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Full text of "Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais"

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REVISTA 



DO 



INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGEAFElfiO 



\ 



REVISTA 



DO 



mm iSTOBIGO E GEOeBiMGO 

BRAZILEIRO 

Fundado no Rio de Janeiro em 1838 



TOMO LXX 




1907 




PikRXB I 




Hoe tmcii, nt longM dureal bane gMU p«r 


unos 








7341 



klO DÊ jANElJkÔ 

1906 



íO 53 XL 

85 36GST2 005 



50 



í^3464 



PROCESSO 



MANOEL DE MORAES, SACERDOTE E THEOLOGO, NATURAL 
DA YILLA DE S. PAULO, ESTADO DO BRAZIL, 
QUE KM NAS PARTES DO NORTE, PRESO NOS CÁRCERES 
DA INQUISIÇiO DE LISBuA 

(1647) 



iDoeftm€nto mandado copiar pelo Dr. Norival Soares de Freitas^ 
oi «íaSo tio Instituto Histórico «m as bibliothecas e archivos de 






NOTA 



O Padre Manool do Moraes, cuja vida accidentada e cheia 
de claros- escuros offerece cxcellonte trama para um romance dos 
tempos coloniaes, parece ter nascido em S. Paulo em 1590. 

Só por favor podia aer considerado ^«ncarono (a), porque a sua 
côr excessivamente morena o as suas feições o faziam incluir entro 
os mamelucos. 

Estudou no collegio dos Josuitas, na Bahia, passando depois para 
Pernambuco, em companhia do padre provincial. 

O Padfd Simão Alvares, provincial dá Companhia em Portu* 
1^1, afnrmou que Manoel de Moraes nSò chegou à prestar votos so- 
lonnes e sim apenas o^ timpláB, depòii dos dous annos de noviciado; 
mas, como em i<>^ elle «Ta superior d^ uma aldeia de Índios, é de 
crer que os Jesuitas tenham procurado diminuir o desar que o pro- 
cedimento do apóstata fizera rocahir sobre a Ordem. 

Por oocasião da invasão hollandeza em Pernambuco, armou os 
índios da sua aldeia e foi se juntar a Mathias de Albuquerque no 
primitivo arraial. 

Os superiores não levaram a bem esse procedimento bellicoso e 
Moraes teve de levantar acampamento, indo 83 estabelecer a prin- 
cipio em outra aldeia da Companhia e depois na ilha de Itamaracá, 
onde permaneceu até que ella foi tomada pelos Hollandezes em 1C33. 

Esteve pouco tempo no Rio Qrande do Norte, seguindo para 
a Parahyba onde se poz á frente de um troco de 300 Índios, sendo 
aprisionado pelo inimigo e remettido para o Recife. 



») A dei Ineneia — rana, — em llnga» guaraiiy, qaer diser — falso, t«ndo, 
porém, as appareacias de verdadeiro. 

Assim se chama no Maranhão 6rcMMflrwk\ o individao.que pareoo hraaoo, 
àpasar da pradomlnaacla do sangao de oatraa ra^aa. 



vn 

o Amatismo dos HoUtndes«t nlo podit deixtr detidas «obM o 
acolhimento qw ba?ia de fkzar a um membro da odiada ordem ra- 
ligiosa, exercito aguerrido do poder papal; ora o Padre Manoel 
de Moraes nio ae aentia eom fSbn» para o martyrio, e assim con- 
jurou a tormenta vestíndo^se á aeoAlar, e, eomo todo o suspeito, teta 
neoessidade, para eaptar as b3àa gtaçts doa Tencedores, deazagwa» 
o ae« deapreso pelas praticas do oatholiolamo. 

Assim, por axemplo, saltando na Parahyba, em Tíagam par« t 
Hollanda, foi admittido á mesa do Goremador, e eseandalison oa 
outros convivas catholicos*oomendo carne, apesar de aer quínta-Mrâ 
aanta, ao passo qua allea ae contentavam frugalmente com qmaijo e 
aaeitonas. 

Sciante do aen irregular • procedimento, o provincial I>oming«i 
Coalbo o expulaou da Ordem. 

Na Hollanda foi morar na cidade de Ordmiok, provinoia 4e 
Oueldria, onde aa casou com a íllha do negociante Arnaldo Vau- 
derhait, de nomo Margarida, de qnem oodo enviuvou, ficando aponta 
oom nm filho, qne cdnfioa aos cuidados do av5* 

Tranafarindo a aua residência para Leydd, lá se casca com 
Adriana Bmats, tendo deaso aegnndo conaorcio duaa filhas. 

Esta renuncia do celibato grangeou-lhe aa boas gradas da G<mi- 
panhia das índias Occidentaes, que pasSou a subsidiai- o em troea 
d 3 informaçõea e contelhos, aliás aem grande importância, o que 
talves explique a impo ntnal idade do pagamento. 

Em 1699 foi o Padre Manoel de Moraes dananoiado am Lisboa ao 
Santo Oficio por um antigo commerciante de Amstardam, Poarta 
Guterres, o qual jurou tel-o conhecido casado e com filhos. 

Processado á sua revelia, e tendo coatra ai o depoimento de 
testemunhas tão eivadas de parcialidade quanto oontradiòtorias» foi 
condemnado pila Santa Inquisigio, relaxado em estet^e e avertido^ 
em um auto de fé que teve iogar a 6 da Abril d) ilVlS. 

Apesar disto, Moraes, ou porque contasae com a frouxidão com 
que no Brasil eram executadas as sentenoas proferidas no Reino, ou 
porque as necessidades da vida o obrigaasem a arrostar o perigo, 
abandonon a mulher o as filhas e regressou a Pernambnoo em Do- 
sem bro de 1643, saltando ainda vestido de flamengo, o qu^) elle aa- 
plicou aer motivado pela prohibição qne havia na Hollanda de usa- 
rem os religiosos os seus hábitos. 

Revelon-se então hábil negociante na exploração do páu Brasil 
em Tapacnrá, cinco léguas distante do Arraial, e que vendia no Ra* 
cife a cruaado o quintal. 

Rebentando em 1644 a sublevação dos colonos contra os HoUan* 



VIII 



deses, João Fernandes Vieira mandou pulilicair ediloff 

aos que se alistassem sob a sua bandeira garal quitação da todo o 

debito contrahido com os HoUandezes. 

Moraes estava em condições de apreciar devidamente aa vnla- 
gens desse oíTerecimento, porquanto, além de uma divida do 2^ 
cruzados, obtivera também do inimigo os escravos, bois • instn- 
mentoá com que explorava o seu negocio, e aasimlbi doa priaoíNS 
a procurar o chefe dos insurgnntcs, a quem desde logo prestou ss^ 
viços relevantes, animando os combatentes com as tuas jmm «rftor- 
tações. 

Esperava assim o Padre Manoel de Moraes dcsTiar a eapada do 
Damocles que a sentença da Inquisição suspendera sobre a toa ca* 
beça ; mas não se descuidou do ir reunindo os elementos neoessa* 
rios para a sua deícsa, e nunca se separava de um bahú com os 
papeis que diziam a bem de sua causa, 

Esla precaução não foi inútil porque não tardou a ser praoo, 
quando menos o cKperava, por um dos seus inimigos ranoorasot^ 
Martim Soares Moreno, um dos tros mestres de campo nesae período 
da campanha, o qual, aliás, cumprira as ordens terminantea do 
governador geral António Telles da Silva, em cujo espirito exeean- 
vãmente carola pesaram mais os erros da apostasia do que oa actaaes 
serviços prestados ao Estado. 

Romettido para Lisbua polo ouvidor geral Domingos Ferras de 
Souza, cm uma caravela que chegou ao seu destino em FeTereiro 
de 1016, o Padre Manoel do Moraes muniu-se de boas cartas de 
rrcommendação (já nesse tempo tão eiticazes quanto agora) sobre- 
sabindo dentre as mais calorosas as de João Fernan<ie8 Vieira e 
André Vidal de Negreiros ; e logo conseguiu que o Tribunal, inde- 
ferindo o requerimento do promotor Domingos Esteves, não o pas- 
sasse dos cárceres da penitencia para os secretos «visto sua enfer» 
midadc e não poder ser carado commodamente sinão onde está»* 

Nesso processo teve Moraes occasião de reconhecer que a vaidade 
maicfilina não « menos suHceptivol que a feminina, e que sSo incurá- 
veis as feridas do amor próprio. 

O sou detentor, Martim Soares Moreno, nunca ponde perdoar- 
Iho o haver omittido os seus feitos de guerra em uma reJação em 
que tanto elogiara os de Vieira e Negreiros: e uma das mais fe- 
rozes testemunhas da accusação. Frei Angelo, monge capuchinho • 
também brasileiro, guardava-lhe rancor por haver dicto, em uma 
discussão que tiveram sobre um caso de consciência, que mais sabia 
um cozinheiro da Companhia de Jesus do que um letrado da ordem 
da mesma testemunha. 



IX 

o malsinado processo da Inqnitição não era mais cmel nem 
mais Tiolento do que o da justiça secular ; nem o segredo eonstít aia 
uma excepção no direito processual daquella época. 

O promotor formulou o libello em minuciosos e terriTeis pro- 
▼arás ; e o Tribunal nomoou defensor do réo o licenciado Manoel 
da Cunha, mais tarda substitnido pelo licenciado Luiz FerrSo. 

Ambos os defensores não tomaram o encargo como osso do off' 
eia ; antes o desempenharam conscienciosamente, procurando o pri* 
flMiro tirar habilmente partido dos serviços de guerra prestados 
pelo accusado, e o segundo desenvolvendo amplamente os argumen- 
tos da defesa, nos artigos com que contrariou o libello, a 23 de 
N<yrembro de 1646. 

Nos repetidos o insidiosos interrogatórios que soffreu, o Padre 
Manoel de Moraes revelou admiráveis qualidades dialécticas, não se 
deixando emmaranhar nas subtilezas do Inquisidor interrogante, 
Belchior Dias Pretto. 

A testemunha da accusação mais desfavorável ^ao réo foi o Frade 
Manoel Ca^do do Salvador, auctor do ^íVaUrosoLueidennom^ afa- 
mado pregador, e vulgarmente conhecido por Frei Manoel dos 
Óculos. 

Esse frade, que confessou Galabar eo acompanhou ao snpplicio 
e que foi intimo amigo do Príncipe de Nassau, exagerou tanto a 
importância dos serviços que o Padre Manoel de Moraes prestou ao 
inimigo que chegou a affirmar que €«« não fora o dito padrc^nunea 
cm (HandcMei entrarão pela terra dentro e fiíerão o damno que tem 
fsHo»! 

A defesa apresentou um longo rol de testemunhas, muitas das 
qvaes foram inquiridas pelos commissarios do Santo Officio, 

Dentre as mais favoráveis se distinguiram o procurador de João 
Fernandes Vieira, em Lisbda, Jeronymo de Oliveira Cardoso, e o 
ministro portuguez, em Ilaya, Francisco de Andrade Leitão, o qual 
estando em Munster, como representante do seu paiz no Congresso 
de Westphalia, mandou por escripto o seu depoimento, a 6 de Se- 
tembro de i646. 

Cardoso testemunhou que o Padre Manoel de Moraes muitas 
▼eaes Ihemanifestara vivos remorsos pelo seu procedimento ; e sabia , 
por informações colhidas na 01 anda, que elle nunca escrevera con- 
tra a doutrina catholica, e era até assíduo nas respectivas egrejas, 
o que afTirmava de sciencia própria porque fora seu companheiro 
de casa. 

O embaixador escreveu que o réo lhe pedira que lhe facultasse 
meios de ir a Lisboa sem receios de ser executada a sentença da 



laqaíBiQio, o que obtíTMM do Rm al(puiia traça ptrà na mv* 
Ih^r • Allioif poi« doiej%Ta tarrir lu c^em do Bratiii« oBdt 
poderia ser muito atil ao ReUio • muito prejndioial aoa iaimigos | 
a acctMOafttoa que o mesmo réo aio sa aanifaatava ooqiò um 
bira^ aataa azprobraTa os qna o aram ; o aoraditara qaa aómaata 
nio abaadonava a malhar «por laxaria, aflbiçio natural a aaaaaai* 
dada, tameodo qaa, aa o fíiaasa, perderia os alimantoa qaa oa 
directoraa lhe davam a oatras oooimodidadas aaoaiaarias para a vida 
mandana». 

fineerrtdo o prooesao a 29 de Agrosto da 1Ô47, reaolvaa o Tri- 
banal sabmatter o réo a tratos, aando am esperto a oatro ôorridOt 
e effecti vãmente elle foi condazido á casa das tortaraa, a 6 da 8a« 
tambro ; maa nâo ehagoa a soffrei-as porqae oonfesaoa qaa «teve 
erança na aeita doa oalvlniatas a (raqoentoa aa egrejas proteatantal» 
oavindo aa prédicas doa ptatorea ; qae comeu oame noa diaa da 
preceito e deixou de lôr as suas horas canonioaa ; maa* como aio 
aabia o hoUandei, nio asava da bíblia dos heragea, lendo no pan 
breviário os psalmoa da David, e nio oommangava ao modo dallaa» 
qne é comer pio em memoria da Caia». 

Nobremente declarou que a ninsruem accusava de o bavar eor« 
rompido, pois fora ella próprio que se deixara corromper pela 
commanhuo constante com heregea e tentado pala laxaria. 

Protestou, finalmente, pala sinooridade do aeu arrependimaniOt 
já, ai ás, manifestado ua próprio HoUanda ao embaixador porto^i 
guez, Tristão de Mendonça Furtado, circnmatancia comprovada 
pelo depoimento do desembargador António de .Souia Tavaraa, qma 
fisera parte da embaixada. 

Apesar de pervertida paio fanatismo, nio eatavt intairamaata 
obliterada na consciência doa inquisidores a suave doutrina do Di- 
vino Mestre que tanta efficacia reconhece no arrependimento ; a 
asaim a oondamnação do róo foi manoa terrível do que a qoa oa 
aeus erroa faziam esperar porquanto não foi relaxada ao braço aa* 
colar a) e o absolveram da ascommunhão maior, tii/brfiui«oo^«it^, 

O Tribunal decidio em meaa que elle compareceria em nm aato 
publico da fá, veatido com o habito penitencial e as insigniai da 
fogo, e ali, ao orepitar das fogueiras deatinadas a «atroa baratiooa, 
ouTiria a leitura da sentença, fasendo publica oonflssio a retracta- 
çlo dos aena erroa. 

Ficaria depois cm perpetua prisão, auspenso de ordens, coada* 
cados os seus bens, obrigado a so instruir novamente nas verdadaa 



a) Bnpbemlamo de qoe se aervU o Santo OfBdo pitfa Impar aa paaaa 
da aaagaa e a capital. 



XI 

da Fé inditpensavait á soa lâlTacio, além da cumprir aa maia penas 
e penitencias espiritnaes que lhe fossem impostas. 

Esta sentença foi confirmada em conselho presidido pelo Bispo 
Inquisidor Geral, a 10 de Setembro de 1647 ; e o auto de fó tere 
logar no Terreiro do Paço, a 15 de Deiembro do dioto anno. 

Cnmprida essa formalidade, nio tardaram as commutaçdea da 
pena. 

A 11 de Janeiro do anno seg^nte obteve a cidade de Lisboa 
por menagem ; e a dispensa de asar o habito penitencial, atten- 
dendo-se ao seu mau estado de sande. 

A 27 do mesmo mez conseguiu permiasio para commungar 
uma Tez por mez ; e a 11 de Março também de 1648, finalmente, a 
Inquisição concedeu-lhe licença para se ausentar para qualquer 
parta do Reino ccomo fosse de catholieoa» . 

Nada mais se sabe sobre o destino que tomou o aventurado 
Padre Manoel de Moraes. 

(Da Com m inêo dê B tiãcç ã o.) 



índice 



DAS 



Matérias contidas no Tono LXX da Revista 



PRIMEIRA PARTE 



Pagi. 

Processe de Manoel de Moraes, sacerdote e theologo nataral 
da Vil la de S. Panio, estado do Brasil, residente qne foi 
nas partes do norte, preso aos cárceres da Inquisição 
de Lisboa «. 1 

Prisões clandestinas — Século XVIII ~ O Conselheiro José 

Mascarenhas, pelo Dr. Lniz António Ferreira Gnalberto 167 

Discurso dirigido a suas Altezas Poderosos os Estados Oeraea 
dos Paizes Baixos Unidos sobre as consas recentes e pre- 
sentes no Brasil, com os documentos a estes referentes 
(traducção do hoUandez) • • 209 

O Brazil abandonado (iraduccão do hoUtndez) 241 



7341 ~Rio de Janeiro — Imprensa Nacional — 1908 



PROCESSO 



Vanoel de Horaes, sacerdote e theologo natural da Villa de S. Paúío;^ 
estado do Brazil, rdsidente que foi nas partes do norte, preVò 
nos carserofl da Inquisição de Lisboa. 



Auto 28, Anno 1647, Estante 6, Maço 27- N» 4 
Torre do Tombo 



Processo do Padre Manoel de Moraes, sacerdote do habito de 
S, Pedro natural da villa de S. Paulo, estado do Brazil 

(Proso em 25 de fevoreiro de 1646) 

Aos Tinte e cinco dias do mez de fevereiro de mil c seiscea* 
tos e quarenta e seis aooos em Lisboa nos eataus e casa da Santa 
loquisição perante mim notário abaixo nomeado appareceu um 
homem que disse ser mestre de uma caravela que havia hoje 
chegado do estado de Pernambuco e quo trazia dous presos para 
entregar nesta Inquisição com uma carta que logo mo deu, e 
disse que convinha sei^m logo os ditos presos tii*ados da cara* 
vela porque estava surta junto á, terra, e corriam perigo do 
noite, e porque buscando os senhores loquisidores em suas ca- 
sas não achei a nenhum delles, recorri ao illustrissimo senhor 
bi3po Inquisidor Qeral, e.lho dei conta do que o dito homem 
me havia dito e o dito illustrissimo senhor mandou que logo 
um familiar fossa buscar os ditos presos e os ontrogasse no cár- 
cere da penitoncia a Estovam da Costa, alcaide delle, ató se ve- 
rem os pi pois que tocassem a saas causas e ollcs serem ouvidos, 
do íiuo fiz esta lembrança. Eu Jodo Carreira, notário, o escrevi. 
E declaro que um dos ditos presos se chama Manoel de Moraes, 
e foi da Companhia de Jesus. O subrodíto o escrevi. 

73íi— » l TrMo Lxx. p. i. 



% 



4 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

B quo posto quo o seu crime seja grave, pois foi relaxado 
em estatua, xsomtudo oão fossa o réu mudado para os cárceres 
secretos, vi^^ta sua enfermidade, e não poder ser curado commo- 
damente sioSLo onJe está. Lisboa, r de março de 1646. Pedro de 
Castilho, Belchior Dias Preto. Luiz Álvares da Rocha. 

Colpis coQtra Manoel de Moraes, que foi religioso da Com- 
panhia, trasladadas do seu primeiro processo. 

Da denunci vção quo deu na mesa Duarte Gutterres que 
anda no caderno 19 do promotor a fls. 24 e na sessão antecedente 
a íl. 20, disse ser de edade de 34 annos. 

Aos quatorze dias do mez de novembro do mil ^seiscentos e 
trinta e nove annos, em Lisboa, nos estáus o casas do despacho 
da Santa Inquisição, estando ahi em audiência da tarde o 
0enhor inquisidor Diogo de Souza mandou vir perante si da 
sila do Santo Oílicio onde estava a Duarte Gutterres para con- 
tinuar sua denunoiação, o sendo presente lhe foi dado juramento 
doi santos evangelhos, em que poz a mão, e sob cargo delle, 
lhe foi mandado dizer a verdade e guardar segredo no que dis- 
sesse, o que prometteu cumprir e continuando sua denunciação 
dopois de outras cousas: 

Disse mais que haverá quatro p*ira cinco annos em Ams- 
terdam se achou ello denunciante com Manoel do Moraes, por- 
t iguez, não sabe dondo é natural, e foi padre da Companhia 
no Brazil, o qual é casado com filhos e so tinha feito calvinista 
e por tal ora tido na dita cidade e que o dito M moei de Moraes 
havia sido sacerdote de missa, e que pudera dar razão do so» 
bredito o padre Ignacio Estaforte, morador na casa de São 
Roque desta cidade e ai não disse e que dava eUa sua denan- 
elação por descargo do sua consciência, e que sabe o sobredito 
por assistir em Amsterdam doze para treze annos, onde toi em 
razão de saas mercadorias ; e do costume disse nada e assignou 
OomoditoseQhor.— Luta Ferrão o escrevi. — Duarte Gutten-es 
Estoque. — Diogo de Souza, 

Outra culpa cootra este réu. Do processo de João Fer- 
nandei, christio novo da cidade do Porto, professor da lei de 
Moysós nos estados de HoUanda, o qual so apresentou na mesa 
do Santo Offlcio, em 4 de junho de G40, e disse ser de edade de 
44 annos e do réu o seguinte : 



PROCESSO DE MANOEL DB MORAES 5 

Aos clQoo dias do mez de janho de mil o seiscentos e qaa- 
reota aonos, em Lisboa, nos estáus o casa do despacho da Santa 
Inquisição, estando ahi em audiência da manhã os senhores in- 
quisidores mandaram vir perante si do cárcere da penitencia a 
João Fernandes, réa presento e contido neste processo, e sendo 
presente lhe foi dado Juramento dos santos erangelhos em que 
pox a mão sob cargo do qual lho foi mandado dizer a verdade 
e guardar segredo o quo ello prometteu cumprir e depois de 
outras cousas: 

Disse que se lhe lembra conhecer na cidade de Amsterdam 
haverá quatro annos pouco mais ou menos, um homem que 
mostra ser de poucas carnes e moreno de côr, o qual diziam 
haver sido religioso da Companhia de Jesus» e tor-so passado 
aos HoUandezes no estado do Brazil, fazendo algumas cousas 
em utilidade sua e prejuízo dos cathQlicos pela qual razão lhe 
dava a companhia dos HoUandezes quo sustenta a guerra no 
Brazil uma carta ordinária de que elle se sustentava, o qual 
homem viu- elle oonfitente casado na dita cidade com uma fla- 
menga de proflsiâo calvinista, e continuar nas egrejas dos mesmos 
calvinistas, e por casalo o calvinista sabe estar commum- 
mente reputado das pessQas que o conhecem, e quo não se 
lembra de o ouvir nomear, e ai n^ disse, o ao costumo 
disse nada, e assignou com os ditos senhores que admoestado 
em formão mandaram a sou cárcere. Joio Carreira notário o 
escrevi. -^Pantaleão Róis Pacheco, — Bom Álvaro de Áthayde 
Diogo de Souza, — João Fernandes, 

Outra culpa contra este réu. Da denunciação que deu na 
mesa o padre frei Thomaz Alagre e anda no caderno 19 do pro- 
motor a â. 270. 

Aos dezesete dias do nioz do novembro do anno de mil e 
seiscentos e trinta e nove, em Lisboa, nos est&us e casa do des- 
pacho da Santa Inquisição e estando ahi em audiência da manhã 
o senhor inquisidor Dom Álvaro de Athayde mandou vir gerante 
si ao padre frei Thomaz Alagre, religioso do convento do Carmo 
no estado do Brazil, natural de Monto Mor o novo, e ora resi- 
dente uosta cidade, e sendo p/osente, por dizer que tinha que 
denunciar nesta mesa lhe fji dado juramento dos santos evan- 
gelhos em que poz a mão sob cargo do qual lho foi mandado 



6 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

dizer verdade e ter segredo o que prometteu camprir e disse ser 
de edade de 50 annos. 

£ denunciando disse que em vinte e oito de junho próximo 
passado quatro dias mais ou menos desembarcou na oidade de 
Arasterdam, ahi o visitaram alguns portugueses deste Reino oo- 
nhecidos do Brasil, que profossavam na mesma cidade a lei de 
Moysós e logo nomeou muitos e declarou que na dita oidade de 
Amsterdam no mesmo tempo em que tem declarado desembar- 
cara nella em um dia, de que em especial se não lembra, lhe 
mostrou Diogo de Araazede um alto preto, magro e feio que re- 
presentava ser de perto de cinooenta annos que elle conhecia 
multo bem de Pernambuco e se cliamava o padre Manoel de 
Moraes, onde era padre da Companhia sacerdote e theologo e 
capitão do gentio, e quando os HoUandezes entraram na Para- 
hyba se lançou com elles, e depois se foi a dita oidade de Ams- 
tordam, onde andava vestido de carto como secular com um tra* 
çado e estava casado com uma mulher viuva, pobre e o oasoa 
um pre licante calvinista, o que elle sabe por ser publico e con- 
stante na dita cidade, e ver elle declarante que tinha em sua 
casa a dita mulher da mesma maneira que outros homens ca- 
sados, e que também era publico que o dito padre Manoel de Mo- 
raes era herej j e o tinham todos por isso o se dizia ser calvi-^ 
nista, o qual fez um livro dos portos e das partes do Brazil 
como filho do mesmo Estado, e alguns HoUandezes predicantes 
lhe disseram na dita cidade de Parahyba a elle denunciante que 
o dito livro tinha cousas contra a nossa santa fé catholica, de 
que não duvido porque já na n^esma cidade em quiota-feira de 
Endoenças do anno em que os HoUandezes tomaram a mesma 
cidade, estando jantando elle denunciante com muitos portu- 
gueses, leigos, em casa do governador Carplntel com elle e 
oom o dito jiadre Manoel de Moraes e com alguns vinte Hol- 
landezes se poz a comer carne o dito Manoel do Moraes e repre- 
hendendo-o Duarte Qomos da Silveira por ser homem de oitenta 
annos e dos Principaes da Parahyba, dizendo-lho que pois elle 
comia queijo e azeitonas o os mais portuguízes, que não desse 
máu exemplo de si que até os HoUandezes o haviam de calumniar 
ao que respondeu o dito padre Moraes que o deixasse, que que- 
ria viver com aquelles homens e declarou elle denunciante que 



PROCESSO DE Manoel de morabs 7 

80 não achoa presente ao sobredito, mas que lha eontoa o dito 
Duarte Gomes, o ai não disse e ao costume disse nada, e sendo 
lhe lido este seu tostemunha e por elle ouvido e entendido 
disse que estava escripto na verdade e assignou com o dito 
senhor Domingos Esteoes o escrevi. — D, Álvaro de Alhayde. — 
frei Thomaz Alagre. 

Outra culpa contra este róu. Do testemunho do pad re Ra 
phael Cardoso religioso da Companhia de Jesus pro.)nrador que 
oi da mesma Companhia nos' estados do Brazil e residente no 
Gollegio de Santo Antão desta cidade, o qual anda no primeiro 
processo deste réu íls. 5. 

Aos doze dias do mez de junho de mil e seiscentos e qua« 
renta, em Lisboa, nos estâns e casa do despacho da Santa In« 
quisição estando abi em audiência da tarde o senhor inquisidor 
D. Álvaro de Athayde mandou vir perante si ao padre Ra- 
phael Cardoso, procurador que foi da Companhia na Bahia 9 
dó presente morador no Collegio de Santo Antão, e sendo pre^ 
sente lho foi dado juramento dos Santos Evangelhos em que pos 
a mão e sob cargo delle lhe foi mandado diser verdade e 
guardar segredo, o que prometteu cumprir e disse ser dt3 edade 
do quarenta e quatro annos. 

Perguntado pelas perguntas geraes disse que suiipeitava 
que seria chimado a esta mesa para se tomar delle alguma 
informação em razão do padre Manoel de Moraes. Perguntado 
quem era o dito padre Manoel de Moraes, donde natural e mo* 
rador, que estado e profissão tinha e quanto tempo h% que ellQ 
testemunha o conhece e que razão tem para o conhecer: 

Disse que o dito padre com mu m mente lhe chamavam o padre 
* Moraes, e lha parece que o nome inteiro ó Manoel de Moraes e 
era natural da villa de São Paulo do Estado do Brazil, religioso 
da Companhia de Jesus da dita província do Brazil, e que ha- 
verá vinte dois annos que elle testemunha o viu e conheceu no 
Collegio da cidade da Bahia, onde era estudante o dito padre 
Moraes, e quo é de boa estitura magro e moreno, e que dentro 
de poucos dias se foi olli te^te.Dunha para o Collegio de Per- 
nambuco onde passados três ou quatro annos foi ter o dito padre 
Manoel de Moraes em companhia do provincial, e que por cousa 
de quatro ou cinca mezes o tornou alli a tratar elle testemunha 



8 REVISTA DO INSTITUTO HISTORICX) 

6 agora ô melhor lembrado qao o dito padre se chama Manoel 
de Moraes. Pergantado se sabe onde foi baptisado o dito padre 
e se tioha algumas ordens o qaaes eram: 

Disse que não sabe onde fora baptisado' o dito padre, porém 
que era tido e havido por christSo baptisado, e que a villa em 
que nasceu ó da Diocese do Rio de Janeiro, onde todos os mo- 
radores s&o christãos baptisados, e que estando elle testemunha 
no Brazil se ordenou de ordens sacras ató fie fazer 'sacerdote o 
dito p:idre Manoel de Moraes, o quo elle sabe posto que o não 
Tiu ordenar porque se lhe fazia na companhia tra tamento que 
somente se faz aos sacerdotes, e era superior de uma aldôa, em 
que a companhia costuma pôr aos sacerdotes. Perguntado si 
sabe de que nação era o dito padre Manoel de Moraes e quem 
foram seus pães e avós: 

Disse que ouviu dizer quo o dito padre tinha parte de Ma- 
meluco e na oôr mostrava, porém não sabe dar razão certa dos 
pães, avósé ascendentes do dito padre Moraes. Pergantado si 
sabe onde está de presente o dito padre Moraes e si perseverou 
sempre na companhia e que é feito delle: 

Disse que o dito padre Moraes, haverá cinco ou seis annos, 
foi captivo pelos Hollandezes junto a Parahyba donde o levaram 
ao Recife de Pernambuco, o estando ahi soube o padre Do- 
mingos Coelho, provincial do Brazil, que o dito padre Manoel 
de Moraes mudara o traja da Companhia, e an lava no Recife 
vestido do secular com trancellim e chapéu, como se não fosse 
rdligioso, polo que o dito provincial o houve logo por despedido 
da Companhia e procurou tanto que se lhe notificasse a dita 
expulsão, que em effeito se lho deu noticia delia estando no Re- 
cife ; ao que respondeu que não sabia porque o despediam que 
não tinha feito cousa por onde o merecesse, e que isto da des- 
pedida sabe elle testemunha por o ouvir assim praticar entre 
os seus religiosos d'aquellas partes, e que o dito Manoel do Mo- 
raes ficou então expulso, porque desta maneira despede a. Com- 
panhia, conforme suas constituições, e que elle ouviu por muitas 
vezes dizer ao dito provincial, que tinha despedido ao dito padre 
Moraes e o repetia muitas vezes. E quo outrosim ouviu elle teste" 
munha no dito tempo, que o padre Moraes era passado a Hollanda« 
onde estava casado, porOm que não sabe com ^uo certeza 



PROCESSO DE MANOEL DE MORAES 9 

e fondamento isto diziam, nem saba que pessoas possam dar 
raisSo do conteúdo neste seu testemunho senão forem alguns 
dos soldados do Brazil, dos que naquelle tempo foram presos 
o captiYos na HoUãnda, e ai não disse e ao costume disse nada, 
excepto haverem tido o mesmo habito, e sendo-lhê lido este seu 
testemunho e por ello ouvido e entendido disse que estava es- 
cripto na verdade e assi^^nou com o dito senhor. Domingos Es* 
tevês notário o escrevi. — D. Álvaro Athayde. — Rophael Car» 
doso. 

Outra culpa contra este réu. Do testemunho do padre frei 
António Caldeira, religioso de Nossa Senhora da Graça, que anda 
DO mesmo primeiro processo a fl. 8. 

Aos vinte e seis dias do mez de Junho do anno de mil e seis- 
centos e quarenta, em Lisboa, nos estáus e casa do despacho da 
Santa Inquisição estando ahi em audiência da tardo os senhores 
inquisidores mandaram vir perante si ao padro Arei António 
Caldeira, religioso de Nossa Senhora da Graçi, qué assistiu nas 
partes do Brazil e sendo presente lhe foi dado juramento dos 
Santos Evangelhos em que poz a mão sob cargo do qual lhe foi 
mandado dizer verdade ê guardar segredo o que promettou 
cumprir e disse ser de idade de quarenta o quatro annos. Per- 
guntado pelas perguntas geraos não disso coasa que se houvesse 
de escrever. 

Perguntado se conhece alguma pessoa que havendo nas- 
cido neste Reino e em suas conquistas e recebido o baptismo 
sagrado, fizesse depois alguma mudança nas matérias de 
religião: 

Disse que sendo captivo dos hollandezes no Recife, Estado 
do Brazil, conheceu ahi um religioso da Companhia de Jesus do 
sobrenome Moraes, sacerdote, natural, segundo se dizia, do Rio 
de Janeiro, o qual era publico haver se lançado com o inimigo 
na occasuío que se perdeu a praça da Parahyba, e afastado de 
Qos^a santa fé haverá seis annos, pouco mais ou menos,. tendo 
crença na seita dos herejes reformados em tinto que algum dos 
ditos herejes que assistiam na dita paragem do Recife, em 
abonarão da doutrina que seguiam, davam era rosto a elle tes- 
temunha com, a approvação do dito padro Moraes dizendo 
que com ser religioso e letrado a seguira e pr<5gava e desejar do 



10 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

elle testemunha encontrar-so com o dito religioso, afim de pro- 
curar persuadir a que deixasse sua cegueira, e se reduzisse 
á religião catholica romana, o viu em uma rua do dito ReoifQ 
vestido de gram com traçado que é traje particular da gento 
militar, que não ó religiosa, o qual os heroj<« nfto constrangem 
vestir a pessoa alguma ecclesiastica catholica contra sua von- 
tade, e assim elle testemunha emqaanto andou entre elles 
conservou sempre o seu habito religioso com o que se fiooa 
confirmando na commum reputação em que todos tinham ao 
dito religioso, de se haver apartado da fé catholica romana 
e tido crença na dita seita dos herejes reformados e posto 
que emquanto o dito religioso residiu naquello Estado não 
fez outra mudança de si ; comtudo depois que se passou a 
viver a cidade de Amsterdam é fama publica constante que 
se casou com uma mulher não sabe de que profissão, e ai 
não disse, nem lhe foram feitas mais perguntas e ao costume 
disse nada eassignou com os senhores inquisidores Domingos 
Esteves, que o escrevi, ^Pantaleão Roiz Pacheco. — D. Álvaro 
Athayde Diogo de Souza. — Frei António Caldeira» 

As quaos culpas, eu notário abaixo assignado trasladei bem 
o fielmente as primeiras de três sessões do uns traslados que 
andam no primeiro processo deste réu, as quaes constam por 
duas certidões que estão ao pó delias do licenciado Domingos 
Esteves, notário desta Inquisição que estão ratificjidas em seus 
originaes, a quarta e quinta das próprias com que acoordam 
e a que me reporto e concertei com o notário abaixo assignado 
em presença do promotor deste Santo Ofilcio, e certifico que 
a ultima culpa esta ratificada em seu original que anda 
no mesmo primeiro processo em fó do quo passei a presente. 
Lisboa no Santo OfiãciOf 12 de maio de 646 annos. Con- 
certado oommigo notário. — João Carreira. — Manoel Alvares 
Migueis. 

Outra culpa cuntra este réu. 

Do testemunho de Domingos Velho, christão velho, natural 
dos coutos do Alcobaça e ora residente nesta cidade de Lis- 
boa, que anda no caderno 14 do promotor fl. 212. 

Aos vinte e dous dias do mez do outubro do 1635 annos, em 
Lisboa, nos estáus e casa do despacho da Santa Inquisição estando 



PR0CB8S0 DB MANOEL DE MORAES 11 

«hi om aadienoia da tarde ò senhor inquididor Diogo Ozorio 
de Castro appareeea senio chamado am homem vindo de pouco 
tempo das partes do Brazil, por haver informação que tinha 
que denunciar nesta mesa, o qual deu na mesa um Manoel de 
Vaitoonoellos qae melhor nella algumas cousas de ouvido, refe- 
rindo^se ao dito homem, o qual sendo presente disse chamar-se 
Domingos Velho e ser christão velho natural dos coatos de 
Alcobaça e que passava de vinte annos que reside nos Estados 
do Brazil e residiu no arraial de Pernambuco desde o tempo 
que toaiaram os hollandezee aquella praça, e ser de trinta e 
cinco annos de edade e para verdade em tudo a que lha 
fosse perguntado e ter segredo lhe Ibi dado juramento doi 
Santos Evangelhos em que poz a mão, e sob cargo delle 
promettea de assim o fazer, e logo sendo perguntado si sabia 
alguma cousa de que lhe parecesse que tinha obrigação de denun- 
ciar nesta mesa: 

Disse que andando nas ditas partes do Brazil e prin- 
cípalmonto no dito arraial tratou olle declarante e communioou 
muitas vezes a um padre da Companhia do Jesus, que diziam 
8er natural dos ditos estados da capitania de S. Paulo, e se 
chamava Manoel de Moraes, o qual serve de iioguii do gentio e 
interprete, e para assistir neste oílicio de interprete rogara Ma* 
thias de Albuquerque ao seu prelado, e o deixassem assistir na^ 
fronteiras com o gentio, e sabe elle declarante que o dito padre 
Manoel de Moraes era theologo e sacerdote por ser assim 
fama publica e cousa de que senão duvidava, posto que lhe 
Dão via nunca dizer missa, nem pregação, mas o viu vestido 
com 08 hábitos de sacerdote daquella religião, e trazia coroa 
aberta que elle mui bem lhe viu, e depois de estar algum tempo 
com elle no dito arraial, trataram os religiosos da Companhia 
de o tirar do arraial e do offlcio que ahi tinha de capitão do 
gentio, dizendo quo não era decente que um religioso âzesse 
aquello offlcio, e de feito se deu a um homem leigo e o dito 
padre Manoel de Moraes se foi de ahi para uma aldeia, onde 
estavam alguns religiosos da mesma Companhia, e de ali acudia 
a Capitania do Itamaracá, e aondo rasidiu até o tomarem os 
Hollandezes e depois acudiu a capitania do Rio Grande fazendo 
o mesmq offlcio de interprete com o gentio quando e ató que 



12 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

O inimigo O tomou e depois se foi para um legar qae chamam 
Gunháú aonde ficava quando elie declarante se veia para o 
Reino. 

E depois ouviu dizer que estando o dito padre na Para- 
hyba na occasíãQ em que os Ilollandezes a tomaram, oaptfva- 
ram o dito padre e o levaram a Hollanda o que lá se oasara* 
e que depois se embarcara para os ditos Estados do Braiil, 
embarcado por cabo de três navios dos ditos Hollandezes, e que 
isto ouviu dizer a um fulano Vicente, mostre de uma caravela 
natural do S. Martinho, o qual andava aqui ha pouco tempo» 
e o dito Vicento referiu o sobredito por o haver visto nas 
ditas partes de Hollanda, onde foi também captivo e declarou 
que o dito Manoel de Moraes represent-i quarenta annos de 
edade, e *ó de meia estatura, moreno e parece chim e Jà tem 
algumas brancas, e ai nãio disse e ao costume nada, o sendo-lhe 
lido este seu test 'munho disso que estava escripto na verdade 
e assignou com o dito soohor, que declarou que ó morador á 
calçada do Congro na rua Direita. João Carreira, notário o 
escrevi, — Diogo Ozorio de Castro. — Domingos Velho, 

Outra culpa contra este réu. Aos vinte e quatro dias do mez 
de outubro de mil seiscentos c trinta e cinco annos, em Lisboa, 
nos estdus e casa do despacho da Santa Inquisição, estando ahi 
em audiência da manhã os senhores inquisidores, appareceu 
sendo chamado Domingos Vicente, mestre de uma caravela que 
foi nas partes do Brazil, e disse ser da villa do São Martinho e 
agora residente nesta cidade testemunha referida por Domingos 
Velho testemunha atraz, e para em tudo fallar verdade o ter 
segredo lhe foi dado juramento dos Santos Evangelhos em que 
poz a m&o o sob cargo delle preme tteu do assim fazer e de sua 
edade disse ser de trinta e quatro annos. Perguntado si andando 
nas ditas partes do Br.uil conheceu ahi aliruma pessoa que an- 
dasse em trajes e hábitos de religião alguma, a qual depois visse 
eom elles mudados. Disse que elle fora daqui em uma ci^ravela 
sua para as ditas partes do Brazil, dia de Espirito Santo, fez um 
annoe lá se perdeu estando em uma for.;a no rio do Cunhaú, que 
ainda estava pelos nossos, conh)ce:i ahi a utn padre da Compa- 
nhia por nome o padre Moraes, quo representava a edade de 
quarenta e cinco annos e ó de meã estatura, e ]d pica de branco, 



PROCESSO DE MANOEL DE MORAES 13 

6 é de oôr moreoa, e alH lhe oaviu dizar por algamas vezes 
missa e fazer offlcio de sacerdote encomineadando um def aato 
por qaom disse ires missas, e quando depois os iaimigos toma- 
ram a Parabyba foram também dar aquella força do Cuahaú 
onde captivaram a elle declarante e ao dito padre Moraes e os 
levaram a Pernambaco, e dahi a Hollanda o olie declarante foi 
levado a Traveira, e o dito padre Moraes para Amsterdam cada 
um em soa navio e vindo-se depois do lá por Inglaterra, em Lon- 
dres, encontroa ahi alguns soldados que foram em companhia do 
dito padre aos quaes nâo sabe os nomes, nem donde eram e alguns 
marinheiros do porto, e era publico e notório entre elles que o 
dito padre Moraes se deixara ficar em Amsterdam voluntaria- 
DOtente, e que lá se casara com uma filha de um do3 principaes 
da Bolsa, e que se aprestava para ir com três navios por cabo 
delles em soccorro de Pernambuco, e que foram dar disto conta 
ao embaixador de Hespanha que ali reside na Corte de Inglaterra 
e que este tinha avisado por oarta sua a ql-Rei de Hespanha e 
qoe isto ô o qae sabe, e ai nào disse e ao costume nada, e assignoa 
com 03 senhores inquisidocas. Jodío Carreira^ notário, o escrevi. 
Domingos Vicente, uma cruz, — Diogo Osório de Castro. — Par^ 
taleão Rodrigues Pacheco » 

As quaes culpas eu notário abaixo asslgnado trasladei bem 
e fielmente das próprias com que concordam e a que me reporto 
que andam* no caderno 14 do promotor das fls. 212 ató 215 e 
concertei com o notário abaixo assignado em presença do pro« 
motor deste Santo Offlcio e certifico e dou fó que esta ultima 
culpa está ratificada em seu original em fé do que passei a pre- 
sente. Lisboa, no Santo Offlcio em 14 de maio de 646. Concertada 
oommígo notário João Carreira^ Manoel Atoares Migueis, 

Outra culpa contra este róu. Do testemunho do povo do 
padre frei Belchior dos Reis da Ordem de São Francisco Ca- 
pellão da Armada Real a qual consta da visita que o Bi^po do 
Brazil fez nos ditos estados e anda no caderno 19 do promotor 
11. 398. 

Aos dezoito de junho de mil e seiscentos e trinta e cinco annos 
na Bahia nas casas aonde vive o lUustrissimo Senhor Bispe D. Pe- 
dro da Silva appareceu ante o dito Senhor padre frei Belchior dos 
Reis que disse ser sacerdote religioso professo da Terceira Ordem 



14 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

de S5> Francisco, christâo velhj natural de Lisboa, deedidai» 
trinta e lu itro annos, o p .•:• o di u-i sínhor Bispo ter algama iwto 
que nas partes de Pernambuco havii religioaos eoelesUstieoiau 
daTam em certa maneira favor aos inimigos paraelle BWihW 
Bispo saber a ver lad- e pira po ler proceder e faior o que foi* 
justo, e que ell«? pi iro poderia saber aljuma cousa do ca» pt» 
nelle falar verdade e ter segredo, lho foi dado JarameoO deu 
Sanv>8 Evangelhos, em qu«' poz sua mão sob cargo do qual pw* 
mottcu de dizer verdade e ter si»?reJo e sendo-lbe dito que de- 
clare, o que sabia no cas >, depois de outras disse: 

Que o padre Manoel de Moraes, pregador da Companhia, lir 
cerdote que no Kio Qrande dizem andou por cabo de índios, 
agora depois que os lierejes ti^mapim a Parahyba se mettea com 
ellfrs o é publico anda em trage de teigo com espada contra oi 
catholicos, como os mesmos Hullandozcs fazem, e dA mostras ds 
heroje, o confessa ser v issallo do príncipe de Orange, o qof 
salje por ser notório e muito escandaloso, do que poderão dixtf 
Fr^incisco Serrano, sargonto-mor que foi do terço do Portugal eis 
Pernambuco, o prisioneiro dos liollandezos ató agora está c0 
PoriiiL^al, e D. Pedro SoveiraSotiio Maior qu-J foi prisioneiro quB 
cstl na I^agoa do Norte, o ao costume disse nada, e seado«lhe lido 
disse estava e^cripio na verdade o assii^nou com o dito senhor 
Bispo, o eu licenciado Francisco da Silva sacerdote que tenho jo* 
ramento do senhor Bispo para escrever verdade o ter segredo 
nassemeihanies cousis que o escrevi. I^rci Belchior dos Rais, 
O líi^jio f/o iJrtrzil. 

A qual culpa atraz foi traslada>la do uma copia das propriai 
que veiíi remettida dos estados do Brazil do Bispo dos mesmofl 
estadfis a esta mesa do qual traslado consta que está ratificadc 
em sou ori^rinal na form i o esi.ylo do Santo OíQicio o concortei 
(X)iii o n'itario abaixo assi;^^nado em presença do promotor desti 
Santo Offlcio, om t: do que passei a presente. Lisboa, no SanU 
OÍIleio, ;íO de maio de 640 annos. Concertada commigo notaria 
Jo iif Carrfira, — Mniitnl AlV'iro.< Migueis. 

Outra culpa contra este nu. Do testemuuho do Capi- 
tão D. .los<^ tio Sotro, natural do Tule Io. quo anda no mesmc 
traje do que veio do Brazil, no caderno Iw do promotor a 
li. 400 ¥•• 



PROCESSO DE MANOEL DB MORAES 15 

Aos vinte e oito dias do mez de agosto de mil e seiscentos e 
trinta e cinco annos, nas casas do Illastrissimo Senhor D. Pedro 
da Silva, na audioncia da tarde appareceu sendo chamado o capi- 
tSo D. José de Sotto que disse ser de edade de trinta annos, natural 
de Toledo que ora chegou aqui lançado dos inimigos e para em 
tado dizer verdade e ter segr8do lhe foi dado Juramento dos 
Santos Evangelhos sob cargo do qual promotteu dizer verdade e 
ter segredo lhe foi dado juramento dos Santos Evangelhos sob 
cargo do qual prometteu dizer verdade e ter segredo. Perguntado 
se sabia ou suspeitava para que foi chamado, ou si al- 
guém ibe disse que dissesse aqui ou calasse o que sabia: 
Disse que nSo. Perguntado se sabe ou ouviu que nas par- 
tes de Pernanibuco algum catholico fizesse ou dissesse al- 
guma cousa contra nossa santa fé e serviço de Deus e de Sua 
Magestade que lhe parecessa mal: Depois de outras cousas que 
nio fazem contra este réu disse mais que era publico em Per- 
nambuco quê Manoel de Moraes, sacerdote da Companhia, e as- 
sistia, na guerra contra nós, e agora está em Hollanda, e ao 
costume disse nada e assignou com o Senhor Bispo. Eu o cónego 
Francisco Gonçalves que o escrevi. D, José de Sotto, O Bispo. 

Outra culpa contra esto réu. Do testemunho do padre Ma- 
noel de Carvalho, natural de Pernambuco que anda trasladado no 
mesmo caderno 19 do promotor íl. 402 v. 

Aos três dias do mez de dezembro de mil seiscentos e trinta 
8 seis annos nas casas do lUustrissimo Senhor Bispo D. Pedro da 
Silva, nesta cidade da Bahia, o dito Senhor Bispo mandou vir pe- 
rante si ao padre Manoel Dias, sacerdote que disse ser natural 
de Pernambuco, e que viera de lá para as Alagoas, quando per- 
demos a campanha, de edade de trinta annos pouco mais ou 
menos, testemunha a quem o lilustrissimo Senhor deu juramento 
doe Santos Evangelhos em que poz sua mâo e prometteu dizer 
verdade e ter segredo, que muito lhe encarregou. Perguntado 
ú viu ou ouviu cousa que lhe parecesse mal a respeito de nossa 
santa fó, e que procedimento tiveram e têm os clérigos e frades 
que andam fora de seu mosteiro nas partes de Pernambnco, e se 
foi algum causa do os Índios se volverem contra nós e se ajun- 
tarem alguns dos nossos ao ioimigo: Disse .que o padre cujo 
Dome da pia não sabe, porque só se chamava commummente o 



16 REVISTA DO^INSTITQTO HISTÓRICO 

padre Moraes, sacerdote da Companhia; e que tinha a seu cargo 
os iodios com os qaaes pelejava por nós no arraiai, antes que se 
perdesse a campanha, como capitão delles, o que elle testemu- 
nha lhe viu fazer. E depois do arraial perdido, ouviu elle teste- 
munha dizor geralmente, e era publica fama naquellas partes 
entre a gente principal, que o dito Moraes, perdido o arraial o 
campanha, apostatara e deixara nossa Santa Fó e se âzora cal- 
Tino publico, e deixara crescer a barba o mu Iara vestido e con- 
vocara os Índios e os fizera pôr de parte do inimigo contra nós, 
e tomar as armas outrosim contra nós, e que querendo o 
inimigo fazel-o capitão, e mandal-o como adjunto a Mobica, 
povoação da Campanha, elle dissera quo adjunto não, que 
o deixassem ir capitão, e que verião que a nenhum por- 
tuguez dava a vida, o que não tivera effeito por o inimigo 
86 não querer fiar delle, outrosim 6 publico quo no Re- 
cife dissera o dito Moraes a um frade Capucho que lá le- 
varam prisioneiro que ató agora andava errada em seguir 
nossa Santa Fé, que a sua seita herética que seguira era 
a boa, que a seguisse elle também e dizem que o dito 
padre Moraes se foi para a Hollanda, e dizem que lã se casou, 
e ao costume disse nada o assignou com o Senhor Bispo. Eu 
o cónego JFranHsco Gonçalves, que o escrevi. O padre Ma- 
noel Dias de Carvalho» O Bispo. 

As quaes culpas foram trasladadas bem e fielmente de uns 
traslados que vieram do Brazil, e andam no caderno 19 do pro' 
motor fl. 402 V. e concertei com o notário abaixo assignado em 
presença do promotor deste Santo Offlcio em fé do que passei a 
presente. 

Lisboa, no Santo Cilicio, 20 de maio do 640. Concertado com- 
migo notário JoXo Carreira — Manoel Alvares Migueis, 

Outra culpa contra este réo do processo de Diogo Henriques 
christão novo, solteiro filho de Pêro Henriques, natural de Me- 
dina de Rio Secco, residente em Recife do Pernambuco. Preso 
no cárcere da penitencia por ser judeu publico do profissão em 
28 do julho de Cá6, começou a confessar suas culpas e declarar 
quo fora baptisado depois de lhe serem feitos alguns exames, em 
quatrodiasdomoz.de dezembro do dito anno, que continuou 
por varias sessões e em dezenove do dito mez e anno na sessão 



PROCESSO DE MANOEL DE MORAES 17 

de genealogia dís^o sor do vinte e seis annos, o cm quatro do 
mcz de janeiro do 1047 disse contra esto réu o que se segue : 

Aos quatro dias do moz do janeiro do mil o seiscentos e 
quarenta e sotc, om Lisboa, nos estâus o casas do despacho da 
Santa Inquisição na primeira audiência estando ahi om audiên- 
cia o senhor inquisidor Bolcliior Dias Protto mandou vir pe- 
rante si do cárcere da penitencia a Diogo Henriques, réo preso 
conteádo neste processo por ello podir audiência e senJo pre- 
sente por dizer que a pedira para declarar o que mais sabia to- 
cante a sua causa: Dis<» quo ora de ^uais lembrado que haverá 4 
annos pouco mais ou menos no Recife do Pernambuco coniiecou 
u um homem quo representava edade de cinooonta annos, magro 
alto, cabello preto, não lhe sabo o nome, o ouviu dizer ter sido 
religioso da Ck)mpanhia o pregador, o que se passara a seita 
dos horojos, e os doutrin-^va em sous erros e vio no dito 
tempo que om companhia dos liollaniezes assistia a susis pré- 
dicas e ceremonias de sua soita, porque ainda que ello confi- 
tente não entrava dentro nas egrejas, nem dava fé do que 
dentro nelias se passava, via comtudo entrar o dito homem que 
por nome não perca na occasião das prédicas e sahir depois que 
ellas se acabavaD, detendo-so na dita o^^reja o tempo quo du- 
ravam as ditas ceremonias, o quo vio por algumas vezes no 
dito tempo, e nunca vio que o dito iiomom fosse a egreja dos 
cithoHcos romanos, e cm razão disso ora tido publicamente por 
professor da seita dos Hollandezes e a alguns portuguezes catho- 
licos ouviu olio confttente que o dito homem merecia ser quei- 
mado por se haver feito liereje o sondo pregador e religioso na 
villa de Olinda, e que auscntando-se do Recife para nmaaldêa do 
mesmo limite de Pernambuco a fazer páu ouviu dizer que veiu 
preso a este Reino, e ai não disso o ao costume disse nada, e as- 
sigaoucomo senhor inquisidor. Joio Carreira notário o escrevi. 
Belchior Dias Pretto — Diogo Henriques, 

Copia da certidão do credito. João Carreira, notário do Santo 
Oíficio da Inquisição desta cidade de Lisboa faço fé que o senhor 
jnquisi ior Belchior Dias Pretto depois do o ivir ao réu Diogo 
Henriquas a condssão que íica atraz diss Miiio lho parecia que 
fala?a vordaie nella e o mesmo pareceu a mim notário que de 
mandado do mesmo senhor passei a presente -que com o mesmo 

íUíl - 2 Tomo lxx. p, i. 



18 .REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

senhor assignoi. Lisboa, nos ostáus, om 4 de janeiro de 047. — 
Belchior Dins Preito — João Carreira, 

A qual culpa o certidão eu not.uúo abaixo assignado 
traslalôi bi^m o âelmoute da própria com que concorda e a 
quo mo reporto e coiicei^ai eoui o notário abaixo assignado 
em presença do promotor deste Santo OíBcio e certifico estar 
ratificado em S3U original, em £é do que passei a presente que 
assignei. Lisboa, no Santo OlQcio, O de janeiro de 047 annos. — 
Manoel Alçares Migueis — Concertado commigo notário Gaspar 
Clemente, 

1*" Appenso. Papeis tocantes a defesa de Manoel de Moraes. 

Aos vinte e seis dias do mez de fevereiro de mil e seiscentos 
e quarenta e sois annos, em Lisboa, nos está as e casas do des- 
pacho da santa Inquisição estando ahi os senhores inquisidores 
em audiência da manhã por haver noticia que Manoel de Mo- 
raes, ora vinio preso remettido do Brazil a e:sta Inquisição, 
trasia alguns papeis, foi busca* lo um sou bahú o nelle foram 
achadas algumas certidões que por fazerem a bom de sua causa 
o livramento mandaram os ditos senhores ajuntar o appoDsar 
por linha aos autos do dito Manael de Moraes para a todo 
tempo se poder usardellcs, e eu os autuei e appensei, e são sete 
folhas de papel entre escripiase brancas, e são do varias leiras 
e contém vários siixnaes, e tudo é o que se segue. Eu João Ca»*- 
reira notário o escrevi. 

Senhores — Kste sagrado tribunal procedeu contra mim sem 
a minha notícii chegar admonição, eui eu sabendo o que pas- 
sava, larguei a ocoa^ião e me confessei com um commissario de 
Sua Santidade, elle cum plenitudine polestatis ad augcndam 
fidem, de conselho do muitos religiosos mo restituiu as minhas 
ordens, e me deu uma larga patente disso em que assignaram 
por testemunhas portugueze^. catholioos conhecidoíi, um dellos 
que é Jeronymo de Oliveira Cardos >, procurador do mestre de 
e^impo João Feruan les Vioira, está nest i cidade, e por ventura 
tambam alguns dos outros. 

Eu nunca filiei na santa fi^ citholica romana, antes a de- 
fouai scmpit) conira honjes e judeus, como consta do um sum- 
m\rio de tcstomuuhas <{ue com esto aprov>eni'>, r o juraram 
ontr.iS i^essoas qudlá me conheceram e estão nesli cidade. 



PROCSSSO DK MANOEL DE MORAES . 19 

Retírei-me ao Brazil para buscar ordem de algum dinheiro, 
para a seu tempo me apresentar a este Santo Tribunal, eis que 
se levantou a guerra contra os Hollandezea o eu fiquei livremente 
com 08 portuguesB60, e os animei nas occasiões com um Cliristo 
Seoboi* Nosso Crucificado em as mãos, e por este melo alcan- 
çaram uma gloriosa victoria dos herejes, como consta dos pa- 
peis que apresento. E em outras âs o mesmo de modo que a 
mim se me d^ve grande parte do que se ba ganhado. Tratei 
logo de me vir apresentar a este santo tribunal, com beneplacUo 
do uns mestres do campo quo governavam ; e porque o terceiro 
que ó Martim Soares Moreno estava contra mim me mandou 
prender por paixões suas particulares, e preso me mandou re- 
metter a este santo tribunal pelo auditor, sendo que S(4to andei 
sempre, e me animava já para vir, como constará de pessoas 
dignas de fé que commigo vieram. 

Em uma occasião que o inimigo deu comnosoo, de súbito 
perdi a patente de oommissario oom ouferoe papeis de impor* 
tancia. 

ConflBeso que pequei contra a honestidade, disso peço perdão 
e misericórdia a este santo tribunal, que a imitação do divino^ 
deve receber a um pecador penitente, que conhece sua culpa, 
prostrado aos pés deste santo tribunal dizendo, pecea^i, peccavi, 
misericórdia, misericórdia, O licenciado Jfan^/ de Moraes, 

Pax Christi — Estas testemunhas serviram de se me resti- 
tuir minha honra depois de morto, pois nunca ftei hereje, o serã 
razão constante no Brasil por via dos padres da Companhia de 
Jesus. 

Testemunhas que entendo estão em Lisboa e me conhe- 
caram em Hollania. 

O padrd frei Francisco do Jesus, religioso de S. Francisco 
que esteve em H jllanda com o embaixador Francisco d*Andrade 
LoitíLo e lhe pedietc. 

Jerunymo d*01ivoira Cardoso, agente do mestre de campo. 

7 João Fernandes Vieira (entendo mora no corpo santo) 
darão noticia delle em casa do marquez de Monte Alvão; dor- 
míamos na mesma casa etc. 

O capitão da Oalle real, q»te aitove na casa onde eu coíítu 
mava dormir, que era de um alfaiate catholico. 



20 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

O Provedor da Fazenda que foi do Maranhão, Joronymo de 
Oliveira pode dar relação de He. 

t O capitão Pedro Ortiz Maciel que em Hollanda estava 
requerendo uma nàu que no Brazil Ibe tomaram os HoHandezes. 
Jeronymo d'OIiveira pode dar relação deile. 

Estão no Hiazii quo roo conheceram em Hollanda. 

f O Capitão João Pessoa Bezerra. 

t Manoel da Fonseca, alferes reformado do capitão Clulí»- 
tovão de Barros. 

f João Gutteres de Lever. 

f Paulo Pereira. 

t Sebastião de Carvalho. 

O filho do licenciado Jocão Gama cujo nomo não sei. 

Franciáco Carvalho, criado quo foi em Hollanda do capitão 
João Pessoa Bezerra. 

Periquito, criado que foi de Sebastião do Carvalho ainda 
que o não o vi agora no Brazil etc. 

Em Hollanda me conhecem por catholico etc. 

O embaixador Francisco d'Andrade Leitão, com quem tratei 
por vezes sobra me apresentar ao Santo Officio. 

f.O Dr. Feliciano Dourado, seu secretario. 

t O mestre Nicolau, alfaiate, em cuja casi, na rua dos 
Judeus dormia ordinariameato. K me confessei com o commis- 
sario de Sua Santidade. 

t Sua mulher Anna. Seus obreiros catholicos. Suas criadas. 

Outro catholico carpinteiro quo mora na inclusa, pe.to do 
mestre Nicolau em cuja casa dormi algumas vozes. 

Sua mulher. Suas filhas dua^. Dois moços catholicos que 
ahi dormiam. 

Mais do 200 catholicos homens e mulheres que frequenta- 
vam a cgreja do CorJeiro branco onde eu de ordinário ouvia 
missii • 

Mais de 100 catholicos que ouviam missa fora da porta de 
Regilías onde ou ia algumas vozes. 

Dos hert^jes om Amsterdam. 

f Sabiam ser ou catholico, tolos os da Companhia o seus fa- 
miliares o vizinhos que seriam mais de 100, afora outros par- 
ti jul&i'e8. 



PROCESSO PE MANOEL DE MORAES 21 

Em Leida : 

t Tolos os professores da Uaiversidade e muitos estudan- 
tes que seriam trinta, o outros tantos particulares. 

E mais de WO em a aldeia de Rinsburg onde morei um 
anno. 

Em Queldria : 

Quantos havia na cidade H»rdrvick que seriara 2.000 mo 
tinham por catholieo mas os qhc mais sabiam de mim seriam 
40 1 

Bstes todos sabem que nunca segui sinão a religião catho- 
líca romana etc. E que a defendia com todas minhas foiças. E 
o mesmo sabem a maior parte dos Judeus que moram em Am- 
sterdam. O licenciado Manoel do Moraes (no verso) : Os que 
têm cruz sabem mais de raiz das minhas cousas. — Moraes. 

illustrissimo Senhor.—- O padre Manoel de Moraes, que elle 
é muito doente e muito pobre e que não tem quem o soccorra, 
pelo que padece moitas necessidades o determina pedir a Sua 
Magestade uma esmola, e para isso lhe são necessárias uma cer- 
tidão do mestre de campo João Fernandes Vieira, passada no 
Brazil e de umas cartas para o mesmo senhor que cont^^m al- 
guns serviços que elle supplicante fez á. ri^il coroa, os quaes elle 
acostou a sua defesa, 

pede a V. S. eao Rev. Senado pelas chagas de Nosso Se- 
nhor Jesus Christo, se compadeçam do sua pobreza e necossida- 
dos e lhe mandem dar os ditos papeis. E Receberá grande es- 
mola e mercê.— 

Os inquisidores de Lisboa mandem tornar ao Supplicante 
08 papeis que pede, o sendo necessário ficará o translado nos 
autos. 

Lisboa, 24 de janeiro de 1648.— (Com quatro Rubricas,) 

Em virtude do despacho atraz dos sonhores do concelho fo- 
ram entregues a Manoel do Moraes quatro follias do papel que 
«tiraram desto processo quo continham a certidão e cartas de 
que na petição se faz menção, cujas copias não ficam neste pro- 
cesso por não i m por tarem a elle. Mayxoel Alvares Mif/ueis o os- 
crevl, no Santo OfBcio, 6 de fevereiro do O IS. 

Quando excitei esta facção de Pernambuco, e os moradores 
Qos encorporamos, e tomamos armas para nos livrar das op- 



22 RBVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

pressões o tyrannias que padeoiamos debaixo do jugo dos Hol- 
Undezes. Seodo o motivo principal que nos estimulou, um zelo 
christão com que deMyavamos apartar de nossos olhos as abomi- 
nações oom que estes hereges tinham profanado alguns de nossos 
templos e tirar escândalo das synagogas o nas quaes no Recife 
publicamente sepcrmittia judaizar. Logo no principio desta 
faoçao se veio para nó8 o licenciado Manoel de Moraes ; o qual 
desprezando os perigos que nos ameaçavam, nos seguio a pé 
descalço por caminhos ásperos dando grande exemplo o com um 
santo crucifixo arvorado, dizia palavras do muita devoção com 
que consolava este povo nos trabalhos que padecia. 

Ultra disto sempre depois que veio da HoUanda viveu bem, 
e sem escândalo : pelo que todo este povo e eu particularmente 
se alguma culpa nesse santo tribunal resulta contra ello, do 
tempo que esteve em Hollaada, pedimos a V, S. que se haja 
oom elle a misericórdia própria drtsse santo tribunal, o todos go> 
raimente eeu em particular ficaremos obrigados e muito agra* 
decides. 

Sobre esta mesma matéria escrevo também a Sua Mages- 
tade. Nosso Senlior como pode guarde a V. S. por largos annos 
etc, Neste quartel de Bom Jesus de Pernambuco, aos d de ja- 
neiro do 1646.— João Fernandes Vieira, 

Vindo a esta campanha de Pernambuco com algumas com- 
panhias do meu terço acudir aos moradores que estavam le- 
vantados, chegando a povoação do Santo António do Cabo, achei 
ahi encorporado com os mais moradores e soldados do mestre 
de oampo João Fernandes Vieira, ao licenciado Manool de Mo- 
raes, o qual pela informação que tive logo no principio desta 
fkoção se veio para elle exhortando os moradores com palavra» 
muito pias e ohristãs que lhe davam muita consolação e animo 
E pelo selo grande que mostrou ganhou o applauso gnral do 
todo este povo ao qual fica muito aceito; vai-se apresentar nesse 
■anto tribunal, pedem todos em geral e eu em particular peço a 
V. S. que si algumas culpas contra elle resultim do tempo qno 
•steveem HoUanda, se tenha com elle misericórdia e que sirva 
este grande serviço que a Deus fez di i^juda para seu perdão, 
que si teve culpas devo ter arrependimento delia*», porque sou 
bem informado que depois que tornou para esta torra viveu bom 



PROCB3ÍÍ0 DE MANORL DE MORAES 23 

6 sem escândalo ; de efflcacia dosti intercossão â;am todos 
muito certos, e eu particularmeatOi Nosso SGQhor com> pode 
guarda a pessoa de V. S. por muitos e felizes aaaos etc. Deste 
quartel do Bom Jesus de Pernambuco a 9 de janeiro do 1616.— 
André Vidal de Negreiros. 

Pernambuco. 

Petição do licencialo Manoel de Moraes para se lho per- 
guntar testemunhas. 

Senhor Governador. 

Dia o licenciado Manoel de Moraes que a elle lhe ó necessá- 
rio para bem de sua justiça tirar um sammario do testemunhas 
de homens que o conheceram em Hollanda o sabem que lá Ti< 
yeu sempre como catholico polo que pede a Y. S. lhe fhçv 
mercê mandar lhe tirar o dito sugimario perguntando as tes- 
temunhas que elle apresentar o receberá, a justiça e Mercê. 
Despacho : O Juiz ordinário pode tirar as testemunhas que o 
Sapplicaote apresentar para bem de siii justiça, hoje 
17 de novembro de 645 annoá. João Fernandes Vieira. Ou- 
tr(f despacho. Perguotem-se-llie as testemunhas como pede. 
Varrea, 17 da novémbi^o do 645 annos. Horangor. Aos vinte e 
oito dias do mez ie novembro do diíI e seiscentos e qiiaronta o 
cinco annos, na Várzea de Capiboribe, termo da villa de Olinda 
capitania de Pernimb.ico. O Juiz Francisco Beran^er d* An- 
drade commi^o tabdllião ao deante nomeado tirou as testemu- 
nhas que por parte do SuppUcante lhe foram apresentadas o 
seus ditos o nomes são os que adeante se seguem. Eu Maooel 
João, publico taboUião do judicial c notas quc^ o escrevi João Qiu 
terros d'Oliver, morador na villa de Olinda dr^ eiad(> que dissef 
ser de 50 annos, testemunha jurada aos Santos Fvartgelhos que 
lhe forani dados prometteu dizer a verdade, o do costumo nada; 
e perguntando a elle teatomunha pelo contondo na petiçfid e ár^ 
tigos do Supplicanto o lioenciado Manoel de Monos disse qtter 
elle testemunha cmhecniM ao dito licenciado Manoel de Moraeí 
em Hollanda ; em sua companhia fora al^niinas vozes ouvir missa 
cm cas-if particulares onde se costumava a diwr.ímse mrssai» 
e nellas o achou maltas rezes* co:n suas coiiti^ qàe é a insi-cnia 
dos ^hristãos e outpjsim «Jis e <^llo fcestomunha une era suas con- 
verá.içôoí o pr:ittca minca lio onvir.un p.ilavra< qiPí emontras^e 



24 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

a verdado nossa santa fé catholica, o outrosim disse elle toste- 
manha quo estando om a cidade de Amsterdam em casa de um 
' flamengo catholico por nome Nicolau se recolliora o dito licen- 
ciado para tratar do sua Cv)níissâo e absolvição, o qual fazendo 
por papel seus apontamentos para quo com oUes mais se de- 
claretsse e o communicou a um frade que naquellas partos 
era commissario do Sua Santidade o ab^solveu e lhe deu os sacra- 
mentos da Santa Madre Egrdja, c lho fez mais i*estitulcões as 
quaes constaram de uma certidão que o dito commissario lhe 
passou, na qual elle tostemunhi está assignado e o capitão Gon- 
çalo Ortiz o JeroDymo de Oliveira Cardoso por estarmos todos 
os sobreditos presontes, e ai não disse e assiguou com a do Juiz. 
Eu Manoel Jofio, publico tabeUi<ão do judicial e notas que o es- 
crevi. Joflo Guterres d'OUveira, 

Beranger. .luão Pereira estante nesta capitania de Pernam- 
buco, natural qae dieso ser da cidade de Braga, do odade de 30 
annos, testemunha jurada aos Santos Evangelhos quo lho foi*am 
dados prometteu dizer verdade, e do costume nada, o pergun- 
tando a cUc testemunha pelo contendo na petição e artigos úo 
Supplioante disse cUe testemunha que estando em Hollanda conhe. 
cera ao dito licenciado Manoel de Moraes e o vira na mis;^ algu- 
mas vezes o fora elle testemunha em sua companhia, e outras 
veies o achara já nas casas secretas onde era costume dizer-so 
missa estando com soas contas o mais insígnias catholicas roma- 
nas e outroiim disso elle testemunha quo por muitas vozes vira 
ao dito licenciado ter praticas com judeus e hereges nas quaos 
contradizia as suas fl&lsas seitas e lho mostrava com muitas razões 
•videntes e nas occasiõesquo elle testemunha vira sempre pre- 
tendia o dito Supplicante levantar a nossa santa fé catholica o 
aniquillar a dos hereges, e quo elle testemunha sabe como dito 
tam por se achar presente em muitas occasiões, o ai não disse e 
aasignou com o dito juiz. E ou Mnnoel Jotio tab^llião que o escrevi. 
João Pereira Heranger, O capitão João Pessoa Bezerra, morador 
na Várzea, de ei.'vle vínto e cinco annos, test')munha jurada 
aos Santos Evíingelhos que Ihfí foram dados, promt^ttnu dizer 
verdade e do costuma Jia la — o perguntando i elle testomu - 
ntaa pelo contetVlo na petição o artigos do Supplicante o li- 
cenciado Manoel de Moraes disse elle testemuniia que oito co- 



PROCESSO DE MANOEL DE MORAES 25 

Dhecera em Hollanda áo dito licenciado ouvir missa as casas par- 
ticulares onde S3 costumava a dizer missa c ncllas o acliou ai-' 
gumas yezes ouvindo-a com suas contas na mão que é a insígnia 
dos christãos e catholicos romanos, nem tão pouco vira ao dito 
licenciado em suas conyeL'sicôes e praticas dizer cousa que fosse 
contra a nossa santa fé, ante^ a defendia, tanto assim que es- 
tando clle testemunha com o dito licenciado ém companhia de 
am homem catholico, dissera ao dito licenciado que se mode- 
rasse em defender a fé, sinâo que o matariam ao (jxq respon- 
dera o dito licenciado: não mereço eu a Deus isso. E ai não 
disso e assignou com o diio Juiz. E eu Manoel João publico ta- 
bellíão do judicial e notas que o escrevi. João Pessoa Bezerra 
Beranger . 

O qual traslado do petição e justificação ou Manoel João 
pablico tabellião do judicial o notas da villa de Olinda e seu termo 
capitania de Pernambuco, que ora sirvo em ausência de SimãoVa- 
relia, proprietário do dito offlcio que o fiz trasladar da pró- 
pria petição o justificado que ílca em meu poder e com ella 
concertei e com o oíBcial abaixo a que me reporto subscrevi e 
assignei de meu signal raso e costumado, na Várzea de Capi- 
behbe, no hospital onde assisto com os enfermos delle, aos dez 
dias do mez do janeiro de seiscentos e quarenta e seis annos. 

O tabellião Manoel João. Ck)ncertado por mim tabellião 
Manoel João e commigo tabellião.— Manoel Ribeiro de Sá. 

Pax Christi — Os que em Hollanda se passaram a lei de 
Moyáés. Manoel Rodrigues Víonsancto, visinho que foi de Per- 
nambuco, om chegando a Amsterdam se cin^urascidou o de- 
clarou que sempre fora judeu no Bmzil e elle o toda a sua casa. 

Sua mulher. 

Boatriz, escrava sua do Guiné. 

Rachel, mulata sua filha. 

Outra sua filha oasou-se com um mulato filho do Solis, 
também judeu. 

O Doutor Zacuto Lusitano Jã defuncto e toda a sua casa a 
saber: mulher, ftllios o filhas, cujos nomes não sei. 

O Solis irmão de outro Solis quo aqui dizem queimaram 
pelo caso do Santa Engracia. 

Pêro de Campos e um seu irmão cujj nome não sei . 



20 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

Oairo Solis que yeiu das índias, do Castella cujo uome não 
loi. 

Qâbriel Casiaaho f^earo do Moosanoto e sua mulber. No 
principio do ievantamento da guerra estaTam no Reoifo, no 
Brazil. 

Domingos da Costa Brandão, morador que foi de Pernam- 
bueo e jã de lá yeiu judeui mas occuU'^, em HoUanda so decla- 
rou o sua mulher que desti cidade se passou a Hamburgo, 
hoje está em Amsterdam, judia, o elle no Recife, no BrazU. 

Fulano Darça que, em Amsterdam, casou oom uma judia e 
r«tã hoje no Recife, no Brazil. 

Vicente Uoix, morador de Pernambuco, se fez judou a ó jã 
morto. 

Balthazar da Fonseca, morador em Pernambuco e sua mu- 
lher ; se fizeram judeus e estão no Recife. 

Duarte Saraiva, so fez judeu e esti no Recife. 

João de Lafaia, so fez judeu e sua mulher, estão no Recife. 

Gaspar Francisco, so fez judeu, e esta no Recife. 

Em AmHterdam esta feito judeu um clérigo da cidade do 
Porto, segundo olic me disse, não lhe sei o nomo, chamam-lhe 
doutor porque cura. 

Dona Anna, natural de Pernambuco, mulher que foi Já de 
um lioUandez chamado Tortão, morto elle, casou oom outro hol- 
landez e porque elle não queria casar com oila por ser catho* 
lioo, diz que fez un papel de seguir a seita do Calvioo ; está 
casada no Reciíé, segundo todos afflrmam Calviua e grande 
inimiga de Portuguezes ; meia légua do arraial tem (ázenda de 
assucar. E sua mãe está ahi perto em cuja casa, me disse um 
soldado, tioha ella uma negra costureira do muito preço. 

SÃO sei outra cousa. O licenciado — Manoel de Moraes. 

Miguel de Monserrate, castelhano, so foz calvinista em Hol- 
landa eeserevou um livro contra o papa e contra o santo sscri- 
ficioda Missa. 

Francisco de Faria so foz jnlon por casar com uma judia. 
Moraes , 

Pax Christi — A noticia quo teoho d'^s que tôm cousas 
dos judeus o flamengos 6 a si>guinte. 

Balthazar da Fohskíí, judeu, tinha na matt;i cinctmnta o 



PROCESSO DE MANOEL DE MORAES 27 

taatog bois de oarro que Talem quinhentos e taaios mil réis, 
destes bois se apoderou o mostre de cvmpo Jo&o Fernandeli 
Vieirat e os daa a guardar a Miguel Pernanios no Tapaourâ ; 
dísse-me Miguel Fernandes que os mais dellos se montaram. 
O mesmo judeu tioha na matta do Brazil muito páu feito e 
muitos escravos do Quine, não sei o que foi delles. Em Olinda 
iem ca«ai, jardins e olarias, que dizem valem vinte mH cruzados, 
e>tSo em ser e João Fernandes Vieira deu tudo a um Luiz da 
Casta« homem de poucos mei'ecimento3 por suas importunações. 

O mestre do campo João Fernandes Vieira, seu sogro Fran- 
cisco de Ceringuel, Luiz da Costa Sepúlveda e o capitão de 
Cavaliaria António da Silva, dizem, ílcaram com muitas fazen- 
das do Recife e entre elles António da Silva capitão com setenta 
oovados de tela, mas não sei si são dos Hollandezes, si de judeus. 

O mestre do campo João Fernandes Vieira, aflirmam, man- 
dou para a Bahia 200 ou SOO escravos de Quine, uns do presente 
ao governador António Telles, outros para se venderem, aqui 
está Jeronymo de Oliveira Cardoso, seu agente que, entendo, le- 
vou muitos delles para a Bahia e assim dará bôa razão delles. 

O sargento-mór António Dias Cardoso tem muitos destes 
eicravoa postos om varias casas de mercadoras, o eu vi seis ou 
3ete no Tapacurá, em casa de Miguel Fernandes, dizerem serão 
por todos 70 OQ 80. 

O capitão António Qomes Taborda também tem alguns. 

O alferes Domingos do Sd da Companhia do mestre de campo 
J(Âo Fernandes Vieira tambam me parece tem uns poucos. 

Franeisco Aires, mulato, com outros tomaram 5 ou t'> pacaa 
de nm judeu, ou flamengo, destas tem uma o padre Simão dft 
Figueiredo Guerra. 

O capitão João I^rbosa, que morreu na guerra, diziam, 
mandara para sua easa cinco. 

Km casa do capitão-mór dos índios Camarão ha 4 ou 5 desta» 
peças. 

Henrique Dias, capitão-mór dos no<?ros, ^lizem tomou ma- 
ehioismos e os vendeu . 

O ajudante Bravo da Companhia do capitão Asceoço da 
Silva tem um negro que foi do Duarte Saraiva, Judeu ; di8se-mo 
que o acliara em casa de um mor«MÍor. E que o tomara ptu» 



28 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

oatroque morrera seu, em casa do judeu e ainda em casa do 
morador ficavam 4 ou 5. 

Outros soldados, e capitães tem outros, que será fácil saber 
se a quem lá inquirir disso. 

O mestre de campo Martim Soares Moreno na caravella, 
em quo veiu Francisco de Bcriogel, que partiu de Nazaretb, 
um dia antes de nós, mandou um valente negro destes a um 
sobrinho seu clérigo que tem nesta cidade. 

O capitão Manoel Pinheiro trouxe a Maria e Izabel : vie- 
ram mais duas na caravcUa, uma do mostre, outra do piloto e 
uma, a mulher de Francisco Bravo que está nesta cidade. Isto sei 
em confesso. O licenciado Manoel de Moraes. 

Processo de Manool de xMoraes, sacerdote natural da villa 
do S. Paulo, estado do Brazil, ausento nas partes do norte. 29 
appenso. 

Processo de Manool de Moraes, religioso da Companhia de 
Jesus, apóstata da religião. 

Culpas contra Manoel de Moraes quo foi da Companliia de 
Jesus. 

Da denunctação que dou na mesa Duarte Gutteres e anda 
no caderno 11) do promotor a íl. 24 o na sessão antecedente a 
fl. 20, disse ser do edade de 34 annos. 

Aos quatorze dias do mez de novembro de mil e seiscentos 
e trinta e nove annos, em Lisboa, nos estáus e casa do despacho 
da Santa Inquisição, estando ahi em audiência da tardo o so* 
Dhor inquisidor Diogo de Souz\, mandou vir perante si da sala 
do Santo Oíllcio onde estava a Duarte Gutteres para oonti- 
nuar sua denunoiação, e sendo presente lhe foi dado Jura dos 
Santos Rvangolhos em que poz a mão e sob cargo dello lhe 
foi mandado dizer vordatlo e gu:irdar sogredo no que dissesse 
o quo prometteu cumprir, e continuando sua donunciação, de- 
pois de outras cousas: 

Disso mais que havenl quatro para cinco annos em Ams- 
terdam te achou ollo dnnunciante com Manoel tio Moraes portu- 
guoz, não salK) dondo <' natural, o loi padre da Companhia no 
Brazil, o qual <> casado com filhos ese tihha feito calvinista e 
por tal ora tido na dita cidade eque o dito Manoel de Moraes 
havia tido aacerdoto de missa, e que pudera dar razão do sobre* 



PROCESSO DE MANOEL DE MORAES 20 

dito O padre Ignaoio Bsfcaforte, morador na casa de S. Roque, 
desta cidad'), e ai não disse o que deve esta sua denunciação por 
descargo de sua consciência e que sabia o sobredito por assistir 
em AmsterJam ha doze para treze a unos onde foi, o de 
oostuoote di^e nada e assiguou com o dito senhor. Lut j Ferrt^o^ 
o escrevi Duarte GuUeres Estoque, — Dioyo de Souia, 

Foi trasladada a culpa atraz da própria com que concorda 
e a que mo reporto, ou p.*Ojei)t;a do p/j noítv fiscal do Sauto 
Oiflcio, a 8 do junho do 640 — Domingos Ksteoes. 

Concorda com o concertado commigo noUrio — Uasjktr 
Clemente» 

Outra culpa contra este nHi. 

Do processo de João Fernandes, chiistao novo da cida lo do 
Porto, prjfessor do lei do Moysis nos ostados reboldos. 

O qual se apresentou, na mesa em 4 de junho, e disso sor 
de odade de 41 annos e do réi o seguinte: 

Aos cinco dias do moz de junho do mil o seiscentos o qua- 
renta ânuos, em Lisboa, nos estáus o casa do despacho da Santa 
Inquisição, estando ahi cm audiência da manhã os sonhores inqui- 
sidores mandaram vir psrantc si do cárcere da penitencia a João 
Fernando?, réu apresentado contido nesse processo e sondo pre- 
asQte lhe foi dado juramento dos Santos Bvangelhos em que 
poza mão e sob cargo delle lhe foi mandado dizer verdade e 
gairdar segredo o que olle promotteu cumprir o depois de ou- 
tras cousas: 

Disse que só lho lembra conhecor na dita cidade de Ams- 
terdam, haverá quatro an nus pouco mai^ ou monos, um homem 
que mostra ser de .'30 annos do poucas cdrncs, o moreno de cor 
o qual, diziam, haver sido religioio da Companliia do Jesus e ter 
sepassido aos Hollandezes nos optados do Brazil, fazendo al- 
gumas cousas em utiliialo sua e prejuizo doa catholicos, pela 
qual razão lhe dava a companhia dos Hollandezes que sustenta 
a guerra no Brazil uma certa ordinária do que eilc se susten- 
tava, o qual homem viu olle confltont'^ casado na dita cidado 
com uma íiamonga do prodssão <ie culviaisti, e ontinuar nas 
egrejas dos nn3S nos cilvinistas o porcnsado e calvinisGa sa';e 
estar com mu mente repuudo das pessoas que o conhecem, e que 
não se lembra de o ouvir nomear, e ai não disse e ao costume 



30 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

disáe nada, o assigaou com os ditos soobores que admoestado 
em forma o mandaram a seu cárcere. João Carreira notário o 
escrevi. — Pantaleão Roix Pacheco — D. Álvaro de Aihayde — 
Diogo de Sousa — • João femandes, 

Foi trasladada a culpa atraz da própria com que concorda 
o a que me reporto cm presença do promotor do Santo Ofilcio é 
a concertei com o notário abaixo assignado e dou fé estar ratifi- 
cada em S3u original. Em Lisboa, no Santo Offlcio, 24 do Março 
de 64*^. Domingos Esteves, Concertado commigo Luis Ferrão, 

Outra culpa contida esteróuiDa denunciação que deu na 
Mesa o padre frei Thoniaz Falagre e anda no caderno 19 do 
promotor a fls. 65 e 70. 

Aos dezeseis dias do mez de novembro do anno de mil e 
seiscentos o trinta e nove em Lisboa, nos estáus e casa do des- 
pacho da Santa Inquisição estando ahi em audiência da manhã 
o senhor inquisidor— Dom Álvaro de Athaydo mandou vir perante 
si ao padre firei Thomaiz Alagre, religioso do convento do Carmo 
no estado da província do Brazil, natural de Monte mor o novo 
e ora residente nesta cidade, e sendo presente por dizer que 
tinha que denunciar nesta mesa lhe foi dado juramento dos 
Santos Evangelhos em que poz a m&o, o disse ser de edade de 
cincoenta annos. 

E denunciando disse que em vinte oito de junho próximo pas- 
sado, quatro dias mais ou menos desembarcou na cidade de 
Amsterdam nos estados rebeldes onde o levaram preso os Hol- 
landezes dosdo a Pirahyba, do convento de sua ordem onde pre- 
sidia e chegando ahi a dita cidade de Amsterdam o visitaram 
alguns portuguezes deste Reino conhecidos do Brazil que profes- 
savam na mesma cidade a lei de Moysés, e logo nomeou muitos 
e declarou quo na dita cidade do Amsterdam, no mesmo tempo 
em que tem declarado desembarcara nella em um dia do qu« 
em especial se nâo lembra lho mostrou Diogo de Aranzede um 
homem preto, alto, magro e feio quo representava ser de perto 
de cincuonta annos quo elle conhecia muito bem de Pernambuco 
e se chamava o padre Manoel de Moraes, onde era padre da 
companhia sacerdote e theologo e capitão do gentio, e quando 
08 Hollandezos entravam na Paraliyba se lançou com olles, e de* 
pois, se foi a dita cidade de Amsterdam, onde andava vestido de 



PROCESSO DE KUNOEL DE MORAES 31 

tutto como secular oom um traçado' e estava casado com uma 
ualhor viava pobro o o casara um pródicaDto caWiaista, o 
que elle sabe por sor publico e constanto na dita cidade 
e vér elie denunciante quo tinha em sua casa a dita mulher da 
meiíua manoira qno outros homens cisados, e que também era 
publico que o dito padre Manoel de Moraes ora liereje o o ti- 
nham todos por esse e se dizia ser calvinista, o quul fez um li- 
vro dos portos e entradas dos Hollandezos, digo das partos do 
Braaúl, como ftlho do mosmo Estado, e alguns Hollandezes predi- 
cantos lhe disseram na dita cidade de Par ahy ba a elle denunciante 
que o dito livro tidha cousas contra nossa Santa Fé catholica, 
de quo não duvida porque já na meáma cidado em quinta-foira 
deEndoençasdoanno em queos Hollande/.os tomaram a dita 
cidade, estando jantando ello denuuciante com muitos portu- 
goezes leigos, em casa do governador Carpintel com elle e com 
o dito padre Manoel de Mopaos o com alguns ^0 holiandezes se 
pez a comer carne o dito padre Manoel o reprehendendo-o Duarte 
Uomesda Silveira por sar homem de 80 annos o dos priocipaos 
da Parahyba, dizendo lhe quo^ pois, ollo comia queijo e azeitonas 
o os mais portuguczes que não desse mau exemplo de si quo ató 
os Hollandezes o haviam calumniado, ao quo respondeu o dito 
padre Moraes que o deixassem que queria viver cora aquolles por- 
tuguezes, e assignou com o dito senhor. Dominoos Kseves notá- 
rio que o eeerevi. Dom Álvaro de Athay de. Frei Thomaz Falagre, 
Foi trasladada a culpa atras da própria com quo concorda 
e a que me reporto em presença do promotor fiscal do Santo 
Oflicio o a conoertei com o notário abaixo e dou fé estar ratifi- 
cado cm sou original. Bm Lisboa, no Santo O file io, 19 de junho 
(Í6G40. Domingos Esteves , Concorcado commigo notário Gaspar 
demefiU, 

Aos dose dias do mez de junho do anno 1Ô40, om Lisb()a, nus 
estàos e casa do despacho da Santa Inquisição ostaodo ahi em 
audieucia da tarde o senhor inquisidor D. Álvaro de Athaydo, 
mandou vir perante si ao padro liaphael Cardoso, procurador 
que fji da Companhia do Jesus, na Bahia, o morador no coUegio 
de Santo Antão, o sondo presente lhe foi dado juramento dos 
&iQki3 iivangolhos om que poz a mão, e prometteu dizei* a vor- 
iajo 6 disse ser de eiado de 44 annos. 



32 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

Porguntado polaa porghntvs geraes disse quo suspeitava 
.ser chamado a esta Mes i para se tomar dolie alguma io formação 
em razão do padre Moraes. 

Pergaatado quem era o dito padre Moraos, donde natural 
e mo(*ador, que estado e profissão tiulia o quaato tempo iia quo 
elle testemuDlia o coaheco, o que razão tem para o coniieoer. 
Disse que o dito padre commummonte Iii'3 chamavam o padre 
Moraes, e lhe parece que o nome inteiro ó Mauoel do Moraes, c 
oi*a natural da villa de 8. Paulo do Kstaio do Brazil, religioso 
da Companhia de Jesus da dita provincia do Brazil, e que ha- 
verá 22 anãos que cllo testemunha o viu e co'uheceu no Collegio^ 
da cidade da Bahia, onde era estudante o dito padre Moraes e 
que ó de boa estatura magro e moreno, e que dentro do poucos 
dias se fui olle testemunha para o CoUcgio Pernambuco, onde 
passados trcs ou quatro annos foi ter o dito padre Moraes em 
companhia do provincial, o quo por cousa de 4 ou 5 mezos, 
tornou ahi a tratar elle testemunha, e agoi*a o melhor lem- 
brado e affirma que o dito padre se chama Manoel de Moraes. 

Perguntado si sabe onde foi baptisado o di;o padre o si 
tinha algumas ordens e quaes eram: Disse que não sabe onde 
fora baptisado o dito padre porém que era tido e havido por 
christão baptisado e que a villa em que nasceu é da diocase do 
Rio de Janeiro, onde todos os moradores são de christaos bapti- 
sados, e que estando elle testemunha noHrazil se ordenou do 
ordens sacras ató se fazer sacerdote o dito padro Moraes, o que 
elle sabe posto que o não viu ordenar porque se lho fazia na 
companhia o tratamento <iuo somente se faz aos sacerdotes e 
era superior de nma aldéa em que a companliia costuma pôr 
aos Sicerdotes. 

Parguniado si sabe de qae nação era o dito padre Moraos 
e quem foram seus pães e avós, disie que ouviu dizer que o 
dito padre tinha parte de mameluco e na côr o mosti*ava, porém 
não sabe dar razão corta dos pães, avós, ascondentes do dito pa- 
dro Moraes; que haverá 5 ou O annos, foi captivo p )los Hollande- 
zen junto a Paraliybi donde o levaram ao Recife de Pornam- 
bucoe estandoahi soube por Domingos ('Oolho, provincial do Bra' 
zil que o dito padre Manoel de Moraes mudara o traje da compa- 
nhia e andava no Recife vestido secular oomtrancelim e chapôa 



PROCESSO DE MANOEL DE MORAES 33 

como si não fora religioso, pelo que o dito provincial o houve 
logo por despedido da Ck)mpaiiliia e procurou tanto que se lhe 
notificasse a dita expulsão que em effeito se lhe deu noticia delia 
estando no Recife — ao que respondeu que não sabia porque 
despediam que não tinha feito cousa alguma por onde o mere- 
cesse, e que o dito Moraes ficou então expulso por que desta ma- 
neira despede a companhia conforme suas conâtituiçõas e que 
eUe ouviu por muitas vezes dizer ao dito provincial que tinha 
despedido ao dito padre Moraes e o repetia muitas vezes* B que 
oatrosim ouviu elle testemunha no dito tempo que o padre 
Moraes era passado a Hollanda onde estava casado, porém que 
não sahe que certeza e ftmdamento tivessem os que isto diziam 
nem sabe que pessoas possam dar razão do contido neste seu 
testemunho sinão forem alguns soldados do Brazil dos que na- 
qoelle tempo foram presos e captivos em Hollanda, e assignou 
com o dito senhor. Domingos Esleves^ notário que o escrevi. 
Alvará de Atkayde, -~ Raphael Cardoso . 

Aos vinte e seis dias do mez de junho do anno de 1640, em 
Lisboa, nos estáus, e casa do despacho da Santa Inquisição e es- 
tando ahi em audiência da tarde os senhores inquisidores man- 
daram vir perante si ao padre frei António Caldeira, religioso 
de Nossa Senhora da Graça que assistiu nas partes do Brazil e 
sendo presente lhe foi dado juramento dos Santos Evangelhos 
em que poz a mão e disse ser de edade de 44 annos. 

Perguntado pelas perguntas geraes não disse cousa que se 
bouvesse de escrever. 

Perguntado se conhece alguma pessoa que havendo nas- 
cido neste Reino ou em suas conquistas e recebido o sagrado 
baptimo fizesse depois alguma mudança nas matérias de Re- 
ligião. Disso que sendo captivo dos liollandezes no Recife 
conhecera ahi um religioso da Companhia do Jesus de sobre- 
nome Moraes, sacerdote natural segundo se dizia do Rio do 
J&oeiro, o qual era publico haver- so lançado com inimigo na 
occasião que se perdeu a praça da Parahyba, o apostatado 
da nossa santa fé, haverá seis annos pouco mais ou menos, 
tendo crença na seita dos hereges reformados, om tanto quo 
alguns dos ditos hereges assistiam na dita paragem do Recife 
em abonação da doutrina que seguiam davam em rosto a 
7341 — 3 Tomo lxx. p, i. 



34 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

elle testemunha con) a approyação do dito padre Moraes 
dizendo que com o ser religioso e letrado a segaia e prógava 
e desejando elle testemanha encontrar-se com o dito religioso 
afim de o procarar persaadír a que deixasse sua cegueira e se 
reduzisse a religi&o cathoiica romana o viu em uma rua do 
dito Recife vestido de grã com traçado, que é traje particular 
da gente militar que não é religiosa, a qual os herejes nSo 
constrangem vestir a pessoa alguma ecclesiastica cathoiica 
contra âua vontade, e assim elle testemanha emquanto andoa 
entre elles conservou sempre o seu habito religioso, oom o que 
se ficou confirmando na commum reputação em que todos 
tinham ao dito religioso de se haver apartado da fé cathoiica 
romana e tido crença na dita seita dos herejes reformados e 
posto que emquanto o dito religioso residiu naquelle estado 
não fez outra mudança de si ; comtudo depois que se passou a 
viver a cidade de Amsterdam ó fama publica e constante que 
elle se casou com uma mulher não sabe de que profissão, e ai 
não disse nem lhe foram feitas mais perguntas e ao costume dis- 
se nada, e sendo-lhe dito este seu testemunho em presença do 
padre flrei Fulgencio Leitão e do licenciado João Carreira sacer- 
dotes assistentes nesta cidade disse que estava escripto na ver- 
dade, e que nella não tinha que tirar augmentar nem dizer de 
Dovo ao costume e assim o afflrmava e ratificava e dizia de 
novo, sendo necessário debaixo do juramento dos Santos Evan- 
gelhos a que tudo estiveram presentes os ditos padres que pro- 
metteram de guardar segredo e dizer verdade o que promette- 
ram cumprir debaixo do dito juramento assignaram com elle 
e com os ditos senhores. Domivg os Esteves quo o escrevi. 
Pantaleão Róis Pacheco. D. Álvaro de Athayde^ Diogo de Souza. 
Frei António Caldeira. Frei Fulgencio Leitão. João Carreira. 

Ido para fora o dito padre foram perguntados os que lhe 
assistiram se lhes parecia que falava verdade e se lhe devia 
dar croiito, por elles foi dito que sim lhes parecia que falava a 
verdade e so lho devia dar credito, o que disseram debaixo do 
dito juramento e tornaram a assignar com os ditos senhores. 
Domingos Esleoes que O escrevi. Pantaleão Roiz Pacheco. D. Ál- 
varo de Athayde. Diogo de Somza. Frei Fulgencio Leitão e João 
Carreira. 



PROCESSO DE MANOEL DE MORAES 35 

111». Snr. Diz o padre Simão Alvaros Provincial da Compa- 
nhia áe Jesus nestes Reinos, em sen nome, e de toda a sua re- 
ligiio qae a sua noticia yein, que na citação que se fez por 
éditos, por ordem do Santo Offi^io, na pessoa de um Manoel 
de Moraes, sacerdote secular, que das partes do Brazil se 
pasBOQ a Hollanda, e lá vive, casado, ou amancebado, o que se 
aehar na verdade, se declarou que o dito Manoel de Moraes era 
religioso expulso de certa rdligião: 

E po)*que o dito Manoel de Moraes esteve algum tempo na 
Companhia e delia foi despedido por suas faltas antes que se 
passasse aos HoUandezes, e muito antes que professasse outra 
lei, e nonca na Companhia fez votos solemnes, sioio os votos 
sim^ioes, acabados os dous annos de noviciado; e pela expulsão, 
que a Companhia delle fez, ficou livre, e desobrigaito, dos votos 
da religião no estado dos mais clérigos e sacerdotes seculares, 
e não se pode chamar religioso, nem dizer-so que só ó conforme 
as constituições da Companhia, approvadas pela Sé Apostólica, 
e ao oommum dos doutores que na matéria escreveram ; e por- 
que maitas pessoas têm lido, e vão lendo o dito edital e o vão 
escrevendo por todo o Reino e partes estrangeiras, o que pode 
resultar em grande descrédito da Companhia e seus religiosos 

oomo sempre o é quando semelhantes cousas se divulgam, e 

porquanto o fim deste tribunal, ó atalhar similhantes infâmias, 

eom a Companhia tem experimentado muitas vezes em outras 

oocasiões. 

Pede a V. S. que não só na sentença, que se ha de dar ao 

dito Manoel de Moraes, mas que logo de presente, se emendem 

as ditas palavras, fazeado-so outro edital na forma, que se cos- 

tama aos mais sacerdotes seculares. E. R. J. E. M. 

Despacho, Os inquisidores de Lisboa vejam esta petição e 

informem com seu parecer. Lisboa, 21 de agosto de 1640. 

Com três rubricas . A' margem da petição acima foi posta a se^ 

pinte nota : 

Constitutiones Societatis in Examine gener ali 1. 6, in^fine, 

Ep. 2 c. 4 § 3 Ep. 5 c. 4. Sanch in Decai. 2 t. 1. 6 c. 9. n. 61 

a&5. E communis. 

Illustrissimo Senhor.— O Paire Simão Alvares Provincial 

da Companhia de Jesus propGo a Y. S. lUustrissima como no 



36 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

Edital com que foi citado o Padre Manoel de Moraes, que havia 
sido religioso da mesma Crompaahia, sin&o devia dizer que elle 
era religioso expalso de certa religião pela infâmia que dahi 
padera resultar assim principalmente quando elle pela expul- 
são deixou de ser religioso, parece a Mesa que não ha lagar de 
se deferir este requerimento, porquanto constando que o dela- 
to era religioso ao tempo que se passou aos Hollandesees, posto 
que depois fosse em razão disso expulso por seu superior, como 
aponta o padre Raphael Cardoso, testemunha da justiça, e pro- 
curador da Companhia na Bahia, não ha duvida que deve ora 
ser denominado pelo ultimo estado, porque nem por isso o 
fica o Santo Offlcio approvando por verdadeiro religioso que 
de presente j& não é. E por se não considerar neste caso pre- 
juízo algum de religião da Companhia, pois se não nomeia a de 
que elle foi expulso. E quando o requerimento fora de graça, 
posto que se devam todas aos padres da Companhia ainda se 
lhe não devia conceder, por não mostrar que se emenda, como 
erro, o que não o foi. Vossa Senhoria lUustrissima ordenará o 
que for servido. Mesa, 25 de agosto de 640. D. Álvaro d0 
Mhayde. Diogo de Souza, Pantaleão Róis Pachoeo. 

Despacho : Os inquisidores mandem tirar o edital de que 
se trata dologar onde eejtiver lixado. E na sentença quê se 
publicar contra o Padre Manoel de Moraes se lúLo tratará de 
haver sido religioso. Lisboa 25 de agosto de 640. Çom três ru- 
bricas» 

Josus Maria. 

Gregório de Caldas, morador na matta do Brazil, em PeN 
nambuco mo dove 50 quintaes de páu do Brazil, quo lhe em- 
prestei ; havíamos de dar postos na aldeia de S. Miguel de 
Mossury, 5 léguas do embarcadouro : si os pagar a dinheiro 
ha de dar por cada quintal, um cruzado que por esse prego o 
pagavam os Judeus do Recife, a quem lh*o dava 5 léguas do 
embarcadouro. Sabem desta divida que elle me deve Joio 
Dias Obuni quo correu com o dito páu e Manoel Travassos e 
Gonçalo Freire, o Luiz do Mattos, todos moradores em Per- 
nambuco na matta do Brazil ; o nesta divida não ha duvida 



PROCESSO DE MANOEL DE MORAES 37 

nenhuma : Outras coasas pretendo mais haver delle qae vAo 
estio ainda liquidadas, porque elle ó grande trapassoiro. 

Estevão Fernandes morador em Pernambuoo, no Engenho 
de Massurape tem um boi de carro, que me mandara Sebastião 
de Carvalho antes de se levantar a terra, e porque se levan* 
Um m'o não entregou : sabe disto Bernardino de Oarvalho 
irmio do que m'o mandara, e Gonçalo Freire acima nomeado. 

No sitio da aldeia de S. Miguel de Mossury me ficaram 50 e 
tantos quintaes de páu do Brazil, no monte entre as casas 
queimadas da dita aldeia ; depois do fogo todo apagado, estava 
ahi todo, entendo o nSo dei no rol passado. 

Sebastião de Carvalho, morador em Pernambuco, me deve 
de resto de contas obra de 40 mil réis pouco mais ou menos : o 
sen conhecimento ficou na mSo de Diogo da Silva, secretario de 
João Fernandes Vieira ; o dito Sebastião de Carvalho ficava no 
Recife com os Hollandezes, mas tem cannaviaes em Pernam- 
buco. 

Si acaso no rol que se fez quando eu estava doente esti- 
ver já alguma das addições aoima, o que a mim me não lem- 
bra não se tome a escrever. 

Devem se dar 'da minha fazenda 30 patacas ao padre pro- 
yiQcial do Brazil, para descargo de minha consciência pelo col* 
legio de Pernambuco, por certo escrúpulo que nisso tenho. 

Mais a pobred, por uma divida de credor incertor 40 patacas. 

Mais 2 patacas e mela, que so me deram para dizer de 
missas a um defunto, cujos herdeiros não sei onde estSo. 

A Laurentino Blau, hollandoz, morador em Amsterdam li- 
vreiro que mora junto ao logar onde se vende o trigo devo 
5 patacas de um calepino de 8 linguas que me vendeu. 

A Adriano Smetz morador na cidade de Leyden em Hollan- 
da devo em consciência alimentos e a duas meninas suas. 

Devo missas que prometti andando nesta guerra que agora 
se faz em Pernambnco. A Nossa Senhora duas, a Santo Antó- 
nio três, a S. Gonçalo duas, aos Santos Cosme e Damião duas. 

Advirto que o piu do Brazll que dei em lista o anuo passado 
é neceasario se recolha, e se não, seperderA, ou apodrecendo ou 
perdendo em iqetade do peso. O mesmo digo dos 50 quintaes 
que acima apontei. 



38 REVJSTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

Advirto mais que os HoUandezes mo deram peças de Gainô, 
bois e diolieiro qae valeria tudo dois mil e quinheatos cruzados 
para lhes pagar em páa do Brazii, e o que eu tinha feito para 
elles era : 

Mais um holiandez mercador do Recife cujo Dome me Dão 
pode lembrar, me deu um negro, por 64$000 róis e outras 
cousas que valeriam 5 ou 7$000 réis pouco mais ou menos para 
lhe tirar um pouco de páu que elle tinha na matta fora delle 
com os meus bois e carros ; o que não fiz ainda que já come- 
çava por se levantar a terra ; o negro vendi a Manoel Travas- 
sos acima nomeado, por 40$000 réis, e de resto mU>- os 20|000 
réis que elle me deve e apontei o anno passado. 

João Fernandes Vieira, governador da guerra da liberdade 
divina, passou éditos em que fazia quites aos que servissem na 
dita guerra do que ddviaili aos hollandezes ; conforme a isso 
parece que venci o que nas duas addições acima acabo de dizer, 
pois é publico o muito que eu fiz na dita guerra ; se é que elle 
tinha poderes para o fazer, o que se tinha por certo, ainda que 
eu não sei, pois, não vi seus papeis. 

Advirto mais que cada casal de escravos que deixei no 
Brazil, uns por outros valem ao menos 90 ou 100$000 réis, 
porque todos são mancebos, escolhidos e moças e a feitora 
Beatriz, si tem saúde (que ficara acbaquosa á minha partida) 
vale 100$000 réis ao menos. 

Muito Illustres Senhores. 

Contra Manoel de Moraes, sacerdote religioso da Companhia, 
expulso delia offereço os testemunhos juntos, por que consta, lan- 
çar-se o delato com os Hollandezes, e viver na cidade de Ams- 
terdam publicamente casado, professando a damnada seita dos 
Calvinistas, peço a Vossas Mercês o decretem a prisão com seques- 
tro de bans, e mandem seja citado por éditos, na forma do regi- 
mento e estylo, e se façam as mais diligencias necessárias a bem 
da justiça. 

E junto o roquerimcnto acima dopromotor para os senhores 
inquisidores lhe haverem de deferir seu mandado fiz estos autos 
.conclusos. Domingos Esteves, notário que o escrevi. Concluso. 

Foram vistos na Mesa do Santo Officio os testemunhos retro 
próximos de Duarte Gutterres, João Fornandes, frei Tbomaz e frei 



PROCESSO DE NUNOEL DE MORAES 39 

António Caldeira que depõem coDtra Maaoel do Moraes, contido 
no requerimento do promotor de que sendo sacerdote e religioso 
professo na Companhia de Jesus, se lançou com os Hollandezes, e 
se casou publicamente, e se passou a crença da seita dos hereges 
reformados. E pareceu a todos os votos que as culpas que resui* 
tam dos ditos testemunhos são bastantes para se proceder con- 
tra o delato, e que para isso se passem as ordens necessárias na 
forma do Regimento mas que provam o processo ao Conselho. 
Itesa 26 de junho de 640. B. Álvaro de Athayde. Diogo de Sousa. 
Panialeâo Róis Pacheco, D. Leão de Noronha, 

• De mandado dos senhores do conselho fiz conclusos estes au« 
tos. Diogo Velho que o escrevi. Conclusos. 

Foram vistos na Mesa do Conselho estando presente o lUus- 
trissimo Senhor Bispo, inquisidor geral, estes autos e culpas contra 
Manoel de Moraes nelles contido, e assentou-se que ó bem julgado 
pelos inquisidores em determinarem que as culpas são bastantes 
para se proceder contra o dito Manoel de Moraes, na íòrma do Re- 
gimento e estylo, mandam que assim se cumpra e dô a executo. 
Lisboa, 26 de julho de 1640. Francisco Cardozo de Torneo. Sebas* 
tião César de Meneses. Diogo Osório de Castro, O Deão de Braga, 

Os inquisidores apostólicos contra a herética apostasia, nesta' 
cidade de Lisboa e seu districto etc. Facemos saber aos que esta 
nossa carta citatoria edital virem ou delia por qualquer via ti- 
Terem noticia que o promotor fiscal deste Santo Officio appare- 
eeu perante nós dizendo que nesta inquisição havia culpas tocan- 
tes á fé contra as pessoas seguintes : Simão Qomes Nazar, merca- 
ior de sedas, João Alvares Penso, mercador de pannos, Manoel 
Solis Ilhoa, António Alvares Pinto, de alcunh% o dedinho, Ga- 
briel Lopes, mercador, Gonçalo Cardoso, também mercador, Simão 
Gomes de Paz, António de Azevedo, Gonçalo Lopes Coutinho, am- 
bos irmãos de Diogo de Paes, Francisco Dias, Jorge Lopo Rami- 
res, ambos cunhados, Sebastião Ayres, mercador de pannos, Pau- 
lo de Millão, reconciliado que foi por este Santo Officio, Luiz 
Ramires ou Henriques, filho de Francisco Marques, mercador, Du- 
arte de Palácios, Pêro de Palácios, ambos irmãos, Diogo Gomes da 
Costa, todos, cbrístãos novos, moradores que foram ne^ta cidade, 
ora ausentes delia e residontos nos ostados rebeldes e contra João 
Ca8tanho,Manoel DiasSoeirot Duarte Saraiva, Manoel Carvalhoou 



40 RBVI9TA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

Carneiro, Simão Corrêa, Domingos da Costa BrandSo, todoe ontro- 
sim christ&os novos, moradores que foram em Pernambuco, estadoe 
do Brasll,resídente6 de premente nos ditos estados rebeldes; e contra 
Manoel de Moraes, christão Telho, religioso expulso de certa reli- 
giSo e residente nosditos estados rebeldes, e porque queria aocusar 
aos sobreditos pelas ditas culpas, nos pedia mandássemos passar 
nossas cartas citatorias o editàes para que dentro do termo que 
por nós lhe fosse assignado apparecessemem nossa audiência para 
estarem a direito com elle promotor e responderem aoi artigos 
dos libellos com que os pretendia accosar, e que não appareoendo 
procedêssemos contra as ditas possoas com todo o rigor de direi- 
to e em tudo fizéssemos cumprimento de justiça, e visto por noe 
pedir e requerer e ser justo e a direito conforme a informação que 
ha contra as ditas pessoas, mandamos passar a presente pela qual 
citamos e chamamos aos ditos Simão Gomes Nasar, João Alvares 
Penso, Manoel Solis Ilhoa, António Alvares Pinto» Gabriel Lopes, 
Gonçalo Cardoso, Simão Gomes de Peies, António de Azeredo, Gon- 
çalo Lopes Coutinho, Diogo de Paes, Francisco Dias, Jorge Lopo 
Ramires, Sebastião Ayres, Paulo de Millão, Luiz Ramires ou Hen- 
riques, Duarte de Palácios, Pêro de Palácios, Diogo Gomes da 
Costa, João Castanho, Manoel Dias Soeiro, Duarte Saraiva, Ma- 
noel Carvalho, ou Carneiro, Simão Corrêa, Domingos da Costa 
Brandão e Manoel de Moraes, para que do dia da publica^ des- 
ta dita carta a seis mezes primeiros seguintes, termo preciso e 
peremptório que Ihedamoseassignamosapparoçam pessoalmente 
ante nós na saia de nossa audiência para estar a direito com o 
dito promotor e allegar a sua justiça ou confessar suas culpas 
sondocertos que senãoapparecerem no dito termo se procederá na 
causa ã sua revelia ató sentença definitiva, publicação e execu- 
ção delia e para que esta nossa dita carta venha á noticia de 
todos e não hsga quem possa allegar ignorância, mandamos a qual- 
quer notário apostólico, tabelhão ou escrivão ou clorigo da ordens 
sacras, sob pena de ezcommumhão maior ipso facto itusMrrenda 
e de 100 cruzados applicados ás despesas d(>ste Santo Oíllcio a leia 
o publique, om alta voz, na Só Cathedral desta cidade e praça e 
pelourinho velho da rua Nova delia, no primeiro domingo ou dia 
santo dtí guardji quando o povo estiver junto e nas portas da dita 
Só, depois de ser publicado se fixará outra do mesmo theor da 



PROCESSO DE MANOEL DB MORAES 41 

qual pablioacSo e flxaçSo se passariu) oertid5es astignadas por 
algumaa das pessoas que se acharem presentes com declara^^ do 
dia,mez e anno de pablicaçSo e fixação, para de tudo constar e se 
proceder na cansa como fÔr de Jostfça e mais serviço de Dens 
Nosso Senhor. Em Lisboa, no Santo Offlcio, sob nossos signaes e 
sellodelle, aos 11 de Agosto de .640. Luis Ferrão notário da 

iQqaisiçSo a faz. Panteleão Roiz Pacheco, D. Álvaro de Athayde. 

diog» de Souza, 

Edital e sello 138 

Conta , 36 

174 
Cardoso 

. ( Logar do sello do Santo Offlcio). 

Na esta^^ qae se fez nesta Só de Lisboa, estando o povo 
janto á missa do dia ae publicou esti carta atraz, como se nella 
contem. Domingo, 12 de Agosto de 1640 annos. 

femOo Luiz cura da Sé. 

i* Revelia, 

Aos oito dias do mez de Julho de 1641 em Lisboa, nos estáus 
e casa do despacho do Santo OfiScio, estando ahi em audiência da 
minhE, os senhores inquisidores, appareceu o promotor fiscal 
6 disse que por mandado fora citado p)r éditos Manoel de 
Moraes religioso da Companhia de Jesus, ausente em Flandres 
<XNitído neste processo para apparecer ante elles senhores in- 
quisidores a dar razão de sua innocencia ou confessar suas culpas 
6 96 usar com elle de misericórdia, e porque o termo que lhe 
' íora dado era passado como constava da carta citatoria edital e 
oertidâo a elle junta que offerecia, requeria a olles senhores in- 
quisidores o mandassem apregoar, e não apparecendo o houves- 
Mm por citado e lançado, e que este processo corresse á revelia 
e logo de mandado dos mesmos foi apregoado o dito Manoel de 
Moraes pelo porteiro da mesa que deu fô de comp não apparecia, 
e oa ditos senhores o houveram por citado para todos os termos 
e autos judiciaes até se dar final sentença neste processo, e por 
o dito promotor requerer que o dito Manoel de Moraes fosse 
outra vez apregoado, os ditos senhores o mandaram apregoar 



42 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

peio mesmo porteiro que tornou a dar fó que não apparecía, para 
o que lhe aasdgaaram dez dias e que ató então ficasse esperado* 
8ob pena de ser lançado não apparecendo no dito termo e se pro- 
ceder nesta causa ã revelia. Luiz Ferrão notário o escrevi. 

S* Revelia 

Aos dezoito dias do mez de julho de 1641, em Lisboa, nos 09- 
táus o casa do despacho da Santa Inquisição, estando ahi em au- 
diência da manhã os senhores inquisidores, appareceu o promotor 
e por elle foi dito que o termo que fora assignado ao réu Ma- 
noel de Moraes, contido nestes autos, ausente em Flandres para 
apparecer nesta Mesa era passado, e requeria o mandassem apre 
goar e não comparecendo o houvessem por lançado, e corresse 
esta causa em seus termos á revelia, e logo pelos ditos senhores 
íbi mandado apregoar pelo porteiro que deu fé não apparecia» e 
havido por lançado e que corresse a causa á sua revelia e dentro 
de outros dez dias fizesse o promotor os requerimentos necessá- 
rios contra o dito réu, do que fiz este termo. Luiz Ferrão o es- 
crevi . 

S*' Revelia 

Aos Tinte e oito dias do mez de Julho de 1641, em Lisboa, nos 
estáus e casa do despacho da Santa Inquisição, estando ahi em 
audiência da manhã, os senhores inquisidores perante elle, appa- 
receu o promotor do Santo offlcio e disse que era acabado o ter- 
ceiro termo de dez dias que foi dado ao réo Manoel de Moraes, 
ausente nos estados de Flandres, contido nestes autos para haver 
de apparecer ante oUes, ditos senhores, e requeria o mandas- 
sem apregoar e não apparecendo lhe assignassem dia para rir 
oom libello criminal accusatorio contra o dito réo, e logo os ditoe 
senhores o mandaram apregoar, e foi apregoado pelo porteiro 
que deu fó não apparecia, pelo que os ditos senhores o houveram 
por lançado, e que passados 5 dias se nolles não apparecesso o 
dito réo Manoel de Moraes viesse o promotor com seu libello 
criminal por parto da justiça contra o dito réa, em fé do que fiz 
este termo de mandado dos senhores inquisidores. Luis Ferrão 
notário do Santo Offlcio e escrevi. 



PROCESSO DE MANOEL DE MORAES 43 

lermo antes do libello 

Aos onze dias do mez de agosto de 1641, em Lisboa, nos es- 
táns e casa do despacho da Santa Inquisição estando ahi em au- 
diência da manhã 08 senhores inquisidores perante elles appa- 
reoea o promotor desta inquisição e disse que estes autos es- 
tavam em termo de elle vir com libello contra Manoel de Mo- 
raes nelles contido, ausente em Flandres, e pedia a elles senhores 
inquisidores o mandassem apregoar e não apparecendo á. sua 
revelia lhe recebessem o dito libello que apresentou, e logo foi 
mandado apregoar e o foi por Pêro Carvalho, porteiro da casa do 
despacho, o qual deu fé que não apparecia pelo que os ditos se- 
nhores houveram por apresentado o dito libeUo e disseram que o 
recebiam si et m quantum^ e mandaram assim se puzesse por 
termo e que o dito Manoel de Moraes fosse apregoado outra vez, e 
por o dito porteiro tomar a dar fó que sendo segunda vez apre- 
goado não comparecia, pelos ditos senhores inquisidores foi dito 
qoe ficasse esperado por termo de três dias, e que não vindo 
dentro nelles contrariar o dito libello seria lançado e de todo o 
sobre dito mandaram fazer este termo e sguntar aos autos o 
dito libello que 6 o que adeante se 9egue. Luis Ferrão^ notário 
do Santo Offlcio nesta inquisição, de Lisboa o escrevi. 

Muito lilustres Senhores. 

Diz a Justiça Autor contra Manoel de Moraes, ohristão 
felho, sacerdote, natural do Estado do Brazil, e morador nas 
partes do Norte, réu ausente, contido neste processo. 

E 36 cumprir. 

P. que sendo o réo christão baptisado sacerdote, e como 
tal obrigado a ter e crer, tudo o que tem crê o ensina a Santa 
Madre Egreja de Roma elle o fez pelo contrario, e de certo tempo 
a esta parte se apartou da nossa santa fó catholica, e se casou 
publicamente professando a seita dos hereges reformados. 

Em tanto que, 

P. que o róo havendo sido sacerdote de missa, de certo 
tempo a esta parte so tinha lançado com os hollandezes e vivia . 
casado cora filhos em certo ' logar e nelle se tinha feito calvi- 
nista e por tal era tido no dito logar. 

P.que do mcsrao tempo a esta parte, se achou o réu em certo 



44 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

logar donde se passou aos Holiandezes fkzeado algumas cousas • 
em utilidade delles e prejuizo dos catholicos e os ditos holian- 
dezes lhe davam por esta razlio uma certa ordinária do que te 
sustentava ; e o réu se casou com uma herege calvinista, e se- 
guia a dita seita, e por casado e calvinista era commummente 
reputado das pessoas que o oonheciam. 

P. que do mesmo tempo a esta parte sendo o réu sacerdote 
theologo, se lançou com os Holiandezes, e depois foi a certo logar 
onde andava vestido de curto como secular com um traçado, e 
estava casado, e feito herege, e o tinham todos por e8se,e fez um 
livro dos portos e entradas do BrazU, como filho* daquelle es« 
tado, e em qulnta*íéira de Endoenças se poz a comer carne es- 
tando 1^ e hem disposto. 

P. que do dito tempo a esta parte se lançou o réu com os 
e holiandezes apostatando da nossa santa fé catholica e tendo 
crença na seita dos hereges reformados, e andava vestido de 
grS com traçado, trsOe particular da gente de guerra, e d ftuBOL 
publica que o réu se casou. 

P. que sendo o réu citado por carta de éditos dando-se-lhe 
termo conveniente para dentro nelle comparecer na dita Mesa 
a confessar suas culpas, ou* se defender, o réu o nio fez, antes 
persevera em sua contumácia, de que se presume querer per- 
manecer na damnada cronça de seus erros, pelo que merece ser 
castigado opm todo rigor de direito. 

P. Recebimento e provado quanto baste seja o réu Manoel d6 
Moraes, declarado por herege apóstata de nossa santa fé catho- 
lica, e que como tal incorreu cm sentença de excommunhão 
maior, e confiscação de todos seus bens applicados a quem de 
direito o pertencerem, e que por herege apóstata contumaz 
seja sua estatua em seu nome entregue á justiça secular, e sua 
memoria e fama damnada. Com custas. 

Aos vinte dias do moz de Agosto de 1641 annos, em Lisboa, 
nos estáus e casa do despacho da Santa Inquisição, estando ahi 
em audiência da manhã os senhores inquisidores, appareceu o 
promotor desta Inquisição e disse que os três dias que foram as* 
signados a Manoel de Moraes, ausente, contido, nestes autos para 
contrariar o libeilo da justiça eram pasmados polo que requeria 
o mandassem apregoar, e o foi por Pêro de Carvalho, porteiro 



FR0CBS80 DE MANOEL DE MORAES 15 



ImiTTãBJft o fBàl dea fó que não apparecia pelo qae oê 
L'mj§ jESJt>r9f o bMTeram por lançado da contrariedade com 
vK jwiBi'i Tir, • logo o dito promotor requorea qae se desse 
pB':fei«io áa frora jnstíça qae contra o rôa havia, porquanto 
enara jaraia e raúlleada na forma de direito, pelo que tomaram 
oi ditús ■irtMiii a mandar apregoar o róo» e o foi pelo dito 
Peneiro o qoal tomoQ a dar fó que não apparecia, pelo que 4 
na revelia M Csita a dita publicação» e os ditos senhores lhe 
lomaram a Mrignir oatn» três dias para yir com contradiotas, 
do qoe taáo nandaram tàabv este termo, e que a publioa^ão se 
âjonUMB a evtes aotos, e ó a que adeante se segue. Gaspar 
QcwÊemUo «Kreri. 

Publicação da prova da justiça-autor que ha contra Manoel 
de Moraes qos íbi (sdrede Companhia, réu contido neste pro* 



Dowte Guterres, 14 de novembro de 1639. Uma testemunha 
òa justíca, jurada e ratiíieada na forma de direito, disse que sa- 
bia pelo vêr e ouvir, que haverá seis para sete annos e tros 
moet, o réu Manoel de Moraes que foi padre da companhia no 
3nzil« sendo sacerdote de missa, se passou á seita de Calvino, e 
jOiT lal é tido e havido, e casado com filhos. E ao costume disse 
^ testemunha nada. 

João Fonandes» 5 de junho de 1640. Outra testemunha da 
joitíca e ratificada, na fiMma de direito disse que conheceu em 
certo logar ao réu Manoel de Moraes, haverá cinco annos e nove 
mexes pouco mais ou menos, o qual diziam haver sido religioso 
da Companhia de Jesus e ter se passado aos HoUandezes íkzendo 
algumas cousas em uULdade sua o prejuízo dos cathollcos, pelo 
qoe lhe davam os ditos HoUandezes uma certa ordinária do que 
se sustentava, e o viu casado nu dito logar com uma mulher de 
profissão calvinista, e continuava nas egrejas dos mesmos calvi- 
nistas, e por ca&ado e calvinista estava reputado das pessoas 
qae o cooheciam. E ao costume disse a testemunha nada. 

o padre frei Thomaz. 16 Novembro de 1639. Outra teste- 
munha da justiça, jurada e ratificada na forma de direito, disse 
que, haverá dous ann':»se oito mezes, viu ao réu Manoel de Mo- 
raes, em certo Ijgar, a qaem havia conhe:iJo padre da Compa- 
nhia, sacerdou; theologo lançado aos hollandcze3,e andava vestido 



46 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

de curto como secular e estava casado com uma mulher de umas 
portas a dentro como os mais casados, com quem o casou um pre- 
dicante calvinista, e que era publico no dito logarque o réu era 
herege e o tinham todos por esse, e se dizia ser calvinista. B ao 
costume disse a testemunha nada. 

Frei António Caldeira, 26 de janeiro de 1640. Outra testemu- 
nha de justiça, jurada e ratificada na forma de direito» disse» que 
haverá, sete annos e nove mezes pouco mais ou menos, conheceu 
ao réu Manoel de Moraes, religioso que foi da Companhia e sa- 
cerdote, em certo logar onde era publico haver-se lançado com o 
inimigo na oocasião que se perdeu certa praça, e apostatado de 
nossa santa fé tendo crença na seita dos hereges reformados, 
e em trajes de hábitos de secular o viu, e que era fama publica 
e constante que o réu se casou com corta pessoa. E ao costume 
disse a testemunha nada. João Delgado Figueira, Pedro de 
Castilho. 

E junta a publicação pelos senhores Inquisidores foi man- 
dado qne o róu Manoel de Moraes fosse outra vez apregoado, e o 
foi pelo porteiro da Mesa que deu fé n&o apparecia, pelo que os 
ditos senhores mandaram que o réu ficasse esperado dez dias 
para nelles vir formar contradictas, de que mandaram fazer este 
termo. Luiz Ferrão notário o escrevi. 

Como foi lançado. 

Aos vinte e cinco dias do mec de agosto de mil seiscentos e 
quarenta e um, em Lisboa, nos estáus e casa do despacho da 
Santa Inquisição, estando ahi em audiência da manhS os senhores 
inquisidores, appareceu o promotor de justiça deste Santo Offlcio 
e disse que os dez dias que foram assignados ao réu Manoel de Mo- 
raes, ausente e contido nestes autos, eram passados sem elle ap- 
parecer, pelo qne requeria a elles senhores inquisidores o man- 
dassem apregoar e, não apparecendo, fossem os autos conclusos 
em final para se despacharem, e pelos senhores inquisidores foi 
logo mandado apregoar, e o foi, pelo porteiro da Mesa que deu fé 
não apparecia, pelo que o houveram por lançado do com que pu- 
dera vir, e mandaram que estes autos lhos fossem conclusos, 
em signal do quo fiz este termo. Luiz Ferr/io, notário o escrevi. 

K lançado o réu de contradicta, como dito é, de mandado dos 



PROCESSO DE MANOEL DE MORAES 47 

seahores inquisidores fiz estes autos conclusos em final. Luiz 
Ferrão notário o escrevi. Concluso* 

Foram vistos na Mesa do Santo Offlcio, aos 18 dias do mez de 
março de 1642, estes autos e culpas contra o padre Manoel de Mo- 
raes, christão velho religioso, expulso da Companhia de Jesus, 
natural da cidade do S. Paulo, do districto do Rio de Janeiro 
oelies contido, pelos quaes consta que sendo tomado pelos Hol- 
landezes no Brazil se ir com elles para Hollanda, e lá na cidade 
de Amsterdam se passar ás heresias da seita de Calvino, e conti- 
nuar em suas egrejas a ouvir as prédicas que nellas se fazem, e 
86 casar publicamente com uma mulher calvinista, e publica- 
mente ser tido e havido por herege da dita seita, e, por nSo poder 
ser citado pessoalmente, foi chamado e citado por carta de éditos 
com pena de excommunhão, para que no termo do seis mezes 
se viesse defender nesta Mesa, e responder nella de fide e ai- 
legar sua innocencia, e por nâo comparecer no dito termo, e se 
processar sua causa á revelia até final conclusão, guardados os 
termos de direito, e regimento do Santo Officio, o que visto e a 
qualidade das testemunhas da justiça que são 4, que depois de 
Terem ao réu commetter as ditas culpas, e de fama publica 
6 notória, de que ninguém duvida, além da presumpção que 
contra elle resulta de sua contumácia, e revelia pareceu a 
todos os votos, que esta prova era bastante para o dito padre 
Manoel de Moraes ser havido por convicto no crime de heresia 
e apostasia, do mez de junho de 1636 em deante ; e que por he- 
rege apóstata de nossa santa fé catholica, negativo, revei e 
contomaz fosse havido e declarado, e que incorreu em sentença 
de excommunhão maior, e na confiscação de todos seus bens 
applicados para o fisco e camará real, e nas mais penas em 
direito contra os similhantes estabelecidas, e que fosse excluido 
do grémio e união da santa madre egreja, e sua memoria dam- 
nada e sua estatua relaxada á justiça ^^oxiidkC servatis servandis 
6 que este seu processo fosse levado ao conselho geral, antes de 
de executar este assento na forma do regimento ; assistiu pelo 
ordinário de sua commissão o inquisidor mais antigo. Pedro de 
Castilho, Joc7o Delgado Figueira. Estevão da Cunha, Francisco 
de Miranda Henriques, Manoel de Magalhães de Menezes. 

De mandado dos senhores do Conselho Geral fiz este pro* 



48 REVISTA DO IN8ITTUT0 HISTÓRICO 

C0S80 concloso em os 18 do marco de 1642;, Diogo Velho o esoravi. 
Conclaso. 

Foram vistos na Mesa do Gon^olho Geral estes autos e culpas 
oontra Manoel de Moraes, christão velho, sacerdote secular nelles 
contido, e assentou-se que ó bem julgado pelos inquisidores or- 
dinários e deputados em determinarem que a prova de justiça é. 
bastante para o réo ser havido por*oonvicto no crime de heresia 
e apostasia, eque por herege, negativo, pertinaz erevaLfoase 
pronunciado e declarado que estava entregue a justiça secular 
e que incorreu em sentença dè ezcommuahão maior e oonfls- 
otção de seus bens para o íisco e camará real e nas mais penas 
em direito oontra os semelhantes estabelecidas, confirmam soa. 
sentença por seus íbndamentos e pelo mais dos autos mandam 
que assim se cumpra e dê a execução. Lisboa, 18 de março de 
1642. Frei João de Vasconcellos. Francisco Cardoso de Tomeo, 
Pêro da Silva» Sebastião César . 

Acoordam os inquisidores ordinários e deputados da Santib 
Inquisição etc. qne vistos estes autos, libello e prova da JusUça- 
autor oontra Manoel de Moraes, sacerdote theologo, natural da 
villa de S. Paulo, estado do Brazii, ausente nas partes do nortò, 
porque se mostra que, sendo christão baptlsado abrigado a ter e 
crôr tudo o que tem e crê e ensina a Santa Madre Egreja de Roma,, 
elle o fez pelo contrario, e de certo tompo a esta parte se apar- 
tou de nossa santa fó catholica e se passou á crença da seita dos 
hereges calvinistas, e para o poder mahisfestar se lançou com ob 
HoUandezes, e em sua companhia se ausentou para certa daa 
ditas partes, onde vivia em traje de soldado e casado com pessoa 
da dita seita, publicando-se por crente e observante delia, e como 
tal frequentava e approvava as prédicas dos ditos hereges, e, es- 
tando sâo e bem disposto, comia carne nos dias prohibidos pela 
Santa Madre Egretja, e tinha feito certo livro om grande prejuízo 
da conquista deste Reino e utilidade dos ditos horoges, que por 
6fta oausa lhe haviam consignado certa ordinária de que se sus- 
tentava.' E por todo o sobredito ssr publico o haver informações 
na Mesa do Santo Oâicio para su atalhar o escândalo dos fieis 
christâos, e o róo tratar da salvação de sua alma, foi citado, e 
chamado por carta de oditos a requerimento do promotor fiscal 
do Santo Ofilciu, assignado-se-lhe termos competentes para se vir 



PROCESSO DE MANOEL DE MORAES 49 

aprdaeotar e confessar suais culpas ou defender-se dolias e mostrar 
sua innocdacia ; o por o róu nào comparecer, depois de serem pas- 
sados os ditos tormo3, veiu o dito promotor com libello criminul 
Hccusato.io contra elle, quo lho foi rccobido à sua revelia c rati- 
ficadas as testemunhas de justiça e na forma le direito se fez pu. 
blicação do sous^ ditos, conforme o estylo do Siinto OÍUcio á sua 
i*cvciia, guardados os termos do direito o feitas as diligencias 
oece&sarias, seu feito se processou ató ânalconciusio; o que tudo 
visto e bem examinado, e sufficionto prova de justiça-autor, 
numero e qualidade das testemunhas, o como o réo sendo cha- 
m ido não quiz comparecer, de quo se colho claramente querer 
permaoecer na damnada crença da dita seita approvando-a por 
bòa como mais quo doH autos resulta ChrisCi Jesu nomine invocato 
— declaram ao réo Manoel de Moraes por convencido no crime 
de heresia e apostasia, e que foi e ao presente é herege, apo0- 
tatá de nossa santa fé catholica, e incorreu em sentença de 
excommuuhão maior e confiscação de todos seus bens^applicados 
a quem de direito pertencerem, o nas mais penas em direito 
contra os semelhantes estabelecidas, o o excluem do grémio e 
união da Santa Madre Egreja, e em detestação de tão grave 
crime relaxam sua estatua que presente está, em seu nome & 
justiça secular, a quem pedem com muita insistência, que se 
o réo em algum tempo comparecer • se hajam com elle be- 
nigna e piedosamente o não proceda a pena de morte, nem 
effosão de sangue. João Delgado Figueira, Pedro de Cas^ 
Ulho. 

Foi publicada a senten^*a acima do padre Manoel de Moraes 
presente sua estatua no auto do té quo so celebrou nesta cidade 
do Lisboa, a seis de abril de mil e seiscentos e quarenta e deus, 
presoDtesSua Magestade e a Rainha Nossa Senhora e os senhores 
Príncipe e Infantas e muitos fidalgos e psssoas religiosas, em fé 
do quo fiz este termo. Luiz FernXo, notário o escrevi. 

Contas 

Ao secreto 

Por tudo 722 

Bartholomeu Cardoso • 900 

73il — 4 Tomo lxx. p. i. 



50 RBVI6TA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

Oe2 contas 72 

Ao Porteiro 35 

1729 
Somma mil setecentos e vinte nove. 

CardOi»o 

Mais ao Secretario do concelho 80 

17:>9 

1809 
Somma mil oitocentos o nove. 

Cardoso 

Inventario 

Aos trese dias do mes de abril de 1646 annos, em Lisboa, 
nos estáui e cárcere da penitencia, em uma casa delle onde está 
preso e doente o padre Manoel de Momes que, do estado de Per- 
nambuco, ¥eiu embarcado os dias passados, estando ahi o senhor 
inquisidor Belchior Dias Pretto, pelo dito Manoel de Moraes haver 
pedido audiência, por dizer que a pedira para declarar algumas 
eousas tocantes a seus bens e dividas que devia, de quo queria 
descarregar a consciência, para o fazer com verdade lhe foi dado 
juramento dos Santos Evangelhos, em que poz a mão e sob cargo 
daUe prometteu de assim o fazer, e disse ser de edade de 50 



E lo^o disse que elle tinha em Pernambuco, no engenho de 
Manoel Fernandes Cruz cinco escravos, e cinco escravas, casados 
a saber Ignacio com Maria, Lourenço com Missia, estes tinham 
uma criança de um mez, Birtholomeu com izabel, Pedro com 
Luzia, Matheus com Juliana, e são todos mancebos e moçaa de 
aié 25 annos pouco mais ou menos. 

E assim mais tinha três escravos solteiros, moços de até a 
meema edade ou menos, a saber, Francisco, António e Felippe, os 
quaes ficaram no mesmo sitio encommendados ao dito Manoel 
Fernandes, o a seu filho Fernando Mendes, procuradores deiio de- 
clarante, e todos os ditos escravos são do Aogola e faziam páu- 
brazil. 

E assim mais uma negra por nome Beatriz, solteira, que fei- 
torizava e governava os ditos escravos e casa delie declarante, á 



PROCESSO DE MANOEL DE MORAES Sl 

qual deu uru papel, quando foi enviado para este Reino, em o qual 
declarava qoe sendo Deus servido de o levar para si ficasse a 
dita Beatriz forra. 

E assim mais tinha quatro bois de carro que ficaram en-* 
tregues ao dito Fernando Mendes com quatro carros novos, posto 
que já tinham servido, e cada junta de bois valerá vinte e cinco 
oa trinta mil réis, e cada carro quatro mil réis, e que os bois 
tinham por marca um L latino que queria dizer licenciado. 

B assim mais ficou em poder do dito Fernando Mendec, um 
eavallo que valeria a dez ou doze mil réis com sua sella velha. 

B assim mais ficaram em poder de Miguel Fernandes, vizinho 
do dito engenho, vinte e quatro ou vinte e cinco machados e em 
poder dos negros sete enxadas, oito ou dez formões, três ou 
quatro ferros de fazer covas e dons ou três machados. 

E assim mais tinha na matta do Brazil que assim se chama, 
um sitio no Alagôa Orando, jutito ao açude de Oaspar Pereira, 
cousa de mil ou mil e duzentos quintaes de páu Brazil em duas 
rnmas, uma grande outra mais pequena, que são as «lue estão 
mais perto do dito açude, ao longo destas está outra ruma do 
mesmo páu-Brazil, a qual ellc declarante mandava tirar a um 
flamengo por nome Daniel Qance Pui, o o governador João Fer- 
nandes Vieira fez mercê a olle declarante do dito páu na occa- 
8ião do levantamento da guerra, havendo o dito páu por per- 
dido para os que seguiam a defensão da liberdade, e entendo elle 
declarante, pelas informações que lhe deram, que a dita ruma 
pudera ser de duzentos quintaos, pouco mais ou menos. 

Declarou mais que um homem do rio S. Franciâco, a quem 
não sabe o nome, e dará razão dello Francisco Roiz,gallego, mo- 
rador no mesmo rio, deve elle declarante dezoito mil reis, de resto 
de maior quantia, de fazendas que o mesmo gallego deu ao dito 
homem, por conta delle declarante. 

Declarou mais que Manoel João Gago, morador em Pernan- 
buco, no Mosteiíinhp do Capiberibo deu, a elle declarante, onze 
ou dozfj mil reis, rosto do maior quantia, a que llio foi obrigado 
por negro que lhe vendeu. 

Declarou mais, que Manoel Travassos, morador em Peroan- 
buco, nafreguezia de Ga vendeira deve, a elle declarante, vinte 
mil rvis de outro resto de um escravo que lhe vendeu elle docla- 



52 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

i*antc. Desta quantia sd doscoatará, o valor de uma sella qae o 
dito Maaodl Travasâos emprestou, a cUe declarante, e lhe foi 
tomala pelos inimigos, o valeria quatro até cinco mil reis. 

Declarou mais que cm poder do dito seu procurador Fer- 
nando Mendes ficaram (juinze ou dozesois corpos de livros vários 
quo valeriam doze mil reis pouco mais ou menoíí, o Acarara em 
um cofre dello declarante, e a chavo ao mesmo liomem. 

Declarou mais que olle declarauto devia em Pernambuco a 
António Gomos Taborda, capitão no arraial cousa de dez ou doze 
patacas, conforme entende em sua couscieuciat do que já pediu 
ao dito seu procurador Fernando Mendes, quando se embarcou 
para esto Reino, o descarregasse. 

Deve a Gaspar Gonçalves, alfaiate, mora lor na frcí^^uoeia 
Iguarassú, meia pataca, e deixou escripto á sua mulher do mesmo 
alfaiate para Luiz Carvalho, devedor a olle declarante, do cinco 
patacas, satisfazer a elle dito alfaiate a dita meia pataca. 

Deve a Domingos Lopes, morador na matía do Brazil, uma 
ciixa sua quo levou emprestada com farinha, mudando-sa d'um 
sitio para outro, e valeria, pouco mais ou monos, cinco ou seis 
patacas. 

Declaiou mais que tinha, cm HoUanda, tros alhos, a saber, 
Francisco, na cidade doHard^vick, no estado de Gueldria, cm 
casa Amoldo vau Dehait, avó do mesmo menino, que tem o poso 
da cidade. 

E na cidade do Loyde, em Ilollanda, duas meninas oom sua 
mãe, Adriana Smetz,o o menino que ó o mais velho tora seis ou 
sete annos, o vive a dita Adriana, junto à livi*aria da Universi- 
dade da mesma cidado, o quo declara por descargo de sua 
consciência. E que os ditos bens furam adquiridos por sua 
industria. 

Declarou mais que na capitania do Espirito-Santo, no Brazil, 
tinli i uma irmã, Mónica Pereira, pobre, a qual nunca casou, o 
que declara para que, havendo legar, se lho dô da dita sua fa- 
zenúa alguma esmola e alimentos aos ditod seus filhos. E sobre- 
tudo declara que todos os difos bens adquiriu depois do ser des- 
pedi.lo da Conipanliia por particulit* ordem geral da dita reli- 
gião, o ([ue estas oram as doclaravOes quo tinha para fazer por 
descargo de sua consciência, o sendo lidas e por elle entendidas 



PROCESO D^ MANOEL DE MORAES 53 

disse que estavam escriptaç na verdade e aasignou com o dito 
senhor. E eu João Carreira notário o escrevi. 

E sendo perguntado si sabia que algumas pessoas do Per- 
oimbuco lançassem mão de algumas fazendas de judeos ou do 
escravos dos mesmos, e que pessoas são : 

Disse que cuidaria mais devagar no que tocava a esta per- 
gunta e declararia o que lhe lembrasse, e que por ora somente 
sabe que Manoel Pinheiro, capitão da caravela em que elle de- 
clarante veio, trazia uma escrava por nome Maria, a qual era do 
Duarte S&raiva que vive no Recife publico profitente da lei de 
Moyséfl, e que o dito capitão a comprou não sabe a quem, c ai 
Dão disse ; o sobredito o escrevi sendo-lhe primeiro lida a dita 
declaração. 

Declarou mais que em poder do dito seu procurador ficamm 
duas vaccas com dous bezerros, e valerão dez ou doze mil réis 
por serem de criação ; o sobredito-o escrevi Belchior DiaM Preito. 
O licenciado Manoel de Moraes, 

Accrescenta o inventario : 

Aos dezoito dias do mez de sotembrodo 1647 annos, em Lisboa, 
nos estáus e casas do despacho da santa Inquisição, achando se 
era audiência da manhã, os senhores inquisidores mandaram vir 
ante si a Mmoel de Moraes, réo 'preso, contido neste processo, 
por eile pedir auiiencia,e sondo presente por dizer quo a pedira 
para declarar algumas cousas tocantes a seus bens o divida», para 
o fazer com verdade lhe foi dado juramento dos Santos Evan^re- 
llios, era que poz a mão sobre car^^o do qual lhe foi mandado 
dizí^r verdade o guardar segredo, o quo pròraetteu cumprir. 

E logo disse quo Gregório de Caldas, morador na matta do 
Brazil, em Pernambuco, lhe devia 50quintaesdopáu-Brazii que 
Ibe emprestou, e lli'os havia do dar a olle declarante postos na 
aldêa de S. Miguel de Moouique, cinco legoas do embarcadouro, 
o que si o dito Gregório de (.-alJas os pagar a dinhoiro lia de dar 
por cada quintal um cruzado, quo foi o preço por que o pagiirnni 
os judeos do Recife, a quem olle declarante lho dava cinco léguas 
do embarcadouro, da qual divida sabem Jo;io Dias, o burra, que 
correu com o dito páu, o Manool Travassos c Gonçalo Freire o 
Luiz de Mattos, todos moradoras e a Pernambuco, na matta do 
Rrazil, e que nesta divida não havia duvida e que outras cousas 



54 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

pretende elle ddclarante haver do dito Gregório de Caldas, que 
aão estão ainda liquidas por ser grande trapaceiro. 

B que E^tevam Fernaudes, morador em Peraambuoo, no en- 
genho de M>icuripe, tinha um boi de carro que mandara a eiie 
declarante Sebastião de Carvalho, antes de se levantar a terra, 
e porque se levantou lho não entregara, do que sabe Bernardim 
de Carvalho, irmão do dito Sebastião de Carvalho. 

E que no sitio da aldêa de S. Miguel Moouique lhe ficaram 
a elle declarante cinooenta e tantos quintaes de pãu do Brazil, 
no monte entre as casas queimadas da dita aliéa, depois do fogo 
todo apagado, estava ahi todo, o que declara por entender o oix> 
tinha aíinda feito. 

K que Sebastião de Carvalho, morador em Pernambuco, lhe 
devia do resto de contas, cousa de quarenta mil róis pouco mais 
ou menos, e que o seu conhecimento ficou na mão de Diogo da 
Silva, sccrotario de João Fernandes Vieira. 

E que o dito Sebastião de Carvalho ficava no Recife com os 
Hollandezos, mas tem cannaviaes em Pernambuco. 

E que por descargo de sua consciência declarava quo se 
deviam do dar ao padre provincial doBrazil trinta patacas j^elo 
Collogio de Pernambuco, da fazenda delle declarante, por certo 
escrúpulo. 

E qun se haviam mais de dar a pobres por uma divida a 
credor incerto, quarenta patacas. 

E que se lho darão duas patacas e meia para missas por uni 
doftinto cujos herdeiros, não sabe ello confidente, onde estão, 
que hão disse. 

K quo devia a Laurentius Rlau.hoUandez, morador em Ams- 
tordam, livreiro que vive junto ao legar ondo se vende o trigo, 
cinco patacas de um Calepino de oito línguas quo lhe vendeu. 

E que a Adriana Smetz, moradora na cidade de Leyde, em 
HoUanda, devia, em consciência, alimentos, e a duas meninas suas. 

E qiio devia missas que promettera andando na guerra que 
agora se faz em Pernambuco : a Nossa Senhora, duas ; a Santo 
António, três ; a S. Gonçalo, duas ; aos S. S. Cosme e Damião, 
duas. 

E que ai vertia que o páu do Brazil que deu no inventario o 
anno passado, é necessário se recolha, e, se não o fizerem assim, ie 



PROCSSSO DK-MANOUL DB MOItABS SS 

perderá, oa apodreeando, o« perdendo a metade do peão» e 
que o mesmo dizia dos eincoenta quintaes acima declarados^ 
E declara mais que es Holiandeaes de Guiné Ihé deram pelos 
eseraTos, bois e diaheiro, que raieria todo doas mil e quinhentos 
cruzados, para lli*o pagar em páu do Brasil, e o que eile deela* 
ranie tinha feito era para elles. 

Declara mais que um hoUaodez, morador do Recife» cujo 
nome lhe nto lembra, lhe deu um negro por sessôoita e quatro 
mil réis e outrss eouaas, que Taleriam seis ou sete mil reis 
pouco mais ou awnos, para lhe tirar um pouoo de p&u, qm elle 
tinha na matta, eom os bois delle declarante e carros* o que eUe 
declarante nSo ftz ainda, que já eomeçava por se levantar a 
terra, e que o negro veadeu elle declarante a Manoel Travassos 
acima nomeado por quarenta mil réis, e de resto são os vinte 
mH réis que o dito Bfanoel Travassos lhe deve, oomo declarou uql 
inventario o anno passado . 

E declara que João Penandes Vieira, governador, passou 
edites em que íkzía quites aos que servissem na dita guerra do 
que deviam aos Holiandeaes, conforme ao quo parece que venceu 
elle' declarante o que nas ditas duas addições acima acaba de 
^zer, pois é poblico o muito que elle declarante obrou na dita 
^erra. 

B que declarava mais que eáda casal de escravos que elle de* 
ekrante deixara no Brazil, uns por outros, valiam ao menos no^ 
Tenta nril réis ou cem mil réis, porque todos aão mancebos esoo- 
ttidos e moças, e a feitora Beatriz, si tem saúde, porque ficara 
Mhftquosa, quando elle declarante se apartou, valia cem mil 
r«b, e que isto era o que mais tinha que declarar, e mais não 
^i9e,e sendo-lhe iidas estas soas declarações disse qne estavam 
oeriptas na verdade e assignou com os senhores Inquisidores. 
Manoel Alvares Migueis o escrevi. 

Confissão 

Ao8 vinte e três dias do mez do abril de mil e seiscentos e 
qatreuta o seis annng, em Lisbíia, nos estáu^ e casas do despacho 
dl Ninia Inquisição, estando ahi em audieacía da manhi, a 
«ifior inqaisidar Belchior Dias Preito mandou vir perante si a 



56 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

Manoel de Moraes, réo preso, contido neste processo por eVe 
pedir audiência, e sendo presente por dizer que a pedira para 
confessar suas culpas, para o fazer com verdade e guardar se- 
gredo lhe foi dado jurfimonto dos Santos Evangelhos em que poz 
a mâo 6 sob cargo delle lhe foi mandado dizer verdade e guardar 
segredo, o que elle proraetteu cumprir. 

Disse que no mez do janeiro do anno de seiscentos o trinta e 
cinco, servindo elle conAtento na gueiTa de Pernambuco com 
licença o ordem de seus superiores da Companhia de que na- 
quelle tempo era religioso, mas não professo do quarto voto, os 
qnaes o mandaram assistir naquella guerra por ter grande no- 
ticia do gentio, e este obedecer facilmente a suas ordens, foi ca- 
ptivo polo inimigo hollandez junto ao Rio Grande, e sendo levado 
aHollanda o retiveram os da Companhia, negando-lhe a passagem 
A Hespanha.queconcederamaos maiscaptivos de sua Companhia 
por entenderem que si elle confltente conseguisse liberdade 
voltaria ao Brazil e lhe faria grande damno convocando ao 
gentio, na forma em que o havia feito antes de ser captivo, e 
para que elle confltente perdesse de todo a esperança de lhe con- 
cederem passagem, o remetteram a província de Gueldria, com 
pretexto que nella teria melhor saúde que em Amsterdam, onde 
havia padecido uma grande doença. K assistindo na cidade da 
dita provincia chamada Hardrvick se casou com uma mulher 
chamada Mar^rida, que seguia a soitado Calvino, usando no 
recebimento das ceremonias que costumam usar us professores 
da dita seita, que vem a ser irem os contrahentes á presença 
do predicante o dando-llio conti que estão de accurdo para casar 
um com o outro, rezar o dito predicante certas orações, que elle 
declarante não entendeu, e depois viveu em companhia da dita 
Margarida, em forma de casados, por espaço de dous annos, 
pouco mais ou menos. 

K logo que os superiores da Companhia do Brazil tiveram 
noticia (lue elle confltente se havia casado pela maneira referida 
lhe offoreoeram commod idades, e em particular um governo no 
BraziL porém para este lhe punham em condição haver de 
largar a crença de nossa santa fó e seguir os erros da seita de 
Oalvino e em razão de que elle confltente não qulz aceitar tal 
oflTerta • se aocommodou antes com a limitação de outra soom* 



PROCESSO DE MANOEL DE MORAE55 57 

modidades quo lhe pcrmittiam que usasse, o segundo a nossa 
Santa Fé. 

Disse mais que falleccndo no úm dos ditos dous annos a dita 
Margarida, se passou elle conAtente á cidade do Leyde, da pro" 
yincia de Hollanda, com intento de imprimir um livro que havia 
composto de particularidades da fertilidade e sitio do Brazil, e 
na dita cidade ae casou segunda voz na sobre dita forma com 
Adriana, que também seguia a dita seita de Caivino, e com ella 
viveu por espaço de dous annos em forma do casados, e sobre- 
vindo-lhe na dita cidade um achaque, ainda que leve, com esta 
occasião desejando de se apartar do múu estado em que andava 
dis«e a dita Adriana que se queria vir curar a Amsterdam, 
onde havia alguns médicos com quem se entendia melhor, que 
com os flamengos, e vindo-se com eífeito a Amsterdam, agasa- 
lhando* se em casa de catholicos, teve ai li r>oticia por algumas 
pessoas que o foram visitar que na dita cidade havia um com- 
mi»ario de Sua Santidade ad agendam fidem^ quo tinha poderes 
bastantes para absolver a elle confitonte de quaesquer culpas 
ainda que graviãsimas,e confessando-se com elle. este o absolveu 
e lhe pa»ion despacho quo elle confliente lhe pediu para que, 
si cm algum tempo tivesse occasião de se apresentar na Santo 
Offlcio, raanifestasso neile o dito despacho, posto que o dito com- 
missarío lhe dissesse que, ainda qno o vir ao Santo Offlcio era 
acção de muito catholico o bom conselho, todavia lhe nâo ora a 
ello confitente precisamente necessário, o quo podia aquietar-se 
esahirde todo oe^^crupnlo com a absolviçãoqueello commissario 
lhe havia dado porque tinha todo o poder d'j Sua Santidade, nesta 
parte. E da dita cidade de Amsterdam, depois de absoluto, na 
forma sobredita, se veiu elle confitente para o Brazil, aonde 
tanto que foi chegado, procurou occasião de se desviar da com- 
panliia dos hollandezes, o se foi ao mattoa uma freguezia cha- 
mada Iguarassú, no sitio que se diz Aratangy, onde vivkt do sua 
indastrio, e tratava com catholicos, quo são os moradores da- 
qaello sitio, aos quaos mostrou o Breve de absolvição que llio 
havia passado o dito commissario ; o, posto que por este tenha 
faculdade para usar livremente de suas ordens, não usava delias 
receioso que tendo os hereges noticia lh*o impedissem, estando 
sempre elle conAtente com intento de que tendo occasião se viria 



58 REVISTA no INSTITUTO HISTORÍÔÔ 

ai^reientar á esta Mesa e manifestar nella todo o referido, por 
çer informaio que este Santo Oílí jío havia procedido contra olle 
oon Atente, posto qae não entendeu a causa, senão ao tempo qud 
seqaiz embarcar para este Reino, era qiio um frei João, religioso 
do S. BentOi que reside em Pernambuco, lhe disse que n^ viesse 
ao Santo Offlcio porquo nelle se havia procedido contra elle con* 
fitcnte por apóstata de nossa santa fé, e o mesmo lho eStífetetI 
a olie confltente, da Bahia, o padre Francisco Carneiro, Provin- 
cial da Companhia de Josus naquelle estado, advertindo-o que 
procurasse a misericórdia do Santo Offlcio por meio de outra 
pessoa, e sem embargo de tudo elle confltente continuando a 
mesma resolução de se vir ao Santo Offlcio, prevenia para a jor- 
nada a matalotagom necessária, depois de haver communioado a 
causa delia a João Fern\ndes Vieira e André Vidal de Negreiros 
e ao padre Franciscj de A vellar, da Companhia, qne todos resi- 
dem no arraial de Pernambuco, e neste tempo o mandou pren- 
der o mostre do cimpo Martim Soares Moreno, conforme elte 
eoníltente entendo, por lhe parecor que vindo elle confltente a 
esta Côrfi solto, e tenrlo occasião de falar a Sua Magestade, o in- 
formaria do algumas onsas, tocantes ao procedimento do dito 
Martim Soares Moreno, tomando por pretexto da prisão delleoon- 
íitente, segundo lho disse o ajudante que o prendeu, que elle 
confi tonto havia escripto uma relação dos successos daquellas 
armas, no qual não falara na pessoa do dito Martim Soares lou- 
vando muito os outros cabos de guerra . E tratando estes de fazer 
pdr a elle confltente em liberda<lo, o dito Martim Sjares o im« 
pedhi tomando por fundamento que o governador geral António 
Telles tinha ordenado queelie confltente viesse para este Reino 
seguro, o que o dito Martim Soare:^ quiz entender por proso, sendo 
assim qne o dito Qovernador na cirta em quo úqu esta ordem, se« 
gundo disseram a elle confltente os ditos mestres de e ;mpc), João 
Fernandes e Andró Vidal, queria dizer qne elle confltente viesse 
certo de seu favor, e assim se presume porque a carta do dito 
governador que eon inha esta ordem, respondia a outra dos ditos 
mratres de campo, em qne lhe haviam pedido embarcação para 
el^e eonfltente vir a est* Iteino aprescntar-se ao Santo Offlcio, o 
carta delle governador quo a fivor delle con ri tente, o a esta ins- 
tancia dos ditos mestres de c\mpo, respondeu que viesse elle con^ 



t>ROCB8S0 DB MANOEL DB MORAfiS 59 

fitenie BÊgúro que eserevia em sea favor á Soa M agestado, e nãú 
foi basiaote o sobredito, para o dito Martim Soares, por sor mais 
antigOydeixar áê mandar a elle conâteote preso, como yoío e foi 
èoifegue a esta Santa laqaisição. B que se Dão lembra de outra 
algama cousa que por descargo de sua consciência haja de de- 
clarar nesta Mesa, porque nâo faltou nunca, nem no interior, 
Dim no elterior á obrigação de catholico, posto que (kltasse á 
fio Ghtistão, como tem eon fossado, como constará de ditos de 
pessoas que o conheceram em Amsterdam, o a seu tempo no-* 
meará e de am ifMtrumento authentico que comsigo trazia, e 
deve estar com seus papeis. B que de harer faltado á obrigação 
de christao sacerdoto pela maneira que tem confessado, está 
muito arrependido e com toda a humildade 'pe<íe perdão e mise- 
rtoordiaae«taMesa. 

t^oi lhe dilo que, pois teve noticia por meio das peissoas reli- 
gloias que declarou que o Santo Oíflcio procedera contra olle 
confltente por culpas contra nossa» santa fé, e deve sor certo que 
xelle se tem toda a consideração, e se não procede a demons* 
tração publica sem grando causa e fundamento, qual devia 
tiaver para se proceder contra ollô coníi tente, tenha entendido 
que lhe convém examinar mtifto bem soa consciência e consi- 
derar si hou e nella alguma outra fíilta mais que a que de se 
casar pelo modo que-cohfessou.e se, ou interior ou exteriormente, 
por algnm despeito se apartou de nossa santa fó, o que sentindo- 
86 com algnm encargo, o manifeste nesta .Mesa não tendo por 
bastante para se escusar desta obrigação a absolvição que diz 
alcançar do' commissario de Sua Santidade, porque além de não 
constar por ora dessa, ô de crer que teria o logarem quanto elle 
confltente não pudesse recorrer ao Santo Offlcio, e provável que 
esto se não pudera accommodar ao que elle coníltentc declara 
nesta p.irte, não lhe sendo notórios os poderes do dito commis- 
sario, e qne portanto o admoestam com muita caridade da parte 
doChristo Nosso Senhor, queira declarar si, por ventura, adrailtiu 
algum erro otí ao menos concorreu exteriormente com os liereges 
nas ceramonias de sua seita, como se faz de presumir deixando- 
se andar em sua companhia tanto tempo, e tomando estado de cd- 
sado, e recebendo salário o mantimento dos ditos lioreges, porque 
para segurar sua alma e oncatKinhar o despacho de íua caus^ 



60 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

lhe é muito necessário manifestar todo o sobredito tendo outro 
sim entendi Io qne nesta Mesa será tratado com misericórdia 
confessando inteiramente snas culpas, sendo de tnl qualidade que 
conforme o direito a mereçam, como são as de herezia, que como 
terá ouvido se costumam pordoar pelo Santo Officio aot que 
verdadeiramente se arrependera delias, ainda que estejam já, 
sentenciados, 

E por tornar a dizer que eile nunca faltara na fé antes a 
defendera sempre em todo tempo c logar quo se achou entrp 
fieis e hereges, e si outra cousa tirera pu houvera declarado, e 
quo a seu tempo mostrará a verdade, e sendo lhe lida esta sua 
confissão qne estava escripta na verdade e assignon com o dito 
senhor, que admoestado em forma o mandou a seu cárcere. Eu 
JO(7o Carreira notário o escrevi. Belchior Diat Preito» O licen- 
ciado Manoel de Moraes, 

GENEALOGIA 

Aos vinte e cinco dias do mez de abril de mil e seiscentos o 
quarenta e seisannos, em Lisb<'>a, nosestáus e casas do despacho 
da Santa Inquisição, estando ahi em audiência da tarde, o senhor 
inquisidor Belchior Dias Pretto mandou vir perante si a Manoel 
de Morae.?, preso, vún, contido neste processo, e sendo presente 
para haver cie responder com verdade e guardar segredo llie foi 
dado juramento dos Santos Evangelhos em que poz a mão o sob 
cargo do qual lho foi mandado assim o fizesse, o que elle 
prometteu cumprir. 

Perguntado si cuidou em suas culpas como lhe foi mandado 
nesta Mesa o as quer acabar do manifestar o declarar nella, que 
f^ o que lhe convém para descargo sua consciência o salvação do 
sua alma o seu bom despacho: 

Disse que sim, cuidara o que não sentia outra cousa que de- 
vesse declarar nesta mesa mais que o que tom dito, porquanto 
não admittiu erro algum contra nossa santa fó, nem se apartou de 
algum artigo delia, nem ainda exteriormente, nem teve para si 
DOS casamentos que contrahiu que ei*am licites, antes sempre en- 
tendeu quo o que era ordenado de ordens sacras não podia casar, 
nerci ao fíol jBatholico ora licito casar com herege em razão do 



• PROCESSO DE MANOEL UK MORAES 61 

que teve sempre aos dit s eas imea^os por amancob^imentos, cc« 
tendeado que, eoaquaato os contiuua^so tinha a coascioacLa gra- 
vada e estava em máu estado, e por esta causa se confessou com 
o commissario de Sua Santidade na forma que tem declarado ; o 
enviou a esta Mesa, por intor.nedio do embaixador Tristãj de 
Mendonça, umapetiçâo em que pedia perdão da dita culpa decla- 
rvido, que delia se queria vir ajcusar a esta Mesa, tauto que ti- 
vesse commodidade, e uo Brazii disso a cUocuníi toa lo o desembar- 
gador Francisco Bravo que vira a dita petição ncsto- Reino. 

Perguntado como se ciiama de que edade e nação é, ctjm as 
mais perguntas geraesde sua genealogia: 

Disse quo ellc se chama Manoel <le Moraes e é do 5o annoá 
de cdade, pouco mais ou menos, natural da viila de S. Paulo, 
Capitania de S. Vicente do Estado do Brazil, christão velho e 
que foi religioso da Companhia, onde somente foz os votos 
ordinários, e de que ultimamente foi expulso por ordem do 
Qeral da dita Religião, a qual ordem recebeu estando* já na 
Provincia de Gueldriu» porém ainda tondo-so como religioso, 
sem haver commettido o excesso de se casar, quo depois com- 
' metteu d'ahi a um anuo ou mais, como tem confessado. E que 
é ftlho de F^raacisco Velho e de Anna de Moraes, esta natural 
âaditavilla, e aquelle deste Reino ; e que não teve noticia nem 
OQviu nomear a seus avós paternos, e que os maternos se 
chamam Balthazar de Moraes, também natural deáte Reino e 
Bríttes Roiz, não sabe d'onie era naturaJ . 

E quo por via do dito seu pao não conheceu tios nem tias, 
e pela parte da dita sua mãe, tove dous tius o uma tia, a saboi* 
Pêro de Moraes que foi casado (não sabe o nomo da mulher) e 
teve filhos, a saber. Pêro Polycarpo e outros de cujos nomes 
Dão é lembrado, e que o mais velho, que ora Pevo, está casado 
na dita villa de S. Paulo, e dos mais não sabe o que 0. feito. 

K que outro tio se chamava Balthazar de Moraoi (luo também 
fui casado, não sabe com quem, nem lhe (;onheceu filho algum. 

E que do nomo da tia não está lembrado, e foi casada com 
l.ui/. Fernandes, morador na mosnia villa de S. Paulo, e tivo- 
lam íillios, de que ho. e não tein nuticia, nem sabe que estado ti- 
veram, nem que nomes mais que de um que se chamou Heitor, 
que lhe parece é defunto, e duas liihas, Anna e Fi*ancisca. 



62 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

E que é.christão baptisa4o e ofoi aa freguesia cUdita yUU 
do S. Paulo, não sabe por quom, posto qoa entende seria per 
algum padre da Companhia, porque naqualie tempo £uiam dLles 
na dita viila oífijio de parocho, e que foi seu padriniio Gonçaie 
Madeira, alii morador. E que O chrismado; c o foi na mesma TiUa 
peio Administrador I^rtholomeu Simões Pereira, e foi aeu pa- 
drinho um religioso do Carmo, dos calçados, chamado frei Afi* 
tonio ; e que, tanto que teve uso de razão e edade conveoienie, 
ia ás cgejas e se confessava e commungava e fazia as mais obraf 
do chrisião, antes sendo de muito pouca edade assistiu sempre 
na egreja dos padres da Companhia, onde fez o oíiicio de sa- 
cristão, antes de ser religioeo. 

E logo foi mandado pôr de joolhos e se persignou, benaseu • 
disse o Padre Nosso, Ave Maria, Creio em Deus Padre, Salve Re- 
gina, os mandamentos da lei de Deus e os da Santa Madre Egr^j/à. 

Perguntado se estudou sciencia, e que sdencia, disse que es- 
tudou phiiosophia e thcologia moral e que depois de receber todas 
as ordens sacras m ser ordenado sacerdote foi approvado para 
poder pregar e confessar e com eíTeito exercitou as ditas facul- 
dades até o tompo em que fui captivo do inimigo holiaodez. B* 
quo depois de se vir do Hrazil, onde assistiu até o tompo em que 
foi captivo, esteve nos legares de HoUanda que tem declarado 
em sua confissão, ondo tratava com oatholioos o hereges, poróm 
com ostes nunca em matérias do religião, sinão era para delbndor 
nossa santa fé ; e que dopois que foi em poder dos dites hollan- 
dezes não disse nunca missa, posto que reoebeu a sagrada com- 
munhão por mão de um padre da Companhia, catholioo o antes 
de estar om poder dos inimigos sempre que celebrou o íéz com 
intenção de verdadeiro sacerdote da lei evangélica. E qoenão foi 
outra vez proso pelo Santo Offioio, nem parente algum ae« da 
que tenha noticia. 

Pergantado si sabe elle réu,ou presume, a oausa por que o 
Sinto Offlcio o retém no cárcere em que está: disse que até o 
tempo qjie esteve no Brazil, soube que o Santo Offlcio tinha pro- 
cedido contra elle nHi, como horogose p»rsuadiaque não poderia 
ter contra ello informação de outras culpas mais que :4a8 de se casar 
quo tem confessado, porém que depois que entendeu o sobredito e 
a/ora tem para si que o Santo Offlcio o retém por estar informado 



PROCESSO DE MANOBL DE MORAES 63 

falsamente .que elle réu commottau culpas de heresia e apos- 
tasia. 

Foi lhe dito que o santo oíficio o retém por ter informação 

que olle réu commottea culpas cujo conhecimento lhe tooa e qua 

sào de tal qualidade que olle reu não satisfaz á dita informação 

com o que tem declarado nesta Mesa, sendo certo que não fora 

retido no carere em que está sem se ter noticia de que havia com- 

mettido as ditas culpas, o porque para bem de sua alma e despacho 

do sua causa lhe convém muito declarar toda a verdade delias, e 

86 a que tem confessado commetteu entendendo que ao que era 

ordenado de sacerdote era licito casar-se o admoestam com muita 

caridade da parte de Christo Nosso Senhor, queira descarregar 

inteiramente sua conciencia dizendo tudo. o que passou na ma* 

teria de suas culpas, porque, fazendo assim e sendo ellas tass 

qoe conforme o direito mereçam a misericórdia que nesta Mesa 

se deseja dar a todos, a alcançará elle réu ainda que em sua causa 

se haja procedido tanto avante como lhe persuadiram os que 

ihe disseram que o Santo Offloio o tinha condemnado por herege e 

apóstata da nossa santa fé. £ por o réu tornar a dizer que não 

. Unha (examinada apertadamente sua consciência) cousa alguma 

de que haja de dar conta nesta Mesa, mais do que as de que já 

o tem feito, e que sempre retivora flrmemen(e a nossa santa fé» 

asáim no Brazil como em Hollanda, como poderão dizer os ca- 

tbolicos com quem tratava. 

E o podem testemunhar nesta cidade Jeronymo de Oliveira 
Cardoso, agente de João Fernandes Vieira, que vive nesta cidade 
00 Corpo Santo, e poderá dar razão delle o capitão da caravela 
em que elle veiu do Brazil e o padre frei Fi^ancisco de Jesus, re- 
lidoso de S. Francisco, que esteve em Hollanda em companhia do 
embaixador Francisco, de Andrade, ao qual elle réu pediu (vln- 
do-se para este Reino) quizesse vir a esta Mesa pedir licença para 
elle rén se vir apresentar nella da culpa que tem confessado, 
e o capitão da galé real, a quem não sabo o nome e esteve pou- 
sado em Amsterdam em umi caso. do catholicos, onde elle réu 
cGstumava tambein pousar. E o proveloi* da fazenda que foi do 
Maranhão, ao qual não sabe o nomo, c riarâ razão delle o dito 
Jerouymo de Oliveira e outras pessoas que estão nu Estado do 
Brazil e as nomeará a seu tempo. 



64 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

K seaio-lhc lida esta sessão que estava escripta ua verdade 
a assignoii com o dito senhor que, admoestado em forma, o man- 
dou a seu carcei^e. Eu Joíto Carreira notário a escrevi. Belchior 
Dias Prélio 9 O licenciado Manoel de Moraes. 

IN OENKKE 

Aos on^o dias «lo moz di3 maio do mil seisciiolus quarenta e 
seis annos,em Lisboa, nos ostáus o casas do despacho da Santa Iq- 
quisição, estando ahi em audiência da manha, o senhor inquisidor 
Belchior Dias Pretto mandou vir ante si ao licenciado Manoel 
de Moraes, preso, contido neste processo, e sendo presente para 
em tudo dizer Verdade o ter segredo lhe foi mandado tomar o 
juramento dos Santos Evangelhos cm que poz a mão e sob cargo 
dello prometteu de assim o fazer. 

Perguntado si cuidou em suas culpas o quer acabar de as 
confessar por descargo de sua consciência, salvação de sua alma 
e bom despacho desta sua causa: 

Disse que sim, cuidara; e não tinha outra culpa que confessai* 
mais do quo jl declarou neáta Mesa. 

Perguntado si se apartou de nossa santa fé c religião catho- 
Uca romana, passando-se á crença da seita de Calvino querendo 
e esperando saivar-se nella, como espelham os que a professam: 

Disseque sempre retivera firmemente por obras e palavras 
-a nossa santa fó catholica romana e crera quo só nella podia 
haver salvação sem nunca admittir erro algum dosque admittom 
os professores da seita de Calvino, ou de outra semelhante. 

Perguntado si leu elle réu alguns livros que ensinem os ritos 
o ceremonias da dita seita do Calvino, e se induzido com a falsa 
doutrina delles observou as ditas ceremonias tendo-as por meio 
ordenado para a salvação d'alma : 

Disseque uma ou duas vozes leu o livro de (alvino em 
occasião de certo professor de sua seita lhe duvidar uma autori- 
dade do mesmu Calvino referida por Becano, onde elle réu a ha- 
via lido tudo em ordem a persu idir ao dito herege seu engano, 
e como a doutrina que seguia era falsa, e que para uenhuiu 
outro elfeito leu o dito livro de Calvino, nem soube os ritos c ce- 
remonias que elle ensina, nem as observou. 



PROCESSO DE MANOEL DE MORAES 65 

Pergantado si teve para si, on crea que os sacerdotes de- 
viam ser casados, e nlo estavam obrigados a viver em estado de 
continência e si se casou mais vezes que as qae tem declarado: 

Disse que sempre creu que os sacerdotes eram obrigados a 
Tiver em estado de continência porém que, como fraco, se casou 
as vezes que tem confessado sem embargo de entender e crer que 
tinha differente obrígaçSo em razSo de ser sacerdote. • 

Perguntado si sabia elle réu que aos catholícos, e mais par- 
tieularmente sacerdotes, não era permittido associar com herejes, 
nem dar-lbes ajuda, e si lhe deu algumas vezes por obra ou con- 
selho de palavra ou por escripto ! 

Disse que sempre soubera que não era licito a nenhum 
ciiristão associar com herejes nem dar-lhe ajuda, e conselho 
contra fieis mas que o c&ptiveiro e a retenção que os ditos 
lierejes lhe fizeram o necessitou a flcar-se em sua companhia. 

E que por escriptos não deu nunca conselho aos hoUan- 
dezes, sinão com intento de. escusar aos moradores de Pernam- 
buco de algumas tyrannias, por que a este fim fez algumas 
^ezes papeis e destes papeis fez somente dous livros, um diocio- 
nario da lingua do Brazil e outro do sitio, fertilidades e outras 
particularidades daquella terra, em cada um dos quaes se não 
tratava de ponto algum em matéria de religião. 

Perguntado si teve para si ou creu em algum tempo que 
era licito aos fieis comer carne sem causa em dias, em que a 
Egreja prohibe, e se a comeu algumas vezes, tendo para si que 
01 verdadeiros catholicos romanos não estavam obrigados a 
guardar inteiramente os preceitos da Egrejade Roma, nem estes 
tinham autoridade para obrigar : 

Disse que sempre enteniera que sem causa não era licito 
comer carne em dias prohibidos pela Egreja ; nem elle réu a 
comeu, sinão alguma vezes com tal necessidade que a seu juizo 
o escusava do preceito ; e quaes foram não é agora por monos 
lembrado, por que sempre entendeu que este e os mais precei- 
tos da Egreja obrigavam e se deviam guardar inteiramente pe- 
los verdadeiros catholicos. 

Perguntado si creu, ou aífirmou alguma hora que o Pontifico 
Romano não era successor de S . Pedro, nem vigário de Christo, 
nem os fieis lhe deviam reconhecer obediência, venerando sua 

7341 —5 Tomo lxx, p. i. 



66 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

dignidade e officlo, e que neste não era superior aos outros bis- 
pos, antes tyrannicamente se apropriava de maior autoridade e 
que não podia proferir censuras nem conceder indulgências, 
nem estas eram de valor algum : 

Disse que sempre crera, defendera entre os horeges, que o 
Pontiflce Romano era verdadeiro suecessor de S. Pedro, e vi- 
'gariodeChristo, e superior aos mais bispos e que tinha facul- 
dade para proferir censuras, e conceder indulgências, e que 
estas oram de effeito. E que em razão do todo o sobredito 
eram os catholicos obrigados a reconhecer- lhe obediência re- 
speitando sua dignidade e oíllclo pastorai. E que por este ser o 
mais mal soíTrido preceito dos hereges, teve elle róu por muitas 
vezes pela defensão delie duvidas com os predicantes o outros 
particulares, e sempre animo são e com grande zelo pugnou 
quanto lhe foi possível pela defensão da aut jridade do Pontifloej 
e por persuadir aos ditos hereges que todos os fieis eram obri- 
gados a reconhecer-lhe obediência se.m reparar elle réu em que 
pelo sobredito lhe ficaram com mâ vontade os ditos hereges, e 
por ser dada a hora se não foi com esta sessão por deante, e sen- 
do lhe lida, por elle ouvida, disse quo estaca esoripta na ver- 
dade, e assignou com o dito senhor, qua o mandou a seu cár- 
cere. Gaspar Clemente o escrevi. — Belchior Dias Preito. — O 
licenciado Manoel de Moraes. 

Continúa-se a sessão in genere. 

Aos doze dias do mezde maio de mil seiscentos e quarenta 
e seis annos, em Lisboa, nos estãus e casas do despacho da 
Santa Inquisição, estando ahi em audiência da manhã o Sr. Inqui- 
sidor Belchior Dias Pretto, mandou vir ante si ao licenciado Ma- 
noel de Moraes, preso, contido neste processo, e sendo presente 
para em*tudo dizer verdade, lhe foi mandado tomar o Juramento 
dos Santos Evangelhos, em que pez sua mão e sob cargo delle 
promettcu de assim o fazer. 

Perguntado si cuidou cm suas culpas e as quer acabar òb 
confessar para deson cargo de sua consciência, salvação de sua ai 
ma e despacho desta sua causa : 

Disse que sim, cuidara, e não tinha outra alguma cousa qie 
confessar, e que ainda que peocador, não tinha culpa alguma 
que tocasse a esta Mesa mais do que tem declarado. 



PROCESSO DE MANOEL DE MORAES 67 

Perguntado ai caldou elle réa no tempo qae andou em com- 
panhia do8 hereges ou em algum outro que as censuras im- 
poitas pelas leis catholicas e Summos Pontifices ouquaesquer. 
outros Prelados so não devião temer, antea procurar e festejar, 
não reparando em commetteroa casos e crimes, por que elies se 
incorre : 

Disse que sempre crera que as censuras ligaram nos casoa 
em que não eram impostas com a causa que as leis canónicas e 
os Pontiflces da Egreja julgaram por bastante, e que sempre se 
devia temer e fugir toda a occasião de incorrer nellas. 

Perguntado si creu elle rôo no mesmo tempo que todos os 
fieis se haviam de salvar, ainda que fallecessom em estado de 
gravíssimos peccadores, porque só a fó sem obra ou merecimento 
algum era bastante para justificar : 

Disse que crera e cria firmemente que quem não passava 
desta vida em estado de graga se não salvava 

Perguntado si cuidou alguma hora ou creu que a attri^^o ou 
contcic^ que resulta do medo da pena era peccado: 

Disse que nunca cuidara uo conteúdo da pergunta, aotes en« 
tendia e cria que a^contricção, ainda pelo modo quo se contem 
Tia pergunta, ora meio efflcaz para alcançar graça. 

Perguntado si cuidou elleróu, ou tem para si, que para re- 
ceber a sagrada communhão não ó necessário que preceda con- 
fiai, antes bastante que cada um creia que por meio daquelle 
sacramento ha de alcançar graça : 

Disse que sempre entendera e cria firmemente que para 
rooeber o Santíssimo Sacramento era necessário que precedesse 
confissU). 

Perguntado si cuidou elle réu que na Eucharistia Sagrada 
se não continha o verdadeiro corpo de Ghristo Nosso Senhor, de- 
baixo das espécies de pão, e seu precioso sangue, debaixo das 
eipecies do vinho : 

Disse que sempre crera muito firmemente na matéria da 
pergunta tudo o que crôe professa a Santa Mídre Egreja de 
•Roma, em tanto que acerrimamente defendeu muitas vezes cern- 
ira os hereges a real e verdadeira existência de Christo Nosso 
Senhor no Sacramento da Eucharistia. 

Perguntado si teve elle róo para si que qualquer fiel devia 



68 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

commangar necessariamente debaixo das espécies de pão e de 
Tínho, em tal íórma que o que fizesse o contrario peccaria, e 
qne a eommunhãk) no dia da Geia do Senhor era de mais efflcada 
que em qualquer outro : 

Disse que sempre crera acerca do conteúdo na pergunta o 
que orô a Santa Madre Egreja e que a communhSo era 
sempre da mesma effloaoia em qualquer dia que se recebesse 
dignamente e em grapa. 

Perguntado si teve para si e creu que o merecimento e obras 
dos mortaos não podiam ser de effeito algum para alcançar a 
gloria, porque esta havia de ser resultante necessária só da 
graça: B que com ai taes obras se não merecia, porque nellas 
concorria cada um dos mortaos necessitados com necessidade tão 
absoluta que em nenham caso poderiam deixar de fazer o con- 
trario e que pela mesma razão não podiam ser castigados peias 
obras peccaminosas, porque nellas obravam também necessitados 
sendo Deus Nosso Senhor causa de umas e outras : 

Disse que as boas obras de cada um são meio efflcaz e 
necessário para alcançar a gloria justa iUud fides sine operibus 
mortíía est, porque nas ditas obras concorre cada um dos mor- 
taes livremente, incorrendo emquanto obra bem, porque pu- 
dera livremente obrar mal, e desmerecendo com as mais obras, 
porque podia e devia livremente obrar bem, em reaSLo do livre 
arbítrio que Deus Nosso Senhor permittiu a cada um dos mor- 
taes. 

Perguntado si creu em algum tempo que as imagens de 
Christo Nosso Senhor e de seus Santos se não deviam venerar, 
e que era idolatria collocal-os em legares sagrados, e encom- 
mendar a elles para por sua intervenção e meio alcançar de Deus 
Nosso Senhor algum (kvor : 

Disse quo sempre venerara com grande respeito as ima- 
gens do Nosso Senhor e de seus Santos, por entender e crer 
qne o deviam ser dos fieis, emtanto que sendo mui ordi- 
nários nos legares da HoUanda, em que elie réo assistia gran- 
des tempestades logo que se offerecia alguma, elle róo re- • 
corria com grantie devoçrio a uma imagem de Nossa Senhora, 
e ã vista dos mesmos hereges se encommendava' a ella, e lhe 
pedia intercessão para o livrar daquelle perigo, e os hereges 



PROCESW DB MANOEL DE MORAES 69 

lhe dissimalavam o usar dolla, ooatínuando os actos de ve- 
neração referidos, por haverem retido a elle réo com decla- 
ração que poderia folar e obrar livremente nas matérias de 
Dossa santa fé catholioa, que sempre afflrmou aos ditos hereges 
havia de professar, como de feito professou. 

Perguntado si teve elle rôo para si que os Sacramentos 
da Egrcôa Romana não eram bons e necessários para salvação 
d*alma, nem conferiam graça a quem .dignamente os recebia, 
antes eram pura ceremonia : 

Disse que sempre crera muito firmemente que os Sacra- 
mentos da Egreja eram bons e necessários para a salvação 
e que conferiam graça aos que dignamente os recebiam. 

Foi-ihe dito que nesta Mesa ha informação qne elle réo, 
^ém do que tem confessado nella, commettia culpas na ma- 
nteria das perguntas, que agora lhe foram feitas, qne todas 
^^otinham erros ordenados ao culto da seita de Calvino, e que, 
ida dila informação, se faz mais de crôr que elle réo as 
ommetteu, vivendo ajxartado da nossa santa fé catholica ro- 
:Kxiana, por se casar, como tem declarado, sabendo que aos 
^HEicerdotes é obrigação precisa viverem em estado de conti- 
xm^ncia, e assim mais de se casar com herege, sendo certo que a 
vxenhum fiel é licito o casar com mulher de differente re- 
ligião. 

£ outrosim de approvar no dito casamento a ceremonia 
Qom que o costumam contrahir os professores da dita seita de 
Calvino. 

E sobretudo de se deixar andar tanto tempo em companhia 
de hereges em Iiabito e vestido differente do que convinha a 
seu estado, associando com elles e recebendo seu salário, indo 
& saas juntas e Conselhos de Estado, e dando nellas seu pa- 
recer e (azendo papeis, em razão do que recebia o dito salário, 
6 é de crer lh*o não deram senão receberam serviço delle réo* 
principalmente havendo concedido passagem a todos os que 
foram captivos em sua companhia, o que tudo elle réo tem 
declarado nesta Mesa. E porque, para desencargo de sua consci- 
^ia,lhe é necessário declarar todas suas culpas, e si se apartou 
de nossa santa fé, como consta da dita informação, e se faz de 
crer do que agora se lhe referiu, o tornam a admoestar com 



70 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

muita caridade, da parte de Christo Nosso Senhor, se anime a 
manifestar nesta Mesa, todas suas culpas o se commettea as 
que tem confessado por viver apartado de nossa santa fé éter 
crença na dita seita do Caivino, estando corto quesenella fizer 
inteira e verdadeira conflssão, além do se pôr em estado de 
salvar sua alma, será. tratado com muita misericórdia, sendo 
suas culpas de qualidade, que, conformo o direito, a mereçam, 
como são as dos que somente passam á crença de qualquer 
seita, iiom caminharem a outros maiores excessos, e que esta 
mesma misericórdia poderá alcançar, ^inda que contra elie 
róo se haja tomado no Santo Offlcio a resohiçiU) do que declarou 
o informaram no Brazil. E que lhe tornam a lembrar que nio 
ó bastante para o ezcusar da obrigação de descarregar sua 
consciência inteiramente nesta Mesa o haver sido absoluto na 
forma que declarou em sua confissão, pelas razões que então se 
lhe propuzeram. 

E para dizer que sem embargo do que tem confessado nesta 
Mesa, e de qualquer informação que nolia haja, reteve sempre 
muito firmemente a nossa santa fó catholica romana e a de- 
fendeu com gran le valor entre os hereges, e que espera, con- 
fiadamente, <Ia misericórdia, descobrirá meios para se alcangar 
soa ionocencla neste particular, o se entender que elle réo 
ainda que, cjmopcccador, commottcu as culpas que tem- con- 
fessado, c de que está muito arrependido, não admittiu nunca 
erro contra nossa santa fó, nem agora deixa de declarar outras 
culpas, por se reputar absoluto delias, senão porque nunca oom- 
metteu heresia alguma, nem a absolvição que alcançou do dito 
commissario foi de heresias, sinão de outras falta?, lhe foi 
lida esta sessão e, por elle ouvida disse que estava esciipta na 
verdade, esssignou com o dito senhor que, admoestado em 
forma, o mandou a seu cárcere.— Gaspar Clemente o e8Ci'eyi. — 
Belchior Dias Preito. --O licenciado, Manoel de Moraes. 

MAIS CONFISSÃO 

Ao3 dezoito dias do mez de agosto do mil seiscentos e qua- 
renta e sois annos, em Lisboa, na 3* casadas (!o despacho desta 
Inquisição, estando ahi em audiência da manhã, o Sr. Inquisidor 



PROCESSO DE MANOEL DE MORAES 71 

Luiz Alvares da Rocha mandou vir perante si ao padre Ma- 
noel do Moraes, do cárcere da penitencia onde está» preso, por 
elle pedir audiência e por dizer que a pedira para confessar o 
que mais lhe lembrava de suas culpas, lhe foi dado juramento 
dos Santos Evangelhos, em que poz a mão, sob cargo do qual 
lhe foi mandado diser verdade e guardar segredo, o qae pro* 
metteu cumprir. 

E logo disse que agora era lembrado de certas cousas que 

lhe íázom. algum escrúpulo, como são que haverá dez annos 

pouco mais ou menos, no Brazil, sendo elle declarante tomado na 

campanha pelos Hollandezes e levado a Parahyba, onde estando 

prisioneiro o importunou um predicante herege para que elle 

confitente o quizesse ir ouvir pregar, como com efléito foi, por 

mais que se escusava, dizendo-lhe que nem lhe entendia a lin- 

goa, nem havia de tomar a doutrina de sua seita, porque o 

predicante replicou que pelo menos fosse a vêr ftizer-lhe as 

acções e o modo de pregar, e elle comfitente foi e o ouviu na 

Egreja de S. Francisco, mas não lhe entendeu cousa alguma. 

Disse mais que, cousa de quinze dias depois do sobredito» 

jpouco mais ou menos, estando elle declarante prisioneiro no 

!Mtecife, lho disse o governador da praça, presidente do con- 

«Klho dos Hollandezes, que quizesse elle declarante ir vôr a 

JBTua egreja, e escusando-se elle confitente, dizendo que assim 

<^omo assim, não entendia seus pregadores, nem tinha que ir lá 

-C^azer, todavia movido dos rogos do dito governador, foi á dita 

egreja, e lá ouviu um seu pregador, sem lhe entender cousa al- 

smna, e dahi a oito dias o obrigou o dito governador por força 

a qae elle declarante fosse outra vez à dita egreja, e tornou 

a ouvir outro pregador, mas não lhe entendeu cousa algumia. 

Disse mais que, d*ahi a cousa de três mezes, pouco mais 

ou menos, embarcando-se ello declarante preso por mandado 

^08 Hollandezes para o levarem para HoUanda, foram ter a Pa- 

rabyba para se ir, e ahi em companhia dos hereges Hollandezes 

^Qc estavam em terra, comeu elle confitente carne, sendo em 

oiQ dia de quaresma, o que elle confitente fez, por não haver 

mantimentos, porque somente tinham farinha de mandioca, que 

é o pão do Brazil. 

Disse mais que, em Flandres, na cidade de Hardr^iok, da 



72 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

província de Gueldria, foi elle declarante, por saa cariotidade, 
oavir um predicante herege, porqae o gabavam de boas acções 
e modos, mas não lhe entendea palavra algama. 

E que isto declara nesta Mesa, por desencargo de saa con- 
sciência, mas que om nenhuma das ditas occasiõos se quiz apar- 
tar de nossa santa fó, nem inclinar-se á seita dot hemges. 

Pergontado que causa tem de escrúpulo, si é que em ne- 
nhuma das ditas occasioes se inclinou a lhe parecer bôa a seita 
dos hereges, e si a carne que comeu na quaresma foi por neces- 
sidade, a qual ás vezes faz licito o que nio é: 

Disse que o escrúpulo que o obrigou a declarar o sobredito 
nesta mesa não nasceu de elle entender que peccava contra a fó, 
sinão porque pudera estar indiciado das ditas cousas e por isso 
declara o facto delias e a causa por que as commetteu, e que 
torna a affirmar que nunca duvidou do cousa alguma contra* nossa 
santa fé, nem lhe pareceu bem a seita dos hereges, e mais não 
disse, e sendo-Ihc lida esta sessão, disso que estava escripta na 
verdade e assignou com o Sr. Inquisidor, que, admoestado em 
forma, o mandou para seu cárcere. Manoel Alvares Migueis o 
escrevi— Z«t3 Moraes da Rocha, — O licenciado Manoel de Moraes. 

SBSSÃO IN 8PBCIB 

Aos vinte e tres dias do mez de outubro do anno de mil 
seiscentos e quarenta o sois, em Lisboa, e na 3* casa das audi- 
ências da Santa Inqoisi^, estando ahi em audiência da manhS, 
o Sr. Inquisidor Belchior Dias Pretto mandou vir deante si ao 
padre Manoel de Moraes, réo preso, contido neste processo, e, 
sendo presente, lhe foi dado juramento dos Santos Evangelhos* 
em que poz sua mão, sob cargo do qual lho foi mandado dixer 
verdade e guardar segredo, o que tudo prometteu cumprir. 

Perguntado si cuidou em suas culpas e as quer acabar de 
confessar para desencargo do sua consciência e salvação de sua 
alma e se lhe dar o despacho que por ellas merecer. 

Disse que sim, cuidara, e que,, não era de mais lembrado, e 
tinha dito toda a verdade e tornava a affirmar que sempre fora 
verdadeiro catholico romano, o que em se haver de casar ca 
forma que tem declarado, cahiu por fraqueza da carne, tendo-ao 



PROCESSO DB MANOEL DE MORAES 73 

aempre por amancebado e sabendo muito bem , qae enoontraTa 
gravemente a obrigação de christão. 

Perguntado em que logar se achava elle réo (haverá, onze 
para doze annos, em o qual era tido e havido por herege da sei ta 
de Calvino e se tinha feito tal: 

Disse que nunca se fez herege nem de seita de Calvino, nem 
de alguma outra, nem podia ser tido por tal, se não fosse de 
alguma pessoa que o não conhecesse ou lhe fosse mal opposta, 
e que, portanto, ó falso o que se contem na pergunta, prin,ci- 
palmente porque no tempo que nella se declara estava elle réo 
Da capitania do Rio Grande, do Estado do Brazil, em companhia 
decatholicos. 

Perguntado em que logar se achou elle réo, de dez annos 
e quatro mezes, pouco mais ou menos, a esta parte, onde con- 
tinoava nas egrejas dos hereges calvinistas, sondo commum- 
mente reputado por tal das pessoas que o conheciam fazendo 
obras em utilidade dos hollandezes e prejuizo dos catholicos, em 
razão das quaes recebia sustento e salário dos ditos Hollandezes: 
Disse que o conteúdo na pergunta ó falso, porque nunca 
elle réo entrou nas egrejas dos hereges, nem fez acção alguma 
em utilidade sua, nem acerca desta pergunta tem que dizer 
mAis que o que já declarou em sua confissão. 

Perguntado em que logar se achou elle réo, de sete annos e 
quatro mezes a esta parte, onde andava vestido como secular 
com um traçado, sendo de todos tido e havido como herege cal- 
vinista, e alguns predicantes da dita seita diziam que elle réo 
havia feito um livro que continha cousas contra nossa santa fé: 
Disse que, achando-se nos legares de Hollanda, de que tem 
dado conta em sua confissão, usava vestido de secular, porque 
na jonsdicção e legares sujeitos aos ditos estados não se per- 
mitte a ninguém trazer habito clerical, mas que nunca jamais 
trouxe espada, nem traçado, porque o não tinha ; e que, ainda 
QQGi como já declarou, fez um livro de fertilidades e particula- 
ndades do Estado Jo Brazil, nello se não continha cousa alguma 
contra nossa santa fé, e que no mesmo tempo escreveu nos ditos 
Eatados um sacerdote hespanhol, casado na Haya e por nome 
Migael de Monsarrate Montanhcz, um livro no qual se continha 
<ioutrlna falsa e hereUca, o que declara, para que se tenha en- 



7.4 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

tendHo que poderia acontecer que, com a occasião deste livro 
de que foy autor o sacerdote hespanhol fizessem culpa aellorôo. 

Perguntado em que logar se achou olle réo, de doze annos 
e quatro mezes, pouco mais ou menos, a esta parte, onde era 
publico havcr-se passado a inimigos hereges e apostatado do 
nossa santa fé, tendo crença na seita dos reformadores, entre- 
tanto que algum dos ditos hereges que assistia no dito logar em 
abonacâo da falsa doutrina que seguiam allegavam a approva- 
ç^ delle réo, dizendo que com ser religioso letrado a seguia 
e pregava, andando elle róo vestido de grã, com traçado, traje 
particular da gente militar que não 6 religiosa, pelo qual os 
mesmos hereges não constrangem vestir a alguma pessoa ca- 
tholioa ecçlesiastica contra sua vontade, com o que, certa pes- 
soa que no mesmo logar o viu no dito traje se ficou confirmado 
na commum reputação em que todos tinham a elle réo de se 
haver apartado da fé catholica romana e ter crença na dita 
seita dos reformados: 

Disse que todo o conteúdo na pergunta ó falso. Porque 
nem elle réo se passou a inimigos hereges, nem depois de ser 
captivo e andar entre elles vestiu grã, nem trouxe espada, nem 
estes permittem a ninguém habito clerical e que, sobretudo, 
no tempo que se declara na pergunta, estava elle réo ainda em 
companhia de catholicos. 

Perguntado em que logar se achou elle réo onde trazia 
traje de leigo, com espada, estando em companhia de hereges, 
que tinham guerra com catholicos, dando mostras que era he- 
rege e confessando-se vasallo de certo principe também herege 
conforme todo o sobredito era publico: 

Disse que era falso o conteúdo na pergunta, nem trouxe 
nunca espada, nem deu occasião a se cuidar quo era herege 
mais que as que tem declarado em sua confissão. 

Perguntado em que logar se achou elle réo em companhia de 
hereges, ao qual indo por certo caso, conforme se dizia publica- 
mente, apostatou elle réo, deixando a nossa santa fé, e fazen- 
do-se publico cal vi Qo, deixando-so mais crescer a barba o mudar 
de vestido ; o assim mais convocar a cenas pessoas para que, 
em favor dos ditos hereges, pelejassem contra catholicos, o qu9 
elle réo também fazia, dizendo que se o fizessem capitão, a ne» 



PROCESSO DE MANOEL DE MORAES 75 

oham oatholico de eorta nação havia de deixar vivo ; sendo 
oatrosim pablioo em certo logar, que elle róo dissera a am reli- 
gioso de certa ordem, que fora levado preso ao mesmo logar e 
que ató aqnelle tempo andara errado em seguir a nossa saflta 
fé, porque a seita herética, que seguia, era bôa, e que a se- 
gnisse elle rdigioso também; 

O que tudo passou de mais do que elle róo tem declarado 
em suas confissões, não só pelo que toca a esta pergunta, sinSo 
em todas as mais que agora lhe foram feitas, em cada uma das 
qaaes se contém culpas, além das que tem confessado: 

Disse que assim o conteúdo nesta pergunta, como em todas 
as mais, é falso, porquanto elle réo nEo tem commettido outras 
cQlpas mais que as que declarou em sua confissão. 

Poi-lhe dito que nesta Mesa ha informação que elle réo de 
mais das culpas de que nella tem dado conta» commetteu as de 
^ne agora em particular foi perguntado, achando-se entre he- 
:veges e havendo-se em forma e com demonstrações taes que 
persuadiam aos que o conheciam a o reputarern por herege 
da seita de Calvino, apartado da crença da nossa santa fé catho- 
liea ; e, porque assim se faz de crer, tanto em razão da dita in- 
lormação, como do que elle réo tem confessado nesta Mesa, por- 
que, como já se lhe advertiu, se deve ter por certo que em eile 
xéo se casar primeira e segunda vez com as oeremonias com que 
o costumam fazer os professores da dita seita e de sa deixar 
undar tanto tempo em companhia de hereges da mesma, rece- 
baodo man tença e salário delles, que é de presumir lhe não da- 
riam sem receber delle serviço, aconselhando-os e assistindo 
em suas juntas e conselhos de Estado, e sobretudo indo ouvir 
ma predicantes, como tem confessado, e approvando por este 
modo suas prédicas, erros e falsa doutrina, que todo o sobredito 
fez, por viver apartado da nossa santa fé e ter crença na dita 
seita de Calvino, a que se encaminham todas as ditas culpas, 
assim as que se contém nas informações da justiça de que agora 
se lhe deu particular noticia, como as que resultam da con- 
fissão delle réo. E que, portanto, com muita caridade o admt)es- 
tam, da parte de Christo Nosso Senhor, queira declarar nesta 
Mesa a tenção verdadeira com que commetteu as culpas de que 
tem dado conta, e se foi como se presumo e parece da informação 



76 REVISTA DO INSTITUTO HISTORICX) 

da justiça, por viver apartado da nossa santa fó e ter crenga na 
dita seita dos hereges reformados, manifestando, oatrosim, todas 
as mais coipas que tiver oommettido contra nossa santa fé» 
porque satisfazendo a tudo tão inteiramente como ó obrigado, 
além de pôr sua alma em caminho de salvação, poderá aloangar 
nesta Mesa o bom despacho que se dà nella aos verdadeiros 
penitentes arrependidos, sendo suas culpas de tal qualidade que 
coníbrme a direito a mereçam, e que tenha entendido que em 
raiSo de todo o sobredito o pretende accusar o Promotor da 
justiça deste Santo Offloio ; e que esta é a ultima admoesta^ 
que antes do libello lhe ha de ser feita. 

E por dizer que em sua confissão declarara toda a verdade 
e que não tinha oommettido mais culpas que as que agora de- 
clarou, em suas confissões, e que nestas nâo teve nunca tenção 
de se apartar de nossa santa fécatholica, antes a reteve sempre 
muito firmemente e a defendeu quanto lhe foi possível entre 
os ditos hereges, e as culpas que commetteu foi vencido 
de sua fraqueza, foi admoestado em forma e mandado a aea 
cárcere, e ao Promotor do Santo Ofilcio que venha com libello 
contra elle que assignou com o dito senhor. Domingos EsUveã o 
GBcreyi.^ Belchior Dias Pret^o.-— O licenciado Manoel de Mo^ 
raes. 

ADMOESTAÇÃO ANTES DO LIBELLO 

Aos vinte e cinco dias do mez de outubro de mil seiscentos 
e quarenta e seis annos, em Lisboa, nos estáus e casa primeira 
das audiências, estando ahi o senhor inquisidor Belchior Dias 
Pretto, na da tarde, mandou vir ante si ao padre Manoel de 
Moraes, preso no cárcere da penitencia, e sendo presente, 
lhe foi dito que elle usava de máu conselho em não confessar 
até agora a tenção que teve nas culpas que tem confessado ; e 
lhe íázem saber que o Promotor deste Santo Offlcio requer com 
instancia lhe sc(ía recebido um libello, peio qual o pretende 
aocusar pela dita tenção ; e porque lhe será melhor confessar 
inteiramente tudo antes que depois do ser accusado, o admo- 
estam com muita caridade, da parto de Christo Nosso Senhor* o 
ÍIbka assim ; e por dizer que tinha dito toda a verdade de suas 
culpas, que commettera como peccador e fraco, mas que sempre 



PROCESSO DE MANOEL DE MORAES 77 

íôra oatholico christâo, appareceu, sendo chamado, o Promotor, 
qae leu e offdrecea o libello qae sa segue. — Gaspar Clemente o 
escrevi. 

LIBBLLÒ 

Maito Illastres Senhores 

Diz a Justiça — Autor contra Manoel de Moraes, ohristãO' 
velho, saoerdote, natural da vilia de S. Paulo do Estado do 
Brazil, Téo preso, contido nestes autos. 

E Se Cumprir. 

1 — Provará que sendo o réo christio baptisado, sacerdote, 
6 como tal obrigado a tor e orêr tudo o que tem, crê e ensina a 
Santa Madre Egreja de Roma, elle o fez pelo contrario, e de 
certo tempo a esta parte se apartou da nossa santa fé cathoUca 
e se casou publicamente, professando a seita dos hereges refor- 
madores, com os quaes se lançou, associando com elles, dando- 
Ihes ainda o favor contra os fieis, assim por obra como por 
<3oa3elho. 

2 ^Provará que constando das ditas culpas nesta Mesa, 
por nâo se saber logar certo onde o réo estivesse, se procedeu 
contra elle na forma de direito, sendo citado por carta do éditos 
para allegar e dizer de sua Justiça, dar a razão de se lançar e 
Sk83ociar com os ditos hereges, mostrar soa innocencia ou 
confessar suas culpas, para com elle se poder usar de miseri- 
córdia. 

3 — Provará que por o rôo nfto comparecer no tempo que 
ihe foi assignado, guardados os de direito e accusadas as reve- 
iias, foi jalgado por convicto no crime de heresia e apostasia e 
pronunciado por herege apóstata de nossa santa fó catholica, 
revel e contumaz, e relaxada sua estatua á Justiça secular, no 
aoto da fé que se celebrou nesta cidade em os 6 dias do mez de 
abril de 1642 annos. 

4 — Provará que, estando a causa do réo nestes termos, 
veio elle remettido preso do Estado do Brazil a esta Inquisição, 
em cuja Mesa tem confessado que assistindo na cidade de 
Hardrvick, da provincia Gueldria, se casou com uma mulher 
chamada Margarida, vivendo em forma de casados por espaço 
de dois annos, no fim dos quaes, fallecendo a dita Margarida, 



78 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

se torooa o róo a casar na cidade de Leyde, da província de 
Hollanda, com oatra mulher por nome Adriana, sendo qae oada 
uma das ditas mulheres ora calvinista do profissão, usando elle 
réo nos recebimentos d'ambaã[ das ceremonias que costumam usar 
os professores da seita de Calviao. Confessando, outrosim, o róo 
que algumas vezes comia carne nós dias em que a prohíbe a 
Santa Egreja Catholioa e ia ouvir os hereges predicantes ás suas 
egrejas, dizendo que o fazia por alguns rospeitos que declara, 
sem lhes entendor o que diziam* as quaes confissões, com o 
mais que delias largameato resulta, acceita em seu favor a 
{ustica, emquanto fazem contra o réo. 

5 — Provará que elle róo não tem feito verdadeira confissiò 
de suas culpas e erros, inteira e satiafaotoria, antes mui dimi- 
nuta, fingida e simulada, assim a respeito das culpas que delsoa 
de confdflsar, como da tooção com que commetteu as que tem 
confessado, porquanto, 

6 — Provará que, além do que o mesmo réo confessou, se 
achou elle em certo logar de certo te npo a esta parte, em o 
qual era tido e havido por herege da seita de Calvino e se tinha 
feito tal, e em outro certo logar, de certo tempo a esta parte, 
continuava a ir o réo ds egrejas dos hereges calvinistas, sendo 
oommummonte reputado por tal, das pessoas que o conheciam, 
íiBizeodo obras em utilidade dos Hollandezes e prejuízo dos 
catholícos, em razão das quaes recebia sustento e salário dos 
ditos Hollandezes. 

7 — Provará que o réo se achava em certo logar , de certo 
tempo a esta parte, oode andava vestido como secular com 
um tragado, sendo do todos tido e havíio por herege calvinista» 
e alguns predicantes da dita seita diziam que elle réo havia 
feito um livro que contíoha cousas contra a nossa santa fé» 
além do que ; 

8 — Provará que o réo se achou em corto logar, de certo 
tempo a esta parte, oude era publico haver se passado a 
inimigos hereges o aposiatado de nosía santa fé, teodo crença 
na seita dos roformadoá em tanto que alguns dos ditos hereges» 
que assistiam no tal logar, em abonaçio da fallaz doutrina que 
seguiam, allegavam a approvação dei lo réo, dizendo que com 
ser religioso letrado, a seguia o pregava, andando vestido de 



PROCESSO DE MANOEL DE MORAES 79 

grS, com traçado, traje particalar de gente militar gue nâo ô 
religiosa, o qual os mesmos hereges não constrangem vestir a 
algama pessoa catholioa ecdesiastica contra sua vontade, com 
o que certa pessoa que no mesmo logar viu ao rôo no dito 
traje se ficou confirmando na commum reputação em que todos 
o tinham de se haver apartado da fó oatholica romana e ter 
crença na dita seita dos reformados. 

9 — Provará que o réo se achou em certo logar, onde 
trazia traje de leigo com espada, estando em companhia de 
hereges que tinham guerra com os catholicos, dando mostras 
que era herege e confessando-se vassallo de certo príncipe 
também herege, conforme todo o sobredito era publico. 

10 — Provará que o réo se achou mais em oerto logar em 
companhia de hereges, ao qual indo por certo caso, conforme 
publicamente so dizia, apostatou elle réo, deixando a nossa 
santa fó e fazendo se publico calvinista, deixando*se mais crescer 
a barba e mudando de vestido. £ assim mais convocou a certas 
pessoas para que em favor dos ditos hereges pelejassem contra 
catholicos, como elle réo também fazia, dizendo que si o 
fizessem capitão, a nenhum catholico de certa nação havia de 
deixar vivo ; sendo, outrosim, publico em certo logar que elle 
rôo dissera a um religioso de certa religião que fora levado 
preso ao mesmo logar que ató aquelle tempo andara errado 
em seguir a nossa santa fé, porque a seita herética que seguia 
era a bôa e que a seguisse elle religioso também. Quanto mais 
que, 

11 — Provará que o réo, além do sobredito, não tem também 
feito inteira e verdadeira confissão de suas culpas, porquanto 
não declara a verdadeira tenção que teve em se casar com 
mulheres hereges, principalmente sendo sacerdote, usando nos 
taes actos das ceremonias que costumam os professores da 
seita de Calvino. 

Eem se deixar andar tanto tempo em companhia de hereges, 
recebendo manteoça delles, aconselhando-os, o assistindo em 
suas juntas, contra os catholicos ; comendo carão nos dias pro- 
hibidos e iodo ouvir os hereges predicantes ; approvando por 
este modo suas prédicas, erros e falsa doutrina e presumindo-se 
conforme o direito que fez todo o sobredito por viver apartado 



80 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

de nossa santa fé e ter crença na dita seita de Calvino, a que 
88 encaminham todas as ditas culpas, entendendo que era licito 
serem os sacerdotes casados e não terem obrigaçSo de viver em 
estado de continência, persuadindo-se que estava em bom estado 
em quanto fez vida marital com as sobreditas mulheres hereges. 

12 * Provará que sendo o réo por vezes admoestado nesta 
Mesa oom muita caridade que para desencargo de sua consciência 
e seu bom despacho quizesse confessar suas culpas e declarar toda 
a verdade delias e a verdadeira tenção que teve nas que tem con- 
fessado, o réo usando de máu conselho o nâo quiz fazer, antes 
oego, pertinaz e obstinado, as nega o encobre por ser, como 
ainda agora ó, herege apóstata de nossa santa fó catholica, pelo 
que nlo merece que com eile se use de misericórdia alguma, 
antes de todo o rigor de Justiça. 

Pedo recebimento, e provado o necessário, o réo Manoel de 
Moraes seja declarado por herege apóstata de nossa santa fé 
eatholioa, que incorreu em sentença de excommunhão maior e 
confiscado de todos os seus bens para quem de direito perten- 
cerem e nas mais penas nolle contra os semelhantes estabele- 
cidas, e que, como herege, apóstata, ficto, falso e simulado, 
confltente diminuto e impenitente peja degradado actualmente 
de suas ordens, conforme a disposição dos sagrados cânones e 
ceremonial romano e relaxado á. justiça secular oom a protes« 
tacto de direito e feito em tudo inteiro cumprimento de justiça 
omni meliari modo^ via^ et forma júris. Com custas. 

Lido e offerecido o libello, como é, pelo senhor Inquisidor 
íbi dito que o recebia si et in quantum, e que assim se puiesse 
por termo, o que o réo o contestasse e para o íázer na verdade 
lhe foi mandado tomar juramento dos Santos Evangelhos, em 
que poz sua mio, e sob cargo delle prometteu dea.ssim o í)aser. 

Perguntado si é verdade o conteúdo no dito libello e em 
cada um dos artigos delle, que em especial lhe foram lidos, 
disse que tudo contestava por suas confissões, e que tudo o 
malhem contrario contestava por negação. 

Perguntado se tem defesa com que vir e se para a formar 
quer estar oom o procurador : 

Disseque sim, queria fazer procurador. 

Poii4he dito que a esta Mesa vèm advogar pelos presos os 



PROCESSO DE MANOEL DE MORAES 81 

licenciados Luiz Ferrão e Manoel da Cunha, pessoas bons letrados 
e pessoas tementes a Deus. 

E pelo réo foi dito que a ambos, e a cada um in sotídumy 
fazia seus procuradores nesta causa, para a qual lhes dava 
todos 06 poderes em direito necess.irios apud acta et agenda, 

E polo senhor Inquisidor foi mandado que se desse recado a 
qualquer dos ditos liceociados para vir acceitar a procuração do 
réo e estar com ellepara lhe formar a defesa, que tiver, pelo 
traslado do libello, que outrosim mandou o dito senhor que 
se lhe desse . 

E seodo-lhe lida esta sessão, por elle ouvida, disse que 
estava escripta na sua verdade c assignou com o dito senhor 
Gaspar Clemente o escrevi. — Bclchiw Dias Pretto —O licenciado 
Manoel de Moraes, 

JURAMENTO DO PROCURADOR 

Áos oito dias do mezdo novembro do anno de mil seiscentos 
e qaarenta e seis, em Lisboa, nos estáus e casa do despacho da 
Santa Inquisição, estando ahi em audiência da manhã, os 
senkores Inquisidores mandaram vir deante si ao padre Manoel 
de Moraes, réo preso, contido neste proc&^so, e sendo presente 
com elle o Doutor Manoel da Cunha, a quem tinha feito pro- 
curador nesta sua causa, de que os ditos senhores lhe deram 
informação, foi dado juramento dos Santos Evangelhos, em que 
poz a mão o dito Doutor sob cargo do qual lhe foi mandado que 
bem 6 verdadeiramente aconselhasse ao rôo em tudo o que visse 
ítor a bem de sua justiça, e o não deixasse indefeso, e si 
também pelo discurso da dita causa vir que elle se não defende, 
desista logo da dita causa, fazendo o primeiro saber a esta 
Mesa, na forma do Regimento delia, o que tudo prometteu 
cumprir, de que se fez este termo, que assignou. Domingos 
Esteves^ notário, que o escrevi.— Manoeí da Cunha. 

ESTANCIA COM PROCLRADOR 

Aos dez dias do raez de novembro de mil seiscentos e qua- 
renta O sois annos, em Lisboa, nos estáus e casa do despacho 
da Santa Inquisição, estando ahi os senhores Inquisidores em 
audiência da tai*de, esteve o Doutor Manoel da Cunha, pro- 

7341 — tí Tomo lxx. p. !• 



82 REVISTA DO INSTiTUTO HISTÓRICO 

curador do réo Maaoel de Moraes com elle, e liavendo Já estado 
com o mesmo em outras audiências, nesta altima offeréceo pelo 
rôo uns artigos de oontrariedade e defesi, e com elies tornou o 
traslado do litello da justiça que se lhe ha<^ia dado, e t«do é o 
que a deante se segue, que aqui assiguei do mandado dos ditos 
senhores e do mesmo âz este termo. Eu João Carreira^ notário 
o escrevi. 

TRASLADO 

Muito lllustres Senhores. 

Diz a Justiga-Autor contra Manoel de Moraes), christao 
velho» sacerdote, natural da villa de S. Paulo, do Estado do 
Br^il, réo preso, contido nestes autos. 

E Se Cumprir, 

1 . Provará que sendo réo christão baptisado, sacerdote e 
como tal obrigado a ter e crer tudo o que tem, crê e ensina a 
Santa Madre Egreja de Roma ; elle o fez pelo contrario, e de 
certo tempo a esta pai*te se apartou da nossa santa fó catholica 
6 se casou publicamente, professando a seita dos hereges refor- 
mados, com os quaes se lançou, associando com eUes, dando-Uiei 
ajuda e favor cooti*a os fieis, assim por obra como por conselho. 

2. Provará que constando das ditas culpas nesta Mesa por 
não se saber logar certo, onde o rój estivesse, se procedeu 
contra elle, na forma de direito, sendo citado por carta de 
éditos para allegar o dizer do sua justiça, dar a razão do se 
lançar e associar com os ditos hereges, mostrar sua iano- 
ceneia, ou confessar suas culpas para com elle se poder usar ée 
misericórdia. 

3. Provará que por o réo não comparecer no tempo ^ue 
lhe foi assignado, ^ruardadòs os de direito o accusadas as re- 
velias, foi julgado por convicto no crime de heresia e apos- 
tasia e pronunciado por herege apóstata de nossa santa fé ea> 
thoiica, revel o contumaz, o relaxada sua estatua á justiça 
secuhu* no auto da íe, que se celebrou nesta cidade, em os seis 
dias do mez da abril do mil seiscentos e quarenta e dois 
annos . 

4. I 'Inovará que estando a causa do rdo nestes termas, vei« 
elle remettido, proso do Estado do brazil a esta InquiSKSd, fiift 



PROCESSO DE MANOEL DB MORAES 83 

euja Mesa tem confessado que assistindo na cidade de Hardrvick, 
d» proTincia de Queidria, se casou com uma mulher chamada 
Margarida, vivendo na forma de casados por espaço de dois 
innos, no fim dos quaes, Ikilecendo a dita Margarida/ se tornou o 
réoa casar na cidade de Leydo, da provincia de Hollanda, com 
outra mulher por nome Adriana, sendo cada uma das ditas 
molheres calvinista de profissão, usando olle róo no recebi- 
mento diambas das ceremonias que costumam usar os pro« 
feasores da soita de Galvino. Confessando, outrosim, o réo que al- 
jpunas vezes comia carne nos dias em que a prohibe a Santa 
^reja Catholica, e ia ouvires hereges predicantes ás suas 
egrejas, dizendo que o fazia por alguns respeitos, que declarou 
aem lhes entender o que diziam ; as quaes i^onfissões, com o 

mais que delias largamente resulta, acceita em sen favor a 

justiça, emquanto fazem contra elleréo. 

5. Provará que elle réo não tem feito verdadeira confissão 
iieioas culpas e erros, inteira e satisfactoria, antes mui dimi- 
nuta, fingida e simulada, assim a respeito das culpas que d^xa 
deeontesar cómoda tenção com que commetteu as que tem 
costeado, porquanto 

6. Provará que além do que o mesmo réo confessou, «e 
^hoaelLe em certo logar, de certo tempo a esta parte, no qual 
ora tido e havido por herege da seita de Galvino, e se tinha 
feito tal e em outro certo logar, de certo tempo a esta parto, 
ooQtíQoava a ir o réo ás egrejas dos hereges calvinistas, sendo 
commumente reputado por tal das pessoas que o conheciam, 
fazendo obras em utilidade dos Hollandezes e prejuízo dos cstho- 
licos, em razão das quaes recebia sustento e salário dos ditos 
Hollandezes. 

7. Provará que o réo se achou em certo logar, de certo 
t6mpo a esta parte, onde andara vestido como secular, com um 
terçado, sendo de todos tido e havido por herege calvinista, e 
al^ns predicantes da dita seita diziam que elle réo havia 
kiU) um livro que continha cousas contra nossa santa fé. 

Além de que 

8. Provará que o r<'*!j se achou em certo logar, de certo 
tempo a esta parto, onde era publico haver-se passado a ini- 
migos hereges e apostatado do nossa santa fé, tendo crença na 



84 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

seita dos reformados, emtanto qae algans dos ditos hereges 
que assistiam no tal logar, em abonação da falsa doutrina que 
seguiam, aliegavam a approvaç<ão dcile réo, dizendo que com 
ser religioso^ letrado a seguia e pregava, andando vestido de 
grã, com terçado, traje particular da gente militar, que não é 
i^oligiosa, o qual os mesmos hereges não constrangem vestir a 
alguma peisoa catholica ecclesiastica contra sua vontade, com 
o quo certa pessoa que no mesmo lojirar viu ao dito réo no dito 
tiujo se âcou confirmando na commum reputaçíio, em que todos 
o tinham do so haver apartado da fé catholica romana e ter 
crença na dita seita dos reformados. 

*J. Provará que o réo se achou em certo logar, onde trasia 
traje de leigo, com espada, estando cm companhia d hereges, 
quo tinham ^^uorra com catholicos, dando mostras quo era 
iicregc o conlessando-se vassallo do certo príncipe também 
herege, conforme todo o sobredito ora publico. 

10. Provará que o réo so achou mais cm certo logar, em 
companhia d'hereges, ao qual indo por certo caso, conforme pu- 
blicamente se dizia, apostatou elle réo deixando a nossa santa 
fé, o tazendo-se publico calvinista, deixando-se mais crescera 
barba e mudando de vestido. K assim mais convocou a certas 
pessoas para que em favor dos ditos hereges pelejassem contra 
catholicos, como elle réo também fazia, dizendo que, si o fi- 
zessem capitão, a nenhum cathulico de certa nação havia de 
deixar vivo; sendo, outrosim, publico quo em certo logar que 
elle réo dissera a um religioso do certa religião que fora le* 
vado preso ao mesmo logar, que até aquelle tempo andara 
errado em seguir a nossa santa fé, porque a seita herética que 
8e<^'uia era a boa c que a seguisse elle religioso também. 

Quanto mais quo, 

1 1 . Provará que o réo, além do sobredito, não tem também 
feito inteira o verdadeira confissão de suas culpas, porquanto 
não declara a verdadeira tenção que teve em se casar com mu- 
lheres hereges, principalmente sendo saci^nloto, usando nos taos 
actos das ceremonias quo costumam os professores da seita de 
6alvino. 

E em se deixar andar tuito cempo em companhia d*be- 
reges, recebendo mantença dcUes, aconselhando-os e 



PROCESSO DE MANOEL DR MORAES 85 

em suas juntas contra os catbolicos, comendo carne nos dias 
prohibidps e indo ouvir os hereges predicantes ; approvando 
por este modo suas prédicas, eiTos e falsa doutrina e presu- 
mindo-se, conformo o direito, que fez todo o sobredito por viver 
apartado de nossa santa í'é e tej* crença na dita seita deCalvino, 
a que se encaminham todas as ditaes culpas, entendendo que 
«ra licito sei em os sacerdotes casados, e não terem obrigação 
de viver em estado de continência, persuadindo-se que es- 
teva em bom estado, emquanto fez vida marital com as sobre- 
ditas mulheres hereges. 

12. Provará que sendo o réo por vezes admoestado nesta 

lAesBk com muita caridade que para desencargo de sua consciência 

o seu bom despacho, quizesso confessar suas culpas e declarar 

toda a verdade delias e a verdadeira tenção que teve nas que 

tem confessado, o réo usando de máu conselho o não quiz fazer, 

aotes cego, pertinaz, e obstinado as nega, e encobre por ser, 

como ainda agora é, herege, apóstata de nossa santa fé catho^ 

liça, pelo que não merece que com elle se use de misericórdia 

alguma, antes de todo rigor de Justiça. 

Pede recebimento e, provado o necessário, o réo Manoel de 
Moraes seja declarado por herege apóstata de nossa santa fé 
catholica, que incorreu em sentença de excommunhão maior e 
confiscação de todos seus bens para quem de direito per- 
tencerem, e nas mais penas nellas contra os semelhantes esta- 
belecidas, e que como herege apóstata, íicto, falso e simulado 
confidente diminuto e impenitente soja degradado actualmente 
desuas ordens, conformo a disposição dos Sagrados Cânones o 
ceremonial romano, o reílaxado á justiça secular com a protes- 
tação de direito, e feito em tudo inteiro cumprimento do 
justiça orwwt íwe/tori niof/o, via el fori.ia júris. Com custas. 
Concorda com o próprio — Gaspar Clemente, 

Contestação. 

Muito lllustres Senhores. 

O réo Manoel de Moraes contesta por negação tudo o que 
contra elle deduz a Justiça-Aiitor além do que tem confesaado 
neste santo tribunal, que são todas as culpas que tom commet- 



86 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

tido, som occultar cousa algama, para que alcani^e a miseri- 
oordia com qno se usa com os vordadeiros confiteotes. E pela 
melhor via que em direito haja logar contrariando diz: 

B, Se Cumprir : 

— Provará que elle^ réo viveu sempre como verdadeiro 
catholico, sem se apartar do que cré e ensina a Santa Egreja de 
Roma, e se não lan^u com os Hereges, nem professou, nem 
seguiu sua seita, e o que contra elle réo se articula nesta ma- 
téria é errado. E se olie réo fora herege ou quizesse assistir e 
aflsoeiar-se com os Hollandezes, não v.icra para terra de catho 
Íleos, nem tratara de se vir apresentar neste santo tribunal. 

Porquanto : 

2— Provará que sendo elle réo religioso da Companhia 
de Jesus, vivia com outros padres na capitania de Pernambuco 
e districto delia, em tempo que o Hollandez tinha tomado o 
Recife e a aldéa chamada de S. Miguel, que dista dez legoas 
do Recife e villa, foi elle réo com os indios da mesma aldéa 
c portuguezes visinhos, levados só do amor da pátria e zelo 
da fé catholica, com licença do seu reitor o padre I^onardo 
Me curió, fazer guerra contra o Holiandoz assim na villa, como 
no Recife, em que gastou mais do um anno. 

'A — Provará que passado o dito tempo e estando o ini- 
migo sobre Itamaracá, foi elle réo por maníiado do dito seu 
reitor írovornar o gentio das aldôas circumvizinhas que eram 
governadas no espiritual e temporal pelos padros da Companhia 
o animar os Portuguezes que lá se achassem, om qual com* 
missão e diligencia gastou elle réo cousa de sois mezes, pi^le- 
jando contra o HoUandez, matAn<io-lhe muita gente. 

4 — Provará que recolho ndo-se de Itamaracá, aos mais 
padres e reitor, foram logo outra voz mandado os soccorros que 
eram necessários, indo com sua pes'íoa para assistir e sgudar 
aos Portuguezes com os indios daquollas partes, om que gastou 
espaço de dous anãos, pelejando muitas vt^zes centra o Hollan- 
doz. até que na capitania de Parahyba foi elle réo preso e captivo 
pelo inimigo. 

5 — Provará que sendo elle réo proso o captivo, lhe assis- 
tiam guardas que o guardavam e o acompanhavam quandp 



PROCESSO DE MANOEL DE MORAJ^S 87 

alguma vez sabia da casa em que estava, e depois de estar na 
Parahyba tree ou quatro dias, fbi mettido preso em uma nán 
e levado ao Recife, onde esteve perto de dous mezes, e dahi 
foi na mesma prisão levado á Hollanda, á cidade de Amsterdam 

onde 

6 — Provará que na dita cidade de Amstertam adoeceu 
gravemente e acudindo como verdadeiro catholico ao remédio 
de sua alma, so foi assim doente ter com o padre Lourenço, da 
Companhia de Jesus, e se confissou com elle e Itie deu a com- 
munhão na capella secreta de um livreiro catholico que vfve 
na rua chamada Uvarom Estraete, que por nome não perca. 

7 — Provará que dizendo os médicos a elle róo que ara 
neoessario mudar de ares, perguntaram os Hollandezes a elle 
réo para onde queria o mandassem, e por elle róo ser catho- 
lioo, pediu o mandasem para Bruxellas, por ser terra de catho* 
licos, e nio querendo os Hollandezes, o mandaram para a cidade 
de Hardroick, da província de Gueldria. 

8 — Provará que estando elle réo convalescendo na dita 
cidade de Hardrvick, sempre teve animo do fugir e de se 
passar aos estados catholicos e lhe n&o foi possível, por nfto saber 
a língua, nem ter quem o guiasse, e depois de gastar na dita 
cidade algum tempo, e ser morta Margarida, com quem se di|B 
que foi casado erradamente, se passou a Amsterdam^ sendo em 
toda a parte tido e havido por catholico, e como tal vivia na 
forma que podia ser. 

9 — Provará que chegado elle réo a Amsterdam por muitos 
dias esteve pousado e era companhia de Sebastião de Carvalho, 
nataral da ilha da Madeira o do capitão João Pessoa Bezerra, 
natural de Pernambuco, e de Francisco Carvalho, sen criado, 
todos catholicos (^ que tinham aili vindo presos, que os Hollan- 
dezes mandaram de Pernambuco, e cUo réo os Jajudou em seu 
livramento no que poude. 

10 — Provará que estando ora compannia dos sobreditos, 
elle réo perseguia os judeus c os hereges calvinistas com 
muitas disputas, defendendo oUe réo a (d catholica e com tanto 
aífeeto, que por algumas vt^zes liie aconselhou o dito Sebastião 
de Carvalho, que se houvesse com moderação, porque temia- 
que os J4ideus o matass<jm e os hereges lhe tirassem O sus- 



88 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

tento que lho davam, por cSo tornar ao Hrazil e os perseguir 
pelas armas, e ello réo respondeu que o matassem embora, por- 
que não havia de deixar de defender a fó caiholica. 

1 1 . Provará que no mesmo tempo que estava com os sobre- 
ditos, ia elle réo com elles ouvir missa a varias capellas e 
em t«do procedia como verdadeiro catholico, e é tanto assim 
que estando elle réo com o dito Sebastião de Carvalho e ca- 
pitão João Pessoa Bezerra, ouvindo a um judeu falar mal da 
Virgem Senhora Nossa, se foi a elle e reprehendendo com 
ásperas palavras o lançou dalli, e estranhou ao companheiro 
Sebastião de Carvalho sofflrer ao judeu, sem lhe dar o castigo 
que merecia. 

12. Provará que de Amsterdam foi elle réo para Leyda, 
onde se diz erradamente que casara com Adriana, segunda vez 
e ahi como nas mais partes onde esteve, foi tido e havido 
por ohristão catholico, e que guardava a lei de Christo. 

13. Provará que vivendo em Leyde e tendo noticia que 
na Corte de HoUanda estava o embaixador de Portugal Tris- 
tão de Mendonça, foi ter com elle, e pelo desejo que tinha de 
estar em melhor estado e tirar-se do segundo amancebamento 
lhe pediu que lho quizesse trazer três petições, a saber: uma, 
para os senhores inquisidores lhe perdoarem a culpa que hou- 
TMse conmiettido em respeito da illicita relação qae teve 
oom as ditas Margarida e Adriana e outra para Sua Magestade 
e a terceira para o Arcebispo que então era desta cidade, e oom 
effeito trouxe as petições o dito Tristão de Mendonça, que por 
íklleoer não deu resposta a elle réo. K houve pessoas no Brazil 
como foi o doutor Francisco Bravo que disseram a elle réo que 
neste Reino viram uma das ditas petições. 

14. Provará que indo depois disto à mesma Corto o doutor 
Francisco de Andrade Leitão, por ordem de Sua Magestade, 
foi elle réo ter oom elle o lhe peiUu quizesse escrever aos se- 
nhores Inquisidores para que lhe dessem licença para se vir 
apresentar, e isto antes de ter noticia elle róo que o Santo 
Ottlcio tinha procedido contra elle, como também o não sabia o 
dito dootor Francisoo de Andraile e lhe aconselhou que fizesse 
OQtras semelhantes petições e que com ellas escreveria. 

15. Provará que trazendo-lhe elle réo dahi a alguns dias 



PROCESSO DE MANOEL DE MORAES 89 

duas petições, uma, para os senhores Inquisidores e outra para 
Sua Magestade, lh'as não acceitou dizendo que tinha por noticia 
que se tinha procedido contra ello réo e que viesse pessoalmente 
apresentar-se* 

10. Provará que vendo eile réo que o dito Francisco de An- 
drade Leitão o não emprazava tratou de se vir a este Reino, e 
por esse respeito se passou logo a Amsterdam, aonde pousou em 
casa de mestre Nicolau, alfaiate dos judeus, e sua mulher, em 
cuja casa pousava também Jeronymo de Oliveira Cardoso, 
agente de João Fernandes Vieira, e assim com elle como com 
João Gutterres de Oliver, portuguezes catholicos, ia ouvir missa 
a varias capellas e nas occasiões que se oífereciam defendia a 
fó catholica com grande zelo, como dirão todos os que se acha. 
vam presentes. 

17. Provará que accrescentando-se a ella réo um achaque 
com que andava, mandou recado a um commissario de Sua San- 
tidade, que se nomeava fraUr franciscanus a Gouvea Capucinus 
cornmUsarius ad agendum fidem cum plenitude potestatis, que 
M viesse com elle réo e vindo lhe deu conta de.todas suas cousas 
s estado em que se achava, e como o Santo Offlcio tinha proce- 
dido contra ello réo. E depois de se confessar com ello muito de 
▼a^ e lhe revelar todas suas culpas, o absolveu do tudo, o que 
Uie confessou, sem que dissesse que o absolvesi^e de heresia 
^gama, porquanto não tinha commettido nenhuma ; e em 
oíteito lhe deu patente para poder usar de sua ordens e dizer 
nússa conservando o estado clerical, por no tal tempo estar em 
^a liberdade e não estar sujeito á religião da Companhia de 
qoe os superiores delia o tinham desobrigado. 

18. Provará que para a dita patente ser reconhecida e se 
não pôr duvida alguma a elle réo assignaram nella três portu- 
guezes catholicos que se acharam presentes na mesma casa, a 
âabep Jeronymo de Oliveira Cardoso e João Gutterres de Oliver 
e o capitão Pêro Ortiz Maciel que estava na dita cidade sobre 
Qma náu que lhe tinham tomado os Hollandezes, de que dará 
noticia o dito Jeronymo de Oliveira Cardoso. 

E feito isto, 

19. Provará quo elle réo se partiu da dita cidade para o 
Brazil, e chegando ao Recife, aonde foi desembarcar, pousou 



90 RBVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

em oasa de Luiz Alvares da Silva, portuguez oatholico, todo o 
tempo que esteve no dito Recife, qae seria cousa de* um mas, 
e dahi ia elle róo oom o dito Luiz Alvares á villa de Olinda ou- 
vir missa os dias santos o na mesma villa se recolhiam em casa 
de Manuel Antunes Taborda, portuguez catholico, e iam ouvir 
a missa á Nossa Senhora do Amparo e no decurso do dito tempo 
ouvir na mesma egreja pregar ao padre fr. Manoel dos Óculos. 

20 — Provará indo elle réo de HoUanda oom animo e zelo de 
verdadeiro catholico levou eomsigo seis brandões de cera branca 
muito formosos, a saber: dois para a dita Senhora do Amparo, 
dois para os Santos Cosme e Damião, e dois para o glorioso 
São Gonçalo. E todos foram entregues por ordem e intervenção 
dos ditos Luiz Alvares da Silva e Manuel Antunes Taborda. 

21— Provará que por elle róo se afastar da companhia e 
visinhança ios HoUandczes, e estar entre oatbolioos emquanto 
não vinha para este reino, se foi viver na Matta do Brazil, que 
dista dez léguas do Recife, em o sitio chamado Aratangy, 
onde vivia oomo oatholico, emtaoto que muitas vezes vinha 
ouvir missa a Olinda, pousando em casa do dito Manoel Antunes 
Taborda, e quando andava pelas ruas trazia um bordão na m&o, 
como os mais portugezes catholicos. 

22— Provará que havendo depois disto miasa na mesma 
matta do Brazil, no sitio chamado da Coresma, que distava do 
dito sitio em que elle réo vivia cousa de duas léguas, a ia elle 
réo mnitas vezes oavir missa, som embargo da aspereza das 
mattas e caminhos, como dirá o padre Manoel Leal, que diiia 
as ditas missas. 

23— Provará que indo elle réo ao dito sitio viver, comprou 
negros aos Hollandezos e lhe venderam uns já baptisados e sete 
por baptisar, aos quaes elle réo instruiu nas cousas de noisa 
santa fé catholicae ensinou a doutrina christã, até que com eflèito 
estiveram capazes de receber o santo baptismo, que lhes deu a 
pedimento delito réo o padre Manoel Leal. Icvando-lhe elle róo 
os ditos escravoá. 

24— Provará que succedendo a guerra que ainda hoje dura 
ontro os P«M'tu?uez(»s o Holl;indeze>, sem orabargo de os Hol- 
landc.zes no tempo que os Portuguezes se levantaram contra 
ellei estarem mais fortiAcados e abastantes da apmas« muni- 



PROTKSSO I>E MANOEL DE MORAES 91 

çSes e gente, e os Portugnezes ftiltos de tudo, c elle réo se 
ficou còm 08 Portuguezes pelejando cora os Hollandezes, em todas 
as oecasiOes que se offereceram . 

25— Provará que estando os Portuguezes desanimados e 
mal apercebidos, e de tal sorte que fugiam muitos, temendo o 
risco em que estavam e o poder do Inimigo, elle rôo tratou de 
os animar, e tomando nas mãos um Christo crucificado, o levan- 
tava no ar em todas as occasiões do rebates, dizendo em altas 
vozes que todos se animassem e pelejassem pela fé de Ohristo 
que elle os havia de ajudar e dar victoria contra seus inimigos 
e pelas serras e mattas, levando o Christo arvorado, ia descalço 
a pé, por maior devoção e dar mais alento aos Portuguezes, 
quando iam de uma parte para outra, do que resultou não 
ftigir muita gente e pelejarem como convinha. 

26— Provará que em um enconti*o que tiveram os Hollan* 
dezes com os Portuguezes em que brigaram por espaço de 
quatro horas, estando o negocio em miserável ostado da parte 
dos Portuguezes, estava elle rôo com o Christo arvorado e com 
multas lagrim'^8 lhe pedia em altas vozes que se lembrasse 
por sua divina misericórdia que eram os catholicos, ainda 
que muito peccadores, o não permittisse que aquelles herege» e 
inimigos de sua santa fé nos vencessem . E aos Portuguezes 
disse que chamassem por Nossa Senhora, dizendo-lhe uma Salve 
Rainha, tanto que elle vfio era alta voz, disse Salve Rainha, 
DO mesmo ponto permittiu Deus que voltasse o inimigo, ficando 
o campo pelos Portuguezes, que acclamaram victoria. 

27— Provará que havendo outra segunda batalha, foiello. 
r(k) a pé descalço por aguas e lamas animando os Portuguezes,. 
proraettendo-lhes quo tivessem muita confiança em Deus e que 
elles teriam vencimento, pois pelejavam por sua santa fé catho- 
llca e com taes exhortações animou os Portuguezes, de sorto 
que havendo a peleja alcançaram victoria contra o Hollandez, 
com que a campanha ficou pelos Portuguezes. 

2S— Provar;! que passada esta occupação o trabalho, tratou 
elle réo de se vir para^este Reino apresentar-se no tribunal do 
Santo Offlcio e nelle confessar sua culpa, como tem feito, para 
f^zer a jornada preparou sua matalotigom e, além disto, en- 
tregou seus escravos a quem os governasse, emquanto durasse 



92 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

a ausência delle róo, e finalmente tendo feito petição ao Gover- 
nador da Guerra para lhe mandar fazer um suromario de que 
constasse o procedimento delle réo e como serapi^o fora catho- 
lico o nunca fora herege, como a Jastiça Autor erradamente 
diz, no qual tempo o estando as cousas neste estado para elle réo 
se partir para este Reino foi preso e levado á força de Nazareth 
onde esteve cousa de um mez, o ne.<se tempo se confessou c 
commungou algumas vezes publicamente como dirá o capellão 
da dita fortaleza o da mesma maneira commungava e se con- 
fessava no tempo da guerra com o padre João de Araújo. 

:89— Provaríl que da dita fortaleza foi embarcado para este 
Reino 6 trazido á prisão em que está, e vindo na dita caravela 
fazia muitas vezes doutrina aos moços e mais pessoas que vinham 
nella, rezando todos os dias ladainhas, com toda a mais gente 
da caravela e succedendo uma tormenta que durou seis ou 
sete dias, elle réo continuadamente rezava de noite com candOa 
acesa deante do uma imagem de Nossa Senhora, as ladainhas 
e outras orações devotas do seu breviário. 

30— Provará que elle réo nunca se associou com os hereges 
hoUandezes nem com outros semelhantes inimigos para os 
sgudar na guerra contra Christãos, nem para isso lhos convocou 
encontro algum em que elle réo houvesse legar de o fazer. 
E se ha alguém que o dissesse contra elle, é falso, nem ainda 
usou na pas de armas para trazer comsigo, estando em Hol- 
landa, ou fossem oíTensivas, ou defensivas, e para ornato de 
^ua pessoa, nem nunca em sua vida se vestira de grã. 

31 — Provará que estando ello réo antes que o captivasso 
o inimigo no engenho de António de Valladares em companhia 
do gentio, que ollc réo tinha retirado do Rio Orando, lhe pediu 
António de Albuquerque o Martim Soares Moreno que fosse 
buscar os indios qu(^ estavam na aldêa de Oararaca para os 
ajuntar com o mais «^^entio, em que elles ficaram de guarda, e 
indo elle réo se houveram tão mal em sua ausência os sobre* 
ditos, que damlo nelles o inimi^ru lho fugiram com os soldados 
sem se defenderem r o inimigo captivou o gentio, e voltando 
elle réo encontrou os sobreditos que iam fugindo e lhes per- 
guntou se ficava em salvo o «^^cntio, o dizendo-lho que sim. elle 
réo se foi adeante sem mais dilaçfu) e não se achou o gentio 



PROCESSO DE MAN(»L DE MORAES 93 

tomado do inimigo, mas achou-se elle próprio cercado entro 
inimigos, a qaem se entregoa por mais não poder e o levaram 
captivo como dito tem, o os fu?idos por encobrir sua covardia 
foram dizer falsamente a Matinas de Albuquerque que elle réo 
se mettora com o iaimigo, do que resultou a fama e rumor 
falso que elle réo se lançara com os inimigos, e tudo mais que 
delle réose diz. 

32 -- Provarii que é errado dizer que elle reo ^^ora livro 
algum cm que si3 contivessem cousas contra a santa fé catholica, 
porquanto o livro o cadernu que foz, foi de cousas curiosas 
naturaes do Brazil, que não contem cousa tocanto a matérias 
de fé, e assim mais fez um caderno do pbrases castelhanas 
explicadas em latim, para um fidalgo de Allemanha aprender a 
língua hespanhola, e no fim do dito caderno se continha muitos 
louvores de Nossa Senhora e sagradas imagens. E dando o 
caderno ao Doutor Verstio, lente em Leyde, lho advertiu que 
tirasse do dito caderno os ditos louvores, porque não havia de' 

<;ontentar aos calvinistas. E elle réo lhe respondeu que era 
-^^atholico e como tal havia de publicar os ditos louvores. 

33 — Provará que outrosim ó errado dizer que elle réo 
:C<3ra casado com as ditas Margarida e Adriana, porquanto não é 
^x~»ais que o que tem declarado em sua conílssão o teve com 
^llas illicita relação, levado do appetite e fraqueza humana, 
d« que está muito arropondído, c nunca entendeu que o tal 
^ajuntamento era matrimonio. 

Porquanto 

34 — Provará que como sacerdote entendia que não podia 
contrahir matrimonio, e ainda que fora secular, como era 
oatholico, o ellas hereges era irrito e invalido o tal chamado 
matrimonio como têm alguns Doutores, e como o fosse o de que 
^lleréo 6 accusado ])ela Justiça, íica tíndo logar um amanceba- 
mento e illicita relação e ajuntamento que o róo teve com 
as sobreditas, não tendo animo nunca de casar, senão por satis- 
fazer ao appetití e sensualidado, e na forma que tem foito 
conâssao passou tudo e como vordadoiro penitente espera a 
misericórdia que n(\sto santo tribunal se n:-ui com os verdadeiros 
confitentes. 

E* publica voz e fama. 



84 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

seita dos reformados, emtanto que alguns dos ditos hereges 
que assistiam no tal logar, em abonaçâo da falsa doutrina que 
seguiam, allegavam a approvação delle réo, dizendo que com 
ser religioso^ letrado a seguia e pregava, andando vestido de 
grã, com terçado, traje particular da gente militar, que não é 
religiosa, o qual os mesmos hereges não constrangem vestir a 
alguma pessoa catholica occlesiastica contra sua vontade, com 
o quo certa pessoa que no mesmo logar viu ao dito réo no dito 
ti'ajo se âcou confirmando na commum reputaçíio, em que todos 
o tinham de se haver apartado da fé catholica romana e ter 
crença na dita seita dos reformados. 

*J. Provará que o réo se achou em certo logar, onde trazia 
trsge de leigo, com espada, estando cm companhia d hereges, 
qu(3 tinham guerra com catholicos. dando mostras que era 
herege o coní'essando-se vassallo de certo príncipe também 
herege, conforme todo o sobredito era publico. 

10. Provará que o réo se achou mais em certo logar, em 
companhia d'hereges, ao qual indo por certo caso, conforme pu- 
blicamente se dizia, apostatou elie réo deixando a nossa santa 
fó, o íazendo-se publico calvinista, deixando-se mais crescera 
barba e mudando de vestido. K assim mais convocou a certas 
pessoas para que em favor dos ditos hereges pelejassem contra 
catholicos, como elle réo também fazia, dizendo que, si o fi- 
zessem capitão, a nenhum catholico de certa nação havia de 
deixar vivo ; sendo, outrosim, publico que em certo logar que 
elle réo dissera a um religioso de certa religião que fora le- 
vado preso ao mesmo logar, que até aquelle tempo andara 
errado em seguir a nossa santa fé, porque a seita herética que 
seguia era a bôa e que a seguisse elie religioso também. 

Quanto mais quo, 

11 . Provara que o réo, além do sobredito, não tem também 
feito inteira e verdadeira confissão de suas culpas, porquanto 
não declara a verdadeira tenção que teve em se casar com mu- 
lheres hereges, principalmente sendo sacordoto, usando nos taes 
actos das ceremonias que costumam os professores da seita de 
Salvino. 

E em se deixar andar tinto tempo em companhia d'he- 
reges, recebendo mantença delles, aconselhando-o^i o assistindo 



PROCESSO DE MAXOEL DE MORAES 85 

«n mas juntas contra os catholicos, comendo carne nos dias 
{irohibidps e indo ouvir os hereges predicantes ; approvando 
por este sACdo suas prédicas, erros e falsa doutrina e presu- 
mindo-se, conformo o direito, que fez todo o sobredito por viver 
apartado de nossa santa Té e ter crença na dita seita doCalvino, 
a que se encaminham todas as ditas culpas, entendendo que 
era lieito sei em os sacerdotes casados, e não terem obrigaçcão 
de viver em estado de continência, persuadindo-se quo es- 
lava em bom estado, emquanto fez vida marital com as sobre- 
ditas mulheres hereges. 

12. Provará que sendo o réo por vezes admoestado nesta 
Mesa com mnita caridade qne para desencarno de sua consciência 
eaen bom despacho, quizesso confessar suas culpas e declarar 
toda a verdade delias e a verdadeira tenção que teve nas que 
tem confessado, o réo usando de máu conselho o não quiz fazer, 
iates oego, pertinaz, e obstinado as nega, e encobre por ser, 
eomo ainda agora (}, herege, apóstata de nossa santa fé catho- 
liea, pelo que não merece que com elle se use de misericórdia 
algoma, antes de todo rigor de Justiça. 

Pede recebimento e, provado o necessário, o réo Manoel de 
Moraes seja declarado por herege apóstata de nossa santa fé 
cstholica, que incorreu em sentença do excommunhão maior o 
confiscação de todos seus beus para quem de direito per- 
tencerem, e nas mais penas ncllas contra os semelhantes esta- 
belecidas, c que como herege apóstata, íicto, falso o simulado 
confidente diminuto e impenitente soja degradado actualmente 
de suas ordens, conformo a disposição dos Sagrados Cânones o 
ceremonial romano, e relaxado á justiça secular cora a prot(\<í- 
tâçfiu de direito, o feito om tudo inteiro cumprimento do 
}UÊÍiçíi omni meliori nnufo, vid el for, .ia júris. C(mi oiistns. 

Cuncorda com o próprio — Gaspar Clemci\fe. 

('0NTBSTA(;7\0. 

Muito lllustres Senhores. 

O réo Manoel de Moraes contesta por negação tudo o quo 
contra olle deduz a Jusliça-Aiitor além do quo t<^m confessado 
neste santo tribunal, quo são t,oiias as culpas quo tom commot- 



86 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

tido, som occultar cousa 'alguma, para que alcance a miseri- 
córdia com qno se usa com 00 verdadeiros confitentes. E pela 
melhor via que em direito haja logar contrariando diz: 

B, Se Cumprir : 

— Provará que elle^ réo viveu sempre como verdadeiro 
catholico, sem se apartar do que cré e ensina a Santa Egreja de 
Roma, e se não lan^u com os Hereges, nem professou, nem 
seguiu sua seita, e o que contra elle réo se articula nesta ma< 
teria é errado. E se elle réo fora herege ou quizesse assistir e 
associar-se com os Hollandezes, não v.icra para terra de catho 
Íleos, nem tratara de se vir apresentar neste santo tribunal. 

Porquanto : 

2— Provará que sendo elle réo religioso da Companhia 
de Jesus, vivia com outros padres na capitania de Pernambuco 
e districto delia, em tempo que o Hollandez tinha tomado o 
Recife e a aldéa chamada de S. Miguel, que dista dez legoas 
do Recife e villa, foi elle réo com os indios da mesma aldêa 
c portuguezes visinhos, levados só do amor da pátria e zeío 
da fé catholica, com licença do seu reitor o padre Leonardo 
Me curió, fazer guerra contra o Hollandez assim na villa, como 
no Recife, em que gastou mais do um anno. 

3 — Provará que passado o dito tempo e estando o ini- 
migo sobre Itamaracá, foi elle réo por mandado do dito seu 
reitor íjovernar o gentio das aldêas circumvizinhas que eram 
governadas no espiritual e temporal pelos padres da Companhia 
o animar os Portuguezes que lá se achassem, om qual com- 
missão e diligencia gastou elle réo cousa de seis mezes, pele* 
jando contra o Hollandez, matando-lhe muita gente. 

4 — Priívará que recolhendo-se de Itamaracá, aos mais 
padres e reitor, foram logo outra vez mandado os soccorros que 
eram necessários, indo com sua pessoa para assistir e ajudar 
aos Portuguezes com os índios daquellas partes, em que gastou 
espaço de dous annos, pelejando muitas vozes contra o Hollan- 
dez. até que na capitania de Parahyba foi elle réo preso e captivo 
pelo inimigo. 

5 — Provará que sendo elle réo proso e captivo, lho assis- 
tiam guardas que o guardavam e o acompanhavam quandp 



PROCESSO DE MANOEL DE MORAJ^S 87 

alguma vez sahia da casa em que estava, e depois de estar na 
Pamhyba tree ou quatro dias, fbi mettido preso em uma nán 
e levado ao Recife, onde esteve perto de dous mezes, e dahi 
fbi na mesma prisSo levado á Hollanda, á cidade de Amsterdam 

onde 

6 — Provará que na dita cidade de Amstertam adoeceu 
gravemente e acudindo como verdadeiro catholico ao remédio 
de soa alma, so foi assim doente ter com o padre Lourenço, da 
Companhia de Jesus, e se confissou com elle e Itie deu a com- 
maahão na capella secreta de um livreiro catholico que vive 
na ma chamada Uvarom Estraete, que por nome nâo perca. 

7 . Provará que dizendo os médicos a elle róo que ara 
neoevario mudar de ares, perguntaram os Hollandezes a elle 
rôo para onde queria o mandassem, e por elle ròo ser catho- 
lieo, pediu o mandasem para Bruxellas, por ser terra de catho* 
licos, e nio querendo os Hollandezes, o mandaram para a oidade 
de Hardroick, da provinda de Gueidria. 

8 — Provará que estando elle réo convalescendo na dita 
eldade de Hardrvick, sempre teve animo do fugir e de se 
passar aos estados cathoiicos e Ibe n&o foi possivei, por n&o saber 

a língua, nem ter quem o guiasse, e depois de gastar na dita * 
eidade algum tempo, e ser morta Margarida, com quem se di^B 
que foi casado erradamente, se passou a Amsterdam^^ sendo em 
toda a parte tido e havido por catholico, e como tal vivia na 
forma que poiía ser. 

O — Provará que chegado elle réo a Amsterdam por muitos 
dias osteve pousado e em companhia de Sebastião de Carvalho, 
nataral da ilha da Madeira o do capitão João Pessoa Bezerra, 
natural de Pernambuco, e de Francisco Carvalho, sen criado, 
todos cathoiicos <» que tinham alli vindo presos, que os Hollan- 
dezes mandaram de Pernambuco, e ello róo os ^ajudou em seu 
livramento no quo poude. 

10 — Provará que estando (^ra companiiiii dos sobreditos, 
elle rôo perseguia os judeus c os horeí^es calvinistas com 
muitas disputas, defendendo olle n\o a fé catholica e com tanto 
affeeto, que por algumas vt»zes lhe aconselhou o dito Sebastião 
de Carvalho, que se houvesse com moieração, porquo tomia- 
que os judeus o raatascsitm e os hereges llic tirassem o sus- 



88 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

tento que lho davam, por mo tornar ao Brazil e os perseguir 
pelas armas, e ello réo respondeu que o matassem embora, por- 
que não havia de deixar de defender a fó catholica. 

1 1 . Provará que no mesmo tempo que estava com os sobre- 
ditos, ia alie réo com elies ouvir missa a varias capelias e 
em t«do procedia como verdadeiro catholico, e é tanto assim 
que estando elle réo com o dito Sebastião de Carvalho e ca- 
pitão João Pessoa Bezerra, ouvindo a um judeu falar mal da 
Virgem Senhora Nossa, se foi a elle e reprehendendo com 
ásperas palavras o lançou dalli, e estranhou ao companheiro 
Sebastião de Carvalho soffrer ao judeu, sem lhe dar o castigo 
que merecia. 

12. Provará que de Amsterdam foi elle réo para Leyde, 
onde se diz erradamente que casara com Adriana, segunda vez 
e ahi como nas mais partes onde esteve, foi tido e havido 
por christão catholico, e que guardava a lei de Christo. 

13. Provará que vivendo em Leyde e tendo noticia que 
na Corte de Hollanda estava o embaixador de Portugal Tris- 
tão de Mendonça, foi ter com elle, e pelo desejo qiie tinha de 
estar em melhor estado e tirar*se do segundo amancebamento 
lhe pediu que lhe quizesse trazer três petições, a saber: uina, 
para os senhores inquisidores lhe perdoarem a culpa que hou- 
vesse commettido em respeito da illicita relação que teve 
com as ditas Margarida e Adriana e outra para Sua Magestade 
e a terceira para o Arcebispo que então era desta cidade, e com 
effeito trouxe ai petições o dito Tristão de Mendonça, que por 
ílalieoer não deu resposta a elle réo. K houve pessoas no Brazil 
como foi o doutor Francisco Bravo que disseram a elle róo que 
neste Reino viram uma das ditas petições. 

14. Provará que indo depois disto à mesma Corto o doutor 
Francisco de Andrade Leitão, por ordem de Sua Magestade, 
foi elle réo ter com elle o lhe pediu quizesse escrever aos se- 
nhores Inquisidores para que lhe dessem licença para se vir 
apresentar, e isto antes de ter noticia elle réo que o Santo 
Otflcio tinha procedido contra elle, como também o não sabia o 
dito doutor Francisco de Andrade e lhe aconselhou que fizesse 
outras semelhantes petições e que com ellas escreveria. 

15. Provará que trazendo-lhe elle réo dahi a alguns dias 



PROCESSO DE MANOEL DE MORAES 89 

dns petições, uma, para os senhores Inquisidores e outra para 
Soa Magestade, lh*as não acceitou dizendo que tinha por noticia 
que SC tinha procedido contra elle réo e que viesse pessoalmente 
apresentar-se* 

!(>• ProYará que vendo elle réo que o dito Francisco de An- 
drade Leitão o não emprazava tratou de se vir a este Reino, e 
por esse respeito se passou logo a Amsterdam, aonde ponsou em 
caA de mestre Nicolau, alfaiate dos judeus, e sua mulher, em 
cuja casa pousava também Jeronymo de Oliveira Cardoso, 
agente de João Fernandes Vieira, e assim com elle como com 
João Gutterres de Oliver, portuguezes catholicos, ia ouvir missa 
a varias capellas e nas occasiões que se oífereciam defendia a 
fé catholica com grande zelo, como dirão todos os que se acha. 
vam presentes. 

17. Provará que accrescentando-se a elle réo um achaque 
com que andava, mandou recado a um commissario de Sua San- 
tidade, que se nomeava fraier franciscanus a Gouvea Capucinus 
eommUsarius cui agendum fidem cum plenitude potestatiSy que 
SB viesse com elle réo e vindo lhe deu conta de.todas suas cousas 
e estado em que se achava, e como o Santo Offlcio tinha proce- 
Mo contra elle réo. E depois de se confessar com elle muito de 
vagar e lhe revelar todas suas culpas, o absolveu de tudo, o qae 
lhe confessou, sem que dissesse que o absolvesse de heresia 
alguma, porquanto não tinha commettido nenhuma ; e em 
efféito lhe deu patente para poder usar de sua ordens e dizer 
missa conservando o estado clerical, por no tal tempo estar em 
soa liberdade e não estar sujeito á religião da Companhia de 
que os superiores delia o tinham desobrigado. 

18. Provará quo para a dita patente ser reconhecida e se 
Tão pôr duvida alguma a elle réo assignaram nella três portu- 
guezes catliolicos que se acharam presentes na mesma casa, a 
*iber Jeronymo de Oliveira Cardoso e Joáo Gutterres de õliver 
e o ciipitão Pêro Ortiz Maciel que estava na dita cidade sobre 
uma náu que lho tinham tomado os Hollandezes, de que dará 
noticia o dito Jeronymo de Oliveira Cardoso. 

E feito isto, 

19. Provará quo elle réo se partiu da dita cidade para o 
Brazil, e chegando ao Recife, aonde foi desembarcar, pousou 



90 RBVIRTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

em oasa de Luiz Alvares da Silva, portuguez oatholico, todo o 
tempo qae esteve no dito Recife, que seria cousa de* um maz, 
e dahi ia elle róo oom o dito Luiz Alvares á villa de Olinda ou- 
vir missa os dias santos o na mesma villa se recolhiam em casa 
de Manuel Antunes Taborda, portuguez oatholico, e iam ouvir 
a missa á Nossa Senhora do Amparo e no decurso do dito tempo 
ouvir na mesma egreja prógar ao padre fir. Manoel dos Óculos. 

20— Provará indo elle réo de Hollanda oom animo e zelo de 
verdadeiro catholico levou eomsigo seis brandões de cera branca 
muito formosos, a saber: dois para a dita Senhora do Amparo, 
dois para os Santos Cosme e Damião, e dois para o glorioso 
São Gonçalo. E todos foram entregues por ordem e intervenção 
dos ditos Luiz Alvares da Silva e Manuel Antunes Taborda. 

21— Provará que por elle réo se afastar da companhia e 
▼isinhança dos Hollandezes, e estar entre oatboUoos emquanto 
não vinha para este reino, se foi viver na Matta do Brazil, que 
dista dez léguas do Recife, em o sitio chamado Aratangy, 
onde vivia oomo oatholico, emtanto que muitas vezes vinha 
ouvir missa a Olinda, pousando em casa do dito Manoel Antunes 
Taborda, e quando andava pelas ruas trazia um bordão na mão, 
como os mais portugezes catholicos . 

22— Provará que havendo depois disto missa na mesma 
matta do Brazil, no sitio chamado da Coresma, que distava do 
dito sitio em que elle réo vivia cousa de duas léguas, a ia elle 
réo maitas vezes onvir missa, sem embargo da aspereza das 
mattas e caminhos, como dirá o padre Manoel Leal, que dizia 
as ditas missas. 

23— Provará que indo elle róo ao dito sitio viver, comprou 
negros aos Hollandezes e lhe venderam uns já baptisados e sete 
por baptisar, aos quaes elle réo instruiu nas cousas de noisa 
santa fé catholicae ensinou a doutrina christã, até que com effeito 
estiveram capazes de receber o santo baptismo, que lhes deu a 
pedimento dello réo o padre Manoel Leal, levando-lhe elle róo 
os ditos escravos. 

24— Provará que succedendo a guerra que ainda hoje dura 
ontro os Pí^rtuoruezos o Hollandezes, sem embargo de os Hol- 
landezes no tempo que os Portuguezes se levantaram contra 
ellei estarem mais fortiflcados e abastantes da armas* muni* 



PROTKSSO DE MANOEL DE MORAES 91 

cSes e gente, e os Portu^ezes faltos de tudo, e elle réo se 
ficoo com os Porta^ezes pelejando com os HoUandezes, em todas 
IS oecasiSes que se offereceram . 

85— Provará que estando os Portuguezes desanimados e 
mal apercebidos, e de tal sorte que fugiam muitos, temendo o 
risco em que estavam e o poder do inimigo, elle réo tratou de 
06 animar, e tomando nas mãos um Christo crucificado, o levan- 
tava no ar em todas as occasiões do rebates, dizendo em altas 
vozes que todos se animassem e pelejassem pela fé de Ohristo 
que elle os havia de ajudar e dar victoria contra seus inimigos 
e pelas serras e mattas, levando o Christo arvorado, ia descalço 
a pé, por maior devoção e dar mais alento aos Portuguoxes, 
quando Iam de uma parte para outra, do que resultou não 
fagir multa gente e pelejarem como convinha. 

25— Provará que em um enconti-o que tiveram os Hollan» 
deces com os Portuguezes em que brigaram por espaço de 
quatro horas, estando o negocio em miserável ostado da parte 
dos Portuguezes* estava elle réo com o Christo arvorado e com 
muitas lagrimas lhe pedia em altas vozes que se lembrasse 
por sua divina misericórdia que eram os catholicos, ainda 
que muito peccadores, o não permittisse que aquelles hereges e 
ioimifos de sua santa fó nos vencessem. E aos Portuguezes 
disse que chamassem por Nossa Senhora, dizendo-lhe uma Salve 
Rainha, tanto que elle r(';o era alta voz, disse Salve Rainha, 
DO mesmo ponto permittiii Deus que voltasse o inimigo, ficando 
o campo pelos Portuguezes, que acclamaram victoria. 

27— Provará que havendo outra segunda batalha, foi ello 
r<^a pé descalço por aguas e laraas animando os Portuguezes,. 
promettendo-lhes que tivessem muita confiança em Deus e que 
elles teriam vencimento, pois pelejavam por sua santa fé catho- 
lica e com taes exhortações animou os PortuguezOf^, de sorto 
que havendo a peleja alcançaram victoria contra o Hollandez, 
<*om que a campanha ficou pelos Portuguezes. 

2S— Provani que pissada esta occupação o trabalho, tratou 
elle réo de so vir para^este Reino apresentar-se no tribunal do 
Santo Oíllclo e nello confessar sua culpa, como tem feito, para 
ftizer a Jornada preparou sua mat.ilotififora e, além disto, en- 
tregou seus escravos a quem os governasse, emquanto durasse 



92 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

a ausência delle róo, e finalmente tendo feito petição ao Gover- 
nador da Guerra para lhe mandar fazer um suramario de que 
constasse o procedimento delle réo e como sempre fora catho- 
lico o nunca fora herege, como a Justiça Autor erradamente 
diz, no qual tempo e estando as cousas noste estado para elle réo 
se partir para este Reino foi preso e levado á forçado Nazareth 
onde esteve cousa de um mez, e nesse tempo se confessou c 
commungou algumas vezes publicamente como dirá o capellão 
da dita fortaleza e da mesma maneira commungava e se con- 
fessava no tempo da guerra com o padre João de Araújo. 

29— Provaríl que da dita fortaleza foi embarcado para este 
Reino e trazido á prisão em que está, e vindo na dita caravela 
fazia muitas vezes doutrina aos moços e mais pessoas que vinham 
nella, rezando todos os dias ladainhas, com toda a mais gente 
da caravela e succedendo uma tormenta que durou seis ou 
sete dias, elle réo continuadamente rezava de noite com candêa 
acesa deante de uma imagem de Nossa Senhora, as ladainhas 
e outras orações devotas do seu breviário. 

30— Provará que elle réo nunca se associou com os hereges 
hoUandezes nem com outros semelhantes inimigos para os 
ajudar na guerra contra Christãos, nem para isso lhes convocou 
encontro algum em que elle réo houvesse logar de o fazer. 
E se ha alguém que o dissesse contra elle, é falso, nem ainda 
usou na paz de armas para trazer comsigo, estando em Hol- 
landa, ou fossem ofTensivas, ou defensivas, e para ornato de 
^ua pessoa, nem nunca em sua vida se vestira de grã. 

31 — Provará que estando ello réo antes que o captivasso 
o inimigo no engenho de António de Valladares om companhia 
do gentio, que elle réo tinha retirado do Rio Grande, lhe pediu 
António de Albuquerque o Martim Soares Moreno que fosse 
buscar os indios que estavam na aldêa de Gararaca para os 
ajuntar com o mais gentio, em que elles ficaram de guarda, e 
indo elle réo se houveram tão mal em sua ausência os sobre- 
ditos, quo dan^lo nelles o inimi<?o lhe fugiram com os soldados 
sem se defenderem (í o inimigo captivou o gentio, e voltando 
elle réo encontrou os sobreditos que iam fugindo e lhes per- 
guntou se ficava em salvo o gentio, e dizendo-lhe que sim, elle 
réo se foi adeante sem mais dilação e não se achou o gentio 



PROCESSO DE MANOEL DE MORAES 93 

tomado do inimigo, mas achoa-se ello próprio cercado entro 
inimigos, a quem se entregou por mais não poder e o levaram 
captivo como dito tem, o os fuiridos por encobrir sua covardia 
foram dizer falsamente a Mathias de Albuquerque que elle réo 
se mettera com o inimigo, do que resultou a fama e rumor 
falso que elle réo se lançara com os inimigos, e tudo mais que 
deile réose diz. 

32— Provani que é errado dizer que elle réo flzora livro 
algum cm que se contivessem cousas contra a santa íé catholica, 
porquanto o livro e caderno que fez, foi de cousas curiosas 
naturaes do Brazii, que não contem cousa tocante a matérias 
de fé« e assim mais fez um caderno de phrases castelhanas 
explicadas em latim, para um fidalgo de Allemanha aprender a 
língua hespanhola, e no fim do dito caderno se continha muitos 
louvores do Nossa Senhora e sagradas imagens. E dando o 
caderno ao Doutor Verstio, lente em Leyde, lho advertiu que 
tirasse do dito caderno os ditos louvores, porque não havia de' 
contentar aos calvinistas. E elle réo lho respondeu que era 
catholico e como tal havia de publicar os ditos louvores. 

33 — Provará que outrosim 6 errado dizer que elle réo 
fora casado com as ditas Margarida e Adriana, porquanto não ó 
mais que o que tem declarado em sua confissão o teve com 
ellas illicita relação, levado do appetite e fraqueza humana, 
de que está muito arrependido, e nunca entendeu que o tal 
ajuntamento era matrlinonio. 

Porquanto 

34 — Provará que como sacerdote entendia que não podia 
contrahir matrimonio, e ainda que fora secular, como era 
catholico, e ellas hereges era irrito e invalido o tal chamado 
matrimonio como tora alguns Doutores, e como o fosse o de que 
elle réo 6 accusa^lo i»ela Justiça, fica t mdo logar um amanceba- 
mento e illicita relação e ajuntamento que o réo teve cora 
as sobreditas, não tendo anirao nunca de casar, senão por satis- 
fazer ao appetite e sensualidade, e na forma que tem f<úto 
conftssao passou tudo e como verdadeiro penitente espera a 
misericórdia que neste santo tribimal se usa eom os verdadeiros 
confitentes. 

E' publica voz e fama. 



94 REVISTA DO INSTITUTO HISTORIGO 

Pede recebimento e qae provado o qua baste seja absolato 
do que contra elle réo se deduz além do que tem oonfessido» 
omni meliori ynodo. Com custas. 

ROL DB TESTEMUHAS 

Braz de Barros, capitão morador om Pernambuco. 
Martim Ferreira, que foi capitão om Pernambuco. 
O capitão Diogo Paes de Sá, morador em Pernambuco, 
Dom António Philippe Camarão, capitão-mór dos índios, 
que rraiide no arraial do Pernambuco. 

O dito Dom António Philippe 

Fulano Pinheiro, que disse residir em ca<^a do conde de 
Monsanto, que foi oapitão-mór de Itamaracá. 
António Roiz, morador na mesma ilha. 

4.0 

Pêro Mondes de Gouvêa, capitão que foi da capitania do Rio 
Grande. 

O dito Dom yVntonio Philippe 

O .padre Francisco Carneiro, principal da Companhia no 
Brazil 

O almirante Cosmo do Couto. 

5." e 6." 

O padre Lourenço, da Companhia. 

O livreiro catholico, que por nomo não perca, contido no 
dito (5.0 artigo. 

?.• 

O Doutor Alberto Conrado, da Companhia dos Mercadores, 
depois (fovornador de Amsterdam. 

Joanes áii Laet, da mesma Companhia dos Mercadores. 

9.' 

O Capitã» João Pessoa Bezerra, morador em Pernamboeo. 
Francisco de Carvalho, (luo foi seu criado, morador em 
Purnambuco. 



i^BOCBSSO D6 MAN(»L Dl MORAES 95 

Dona Bla. . . do GapitiLo Joio Pessoa Bezerra* moradora em 
Pernambuco. 

O mestre Nicolau, alfaiate dos judeus, morador em 
^Vmsterdam. 

Âuna, mulher do sobredito, ambos cathoiioos. 

IQo 

O Capifâo João Pessoa Bezerra 
Francisco de Carvalho, que foi seu criado. 
SebastlKo de Carralho, acima nomeado. 

IP . 

Nomeia as três pessoas acima nomeadas. 

13o 

O Desembargador António de Souza Tavares, que foi secre- 
tario da embaixada de Tristão de Mendonça 

Um criado do mesmo Tristão de Mendonça, que por nome 
não perca, e era o principal dos criados e que o róo entendia 
servip-lhede camareiro. 

O Doutor Francisco Bravo, residente na Bahia. 

14<» e lõ*» 

O Doutor Francisco de Andrade Leitão 
O doutor Feliciano Dourado, secretario do sua embaixada. 
Frei Francisco de Jesus, frade franciscano que assistia com 
o moi^mo doutor Francisco de Andrade Leitão e veiu para esta 

cidade. 

ICo e 170 

Nomeia para provas destes artigos os mesmos nelles de- 
clarados, a saber : 

Nicolau, alfaiate dos judeus. 

Anoa, sua mulher. 

íeronyrao de Oliveira Cardoso, que vive nesta cidade por 
agente de Joào Fernandes Vieira, ao Corpo Santo e darão 
dello noticia em casa do Marquez de Montalvão. 

João Qutierres de Olivor, morador em Pernambuco. . 

O dito commissario nomeado no artigo, morador em Ams- 
terdam. 



Ô6 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

18» 

O dito Jeronymo de Oliveira Cardoso. 
O dito João Gutterres de Olivcr. 

O capitão Pêro Ortiz Maciel, de que daiá noticia o dito 
JeroDymo do Oliveira. 

19° e 20» 

Luiz Alvares da Silva, morador em Pernambuco. 
Manoel Antunes Taborda, morador em Olinda. 
Frei Manoel dos Óculos, morador em Pernambuco. 
O mestre de campo João Fernandes Vieira. 

21*> 

Os ditos Luiz Alvares da Silva e Manoel Antunes Ta- 
borda. 

João Lourenço, francez, morador em Pernambuco. 

Santos Mendes, morador na matta do Brazil, perto donde o 
onde o réo morava. 

Gonçalo Freire, morador no mesmo sitio . 

22« 

Os ditos Gonçalo Freire e Santos Mendes. 
O padre Manoel Leal, morador em Pernambuco, clérigo do 
habito de S. Pedro. 

Manoel Travassos, portuguez, vizinho que era do réo na 
dita matta. 

A mulher do dito Manoel Travassos. 
O padre Manoel Leal, acima nomeado. 
Gonçalo Freire, acima nomeado. 
Santos Mendes, acima nomeado. 
24« 

João Lourenço» francez, atraz nomeado. 
João Dias Leite, morador em Pernambuco. 
João Fernandes Vieira, governador da guerra. 

O padre João Baptista, clérigo do habito de S. Pedro. 
O dito João Fernandes VieJi'a. 



PROCESSO DE MANOEL DE MORAES 97 

Cosmo de Castro Passos, provedor da F^zenda em Per- 
nambaeo. 

O capitão Thomé Dias, morador em Pernambuco* 

O dito João Peraandcs Vieira. 
O capitão-mór Amador de Aratgo. 
Manoel de Araújo, seu filho. 
Fernando Mendes Croz . 

Cosmo de Castro, acima nomeado, e todos moradores em 
Pernambuco. 

O dito João Fernandes Vieira. 

O dito capitSo-mór Dom António Phiiippe. 

O dito João Pessoa Bezerra. 

Manoel Curvello e António Curvello, i^n irmão, que foram 
08 qne lhe venderam o mantimento crú da matalotagem. 

Manoel Fernandes Cruz, em caja casa se cozeu o manti* 
mento e salgou carne e prepararam doces. 

A mulher do dito Manoel Fernandes. 

Fernando Mondes, seu filho. 

Miguel Fernandes, a quem tinha entregue os escravos. 

Enoque toca a se confessar e commungar em Nazareth: 

O padre capellão da força, castelhano de nação. 

O capitão da força Ascenço da Silva. 

E como na guerra 90 confessa va: 

padre João de Araújo, clérigo. 

O padre João Baptista, clérigo. 

O dito Cosmo de Castro, todos moradores em Pernambuco. 

2ir 

O capitão da caravela qae o trouxe, Manoel Pinheiro. 
O mestre piloto, escrivão o mais pessoas da mesma cara- 
vela, que por nome não percam . 

73tl,— 7 Tomo lxx. p. i^ 



98 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

31« 

Dá em prova elle réo deste artigo ama certidão do coronel 
Artizoqud em qae se continha tudo o que está. articulado neste 
artigo passado na Haya pelo dito coronel, o qual o réo entregou 
a Tristão de Mendonça e o Secretario da Embaixada o Doutor 
António de Souza Tavares a viu e reconheceu, como elle dirá, e 
para esse effeito o nomea o réo por testemunha. 

E se é licito pergantarem-se por testemunhas Sigismundo 
Sohoppe e Jacobus Bstacour, governadores da Guerra Hollan- 
deza, elle réo os nomea para isso. 

Aocrescentando á contrariedade, diz o réo: 

35 — Provará que é tanto errado dizer-se elle réo fazia as 
partes do inimigo hoUandez contra christão, que estando elle 
réo em Amsterdam ouvindo que no Brazil se matavam moitos 
pórtuguezes só pelos roubarem se foi elle réo ter com Qerardo 
S. . . Arnhem, do estado geral de Hollanda e lhe fez queixa da 
sem razão que se faziam aos pórtuguezes, do que resultou 
mandar«-8e que no Brazil se não matassem os Pórtuguezes, 
salvo em conflicto e guerra, e aos moradores de Pemambaoo 
avisou do que passava e se lhes offereceu para os defender e 
ajudar. 

36 — Provará que como dito tem, não compôs livro 
algum, e si contra olle réo ha alguém que lhe imponha a 
tal culpa, é falso e será equivocando-se, porquanto o livro que 
andava impresso e muito moderno er:i de Miguel do Monsar- 
rate, sacerdote ou religioso hespiinhol que se havia feito he- 
rege e o dito livro que fez foi contra o Summo Pontiâoe e sa- 
crificio da missa. 

37 -> Provará que no mesmo tempo houve um herege por- 
tuguoz no Brazil chamado Jeronymo de Paiva, que ao tempo 
que elle réo captivou, publicava muitas heresias e fazia guerra 
aos Pórtuguezes e por haver sido também religioso se enga- 
nariam com elle róo. 

38— Provará que nos Estados do Hollanda toda a penoa ca* 
iholica que lá se acha, ainda que soja sacerdote ou religioso, 
veste <lo curto o anda como secular, como é notório e usam 
todos os Pórtuguezes sacerdotes que lá vão negociar ; e sendo 



PROCESSO DE MANOEL DÉ MORAES 99 

Isto assim, não é culpa ser elle réo Tisto em trajes de secular, 
nem é necessário prova para este artigo. 

E* publica TOS e feona. 

Pede recebimento ut supra. Com custas. 

O dito João Pessoa Bezerra. 
O dito Sebasti&o de Carvalho. 

Dá em prova o mesmo livro de Miguel de Monsarrate, que 
86 Tende nos livreiros. 

37» 

O capitão Pêro Cavalcante, português, morador em Per- 
nambuco. 

O dito Dom António Philippe, 

E no que toca aos artigos em que n&o nomea * testemunhas 
é porque as que podia nomear são hollandezes e outros dos ditos 
artigos se provam por si mesmo eo; evidencia facti^ e se em 
tudo o que tem articulado estiver alguma palavra lue se en- 
eoQtre com a confissão que tem feita a ha por não dita nem 
escripta, porquanto o que tem confessado é a verdade e tudo 
mais passa pelo contrario. 

E ofTereoido como dito é a oontrariedade atraz para os se- 
nhores Inquisidores lhe haverem de deferir de mandado dos 
mfismos senhores, fiz este processo concluso. Eu João Carreira^ 
notário o escrevi. 

Recebemos a defesa com que veio o réo Padre Manoel de ' 
Moraes si et in quantum para prova dos artigos a que se no- 
meam testemunhas serão perguntadas as apontadas por parte 
do réo, passando-se para esse effeito as commissões necessárias 
6 os mais se verão afinal por informação, Lisboa, em Mesa do 
dito OfflciOy a 23 de novembro de 646.- Luiz Alvares da Bocha. — 
Pedro de Castilho, -^Belchior Dias Pretto, 

Aos dezoito dias do moz de março do anno de mil seiscentos 
6 quarenta e sete, em Lisboa, nos estaus e casa do despacho da 
Santa Inquisição, estando ahi em audiência da manhã, o se- 
nhor inquisidor Belchior Dias Pretto mandou vir deante de si 



100 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

ao Desembargador Antooio de Soaza Tavares e sendo pre6ente« 
lhe foi dado jaramento dos Santos Evangelhos em que pox a 
soa mão sob cargo do qual lhe foi mandado dizer verdade o 
guardar segredo, o que promotteu cumprir, e disse ser de edade 
de quarenta e oito annos. 

Perguntado pelas perguntas goraes, não disse cousa que se 
houvesse de escrever. 

Perguntado si conhece algumas das pessoas presas nos cár- 
ceres desta Inquisição : 

Disse que por ora não era lembrado. 

Perguntado si conhecia a Manoel de Moraes, que foi Padre 
da Companhia da Província do Brazil e assistia nos Estados da 
HoUanda no tempo que elle testemunha passou a eile<i com is 
Embaixada de Sua Magestade: 

Disse que no anno de quarenta e um conheceu ao dito Ma- 
noel de Moraes, por vir algumas vezes á casa do Embaixador, 
onde elle testemunha residia e alli falar com elle em varias 
matérias e outrosim o viu também na cidade de Leyde, na 
provinda de HoUanda, onde o dito Manoel de Moraes tinha 
sua casa e nella esteve elle testemunha uma tarde. 

Perguntado si sabe elle testemunha do procedimento do 
dito Manoel de Moraes em matéria de religiSo cousa alguma de 
que lhe pareça deve dar conta nesta Mesa e em que opinião era 
commummente tido o dito Manoel de Moraes entre os catho- 
Hoos daquellas partes: 

Disse qUe o dito Manoel de Moraes por algumas vezes em* 
que falou com elle testemunha mostrou sempre em suas pra* 
ticas que era verdadeiro catholico romano e tivera creação 
de religioso, porque falava com grande modéstia, e que em 
poder do Embaixador Tristão de Mendonça, que Deus perdto, 
viu elle testemunha um memorial do dito Manoel de Moraos» 
ctuja letra reconheceu então por sua, pela haver visto em ou- 
tros papeis, em o qual pedia ao dito Embaixador lhe quizesM 
procurar licença e Ei-Rey Nosso Senhor, para se vir para este 
Reino e trazer em sua companhia um íilho^ que houvera de* 
uma mulher com quem vivia em opinião de casado entre os 
hereges, pedindo demais no dito memorial que quizesse elle 
Embaixador representar a Sua Magestade quo a pessoa delia 



PROCESSO DE MANOEL DE MORAES 101 

M&Qoel de Moraes poderia ser de ^ande seryicorpara a guerra 
do Brazil, pela noticia que tinha daquella provinoía-V^ Qoe Por 
este respeito deviam não somente conceder-lho a dita licença 
para vir para este Reino, sínão mandar-lhe crôar neHe o.dito 
filho, por pessoas oatholicas qae bem o instruíssem e doutri- 
nassem nas cousas de nossa santa fé, e em razão de matéria* do 
dito memorial e do mais que elle testemunha ouvia ao dito 
Manoel de Moraes, ficou persuadido que o seu intuito de se vir 
a este Reino era apartar-se do mán estado em que andava 
e poder professar livremente a nossa santa fé, sem embargo 
de qae a opinião em que commammente era tido o dito padre 
naqaellas partes, era de herege e se persuade elle testemunha 
que nascia esta opinião do escândalo que os catholioos rece- 
biam de vêr a um homem religioso que vivia como casado* 
porém nunca elle testemunha viu fazer ao dito padre ao(^ al- 
guma contra a nossa santa fé. 

E sendo-lhe lido o 3^ artigo e trinta e um artigos da defesa 
do réo a qae ó dado por testemanha ; 

Disse ao 3« que da matéria delle não sabe mais qiie o qae o 
dito tem acerca do memorial, que viu e leu, por lhe mostrar 
o Embaixador Tristão de Mendonça. E que ainda que tem por 
certo, que poderia também dar-lhe as outras duas petiç9es de 
qoe o artigo trata pelo desejo qae mostrava de se vir para 
«te Reino, todavia elle testemunha as não viu. 

Ao SI*», disse que na corte de Haya está elle testemunha 
lembrado vêr uma certidão em língua latina debaixo da firma 
do Coronel Artichock, que foi cabo da guerra do Brazil pela 
companhia de Hollanda, na qual afiãrmava o dito Coronel que 
o dito Manoel de Moraes se houvera na guerra com gran- 
disimo valor e resistira com grande constância aos soldados 
bollandezes e' que ainda na ultima oceasião em que fora ca. 
ptivo, pelejara com tanto esforço, que elle dito coronel lhe 
concedera a vida, em consideração de seu valor, mandando 
degoilar a maior parte dos soldados vendidos, e segundo lem* 
branca delle testemunha, declara a dita certidão, que o dito 
Manoel de Moraes fora rendido, ou na Parahyba ou em ai - 
^m dos logares daqnelle districto, e não está elle testemanha 
lembrado si entro os papeis que da dita jornada guardou. 



102 OeyletA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

eatará e8tar.o^idSo, mas fará diligencia por ella e aôbando 
a en7iaGÍ*!CÀta Mesa, e mais nSo disse e ao oostnme nada, e 
seiide-j4e**Iido este sea testemunho por elle ouvido e enten- 
did9»*di/s9e qae estava esoripto na verdade e assignou oom o 
á)iúr\(^hor.—Daminffos Biteves, notário qae o escrevi. -*Btf(- 
^Uà^ Dias Pretto^-- António de Sousa Tavares, 

A' margem. António de Souza me avisou depois de dar 
•*o testemunho sopra esoripto que não achara entre os seus pa- 
peis a oertid&o que ^ctuan. -^Belchior Dias Pretto, 

Aos vinte dias do mez de março do anno de mil seiscentos 
e quarenta e sete, em Lisboa, nos estáns e casa do daspaolio 
da Santa Inquisiçio, estando ahi em audiência da manlúL« o 
senhor inquisidor Pêro de Castilho mandou vir deante si ao 
padre foi Manoel Callado do Salvador, mestre em Thoologia, 
religioso de 8. Paulo, e sendo presente, lhe foi dado juramento 
dos Santos Kvangelhos, em que pot a mão, sob cargo do qual 
)ht (bl mandado diser verdade e guardar segredo, o que tudo 
piometteu cumprir, e disse ser da edade de quarenta e seit 
annos. 

Perguntado pélas perguntas geraes, disse nada. Pergun- 
tado ai oonhece algumas das pessoas presente nos cárceres do 
Santo Oí&cio: 

Disse que conhecia a Miguel firanoez que eUe reduziu e oon- 
fessou em Pernambuco e ao padre Manoel de Moraes, o qual 
conhece de três annos a esta parte do vista somente, mas que 
não tratou nunca oo:u elle. 

Perguntado si sabe de alguma cousa que hais^ de declarar 
nesta Mesa, tocante ao dito Manoel de Moraes. 

Disse que o dito Padre, sendo religioso da Companhia e 
governando como tal os indios de Pernambuco, nio sabe em 
que oceaaião se lançou com os ditos indios o dito Padre Manoel 
de Moraes aos Hollandezes, largando logo os hábitos de raligiose 
e tomando os de secular, andando com os ditos indios a Ikier 
mal aos Portugueses e Christãos, em tanto que se nio ÍQra o 
dito padre Manoel de Moraes, nunca os HoUamieses entraram 
poia torra dentro e âseram o damno que tem feito. B ouviu 
elU testemunha a muitos Holiandeses e indios, que o dito Ma- 
noel de Moraes passanio-se 4 UoUanda, lã ae Azara calviaiala 



PROCESSO DE MANOEL DE MORAES 103 

e como tal Tivia, sendo tido de todos os Holiandezea por oalvi- 
niita, segundo lhe disseram, sem nenham duvidar disso, 6 oomo 
esses, se casou em Hollanda ; e viu elle testemuntia no Recife 
vestidos que o dito Manoel de Moraes mandou vender de sua 
mulher, depois de morta, o deppia viu -que o dito Manoel de 
Moraes demandou a Sebastião de Oarvaltio pelo procedido 
dos ditos vestidos. E que iia verá três annos, estando ainda todo 
Pernambuco em poder dos Hollandezes, antes que se levan- 
tassem, e elle testemunha pregando na egreja de Nossa Senhora 
do Amparo, viu o dito Manoel de Moraes vestido em trâjefi do 
secular, por lh*o mostrarem, e depois do acabar de pregar teve 
um eeoripto do dito Manoel de Moraes, em que pedia lhe desse 
uma pilavra, e temendo elle testemunha o íiBiiar>lh#v por andar 
já accusado entre os Hollandezes, foi dar conta ábao ao conde 
Nassau que o escusou de falar com o dito padre Manoel de Mo- 
raes, e dahi a tempo succedendo levantarem-se o» Portuguezes 
de Pernambuco, dia de Santo António, que nem íkrá dois 
annos, o governador daquellas armas João Ferjuandes Vi- 
eira mandou por uma tropa de soldados prender ao dito Ma* 
noel de Moraes a uma roça em que estava ftizendo p&a do 
Brazilpara os Hollandezes, e atoo tempo desuaprisftonio ouvia 
elle testemunha nem teve noticia que o dito Manoel de Mo- 
ra'8 quizesse reduzir-se ã noss.» santa fô oatholica, sendo que • 
ts?6 para isso muitas ocoasiões e somente dois diaâ depois . do.) 
diU) Manoel de Moraes estar preso, brigando os Portugueze». 
com os Hollandezes, sahiu o dito Manoel de Moraes com uma: 
croz na mão a exhortar os Portuguezes, e logo abriu coroa e 
cortou a barba, e em outra occasião do peleja em que faltaram 
confessorea, dizia elle que se fosse nece^ario também confessaria . 
08 feridos, mas não viu que confeasasse ninguém, nem lhe ouvím • 
falir nunca se estava reduzido, ou íbsse, ou não herege, e dahi 
pordeants andou sempre livre no exercito e pudera fugir se ' 
qaizera, e quando se embarcou para este Reino o dito Manoel de ' 
Moraes não cuidou que vinha preso, mas livre a apresentari-se. 
a esta Me», como lho aoonsolhavam tolos, e mais não disse. 
£ logo lh'o foram lidos os artigos di def^.sa do róo a que 
é dado por testemunha por elle ouvidos e entendidos. 

Ao 19^. Disse que do dito artigo não sabe mais que vAr um 



104 



REVISTA TK) INSTITUTO HIKTOBICO 



dia ao réo estar ouTÍQdo uma sua prégaçãOi como ^m dito, 
mas que por nlle mtãv na diia egr^ja nâoquiz elle testemunjia 
dizar missa nolla o a foi ditara outra parto. 

Ao 20"* Di^e nada. E mais uâo difge o ao costume nada, e 
eetido-lliG lido oate seu teâtomunbo por ell6ouTÍdo eôutendidoí 
disse quo estava oscripto na verdade e assigoou com a dito 
Senhor. Domingos Esteres ^ notário do Saoto Offlcio, que o es- 
crevi. — Pêro de Castilho, — O mestre ftci José Miinoet Callcda 
do Salisadorm 

£ logo na mesma andieacia mandou o dito Senbor vir de- 
ante SI a Manoul Pinheiro, capitão de uma caravela, na tarai 
da Ilha Terceira, e sendo presente lhe foi dado juramento dos 
Santos Evangelhos em que posa sua mão, sob cargo do qual lhe 
foi mandado dizer verdade e guardar segredo, o que pro- 
metteu cumpríf, e disse ser de odade do quarenta e três annos* 

Perguntado pelas geraes, disse nada. Perguntado si ckj* 
Bhece algumas das pessoas presas n€S cárceres da Inquisição : 
Dtase que conhece a Manoel de Moraes pelo haver trazido na 
sua caravela, quando veiu preso para esSa Inquisição. 

Perguntado si sabe de alguma cousa tiue haja de declarar 
nesta mesa, tocante ao dito Manoel de Moraes: 

DiEse que elle testemunha ouviu om Pernambuco que o 
dito padre Manoel de Moraes se passara para os HoUaadezes o 
à^áti Á Hollanda, onde fora casado e tornara para o Brazil 
com commissão dos da Bélgica, para fezer páu, e que quando sê 
levantaram os Portuguezes se viera para elles, podendo-seir 
para os Hollandezes m quizera, e quo em uma oecasião de briga 
quo houve eotre Portugueses e HoUandeies o dit^ Manoel de 
Moraos oom uma cruzua m&o exhortava muito aos Ponuguezes, 
o que sabe somente polo ouvir, e quando veiu ua embarcação 
lhe viu, ao dito padre Manoel de Moraes, os mais dos dias fa^er 
doutrina e rezar pelo breviário, dando mostras de multo bom 
chrjstao e de estar arrependido de algumas culpas, si as hou^ 
vesse commettido. 

E seudo-lhe lidos os artigos da defesa do réu & que é dado 
por testemunha por elle ouvidos e entendidos. 

Di^e ao 19*» que todo o conteado no dito artigo é verdade 
6 que o dito Padro, alóm do que tem declarado, rezava todos 



I 

I 
I 

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PROCESSO DE' MANOEL DE MORAES 105 

08 dias a ladainha, e no tempo da tormenta fez as orações e 
devoções contidas no artigo, e mais não disse, nem ao costnme, 
e sendo-lhe lido este sen testemunho por elle ouvido e en- 
tendido, disse estar escripto na verdade e assignou oom o dito 
Senhor. Domingos Esteves, notário que o escrevi. — Pêro de 
Castilho — Manoel Pinheiro. 

Aos vinte e um dias do mez de março de mil seiscentos e 
quarenta e sete annos, em . Lisboa, nos estáus e casa terceira 
das audiências da Santa Inquisição, estando ahi na da manhã o 
senhor Inquisidor Pêro de Castilho, appareceu, sendo chamado 
Jeronymo Esteves, morador nesta cidade, á Santa Clara, em casa 
de Dona Helena Manoel, e para em tudo dizer verdade e ter 
segredo lhe foi dado juramento dos Santos Evangelhos em que 
poz sua mão e sob cargo delle prometteu de assim o fiizer, e disse 
ser de edade de quarenta annos. 

Perguntado pelos geraes: disse nada. Perguntado si conhece 
al^ma pessoa que esteja presa neste Santo Officio, disse que não. 
Perguntado si conhece a Manoel de Moraes, qae razão tem de o 
conhecer e de quanto tempo a esta parte: 

Disse que no aono de mil seiscentos e quarenta e um, em 
que foi com seu amo Tristão de Mendonça á Hollanda, ser* 
^iodo-lhe de camareiro, conheceu ao dito Manoel de Moraes, 
por ir muitas vezes á casa do dito Tristão de Mendonça a falar 
com elle e ahi falou algumas vezes com elle testemunha, e lhe 
OQTindizer ao dito Tristão de Mendonça o dito padre Manoel 
de Moraes que desejava vir-se para este Reino, mais que re- 
ceiava que nelle o castigassem por se ter mudado para os Hol- 
landezes no Brazil, e lá em Hollanda onde estava ensinando a 
seita que os Hollandezes seguiam, posto que aíflrmava que em 
sen coração a não seguia, e que somente o fazia em remédio 
^vida, porque por isso lhe davam estipendio em Leyde, onde 
QU^rava, e que si assim o não fizesse, ou lhe não dariam cousa 
alguma, ou o matariam, e apertando o dito Tristão de Men- 
donça com o dito padre que se viesse, elle lhe respondia que 
não podia sem trazer três ou quatro filhos que tinha e a 
mulher com que estava das portas a dentro, hão declarando si 
era sna mulher, si soa manceba, mas que se lhe fizessem 
certos partidos que elle declarava para remédio dos filhos, e 



106 RBVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

daqaella mulher o o aio castigassem, elle se viria para este 
Reino, e por muitas Teces o viu mui sentido de se haver pas- 
sado aos Hollandezes o chorar muitas lagrimas, de que elle 
testemunha presumia que o dito Manoel de Moraes era oa« 
tholioo e não herege, e assim o tinha para si. fi sendo-lbe lido 
o decimo terceiro artigo á% defesa do rèo, a que é dado por 
testemunha por elle ouvido e entendido, disse que delle não 
sabe mais que vir o dito Manoel de Moraes, de Leyde, onde 
morava, a buscar o dito Tristão de Mendonça, mas que não 
sabe o que com elle em particular tratou mais do que tem 
dito, e ai não disse, e ao oostume nada, e sendo-lhe lido este 
seu testemunho por elle ouvido, disse que estava esoripto na 
verdade, e assignou com o dito Senhor. Gaspar ClemmUêt o es- 
crevi ^ Pêro de Coitilho — Jêronymo Esteves d* Almeida. 

Aos vinte e oito dias do mez de março de mil seiscentos e 
quarenta e sete, em Lisboa, nos estàus o casa do despacho 
da Santa Inquisição, estando ahi em audiência da manhã, os »• 
nhotes Inquisidores mandaram vir deanto si a António Ri« 
beiro, homem do mar, e mestre da sua caravela, que faa 
viagens no Brazil, e sendo presente lhe fbi dado Juramento 
dos Santos Evangelhos, em que possua mão, sob cargo do qual 
lhe foi mandado diíer verdade e guardar segredo, o que tudo 
prometteu cumprir, e disse ser de edadede trinta annoi. 

Perguntado pelas geraes: disse nada. Perguntado ii oo- 
nhece alguma das pessoas presas nos cárceres desta Inquisigio. 
Disse que conhecia a duas que trouxe no seu navio, a que nio 
sabia os nomes, mas uma delias era padre da Ck)mpanhia. 

Perguntado si tem alguma oousa que haja de declarar nesta 
MesQ, tocante ao dito padre da Companhia: 

Disse que no Brasil ouvira diser que elle estivera entre oa 
Hollandezes, assim em Hollanda como em Pernambuco, e qno 
depois ai nossos o foram buscar e que com elles se echara uk 
primeira batalha que deram aos Hollandeses, animando-os oom 
om Christo na mão. 

B sendo-lhe lido o artigo vinte e nove da defesa do réo» a 
que é dado por testemunha por elle ouvido e entendido. 

Disse que o conteúdo no dito artigo é tudo verdade, porque 
vindo o róo Manoel de Moraes embarcado oom elle na sua < 



PROCESSO DB MANOEL DE MORAES 107 

Teia, fluia por muitas vezes doutrina em geral aos rapaiei e 
mais pessoas qae vinham na dita caravela e as mais das noates 
rezava ladainha e havendo uma grande tempestade no mar, que 
durou quatro ou cinco dias, nas noites de todos elles, o dito 
padn Manoel de Moraes se mettia no seu camarote oom candôa 
aoesa e nelle rezava orações e pelo seu breviário oom grande 
devoç&o. B mais não disse e ao costume nada, e sendo*lbe lido 
este seu testemunho, por elle ouvido e entendido, disse que 
estava escripto na verdade e assignou oom os ditos Senhores. 
Domingos Eiteves o escrevi — Antomo Rilmro — Pêro do 
GttítOho, 

Testemunhas perguntadas, ad perpetuam rei memoriam paea 

D6FBSA DE MaNOCL DK MoRAIS» 

Aos vinte e quatro dias do mei de abril de mil seiscentos 
e quarenta e seis annos, em Lisboa, nos estÀus e casas do des* 
paeho da Santa Inquisição, estando os senhores Inquisidores em 
audiência da tarde, me mandaram que fosM ao Conselho e dis- 
seste ao Ulustrissimo Senhor Bispo Inquisidor Geral que o padre 
Manoel de Moraes requeria fossem logo perguntada» nesta ci- 
dade algumas pessoas que tinha nomeado residentes nella, que 
sabiam do procedimento delle Manoel de Moraes nas partes da 
HoUanda, porquanto poderia sueceder irem-se as ditas pessoas 
deita dita cidade, o portanto pediam ao dito Illustrissimo Senhor 
lioeoça para as ditas pessoas poderem ser perguntadas ad per»^ 
V^imm rei memoriam^ na forma do requerimento do dito Manoel 
^Moraes, e pelo dito Illustrissimo Senhor foi respondido 
Anem perguntadas as pessoas nomeadas pelo réo, na forma de 
lea requerimento, de que tudo fiz o presente termo de mandado 
doe ditos Senhores. João Carreira^ notário, o escrevi. 

Aos vinte e seis dias do mez de abril de mil e seiscentos e 
^oareota e seis annos, em Lisboa, nos estáus o casa do despacho 
da Santa Inquisição, estando ahi em audiência da tarde, o senhor 
Inquisidor Belchior Dias Pretto mandou vir perante si a Jero- 
oymo de Oliveira Cardoso, residente de presente nesta cidade, 
e sendo presente lhe foi dado juramento dos Santos Evan- 
gelhos, em que poz sua mão e sob cargo delle lhe foi mandado 



108 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

dizer verdade e guardar segredo, o que elle prometteu eumprir 
e disse ser de cinooenta annos de edade. 

Perguntado pelas geraes, disse nada. 

Perguntado si conheceu no Estado do 'Brazil algumas 
pessoas que depois se passassem a Hollanda e quaes foram, disse 
que algumas pessoas conhecera e as nomeou e entre ellas ao 
padre Manoel de Moraes, o qual no dito Estado do Brazil 
professara o habito da Companhia de Jesus. 

Perguntado si sabe elle testemunha a occasião que o dito 
Manoel de Moraes teve i>ara do Brazil passar a Hollanda e 
qual foi a com que elle testemunha o conheceu naquelles 
estados, e em que logar delles o viu e si foram muitas ou poucas 
yezês: 

Disse que não sabe com certeza qual fosse a causa que o dito 
Manoel de Moraes teve para ir a Hollanda, porque ao tempo 
que se ausenu>u do Brazil estava elle testemunha nepte Reino e 
só ouviu dizer a algumas pessoas, tornando ao dito Estado do 
Brazil, que o dito Manoel de Moraes se passara ao inimigo, 
posto que o mesmo Manoel de Moraes afiSrmou 'sempre a elle 
declarante em Hollanda, onde depois se viram muitas vezes e 
pousaram ambos em uma mesma casa, que o inimigo o capti- 
vara, e que o logar de Hollanda em que se viram foi a cidade 
de Amsterdam e já eram de antes conhecidos do tempo que 
estavam no Brazil. 

Perguntado qual era o procedimento do dito Manoel da 
Moraes nas ditas partes de Hollanda no tempo que nellas o viu, 
acerca do nossa santa fé e religião apostólica romana e que 
sabe elle testemunha deste particular, e si era o seu irato e 
communicaçfto mais ordinário com os catboiicos que assistem 
naf ditas partes: 

Disse que nos annos de seiscentos e quarenta c um e seis- 
centos o quarenta e dois, em que elle testemunha assistia na 
dita cidade de Amsterdam tratou ao dito Manoel de Moraes, a 
viveram ambos por algum tempo em uma mesma pousada de 
catholicos c sempre ello testemunha viu quo o dito Manoel de 
Moraes em toda*" suas acções procedia como firme catholico, 
frequentando as egrejas por muitas vezes e algumas em compa- 
nhia delle testemunha ouvia missa, e estando doente se coq« 



PROCESSO DE MANOEL DE MORAES t09 

fesflon e commungoa na mesma pousada, havendo primeiro 
dito a elle testemaoha que elle Manoel de Moraes se yinha 
Aqaella cidade de Leyde onde vivia para tratar de sua alma 
e 88 apartar de uma mulher com quem estava amigado» por- 
quanto se sentia doente e que trazia firme propósito de não 
tomar á. companhia da dita mulher, como não tornou, emquanto 
elle testemunha esteve em Amsterdam e alli continuou com o* 
dito Manoel de Moraes, um religioso capucho por espaço de 
três dias, e reparando elle testemunha como durava tanto a 
confissão do dito Manoel de Moraes, e pedindo á. hospede da 
pousada que entendesse do dito religioso qual era a causa da 
dita dilação, esta lhe respondeu que o dito padro Manoel de 
Moraes se confessava geralmente e que elle dito religioso 
estava muito satisfeito de vôr sua grande christandade. £ depois 
de confessado lhe ministrou a sagrada communhão como fica 
dito ultimamente, lhe deu um papel que elle testemunha depois 
viu com seus selios e signaes, posto que o não entendeu por ser 
em lingua flamenga, e depois disse a elle testemunha o padre 
frei Jacyntho Lendaoo da Ordem de Nossa Senhora da Graça, 
confessar delle declarante qua o dito capucho, como todos osí 
mais religiosos que assistiam no dito Estado do Hollanda, tinham 
poderes de Sua Santidade para passar os taes despachos e 
absolver em todos os casos, ainda que reservados, e que diziam 
que o papel que se deu ao dito Manoel de Moraes continha 
acuidade para poder usar de suas ordens, o outrosim viu elle 
testemunha por muitas vezes que o dito padre Manoel de Moraes 
defeadia com grande zelo a verdade infallivel da nossa santa 
fó contra os judeus, e em particular contra um que se dizia 
haver sido frade neste Reino, irmão do Solis que morreu 
queimado pelo caso do Santa Eogracia, e sendq muita a commu- 
nicação que elle testemunha teve na dita cidade de Amsterdam 
com o dito Manoel de Moraes nunca lhe ouviu, nem viu obrar 
coasa alguma contra nossa santa fó e religião apostólica romana, 
antes dizendo-lhe elle testemunha que no Brazil houvera fama 
(como realmente tinha havido) que elle Manoel de Moraes fizera 
livros de erros contra nossa santa fé, o dito Manoel de Moraes 
\he afflrmou que nunca tal houvera, porque sempre fora firme 
catholico e procurando elle testemunha entender, por via de 



110 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

oatras pessoas, o que nesta matéria dos livros passava ao oerto, 
na dita cidade de Hollanda, sempre lhe disseram que naqnelles 
Estados se não tinha noticia de taes livros, nem que o dito padre 
06 oompnzesse. E ai não disse, e do costume disse nada, e sendo-lhe 
lido este seu testemunho e por elle ouvido e entendido, disse 
que estava escripto na verdade, e declarou mais que de Julho 
próximo passado a esta parte tornou elle testemunha a ter 
communica^ do dito padre Manoel de Moraes na capitania de 
Pernambuco, na oocasião em que os moradores delia se levan- 
taram oontra o Hollandez, e viu que o dito padre Manoel d» 
Moraes se confessava e commungava muitas vezes e assistia de 
ordinário na campanha, animando aos soldados e exhortando os 
com uma imagem de Christo crucificado na mão, e tomou a 
declarar ao costume que antes de se tratarem em Hollanda não 
era olle declarante affeiçoado ao dito padre Manoel de Moraes, 
por algumas desavenças que haviam tido sobre Índios que o 
dito Manoel de Moraes não queria dar a elle declarante para 
trabalharem em suas fazendas. E ai não disse e sendo-lhe lida 
esta declaração, disse que estava escripta na verdade e aarignon 
com o dito Senhor. Eu Jofio Carreira^ notário, o escrevi. — 
Belchior Dias Pretto, — Jeranymo d*0líi9eira Cardoso, 

E logo o dito Senhor mandou vir perante si a Qregcrío 
Ckxrrêa, capitão da Galé Real, e sendo presente, lhe foi dado 
Juramento dos Santos Evangelhos, em que elle poz sua mio e sob 
cargo deste lhe íoi mandado dizer verdade o guardar segredo, 
o que elle prometteu, e do sua edade disse ser de trint» e sais 
annos. 

Perguntado pelas geraes: disse nada. Perguntado ti no 
tempo em que esteve em Hollanda teve compsunica^ com 
algumas pessoas naturaes do Reino ou do suas conquistas 
nomeou algumas pessoas c entre ellas ao padre Manoel de 
Moraes, com quem ha alguns mezcs falou neste Reino em uoia 
caravela em que tinha che^^ado do Estado de Peraambuoe e 
depois ouviu dizer que fora trazido para o cárcere desta Inqiil» 
si^. 

Perguntado em que tempo conheceu elle declarante em 
Amsterilam ao dito padre Manoel de Moraes e que rasão teve 
para o conhecor: 



PROCESSO DE MANOEL DE MORAES 111 

Diflse que em sete de junho de seiscentos e quarenta e três 
chegou a Amsterdam e poucos dias depois de ser alli conheceu 
ao dito padre Manoel de Moraes, lhe falou por algamas vezes 
em occasião de ir á pousada onde elle declaraúte estava a falar 
com Jeronymo de Oliveira que de Pernambuco havia ido á, dita 
cidade de Amsterdam com negócios de João Fernandes Vieira, 
de quem se dizia ser o dito Jeronymo de Oliveira criado. 

Perguntado qaal era o procedimento do dito Manoel de 
Moraes ao tempo que elle declarante o conheceu em Amsterdam 
nas matérias de nossa santa fé e religião a que o que elle teste- 
munha sabe desta matéria: 

Disse que por algumas vezes em que falou ao dito Manoel 
de Moraes no tempo que assistiu em Amsterdam lhe ouviu 
sempre diíer que era firme verdadeiro oatbolioo e que nunca 
ílsera cousa alguma em contrario das obrigações de tal, e isto 
mesmo dizia a elle declarante o dito Jeronymo de Oliveira por 
lh'o haver dito o mesmo padre, e que posto que elle declarante 
nio c(moorreu nunca com o dito padre Manoel de Moraes nas 
epejas nem se achou com elle declarante á missa, nem fazer 
outra acção de catholico, porque estas se não fazem sioão com 
t dissimulação, todavia lhe não viu nunca fazer cousa de que 
recebesse escândalo mais que o de ouvir dizer que elle dito 
tooel de Moraes, sendo padre da Companhia, se casara com 
primeira e segunda mulher nos ditos Estados do HoUanda, 
posto que quando elle declarante o conheceu estava já apartado 
o tinha alcançado um despacho para poder exercitar suas 
ordens, o qual lhe dera um certo prelado que assiste na dita 
cidade com autoridade apostólica, e que o trato mais ordinário 
do dito Manoel de Moraes era com Portuguezes catholicos quanto 
ao que elle declarante via, posto que lá se não sabe facilmente 
qoaes são os catholicos e quaes não. E que o embaixador Fran- 
cisco de Andrade disse por vezes a elle testemunha que o dito 
padre Manoel de Moraes lhe fizera muitas instancias que qui- 
seese escrever a este Reino a seu favor, porquanto era firme 
catholico e o fora sempre, e que elle embaixador lhe respondera 
que acudisse ao Santo Officio a pedir misericórdia, porque por 
esta via alcançaria o remédio necessário. E em razão de todo 
o sobredito se inclina elle declarante mais a ter por certo que o 



112 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

dito padre Moraes estava arrependido da culpa de se casar, pois 
se queria vir a este Reino e procurar a misericórdia desta 
mesa. B que desta matéria pudera testemunhar Francisco Ma- 
chado Pinto, genro do dito Francisco de Andrade Leitão — 
Ignacio do Rego, que assiste em Monsão, ou em outra praça 
de Bntre-Douro e Minho. E ai não disse e do costume disse 
nada e sendo-Ihe lido este seu testemunho e por ello ouvido, 
disse que estava escripto na verdade e assignou com o dito 
Senhor. Eu João Carreira, notário, o escrevi,— BeícWor Dias 
Pretto. — Gregório Corrêa, 

Aos vinte e sete dias do mez de novembro de mil seiscentos 
e quarenta e seis annos, em Lisboa, nos estáus e catas do 
despacho da Santa Inquisição, estando ahi em audiência da 
manhã o senhor Inquisidor Belchior Dias Pretto mandou vir 
perante si ao Capitão Jeronymo de Oliveira Cardoso, residente 
que foi no Brazil, e ora reside nesta cidade com negócios, e 
sendo presente lhe foi dado juramento dos Santos Evangelhos 
em que poz sua mão e sob cargo delle lhe foi mandado dizer 
verdade e guardar segredo, o que elle prometteu cumprir, e 
disse ser de cinooenta e um annos de edade. 

Perguntado pelss geraes, somente disso que conhecia ao 
padre Manoel de Moraes, que foi da Ck)mpanhia e veio do 
Brazil em uma caravela, que veiu a este Reino em março pas- 
sado, e o viu desembarcar e ouviu dizer que íòra recolhido aos 
cárceres desta Inquisição, e que o tratara em Pernambuco* e 
em Hollanda, e que suspeitava seria chamado em razão de 
alguma coisa que toque a seus negócios. 

Perguntado si sabe alguma cousa do procedimento do dito 
Manoel de Moraes, em matéria de nossa santa fé e religião, 
de que lhe pareça deva dar conta nesta Mesa: 

Disso que quanto ao tempo em que o dito padre residia no 
Brazil o viu elle testemunho sempre proceder como religioso, 
dizendo missa e pregando com satisfação de todos os fieis e pas* 
sando elle testemunha, haverá cinco annos, aos Estados de Hol* 
landa com occasião de negocio o rccolhendo-se em Amsterdam 
em casa do ura catholico romano, achou neila pousada ao dito 
Manoel de Moraes, o qual disse a ello testemunha que os Hollan- 
dozes o haviam captivado e levado àquella cidade, o então via 



PROCESSO DE MANOEL DB MORAES 113 

elle testemunha que o dito Manoel de Moraes procedia como 
catholico romano, porque ainda que trazia barba e vestido de 
secular, asava do mesmo traje que nos Estados de Hollanda todos 
08 religiosos usam. E om companhia deile testemunha fora 
algumas vezes á missa a oratórios particulares de pessoas ca- 
tholicas e na mesma casa em que ambos estavam pousados, 
estando o dito padro Manoel de Moraes doente, viu elle teste* 
manha que a pedido seu, veiu um religioso capucho a oon- 
fessal-o e depois lho deu uma patente, em a qual elle teste* 
manha assignou com outras testemunhas para constar que o dito 
religioso capucho com faculdades que tinha de Sua Santidade 
absolvera o dito Manoel de Moraes de qualquer caso reservado 
á santa fé apostólica a elfeito que vindo o. dito padre Manoel 
de Moraes outra vez ao Brazil pudesse exercitar suas ordens 
livremente e assim mais viu elle testemunha no dito tempo por 
muitas vezes disputar o dito padre Manuel de Moraes com alguns 
judeus sobre matérias de nossa santa fó e defender a verdade 
delia com grande constância de se querer descompor e espancar 
08 ditos judeus. E em razão do sobredito se persuadiu elle teste* 
manha que o dito padre Manoel de Moraes era verdadeiro ca- 
tholico romano, ainda que tinha ouvido dizer que elle se casara 
nas ditas partes com uma mulher professora da seita de Cal- 
vino. £ ai não disso. 

E sendo-lhe lidos os artigos da defesa do reo Manoel de 
Moraes que era nomeado por testemunha: 

Ao 16«, disie que o dito Manoel de Moraes referiu a elle 
iestemuha qoe solicitando o lavor do doutor Francisco de An- 
drade Leit&o para o conteúdo do mesmo artigo, este lhe dissera 
que não havia de falar naquella matéria e que ó verdade que elle 
t68temanha,como jà declarou, esteve om Amsterdam pousado em 
easa de Nicolau, alfaiate dos judeus, catholico romano, e sua 
mulher Anua, e no mesmo dito tempo estava na dita casa o dito 
Manoel de Moraes e assim mais João Gutterres de 01iver,e todos 
três iam a missa e por vozes viu elle testemunha que o dito 
padre Moraes defendeu com grande zelo a verdade de nossa santa 
fé contra os judeus e também ouviu dizer que contra os hereges. 

Ao i?*", disse que é verdade que estando o dito padre 
Manoel de Moraes doente na dita casa, mandou recado ao reli* 
7341 — 8 Tomo lxx. ». i. 



U4 REVISTA PO INSTITUTO HISTÓRICO 

gio8o capucho de qae a artigo trata, o este depois do contiDoar 
com elie dois diis o absolveu e lhe deu a dita patente em que 
elle testemunha assignou. E dizendo elle testemunha á dita 
Anna, senhora da pousada, quizosse entender de confessar o es- 
tado em que achava ao dito Manoel de Moraes acerca de suas 
culpas e si o dito padre Moraes era verdeiro catholico romano» 
a dita hospede lhe disse que o confessor aíHrmava que o dito 
padre Manoel de Moraes era catholico romano. E ai não 
disse. 

Ao 18o disse que também ó verdade que dito religioao 
capucho passou ao dito padre Manoel de Moraes a pa- 
tente de que trata o artigo no qual (como tem dito) asBignoa 
elle declarante e os ditos João Guterres Oliver e Gonçalo Ortiz 
Maciel, que ora é já delunto. E ai não disse deste, nem por 
mais foi perguntado. E do costume disse nada, e sendo-lhe 
lido este seu testemunho e por elle ouvido e entendido, disse 
que estava escripto na verdade e assigaou com o dito senhor. 
Eu João Carreira, notário o escrevi. Belchior Dias Pretto, 
Jerm^ymo de Oliveira Cardoso. 

Nos cárceres da Inquisição desta cidade de Lisboa, está 
de presente preso o licenciado Manoel de Moi*aes, religioso 
que foi da Companhia de Jesns, no Estado do Braâl, e resi- 
diu algam tempo nessas partes do norte da província de Goal- 
dria, na cidade de Hardrvick, onde casou, na forma e com 
as ceremonias que o fásem os hereges com uma mulher chft- 
nuida Margarida, a qual, sendo ÍUlecida, tornou-se a casar na 
mesma forma com outra chamada Adriana, as quaes ambas 
eram calvinistas, e dos cargos que se dâo se defende elle com 
as razões seguintes: 

l.« »Que foi captivo pelos Hollandozes uo Estado do Bfm- 
zil, junto ao Rio Grande e levado á Hollanda e que, lá o re- 
tiveram 08 da Companhia, no^^ando-lbe passagem á Hespanba, 
ooncedendo-a aos mais oaptivos, por entenderem que, si éU» 
Manoel de Moraes conse^^uisse liberdade, voltaria ao Brazil • 
lhes faria grande damno, convocando os gentios, na forma em 
que o lia via feito antes do sor capt'vo. 

2 " — Que para perder de todo a esperança de lhe ser conce- 
dida passagem, tora remettido <í provinoia do Gneldria oom pf^ 



PROCESSO DB MANOEL DE MORAES ilS 

texto que nella se aeharia com melhor saúde que em Amster- 
dam, oode havia estado gravemente doente. 

S.^^—Qaetendo os superiores da Ck)mpanbia do Brasil noticia 
que na dita Proviacia se casara com uma mulher calvinista, 
mandaram offerecer a elle Manoel de Moraes oommodidades, e 
em particular um governo no Brazil, a qual offerta não qui2»ra 
acceitar por lhe ser posto em condição que para o dito efléito 
havia de deixar a crença de nossa fó catholica e seguir a seita 
de Calvino, querendo antes passar com a limitação de outras 
eonmiodidades que lhe eram pcrmittidas retendo nossa santa fé. 
4.''— *Que desejando apartar-se do mãu estado em que vivia, 
90 veia .da dita cidade de Hardrvick para a de Amstordam, di- 
zendo a dita Adriana, segunda mulher, que o fazia para alii se 
corar com remédios hespanhóes, com os quaea se eutendia me^ 
melhor que com os flamengos, 

5. ''—Que na dita cidade de Amsterdam se recolhera sempre 
em casa de catholicos se coafessara com, um religioso com- 
missario da Sua Santidade, o qual tinha poderes para o 
absolver de todos os casos e que absolvera a elle Manoel de 
Moraes e lhe dera certidão da absolvição. 

6.o--Qae sempre tivera os ditos casamentos por amaneeba- 
mentos e não por matrimonio, assim por elle Manoel de Moraes 
ser sacerdote, como por as mais razões, que conformo o direito 
e sagrado Concilio Tridentino os invalidam. 

7.°— Que posto que em se casar na fónna sobredita faltara 
i obrigação de christão e sacerdote, comtudo nunca ã de catho- 
Uco, porque nem interior, nem exteriormente se apartara de 
nossa santa fé catholica, antes a defendera, oppondo-se não 
somente aos judeus, que nessas partes seguem a lei de Moysés, 
mas ainda aos mesmos hereges naturaes da terra, sem temer os 
nscos a que por esta causa se expunha. 

8.0— Que da dita culpa do se casar, sendo sacerdote, pedira 
perdão e misericórdia a esU mesa, por carta que enviara a ella 
por via do Embaixador Tristão de Mendonça, que Deus tem, e 
dizendo que se qaerio por ella vir apresentar nesta dita Mesa. 
E porque em remate de tudo diz quo Vossa Mercê sabe a 
verdade de todo o referido e não ha commodidade para o 
sabermos de Vossa Mercê, por modo judicial, conui convinha, 



116 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

tomamos este ezt>e(iiente do se escrever a Vossa Mercê e pedir, 
como fazemos, que Vossa Morcê seja servido dizer-nos á margem 
desta carta o que Vossa Mercê sabe de cada uma das ditas 
cousas, e a reputação e conta com quo Vossa Mercê teve ao 
dito Manoel de Moraes, e era tido geralmente dos catholicos, se 
assistia ás prédicas dos hereges ou litanias ou fez algum acto 
exterior protostativo da seita do Galvino, ou de outra alguma 
das que seguem os naturaes dessas partes, e que acto ou actos 
oram, se compoz ou pretendeu compor algum livro ou livros 
contra nossa santa té ; causa e modo que teve para tornar ao 
Brazil e das mais círcumstancias que a Vossa Mercê parecer que 
servirão para o intento de se podor averiguar a verdade da causa 
do dito Manoel de Moraes, o o que se oíTerecer do serviço de 
Vossa Mercê fazemos sempre com grande gosto. Deus Guarde 
Mercê, Lisboa, em Mesa, em 14 de Maio de 1646, E será Vossa 
a Vossa Mercê, sorvido de jurar aos Santos Evangelhos o que 
nos responder e firmar tudo,— Luiz Alvares da Rocha.— Belchior 
Dias Preito. 

Recebi esta carta dos senhores Inquisidores om 26 de julho 
de 1646. 

1,«— Ouvi que fora tomado na guerra do Brazil e trazido á 
HoUanda, onde me viu, algumas vozes, e referiu o conteúdo no 
artigo. 

ií.*--D08te não sei cousa alguma. 

S.** — Ouvi ao réo que estava casado com uma mulher calvi- 
nista, das mais formosas que havia no paiz. K que os directores 
da Ck>mpanhia do Brazil lho davam para alimentos certas 
patacas cada mez. 

4. <*— Algumas vozes me disso que estava amancebado e não 
casado, reconhecendo seu máu estado e que desejava apartar-se 
delle. 

5o o 6®— Dostoá não sei cousa alguma. 
7. o— Assim o ouvi au réomiiitíis vozes, como refere o artigo* 
E creio u (|ue diz no tocante aos judeus, e não a respeito dos 
c:ilvinistas, poniue mo não persuado qu(í dizia mal de lies em 
sua prescinva, dependendo d^^ sou favor e sustentando-se do que 
lhe davam. 

8. ''—Ouvi ao réo o que contom o artigo e o tenho por certo. 



PROCESSO DE MANOEL DE MORAES * 117 

porque também me falou na matéria algumas ve^es, podiado- 
me quizesse escrever a Vossa Senhoria sobre ella, dizendo que 
nSo ia aprescntar-se, como lhe aconselhava, porque lhe diziam 
estava queimada sua estatua c temia a morto, de que desejava 
alcançar perdão, ou ter alguma so^^urança antes que chegasse 
a este Reino, onde também receava que sua Magestade, que 
Deus guarde, o mandasse castigar. £ querendo prevenir destas 
partes remédio a seu temor me ' deu alguns papeis para que 
com elles pudesse escrever a Vossa Senhoria e informar a Sua 
Magestade em seu favor, pedindo-lhe dósse alguma tença para 
alimentos da mulher e filhos, com pretexto que o iria servir na 
guerra do Brazil, onde poderia ser de grande utilidade para esse 
Reino e mui prejudicial aos inimigos, apontando sobre isso 
algumas razões, de que fiz menos por me parecer que não con- 
vinha reprcsental-as de tão longe a esse santo tribunal e aos de 
Sua Magestade, autes se me estranharia nelles pedir perdão, 
tença e favor para quem se não ia apresentar, conhecendo seus 
erros mui humildemente ; sugeitando-se e dispondo-se pessoal- 
mente para receber misericórdia, segundo a penitencia e arro- 
I>endimento que mofitrasse no castigo tal qual parecesse que 
merecia. Assim lh'o disse e que tivesse por muito certo seria 
menos rigoroso do que se houvesse julgado á sua revelia. E se 
lhe faria favor, porque esse santo tribunal inclinava sempre 
mais para a misericórdia que para a justiça e não admittia mais 
valia que a do coração contricto e humilhado. E julgaria por 
temeridade e desautoridade grande, se eu rae atrevosso a es- 
crever ou dizer outra cousa. Com isto rae escusei das instan- 
cias que fazia guardando, comtudo, os papeis para os entregar 
quando Deus me levasse a esso Reino. 

Porém dizendo-mo algumas possoas que o tCo se embar- 
cara para no Brazil servir a dita Companhia, em cousas do que 
os directores o encarregaram, dando- lho por isso ordenados o 
obrigando-se a sustentar sua mulher em Amsterdam, rompi 
os papeis, antes de partir para os to congresso, parecendo-me 
que já não eram necessários. E não me lembro formalmente 
de tudo o que continham. 

Respondendo finalmente ao quo Vossa Senhoria manda 
acerca de meu sentimento, di^o quo o réo me não parecia 



y 



118 RBVI8TA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

6m muut praticas herege fonnal, porqne ezecraya os erros» 
doB qne o ^lo e mostrava conhecer os que havia eommettido 
mn se casar doas vezes na forma em qne o íèz. E que se nHo 
deiíava a mulher era por luxaria, affeiçEo natural e neces- 
sidade ; temendo qne si o fizesse perderia os alimentos qne os 
directores lhe davam e outras commodidades necessárias para 
a Tida humana. E por esse respeito e vôr se podia grangear 
alguma coasa para adita mulher e filhos devia tomar para o 
Braztl. 

Si depois que lá estava passou por sua vontade para 
os catholicos o se foi apresentar nesse tribunal santo, pe- 
dindo misericórdia, crerei e direi que é digno delia, que foi 
buscar o que convinha para a outra vida, não para esta. 

Tudo o que fica dito por estas margens passou na verdade, 
segundo minha lembrança, assim o juro aos Santos Evangelhos 
e que não tenho outra nem mais que dizer sobre o que se per- 
gunta, servirei e obedecerei a Vossa Senhoria em tudo o mais 
que me encommendar ou mandar, com muito bôa vontade. 
Quarde Deus a Vossa Senhoria como a pureza da Santk Pé Catho- 
liça ha mister. De Munster, Westphaiia lmperial,em 6 de agosto 
de 1646. 

Ao costumo digo nada. — Francisco de Andrade Leitão * 

Por informação que temos de pessoas do Vossa Mercê nos 
pareceu commetter a Vossa Merco o negocio que se contem na 
commissão que será com osta carta, o qual 6 do grande consi- 
deração, e pede brove expedição, por tocar â pessoa presa. Esti- 
maremos que Vossa Mercê por serviço de Deus queira appliear-se 
a elle, e tendo o feito procurar se copia em forma autlientica, 
para que nos venha por primeira o segunda via e have* 
remos por authentica, sendo trasladada peio &%rivão que 
o fizer e concertada por elle e por Vossa Mercê. B sen- 
do algumas das pessoas nomeadas defuntas ou ausentes em 
partes tão remotas que se não possa faier diligencia oom 
ellas nos virá certidão disso e não se detei*ão os papeis por 
ellas, como também se não dotarão os testemunhos das doi 
governadores das armas hollandezas, quo somente vão no- 
meados para o caso quo sejam achados em parte segara 
e elles queiram tostomunliar voluntariamente, e era outra 



PROCESSO DÉ MANOEL DE MORAES IfÕ 

fórmanio. Para o mais vai instrnc^ na mesma commiMSo, 
com a qual Vossa Mercê procnraya de se ajastai^ e pofqné 
esta nSo é para mais. Gaarde Deus a Vossa Mercê. LisbOa, 
em Míesá. 

Também oncommendamos a Vossa Mercê que procure, púê 
reside nessas partes, de nos avisar do que souber que toque 
áo Santo Officio, para procurarmos de acudir e i^mediar o qué 
f5r pos^Vel.— Luiz Alvares da Rocha.—Pero âe CaélilhoSt^ 
chior Dias Preito. — Vem outra via. 

Aos vfttte e troR dias do mt^t de mafò do díúúò dó ná^ifliento 
de Nosso Senlior Jesus Christo de mil seiâiietitos é quarenta e 
sete aúnos, na ft*eguozia da Várzea, capitania de Pernambiie^*^ 
nas casas de morada do licenciado Francisco dá Ooirta Fatcid; 
vigário da dita fre^ezia. 

O licenciado Matheus de Souza Uchôa, vigário de Santo Asi^ 
tonio do Gabo, por commissão dos Illustrissimos e Reverendiiâ» 
mos Senhores Inquisidores fez eleição de escrivão em certas 
causas que lhe commetteram no padre Manoel Rodrigiied, sacer- 
dote do habito de S.Pedro, christSo velho, a que deu juFttmdlItb 
dos Santos Evangelhos de segredo e fidelidade qtkè promettàtt 
guardar. O qual juramento eile dito licenòiado Matheus de Sotltil 
Ucbôa tomou também pelo qual se obrigòli a gtiardar o taiílé 
segredo que em semelhantes causas sé requer, de qtté ám{k)s fi- 
zemos este termo e assignamos. Dia e orá i</ supra. Ef eu o fHi* 
dre Èfanoel Roiz, escrivão o escrevi. O licenciado Mhíhéiiã ãé 
Stmza Uàhôa. O padre Manoel Rodrigues, 

Testeniunha. D. António Polippe Camai^ò, caí>itao-môi 
e governador de todos os Índios do Brazil e cavallélro do halbfld 
de Christo, de edade que disse ser de quarenta e seis ánnos, tes- 
temunha jurada aos Saritos Evangelhos em que poz sua ihSò di- 
reita, sob cai'go do quai prometteu dizer verdádfe e guaf daif se^- 
gfiedo. 

B perguntado elle testemunha si sabia ou suspeitava o 
pára que era chamado, disác qíie não, e si fora persuadido 
por alguém qiíe sendo perguntado era liogocios tocantiss ab 
Santo OflSfcio dissesse mais ou menos daqulllo que sonbessfe, disse 
que nâo. 

E |3erguntado ai conhecia ao padre Manoel de Moffiíeíi re- 



120 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

ligioso da GompaDhia em Pernambuco, disse que o oonbeda 
havia dezoito annos pouco mais ou menos, e a razão que teve 
para o conhecer foi raandal-o o superior ao dito padre ensi- 
nar doutrina a aldêa do Meretibi onde olle testemunha re- 
sidia. 

E perguntado si sabia que o dito padre prevaricasse contra 
a nossa religião catiiolioa, disse que ouvira dizer a um indio 
que veiu de Hollanda que o dito padre se casara em Ams- 
tardam. 

E perguntado elle testemunha pelo conteúdo no segundo 
artigo da contrariedade do réo om que vem referido que todo 
lhe foi lido e declarado, disse que o réo se não apartara da 
nofsa religião romana, mas antes fez guerra ao inimigo hol- 
landez com licença de seu superior, com os Índios da aldêa 
de São Miguel e que elle testemunlia fôra seu companheiro na 
mesma guerra dous annos. 

E perguntado elle testemunha pelo conteildo no quarto 
artigo em que vem referido que todo lhe foi lido e declarado, 
disse que ouvira dizer aos outros Índios que recolhendo -se o 
réo de Itamaracá fora mandado por seu superior a íáaar 
guerra a Parahyba e Rio Grande, o fôra nesse conâicto preso 
pelo inimigo hoUandez. 

E perguntado elle testemunha pelo conteúdo no artigo 
artigo vigésimo quinto em quo vem referido que todo lhe foi 
Udo e declarado, disse que elle vira ao róo em occasião do 
peleja muitas vezes exhortar e animar aos Portuguezes a que 
pecassem pela fé de Christo com um crucidxo na mão, de que 
resultou animo aos soldados. 

E perguntado elle testemunha pelo conteúdo no artigo tri- 
gésimo sétimo que todo lhe foi lido e declarado,disse que ouvirm 
dizer havia um herege chamado Jeronymo de Paiva que havia 
sido religioso, o qual andava entre os hollandezes Aigido de iua 
religião, e assim neste como nos mais artigos ai não disse e do 
costume nada, e assignou com o dito commissario e commigo 
escrivão que o escrevi.— D. António Philippe Camarão. Uchôa. 

Testemunha Manuel Antunes Taborda, morador na villa de 
Olinda, de edade de quarenta e dois annos, testemunha jurada 
aos Santos Evangelhos quo lhe foram dados, sob cargo do qual 



PROCESSO DE MANOEL DE MORAES 121 

promotteu dizer verdade e guardar segredo do qae lhe fosae 
pergQDtado. 

E pergantado ello testemunha si sabia ou suspeitava o para 
qno era chamado, disse quo nâo ; c porgnntado si fora persua* 
didopor alguém a que, sendo perguntado em negócios tocantes 
«o Santo OtBclo, dissesse mais ou menos daquillo que soubesse, 
disse que nio. 

E perguntado si sabia elle testemunha do conteúdo no artigo 
decimo nono em que vem referido que todo lhe foi lido e deola- 
clarado, disse que tudo era verdade, e ai não disse neste artigo. 

£ perguntado elle testemunha no artigo vigésimo primeiro 
em que vem referido que todo lhe foi lido e declarado, disse que 
elle réu se fôra do Recife para a matta do Brazil, onde fazia ro- 
ças e pdu-brazil com cara mudada, e algumas vezes que vinha 
ao Recife pousava em casa delle testemunha e si havia occasião 
de missa, elle a ouvia. E ai não disse, e se assignou com o dito 
commissario e commigo escrivão que o escrevi. Manoel Antunes 
Taborda. Uckôa. 

Testemunha João Gutterres deOliver, morador na villa de 
Olinda, de edade de ciiicoenta e dois annos pouco mais ou menos* 
testemunha jurada aos Santos Evangelhos quo lhe foram dados, 
e prometteu dizer a verdade e guardar segredo do que lhe fosse 
perguntado. 

B perguntado elle testemunha si conhecia ao padre Manoel 
de Mora^ e de quanto tempo a esta parte, disse o conhecia ha- 
via 13 annos pouco mais ou menos, e a razão quo teve para o 
conhecer foi pelo réo ir oom o gentio á ilha de Itamaracá a íázer 
guerra ao HoUandez. 

E perguntado si sabia que o padre Manoel de Moraes hou- 
vesse delinquido em alguma cousa contra nossa santa fó, disse 
que nunca entendeu nelle sinão ser verdadeiro catholico e sa- 
be que muitas vezes ia ouvir missa com elle testemunha na 
cidade de Amsterdam, em Hollanda, o outras vezes o encontrou 
elle testemunha nas casas particulares onde se diz missa, ouvin- 
do-a. 

E perguntado elle testemunha no decimo sexto artigo em 
que vem referido que todo lho foi lido e declarado, disse que 
»jmeote sabia que elle réu pousava em Amsterdam, em casa de 



i 



122 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

Nicolau, alfaiate dos jadeiis, mas catholico romano, elle e soa 
mulher, onde também pousava .Teronymo de Oliveira Cardoso 
oom o qual elle testemunha ia ouvir missa a varias capellas e 
ai n&o disse neste artigo. 

E perguntado elle testemunha no decimo sétimo artigo em 

que vem referido que todo Ibe foi lido e declarado, disse que 88 

i*eportava ao que acima tinha dito. E ai não disse neste artigo» 

B se assignou com o dito commissario e oommigo eeerlvâo que 

eserevi . — João Outerrês de Olii)er. Uchôa. 

Teftemunha Manoel Fornandee Cruz, morador nesta caplta- 
Bia de Pemambnce, de edade de 60 annos pouco mais ou menos, 
tflstemoâha jurada aos Santos Evangelhos que lhe foram dados 
6 prometteu dizer verdade e guardar segredo no que lhe foese 
perguntado. 

B perfuntado elle testemunha si sabia ou suspeitava o para 
que era chamado, disse que suspeitava que era sobre cousas de 
padre Manoel de Moraes por lhe dizorom que estava preso «■ 
Lisboa, e per^^untado si íòra persuadido por alguém a que dis- 
sesse mais ou menos do que soubesse, disse que não. 

E perguntado o que sabia elle testemunha pelo ooateMo 
no artigo vigésimo oitave que todo lhe fci lido o declarado, dis- 
seque o réu no conflicto daquella guerra, com Ohristo na mão ex- 
hortíira com muitas palavr;is do devoção aos soldados, intiman^ 
do-lheá qve só aquelle ora o verdadeiro capitão e lhes lUMia de 
dar vistoria e ajudar contra seus inimigos, e isto fòzia em todos 
osconflictos da guerra, o que causava muito animo aos soldados 
a pelejarem valorosamente invooando por muitas vetes o Saa-' 
tissimo Sacramento c a Virgem Senhora Nossa, obrigando a que 
rezassem Salvo Rainha ; e disse mais que vira um instranaento 
de testemunhas conhecidas feito pelo tabellião publieo VbtauoiA 
JoSo om que se mostrava que estando o réo em Hollanda oarfa 
miSiia e se confessava com um núncio assistente em HoUaiida. R 
ai não disse e assignou com o dito oommissario e commig(> et* 
crivãoque o escrevi. ^Manoel Fernandes da Cruz. Uehâa. 

TcstomuDha Santos Mondes, morador na raatta do Brasil, dé 
edade de 6 » :innos pouco mais ou raeno>. testemunha jarada aos 
Santos Evangelhos que lhe foi-am dados e prometteu dizer vBr* 
dade e guardar segrede om tudo que lhe ftMSO perguntada» 



PROCESSO DE MANOEL DE MORAES 123 

8 perguntado elle testdmnnha si gabia ou suspeitava o para 
que fora chamado, disse que não ;e perguntados! fora persua- 
dido por alguém a que dissesse mais ou menos do que sou* 
besse, disse que não. 

E perguntado elle testemunha pelo conteúdo no vigésimo 
segando, artigo em que vem referido que todo lhe foi lido o 
declarado, disse que havendo missa na matta do Brazil, dis- 
tancia de duas léguas donde o réu morava, elle a ia ouvir 
muitas vezes e rezava por umas horas omquanto estava a 
missa e sempre trazia um rozario ao pescoço e ai não disse 
neste artigo, e se assignou com o dito commissario e com- 
migo escrivão que o escrevi. — Santos Mendes, Uchôa, 

Testemunha Pedro Cavalcanti Cavalleiro, fidalgo da Casa 
de Sua Magestade, capitão de Infantaria e governador da gente 
de guerra, de edade de 43 annos pouco mais ou monos, teste^ 
munha jurada aos Santos Evangelhos, e prometteu dizer ver- 
dade e guardar segredo no que lhe fosse perguntado. 

E perguntado si conhecia ao padre Manoel de Moraes, disse 
que o conhecia de 17 ou 18 annos a esta parte, não de commu* 
nicação, sinão de vista, e pelo róo andar na guerra primeira 
de Pernambuco, onde elle testemunha assistiu. 

E perguntado si sabia que o réo prevaricasse contra nossa 
santa religião romana, disse que vira ao réo em HoUanda para 
onde foi elle testemunha expulso dos Hollandezes, estar com 
uma mulher de portas a dentro, que diziam naquella cidade 
de Amsterdam ser sua mulher, e que indo elle testemunha 
em um domingo de quaresma, encontrou o réo que llio per- 
guntou para onde ia e elle testemunha lhe disse que ia ouvir 
missa, indo ambos de conformidade, o réu se apartou delle tes- 
temunha antes que chegasse ao logar onde se dizia a missa e 
que o não viu mais. E ai não disse nos interrogatórios. E se assi- 
gnou cora dito commissario e commigo escrivão que o escrevi • 
Pedro Ca'9alcanti Cavalleiro, Uchôa. 

Testemunha o padre Manoel Leal, sacerdote do habito de 
S . Pedro, e morador na Matta, do edade que disse ser de 55 
annos pouco mais ou menos, testemunha jurada aos Santos 
Evangelhos que lhe foi*am dados, e prometteu dizer verdade e 
guardar segredo no que lhe fosse perguntado. 



124 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

E perguntado si conhecia ao padre Manoel de Moraes, disso 
que o conhecera antes de ir para HoUanda, sendo padre da 
Ck)mpanhia, e depois da Companhia toda possuída polo inimigo, 
o conheceu tornando o dito réo de Hollanda em trajes de fla- 
mengo, por ir ouvir missa algumas vezes a Capella de Nossa Se- 
nhora da Esperança, onde eile testemunha assistia por capellão, 
a qual distava do sitio onde o réo morava, uma légua. 

E perguntado elle testemunha pelo conteúdo no capitulo 23 
em que vem referido que todo lhe foi lido e declarado, disse que 
estando elle testemunha na capella de Nossa Senhora da Espe- 
rança lhe levava o réu alguns escravos seus já instruídos na dou- 
trina christã e elle testemunha os baptisou. E ai nâo disse e 
do costumo nada, e se assignou com o dito commissario e com- 
migo escrivão que o escrevi. O Padre Manoel Leal. Uchoa, 

Testemunha Fernão Mendes da Cruz, de trinta e dous annos 
deedade pouco mais ou menos, testemunha jurada aos Santos 
Evangelhos que lhe foram dados, e prometteu dizer verdade e 
guardar segredo no que lhe fosse perguntado. 

E perguntado pelo conteúdo no artigo 28 em que vem 
referido que todo lhe foi lido e declarado, disse que o réo por 
muitas veees no conflicto da guerra, descalço, com um cruci- 
fixo nas mãos, exhortava e animava aos soldados a que pele- 
jassem pela fé de Christo, e que só elle era o verdadeiro ca- 
pitão e lhe havia de dar victoria contra seus inimigos, e com 
zelo christ^o lhes encommendava que rezassem a Salve Rainha. 
E ai não disse o se assignou com o dito commissario e commigo 
escrivão que o escrevi. Fernão Mendes Cruz. Uchoa, 

Testemunha Miguel Fernandes,morador na matta do Brazil, 
deedade do 50 annos, pouco mais ou menos, testemunha jurada 
aos Santos Evangelhos que lhe foram dados, o prometteu dizer 
verdade o guardar segredo no que llie fosse perguntado. 

E perguntado si conhecia ao padre Manoel de Moraes, 
disse que o conhece do principio desta guerra que se levantou 
em Pernambuco quo havor.l perto do dois annos. 

E perguntado elle testemunha polo conteúdo no artigo 28 
em que vem referido quo todo llie fui lido e declarado, disse 
que ouvira dizer que o réo, com um Christo na mão, exliortava 
aos soldados a pelejar, e com zelo christão lhes intimava pele- 



PROCESSO DE MANOEL DE MORAES 125 

sem pela fé de Christo que elle havia de dar victoria contra 
seus inimigoB. E ai não disse o ao costume nada e assignou com 
o dito commissario e commigo escrivão que o escrevi. Miguel 
Fernandes, Uchôa. 

Testemunha João Loureuço, francez/ morador nos limites 
de Iguarassú, do 60 annos pouco mais ou menos, testemunha ju- 
rada aos Santos Evangelhos quo lhe íbram dados e promottcu 
dizer verdade o «guardar segredo no que lhe fosso perguntado. 

E perguntado si conhecia ao padre Moraes, disse que o co- 
nhecia de 22 annos a esta parte, pouco mais ou menos, e que a 
razão que teve para o conhecer foi assistir o dito padre na al- 
deia de S.Miguel, distante donde elle testemunha morava, duas 
léguas. 

E perguntado pelo conteúdo no art. 21 em que vem refe- 
rido que todo lhe foi lido e declarado, disse que ó verdade que 
o réo fora com negros piira o sitio chamado Aratangy a feizer 
páu-brazil e roçarias, mas não sabe a causa que o obrigou a ir 
para lá, e ai não disse neste artigo. 

E perguntado olle testemunha pelo conteúdo no art. 24 em 
que vem referido que todo lho foi lido e declarado, disse que no 
principio desta guerra que se levantou encontrara elle teste- 
munha ao dito padre qu3 o levavam preso quatro ou cinco sol- 
dados para onde estava Jotão Fernandes Vieira, governador da 
guerra, o que fizeram os soldados de seu motu-proprio para 
o roubarem como fizeram, polo réo pedir a elle testemunha, a 
quem primeiro foi levado pelos ditos soldados, por elle testemu- 
nha ser um dos cabeças da guerra, que lhe houvesse dos solda- 
dos quo o levavam um bulleto do núncio de Hollanda, dentro de 
um livro que também lhe tomaram, e elle réo pediu a elle tes- 
temunha que o trouxesse em sua companhia, para onde estava 
o t^rpo da gente ; a que teria occasião de fugir para o Re- 
cife, si quizesse. E ai não disse e do costume nada e se assignou 
com o dito commissario e commigo escrivão quo o escrevi, 
João Lourenço. Uchôa, 

Testemunhii João F< mandes Vieira, mcístre de campo e go- 
vernador desta guerra que se levantou em Pernambuco, de 
edade que disse ser de 37 annos pouco mais ou menos, testemu- 
nha jurada aos Santos Evangelhos que lhe foram dados, sob cargo 



426 RBVISTA DO INSTITUTO HISTORlC» 

do qual promottea dizer verdade e guardar segredo naqulUo 
que lhe fosse perguntado. 

E pergoiitadoelle testemunha si sabia ou suspeitava o para 
que era chamado, disse que nâo ; e si fora induzido por algaem 
que, sendo perguntado em negócios tocantes ao Santo Officio, 
dissesse mais ou meoos do que soubesse» disse que não. 

E perguntado elle testemunha si conhecia ao padre Monoel 
de Moraes, disse que o conhecia da primeira guerra de Per- 
nambuco, e a razão desse conhecimento era vêl-o andar no Ar- 
raial governando os índios. 

E perguntado si sabia que o dito Padre prevaricasse em 
algum ponto contra nossa religião romana, disse que ouvira 
dizer que o dito padre se casara em Hollanda. 

E perguntado ello testemunha pelo oonteúdo no artigo S4 
em que vem referido que todo lhe foi lido e declarado, disae 
que mandando elle testemunha um alferes a faier gente, entre 
a gente que lhe trouxe viera o padre preso, o qual botando- 
se a seus pés, lhe disse elle testemunha se levantasse que elle 
não era seu juiz para o castigar, mas que lhe advertia não se 
sahisse fora da tropa porque o havia de mandar matar. E ai 
não disse neste artigo. 

E perguntado elle testemunha pelo conteúdo no artigo 25 
em que vem referido que todo lhe foi lido e declarado, disse que 
é verdade que o dito padre, na occasiâo da guerra, com um 
Christo na mão exhortava aos soldados, do que resultava animo 
nclles. E ai não disse neste artigo. 

E perguntado elle testemunha pelo conteúdo no art. :í7 
em que vem referido que todo lhe foi lido e declarado, disse 
que o dito padre provocara aos soldados a que dissessem a Salve 
RAioha no que mostrava zelo christão o causava animo nos sol- 
dados. E ai disse e do costume n;ida e se assignou com o dito 
commissario o commigocscrivâo que o escrevi. João Fernandes 
Vieira. Uchôa, 

Testemunha Pedro Curvello, morador ua Matta, de edade 
que disse ser de GO annos pouco mais ou menos, testemunlia ju- 
rada aos Santos Evangelhos quo lhe foram dados, sob cargo do 
qual promotteu dizer a verdade e guardar scgn^lo no que lhe 
fosse perguntado. 



PROCESSO DB MANOBL DB MQRABS 127 

E perguntado si oonhecia ao padre Manoel de Moraes, res^ 
pendeu o conhecer e por tempo de três mezes por ser teu vi- 
zinho. 

E perguntado si sabia que o dito padre prevaricasse em 
algum ponto contra nossa roiigião romana, disse que não, £ ai 
não disse nos interrogatórios. 

E perguntado elle testemunha pelo conteúdo no art. 28 em 
que vem referido que todo lhe foi lido e declarado, disse que 
em casa de Manoel Fernandes da Cruz se âzera mata lote para 
o padre, e que ouvira dizer que fora o dito padi'e preso e em- 
l»aroddo para Lisboa e que do mesmo róu ouvira dizer estivera 
em Holiauda com uma flamenga, de portas a dentro, e ai não 
disse e do costume nada e se assignou com o dito commis- 
iario e commigo escrivão que o escrevi. Pedro Curvello. Uçhoa. 
Testemunha António Curvello, morador na Matta, de edade 
que disse ser de 55 annos, testemunha jurada aos Santos Evan- 
gelhos que lhe foram dados, sob cargo do qual prometteu dizer 
▼erdade e guardar segredo no que lhe fosse perguntado. 

£ perguntado elle testemunha si sabia ou suspeitava o para 
que era chamado, disse que não ; e perguntado si fora persua* 
dido de alguém que, sendo perguntado em negócios tocantes ao 
Santo Cálcio, dissesse mais ou menos do que soubesse, disse 
que não. 

E perguntado si conhecia ao padre Manoel de Moraes, 
áisse que aó de nomeada por ser seu vizinho dois mezes pouco 
mais ou menos. 

E perguntado si sabia que o dito padre Moraes prevaricasse 
em algnm ponto contra nossa religião romana, disso que não ; 
mas que lhe ouvira dizer a elle réo que a maior culpa que tinha 
era haver estado em Hoilanda sete annos de portas a dentro 
com uma mulher. 

S perguntado elle testemunha pelo conteúdo no art. 28 em 
qae vem i*eferido que todo lhe foi lido e declarado, disse que 
ottTira dizer ao réo que esperava que puzesse Deus era tranquil- 
lidade a Pernambuco para elle ir ao Reino e vir pôr-se com seus 
ericravos a grangear a vida fazendo uma capolla em que dissesse 
miása, e neste oonflicto f )i preào e levaíio à força, de Na/.areth 
onde o embarcaram ; isto sabe po»* que era seu vizinho, e ai 



128 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

não disse, e do costume nada, e se assignou com o dito com- 
missario, e commigo escrivão que o escrevi. António Curvello. 
Dchôa. 

Testemunha o capitão Diogo Paes do Sá, morador em Igua- 
rassú, de edade que disse sor de 58 anoos pouco mais ou meno:», 
testemunha jurada aos Saatus Evangelhos que lhe fomm dados, 
aob cargo do qual promottou dizer verdade e guardar segredo 
no que lhe fosse perguntado. 

E perguntado elle testemunha si sabia ou suspeitava o para 
que era chamado, disse que não. E perguntado si o induziu alguém 
a que dissesse mais ou menos do que soubesse sendo perguntado 
em negócios tocantes ao Santo Oílicio, disse que não. 

Perguntado si conhecia ao padre Manoel do Moraes, disse 
que o conhecera antes da primeira guerra de Pernambuco a 
quatro annos, estando elle dito padre por superior na aldêa de 
S. Miguel, e depois o conheceu na dita guerra sendo cabo de 
capitães. 

E perguntado si sabia que o dito padre prevaricasse contra 
nossa religião romana, disso que vindo o dito padre de Hol- 
landa em trajes de flamengo, a fazer páu-brazil na matta do 
Possir, vivia no Aratangy,ondo com seus escravos fazia roçarias, 
estando elle dito padre doente o mui perigoso, elle testemunha 
o aconselhou tratasse de sua consciência, e si queria que lhe 
fosse chamar um confessor, de que elle dito padre fez pouco caso. 

B perguntado pelo conteúdo no artigo segundo em que vem 
referido que todo lhe foi lido o declarado, disse que o dito padre 
fora eleito cabo de Capitães e fazia guerra ao HoUandez, mas 
não sabe si com licença de seu superior, si com zelo da Pátria ; 
e que em todo aquelle tempo antes que se rompesse a campanha 
não viu que elle so aflistai^se de nossa religião romana ; só lhe 
disse elle réo que estivera amancebado em HoUanda. Pergun- 
tando-lhe elle testemunha si se havia casado,como o que diiiam 
no Brazil, e ai não disse e do costume nada e se assignou com o 
dito commissario e commigo escrivão que o escrevi. O capitão 
Diogo Paes de Sd, Uchóa, 

Testemunha o padre .fuão do Araiijo, sacerdote do habito de 
S. Pedro, de edade que disse ser de quarenta e seis annos pouco 
mais ou menos, testemunha jurada aos Santos Evangelhos que llie 



PROCESSO DB MANOEL DE MORAES 129 

foram dados, sob cargo do qual protnctteu dizer verdado o 
guardar segredo no que lhe fosse parguntado. 

E perguntado olle tostomuaha si sabia ou suspeitava o para 
quo era chamado, disse que oão'; o perguntado si fora induzido 
por alguém a que dissesse mais ou meno3 do que soubesse em 
negócios tocantes ao Santo Offlcio, disse quo n&o. 

B perguntado si sabia que o dito padre prevaricasse em 
algum ponto contra nossa religifto romana, disse que nfto. 

E perguntado si conhecia ao padre Manoel do Moraes, disse 
que o conhecera somente do principio desta guerra, que se le- 
vantou per aqua, 

E perguntado elle testemunha pelo conteúdo no artigo 28 em 
que vem referido que todo lhe foi lido e declarado, disse que so- 
mente uma Tez confessara ao dito padre na guerra que agora se 
lerantou em Pernambuco, e ai não disse, do costume nada, o se 
assignou com o dito commissario, e commigo escrivIU) que o 
escrevi. O padre João de Kraujo, Uchôi, 

Testemunha Francisco Carvalho da Silva, soldado nesta 
guerra de Pernambuco, de edade que disse ser de viute e quatro 
annos pouco mais ou menos, testesmunha Jurada aos Santos Evan- 
gelhos, sob cargo do qual prometteu dizer verdade e guardar se- 
gredo no que lhe fosse perguntado. 

E perguntado elle testemunha si sabia ou suspeitava o para 
qao era chamado, disse que não. E si fôi*a induzido por alguém 
a qoe dissesse mais ou menos do que soubesse sendo perguntado 
em negócios tocantes ao Santo Offlcio, disse que não. 

E perguntado si conhecia ao padre Manoel de Moraes, disse 
qae o conheceu em HoUanda, e na matta da Alagôa Grande fa- 
zendo páu-brazil, pela razão delle testemunha ser morador na 
própria parte. 

E perguntado si sabia que o dito padre Moraes prevaricasse 
^m algum ponto contra nossa religião romana, disso que 
Dão. 

H perguntado elle testemunha pelo conteúdo no artigo 9^ 
6m que vem referido que toJo lho foi lido e declarado, disse que 
era verdade que na cidade de Amsterdam, onde elle testemunha 
estava, e Sebaitião de Carvalho e João Pessoa Bezerra qae o 
Mlandez tinha mandado do Recife, presos, para Hollanda, elle 
7341 — 9 Tomo lxx. p. i. 



130 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

réu solicitara e ftilara por elles e os ajudara no que ponde» e ai 
não. disse neste artigo-: 

E perguntado elle testemunha pelo conteúdo no 10* ar- 
tigo em que vem referido que todo lhe foi l'do e declarado, dina 
que n^o sabia nada deste artigo, e ai não disse, e do costume 
nada, e se assignou com o dito commissario e commigo eacriyão 
que o escrevi. Francisco Carvalho da Silva, Uchôa. 

Testemunha Luiz Alvares da Silva, morador na villa de 
Olinda, que disse ser de edade de quarenta e dous annos pouco 
mais ou menos, testemunha jurada aos Santos Evangelhos que 
lhe foram dados, sob cargo do qual prometteu dizer verdade e 
guardar segredo no que lhe fosse perguntado. 

E perguntado elie testemunha si sabia ou suspeitava o para 
que era chamado, disso que não. E perguntado si íôra persnar- 
didopor alguém que, sendo lhe perguatado matérias tocantes ao 
Santo Offlcio, dissesse mais ou menos do que soubeste, disse que 
não. 

B perguntado si conhecia ao padre Manoel de Moraes, disse 
que o conheceu por tempo de um mez que esteve em sua caia 
doente vindo de Hollanda, e depois disto ia e vinha a sua casa, 
e eeta é a razão do conhecimento. 

E perguntado si sabi i que o dito padre prevaricasse em 
algum ponto contra nossa religião romana, disse que não. 

B perguntado elle testemunha pelo conteúdo do artigo l9^ em 
que vem referido que todo lho foi lido e declarado, disse que é 
verdade que o réu vindo de Hollanda pousara em sua casa por 
tempo de um moz, e naquello tempo iam a vi lia ambos ouvir 
missa à Nossa Senhora do Amparo, o se agazalhavam, quando 
iam, em casa de Manoel Antunes Taborda, e na mesma egreja 
ouvira sermões do padre frei Manoel dos Óculos, e ai não disse 
neste artigo. 

E perguntado elle testemunha pelo conteúdo do artigo 20* 
em que vem referido que todo lhe foi lido e declarado, disse 
que era verdade que o réu trouxera de Hollanda seis brandões 
de cera branca dos quaes deu dous a Nossa Senhora do Amparo, 
e doas a 8. O mçalo de Una, o que elle testemunha viu, e ai náo 
disse nesto artigo. 

B peffuntado elle testemunha pelo conteúdo do artigo 29 



PROCaSSSO DE MANOBL DE MORAES 131 

em que Tem referido que todo lhe foi lido e declarado, disse 
que o réu se fora a fazer páu-brazil ao sitio do Aratangy, onde 
tinha suas roçarias e oasa de Tivenda» mas nfto sabe a tenção com 
que se foi do Recife, si por seu commodo, si por se afastar aos 
Hollandezes, e ai nfto disse e do costume nada, e se assignou 
oom o dito commissario e commlgo escrlTâo que o escreYi. Jmz 
Alvares da Silta. Uchôa. 

Testemunha Ck>smo de Castro Passos, Provedor da Fazenda • 
em Pernambuco, de edade que dLsse ser de cincoenta e dons annos 
pouco mais ou menos, testemunha jurada aos Santos Evangelhos 
que lhe forão dados, sob oargo do qual prometteu dizer verdade 
e guardar segredo no que lhe fosse perguntado. 

E perguntado elle testemunha si sabia ou suspeitava o 
para qw era ehamado, disse que não. £ si f5ra induzido por 
alguém dissesse mais ou menos do que soubesse em negócios to- 
cantef ao Santo Offloio sendo nelles perguntado, disse que nio» 
£ perguntado si conhecia ao padre Manoel de Moraes, disse 
quo o conhecia dò dezoito annos a esta parte pouco mais on 
menos, sendo padre da Ck)mpanhia, na guerra de Pernambuco • 
na qual governava os indios, e depois o conheceu vindo de Holr 
ladda antes desta guerra que agora se levantoa. 

E perguntado si sabia que o dito padre Moraes houvcM 
prevaricado contra nossa religião «catholica em algum ponto, 
disse que onvira dizer se casara em HoUanda, e ai nSo disse. . 

E perguntado elle testemunha pelo conteúdo do Sõ"» ar- 
tigo em que vem referido que todo lhe foi lido e decla- 
rado, disse que o róu na batalha primeira da Matta contra os 
Holiandezes com um Christo nas mãos, oxhortava e animava aos 
soldados, no que mostrou grande zelo christão, e causou pele* 
jarem todos e não fugirem, intimando aos soldados que só aquelle 
Christo era o vordadeiro capitão, e ai não disse neste artigo. 

E perguntado pelo conteúdo do artigo 28, em que vem re- 
ferido qua todo lhe foi lido e declarado, disse que o réu na guerra 
da Matta se confessara com o padre João de Araújo, e também 
no porto de Nazareth, elle testemunha o viu confessar e com- 
muogar com o capellão da força, e ai não disse e do costume 
nada e so assignou com o dito commissario e commigo escrivão 
que o escrevi. Cosmo de Castro Passos. Uchôa. 



132 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

O qual traslado do dito do testemunhas, eu o padre Manoel 
Roiz, escrivão eleito pelo licenciado Matheus de Sooza Uchôa 
trasladei bem e fielmente do procrio que em meu poder fica a 
que me reporto, e com elles o concertei e com o dito licenciado, 
Matheus de Souza Uchôa fiz e assignei do meu signal costumado» 
úesta Várzea de Capiberibo, em três de junho do mil e seiscentos 
e quarenta e sete annos. O Padre Manoel Rodrigueè. ^ concer* 
tado por mim escriv&o o Padre Manoel Rodrigues e commigo 
commissario Matheus de Souza UcMa. 

Certifico eu o padre Manoel Rodrigues, escrivão eleito pelo 
licenciado Mathens^de Souza Uchôa, a quem pelos senhores In- 
quisidores foram commottidas certas causas nesta capitania de 
Pernambuco, que ó verdade que as testemunhas abaixo nomea- 
das são impedidas, ausentes e mortas, a saber, Martim Ferreira, 
ausente nas fi onteiras de Portugal ; o capitão Pêro Mendes do 
OouToia, morto ; o capitão João Pessoa Bezerra, ausente na Bahia ; 
Sebastião de Carvalho, fugido para o Recife ; D. Br azia, morta, 
Manoel Travassos e António Roiz, doentes em diversas partes ; 
Gonçalo Freiro, morto; o capitão Thomé Dias, ausente em Lisboa, 
Joáo Dias Leite, ausente na Bahia; o padre João Baptista; 
padre capellão de Nazareth e o capitão Ascenço da Silva, ausentes 
na Bahia ; Sigismundo e Estacour governam a guerra do HoUan* 
dez, e por assini passar na verdade o affirmo pelo juramento de 
meu ofildo, em três de junho de 1647. O Padre Manoel Rodrigues. 

Rasa 360 

Termo 014 

Assent 035 

Certid 014 

483 

Inq 300 

Diligencia • 150 

Cont 36 

909 



PROCESSO DE MANOEL DE MORAES 133 

RIQUERIMBNTO DO PROMOTOR PARA PUBLICAÇÃO 

Aos treze dias do mez de novembro do anoo do 1646, em 
Lisboa, nos estáos e cjusa do despacho da Santa Inquisic^, es- 
tando ahi em audiência da manhã os senhores inquisidores, 
appareoeu o promotor do Santo Offlcio, o por elle foi dito que 
este processo estava em termos de se fazer publicação da pena 
da justiça que contra Manoel de Moraes» contido neste processo 
havia, porquanto estava ratificada na forma de direito. Pelo 
qne, pedia a elles ditos senhores o mandassem vir ante si, e lhe 
fosse feita a dita publicação, e pelos ditos senhores foi mandado 
se tomasse seu requerimento por termo e se faria justiça, a que 
foi satisfeito, de que tudo fiz este termo. Domingos Esteves no« 
tario do Santo Offlcio o escrevi. 

ADMOESTAÇÃO ANTES DA PUBLICAÇÃO 

E logo na mesma audiência atraz declarada mandaram os di- 
tos senhores vir deante de si ao dito Manoel de Moraes, e sendo 
presente» lhe foi dito que elle tinha vindo por maltas vezes a 
esta Mesa, e nella fora de todas com muita caridade admoestado 
qnizesse confessar inteiramente suas culpas para desencargoda 
sua consciência e salvação de sua alma, o elle réu usando do máu 
conselho atô agora o não tem feito, e ihe fl&zem saber que em 
raiao disso o promotor do Santo Offlcio requer, se lhe faça publi- 
eàç^ da prova da justiça que contra si tem; e porque lhe será 
melhor dizer inteiramente a verdade antes que depois da dita 
publica^^, o admoestam com muita caridade da parte de Ghristo 
Nosso Senhor, trate de assim o fazer. E por que disse que não 
tinha que dizer mais que o que já tinha confessado lhe foi man- 
dado lêr a publicação, que adeante se segue e que aqui ajuntei 
de mandado dos senhores Inquisidores, de que também fiz este 
termo. Domingos Esteves^ notário que o escrevi. 

pubicaçjto da prova da justiça-autor contra licenciado 
manoel de moraes. religioso que foi da companhia db 
Jesus, réu preso nelles contido 

1» testemunha (Duarte Guterres, 14 de novembro áe 1639). 
Uma testemunha da justiça jurada e ratificada na forma do 



134 hBVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

direito diflie qne sabia pela razão que deu, que haverá onze para 
doze aanos, que o réu Manoel de Moraes residia em certo logar 
de hereges onde era casado e tinha filhos. E no dito logar era 
tido por herege calvinista, sendo que tinha sido religioso e sa- 
cerdote de missa. E do costume disse a'te6temunha nada. 
- 2* testemunha (João Fernandes, 5 de junho de 1640) • 

Outra testemunha da justiça jurada e ratificada na formado 
direito disse que sabia pelo vôr que, haverá dez annos o cinco 
mezes pouco mais ou menos, que o róu Manoel de Moraes residia 
em certo iogar de hereges onde era casado com uma mnlher 
de profissão calvinista, e elle róu continuava nas egrejas dos 
mesmos, e que por casado e calvinista ora commummente repu- 
tado das pessoas que o conheciam. 

E do costume disse a testemunha nada. 

3^ testemunha (frei Thomaz Falagre, 17 de novembro de 
1639). 

Outra testemunha da justiça jurada e ratificada na formado 
direito disse que sabia por ser publico e constante que o réu Ma- 
noel de Moraes em certo logar e oceasião se lançara com certos 
inimigos hereges, e depois f5ra a outro certo logar dos mesmos 
hereges onde andava vestido de curto como secular, com um trtr 
çado, e estava casado com uma mulher viuva, e o casou um pré* 
dtoaote calvinista. E viu a testemunha que elle réo tinha em 
sua casa a dita mulher da mesma maneira que os outros homens 
casados. B que também era publico que elle réu era herege e o 
tinham todos por esso, e se dizia ser calvinista, e que fizera um 
livro dos portos e entradas de certa província de catholicos, onde 
os hereges de certa nação lhe íkziam a guerra, de que elle réu 
por oerta ratão tinha grande noticia, para que a tivessem os 
mesmos hereges, e pudessem prejudicar aos catholicos, e ouviu á 
testemunha qne o dito livro continha também cousas contra nos- 
sa santa fé catbolica. E ouviu mais que o réo em companhia 
dos ditos hereges comera carne em uma quiota-feira de Endoen- 
ças, estando são e bem disposto, e tendo outras cousas de que 
comer, si o quizera fazer. E ssndo ropníhendido de unaa pessoa 
que estava prosento, respondeu quo o deixasse qne queria viver 
çom aquella gente. 

E do costume disse a testemunha nada.- 



PROCESSO DK MANOEL DE MORAES 135 

4^ testemunha (frei Aatonio C:^l(5olra, 23 de Janho de 1640)« 

Oatra testemunha da jiístiça jurada e ratificada na forma 
do direito disse que sabia por ser publico que, haverá doze annos 
6 cinco mexes pouco mais ou menos que o réu Manoel de Mo* 
rasB em eerto logar se lançara oom certos hereges péla ocoasião 
que dedarou, e nesse havia apostatado de nossa santa fé catho-< 
iiea, tendo crença na seita dos hereges que se chamam refor- 
oados, emtanto que algum dos ditos hereges que assistiam no 
dito logar em abonai da doctriaa que seguiam, dava em rosto 
a eerta pessoa oom a approvaçfio delle réo dizendo que com ser 
religioso e letrado a seguia e pregava. E a testemunha viu que 
eUe réu no dito logar andava vestido em trajes de gente militar 
qae não é religiosa o qual os ditos hereges não constrangem 
vestir a pessoa alguma ecolesiasticaedatholica contra sua von- 
tade, o que a testemunha sabe pela razão que deu com qçe se 
tlcou confirmando na commum reputação em que todos tinllan^ 
a elle réu de se haver apartado da fó catholioa romana, e tido. 
erença na dita seita dos hereges reformados. E que é íSuna 
publica e constante que passando-se o réu para outro certo logar 
dos ditos hereges se casara nelle. 

E do costume disse a testemunha nada. 

5* testemunha (frei Belchioi' dos Reis, 17 de Junho de 1635). 

Outra tei^temuDha da justiça jurada, na forma do direito 
disso qus sabia por ser publico que o réo Manoel do Moraes 
seodo sacerdote, pregador e religioso andava em certo logar 
•otre os here :,'es que nelle havia em trajes de leigo, com espada 
contra os catholicos como os mesmos hereges fazem, e dava 
mostras de ser herege e confessava ser vassallo de certo prin- 
cipe dos mesmos hereges que também o era, o que tudo passava 
com muito escândalo. 

£ do costume disse a testemunha nada. 

O* testemunha (D. Joseph de Souto Maior, 28 de agosto de 
1635). 

Outra testemunha da justiça jurada na forma do direito 
disse que sabia por ser publico que o réu Manoel de Moraes as- 
sistia em certo logar de hereges onde so fazia guerra aos catho- 
licos. E elle réu entrava também oa mesma guerra. 

E do costume disse a testemunha nada. 



136 



REVISTA no INSTITUTO HISTÓRICO 



7* tosteraunba (Manoel de Cirvalho, 5 de dezembro do 1635), 

Outra testemunha da jiiBtiça jtirada na forma do direito 
disse que sabia por ser publica tux e fama, que depois de ga- 
nharem ca rios hereges certo logar do catholicos o ode ellc réu sa 
achou, e ■eile apoetatara e deixara nc^sa saota fé catholicae se 
jlzera Oatvino publico, o deixara crescer a barba e mudara res- 
tido, can Tocando gento de corta naçáo o fazendo- a passar da 
parte dos ditos hereges contra oa ca!holicosi o quo elle réu ao- 
trosim tomara também armas contra os mesmos oatbolicos, o 
querendo os d tios hereges fazel-o capitão o maudal-o como ad- 
juoto a certo to^r de catholicos, oito róu dissera quo o dei- 
xassem ir BÔ que veriam que a nenhuma pessoa catholtca de 
carta nação deixaria cora yida. 

E outrosím é publico que em certo logar se achoii olle réu 
com ^ma pessoa religiosa o eatholka, aquemdisseque atr^ agora 
andara errado em profesaar noi^sa santa fó eatholica, porque a . 
sua ãiuta herética que seguia ei'a a boa, que a qmwme seguir 
lambem a dita pessoa a quem isto dizia. E que ello r^o se fora 
para outro certo logar dos mesmos hereges onde estava casado. 

E do costa ms disse a testemunha nada* Lui^ Álvares da 
Rocha. PerQ de Castilho, Belchior Di&t Fretfo. 

E tida como dito é a publicação da prova da justiça para o 
réu responder a tuio com vcrdado, lho foi dado juramento dos 
Santos E vaoífelhjs em que poz a n^âo !?ob cargo do qnal lho foi 
mandado queoEsim o fizesse, o que tudo promotteu cumprir. 

Perguntado si é verdade o contoildo na dita publicação, o 
em cada um dos artigos dália : 

Disse quo só era verdade o que tinha confessado nesta Mesa, 
e que tudo o mais ora íaEso. 

Pergnntado si tinha contradlctas com que vire si paralh^as 
formar queria eatar com prccurador^ diiSõque estaria com pro- 
curador. Pelo que os ditos Senhores mandaram se Ibedessevia 
de pira vir estar com eUe, a quem se daria o traslado da dita 
publioaçãi e admoesímdti em forma fi>i mandado a sou earcen^, 
sendo-ihe prímolro lida esta sessão quo disse estar escripta na 
verdide e assitçnou cora os ditos senhores. DomiVí^o^ Esteves^ no- 
tário quo o escrevi, Luit Ai vares da Mocha, Pêro de CasUtho. 
Belchior Dias Prdtú. O licenciado Manoel de Moraes^ 



I 
I 



PROCESSO DE HANOEL DE MORAES 137 

ESTANCIA COM PROCURADOR 

A dezesete dias do mez de novembro do 1646 annos, em 
Lisboa, DOS estáus e casas do despacho da Saota Inquisição es- 
tando ahiem audiência da manhã os senhores Inquisidores, esteve 
o Dr. Manoel da Cunha, procurador do réo Manoel do Moraes 
com elle e com o traslado da publicação da prova da Justiça e 
lhe formou uns artigos de oontradictas que ofléreceu em Mesa 
pelo dito réo, tornando com elles o dito traslado, e tudo é o que 
adeantc se segue que aqui ajuntei de mandado dos ditos senhores 
e do mesmo fiz este termo. Eu João Carreira notário o escrevi. 

Traslado da publicação da prova da justiça-autor gonira o 
licenciado manoel db moraes, religioso qub foi da com- 
panhia de jesus, réo preso contido nestes autos. 

Uma testemunha da justiça Jurada na forma do direito disse 
que sabia pela razãcque deu, que haverá onze para doze annos 
que o réo Manoel de Moraes residia. em certo logar de hereges 
onde era casado e tinha filhos, e no dito logar era tido por he- 
rege calvinista, sendo que tinha sido religioso, e sacerdote de 
missa. E do costume disse a testemunha nada. 

Outra testemunha da Justiça Jurada e ratificada na forma 
de direito disse que sabia por ver que haverá dez annos e cinco 
mezes, pouco mais ou menos, que o réo Manoel de Moraes residia 
em certo logar de hereges, onde era casado com uma mulher de 
profissão calvinista, e elle réu continuava nas igrejas dos mesmos 
calvinistas, e que por casado e calvinista ora commummoute 
reputado das pessoas que o conheciam. E do costume disse a 
testemunha nada. 

Outra testemunha da Justiça jurada e ratificada na forma do 
direito disse que sabia por ser publico e constante que o réo Ma- 
noel de Moraes em certo logar e occasião se lançara com certos 
inimigos hereges, e depois fora a outro certo logar dos mesmos 
hereges, onde andava vestido de curto como. secular com um ter- 
çado e estava casado com uma mulher viuva, e o casou um pre- 
dicante calvinista, e viu a testemunha que elle róo tinha em sua 
casa a dita mulher da mesma maneira que outros homens ca- 



138 REVISTA DO INSTITUTO ftlSTORICO 

sadofl o que também era publico que elle ^éu era herege e o 
tiaham todos por esse, e S9 dizia ser calvinista, e que âzera om 
lirro dos portos e entradas de certa proviucia de oatholloos onda 
08 hereges de certa nação lhes faziam guerra de que elle rée por 
oerta raxfto tinha grande notida para que a tivessem os memoe 
hereges e pudessem prejudicar aos oatholicos ; e ouriu a teete- 
munha que o dito livro continha também cousas contra nossa 
santa fó oatholica, e ouviu mais que o réu em companhia dos 
ditos hereges comera carne em uma quinta-feira de Endoenças, 
estando sSo e bem disposto e tendo outras cousas de que comer 
si o quisera íáxer, e sendo reprehendido de uma pessoa que es* 
tava presente respondeu que o deixasse que queria viver com 
aquella gente. E do costume disse a testemunha nada. 

Outra testemunha da justiça jurada e ratificada na forma do 
direito disse que sabia por ser publico, haverá dozoannos e cinco 
mezos pouco mais ou menos, que o réu Manoel de Moraes em certo < 
logar se lançara com certos hereges pela occasiEo que declarou, e 
nelle havia apostatado de nossa santa fé catholica tendo crença na 
seita dos heregiBS que se chamam reformados, em tanto que alguns 
dos ditos hereges que assistiam no dito logar em abonado da dou« 
trina que seguiam, dava em, rosto a certa pessoa com a appro* 
vaçao dello réo dizendo que com ser religioso e letrado a seguia, 
e pregava e a testemunha viu que elle réo no dito logar, andava 
vestido em traje da gente militar que não é religiosa, o qual os 
ditos hereges não constrangem vestir à pessoa ecclcsiasttca ca- 
tholica contra sua vontade, o que a testemunha sibe pela razão 
que deu, com que se ficou confirmando na commum reputação» 
om que todos tinham a elle réo, de se haver apartado da fó ca- 
tholica romana, e tido crença na dita seita dos hereges refor- 
mados ; G que é fama publica e constante que passando-se o réo 
para outro certo logar dos ditos hereges se casara nelle. E do cos- 
tume disse a testemunha nada. 

Outra testemunha da Justiça jurada na forma do direito disse 
que sabia por ser publico que o réo Manoel de Moraes sendo sa* 
cerdote pregador e religiosD andava cm certo logar entre os he- 
reges, que nelle havia cm traje de leigo, com espada contra os 
catholicos, como os mesmos hereges fazem, e dava mostras de ser 
vassallode certo principo dos mesmos hereges, que também o era, 



PH0CB9S0 DB MAN06L DE MOR ABS 139 

t> que tado pamra oom muito eec&ndalo. E do costume disse a 
testemunha nada. 

Outra testemunha da justiça jurada na forma do direito 
disse qae sabia por ser publico que o réo Manoel de Moraes 
assistia em oerto logar de hereges onde se fazia guerra aos ca- 
tholicos, e elle réu entrava também na mesma guerra. Edo 
costume disse a testemunha nada. 

Outra testemunha da Justiça Jurada oa forma do direito 
disse que sabia por ser publica yoz e fama que depois de ganharem 
certos hereges certo logar de cathoUcos, onde elle réo se aohou 
6 nelle apostatara e deixara nossa santa fé cathoUca, e se fizera 
calvino publico, e deixara crescer a barba e mudara de vestido 
convocando gente de certa naçSo, e flekzendo-a passar da parte 
dos ditos hereges contra os catholicos. E que elle rón outrosim 
tomara.tambem armas contra os mesmos catholicos, e querendo 
.06 ditos hereges fazel-o capitão e mandal-o como adjunto a 
certo logar de catholicos, elle réu dissera que o deixassem ir só 
que veriam que a nenhuma pessoa catholica de certa nação 
deixaria com vida. E outrosim é publico que em certo logar se 
achou elle réu com uma pessoa religiosa e catholica, a quem 
di»e que ate agora andava errado em professar nossa santa fé 
catholica, porque a sui seita herética que seguia era a bôa, que 
a quizesse seguir também a dita pessoa, a quem isto dizia ; e que 
elle réu se fôra para outro certo logar dos mesmos hereges onde 
estava casado. E do costume disse a testemunha nada. Luiz 
Áltíaresda Roeha. Fero de Castilho, Concorda com o próprio, 
Gaspar Clemente, 



REQUERIMENTO 

Muito lílnstres Senhores. 

O réo Manoel de Moraes, para se poder defender com cla- 
reza, pede se lhe declare o logar em que a 6* testemunha diz 
que o réo assistia e fazia guerra aos catholicos. 

£ outrosim se lhe declare de que terra ou paragem era a 
gente de oerta nagão que a testemunha 7* diz que elle réo 
convocara e fizera passar aos hereges. 



140 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

E que logar era o de catholicos, onde os hereges o queriam 
mandar por capitão como adjunto, e elle réo dissera que o dei- 
xassem ir só etc. 

O licenciado Manoel de Moraes. Manoel da Cunha» 

DESPACHO 

O promotor do Santo Offlcio Obic& as declarações que se pedem* 
conformando-ce com o regimento. 

Lisboa, em Mesa, a 16 de novembro de 1646. Belchior Dias 
Pretto. Luiz Alvares da Rocha. 

Declara-se por parte da justiça que os legares e terras de 
que o réo pede as declarações acima « eram todos nas partes do 
Biazil, no Estado de Pernambuco. Lisboa, no Santo Offlcio, 16 de 
novembro de IG46. Alexandre da Silva, 

CONTRADICTA' 

Muito Illustres Senhores* 

Por via do contradictas, on como em direito haja logar, diz 
o réo Manoel de Moraes. 

E Si Cumprir. 

1 . Provará que em caso que contra ello réu tenham teste- 
munhado Martim Soares Moreno, António de Albuquerque, os 
Brandões, o ambos irmãos que por nome não percam, e os mais 
seus companheiros quo com elles assistiam na Parahyba e no en- 
genho de António de Valladares, na aldêa de Itapuá quando fu- 
giram ao inimigo deixando captivo ao gentio quando elle réu 
tinha ido conduzir mais gentio d aldôa de Guararaea, a rogo 
e petição, dos sobreditos Martim Soares e António de Alba> 
qaerqueqne tinham servido de capitães, lhe não devem pre- 
judicar seus ditos. 

Porque 

2, Provará quo no tempo que elle tinha ido á dita aldôa de 
Guararaea, deu o inimigo hoUandez com os sobreditos, e elles 
desamparando o gentio o o posto puzeram-se cm fuga, até che- 
garem a paragem de Pornanbuco ondo estava Mathias de Albu- 
querque e por desculparem saa Aiga e covardia, e lhe não im* 



PROCESSO DB MANOEL DE MORAES 141 

patarem a calpa do captiveiro do gentio, disseram e publicaram 
om toda a parto ondo se achavam quo elle rôo lhes faltara pas-. 
sando-se ao inimigo levando comsigo o gentio, e daqui nasceu 
a fama e (i&lao rumor cooti^a oUe réo de se dizer que por sua vour. 
tade se lançara com o inimigo, e seguindo sua seita, e tomara 
armas contra catholicos, sendo tudo pelo contrarie, como tem; 
articulado om sua contrariedade, e que os sobreditos lhe deram 
occasiao aos inimigos o capti varem, dizendo-lhe quando os topou 
fugindo, que o gentio ficava salvo, e por elle réo cuidar que era 
verdade, se foi ter ao logar ondo tinha deixado o genUo, e o 
achou captivo e da mesma maneira captivaram os inimigos a 
elle réu. 

3. Provará que Francisco Mendes, morador nesta cidade de 
Lisboa, a quem o inimigo queimou um navio na Parahyba ao 
tem; o que a tomaram, foi preso na mesma embarcação, em 
que elle réo foi para a Hollanda captivo, e indo navegando na 
dita embarcaç^ tiveram elle réo e o dito Francisco Mendes 
entre si paixões e desavenças de que ficaram inimigos, e se n&o 
falavam depois de chegar á terra, de que resultou lançar o dito 
Francisco Mendes muitas ameaças contra elle, e entre as qnaes 
era que havia de fazer queixa delle, vindo a esta cidade aos 
padres de S. Roque, e como de inimigo lho não deve prejudicar 
seu testemunho. 

4. Provará ^ue o cirurgião que ia para o ser do terço de D. 
Simão Mascarenhas que o Hollandez captivou no canal de Flan- 
dres, que por nome não perca e era criado e da casa de D. Simão 
Mascarenhas indo captivo á Hollanda, foi a certo negocio á cidade 
de Hardrvick om tempo que elle réu estava na dita cidade, lhe 
fez elle rôo o gasto, assim de sua casa como da pousada em que 
se recolhia á sua custa. E ficando de lhe pagar em Amstcrdam 
lhe faltou com a palavra na mesma cidade de Amsterdam, onde 
o réu foi ter com elle, e por lhe não querer pagar tiveram pa- 
lavras muito pesadas e differenças, de que ficaram inimigos, pelo 
que seu testemunho lhe não dovo prejudicar. 

5. Provará que Cosmo Dias, Portuguez, filho do Brazil quo 
o capitão da caravela em quo elle réu veiu para este reino disse 
que estava nesta cidade e reino de Portugal e se lançou com os 
Rollandezes em Pernambuco como é notório, e se achou na Pa- 



142 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

rahyba qnAado captiraram a elle réo,' e era tfto grande inimigo 
delld réo, que trabaihoa moito com os Hollandezes que o enfor- 
cassem a elle réo e publicamente o requeria, e honvera elle réo 
de ser enforcado, si não fora o coronel Artixok como está 
dito na contrariedade, pelo que seu dito lho não deve pre- 
Indioar. 

6. Prorará que elle réo se encontrou em Amsterdam oom 
o padre frei Angelo Capucho, filho do Brazil, e entre ambos houTe 
razões e diflèrenças sobre um argumento d'um caso de con- 
sciência, de que se yleram a descompor, e lhe disse elle réu entre 
outras cousas que, mais sabia um cozinheiro da Companhia de 
Jesus que um letrado da sua religião, de que ficou muito sentido 
e em ódio com elle réo, pelo que seu testemunho lho não deve 
prejudicar. 

?• Prorará que Francisco dos' Santos Bacellar, Alferes resi- 
dente em Pernambuco teve differenças com elle réo sobre um 
escravo delle réo que o dito Francisco dos Santos dizia que lhe 
pertencia e lhe ficou em tanto ódio que ameaçou a elle réo, 
dizendo que lhe havia de fazer todo o mal que pudesse, pelo que 
seu dito lhe não deve prejudicar. 

8. Provara que elle réo por ser fronteiro em Pernambuco, 
e ter todo o gentio da sua mão com que fkzia grande damno'ao 
inimigo e ser muito respeitado, tinha muitos emulos que lhe que- 
riam mal, e desejavam vel-o abatido, assim Ipigos como cede* 
•iasticos e religiosos, e em especial os capitães e offldacs da mi* 
lida e os demais eram inimigos encobertos por cujo respeito não 
os ooptradicta em particular, e protesta seus testemunhos serem 
havidos por suspeitos e não lhe prejudicarão. 

9. Provará que, quando captivaram a elle réo na Parahjbft 
como está dito, não esteve ha dita cidade mais que ires oa 
quatro dias e esses poucos dias, esteve preso, e d*ahi foi levado 
a uma náu onde esteve sete ou oito dias som sahir da dita náo, 
e no cabo desses foi psMado a outra náu e levado nella para o 
Recife, e não foi senhor de si para obrar cousa alguma contra 
08 catholicos, ainda que o quizera fazer. 

10. Provará que chegando ao Recife na forma que fica dito 
esteve no dito logar cousa de dons mezes, tratado como prisio- 
neiro sem sahir do dito Redfe, nem tomar armas contra catbo * 



PROCESSO DB MANOEL DB MORAES 143 

JÍ008, nem se offèrecer para isso, nem haverá qaem diga que 
Tisse a elle rôo no tal tempo, nem em briga alguma que houvesse 
entre os HoUandezes e ChristSos, como juraram todos os Portu- 
^ezes que estavam em campanha e nas fortalezas que estavam 
])or elles, e no cabo dos ditos dois mezes foi levado para Hollanda 
pela dita cidade da Parahyba, onde nfto fez demora mais que de 
três dias e se foi para Hollanda levado pelo inimigo, mas verda- 
deiro catholico. 

11. Provará que indo navegando para Hollanda rezava 
pelo a&a breviário a reza que era obrigado, e, quando os hereges 
x-ezavam a sua, se a&stava delles e sahia 'para a companhia dos 
f^ortugaezas qúe iam na mesma embaroa^^, e chegando ao 
porto de Tezel teve a náu grande tormenta e chegou a dar em 
xtm banco de areia e o venta lhe rompeu as veias, de maneira 
Q^ue todos estavam desconfiados, no qual tempo elle réo e outro 
oatholico portuguez se puzeram na popa da náa e em altas 
irozes chamaram por Nossa Senhora que lhes acudisse e livrasse 
do perigo, e o não fizera si se tivera passado á seita dos he- 
reges, pelo que é errado dizerem as testemunhas da Justiça que 
elle réo se lançara com elies e seguira a sua seita. 

12. Provará que é íálso dizer-seque elle réo fizera um livro 

doe portos e eotradas de província alguma, de que elle réo tinha 

noticia para a dar aos hereges, porquanto ao tempo que capti- 

rmxam a elle réu, já os HoUandezes tinham verdadeira noticia 

dos mais dos portos do Brazil. Porque 

13. Provará que oo tal tempo tinham os HoUandezes es- 
tado na Bahia, por tempo de um anno e tinham plenária noticia 
de todos os portos daquelle districto, e da mesma maneira 
estiveram algum tempo na capitania do Espirito Santo. 

14. Provará que no tempo do captiveiro delle réo estavam 
os HoUandezes actualmente uo Redfe, Itamaracá, Parahyba, 
Rio Grande, e de todos estes portos tinham verdadeira noticia 
e a escusavam delle réo e dos mais portos que depois occu* 
param, a saber Geará, Maranhão, lhes não podia elle réo dar 
notieia por nunca estar dos ditos portos. Alem do que 

15. Provará que, antes delle réu ser captivo já os HoUan- 
dezes tinham um livro que anda impresso composto em latim 

• enaUngua hollandeza por Joanues de Laet, em que descreveu 



144 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

todos OS portos, lagares e rios do BrazLi, e assim escusavam 
outra maior nem melhor notícia. 

16. Provará que viado elle róo embarcado do Recife para a 
Parahyba, de caminho para a Hollanda, os três dius que abi es 
teve era na Semana Santa, e em qainta-feira de Endoenças, por 
ser catholico o se conservar na lei do Ghrlsto Senhor Nosso se 
eonfessoa e commungou no convento dos Padres de S. Francisco, 
vestido na tnnica da Companhia de Jesus, o por chegar à 
dita cidade multo enjoado do mar e muito indisposto, o mal 
tratado decerto achaque de que ainda hoje padece, comeu carne, 
por lhe ser necessário o não ter outra cousa quo lhe não preju- 
dicasse a saúde, e por não haver peixe nem outra cousa alguma 
0om que pudesse ajudar a natureza, como tem declarado na 
confissão que tem feito. 

17. Provará que os Hollandezes são tão má gente, que os 
que são hereges levantam aleives aos legares da Sagrada Bs- 
criptura para persuadirem quo ô bôa sua falsa doctrina. E não 
é muito que se alegassem . com elle réo, para alguma cousa o 
íluriam por seus respeitos, mas era falso e erradamente, porquo 
sempre foi verdadeiro catholico, e assim espera que com elle réo 
se use da misericórdia que se concede aos verdadeiros confi- 
tentes e professores da lei de Christo, e nunca seguiu a seita 
doa hcrejcs nem ;e achou presente a suas ceremonias, nem pre- 
gações para asapprovar. E' publica voz e fama. Pede Recebi- 
mento o Justiça. Com custai. 

DESPACHO 

Não recebemos o artigos de contradictas oíTerecidas por parte 
do róo o Padre Manoel de Moraes ex-causa ; corra este processo 
em seus termos. Lisboa, em Mesa do Santo Officio a I« de De- 
zembro de 1646. Luís Alvares da Rocha. Perro de Castilho. Bel' 
chior Dias Preito. 

PUBLICAÇÃO 

Foi publicado o despacho acima ao réo na Mesa do Despacho 
a 1° de Dezembro de 1Ô46. Gaspar Clemente. 

B logo pelo rôo foi dito e podido que quoria estar cora o seu 
procuradef e pelos senhores Inquisidores foi mandado que es* 



PROCESSO DE MANOEL DE MORAES 145 

tivdflse com elle que logo apresentou a cota que se segue e 
aqui ajuntei de mandado dos ditos Senhores. Gaspar Clemente 
que o escrevi. 

PETIÇÃO 

Muito Ulustres Senhores. 

O rótt Manoel de Moraes está confiado em que se ha de 
nsar com elle da misercordia que se concede aos verdadeiroe 
confitentes, tendo-se respeito a tudo o que tem dito e allegado 
e papeis apresentados em sua defesa, ser verdadeiro e sempre 
haver sido catholico, e nunca se apartar da lei e fé de Christ^ 
na forma que tem declarado em sua confissão, sem encobrir cir% 
cumitanoia alguma, e como quem só trata da salvação de sua 
alma, com todo o verdadeiro arrependimento, pelo quede novo 
não diz cousa alguma em sua defesa. 

O licenciado Manoel de Moraes. Manoel da Cunha (á mar* 
gem). Em l^de dezembro de 1646. 

CONCLUSÃO 

E junta a cota, como dito é, para os senhores Inquisidores 
haverem de deferir a ella, de seu mandado fiz este processo 
concluso. 

Gaspar (emente que o escrevi.* Concluso 

LANÇAMENTO 

Visto como estando o réu Manoel de Moraes com seu procu- 
rador para vir com mais contradíctas não veiu com ellas, o lan- 
çamos das com que pudera vir. Corra este processo em seus 
termos. 

Lisboa, em Mesa, em 28 de janeiro de 1641. Luiz Alvares da 
Rocha. Belchior Dias Preito. Pêro de Castilho. 

Requerimento do promotor para a publicação da mais prova 
DA Justiça 

Ao6 10 dias do mez de maio de 1647 annos, em Lisboa, nos 
estáus e casa do despacho da Santa Inquisição, estando ahi em 
audiência da manhã os senhores Inquisidores, appareceu o pro- 
7341 - 10 Tomo lxx. p. i. 



146 RBVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

motor da justiça deste Santo Offlcio, e disse que este processo 
estava em termos de se ílE^zer pablicação da irais prova da jus- 
tiça qae accresceua Manoel de Moraes, contido neste processo, 
por quanto estava jurada e ratiâoada na forma do Direito, pelo 
qne requeria a elles ditos Senhores mandasse vir perante si ao 
dito Manoel de Moraes, e sendo presente, lhe fosse feita a dita pu- 
blicação, e pelos ditos Senhores foi mandado que seu requeri- 
mento se tomasse por termo e que deferiam como fosse justiça, 
de que fiz este termo de mandado dos ditos Senhores. M<moel 
Alvares Migueis, 

Aos 23 dias do mez de maio do anno de 1647, em Lisboa^ nos 
' estaús e em uma das casas das audiências do Santo Oficio, es- 
tande ahi pela msinliã o senhor Inquisidor Pêro de Castilhoe 
mandou vir deante de si ao padre Manoel de Moraes, réu contido 
neste processo, por elle pedir Mesa, e sendo presente por dizer 
que a pedira, por ter que requerer por seu procurador a bem de 
sua justiça, pelo dito Senhor foi mandado se desse recado ao dito 
seu procurador para vir estar com elle, de que se fez este termo. 
Domingos Esteves que o escrevi. 

ESTANCIA COM O PaOCURABOa 

E logo na mesma audiência esteve o licenciado Luiz Ferrão, 
advogado do réo com elle em uma das ditas casas das audiências, 
om cijgo nome offereceu as contradictas que adiante se seguem 
e que aqui ajuntei de mandado dos senhores Inquisidores» de que 
também flz este termo. Domingos Esteves o escrevi. 



EMBARGOS DE CONTRADICTAS 

Muito Illustres Senhores 

O réo padre Manoel de Moraes tem legitimes embargos de 
oontradictas á ultima testemunha da publicação da prova da 
justiça que lhe foi publicada em dez do presente mez de maio, e 
aAm de se não diLT credito & dita testemoiibae haver d» ser sm 



MOeãdSO Itt MANOEL t>B M(mÂS8 I4t 

dito julgado por íSbJso« diz na melhor forma de direito. 

E Si Comprir. 

1. Prorará qae a dita testemanha llie forma culpa de quatro 
annoB e quatro mezes que, feito computo do dia em que lhe M 
publicada a dita testemunha, vem a cahir em dez de janeiro do 
anno de mil seiscentos e quarenta e três e dando-lhe a dita culpa 
no dito tempo em Pernambuco ó Adsa, porque 

S. ProFará que nos ditos dez dias do mez de janeiro de lllil 
seiaoentos e quarenta e três estava elle réu em Hollanda que 
dista de Pernambuco muitas centenas de léguas e ao tempo que 
chegou a Pernambuco foi em dois do mez de dezembro do dito 
anno de mil seiscentos o quarenta e três que vem a ser quasi de 
onze mezes depois do tempo que a dita testemunha lhe forma a 
dita culpa, no que notoriamente se redargue de íhlsa e tanto é 
verdade o sobredito que 

3. Provará que nos mezes de junho, julho e agosto do dito 
anno de mil e seiscentos e quarenta e três partiram de Hollanda 
para este Reino muitas pessoas dignas de fé, como foram o pro- 
vedor do Maranhão, o capitão da Qalé Real Jeronymo de Oli^ 
veira Cardoso e outras pessoas que oom elle réo trataram, ai 
qnaes sabem que elle réu no dito tempo estava assistente e ftoeo 
em Hollanda e noe ditos estados de Hollanda havia estado mfáUiê 
annoi antes sem ir a Pernambuco, no que se redargde a dita 
testemunha de f^lsa e como tal está oonvencida em dizer que elle 
réu estava em Pernambuco no mez de janeiro de mil seiscentos 
e quarenta e três quanto mais entanto era elle réo verdadeiro 
catholico e o foi sempre. 

4. Provará que depois que foi para Pernambuco em o mei 
de dezembro de mil seiscentos c quarenta e três, não foi a pré- 
dicas algumas dos Hollandezes. antes sempre aoeompanhou eom 
os eatholieos romanos, como é notório ; tanto assim que 

5. Provará que para se haver de achar nas ditas prédicas 
havia de ser em o Recife, ou na villa de Olinda, ou na mattado 
Brazil, na qual elle residiu depois de haver ido de Hollanda e 
não em outra parte, pois elle réo depois de sua chegada ao 
Brazil não esteve em outra parte. 

6. Provará que nem no Recife, porque aos domingos que iàú 
m dias em que os herege» fluram suas pMáeaã o tampo todo <fie 



148 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

elle ré ) nelle estere qae foi om mez pouco mais oa menos e 
também aos dias santos sempre foi a villa de Olinda a oaVir 
missa pela manha, e n&o vinha slnão bem tarde, e assim se não 
podia achar no Recife na^ prédicas, pois dista nma lógaa de 
Olinda. 

7. Provará que ainda dado o caso qae pelos dias de semana 
os ditos hereges fizessem prédicas do qae elle róo não tem notieia, 
nem ainda então elle réo foi a nenhuma delias, porque sempre 
esteve em casa, em companhia de Luiz Alvares da Silva, que por 
ser mercador e no dito tempo não^ter creado nem companheiro, 
como ao depois teve, sempre assistia em casa por ter nella loja 
e venJa. 

8. Provará que nem em Olinda, porque nunca se apartava de 
seus companheiros, nem sahia de casa onde estavam, e quaado 
sabiam iam todos juntos a ouvir missa, e assim em caso que os 
ditos hereges tivessem prédica em Olinda, o que elle' réo não 
sabe« uão podia ir a olla pela dita razão, sem que seus compa- 
nheiros o soubessem. 

9. Provará que nem na mattado Brazil onde sempre morou, 
no sitio chamado Aratangy, porque no dito sitio, nem em três 
léguas ao redor havia egrcjja alguma de hereges onde elle réu 
pudes.^ ir e aos domingos e dias santos ouvir missa, como ver- 
dadeiro catholico duas léguas de sua casa, como tem articulado 
e si alguma vez não ia ouvil-a não sahia fora do dito sitio. 

13. Provará que ainda que por algumsts vezes elle réu no 
tempo que assistia na matta do Brazil fosse ao Recife ou a Olinda* 
nemoiitão se achou em prédicáalgumados hereges, porque sempre 
foi a iOgocio e muito depressa e em dias de semana, tempo em 
que r^Ue réo entende os hereges não terem prédica, e sempre 
acompanhado com catholicos, recolhendoHse nas casas do dito 
Luiz Alvares da Silva, no Recife e em Olinda, na de Manoel An- 
tunes Taborda, no que se verifica ser a dita testemunha ultima 
Ikisa om seu dito, e como tal deve sor julgada ; tanto assim que 

1 1 . Provará elle réu não saber a língua hollándeza, e posto 
que algumas palavras delia áaiba não a pôde íalar nem em forma 
corrente a sabe pronunciar, no que tudo fica sendo falso e inve- 
rosimii a dita testemunha, emquai^to diz que elle réo pregava 
aos ditos hereges e lhe ensinava erroSi nem menos podia (kier 



PROCBSSO DB MANOBL DE MORABS 149 

etrtittia por onde elles aprendeisem, pois não sabia a lingia nem 
para ensinar, nem para escrever similhantes oomposiçpes. 

18, Provará elle róu ser nas partes do Brazil tido e havido 
por verdadeiro catholico de todas as pessaas gne o conheciam e 
não haverá nenhuma que com verdade possa afflrmar o contrario 
sem qoe com hereges o visse tratar em consas contr<; nossa 
s&Bta íé catholica, nem ir a saas prédicas desde que de Hoilanda 
volton ao BraziU nem contra elle rôo tal se pode presumir. 

Pede recebimento e provadq o necessário que a á\u teste- 
ffiuaha em ^u dito seja havido por nuUo e em tudo se lhe h/Qdk 
inteiro cumprimento de Justiça, pois é verdadeiro catholico e 
que a dita testemunha como falsaria seja castigada guod cum 

O licenciado Manoel de Moraes » LiUs Ferrão. 

ROL DE TBSTBBfUNHAS DA CONTRADICTA 

Aos vinte e três dias do mez de julho do anuo de mil seis 
centos e quarenta e sete, em Lisboa, nos estáus e casa do des* 
paclio da Santa Inquisição, estando ahi em audiência da tarde, 
CS senhores Inquisidores mandaram vir deante de si, ao padre 
Manoel de Moraes, réu preso contido neste processo, o sendo 
presente lhe foi dito que elle tinha ultimamente vindo com uns 
artigos de contradictas a que era necessário nomear testemu- 
nhas na forma do estylo do Santo Offlcio que lhe foi declarado, 
promettendo de assim o fazer, nomeou logo. 

Ao 1«— O teor de testemunhe. 

Ao 2» e 3*— O Provedor da Fazenda que veiu do Maranhão, 
ausente ; Gregório Corrêa, capitão da galé. 

O capitão Pêro Orti7 Maciel, defunto. 

Jeronymo de Oliveira Cardoso. 

Francisco Machado de Britto, genro de Francisco de An- 
drade Leitão. 

O dito Francisco de Andrade Leitão. 

O doutor Feliciano Dourado, seu secretario. 

E que para os mais não tinha prova neste Reino, e assim 
desistia delles na forma que articulou, e queria que pelo que 
resultasse se lhe íliesse cumprimento de justiça, e qoe não se 



IfO RBViOTA DO IN9TITUT0 HISTORIGO 

ftáhaado $ã ditas pessoas doAstia e renuadava todo o arti- 
culado nos ditos artigos. 

De mandado dos senhores do Conselho Oeral fiz este pro- 
(sesso eonolnso em os três dias do mez de setembro de mil seis- 
oetitos e qaarenta e sete. Diú§o Velho que o escreTi.-^aneltMo. 

Foram vistos na Mesa do Conselho, estando presente o 
llittstrissimo Senhor Bispo Inquisidor gefal, estes autos, culpas 
e confissões de Manoel de Moraies, sacerdote, ohristão velho, na- 
tural da villa de S. Paulo do estado do Brazil, relaxado em es- 
tatua, no Auto da Pé de 6 de abril de mil seiscentos e qua- 
renta e dois, nelles contido, e assentou-se que o assento do 
Conselho, em que o réu íbi julgado por convicto de heresia e 
apostasia estava alterado e não devia dar-se á execução e que 
era bem julgado pelos Inquisidores ordinários e deputados em 
determinar que antes de outro despacho devia ser posto a 
tormento, mandam que assim se cumpra e que nelle tenha um 
trato esperto e outro corrido, e satisfeito se tornará a vêr este 
processo em Mesa com o ordinário, e deputados e com o as- 
sento que se tomar se enviará ao Conselho. 

Lisboa 3 de setembro de mil seiscentos e quarenta e sete. 

Fr. João dê Yasooneelloêé Pêro da SUiíeira deFaria. Fratwiêop 
úardúso dê Tomoo, Panlúlêãú Raiz Pacheco. Dioffo dê Souta. Sê^ 
bastião Cêsar. 

ADMCESTAÇlO ANTES DA SENTENQA DO TORMENTO 

Aos seis dias do mei de setembro do anno de mil seisoentos 
e quarenta e sete, em Ljsbéa, nos estáus e casa do despacho da 
Santa Inquisição, estando abi em audiência da manhI,os Senhores 
Inquisidores mandaram vir deante de si ao padre Manoel de 
Moraes, r(^n preso, contido neste processo, e sendo presente lhe 
foi dito quo elle fora visto por pessoas doutas e de s& consci- 
ência, tementes a Deus, e que sô tratam da salvação das almas 
e de fazer justiça &s partes, e nelle se tinha tomado um assento 
tatito trabalhoso et^a exeeoç&o mal poderá soífrer, porque o 
fnaàdám para o tomientè, « por^tie dmte sd pcdeM livrai^ Mtt^ 



PROCESSO DB MANOEL DE MORAES 151 

fòssaodo inteiramente a yerdaie de suas culpas o admoestam 
com muita caridade da parte de Christô Nosso Senhor que, pondo 
de parte todos os respeitos humanos trate de assim o fazer, e por 
não responder cousa algmna lhe foi mandado lôr a sentença do 
tormento que adeante se segue. Domingos Este^s^ notário do 
Santo Officio, que o escrevi. 

AGCORDAM 

Accordam os Inquisidores, Ordinários, Deputados da Santa 
Inquisi^^ que vistos estes autos culpas e confissões do padro 
Manoel de Moraes, christão velho, sacerdote, natural da villa 
S. PaolOt do Estado do Brazil, réo preso, nelles contido, e os ur- 
gentes indicios quo delles o da prova da Justiça- Autor resultam 
de elle so apartar de nossa santa fó catholica e se passar aos 
erros de Calvino e fazer suas oeromonias, o como sendo por 
vezes muito admoestado com caridade quizesse confessar inter 
gralmente suas culpas para salvação de sua alma e seu bom 
despacho sem até agora o querer fazer; o que visto com o mais 
dos autos, Mandam que o réo Manoel de Moraes antes de outro 
despacho seja posto a tormento, conforme ao assento que neste 
seu processo está tomado, no qual será perguntado pela verdade 
de suas culpas para que as confesse para salvação de sua alma 
e desencargo de sua consciência e se usar com elle de miseri- 
córdia, o que assim mandam sem prejuízo do provado e por ollo 
confessado. Pêro de Castilho. Belchior Dias Preito, Luiz AU 
vares da Rocha. 

E lida, como dito ó, a sentença do tormento para o réu não 
appelar, nem o promotor do Justiça do Santo Officio, foi o réo 
mandado para a Casa do Tormento, de que de tudo fiz esto ter- 
mo. Domingos Esteves, notário do Santo Officio que o escrevi. 

NO TORMENTO EM 6 DE SETEMBRO DE 1647. 

Confissão 

E logo na mesma audiência na Casa c logar destinado para 
o tormento, estando nella o Sonhor Inquisidor T.uiz Alvares 
da Rocha e Deputado Bispo Targa quo servia de Ordinário, 
e Manoel Corte Real de Abranches, mandaram vir deante de si 



152 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

ao padre Manoel de Moraes, contido neste processo, e sendo pre- 
sente, lhe foi dado juramento dos Santos Evangelhos em que poz 
sua mão sob o cargo do qual, lhe foi mandado dizer verdade e 
guardar segredo, o que prometteu cumprir. 

Foi-lhe dito que pelo logar em que Obtava e instrumentos 
que nelle via» poderia entender a diligencia que com elle se 
queria íázer, e porque era trabalhosa e que mal poderia sofDrer 
e de tudo se poderia livrar confessando inteirameate a ver- 
dade de sua culpa, o admoestam com muita caridade da parte 
de Ghristo Nosso Senhor, trate de asâim o fazer e por dizer que 
queria confessar foi admoestado na forma do estylo do Santo 
Officioque dissesse somente a pura verdade não pondo sobre si 
fàJao testemunho, porque nesta Mesa se não queria outra cousa, 
e fazendo o contrario seria gravemente castigado, promettendo 
de assim o fazer e aocusandoHse: 

Disse que no anno de seicentos e trinta e sete, no flm deUe 
(porque era em dezembro) havendo perto de um anno que íôra 
tomado pelos Hollandezes e levado do Brazil para Hollanda, es« 
tando na cidade Hardrvick, na província de 6ueldria,com o trato 
e commnnicação que teve dos hereges calvinistas que povoam 
aquelles legares e justamente tentado da lascívia, se apartou 
de nossa santa fé catholica e teve crenga na seita dos mesmos 
calvinistas e logo tratou do se casar a seu modo, como em eíTeito 
se casou, primeira e segunda vez com duas mulheres também 
hereges calvinistas, na forma que tem declarado entendendo 
como entendem os ditos hereges que licitamente o podia fazer 
sem peccar, ainda de que fosse, como era e ó, sacerdote, encon- 
trando nisto as leis da egreja catholica romana que ahi se nio 
guardam, os quaes erros seguiu elle confitente coosa de ouatro 
annos, pouco mais ou menos,en tendendo que ia bem encaminhado 
para salvado de sua alma em seguir e crôr nos ditos erros da 
seita de Galvino, e que neste tempo ia elle confltente algumaa 
vezes com os hereges ás suas egrcjas e ouvia suas prédicas, ae 
quaes rezam em hollandez os psalmos de David, segundo ellee 
diziam, porque elle confltente não sabe a lingua dos ditos Hol* 
landezes, e alguns que sabiam latim lhe declararam que aquelles 
psalmos eram os psalmos de David, e não sabe se diziam no fim 
Olaria Patri ou nio, mas sabe que os ditos Hollandeses orem no 



PROCESSO DE MANOEL DE MORAES 153 

mysterio da Santíssima Trindade e baptisam in nomine patris 
ef filii et spiriius sanctis^ e para elle conâtente ouvir e correi- 
ponder com a dita reza etenç&o dos Hollandezea, reasaTa pelo seo 
breyjario os psalmos de David, sem rezar, nem íkser caso, do 
Oíficio Divino e horas canónicas, a que por clérigo estava obri- 
gado, seguindo at6 nisto os ditos erros daqaelles hereges, e nos 
dias prohibidos comia muitas vezes carne, como elle; comem, 
mas nunca commungou ao seu modo, que é darem pSo aos que 
8c põem á mesa em memoria da Ceia do Senhor. E passado o 
dito tempo chegando áquellas partes o embaixador Tristão de 
Mendonça, elle confitente lhe foi falar, arrependido dos ditos 
erros e tornado de todo o coração á nossa santa fó catholica ro- 
mana, e lhe pediu que o quizesse trazer comsigo a este Reino e 
liaver-lhe perdão do Santo Offlcio, ao qual elle confitente se 
queria vir apresentar, e por o dito embaixador duvidar e o não 
qierer trazer, elle confitente se apartou da segunda mulher com 
quem então estava, e foz a mesma diligencia com o outro em- 
baixador que se chama Francisco de Andrade Leitão, o qual lhe 
disse que lhe desse uns apontamentos e que escreveria cá ao 
Reino, e neste meio tempo chegou nova áquellas partes de elle 
confitente ser relaxado em estatua polo Santo Offlcio, com o que o 
dito Francisco de Andrade duvidou de se metter na matéria. £ 
então recorreu elle confitente a um commissario de Sua SantU 
dade que se dizia ter poder para absolver de todos os casos, e 
lhe deu conta de todas suas culpas, de que o dito commissario 
o absolveu, mas não se escreveram, porque ahi residem aquelles 
conmiissarios escondidos, e tudo fazem em segredo, por se não 
descobrir o intento de suas commissoes, e o dito commissario 
lhe deu um papel que elle perdeu, na forma que tem referido em 
suas confissões, e de então para cá foi sempre firme e fiel catho- 
lieo romano, e crê que na dita seita de Calvino não pode haver 
ssJva^ para a alma e que só esta ha em nossa santa fó catho- 
lica romana. E que de haver cabido nos ditos erros está muito 
arrependido, e delles pede perdão e misericórdia, porque como 
fraco, e com o màu exemplo daquellos herege«« cahiu nt^s ditos 
erros, e que não confessou estas culpas mais cedo, por se fiar na 
dita absolvição daquelle commissario, com a qual se dava por 
seguro na consciência. £ mais não disse, e sendo-lhe lida esta 



154 RBYISTA DO INSmTUTO HI8T0R]CX> 

floMo por elle oaTida e entendida, disse eitaTa escripia na Tor- 
dade, e aeslgnoa eom 00 ditos Senhores. Domingos Estoves notá- 
rio do Santo Offloio que o esorevi. LuU Alvar $$ da Rocha. Bi$po 
de Torga. Manoel Gârte Real de Abranches. O licenciado MÊà- 
noéí de Moraes* 

RATIFICA9I0 AD BANCUM. 

Aos nove dias do mez de setembro do anno de 1647, em 
Lisbda, nos estáus e casa do despacho da Santa InqoisigSo, es- 
tando ahi em andiencia da manhã, os Senhores Inquisidores man- 
daram Tir deante de si a Manoel de Moraes, réo preso contido 
neste processo,e sendo presentejhe foi dado juramento dos Santos 
Evangelhos em que poz a mão, sob cargo do qual lhe foi mandado 
dizer yerdade e guardar segredo, o que tudo prometteu cumprir. 

Perguntado si está lembrado da conflssão que fez em seis 
deste mez na Casa e- logar do Tormento, disse que lembrado 
estava, e para melhor assentar lhe foi lida a dita confistiLo di- 
zendo-se-lhe mais que ao que agora disser, pois está livre do 
dito tormento, se dará inteiro credito e sendo por elle ouvida e 
entendida a dita confissão, disse que era verdadeira, e pede que 
á mesma se d6 credito, e a elle réo, misericórdia de suas culpas, 
de que está muito arrependido de todas e muito firme em nos» 
santa Í8 catholica romana, na qual ha de permanecer até mor- 
ret.E mais não disse e, sendo admoestado em forma, foi mandado 
aoseu cárcere e assignou com os ditos Senhores.Domln^ Ssieves 
notário do Santo Offloio que o escrevi. Pedro de Castilho. ImU 
AíwíTes da Rocha. O licenciado Manoel de Moraes. 

Estando o proceso nestes termos o fiz concloso afinal de man- 
dado dos Senhores Inquisidores. Manoel Alvares Migueis o e^ 
crevi. Conciuso. 

ASSENTO 

Foram vistos 2* vez na Mesa do Santo Offlcio em 10 de se» 
tembro de 1647 estes autos culpas e confissões do padre Manoel 
de Moraes, réu preso, contido nestes autos e depois de ser le» 
vado ao logar do tormento para nelie se executar, ha oonflasio 
que ultimamente alli M. E pareceu a todos os votei que vMo 



o Téo eoníéssar que tôrtk berega apóstata de nossa santa íô ca* 
tholica apartando-se delia, e passaodo-se & seita e erros dos he- 
reges calThiistas, fazendo suas ceremonias, e tendo-a por bOa, e 
verdadeira, e assentar bem na crença dos ditos erros qne Sabia 
serem oontra o qne tem, crê, e ensina a santa madre egreja de 
Roma, e afirmar qne tem deixado os ditos erros e qne ô firme e 
fiel cathoUeo romano, estavam suas confissões em termos de 
serem recebidas, a elle réo ao ^mio e união da Santa Madre 
EgT^, com cárcere e habito penitencial perpetuo sem re- 
miasSo, e visto ter sido relaxado em estatua o levassem com in- 
sígnias de fogo ao auto publico da fé, e nelle ouvisse a sua sen- 
tença e abjurasse seus heréticos erros em forma, e que como he- 
rege e apóstata da nossa santa fó eatholica incorreu em sentença 
de ezcommunhão maior (da qual ser& absolnto), e em confis- 
cai^ de todos os seus bens applioados, a quem de direito per- 
tencerem, e nas mais penas contra os semelhantes em direito 
estabdeeidas; e que fosse para sempre suspen«fO de snas ordens, 
e qne tenha sua instrucçSo ordinária, e penitencias espirituaes. 
E que a confiscac^ deve correr desde o mez de dezembro do 
anne de 1637 por saa confissão, e pela prova de justiça desde o 
tAmpo contido no assento da Mesa em seu primeiro processo. 

E que se não deviam executar neste rôo as penas do Regi- 
mento Livro 3 Titulo 15 Paragrapho 6 impostas aos clérigos de 
ordens sacras que se casam na forma do sagrado concilio Tri- 
deotino, visto como esta faltou nos dons casamentos do réo e 
principalmente por elle j& entio ser hereje, e este crime de he- 
resia como maior, absolvem todos os mais que o réo jA herege 
oommetten. Mas que antes de se executar este assento, seja com 
os autos levado ao conselho geral na forma do Regimento e 
Mstir pelo ordinário sede mcante com sua commissão o depu- 
tado Bispo de Targa. Pedro de Castilho. Belchior Dias Pretto. 
Luiz Alvares da Rocha, O bispo de Targa. João Delgado Figueira. 
Francisco de Miranda Henriques. António de Mendonça. D. Leão 
rfe Noronha. Martim Affonso de Mello. Manoel Corte Real de 
Ahranches, 

De mandado dos senhores Inquisidores fiz este processo con- 
einso em os dez dias do mez de setembro de 1647. Diogo yi^hó 
ftts o eselfevi. Oônòltisõ* 






156 RBVIBTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

■ %, 

CONFmiIAÇÃO DA SENTENÇA 

Foram vistos na Mesa do Conselho estando presentç o Iliiis- 
triísimo Senhor Bispo Inquisidor Qeral estes antos, eulpas e oon- 
flssões contra o réo láanoel de Moraes, sacerdote* christSo velho* 
natural de S. Paulo, do Brazil, nelles contido, e a confissão que 
fez depois do assento do Conselho por que foi mandado pelo tor- 
mento e assentou-se que ô bem jalgado pelos Inquisidores, ordi* 
nario, e depntados em determinarem, qae elle seja recebido ao 
grémio e uníSo da Santa Madre Igreja com cárcere e habito 
penitencial sem remissão ; S que vá ao auto publico da <é na 
forma acostumada, levando o habito differenciado oom insígnias 
de fogo ; e nelle ouça sua sentença e abjure seus heretioof 
erros na forma em que incorreu em sentença de excommunhãp 
maior da qual ser& absoluto, e confiscação de seus bens parm 
quem de direito pertencer, e nas mais contra os hereges estabe- 
lecidas, e que seja suspenso para sempre de suas ordens, ins- 
truído nas cousas de nossa santa fó e tenha penitencias. Con- 
firmam sua sentença por seus fundamentos, e pelo mais dos 
autos. Mandam que assim se cumpra e dô a ezecuç&o. Lisboa. 
10 de Setembro de 1647. Frei João de VasconceUos. Pêro da 
SUva de Faria, Francisco Cardoso de Tomeo, PanUUeão Róis Pa^ 
checo, Sebastião César, 

SINTENÇA 

Accordam os Inquisidores, Ordinários, Deputados da Santa 
Inquisição que vistos estes autos, culpas e confissões de Manoel 
de Moraes, sacerdote iheologo, natural da villa de S. Paulo, 
estado do Brazil, residente que foi nas partes do Norte, preso, 
que presente est& por que sendo christão baptisado, e como tal 
obrigado a ter, e crer, tudo o que tem, crô e ensina a Santa 
Madre Egreja de Roma, elle o fez pelo contrario e houve infor- 
mações na Mesa da Santo OflScio que de certo tempo a esta parte, 
sendo já sacerdote religioso de oerta religião se passara para os 
Hollaodezes, e se apartara de nossa santa fó catholica e seguira 
a seita de Calvino, e se ausentara para certo logar das ditas 
partes do Norte, onde vivendo em traje de soldado se casara 
publicamente oom pessoas da ditaseita, publicando-se por crente. 



PHÒCSSdÒ DÈ 14AN0BL DB MORABS 157 

e observante delia, frequentando, e approvando, como tal, a« 
prédioas dos ditos hereges, comendo carne nos dias prohibidos 
péla ^Krf(}a, estando são, e bem disposto : E por todo o sobre- 
dito ser publica voz para atalhar o escândalo que os fieis chris- 
tio8,dellereoebiame excitar o réo a que tratassede súa salvação, 
por não poder ser preso, nem citado pessoalmente no logar em 
que residia, o foi por carta de éditos a requerimento do Pro- 
motor fiscal do Santo OfSoio assignando«se-lhe termos competen- 
tes para se yir apresentar, e confessar as ditas culpas, ou defen- 
der-se delias, e mostrar sua innocencia ; e por não comparecer 
nos ditos termos passados elles, veiu o dito Promotor com libello 
criminal aocnsatorio contra elle, que lhe foi recebido ã sua re- 
relia, e notificadas as testemunhas da Justiça na forma de direito 
* se íès publica^ de seus ditos conforme ao estylo do Santo Offl- 
do, e guardados os termos de direito, e feitas as diligencias ne« 
oessariaSf seu feito se processou atô final conclusão. £ visto na 
Mesa do Santo Offlcio, e a sufflciente prova de Justiça-Antor, 
numero, e qualidade das testemunhas, e como o róo não con- 
parecera, do que se colhia que queria permanecer na damnada 
crença da dita seita de Calvino, se assentou que estava conven- 
cido no crime de heresia, e por herege de nossa santa fé foi 
julgado e pronunciado, e que tinha incorrido em sentença de 
exoommunhão maior e confiscação de todos seus bens applicados 
para quem de direito pertencessem, e mais penas contra os simi- 
Ihiantes estabelecidas e foi exduido do grémio e união da Santa 
Madre EgrciJa e em detestação de tão grave crime foi relaxada 
a sua estatua ã justiça secular, no auto publico de fó que se ce- 
lebrou nesta cidade, em os seis dias do mes de abril do anno de 
1642. B sendo depois o róo achado em terras do senhorio deste 
Reino íbi preso pelas ditas culpas e trazido aos cárceres do 
Santo Offlcio e sendo com caridade admoestado as quisesse con* 
ftssar para desencargo de sua consciência e poder ser tratado 
com misericórdia, porquanto havia logar de lhe ser concedida, 
nio obstante a dita sentença que contra elle se havia pronun- 
ciado á revelia, disse e confessou que de certo tempo a esta parte 
asado captivo pelos HoUandezes e levado ás ditas partes do 
Morte por occasião do trato e communicação que tivera com os 
lioreges calvinistas e vencido juntamente das tentações de las- 



ifí8 mV)(&TA PO QUOTWUTO HlftTOfUCQ 

eivia, e afpetitêe&Fnal, ie apartara de nossa santa fé catbolica 
e se passara ft seita de Calvino, e logo tratara de se casar, como 
em effeito se casara primeira e segunda vez pelo modo com o 
qae o íkizem os professores da dita seita com mulheres qae tam- 
bém a professaTam, entendendo entSo que licitamente o podia 
fáier sem embargo de ser sacerdote e de encontrar por este 
modo as leis da Bgreja cathoUca romana, e qae nos ditos erros 
e seita persistira por tempo de quatro annos tendo para si qae 
ia bem encaminhado no tocante á salra^ da alma, e que no 
dito tempo continuaTa nas egrejas dos hereges assistindo as suas 
prédicas e reias qae constam dos psalmos de David, por elle réo 
nio entender nem saber pronunciar a lingua daquellas gentes, 
por satisftiaer oom a reia e ten^ dos ditos hereges rezava os 
mesmos psalmos de David em lingua latina, e nio rezava nem ' 
fiuia caso da obrigagio do oAcio divino, segalado também 
nisto os ditos hereges, e comia carne nos dias prohibldos como 
elles oostumam comer, e nio oria nos Sacramentos da Santa Ma- 
dre Egrsja, (excepto o do baptismo) nem os tinha por bons e r&r* 
dadeirose necessários para salva^^ d*alma, nem se conliossaT» 
porque os ditos hereges têm por ^usa infame o diSMf um homem 
seus poooados a oatro e tôm para si qae basta diMrt^oi a Deoflt 
nem tinha então por peocado o tor crença na dita seita potlo 
que entendia qae era opposta em muitas cousas á nossa santa 
fé catholica romana. B que passado o dito tempo de quatro 
anos oom remorsos que sentira na consciência ententendo qae 
lhe ílBuia Deus mercê de lhe abrir os olhos d*alma recorrera a 
certo oonílBS^or e lhe dera conta do estado em que se adiava, e 
logo tratara de se passar a terras de cathoiicos como em elltoito o 
fizera oom animo de se ir apresentar no Santo Offlcio e qae disw 
tratava ao tempo em que fora preso : O que tudo visto oom O 
mais que dos autos consta declaram que o réo Manoel de Morsei 
fbi herege apóstata de nossa santa íé catholica e que incorreo 
em sentença de ezoommuiihSo maior e conflscaçSo de todoe seas 
bens para quem de direito pertencerem e nas mais penas em di- 
reito contra os semelhantes estabelecidas, porém visto oomo 
usando o réo de melhor conselho reconhecendo seus erros, pro« 
eoroa ir se apresentar na Mesa do Santo Offlcio recorrendo para 
sMe eflUto éi psMoas aalholioie e de autoridade, a sendo ftmú 



antes de o poder fazer ooafessoa suas culpas com mostras e st^ 
goaes de arrepeadimento pediado delias perdão e miserioordia 
oom o ma|s que dos autos resulta, Recebam o róo Maaoel de Mo- 
raes ao grémio e uuiâo da Siuta Madre Egreja. como pede e 
Mandam q.ue em pena e penitencia de suas culpas yé, ao autç 
publico da fé na forma costumada e nelle ouc& a sua sentença, 
e zXinte seus heréticos erros em forma, e lhe assignam carcer^ 
e habito penitencial perpetuo sem remissão, que levará com insí- 
gnias de fogo e o suspendem para sempre de suas ordens e serft 
Instraido nas cousas de nossa santa fó necessárias para a salTa- 
ç^ de soa alma, e cumprirá as mais penas e penitencUMi espiri- 
tuaes que lhe forem impostas e Mandam qoe da excommunhSo 
em que incorre seja absuluto m forma ecclesice. — Luiz AJhares 
ia Rocha. Pedro de Castilho^ Belchior Dias Preito. 

PUBLICAÇÃO 

Foi publicada a sentença retro prosdma do rte Manoel de 
Iteaes ao auto publico da íé celebrado ao Terreiro do Paço (l^stl^ 
ddade de lisbôa, domingo quinze dias do mei de de^embrp dç 
miinieoeatas e quarenta e seteannos. 

Goipar Clemente o escnrevi. 

ABJU&AÇIO IN FORMA 

Eu Blanoel de Moraes, perante vós senhores Inquisidores, 

Juro nestes Santos Eyangelhos em que tenho minhas mãos, qu0 

de minha própria e livre vontade anathematizo e aparto de mim 

toda espécie de heresia que fôr ou se levantar contra nossa santa 

fó catholica e Sé Apostólica especialmente estas em que cahi e 

que agora em minha sentença me foram lidas, as quaes hei por 

repetidas aqui e declaradas, e jçro de sempre ter e guardar a 

santa fó catholica que tem e ensina a Santa Madre Egreja de 

Roma. £ que serei sompre mui obediente ao nossQ santo padre 

Innocencio, ora presidente na Egreja de Deus e a seus succes- 

sores, e confesso que todos os que contra esta santa £â catholica 

vierem são dignos de condemaação, e Juro de nunca com elles 

me ajontar e de os perseguir e descobrir as heresias que delles 

souber aos Inquisidores ou Prelados da Saniji Madx^ S^eja, e 



160 RBVISTA ÍX) INSTITUTO HISTORIGO 

Juro e prometto qaaato em mim ÍOr de oomprir a penitencia 
qne me ò oa fOr imposta, e so tornar a cahir nestes erros, oo 
•montra qoalqaer espécie de heresia, qaero e me pras qne sc^a 
haTido por relapso e castigado conforme o direito, e si em algom 
tempo constar o contrario do qne tenho confessado ante vossas 
meroôs por meu Juramento, quero qne esta absolrição me não 
Talha e me snbmetto & seTeridade e correc^ dos Sagrados Câ- 
nones e requeiro aos notários do Santo Offlcio que disto passem 
Instromentos, a aos que estilo presentes sejam testemunhas e as- 
sifiwm aqui oommigo. Asslgnaram como testemunhas Frmneiseo 
DiM, RmmM o e Joõò Mènd4$éeyaso9nceUos. Oaspar CIêmenU o 
Wàmstwi. MnkúH de iíoratt. 

rSMMO BB SBGRKDO 

Aos 16 dias do mei de deaamhro de 1^7 annc», em Li^ôa, nos 
estios e casa do despacho da Santa ínquMl^,estando ahi em an- 
dieMÍadamanh&,Qs Senhores Inquisidores mandaram tít peran- 
te si. do oareere da Penitencia, a Manoel de Moraes, réopnm, 
contido neslB prcoeeOK», e sendo presente lhe fhi dado jvameBto 
dos Sanios Erangelhos em que poi sua mio e sob cargodello Ibi 
mandado tenha muito se^rreio em todo o que tíu e ouriu nestes 
oaroarss e com elle se passou acerca de seu processo, e nem por 
paiaTra, nem i»snpto« o descubra, nem por outra qualqoer Tia 
q«e ti^ sob pena de $er gr» Temente castigado* o que xmdo 
eito pMmellea cumprir ;sob carg» do dito juramento de qoe se 
lha «M ter«ii> de maniaio dos diu» Senhúrvs;, que asrignou. 
fJ^Hfyu' CUaMHlt o SUbscrSTi* M/m^ni dê Ifonstft . 

OQBftJLS 

Rasa 1»» 

CarUs ãâO 

Au%e4»teotxi^ âSI>--Si> 

>landaAx 3» 

T>srtM 14> 

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OiHOiè «m 

Affc^ea ««%•••••*• via 



PROCESSO DE MANOEL DE MORAES 161 

Publicação 035 

loquirição 020 

Assentada 026 

Soxti parto 070 

3.415 

Libelio 900 

Secretario do CjQselbo 2(X) 

Procurador Cunha 2000 

PeiTâo 1000 

Solicil 220 

Estovam da Ckwia tOO 

Meirinho 100 

Conta 144 



8.179 



PERNAMBUCO 



Ao Commissario Matheoa do Souza Uchda 300 

Ao Padre Manoel Roiz 423 

Aquenicham 150 

9,052 
Ao todo nove mil o.ciQcoonta e dois. Silva 

TERMO DAS PENITENCIAS 

Aos onze dias do mez do Janeiro do anno de mil aeis centos e 
quarenta o oito, em Lisboa, nos esUlus e casa do despacho da Santa 
Inquisição, estando ahl em audiência da tarde, os senhores loqui 
sjdores mandaram vir deanto de si a Manuel de Moraes, contido 
neste processo e sendo presente lho foi imposto quo, em pena 
o penitencia de suas culpas, faria as ospírituaes seguintes, a 
siber: se confessaria nas quatro festas principaes do anno. Natal, 
Paschoa de Flores, do Kspirito Santo e Assumpção de Nossa Se- 
nhora ; e nellas ncãocoramunj^.iria sem licença desta Mesa, e todos 
os sabbados rezaria o rozario à Virgem Nossa Senhora, e em cada 
mez jejuaria uma sexta feira á Paixão de Christo, tudo por es- 
paço de um anno primeiro seguinte, no íim do qual mandaria 

'2311 — 11 TuMU LXX. P« !• 



1§2 REVISTA EO INSTITUTO HISTÓRICO 

c ertidão i^ psia Mesa do como assim o tinha feito pan se acostar 
a seu processo, o lhe assigoavam por cárcere esta cidade donde 
se não sabiria sem licença da Mesa, o assistiria na Egreja de S. 
Lourenço á missa da 3* nos domingos e dias santos, e nâo traria 
sobre seus vestidos ouro, nem prata, nem seJa, nem andaria ^em 
besta de sei la, nem traria espAda, o quu tudo prometteu cum- 
prir, debaixo do juramento dos Sau tos Evangelhos em que pos 
sua mão, do quo tudo fiz este termo que o róo assignou. Do* 
mingos E$t$ves que o escrevi. Manoel de Moraes. 

PARBCER 

lilustrisstmo Senhor. 

O padre Manuel do Moraes foi relaxado em estatua, no auto 
que se celebrou nesta cidade em os 6 de abril, e no de 15 do mes 
passado, levou habito penitencial com insígnias de fogo. 

Parece-nos que Vossa Senhoria lUustrissima lhe não defira 
visto o estado a que chegou a publicidade e escândalo de sua 
oaosa e o pouco tempo que ha se lhe publicou sua sentença vossa 
senhoria iilustrissima mandará o que fòr servido. Lisboa, em 
Mesa, em 14 de janeiro de 1648. Luiz Alvares da Rocha. Belchior 
Dias Preito. Pedro de Castilho. 

DESPACHO 

Dispensa«âe com o Supplicanto para quo não vá com o habito 
a lo^ar publico, como pede. Lisb^, 14 do janeiro de 1648 (com 
quatro rubricas) 

NOTIFIOAVÀO 

Aos doxesote duis do mez do janeiro de mil e sois centos e 
quarenta o oito aunos so dou noticia a Manoel de Moraes do 
despacho atraz d(»s Souhoivs do Cooselho. i/cnuk/ .l/oaivj ilj- 
jf«i#»« o escrevi. 

PETIÇÃO 

Illustris^iaio e Revorendi<»imo Senhor. 

Di/ o liconciailo M:inool d* Moraes, chri$tâo volho, preso eai 
09 cárceres de ponitouci.x do Santo (orneio, que depois de vir dò 
auto da saota fo, com as instgnia.s do fo^^o, lhe foi mandado ao 



PR0GB8S0 DB MAN0BL TM MÒRAB8 16d 

dito earoare oode está oom o habito penitencial, e porque está 
muito contricto e airepondido do crime que commetteu com mos- 
tras de bom e exemplar sacerdote, promettendoa Deus, e a Vos- 
sa Senhoria Iliustrissima nonca mais reincidir em semelhantes. K 
jantameste é tão doente de asthma continua, gotta e outras 
eafermidades que não tem um dia de saúde, aotes passa oom 
muito trabalho, e por ser peregrino e pobre padece outras mui*» 
tas necessidades. 

Pede a Vossa Senhoria Hlustrissima, e mais Senado, se com- 
padeçam delle Supplicante, e não vá á vergonha com o dito ha- 
bito oom os mais, commutandose-lhe a dita penitencia em 
outras penas, por ser chrisfôo velho e cheio de tantas doenças 
e vitupérios. E receberá grande mercê e esmola, o que pede 
pelas cinco chagas preciosissimas de Nosso Senhor Jesus Christo. 
O licenciado Manoel de Moraes. 

TERMO 

Aos vinte o sete dias do mez de Janeiro do anão de mil e 
seiscentos e quarentii e oito, em Lisboa, nos estáus e casa do 
despacho da Santa inquisição estando ahi em audiência de manhit 
os Senhores Inquisidores mandaram vir deante si a Manoel de 
Moraes, contido neste processo, e sendo presente, lhe ft>i dito que 
Soa lUostrisissima havia por bem de lhe conceder licença para 
poier commungar uma vez em cada mez, e que assim o podia 
fozer de conselho de seus confessores, de que os senhores Inqui- 
lideres mandaram fazer este termo. Domingos Bsteveso escrevi. 

PARECER 

Uiuiitrissimo Senhor. 

O padre Manuel de Moraes contido na petição inclusa abju* 
i*ou DO auto da fé próximo pa.ssado culpas da seita de Calvino, 
porém Vossa Senhoria Hlustrissima houve por bem fazer-lbe 
Diercè de dispensar com ollo de que trouxesse habito penitencial 
^ de lhe dar licença para commungar uma vez em cada mez por 
'B tor inteira satisfação de sua conversão ; não tem parentes 
tt?8te Reino, nem temos noticia que pessoa alguma lhe acuda, 
&Qtes se queixa que por ser sua culpa mais extraordinária 



164 revista' DO INSTITUTO HISTÓRICO 

e na sua pessoa mais do extranhar não ache nos fieis a piedadA e 
esmola que oostnmam, achar os mais convertidos, o que em 
razão tudo padece excessivas necessidades. 

Parece nos por todo o sobre dito que Vossa Senhoria lUuairis- 
sima deve fazer mercê ao dito Manoel de Moraes de lhe dar li- 
cença para so poder ausentar do Reino para qualquer provincia 
de Catholioos que melhor lhe estiver para i*emediar suas neces- 
sidades. 

Vossa Senhoria Iliustrissraa mandará o que fôr servido. 

Lisbò^ em Mesa do Santo Ofiicio a 10 do março de 1648.— 
Luiz Alvares da liocha^ Belchior Dias Prélio, 

DBSrACUO 

Como parece. Lisboa, 10 de março de UMS. (Com4ru. 
bricas). 

PETIVÂO 

lliustrissimo Senhor. 

O padre Manoel de Moraes que a elle Jhe foi ordenado, que 
sem licença do Santo Oflicio nãosahisse fora deste Reino de Por- 
tugal, no qual elle por estar suspenso do suas ordens e seus bens 
serem confiscados se não pode sustentar, antes está padecendo 
tantas necessidades, que com ser muito doente de varias enfer* 
midades, dorme sobro uma estcim sem colchão, ou enxergão 
algum, coberto só com seus pobres vestidos, com notável damno 
de sua sailde, sem ter quem o soccorra, como constará si se Ibe 
ílzor diligencia. 

Peio que pede a Vossa Senhoria e ao Reverendo Senado lho 
dóm licença pira sahir fora do Reino, e so ir a alguma pro 
vincia catholica onde poss:i viver com mais commodidade. 

£. R. Esmola e Mercê. 

DB:<PACIIO 

Informem os Inquisidores de Lisboa com seu parecer. 
Lijb(>a3 de marco \(>4^. 
{ Com 4 rubricas ). 



PROCESSO DE MANOEL DE MORAES 165 

TERMO DB NOTIFICAÇÃO 

Aos dez dias do mez de março do anno de mil seicentos e 
quarenta e oito, em Lisboa, nos estàus e casa do despacho da 
Santa Inquisição, estando ahi om audiência da tarde, os Se- 
nhores Inquisidores, mandaram vir deanto si ao padre Manoel 
de Moraes contido neste processo e sendo presente lhe foi dito 
que e!ie se podia ausentar, para qualquer parte do Reino, como 
fosse de catholicos, de que tudo fiz esto termo. Dominíjos Es- 
teves ^ notário que o escrevi. 



^RCHIVO DA TORRE DO TOMBO. INQUISIÇÃO DE LISBOA N. 4.847. 

KSTÁ CONFORME O ORIGINAL. Nortval Soares de Fieiías, 



PRISÕES CLANDESTINAS 

(sb<:i;lo xviir ) 



Oosiisollxelir^ 9'^mí^ jyKc^tm^m: 



DR. LUIZ ANTÓNIO FERREIRA GUALBERTO 



170 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

crimes execráveis e cabido no desagrado de Sua Magestade, e 
qne a escolha (\o cárcere o a forma de sua reclusão dependiam 
do parecer o arbítrio delle José Mascarenhas ; e que este nio 
trepidou em afflrmar que pelo quo sabia, as enxovias mais 
seguras c mais aíQictivas eram as da illia das Cobras. 

Convidou -o Gk)ines Freire a ir em sua companhia k referida 
ilha o designar o calabouço para ser nelle encerrado o criminoso 
do que lhe falara, o José Mascarenhas, provando mais uma vez 
a dureza de seu coração, preferiu o mais estreito, húmido, im- 
mundo e escuro cubículo, opinando que ao preso se applieasse 
gargalheira ao pescoço e grossas correntes aos pós. Ponderando- 
lhe Qomes Freire que lhe parecia demasiado severa a sentença, 
eztranhoii Mascarenhas quo se mostrasse compassivo para com 
um miserável que Sua Magestade mandava castigar rígorosa- 
mente, adiantando- lhe que a indulgência incitava a perpetração 
do novos crimes, e somente o terror conseguia que 80 não 
commettessem e repetissem . 

Admittiu-ihe o Governador a advertência e a reprehen4U> e 
declarou-se lhe que trataria dolle próprio, ordenando-lhe ifieon- 
tinentí que se recolhesse á masmorra indicada o rec^^heasíft o 
castigo por ello mesmo decretado. 

Eis summariamente a substancia do artigo do conselheiro 
Pereira da Silva, ondo ainda afflrmava quo José Mft.<«arenha9 
esteve no calabouço da ilha das Cobras, dosde 1750 kíA 1777, 
achando natural quo assim snccedessn, pois era esse o local 
reservado particularmente para a reclusão do presos políticos. 

Não ncr^eitou o commandante Garcez Palha a ôarrativa que 
foz Pereira da Silva da prisão de .fosó Mascarenhas o publi- 
cando no artigo quo lhe oppoz a carta do 1 1 agosto de 1759, 
que do Rei rocobeii o condo do Robadella e a do mesmo a 
Francisco Xavior de Mendon'v\ Furtado, procnron demonstrai 
quão invoridioa ora ii comodia que so suppôe ter ropre^entaito 
o condo do Hobadolla. 

Estudando as causas que pudori am ter levado a ministro a 
ordenar m«'didas tào severas e rigorosas a quem lhe havia me- 
recido tanta cí»nflançn, acredita o commandante Garcez Palha, 
levado pelo estudo o dolnccnos de Cainillo Ca??tollo Branco, 
« qne foi a ma^^ia das letras o aljysmo da.s academias que sorveu 



PRISÕES CLANDESTINAS 171 

aquelle martjr peias fistaces de uma masmorra ; sua demora na 
aihia« soa negrligoDcia em assistir ao Vioe-Roi, tendo sido consi- 
deradas parcialidade Jesaitica e d'ahi a inconfidência — falta de 
fidelidade ao rei a que allude a memoria de Gamilio Castello 
Branco». 

Garcez Pallia para demonstrar principalmente que o focto 
de que se trata não poderia se ter passado no Rio de Janeiro, pa« 
blica a carta do Oonde de Bol)adella a Francisco Xavier de Men- 
donça Fartado, de 13 de março de 17Ô0, em que allude & carta 
que do Governador de Santa Catliarina recebeu, dando conta 
da prisão de Josó Mascaronlias na fortaleza de Anhatomirim. 
O ponto da questão quo Garcez Palha procurou esclarecer 
era que Bobadella não se prestaria a representar a comedia a 
que so referem José da Luz Soriano o Pereira da Silva, sendo 
para elle questão secundaria ter sido Mascarenhas encarce- 
rado nesta ou naquella fortaleça, e isto o foz á evidencia. 

O que me propuz resolver na Memoria que ora apresento 

ao instituto foi saber qual tinha sido c o preso de Estado que 

apezar de tratado com toda a consideração, estivera encarcerado 

na Fortaleça de Santa- Cruz, em Santa Catharina, e que ahi 

fura conservado quasi incommunicavel durante o período do 

governo do Marquez do Pombal». Esta indicação foi feita ao 

Instituto Archeologico Pernambucano pelo Commendador Car- 

neiro da Fontoura e consta do n. 39 da Revista do mesmo 

Instituto. Gomo estivesse em Santa Catharina e fosse sócio 

daquella antiga sociedade, procurei por todos os meios escla- 

i^ecer esse interessante assumpto e depois do muitas posquizas 

e indagações pude reunir os documentos que agora apresento, 

^ndo alguns delles publicados peia primeira vez. 

Não sabemos em que documento se fundou o Commendador 
^vneiro da Fontoura para apresentar a sua proposta, o quo, 
Por^m, temos por seguro 6 que ella até hoje não tinha tido 
soluto e que esta importante occurrencia da njssa Historia 
Colonial precisava ser estudada e esclarecida. Demais o Insti- 
tuto Archeologico Pernambucano ai legou no relatório do seu 
Secretario, lido em 27 do janeiro de 1884, que versando a pro- 
posta sobre um facto occorrldo om wSanta Catharina, ao Instituto 
Histórico e Geo;^raphico Brazileiro competia interpor o sou pa* 



172 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

recer a reapoito, visto sor o fim do lostitato Archeologko w- 
stricto ao estudo da historia das províncias qae formavEm u 
aotígas capitanias de Pcroambaco o liamaracá. 

Nada, pois, mo será tão agradável do que procurando aacla- 
rdceresi) interessante assumpto vir ainda concorrer para que 
o Instituto Histórico Brazileiro forneça os esclarecimentoe pre- 
cises À operosa instituição congénere para a soluçio daqoelU 
proposta que, embora não llio tivesse sido ofldcialmoate com- 
raettida, foram, entretanto, esses os votos do seu illustre Secre- 
tario. 



11 



Dos documentos por mim colligidos o que vão adeanto pu- 
blicados so deduz quo José Mascarenhas chegou ao Rio de Ja- 
neiro, vindo da Bahia cm ?8 de dezembro do 17õ9, corto de que 
iria desempenhar nova c importante commissão, acecntuando- 
80 ainda mais em seu espirito esta con vícção ao receber, no dia 
immodiato á sua che<}:ada, uma carta do Conde do BobadoUa em 
quo lhe dizia o esperava ás 3 horas da tarde em Palado, para 
participar- lho as ultimas ordens que do Sua Magestadc havia 
recebido. 

As ordens, aliás secretas, que o Conde havia rocobido da 
Metrópole o que so continham na carta regia do 14 do agosto 
do 17511 eram claras. oxplicit:xs o terminantes. Mandava diter 
Rua Magostado € que logo quo a rocebossr» fizesse vir a sua 
presença .losc'* M.iscarenlias, o usando dos especiosos pretextos 
Ha intlisponsavel necnssida<ie do se promovt^rom por pr^ssoa hábil 
os utilissimoH e;;tabolo(;imentos das novas colónias quo tinha 
mandado fazer na illia do Santa Catharina, o de sor menos ne- 
cessária a sua presença nessa Cidade depois das ultimas ordens 
que mandou exiiodir para o sequestro «reral de t^xios os bons, 
rendas ordinárias e pensões pertoncont<'S aos religiosos j(«iil tas, 
lhe intimasso no s(m real nome para quo so paasasse a sobre- 
dita ilha, na primeira embarcação que se oíTerecesse, empre- 
gando, si neco»«ario fosse, os meios de cojicção ; mandando o 
escoltar por oílloial de confiança o suíficiente numero do soldados 
qne, a titulo de outras diíTerentes diligencias o conduxam em 



PRÍSÕES CLANDESTINAS 173 

segura custodia á referida ilhae nella o apresoniem a D. José 
de Mello Manoel.» (!) 

Para bem so compreheDdor a causa determiaaDto desta es- 
candalosa prisão o a da corrospomioncia secreta que pela raesma 
foi motivada, preciso é cstudar-se a conducta do José Mascare- 
nhas na Bahia, no desempenho da honres \ commissão que lho foi 
confiada pela Carta Regia do 8 do maio de 1758, quo o nomeou 
como premio e galardão aos bons serviços pi^cstados ao rei, na 
famosa devassa mandada proceder no Porto, por occtsião do mo- 
tim occorrido em 23 de fevereiro do 1757, na mesma cidade. 

Sabe-so por Ignacio Accioli (2) quo Pacheco Pereira elie- 
gara Á Bahia, aSl de agosto do 1758, incumbidos cile e António 
de Azevedo Ck>utinho, pela Carta Regia do 20 do abril do mesmo 
auno, de tomarem conhecimento da delapidaçcão da Prove- 
doria-mór da Fazenda publica, bem como do exame das rcspe- 
etivas contas, que por esto tempo estava a cargo 'de Manoel do 
Mattos Pogaio Serpa, accusado geralmente dessas delapidações, 
o qae se tornou manifesto depois que ost.i commissão iniciou 
ósseos trabalhos. 

Datava do longo tempo o conhecimento do escandaloso 
peculato que se fazia nesta repartição, e já cm officio datado de 
6 de setembro de 1753, o Conde de Atouguia, D. Luiz Pedro 
Peregrino de Carvallio Menezes de Ataide, denunciava ao So- 
eretario do Estado as prevaricações existentes e por um estudo 
comparativo entre as entradas dos géneros o a oscripturação 
Aa Camará, nota-lhe as faltas c pede soja nomeado um magis- 
trado de quom Sua Magestado tiver melhor conceito para so 
oonciuir a cobrança das contribiiiçõos votadas, ovitando-so 
todos os damnos e alliviado o povo deste ónus, que a não ser a 
prevaricação havida, desde muito, que so teria pago integral- 
mente assommas estipuladas para a pacifícação da llollanda e 
dote da Sereníssima Rainha da Gran Bretanha (3) . 



(i) (tolice :ãu de cartas r«f;ia8, provisões, etc. Arrhivo Publico do 
Kio de Janeiro. 

(2) Acc oli — Mciit, hist. (' j)o!it. da liahia, T. I.— pag. ;?^»> 

— Bahia — 1835. 

(3) Accioli — Mem, hisl. e polit, da Jiahia —T. í — pag. 252. 

- Bahia — 1835. 



174 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

O certo ó quií o provedor- môr Pegtdo Sorpa, «ccuiado 
do£tas doIapidaçõcb\ foi preso e processado, disaolTondo-so a 
Provedoria, que foi sobstituida por uma junta do Fazenda. 

Kstas syndicaocias mandadas proceder nas repartições da 
Fazenda publica, largamente exploradas pelos amigos prove- 
dor<)s o a opposição tremenda levantada p?lo Marquez de 
Pomb;iI contra a sociedade do Jesus, prooccupavam e a;^'itavam 
o espirito publico, principaimento depois das graves partici- 
pações feitas pelo mesmo Marquoz, na qualidade do Secretario, 
do Condo dos Arcos, datadas de 1<* do Maio de 1758. 

Mandava dizer o Conde do Oeiras, que os jesuítas, peia 
opposição que haviam feito ao tratado de limites entre Portu- 
gal e llespanha, de 10 do .lanoiro de 1750, e intrigas a roa. 
peito cspilhadas, se achavam geralmente odiados» sendo 
por isso privados dos eoníissionarios e entrada no Paço. 

Ronicttia-lhe egualmcnte Tarios exemplares do manifesto 
desta opposição e intrigas, afim do que o mesmo Vice-Rei as 
espalhasse e informasse sobre a induitncia que ties papeis 
fizessem sobre u animo dos habitantes, commuuicando-lhe ao 
mesmo tempo que para abater o orgulho dos jesuítas obtivera 
o roi I). J'>sé, da Cúria romana, um breve pelo qual era o Car- 
doiíl Saldanha nomeado seu roformador geral nos dominios 
portuguezes. (4) 

Neste mesmo anno havia rec<'bido o arcebispo da Bahia 
I). Joaquim Horgcs d(; Kiguer()a (5) a carta n^gia de 8 de maio 
para fazer recolher aos claustms os jesuítas que parocliiassem 
as n)i)Mõ(« e aldeias de Índios, as quaes devi;vm ser elevadas a 
vi lias com parodies seculares, a quem se estaboleoeria côngrua, 
prestando o governador auxilio de braço secular que fosse 
nec(^8aiio a fazer (iffectiva aqu<4Ia det(*rminação e por outra 
Carta da moiína data foi nomeatlo o desoml^argador da Suppli- 
eaçào Manuiil lCstev«ão do Ahiun ia Vasooncellos Karbarino para 
vir ii Haliia conhecer por intimavão pr(>via aos prelados da 



(\i Arv .«»li. Mrm, hi.U . da Jlah.a ~ T. í, i».ig. I>;»hia — i&^. 

(.**( Soutlir\ t ,iTi'Vi' .|u«' [>>i l). ,Im., ■ itotrliio f\o Mattoii u ar- 
Kvln [**t <^U'j ri'Cfl.c i a» iu triu»; •< ■ para rororina «lu- ]* suituc. — Ili:t, 
(/.» Jiraul — \ul. íi. 



PRISÕES CLANDESTINAS 175 

Companhia em 20 dias, quacs erom os bens immovois que pos. 
suiam o a licença regia para isso. sendo logo seciuost irados 
aquelles que sem essa licença estivessem cm poder dos mesmos 
Jesuítas. 

Era egualmente eucarregado aquelle magistiado de pro- 
mover a factura das casas para re.sidencia dos vigários das 
partes onde deviam crêar villas, da distribuição das terrus para 
os Índios, seus habitadores (^ da fiscalisação dos prédios rústicos 
e urbanos que fossem classiflcados, os quaes deveriam ílcar em 
administração por conta da Fazenda o por outra ordem regia de 
19 do mesmo mez se mandou também estabelecer uma espécie 
de janta ou delegação do Coiisollio Ultramarino à Mesa de 
Consciência e Ordens, para o provimento dos vigários o mais 
objectos da diligencia ordenada em que fosse necessária a 
interferência daquelles tribunaos. 

Era tam)>em por decreto de 18 do maio de 1758, nomeado 
para exercer eguaes funcções no Hrazil o Dr. Josó Mascarenhas, 
Desembargador da Casa da Supplicaçao, sem que como a Ma- 
noel Estevão de Almeida Harbarino se designasse a província 
onde deviam funccionar. A Carta Regia, porém, dirigida na 
mesma data a Gomes Freire designava, quanto a Josô Masca- 
renlias o Rio de Janeiro para exercer essa Commisáão. 

Todos esses desemi)arga'lores foram distinguidos com um 
logar de Conselheiro efiTectivo do Conselho Ultramarino, ficando 
assim provado, pondera com justa razão Simão da Luz Suriuno, 
queaconduota de Josó Mascarenhas, durante a sua commis&ão 
daalçad-i do Porto, foi a contento do Governo e por conse- 
gointe a contento de Sebastião José de Cíir^alho, e para melhor 
assegurar o seu acerto transcreve o decreto de sua nonioação 
que assim começa: 

* Tendo consideração ao bom que me tom scjrvido o Dr. 

< José Mascarenhas Paclieco Coelho de Mello, Desembargador 
« da Casa de Supplicaçao em diversas diligencias particulares 
« do mou real serviço, de que o tenho encarregado, confiando 
« cíelle que em tudo o de que o encarregar mo. servir.i com egual 
€ sati^íaçâo minha e, attendendo ;io sorviçoque mo vai ia/,er ao 

< EstaJo do Brazil na expedigão das cominissoes de que o tenho 
« en-jar regai lo : 



176 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

< Hoi por bem o por graça especial, quo não pode ser 

< allegada por exemplo, íazer^llie mercê do um logar ordinário 

< do Ck)Dselhoiro do Ck>QseIho Ultramarino, do qaal o hei por 
€ mettido de posso dosdo logo, por esto decreto somente. 

€ E não obstante que não tenha tirado Carta, nem 8o lhe 
€ haja de passar emquanto ou assim o não ordenar, lho flcarà 
€ servindo da Cart v este decrotj, pira por virtude dolle goxar, 
« desde a sua data, de todos os ordenados, emolumentos, honias 

< franquezas c antiguidades de quo gozaria, si realmente o 
€ estivesse exercitando no sobredito tribunal, emquanto se de- 
€ morar no Brazil, ou eu não ordenar que e&te ae publique, 
« ficando por ora cm segredo, até ou resolver quo elle baixe. 
€ O mesmo Conselho Ultramarino o tenha assim entendido c 
« fdça executar na sobredita forma ao tempo que este lhe fôr 

< presente » posto quo haja passado um ou mais annos e não 
€ obstante quaesquor disposições contrarias, quo todas sou 
€ servido derogar para este offoito somente, como si de cada 
€ uma delias fizesse espocial monção. » 

José Mascarenhas começou a exercer as suas funcçõos na 
Bahia e as Conferencias quo tinham por fim cumprir as ordona 
que vinham da Metrópole so realizavam na Casa da Relação e 
eram presididas pelo Arcebispo. 

A primeira dessas conferencias teve logar em & de Outubro 
de 1758. Fizeram delia parto ca desembargadores Vasconcellos 
Barbarino, Azevedo Coutinho e José Mascarenhas, servindo de 
secretario o ouvidor de Jacobina, Joaquim José de Andrade, 
sendo ssu substituto o Juiz do fora da Cidade, João Ferreira de 
Bittencourt. 

Não foi, porém, sem relutância que a<) apertadas ordens que 
vinham da Metrópole iam sendo cumpridas. Depois mesmo ôm 
sequestrados os bons dos Jesuítas, só a 18 de Abril de 1700 é que 
foram romettidos para Lidb5a 127 destes padres a bordo das 
ndusN.S.do Carmo e Nossa Senhora da ^Vjuda, 8ognindo*se 
a esU nova remessa, ao passo quo vinham chegando os do 
interior. 

Kram duras e severas as ordens que vinham da Metrópole ; 
o Arcebispo contrariado e rL^pu/nando-lhe executar as ordens 
que lhe pareciam violentas, foi com mà vontade snbstitaindo 



PRISÕES CLANDESTINAS 177 

por gecularea as parochias o aldeiameatos de iadios que ti- 
nham ficado vagos ; isto, porém, era feito tão frouxameote que 
08 novos pflurochos não se podaram nellas maater, fugiado ai- 
gans, peljM demonstrações hostis dos índios aldeiados, o outros 
reoeiosoi dessas demonstrações abondonavara as parochias, fi- 
cando assim burladas as determinaçõos reaes. 

O que ainda mais veiu excitar a má vontade do marques 
de Pombal foi o rolatorio apresentado polo Arcebispo em que 
longe do mostrar o largo commercio que faziam os padres, vio- 
lando com esse procedimento as regras impostas peia. sua cou- 
diçSo de sacerdotes, juntou ainda um attestido onde figuravam 
os nomes das mais distinotas o conceituadas pessoas da Bahia, 
achando-03 irreprehensivols neste ponto. 

Dizia mais o velho prelado que não cumpria a ordem de 
suspender das suas funcções os Jesuítas, porque tendo por uma 
residência de dezenove annos na sua Sé se habilitado a conhe- 
oer o verdadeiro caracter deites padres, e a apreciar o bam 
qae faziam, não podia em consciência reduzir ao silencio ho- 
mens cujos serviços, tanto aproveitavam ao seu rebanho (6). 

Não podia deixar de ser levado em consideração pela Me- 
trópole tão arrogante parcialidade e o Arcebispo recebeu ordem 
de passar ao Deão a administração da Sé até a chegada do seu 
Sttccessor, avisandolhe o governo que a sua resignação tinha 
sido acceita. 

Para se avaliar da parcialidade com que foram tiradas as 
devassas n» Bahia, basta lèr-sa a carta que em 4 de Março do 
17G0 dirigio ao Conde de Oeiras o Reverendo Bispo do Rio de 
Janeiro, D. Frei António do Dosterro, e publicada na Revista 
do Instituto Histórico Brazileiro (7). 

Dizia o Reverendo prelado que as devassas dos padres da 
Companhia tiradas em I^oraambuco e na Bahia não podiam ser 
inais favoráveis, si os quizessem canonizar, porque todas constam 
de Yírtndes espflciaes, exemplares prooedimentos ; que ompre* 
Kando o maior zelo o escrúpulo no modo de as tirar aqui no Rio 
de Janeiro, onde só juraram homens livres, desembaraçados e in- 



(6) Srii[\3y — Historia do Drazil^ T. O, pags, i2{j. 
O) Revista Trim. do Inst. Hibt. Braz. Tomo LXIII . 
Ti4l — i2 Tomo lxx. p. i. 



178 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

dependentes que chamados á sua presença, debaixo de todo o 
s^redo e som saborom para que, não lhes dando iogar a reme- 
moração e rdílexão sobro íkcios que sabiam, assim mesmo tendo 
tido esse procedimento tão regular o prudente, a devassa sahlii 
enorme e hoi^orosa. 

Estava certo que si a^sim se procedesse na Bahia haviam 
do ser descobertas as mesmas culpas, porque os padres da Com- 
panhia são os mesmos em toda a parto, mas as devassas tirm- 
ram-se sabendo previamente os padres, as pessoas que iam 
jurar e chegou o escandaio a tal i)onto que não houve dopoi« 
mento que não fosse instruído pelos padres. 

Nossas condições não ora de admirar que as devassas fos- 
sem, em contrario das daqui, iimpas de culpa. 

Lembrava ainda o douto prelado que a bom do credito da 
Nação se mandassse proceder a novas devassas na Bahia e Per* 
nambuco por < pessoas desapaixonadas, livres de suspeita, zelo- 
sas da justiça e do credito da Nação». 

Comprehende-se quo o Marquez de Pombal, veado não llie 
mereciam mais \'ú para a politica que havia traçado ao* 
melhantos auxiliares, que tão profundamente contrariavaai- 
Ihe a acção, devia, como fez, dispensai-os, punindo-os oomo en* 
tondia deviam merecer. 

Demais não podia sor sympathica perante o elemento es- 
tável que havia desbravado o solo com a concurrencia do biaço 
alVicanoe constituído ot^ germens do futuro desenvolvimento do 
Brazilv como nação independente, a attitude do onergioo Mar- 
quez. Esta coirente lhe era incontestavelmente íkvoravel. 

Estava de ha muito travada a luta entre os elementos da 
futura nacionalidade brazi leira e o poderio jesuítico que se 
alastrava largamente por todo o território do paiz. Sob a enga- 
nosa protecção do indígena que o Jesuita apparentava dispensar, 
via cioso o colono o desenvolvimento rápido que tomavam 
quanto á prosperidade e riqueza os intitulados aldeiameotos. 
Elles se haviam constituído ])erante o mundo os proteotores 
desse elemento o sob esse pretexto, procuravam por todos os 
meios evitar (lue o colono se utilisasse do braço indígena paim 
o cultivo da terra, obtendo p()lo prestigio que gozavam juoto a 
Curte, as Cartas Regias que prohibiam o captiveiro do indígena. 



tWSÕBS CLANDESTINAQ 170 

embora em suaa redtteções não fosse outra a oondiçSo do 
(Meiadú, 

Dahi o deseoDteotftmento do oovo colono e as sympatbias 
qae doviam despertar a politica do enérgico Marquez. 

De longa data germinava no espirito dos povoadores o ódio 
ao Jesnita e mna das primeiras manifestações desse ÍSaicto se 
prodiUBta em 1641, em S. Paulo, dando logora expulsfio desse 
demento que lhes era antagónico. 

No ncvta» Bo liaranhão, idênticos ílsietos se ptXHlueinuD, 
veado-se forçado o padre AntoBio Vieira a seguir para Lisboa 
em companhia de outros, expulso também. 

A orientação da Companhia estava descoberta. Não era 
mais a cathechese desinteressada e philanthropica dos primeiros 
apóstolos « era a^ cubica de accumularem bens temporaes> com 
prejuízo e eseandalo publico », como clara e penemptoriament^ 
dizia Pombal pela Carta Regia de 8 de Maio de 1758. 

Como se vê, o ódio ora inveterado e antigo, e si nos se-» 
culos precedentes elles tenham encontrado o proteccionismo do 
Rei, acbayam-se agora deante do Marquez do Pombal, que 
com o espirito arguto do estadista, que o era em alto grau; 
soube bellamente aproveitar estas circumstanoias. 

Via-se surdamente crescer, tornando-se cada dia mais pre« 
poQderantes os elementoe activos da colonização européa. 

Para aoeentuar esse poderio, para attestar o valor desses 
flustore», regista a historia as reacções tremendas desenvoN 
▼idas por ene elemento novo e ousado que vencendo em toda 
a lioha a colonização theocratica da Companhia, deu-ihe com- 
bate mesmo no interior das terras, para onde se haviam refu- 
giado os padres missionários. 

Dous poderosos elementos concorreram eficazmente para a 
completa ruína da colonização tlieocratica, que jamais poderia 
actoar como ílsustor na organi/a^o de futura nacionalidade ; o 
6«es elementos foram — o arroteamento do solo pela intro* 
doeção do braço negro e a exploração do ouro pela descoberta 
das minas. Resultou d*ahi a predominância do elemento activo, 
trabalhador e fecundo da colonização européa sobro o estéril e 
dmbruteeedor regimen dos aldeiamentos jesuíticos • 

Dadas as ciroumstancias apontadas, debalde tentaria o 



180 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

padre fundar uma pseudo civiiisaçâo iodigena. As leis ethoo- 
logicas ae oppoem a somclhaoto resultado. A fusão deria ope- 
rar-Sd naturalmente u o europeu c o mesti<,*o deviam triomphar 
das vellcidades jesuíticas. 

Procuranio abater o orgulho dessa ordem, ractiitaodo a 
acquisi^.^o de escravos, como foz o iiiunarcha pela Provisão de 
30 de marvo de 17ry;, à instancia^:) da Camará e agricultores da 
Bahia, servia os ;<randes interessei da futura nacionalidade, 
emancipando o colono p«)la conquisti e aproveitamento du solo. 
Tol ora e tal foi a luncgàuj liisturica do grande homem rela- 
tivamente ao |{ra/íi. 

O attcstado, portanto, do arcebispo da Bahia, feiiudo de 
frente a politica tilo bem fundada do celebrado Marquez e as 
devassas mandadas abrir contra os delapidadores da Fazenda 
Publica por José Mascarenlias, que tão favorável se mostrava 
ao elemento odiado e perseguido, serviram de motivo adelacOes 
e intrigas. 

José Mascarenlias, como o Arcebispo, ioi uma das victimas 
destas intrigas. Krain conhecidos os seus sentimentos reli- 
giosos, sabida a sympatliia que votava â congregação jesuítica, 
a parte prepondei*ante que llie cabia na socidade dos Renasci- 
dos, onde havia 18 membros de numero desta Companhia, a 
incompatível frouxidão oom que se houve no desampenlio de 
suas íunoçOes junto ao Arcebispo por occasiâo da reforma dos 
Jesaitas. Os seus inimigos, portanto, não tiveram diíTiculdade 
em procurar um pretexto para tirarem de 3osò Mascarenhas 
serio desforço. 

Diz*se geral uH^nU' que a pribào do Miíscarenlias foi devida 
a crime do inoonlUloncia quo so lho irro>rou. Kra por demais 
ezploi*ado esto exiHxlieuto durante o preiominio do Marquez do 
Pombali iunumeros indivíduos foram nosu^ tempo presoe por 
semelhante motivo. Jo-i^ Mascaroohas pagou assim bem caro o 
bom dosi>mpenho da ojiumissão de sxndioancia díis rendas pa- 
blio^. de quo iv»ra luoumludo. 

Tão Ihmu unlida dovora ter sido a dolavão, que apetar de 
ser dmM*U>r p(^r|H>tuo da Aoul ,4,in ./os Ut^Hasados, que estará 
Mtb a pi>U<H\.u> do D. Jom\ sendo i» >ou Nkvenas o próprio Mar- 
quei do Pombal, fòr.i pre^o, estando mesmo doente e sangrado. 



PRISÕES CLANDESTINAS 181 

Da certidão passada pelo sargento-raór Pedro da Costa 
Marim, o que vai adiante transcripta so vô que Josô Mascarenhas 
foi recolhido íl Fortaleza do Santa Cruz, em Santa Catharina, no 
dia 25 de janeiro do 1760, o não só pola carta do Conde do Boba- 
della dirigida a José Mascarenhas, no dia immediato d sua che- 
gada ao Rio de Janeiro, e quo tem a data de 20 de dezembro de 
1759, como ainda pela do Bispo do Rio de Janeiro, publicada pelo 
Dr. Vieira Fazenda, nos seus interessantes artigos sobro os 
Jesuítas, se sabe que José Mascarenhas chegou ao Rio, vindo da 
Rabia, no dia 38 de dezembro de 1750. 

Do confronto desses documentos conclue-so que apenas 
houve um intervallo de trinta e poucos dias entre a chegada de 
Mascarenhas ao Rio de Janeiro e sua reclusão na Fortaleza de 
Santa Cruz, em Santa Catharina, nâo se podendo desde logo 
admittir que fosse Mascarenhas recolhido preso ô. Fortaleza da 
ilha das Cobras, como escreve Josô Soriano o repetiu o Conse- 
lheiro Pereira da Silva. 

Era Josr? Mascarenlias director perpetuo da Academia Bra- 
zílica dos Académicos Renascidos, sociedade por olle lYmdada 
na Bahia, em 6 de junho de 1759. 

Tinha por fim esta Academia escrever a Historia Universal 
da America Portugueza e tomou por pretexto de sua fundação 
< erigir um peispetuo padrão de alegria que sentiram os habi- 
tantes daquella cidade poln noticia do perfeito restabelecimento 
de S. M. Fidelíssima depois da perigosa onlermidado e do sen 
aífecto á real e anmbilíssima pessoa ». 

Esta sociedade, que celebrava as suas sessões no Convento do 
Carmo de 15 em 15 dias, e ás 3 horas da tarde, funccionou até 
25 de Abril <le 1760. Tinlia um padroeiro, qiioera a Vir{^em da 
Conceição, devendo os académicos na priaicira conferencia pu- 
blica jurar defender a verdade da Immaculada Conceição á\ 
Mie de Deus» 

Sobre este assumpto escreveu mesmo um poem-x que passa 
por pedantesco o acaiomico Pires de Carvalho. Teve parecí^r 
dos académicos de numero. .loão Borges do Barros e João Fer- 
reira de Bittencourt Sá e intitnlava-se CuKo métrico, José Mas- 
carenhas, como director da Acadí^mia, concedeu licença para a 
sua impressão em 1759. Taml)em da mesma Academia era a 



182 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

Eistoria Militar do Brazil, o^cripta pelo teoente-ooronel JoBé 
Mir&lei, de que a Bibliotlieca publica do Rio de Janeiro pm- 
blicou uma reedição ao vol. XKII dos seus Anaaes. 

Dos estatutos da mesma Academia publicados na Rerista do 
Instituto Histórico do Rio de Janeiro oonsta do § 62 que na 
conferencia de 21 de julho em que por queixa grave que expe- 
rimentou o sou director José Mascarenhas» que se achava san- 
grado, serviu do vice diraotor o !<> Censor Joio Borges da Barros 
e se assentou que se deveria pedir a Sua Magestade a OGoflr- 
mação dos estatutos, na forma que se mandaram publicar na 
primeira conferencia publica de O de juoho, e egualmente os 
paragraphos seguintes que por todos os votos a qne se mandon 
proceder por escrutinio* se resolveu que se devia acoreseentar 
na forma dos i4§ 20 o Cl os seguintes consideranda: 

« Considerando todo o Congresso académico o publieo inte- 
resse da sua desejada conservação, e que esta somente se 
pôde estab«iecer na duração de seu actual vice-director José 
Mascaronlias Pacheco Pereira Coelho de Mello, que oomo mais 
instruído nas mais publicas academias da Kuropa, tem dado o 
sor a nova àcadomia bn\/.iloira dos Renascidos^ animando eom o 
nstudioso oxomplo da sua infatigável persoverança ao bem 
appliiudo ovcreicio do seus ev>Uega8, propoz o vice-director Jo&o 
Borgos de Barros a todo o Congresso que <> maio mais propor^ 
ciouado para a oonsorvacio da mesma academia conslitta em 
ser o niosmo Pai^hooo Pereira, director perpetuo desta acade* 
mia, o i^ue íbi approvado por todo o Congresso. 

José Mascarenhas ora natural de Paro, onde nasoea «as 28 
de junlio de 17:^), âdalgi> da Oisa Re\l, oavalleiro protaM na 
Ordem de Cliristo, do i>>nselb j de S. Magesuule e do Ultraofiar, 
deputado da Mosa do Con^^ieniMa e Ordens, joiz exesetor da 
Real Kaienda da Snnta Cruzada, acadomico de numero da Aca* 
demia Roal da Historiai d « Hi^p.\n)Ki, em Madrid, e de geogra* 
phia e mAthematlc^, de i^avalbeiri^s ^lo Valladolid o Salamanca, 
graduadv) <^m ambos os dirt^it.Mi ptMa< Universidades das mesnuHi 
oldales dt> Valladolid e Salamanc i, o «loutor em leis pela Uat* 
TMsidaile io Coimbra em !?&:>. 

T^ndo oom:\edi) a sqi vida. abraçando a carreira militar 
cK^Hi a aArgt^uUviUiV*, M^rrindo no Remo o na Uha dos Açores, 



PRISÕES CLANDESTINAS 183 

eommandaQdo na qualidade de sargento-mói* a praça e a gaar- 
oiçfto do Gaatello de S. João Baptista da ilha Teroelra. Pertenceu 
a Academia dos Occaltos, a liihurgica de Coimbra. 

Nenham desses namerosos titalos lhe vaion, e apesar de 
todo o sen mei^ecimesto literário, foi remettfdo do Rio para 
Santa Gatiiarina, onde passou dezosete anãos preso. 

Estudando as oaus^as desta prisão o f ilustre Pinheiro Chagas 
eilando José d^ Lus Soriano, argumeata dissendo que o decreto 
de nomeaçio de José Mascarenlias era datado de 18 de maio de 
1758 o o da pri^to de 19 de maio do mesmo anoo, concluindo 
d'ahi o preclaro historiador que Sebastião de Carvalho mandara 
Joeé de Mascarenhas j>ara o Brazil com o Am expresso de alli 
o ter desterrado e preso, e que se isto fazia por uma ordem se- 
creta e ainda para arredar as suspsitas, si encobria as suas 
mysteriosas intenções com um decreto em que fazia meireê ao 
Ho de tantos crimes, era unicamente porque não desejava flizer 
«Ksndalo, porque não queria que o publico suppuzess) que elle 
fula penitencia publica das crueldades do Porto, e sobretudo 
porque não lhe seria agradável que José Mascarenhas revelasse 
as ordens ioflexiveis que sen pao e elle tinham recebido do 
Wnistro. 

Para quem conhece a vida do Marquez do Pombal e astn. 
don-lhe o caracter, vê logo quo esso não era o processo do que 
«lervla o enérgico o inflexivel Marquez, n alem disso a ar- 
fBmenta^ não se apoia em bas3 segura, pois si a data da 
nomeaçSode Pacheco Pereirji é de 18 do maio <le 1758, a da 
^prisão é de 14 de agosto de 1759, segundo so pode vOr da 
ctrti qne adeante vai transcripta. 

Quanto & carta de 19 de maio de 1758, da qual Sf; faz a 
chave de toda a argumentação, se podo concluir pela resposta do 
Conda de Bobadella do 7 de dezembro do 175 . . . ({uo nelln se 
trat^ a respeito das provas (pio Jost^ Mascarenhas dovori v colher 
oamisslo, de que estava incumbido no Rio de Janeiro de se- 
questrar os bens dos religiosos jesuítas quo não tivessem licença 

Dizia Bobadella ne>sa oarta que já havia em carta anterior 
dí' 7 de agosto do 1758 dado as razOas quo o obrigavam a ficar 
em inac^o, pois pendendo quasi todns da proaonça do Dozom- 



184 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

bargador José Mascarenhas, que apesar do restabelecido se ood« 
serrava na Bahia, não poderia ezooutar as ordens que lhe ha- 
viam sido dadas na carta de 19 do maio do mesmo anno, oon- 
oluindo que se capacitava pelos avisos que tinha recebido do 
mesmo Dezembargador, que não estava disposto a vir com bre-> 
vidado para o Rio de Janeiro, pois se prevenia para a conti- 
nuaoão de umas academias em que fazia a primeii*a fignra. 

Só foi depois que Mascarenhas se collocou ao lado dos Jo» 
sQitas em contrario aa ordens e á politica de Sebastião de 
Carvalho que este tratou de mandar prendel-o, tomando as 
precauções necessárias afim de Pacheco Pereira, não utiliza^se 
dos papeis que possuía, que deveriam lhos ser «remottidos em 
massos sigiliados, sem se proceder a exames delles» pois esses 
documentos poderiam pela sua ciivul;?ação, comprometter-lhe 
a politica. 

E' possível que o Conde de Robadella, cumprindo as ordens 
que lhe vinham da Metrópole exaradas na carta de 15 de agosto 
de 1750, tivesse enviado ao Conde dos Arcos na Bahia a carta 
que lhe era destinada e que com mais tre^ havia recebido e que 
essa carta houvesse determinado que Jos(^ Mascarenlias viesse 
com mais brevidade da Bahia para o Rio de Janeiro, suppondo 
naturalmente que alli continuaria incumbido da missão de qne 
o revestira a carta do sua nomeação. 

Nada lhe haviam revelado na Bahia, quanto á sua sitaaç&o, 
e estava mosmo persuadido que aqui no Rio viria continuar na 
sua missão da reforma dos padi'e3 da Companhia, pois segundo 
a carta do Bispo do Rio de Janeiro, do 3 do março de 1760, pu- 
blicada pelo Dr. Vieira Fazenda, no seu estudo sobre os Jesuítas 
se diz que das mãos do Mascarenhas recebera elle, frei António 
do Desterro «as primeiras ordoas de Sua Ma^^estado, acompa- 
nbailas da Dolegação e commissão do eminentíssimo o revê* 
rendlssiiiio Cardeal Saldanha para a Reforma dos Religiosas da 
Companliia de Jesus, neste bispado». Sendo-lhe, pois, no Rio, 
intimadas as novas ordens, que como dizia Bobadella, havia 
rnoebido da Metrópole, seguia illudido para Santa Catharlna« 
lovando oomslf o oito ereadM, sendo doas brancos e diveraoi 
•seravoi, inoiímbtdo como lhe Inculcavam de fiscalizar as co- 

naqoolla ilha. 



• •. PRISOBS CLANDESTINAS 180 

>Por ooeasifto de aqa partida para Santa Gatharma, o Conde 
de Bobadella mandou pelo official que devia conduzir Mascare- 
nhãs «a titulo de outras diíTerentes diligencias» a carta do 9 de 
janeiro de 1760 a D. Josó de Mello Manoel que determinava o en- 
carceramento de Mascarenhas na Fortaleza da ilha de Anhato- 
mirioi. 

. Em carta anterior, o mesmo Conde se havia dirigido ao 
governador, instruindo-o do modo por que devia proceder, 
rsmetteodo-lhe ao mesmo tempo a carta que do Sua Magestade 
havia recebido, relativa a essa prisão. 

Noa Aponkimenios para a Historia de Santa Catharina^ colli- 
fidos por Gonçalves dos Santos Silva, precioso repositório de 
documentos inéditos e notas elucidativas que, quando publicadoe 
muito contribuirão para o melhor conhecimento da historia 
daquelle Estado, se lô que esto homem veiu solto e foi mandado 
i fortaleza de Santa Cruz em commissão que o respetivo com- 
mandante lhe communicaria. Este lho incumbiu da escolha na 
fortaleza de prisão própria para um preso do Estado, c feita a 
escolha, o mandou entrar nella, onde esteve recluso largos 
aoBos. 

Eis ahi provavelmente o facto de que resultou a legenda 
referida por Luz Soriano, o posteriormente divulgada por Pe- 
reira da Silva. 

A correspondência entro os diversos governadores de Santa 
Catharina o os vice- reis do Brazil, sobro a prisão de José 
Mascarenhas, embora extensa e por largo tempo entretida, era 
toda de caracter reservado. E tal foi mesmo o sigillo desta prisão 
que os mais conspícuos historiadores nada tinham adiantado 
lobre 08 pormenores deste escandaloso facto. 

O erudito Varnhagon, classiGcando-a do mysteriosa, diz que 
& sociedade dos Renascidos viu-so dissolvida pela prisão de seu 
dvector, o qual, accrescenta, compromettido na questão dos 
tauitas, foi remettido preso á corte vm 1760, e não v( iu a sUiir 
solto sinão em 1777. 

D. Joeó de Mello Manoel c António Cardoso de Menezes que 
a soccedeu no governo de San (a Catharina, conservaram José 
M&aoarenhas, debaixo de chaves e na mais estreita prisão, 
guardado pelo commandante da praça o sargento-m<')r Pedro da 



186 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

C(Mrta Marim, qae JA ao tempo deste ultimo governador, nio in- 
83>iraTa mais confiança nem ao Conde de Azamboja, nem ao Mar- 
quez do Lavradio. 

Francisco de Souza de Menezes, qne sacceden a Oardoio 4e 
Mètiezes e Souza, conservando-se no governo atô 5 de setembro 
de 1775, conhecendo e fazendo justiça ao merecimento literário 
)s seientiílco de José Mascarenhas e nEo acreditando mesmo que 
José Mascarenhas íbsse réo de lesa-ma^estade, ou mesmo preso 
politico porque, segundo affirmava, ainda em 1765, cohraTa seu 
pae com procuração sua os ordenados que lhe competiam como 
conselheiro, muitas vezes o mandou ouvir sobro assumptos 
administrativos', relaxou-lhe a prisão, mudou-o mesmo pâfa 
uma casa situada dentro da fortaleza, abriu-Ihe as portas da 
lAesma, constando, porém, que José Mascarenhas Jamais deste 
íltvorsc utilizara. 

Conforme um maniiscripto citado por Gonçalres dos Santos 
Silva, Francisco de Souza do Menezes, durante o seu governo M 
guiado por José Mascarenhas qne se gabava de ter governado à 
flha durante sete annos. 

O mesmo chronista o.m nota aos seus Apontamentoít addlta 
qne o preso era tido por homem de muitos conheolmentos ; 
achou mesmo a tradií^o, contini^a, de que todos os dias, ao 
anoitecer, partia nnm escaler com as petições e neírocios, que de 
madrugada voltavam ro^oividos o com minutas de despachos : 
o iambem do preso omproírar ali o dia a ensinar a lêr e escr e ver 
aos soldados da guarnição daquella fortaleza, do que liiuitOB Se 
aproveitaram, e que ainda, em If^O, encontrou alguns dos que 
tinham apprendido com Mascarenhas, sendo ao tempo, um desses 
ofY1ciaes,J& brigadeiro. 

O que nos parece corto pola leitnra de todos os documentos 
6 que Mascarenhas gozava do uma certa liberdade e qne as 
apertadas ordens quo se continhnm na Carta Regia de 14 de 
agosto do 1750 jÀ eram demasiadamente firouxas, apezar das 
insistentes rocoramendaçõ^s dos Condas <le Robadella e Azam- 
buja e posteriormente do Mnrqnoz do Lavradio, O conde de 
Bobadolla mesmo que as recebia da Metrópole, c podia melhor 
avaliar o rigor com quo ílovia ser tratado esse proso politico 
quí» foi qualifica-lo de louro r homem muito prefu4íeiat e 



PRISÕES CLANDESTINAS 187 

qt»e poitô em H^ra e aperUda reclusão não lhe permittisiêm 
eômmuni0(tção alguma por qualquer causa ou preiêoAo qu^ 
fosse, na oaria qae dirigia em 9 de janeiro de 1760 a D. José de 
Mollo Manoel, embora aooentáe que S. M. o prohibe de tratar 
on corresponder-8e oom pessoa algama, além da gaarda e seus 
ereados, permitte, todavia, qno os paisanos possam vender no 
porto da fortalesa os oomestiveis a qne quiserem dar oonsumo. 

Esta relativa liberdade de que gozava José Mascarenhas, 
aliás explicável peia longa demora do seu encarceramento, 
pela ooltnra superior de seu espirito e ainda mais pelas rela- 
ções que deveria ter adquirido com o commandantc da forta- 
leza que a mais de quinze annos o guardarra, deu logar a 
uma serie de intrigas, enredos e denuncias que se tornaram 
mais frequentes no governo de Francisco de Souza de Meneies* 
Corria como certo que este provemador, tido geralmente como 
individuo de curta capacidade, ouvia ao referido preso sobre 
assumptos administrativos, oonsultando-o ft«qnenienente. Di. 
zia-se que Jns4 Mascarenhas conservava ainda comsigo na refe- 
rida fortaleza dou^ escreventes eflfèctivos para auxilial-o nas 
consultas que de fora lhe vinham. 

Avolumando-se cada dia os boatos dessa commnnicabi* 
lidade, o Conde de Azambuja chamou a atten^o do goferntdor ' 
sobro a sua condacta qno se não compadecia com a de seus ante- 
cessores, e o Marquei do Lavradio, em 25 de abril de 1770, 
estranhava a muita liberdade em que o preso se achava, vendo 
faltar nesta parte a observância ás reaes ordens do mesmo 
Senhor. 

Em longa carta datada de 5 de junho de 1770, Souza de 
Menezes procurou desculpar-so, dizendo que do ha muito o 
ouvidor da Comarca que ooste tempo seria Duarte de Almeida 
Sampaio, sempre levou a calumnial-o, denunciando-o ao Conde 
de Azambuja e Conde da Cunha, e que ambos o repreben- 
deram por terem reconhecidis falsas as male^iicencias deste 
ministro, filhas do ódio inveterado que lhe vota por lhe terem 
sidodoscobertas as faltas graves que tem commettido de sociedade 
oom os escrivies que servem no seu juizo. 

Allegava mais qne &ó uma vez foi á fortaleza, poucos 
mozes depois do ter assumido o governo, levando em sua oompa- 



188 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

nhia o tenente-coroDcI Luiz Manoel da Silva Paes e outros 
oífíciaes que serviam As suas ordens e para examinar as íbrti- 
oacôes, não tendo entrado na prisão onde sg achava Masoare- 
nbas, o nem ao menos sentou-se na Praça om só momento, 
retirando-se pouco depois, som ter voltado lá outra ve« . 

Vê-se, entretanto, por esta carta que José Mascarenhas não 
estava mais occupando a estreita prisão que escolheu, mas em 
uma casa da mesma fortaleza. 

Quando em 189Ô visitei essa fortaleza, vi a cÀsa onde se 
difeia habitou Mascarenhas ao tempo desse governador. R' uma 
casa pequena, situada quasi ao centro da praça e toiído apenas 
um oompartimento. 

A copia dessa carta existente no livro l^ de Registro do 
Arehivo da Prosidonoia de Santa Catharina pags. 100 a 108 
omitte a parte referente ã inimizado existcnto entro o gover- 
nador o o ouvidor da comarca qno neste tempo seria, domo Jà 
vimos, Duarte de Almeida Sampaio. 

As justificativas, embora ardorosas do governador Souza de 
Menezes, nio calaram no espirito do Coade de Azambuja o este 
dovolvia-lho era 1772 a proposta que o governador havia apre- 
sentado para promoção de diversos ofllciaes achando que essas 
' propostas « foram feitas pelo ?argento-mór Pedro da Gosta Ma- 
rim, que é inteiramente governado pelo preso José Mascarenhas 
a quem ello devia governar, pareccndo-lhe 8ei*em dictadas 
pelo mesmo proso, que é homem do tão ferinas entranhas que 
ainda hoje estão os povos clamando contra elie por esta razão. . . 
deixou do fazer a sohrelita promoção com grande desoonso- 
laçSosua». 

Vendo o marqucz do Lavradio que apezar das reiteradas 
ordens expedidas não poriia p<>r cobro ás irregularidades que 
89 davam relativamente á prisão do Jo8t> Mascarenhas, resolveu 
mudal-o do prisão o mandando (Mitrogal o ao capitão Lourenço 
Penedo, chamou ao Rio o sar^onto-mór Pedro da Costa Marim, 
que era geralmente aceusado do tor a maior condescendência com 
esse presj politico. 

Presentindo Souza de Menezes o dosencadeiamento de todos 
esses factos que llie po<]eriam accarrotar funestas consequen- 
ciaf, apressou-se em ciliciar a Pedro da Co!)ta Míirim, afim de 



PRISÕES CLANDESTINAS 189 

desoulpar-se.peraate o Marquez do Lavradio da sua oondescen- 
dencia e leviaudadOf deixando patente o seu pouco critério 
DO oíficio que transcrevemos, prova cabal da sua irregular 
condacta e má fó, fazendo recalilr toda a culpabilidade no sar- 
gento-mór eommaodante da fortaloza, Pedro da Costa Marim. 

Em suocessivos oíAcios, alguns até da mesma data, recom* 
mondava o governado.* ao sargcnto-mór o maior rigor no cuixi- 
primento das ordens de Ei-Rey dirigidas ao Condo do Bobadella e 
a D. Josó de Mello Manoel, govornador naquello tonapo da ilha 
de Santa Cathariua, a respeito do quò so de^ia praticar com 
o preso Josó Mascarenhas, o como constava-lhe estar alterada 
essas ordens, rciterava-lhc no mesmo dia as referidas. ordens e 
offlciava ainda no dia soguinte nos termos do oíUcio abaixo : 

« Porsuiulo-me que Vmco. sabe que hcmoo súbdito e que 
uão devo entrar na disputa do obedecer-me, lambem julgo da 
sua honra, quo não haverá razão particular ou paixão, que o 
obriguo a concorrer para sua perdição, pois creio não ignora 
as funestas con^quencias quo provem ãquelles que do algúa 
sorte concorrem para se não exocu tarem as ordons do No|3So. 
Augusto e sempre respeitável Soberano, lie certo que eu fui a 
ossa Fortaleza, a fallar ao preso Josó Mascarenhas o quo lhe: 
commaniquei algúas cousas periencentos ao Real Serviço,, por- 
que jolgei ser me assim preciso; mas nunca me persuadi, que 
por esto motivo chegasse a ter tanta liberdade, que viesso ao 
ponto de pôr o meu governo om confusão e desordem; todos os 
homens somos sujeitos por natureza a erros e cqganos; porérn 
na nossa mão está só o romeJial-o;3, quanlo os conhecermos ; ^: 
razão porque julgo conveniente ao serviço de El-Rey para so- 
cego e quietação nossa e dos vassalos, que Vmce. ponha logo 
sem disputa cm execução as ordens de El-Roy e minhas para 
reclusão do preso José Mascarenhas, o que venha logo falar-me 
depois de ficarem executa las e entregue o dito preso ao capitão 
Lrourenço José Penedo, o qual o conservará da mesma fornja, 
que Vmce. o entregar até que Vmco. dollo tome outra vez 
conta. D. G. á Vmco. Desterro da Ilha de Santa Catharina. 15 
de julho do 1774. 

Francisco do Souza de Mi3nozes. 

Sr. Sargento Mayor commanJante Pedro da Costa Marim.» 



t90 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

O Marquei do Lavradio, entretanto, dSo se limltaTa a rét- 
terar ao governador as ordens regias que se deviam olieervu 
retattivameDte á prisão de José Mascarenhas, e ao pa«o q«a lhe 
chegavam de Saxktx Cathariua as noticias das irregularidades e 
desidias commettidas, oífioiava succetsivamente para a Metró- 
pole em 20 de fevereiro de 1770, 28 de março de 1772, II de 
janeiro, 26 e 29 de março de 1773, recebendo finalmente o ollleio 
de 15 de agosto de 1774 em resposta a todos esses offlcioe. 

Mandava dizer o Ck)nde de Oeyras, neste oflado de 15 de 
agosto : « Qoantoi ao sar^^ento-mór do regimento da Ilha de 
Santa Catharina, Pedro da Costa Marim, do qual Y . Kx. refbre 
a incapacidade, fUta de zelo e negligencia com que se cob- 
dasia não só na guarda do Desembargador Josó Masearenhae» 
que lhe estava incumbida, mas no oommandamento do Regi- 
mento d*aquella Ilha, que deixava inteiramente arruinar e re- 
duzir ao estado mais deplorável; ordena S. M. que V. Kx. 
mande dar baixa redonda ao dito sar^ronto-mór e o faça imme* 
diatamente em>»arcar para osto Reiao: B que o Desembargador 
José Mascarenhas seja transportado a uma das Portaleias do 
Rio de Janeiro, e entregue ao commandante da moma Porta- 
loza com ordem do o roetter em alguma das Prisões delia» 
pondo-lhe uma sentioella de dia o de iK)ute á Porta de raeeoim 
Prizãoe prohibindo-Ihe toda a comniunicação de palavra oo por 
escripto : Rx«;epto com o Governador nos casos indispensável- 
mente necessários.» 

Não me foi possível encontrar o documento da chegada de 
José Mascarenhas ao Rio de Janeiro o de sua reclusão 4 forta- 
lesa da ilha das Cobras: o da sua liberdade, porém, é datado de 
:^5 do abril de 1777 e o original existente no Arohtvo Publioodo 
Rio do Janeiro assim dis : 

«Illm. eBxm. Sr.: Sua Magestade he Servido que V. Hx. 
mande pôr na sua inteira Liberdaie a José Mascarenhas Pa- 
checo Pordtra, que se acha preso na ilha das (dobras, íksendo- 
Ihe insinuar se pode transportar para esse Reino, quando 
quizer, mas não entrar om Kmprogo algum, sem nova ordem 
da mesma Senhora. Deus Guanlc a V. Kx. Palácio de Nosea 
Senhora da Ajuda, em :^ de abril do 1777. Martinho de Mello 
Castro. Sr. Marquez do Lavradio •> 



PRIBÕBS CLANDESTINAS 191 

Refere Innocencio da Silva no seu conhecido Diccionario 
que em um doe Tolomes da Bibliottieca Lusitana de Barbosa 
Machado, que pertenceu a Jobé Mascarenhas, havia uma nota â 
margem no iogar que deveria ser occupado pela biographia do 
Mascarenhas que dizia ter eile sido sepultado em 1760; ao ser 
publicado, porém, o vol. IV da mesma Bibliotheca,o que occorreu 
por 1760, pois que foi coucluida a sua impressão em fins do 
1759, via-se que trazia noticia oircumstanciada da vida de Josó 
Mascarenhas e das obras por elle publicadas e as que possuia 
em manuscripto» acreditando Innocencio que a li8ta das obras 
tivesse sido offerecida por Mascarenhas a Barbosa Machado. 

No Sopplemento ao Diccionario, Innocencio adianta que 
existe na Bibliotheca Eborense uma collocção de trinta cartas 
dirigidas por Mascarenhas ao seu parento Frei Manoel do 
Cenáculo, e que lhe constava que depois de sua volta, em 1778, 
do Braitl a bordo da náu N. S da Ajuda, ainda em 1782 ia con 
valescer a Beja, acreditando que elle veiu a fallecer em 1788. 



192 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 



A,:LTISn=17COS 



** C\)\hU\ do ítobadolla» Mostro du Campo GeuerU dos ineas 
KKtrolioM, (iuvorniulv>r, o Ciipitâo General das Capitanias do 
Ido dn Jaiioiro, u Minas (i3raos. Amigo, ku El Rey vos envio 
multo naudar ooino áquello, quo amo. Sondo-me prezeotos as 
provarloavoonsi oiu quo so tem deslisado Josepli Mascarenhas 
PaoliiHiii ('ooUio di^ MoUoque mandei passar à essa Cidade, eo- 
nurroKiulo da CA>mmiasAo, que vos participei por Carta firmada 
|MiU minliii Roal M4o, da datadas do Mayo doaooo próximo 
passaiio: K liavoudo n^xultadodas mesmas prevaricaçoens justos 
motlviM iMtra piu^nlor oonira olle, não s<> com as penas de sos- 
psnsAo o iulialdlidado, para continuar no exereieio do meu 
Ueitl Sor vigo; mat kiuilvm com a de tiúa ligorosa redoxia. 
ABI que iO|»aradi) do t^nia a oommunic;%cão sc^a obrigado à giar- 
dltr o utHiMMtrio »i^fVMÍo dos imporUnies negócios, que se lhe 
^^nttiurlUw Sou Si^rxido or^ien,%r-Tos, que logo que reeebares 
esta, mandeis ir «i vo«s;a |«t>renca o sobredito Jotcfh Maseare- 
tthas IVoIk^v ; e uianio d.v$ otspKNosos prewxtos da iBii ip s a 
Savol n^N!tíu»dado Ue :!i>^ }\-»nh>vorera por PesKtt baibil o< uà.lis- 
slUKvjt e«uboiiV.)U(Hiu« djts novA^ Ov>lon^as qu^ teabo 
fi^ai^r Ilha do sauta OU;.hJir..:A . o i^ $»or rjescts oeioassana a i 
ass»u^n.*u :)ix»à i-^^iaio, doiv^ das ulumas Ordeas^ qoe as 
dM «'Xf^xitr paraoii^^»?t:^*i;\^ gv^rál io *«od.« os beos, 

Lh^ :rv:iMi;s .»> zao*: iUv^I N:n»?. ^uo p^sse .* s.^torà.ta Dba aa 
^ctxwca í^aVa^^JlCÀ*^ ;» >*> i* !r«?c\-<.: . O ;ai^assaa Ibê lareu 

£z::.jraraai. >: ^.>ebsa^.'r .-.^ «>> it^ttjí àx osaopãj^; e 
^, ftic...:%kr ror z.- .^JBria; i* T.i>sà ftatu»^ 

jíAnsic^ à{- So.>àaâ.*i«^ ^ je a i ; ^j: àt «sin; 
XM àii.a!«ie.;k5 . .'«.iii.i.sji i^r. ^4e;-crk ^a^k^ftix : rvijtiriãa iihSL. « 
Bíiiifc 4 kje*f^^<ic;« k. ^:'fi>;v;i.r. S.Tíir^2«aàcc Imox ••sse^Éi ar 
MaJi MknMi. jki s.°^ :i.*àeLbZ«fuK ^ik ..-y; ^n* ^f te* a|e^c^ 




PRISÕES CLANDESTINAS 198 

zentado, o UAnde pôr em segura e apartada recluzSo na Forta- 
leza, qae vos parecer mais própria ; e delia não sairá sem 
expressa Ordem mfoba ; não lhe permittindo communioaç&o 
algua por qualquer cauza, ou pretexto que seja ; e mandando 
immediatameate sequestrar todos os Papeis, que lhe for«m 
achados, para serem remettidos á minha Real Presença em 
maços sigillados, sem se proceder ao exame dolles. B porque se 
não devem suspender as diligencias concernentes á commissfto 
de que o hatia privativamente encarregado : Sou servido outoo 
sim sabrogalla na Pessoa de Alberto Castello Branco, Chancel- 
ler dessa Relação, com a mesma jurisdicção, que havia confe- 
rido ao Sobredito Joseph Mascarenhas Pacheco. De todo, o que 
80 executar â estes respeitos, me dareis Conta pela Secretaria 
de Estado dos Negócios da Marinha, e Domínios Ultramarinos. 
Bseripta em Bellem, â quatorze de Agosto de mil sette centos e 
cincoenta e nove. 

Rey!-! 
Para o Conde do Bobadella pagar.» 

Por El Rey 

Ao Conde de Bobadella, áo sou Conselho, M. de Campo 
Qeneral de seus Exércitos, Governador e Capitão 'General das 
Capitanias das Minas Geraes o Rio de Janeiro, ou a quem se 
achar encarregado do dito Governo, l'' via. 



Confere com o documento que se acha na collecçao de «Car- 
tas Regias, Provisões e Alvarás» existente nesta Repartição. 
Archivo Publico Nacional, 23 de Junho de 1906. 
O Chefe da 2^ Secção, Manoel José de Lacerda. 

€ Ulustrissimo e Excellentissimo Senhor. 

«Com esta receberá V. Kxc. quatro cartas armadas pela Real 
Mão de S. Magestade, das quaes a primeira dirigida a V. Exc. 
contem as Ordens do mesmo Senhor sobre o transporte de 
José de Mascarenhas Pachco Coelho de Mello, dessa Cidade para 
a Ilha de Santa Catherina, para ser recluso na Fortaleza que 
a V. Exc. parecer mais própria para sua segura custodia. 
7ail — 13 Tomo lxx. p. i. 



194 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

€ A tegonda dirigida a Dom José de Mello Manoel» Qom- 
nador da referida Ilha de Santa Catberina, contaodo húa par- 
ticipação das Ordens expedidas a Y . Exc. sobre a mesma na- 
teria ; a manda S. Magestade i^emetter a Y. Exc. para Oa 
fazer entregar ao meemo tempo em qae lhe for apresentado o 
aobre dito José Mascarenhas Pacheco pelo oficial qae o defs 
acompanhar, na forma das Ordens do mesmo Senhor* 

€ A terceira e quarta dirigidas ao Bispo dessa Diocsie ato 
Ohanceller dessa Relação reterá Y. Exc. em sen poder até a 
ora em que partir o referido Josó Mascarenhas Paoheoopara 
a Ilha de Santa Catherina ; participando-lhes Y. Kze. aa 
mesmo tempo em que lhes forem entregues as ditas Garttf 
que S. Magestade por ellas, tem dado proTideneia para lanio 
suspenderem as deligencias respectiras a Ck)micão de que lUTia 
encarregado o referido Ministro, subrogando na sua falia na 
Pessoa do sobredito Ohanceller com igual jurisdição. 

< No caso porem quo as ditas Reaes Ordens não posno ter 
pronta execoção por se achar ainda o sobi*edito José Mascare- 
nhas Pacheco na Bahia, remetera Y. Kxc. com a possível bre- 
vidade ao Conde dos Arcos, Yice Rey e Capitão General desse 
Estado, a carta quo ajuntarei a ossa, na qual se lhe ordena o 
ftiça passar a ossa Cidade sem perda de tempo. 

«DEOS guarde a V. Kxc. Bellom, 15 de Agosto de 1750. 
ThomcJuaquim da Costa Corte Real — Senhor Conde de Boba. 
delia.» 

BiblJotheca Nacional. ^ Livro das Ordens Reaes — Carta 
XXIY 1758 a 1763. 



€ Copia ^ Dom Josopi de Mollo Manoel, Governador da Ilha 
de Santa Caiharina. Eu El Rey vos envio muito saudar. Sendo 
lilenamonto informado das privaricações que tem commettido 
José Mascarenhas Pacheco Coelho do Mello, contra a oonflança 
que delle fiz quando o encarreguei de importantes diligendafl 
do serviço de Deos e Meu : Fuy sorvido suspendelo e ordenar 
ao Conde d(í Bobadcila do meu Cun solho Mestre do Campo 
Goneral dos íikmis Exonútos, «lovtíniador e Capitão Cieneral do 
Rio de Janeiro e Minas Guraes, o lava transportar dessa Ilha 



PRISÕES CLANDESTINAS 195 

na primeira Embarcação que se ofiferecer^ para nella ser re- 
duzido & segara prisão : E vos ordeno que logo que o sobre- 
dito José Mascarenhas Pacheco vos for apresentado o mandeis 
pôr em apertada Reolozão na Fortaleza que pelo dito Gover- 
nador e Capitão General ou quem seu cargo servir yob for 
apontada oomo mais própria para sua segurança : Não lhe 
permittindo communicagio alguma por qualquer cauza, ou 
pretexto que sctfa mandando immediatamente fúxev sequestro 
em todos os papeis qae lhe forem achados, para serem re- 
mettidos a minha Real Presença em massos sigilados sem se 
proceder ao exame delles, conformando- vos em tudo o, mais 
oom as instruções e ordens que vos expedir o mesmo Gover- 
nador e Capitão General ou quem seu cargo servir, e dando-me 
conta annualmente de tudo o que se houver passado a este res- 
peito pela Secretaria de Estado dos Negócios da Marinha e Do- 
minios ultramarinos. Escripta em Belém a quatorze de Agosto 
de milsette centos oincoenta e nove. Rey. Aí. João Game* de 
Sousa,* 

Visto* -^Marciano P. de Sousa ^ 

Confere. — O 1* OâSoial, José Sodriffues Prates. 



€ Ulmo. e Exmo. Senr : — Pela Frota que sahio deste porto o 
dia seis de Agosto dice a V. Ex*. as cauzas, que me obrigavão a 
ficar em inacção no cumprimento das ordens, que me erão de* 
cretadas na Carta, que V. Ex*. firmou em 19 de Mayo de 1758, 
pois pendendo quaze todas da prezença do Dezembargador José 
Mascarenhas Pacheco Pereira Coelho de Mello, depois de resta- 
belecido este Ministro ainda se conservou na Cidade da Bahia, e 
sem elle as produzir estava detida a execu^^, e pelo que me 
avizou, me capacito não se determinava com brevidade fazer 
viagem, pois se prevenia para a continuação de huas Aoade* 
mias, em que fazia a primeira figura. 

R.» de Jan.® 7 de Dezembro de 1758 — Illm. e Exm<». Senr. 
Thomô Joaquim da Costa Corte Real. -- Conde de Bobadella.i^ 



196 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

Po* D*»'. Dez<>'. José Mascarenhas Pacheco Pereirm Coelho 
e Mello. 

Na forma das ultimas Ordens de S. Mag*. so faz preciio 
participar a V. S.* o que ellas oontiiem: Espero a V. S.* nesta 
Caia as três horas da tarde do prezente dia D.s^* a V. S.*. 

Palácio 29 de Dezembro de 1759 Conde de BobadéUa — Snr. 
l)QV\ Josó Mascarenhas Pacheco Pereira Coelho e Mello.^» 
Confere com o documento existente á pagina cento e vinte e 
cinco verso do livro trese da colleção intitulada cOovemadores 
do Rio de Janeiro: Correspondência com diversas autoridades» 
archirada nesta RepartiçSo. 

Archivo Publico Nacional 26 de Junho de 1906. O Chefe da 
2" SecçKo, Manoel José de Lacerda. 



«Fazendo resposta á carta de V. S*. de quinze do Dezembro, 
sobro em qual das Fortalezas me paresse deve residir o cons*"*. 
Josò Mascarenhas Pacheco digo, que sendo o quartel da Forta- 
loia do ratones, em estado dicente, pode residir nelle eito Min*, 
aliás em Anhatomerím. O que Sua Mag^*. manda, vai a V. S.* 
diMlarado na oiirta janta, firmada de Sua Real mSo, e igual- 
mente no cap* da que receby do mesmo Senhor. Hó certo que 
Uua Mag***. prohibe a esto Mín.<> trate, ou tenha oorrespon- 
danoia como a Sua Real ordem expressa, mas tâo bem he certo 
que para viver se lhe devem dar os meyos precizos, isto hó« 
perinlttir-so aos Paizanos hirem vender ao Porto da Fortaleza 
oi oiMueMtivois a q' quizerem dar consumo. Para guarda do 
prMo nmndarà V. S*. ham Ofiicial em quem V. S* tenha oon- 
nanga, e h«) corto que o do mayor, hé o Sargt*. Mor desse corpo^ 
quando nt\o tenha desmerecido o conceito de V. S^. que neste 
(«a«H> ti\H V. S.*" oscolha à Sua Satisfarão. Cómoda 
Muariia t. ovando o oom^^*. ordem do expedira essaVilla 
bíiffiiiv^*» |H^ra o transporte do que ao d.<» Min.* e Soa Família 

«Kliialinoiílo Sua Mag'^\ h<5 servido o prohibir de tratar, 
(III i«<M'htH|k)iutor«t« com pi^eiesoa alguma, alem da ^^, e dos seus 
Mi'i»i|iMi, n t|ti.it devd pn^hibir o sahirem ou entrarem de volta 
lia t^iir(<itiuii ^ iKMialiiunite que elles recebam visitas, ou tratam 



PRISÕES : CLANDESTINAS? 197 

oom peflBoa de fora, thé nova ordem do mesmo Sor. Mas a sub- 
astanoia qae ello pedir pello seu dinheiro, se lhe deve dar sem 
taxa na despeza. Essa hó a intelligencia que me parece nas 
Ordens que recebemos. D\ Q''. a V. S.* muitos annos. Rica 
9 de Janeiro 1760 — Conde de Bobadella — Sr. D. Josó de Mello 
Manoel.» 

Certiflco que copiei esta carta do original do lUm. e Bzmo. 
Snr. Conde de Bobadella, General destas Capitanias, por Ordem 
e na presença do meu Governador o Snr. D. Josó de M^Uo Ma- 
noel, nesta V.* do Desterro em noite de hoje vinte coatro de 
Janeiro de 1760 — o Sargento Mor Com*^". Pedro da Costa Ma- 
rim — Francisco de Souza de Meneses — € Confere com o do- 
cumento existente à pagina cento e quarenta do livro 1-A da 
Correspondência de Santa Catharina archivada nesta Repartic&o . 

Archivo Publico Nacional, 26 de Junho de 1906. O Chefe da 
2^ Sec^ú), Manoel José de Lacerda, 



€lllm. e Exmo. Snr.^Com a carta de V. Ex.» de 2 de Março 
do presente anno forão também entregues as três que a aoom- 
panhavão, e que tinhão ido dirigidas ao Dezembar£[ador José 
Mascarenhas Pacheco Pereira Coelho de Mello. 

€ Deos g*. a V. Ex.*. Nosaa Senhora da Ajuda, a 15 de Outu- 
bro de 1761 — Conde de Oeyras-^ Snr. Conde de Bobadella — 1* 
via 

€ Coníére. Archivo Publico Nacional, 36 de Junho de 1906. 
O Chefe da 2* Secção, Manoel José de Lacerda. 



< Para Francisco António Cardoso de Menezes. 

€ Sendo presente a S. Mag***. a carta que o antecessor de 
Vmoe. dirigio a esta Secretaria do Estado em 8 de Junho do 
&Dno próximo passado, em que refere tudo o ' que tinha obrado 
respectivo a prisão em que se acha Josô Mascarenhas Pacheco 
Pereira Coelho do Mello. 

< O mesmo Senhor manda recommendar muito seriamente a 
V. Mce. a cautela que deve por para que este Louco senão co- 
moDique de sorte alguma para fora da prisão, nem ft^a delia, 



t!*? SFTBTA i» tVtTJ T f f V 




JtmÊ íêí lÊãlÊi VjjèxL ;" ▼»•* íi5iislx»Aí7 «ca fiiilkaa e 
irctAbsr »C^ 1 roBKftliisr: :^mí Vj^rxym^jtí ^%ABtm Im i tia 

C:c£ki ft* litLii« {xarrei ^«si íJjimku f n 25 te JaaecT» do 

«Nà rsft^â;£3 2CIZL w.rizii iciíi^:» an: ^lA» iii? lan BatilUa« 

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PRISÕES CLANDESTINAS 199 

confiança. Ao dito Joseph Mascarenhas o faço oonaervar na 
prizão da mesma Fortalleza, que lhe destinou o Capitão General 
destas Cipitanias, a cargo de hnm Sargento Mayor desta Praça, 
Offlcial mais gradaado delia, mais exacto, e do mayor conceito ; 
pelo qoal estou fazendo cumprir, quanto V. Ex. me declara, dá 
mesma (brma, que Sua Magestade o determina, e em conformi- 
dade a Regia Carta, que V. Bx. me remette em copia para 
melhor instruir-me. Assim o porá V. Ex na Real prezença do 
dito Senhor. 

€ Deus guarde a V. Ex.— Ilha de Santa Catharina a 14 de 
Abril de 1762.— Illm. eExm. Sr. Franciwo Xavier de Men- 
donça Furtado, \^ YàTek." Francisco António Cardozo de Meneses 
e Sousa. »— Confere com o documento existente á pagini oitenta 
e seis do livro 1 A da c Correspondência de $^anta Catharina » 
archivada nesta Repartição . 

Arohivo PubUco Nacional, 26 de Junho de 1903.-^ O Chefe 
da 2* SecçãOt Maúoel José de Lacerda. 



€ Jllm. e Exm. Sr. —Com o oíiicio de vinte e dois de Outubro 
de sessenta e hum dirige V. Ex. em copia a cartado Sua Mages- 
tade de quatorze de Agosto de cincoenta e nove escripta a meu 
antecessor, para instruir-me a respeito do prezo Joseph Masca- 
renhas Pacheco Pereyra Coelho de Mello, o qual se conserva 
debaixo de chave na estreita prizão em que o achei, e lhe foi 
determinada pelo Conde General diffuncto, prohibido de toda a 
comunicação, a cargo do Sargento Mayor desta Tropa, Offloial 
de inteiro conceito, p3lo qual faço cumprir sem alteraçfto bem e 
fielmente as Regias Determinações. Assim o porÀ V. Ex. na 
Real prezença de Sua Magestade. 

€ Deus guarde a V. Ex.— II ha de Sancta Catharina a 24 de 
Novembro de 1763.— lUm. Exm. Sr. Francisco Xavier de Men- 
donça l?ílT\èdo.^ Francisco António Cardoso de Menezes ê Sottêa, » 
Confere com o documento existente & pagina noventa e um d# 
livro 1 A da < Correspondência de Santa Catharina » existente 
nesta Repartição. 

Archivo Publico Nacional, 26 de Junho de 1006.— O Cbefb 
da 2* SecçãOy Manoel José de Lacerda. 



200 WEVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

CARTA AO GOVERNADOR DA ILHA DE SANTA CATHARINA 

€ Recebi a Carta de Y. S. de dez de Dezembro, sobre o 
prezo Josô Mascarenhas, e a este respeito não tenho outra couza, 
que dizer-lhe, senão que Y.S. observe a risca as mesmas 
ordens, com que este preso foi para ahi mandado; comqoanto 
aos criados, tenhão paciência, pois se sujeitarão voluntariamente 
a esse incommodo, só Sua Magestade os pôde alliviar delle. 

« Deus guarde a Y. S.— Rio 3 de Fevereiro de 1768.— Concíe 
de Azambuja ^ Sr. Francisco de Souza de Menezes. » 



CARTA AO GOVERNADOR DA ILHA DE SANTA CATHARINA 

€ Emquanto a villa de S. Luiz, escreverei ao Governador de 
S. Paulo, mas Y. S. da sua parte não faça mais que protestar, 
sem oppor nunca força, nem consentir que os' povos a ponhão, 
porque elles, e as terras, tudo pertence ao mesmo Rey. 

Deus guarde a Y. S.— >Rio dous de Fevereiro de mil sete 
centos sessenta e oito.— Conde de Azambuja — Sr. Francisco de 
Souza de Menezes. » 



Carta ao Governador da ilha de Santa Catharina 

€ Aqui me tem ehegado algumas noticias, de que Josô Maa- 
carenhas se acha com a prisão muito relachada a respeito do 
que foi ao principio. Y. S^. mo remetterã a copia das ordens 
que acompanharão o dito prezo, quando para ahi o mandou o 
Senhor Conde de Bobadella, como também de quaesquer outras, 
que tenha havido depois disso, ao mesmo respeito, e reduzirá 
a prisão do dito Josó Mascarenhas ao rigor das ditas ordens: 
advertindo Y. S.* que esta matéria he de muita pcmderação; 
porque Josô Mascarenhas he prezo de Estado, e nós não sabemos 
a cansa da sua prisão. 

€ Deus guarde a Y, S.— Rio 3 de Agosto de 1768. Conde de 
Azambuja. Sr. Francisco de Souza de Menezes. » 



PRISÕES CLANDESTINAS 201 

€ Illm. e Exm. Sr, Conde de Azambuja vloe-Rey e Gapitio- 
General de Mar e Terra do Estado doBrazil. 

€ Illm. Sxm. Sr. — < Quando respondi no oltímo de Agosto 
a carta de Y. Exa. datada em 3 do mesmo, em que ordenava 
iemetece'à presença de Y. Bx«. a Copea das Ordens, que acom- 
panharão o prezo José Blascarenlias Pacheco, quando .para aqni 
o mandou o £xm. Sr. General Conde de BohadeUa, nSo Bumâei 
a Carta do mesmo Exm. Conde ciiijas detriminaçOes S. Mages- 
tade ordenou, so seguissem a este respeito por nio ter ílcado 
neste Oovemo, a haver levado com sigo o Governador que en- 
tSo era D. Josó de Mello Manoel, e constando-me agora que este 
deo copia delia ao Sargento mor encarregado da dita deligenda, 
lhe ordenei ma remettesse o que te descuipandose de o nio 
ter feito á mais tempo, por entender, qne a teria, em meu 
poder; e 

€ Supposto que mo parese que o dito Exm. General a deixa- 
ria registada na Secretaria dessa Capital, sempre devo, agora 
que a receby, mandalla a prezença de Y. Exa. em exee u^ da 
Soa ordem sobre dita, e Y. Exa. me ordenará o que for ser- 
vido. 

<A Illma. Pessoa de Y: Exa. Guarde Deus muitos annoseomo 
havemos mister. 

«Desterro, 25 de Janeiro de 1769 «- Frafieisío,de JSotua de 
Meneses,^ 

Confere com o documento existente á paginga cento e trinta 
e no?e do livro 1 A da « Correspondência de Santa Catharina», 
archivada nesta Ropartifão. Archivo Pablico Nadonal, S6 
de Junho de 1906.— O chefe da 2^ Secção, — Manoel José de La- 
cerda. 



< lUm. e Exm. Sr. Marquez de Lavradio vice-Rey e Gapitfio 
General de Mar e Terra do Estado do Bi^izil. 

< Illm. Exm . Sr . — Em carta datada de 25 de Abril me ad- 
verte V. Ex. que ao mesmo tempo, que recebeu as minhas cartas 
de 27 e 28 de fevereiro lhe chegarão também Largas noticias da 
muita liberdade, q*se permite ao Prezo José Mascarenhas que 
boje se acha quazi commonicavel, dando direções e faxendo pa* 



202 



REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 



peta p&ra quem lhe par^ee, tendo para ssae oífeitc» dois Kacra- 
veniea affíactiroH na Fortaleai. 

«Qtt6 par e^ta oauza, ^em emb^irgo de já me haver oaorito 
por outmi iguaes nottoias q^anteceddnte líie tinhão cbegaáOt 
torna V* Exa, adizer-me, (|iie ^eodo ú dito José Maicarenhaa, 
proEQ dd Estado a qúBiw Sm Magoatade q^Deua Guarde (tkz in- 
ço mm ou ioavol^ mõ «itr&aha muito a liberdade em q^elia 00 
acha por Ter falt^ir neâta parte a obaorv^aDcia àg Roaee Ordens 
do mesmo Senhor, ás quaea deTemos todo^ obedecer ils ceifas, 
olhando somente para o Terdadeiro espirito deliaj, aem entrar^ 
mos na disputa se forão bem ou mal passadas^ poia basta serem 
determiaadafE pela Real Rezoiuçâo iie S* Majestade em quem 
aaMiste aquella alta, e soporior oompreheõsão; q'a Divina Pro- 
vídonoiâ depositou dos Soberanos Senhores para obrarem com 
acerto em todas as suas determioaçdes para a^ julgarmos por 
Santas, pias, ^^agradaa, e invioláveis, e devermos eiecatal-aa 
no aou Literal sentido, sem Ibe darmos interpretaç&o algila, 

«Que nesta conformidade devo eu executar a risca aa q^liou- 
verem reapetivas ao dito Prezo, nao lhe permitindo a maia 1«t3 
Liberdade, nem commonicação, ou corfespandenala com posfloa 
alguma, como ae conservou sempre no tempo doa mena Anteôss- 
sorea. 

«Que só poderaí commonioarme com eUa sendo me prectzo 
fazer algda obra, oa concerto na Fortaleza e muito priaoipui* 
mente na Oa^a aonde o m^smo se acha, ou em alguma outra 
urgenttsbima nocegaidade em que stija necossarlo dar providen* 
cia a âlla fora da qual não devo ter com elle o maia Leve trato 
ou correipoodencla, 

«Na me^ma Carta ContiDua V. Ei\ a falarme sobre a inimi- 
zade comq'me trata o Ouvidor desta Comarca» dizeadome, q'Uie 
manda ejttranhar pelou termos mais fortes, o expressivos oa 
seus errados prooi^dimentas q^dáocauzas a estas deicorili&i; sobr^ 
oq*terei a hoara de responder a V, Kx»* tím outra carta por não 
faier esta tao ex tença admirando someote por hora a proprie- 
dade coraq'obra em tudo o profundo ttlonto dt V. Kx*. onmio 
com mistério estas duas matérias o q>areeem a p^* vista tão 
diversas, e aãu idênticas; porq*amba3 t^^m origem no ódio, ma- 
ledicência, e pouca verdade desta terrível Míns^ u qual oo^ 



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PRISÕBS CLANDESTINAS 203 

nheeendo q'sem embargo dc« mais innnmeraveis defeitos em 
ontras, não tem (graças a Deus) facto algam q*alegar oontra a 
retidão dezeotere-se e Zello com q^sirvo a 8. Magestade que 
Deus Qnarde o q* ao mesmo Sr. hô bem presente, lhe inspira 
o seu baiio nascimento q^JantandoHse com o Capitio Ferreira» e 
com os doas EscrirSes seus particulares amigos, q*Y. Ez*. os 
mandou justamente bir prezos para bua das Incbovias dessa 
Corte e algoas pessoas, a q'tem illudido ibe Carta bir espalbando 
a TOS de q'ea não sei guardar ha prezo de lotado para per- 
der-me ; e como estas cousas publicadas por hu* homem ainda 
q*indigno, q*se acha com caracter, facilmente se fazem acredi- 
tar a ho* Povo rude, vem depois a ser v6s pubUoa« o q* s6 foi 
testemunho, e yingança particular. 

cPasmo de q'o d.» Min.* não se envergonhe de ser esta a ter* 
ceira ves, q'asa destas armas falsas para contender commigo» 
Três reprehensôes asperissimas lhe mandou o lUm. e Exm. Sr« 
Conde de Cunha e então hô q'o8 seus Escrivães e o Capitão Fer^ 
reira lhe inspiraram a pr*. ves este despique q'o mesmo £zm. 
Sr. reconheceu lago fantástico. Depois q'o lilm* o Ezm. Sr. 
Conde de Asambuja o reprehendeu asperamente uiou da mesma 
deouQcia, q'o S. Bx. examinou e reconheceu quimera. Agorai 
q' V. Bx. lha mandou prender os dois sócios seus l^iscrivãeSf 
restituir o^ i mportantes saLlarios, q'extorquio a Francisco Ixpes 
de Souzat vender caroe do asougue ao Povo por metadcdo q'o 
seu dolio pertendia, e q'se lhe vão descobrindo delictos gravei» 
rompe asna ambição porq^eu o não deixo levar na mesma in- 
fâmia, porq'não tem outro modo de atacar-me. Devia este 
homem* Exm. Sr. referir factos certos em q'eu obrase injusto ; 
porq's6 assim hó, q'se podia supor q^seguia mãos concelhos, 
mas agora mostrarei a V. Ex. quanto por si mesmo se conhece 
fialso este seu enredo . 

«Em pr.<» lugar nem a Ordem Regia, nem outra alguma 
fila em que este homem seja Reo de Leza Magestade ou prezo 
de Estado, q'hevós, q'meparese, q 'estes mesmos forão introdu. 
ziado.Sabe V. Ex. muito bem o dilatado tempo, q'eutive a 
honra de estar sempre de Guarda áquelle incomparável varão 
o lllm. e Exm. Sr. Conde de Oeyras aquém J.N.S. Conserve ávida 
para nosso bem, e na sua mesma caza soube com certeza, q* 



204 REVISTA IW INSTITUTO HISTÓRICO 

quajiãú ea Tim em 1765, ainda o dito preio nao eataTa meado 
do Serrigo, antes eobraya seu Pay com procoracÃo soa, os seus 
Ordmiados de Conselheiro ; o q*jonto a não ter sido sequestrado 
M inoompatiTel o alto Crime de Leza Majestade mas o tal 
Onvidor necessita de fasor esta Cama para assntar bem a Soa 
denoncia, qae elle mesmo, e os seus adherentes se ^TaTio 
de q'liaTião dado húa comq'agora me tinhão perdido. 

«Expus o referido para mostrar mais daro a malevoleneia ; 
mas como ao sigo a risca, como devo as Sabias doatrínas eora 
q* V.Ex.tão elegantemente me instme sempre mandei goaidar 
o dito preio eomo se íbsse do Estado, e da mesma sorte que os 
meus antecessores. 

«S.Magestade ordenou qae sobre esta prizio se seguisse Indo 
o que determinasse o Illm. e Bxm. Sr. General Conde de Boba* 
delia, o qual em carta de 9 de janeiro de 17(M), ordenou ao Go- 
yernador D. José de Mello ICanoel o mandasse para a P^^taleia 
de Santa Cruz para hua prizâo dicente ; não lhe permittiiido 
correspondência com pessoa alguma alem dos seus isriados, e da 
Guarda da Fortaleza, a qual devia prohibir aos mesmos criados 
a sahirem delia, ou se sahirem o tomarem a entrar de Volta 
na mesma Fortaleza, o egualmente q'recebesse visitas, oa tra- 
tassem com pessoa de fora da Praça, atbe nova ordem do mesmo 
Senhor ; mas q'a subsistência, q'o mesmo prezo pedisse pelo sea 
direito se lhe devia dar sem taxa na despeza. Finalmente, dia o 
senhor Conde deBobadella na dita carta estas palavras: 

«Que para viver se lho devem dar os meyos precizos ; isto 
<hó permittir-se aos paizanos hirem vender ú, Fortaleza os oo- 
«mestiveis a quequizerem dar consumo. Para Guarda do dito 
«prezo mandará V. S. hú Offlcial em q'V. S. tenha confiança, e 
«hé certo q'o de mayor hô o Sarg. Mayor desse Corpo quando 
«nio tenha desmerecido o conceito de V. S. que neste cazo fora 
«V. S. á escolha a Sua Satisfação como da mais guarda, levando 
«o Commandante Ordem do expedir a essa \'illa Kmbarcaç&o 
«para o trausportc do quo ao dito Ministro, e a sua f amilia for 
«nccesflario «S:, o acaba» esta ho a inteligência, q'me parese 
das Ordens de Sua Magestado Escolheu com oífcito e Governador 
D. José de Mello Manoel, o dito Sargento Pedro da Costa Marim 
Com. do B*». q*guarneso esta Praça ; o qual, ambos os meus 



PRISÕES CLANDESTINAS 205 

Antecessores nas instruoçdes, q*me âerâo por escripto, hú em 
Lisboa ontro aqui, me scgurão ser Offloial completo e assim hó 
vos constante. 

«Ba o tenho aeliado miíito inteligente, de Largas experiências 
activo, forte e muito deseateressado; pello q*estive sempre, e 
ainda estou, na fó de q'tia de dar boa conta de si, como o tem 
feito athe o presente em mais de dez annos ; nos coaes não sabia 
jamais daqnella Fortaleza nem a visitar-me quando cheguei ;- 
porem se V. Ex. lhe parese, q'encarregue outro offlcial, o Arei 
immediatamente. Agora esteve o dito Major com doença grave, 
e nem por isso sabiu da Fortaleza mas foi a primeira vez que 
teve substituto, q'foi o Capitão Manoel Soares Coimbra, e hó 
este q principal motivo porq'o mando á presença de Y. Bz. 
porque como governou a Praça, pode informar a V. Bi. com 
mayor miudeza do que cabe em hha carta. Quanto o diserme 
V. Bz. q*o dito preso está dando direções, se fosse certo, mos- 
traria grande folta de Juízo em quem a segidsse, visto que elle 
a soube dar tão más para si mesmo, q'acaboa naquelle deies- 
trado fim. 

«Por y. Bx. me dizer, q*só poderei comcmicar com o dito 
preso sendo-me predzo íkzer alguma obra, ou conserto na For- 
taleza ou por outra urgentíssima necessidade, venho aperoebert 
que se atreviriU) adizer a V.Fx.q'eu hia com frequência aqueUa 
Fortaleza falar, e comonlcar com elle; mas por esta falsidade, 
pode a aguda penetração de Y. Bx. conhecer as outras. 

«Não só por ter escândalos deste homem, e de seu Pay a res- 
peito de alguns pleitos, q'tive com meu irmão; porem mais, q* 
tudo por ser prezo de S. Magestade aborreci tanto ter occasião 
de o ver, q'se admirará Y . Es. de dizer-ihe q'estando eu neste 
Governo ha cinco annos, e andando com frequência por todos aa 
outras partes, só húa única ves fui a Fortaleza de Santa Cruz, 
em q*se acha o dito prezo, em Novembro de 17Ô5 depois de estar 
aqui alguns mezes, e levei em minha companhia o Tenente-Co- 
ronel q*hoje ho Governador da Ilha das Cobras Luiz Manuel da 
S. Paez, q'entào servia as mi»"* ordens, e outros Offlciaes; 
examinei todas as Forteíicações. não entrei na prizão, não me 
asentei na dita Praça, nem hum instante e nunca mais la 
tomei. 



206 REVISTA DO JNSTITUTO HISTÓRICO 

<Fòi também esta a anioa yes que vi o Sargento M6r Com- 
mandante. Agora considere V. Ezc. quando em hii facto tio 
publico, e notório o q^sabem athe as crianças desta Terra le 
atrevem a dizer o contrario, q*falcidade se não podem esperar 
de semilhante gente ! 

€A unloa verdade q*oontem a dita íladsa denuncia hó dicer q'o 
dito prezo tem dois Escreventes effectivos na Fortaleza sobre o 
q'tambem informarei a V. Exc. com individuação. 

cComoas Ordens de S. Magestade q* Deus Guarde n&o falava 
hba palavra em creados« e as do fii»» Sr. General Conde de 
Bobadella disião, q* âcasem estes ; deu conta de q*erão muitoe 
o Governador D. Joeó de Mello, e ordenou o dito Ex"^ 8r. 
q' podesse aquelle Prezo, se lhe pareoesa, reservar hii ou dois 
dando Liberdade aos mais para sahlrem, ou q' se fossem todos, 
se o mesmo preso os quisesse essuzar. Em virtude desta Ordem 
CoDStame q* jk sahirãa cinco, quatro brancos e hb preto, antes 
de eu vir para este governo e moreu mais hd preto na prizio 
depois que òheguei a esta Ilha. 

«Foi redicula vaidade, ou Loucura deste homem, o querer 
conservar dois oreados brancos ; e estes são os dois Escreventes 
em hh lugar q* de nada lhe servem, prometendo-ihe ordenados 
grandes, que todos lhes deve, e tendo mal oomq*o8 sustente. 
Acresse q'ainda conserva os escravos, q'bastão para o pouco 
serviço de q' pode nessecitar em hha pequena oazinha em q*se 
acha recluso. 

«Os ditos creados requerem mil vezes, q' os deixem sahir, 
q* se achão ali, vai por onze annos, e padesem queixas graves; 
dando g.^ incomodo na Fort*. Com a cura das suas doenças, e 
com a guarda de mais duas pessoas, alom de terem justiça na 
sua Suplica ; porq S. Mag«. o não mandou prender, e só fica- 
rão voluntários porq* quizerão ; a vista do q* parece, q se lhas 
deve dár Liberdade tirando^se-lhe também por este meyo os 
ditos escreventes, q* suposto he falço q' lhe escrovão para fora 
da prisão, sempre hé mais seguro não os ter nella, mas eu me 
não resolvo a mandalos sem Ordem de V. Ex*. q* me ordenará 
oq* fóv servido. 

«Quanto a dizer-me V. Ex* na sua respeitável Carta q* já 
me havia escrito por outras iguaes noticias, devo seguar a 



PRIBdBS CLANDESTINAS 207 

V. £z^. qaegerá praoizo examinar, quem troaxe a d» Carta 
porq' aih6 o preien^. não reoeby nenhaa de V. b« q* ílulane 
haa palavra no d<» prezo, se não esta a que agora respondo. 
Perdoe V. Ex* meu Senhor a extenção desta Garta ; mas a de- 
fesa he natural ; ó pouco importa, q* se eonheça q' a m* igno- 
rância não pode ser elegante, nem lacónica oomtante, q' ezpo* 
nha o precizo p* mostrar que sou fiel executor das Ordens ; e 
de hoje por deante será muito mayor a m* cautela porq* do- 
brarei o cuidado ; e repetirei as recomendações. 

€ A 111°'* Pessoa de V.Ex* Q*. Dm/ an'. Como se f^ precizo. 

Desterro 5 de Junho de 1770.— Franc». de Souza de IT». > 



€ Illmo. e Exmo. Snr. Martinho de Mello de Castro--Já 
o anno próximo passado dei parte a V. Exc. de queem 
Janeiro de 1760 por ordem de S. Magestade foi prezo José 
Mascarenhas Pacheco Conselheiro de Ultramar em húa prizEo 
da Fortaleza da Ilha de Anhatomirim, q'hé a do Registo desta 
Barra. O Ulmo. eExmo. General Conde de Bohadella, escolheu 
para o guardar o Sargento Mór Commandante Pedro da Costa 
Marim, q' por este motivo continua a comandar aquella Praga 
ha quazl treze annos. 

< A Ordem Regia determina que todos os annos dô o Gover- 
nador desta Ilha conta do prezo pela Secretaria de V. Exc. ao 
que satisfaço com a prezente, não occorrendo novidade depois 
da ultima que escrevi a V. Bxc. a esse respeito na qual Jà 
expus, que S. Biagestade não maadou conservar ali os creados 
do dito mas somente lho permitiu o dito Conde General, que de- 
pois deu Licença se retirarem os que lho requererão; mas ficarão 
Toluntariameute, dois q* fazem contínuos requerimentos Juntos 
para sahirem, porque o tal Seu amo lhes não paga, nem ne- 
ccssita doUes, mas sem embargo de que á Sabida dos outros 
xão puzerão os meus antecessores duvidx, eu não a permito a 
^tes sem V. Exc. me dizer se o posso fazer. 

« O dito prezo padece graves moléstias que me diz o Chirur- 

Siâo Mór, porqu3m o tenho mandado ver, que prometem pouca 

duração, o dito Major, que o Guarda se fas muito digno de 

premio pela exacta vigilância com que se tem portado em dili- 



2Ô8 KEVISTA DO iNSTITUtO HÍSTORICO 

genciatão trabalhosa, e dilatada, sendo em tudo hii Offlcial de 
destinto merecimento. Não me occorre mais, que deva parteci- 
par a V. Exc. sobre essa matéria. 

€ A Ulma. Pessoa de V. Exo. D*. Guarde por muitos annos 
Y. S. do Desterre Ilha de Santa Catharina 8 de Setembro 
de 1772. — Francisco de Sousa de Menezes* 



DISCURSO 

DIÍMGIDO ÁS SUAS ALTEZ.VS POhEUOSAS OS ESTAí)OS GERAES 
JS, SOURE 

Xe4i7 

(Trftducção de um fulhcto hollandez) 



;34i -14 T0M\). LXX P. I. 



NOTA 



O artigo qae em segnida apparece foi especialmente traduzido 
para a Revista do Instituto pAo I)r. Pedro Souto Maior. 

O aator, quo se buppõi> tosse um agente de Portugal, accusa os 
directores da (.'.oiupanhia das ludias Oc(-id(^utao!>, c no intento de obter 
a acceitação da proposta d*' seu paiz, procura depreciar a importância 
do Hra7.il, adiantando uada valer ellc ]iara a HoIIanda. 

São curiosas as considerações adduzidas, (ornando recommen- 
davel a leitura desse trabalho. 

(Da f'otninissdk> de UcdavQÕo.) 



DISCURSO 

dirigido ás suas Alteza Poderosas os Estados Oeraes dos Países 
Baixos Unidos sobre os actos recentes e presentes no 
Brazil, com os documentos a este referentes. 

TRADUCÇÃO DO FOLHETO HOLLANDEZ. 

Vortooch aen de Hoogh cn Nogarde Heeren Stato Genei^a^ 
fler Vereenich Proceduren vau Brazil. Midts gadors de doeu- 
raenten daer toe dienerdeo, Amsterdam-Gedmckt by Johannes 
van Marel-Boekver Kooper woonende in de Globe. (1647.) 

Critica de Asher sobre o seguinte folheto que se encontra 
na pagina 151, Cat. n. 217 : 

Vertoogh (Aen de) Hoogii en Mo^^onde Heeren Staten Gene- 
rac^l der Vereeaichde Nederlanden (Nopende) De voorgaende 
ende teo^enwoordighe Proceduren (?an Braeil) Midts gaders (De 
documeoten daer toe dienende) 't Amsterdam (Gedruòkt by Jo* 
baunes yan Marcl, Boeckverkooper) woonende In de Globe. 

Aimo 1647/4^ 



X>XfilOX7Zl.) 

dirigido aos Altos e Poderosos Estados Geraes dos Paizes 
Palxos Unidos sobre os actos anteriores e presentes no 
Brazll, com os respectivos documentos. 

No pi*efacio deste pamphleto, o autor pede para não ser 
ju lufado agente de Portugal e demonstre evidentemente qae 
a^iueiia nação mantinlia agcmtes, podendo o autor ser um delles. 

O seu plano não differe do dos outros da mesma classe. 

Começa por uma serie de sentenças, terminando cada uma 
C4>in a^ palavras : 

<0 que prova que os directores da Companhia das Ocoáden^ 
taes não entendem do seu oíllcio.» 



212 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

O autor procura demonatrap : 

a) que o Brazil não valo realmente tanto quanto a Com- 
panhia das índias Occidentaes pede por elle ; 

b) que effectivamente não tem valor algum para a Hol- 
landa ; 

c) que não se podia, sem injustiva exigir a Bahia ; 

d) quo deveriam ou aceitar a pequena somma offerecida por 
Portugal, ou concluir a paz sem uma garantia pelo Brazil. 

Provavelmente, pouco tempo depois do Vertootjh, foi publi- 
cado uma espécie de supplemento (pelo mesmo autor, como 
declara na introduc<.'ão) sob o titulo : 

Consideraiien op de caulie van Por tu ff ai, 
(Considerações sobre a caiAção de i*ortuijnl.) 

Nestas Considerações diz o autor : 

«Quando recommendo a paz com Portugal, pergun- 
tam-me sempre : «Que garantia dará Portugal /» 

Assegura ser injusto e desnocessario exi;i:ir-8e a reclamada 
garantia. 

Procura justificar semelhante asserção, mas o faz de forma 
tal que desde logo transparece sua má fó. 

Concluo opinando pela aceiti\ção das propostas do Portu^l, 
com sacriflcio da Companhia . 

Durante a publicação dessa obra, appai*eceu uma contos- 
tacão intitulada: 

«Korte obsorvatien op het Vortoogli.» 
(Breves observações sobre o Vertoogh.) 

AO BENÉVOLO LEITOR 

Não (^revi esta dissertação por influencia de Porlog&l, 
como alguns poderiam suppór, mas principalmente pelo amor 
que consagro .i Paz, querida por Deus r pelos homens, e por 
ser inimigo da guerra, o monstro mais abominável que se pode 
nomear e o mais pernicioso au ^'enero humano, da qual só ae 
deve lauçar mão depois de expUtados todos os argumentos e 
razões. 



DISCURSO AOS ESTADOS GERAES 213 

Declaro, ao mesmo tempo, que prefiro a conservação da 
velha amizade e das boas relações entre o nosso paiz e Portugal 
e o grande commercio que os nossos patrícios tê>m alli, conhe- 
cendo minuciosamente esta questão. 

Salve. 

Em Amsterdam. 

Impresso por Johannes van Marel, Livreiro residente no 
Globo. 

Anno 1647. 



X>XfilOX7Zl.filO 

dirigido aos Altos e Poderosos Senhores Estados Oeraes 
dos Paizes Baixos Unidos sobre os actos passados e pre- 
sentes no Brazil com documentos annexoa que lhes sao 
úteis 

DEMONSTRAÇÃO 

Altos e Poderosos Senhores. 

Quando medito, quer nos actos praticados no passado pela 
Companhia das lodias Occidentaes na defesa e na conservação 
de suas conquistas no Brazil, quer nos presentemente empre- 
gados por YV. EEx. para readquirir algumas das mesmas, 
punir os rebeldes o restaurar a dita Companhia do seu actual 
estado de minas, delia não posso julgar outra cousa, sinão que 
nunca teve um conhecimento bem fundado sobro a sua situação 
e que VY. EEx. serSo extremamente illudidose ludibriados por 
ellao por seus favoritos. 

N«ão falarei aqui dos seus processos na conquistado Brazil, 
o que seria bastante para attestar o que afflrmo, pois realmente 
já consumio não só os seus grandes c extraordinários lucros, 
inas também todo o seu capital do muitos tonneis de ouro em- 
prestado. Por esta vez, porém, deixarei passar o omitdrei, 
a fim de não cahir e censura de matar mulheres e crianças 
para obter um pretexto de promover um processo. 

A revolta de Portugal e o tratado deste paiz cora aquelle 
Reino, veio para ella no momento preciso, como uma benção 



214 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

mandada por Deus dos altos oóus, porque» sem isso, já haTeria^ 
auccumbido, sob o peso da guerra e desapparecido no pó. 

Mas que seria que a levou áqueila situação ? 

Certamente, não foi grande cousa, e, si me perguntarem 
qual a causa, responderei resolutameote : — Por nâo bayer ella 
comprehendido o real e justo estado de seus negócios. 

Duvidará, alguém do que digo ? Relatarei a VV. EEx. al- 
guns factos, ainda que isso agora pouco adiante . 

Primeiro:— a Companhia devia ter ent&o couTlnd o e con- 
siderado que todas as suas conquistas no Brazil extremamente 
superiores em edade e cultura c estando em boas relações a 
amizade com Portugal, ou com seus visinhos portugueses da 
Bahia e do Rio de Janeiro, não poderiam exportar annualmente 
menos de 40 mil eaizas de assucar. 

liem — Que dabi os negociantes e particulares deste paiz 
não podiam lucrar um soldo, é um modo de dizer ; pois em 
relação aos nossos patrícios no estrangeiro, tom elles o costume 
de negociar trocando as suas mercadorias por outros géneros, 
de sorte que, no retorno, raramente têm alguma vantagem, 
nuis a maior parte das vezos grande prejuizo, como frequente- 
mente se tom visto. Quanto aos habitantes da I^hla e do Rio do 
Janeiro, haviam de vender o seu assucar a baixo preço para 
evitar os perigos da navegação, tendo ella ahi muitas oppor- 
tunidadesque para ser breve omittirei. 

/<^m— Que, por conseguintes dos nei^ociantes deste paiz não 
ganharia menos do 14 tonnois do ouro com esse commercio (o 
mesmo que de um tonnel fazer dous), quantia essa, que devia 
mandar para pagamento do assucar, o que raramente acon- 
teceu. 

Recebendo 40 mil caixas de assucar de forma, mascavado e 
branco, em partes eguaes, avaliado tudo em :d8 tonneis de ouro, 
pagava com 14 tonneis ouro em mercadorias, segundo a ava- 
liação. 

Portanto, valia mais a pena 14 tonneis de ouro ganhos ( 
forma, do que o calculado no máximo annual de todas as i 
conquistas. 

Se^'undo : — Haviam convencionado que dessem balanço 
aos seus negócios e o manda^^sem á directoria para exame aâm 



DISCURSO AOS ESTADOS GERAES 215 

de distribairem annualmente a metade dos Inoroe em juros aos 
accionistas. E" muito certo e sei perfeitamente bem que sobre 
esse ponto houve grande desaccordo e confusão entre elles. 
Qual foi, todavia, a bôa resolução que tomaram a esse respeito ? 
Realmente, nenhuma — o que basta para attestar que a sua 
parte, não comprehendida alli, era rica. 

As Camarás acharam-se algumas vezes muito embaraçadas, 
especialmente para descobrirem na escrlpturação, lucros que 
chegassem até alguns tonneis de ouro para os accionistas ; mas 
taes operações ainda não haviam alcançado a perfeiçSo, só por 
que de quasi nada criavam-se grandes lucros qne, no emtanto, 
deviam ser applicados na conservação de seu estado. 

Tudo isso é tão notório que nenhum individuo de critério e 
discriçio pode contestar ; peio que lhe veiu grande descrédito e 
(òrte queda das acções pela venda das mesmas. Certamente, um 
pouco desagradável e amargurado. 

Nesse ponto, talvez, uns me perguntem: Que ó então que 
haviam feito ?E outros: Que éque lhes convinha fazer? Respon» 
derei em poucas palavras : 

Havi2^m combinado, entre outras cousas,— que as provisões 
de bocca para as milícias fossem fornecidas pelos próprios, para 
que a Companhia, sob essa capa, as engulisse ; pois procediam 
de tal forma que a Companhia as despachava viciadas ou 
com avaria, fazendo um signal particular que os camaradas no 
Brazil compi*ehen(iiam e qualquer, ao vêl-as, julgando ser o que 
lhe convinha, tinha de pagar por ellas quatro vezes mais do que 
custavam aqui oo paiz. 

Obrigavam os oegooiantos hollandczes, que faziam com- 
mercio com o Brazil, a mandar as suas mercadorias para ahi ou 
trazerem as de retorno em navios da Companhia. 

Queriam que todos os vinhos de Hespanha, Canárias o 
França, e aguardentes, que lá na colónia são muito apreciados 
e necessários, — pode-se mesmo dizer que não podem passar 
sem elles, — fossem exportados daqui para mais sobrecarre • 
gal-os com 50 ílorios do imposto de rccognilie por cada pipa ; 
de sorte que, para haver al^^um lucro, cnmpre vender uma 
pipa de vinho por 500 ou 000 florins, ao passo (luc os habitantes 
do paiz, antes da nossa conquista, podiam comprar do governo 



216 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

hespanhol uma pipa de vinho das Canárias por 130, 140 oo 
150 florins. 

Por essof actos, tão contrários nâo somente aos modos e 
hábitos do commercio daquelles paizes e de seus habitantes, 
como também contra a Índole de nosso povo, tem-se a prova 
palpável de f ue a Companhia das índias Occidentaes nâo en- 
tendia do seu oíficio. 

Entretanto, deviam ter feito entre outras eousas, tornar o 
commercio do Brazil completamente franco a todos os habi- 
tantes deste paiz, dando permissão a todos os commercian- 
tes e capitEes para irem nos seus próprios navios deste ou ' 
de qoalquer outro paiz para alli e dalli voltarem á metró- 
pole. 

Por esse meio, haveria grande abandancia de generoe e 
tudo ahi se tornaria muito barato , com certeza muito mais 
barato que no reino de Hespanha, o que daria duplo centen- 
tamcnto 8 os habitantes, e seria um motivo fundamental para 
se comprar por menor preço o assucar na Bahia o no Rio de 
Janeiro ; alóm do que também por esse meio se estabeleceria 
para lá uma tal corrente emigratoria daqui e de outros palies, 
quo os nossos compatriotas teriam sobrepigado em numero aos 
Portuguezes e, portanto, por esse meio, se haveria também 
prevenido a rebellião. 

Agora ó possível que me perguntem: 

^ Como se obteriam os 14 tonneis do ouro de que falei 
antes, isto é, sete para as despczas o sete para os accionistas ? 

A isso responderei : 

. Que poderiam achal-os nos impostos de importação e 
exportação, o sobre as sizas o impostos de consummo dos de 
géneros alimentícios. 

Muito de propósito deixo de tratar dos bens eodesim^s- 
tlcos. 

Também se obteria com o páu-Brazil e outros monopólios, 
que nio inclui no calculo precedente de 14 tonneis de ouro 
e deixei para faier frente ás pequenas despesas. 

Esses impostos, portanto, deveriam, fora de toda duvida, 
perfazer, e mesmo exceder, o dito capital do 14 tonneis de ouro, 
coroe bem podem reconhecer os entendidos. 



DISCURSO AOS ESTADOS GKRAES 217 

Dcyiam, ao mesmo tempo, diminuir, de vez em quando, oa 
de anno em anno, as suas guarniçcSes e, por consequência, 
augmontar seus lucros. Para esse âm podiam fazer occupar as 
fortalezas e defender os campos por nossos compatriotas e pelos 
habitantes de Id, que fossem convenientes, á custa da Com- 
panhia. 

Pelo que se toma evidente que a mesma não entendia, 
nem entende ainda do officio. 

Alguém poderia perguntar então: 

— Si não teria sido melhor que a Companhia houvesse 
mantido e conservado só para si o commercio do Brasil, assim 
como a Companhia das Índias Orlentaes guarda como mono- 
pólio seu o commercio o a navegação das suas conquistas 
naquella parto do mundo? 

Como bem devem comprehender, eisa pi*oposi<^o, não é 
para ser julgada á primeira vista, mas sempre direi que não 
é tão inconveniente. 

Em tal caso, porém, tornar-se-hia necessário não deixar 
entrar lã o menor objecto e só ella estabelecer armazéns de 
toda a sua confiança para prover a todas as necessidades ; antes 
de tudo, fazer receber p assucar a um proço âxo, o que daria 
grande satisfação aos senhores de engenho. 

Não cogitaram dessas e de outras providencias, o que 
prova & evidencia que a tal Companhia não entendia do officio. 

Terceiro:— Também não exerceu o governo politico do paiz 
com justiça, mas commetteu alli muitos excessos, como seja 
em primeiro logar nunca mandar para lá as pessoas compe- 
tentes de que havia tanta necessidade. 

Aceresce que lhes mandavam as instrueçôes que bem lhes 
convinham, as quaes eram tão descabidas que não se sabe o 
que poderia sobrevir com o correr dos tempos, quanto a grandes 
cuidados, descontentamentos, que necessariamente haviam de 
degenerar em tumultos e revoltas, como succedeu com o povo 
portuguez, dopois que sacudiu o jugo hespanhol, que a nossa 
gente também jú soffrora, e eiegeu o seu rei. 

Si eu narrasse aqui todos os excessos que foram commettidos 
pela Companhia ou pelos seus empregados, teria de gastar 
inutilmente muito tempo e papel, pois o facto ó tão notório 



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. ^. o rni"pi'i<'^- •' '*♦*• «í*"»'»'»" pii>K.nloH. 

.jf.it p.ii.ir ■•'»' ■ |iip iiiiii(i»s («los míkis inipor;anie? 

9na.l<">l 'hl ii«»;< • ' . i íi» ..•Mtrniiii r«mi Liliio iSíO. 

r.'yy iKitiipniVí • 'h»« »•» lo iiii ;ri'aiiíl« pfírversida«lo e pa- 

iííiw ^i^ríoraiifi '. i»-"'!'»''. r •' » •' •■*■ i-i|>í.m«» ■ caloiilo. ji feiío -i-iui 

:;. ji-. í^ '•">''«'• 'I" ■ '^ "»'"■«"« '* ' i'i'«/.il «5111 nom»» I» j>.)r meio 

■^ ,.. *. í.MMii*. *• •* •!" •*••' "itr.H 1'rain f.ic<»is de se apura 

« ;mí* y»l'»rl;nii •••»'« " •'•■'■• «••■"'•' a I'» r.unn «is lo oiir.» por 

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^, i ^/iiiiimnh»» •• • •• " »•' • ' «''«'na ' Alíriíns do critério 

> . , .|ii • r •» I (1/. antMriornionte, com 

^^^,,., ,,.. 111 •■ 1 »iM.'inli.nlo olíioio. 

j^ ,„.i ..I ■•"• » ' ' '«^ '"M^Tlfito do s.'u •rovtTiiosão 

,' .j.MM. .1' "•" I . » . . II !■ '111111111. la In lie Nircctoros e do 

• ^riii •'"' M"'u.:i,í l«Míspirit(> impiroial, 

^., ...I. ■' ' ■' 'í-í- '»"-in«> menos, doíem- 

j^.. „. ' ' •' "'* " iiiol.:oi' .io 4ue 03 seu^ 

III ■ '■■ '■ " ' 

f, „.fM. • ' .1. M II i.t.iii^ iMiM o raso drt ttífom *^<^ 



DISCURSO AOS ESTADOS GERABS 2l9 

goTornar todo o Brazil e índias Occidentaea e entreter um 
trafico anaual de 100 a 200 tooneis de ouro e equipar de 100 a 
2fiQ oaTioe. 

EM» extravagância toma-se cada vez mais sabida do publico, 
que onve e vê qne não somente não a extirpam ou atteduam, 
mas, pelo contrario, não querem alteração alguma lá dentro o 
protestam expreasamente contra, qualquer reforma. 

Quix referir isso por alto e ás pressas para que Va. Ezs. refli- 
ctam e vejam si a Companhia das índias Ocçidentaes o todos os 
seus favoritos e agentes não tentam illudir a Vs.Exs. solicitando 
nma esquadra poderosa e alguns milhares de soldados para 
irem em seu proveito, nâo somente procurar readquirir as suas 
praças fortes, mas também tomar a Bahia para indemnizal-a 
dosdamnoa que os rebeldes lhe infligiram e ao mesmo tempo 
ponilos e chamal-08 ã obediência. 

Gomo essas solicitações estão presas uma à outra -a segunda 
depende da primeira— passo a examinal-ase farei vôr a Vs. Exs. 
que a citada Ckimpanhia comprehende e reflecte tão bem sobre 
essa qus^io, cemo fez sobre os seus bens e actos. 

O que procura e solicita é cousa sabida e já. apontei ; mas, 
na minha opinião, não pondera bastante sobre essas conside- 
raçdaa, nem sobre as difficuldades qne sobrevirão para o Governo 
e para si mesma e no caso de lhe concederem o pedido, quer 
e vai executar o seu projecto. 



A saber : 

Em primeiro lugar:— Quq por esse meio este Estado se verá 
empenhado directamente numa nova guerra no estrangeiro e 
além mar, a qual lhe custara caro e sem lucro algum para o 
Governo, para a Companhia, ou para os habiiaútôs deste paiz. 
Todos na minha opinião só podem esperar dahi dcshonra e 
prejuízos. 

Que honra e respeito adquirirão Vs. Exs. mandando daqui 
para o Brazil táo p^^derjsa es4uaira e tamanho numero de 
soldados para a conquista das praças quo pardemos a combater 
lá os rebeldes ou trazel-os novamente d obediência? Deve-so 
íazer com que vos apresou tom a proposta pelo Embaixador de 



220 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

Portugal em nome de seu rei D. João IV, para quo, antes de 
tudo, restituam à Companhia aqueilas praças. 

Como sorá isso entendido e acceito pelos reis e príncipes da 
Christandade ? Porque indubitavelmente Portugal se negaria 
a apresentar tal proposta e espalhará por todo o mundo 
escriptos públicos dando conhecimento do facto. 

Objectar&o que Portugal nada tem que vôr com isso« e que 
nEo pode se immiscuir com as nossas praças perdidas, nem com 
06 nossos rebeldes. 

Mas, então, pergunto : 

Não lhe couvem apresentar de motu próprio a proposta e 
nSo nos compete encaminhal-a para a discussão, como si dia 
fosse o Grão Turco? A que ponto chegamos ! 

O Embaixador de Portugal declara que seu rei tem grande 
interesse que tal aconteça e que, si apresenta tal proposta, é 
pelo desejo que tem pela paz e pelo horror & guerra, como 
também pelo amor que nutre pelos seus compatriotas, os quaas, 
ainda que nossos súbditos desobedientes e rebeldes, sio, oomtado, 
ligados pelo sangue aos habitantes do Brazil Português, que 
lhe pedem constantemente para interceder por elles ao Governo 
deste paiz. 

Que assim procede, além de outros motivos, pela aminde 
que entretém para com este paiz e por amor à honra e á 
prosperidade do mt^smo e que diz fY^ancamonto que todas as 
misérias e tribulações, quo são de esperar, podem ser preve- 
nidas suavemente e isso com a mais diminuta despesa o sem 
grande abalo. 

Sei bem o que dirão a isso alguns scepticos, e é o se- 
guinte : 

Que não se deve acreditar no Embaixador do Portugal, 
pois é cheio de astúcia e so esforça em enganar e distrahir a 
Vs. Exs. dos presentes preparativos. 

Mas também pergunto : si isso ô cousa em que se poesa 
erer f Com certeza, taes promessas roaes não são de tão ponea 
valia e não convém falar assim com lanio desprezo, mas oooílar 
nos beneficies que provirão dahi e acceital-as firmemente ; e 
como quoremos attender aos seus argumentos, compete-nos 
ftfirora convencel«os para que acreditem que S. M. o rei de 



DISCURSO AOS ESTADOS GERAES 221 

Portugal e Ss. £z8. os Srs. Embaixadobes pretondem cumprir 
lealmente essaa promessas. 

Em primeiro logar, diremos que elle ou o seu reino só pre- 
cisam agora da nossa amizade estando em guerra com a Hes- 
panha, da qual bom sabe que não pode sor amigo como dantes. 
Segundo: Que não somente apresenta a 8. M. o rei de 
França como garantidor do tratado, mas também nos entregará, 
uma praça forte situada na costa de Portugal ou um porto 
noutra parte, até o cumprimento da sua promessa. 

Terceiro : Que protesta com todas as forças não tor a idéa 
de demover a Vs. Exs. do projecto e resolução sobre a expe- 
dição da esquadra para lá, mas que nesse ponto se conforma 
com a resolução o a vontade do Vs. Exs. 

Quarto : Que elle depois do ser nomeado por S. M. o rei 
de Portugal para (Governador e ('apitão General da Hahia e do 
todas as outras terras do Brazil, pertencentes ao seu amo o 
senhor, apresento immediatamente um accordo ou tratado de 
paz 6 restituição o vá com a nossa esquadra para a Bahia, para 
lá concluil-o eíTectivamente ; declarando que faz isso tão so- 
mente por simples aflbição que sente para com essa obra santa 
e christã e que de bòa vontade diga que Portugal e este Estado 
ficam ligados um ao outro por inquebrantável paz e amizade. 
Quinto : Que 6 chegada a occasião ineommoda para o rei 
de Portugal de mandar para o Brazil muita tropa e navios de 
guerra para guarnecer e defender as suas cidades contra as aven- 
turas e tentativas de conquistas e comboiar com segurança as 
frotas de assucar na vinda e na volta, e, além disso, dcí^nder-so 
dos seus inimigos ; e para defendor-se somente contra Gastella, 
tem muito que fazer no próprio Portugal. 

Sexto : Que os reb^^ldes no Brazil muito provavelmente, in- 
duzidos por elle e estando bem intencionadas comnosco, entre- 
garão as cidades tomadas e isso devido ã aíTeição que dedicam 
ao rei de Portugal ; especialmente si souberem lá que o tratado 
de paz e amizade com o rei e reino de Portugal está realmente 
assignado e que a mesma amizade lhe ó necessária para a de- 
fesa dos mesmos e da sua pessoa. 

Eátas phrases, digo, devemos dirigir, para podermos ac- 
cei taras promessas do rei de Portugal e para accreditar nellas. 



222 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

Sei bem o que que alguns e especialmente os da Companhia 
das Índias Occidentaes dirão a isso, pondo todas as palavras e 
razões do seu lado. 

A saber : 

Que o Sr. Embaixador nos deve ofTerecer c entregar a Bahia 
como propriedade nossa para garantia de saas promessas e como 
compensação pelos damnos soffi^idos. 

Contestando, perguntarei si já viram semelhante coasa i 

Em que forma de discurso so proporia tal idôa ao rei de Por- 
tugal? 

Então não vêm que um rei — o próprio rei de França — 
não poderá consentir nem concordar com prazer que se tire ama 
parte do seu reino para dar a outrem, e que, quando tal fizesse, 
isso não se realisaria, pois sabe perfeitamente bem que os da 
Bahia não consentiriam nisso e preferiam ficar sob o Governo do 
Turco do que sob a Companhia das índias Occidentaes. 

Também resultaria dahi grande consternação nos espíritos 
o grandes descontentamentos contra Sua Magostade o rei de 
Portugal, justamente neste momento em que está em guerra 
com Castella, e que precisa das^ graças do povo. Por conseguinte 
não pode concordar nem se prestar a isso. 

Realmente, poderia dizer, com toda a razão, como Francisco 
1. roi do França, a quem Cario V, rei de Hespanha, apresentou 
eguaes condições o, apesar de proso, respondeu: 

«Videbam conditiones esse, que servare neque poteram si 
dcbuissem, neque ut velem potuissem.» 

Devem »saber igualmente que aquelia cidade não pertence 
só ao rei, mas também e particularmente ao Sr. de Albuquerque 
nobre do uma das maiores e mais poderosas famílias de Portugal 
o qual nunca em tal cousa consentiria. 

Faço-lhes também a seguinte pergunta : Si a Companhia 
tem certeza de por meio da guerra e especialmente com essa ex- 
pedição, adquirir não só as praças perdidas, mas taiubem a Bahia 
e juntaiiieate indemuisação pelos damnos soffridos í 

Em seguida, mostrarei a VV. EE. que tanto ella se imagina 
e presume muito de si, como se engana rodondamente no seu 
calculo e procuram também enganar a VV. EE. pelos seus 
antigos manejos. 



í)ÍSCURSO AOS ESTADOS GERABS â2á 

Em conclusão, digo que não se pode apresentar tal aoosa ao 
rei de Portugal e que é mais que sufflcionte a proposta do 
mesmo. 

Si nos restituem o que perdemos, do que nos havemos de 
qaeixar ? 

Blla replica :— Onde irá recuperar-se das despesas feitas e 
dos damnos soflridos ? 

A isso respondo: Reflicta a (Companhia sobre a questão o 
melhor poderá ver e notar que a rebelião não está terminada. 

Que os rebeldes paguem uma parte dos damnos, fazendo-se 
orna colheita para entregar-lhes annualmente uma certa quan- 
tidade de assucar, cada um conformo as suas condições, para o 
êxito de cujo projecto sua £x. o Sr. Embaixador de Portugal 
se esforçará o mais possivel, assim como para que lhe paguem 
as suas dividas. 

Não ha que receiar, Sua Magestade o rei de Portugal ha de 
procurar com o seu embaixador encaminhar e coUocar outra vez 
os rebeldes sob a obediência deste Governo ; não convém insistir 
mais nisso. 

Realmente, esta gonto mantem-se u comporta-se como si ti- 
vesse o rei de Portugal preso nas mãos. Certamente esperava 
miis critério dolles, mas -parece que tenham submettido 
VV. EE. ao seu partido. Não convém negjvr, pois é cousa in- 
crível. 

Deixem-rao proseguir c ver que vantagens e lucros so pode 
esperar dessa expedição. 

ET certo e verdadeiro, pelo menos julgo, que não se deve du- 
vidar que si souberem da proposta do rei de Portugal e como foi 
ella recebida ou repellida por VV. EE. que no caso de a 
repellirera VV. EE. sabendo bem que não podem resistir ás 
forças de VV . EE saquearão, incendiarão e deixarão tudo raso 
nos nossos campos e depois juntar-se-ão para se refugiar na Bahia 
enasmattas. 

E* verdade que som iucta nem esforços nós tornariamos 
outra vez senhores dos campos, mas que vantagem haveria 
nisso para a Companhia i 

PergunV) aos mais entendidos si não serão precisos 10 annos 
para fazer tudo voltar ao primitivo estado. 



224 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

E' mesmo de reoeiar que não se conseguiria isto por mui- 
tos mais annos e que ninguém falará em começar > i'es. 
taurar. 

Pois é patente que emquanto não fizerem um accordo com 
Portugal, não estabelecerem uma paz geral, de tempos a tem- 
poi, 08 ditos rebeldes logo que ouvirem, como devem ouvir que 
começam a reconstruir alguns on;j:enhos c a plantar caona 
do assucar, virá ) em tropas atacar os nossos de improviso c 
arruinar tudo outra vez. 

Por essa considerarão nimguem se dará à pana de reconstruir 
06 engenhos incendiados e a plantar canna do assucar no0 campos. 
Ck)mo poderiâo fazel-o nas nossas torras ? 

Poi*que 08 Portuguezes fugiriam, como já foi descripto, e a 
maior parte dos nossos se liaveria retirado de lá e voltado para 
a pátria e nenlmm desses teria vontade de là voltar.- Tae^ 
são os lucros que a [Companhia tem a esperar dessa expe- 
dido. 

Entretanto, ó notório que VS. EE. deveriam, durante 
aquelle tempo,manter todas as nossas cidades da colónia no 
Brazil com bastante guarnição e prover as mesmas de tempos 
em tempos de tudo que fosse necessário. 

Também haveriam YV. EE. do empregar continuamoute na- 
quelle serviço um bom numero de navios de guerra, pelo receio 
qne as mesmas praças ou algumas delias fossem tomadas de 
assalto. 

Ck)nvem aqui ponderar que as guarnições e o numero desses 
navios haviam do ir augmentaodo, pelo que os nossos patrícios 
e 06 moradores de là, assim como o numero dos navios mer- 
cantes iriam continuamente diminuindo. 

O que custará tudo isso a VV. EK. ou ao Governo deste 
paiz deixo a YV KE. pira que avaliem por si mesmos. 

Também ha que considerar os damnos que isso oausai*âo ã 
Companhia, que perderá todos os sons beus e os seus devedores 
deixarão de lhe pagar. 

Ao mesmo tempo, a sua conquista do Aogola não lhe servirá 
sinão de carga ou de incommodo, porque, onde venderá os seus 
negros, si nos campos do Brazil os engenhos e os habitantes não 
tivei*em necessidade delles? 



DISCURSO AOS ESTADOS GERAES 2^25 

Sei maito bera o que a maioria sustentará aqui: 

Que, antes de tudej equipem VV. EK. uma esquadra e com 
ella mandem tropas não para qualquer das terras que ainda nos 
restam por là^as que sigam directamente para a Bahia a 
tratar de se apoderar delia. 

Mas lhes pergunto, si isso âca bem á honra e á reputação 
deste Governo. 

Aquella praça pertence ao rei de Portugal, como <)hefe, c, 
em segundo logar, ao Senhor de Albuquerque, e com esse rei e 
seu reino fizemos um tratado de trégua, que dura ainda e nSo foi 
annollado e nesse existe proposta de firmar-se um definitivo de 
paz e amizade entre os dous paizes. 

Seria justo, sem dar-lhe advertência, procurar hostilizal-o 
assim de chofre, sem primeiro pedir-Ihe uma satisfação, sem 
nada lhe dizer ou perguntar pelo direito e contra os iisoe dos go- 
vernos bem constituidos ? 

O rei queixar-se-ia disso a todo o mundo e nós não pode- 
riamos dar em justificação de nossos actos nenhuma razão cabal 
e todos nos reprovariam ; porque, si disserem que elle tem inci- 
tado a rebellião no Brazil e animado os rebeldes, fornecendo-lhes 
armas e todas as provisões necessárias, qne prova evidente e in- 
contestável ha disso ^ 

Onde e quando viram e provaram semelhante cousa? Sua 
Magestade nega expressamente esse asserto e dá a sua palavra 
de rei, como nisso está innoconte, e que é obra exclusiva dos 
nossos súbditos no Brazil ; acredita que alguns dos seus ministros 
súbditos, sem sua ordem ou conhecimento, tenham mantido re- 
lações e entretido correspondência com os nossos rebeldes, mas 
também sem sua ordem ou conhecimento e que continuam a pro- 
ceder assim sem que elle tenha conhecimento e sem que o popsa 
impedir. 

Gemo uma reparação por esses factos nos fará restituir as 
praças perdidas, como já propoz, para cuja garantia, se dese- 
jarmos, particularmente nos dará uma bía caução. 

Que razão temos para cahir-lhe em cima com as annas ? 
Pois está bem visto que, rocebendo-so toda a satisfação pediJa» 
não >e combate e fica logo excluída do espirito a idéa das armas 
e não se fala mais em tal. 

73ii —15 Tomo lxx. p. i. 



226 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

Pa&semos adeante: 

K-jsa gente põe de parte a diffiouldáde que alli existe, na 
mioha opinião. Não coiisideram que Portugal, segundo todas as 
apparencias, chegará lá antes de nós com a sua esquadi*a ; esta 
irá de Fort(i;raI directamente á Bahia o romperá passagem á 
força, por entro os nossos navios e assim proverá a prac« com 
ires ou quatro mil soldados, além de todu a munição de guerra e 
de bocca ou detiembarcará gente nos arredores, qae seguirá para 
a Bahia tioin porigo algum. 

Accresco quo todos os nossos rebeldes iriam juntar-se na 
Bahia áquftUas forças, assim como o povo da própria Capitania, 
com todos os seus thesouros e provisões de tal íórma qae haveria 
noM arrodores da Bahia uma força de 12 a 15 mil homens, antes 
que i'l cli(;gas>tíuios. 

Quaiidci a nossa esquadra com toda a nossa gente chegar ao 
lUíCif". o quí' suocedorá nos princípios de fevereiro e, por conse- 
guinte, no muio do verão, haverá muito que fazer, durante um 
nuiAt para refrescar as tropas, das quaes talvez a quarta parte 
i9i$iiU'âL iluoute nos beliches. 

Ouvn.sn comprchender bera que estando a Bahia provida e 
guarn'Mid.i, como a^lma floou dito, não será prudente irem lá 
at tr.Lv a cMqii .dra portugueza, quo então terá to las as vantagens 
áti bau íadu. uom \h)v corcj e atacar a cidade, a qual estará ex- 
tra^irdigarjamenti' fortificada e com bastante ironte. 

Cqiwj fiviíiin para tomar a cidade { — pergunto eu, e isso 
dibijtro d«' H ou 10 simianas, quo <:• •) tjmi>o que os nossos terão 
lio in.ixmi'), porquf imu m licM^om-^çara os raezes das chuvas ou 
íi4Ui^;'kj iijvornn>a. 

Nao «ou nenhum propheta, comiudo sempre direi que a nossa 
ifunUi ifoiUi t'íntir, ir.x< sorá mal succedida, segundo o meu cal. 
tu:-/, <í, «'iitã-i v(írá ([ue teria sido mollioi" aw se houvesse antes 
«M>'o/iir/ioía lo e aju>t;Ldo. 

Q'i<í V\ . EK. considerem um tanto no prejuízo que dahi 
j/rovirl jMi-a a reputava > d) Governo deste paiz, e que terão de 
'ywju/jiii:- <*oia oá ai'tos iniciados. Considerem que grandes des- 
i/«.-Z4* ti diíIiíMiidades cst 10 ligadas a isso : Poi^que, em primeiro 
.'//»* 'í'»- prociso mandar ra:ii< ^-ente para li; assim como 
^xrik <";^ ^'«íiite e p ira a quo foi anteriormente, hão do maodar 



DISCURSO AOS ESTADOS GERAES 227 

todas as provisões necessárias e juntamente tudo o qae fôr pre- 
ciso para combater a praça. 

St nada consegairem alli, terão a esquadra e as tropas de 
ir guardar as nossas terras sem coltier beneficio algum, como 
já aqui âcou provado. 

Em summa, argumentem como quizerem, não posso vêr de 
outro modo que a hoiíra e a reputação de VV. £E. ílcarílo 
muito prejudicadas com isso e as finanças serão muito a^gra- 
vadas c, portant j não se pode dar melhor conselho do que o do 
fazerem um accordo sobre tudo, como gente que só sabe fazer 
o bem. 

A Companhia das índias Occidentaes aífirma que lhe é in- 
dispensável a posse dii Bahia para garantia da sua colónia no 
Brazil, contra os vizinhos dapossesâo portuguesa. 

Admítto que seja assim no caso delia ficar em guerra com 
Portugal ou com a colónia portugueza, mas de outra forma 
oego expressimente e, em tal caso, a Bahia não lhe é de utili- 
dade, por estar muitu distante das nossas possessõjs. 

£lla julga, como já foi dito anteriormente, que o seu es- 
tado de decadência e de desolação poderia ser remediado e resta- 
belecido por meio da Bahia. 

Nisso também se eagaua redondamente, pois direi com toda 
a franqueza que aqueila praça não merece a quarta parte do 
trabalho e da despesa que parece faz<^rem por ella, e não insis- 
tirei sobre todo o sangue que será derramado por essa causa. 

E' notório que toda a Capitania da B:ihia. do muitos annos a 
i 3'>a parte tem exportado eniL*e cmco ou seis mil caixas de as- 
sucar aoDualmente e que a Companhia ou os negociantes deste 
jaiz esperara que nós nos apossemos d ?lla e quo a mesma oxporte 
10 mil caixas por anno para lucrarem nesse negocio cerca de 4 
tonueisde ouro (um Vjnnclde ouro vale cem mil florins) livres 
de despesa. 

Pergunto agora si vale a pena, por esse motivo, aíTrontar 
tão grandes riscos, como sejam assediar e tomar de assalto a 
praça situa la tão longe, bem provida e fortificada e portecente 
ao rei de Portugal. 

Devemos, alem disso, fazer tamanhas despesas por es?a 
causa e derramar tanto sangue! 



225 REVISTA no INSTITUTO HISTÓRICO 

Quanto a mim, declaro francamente, não posso ver claro 
nessa questão. 

Segundo: E' muito de receiar que, com essa expediçSo, as 
cousas íiijuem de tal modo, que sobrcvenha dahi uma mptara 
gorai entro nós e Portugal, tiinto aqui e no Brazil como nas ín- 
dias Orientaes, o isso se dará por caso deliberado e com a aggra- 
vanto do que seremos nós e não Portugal os primeiros autores 
(^ causadores, pois teremos sido os primeiros a provocar. 

S como n&o ha de ser assim?. . . 

A esquadra de VV. EB. encontrando no mar ou em qu:ilqaer 
outro logar a esquadra de Portu^^^al, procurará detel-a ou hcsii- 
lizal-a de qnalquer maneira: essa serl a consequência do assedio 
da Bailia. 

Do>ejaya que reilectissem madurameou) sobre esrpe ponto e 
todos os seus perigos. Pode-se muito facilmt^nte affrontar ou de- 
clarar guerra a alguém, mas cumpro-o fazer com honra e res- 
pjiLo. Dever-so-á, por acaso, provocar uma Incta e até íkzer 
;;uorra a Portugal em contemplará companhia das Índias Ooei- 
d^^ntaes ou para nos apossarmos da iHihia, que não nos pertence 
o que não tem grande importância, como já demonstrei I 

Valeria então a pena que o nosso paiz perdesse todo o com- 
morcio de Portugal, Madeira e da ilha da Terceira, o qual é tão 
importante o antigamente era tão deseiivoivMo entre nós, espe- 
cialmente o tão necessário do sal de StHubal, de cujo artigo nos 
vinham de lá carregados corça de 4<)0 navios para as nossas 
pescarias e para o iraâco .' 

Dovoriamos,eotiu>, deitar fora este comm«*rcio o entregal-o 
a outros povos e paizes í 

liinii terão por esse melo não poucas opp trtunidlades e com 
a oontínuavão nos tir;vrão mais uma g:*an lo p irt? de nosso com- 
mercio maritimo e, com o correr dos tempos, torna-so-io tão 
forces om navegação como uós, o saberão, sem duvida alguma, 
tirar proveito desta noss;t contenda. Ess i simples consideração 
bis^A para rao-trar, penso eu, i\\u6 q<'^ paiz está mal avixado. 

Teriamos igualm 'Ute do abandonar o ^ando commeroio de 
ceriíaes, que iria para Hamburgo e outras úaades da Áustria, o 
qua:, enlrt»tautj, convém que o nosso Governo s^ esforce por 
eon>ervar o flxar caia voz mais no nosso paiz. 



DISCURSO AOS ESTADOS GERAES 229 

Por causa da perda do eommercio de Portugal, teriumos de 
abandonar tudo o que a elle se refere, como as manufacturas de 
Harlem, Leyde, Amsterdam, cargas de sal, aasuoar, especiarías, 
pedrarias, munições de guerra, pu.ra os deixar ir para outras 
terra. £sta é uma consideração muito seria, que deve ser bem 
estudada pelos entradidos. 

Finalmente, com a perda do oommercio, que iria para os 
nossos vizinhos Inglozos, Francezes, Eseossezes e Austríacos, so- 
breviriam, em pouco tempo, grandes desgostos causados pelos 
corsários desses paizes, que sahirião diariamente á pilhagem 
nas costa de Portugal. 

Assim, pela mesma ruptura geral não poderíamos ir lá com- 
morciar. 

Todos esses grandes damnos e contrariedades estão suspensos 
sobre a nossa cabeça, e não me parece que possamos tirar d*ahi 
outro proveito a não ser uma ténue esperança de com tempo 
tornarmo-nos senhores de todo o Brazil, no que poderemos estar 
illudidos e cuja conquista não teria metade do valor das despesas 
que haveríamos de fazer por ella. 

Agora o que os da Companhia das índias Oceidontaes pro- 
curam persuadir para coUocar sobre a cabeça do VV. EK. essas 
difficuldades, exporei e refutarei no ponto seguinte. 

Terceiro: — Haverá alguém de juizoe critério que, sabendo 
que Sua Magestade o rei de Portugal procura fazer um tratado 
de paz e amizade com o nosso paiz, julgue bom e melhor 
que desista de tal e que façamos gueri*a franca a Portuíral, em 
seguida ou logo que lennine c prazo das tréguas que esta a 
expirar? 

A experiência de ou ti 'ora e a ultima de poucos annos em 
que estivemos em paz com Portugal tem demonstrado bastante 
como Sião úteis e necessárias essas boas relações ; sim, os próprios 
garotos conhecem esta verdade. 

Não será a paz, pergunto eu, mais christã e melhor do que 
a guerra ? 

Porque o que ha de sagrado ou de bom na guerra? Não 
6 uma calamidade, um monstro ou cousa abominável que de- 
vemos evitar e considerar como o que ha de mais horrivel para 
a humanidade ? 



230 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

Ao contrario, não é a paz o que ha de mais agradável que 
se pode desejar, assim cono. ao mesmo lempo, é o que ha de 
mais ohristão ? Entio qae phrenesi é esse que faz que prefiram 
a guerra â paz com Portugal, alem disso por uma bagatella e 
por contemplação ã Ck>mpanhia das índias O^cidencaes ! 

Não devem estar tão esquecidos do quanto ficámos satis- 
feitos, ao ouvirmos que Portugal se separa e se libertara de Cas- 
tella ; também devem-se lembrar ainda da nossa anciedade no 
desejo de fazermos ura tratado firme e inquebrantável de paz e 
alliança, ao ponto de querermos ser o< primeiros em mandar 
alguém ao novo rei, antes que esse nos enviasse um emissário 
para represental-o aqui. Não veiu depois o sou Embaixador para 
firmar um tratado que nos lijue e obrigue tanto a nós oomo ao 
seu reino f Não entregou e contiou sua Magestade ao seu satdito, 
o actual . Embaixador, essa questão, com o tlm de não pra- 
telal-a e com plenos poderes e procuração, como poderíamos 
desejar? 

Não declara Sua Magestade ^ue elle e o sei reino desejam e 
se esforçam por isso í 

Ddveriamoe. portmto, pela iticonsi iei^ada solicitação da 
Companhia das índias Occidentaes. emprohender guttrra contra 
Portugal e, antes da declaração, ir sitiar a Bahit e, em seguida 
ftzor de forma que trouxesse um con.licto inevitável entr* os 
dons povos e assim perdêssemos o ne.e>s:\r:j • importante com- 
mercio e tratiso de Portai:ral ? 

Qnando medito l>om sobre estes pon**- s. z'\o posso vêr de 
outro modo, isto é, que st^reinos verg >Lihosimeav? ludibria- 
dos. 

Sei bem o que a Companhia procura com certeza convencer 
a VV. KE. istoé, que pouco St:» arrisei | lantD ao commercio 
deste paiz com Portugal. vis;o que iniu^itave! mente o rei de 
Castella ac apossará novamente de Portugal, e, si agora estamos 
presos pelo tratado de paz, ficaremos en .ão livres. 

Deviam, na minha opinião, pensir :í>.>:h r s^bre isso, não 
conhecem o poder de Portugal : tão pou?o conheoem oseu estado 
e o seu U--sejo ardente de Uberdade e ?.ão o >nsideram nem co- 
nhecem t^em a fraquezi de Castella em relação a Portugal; nio 
imaginam que poderosos alliados r^ amigos. Portugal já tem e 



DISCURSO AOS ESTADOS GERAES 231 

ainia obterá mais, os quaes não poderão deixar, por muitos res- 
peitos o por sua palavra e juramento, de ajudar áquelle reino 
contra Castella. 

Não contam com a inconstância e a incerteza da <ruerra e 
nisso Portugal poderia ser tão feliz como nós, baseando-se ar sua 
guerra nos mesmos principios e fundamentos da nossa. R como 
todas as guerras do mundo são dirigidas ou governadas por 
Deus, que sabem elles sobre o que Deus pensa fazer ? 

E ê elle e não outro quem eleva ao throno os reis da terra 
c os ezpelle de lá, quando pela força, injustiça ou ambição 
lançam uma nação contra outra. 

Não consideram quão maravilhosamente Deus tirou das mãos 
de Castella e libertou aquelle reino em tão pouco tempo e sem 
derramamento de sangue e tem ajudado o mesmo contra o reino 
visinho; ainda mais como tem milagrosamente salvo o rei D. 
.loão IV de desígnios traidores e sanguinários, astúcias c embos- 
cadas. 

Quem considerando bem isso, não acreditará que Deus de- 
fenderá d'ora avante, aquelle reino contra Castella ? ! 

Ver-se-a realisar tal cousa, com espanto, pelos meios hu- 
manos. 

O primeiro reino tem força bastante para por em campo e 
manter um exercito bem formado ; todos os povos, tanto os pe- 
quenos como os grandes, fizeram juramento de inimizade aos 
castelhanos e de fidelidade e affeição para sempre ao seu rei 
como antigamente e prefeririam entregar-se, é um modo de 
dizer— ao Turco, a serem dominados outra vez por Castella, pelo 
que estão resolvidos a arriscar a vida e tudo o quQ possuem, 
antes de soffrerem tal cousa. 

O próprio clero de lá pansa de egual modo, menos os 
Josuitas, que, entretanto, era toda a parte, são a favor de Cas- 
tella, 

Dizem que os Portuguezes das Índias Orientaes mandaram 
recentemente em auxilio de seu rei e de sua pátria 400 canhões 
o prometteram também fornecer alguns milhões de ducados que 
indubitavelmente serão pagos promptamente. 

O próprio reino tem a melhor opportunidade de causar pre- 
juízos á Hespanha em terra e mar. 



232 REMSTA DO INSTITUTO HISTORiOO 

Pode obi?r do es;raiigeiro todo o que precisar para a soa 
defeza • para as soas necesciiaies. 

Soa Magestade o rei de França oão deixará de ajodal-o com 
dinheiro e geoie ; o mesmo fará a rainha da Suécia ; não Haura 
mepofl o reino da Inglaterra e Eâcossia, mas, se assim fazem, é 
para gastarem as forças de Hespanha e tirar-noe cada res mais 
a metade do commercio que lá temos. 

O reino de Portugal obterá das cidades hanseaUcas não so- 
mento gente e soldados allemiea, mas também todoe os outros 
recursos. 

Finalmente não faltariam alli , si o desejassenx», cotraarios 
de todas as nações para incommodar a nossa naTcgação e a dos 
Castelhanos ao largo de sua costa. 

Devem V. E. reconhecer que essa gente pode estar muito 
enganada na sua opinião e afflrmação e que Portugal ficará 
sendo Portugal e, por conseguinte, V. E. não devem acreditar 
naqueila conjectura. 

A seg^mda é que a Companhia das Iniias OcMdentaea sus- 
tenta que seria bom que V. £• tomarem, de Portogal para 
ella, a Bahia e depois todo o Brazil e que a Companhiadas índias 
Orientacs tomasse também todas as Índias Orientaes e que 
aquclle reino ficasse cm todcs os tempos bem disposto comnoaoo 
e fizesse um tiatado de paz e amizade pelo qual nos deixaria 
guardar todas essas terras. 

O terceiro é que Portugal, tendo uma guerra ftanca com- 
xiosco, não poderia defender por muito lempo as suas terras das 
índias Orientaes e do Brazil, nem continuar com a navegafiio e 
commercio para as mesmas, visto que todas as suas forças 
teriam trabalho dobrado em se defender sú em Portugal contra 
Castella. 

Essa gente então não sabe que se engana nesse codqo nos 
outros cálculos o ainda quer enganara V. E. ; pois garan- 
tirei que Portugal não estd de humor para avaliar tio ligeira- 
mento a perda dessas terras, pelas quaes tem trabalhado ha 
tantos annos, e gasto tantos milhões para adquiril-as e que lhe 
rik> tão importantes. 

O que muito provavelmente faria no caso de lhe decla- 
rarmos guerra, o que espero não aconte(,-a, e se Castella o atacar 



DISCURSO AOS ESTADOS GERAES 233 

muito rudemente, seria cuidar o mais possível em conservar 
aquellas terras e o seu commercio : em seguida, quanto a Gas- 
tella, queimaria tudo nas fronteiras de um e de outro lado, de 
sorte que nenhum exercito Castelhano pudesse se manter alU 
para hostilisal-o. 

Também manteria no porto de Lisboa uma forte esquadra 
do navios de ^erra, não somente para defendei -a, mas também 
pai'a vigiar todos os annos as esquadras de prata que viessem 
das índias Occidentaes, 

Faria também atormentar pelos seus corsários o commercio 
c a navegação das Índias Occidentaes, assim como de toda a 
costa da Andaluzia, Murcia e Granada, como já fizemos n' outro 
tempo. 

Quanto a nós: Em primeiro logai* bauirá do reino não so- 
mente todas as nossas manufacturas e artefactos, mas também 
todos os navios construídos ou pertencentes a este paiz, assim 
como 08 que aqui tenham recebido toda ou parte da carga, pro- 
hibindo, ao mesmo tempo, expressamente, que os navios fretados 
alli, ao partirem de lá corram a qualquer de nossos portos para 
deixar, vender ou baldear as cargas. 

Depois, franquearia o seu commercio das índias Orientaese 
do Brazil a todas as outras naçOes, excepto a nossa . podendo 
ollas negociar com seus navios e fazendas franca e livremente 
naquelle reino. 

Com tal medida a nossa navegação, construcção de navios e 
fabiico de manufacturas aqui no paiz, soffreriaraum tal de- 
sastre, a ponto de não se poder, do modo algum , pôr em pratica 
ou endireitar, por mais que se quizesse. 

Entretanto, elle obterá aos poucos e quande fôr preciso para 
as suas possessões nas índias Orientaes e no Brazil e cora módica 
despeza, de todos os paizes, tantos soldados, como ;^enero<, muni- 
ções e mais aprestos necessários para a sua defeza. 

Opeiorainda a esperar para o nosso paiz ó que desse modo 
irão tirando pouco a pouco a nossa navegação e commercio 
mesmo o das índias Orientaes, e depois o dos nossos visinhos; e 
como desajo ver tudo prevenido em tempo, sou de opinião que 
se deve fazer um tratado do paz e amizade entre e«te reino e 
o de PortugoJ, a contento de ambos. 



234 RE\ISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

Portanto, por cinco espécies de raiões julgo neoeeario q^ae 
se estabeleça a paz. a saber: 

Em primeiro logar : Para por esse meio conservarmos o 
commercio e pratico daqaelle paix e provenirmos qualquer desTio 
delle. 

Secundo: pira impedir, tanto qaaato pudermos, que o rei 
de Cas^^Ila se aposse novamea^ de Portuga!, deveado nós hosti- 
lisal-o e quebrar-Ihe as forcas o mais possível, para maior segu- 
rança da nosio EsLilo, p^is ó cousa ceru e ví^rdaieira que 
ainda que tenhamos feitD um tratado de paz permanente, não 
obstante isso ílca:*l latearemeate nosso inimigo jura io, o qual, 
dia e noite procurará por man?jos secretos conquistar-nos, visto 
que, em unios annos, não pouie conseguir pala força. 

Terceiro : taat) quanto nos f'»r pr.ssiv.d fazer-lke dis- 
trahir e cons imir as forvas para miior segurança e tranquilli- 
daíle deste Es;ado é o que <e deve fazer, visto que Portugal, nada 
tendo a receiar deste paiz, e e^tindo em paz e boas relações, ob- 
terá aqui com seu dinheiro todos os recursos. 

Qíiarto: porque Portugal foi em parto causa da paz, que 
fizemos agira com o roi de Cast dia, tão desejada pelos nossos 
pães, pois havíamos feito reciprocamente tiato mal e derra- 
mamo-5 tdn;o sangue. ;>erdemos tantos anãos o gasto tantos mi- 
lhares ie toneis de ouro de imbos os !ado:> . 

E' ara f^to q'ie a revolta de Portugal ::ã'3 cjatribuiu pouco 
para a paz, como >e poderá provar mais ^impiamente, si for 
preciso e omittirei .\qui para ser br»jve. 

E , portanto, mais que Justo, p^r gra;idão, fizermos agora 
a paz com elle e estreit.\l-a tão intimam 'u.« r ** ir»eiode um . 
tratado que nada fique indoterniioado. 

Quinto: para inutilisarmos o-; manejos h^^spanhó^s.osqiiat-s 
com esta querella entre nós o Portugal nã^ visam outra cou^a 
mais se não fazer-nos consumir as nossas forgas, um com o 
outro, e depois que estiverem consumidas coa^uistar-nos a 
ambos maiscommodameate; por:aato, devemos e'. itaress^ ma- 
nejos e fazer um tratado de paz cora Portu;:al. 

Agora segue-se finalmeate es'a pergunta: Em vez de se 
fazer um tratalo de paz e amizade, como ficou amplamente pro- 
vad<j e C* eiuititiv3 e razoável, vae», por contemplação i 



DISCURSO AOS ESTADOS GERAES 235 

Companhia das índias Occidontaes, sitiar, atacar e tomar a 
Bahia no Brazil e romper com elle ? 

Respondo: — Não. 

Todos os motivos e razões, na minha opinião, sâo de tão 
grande valor, que sobrepujaram tudo o que a Companhia das 
índias Occidentaes possa apresentar a VV. EE. para induzil-os 
com seus conceitos inconsiderados ou acres couselhos. 

Agora, de que maneira se deveria proceder para aflíirmar 
um tratado de paz e amizade com Portugal ao mesmo tempo 
preparar uma grande esquadra e forças de terra para mandar 
ao -Brazil, sobre tal ponto não discutirei presentemente, mas 
deixarei entregue á proverbial sabedoria do VV. EE. rogando 
a Deus todo Poderoso que abençoe o Governo de VV. EK. para a 
prosperidade sempre crescente d<.>ste paiz. 

20 de outubro de 1047. 



Plenos poderes do Eeino de Portugal a» sea Embaixador 

D. João pela graçi de Deus, rei de Portu^^al e do Algarve, 
etc. 

Por esta dou *odos os necessários poderes e faculdades a 

Francisco de Souza Coutinho, do meu Conselho, Governadora 

Capitão General dos Açores e meu Embaixador ordinário junto' 

aos Estados Geraes dos Paizes Baixos Unidos, para por mim e 

em meu nome contractar e firmar cora os altos e poderosos 

Srs. Est;dos Geraes e com os ministros das Companhias das 

índias Orieiít .es e Occidentaes ou com qualquer em particular 

«m accordo de paz geral ou particular ou do tréguas por um 

prazo de annos, com condições ou obrigações, que elle bem 

Julgar entre oste reino e suas conquistas e os citados Estados 

Geraes e companhias, de tal modo e forma que entender ser 

mais couveoiente e terei por bom o valioso o que por elle for 

leito, como se por mim fosse feito e concordado, não se oppondo 

q'iaes<iuer l-is, direitos, capitules dos costumes da Corte em 

>• )ntrario, parque as revoguei anteriormente neste caso, como 

se aqui fosse feita menção particular e expressa, tudo por minha 

própria vontade e de sciencia certa e real e absoluto poder, da 



236 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

melhor maneira e forma que for de direito e para firmar tudo qae 
aqui foi dito, fiz passar esta carta par mira assignada e sellada 
com o grande sello das minhas armas. 

Datum nesta minha cidade de Lisboa, em 19 de Fevereiro. 
Luiz Teixeira de Carvalho a fez no anno do nascimento de Nosso 
Senhor Jesus Christo 1647. 

Pa Vieira da Silva a escreveu. 

El Rey, 



' Proposta feita pelo Embaiz&àor de Fortcigal a Assembléa dos 
Estados fferaes 

Altos e poderosos Srs. es Estados Geraes e Paizes — Baixos 
Unidos. 

Na conferencia que tive aos 19 do corrente comos Srs. 
Commissarios, perguntaram-me aquelles Illustres Senhores, 
como se faria a restituição das praças de Pernambuco e que 
refém ou cidade meu senhor dava para ;íarantia; 

Por minha vez perguntei aquelles Illustres Senhores, se 
VV. EE. concordavam e queriam que se realisasse a resti- 
tuição, porque se não, perder-se-ia mais tempo e iniciando-so 
, qualquer cousa, deve-se ver o seu termo. 

Aquelles Illms. Srs. me responderam que V.V. E.E. accei- 
taram a restituição, ao que lhes propuz, assim como nova- 
mente proponho que Sua Magestade se obrigue a fazer a resti- 
tuição de boa vontade por meio da persuasão, aconselhando 
aquelie povo, ou a força constrangendo-o pelo poder das armas. 

Em relação ao refém ou caução, que competia a VV. EE. 
pedir e indicar para garantia da promessa, os Srs. Commissarios 
pediram a Bahia por caução ; mas foi-lhes demonstrado com 
bons argumentos que tal cousa não era fácil de realisar e tinha 
muitos perigos e incovenientes e que em vez de livrar-se de 
uma difficuldade, cahia-se noutra e como dcvia-se dar alguma 
praça para garantia, era melhor e trazia menos inconveniente 
para ambas as partes dar uma dentro do reino do que fora 
delle. 



DISCURSOS AOS ESTADOS CERAES 237 

AqaolJes Illnstres Srs. acolheram bem as minhas razões e» 
«iULseram que eu nomeasse algumas praças do reino, o que íiz- 
indicando quatro ou cinco dentre as quaes VV. EE. podem es, 
colher, e foram : a de Setiubal, Vianna, Porto do Aveiro, Villa do 
Conde e no reino do Algarve poder-se-ia também indicar uma. 

Esta é em summa a relação da dita conferencia. 

A respeito desse ponto o Sr. Presidente deu-me a honra de 
*zer-me uma visita em minha casa e pedio-me que e xpuzesse 
por escripto o que se passara na conferencia. 

Satisfazendo esse desejo repito que dissera áquelles lUustres 
Srs. que orna das maiores garantias, a qual nos custaria a dar, 
era a pessoa do Sr, Infante, irmão de Sua Magestade, declív- 
rando, está bem entendido, que propuz isso como um modo de 
fallar e conversationis gratia ; porque também espero que VV. 
EE. terão satisfação em procurar, com o facto da sua liberdade, 
Jar esta contentamento á S. Magestade e ao seu reino, continu- 
ando até o fim, eomo começaram. 

Datum em Haya aos 13 de Se lembro de 1647. 

Do Embaixador de Portugal (Assignado) Francisco ãe Sousa 
Coutinho» 



Proposta as Kobres o Altas Fotencías os Senhores os Estados Qeraes 
dos Faizes Baisos Unidos 

Após a minha primeira proposta feita em 23 de Maio pro- 
:ximo passado, na conferencia, que tive com os Srs. CJommis- 
sarios nomeiados por W. EE. fuiaccusado do comaquellanão 
ter tido outro intuito senão retardar o tratado de Munster e 
íazor sustar os aprestos da esquadra, que aqui preparam para 
mandar ao Brazil. 

Essa* opinião tomou vulto, não obstante julgava tol-a des- 
mentido com a proposta que fiz a VV. KE, na Reunião Publica 
em 16 de Agosto próximo passado, do que, todavia não me ad- 
miro, pois na minha pi-imeira proposta não existia menção al- 
guma de fazer restituição das praças tomadr-s em Pernambuco 
e se figurou tal menção na segunda foi com condições ; actual- 
mente, porém, tornei explicito o prometti absolutamente fazer 



238 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

a restituição e retirei todas as condJ<,'ões, qao ainda lá 5e 
achavam. 

Duvidam da minha sinceridade e leaes intenções e não é de- 
masiada a minha surpresa, pois que o meu desígnio foi, não en- 
tregar nenhum memorial e esperar para depois da conferencia 
nâo só lhes certificar e confirmar pessoalmente o que promet- 
tora, mas também diripfir-lhes palavras tão claras e sinceras 
que se por acaso não fossem bastantes o^i convincentes para lhes 
asscí^^urar a minha bôa fé e rectas intoações, dariam-me, todavia 
a tranqnillidade ou tirariam a anciedade que me pudesse restar 
por não haver dado a VV. EE. numa questão de tal impor- 
tância a conveniente satisfação, que podia e devia. 

As.<im digo em primeiro lugar: que não ha mais qut» fallar 
do que está. concluído no tratado de paz geral em Munster e que 
agora basta tão s< -mente ao Rei meu amo fazer e firmar am 
tratado de paz com este paiz. 

Segundo : que vcs proponho por part3 do Rei fazer a res- 
tituição completa de todas as praças de Pernambuco, tomadas 
pelos rebeldes. 

Terceiro: quanto á esquadra de VV. KE. que façam como 
melhor lhes aprouver ; o quedescjoé quo a ie Portugal não vá e 
se for, em l^^gar de ene .ntraiem-se hoítilmente, recoaheçam-se 
como amigas que já sãj e completem a obr:i contrariamente lU 
primeiras iotenç'>s. 

Em conclusão — que me façam o favor de me despachar 
para que eu possi dizer «jue VV. KE. continuam ajora aagir de 
bôa vontade nesta questão, estando ella presentemente em taes 
termos que em menos de quatro inezos não se poderá resolver 
c cont luir á vontade e satisfação de VV. EK. 

Portanto penso que o caminho mais ou. to e mais seguro e 
de menor pori;j:o r.vil. seria por mãos a obra e tratar de re- 
solvel-a e pai'a provar que não ha de soffrer do minha parte 
nenhum obstáculo ou pri>toia;ã », proponho omi aroar-me imme- 
diatamento para olirizii. Paraense fim poço a VV. EE. que 
mandem apromptar um navio para "ir, com o auxilio de Deus, 
ao porto da Bahia e tomando posse daquelle governo vos faça 
ontiegar e restituir toias a>5 praças que propuz em nome de 
Sua Magestado. 



DISCURSOS AO^ ESTADOS OERAES 239 

Se porvdQtura nãD se conseguir por bem hoi de empregar a 
força, para cujo fim irão mais reforços de Portugal para obri- 
gal-os e se não fosse bastante, o que não acredito empregaria a 
força da vossa gente, de que mo faltaram e se fosse necessário 
da qae ainda enviassem d'aqui. 

Digo mais que para fazer tudo voltar ao primitivo estado, 
muito depende da execução rápida e enérgica, a qual prometto. 

Se nos detiverraos alé que seja dada a satisfação e a caução 
para L^arantia mutua o quízerem esp.^ra:* p?la tomada de posse, 
se perderá muito tempo inultimonte, que aliais sendo, bem apro- 
veitado, serviria muito para garantir o êxito da solução desta 
questão. 

A esse ri^s peito, aecresoento que para tal fira estou autorisado, 
armado e provido de "oJi^s os necessários poderes e qualidades, 
tanto para aqu! como para o Brazil, sem que me seja neces- 
sário esperar por qualquer cousa ; de sorto que estou actual- 
mente prompto ás ordens do VY. EE. de quem tão somente 
dependo neste momí.»nto . 

Espero que W. Ei:. comprehonderão que quem sê exprime 
desta fí:>rma uvlj procur;i protelar a questão, mis remove do 
caminho qualquer causa, de demora, pois, se procurasse ganhar 
tempo, não fillai^ia com tú clareza e sa aproveitaria das de- 
moras exiddas pela caução . 

Não difro que não se esforcem* mais pela caução ou qiie se 
recusem a dal-a. digo apenas que nos convém aproveitar melhor 
o tempo para p.*»r termo a questão. 

E a fim que não mo fi([iie no cor.içã') o que poderia ex- 
primir pela j-alavra, não seriu inconveniente na minha opinião 
e no ca>;o de VV. EE. concordarem, que emquan to começamos 
tratar da nossa quesulo, mautlemos um navio ao Brazil com 
ordem de f.izor cessar tod.-s os actos do hostilidade entre 
ambas as nações e que tudo tique no mesmo pé em que se achar 
até a minha chega ia. 

Pois realmontí^ p'u'.'cc ser inconsequente e contra toda a 
razão que oiiiqiiaiUo a']ei negociamos um accordo, lá pelejem 
uns com os outro.: derramando sangue e tirando a vida ; é 
melhor que os poupemos Alt'>s e Poderosos senhores e que der- 
ramem o sangue e arrisquem a vida em serviço de ambaa as 



210 REVI^iTA DO INSTITI:T> HISTÓRICO 

iia';5es, euíra as qxiaas espero vei* uma Arme e inquebrantável 
amizade para a nossa prosperi lade e maior gloria e espero poder 
alcançar a lionra tão subida de realisar cousa nâo sagrada o tio 
jus VI por lodos os motivos. 

Datam em líaya 1.') de outubro do 1647, (assignado. )— O Em- 
baixador de Sua Magostade o Rei de Portugal. — Francisco de 
Souzc Coutinho, 



«'t YQrzuimd Brazíl» 

( o BRAZIL ABANDONADO) 
Artigo publicado na revista hoUandeza 

em maio de 1899 

POR 

S. KALFF 



7341 — IG Tomo lxx. p. i. 



NOTA 



í*or n-licarão tb illustrado coll<»,a «U» comin «são, Dr. Manool 
Cícero, que com tanta compet«!nci.i c zelo dirigre a Hibliotheca Na- 
ciunalf a lAnnini^são d<í Rc«lac:âo acreitou a traducçãu leita pelo 
Dr. IVdro Souto Mnior de um arliuo de S. Kiil '", publicado na 
n^vihla hollaiidcza — DK ClIDS — em maio de 1S'.hj, sob o titulo — 
« t'vi:rzi iMu Hrazil— fO Jirazii A-tandonado). 

IO', Como .<o vcrn, um <^studo s\ iitlielio-) a imparcial da ípjca cm 
que o liraz 1 cslovi- sub o doiniuio Iiollandô'. 

* [1)1 ' ommUsã » de Red ?o ^o. ) 



«'t Yerzuimcl Braztt 



Veríuimd Brasil ; o rijke granden, 
K'tVr aard Hs diamctnt en goud, 
* Van naren, 

(Brazil abandonado ! 
Rico paiz, teu solo ó puro 
diamante e ouro.) 

Uma columna de ferro cahida por terra em moio de plan- 
tinhíiá florescentes, tal uma reali lade entre illusões, assim se 
apresenta á vista do viajor aos :irre lores de Kleof — a sepul- 
tura de Maurício. 

Passeiando o olhar pelas bor las do bosque sombrio que 
cobro montes evalles, dopara-se-Iho uraa construcçao quadrada 
por cima da qual folhas de pinheiro deixam deslisar doce- 
m(ínte a projecção da sombra, e junto as frágeis planta^ flo- 
ri, las do campo soerguem flexíveis ramagens como acarici- 
ii.ndo os l«*azõe3 e os symbolos, as metaphoras o as coroas de 
lounjs nos duros flancos, bnin como a extensa inscrípção latina 
«l«j mau3ol^3U vizinho allí erecto : la derniére vanitè de Vhomme, 

Para provar que aquollx sepultura fora destinada a uma 
imlividulidado po ierosa da hisf-oria colonial da Hollanda, a 
Juão Maurício do Nassau-Sie>r<íQ, appellidado «o Brazileiro», là 
distava o monumento massiço com senis emblemas militares» 
^líoatanlo o encerramento das cinzas do íruerreiro, coberto de 
r^niiadura, que pa sara a mór parte da vi la na tenda de 
^\';hille>, antes de ser chamado ao Conselho, orno Catão. 

Ni allogoria das chapas de bronze, e mais ain ia na ins- 
<- rlp<ão do mausulou, se patenteava uma completa arvore ;?e- 
' At?il,.:';pa o mi mcios.i serio dos serviços des>e descendente. 

L;l siava a cruz d;i celebre orlem do S. João, de que foi 

♦;il'.- (rj-ãu Mastro —a espada com a coroa de louros o a ampla 

''iv;s» : Rua palct orbis. (Xid onde eboi^ar no muutlo). IA 03- 



244 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

tavam os brazões da família, reunidos cercando era namoro 
glorioso uma armadura de ferro, com os tropheus de guerra 
arremessados ao bordo inferior. 

Lá estava, Unalmente, a inscripção em solomne latim, no- 
tificando tolos os méritos e cargos daquelle varão. 

Entretanto, o que parocia ser muito, era realmente bom 
pouco. 

Vondel foi o primeiro a reconhecer o facto, quando ao re- 
ceber das mãos de Oovert Flinck a plant i do mausuleu e de- 
pois de contomplal-a escreveu por baixo as seguintes palavras: 

Onsrhaditvt Mauri'^ ni'l mel itcpcnsvan itij,i rndri-,*. 
En hi'i')'schappij«n , <•■•!» verfjanhclijkc pracht, 
Manr niet de deugd 'ti d!'' in ftWti forldvergadrt*)i, 
Tol o}idfí'sta»%(f cn rum: x<n}t *í .ii^nsclielliK gcsla-U, 

(Não ompaneis a gloria de Maurício com brazões e grandezas, magni- 
ftcencias transitórias, poi^^ brilhará nos feitos que so accumulam em um heróe 
para o apoio e tranquillid.Mlo da humanidade.) 

Demais o que fora outr'ora general de cavallaria a serviço 
dos Estados Geraes não encontrou o ultimo repouso nessa férrea 
Sepultura, pois segundo o desejo do moribundo — fo^em as 
suas cinzas guardadiis junto ás de seus antepa-sidos — foram 
seus restas mort le-í írimsportados para siegon o depositados 
no jazigo da famiiia. 

Ainda hoje,na cidade de Kleef, e em todo o antigo condado 
perdura viva a memoria delle, como um dos mais gloriosos 
dos seus governadores, e por todos os naturaes c visitantes ô 
conhecido o solido oíifiiiodo palácio do Príncipe com o seu 
sombrio pai*quo, on le elle outrora descansava das grandes 
fadigas soffridas no Itt'azil. 

A admiuistraçã-í do<se governador na America remonta a 
um período brilhante da infância da Ropubli«a. Foi o tempo 
em que os cruzeiros dos «batedores dos maros> seguiram as 
))egadas deixadas pelos Portuguezes e p.oc .iraram em longín- 
quos paizes as fontes do uma rápida e crescente grandeza com- 
mercial, c assim dos filhos do povo em múr parto surgio a pha- 
lange desses fundadores de colónias e navegantes cujo espirito 



o BRA2IL ABANDONADO 245 

de commercio, ficuldiíde de iniciativa, e coníiauça nas próprias 
forças hão de dar fama á na^ até o ôm dos séculos. 

Foi Umbem nosso tempo em quo parte dos mercados ul- 
tramarinos foi conquistada dos Portuguezos o disputada aos 
Bretões, e a fama das feitorias cstendia-se do impenetrável 
império do Mikado até as estéreis costas da Africa Meridional, 
e das «regiões ricas em cravo» das Molucas até as praias ver- 
dejantes do Brazil. 

Foi especialmente o tempo em que a bandeira dos Estados, 
então altiva, inspirava honra à nação, terror aos inimigos. 

Desde o anno de 1500, isto é, desde as viagens de descoberta 
de Vicente Piíizon e Alvares Cabral, foi o território do Brazil 
explorado pelos conquistadores portuguezes. 

Apezar de que o diamante e o ouro jaziam intactos no seio 
da re^âão selvagem, ignora vam-no ainda, como os primeiros 
exploradores dessa espécie de Califórnia, marchando á cega e 
rastejando occul tos veios de prata e jazidas de ouro. 

A descoberta desses thezoiíros em Minas Geraes e outros 
pontos devia ficar res rvada a uma f atura geração, embora 
houvessem já reconhecido que o paiz possuia tão ricas florestas, 
producçâo tropical tão desenvolvida, tantas manadas de bois 
bravios e tamtos escravos que bem parecia nelle se realizai' 
a phantasia do Vellocino. 

O interior com suas impenetráveis florestas e tribus da 
cannibaes era-lhes uma terra incógnita, uma «região bravia o 
prodigiosa», onde a própria natureza parecia repellir ao 
homem. 

Só os grandes rios davam accesso, aqui e acolá ; cui*so3 
caudalosos cujas aguas se lançavam atravez de espessas e in* 
trincadas florestas, extensos pampas' e desertos florescentes, 
como o poeta vira em sua rica imaginação : 

With unhated force, 
hl siUnt dignity thoy stoecp along. 
Atui travcrsc roalms unknown^ and blooming icildc. 
And fruitfiU deserts^ worldsof solitiide, 

VVkere, thc su7i smiles and scasons tcain iu vaiii, 

Umceyi and iincnjoy'd, 

(Tliomson The seasoni) 



246 . REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

Anteriormente contentaram-se os compatriotas de Henri- 
que, o Navegador, em estabelecer ao longo da costa uma cadeia 
de entrepostos commerciaes, em navegar os rios mais impor- 
tantes, em fazer plantações e depor toda a conquista sob o do- 
minio espiritual da Egreja Metropolitana com todo o seu cortejo 
de prelados, frades, missionários e padres jesuítas. 

Entretanto, no anno de 1581, Portugal e as colónias se pas- 
saram ao domínio da Hespantia. 

Tornou-se o Brazil, portanto, um protectorado do rei da 
Hespanha, e teve este de vêr mais tarde sua possessão ultrama- 
rina assaltada ' pelos súbditos rebeldes e hereges dos Paizes 
Baixos. 

A guerra entre o soberano e o vassallo foi feita desespera- 
damente até que a trégua de 12 aonos veiíi interrompel-a. Mas 
antes do intervallo do paz do anno do i<)0:), ao passo que o 
ruido das questões religiosas vinha substituir os tumultos da 
guerra, já. estava fundada a Companhia das índias Orientaes, si 
já não florescia prosperamente . 

Em 1621, seguiu-se o estabelecimento da Companhia das ín- 
dias Occidentaes o rec >meçaram as hostilidades com a Hespanha. 

Esforçaram-se os diroctores, a quem os louros e maiç ainda 
os grandes lucros da íifortuna.la companhia irmã tiravam o 
somno, por obter parte das riquezas do Ultramar. 

Certo navegante descobrira ura império insular, cujas es- 
peciarias valiam ouro e a America do Sul parecia possuir o 
fabuloso vellocino da Colchida. ou p^r lá tamt>em corriam qui- 
çá, as ondas auriforasde um Pactolo. Mas, emquanto não acha- 
vam o caminho para os thosouro> do Perií, iriam carregando 
os navios de assucar, algo Ião, açafrão, madeiras de tintura- 
ria, tabaco, cturos e madeiras preciosas. 

A sua primeira empreza foi dirigida contra o Brazil. Em um 
ponto especialmente era a Compmhia das In«Mas Occidentaes 
dilferente da das índias Orlnntacs, isto ó, não retirava lucro das 
grandes cargas de suas embarcaçõe*^, mas dos cruzeiros que fa- 
zia em grande escala contra a navegação e commerciodo ini- 
migo. A principio, sobretudo, pouco mais era do que uma so- 
ciedade anonyma para despojar as frotas hespanholas de re- 
tomo. 



o BRAZIL ABANDONADO ^ 247 

O exemplo da outra induziu-a a coDquistar possessGes. Mas 
sem commaodantes em terra como Artichofsky eSchuppen, sem 
almirantes como Piet Pieterz, Hein, Hendrik Loncq, Jol e Wil- 
lekens, não teria conseguido se armar num terreno tenazmente 
disputado, fluctaando finalmente a bandeira do Príncipe, onde 
antes estivera a de Leão e Castella. 

Para se apoderarem da maior parte dos baluartes portu- 
guezes — Olinda, Recife, S. Salvador —- travaram uma guerra 
desapiedada. 

Não davam quartel aos prisioneiros, devastavam os can- 
naviaes, atacavam as egrejas e conventos catholicos. 

Em 1633, abandonou a Companhia aqnelle regimen, fir- 
mando um accôrdo com os colonos portuguezes e hespanhoe*. 

Além do inimigo franco que se tem sempre de refrear, a 
Companhia d is índias' Occidentaes tinha de ajustar contas com 
o irriquieto clero catholico, que pregava aos flois a cruzada con- 
tra os hereges, e com os indlus ai liados do inimi^^^o, que faziam 
uma guerrilha de emboscadas. 

O que aos Nee^landezes mais faltava para lhes assegurar as 
conquistas, era um administador idóneo, e tropas respeitaveiá. 
Os Estados Geraes mandaram-lhes ambas as cousas, em 1036. 

Não foi sem o auxilio do Stadhouder Frederico Henrique 
que conseguiram nomear para governador de uma possessão 
pouco segura, a um membro da sua casa — João Maurício de 
Xassau-Siegen, neto de um irmão 'lo Taciturno. D ir- se-ia qui- 
zera elle implantar sua dynastia na outra banda do Atlântico e 
manter a honra da divisa de seu avoengo, Engelberto 11, que 
fora um dos mais insignes generaes de Maximiliano d'Austria: 
Ce será mot, Nassau I 

« Fructo do cjnsjrcio do conde João vin com Margarida de 
Schleswig-Halstoin, João Mauricio nasceu no mesmo castoUo de 
•Dillenburg, onde o grande Taciturno também vira pola pri- 
meira vez a luz do dia. 

Como tantus ouiros da sua familia, e posto que tivesse ape- 
nas 16 annos do edade, poude envergar a armadura e ferir a in- 
terminável guerra da Religião entre a Hespanha e os Países 
Baixos, do lado dos protestantes, fazendo a sua primeira campa- 
nha sob a direcção prematura do joven Frederico Henrique. Foi 



2Í8 REVISTA DO INSTITtJTO HISTÓRICO 

isso 00 anão de 1620, quando o príncipe mandou a Maurioio com 
toda a caTallaria contra o hábil Spínola, pelo que Luiza de Co- 
ligny pr Jtestou, dizendo que os pães levavam os filhos ao mata- 
douro. 

Depois disso, os deus condes de Nassau assistiram juntos por 
longo tempo ás scenas da guerra, desde a adolescência até á vi- 
rilidade. 

João Maurício foi galgando postos no exercito da Republica; 
o voluntário de 1C20, já era nove annos mais tai*de cor(Miel de 
um regimento Walon. 

Assistiu á tomada de Grol, que havia de ser uma das pri- 
meiras victorias do joven Stadhouder e a tantos outros H^itos de 
armas do (conquistador de Cidades; tomou parte no celebre cerco 
de Maestricht, sobre o qual Joos van den Vondel havia de en- 
toar louvores, quando prevê no principio do áou Frederico um 
< império de Paz >: 

Ik zi9j hoe ais een kleed de vreed 't land bedekt 
(Vejo aterra tal coberta do manto da Paz). 

Ainda durante 16 annos, depois da queda do mais oolebre 
baluarte que os hespanhôes mantinham nos Paizes Baixos Meri- 
dionaes, segundo a phrase do poeta « o primitivo esteio 4o es- 
tandarte hespanhol >, João Maurício luctou pela causa da inde- 
pendência que de uma feita reuniu 10 condes de Naasau sob as 
bandeiras do príncipe Maurício. 

Distinguiu-se outro tanto no cerco de Rheinberg pelo tino 
militar, a que de muito valera a eseola de Frederico Hemique. 
Rheinberg foi o ultimo reducto inimigo a render-se, e tantas 'W- 
zes jà passara das máos de um partido para o outro que os ífes- 
panhoes usando de um espirito de galô a chamaram -*- a Messa- 
Una da guerra. 

A honra da tomada de Schenkenschans foi espeeiafr- 
mente attribuida a seu irmão, e segundo a própria opinião 
do seu biographo Barlosns, a nomeação para governador do 
BrazU deve ser considerada como um premio conferido ao Ten- 
turoso guerreiro. 

Certamente Frederico Henrique tivera voto naquelle capi- 
tulo, e.dever-se^ia buscar o motivo que sobre elle inâuiu 



o BRAZIL ABANDONADO 249 

acto, não pela aneiedade de oamular de priyilegrios a soa 
parentella hollandeza, mas para provar o valor daquelle 
primo. 

A colónia meia conquistada precisava antes de tudo de )am 
governador enérgico, tanto para defender as costas contra as 
esquadras dos Hespanhoeâ como para subjagar-lbes o exercito 
e aos Índios, seus alliados. 

Os Estados Geraes esta^^am certos que os feitos guerreiros, 
que o illustraram na Europa, seriam repetidos nos trópicos , 
que obteria no Brazil victorias eguaes ás colhidas nos Paizes 
Baixos do Sul. O que esperavam mais delle era quo arrancasse 
as finanças da Companhia ao atrazo em que se achavam. Esti- 
mariam tanto quem lhes desse dinheiro, como quem lhes ofer- 
tasse a paz, porque por maiores que fossem os lucros tirados 
pela Companhia do assalto ás esquadras mercantes dos inimigos, 
sendo comparados com os que provinham de oommerdo, nem 
mesmo os milhões de uma frota de prata chegariam para sal- 
dal-os, pelo menos para elevar seus dividendos á altura dos da 
Companhia das índias Orientaes. Ao contrario, tomara carga su- 
perior ás próprias forças, mettera o barco num cannical, gra- 
ças não só aos dividendos imprudentemente distribuídos aos accio- 
nistas sofliregos, como ao equipamento de 800 navios de guerra 
e mercantes, e a manutenção das guarnições que exigiram por 
muito tempo um exercito de 2.400 homens. Assim a Companhia 
se encontrava bem compromettlda, e na ida de Maurício já 
montava a sua divida a 18 milhões. 

Acreditaram encontrar nelle um «restaurador», assim 
como S.^ Ex.^* 0SÍ7 o tiveram mais tarde num barão de ImholE^ 
G enterraram fundo a mão na bolsa, quasivasia. Poi-lhe conce- 
dido um ordenado annualde 18.060 Aorins, numa época em que 
o Governador Geral da Companhia das Índias Orientaes percebia 
apenas 1 .200 fí, por mez, com os emolumentos; além disso tinha 
direito a dons por cento das presas. 

Devia partir com uma esquadra de 32 velas e um numero 
considerável de soldados, pois era mister dar num lance« ehe- 
que-mate ao advei^sario. 

Os meios não davam para tanto. A verdade núM e orúa é 
que partiu do porto de Texel com uma f<irça diminuta de<t 



250 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

cito e apenas quatro naYios, flotilha esta que nâo bastava para 
ílazer frente aos corsários de Dunkerquo. 

Juntamente com ellc seguia uma plêiade de homens illostres, 
cujos serviços á joven colónia foram de grande valor e servi- 
ram para dar maior realce ao governo do Conde. 

EDtre esses foi como sen medico o eruditx) Guilherme Piso, 
a quem o « Agripijneche Stroomzwaan > (Cysoe da corrente 
Aggrippina) dedicou versos pela sua partida e feliz viagem: 

o Piso, die tot *s Ora vens hcil 
Sauí" 'l suikcrlawl, Breziel, gaat varrji, 
Gcirccnschtc >find die vare in 't zcií 
En vocrc k vrilig door de harcn, 

(O' Piso, tu qiH' partes para a t M-ra d» a->urar, o Rrazil, a 
zelar p«la saudc do Tonde. l.risas l'oguoira.s te levem as vela^, e a ti te 
condu/am d<|*ros^a au porto. ) 

Emti*otanto com visivel insinuação dos porisros là existen 
tes, o poeta dizia desejar ardentemente quo nom uma bali 
lho attingisse o corpo, nem ares < pestíferos » lhe causassem 
damno ao or«,'aniámo, nem os cannibius Ihò roessem os ossos. 
Em .lauelro de l')37, o navio surgia e:afrento ao Recife, com o 
novo governador. 

Até então seus olhos nunca virara montes e bosques mais 
impressionantes do que os da pátria holhindozi, nenhum céu 
mais boUo que o cóu nublado dos Paizes Biixos. Alli, porém, 
attírra se cobria de uma vegetação opulenta, o luzia do alto 
um azul mais c- trregado, que coloria as onti is do mar ; 
alli apparecia rebrilhando um mando de aves de magnifica 
plumagem. A própria naturez!i ornava-se de c'')ros mais vivas 
e naquella zona, Pliebo com os seus raios se lev.iniava no hori- 
zonte, qual esphera de fogo. 

Vira na inlancia a pittoresca montanhr*. de Siegen e as 
margens do Rheno, mas o que eram essas para serem compa- 
radas ao encanto da paizagem do « Br.vzil. a linda torra do 
poente » ? 

Nos campos de seu paiz natal balara a paixão da Natureza, 
pendor commnm ao caracter germânico, e na Universidade de 



o BRAZIL ABANDONADO 251 

Basiléa recebera a instracçâo académica que maior desenvolvi- 
mento d& ao espirito humano. 

Entretanto, não poude por muito tempo se entregar ao êx- 
tase ante as bellezas desse paiz. 

Aesim como a sua vida afastada nas guarnições e nos 
acamparaontoB não lhe arrebatara os primeiros ideaes, assim 
também agora viera como governador e general, e não como 
viajante ou naturalista ; como homem de acção, e não como 
apostolo de uma idôa. 

Seu primeiro cuidado foi para as forças existentes na colo' 
nia, osegundo para o supprimento dos claros nas mesmas. Os 
reforços tinham que vir de além mar, da metrópole hollandeza. 
Imraediatamente encetou a campanha contra os Hespanhoes. 

O general era chefe, Bagnuolo, achava-se em Porto Calvo 
em uma posição fortificada e não era de moJo algum um adver- 
>:ario para se desprezar ; um homom quo aprendera a arte da 
;,'uerra sob a direcção de Spinola, o qual como um moderno 
Bruto havia poucos annos devolvera o próprio ftlh t á Hospanha, 
a ferrus, porque mostrara cobardia deante do inimigo hollandez. 

Xeste momento não poude fazer o mesmo. Apezar de resis- 
tir foi roftellido, uma após outra, de suas trincheiras até fi- 
nalmeute abandonar toda a capitania de Pernambuco, e com 
esta o centro da industria assucareira do interiur, que repre- 
sentava o principal ramo da lavoura do Brazil. 

Dentro de um espaço de tempo notavelmente curto, das 14 
c^^itanias, em que a primitiva administração portugueza havia 
Hividiio o paiz sete cabiam nas mãos dos Neerlaiidezes, e si 
bom que as menores, eram, em compensação.as mais povoadas. 

E quando o próprio governador não podia ir em pessoa, 
iYivl/\v as operavõos, atacado como esteve das febres do paiz, 
havia a seu lado intrépidos offlciaes para decidirem o pleito. 
;'iygismundo Schuppon, um homem de ferro, a quem com razão 
chamavam o terror dos Portuguezes e Hespanhoes, pois não en- 
tendia de tergiversaçi5es, nom de recuar, mus não trepidava 
mesmo de matar ao soldado que voltasse as costas ao inimigo. 
Ao governador, juntou se um conselho colonial composto de 
quatro membros : Adriaan van der Does ( ou van der Dussen )» 
Matheus van Ceulen, Johannes Gijsseling e Carpentarius. Ahi 



2o2 REVISTA DO IXSTITUTO HISTÓRICO 

sorgin o embaracD dos iDuteia eonselhoâ ordinárias e extraor^ii- 
Dai*ios, como ao p: iceipio na Companliia dis lodiss Orientaes ; o 
território occupado era tanto menar, como meoos retalhsido, do 

que o Archif^lajo Icdioo. 

Todavia a aiminis^racão do Estado estava ainda por 
ftizer. Era ^.reciso organizar a milicia -le bar^jeses, fundar 
asylos, crèar escolas, nomear padres protestantes, alirir estra- 
das, constmir fortes, prover as forças de terra e mar. Tanto 
era preciso fazer para conservar o que haviam conquistado. 

E era preciso mn guante de ferre pira fazer entrar a 
ordem na colónia que ainda era mantida á ponta de baioneta, 
para faz?r nascer a reverencia pela religião, a estima da magis- 
tratura e o respeito 1 Jnstiça. 

Os costumes ia capital, o Recife, eram' pouco melhora 
do quo os da velha Batavia, a população de uma « honesta 
casa de correcção.» 

Como em tantos outros estabelecimentos militares do século 
XVII também aili a moralidade publica havia baixado a um 
grau contristador. A declaraçuo de Barla^s era verdadeira : 
ultra ''píinoiialcm ,to,i prccc.ri 'passa'ia a Unha não é mai^• 
conhecido o peccidoi. Ou antes a virtude. 

O í^overnador nã > t?ria sido crèiJo na escola d'3 Frederico 
Henrique, si vacilltsse em reprimir esses desregramentos das 
tropas, o mesmo mil. com que tiveram de luctar Koen em Ba- 
tavia, Vau Sommelesdijk, em Surinam, Van Riebeek, no Cabo. 
Era t;imhem difficil reconciliar os colonos portuguezes e os seus 
doscendv^nte^com o duminio hollandez, fazer com que as tribus 
do índios errante^ e habittiados ao latrocínio se convertessem 
em população agrícola; combater a influencia do cloro catholico; 
restituir íls torras devastadas a prosperidade e segurança ; 
sustentar bem aho numa das mãos a espada, o na outra as tá- 
buas da Lei. 

Além disso era preciso dilatar o território da Companhia o 
obter a produci.-ão de renda colonial. 

O governador podia ter advertido aos Ulmos. Srs. XIX, di- 
rectores da Companhia que proprie«lrido rendosa, conforme de- 
sejavam, não se podia conseguir do prompto. 



o BRAZIL ABANDONADO 253 

Daei' lloêft noçih tijt toe oníkrachten aan te groine^í , 
Zie toe, uxt telgh út tc€r e,x cffen a«n het bloien» 

(E' preciso tempo ainda para créar forças. 

Considerai qae a vossa plantinha ainda se acha tenra e dcsahroehaaie )• 

As opiniões dos Directores da metrópole estavam muitas 
vezes em desaocôrdo com as do Governador e seus conse- 
lheiros. 

Entretanto havia de ser o trafico de escravos e o desejo de 
achar novas fontes donde importar os chamados « servos » o 
primeiro assumpto importante so^ re que estivessem reunidos. 
Era es^ a questão capital para a colónia do Brazil. 

Certamente o conde de Nassau se considerara pelos melho- 
res de sens contemporâneos um estadista humano e illus- 
trado ; si os seus panegyristas podiam fazer ci-Or, pela sua 
bravura, que fora nutrido « com o tutano do fémur de um leão)>, 
pelo seu bom natural, poderiam dizer com mais fundamento 
que mammara the milh ofhuman hindness. 

F verosímil que estivesse muito Imboido das idéas da época 
para ser um convicto dos direitos do homem e achar condem- 
navel a escravidão, para acompanhar com a sua opinião a 
expressão de um escriptor que viveu em época posterior á 
sua : 

« Diflpruise thysdlf as thou wilt, still, slavery, thou art a 
Litter draught ; and thougb thousands ia ali ages have been 
inade to drink thee, thou art no less bitter oa that ac- 
count. » (Sterne, Senlimcnial Joumey). 

Todavia qualquer que fosse a sua opinião a respeito da 
mesma instituição, reconhecia ser a sua conservavão uma neces- 
sidade imperiosa. 

O prodocto principal do Brazil era o assucar, e não havia 
assacar sem escravos. Nem um só dos colonos portugueses, 
nom mesmo o mais pobre, trabalharia com a enxada : pauvre 
comrae Job et fier comine Brarfayiça, 

Em um per iodo de quatro annos, de 1621 a 1624 não foram 
importados na capitania de Pernambuco, menos de 15.400 es- 
cravos, principalmente para o serviço nos engenhos de assucar. 



254 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

Nos últimos annos do sea governo, quando a supremacia entre 
Portuguezes e Hollandezes j4 osciilava no âel da balança, aioda 
«ram importados annualmeate cerca de 3.000 escravos. 

Na expediçSLo eoTíada á costa occidentai da Africa no 
anno de 1637 e a conquista feita aos Portuguezes de S. Jorge do 
Mina, que se seguiu, metade era por conta do guerreiro e a 
outra do escravocrata. O governador do Brazil, quanto aos 
esforços om manter a escravidão, não era melhor nem peior 
do que a maior parte dos governadores christãos das índias 
Orientaes ; e os Directoi*es de ambas as companhias deviam 
ser desculpados e mesmo absolvidos desse peccado, segundo a^ 
normas de um esciptor moderno : 

€ Não se deve esperar que os nossos antepassados fossem 
melhores do que os outros povos da Europa. O que se pode 
dizer é que effecti vãmente o respeito da Bíblia e o escudo da Fé 
e&tavam em mais ou menos clamoroso antagonismo com o seu 
amor ao lucro. Foi um característico de nossos costumes na- 
cionaes, o esforço individual de mundanos em se darem ares ou 
semblante religioso, caiiindo assim nas suspciías do tartoíismo.» 
(Buskcn Huet — L'ui { van Uembrandl), 

Não ó realmente infundada essa critica ao recordarmos qno 
a conquista do ninho do ej^cravo' da Mina foi f(íst*^jada com 
um publico dia santo em acção de graças a Deus pois era certo 
que elle sempre entregara os negros pagãos ãs mãos «los brancc»s 
christãos, como Edom e Amalek nas mãos de Israel . 

E o satyrico autor flamengo não deixou ticar esquecida a 
idéa de tartiiíisrno, quand'> no Mynheer van hooh rldiculariz-^u 
Hollandez commerciaute do carne huma-^a. {íL^inr - Dos 
Shlaveusc/fi/f), 

As impi)rtantes conquistas de João Mauricio 'i de sons cabos 
de guerra nàu saciaram a fome de territórios, de qutr s^jfTriam 
os Srs. XIX. Já tinham a metade do paiz, desej.wom, porém, 
continuar a tradição dos Xeerlandezos nas índias Orion tao.^ o 
tomal-o tudo aos Portuguozc?s. 

Junto ao Brazil H-.dlandez existia o antigo hispano-poi-tu- 
gíiez. Parecia ainda estar longe o tempo em que fosse enterrada 
a machadiíiha de guerra entre esses dous chefes. O luxo de 



o BRAZIL ABANDONADO 255 

S. Salvador fazia sombra ao estabelecimento do Recife. £ntre 
essas duas forças nâo era possível torcer, mas se havia forço- 
samente de quebrar. 

Os Directores faziam constantemente pressão sobre o gover- 
nador para que jogasse uma grande cartada, porquanto a Com; 
panbia amontoava divida sobre divida, em quanto a sua afor- 
tunada irmã empilhava lucros sobre lucros. 

As acções haviam baixado ató 50 por cento, e tanto Dire- 
ctores como accionistas se queixavam de que os Estados Geraes 
os haviam seduzido para empresas que foram em beneficio da 
grandeza politica da Republica, mas ruinosas para os Interesses 
da própria Comj)anhia. 

Só restavam captura de uma segunda frota de prata, mais 
rica do que a primeira, ou melhor ainda a conqnista da cidade 
de S. Salvador, com seus vastos e sólidos edificios, suas pro- 
visões de dinheiro e de artigos bellicos, seus armazéns abarro« 
tados de proiuctos e templos, verdadairos thesouros de alfaias. 

Finalmente, na primavera de 1038, chogou a oceasião da- 
i|uella tentativa. O governador tinha pago o seu tributo ao 
clima e jà se libertara das febres do paiz. Não era fácil passar 
a outro a direcção do uma emproza tao diíUcil : assim lá sogulu 
elle no castollo do navio almirante, com rumo para a admirável 
Hahia de Todos os Santos ; clle mesmo ompuniiou no assalto o 
bastão de commando e novamente com a divisa de seus ante- 
passados nos lábios : — Ce será moij Nassau ! 

Entretanto, a cidaie estava bem guarnecida e fortificada, 
e as suas tropas eram insuííljientes. 

Poderia com certeza repetir a phrase do poeta : 

3/'/i hocfl re<'l duizcnd ora zoo cen stad te rluilen, 

(São nocessarius muilos milhares tlc Jiomens para a-sediar uma 
t.i: ci'Í3<ie.) 

E as tropaí?, sob seu commando, não chegavam para cercal-a 
completameate. As guarnições e os patriotas resistiam com en- 
liiíisiasmo aos assaltos e os repelliam com valor. As autori- 
dades, civil e militar, esqueceram as suas dissensões para se 



256 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

unirem. O bispo lançoa mão doe fundos ecclesiasticov para 
pagar aos soldados qne murmuravam. 

N^ foi possivel cortar a entrada de viveres, o numero dos 
sitiados era muito superior ao dos sitiantes e em muitas tenta- 
ttras felizes os bandos de cavallaria de Bagnuolo e mulatos ar- 
mados até os dentes traziam o desanimo aos assaltantes. 

Mesmo os clérigos pegaram em armas, numa das mios a 
espada, noutra o Crucifixo. Seguiam a esses um bando de 
jovens, todos anciosos em defesa da causa da Egreja e da inde- 
pendência, todos diligentes no serviço da Eccle$ia MUitam, 

Homens illustres, do lado dos Neerlandezes, perderam alli 
a vida, embebendo-se as praias encantadoras da Bahia de Todos 
os Santos no sangue dos filhos da Madre Cgreja e dos hereges . 

A própria barbaria, sob a forma de selvagens tatuados, 
tomou armas contra os HoUandezes. 

Após seis semanas de asssdio, como as moléstias e a Mta 
de viveres fizesssm claros nas fileiras hollandezas e por se 
avfzinhar a estação das chnva:>, o general em chefe levantou o 
sitio reconhecendo o valor do inimigo na sua bem dirigida defesa . 

O espirito dos antigos conquistadores pareceu reanimar-ser 
e o sitiante teve de reconhecer : 

Kl'h'k wocríif; had^ hifi vcflcrvydsch verdelgen, 
J>e Kastiiian sijn blnécnd er:' rr,'wee)'I, 
Schcni (Itit noff enis in't hai*t d<'y zvakkc teigen 
JJr ííooffe fjccst vav (Yrte: i'ar fjckc^Td. 

II. A. Meyer, J)e Hoehanicr,) 

(R(SÍ>tiii(lo valentenu-nle ao ataque*. fl«*rondoii o Castelhano a sa a 
rica herança. Parecia rencvar-s- i*.> coração do flexível rcbr^nto, o 
'orle espirito d- C.ortez,) 

Os adversários de Mauricio fizeram-lhe justiça, reconhe- 
ceram que o iosuccesso não fôru por sua culpa. 

Os Directores haviam-no incitado á lucta, mas não lhe 
deram armas suíflcientes para a acção. 

Queizara-sclhes seriamente de sua parcimonia em man* 
dai*-Ihe navios e soldados ; oUes por sua vez se queixavam de 
estarem os cofres c arsenaes vadios. 



o BRAZIL ABANDONADO 257 

Certamente, ã situação não era do modo algam- desoonlie* 
cida do goveraadív ; mas, declaroa elle om carta aoe iU«uitres 
XIX : 

•^ < Foram lançados o3 dados. Atravessamos nãa o Ru- 
l)icon, mas o Oceano. Todo este ediflcio mirái si não lho pii- 
zei^des esteios.» 

Além da lacta ori^rínada das medidas admiQifltrativaB« 
haYlu a de priíicipios. No seio da própria Ck>mpaahia, reinava 
a diseordia entre os do partido, que defendia o oommevcto 
livre, e o outro que se batia pelo estabelecimento do monopólio, 
apresentando como prova os resultados da Companhia das 
índias Orientaes. J(^ Mauriofo deu a sua própria oi^i&o com 
a observa^ de que a prosperidade da Companhia dependia 
da sabedoria, mas nSo menos da união dos Directores*. 

HaTÍam^se Já esquecido de qtie dHiherante senatu perit >Sa« 
guntwn ¥ Qoanto ao que coneemia á pcHitica do governo, a soa 
opini&o era pelo commenuio completamente livre e pela eolo- 
niza^ por cíãtiéUhs Ifivres neerfandezss. 

Competia aos Hollandetfds povt^r o território que haviam 
•conquÈtido, si queriam conserval-o. 

O direito de propriedade sobre o solo haveria de obrigar » 
todos ot possuidores a éef&ai&t o governo, ao lado do qual 
haviam de ficar ou perecer. 

Poi por meicr de ccAmias que Roma sa^ugon- o Vel^e 
Mundo, e por meio deHats á Hespanha conquistou o Novo. 

Portanto, hoc opus, hie hJb&r est ; aqttlllo está por fazer, 
isto por executar. 

Assim ie procedendo cem a cofoiíia nSo acontecerA que essa 
se tome mais poderosa que a metrópole? Murmuravam or der 
Monopello. B sustentavam taanbem que tM innovuçKo de mer- 
cado fnmco e livre cooeurrei^ia era um sfftiil dos PortsgmMr 
para amáflar a CòmpMM». 

A defendia espei^almenie ifflraK>u que sem o HfooopoKo' 
nunea se veriam^ livMídtts dhriéas, e guando a maioria é» 
votos decidio que o commercio do Brazil ficava Hvréí fcoítt sf^- 
cepçSe d^ impertaçSoilr escravot , artigos belliees e pta trazili 
que oMttiiuavam eoofo moncf^^ie da Compeittfii») a MhMfi9t 
deelarm injtusla' a reei^Mi». 

7341 — 17 Tomo lxx, p. i. 



258 REVKTA DO DíSTITOTO HISTÓRICO 

Ean proTinem «bUtsi iaii¥idadfc ea frmndes qnaatUji, e 
qoaDdo m poderu^ Aasterdui dea o to4o peU franqnim do 
eoninerek^ os directores wl^Bdem ol^eedimm com ^rimonia 
que uma cidade, e^yos mmnMrrtiaales» ainda em 1639» nego- 
cianun com a AQ UMr p ia heapiaboU, forneceodo-Uie polrora e 
mamçCes^ trahia agora ooTameate a soa parcialidade pela 
HespanUa. Nio foi lambem am armador de Ama;erdam, qne Ba 
prMeoca do principe Stadliomier ooBoudtíeUrar qoe cem busca 
de liicn» naregaria peio pioprio iafiunio, ainda que queimame 
as velas na passagem > l 

Que ped:»ria rir de bom de Namiedi I 
— Que é que se deveria eiperar de Amsterdam e do espirito 
dos seus mercadores t 

EQtretmto. continoaram no paiz ultramarino nesse jogo 
para ver quem ficava com o domínio. Ossacceíssos da guerra pen* 
diam a^r.4 para o lado dos Neerlandeses «Ijsbreekers», {Quebra 
ffêhh dahi a ponoo para o dos compatriotas de Cabral e Al- 
buquerque. Nào íbi mais folix do que o assedio de S. Salvador, 
o resultado da expedição naval sob o oommando do almi- 
ranU) JoK alrMnmte perna de p'tf. como os seus o cha- 
mavam. 

(^ Dii^eotoiVi^ da Companhia esperavam ainda qna ama se- 
gunda tVota de prata Ibes ajudasse a tirar o pé do lodo, e essa 
fh)ta cubica ia — uuia pre^a do SO milhões^ segundo algans ^ 
A>1 roahuonte encontrada em aguas de Cuba. 

Toilavhi ns Torvas eram deseguaes e o intrépido almirante 
íú\ mal seoumiaJo pelos seas capitai no assalto. 

o aniiUHl eâcai>ou ao ca^^doí* ; upi^esc^ou-so em fugir a for^a 
do velas o do^pparev^ea. 

Foi tal a pai xfto que tomou o almirante por esse desapon- 
tamento que nio só lançou em rosto ao capitão do Roiterdam o 
pouco ardor que mosti*ara e o seu procedimento irregular» mas 
também em uma troca de palavras^que se seguio. desfechou-Ihe 
aas costas uma bastonada, e com esse argumento de vara pro- 
roa*lhe a ruina. 

toncebe-s:^ que a immoralidade da pirataria tenha elevado 
mi simples pescador de Soheveningea a almirante, porqoe aléin 
le Piot Hein ninguém tomara tantas presas dos Hespanhoes 



o BRAZIL ABANDONADO 259 

como elle. A illuâão de sua vida de marinheiro era apoderar-se 
de ama se^^nda frota de prata. 

(Conservara da classe em que nascera, todas as vantagens e 
a franqueza, e ao mesmo tempo toda a grosseria de gosto e 
r udeza de conservação . 

Mas, pie de paio, quantas vezes a serviço da (Companhia pe- 
lejara contra Portuguezes e os de Dankerque ? 

Quantos perigos affirontara e quantos cruzeiros âzera em 
busca de presas? Não estava alli o homem de embainhar a es- 
pada on dar quartel ao inimigo vencido. 

O curso dos violentos combates navaes, entre as alterosas 
fortalezas íluctuantes da Hespanha e os navios pequenos, mas 
velozes, dos Neerlan«lczes, foi quasi sempre como Brederode 
refere no seu Moortje (Morticínio). 

Principalmento onie Moyaal descreve a Ritsart o enconti'0 
entre uma caravela e um navio < corsário » : 

Dat groote Iia''k-beesl dat verlaan tcas met ses honderl 
SpctenJaardcHf n-as tcrstont verovert en gcplonderi 
(Upluystei-t eu gcplockt van gelt en kostlyckheen, 
DUse waandcn op dcstocht te manglVUn cn hcstecn ; 
IfeSpeckni.die haav lyf met gslt nict kondcn boeten, 
Die nayn het Grautr gheswindt en spocldese devoeten, 

(Aquell^ barco monstro, apinhado de 000 Hespanhoes, foi assal- 
lalo, tomado c saqueado, isto c, despojado de todo o dinheiro c 
objectos de valor, que presumiam vender no fim da viagem com 
muito lucro; os toucvihos (coino oram chamados os Hespanhoos • 
fortucruozes p«lo8 HoUandcze.s), que não tinham dinheiro para res- 
u.itar o corpo, eram agarrados imme<liatamente pela nossa gente e 
obriííados a tomar uni banho.) 

< O dar um banho » (afogar) era, entretanto, imposto al- 
gumas vezes como uma obrigação ás autoridades navaes por 
parte do governo ; as suas instrucções diziam que procedessem 
assim com um inimigo que por sua vez não lhes dava quartel. 

Succeden que o rude mar humano Cornelis Jol teve do ap- 
plicar esáa execução á tripolação de ura navio de Dunkerque 
por ello capturado ; e julgou alliviar a consciência, andando no 
convez, de um para outro lado, emquanto os condemnados & 



260 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

morte, amarrados, doiw a dous, epaii lançados ao mar, g de vez 
em quando apoatando para o lado de Haya exclamava : 

< Por vossa conta, Senhores Estados Qeraes, por vossa 
conta I > 

O insucoesso das duas empreza?, contra S. Salvador e 
contra a froia de prata, já, S3 havis^ da^lo quanio chegaram 
dos Paizes Baixos navios e tropas que deviam especiaUnent» 
apoiar o primeiro desígnio. 

Juntamente desembarcou o bravo coronel Artichofsky, 
nobre polaco expatriado e a serviço da Ck>mp).nhia, com plenos 
poderes dos directores e dos Estados para exercer o sapremo . 
commando das tropas no Brazil. 

O seu titulo era < general em ehefe da artilharia» as soas 
instrucções continham entre outras notas a seguinte: cqiie 
lhe recomendavam, attsndesse ao governador quanto ás occur- 
rencias e exigências do serviço 

Havia velha rixa entre oSdous. O proscripto polaco ante^ 
do anno de 1630 já oMlverauma pMi(^ tão salisnte na colónia, 
contribuirá tanto para firmar alli o domínio bollaoáer, que 
se julgou preterido pela nomeação de JoSTo Mauricio pam go- 
vernador. 

Havia motivo» parA faier presumir que os Directores que- 
ria m se utilizar delle como um censor nos actos do governador. 
P seu título de nomeaçSo, sem que parecesse infringir al- 
guma cousa» intromettia-se no mandato de João Maurteio. 

Não fWaram também, disputas sobre mutua competência. 
Finalmente, <nimida foi appreàeadida uma cia*ta do Artichoíli]^, 
dirigida a um dos Directores* mais infiocntas da. Companhia: e 
na qual o governador e os seus actos eram apreciado» desfa-- 
voravolmente, este convocou os membros do Conselho Colonial 
e íntimou-lhes que escolhessem entre ell^ e o Polaco. 
NSo havia alS lisgarpara ambos. 
De balde, tentaram os* eousetíteiros' embaraçadbs^' reoM-^ 
ciliar as duas antoridiBUlès. O* príncipe regeiton todas m prv- 
postas de aoommodaçSo; e apezar ãé- Articfaoftky ter oraltos 
defensores na asiembléa dar Companhia, das índias Oòeidentsiesr 
apezar de hav^r sido enviado oom' poderes espeeiaes éb» Din^ 
otòres,o Conselho mKrasigtttilèar4to^ O' seu cim$mwm téemM^ 



o BRKZIL ABANDOXAIH) â6l 

Eflèoti vãmente abandonou a colónia e nessa occasiio, o go- 
vernador dirigiu uma ampla exposição á Companhia, motirando 
o acto, aasignando: 

«^ydelings» (oollateral), «escreveu : «Elogia o Ul director 
o meu earacter, minha honestidade e boas maneiras no tracto. 
Náo passa isso de um comprimento e bem sóbrio. Taes vir- 
tudes, louYc-as aos meus cavallos e cães, que podem obtelos 
sem intelilgencia e eem talento. Um tal elogio vale por uma 
censura. 

Kao apontar as boas qualidades de um general, é acoosal-o 
francamente». 

Emaisadeante: 

< Deseulpa-se com o exemplo de Pompeo, Pétreo, Atraiio e 
Annibal ; n&o obstante pouco se IhesassimlUia. 

< Gaba-se de suas anteriores (lBiçanha9, mas esquece a pKfto 
que nellas tiveram auxiliares bravos e modestos. 

«Agora, depois de aflutado da colónia, receia não poder 
mais servir á pátria adoptiva, como dantw costumava. 

Prouvera a Deus que assim fosse, pois, então o pobre povo 
de Qoja faria ouvir menos as queixas contra as suas orneida- 
des e eamiâeinas.» 

O governador podia pleitear apenas por eocripto. Ártielio- 
ftky pleiteava pessoalmente. 

Os iliustres XIK não protestaram oontraoaeto do Om- 
selho do Recife, fazendo retirar Artichofsky da colónia, mas 
deram a entender que oom isso íibe^ haviam oífeadido, poôi!- 
quanto tinham muito prazer em conservai^) no serviço da Com- 
panhia. 

3ã haviam, antes da ida de João Maurieio, mandado cons- 
truir um monomento de pedra em honra dos seus brilhastes 
feitos ; agora para significarem sua estima presenteai*anMio 
com uma cadeia de ouro e medalha, em cuja face estava repro- 
duzido o modelo de tal monumeuto. 

Osillustres senhores souberam dourar a pílula; o ambi- 
cioso Polaco, entretanto, nem poi* isso deixou de ficar sem cstfgo 
ó sem serviço. Realmente, o chronista não haveria de formar 
uma idéa elevada sobre seu caracter, pois quando os Bslados 
mandaram em 1641, um regimento de tropas para auxiliara 



262 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

independência de Portngal, o inimigo acerbo dos portuguzes 
no Brazil foi am dos primeiros que se propuzeram ao posto 
de commandante daquelle corpo. 

O que ô oerto é que ficaram livres delle na colónia. 

E era bem necessária a unidade na direcção do governo, por 
que se accumulavam nuvens precursoras de tempestades, no 
horizonte politico. 

Olivarez, forte ministro de um fraco rei (Phiiippe IV) com 
o ílm de restabelecer novamente o predominio da Hespanha na 
America do Sul, equipou uma esquadra com o desígnio de tor-. 
nal-a em segunda, armada. Nos moiados do anno de 1639, 
partiu essa força naval sob o commando de D. Bernardo Mas- 
carenhas, da Bahia de Todos os Santos, onde foi consideraveU 
mente reforçada pelas autoridades de S. Salvador. Ck>mpunha- 
se então de 86 velas, das quaes 24 galeões do maior tonelagem; 
levava 12.000 homens de tropas e marinheiros, em cujo nu- 
mero ia a âor da nobreza hespanhola, Mdalgos com extensos 
títulos e grandes do reino, como officiaes. O almirante estava 
t^o certo da victoria que jà usava do titulo de Governador do 
Brazil. 

Só no anno seguinte, em 1640, é que se deu o encontro 
entre essa esquadra e a dos Neerlandezes. João Maurício, em- 
pregando toflos os esforços pudera apenas reunir uma frota 
de 41 navios, na maioria mercantes, e 2.800 homens. 

Logo no primeiro dia da peleja, morreu o commandante 
Willem Ck)rneli9 Loos. Mas não faltavam nessa época & repu- 
blica almirantes experimentados e valentes. Jacob Huyghens 
o substituto. 

O combate durou quatro dias, interrompido de quando em 
vez, pela noite ou pelo nevoeiro, sempre recomeçado ao dispon- 
tar do.dia. Entretanto, apezar da bravura dos veteranos mari- 
nheiros neerlandeses, no assalto ao inimigo, apezar do sou mé- 
rito no manejo da artilharia e da velocidade de seus navios, 
comparada com as das pesadas fortalezas íluetuaotes dos Hespa- 
nhões, não teria sido possivel destruir tão formidável esquadra 
sem o importante auxilio dos ventos e das correntes, da fome, 
dasôde, e do mãu armamento. O. vento, soprando sempre do 
Sal, repellia continuamente o inimigo em suas investidas 



o BRAZIL ABANDONADO 



2C3 



hiico, e finalmente, o atirou no Gulf-Slream que 
"•^ da armada destrocada. 
^^>i por isso qae aquelles direotoros orthodoxos e 
eraram ease successo como uma protecção da 
:?re não menor do que a vasante, antes 
o anno de 167á, que impedio aos Inglezes 
.biriue no Texel. E por isso o historiador 



i:%%i 



.onde que no caso de organizarem um pro- 
zor a ruina dos nossos, este era sempre 
-olo Altíssimo.» 

o partilhou também dessa crença. 
>u o successo aseáz importante para se 
) em acção de graças ao Senhor, assim 
ihar uma medalha que trazia numa das 
j governador, e na outra uma gravura 
a naval, com o distico: 
Iko do \nimigo nos 'fias XII, X///, XIV e 
.). 
dos colonos portnguezes no Brazil Hol- 
ataque da esquadra liespanhola. Os 
roubavam e destruíam os engenbos de 
ao pregava a guerra santa ; tribus de 
ommando do intrépido ch>}fb Camarão 
lanças de Olinda. 

inhol pudesse operar um desembarque. 

entre os dois fogos. Os rebeldes esíor- 

18 tropas hoilandezas para o deserto 

uas florestas e pântanos, com o fim de 

rnocida contra as forças hespanholas 

oão Maurício não se deixou illndir. 

*a de Mascarenhas ser batida, desar- 

é que elle dirigiu as forças contra 

■seguio repellir os cabecilhas, (ázen- 

ijos. Ck)nvocou após os mais notavois 

'a uma espécie de assembléa e alli 

do foz que se estabelecesse a calma 



264 REVISTA DO imTITUTO JUISTORICO 

Dir-se-ia que os reforçoB da Metrópole deviam 
ohogar maito tarde, e quando o pleito oa colónia j4 estava 
deoidido. Pois, no mesmo anno em que a armada heepaohola 
Burgiu, também apparfHsou uma expedição da Comptnliia 4êb 
índias Occidentaes, aob o commando dos almirantes Jol e 
lichthart — uma esquadra de 28 nayios, com 3.000 bomeus 
de tripolação. Os directores i»rojeetavam novamente foase 
tentado com aquella esquadra um assalto aS. Salvador. 

Diziam certamente com muita razão que essa Garthago 
deria ser destruída, antes de se pensar em supremacia neerlan- 
dezano Brazil. 

Só a queda desse fiioo de inoendio do domínio dos portu- 
guezes e hespaohoes poderia produzir uma decisiva influencia 
na situação do paiz e no espirito da população. 

O governador, porém, declarou que aprendera oom a ezpe^ 
rienoia, e que para tal desígnio era preciso pelo menos o dobvo 
das tropas e dos navios enviados. O Gastelliano guardava 
o seu baluarte, a praça estava bem fortificada e oontinha nu- 
merosa guarnição, podiam contar com o apoio dos moradores 
mais influentes das cercanias, não tinham a receiar que lhes 
interoeptassem na estação das chuvas, o transporte das proTl- 
Bôen. O governador serviu-se das novas forças para atacar 
o inimi^^o de uma forma que nenhum dos seus ainda se lem- 
brara — saqueando e destruindo. 

Os arredores de S. Salvador foram todos devastados ; 
PiSgou contusão por contusão, e ferimeutos por ferimentos • Os 
Pertugaezes não assistiram impassiveis a essas hostilidades, 
houve continua derrama do sangue de ambos os lados, hao 
juntamente com a expedição naval para dar caça a uma 
jrioa fh>ta hespanhola, que se salvou, mercê de uma tempestade» 
não provocando pequenas censoras por parte dos diiestares ao 
governador. 

João Maurício mandou-llies um memorial defendendoHie e 
lencerrandoK) com o sou pedido de demissão. 

Osillustres XIX não haviam visado a tanto. Nesse momenio 
catavam preocupados com graves aoonteolmentos. 

No mesmo anno de 1640 rebentou uma revolução em Porta- 
gal, de que aesultou do jugo hespanhoi e acclama^ 4Wi 



o BRAZIL ABANDONADO 265 

príncipe da illoatre casa de Bragança sob o nome de D. 
João IV. 

Os Bsiados mais importantes da Enropa já o haviam reco- 
nhecido, entre esses os Paizes Baixos ; e agora tinham de man- 
dar deattita^^e para com o novo Estado* 

Um príncipe excellente na opinião dos reraos do poett, 
iim homem de quem Frans de Haes no sen Poatugal glorifíeado 
e humilhado affirmoQ: 



Zijm godtvrucht trys beieid in voor^entogetxs p^d, 
Rjn biefUe tot het Reclitj sijn onfyerlsoêgde tr^ed, 
Zijn lorg voor t Jicil des ryks, toor Haetdstein en Alta 
Verittehten zíjuon iroon voor sowel steunpieare! 
Zijn rijk tot muren, die, Jum dikvnjls aengetast 
Djor OM'log9 toií^xcny novit beiwehen VJcr dieu last, 

A fé em Daof fortaIec«u-lhe o espirito nos dia factos s nefastos. O sau 
amor k Juatiça, • nimca desmentida corigem, o seu zelo pela prosperidad* do 
reino, doa lares e aliares, uastentara Ibe o throno como oairos tantos 
pilares Cercon sen reino de muralhas, que, apozar de frc(|aoutemeate embati- 
das pela tempestade da guesra, jamais foram abaladas). 



Entretanto Yan Kampen o classiflca um homem de me- 
díocre intellecío e de ideias acanhadas, e diz egualmente quo 
o êxito dos revolacionarios foi devido a Pinto, o conselheiro 
do Príncipe. 

O Brazil tornava a ser agora uma colónia portugueza 
e os Estados Qeraes, ao mesmo tempo lu? comprimentavam 
o novo rei mandando-lhe at4 um contingente de refbrços 
de tropas hollandozas, não se e:sqnecoram, por outro lado, 
de escrever ao sea governador: — qufí devia ceifar o feno em» 
quanlo htHhava o sol. 

Antes que mn tratado offlcial com Portugal o tornasse 
impossível, era seu dever esforçar-se por dilatar a possessão e 
vêr o que podia arrancar de mais caro á capital, S. Salvador. 
Depois disso se firmaria um trataio de tréguas baseado no 
t4( possidetiê, {Então jd eêtava o feno no ceUeiro). Oada uma das 
partes devia conservar o que tinha; na época da ratificação. 

E antes que os diplomatas na Europa chegassem ^ uma 
resolução, havia para a colónia um tempo precio^ j -o- 

Teitar. 



266 REVISTA DO INSTITUTO HISTORIO) 

Também João Maurício foi desse parecer. 

Os Estados fícavam a duas amarras ; e assim como o 
rude Ck)raelis Jol, podaria o Principe dizer apontado ^^m 03 
.lados de l{aya:~j:>or vossa conta, nieus senhorf*s ! 

Retirou, portanto, o seu pedido do demissão e apoderoa- 
se habilmente do districto da fronteira, Sergipe d*£;i Rey, e no 
anno seguinte da província do Maranhão. 

Jol dirigio-se para a costa da Africa e conquistou a co- 
lónia portugueza e mercado de es:ravos, do S. Paulo de Loanda, 
e em seguida a ilha do S. Thomé. 

Mas não foi pequena perda para o Estado a morte d*um 
homem a quem as balas hespanholas pouparam durante tanto 
tempo, para cahír depois yictimado pelas febres africanas. 
<Um heróe do mar,» diz-nos um historiador, «muito simples 
de manoiras e inimigo dos prazeres, que partilhava com os 
marinheiros dos perigos e fadigas, não se utilizava mais do 
que da piga commum de bordo, abrazado pelo ódio contra a 
Hespanha e pelo amor á gloria. > 

Em 1041 seguiram 

fciíe f^oo 1 old rule, 

— tho siniplc plan 

That Ihey should tjk»* wlio have liie power, 

AnJ they shonl I koep \\Ii«j can. 

Também aquelle anno não trouxe a paz, mas um arnâs- 
ticio do 10 annos no Brazil, entre as duas potencias etirjpéas ; 
todos os pedidos, todas as ameaças do embaixador portuguez em 
Haya não tiveram força bastante para f^^er a Companhia 
das índias Occidentaes ceder as suas novas cou^uistas. 

Os Estados alienaram em seu favor o texto do tratado coq- 
cluido, firniando-se mais quanto á letra do que quanto ao es- 
pirito. 

Altzema, 00 seu Saken tan Stael en Oorologh^ observa como 
de passagem que os pães da pátria nessa occasião mos- 
traram mais sabedoria poliii^a do que bíblica. 

Kffectivamenta é duvidoso que essa politica fosse appro- 
vada por um Aristides ; mas, desculpava-se a parte contraria, 
si Portugal pudesse nesse intervallo pregar uma peça aos 



o BRAZIL ABANDONADO 267 

Neerlandezes tomando-lhes a ilha de Ceylão para o que jà esta- 
vam de emboscada» teriam elles de perguatar igualmente por 
Aristides e pelas suas doctrinas. 

O Vice-rei em S. Salvador esforço u-se do mesmo modo . 
em fazer vêr a João Maurício a irregularidade de conquistas 
realizadas, emquanto ambas as metrópoles já haviam feito a 
paz e estando j& pendentes as negociações d'um armistício 
nas colónias. 

Nem ama pollegada desse território, nem uma pedra 
dessas fortalezas lhes foi concedida. 

Uma vez, negociadas as tréguas de IO annos tratou o 
governo de fazer desapparecer os males causados por tantas 
guerras e devastações. 

O seu maior desejo foi que não se forjassem espadas du- 
rante séculos, que não lavrasse mais a guerra destruidora nos 
férteis campos do Brazil. Contemplava o paiz conflido ao seu 
talento de estadista com o mesmo olhar com que um piedoso 
governador das índias Orientaes, Gustavo Willem, barão de 
Imhoff, fitou a Soerakarta, maltratada pela guerra e cer- 
tamente disse como esse : 

«Jà não tém o gume das espadas e as choupas dos pi- 
ques, G8 disparos dos fusís e o troar dos canhões bastante per- 
turbado o devastado a esta pobre terra ? Então que a bemdita 
paz eo repouso concedidos pelo Senhor sejam convenientemente 
estimados, appllcados e approveitados por todos, afim de que 
por esse meio fioresçam a situação do paiz, as suas produ- 
cçdes, as renlas do IMncipe, os bens dos súbditos e o estado 
da nobre Ck>mpanhia, e que cada um no goso de tantas bênçãos 
possa esquecer os males passados.» 

O Brazil Hollandez tinha agora uma extensão que nunca 
possuirá dantes, a Companhia devia estar^satisfeita. 

Comtudo a terra e a população eram ainda portuguezas, 
e deviam tornar-se hollandezas. 

João Maurício consagrou todo o seu ardor e todas as suas 
forças em levaiitar a agricultura e o commercio, assim como 
a economia interna do Estado, que tantos projuizos soffrera 
com a guerra • 

Estabeleceu tribunaes e autoridades especiaefl para om índios. 



268 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

O dia de domingo ficou sendo celebrado com o rigor áos^ 
protestantes, os pastores tiveram de prover sobre o que te 
poiia fazer para «salvar as almas de tantos geathoi aiadS' 
cegos.» 

Foram prohibidos os jogos de azar, assim como aa uniões 
illegitimaa, pelas quaes os tilbos de uma Israel predesUnidia 
offendiarn ao Senhor, entrando nas tendas das filhas dos Plii* 
lifteus. 

Foram introduzidos os pesos e medidas da Iloilanda. 

0:^ muitos Judeus na colónia tiveram a libei*dade de cele- 
brar o seu sabbath, o que não lhes íôra concedido pelas an- 
te ridados portn^uezas. 

Fundaram-so hospitaes para doentes e asylospara os pobres 
e orpbftos. 

Os foitos dos pães não ficavam desapercebidos no paiz óltra* 
marino. 

j!i a colónia começava a sa restabelecer, já fora abençoada 
a obra do conde. No anno do 1)30, o Recife oontava apenas 
umas 200 casas ; sob o seu governo a cidade elerou a soa 
população a 1íj.o»0 almas e dahi ha pouoo era insníBcieDte 
para comportar o numero crescente de habitantes. 

O governador qniz auimental-a annezando*lhe a iUia.de 
António Vaz, mas o Conselho recuou ante as despezas de nma 
obra tão gigantesca. 

Então o próprio João Maurício comprou a 11 h i, "*^«'*^w 
ateri*al*a e arborizal-a, «o sobro osso terreno ganho tio re- 
eentemet.to formou um parque táo encantador» — duse CoUot 
d*Esoury — «que alli 83 polia julg.ir quo se estava nosjsrdins 
de Alcinos.» 

No moio daqiielle parque o governador, amante da ar- 
chitoctura, fez constroir pelo afamado Peter Post» um pa- 
lácio, cujas torres podiam ser vistas do mar na distancia 
de seis milhas. 

Vrylmrg foi como baptisou a sua nova propriedade e danio 
azas á imaginação não achou muito caro as seis tonalaias de 
ouro que lho havia custado, quando uma nova ddaéa sorgin 
cm base maior o mais lM3lIa que a do Recife, e exigioduas pos- 
tes Importantes para facilitar o transporte. 



o BRA2IL ABANDONADO 269 

Ei&e mesmo aehara p&ra a 8ua residência um nomo 
npropríado a um palácio destinado a <Ga8telio da Libordaie» 
(Vrijburg) ; a- denominação da cidade competia aoCooselho e 
ilahi em deante flcaa sendo chamada Mauricia, 

Comprehonde-se bem que a Companhia considerava essas 
oonâtraccda#como um desperdício de dinheiro ; e o povo por- 
toguas murmurara» porque o aroiíitecto Post empregara as 
pedras da meio arruinada Olinda e ob materiaes das egreyas 
e conventos oatholicos emas novas construcções. 

O governador edificou, eguaimente a suas expensas, a casa 
do recreio «Sehonzigt» (Boa Vista) e defendeu-a com ba- 
terias. 

Ahi tinba elle o seu Tusculum ; ahi as horas que pou- 
pava do traibalho pelo paiz, dedicava-as á pratica da soi- 
encia, renniodo junto a si uma pequena companhia da qual 
as artes e as próprias musas, recebiam homenagens. 

Atras da altiva figura de Mauricio havia uma plêiade 
de homens distinetos, coUaborando com elle na obra da paz 
c oífoscandcMo nesse poato« 

Lármimvm Peter Post, que deu o plano para tantas cons- 
trucções de embellesamanta e augmento da capital da colónia 
hollandeza. 

Fasta tanrtMar parte daquella soeiedade o pintor Franz 
Post, irnuU) daq^ueile architecto, cujas telas ornaram uma vez 
as parede» da easa de recreio Honselaendyh, cujo pincel en- 
' controa na flora do Rrazil o motivo para tantas paysagens 
vivas. L4 estava Francisco Plante, capellão do Ckinde, ignal- 
EBOBta bomem de talento, que mais tarde havia de cantar n'um' 
poeoH^ latino os feitos de seu protector. 

Outro homem illustre daquelle seciuito era o medico do 
Prioeipe, o sábio Willem Piso, que devia derramar tanta Juz 
ac^raa te flora e da íauna brasileiras ; a juntamente com este,, 
Jorge Markfrai; que fez observações agronómicas no obser- 
vtttoríe de Manricia, levantou plantas exaetas do pais e de 
suas costas e compôs com Piso uma «Historia NMnralis Bra- 
zílíae,».qns y(^e ser citada* a par do Amb^Uiêch KrmidbQêh de 
Romplihis, Harius MtOabaricm de Vmi RheeáOr /opoi» de 
KMmpPaw^Baomm, PUmUn^c das Molueas de Yalentyns^ 



270 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

Principalmcnto a obra de Piso e Markgraf, um volume em 
12 capítulos, com 500 gravui^s no texto, foi para aqoellee 
tempos uma obra classici; e devia fazer recordar aos contempo- 
râneos que:— Peace hath íicr victories, no less renoycned than 
voar. 

Mais tarde, o douto director da Companhia das índias Occi- 
dentaes, João de Laet, sob o titulo Historia Naturalis Brasiliae, 
publicou uma ediç&o augm^ntada dessa obra e juntou-lhe uma 
descripção das plantas me^licinaes de Java. pelo Dr. Jacobos 
Bontius. 

No emtanto, sem o patrocínio c a coUaboração de Joio 
Mauricio nãô se realizariam esses trabalhas. 

Piso comparou-o (que cortezão !) a AleiLandre o Grande, 
fornecendo a Aristóteles os materiaes para tquella Historia Na- 
tural, e o mesmo autor ainda foz este elogio ao protector. 

«Depois de haver conquistado tantos territórios nas Índias 
Oeoidentaes, dado tantas batalhai em terra e no mar, defendido 
e propagado o puix> cbristi^nismo, dedicou no meio de tantos 
cuidados e fadigas as suas hora^ livres quasi totalmente à (br- 
mação do sen espirito e a aperfeiçoamento de seus conheci- 
mentos, acompanhando as nossas observações astronómicas o o 
progresso do noss-3 trabalho sobi^e a Historia Natur^d». 

O próprio g>vernaicr t\ml>em era amador e natara- 
listi . 

A sua vasta c^llecção d • objectos natiiraos o de cousas 
curiosas do Brazil foi adquiiMu em lò53, por 5\000 thalera pelo 
eleitor ae Brandenbur--. Muito an^os do rt?aliz \r a Teodâ, trans- 
formara a sua de Hciva num pequeno museu com os olgectos 
que levai-a comsigo, e foz presente de uma p:\rtc da mesmn 
collecç&o á rnivei-siJaie de Levvle. 

Convinha a s«^u prograinma do reforma «lue se expLorasee 
o interior do p.\iz não só par.t oomploti:* o l:geir:> conliecimento 
do território dos in»iios, como iaral»oir pari indag-^ir dos recursos 
naturaes, esp ciai mente os minérios. Fo: essa uma medida que 
teve a approvaçâo dos Direotc^re-í. 

Sonharam sempre os dire^toivs da Companhia com a des- 
coberta, na região al<>m das mi'ias ào Brazil, dethesonros. 
cgnaes aos dos Incas : esperavam encontrar nos próprios domi- 



o BRAZIL ABAxNDONADO 271 

nios O metal precioso, de que os Hespanhòos carregavam 
suas frotas de prata. 

Mais de ama expedição foi mandada pelo governador, amigo 
das explorações atra voz do sertão de regiões desconhecidas, 
mas desses sempre caçadores do ouro, voltavam depois de 
infL*uotifera viagem. 

Elias Heerckman emprehendeu em 1041 uma tal viagem; e 
86 sua gente não se tivesse amotinado e não o obrigasse a re* 
gressar, iria além do ceiro que em memoria chamou «Monte 
do Regresso ao qual com razão podia denominar «Monte do 
Pezar». 

Muiia privação e magua, muita desillosão e fadiga foi a 
parto que lhe coube ao approximar-se da meta. 

« Não foi de todo infeliz a viagem, pois si não trouxe espe- 
ranças de ouro, enti*etanto tornou-se proveitosa para a scien- 
cia. > Assim disse Maurício, e tal consolação muito fez rir á 
socapa os Directores da Companhia. 

O governador entretinha outros grandiosos projectos. Nu- 
tria a illusão de uma politica liberal de declaração de abertura 
dos portos do paiz ás nações marítimas da Europa; que se trans- 
plantasse às terras do Brazil as especiarias das Muiucas, trans- 
formando-o numa «colónia rica em cravo»: que a cidade de 
Mauricia fosse a sede do uma universidade, e o seu porto o 
empório de toda a America. 

Nada de todos esses esforços havia de subsistir ; nada havia 
de se realizar I 

Os Directores, pelo contrario, desejavam evitar tudo que 
exigisse novas despesas porquanto as finanças da companhia 
jaziam atrazadas e em misero estado. 

Kmpenhavam-so não pelo augmento das tropas, mas por sua 
rostricção. 

Já haviam, logo depoís da conclusão do armistício de 10 
annos, mandado repatriar um numero considerável de guarni- 
ções da colónia. 

Foi debalde que Joôo Maurício enviou o seu secretario par- 
ticular para demonstrar a imprevidência de tal medida, que 
despojava completamente o paiz de forças militares, e para 
solicitar uma remessa dr tropas e de viveres : < Nem a prós- 



27à REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

peridade da colónia --* mandou dizer — nem a saa honra podem 
prescindir disso». 

O vento, porém, soprava do lado completamente opposto, 
o Maaricio afinal se detestou. Estando já passada a crise da 
guerra, desejavam bem ficar livres delic, e nos partidários do 
commandante Articliofsky, tinha inimigos activos. 

Os mesquinhos resultados da ultima esquadra enviada, as- 
sim como as grandes quantias despendidas na construcção e 
pontes e fortificações haviam irritado os Directores. Como pro^ 
desse sentimento já. haviam votado que as colónias da Africa 
recentemente annexadas não ficassem sob o seu governo, mas, 
formassem colónia á parte. E em 1642 não renovaram o seu 
mandato pelo termo completo de oinco anãos, mas, apenas 
por um. 

« Custa-nos muito caro >, diziam os Directores, «por isso é 
quo 03 dividendos não augmentam !> 

Muitos dos accionistas da Companhia attriboiam-lhe dous 
defoitos: esbanjamento e demasiada parcialidade, ou mais pro- 
priamente, fraqueza para oom os colonos portugueses. 

Havia íàndamento nas duae asserções, pois, ai João Maurício 
amava o luza e a ardbdtactura , também ó certo qne a sua po- 
litica em relação aos súbditos portugueses podia ter sido mais 
energioa. Oe Directores eram de opinião que se devia reprimir 
fortemente a influenciado clero sobre os colonos. 

O governador oonheeia melhor do que os burgomestres obe- 
sos e os mercadores graves da Metrópole, a degenerada descen- 
dência dos Lusíadas, a soa fô e ódio de raça. Julgou seguir a 
regra:-— M voat geen hselen han verdragen^ moei men streelen» 
(Com o incurável cumpre contemporizar). 

Entretanta, es Kstados Geraes não intervieram e por de- 
ferência para com o parente do Stadhouder Frederico Henriquei 
a Companhia ém índias Oocidantaes mandoa ohamar ao caro 
governador m ooeasiia de renovar o prazo^ 

Mas João Maurício como homem superior não se dignou 
de aiceitar essM gnça* 

Lê fènireux sang de Natíau da divisa de Ludwik de Nassau 
— PMôt wtortçfuevcUncu^.gêf^reux tcmg de Nassau — fervia-lhe 
nas veias, oomo sen ^xáe^aanào era « nobre e de alto nasoí- 



o BRAZIL ABANDONADO 273 

mento» enem as tradições de saa raça, 4iem as inclioações 
do sea caracter soJQCreriam qae fosse protegido por caridade 
pelos « muito honrados, polidos, mui discretos e prudentes » 
senhores armadores e mercadores do seu escriptorio. Foi além 
do desejo daquelles e marcou a partida para o fim do anno 
de 1643. 

Alóm disso a sua missão colonial fraca^ssou, pois não teye 
occasião de vér fundidas as varias raças, de reunir sob uma 
bandeira, oi caiholicos portognezes, os protestantes neerlan- 
dezes, osjudeusddvotos doTalmud e os indios pagãos. Jamais 
chogou para essas raças o grande dia da reconciliação. Agora 
menos do que nunca, porque o banimento, de um numero de 
dominicanos e jesuítas, de génio turbulento havia alimentado 
novamente o odío de religião e a violoDcia dos governadores 
necrlandezes nas províncias fez fervilhar o san^rue quente 
dos Ibéricos. 

A inimizade hereditária entre as duas raças surgiu agora 
ainda mais forte. O sentimento que a despertava, tornava 
mais fundo o vallo de separação. Asaim como a mãe pátria 
se libertara da HespaDha, queriam os Portuguezes 'da Oolonia 
ticar livres de uma potencia herege. Alhns, en/unts de la 
palrie ! 

Aocresce comj principal, nue a maioria dos lavradores 
dovia muito á Companhia. 

O governo vira se obrigado a dar credito sobre credito, 
pois não quoria vôr arruinado, totalmente, o principal recurso 
•lo paiz — a industria assucareira. Si âzessom agora uma revo- 
Iu(:ão contra os neerlandezes, fariam um bom negocio, desap- 
parecendo desse modo a divida a par do croior. 

Já existiam indicies de uma extensa conspiração, haviam 
nomeado um cliefe, João Peraandes Vieira, portiiguez consi- 
derada e membro da Camará de Mauricia. Sendo este chamado 
á presença do Conselho Colonial não negou se haver corres- 
pondido com a Corte do Lisboa ; mas, asseverou que a tal carta 
apenas continha con^^ratulações ao novo rei pelo motivo de sua 
elevação ao throno. 

AlguMs conselheiros eram do opinião que se eaoarceir assem 
o puzessom a ferros os chefes desse traniíx. Mas o governador 
TJíi —18 Tomo í.w. p. i. 



274 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

reeeioa qae tal medida, sem se poder apresentaír ptoYãa ^aarin- 
oentes de oalpabil idade, trouxeeie como oonsequeaoia um leran- 
lamento geral dos portngaezes. Prefiriu, portanto, empvagar 
mais rigor e desarmar a população lasitana. 

A Companhia das Índias Oecidentaes, neste Ínterim, pro» 
curava continuamente os meios de se manter de pé e inreveair 
a queda qae já a esperava. 

Qaiz unir-se á irmã das índias Orientaes, entrando p«ra 
esse fim com a somma de 3.600.000 florins o todas as suas 
propriedades representadas em navios, terras, constmeçSes, 
flnrtalezas o trem bellícos. 

A outra regei tou a ftisSo, considerando um mán negocio. 
Os chefes o o advogado eram de opinião que o cabedal que a 
outra trazia ora apenas uma propriedade flcticia, visto qm já 
perdera cinco milhões, o que levantando aquelle dinheiro, s6 
poderia fazclo sobre o credito da Companhia das índias Orien- 
taes, oom prejuízo desta . 

Os Bstados osforcarara-so em favor da Aisio mas, oe prin- 
cipaes da Compnnhiu das Índias Orientaes declararam perem- 
ptoriamente que as suas propriedades eram isentas de direitos» 
especialmente pnrlicularos, e não do Governo, e que em caso 
de necessidade podoriam vendel-aSy ai fida mesmo que foise a^ rei 
da He$panha, 

£ no concornerito :\ uma fusão entre as duas Companhias, 
ellas mesmas s? poderiam garantir. €1' Itália fará da se.^ 

Um oatro esforço da aíllicta Companhia das índias Oeci- 
dentaes, para fazei a sahir do embaraço foi procurar dessobrir 
o caminho para os tliosouros do Peru, e começju despachando 
uma expedição para o Chile, sob o commando do antaiior 
governador gorai das índias Orientaos, Hendrik Brouwer. Com 
o mesmo dosigoio .loâo Mauricio já combinai^a uma expedição 
a Buenos Ayres. Tambom d*aili havia caminho para o Psrú, 
rieo em minas do ouro e prata sendo levados daquella eidade 
08 escravos para as minas peruanas. 

Todavia á che.rada do Hrouwer ao Recife se desistiu deme 
plano ; os transportes na opinião de Maurício não eram adequa* 
dos a empreza. 

A exi>ediç?ío << £ruiii seu destino e foi mal socoadida. 



o BRAZIL ABANDONADO 275 

Brbuwer snceumbla no meio da locta com os Hespanhocs e 
08 indigenafl. 

Herckman, seu saccesaor, penetrou ató o paiz dos Artu- 
canos e apoderoa-se de Valdivia ao Sul do Chile. 

As suas pesquizas por ouro causaram notável retrahimento 
na affaiçSo dos seus alliados do interior. Então, esses Hollandezej 
não eram melhorais do que os Heepanbóes, a qaem queriam 
expulsar I 

Como elles eram sequiosos por aquelle fatal metal, que jà 
causara tantas calamidades nesses paizes, desde o tempo dd 
Pizarro e de seus sanguinários abutres! 

Os Índios já ooohociam muito tempo antes o sen ti lo dai 
palavras que o poeta de uma época ulterior proferiu a oercx di 
execravel sede de ouro : 

Qold sow*d the world \sitli every ill ; 
Gold taught tlie iiiurderer'8 s.vord to kill ; 

Gay. Faia s. 

Desde esse momento não so mostraram dispostos a tra/er 
viveres; e como a deserção fazia claros nas fileiras dos neer- 
landezae, Herokman, receiando nio poder resistir aos Ilespa- 
nhóes, com suas forças reduzidas voltou com a esquadra. 

Em Tez de barras de ouro, trouxe apenas comsigo um dic- 
cionario da lingoa dos Índios do Chile. A montanha mais umu 
vez parira um rato ! 

A crise financeira obrigou os Directores a fazer cortes no 
salário dos funccionarios, a reduzir o numero das tropas a 
-^.000 homens — e isso quando o togo da insurreição portuguoza 
era incessantemente ateado pelos seus compatriotas em S. Sal- 
vador, quando os lavradores já haviam feito subir a sua divida 
para com á Companhia a 59 toneladas de ouro (5.000.000 iloriDs)« 
de que se livrariam por um levantamento geral ; quando bandos 
de Portugueses e de negros sahindo das mattas assaltavam as 
fronteiras da colónia I Nunca a parcimonia obsecou tanto a sa- 
bedoria dos Srs. XIX como naquella occasião. 

Certa missiva combatendo a abominável medida foi o ultime 
ajto puUico do governador. 



276 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

Na primavera de 1644, praparou-se para deixar a'oolonia. 
E tanta impressão fez essa noticia, que muitos commereiantes 
hollandezos liquidaram os seus negócios o partiram com eUe, 
tSo convencidos estavam de que com a sua retirada se abria a 
porta do dique. 

O governador, verdadeiro estadista, deixou ao Conselho 
Colonial um testamento politico que encerrava os seus desi^íos 
acerca da direcção a dar ao governo, acerca da administra^ 
da colónia e do modo de proceder para com as differentes 
classes da população, juleus, índios, lavradores, militares e 
commerciantes. Nella vem uraa indirecta com vistas aos bar* 
guezds hollandezes: 

«Sempre que tiverdes de tratar com os neerlandezes, res- 
peitai a sua bolsa como um sanctuario ; dão antes a vida que a 
bolsa. 

Como compatriotas dos directores da Companhia consideram 
injustos serem regidos pelas mesmas leis qeu o resto dos habi- 
tantes. Oi commerciantes especialmente Scão avarentos, e antes 
arrancaríeis a clava das mãos de Hercules, do que delles a 
bolsa.» 

Depois de lançar assim o seu protesto contra os Directores, 
e dar os últimos conselhos ao govc^rno da colónia, deixou Joio 
Maurício par ; sempre o paiz, onde esperara levantar am ba- 
luarte poieroso do grandeza commercial para a Hollanda ; 
trabalhara com zelo, durante oito aooos, pela conservação e a 
prosperidade da colónia, mas, agora íicava livre não sj da dis- 
córdia interna, do ódio de raça e de religião, como melhor ainda 
do frouxo e lacommodo systema do governo da Companhia das 
índias Occiientaes. 

O seu biographo allemão, o Dr. Ludwlg Driesen, dà a se- 
guinte descripção da sua partida : 

« Quando cavalgou pelas ruas de Mauricia e do Recife» 
onde amilicia dos burguezes formou em extensa linha, toda a 
população aiBuiu para vcl-o ainia uma vez fazer-lhe as soas 
despedidas. 

Velhos derramavam lagrimas e os naturaes do paii beUa* 
vam-lhe as vestes. 

Ao troar do canhão e ao som Jo antigo hymno hoUandez — 



o BRAZIL ABANDONADO 277 

Willielmos vaa Nassauwea — percorreu a cavallo o ostroito 
isthmo que se liga a Olinla. 

Frequdotes vezes parou, refere uma testemunha de vista, 
para contemplar mais uma vez a sua magniâca obra, que aban- 
donava para sempre. » 

Realmente tudo isso era creação sua : as paredes da Boa 
Vista sepultadas em eterna sombra, as pontes de António Vaz 
com 08 seus fortes nas extremidades, os edificios do Maurlcia 
reluzindo sob os raios de um sol tropical e altas torres de Vrlj- 
burg. 

Estava para deixar tudo isso e podia iançar-lhes um olhar 
com um tanto da tristeza que empanava os olhos do ultimo rei 
Mouro ao deixar os jardins de Granada. 

Entretanto, não precisava viver muito tempo para vér 
que os próprios muros de Vrijburg, antes de muito, haviam 
de desmanchar-se em pó, os ricos jardius que o cercavam 
seriam destruidos, as cores de Bragança íluctuariam nos 
topes e que não mais se ergueria um sol sobre o Brazil neer- 
laoddz. 

CJomtudo o dia do jiizo jl não estava longe — dies troj, dies 
iUa.,. 

Chegando á Hollanda, apresentou um relatório da sua 
administração na colónia e declarou acceitar a discussão. 

Tanto os Estados Geraes como os Directores da Companhia 
deram- se por satisfeitos e approvaram todos os seus actos. A 
Universidade de Levijie prestou homenagem com uma festa aca- 
demicii ao protector das artes e scioncias. Barloeus escreveu, 
em s.ia honra, unia extensa poesia cm latim. 

Completara agora 40 annos, e não lhe convinha, nem pela 
edade, nem pela Índole encolher uma vida ociosa. Rasteich^ 
rosteichi (o movimento é a vida). — Reconhecia bera esta 
verdade. Immediatamente voltou a seu posto no e:cercito da 
Republica e foi nomeado no mesmo aino de 1644 tenente-gene- 
ral de cavailaria e commandante da fortaleza de Wezel. A pri- 
meira metade da vida estava decorrida ; queria dedicar a outra 
tanto como aquella á causa publica e ao serviço e defesa da 
Hollanda. 



278 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

Porque segunio a phrase do poeta : 

\cg: hield het schrykijlk pleit van vryheid aan, 

Nog «Irocíç der vaadren erf de Spaansche leírerraan, 

En dronk om strijd het bloed van landzaat en van vreeinden. 

(Ainda proseguia o terrível pleito da liberdade, ainda o terri- 
tório da pátria so afflígia com a presença da bandeira h''flpanlioln e 
na lucta so embebia com o sangue dos patriotas e dos estrangeiros). 

NSo era mais a campanha a qae se habituara 10 annos 
antes. 

A Hospanha estava esgottada, tinha agora a França por ini- 
miga, Portugal se separara, perdera ama praça (brte após 
ootra nos Paizes Baixos hespanhôes. 

Também os Paizes Baixos, especialmente a poderosa Hol- 
landa andavam pela paz. Qaeria a França como amiga, nunca 
eomo visinha; d^^sejava ainda menos que Antuérpia íbsie 
unida á Republica, cm prejuízo do commercio de Amsterdam. 
O resultado de tudo isso foi que faziam a guerra oada rez com 
monos arranque. 

JoEo Maurício acompanhou Frederico Henrique na sua ul- 
tima campanha ; tomou parte na tomada de Hulst, no assedio 
de Venio, nos ultimes actos d^ um drama de pruerra de 80 
annos. 

Ratretanto, cm 1<V16, concluíram as negociações da paz em 
Munst'»r» e o Stadhouder poude erafim descançar. Em 1647, mor- 
reu o grande Conquistador de Cidades, não era ainda velho, mas 
jl estava alquebrado, nm homem leal com seus amigos e va- 
lente com os inimigos, dota io da perseverança do pae e dos 
talentos militares do irm^. 

Para Jofto Mauricio fora um amigo e protector. Quando 
depositaram o sen corpo na sepultura om Delfi, onde o Taeitumo 
e Mauricio j.i dormiam o eterno somno, foi o conde de Nassau^ 
Siegon nm dos que seguraram nas alças do esquife e ao mesmo 
tempo nm dos que mais sinceramente f^entiram a sua morte. 

O antigo governador do Rrazil pretendeu encerrar a soa 
sarreira ao serviço da Republica das Sete Províncias, por cujo 



o BRAZIL ABANDONA£)0 279 

motivo âxoa residâQoia em Haya» e fez aJii construir o bem co- 
nhecido palácio Mauritshui3. As paredes e 08 teoios deviam 
lhe recordar eontianamente o sea governo no Brazil. 

Peter Post* o notável architecto que execatara tão eieel* 
lentes obras nas terras sul-americanas, £oi o constructoF ds^te 
palácio. Empinou espécies magaiâoM de madejlras do Bnazil ; 
fez pintar uai paredes de uma <las salas um numero infinito da 
paasaros dos troplBos, no tecto do pórtico mandou esculpir um 
combate dassioe deeavallairos. ALli a4 colomnas eram todas de 
estylo jMiio e flnaLanente mandou ornar aparte superior de flron- 
tespicio com as armas de Nassau. 

AM instailara^ oonde o seu musoo sul-americano. A casa 
era digna do deposito ! 

Oomponha-ae asse throno de uma enorme quantidade de 
cousas raras e artigos naturaes trazidos eomsigo do BraiU, 
presentes de negros, reis africanos, preciosidades extraídas 
de ílragatas tomadas aos Hesparhoes, telas assignadas por Fraos 
Post e nuumseriptos de Piso e MarLLgraf . 

E' realmente de lastimar que tantois tbesouros fossem mais 
tarde presadas ohammas! 

Gaitara eoa a ooBStruoQ&o do Maui*ijtsbȇs seis toneladas 
de o«ro« perdidM completamente — mas, é verdade, tinha 
direito a 2 % solire as presas, oommis^U) que lhe íòra garantida 
pela GompaBiiia e ci^a somma dos oito annos de seu goveroo 
montava a 2.017.498 florins. 

Tinha, portasCo, muito que harer da Companhia, ntas 
ninguém melhor do que elle podia julgar como eram inoertoB 
aqnelles devedores. 

Esse palácio de Hàya devia^lhe compensar a perda dos dois 
palácios do Bmitíl— -Vrijbnrg, Bôa Vista. Mas estava eseripto 
que o proprietário nao moraria nelle por muito tempo. Compre- 
hendeo que, fiemado o tratado ée paz em Munster, a sua oar- 
reira militariia RepaMtca ícatava eneerrada. Morrera o Stad- 
houder e sucoedera-o um moço de 21 annos do edade, ardenie 
e impetooso. O filho n^bo podia ser para elle o qjmd I6ra 
o pae. 

O deetine leraT^-o pam fora das fronteiras das Previnotes 
Unidas. 



280 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

Para o Brazil H^>llaadez, a retirad i do governador foi o 
principio do próximo fim. 

Muitos pensaram ao vôr grande numero de caçadores de 
fortuna, cretirantes» partirem com elle, como os ratos que 
abandonam o navio que se submerge. 

Governadores ineptos substituiram o habil estadista. Diz 
Kaynal na sua Eistoire politique et philosophique des deux 
Indes : Quem haveria de acreditar que ficassem á testa do 
Conselho, um commefciante de Amsterdam, um ourives de 
Haarlem e um carpinteiro de Middelburg, para deliberar no 
Recife sobre assumptos da mais alta importância ! 

Nâo seria o mesmo que calçarem os meninos os sapatos de 
Hercules ? 

Este ministério da usura, com o fim de equilibrar as rendas 
da colónia com as despesas, augmentou os impostos, deixou 
arruinar- se as obras de fortificações, vendeu artigos bellicos e 
licenciou as tropas para fazer-se economias com o soldo. 

£ífectivamente, faziam de modo a trazer o equilíbrio das 
finanças o a deixar a colónia indefesa. Logo depois da partida 
do governador irrompeu a labareda que estivera abafada por 
tanto tempo. Descobriu-se um trama de um Português impor- 
tante em Mauricia com o fim de convidar aos principaes funocio- 
narios neerlandezes a assistirem as bodas de uma filha, 
afasta los para um ponto, provocar ura levantameito popular 
e reproduzir no Recife a matançi das Vésperas Sicilianas. E* 
verdade que o festim de Thyerstes fracassou, mas os conju- 
rados souberam esconder-se no interior do paiz. Em ves de 
secreta, a conjuração tornou- se então publica. 

A revolução, entretanto, sempre se declarou. 

O patriota Vieira coUocou-se á frente, e só elle valia meio 
exercito. 

Os padres catholicos empunhando um crucifixo incitavam 
os patrícios e os correligionários a sacudirem dos hombros o jugo 
neerlandez. 

Os dias de J<^o Tetzel e os negócios de indulgências 
pareciam querer voltar, tanto assim que fizeram proclamando 
do indulgência plena aos combatentes, nas quaes promettiam o 
cóu e perdão para assassinatos commettidos nos Neerlandeses. 



o BRAZIL ABANDONADO 281 

Se Constaotyn Huygens buscasse materiacs na historia do 
Brazil para as saas satyras» o autor do Hofwick não precisava 
ir mais longe para adduzir quanto a esta : 

De Paepen, sei rond uyt ten Zcemantjo van Schevoriugh, 

Z jn slcchie koopluyiltjens, by dat S». Judaa was ; 

Ilij leverde sijn wacr cn stack*tgcld in sijn taás; 

Maer sy verkoopen God , on doen ecn menscli ge^m loveringh. 

( Os padres se par.cem com um marinheiro de Sclievoriugli, e o» 
><vus mãos negócios com os de S. Judas. Kstc entregou o quo 
vendou e poz o dlnlieirj uo bolso, mti-j clles vendem a Deus o não 
duo cousa al^^uma aos liomcn'^ ). 

A revolta propagou-se por toda a capitania. Devastaram os 
engenhos de assucar hollaudezos, tíravam-lhes os escravos, 
matavam os bois. A colónia, privada do tropas sufflcientes, foi 
X)erdendo umas apóá outras as suas praças e cidades, que 
caliiram nas mãos do iuimigo. 

Tudo que commerciantes prudentes conquistaram para o 
Estado ficou perdido. 

O próprio Recife c Manricia estiveram ameaçados, tanto dos 
iosu-^ontes como da fome. Reinava no Conselho a falta de 
!.'nergia, clarividência e uaidade, nos colonos hoUandezes a des- 
confiança e o ciúme, nas tropas a desmoralização e a traição — 
Hoogstraten, major hollandez, entregou aos Portuguezes o forte 
do Pontal por 18.000 florins (» o commando de um regimento. 
Tá em 1645 os taes insurgentes estavam de posse da maior parte 
das provindas do Brazil neerlaadez; perderam-se também as 
possessões africanas, a da costa do Anprola e a da ilha de S. 
Thomé. Tudo parecia favorecer aos revoltosos. 

Essas tristes noticias produzirain um pânico nos Paizea 
Baixos. Paralysou-se o commercio para o Brazil ; as acções da 
Companhia das índias Occidentaes baixaram a 30 por cento. 

Folhetos e pamphletos excitaram o espirito popular. O 
embaixador portugeez em Haya esteve mais de ama vez arris- 
cada a perder a vida. 

A esquadra de Lichthart e depois desta a de Joost van 
Trappen (appellidado Bankert) causaram grandes prejuízos aos 



282 RB VISTA I>3 INSTITUTO HISTÓRICO 

navios portugueses, mas nem por i8Si> se poieria doixar de 
considerar o pais oomo perdido. O finis Pohniof nSU> devia 
tardar. 

E o poota neerlandez, cantando as glorias dos nossos ante- 
passados, abatido por estas paginas iuctaosas da historia colonial 
entoou a esso respeito em vez do canto triumpbal, endeixas 
sentidas : 

Verzuimd Brasil; o ryke grondcn, 
Wier aard' is diamant en goui ; 
Ik hoor uw overgaaf ?crkonden, 
Nu Baukert u niot meer I>chon«l ! 
Vergoefí» heeft Poít 01iiida*s Kerkon 
Vcrwoe.^t voor oiis:í nicu^ve werkcu, 
Met Nassau wijkt hct wuhi ^'oluk ; 
De Plaat.5, ilc uaaiinMi zijn verlooren, 
Dic «rOvcrwinnaar lia-i vcrkorou 
In 't hcdciulaa^-re P«»rnaml)uk. 

Van JIarin. 

(BrarÀl alamlon.ído 1 0!i : ri» a i*ei:ião '. 'Wni solo «• puro diamante 
c dliro. Ouvi aiinuni*ia<la o t<.u ani((uilainonto ; agora Bankert nio 
te coDt'U)pIarã mais! 

DebaMc Po>t di'->truiu a.? ejivjas d > Oliuda substituindo-afi pelas 
nossa* no v;is «di 'ca<:"oí«. Com a r tira In d* Nassau tudo se tornoa 
um deserto. 

As cidades de Pernnmb-.it o perderam m^ nomes dados pelos con- 
quàstadores). 

Bssc Bankert foi um dos «^leõss do mar» qao estiveram 
naquolle ti^npo a serviço da marinha hoUandeza, cooqois- 
taado-lhe muitas glorias. Comr Jol comc(,x)u por grumete e 
chagou a alcançar o posto de almirante o como aquelle» era o 
terror dos Portuguezes e Dukenquerqaczes. Havia deter a 
merio de um marinheiro, no meio de uma batalha naval. 

«Elle morreu», refere o poeta Onno Zwier van Harea, «no 
eqvador, ao voltar do Brasil, de uma apoplexia, pois era muito 
sanguíneo e corpulento ; e a o>«tinaçio de dous filhos seus, que 
de maneira alguma quizeram consentir quo atirassem o cor^ 
ao aar, deu logar a que ficasse o navio empestado, apenr de se 
proenrar tapar do melhor modo o caixão. Moreau qu« cotava 



o BRAZIL ABANDONADO 283 

abordo, disse qae o horrível maa cheiro produzia um resultado 
originai, isto ô, nSio se sentia gosto nas comidas salgadas. 

Entretanto, não foi a esquadra de Bankert, segundo conta. 
o citado autor, a ultima enyiada a bem da conservação do 
Brazil. 

No anno de 1647 resolveram os Estados Geraes mandar uma 
expedição considerayel de íbrcai, contando 6.000 homens e 12 
navios sob o commando do vice-almirante Witte Comelisz de 
With, com o flm de se salvar o que se pudesse. 

Do que mais precisavam 1&, era de um hábil piloto no 
leme. 

Devia-se procurar um homem, que pelos conhecimentos da 
experiência, pelo emprego do seu talento militar e pela autori- 
dade de seu nome âzesse mudar aquelle estado de cousas. Os 
mesmos Betados Geraes que queriam em 1642 nomear a Joio 
Maurício marechal de campo para desthronal-o do seu governo 
no Brazil e castigar ao ccaro governador», declararam agora 
que se devia fozer todo o possível para induzil-o a voltar 
para lá. Assim fizeram, mas não puderam concordar quanto as 
condições. 

O conde de Nassau impoz desta vez altas exigências á massa 
fallida, que se chamava Companhia das Índias Occidentaes, e de 
With partiu sem um * 'Restaurador'* a bordo, para a colónia 
ameaçada. 

O pleito, no em tanto, já estava decidido. 

O almirante, a quem Van Kampen classifica *'u(n homem 
de inflOTivel rigor", com demasiado amor próprio para se con- 
tentar em representar papel secundário viu-se nomeado gover- 
nador sem ter a necessária experiência. 

O coronel Schuppen foi nomeado cheíls das forças de torra: 
essas estavam eífectivamente aniquiladas. 

Apenas três praças, o Recife, Parahyba e Rio Grande aioda. 
estavam sob o domínio neerlandez. A guerra só consistia agora 
em pilhagens, devastações e emprezas inflructuos&s. O vice- 
almirantequeixava-se energicamente a respeito de iostruogSes 
que lhe prejudicavam projectos encetados, da demora dos re- 
forços e do silencio sobre os seus pedidos do necessário ptva os 
muitos doentes e feridos. 



284. REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO. 

O ostylo da exposição era conciso e próprio do homem 
do mar. A cólera fez-lhe escrever o seguinte aos Estados 
Geraes: 

''O escravo mais miserável, mesmo um cão que estivesse 
doente no Recife vos mereceria maiores cuidados em fornecer 
allivio do que tendes prestado a um almirante com a sua gente» 
d*ahi se pôde avaliar a vossa affeição para coranosco**. 

Finalmente, em 1650, deixou a **Companliia no Hongerberg" 
(Monte da Fome), como chamava a capital neerlandeza no Re- 
cife e regressou por conta própria á metrópole, onde o Stadhuuder 
Gailherme II mandou-o prendor por jnsuburdiuação. Oi Estados 
da HoUanda, entretanto, foram a seu lavor, o após a morte do 
Príncipe, no mesmo anuo de 1650, foi solto. 

Ao mesmo tempo que os Estados esforçavam-se por mandar 
JoSo Maurício novamente ao Brazil, apresentouse-lhe ura outra 
campo de trabiilho pacifico. 

Nas campanhas de Frederico Henrique fizera amizade com 
o eleitor de Brandenburg, que se casou dep^^is com a filha do 
Stadhouder. i:ntão, esse amigo offeroceu-lheo governo das suas 
províncias da Westphalia e Rhenanas, e em 1647 scguiuse a sua 
nomeação de governador de Kleef, Mark o Ravensberg, com 
umordenido annual de 6.000 thalers. 

Ck>mcçou então um novo periodo nessa vida agitada. 

Após a vida activa do general de ca vallaria, após as diffl- 
cul lades do governador colonial, vinham ngora om compen- 
sação as ''prefeituras descançadas'' de administrador provincial. 
A cidade de Kleeí deve aos seus cuidados a prosperidade e a 
belleza dos arredores: o palácio do Principe. o jardim zoológico, 
o canal do Rheno recordam honrosamente o seu nome. 

A HoUanda não lhe ficou esquecida . 

Mantovo estreitas relações coma residência do Stadhouder, 
que lhe parecia o seu Mauritshuis, e com a poderosa Amsterdam 
trocando cortozías com o seu burgomestre. 

A estitua de Palias, de mármore, do esculptor Quellijos 
no terraço do tanque de Kleef tem ainda no pedestal as armas 
da cidade de Amsterdam, como signal que fora presenteada por 
aquella cidade ao anterior governador e general . Por soa vez 
Vondel dedicou-lhe um Canto de caça **sobro a caça mandada 



o BRAZIL ABANDONADO 285 

ao Sr. Burgomestra de Amsterdam, na sua esta^ favorita 
e agradável repasto". 

A Hollanda não podia prescindir por muito tempo dos ser- 
viças de nm tal homem. Em 1(372, esteve ao lado do Stadhouder 
Oailherme III collaborando poderosamente para a defesa de 
Am^terdam contra a invasão dos Francezes; em 1674 já tinha 
70 annos do edade e foi no emtanto um chefe valoroso, com- 
batendo ainda na bi^talha de Senef, com toda a experiência de 
um velbo general e com toio o ardor de um jovem. 

O "activo e valente Nassau" como Vondel o chamava, mor- 
reu em 1670 na cidade de Kleef. 

Ainda que fosse desceu lente de allemão e que houvesse nas- 
cido e morrido no território allemão, passara quasi toda a vida no 
serviço da lutadora e joven Republica, á defosa da qual os mais 
notáveis de saa familia sacrificaram os bons e o sangue. O seu 
retrato foi pintado por artistas neer!andeze3, por Flinclc e Mie" 
reveld, cantaram ossens louvores po3tas neerlandezes, Vondel e 
Barlseug, a sua historia foi narrada por Wagonaar e Nctscher. 

Pela educação, pelos laços de fdmilia e por sympathia 
pertencia realmente ao paum-e penple, para o qual o príncipe 
Guilherme ao dar o ultimo suspiro invocou a piedade divina, 
na qual o príncipe Maurício acreditara firmemente: tandem 
sit surcvUus arbor, (Divisa do principe Maurício). E certamente 
poiiasedíz^r digno neto do g*anie Taciturno, cuja energia, 
cujo amor da p itria,cuja uobreza de caracter reâorcscoram nelle. 

Jd soara para o Brazil hollandez o sino da morte e oe seus 
toques foram apressados. Feriu-se a ultimi batalha achegada 
de uma forte esiiuadra portu^^ueza de 60 velas. 

Em janeiro de 1651 rondeu-se o Recife. Depois osPortu- 
guozes assignarain uma amnistia geral, e prometteram entregar 
a artilharia e munições de guerra. 

Zoo woort Jeru^ale u genonnen slagh. 
(Assim í'oi .Icrusalém o »n'iui>?tafla sem ae f rir l^atalha.) 

Perdei i-se a maior parto do território neerlandez, em* 
quanto a Republica estava em plena paz com Portugal, ainda 
antes de expirar o armisticio de 10 annos, Armado em 1641. 



286 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

A oor6a de Portugal apoiara secretamente a iosorrei^. 

O rei D. JoSo IV ordenou aos rebeldes que snspendeiUMin 
as hostilidades ; o seu embaixador em Haya, garantiu que as 
conquistas feitas no Brazil se fizeram contra a vontade e contra 
as ordens do rei. 

Mas Vieira e os seus partidários não se deixaram illudir. 

Conheci£Lm o estado do espirito publico em Lisboa ; hariam- 
Ihe mostrado les deaous des cartes. 

Restava apenas aos dois governos na Europa reconliecer o 
íkoto consumado. 

Dessa vez, Portugal ganhou a partida. 

«O rei », exclamou Vieira, c n^ conhece os nossos sacri- 
ficios e o nosso zelo pelo seu bem, senão favoreceria a nossa 
cansa». 

Já agora nos Paizcs Baixos os conselheiros e os Estados 
estavam convencidos da duplicidade dos Portugueses. Na 
oecasiào da perda de S. Paulo de Loanda o Angola exproberam 
em nota offlcial o procedimento de Portugal. A corte de Lisbte 
não perdeu muito tempo em reconhecer que o conteúdo lhe 
era offensivo e devolveu-a intacta ao embaixador. De cartas 
apprehendidas a bordo de um navio destinado a S. Salvador 
tornava-se patente a má fé do Ministro portuguez ; com certeia 
que este não precisava <ir a Itália aprender a arte de disai* 
mular». A questão íôra estudada por fóiti e por dentro ; 
sabiam o que deviam pensar das doclaraQões do embaixador 
estrangeiro de quem o povo co>tumava dizer : « Elle íalla bem 
mas Julga mal.» V. si as dissenções entre Guilherme 11 e os 
Estados da Ilullanda não trouxessem tão pre<>ccupados todos os 
espirites o, ao mesmo tempo, di a guerra marítima com a 
Inglaterra nio entretivos^e a todas as forças da Republica, ô 
muito provável que a colónia brazileira dos Portuguezos» 
tão cararaente adquirida, ser-Ihes-liia n.'>vameQto arrancada a 
forro e logo. 

A cossão do Brazil hollandez á coroa, de Portugal foi offl- 
cialmentc reconliecida cm l''^>l, no tratado de paz em Haya, c 
só tiveram que agradecer á iniciativa do conselheiro Jan de 
Witt que fosse franqueado a Republica o coiumercio do Brazil 
o terem recebido uma iodemnisação de oito milhões 



o BRAZIL ABAKOOXADO 287 

Em 1647 Barlsans publicou a sua obra sobre o gOTorno de 
J^ Macuricio o %a circumstaneias que prepararam a porda da 
colónia. 

Keruin per oclonnium in 

BrasiiU et alibi <;oâtaruiu 

sub pr.'Ȏctura J. h. Maiuritii Ilisloria. 

Depois appareceu o tratado de Oauo Zwíev van Haren — 
« Sobre as causas da perda do Brazih» 

Luzac o Aitzema escreveram sobre o mesmo assumpto. 
Collot d'Escury bas30u se na autorklade do Adam Smith, na 
sua obra Wealth of Xations, e disse : 

« As discórdias sobro o emprego de medidas administra- 
tiTis derem ser considerada a principal causa desse desastre ; 
e fleami eomo uma verdade baseada na experiência que o 
governo independente de uma Companhia 6 o meio mais 
absurdo, de que se póJe lançar mão p^ra se manter e tornar 
prospera uma colónia.» 

Todas as vozes pareciam outros tantos suspiros exhalados 
por causa do «Verzuirad BraziU (Brazil pardiJo). 

Durante 24 annos apenas poude a bandeira ostentando as 
lettras G. W. C. (Geotítroyerd Westiudische Coropanie — 
Companhia das índias Occidentaos) fluctiiar ali nas fortalezas 
e nas torres. 

Juntamente com a ilha Formosa, foi o Brazil uma das 
primeiras perdas do iir.perio colonial neorlandez, e nâo é de 
nenhum modo honroso para o ? « ler»es do mar » hoUandezes o 
terem abandonado trio nobres conquistas, uma aos piratas 
ehinezes, a outra aos Portugnezcs, a quem, aliás, tantas vezes 
bateram. 

Mais meio soe ilo de grandeza colonial e se haviam de des- 
prender outras tantas pérolas do collar precioso. Bem depressa 
liavia o poder dos Paizes Baixos, nas terras de alem-mar, de 
se passar para unia nação maior o mais poderosa ; a vassoura 
de Tromp abateu ante o Union Jcck britannico, assim como 
outVora a própria KoUanda arrancara o sccptro ao decadente 
Portugal. Km lacatra olir.: começou a victoria ; com a perda 



288 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

do Recife, a derrota, ií doloi*oiam3nto havia o poeta do 
recordar este primeiro sacriflcio das dissençãds republicanas e 
do desgoverno colonial : 

Thans dcort u HolLinds roem niet mcor, 
lirazilije I niaar hei ecrát vau allen 
Ais parei aan har, kroon outvallen, 
Roept iii'] sleclils uit liet ltíjs weleer, 
Van uit fresclieiif 11 lieMengl<»ric, 
Van noderlaag na krijgs victorie, 
Verbleekt<" schiinmen der Historie 
Eu drocvige herinng wcer ! 

(B. ter Haar, De St. Patdusrots) 

(Aurora, Bra/il I Nào t^ inconiniodará mais a arrogância da 
Holianda. Mas, como a primeira de todas as parolas cahidas de sua 
coroa, íazes recordar o remoto passado, rico do heróicos e gloriosos 
succe.>sos, da -lerrola â victoria. 1'allidos espectros da Historia e 
groudcá p*zare3. } 



-€^- 



REVISTA 



DO 



INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGEAFHICO 



REVISTA 



DO 



E 



BRAZILEIRO 



Fundado no Rio de Janeiro em 183S 



TOMO LXX 

1907 
PAnTB II 

II oe racit, ut longos dorant ben« ff«slft p«r anlioft 
Kl poMint aera poitaritata frui 




8593 



RIO DE JANEIRO 

1708 



FOLE-LORE PERNAMBUCANO 



DR. FRANCISCO AUGUSTO PEREIRA DA COSTA 

Sodo correspondente do Instituto Histórico e Oeogrftphieo 
Brasileiro 



índice 



Piftg*. 

Superstições populares 7 

A poesia popular 135 

Romanceiro 295 

Cancioneiro 429 

Pasioris 475 

Parlendas e brinquedos infeintis 497 

Miscellanea 539 

Quadras populares 583 



FOLK-LORE PERNAMBUCANO 



Superstições Populares 



As superstições o creadices populares são, oomo se sabe, de 
uma tendência geral e universal» e o povo brazileiro, originário 
dos portugnezes, recebeu delles, em grande parte as que pos* 
sue, porquanto, na esphera do inconsciente, na phrase de Max 
Nordaa, as superstições obedecem a uma lei hereditária, que ó 
a memoria da espécie, um jugo a que nfío nos podemos esquivar 
continuando desfarte a persistir em cada ser particular as 
idé:is dos antepassados, sob a manifestação de recordações fre« 
quentemente inconscientes ou obscuras, mas, sei)apre presentes, 
e só tendo necessidade de impulso exterior para mostrar em plena 
claridade, para inundar com seus raios a vida da alma inteira. 

A essas superstições e crendices que o nosso povo herdou dos 
seus ancestraes, aliás em geral, sem um certo cunho de origina- 
lidade, porquanto, em sua maior parte hauriram-nas de povos 
ainda mais remotos e de mais afastadas latitudes, por sua ves 
introduziu elle muiias outras de concepções próprias, que reu« 
nidamente avultam, formando um conjuncto complexo, de colo- 
ração e aspectos vários. 

E* assim, que das superstições herdadas dos portuguezes, 
muitas já em desuso, e outras ainda em voga, figuram em 
grande numero as que receberam elles dos romanos, dentre as 
quaes estão no s3gundo caso, as pausas nas procissões, a reve- 
rencia á mesa, o fechar os olhos e a bocca ao defkinto, as festas 
do carnaval, que vêm das suas saturnaes, os dias aziagos, os es- 
pectros nocturnos, as almas dos finados que vôm atormentar 



8 REA^I^TA no rCSTITíT»"» HISTÓRICO 

03 víto?, e a sina ou o fado em qae geralmente acredita o 

vulgo, o f'nt»im ineT:l''f ilf. 

As pau9is ou eeu^õts das pr.ciífOai romaoaa, ain pontos 
determioado9, principalmeate ante certas capellas, temol-as nós 
perfeitamente caracterisadas, e pariicularmento, na procissão 
do Senhor dos Passos, como se observa, perante as capeilas 
ou p:issos, equidisiantemente dispostos no louiro percurso da 
procissão, perante 05 qoaes o andor estaciona, e pára a marcha 
procissíonal, emquanto os cantores, acompanhados á orchestra, 
executam um cântico sacro e partieu^r a cad^ estação. 

Acompanhando o Braxil a sone da metrópole, que arrastou 
pelo longo c«tadio de sessenta annos a perda da sua nacionali- 
dade e das suas liberdades pátrias, victimas da dominação hes- 
panhola, indubitavelmente as tendências castelhanas infiltra- 
rara-se no animo popular da nova colónia de além-mar, trans- 
Oiittindo-lhe a fua indolo pelo contacto intimo da soa gente 
eonftindidamento cora a nossa nos cargos públicos, ecclesias- 
ticos o militiros, o na massa popular pela soldadesca, mari- 
nheiros o gente de oíBcio. 

EíTectivamente, na primeira phase das nossas luctas oom o 
batavo invasor, que exactamente corresponde á ultima da do- 
minação hespanhola, essa confiísio accentuou-se ainda mai« 
nitidamente, uma vez que os nossos pernambucanos batalharam 
contra os hoUandezes, tendo por companheiros de armas a hes- 
panhóos e at(^ mesmo a italiano^;, formando regimentos inteiros ; 
è toda essa gente, certamente, em canções nostálgicas da pá- 
tria, entoadas ao som áii viola nas tendas dus acampamentos» 
em horas df* ócio. ou sob o b^sto arvorovlo aos esplendores da 
lua tropical, trinsmittia na intimidade camaradesca com os 
nomfi s^^ld >'los, todas as suis aventuras e paixões romaneseas 
ao descante dessas múltiplas legendas dos trovadores medie- 
vaes, e iradas as suas crendices e superstições a propósito do 
mais partieutor incidente que occorria no deslizar das palestras 
intimas nessa aíTectiva convivência. 

Tivemos também a dominação bafava, com um estádio de 
vinte e quatro annos, o que, em uma época dada, si bom que 
de um perpassar ligeiro, houve mesmo, por assim dizer, um 
certo congraçamonto popular de opiniões intimas entre os hol- 



FOLK-LOBR PERNAMBUCANO 9 

laadezes e os pornambucanos, do qao certamente 0coq algo da 
iadole desse povo do Norte da Europa. 

A lenda da Allamòa^ essa fulva e cruel donzallai a taÂt^ e o 
génio máu da ilha presidiaria de Fernando de Noronha, lev^^^^ 
o terror por toda parte nas suas correrias noctprnas, lenda vul- 
garissima ali, e que Gustavo Adolpho recolheu da tradlçfto po* 
pillar eqtreos velhos presidiários, ó indubitavelmente uma re- 
miniscência bnllaodeza \ e nestes versos de uma outra lenda, 
O cegueira da cigana, tapibem recolhida por elle n^k m^sma ilha, 
aoeentuadamente transparecem ess^ mesmas reminlscenoias : 

Não se sabo o que julgar 
Dessa extranha apparição ; 
Mas, aflirmam que, um oaisão. 
Si se cavar bâo de achar; 
Que ô férreo cofre, um thesouro. 
Que contém da Hollanda o ouro. 

S&o antigos cabedaes, 

Quef ajuntaram os hollandezes ; 

Herança dos portuguei^s 

Amontoadas nft paz 

e depois de imiga g^erra, 

Escondidas sob a terra. 

Além desses olemoqtos .particulares de fugitivíwi reminis* 
ceneias, quer portuguesas ou hespanholas, quer italianas ou hol- 
landezas, ou ainda mesmo de outros povos da Europa, uma vea 
que as tropas do batavo invasor oram compostas de aventu- 
reiros de nacionalidades diversas ; actuam também no nosso ca- 
racter e na nossa indole um mixto complexo de crenças e su- 
perstições dos nossos indígenas, cujo sentimento religioso se 
manifestava exclusivamente sob um temor suporstioloso, e tão 
arraigadas ficaram ellas no animo popular, pela sua conviveu- 
cia intima com os colonos de todas as espécies, que ainda hqie« 
na phrase do Dr. Couto de Magalhães, os deuses dos Tupys viv^m 
em nossos campos, vida tão real como a qu0 l^es davam os 
aborigeues po tempo ^m que os seus Pagé$ os adoravam* 



10 RKVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

Igual influoQoia exerceram tatnbom os africanos pela im- 
plantação dos seus usos o costumes pátrios, de facilima assimi- 
lação pela promiscuidado em que viviam entro nós, o confun- 
didamonto mesmo na própria família. 

Dcst*art9, não nos podíamos eximir também da ioflaeoeia 
dos usos e costumes do Índio o do africano; o 6 por isso que as 
superstições e crendices do nosso povo constituem um mixto 
geral c complexo de todas essas extranhas influencias, reunida- 
mento, o consubstanciadas em um vinculo harmónico o here- 
ditário, mas, de difflcilima discriminação, para precisar oo pre- 
sumidamente mesmo, ílxar-se as suas origens. 

E o mesmo so dã com relação á poesia popular, porque, 
quer noj muitos monumentos originários dos portugueses, quer 
mesmo nos do outit)» povos distinctos, ^ nada mais tem da 
origem senão a indolo, e uns pallidos reflexos dos assumptos 
primitivos. 

Pondo de parte, portanto, esses estudos complexos de in- 
dagações das fontes originacs, uma vez que simplesmente reu- 
nimos sobre o assumpto os dados esparsos, uns tanto conhecidos 
já, e o resto confusamente mantidos na tradição popular e ten- 
dentes a perderem-se, para os legar ao futuro historiador desse 
interessante o bellissimo ramo da historia geral da nossa lite- 
ratura, passemos em revista o que ainda s ) pôde colher das pas- 
sadas crendices e superstições populares, reunidamento com as 
que ainda predominam arraigadas na indolo do povo, sem 
mesmo nos preoccupar com uma tal ou qual classificação a que 
se possam subordinar todos esses dispersos matoriaes, antes 
que 60 vão perdendo, um a um, até desapparooerem no sen 
todo. 



O culto dos astros era de uma tendência geral entre os 
povos da antiguidade, o tributando cUes adoração ao Sol oomo 
um ser supremo, segundo uma intuição da divinlade, mate- 
rialmente, visivelmente manifestada na luz do dia, tinham-n) 
como que o foco da luz divina, supr 'mo bem da naturota, e 
manifestação brilhante do principio luminoso do Gosmost 



i-OLK-I,ORE PERNAMBUCANO 11 

Deus em sanscripto sigaifica — brilhar. 

Nfantondo os nossos aborígonos osse culto tradicional, mas 
sofTrendo modificações concopcionaos, goradas pelo completo iso- 
lamento cm que viviam, que pelo decorrer de tempos dilata- 
díssimos fizera até mesmo apa^ar-se da própria tradiçtão oral 
a indicação precisa ou approximaia doa povos de quem pro' 
vinham ; o cedendo olles a esses influxos tradicioiíaes eram as- 
trolatras convencidamente^ e o sol, a lua e as estrellas tinham 
entro ellcs reverencias verdadeiramente cultuaes. 

Graças, poróm, a essas modiflcaçõds concepoionaes, o sol 
entre os nossos indica era uma entidade feminina, como também 
era entro os japonezos, e reverenciavam-no como a mãe de 
todos os viventes que habitam a terra, o a lua, como a mEe do 
io<losos vogetaes que cobrem a superfide torrestre. 

Essas cliias divindades geraes, diz Conto de Magalhães, 
a quem attribuiam a creaçâo dos viventes e djs vegetaes, 
nãotinliam nomes que exprimissem caracteres sobrenaturaes. 
As expressões que indicam qualidades abstractas, deviam vir 
em um perioio muito posterior d^uelle em que a civilísação 
aryana trazida pela raça conquistadora veiu encontrar oa sel- 
vagens da America. 

Não tinham, portanto, termos abstracto:^ para exprlmil-oa, 
e chamavam simplesmente ao sol, Guaracy, que quer dizer — 
mãe dos viventes,— e a lua, Jaci/, — mão dos vegetaes—. O 
culto, x>orém, tributado a Guaracy, não era por ter ella somente 
creado o homem, mas, sim também a todos os viventes da 
terra. 

Entre os egy poios, porém, em que os dois astros tinham oa 
seus predicamentos de deuses de primeira hierarchia, com oa 
SQDS templos e cultos especiaes, era a lua venerada com o nome 
do Tsis, sob a forma do crescente, e do mesmo modo o sol, 
com o nome do Phré, ou Piré^ em honra do qual celebravam 
solemnes festas nas quatro estações solares ; e os japoneses, que 
aioravam os phenomenos cósmicos, em geral, particularmente 
lambem reverenciavam a sua deusa do sol, com um culto de 
uma lithurgia pomposa e deslumbrante, o tinham como symbolo 
ou emblema — da alma da grande deusa da luz celestial — um 
espelho do metal polido i 



12 RRVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

Si entro os povos primitivos, oomo os Vedas, exemplificada- 
mente, notava-ae uma absoluta ligação de dependência entre o 
bomem e a natureza, nos seus vários aspectos, oomo o firmamen- 
to, o sol, a lua, as estrellas, o raio, as nuvens, emdm — tudo 
quanto era propicio ou nefasto à vida do selvagem imbelle dean- 
te de seres animados^ de vontade e coberoocia nas acções, — 
comtudo predominava sobre todos um grande sér, o Sol— c que nos 
illumina, que aquece e fcrtilisa, e rojuveneco feriodicamente 
todos os sei*es animados e inanimados, que dá a vida, espanca as 
trevas da noite tenebrosa, em que as feras ousam impunes o 
temerosas rondar o abrigo indefeso o procario do selvagem». 

Comtudo, apezar desse culto que tinba o sol entre o genti- 
lismo, . era um doas ás vezos malfazqjo, porque entrava na 
cabeça dos crentes produzindo dores tio agudas, que os fazia 
aoff^r horrivelmente, E ossa crença chogou atô nós porque o 
povo ainda repeto — ^we o sol entra ím cabeça da gente,— e tem 
mesmo umas formas sacrameotaes para corar o mal, recitando- 
as por tros vezos, tendo, porém, o dooote sobre a cabeça o indis- 
pensável copo meio d^agua coberto com um guardanapo. 

A lua, entro os nossos Índios, era o logar destinado á morada 
o descanso eterno das almas dos seu:$ finados, e o eclipse deste 
astro, um signal de indignação das mesmas almas causado por 
algum orimo commottido por elles ; e por isso, na permaneneia 
do phonomeno, o omquanto a lua não clareava totalmente, se 
escondiam e se acautelavam — para não serem ofléudidoe dos 
bicboe ferozes dirigidos por uma dessas almas, que entrava nos 
corpos desses bichos para, com mordoduras ou estragos, vingar- 
M do praticado dolioto. 

Tinha a loa entro elh^, nas suas duas pbases prineipaas, 
daoomioagòes particulares o cultas differontes, chamando-ae á 
lua nova CtUUi e d cheia Cairé^ parecendo assim, como pensa 
Couto do Magalhães, que os Índios consideravam cada phase da 
lua como um a^tro dlstinoto. O que não resta dovida é que eram 
diaUnetos ot seus attributos, e particulares as saudações que Ibe 
dirigiam ao seu apparecimonto no espaço, sob «Ma ou aqoella 
f6nna. 

Km revereocia a este oulto iraaiam os indioi, pendentes do 
pesooço, entre ontros oljBctos ornamontaes. o aeu^Miy, ííIq é, «u 



FOLK-LORE PERNAMBUCANO Id 

semicireulo de osso alvissimo o polido representando a laa sob 
essa forma. 

Si oomo densa teve a lua um culto especial e fervoroso ea ire 
diíTorentes poYos da antiguidade, civilixados ou Dão, oonstitoitt 
também at tributos de deuses, como hoje se yò o crescente sob os 
pés da Virgem da Conceito, e ainda como objeeto heráldico, 
oomo se representa em diversos brasões d^armas partionlares, e 
nas da Tarqnia, ostentando-se assim no pinaodlo dos minaretes 
o torreões dos templos musulmanos. 

Ao crescente sobre que pousa os p6s a Virgem Maria, refere- 
se o nosso Barreto om um beilissimo soneto, em qoe, dirigilldo^se 
ella a seu filho, diz-lhe : 

Rainha me ílasoste. 

Tu lirmaste meus pés na argêntea lua. 

Esse culto tributado aos astros, e muito particularmente á 
lua pelas predilecções popularos, apezar das prohlbiçOes da 
egreja e das severíssimas penas da Inquisição, em que incorriam 
os seus sectários, uãoso tinha de todo extinguido entro nós, ainda 
em comoços do século XVilI, ao que parece, uma vez qile a Con- 
slUnição do Arcchisitado da Bahia^ promulgada em 17(J7, probibe 
rezar â lua e ás estreitas, — recommendando aos confessores e 
pregadores que ropi-ehendam semelhante vicio, para que de iodo 
o tnodo se cjciinga este resabio do gentUismo no arcebispado, no 
qtial cada dia entram gentios de varias partes, — sem duvida reíe- 
rindo-se ás constantes descid<as de índios do suas aldeias do 
interior, a sorem convenientemente doutrinados na fé christã. 

E\ portanto, por todos esses predicados, asseilados por um 
vinculo hereditário, que a lua goza ainda hoje das predilecções 
populares ; e si não tem mais am calto, como teve, entre os povos 
de afastadas eras, o seu apparecimento, comtudo, inspira ainda 
uma alegria geral, e ella recebe saudações de homenagem em 
maniíéstações poéticas. 

Efectivamente, tudo isso são reminiscências de antigos cos- 
tumej correspondendo essas sauda<^ões às manifestações cnl- 
tuaes de certos povos, que assistiam->lhe o renascer mensal, 
aoclamando-a, cantando, batendo as mãos, dansando, felizes e 
fortei> por vér jio firmamento o seu astro predilecto. 



14 REVISTA DO IXSTltUTO HISTÓRICO 

Entre os nossos iudios, ainda em pleno estado primitivo ao 
tempo da conquista e colonização do paiz, era a lua o deuã sobe- 
rano da noite, e adoravam-na de rastos, com as mãos ergruidas 
para o armamento luminoso. 

As manchas da iiia, que entro os cliins ó um signal de loto 
pela morte da deusa Amida, que desceu do céo por mandado de 
Deus para povoar o paiz depois de um diluvio, quo deixara a 
terra deserta, representam entre nós, segundo a crença popular, 
São Jorge a cacallo. 

£* ainda vulgarissimo o costumo popular da apresentaçio 
dos recemnascidos á lua nova, o quo de par com aa saadaçõei 
que lhe são dirigidas em linguagem poética, constitue vestigioe 
das reverenciaes homenagens que, outr*ora, lhe eram tributadas 
nessa trilogia astral de cultos, do par com o sol e as estreitas; 
cultos esses que começaram a decahir com a propagação do chris- 
tianismo e as prohibiçôes da egreja, iniciadas no século VI pelo 
concilio luconso colobrailo em 069. 

E\ tiUvoz» como pallidos vo3tigi0.sdos.so ospirilo religioso tri- 
butado aos astros, quo vom esta vnlgariHsima alivinhação do 
céu, o sol, a lua e as ostrellas: 

Campos claros, 
Volho carrancudo, 
Moça formosa. 
Gado miúdo. 

O povo diz ainda hoje, saudando a lua nova : 

Deus vos salvo lua niva 
Tào bella e rosplandecento I 
Quando tornardes por ca, 
Trazei -me dos asomonteC). 
Deus vos salvt^ lua nova I 
<^»uatro cou.vas eu vos peço : 
Livrai* me do dòr do dente, 

Fogo ardente. 
Rua corrente, 
E lingoa de má. gente. 



(1) Aprea<ruUnio-lhc ama moe-la qualquer. 



FOLK-LORE PERNAMBUCANO 15 

' As crianças, porém, dirlgem-llie uma saudação lugonua e 
especial, recitando esta mui conliecida parleoda: 

AboDção, djndinha lua, . 
Dai-me pão com farinha 
Para comer minha gallinha, 
Que está presa na cozinha. 
Chô, chò, gallinha, 
Vai pra tua camarinha. 

Os recemnascidos são apresentados á primeira lua que 
cjesponta após o seu nascimento,— para os deixar crcar o serem 
Jtelizes. — Qualquer pessoa pôde fazer essa apresentação, mas, 
S^eralraente, incumbe ás próprias mães o cumprimento dease 
£3reccito, recitando esta fórmula traduzida em verso : 

Lua, luar. 
Tomai o mou mal. 
Mo dai vosso bom, 
E deixai moa filhinho 
I-^eliz se criar. 

A crendice popular indica lambem a lua como tendo uma 
Particular influencia sobre o crescimento dos cabellos, o para so- 
inolhante (Im dirigem-se-lhc a» moças, recitando esta quadrinha 
^o novilunio: 

Abeoção, dindinha lua, 
Deus vos dè bòa ventura, 
E fazei que mous cabellos 
Cresçam até a cintura. 

Si ao partir-se a noz do fructo do coqueiro [cocus nucifera)^ 
não se encontra o miolo ou amêndoa que a reveste interior- 
mente, no seu todo ou apeuas^uma parte qualquer, foi a lua que 
comeu ; e o povo chama a esse phenomeno vegetal, coco comido 
da lua. 

A lua come também o rosto das pessoas que dormem rece- 
bendo sobre o mesmo os reflexos da sua luz... 



16 REVISTA DO INSTITUTO mSTORICO 

São, porém, da uma ezpreisão bellisíma m degmním pn>- 
loqaiof sobre a laa, • iadieados mesmo como inMliTeis de certo 
phenomeaos meteorologicoe e da sua ioílueocia sobre o fluxo o 
refluxo das marés: 

Lua noTa trovejada. 
Oito dias ó molhada ; 
Si ainda oootinúa, 
E* molhada toda a lua. 

Lua nova de agosto carragou. 
Lua nova de outubro trovejou . 

Lua fora, loa posta, 
Quarto de maré na oosta ; 
Lua nova, lua cheia, 
Prea-mar ás quatro e meia. 

Lua empiDiida, 
Maré repontada. 

E oom i*elação ao phen'>monophydicudas trovoadas, repete 
o povo: 

Si a atmosphera 
K^td carregada, 
A trovoada 
Não metto horror. 

Antigamente, em tempos em que se não usava ainda dos 
cálculos sobre o horário das marés, formulavam-nos os práticos 
do porto do Recife, segundo as phases da lua, o com este funda- 
mento tinham como dados infalliveis os versos transcriptos, 
ainda hoje não raras vezes repetidos. 

Sobre a lua oncootram*se estes dois provérbios : 

Lua de janeiro. 
Amor primeir ♦. 

guando mingua a lua. 
Nio comeeee cousa algila. 



FOLK-LORE PERNAMBUCANO l7 

De um iadi vidão ingénuo, distrahido e abstracto, se diz: ~ 
qne anda no mundo da lua ; — a um despreoccupado e sem cogi- 
tações sérias, quo— fas versos d jua; — e a um ostouvado ou de 
mâu humor, chama-se-llie de aluado. 

Levar aos cornos da lua, é uma phrase muito commum aos 
grandes Louvoros ou elogios a alguém, bem como ladrar d lua 
ou um cão ladrando d lua, ao maldizente apaixonado, invejoso. 
Emflm, tem o poético qualificativo de lua de mel os primeii*os 
dias de noivado. 

Da trilogia astral do culto indígena, culto esse que foi gra- 
dualmente arrefecendo á luz da civilisaçSo e da implanta^ do 
christianismo, atô quo de todo desappareceu, do referente ás 
ostrellas, é o de que menos se ocoupam os elementos historiooa 
sobre o assumpto, consignados nas nossas chronicas. 

Na consagração desse culto estrollar, Vénus, a Papa-ceia 
das legendas populares, e Mercúrio, bem como — todas as es* 
trellas que por sua grandeza ou figura se fazem recommendavels 
á vista, — davam os indica diíTerentes nomes dos quo geral- 
mento se serviam p\ra designar a todas as ostrellas, reunida- 
mente, e festejavam o appareci mento das Sete eslrellas, como os 
Guaycurils, nomeadamente ; e esse conhecimento dos astros, com 
as suas designações próprias, era geral entro os Índios do conti- 
Donto sol-americano, uma vez que ató mesmo nações remotas, 
como 08 Apiacás, de Matto Grosso, que chamavam ao sol, inkira, 
A lua, iahif, e ás estrellas, iahilatd ; e ainda mesmo os que oc- 
cupavam os seus limites occidentaes, cjmo os poruvianos, que 
assim o manifestavam chamando ao sol Inti, á lua Quilld, a 
Vonus, CharcJia, e ao arco iris, Cuichú. 

Si nos voltarmos ainda para o extremo norto do paiz, 
vamos também encontrar positivas manifestações do culto es- 
trollar enti-o a gente que a occupava, e cuja tradição chega 
mesmo aos nossos dias, em vários contos astronómicos rocolhidos 
Pop Barbosa Rodrigues, e consignados na sua Poranduba aniazo* 
nen^ff, em um dos quaeá, o de Epepim^ que se refere á origem da 
<ion3tollação de Orion, ou trod reis magos, pjr exemplo, Vénus 
^'íiu o nome de Caiuanon, e Siriu3 o do Itenhá, 

Algumas trlbus, porém, mais intim-imento nossas, reveren- 
ciavam com um culto particular a uma determinada constellaçUo, 
8j03— 2 Tomo lxx. p. ii. 



18 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

na oreova de que a sua inílueocia e;$teDdia-8e sobra a fructiúcação 
das «FTored, a maturação dos seus fructos, o a destruição dod íd- 
sectos que lhes oram prejudiciaos, iuíluindo ainda sobro a sorte 
da caça e da pesca. As Pleiaded, porém, gozavam de partíoalai* 
predilecção como a consieliação que parecia mais empenhada ruM- 
prolipcação dos animaes e na producção dos fr actos, 

E* assim que os nossos Tupinambás tinliam as suas oonstelia* 
ções predilectas e protectoras, regiam-so em vários aecidento» 
da yida pelo curso de seus astros, e como que servindo-lhes d(» 
seguros guias, <K)nfiayam que ao seu rumo^iríam para a ierriu 
pretendida sem perder o passo. 

Os Tapuias da Serra da Ibiapaba festejavam a olevaçiU^ 
das oonstellações eom danças e cânticos, porque as reputavam 
divindades. 

A bella constellação do Orion que, por assim dizer, fixa a 
linha equatorial que passa pelo nosso homispherio, com o par- 
ticular caractoiistico das três ostrellas que fulguram em sua 
base, em linha, o equidistan temente dispostas, os Três Réis 
Magos^ OU as Três Marias da poesia o das legendas populares 
era conhecida dos nossos Índios, c tinha a denominaç&o par- 
ticular de Ararapary^ segundo Barbosa Rodrigues, oo sju Vaca* 
b¥lario indigena. 

Ao correr de uma estrolla no espaço, diz o povo,— çw^ t* um 
espirito errante penitenciando^ se dos seus peccados^ para depois de 
purificado entrar no Paraíso,— o dirige supplicas om sua in- 
tenção ; e que faz mal apontar a uma estrclla, porque nascem 
verrugas ou cravos nos dedos, acaso como um castigo inliigido 
pelo astro por vèr nisso um acto do desrespeito ás suas divinaes 
prerogativas. 

O que, porOm, ainda nos resta, o aoceutuadamente revela 
vestígios desse culto estrellar, é a seguinte Uraçdo para a cura 
das inguas, dirigindo-so o doente a uma estrella qualquei', ooBO 
que ruconhecendo-lhe os poderes du operar miraculosas curas: 

Minha estrella, 
Minha ingua diz : 
Que viva olla, 
E morra vós ; 



FOLK-LORE PERNAMBUCANO t9 

Mas eu digo. 
Que viva v<ys 
E morra ella. 



O uiar, entre oh povos do Oriente, de conhecida vida mais 
remota, tinha predicados divinos, quer constituindo uma enti- 
dade distincta, particular, como eatro os japonezes, que tribu- 
tavam um culto fervoroso ao sou deus mat\ quer fazendo parto 
de uma trindade de deuses, como entre os assyrips, com o nome 
de Ea, symbolizando a fonte de toda a vida, e o poder creador 
por excellencia, donde provém todos oê sores* 

Os nossos Índios, incontestavelmente originários de povos 
orientaes, entre os quaos tinhJ^ o mar um eulto particular pelos 
sous predicados divinos, tinham já apagadas Iodas essas noções, 
uma vez que as nossas chronicas quinhentistas nada consignam 
sobre o assumpto, quando tratam das suas crenças c superstições ; 
entretanto, parece-nos encontrar na tradi^o popi)lar vostigioi 
dessas crendices. 

O mar é sagrado, diz o povo, e o coaílrma a trova corrente: 

Fazem três dias que erro 
Chorando k beira do mar ; 
A*s aguas do mar sagrado 
E' a quem me vou queixar. 

Além desse predicamento de sagrado, o mar 6 povoado do 
duendes que emergem das ondas, íluctuam impávidos, o súbita- 
mento dosapparocom, e nelle se observam os mais extraordi- 
nários 8 pavorosos phenomenos ; e uo cyclo das nossas legendas 
populares tem tudo isso narrativas próprias, de uma cok)ração 
vivaz e ardente, que infundem admiração ou terror nos espíritos 
crédulos e frágeis. 

Todas essas lendas vêm de épocas remotissioauiB, e tomaram 
vulto na Europa, principalmente nos tempos medievaes das 
aventuras marítimas em busca de novas torras, e eram não só 
mente acceitas pelo vulgo ignorante e supersticioso, ooh)0 até 
mesmo pelos espirites cultos e sábios da época. 



20 REVISTA DO LVSTITUTO HISTÓRICO 

O oceano Atlântico, reputado ianavegavel, — povoado de 
monstros capazes de aterrar os mais afoutos homens do mar, 
— era o Mar tenebroso, que tanto horror inspirava aos povos 
dessa época, c cujas narrativas enchiam a todos do pavor. 

E consoantemente com todas essas legendas medievaei, 
cnjos lampejos ainda não se extinguiram de todo, descrevendo 
um poeta nosso, o padi*o Josó Gomes da Costa Gadelha, no sen 
poema A marujada ou vida marítima ^ — do fins do século XVIK, 
as scenas de uma viagem em que tomou parte como capellão 
do navio, relata que o capitão, em paicstra do bordo, sobre a> 
cousas do mar 

AíHrma por cousa certa 
E não duvida jurar. 
Que já viu estando alerta 
As nuvens c'o a bocca aberta 
Bebendo as aguas do mar, 

O piloto, 

Que fuiára á Mae da Lua. 

E um dos outros sandeus^ 

. • . que co*os olhos seus 
Jà vira a Madre de Deus 
Falando c'o o Corpo Santo. 

Porém, a maior maravilha do mar, é incontestavelmente o 
mytho da serina, ou mãe d*agua, metade mulher, metade peixe, 
qoonelle vive e reina oomo senhora e soberana. 

A seréa habita em sumptuosos palácios situados no Aindo 
do mar, de encantadoras e deslumbrantes bellozad, e é de um 
gonio ora bomfazejo, ora malfazejo, e apparoce ás vezes dei* 
zando perfeitamente ver a parto superior do seu corpo, que 
é de ama mulher da cintura para cima, de uma belloza prodi- 
giosa e do bastas e douradas madeixas. 

Canta divinamente e de um modo a inebriíir e enlouquecer 
00 marinheiros ; o quando quer perder um navio que atravessa 
os seus domínios, emerge dos abysmos dos mares, desprende a 



FOLK-LORK PERNAMBUCANO 21 

sua VOZ de estranha e encantadora melodia, e attrahidos e enle- 
vados os navegantes, desprezam o governo do barco, que, entre- 
gue ao abandono, sossobra... Esta crença, poróm, vem de muito 
longe, e a mythologia mesmo, refere que Uiysses livrou-se das 
seducçoes da serêa, tapando os ouvidos a seus comi>anheiro8 e 
mandando-se atar ao mast/o da sua ndu para não abandonar o 
seu governo. 

O padre Gadelha refere também, no seu eitado poemeto, o 
dito de um of&cial de bordo: 

Que ouvio da seroa o canto. 

Da serêa, segundo a forma que a mythologia popular a 
imagina, temos dous beilos exemplares aos lados do pórtico 
da egreja de S. Pedro do Recife, esculpidos em pe4ra' 

De par com o mytho da seroa, figura também o dos peixes 
homens e peixes mulheres, e o do Diabo pellado^ que vivia nas 
aguas dos rios, segundo a crendice dos Índios. « São esses 
monstros marinhos, na phrase do nosso chronista Jaboatfto, nos 
meninos, como de três para quatro annos, da própria còr dos 
mesmas gentios, mui disformes de cara pela grossura das 
feições, e a cabcç» pouco povoada de cabellos ; e assim mostram 
em tudo serem espécies de homens marinhos ou peixes monstros; 
mas, 6 certo que os gentios os ttaom, e têm entre os seus 
abusos por espíritos malignos, e devem seguir a opinião de 
alguns que têm para si, que entre os espirites vagos a que os 
hespanhóea chamam Duendes, ha alguns corpóreos, e assim ihcs 
tôm grande medo, e se assombram de morte com a sua vista.» 
A crendice desses mythos vinha Jd de tempos affastados, 
uma vez que o padre FernSo Cardím, escriptor das ultimas de- 
cadas do século XVI, Já os menciona sob os nomes de Bacapina 
ou Baepapina^ do tamanho natural de meninos, sem nenhuma 
differença delias, e que apezar de existirem em grande numero. 
Dão faziam mal a ninguém. 

Do homem manDho, porém, pela primeira vez mencionado 
por Cardim, com o nome vulgar, entre os Índios, de Ipupiará 
ou Vpupiapra, accrescentando, que tinham-lhe os mesmos índios 
t^ grande medo, — cque só de cuidarem nelle morrem muitos, 



22 RF.VISTA DO INSTITÍITO HISTÓRICO 

• nanbnro qiie o vê r^capa ; alguns morreram já, e prrgiintaii- 
do^lties a causa, diziam que tiobam visto oste monstro. Pa- 
r«oam*se com homens propriamente, do boa estatura, -mas, tém 
oa olhos oncovados. As (émeas parecem mulheres, tém cabellos 
eompridos e sâo formosas: acham- se estes monstras nas barras 
dos rios doef«». 

Fr. Vicente do Siivador, liístoriador dos primeiros aanos 
do século XVII, por sua vez escreve: cHa lambam homoos ma- 
rinhos que já foram vistas sahir fora de a^ua apòt os indk>s, e 
nolla hão morto a alguns quo anJavam p.^scindo ; mas, nâo lhes 
comem mais quo os olhos o niriz, por ondo so conhece que não 
foram tubarões, porquo tambom ha muitos noste mar, que 
eomem peruas o brados o toda a carne. » 

Pala, em Am, o pidre Simão de Vasconcellos na sua chrô' 
nica dn OoytpifiAta de Jesus, impross) em I6f>3, dizendo posili- 
Tamentoi— €Doe peixes homens e paixes mulhoms, vi grandos 
lapas Junto ao mar cheias de ossadas dos mortos ; e vi suas oa* 
Tetras, quo não tinham mais dlíTerença de homem ou mulher, 
qne um buraco no toutiço por onde dizem que respiravam.» 

Fernandes Pinheiro, em annotaçõei á roganda edição da 
referida Chronicat impressa em I8C4, diz sobre o assumpto: 

cNa dpoca em que vivemos, supérflua Julgamos qualquer 
recitação da existência de pei.res homens o peixos mulheres^ gi^o*- 
seira parodia da bem conhecida fabula das ser«-a5«. » 

Comtudo, ora o mytho do peixe-bomem, geralmente conhe* 
ci«lo entre os primitivos habitantes do nosso paiz, o pareee 
mesmo que ia muito al(^m das soas raia<*. uma vez que os Ín- 
dios da Arauoania. no Perii, tinham-no como certo. 

Bsse mytho do homem 'peixe, ou do peíxo-bomem, não 
coastitue, isoladamente, uma crendice própria do indio ame- 
ricano, uma vez que outros povos, de existência mai.^ remota, 
ooohedam-no também, c^>mo os chaldens, nomeadamente, que 
Unham os seus Pernes de Kn, que figura n como um dos signos 
dosou zodiaco, reforonte ao moz do Adar, que corresponde ao de 
fevereiro, e algnns dias de março ; signo este; quo era represen- 
tado, segundo o Imaginavam, com a frente de homem e a parte 
posterior de peize, tão harmonicamente disposto, de f<Vrma a 
eamiohar desembaraçadamente» 



FOLK-LORR PERNAMBUCANO 23 

> mytlio em sua espécie não era o único conhecido entre 
08 chaldeus, porque tinham ellea também o seu Oxannés, eom— 
«todo o corpo de um poizc, mas acima de sua cabeça de peixe 
estava coUocada uma segunda cabeça humana, e da sua cauda 
sahiam os seus pés também de forma humana».— E esse monstro, 
que appareccu pela primeira vez no anno dacreaçSo do mundo, 
sahindo do mar Erytreu, era dotado de rasio, e faltava oom os 
homens. 

Sfto esses, na phrase de nm orientalista, — os peixes do deus 
Ba, o Proraetheu dos chaldeus, quo symbolisaya nas cosmogo- 
nias, o elemento humano, donde provêm toios ob seres organi- 
sados sobre a terra, segundo a doutrina dos velhos philosopbofi 
gregos. 

Virá dahi, como uma cadeia de succes^Lo de idóas absurdas, 
o mytho americano do homem-peixe, que os nossos Índios conhe- 
ciam e afflrmavam a sua existência, visivelmente manifestada ? 
Como uma imaginosa e bella assimilação do mytho geral 
da serêa, era crença entre os nossos aborigenes, correntemente 
acceita em todas as tribus, que nas aguas dos rios e lagos domi* 
navam génios femininos, a que chamavam Uyárasy — daooa das 
aguas, ou mãe d*agna,— cujo canto maviosíssimo sedusia os pes- 
cadores para os perder ; e ainda á crença dominante entre os 
pescíulores e homens do mar, do norte do Estado, prinoipaimente 
Itamaracá, o apparecimento em certas noites de uma espécie do 
duende marinho, que emerge das ondas ou surge dos cabeços de 
pedras submersas, como um fucho luminoso e multicor, prennn- 
ciando tempestades e naufrágios, a que dão o nome estranho de 
João Galafuz, e dizem que é a alma penada de um caboclo que 
morreu pagão, acaso conhecido por aquelle nome. 

l^ual phenomeno, — qual lux de um archote, quo ao vento 
se agita, — apparoce na ilha platónica de Fernando de Noronha, * 
surgindo do Pico, elevado e alcantilado rochedo de forma có- 
nica, isoladamente affrontando as nuvens e a fliria dos ventos^ 
e depois de surgir e vaguear no cimo ponteagudo dessa enorme 
pyramide granítica, desce o se alteia, percorre as fraldas, e ati- 
randose sobre a superflcie azul do oceano, passeia sobre as on- 
das e não se apaga ; e sobe e desce depois, e nesse vai-vem con- 
stante, vertiginoso algumas vezes e plácido outras, afflrma-se. 



2'k RKVISTA ro INSTITUTO IIISTOHirO 

qudò visto cm certas noites, ora ostentando-se brilhaDte, ora 
desmaiadamentc... E om torno dcsso phenomonot 

Vacillam mil crenças. 

Mil contos se e^catam. 

Dos fogos fátuos que se obserram á noite nos cemitérios e 
terrenos paludosos, diz o povo que sâo almas penadas, ou ae- 
cesos por espíritos malignos para guardar os corpos dos que lhes 
cahiram nas garras. Moraes, porém, chama caipora a esse phe- 
nomeno do lume fátuo, que apparece nas maltas, e accresconta, 
como diz o vulgo, — que são almas do caboclos mortos sem ba- 
ptismo. 

Criam também os nossos indios, como reforo ainda Simão 
de Vasconoellos, que havia uns espirites malignos de que tinham 
grande medo, aos quaes chamavam por vários nomes: Curupira, 
aos espirites do pensamento ; Macachéra, aos espíritos dos 
caminhos; Jurupary^ ou Anhangá, aos espíritos a que chamavam 
maus, ou propriamente dito o diabo ; o Maraguigana, aos ei<pi- 
ritos ou almas separadas, que denunciavam a morte, e a quem 
davam tanto credito, que bastava só imaginarem que tinham 
algum recado desse espirito agoureiro para logo se entregarem 
à morte, e com elTeito morriam sem remédio. 

A estes espirites faziam certas coremonias, não como aos 
deuses, sinão como mensageiros da morte, ofTerecendo-lhes pre- 
sentes, e tinham para si que cem isso se applacavam e cenquis< 
tavam mesmo as suas boas graças ; emflm, concluo o referido 
escriptor, tinham os indios grande canalha de feiticeiros, 
agoureiros e bruxos ; aquelles, a quem chamavam Payés ou Ca- 
rahyòas, com falsas apparcncías os encanavam, c estes os cm- 
bruxavam a cada passo. 

Essa entidade phantastica do cerupira, creada pela imagi- 
naçílo supersticiosa do indio, é a mesma que apparece com o 
nome de caipora, mais commuin e vulgarmente conhecida, e que, 
como escreve B<>aurcpai *e Rohan, se^^ondo a crendice peculiar 
a cada região do Brazil, é representada, ora como uma mulher 
unipede que anda aos saltos, ora como uma criança, do cabega 
enorme, ora como um caboclinho encantulo. 



FOLK-LORE PERNAMBUCANO 2o 

l ma trova popular do Coará ropresonta a caipora, habi- 
tante da maita, como: 

Um medonho caboquinho^ 
Com \\m cachimbo no qunixo. 
Montado num porco-espinho. 

A caipora habita as íiorestas ermas, passa o dia inteiro dor- 
mindo, o somente levanta-se para sahir om soas excursões no- 
cturnas. 

K* da sua habitação nas florestas quo vem o seu nome do 
haapóra OU caipora^ termo da lin?ua tupy que significa morador 
do maiio» 

Xo anto popular do Bumba, meu boi figura um menino de 
caiporinha, com a sua onorme cabeça, convenientemente arran- 
jada com ama urapoma de mais de dois palmos de diâmetro. 

Barbosa Rodrigues crr> que o mytho indígena do Coropira, 
Curupira ou Korupira, ú companheiro do Murihitan, isto 6, voiu 
da Ásia, fixando, portanto, a affluidade de origem dos primitivos 
habitantes do Bi*azil com os povos asiáticos, e a esse respeito es- 
creve o seguinte no primeiro volume da sua Velosia : 

< Na provincia de Pernambuco roappareco o Korupira, oomo 
synonymo do Kaapora, e em alguns legares tom um s6 pé, es^^e 
mesmo redondo. Anda a cavallo num veado e por chicote traz 
um galho do yapecanga. Tom, como sempre, um cHo chamado 
Papa-mel, E' então um caboclo pequeno, coberto de cabellos, 
que dizem ser a personificação da ahna do caboclo papão, 

€ Corre em toia a parte, e é o protector da caça , cuja destrui- 
ção evita, mas nessa provincia, nem sempre torna infeliz 
aquelles que o encontram. Com isso tem por protector o mesmo 
Korupira, que surra os cães dos caçadores sovinas e os deixa de- 
pois amarrados para morrerem ú, fome. 

< Entre muitos factos passados nessa provincia, com caçadores 
protegilos pelo Korupira, citarei este : — Tm homem costumava 
l-jvar mitigáo todas as noites a um Korupira, porém este, encon- 
trando uma vez o mingáo com pimonta, que a mulher do ca- 
çador tinha posto, deu uma surra no homem o nunca mais o 
proto^rcu. 



26 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

€ Em outro logar também de Peraambuco, o Korupira , iK>r 
uma excepção, ó representado por um pequeno gentio de oocal 
e fraldãodo ponna^, armado sempre de arco e flechas.» 

Escrevendo o padre José de Anchieta gobre os diversos 
mythos dos nossos índios, em geral e particularmente refe- 
rindo-so ao Ck>rupira, diz o seguinte em uma carta sua do anno 
de 1500 — fazendo a descri pção das innumeras cousas naturaes 
que se encontram na província de S. Vicente, hoje S. Paulo: 

« Pouco terei do accrescentar a respeito daquellas coi^sas 
que costumam assustar os Índios com apparições nocturnas, ou 
antes demónios. 

« Coisa mui sabida é, corre pela bocca de todos, que ha 
certos demónios, que os i^razis chamam Curupira, que muitas 
vezes atacam os índios nos bosques, açoitam, atormentam e 
matam. Deste facto são testemunhas alguns de nossos irm&os, 
que algumas vezes tiveram oocasião de vêr os assassinados por 
elles. Por osso motivo os indioâ costumam deixar pennas de 
aves, abanicos, flechas e outras coisas como estas, em qualquer 
parte da estrada que leva ao sertão, atravez de cerradas 
roattas, ou de alcantiladas serras, quando passam por là, coroo 
uma oíforenda, e humildemente imploram ao Corupira que lhes 
não íkça mal . 

< Também ha outros, nos rios, aos quaes chamam Tgupiara^ 
isto ^, moradores da agua, os quaes egualmcnte matam os 
Índios. 

€... Ha também outros, principalmente nas praias, que 
residem ã bsira-inar. ou ao longo dos rios, e que se chamam 
Baêtaia, isto é, coisa de fogo. Apparecede noite com um fogo 
brilhante, que corre de um para outro lado, ataca rapidamente 
08 índios e mata, como o Corupira.» 

Esta ingénua narrativa de Anchieta demonstra, principal- 
mente, que os mythos pernambucanos do Corupira e João Qa- 
laftiz são geraes em todo o Brazíl, que sao de origem indiana e 
remontamse a épocas longínquas, uma vez que eram conho* 
eidos já em melados do século XVI, nos albores da nossa vida 
colonial . 

Consignemos agora os versos populares da legenda pernam- 
bucana sobre o nosso Corupira: 



FOLK-LORR PERNAMBUCANO 27 

Do (lia Dão busca a estrada 
O guerreiro Corupira, 
Porque dorme a Romno solto 
A' sombra da sucupiía. 

Mas de aoito, quando a lua 
Prateia as aguas da fonte, 
K a fresc-i brisa sussurra, 
Eíl-o que surge do monte. 

Montado numa quixada, 
Rompe do bosque a espessura ; 
Da onça nâo teme as garras, 
Tendo três palmos do altura ! 

Da jandaia a verde pluma 
Na fronte reluz, ondeia ; 
O arco, as pequenas íleohas, 
Qarboso nas mãos meneia. 

Assim anda, pula e corre 
De noite pelas estradas ; 
E após si om tropel marclia 
Uma varade quixadas. ■ 

O grunbido, o som dos passos, 
O estalar dos rijos dentes, 
Quebranta a mudez da selva 
Acorda os pobres viventes. 

Pula aterrado o macaco. 
Verga as folhas das palmeiras ; 
Sai a cotia da toca, 
Foge do matto ás carreiras. 

Quando encontra o Corupira 
No caminho um viajante, 
Pára depresa e atrevido 
Oppõe-se a que marche avante» 



28 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

Irado solta do peito 
Agudo silvo» estridente; 
E logro em volta se ajunta 
A sua guerreira isente. 

Os olbos tornam-so brazas ; 
Põe*se om ordem de batalha ; 
O quixada amola os dentes 
Que cortam como navalha. 

Ai ! do pobro caminhante, 
Si o temor o tom tomado ; 
Perde a flsLla, fica escravo. 
Sendo em porco transformado ! 

Mas, si investe os inimigos 
E de nada se apavora, 
De repente, o Corupira 
Pelo valor se enamora ! 

Da peleja cede o campo, 
E reparte o sen thosouro ; 
Ricas pedras de brilhantes, 
Rubin?, esmeralda o ouro. 

* * 

As pedras j4 . falaram e viveram mesmo, como que em 
aggremiações ou sociedades mais ou menos organizadas; e si 
perderam essas prerogativas, bem como, propriamente, certas 
acuidades physicas, individuaes, conservam, comtudo, ainda 
outros predicados ioherentes à vida animal, como os da au- 
dição, do riso, do choro e do c.iminhar, segundo a expressão 
do vulgarissimos proloquios o locuções populares: — « As pedras 
têm ouvidos; fazer rir ou chorar as pedras; as pedras se 
encontram ; quando as pedras se encontram quanto mais as 
creaturas. » 

Assim como as arvores, quo peasam e choram, na phrase 
dos poetas, — as penedias têm segredos, e as fontes choram 
verdadeiras lagrimas, 



FULK-LORE PERNAMBUCANO 29 

CoDsidoradas como unia substancia pura e sagrada, entro 
08 nações da antiguidade, lovaram os egypcios o seu respeito 
tributado ás pedras ao ponto de usarem-nas, de preferencia aos 
metaes, no serviço de embabamamento das múmias o na cere- 
monia religiosa da circumciáão. 

Como que dotadas de predicados divinos, segundo a crença 
de alguns povos da antiguidade, quando ainda a civilização não 
tinlia penetrado ató eiles, Jibertando-so da barbaria, tiveram 
também as pedras um culto particular entre esies povos, a tão 
religiosa e fervorosamente praticado pelo fanatismo dos seus 
sectários, que o encontrando o christianismo quando começou 
a irradiar-so ârman(?o as suas doutrinas, o combateu energi. 
camente, fulminando a sua condemnação, até que a egreja, por 
fim, decretou formalmente a sia abolição, anathematizando-o 
repetidamente a partir do coBcilio d* Aries, no século V ; mas, 
para transformar esseoulto gentio em culto christão, suave- 
mente, sem abalos e resistências, conservando comtudo os seus 
vestígios, instituiu para a veneração hyperdulica as invocações 
da Senhora da Pedra, da Penha, do Pilar, da Lapa e do Monte, 
tãocommuns entre nós como entre todos os povos catholíoos. 

3. Pedro, o príncipe dos apóstolos, ó a Çedra angular da 
egreja catholica, e o seu nom^ tem mesmo essa própria ex- 
pressão, — porque lhe foi dado o posto, comparando-o d pedra que 
serve de fundamento a um edifício. 

Os marcos milliarios das estradas e os do assignalamento 
de posses territoriaes, com as suas competentes testemunhas, 
e os frades de pedra coUocados ás esquinas das ruas, já consti- 
tuíram objectos do um particular respeito e veneração, como 
reminiscência do culto do Phalus, o órgão da geração, — origem 
de todas as vidas ao universo, — e cujas imagens, nas ôpocas 
das primitivas civilisaçòes, principalmente indiana o grega, se 
viam esculpidas nos templos, nos campos e nas casas, como 
symbolos da fecundidade. 

O marco divisório, porém, — que guarda os limites invio-» 
laveis do território, — gozou mesmo dos predicados de um deus, 
sob o nome de Terminas , ou l^ermo; ede parceria com Júpiter, 
que dentre os diversos cognomes com que é designado na mytho- 
logia, tem o de Terminalis^^ov se lhe consagrar as demarcações 



80 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

dos campos, teve um culto especial, celebrando-se em hoQi*a de 
ambos essas ^tas solennes, de um cunho puramente religioso, 
que a historia registra com a denomioação de TermiruUia. 

A pedra fundamental de um monumento qualquer recebe as 
bênçãos da egreja, e é solen Demente lançada. 

B' pecoado tocar na pedra d*ara do altar, e principalmonte 
as mulheres, como um objecto sagrado, porque importa isso «ma 
profanação, resultando dahi a perda das suas virtudes. 

Quando morre alguém que pactuou com o demónio e elie o 
vem buscar, deixa como vestígios do cadáver uma certa porção 
de pedras. 

Quando trov^a caem do céo pedras de raio^ que se enter- 
ram sete varas e levam sete annos para virem á superficie. 
Essas pedras, porém, sáo artefactos indígenas fabricados de silex, 
commummente encontrados em escavações» ou mesmo á super- 
flcie da terra, aos quaes, assim pensando o povo, dá-lhes 
aquelia denominação ou aind;v a de pedra de corisco. 

Tributavam os nossos Índios graude respeito e veneração 
aos seus mounds iumularet, montículos do pedras soltas, ae- 
cumuladas, com os quaes cobriam o sepulchro dos seus mortos 
illustres. Elias Herkman encontrou alguns dessses mounds em suas 
excursões ao interior do Estado, no tempo do governo do Prin« 
cipe de Nassau (1637 -— 1Ô44), e comparou-os oom alguns monu- 
mentos toscos quo vira em Dronthe, na Bélgica. 

Tributavam também os indios um culto de verdadeiro res- 
peito e veneração ás pedras em quo se viam distinctamente im- 
pressas umas pegadas humanas, as quaes, diziam ollcs, eram de 
um santo varão que em tempos immemoriacs viera enviado por 
Deus para instruil-os na sua fé, e que lhes ensinara tão santas 
doutrinas, que 

Ao caminho dos céus todos chamava. 

Esse varão foi o apostolo S. Thomé, que veiu do Oriente a 
pó, atravessando oa próprios mares, pregar os Evangelhos entro 
os indios, e aos quaes ensinou a cultura de varias plantas, bem 
como o fabrico do vinho c ria farinha de inandioo. 

Era elle um houien br. nco, barbado e vestido, de edade pro- 
vecta e aqsecto respeitarei. Tinha o nome de Sumc,e os eeus 



FOLK-LORE PERNAMBUCANO 31 

poderes eram taes, como narra o nosao épico Saata Riia Dui*ão * 
em bellissimas estrophos, em face da legeoda. 



Que âti ODdas punha lei, si o mar se irava, 
E do um aceno só domava os ventos : 
Os mattos se ilio abriam, quando entrava, 
E os tigres feros a seus pós attentos 
Pareciam ouvir, como a outra gente, 
Festeyando-o co'a cauda brandamente. 

As aguas d'onde quer, em rio ou lago, 

Si as chegava a tocar com pé ligeiro. 

Não pareciam do elemento vago, 

Mas pedra dura, ou solido terreiro : 

Só com chamar seu nome, cessa o e$tra.go 

Si o Airacão com hórrido chuveiro, 

Quando na nuvem negra se levanta. 

Ou derruba a cabana, ou quebra a planta. 

Do sua passagem pelo Brazil deixou S. Thomé assignalados 
vestígios em algiimas pegadas, tâo claras e tão patentes que 

. . . inxorga-se mui bom sobre os penedos. 
Toda a forma do pé oom planta c dedos. 

O apostolo andava acompanliado de um menino, e por isso, 
ás vezes são essas pegadas, ora do um, ora de outi*Oi o obedecendo 
nós ao que particularmente nos diz respeito, consignamos a se- 
guinte noticia locai, transmittida poi* Jaboatão, segundo os 
moldes da legenda : 

« No iogar que chumam de Gurjaú de Baixo, pelo rio qae o 
banha, e é fazenda de engenho de fabricar assucar, districto da 
Ireguezia de Santo Amai'o de Jaboatão, sete léguas distante do 
Recife para o sertão, em espaçosas lages de pedra, á sua margem, 
e sobre as qiiaes corre o rio por largo espaço, e ó passagem 
comiiium dos :>cus habitantes, quando, de verio, leva menos cor- 
rente, está gravada uma estampa de pé humano, e ô o esquerdo, 
e tão admiravelmente impressa que á maneira de sinete em li- 



32 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

quidacèra, oQtraadooom violência peia pedra, foz avultai* para 
fora as fitnbrias da pegada, arreguar a pedra o dividir os dedofl, 
ficando todo o circuito do pé, a moio que se lovaata mais aito que 
a pedra i<obre que está impressa a pegada, que representa ser, 
como de menino de cinco annos, com pouca differenga, que nós. 
vimos muitas vezos em outro tempo, e ainda no estado prcseato 
(meiadus do século XVIII) o tornámos a ver c admirar com maior 
retlexãuda que pedia aquella primeira eddde, o ora fama do vulgo 
sor aquella pegada do S. Thomé, ou de um menino que andava 
em saa companhia, e seria, talvez, o seu anjo da guarda. » 

Os nossos Índios tinliam em grande estimação os seus orna- 
mentos de gala, e muito principalmente as suas melaras^ isto é, 
iembêiá$, pequenos artefactos do pedra com que ornavam o lábio 
inferior, convenientemente perfurado, para os deixar penden- 
tes como ezprime o próprio vocábulo, composto das palavras 
iembê^ beiço, e t7á, pedra. Esses ornatos eram de pedras de varias 
coros, osmeradamento trabalhados e polidos, poróm, os de côr 
verde, fabricados de nefrite, rocha duríssima e do uma colora^ 
toO fina e luzente como a osmoralda, muito rara de encontrar- 
se, a que por isto tómente os grandes principaes de poderosas tri- 
bos possuíam esses tembêlás verdes, constituíam destarte uma 
jóia de tvmilia, de grande estimação o valia, o que passava de 
geração á geração como preciosíssimo legado. 

A alta valia do tembêhl venlo era ^eral no aborigone da 
America, o particularmente entre os Nahuas ou Azlecas, que ti- 
nham as pedras de cor verde como individuações divinas e como 
symbolos do poder e da nobreza. 

Nesse consorcio de aproço o respeito votados ás pedras pelos 
primitivos povos americanos, notain-so vislumbres do culto que 
lhes tributavam . e do qual, naturalmcute, origiuou-se a idéa de 
adoroaromse com padras. \ na voz que — durante o culto geral 
da podi*a foi preferido o »ilox sjbre us demais rochas, pelas sua% 
propriedades physic is. c*mo arma constante ou como rocha py* 
romatica, uu pedra de ji^il, — que lhes propoi*cion\va faoilmen- 
i6 a eztraeçio do fogo. 

Elemento de vida o elemonto dj dotes», t^s ahi consubstan- 
ciados os predicados divmos da pedr*. na vid i selvagem do ho- 
mem americano. 



FOLK-LORE PERNAMBUCANO 33 

Quando a gaate de camiaho dá uma iopada em uma j^edra, 
deve dizer:— Z>dti5 te salve^ — porque podo ser uma alma peaa* 
da purgando-so dos seus peccados. 

A cura da gaguez consegue-se facilmeate, falaodo-se com 
umas pedi*iDha8 na bocca, remédio esse que yom de oras muito 
afastadas, e dos gregos, talvez, porque, como se sabe, foi aasim 
que DemosfeheDes viu-se livre de semelhante defeito. 

São muito Yulgares e de expressões obvias as locuções po- 
pulares: « dar a pedra, sahir com quatro pedras n»^ mãos, não 
deixar pedra sobre pedra, coração de pedra dura, pedfíik da pa- 
cieíicia, pedra de escândalo, pedra de toque, pedra no «^pato, 
pôr uma pedra em cima, e eabega -de pedra » e bem assim qs 
provérbios : 

Pedra movediça não cria lodo. 

Quem com muitas pedras bole, alguma Ibe cãe ua caboga. 

Pedrada não traz letreiro. 

Atraz dos apedr^ados correm as pedras. 

O lapidario conhece a pedra. 

Entre duas pedras não mettas as mãos. 

Consignemios agora os factos historioamonio constatados dos 
tristes episódios da Santa da Pedra o do Reino Encantada da Pe- 
dra Bonita, 

na m 

Do melados para fins de 1819, installou-se na Sorra do Rodea* 
ctor, no Bonito, um fanático ou explorador do nome Silvestre 
•losé dos Santos. Reuniu logo um grande séquito e pregou ao seu 
I>ovo a resurreiçáo deel-rei D. Sob istião, promottendo lhe a par- 
tilha dos seus grandes thesouros; e para ainda mais impôr-se à 
;?ente que o acompanhava, explorou o espirito religioso, celebran- 
do solennidades com um ceremonial particular. 

A celebração desses actos tinha logar em um improvisado 

^mplo, um grande mocambo coberto de palhas de catolé, no 

^lual se venerava uma santa denominada da Pedra, qne falava, 

inspirava e dava ordens ao seu esolhido ou enviado, o propheta 

^Uvesti^e, a quem os fanáticos que o seguiam chamavam de Mes- 

^^c Quiou, isto é, maioral ; e todos ciles, 1 ovados de superstições e 

cliiiuoras, sonhavam prodígios, faziam revelações e expiiiiavam 

í<0y:3 — 3 Tomo lxx. r. n. 



34 REVISTA DO INSTITUT*) HISTÓRICO 

08 deeretos da santa, qae a toios promettía fiibuiosas riquetat 
quando se desse, em próxima tempo, o desencantamento do rei 
D. Sebastíio. 

Para o regimen da soa gente, no qae dizia respeito ao servi- 
ço religioso, organizou o propheti algumas irmandades, cigas 
cartas patentes cheias de arri^irices oram conferidas mediante 
ama jóia, depois de confessado o recipiendario com a Santa da 
Pedra; e sendo o mesmo prophet i o interprete de taes confissões, 
impunha as penitencias, e permittia que fossem cilas commata* 
das em dinheiro, si assim conviesse ao penitente. 

Estabeleceu também uma certa ordem de distinc^ entro 
homens e mulheres, cqjas graduações eram conferidas mediante 
uma jóia pecuniária, incumbindo a esses agraciados, entre oatras 
prescripções, — a fiel observância do maior decoro e silencio pos- 
síveis, em quanto durassem as orações e as prédicas. 

O ceremooial de admiss&o dos confi-ades era especial e de uma 
solennidade particular. Não faltavam as orações, e o professan- 
do devia conserrar-se de joelhos sob uma abobada de a^>, em quan* 
to durava a iniciação, o que dá a entender que o propheta tinha 
um tal ou qual conhecimento da lithurgia maçónica. Finda a 
ceremonia, dirigia um dos sub-chefes, e algumas vezes o próprio 
propheta, uma espécie de desafio a todo aquelle que ousasse 
opp(>r-se ao ostabelecido na ordem. 

Do ceremooial desses actos i*eligiosos,de um mascarado chris. 
tiaoismo, nada saibamos de particular, a não ser, que terminados 
os mesmos com cânticos e rezas, sabiam os homens e disparavam 
as suas armas como que para annanciar a termiuaçâo das suas 
praticas espirituaos. 

Tomando assustador incremonto o núcleo quo se formara na 
Pedra do Rodeador, e promettendo ir muito longe pela constan* 
te corrente do novos adeptos, viviam já sobresaltados os mora- 
dores das circum vizinhanças o principalmente os do Bonito, que 
começavam a ser fintados de vez em quan<lo por enviados de Sil- 
vestre, em dinheiro, fazendas e gado, mercadoí ias necessárias á 
subsistência da sua gente. 

A desobediência formal de Silvestre a uma intimação do com- 
mandante militar do Bjnito pari dissolver o ajuntamento : e de- 
pois, não já simples pedidos do dinheiro e géneros aos próprio- 



l-OLK-LORE PERNAMBUCANO 35 

tarios, mas sim intimações sob ameaça do emprego de meios vio- 
leotos, conseguindo assim o que exigia, tndo isso, emflm, com- 
municado ao governador Luiz do Rêgo, levaram-no a providen- 
ciar do modo à extinguir o ajuntamento do llodeador, cego local 
apresentava o aspecto de um nascente e populoso povoado, divi- 
dido em arruamentos regulares de casas cobertas de palha. 

£ffectivamente, pela madrugada de 28 de outubro de 1820, 
parte do Recife uma divisão sob o commando do marechal Luiz 
António Salazar Moscoso, e chegando ao Bonito avança logo so- 
bre o nascente arraial e o investe euAirecidamente. 

Foi selvagem a carnificina; e depois lançam fogo & povoação, 
e um grande numero de mulheres e crianças, principalmente, 
perece nas chammas, c os homens que escaparam á fuzilaria do 
asfalto são passados a fio de espada I 

Regressou depois a tropa para o Recife escoltando a mais de 
quinhentas mulheres e crianças escapas do incêndio e do assalto* 
immundas, maltrapilhas e quasi que em completa nudez; e posta 
om prisão toda essa gente, regressou depois de solta para as suas 
localidades, ficando as crianças, que não tinham mães, entregues 
a famílias que as tomaram aos seus cuidados. 

* * 

Em começo do anno de 1836, um mameluco de nome João 
António dos Santos, morador no sitio Pedra Bonita, não muito 
distante de Yilla Bella, mostrava mysteriosamento ao povo 
daas formosas pedrinhas, muito luzentes, que dizia serem bri- 
lhantes finíssimos, encontrados nas margens de uma lagoa encan* 
tada, que lho fora revelada por el-rei D. Sebastião, o qual todos 
os dias o conduzia a corto local mysterios^. e mostrava-lhe 
naquella encantada lagoa duas torres do um tômplo que surgia, 
já meio visi vel . 

Faoatisado pela crença, ainda vulgarissima, do reappareci- 
mento do rei D. Sebastião, começou João António a pregar que 
estava próxima essa épocha, discorrendo largamente sobre o 
assumpto ; e com taes embustes conseguiu não só casar-se com 
uma interessante rapariga quo sempre lho fôra negada por seus 
paies, como também angariar dinheiro em não pequenas quan- 
tias, gados e fazendas, com a onerosa clausula de pagamento em 



36 REVISTA DO INSTITUTO HISTORIO) 

dobro, quando ae desencaotadse o prodigioso reino ; o raacinando 
a uns oom as soas riqnezas e a ouiros oom a descoberta de um 
grande thesouro, e aoxiliado nesse seu apostolado por parentes 
seus, conseguiu reunir immensa turba da adeptos, gente igno- 
rante, fanática e ambiciosa, que o acompanhava om suas pe- 
regrinações até ao Piancó, Cariri, o Riacho do Navio, margi<- 
nando depois o alto S. Francisco. 

Renunciando João António o seu apostolado, graças á inter- 
venção de um missionário, o padre Francisco José Correia, con- 
fiou-o, comtudo, a um seu preposto de nome João Ferreira, ma- 
meluco como elle, porém, ainda mais astuto, supersiicio^o e 
perverso. 

Esses fanáticos tinham como c<'>rte das suas reuniões o lueii- 
cionado sitio da Pedra Bonita, chamado hoje Pedra do Reino, cc^^ 
denominação se prenJe às trisiissimas occurrencias que ahi se 
deram, e onde se erguem duas elevadas pyramides de granito 
eòr de ferro, quasi que unidas, porque ó estreitíssimo o espaço 
que as separa. 

Esses dois penedos são quasi que do egual altitude, sendo, 
porém, o mais baixo de grossura superior ; o o mais elevado, do 
meia altura para cima, é coberto por uma espécie de chuvisco 
prateado, — que parece infiltrações do malacacheta, — e que 
pelo belio aspecto que apresenta, principalmente quando recebe 
de frente raios solares, brilh mdo como si ros^^ni de prata po- 
lida, recebeu do vulgo a denominação de Pedra Bonila, 

O estreito espaço que separa as duas pyramides ou pe- 
nedos» dá entrada por duas aborturas di.-stuictas a um espiiçoso 
corredor muito claro e arejado. 

Ao poente de uma das pyramidos, nota se uma pequena 
saia, meio subterrânea, a que os seba:3tianistas davam o nome 
de Santuário, porque era ahi quo o fanático João Fen-lra fazia as 
suas praticas e nas quaes allirmava sempre : — que resnscita- 
riam gloriosamente com el-rei D. Sebastião todas as victimas 
que lhe focsem offerecidas, — e onde se recolhiam as noivii8 
depois do casamento celebrado por um sacerdote* da seita, co- 
nhecido por frei Simão. 

Exteriormente nota-se uma espécie de teiTaço pênsil, que 
táaha o OMiie de throno ou púlpito, onde o rei ^oko pregava ao 



FOLK-LORE PERNAMBUCANO 37 

ar livre; o mais além viVso uma peqaena rampa oade tinha 
logar o sacrifício das victimas, o por isso chamado Pedra dos 
Sacrifícios, ou da matança. 

A pouca distancia das pyramides, om fim, vô-se um penedo 
colossal, om cuja baso se nota um grande subterrâneo conside- 
ravelmente augmentado por uma profunda excavaçSo que fi- 
zeram os sebastianistas, em cujo recinto, a que se impoz o nome 
de Casa Santa^ e onde se podiam reunir umas duzentas pessoas, 
ministrava o chefo uma corta bebida aos seus adeptos, com o 
fim de os embriagar e atiral-os assim inconscientes, aos oruentos 
sacrifícios que celebravam e^es fanáticos, com o fim de operar-se 
o prodigioso desencantamento do reino ! Esse néctar chamado 
vinho encantado, era composto de jurema e manacá, tinha ao 
mesmo tempo as propriedades do álcool e do ópio, e era muito 
usado poios Índios om sous fcstin^^, bom como pelos curandeiros 
do feitiços o mordedura de cobras. 

O rei tinha o tratamento de santidade^ o todos lho beijavam 
os p<?s. 

Em suas pregações usava ello de uma corOa tecida de 
cipós de japecanga, ora flalando ou cantando, e saltando muito 
alegre ; e quando terminava as suas prédicas, prorompia o povo 
em vivas a ol-rei D. Sebastião, cabriolando e batendo palmas. 

A polygamia era permittida, e o próprio rei João Ferreira 
chegou a ter sete mulheres, que tinham foros de rainha; porém, 
uma destas, irmã do primeiro rei João António, não podendo 
supportar sem queixas o escandaloso concubinato de seu pre- 
tenso esposo, cahiu um dia victima dos seus perversos iostinctos 
com o corpo crivado por setenta o tantas facadas ! 

O casamento, festivamente celebrado por Frei Simão, um 
ignorante impostor de nome Manoel Vieira, investido da digni- 
dade de summo sacei*doto da seita, tinha um ceremonial por de- 
mais ligeiro e simples. 

Presentes os noivos, testemunhas e espectadores, eomparecia 
sua snniidade el-rei, que era recebido com honorifloas demonstra- 
ções do respeito, e o intitulado Frei Simão começava a ceremonia, 
proferindo certas palavras cabalísticas quo terminavam com a 
phrase : — Eu vos caso pelos podares que D&us me deu^ — • man- 
dando em seguida que a noiva osculasse os lábios do noivo. 



38 REVISTA DO INSTITUTO IlISTOniCO 

Em seguida o rei dava o braço á noiva, servia- so o vinho 
encantado, ao som de toques, cânticos e palmas, e dissolvia-so a 
reanião, mas, ficando o rei ni casa snnta com a noiva para dis- 
pensal-a, o no outro dia a restituía ao seu esposo conveniente- 
mente dispensada. . . 

As suas praticas religiosas constavam apenas dos cânticos 
de bemditos e reza^ diversas. 

Comia-so pouco, e ara prohibido lavar os pannos e roupas 
antes do desencantar-so o reino ; e todos os dias expediam-so 
iMindos de gente para arrebanhar homens, mulheres, meninos o 
cies para os sacriflcios, o outros & raszia nas circumvizinhanças, 
regressando providos do gado, cereaes e mantimentos diversos 
destinados ao consumo da população ; e nessas excarsões os 
suspeitos oram acompanhados do duas ou tros pessoas de con- 
fiança. 

Foi na bella e aprazível paragem da Pedra Bonita, por- 
tanto, que se firmou a reunião desses novos sebastianistas, e 
nos subterrâneos dos seus i*ochedos, o templo dos seus falsos sa- 
cerdotes e o sólio real dessa imaginaria e caricata monarchia. 

O escriptor de uma interessante monographia sobre o faeto, 
a a quen seguimos paripassu nesta narrativa, conclúe com as 
seguintes palavras a minuciosa descripção que faz da locali- 
dade, para cujo fím foi propositalmente visital-a : 

« O rebulicio que produz o vento sobre a folha^jcem dos caro- 
lezeirog, que, qnaes espectros mudos, ou solva^^ens seminus, se 
approzimam em grupos da maior das duas pyramidos, como si o 
qnizetsem combater oi^ derrubar; o constante cantarolar dos 
visitantes, que pretendem assim desterrar os innumeros ear* 
domes de phantasmas de que tôm povoada a própria imaginaçfio, 
de dentro das fendas e cavidades dos rochedos, em que vâo pene- 
trando em basca de alguma curiosa antiqualha ; e a invencível 
disposiç&o do espirito para aoorrentar-so ao passado, azhiimar« 
a fiizer panar por doante até o ultimo dos personagens da- 
qoellas soenas mallitas ; tudo isto torna esses legares tão sinis- 
tramente pavorosos que basta a queda de um fructo, ou a car- 
reira inesperada de um animal, que nos evita, para prodozir 
um choque extraordinário, sobretudo nas pessoas do organizaçâU» 
nervosa e de alma um tanto impressiona vel .» 



KOLK-LORB PERNAMBUCANO 39 



* 



Pregavam estes fanáticos sebastianistas^ qae, para vorifi- 
car-se o almejado desencantamento do reino, era necessário re- 
gar-se as pedras e os campos circamvizinhos com o sangue de 
velhos, moços e crianças, e ató mesmo de animaeu ; que tudo isto 
não só era necessário para mais approximar o termo da prodi- 
giosa appariçao do rei D. Sebastião, como também seus the- 
souros, o que ora de summa vantagem áquelios que se sabmet- 
tessom a esse heróico sacriâcio, pois os velhos resuscitariam 
moços, 08 pretos alvos como a lua, e todos ricos, immortaes o 
poderosos ! 

E assim entregavam-se ao sacriflcio, intrépidos, volunta- 
riamente. 

Os próprios paos conduziam os filhos t matança, e moços 
e velhos, todos corriam pressurosos e dominados do mais ar- 
dente fanatismo para o sacriflcio, pagando assim com a própria 
vida o seu tributo de sangue com a esperança de vôr quebrar-se 
esse cruel encantamento e auferirem as promettidas recom- 
pensas. São indescriptiveís e horripilantes as scenas de sangue 
e de carnagem, o desespero dos sacrificios e o heróico fanatismo 
de semelhantes entes. .. Cegos, allucinados, levados do interesao . 
por fementidas promessas do vis impostores, que abusavam da 
sua ignorância e ingenuidade, Armes na crença de que um dia, 
a. brevemente despontar, recuperariam a vida completamento 
transformados, ricos e poderosos, tudo arrostavam, tudo sacriíl- 
cavara I 

No dia 14 do maio do 183S, como narra um dos muitos illu- 
didos pelos agentes desses fanáticos, que fugira horrorizado das 
scenas que presenciara, declarou o rei depois de dar bastante 
vinho á toda sua gente : — que D, Sebastião estava muito desgos» 
toso e triste do seu povo. 

— E porque ? —- perguntaram todos muito afflictos o cho- 
rosos ... 

— Porque são incrédulos ! respondeu elle, e repetia as suas 
phrases uma voz lamentosa, que parecia vir de longe...— Porque 
sHo fracos ! porque são falsos ! e finalmente^ porque o perseguem^ 



40 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

não regando o campo encantado e não lavando as duas torres d'i 
cathedral do seu reino com o sangue necessário para quebrar de 
uma vez este cruel encantamento /. . . 

O que depois disto se seguiu foi horrível I 

O velho Jnca, oontiDúa o sebastianista, foi o primeiro qno 
correu, abraçou-se com as pedras e entregou o pescoço a Carlos 
Vieira, que o cortou cerce, pois j;L Id. estiva com um facão 
afiado. 

Depois, as mulheres e os homens iam agarrando os filhos 
que estavam alii, ou iam buscal-os fora, e vinham entregal-os ao 
mesmo Carlos Vieira, a José Vieira e a outros, que lhes cor- 
tavam os pescoços, ou quebra vam-lhes as cabeças nas mesmas 
pedras, que untavam de sanprue. 

No auge dessa embriaguez e dosvairamento, um fanático, 
para dar arrhas da sua fó o conquistar o melhor quinhão do 
reino, sobe ao cume de um rochedo e precipita-se com dois netos 
nos braços ; mas, o instincto do conservação acordando-lhe os 
sentimentos obliterados pela loucura, obrigao a salvar-se, si bem 
que muito contuso, agarrando-se aos ramos do um robusto ca- 
tolezeiro, que encontrara no meio da queda, perdendo comtudo 
os dois netinhos. 

Um outro, pega em um filho de dez annos de edade, colloca-o 
n% pedra dos sacrificios e decepa-Ihe o braço ao primeiro golpe, 
surdo á voz da própria natui*eza o ;ls supplicas da pobre vi- 
ctima, quo ajoelhada e de mãos postas brada va-lhe :— Meu /wie, 
você não me dizia que qurrin tonto hem ^ 

Uma viuva, alimentando a louca pretençâo do ser rainha, 
immola por si mosma a dois filhos seus monoros, e fica em des- 
esperação ao vêr quo lho escaparam, fugindo, os dois maii 
velhos 

Uma irmã do João António, o primeiro rei, é dosi^rnada ao 
•acrificio pelo seu succossor, que respondia ás supplioas e alie- 
gaçôes do gravidez da pobre victima, gritando para os sacrifica- 
dores: — Immolai-a mesmo assim para que não soffra duas dores, 
n do parto e a do etirantam(*nio! — E tão adoantado ora o es- 
tado interessante da infeliz mulher, que momentos dopois do 
receber o golpe fatal, rolava a criança pela rampa e esteiidia-so 
no chio ! 



FOLK-LORB PERNAMBUCANO 41 

Uma outra mulher, ainda moça e donsella, chegada com 
seus pães naquelle mesmo dia, é desii^nada para o sacrifloio ; e 
toado conseguido escapar-se omquanto se praticava a execução 
da precedente, foi perseguida pelos sanguisedentos fanáticos e, 
de noYo conduzida ao matadouro, recebeu a morte* 

Dest*arte, durante três dias do matança, conseguira o exe- 
cra vel rei banhar a base das duas pyramides e innundar os ter- 
renos adjacentes com o sangue de 30 crianças, 12 homens, entre 
os quaes figurava sdu próprio pae,e 11 mulheres, cujos cadá- 
veres, excluindo o da infeliz donzella, que por correr do mar- 
tyrio, foi considerado indigno de emparelhar-se com os demais, 
e bem assim os' de 14 cães, foram collocados junto ás pedras e 
em grupos symetricos, segundo o sexo, edade e qualidade, das 
victimas. 

Observe-se, porém, que além do fanatismo religioso trans- 
parecia também, entre esses visionários, um como que pensa- 
mento socialista, porque o sacriflcio dos cães era porque — no 
dia do grande evento levantar-sQ-iam elles como valentes e in- 
dómitos dragões para devorarem os proprietários ••• 

Insensatos I Aquelles que pretendiam a destruição do pro« 
prietario pelos seus dragões não reflectiam que seriam elles 
mesmos as victimas, porque, si luctavam obitinadamente, o fa- 
ziam para resurgir fortes^ ricos e poderosos ! 

Quando ó monstro se dispunlia a proseguir ainda no sacri*- 
ficio de novas victimas, na manha de 17 do maio, indignado o 
mameluco Pedro António com a desconsideração que soffrera do 
rei, immolando a duas irmãs suas; e julgando-se com melhor di- 
reito á suprema investidura real, por ser irmão de João An- 
tónio dos Santos, o primeiro rei e instituidor da seita, anteci- 
pa-se em subir ao throno o troveja ã turba reunida, annuncian- 
do-lhc : — < Que D. Sebastião, cercado de sua corte, lhe appare- 
cera na noite antecedente, e reclamara a presença do rei, única 
victima que Êiltava para veriíicar-se o seu dosencantamento. » 

E um grito unisono dos fanáticos rotumba na amplidão : ^ 
< Yiva el-rei D . Sebastião ! Viva o nosso irmão Pedro António ! > 

O rei deposto, porém, que não soube dominar aquelle lance 
de audácia do seu emulo, acovarda-se miseravelmente, e vendo 
os fanáticos que tremia elle tanto, a ponto de não poder suster-se 



42 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

de pé, prorompem indignados aos gritos :— c Ao sacriflcio, Carlos 
Vieira ! Ao sacrifício, Josô Vieira ! antes que elle se torne In- 
digno como aqiiella tola rapariga ! Andai, pois. Elle se amo- 
fina !» 

Pedro António 6 acclamado rei, o immediatamento arras- 
tado ao sacrifício o deposto monstro, esmigalham-lhe o craneo e 
arrancam-lhe as entranhas ; o conduzido o cadáver para fora do 
campo, doixam-no amarrado de p(^s e mãos cm duas grossas ar- 
voi'e.s, entre;?ue á voracidade das feras. 

Resolvendo o novo rei abandonar aquelles sities, foi acampar 
com o seu povo nm pouco distante, ao pó do uma floresta de 
umbuzeiros, onde devia esperar-se o apparecimehto de D. Sebas- 
tião e a i^estaur.içâo do reino da Pedra Bonita, cuja grande cidade, 
assento de sua corte, surgiria daquella formosa lagoa, distante 
meia legaa, segundo a palavra dos seus prophetas. 

lleveladas todas essas tristíssimas occurrencias ao conimis- 
sario de policia da localidade, o major Manoel Pereira da Silva, 
pelo fugitivo sebastianista, resolveu aquella autoridade imme- 
diatamentc reunir uma força de guardas nacionaes e paisanos e 
marchar para dispersar o ajuntamento ; força essa, que apozar 
de engrossada em caminho, apenas attingia a uns quarenta oa- 
valleiros, todos dispostos, bem armados e municiados. 

Em marcha accolorada e sob a guia daquelle fugitivo sebas- 
tianista, venceu a caravana o caminho da viagem, e chegando 
á floresta dos umbuzeiros para doscançar e preparar-se para 
investir os fanáticos na Pedra Bonita, onde contava que ainda 
estivessem, um grupo de cavalleiros que so adeantara um pouco, 
dá de frente com Pedro António, com uma grande coroa de cipós 
na cabeça, semi-nú e acompanhado de um numeroso séquito de 
homens, mulheres e crianças, também semi-nús, e armados de 
facões e cacetes. 

— Não os tememos .'... Acudam-nos as tropas do nosso reino !,., 
Viva el-rei D. Sebastião .'... grita furioso Pedro António, agitando 
no ar a sua coroa e arremessandoso com toda a sua gant^ 
sobre o grupo de cavalleiros, já então reunidos aos seus compa- 
nheiros, e travdse uma lucta tremenda, renhidíssima, corpo a 
corpo e desigual, uma vez que os fanáticos eram em numero 
muito superior; e desejosos do raartyrio. com a idôsk fixa de 



FOLK-LORE PERNAMBUCANO 43 

uma immediata ressurreição, combatiam arrojada e valente- 
mente, entoando as mulheres e crianças os cânticos da ladai- 
nha o ontras rezas, batendo palmas ou brandindo espetos e 
cacetes, e entrando mesmo na liça em auxilio dos sons, onvin- 
do-ge em geral, como que um grito de guerra :— -B' tempo. 
BT chegado o tempo. Chegou o tempo. Viva! viva! viva I 

Os intrépidos cav^lleiros, porém, não recuam, e ainda que 
cm numero inferior, e sem dar-so mesmo tempo para usarem 
das suas armas de fogo, pois que bom poucos puderam mais de 
uma vez servir-se das s ias espingardas, comtudo, combatem 
valentemente ; e depois de uma hora de lucta caem vencidos os 
sebastianistas, deixando sobre o campo da acção 17 cadáveres, 
entre os quaes o do rei Pedro António, perdendo ob atacantes 5 
de seus companheiros. De ambos os lados ficaram muitos feridos, 
entre os quaes o major commissario cuja vida muito perigou. 
Um troço de fugitivos fanáticos ó batido por uma força que 
chegara commaodada pelo capitão Simplício Pereira da Silva, e 
perecem na refrega mais oito de seus companheiros ; e prose- 
ou! ndo aquelle capitão no encalço dos demais até as serras do 
Piancó, extermina-os em actos de resistência. Nó numero destes 
figura o celebre Frei Simão, que morreu parto da fazenda Lagoi- 
nha, escapando apenas o fanático João Pilo, aquelle que se ati- 
rara do alto de um rochedo com dois netos nos braços, o que 
horaiziando-se no Cariri, morreu tempos depois, tranquilla- 
mento. 

Não foi pequeno o numero de prisioneiros quo cahiram ás 

jnãos dos assaltantes, entre os quaes avultavam mulheres e cri- 

-aiQças ; e teriam mesmo sido todos clles immediatamente truci- 

«liados, si a isso não se oppozesso o commissario de policia, que 

«i^ifflcilmente conseguiu dominar a geral indignação da sua 

g^ente. 

Conduzidos os cadáveres das cinco victimas que cahiram no 
<^=^*ombate contra os sebastianistas, tiveram condigna sepultura na 
^^ ;^reja da Serra Talhada ; e regressando o commissario para a sua 
K^azeoda do Belém, com os prisioneiros, logo que ali chegou os en- 
'^^ iou ao prefeito da comarca de Flores, com uma circumstan- 
^-í^iada communicação offlcial acerca do occorrido. Entregues as 
^^ ^liDquentes ã aoção da justiça, deu-se liberdade ás mulheres, e 



44 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

as crianças foram coaâadas a familias honestas para incumbi- 
rem-se da sua educação. 

Entre os primeiros figurava o pao do roi João António, Qoih 
calo José dos Santos, que condemnado polo Jury de FloreB, 
acabou os seus «lias na grilheta, no presidio do Fernando de No- 
ronha. Sou filho, porôm, não fui menos infeliz. Descoberto o seQ 
homizio, oin Minas Geraes, a polici i foi arrancal-o do lá e te- 
mendo 03 sous conductores cahirom victimas de algum ardil 
seu, resolveram matar a esse perverso impostor, cujas dou- 
trinas tantas desgraças originaram. 

Dois meies depois dessas occurrencias, foi à Pedra Bonita o 
missionário padre Francisco José Correia, e reunindo as ossadas 
das victimas sacrificadas para o desoncantamento do reino de 
D. Sebastião, assim roduzidas om tão brovo tempo pela i^apaei- 
dade dos animaes e aves carnivoí^as, sopultou-as em uma grande 
cova, sobro a qual levantou um oleva^lo cruzeiro de madeira. 



Gomo vostigios dos tempos genesiacos em que os animAas 
falavam e viviam em sociedades constituídas, com os seus reis e 
cortes especi.ves. como se observa nos cantos populares que lhes 
dizem particularmente rospeito, n de muito interesse o que se 
colhe no exame de crondicos c superstições que em linguai?em 
própria <liz o povo com relação aos animaes, quer nos sous ditos 
e proloqnios, (luer em face de vulgarissimas legendas. 

Em um estudo todo local, 6 obvio, quo não nos é dado desoer 
a pormenores sobre um assumpto dt^ tão complexa natureza, 
eamprindo-nos mencionar apenas, abordando ao assumpto, o 
facto da doificação que teve, entre outros animaes, o crocodilo, 
poios reíloxos do culto votado a esse reptil, manifestados do 
nosso meio social. 

O culto roligiosj dedicado ao jacaré, de uma consagração 
geral não só no Egypto como entro os dcinais povos das regiões 
africanas, e que se estendia att' mesmo As tribus selvagens» teve 
o seu logar entre nós, si bom quo somente pi*aticado pelos es* 
cravos de procedências diversas daquelle continente, ecujos ves- 
tígios ainda hoje se manifestam nos maracatús eihibidos pelo 



FOLK-LORE PERNAMBUCANO 45 

Carnaval, em qno âgura, do par com um fetiche primorosamente 
ataviado, um jacaré empalhado ; e em outros tempos, Yia-sc 
egaalmente uma serpente estampada nos seus estandartes, e fi- 
guradamente, um elephante a caminhar, cheio de adornos e 
cercado de um particular respeito, importando esta exhibi^ 
uma syniboiica representação do culto religioso que também 
lhes Yotavam os africanos. 

Em observância, portanto, ao nosso particular objectivo, 
circumscripto em limitados moldes, passemos em revista d que ó 
peculiarmente nosso, entrando desasâombradamente por esse 
wèare ma^num de abusões, servindo-nos em suas explanações da 
própria phraseologia popular em toda a sua nitidez, para armar 
uma positiva aooontua<^ de feição particular de semelhantes 
preconceitos, aliás de um caracter geral, mais implantados entre 
nós por heranças de vetustissimos legados, originariamente de 
fontes differontes, porém, de uma consubstanciação tão intima 
na Índole do povo, que será difficil, sinão impossível mesmo, 
desvial-o dessas suas crenças. 

' £' de máu agouro o passar de um bezouro zumbindo pelos 
ouvidos da gente, e por isso geralmente exclama o mulherio su- 
persticioso umas phrases deste jaez : — Credo I VaUte para gurm 
te mondou; dize que não me achatie; eu te arrenego; abrenuncio; 
tíade retro; cruz^ canhoto,,,. 

São também de máu agouro o canto tristonho o lúgubre de 

ixmix ('oruja, desferido ao cahir da tarde, ou o seu simples pousar 

•sobro o telhado de uma casa ; as borboletas pret^iu, as formigas 

d*.* azas, o morcego e o beija-Hor, quando nos invadem a casa, 

Í>c3ra como o anum, quando vem scntar-se nos arvoredos visi- 

n l]os das casa-s habitadas ; a alma de gato, quando anda solita- 

K^-ji.n e o jacamim, exhalaudo seus sentidos queixumes num la- 

aci.^ntir triste, aterrador. 

Quando um cão cava á porta, ou quintal <lo uma casa, é 
*i-í-5nal certo de quo alguma sepultura se tem de abrir; e o amiu- 
^^dk.fio berrar de uma vacca, o uivo do cão e a pousada de um 
^^ i' ubú no telhado das habitações, ou repetid.t mente passando em 
^<:>r'uo das mesmas, com os seus vôds altivos e circulantes, são 
^^v- idoiites prenúncios de morte; mas a esperança, uma espécie 
^^%d gafanhoto verde, quando enti*a em casa ou pou^a sobre uma 



46 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

peâdoa, inspira alegria e confiança, como mensagdira de felici' 
dades, esperança de venturas. 

O canto alegro do rouxinol e do bem-te-vi nas proximidado^» 
das habitações, indicam visita ou chegada próxima do um3 
pessoa ausente e estimada, bem oomo o do pitiguari, que parece 
distinctamcnte dizer na expressão do sou cantar : — Olha para o 
caminho^ quem vem . . . 

O burro ó um animal abençoado, porque foi numa burrinbx 
que Nossa Senhora fugia para o Egypbo. O boi e o carneiro são 
também abençoados, mas a gallinha tem os pói excommungadoe» 
porque espalhava as palhinhas que aquelles animaos reuniam 
no seu estabulo para o arranjo do leito do recemnascido Messias. 

O pato e o peri\ são também excommungados, porque, na 
phrase de uma curiosa legenda, geralmente narrada por mu* 
Iheres no seu contar de historias, quando o gallo com o seu 
oanto anaunciava o nascimento do Messias, dizendo, — ChrUto 
nasceu : e o cordeiro reápondia, — cm Beiem, rotorqiiia ô pato — 
Cabeça fóri, e o peru com a sua arrogante f^ituidade, de pluma- 
gem orriçada o azas arrastando, acudia i imediatamente — 
Logo^ logo^ logo !,. , 

E' consoante com esta legenda que se cant \ nos nossos pas* 
toris uma jornada que começa : 

Meia noite ! canta o gallo, 
Dizondo — Christo nasceu ! 
Cantam os anjos nas alturas : 
— Gloria in cxcelsis Doo ! 

O gato é um animal estimadíssimo, o (ju^isi quo se p<KÍu 
aíUrmar, que não hac^sa onde não haja um, pelo menos. 

Toda essa predilecção votada a osso felino ó acaso um fugi* 
tivo vestígio do culto qu3ji teve o gato entre certos povos, 
como um animal sagrado. 

ElTocti vãmente, o gato de lieliopolis, como narra Oliveira 
Martins, é o anim.l !!:%.'rado do Bjst, onde tinha como santuário 
um bosque erguido num cômoro, ao centro da cidade, cujos 
crentes ti*a2iam, como t:ilisman8 que afugentavam os maus espi- 
ri (00, cabeças de g^tos pendentes do pescoço. Os gatos comiam 



FOLK-LORE PfíllNAMBUCAXO 47 

pâo, leite e peixe pescado no Nilo. Cada casa tinha o seu gato 
como penates, e qu«ndo morria, a família rapava os sobrolhos, 
em signai de sentimento, e enterraya-os ritaalíuente. 

O gato ó um animal forte, resiste á fome' por muitos dias, 
• cahindo de uma altura ainda mesmo considerável, nada soffre 
porque tem sete fôlegos, 

O gato, porój], é geralmente ladrão, furta com uma ligei- 
reza e perícia admiráveis, e manifesta nestes versos os seus 
desejos para o bom êxito das suas excursões: 

Uma casa de porta aberta. 
Uma mulher descuidada, 
K umapanella descoberta. 

Quem mata um gato tem sete annos de atrazo em sua vida, 
e o gato preto dá felicidade á, casa que o possuo, apezar mesmo 
^o demónio algumas vezos apparecer assim metamorphoseado. 
O gato, porém, não é amigo de ninguém, e apenas cria 
aíleições á casa em que vive ; e dahi tornar para cila quando 
seus donos mudam de residência ou fazem-no presente a al- 
guém . Gomtudo, para prevenir a sua volta conduzem-no dentro 
de um sacco, e deita-so-lh) azeite ás narinas para perder o faro 
do caminho f o não fugir. 

Quem pisa o rabo de um gato nao casa no anno que isto 
Decorre. 

Uma curiosa historia de gato, narrada polo nosso chronista 
Jaboatão: 

«Chegando a um dos nossos conventos da ordem franciscana 
certo reDgioso, para tomar posso do cargo de guardi&o, assim 
como chegou, ou para divertimento dos trabalhos do governo, 
ou para experiências do uma escopeta que trouxe, entrou a dar 
fogo nos gatos qne havia na casa, talvez em despique de alguma 
ceia que lhe haviam tirado d ligeireza da uuha. Matou amou 
dois, mas, nos outros foi tal a advertência do seu natural iu- 
stíocto, que não appareceram mais de dia, nem ainda de noite, 
aonde o guardião os pudesse ver. 

« Entre esses gatos foi mais notado um, que costumava ir 
varias vezes no dia a tomar a sua ração á cella de um velho 



48 REVISTA rX) INSTITUTO HISTÓRICO 

religioso, com a circumstancia, que não appareooado dahi por 
deanto em todo o dia, nem oo convento, nem om parte alguma 
onde fosse visto ; oomtudo, logo que anoitecia o o gaardlio es- 
tava recolhido, sabia o gato do seu esconderijo, vinha à eellado 
seu bemfoitor, tomava a ração, e se retirava ató o outro dia ás 
mesmas horas ; e assim perseverou por todo o tempo do tal 
guardião, quo foi de anno o meio. 

< O mais notável deste caso, ooiclue Jaboatão, foi que no 
próprio dia de manhã, em quo o guardião despedido do conyenio 
se foi embarcar em uma canoa na praia, entrou noUe aqaelle 
gato com alguns mais, c não tornaram a sahir, nem a esoon- 
der-se. » 

O cão é também um animal estimadíssimo, muito amigo do 
homem, por cujo affecto e extremos praticados, é representado 
oomosymbolo da ftdelidade ; e tem em sua vida historioa, feitos 
próprios de verdadeiro horoismo, de par com admiráveis (kctos 
da sua proverbial lealdade e dedicação aos seus amigos, muitas 
yeses levados ató mesmo ao próprio sacridcio da sua existência* 

Esse — candidato d humanidide — na phrase de MicheM, d 
o untoo animal quo tem fastos literários propriamente seus, 
quer em prosa, quer em verso, quer mesmo em monographias 
especiaes, como a do Mauríce Maoterlinck, Sobre a morte dé um 
câOf o sou querido Polcas; e a Historia ifos CfJes celebres ^ de Fre- 
ville, traduzila polo nosso compatriota I)r. Caetano Lopes de 
Moura, nomeadamente, ó uma obra vulumjsa e curiosissima, o 
aeaso de ousioamentos mesmo ao próprio homom. 

Pondo de parto, poriím, o quo a r^^sp itj do cio seria licito 
dixer em um estudo particul ir, limitemon >s a cmcarai-o so- 
mente pelo que a seu r.v^poiío voga noani;iio popular, entn^ nós. 

Vive o cao emcon^tanto guorra com o gato, do. quem aliás 
jã foi amigo muito intimo; dahi o proloqiiio popular: Virer 
comi o cão com o gato^ applioado a dois individues que vivem 
num cortar de bulhas e arengas. 

Essa inimizad<3 reinante entre ambos, tein, porém, um i 
origem, uma razão de sor, (|ue a legenda a>sigaala assim : 

O cão já loi livro, o si hoje é escravo do homem, foi o gato 
o causador das suas desventuras. Ellec ti vãmente, outorgada a 
sua liberdade, documeutadaiuento, entregou elleao gato a sua 



POLK-LORE PERNAMBUCANO 4Ô 

o^ta de alforria para convenientemente gnardal-a ; mas, li- 
gando o felino pouco cuidado a ossa prova do confiança do seu 
amigo, foi deixai-a escondida ontre as telhas da coberta da casa, 
do qae resultou a perda do documento, picado pelo rato para o 
arrai^jo do seu ninho. 

Da perda da carta resultou voltar de novo o cão ao seu triste 
captiveiro ; e com sobejas razõos Irritando so contra o gato, e 
nio acceitando as desculpas deste criminando ao rato, tornou-se 
seu inimigo irreconciliável ; mas, sentindo o gato a perda de tão 
intimo amigo, votou, por sua vez, terrível guerra ao rato, o 
causador de toda a desavença e do próprio infortúnio do cão. 

E' assim que a legenda popular explica a inimizade do cão 
com o gato, o a guerra de extermínio que este vota ao rato. 

Sobro o assumpto colheu Sylvio Romero uma lenda no Re- 
cife, evidentemente incompleta, que publicou nos sous Cantos 
populares, e depois nos Estudos sobre a poesia popular no BrazU 
sob o titulo — A alforria do cachorro — lenda esta que bem pa- 
rece rcmontar-se aos nossos tempos coloniaes. 

Eil-a : 

No tempo em que o rei francos 
Regia os sons naturaes. 
Houve uma guerra civil 
Entro os brutos e animaes. 

Neste tempo ora o cachorro 
Captivo por natureza ; 
Vivia sem liberdade 
Na sua infeliz baixeza. 

Chamava-se o dito senhor 
Dom Fernando do Turquia ; 
E foi o tal cSíX) passando 
Do vileza á fldal<?uia. 

E dahi a poucos annos 
Cresceu tanto em pundonor, 
Quaos cães o chamavam logo 
De Castella, o imperador. 
1341— 4 Tomo lxx. p. li. 



60 REVISTA DO INSTITUTO HISTORÍOO 

Voiu o herdeiro do tal 
Dom Fernando do Turquia ; 
Veiu a certos negócios 
Na cidade da Bahia. 

Chegou dentro da cidader 
Foi á casa de um tal gato ; 
E esto o recebeu logo 
Com muito grande apparato. 

Fez entrega de uma carta 
Que elle bem recebeu ; 
Recolhendo-se ao escriptorio. 
Abriu a carta e leu. 

E então dizia a carta : 

< Ulmo. Senhor Maurício Violento Sodré 
« Ligeiro Gonçalves Cunha — 

< Subtil — Maior — Ponte — Pó ; 

€ Doulhe, amigo, agora parte, 
« De que me acho augmentado, 
« Que estou de governador 
€ Nesta cidade acclamado» 

« Rcmetto-lho esta patente 

< De governador lavrada ; 
« Pela minha própria letra 
« Foi a dita confirmada.» 

Ora, o gato na verdade, 
Como bom procurador, 
Na gaveta do telhado 
Pegou na carta o guardou. 

O rato, como malvado. 
Assim que escureceu 
Foi á gaveta do gato. 
Abriu a carta e leu. 



FOLK-J.()RE PERNAMBUCANO 5Í 

Vendo que ora a alforria 
Do cachorro, por judea, 
Por ser de mà consciência, 
Pegou na carta e roeu. 

Roeu-a de ponta á ponta, 
E pôl-a em mil poilacinhos, 
E depois as suas tiras 
Repartiu as pelos ninhos. 

O gato, por occupado 
Lá na sua Relação, 
Não se lembrava da carta 
Pela grande occupação. 

E depois se foi lembrando, 
Foi caçal-a c não achou, 
E, por ser maravillioso 
Disto muito se importou.» 



Deste romance ha uma variante completa, que um typo 
das ruas de nossos dias, o conhecido o popular Poeta Sabino, 
costumava rectirar, variante essa que começava com a mesma 
quadra inicial na transcripta vorsAj, e depois se ia dosonvol- 
▼endo em nuances próprias, como se vô dos seguintes versos, 
08 únicos recolhidos: 

Dona Lagartixa Mendes, 
Esposa do capitão, 
Queria bem a ratinha 
Por dentro do coração. 

Como esses, recitava o Sabino, nas sueis habituaes excursões 
de bohemio por todo o Reoife, muitos outros versos, quer seus, 
quer de outros, de grande voga popular ; e no âm de todos, ir- 
revogavelmente, rompia num rasgado sapatear, com tregeitos o 
momices de um .saltimbanco, recitando numa toada de tango 



52 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

estes versos, acaso do composição saa» poréoa, ^iiè se toraaram 
popularissimos : 

SÀ Naninha, 
Na ponta 
Da linha ! 
Seu Manoel, 
Toca páo 
Birimbáo. 
Azeite doce 
Com bacaliiáo, 
Ceptamento, 
Nào ó máo. 

Destes versos colheu S\ Ivio Homero uma versão no Reciíe, 
que consigna nos seus Cantos Populares. 

Para um cão não crescer iMista pesal-o com sal, em pequeno, 
ou passal-o três vezes pelos aros de um tacho ; e é bom impôr- 
se-lho o nome do um peixe qualqaer para preservái-o da hydro- 
phobia e da rabugem. É, obedecendo a esto preceito, que são 
communs os nomes que lhes dão de tubarão, camorim, dourado, 
zaréo, tainha, eto. 

Quem mata um cão fica devendo uma alma aS, Lajia^o, 

Quando a cabra espirra é signal de chuva, ella apregoa n^ 
e vende azeitonas^ e chama-se*lUe de comadre; do mesmo modo 
chama-se ao macaco, Simão ; ao carneiro, Thomé ; ^ perua, Te- 
reza\ ao porco, Chico\ eos gatos têm geralmente o Qome de ca- 
pitão, apezar de nas suas arengas de telhado tratarem-se pelos 
nomes do Romão e Lrsula, 

E' muito curioso o que se diz do caranguejo pela expressão 
de algumas locuções populares: € Perdeu a cabeça por causa 
de camaradas ; não morre enforcado porque não tem i>escoço ; 
o por morrer um caranguejo não se cobre o mangue de luto ; ^ 
e o povo diz ainda, que <( o caranguejo só é gordo nos mezes 
que não tem r : maio, junho julho o agosto ». 

Si é peixe ou não, ou somente quando como tal é reputado^ 
dizem estes versinhos de um vulgarissimo brinquedo de crianças ^ 
cantado e dançado em roda: 



FOLK-LORE PERNAMBUCANO 53 

Caranguejo não ó peixe, 
Caraogu^o peixe é; 
Caranguejo só ó peixe 
^a enchente da maré. 

O 9iri magro carrega agua para o gordo, e a solha tom a 
boeca tprta porque arremedou à Nossa Senhora, quando lhe per- 
guntou si a maré enchia ou vasava. 

O muasu nasce de crinas do cavailo mergulhadas em aguaa 
estagnadas, e o cogumelo, da excreção urinaria do mesmo 
animal ; o morcego ó uma metamorphose do rato velho ; e das 
hastes seccas de certos arbustos, j& despidas de folhagem, nascem 
vários insectos, como o gafanhoto, nomeadamente. Ao contrario, 
porém, da carcaçx da cigarra, quando estoira, victima do seu 
muito cantar de um rcchioar agudíssimo, medra o cipó conhe- 
cido por japecanga, de grandes virtudes medicinaes. 

O kaga4o tem as costas cm remendos proveniente de um 
desastre, uma grande queda que deu em meio caminho de uma 
viagem que fez ao céo, cujas particularidades refere assim um 
conto do cyclo das nossas historias populares : 

4( Houve um dia uma grande festa no céo, para assistir á 
qual foram convidados os animaes da terra ; e lastimando-se 
o Rogado por não poder ir também, pelo ssu andar muito va 
garoso, veiu o urubd cm seu auxilio e oíTereceuse para loval-o 
att' 14. 

« Cpntootissimo acceitou o kagado o generoso ofTereoi mento, 
trcpou-se nas costas do urubu, segurou-se bem, e o alado carní- 
voro voou vertiginosamente ; mas, em certa altura, quando não 
mais se avistava a terra, dá uma revira- volta, c propositalmente 
deijpa cahir o pobre kagado, que rulaodj pelos ares vem inti- 
magdo ás pedras e aos píius a se arredarem, o ao cahir em torra 
b2^3(ante maltratado da queia, com o casco todo em pedaçoSt 
exclama: 

Réu I róu I réu I 
Quem de uma escapa, 
Nunca mais 
Bodas ao céo.» 



54 REVISTA DO iNSTITtTTO IIISTOHICO 

OkagadOfPorém, ciirou*se, cuidadosamente ajastando-se-lhe 
os pedacinhos do casco, e por isso âcou elle com as costas assim 
em remendos. 

Faz mal matar o sapo, porque nâo entra em decomposição, 
fica completamente resequiJo, mirrado, o como elle ficará 
também o corpo de quem o matar; e ó prudente nio bulir 
com esses batrachios, porque enraivecendo-se expeliem um li- 
quido lácteo, que, si cahir nos olbos, ce^a immediatamente. 

O sapo é, além disso, muito opinioso, e eonta-se, que ficando 
uma yes sob a pata de um boi, caprichosamente supportoa por 
muito tempo todo o peso do possante animal, comtanto que nio 
se rebaixasse em pedirlho que se desviasse para o deixar saliir ; 
e dahi a locução popular — opinião de sapo, * á perseverança 
de um capriclio prejudicial . 

Para afugentar as formigas, quo tantos damnos causam 
ás plantações, basta bater três vozes com a mão sobre a bocca 
do formigueiro dizendo-se repetidamente:— € Em nome de Jesus 
Christo, mudem^se^ que esta terrt^ ndo è sua, » As moScas, porém, 
sao solonnemente intimadas a sahirem da casa cm dia certo : 

Moscas malvadas ! 
Da sexta p*ra sabba^lo 
Estejam mudadas. 

Para acabar com as pulgas, quor as commuos, quer a 
Pulex penetrans, vulgarmente chamadas bichos dos pés, o processo 
é mais complicado. 

Em Uma quinta-feira, à tarde, varre-se bem a casa, e a 
pessoa que tem do fazer o benzimenio, levantase no outro dia 
muito cedo, não fala absolutamente, não boceja, e nem abre a 
bocca. Reza por trea vezes uma Ave-Maria, toma depois um bo- 
checho d^agua, e barrufa os cantos da casa dizendo mental e re« 
petidamente: 

Pulgas c bichos 
Fiquem citados. 
Que de hoje p*ra amanhã 
Vocês são mudados. 



FOLK-LORK PRRXAMnCCAXO 55 

A cobra quando ontra nagua deixa o veneno em terra, e 
por isso, picando então a alguém, não produz mal algum ; mas a 
mulher, no seu estado interessante, ainda mesmo mordida em 
terra pelo mais venenoso ophidio, nada absolutamente soflOre. 
Deus a preserva do perigo para n&o morrer com ella o innocente 
pagão qae traz nas suas entranhas. . . 

A mulher que, ao encontrar-se com uma cobra, virar o cós da 
saia, dizendo: estás presa por ordem de S, Bento ^ que é o advogado 
contra os ophldiofl, fica ella immovel, e deixa-se matar sem re< 
siatencia. 

Cnmpre notar, porOm, que os ophidios e bem assim os ani- 
mães damnínhos são de creação do demónio, como diz a legenda, 
referindo:* Quando Dous ao quinto dia da creação do mundo 
fez os animaes domésticos^ e todos os reptis da terra, cada um se- 
gundo a sím espécie, na phrase do Génesis, invejoso Satanaz dessas 
maravilhas, pediu-lhe licença para também íistzer os seus bi- 
chinhos ; e annuindo Deus ás suas supplioas, abusou o a^jo. máu 
da graça concedida, e creou os ophidios e todos os animaes dam- 
ninhos e nocivos ao homem. 

Os ophidios, porém, são impotentes perante os poderes de 
um curado, a quem absolutamente não offendom, o ao contrario, 
o obedecem mesmo, como qno dominados por uma força supe- 
rior, a todas as suas ordens. 

Escreve ToUenare que preâenciou numa das praças do 
Recife, em 1817, o curioso facto de um negro havido por fei- 
ticeiro fazer dançar duas cobras de três pés de comprimento ; 
refere, que no engenho Salgado, em Ipojuca, havia um outro 
qae cingia o corpo com um desses rdptís, que immediata e 
passivamente executava o que elle determinava ; e concluo, 
narrando esta singular occurrencia, communícada por um seu 
amigo, daquelle engenho, de cuja veracidade, diz elle, não podia 
duvidar : 

< Uma de suas escravas fora mordida por uma cobra ; estava 
inchada, o sangue sahia-lhe pelos olhos, a bocca e os ouvidos ; ia 
perecer. Mandaram chamar iim feiticeiro ou curado, morador 
na vizmhança ; elle não pôde ir logo, portam, mandou. . . o seu 
ehapêo. Collocaram-no sobre a moribunda, que immediatamente 
ficou alliviada. 



56 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

€ A' tardo, foi o feiticeiro vêr a doente, que já não o eslava 
mais, collocou-se no batente da porta, chamou a oobra culpada, 
que compareceu^ fel-a percorrer o quarto e, com grande terror 
dos assistentes, enroscar-se varias vezes em volta da negra, qae 
nenhum mal soffreu, e matoua depois.» 

Essa prodigiosa virtude do fascinador ou curado de cobra, 6 
transmissivel, por meio de um processo acompanhado de momices 
religiosas, como diz Tollenare, accrescentando, porém,— que nem 
todos os curados sabem curar, isto é, ensinar o processo. 

Do uma casa infeliz, encaiporada, se diz que tem caveira do 
burro enterrada. O pav&o entristece quando olha para 09 pés, e 
faz mal matar aranhas, porque é riqueza em casa. 

Um chifre de boi enfiado no alto de uma balança ou collocado 
mesmo em qualquer parte de um estabelecimento commercial, 
dá felicidade ao negocio ; e no campo, espetado em uma estaca 
fincada, bem como uma caveira do mesmo animal, egualmente 
disposta, não somente favorecem as plantações, como ainda 
evitam os nordestes e outros males nocivos á criação de aves. 

Esta supersticiosa usança, si não indica reflexos do culto 
votado ao boi pela sua deificação entre certos povos da antigni' 
dade, em cujo culto, particularmente, se notam o boi Apis, no 
Egypto, o touro Mithriaco entre os persas, o boi do Cadmo, e o 
touro de Marathon, som falar mesmo na vacca Atir, adorada 
como deusa suprema entro os egypcios, cultos esses que espalha- 
ram-se depois por todo o Oriente ; vem talvez de Priapo, quo 
apezar de pertencer a classe dos deuses da impureza, segundo a 
consagração mythologica, ora venerado entre os romanos como 
uma divindade suprema que tinha os poderes de prodigalizar a 
abundância e de aíkstar a esterilidade. 

E' assim que se via aquelle iiolo tutelar dos romanos figu- 
rar nos seus vinhedos e vergéis, e particularmente nos seus jar- 
dins, encostado a uma vara que subia-lhe acima da cabeça sus- 
tentando a divindade no seu braço direito uma grande cornu- 
copia, o corno da abundância, em cuja ampla bocca se viam como 
que dospejando-se, flores e fructos variados, producçoes e attri- 
butos dos jardins e campos de plantação, aos quaes, entre varies 
povos e sobre todos os romanos especialmente, essa divindade 
presidia. 



rOl.K-LORE PERNAMBUCANO 57 

Iiaplaatvia ossa suporsticiosa creoQa dos romanos nas suas 
colónias, chegou às qao fundaram na península Iborjca, e dahi 
aosportuguczo3 ddquem imm3d latamente nos vem o tradicional 
costume. 

O chifre de boi â^ura também, inTariavelmente, nos açou- 
gues, mas, apczar do ustont ir-so com um esmero de pintura 
multicor, abáolutamcnto não prodigaliza ao negocio as suas 
valgarissimas virtudes, porque— o boi protestou tirar a camisa a 
quem lhe tirasse o couro . . . 

BffeotivameQte, é um facto constatado pela experienois, 
que o magarefe e o talbador nâo passam dos parcos recursos do 
seu officio, e pela occurrcncia de casos constantes, que o mar- 
chante não progride no negocio ; e si chega mesmo a prosperar e 
accumular alguma riqueza, vôin depois uns revezes da sorte 
que fazem desandar a roda da fortuna^ e elle acaba OB seus dias 
na mais humilhante po breza. 

£gual pheaomeno dava-se com os traficantes de carne hu- 
mana, nos ominosos tempos da escravidão ontre nós. 

Ao carniceiro ou magarefe, porém, em tempos id08»Junta- 
va«ie até mesmo o próprio despreso da egreja, como reza a tra- 
dição popular, porquanto o Sacramento não entrava em sila 
casa; e quando rdoecia elle e temia-se do seu estado de aaiSdé e 
tinha da preparar-se para a vida de alóm-tumulo. reconeiliando- 
se com Deus, passa vase para a casa do visinho, onde então reoe- 
bia o Viaticoe as absolvições «n extremis. 

A tanajura torrada é am manjar delicioso para os nossos 
camponios, que as apanham em quantidade prodigiosa, e de am 
modo siogu larissimo. 

GoUoeam-se em baixo da arvore sobre a qual tem a tanajura 
o seu ninho, o com uma urupema ás mãos, e proiiunciando em 
certa toada a parlenda: 

Tanajura cai, cai, 
Pela vida de teu pai, 

s) desprendem ellas o caem sobre a urupema, e em quantidade 
tal, que immediatameDto se enche do appetecido insecto. 

E a propósito, consignamos aqui o modo curioso do fazer 
dipocas, segundo as regras da popular pragmática. 



58 REVISTA DO IXSTITUTO HISTÓRICO 

CoUoca-se ao lume uma tigela do barro contendo o miltio, e 
começa-se logo a mechel-a com um pauzinho caniarolando-se : 

Pipoca bonita. 
Menina feia; 
Pipoca feia. 
Menina bonita. 

E a pipoca que nãa quer ser feia, estoira logo em formas di- 
versas, apresentando bonitos e caprichosos flocos brancos, ge- 
ralmente sob o aspecto de uma flor lindíssima ; e sem aqaella 
cantilena, assegnra-se, o milho fica completamente torrado» e 
nio estoira produzindo as bellas e apreciadas pipocas da gulo- 
seima infontil. 

O deitar os ovos ás gallinhas para a reproducçao da espécie» 
não é uma cousa tão simples como talvez se suppõe. Tem sua Md- 
e9ícia^ como vulgarmente se diz, acaso pelo cortejo de preceitos 
supersticiosos que o preside. 

Bm primeiro logar cumpre attender-se á época, de forma 
que terminem na phase do crescente da lua os vinte e um dias 
da incubação, para que, com a sua força saiam os pintos sem 
dIflQculdade, fortes e espertos, e não so perca um só. Apezar 
desta prescripção vulgarissima, preside também a crença de que, 
das gallinhas deitadas ao crescente saem mais (Vangos que 
frangas, e o contrario si for ao minguante. 

Para os ovos não gourarem, faz-se uma cruz com tintado 
escrever sobre cada um, e quando se destinam os pintinhos a uma 
pessoa qualquer escrevo- se o nome por baixo da mesma cruz. 

Preparado o ninlio depositam -se os ovos um a um, e á pro- 
porção que se os vão coUocando, fazendose com elles o signal 
da orus, pronuncia-se esta espécie de oração: 

Nas horas de Deus, 
Por São Salvador, 
Nasçam todos fêmeas 
E um S('i gallador. 

Terminando este processo deita-se a gallinha, e ao sahir os 
pintos ó bom queimar-se as cascas dos ovos. 



FOLK-LORB PERNAMBUCANO 59 

Ha uma circiimstiacia quo grandemente concorre para o 
bom êxito de uma deitida do gallinha:— ter bôa cabeça. .. 

Os ovos da Hora, isto é, 03 ovos >ie gallinha, postos no dia da 
líora, ou da Ascansão do Senhor, om maio» e espeeialmente os 
que forem postos do meio-iiá á uma hora, gozam de ama virtu- 
de singularissima, consorvamse por muito tempo tãd frescos 
oomo si houvessem sido postos recentemente, e absolutamente 
nSo se corrompeTi ; e por fim seocam a gemma e a clara, for- 
mando uma eipocie de massa compacta, que dissolvida em 
qualquer bebida ó Jnfallivel romedio contra a embriaguez. 

Faz mal comor gaiiinha choca porque produz fome canina, 

Ogallo, dono do terreiro, absolutamente n^ se mata, por- 
que ô m&o agouro para o dono da casa ; e quando uma gaiiinha 
cantar como o j^allo, deve-se immedlatamente matal-a; quando 
briga com outra, porém, ésignal de visita. 

Cantar o gallo durante o dia por algumas vezes, ô máu 
agouro ; precisamente ao meio-dia, (^ moça í\igida ; ea desho- 
ras, signal do casamento. 

Quando uma gaiiinha está com ovo e custa multo a 
pôr, deita-se um indês no ninho, isto é, um outro ovo, como que 
para animar ou provocar a demorada poâtura ; para endireitar 
um ovo virado, basta pendurar a gaiiinha pelos pés na chave 
de uma porta ; e para que uma franga, ou mesmo uma gaiii- 
nha que acabou o choco, comece logo a p(')r, arranca-se-lhe as 
penas do rabo, pronuncianlo-se ao tirar de cada penna a conhe- 
cida phrase — crescer p*ra pôr, . , 

Aos rapazes que apalpam gallinhas n^o nasce barba. 

Um poeta nosso, em um sonotoem que prescreve o Reme 
dio para não niscer hnrba, piiblicado n'0 Carapuceiro, em 1838, 
conclue com o preceito : 

E basta que em pequeno empi*egue um dedo 
Rapaz implume em apalpar gallinhas. 

Com relato aos animaos, ^o intor(^s<antes estes proloquios 
populares: 

£* indicio de máu caracter, fazer mal aosanimaes. 

Na casa de Gonçalo, a gaiiinha manda mais que o gallo. 



60 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

Qaeoi come a gallinha magra paga uma gorda. 
A gallioha da mlaha yisinba ó maia gorda que a minl;a. 
Viva a galliaha oom a sua pevide. 
QaKioha preta põe ovos brancos. 
De grão em grSU) a gallinha enche o papo. 
Na sombra da gallinha o cachorro bebe agua. 
Cachorro coto não passa pinguella. 
Nâo se amarra cachorrp com linguiça. 
Um cão damnado, todos a ello. 
A grande cão, gran4e osso. 
Cachorro que muito anda, apanha páu ou rabugem. 
Cão que muito ladra n&o morde. 
Um dia, um dia, cachorro de paca mata cotia. 
Quem n|o tem cão caça com gato. 
Gato escaldado de agua fria tem medo. 
Gato quando não morde, arranha- 
Gato escondido com o rabo de fora. 
Tirar com a mão do gato. 
Da casa de gato não sahe rato farto. 
Gato muito mi^or é pouco caçador. 
Para bitrro velho, capim novo. 
Cavi^llo velho não ton^a andar. 
Cavallo que não dá para sella, bota-se-o na cangalha. 
Cavallo d&do não se lhe abre a bocca. 
Cavallo pelado não salta vallado. 
Cavallo grande, besta de pàu. 

Por uma besta dar um couce, não se lhe corta a perna. 
Praga de urubu magro, não mata cavallo gordo. 
Urubu pellado não vôa em bando. 

Quando urubu está caipora, não ha galho verde que q 
aguente. 

Boi solto lambe-se todo. 

Boi aperriado di em arremetter. 

Camarada 6 boi de carga. 

Poi* òndè passa o b(9i, passa o vaqueiro com o seu cava|lo. (*) 

(1) Annexim do sertão, porque o sertanejo, na phrase de Eacli« 
desda Ganha, não ba dlfficuldades— que %i Ibe antolhem, quebradas» 



FOLK-LORE PERNAMBUCANO 6l 

Onde se mata o boi ahi se esfolla. 

Guariba quando se remeche, quer chumbo. 

A ovelha mansa mamma na sua teta e na alheia. 

Uma ovelha má deita um rebanho a perder. 

Macaco velho não metto a mSLo em cumbuca. (^) 

Cada macaco no seu galho. 

Quem nSo quer barulho com jacaré, tira o covo da agua. 

Em terra de sapo, de cócoras com elle. 

Cobra que não anda, não apanha sapo. 

A primeira pancada é quo mata a cobra . 

Doistatrts machos não moram cm um buraco. 

Dois bicudos n2Lo se beijam. 

Em festa de jacaré não entra nambu. 

Pela bocca morre o peixe . 

Traíra não come a seu parente. 

Com mel se pegam as moscas. 

Não se apanham moscas com vinagre. 

Bocca fechada não entram moscas. 

Papagaio que fala muito, vaopara Lisboa. 

Papagaio come milho, periquito leva a fama. 

A formiga quando quer se perder cria azas. 

Não se apanham trutas a bragas enxutas. 



A phantasiosa c fervida imaginação popular tem feito do 
Diabo um dos personagens mais notáveis dentre os que figuram 
no immcii jo coocorto das suas creodíces o superstições ; o que, 
comtudo, não chegou ao des vai ramen to de tributar-se-lhe um 

acervos »le peJras, coivaras, nioutas íIcí espinhos ou barrancas de 
ribeirões, nada ih» inip3de oncalçar o gJ^^ot^í — nas suas montarias 
de pega do iralo bravio, extraviado. 

(1) K>tc aiincxim muito vulgar em todo o Brazil, quando se 
quer dizer, que »• muito dillicil illudir o enganar a nm homem 
experiente e reflectido, ó de origem tupy, como diz Cjuto de 
Magalhães, que o encontroa até rimado, o diz sssim : — Ma(faca 
tuiuè iifti omundéo i pó cuiambisca oj)t:, — annexim que c, verMim 
dd cerbumy o mesmo de (^u<* nos servimos em portujruez. 



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■cpBh^ikí àr lurnmu :>íaB:iii9C%.*ÂH iosl;ctu MMxrmãMM paios 

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« '. 3£ TiQi» !{(.=}»!.:*:. Â.« ru» o; ^rsaataoo alli douii* 
^•^«^« -> jfTi^'^^ ms^ ^*-3iiÃà Ml :t.«2c Bji arralnliec da po- 
vi*pLx'. •» ;os i»ívi& z^ lâ.u: :v-)Il;«i^' òí jiBimai;. e pregoa qoe 
X»aBH ^jtf ^«fiK--&.-A ^*& ;ar -..^jSKac hms m>TiAadei, por- 
fK ftçníDB cr& :■ v^ \ji.:a jcáic m>'k-« 45 mm itfliai, o oomo 
a «BTTfc ^ Bc: n^hca a ^.«a*. 5:iins tis 7c«^J« oi q«e içaram 
«■ 2uer a na r.-aar. :. & «mi!-;; 

« Et^oara : re.t uí»*i:iii. r'-..i, « vKirt-a a^ao se haTiam 
ét lacw ai aerKs.-ii* á^ -f ...:L. ;aí vcn rav;:^» de bailar 
:« i.A e i-r =x~.e. .k::' ;a* as a^ridades eatl- 
Isra». e » ;^' r^^c^^a/:: e >w.:^a ia dança hariain 
k* :• AA:: z: i^^ *ÍT3k^\L.- ir-rj. ;je oaTiram ao 

€ TiTÇTàZ- > pki^i? r^-vr*i i. ^;>à:. .:. f^^ráiu K<\> queimar 
• jéfi«o.c iíTiiia: tn teu .o*.-: ,- a :rai .h»::- e oaira Itaa; 
■ai. 10 á.a tenii'ic. ^:-iii<>oe:...*. Ã-:.:«às x- crazt« feitas em 
p«p&a<i>9f.> 

ó í^r^í» la:».' e \ig..:'. iât? .i. ;•. : V:í::í : 

« L 3 ».aipbemj cbe^u a d^er em pc\e^^açA àe muiiof, que 
aio tmba ooiro De^j aioi? o TiaSx :ni>, permiUia logo Haas 
qas experiíMatusí» ea si iq^-tk». qtiMB «^r \ .v) i>4le por quem o 
tr^iTA. para . aTú^-o &« 1 v Jo» w>u:r.« ; :« o uuham ooTíde. 




rOLK-LORE PERNAMBUCANO 63 

« fiatrou uollc o Demónio tão furioa e desesperadamente» 
que se despedaçava a si, o quando entrava fugiam todos delle, e 
Qão bavla quem lho parassa diante. Pizeram-lhe os padres os 
exorcismos por espaço do oito dias, com que o largou o Demónio 
por então, posto que depois tornou por vozes a atormental-o, 
mas, já com menos fúria. 

< Picou tào ensinado com este castigo, que dalli por deante 
não sabia de casa dos padres, nem da egreja ; e andando sempre 
armado com as contis ao pescoço, deu publica satlsíSMáo ao es* 
oandalo que tinha dado, protestando quo estava fora de si, e 
pregando em toda parte que a divindade era só Deus, e o De- 
mónio a mais mofina de todas as creaturas, e a mais abomi- 
nável.» 

O Diabo, segundo a sua pbysionoiuia pbysica e os seus pre« 
dioados moraes traçados pelo povo nos seus contos, ditos e anne- 
xins, é sujo, coxo, muito sório e taciturno, triste mesmo, não se 
ri absolutamente, e não /uz graças para ninywêm se rir. 

Essa sua tristeza, immensa e doce, ô talvez a nostalgia do 
céo,— de onde foi expulso pela sua rebeldia contra o Creador, e 
precipitado nos abysmos do inferno, elle, acOo de primeii*a hie- 
rarchia, o Lúcifer querido de Jehovah, cujo nome quer dizer :— 
o que leta a luz d estrella da manhã. 

Segundo pailherme de Paris ( Qnilhiermus Parisiensis }, o 
physico do Diabo — não ó precisamente como o nosso, mas apre* 
senta muita semelhança.— O homem branco diz que elle ó 
preto, da\ôr da noite, naturalmente para o não ver com eguai 
còr ; o os africanos, ao contrario, acaso levados de iguaas senti, 
mentos, dizem que elle 6 branco, de alvura de neve. 

Apparecc sob formas diversas para tentar e perder as crea- 
turas, mas, quasi sempre, sob a de um moleque, um gato preto, 
ou comosecostumacommummente reprec$entalo, um homem 
vermelho, de chavelhos, rabo, pés de pato o azas como as do 
morcego, e de uma catadura horrível; a Mythoiogia, porém ^ 
dandolhe o nome de Plutão e a soberania dos infernos, pinta-o 
de negro, e tão feio, que não achando mulher algama qae o 
acceitasse, raptou a Prosérpina, (ilha de Júpiter e de Ceres» 
quando estava colhendo ílores nos prados da Sicilia. Mas, o Diabq 
nõo è ino feio como o pintam , }>cgundo um pfoloquío popular, e 



64 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

Milton o pinta mesmo do uma deslumbrante belleza no seu Pa- 
ra iso Perdido, 

Os chavelhos e o rabo que traz o Diabo foram peitos por 
Deus para o assignalar de modo a tornal-o conhecido em qual- 
quer parte que apparecer ; e para ser logo presentido ao appro* 
zimar-se atou-lhe um chocalho ao pescoço. 

Magoado o Diabo com aquelles signaes, pediu humildemente 
a Deus que lh'os tirasse ; e nâo sendo attendido, supplicou, que 
lhe desse, ao menos, qualquer cousa para os encobrir. 

Acquiescendo Daus a esse pedido, deu-lhe uma cax>a, porém 
muito curta, e sem capuz, de forma que, quando o Diabo põe-n^a 
sobre os hombros, apparecem-lhe os chifras ; e quando a colloca 
na cabeça, âca com o rabo de fora. .. E assim explica a legenda 
esses srignaes caracteristicos do anjo das trevas. 

Ha também diabos pequeninos, e um desses é o conhecidis« 
simo diabinho da mão furada^ de uma travessura enorme ; e bem 
assim, como refere Lopes Gama, diabos fêmeas, chamadas sue- 
cubas, e uns diabretes com o nome de incubo, que íázem foscas 
ás moças. 

A legifto de demónios 6 numerosíssima. 

Sogunio JoEo Wyar, celebre medico de Cleves, do século 
XVI, a monarchia do inferno consta de 72 príncipes diabólicos^ 
os quaes têm sob as suas ordens 7.405.026 súbditos ; porém, se- 
gundo Guilherme de Paris,— que procedeu a um calculo, que 
afflrma ser exacto, existem nada mais nada menos de 44.435.556 
diabos, que um escriptor hollandef, a seu turno, assevera ser 
ainda muito inferior d realidade, 

A Chorographia dos Estados do Diabo ô conhecidíssima, graças 
á sua vulgariza^ por Jacques I da Inglaterra. 

A genealogia do demónio, não se o encarando sob o ponto 
de vista mythologico, é completamento desconhecida, e apenas 
consta, que a sua progenitora tinha o nome de Joanna Padeira^ 
acaso por se incumbir do fabrico do pão no inferno para alimen- 
tação da grei demoníaca ; e dos seus caracteres physicos, que 
tinha ella o nariz defeituoso, porque o Diabo tanto o endireiiou 
até que o pôz torto ; e por fim cahiu victima do próprio filho quo 
a matou com um cano de espingarda, segundo uns, ou de bota, 
segundo outros. 



1'OLK-LOKK l^BRNAMmCANí) 65 

Comrelação, porôm,d expulsão do demónio do Paraíso, mo- 
tivada pela sua p»}l)eldia contra Deus, refTG-seá mesma his- 
toria narrada pelas Kácripturas Sagradas. 

Uma vez na t^rra, scrvindo-nos a^jrora de um bello conto 
de Eça de Queiroz sobre O Sevlior Diabo, teve cllo profissões di- 
vei*sa3. Em Babylonia, 6 jo-ra-lor. pallrivo, carrasco ; foi moe- 
deiro falso em companhia de Felippo I, do Luiz Vil, o do Hon- 
riquo II ; e em todos esses desvios chegou mesmo a ser ladrão, 
roubando as gallinhas do abbadede Cluny. 

Nasaa vida de -travessuras — ó envonenador, impostor, vai- 
doso c traidor, o todavia em certos momentos da historia é re- 
presentante immenso do direito humano, quer a liberdade e a 
fecundidade, a força e a lei. 

Libertino, diíVamador, namorado í^entil, teve amantes ce- 
lebres, como na antiguidade a mÂo do Cos ir, e na eJado média, 
a bella Olympia; na Escoei j, na Op.jci do uma grande penúria 
nas regiões montanhosas, comprava por quiuzo scliillings o amor 
das mulheres dos highlandcrs, e pogava-lhes com o dinheiro falso 
que fabricava com aquelles soberanos, cora o mosmo cobre do 
que se faziam us caldeiras onde eram cozidos vivos os moedoiros 
falsos ; dirigia cartas repassadas de amorosa ternura ás freiras 
dos convento 3 da Alloraanhi, o no século XVI — tentava com 
olhares cheios de sol as mães melodramáticas dos Hurgravcs; em- 
fim, tantas artes fcz, que 89 viu forçido a casar ao Brabanto 
com a íilha de um mercador. 

Foi elle que inventou os enfeites que c ilangueceiíi a alma 
c as armas que ensanguentam o coit o ; —o são do sua creaçáo 
03 animaesdamninhos do tola espoei o. 

O diabo, nas suas múltiplas Ijgendag, <• de um cu'ac",or in- 
constante, e cheio de contra-licçoos.— Aconselha a Cliristo quo 
viva, consulta Aristotolcs c Santo Agostinho, defende a egreja,- 
} no sccalo XVI é o maior zelador da colhoita dos dízimos; lô a 
Hblia no próprio texto hebreu, e canta psaJJiios na egreja de 
Alexandria ; do noite, cangado o empoado, bato á porta dos do- 
niniquinos em Florença, o dorrao na colla com Savonarola, 
endo antes jogado com os Ira los momUcantes nas encruzilhadas 
a Allemanha, sentado na relva sobre a sella do seu cavallo ; o 
orno contraste de tudo isso, tenta Eva no paraiso, metamor- 
St9^ — ."» Tomo lw. r. ii. 



6G REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

phoooado om sorpcnte, engana o prophota Daniel, apapa Job» 
tortura Sara, e intenta processo contra a Virgem Maria ; tortura 
os santos e os monges do Occidento, escarnece S. Macário, e parm 
tentar Santa Polagiaofferecelho ramalhetes de cravos; espicaça 
os olhos do S. Sulpicio, combate o sacerdócio e a virgindade, e 
aconselha aos mysticos que entrem na humanidade. 

Um dia, chegou o tormo da existência do diabo, e elle morre 
em odade provecta, esquecidamente ; e Eça de Queiroz, como que 
traçando a necrologia do Senhor Diabo, assim diz dos últimos epi- 
sódios da sua vida— trágica, luminosa, celeste, grotesca e suave : 

« Nos seus velhos dias, elle que tinha suppliciado Judas, que 
vendeu Christo o Bruto, que apunhalou César, conspirando contra 
os governadores da Allemanha, inspirando os juizes de Soerates, 
discutindo com Attila planos de batalha, deu-se ao peocado da gula. 

« E Rabelais, quando o viu assim fatigado, engelhado, calvo, 
gordo e somnolen to, apupou-o. 

« Então o domographo Vier escreve contra elle pamphletos 
sanguinolentos, e Voltaire criva-o de epigrammas. 

€ O diabo sorri, olha em volta de si para os calvários de- 
sertos, escreve as suas memorias, e num dia nevoado, depois de 
ter dito adeus aos seus velhos camaradas, — os astros, — morre 
enfastiado c silencioso. 

« Beranger escreve-lhe o epitaphio, os sábios e poetas cele- 
bram a sua morte, o os monges orguom-lhe estatuas. 

« Procul ensinou -lhe a substancia: Pressul, as suas aventuras 
da noite ; S. Thomaz revelou o seu destino ; Torquemada disse a 
aua maldade, o Pedro de Lancre, a sua inconstância jovial ; João 
Dique escreveu sobro a sua eloquência ; Milton disse a sua bel- 
leza e Dante, a .sua tragedia. » 

Mas osso, foi o diabo de lá, das sombrias e nebulosas regiões 
do velho continente. O nosso, porém, não morreu ainda. Reco- 
lteu-3o á vida privada, como os vellios e cangados políticos, mas 
do vez em quando dá-nos um ar da sua graça, e apparece-nos !• .. 

Das apparições do diabo, entre nós contam-se innumeros 
factos revestidos de todas as suas circumstancías e minudencias ; 
porém, o que é particul irmente, e insistentemente narrado pelo 
populactKs é que todo aquelle que quer buscar venturas, vae & 
Cruz do Patrão, no isthmo do Olinda, e á meia noite em ponto 



FOLK-LORE PERNAMBUCANO 67 

invocando a Satanaz, acode elle immediatameate, surgindo das 
entranhas da terra : e firmando o candidato um pacto solenne 
com o sangue das suas próprias veias, de Acar-lhe pertencenã o 
em corpo e alma,— começa a experimentar desde logo os prodigió 
do seu poder ! 

£' esse o diabo do Sabbath, uas legendas medievaes européas, 
—o confidente dos sorvos e dos feiticeiros da meia-noite,— que 
popularizou-se entre nós pelas migrações aryanas, apezar das 
condemnaçõei da egr(\)a, e das peaas fulminadas .pelo Regimento 
do Santo Officio da Inquisição —coxtra os que invocavam o diabo e 
tinham pacto com elle. 

Os que Irmam assim um pacto com o demónio vôm abrir* 
se-lhes» immeiiatamente, uma éra de feiiciiados e venturas, que 
perdura por toda a sua existência, e os mais exigentes e vai- 
dosos, curvados já ao peso dos annoi, voltam mesmo rejuvenesci- 
dOB e fortes para o completo gozo da vida. 

Os que assim pertencem ao diabo, quando morrem, vem elle 
carregal-os para o Inferno; e de muitos desses, referese o» facto 
de encontrar^se no caixão, como despojos mortae3« uma certa 
porção de pedras, porque o corpo tinha desapparecido arrebatado 
por Satanaz. 

A phrase muito vulgar áe— Diabo da Casa Forte,— logar 
celebre nos nossos aimaes pela batalha ferida, em IÔ45, contra o 
batavo invasor, vem certamente, do apparecimento e proezas de 
Satanaz na localidade. 

Nos nossos antigos fandangos havia uma scena final da ap* 
parição do diabo, e nas extinctas procissões de Cinzas figurava 
elle em lutas com o Anjo da Guarda, que armado de uma lança 
defendia as suas inv&jtiias contra os Santos Innocentes, a cujas 
acenas se refere um poeta do tempo, que descrevendo a procissão 
nenciona o grupo de Adão e Eva, e mais aquém 



ue» 



Um Anjo e Satanaz em pura essência, 



* sedento do carnageni 

guer a turba infantil ir immolando, 
M%s recua dum Anjo, ante a coragem» 



(jI RKVISTA I)() INSriTUTO HISTÓRICO 

o nosso chronisti Jaboatâj, na Estancia IV do sou livro de- 
dicado á. Capitania de Porto Sagiiro, trata muito seriamente do 
alguns caso3 de appariçOss do diabo no nosso Brazil, roferindo-se 
então ao Biibo de Palermo, que — deixava-se vèr em liorrivel 
forma, sobro o alto da cidade, todo fugoso, ameaçando estragos 
aos sGus moradores. 

ICssas appari(;õos do diabo em Porto Seguro, que o nosso 
chrouista minuciosamente relata, servindo-so de um manuscripto 
do fins do soculo XVII, tiveram logar na segunda metade do sé- 
culo anterior. 

Na Bailia teve o diab3 prolougidisáima residência e appare- 
cendo inesperadamente cm pontos diversos,— «punlia fogo a 
casas d vista do seus donos, que com diligencias atalhavam ; 
fazia furto de cousas diversas, que se viam ir pelos ares ; rompia 
as roupas era oá corpos que as vesliain ; perseguia a certos su- 
jeitos com ameaças o pancadas do pouco amor o assim outros 
brincos taes, do qiio Deus nus livre». 

iTopois disso, levantou o diabo os seus arraiaes da Bahia, e 
foi praticar as suas t/avossuras na Ilha de Santiago, onde dô- 
morou-se por trinta aimos, até quo aborrecido procurou de 
novo as terras do Hrazil e foi acampar na barra de Boypeba. 
Nesta localidade pouco dcmorou-so olle, o interrogado para 
onde seguia, ao fazer as suas despedidas de viagem, respondeu 
quo para os aposentos dos a&//5mo5,— ouviodo-so então um tor- 
mentoso estrondo, como do rijo pé de vento, e nunca mais se tevo 
noticia de tal espirito. 

E\ portanto, da passagem do diabo pela Bahia, quo vinha 
ainda nos tempos daquello nosso chronista (meiado do século 
XVI 11), falar-sc do DiuOo de Porto Seguro, onde teve longa re- 
sidência. 

E' tambe u da mo.sma época a âinxularissima legenda per- 
nambuc Ana do Padre do Ojvj, a que se roforom, incidentemente, 
o padre José de Anchieta nas suas Informações do Brasil, do 
anno do loSi, com o nomo de neriín nifjroniíniico, c contom- 
pòraneamenio Fernão Cardim, com o do Clcrujo portuijuez ma* 
(jico ; legenda essa que se prendo ao tempo do governo do se- 
gundo donatário Duarte Coellío de Albuquerque, nos annos de 
15G0 a 157;^. 



FOLK-LORE PERNAMBUCANO 69 

Ura outro escriptor do tempo, o historiador Frei Vicente 
do Salvador, refere-se, porém, particularmoate ao facto, o nar- 
ra-o dest3 modo^ depois de occupar-se das victorias conquistadas 
pelo donatário em varias campanhas movidas contra os índios: 
< A' fama destas victorias acaram todos os gentios desta 
costa, ató o rio de S. Francisco, tão atemorisados^ que se dei- 
xavam amarrar pelos brancos, como si fossem seus carneiros 
o ovelhas ; e assim iam em barcos por oí^es rios, e eram ven- 
didos pelos mesmos brancos a 2 cruzados ou mil réis cada 
uni, que ó o preço de um carneiro. Isto não faziam os que 
temiam a Deus, si não os que faziam mais conta dos interesses 
desta vida, que da que haviam de dar a Deus, e principalmente 
um clérigo qae veiu á capitania a quem vulgarmente chamavam 
o Padre do Ouro, por elle se jactar do grande mineiro, e por 
esta arte era muito estimado de Duarte Coelho do Albuquerque, 
que o mandou ao sertão com trinta homens brancos c duzentos 
Índios qae não quiz elle mais, nem lhe eram neces^rios, porque 
em chegando a qualquer aldeia do gentio, por grande que fosse, 
orte e bompovoaia, depennãva um frangão ou desfolhava um 
ramo e quantas pennas ou folh^xs lançava para o ar, tantos 
demónios negros vinliam do inferno, lançando labaredas pela 
bocca, com cuja vista somente ficavam os pobres gentios machos 
o fêmeas, tremendo de pôs o mãos, e se acolhiam aos brancos 
que o padre levava comsigo ; os quaes não faziam mais que amar- 
ral-os e leval-os aos barcos, o aquelles idos, outros vindos, som 
quo Duarte de Albuquorquo, por mais reprehendido que fosse 
de seu tio ede seu irmão Jorge de Albuquerque, do reino Jamais 
luiz atalhar tão grande tyrannia, não sei si polo» quo se into- 
:*essava nas peças que se vendiam, si porque o Pcvb-ij magico o 
inha enfeitiçado ; e foi isto causa para que el-rei D. Sebastião 
• mandasse ir para o reino, aonde passou o morreu com elle 
m Africa.» 

Eis agora um facto singularissimo do apparição do diabo, 
a.rrado por Jaboatão: 

«Pelos annosde 1642, sentiu-se um soldado, que morava nos 

rredores de Ipojuca, bastaotemente vexado do demónio. Já lhe 

pparecia visivelmente, incitandoo a quo se enforcasse, o 

'gumas vezes o intentava o mesmo demónio, avançando a 



70 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

querel-0 siifTocar ; mas invocando o soldado a Santo Aatonio» de 
quom era particular devoto, se ausentava o inimigo. 

< Encontrando-se o soldado em uma occasiUo com um r^^li* 
gíoso franciscano, e communicando-lho as tribulações de sua 
vida, deu-Ihe o religioso um papel contendo uma oração e»- 
cripta, recommendando-lhe que a rezasse quando lhe appare' 
cesse o demónio, porque, graçis aos seus prodígios, se veria 
livre das suas tentações e assim succedeu, porque dahl por 
doante nunca mais lhe appareceu o diabo. 

« Reconhecido o soldado por um tão grande beneficio, 
foi um dia ao convento da villa procurar a esse religioso e 
entrando primeiro na egreja a fazer oração e reparando na 
imagem de Santo António no seu altar, reconheceu ser elle o 
religioso quo lhe havia apparecido. Deu vozes, acudiram alguns 
padres, o elle depoz perante todos o caso, e que o frade era 
aquelle mesiuo quo estava no altar, o glorioso Santo António.» 

Retomemos, portanto, o ílo do nosso estudo com relação aó 
quo sobre o diabo diz ainda o povo, entre n63. 

Para afugental-o basta apenas esconjuralo e apresentar-lhe 
o signal da cruz. Afasta-se imraediatamento e vae para o inferno, 
antro medonho a que o vulgo chama do Areias Gordas, sumin* 
do-se pela terra a dentro, quo se abre em abysmo, como 
que pavorosa cratera, para o deixar entrar, ouvindo*se então 
um grande ruido como o do trovão, cujas detonações são acom* 
panhadas do chammas esverdeadas, quo irrompem e se elevam 
em espiraes, desprendendo espesso e suffocantc fumo de um 
activíssimo cheiro de breu... Além de taes recursos, o demónio, 
por e.rperiencia certa, na phrase de nosso chronista Fr. Vicente 
do Salvador, tamhem se afasia com as suavidades das Jiarmonias, 

Foi para afu^fcntar os demónios e allioiar as consciências 
dos peccadofi venioes, que o papa Alexandre I ( século segundo ) 
ordenou ([ue houvesse agua benta ds portas das egrejas o casas 
particulares. 

Os Índios Tapuias criam também no diabo, invisivelmente, 
ou manifestando. se mesmo sob formas ri iiculas, como mosquitos*' 
s.ipos, r.itos o outros animaes dcspresiveis, taes refere o padre 
Simão do Vascoucellos. A esses espíritos mãos chamavam elles 
Jurupari/ ou Anhangá, 



Í-OLK-LORE PERNAMBUCANO . 71 

Os negros africanos trouxeram-nos também o sen contingente 
de superstições, e si tinham vagas noQões de um ente supremo, 
tinbam-nasy p^réJi, poâi ti vãmente, de um génio máo, o seu Ca- 
riapemba, o próprio diabo das universies legendas. 

Esse C<iriapemba dos escravos africanos ora do feição 
egual ao demónio do todos os povos. Perseguia-os de um modo 
atroz, apparecia-lhos visivelmente, e introduzia-se nos seus 
corpos, tornando-os ondcmoniados, endiabrados. A esse pheno- 
meno chamavam elles mútu gud Cariapemba^ e depois do seu 
Qontaotocom os portuguez.?s, possessos, energúmenos, terriveis ; 
ou os arrebatavam, conduziado-os aos seus antros horriveis, a 
ciigos individues chamavam elles. amucutucumuca rid^ Caria" 
pemba^ — o arrebatado do demónio : gud Diabu^seguado Canne- 
caiilll no seu €Diccionario da língua bunda oh angolenco, 

O diabo apparece furtivamcnto, illudindo a vigilância dos 
archanjos, que o trazem sob as suas vistas, armados de âamme- 
Jantes espadas ; mas, no dia do S. Bartholomeu, :v 24 do agosto, 
aoltu-se. Iicen:iadamente, e Aca em plena libordaie. Por isto ó 
pradenio a gente provenir-sj para não cihir nas suas ciladas. 

Ne^se dia as crianças ficam muito inquietas e desenvoltas 
por tentado do demónio. . . 

' E' máu pisar a sombra de uma pessoa, ou brincar com a sua 
própria, porque é brincar com o diabo. 

Ha gente que tem parte com o demónio, e fala mesmo com 
elle, mas ninguém o vê, sinão o próprio individuo com quem se 
coramunica. E* dahi que vem o dito popular: ^Quem fala sò, 
fala com o demónio, — - Os maçons ou pedreiros livres são desses 
que tém parte com o diabo, falam com ello d meia-noite e têm 
o mesmo cheiro de breu. 

O demónio, quando quer perseguir a algucm meite-se-lhe no 
couro, do que resulta uma completa demu tacão no physico e 
moral dessas creaturas endemooiadas, e até mesmo toroam-se ir< 
requietas e turbulentas ; o só sai elle mcdianto os exorcismos da 
3greji,de um certo ceremonial solenno,mas furioso, enraivecida» 
nente. .. Ouvtí-se então um ruido medonho, treme a terra e o 
;empo obscurece, sonte-se aotivissimo cheiro de breu queimado, 
) o Qporgumeno livro assim do diabo no couro, torna-so imme- 
UatamentQ ao seu natural estado de mansuetude e placidez. , , 



72 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

Mas, apezar do expulso o demónio do corpo humano, nem 
pop isso a cura é radical, porque na pbrase do riftto, a qvem o 
Diabo toma uma vez^ sempre lhe fica o geito. 

Os exorcismos observados para — deitar demónios fôradcs 
corpos humanos, — somente a ogreja os pó ie j)raticap, por par- 
ticular e exclusiva competoncia ; e destarte a Comtiiuição do 
Arcehisf)ado da Bahia, do qual é suffraganeo o bispado do Per- 
nambuco, absolutamente veda aos seculares a pratica do seme- 
lhantes exorcismos, sob pena de oxcomraunhão maior t;)$o fatio 
incurrenda, e mais vinte cruzados do multa. 

Apezar disso, perdeu a egreja esse privilegio, em face do 
uma formal resolução decretada pelo Marquez de Pombal, su- 
premo ministro em todo o reinado de cl- rei D. José, pela qual, 
na phrase do um historiador portugaez, — *prohibiu os exor- 
cismos, que 03 fanáticos olhavam como romedio único da egreja 
para curativo dos malefícios c endemoniados, ou possessos». 

São innumeros os casos de endemoniados que o povo narra, • 
revestidos todos de minudcncias e particulares circumstancias, 
e longe iriamos si nos dotive^semos, ainda mesmo em uma 
simples enumeração. Entretanto, como uma nota curiosa sobre 
tão extraordinário plienomeno, llmitarao-nos apenas a regis- 
trar o seguinte, ingenu'\meiite narrado pelo nosso chronista 
Jaboatão: 

« No tempo em quo os hoUandczes occuparam esta terrado 
Pernambuco, succedeu no convento do Santo António de Ipojuca 
um caso notável, o qual foi, que estando uma moça endomo- 
Díada, dizia o demónio, quo estava nella, que não havia do sahir 
do seu corpo, sem o lançar dello fura um religioso daquelle con- 
vento chamado Frei Pantaleâo de Santa Catharina ; o chegando 
o frade aonde estava a enferma, e mandando ao demónio que 
sahisse de seu corpo, sahiu elio logo. Porém, dahi a algum 
tempo tornou a entrar na dita moça, repetindo, que levassem 
do novo o mesmo frade para o lançar fora. 

« Conduziram a ondemoniada á egreja do convento, e achan- 
do-se presentes alguns dos hollandezos que estavam de guarda 
em Ipojuca, começou o demónio a falar a língua hollandeza pela 
bo(^ca da moça, o a patentear os poccados que tinham elles com- 
mettido aqui no Brazil e na sua torra, de que ficaram mui M- 



FOLK-LORE PERNAMBUCANO 73 

mirados, e disseram, quo sem duvida alguma era o diabo que 
assim falava. 

< Depois disto chegou o frade á egroja, e perguatando ao 
demónio, porque tomara a entrar naquelle corpo, respondeu, 
que tornara a entrar pelo pjiico caso que se fizera daquella obra 
do Deus, e lho não pediram signal algum para o porem em me- 
moria no altar de Noss v Senhora ; o que ouvindo o religioso, 
disse, que si assim era, sabisse logo daquelle corpo, e dósse 
signal ; e immod latamente a moça lançou pela bocca um annel 
de azeviche, que se pez no altar de N. S. da Conceição, em me- 
moria daquelle milagre, o o demónio sahiu fora do corpo da 
moça, e nunca mais tornou a ello, e dahi por deante tiveram 
os hollandezes grande veneração e respeito aos nossos reli» 
giosos. » 

Pormenores particulares e interessantes sobre esse extra- 
ordinário phenomeno devo fornecer, sem duvida, um códice ori- 
ginal, que se conserva no Museu Britannico, em Londres, e que 
somente de titulo o conhecemos: — iVb<tcta que dá o lilusiris' 
5t»io Bispo do Maranhdn, Dom Frei José Delgarte, de uma ener* 
Ifumeiía no any\o de i095. 

O diabo tem duas capas, e encapa quanta marotoira se pra- 
tica por esto mundo afora, mas, 6 prudente não confiar dema- 
siadamente nelle,' porque « o diabo tanto encapa, até que um 
dia desencapa», descobrindo assim a todos esses embusteiros o 
mazellentos. 

O diabo reza também, condescende mesmo com as crenças 
oppostas pela sua rebeldia, do que resultou ser expulso do Pa- 
raíso ; quando quer alliciar uma crcatura ao sou partido e perder 
uma alma, e por isso previno o provérbio: -^Qifando o diabo 
reza, enganar te quer,^ E não raro consegue com as suas arti' 
manhas, por artes do diabo, raetter-so em casa, occultar-l6 atraz 
da porta, o muitas vozcs unir a certos individues, em seus 
interesses, de nada lhes valendo ser feitos por Deus, porque 
assim mesmo — o diabo os ajunta, 

£*, porém, muito sóbrio, e quando tem fome come moscas. 

São innumeros os nomes usados para designar o diabo, taes 
como, historicamente, Anjo mau, ou das trevas, Belzebuth, De- 
mónio, Lusbel, Satan, Lúcifer, Asmodeu e Satanaz ; mythoto- 



74 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

gicamente, ode Plutão, tendo a Pluto por sea ministro na sobe- 
rania dos infernos ; e na bocca do povo: Arrenegado, Cafata, 
Cafatinho, Cão, Capataz, Capeta, dondo vem o termo «neapc' 
lado. Demo, abreviatura de Demónio, Droga, ExcommoDgado, 
Perrabraz, Fúria, Fute, Inimigo, Maldicto, Mofino, Não sei que 
diga, Pó de pato. Tição, Tinhoso, Tisnado e Sujo : e emílm, 
usa-se do termo diacho, corruptela de diabo, para amenizar a 
sua expressão perante pessoas de respaito. 

Apezar das suas travessuras — o dixbo não é mdu e ajuda 
aos seus, — como diz o proloquio. Entretanto, não é bom comer 
o pão que o diabo amassou, e pintal-o mesmo, porque, — quem 
eom o diabo andn^ com o diabo acaba, e quem diabos compra 
diabos vende ; —mas, convém ser-se sabido e experto nos negó- 
cios: — Quem d besta pede a Deus que o mate^ e ao diabo que o 
carregue.— O contrario será represontar-sc o triste papel de 
um pobre diabo, carregado de esteiras velhas ^ e cahir-se nos mÒ« 
tojos o irrisões de um pobre diabo. Comtudo, convém nio es 
quecer, que o mal ganhado o diabo leva, nem tão pouco o ódio 
que vota ello ao avarento, porque «^c^a pataca do sovina^ tem 
o diabo três tostões e dez réis, 

Apezar de tudo isso, participa ello dos fructos dos nossos 
labores e fadigas nas luctas da vida, porque afinal do contas— a 
gente trabalha para Deus, para si e para o diabo. 

£* bom evitar-sc sempre as demandas e questões, quando 
se encontra com um desses omperralos e teimosos que se nio 
convencem e nem se rendem â razão, nem mesmo que o diabo es» 
toire ou toque rabeca, attendendorse a que, — quem anda em de» 
manda, com o diabo anda ; — p9Ío que, muitas vezes SUCcedo 
baver o diabo n quatro no calor das contendas ; e si porYentnra 
n&o triumpham a razã) o a justiça, rcsigne-soo perseguido, que 
será vin;j:&do pelo próprio demónio, porque — quem dece a Deu» 
paga ao diabo. 

Convém não ser andojo o vivor poli casa alheia, porque 
—cada um em sua casa o diabo n'o tem o que fazer ; — e ter-80 
convicções firmes, inabaláveis, c não andar-se com uma vela 
aecesa a Hcus c outra no diabo Km todo raso ó prudente wiver 
bem com Deus r f>cm com o diabo, porque — o diabo não é tio 
mdu como se di9. . • 



FOLK-LORE PERNAMBUCANO 75 

Doye-S3 evitar sempro as companhias e certos negócios em 
que figurem tres individuo *,, p.)rqu3 três o diabo fez ; e fagir de 
certas cousas como— o diabo foge da cruz. 

Mas, apezar de tudo, -conclui mos CQm q3 ecbos do provérbio: 
^Yívíi Ofi45 ç morra o diabo ! 

# » 

Por um phenomeno de assimilação lavra no animo popular 
a cronça do myriades de espectros, fadas, visões e apparições ; 
da espirites, almas penadas, anjos, demónios o bruxas, e parti- 
cularmente os mythos do Lobishomem o da Cabra-cabriola ; 
uns mensageiros do bem, outros de -males terríveis, e algund a 
infundir o medo e o terror ás criíinças, com o fim de as tornar 
dóceis e boas, e dahi ess ;s legendas medievaos — das aventuras 
extraordinárias, dos fatídicos terrores da meia-noite, que evocam 
as danças macabras, em noites do Walpurgis, dos espectros que 
tripudiam rangentes e alvejantes nos sudários ao lividb luar 
dos velhos castellos roqueiros, onde sibila o vento das tempos- 
tades tenebrosas, o onde gemem invisíveis as larvas do mys- 
terio. 

O mytbo grermanico dos vampiros,— cadáveres que se le- 
vantando das sepulturas pelas horas silenciosas da noite, e 
deslisando vagarosamente, como phantasmas que são, se en- 
tretôm a chupar o sanguo da humanidade até uma hora antes 
de nascer o sol, cujas victlmas apresentam um caracter som* 
T)rio e melancholico, emmagrecem visivelmente de dia para dia 
^ por fim morrem extenuadas — não é absolutamente conhe- 
^sidocmtre nós. 

M is, da mesma espécie do vampiro, temos as bruxas e as 
^luarochas, quê atacam as crianças, de preferencia as que estão 
^^Doi* baptisar, quando no aposento não ha luz, porque somente 
^«^as trevas podem praticar os seus intentos:— chupar-Ihes o 
^tanjTue. 

No caso do repetidas investidas começam as crianças a em- 
X>íillidecer, a definhar, o perecem por fim, sem molostia mani- 
Tostadamonle conhecida, e som mesmo aiinar-se com a causa 
oíficiente da sua morte, ate que apparece um entendido, ge- 



76 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

ralmente uma velha beata e cavillosa, que, convenientemeDte 
informada, firma o diagaostico— das bruxas ou carochas... 

Para evitar, porôm, esses ataqdes tâo nocivos ás crianças, 
aconselha a superstição popular, que ô bom traçar-se na porta 
do qaarto em que dormirem ellas, um signo-salomonioo, isto é, 
uma espécie de estrella de seis raios, formada pjr dois triân- 
gulos, oonvenientemeate dispostos, 

A superstição da bruxa vem dos romanos. 

Km tempos de um fanatismo estúpido e sanguinário, colhe- 
mos algures, fisaram-se morrer muitíssimas dessas infelizes al- 
cunhadas de bruxas, pjtra as quaes havia reservados nos có- 
digos de todas as naçdes da Europa supplicios cruéis. No nosso 
paiz datam do principio do século XV as primeiras leis contra 
o bruxedo. Não obstante, tomou este notável incremento nos 
séculos XVI e XVII. No século XVIII começou a declinar ; e hoje 
apenas pelos recôncavos sombrios de antigos e cerrados bosques, 
ou em algum valle medonho e solitário, se deixa ainda, às ve- 
zes, entrever ao nosso povo aldeião, em noites tenebrosas, a 
sombra diminuída, quasi anníquilada, da velha bruxa. 

A legenda do judeu errante, o Ashaverus da Germânia, a ca- 
minhar, a caminhar sempre, desde quo encetou a sua intermi- 
nável jornada; bem como a dos gigantes, uns homens de pro- 
digiosa estatura, que habitam nas ruinas de monumentos alcan- 
dorados, em afastados e alcantilados sitíos, são vagamente co- 
nhecidas entre nós pelos tons fugitivos das suas lendas no animo 
popular. 

O my tho dos gigantes, sem nos preoocupar com as referen- 
cias bíblicas e mythologicas, o nem mesmo com as bellas legen- 
das e tradições maravilhosas quo têm gorado em todos os paizes, 
antigos ou modernos, cultos ou não, nos quaes são elles inva- 
riavelmente exhibidos com os mesmos característicos de uma co- 
lossal estatura, c como papões que devoram crianças, que têm 
reinos sem fim, ou passam rios o montanhas com uma só perna- 
da, chegou também entre nós, e no viver intimo dos nossos aborí- 
genes encontra-se o my tho com tolos os seus predicados e parti- 
culares característicos. 

Effectlvamento, era crdnça geral ontre elles a existência 
de uma raça oztinota de antiga povoadores do Brazil, ci^os In» 



FOLK-LORE PERNAMBUCANO 77 

dividaos, pela saa elevada estatura eram verdadeiros gfigantes ; 
crença essa, que encontraado-a os portuguezos entre os índios, 
adoptaram-na, o pela sua consagração nas ohronieas das primi- 
tivas occupaçces do paiz, chegou até os nossos dias. Fabulosa 
ou verídica, tem elia perpassado séculos, como a das Amazonas, 
que também cliegou aos nossos dias. 

Do par com as ci^ndices de aiem-mar, que nos troaxeram 
os primitivos cólon isadoi^es portuguezes sobre o mytho dos gi- 
gantes ; e o que, pela corrente tradicional herdaram os nossos 
aborígenes dos seas antepassados ; tinham também os negros 
africanos iguaes crenças, originarias do seu paiz natal, e fala* 
vam nos seus gigantes com o nome particular de tnuridiu ou 
yniriátu. 

O mytho do gigante entre os nossos Índios tinha a parti- 
cular denominação do Oahapora-uaçU, que quer dizer— o grande 
morador do matto,—sogundo Couto de Magalhães. 

KíTcctivamente, consigna a(iuollo cscriptor no seu bello 
livro, O Selvagem, uma lenda tupy sob o titulo —lauti Cahaporà' 
uaçii, o Jabuti e o gigante, cujo enredo é este : 

« O jabuti, que não tem fjrça physica, aposta com o gigante 
a ver quem arrastaria ao outro. Tomaram cada um a extremi- 
dade de uma corda; o jabuti devia puxar do dentro d*agua, e o 
gigante de terra. Aproveitandose desta circumstancia, o jabuti 
mergulha e amarra a corda na extremidade da cauda de uma 
balôa, e nadando para a terra por baixo d'agua, veiu se escon- 
der na margem, de onde presenciou a luta, até que o gigante 
reconhecendo que não podia vencer, deu parte de cançado ; o 
jabuti mcrguliiou de novo, o desatando a corda sahiu para a torra 
e cantou Victor ia.» 

Do gigante resta-nos ainda o proloquio — Pelo dedo se co- 
uhece o gt^anftf,— sem duvida de origem romana, em face do vul* 
garissimo brocardo latino:— J^lv digito gigans, 

O Lobishomenif que no maravilhoso da inuiginaçSo popular 
3 um homem extremamente paliido, magro e de feia catadura, 
3 producto, ou de um incesto, ou nasceu depois de uma' serie de 
sete filhos. 

Ente infeliz, condemnado pela sua desventura a divagações 
locturnas, até quebrar-seo seu encantamento, cumpre o seu 



1è REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

fadário em certos dias, sahiado de noite, e ao encontrar com nm 
logar onde um cavallo ou um jum3nto se espojou, espoga-ae 
também, toma a sua forma, o com3çi a divagar em vertiginosa 
carreira. 

Nesse seu tristissimo fadário, que começa á meia-noito e 
80 prolonga ató quasi ao amanhecer do dia, ao ouvir o cantar 
do gálio, percorre o Lobiâhomem sete cidades e chegando, de 
volta já ao Jogar do sou encantamento, espoja-sj de novo, re- 
toma a sua forma hnmana o recolhe-se á casa, abatido o exte- 
nuado de forças, entregando^se a um somno reparador, que por 
isíK) é prolongadíssimo. 

A passagem do Lobishomem é preseotida desde longe peio 
ladrar do cães, que em matilha o acompanham em persegui^, 
dando tempo, quasi sempre, a cada um fechar a sua porta pelo 
horror que eile infunde aos tímidos. Mas, si houver alguém da 
coragem, que so enfrente com o Lobishomem, e lhe faça um 
ferimento qualquer que produza derramamento de sangae, por 
pouco mesmo que seja, tira-Uie o encantamento e tomando elte 
Immediatamente a sua forma humana, acaba por uma ves o aea 
triste fadário. 

O Lobishomem apparece frequentemente nos nossos contoe 
populares como um monstro horrível, que inAinde terror às 
crianças, conseguindo-se com as suas narrativas aquietal-as em 
suas travessuras. Do um dessei contos que vogam entro nóê 
e tem por titulo •— O Lobishomem e a menina^ — consigna Sylvio 
Roméro estas cstrophes, por não so lembrar mais do seu todo* 
e nem lhe ser possível musmo conseguir da tradição popalar 
ama lição completa: 

— Monina você onde vai l 
<Eu vou á fonte. 

— Que vai fazer ? 
«Voa levar de comer 
A uiinha mãesinlia. 

— O que lovas nas costas? 
«jr meu irpíiãosinhu. 

— O qae levas na bocca ? 

€ £* oaehimbt de cachimbar. 



FOLK-LORE PERNAMBUCANO 79 



« Ai ! meu Deus do cóo, 
O bielio me quer comer I 
O gallo não quer cantar, 
O dia não quer amanhacort 
Ai, meu Deus do côo I » 



Qaasi qae deste mesmo género, figura ainda no animo po- 
pular am outro mytho, egualmente sob a forma de um monairo 
quadrúpede— a mula, geralmente, metamorphose da barregã do 
padre, e que, como o lobishomem, compre também o seu âi-) 
darioem ceruis noites, sentindose mesmo a sua passagem polo 
tropel vertiginoso da carreira com que oaminba, c o lúgubre 
tilintar das cadeias quo arr»sta, apavorando immensamente a 
quantos preçentem tudo isso. 

Do fatigante percurso dessas suas periódicas peregrina- 
ções» deixa vêr a mula, no outro dia, já tornada ao sou natural 
esta<]o« veliementcs signaes np seu corpo, produzidos pelas cal- 
deias que arrastara, o a lanc^uidez do cansaço pela sua vertigi-. 
nosa carreira a vencer e regressar de longínquas paragens nesse 
seu tristíssimo fadário, que ó como que se penitenciando do seu 
pecoaminoso viver ; e o padre, para purificar-se dos seus peoca-» 
dos, amaldiçoa a barregã no acto da celebração da missa, antes 
de tocar na bostia para a consagrar ! 

Tratando o padre Lopes Gama das superstições c crendices 
I>opnlare3 do seu tempo, diz o seguinte, sobre o assumpto : 

€ Entre nós, liojo mesmo, ( 1842) qual ó a velha, qual é o pae 
senhor, que não crê na. existência de Lobishomem? K como a 
respeito do mai*avillioso quasi toda a gente gosta de mentir, não 
falta quem jure ter visto os taes Lobishomons. Um affirma 
lue fulano de tal virava-so em burro, e assim corria seu fado ; 
)utro, qud conhecera certa amasia de um vigário, a qual tinha 
. bocea sempre esverdeada, porque mudava-sa em mula o anda- 
a pastando ; outro diz quo conhecera um homem que era lobis- 
omem, e transfigurava-se em porco. Certa mulher contou-me 
om toda a seriedade, que já vira uma sujeita, que em certos 
ias não se arredava da cama, sem ter iholestia alguma e toda 
aberta, porque estava virada em burra, e não queria que lhe 



80 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

vissem os cascos, as orelhas, etc. Dizem além disto, que toda a 
pessoa que se muda em lobishomem, vive amarcUa e espantada. i» 

E o populacho iugenuo repete tudo isso com inabalável con- 
vicção! 

Mais terrível que esses dois mythos, de muito longe impor- 
tados, e de muito loQgo conhecidos entro nós, ô a Cahra-cc.briola^ 
que para dar pasto à sua voracidade astuciosamente penetra 
nas próprias casas em suas excursões nocturnas, e devora os 
meninos qne encontra ; e por isso tem olles muito medo desfe 
horrível monstro, de enormes fauces e dentes agudíssimo?, a 
deitar fogo pelos olhos, pelas narinas e pela íjocoa. 

São innumeros o mui vulgares os contos populares em que 
figura a Cabra-cabriola, mas eete é particularmente seu: 

« Havia uma mulher qne tinha três filhos de tenra edade, e 
sahindo sempre ã noite para angariar meios de subsistência para 
elles, recommendava-lhes muito insistentemente, que se preve- 
nissem contra as astúcias da Cabra-cabriola, não abrindo a iK)rta 
sinfto a cila própria, cuja voz e toada particular perfeitamente 
conheciam. 

« Certa noite, poróm, chegado o monstro, bate & porta, e ig- 
norando o accordo estabelecido, pede como si fosse a mãe das 
crianças, que a deixem entrar ; mas, falando naturalmente com 
a sua voz forte, grossa e horrível, nada conseguiu das suas 
artimanhas, e saliiu desosperaúa bramindo : 

Ku sou a Cabra-cabriola, 
Que come meninos aos parc^, 
E também comerei a vó?. 
Uns carochínhos de nada. 

€ Retrocede depois, occulta se, e aguarda a volta da mulher, 
o com semelhante artificio aprende- lhe a toada, e repara bem 
no seu metal de voz. 

^ No dia seguinte vai á casa do um ferreiro, manda bater a 
língua na bigorna, e conseguindo assim modificar a sua voz 
tornando-a mesmo egual á da mãe dos meninos, vem á noite, 
espreita a sua sabida e depois, bate á porta cantarolando a co- 
nhecida toada : * 



FOLK-LORE PERNAMBUCANO 8l 

Filhinlios, fílhiniios, 
Abri-me a porta, 
Qu'eu sou vossa mâe ; 
Trago lenha nas costas, . 
Sal na moleira, 
Fogo nos olhos. 
Agua na bocca, 
E leite nos peitos 
Para vos criar. 

<^ E as pobres crianças na persuasão de que era a sua própria 
mãe que assim lhes falava, abrem pressurosas e alegres a 
poria, e inopinadamente acommettidas pela esfaimada Cabra-ca- 
briola, são todas devoradus por ella. » 

Ck)mo contraste, porém, de todos estes entes horríveis que 
intimidam as crianças e enchem-nas do mais profundo pavor; 
aurgem as fadeis bemfazejas, com todos os prodígios do maravi- 
lhoso, para enleval-as deslumbradas, ás esplendorosas regiões da 
phantasla. 

A fada ó uma joven mulher em todo o esplendor de uma 
peregrina belleza, risonha, loura, c do uma alvura ebúrnea, 
alada, e de vestes cândidas, diaplianas, e roçagantes, empunhan- 
do na destra a sua varinha de condão, Apparece quasi sempre a 
sós, inesperadamente, alguma vezes cm companhia de suas duas 
irmãs, o que faz lembrar as três graças da mythologia grega. 

Nas nossas legendas e contos populares, estereotypados dos 

intií^os romances portuiruezes, mesclados já do laivos orientaes 

)elaa phantasticas historias das MU e uma noites, e das legendas 

Tuzadinas da Terra Santa, o íâS vulí^ares nos serões infantis dos 

osifos lares, c nos que o— anthropomorphismo continua a ter 

arso, não somente entre as crianças, que sentem prazer para 

^uelles onde o vento e as arvores falam, e as estrellas se ca- 

im, mas, entre mesmo os próprios adultos, cujo espirito nunca 

')de subtrahir-so completamente ás influencias dos hábitos in- 

ntis ;— enconiram-so frequentemente o maravilhoso das fadas, 

10 íazem o horóscopo das crianças, transformam assombrosa 

rapidamente a seres animados e inanimados ao mais capri- 

oso desejo, a um toque magico da ^ua varinha de condão ; 

8593 — tí Tomo lxx p. ii 



82 nnvisTA ix) ivíítituto histórico 

ou traoBmittem aos seus eleitos esses prodigiosos poderes, graças 
a am talisman qualquer ; e vèm, ernAm, em auxilio dos infelizes 
o despreza* los da fortuna, a derramar sobro elles a cornacopia 
das suas gra(;*as, encheado-os do felicidades e venturas. 

No cjnto da Borralheira, por exemplo, o maravilhoso das 
metamorpbosea i'apidas, em que resplendo a belleza de par 
oom am fausto o riquezas de nm deslumbramento de pasmar, 
os poderes das fadas são de am prodígio magico e encantador, 
qao enlevam os espíritos ingénuos da Infanda, e ao adormecer 
acodcm-Iho ao cérebro os mais bellos sonhos, do uma phantasia 
esplendida, magica o deslumbfonte ! 

Acaso, porém, para inAindir nos corações infantis o espi- 
rito bemfazejo, in(Iammando-os á caridade, implantando-lhes os 
nobilisáimos sentimentos do altruísmo, avultam as legendas do 
apparccimentu de Christo, sob o aspecto de um pobre peregrino, 
velho e abatido, de longas barbas, arrimado a um bast&o, e co- 
berto do andrajos, a pedir esmola e poa<iada; e os que o aoo- 
Ihcm, complacentes c bons, recebem dos cóAia as recompensas 
das graças divinas : o dahi o preceito christão de dar potisaãtí 
aos púr^fjrinoít, e estes bellos conceitos da trova popular : 

guando Deus andou no mundo, 
A São Pedro disse assim : 
— Quem não quer pobres em casa, 
Também não mo qoor a mim. 



STio curiOiiit^flimas as suporstições populares com relação 
aos defuntos e almas do outro mundo. 

O cadavfír coll^^^^a-se de p<*3 para a rua, e na sua condocçio 
para .1 s<>pultura v:ii do p^s pira a frente, salvo o dos padr^, 
quo t«*in i:ompo::{tura oi»posu, om virtu.ie do preceitos eoelesias- 
ticoy. 

si o corp') lica mollt», «^ prenuncio corto de vir a alma do 
morto bnsoar pniximaiiK^nto alguém da familia, c o mesmo oe- 
corro (pirinlii : «m dn olli<>s a1iíM'V'j.s ; «' para evitar i^ísoalgaem 
osdevtí inchar. recitau«io -^ conhecida formula : — >"., ntcha a 
vlhos p^ra o m}wdf%, e abre^of para Deuê^ 



FOLK-LORB PERNAMBUCANO 83 

Quando am oadaver ó dado á sepultura, envolvido, não se 
tira a agulha que ooseu a ílaizenda ; e para não se ter medo do 
defunto e nâo assombrar a gente de casa,' beija-se-ihe a sola do 
sapato. 

Ao passar de um féretro, todos se descobrem respeitosamen- 
te, e pedem a Deus que lhe dê o céu. 

As pessoas que conduzem um oadaver ao sabir da casa para 
aiepoltura devem também tomal-o á entrada do cemitério. 

Dedo ou mão de anjinho pagão e um pedaço de corda de 
eoíbreado dão felicidades a quem os possuo. 

Quando morremos, o espirito se evola immediatamenie, 
mas não vai para o seu destino, o cón ou o inferno, segundo as 
soas obras praticadas neste mundo ; e, emquanto o cadáver não 
baixa á sepultura, permanece Junto ao mesmo. Os nossos Índios, 
porém« acreditavam que o espirito só se apartava do corpo de- 
pois do sen completo estado de decomposição ; e emquanto não 
ia para a lua, logar destinado á sua morada e descanço eterno, 
percorria as florestas» assistia ás suas conversas, ás suas dan< 
ças, e era testemunha, emftm, de todas as suas acções. 

Para outras tribu^, apezar de originarias todas de um mes« 
mo tronco, o tupy, — a vida remuneradora dos justos era pas- 
sada em localidades encantadoras, que se afiguravam no rever- 
so das montanhas azues, a serra geral que percorre a vasta ex- 
tensão da costa austral do Brazil, e cajás montanhas viam a 
uma certa distancia ; mas os espirites infleis e pusillanimes 
eram proscriptos dessa mansão, como anathcmatizados e vota- 
dos a misérias e privações, erravam por desertos estéreis e se 
acolhiam aos covis das feras. 

Segundo a crendice popular, para verificar-so o destino flnal 
dos espirites, é preciso um julgamento prévio» 

O espirito, apenas desprendido da matéria, comparece per* 
ante o archanjo S. Miguel, c tomando elle a sua balança, coUoca 
em uma concha as obras boas e na outra as obras más, e pro« 
fere o sou julgamento em face da superioridade do peso de umas 
sobre as outras. 

Quando absolutamente não se nota o concurso de obras más, 
o espirito vai immediatamentc para o cóu ; quando são ellas 
laiigniflcantes, vai puriíicar-se no purgatório ; e quando não 



84 REVISTA TMl INSTITUTO HISTÓRICO 

tem em seu favor uma só obra boa siquor, vai irremissivel- 
meotepara o íDferno, dondo só sahirá qiiaado so der o julga- 
mento âoal, no ff ia drjuizo, seguindo-so então a resurreição da 
carne. 

A' morto dos Justas e bons» que atravessaram a .>ua pas- 
sagem por esto mun<lo, sem poccados, assiste um anjo, inyistvel- 
mente, «empunhando uma espada íiammojante para os defender 
de Satanaz, que, ainda mesmo nesse extremo momento da vida, 
comparece junto ao leito para arrebatar-Ilios a alma: eSão 
Pedro, na sua qualidade do porteiro do c(mi, esperados nos seus 
humbraes para dar- lhes ingresso no Paraizo. 

O recemnascido que não foi amamentado o morro baptizado, 
não participando, portanto, do cousa aliruma <ieste mundo, e um 
saraphim, anjo da primeira jerarchia colesti il, o vai imme- 
diatamente para as suas regiões o?cupar um logar entro os seus 
oguaes ; o que recebeu amamentação e as aguas do baptismo é 
simplesmente um anjo, porr*m antes do entrar iio c(^u passa polo 
purgatório para puriflcar-se dos vestigios da sua ephemera pas- 
sagem pela terra, expellindo o leite com que so amamentou; e 
o que morre pag<ão Uca eternamente privado da luz e glorias 
celestiaes, e vai habitar as sombrias regiões do Limbo. 

A mulher casada que não tevn filhos, quando morre vai 
vender azeito ás portas do Iníerno, para .ilimcntar o fogo eterno 
a que são condemnados os maus e os perversos, que morreram 
fora da graça de Deus. 

O ca»iaver dos intlividuos q:ie morrem ««xcommungados pela 
egreja, fica ( ompletamento reseqnido, corno uma condeninacâo 
da torra contra o í seus poccados, e não consoino o nariz «los que 
tém por habito cheirar a comida; ao dos piUTicidis mirra-se-lbe 
o braço, cuja mão praticon o crime ; (* o d.^s lueniuos que dão 
pancada nas mais, iica com o bra<>o inteiriçado. 

A ti»rra não cousorníí o caíiaví»r dos sa:it0N o bemavcntu* 
rados; conserva intftHos os sííus .'orpos, o, dolUis desprende-so 
um aroma suavo o a?ralaI>ilissiino. «luo transporta a mysitoos 
pensamentos ; e picando -s ^ os mesmos, deiíam sangue. Do corpo 
de Santo António, a terra consumiu tudo menos a lingua. 

Sobre est«^ particular prodi rio, reforom as Memorias do Ca- 
bido de Olinda, que. trasladando-se para um carneiro de mar- 



FOLK-LORE PERNAMBUCANO 85 

more o corpo do bispo D. Mathias de Figueiredo e Mello, falle- 
eido em 1694, encoatrou-se sem corrupQão alguma, deitando 
sangae um dedo casualmente ferido quando se abriu a sua pri- 
mitiva sepultura ; o a quem ainda lioje visita a velha, mas bel- 
lisíima cathedral olindense, indica-se-llie oom respeito o se- 
palcliro do Bispo santo, como o consagra a veneração popular o 
o diz o epitaphio inscripto sobre o monumento. 

Frei Francisco de Assumpção, religioso, franciscano do con- 
vento de Serinhãem, fallecido em 1710, foi um homem de santa 
vida. Pelas suas grandes virtudes, predisse com precisão o dia da 
m morte, e no seu cadáver observou-se admirável prodígio, 
-< porque, como refere Jaboatão, ficou trata vel e brando, dando 
estalos 08 dedos, si os moviam, parecendo estar vivo na côr, e 
sem 08 communs effeitos da corrupção ». 

Os- homens santos caminham suspensos do solo, em altura 
coQveniente, e os sens passos são tão firmes e seguros como 
ú andassem sobre a própria terra. Desses factos estão cheias as 
Qoasas legendas religiosas, e o povo os repete com uma inaba- 
lável firmeza de crença. 

O nosso chronista Jaboatão, escrevendo detalhadamente a 
vida de Frei Cosme de S. Damião, notável franciscano do con- 
vento de Olinda, onde professou em 1597, refere que, sendo elle 
empregado em sua mocidade, antes de abraçar a vida religiosa, 
DO Engenho Velho, do Cabo, o entrando em uma occasião na 
casa de purgar, o seu proprietário, o velho fidalgo João Paes 
Barreto, para falar ao moço Cosme, — co foi achar a um canto, 
posto de joelhos sobre as taboas dos andaimes em que assentam 
as fôrmas de assucar, em oração, e não só todo absorto nella, 
mas levantado no ar bastantemente>. 

O mesmo escriptor, roferindo-se ao fallecimento de Frei 
Comes, occorrido na Bahia era 1659, consigna um documento fir- 
mado pelos doutores em medicina António Rodrigues e Francisco 
Vaz Cabral, os quaes, em termos de fé e juramento aos Santos 
Evangelhos, declaram, que —«estando para ser dado á sepultura 
o corpo do dito Padi^e, e túcando>lhe o nariz, bocca, orelhas, ca- 
bellose os emunotorios do seu corpo, não acharam signal algum 
demáu cheiro, ou corrupção, o que julgavam ser cousa mais 
que natural, em razão de serem passadas mais de vinte e sete 



86 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

horas depois qua fiiUeceu, e ser tempo de maior calor» (no- 
vembro) sendo accessorio a esse accidente, o que faziam as 
moitas luzes e grande tumulto de gente, de que sempre o oorpo 
este?e cercado..» 

Nos nossos dias, quando se trata do virtuoso i>adre Anenio 
Vuillemain, natural da França, pertencente á Congregação da 
Missão, fundador da Sociedade de S. Vicente de Paulo, o fallecido 
nesta capital no dia 3 de junho de 1899, com 64 annos de edade, 
refere-se que, por varias veies, fora visto olle caminhar sus- 
penso, e assim estar om suas orações. 

Sobro epso prodigio observado no padre Vuillemain, parti- 
cularizamos o seguinte facto, que nos referiu uma respeitável 
pessoa, assegurando-nos a sua notoriedade: 

€ Caminhava elle apressadamente, como costumava, por 
certa roa desta capital, quando ao approximar-se de uma casa, 
grita para dentro uma criança que estava á janella:— Venham 
vir um padre andando suspenso, — Vuillemain dirige-se logo para 
a criança, e com um sorriso angélico a bondoso bate*lhe cari- 
nhosamente nos lábios com a máo dizendo-lhe:— OUa a bocoa. 
minha filha;— e prosegue no seu caminho. 

« A criança, porém, nédia, viva o de perfeita saúde, adoece 
immediatamente, sem causa conhecida, e fallece dentro de 
poucos dias. Era um anjinho predestinado e tocado da graça 
divina ; 'o seu logar não era na terra: foi para o céu ». 

No logar de uma estrada, em que se pratica um homi» 
cidio, colloca-se uma cruz, perante a qual pairam os vian** 
dantes respeitosamente, doscobrem-so o rezam em intenção do 
morto; e depois, colhem um ramo verde e deitam*no aos pét 
da cruz. 

As almas do outro mundo apparecem, o falam mesmo, mas 
com uma voz extranha, anasalada, horrível, crença esta que é 
geral entre toios os povos, cultos ou não, e que entre nós mesmos 
remonta-se aos próprios indígenas, que apezar do estado de baf^ 
baria om que viviam tinham uma vaga noção do Ente Supremo, 
a que chamavam Tupan, criam om ]?enios bons e maus, o su- 
persticiosos como eram, acreditavam em almas penadas ou peooa- 
doras, a que na liogoa geral, ou tupy, dava-se o nome Anga* 
teco. e ás almas do outro mundo o de Anooeit-a, 



FOLK-LORE PERNAMBUCANO 87 

Firmo o poTo nessa crença implantada desde a saa infância, 
e mantida por ama corrente de indestractivel tradição, ó pas- 
sivamente arrastado a crôr em todas essas phantasmagorias ; • 
roTelam-sc mcrmo factos extraordinários, narrados e afRrmados 
com uma inabalável convicção, osquaes apavoram aos tímidos e 
enchem as crianças, principalmente, de terror tal, que ador« 
mecem amedrontadas vendo ao vivo, em sua Imaginação frágil, 
as liorripilante^ scenas do3 factos descriptos nas intimas pales- 
tras de famili^f 

* 

Qaem ha porventura, entre nós, que ignore o que ainda 
hoje se refere, e do tétrico e horrível que experimentava todo 
aquelle que ousasse passar pela Cruz do Patrão, principalmente 
ã noite ? 

BfiTecti vãmente, as circumstancias particulares do sitio, o 
destino que teve por muitos annos, o certas occurrencias locaes, 
concorriam para gerar no animo popular todas as tétricas legen- 
das narradas convencidamonte, e revesti ias do todas as suas 
pavorosas minudencias. 

A Cruz do Patrão ô uma columna de ordem dórica, firmada 
sobre largas bases, o em cujo capitel se levanta uma poanha fa- 
ceada, encimada por uma cruz latina, tudo de alvenaria de so« 
lida construcção, menos a cruz que é de pedra. 

O monumento uão tem inscripção alguma que memore a 
ipoca da sua construcção, o aponas se vô no alto da cruz, em 
imbas as faces, r.s iniciaos I. X. R. I. , dispostas om duas linhas. 
/Omtudo, sabe-se por documentos irrecusáveis, que existia já em 
816, parecendo que a sua 'construcção vem dos annos do 1814, 
uando se iniciaram algumas obras de molhorameato do porto 
o Recife. 

Plantada a columna á margem esquerda do rio Boberibe, 
ibre o isthmo de Olinda,— gigantesco traço do uniãp posto pela 
itareza entre o Recife o a volha capital do Pernambuco, — e 
lasi equidistante dos fortes do Brum, ao sul, o do Buraco, ao 
irte, foi consfcruida para servir do balisaaos navios que de- 
andam o porto do Recife, combinadaincnte com outros ponto9 
terminados nos roteiros, 



88 REVISTA no INSTITUTO HISTÓRICO 

A deaominação de Cruz do Patrão vem talvez, do seu levan- 
tamento a iastancias do patrão-múr do porto, nessa ópoca, ou 
mesmo por caber-lhe a direcção dos trabalhos da suaconstrucc&o, 
o que nos leva a crer, a circumataocia particular de em docum^« 
tos posteriores a 1814 eiicontrarse algumas vezes a mençfio do 
monumento com a denominação de Cruz do Palrão-môr^ funccio- 
nario que tinha então a seu cargo o serviço marítimo do porto. 

Era no arôal do isthmo, e nas immediações da Cruz do Patrão^ 
como se ficou chamando á balisa, que eram sepultados os ne- 
gros novos, ou escravos quo chegavam das costas africanas, e 
morriam pagãos ; bem como us súbditos inglezes» que começa- 
ram a affluir a Pernambuco, depois do Tratado de 1810, ama 
vez que eram protestantes e não podiam ter sepultura nas 
egrejas, onde então se faziam os enterramentos dos catholicos, o 
que motivou a construcção de um cemitério privativo da gente 
britannica, pelos annos de 1814. Era ainda nesse mesmo sitio que 
se executavam as penas capitães do arcabuzamento, impostas 
aos militares, o que teve logar até o anno do 1850, em que oocor- 
reu a ultima execução que alli houve. 

Logar ermo, de pouco transito, apresentando o isthmo a 
perspectiva de uma longa e estreita faixa, recurvada, arenosa 
e frouxa, batida por um lado pelas aguas do Reberibe e do outro 
pelo Oceano, bordada quasi quo em toda a sua extensão, por 
aquelle lado, de basto e alteroso mangai, alii occultavam-se mal- 
feitoi*es, quo atacavam á mão armada us viandantes para rou- 
bar, e das lutas quo se travavam então, resultavam não raros 
casos de homicídios. 

Todo esse concurso do circumstancias revestia a Cruz do 
Palrãú de fecundissima tonto de superstições populares, onde 
appareciam espirites infernaos o almas penadas ; viam-se luzes 
multicores e fugitivas, que surgiam cm pontos diversos e afasta- 
vam-se á proporção qu3 o caminhante si approximava do local 
em que brilhavam, ou subitamente desappai^eciam ; o ouvia-se 
o tilintar cadencioso de correntes, como que si alguém cami- 
nhasso arrastando-as ; psius agudíssimos partidos de direcções 
encontradas, que. si o caminhante tivesse do os attender, não 
saberia para onde so voltar, e gritos, gargalhadas, choitis, ais, 
e pungentes lamentações e gemidos... 



FOLK-LORE PERNAMBUCANO 89 

08 Yiaodantes que tinham do transitar pelo isthmo e pas- 
sar pela cruz fatídica, aguardavam a maré-secca, que lhes per- 
mittia descer muito, beirando a praia pelo lado do mar ; ou 
esperavam por outros, piira reunidamente, formando uma 
caravana mais ou menos numerosa, affrontarem a travessia ; 
e 08 jcanoeiros mesmo, nesses tempos em que as canoas movidas 
á Tara constituíam o principal meio de locomoção entre o 
Recife e Olinda, tinham o cuidado de navegar por dentro^ nas 
proximidades da cruz, aâm de escusar a sua vista. 
A Crus do Patrão era um logar mal*assombrado ! 
Outro logar a que também o povo chamava de mal-assom- 
)rado, era o Chora Menino, onde campeia uma linda oapellinha, 
) em cujo sitio tevo sepultura grande numero de victimas da 
ediçSo militar de 1831 . 

Dahi por diante, quem quer que passasse pelas estradas que 
}rrem em frente, e ao lado do sitio da capella, ouvia distinoia* 
lente o choro de meninos ; e dessa legenda gerada pela suporS" 
?io popular vem a donominaçíLo do Chora Menino, que tem a 
c&lidade, perdendo completamente a antiquíssima de Mondego^ 
que ninguém se recorda mais. 

Um grande sitio que havia ao lado da capella da Casa Forte, 
)erto de basto arvoredo, o com excellente o alterosa casa do 
renda, mas subdividido hoje em pequenos tractos, e dando com- 
nicação, em largo arruamento, á estrada que vai ter ao Ar- 
ai, era igualmento tido por mal-assombrado, c dahi a sua 
\R\ constante deshabitação. 

Dizia-se desse sitio, entre outras cousas, que se via-frequen- 
ente um fcvmoso e guapo official, do longas o louras madei- 
ricamonte vestido, montado em um fogoso cavallo, e de 
a em riste, galopar briosamente, em direcções diversas, como 
estando empenhado em renhida justa. Era um general 
mdez, que tomou pane na batalha da Casa Forte, ferida em 
, e cahiu fulminado peio raio da morte, num pelejar he- 

Jm painel do Bom Pastor, de tamanho natural e de uma 

coloração, que existe nu convento de S. Francisco da ci- 

de Olinda, coUocado em frente ao primeiro lanço da larga 

iria de pedra, que conduz ao pavimento superlordo claus- 



W REVISTA PO INSTITUTO HISTÓRICO 

tro, tem uma lenda que ge proode ao apparecimento de um 
eflpirito, a qual é ainda hoje muito vulgar naquella cidade; e 
eonsoantemente, ó a lenda da Bua do Encantamento^ primitiTO 
nome da rua do Bispo Sardinha, no bairro de S. Fk*ei Pedro 
Gonçalves, e da qual nos oocuparooa no nosso livrinho Mounco 
Pemamb%í€ano, 

Em Fernando de Noronha, notam-se também vários oasos da 
appariçOes de phantasmas. visões e almas penadas, os quaes re» 
latam os pobres presidiários nos seus seroes de degredo ; e todo 
isso recolhendo ali, Gustavo Adolpho, enfeixou em três bellis- 
Simas lendas sob os títulos : A luz do Pico, A allamôa, e O Caju- 
eiro da cigana, que figuram no seu livro de versos Ri909 e 
lagrtmas, publicado no Recife em 1882. 

Como todas estas legendas que a crendice popular .narra 
oom uma oonvicçio inabalável, o algumas atô mesmo figuram 
historicamente codificadas, nas nossas chronlcas avultam ainda 
multas outras, quo seria por de mais a sua consignação. 

D*entre estas ultimas, poróm, mencionaremos apenas a se- 
guinte, narrada por Jaboatão, cuja occurrencia teve logar no 
convento de S. Francisco da villa de Iguarassú, pelos annos de 
1687: 

« Em uma occasiio, sendo já alta noite, e estando sô des- 
perto o padre guardiio Froi Daniel da Assumpção, ouviu tocar 
a capitulo sem elle o mandar. Homem de espirito que era» • 
sem temer, sahiu da sua cella, deu volta aos corredores decima 
e não encontrando a religioso algum porque todos estavam re* 
colhidos e entregues ao somno, o o convento em proftindo silen- 
cio, desceu ao claustro, e passando pelo capitulo viu ali prostrado 
um religioso ; e chegando-se a elle, e perguntando-lhe quem enk 
e o quo fazia ali, respondeu o desconhecido padre : « Sou F. Era 
religioso desta Província, que falleoendo na apostasia, foi Deus 
servido tor misericórdia de mim, e para poder conseguir esta* 
e gosar da sua bemavcnturança me mandou venha pedir a ab*- 
soivição da censura que contra mim foi promulgada. > Assim o 
absolveu o padre guardião, e o espirito desappareceu ; mas nem 
o prelado, nem outro algum religíoso.a quem elle oommuoleoa 
esta occurrencia, expressaram nunca quem fosse aqoelle peni* 
tettte.» 



FOLK-LORE PERNAMBUCANO 91 

I;'ualraonte avultara, qaer aa tradição popular, quer 
mesmo codifloados nas nossas chronlcas, vários factos de surpre- 
bendentos prodígl s, quo & razão humana não ó dado investigar 
e todos nós devemos reverencias a essas venerandas tradições; 
p^rqne. como nos ensina Alexan ire Herculano nas suas Lendas 
e narrativa^,^ qaem descrô das traliçíies 14 irá para onde o 
pague. 

Um nosso chronista, o fi*anciscano Frei António de Santa 
Maria Jaboalâo, quo vivou em uma época de agudíssima aocen- 
taação do espirito religioso entro nós, enfeixou nas suas beilis- 
simaschronicas da Ordem Seráfica grande numero desses factos 
extraordinários quo a tradição conservava, ou colheu nos 
velhos agiologios ou santoraes religiosamente guardados nos ar- 
chivos dos conventos da sua ordem, e dos quaes, destacando os 
mais curiosos, não nos podemos esiulvar do alludir a uns 
lautos, ainda que per accidens. 

No apertado assedio da nascente villa do Olinda, pelo valente 
gentio da terra, nos albores da nossa vida colonial, Vasco Fef« 
nandes de Lucena lança mão de uma vara e traça com ellauma 
grande risca no solo, e conjura aos Índios, que todo aquelk gus 
intentasse transpol-a ccJiiria immediatamente morto. 

Celebrou o gentio com desdém essa advertência,— emas 
fosse polo que fosse, o eífeito provou o dito, porque arremettendo 
sete ou oito a Vasco para o matarem, o mesmo foi querer 
passar a risca que cahirem mortos : o todos os mais em um tal 
espanto o moio, quo conf!rmando-se na opinião, que entre olles 
andava já, do que aquoUo homem era feiticeiro, viraram as 
costas os mais, levantaram o cerco e se pozeram em fhgida >• 

Em 1632, quando os Hollandozos foram & abandonada villa 
de Igiiarassú buscar tolhas para as construcções que fitziam na 
íiliade Itamaracâ, subiram com esso intento A coberta da egroja 
natriz d3 Santos Cosme e Damião, mas ao começarem o deste- 
Ihamento* cahiram todos, uns mortos e outros cegos e descon- 

antados. fugindo os demais, conduzindo os mortos e os feridos, 

hoios de susto e terror. 

Frei Francisco de Santo António, religioso franciscano, de 

âda santa o da grandes virtudes, quando fazia as suas orações 

)m frente ao altar-mór daegreja do seu convento de Olinda, por 



92 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

varias vezes— saltou dos braços de Nossa Senhora das Neves o 
seu menino e se colJocava nos braços do santo religioso, que o 
recebia com excessivo carinho o devoção ; e depois de satisfeito 
o oordeal aflècto do seu espirito, so tornava para os braços de 
sua Mãe Santíssima. 

Frei Bernardo de Santa Clara, da mesma ordem, o religioso 
do convento de Serinhãem, de volta ás esmolas, pediu em Porto 
Calvo a certo morador, um boi para o carro de cooducçâo da 
farinha qua trazia : ao que lho respondeu o homem indicando a 
um, porque não havia outro quo lho pudesse ceder. Era um no- 
vilho bravio, que nunca havia chegado ao jugo. Mas o padre, 
apezar de advertido por um escravo, encaminha-se para o no- 
vilho, chama-o e passivamente obedecendo o animal, vem em 
seu seguimento, deixa-so metter uo jugo, e junto com os demais 
oonduziu o carro até ao convento ; e depois o tornou o padre a 
icu dono, completamente adestrado no serviço,— pagando-lhe 
em beneflcios o que havia recebido deste mais que bruto em 
securas. 

Resolvendo o capitão Francisco Dias Delgado, senhor do en- 
genho Trapiche, substituir uma ima<rem de Santo Christo do 
convento de Ipojuca, a qual, carcomida do caruncho, cahira da 
cruz dosfazendo-se em pedaços, mandou vir uma outra de 
Lisboa. Mas esquecendo-se o seu correspondente da (Micoramenda 
6 estando a fi*ota em vésperas de partir para Pernambuco, ap- 
parecen-lhe um desconhecido perguntando-lho si queria alguma 
imagem de Santo Christo. Recordando-se então da encommenda 
que tinha, acoeitou o oílerecimento, apezar da ima^^em oxceder 
ás medidas que recebera, para não demonstrar o sou descuido. 
E ficando o desconhecido de voltar no outro dia para recelxT a 
importância da imagem, não appareceu, e nem mais noticias 
suas teve o homem, apezar das diligencias que empregou para o 
descobrir. 

Chegando a imagem ao convento o uma vez quo excedia ás 
dimeniões do nicho do coro, onde tinha de ser coUocada, mandoa 
o referido capitão Delgado construir uma capella especial para 
a coUooar ; e tendo-se de fazer a necessária cruz, encontrou-se, 
mm. 86 bu:icarde propósito, uma arvoro com a sua perfeita con- 
figuração, da qual se fez o sacro lonho to<lo inteiro,— e tão pro* 



lOLK-LORE PERNAMBUCANO 93 

porcionado, que a serem postiços os braços, não acara a cruz tão 
bem disposta e perfeita . 

A essa tradicional imagem de Santo Ciiristo, de tamanho 
natural, e de uma inimitável perfeição artística, e que é ainda a 
mesma que se venera no convento de Ipojuca, com grande res- 
peito e deyoção, crescoram-lhe em certo dia os cabellos e as 
unhas, como reza uma local tradição popular. 



A piedade cbristã dos nossos antepassados, legon-nos também 
A consignação lendária de vários casos de milagres e apparições 
da Virgem e de Santos, e algumas dessas legendas são mesmo 
bistcricamenio codificadas. 

Fernandes Vieira lem visões celestes, inílaramando-u a em- 
pine liondor a empreza da libertação de Pernambuco do dominio 
holl^Dilez, o como manifestações da divina vontade em favor de 
tão X)atriotica idóa, abrem-se de par em par, por si, e successi- 
varocnte por duas vezes, as portas da egreja matriz da Várzea, 
^aidíiíiosaraente fechadas á chave, e desprende-so o dooel que 
3ot>f ia o altar de Santo António, cahindo perfeitamente dobrado 
le^^te da sua imagem, como que significando aos habitantes de 
^fií^xiambuco, na plirase de ura chronista coôvo,— «que é não 
ôitiossem de acommetter a empreza, pois ello lhes abria as 
'OPtas da sua. egreja para os amparar e ajudar, o que cada qual 
ot>ras8e o sou fato, o pozesso era salvo, e tratasse de estar dos- 
^^íxraçado o preparado para a guerra». 

Santo António uppirece em sonhos a Fernandes Vieira, o 
^dona-lho que se erga do leito o marche sem demora em busca 
^ ^Oimigo, que Deus lhe assegurava a victoria.; e despertando* 
^^> alta noite mesmo, manda immediataraente tocar a reunir, 
^^te em fórraa todo o exercito, marcha ao encontro dos líól- 
u<li>zcs e os derrota nos campos da Casa Forte. 

Uma imagem do mesmo santo, qne se venerava na capella do 
dOuUo era frente ao qual se feriu combate, e cuja imagem 
'^ mutilada pelo inimigo, verte sangue dos golpes que rece- 
^'^ ; no maior calor da peleja, apparece entre a nossa gente 
^ morador do visinho povoado do Arraial, com uma imagem- 



94 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

da Seohora do Soeoorro. que milagrosamente desprendia de seu 
rosto copioso suor ; e ouvidas as descargas do coml>ate por 
alguns aoJdadoi que ficaram na Várzea, no engenho de Pedro 
da Cunha de Andrade, denominado hojo Curado, e de onde abalou 
o exercito para a Casa Forte, correram elies pressurosos d 
egreja« e prostrados perante a imagem de S. Sebast\|U>, pedem* 
lhe que proteja os seus companheiros, que no momento pele- 
javam contra o inimigo. —Caio maravilhoso^l exclama um his- 
toriador do tempo, viram todos suar a imagem, como si o gUh 
rioso martyr andara pelejando na batalha. 

Idêntico prodígio obsorvou-se em 1709, em uma imagem de 
N. S. do O*, na egrejado S. João, em Olinda, presagiando assim, 
no conceito de um chronista coevo, as calamidades de que foi 
Yictima a capitania com o rompimento de uma revoluçto no 
anno seguinte, conhecida na historia por Guerra dos Mascates. 

Na noite do massacre do Cunhaú, no Rio Grande do Norte, 
em 1645, ouviu-se uma suave harmonia no cóu, sobre a forta- 
leza da cidade, cujos cânticos repercutiram no Recife, como pre- 
sagio certo de que foram od anjos que acompanharam as almas 
daquelles martyres para o cóu. 

Na batalha de Tabocas, ferida no mesmo anno, viu-se — > no 
maior fervor do conflicto, uma resplandescente Senhora, vestida 
de azul e branco, com um formoso menino nos braços,- acompa- 
nhada de um varão autorizado, repartindo pólvora e balas pelos 
noMos soldados,— na phrase de um chronista do tempo ; e um 
outro accroscenta, narrando o mesmo prodígio, que a Senhora 
era a Virgem Maria, que acudiu d nossa gente, e o venerando 
velho, bem se pôde colligir, que seria Santo Antão, que tinha 
naquellas ásperas montanhas uma ogrcja, onde os moradores 
da localidade todos os annos celebravam uma festa em seu 
louvor. 

A esto prodígio da appirição da Virgem, nessa primeira ba* 
talha que tiveram os pernambucanos na guorr.i que puseram em 
campo para os liberiar do jugo hoUando/, refarese também o 
Livrado Tom'>o, ilaogreja matriz de N. s. da Luz, nas visinhan* 
ças de Tabocas, livro esse que so i*omonta a 1775, da sua orga- 
niza^*ão, e consi^^na estes versos, dentro os muitos que os poeta 
do tempo oomposeram em seu louvor: 



FOLK-LORE PERNAMBUCANO 9Ã 



MOTE 



A sacra luz de Maria 
Nas Tabocas vencedoras, 
Foi nossa restauradora, 
Fez da ooite claro dia. 



GLOSA 

Qual estrella portentosa, 
Qual celestial fulgor. 
Qual divino resplendor, 
Qual visào prodigiosa, 
Mostrou-se miraculosa 
Convertendo a noite em dia ; 
E a terra do alegria 
Encheu Domais bel lo instante, 
Surgindo clara e brilhante 
.4 sacra las de Maria, 

Delia a summa claridade 
Trouxe ao mundo a Mãe do Deus, 
Porque com os méritos seus 
Do Filho ganha a vontiide ; 
Pois com santa piedade 
Elia é nossa intercessora ; 
E como forte Senhora 
Defendendo a nos2>a terra, 
Foi da hoUandeza guerra 
Nas Tabocas vencedora. 

Disto certa tradição 
Nos transmitte alta memoria^ 
Que a Pernambuciína Historia 
Kefere com exaeçio ; 



9G RLVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

Tenhamos, pois, dovoção 
A tão santa protectora, 
(^uc nossa consoladora 
Kl la ú constante c pia, 
Hcrn como em ditoso dia 
Foi fioifso resUntrcdora» 

Bemdiía soja a Trind.ido 
Km croar Virgem tiio puni, 
Para sor guarvia segura 
Da frágil humanidade ; 
Pois <;om ampla caridade 
Kllapara o bem nus guia. 
K por sua gi-an valia 
Das trevas nos arredando, 
Kntre sarças Ailguriuido. 
Il'z í^f noite claro ff ia. 

Igual prodígio opora-se na segunda batalha dos Ouarara- 
pcs, e a tradição indica mesmo a collina das Barreiras, que 
se ergue ao norte e fronteira ao bollo templo do \. S. dos Pra- 
zeres, como que fòr.i alli que apparei^er.i a Virgem Immacula- 
da piíra prot<?ger as nossas armas, ouvin Io-sí^ então um forte 
estampido na montanha, e divisaudo-so a Virgem qual— uma 
exbalaçãoque faiia o sou curso na azulada esphora. 

Quando o rei mandou executar o sábio patriota Frei Caneca, 
polo SfíU comprem et ti monto na revoluteio republicana de ISÍI, 
. e 08 escol hidíKs algo/,(»s negaram-se obstinadamente ao cumpri- 
mento de semelhante incumbência, ap.^zar de levados a espal- 
deiradas e couces desarmas ató junto á forca erguida nas Cinco 
Pontas, era porque divisavam no espaço, dentro do uma aureola ' 
entre nuvens, o talhe do uma mulher de cândidas vestes, c de 
resplendente belleza, acenando-lhes que não executassem o 
padre. Kssa mulher, diz a leirc^nda, era Nossa Senhora do Carmo, 
a cuja ordi»m pertencia o inolvidável Caneca. Seja como fòr, 
o fieto é, que não foi elle enforcado 4 ffiltado um algoz, como 
fora condemnado pela commissão militar, e sim arcabuzado, 
em Tirtude de uma re«)lução immadíata da mesma commisMO. 



FOLK-LORE PERMAMBUCANO 97 

São também mai to vulgares as legeadas de apparecimentos 
de santaa imagens em certos logares, as quaes conduzidas para 
as egrejas próximas desappareciam mysieriosamente, e volta- 
vam para o mesmo sitio, onde afiaal se coastraia uma capel- 
liQh\ para ellase nas quaes se deixavam fioar. 

Como typo dessas legendas consignaremos aqui a da ca- 
pella de Santo António do Monte, no Gabo de Santo Agostinho» 
pertencente ao Engenho Velho, segundo uma narrativa de Frei 
Jaboatão. 

« Ao tempo da construcção daquelle engenho pelo abastado 
t^lonio João Paes Barreto, na segunda metade do século XVI, 
foi encontrada entre os mattos, em um meio alto, logo acima 
la propriedade, e â parte do poente, uma imagem do Santo An- 
onio, sem se saber quem no logar a havia posto. 

4 Com summa alegria e admiração conduziram a imagem 

»ara o engenho, mas não querendo o seu proprietário con- 

Brval-a em uma casa particular, porque logo a veneraram por 

rodigiosa, levaram- na para uma capellinha de S. José, meia 

gua distante, e collocaram-na no seu altar ; mas no outrp 

a notou-se que a imagem tinha desapparecido, e tornando-se 

logar em que íôra encontrada, lá foram dar com ella. 

€ Por mais duas vezes repetiram a mesma diligencia, e ou- 

is tantas sucoedeu o mesmo, e assim desenganados de que o 

ito havia escolhido aquelle logar para habitação da sua ima- 

n, nelie construíram logo a sua capellinha. 

€ Em um assalto que deram os hollandezes á propriedadot 

im á oapella e mutilaram a imagem do santo, mas sahiram 

ito apprehensivos e confundidos, porque verteu ella copioso 

?ue dos golpes que recebera . » 

Uma prodigiosa occurrenoia narrada ainda por Jaboatão, ó 
o santo não quer absolutamente habitação alguma na vizi- 
iça da sua capella, referindo então, que levantando certo 
ulor umas casas nas sua immediações, antes que para ellas 
assasse desabaram sem causa conhecida. 
Vdqos depois, querendo certa mulher, quo tinha a seu car- 
zelo da capellinha, morar junto á mesma para mais com- 
mente desempenhar-se do seu piedoso encargo, mandou 
roir uma casinha, para a qual se passou ; mas, começou 

93 — 7 Tomo i.xx. p. ii. 



98 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

logo a ioquíotal-a, alta noite, a:ii vulto de ermitão como qoe ex- 
pulsaodo-a da sua habitação, o que vulgarizando-se pela con- 
stante repetição do facto, lembi*aram-se os mais antigos da pas- 
sada occurrencia, e advertiram a pobre mulher que deixasse a 
sua casinha e so retirasse áo logar, ao que olla acquiescea, 
nada mais 7ondo, desde que deixou aqnellas paragens. E assim 
permanece ainda hoj3, isoladamente, na chapada do monte 
fl^onteiro ao Engenho Velho, a vetusta e graciosa capellinha de 
Santo António. 

Abaixo do santuário, nas abas do monto, brotou uma fonte 
a cujas aguas são attribuidas virtudes miraculosas, que muitos 
factos parecem ter confirmado. Diz-so mesmo, que as suas 
aguas não têm outro merecimento, pois que sócca a fonte 
quando são empregadas em extranhos misteres ; o aíllrma-so 
que isto succedera, quando algumas vezos foram empregadas 
om lavajifem de roupa. 

Voltemo-nos, porém, ás almas do outro mundo, para con* 
dnirmos, com o que ainda neste particular se encontra efltre 
as superstições e crendices populares. 

Quando a alma do que morreu, appareco e fala ao qae 
está vivo, eriçam-se os cabellos, treme a pelle em convulsões 
de frio, confrange-so o ventre e ommudeca a lingua: o vidente 
é a estatua da morto. 03 mais corajosos o destemidos, porém, 
ousam falar-lhe, e para saberem o que pretende, dirigem-lhe 
esta conhecidissima phrase: — Eu to requeiro da parle de Deus 
e da Virgem Maria digxs o fjue queres ,— e então faz a alma o 
seu pedido, geralmente de missas e orações para a sua salvação 
e entrada na celestial mansão. 

Apparecem também as almas para indicarem o logar da 
existência de thesouros que om vida occultaram, c outras 
rezes fazem estas revelações em sonhos, quando conliecem que 
as poisoas a quem desejam beneficiar são timiJas e medrosas. 

Revelado o logar, com a indicação mesmo de certos signaes 
particulares, devo o individuo guardar o mais absoluto segredo, 
•ir Bò e rezar umas tantas orações para afugentar o diabo, 
que não deixa de comparecer om semelhantes occaslões, com 
o fim de impedir a extracção do thesouro, porque, emquanto 
pennaneoer occulto, a alma absolutamente não so salva. Si 



FOLK-LORE PERNAMBUCANO 99 

porém a pessoa fizer rovelações o fòr acompanhada, encontrará, 
oflfecti vãmente, todos os signaos indicados, como sejam mesmo 
certos objectos, mas o thesouro converter-se-ha em carvão, e a 
outrem será depois revelado. 

As almas do purgatório são excellentes intercessoras de 
graças e milagres perante Deus e os santos da corte do céo. A 
promessa do um vintém, dois vinténs, ou uma quantia qualquer, 
aos tantos Padre nossos^ terços, rosários e missas, domo- 
Tem-nas piedosas a conseguirem dos oéus graças especiaes, 
rapplieadas com fé o crença nas apertadas crises da vida. 
As almas do outro mundo apparecem somente á noite, tra- 
jando vestes talares e envolvidas em mantos roçagantes do 
um panno branco e áspero, o o seu corpo 6 de uma frieza de 
gelo. 

As caveiras t imbem falam, e de uma quo estava des- 
presadamente atirada á margem de uma estrada, conta-se 
o seguinte facto: 

« Costumava um menino quo transitava todos os dias por 
ess% estrada bater com uma chibata na caveira ao passar 
per eila. Certo dia, 'povém, indignada oom semelhante proce- 
dimento, segue os passos do travesso menino, entra com elie 
em casa, o queiza-se á. sua mãe, dizendo com voz ílunhosa, 
como a das almas do outro mundo: 

Minha senhora. 

Veja seu filho ; 

Si elle vai, si elle vem, 

Páu no nariz ; 

Si elle passa p*ra lá, 

Páu no nariz ; 

Si elle passa p'ra cá, 

Páu no nariz. 

€ A mulher prometteu providenciar e a caveira voltou 
tranquillamente para o seu logar.» 

Emfim, diz o provérbio, que Defunto nãò fala ; Quem 
espera por sapatos de defunto onda sempre descalço ; e que 
Defunto rico, defunto chorado. 



100 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

A ura individuo desprotogido, desamparado, chama-se — 
defunto sem choro. 

Todo isso que o povo diz das almas do outro mumdú, 
concorreu para se Ih ) votar um verdadeiro culto de amor, 
respeito e piedade, de envolta com o terror que ellas iaspâram 
aos tímidos e supersticiosos. 

Inspirando compaixão á piedade christã a sorte dagoollas 
que pelos seus peccados jazem no purgatório — um logar de 
torturas, onde ha torrentes caudaes de betumo fervente, lagôis 
de fogo e de enxofre fumegante, em que as almas se submer- 
gem com as formas corporaes da torra, e desatam gritos, 
saltam gemidos o vozes supplioes, ás vezes escutadas neste 
mundo;— tudo isso inspirou esse culto de piedade* votada ás 
almas para remil-as dessa temporária condemoação do purga- 
tório. 

As preces, os suíTragios e as orações da egre^ja e do povo 
s&o os únicos vehiculos de salvação das almas condemoadae ao 
fogo purificador do purgatório. 

Para essas orações e suíTragios, especialmente, consagrjm-ee 
um dia na semana, a Seyunda-feira das almas ; institniu-ae a ~ 
(Jommemoração dos deis defuntos — no Dia de Finados, o que 
talvez, so origine da festa das almas do purgatório por toda 
a egr.g i instituida no neculo decimo polo papa João XVI ; 
crearam-se as irmandades das almas nas ogrejas matrizes; e em 
outros tempos era costumo celebrar-se pela quai^esma, ás sex- 
tas feiras, a lúgubre procissão da Kncoinmendação d is almas, sa* 
hindo o préstito, .i meia noite em ponto, de certas egrejis, enta« 
ando cânticos plangentes com acompanhamento de musica, inter- 
rompendo-os, â certa distancia, o troar da ma trica e o badalar 
da campa, de um cunho sinistro, aterrador. 

Os penitentes, homens sóment<>., uma vez que ás mulheres 
ató mesmo era prohibiiio prdsenciarcm do suas casiis o destilar 
da procissão, sob pim i do excommunhão, amortalhados de 
binmco, com a cabeça coberta, deixando ai>euiis ver a boeca e os 
olhos, conduziam lanternas uns, e outros, d penitenciarem-se, 
grandes pedras ã cabeça, ou íl igellando-se com disciplini, 
as^im percorriam os povoados, o recolhiam-se depois de uma 
longa por(^;<riniição. 



FOLK-LORE PERNAMBUCANO tOl 

B todo O poYO concorria com o sea obulo para os rêspontps* 
officios e suífíragios pelas almas do purgatório, depositando 
l»'e9Biirosa e espontaneamente na saccola verde do irmão *-^; 
oonfíraria, envergando a tradicional opa de egual côr, nessas saâs* * 
peregrinações de oollecta semanal, ás segundas-feiras ; ou então*' 
ia depositar o seu vintém nas caixinhas das almas^ pequenos 
cof)res de nouideira com painéis no alto« em que se viam — almas 
brmncas e negras, com os olhos do braza e bocca de fogo, levan- 
taodo 06 braços no meio M labaredas vermelhas, listradas de 
amarello, — ostentando-se no plano superior, entre nuvens o 
cercada de uma aureola, a imagem do archanjo S. Miguel, ci\)a 
miserieordia' imploravam as míseras condemnadas ás torturas 
doe soflHmentos. 

De par com esses óbolos pecuniários, depositava também o 
povo sobre as caixinhas, as soas ofllrendas de fructos e ovos, que 
os fteie compravam, entrando logo com o dinheiro para a cai- 
Tinha ««Ifva* 

E todas essas offrendas,sl não eram espontaneamente ditadas 
como om preito de caridade ohristã, importavam a satisfação 
de promessas feitas ás almas do purgatório pelas graças ou 
milagres que os céus outorgavam aos seus rogos, á sua inter- 



Como etsas caiiinhas qoe figuravam nas portarias das 
egrejas parochiaes, nas esquinas das ruas e ao longo das estradas, 
ostentavam-se também cruzes pintadas ou de aznlojo, do madeira 
oo de pedra, na frontaria de cortas casas particulai^es e nos 
moros das vivendas campestres ; e uos adros das egrejas, nas 
eocnisilhadaf dos caminhos, e nas ruas e estradas, viam-se cru- 
zeiros de pedra oo madeira, sobre alterosas peanhas, monu- 
meotaes uns e modestos ootros, alumiados á noite, doante dos 
qoaai deecobria-se respeitosamente o transeunte murmurando 
uma prece em tenção dos mortos. 

Esses cruzeiros, — no silencio estrellado da noite, nas so- 
lidões a deshoras, dominando mysteriosos na maravilha do vácuo, 
eram as cruzes das almas — e na phraso do Mello Moraes Filho, 
o aprisco lugobre dos penitentes da meia-noite; o ponto de par- 
tida das serenatas horrivois, cujos echos iriam minorar os sup- 
plicios do fogo purificador... 



102 RBVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

• *• • 
, • • 

.••^Ulgans dessos cruzeiros cercou a tradição popular de uma» 

ieotas* legendas, ora de apparições a deshoras de almas á peoi- 

:Jte*(Cciarem-8e, visivelmente algumas vezos, amortalhadas d^ 

'•Vestes brancas; de luzes mnlticôres, a caminharem errada* 

*4nènte ; ou da existência de thesouros enterrados nas suas bases 

ou immediacões, como, nomeadamente, o da igreja do convento 

do Carmo de Goyanna, do qaal se diz -— que em seus alicerces so 

acha enterrado grande thesouro destinado pelo instituidor á re- 

edifleação do convento, si sncceder que venha a cahir em ruínas. 

Dessas caixinhas e cruzes das almas, taes quaes as descrê^ 
vemos, não raro se encontram ainda algumas nos mencionadocr 
sítios, como at testados das piedosas crenças que ioílammayam o 
espirito christão dos nossos antepassados. 

Voltemo-nos agora para os sonhos, que têm uma tal ou qual 
connexão com o objecto que acabamos de tratar. 

E' interessantíssimo o que diz a imaginarão popular oom. 
relação aos sonhos, esse vulgarissimo phenomeno physiologico» 
ató hoje ainda não vantajosamente explicado pela sciencia, porém, 
que o povo, com essa sua philosophia racional e inculta, os inter- 
preta a seu modo, justificando com factos que relata, o acerto 
das suas convicções. 

B' assim que se diz, que sonhar com um dente cabido, 6 
prenuncio evidente da morte de uma pessoa da família, ou de 
um conhecido muito intimo ; com um navio, viagem próxima ; 
com agua, lagrimas e pezares ; com cabellos, trabalhos c con- 
tratempos ; com ovos, linha e labyrintho, enredos ; e tantas 
outras cousas, com a sua particular interpretação, que seria 
longo enumeral-as ; e para que não faltasse uma nota cómica no 
meio de todo esse immenso concerto de disparates, figura o ri- 
dículo do sonho que se interpreta por dinheiro, fcnrtuna, cabedaes. 

B* dogma de fé, porém, entre o povo, que os sonhos bons não 
so devo absolutamente revelar para verificarse a sua almeijada 
realização ; e os maus, ao contrario, para que não saiam cer:os. 



Para vários trabalhos domésticos e resultados vantajosos de 
cousas diversas, sãuo precisos uns tantos requisitos, que nem 
todos possuem. 



FOLK-LORE PERNAMBUCANO 103 

O bater ovos. por exemplo, não é pai:a todos. E* preciso ter 
cabeça, para que elles cresçam ligadamente. 

Para extrahir nm deoto e não inflammar ou apostemar o 
local ; tratar de uma ferida e não produzir aquelles mesmos 
resultados e cicatrizar depressa ; plantar um galho de craveiro 
ou de uma planta qualquer, e pegar ; o outras muitas cousas, ó 
preciso ter boas mãos. 

Com relação, porém, á extracção de um dente de criança, e 
para que o novo saia bonito, perfeito e sem demora, deve a pró- 
pria criança atirar o dento extrahido ao telhado da casa pro- 
nunciando estas palavras : 

MourSo, mourão, 
Toma teu dente podre, 
Dà cã o mou são. 

O iodividuo que possue o dom das boas mãos benze um 
taboleiro de venda de ft*uctas, doces ou outra qualquer cousa ; 
afíluem logo compradores o vende-se tudo som demora ; ao con- 
trario, porém, nada ou quasi nada se vende, e o pobre vendedor 
fica boiado, segundo a phrase da giria popular, isto é, com uma 
grande parte da sua mercadoria em ser, e perdendo um tempo 
immenso ã espera de freguezes. 

O termo benzer ó applicado ã primeira vendagem do dia« e 
gcnto ha tão crente dos prodígios das bdas mãos, para a felicl- 
dado do negocio, que, não comprando esses taes ílreguezes cousa 
alguma para que benzam a suei venda, contenta-se ao menos, 
que mecham com a mão o taboleiro 1 

Na primeira vendagem do dia não é absolutamente ad- 
mitttdo o fiado para não encaiporar o negocio ; o geralmente 
as mulheres, seguindo os preceitos de tradicional superstição 
ao receberem o dinheiro da sua primeira venda, benzem »se 
com elle, devotamente, fazendo o signal da Cruz, da testa 
aos peitos e do hombro a hombro, pronunciando as palavras 
rituaes. 

Ao contrario, porém, dos prodigios das boas mãos, ha os 
olhos maus, que actuam sobre as pessoas e até mesmo sobre as 
cousas inanimadas. 



104 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

Uma pdfliôa nédia, robusta, de bella còr e bastos cabellos, 
deflDha e perde immediatamente todos esses tons de belleaa, e 
eootrahe mesmo enfermidade qae a faz atravessar uma exis- 
teneia incommoda, penosa, si é victima de uns ollios maus ; e 
uma planta qualquer, viçosa e carregada de ílores ou fructos, 
enmmreha e morre, victima também da funestíssima influencia 
desses maus olhos. 

Lopes Gama, em um artigo que publicou em 1838, no sen in- 
teressante periódico O Carajmceiro, sobre — Os olhados^ que' 
hratUos e malefícios, — combatendo com Úrmeza, jogando a arma 
do ridículo, semelhantes superstições, tão arraigadas no animo 
popular, oscroveu a respeito e^^tas palavras, que têm um cunho 
de especial opportunidade neste momento: 

« Muita gente ost& persuadida que ha olhos tfto m<lus, que 
basta fltarem-se em qualquer cousa para lhe causarem o maior 
danmo. Tem D. Briolanja um menino muito lindo, muito n^io 
6 liso, o qae por suas gracinhas ó o assumpto de incessantes his- 
toriai : sucoedeu adoeoer o menino de um dia para o outro: não 
Uia atinam com a causa da moléstia: eis logo a mãe, a avó, as 
tiat, as amas e as oomadres, que em tom de junta medica de- 
oidenu que a criança n&o tem outra cousa, sen§U) um terrível 
olhado, que lhe pespegou uma velha, uma preta feiticeira, etc.» 
eto. Em consequência desto santo accordo cuidam logo de lhe 
appUcar os reme lios mais approvados para quebranto, que vêm 
a ser defumadores de cascas de alhos, de raspas de chiAre, e 
sobretudo de palhinhas e lixo de encruzilhada, que ô remédio 
santo para toda a laia de maleflcios e arte diabólica. 

< Nos nossos mattos a receita mais prompta e efflcaz 6 benzer 
o doente com uma ceroula tirada do corpo do algum marmanjo, 
e applieada no mesmo instante ; o matuto ha, tão eminentemente 
basbaque, que refere com uí^nia as innumeravois curas, que 
bio feito as suas nojentas ceroulas. 

€ Também aproveita muito o defumador do cupim, e de 
pennas de K&llioba« comtanto que seja prota; porque sendo 
de outra qualquer côr, jã não tem virtude ; quo na occaslão 
de applicar a fumaça é indisponsivel a seguiu te e mui pie- 
dosa oração : — Nossa Senhora defumou a seu bento filho para 
cheirar \ eu defumo o meu para si-r<ir :- e isto deve rspotir-se 



FOUC-LORB PERNAMBUCANO 105 

8 vezes, porqne o numero três é symbolico e mysterioso. 
4c Si uma velha tem em seu quintal uma pimenteira, um 
sinho de arruda, de alecrim, etc, e algusm Ih^os vê, e tendo 
gabado de lindos e viçosos, succedem murcharem e morrerem:* 
3m lhe tirará dos cascos, que foi por eífeito daquelles olhos 
rejosos e máu8 ? D*aqui vem o acertado uso de pôr figas do 
fre em ci*aveiros, em cHanças, ou em qualquer cousa que se 
ima ; porque, de qoantos antídotos se conhecem para que- 
intos e olhados, nenhum ha de tanta virtude como as figas, 
Qsis si são de chifre ; que têm estas muitas applicações na 
mde arte de malefícios: por isso quando alguma m&e tem de 
ndar fora o seu menino, logo a advertem que nâo vá sem 
ar figas no cinteiro para evitar os máns olhos, e ás vezes é o 
3lbinho tão feio, tão sai*noso e magro, que ninguém ha que 
9a ter inveja de semelhante lesma; mus, não sai sem as figas, 
causa do quebranto. » 

De par com o que menciona Lopes Gama para a cura dos 
prantos e olhados, havia ainda na pharmacopéa popular uns 
os remédios de grande efflcacia para debellar aqaelles ma- 
ios, entre os quaes « a almecega, que le usa no quebranto», 
:> menciona Durão no seu bel lo poema Catamurú^ descrê- 
o no canto Vil as riquezas da flora brazileira. 
:^omo vimos dos conceitos de Lopes Gama,— muita gente está 
ladida de que ha olhos tão maus, que basta fitarem-se em 
[uer cousa para lhe causarem o maior damno ;— prejuízo 
ine não reside somente entre o povo ignorante e supersti- 
mas sim, mesmo eotre pessoas da mais esmerada educação, 
elevado talento e grande illustração. 
'heophilo Gautier, por exemplo, receiava multo do wdti 
u porque o considerava — uma espécie de magnetismo 
zejo. que projectam para fôp.i de si, sem querer, os que 
im esse dom ftinesto ; — o proclamava que a virtude de 
.lisman não é inteiramente vã, porque reside na fó que 
a. 

) egual o perniciosa influencia são os chamados pésfrios^ 

leiros jeWitoresy que encaiporam os jogadores, apreciando 

elles, as suas cartas, o sou jogar. Ao contrario, porém, 

viduos de influxos felizes, que ao seu lado, as cartas 



106 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

acodem Ião Tantajosameote, quo o jogo se deslisa venturosa- 
ineato, assegarando felicíssimo êxito 1 

De par com os olhos maus, quebrantos e maloflcios figuram 
também as mandingas e feitiçarias, originarias dos índios e dos 
africanos. 

Apezar dos ceremoniaes distinctos da extravagante lithurgia 
observada nas sessões de feitiçarias, o início dos seus trabalhos, 
comtudo são mais ou menos semelhantes no faz^^r da mesa, na qual 
figuram entre outros objectos alguns bonecos ou fetiches, am dos 
quaes tem o nome, evidentemente africano, do sanio-budum, e 
um oatro o de catita, cachimbos, maracàs, certiis hervas secoas, 
como o tabaco e a jurema para defumações, um cabaço com a 
denominação de arca da «ctVncia, alguns animaes, e precisamente 
am gallo; e preparada a mesa, pronuncia o mandingueiro umas 
orações em phrases inintelligiveis à laia de invocação, e começa 
08 trabalhos da sessão, respondendo ás consultas dos clientes. 

Ha, poróm, duas classes de feiticeiros: uns que sabem botar 
feitiços, e outros que possuem a virtude do os tirar. 

Em melados do século passado, como refere Lopes Gama, era 
espantosa a voga, que ainda tinham pelos nossos mattos os cha- 
mados curadores de feitiços, muitas vezes um preto boçal, ou um 
cabo3lo estúpido e borracho, que diziam sabar curar esses Inaie- 
ficios do demónio, apresentando, como quo tirados do corpo dos 
doentes, alfinetes, meadas do linhas, porção de cabellos, e outras 
cousas que oonstituiam as causas da enfermidade: e no^sa época, 
acrcditava-se ainda nos maravilhosos cíTeitos de um preparado 
por caboclos, uns pós conhecidos pelo nome de urucubacã^ que 
(*m caliíndo sobro o corpo de uma pessoa applit^os por outi*a 
— fazem que esta fique logo nmida daquellOj sem poder lhe resistir. 

Em tempos quo não vão muito lon^e ainda, dizí;v-se que os 
feíticeií^os iam celebrar na Cruz do Patrão os seus sortilégios, 
que nas noites de S. João tinha lo^^ar a iiiiciivção doi noophylof 
nos seus asquerosos mystorios, e que então apparecia o diabo, 
graças aos prodígios dos sous podorcj, o fazia cousas do arrepiar 
a pelle eoicabjllos. 

Para isso, porém, tinha jão feiticeiro firmado um pacto com 
Satanaz para obrar com o sou auxilio os prodígios do ofiScio, 
ficando desde então lhe pertencendo em corpo e alma. 



FOLK-LORE PERNAMBUCANO 107 

Ao quo parece, oram oatr'ora tao vulgares es^es pactos, que 
a CoQstUuiQão do Bispado, que é a mesma do Arcebispado da 
Bahia promulgada em 1707, positivamente os prohibe, condem- 
natoriamente,— incorrendo todo aquelle que o fizer, ou mesmo 
invocar ao diabo para qualquer effeito que seja,— na pena de 
cxcommunhão maior ipso facto incurrenda, além de outras penas 
convenientemente discriminadas, segundo a categoria dos delin- 
quentes, clérigos o leigos, nobrei ou plebeus,, e mais ainda na de 
lhes ser vedada a ministração do Sacramento da Communhão. 

Apezar dessas condomnaçôes ecciesiasticas, das severíssimas 
leis civis, de remotas ópocas, codificadas nas Ordenações do 
Reino, e de tudo quanto fez a Inquisição para extirpar todas as 
praticas de superstições e bruxarias, nas suas differentes moda- 
lidades, levando os delinquentes desde os mais horrorosos tratos 
até ás chammas das fogueiras, nas quaes pereceram mais de 
um milhar do victimas, entre feiticeiros, Judeus e hereges ; 
mesmo assim a semente do feiticeiro não se extinguiu de tjdo, 
ecomo a pbeniz da fabula, renascia elle das cinzas dos queima- 
deiros inquisitoriaes, a tudo affrontando, ousado e destemido: e 
é assim, quo ainda em nossos dias, não raro, appareoe na im- 
prensa a noticia de semelhantes praticas, e ás vezes mesmo fre- 
quentadas por gente de certa ordem, que consegue, graças á 
sua iníluencia immunizar a feiticeira da acção da policia ! 

A Yayã de ouro, em nossos dias, afamada bruxa do largo do 
forte das Cinco-Pontas, foi uma dessas privilegiadas, que impu- 
nemente campeou no exercício da sua industria, graças ao que 
teve grande clientela e conseguiu mesmo accumular alguma for* 
tuna, que legou aos seus devotados protectores. 

Entre os nossos Índios, que tinham grande canalha de fei- 
ticeiros, aí,'oureiro3, bruxos o curandeiros, na phrase de Simão 
de Vasconcellos, e principalmente os Tapuias, que, além de não 
conhecerem a Deus, criam invisivelmento no diabo sob aspectos 
ridículos, era toda essa gente tão estimada e venerada pela in- 
fallibilidado das suas predicçõos, que em qualquer parte que ap- 
parecia faziamlho grandes festas, danças e bailes— como aquelle» 
que traziam comsigo espiritas tão puros. 

Eram vários e ridículos os modos de dar os seus oráculos e 
adivinhar o futuro, e como quo endemoníados, revelavam o que 



lOK HRVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

itKti* viutiJà à boooa, com o cérebro exaltado, ou pelo eífeito do ta- 
tikuv« v>u |>«la8 libações de embriagaote néctar fabricado de folhas 
do uiri^iui^. a ans ameaçando de morte, a outros de boas oa más 
vouturii^« noquo tudo flrmeniente acreditava toda agente, como 
r%»Ntili^^H (lo algani propheta, ou dictames de alguma divindade. 

Alem do todos esses prodigios do mandingueiro, tem ello 
íOuda o poder de fecliar o corpo ás pessoas, que, graças a seme- 
lliAUla prodioado, ficara livres e immunes do todos os males e 
^mrltfos, da mais certeira pontaria de uma arma de fogo e até 
m«wino do veneno das cobras. 

Contra toda essa perniciosa influencia dos olhados, que- 
lirantos, e maleflcios, ha comtudo varias cousas preventivas, 
liem como outras para dar felicidade e evitar males diversos. 

Um ramo do pinhão de purga, Jatropha curccis^ quebra toda 
aoçlU) maléfica dos mandingueiros e previne mesmo a eficácia 
d(M Ailtiçoi, olhados, quebrantos e maleflcios quaesquer. 

A flgA« <|ue pertence á ordem dos amuletos itiphallicos, 
apesar dos nats decentes, tem comtudo uma significação que nSo 
veiu ao caso a sua demonstração. Represent-iudo ora o punho, 
tsio (\ a miio fechada com o deJo pollegar entre o indicador e o 
niAdlo, ou tudo o braço, ou uma parte somente, apozar da sua 
urlir^^iiii^Kyi^^^* '^^^'''^^"*^^''°^"'^^*^^^''^"^^"^^* Quea usavam 
iMtiu o n(>Miode/"*c«"W»»» na crença de um poderoso preservativo 
Oiintra oi oncantafiieatos, infortúnios e iuuestos olhares de in- 
Vi\).l mi màiéf olhados . 

Vdiífaritfunno entre nós o uso da figa, feita de ouro, prata, 
ooral ou outra qualquer substancia, são grandes as suas virtu- 
i|i«ii, ooiiio pnsiíervativade infinitos males ; mas, a de tipim tem 
a imriloular virtude de evitar os olhados e quebrantos ás cri* 

iimuutro amuleto tambom de-origem itiphallica, o muito 
„^j^i MO oollo dai crianças, é um pequeno marisco ou búzio 
liahatv<^« f uoastoado em ouro ou prata, cujas virtudes, como 
nyfMerynilvo do maios diversos, são rauito preconisadas. A sua 
li^j^MlLav^^ pelo objecto que representa, é idêntica á da figa, e 
j ^j y ^ .^irt amuloto, «^ egu ilmente originário dos romanos, si bom 
^^ I^^Hlj§ ttlnda, quer um quer outro, a ópocas e povos 
^^ - 'I oomo predicado do culto ao phallus» 



FOLK-LORE PERNAMBUCANO 109 

De taes amuletos, dizia já o poeta latino Marcus Terencius 
Varro, oa Varrão, como o chemamos (que âoresceu noi 
últimos aoQOS quo precederam ao começo dai era vulgar), 
referindo-se ao uso romaoo de serem postos ao pescoQo dos me- 
ninos, e também ás vezes em outras partes:— Pwms turpicula 
rex in collo suspendiiur, ne quid rei in ohsçence causa . 

As ferraduras do cavallo e do boi estão também convertidas 
em amuletos, e de vulgarissimo uso, como um dos melhores 
propulsores de felicidades e venturas. 

O pinhão de purga ó um poderoso antídoto para males di- 
versos, e mui particularmente para evitar os maus olhados. É 
bom, porém, para que a influencia dos maus olhos não produza 
os seus perniciosos effeitos, os quebrantos e olhados^ dizer-se aos 
^abos ou admiração por uma cousa qualquer:— Benxa-te Deus. 
Toma figa. Deus te conserve.,. 

Para evitar-se certos males que podem provir ãs oríança£i, 

)endura-se-lhe3 ao pescoço uma infinidade de tetéas enfiadas 

tm um cordão de ouro ou de retroz preto, em que, principal- 

aente âgui^am, além das figas o búzios, pelas suas preoonisadas 

irtudes, como vimos, um S. Braz, para livral-as de engasgos e 

lolcstias da garganta; um S. Sebastião, contra a peste ; um 

usto do S. João Baptista, para não sofifrerem de dores de cabeça; 

m signo-Salomão, para livi^al-as de influencias funestas; um 

)nte de cão, para evitar cousas más ; medalhas milagrosas com 

IS piedosos, e dentes de jacaré e de aranha caranguejeira, 

um caroço de azeitona, para facilitarem a dentição, além de 

uitos outros objectos de virtudes desconhecidas, como o sol, a 

a, moedas de ouro e prata, etc. 

Para evitar as convulsões ha, entre outras cousas de pro« 

rbiaes virtudes, os afamados collares eléctricos de Royer ; 

ra facilitar a dentição, a semente da Guilandina spinosissivia^ 

Igarmente conhecida por carnicnla ; para acudir o leite ás 

ihoras que amamentam, as preconisadas contas de leite ; e 

»a extingull-o, seccar o leite, um rosarip formado de pequenos 

aços do talo tubular das folhas do carrapateiro (ricinus com- 

nis). 

Os pri moiros banhos dos recemnascidos são de agua morna 

1 um pouco do vinho, e deve-se deitar na bacia um objecto 



110 REVISTA I>3 INSTITUTO HISTÓRICO 

qualquer de ouro, para que ollcs sejam ricos o felizes. N&o se 
banham ao sétimo dia do nascimento, o nom no dia do bapiisado ; 
o quando cai o umbigo^ convém lançal-o ao mar, para não morre- 
rom afogados e livrarem -se de naufrágios; o emquanto não se 
oumpre esse preceito deve-so guardar a pollica com todo o cuidado 
pai*a não ser roida dos ratos, o que acontecendo trará grandes 
males ú, criança, porque ó isso prenuncio de uma triste sina. 

O resguardo das parturientes varia segundo o sexo do seo 
primeiro filho. Si for homem, será de quarenta dias, o mantido 
depois invariavelmente, apezar mesmo do nascimento de cri- 
anças do outro sexo; o si fôr mulher, de trinta dias seguindo-ie 
depois a mesma regularidade. 

Faz perder a felicidade ás crianças impôr-se-lhos outro 
nome que n&o seja o de uni dos s\ntos que o kaiendario con- 
signa no dia do seu nascimento. 

K' máu dormirem os rocemnascidos ds escuras, pelo menos 
emquanto não forem baptisados ; c dar-se-lhcs beijos á bocca, 
para não criarem sapinhos (aphtas). 

Para endurecer o pesco ;o de uma criança ainda tenra, ata- 
se-lho, em volta, um tn^çal de rotroz preto ; para falar depressa 
dd-selho a beber das primeiris aguas de janeiro, e não se deve 
abjolntamento mostral-a ao espcllio, porque isto faz retardar- 
Iho a fala... 

Oo/a também do i^ratidos pivconi«Mos para uma criança falar 
depressii, darsi^llio agua om um choailho : o diz-se mesmo, que 
com isto não só se consegue começar immediatamente a desen- 
volvoí^e essa faculdade, como ainda, que as criauças tornar-se- 
hão verb(isas o loquazes, t' dahi, tiilvoz, que vem dizer-se de ura 
tagarella quo fala |»elos (\)U>vello?. que — hcWu otjmi '!e c''Ocalho, 

Para u na oriauci anlir tloprossi li»vAm-n\ ã missa, isto é, 
ao toquo do t h luia.la do>! fieis para assi-iencia do acto, f»e;?am- 
na |ieli»^s ante bravos, o niia-so oom elii, como iiuo de ciminho 
p^ra ouvir missa, prouuuoiandosc por trcs vezes: 

CorM, correi, 

Ni»s<a Senhoi*A de Beh^m. 

Dai perninhas 

A quem não as tem. 



FOLK-LORE PERNAMBUCANO 111 

Quando, porém, a criança é muito braba, chorona o imper- 
ioente, Tal uma pessoa engeital-a á porta de ama egreja qual- 
luer, e logo após ama outm a conduz para casa, conseguindo-se 
M)m isto o almejado âm. Esto serviço, porém, é feito á noite, e 
^m umas certas cautelas para não ser presenoiado. 

Nos partos difficois, sem falar no miraculoso breve das 
jarUiras, que ellas collocam pendente do pescoço das parturien- 
es, o que é, nada mais nada menos, que um saquinho de panno 
m couro, contendo uma oração, muitas vezos banal, immundo 
ibjecto, ennogrecido já e revestido de uma grossa crosta se- 
»acea e lustrosa pelo dilatado uso ; e nem mesmo na concur- 
encia de objectos religiosos pelos iníluios de piedosas cronças ; 
•asta collocar na cabeça da parturiente um chapéo do homem, 
a criança nasce logo, som o menor incidente ! 

Monino só 6, anji) e vai para o c(^o tros dias depois de morto, 
espera no limbo, minsão otherea c sombria onde não ha pena 
em gloria, pelo decorrer desse tempo ; o quando uma crian- 
inha adormecida no seu berço está a sorrir, conversa em sonhos 
om outras criancinhas, como ella, que morreram pagãs. 



As superstições populares ozpandem-se ainda sobre as- 
imptos vários, creando um sem numero de cousas nocivas ou 
Himilaa<Io outras, que nos vieram de muito longe, e do muito 
nges épocas. 

Loreto Couto referindo-se ás superstições que no seu tempo 
leiados do século XVill) lavraram em Pernambuco, menciona 
imo prognósticos de infelicidades — o encontro de algum torto 
^la manhã, o derramar-se o sal na mesa, o quebrar-se um es- 
jlho, o cantar do cuco ou gallinha, o chovor na boda, o espirrar* 
luoiTão da ciudeia, o uivar do cão, o entrar com o pé es- 
lerclo e outros ridículos agouros. 

Ha plantas nocivas e agoureiras, como a arvore da fortuna 
3 imbé, que trazem a miséria e o atrazo a quem as cultiva em 
sa, como objectos ornamontaes ; e a jurema de cuj% odo* 
nte folhagem faziam os indios um néctar com o qual, diziam 
es, se encantavam o se transportavam ás regiOes cerúleas, era 



112 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

a arvore do feiticeiro e mandiogaeiro, e tinha um culto especial 
entre os mesmos indios com uma li th urgia originalissima. 

A bella musacea, conhecida peio nome vulgar de bananeira, 
tão commum entre dó3, em suas variadas espécies, é um vegetai 
que se remonta ás origens da creação do mundo,— porque Adão 
e Eva comeram dos seus fructos no paraíso terreal ; — e effecti vã- 
mente, a sua origem asiática, magistralmente discutida e com- 
provada por Alph. de Candolle, e a sua classificação botânica de 
Musa paradisíaca, imposta peloaabio Linneq, autorizam, n&o ha 
duvida, a popular legenda. 

A vulgarissima arruda, de tantas virtudes medicinaes, só 
floresce na noite de S. João; mas vem o diabo in visivelmente 
etira-lhe as flores todas. - 

Quando Nossa Senhora fugiu para o Bgypto com o reoem- 
nascido Messias, para livral-o das perseguições de Herodes, foi 
montada em uma burrinha, e acompanhada de seu esposo, São 
José, que marchava a pé conduzindo o animal pelis rédeas ; e 
sempre que via elle approximar-se gente, o desviava do caminho 
procurando occultar-se do melhor modo possível. 

Em uma dessas occasiões esconderam- se os fugitivos sob uma 
frondonte arvore que se erguia à margem da estrada, porém, 
baixando olla immediatamente a sua copada ramagem, por artes 
do demónio, deixou a Virgem visivelmente exposta ás vistas dos 
caminhantes ; e por isso foi logo amaldiçoada por Deus, em cas- 
tigo da sua maldade. 

Essa arvore era um tremoceiro ; e comer tremoços, por- 
tanto, faz mal . 

Judas Iscarlotes, levaido ao desespero pela infâmia da sua 
traição» onforca-se no galho de uma annosa figueira ; e Poncio 
Pilatos, que condemnou a Christo, morreu coberto de lepra. 

Quando troveja é perigoso estar a gente debaixo de arvores, 
e principalmente a cajazeira, que tem uma attracção particular 
sobre as faiscas eléctricas. 

Quando o Viatico sai acompanhado do muita gente, o 
doente não escapa ; mas, si espirrar, não morrerá nesse dia,^ e 
alenta-se mesmo a esperança de salvar-se ; e o desenlace fatal 
dos moribundos só so verifica por occasião da vasante da 
maré. 



FOLK-LORE PERNAMBUCANO 113 

£' de máa agouro quando se aocende uma vela ou candieiro 
o estalar do pavio. 

Surra de sacco de areia ou de rabo de arraia, faz seccar o 
individuo, qne inevitavelmente vem a suocumbir, depois de pro- 
longados e horríveis padecimentos. 

Umitemo-nos agora a uma simples enumeração dessas 
tantas cousas nocivas, creadas pela superstição popular: 

Fax mal praguejar contra quem quer que seja, principal- 
mente ao meio-dia, pesque nesta hora os anjos dizem amen, 
repetidamente, entoando no céu as suas saudações hymnicas em 
louvor de Deus. 

Paz mal dormir em cima de mesa, deixar os chinelios vi- 
rados, beber agua com luz à mão, comer ás escuras, de chapéo 
na cabeça, em mesa sem toalha, e com treze pessoas à mesma ; 
e olhar muito para o espelho,— porque alguma vez se arrepen- 
derá vendo o diabo ;— receber presentes de santos, aldnetes e 
lenços sem retribuir ao menos, com um vintém, para não perder- 
se a amizade ;— comer duas pessoas em um só prato,— cuspir no 
fogo,~-oollocar santuários de costas para a rua,— deitar pão fora, 
—abrir guarda-chuva em casa, — apanhar alfinetes na rua,— con- 
tar historias durante o dia, porque faz criar rabo ;— varrer os pés 
a um solteiro, porque isto faz não casar ;— deitar luz no chão,— 
passar por debaixo de andaime,— pela frente de frade e por detraz 
(ie burro;— vestir roupa pelo avesso,— duas pessoas enxugar as 
màos em uma toalha ao mesmo tempo,— dormir com os pés para 
a rua,— medir-se uma pessoa, porque ó agouio de morte, e em- 
pregar em exclamação o nome do diabo, para que elie não creia em 
alguma evocação e appareça ; — emprestar um objecto qualquer 
antes do dono se servir delle, — engolir o caroço de limão azedo, 
porque produz fome canina ;— venderal ã noite, bem como carvão 
e farinha ; — abrir a porta do quintal primeiro que a da rua, — 
varrer a casa com duas vassouras, o coser roupa no corpo, porque 
é agouro de morte, o que porém, se evita reoitando-se por três 
Tezea: 

Coso vivo, 
Na^ja morto: 
Ck)so isto 
Que está roto. 
8«W-d Tomo lxx, p* il. 



114 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

Não devem as mulheres comer ovos e fructos gémeos para 
evitar partos duplos,— quem varre uma casa não devo consentir 
que outrem apanhe o cisco para não lovar-lhe a felicidade ; — 
não ó bom duas pessoas lavar ás mãos na mesma agua, porque a 
que lava por ultimo âca-se com a felicidade da primeira, e quem 
dá uma cousa qualquer o a toma depois, fica corcunda.^ d'onde 
vem dizer-se: 

Quem dá o torna a tomar 
Vira a corcunda para o mar . 

Ao contrario, porém, do tudo isso, apparecem umas tantas 
prescripções de cousas que se devem fazer pelos seus resultados 
benéficos, taos como: cuspir quando se fala em certas moiesUas 
como a gota o a morphéa ; pronunciar a phrase comparando mal^ 
ou lá nelle^ quando se indica em uma pessoa o local de um feri- 
mento, uma chaga ou qualquer incidente fatal de outrem ; 
fazer -se a mudança de residência cm um sabbado, e mandar em 
primeiro logar o sal, o carvão e a farinha ; entrar na casa 
nova com o pé direito, tendo-se o cuidado do previamente ex- 
aminar si ô feliz ou não, contando-se os caibros da coberta, re- 
petidamente, com os nomes de ouro, prata e cobre ; e espetar 
uma tesoura na parede, virar uma vassoura a traz da porta e 
deitar sal ao fogo, para fazer retirar-se logo uma visita pro- 
longada e impertinente. 

Ao correr de uma estrella, ou quando so ouve espirrar, 6 
bom dizer-se: Deus te silve, porque pôde ser um espirito er- 
rante, uma alma penada, que vaga no espaço purgando-se dos 
seus peccados, ou uma alma penitenciando-se para conquistar o 
reino dos céus. Em presença porém, do uma pessoa que espirra, 
pronuncia S3 a phrase: Dominus tecum, ou Deus te salcc, ou Deus 
ie ajude ; e ao bocejar, faz-sc sobre a bocca o signal da cruz com 
o dedo pollegur da mão direita pronunciando-se as palavras — 
Ave Maria ! — da saudação angélica. Estas praticas remontam- 
se ao século VI, ditadas por influxos religiosos como remédio 
contra os males de uma grande peste que houve na Europa, no 
pontificado de Gregório Magno, cujos doentes ou morriam repen* 
tinamente, ou depois de mmtos espirro» ou bocejos. Aos espirros 



FOLK-LORE PERNAMBUCANO 116 

ks crianças, porém, deve-se dizer : Deus te crie para bem^ 
II Deus te faça feliz ^ e si uão fôr baptizada ainda, Deus te leve 
pia. 

Para descobrir-se um homicida e immediatamente prendel-o, 
asta deitar na bocca do morto u.ua moeda qualquer ; e o cri« 
linoso sente então uma força superior que o detém, deixa-se 
render sem resistência e confessa o seu delicto ; quando os fe- 
imentos do cadáver de um assassinado, deitam sangue, ines- 
eradamente, tempo depois de perpetrado o crime, é que o as- 
usino estd presente, ou se acha muito próximo ; e para encon- 
rar-se o corpo do um afogado, deita-se no rio uma veia accesa 
entro do uma cuia, o no logar em que parar, levada da cor- 
ante, encontra-so o cadáver. 

Para crescer o cabello ó bom cortal-o na phase crescente da 
ia e deitar as aparas em um olho de bananeira ; o para quo 
isça crespo, annellado, convém confiar o sou corte a um ca- 
tUeireiro do côr preta ou parda ; para flcar bonito, comer ca- 
dio louro atraz da porta ; para emmagreoer, belier vinagre ; 
para corrigir-so um menino falador metter-se um ovo quente 
. bocca ; curar os sapinhos (aphtas), o contacto de uma chave 
sacrário, o a gaguez, bater-so com uma colhor de páo na ca- 
ça ás difficuldades de falar. . . 

Do coçar das mSLos se diz que é dinheiro a receber ; de uma 
isoa de baixa estatura, que é mà, porque tem o coração ao pê 
bocca ; o de um homem de máos iabtinctus, quo tem cabellos 
coração. 

Do mãos frias o coração quente, diz uiu proloquio popular, . 
5 — é amor para sempre. 
Os homens caboUudos são maus, bem como os quo tèm um 
eito physico qualquer, odahio provérbio: — Quando Deus o 
gnalou^ alguma coma lhe achou ; — o uns tantos signaos cara- 
isticos, são predicados infaliiveis de dufoitos moraes, de feli- 
kdes ou desventuras. 

E' assim que uma fronte larga, espaçosa, o de cantos pro- 
ciados, ó evidenLocaracteristico do uma intelligeocia lúcida, 
arecida ; e ao contrario, uma fronte estreita, cujos cabellos 
ias se distanciam dos olhos por uma faixa de infima lar* 
\ ; e consoantemente um bico de cabello na testa é signal 



116 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

ao vJuvGz ; chave do mão muito larga indica liberalidade* 
gente de mãos rotas ; orelha muito pcga'la, quo o individuo ha 
do sor rico, e se íôr in'iito mollo, qiio ó preguiçoso ; grande na- 
riz, lábios bom altos, e orelhas cabelludos, são prenúncios de 
uma vida prolou^^ada ; o no primeiro caso, também de tolice; 
quem tom dentes ralos 6 em extremo chocalheiro ; e pintinhas 
brancas nas unhas, meniiro&o. 

Um é a conta do pjrco, quatro a do pato, soto a do mentiroso* 
o treze ó a dúzia do frade, isto é, porá receber^ porque para 
dar ou pa^^ar, é a commum ou legal de doze números ; o é além 
disso um numero fatídico, em toroo do qual gerou a sapersticão 
popular mil prevenções. — Faz mal sontarem-so treze pessoas 
à mesa, porqueuroa infailivelmento morrerá dentro do anno. 
prondondo-se esti crendice ao facto da ceia do Senhor, em que 
tomaram parto troze pcssjas, e occorreu logo depois o seu sa- 
orifleio ; cmprehendor negócios nesse dia, e celebrar-se actos no- 
tavuisda vida como baptisados o casamentos; morar em casa 
n. 13, e, em fim, tanta cousa mais que muito avultaria a sua 
menção. 

Quem nasce em fevereiro, é como o próprio mez, pequeno 
em estatura c em sentimentos generosos. 

Agosto é um mez aziago, c um mez de desgostos ; o é do máo 
figouro pata casamoiiius. mudança de casa o o cmprehendimcnto 
de qualquer negocio do impurtancia. 

Um dia ch(MO do contrariedade, é um dia do judeu ; o de une 
dia triste, de sol entre nuvens o de amiudado cantar do gallo, 
S9 diz quo — morreu judeu 

Chuva cm dia de Sa^ta Luzia ( 13 de dezembro ) é prenun* 
cio do um bom invt^rno ; Paschoa oin Abril, aguas mil ; e céu 
podronto, ou chuva ou vento, na phrase do provérbio. 

Quando a gente sente arder-lhe a orelha direita, é que 
estão filando h.Mn na ausência, o mal si ó a esquerda, — 
porque oiitr^ora se acreditava no poder das palavras para 
apru-sar as pulsiçOos do sangue daquelles a quem se m- 
feriam . 

A mãe do S. Pedro não subiu ao céu e vagueia no espaço* 
deoude vem a locução popular: — Estar no. ares como a m<l« 
dê »V. Pedro, 



FOLK-LORE PERiNAMBUCANO 117 



O apparecimento de um comoia, ou a occurroncia do um 
ílipse, são prcsa^ios do fomo, \v.iste e guerra ; o olToctivaraente, 
»b essa crença, avultam factos do c ilamidades publicas, que, 
>iocidindo com taoj phenoraenos anteriormente observados, 
>nstituiram, até mesmo no juizo dos nossos chronistas, os pre- 
mcios de taes calamidades. 

E' assim, que á horrivol poste do bexi^s,qiie irrompeu entro 
NS no anno de 1666 e estendeu-se até o [lio de Janeiro, cei- 
Qdo milhares de vidas, — < precedeu um horroroso cometa, 
e por muitas noites tanebrosas, atoado om vapores densos, 
leu com infausta luz sobro a nossa America, c lhe annunciou 
lanono que havia de sentir, — » como escreve Rocha Pitta. 
Do mesmo modo, uma desconhecida e terrível epidemia a 
5 o vulgo deu o nome de Males, que apparcceu no Recife em 
•6, e chegou até á. Bahia, prolongando os seus ílagollos por mais 
sete annos, foi prognosticada por dois eclipses: um do sol, oc- 
rido em agosto do anno antorior., ostentando-se o astro como 
— na âgura de uma feroz e gigantesca aranha, o que as- 
ibrou a ignorância geral de Pernambuco ; — e um outro da 
em dezembro do mesmo anno, apparocendo ella — abra- 
i num eclipse de fogo escuro, — como se expressa um do- 
ento rcferindo-so a esses dois plienomenos sobre os quaco 
logo um prognostico o Padre Valont;im Estancel, da compa- 
, de Jesus, astrólogo celebro, « proplietisando que muitas en- 
tidades e mortes iam cahir sobre o Brazil, e que haviam de 
inuar por muito tempo >». 

Sm 1689 apparece um cometa, quo encheu do pavor toda a 
ania ; e o povo viu depois a realização dos sous fataes pro- 
ticos na calamidade de uma grande secca que houve, oom 
o seu cortejo de horrores ; o mais ainda, nas desavenças do 
*aador Marquez de Monte-Bello com o bispo d. Mathias de 
iredo e Mello, desavenças essas, que, por pouco, não arras- 
108 partidários de ura o outro a um levantamento geral, 
obre esse fatal cometa existo uma circurnstanciada noticia 
mporanea, em um manuscripto que se conserva na Biblio^ 



118 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

thoca Nacional do Lisboa (n. 484, Collecç^o Pombalina, misce- 
lânea, íl. 170), o qual, polo menos, tem a vantagem de consignar 
odiado 8011 apparecimento e fixar aposição em qne sargia, 
como HO vr do (Miriosi^ titulo do próprio manuscripto, assim lan- 
çado: 

< Dineurito nstronomico sohr o estupendo e fatal cometia <m «tm- 
^a fHitft*Dii'inn Providencia enviado aos mortaes, o qual foi visto a 
pi'imi*lra vo9 a O <le dezembro do anno de £698, ao romper da atf- 
rora, ncãtti nosso orisoatc oriental Pernamhvco na altura austral 
tlê fi pr, no sifjno KscorpiãiK > 

Rtnflin, para nHo sahirmos dos nossos limites locaes, a phase 
rHvoluolonavla liUtorícamonte conhecida por Guerra dos Mas* 
miêê^ quo Irrompou om 1710 o prolongon-se por muito tempo 
•ob um Immonio corU\io de desgraças e martyrios, foi também 
prognoritloada por um eclipse, e sobre o que, é assas curioso o 
ssgiilnto ('onoolio do Rocha Pitta, como corollario dedactivo do 
naturallrtdimo phenomono: 

« Algum tempo antes das perturbações da província da Per- 
nambtioo, se viu noila, om uma clara noite, a metade da lom 
coberta do sombras, cm tal -proporção, que partida do eclipse 
|x^lo moio, parecia estar em duas e^niaes partes separadas, mos* 
trando o quo lhe havia de a^-on tecer na desunião dos seus mo- 
radores, em prova do que o r^ino em si dividido ô desolaçio, da 
qual tocou á nobi^ta a maior parto, padecendo perdas da liber- 
dade, assolações da fazenia. ausências da ca.^. e com ellas a 
fh\K\ do lavouras nas suas propriedados, irastando mais do que 
podia em sustentar exércitos contra o Recife, o por esta causa se 
acha tão difforento que «' objecto de lastimas, sem esperança 
de tornar ao esplendor antigo dos s^mis antepassados, om pena 
destas o do muitas outras soberbas o vaidades. > 

Os Índios, portam, tinham conceitos diversos sobro os co- 
metas, j>oriiiie ficavam chei >s de terror, nfcoiosos de que o 
m^w ardtv<?4t> e cahisse ; e com relaçãí aos eclipses, acredítaTam — 
qiio i«r.v o eíTtMto de discórdia suscita li em pontas de peodeneia 
tuitre phalan^^es de espíritos suMrvli nados ao sol e á lua, e que 
vairini nos ares : sendo quo a victoria de um desses grupos 
btt|llir«)r.into>: incutia dex.ir no qne snccumbia, e esse dezar ofnís* 
V^va, |H)r alguns n\omentiV«, a luz do astro que o presidia. 



FOLK-LORE PERNAMBUCANO 119 

Os actos de desmandos de uma tribu, ou de covardia, pra- 
ados na guerra, offondiam o espirito que dominava as tem- 
itades, e manifestava elle a sua cólera pelo aterrador trovão ; 
3mo armas que a divindade disparava contra os que haviam 
orrido em sua indignação, irritava-se o mar quebrando-se 

vagas furiosas e medonhas, sopravam terríveis furacões, e 
ilavam raios no espaço. • . 

O apontar-se uma estrella, ou mesmo, contal-as, faz nascer 
rugas e cravos nos dedos ; e para desviar as faíscas ele- 
cas, ao trovejar, ô bom queimar alecrim secco ou palmas 
tas de Domingo de Ramos, e clamar por S. Jeronymo, e 
ticularmente por Santa Barbara, advogada contra os raios 
impestades, para 

Espalhar as trovoadas 
Que no cèu andam armadas» 

Quebrar-se um espelho por um accidente qualquer, e prin- 
Imente quando succede desprender-se da parede, é presagio 
infelicidade ou de algam caso funesto a dar-so proxima- 
te em casa ; quando a comida çao da bocca, nas refeições, 
^um parente da pessoa que tem fome nessa occasiSo ; e terá 
tos filhos quem costuma deixar sobro a mesa fragmentos 
omida. 

Os caçulas adivinham, o quando se deseja que uma pessoa, 
6 esperada em casa com anciedado chegue logo, manda-se- 
gritar três vozes por seu nome atraz da porta da rua, ou de- 
da mesa de jantar, e a pessoa ou chega immediatamente, 
emora-se muito pouco. Os caçulas possuem também a vir- 
de fazer parar a chuva joírando-lhe um punhado de cinza, 
guando o vonto escasseia nas viagens do embarcação cos- 
, o canoeiro assobia para chamal-o, ou faz soar os rou- 
bos sons de um búzio, soprando um oriftcio circular prati- 
na base do mollusco ; o o vento acode longo enfunando as 
!do barco... 

^ara aohar-se um objecto perdido, basta offerecer-se três 
í a S. Victor, ou prometter-so qualquor cousa <ls almas do 
atorio. 



120 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

03 iodividuos que Dasceram impellioadoi, ou c?ioraram tto 
ventre materno, adivinham também, o são muito felizes ; e em 
anno bissexto, nio terão bexigas e serão mesmo isentos de mo- 
léstias contagiosas e do peste. 

Não ó bom haver em uma casa doís casamentos no mesmo 
dia ; 08 noivos devem entrar na egreja com o pô direito ; e mor- 
rerá primeiro aquelle que primeiro occupar o leito nupcial no 
dia do casamento. 

Quando chove muito nesse dia, é porque a noiva cortieu na 
panelli ; e não se devo tingir de preto o vestido do acto nupciaU 
para não morrer a noiva. 

O leito nupcial deve ser arranjado por uma senhora bem 
casada, para que a noiva sej i egualmente feliz. 

A moça solteira que serve de madrinha do casamento, não 
se casará, ou o fará tardiamente. 

As llores de laranjeira da grinalda da noiva são distribuídas 
indistinctamente, entre os solteiros, para casarem-se logo ; mas» 
08 cravos dos ramalhetes, também distribuidos para o mesmo 
fim, têm uma distincção, porque os do noivo são distribuídos 
ás moças, e os da noiva aos rapazes. O chá desses cravos é 
um excellente remédio para conseguir-so um casamento im- 
mediato. • . 

Santo António, porém, o particularmente S. Gonçalo, sio 
08 melhores vchiculos para a obtenção do um milagre de 
casamento ás supplicas das moças que desejam contrahir matri- 
monio. 

Para obtenção desse milagre, pe^am-se cilas com algum 
daquelles santos, dirigem-lho constantes o fervorosas preces, 
tomam-no em sua particular devoção, e lazem-lhe mil pro- 
messas ; o algumas chegam até mesmo a tirar o menino Jesus dos 
braços de Santo António para restituil-o somente depois de reali- 
xado o milagre ; viram o Santo de cabeça para baixo, tiram-lhe o 
resplendor e collocam sobre a tonsura uma moeda prcj^ada com 
oôra ; e por ílm, quando tarda o milagre, o cançalas já de tanto 
esperar, atam o San:o com uma corda, e deium-no dentro de um 
poço, o que dou logar, de uma voz, a dosapixirecer a imagem, 
porque era de barro o derrotou-se completi\monte ao contacto 
d*agua I 



FOLK-LORE PERNAMBUCANO 121 

} ama das orações quo dirigem ao Santo thaomatargo ao 
n ósseas pedidos: 

Santo António ! Santo António ! 
Oh ! doniador das feras ! 
Oh ! Santa Roma deserta I 
Oh ! grande Santo António, 
Camarada de Jesus Christo, 
Fradinho dos mais pobres, 
Hnmilde religioso. 
Em Lisboa ensinado, 
Na santa sé baptisado, 
E em Pádua sepultado. 
Pelas almas de vossa mãe. 
De vosso querido pae, 
E de vossa tia e madrinha ; 
Pelo habito que vestistes, 
Pelos cordões quo cingistes. 
Pela c'rôa que abristes. 
Pelas missas quo dissestes. 
Pela hóstia que consagrastes, 
Pelo breviário que buscastes. 
Pela alegria que tivestes 
Qaando o Senhor Bom Jesus 
Nos vossos braços pousou, 
E santa morada fez ; 
Pelas ondas que passastes. 
Quando fostes a salvar 
Da morto a vosso pae 
Fernão Martim de Bulhões, 
Sentenciado em Lisboa, 
Para o que não socegastos. 
Repousastes, descaoçastcs. 
Em quanto não o livrastes. 
De tão injusta seatença; 
Pois, agora, a vós, meu santo, 
Vos peço não soce-'ueis. 
Vos peço não repouseis, 



122 REMSTA DO INSTITUTO IirSTORICO 

Vos peço não descaoceis 
Emquanto não me fizerdes 
O que com fó eu vos peço. 

Ha também um Rosário de Santo António, curiosa peça, 
assim concebida: 

« Padre Santo António dos captivos, vós que sois um amar- 
rador certo, amarrai, por vosso amor, quem de mim quor fugir ; 
ompcnliai o vosso habito e o vosso santo cordão, como algemas 
fortes e duros grilhões, para que façam impedir os passos de F., 
que de mim quer fugir ; e fazei, ó meu bemaventnrado Sinto 
António, que elle case commigo sem demora.» 

Reza-se depois umà Ave-Maria, e se offereoe ao milagroso 
Santo. 

Ainda sobre o assumpto, é também sobremodo curiosa a se- 
guinte 

LADAINHA DAS MO^AS (*) 

Milagroso São Raymundo, 
Casador de todo o mundo. 
Dizei a Santo Antero, 
Que em breve casar quero, 
Na igreja de São Bonedicto 
Com um moço mui bonito. 

No altar de Santa Rosa, 
Quero dar a mão do esposa, 
Aquolle a quem tanto amo ; 

(1) O nianuscripto doni-A ladainhí), qao uo<. foi i-oníiado por uma 
senhora, com instantes roconniiflndaçõos sobro a sua restituição, a 
já ani tanto estragado, acaso poli) uso da i-onstaiito loilura. on para 
a saa vulgrarizaçã<», cm repetidas copia^, tonrluo com e«le cario^o 

« N. B.— í^sta oração ò oftVrecida a S. Bayninindo dnas vezes 
por dia, uma ao levantar-M*, p^la manhã, o outra ao deiiar-sa a 
noite; rczando-M durante um me/., a pc^>òa aIoançai*á o que tlfsoia, 
islo é, casar-se. As lioras do ineio-dia a p^-^soa »leve nsar um 1*. 
N. • aiiia A. M. Ku >.• arauto.— Mfiynt »/« Triudtulc Ferreira. • 



FOLK-LORE PERNAMBUCANO 123 

Pedindo a SSo Germano. 
E também a Santo Henrique, 
Que eu bem casada fique. 

Permitta Santo Odorico 
Que o moço seja rico. 
E também Santo Agostinho, 
Que me ame com carinho. 
Assim oomo a São Roberto 
Que o moço seja esperto. 

Também rogo a São Vicente, 
Que isto seja brevemente ; 
Rogo a Santa Innocencia, 
Não me falte a paciência. 
Assim oomo a São Caetano 
Que isto seja neste anno, 

Jã roguei a Santa Ignez, 
Que não passe deste mez, 
E a Santa Mariana, 
Que seja nesta semana, 
E ã Virgem Nossa Senhora, 
Soja mesmo nesta hora. 

)mo varianto na espécie mais esta 

LADAINHA 

Bariholomnu — Casar-me quero eu. 
Ludovico — Com um moço muito rico. 
Nicolau — Que elle não seja raáu. 
Benedicto — Que seja bonito. 
Vicente * Que não seja impertinente . 
Sebastiíio — Que mo leve á funcção. 
ia Felicidade — Que me faça a vontade. 
Benjamin — Que tenha paixão por mim, 
to Andrn — Que não tome rapo. 
Silvino — QuQ tenha muito tino. 



124 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

S. Gabriel — Qae me seja fiel. 

Sanio Aniceto — Que ande bem qaieto. 

5. Miguel — Qae perdure a lua de mel. 

iS« Bento — Que não seja ciumento. 

Santa Margarida — Que me traga bem vestida. 

SS. Trindade — Que me dê felicidade. 

Recitada a oração, roza-se por três vezes um Padre Nosso em 
Ave Maria com o Gloria Patri, e se ofieroce á Santa Rita, pe- 
dindo-Ihe que interceda em favor da realizaç&o do casamento. 

E mais esta oração a S. Roque : 

Meu São Roque, 
Meu São Roque, 
Aqui estou a vossos pés, 
Aqni estou a vossos pés 
Sem me rir e sem chorar ; 
Vos pedindo que me deis 
Um noivo para casar. 
Um noivo para casar. 

Para abrandar o coração dos apaixonados esquivos, é de 
grande efflcacia o tigado do anum, torrado e reduzido a p6» e 
applícado em uma bebida qualqu')r ; mas, para que produza oa 
almejiios fins, devo a própria pessoa recitar repetidamente 
esta oração, ao pisar: 

Eu te piso, eu te i*episo, 
K te reduzo a graniso 

No pilão 

De Salomão. 
Que sete estrell is o prendam. 
Lhe dê força do luar. 
Para que possa abrandar 
O seu duro coração . 

Quem isto beber. 

Quem isto chupar, 

Ha de amar 

At<^ morrer. 



FOLK-LORE PERNAMBUCANO 125 



Avultam também os ensalmos, ou orações de preconisados 
prodígios para muitas enfermidades, cujas virtudes o povo, 
ÂDeerameote crente, proclama com convicção ; o em vão será 
procarar desvanecel-o dessas suas convicções, tão arraigadas e 
firmes são ollas. 

Tudo isto tem uma consagração de séculos, transmittido 
pela tradição oral de geração em geração, porém, sem mais os 
vestígios originários, si bem que 8e possa afflrmar, em face do 
pacientes e eruditos estados sobre o assumpto, feitos em Portugal 
por notabilidades literárias, que do lá nos vieram de envolta 
com a civilização curopéa. 

Entretanto, muitos desiOi monumentos se remontam ainda a 
origens mais afastadas, a outros povos mesmo, e que pela assi- 
milação portugueza atravessaram o Atlântico e enraizaram-so 
entre nós indistlnctamente. 

Esses ensalmos são geralmente sabidos e praticados por mu- 
lheres, quasl sempre velhas e repellentes, cavillosas e muito 
a?aras doe thesouros que possuem ; umas ignorantes e convictas, 
dominadas pela superstição ; outras manhosas, insinuantes, que 
especulam com a crendice popular, tirando proventos da sua 
industria. 

Do typo de uma dessas mulheres, de grande aura popular 
em melados do scculo XVllI, dcixou-nos um poeta do tempo um 
curioso perfil na Historia da Cota Marota , 

(irando mestm de pati*anhas, 
Oe madre gran bonzeioira, 

attendendo ainda o poeta à sua feição typica, com o seu clássico 

Cabeção, saia e capello, 

O manto, a cinta, os chinellos.» 

Enes ensalmos são recitados benzendo-se a pai*te affectada 
do eorpo, o que consiste em fazer-se o signal da cruz, com a 



126 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

mão direita aberta, repetidamente, á cada phrase que se íôr re- 
citando, ató terminar a oração, ou fazendo-se aspersões de aguik 
Mdk com um galho de mangoricão ou arruda . 

A essas bengãos e orações também se refere um outro poeU. 
nosso, de meiados do mesmo século XVIII, o padre António Gene» 
Pacheco, em um Romance joco-serio^ oscripto em louvor do | 
vernador José Cezar de Menezes, om 1775, como 

. • • orações de mandinga. 

Tiradas do patuá 

Do um valentão do Paulista 

bem como a 

Umas oravoes latinas, 
Vergadas na turiu dura. 
Feitas na lagoa Stigia 

o que tudo são 

Famosas feitiçarias. . • 

E^rovendo Lopes Gama, om 183T, sobre os crendices de 
época, diz o seguinte : 

« Mulheres velhas, que se apregoam yi fora do mundo 
(porque o mundo as deixuu\ dão em curandeiras, que sabem 
rezas e bênçãos para curar moléstias desesperadas. Uma sabe 
tomar sangue com palavras o 6 mui procurada para etalliar 
frouxos ; outra cura nervo torto c carne quebrada ; esta tem um 
portentoso talisman para curar crysipelas, aquella sabe oerta 
oração que é iufallivel para hydropisias o outras moléstias. » 

Eram também provorbiaes nesses tempos, para abrandar ce* 
rações^ umas novenas, umas orações e umas palavras santM* a 
que ninguém resistia, cujas artinLuihas eram igualmente eier* 
cidas por certas mulheres velhas, que em moças foram iosignee 
messalinas, e deixando o mundo e dando para devotas, aprefoa- 
vam-so mestras om taes patranhas. 

A Constituição do arcebispado proclama — • que Deus em i 
Egreja deixou a graça de curar ;— comtudo, accrcscenta: povqi 



FOLK-LORE PERNAMBUCANO 127 

) modo com que se costama usar desta graça se podem intro- 
jzir perniciosas superstições e pecoaminosos abusos ;— prohibe 
»b pena do ezcommunhão maior ipso facto incurrenda, que — 
ioguem beoza gente, gado ou quaesqner animaes, nem use da 
isalmos c palavras, ou de outra cousa para curar feridas o 
)enças, ou levantar espinliela, sem ser primeiro examinado, o 
iver licença por escripto, pela competente autoridade eccle- 
estica, isto é, o arcebispo, na Bahia, e os bispos nas suffiraga* 
)as dioceses. 

E consoantemente com c^es dictames prescreve também 
Egreja os seus exorcismos e bênçãos para a cura de certas 
fermidades, cujas formulas, particularmente sobre a Benção 
erysipela, e do Exorcismo contra lambrigaSy íiguram no 
rinho Director espiritual, ordenado por Frei J. L. Barros, 
inciscano do convento do Recife, impresso em 1841 ; e a 
nção do que receia estar turbado do demónio, e a do fogo em 
i se queimarão os signaes dos feitiços^ consignadas* entre 
tras mais, na obra Coroa seráfica meditada^ impressa em 
boa em 1843. 

Para as empigens o o cobreiro não se desenvolverem ou 
istrarem, é bom cercal-os de cruzinhas de tinta de escrever. 
São tão prodigiosos os effeitos dos ensalmos, e de efflcacia 
prompta e immediata, que absolutamente dispensam o au- 
o do mercúrio ou outro romcdio qualquer para a cura da bi- 
lra que ataca e devasta os animaes bovinos e cavallares. 
ita recitar a oração, ainda mosmo na própria ausência do 
mal atacado da moléstia, em face do seu rasto, das suas pé- 
as ; ou então, como fazem os sertanejos, que — se voltam 
nas na direcção em que ello se acha o rezam, tracejando no 
o inextricáveis linhas cabalisticas. . . 
Gomo uma nota curiosa sobre o assumpto, vamos consignar 
imas dessas orações, vulgarissimas entre nós. 

para tomar o sangue por palacras 

Sangue tem-te em ti. 
Como Nosso Senhor Jesus Christo 
Teve em si. 



128 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

Sanguo iem-te na veia, 

Como Nosso Senhor Josus Christo 

Teve na ceia. 
Sangue tein-te no corpo. 
Como Nosso Senhor Jesus Christo 

Teve no Horto, 
Sangue tem- te firme e forte, 
Como teve Jesus Christo 

Na hora da morte. 

Para tirar um arqueiro 

Corro, con*o, cavalleiro 
Pela porta de São Pedro, 
E dizei a Santa Luzia, 
Que me mando o sou lencinho, 
Para tirar-me este arguciro. 

Para a cura da azia 

Santa Iria 
Tem trcs í ilhas : 
Uma tía, 
Outra coso, 
E outra cura 
O mal d*azia. 

Para curar o cubreiro 

Sapo, sapão. 
Lagarto, lagartão. 
Aranha, scorpião, 
Vibora, vibráo, 
E todos quantos são 
Màu8 ou peçonhentos. 
Que por ordem de São Bento, 
E mando de São Braz 
Fiqoeis no entendimento, 



FOLK-LORE PERNAMBUCANO 129 

Que não lavrareis mais ; 
£ por ser verdade isto 
Peço eu a Jesus Christo 
Pelas suari cinco chagas« 
Que nos livre dessas pragas. 
£ a Senhora d*Agrella, 
Que livre este paccador 
Da comichão, do ardor, 
Que lhe causa esta mazella, 
Em nome de Deus, amen. 

ileza-so depois trcs Padres Nossos o três Ave-Marias. 

Sylvio Roméro, consigna nos seus Cantos populares mais 
uansu tantas orações contra a espinhola cahida, espinha na gar- 
gaixt^a, soluço c sezões, que não reproduzimos na incerteza de 
ser^m, ou não, recolhidas em Pernambuco. 

Avultam também outros géneros de orações como esta, por 
exomplo, para benzer a cama : 

São Pedro disso missa, 
Jesus Christo benzeu o altar ; 
Eu benzo a minha cama 
Para nella me deitar. 

E esta outra ao deitar : 

Com Deus me deito. 
Com Deus me levanto, 
Na graça de Deus, 
Do Divino Espirito Santo. 

Nota-se ainda um outro género de orações, erudita e pia* 
mente compostas, mas, que o exaltamento da superstição po« 
pular apossou-se delias, desvirtuando os seus lios, e emprestan- 
do-lhes até mesmo sobronaturaes prodígios, dentre as quaes, 
particularmente, o bello hymno A Magnificai^ e as orações 
de S. Silvestre, da Estrella, e de Nossa Senhora do Monto 
Serrate. 

8593— y Tomo lxx. p. ii. 



130 REVISTA 1)0 INSTITUTO IllsTOHICO 

Esta oração, segundo uma nota lançada no exemplar mana- 
scripto que obtivemos,— «6 de tanto valor» que lodo aquelle que 
a tiouxer comsiífo, com muita f(S recitando e rezando depois 
um Padre Nosso o uma Ave- Maria com oíTorecimento a Nossa 
Senhora do Monte Serrate, nâo morierá afogado, c nem repon- 
tioamonte, o sim em sua casa, confessado e sacramentado ; 
livral-o-ha da gotta coral, dos seus inimigos e das tentações do 
demónio ; evitará as discórdias entre marido e mulher, e a que 
estiver em perigo de parto, e deital-a ao pescoço terá immodia- 
tamenle o seu hom sucesso, e v6r-se-ha livro de todo aquelle 
perigo». 

A oração da estrella, diz o vulgo convencidamente, 6 tão 
forte, que ao rezar-se tremem as estrellas no espaço ; e umas e 
outras, escriptas e trazidas pendentes do pescoço, como hrrcs, 
fecham o corpo do individuo, que assim fica immune de todos 
os males o perigos, e principalmente de perae^uições, dos golpes 
de armas bicancas e dos projoctis das do logo, os quacs graças a 
uma força sobrenatural, desviam-so e não o attinp^em, ainda 
mesmo que do perto e certeiramente disparados. 

A milagrosa oração de S. Silvestre, emfim, i-eza-se — « com 
08 cabollos de uma pessoa fechados na mão, chama-se mootal- 
mente a essa pessoa, e olla, p.do poder da oração, vem do ondo 
estiver, ainda que esteja fechada a sote chaves numa torre do 
bronze, ainda que seja paralytica das ])ernas ou mesnjo não 
as tenha, vem até onde está a pessoa que a chamou o a quer, 
como si fosse somnamI»ula, som havor (lucm lhe impeça os 
passos, quem a dotouha em caminho, por mais força o autori> 
dado que possua. Não ha obstáculos que nãodesappareçani dcanto 
delia. S. Silvestre a i^niia, os anjos alucm-llio ;is porias o o 
caminho, e as almas do pur^^xtorio a oscoltun, dcfoií-l ?odo-ii, v^m 
que ellao percel)a i»i(iuer.» 

Ha, porém, uma ora(;ão esj)eci.íl pai i } 'ch.,:r o -orpo, :i qual, 
segundo a (írendice popular, {> d.; unii infillivel effitMcia. E^sa 
oração, em que ae vi» o .s.izrado .io niistuni com o profano» o um 
latontí desvirtuamento dos prin<.Mpi<:s i\'1í;;í.»<on O ííssira con- 
cobida: 

< Tra^'0 o meu ooii>o focliado com a^ cliavos do iauto sa- 
crário; dentro delie se encerra o meu .icsn^ Sacramentado, como 



K0LK-L0K15 PEKNAMBUGANO * 131 

no sacrário se encerra ; o assim como vós, ô mea Jesus, o mea 
corpo será guardado, a minh*alma não será maltratada dos meus 
inimif^oSt e o meu sangue não será derramado, porque tenho o 
meu Santissimo Sacramento para o guardar, e a Vrigem Maria 
para me livrar de maleficios, bruxarias e feitiços ; e no mea 
corpo não entrarão, coberto com o sagrado manto da Virgem 
Maria, borrifado com o seu sagrado leite, o trancado, como o 
meu Jesus Sacramentado, com as chaves do santo sacrário, e 
com o Credo em cruz. Pclc Domini, misericórdia^ Alleluia.^ 

E ainda esta outra : 

« Eu me entrego a Jesus e ao Santissimo Sacramento, ás três 
reliqnias que dentro deste estão, e ás três missas do Natal, para 
que não me aconteça nenhuma desgraça. Maria Santíssima seja 
commigo e o anjo da minha guarda me guarde e me defenda das 
astúcias de Satanaz e de todos os meus Inimigos para sempre. 
Amen.» 

No sertão é muito commum a oração de S. Campeiro, — 
canonizado in parUbus, ao qual so accendem veias pelos campos 
para que favoreça a descoberta de objectos perdidos. 

Ha ainda uma oração do grandes prodígios, que recitada, 
tendo-se a mão sobre uma porta fechada, por mais segura que 
esteja, abre-se immediatamente. . . E* o Credo ás avessas ! 

Os breves muito usados, como vimos, quando nos referimos 
aos das parteiras, contêm muitas vezes uma oração banal, e não 
raro até mesmo um assumpto de simples brincadeira ; e de um 
que trazia comsigo um capitão-mór sertanejo, graças ás virtudes 
do qual, sahiu-se sempre bem de todos os perigos e alhadas em 
que se viu mottido, conta-se esta curiosa historia: 

« Apparocendo na localidade da sua resideacia um padre mis- 
sionário, podiu-lho o capitão-inórum hi*ovo qiio o livrasse de pe- 
rigos o malfeitores, o dos golpes dos seus inimigos. Dissimulou 
) padre sobro o pe<ii<lo, mas, reflectindo, às instantes solicitações, 
[ue si cahisse no desagrado do potentado capitão-mór, talvez 
he succedesse al^um damuo, accedeu por fim, e certo dia íez-lhe 
ntrega do suspirado breve, rocoramendando que o trouxesse 
om muita íé, porque assim ficaria acoberto de todos os perigos^; 
a experiência domonstrou depois em decorridos annos, os pro- 
igios do breve. 



132 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

€ Morrendo, porém, o liomom, o desejando os filhos gozar 
tambetn de taes privilégios, resolveram descoser o breve e copiar 
a poderosa oração que encerrava, para a orgaoizaç&o de outras 
mais, quando leram com sorpreza esta simples quadrinha : 

Breve me pedes. 
Breve te dou ; 
Dá-me um garrote 
Qu*eu breve me vou. 

Lopes Gama conta também sobre o assumpto esta interes- 
sante historia : 

4c Um homem que viajava pelos sertões, pediu agasalho em 
uma casa; j& muito noite ; e como lh*o negassem por motivo de 
estar a dona da casa om grave perigo sem poder dar á luz havia 
quatro dias, disse o magano, que elle sabia de certas palavras 
magicas, que escriptas e postas ao pesooço da parturiente, eram 
um remédio infallivel ; mas só faria isto, se lhe denem rancho 
por aquella noite. 

€ Foi logo acolhido : escreveu as mysteriosas palavras em 
um papel, recommendando que nunca o abrissem, sob pena de 
perder-se toda a virtude miraculosa, e para isso ooeeu o em- 
brulho em muitos pannos. Posco ao pescoço da mulher, não 
passou meia hora, que não desse á luz com grande felicidade, e 
com pasmo de toda a família. 

4c Bem é do imigioar quão obsequiado fosso o sujeito que tal 
prodígio havia operalo. D*ahí por diante andava o breve de casa 
em casa para iguacs apertos, o taes maravilhas obrou, que as- 
sentaram de o abrir, apezar da rocommendação do viajeiro, o 
viram, que as palavras, que tantos milagres faziam, eram estas: 

Tenha ou rancho 
E o meu cavallo. 
Que para a burra 
Não dá-me abalo. 

Um c(:lebi*e cantjaceiro, vulgarmente conhecido por André 
Tripa, terror dos senões da /ona sul do Estado, trazia comsigo 
imagens, oraçõus *' um patuá 



FOLK-LORE PERNAMBUCANO 133 

Ck)m tres folhas de missal 
Para poder fazer mal 
Como do facto se via 

serrando a expressão do uma extensa narrativa em versos, em 
ft^rma úq AB C, consagrada <â vida e façanhas desse famigerado 
cangaceiro, concluindo o poeta, nesse particular com estes con- 
ceitos : 

£* certo que as orações 
Nio servem para offendcr 
Mas fazem quem as traí comsi^o 
Com ellas se enfurecer, 
Como André Tripa fazia, 
Pois crendo que não morria 
Matou gente ató morrer. 

André Tripa acabou os seus dias trágica e recentemente, em 
lu.-^.a de resistência coma forca publica destinada a captaral-o, 
^ XMFOceu como todos esses infelizes que se desviam do caminho 
<io bem, porque, na phrase muito sensata do autor da citada 
<5oix»po8içâo: 

Outra cousa ninguém creia: 
Fim de valentão ô cadeia, 
Bala quente o faca fria. 



A Poesia Popular 



As nossas investigações históricas, attinentes á poesia po- 
lar em Pernambuco, atravessaram todo o periodo que. se 
lenrola desde a época inicial da nossa vida colonial» na ter- 
ra década do século XYI, até moiados do século XVII, sem 
!ontrar o menor vestígio consagrado pela tradição popular, 
mesmo consi^^^nado pelos nossos chronistas ou quaesquer outros 
umentos. 

Entretanto, bellos episódios se desenrolaram em todo esse 
^0 periodo, os quaes, (tortamente, não podiam ter escapado 
msagração da lyra popular, em uma época em que a poo- 
por assim dizer, costumava registrar todos 08 aconteci- 
itos notáveis em suas diversas manifestações, no romance e 
:acara, principalmente, ou mesmo em versos para des- 
.es. 

Da dominação liollandeza, quer para pintar os soffi*imentos 
ovo, quor para exaltar os mais bellos feitos de armas nas 
3 da libertação da pátria, como tantos outros episódios in- 
ssantissimos, nada resta, senão ligeiros vestígios em umas 
18 que contavam os velhos presidiários de Fernando de No- 
a, lendas que Gustavo Adolpho reduziu a versos, e nós 
^produzimos num trabalho sobro aquelle presidio. 
D governo de Maurício de Nassau, tão fecundo pelo inore- 
o moral e material da colónia, e tão cheio de galas e es- 
tores, passaria também sem o menor vestígio consagrado 
poesia popular si não nos restasse um único documento, 
SíTecti vãmente, entre tantos acontecimentos notáveis, e 
Tencias de solennidades apparato^as e deslumbrantes, des- 
ícidissimas dos velhos cohmos pernambucanos, fiíçura, no- 



13G REVISTA I)0 INSTITUTO HISTÓRICO 

tavelmente, o da abertura da ponte do Rccifo ao transito pu- 
blico, em 1643. 

Concluída a pont«, cuja obra somente o ^^enio emprohen- 
dcilor e pertinaz de Nassan poderia planear e realizar pelas diffi- 
cuidados materiaos que se antolhavam ; extensão, profundidade 
do rio o pronunciada corrente das aguas, annnnciou-se que no 
dia da sua abertura ver-se-ia na cidade Mauricia uma mara- 
vilha então nunca presenciada —um boi voar! — ElfTectivamente, 
grande concurrencia de povo aíiluiu para o campo do palácio 
de Friburgo, hoje praça da Republica, onde tinha de se exhibir 
a promettida maravilha. 

€ Belchior Alves, narra um nosso chronista, possuía um boi 
tio manso, e domesticado de tal sorto, que entrava pelas 
livremente e todos o affigavam ; e si o conduziam, subia < 
da sem grande difflculdade. De um boi igual a este nacôr e j^n* 
deza.mandou Maurício aproveitar a pelle em todas as suas par- 
tas, de maneira que depois de secca, cosida o cheia de palha, 
representasse perfeitamente o boi de Belchior. 

< Feito isto em grande segredo, mandou o príncipe pedir ao 
dito Belchior que lhe emprestasse o seu boi domesticado, dizen- 
do que era aquolloque o< seus engenheiros fariam voar ; o no 
dia designado para ^c expor ao publico es&i maravilha, estando 
reunido o povo ^lue linha concorrido, fez apparecer na galeria 
do seu jardim o referido boi emprestado, o qual sondo apresen- 
tado ao publiCi^ e dando alguns passeios pela galeria, foi dissi- 
muladamonto intr<.»duzido pela porta de uma camará, onde es- 
tava oc^ulto o couro cheio de palha. 

< Immediatamente viuso quo pela corda, que sahia pela 
porta dl referida camará, e que ia prend(T-se a um mastro« 
collocado om sutlleiento distancia, so elevava o boi por meio 
de um appai*olho, mai fraeo om verdade para resistir ao peso 
dettiie animal, ^i vivo o poriasse, mas forte bastante para sus- 
pender e mover ligeiramente um couro cheio de palha. 

4k Desti sorte, illudida a curiosidade pullici. conseguiram 06 
hollande/o;!!. pjr moio de semelhante burla, que a ponte do 
Recifo r\*nle5-e, n\ laniede-í ;na ia para o Soi v 4ir. mil o oiio- 
centoa florins, nio paganlo ca li pe$sa\ mais do que duas pia* 
eaa quando pasnva pela ponte ! > 



FOLK-LORE PERNAMBUCANO 137 

ste facto, al<'m do narrado por am chronista coevo, é 
celebrado pela lyra popular : 

O BOI DK PALHA 

•e Belohior o boi cruzou no.s ares. 

Oh ! que facto estupendo! 
'> acredito porqae estamos vendo 
fm bicho tâo pesíido, tão rotundo 

Pelo ar cavalgar ! 
' cousa que jdmais se viu no mando 

Falar oa se contar ! 
judea Pitangal, o moaro hispano, 
quelle incapillato, este zarolho, 
nbestiffar eu vi por entre o povo 

Qual rapazito novo: 
primeiro, o jndou, oproditor 
cultoso hojo. om dia. sendo a pouco 
indedor de cíirvão, de lenha e caco ! 
segundo, a soar como um ginete 
le parou de carreira desabrida 

Eu o vi de barrete, 
itando : Jova. . . leva. . . qu'eu a soga 
, Vou dar ao molinete. 
Restinora e Marim (*) o povo inteiro, 
'>ra o que do mais longe viera, 
O Íncola vermelho, 
ite do norte o sul té da Tapera 
Correndo veio vôr 
gordo boi nos ares se raecher I 
Milagre di« Santo Estevão 
Não foi do certo que fez. 
Voar cl vista do povo 
Qual gavião, umn vez! 

íslinga, o ])airro do Rn^ife, o Marino, a cidade, «ntão villa do 



Í;j8 RF.VI^iTA I)0 INSTITUTO lIISTOniCO 

Milagre de São Maurício, 

Diz o Felippe espião : 

Pôde ser, porém duvido, 

Dessd Santo que ó. pa^ão. 
Era a primeira voz que o povo a pé 
Em sermita p*ra rua dos Judeus {*) 

Teve caminho socco 

D*avantearé. 
J. . . Bling e Felippe um dia inteiro, 
EmquaDto o povo passou colheu dinheiro, 

Adlatero tendo cem lanceiros! 
Alguns que bem nadavam ao largo rio 

Inteiros se atiravam : 
Uns quando vinham ver, outros na volta 

Esse lance inventaram. 
Para á taxa fugir, á logração 
Que o flamengo pregou na tal funeção ! 
Mas quantos, apezar do ser nadivel, 

O rio extenso, largo, 
Não verteram comprido pranto amargo i 

Pois diversos morreram 
E outros no Aljube se motteram ! 
Afora e^^sas desgraças quti não lembra 

O povo que as mirou. 
Conserva o mais que viu bom na memoria 

O boi que lá voou ! 
Pelo que para v6r no a(]iioducto 

O imposto pagou. 

Foi dia de encantoa 

De graças, recreio 

Pra o conde que o bolso 

De florins viu chrio : 
P'ra elio sómonto 
De v.erii) que não. 
Porque o Felippe ' 
Tirou seu quinhão. 



(1) A actual rua Hom .l<*«uii. no bairro ilo Recife. 



FOLK-LORE PERNAMBUCANO 139 



lido o .jii<ro lioUandez om 1Ô54, após renhidissimas 
' nove longos annos, cujos feitos são verdadeiras epo- 
isoberbeoer um povo, e sobre as quaes* naturalmente 
liu o génio poético popular, ainda mesmo que essa 
do tradição se extinguisse em meio caminho e não 
até <^s nossos dias, volveu a colónia á soberania da 
tugiieza, o do novo entramos nos acanhados moldes 
traçava uma metrópole ciosa dos seus thesouros e 

dos seus proventos, 

I os governadores e capitães ^eneraes que couberam por 
ernambuco, uns bons e outros màos, poucos honrados- 
>dos deshonostos, corruptos, bárbaros e desprezíveis, 

rol destes últimos, o infeliz Jeronymo de Mendonça 
rulgarmentc conhecido por Uxumbergas, que levou o 
lesespero de o depor do governo, prender e o remetter 
'ugai com o summario dos seus crimes e represen- 

offendidos, o onde chegando foi severamente punido. 

o facto da deposição do governador e sua parttdm 
ôa, cujas oceurrencias tiveram logar em 1666, ex- 
a lyra popular, compondo varias cantigas allusivas, 
iva muita voga, o das quaes nos restam estes versos 



O Mendonça ora Fartado 
Pois dos paços o furta raní : 
íiovernador ^'ovei-nado 
Para o reino o despacharam. 

A peste já sc^ acabou : 
Alviçaras, ó gente bòa ! 
Uxuniberí,'as embarcou, 
Eil-o— vai para Lisboa. 

[Quista do famoso quilombo dos Palmares, que por 
cio século campeava impunemente, attingindo jã a 



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£/>;r* ;<<*.•'; .- »./-mi= rx;>elL2Cts ^> :"::;:?&> ô af I 

■■ <frr-ador Joâ/ di Canha S.-tiío V^^t, ok J fc 
if^y, 'y^.Vi o fim àf, lyb^-i.r par^ a anasin^**^ 
HX\/^\n <t-, corjV':ni'nVíí irdezs ?ir» rns •?•• 
4o w.víjfjVi díf OlíDdi o soldo e a iaporaas^A» 
q'j«; tinha direiVi ; .^-jMoesse que *r 
cut/So d<; Olinda, e fo. mandada inTarsai 
c^rta i^;(fja d'; 23 ie iaoho de ]0â2. 

Kíír!Cii7arneot9 pa.xia Smio adujCío para a| 
Palma-r^, a/sav» ^ronfiada a ma irr.airem a Pm Al** *^ 
nunciv;^/^, n^ii^ioiy^i franciscano, qne marcboa • 
•/imont/; re^rr^ffK^iU quando tennin «a a cmapa^lft Mi*^ 
ploud<siitnjt',-ão da fimosa republica palmanai* M 
nc^^ra, na phra:-:o do um historiador, 

OiiDo nota carioca da ''poça. che^<:4i Mi vá 
um rryiuerim<into em verso dirigido ao Coemlte 
rino, por am Âoldado quo s ilicíiava recompensai peta i 
que prestara na campanha dos Palmaras, e do quaL \ 
Sarit^i António, f; invo a mesmo o seu testemunho em fli^ ^ 
hu;ím alie^av^^^H. Kíh a curiosa 



PKTirÃO 



Ao Con^íelho Ultramarino 
Quíí tio juHtic<*iroé. 
Zobodeu, praça do p<\ 
Filho dí» Iiraz Victorino, 
Hom moçf), qn.isi menino. 
!>ara Palmares marchou. 
Polo quíí líl sií estrepou, 
Sendo um dus desgraçados. 
Que voltaram ah^ijados 
K por fim nada fçarihou. 



FOLK-LORE PERNAMBUCANO Hi 

Ali de arcabuz na mão 
Dia e noite combatendo, 
De fome e frio morrendo, 
Descalço, de pés no chão. 
Ao lado do valentão 
Félix José dos Açores, 
Que apenas viu dos horrores 
O painel desenroiar-se, 
Foi tratando do moscar-se 
Com grande sofreguidão. 

Do que venbo de narrar, 

Apezar do sor bolonlo, 

Pôie o Padre S mto António % 

Muito bom corroborar : 

O que não é de esperar 

]*roceda d'outra maneira 

Attenta a sua âeira, 

Sua aíTcição, valentia, 

Pois junto a mim noite e dia 

Não desertou da trincheira. 

Elle viu, bem como eu, 
Quando o combate soou, 
Quando a ourueta tocou 
A í^eute q\x*i ontào correu ; 
A essa foi que se deu 
Como garbosa e valente 
Terras, dinheiro, patente, 
:k)m grande injustiça e ag<jrravo8 
?*ra dquoUes que aos vis escravos 
^ão trataram como gente. 

.' vós Conselho afamado 
!ue a justiça só visaes, 
*ara que não amparaes 
> píjbre do aleijado ? 
!ue no mundo abandonado 



142 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

Sem ter qaom lhe estenda a mão 
Tem por certo a perdição 
Da vida, pois quasl morto, 
Só poderá ter conforto 
Se o íizerdes — capitão. 

Pernambuco, como todo o Brazil, tem a diversos santos p 
seus padroeiros, desde os primeiros tempos coloniaes, estatnii 
por leis, ou não, cujas homenagens civicas dcsappareceram < 
1890, em virtude do acto do Governo Pi^ovisorio da Repablk 
separando a egruja do Estado. A egreja, porém, contínâi 
prestar a esses padroeiros aquollas homona^ns e reverend 
costumadas, e o povo catholico ainda os considera ooi 
taos. • 

Santo António <ie Pádua, ou de Lisboa, é o padroeiro 
Pernambuco, apezar de não constar acto algum do ^vem 
tal respeito. i\ntretanto, jáem lô^^^er.i tidocomo taU ao q 
parece, porquanto, em um e.soripto hollandoz, da época, 
menciona o santo como pairoho doé portuguozes em Pemai 
buço ; e nos estandartes dos regimentos que tomaram parta i 
campanha da restauração, que explodiu naquelie mesmo ano 
figurava um Santo António, como emblema de guerra. 

Como documento mais authentico e positivo a tal raapail 
encontramos o alvará de 13 de agosto do 1759, approvaado • 
estatutos da Companhia Geral do Commcrcio de PemamlNK 
o Parahyba, os quaes, determinam no art. 2^ que a compi 
nhia usará de armas paraus sellos, em que se veja na par 
superior a imagem d«^ Santo Antoni'», }>'uh'ncir>} daqueUa c^ 
tania^ e em baixo uma estrella com a lei^^^nda — i t Inccado 
niVyu.v — como eír»v,ti\amonte m vc nos sólios das suas apollofl 
De um raappa ori;:aniz:i»lo em iNlí». rogularijJindo os d 
em que se hav II do arvorar a l»indeira nacional na fortal^ 
do Bruni, vem mencionado cai»í os domjii>» o dia de Saí 
António de I Jsl)ôa, em i:^ do junho. 

A camará «lo senado de Olinda, pelo seu antigo Regineo 
era obrigada a celobrir annual mente a festa do padroeiro, 
que assistia encorporada, o com o sou competente estandar 
encargo esse que passou depois paru a aunara do Recife, <| 



l"OLIv-J,ORE l>EllNAMBi:CAN(> 143 

imava celebrar a festa do Santo Aotonio na Of^roja parochial 
orpo Santo. 

Gm um antisro novonario de Santo António, encontramos 
antico com estes versos, por estribilho, quo dizem alguma 
isobi-é o assumpto: 

Milagroso Anconio 
Nosso padroeiro, 
Enche de alegria 
Pernambuco inteiro. 

» Papa Innocencio XVIII por uma bulia expedida om ^£1 de 
t) de Y)'^^ declarou de preceito a festa do Santo António 
dua, om toda a America, tanto portugueza como hes- 
»la. 

atr ora foi o dia do padroeiro, 13 de junho, santificado, 

lo o bispado, mas foi extincto com outros mais, por um 

do Papa Pio IX, expedido em 11 de junho de \>^íÁ, que 

lublicidade em Pernambuco por uma pastorai do bispo 

ino, datada do 18 do maio de 1833. O referido breve 

t manteve o santificado na patriarchal de Lisboa. 

stejado o santo com ruidosas manifestações populares no 

, com apparatosas festas nas egrejas e em casas par* 

es, com o seu nome imposto como o orago de cidades, 

\ parochias, e adoptado por uma grande parte da po- 

D, por imposição paterna na pia baptismal, si tôm arrefe- 

3 al^^uma sorte, todas essas fervorosas e devotas manifes- 

)opulares om honra do glorioso thaumaturgo portiiguez, 

itudo, ainda hoje, tributadas com geral fervor. 

no uma leição característica dos sentimento:: religiosos 

pos não muito remotos, recordaremos os nichos de Santo 

que se viam nos estabelecimentos commerciaes a vareyo, 

ilmento as tavernas, collocados " no crntro das ultimas 

prateleiras, em frento ás portas, e completamente si- 

or louça ordinária, garrafas e i^^eneros de toda a espécie. 

lia do Santo Aiitonio uotava-so compre um certo appa- 

raordinario de luzes o ornamentações, e vendilhão tão 

lavia, que o solennisava, com mais esplendor, enfeitando 



144 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

caprichosamento o nicho e a taverna e soltando foguetes todo 
o dia. 

Esses obséquios tributados ao santo conciliavam doas senti- 
mentos distinctos: um dict:vdo pelo espirito religioso, e outro pelo 
interesse, com o íim de captar a sua protecção para a felicidide 
do negocio. . . E não vai muito lon<ire essa época dos nichos nas 
tavernas, de tosca armação de pinho, alumiadas a azeite de 
carrapato, porcas, immundas, o onde a hygiene teria muito que 
fazer, si nesses bons tempos ató ahi chegasse a sua Intervençio. 

Em melados do século XVII gozava Santo António de uma 
pensão qualquer, como se vê de uma portaria expedida pelo 
governador geral do Brazil, Alexandre de Souza Freire, em data 
de 29 de setembro de 1670, mandando que se pozesse verba nos 
ordenados de Santo Anlonio em Pernambuco, 

Jã com assentamento de praça do exercito, por occasião da 
guerra dos Palmares, como vimos, dirige o governador D. Lou- 
renço de Almeida uma carta a el-i*ei, em 13 de setembro de 
1716, communicando-lhe que em uma revista do mostra que 
passara á infanteria, se lhe apresentou uma petição de Santo 
António, allegando-se nella, que tendo elle grandes serviços, 
percebia apenas o soldo do praça de soldado, pelo que o pro- 
movera ao posto do tenente] da fortaleza de Santo António dos 
Coqueiros da barra do Recife (actualmente conhecida pela deno- 
minação de forte do Buraco), com o soldo de 2$700 por mez» o 
que foi approvado por provisão do Conselho Ultramarino de 90 
de agosto do anuo seguinte. 

Km 1819, pretenderam os reliiriosos franciscanos, a titulo de 
esmola, que o governo elevasse a patente de Santo António à 
de sargento-mór, correspondente hoje ao posto de major; porém, 
vindo o respectivo requerimento á informar ao governador 
Luiz do Rego Barreto, por aviso de 3 de junho, se oppoz elle a 
semelhante pretenção, dizendo no seu oíBcio de informação da- 
tado de 30 de agosto do mesmo anuo. o seguinte: 

< A esmola que estes religiosos pedem do soldo de sargento- 
mór, tendo gozado até agora <la de Boldo de alferes, parooe-me 
excessiva, e mui o mais porque, sendo pedida a titulo de postos 
conferidos a Santo António, offlcial que nunca morre, hia 4ã 
necessariamente chegar debaixo deste titulo do soldo àm mi^ 



FOLK-LORE PERNAMBUCANO 145 

rechal de exercito, o do que mais poderem inventar, e então 
aerão sostentados á custa da fazenda reaU o que nâo mo parece 
precifo.» 

Apretenção foi indeferida, eo santo continuou percebendo 
o soldo de alferes, na razão de 10$a00 por mcz, em virtude da 
provisão de lU de novembro de 1750. 

Santo António 6 o Protector da Camará de Ljuarassu o per- 
cebia â propina de 27$000 annuacs, que tinham os vereadores da 
mesma oamara, em virtude da provisão de 23 do novembro 
de 1754. 

O que, porém, constituo a popularidade de Santo António 
entre n6s, éo seu predicado do milagroso, pelo que tem grande 
devoção, principalmente das mo(,us que se desejam casar ; e 
consoantemente com essa crendice popular, diz uma jaculatória 
de nm antigo noveuario do santo, ainda hojo em uso : 

Quem milagres quer achar. 
Contra os males e o demónio. 
Busquem logo Santo António 
Que nelle os ha de encontrar. 

Applaca a 1'uria do mar, 
Tira os presos da prisão, 
Ao doente torna são, 
E o perdido faz achar. 

Sem respeitar os annos, 
Soccorre em qualquer edado: 
Abonam esta verda«lo 
Os tieis pernambucanos. 



Coma denominação de (iucrrn dos Misorics, memora a his- 
toria o patriótico movimento cmancipacionista que irrompeu 
•BH Pernambuco em 1710, e perdurou por cinco annos, causando 
o> reaccionários tantos damnos, que ainda por muito tempo sen- 
Urim*8e 00 seus efléitos. 

»W - iO Tomo lxx, p, lu 



146 REVISTA DO INSTITUTO. HISTÓRICO 

Vencedores os Mascates, que combatiam contra o numeroso 
partido nacional, graças aos auxílios da metrópole, abriaie o 
livro negro das tyrannias, povoaram-se os cárceres de viotimas, 
flzeram-se confiscos e deportações, e tudo emíim quanto se 
podo imaginar de mais bárbaro c de mais atroz soíTreram as in- 
felizes victimas da generosa causa pernambucana. 

Depois do um longo e doloroso martyrio, depois de innu- 
moras supplicas e pGtiç5es do graça dirigidas ao soberano, or- 
denou em fim a clemência real que fossem soltos todos os pre- 
sos e annu liados todos os processos. 

O dia em que entrou no porto do Recife a náu que chegara 
de Lisboa trazendo esse acto re^io, foi um dia do luto e de tris- 
teza pai*a os Mascates, que pretendiam tudo anniquilar, tado 
destruir. Falharam, portanto, os seus planos de cubica, extin- 
guiram-se os seus tenebrosos projectos, o nada mais restaTa 
áquelles que ainda não se haviam aproveitado. A alguns desses 
cresceu, subiu a mi^^ua e o sentimento a ponto tal, que, tocando 
ao desespero, tentaram suicidar-se ! 

Um desses, morador em Olinda, dava execução a esn 
desesperada resolução, mas sendo presentido pela esposa, esta o 
acode, atempo de frustrar-lho o intento. Divulgado o facto, a 
poesia e a satyra doram-se as m<ãos, e assim o commentaram : 

\esta cidade se quiz 
Kuforcar um camarão, 
Kazen(io p>>r sua mão 
O iaçio, como se diz ; 
Jd peia bocca e nariz 
Som poder resfolegar. 
Acudia ao pernear 
A mulher doste madraço 
!•: cortaiiilo-lhe o cadarço 
(» tiruu de se enforcar. 

Koi cousa lom mal tirjida, 
t\»rqu»í a todos desta seita 
N&o vi cousa mais bem feita. 
Que enforcados, quando nada* 



FOLK-LORE PERNAMBUCANO l47 

Acção foi desesperada, 
£ de homem j4 perdido, 
Mas ficando suspendido 
Pela fé dos camarões, 
livrava de taes questões, 
£ a mulher de tal marido. 

Nessa epocha calamitosa em que os peraambucaaos tado 
tinham a perder, três homens, principalmente, tornaram-se 
notáveis pelas crueldades e iujustiças que praticaram, não 
trepidando para conseguirem os ílns daquellos do quem se 
haviam constituido co;?os instrumentos, o que iiavia de mm 
torpe, de mais infamo e degradante ! £ram elles o governador 
Feliz José Machado do Mendonça (Jastro e Yasconcollos, o 
oavidor ^eral (João Marques Bacalháo e o juiz de fora Paulo 
de Carvalho. 

Deste ultimo livrou-nos Deus, cortando-lhe o fio da triste 
existência dous annos depois da sua chegada, o para oujo epita- 
phio a musa popular offereceu estes versos : 

Jaz debaixo dum calháo. 
Que é de pederneira galho» 
O defunto juiz Carvalho 
Esperando o Bacalháo. 
Da morte deste marão, 
Nenhum dos mortaes so qucix(s 
Que a morte não acabou: 
Se ella o carvalho cortou, 
Inda ha de pescar o peixe. 

Estes versos, como se vc, mordem também ao ouvidor 6a- 
calhc^o, e terminam ainda, a olle se referindo aliusívamente. 

Nossa epocha vagava polas ruas do Recife, um doido in- 
offensivo chamado Pereira, que geralmente fazia descrêr-se 
da saa alienação pelos seus conceitos espirituosos e engraçadas 
anecdotas. 

Dos chasqueadas do Pereira, foi um dia victima o ouvidor 
bacalháo, cujo engraçado episodio, julgando' ter legar neste 



Í4X RKVISTA DO INSTITUTO IlISTnHICO 

nosso estudo, passamos a iuseril-o, segundo a narrativa de um 
ohroDÍsta: 

< Uma tirdo om quo o ouvidor, quo morava à rua das 
Cruzes, hoje Duque de Caxias, estava na sua varanda, estiioio- 
DOU o doido em frente da sua oasa, e encaranduo começou a 
gritar: 

Cousa nova, raridade, 
Nunci vista, na verdade ! 

€ Logo que o doido começou a annun<*iar a tal cowia nora 
ntmoi vist'1, foi-se ajuntando g.eute, de mo«lo que em pouco 
tempo a rua ostava repleU de curiosos, que incessantemonte o 
interrogavam acerca da til raridade, sem que elle se di^^nasse 
de responder : até que, resolvido a p^r termo a tão grande curio- 
sidade, deu uma estrondosa írargalhaia. <> em «^i^uida. apon- 
tando para o maíristralo, exclamou: 

iiacalliáo com calteca ! 

€ O ouvidor apenas ouvio o desfcclio da cousa íbi-sc, fulo 
de raiva, (*s;;ueirando para dentro do casa. emiiuanto o povo pur 
sua voz íazia o momo pela rua abaixo, rindose a bom rir. « 

Um outro ma;:istrado, que também deixou uma triste cele- 
bridade como verdugo dos pernambucanos, loi o Juiz 8\ ndicant4* 
da devassa que se abriu sobro o movimento 1710, Cbristovão 
Soares Reimão, a «piem o vulgo appellidou de Cf.*, e que por 
«ua vez é também verberado neste bonita» s^»neio cousa.;:iMd »ã 
Olinda : 

t^omo Amphi'.rite da* onda^ s- elova!il> 
l.he bei a o mar os pés liumiM.-inente: 
Seu porte colos^í.il. íiiriira iu::enie. 
Jamais baixa «orvi/, -o viii mo-íV.- •:: I ». 

Sua eabo«;a aoj) a^tiix r<ist^ ai'.«I» 
he ío\ \ • • i\n i furiín.i'» temon:^. 
^einprt» aluneir.i, sempr»* nMejHviienu». 
O sQl e o norte altiva vigiando: 



KOLK-I.ORE PERNAMBUCANO 149 

Nbiu o batavo audaz d^ouro sedento 
Aífeito á cannibal pirataria 
OíTuscar conseguiu ten Iiizimento. 

O que o batavo jamais conse^^uiria 
Macliado e I^calháo, qual mais sedento. 
Alcançam tendo ao lado uma Cotia . 

José Gesar de Menezes que dirigiu q governo da capitania 
por 14 annos (1774 - 1788), apezar dos elogios e louvores 
que a mios largas lhe 80,0 tributados em uma Sessão académica 
que teve logar no Recife em 1775, comtudo, si não foi tão máu 
como maitos outros governadores, nSo foi também dos melhores, 
que foram bem poucos. 

A iyra popular, porém, regosijou-se com a sua partida, 
fazendo correr versos deste jaez : 

Dom César já lá se foi. 
Já deu vela a embarcação, 
Já ficámos descançados 
Desse tão grande ladrão. 

Dom César quando se foi 
Uma pena levou de mais, 
Por deixar os seus soldados 
No poder de Dom Thomaz. 

Este ultimo verso refere-se a D. Thomaz José de Mello, 
íuccesBor de José César de Menezes. 

Da primeira quadra existe a seguinte variante recolhida 
por Pacifico do Amaral : 

José César já lá se foi. 
Já partiu a embarcação, 
Pelo qoo estamos livres 
Desse tão grande ladrão. 

No periodo governamental de José César ih festa vam a 
capitania alguns bandos de malfeitores, levando o crime e o 
terror por toda parte. 



150 REVISTA DO INSTITOTO HISTÓRICO 

Eotre esses bandidos Agrura nm de nome .loeé Gomes, vulgar* 
mente conhecido por CabMeira^ que deixou do si tristíssima 
celebridade. 

Cabelleira era um mameluco, filho de um outro, chamado 
Joaquim Gomes, homem perverso, coberto de crimes e mal- 
dições, e nasceu na freguezia da Gloria do Goit&, que entio 
pertencia ao termo de Santo Antão, hoje Victoria. 

Bducado sob as vistas o exemplos de seu pae, Cabelleira 
seguiu as suas pegadas e tomou-se tão màu c tòo perverso 
oomo elle. 

A trova popular, tão rica e fértil entro nós, mas infeliz- 
mente, qaasi que perdidas as suoâ composições, t&o simples e 
daspretenciosas, sem as galas o atavios da arte, mas tâ) bellai 
e tto expressivas, também celebrou o Cabolleií^a, cantando as 
suas façanhas, repassadas de crimes e perversidades. 

K assim celebrando os trovadores, fazem*no falar como 
que inspirado pelos exemplos de seu pae, como que por elle 
aconselhado o instruído : 

Meu pae me pediu 

Por sua benção, 

Que cu não fosse fraco, ^ 

Fosso valentão. 

Ao contrario, pon'm, de^oobrese que a mãe de Cabelleira 
era uma senhora virtuosa, inteiramente oxtraoha aos crimes 
de seu marido e do seu alho, o que a este acons<'lhara sempre 
a se^iir o caminho da honra e «lo dever. 

Xíinhi iifio piMiu-me 
Por sua l-onção 
i^ue eu não niaias<^e 
M'^ninu p-ii:ão. 

Minha mãe pediu-me 
I\>r seu CDração, 
Quoeu fosse bom homem 
Nio mata^^se, não. 



FOLK-LORE PERNAMBUCANO 151 

Minha mãe me den 
(;ontas p'ra vozhv ; 
Meu pao deu- me faca 
Para eu raatar . 

Eu matei um, 

Meu pae não gostou ; 

Eu matei dous. 

Meu pae me ajudou. • 

Cabelleira enveredaado-so audaz e destemido no caminho 
do crime, tornou-so o terror da capitania. Uma quadrilha do 
salteadores por elle capitaneada, e tendo por seu iramediato a 
um celebre Theodosio, tão perverso como elle, infestava todos 
oe legares, em constantes correrias. 

Lm dos mais bárbaros homicidios perpetrados por Cabel- 
leira, sem duvida em Santo Antão, aasim celobra a trova 
popular : 

\Á na minha terra, 
IJl em Santo Antão, 
Encontrei um homem 
Feito um guaribão, 
Pnz-Ihe o bacamarte, 
Foi pá, pi, no chão. 

Os crimes mais bari)uros eram continuamente praticados 
por essa horda solvagom. 

O nome de Cibelloira imprimia terror o as-íombro, o á 
noticia de que oile se approx ima va de qualquer localidade, os 
moradores abandonavam as suas casas, o os que ficavam, 
guardavam se com a possivel segurança. 

Fecha a poria gente 
Cabelleira ahi vem. 
Matando mulheres. 
Meninos também. 



152 REVISrA* I>0 INSTITUTO HISTÓRICO 

Focha a porta, ^^onto, 
Cabelleira ahi vem, 
Fujam todos dolle, 
Qup alma não U\m, 

Fecha a porta, L^ontn, 
Focha bom com o pau, 
Ao depois não di;>am, 
('at»elleira é m:lu. 

Corram, minha geuto, 
Cabelleira ahi vem ; 
Ello não vem so. 
Vem seu pac também. 

Em ontros logaro», onde os moradores não abandonavam 
as suas casas, armavani-s<>, convenientemente, e aquelles qae 
asiim não se preveniam, recebiam-no obtequiosamente, e da 
bda vontade prestavam-se a to<Ias as suasexi^ncias. 

No Recife mesmo, penetrou a quadrilha do Cabelleira e 
eommetteu homicídios e roíiltos. e (^poca houve que ningaem 
80 julgava ^aiantido. 

O ífovernailor .los») Cosar envidou to 1 os os esforços possíveis 
para exterminar essa horda ile poivorsos, « atioal, depois de 
grandes trabalhos <* sacrifício:!, e de innunieras partidas mili- 
tares, isso oonscjjuiu, cahindo preso o Cabelleira no cannavial do 
Engenho Novo, om Pixo dvlhu, graç:is aos esforços docapitSo- 
mór Christovão do Mollanda Cavahvvnti. 

Diz a trova popular: 

Vem c;í. C;iboll<'ira, 
Anda mo conrar 
Como U^ pi^enderam 
No cannavial . 

Meu pae me chamou: 
- '//' Gomes vem ivl ; 
( orno tens paasa<io 
No cannavial { 



FOLK-LORE PERNAMBUCANO 153 

Mortinho de fome, 
Saquinho de sede, 
Só me sastontava 
Kmcanuinha verdo. 

Três dm» passei 
Que comer não tinha, 
Mais que rato assado. 
Puro sem fkrioba. 

Kii me vi cercado 
De cahos, tenentes, 
Cada um pó de canna 
Mra 11111 pé de ^ente. 

Vem c;i Josó Gomes , 
Anda me contar. 
Como te prenderam 
Nocanoavial. 

Presos o Cabelleira e o seu companheiro Theodosio, e con- 
duzidos ao Recife, foram submettidos a processo perante a Junta 
de Justiça Criminal, e, condemnados á morte, foram executados 
na forca das Cinco Pontas, quatro dias depois de lavrada a sen- 
tença, contrlctos e arrependidos dos seus crimes e perversidades. 

Já lá vem o ne^ro 
Com o laço na mão, 
Espera lá meu negro 
Não me mates nfio. 

Quem tiver seu filho 
IH*-Ihe educação, 
Ao depois não tenha 
Dôr no coração. 

Quom tiver sous filtios 
Saiba os ensinar ; 
Veja o Cabelleira 
Que se vae enforcar. 



154 REVISTA DO INSTITUTO HISTORIO» 

Adens, mea pae, 
Pao do coração, 
Adens, minha mãe 
Lanoe*me a benção. 

Adeus, minha mãe. 
Ide por mim reaar, 
Que lá no outro mundo 
Ku irei penar. 

Adeus, ó cidade. 
Adeus, Santo Antão, 
Adeus, mamãozínha 
Do meu coração. 

£* da ópoca o seguinte Dialogo entre um negro o um c 
hoclo a propósito da captura do Cabelleira: 

— Vosmecô, seu Marcolino, 
Vai atraz do Oabelleira ? 

Si qalzor pegar o cabra 
Monte na besta fovcira. 
Monte na besta foveiro. 
Ou no cavallo cardão. 
Não ha de pcj?ar o cabra 
No meio dess(* mandão. 

— Si você íTOSta do bicho 
Porque rouba e m;ita genfe. 
Vej.i que alguém não lhe tiro 
As orelhas p'ra prcsenio. 

^ Motte. negro, a tua lenha 
No teu forno caladinho ; 
Mas não to mettis com homom. 
Podes ficar som focinho. 

— Eu que sou neí7ro nas cores 
MsíS não negro na>< ac(.^les. 

Si fosse atraz do malvado 
Cortava-lhe os esporões. 



FOLK-LORE PERNAMBUCANO 135 

« Para o negro que se mette 
Onde não lhe dão entrada, 
Nâo tem faca o Cabolleira, 
Tem uma peia ensebada. 
— Ru respeito a meus senhores 
E seDhoras que aqui ostão ; 
Mas porém não levo em conta 
Quem não teve criação. 
« Caboclo do pd da serra, 
Criado à beira do rio. 
Eu sompre tratei com gente. 
Porque sustento o meu brio. 

Referindo-se Theophilo Braj^a ao Fragmento do CabeUeira, 

liírfdo por Franklin Távora e reproduzido por Sylvio Ro- 

ro nos seus Cantos populares, diz que < — ó um romanoe 

avcl, e sobretudo por pertencer a esse cyclo de guapos e 

9nto3, que na tradição popular hespanhola se desenvolve 

rariamente no fim dos séculos XYII o XVIII, tendo heróas 

ladeiramento épicos, Cids do cadafalso e das enxovias, 

.0 Francisco Estcban, Don Salvador Bastante e outros. A 

na brazileira, cooclue o citado escriptor, revela^nos que 

género é ti^adioional, origem que não se pôde bem discri- 

.'ir nosabundantissimos pliegos stteltos hespanhoes. > 

E* convicção nossa, porém, que o Cabelleira ' constituiu em 

origem um romance complexo, do qual são fragmentos as 

ophes que rt^colhemos. e se avantajam em numero ás conbe- 

s até agora ; ou então, que} oonstituiram ellas, com outras 

5, composições diversas o distinctas sobro as fuiçanhas e tra- 

flm do Cabelleira, E loi por isso que não demos essas es- 

he^ sc^uidamonto, formando, como que um:v só compo- 

), oom^dota ou não, prelorindo aproveital-as como ele- 

to histórico, ou para melhor accentuar o que a tradição 

liar consagra sobre a vida e façanhas do famigerado ban- 

E consoan temente com aquelle nosso pensamento ó o con- 
de Fernandes (Uma, afflrmanio que os trovadores do 
)o compuzeram cantigas alluaivas à vida e morte do CabeU 



I5G REVISTA DO IN-^TITUTO HISTÓRICO 

leiru ; e que ainda hoje (1818), concluo cllc. :is vollias cantam 
essas trovas quando acalentam os netinhos. 

E p.)r sua voz, diz Franklin Távora, refonndo-r?e ao Cairl- 
Itira : 

« Foi objecto do muitas trovas matutas e sertanejas, de 
opisodlof! dramáticos e anecdotas acinte engendradas para ame- 
drontar a basoflos importanos, e pôr cm fugida fanfarrões arro- 
gantes.» 

Fossas estrophes eram cantadas em mnsica do uma cadencia 
monótona o plangente, e tiveram tanta voga, que ainda nâo so 
e>ctingairam de todo da tradição popular, apezar de um tão pro- 
longado porcarso de tempo. 

D. Thomaz José de Mello, que dirigiu o governo de Pemam- 
bDoo de 1788 a 171)8, deixou os mais honrosos attestados de seu 
génio emprehendedor, em prol do desenvolvimento e progresso 
da colónia, o si fklhas teve na sua administração, são ellas tão 
ligeiras, que absolutamente não empanam os esplendores da sua 
benemerência. 

Entre os diversos melhoramentos materiaes que emprehen- 
dea e realisou, o aterro de Afogados, hoje a bella e extensa 
i2iirf^?9, então liastantedamnilicada, chamou loo^oasuaattenção, 
porquanto pelas suas falhas ou depressa ôos em alguns pontos, 
íleara interrompida por esse lado a communioaç<ão da cidade 
com o interior. 

Com o fim de obter areia para os trabalhos do aterro, 
mandou o governador extrahil-a de um terreno que ficava junto 
ao ponto de partida do mesmo aterro, resultando disso um re^ 
baixamontotal. que lho pormittíu fazer um grande viveiro, 
que existiu até l)ein pouco tempo, conhecido por Vir^^tro do 
Mhuíz . 

Nesse viveiro do governador foi um dia p<»scar um pobre 
homem chamado Simplicio. e surprohondidoi e levado A pre- 
sença de D. Thomaz, determinou elle como castigo de seme- 
lhante delicto, que o Simplicio trabalhasse nas obras do aterro 
com um dos maiores peixes pendente do pesctKo, at^ ficar em 
espinhas ■ 

O facto vulgarisou-se logo, e dias dopoi<i appareceram os 
seguintes versus afBxados naso8f|Uinas le diveri<as ruas : 



KOLK-LOKE l'ERNAMBUCAN() 157 

Aviltaote duplamente 
£' tua pena, Simplício, 
Horrível, porco flagício 
Dum Dababo laclomente ! 
Atô quando essa tainha 
Que ao pescoço tens pendida, 
Restará de apodrecida. 
Esturricada na espinha t 
Fiqae-te esta na monte, 
Toma sentido rapaz : 
Não se bole impunemente 
Nas cousas de D. Thomaz. 

^o tempo do sou í^overno a producçào da farinha de man- 
dioca, o^jcâsseou por tal modo, que attingiu a elevado preço, sof • 
freado com isso a pobreza grande penúria. 

í>- Thomaz providenciou como o caso urgia, deu as maia 
^^^gicas ordens, principalmente contra os especuladores, que 
atacavam as cargas ao entrarem na cidade para melhor repu* 
t^eiu o género, e graças à sua attitude em tão adlictissima si- 
^QSiQào, ainda que para debellal-a predominasse o arbítrio e a 
prepotência, cousas alils muito communs na epocha, cessou a 
^l^midado publica sob os applausos populares. 

As chronicas coevas registram com louvores os actos pro- 
^^^enciaes do governador no intuito de cessar os soffrimentos do 
P^^^o, e a tradição relata alguns episódios occorridos na toma- 
^*^ da farinha do poder dos atravessadores, dentre osquaeseste, 
^^n^ajírado pela poesia anon\ ma : 

Vem o Braga do sul com sois cavallos 
Conduzindo doz malas de farinha ; 
Allrontando ladrões, elle caminha 
Em noite escura, se atolando cm vallos. 

Já tombava p'ra o dia a noite, os ^irallos 
Cum seus cantos d aurora so anisi^xlia ; 
E de si bem disUtnte a villa tinha 
O triste que a puxar creara oallos. 



i58 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

Queror entrar de noite era o sen fito : 
l!m vão procura dominar o espaço, 
A2S barreiras galgar, não sendo visto. 

Mas de Mello os malsina vão-lhe ao encalço : 
K antes que o sol se mostre no infinito, 
Cavailos, almocreves, caem no laço. 

ih^ixa, oinílm, I>. Tliomaz, Pernambuco o parte para LisV^a, 
dnpoirt dú n\\\ tiMsundo ^'overno de dez annos, celebrando os 
poiitaii do UMiipo a I>. Hrites, uma sua amante, com versos 
plivintiM,.do8 (piaes chegaram aos nossos dias os seguintes, coip 
a Hua 4'omp(*t(>nto toada : 

A K'il('ra i'e/ «iguada. 
Dom Thomaz j.i vai partir. 
Dona Brites di^gi*enhada 
Finge chorar, mas sorri. 

Pinico, có, có, 

Dona Brites 

Ficou só. 

Dom Thomaz quando se loi 
Deixou muitos cabedaes, 
Fra dotar a I»on:i Brites 
Quando cila se ca:^ar. 

Pinico, cò, cú. 

Dona Briíes 

Ficon só. 

Dom Thomaz anies queria 
Ser frade loi-:o em São I^outo, 
lH> que vòr a sua Briíes 
PaiíSar mostra ao regimenv>. 

Pinico, có. có. 

Dona Brik^s 

Picou i»Ó. 



FOLK-LORE PERNAMBUCANO Í59 

Já tem ella outro do olho. 
Não lhe falta quem a queira. 
Delia agora está de posse 
O Chiquinho da Riboira. 

Pinico, cô, có. 

Dona Brites 

Não está só. 

Dona Brites foi ao Cabo, 
Yeiu de lá na carreira. 
Ajustar seu casamentj 
Com Chiquinho da Ribeira. 

Pinico, cô, có, 

Dona Brites 

Picou só. 

Esse Chiquinho da Ribeira, assim chamado por ser o an'o- 
atante dós dízimos que se cobravam na ribeira oti mercado 
iblico que D. Thoniaz construíra, era um individuo dado a 
aquistas amorosas, e tão desfructavel no seu trajar, de caAç^o 
rto, sap:i tos rasos com fivelas, gibão, cabelleira empoada e 
apéo de três pontas, á moda da epocha, que usava de bicos o 
odas nos punhos e coliarinhos da camisa, e até mesmo nas 
oprias ceroulas. 

Aquello trajar, poróm, era somente usado nos passeios 
irnos, uma vez que nas aventui*as domjuancscas o nocturnas 
ivam os Lovclaces do tempo de um traje origioalissimo : 
nisa e ceroula, chapéo do abas largas, e envolvido em um 
pote, por baixo do qual, para o que desse e viesse, vinha a 
lefectivel espada de ponta direita; 

Foi, portanto, o Chiquinho da Ribeira, esse pintalegrete da 
>cha, o escolhido por D. Brites— para lhe dissipar as penas e 
idades que lhe ficavam a borbalhar no peito com a partida 

D. Thomaz. 

* 

A administração de Luiz do Rego Barreto, o ultimo gover- 
lor o capitão general de Pernambuco (1817-1821), compre* 
ide uma época notável de acontecimentos políticos* 



160 REVISTA rX) INSTITUTO HISTÓRICO 

Laiz do Rego, si deixou traços característicos de bons ser- 
viços prestados na sua admiaistraçâo, deixou-os também, pelos 
seus desmandos e corrapção, ainda mais aggravados pelos des- 
vios dos seus auxiliares no governo, absolutamente entregues 
aos seus próprios instinctos, e som receio do repressão alguma. 

A campanha liberal contri o governo absoluto, exigindo 
uma constituirão politica e um governo parlamentar, intlara- 
mou os espíritos patrióticos, c a corrente dos seus aconteci- 
mentos constituo bellissimas paginas om nossa historia. 

Os triumphos parciaes conquistados, muito embora depois 
de Ccimpanhas crucnkis ou não, até o seu feliz desenlace, gera- 
ram enthusiusmos, e o povo, nos seus delírios patrióticos 
expandia-se em cânticos o saudações liym nicas às conquistas 
que se iam succedendo, e milhares de boccas rcpetíam-nos no 
auge do prazer e do eothusiasmo. 

Desses cânticos hymiitcos chegaram aos nossos dias os doui 
seguintes*: 

Reformistas do Hrazil, 
Reuni vossa coberto. 
Finalmente o brado forte 
Das reformas vai so.ir. 

S&THIblLIiO 

Em prol das reformas 
Juremos marchar, 
A sorte da pátria 
Nos campos íiriiiar. 

«'elebrai em doces hyiunos 
As victorias da nação : 
Foi por terra hostil (acção, 
Já podemos exultar. 

Volve o tomjK), a razão l»rillja 
Que fartava os nossos poitos ; 
Os antigos preconceitos, 
Nós 08 vimos expirar. 



FOLK-LORB PBRNAMBUGÂJ40 161 

Da trahidora e feia intriga 
Eis íhvtiudas negros planos. 
Já Dâo podem seus enganos 
Nossos foros snpplantar. 

Aqnella forga opprossiva 
Do geral governo antigo, 
Converteu-se em centro amigo 
Para tudo equilibrar. 

Parabéns, legisladores, . 
Tantos bens sao fillios vossos. 
Oxalá qne os irmãos nossos 
Saibam tudo aproveitar. 

Qne nos resta, irmSos amigos, 
Para firmes progredirmos? 
As discórdias extinguirmos. 
Para a pátria prosperar. 

Eia ! os braços estendamos, 
Nossos peitos ajuntemos. 
Abraçados exultemos. 
Basta já de guerrear. 

Entre irmãos do tempo, ao longe, 
Um porvir descubro uAuio, 
Que o gigante americano 
Vem do orbe o soeptro dar. 

Mas tal gloria só teremos 
De concórdia vigorados ; 
Em partidos retalhados, 
Tudo em âor ha de murchar. 



)3 — 11 Tomo lxx. f. ii. 



162 REVISTA DO institi;to histórico 



IIVMNO CONSTITUI -lONAL 

Ari*a!$tava Pernambuco 
O mais pesado grilhão. 
Quando despontou no Douro 
A Lifsa Constiti^içai}, 

BSTUIBILllO 

* Emquanio aos pernambucanos 
Palpitir o coração. 
Viverá em Pernambuco 

A Lifsa COfisUtuiçfJn , 

Eniao mostra o dospotismo 
No Norte a perturbação. 
Vindo já brilhar no Tejo 
•A Lusa CoHstittnrno. 

Pesou mais na triste Olinda 
Do tyranno a fuTroa mio, 
Quando o .^eii povo adheriíi 
V Ltiífj Canstitwrao. 

Kl lo o monstro que chrismou 
|!:m crime d*alta traição 
A Uberdade que olTreco 
A Lusa Constituição, 

K' querer indeponden^ia 
R08i8tir contra a oppi^etztão, 
Contra qiiom doclara guerra* 
A Lusa Cf/UjíiíMíf^o. 

Que bdns maiores teremot^ 

VsLrA nossa elevação. 

Do que 08 bens quo em nós derrama 

A Lusa f^nnstítuiçf'» ^ 



l-QLK-LORE l»EHNAMUi:CANO 163 

Tyrannos, desenganai- vos, 
Acabou-se a escravidão, 
Reinará no Beberibe 
A Lusa Constituição, 

De Lisia a sorte se canta, 
Mas de Olinda porque não '( 
K* para os dous hemisphorius 
A Lusa Constituição. 

EsteA verbos deixam claramente caracterizada a feição 
opposicionista do governador Luiz do Ivcgo contra o partido 
constitucional de Pernambuco, perante o qual, em luta armada, 
teve de capitular. 

Ksse procedimento do governador, ainda mais aggravado 
pelo desregramento da sua conducta moral, geraram, natural- 
mente, odiosidades tacs, quo concorreram ao desesperado alvitre 
de uma conspiração contra a sua própria existência, e João de 
Souto Maior, que acabava de chegar do desterro polo seu com- 
promettimento na mallograda revolução republicana de 1817, 
foi um dos braços armados e dispostos em tros emboscadas para 
vingar, com a morte do tyranno os ultrajes da pátria. 

Cabendo a João de Souto a emboscada da ponte da tíôa 
Vista, por onde passava o governador em suas excursões no. 
cturnas, dispara certeiramente a sua arma, alvejando-lbe o 
peito, e atira-se immediataniente sobre o rio para ítigir á 
penegoi($o da gente que acompanhava a Luiz do Rego ; mas 
perece victima do seu dever de patriota ultrajado. Esse triste 
acontecimento cantou a lyra popular neste soneto : 

Caoçado de soffrer a tyrannia, 
impropérios, baldões, Souto infeliz 
De um bêbado u devasso, um dia, quiz 
Pôr termo a tanto arrojo e ousadia. 

Coragem nâo Uio falta, o a valentia 
fim sua vida um acto a não desdiz ; 
Errante busca em vão termo feliz 
Da vingança exercer, o.orao queria. 



164 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

Resoluto em feril-o, elle não code 
Do desejo firmado, um só instante. 
As suas consequências, não, não mede. 

Ctiega a hora fatal : eii-o offegante, 
Ck)m arme mão a bala lhe despede. 
Pretendendo matar, morre o constante. 

Já anteriormente a essa frustrada tentativa, planejara* 
se uma outra, que também frustrou-se em virtude de appa- 
recer cm certa manhã traçados estes versos no muro de um 
sitio que ficava fronteiro ao palacete do capitalista Luiz 
Gomes Ferreira, situado no Mondego, em cujo edífloio se 
acha hoje o CoIIegio Salesiano, e onde, na época em questão, 
costumava o governador temporariamente residir : 

Toma cautela Rego. 
Não passes no Mondego. 

Sem imprensa, que somente appareoeu com a publica<^ 
da Aurora Pernambucana, o nosso primeiro periódico, no anno dd 
1821, já em pleno regimen constitucional, e nos últimos dias 
do governo de Luiz do Rego, não podia o povo desafogar-se 
das suas magnas, sinão lançando mão da satyra em versos, e 
multiplicando os exemplares manuscriptos affixava-os, á laia de 
pasquins, nos legares públicos da cidade. 

Era no pasquim que se expandia a alma popular nos seus 
assomos de indignação contra as tyrannias e desmandos dos 
dominadores da situação, ou atiravam-nos para cobrir de ridí- 
culo a certos typos que incorriam no seu desagrado por tristís- 
sima celebridade. 

Desses pasquins, geralmente em versos picantes, traçados 
por incógnitos poetas, e vulgarisados em múltiplos exemplares 
afflxados nas esquinas das ruas e praças mais concorridas, se 
apoderava logo o povo, ropetindo-os com hilariantes accontua-* 
ções ; e assim recolhidos pela tradição, ou registrados por 
curiosos como legados preciosíssimos á posteridade, mal pen- 
savam que lacs escriptus constituiriam depois elementos bisto* 
ricos ou literários de inestimável valor. 



FOLK-LOBB PERNAMBUCANO 165 

Desses ligeiros escriptos, de qae já nos temos referido a 
alguns, e aioda teremos de nos occupar de outros, consignamos 
os seguintes, nãj somente pela. sua curiosidade typica, mas 
ainda como attestados da graça e espirito, manifestados pelo génio 
popular na urdidura de taes composições. 

A um certo Azevedo, que levara uma tremenda sova de páu, 
e no outro dia appareceu tão lampeiro como si nada de extra- 
ordinário IbQ siiçcQdera, mimosearam-no com esta quadrioba ; 

Amigo Azevedo meu, 
O mundo admirado está. 
Do muito que se vos deu, 
Do pouco que se vos dá. 

Um Braz Luiz, afamado musico de Goyanna, e cuja arte 
ensinava em uma aula que mantinha, e também, particular- 
mente em casas do família, abusando da confiança que inspi- 
rava o seu caracter de mestre, teve de aoífrer as consequências 
desses seus desvios domjuanescos ; e após uma pisa de páu que 
Ibe infligiram, appareceu pregada cm sua portei a seguinte de- 
Mma, barinonicamente modelada em tom musical : 

Uma forte entonação 
Cantaram a Braz Luiz, 
£ segundo o que se diz 
Foi solfa de fá-bordáo ; 
Pelo compasso da mão, 
Onde a belleza se apura 
Parecia solfa escura : 
Porque a mão nunca parava, 
Nem no ar, nem no chão dava, 
Sempre em cima da figura. 

A's vezes, eram esses pasquins escriptos em prosa, ou ainda 
1 prosa e verso ao mesmo tempo, como este que appareceu 
1 1823 : 

« Cypriano Josó Barata de Almeida, por desgraça do Brazil 
) unanime acclamação dos anarchistas, Imperador do Brejo de 
^eia, e destruidor perpetuo de Pernambuco, etc. 



166 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

« FwQO saber aos que o presente Decreto virem, que atten- 
€ dendo aos relevantes serviços que o Revd. Fr. Joaqaim do 
€ Amor Divino Caneca tem feito ao meu Estado desde 18l7« 

< hei por bem nomeal-o Bispo do Forte do Mar, e que os 
€ meninos e moleques das mas lho dôra os repiques de bocca e 
€ badaladas do costume. 

€ O moleque Agostinho Bezerra, ministro e secretario de 
« eitado doB negócios das rusgas, assim o tenha entendido e o 
« ISiça executar. — Ck>vil da Rua Nova. ~ Cifp^^no José Barata 

< de Almeida, 



SONETO 

Não quero bispo que sa«nrado seja. 
Nem íéito U no Rio de Janeiro ; 
Não o pôde fazer Pedro primeiro, 
Bem que contra o meu gosto o povo reja. 

Hrazil, bispo marotd. n&o. nâo veja ; 
Kóra tambora <iualqu(»r rei estrangeiro. 
]':scolha-se entre nós um bom pedreiro 
Assim Barata ordena, assim troveja : 

Ku quoro uni bispo cií da minha escola. 
Que não mo fale em I>eus, em Secca o Meca, 
Que nâo uso roquoto nem estola : 

Quoro um frade casado, honi^ da beca 
Mui rusiruento, imranral. frade ininyolo, 
Quoro omttm. seja biíípo. Frei Cantíca I 

Luiz do Rego. portanto, nem tão pouco a gonte que o segaia 
podiam passar incólumes da satyra popular ; e assim, ezpandiu- 
se alia, conhecidamente, nestes dous jKisquins que certo dia 
appareoeram aíflxadtH na pra<.M do Recife, e avidamente lidos, 
pelos eurioso^ traDmunto<< : 



FOLK-LORK PERNAMBUCANO 167 

No tempo de Montenegro. 
Por qualquer meio tostão, 
Podia o pobre tomar 
Sem sacriâcio» um pifão. 

Mas, ora, a cousa está outra ; 
Lusbelle, Merme e Alfarro, 
Sem falar em Luiz do Rego, 
O vinho puzeram caro. 

Gente qu*ó de Madureira ? 
Madureira est& de pancão ; 
Madureira não vem á revista, 
Estamos livres desse ladi^. 

Um facto característico do bom humor de Luis do 
ro: 

Passava elle, á noitinha, pela rua do Queimado , hoje Du- 

de Caxias, acompanhado de dois de seus ajudantes de or- 

s e competentes ordenanças, todos a cavallo, na occasião em 

se rezava o terço em ft*ente a um nicho que havia aberto 

parede da frontaria de um prédio da rua, e exactamente 

Qdo um preto conhecido por Mestre Braz, que tirava o 

mo terço, começava a entoar o Senhor Deus, Apearam-se 

8, e gdnuflexos e respeitosos ouviram toda a oração. 

O cantor, porém, ou por se julgar muito honrado com a 

ença do governador, ou por querer patentear os seus dotes 

áticos, entendeu de prolongar a oração por tal modo, com 

los de cantoria e pausadíssimo andante, que Luiz do Rego 

'6 de supportar naquella incommoda posi(^ por ons esti- 

9 dez minutos. 

ílnfurecido o general, apenas levanta-se, volta-se para os 
ajudantes do ordens e diz-lhes terminantemente:— Jlfand^m 
ier aguelle negro e dar-lhe quatro dúzias de bolos. 
>emelhante ordem cumpriu-se immediatamente, apezar de 
paciente um homem livre, de bons sentimentos, e geral- 
e estimado ; e á vulgarização do facto, appareceu logo afll' 



108 RR VISTA DO INSTITUTO HlSTCffllCO 

xado am papel na porti do niòho com eKM ^elNbs, que tite- 
ram tanta voga, qiio chegaram aos noaioi dias : 

Por doze viotons nSo eanto, 
H&o de aiigmentar a parada, 
Pois pôde bm snceeder 
Levar de novo pancada; 
Sem o que eu n&o me «rrlioa 
A cantar segunda voz: 
Si quiserem dêm por noite 
O qu'en ganhava por mez. 

Nas proximidades da partida de Luiz do Rafo apparecea 
afflzado nas esquinas de diversas ruas do Recite o seguinte : 



PKIX) SIGNAL 

Quando chegou Luiz do Rego 
Dando por pedras e pào« 
Den logo provas de aáo 
Pelo tif^nal. 

Um grande crime, íhul 
Fez O0B grande sendeiro, 
Uaodando tirar o cruzeiro 
Df Sanin Orus. 

Mto de razão e luz. 
MeatlfOio, deshunano, 
Delle o d*ouiroâ do seu panno 
lÂxrê n ê ê Demt. 

Maifl cruel do que um jo\leu ! 
Mais tyrmnn<> .1-^ que fl*ri, 
R pf mia que era 



P(H-K-LORB PERNAMBUCANO 169 

CmA grande astncia e íúrar 
filie e os seus nos aterra, 
B as urupenas desterra 
Dós nossos. 

Malvados ehamam os nossos 
Ao lado de seus malvados» 
AOS goyannistas honrados 
Inimigos. 

Pelo contrario, amigos. 
Do rei, da religião, 
Qae querem a constitni^ 
Em nome. 

O ódio que nunca dorme 
Foi accusar o Moreira, 
E vSo aos pés, na carreira, 
Do Padre. 

Soube o dero da maldade : 
Oocultou-se p*ra obstar 
A* sombra do Patriaroha 
E do filho. 

Rafeiro, impuro caudilho, 
Dos goyannistas ladrão, 
Foi da carne a tentai 
E do Espirito. 

Trino Deus, bom, infloito. 
Vosso templo profanado ! 
Logar mais do que sagrado. 
Santo ! 

Temos visto com espanto 
Cousas que nunca pensamos, 
Sempre graças a Deus damos, 
Amen, 



170 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

Triumpba, porém, a caus* dofaDdida pelo partido oonstitu- 
dooal, após divorsos combates feridos eatre as tropas pemam- 
booanas e as de Luiz do Rego, todas portogaezas, e firmada a 
capitala^« conhecida na historia por Convenção de Bébiribe^ em- 
iNtroon^e com a saa gente para Portugal, tão apressadamente» 
que nem ao menos esperoa um pouco para entregar o governo i 
junta constitucional eleita. 

A Tictoria dos pemambncanoe, e a partida do general Luiz 
do Rego Barreto, constituiram factos de immenso regosijo po- 
Uioo, e a lyra dos poetas expandiu-se nos mais enthusiasticos ver- 
sos, dos qnaet nos restam as seguintes quadras, cantadas á solfti: 

Luiz do Rego foi guerreiro. 
Sete campanhas venceu. 
Mas na oitava de Qoyanna 
Luiz do Rego esmoreceu. (<) 

(i) Rererindo-$« Mello Morae-^ ua sua Chronica geral do Brasa 
aos muita^i \*er9Òsque se fizeram a Luiz do Refro, com relação á vi* 
ctoria que os pcmambucâuos alcançaram, consiima e<ta qualra : 

Luiz lio Rego valeroso. 
Sote campanhas venceu. 
Checam as tropas de líoyanna. 
Lui/ »!..> RfiTO esmoreceu. 

Encontranic^s ainda ma»^ uma vnriantf. .jue <e prenlo a e^ie 
curioso facto, oontfmp<»rautMiu«'ute «H'o«»rrido : 

Km uma r«xla dt* pernambucanos, e.:) «i«e s** achava um ]iortn- 
puei, entb«sia«>ta r* partidari » de Luiz «lo Reco. rom qu^m -ervira na 
(HMrra peninsular da iuva<ã«> tVauce/a em r<irtttfal. canta%a um 
dos circuiu<taiites po - •n: da vuda : o octorr^-udo-lh- a miMi- 
uha. eutâuem v,>tfa. -.«lír- .1 dorr.U.i o oarlida da juflií- centrai, co> 

UI«H*oU 

l.ttiz tio R'jro toi stuarre.rt, 
St*to b.«talha> venceu... 

— ir tv<^fa'^•. iutern>'np«' o «>ortus:u*t. Fa quf rí, »••»! BatimJ^^<, 

Mia ua oitava de «i«>>.<UBa. 
IVu de iraiiihia'» e correu. 

— £" í«e«rjfi:. o]tt*».'..p-r.i o tionn^m. l*«<^itío qu^ t*t- iHflia*d^ 
fcf'^^ dl* Oi*fann*i /f.v*^ . . ca»* : * !."i tv íí.-o." .^hw L ... do Bf^o .' 

Fc^-^u o pau... 



FOLK-LORE PERNAMBUCANO 171 

Luiz do Rego foi chamado 
De raiva ficou maluco, 
Sete campanhas que tinha 
As perdeu em Pernambuco. 

Luiz do Rego j& dizia 
Que Pernambuco era seu, 
Perdeu tudo quanto tinha, 
O braço lhe esmoreceu. 

A mulher de Luiz do Rego 
Não comia sinão ^allinha ; 
Inda não era princeza 
Já queria ser minha. 

Luiz do Rego já dizia 
—Antes eu cà não viesse — 
Paciência, maganão, 
São desgraças que acontece. 

Luiz do Rego foi-se embora 
Sem dizer nada a ninguém ; 
Os corcundas estão dizendo : 

— Luiz do Rego logo rem. 

Destes versos coasigna Rodrigues de Carvalho estas varian* 
I QO seu Canciotieiro : 

Luiz (lo Rego foi- se embora, 
Não disso adeus a ninguém ; 
Corcundas estão dizendo : 

— Luiz do Rego logo vem. 

Luiz do Rego foi guerreiro, 
Soube muito pnlejar ; 
No corredor de Ooyanna 
Klle veip ^ se entregar. 



172 HEVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

Luiz do Rego foi guerrejroi 
Sete batalhas yencou, 
A* oitava lá em Ooyanna. 
Sem forças asmorecea. 

*•» 

8&0 iooameros os aocideatos históricos, ou mesmo nio la^ 
torioos, de manifestações da poesia popular entre nós. 

O nosso Direito, de um absoluto symbolismo poetieo m^ 
sua complexa urdidura, teve e tem ainda manifestações pr^ 
ticas de uma verdadeira poesia, como sa sabe, e cugo a^ 
sumpto, Jà o temos magistralmente estudado por TheophiS^ 
Braga na sua bellissima monografia — Hiaoria da Poesia «f^ 
Direito. 

N&o vem ao caso, portanto, encararmos agora o nosso 60^ 
tudo por esse lado. 

Entretanto, não nos podemos eximir, ao menos* como onV' 
traço de côr local, de nos referirmos ao modo dos antigos pra-^ 
gões das arrematações em hasta publica, em foce de um cartai 
documento do alvorecer do século XVIH. 

Trata-se da arrematação das terras da Asseca, em Santor 
Amaro das Salinas, e no competente termo lavrado na povoaçi» 
do Recife, em 11 de dezembro de 1700, com as devidas parti- 
cularidades, vem até mesmo consignado o pregão que fez o poTr 
toiro do auditório, nestes termos : — < Um conto e quinhentos 
me dão pelas terras das Salinas chamadas Asseca ; si ha quem 
mais dô, venha-so a mim, que lho recoberei seu lanço« que logo 
se ha de arrematar. AíTronta não faço e mais não acho; si 
mais achara mais tomara. Dou-lhe uma, dou-lhe duas, dou-lba 
outra mais pequenina em cima ; ha quom mais dè ? sinâo ar- 
remato. » 

Não havendo quem cobrisse a maior oíTerta, deu-se por 
finda a arrematação, e dirif?indo-so o porteiro ao oíTer tanta,— 
€ lhe mottou um ramo verde na mão, dizendo : òom proveito IKe 
façu. » 

Nesse pregão, convenientemente accommodado* temos 
versos mais ou menos metrifloados* mais ou menos rimadas» 



t^OLK-LORE PERNAMBUCANO Í78 



« » 

SSo innumeros os santos populares qae figuram no kalen- 
darío, mas, entre n^, apenas três são ainda popularmente fes- 
tejados nos seus dias ; inU) elles Santo António, S. João Baptista 
e S. Pedro Apostolo, e antigamente, entre outros, S. Gonçalo 
ds Amarante. 

Sjbresae, porém, a todas essas devoções populares, a do 
Mex Mariano, pela sua geral celebração, não somente nas egrejas, 
como ainda em casas particulares. 

De origem italiana, foi talvez instituída pela egreja para 
banir as Maias, uma festa gentílica, que Tinha dos tempos do 
paganismo romano, em honra achegada do mez de maio. 

Ao que parece, na carência de noticias, os nossos coloniza- 
dores não nos trouxeram as maias, que alias eram celebradas na 
metrópole oom grandes expansões de alegria. 

Este folguedo popular tinha as suas dansas e cantigas pro- 
ixrías, geralmente executadas por crianças engrinaldadas de 
ílores silrestres, e o povo corria em saudações ás casas dos seus 
protectores — pondo-lbes giestas ás portas, o cantando-lhes de- 
baixo das janellas,— o que, segundo a tradição popular, se pra- 
ticava em memoria da fugida da Virgem Maria para o £gypto, 
poDdo-Be esses signaes pelo caminho para que se não perdesse. 
Ha portanto, entre essa festa do paganismo e a instituição 
do Mez Mariano, umas tantas aíllnidades. 

As Maias, apezar de prohibiçõos régias, que se remontam 
aos tempos do D. João I, eram ainda que vagamente, ceie- 
bradas em Portugal, em melados do século passado. 

Seja como for, instituída na Europa a consagração do mez 
de maio, em honra á Virgem Maria, e dahi o seu qualificativo de 
Mez Mariano, nãoó comtudo de origem muito remota, uma vez 
que as suas primeiras indulgências foram conferidas pelo papa 
Pio VII, por um rescripto expedido em 21 de março de 1815. 

DeToção de um caracter puramente popular, teve tão geral 
e fervorosa aeceitação, que chegou ao nosso paiz, e em 1850 
ioi introduzida em Pernambuco, quando se verificou a sua pri- 
meira celebração na egreja do convento do Carmo do Recife, 



i*Ii REVISTA 1)0 INSTITUTO HISTÓRICO 

promovida pelo illustre carmelita Frei João da Assump^^âLc 
Moura; 8 desde então vulgarizada, desenvolvea-se e attin^u 
ao grau de esplendor com qne é gei'almente celebrada. 

Os padres capuchinhos iniciaram também a devoçSo no seu 
hospício do Recife, bem como no interior, em todos os logares 
que passavam em suas apostólicas missões, e desVarte ílicil- 
mente foi a sua propagação entre nós. 

A essa moderna origem do Mez Mariano referem-se estei 
versos de um cântico dedicado ao Coração de Maria, acaao de 
composição contemporânea, ã época do sen inicio em Per- 
nambuco : 

Neste mez de graças cheio, 
Que o Brazil desconhecia^ 
Das culpas o vem livrar 
O Coração de Maria. 

Tomando a devoção do Mez Mariano, pela sua Índole, um 
caracter puramente popular, expandi use logo a poesia em 
hymnos e cânticos em louvor á Virgem Maria, e tão ]irodigio 
sãmente, que todas essas producções avultam constituindo bel- 
lissimas coUecções exparsas entre o povo. 

Precede à celebração do Mes Mariano^ umas \esperai^ ou acto 
preparatório, que tem logar no ultimo dia de abril, findo o- 
qual 80 cantam uns versos especiaes, que têm por estribilho : 

Parabéns, povo christão, 
Alviçaras nós vos damos. 
Que é j& chegado o tempo 
Do nosso Mez Mariano. 

Para o primeiro dia ha um cântico especial, que começa 
assim : 

Dai-nos licença, Senhora, 
Para offerta vos íazer. 
Das flores que em maio 
Ni*)s desejámos colher. 



FOLK-LORE PERNAMBUCANO 175 

No ezercicio devoto do Mez Mariano, tudo ó musica, poesia 
e flores, 6 longe iríamos em uma descripção ' particular ; e si 
tentássemos mesmo reunir todos os cantioos entoados, em q^uo 
de par com as bellezas poéticas resplendem suavíssimas harmo- 
nias de musicas encantadoras, seria necessário uma secç&o espe- 
cial sobre o assumpto, tal o seu avaltamento. 

Eniretanto, para darmos uma idéa do género de taes pro- 
dttoçõea, cooaignarei&os os versos ínioiaes de uns tantos, mais 
Tolgares, cantados em musicas bellissimas. 

Até mesmoTa natureza 
Reverdece de alegria, 
Respeita, engrandece e louva 
As virtudes de Maria. 



Devemos, pois, pressurosos 
Colher nos jardins, nos pradoã, 
Lindos, ricos ramalhetes 
A' Maria consagrados. 



Ave Maria do cóu, 
Maria cheia de graça. 
Vossos lábios nâo tocaram 
Do peccado a negra taça. 



Bella aurora de esperanças, 
Filha do céu, m^e do amor, 
Protegei as creaturas 
Junto ao throno do Senhor. 



De Maria publiquemos 
Toda a í^loria e formosura. 
Veneremos, invoquemos, 
Tão sublime creatura. 



17í> ItRVIftTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

Ao pó dalla a natureza 
Parde a graça e formosura, 
Jà doemaia o sol dourado. 
Perdem astros a luz pura . 

lisitaquemos» porém» dentre os oantos hyroaicoi < 
Iam, para aotsignar no seu todo, um dos mais popvlaMai taim 
▼ersos sio Ineontentarelmente dos mais bellos, e 
solfa eoeanUdora pela suaridade e ternura do oanto: 

Quando nos amenos campos 
Vai morrendo a luz do dia, 
Nossa hora tão saudosa, 
Quanto ^ doce essa harmonia I 
Ave Maria. 

guando o nauta sobro as ondas 
JA n&o tom rumo nem guia, 
Invooa a estroUa dos mares, 
Saúda a Virgem Maria. 
Ave Maria, 

QuiLiido o peocador do crime 
NoITni a dura tyraooia, 
Sentia ainda uma esperança 
Invocando a Virgem pia. 
Ave Mai'ta, 

Quando o pobre atllicto geme 
Sem o p&o de cada dia. 
Com w filhinhos de joelhos 
Recorria A Virarem Maria. 
Ave Maria. 

Em qualquor peri^ ou dôr* 
Na tristeza ou na alegria. 
Sempre na vida ou na morte 
InToqnemos a Maria. 

Avê Maria. 



FOLK-LOKE PERNAMBUCANO 177 

s outros do um cunho particularmente local: 

ínclita Maria, 
Virgem de valia, 
Sois de Pernambuco 
Poderosa guia. 

Salem, venturosa. 
Celeste Sião, 
Dessas doxe portas 
Palgida mansão. 

De jaspe tão verde, 
Virgem preciosa, 
Sois de Pernambuoo 
A mãe amorosa. 

Cérula saphii*a. 
Virgem singular, 
Sois de Pernambuoo 
A pedra angular. 

Rosa caloedonea. 
Virgem encantadora, 
Sois do Pernambuco 
Prompta defensora. 

Luzida esmeralda, 
Virgem crystallina. 
Sois de Pernambuoo 
Estrella divina. 

porém, cânticos especiaes para o enoerramento e deipe- 

Mez Mariano, os quaes começam assim: 

Finaliza o mez do maio 
Tão cheio de devoção, 
Para nós oâo finaliza 
Vossa grande protecção. 
>9:3— 12 Tomo lxx. p. iu 



17S RKVISTA \Hj INSTITUTO HISTÓRICO 

Vamos, tornas compauheiras, 
Consagrar mais este anno, 
A' devota despedida 
Do santo Mez Mariano. 

Meus irmãos, digamos todos 
Adeus ató para o anno. 
Para juntos festejarmos 
O santo Mez Mariano. 

Findou-so o mez 
O' Mae (lo Deus, 
Adeus, Maria, 
Adous, adeus. 



Voltando, porém, aos festejos dos nos:30S santos populares, e 
floaodo dito jl, com relação a Santo António, o quo nos com- 
petia attinente ao nosso estudo, segundo os sub.^idios de que 
podemos dispor, cumprc-nos agora tratar dos demais. 

São João, incoutostavelraonte, occupa o primeiro logar 
entre os santos populares festejados cm Pernambuco, ainda 
mesmo, um pouco arrefecidamente, como bâo agora celebradas 
as suas festas. 

Essas demonstrações festivas consagradas ao precursor ái\ 
Christo, com um mixto do devoção e fol^rares, são ruidosa- 
mente celebradas não só no Brazil como entre todos os povos 
catbolícos, e até mesmo não citholicos. Garrett, na sua Daa 
Branca, chama S. João. 

. . .0 santo mais guapo 
Mais ;,'arrido o brincão do kalendario, 
Santo do próprio mouru festejado. 

£ a trova popular portugueza accroscenta: 

Qu.iudo os mouros o festejam, 
Qae fiurá (luem 6 christfio ? 



KOLK-LORE PERNAMBUCANO 179 

Sobre a origem das fostas e cantos da noite de S. João, — 
3 existiam nos costumes gothicos, e se reforçaram em pra- 
ça dos árabes, — na península hispânica, detidamente escreve 
oophiio Braga, nas suas Epopéas da raça mosarabe, e sobre 
o particular não nos é dado attcndor para não aos desviarmos 
feição toda local deste nosso estudo. 
< No nosso Pernambuco, como oscreVe Lopes Gama, em 1837, 
sou interessante periódico O Carapuceiro, a véspera e dia do 
João são do regosijo o grandos folgares do povo. Todo o 
indo arma a sua fogueira ; por toda a parte arranjam-se bolos, 
am-so sortes o soltam-se foguetes.... A gente do meúçalho 
3 deixa de festejar o S. João a seu modo. Ornam-se de ca- 
las do llores c folhas, soltam bombas e disparam rour[ueira8 
acamartes, c ao som de certas cantarolas dançam toda a 
ta noite, e no outro dia ainda estão promptos para dançar 
pitar — Viça S. João ! » 

De par com os festejos religiosos nas egrejas e casas parti- 
ires, precedidos de um novenario especial, a popular festa 
l. João, iniciada na véspera do seu dia, tem um cunho de 
licular característico pelas suas — superstições e suas sortes, 
combates o suas fogueiras, o suas ceias especiaes, — cm 
figuram, particularmente, a indefectível cangica de milho 
G e os clássicos bolos do S. João, infUspon.^avei:^ d orUiodoxia 

E' o dia das expansões o alegrias, do ruidosos folgares, de 
iadis.simas dança-^, c em íim, das adivinhações, cm que íi- 
m, geralmente, as que fazem as oioças solteiras para o 
. revelar o sen futuro, e cujos prodígios >ão immensos, grã- 
os poderes do precursor. 

)e todas essas adivinhações, tem, porém, muita voga, pelo 

vilhoso dos seus proclamados prodígios, a do ovo feita ã 

]ha, e que consiste em deitar-sc a clara dentro de um copo 

,gua ató o meio, coberto com um lenço branco, tendo sobre 

ino uma tesoura aberta, em forma de cruz, e um rosário 

para vêr-se depois da meia noite a sorte da pessoa, se- 

a imagem que a clara representar no fundo do copo. 

or exemplo : sifòr um navio, viajem próxima; e si fôr 

igreja, o suspirado casamento ! 



180 ni:vi>TA i»o instituto ni>Tonico 

PrecoJe sempre a fsta, bom cjmo .is «iemais adiviobações, 
a recitação do una I'o(er ulTerocido ao santo. 

O alho plaiitiJj na vospora de S. João, amanheci germi- 
nado ; a arruda iIor(>3Cc á incia noite, mas o diabo vem o ar- 
rancv-lhc -is llores t )das; qnoin se mirar n*agua e não divisar 
a cabeça, n'j chr^ja ao "m do nnn^ : o as fj^rueiraj, sigundo a 
crendice popular, têm varias virtudes : —são um oráculo... 
as suas brazas não «jueimi-u. . . são sagradas ! 

PalmMrim ua sua b dli poesia .1 .Uci:hoft\i, canta : 

Tonlio ft; nesti fojiuoir.i 
Accesi p>r miniia mão. 
Que falará a verdade 
Em noite de São João. 

Os festejos de S. João entro nós, remontam-so, acaso, aos pri- 
mórdios da nossa colonização, ua primeira metade do século XVI. 

Como data mais remota o averiguada da sua pratica, en- 
cojDtrám^ o anoo de 1603, porquanu>, narrando Fr. Vicente 
do Salvador as occurrcuci is da nossa vida histórica naquelle 
anuo, refei-e que os i idios acudiam a lodus os fesiejos dos por- 
tuguczes — «com muita vonude, porque são muito amigos 
de novidades, c*'j'i< ) no -'i-i de S. Joio Battisi'i^pjr c^i*'sa das 
fogurii'ns t' 0tí/"7»rs». 

Es^as ca[ ell IS tò:ii ainli muita vo^a entre njs nos fes- 
tejos do ciir.po prin<'ipiim<*iite. e o tnsiitiom-nas ranchos do 
homeis e muliie.o^-. ••oi*'idj? d«» oap»'ll;is do dores e folhas, 
pjixjrrca.lj ;ile-::es as ojf.iiias o ruas dos pjvuado^. quando 

Naabouçoili :.oi'o vã-i «iívov.-s 
\o mi.ag^o^ > l»an.i<.' 

cintando uma toada «(Uo tem por esTrir>ilho os coniiecidissimos 
vei*sos : 

ipelliniM i!o .:;eiã) 
!' »io Sã) Joã • ; 
\L' *\- i*av.>. i"- ir <;;.■., 
h' de uiAu^iricão. 



FOLK-LORE PERXANÍBUCANO 181 

Estes versos siLo, talvez, rdmiaiscéncias do uds outros do 
irelho romance portugnez Dom Pedro Menino, ainda hoje can- 
ado na Ilha do S» Jorge, e cujo versos sSU) assim lançados : 

.)á os linhos enflorescem, 
Estão os trigos em pendão, 
Ajantom-se nsmoçis todas 
No dia do São João. 

Umas com travos e rosas. 
Outras com mangiricão. 
Aquellas qno o não tiverem 
Tragam um verdo limão. 

Outr'ora, quando esses bandos de capellistas percorriam 
legres as ruas do Recife, encaminhavam-se, de preferencia, 
ira o banho na Crus do Patrão, no isthmo de Olinda, cujas 
;uas, quer as do mar, de um lado,- quer as do rio Beberibe, 
> outro, gozavam na noite de S. João da particular virtude 
í dar felicidades e centuras, porque, segundo a trova porta- 
leza desvendando- nos o tradicional costume. 

Nessa noite ó benta a agua, 
Para tudo tem virtudes. 

A praia de Kóra do Portas, ora tambom um dos legares 
eferidospaia e:ses banhos san-joaneiros, e a trova popular 
s eapellistas a elU se referia, cantando : 

Em Fora do Portas 
Eu vou mo lavar. 
Si ou cahir no fundo 
Mandai-me tirar. 

Na ida para o banlio cantavam ospas (roupes de foliSet : 

Meu São João, 
Eu vou me lavar. 
K as minhas niazellas 
Irei lã deixar. 



182 REVISTA DO IXSTITUTO HISTÓRICO 

E na volta : 

O* meo S^o João, 
Eu já me lavei ; 
E as minhas maz6lla!<i 
No rio tloixci. 

Desta toada da ida o volta do hanlio encontramos ainda 
etia varianto : 

Vamos, \'anioíi. 
Toca a marchar, 
N*agua de Sào .loão 
Nós vamos lavar. 

N'agaa de S. João me lavei. 
Toda a mazella que tinha, deixei. 

Esses banhos, ainda hoje muito usados nos festejoi do 
eampo, sSo ao nosso vôr, uns reflexos do baptismo de Christo 
ministrado pelo santo nas aguas do Jordão. 

Segundo uma legenda popular, vulgarissima entre nós, Sâo 
Joio nutre o mais ardente desejo de descer á torra no seu dia, 
a cujos intentos, por(>m. Deus se oppoe, fazendo-o dormir pro- 
fundamente diiranie todo eiise dia . Consoantemente com essa 
legenda cantam os capelli>tas : 

Si o Raprista soubesse 
'guando (Ta o seu dia. 
Desceria do c(^o ;l torra 
Com prazer e ale^/ria . 

E 6 por isso, quo a divina ventado occulta ao santo o seu 
dia, porque, baixando cllo á terra, concluo a legenda, — se en- 
soberbeceria por tal modo com as festas celebradas em seu 
louvor que se perderia ! . . . 

E em vSo clamam o supplicam os oapellistas ao santo a 
despertar, cantando: 



FOLK-LORE PERNAMBUCANO 183 

Acordai, acordai, 
Acordai João ; 
EUe está dormindo, 
Não acorda não. 

A scona quo se pasaa no dia seguinte entre o santo e sua 
e, Santa Isabal, ao despertar elle, canta assim a trova po- 
lar : 

— Minha mãe, quando é o meu dia ? 
< Meu filho já se passou. 

— E para tão grande alegria 
Minha mãe não me acordou ? 

As toadas dos versos dos capellistas constituem ainda a 
lioa alegre e do uma solf)!i particular das danças popu- 
« da festa de S. João, com as suas cadencias marcadas ao 
^r de pandeiros e maracás, e acompanhadas á viola ; e 

Retumbam por toda a parte 
Os folguedos d'alegr ia. 



Dança a donzeíla cantando 
Canta e dança o namorado, 
Na viola suspirando. 



O nome de S. João Baptista é de um grande mysticlsmo, 
uanto, na sua orisrem hebraica quer dizer i — o que baptisa 
> de f/raça ; — e o seu dia, que é santificado e do guarda, é 
rande festa ecclesiastica. 

guando rompeu a campanha emancipacionista em 1645, foi 
ito proclamado seu patrono, como 

...general o capitão 
Nesta empreza de nossa liberdade, 

refere Calado, chronista coevo ; o talvez venha desse fa- 
x)marem-no os militares por seu padroeiro, e erigindo 
ifi-cria de S, Jof'o Baptista loíjo após á restauração de 
imbuco, na sni círroja de Olinda. 



184 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

Voltando-nos, porém, ás fogueiras nocturnas nas festas do 
precursor, crepitando em torno de uma alterosa bananeira, e 
que constituem um dos principaes caracteristicos dos seus fes« 
tejos populares, vem dos germanos o scandinavos, om honra de 
Preya, como refere Theophilo Braga ; o segundo Oliveira Mar- 
tins, vinham já do tempo de Strabão, e constituíam o culto celti- 
berieo por excellencia ; entro nós, porém, têm uma origem pie- 
dosa, segundo uma vulgarisaima logenda popular: — que re- 
cebendo Santa Isabel, mãe de S. João, a visita da Virgem Maria 
nas proximidades do seu nascimento, íicoa de avisal-a logo que 
elle nascesse, por meio de uma fogueira quo mandaria accender 
no terreiro da casa, o que effocti vãmente se fez, vindo dahi, 
em commemora(^ do facto, o costume geral o constante das 
fogueiras que se accendem na vospara do dia em que a ogrejá 
celebra a festa do nascimento do precursor. 

Sqja como fôr, um dos tons mais caracteristicos das festas 
populares de S. João, é a fogueira, em quo, na phrase do cantor 
de Marília de Direeu 

Arde o velho barril, arde a cabeça 
Em honra de João na larga rua . 

Agora algumas notas curiosas sobro as fogueiras, colhidas 
nos nossos estudos atravez da vida histórica da uossa terra. 

No tempo do governador D. João do Souza (16^1-1685) man- 
dou o almoxarife da Provedoria da Fazenda Real fazer uma fo- 
gueira em frente ao Palácio do governo, na noite do S. João, em 
obsequio do «governador, e consoantement^), uma outra em frente 
à casa do provedor da mesma Fazonda, o capitão-mór João do 
Rego í3arros, cora o quo despendeu 8<ooo. 

Exigindo depois os outros «governadores que o almoxarife 
continuasse com aquoU i pratica, e não teodo clle verba para 
semelhante fim, uma vez que fizera as reforidas fogueiras à sua 
costa, i*ocorreu a el-rei pcdindo-llio que o livrasse de semelhante 
despesa, ordenando que fosse olla r*ita pelos cofres da fazenda 
real. Bsta supplica teve uma ^olll<;âo conciliadora, porquanto 
determinou o monarcha por cart i ro^Ma <le lo do março de 1094« 
— «que se não obrigasse o almoxarife a fazer ditas fogueiras, o 



FOLK-LORE PERNAMBUCANO 185 

que, si os governadores as queriam, mandassem fozel-as à sua 
custa». 

Entre os boUandozos, poróm, tinham as fogueiras uma si- 
gnificação bem diíTeroQte, porquanto accendiam-nas como mani 
festação do regosijo publico. Povos do norto da Europa, manti- 
Dliamelles nas suas conquistas do Hrazil a velha tradição pagã 
das fogyíeiras de alegria em honra de Freya, como vimos. 

Efectivamente, ao tempo da sua dominação em Pernam- 
buco, como narra RichsojOTer, festejaram elles no Recife, na noite 
de 17 de fevereiro de 1631, o primeiro annivorsario da tomada 
e poses da capitania — « com fogueiras e iiros^ por ter decorrido 
um anno quCy com o auxilio de Deus conquistámos estes sitios e 
os temos conservado >. 

Um outro escriptor hollandez refere também, que asslgna- 
da a tregoa dos dez annos entro a llespanha o a Holianda, se 
publicou ella por toda parto, e no Brazil em 1642, o que em 
Pernambuco « se accenderam fogueiras em todos os logares». 

Km tempos que não vão muito longe, era rara a rua ou 
p."aça do Recife em que não se via, pelo menos, umi fogueira 
naa noites de S. João. Este costume tão genuinamente popular, 
foi pouco a pouco arrefecendo até que se extinguiu por completo, 
circumscrevendo-se apenas aos campos e arrabaldes da cidade. 
Demais, uma postura municipal, decretada em 1860, torminante- 
monte prohibiu— €0 costumo de se accender fogueiras na cidade 
nas noites de Santo António, S. João e S. Pclro, sob a pena de 
20$0(K) do multa o o duplo no caso do reincidência». 



S. Gonçalo do Amarante, o casamentero das moças^ jã teve 
entre nós ruidosas festvs no seu dia. 

Exercera o santo o cargo de parocho, o tradiçno antiquíssi- 
ma narra que foi elle muito cuidadoso ora promover casamen- 
tos; e dahi a forvorosi devoção das soltílras com o milairroso 
5íinto,e as outp'orH bom conheci las e riiidosasdanç is em seu lou- 
^''^P,coni versos em descantes. 

Lopes Ga iia, tratanjodo asauinpto com a verve que lho ó 
P^Pria, no seu interessantíssimo periódico O Carapuceiro, em 



180 REVI^íTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

1839, quando ainda estava muito em Toga a tradicional dança, 
que constituía uma verdadeira loucura, diz o seguinte : 

« Ha ordinariamente uma bandeirinha, onde está pintada a 
imagem do santo» e além disto outra de madeira também entra 
no fiaindango. A bandeira e a imaorem andam num corropio, ora 
nas mãos, ora na cabeça desta, o daquella. SOa o estrepitoso za- 
bumba, retinem os garridos maraoás, acompanhando as cantile- 
nas, que dizem: 

Viva e reviva 
São Oonçalinho, 
Dae-me meu santo 
Um bom maridinho. 

< Na tal dança ellas saracoteiam as ancas, remechem-se. 
saltam, pulam, e íázem cousas de cabeça,tudo para maior honra 
de Deus e louTor de S. Gonçalo. Entre muitas dessas cantigas 
já ouTi uma, em que entre as prendas de um bom marido di- 
zia : 

Soja bonitinho 
E queira-me bem, 
Aquillo que 6 nosso 
Não dn a ninguém. 

« Os Dwnembros, os calafatinfioii, o.< (jamrnhõ.^ de todo o cali- 
bre^ torneiam o sardo, c estão, como peixe^^ nagua, o com os 
olhos pendurados no remecher das dançarinas.» 

Era á devoção deste jaez, que Lopes Gama chamava— í/er'>f*) 
de patuscada, . . 

Além dessas dança:», formavam os festejadoros do sanio. 
ranchos enormes, (|ue i)eivorriam as ruas e as estradas cantando 
e dançando ao som do descantes om que ílgiiravam versos detia 
urdidora: 

Quando São 
íi onça lo na^cftu, 
Trt)uxe a haiuloira 
Do menino Deus. 



FOLK-LORE PERNAMBUCANO 187 

Quando São 
Gonçalo nasceu, 
Cortou-lho o umblí?o, 
Senhor Saramôo. 

São Gonçalo foi a missa, 
Num cavallo sem espora, 
O cavallo deu um tope. 
São Gonçalo pulou fora. 

São Gonçalo de Amarante, 
Casamenteiro das velhas. 
Porque não casaes as moças, 
Que mal vos fizeram ellas ? 

Ai lô lê, ai lô lê 
Meu santinho. 
Viva o reviva 
São Gonçalinho. 

devotas expansões em louvor do santo, a que Tolle- 
9kOB bailes (h' S, Gonçalo, eram também celebradas 
9, ató que começaram a ser prohibldas em Olinda pelas 
8 ecclesiasticas, a começar de 1816— porque os euro- 
ravam osses bailes como uma indocencia indlí^na do 
Deus. 

luanto esses pretensos moralistas d'alóm-mar, oscreve 
10 anno seguinte, tratando daquella prohibição, te- 
>cido quo David dançava deante da arca, que a dança 
li to t'3mpo parte das coreraonias religiosas, que os 
oncilio de Trento abriram-no com um minueto ; com- 
mça não seja verdadeiramente profana, sinâo pelo 
í a anima, não diroi que sejam restabelecidos os bai- 
nçalo ; mas, qnizera qno fossem substituídos por 
qualquer.^ 

Lopes Gama, no seu mencionado periódico, que se 
em certo logar a banJeira do 8. Gonçalo para as 
na festa, no anno do lí^43, o não sabendo os devotos 



188 REVISTA IX) INSTITUTO HISTÓRICO 

as canti::as aproprialas. cantaram as seguintes com tolo ô 
fervor de umi /ií-^k/- v- . 'iaÍjirinietUe chHítã : 

Parta-se o coco. 
Venha -um poJaço, 
Espromain o loito 
Qu'oii quero o big.vço. 

Ponche do cajii. 
Não me Já ab:\lo, 
Porquo esta bandeira 
E' do São Gonçalo. 

São GoDçalinho. 
São Gonçalão, 
lÍL»ba-se o vinho 
E haja fu acção. 

A estas quadras respondia o povo devoto : 

Isto ó bom. mulata, 
Isto V bom, qu'i'!i ;:.ísto. 

Eis ahi o que oram ont-e nós os fesiejns devotos de S. Oonçi^^ 
de Aiuarair.o. hoje comph^taiiientc esqueci-los. 

A qui» t^poc;i so reni mt ivam ess^s fes^^jos entro nóséitO* 
possível cho^Mr-se ; i» triianto, vinham ji, sabidamente, dO^ 
primeiros annos dj st^cul») XVIII. e La Barbinais, citado poK 
< iliveii*a Lima, trata ilo a^umpi^ ua sua X^uce^n roywye rni iou^ 
d" ,.,n-vh\ improjsi om Paris eui ITáS- 1721), deste modo, dei' 
rrevon.lo ns usos <»cosiiimi*s d i Hahi.i:— « Animação de reg'Tii>» 
algum einpa:ei::av,i-se ooin a qsie reinava na fosta de S. Gon^ 
Çilo de Amarante. Nas dar^ças dec^onfrccv^as em derredor da 
veneranda imairem i «mava parte o vic3-rei «íe pari:eria com os 
i\avallt»ir.'S th» su i i*asa, rs nvy,}^2 *s o os negros, desap parecendo 
a^slm as di<i!nivr» n s ivmu'^? p.í^ns \ saturnal cbristH, celebrada ao 
som mavias > d is vi >l.is.<' n a qm! o amplexo dos sexos attiofia 
proporsCios do demência animal.» 



FOLK-LORE PERNAMBUCANO 189 



somos ngora om revista a mais bú'ila o apparatosa das 
festas populares, as Pastorinhas ou Pastoris, ou mais 
oQoute, Presépios; mas aotes de tratarmos partícular- 
assumpto sob o ponto de vista áo nosso trabalho, pa- 
que não serão por demais umas ligeiras explanações 
is sobro a origem desse b >llo divertimento das festas do 
utrora tão vulgar entre n'íS. 

.0 reza uma piedoia legenda, achaodo-se S. Francisco 
emOrecio, no anno de 1223, quiz soleDnizara noite do 
m uma festa quo nunca tinha sido vista, isto ó, uma ro- 
ção ao vivo do nascimento do Divino Redemptor. 
ús de prévia licença do Papa, escolheu ama gruta e fez 
tar para cila um boi, um jumento o uma mangedoura ; 
sobro palhas um menino Jesus, o de um e outro lado poz 
ns da Virgem Maria o do S. José. • 
ro da gruta reuniu o santo um grande numero de 
13 chamou dos ooiivcntos vizinhos, o uma muUidão de 
ses daquoilas aliei is, e fez cantar uma missa, om que 
10 sorviu do diácono. 

k occasião, o seraphi o patriarcha pronunciou uma 
nte oração, o quando cliegou ás palavras do Evangelho 
i-o em um presépio,-^ ajoelhou-se om acto de adoração, 
o momento, cjoc1u3 a legenda, lhe apparoceu entre os 
i mouiiio toio r-^splandecoíite do luz divina. 

então, censor vou-se sempre nas egrejas dos religiosos 
109 o uso da representação dos presépios, que depois se 
mmum o geral em todo o mundo, 
dos presépios em Portugal, como infere fr. Luiz 
teve começo no convento dis freiras do Salvador, em 
anno de 13U1, levantando-se no meio do templo uma 
•opresontando o estabulo de Beir-n, com figuras que 
vam a scena do nascimento de Jesus. 
I, já no século XVI, f^i o assumpto dramatizado, teve 
) theatro, e é talvez dahi que vom o auto hierático por- 
tão variados assumptos. A esto respeito diz Theophilo 



i90 REVISTA I>0 INSTITUTO HISTÓRICO 

Braga o seguinte: « Como ooi todos os povos catholicos em qoe 
as festas religiosas do Natal, Reis-Magos e Paixão eram a baae do 
theatro hierauco, tivemos essos autos ou vigilias, que se ligavam 
ás maoifestações do culto, sobretudo do tempo em que a egraja 
admittia o povo á participação da lithurgia. Foi por um mono- 
logo de natureza da visitação da lapiaha ou do presépio, qoe 
Oil Vicente começou a elaborar a forma literária do aato 
hierático. > 

A introducção áo presépio em Peruambuco, vem, talves, dl 
fins do século XVI, acaso iuiciada no convento dos franciscaooi 
em Olinda, por frei Gaspar de Santo António, a quem na custo- 
dia chamavam O Primof/eniio, por ser o primeiro religioso que 
tomou o habito no Braui, naqueile mesmo cunvento, no aoiio 
de 1585. 

Sobre o assumptc», diz o soguiate o nosso chronista Jaboatão, 
referindo-sc a frei Gaspar:— < Foi devotíssimo do mystario 
ineflTavol do nascimento do Chiisto, fazendo uaquelles dias, além 
das suas particulares devoções, algum passo do Deus Moaioo em 
Belém, para mover aos religiosos o oLiior aflècto a este myste- 
rio; o alli lhe dizia alguns louvores, o fazia suas devotas reprs- 
seutH^ões, ainda depois do muico vduo, i>ois naqucUe convento 
falleceu em 1»'»33, na e-Ude de i*:íauuos. > 

I*os nossos pro:» >pios de outrora, t^-iuos ec>ta bella descrípsão 
•levida a António Joa luim Je Mello : 

< De ramos de arvoi'es oucir^sa^, e .uliiu^eui vividoura 
ontretecia->e sobr* um altar uma alobada, aberta cm arco pela 
(K^nte. No centro desta ab.badi mostrava-se a lapinha, e na 
niaiig«doura sobre palhas o Menino Jesus !ia:}Cido, sua Mãe 
Santisaima, e S. Jcsê, o seu e^pos >. de joelhos, coutemplando-o 
oiaravilhados, eadoranio-o. Alli junto veieis o paciento boi- 
zinho descançado ruminando, o jumentinho, e outros irracio- 
uaas ; e já de redor, já des.^enio dos montes, e do povoado, 
pastores e pasV3ras. que um des^ ardea;e e s^mlo impellia a 
ver em Bekm o Deus humanado, que os aojos com seus cantos 
IhManounciaram. Qual poro:TVonda ;Ue ir^zi^ o cândido cor* 
deirinho, que Ibe pesa aos iiombr^c> ; qual a cestinha do esoo- 
Ibidas fVtielas, c cbeiroas, lindas dores : qual os ovoa, e qual na 
gaiola as tortas rolinhas. Outras fi^^uras em grupos. 



FOLK-LOUE PERNAMBUCANO 191 

por aqui e ali ao som dos adufes e gaitas campesinas. 

erior do tocto, como (lac no céo sobre nuvens, os anjos 

tam o letreiro : Gloria in excelsis Deo, et in terra pax 

bus hoYíoe voluntatis, Xas casas pobres a estructura e 

?ão destes presépios eram também pobres e limitadas, 

lo apenas sob o tocto verdejante e odoroso o divino reoem- 

) no feno vil e enfeitadinho, e a um o outro lado seus 

)s pães absortos e liumilhados em amor o adoração. Esta 

indigente o pia singeleza commovia talvez mais a alma 

que devota e muda a contemplava, do que a extensão 

»ricas de rica variedade e lustroso apparato, desvelo de 

38 devotas. . . Segundo, porém, as forças o fantasias das 

s, estas armações engrandcciam-so^em adornos o acenas. 

prendiam â arcada folhuda as fructas mais bellas do 

o sol, a lua no concavo, o em coUocações melhor apro- 

no interior, aggroí^avam passos da Escriptura como o 

io da Santíssima Yir^^em, a fuga da sacra familia para 

), a degolação dos innocentes, a visita de Santa Isabe 

luini á Nossa Senhora e outros. Também em conve- 

)orspectivas, entre montes e desfiladeiros, descobriam-so 

' os tros reis magos, quo adivinharam o nascimento do 

essias, e o vinham adorar, guiados pela estrella bri- 

2 então aquuiles tros monarchas já se viam prostrados 

s Menino, o depostos na terra os diademas, adorabun- 

ivam-lho as s\ mbolicas oblações de ouro, de incenso 

V. 

I, â noite que se reunia a familia e os visitantes, deante 
idoso e ameno oratório. As pastorinhas, trajadas 
nente, â consonância de seus pandeiros e maracás, 
!, talvez de outros instrumentos á parte, com arcos do 
tas, ousem elles, dançavam modestamente, cantavam 
3 recitavam, em breve poesia, piedosas jaculatórias e 
os adeuses de innocente simplicidade e graça ao lindo 
)us amores. Deus de infinita magestade (eito homem 
r ao muQclo ; e por íim depunham suas humildes 
o altar da maviosa lapinha . 

jtava-se tam bera o festivo natal â representação do 
lenos dramas ; eram, porém, taes representações menos 



192 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

commuDS, e quasi todas entremeadas de jocosidades o aDachro- 
nismoB, e com burlescos e indecentes episódios nâo poucas. 
Mas qual é a cousa innocento ou útil nesto mundo de imperfei- 
ções, de que não abusam a ignorância, o desvario e a malicia 
dos homens ?... » 

Tinha razão o nosso illustre conterrâneo. Effecti vãmente, o 
desvario di; muos dadas pom o mais surdido interesso, em ^^eral, 
converteram um tão bello e innocente entretenimento em um 
foco de imnioralidado e perdição !... 

K o ([U v) 6 de admirar, é que similhante abuso vem já de 
longe, como se vô de uma representação do bispo Azeredo 
Coutinho dirigida ao governo em 1801, i^clamando contra a 
funcção das chamadas Pastorinhas, sobre o que se providenciou, 
como consta do oíflcio que teve em resix)sta, expedido em 12 
de dezembro, asseguraado-se-lhc, que se ia empregares meios 
necessários ^ « para se extinguir de todo esse abuso d nossa santa 
religião ». 

Essas providencias succederam-se depois, quasi sempre 
provocadas pela autoridade ecclesiastica, mas não obstaram os 
abusos e desvirtuamentos da solennidade, que ainda presente- 
mente, com a denominação de Pastoril, ó celebrada ruidosa- 
mente, com grande escândalo á religião e á moral publica, 
salvo os mui raros e particulares em casas de familías. 

Tratíindo Lop j; Gama dos nossos Presépios, em 1840, no 
seu periotiico O Cirapucdro, oscriívo m soiTuinte :— c Esta parece 
ser uma folgança endémica do nosso Pernambuco, Em se ap- 
proximando o Natal, surgem de UKlas as partes os presépios, 
sondo a cidade do Olinda o logar mais abundante deste género... 
Começam cm a noiío do Natal, v ropetom-so todas as noiiss 
até o dia de Reis, depois do qual entra por seu turno o acto de 
queimar as i^alhinhas de cada presépio, o que constituo nova 
folgança. As past rinhas cantando diversas endeixas, dansam 
em cadencia, e ropiHom sua< loas em honra e louvor de Jeiíif 
Christií recomnasciílo 

Lopt^s Giiua est)gmati.a>a as irreverências e os abusof 
praticados nos pri\<o]>ios, as arrematações das fíructas e tlores de 
ornamento das lupinhas. mas pregava i^Mlest^rto, e as cousas 
continuavam e conunuam ainda con.o dantes... 



FOLK-LORE PERNAMBUCANO Í98 

Até O tr<4ar das pastoras, de azul» umas, e de encarnado » 
oQtni, dispostos em duas ordens para a ozeoução dos seus 
biUiâos, dea origem á oreagfto dos partidos do cordão asul e do 
wráâo ei^camadOf partidos esses que no auge do enthusiasmo, 
108 gritos de Tivas e bravos, oom paimas sem âm, cliocam-se 
moitas Teses e acabam engalflnhando-se, resultando contusões e 
ferimentos e atô mesmo casos fataes. 

B dahi o arrefecimento do popular festejo, e as visiveis 
teodoiMias para um próximo e completo acabamento I 

Oasfirtuado do seu «pirite innocente e mystico, convertido 
em torpes especulações nas suas exhibições publicas, muito 
embora pese a aoçio da policia em providencias repressivas ou 
prohibitivas, não ha negar, que em semelhantes diversões reina 
todo, menos o espirito religioso da sua instituição. 

Para solennizar o nascimento do Messias, tivemos em ou. 
trof tempos varias associações especialmente incorporadas para 
semelhante fim. 

Dentre estas, notam-se a Sociedade Natalense^ instaliada em 
8 de março de 1840, a qual, segundo a letra dos seus estotutoi, 
tinha por ílns — dirigir com solennidade, brilhantismo e de- 
eiQda, o natalício do Messias, por meio de representações thea- 
traes análogas ao acto ; — e a Sociedade ^ova Pastoril^ com 
eguaes fins instaliada no anno seguinte. 

A NaUUense^^ que dous annos depois da sua installaçâo 
começou a dar as suas representações na profanada egreja do 
extinoto coUegio dos Jesuítas, hoje reconciliada sob a invocação 
do Divino Espirito Santo, servindo de soenario a capella-mór e 
de platéa o corpo da egreja, teve grande influencia o animação 
pelo luxo e apparatodas suas i^epresentações, de cujos dramas, 
eacriptos em vorio e ornados de musica, temos noticia do três, 
compostos por Modesto Fri\ncisco das Chagas Canabarro, refe- 
rentes ao nascimento do Messias, Reis Magos, o á queima das 
p&lhinhas. A musica desses dramas fui eseripta i)elo maestro 
major Patrício José de Souza. 

Do mesmo género existiram outrasas bociações, que repre- 
sentaram dramas de composições diversas. 

Dos versos populares dos nossos presépios, ou pastoris, 
eolhemos abundantes subsidies em suas diversas nuances^ os 
8593 — 13 Tomo lxx. p. ii. 



194 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

qaaes oonsigoamos na secQão oompetenie. Poe^ de oomposi- 
^ anonyma, Da phrase de Mello Moraes Filho, o sea vmloré 
eoQsiderayel, como contribuição ao estudo de phrases poelicai 6 
do ideal religioso que, não ha negar, é a atmosphora phytio- 
logicà da razão popular . 



As bandeiras de diversos santos, si bem que de «uraotar 
religioso, tinham, comtudo, grande inâuuicia popular. Prece- 
diam ás novenas, sahindo procissionalmente da casa da joiía 
da festa, e eram hasteadas em nm mastro em ílreala à egr^. 

Formavam o préstito de taes procinões, à noite celebradas* 
duas extensas alas de moças o meninas, traj&<ia8 de braaeo, 
coroadas de capellas, e com brandão acceso; com lantama de 
papel, marchando no fim as que levavam a bandeira 8tgor»Q> 
do-a polas pontas ; o ds vezos, quando se queria imprimir maiiNr 
Bolennidado ao acto, ia o estandarte hasteado em uma charola 
carregada por moças. 

No coice do préstito marchava uma banda de moaicat q«8 
acompanhava os versos em cadoncia do marcha, tirados pelo 
^rupo de moças que carregava a bandeira e por oatras que 
faziam como que a sua guarda de honra, e respondidos em oòro 
por todo o acompanhamento. 

Esses versos eram ás vezes escriptos por pessoas eraditis» e 
portanto, correctos ; mas em geral tinham um canho venlaiki- 
ramente popular, o o coro era quasi sompre assim, mudando-ss 
apenas o nome do santo : 

guo bandeira é esta 
Que vamos levar f 
E* de Santo Amaro 
Para o festejar. 

Enorme mass.i p(»pular ladeava o fechava o préstito oom* 
paciamenie, e a^^sim, reinando tudo, menos o espirito religiosa» 
ia marchando a bandeira, percorrendo varias ruas, alé ehegar 
em frente á egreja, onde era recebida a repiqoede slnose | 



FOLK-LORE PERNAMBUCANO 195 

íbi^etaria. Do mesmo modo era arriada, ao terminar o Te Deum, 
e oondusida para a casa da nova juiza, que a recebia com ea- 
plendido saráo dansante e farta mesa. 

No eampo, porém» tinham essas bandeiras um tom mais 
aceentuadamente popular e um apparato especial ; marchava— 
adeante da procissão o estrepitoso zabumba e mais instrumen- 
tos, foguetes do ar estourando, e as senhoritas cantando versi- 
coloB, aos quaes respondia a turba-muita,~como refere Lopes 
Qama, em um artigo public«uio em 1833 no seu referido perió- 
dico, a respeito d* Ai nossas festas do campo, 

< Ba jà Ti. diz elle, em certo arraial uma bandeira destas, 
6 julguei estar observando uma dessas saturnaes dos antigos 
romanos. Ura dedicada ao Glorioso Senhor S. Gonçalo. As nym- 
phas, que a levavam, depois de girarem por todo o logarejo, sem- 
pre debaixo do compasso do mais rigoroso landum, entravam 
pela egreja, c alii, postas em redor da tal bandoira, saracotea- 
vam as ancas, reboleavam-se, davam embigadas, puxavam 
fieira, que não o faria mais a colebre Castiga na capoeira chama 
da Theatro do Recife. Advirta-se que o Santíssimo Sacramento 
estava encerrado no throno I » 

De todas essas bandeiras, destaca vamse, principalmente, 
as de N. S. da Saúde, no Poço da Panella, Santo Amaro das 
Salinas, o N. S. do Monte, em Olinda, pela grande afUuenciade 
povo e imponência do seu apparato . 

Em compensação, é fácil do ajuizar-se, os distúrbios que se 
davam, o não raras vozes casos fataes. 

Tudo isso comprovando a completa ausência do espirito 
religioso nessas solennidades, lovaram os bispos diocesanos, 
modernamente, a prohibil-as absolutamente, permittindo apenas 
quo sejam as bandeiras levadas daegroja para o mastro, e reti- 
radas depois para a mesma egreja, carregadas por crianças e 
acompanhadas pelas respectivas irmandades ; o por muito empe* 
nbo, condescendem, ás vezes, que sejam conduzidas e tiradas 
com as antigas solennidades, mas sem os versos cantados por 
moças* 

Os negros, escravos ou não, celebravam também ruidosa* 
mente a bandeira do N. S. do Rosário, sua padroeira, o faziam* 
PO oom um mixto do preceitos religiosos e profanos, como so 



i96 REVISTA DO INSTITUTO IlIStOklCO 

vê de uma que houve em Olinda cm 1815, acompanhada pelos 
irmftos e irmUs da respectiva irmandade,— «oom toques dê inslrw 
môhtos^ sabumbas, clarinetas e fogo do ar >»— e que sahira me« 
diante lioença concedida pelo ouvidor geral da comarca, o Dr. 
António Carlos Ribeiro de Andrada Machado e Silva. Essa licen- 
ça custou-lho uma áspera roprimonda do governador Caetano 
Pinto do Miranda Montenegro, que em dous longos oífleios a 
elle dirigidos, sobre o assumpto, combateu — os erros e abusos 
que outros lançaram à zombaria, voudo-os introduzir o arrai* 
gar-se, e para cuja destruição trabalhava a muitos annos. 

Dessas devoções de patuscada^ como vimos, fiiziam parto as 
bandeiras, e particularmente a deS. Ctonçalinho, casamenteiro 
das moças»., 

Quasi que do mesmo predicamento das bandeiras eram as- 
novenas, que terminavam comos versos^ cantados por moças, 
pratica essa que também foi abolida pela autoridade eoclesias- 
tica, evitando debt* ai te as irreverências eaté mesmo oseecau 
dalos que se davam. 

Desses versos de novenas nos recordamos ainda dos que so 
cantavam, nas de N. S. da Saude, no Peço da Panella, dentre 
01 quaes lembraino-nos destes : 

Si náo fora a Virgem pura 
Dos morta es o quo seria i 
Tantos réos, tantos culpadus. 
Nenhum só se salvaria. 

Tendo por ostribilbo : 

l»ttSouhurd<lA lU«lr 
O patrocínio buS(|iiomu>. 
• ^ons louvores e seus vnios, 
Fervorosos «^elebienx^s. 

Temos, porém, por comploio os veisos que se cantavam 
nas novenas de N. S. da Hòa Hora, na povoação de Be beribe ; 
e ainda qoa de autor oonhecidamenta sabido, nem por iM> 
tmrdem aqui o seu logar, |K>rque i>fto ollos de um dos noesue poe- 



FOLK-LORE PER NAMBl CANO 197 

pulares do alvoroccr do século XIX, Manoel Rodriguesde 
lo, pardo, sapateiro, conhecido vulgarmente por Manoel 
e quasianalphabeto. 
i 03 versos : 

Immensos louvores 
Demos á Senhora, 
A denominada 
Mão da Boa Hora. 

Bemdita sejaes 
Oh ! Maria amada 
E a Bôa Hora 
Em que fostes gerada. 

Vossa Bôa Hora 
Tem tanto valor, 
Que a hora da morte 
NSo causa terror ! 

Emquanto existirmos 
No vai do perigo. 
Sede nosso amparo 
Contra o inimigo. 

Derramando graças 
Virtudes, haveres, 
Vossas mãos sagradas 
De tantos poderes* 

Hesguardae os tristes. 
Pobres peccadores. 
Das penas eternas, 
De transes, horrores. 

Quando o fliho Eterno 
o mundo julgar, 
Da morto perpetua 
Nos queiraes livrar ! 



198 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

Espirito divino. 
Vinde nos ditar 
O 4(10 a tmmanldado 
Nâo p(')<lo alcançar . 

Levao-nos «1 gloria 
Comvosco também, 
P*ra todos os séculos 
Dos séculos, Amen . 



Entro as expansões do ospirito religioso no nosso meio 
social notavam-se algumas procissões, que o bom senso e a 
moral sapprimirara. 

A procissão de Cinzas, celebrada no Recife e Olinda, foi uma 
dessas. Da prociss&o do Recife, que teve começo em 1720, pos- 
suímos uma idéa exacta, graças a um completo o interessante 
estudo historico-descriptivo, da lavra de PaoiAco do Amaral, 
no qual figuram os seguintes vorsos escriptos por um frade 
carmelita, na época do apogeo dessas procissões, em cuja peça 
também se enoootra uma exacta noção do que eram entre nós 
semelhantes solennidados : 

PKOCiSSÀo DK CINZAS 

Aos homens que discorrem com sciencia, 
A'quelle8 que era folar acerto fem. 
Lhes peço quo me dií^am se é do bem. 
Se oommovc e provoca a penitencia. 

Ver um grosso Inpuz (summa demência I) 
Que era frente á procissão correndo vem ; 
Bom como Adão c Eva ; mais nqucm. 
Um anjo o Satanaz era pum essência. 

O primeiro um chicote manejando 
/urzir sem dó, a eito. a molecagem 
Que em troca a pitomba ovai levando... 



FOLK-LORE PEHNA^IBUCANO 199 

E O ultimo sedento de carnagem. 
Quer a turba infantil ir immolando. 
Mas rccoia d*iim aivjo ante a coragem. . . 

E ponsam que com scena tão risível, 
Incutir podem n*alma a penitencia ! 
Gerar a fé ? Oh ! não, não ó possível ! 

procissão de Olinda, porém, deixou-nos Gragorio de 
que veiu acabar os seus dias cm Pernambuco no anno 
, o seguinte 



SOXKTO 

Um negro magro em sofolié justo. 
De joÃs azorragues dous pendentes ; 
Bárbaro Pere?, e outros penitentes ; 
De vermeltio um mulato, mais robusto ; ' 

Ck)m azas seis anginhos, som mais custo ; 
Uns meninos fradinhos ionocontes ; 
Dez ou doze bichotes, muitas gentes, 
Vinte ou trinta canellas de hombro onusto ; 

Debita rever entia, seis andores ; 

Um pendão de algodão, tinto cm tejuco. 

Km parelha dez paras de menores ; 

Atraz um negro, um cego, um mameluco ; 

Um lote do rapaces gritadoros, 

Bis a procissão de Cinza cm Pernambuco ! 

ia também em Olinda uma outra procissão bastante 
de que temos precisa noticia peia dcscripção de um 
\ do tempo, nestes termos : 

. Entretanto aqui descroverjmos a procinsão dos me- 
mítente^, com quo os mulatos de Olinda, obtidas as 
do costumo, vieram em 1809 edidcar e mover a com- 



200 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

puncçáo do poYO do Recife e a turba iogleza, já então alli esta- 
beleeida. 

< Qiiasi (liizentos rapazes de nove a dezesoís aoDos, com 
cabeça e pOs descalços, mas vestidos do sacco, ou cassa branca, 
desfilavam em duas bem compassadas alas ; em diitancias me- 
didas iam no centro vinte oo trinta figuras allegoricaa, ou 
bomens vestidos com os symbolos do todas as virtudes chrisiis. 

«Toda essa encamisada ora precedida de uma devota cruz, 
adiante da qual maiH^hava um medonho espeetro, figurando a 
morto, com arqueada e longa fonco na mão esquerda, o (eros 
matraca na direita. 

€ Sobresahia a toda essa penitente chusma um duende, lob 
a forma do demónio, ou diabo em carne, o qual dançando con- 
tinuamente o deshonestissimo L»'ndvm com VKlas as mutançaa 
da mais lúbrica torpeza, acconimetiia ci>m minpadas a todos 
indistinctimentç. 

€ Ora as irravos e fijxuradas virtudes, ora os indivíduos 
penitentes, ora a plebe espectadora, ora as mulheres e Inno- 
centes donsellas nas rotulas das suas casas térreas, tudo sem 
excepção er«\ aocommeUido pelo tal diabo. 

€ Por fim nas ruas maissolotmes o deante das galerias mais 
povoarias do senhoras, aqui so desafiava com o espectro da 
morte, e dançavam á i-oropetoncia ilc qual mais torpe, mais 
lubrii^, mais deshonesto soo>tontiria nos seus detestáveis e 
ignoro inius.s movimentos !! » 

Para terminar osta ^ecção cons lirraila ás nossas antigas 
procissões populares, cumprt^-nos tratar taml>em da que tinha 
logar na festa de f^iccho. 

Depois da festividade de N. s. dos Prazeres, celebrada na 
Dominga de Paschvx^la. na sua lin«la egreja dos m<>ntes Goara* 
rapes, erguida em memoria dos dois feitos de armas alli feridos 
em Ifi^'^ e \t^\\K contra o liauiv-) inviisor, s»^uia-sê uma Mria 
de f^tas att^ o domingo immeiliat4> o no qual linha lo^r a 
flKTa do DcMis Bi c»ho. 

Para o logAi- denominado /-'('i^A'!, onde passa o rtadm 
Jonl&o, cujas autuas são vermel!tas,— do sangne que alli correra 
em um combate parcial que se travou eni uma das bataltias doa 
Ouararapes.— como ro/a a ti adição iHumlar. atlloia pela manlii 



FOLK-LORE PERNAMBUCANO 201 

neoRa multidão, o guardadas as solennidades das festas 
Is, tinha logar o baptismo de Baocho na^ aguas do 
i&o. 

Terminado o acto, dispunha-se toda a gente em ordem de 
eba para os Prazeres, formando pelotões» conduzindo cada 
dduo um galho de arvore, e no flm vinha Bacoho com uma 
a de folhas na caboça, montado sobre uma pipa, que dis- 
% em forma de cbarola era conduzida aos hombroa doa cir- 
gtantes, rovesadamente. Baccho trazia uma garrafa com 
o ná mâo direita e um copo na esquerda, de oi^ liquido 
a ftkzendo libações, e a representação do seu papel, na so- 
ldado, cabia privativamento ao juiz da festa, annualmente 
3 pelos foliões. 

)esfllaya então o préstito, entoando um caiitico tirado por 
antos e respondido em coro por toda a gente, cujos versos 
m por estribilho : 

Bebamos, companheiros, 
Bebamos, companheiros, 
O sueco da uva, 
O vinho verdadeiro. 

m fsMse dessa festividade, dir-se-hia que estávamos em 

paganismo, e ao tempo do reinado de Nero, em que 

se inebriava em suas danças bacchicas, após a procissão 

indade. Entre nós, o ff ecti vãmente, se guardava na sua 

. tradição mythoiogica, em quo Baccho é algumas vezes 

entado sobre um tonei, com um copo em uma das mãos e 

ra um thyrso, vara ornada do heras o de pâmpanos, da 

Q servia para fazer brotar fontes do vinho. 

s proximidades da egreja, ao fundo, se nota uma emi« 

por onde descia a procissão, o a sua passagem |)or abi, 

ida distinctamente, era de um aspecto bellissimo e impo. 

porquanto, em movimenco o numeroso cortejo, condu- 

3ada circumstanto um galho de arvore, cortado na oc- 

la sua organização, dir-se-hia um enorme e compacto 

lo a descer pola collina. cujaí verdura rasplendia como 

Ldas aos raios solares. 



202 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

À procissão entrava por um dos flancos da oapella, iiolada« 
monte oonstruida no extremo do extenso patoo, dava uma volta 
sobre o mesmo, eavol vendo o templo, e dissolvia-sc depois» can- 
tando sempre no trajecto o sou hymno bacchico. 

Esta usança, que vinha aliás de longínquas oras, não podia 
continuar a sor tolerada em um paiz catholico ; a eompent^ 
Iradas dos seus deveres, por fim, as autoridades* ecclesiasiicai, 
reclamaram dos poderes públicos a sua interferência, no intuito 
de obstar a continuação de semelhante pratica. 

Houve tentativas pacificas, mas infimctlferas, ató que em 
1869 expediu o governo uma numerosa força de infontaria e c»- 
vallaria, que fobstou a execução da tradicional festividade, e 
desde então nunca mais se tentou a sua celebração. 



As danças, quer dos indios e africanos, quer dos brancos, e 
dos productos do cruzamento destas tree raças, já foram conve- 
nientemente estudadas por Sylvio Romero, cabendo-noe, por* 
tanto, consignar apenas os nossos novos subsídios, attinentes a 
uma ampliação complexa sobre tio interessante estudo. 

Si a sociodado civilisada da colónia cultivava a musica, com 
todas as suas beliozas o harmoniis, com todas as regras e pre- 
ceitos da divina arte, e os nossos aborigones, também, os escravos 
africanos, p >r sua voz, para suavizaras agruras do eterno eapti- 
veiroe arrofocor as saudados da pátria, cultivavam-n*a também, 
a seu modo, iH>m tola a s;ia originalidade e monotonia, nos eeus 
senVi, nos seus recreios domingueiros, em que faziam os eeus 
Maracatús, e nas suas solennidades ft^sti vas e ftinerariaa. A mu- 
sica afk^ioana é coeva di introincção dos escravos em Pemait* 
buço, e delia faz menção o chronista Galado. reOírindo que oi 
negros que tomaram p.iru> na baulha de Tabocas, ferida em 3 
de agusto de 1645. tocavam durante a peleja frauta.^, atabaqsM 
e boitn:iS, faiendo ao mesmo tomp.> granie vozeria. 

Seria o?«sa r >;^»rin. cânticos patrióticos africanoe, entoedoi 
ao som daqtiellos rústicos instnimenu» .' 

Kr. lUpha 'i de Jesuíí. tamb.>m chronista eoevo, ao referir 
o ft^ito da Oaii^t Fort<», occ^rridj em 15 de agi>jt(j daquelle 



FOLK-LORE PERNAMBUCANO 203 

z que os applausos da victoria foram também celebradôd 
) estrepido dos bárbaros instrumootos de Minas e Indica, 
mpanhados de seas confusos gritos, se fatia aos victo* 
'a tos. e aos vencidos iiTiportuno. 
bravani os africanos as soas festas com danças e ean- 
eompanhadas de instrumeotos mnsicos, fabricados o ex- 
lente usados por elles, além das castanholas, bater de 
inçavas, c de diíferentes formas de assobios por elles 
08 com muita variedade. 

í instrumentos eram o Atabaque, ou Tambaque, es* 
tambor, e muito estrepitoso ; Canga, feito de oanna, 
ctremidades fechadas pelos gomos da mesma canna, e 
cios ; Marimba, formada de dous arcos semi-circniares, 
tés, em cujas^boccas collocavam uma espécie de tecla 
>a, sobre a qual batiam com um páusinho ao modo de 

Marimbào, que não sabemos si ó um outro instru-^ 
Fere.ite deste ultimo ; Matuogo, uma cuia com pon- 
forro harmonicamente dispostos ; e os Pandeiros e Se- 
que adoptaram. 

e veado Tolleuare umas danças do negros a que assis- 
ícifo era 1817, diz o seguinte, quanto á parte musical : 

1 músicos formavam a orchestra; um tinha flxado 
; das extremidades de uma caixa de madeira quatro 
palhetas, que descançavam sobre uma pequena tra- 
lhos servia de cavallete. Quando o musico levantava 
B palhetas e a largava para abandonai -a á sua elastici- 
ra delia um som surdo, que fazia rosôar o concavo da 

uatro palhetas, do diíTercnte comprimento, estavam 
i atinadas ; mas não pude jamais adivinhar quaes as 
ramraa que deviam produzir. O musico, acocorado 
ixa, parecia muito attento e pnrcorria os seus quatro 
nuita volobilidaie. Todo o oífeito da sua symphonia 
lido para mim, devido ao barulho que fazia o seu 
dor. 

icjmpaniiador, de joelhos diante do outro, tinha por 
rnanio uma liastei do oito poUogadas, munida na ex- 
do uma cabaçji na qual se agitavam alguns grãos. 



204 REVISTA DO INSTITITO Hlf^TORICO 

Batia em cadencia, e de uma forma muito animada, sobre i 
caixa, com a outi*a extremidade da li&sto. 

€ Era esta cadencia que parecia produzir o effeito principal 
da orchestra, porque, segundo se tornava mais ou menos yin, 
os dançadores mostravam mais ou menos ardor. 

«Um canto monótono, composto de três palavras, sempre 
semelhantes, completava a rústica liarmonia.» 

Os negros se serviam ainda do um outro instrumento de 
musica, como acorescenta Tollenare. « E' uma corda de tripa 
distendida^obre um arco e collocada sobre um cavallete for- 
mado por uma cabaça. Tiram o som por meio de um aroo e 
produzem tons afinados o harmoniosos.» 

Essas danças africanas, que vinham já de remotas ôpoeat, 
foram um dia denunciadas ao Tribunal da Inquisição, %m lisbô», 
pelos seus agentes em Pernambuco, os Familiares do Santo Of- 
ficio^ ^ como torpes e escandalosas aos preceitos religiosos. 

Recebida a denuncia, dirigiu-se logo o Tribunal ao gover 
nador Josó Cezar de Menezes reclamando providencias sobre o 
caso; e Julgando^ o governadof de bom aviso communioar s 
oocurrencia ao ^^overno da metrópole, dirigiu-se ao mlDistra 
Martinho de Mello o Castro, enviou-lhe a carta que recebera, e 
concluiu pedindo que resolvesse sobre o assumpto. 

Por sua vez, remetteu o ministro os papeis a D. José da 
Cunha Grã Attiayde o Mollo, Conde de Pavoiide. que adminis- 
trara Pernambuco pelos annos de 17r>s o 1760, e então rosidia 
em Lisboa, para estudar a qa&stão o o informar conveniente- 
mente ; e prestandose o Condo a essa incumbência, desempe* 
nhou-so de um modo completo, dirigindo ao ministro uma ex- 
tensa carta datada de 10 de junho de 17m), de cujo documento, 
inédito ainda, extrahimos os seguintes trechos do muita impor- 
tância histórica sobre o ai^sumpto : 

«Os pretos divididos em naçõos e com insirumentos pro* 
prios de cada uma, dançam o fazem voltas como arlequins, o 
outros dançam com diversos movimentos do corpo, que, ainda 
que não sejam os mais indecentes, são como os fandangos em 
Castelia, o fofas de Portugal, o lundum dos brancos e pardos da- 
quelle paiz : os bailes que ontondo ser de uma toUl reprovação, 
tão aquoUes que os pretos da Cost i da Mina f;izem úm escondidai 



FOLK-I.OKE PERNAMBUCAiNO 206 

»s OU roças, com uma preta mestra, com altar de 

oraado bodds vivos, e outros feitos de barro, antaudo 

)S com divor^os olco^ ou sangue de gallo, dando a 

os de milho depois de diversas bênçãos supersticiosa s, 

rer aos rústicos, que oaquellas uncções de pão, dão for- 

im querer bem mulheres a homens, e chega a tanto a 

)e de algumas pessoas, ainda daquellas que nao pare- 

1 tão rústicas, como frades e clérigos, que chegaram 

!0S ú. minha presença, em os cercos que mandava botar 

$as, que querendo-os dcsmaginar, me foi preciso em as 

inças lhes fazer confessar o embuste aas pretos donos 

e depois remettel-os a seus prelados pura que estes 

;sem como mereciam, e os negros £izia castigar com 

nçoitcs, e obrigava aos senhores que os vendessem 

Esííxs são as duas castas do bailes que vi naquella 

eiu o tempo que a governei, e me persuado que o 

MO fala de uns, o o ^^overnador de outros, pois não me 

luadir que o Santo OíBcio reprove uns, nem que o go- 

lesculpe outros.» 

sta desta informação baixou nm Aviso dirigido ao go- 
le Pernambuco, datado do 4 de julho de 1780, com- 
Klhe — < quj Sua Magestade ordenava, que não per- 
( danças supersticiosas e gentílicas ; emquan to ás dos 
da que pouco innocontes, podiam ser toleradas, oom o 
ar-se com este menor mal, outros males maiores, de- 
tudo usar de todos os meios suaves, que a sua pru- 
suggorisse, para ir destruindo pouco a pouco um di- 
) tão contrario aos bons costumes.» 
smo sentido aa escreveu ao lâsi>o diocesano — € para 
Lo cooperar* para oi íius indicados ». 
lando posteriormente o commandante militar de 
) governador da capitania contra os batuques que os 
umavam lazer no seu distincto, respondeu D. Thomaz 
.lo por offlcio de lo do novembro de 17U0, dizendo : — 
3.S batuques que os negros dos engenhos dessa villa cos- 
.ticar nos dias santos, juntandose na mesma, não 
privados de semelhante funcção, porque para eiles ô 
sto que poiem ter em todos os dias de sua escravidão, 



206 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

porAm sempro dovom ser advertidos por Vmc. afim do nio pn- 
tioarem distúrbios, sob pena de scrom castigadoa altera- 
mente.» 

Os escravos pretos tinham por padroeira a Nossa Seolion 
do Rosário, que festejavam apparatosaincLite nas soas egrejas, 
e celebravam em seu louvor festas e danças ao uso do aeu paii 
natal ; c apezar de bárbaros, na phrase de Mello Moraes Filho, 
de aviltados pela condição, os nassos escravos possuíam oostO" 
mes cheios de i^oesia c de graça, de corta tristeza que enleva 
encanta. 

Essas danças africanas eram os batuques e maracatú$# 
que ainda os alcançílmos, feitos aos domingos, em diverso^ 
pontos da cidade, reunidos os pretos, escravos ou não, ena 
grupos distinctos, dançando lascivamente, num sapatear pro* 
nunciadis.simo, e cantando ao mesmo tempo, com o acompa- 
nhamento de palmas o instrumentos apropriados ao seu mei<» 
o origem. 

Esses cantos, si bem que monótonos, porém cheios do 
snave tristeza, tinham letra africana, o sem duvida eram 
guerreiras ou patrióticas, entoadas por esses desgraçados da 
fortuna como saulosas recordações da terra natal. 

O batuque, ([ue não tinha importância alguma pela au- 
sência de certos c aracteristicos ty picos dos usos e costa mes do 
afí*icano, e completaraotitíí dos ip pareceu, diver/^ria um pouco, 
segundo a procedência dos dançaioros, do Congo, ou de Loanda. 

O batuque congolez, reproduzido ontre nós com toioeos 
seus caracteristicos ori^^inarios, dançava-se formando-se um 
grande circulo do qual faziam parte os músicos com os seus 
instrumentos, bem como também os próprios espectadores. 

Formado o circulo, sogundo uma dcscripçâo que temos 
presente, saltam para o meio delle dous ou três pares, homens 
e mulheres, e começa a diversão. A dança consiste emom bam- 
bolear sereno do corpo, aco upanhado de um pequeno movi- 
mento dos p(^s, da cabeça e dos braços. Kstes movimentas aooe- 
leram-so. conform»' a musica se t )rna mais viva i» arrebatada, 
e, em breve, se admira um p.*oiigioso saracotear de quadris 
que chega a p-arccer imi>oâsivei poder-se ezeoutar sem que 
fiquem 'd6«loeado8 os quo a elle se entregam. AqueUe qao 



FOLK-LORE PERNAMBUCANO 207 

^r rapidez emprega nesses moTimentos ó ílrenetioaiiente 

ladido e repatado como o primeiro danoador de batoqae. 

ido os primeiros pares se acham extenuados, vfto ooeupar 

spectiTos iogares no circnb formado e são sabsiitaidos por 

» pares que executam os mesmos passos. . . 

) batuque dos negros originários de Loanda, poróm, tinha 

ias differenças, e segundo a referida descripção, atten- 

) agora a este, consiste também em um oirculo formado 

dançadores, indo para o meio um preto ou preta, que, 

s de executar vários passos, vai dar uma embigada, a 

chamam samba, na pessoa que escolhe, a qual vai para o 

do eiroulo substituindo-o. 

"ratemos agora do màracatú, incontestavelmente de mais 
rtaocia pela sua feição typica dos usos e costumes afri- 
, si bem que as suas cxhibições originaes completa- 
e desapparocessem, e os que mantêm esse cunho tradi- 
1 somente appareçam peio Carnaval, apozar mesmo de 
ndo de anno em anno, e com pronunciadas tendendas a 
^uir-se. 

» tnaracattt é propriamente dito um cortejo régio, que 
% com toda a solennidade inherente á realeza, e revestido, 
nto, de galas e opulências. 

x>mpe o préstito um estandarte ladeado por archeiros, 
ido-se em alas dous cordões de mulheres lindamente ata- 
8, com os seus turbantes ornados de atas de cores varie- 
, espelhiohos e outros enfeites, figurando no meio desses 
BS vários personagens, entre os quaes os que conduzem 
iches religiosos, — um gallo de madeira, um jaearô empa- 
e uma boneca de vestes brancas com manto azul ; — e 
ipós, formados em linha, figuram os dignitários da corte, 
ido o préstito o rei e a rainha. 

stes dous personagens, ostentando as insígnias da realeza, 
coroas, sceptros e compridos mantos sustidos por cauda- 
, marcham sob uma grande umbella e guardados por 
Iros. 

o couco vém os instrumentos: tambores,buzinase outros 
00 africana, que acompanham os cantos de marcha e 
s diversas com um estrépito horrível. 



308 REVISTA DO IXSTITUTO HISTÓRICO 

O cãiolo de uiaroha eoioado por toda a eomitiva com o fira- 
gotoso aeompmliameato dos insirumeotos, ooosta do uma toada 
aoeoQimodada ao pa»o, com letra de ropetíçio coostaole* 
eomo le Té <ia seguioto, qoe ooasigoamos como typo da feiçio 
particalar d6G^sa« toadas: 

Amanda qui tenda, tenda, 
Amanda qui tenda, tenda 
Aruenda de totorori*. 

Si u '«fijrrtcWM, prestais a extingui r-se pelo !$eu arrelM- 
mento, am:i Tez que não existem mais africanos, e os $eoM 
descendentes procuram de preferencia Imitar a sociedade da 
gente branca, celebrando as sua^ festas intimas cem reoniões 
dançanti*s se^n<io o< moldes usados ; si o maracatii, portanto» 
jk rsreand», modestamente appareco sòmenie nas folias camar 
TalesL-as, época houTe. e bem próxima ainda, em que se exhibia 
em nomero aTullado, mais ou menos bem organizados, osten- 
tando mesmo alguns apparatosas galas e com um luxo tal, que 
o seu arranjo complexo reproseniava, relatiTamente, aTvltada 
qoantia. 

Dentro c>tes do<>tacava-6e o deuomiuado Cabinda Yêlha^ 
desfnldando um rico est indarie de voUudo liordado a ouro, 
como eram egualmcnte a umbella e as ve:!»(es dos reis e dos 
dignitários da&irte, o usando todos clle^ do luvas de pellioa 
branca o finíssimos coiçadcs. 

Os vestuários dos archeiros, porta-estandarie e demais 
fignras, eram de tinos tecidos e coo voo jen temente arraojadea, 
sobresahindo os das mulheres, trajando siias do aeda ou velludo 
de cores diversas, com as suas camisjis alvissiuias. «io custosos 
talhos de l.ibynniho. rondas ou bordadus, vistosos o tiuissimos ; 
e pendentes do pescoço, um numerosas toI tas, cumpridos fios de 
missangas, que do mesmo mo>i » oruavam-lhe^ ou pulsos. 

Toda a comitiTa marchava descalva, á oxcepção do rei, da 
rainha e dos di^rniiarios da crte, que usavam de calçados finos 
e de íkntania, de accordo com os seus vestuários. 

Para ase\liihiçõeâ do nuiracatu orarão iaTam-se assooiaçõee, 
CHjas sddes, pelo Carnaval, ornamentavam- se com 



rOLK-LOaK PERNAMBUCANO 209 

armavasd no sãlão um throao com docel para assento dos mo- 
D&rchas, o em lauta mesa* repleta do iguarias e bebidas, tinbam 
istento Dão sómonte os membros da sociedade, como também, e 
preferencialmente, os seus convidados, entre os quaes, não raro, 
figuravam mesmo pessoas do distincção . 

Quando o préstito sabia, â tarde, recebia as saudações de 
uma salva de bombas reaes, seguida do grande foguetaria, 
saadações essas que eram do novo prestadas no acto do seu re- 
colhimento, renovando-se o continuando as danças até o ama- 
nhecer; 6 assim, em ruidosas festas o no meio do todas as 
expansões de alegria deslisavam-so os três dias do Carnaval. 

Além dessas danças tinham os africanos mais uma outra, 
de lances lascivos, ao som do um canto monótono, com acom- 
panhamento de musica, da qual deixou-nos ToUenare esta 
descripção, em face de uma representação que presenciara no 
Recife, em 1817, no pateo do unia cgreja, cm dia do festa : 

< Os dançadores, cm numero do três, occupavam o contro 
de um circulo de 7 a 8 pés de diâmetro, cercados por duas 
dazias de curiosos ; dois dentre elles figuravam um homem 
9 uma mulher, ou antes um macho e uma fomea, que se re- 
questavam amorosamente, representando ora a concupiscência 
do macaco, ora a do ui*8o, ou de qualquer outro animal* O ma- 
cho acariciava gix)3seiramonte a fêmea com a sua pata ; esta 
so defendia um pouco, fugia, e acabava por so render ; 
então, os dous dançadores so lançavam um sobro o outro, 
c as explosões de riso attcí^tavam o prazer que os cspo- 
'ítadores experimentavam com esta pintura, um tanto crua 
doado da geração. 

« O outro dançador figurava um caçador ; o seu bastão ser- 
^ia-Uie ao mesmo tampo do espingarda e de azagaia, que 
apontava de ordinário para uma joven espectadora negra, a 
W parecia muito lisongeada com esta preferencia. 

< Mas a pantomima dos três dançadores teria pouco valor 
^m um movimento muito picante, que não cessava de acom- 
Panhal-a. Era um tremor muito vivo o muito extraordinário de 
^01 08 principaofl músculos do corpo, e um movimento muito 
indecente dos quadris e das coxas. Este tremor o este movi- 
oiento, productos de considerável força muscular, exigem 

n>3 - li Tomo lxx. p. ii. 



210 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

muiU arte <) muito oxorcicio. Os dançadores desafiam-se para 
ver quem os prolonga por mais tompo, e os applausos do 
publico são a rcootii pensa do que tem os músculos mais robustof 
e sobretudo mais moveis. » 

Si o africano tinha os seus cânticos e uma choreographia 
propriamente sua, de typos accentuadamjínte nacionaes com 
que se expandiam nas suas festas e aloírrias intimas, tinbam-oos 
também para os seus velórios e banquetes funerários, obede- 
cendo a uni rito especial, com um mixto de danças e cantorias, 
que comoçiivam desde a exposição do cadáver sobro uma cama 
cerc.ida de luzes, o entrando pela noite, pi^olongavam-se até a 
sabida do préstito, c acompanhandoo ainda, só terminavam 
quando o corpo baixava à sepultura. 

Si essas solennidades eram uniformemente ignaes, oa si 
h ;via um rito es|>ecial o mais solenne para os seus personagens 
de distincçâo, como os seus reis, príncipes e dignitários da 
corte, é o quo não podemos responder. Sabemos, porém, que 
dentre as diversas ir 1 bus ou nações de arrícanos que existiam 
enivQ nós, os moi;ambiques, principalmente, muito se distinguiam 
nessas manifestações funerárias pelo apparato oom que as 
celebravam. 

Nesses velórios em que amavam parte todos os compa* 
triotas do finado, liavia uma cert v lithurgia ; os cânticos sa- 
grados erain fra^^ o rosa meu to acompanhados por instrumentos de 
percus-ão, e para iodos os ciroumstantes que se revesavam na 
sua exetMiçio h.ivia tUrta m('>a e abundância de bebidas, flan- 
queadas à disoi içào. 

Como asolennidade cbristã da commemoração dos deftintos 
no dia de Finados, tinham os afiicano^ a sua Festa dos morlês^ 
que celebravam o.ii si tios afa-stados, d sombra das Oorestas* e 
com um ceremonial apparatoso, se^^undo o rito nacional, mes- 
cla io de uns certos laivos de hebraísmo, iniciada com ji^ans e 
rezas preparatórias, seguindo-^-o os sacrifícios de oordeirinhos 
brancos, e, depois das purificações, os banquetes e danças vo- 
luptuosas, com que t 'rminavam essa sua manifeetaçio de 
respeito á mtMuori i dos sous fin i i^s, cujis solennidades se pro- 
longavam {lor três dias, como particularmente descreve Ifello 
Moraes Filho, segundo o quo praticavam ainda, em 1888» ons 



FOLK-LORE PERNAMBUCANO 211 

restos de africanos domiciliados na emancipada comarca per- 
nambacana das Alagoas. 



Constituindo os africanos uma grande massa de popuia^o 
pela saa avultada e frequente importação desde tempos imme* 
moriaes, distinguiam-se comtudo dos seus descendentes os cha- 
mados crioulos^ nascidos entre nós, pelos tons característicos de 
nacionalidade ou tribus diversas a qae pertenciam, como os 
coogos, por exemplo, ^de face lanhada e nariz deformado por 
ama crista de tubérculos, que descia do alto da fronte ao sulco 
mediano no lábio superior. 

Traiçoeira ou enganadoramente arrancados do seu paiz 
natal pelo audaz negreiro, mettidos em um navio de capaci- 
dade inferior á carga que recebia, porquanto, como escreve Tol- 
leoare, vira entrar no porto do Recife um barco de 150 tonela- 
das com 340 escravos do Angola, e que ordinariamente as embar- 
cações de 200 a 250 toneladas traziam de 400 a 500, amontoados 
promiscuamente, no porio infecto do navio, homens, mulheres 
e crianças, os miseráveis captivos celebravam por meio de can- 
tos e palmas a sua entrada no porto, contando esperar em terra 
um tratamento meno^ rigoroso do que aquelle que nxp<3ri- 
mentavam na viagem em demanda da terra da sua 
perpetua escravidão. 

Acorrentados juntos, parca e miseravelmente alimentados, 
tendo como único vestuário uma tanga, e recebendo apenas ar 
e luz pela escotilha do porão, adoeciam, morriam, ou matavam- 
se mesmo na viagem, que regularmente levava do 12 a 15 dias, 
chegando essa carga humana, por taes motivos, quasi sempre 
bastante reduzida. Apezar disso, um negreiro que perdia 10 % 
do seu carregamento em viagem, tinha-se por muito feliz 
no seu negocio. 

Desembarcados do navio em chalupas, seguiam para um 
lazareto que havia ôm Santo Amaro das Salinas, onde recebiam 
tratamento medico, o terminada a quarentena vinham por ter- 
ra para sarem expostos á venda nas ruis do Kocirc, doante da 
c^ dos seus senhores, sendo á tardo recolhidos em grandes 



:ÍI2 UHVir>TA ir) IN>TrH !•» Hl^TOKIO» 

armazéns conveoieuiemoute fechados, não com receio de se evt- 
dircm, mas para não screiA f ur t • idos, o qn^i nessa ^'pocaert< 
muivo frequente. 

Alguns ne/ros escravos, compairiotas dos infelizes 
chegados, e já habitnados e resignados á sua triste oon 
iam visital-08, espontaneamente ou por insinuação dos pfofnsê 
senhores, alguns dos quaes enviavam mesmo a ter oom ettv 
um negro folgazão e jovial para os excitar a cantar e a dioçtfi 
não apresentando este lastimoso espectáculo, sinão raramâite. 
scenas de Jôr ou de desespero, o que fez duvidar a ToUeDaic 
que 08 presenciou em I^^IT, ^i esses desgraçados seriam ou om 
de facto insensiveis ou simulariam ! 

Os escravos importa los do Angola, de Loanda. de Moçao- 
bique o de outros lograres ondo existia:n governadores ou oulroi 
agentes do governo portu<?uez, eram alli bapti/.aJosem nusíi. 
antes do embarque ; c os provenientes de logares onde só bafia 
soberanos africauos não recebiam essa lusiração: eiumbaptísa- 
dos em Pernambuco, depois de s? lhes ler ensinado algmnai 
f )rmulas de rezas ou alguns L^estos do devoção, sem a menor 
instrucção do cjithecismo. 

Dos infelizes dess ks hordas selvagens, arrancados do SM 
paiz natal, e vulados a umi iK?rpetua escravidão, indefiniia" 
mente transinittiia a^s seu-» desc n lente?, existiam lypoi re- 
presentativos (lo variís tnliiis ou na Oe?. como >c dizia, figu- 
rando deãfartc os d • HeK.:u' 11 1. CabiuJa, Au^ob, <'i:^Aage, 
Cabundií, Rebolo, Aiuio, uabã'», Moçambique. Mina. Ccngoc 
outros rnaií, noianlo-sj mesmo, deutre os que cabiam nas ma- 
lhas da esoraviJão. in.lividiios ciue na <ua trrra e no meio da 
sua gente eram iK>sjas «le ili-iin«\ão e de eleva-la hierarchia; 
eé as-im quo Toilenaro í i encontrar ni .«^enzala do engeoln) 
Sibiró. em Ipojuca. umi rainha de CabinJi, impei iosa. recnsan- 
do-se a trabalhar, e -abendo-:;e fazer ob.;decer o temer, ootrs 
os escravos. Ther-zn i?/it .A//, com o chamavam a o>sa soberana 
preta, que cahiu dolhronj na -on/ala Je um senhor l>raziloiro, 
quando chOrfon ainda tmzia nos braços o nas pernas, como <Tm- 
boloda sua perdida re;ile/a, unsannelões de cobre dourado. 

Além dos escravos originários das mencionadas proce- 
dências, Ylnbam tambjm da Costi do Oui o ; nus o seu trafico 



foi:k-lore pernambucano :213 

{OU cm certa época, o não existia, já em 1817, porquanto o 
erno portuguez firmou um convénio pelo qual se compro- 
;tea a não permittir mais a exploração do escravos ao norto 
íquador. 

Segundo Toiionaro, os escravos da Co^ta do Ouro eram os mais 
itos e mais bem conformados ; os de Angola, os mais hábeis 
ais convenientes para o serviço nas cidades ; os Cabindas o 
gueilas eram dóceis e ozcellentes para o trabalho agrícola; 
(oçambiques, fracos e pouco intelligentes ; e os Gabões, fero- 
e maus. lojuriava-se a um negro chamando-o de Qabão. 
Â03 escravos africanos preferiam-se os creoulos^ isto é« os 
idos no paiz, apezar da superioridade de preço, pelas vanta- 
da sua constituição forte e sadia, conhecimento da lingua, 
«mo porque não tinham — recordações importunas » . . 
De toda essa diversidade de gente africana pela sua proce- 
la de tribus distinctas, somente a do Congo, escrava ou 
gosava do particular privilegio de eleger um rei, o sou 
ino rid Congo^ como o chamavam no seu idioma pátrio, 
soberano, porém, superintendia sobre a gente das demais 
\% africanas, residente no districto de sua jurisdicção. 
'oda essa gente, livro ou escrava, quer propriamente afri- 
quer os seus descendentes nascidos no paiz, que, reuni- 
ote,con3tituia o povo dessa monarchia, tinha a N. S. do 
*io por sua padroeira, cuja imagem, para mais nitidamente 
rtar-llio os sentimentos pátrios, algumas vezes se via 

pintada de preto, como refere Koster. 

Ill liomenagem a essa sua padroeira erigiam templos o 
irias, c aquclles dos seus Aliados eram acompanhados ã 
bura por sous irmãos confrades, encorporddos, envergando 
.s opas de seda branca e acompanhados dos seus respecti- 
.pellães. Para os que. porém, não pertenciam a essas cor- 
oes religiosas chamadas Irmandades de X, S. do Rosário 
mens prelos, havia no Recife um sacerdote a que se dava 
e do Clérigo do Banf/ue, — que acompanha à sepultura os 
defuntos, que não são irmãos do Rosário,— como refere 

1 Couto na sua obra escripta em 1756. 

oham também os africanos aS. Renedicto por sou pitro- 
vez pel:v p:irticularida<lo de ser santo de côr preta, e em 



2U REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

iea looTor celebravam festas religiosas em que se ezbibitm 
dirersões profanas de umi reminiscência intima dos costumei 
paGrios, sendo a rop.*esentjL«;ão dos Congos, principalmente, 
«nua dessas diversões. 

Os reis do Gongo eram investidos por eleição geral 
eotre os próprios afiricanos, podendo a escolha recabir em 
indiTiduos livres ou escravos. 

Esses reis tinham a sua c«:>rte, mais ou menos, organixada 
segundo os moldes da moaa