro graduado Filipe Neri de Oliveira, que re- 
cebeo duas feridas, uma grave, se conservou no combate 
até o fim, apezar de não poder montar a cavalo, e o man- 
dar para a retaguarda; o tenente coronel Jozé Joaquim 
d'Ândrade Neves, commandante do esquadrão ligeiro de 
guardas nacionaes, que depois que não pôde trabalhar com o 
8eocorpo,$cou unido aos caçadores^onderecebeo duas feridas, 
também não quiz retirar-se sem acabar o combate ; os com- 
mandantes dos corpos, que entrarão em acção, do 1.° de 
caçadores o tenente coronel Francisco Jozé Damasceno Re- 
zado, do 3.° o tenente coronel Constantino Jozé Teixeira, 
do 5.* o tenente coronel João Neponuceno da Silva, e do 
6.° o tenente coronel Francisco de Arruda Camará; o coronel 
Luiz Manoel de Jezus, commandante da 2. ^ brigada, que 
entrou no fogo activamente, logo que entrarão as 6 com- 
panhias do 6.° batalhão, que pertencem á sua brigada; o 
major do õ.* António Fernandes Padilha, que recebeo uma 
ferida. 

Os commandantes dos corpos fazem especial menção o do 
1 .° batalhão de artilharia do commandante Domingos Luiz 
da Costa Cardozo, dos alferes Joaquim Gonçalves Neto, e 
Ricardo Jozé da Silva, e do cadete Camilo Francisco de 
Sant'Anna; o do 3.® batalhão do major Martinho Baptista 
Ferreira Tamarindo, dos tenentes Miguel Jerónimo Novaes, 
e Adolfo Pedra da Silva Canibal, dos alferes Guilhermino 
José da Silva, e Jozé Martini, e do alferes ajudante Jozé 
Ignacio Teixeira; o do õ.° batalhão do capitão Manoel Ca- 
bral, tenente ajudante Vitorino Jozé Carneiro Monteiro, 
tenente João Baptista de Souza Braga, e do alferes D. Car- 
los Baltazar da Silveira, e Erculano Sanxes da Silva Pe- 
dra: o commandante do 6.® batalhão elogia geralmente os 
seos oficiaes e com mais particularidade o capitão Francisco 
Manoel Acioli. 

Os commandantes de brls^ada informão, que os alferes 
de cavalaria Filipe Carlos Betzebé de Oliveira, ajudante 
de campo de seu pai o brigadeiro Filipe Neri, se portou 
muito bem, o o ajudante de campo do commandante da 2.*^ 




V 



— 235 — 

brigada o tenente André Alves Leite d'01iveira Belo, e o 
major da mesma brigada o tenente Jacinto Maxado Bitan- 
court; cumprindo as suas ordens. 

ComportarSo-se bem o deputado do ajudante general o 
tenente coronel do 3 . ® regimento de cavalaria Gabriel de 
Araújo Silva, e o deputado do quartel mestre general o ma- 
jor do imperial corpo de engenheiros Polidoro da Fonseca 
Quintanilha Jordão, este com particularidade, porque es- 
teve reunido ao l.*' batalhão de caçadores; e todos os oíiciaes 
que estavão prezentes d^essas repartições se portarão bem, 
particularmente o major graduado de caçadores Jozé dos 
Santos Pereira, que foi ferido . 

O cirurgião-mór de brigada Cristóvão Jozé Vieira esteve 
na frente, até que ouve feridos, de que tratou com todo 
o desvelo, assim como o cirurgião-mór de brigada do com- 
mando Jozé Francisco de Souza, apezar de estar muito 
doente. 

Portarão-se muito bem e cumprirão as minhas ordens os 
meos ajudantes de ordens, o capitão de caçadores António 
Jacinto da Costa Freire, e o capitão da 2. • linha Pedro 
Cezar da Cunha; o primeiro com particularidade. 

O capitão de cavalaria, ás minhas ordens, Sebastião Bar- 
reto Pereira Pinto não se axou no campo de batalha pior o 
ter mandado antes com ordens ao outro lado do rio. 

O quetenho a onra de communicar a V. Ex., para que xe- 
gue ao conhecimento do regente em nome do imperador. 

Deos guarde a V. Ex. 

Quartel general na margem direita do rio Taquarí 5 de 
Maio de 1840. 

Illm. e Exm. Sr. Conde de Lages, ministro e secretario 
doestado dos negócios da guerra. 

Monoel Jorge Rodrigues, 

(Impresso) 



— 236 — 

4 DE MAIO DE 1840 
Consellio militar depois do combate de Taquari 

Convocados pelo Exm. Sr. tenente general Manoel Jorge 
Bodrígues^commandante em xefe do exercito em operações^os 
Srs. oficiaes abaixo assinados para emitirem a sua opinião 
sobre o movimento^ que julgarem mais acertado e útil; visto 
a poziçao actual do inimigo, rezolvêrão unanimemente, de- 
pois de averem expc ndido os seos pareceres, que, como a 
vitoria alcançada ontem sobre o inimigo o terá bastante des- 
moralizado, e pedia-se,sinâo tolher absolutamente a passagem 
doeste rio, ao menos tornai- a muito dificultoza, ocupando 
com força os passos de váo mais próximos, colocando-se o 
exercito no ponto mais apropriado para acudir a qualquer 
dos passos atacados, devendo ser observados por pequenas 
forças os passos de nado, que fícâo á esquerda, se devia 
assim praticar até que as circunstancias obriguem a fazer 
outra qualquer operação, acrescendo que se precizava 
mesmo dar algum descanso aos nossos cavalos, que com a 
passagem do rio mais se estragarão, cujos se axão em es- 
tado de nao se poder contar com elles ; sendo esta a razão 
por que se não tem podido atacar o inimigo a mesma 
que motivou a anterior deliberação, pois somente poderião 
servir para uma carga. 

E para constar lavrei este termo, eu Gabriel de Araújo 
Silva, tenentCvCoronel deputado ajudante-general em 4 de 
Maio de 1840. 

O brigadeiro Jozé Maria da Oama Lobo d' Eça. 

Manoel dos Santos Loureiro^ coronel de legião. 

António de Medeiros Costa , coronel. 

Luiz Manoel de JeznSy coronel commandante da 2^ bri- 
gada. 

Francisco Jozé Damasceno Rozado, tenente-coroncl com- 
mandante da 1^ brigada de infantaria. 

Pclidoro da Fonseca Quintanilha Jordão^ major depu- 
tado de inf^^ntaria. 

Qahriel de Araújo SUvaj quartel-mestre-general tenente 
coronel deputado ajudante generaL 

(Impresso) 



1^ m. V 




A 



- 237 — 

26 DE MAIO DE 1840 
Carta de Bento Gonçalves sobre a passagem da linha do Gahi 

Querido Gaspar (*). 

Passei a famoza linha do Cahi, fíz junção com as divizões^ 
que estavâo alem do Taquari, tomando irrizorias as forti- 
ficações do exercito imperial. 

Ofereci a este batalha no dia 29 do próximo passado ; 
nao a aceitou, e cobardemente se meteo nas matas do Ta- 
quari, que procurou passar precepitadamente ; fiz carregar 
sua retaguarda no dia 3 doeste apenas por batalhão e meiO; 
metendo-lhe a confuzão e o terror, alem do estrago de 
mortos e feridos, cujo numero vós melhor do que eu o 
sabeis. 

Regressei para este ponto a esperar, que 'novamente se 
fortifiquem para outra voz mostrar ao vosso prezidente, que 
não faço cazo do cerco, em que elle com bastante orgulho 
contava ter-me. 

Dizei-lhe, que si elle quer a paz, si está autorizado a 
tratar d'ella, dispa-se doesse orgulho, trate-nos como guer- 
reiros, não como feras, que tudo pôde ter fim sem mais 
efuzão de sangue, e que aliás lhe daremos, que sentir e ao 
império e seo governo, que sempre enganado por seos de- 
legados nos supSe um rebanho de timidas ovelhas. 

Adeos, meu amigo ; contae sempre com vosso antigo ca- 
marada patrício e Ir.«. 

Bento Oonçalves da SUva 

Setembrina 26 de Maio de 1840. 

(Impresso) 



(*] Gaspar Francisco Mena Barreto, ou Manoel Gaspar. (Bosquejo 
istorico, pag. 109, f v ^i j 



— 238 — 

27 DE MAIO DE 1840 
Estado militar dos rebeldes, e planos de gaerra contra estes. 

nim. e Exm. Sr. 

O exercito rebelde^ depois qae repassou o Cahi^ tem-se 
conservado nas immediações d'esta cidade em diferentea 
acampamentos, fazendo cartuxame e amançando algans 
potros, que ainda puderão arrebanhar por estas vizinhanças; 
uns lhe dâo 3.000 e outros 3.500 omens. 

Não duvido, que ajuntando tudo o que teem doeste lado 
a sua força iguale o ultimo numero ; estUo porem em pés- 
simo estado quanto á cavalhada, e agora posso assegurar 
a V. Ex., que si empreenderem subir a Serra, xegaráo á 
Vacaria a pé, e incapazes de combater de cavalaria. 

A sua infantaria está reduzida a 700 ou 800 omens, 
quando muito, mas têem 800 clavineiros, que fazem apear, 
quando precizâo. 

Estão também extremamente nús, e a estação agora au- 
menta esto mal, e na Serra o sentiráO com todo o rigor. 

Não creio, nem é possível, que elles agora empreendão 
tal ; e como o nosso exercito de certo os pão ataca dentro . 
de um mez, e não sae da pozição, que ocupa á margem do 
Taquarí^ d'onde têem sahido, por ordem do general, grossas 
partidas de cavalaria para a campanha, e só quando estes 
voltem poderá o exercito avançar sobre elles para os bater 
aqui, tem V. Ex. segura ocazião de avançar até ás bocas 
da Serra e de tomar ahi poziçSes seguras, donde melhor 
possamos combinar ulteriores movimentos. 

Minhas vistas são ainda bater-se o exercito rebelde aqui 
reimido; para depois voltar-se á campanha ; estou cada dia 
á espera do 2^ batalhão de caçadores, que devia embarcar 
para cá em Santa-Catarina a 17 ou 18 doeste. 

Reunidas de novo as partidas de cavalaria, que sahirão, 
ainda que elles não voltem com maiores reunires» teremos 
6.000 omens disponíveis para os atacar aqui, tomando-se 
melhores precauções para que não tornem a passar o Cahi ; 
o que só nzerão por aescuido. 

y. Ex., estando na Serra para cá de São-Francisco de 
Paula, pôde contar com mais de 400 omens de cavalaria e 



i 



-^ 239 — 

100 de infantaria, que estSo com os majores Silva Ourives, 
e Rodrigo da Silva em Santo- António e na freguezia da 
Serra. 

O coronel Jozé Fernandes deixou no Araringuá e nas 
Torres perto de 200 omens, que podem reunir-se^ e doeste 
modo privares rebeldes de subir a Serra, e de passar no Cahi, 
e atacados por força muito superior nSo podem deixar de 
ser completamente aniquilados. 

Por outro lado si entretanto elles tentarem algum movi- 
mento sobre a vila do Norte ou sobre a Laguna, estando 
V.Ex. para cá de Sâo-Francisco de Paula, facilmente poderá» 
decer, e então igualmente os poderemos aniquilar. 

Não dezisto porém da idéa de ir o coronel Melo para 
Cruz-alta, como tenho dito ainda nosmeos anteriores ofícios, 
porque muito convém segurar aquelle ponto, e elle d^ali nos 
pôde dar um pronto e immediato auxilio para a concluzSo 
d'este plano. 

Os rebeldes não têem agora forças reunidas na campanha; 
diz-se, que o seu govemixo voltou para Cassapava, mas as 
nossas partidas de cavalaria lhe entrará^ em poucos dias ; 
e n^este estado, dado o golpe no exercito, a rebelião deve 
sucumbir. 

Deos guarde a V. Ex. 

Palácio do governo em Porto-alegre 27 de Maio 
de 1840. 

Illm. e Exm. Sr. general Pedro Labatut. 

Saturnina de Sotiza Oliveira. 
(Impresso) 



10 DE JUNHO DE 1810 
Combate de 3 de Maio nas margens do Taquarí. 

Illm. Exm* Sr. general D. Frutuozo Rivera. 

A pezada e árdua tarefa de commandar em xefe o exer- 
cito me tem roubado desde algum tempo o doce prazer de 
dar e receber noticias de Y. Ex. ; agora porem furto alguns 
momentos para cumprir este sagrado dever. 



— 240 — 

Ja saberá V. Ex., que o exercito imperial, longo temp<j 
encerrado dentro dos estreitos limites de seos entrinxeira- 
mentoS; ouzou finalmente sahir a campo ; sem vacilar mar- 
xei a encontral-o no dia 22 de Abril do corrente ; a 25 
do mesmo forcei a passagem do Cahi; no ponto que elle 
guarnecia com todo o seu exercito, grossa artilharia, e ca* 
nhonheiras; a 26 fiz junção com as divizSes de cavalaria 
da campanha ao mando do general António Neto, e tendo- 
lhe por vezes oferecido batalha, que sempre recuzou acei- 
tar, ataquei-o no dia 3 de Maio,e querendo sahir dapoziçSo 
dificil, em que se axava, fazia sua passagem para a mar- 
gem direita do Taquari : 500 omens de caçadores do 
exercito republicano baterão com tanto valor em uma es- 
treita picada de matos a 1.200 da infantaria inimiga, que 
obr!gou-a a precipitar a passagem protegida por sua nu- 
meroza marinha ; perdendo n^este combate mais de 400 
omens, entro mortos, feridos e prizioneiros. 

Axo-me agora n^este ponto por assim convir ao meo 
plano de operações, dezejozo de obter noticias de V. Ex., 
de quem nada sei. 

N esta ocaziSo segue para a campanha o dito general 
António Neto, xofe do estado maior, com quem pôde 
y. Ex. entender-se, e combinar sobre qualquer objeto, 
que seja de utilidade. 

Solicito em manter religiozamente a boa armonia, ami- 
zade, e inteligência, que deve existir entre duas republicas, 
não é menor o empenho, que tenho de mostrar por factos, 
que sou com afecto de V. Ex. amigo muito obrigado. 

Bento Gonçalves da SUva 

Quartel general em frente de Porto-alegre 10 de Junho 
de 1840. 

P. S, — O muito nosso conhecido galego Filipe Neri 
foi um dos gravemente feridos no combate do dia o. (*) 

(Archivo publico) 



(*) O sobrescrito d*e8ta carta era do teor seguinte: 
Ao Exin . Sr. brigadeiro general D. Fratuozo Rivera, prezidente e 
commandante em zefe do exercito da republica oriental do Uruguai. 

Onde se axar. 
Do seu amigo Bento Gonçalves da Silva. 



— 241 - 

11 DE JUNHO DE 1810 

Linha defendida pela força naval 

lUm. e Exni. Sr. 

Oje soube por pessoa de confiança, que o inimigo fala 
«m tbrtiíicar a Itapuan, pondo ali uma peça para xamar 
A atenção das embarcaç8es, e depois seguir para o Norte; 
que já seguirão as cavalarias para passar no Estreito 
para a ilha do Cangussú, para cujo fim ja ali esperão al- 
gumas canoas, que, diz-se, foi arranjar em Meireles, assim 
<;omo fazem tenção seguir nas canoas, que dizem estavão 
em marxa de Capivari para o Estreito. Isto é dito à pessoa 
acima por um empregado dos rebeldes, e que é fornecedor. 

Eu pela minha parte farei todo o possível para estor- 
var- lhe 03 seus planos; porém exijo de V. Ex. provi- 
dencias em mandar retirar toda a cavalhada dos distritos 
de São-Lourenço e Cangussú, porque em uma costa tão ex- 
tensa fácil será iludir as nossas canhoneiras, e passar- se 
gente com arreios para a contracosta, e não me é possível 
responder pela segurança de uma linha, que do Passo-real 
úo Taquari até o Norte conta 80 legoas. 

Deus guarde a V. Ex. 

Barci Cassiopéa em viagem no rio Guahiba em 11 de 
Junho de 1840. 

lUm. Exm. Sr. Manoel Jorge Rodrigues, general em xefe 
'do exercito. 

John Pascoe Greenfel, commandantc das forças navaes. 

(Archivo publico) 



ABRIL A MAIO DE 1840 

Passagem do Gahi por Bento GonçalveA atravessa o combate 

de Taquari 

Itinerário da marxa do Exm. general, . xefe do estado 
maior, quando partio do exercito sitiante a colocar-se 
à, testa das divizSes de cavalaria, que formavão a linha 
.«obre a margem direita do Taquari. , 



TOUO ZBVI, p« n. 



81 



— 242 — 

No dia 16 de Abril, a uma óra da tardo, partio S. Ex.» 
da vila Setembrina em' direçiLo á fazenda denominada 
Bôa-vista, onde pretendia embarcar, apenas xegasse, para 
o que previamente ordenou a condução de uma canoa 
áquelle ponto ; como porém soprasse muito forte o sudoeste, 
íbrça foi esperar, que calmasse; o que só teve lugar á meia 
noite. N^esse mesmo instante embarcou na predita canoa, 
que apenas pôde acommodar S. Ex., seo primeiro deputado, 
o intrépido Jozé Garibaldi, e os trez remadores (sendo um 
oficial de marinha); só com esta equipagem cruzou S. E., a 
Guahiba, onde avia uma linha de vazos de guerra imperiaes, 
bem rezignado e seos companheiros a abordar qualquer 
lanxão, que se lhe ouzasse aproximar; porém, nada encon- 
trando, conseguiu, ás 2 oras da manhan, saltar em terra na 
estancia do finado Salgado, junto á ponte denominada do 
Mato-alto, e só passadas 2 oras é, que fundeou em frente 
áquelle ponto a esquadrilha inimiga, sendo precizo S. Ex. 
unir seos esforços aos de seos companheiros de viagem 
para tirar a canoa a alguma distancia da praia, afim 
de não comprometer aquelles que deviâo no mesmo dia 
voltar, e o praticarão. 

Apenas xegados á terra, ordenou S. Ex. a dous dos 
re.ii adores seguissem á xarqueada dos erdeiros da referida 
estancia, que distava legoa e meia, para d^ali trazerem 
dous cavallos, e só ao raiar da aurora do dia lõ é, que elles 
voltarão, conduzindo dous péssimos animaes, que servirão 
de montaria à S. Ex., e seu primeiro deputado, com o 
qual logo se pôz em marxa ; e depois de uma curta demora 
nas cazas da xarqueada, em quanto participava ao Exm. 
general comandante em xefe do exercito a felicida ^e de 
sua jornada, atravéz de todas as dificuldades e perigos, e 
tomar um vaqueano, seguio em direção ao passo do Ribeiro, 
onde teve melhor montaria. 

No dia 15 de Abril seguio António Neto atravessando 
pelo distrito do Boqueirão, e ás 9 oras da noite xegou 
á fazendo do tenente-coronel Manoel dos Santos Cardozo, 
na margem direita do Arroio dos Ratos, ponto em que 
pernoitou, por dar aquella direção ao capitão Marcos de 
Azambuja Cidade e três soldados de seu piquete, que se lhe 
devião reunir n'aquella noite, tendo passado em outra canoa 




l 



— 243 — 

em Ponta-grossa ; o que efetivamente se verificou ; e na 
seguinte manhan, marxando em direção á caza de João Ro- 
drigues Marques, fez d^aquelie ponto partir em deligencia 
o mesmo capitão para a Bôa-vista ás 8 oras, seguindo 
S. Ex. pelo serro do Roque, pela noticia que ali vagara 
de aver a coluna inimiga vadeado o Taquari e mar- 
xado sobre nossas divizões de cavalaria, que seretiravào cm 
sua frente ; e tocando n^aquelle á caza de Jozé Rodrigues 
de Carvalho para se refazer de melhores cavalos, depois de 
demorar-se 2 oras, dando algumas ordens que erão pre- 
cizas, seguio á 1 óra de tarde direito á fazenda das Pom- 
bas, onde teve alguma demora, e vadeando o Jacuhi ás 
11 da noite de 16, se encorporou ás divizSes de cavalaria, 
acampadas á margem esquerda do arroio denominado do 
Trilho. 

Descrever o entuziasmo, que a prezença de S. Ex. ex- 
citou em todos os corações patriotas dos mesmos, é mais fá- 
cil julgal-o que repetil-o, e d'est'arte, afrontando mil 
perigos e sacrifícios, logrou S. Ex. reunir-se á coluna de 
cavalaria, que muito almejava a prezença de seu xefe e 
antigo camarada. 

Na manhan de 17 foi o primeiro cuidado de S. Ex. dar 
as precizas ordens para reunião geral de gente e cavalhadas 
nos departamentos da Caxoeira, Rio-pardo, Encruzilhada 
e Triunfo, indicando a todos o dia 23 para se lhe apre- 
zentarem n^aquelle campo, e logo depois participou ao go- 
verno e ao Exm. general Bonto Manoel a missão, de que 
avia sido encarregado, solicitando, tanto d'este como d'a- 
quelle, a vinda de cavalhadas e toda a força que fosse 
possivel desprender da fronteira e Gassapava, esta para 
cobrir nossa retaguarda no Taquari. Outro sim participou 
ao Exm. general em xefe sua xegada, e que estava apto 
para operar com a divizão na forma que lhe avia sido or- 
denado, e o praticaria infalivelmente no dia acordado ; o 
resto d'aquelle gastou S. Ex. em outras providencias, re- 
cebendo o cortejo dos ofíciaes das divizSes e dos demais 
patriotas, em cujos peitos borbulhava o prazer com sua vista. 

Os dias 18, 19, 20, 21, e 22 forão empregados na or- 
ganização da força na devida forma para conveniente- 
mente operar-se, aplanando todas as dificuldades que se 



- 244 — 

aprezcntavão ao importante plano que se ia dezenvolver, 
e ás duas da manhã de 23 marxou S. Ex. á testa da co- 
lumna das immediaçSes do Trilho, vindo sestar no 
arroio da Mangueira, d'onde à tarde se pôz em marxa, 
vindo pernoitar junto a Taquari-merim, onde se conservou 
toda a manhan do dia 24, e á tarde, posto em marxa, veio 
pernoitar junto á fazenda do Tamanco, e d'ali, partindo 
na madrugada de 25, ás 8 da manhan, esteve sobre o váo 
de Taquari, no passo denominado da Intaipa, cuja pas- 
sagem foi efectuada até ás duas da tarde, indo pernoitar 
na colina da Figueira-formoza, e na manhan de 26 se nos 
reunirão alguns patriotas, que vagavUo ocultos pelos matos, 
e uns d'estes passados das fileiras inimigas ; e marxando 
pela aba da serra, sobre o passo de cima de Santa-cruz, 
n^aquellc ponto se recebeo parte do Exm. general com- 
mandante em xefe do exercito, que, avendo logrado derro- 
tar a forçado Jozé Cipriano de Si mas j que guarnecia o 
passo do Pareci, conseguio vadear o Cahi com o exercito 
n'aquelle momento junto á Fortaleza, e dirigindo-se a co- 
luna a fazer com elle junçSio, xegou ordem de S. Ex. 
para dirígir-nos á fazenda do Azeredo, sobre a qual se ia 
refrescar, visto que o inimigo com seu exercito o procurava, 
e efectivamente ali verificamos a dezejada junção ás 4 da 
tarde, nproximando-se a coluna realista, que acampou 
logo na extremidade esquerda da várzea além do passo, 
em que se axava o exercito. 

D esta'arte conseguio a cauza republicana um assina- 
lado triunfo, e os xefes, que a sustenavão, e dirigiUo tSo 
audacioza quanto bem dirigida manobra, se cobrirão de 
immortal glorii, verificando um feito militar que se eter- 
nizará na memoria dos vindouros, e quiçá seus ulteriores 
rezultados garantão a estabilidade da independência e li- 
berdade do cjntinente. 

O Exm . general em xefe, conhecendo a transcedencia 
da batalha, que ia empenhar, a fadiga da tropa, e favorável 
pozição do inimigo, deliberou furtar-se a combate, retiran- 
do-se sobre Santa-cruz, infundindo assim mais confiança 
no inimigo, que, nos supondo em retirada, devia enorajar 
se e seguir-nos, e tendo nós pozição favorável, os carrega- 
ríamos de firme, e n^esta ipoteze acampámos aquella 



\ 



— 245 - 

noite na margem direita do arroio Santa-cruz, junto ao 
passo geral : na manhan de 27 ali nos conservamos^ tendo 
previamente o eommandante do exercito escolhido o campo, 
em que deviam os receber o combate, quando o inimigo a 
isso nos convidasse ; ás 10 oras da manhan tiverSo começo 
as guerrilhas, meia légua além do passo, e vindo parte que 
a coluna realista se aproximava, se dirigio o exercito para 
a pozição escolhida, que é uma elevada colina, á direita da 
estrada do Taquari, era frente á povoação, e na margem 
esquerda do arroio denomina dos Pinheiros, tendo um 
pequeno bosque e valados na Irente do mesmo e pela 
retaguarda vastas colinas • 

Na manhan de 28 marxou o inimigo, vindo em sua frente 
uma pequena guerrilha, e sem ocorrência de circunstancia 
n'aquelle dia, veio acampar aquém do passo de Santa-cruz 
nas abas das colinas, que eircundao a várzea. 

No dia 29, ás 8 oras da manhan, marxou sobre nós com 
todas as aparências de dar-nos batalha ; o que com avidez 
se esperava, e de antemão se davâo os republicanos os 
parabéns pela victoria, que se lia em seos semblantes ; 
porem vans esperanças : o inimigo, que com passo largo 
avançou até frontear nossa poziçao com intento de atacar- 
nos, ali fez alto, terrorizado sem duvida por encontrar-nos 
em (lispozição de receber sua vizita, quando nos cria em 
verdadeira retirada, e colocando-se entre o passo dos Pi- 
nheiros e um capíSo na margem esquerda do mesmo, como 
querendo dezenvolver seu ataque pelo centro na ala es- 
querda ; apoiados pelo arroio, avião colocado duas bocas do 
fogo e dous batalhões ; na direita, coberta com um capão, 
conservavão outra boca do fogo e dous batalhões, um for- 
mando quadrado e outro em linha ; dous outros com igual 
formatura fazião o centro, tendo as cavalarias na reta- 
guarda. 

Julgando o Exm. general em xefe que se ia empenhar 
o combate, íqa marxar a ala esquerda, commandada pelo 
general David Canabarro, composta da brigada de cava- 
laria de 1* linha, e da commandada pelo coronel Joaquim 
Teixeira, emquanto a direita, ao mando do general xefe do 
estado-maior, devia entrar por um dos passos do arroio já 
dito^ apenas rompesse o fogo na ala esquerda ; o centro, 



— 246 — 

cominandado pelo coronel Marcelino do Carmo, se axava 
composto da diviz^o de infantaria, tendo a dívizâo da di- 
reita na retaguarda d'esta, que igualmente servia de re- 
zerva a ambas as alas. 

O aparecimento do general David Canabarro a desfilar a 
primeira colina pôz o inimigo em completa confiizSo,eobrigoii 
a mudar de formatura duas vezes, passando outras tantas, 
e repassando o arroio, prova da imperícia e decrepitude de 
seu xefe ; o dia se passou n'estas despreziveis evoluções e 
inúteis guerrilhas, sem que o inimigo ouzasse procurar-nos 
em nossa pozição, nem nós o procurássemos na sua, sempre 
esperançados que seriamos carregados. 

A meia noite se pôz o inimigo em movimento, e na 
manhan do dia 30 estava sobre a povoação de Taquari ; foi 
gasto o dia em pequenas escaramuças e inúteis guerrilhas, 
sem nenhum rezultado ; no acampamento que avião ocu- 
pado fôrâo axadas immensas facas, um capote novo. al- 
guma roupa, e mil outros objetoa, que testificSo a precipi- 
tação de sua retirada ; e n^essa tarde foi feito prizioneiro 
um camarada de Manoel Loureiro, que se dirigia cm busca 
de um cavalo seu ; na tarde doesse dia marxou para o sitio 
de Porto-alegre o coronel Joaquim Pedro, para d^ali con- 
duzir nossa artilharia, cavalhada, e gente. 

No dia 1^ de Maio nada ocorreo, e se limitou a pequenas 
guerrilhas. 

No dia 2 nada ouve de notável, e á uma da tarde foi 
divizado o sinal do tenente coronel António Joaquim, di- 
zendo que o inimigo incetava sua passagem, e um passado 
n^aquella noite o mesmo asseverava. 

Na manhan de 3, nossas avançadas penetravão até a po- 
voação, onde fizerão trez prizioneiros, tendo- se-lhes apre- 
zentado um passado. 

O tenente António Pedro, que observava sobre o passo 
de váo, participou igualmente aver na noite de 2 passado 
ali um batalhão e alguma cavalaria, trazendo d'aqueUa um 
«oldado prizioneiro ; em consequência mandou S. Ex. apro- 
ximar a divizão de infantaria, para carregar o resto da in* 
fantaria do inimigo, que se axasse d'esta parte, e sendo acos- 
sados os poucos omens de cavalaria, que se axavão 



\ 



X 



— 2i7 — 

tiroteando; entrou aquella na picada que se dirige ao 
passo, dirigindo-se pelas immcdiaçõcs da olaria do Freitas, 
O bravo 3^ batalhão ia na frente, e ás 1 1 oras e trez quartos 
se engajou com um dos batalhões inimigos^ que, depois de 
alguma rezistencia pelo favor da pozição, teve de ceder 
esta, e ser completamente repelido ; á curta distancia se 
engajou com outro que teve a mesma sorte que o primeiro, 
sendo então protegido pela ala direita do 1^ batalhão ; estes 
fôrão levados até o rio, onde muitos se precipitarão ; junto k 
praia, em vão tentou fazer quadrado o que ali se axava ; foi 
«ste roto com grande |.erda,e a barcade vapor jâ segunda vez 
trazia tropas a seu bordo em socorro d^aquelles, e dirigia 
alguns tiros de metralha sobre os nossos, quando o comman- 
dante da divizão tocou a retirada, pelo máo tempo^ e por 
estar privado de dezen volver sua força em similhante ter- 
reno, conservando ainda a segunda brigada sem engajar-se 
em fogo ; este passo, aliás mui prudente, custou a vida a 
alguns nossos que se avião adiantado, pois, encorajando ao 
inimigo que fugia em sua frente, o fez voltar com a nova 
proteção recebida, tomando as pozições que avia perdido ; 
porem não ouzou carregar-nos : tal avia sido sua perda ! 

O resto do dia empregou na sua passagem, condução 
de mortos e feridos, porém os primeiros, como se avizinhasse 
a noite, não puderão conduzir a todos, e na seguinte manhan 
forão ainda encontrados 67 no campo, e 16 ou 20 no rio, 
junto á terra, e bem se pôde avaliar em cento o tantos o 
numero de mortos, á prizioneii*os e mais do 200 feridos, no 
numero d'aquelles e doestes muitos oficiaes. 

Nós temos a xorar a perda do capitão Roxa Carvalho, 327 
camaradas, cento e tantos feridos, porém doestes só 3 gra« 
vemento, Manoel Ignacio da Costa, Jo<ié Mariano da Silva 
Rangel, João Ourives, e João Anastácio de Oliveira, forão 
feridos o major Baltazar Francisco de Bem capitão, 
Joaquim Corrêa de Albuquerque, e Joaquim Manoel, 
tenentes Fontoura e Job. 

No dia 4 nada ouve de notável, tendo na noite de 3 e no 
dia 4 se conservado a divizão de infantaria perto do campo, 
para melhor commodo de nossos feridos; n'aquelle e no rio 
fôrão encontrados muitos cavalos mortos ensilhados, armas^ 
ponxes, e muitos outros objetos; na tarde d'esse dia sa 



> 



aprezantou um joveD, e um Castelhano, que avíSo sido prezov 
pelo inimigo e fugirão de seu acampameuto, Dotíciando que. 
guardavilo as picadas doa dous váos, tendo o grosso de sua 
torça no paaao-geral. 

Todo o dia 5 pas8ou-se sem nenhuma novidade, e na 
tarde d'este dia se moveu a infantaria para a margem es- 
querda do arroio dos Pinheiros, mudando-se os infennos 
paraacaza de D. Mariana Canavarro. 

No dia 6 nada ocorreo de circunstancia, e pela tarde 
veio parte de aver regressado a barca de vapor, que na tarde 
de 3 deceu com os feridos para a cidade ; o niáo tempo 
obrigou a acampar o exercito sem nada aver ocorrido. 

A 7 continuou o máo tempo, e por isso o exercito per- 
maneceu no mesmo pontit, apenas andando n curta distancia 
as divizSes de cavalaria, pela falta de pastagens para os 
anímaea;ás 6 oras da manhan xegou o capitAo Marcos Cidade, 
miindado pelo coronel Joaquim Pedro, que com a artilharia 
havia ficado no passo do Montenegro, instando a passagem, 
eao meflmo ae oxpedio ordem para fazer alto no ponto ent 
que se axasse, viato que se avia alterado o plano geral de 
operações. 

No dia 8 rCKolveu o general em xefe mandar ao general 
xefe do estado maior colocar o sitio na cidade de Porto- 
alegre, para onde retrogradaria o exercito, e entretanto nílo 
90 bateria qualquer grupo, que ali ouvesac, como enviaria o 
precizo gado para municio da força, cuja falta, sendo mm 
aensivel, obstava a permanência do exercito no ponto em 
que ae axa, emquanto o coronel Jo3o António vadeava o 
Taquari com 10 ou 12 homens para ativar as reunires da 
campanha, e oatilizar o inimigo om sua retaguarda, por con- 
servar-eo ainda na margem direita do Taquari ; ás 4 oraa da 
tarde d'eate dia nos foi roubado o saudozo exorado tenente- 
Job pela gangrena, que sobreveio ao ferimento. 

(Manuscrito) 




— 249 — 

26 DE JUNHO DE 1840 

Estado de Santa-Catarina relativamente à rebelião do 

Kio-grande do Sul. 

Illni. e Exm. Sr. 

Tendo a onra de passar ás mãos de V. Ex. a administra- 
ção d'esta província, é do meu dever dar-lhe uma in- 
formação do seu verdadeiro estado. 

Pelo que pertence á segurança externa está ella dezem- 
baraçada d^esses bandos rebeldes, que se apregoão liberaes, 
e não sabem mais do que ofender aos seus concidadãos, e 
dilacerar o seio de sua pátria. 

Estando os postos avançados das forças d'esta provincia 
além dos limites d'ella é claro, que ella está livre. 

As forças de mar e terra, que V. Ex. verá dos mapas 
juntos, e a prezença da divizão do general Pedro Labatut 
com a sua força em Lages, ou talvez na Vacaria, podem 
convencer da sua perfeita segurança, ainda quando eu não 
tivesse recebido do coronel Jozé Fernandes, no dia 21, a 
declaração de que não precizava mais do que os meioa 
que ja tinha recebido para rezistir a todas as forças rebeldes, 
mesmo vindo juntas atacar a Laguna. 

Palácio do governo de Santa-Catarina em 26 de Junho 
de 1840. 

Ilhn. e Exm. marexal Sr. Antero Jozé Ferreira de Brito. 

Francisco José de Souza Soares de Andréa. 

(Impresso) 



3 DE JULHO DE 1840 
António Neto xamã os Rio-grandenses ás armas. 

Hio-grandenses ! O solo da liberdade é novamente pizado 
pela oste imperial, que furtando-se á batalha, fugindo mes- 
mo avista do bravo exercito sitiante, corre a estilizar os 
distritos inermes na esperança de o fazer, como outr'ora^ 
impunemente. 

TOMO XLVI. P. II. 32 



^ 250 ^ 

A onra, vida, o dcfeza de vossos mais caros objetos vos 
xamâo às armas : deixae pois esta extranba tibieza e 
dúbia pozição ; ab'às vos vereis á mercê do punbal as* 
sassino dos monstros imperiaes, quando vossas virtuozaa 
famílias e propriedades se vêem expostas à rapina e ra- 
pacidade, que os devora. 

Na frente do perigo, arrostando a todo o género de 
privações, é que mais se distingue o soldado da liberdade 
da baioneta mercenária da escravidão. 

Eia pois ! vinde secundar meus esforços e dos abalizados 
xefes, que defendem a mais justa das cauzas, e pronto vol- 
vereis cobertos de gloria ao centro de vossas moradas, dan- 
do completo escarmento aos verdugos do continente. 

Conto comvosco, contae comigo, e a vitoria será o com- 
plemento de nossas fadigas. 

Viva a liberdade I 

Viva o governo republicano ! 

Vivâo os defensores da independência do continente ! 

Quartel general na fazenda de Fernando de Lima 3 de 
Julho de 1840. 

António Neto» 
( Cópia do original) 



1840 

> oticias do estado de cotizas por parta da legalidade enviadas ao 

general rebelde Autouio Neto. 

Em Rio-pardo o tenente-coronel Jozé Joaquim de An- 
drade Neves tem o eeu corpo de ligeiros, que poderá ter 
em rigor 110 praças, o qual se intitula commandante doeste 
municipio, e tem n'este corpo porção do individues da 1* bri- 
gada, que me consta tei'em-se-lhe aprezantado, para não 
serem pegados, e parte são do distrito do Coito, e Cruz-alta 
d 'esta vila, os quaes me persuado, que no momento de verem 
alguma força nossa perto, imediatamente se passaráS para 
ella, tendo já dezertado d 'aqui porção d^elles, e si não fosse 



I 



— 251 — 

o aperto, em qae se axao, pois me dizem, que so passa re- 
vista todos os dias seis rezes, e sâo obrigados todos a dormir 
no quartel, maior numero teria fugido. 

Na Caxoeira existe o tenente coronel João Propicio com 
uma força, dizem ser de trezentos e tantos omens a seo 
mando, onde se axa também o grande Xarão, que consta ter 
feito gr ndes proezas, próprias do carater de um traidor 
como elle. 

Medeiros Costa se retirou para dentro, e aqui passou, 
dizem, que doente, e que se ia ourar em Porto-alegre. 

O exercito realista ainda se axa acampado nas margens 
do Taquari, e Santo-Amaro, e é o comandante do mesmo o 
brigadeiro Filipe Neri, a quem Soares Andréa, quando 
veio tomar conta do comando do exercito, entregou ao 
mesmo. 

Consta, que se aprontão para se moverem, e desconfia-se, 
que seja para irem atacar a coluna do centro, e dizem, que 
estão â espera, todos os dias, do dous batalhões, que vêem 
de Santa-Catarina, para principiarem a operar. 

Consta mais, que a coluna do centro se axa na Boa- vista; 
e a entrada do Norte pelo general Bento Gonçalves tem 
sido pintada por elles como um triunfo alcançado por elles, 
fazendo ver, que fôrão os nossos batidos, e que fugirão ver- 
pronhozamente, deixando duzentos e tantos mortos, além 
doestes muitos feridos e prizioneiros, quando tudo é ao 
contrario, e d'ali se tirarão muitos recursos de fazendas, 
dinheiros, munições, armamento, o muitas peças d'arti- 
Iharia ; o que V. Ex. ahi saberá melhor. 

Da companha ha muito poucas noticias, porque elles 
tudo abafao, e não nos é permitido saber nada, nem falar, 
porque se ameaça a todos, espalhando noticias de que todas 
as norsis forças na campanha têem sido batidas, e até 
mesmo V. Ex. já o avia sido por duas vezes; emfim, Exm., 
nada lhe posso dizer a este respeito, porque nada sabemos, 
e ainda até oje não sabemos o que é feito do Loureií-o. 

Prezumo, que logo que esteja o exercito em movimento 
para irem atacar a coluna do centro, terão de íazer reunir 
as cavalarias, que se axão aqui e na Caxoeira. 

Soares d^Andréa, axa-se em Porto-alegre, e ha contra elle 
grande indispozição, e até se promoveu um assinado para 



- 252 - 

elle ser demitido, e reintegrado da prezidencia o Dr, Sa- 
turnino de Souza, o que se acredita por ter elle ficado 
ainda em Forto-alegre. 

Soares d^Andréa pensando que estava no Pará, passou 
uma grande descompostura ao capitão Xico Barreto, irmão 
do brigadeiro Gaspar Mena Barreto por lhe nao ter tirado 
o xapéo na rua, e dizem, que por isto elle pedio demissão, 
e outros oficiaes brazileiros; pelo que dizem, que elle se vio 
obrigado a tornar- se mais comedido, e que d'ali por diante 
se tem portado de outras maneiras. 

Também consta, que existem grandes indispoziçSes nas 
forças dos realistas por ser Soares d'Andréa o prezidente e 
general das armas, e dizem muitos oficiaes superiores, que 
não pense elle, que cá ha de fazer aos Brazileiros o que 
fez no Pará ; porém eu isto não acredito, porque elles são 
capazes de sofrer todas as indignidades e desfeitas, com 
tanto que levem seos intentos avante. 

Sinto infinito não poder dar a V. Ex. mais informações, 
como pede, por não saber mais nada ao certo, e não dever 
dizer-lhe sinão aquillo de que está inteirado um ver- 
dadeiro 

Sepublicano, 
(Cópia do original) 



16 DE JULHO DE 1840 
Ataque de SSo-Jozé do Noite 

Para todos os socorros que vierão do Rio-grande, 
não posso deixar em silencip o quanto se prestou o inspector 
dos arsenaes de marinha, a quem muito se deve pela activi- 
dade que dezenvolveo, e infatigável em trabalhos, ainda 
alheios de sua responsabilidade, por aspirar somente á 
gloria de nossas armas, e aos lanxSes de guerra, que do 
arsenal do sul enviou aqui, com particularidade ao que 
commandou o capitão-tenente Francisco Luiz da Gama 



ís 



— 255 — 

: ncondio, seus orrores, e conBequoncías que 
ntu milbareB de vitimas inocentes, fez 
.'> filantrópico e tunano de S. Ex. o 
' nlo e da compaízSo. S. Kz.* prefírio 
11 plano que formou, do que pizar afano 
iilaveres ensanguentados de seus simi- 
I o oito prizioneiros, íncluzive 3 oficiaes, 
'inaa ede muniç5ea de guerra, iurSo oa 
ir.fo n'6Bte combate. 
-os do dia 16, a. Ez. cumpre ornais 
■Dl alma, louvando o 1." batalhSo de 
L-sc de lou^s immarcessiveis, por ser 
I o reduto n*. 3, e bem aasím a uma 
. i|ue coadjuTou ao 3°. no ataque e to- 
. 'l'oda a demais tropa toroou-se cre- 
do S. Ex., uZo só por 80 aver p ir- 
1(10 por sua rezignàçilo a sofrimento 
orçadas, que fez em dias do mais 

ngoa Crecencio, commandante geral 

do uma gloria immortal, j& por seu 

í' já pelo sangue frio, prudência e 

:<> as operações ; qualidades estas, que 

^'iildo em todos os combates, a que 

onol Joaquim Teixeira Kunea, empre- 

io is ordena do Sr. coronel Domingos 

>>-se prezonte em todas aa partes, ondo 

^jrecizo, om nada deemontio o conceito, e o 

, que por eeua feitos tem grangeado. 

■ l.js Srs. major Baltiizur Francisco duUwji, 

uiitr Francisco ãf. Bem, 2.''' tununtes Bento 

iiseca, Jozé Ana*' 

.nyelino foi, pov 

lij o elogio, jml 

1,':! 09 logares d' 

m oom B6U exemplo 

' Se* capitão Frai 

jlioperar d 




— 258 — 

soBtentando com parte de sua companhia o reduto n.^ 2, 
que o ÍDÍmigo tentou por vezes retomar. 

O esquadrão do contigentes do 1.^ e 2.° corpo de cava- 
laria de 1/ linha, que operou á pé conjuntamente com a 
infantaria no ataque das trinxeiras o fortiiicaçSes, tor- 
nou-se credor dos maiores encómios pelo valor, que de- 
zenvolveu no fogo. Os Srs. capitão Delfino Alves Xa- 
vier, comandante d'este esquadrão, que foi ferido, e os 
tenentes António Fernandes Leça, e Bento Gonçalves da 
Silva, do mencionado esquadrão, cumprirão em tudo o seu 
dever, e louvor igual merece o sargento da guarda nacional 
Jozé Miguel do Amaral. 

O l.'' e 2.^ corpo de cavalaria de 1.* linha, coman- 
dados pelos Srs. tenentes coronéis Amaral, e Firmíano, 
ocupando todas as ruas da vila co a destacamentos, fez 
oura, por sua diciplina e valor, a seus dignos coman- 
dantes, que por sua parte se conduzirão igualmente com 
coragem e abilidade. 

Os Srs. capitão- tenente da marinha da republica Jozé 
Garibaldi, e Luiz Roseti, á frente da marinha que combateu 
igualmente com a infantaria, portarão-so com aquelli bra- 
vura, que sempre os caracterizou. 

O secretario militar, e 1.^ deputado do general xefe do 
estado maior, encarregado do expediente doesta reparti ção, 
Jozé Pinheiro de Ulhôa Cintra, os Srs. majores ajudantes 
de ordens de S. Ex., o Sr. general em xefe, João Pinto da 
Silva e Manoel Vieira Lima, o tsnente ajudante de campo 
do mesmo Exm. Sr. João Crizoatomo dos Santos ocu« 
párão seus postos, e preenxêrão satisfatória e exactamente 
suas obrigações. 

O Exm. Sr. general em xefe, penetrado da mais pro- 
funda dôr lamenta a perda dos bravos majores Jozé Ignacio, 
o Jozé Gonçalves Rodrigues, o primeiro comandante inte- 
rino do 2.* batalhão de caçadores, e o segundo do 1.^ corpo, 
de cavalaria de 1.^ linha, e de mais alguns valentes, que 
perecerão no campo da onra ; sente vivamente, que ficassem 
alguns ofíciaos e soldados feridos, mas S. Ex. julga, que 
não pôde aver maior gloria para o cidadão, que tudo sa- 
crifica a bem de seu pais, do que verter o sangue em 
defeza d'elle, e mostrar depois a seus companheiros aa 



— 257 — 

onrozas cicatrizes^ que adquirio nos combates^ sustentando 
a independência e liberdade de sua pátria. 

Aos que bem se conduzirão dirige S. Ex. os seus cor- 
diaes agradecimentos, aíiançando-lhes que não ficarão sem 
recompensa seus relevantes serviços. 

Vlhôa Cintra j V deputado general vsfe do estado 7naix>r, 
encarregado do expediente, 

(Copia do original) 



18 DE JULHO DE 1840 

Bento Manoel pede anislia 

lUm. £x. Sr. Saturnino de Souza Oliveira. 

Intimamente convencido de que o Rio-grande do sul, 
ama das mais viçozas estrelas do império, se vae reduzir 
a um longo sepulcro, si continua a guerra assoladora, que 
tantos incidentes funestos têom ateado, tenho deliberado pôr, 
por minha parte, termo a tanto orror. 

Já desde quando me retirei do sitio de Porto-alegre, 
vim firme n*este pensamento ; corre impresso um oficio meu 
a Jozé Mariano de Matos, onde manifestamente annun-* 
cio n^minha intenção, servindo-me para isso de protestos 
notoriamentos frívolos. 

Uma familia numeroza, bens de raiz, amigos que não 
posso abandonar são circunstancias mais que fortes para 
impedir-me uma pronta retirada, deixando tudo exposto á 
«anha dos partidos. 

Bento Gonçalves me procurou com todas as caricias 
tredas de um xefe de partido; e foi na prezença d^elle, que 
me entregarão uma portaria de V. Ex. anistiando-me. 

Conserval-a seria comprometer-me violentamente, pois 
que já estava divulgada; assentei pois de rasgal-a na mes- 
ma prezença d'aquelIo xefe, para assim melhor tranquili- 
zal-o. 

Entretanto me tenho negado const intemonte a marxar 
para dentro, apezar das reiteradas ordens d'elle, e ainda 

TOMO XLTl P. II. 83 



— 258 — 

mesmo das reprezentaçoes dos oficiaes e tropas ; assim pen- 
sava ir me desviando pouco a poaco, quando a repentina 
aparição do Santos Loureiro, á frente de pouca força, me 
constrangio a pôr-me á frente de 1 .300 republicanos, que 
de improvizo se unirão. 

Demaziado conheço as leviandades e travessuras d'esse 
moço para entrar com elle em convenções : tomei por con- 
veniente espantal-o d^aqui e entender-me directamente 
com V. Ex. aquém ofereço retirar-roe absolutamente do 
partido revolucionário, sob a condição de mandar V. Ex. 
em bôa e devida forma anistia, que garanta minha pes- 
soa e bens da maneira a mais completa, e bem assim outras 
(cada qual separadamente) para o coronel Jozé Ribeiro de 
Almeida, para o alferes Rodrigo Felis Martins, e sua familia, 
o para Sabino da Costa Paxeco, garantindo cada uma 
d^ellas os bens e pessoas doestes individues. 

Excuzo ponderar a V. Ex., que o segredo é necessário 
para não transtornar o que dezejo praticar. 

Tenho a onra de saudar a V. Ex. por ser com alto 
apreço de V. Ex. atenciozo servidor. 

Bento Manoel Ribeiro. 

Alegrete 18 de Julho de 1840. 

(Impresso) 



JULHO DE 1840 

Proclamação do Imperador aos Rio-p^randenses xamando-os & paz 

e concórdia 

Rio-grandenses I Tendo entrado no pleno exercicio áoé 
meos direitos como imperador constitucional e defensor per- 
petuo do Brazil, por assim o pedirem as necessidades do 
paiz e o dezejo unanime da capital, com o qual ia de acordo 
o das provincias, vi com magoa profunda, que um dos mais 
brilhantes florSes de minha coroa, a outr^ora prospera pro- 
víncia do Rio-grande do Sul, embaciara na minha menori- 
dade. 

Impossibilitado então por minha idade a dirigir-me aos 
meos amados súbditos, não pude prover de remédio & 



- 250 - 

queixas^ que por ventura fossem então justas, mas que ora 
têem mudado de natureza. 

Agora porém que a lei me faculta o falar-vos como pae 
commuu; cuja felicidade depende da de seos filhos, ouvi, 
Rio-grandenses, vozes, que partem de uma alma con- 
tristada. 

Tendes dilacerado as entranhas da pátria, movidos por 
paixSes e interesses, e seduzidos por nomes vãos ; em 
busca da liberdade, tendes preferido a sombra á rea- 
lidade. 

O meo imperial coração sangra-se á vista do encarniça- 
mento, com que irmãos se dilacerão ; si na mão do pae 
umano está ainda o remédio a muitos males, contae co- 
migo, contae com vosso patricio o Imperador do Brazil. 

Si continuardes porém surdos á minha voz, acabará o 
tempo da clemência, e soará, bem máo grado meo, a ora 
do castigo. 

A natureza deo-me um coração para perdoar-vos ; o con- 
curso da nagão inteira ministra-me forças para subjugar- 
vos. Aproveitae-vos emquanto é tempo, do que o coração 
vos oferece, e temei de arrostar as forças do Império, 

Eia, Rio-grandenses, deponde aos pés do trono as armas 
fratricidas, vinde aos braços do vosso monarca, que, como 
o sol, luz até para o filho desvairado. (*) 

Imperador 

(Archivo publico) 



13 DE OUTUBRO DE 1840 

Carta de Bento Manoel pedindo anistia para si e outros 

Amigo e Sr, Velozo (♦♦)• 

Barra do Arapehi 13 de Outubro de 1840. 
Tratei relativamente aos nossos negócios, e agora vamos 
a um pouco de politica. 



(*) Es lá sem data no origiDal. 
(**) Manoel Velozo Rebelo. 



— 260 — 

Já ha de saber, que abandonei o partido, que xamão re- 
publicano : a cópia do indulto, que me passou Soares de 
Andréa, e a miiâia retirada para este estado o justifica ; 
porém dezejo, que me alcance um indulto do mesmo sobe- 
rano e igualmente a minha demissão do serviço, pois que 
me quero ligar à simples classe de cidadão ; e quando isto 
não possa obter, ao menos dous annos de licença para eu 
rezidir n^este estado, visto me persuadir que Bento Gon- 
çalves a nada anuirá, fazendo por esta forma a conti- 
nuação da guerra civil na infeliz provincia do Rio-grande, 
não obstante a decadência d^elle, a quazi ^eral desmorali- 
zação, e o grande numero de forças impiriaes, que ha. 

Nossos compadres Carvalho, Freitas, António Teles, e o 
mesmo Prado Lima estão oje legaes ; as arbitrariedades de 
Bento Gonçalves, Jozé Mariano de Matos, e Domingos de 
Almeida os têem dezenganado, que o tal sistema republi- 
cano parece em teoria governo dos anjos, porém na pra- 
tica nem mesmo para os diabos serve : enfim todo o muni- 
cipio d' Alegrete oje está legal (com a devida vénia) e si 
ouvesse omem com a capacidade de dirigir agora, nem 
rastos dos republicanos aparecerião. 

Dezejo também, que me alcance indulto de S. M. I. para 
o venerando Francisco das Xagas Martins Ávila Souza, 
bem como indulto e demissão para o alferes do 3^ corpo de 
1^ linha Francisco Soares Leiria. 

De y. S. amigo e obrigado. 

Bento Manoel Ribeiro 
(Impresso) 



11 DÊ OUTUBRO DE 1840 

Expozicão do estado da província 

Senhor, Satisfazendo ao que V. M. L fez- me a onra 
de determinar verbalmente perante o seu conselho de 
ministros, passo a dar uma informação do estado doa 



>v 



— 261 — 

negócios na província do Rio-grande do Sul, que acabo de 
administrar, relativamente ao progresso da sua paci- 
ficação. 

Pata maior clareza dividerei a minha exposição em 
duas partes : 

1.^ Influencia da politica dos meios conciliatórios e 
do fausto acontecimento de 23 de Julho sobre a pacificação 
d'aquella provincia ; 

2.^ Pozição militar do exercito imperial e estado das 
operações. 

Desde o principio da minha administração, senhor, eu 
tenho sempro dito ao governo, que a politica, as anistiae, 
o emprego constante, leal e franco dos meios conciliatórios 
são indispensáveis á pacificação d'aquella provincia, para 
diminuir forças aos rebeldes, desmoralizal-os, e fazer 
cessar o orror, que existia na grande parte da população 
da campanha contra o dominio das autoridades legaes ; 
quanto porém aos xefes só as armas, só os combates os fa- 
rião ceder. 

Empregando os meios conciliatórios com toda a lealdade, a 
sedução com quanta eficácia pude, e a força sempre que se 
proporcionava ocazião estabelecendo em sistema a guerra 
de recursos, fazendo com ella pezar a influencia do mal 
fizico e das privações de todos os géneros, quer sobre os re- 
beldes pronunciados, quer sobre a população, que parecia 
indiferente ao seo dominio, para assim interessar e sacudir 
o seo jugo, eu alcancei grandes vantagens para a legalidade, 
diminuindo consideravelmente as forças inimigas e aumen- 
tando as imperiaes. 

Mas eu não me iludia com estas vantagens para confiar 
tudo d'ellas; pelo contrario, meos oficies atestão eu que dizia 
constantemente, que com os xefes era necessário combater 
e vencer. 

Infelizmente, senhor, é esta ainda oje a primeira neces- 
sidade n'aquella provincia, sem que o magestozo acto nacio- 
nal, pelo qual V. M. I. entrou no exercício de suas altas 
atribuições, venha modificar esta necessidade. 

Oé xefes rebeldes não querem receber o perdão^ quo 
V. M. I, generozamente lhes dá. 

No meu oficio de 25 de Julho pela repartição dos negócios 



^ 



— 262 — 

do império, eu communiquei, que Bento Gonçalves avia 
proposto a idéa de maioridade de V. M. I., mas não como 
condição para depor as armas e receber o perdão. 

EUo queria sim, que Y. M. I. fosse declarado maior para 
ratificar um tratado preliminar de paz feito com 
elle, para tratar com elle, ou elle com V. M. I.; isto é. 
Bento Gonçalves, já nOo contente de tratar com o governo 
em nome de V. M. I., queria V. M. I. no trono para o 
aviltar em sua própria pessoa. 

Eu limitei-me a repelir com indignação tão subida inso- 
lência, porque me faltavão meios de a vingar prontamente 
como dezejava. 

V. M. I. está oje filizmente no gozo das suas atribuições 
magestaticas Bento Gonçalves recebeo com indiferença 
este facto, insiste em que um dos ministros do con- 
selho de y. M. I. vá ainda mais competentemente auto- 
rizado á capital da provincia para tratar com elle, e fazer- 
Ihe concessões indispensáveis. 

Continua a reputar-se xefe do povo soberano e indepen- 
dente, que não tem juiz, nem superior sobre a terra, como 
elle disse na correspondência, que remeti á secretaria 
do império. 

Os xefes rebeldes, senhor, estão persuadidos de que 
podem e devem ser independentes, que têem tanto direito a 
isto, como o Brazil teve para separar-se de Portugal, e que 
tem forças para o conseguir. 

Infelizmente os erros oommetidos na direção das ope- 
rações do exercito imperial desde 1 de Abril doeste anno 
em diante servirão em muito para os confirmar na persuação 
de que as forças imperiaes não podem combater com elles, 
quando é um facto, que lhes são superiores, e erão muito 
bskstantes para derrotar o exercito rebelde, como si o tivessem 
atacado como e quando devião. 

Os rebeldes falão ainda em conciliação, mas por isto 
elles não entendem depor as armas e receber um perdão 
amplo, como lhes é garantido. A isto xamão elles um 
perdão ignominiozo. 

Elles entendem por conciliação um tratado, em que se 
lhes garantãoos postos ilegaes,que têem do rebelde governo. 
e pagamento de dividas por elles contrahidas, a proposta em 




í 



— 263 — 

lista tríplice do prezidente d 'aquella província; emfim en- 
tendem por conciliação a legitimação da sua revolução, e não 
duvidariãocom estas ou outras similhantes condições prestar 
agora o juramento de obediência a V. M. I. para melhor 
se segurarem e em dous ou trez annos fazerem a completa 
€ absoluta separação da província. 

Com o que deixo dito, creio ter suficientemente mos- 
trado a V. M. I. até que ponto se pôde tirar vantagem 
da politica e dos meios conciliatórios, que real e franca- 
mente empreguei, e que influencia pôde ter na pacificação 
d^aquella província a proclamação da maioridade deV.M.I, 

Nào duvido com tudo, que este magestozo e feliz acon- 
tecimento produza algumas diverçSes entre os rebeldes; 
mas o numero d'e8tas será limitado, e de nenhum modo 
capaz de infiuir para a terminação da luta. 

Muita gente espera, que Bento Manoel se decida de- 
finitivamente a abandonar o partido rebelde, que receba o 
perdão de V. M. I. Eu não me atrevo a asseverar abso« 
lutamente, que não ; mas não nutro as mesmas esperanças, 
e asseguro, que o não fará sem condições pouco decorozas, 
e que o facão aparecer como a primeira personagem da pro- 
vinda. 

Eu temo muito o perdão dado a Bento Manoel para 
elle servir á legalidadade, e nunca lhe o daria sinão com 
a condição de se conservar fora da província ; de outra 
maneira elle só poderá terminar uma luta para dar legar 
a outra não menos funesta : receio mesmo, que Bento Ma- 
noel, fingindo querer aceitar um perdão, e servir a V. M. I., 
não tenha em vista sinão procurar axar-se com a sua força 
em pozição de dar um golpe seguro e decizivo nas forças 
imperiaes, aprezentar-se como o salvador do partido re- 
belde, e constituir-se seu xefe e ditador : idéa que elle tem 
muitas vezes enunciado, procurando dezacreditar os outros 
xefes rebeldes. 

Ainda que Bento Manoel queira aceitar o perdão para 
servir a V". M. I., nunca se poderá confiar n'elle, a ponto 
de se lhe entregar o commando de forças : e esta inevi- 
tável regra e desconfiança lhe dará protestos para novas 
traições • 

O caracter extremamente ambiciozo e orgulhozo doesta 



% 



— 264 — 

individuo^ a alta opinião, que elle tem de si mesmO; e de 
Boa influencia na provincia^ e com os xefes dos estado» 
vizinhos, mais me confirmSo no que penso a seu respeito* 

Será porém de grande vantagem, que ello nâo apareça 
em campo com as forças do seu séquito. 

A pozição militar do exercito imperial é pouco esperan- 
coza; sendo elle muito superior ao do inimigo, sem contar as 
forças existentes em Lages, Laguna, e outros pontos de 
Santa-Catarina, o exercito inimigo está mais forte pelas- 
poziçSes que ocupa. 

O exercito imperial está dividido, as cavalarias espa- 
lhadas ; o general, que as espalhou com ordem de se re- 
unirem no Taquar até fins de Setembro, não admitio os 
couzas no estado em que as deixei : rebuê sic exstaniíbus 
os rezultados seráS os que tenho exposto. 

Faço porém votos as Onipotente para que alguma 
circunstancia feliz e por mim nSo prevista desminta todas 
as minhas previzSes, e dê de pronto aos negócios públicos 
no Bio-grande uma face mais lisongeira e esperançosa. 

Beija reverentemente a augusta mão de Y. M. I. o 
mais umilde e respeitozo súbdito. 

Saturnino de Souza Oliveira. 
Bio de Janeiro 11 de Outubro de 1810. 

(Impresso) 



^ ,. 1 ' 



— 265 - 



r 



§9 



PREZIDENCIA DE SOARES DE AKDREA 



1 DE AGOSTO DE 1840 

Regresso de Bento Manoel ao partido legalista. 

lUm. e Exm. Sr, Bento Manoel Ribeiro. 

No dia 27 do mez de Julho tomei entrega da prezidencia 
d'esta provinda, e oje do commando do exercito; e coube- 
me por isto ter a satisfação de poder annuir protanmente 
aoB dezejos de V. Ex. e aos meos. 

Quaesquer que tenhSlo sido as invectivas, que contra mim 
tenhSo publicado alguns omens mais inimigos da paz do 
Brazil que meos, é certo que pacifiquei a provincia do Pará 
deixando unicamente prezos a omens cobertos de crimes 
orrorozos ; e é certo, que deixei na provincia de Santa-Ca- 
tarina recolhidos a suas cazas e em perfeita paz a todos 
os seus abi tantos, sem os deixar processar pelos juizes 
territoriaes, e fazendo recolher mesmo alguns processos 
principiados. 

As minhas primeiras ordens de oje, antes de receber a 
carta de V.Ex.,jaforílo determinar a todos os coramandan- 
te de forças, que sem dependência de ordem de anistia 
deixem viver tranquilos em suas cazas a todos os abitantes 
da provincia, que se aprezentarem, e a ellas se recolherem 
pacíficos. 

Por estas ordens, e pela minha conduta anterior pôde 
V. Ex. ajuizar, si eu serei ou nao fiel aos principies de 
inteira pacificação dos abitantes doesta provincia, e intei- 
ro esquecimento dos seus actos. 

A V. Ex. toca, pois que tem prestigio entre esses povos, 
que é amante da sua pátria, e acaba de dar uma prova 
tão clara de que repugna á dezordem e desgraça, que a 

TOMO ZLYI» P. 11. 34 



CS 



— 266 — 

tem dezolado; fazer entender a todos quâeis sâo as minhas 
ordens, e quaes são as verdadeiras intenções do governo. 

E tempo de f .ixar as feridas ; é tempo de pôr termo á 
torrente de desgraças, que tem afligido uma das mais belas 
províncias do império. 

Qual será a instiuição repubublicana, que saiba ser mais, - 
livre que as instituições d*elle ? 

Qual será a nação pequena e falta de forças, que possa 
jatar-se de ser independente? 

O império do Brazil unido poderá ser feliz e respeitado, 
dividido será dilacerado em pequenas guerras, e escame- ^ 

eido das grandes potencias. 

Espero, que V. Ex. esteja de acordo comigo n'estas idéas, 
o que se conheça quão conveniente seja separar-se de todo 
das proximidades d^esses moços iludidos ou pertinazes, 
que se julgão amigos do seu paiz, concorrendo para a sua 
iniina. 

Sou de V Ex. muito atento venerador e criado. 

Francisco Jozé de Souza Soares de Andréa 

Quartel general em Santo-Amaro em 1 de Agosto 
de 1840. (*) 

(Archivo publico) 



7 DE AGOSTO DE 1840 

 maioridade na cidade do Rio-grande. 

Entrou no Rio-grande a 7 de Agosto de 1840 o vapor 
Bahiana com a noticia de ter o imperador assumido as rédeas 
do governo em vista da declaração de maioridade. 



n Esta carta está por cópia junto ao oficio ao ministério da guerra 
de à de Agosto de 1810 (Rezervado). 



» 




I 



— 267 — 



Ouve grande regozijo; e em uma reunião em caza do 
juiz de direito na noite de 9, recitou elle o seguinte : 

SONETO 
FilH Sion exeellent in rege suo 

BIB. SàCR. 

Parabéns, continente, o nosso Augusto 
No sólio paternal reluz sentado 
O génio da discórdia profligado 
Vae ceder-lhe vencido o colo adusto. 

Muntflco governo recto e justo 
Ha de faz^^r ditozo o seu reinado ; 
Pela innocencia o cetro sustentado 
Dos peitos dezencerre o frio susto. 

Desvairados irmãos! termine a guerra; 
De Pedro a doce vóz pare a torrente 
De sangue fraternal, que ensopa a terra. 

Virá civica paz, seus dons ostente ; 

A paz repita o monte, o vale, a terra, 

Eíij Pedro a mando o céo, o céo não mente. 



(Manuscrito) 



15 DB AGOSTO DB 1840 

Anuncia a declaração da maioridade do imperador. 

Bio-grandenses ! 

O marexal de campo, prezidente e commandante das 
armas d'esta província tem a satisfação de anunciar-vos, 
que tendo a assembléa geral do império do Brazil declarado 
a maioridade de S. M. o Imperador, o Sr. D. Pedro SegundO; 
o mesmo augusto senhor entrou no dezempenho e gozo das 
altas atribuições, que lhe competem, no sempre faustozo 
dia 23 de Julho. 

Esta época, tão dezejada pelos amigos do trono constitu- 
cional e da paz e ventura do Brazil está xegada. 

Todos os bons Brazileiros esperSo n'este dia, que, esque- 
cidas dissensões antigas, esquecidos bons ou máos motivos 



^ 



— 268 — 

de discórdia, a grande familia brazileira faça um só corpo, 
e que unida em tomo do caro penhor de nossa ventura, em 
quem se reúnem todas as idéas de pátria e de nação, como 
no foco luminozo de um brilhante toda a força que lhe dá 
valia, o façamos respeitado e querido. 

Unamos«nos pois; sustentemos o seo trono, e a sua di- 
nastia, e fujão d'entre nós todos esses espirites, que só pro- 
curâo o mal pela satisfaçílo de o faeeiem. 

Ao bravo exercito, que tenho a onra de commandar, lem- 
bro, que a nossa missão é combater pela integridade e in- 
dependência do império ; obedecer ao poder executivo, e 
ser seo raio, e fazeimos-nos dignos da estima do Brazil e 
do mundo inteiro pela nossa subordinação, primeira quali- 
dade militar ; pelo nosso valor e nossa constância nos tra- 
balhos da guerra ; e pela nossa firmeza contra as sugestSes 
dos inimigos do trono e da pátria. 

Viva S. M. L o Sr. D. Pedro Segundo ! 

Viva a constituição politica, que nos rege 1 

Viva a integridade do império ! 

Palácio do governo em Porto-alegre 15 de Agosto de 1840. 
Francisco Jozé de Souza Soares d^Andréa. 

(Im presso avulso) 



16 DE AGOSTO DE 1840 

Remete copias da proclamação imperial. 
Illm. Sr. coronel Bento Gonçalves da Silva. 

Sendo reconhecida a maioridade de 8 M. o Imperador 
o Sr. D. Pedro Segundo, fôrão-me enviadas as proclama- 
ções Juntas para as fazer xegar ao conhecimento de todos 
os súbditos do mesmo augusto Senhor, e por que o modo 
mais franco do o fazer para o lado onde existem as forças 
dissidentes é entender-me com o seu xefe, tomei esta deli- 
beração ; e V. S. fará d^ellas o uzo, que axar mais con- 
forme á justiça e ao bem geral. 



^ 




— 269 — 

Por atenção a V. S. também ajunto alguns exemplares 
da proclamação, que ontem fiz circular. 

Vi uma carta do Sr. Joaquim Pedro Soare8,mo8trando de- 
zejos de abraçar quatro dos seus amigos; e não julgando eu 
a propozitO; que elles saião ao campo, co venho com tudo, 
que o mesmo senhor os venha ver e abraçar em uma das 
salas doeste palácio, devendo ser breve a conferencia e 
sahindo sem se communicar com mais pessoa alguma. 

Sou com atenção e respeito de V. S. muito atento ve« 
nerador. 

Francisco Jozé de Souza Soares de Andria. 

Porto-alegre 16 de Agosto de 1840. 

(Archivo publico) 



20 DE AGOSTO DE 1840 

Illra. e £xm. Sr. marexal Francisco Jozé de Souza Soares 
d'Andréa. 

Foi-me ontem entregue a carta de V. £x. com data 
de 16 do corrente, acompanhada das proclamações, que 
S. M. o Imperador do Brazil dirige aos Rio-grandenses 
e de alguns outros exemplares da que Y. Ex. fez circular ; 
e bem que, antes d'isso, já eu as tivesse lido, bem como 
gande numero dos que compõem as forças a meu mando, 
nos periodicjs d'essa cidade e do Rio, todavia eu lhes 
farei dar a maior publicidade, porque, inimigo da se- 
dução e do engano, amo em extremo a franqueza, filha 
da boa fê e da sinceridade. 

Induzo axará V. Ex. um oficio, que o prezidente com* 
mandante das armas de Santa-Catarina me pede faça en- 
tregar a V. Ex ; elle me aconselha, que para pôr um ter- 
mo aos males da pátria, agora que foi declarado em 
maioridade o Sr. D. Pedro Segundo, entre em negociações 
com V. Ex., mas como na sua carta guarde V. Ex. em pro- 
fundo silencio sobre este objeto, devo supor, com magoa o 



I& 



- 270 — 

digo, que a politica do gabinete atual é talvez a mesma 
que até aqui se tem seguidj, com detrimento do bem geral, 
pois parece, que se recuza tratar comnosco, julgando-se 
este passo coatrario á dignidade do governo imperial ; em- 
bora possâo obter os mais felizes rezultados. 

O portador do ofício do prezidente Antero de Brito axa-se 
aqui esperando a resposta de V. £x. até 23 do corrente, 
dia em que o farei partir para a cidade do Desterro. 

Ao coronel Joaquim Pedro Soares deixei o livre arbítrio de 
ir ver e abraçar, si quizer, em uma das salas de seu pa- 
lácio a quatro de seus ainigos,segundo a concessão de V.Ex., 
e suposto não tenha elle tomado sua ultima rezolução a res- 
peitOy me roga todavia agradeça a V. Ex. u bondade e 
deferência, com que o trata. 

Sou com toda a consideração e respeito de V. Ex. muito 
atento venerador. 

Bento Gonçalves da Silva. 

Setembrina 20 de Agosto de 1840 

(Archivo publico) 



21 DE AGOSTO DE 1840 
Partecipa ter intabolado correspondeacia com o governo rebelde 

Illm. Exm. Sr. 

Para fazer xegar a proclamação de S. M. o Imperador 
ao conhecimento da força rebelde, autorizei ao marexal 
Mena Barreto para prevenir Bento Gronçalves, de que tinha 
uma communicação mais a lhe entregar em mão. 

Esta medida produzio a correspondcncia que V. Ex. 
axará para cjpia; sendo a carta de Bento Gonçalves 
recebida ontem depois das 9 oras da noite, á qual vou 
dar a resposta, que V. Ex. axará ta nbem por cópia. 

Estou persuadido, que se levará algum tempo em doces 
esperanças ; mas que não são elles os que hão de aceitar 
condiçiSes, que deixem de ser ihjuriozas ao império. 



v 



% 



( 



— 271 — 

A única maneira de conciliar bem os partidos é mos* 
trar-lhes força, com que não possão. 
Deus guarde a V. Ex. 

Porto-alegre 21 de Agosto de 1840. 

lUm. Ex. Sr. Francisco de Paula Albuquerque, ministra 
d^estrangeiro dos negócios da guerra. 

Francisco Jozé de Souza Soares de Andréa. 

(Archivo publico) 



21 DE AGOSTO DE 1840 

Inidica os poderes para negoiar a paz 

Illm. Sr. coronel Bento Gonçalves da Silva. 

Recibi ontem á noite á carta de V. S., e á vista do modo 
porqueV.S. se expres8a,cumpre-me dizer-lhe,que nâo tendo 
motivos para saber, si a proclamação de S . M. o Imperador 
seria bem aceita, nSo devia eu também adiantar a mais os 
meos passos, que a communieal-a lealmente a V. S. 

Ella é tSo paternal e tão franca, que me pareceo por 
si só bastante a desafiar qualquer explicação da parte de 
V. S. e dos seos camaradas ; mas pois que V. S. o exige, 
continuarei eu, e darei todos os passos de uma vez. 

Estou autorizado a conceder, desde já, tudo quanto possa 
estar de acordo com a inteligência literal da proclamação 
do imperador ; e que não ofenda de modo algum a onra 
e a dignidade de sua coroa. 

Todos nós sabemos, que a prezente luta não pôde 
acabar pela força das armas, sem que corra ainda muito 
sangue ; e aquelle omen que tiver a dignidade de o evitar^ 
podendo, fará um grande serviço á sua pátria. 

V. S. está em uma poziçfto feliz ; porque é emfim feliz 
a pozição do omem, que pôde fazer um grande 
bem : V. S. pôde pôr termo aos errores doesta guerra 



— 272 — 

civil; e atenuar ou pOr em esquecimento as queixas, 
que os seos patrícios possâo ter pelos males sofridos em 
5 annos de errores, dando este passo generozO; em que 
aliás não sacrifica nem seo caprixo. 

Falando com V. S., falo com t )dos : c Larguem as 
armas ; corrâo aos braços do imperador, que lhes 03 
abrio. » 

V. S. pôde desde já mandar retirar para suas cazas a 
todos os abitantes doesta provincia, na certeza de que serão 
bem recebidos e respeitados : as minhas ordens, ha muito 
tempo, que têem sido dadas n'este sentido. 

N'este cazo teremos necessidade de nos entendermos 
sobre o modo sucessivo de serem enviados os diversos 
grupos aos seos distitros, para que nSo commetâo ex- 
cessos pelos caminhos. 

Avize y. S. aos moradores de Santa-Catarina, e es- 
pecialmente ao reverendo vigário da Enseada, Joaquim da 
Costa, Gaspar Nunes, e Medeiros, que podem recolher-se a 
suas cazas, e que nenhum processo consenti, que se lhes fi- 
zesse. 

A aquellès, que pertencerem ao distrito de Lages, re- 
commende, que se aprezentem primeiramente ao senhor 
prezidente da provincia de Santa-Catarina. 

A todos os soldados de 1.^ linha, que se axarem sem 
armas, ou por terem sido prisioneiros, ou mesmo por simples 
dezerçSo, eu me obrigo a dar-lhes baixa e passagem á custa 
do governo para suas respectivas provincias. 

Finalmente os encravos, que estão sem armas, poden» 
ser entregues a seos senhores, ou comprados á custa da 
nação, que tem muitas obras em que os empregar. 

Além doestas dispozições só me ocorre, que alguns dos 
senhores, que tem figurado n^esta luta com > xefes, queirão 
ali^uma outra couza para sua segurança individual ; e não o 
podendo eu saber declaro, que estarei pronto a anuir a 
tudo, que esteja dentro das condiç5es, que estabeleci. 

Em qualquer cazo ficará como regra para mim conside- 
rar como inimigos do império, aos que se conservarem 
cora as armas na mão, e como amigos aos que se recolherem 
a suas cazas, ou esperarem dezarmados alguma decizão^ 
que lhes convenha. 



— 273 — 

Estimarei, que V. S. axe n^esta minha declaração tanta 
franqueza quanta eu julgo que tenho; e que nem demore 
nem afaste de si a gloria de concorrer grandemente para a 
pacificação doesta bela provincia. 

Sou com respeito de V. S. muito atento venerador. 

Francisco José de Souza Soares d'Andréa. 

Porto-alegre 21 de Agosto de 1840. 

(Archivo publico) 



23 DE AGOSTO DE 1840 

Resposta de Bento Gonçalves sobre a realização da paz. 

Illm. e Exm. Sr. marexal Francisco Jozé de Bouza 

Soares d^Andréa. 

Existe em meo poder a carta de V. Ex. com data de 
21 do corrente, em resposta á minha de 20 do mesmo; e 
como V. Ex. me diz^ que não tendo motivos para saber, 
si a proclamação de S. M. o Imperador seria bem aceita, 
não devia adiantar a mais os seos passos do que em com- 
munical-a lealmente a mim, cumpre-me declarar-lbe, que, 
si V. Ex. tivesse falado ao marexal Mena Barreto, saberia 
d^elle qual a minha opinião a respeito ; pois em uma de 
nossas ultimas conferencias, no tempo do antecessor de 
V. Ex., lhe propuz verbalmente como baze de todo e 
qualquer arranjo a declaração da maioridade do mesmo 
augusto senhor ; e por consequência sendo esta, como foi, 
proclamada, facilitados estão os meios para tratar-se da 
conciliação e da paz • 

Si o povo rio-grandense alevantou-se em massa para 
rezistir á opressão, foi convencido de não poder encontrar 
felicidade sob a influencia de governos excepcionaes, que 
-desconhecião todos os direitos do omen, e violavão todoa 
«os principies de justiça e liberdade. 

TOMO XLVI. PU. 35 



— 274 — 

Agora porém que o joven monarca dirige o timão do 
€stado, teom elles concebido as mais belas esperanças de 
melhoramento, e pensão, com razão, que ha de mudar a 
marxa dos negócios públicos. 

N'esta ipótezo apenas recebi as primeiras proclamações 
do senhor D. Pedro Segundo, aprovei tei-me logo de tão 
favorável ensejo; e procurei entendor-me directamente com 
o governo imperial por intermédio de um dos senhores mi- 
nistros : correspondências minhas n'esse sentido já lhe forfto 
dirigidas ; é de esperar, que mui breve receba resposta ou 
dccizão d'ellas, e então mo persuado, que, sem quebra da 
união e da integridade do império se apagará o arxote da 
guerra civil noá braços da concórdia e da fraternidade, 
para a qual empregarei a minha influencia e popularidade. 

Tudo quanto V. Ex. me afirma na sua carta é mui belo 
de dizer-se ; mas difere muito na pratica. 

Quando depuz as armas na ilha do Fanfa, foi por meio- 
de uma convenção, que me prometia o absoluto esqueci- 
mento do passado ; e o modo por que se cumprio essa 
Sromessa do xefe imperial, aliás garantida por uma carta 
o ex-regento Diogo Feijó, V. Ex. bem o sabe : longo 
tempo gemi com mais alguns xefos nas fortalezas do 
Brazil ; e aquelles que escudados com portarias recebidas 
80 recolherão a suas cazas, forão prezes e processados e 
outros barbaramente assassinados por seus cruéis perse- 
guidores. 

Não ó isto duvidar da boa fó de V. Ex. ; mas esto 
painel, que ainda conservo ante os olhos, me convence, de 

3ue toda a segurança 6 pouca, quando se tratão negócios 
e tanta magnitudo o transcendência : devo por isso exigir 
garantias e concessões taes, que não só infundão a confiança 
no animo dos Rio-grandenses prevenidos, como que os 

fíonhão a coberto de novas violências e tornem a conci- 
iação sincera, verdadeira e durável. 

Entender-mo directamente com o governo imperial, 
em quem soponho suficiente autorização para o efeito, me 
pareceo o meio mais proficuo de xegar a estes fins. 

Isto foi justamente o (;ue fiz por 1* e 2* via : tal é o 
meu empenho em terminar com os errores, que nos. 
afligem. 



— 275 — 

O lE^xm. Sr. ministro do império, a quem V. Ex. pôde 
dirigir-se^ enviando-lhe copla d'esta minha carta, atestará 
sem duvida a veracidade d'esta asserção. 

Falando doeste modo creio, que não posso ter mais 
franqueza^ e nutrir dezejos mais vehementes de concorrer 
para a pacificação da pátria. 

Si V. Ex. pois descobrir algum meio de se evitarem 
entretanto os males doesta luta, emquanto não xega simi- 
Ihante decizão, não duvidarei adotal-o, si for razoável ; do 
contrario obrigado pela força das circunstancias, eu não 
serei responsável nem a Deus nem ao mundo pelo sangue, 
que ainda se derramar. 

Sou com respeito e consideração de V. Ex. atento 
veneradoi. 

Bento Oonçalvea da SUva. 

Setembrina 23 de Agosto de 1840. 

(Archivo publico) 



2Õ DE AGOSTO DE 1840 

Declara rompida a negociação de paz. 

Dlm. Sr. coronel Bento Gonçalves da Silva, 
A' vista da recuza formal, que V. S. faz, de aceitar os 
prontos meios, que lhe ofereci para acabar a guerra fra- 
tricida, em que, a cinco annos é dissolada esta provincia, 
BÓ me cumpre de clarar-lhe, que fica subzistindo o } rin- 
cipio de que são inimigos do imperador do Brazil aquelles 
que desconhecem as suas leis, atacão- as suas instituições, 
e dezobedecem as suas autoridades, conservando-se com as 
armas na mão para melhor continuarem sua criminoza 
conduta. 

Sou de V. S. muito atento e venerador. 

Francisco Jozé de Souza Soares d'Andréa. 
Porto-alegre 25 de Agosto de 1840. 

(Archivo publico) 



— 276 — 

27 DE A(K)STO DE 1840 

Declara ao governo imperial o rezaltado da correspondeecia sobre apas 

mm. e Exm. Sr. 

Eiu continuação do meu ofício de 21 do corrente levo 
ao conhecimento de V. Ex.^ por cópia, a resposta; que 
recebi de Bento Gonçalves era data de 23^ e a que lhe dei 
afinal; com a qual julgo acabada tal correspondência, e 
acabadas as ilzuões. 

Deus guarde a V. Ex, 

Palácio do governo em Porto-alegre 17 de Agosto 
de 1810. 

nim. Exm. Sr. Francisco de Paula Cavalcante de Albu- 
querque, ministro e secretario doestado dos negócios da 
guerra. 

Francisco Jozéde JSouza Soares d'Andréa. 

(Archivo publico) 



11 DE AGOSTO DE 1840. 

O coronel Manoel dos Santos Loureiro communica a proposta 
de conferencia dos rebeldes para a paz 

Illm. e Exm. Sr. Manoel Jorge Rodrigues. 
Estancia de São-Gabriel 11 de Agosto de 1810. 
Meu respeitável general e amigo. 

Junto axará V. Ex. dous originaes e uma copia; corres- 
pondência dos rebeldes ; sobre o que nada posso ainda dizer 
a y. Ex., porque de oje por diante é que poderei ter a 
entrevista com o primeiro . enviado ; e do que ocorrer 
participarei immediatamente. 

Aproveito a ocazião para significar a V, Ex., que sou 
de V. Ex. súbdito muito obrigado. 

Manoel dos Santos Loureiro. 

(Impresso) 




— 277 — 

5 DE AGOSTO DE 1840 

Envia o coronel Afrostinho de Melo a tratar da paz com o 
coronel Manoel dos Santos Loureiro 

Dlm. Sr. 

Dezejando S. Ex., o Sr. vice-prezidente da republica, 
pôr termo aos males, que pezão sobre os Sio-grandenòes 
na luta, que sustentão com o império, tem nomeado ao 
cidadão coronel Agostinho António de Melo, portador doeste, 
para com V. S. acordar nos meios de xegarmos a esse fim. 

Acredite-o pois V. S., certo de que todo arranjo com elle 
celebrado será religiozamente pelo governo cumprido. 

Deus guarde a V. S. 

Secretaria do interior e faze nda, encarregada do expe- 
diente da guerra, em Alegrete 5 de Agosto de 1840. 

nim. Sr. coronel Manoel dos Santos Loureiro, comman- 
dante da coluna imperial. 

Domingos Jozé de Almeida. 

(Impresso) 



5 DE AGOSTO DE 1840 

Missão de Agostinho de Melo junto ao coronel Manoel dos Santos 

Loureiro 

Dlm. Sr. 

Sendo o coronel Manoel dos Santos Loureiro o único 
oficial do império do Brazil , que com onra e dignidade se 
ha portado na guerra, que o mesmo império sustenta contra 
a liberdade e indepen dencia d'esta republica, e mui parti- 
cularmente no tranzito da ultima expedição, que ha feito 
pelo interior d'esto estado, oferecendo por isso na sua 
pessoa a garantia preciza para um arranjo amigável e 
definitivo; S. Ex. o Sr. vice-prezidente da republica in- 
veste a V. S. de plenos poderes para tratar com o refe- 
rido coronel uma suspensão de armas na força do seu 



— 278 — 

mando, pelo tempo somente precizo a maia entrevista nas 
marges do Ibicuhi com qualquer dos membros d'e6te go* 
vemo ; comprometendo-se desde logo o dito coronel a ser o 
medianeiro o onioo garante de todo e qualquer arranjo, que 
se entabolar, e dependa de aprovação do governo imperial. 

S. Ex. o Sr. vice-prezidente da republica, no arranjo 
oferecido, patentêa os sentimentos, que lhe inroirárSo a 
conduta nobre do predito coronel, e o quanto dezeja ver 
terminada a guerra, que nos aflige ; e por isso espera, que 
V. S. se aja n'esta importante commissSo com a gravidade 
o onradez, que lhe é própria. 

Deus gnarde a V. S. 

Secretaria do interior e fazenda, encarregada do expe- 
diente da guerra, em Alegrete õ de Agosto de 1840. 

Domingos Jozé de Almeida • 

Illm. Sr, coronel Agostinho António de Melo. 

(Impresso) 



Õ DE AGOSTO DE 1840 

Garantia de posto oferecida pelos rebeldes 

Retervcub. 

Garante o governo da republica o posto de general da 
mesma, o commando geral da força e policia do município 
de SRo-Francisco de Borja, o pagamento de todos os pre- 
juízos das pessoas, que o têem acompanhado desde o começo 
da revoluçilo. 

Secretaria do interior e fazenda, encarregada do ex* 
pedícnto da guerra, em Alegrete 5 de Agosto de 1840, 

Domingos Jozé d^ Almeida» 

(Impresso) 







— 279 — 

AGOSTO DE 18áO 

Negócios da paz 

Camarada e amigo. 
Setembrina, Agosto de 1840. 

Ontem vos escrevi pelo tenente Manoel Lucas de Lima^ 
tendo antes feito pelo major Urbano Barboza. 

E portador d'esta o major Israel Soares e o capitão 
Santos, 08 quaés verbalmente vos dirSo quanto ocorre por 
cá ; e só cumpre-me assegurar-vos, que nada temos a 
temer ; porque tenho tudo pronto para receber o tirano do 
Pará, si ello ouzar agredir-nos . 

Té oje não recebi a ultima communicaçâo de Soares 
d'Andréa, que, vos disse ontem, esperava ; mas si ouver 
alguma negociação, que nos seja útil, eu serei pronto 
em avizar-vos ; porém duvido, que nada possamos con- 
cluir com Soares d'Andréa. 

Fico ancíozo, torno a repetir, por noticias vossas e doesta 
parte. 

Saudades aos amigos e a meos filhos, e mandão a vosso 
amigo e camarada. 

Bento Gonçalves da SUva, 
(Copia do original) 



25 DE AGOSTO DE 1840 

Negociação de paz 

Setembrina 25 de Agosto de 1 840. 

Camarada e amigo. 

Tendo vindo a esta com o objeto de alguns arrames da 
frente, e ao mesmo tempo por me aver o marexal Gaspar 
Mena solicitado uma entrevista por assim o aver pedido o 
Soares d'Andréa, foi aqui que recebi a vossa de 27 do 
próximo passado, conduzida por nosso amigo Serafim. 



— 280 — 

AlencastrOy o qual xegou ontem na Boa-vista, e para 
onde marxo n'este momento a veivme com elle. Creio, que 
nAo erro em minhas conjecturas acerca de sua missío, e 
podeis crer, que nada pouparia para remover com tempo 
o mah Basta quarentena, e agora só convém energia. 

As negociaçÍ!tos com Soares d'Andréa consistia em 
remeter-me as proclamações do joven imperador, depois 
que tomou as rédeas do governo do Brazil no dia 23 do 
próximo passado mez, e convidar-nos a depor as armas, e 
aceitar o perdSo. 

Eu contestei a estas propoziçSes, dizendo que nada 
tinha a tratar com Soares dAndréa, e que já me tinha 
dirigido ao governo do Brazil por via de seus ministros, os 
Andradas ; o que de facto fiz por 1^ e 2^ via. 

Os oficios da vossa lista alguns já fôrSo, e outros irão 
seguindo, sondo o portador doesta o Barboza, que estava 
justamente a partir. 

Por outro serei mais extenso. 

Nada ha a temer por esta parte ; tudo vae bem, e o 
mesmo dezejo d'essa. 

Saudades aos amigas, etc. 

Vosso invariável amigo 

Bento Gonçalves da Sãva 
(Cópia do original) 



28 DE AGOSTO DE 1840 

NegooiaçOes de paz 

Quartol general na Boa-vista 28 do Agosto de 1840. 

8. Kx. o Sr. general commandante em xefe do exercito, 
julgando qao a franqueza e a publicidade é um dos ele- 
mentos, qiio nos governos livros mspira a confiança, declara 
ao exercito, que com data do 1** rccebeo imi oficio do 
proiídonte o commandante das armas deSanta-Catarina,com- 
munioando-lhe a noticiado ter sido declarado em maioridade 



— 281 — 

S. M. o Imperador do Brazil por um acto emanado da 
assembléa geral, e exhortando-o a aproveitar-so doesto 
venturozo ensejo para entrar em negociações com o marexal 
Soares d'Andréa, delegado do governo imperial em Porto- 
alegre. 

O mesmo prezidente escreveo ao dito marexal n^este 
sentido um outro oficio, pedindo a S. Ex. que fizesse a 
competente remessa ; mas antes d'isto ter lugar foi entregue 
ao mesmo Exm. Sr. por conduto do marexal Mena Barreto 
uma carta particular ao referido Soares d'Andréa, datada 
de 16 do corrente, enviando-lhe simplesmente algumas 
proclamações sua?, e outras que o Sr. D. Pedro Segundo diri- 
gio aos Sio-grandenses para fazer d'ellas o uzo, que axasse 
mais conforme a justiça e ao bem geral. 

S. Ex. respondeu-ihe como convinha, a 20 do pretérito 
mez, remetendo-lhe igualmente o oficio do prezidente de 
Santa-Catarina, e fazendo-lhe sentir, que seo profundo 
silencio sobre uma negociação qualquer, lhe induzia crer, 
que o gabinete atual recuzava tratar comnosco, julgando 
tisdvez esse passo contrario á sua dignidade, seguindo sem 
duvida talvez a mesma politica de seosantecessoies, com 
manifesto prejuizo do bem geral. 

Em consequência doesta carta recebeo S. Ex. outra 
d'aquelle marexal, oferecendo- lhe anistía, convidando-o 
para largar as armas, e fazendo-lhe algumas outras propo- 
zições não só degradantes, mas até destituidas das garantias 
indispensáveis para ter lugar uma verdadeira compoziçâo, 
sendo uma d'ellas a entrega dos libertos, que estão em 
armas, a seus respetivos senhores, ou a compra d'elles 
feita pela nação, para os empregar nas muitas obras, 
que tem, 

A tudo isto contestou- lhe S. Ex., em data de 23 d'este, 
dizendo que ainda tinha na memoria a traição praticada 
pelo governo imperial depois do dezastre da ilha do Fanfa, 
onde, si depôz as armas, foi em virtude de uma convenção^ 
que lho prometia um absoluto esquecimento do passado, 
« que o mundo inteiro sabia a forma porque se avia cum- 
prido similbante convenção ; que por consequência toda a 
segurança era pouca, quando se tratava de negócios de tanta 
magnitude, e transccdencia, e que finalmente, devendo S. Ex. 

TOMO ILVI, P. II. 36 



— 282 — 

exigir garantias e concessões, que infundissem confiança 
no animo dos Rio-grandenses prevenidos os puzessem a 
coberto de novas violências, e tornassem a conciliação sin- 
cera, verdadeira, e durável, tinha-se entendido diretamente 
com o governo imperial, em quem supunha, á vista de 
sua proclamação, suficiente autorização para o efeito. 

S. Ex. declara mais ao exercito, que, dezejando pôr um 
termo â luta fratrecida, que por 5 annos tem ensanguentado 
nossa pátria, inderessou de facto a 20 do corrente suas 
communicações ao governo imperial, por intermédio do 
ministro do império, para tratar-se de uma conciliação on- 
roza e digna de nós. 

S. Ex. espera mui breve receber a resposta, ou decizão 
d'ellas, e quando tenha de entrar em qualquer ajuste, nada 
obrará definitivamente sem consultar primeiro o voto pu- 
blico. 

Em quanto porém isto não sucede é mister redobrar de 
exforços para operarmos com feliz sucesso, porque, si o 
governo doBrazil estiver disposto, como espera S. Ex., a 
entrar em negociações comnosco, quanto mais favorável 
fôr a nossa poziçao, tanto mais vantagens podemos obter 
d^ella ; no cazo oposto, esgotados som fruto todos os recursos 
para obter-se uma conciliação onroza, só nos cumpre sus- 
tentar a guerra com aquella mesma energia e valor, que 
até aqui tem excitado a admiração dos nossos próprios ini- 
migos. 

Ulhóa Cintra, 1* deputado do general e xefe do estado 
maior, encarregado do expediente, 

(Copia autentica] 



30 DE SETEMBRO DE 1840 

Partida de Alvares Maxado para o sul. 

O deputado Francisco Alvares Maxado partio da corte 
para o Rio-grande do sul a 30 de Setembro de 1840, com 
licença para poder vizitar os pontos ocupados pelas forças 
rebeldes. 

(Nota particular) 




— 283 — 



26 DE OUTUBBO DE 1S40 

Kegras para concessão da anistia 

O marexãl de campo prezidente e commandante das 
armas doesta província, abaixo assinado^ estando prevenido 
de que o Exm. Sr. deputado pela provincia de São-Paulo 
Francisco Alvares Maxado vem encarregado em particular 
de aplainar quaesquer dificuldades^que possão ter os rebeldes 
para aceitar a anistia concedida por S. M. o Imperador, e 
tendo recommendaçSes nas suas instruções particulares, 
ultimamente recebidas, para salvar em qualquer ajustes a 
dignidade da coroa imperial, julga do seo dever estabe- 
lecer as regras seguintes : 

Todos os individues involvidos na rebeliSo, quaesquer 
que sejão os seos crimes commetidos em actos da mesma re- 
belião, ou por motivos d'ella, podem voltar ás suas cazas, 
permanecerem n^ellas em paz, sem que autoridade alguma 
os possa inquietar p )r seos crimes. 

Os que tivessem postos no exercito, ou empregos públicos 
ficarás no gozo dos mesmos postos, e ordenados dos em- 
pregos, percebendo os seos soldos e ditos ordenados desde 
o dia que se aprezentarem, ainda que não possão entrar no 
exercicio de suas commissões ou empregos por estarem 
dados a outro ^ 

Não se reconhecem de modo algum postos ou empregos 
adquiridos entre a administração dos rebeldes, e em geral 
não se reconhecem sinão os postos e empregos 1 galmente 
adquiridos antes da rebelião. 

A todos que quizerem sahir doesta provincia para outra 
qualquer do império, compromete-sj o governo a dar pas- 
sagens a elles e suas familias, e a dar-lhes guias para 
averem os seos soldos, e ordenados, a que tenhão direito, 
nas províncias para onde fôrem. 

Não estando compreendidos no perdão concedido aos de- 
zertores de 1^ e 2^ dezerçSes simples os que têem dezertado 
para as fileiras dos rebeldes, o marexal toma sobre si 
julgar dezerção não complicada a 1' e 2^ dez rçSes, ainda 
sendo com armas ^e para os rebeldes, uma vez que nenhum 
outro crime anterior tenha agravado o acto da dezerçSo, e 



— 284 — 

em consequência reputa perdoados a todos os quen'estas cir^ 
cunstancias estiverem servindo entre os rebeldes. 

Todos os escravos, que se axarem oje servindo nas fileiras 
dos rebeldes, não voltará5 mais ao poder de seos senhores, 
e serão comprados pelo govemO| e divididos pelas diversas 
províncias, para serem empregados nos arsenaes, segundo 
seos ofícios, recebendo a ração diária, segundo as etapes do 
exercito, menos a ração de aguardente, e 30 réis diários 
para vestuário. 

A aquelles que preferirem voltar á costa d'Africa serão 
para ali mandados á custa do governo, e lá postos em liber- 
dade, com a pena de tomarem a ser escravos da nação, si 
voltarem ao Brazil. 

Sendo estas condições o mais amplo possivel, sem ofensa 
da dignidade e integridade do império, o não estando o 
governo de S. M. inabilitado para acabar a rebelião pela 
força das aririas, deve entt nder-se, que tudo quanto se con- 
cede é um ato de generozidade e clemência, precizo unica- 
mente aos que têem tido a desgraça de fazer guerra a sua 
mesma pátria. 

Para clareza reciproca fôrão feitas duas declarações 
iguaes, que também assina o Exm. Sr. Francisco Alvares 
Maxado. 

Palácio do governo em Porto-alegre 26 de Outubro 
de 1840. 

Francisco José de Souza Soares cfAndréa. 
Francisco Alvares Maxado. 

(Cópia do original) 



29 DE OUTUBRO DE 1840 

Álvares Maxado, depois de xegar a Viamão^ aprezenta as exigências 

de Bento Gonçalves 

Em 29 de Outubro de 1840, Alvares Maxado dizia a 
Soares d'Andréa, escrevendo de Viam^o : 

Que fôra bem recebido pelos rebeldes, que esperavSo 



— 285 — 

resposta do ministro do império^ para rezolver definitiva- 
mente sobre a paz, e todos dezejavão render-se ao impe- 
rador. 

Que Bento Gonçalves perlia a suspensão de ostilidades 
para melhor poder tratar-se da pacificação. 

Que o mesmo Bento Gonçalves dizia, que, avendo dous 
exércitos entre os rebeldes, convinha ouvir a António 
Neto, e ao governo dissidente, para mandar uma commis- 
são para o bom êxito do acordo, sendo necessário salvo 
conoucto, para virem António Neto e a commissão confe- 
renciar em Viamão. 

Que Bento Gonçalves esperava, que Soares d'Andréa, 
cumprindo a anístia, desse liberdade a todos os prezos po- 
líticos, ora existentes no Rio-grande e Porto-alegre, porque 
elle faria o mesmo com os prizioneiros da legalidade. 

(Extrato do original) 



30 DE OUTUBRO DE 1840 



Resposta de Soares d'Andréa. 



Soares d'Andréa, respondendo a Alvares Maxado, em 
30 de Outubro de 1840, dizia : 

Que não trataria com os rebeldes para suspensão de ar- 
mas, emquanto estes estivessem com as armas na mão. 

Que a 15 de Novembro expirava o prazo concedido pelo 
decreto de anistia para os rebeldes se aprezentarem. 

Que ia o salvo conduto para Bento Gonçalves mandar a 
António Neto e a José Mariano, e salvo conducto para qae 
estes outros delegados possão vir a Viamão. 

Que o salvo conduto prevaleceria até 15 de Novembro» 

Que António Neto estava no Saican. 

(Extrato do original) 



~ 286 - 



8 DE NOVEMBRO DE 18áO 



António Neto pede maior prazo para tralar da anistia 

Em 8 de Novembro de 1840, António Neto escreve a 
Bento Gonçalves de Pirahi, dizendo : 

Que recebera o oficio de 30 de Outubro p. passado. 

Que ia ter com as forças de João António, onde se axava 
o governo da republica, e d 'onde seria expedida a com- 
missâo para Yiamâo. 

Que nâo xegaria a tempo ; pelo que era necessário au- 
mento de prazo (além de lõ de Novembro) si o governo 
imperial queria sinceramente a paz, que elJe António Neto 
sinceramente dezejava. 

(Extrato de copia autentica) 



15 DE NOVEMBRO DK 1840 

Gommunica a resposta de António Neíto 

Illm. e Exra. Sr. Francisco Alvares Maxado. 

N'este momento acabo de receber a participação do ge- 
neral António Neto, que por copia envio ; à vista d'ella 
V. Ex. obrará como julgar mais conforme com o bem 
geral, si lhe for isso possível, fazendo-mo avizo de qual- 
quer rezoluçao, que tome a respeito. 

Aproveito a oportunidade para reiterar os votos de consi- 
deração e estima, com que sou de V. Ex. o mais respei- 
tador, venerador e criado. 

Bento Gonçalves da Silva, 

Nota bene. Não tein data ; mas a participação de António 
Neto xegou no dia 14 de Novembro, no dia lõ recebi o 
ofício supra. 

Esta nota é da letra de Francisco Alvares Maxado. 

(Archivo publico) 



— 287 — 



17 DE NOVEMBRO DE 1840 

Pedido de salvoconduto e de aamento do prazo 

Bento Gonçalves, escrevendo da Setembrina a Fran- 
cisco Alvares Maxado em 17 de Novembro dizia : 

Que como Soares de Andréa estava pronto a dar o salvo 
conduto aos membros da commissão, o mandasse pelo por- 
tador, bem como salvo conduto para o tenente coronel Ma* 
noel Ribeiro de Moraes, e mais dous companheiros para 
irem com oficies para António Neto. 

Que o prazo do salvoconduto devia ser razoável, atenta 
a distancia para ida e vinda. 

Concluia n^estes termos : 

Logo que xegue a indicada commissão, e que sejamos 
de acordo, como espero, duvida nenhuma tenho em fazer a 
declaração de que nos axamos reunidos ao império, e como 
súbditos do Sr. D. Pedro Segundo ; antes d 'isso e sem 
ouvir primeiro a commissão, seria esse um passo falso, que 
não meconvem dar; mas fique V. Ex. certo, que em- 
pregarei todos os meos esforços para remover qualquer 
embaraço, que por ventura se aprezente. 

(Copia autentica) 



18 DE NOVEMBRO DE 1840. 



Salvo conduto 



Pelii prezente dou permissão a Manoel Ribeiro de Mo- 
raes, pessoa oje dissidente do governo de S. M. o Imperador, 
para seguir por via d'esta cidade e mais duas pessoas de 
sua comitiva até onde se axarem António Neto e Jozé Ma- 
riano do Matos, e dou permissão a mais duas pessoas e seus 
criados, que venhâo da parte doestes até á capela de Via- 
mão, podendo seguir o caminho, que lhes convier, apre- 
zentando-se sempre ás autoridades legaes, que existirem 
noslogares, por onde tranzitarem. 



— 288 — 

Este salvo conduto terá valia por tempo de 20 dias con- 
tados da pressente data. 

Porto-alegro 18 do Novembro de 1840. 

Francisco Jozé de Souza Soares d^Andréãm 

(Copia autentica) 



30 DE OUTUBRO DE 1840 

AWares Maxado na Setembrina 
Setembrina 30 de Outubro de 1840. 

Camarada e amigo. 

Por meu filho recebi vossas ultimas comunicações^ e 
fico certo de tudo quanto mo dizeis sobre essa parte, o que 
muito me satisfez. 

O compadre Azambuja é portador d'esta, e dos oficios, 
que a vós, e ao governo dirijo acerca da estada n'eBte 
lugar do deputado Alvares Maxado, para tratar da con- 
ciliação e da paz. 

Esse deputado é ornem de conhecida probidade ; e os me- 
lhores dezejos lhe assistem para tudo se concluir para evi- 
tar o efiizão de sangue. 

O compadre Azambuja vos dirá de viva voz quanto 
omito pela pressa ; elle merece nossa confiança, e o deveis 
acreditar ; e por elle espero a vossa pronta resposta. 

Nada temos por aqui de novo. 

Saudades aos amigos, e mandai ao vosso amigo cama- 
rada fiel. 

Bento Gonçalves da Silva. 

(Copia do original) 



\ 



— 289 — 

19 DE NOVEMBRO DE 1840 

Negociações de paz : Bento Gonçalves pede ao Yíce-prezidente da 

republica um commissario 

lUm. e Exm. Sr. 

Como o marexal Soares d^Andróa concedeo novo salvo 
conduto para vir o commissario^ que pedi a V. Ex. no- 
measse, afim de conjuntamente com o que deve ser por 
parte do general António Neto, e os que serão nomeados 
n'este ponto, estabelecerem as bazes, sobre as quaes nos 
devemos reunir ao império e fazer outra vez parte da 
communhao brazileira, convém que a V, Ex., sem perda 
de tempo, o faça seguir para esto ponto competentemente 
autorizado para esse fim devendo, achar-se aqui impreteri- 
velmente até o dia 7 de Dezembro próximo futuro, como 
verá do referido salvoconduto, de que é portador o tenente- 
coronel Manoel Ribeiro de Moraes. 

Deos guarde a V. Ex. 

Quartel-general na vila Setembrina 19 de Novembro de 
1840. 

Ao cidadão Jozé Mariano de Matos, vice-prezidente da 
republica rio-grandense. 

Bento Oonçalvea da SUva. 
(Cópia do original) 



28 DE NOVEMBRO DE 1840 

Negociações de paz : o vice-prezidente da republica manda o seo 

commisâario ter com António Neto 

Pelas 9 oras da noite de ontem para oje, recebeo S. Ex., 
o Sr. vice-prezidente da republica, em caza do ci- 
dadão Manoel Rodrigues Barboza o oficio, por cópia 
induzo, a elle enderessado pelo Exm. general, comman* 
dante em xefe do exercito, em 19 do corrente, e não po- 
dendo o mesmo Exm. Sr. vice-prezidente contestal-o devi- 
damente, sem que de algumas circunstancias tendentes á 

TOMO ZLVI. P. II. 87 



— 290 — 

8ua matéria seja informado, determina^ que a este ponto, e 
sem demora, se dirija o cidadão coronel Manoel Ribeiro do 
Moraes ; e outrosim que V. Ex. lhe communique, quaes 
as bazes, em que deve assentar as instruções a dar ao com- 
missario reclamado, visto não sobrar tempo para a tal res- 
peito consultar as camarás municipaes, procuradores geraes, 
oficiaes e cidadãos da divizão da direita, como cumpria. 

Todas as communicaçSes acerca das propozições feitas 
pelo governo imperial, para a nossa reconciliação com 
a nação brazileira, são tão ambiguas, que faz supor sinis- 
tras intenções da parte de alguém, ou vontade de surpreen- 
der a bôa fé do governo da republica ; o que posto, o. Ex. 
o Sr. vice-prezidente está deliberado a enviar o commissario 
exigido, afím de se lhe não imputar em tempo algum os 
eventos a seguir-se, e é para isso, que dezeja o parecer de 
Vf Ex. acerca das bazes das instruções, de que trato 
acima. 

Deos guarde a V. Ex. 

Secretaria do interior e fazenda, encarregada do expe- 
diente da guerra, em Piratinin 28 de Novembro de 1840. 

lUm. e Exm. Sr. general António Neto, xefe do estado- 
maior do exercito. 

Domingos Jozé d^ Almeida. 
(Cópia do original) 



3 DE OUTUBRO 1840 

Estado militar da província 

[RtM«rvado) 

lUm. e Exm. Sr. 

Ponho nas mãos de V. Ex. o mapa das forças de terra 
empregadas n'esta proviucia, referido ao ultimo do mez do 
Agosto d'este anno com todas as explicações, que me pa- 
receu a propozito dar. 



— 291 — 

De 7.979 praças^ a que monta todo o efectivo, podemos 
contar somente com 6.500 sobre parada : todas as mais são 
doentes ou praças em outros destinos. 

Si contarmos a nossa força pelo mapa, e a compararmos 
com a dos rebeldes, nenhuma duvida na, que estamos supe- 
riores ; e n^este cazo não faltará quem pergunte a razão, 
porque não são batidos os rebeldes, e mais ainda porque 
quero eu mais 2.000 omens de infantaria ? 

A provincia do Rio-grande si não é toda de rebeldes, 
pois que na verdade a maior parte de seus abitantes o não 
são, está com tudo muito xeiad^elles; e tem muitos omens, 
que por mais legaes que sejão, não se atrevem a abandonar 
os seus bens, e suas familias á rapina e fúria dos primeiros ; 
nem descobrem da part<3 do governo aquelle dezenrolamento 
de medidas activas, ou de força, que lhes prometa segu- 
rança duradoura, ou pelo menos vingança de suas afrontas. 

N^este duro estado ficão em suas cazas ; e sendo depois 
forçados a pegar em armas, tomão-se rebeldes , sinão por 
sentimentos, ao menos pelos efeitos. 

Os rebeldes, e em geral os malvados de todos os tipos 
e legares são activos; e os omens probos e mansos sãopaci- 
ficos. Um rebelde com prestigio, ainda que se aprezente só 
em um distrito xamã em poucos dias alguns outros ao seu 
partido, e em passando de seis, vão obrigando todos os outros 
a um a um ; e quem nSo quer ser fuzilado, ou ver a sua caza 
roubada e insultada por todos os modos, faz-se farrapo. 

Não ha por tanto remédio na pozição de oje, sinão ocupar 
sempre com alguma força os distritos, onde uma vez xe- 
g&rão as nossas tropas ; pois que abandonal-os de todo, 
se pareceria com uma derrota, e não se devem sacrificar 
aquelles que se têem mostrado legaes na auzencia dos re- 
beldes. 

Bento Gonçalves está com uma força de mais de 2.000 
omens de bôa cavalaria, e com o resto para 3.000 omens, 
que todos os cálculos lhes dão, de infantaria e artilharia. 

Com esta força na bela pozição, que tomou, corta a 
communicação entre esta provincia e as de São-Paulo e 
Santa-Catarina, e obri^ o prezidente de Santa-Catarina 
a ter uma bôa esquadrilha na Laguna, e uma força de 
1.000 omens, pouco mais ou menos, além de 600 omens 



— 292 — 

bons da guarda nacional da mesma vila, cobrindo aquela 
poziçSo ; 

Ao general Pedro Labatut a conservar-se na defensiva 
com 1.600 omens de todas as armas ; 

Ao major Rodrigo da Silva a servir de comandante dos 
postos avançados da Laguna com 200 omens ; 

Ao major Jozé Ignacio da Silva Ourives a conservar-se 
embrenhado com mais de 300 omens (que se pagão para 
se não fazerem /arrapos ) pelas abas da serra^ nas imme- 
diaçSes de Santo- António ; 

Ao general do Rio-grande a guarnecer a linha da Ta- 
quari com 2.573 omens^ que a não podem defender, em 
abaixando as aguas ; a guarnecer a capital com 1.0S7» 
bastantes para defenderem a trinxeira na razão de 1 para 3; 
e a guarnecer São-Jozé do Norte com 702 omens ; de 
modo que 3.000 omens de Bento Gonçalves conservSo 
paralizados para mais de 7.962, e imia bòa esquadrilha, 
que, si se viesse unir aqui á outra, não sobejava. 

E por isto, que eu instei, que se formasse na Laguna 
um corpo de 4 a 5.000 omens, e que marxasse unido, e 
batesse ou podesse bater os rebeldes na pozição, em que 
se axão. 

Agora já é tarde, e jà o dice. 

Pelo que pertence ao resto das nossas forças, são todas 
de cavalaria, e são da guarda nacional. 

Manoel dos Santos Loureiro, que deve ter perto de 900 
omens, os melhores de toda a força, e que devia ter a 
melhor cavalhada, para ter entrada em MissSes em tempo 
de a recrutar, não pôde nem deve sahir d'aquelle distrito 
sem deixar guarnecido com 200 a 300 omens bem co- 
mandados, e a poucos dias me deu parte que se não podia 
mover para lado algum por falta de cavalos. 

Jerónimo Jacinto com as suas 300 praças não deve sahir 
de São-Gabriel, ou suas immediações, não só para cobrir o 
distrito como para, de combinação com o coronel Manoel 
dos Santos Loureiro, quando este poder marxar, atacarem a 
João António e Jacinto Guedes, que se axão no distrito de 
Alegrete com muito mais de 600 omens, que terão de au- 
mentar, em fazendo recolher as licenças. 

Não devo portanto contar para outras operaçSes nem 



N 



— 293 — 

com os 300 omens de Jerónimo Jacinto^ nem com os 600 ou 
700 Manoel Loureiro^ que devem ocupar-se com aqaelles 
dous xefes. 

Medeiros Costa^ ou por elle o tenente coroneIJoSo 
Propicio com os seus 620 omens nSo deve sahir da Ca- 
xoeira sem a deixar guarnecida^ e o seu distrito^ nem sa- 
hir, emquanto Jerónimo Jacinto e Manoel Loureiro tiverem 
um inimigo em frente, não só para lhe servir de suporte^ 
como para proteger uma retirada, si ella for preciza. 

O tenente coronel Andrade Neves com os seus 216 
omens considera-se unido ao exercito. 

Silva Tavares com os seus 524 omens, parte dos quaes 
não marxão, guarnecem a linha de São-6onçalo, e deve em- 
pregar-se em procurar António Neto, que é oje julgado 
com mais de 400 omens, e si o bater poderá mandar !?00 
omens, pouco mais ou menos, a unir ao exercito ; e por 
consequência a linha do Taquari nâo pôde ser reforçada 
em cazo ordinário com mais dó 400 omens de cavalaria ; 

Sorque toda a outra, que temos, emquanto António Neto e 
oâo António não forem batidos, nâo pôde de modo nenhum 
abandonar a campanha. 

Julgo, que tenho mostrado claramente a razão, por que a 
superioridade das nossas forças dezaparece ; e a por que 
julgo precizo ainda um aumento de 2.000 omens de in- 
fantaria ; e não peço cavalaria, porque essa gente, que na 
corte e nas outras províncias vestem fardas de cavalaria, 
só podem ser úteis nas grandes paradas. 

Ainda vindo os 2.000 omens de infantaria, não é a força 
bobeja, e só vindo também a barca de vapor é, que se po- 
derá ganhar vantagem pela rapidez e certeza dos movi- 
mentos. 

Este oficio patentêa um pouco o nosso máio estado, e 

lhe ponho o titulo de rezervadoy para que V. Ex. o trate 

assim, e não xegue ás m&os de um individuo, que, se diz 

aqui, dorme na secretaria, e mostra tudo a quem o dezeja. 

Deus guarde a V. Ex. 

Palácio do governo em Porto-alegre 3 de Outubro de 
1840. 

lUm. e Exm. Sr. Francisco de Paula Cavalcante 



_ 294 — 

d'Albuquerque^ ministro e Becretarío doestado dos negócios 
da gaerra. 

Francisco Joté de Souza Soare» d'Andréa. 

(Archivo publico) 



i2 DE OUTUBRO 1840 

Estado da província e pedido de auxílios 
nim. 6 Exm. Sr. 

A campanha está ocupada, parte pela nossa cavalaria, 
e parte pela cavalaria dos rebeldes^ que contSo em toda ella 
mais de 1.500 omens sobre armas. 

Eu retirando a cavalaria perco toda a campanha, des- 
acredito as nossas forças, e dou aos rebeldes um campo livre 
para se ajuntarem sobre toda a retaguarda do nosso exer- 
cito. 

Por este quadro pôde V. Ex, possuir-se do risco, em que 
está a província, e dar em consequência as providencias» 
que o cazo pede. 

Nada de iluzSes ; esta província nSo se salva sinão por 
meio de força, e de pressa ; quando não, teremos de sus- 
tentar a campanha contra a Cisplatina ; porque Fioituozo 
Rivera principia já a dar proteção mais decididamente aos 
rebeldes, e quando vir, que elles vão a peior, e que os 
nossos meios são insuficientes, não deixará de os ajudar 
abertamente com alguma condição vantajoza sobre limites ; 
e si nós não podemos com um, monos poderemos com dous. 

Mande V. Ex. pelo menos mais 2.000 omens de infiein- 
taria; mande-me esses oficiaes, que estão pela corte e pelas 
províncias ganhando postos sem se incommodarem, e man- 
de-me as barcas de vapor, que tenho pedido, e mande tudo 
depressa ; e si nada d isso tem de vir, e a província tem da 



\ 



— 295 — 

ser perdida, então peço, que se deixe esta tarefa a outro, e 
não seja eu quem a enterre. 
Deus guarde a V. Ex, 

Porto-alegre 12 de Outubro de 1840. 

lUm. e Exm. Sr. Francisco de Paula Cavalcante de 
Albuquerque, ministro e secretario de estado dos negócios 
da guerra. 

Francisco Jozé de Souza Soares d^Andréa. 

(Archivo publico) 



15 DE OUTUBRO DE 1840 
João Lourenço batido nas cabeceiras do arroio Rolantinho. 

Quartel general na vila Setembrina 15 de Outubro 
de 1840. 

Ordem do dia n. 15. 

S. Ex., o Sr. general comandante em xefe, faz publico 
ao exercito, que no dia 15 do regente mez fôra batido nas 
cabeceiras do arroio Rolantinho, por uma força ao mando do 
major o Sr. Jozé da Silva Ramos Ansão, o facinorozo JoSto 
Lourenço, que acompanhado de onze comparsas, existia 
n'aquelle ponto exercitando suas execrandas e costumadas 
ostilidades, rezultando ficarem em nosso poder prisioneiros 
o secretario do predito João Lourenço, Francisco Pinheiro, 
um sargento, três soldados, e um preto, montando todos ao 
numero de sete, evadindo-se em precipitada fuga o referido 
João Lourenço, e mais três da sua quadrilha, ficando no 
campo algumas armas de cavalaria, oje existentes em nosso 
poder. 

O mesmo Sr. major Ramos AnsSo conserva sob vigilante 
custodia, além dos citados prizioneiros, alguns outros indi- 
vidues, que por inimigos dia cauza têem sido apreendidos 
em diversos pontos d'aquellas imediaçSes. 

Ulhôa Cintra, 1* deputado do general» 
xefe do estado-maior. 

(Cópia do original) 



— 296 — 
1840 

Destroço de uma força rebelde 

Ulm. Sr. 

Oje ás quatro oras da tarde fomos batidos por Silva Ta- 
vares^ que com mais de 500 omens nos perseguia^ quando 
pretendíamos fazer junção com V. S., para onde nos enca- 
minhamos. 

Nossa força era de 120 a ISO omens, e por mal montados 
nos alcançarão. 

Toda esta marxa, que fizemos, foi inteiramente contra 
minha opinião ; porém como soldado me sacrifico a tudo. 

Não posso dar o detalhe d'este acontecimento; porque, 
avendo ganhado o mato a maior parte da gente, não sei 
quantos serião os mortos e prizioneiros. 

O tenente coronel Florentino não sei si escapou, ou foi 
morto, ou prizioneiro. 

O inimigo marxa e procura a V. 8., pelo que se deve pre- 
zumir, e julgo bom, que V. 8. tome o rumo do Candiota 
em ultimo cazo. 

Deos guarde a V. S. 

Cidade de Piratinin lá ás 10 da noite (*) de 1840. 

Ao Cidadão tenente coronel Camilo dos Santos Campelo. 

Manoel Antunes da Porduncula. 
(Cópia do original) 



(^} Não declara o mez. 



— 297 — 

§ 10 
PREZIDENCIA DE FRANCISCO ALVARES MAXADO 

9 DE NOVEMBRO DE 1840 

Pedro Labatut marxa de Lages á Serra» e depois a Passo-fundo 

O 8r. general Pedro Labatut avia xegado á sua poziçâo 
(na Serra?) com uma penoza marxa, de Lages, de mais 
de dous mezes, e teve logo de fazer uma retirada de mais 
de ÕO leguaS; que efectuou em 18 dias, até o Passo-fundo, 
em que prestou importantíssimo serviço . . . 

Em 9 de Novembro de 1840, Pedro Labatut oficiava 
ao prezidente (das bocas da Serra de São Francisco de 
Paula), dizendo que os rebeldes pretendião subir a Serra 
com 2.000 omens para batel-o, e pedindo que lhe mandasse 
600 omens, visto ser grande a força que guarnece o 
Taquari. 

O Sr. Pedro Labatut desde principio de Novembro (1840) 
tinha tido ordem para retirar-se sobre o Passo-fundo, onde 
o Sr. Soares d'Andréa lhe ordenou, que fizesse alto, porque 
ali o socorreria com forças sobejas, que lhe mandaria por 
Butucarahi ; mas a idéa doeste retorço deixou-a o Sr. Soares 
d^Andréa, quando se auzentou (para o Rio-grande) depen- 
dente das noticias, que se ouvesse de adquirir por um 
reconhecimento sobre Viamão, e esse reconhecimento tam- 
bém dependente dà ipóteze do tenente-coronel Francisco 
Pedro vir de outra erapreza, em que estava empenhado, 
para o efectuar. 

(OperaçSes do Passo-fundo, pag. 7, 8 e 29) 



DEZEMBRO DE 1840 

fieflexões sobre a retirada de Pedro Labatut do Pasi^o-rundo 

A divizâo paulistana, com o reforço recebido, já tinha 
regressado para o LagoSo, e três dias depois de escrever 

TOMO ZLYI, P. IX. 3S 



— 298 — 

este oficio {*), o mesmo Sr. João PaulO; sem esperar mais 
noticias d'ella e do inimigO; sem esperar a certeza de estar 
David Canabarro^ ou não, no Passo-fundo, o que elle nao 
julgava possivel; confirmou este procedimento^ que xamã 
extraordinário, mandando que toda aquella força voltasse 
outra vez do Lagoâo, ou d^onde se axasse, e decesse a 
Serra. 

Si o fez, porque soube, que David Canabarro já estava no 
Passo-fundo, justificadissimo ficava o procedimento do 
Sr. Pedro Labatut, que não podia ali esperai- o, sem encon- 
trar o reforço prometido, nem noticias d'elle; si o fez, 
porque entendeo, que, ainda que David Canabarro ali nSo 
tivesse xegado, a divizSo de São-Paulo com o reforço 
recebido, no estado em que todos estavSo, não podia 
conservar-se sobre a Serra, mais justificou a retirada, que 
o Sr» Pedro Labatut fez no Passo-fundo, sem ter recebido o 
reforço e a deliberação do conselho do dia 2i de Dezembro, 
que aliás já estava sem efeito pela efectiva contra-marxa 
para o Lagoão. 

(Operações do Passo-fundo, pag. 55) 



1840 

Força com que Torça David Canabarro parte de Viamão; forca legal 

na campanha 

David Canabarro subio a Serra com 1.600 a 1.800 omens, 
e Bento Gonçalves ficou com ÕOO omens (em Viamlo) para 
cobrir-lhe a marxa e fazer firente á expedição, que foi fazer 
o reconhecimento sobre Viamão em 24 de Novembro (1840). 

A S* brigada de cavalaria do coronel ilanoel LonreirO| 
e a 4* do coronel Jerónimo Jacinto, que fôrão deixadas na 
campanha, esta para ser batida, como foi, por António 
Neto em Novembro, e aquella subdividir, deixando em Miai» 
aSes um corpo commandado pelo tenente-coronel José doa 
Santos Loureiro, para ser batido, como foi, pelo coronel 
Jacinto Guedes. 



(*) Oficio de Joio Panio de 31 de Deiembro de 1810. 



V 




V^ 




— 299 — 

A força d'«8te município d'Ãlegrete consta de 600 e 
mais omeiu, « Ãntooio Neto ae axa nos imiuediaçSea de 
S3o-Gabriel com uma outra força pouco menor ; «, á vista 
d'Í6to, não posso deixar n'eBte municipio força respeitável, 
e somente deixarei um bom oficial com uma pequena 
força de observação. (OBcio do coronel Manoel dos Santos 
Loureiro de 30 de Setembro de 1810) 

{Operaç5eB do Paaso-íundo, pag. 4, 5 e 30 



SETEHBBO DE 1840 
Forfa legal. 
Mapa da força disponível do exercito em Setembro de 
1840, para um ataque aos rebeldes no Viamilo. 
Na linha do Taquari, 1* e 2* brigada 
de infantaria, e 5* corpo de guardas 
nacionaes, e 2* e 3" regimentos de 

cavalaria. 2.573 

Corpo de cavalaria em Rio-pardo 216 

2* brigada de cavalaria na Caxoeira... 620 

Em Poito-alegre, diversos corpos 1.282 

Força ao mando do major Silva Ou- 
rives 200 

4.891 
Forga disponível, que fica em outroa pontos. 
à margem direita do SSo-Qonçalo, 1* 

brigada de cavalaria 524 

Na cidade do Rio-grande 77 

Na vila do Norte 317 

Na campanha, 3' brigada de Manoel 

Loureiro 701 

Na campanha, 4* brigada de Jerónimo 

Jacinto na Serra 400 

Força de Rodrigo da Silva lõO 



2.K 



,J 



— 300 — 

Da linha de São-Gonçalo podiâo vir 100 omenB de cav^a- 
laria, e do Norte 100 de infantaria, para elevar a força 
atacante a 5.091 praças, mandando avançar para Rio-pardo 
a 3^ e á^ brigada para cobrir d^ali a sua retaguarda com 
1100 praças contra as forças de António KetOi que an» 
davão na campanha. 

(Operações do Passo-fundo, pag, 25 e 26) 



22 JUNHO )^E 1841 

Plano de Soares d*Andréa sobre os rebeldes em 1840. 

«O Sr. Soares d'Andréa.., Quando estava em Santa-Ca- 
tarina, e me constou, que o plano adotado pelo Sr. Manoel 
Jorge, não sei si de combinação como o então prezidente 
d^aquella provinda^ era xamar os rebeldes todos para a 
capela de Viamâo e os incurralar n'esta poziçào para os 
bater, quando viesse, pareceu-me, que este plano ia não 
conforme convinha, ou em bôa regra, e n'essa ocaziSo escrevi 
ao governo, dizendo-lbe que me parecia mais natural^ que 
se conservassem as communicaçòes francas entre Porto- 
alegre, Santa-Catarina e Sào-Paulo, colocando uma força 
no Mato-castelhano, e pondo uma guai*niç<^o suficiente, oa 
no rio Cahi, ou no Taquari, ou no Jacuhi, além da Ca- 
xoeira^ conforme as forças, que ouvessem. Doeste modo 
tínhamos todo o litoral desde o Norte até a Laguna, e até 
esses rios, bem como pela Vacaria até a fronteira de 
São-Paulo, livre das incursões dos rebeldes, e nós senhores 
de todos os recursos d' este grande terreno para forneci- 
mento de Porto-alegre, e para depozito de cavalhadas, e 
emfim, sendo a nossa baze de operações. 

Apezar de ser esta a minha opinião, quando tomei conta 
do exercito, axei Bento Gonçalves com uma força de 3.000 
omens, pouco mais ou menos, na capela de Viamão, e o go* 
vemo da intitulada republica em Alegrete, e pela cam- 
panha próxima João António, António Neto e outros, com 
couzade 1.500 omens, além de algumas pai*tidas volantes 
por outros legares. 



— 301 — 

Fiz todos os esforços para seguir este plano, e conser- 
var as forças de Bento Gonçalves, fexadas no districto, 
em que se axavão, embora custasse isto o emprego de uma 
força enorme, porque era precizo ter uma força capaz de 
lhe rezistir em cada um dos pontos que o cercavâo. 

Com esta dispoziçSio ficava livre, ou procurava o go- 
verno da suposta republica, e as forças de António Neto, 
João António e outros, que estavão pela campanha, dei- 
xando para depois as forças de Bento Gonçalves, ou pro- 
curar logo entas, e deixar as outras para depois. 

Para este fim, eu tinha já desde Santa -Catarina, como 
estava de acordo, dado ordem a Pedro Labatut para que 
avançasse até São-Francisco de cima da Serra, como veio a 
a fazer ; e assim os rebeldes terião de não tentar este ca- 
minho, si Pedro Labatut se julgasse com forças sufici- 
entes para lhes disputar a sahida da Serra, e ficarião re- 
duzidos a se conservarem inativos, ou a forçarem a pas- 
sagem do Taquari, ou a do Cahi, segundo a pozição das 
nossas forças.» 

Discurso proferido na camará dos deputados em sessão de 
22 Junho de 1841 pelo marexal Soares d'Andréa. 

(Operações do passo fundo, pag. 56) 



NOVEMBRO DE 1840 

Força rebelde do lado de ViamSo em Novembro de 1840 

Infant. Cavalar, Artilhar» 
David Canabarro: 

Bôa-vista 300 4Õ0 20 

Quilombo 20 

Com Jozé Garibaldi 50 

Domingos Crecencio (em San- 
to-Ántonio) : 
Os dous corpos de linha 300 

350 770 20 



— 302 — 

Infant. Cavalar. Artilhar» 

Transporte... 350 770 20 

Os dons batalhões.... 400 20 

Com Manoel Lucas 300 

Joaquim Aranha 100 

Brigada de Marcelino do Carmo. 200 

Dita de Joaquim Pedro 200 

750 1.570 40 

Oabrid d' Araújo Silva, deputado do 

ajudante general. 
(Operações do Passo-fundo pag, 25) 



19 DE NOVEMBRO DE 1840 

Certeza da sabida de David Canabarro de Viamão; forças legues 

para perseguir bento Gonçalves. 

Desde que no dia 19 de Novembro se teve aqui (Porto- 
alegre), certeza de ter David Canabarro subido a Serra, 
ficando Bento Gonçalves com o resto da força em ViamSio, 
como se sabia, vio-se a conveniência de atacar a este com 
forças capazes de o perseguirem e destruírem completa- 
mente. 

O Sr. JoSo Paulo, depois que recebeo, em 5 de Dezem- 
bro, as noticias de que trata o seu oficio (copia n. 20), que 
David Canabarro desde 26 de Novembro estava na Va- 
caria, e que Bento Gonçalves se dispunha a levantar o 
sitio e a seguil-o, determinou, que de novo marxassem as 
forças a atacar a este. 

Com efeito a 10 alguns corpos passarão o Gravatahi 
para o lado de Viamão. 

Bento Gonçalves, que ja estava na Boa- vista, nSo pôde 
então subir pela estrada de Santo-Ãntonio, por onde su- 
bira David Canabarro, nem pelas Tres-forquilhas, mas 
pôde ganhar as Torres, e d^ali subio pela estrada do Rio- 
verde, sem ser alcançado por nossas forças, que érão ainda 



— 303 — 

insuficientes, por nSo estarem preparadas para continuarem 
a perseguil-o vigorozamente por qualquer parte. 

E assim se operou o levantamento do sitio, quando con- 
veio aos rebeldes ievantai-o, e sem um combate. 

(OperaçSes do Passo-fundo pag. 13) 



27 DE NOVEMBBO DE 1840 
Reconhecimento das forças rebeldes em Yiamão 

Em oficio de 27 de Dezembro de 1840 do tenente coro- 
nel João Neponuceno da Silva lê-se o seguinte : 

Puz-me em marxa ; e no dia 23 de Novembro pelas 11 
oras da noite sahi d'esta cidade (Porto-alegre], com a força 
ao meu mando de 712 praças. 

As 4 oras da madrugada entrou a vanguarda, e no 
centro da povoação encontrou uma força de rebeldes de 
mais de 80 omens. . . o inimigo pôde retirar-se para a banda 
do Passo do Vigário, onde se axava de espera com mais de 
400 omens Bento Gonçalves. 

Acrecenta : 

Que carregou, e Bento Gonçalves retirou-se a uma lomba ; 
e d'ali a força legal retiro u-se por não ser possivel per- 
seguil-o mais. 

Que em poder da força legal ficarão 100 cavalos, mor- 
rerão dous rebeldes, e fôrão aprizionados oito, aveado 
muitos feridos. 

Que a legalidade só teve um soldado ferido de bala, etc. 

Termina assim : 

As forças rebeldes reconhecidas são as acima ditas, e aa 
noticias adquiridas são, que os rebeldes subirão a Serra 
com 1.000 omens de cavalaria, e 500 a 600 de infan- 
taria ao mando dos xefes David Canabarro, Joaquim Pedro^ 
e Ismael Soares, com pouca bagagem, e um cavalo por 
praça. 

(Extrato do original) 



— 304 — 
1840 

Alvares Machado em Yiamão 
O Sr. Alvares Maxado, quando foi conferenciar com 

Bento Qonçalves no Viamao, teve exacto conhecimento dos 

preparativos, em que estava David Canabarro para ir 

atacar o Sr. Pedro Labatut, e o transmitio também ao 

Sr, Soares d'Aiidréa; não obstante porém este rezolve 

n^essa ocazião partir para o Rio-grande, e no seu oficio 

(cópia n. 7) ao Sr. brigadeiro Filipe Neri, em 18 de 

Novembro (1840), se axâo os motivos, porque disso, que o 

fazia, e as instruções que deixou. 

(Operações do Passo-fundo, pag. 7) 



5 DE DEZEMBRO DE 1840 

David Canabarro soguo a Pedro Labatut em marxa para o Passo-fundo; 
ordem para irem para ali deus batalhões. 

lUm. e Exm. Sr. 

Acabo de receber participação de que o Sr. general 
Pedro Labatut com sua divizão, no dia 26 do passaído, se 
axava no distrito da Vacaria, e que o rebelde David 
Canabarro o seguia com a força de quazi 2.000 omens, 
sendo 1.400 de cavalaria. 

Sei, que Bento Gonçalves se disp5e a seguir David 
Canabarro com o resto da Lrça, que aqui tem. 

O Sr. general Pedro Labatut deve seguir para o Passo- 
fundo, segundo a ordem, que tem do meu antecessor, onde 
espera ser reforçado pelos dous batalhões, conforme se 
avizou ; e não encontrando estes ali, pôde ser muito seria- 
mente comprometida aquela divizão. 

Portanto urge, que sem perda de tempo marxem dona 
batalhões de caçadores dos mais fortes da divizSo do com- 
mando de V. Ex. para o indicado logar do Passo-fundo a 
enoontrar-se com a divizão do dito Sr. general Pedro 
Labatut, conforme se axava determinado, e cuja operação 
já V. Ex. avia encetado ; podendo ser o mesmo 2^ e 6.* 

A 2^ brigada de cavalaria acompanhará os batalhões. 



— 305 — 

levando o máximo de sua força, e sem embargo de que ao 
€ommandante doesta oficio n^esta data, V. Ex. lhe expedirá, 
de ordem minha, os detalhes necessários. 

Dizendo a V. Ex. que urge a marxa doesta força, lhe 
devo em consequência declarar, que demora alguma deverá 
aver n^ella, ficando V. Ex. responsável pelo menor retarda- 
mento da marxa; pois é do maior interesse para a cauza 
nacional, que aquella divizSo não sofra algum dezastre, e 
que quanto antes se lhe reunSo os dous batalhões e a 
brigada de cavalaria, com o que ficará forte e capaz de 
fazer frente a toda a força rebelde. 

Tanto os batalhões como a 2^ brigada de cavalaria 
devem subir pela picada de Butucarahi, e V. Ex. respon- 
sabilizará ao oficial, que f5r commandando, pela brevidade 
de sua marxa, na qual deve empregar a maior celeridade^ 
sem comtudo estragar os soldados. 

Deus guarde a V. Ex. 

Quartel-general em Porto-alegre 5 de Dezembro de 1840. 

João Paulo dos Santos Barreto ^ 

commandante em xefe do exercito. 

nim. e Exm. Sr. Filipe Neçi d'01iveira, brigadeiro, 
commandante da linha do Taquari. 

(Impresso) 



21 DE DEZEMBRO DE 1810 

Pedro Labatut segue em direção aCruz-alla; retrocede; vai 

a Rio-pardo. 

A 21 de Dezembro (1840) marxon o Sr. Pedro Labatut 
com a sua divizâo e o reforço em direção a Cruz-alta, em 
procura de cavalos, que também lhe íSSrSo prometidos, e não 
azou. 

A 24 rezolvêrão em um conselho a retirada sobre o Rio- 
pardo, a qual principiarão a 2õ, 

O Sr. JoSo Paulo, logo que soube, que o Sr. Pedro 
Labatut tinha passado a quem de Passo-fundo, avia-lhe 

TOMO zLvi, p. n. 39 



— 306 — 

mandado ordempara regressar com o reforço recebida 
a ocupar pozição além do Lagoão, e em consequência 
d'esta ordem, toda aquella forçi tornou a contramarxar al- 
gumas iegoas para eila ; mas o Sr. Pedro Labatut tinha 
aecido só para o Rio-pardo, e o Sr. João Paulo, ouvinda 
d'elle as informações sobre o estado, tanto da sua divizâo, 
oomo do reforço, que lhe foi mandado, em 3 de Janeira 
expedio novas ordens para que toda aquela força outra vez 
retrocedesse : o que principiou a fazer do LagoSo,e no dia 
14 estava embaixo da Serra, próximo á Caxoeira. 

Assim terminarão essas desgraçadíssimas operações ; em 
que tantas forças e tantos meios se estragarão, perdendo-se 
2.000 cavalos, sem rezultado algum. 

(Operações do Passo-fímdo, pag. 10) 



21 DE DEZEMBRO DE 1840 

Planos de João Paulo; pozição dos rebeldes na campanha 

nim. Exm. Sr. 

Em meo oficio de 16 do corrente, communiquei a V. Ex.. 
os movimentos, que tinha projetado contra Bento Gon- 
çalves, afim de levantar o sitio de Porto-alegre, e pela in- 
duza ordem do dia verá V. Ex. quaes os rezultados das 
operações, que efectuei. 

V. Ex. em seo oficio de 13, quo recebi a 19, vindo em 
marxa para esta vila, me communica, que tencionava, de- 
pois de reunir-se ás forças, que lhe enviei, ocupar a poziçc^o 
da Cruz-alta, e me pede, que lhe envie mais tropa, afim de 
concluir com os rebeldes, que se dirigem a atacal-o ; mas 
eu julgo muito maia importante, que ao contrario V. Ex., 
dando meia volta, torne a ir ocupar o Mato-castelhano a 
conter David Canabarro, cuja força não excede a 1.60O 
omens de cavalaria e infantaria, entretanto que até o dia 
15 de Janeiro devem subir pelas estradas da Serra do lado 
de Santo-Ântonio e das Trea-forquilhas duas brigadas de 
1.400 omens cada uma, as quaes têem de bater os 400 



— 307 — 

omens, com quo fugio Bento Gonçalves, e seguir depois a 
bater pela retaguarda as forças de David Canabarro, que 
deverão infalivelmente depor as armas, ou ser completa- 
mente derrotadas pela divizâo de V. Ex., mais forte oje 
que as forças reunidas de ambos estes rebeldes, ou pelas 
forças^ a que me refiro. 

Eu farei novo avizo a V. Ex.^ logo que estas duas bri- 
gadas subirem a Serra a dar começo ao seo movimento. 

Eu me axo aqui com 1.400 omens de excelente cavalaria 
e um forte batalhão de 600 praças : meo fim é cobrir o passo 
do Jacuhi, e estar pronto a subir pela picada de Butucarahi^ 
ou da Caxoeira, logo que tenha avizo de meos bombeiros, 
de que António Neto, João António, ou qualquer outro xefe 
rebelde pretende subir a Serra por este lado da campanha 
para ir atacar a frente a V. Ex. 

Si isto tiver lugar, eu instantaneamente subirei, e irei, 
picando a retaguarda de taes forças. 

Já escrevi para Santa-Catarina, pedindo no Sr. Antero 
de Brito, que mande avançar as tropas d'aquella província, 
e agora torno a dirigir-me a elle, indicando-lhe o que julgo 
mais conveniente para darmos fim a esta campanha ; pois 
sendo^ como espero, coadjuvado por V. Ex., segundo miiUias 
indicações, está. muito próximo do seo termo. 

As noticias mais prováveis, que temos das pozições dos 
rebeldes na campanha são as seguintes : 

Que António Neto se axa pelo lado de Camaquan, não 
tendo podido até agora ajuntar mais de 200 omens; 

Que João António e Demétrio Ribeiro se axão por 
Oacequi com pouco mais de 100 omens; 

Que Portinho está no arsenal, junto á picada da serra de 
São-Martinho com 200 omens, quando muito, talvez com 
o dezignio de subir a serra ; 

E que finalmente Jacinto Guedes se axa no departa- 
mento do Alegrete com perto de 300 omens. 

Ora ainda (|ue tudo isto seja assim, nenhum receio pôde 
y. Ex. ter, axando-me eu com 2.000 omens pronto a 
subir a Serra, como fica exposto, e isto apenas me conste 
o menor movimentos dos rebeldes. 

Dê-me V. Ex. amiudadas noticias suas, e de quanto 
ocorrer ; bem assim lhe rogo, que me communique o re. 



— 308 — 

zultado da reunião a cargo de Vidal do Pilar, que, segundo 
me dizem; já passa de 200 omens. 

Deos guarde a V. Ex. 

Quartel-general em Rio-pardo 24 de Dezembro de 
1840. 

lUm. Exm. Sr. Pedro Labatut, marexal de campo com- 
mandante da divizSto de São-Paulo. 

João Paulo dos Santos Barreto, 
commandante em xefe do exercito. 

(Impresso) 



NOVEMBRO DE 1840 

OpTniâo do ministério da maioridade sobre a pacificação 

do Rio-grande do Sul. 

Saturnino de Souza^ ex-prezidente do Rio-grande do Sul, 
em um folheto, que publicou sobre os negócios do Rio- 
^ande do Sul, escreveo o seguinte : 

Axando-me em Novembro (1840) no paço da cidade 
com meo irmão (Aureliano de Souza) o Sr. António Carlos, 
e o Sr. Olanda Cavalcanti, perguntou-me este, si eu ainda 
pensava, que era necessária uma batalha para se pacificar 
o Rio-grande. 

Eu lhe dice, que cada vez me convencia mais d'isso ; ao 
que me tomou o Sr. Olanda Cavalcanti: < Eu pelo con- 
trario penso, que uma batalha agora era um mal, ainda 
que vencêssemos, porque ia destruir todo o prestigio da 
maioridade, ao qual todos os rebeldes podem rendernse, e 
pacificar-se a provincia ; e uma batalha não vencia de uma 
vez a todos, e a guerra continuava. > 

Tanta era a confiança^ que tinhão na sua politica! 

(Bosquejo istorico, pag. 23) 



Cs 



— 309 — 

14 DE DEZEMBBO DE 1840 

Dá conta da proclamarão aos Rio-grandenses sobre a anistia 

lUm. e Exm. Sr. 

Dezenganado de que os rebeldes pretendilo iludir a 
boa fé do governo imperial, ganhando s<S tempo para para- 
lizar as operações do exercito, e nSo para aceitar a anistia 

Sue S. M. o Imperador com tanta benignidade lhes conoe- 
ia, publiquei no dia 11 do corrente a induza proclamação, 
e grande satisfaçSo terei, si minhas expressões forem apro- 
vadas pelo mesmo augusto senhor. 

Deus guarde a V. Ex. 

Palácio do governo em Porto-alegre 14 de Dezembro de 
1840. 

Illm. e Exm. Sr. António Carlos Ribeiro d^Andrada Ma- 
xado Silva, ministro e secretario doestado dos negócios do 
império. 

Francisco Alvares Maxado, prezidente. 
(Copia do original) 



11 DE DEZEUBBO DE 1840 

Proclamação anunciando a re;;eição da anistia pelos rebeldes o 
exortando os Rio-grandenses a unirem-se para firmar a paz. 

Brasileiros Bio-grandenses ! 

Elevado ao trono de seus maiores o Sr.D.Pedro segundo, 
seu primeiro dezejo foi vêr em tomo de si todos os Brazilei- 
ros ; tirou por isso de seu magnânimo e religiozo coração a 
mais ampla a mais compreensiva anistia, que ao lado da 
força foi aprezeutada aos rebeldes d'esta provincia e muitos 
d'ella se utilizarão para regressar ao seio da pátria e gozar 
o melhor e mais suave de todos os governos- 

Os caudilhos porém da rebelião, ingratos a tantos bene- 
ficies, sinceridade e bôa fé de todos os monarchistas gene- 
rozos, ouzarão impor condições ao governo do império, e 
eu delegado do governo, idolatra do monarca, defensor da 
onra e do decoro da coroa imperial, as regei tei de improvizo^ 



— 310 — 

ou antes não vi suas insensatas exigências» que põem além 
de toda a prova suas malignas e perversas intenções. 

E certo que, avezados na carreira dos crimes, sevicias o 
afrontas á umanidade, insensíveis aos gemidos d'esta pátria, 
que desmantelSo por entre toda a sorte de errores e cruelda- 
des, não deixfto os rebeldes a anarchia, sinâo diante da força 
pois conseguirão o que não pôde a clemência do monarca, a 
razão e a umanidade. 

Brasileiros Rio-grandenses ! A prosperidade e grandeza 
d'esta provincia na paz outr^ora tão florescente, a alegria de 
seus filnos gozada docemente á sombra do governo imperial, 
tudo, tudo dezapareceu diante do estandarte da revolta, 
esteiada pela mão da barbaridade. 

Pobreza, mizeria, dezolação, incêndios, mortes, conti- 
nuas afrontas, atura