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Full text of "Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais"

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lEVISTA TRIMENSAt ^:;: 

DO ••;-• 

INSTITUTO HISTÓRICO 

GEOGRAPHICO, E ETHNOGRAPHICO DO BRASIL 
1* TRIMESTRE DE 1865 



DIÁRIO 

DA VIAGEM FEITA PELOS SERTÕES DE 

GUARAPUAVA AO RIO PARANAN 

Por Camillo Lellis da Silva, P. d'Armada imperial e nacional, em 28 do 
Maio de ld49. 

(Manuscripto ofTerecido ao Instituto peio auctor.) 

Nomeado por aviso da secretaria de estado dos negócios 
da marinhado 9 de Fevereiro do anno passado, para coad- 
juvar os trabalhos do major do imperial corpo de engenhei- 
ros Henrique de Beaurepaire Rohan, chefe da expe'dição 
encarregada da abertura da estrada entre Guarapuava e o 
rio Paranan, parti com minha farailia para S, Paulo no va- 
por Carioca a 23 de Julho; a 30 cheguei à capital, onde 
me apresentei ao Exm. Sr. presidente da provincia, tendo- 
me já na corte apresentado r.o chefe da expedição. A 18 de 
Agosto apresentei-me de novo ao major do mesmo corpo 
de engenheiros Luiz José Monteiro, que fora nomeado pelo 
governo imperial em substituição ao major de Beaurepaire 
para chefe da expedição ; a 27 de Fevereiro d'este anno 
partimos para a villa de Belém de Guarapuava, onde che- 



- 6 - 

• • • 

• « . • • 

gamos a.9.(l^ Abril, e d'esta Tilla partimos para o acampa* 
menU^^ Cbagú em 8 de Maio, e a 23 do mesmo fiz minha 
entr^*Âo sertão, como abaixo se segoe. 
•.piâ'23 de Maio.— Pelas 2 h. e 30' da tarde, com tempo 
.pubíado, ameaçando chova, parti do acampamento do 
.Chagú, situado em 25' 19' 28" lai. S. (por observações an- 
teriores a que procedi), com dezeseis sertanislas [irovidos 
de armas, pólvora e chumbo, cartuxame embalado, e dos 
viveres que cada um pôde conduzir, em demanda do rio 
Paranan, na direcção 0.,rumo verdadeiro (sendo a variação 
da agulha, que calculei no Chagú, 9** 30* NE.), seguindo 
sempre a picada do major Beaorepaire até o pouso d onde 
elle regressou ; e d'ahi para diante segui aquelle rumo, 
segundo as inslrucções que recebi no ChagCi do chefe da 
expedição. Pelas 4 horas, principiando a chover, mandei 
fazer pouso pelo lado de O. da serra de João Paulo, junto a 
um pequeno córrego, 1,400 braças distantes do acampa- 
mento. Esta serra foi assim denominada pelo major de 
Beaurepaire em memoria do general João Paulo dos Santos 
Barreto, o qual, sendo ministro da guerra, expediu as 
ordens pari a execução d'esta exploração. O terreno até a 
serra^ ê plano, e está bastante forte para animaes de 
carga. Do lado de O. da serra se estende um immenso fa- 
xinai abundante em palmeiras (cocos, Sp.) aqui vulgar- 
mente chamado jerivà, que bem nos serviu para a cons- 
truc( ao de barracas para abrigar- nos da chuva que pouco 
depois se fez sentir abundantemente. Dividi a gente em 
Ires quartos, mandei accender grandes fogos em torno das 
barracas, ordenei que o primeiro quarto entrasse de ronda, 
conservando duas sentinellas em vigilância loJa a noite. 
Dia 24.— Partimos do pouso de João l^aulo pelas 9 h. e 
30' da manhã, ainda com o tempo chuvoso, e ás 3 da tarde 
mandei fazer pouso junto ao ribeirão do Passa-Quatro, 



distante do outro 1,802 braçâs, denomiDândo a este— 
Pouso-Alegre— baptismo adaptado pela risonha perspe- 
ctiva que apresenta n'est6 lugar o solo e vegetação. O ter- 
reno até aqui é onduloso, composto de densos taquaraes e 
cresciumas (Gramineas^Sp.) que torna difiicil o trabalho dos 
picadores. O tempo tornou-se melhor, epromette boa noite. 

Dia 25.— Amanheceu bom tempo; deixei de seguir para 
diante por mandar caçar ; enviei seis camaradas com os 
cães, voltaram à noite sem matar cousa alguma ; os outros 
que ficaram no pouso tiraram algumas colméas de Gua- 
raipó e Mandassaia. 

Dia26.— Pelas 8 horas da manhã seguimos a direcção 
da picada, atravessando mais três vezes o ribeirão do Passa- 
Quatro, o qual, a 572 braças distante do Pouso-Alegre, 
forma para a esquerda da picada um salto de doze pés de 
altura, que denominei— Salto das Pedras Negras.— Passá- 
mos successivamenle pelo impraticável morro das Pedras, 
e o rio Uoché correndo veloz para o S., com oitenta palmos 
de largo no passo. Pelas 2 horas da tarde mandei fazer 
pouso junto a um pequeno córrego denominado do Vorá 
a 1,386 braças distante do ultimo. O terreno continua 
montanhoso e olTerece o obstáculo do Morro das Pedras e 
rio Uoché, que torna impossivel a estrada por esse lugar, 
e necessariamente tem de partir do acampamento do Chaga 
mais para o N., afim de evitar estes obstáculos. 

Dia 27.— Pelas 10 horas da manhã partimos do pouso do 
Yorà, passámos o banhado do Tigre, ribeirão Triste, e 
pelas 3 horas da tarde mandei fazer pouso junto á margem 
do rio GoyoMJUchon, correndo para o S., com 60 palmos de 
largo no passo, a 1,748 braças distante do Vorá. O terreno 
continua montanhoso, muito abundante em madeiras de 
construcção e pinheiros ( Araucária brasiliana). Em cami- 
nho os cães agarraram a dentes um veado pardo (Cervus 



— 8 — 

DemorWagas). Pelas 7 horas da noite principioa a (íuílar 
para o SE.,vindo depois uma forte trovoada de NO. e cbava» 
que bem dos iucommodou toda a noite. 

Dia 28.— Continua a chuva obrigando-nos a falhar. Pelas 3 
horas da tarde , melhorando o tempOydei licençaaquatro cama- 
radas para irem caçar. Anoite passou-se muito fria. Os cama* 
radas nãovoltaramao pouso,dando-me isto bastante cuidado. 

Dia 29.— Tive ainda de falhar por causa dos caçadores, 
que só chegaram pelas 5 horas da tarde com uma anta (Ta- 
pirus americanus) mui gorda, que mataram, a qual nos 
forneceu um sadio sustento, e de delicado sabor. Esta 
manhã aproveitei em visitar uma pequena ilha que forma 
o Goyo-cuchon de N. a S., com 48 braças de comprido 
sobre 5 de largo. A rica vegetação que a circula muito a - 
formosêa, c n*ella se encontra grande cópia de quartzos 
crystallisados e bellissimas agathas. A noite passou*se sem 
novidade, a atmosphera mui fria. 

Dia 30.— Falhei ainda hoje por causa dos cães atropel- 
larem uma anta, mesmo no pouso, e a levarem para longe» 
só voltando à noite. 

Dia 31.— Partimos pelas 9 horas da manhã, e ao pas- 
sar a grande subida formada pelo Goyo-cuchon fui acom- 
mettido de um ataque de estômago, acompanhado de forte 
cephalalgia, que me impossibilitou de ir mais longe; feliz- 
mente, depois de longo repouso, pude chegar até o rio 
Cambucica, em cuja margem, pelas 2 horas da tarde, man- 
dei construir barracas, e passei uma péssima noite. Do 
Goyo-cuchon a este pouso tem 936 braças; o terreno con- 
tinua sempre onduloso ; as subidas mui fortes e o mato 
bom. Passámos o ribeirão da Capivara correndo para o 
S., e o Cambucica para ESE., com 50 palmos de largo 
no passo; não obstante estar mui baixo, pareceu-me bem 
caudaloso e negar o passo na estação pluvial. 



— 9 — 

Dia l*" de Junho.— Pela manhã partimos doCambucica, 
e pelas 3 h. e 15' da tarde mandei fazer pouso na Agua 
Funda, 1,020 braças distante do outro que deixámos. O 
terreno continua sempre onduloso, e estas ondulações 
excessivamente fortes; grandes pinheiraes se estendem 
para o N. Passámos um banhado distante doCambucicá 
300 braças, junto a um pequeno córrego correndo para o 
S., cujas aguas, pelo gráo de calor que conservavam, as 
supponho thermaes, supposição esta corroborada pela opi- 
nião do major de Beaurepaire, que denominou esse lugar— 
Banhado Quente. 

Dia 2.— Foi necessário falhar aqui por causa de dois ca- 
maradas, acommettidos d :^sde hontem á tarde, um de oph- 
talmia, outro de forte cephalalgia, com calafrios etc: appli- 
quei-lhes algumas doses debomoeopathia; felizmente obtive 
bom resultado. Esta manhã, enviando alguns camaradas á 
caça, voltaram à tarde com uma anta e quatro jacutingas 
(Penélope leucolophus, Menr.) que mataram. 

Dia 3.— Os dois camaradas que estavam doentes achan- 
do-se com melhoras, partimos esta manhã pelas 8 h- 
e30',eao anoitecer mandei fazer pouso junto a um pe- 
queno córrego, 2,012 braças distante da Agua Funda, que 
denominei— Pouso do Luar.— O terreno continua onduloso 
e suas ondulações fortissimas; passámos o Espigão Secco» 
cerrado de taquaral e cresciuma. No alto do Espigão depa- 
rámos com um bando de macacos, que pareceu-me ser o 
Cebus cristatus de F. Cuvier; conseguimos matar três 
d'elles. 

Dia 4.— Partimos pelas 7 horas da manhã do pouso do 
Luar, depois de duas horas e meia de marcha viemos poo- 
sar na Anta Magra, 724 braças distante do outro. Enviei 
cinco camaradas com os cães a caçarem pelas 3 horas da 
tarde, regressaram com uma anta. Como já havia manifes- 

TOMO XXVIII, p. I. 2 



— 10 — 

tado o desejo que tinha de ver anta viva, os caçadores me 
proporcionaram hoje este prazer : perto do pouso os cães a 
encontraram, e foram acuar a poucas braças distantes n'um 
poço que forma o ribeirão, e, emquanto um d'elles me veiu 
avisar, os outros íicaram-a entretendo dentro d*agua até 
minha chegada; via-a bem a gosto e dei-lhe o meu tiro. 
Este quadrúpede, pertencente à ordem dos pachidermes, 
ô dotado de prodigiosa força e muito abunda n'estes de- 
sertos. 

Dia 5.— Pela manhã, 8 h. e 33', partimos da Anta 
Magra e viemos pousar no Taquaral, 1,148 braças distante 
do outro, pelas 5 horas da tarde. O terreno sempre da mes- 
ma forma, com fortes ondulações e cerrado de t^uaral. 

Dia 6.— Partimos do Taquaral pelas 8 horas da manhã, 
e às 2 da tarde viemos pousar no Regresso (lugar d'onde 
Yoltou o major de Beaurepaire com a primeira expedição), 
distante do ultimo pouso 736 braças. Passámos a serra do 
Silva Machado (nome imposto pelo major de Beaurepaire 
em memoria do barão de A.ntonin:i), que 6 bastante forloe 
se prolonga de NO para S. E. No alto da serra mandei 
descortinar o mato, e pude ver bem a bella paisagem que 
se ofTerece em todo o quadrante do N., e perfeitamente di- 
visei os grandes quebradôes e nevoeiros que forma o rio 
Iguassú, que estimei em dezoito milhas distante de nossa 
picada. Encontra-se grande abundância de pássaros em 
toda a extensão da serra, como macucos, jacus e outras 
espécies de gallinaceòs. 

Dia 7.— Pelas 7 h. e 45* da manhã deixámos o pouso 
do Regresso, e viemos pousar pelas 4 horas da tarde a 
1,340 braças distante doeste, junto a um pequeno córrego 
que denominei —Quina— por causa d*uma grande arvore 
d'6sta espécie que ahi achámos. Passámos pelos morros 
do Regresso, Lageado Comprido, e Quina, cada qual mais 



- II — 



forte dtí Síiibidas. O mato, composto era grande parte de 
cresciumaU e, além d^isso, mui cerrado de silvados d' amo- 
reira (llubas Vel.). Hoje fiodou-se-nos a farinha e sal que 
traziames do fJiagú ; cousa esla bem pouco agradayeU por 
termos de findar nossas explorações (quem sabe até 
quando âe prolongarão ?) sem esses artigos de eitreraa 
necessidade, onde não pudemos esperar nada que os subs- 
titua. 

Dia 8.— Esta manhã pelas 8 h. eiO' deixámos o pouso 
da Quina, c k tarde pousámos junto ao rio das 3Iarrecas, 732 
braças dislaale deste ultimo. O terreno que continua ainda 
ondnloso,cerrado de cresciuma e silvados, torna morosíssi- 
mo o trabalho da picad:i ; atravessámos o rio das Marrecast 
com iO palmos de largo, correndo para SO. Os caçadores» 
mui próximo ao passo do rio, encontraram rasto fresco de 
um tí^íre (nome que vulgarmente se dá por aqui a todas as 
grandes espécies do género Félix) , segui ram-o com os cães; 
infelizmente no meio da acuaçãa o Tigre conseguiu malar* 
nos um dos melhores cães e fugir. Tivemos de passar boje 
simplesmente a palmito assado. 

Dia í). — Cjmo os camaradas infermaram-meque linbam 
encontrado no rio bons poços para acuador das Antas, e 
rasto fresco delias» e que por causa do tigre e qne Qão pu- 
deram caçar estas, deteríuinei falhar e envial-os á caça, 
mandando lambem alguns em catad*abelheiras e palmitos : 
com elíeito pouco depois das 5 horas da tarde regressaram 
os primeiros Cíjm duas antas mui gordas que mataram, e 
os líutros a^m mtd de diversas coimèas que acharam, e pai- 
milostmanjares estes que devorámos com deUciâ, 

Dia ilK— Esta manhã cc m tempo ameaçando dhuva par- 
timos pelas 8 h. e W\ e à tarde viemos pousar a 1J84 bra- 
ças distante d'este uUimo,n*um lugar que denominei — Volta 
Gramlií— t*mi':oníM'quem'ia do rio daí^ Marr*icas qiie,eorlanilo 



— 12 — 

a nossa picada doas vezes, descreve uma grande curva en- 
tre o primeiro e segundo passo, onde nos achámos, cor- 
rendo esle para N N O. O terreno continua sempre ondu- 
loso, mato limpo e abundante em madeiras de differentes 
espécies. Em caminho os cães agarraram um veado da fa- 
mília dos cervus nemorivagus. 

Dia 11. —Esta manhã partimos pelas 8 horas, e às 4 
da tarde mandei fazer pouso junto ao rio dos Tigres, 1,720 
braças distante da Volta Grande. Passámos ainda uma ter- 
ceira vez o rio das Marrecas com 55 palmos de largo, cor- 
rendo para o S O., passámos mais o morro dos Tigres, e rio 
do mesmo nome com 88 palmos de largo no passo que, cor- 
rendo para E com rapidez, forma bacias consideráveis. 

Dia 12. — Em consequência do mato ser mui cerrado 
d'espinhos e cresciumas não pudemos ganhar mais que a 
outra volta do rio dos Tigres, 560 braças distante do pri- 
meiro passo, que denominei— Má Ventura — pela fome que 
soffrômos nos dois dias que tivemos de ahi demorar-nos I 
N'este segundo passo o rio conserva a mesma largura do pri- 
meiro e corre paraN N O. O terreno continuada mesma for- 
ma onduloso, e a mesma vegetação. Apenas tivemos três 
jacutingas, e alguns pahnitos,que tudo, depois de assado, fiz 
repartir igualmente por todos, rações estas, que por insuf- 
ficientes para estômagos famintos, não deu-nos noite muito 
agradável. 

Dia 13. — Ainda quiz me demorar hoje aqui para man- 
dar caçar, pelo estado de fome em que nos achámos. Dis- 
persei os camaradas, ficando apenas no pouso com três para 
guarda do mesmo ; ao anoitecer voltaram todos, e infeliz- 
mente nada conseguiram trazer, dando-nos a fome péssima 
noite de soffrimentos. 

Dia 14.— Partimos logo cedo do tal pouso desventurado, 
e pelas 2 horas da tarde mandei pousar junto á terceira 



- 13 - 

volta do rio dos Tigres a 980 braças, distante da segunda, 
lugar este que denominei— Pouso dos Cedros — pelas arvo- 
res d' esta espécie (Cedrela,Sp.)que encontrei na margem do 
rio. Em caminho matou- se dois veados pardos, que, com 
uma profusão de palmitos que encontrámos na margem 
do rio, indemnisou-nos do aturado jejum a que estávamos 
reduzidos. 

Dia 15 — Partimos do pouso dos Cedros pelas 8h. e 
10' da manhã, e às 3 da tarde viemos pousar junto ao ri- 
beirão que denominei — Pàos amargos—, em consequência 
das muitas arvores pertencentes á espécie Guaiacum 
vulgarmente (pào santo) que encontrei n'este lugar, a 968 
braças -distante do ultimo que deixámos. A 50 bra- 
ças distante do pouso dos Cedros atravessámos o ribeirão 
dos Pâos Amargos na sua confluência com o rio dos Tigres, 
formando uma barra de 6') palmos de largo, e correndo 
para o S. Os caçadores que, mal fizemos pouso, seguiram 
com os'cães para caçar, não voltaram, dando-me bem cui- 
dado ; por fortuna tivemos dois jacus e alguns palmitos, 
o que^foi a cêa de todos- 

Dia 16.— Por causa dos caçadores, que desde hontem 
não voltaram, não pudemos seguir esta manhã para diante. 
Só às 5 horas da tarde chegaram os caçadores ; nada mata- 
ram ; apenas trouxeram um pouco de mel e palmito, que 
foi o alimento que tomámos em todo o dia. A's 11 horas da 
noite principiou a fuzilar no quadrante de SC, sobrevindo 
pouco depois uma forte trovoada e chuva, que nos incom- 
modou até agora. 

Dia 17.— Por causa do máo tempo, que desdç hontem á 
noite não tem ci'Ssado, deixámos de seguir para diante. 

Dia 1:^.-0 tempo, que hontem todo o dia se conservou 
chuvoso, amanheceu hoje bom ; e pelo estado de fome em 
que {nos achámos ainda {mandei tentar uma caçada ; infe- 



- 14 — 

lizmeDte, depois das 5 horas da tarde chegaram os caçado- 
res sem terem morto cousa alguma . 

Dia 19.— Amanheceu outra vez máo tempo, chuva; as- 
sim mesmo seguimos para diante, e pelas 3 horas da tarde 
fizemos pouso junto à Ribeirinha, 1,400 braças distante dos 
Páos Amargos ; passámos o morro, que denominei dos Páos 
Amargos, que é bastante extenso e forte, de subida pelo 
lado de E., e quasi impraticável pelo de O. A Ribeirinha 
corre na direcção de S., e no passo tem 45 palmos de largo. 
O terreno continua da mesma forma ondaloso, e na direc- 
ção da picada divisa-se bastante madeira de construcçao de 
differentes espécies. 

Dia 20.— Continua o mào tempo ; não foi possível seguir- 
mos hoje para diante, dispersei a gente toda para caçar e 
melar, voltando os caçadores pelas 4 horas da tarde com 
uma anta mui gorda que mataram, e algum mel de diffe- 
rentes colméas, dando-nos estas provisões ben contenta- 
mento. Pelas 11 horas da noite sobreveiu grande trovoada 
no quadrante de SO., e chuva que aturou até pela manhã. 

Dia il .— O máo tempo nos não deixou hoje ainda seguir 
para diante. 

Dia 22.— Partimos da Ribeirinha pelas 8 horas da ma- 
nhã, com tempo ainda ameaçando chuva, e às 2 da tarde 
mandei fazer pouso junto a um pequeno córrego, 960 bra- 
ças distante do ultimo que deixámos, o qual denominei 
córrego e pouso do Putingal, em consequência da vegeta- 
ção, que não consta de outra cousa n*este lagar que a tal 
putinga (Graminea,Sp.). O terreno continua da mesma for- 
ma que tenho notado, e aqui especialmente forma diversos 
quebradões, quasi impraticáveis, que necessariamente tem 
de se desviar da direcção da estrada que se projecta. A 
chuva e trovoada não tém cessado. 

Dia 23.— Ainda com tempo chuvoso partimos pelas 



— 15 — 

8 horas da manhã, e á tard6 mandei f^izer pouso junto a 
um paqueno córrego, que denominei S. João, 1,448 braças 
distante do Pulingal. Passámos ainda vários quebradões e 
pela extremidade de uma importante serra, que denominei 
Serra do Ponte Ribeiro, em memoria do reconhecido inte- 
. resse que tem tomado por esta expedição o conselheiro 
Duarte da Ponte Ribeiro. De NO. a SE. , que consideravel- 
mente se estende esta serra com importantes ramificações 
(como os grandes morros dos Pàos Amargos e Congonhas), é 
cortado a E. pelo rio dos Tigres, e a O. pelo das Congo- 
nhas, e por este lalo que passámos notei grande quanti- 
dade de madeiras, como extraordinárias perovas (Âspidos^ 
permus,Sp.), cedros (Cedrela, Sp.), ele, e varias arvores de 
paina (Bombas venlricosa). 

Dia 24. -Pela manhã partimos ás 8 horas, e ás 2 da tarde 
mandei fazer pouso junto ao ribeirão da Geada (assim deno- 
minado peio commandante da bandeira, que por ordem do 
major de Beaurepaire fez esta exploração, em consequên- 
cia de uma farte geada;que sofíreram n'este lugar), distante 
do ultimo pouso que deixámos 978 braças. Continua nossa 
picada pelas ramificações da serra do Ponte Ribeiro ; ainda 
notei aqui alguns raros pinheiros (Araucária brasiliana) e 
em alguns lugares o maio é cerrado de cresciuma e silva- 
dos de amoras. 

Dia 23.— Tive de falhar hoje para mandar caçar. En- 
viando esta manhã seis camaradas com os cães para esse 
fim, não voltaram ao pouso, e pelas 7 horas da noite man- 
dei dar três tiros,afim de ver se respondiam, para conhecer 
a distancia em que se achavam de nós ; foi inlructifero, não 
responderam I Deixou-me islo bem cuidadoso. 

Dia 26.— Muito cedo enviei três camaradas em procura 
dos seis que se achavam á caça por me ter afQicto muito com 
a ausência d'elles. São 10 horas da manhS,acabam de chegar 



— 18 — 

nomicas, como convinha, por causa da densa floresta que à 
cobre, a qual era necessário descortinar,, e o estado physi- 
CO dos camaradas não dar para empenhar-me n*este traba- 
lho, que só na factura do picadâo poderá ter lugar. 

Dia 4.— Partimos pelas 8 horas da manhã do pouso dos 
Palmitos MoUes, e às G da tarde mandei fazer pouso junto 
ao córrego dos Patinhos, a 4,072 braças distante do de 
onde partimos. O terreno percorrido não é praticável para 
estrada, principalmente em toda a extensão da serra de 
Mont' Alegre, que é cheia de grutas e precipicios : necessa- 
riamente se deve desviar ella para o N. em diiTerentes 
pontos. 

Dia 5. —Quando pela manhã nos dispuzemos a partir, 
principiou a chuva mui forte, obrigando-nos a falhar e 
mandar construir barracas. Um dos camaradas junto ao 
córrego matou um bonito macuco (Tinamus brasiliensis» 
Lath). 

Dia G.— Pelas 5 horas da tarde viemos pousar junto ao 
rio das Palmeiras, 2,616 braças distante dos Patinhos. O 
terreno n'esta extensão percorrida não offerece obstáculo 
algum para a construcção de uma boa estrada. Passámos o 
rio Goyo-Capró (assim denominado no dialecto caegang, 
pela cor negra de suas aguas), correndo para E., com 180 
palmos de largo, cortando pelo lado de O. a serra do Mon- 
fÀlegre, dando-lhe de extensão (E. a O.) doeste ao rio Bo- 
nito á 3/4 léguas e oS braças ; igualmente passámos o rio 
das Palmeiras, cuja corrente para SE. é veloz, com 160 
palmos de largo no passo, formando a 20 léguas para baixo 
d'este um salto de considerável altura. 

Dia 7.— Falhei para mandar caçar hoje aqui pelos ves- 
tígios frescos de anta que se encontraram, enviando seis 
camaradas esta manhã com os cães, os quaes até agora (7 
da noite) não voltaram. 



— ly — 

Dia -8.— Esta manhã (9 horas) chegaram os caçadores 
' que pernoitaram fora do pouso, trouxeram 1 anta e 3 
porcos do mato (Dicotyles Torquatus F. Cuv.), 2 socos 
rajados (ardea tigrína) e 1 jacutinga. O pratico, que tam- 
bém tinha ido caçar com os demais camaradas informou- 
nos que este rio depois d*algumas voltas, e formar duas 
cachoeiras d^allura regular vai fazer barra ao S. E. com o 
Goyô Caprõ, e n'eUe se encontra abundância de lontras 
(Lutra brasiliensis). 

Dia 9.— Á*s 5 horas da tarde mandei fazer pouso junto a 
um pequeno córrego, que denominei das —Abelheiras — 
pela enorme quantidade de coiméas que encontrámos em 
roda do pouso. Fica este distante do rio das Palmeiras 
2,9*24 braças ; passámos ainda a segunda e terceira volta, 
d'este rio, correndo aquella para E. N. E. com 120 palmos 
de largo no passo, e esta com 180. No pouco espaço que 
nos demorámos n'este pouso tiraram-se 11 colmêas de 
mandagoahy, deixando ainda porção de mel nos favos por 
não termos em que conduzir. 

Dia 10.— Pelas 3 h. e35' da tarde pousámos junto aos 
— Dois Ribeirões — 2,644 braças distante das Abelheiras. 
O terreno percorrido do ultimo pouso até aqui continua 
bom, o mato fornido em variada cópia de madeiras de 
construcçao ; passámos o ribeirão do Guaraipo, correndo 
para S. E«, e a 50 passos d*este se acha outro ribeirão, que o 
denominei das— Pedrinhas— correndo para E. vindo desa- 
guar no Guaraipo. Matou^e 1 veado pardo, 2 jacutingas, 
e tiraram-se varias colmêas. 

Dia 1!. — Pelas 3 horas da tarde mandei fazer pouso 
junto aos Três Córregos 2,828 braças distante dos Dois Ri- 
beirões. O terreno continua bom, Qçmposto de grandes 
palmitaes molles, e madeiras de construcçao. 

Dia 12. — Pelo meio-dia mandei fazer pouso junto ao ri- 



- 20 -- 

beirão dos Pãos Papados, 608 braças distante dos Três Cór- 
regos, para caçar, pelos vestígios frescos d'aata que encon- 
trámos. A infinidade de pecegueiros bravos que encontrá- 
mos nas margens d*este ribeirão, e todos com grandes 
protuberâncias pelo tronco, fez com que os denominasse— 
Pàos Papudos— . 

Dia 13. — Falhámos hoje por causa de dois camaradas 
que adoeceram. Matouse 6 tucanos arassarys (Pheroglos- 
sus). 

Dia 14.— Os dois camaradas continuam ainda comos 
mesmos incommodos, não obstante algumas doses de ho- 
moeopathia que appliquei-lhes. Toda a noite trovejou no 
quadrante de N. O, cora chuva forte. 

Dia 15.— Os camaradas hoje se acham com melhoras, 
porém deixamos de seguir pelo mào tempo que ainda con- 
tinua. 

Dia 16.— Partimos assim mesmo com mau tempo, e pe- 
las 3 horas da tarde viemos pousar na Ántinha, distante 
495 braças dos Pàos Papudos. Em caminho os cães perse- 
guiraní uma anta pequena, que os camaradas a vieram ma- 
tar junto ao pouso, dando-lhe assim nome. A' noite cessou 
de chover. 

Dia 17.— Pelas 8 horas da manhã partimos d*Antinha, e 
às 3 h. 30' da tarde mandei fazer pouso juntoao rio da Man- 
dassaia 1,242 braças distante do ultimo que deixámos. Foi 
denominado este rio — Mandassaia — em consequência de 
uma colmèa mui grande que se tirou junto á sua margem, 
assim vulgarmente chaihada ; no passo elle tem 140 palmos 
de largo, correndo com alguma velocidade para S. 0. Esta 
manhã, ao deixar-mos o pouso da Antínha, a pouco mais 
de um quarto de légua, um dos camaradas feriu-se grave- 
mente entre ambas as vias de uma queda que levou sobre 
um estrepe ; appliquei-lhe alguns glóbulos d'arnica, e a 



— 21 - 

tintura da mesma sobre a ferida, facilitou muito a hemor- 
ragia e diminuiu as dores. 

Dia 18.— Pelo mào estado em que se acha ainda o ferido 
não pudemos seguir para diante. Logo pela manhã man- 
dei os camaradas caçar, voltando ha pouco (5 horas da 
tarde) com 1 anta, 4 jacutingas, e 1 nambu (Tinamus). 
Geou muito esta noite, com excessivo frio. 

Dia 19 —Ainda o ferido nos priva de seguirmos para di- 
ante. Tenho mandado estes dois dias o pratico continuar 
a picada no rumo d*agulha. Esta tarde a pouca distancia do 
pouso os camaradas mataram 2 porcos, (Dicotyles Torqua- 
tus, F. Cuv.) e 4 jacutingas. 

Dia 20.— O camarada ferido se acha com alguma me- 
lhora ; creio n'estes dois dias poderemos seguir nossa der- 
rota. Matou-se dentro do rio 1 lontra (Lutra brasilien- 
sis] e 2 jacutingas. 

Dia 21.— A cura do camarada ferido vai em progresso ; 
julgo que amanhã poderemos seguir para diante. O tempo 
tem se conservado bom ; continua a gear muito de noite, 
com excessivo frio. 

Dia 22. — Pelas 5 h. 25' da tarde mandei fazer pouso 
junto ao rio doNhapindà, distante do da Mandassaia 3,951 
braças. O terreno entre estes dois pontos percorrido é 
chato em sua máxima extensão, o mato compõe<se do que 
vulgarmente chamam capoeira ; não parece sertão, é raro 
ver-se madeira grossa, e a margem do rio é toda bordada 
do tal espinho nhapindã, que me fez assim baptisal-o. 

Dia 23.— Esta tarde pelas 3 h. 25', viemos pousar junto 
à segunda volta do rio das Antas 2,640 braças distante do 
outro. O terreno continua chato com grandes palmitaes 
molles, e mato carrascal cerrado d'espinho nhapindà. Pas- 
sámos mais duas vezes o rio Nhapindà ; na primeira corre 
elle para N. N. O. com 60 palmos de largo, b na segunda 



— 22 ^ 

pára S. O. com 80. O rio das Antas também palmos duas 
vezes ; na primeira corre para S. S. 0. com 84 palmos de 
largo, e n'esta onde nos achamos de pouso, corre para N. O. 
com60 

Dia 24.— Pelas 2 horas da tarde viemos pousar jnnto 
ao rio das Piabas, a 906 braças distante do das Antas, cor- 
rendo para S. S. E. com HO palmos de largo. Passámos 
aindaa terceira volta do rio das Antas correndo esta para S. 
S. 0. com 100 palmos de largo, onde o atravessámos, e o 
morro das Piabas bastante ingrime, extenso e com grande 
palmital molle no chapadão. Ahi encontrei vários jaracatí às 
(Caricas spinosa], entre elles um de collossal tamanho. Ti* 
rou-se mel de colmèas de differehtes qualidades. 

Dia 25.— Determinei falhar aqui para se caçar, visto o 
apuro de fome em que temos estado, enviando logo cedo 
os caçadores com os cães para esse fim ; felizmente á tarde 
regressaram com 1 anta que mataram, e algum mel de 
differentes qualidades de colmèas que tiraram. O tempo, 
das 10 horas da noite por diante tornou-se chuvoso, fuzi- 
lando muito. 

Dia 20.— Esta manhã estando o tempo ainda chuvoso, 
nos não deixou seguir para diante. 

Dia 27.— Continua o tempo ainda chuvoso, não se pôde 
proseguirno trabalho da picada. 

Dia 28. —Pelas 5 horas da tarde mandei fazer pouso junto 
ao rio Vermelho, :^018 braças distante do rio das Piabas. 
O terreno, do rio das Piabas até aqui, é chato e raro de ma- 
deiras grossas ; se vè grandes palmitaes cercados de cha- 
chim (Pterispalmata, W ?). O rio Vermelho faz seu curso 
para S. E. e no passo mediu-se 45 palmos de largo, e é o 
ultimo confluente do Iguassú, que se encont'a n'esta direc- 
ção. 

Dia 20.— Pelas 5 horas da tarde mandei fazer pouso 



— L>3 — 

junto ao rio das Guabirobas (assim denominado pela abun- 
dância de arvores d*esta qualidade (Eugenia, Sp.) que en- 
contrámos não só nas cabeceiras como ao longo do rio], 
4,150 braças distante do rio Vermelho. O terreno conti- 
nua bom, quasi lodo chato. Passámos a serra do Pimenta 
Bueno, que o major de Bi^aurepaire, quando do pouso do 
Regresso mandou uma escolta em demanda do Paranan, 
ordenou ao commandante d*ella que desse à ultima serra 
que encontrasse n'esso trajecto o nome do conselheiro José 
António Pimenta Bueiii), por ser este o ministro, que teve a 
.primeira idéa de se abrir este vehiculo entre o Brasil o o 
Estado de Paraguay. Esta serra é importante, não só por 
dividir as aguas do Iguasi^ú das do Paranan, como pela 
sensível dilTerença do clima, pois que da serra ató o Para- 
nan encontrámos a mesma vegetação das províncias do 
norte. 

Dia 3í).— Pelas 5 h. -2)' da tarde mandei fazer pouso 
junto ao ribeirão da Saracura (nome que impuz por uma 
aved*esta espécie (Rallus Saracura, Spix), que se matou 
junto ao ribeirão), ii,106 braças distante do rio das Guabi- 
robas. Passámos os ribeirões do Ipé e Saracura, correndo 
aquelle para o N. com 3 ) palmos de largo, e este para O. 
N. O. com 25. O terreno conliuúa chato, e a vegetação 
da ultima serra para cá é toda diíTerente da que lemos dei- 
xado para traz ; encontrámos varias plantas indigenas dos 
trópicos, o que faz acreditar que dará mui bem todos os 
productos agrícolas das nossas províncias do norte. Desde 
o rio Vermelho para cá o terreno é arenoso. 

Dia 31.— Esta tarde pelas 6 b. 35* mandei fazer pouso 
junto ao ribeirão da Jararaca, 3,o8ô braças distante da Sa- 
racura. Passámos pelo rio do Mandury (nome imposto por 
uma colmôa, assim vulgarmente denominada que ahi se 
tirou), correndo para N. com i5 palmos de largo, o córrego 



— 24 - 

do Ferroe rio do Taquary, correndo ambos para N. O., este 
com6i palmos no passo. O solo e vegetação nâo apresen- 
tam differença do que jà lénbo notado. Junto ao rio do Ta- 
quary encontrámos um grande taquaral que se estende 
consideravelmente de N. a S., e as taquaras além de extra- 
ordinária altura, apresentam prodigiosa grossura. Uma que 
fiz cortar deu a medida de seu diâmetro exactamente 14 
pollegadas I 

Dia 1* de Agosto.— Pelas 4 horas da tarde mandei fazer 
pouso junto a um pequeno córrego, que denominei das 
Araras (Ara) pela grande quantidade doestas aves que en- 
contrámos n'este lugar, a 3,05t) braças distante do ultimo 
pouso que deixámos. Passámos o morro da Jararaca, ri- 
beirão do Cotovello correndo para O. N. O., e o rio das Ja- 
tevocas correndo para N. O. com 60 palmos no passo. O ter- 
reno continua chato, porém paludoso para o S. ; atraves- 
samos vários paúes, que em diíTerentes sentidos cortam a 
picada, divisando-se no meio d'estes, manchas de taqua- 
raes de espécie vulgarmente chamada Jatevoca. Julgo 
(pelo que informou-me o pratico), que com pequeno desvio 
para o N. póde-se na factura do picadão evitar todos esses 
paúes. 

Dia 2.— As 5 horas da tarde mandei fazer pouso junto 
ao terceiro passo do rio das Guabirobas, a 3,476 braças 
distante do das Araras ; pouso que denominei— Poço Com- 
prido — pela configuração do rio n'este lugar. Passámos 
o ribeirão das Pitangas, assim denominado pela grande 
quantidade d'arvores d'esta espécie (Plima rubra, Vell.) que 
existe em suas margens. Este ribeirão serpeando na di- 
recção da picada a corta doze vezes. Aqui corre o rio das 
Guabirobas para S. E., e tem de largo no passo 165 pal- 
mos. O terreno continua chato e raro em madeira grossa. 
Das 6 horas da tarde em diante fomos acommettidos por 



- 3S — 



ama forte trovoada do N. o. e chuva que aturou ioda a 
noit^. 

IJia :t."PeIas 6 horas da larde, debaixo de forte agua- 
ceiro e trovoada de N. 0., mandei fazer pouso junlo ao rio 

das Guabirobas, distante do ultimo que deixámos o,94i 
braças, denominaiido-o— Laranjal.— O terreno coolinúada 
mesma fòroia que lenho notado, linconlrámos outra vez o 
rio das Guabírobas com o dobro da largura que tem oo 
terceiro passo, seguindo o ramo de 0. A chuva e trovoada 
coalinuou toda a noite sem cessar* Esta manhã achei í^ 
chronometro parado com qnasi toda a corda, nâo po* 
deodo altribuir a outra causa (visto o cuidado com 
que o trazemos) senãci às muitas quedas que diariamente 
apanhamos. 

Dia 4.— Por causa do mâo tempo, não pude seguir para 
diatile- Pelo meio-dia abonançou um pouco o tempo, apro- 
veitei em eíiplorar uma bonita ilha, que forma o rio das 
Guahirobas, era frente ao nosso pouso, li Ha corre N* S, com 
mais dê 130 braças de compridij sobre 20 de largo, toda 
coberta por um frondoso laranjal [Cilrusamericanus], como 
lhe chama em scui Diário o major do Boaurepaire, pelo que 
observou tanto no Para}íaay, como u*estes sertões, o que o 
convenceu que a laranja amarga e fnictaindigena da Ame- 
rica. í>a ilha ouvimos um sussurro que parece u-noB ser 
d'atguma catadupa. N^esse sentiilo fomos continuando pela 
^margem «li» rio, e a Sp braças de distancia d^oiide nos acha- 
vamos chegámos ondeelle forma um salto de mais de CO 
\m de altura, i^. d'alli corre alcantilado por um bello valle 
em demanda do Paraoan, de quem é Iribulario. Estes três 
dias t^mos soffrido muita fome, e o tempo chuvoso nos não 
tem deixado caçar, 

Dia 5, — Tornou outra vez a chuva ainda mais forte, im- 
possibilitando-nos de seguir para d iau te. Ksta manhã nm 
TOMOxxvsu, r. I, 4 



— ae- 
dos camaradas malou na margem do rio uma cegonha 
(Ciconia maguari, Yiel ?), que foi nosso almoço. Depois de 
meio-dia os cães seguiram o rasto fresco de uma anta ; 
pouco depois ouvimos acorrida que vinha para o rio. As- 
sim mesmo com a chuva os camaradas a foram esperar, e 
tiveram a fortuna d'atirarem às duas antas, ficando uma 
morta dentro d'agua, e a outra escapou-se ferida, deixando 
muito sangue no trilho que seguiu. 

Dia 6.— Pelas 2 horas da tarde chegámos à margem es- 
qaerda do Paranan, 2,148 braças distante do pouso do La- 
ranjal, e do acampamento Chagú 29 léguas e meia, 58 
braças. Passámos uma capoeira de roça que pareceu-me 
abandonada ha pouco tempo pelos selvagens, á qual deno- 
minei — Capoeira dos Bugres—. O rio das Guabirobas corre 
muito alcantilado, é faz sua confluência no Paranan a 
O. N. O. A largura do Paranan calculei em 200 braças e a 
velocidade da corrente em sete milhas por hora ; sua mar- 
gem de um e outro lado forma praias mui bellas de finís- 
sima arêa, e a vegetação é como a que tenho notado da 
serra de Pimenta Bueno para cá. Logo que chegámos á 
margem do rio, os camaradas trataram de preparar as 
linhas, e até á noite pescou-se 4 dourados grandes, 1 ma- 
trinchá, 7 mandys, e 49 bagres de soífrivel tamanho, 
queiíesmo sem sal comemos e achámos de excellen te 
sabor. 

Dia 7.— Empreguei-me hoje nas observações astrono- . 
micas ; tomei a altura meridiana do sol, que deu a latitude 
sul do lugar 25*134' 37". Esta manha ordenei ao pratico de 
descer ao rio com mais três camaradas, e explorar quanto 
pudesse (com tempo de voltar ao pouso), afim de observar 
as dilTerenças do terreno d'um e outro lado, ver se ha mais 
rios confluentes d'este, e seus volumes d'agua ; já voltou ao 
anoitecer com os companheiros, informando-me que des- 



— 27 — 

ceu mais de légua e meia costeando sempre o Paranan, e 
que este vai alargando progressivamente; o terreno é 
menos onduloso do que o que temos avista, notou mais os 
mesmos bandos de aves que atravessam continuamente de 
um para outro lado do rio, e diíTerenles rastos impressos 
n*arêa, de Tapiros, e deindividuos do género Felix. 

Dia 8.— Depois de tomar a altura raeridiana do lugar, 
e determinar a latitude, que me dtíu os mesmos resultados 
de hontem, regressámos para o pouso do Laranjal, onde 
chegámos pelas 4 horas da tarde. Em caminho matámos 
um bonito pato (Anãs moschata, Lin.]» que com alguns 
moluscos do género (Solen) foi a nossa côa. Não me sendo 
possível demorar mais tempo no Paranan, pelo mào estado 
de saúde em que nos achámos, e receio de algum encontro 
com os selvagens, determinei recolher-me quanto antes 
para o acampamento doChagú. 

Dia 9. — Partimos do Laranjal ao romper do dia, eao 
pôr do sol viemos pousar no Banhado Grande. Da meia- 
noite em diante principiou a chover e trovejar no qua- 
drante de S. O. 

Dia 10.— Assim mesmo com chuva partimos do Banhado 
Cirande, e viemos pousar junto ao rio das Jalevocas. 
Na mesma occasiâo encontrámos duas antas que vi- 
nham emparelhadas descendo o rio ; infelizmente esca- 
param-nos. 

Dia 11.— Por causa da chuva nao podemos deixar o 
pouso. Mataram-se dois tucanos ussús (Kamphastus ca- 
rinatus, Walg.) 

Dia 12. — Ainda com máo tempo partimos das Jalevocas 
e viemos pousar no ribeirão do Cotovelo. Estou com um 
camarada doente d'uma perna, o que nos impossibilita de 
fazer boas marchas. 



— 28 - 

Dia 13.— Pela manhã deixámos o pouso do Cotovelo, e 
viemos pousar no ribeirão da Jararaca. Continua ainda o 
mào tempo. 

Dia 14.— Por causa da muita chuva não foi possível dei- 
xar hoje este pouso. 

Dia 15.— Esta manhã o tempo tornou-sc melhor; par- 
timos do pouso da Jararaca, e viemos ao rio do Taquari. 
O camarada que se acha doente da perna vai a peior ; está 
em estado de não poder andar, julgo ser um carbúnculo 
que lhe sahiu na canela. 

Dia 16.— Falhámos por causa do camarada doente da 
perna. A' noite tomou uma dose de arnica, diminuiu as 
dores, e passou algumas horas socegado. 

Dia IT. — Ainda o doente não se acha em estado de an- 
dar, por isso falhámos. Matou-se uma veada parda mui 
gorda, e tirou-se mel de dilTerentes qualidades de colméa. 

Dia 18.— Felizmente o camarada hontem á noite prin- 
cipiou a melhorar ; o tumor supurou muito, e esta manhã 
Já pôde andar. Viemos ao terceiro passo do rio das Guabi- 
robas. 

Dia 19.— Falhámos hoje por causa dos cães, que muito 
cedo seguiram o rasto d'uma anta, e só appareceram á 
noite. 

Dia 20. — Tempo mui carregado de nevoeiros com exces- 
sivo calor. Do terceiro passo do rio das Guabirobas viemos 
pousar no rio Vermelho. Pela meia-noite, pouco mais ou 
menos, veiu um grande furacão nas proximidades do 
nosso pouso, que abateu arvores immensas, cujo ruido 
sentiamos ; e sobre a madrugada principiou a chover mui 
forte. 

Dia 21.— Falhámos por causada muita chuva, que nos 
obrigou a construir barracas para abrígar-nos. 



— n- 



Dia 22.— Ao pôr do sol viiimos poosar no rio das Piabas. 
Em caminho os cães seguiram o rasto de uma aula, cinco 
caniaradas os acompanharam, e nao voltaram ao pouso* 

Dia â3.— Falhamos por causa dos cinco camaradas, que 
só esta tarde chegaram, sem malar nada. 

Dia 24.— Partimos ao romper do dia do rio das Piabas, 
c ao anoitecer viemos pousar na terceira volta do rio Nha- 
pindà. 

Dia 25,— Pela manha partimos do rio Nhapindá, e â tar- 
de viemos pousar junto ao rio da Mandassaia. 

Dia 26-— Pelo estado de fome em que nos achamos, e os 
caas, que ha muitos dias não tem comido, resolvi falhar aqui 
para caçar* Esta manhã dispersei a gente Ioda, apenas fi- 
quei no pouso com dois camaradas. Regressaram á noite 
sem matar cousa algiuna, 

lha 27.— Ainda falhei hoje, e mandei tentar a caça ; in- 
felizmente voltaram á noite sem cousaalguu:a. 

Dia 28. — Pelas 2 horas da tarde chegamos ao pouso dos 
Pàos Papudos, não indo mais adiante por ameaçar chuva. 
No mào estado de saúde em que me acho, e privações de 
toda a sorte que temos soffrido, vendo que nao é possível 
sapir a pequenas jornadas, como temos feito, deliberei 
seguir só com quatro camaradas para o acampamento do 
Chagú. 

Dia 29.— Por causa do máo tempo nao pudemos seguir. 
Levou a chover continuamente- 

Dia, 30, — Pela manhã entreguei o commando da força ao 
pratico, e segui para o acampamento com quatro cama- 
radas que escolhi para me acompanharem, e vim pousar 
nas Abelheiras. 

Dia 31, — Pelas 6 horas da tarde viemos pousar nos Pal- 
mitos Molles da serina do Monte-Alegre. Em caminho ma- 
tamos um juacuco, um uni (Odontapborus capoeira) e um 



— 30 - 

pavão (espécie de Pega-negra com a garganta encarnada, 
Pr. Max). Tirou-se no alio da serra uma colraêa de gua- 
raipú. 

Dia 1' de Setembro.— Pelas 5 horas da tarde viemos 
pousar no Míjndagoahy. Malaram-se em caminho dois ma- 
cacos (Cebus cristalus, de F. Cuv.), que com alguns palmitos 
foi nossa côa. 

Dia 2. — Ao pôr do sol viemos pousar emS.Joâo. Ma- 
lou-se em caminho um veado pardo e uma jacutinga. 

Dia 3. —Pelas S^^horas da tarde viemos pousam* Agua 
Cortada. Em caminho matámos Ires jacutingas. 

Dia 4. — Ao anoitecer viemos ao pouso do Regresso. 
Mataram-se duas jacutingas em caminho. 

Dia 5.— Ao anoitecer chegámos ao pouso do Vorá, e pas- 
sámos bem triste noite de fome, por nada se ter podido 
matar em caminho. 

Dia 6.— Pelas 10 horas da manhã chegámos ao acam- 
pamento do Chagú bastante estropiados. Deram-se todas 
as providencias para entrarem seis camaradas com refres- 
cos para a gente que ficou no sertão. 

Dia 7.— Pelas 8 horas dá manhã se fez seguir seis cama- 
radas, com munições de boca, pólvora e chumbo para os 
sertanistas, com ordem de caminharem até os encontrar. 

Dia 12. — Pelas \ 1 horas da manhã chegou a este acam- 
pamento sem accidenle algum o resto da força que se 
achava no sertão. 

Acampamento do Chagú, em 12 de Setembro de 1849. 
—CamUlo Lellis da Silva, P. da armada nacional e im- 
perial. 



— 31 — 
RESENHA DA CAÇA, PEIXE E ABELHEIRAS 

QUE TIVEMOS EM TODA K VIAGEM DE IDA E VOLTA AO RIO PARANAN. 

22 Antas. (Tdpírusamericânus.) 

22 Veados pardos. (Cervusnemorivagus.) 

25 Macacos. (Cebus cri status, F. Cuv.) 

5 Porcos do mato. (Decolyles Torquatus, F.Cuv.) 

1 Lontra. (Lutra brasiliensís.) 

8! Jacutingas. (Penélope leucolopbos, Merr.) 
3 Tucanos uçú. (Rampbastos carinatus, Walg. ) 

6 Ditos arassarys. (Pteroglossus. ) 

2 Socos rajados. (Ardea Tigrina, Gm.) 

3 Patos. (Anãs moschata, Lin.) 

3 Marrecas. (Anãs.) 

1 Cegonha. (Ciconia maguari, de Viei ?) 

2 Macucos. (Tlnamus brasiliensís, Lalli.) 

4 Inhambús. (Tinamus.) 

i IJrú. (Odontophorus capoeira.) 

PEIXES NO RIO PARANAX. 

4 Dourados, 1 Matrincba, 7 Mandys, 49Bagres. 

ABELHEIRAS. 

39 Guaraipos.» 
4 Iratys, 2 Imerys, 1 Irapoà, 9 Jatahys. 
80 Mandagoabys, 15 Mandurys, 12Mumbucas, 8Man- 
dassaias, 3 Barafogo, 1 Sanharon, 19 Vorás. 

Lellis da Silva. 



— S2 — 

MATO GROSSO 

POR 

CORITIBA E TIBAGY. 

ITINERÁRIO DA VIAGEM QUE F» AO BAIXO PARAGUAY, POR OR- 
DEM DE S. EX. O SR. MARQUEZ DE CAXUS, MINISTRO E SECRE- 
TARIO d'ESTADO dos NEGÓCIOS DA GUERRA, ACOMPANHADO 
DAS OBSERVAÇÕES QUE LHE SÃO CONCERNENTES. 

Manuscripto ofTerecido ao Instituto pelo Sr. conselheiro Joaquim Maria 
Nascentes de Azambuja. 

Em 21 de Novembro de 4855.~Embarquei a bordo do 
paquete a vapor Paraense pelo meio*dia. 

Em 22.— Cheguei á barra de Santos pelas 11 horas da 
manhã. 

Em 23.— Esteve de quarentena o vapor. 

Em 24.— Subiu para o porto. 

Em 25.— Demorou-se este dia para descarregar. 

Em 26.— Pelas G horas da tarde levantou ancora para 
Paranaguá. 

Em 27.— Chegou à barra, e por intimação do escaler de 
saúde deu fundo no lugar denominado— Piriquito— para 
alli ficar de quarentena 5 dias. Em consequência d'esta 
demora, ofliciei ao Dr. provedor de saúde para suspender 
a quarentena, não sô por ter o vapor carta de saúde limpa, 
como por me achar encarregado de uma commissão do go- 
verno, a qual pedia a máxima brevidade no seu cumpri- 
mento : fui attendido. 

Em 28.— Entrou o vapor, e desembarquei n*esse dia 
pelas 8 horas da manhã, não seguindo viagem para a fre- 
guezia de Morretes por falta de canoa que me conduzisse. 

Em 29.— Consegui embarcar-me no escaler da alfan- 



- 33 - 

dega, e cheguei á povoação de Barreiros pelas 5 horas da 
tarde, por não poder chegar o escaler a Morretes, em con- 
sequência do rio eslar muito baixo, e ainda esta vez me 
achei embaraçado por falta de canoa que me conduzisse. 
Considerando que a viagem por terra era de 1 1/2 legua, 
segui a pé e cheguei à dita freguezia às 8 horas da noite. De 

Morretes a Barreiros, léguas iVa 

Em 30.— Depois de muitas diligencias para alcançar 
animaes, sò pude havêl-os às 4 horas> de um tropeiro que 
seguia com sal para Curitiba, o qual descarregando quatro 
bestas por consentimento de Miron, proprietário do sal, 
m'as alugou : marchei a essa mesma hora, e com tão pés- 
simos animaes impossivel me foi passar da barreira de Ita- 

pava, com 3 léguas 3 

Em o 1° de Dezembro. — Marchei pelas 4 horas 
da tarde por me ter sido preciso esperar pelos animaes, 
que um empregado da barreira se encarregou de alugar-me: 
caminhei toda a noite, e entrei em Curitiba às 4 horas da 
madrugada, com 9 léguas. Da barreira de Itapava a Curi- 
tiba, léguas 9 

Apresentei-me ao Sr. vice-presidente da província, e fiz 
entrega do aviso do ministério da guerra, de que era por- 
tador. Tendo procurado pelos meios à minha disposição 
conseguir animaes não os pude obter, e por intervenção 
do Sr. vice-presidente alcancei com excessivo trabalho oito 
animaes, alugados somente até à villa de Castro, e n'essas 
diligencias perdi 3 dias. 

Em 4.— Marchei pelas 10 horas da manhã, e pousei na 
fazenda da Serrinha com G léguas. De Curitiba à Fazenda 

da Serrinha, léguas . 6 

Em 5.— Marchei pelas 5 horas da madrugada, e pousei 
na freguezia das Palmeiras com 8 léguas. Da Serrinha à 

fazenda das Palmeiras, léguas 8 

TOMO xxviu» p. I. 5 



— 34 - 

Rm tí.— Marchei pelas 5 horas da madragada, e pousei 
na freguezia de Ponla Grossa, com 7 iegaas. Das Palmeins 

à freguezia de Ponta Grossa, léguas 7 

Em 7. — Marchei pelas G horas da manhã, e chegaeí á 
Yilla de Castro com 9 léguas. Da Ponta Grossa à villa de 

Castro, léguas 9 

Demorei-me n*essa os dias 8 e 9, por falta de condocçio; 
por isso que o dono dos animaes, não querendo afastar-se 
do trato, não obstauie as compensações que lhe propaz* 
allegando não ser possivel passar a mata em animaes tão 
Tiajados ; recorri uVssa conjunctura a Fidelis Nepomuceno 
Prates, a quem tinha sido recommendado pelo Sr. ?ice- 
presidente, o qual depois de grande trabalho obteTe-ma 
por avultada quantia 14 animaes, numero preciso para 
quatro homens passarem a dita mata. 

Em 10.— Marchei pelas 6 horas da manhã, e ponsei 
no campo, com 12 léguas. Da villa de Castro ao pouso, lé- 
guas t2 

Em 1 1 .—Marchei pelas 5 horas da manhã, e poosei na 
malii, lugar denominado— Pinheiro Secco, — com 8 léguas. 
Do Pouso no campo á mata Pinheiro Secco, léguas. 8 

Em lá. — Marchei pelas O horas da manhã, ecom pe- 
nosíssimo trabalho, por me ser necessário abrir caminho 
por serras, e transitar por outros cheios de atoleiros ; a 
muito custo consegui appro\imar-me do abarracamento de 
S. Jerouymo, com 10 léguas. IK3 pous<) do Pinheiro Secco ao 
abamcamento de S. Jea^nymo, leguus. ... 10 

Em i:J. — Marchei pelas 5 horas da madrugada* e con- 
tinuando na m<i'sma M:\ do dia antecedente alcancei o 
porto do Jatahy. com l± léguas. R^ abarracamento de S. 
J^DODjmo ao porto do Jatahy no Tibagy, léguas . 12 
Entrv^niei ao Dr. Feliciano Tiepomuceno Prates o aviso 



- 35 - 



do ministério da gaerra» o qual por nao estar previnido 
Jilopôdõ dar-me o traosporte no dia 14. 

Em 15. — Embarquei, e navegando pelos rios Jalahy, 
Paranapantíma, Paraná, Sambam baia, I?inhei ma. Brilhante, 
Vaccaria, Dourados, Santa Maria, o outros dti menos noia, 
desembarquei no porto das Sele Voltas, da fazenda do 
barão de Anlonina, no dia 13 de Janeiro de I85f}| com 135 
ieguas do Porto de Jiitaby, embarcando por differeotes rios 
até ao porto das Sete Voltas da fazenda do barão de Anto- 
nina, léguas ,*.... 135 

Não me foi humanamente possível conseguir com mais 
rapidess esta penosíssima viagem, já pelos 48 baixios, ou 
corredeiras [como chamara), que obrigavam aos remadores a 
metterem-5e n^agua para a braços levarem a canoa» já pelas 
Ires cachoeiras que com h:islante peri^^o se venciam, já, fi- 
nalmente, por outros muitos embaraços que me custavam 
a remover, apezar de gratitica(;ôBs que dava ao piloto e 
remadores. Pelo que deixo dito evidoncia-se que, não de- 
puudQiido da minha vontade c esforços esta viagem de rios, 
nada mais podia fazer » além do que pratiquei. Esperei no 
porto acima dito, que um dos meus camaradas me trou- 
i6sse animaes da referida fazenda, o qual chegou no dia 
14 pelas 4 horas da tarde. 

Em 14 do ilaneiro de 1856. — Marebeí pelas 4 borasda 
tirde» e pousei na mencionada faj^enda, com 4 léguas. 
Do porto das Sete O^^das à fazenda do barão de Antonina 
(por^terra), léguas * . . - 4 

Em lo, ^Marebeí pelas 7 horas da manbã, e pousei no 
campo com ti léguas. Nao me foi possível ir mais adianto, 
em consequência de córregos cheios, pântanos e campos 
alagados, da fazenda do barão de Antonina, marcbando 
pelo campo ao pouso, léguas 6 

Iímí 16. — Marchei pelas li tioras da madrugada, eiiousei 



— 36 — 

no ponto militar (l*Anhauac, com 12 léguas. Do pouso 
antecedente ao ponto militar de Anbauac, léguas . 12 

Em 17.— Marchei pelo meio-dia por me ler sido neces- 
sário alugar animaes, e pousei no campo, com 2 léguas. 
Deram-se os mesmos motivos acima referidos. DeAnha- 
uaca pousar no campo, léguas 2 

Em 18. — Marchei pelas 6 horas da manha, e pousei na 
fazenda da Forquilha, com 12 léguas. Do pouso antece- 
dente á fazenda da Forquilha, léguas 12 

Em 19.— Marchei pelas 6 horas da manha, e pousei no 
campo, com 5 léguas. Da fazenda da Forquilha ao pouso no 
campo, léguas 5 

Em 20.— Marchei pelas 7 horas da manha, c pousei no 
porto militar de Miranda, com 6 léguas. Do pouso antece- 
dente ao porto militar, de Miranda, léguas. G— total. 267 Va 

Em 21.— Embarquei, e, descendo pelos rios Miranda, 
Piuva e outros, cujos nomes não me recordo, cheguei ao 
Baixo Paraguay no dia 26 de Janeiro ; entreguei o aviso do 
ministério da guerra e esperei 6 dias pela resposta, seguin- 
do depois para. esta corte no dia 2 de Fevereiro de 1856. 
Cheguei a Paranaguá no dia 30 de Março, esperei pela 
barca, que chegou no dia 5, sahiu no dia 6 com escala por 
Santos, e deu fundo n^este porto no dia 8. Fiz toda a via- 
gem em 4 mezes e 18 dias, e excluindo-se as falhas, 
que a falta de promptos vehiculos e estação chuvosa me 
coagiram a ter, fui ao forte de Coimbra em 48 dias, e 
fiz toda a viagem em 98 dias; regulando-me pelo roteiro 
do barão de Antonina, apresentado pelo seu piloto map- 
pista João Henrique Elliot, andei 532 léguas. Devo decla- 
rar que não fiz menção das léguas desde Miranda até ao 
forte de Coimbra, por não existir no dito roteiro. Seja-me 
agora permittido reflectir que, sendo esta viagem toda de- 
pendente de mar, terra e rios, jamais eu poderia cumprir 



- 37 — 

meu dever, e satisfazer o meu desejo marchando com a 
rapidez que me ordenou o Exm. Sr. marquez de Caxias, 
ministro e secretario doestado dos negócios da guerra. 

Estou convencido que se encontrasse em Antonina o Dr. 
Feliciano Nepomuceno Prates, não teria na provincia do 
Paraná alguns embaraços; por isso que, conhecedor d'ella, 
e municiado do preciso como se adia, me coadjuvaria; 
porém vim enconlral-o onde nada mais ni(í podia dar, além 
do transporte pelo Jatahy. 

Rio de Janeiro, era 13 de Abril de 1856. — Manoel Joa- 
quim Pinto Pacca, capitão da i* classe do estado maior. — 
Conforme Libanio AiLgiisto da Cunha Mattos. Conforme ao 
documento existente no archivo militar.— /oaí/uim Maria 
Nascentes de Azambuja. 



— 38 - 

INFORMAÇÃO 

SOBRE O MODO PORQUE SE EFFECTUA A NAVEGAÇÃO DO PAEA 
PARA MATO GROSSO, E O QUE SE PODE ESTABELECER PARA 
MAIOR VANTAGEM DO COMMBRCIO E DO ESTADO. 

RESUMO DOS PARAGRAPHOS DOESTA INFORMAÇÃO 

!.~Que a communicação do Pará com Maio Grosso só 
se effectua pela navegação do rio da Madeira, e nem ha 
estradas de terra nem seriam por ora praticáveis. 

2.— Que esta mesma communicação só se estende aos 
estabelecimentos do Guaporé e capital d*aquella capitania ; 
e o Cuyabà se provê da capitania de S. Paulo, e outras por 
estradas de terra. 

3.— Que, se a distancia directa da capital do Pará á de 
Mato Grosso é assaz considerável, a que é forçoso andar 
pela indicada navegação é muito maior, e sempre lutando 
com a corrente opposta. 

4.— Que do Pará à primeira cachoeira, ainda que seja 
mais de metade da extensão, é Ioda desembaraçada, e sem 
mais iacommodo do que o da corrente opposta que o vento 
ajuda a romper. Que da primeira á ultima cachoeira na 
extensão de 70 léguas é a navegação muito morosa, e in- 
commoda. Que da ultima cachoeira a Vilta Bella, sendo 
anda considerável distancia, é também navegação desemi)a- 
raçada, mas contra a corrente. 

o,— Que do Pará até Borba acham os viajantes os soccor- 
ros que precisam, mas que de Borba para cima na extensão 
maior, mais árdua, e diílicil a vencer, não tem onde receber 
nenhuns, menos que cheguem ao forte do Príncipe. 

6.— Que o modo por que se effectua esta navegação é o 
mesmo que se seguiu de principio, sem que si3 tenha desço- 



- :i9 — 

borlo outra, o que som o exlraorilinario beneticio de escu- 
sar maíoras provímeutos pela abuadaacia de caça, e pesca, 
apezar d'outras seria impraticável. 

7. — Quaes são as embarcações de que se usa n*esta na- 
vegação, e qual seja a causa por que só se pôde emprehen- 
der por negociante de cabedal grosso, ou por muitos incor- 
porando-se para a passagem das cachoeiras. 

8,_Obstaculos que experimenta este comraercio pelas 
grandes despezas em pura perda que é forçoso adiantar 
para emprehender a navegação. 

9.— Maior obstáculo na falta de gente, e difliculdade de 
apromptar a que se precisa, quer sejam indios, quer 
escravos. 

10.— Tristes eíTeitos que resultam de empregar os indios 
n'esta navegação. Vantagens para o Estado, e para o com- 
mercio, de serem substituidos por escravos no maior nu- 
mero que fôr possível. 

It. — Que tanto um,como outro modo é violento; que, se 
parece mais diflicil o de occupar escravos, esse foi o que se 
praticou quando mais floresceu este commercio, e que a in- 
terrupção d'elle se não pôde attribuir á repugnância de 
obrigar os indios a estas viagens, como se tem querido per- 
suadir. 

12.— Exemplos que mostram ter-se olTectuado, apos- 
sibillidade de se eíTectuar, e que não é arbítrio novo o de 
effectuar-se esta navegação empregando-se escravos, e que 
se a causa da sua interrupção ou extincção não foi a que se 
me quiz imputar falsamente, fosse qual fosse, sempre a exis- 
tência d' este commercio será precária emquanto carecer de 
meios tão violentos. 

13.— Applicação feita ao commercio do reino pelo que se 
pratica n*este para mostrar a verdadeira causa que lhe 
serve de embaraço. 



— 40 — 

i 4.— Ou Ira applicaçao à navegação, e commercio do Pará 
para Mato Grosso pelo que se pratica no commercio do 
reino, onde a navegação não é continuada. 

15,— Que a falta de subdivisão de trabalhos é a que mo- 
tiva o maior obstáculo a este commercio. Que os estabele- 
cimentos que ella exige são superiores aos recursos dos par- 
ticulares, e que, ou se hão de executar por conta da real 
fazenda, ou o mesmo monstruoso s) stema deve proseguir. 

1 0.— Que a extincta companhia bem podia ter emprehen- 
dido, e executado estes estabelecimentos, mas que n\im ao 
menos auxiliou o de uma povoação de indios, que nas ca- 
choeiras principiou a fundar o juiz de fora de Yilla Bella. 

17.— Que o ulil estabelecimento de uma povoação não 
pôde bastar para reduzir o commercio aos termos de facili- 
dade que se requer. Quaes sejão os íins que se pretendem 
d^ella. 

18.— Que estes fins só se podem conseguir compondo-se 
uma povoação de gente obrigada, mas que a compôr-se de 
homens livres, raras vezes poderão estender-se a mais, que 
aos de facilitar descanso e refresco. 

19.— Que esta povoação com os indios aldeados nas po- 
voações existentes, seria impossível de formar a constituir- 
se no mesmo pé. Que os habitantes da que se formou, eram 
gentios, e que a formar-se de novo com estes ou outros, 
será preciso muito tempo, despeza etTecliva,e trabalho, 
para afinal depois de civilisados se seguir o mesmo que 
haverá de seguir-se, fundando-se cora os já aldeados, e mais 
civilisados. 

20.— Uellexôos que mostram a necessidade do estabele- 
cer um corpo de gente propriamente destinada para o tra- 
balho da passagem das cachoeiras, e lavradores que a susten- 
tem. Facilidade que concorre para a fundação doestes estabe- 



— 41 — 

lecimentos, por haver do Pará, e do Guyabà muita gente 
própria para uns e outros. 

22.— Que a fazenda real, por ter de fazer despezas, não 
tem de fazer sacriQcios, antes ao contrario se procura um 
novo, e avultado ramo aos reaes rendimentos sobre muitas 
vantagens para a mesma real fazenda, para o Estado e para 
o commercio, que se facilita tanto como se a cada commer- 
ciante emprestasse a real fazenda somma correspondente 
para as despezas do transporte, e navegação. 

23.— Que passando à pratica applicaçãod^estesprincipios, 
desde logo se devem estabelecer duas canoas do porte de 
mil a duas mil arrobas no effeclivo gyro do Pará até a pri- 
meira cachoeira, uma ou duas de metade do porte d'aquel- 
las p ira o gyro da ultima cachoeira até Villa Bella, por ser 
de metade da extensão d*aquelle, e um corpo de pedestres 
com embarcações próprias para a passagem das cachoeiras, 
e bem assim os administradores, os depósitos, e as provi- 
dencias necessárias para a segurança e brevidade das con- 
ducções. 

24. —Que, depois de se estabelecer este novo plano de 
navegação se deve cuidar eflficazmente em proteger, e pro- 
mover o commercio. 

2o.— Que estas providencias se devem somente dirigi- 
de principio a prover a continuação do commercio pelo pror 
posto plano, applicando-se logo depois todo o cuidado em 
averiguar e estabelecer as que forem mais próprias para 
se reduzir a ultima regularidade. 

26.— Que o serviço pratico do transporte das carrega- 
ções nas cachoeiras qualquer pôde executar, mas que 
para o de constituir o proposto plano na sua naturaj 
intelligencia se precisa oilicial de maiores conhecimentos. 
Qual seja o que se suppõe que os tem, e esteja à mão 

TOMO XXVIII, p. I. 6 



— 42 — 

de o pôr em pratica» e por onde deve príDcipiar este traba- 
lho, e averiguações. 

27.^Que sem estas averiguações se nao deve fundar nem 
povoação, nem povoadores. Qual seja a situação que todos 
inculcam para a povoação. Qual seja a principal circum- 
stancia que se deva procurar, a distribuição que se deva 
fazer dos seus moradores, e prevenção que deve haver a 
respeito d'elles. 

28.— Que em todas as povoações que se têm fundado se 
tem commettido grandes erros, e quaes estes fossem. 

29.— Que para haver os povoadores precisos se deve 
evitar toda a idéa de coacção. Meios próprios para os 
attrahir sem ella, e sacrificios que deve fazer a fazenda real 
além das despezas nos soccorros que adiantar. 

30.— Juízo sobre a importância dos sacrificios, despe- 
zas annuaes, despezas de empréstimos que terá desoilrer a 
fazenda real, e por outra parte dos rendimentos que po- 
derá haver doestes estabelecimentos. 

31.— Que a fazenda real não deve fazer mais sacrificios 
que os indispensáveis, e que sem constituir os colonos na 
necessidade de trabalharem se não conseguirá d*elles ofim 
que se pretende. 

32.— Que é necessária a concurrencia de um ministro 
para estes estabelecimentos, e quaes sejanl os que mais com- 
modamente podem ser empregados, mas que se deve pre- 
venir qualquer motivo de implicância com o oificial militar 
empregado na mesma diligencia. 

33.— Que é preciso também prevenir as contestações 
entre os dois governos limitrophes, por ser na extrema 
d'elles, e pelos reciprocos esforços de um e outro que se 
hão de formar os pretendidos estabelecimentos. 

34.— Que ainda é mais preciso prevenir as contestações 
com os hespanhões confinantes. Juizo sobre a extensão que 



— 43 — 



DDS dava ser privativa no rio da Madeira, o importância 
de m impedir a lompo a enlrada d'eUa aos mesmos bes- 
panhóes. 

35,— Que para conseguir este, e os outros importantes 
ins, bast^im sobre o avanço de poucas sommas e providen- 
cias opportunas. Fará 4 de Agosto de 17y7. 

INFORMAÇÃO. 

!*— E' bera constante que a communicaçâo do Pará para 
lato Grosso sô se effeclua pela navegação dos rios da 
ladeira, Mamoré e Guaporé, que nâo se tem se^ido a de 
outroSp nem ha, nem se tem tontadoabrir estradas de terra, 
porque nem seriam mais vantajosas e coramodas, nem mes- 
mo praticáveis emquanto nao fossem povoadas. 

2.— A mesma navegação não se estende além dos estabe- 
lecimentos do Guaporé, e da apitai ; consequentemente só 
estes se provêm pelo commercio do Pará, e os outros que 
^0cam mais orieulaes, e meridionaes, o Cuiabá principal- 
lente é provido, ou por semelhante navegação desde a 
capitania de S, Paulo* ou pelos combois que sobem por es- 
tradas de terra d'esta C4jpil:inia, e das do Rio de Janeiro 
e Bahia, atravessando os dilatadíssimos e agrestes sertões 
do Brasil* 

3.— Ainda que o arco de circulo máximo comprehendido 
entre as duas capitães do Pari e Maio Grosso seja somente 
de 316 léguas de 18 em gráo, segundo as mais recentes 
observações, a distancia que é forçoso andar para passar 
de uma a oulra pela indicada navegação se computa ser de 
770 legiias pelo mais exacto roteiro que ha d'ella, íormado 
pelos lialieis aslruoomos e engenheiros que foram manda- 
dos para a demarcação não eíTectuada» e ainda em toda 
ista extensão é forçoso vencer a constantemente opposta 



— 44 — 

corrente desde que se passa do Garupa para cima, ou ainda 
antes por ser já alli o eíFeito das marés quasi insensível. 

4.— Da cidade do Pará até a primeira cachoeira chamada 
de S. António contam-se 466 léguas, e em todas ellas não ha 
obstáculo mais que o da corrente opposta, que na estação 
dos ventos geraes se vence commodamente com as velas, 
as quaes ainda em outro tempo não são inúteis. Da pri- 
meira cachoeira até a ultima doMamoré, no espaço de 70 
léguas que occupam, a navegação tem muitos incommodos 
e interrupções. Ha paragens em que os viajantes pelo ha- 
bito que tomaram, ou pela necessidade em que estão de 
levar até Villa Beila as canoas em que sahem do Pará, têm 
de as aliviar de parte, e de toda a carga, para as levarem a 
cirga, e a força de remo e de varas, por perigosos saltos e 
estreitos canaes ; tem d'abrir caminhos, e de fazer ranchos 
para passarem por terra, e para resguardarem d'avaria a 
mesma carga, e tèm mais trabalhos que estes, quaes são os 
de arrastar por terra as mesmas embarcações por diíBceis 
trânsitos de subidas, e descidas de serras, onde ordinaria- 
mente padecem grande ruina, motivando funestos acci- 
dentes aos mesmos que se occupam n*estes violentíssimos 
trabalhos. Da ultima cachoeira até Yilla Bella, que são ainda 
234 léguas, toda a navegação é desembaraçada, com o único 
inconveniente da corrente opposta, e a haver vento com 
que a vencer; se não existisse aquelle dilatado obstáculo das 
cachoeiras, seria toda esta extensa navegação praticável às 
embarcações do maior porle, pelo menos no tempo em que 
na parte superior os rios estão cheios. 

5.— Até Borba, povoação que flca 26 léguas acima da foz 
rio da Madeira, e dista do Pará 306, acham os viajantes os 
soccorros que precisam nas muitas povoações em que po- 
dem aportar e lhes ficam em caminho. De Borba para cima 
toda a restante e mais árdua extensão é deserta até ao 



- 45 - 

forte do Príncipe, distante 283 léguas, comprehendidas as 
70 de cachoeiras, onde foram mais necessários e urgentes 
os mesmos soccorros, não só para vencer tão rigorosos tra- 
balhos, mas para supprir a falta de viveres e da gente, que 
pela mudança para climas mui ingratos, e diversos d'este, 
foge, e morre a elTeito de cruéis sezões, das corrupções 
que a acommettcm n'estas viagens como nas de longo 
curso no alto mar, e dos fluxos de sangue, resultando mui- 
tas vezes por estas faltas a necessidade de regressar e pedir 
nov )s viveres e nova gent^ co;n despezas, incoramodos e 
perigos duplicados. 

fi. — O modo por que se eíTectua esla navegação do Mato 
Grosso presentemente é o mesmo com mui pouca differença, 
que, o que seguiram os primeiros que a emprehenderam, e 
todas quantíis dilBculdades, trabalhos e perigos encontra- 
ram, encontram hoje igualmente os que a emprehendem, 
sem que nem a experiência, nem as excessivas despezas, 
nem a extraordinária mortandade dos indios, tenham agu- 
çado a industria para descobrir e estabelecer outro mais 
suave, menos incommodo e funesto, ou porque a vida, e a 
conservação dos indios se considere por pouca cousa, ou 
porque as providencias necessárias sejam superiores à in- 
dustria, ao cabedal o aos recursos dos particulares. O 
certo é que, se a Providencia benigna não supprisse abun- 
dantemente a esies viajantes com o mais preciso alimento, 
que é o que adquir(3m da caça, e pi^sca nos mesmos dis- 
triclos que atravessam, so tivessem de carregar provisões 
equivalentes para a muita gente, e pelo muito tempo que 
consomem n'estas viagens, ainda deprimindo nos jornaes, 
ou salários dos indios, e ainda sendo estes obrigados, nin- 
guém por conveniência própria arrost \ria a árdua empreza 
de atravessar as referidas i^'ò léguas de deserto desde 
Borba até ao forte do Principe, e a mais árdua de arrastar 



- 4ti - 

por altas serras as embarcações, além de outros mais tra- 
balhos a que se sujeitam, e que exigem a demora extraor- 
dinária de quatro, e mais mezes, só para Tencer as 70 
léguas de cachoeiras, depois d'outra igual para chegar a 
ellas, e ficando-lhes ainda outra pouco menor a ?encer 
para chegarem ao seu destino, quando nas embarcações 
apenas caberiam os mantimentos precisos. 

7.— As embarcações de que se usa n'este paiz, a que cha- 
mam canoas, são as de que se usa também na navegação do 
Mato Grosso ; mas, como se hão de arrastar por terra, por 
subidas e descidas, não podem exceder do porte de mil a 
mil e duzentas arrobas. Ainda assim nenhum particular 
pôde emprehender a passagem n'estes difficcis e perigosos 
trânsitos com a mera força dos remeiros, competentes a 
uma embarcação, porque sendo das maiores, e da grandeza 
acima rc^ferlda, não se vara por terra com menos de 
100, 120, e mais homens de trabalho, e ainda as me- 
nores do porte de 400 a 50) arrobas, que mais convôm a 
passageiros que a negociantes, essas mesmas não se movem 
com menos de iO, 5i) e 6 ) homens, e como para occupar 
tanta gtmte é preciso occupar muitas embarcações, e carga 
proporcionada que iiidemnisci a despcza que ella motiva, 
segue-sc que Uies viagens e Uies cmprezas só se podem 
realizar ou por negociantes de cabedal grosso e de cre- 
dito, ou por muilos quando se incorporam ao menos na 
passagem das cachoeiras. 

H.— Ou seja de um só, ou seja de muitos, o comboi das 
embarcações, como mais ordinariamente succede, é pre- 
ciso adiantar a despeza da compra d*ellas, é preciso jà 
desde o Pará fazer despeza, c perder parte do porâo com 
os cabos, ferramentas e mais trem necessário para as ar- 
rastar, e para as concertar dos grandes estragos que pa- 
decem, é preciso fazer grandes dcspezas, ou na compra 



- 47 - 



de ôscra?õs para remeiros, ou em ajuntar os índios que se 
obrigam a semelhante serviço, e tio sustento e vencimaE- 
ios iFelles o dos práticos que lhes sâo indispensáveis, e é 
prtíciso perder grande parte do porão das embarcações 
com proviraentoSt ainda reduzi ndo-se essencial menle a 
farinha, que jà nâo lia onde tomar de Borba para cima, o 
às vezes nera n'esla mesma povoação ; ó preciso emãm 
contar que todas estas despezas a excepção dos escravos 
ficam em pura perda. 

9,— Sobre loilas esLas diíTiculdades, que facilmente su- 
perara a redundância de cabeda! ou de credito, porque os 
subidos preço dos géneros em Mato Grosso iodem nisam o 
emprego e empate delltj, prevalece a da falta de gente, 
mdios, que sem duvida seriam os mais próprios para 
t viagens, se o clima lhes não fosse tão fatal, repugnara 
por tão justa causa empregar -se D*ellas, e por terem sido 
muitos os que se tém empregado, ou sacrificado^ se acham 
as povoações tâo extiaustas quanto é constante. A* excep- 
ção d^aqueiies que chegando a habitua r-se ao clima vém a 
ser práticos d*esla carreira, e vencem soldadas mais cres- 
cidas, acaso se achara algum que a queira emprehender 
sem coacção, porque os comboeiros para mais fundamen- 
tarem a sua natural aversão nao omíttem deprimir o quanto 
podem nos seus vencimentos, nos que Ibes vém apagar 
procuram desfazer-se das fazendas mais ruins por preços 
enormeSt não querem nem Despeitar, nem que se respeitem 
n'elles os direitos que as leis concedem aos homens a 
que Sua Mageslade piamente foi servida restituil-os» 
querem ser servidos e tratal-os como se servem e tra- 
tam os escravos, ou peior, porque desde que chegam 
termos de não poderem trabalhar, que morram ou que 
ram, como lhes nao custaram as sommas que aquelles 
custam pouco lUes importa, do que tudo alem da cons* 



— 48 - 

tanle repugnância dos índios para todo o Irabaiho pesado 
e continuado, resulta que um comboi de canoas esquipadas 
com elles quando chega a Mato Grosso apenas conserva 
um pequeno numero dos remeiros que precisa, tem sido 
desamparado d^elles por muitas vezes, e tem inquietado 
três ou quatro vezes maior em repetidos soccorros para 
lhe ficarem alguns. Os pretos escravos, que, supposto agora 
se queiram inculcar impróprios e inhabeis, substituiram 
sempre os indios,servindo de remeiros aos commerciantes, 
custam trabalho grande parase ajuntar o numero preciso, 
pela mui limitada importação e mui prompta extracção que 
elles têm assim que chegam, e custam grandes sommas, 
sendo o preço ordinário de cada um ViO^ até loOj). 

10. — Um comboi de canoas de um só, ou de mais nego- 
ciantes esquipados com indios motiva terrível confusão nas 
povoações d*elles, afugenta muitos, causa a morte de ou- 
tros, por fim obriga os mesmos negociantes a desembolso 
considerável em pura perda, e todos aquelles effeitos ainda 
são mais sensíveis se a expedição é auctorisada pelo serviço 
real. O mesmo comboi esquipado com um pequeno nu- 
mero de indios, quantos são indispensáveis para práticos e 
pilotos, e todos os mais remeiros escravos, poupa a vida de 
outros tantos d'aquelles infelizes, eviti as fugas de muitos 
mais, povoa as minas com a íntroducção de novos braços, e 
se exige desembolso considerável não fica perdido, antes o 
retribue com avultado interessye, poupa as despezas dos sa- 
lários, indemnisa o negociante pelos lucros na venda d^elles 
do prejuízo que experimente na morte de alguns, a que não 
são tão sujeitos como os indios, por acharem mais analogia 
no clima do Mato Grosso, e pelo differente trato que re- 
cebem dos senhores, se não por humanidade, pelo interesse 
de os conservar. Finalmente n'um comboi assim esqui- 
pado tudo se move regularmente e à vontade de proprie- 



- 49 — 



târio, porque os indios por serem poucos» e pelos bons 
partidos que recebem, obedecem e trabalham fâo prom- 
pLimenle como os escravos; o mesmo proprielario não 
exige de uns e outros por inleresse próprio mais do qne 
razoavelmente pôde pretender, e procede na sua penosa 
tiagem sem o receio de se ver a todo o instante a si e o 
s* u cabedal em inteiro desamparo pelas deserções da gen- 
ICp pois que os escravos ainda querendo fugir os conlôm o 
ruedo do gentio e o paiz que desconbecem> o que tudo ex- 
tensamente ponderei em ofício q- 14 do anuo de 1792 na 
ilâla de 3) de Abril, para mostrar que, a continuar-se o 
mesmo syslema, a navegação se faria mais vantajosa ao 
commercio e ao Estado, occupando-se em lugar de indios 
para remeiros u maioi^ numero de escravos que fosse pos- 
iivel. 

II,— Quer um, quer outro modo é por certo violento, e 
difliculta a regularidade e facilidade que deve haver em to- 
das as empre^ías do commercio ; mas o primeiro e innega- 
velmenle menos diflicil, e faria mais accessiveis taesempre- 
zas a maior numero de individuoSt até inteiramente 
extinguir e afugentar os indios das povoações* O se^mudo, 
innegavélmente mais ulil, exige mais cabedal e credito, mas 
com estar este paiz em muito maior atrazo no tempo da 
companhia extincta do que ora não esta, com ter então 
muitos mais indios do que nao tem presentemente, foi o 
que se praticou quando mais floresceu o mesmo commercio 
eom mui poucas excepções, ecombois esquipados inteira- 
mente com indios sò me consta terem navegado os que su- 
biram a levar soccorros de géneros, ou de gente por conta 
da fazenda real; e agora que estes combois, ou os que por 
taes se figuraram por serem muitos, e mui successivos pelo 
apparente motivo da expedição das demarcações, reduziram 
as povoações á decadência em que eslao, agora se intentou 

TOMO XXVUI» p* K 7 



- 50 — 

attribaír a interrupção, ou extiocçao que elles causaram ao 
commercio i falta de índios, ou à minha repugnância em 
constranger e sacrificar esse resto d'elles para continuação 
dos mesmos combois, quando nem eram de Sua Magestade • 
nem determinados pela mesma senhora, nem concorria jà 
o mesmo apparente motivo^nem beneficiavam o Estado, que 
nunca pôde interessar em promover a opulência d*alguDS 
particulares peío sacrificio da vida de centos d'outros. 

12.— João de Sousa de Azevedo, um dos que mais fre- 
quentou esta carreira no seu principio, e que descobriu a 
do Tapajoz não continuada, jamais quiz para taes viagens 
senão os seus escravos, e com razão, porque os pra- 
tos são muito mais robustos e próprios para os tra* 
balbos violentos do que os Índios depois que adquirem 
a intelligencia necessária para os executar. Todos os com- 
boelros que desceram no tempo da companhia, a demora 
que tinham em partir, era a de ajuntar escravos, porque 
quantos ella introduzia logo se distribuiam. Em os ajun- 
tando, ou se ainda a companhia tinha alguns, providos 
d'elles, e das carregações quasi inteiramente a credito, nada 
mais solicitavam, nem se lhes concedia por este governo do 
Pará, do que cinco indios para cada canõa,e estes comboei- 
ros assim emprehenderam e executaram as suas viagens, 
correspondendo quasi todos à mesma companhia com paga- 
mentos promptos. Logo, esta navegação é praticável, e utii 
fazendo-se com escravos. Logo, não é arbítrio novo e de 
minha invenção, nem chimerico, nem impossível, como se 
me quiz arguir; e se a outras causas mais próximas se deve 
attribuir o abandono a que chegou este commercio, não 
digo, como tenho ouvido de alguns, que seja inteiramente a 
da pauta de preços que se taxaram aos géneros introdu- 
zidos por esta via do Pará, que desviou os comboeiros para 
a do Rio de Janeiro, ou a do commercio, que se introduzia 



- SI — 



nos combois qne §ô pretexlaYam úteis e necessários para o 
serviço real, e provimento dos armazéns reaes, ou a da ei- 
Itncçlo da companhia, e consequente íalla de empréstimos^ 
6 avançoSt ou a má fé de alguns dos comboetros a que se 
pemiillin relirarem-se para o Rio de Janeiro com os cabe- 
daes que tinham levado a credito do Pará, porque aquella 
pauta íiao sei se se observou escrupulosamente, porquo, 
apezar do commercio que se introduzia gratuito nas expe- 
dições do serviço real, ti3o é de crer que fosse lanlo que to- 
lhesse totalmeute outro qualquer, porque aioda em tempo 
da companhia começou a declinar o commercio, porque 
assim mesmo frouxamente continuou depois da sua extinc- 
çio» e porque em toda a parte sempre ha uns que proce- 
dem bem, o outros que procedemjmal, mâs digo que em- 
quanlo o commercio depender de meios tão violentos, a qual- 
quer miuima concussão, a sua existência precária cessará, e 
sem esforços extraordinários nao poderá restabelecer-se. 

13.— Para sentir esta solida verdade, para reconhecer 
quanto sejam violenlus os meios de que depende este com^ 
mercio e a sua consequentemente precária existência, const* 
dere se o da metrópole dependentemente dos mesmos meios, 
venho a dizer que o negociante que queira prover as provio- 
cias dos géneros da producçao do Pará para os mandar, ou 
lerar de Lisboa ao Porto precise comprar um, ou mais biates 
que para os espalhar pelos mercados das províncias, das 
cidades, e vi lias do interior, precise comprar carros, cavai* 
gaduras,ou embarcações próprias para os trajectos por agua 
onde fossem necessários, e por fim que todos estes hiales. 
Carros, cavalgaduras, e embarcações, completa a viagem^ fi- 
quem inúteis: haverá porventura muitos que possam 6 
^queiram emprehemler semelhantes negociações? Haverá 
genta, a cabedal bastante para se empregar em muitas ? 
Deverá attribuir-se a irregularidade, a interrupção, a falia 



— 52 — 

d'ellas, e a carestia dos géneros, vagamente a uma, oaoatra 
causa, quando a verdadeira e constante está saltando aos 
olhos ? Como pois no commercio de Mato Grosso se não 
querveramesmácausa,e ainda mais activa?! Digo mais 
activa porque os negociantes do Pará, e os mais atrazados 
de Mato Grosso, têm muito menos cabedal proporcional- 
mente que os do reino, porque estas capitanias têm muito 
menos população, porque no reino não seria preciso ir 
rompendo estradas, ir fazendo casas, e levar o provimento 
de viveres para atravessar tão dilatados desertos como 
n'esta navegação se precisa. 

14.— Se esta reflexão não basta ainda para constituir 
tão importante objecto no seu verdadeiro ponto de vista, 
considere-se inversamente que este commercio se pôde 
effectuar como* se effectua o do interior do reino, onde a 
navegação não é, ou não pôde ser continuada, venho a 
dizer que do Pará até a primeira cachoeira andem embar- 
cações a frete, e não menos da ultima até Villa Bella ; que 
desde a primeira cachoeira até a ultima haja homens e 
embarcações opportuna e propriamente coUocadas para 
fazer os transportes das cargas, onde podem fazer-se por 
agua, e que, onde ora se precisa arrastar por terra as em- 
barcações, haja cavalgaduras e carros, ou carroças para 
transportar somente as cargas das que navegam no plano 
inferior do rio para as que navegarem no superior,tudo em 
termos que, assim como o negociante do Pará pode dirigir 
ao seu correspondente em Trás os Montes quaesquer gé- 
neros d'este paiz, sem mais trabalho que o de os fazer em- 
barcar em um navio, e escrever ao seu correspondente de 
Lisboa, que paga os fretes, faz a remessa ao Porto, a outro 
correspondente, e escreve a este, que paga os novos fretes, 
dirige os géneros, ou por agua ou por terra, a outro cor- 
respondente, e este a outro successivamente até chegarem 



- 53 — 

â mao da pessoa a que se dirigem, que paga todos os fretes 
e despezas, assim também o que quizer remetter alguns a 
Mato Grosso, não tenha mais a fazer do que proporcional- 
mente o mesmo que fica referido. Quem não verà.n'este 
supposto gyro constituido o commercio no seu estado na- 
tural? Quem deixará de reconhecer que todos os outros 
meios por que é obrigado a correr são violentos, são for- 
çados, e não lhe pcrmittem mais que uma mui precária 
existência ? 

15.— Esta subdivisão de trabalhos, uma das mais pode- 
rosas causas da prosperidade e opulência das nações que a 
sabe conhecer e promover, é a que falta em muitos ou- 
tros ramos de economia publica, e da falta d*ella resulta 
o atrazo d'esta, como geralmente de todas as mais colónias. 
Entre as nações poderosas que têm cabedal e população 
mais proporcionada à extensão com pequeno impulso dos 
seus governos se estabelece. Nas colónias não succede o 
mesmo, porque ainda havendo cabedal falta população, e 
falta nos indivíduos d'ella a industria, o espirito de espe- 
culação, a vontade de trabalhar, e sobejam os meios de 
adquirir sem o incommodo de servir a outrem. Ainda 
havendo, como não considero que haja, no commercio do 
Pará cabedal proporcionado para emprehender e empatar 
nos estabelecimentos que exige a referida subdivisão, a 
conveniência própria não será bastante para arrastar e 
conservar os operários que necessita, sem intervir a aucto- 
ridade publica ; e, com) nem esse mesmo cabedal certa- 
mente ha, é forçoso que, ou o commercio do Pará para 
Mato Grosso continut^. a correr pelo mesmo monstruoso 
system:i, ou que Sua Magestade se digne tomar este ob- 
jecto debaixo da sua real protecção, e que as disposições 
necessárias se façam á custa da sua real fazenda. 

16.— -Bem podia a extincta companhia do Pari ter em- 



- 54 - 

prebendido, e ter executado com grande vantagem própria 
estes ateis estabelecimentos; infelizmente, porém, nem 
ao menos o de um triste edifício deixou n'esta cidade para 
perpetuar a sua memoria, e, a não ter feito alguma intro- 
ducção de escravos no Maranhão, e de poucos n'est6 paiz, 
mereceria a mais execranda pelo abuso com que firustroo 
as benéficas intenções com que foi instituida. Ella não só 
preteriu este tão importante objecto, mas nem ainda consta 
coadjuvasse a útil idéa do juiz de fora de Villa Bella, ir- 
mão do conselheiro Alexandre de Gusmão, quando deu prin- 
cipio a fundar nas Cachoeiras uma povoação de indios, para 
o que mais é nem achou as precisas assistências d'este 
governo, nem do de Mato Grosso, e pouco depois de prin- 
cipiada teve de extinguír-se com a morte do mesmo juiz de 
fora. 

1 7. —O estabelecimento de uma povoação nas Cachoeiras, 
única providencia porque geralmente clamam todos desde 
muitos annos, é sem duvida útil e necessária, mas nunca 
pôde por si só bastar para reduzir o commercio aos ter- 
mos de facilidade que indiquei, menos que seja tão popu- 
losa, que os seus moradores occupem a maior parte da 
extensão de cachoeiras, o que por ora é quasi impossível. 
A povoação que se principiou a fundar e a que se pretende 
era, e deveria ser uma aldêa de indios como qualquer ou- 
tra das d*este paiz. A conveniência e vantagens que se pre- 
tendem d'ella são as de achar promptos os viveres para a 
demora da passagem das cachoeiras, e a gente precisa para 
auxiliar os negociantes n'estes trabalhos, e para supprir a 
que tenha morrido, adoecido, ou fugido ; prevenindo assim 
os novos perigos, incommodos, demoras e despezas por 
que forçosamente têm de passar, quando por lhes faltarem 
viveres e gente são obrigados a descer a Borba, e a outras 
mais remotas povoações, para solicitarem soccorros, e ainda 



^ m — 



sem o fim de prerençao, mas sò pelo da coavenieDCÍa de 
subsiituir muita carga de comraercio oo vâo que sao obri- 
gados a perder em eousideraveis provimentas de ?i?ere9, 
18*— Todas estas pretendidas vanlageas no pé actual a 
que os directores reduziram os iadios» e as povoações 
delias, isk) é, no pé de considerarem os índios como servos 
OQ escravos, a povoação como curral d^elles, no de nem 
respeitarem a sua voEitade, o seu interesse, a sua proprie- 
did6, a sua vida, pôde ser que os viajantes encontrassem» 
sabendo commeller ao director bons partidos. Mas, se esta 
povoação se roíluzisse aos termos que prescrevem as leis, se 
fosse possivel haver um direclor,qae não abusasse das soas 
dispoi^içueSt e da confiança que fazem d'elle, se em lugar 
de Índios se considerar que são brancos os moradores 
cl'e]la, reconliecer-sc-ha por mui incerta outra vantagem 
aos viajantes mais que a de acharem descanso, viveres e 
refresco, c muito por acaso, uma vez ou outra, alguns in- 
divíduos, que por conveniência própria os queiram servir, 
largando o seu eslabelecimen lo, grande ou pequeno, e a sua 
família, para omprebenrltírera uma viagem que ainda dV 
quelia situação para diante é dilatada, ou mesmo para só- 
menlB se arriscarem a viulenLissimos trabalhos na passa- 
gem das cachoeiras, sendo de mais a mais tiies trabalhosa 
laes viagens em climas lao fimeslos aos mesmos Índios. 
Ouer d estes, quer dos brancos, nenlmm procurará, nem 
80 conservara voluntariamente era situação semelhante, 
senão por força de interesse, e, como o de servir aos via- 
jantes nunca pôde slt uomparavel ao de cultivar as terras, 
ou ao de exlrafiir d'elias os géneros que espontaneamente 
produz a natureza, segue-se que lai povoação, intervindo 
a abusiva coacção que acijna referi, em pouco tempo ficaria 
deserta; não intervindo seria somente ulil a uns, mas inútil 
a outros respeitos, sendo todos Decessariús. 



— 56 — 

19.— Das povoações e dos índios presentemente exis- 
tentes n'ellâs, considero impossivel formar-se a que se 
pretende, e tão populosa como devera ser para corres- 
ponder aos pretendidos fms, pois que é constante o estado 
deplorável de todas, e que entre ellas, apenas em seis ou 
oito se contavam cem homens de trabalho ; sobre o que se 
deve attcnder a sua aversão ao clima, e não menos a que 
justamente tem para a sujeição a directores, que antes 
querem andar vagando, do que persistir n^aquellas em que 
nasceram, que existem em situações agradáveis e sadias. 
Os que habitaram a que se fundou nas cachoeiras eram 
da nação pamas, que habita ainda aquellas mesmas terras, 
vagando como costumam os mais gentios, ora pelo inte- 
rior e terras altas, ora pelas margens dos rios, segundo a 
differença das estações e as guerras que entre si têm. Para 
se fundar com este ou com outros gentios, a desejada po- 
voação será preciso muito tempo, muito trabalho, cuidado 
c despeza de que a final, ou quando cheguem a civilisar-se, 
ou quando se aborreçam, virá a seguir-sc o mesmo fim que 
acima expuz. 

2i).— A navegação pelo espaço que occupam as cachoei- 
ras não é de instantes, nem de horas. E' mui violenta, é 
mui prolongada, exige demora de mezes, exige estação 
própria, exige averiguações e reconhecimentos que não têm 
havido, porque cada um só traia de passar como passaram 
os mais ; e exige por consequência um corpo de gente pro- 
priamente destinada para este fim, não para vagamente au- 
xiliar as expedições mercantis de um, ou outro que acaso 
se lembre, e tenha possibilidades de as tentar, mas para ef- 
fectivamente se occupar na passagem, e transporte do com- 
mercio, sempre perenne. Este corpo de gente poderá pelo 
decurso do tempo constar lambem de indios, depois que se 
habituarem ao clima, perdido o horror que conservam a elle ; 



- 57 — 

perora só deve constar (l'aquella que jà está habituada, que 
é a de Mato Grosso. Esta gente carece de viveres, não ha de 
distrahir-se em os ir buscar a grandes distancias, deve achai- 
os à mão,e por isso necessila de lavradores, e que estes sejam 
homens capazes de trabalho, que conheçam as vantagens 
que podem tirar dos estabelecimentos que formarem, e 
que saibam procurar recurso, e preservar-se quer da in- 
tempérie do clima e das estações, quer do vicio das admi- 
nistrações, sem recorrerem às fugas e deserções, a que os 
índios única e indistinctamente recorrem ; consequente- 
mente carece de homens brancos, e escravos, que são os úni- 
cos lavradores attendiveis n'estes paizes, e com estes é que 
se deve fundar, com estes è que se pôde contar sobre as 
vantagens de uma povoação. Com índios também se virá a 
contar, mas ha de ser com os que a estes se aggregarem, 
com os que por bons partidos e tratamento conservarem, e 
com os que se forem misturando comaquelles, como nas 
-mais povoações e nos mais districtos d'este paiz, tem sue-' 
cedido. Tudo o mais é violento, e o que assenta sobre vio- 
lência não pôde continuar, nem prosperar. 

21.— O Pará abunda de homens que vegetam em uma 
triste choupana rodeada de algumas arvores fructiferas, ede 
outros que nem isto têm, os quaes todos logo que se lhes fa- 
cilitem escravos, logo que se facilitem meios de se estabe- 
cerem, ainda que tenham de indemnisar, e retribuir com a 
importância doestes soccorros, não duvidarão aceitar as 
terras que se lhes derem para cultivar, principalmente 
quando sabem que as que estão adjacentes às cachoeiras são 
férteis, são abundantes de todos os fructos da producção 
d'este paiz, e que o clima não é tão nocivo aos brancos; e 
pretos como aos indios, e ainda a estes talvez não tanto 
pela aspereza d'elle, como pela sua rusticidade e ignorân- 
cia. Mato Grosso, ou Guyabà abunda, ao que dizem, de mes- 
TOMO xxviii, p. 1- 8 



— 58 ~ 

ticos, mulatos, e pretos forros, de que se compõem as com- 
panhias de pedestres» que fazem D*aquella capitania todo o 
serviço que n*esta fazem os iudios, e quando é preciso tam- 
bém o serviço militar, sendo para um, e para outro igual, 
mente próprios pela qualidade do clima e robustez da soa 
constituição. Faltam pois unicamente os meios para pôr 
esta gente em acção, faltam as disposições competentes, e 
nada se poderá executar sem que a fazenda real concorra 
com as despezas necessárias, e sem que Sua Magestade se 
digne estabelecer e regular o plano que se haja de seguir. 

22.— Porque a real fazenda haja de fazer despezas nao 
se segue que haja de fazer sacrificios, ao contrario ellas lhe 
promettem muito avultados interesses, não sò de promover 
e facilitar o commercio, bem como se a cada commerciante 
fizesse os avanços necessários para a navegação de soas 
carregações, com o que vem a promover-se a cultura, e a 
extracção do ouro nas minas de Mato Grosso, onde pela ca- 
restia de preços dos géneros de primeira necessidade è mui 
dií&cil, e está tão atrazada, mas ainda por estabelecer um 
novo ramo aos reaes rendimentos nos lucros dos fretes 
doesta navegação, logo que se execute nos termos próprios 
que referi, porque tacs lucros sem coacção alguma necessa- 
riamente lhe ficam privativos, e devem ser mui considerá- 
veis, ficando os preços dos fretes sempre mais commodos a 
qualquer commerciante do que lhe ficariam em expedição 
própria, que emprehendesse. 

23.— Reduzindo, pois, estes expostos principies a uma 
pratica applicação, parece-me. Primeiro: Que por conta da 
real fazenda se devem mandar estabelecer desde logo doas 
canoas do porte de duas mil arrobas, ou mais se o commer- 
cio as exigir, que de seis em seis mezes hajam de partir 
da cidade do Pará, e navegar até a primeira cachoeira com 
as carregações que a praça quizer mandar, pagando os 



compelenles fretes, destinaodo-se um negociante para cor- 
rer com esta administração, ou arremanlando-se por 
€on irado, como sejam estabelecidos os preços dos fretes 
se não possam alterar. Segundo : Que em Mato Grosso 
se deve crear de novo^ ou destacar dos existentes 
um corpo de GO ou HO pedestres com os seus oHiciaes 
competentes para se estabelecer nas cachoeiras, e na para- 
gem mais coiivenitíDte,provcndo-se de embarcações próprias 
para no decurso do auno etfec ti vãmente se occupar em fti^ 
zer com ellas <fs Iransporics n^aquelle espaço diíBciL Ter- 
ceiro : Que em Villa Bella se estabeleça ou umacanCia do 
porte de duas mil arrobas, ou duas do porte de mil cada 
uma, como for mais commodo á navegação, esquipadas com 
os mesmos pedestres, para ulUmarem ns transportes da ol- 
iima cachoeira até a dita vitia, porque sendo metade» menos 
extensa a distancia que do Para até a primeira cachoeira, nSo 

lige senào metade mi^nos no porte do mesmo numero do 
embarcações* Quarta: Que na primeira cachoeira haja um 
administrador para tomar conta dos carregaçõeSi que sa Ibe 
remetlerem do Pará, c as dirigir ao commandante dos pedes- 

rtís, este a outro administrador que deve haver na ultima 

lehoeira, e este ao da alfandega de Vil la Belta, onde as 
partes podem procurar as remessas que lhe pertencerem. 
Quinto : Que cada ura d*estes administradores deve ser res- 
pim sável pelos i»rejuÍzos, e avaria da carga no distrícto que 
lhe pei*leiicer, o os cabos das embarcações durante as via- 
gens, mas que toda a que se achar avariada sem se saber, e 
Sã fazer certo onde se avariou, como, quando, e se julgar que 
mo houve causa bastante, pague o seu valor o ultimo que a 
entregar n*este estado : pois que a não es lar a culpa n^elle 
estará, pelo menosa ile omissão em a não ter visto, e toda 
À vigilância deve haver, afim de evitar taes prejuízos, 

jie podem mleiranicnle embaraç^ar o commercio, desgos* 



— co- 
tando os commerciantes, ainda que alguns serão indispen- 
sáveis, como em toda navegação saccede, mas por isso mes- 
mo se deve fazer certa» e publica ajusta causa d*elles. 
Sexto : Que os fretes das mercadorias se paguem no Pará, 
os da conducção até a primeira cachoeira ; e em Mato 
Grosso os do transporte d'esta até a villa capital, regulando- 
se os primeiros pelo estado dos que se pagam nas mais nave- 
gações do Amazonas, e os segundos em Mato Grosso pelo 
que se arbitrar, segundo o calculo prudente que se formar a 
respeito d'elles. Sétimo : Que todas as despezas do custea- 
mento de embarcações, navegação, e transporte até a pri- 
meira cachoeira se façam pela junta da administração da fa- 
zenda real do Pará, e todas as mais d*esta cachoeira para 
cima pela provedoria de Mato Grosso, pois que é seu o dis- 
tricto, a utilidade que ha de colher muito maior, e que 
aguas abaixo nas embarcações que hão de vir buscar carga, 
em lugar de navegarem em lastro, podem trazer prompta- 
mente os viveres, e assistências precisas, sem íncommodo 
algum. Oitava : Que, acudindo mais redundância de carga 
no Pará, se augmente gradualmente o numero das embarca- 
ções, e da mesma forma se reforce o destacamento das 
cachoeiras, e se augmente o numero das embarcações que 
devem fazer o ultimo gyro. 

24.— Estabelecida, e facilitada a navegação, é preciso 
ainda promover a facilidade das remessas em taes nego- 
ciações, procurando-se-lhes a possível segurança no em- 
bolso, e cohibindo-se por todos os meios possíveis as 
extorsões, a fraude, e a má fé, a que o commercio nunca 
resiste, e menos em semelhantes distancias. O que mais 
efficaz me occorre a este respeito, é que nas referidas em- 
barcações, nem a titulo de mimo, presente, ou qualquer 
outro, se prohiba com as mais rigorosas penas embarcar 
volume algum, por pequeno que seja, e por grande que seja 



- 61 - 

a pessoa a que se dirija, sem que pague o competenle 
frete. 

Tudo o que se apanhar fora das lislas seja tomado, mas 
pagando frete tudo seja recebido, pois, embora possa haver 
concurrencia de commercio extranho, já não prejudicará, 
ou excluirá o da praça. Parece-me também que aos go- 
vernadores de Maio Grosso, como a todos os do interior 
do Brasil, deve ser prohibida a faculdade de conceder licen- 
ças aos combefeiros, que sobem dos portos de mar com car- 
• regações, e aos do próprio paiz, que as recebem d*aqueiles, 
n*uma palavra a todos os que têm relações de commercio 
em um porto de mar, para se passarem para outro sem ou 
ajuntarem ordens e licenças de seus credores, e consti- 
tuintes, ou sem mostrarem legal e competentemente que 
já liquidaram, e solveram as contas que tinham com elles. 
Parece-me mais que a respeito das cobranças no interior 
da America se devem accrescentar ás disposições gcraes das 
leis as que a differença de circumstancias faz urgentíssimas, 
para que o commercio floresça, e continue sem as interru- 
pções a que está sujeito. 

25.— Todas as disposições indicadas no § 23, sobre o 
estabelecimento da navegação, se devem reduzir de prin- 
cipio ao que fôr meramente preciso, para que o commercio 
possa aproveitar-se quanto antes de tão útil providencia, 
mas logo depois se deve cuidar em reduzir a ordem, e con- 
solidar a mesma navegação com os estabelecimentos ade- 
quados, que sem tempo e sem trabalho elTectivo nas ave- 
riguações necessárias se não podem regular. 

26. — Para o trabalho pratico da navegação no espaço 
de cachoeiras basta qualquer oílicial, ou dos da tropa de 
Mato Grosso, ou dos da d'este paiz, que tenham feito algu- 
mas viagens ; mas para examinar, regular e estabelecer o 
mais commodo, fácil, e breve que se deva seguir, o nu- 



- 62 - 

mero de homens e de cavalgaduras, o nmnero, qualidade 
e porte das embarcações e dos carros, as situações em que 
se devem postar, as eslradas que se devem abrir, não basta 
nenhum d*estes, e se precisa outro de conhecimentos e 
actividade fora do commuin. O que supponho ter estas 
qualidades, e está mais à mão de executar diligencia iSo 
importante, é o tenente coronel Ricardo Franco de Almeida 
Serra, actualmente empregado em Mato Grosso. As pri- 
meiras averiguações devem dirigir-se às cachoeiras, em que 
se costumam passar as embarcações em varadouros por terra, 
para examinar se ha estações em que se possam passar a 
canal, se tem contiguos alguns igarapés, ou ribeiras, que 
limpando-se facilitem mais a navegação, ou se é absoluta- 
mente impedida, para em tal caso se abrir estrada própria, 
se fazerem ranchos, se prepararem carros, ou carroças, e 
se ajuntarem as cavalgaduras, que de Mato Grosso aguas 
abaixo se conduzem com brevidade e facilidade, anticipan- 
do-se o trabalho de limpar de iMato Grosso porção que íôr 
bastante para pastarem. As cachoeiras que ouço reputar 
por mais difficeis e trabalhosas são as que chamam do Salto, 
do Giraú, do Ribeirão e da Bananeira, mas nem todas 
exigem varadouro senão em certas estações em que os rios 
tèm mais ou menos agua. As outras mais commummente 
ouço que tém canaes, e no Diário que jà accusei vejo que 
descontados os dias de demora em descarregar, e carregar 
as canoas, em as varar por terra, em as concertar, em 
abrir estradas e fazer ranchos, para apurar somente os de 
navegação elTectiva ; vejo, digo, que estes são mui poucos, e 
em consequência julgo que feitas as opportunas providen- 
cias indicadas em muito menos será praticável, e a pouca 
gente não tendo outro serviço em que se occupe. 

27. — Para o estabelecimento de povoadores e de po- 
voação deve preceder o examo, as averiguações, e os esta- 



— 63 - 

belecimentos acima requeridos, pois qae aquelles se diri- 
gem, OQ devem dirigir a sustentar e consolidar estes. Â 
situação que todos uniformemente dizem ser-a mais própria 
para se estabelecer a povoação é a da cachoeira do Salto, 
onde houve a de que jà fallei ; comtudo para os fins indi- 
cados pôde ser que não seja a mais própria, e pelo menos é 
certo que n'aquella situação não serve nem para o primeiro 
deposito, nem para o ultimo; em preferencia a tudo, acho 
eu que se deve procurar a mais sadia, e depois que também 
preencha alguns dos muitos fins úteis para que deve servir, 
e como por ser mui grande a extensão das cachoeiras, não 
é possível que sem muito tempo se povoe toda, não devem 
lodos os colonos situar-se, e formar os seus estabeleci- 
mentos nas imniediações da povoação, mas se devem dis- 
tribuir por todos aquelles postos onde houver as mudas de 
gente e d'embarcações, para evitar transportes dos géneros, 
e soccorros precisos, obrigando-se poréin os que povoarem 
qualquer dístríctoaque sempre as habitações estejam a 
distancia de se prestarem mutuamente os que carecerem, 
assim no caso de serem acommettidos por nações de gentio, 
como no de ruptura e invasão de castelhanos. 

28-— Em todas as povoações que se tftm fundado n'este 
Estado, principalmente nas de Mazagão e Yilla Vistosa, se 
commetteram grandes erros, e por motivos d*elles ficaram 
inúteis, ou quasi inúteis, as consideráveis despezas que 
empregou a fazenda real, tanto assim que a segunda está 
com três ou quatro únicos casaes, e a primeira com menos 
de metade dos que chegou a ter. D*estes erros, depois do 
de obrigar homens que o interesse só basta para attrahir, 
foi o maior os das péssimas situações em que se fundaram, 
que por doentias são tão inhabitaveis que, se Sua Magestade 
fôr servido permittir a liberdade de sahirem d*ellas os 
que qnizerem, parece*me que um só não ficará. Outro foi o 



« 64 — 

de empregar em avultadas rações para fomeolar extorsões, 
e roubos, em casas, e outros edifícios supérfluos ; de prin- 
cipio o cabedal que empregado em escravos, para se lhes 
ficarem em poucos aunos restituiriam, fícando-lhes com 
que comprar mais, e com que fazer casas. Estes exemplos 
refiro agora para que se fuja d*elles na fundação da po- 
voação de que trato. 

29. — Já com este fim disse eu que devia preceder tem- 
po, e os estabelecimentos relativos à navegação, porque os 
exames, as averiguações, e a demora que estes exigem, 
servem tambeta para se descobrirem as situações mais con- 
venientes. Semelhantemente disse já que a coacção não 
devia entrar n*estas disposições por modo algum, e disse o 
que bastava para attrahir colonos. Debaixo dos mesmos 
principios, parece-me que se deve adiantara cada casal seis 
escravos de um e outro sexo, as ferramentas que precisa- 
rem, e os géneros, que quizerem para seu sustento, e de 
sua família pelo primeiro anno, não excedendo termos e 
limites razoáveis, tudo á escolha e convenção de preços 
dos mesmos colonos, com condição porém que a impor- 
tância total doestes soccorros (exceptuada somente a do 
transporte, que deve ser gratuita e á custa da fazenda real), 
será paga á mesma real fazenda por cada colono na parte 
que lhe pertencer em cinco annos, por três annuaes, e 
iguaes pagamentos depois de passarem os primeiros dois 
de espera, mas cora expressa inhibição d*alheiar estes es- 
cravos, ou qualquer outra cousa, por nenhum pretexto, 
nem mesmo pelo de dividas, verdadeiras ou phantasticas, 
emquanto aquella não tiver sido paga á real fazenda. 
Parece mais que o auxilio d*escravos se conceda só aos pri- 
meiros doze que se olTerecerem, sendo casados, mostrando 
que são lavradores, e não terem crimes, porque estabeleci- 
dos estes facilmente se atlrahirão outros sem tanto incom- 



— {\n «- 

modo mais que o de terras, o de empréstimo como fica 
dito, de ferramentas, e géneros pelo primeiro anno, e a 
passagem gratuita, o de moratórias aos que tiverem dividas^ 
por certo numero de annòs, a liberdade d*ajustarem, e con- 
servarem em seu serviço os casaes de índios que volunta- 
riamente os quizerem acompanhar, a isenção de recrntas 
para seus filhos, a do serviço mesmo auxiliar, excepto em 
defesa do próprio districto, a liberdade de vir à cidade, ou 
a qualquer outra parte, tendo precisão, e não ficando o es- 
tabelecimento em desamparo, a de o largarem depois de 
formado, e depois de paga a fazenda real, achando quem o 
compre, e também os escravos, a que senão deve conceder 
a sabida por não atrazar as lavouras, acho eu que sem in- 
conveniente se podem geralmente permittir aos que qui- 
zerem povoar aquelias terras, determinando-se penas pro- 
porcionadas, e limites justos, para que se não abuse, senão 
illudam, e inutilisem semelhantes graças, as quaes são a meu 
ver bastantes para que qualquer possa formar o seu estabe- 
lecimento, adiantados por empréstimo os precisos meios. 
Formados estes, cada um pelo decurso do tempo formará o 
de casas na povoação, e no lugar que se lhe indicar, con- 
forme as suas possibilidades e o seu capricho ; e a fazenda 
real só terá de fazer o sacrificio do transporte dos colonos, 
o de uma ou duas igrejas, conforme as distancias, o das 
côngruas aos vigários d'ellas, o de construir e manter um 
hospital com a sua competente botica, e os oíficiaes preci- 
sos para serem n*elle gratuitamente recebidos, assistidos, 
e tratados os que se quizerem curar, emquanto não tiverem 
meios de fazer em suas casas, e o de ranchos competentes 
aos primeiros colonos que se houverem de estabelecer em 
situações determinadas para a sua primeira hospedagem. 
30.— Ainda que não sejaiacil avaliar ao justo a impor- 
tância dos sacrifícios e das despezas, assim de costeamento 

TOMO XXVIII, p. I 9 



- «8 ^ 

ià navif a^, úmm úm «impuiitimas qoe teta de (a»r na 
coDÍorJBidade exposta á fazenda real, assàâ se deixa ver que 
Ekâo pòddSâi* aviilladâ, niin digna da inaiur aiUem;ãri, mor- 
menta quafido é de or^rquaoi rendimentos dos freletjl 
a (^ de ler protluzido lio ccinsidt^ravcl, qm baste pan 
juaotor e adíanUt iis|in>poslosestabeleciiiiGnti33* Koso&l-^ 
wloa, flUQierúB 4 e ã, ^pposto que não sè possâ eomar 
com precisio, como Jà dsaie» isait bg póds romabdeer esiâ 
Terdade» e qu6 as despesas ainda fíram titínos sensivas, 
taolo por nao ÈiiigiroiB pi ojopU) e immedialodôsemtKtUOt 
eouiQ par ser índispt^iisavf l i|U€ para cilas se concorra ao 
mmmú laiapo p^lo Pará, peto Utn ?it'gro e por Mãlo (kosso 
com eí g6fi6ros, & com os maios próprios de cada pafê] 
ma/B qia^udo aâsim oão seja, quando a f^tzerida a^aJ faça o 
Sâailkio d'êâ8& ia€êJBa« é de maior quantia, nunca tlcari 
prejudicada, logo que a nawgíiçào e o commcrcio proslga, 
logií qu€ oâ fiokioos u as suas hivouras príisperenu 

Ul.— £âíãe pôfém iião será jàmais it mtu parecer. A 
fuiada real não d^ve faziir mais sacríficioi quê os indis- 
pdQsavt^ii que mftíríf o [K^sani ainda ai:crcscer, e, quando 
se consídaFe Wk adiado do m supportar, melbir è applicar 
a imtH»rUiiicia 4'€lle& à hypolhec^i de ihiI m muito maior, 
para âdiaotar por sanidliaDii MNiitno^ tantos mato 

colonos e «slabt^lcQmetilos. u , í<»mj inimigo d^ettes i 
liiÍJÍlnÉii% e a mais padero» causi aulre muitas outras f 
do deu attãm, é a preguiça d^elles* Acaso alfuiii se êm^ft- 
Lr^qué tralAlhe por adquirir, o por adiantar os seus liens. 
mvx que a necessidade o obrigiii^f e tstii necessidade é a 
em ^w prtMâodA se oonititiwn pela de indomnisar a raal 
faxanda^ e pela de pagtr a sous credores Onda a espera, 
qi}e o prívifegio do estabelecimento lhes eonEnà. Dt) outra ^ 
lèfVEa não farão mais qaa T0g(»&r inutilmente. ■ 

JI2«— á ccmeorreaciã de lun miniiliro o'^i»tiei estatifsle^ 




— «1 — 



dtttiítai pâraca na^iaiia, e oi que eitlo Wbte i mâô de 
8«rêm ittpr^ados sao : o« o qm servir ile ciiíTidor em 
Eia N«gro, figlatido j>rGTido mie lugar, que por ora mk vago 
dâ muitas ao nus, ou oê que ierfirem am Mato G#oé96, 
lariU) par sôrem m mm pri^iíuiof 6setid»stncto,^mo 
piHTHais nos reôptíoUvos Iug&rã3 não leriõ tanloqae fazer, 
M» láõ imporlante que sãja praciso augmQQtar mais des^ 
piítt i^uio uuiro de oâvo; mas este mioiMro, ({lalqtiêr qm 
seja, parijcc-uoe qm m oao Jovu ititromalter uo que Rir 
d^ conipt^iuiHMatte diversa prolissíEQ, mas sòmeftte ser eii* 
Êarregado de adrainisU^ar jusUça, manter a ordem èrega- 
laridade, assim mire os habitantes como oa navegação e 
^commerdo, o roger a ztilar o que perleflcer á fazenda real, 

íveriittdosfi toda a õoulestaçSf> quo poâ&a miftcilar-se com 
a aflteiat miliUtr que fèr «ncarregado da» averiguações an- 
ticipadas, e da exocução do ptano respectivo à navfgaçlo 
no espaço de cacboeiras. 

33.— Como este uu qualquer «iutrõ plano ha de vir a Sít 
eiectitãdo na extrema de dois govaruos de igual o&raetef , 
e inílependenk^s, o que por certo sorá nSo pequerio motivt» 
ilf implicâncias reciprocai, e de pretei£ti>9 aosagênles s^-^ 
haUtínios, para encobrir as suas prevaricações e as de^f^ 
dtm que cj^sliimam cornmellori parece ainda mais aeceâ- 
iariu> que Sua MagcstaJo se diguo pn^screver a cadu um 
oprooedimento qua dôvasflpir, para que resulte a una* 
nimidade e uniformidade de esforçois que é ftempre pr6cÍ90, 
í; muilo mm quando ^% providencias do throtso nioie 
pod«*m soiíciíar, nem podem chegar tão promptamtntô 
como em sernnlhantea circumsUncias m rêquef* 

34.— Tíiiiibem é mais que tudo preciso prevenir lodo o 
preloato ás eonteslaçui^s dos visinbos caslelbaôos, que por 
tmtú flão oltiarlo com índitTerença para êiiabeleeimentos^ 
que direclam^anie uôs procuram flío 96 grafíde melbofft* 



— G8 - 

mento ao commercío e cultura d*estas capitanias, mas 
que as põem nos termos de se prestarem promptos e mú- 
tuos soccorros, para frustrar quaesquer intenções e esforços 
(l'elles« quando pelas expressões do art. 18 do tratado pre- 
liminar do l"" de Outubro de 1777, que são as mesmas do 
art. 19 do tratado de 1750 in /ine,.não estivessem auctorisa- 
dos a obstar. Á margem oriental do Madeira atè a sua junc- 
çSo com o Mamoré, e a oriental d' este até se incorporar 
com o GuaporéySao nossas sem conteslação. O ponto d*onde 
se ha de tirar a linha divisória de £. 0. para o Javari não 
está determinado, e, ainda que se diga que deve ser abaixo 
das cachoeiras, uma vez que os estabelecimentos que esta- 
vam feitos deviam ficar salvos, e que jà os tivemos na ca- 
choeira do Salto, que é a segunda, parece inquestionável que 
pelo menos d* cila para baixo nos deve ser privativa a nave- 
gação do Madeira, e que,a muito pretenderem os castelhanos, 
não poderão pretender mais do que a navegaç/ão commum 
d'aquella cachoeira para cima; digo mais porque não tendo 
taes castelhanos precisão alguma de descer pelo rio da Ma~ 
deira desde que vem junto com o Mamoré, senão para nos 
fazer mal ; e sendo-lhes somente preciso subir o Mamoré, e 
Guaporé, para as communicações das suas povoações, parece 
inquestionável pelo espirito, epela letra dos arts. lá e 16 
do ultimo tratado preliminar de limites, que o ponto da 
juncção do Madeira com o referido Mamoré deve ser o de 
que parta a linha divisória para o occidente, e parece mais 
inquestionável que senão deve perder tempo em re- 
forçar pelos da arte os obstáculos collocados pela natureza, 
antes que aquella ambiciosa nação nos previna fechando-nos 
aquella via de communicação, e de soccorros, e para que 
nem possa inquietar o Mato Grosso, sendo justo receio de 
que as suas forças sejam interceptadas, e diíBcilmente soe- 
corridas, nem inquietar os nossos estabelecimentos do 



— 09 — 

Amazonas, e do Rio Negro, a favor da entrada qae tem 
franca, assim pela descida do Rio da Madeira, como pela do 
Solimões. 

35.— Em muitas situações dos vastíssimos domínios de 
Soa Magestade sem o íim de beneficiar os povos, e de pro- 
mover o commercio, e riqueza d'elles, mas só pelo da con- 
servação dos mesmos domínios, tem sido indispensável o 
sacrificio de muitas e mui consideráveis despezas da sua 
real fazenda. Na fronteira d*estes, sem mais trabalho que 
ode providencias opportunas, eo incommodo do avanço 
de algumas pequenas sommas, a presentemente horrorosa 
passagem das cachoeiras se converterá em uma perenne 
fonte de riquezas para o erário, e para o publico ; servirá 
de padrasto inconquistavel aos visínhos que nos rodeam, 
de laço á intima união d'estas duas remotas colónias, de 
vigorar, de consolidar, e de fazer emfim florescentes, e res- 
peitáveis os estabelecimentos de uma e outra. 
Pará, 4 de Agosto de 1797. 

D. Francisco de Sousa Coutinho» 



- 70 - 

EXPLORAÇÃO DO RIO PARAGUAY 

E 

PRIMEIRAS PRÁTICAS COM OS ÍNDIOS GUAYGURUS 

Illm. 6 Exin. Sr.— Ponbo oa maode V. Ex., p9a*aqiie 
hajam de chegar ao real conhecimento de Soa Magestade» as 
cópias inclusas, onde se conlèm as derradeiras noticias qae 
se me participaram do presidio da Nova Coimbra, assim a 
respeito da exploração ultima que mandei fazer sobre o rio 
Paraguay até quatro dias mais de boa viagem para baixo, ou 
para o sul do mesmo presídio ; como concernentemenle ás 
primeiras praticas que já se tiveram em conformidade das 
ordens do dito senhor, e das consequentes instrucções mi- 
nhas com a valorosa nação dos Índios guaycurús ou cavai- 
Iciros, que hahiUun por junto d'tiquellas margens em 
grandíssimo numero; resultando d^esti communicação uns 
princípios decommercio que, sendo possível aperfeiçoar-se, 
bem se vê que elle poderia vir a ser ainda da maior utili- 
daílcaofim principaluíMitede conservar e mesmo i^stender 
os adjacentes territórios qutí pertencem ao real dominio 
porliiguez, cujns por aquella parte terminam o Brasil, ou 
bem parece que deviam temiinal-o. 

\d falta, pois, das reaes resoluções que a V. Ex. lenho 
pedido por vezes para haver de regular-me sobre promover 
ou não com mais eíTicaria aí|uelleestabelecimento 'sendo, já 
se vê, preciso no primeiro raso que paro o d to effeito se 
consignassem meios adquiridos), me tenho por agora re- 
duzido a executar sómenle providencias que não occa- 
sionem mais avultado dispêndio da fazenda real ; e na ver- 
dade que me tem sido necessário usar dos maiores esforços 
de economia e de industria suggeridos pela urgente situação 
presente, em ordem a que a sobredita empreza, depois de 



- 71 — 

C0oiiásrafn)l processo qao já tem, nSo seja abainJonadâ 
por falta dos expressados meios até que Sua Magestade se 
digne fiiaimeote determinar n'esta matéria o qne fõr ser* 
vido, para com a devida pontualidade eu lhe dar execução. 

Deus goarde a V. Ex. muitos annos com muito saúde e 
felicidades.— Villa Bella, 10 de Janeiro de 1777. — Illm. 
e ExxsL Sr. Martinho de Mello e Castro. — Luiz d'Albu- 
fkkerqne de Mello Pereira e Cáceres. 

Diário da expedição que ultimamente se fez desde o 
presidio da Nova Coimbra pelo rio Paraguay abaixo, por 
ordem do governador e capitão general das capitanias do 
Mato Grosso e Cuyabà, Luiz d*All)uquerque de Mello Pe- 
reira e Cáceres, aonde principalmente se relatam algumas 
conferencias que se tiveram pela gente da mesma expe- 
dição com os Índios guaycurús ou cavalleiros. 

Sr sargento mór, commandante, Marcellino Rodrigues 
Campoiies.— Em observanci.i das ordoiis do Ilha. e Exm. 
Sr. Luiz d'Álbuquerque de Mclio PtT iri e Cáceres, foi 
servido deslinar-mo ainda à confluência doeste rio Para- 
guay até ura estreito ou f^cho chaíiiado do San tome, que 
dista d*este em que nos achamos fortificados três dias de 
boa marcha, conforme ensinuam as ordens do dito senlior, 
as quaes Vm. foi servido communical-as antes da partida. 

Fez Vm. aproraptar para esta diligencia quatro canoas, 
graodes, e um batelão, todas guarnecidas das melhores 
armas, que havia no presidio, e os melhores soldados da 
guarnição, assim dragões, como pedestres, três auxiliares 
e ordenanças que com os trabalhadores completaram o nu- 
mero de ^ 5 praras, em que entram os oíficiaes, levando 
também a capitanea ama pecinha de meia libra montada 
para melhor delesa de algum acontecimento guerreiro que 
se ofiérecesse. 

r«MM Ym. a bo&ra de entrogar & commsBdancia da 



dita capitanea, c a dila de oulra ao ajudante de auxiliares, 
que serve da praça, Francisco Rodrigues Tavares, e a de 
outra ao cabo de esquadra de dragões José Vieira Passos, e 
a de outra ao soldado dragão José da Fonseca Fontoura, e a 
do batalhão de espia a um sargento de ordenanças Manoel 
Pereira da Silva. 

O que tudo assim promptificado, demos principio à nossa 
marcha em o dia 3 de Outubro de manhã, eproseguindo 
n'ella todo o dia com accelerada marcha não encontrámos 
novidade digna de allenção, e o mesmo aconteceu no dia 4, 
que era o segundo da viagem. 

A horas competentes no dia 5, que ora o terceiro da 
marctia, a continuámos, fazendo eu reforçar o batelão de 
espia com o soldado dragão Manoel José Corrêa e um 
soldado da ordenança, por razão de nos irmos engol- 
phando era caminhos mais arriscados, e com eíleito não 
deixou de aproveitar o dito soccorro, porque, sendo 
10 horas do dia, avistou o dito batelão no voltar de um esti- 
rão de rio que no fim d'elle andavam três canoas de gentio, 
e fazendo com a bandeira signal á capitinea, como tinha 
por ordem, se pôz em diligencia de lhes dar caça, por ver 
que em uma, se navegavam dois indios, e nas duas outros 
dois ; todos com a maior violência seguimos o mesmo al- 
cance, porém como era longe e os ditos indios se atraves- 
saram o rio e se embarcaram por um sangradouro de 
campo, e vendo eu isto, fiz chamada ao dito batelão, por- 
que não succedesse cahir em alguma emboscada dcs que 
costumam assim fazer os taes indios silvestres ; e, como o 
fundamento das ordens era mais solicitar a sua amizade do 
que offendêl-os, sem mais obrigação proseguimos na mar- 
cha ; e immediatamente observando muitos e continuados 
signaes de fogos, que comprehendiam muitos e dilatados ter- 
ritórios, assim alagadiços como das campanhas dos cavallei- 



- 73 - 



rús, de uma e outra parlas sendo a sua primeira origem do 
lugar dunile se reíogiarim os itidios que, se viram primeiro 
em meio de um estirão grande» se avistaram em pequena 
di^siíuicii de puulano, como encobriudo-se, uma chusma de 
índios embarcados, que para melhor reconhecôl-os cortámos 
quasi fronteiros da outra parte do rio; o que vendo Oi^ 
dilos se dividiram em duas partidas, uma seguindo para o 
rio acima, e outra para baixo, como que me dava a enten- 
der que nos intentavam acommatter para um e outro lado ; 
como estava roto o segredo da viagem recommendada nas 
Qrdens, com estes apparecimentos cora baudeiras largas 
nas embarcações» mandei locar caixas, com cujo estrondo 
retrocederam as suas marchas e se tornaram a uDir no 
primeiro lugar, porém à nossa vista expediram uma canoa 
í'om quatro indios para rio abaixo. 

Logo fiz enrolar bandeiras, e cura uraa branca se Ibes fe« 
sigftal para vi rema falia, poréra, persistindo indelennhia- 
dos, porque nuo llcassem na persuasão que em nos era co- 
bardia o nuo procural-us ; pois lambem nos faziam signi! e 
cUamada cora duas bandeiras, mas o lugar em que estavam 
era impenetrável ás nossas embarcações, pttr razão dos 
grossos e euimai-anliadns capins de que o dito la^^o era pd- 
voado ; em altenr5o do que fiz reforçar de mais armas e 
gente a canoa do cabo de esquadra de dra}íoes José Vieira 
r^issos, t^ cora alguns linguas o destinei a margem do rio da 
parte il^nde os dilos indios se achavam desfeados ; alii 
lhes tez signal para virem á falia, ao que logo obedeceu uraa 
canôi» deixando as ouli as em lintia ao pè de ura caponete 
imilaridõ a (orraalidaLle em que nos estávamos ; e veiu cora 
etteiloaeanõa e fazendo alto era dislancia quo o chumbo 
(!'anaa osnfio ofTendesse, respoutleu ás perguntas de nosso 
liniíua, pelo idioma e linguagem da terra: Que capitão Guay- 
curu estava bom, que os castelhanos eram bons, que os por- 
TOMO xxvni, p. L 10 



\ Dâ0 tirestíTatu, que tiotia^ espiogardHS, (jue eUt^ 
tính&m Vãcca, c^e tinhani muitos cavallos, e muitos carn&L 
vo$:$e iraiiamus aguardente e facas,a tuílo lhes respondia o 
Ikigua qae o capitão tudo trazia para ltií*s dar, que chagas- 
dem; alo foi possível redii2il<i& a diegar^ mas anti^ viraado a 
retaguarda marchoti corno queai ia de aviso á terra, Ccandí) 
os outros existeates aomBsma lugar, pur euja causa rtflro- 
cadeu para nossa parte o sobredita cabo de esquadra, tó logo 
pelo me-smo lhe mandei por d'outra parte uma ara^íslra do 
que tnixiaiuos para os prendar : assim se executou, pondo- 
se-ítie um barrete encarnado, utn espelho, duas veranicas^ 
uma faca, um frasco de aguardente ; tudo amarrado em ura 
páo alto que biles viam, e fazeiído-stvlhe chamada e mos- 
traudo-sõ*lti!e, se tiruu a embarcação para a noisa parte, Po- 

frém elles não se resolveram a vir conduzir o que sa lhes 
afferecia. 

Sendo já perlo da noite, appareceu da parte d 'onde Unha 
ido a primeira caiiúa, e falluu, três canoas, a primeira com 
seis oti sete Índios em pé, a segunda com quatro, a terceira, 
que ficou meJa encobería, se não distinguia com quanto flo- 
rem postas efll linha a da vaoguanla, que se avizinhou miis 
âO primeiro fez chamada em lingua liespanhola ; delermi- 
nou-sô ao sobredito cal>o de esquadra de dragões que fosse 
ouvir o que queriam, e lhe mandou dizer que nós queríamos 
amizade com o capitão (iuayeuruque lln- trazíamos mimos : 
tósim o executou, convidando-os frequentemenlea que che- 
gassem a receber, o que alli se lhes tinha posto; jjzemin 
aceitação, dizendo que iriam buscara agradecendo, que Dhus 
lhe pagasse, e despedi ndo-se ate amanhã ; asseverando qiiâ 
Unhara muitos ca vai los, muitos gados, muitos carneiros ; e 
repetindo a pergunta se tínhamos aguardente, facas» praia, 
rendas, ele., e dtíspediDdo-se se retiniram e os nossos tam- 
bém, deixando ficar o sobredito mimo ; dizem alguns que 



-^ Ih — 



ao longe viram passar fârioscavalleiros o qtje ea não ?U 
aífidaque Bmm indica um grande estrondo que houve noa 
charcos defronte, que pareceu de cavallos arraiados à 
agua : alli ptrnuitàmos no pautauo da borda do ríOi porque 
êe ÍNs não ínlroduzíssem que nos portamos, mudávamos à^ 
ftilio. 

No dia seiSi quarto da nossa viagem ao amaubecer, repab 
rároo^ quo ainda ^^xísliaai no lugar aonde se puz o sobre- 
4ilo mimo, e como a nossa desGoqfiança era de que aquella 
lio, è iiayaguà» e não gQaycurú. assentámos em proseguir 
a nossa derrota na consideração de que seriam talvez mam- 
purá do dito gentio em ordem a engrossar as suas forçiis ; 
o que imlícou os rL^spectivos signaes de fugir, e o aviso que 
à nossa visla expediram para rio abaUo, como também nãa 
haver tradição alguma dos sertaoislas antigos, de que os ca- 
vai leíros usassem em tempo algum de canoas para os seus 
embarques. 

Com effeito, pu^emos-nos em acção de marcha, mas autes 
de o fajermos mandei o batelão de espia a ver se com eíTeilo 
líUês tinham de oúite levado algum cousa, porque a largura 
do rio não deixa alli percebt^r com % vista, o que e^tà da 
outra |)arte ; foi, o deu parte que tudo eslava e que lhe ap- 
jmrecéra uma canoa mostrando umpaono branco, mas que 
remava em retirada, ilizendo que logo vinha. 

Coolinoámos a nossa marcha a examinar uns morros qua 
se vfam para diante ao parecer perlo j porém gastamos 
qiiasí até o meio-dia a li chegar, antes do que pelas dez ho- 
ras pouco mais ou menos avistamos no panlano perlo do rio 
uma canoa coar dois índios^ e, sem fazer mais caso d*elles do 
que corlejal-os, fomos indo para os morros, que jà pouco 
distavam p aos quaes chegámos e observámos sor um morro 
mo maito grande, qyasi escalvado, situado da parte dopo- 
0nle, o eu apartado da margem do rio mais de tiro de mos* 



— li) — 

quete, fazendo pela mesma parte do rio algum comprimento 
continuado para a parte do rio abaixo, forma circular para 
o seu fundo, e para a parte do rio acima se une com outro 
morro mais pequeno que finalisa na margem direita do rio, 
o qual visto de fora, com os pequenos matos que tem, faz 
uma formatura chata, porém examinado o seu interior se 
fé ser o dito morro pyramidal e todo de pedras inúteis, es- 
cabroso e o seu mato sem poder servir para obra alguma ; 
o morro maior lhe fica muito eminente e faz no alto a for- 
matura de três cabeças ou divisões, formando um espigão 
para a parte do poenle : da mesma parte, seguindo rio 
acima, está um pequeno monte que se divisa ser de pedras 
com algum inferior arvoredo, e em pouca distancia d'esle em- 
parelha outro maior, mais povoado de arvoredo, que sô ser- 
virá para lenha; este chega ao pântano, porém todos em li- 
nha pela resaca do rio ; a largura do rio de frente do morro 
principal níio c muito dilatada ; me persuado se vencerá com 
tiro de peça, porém acompanha da parte de lésle ; toda é 
raza, e supposto que presentememte o rio estava igual com 
o barranco, bem se conhece que a dita campapha alaga em 
distancia grande, o melhor o certifica vendo-se ainda en- 
trar em partes pelas margens da volta do estirão agua, na 
dita campanha em repetidas partes ; para a parte do rio 
acima, em distancia de um bom tiro de peça, tem uma ilha 
bastantemente comprida para rio acima, que, supposto pre- 
sentemente vai descobrindo algumas áreas, toda alaga, è só 
é povoada de poucos sarans e capim. 

Para a parte do rio abaixo se descobre um estirão de rio 
dilatado, porém o que demonstra, que os seus lados todos 
são pântanos ; vè-se o mesmo rumo do sul para d'onde 
corre o rio dos morros pyramidaes, e em disUmcia grande 
d'esles primeiros ; e ficando eu na* duvida se seriam ou 
não as que formam o fecho, examinando um paraguá que 



- 77 - 

ia por ser o mais Bftóderno que por ãllí tinha passado» 
disse que aquelles morros ficaram fora do rio e nâo nas 
soas margens, feitos os sobreditos exames e correndo a vis- 
ta pelas campanhas que se avistam, achámos que o interior 
da parte do morro parece território íirme viajado de ca- 
valleiros, de que achámos signaes ao pé do dito morro ; 
porém as sobreditas campanhas, ao parecer todas infru- 
ctiferas, sem qualidade de mato algum, porque só o que 
bem as povoa são carandas. 

Concluidas as sobreditas obrigações, passámos á ponta 
da ilha para jantar, e logo no atravessar do rio avistámos 
uma fileira de indios da parte do poente, entre o pântano 
que forma o rio na sua margem ; portámos na dita ilha e 
logo lhe fizemos chamada, porém não obedeceram ; alli 
estiveram dilatado tempo emquanto se fez de comer, depois 
do que seguimos vi:igem para cima, e também os ditos in- 
dios desappareceram, e fizemos n'aquelle dia pouso sem 
mais novidade. 

No dia 7, que era o quinto da nossa derrota, proseguindo 
no regresso da viagem, passando pela paragem d'onde se 
fallou com os indios, o ajudante Francisco Rodrigues Ta- 
vares diz que avistou uma canoa dos ditos indios, e eu 
avistei pelos matos dos carandas, dois cavalleiros seguindo 
o rumo de rio abaixo, porém observámos que o mimo que 
lhes deixámos, já não estava aonde ficou, e, como elles não 
davam mais demonstrações do que fugir da nossa communi- 
cação, fomossem demora continuando a viagem : ao anoite- 
cer portámos em um pantanal na margem do rio para pou- 
sarmos, quando o batelão da espia divisou ao bnge no 
mesmo pântano uma quantidade grande de indios, que na- 
vegavam para o centro do dit») paniano,presumpção certa de 
que o seu intento era procurar offender-nos em alguma 



- 78 — 

das soss costnmadas ciladas ; allt memo fiiemos pousada 
eom as deridas caotelas. 

No dia 8, que era o sexto da nossa retirada ou viageBi, 
principiando a nossa marcha a pequeno espaço de tempo, 
em om terreno, que appareceu da parte do poente, avistá- 
mos bastantes indios de cai^allo, chegando-se à margem do 
rio, portà:nos defronte dos ditos em o pântano por não ba^ 
ver ilba ou terra em que o fizéssemos, e, observando os $e«$ 
movimentos, vimos que se apearam alguns, e chegando^se 
ao barranco do rio, um fez sua chamada, e perguntando~lhe 
eu pelo capitão, á^ahi a pouco espaço de tempo viu-se vir o 
dito capitão a cavallo com uma vestidura vermelha, tra- 
<^zendo adiante e atrás de si alguns cavalleiros : antes de 
begar ao barranco do rio se apeou e todos os que o 
acompanhavam, e chegando ao dito barranco, rom dois on 
três indios, se puzeram a olhar-nos, o que visto por nós os 
cortejámos, eelles corresponderam ; e logo fazendo chamada 
aprompt()U-se o batelão, bem esquipado e armado, porém as 
armas cobertas, e n*elle se expediu o cabo de esquadra de 
dragões José Vieira Passos a visital-o, com ordem de não 
chegar á terra, mas sim sobre os remos lhes dissesse 
que nós vinhamos a contrahir uma boa amizade com o 
capitão, da parte do nosso maior, que lhe trazíamos ai- 
Suns mimos, e que observasse o que elle dizia; assim 
executou o dito cabo de esquadra de dragões, e, havendo 
de cá a prevenção de lhe acenar que mandasse separar 
para dentro a sua gente, elle assim o fez ; quasi todos se 
separaram; porém para o batelão só ateimaram que che- 
gassem, dizendo que ahi estavam para o capitão, cavallos 
e vaccas ; voltou o nosso batelão, e deu parte o cabo de es- 
quadra do qoe elles diziam: para melhor me certificar sa 
eram ou não enganosos os seus designios, mandei pelo 
mesmo cabo de esquadra pôr em parte d'onde elles vissem 



— 7» - 

e fNideasem arrecadar uma dúzia de barretes» uma dúzia 
dd facas, meia dúzia de espelios, u n rnisoo de aguardente» 
faadndo-se-lbe de cà signal, e mostraado-se-lhes» para que o 
maudasseflOL buscar; partiu o batelão a levar, porém elle 
Tendo de cá os barret3s fez destacar logo um cavalleiro 
para dettro, o qual lhe trouxe o qn^ lhe Unhamos deixado 
embaíKO quando avistámos e falíamos CDm os Índios da 
canoa: veiUrUie o dito barrete, recebeu e com elle nos cor- 
tejoo ase cobriu I 

Paz o batelão no sitio assignalado, o que se mandou ; e 
passando ao pé d'elles lhe disse que alli ficava aquelle 
miOM ^oe o capitão mandava, que o mandasse buscar ; 
deu demonstração do seu agradecimento com cortezias, e 
logo mandou dois dos seus a condazir o que tinha ido, que 
recebendo-o logo, distribuiu os barretes por uns poucos 
dos que com elle estavam, e com pouca demora mandou 
pôr na mesma paragem o seu presente, fazendo sígnaJ que 
o mandasse buscar, o que assim se fez ; havendo chegado 
emquaato houve estes brindes, ao mesmo terreno, um lote 
degado vaocum, conduzido por indios cavalleiros ; recebi o 
mimo^ que foi uma coberta de algodão cõr de tabaco, jà 
com seu uso, com seus Livores á roda de rodinhas, cascas 
de conchas e duas camisetíis de algodão branco também 
usadas; ao receber dei de cà demon>tracões de conten la- 
mento e signaesde agradecido, e logo fíz apromptar a mi- 
nha canoa e passei á parte d'elles, levando comigo o com- 
mandante da outra canoa José da Fonseca Fontoura, dra- 
gões e ordenanças, porém com a peça e armas cobertas ; 
portei, e, fazeudo-lhe signal que mandasse separar a sua 
gente, elle assim o íez, ainda que pouco Ihi obedeciam ; 
notei que a vestimenta do capitão era um jaleco de fei- 
tio de camiseta curta e de baeta curta, jà muit ) usado, seu 
xifarote á cinta, e três que estavam acUuntos nus» porém 



— m - 

com xifarotes de guarnição de latão amarello com uso bas- 
tante, e ao depois vi que não só estes mas muitos mais os 
traziam : comprimcntei o dito capitão logo, offerecendo-lbe 
um embrulho em que iam cincienta verónicas, que rece- 
beu e abriu mostrando bom contentamento ; tirei o meu 
xifarote da cinta e lh*o oílereci com o boldrié, o qual elle 
reccbetf e cingiu «om grande contentamento, e Iqgo des- 
cendo pela margem «lo rio, me mostrou um novilho preso, 
que era para eu comer ; dei-lhe mais barretes e facas, e 
lhe disse que o mandasse malar e embarcar na canoa, assim 
o fez e inteiro o traziam ; porém mandei-o esquartejar, 
o que promptamentc fizeram e embarcaram ; viram^ jaos- 
tras de fumo aos que iam na canoa, entraram a pedir a 
muita instancia tabaco para cigarros ; disse-lhes que sim, 
que eu passando da outra parte lh'o mandaria, procurei- 
Ibe carneiros, disseram que mandavam buscar, o que fize- 
ram promplimente. 

Emquanto tive estas conversas com os que faziam figuras 
principaes, os camaradas da proa da canoa também faziam 
com os Índios seus negócios a troco de pedaços de fumo, 
qu^ elles pagavam com cordas, algumas cobertas de algo- 
dão de r;s,ras de cores, davam por facões e por pratos al- 
gumas camisetas, etc. Despedi-me d*elles, passei para a 
nossa parle, e logo lhe enviei dguns pedaços de fumo pelo 
cabo de esquadra, e lhe disse que se lhe dessem alguma 
cousa por elle recebesse, porque semelhante gente é ne- 
cessário imital-os, que obram sem manha, sem interesse; 
receberam o fumo e lhe deram duas camisetas inúteis, ins- 
tando-lhe que queriam machados e xifarotes, e que ahi es- 
tava um cavallo para o capitão ; a gente do trabalho n*esta 
ida melhor se aproveitaram alguns, por lhes darem cober- 
tas de algodão e camisetas, a troco de pratos do estanho e 
facões, 6 de fumo, cujo commercio se lhes não prohibiu, 



— 81 - 

pela razao de que elles acreditassem que d'aquillo que elles 
appeteciam não experimentavam falta; os nossos serventes, 
passado pouco tempo, vi que lhe tinham chegado carneiros, 
c porque não ficássemos sem amostra d'aquelle género, 
porque elles tanto tardam a fazer como a desfazer o que 
ajustam, e eu já o experimentava, pois asseverando elles 
que o cavallo para o capitão ahi estava bom, mandando- 
Ihes dizer que o puzessem na parte d*onde lhe assignalàra 
para o receber, nunca o fizeram; resolvi-me a passar lá 
outra vez, a tempo que elles já se iam retirando, chamei-os, 
punham difficuldade em chegar, dizendo que de tarde 
haviam de vir, que iam comer ; instei com elles a que che- 
gassem, que alli lhes levava machados e facões; com estas 
promessas chegaram-se, dei lhes dois machados do uso das 
canoas e dois facões ; deram-me três carneiros, e a umsol- 
dado outro por um facão que também lhe deu,e despedimo- 
nos até à tarde para nos ajustarmos na correspondência; dei 
a um que servia de lingua,que era dos mais distinctos,um es- 
pelho para a sua mulher,o que agradeceu muito ; retiraram- 
se á sua comida para o interior do sertão, e eu para a nossa 
positura, que era sobre a agua, aonde todo o dia passámos 
sem comer. Foram firmes em tornar de tarde, que ficou 
destinada para a repetição do seguro da nossa amizade o 
de algum ajuste dè commercio ; chegaram com elTeito já 
perto da noite, e logo pareceu para a parte d'elles o aju- 
dante Francisco Rodrigues Javaros a comprimentalos ; 
c do que particularmente passou cora elles o dito ajudante 
informarei a Vm. ; e, como eu tinha pedido ao dito aju- 
dante quando foi, que me fizesse mercê dizer-lhes que eu lá 
me ia despedir d'elles porque queria seguir viagem, elle as- 
sim o fez,. e quando voltou, lho perguntei se tinha trataílo ^ 
com elles o virem acima em ordem a nós não implicarmos 
no modo das persuasões ; que com semelhante gente é ne- 
TOiíoxxvin, p. 1. 11 



- 82 - 

cessario toda a cautela, para nâo desconfiarem ; disse-me 
que sim ; passei-me a parle d*elles, dei-lhes mostras do 
grande contentamento que tínhamos da sua amizade e cor- 
respondência ; convidei-os para virem aonde nós estáva- 
mos, que elles me certificaram que bem sabiam; e como um 
soldado medisse que prometteram ao ajudante em passando 
duas luas que haviam de vir, e que em nós vendo fumaças, 
perguntei-Ihe e o mesmo me certificaram ; mas por cau- 
tela augmentei-lhe o numero das luas do tempo que diziam 
os havíamos de esperar, por ver se viciavam o que tinham 
segurado ao ajudante, porém firmes disseram que não, que 
em passando as duas luas haviam de vir ; disse-Ihes que 
nós os esperávamos com c^vallos, gado e carneiros, que 
cà lhe teríamos promptos muitos xifarotes, muitos macha- 
dos e muitas mais cousas, e por despedida lhes dei mais 
barretes e facas e alguns anzoo*^, e com muito contenta- 
mento nos despedimos, dizendo elles que eram chrislãos, 
e que estava bom o sermos amigos, que o padre Peneo 
era bom, que estava na Pedra em à campanha, que lhes 
dava muita cousa, porém que para lá ir gastavam quatro 
luas, o que eu acho ser fabuloso, porque, tendo elles ca- 
vallos e canoas, podem cm breves dias ir á cidade de Pa- 
raguay ou ás suas povoações procurar o que lhes é pre- 
ciso. 

No dia 9, que era o sétimo da nova derrota, todo o dia 
navegámos sem mais novidade» que o apparecímento de al- 
guns signaes de fogos, e assim nos recolhemos a esUi forta- 
leza em 13 de Outubro com onze dias de ida e volta sem 
moléstia de pessoa alguma. 

O dito capitão ou cacique guaicurú nada fallava, ou por 
nos nâo entender ou por malícia, e só dava aquellas de- 
monstrações de querer o que os seusfallavam ; os que con- 
versavam eram Ires, que diziam dois quí* eram irmãos eum 



- 83 - 

qae era filho, emiim estes o que diziam era em lingiia bes- 
panhola; o capitao,disseram se chamava Lourenço, os três, 
um Filippe, outro Manoel, e outro José ; certificaram que 
eram muito christaos,apontavam para o céo,que estava boa 
a nossa amizade: uma india bastantemente ladina e não 
muito feia perguntou o meu nome, e dizendo-lhe o soldado 
dragão José da Fonseca Fontoura, logo ella chamou um 
íVaquelles que acompanhava o capitão, mostrando e re- 
querendo-lhe não fizessem mal, fazendo cruzes com os 
dedos na boca, dizendo que eram christãos. Toda a confluên- 
cia do rio desde este forle até os morros d*onde chegámos 
é cada vez mais largo, em partes com bahias ou enseadas 
que fazem mais extensa a sua largura, os seus lados, todos 
pantanosos ; e se devisam circulando de uma e outra parte 
os ditos pântanos, continuados matos de carandas, os quaes 
em algumas partes abeiram as margens do rio ; tem bas- 
tantes ilhas, mas todas alagadas, e por isso a maior parte 
das noites fizemos pouso nas próprias canoas no pântanos 
por não haver terra, e outras vezes aproveitámos alguma, 
pequenas provisões que appareciam, até a falta de lenha 
para a cozinha, que experimentámos em partes ; e haver 
frequência de viagens por este riô, não será desacerto car- 
regal-as, por não experimentar fallencia ; as nossas embar- 
cações não são muito adequadas para a navegação d*este 
rio, pois só as que possam soffrer velas poderão viajar se- 
guras. Não encontrámos rio algum que fizesse a barra 
n'este, e menos descobrimos terras aliás que pessam formar 
vertentes ; são muitas as bocas que apparecem, porém 
estas se conhecem ser da bahia que em si contém o mesmo 
paobMkO, da parte do leste ; não vimos indios alguns e só 
signaes de fogos em correspondência aos que se faziam d*ou- 
tras partes. 
E' o que a Vm. posso informar da diligencia do serviço 



- 84 - 

de Sua Mageslade que foi servido encarregar-nos, sobre o 
exame que o Illm. e Exm. Sr. general mandou fazer até o 
segundo fecho, que diziam haver n'esle Paraguay. 

Presidio de Coimbra a Nova, 14 d'Outubrode 1776. O 
capitão da companhia das ordenanças, Miguel José Rodri- 
gues. — Luiz d' Albuquerque de Mello Pereira e Cáceres. 

Illm. e Ex»a. Sr.— Em 21 de Setembro cliegaram a este 
presidio quatro canoas e um batelão, expedidas da villa de 
Cuyabà com soccorro de viveres para este presidio, lempo' 
em que já a guarnição estava experimentando falta consi- 
derável, porque tão somente havia sido municiada cada 
uma pessoa no principio do dilo mez com meia quarta de 
farinha por não haver mais. 

Eu certo estou que de V. Ex. não provem estas faltas, 
mas sim dos executores das ordens de V. Ex. no Cuyabà, 
que presumo desejam se abandone no meu tempo este pre- 
sidio, pois é certo que em semelhantes distancias de ne- 
cessidade se toleram lodos os trabalhos ; porém a fome 
tudo faz insollrível, e é causa de muitas desordens : não é 
por falta de exhorlações aos mesmos executores das ordens; 
porém sempre se desculpam com falta de gente para as con- 
ductas e canoas, insinuando-meque se quero mantimentos 
mande canoas, como se eu estivesse nos povoados como 
elles, e parece cada vez mais enfraquecer a guarnição com 
tirar gente para as ditas conduclas. Agora remetlo 6 ca- 
noas, e n'ellas 19 pedestres, 15 bons e 4 doentes, que aqui 
se não podem curar, S auxiliares e caçadores, 27 ordenan- 
ças para trabalho e defesa das mesmas canoas, excepto os 
que vão por doentes, que com o dragão que vai por cabo 
faz o numero de 55 pessoas ; parcce-me que agcra não tem 
desculpa que dar, ainda que no regresso passado enfiei 
igual numero, e nas canoas que vieram sô mandaram 31 
trabalhadores, c 3 d*armas, excepto o ajudante c 2 dragões 



-So- 
que d'aquí tiahamido ; isto tendo eu pedido ao meu mestre 
de campo, como a V. Ex. representei, 40 homens armsdos 
para a diligencia que V. Ex. me linha encarregado, e foram 
laes os que vieram,quc paraa dila diligencia me aproveitei 
sò de três: as arnns excepto as que d'aqui tinham ido com 
as canoas me remetteram 10 com o nome de armas : este 
peditório fiz insinuando que era para un^a importante dili- 
gencia, e quando este muito os não excitou, que para o mais. 
Sem embargo d'isso, me determinei a pôr em execução o 
mandado de V. Ex. Em 3 de Outubro fiz expedir doeste 
presidio quatro canoas grandes armadas em guerra, e 
um batelão para servir de espia om que se embar- 
caram 85 pessoas, numero total dos commandantes, sol- 
dados d'armas e trabalhadores, que supposlo julguei ir 
um pouco arriscada ; em maior risco íiquei n'este presidio, 
pela pouca e inútil guarnição que ficou. Forneci á canoa 
capitanea com uma pecinha montada, c as mais embarca- 
ções com 72 armas de fogo, levando todos 1,600 cartuxos 
de pólvora. 

Nomeei para commandante da capitanea ao capitão Miguel 
José Rodrigues ; e para o da almirante o ajudante Fran- 
cisco Rodrigues Tavares ; para as duas do centro o cabo 
d'esquadra de dragões José Vieira Passos e o soldado 
dragão José da Fonseca Fontoura; e para o batelão de espia 
um sargento da ordenança. Fizeram a sua partida com a 
formalidade que o meu gosto appetecia ; e se recolheram a 
esle presidio em o dia 13 do dito mez com grande conten- 
tamento meu, não só por virem bem sociados, mas por 
conseguirem o que V. Ex. appetecia a respeito do gentio 
habitante d'estes territórios, de que dou a V. Ex. o para- 
bém de conseguir no seu feliz governo o que ainda se não 
conta dos passados. 

Do que se obrou vera V. Ex. da informação que me apre- 



- 86 - 

sentou o capitão Miguel José Rodrigues, que sód*ella lenho 
o desprazer da situação do feciío ser tâo despida de tudo o 
que é bom para se segurar, e o necessário para esse íim, 
como também para a cultura por onde julgo será muito diffi- 
Gultoso o estabelecermos alli pelos motivos que pondero : 
O primeiro : que, quando são tão tardos os soccorros 
para esta paragem, que será para aquella? Segundo: o 
grande risco que correm as embarcações de conducla por 
lhes licar a barra do rio Mondego superior, e os gentios 
d*aquelle districto, ou lalvez castelhanos, fazerem-nos algu- 
mas sorpresas. Terceiro : as nossas canoas i)odem pouco 
tolerar as ondas do rio, o por isso andam muilo arriscadas 
a ir a pi(|ue ; e si por esta causa com as tormentas portar 
em terra, se a houver, poderão no mesmo lugar aonde pro- 
curar Q asjio acharem a sua ruina, cahindo na mão do 
gentio cavalleiro, que os acabará. Quarto : as grandes for- 
cas que lá são precisas para conservar o presidio, porque 
não será possível suslental-o com as tropas paisanas, que 
não servem para disputas marciaes, nem i)ara soíTror ata- 
ques a pé firme por muito tempo : emfim, estas circum- 
stancias só a alta ponderação de V. Kx. as j)oderá bem dis- 
cernir, para melhor acerto. Também envio a Y. Ex. o 
diário do ajudante. 

Emquanto aos gentios que faltaram com os nossos, diz 
certilicarem vir a este presidio, ou ás suas vizinhanças, pas- 
sadas duas luas, qu.i segundo dizem é [)ara o fim de Dezem- 
bro. Eu bem desejei mandar este aviso a V. Ex. em via 
recta pelo Jaurú, porém não me acho com gente para o 
poder fazer, que para enfraquecer de todo este presidio, 
não sabemos se os hespanhoes pelos gentios teriam alguma 
noticia da nossa exploração, e intentem por esta causa 
vir-nos fazer algum apparecimento. Os ditos Índios o que 
mais appetecem são xifarotes com sua guarnição de latão, a 



- 87 - 

folha voltoath, machados, rendas e brcUnlias: se V. Ex. 
se resolver a mandar algmna cousa d'isso, para dar aos 
ditos índios, dove ser com brevidade ; e os machados bom 
será que sejam mais pequenos que os nossos, algumas peças 
de lita para se porem nos bentinhos que já V. Ex. mandou, 
6 algumas missangas, que as mulheres dos ditos Índios tudo 
^ppetecem. Eu nocaso que elles venham pretendo ver se os 
contento com facões, e machados dos que estão para as 
obras d*este presidio, facas, barretes, espelhos, verónicas 
G de tudo o que V. Ex. mandou para elles ; emfim, do que 
houver, porque elles o que mais querem são ferramentas, 
O que se despendeu n*esta viagem foram 31 ])arreles, tí es- 
pelhos, 32 verónicas, 45 facas, 2 facões, 2 machados, 2 
frascos d*aguardente e algum fumo. O que deram ao capi- 
no Miguel José Rodrigues foi 2 cobertas e II camisetas 
^'algodão grosseiras, que presentemente remetto ao meu 
'Mostre de campo para o fíizer a V. Ex., para ver o tecido de 
í ^G elles usam. Os carneiros que lhe deram foram 3 que 
entregou e ficam n'este presidio, o sâo capados, com umas 
Pintas muito pequenas, (jue parece foram quebradas : estes 
conx os mais que trouxeram os particulares |)ara si fazem o 
í^Urciero de 8 e 1 cabra. 

Como os dois commandantes da capilanea e almirante 

^^^Pois de chegados se desuniram nos seus informes, na in- 

^^^lligencia da igualdade das conimandancias, eu os iiz avisar 

P^^Va. ir á presença de V. Ex. a dar a informarão pessoal : 

P^i*t>m, considerando o quio desliluido ficava de olliriars, e 

Q.U15 poderio vir os laes indios, e, como já são eonincidos, 

f ^ Os não achassem poderiam desconfiar que era traição, e ' 

^^^so embora, por essa razão os fiz ficar oulra vez ; e pre- 

^^nio que cada um d*elles representarão as suas cousas. 

Agora me persuado que o gentio que se alacou com o ca- 

P**uo João Leme do Prado no rio Mondego era cavalleiro, 



- 88 - 

vistas as informações de que o dito genlio cavalleiro também 
usa de canoas ; se assim fôr, lai vez por alli se possam bem 
communicar todos os d'aquella parte, e conciliar com elles 
amizade. 

Eu tão somente fico n'esle presidio com 13 dragões eo 
seu cabo, quatro pedestres e o seu sargento, quatro auxi- 
liares um com nome de sargento e outro de cabo, cinco ca- 
çadores e um sargento, e a companhia de ordenança, que o 
seu total presentemente sâo cincoenta c sete praças ; é a 
gente que tenho para fazer frente â chegada do gentio se 
com effeilo vier como affirmou ; advertindo que de todos 
estes só os pagos são capazes de apparecer,que os mais não 
podem ser mais inúteis. 

Deus guarde a V. Ex. muitos annos. Presidio de Coimbra 
a Nova i7 de Outubro de 1776. — lUm e Ex. Sr. Luiz 
de Albuquerque de Mello Pereira e Cáceres. — De V. Ex. o 
mais reverente súbdito, Marcellino Rodrigues Camponez.— 
Luís de AIbwiuerqiied<í Mello Pereira e Cáceres. 



- 89 — 



EXPUGNAÇiO PELOS HESPANHÓES 

DO PRESIDIO DE NOVA COIMBRA, 

lllnL Exra. Senhor* — As noticias que a V, Ei, partici- 
pei lio meu offlcio de n, Í6. em Jata de 17 da Setembro do 
presente auno bera depressa se verificaram, porque jà no 
dia í6 do mez pelas 4 horas da tarde se tinham apresentado, 
diante do presidio de Nova Coimbra» i embareacões hespa- 
nholas de dois e três mastros como grandes saraacas, fazendo 
vivo fogo contra o mesmo presidio por espaço de duas ho^ 
rââ| e como a nossa artilheria do calibre de am, não fazia 
daraao nem eral>araço, passaram para a ponte de cima, e k 
boca da noite fundearam na margem opposta, ludibriando 
os Índios payàgoazes» que os acompanhara em 30 ou 40 ca- 
aôaSp esta acção com grandes algazarras, por verem o ne- 
nhum eíTeito da nossa artilheria. 

O tenente coronel engenheiro Ricardo Franco de Almeida 
Serra na mesma noite me fe2 este aviso, que ante-honlem 
recebi, e presumia que o presidio de Miranda estivesse lam- 
bem atacado, porque havia um mezque tinha mandado uma 
canoa ao dito presidio, a qual ainda nao linha voltado, 

Se ao r^íferido presidio de Coimbra houvesse artilheria 
competente, que eu pira tantas partes tenho pedido, não 
reconheceria por certo esta primeira infelicidade, a qual 
os põem agora em figura de embaraçar, o soccorro de gente 
e viveres para um e outro presidio, de embaraçar as navega- 
ções d' esta capitania para a de S* Paulo ; e outras conse- 
quências ainda maiores, se o plano do vice rei de Buenos 
AyreSf que manda sobre todas as provi ncias que confinam 
com esta capitania, fôr o de se darem as mãos o governadí*r 
d' Assumpção e o governador de Chiquitos.em cuja provincia 
se cuida também em preparatórios. 

Uonlem expedi as ordens mait apertadas paraa villa de 
T03I0 xxtm, p, I 1^ 



- 90 - 

Cuyabá {>ara o dito tenente coronel Wcardo Firanco ser 
promptamente soccorrido. Mandei postar canoas armadas 
em guerra, rio Cayabà abaixo, para evitar a Tuga dos escra- 
vos, e algumas hostilidades dos indios payàgoazes, que aju- 
dados de alguns bespanboes pretendam subir pelo mesmo 
rio nas suas canoas, pois que nas sobreditas embarcações de 
dois e três mastros, não poderão entrar nem subir a grande 
distancia. Mandei marchar para o registro do Jaurú as doas 
companhias de cavallaria da legião de milicias d'aquella vílta 
e ao commandante deVilla Maria do Paraguay; ordenei tam- 
bém mandasse postar algumas canoas armadas noEscalvado, 
com o mesmo fim de evitar a fuga dos escravos e hostili- 
dades dos payàgoazes. Uontem mesmo escrevi aos gover- 
nadores de Goyaz, S. Paulo, Minas Gcraes, e ao vice rei do 
Rio de Janeiro, para apressarem e augmentarem os soccor- 
ros que liies tinha pedido. 

Hoje escrevo ao governador do Pará e tenlio o desgosto 
de fazer a V. Ex. esta participação, que bem quizéra fosse 
antes, de que os barcos hespanhoes ficaram esmigalhados e 
mettidos a pique diante de Coimbra, se allí houvesse alguns 
artilheiros e artelheria de maior calibre. 

Eufico-me apromptindo com toda a pressa que permittem 
uns armazéns e cofres reaes pobres de ludo ; e uma capita- 
nia de tão pequeno recursos. Mas apesar de todas estas 
desavantagens, e da vantagem que conseguiram os hespa- 
nhoes de passar de Coimbra para cima : eu coniio no auxi- 
lio divino a favor da justiça da nossa causa, confio nos 
quatrocentos iiomens que estavam guarnecendo Coimbra, 
Miranda, e Albuquerque, entrando n*este numero Gi pra- 
ças da expedição do tenente coronel dacapitania de S. Paulo 
Cândido Xavier de Almeida e Sousa ; confio na fidelidade 
doestes colonos,e em algum alTectoque Ihts tenha merecido: 
e portanto ainda espero escrever a V. Ex. com mais alegria. 



- 91 - 

Y. Ex.,por todos os ofiScios que tenho tido a honrada 
dirigir-lhe» creio qae estará persuadido d'estas verdades : 
que a capitania de Mato Grosso está em circumslancias 
maito difTerentes das dos annos de 1763 e t76 >« e deveria 
estar apercebida o apparelbada para se arrostar com as três 
províncias hespanboias, com quem confina, e não com a 
onica provincia de Moxos, por onde foi atacada nos sobre^ 
ditos annos : quo a sua guarnição por consequência é muito 
peqpiena e muito pouca a sua artilbería, como também 
todos os mais petrechos e munições de guerra : que, não 
chegando as rendas reaespara asdespezas ordinárias, ella 
devia ser soccorrída extremamente para as extraordinárias, 
que 86 tém feito ha cinco para seis annos, e muito mais o devo 
ser agora para as que accrescem com a guerra actual : que 
a fronteira do Paraguay é presentemente a mais arriscada, 
ea que deveria merecer a primeira attenção, sendo por con- 
sequência justos os receios, que eu sempre tive, de ser 
í ncommodado por aquelle lado. 

Se eu não tenho feito chegar as mesmas verdades a um 
Srào de evidencia, é falta dos meus pobres talentos ; mas 
\. Ex. saberá enriquecêl-os e prop ^rcionar as providencias 
C|ue forem mais conformes ao bem do serviço de Sua Alteza 
AeaL 

Deus guarde aV. Ex. muitos annos. VilbBella, 10 do 
^kitubrode 1801.— Illm. Exm. Sr. D. Rodrigo de Sousa 
Coutinho. — Caetnno Pinto de Miranda Monte Negro. 

illm. e Ex. Senhor.— Tenlio a honra de pôr na respeila- 
irel presença de V. Ex., na cópia de n. i, acarta qqe ulli- 
namente recebi do tenente coronel de engenheiros Ricardo 
¥ranco;de Almeida Serra, na qual refere o que se linha pas- 
sado cm Coimbra, desde o dia lli, cm que foi atacado, até o 
diaSSde Setembro. A de n, 2. do tenente de dragões 
FrancisiX) Rodrigues do Prado individua as fqrças que mo-' 



— 92 - 

yem os bespanboes contta aqoelles estabelecimentos. A de 
D. 3 contém a notificação que fez o goternador da profin- 
cia d'Assumpção D. Lazaro da Ribeira ao dito tenente coitr 
nel de engenheiros para que se rendesse ; e a de n. k^fi 
generosas respostas qae Ibe deu o mesmo oficial. 

Em consequência d'estas noticias, contoquei um conselho 
de guerra que Y. Ex. acbarà na cópia de n. 5, no qual se 
assentou» se occorresse com maior esforço á fronteira do 
Paraguay, e que pelas fronteiras de Cbiquitos e de Moxos 
nos puzessemos por ora na defensiva, até que cbegassem os 
soccorros que tenbo pedido» e mil cousas que nao ha presen- 
temente nem nos armazéns reaes» nem nas lojas do com- 
mercio, como por exemplo, uma folha de papel para refoitr* 
mar um cartuxo» uma libra de breu para concertar uma ca- 
noa ; tendo eu desde o anuo de 1799 sete contos de réis na 
cidade do Pará, para semelhantes provimentos» sem que 
até o presente tenha recebido uma única cousa das que 
pedi I 

A capitania de Mato Grosso (permitta-me Y. Ex. esta re- 
flexão) merece particular attenção da corte, e o animo que 
tenho pelas cousas da pátria, e pelo serviço de Sua Alteza 
Real, sò ficará socegadío, quando eu vir que ella é com- 
templada em primeiro lugar, como a praça de Elvas, e 
em segundo lugar como uma colónia, que pôde vir a 
ser poderosa e rica, uma vez que se appliquem os meios 
competentes e ^e òs setts próprios governadores, de 
mais luzes do que as minhas, sejam os que regulem os 
seus interesses. 

Déus^arde a Y. Ex. muitos annos; Yilla Bella, em 17 de 
Outubro de 1801. —Ulm. eEx. Sr. D. Rodrigo de Sousa 
Coutinho. ^ Caétaúo Pinto de Miranda MorUé Negro. 

Illm. e Exm. Senhor.— No dia 16, pelas 4 horas da 
tarde, ápparõceu em frente d^estd presidio o governador 



-^ 93 - 



de AssimipçSo, D. Lazaro da Ribeira, em Irts grandes su- 
macas, cada uma com duas peças de artilbería por banda, 
e oolra menor, batendo a este forte até depois das ave-ma- 
rias, cujo fogo repetiu do dia e de noite ate o dia 31, e 
bonlem e boje o tem parado, creio por causa de um grande 
Tanto uorlu, e nao menor tempestade que houve; e, vendo 
que a nossa pequena arlillveria o não oflende no seu curto 
alcance, nos tem dado grandes apupadas, manobrando* 
ora para baixo, ora para cima os dois lados d*este forte ; 
animando-se n*esle ultimo a chegar a tiro de mosquete e 
querer fazer um desembarque em pequenas canoas, das 
quaes, com as noss^ espingardas, lhe deitamos ao rio seis 
ou oito bomens, o no lado do baixo no dia 31 saltou em 
terra j mandou colher couves e cebolas na horta, matou 
gado, porcos, chegando com toda a confiança até a ponta 
do morro, de onde, de uma emboscada que alti havia, se 
Ihr mataram Ires homens, e dois foram mortalmenle fe- 
ridos, o que faz já entre mortos e feridos vinte. Hoje re- 
cebi a carta inclusa do tenente Francisco Rodrigues, que 
verifica o que dizem qualro Índios dos que linha mandado 
a Bourbon, e D, Lazaro os prendeu e trazia na sua samacã, 
os quaes no dia i8 se deitaram a nado pelo rio e fugiram 
para este forte. No dia 19 chegou outro índio também dos 
presos que D. Lazaro tinha mandado por terra, o veiu 
acompanhando três capilat^s, grande numero de gente, 
gado e animaes, que jà eslão na Bahia Negra, dez léguas 
a sul d*este presidio, cujos fogos estamos vendo; e por 
estes dez ou doze dias lho podem chegar o gado e a gento 
com ãigum pouco trabalho, por estarem os campos ala- 
gados. Falta dizer que os primeiros índios contam qne 
D. Lazaro, no caso de nao tomar Coimbra, se postará no 
monte defronte, aonde fazendo-se forte por mar e por 
terra, nos ha de reduzir por meío^da fome. 



- 94 - 

No dia 16 escrevi ao mestre de caim)o e ao joix de fora, 
pedindo soccorro de genle e maotimento, o que djessem 
parte a V. Ex., escrevendo lambem para iMiranda, para 
que o dito tenente commandante fizesse algumas diversões 
por aquelles campos, e alé S. Carlos se fosse preciso. Mao* 
timento apenas tenho 1 iO alqueires de milho, que agora 
chegam de Miranda, e doze vaccas que matei, que foram as 
que escaparam da mortandade hespanhola. 

Os soccorros do Cuyabà devem vir successivamenie, sem 
esperar que eu os mande buscar, porque issc seria des* 
guarnecer este presidio da gente precisa para a sua defesa, 
se se empregassem n'esla conducção, salvo quando houver 
mais de 300 pessoas, para que o excedente dos ditos 
300 homens se empreguem n*cst;i diligencia, pois D. La- 
zaro, chegando-lhe maior numero de embarcações, pôde* 
navegando mais alto, cortar este soccorro ; eis-aqui por- 
que pedi sempre mantimento para seis mezes, e raras 
vezes me mandaram para mais de vinte dias. 

Emfim, Iltm. e Exm. S'3nhor, o inimigo eslàst^nhor do 
Paraguay, o navega livremente mofindo da nossa insigni- 
ficante, e chamada artílhcria; pelo que rogo a V. Ex. me 
mande já, já as duas peças que estão n*essa vilia, poissócom 
ellas poderem^ s fazer damno a estas sumacas e fazer re- 
cuar o inimigo, e sem as ditas peças sepultar-se-ha a guar- 
nição d*esle forte debaixo das suas ruinas, e o inimigo n'esta 
ultima extremidade, senhor dt^ste forte, o fica sendo de 
Miranda, da povoação de Albuquerqua, da importante na- 
vegação de S. Paulo, assombrando talvez a mesma vilIa do 
Cuyabá. E' tão diminuta esta guarnição, como cheia de 
valor a maior parte d*ella, e doestes muitos com excessiva 
demonstração, como espero em Deus expor a V. Ex. pelo 
amor da verdade em tempo próprio. 

K' o que apressadamente se me offerece a participar a 



^ í)í; - 

▼. Ex. a quem Deos gaarde muitos annos. Coimbra» 23 de 
Setembro de 1801.— Dirn. e Exm. Sr. Caetano Pinto de 
Miranda Monte Negro.— De V.Ex. súbdito attento venerador 
Ricardo Franco de Almeida Serra.— O secretario do go- 
verno, Joaquim José Cavalciinti de Albuquerque Lins. 

Illm. eExm. Senhor.— No diaio c 17 de Outubro, escre- 
via eu a V. Ex. rodeaílo de cuidados, vendo-me repentina- 
mente atacado pelo governador da provincia d'Assumpção ; 
quando parecia que eu deveria antes estar na maior tranquíl- 
Kdade, pois que n.i cópia, que V. Ex. incluiu no seu oHicio 
n;5,em data de U de Fevereiro dei tOO,eram reputados por 
terrores pânicos os meus receios,e por uma cousa contra toda 
a expectado, o ser atacada esta capitinia. Concorrendo 
mais a absoluta Talta de todos os sjcorros, que para a corte, 
Rio de Janeiro, S. Paulo, Goyaz e Pará tinha pedido, d*onde 
com bastante probabilidade podia inferir-S3 que nem n*esse 
nem n'est'.^. continente havia já receios contra M iio Grosso. 

Não obstante, o ver-me de alguma sorte surprehendido 
com tão pouca gente para uma fronteira tão descompassada, 
com tão poucas armas para essa mesma pouca gente, com 
os armazéns e cofres reaes carecidos, ainda do que seria ne- 
cessário no tempo da paz, n'esta triste conjunctura, quasi 
por um occulto presentimento fundado na justiça eterna, 
na minha innocencia, na iidelidadee amor de um povo a 
quem governo com indigência, mas, semeé licito dizêl-o» 
com humanidade, justiça e desinti3resse, eu ainda esperava 
que em outro dia havia de escrever a V. Ex, com mai 
alegria. 

Este dia presentido e desejado é o dia de hojis em qne 
tenho a honra de participar a V. Ex., a retirada dos hespa- 
lAoes diante de Coimbra, depois que o valor ifaquella guar- 
nigio lhes fez conhecer que alli não era o Iguatemy. Na có- 
pia d& d. 1 adiará y. Ex. a parte que me deu o tenente 



- 96 - 

coronol de engenheiros Ricardo Franco d' Almeida Serra, ao 
qual respondi com as de ns. 2 3,0 espero que Sna Alteza 
Real se dignará de approvar a despesa de 330 oitavas» 
com que gratifiquei alguns soldados» que se distinguiram, 
não me pcrmittindo a constituição de duas únicas compa- 
nhias o promover a todos elles. As cópias de ns. 4 e 5, 
contêm as carias, a que me n^firo na primeira, escripta ao 
referido tenente coronel. 

Bem quizéra eu, que coubesse nas minhas faculdades o 
premiar também este benemérito official, a quem princi- 
palmente, se deve tâo gloriosa defesa. Mas esta minha in- 
possibilídade redundará em honra e utilidade sua, pois que 
terá de ser premiado pela real e augusta mão de um príncipe 
verdadeiramente pai dos seus vassallos ; e tanto pela nota 
que ajuntei no iim da citada copia de n. 1, como pelo 
mappa, e observações que ajunto aqui debaixo dos ns. 6 e 
7, podem ser avaliados os seus relevantes serviços. 

A causa por que tenho tido alguma demora em participar 
a y. E&. este inglorioso fim da expedição de D. Lazaro da 
Ribeira, procedeu da falta de noticias de Miranda, d'0Dde 
apenas sabia o que se refere nas três cartas de ns. 8, 9 e 10, 
as quaes recebi em 15 de Novembro ; e só a 29 isto é, ha 3 
dias, me chegaram as cartas que ajunto nas cnpias de 
ns. 11, 12, 13 eU. 

Pelas sobreditas cópias virá V. Ex. no conhecimento de 
que o commandante d'aquelle novo estabelecimento, o pri- 
meiro tenente de dragões Francisco Rodrigues do Prado, 
logo que soube do api;rtoem que se achava Coimbra, embar- 
cou com cincoenta e quatro soldados.para vir salvar aqaelle 
presidio, ou acabar com elle como se explica o mesaio 
official na ordem que deixou ao alferes da legião de volaii- 
tarios reaes de S. Paulo António José do Rosário ; aquella 
resolução e aquelles sentimentos são verdadeiros, pois é 



— 97 - 

«un dos officiaes de mais honra e valor que tem esla capita- 
nia ; e aD. Lazaro da Ribeira tem elle particular vontade 
desde o tempo em que o dito D. Lazaro o quiz pren- 
der na província de Moxos. Vindo, pois, jà bem perto de 
Coimbra e só a sele léguas de distancia, encontrou o avisi > 
que Ibe fazia o tenente coronel Ricardo Franco,de se ter re- 
tirado o inimigo, por cujo motivo se recolheu outra vez à 
Miranda. 

Depois do seu regresso, voltaram lambera de Villa Real 
alguns Índios, e entro elles um capitão que até o presenle 
tem sido fiel aos portuguezes, o qual deu a noticia, de se ter 
recolhido D. Lazaro da Ribeira á capital, deixando bem 
guarnecidos os fortes de Bourbon e S.Carios, mandando fazer 
nai novo fortim e ficando por commandantc d'aquella fron- 
teira o coronel D. José Espinola, como V. Ex. maiscir- 
cumstanciadamente achará individuado nas referidas carias, 
ás quaes responde, e nâo sei se com o acerto que desejara, 
€bmaden. 15. Eis aqui em que veiu a disparar o grande 
trovão ou raio caslelhano, de que o canhão c a espada de- 
cidiriam da sorte da desgraçada Coimbra. 

Ma província de Moxos, alé as ultimas noticias que tive 
do forte do Príncipe da Beira, nâo se tinham observado mo- 
vimentos ; e, como nâo tem fugido índio, nem hespanhol 
algum, édííUcíl saber o que vai no interior da província, 
emquanlo não chegarem algumas forças para a fronteira. 
No destacamento do presidio fia provincia da Chiquitos, 
acha-se um capitão, um ten^Mile, um alfi^res, dois sargentos, 
oito cabos de esquadra e cousa de cem soldados. Porém eu 
jà tenho em Cíizalvasco a guarnição que consta do niappa 
notado com o n. Ití, e, como as aguas vâo apertaiido, pa- 
rece-me que antes da secca do anuo que vem nâo haverá 
n'esla fronteira de Chiquitos grande inquietação. O que 
tudo V. £x. se dignará de fazer presente a Sua Alteza Real. 

TOMOXXVIII, p. I. Vi 



— })8 — 

Deus guarde a V. Ex. muílos anoos. Villa Bella, 2 de 
Dezembro de 1801.— Illm. e Exm. Sr. D. Rodrigo de Sousa 
Coutinho. — Caetano Pinto de Miranda Monte Negro. 

Illm. e Exm. Senhor. — Em 23 de Setembro pró- 
ximo passado, tive i honra de participar a V. Ex. o ata- 
que que D. Lazaro em pessoa, em três grandes sumacas e 
uma embarcação menor, fez a este presidio, remettendo no 
mesmo dia a V. Ex. a carta que me escreveu este chefe ini- 
migo, e a competente resposta que lhe dei, e o mais que 
tem succedidoaté hoje é o seguinte: 

No dia 2i pelos três horas da tarde se postou em fran. 
quia, e na parte debaixo d'esle presidio, e fez ató ave-ma- 
rias um fogo terrível, com as suas três sumacas, com duas 
peças montadas em cada uma dos calibres de 4, 6 e 8 ; 
findo este fogo, a que não respondi por estar fora do alcan- 
ce da nossa chamada artilheria, se foi postar encostada à 
margem d'este mesmo presidio, ficando uma sumaca en- 
costada quasi na ponta da ilha que fica fronteira. Pel# 
nove horas da noite tocou a retreta, com a sua musica de 
oboé e zabumba,aque correspondemos com dois tambores, 
rabeca e flauta; e n*esle intervallo vimos princiava a 
descer para baixo, como fez, até quanto alcançava a vista : 
om 25 e 20 ainda vimos as velas,navegando vagarosamente, 
deixando-nos duvidosos do seu destino : em 28 chegaram 
dois dos nossos uaycurús, resto dos nove, que eu tinha 
mandado a Bourbon em 29 de Agosto, para verificaras no- 
ticias do dia 22,e D. Lazaro apprehendéra em 2 de Septem- 
bro, os quaes contaram que da bahia Negra depois de mil 
pantomimas os soltaram, dando um ponne a cada um ; que 
n'aquelle lugar metteram a artilheria menor no porão, des- 
mancharam os bailéos que traziam de carandá, como para- 
peito contra a mosquetaria ; e que emfim os hcspanhoes os 
despediram, bazofíandoque,como os porluguezes em Coim- 



- 99 - 

bra eram poucos e estavam à espera de mais» que elles iam 
buscar tamb(3m muita gente, paracaptivar e matar a todos 
juntos; pelo que contam estes indios, houve conselho de 
guerra, ouvindo-se os capitães das três sumacas : segundo 
podemos inferir e noticiam os indios, o numero dos 
inimigos seria de €00 até 800 homens ; elles entre mor- 
tos e feridos, tanto na horta, como quando se encostaram á 
parte de cima d'estas muralhas a tiro de mosquete, e na 
acção do dia 13 pelas três horas da noite, perderam vinte 
homens entre mortos e feridos, sem que da nossa parte hou- 
vesse alguma pessoa que recebesse damno, mais do que a 
perda de alguns porcos e vacc«is, que mataram e conduzi- 
ram, emquanto lhes não demos por uma emboscada a res- 
posta, deixando alli um morto, e conduzindo mais quatro 
nas costas. 

Emfim, Ex. Sr., Coimbra está salva d'este primeiro re- 
pellão dado na mais critica conjunctura, sem mantimento 
algum, o qual suppri com algumas vaccas, e porcos parti- 
culares que se mataram, com a mais diminuta guarnição 
que podia ter, que apenas chegava a 100 pessoas, sendo a 
maior parte uns negros velhos, e auxiliares ; uns crianças, 
outros molestos e muito cheios do maior terror pânico. 

Não pouca timidez se notou no inimigo, pois quando se 
encostou na ponta de cima doeste presidio fazendo-se das 
muralhas alguns tiros de arcabuz, por estar debaixo do seu 
alcance, não respondeu com um tiro, cuidando logo em 
afaslar-se. 

No pouso fronteiro à horta, e na mesma margem doeste 
presidio, trabalhou em uma fachina, não deixando eu de 
temer quizesse fazer alguma bateria para plantar o canhão 
e bater com mais certeza estas muralhas, para abrir bre- 
cha ; pelo contrario,, como depois vi, era uma fachina alta, 
sobre a extremidade da margem do rio, só destinada a 



- lOtl — 

cubrir as ^macas de algum ataque nocturno: os soccorros de 
terra lhe não chegaram por estarem ainda estes campos 
alagados, os quaes julgo que só por fins d'este presente 
mez de Outubro estarão praticáveis. 

Como no dia 1 4 nos mudàmos/estere toda esta guarnição > 
nos nove dias de alaque, no maior incommodo, e no meio 
do terreno, sem casa, sem abrigo, e agora estou cuidando 
em alguns ranchos, para armazém, casa de pólvora. 

Os hespanhoes contaram a todos os indios que faziam 
esta guerra, em despique dos portuguezcs lhe matarem um 
capitão grande, e a guarnição de uma terra que tomaram ; 
pôde ser, que houvesse alguma acção em Montevideo. 

Deus guarde a V. Ex. muitos annos.— Coimbra, 1' de 
Outubro de «801.— lUm. e Exm. Sr. Caetano Pinto de 
Miranda Monte Negro.— De V. Ex. súbdito e attenlo vene- 
rador.— Rkardo Franco d' Almeida Serra. ^ O secretario 
do governo, Félix José dos Santos, 

Para intelligencia das palavras que, acima iicam sublinha* 
das,é preciso nolar-se que, em consequência das noticias da- 
das pelos uaycurús, mandou o tenente coronel engenheiro, 
para explorar os movimentos dos hespanhoes, alguns dos 
mesmos indios até Bourbon, os quaes prometteram voltar 
em 5 dias, o que não puderam fazer porque D. Lazaro da 
Ribeira, que jàse achava n'aquelle forte, desconfiando se- 
rem espias, mandou segural-os. Não se sabendo, porém, em 
Coimbra a causa d'esla demora, desceram no dia 12 de Se- 
tembro duas canoas com dragões e pedestres na mesma 
diligencia, e no dia 13 pelas 3 horas da madrugada, quando 
passavam pela boca da bahia Negra, ou mais propriamente 
do rio Negro, onde estavam fundeadas as sumacas hespa- 
nholas, foram as ditas canoas repentinamente atacadas por 
vinte e tantas de payagoazos com hespanhoes ; gritando 
todos í — entrí^ga, entrega, portuguez — ; mas os nossos só 



- 101 - '.-v 

com 8 tiros, dados quasi á queima roupa, lb{;s.c4siparam a 
boca, ficando alguns em silencio eterno, e abrirâi^*clUininho 
para se recolherem a Coimbra, onde chegaram riõj^ 14. 
Em parte d'este dia, no seguinte, e na manha de 16;dia:do 
alaqoe, mudonsc a guarnição para o novo forte, que eii* 
por prevenção, não obstante a falia de todos os meiôs,^. 
tinha mandado construir, e esta mudança creio foi a que 
desconcertou as medidas de D. Lazaro, que esperava achar- 
nos na antiga estacada, a qual era absolutamente indefen- 
sável, quando em as novas muralhas não faziam as suas 
balas do calibre de 8 damno algum. 

Posto que digo, tinha mandado fazer por prevenção o 

novo forte, não sou capaz dii roub ir o alheio merecimento. 

O tenente coronel Ricardo lYanco foi o qu 3 me propôz esta 

^i^y foi o primeiro que conheceu asua necessidade, e o que 

^ tena continuado até o ponto em que se acha, com a mesma 

Wapnição, e quasi sem despeza da real fazenda, servindo 

^h de archilecto, de feitor, de mestre pedreiro e carpin- 

'^^^'O. Este importante serviço, eo valor com que defen- 

*íi Queila fortaleza, merecem uma digna recompensa.— 

^(^€^no Pinto de Miranda Monte Negro, 

^Im. e Exm. Sr.— No meu officio de n. 20 em data do 
*"^ Dezembro do anno passado, dei contado inglorioso 
f^^^^^«sso das armas hespanholas diante de Coimbra, e da 
nor^^-Qgj^ resistência dos portuguezes na defesa d*aquelle 
P^^^idio. Hoje tenho a honra de participar a V. Ex. o glo- 
"^^^successo das armas portuguezas, e a vergonhosa resis- 
^f^-^ia dos hespanhoes na defesa do novo fortim (pm 
**^^am construído nas cabeceiras do rio Apa. 

^^f) dia 19 de Dezembro Sihiu de Miranda o primeiro te- 
^®^te de dragões Francisco Rodrigues do Prado com Si 
^P^^ados, e 297 indios com o fim de atacar o dito novo for- 
^^^í' o qual felizmente arrazou, c reduziu a cinzas no 1** do 



••• • 



v... _ 102 _ 

JâneirOi.^fipifido dos inimigos 4 mortos, 26 prisioneiros, e 
fuginda/tQda a mais guarnição. 

PeVtólía-me V. Ex. que eu me refira à carta que recebo 

n'e'sfe'Iiora do dito tenente, e depois de ler os papeis hespa- 

'•Rhoes, que se acharam, e de me informar dos conductores 

/•..dos prisioneiros, em outro correio que brevemente hei de 

<.l expedir, informarei mais circumstanciadamente a V. Ex- 

• das particularidades que forem dignas de chegar ao real 

conhccimenlo de Sua Alteza. 

Só accrescenlarei que, se os vassallos beneméritos devem 
ser premiados pelos seus soberanos, este olHcial é bem 
digno da real beneficência do mesmo Augusto Senhor. 
A companhia de dragõoê está sem capitão pela morte de 
Joãa José Coutinho ; elle é o primeiro tenente, serve desde 
o annode 1778, e ha dez annosque está effectivamente 
destacado na fronteira do Paraguay. Nos primeiros cinco 
annos commandando o presidio de Coimbra, e agora o novo 
presidio de Miranda, de que elle mesmo foi fundador. 
Parece-me, portanto, que merece ser bem promovido a 
capitão, e condecorado com o habito da ordem de Aviz. 

Deus guarde a V. Ex. muitos annos.— Villa Bella, 27 de 
Fevereiro de 1802.— Illra. e Exm. Sr. visconde de Anadia. 
— Caetano Pinto de Miranda Monte Negro. 

Ulm. e Exm. Sr. — Tendo partido no dia 19 do mez 
passado, a 29 do mesmo deixei a estrada geral e segui 
á esquerda pelos campos, atravessando o rio da Lapa em 
dois braços, e não com pequeno trabalho : no dia 30 mandei 
pelo cabo de esquadra Manoel Gomes, e pelo soldado An- 
tónio Pires, explorar o inimigo, que distava d'alli duas 
léguas ; recolheram-se sobre a madrugada e disseram terem 
visto algumas choupanas e n*ellas até 60 hespanhoes. A 
31 pela tarde avizinhei-me ao alojamento castelhano, o 
tornei a fazer explorar pelos mesmos ; nada mais puderam 



— 10:i — 

ver que estarem alerta. Avizinhava-se o dia, e não havia 
mais remédio que avenlurarmo-nos à sorte da guerra. 
Observei a nossa gente cora valor, aos uaycurús em extre- 
mo cobardes. Determinei que os portuguezes Jao romper 
da alva atacassem ao inimigo pelo flanco, tcndo-me eu apre. 
sentado pela frente com os índios, os quaes mandaram-me 
dizer pelo cabo de voluntários, que só chegariam se eu os 
conduzisse: dividi os soldados em três Ipelolões, o pri- 
meiro commandava o alferes de milícias Francisco Xavier 
Pinto, o segundo o cabo de esquadra Manoel Gomes, e o 
terceiro o cabo de voluntários Lauriano José Bicudo; 
n'esta ordem marchavam a emboscar-se, quando foram 
encontrados por um alferes, e três soldados que rondavam 
a campanha de cavallo para o lado da provincia e pergun- 
taram— quem vive — ; eram pouco menos das 5 horas da 
manha» Manoel Gomes lhe respondeu— que se entregassem, 
se não morriam— ; mas elles deram de rédeas aos cavallo s 
e levaram três tiros do dito cabo, e de dois soldados: de- 
pois d'este inesperado cncjnlro não houve mais que atacar 
âquellas mesmas horas, o que fizeram com resolução ; á 
entrada das casas cahiu um dragão ferido de quatro balas 
dos hespanhoes, os quaes deram fogo a uma peça de 
bronze, calibre uma libra, mas como cslavam em um alto, 
8 a nossa gente ia na baixa, não fez damrio a metralha ; 
qilizeram carregar e não tendo tempo achou-se o cartuxo 
no meio da peça ; seguiram os nossos ao inimigo e encon- 
tram uma forte estacada e um portão fechado, o qual tinha 
seis palmos de largo e onze de alto ; os contrários de dentro 
deram alguns tiros, mas sem eíTeito ; o nosso fogo foi mais 
matador: por vezes bradou-se que se rendessem, mas o 
commandante respondia — morrer sim, entregar não. — 
Emquanto isto passava, eu persuadi aos uaycurús que 
chegassem, mas elles escusavam-se com o pretexto de 



— {v\ — 

ser iKMte, e que mais temiam os nossos tiros que dos 
castelhanos; enifim deixei esta fraquíssima nação feita 
inútil espectadora da tragedia, e fui incorporar-me com 
os meus a tempo que o commandante hespanbol exha- 
lava o ultimo suspiro com mais de 23 perdigotos e 
balas, sem que n'aquella confusão se possa saber quaes 
foram os que lhe fizeram tão cruel serviço ; com esta morte 
renderam-se os hcspanhoes, dos quaes veiu um abrir o 
portão, que os pedestres Felisberto das Neves e Felisberto 
José não puderam romper por mais esforços que fizeram. 
O cabo de esquadra Manoel Gomes, que dirigiu a acção em- 
quanto não cheguei, e o soldado António Pins puzeram-se 
junto a um baluarte, a defenderem que os castelhanos 
se servissem de uma peça de arlilheria que alli estava ; o 
soldado com valor trepou pela estacada, mas o cabo com 
bom accordo o fez descer, temendo fosse morto dos nossos, 
visto que o escuro não deixava distinguir-se amigos de 
contrários. Aberto o portão, fiz dispor scntinollas, recolher 
as armas e contar os prisioneiros, que acharam-se 26, en- 
trando 11 perigosamente feridos, haviam mais 4 mortos, 
afora os que morriam pela mata, onde se encontrou ura já 
dando a alma a Deus. 

Confesso a Y. Ex. que o ver tanto estrago nos meus seme- 
lhantes, tirou-mo uma grande parte do prazer que me 
devia causar a victoria. Depois do cessar o fogo, de ama- 
nhecer, e quando estávamos occupados na segurança do 
presidio, chegaram os uaycurús como lobos esfaimados, 
c, sabendo que os prisioneiros já não tinham armas, che- 
garam até o ponto de quererem romper as sentinellas do 
portão ; derara-me parte, vim vêl-os, e disse-lhos que as leis 
da humanidade nos obrigavam a poupar a vida dos rendi- 
dos, que fugiram muitos, os buscassem e saciassem n'elles 
a sede de derramar sangue ; mas, como n'isso poderiam ler 



— 105 — 



risco, coiiTorlcrâm o seu furor em pilharem as casas, com 
Ul excesso que o mesmo fato portoguez que encontravam 
ara levado t tlopois de espoliarem o pouco que encontraram» 
ilerraraaram-se pela campanha, e quando foi ao meio-dia 
tinham rL^colhido 300 cavallos do trafego da guarnição, e 
me refine riam voltássemos na mesma hora. Emquanlo os 
fracos Índios cuidavam nisto, eu me informava do numero 
da guarnição^ que achei ser ao lodo H 4 praças, e, vendo que 
fallavam 8i, nao mandei solrtadõs buscar cavallos por não 
arriscar^-me a perder a vicloria no mesmo lugar que a ga- 
nhei. Fiz curar os eníermos hespanhoes, enterrar os mor- 
tos e acompanhar ao commandante até a sepultura. 

Pelo alferes de milícias, pelo soldado Francisco lavier 
Bibeiro como escrivão, o cabo da guarda, e dois soldados, 
mandei fazer a relaçlo inclusa dos géneros apresados, e 
passar revista nos poucos Irastes do commandaute, onde 
se encontraram os papeis que faço chegar á respeitável 
presença de V. Ex., entre os quaes achará duas cópias, que 
mostrara bem a importância da empreza que se concluiu. 
A pouca roupa do commanclante que se topou, fiz remelter 
á sua consorte, e rogar-lhe me perdoasse a cruel perda que 
lhe acabava de causar, 

O sargento, que estava com duas balas nos pés, disse- me 
que caminhando promptamente a S. Carlos seria mui facil 
a tomada por estarem descuidados ; essa foi sempre â 
miulia intenção, e, querendo pôl-a por obra, encontrei 
obstáculos invencíveis. Além dos uaycurús serem fracos, 
queriam voltar, com brevidade; das 5i praças que levei, 
era preciso mandar um destacamento conduzindo a artí- 
Iheria, armamenlo, prisioneiros, etc, ; reslavam-me tão 
poucos que seria uma verdadeira temeridade empre- 
bender uma viagem de 3 dias pelo centro do paiz inimigo, 
TOMO xxviii, p. t Í4 



— lor, — 

por cuja razão resolvi recolher-me. Entrei em novo em- 
baraço sobre o destino que daria aos prisioneiros, dos 
quaes não podia trazer tantos enfermos, nem a piedade de 
V. Ex. permitliria que deixasse em desamparo ; e vendo 
também que tinha cavalgaduras só para seis, rjesolvi-me 
dar liberdade aos mais, depois de jurarem e assignarem 
um termo de não pegar em armas conlra os dominios 
de Portugal, todo o tempo que durar a guerra. Entre os 
que faço conduzir a essa capital pelo alferes de volun- 
tários António José do Rosário, vai um alferes das prin- 
cipaes familias do Paraguay, filho de um coronel que 
foi commandante na tomada do Iguatemy, e neto do 
um governador da sua pátria: d*elle poderá V. Ex. 
informar-se do estado d'aquella provincia, do ataque 
de Coimbra onde esteve, e da causa de D. Lazaro le- 
vantar o sitio; e o soldado Francisco Xavier Ribeiro 
responderá a y. Ex. pelas miudezas da viagem. Da carta 
inclusa do commandante chefe verá V. Ex. que nada 
me diz a respeito dos primeiros, e se tenho obrado mal, 
supplico a V. Ex. o perdão, pois foi nascido o erro da falta 
de conhecimentos e de instrucçues. 

A estacada eedíGcios reduzi a cinzas, e cm uma cruz que 
alli estava alvorada mandei gravar ura letreiro que diz — 
Viva Portugal— foi tomado este presidio no 1* de Janeiro 
de 1802 : da planta d*elle, e da sua posição local nada digo, 
porque nas duas citadas cópias encontrará V. Ex. a ver- 
dade ; só accrescentarei que de Miranda áquelle lugar tem 
ao mais 34 léguas, e d*aHi a Iguatemy disseram-me os indios 
poder-se ir em quatro dias com marchas forçadas: o rio tem 
quasi 16 braças de largo e quatro e meio palmos de 
fundo ; as serranias d*onde nascem estavam a nascente a 
cinco ou seis léguas -, todos os ribeirões que encontrei cor- 
rem para o rio de Miranda, e quatro se somem junto ao ca- 



- 107 - 

minho por debaixo da terra ; só da cruz para lá eslao três 
qae vão metter-se no rio da Lapa, ficando claro que o que 
chamamos rio Branco é uma babia, e o que sabe pouco 
acima de Bourbon tem pequeno curso : sete léguas para 
chegar ao rio da Lapa, o caminho é em extremo pantanoso, 
6 do Roncador para cà vem-se sempre por entre serranias, 
oade formam quatro gargantas que com pouco adjutorio da 
arte ficam muito defensáveis, mas sò em duas tem agua. 

A peça calibre 3 ficou uma légua arredada do presídio 
arrasado, enterrada no campo; por estes dias pretendo 
mandar conduzil-a por bois, e então farei reconhecer se os 
hespanhoes voltaram á estaca depois da minha viagem. 

A falta de cavalgaduras me poe em inacção; e se Y. £x. 
fôr servido que continue a empregar-mc em semelhantes 
diligencias irei com muito gosto, porém é preciso levar 
mais portuguezes, visto que 100 indios não são capazes de 
fazer cara a quatro homens armados. 

Do pouco gado que se achou no curral inimigo, e mandei 
trazer, fez-se repartição igual pelas tropas, contemplando-se 
mais aquelles que foram em cavallos próprios, tocando á 
real fazenda 36 cabeças. A pratica do uaycurú é da presa 
pertencer a quem a faz, de sorte que um captivo fica com 
quanto apanhou, e seu senhor sem cousa alguma : se os 
tornarmos a levar à campanha, os poderemos pôr em me< 
Ihor ordem, visto o grande temor que de nós conceberam 
com esta jornada. Vou dispondo este presidio de sorte 
que, se os hespanhoes se resolverem vir a elle, encontrem 
os mesmos homens qn ^ viram em o rio da Lapa. 

Supplico a V. Ex. a permissão de rogar pelos meus com- 
panheiros, que para mim basta-me o gosto de ter podido 
desempenhar o lisongeiro conceito que V. Ex. de mim faz : 



— 108 — 

O alferes Francisco }Lavíer Pinto deseja recolher-se ã sua casa 
a descansar ; elle se faz merecedor d'esta graça que a V. £x. 
rogo : o cabo de esquadra de dragões Manoel Gomes e o 
dragão António Pires são os que trabalharam mais em toda 
a acção, e por isso espero que Y. Ex. os attenda conforme 
o risco a que se expuzeram : o cabo de esquadra de volun- 
tários Lauriano José Bicudo deseja fazer passagem para a 
companhia de dragões, elle se mostrou esforçado : o sol- 
dado Francisco Xavier Ribeiro também se fez recommen- 
davel, assim como os dois pedestres Felisberto das Neves e 
Felisberto José: todos ficam esperançados na justiça e 
bondade de V. Ex., e promplos a perdermos as vidas pela 
segurança e augmento dos dominios de S. A. R. e do 
excelso nome de Y. Ex., que Deus guarde por muitos annos 
para bem d'estas capitanias. 

Miranda, 13 de Janeiro de 1802. De V. Ex. o mais obe- 
diente súbdito.— Francisco RodrigtAes do Prado.-^ O se- 
cretario do governo, Félix José dos Santos. 

Ilfm. e Exm. Sr.— A 17 do corrente recebi do gover- 
nador hespanhol da província da Assumpção a carta junta 
na cópia de n. 1 , com a qual me remetlia o tratado de paz e 
amizade entre as coroas de Portugal e de Hespanha, assi- 
gnado em Badajoz a 6 de Junho do anno passado. 

No dia 21 recebi por via do Rio de Janeiro as gazetas 
portuguezas, e no segundo supplemento da de n. 29 achei 
o decreto que baixou ao desembargo do paço para a publi- 
cação da paz. 

No dia 25 recebi do governador do Pará a caria da cópia 
de n. 2 com um original impresso do mesmo tratado, que 
elle pôde haver de um negociante d'aquella cidade, pois 
que da còrle não tinha tido. carta alguma. 



- 109 - 

Immediatamente mandei suspender todas as hostilida- 
des, e, na grande consternação cm que me vejo por falta 
dos meios precisos para as despezas da guerra, bem dese- 
jaria eu suspender também a maior parte das mesmas des- 
pezas, reduzindo ao menor numero possível os dragões e 
pedestres, cujo estado ellectivo é presentemente de 712 
praças, e deixando recolher à suas casas os pobres auxi- 
liares, que ha cinco annos que são incommodados : porém, 
vendo que ao Pará inda em Dezembro não tinham chegado 
as reaes ordens de Sua Alteza, nem participação alguma, e 
combinando tão extraordinária demora com o art. 2"* do 
tratado, com o estado actual da Europa, e com a alteração 
que nas suas relações politicas causou a morte do impe- 
rador da Rússia; não me arrisco a tomar por ora este ar- 
bilrio, apezar do aperto em que me vejo, e em que se 
não vê presentemente outro qualquer, que tenha a seu 
cargo o defender, não digo 500 léguas de fronteira, mas 
ama mínima porção dos vastos Estados de S. A. R. 

Ao governador do Pará respondo na conformidade da 
cópia de n. 3 e ao governador hespanhol,para lhe não dizer 
que inda não recebi ordem nem participação alguma da 
minha corte, diffiro a resposta por mais alguns dias, a ver 
se entretanto chega a dita participação, a qual talvez virá 
com a da declaração da guerra, que até hoje não recebi tam- 
bém e só presumi que a teria havido, quando repentina- 
mente fui atacado. Mas graças a Deus que nada me tem feito 
falta, e as velhas armas d*esta capitania, manejadas por 
mãos fieis, até o presente tem conservado sem mancha a 
gloria antiga do nome portuguez. 

^Ôeus guarde a V. Ex. muitos annos. Villa Bella, 27 de 
Fevereiro de 1302.— Illm. e Ex. Sr. visconde de Anadia. 
— Caetano Pinto do Miranda Monte Negro. 



- no - 

FuudaçAo de ViUa Maria do Parasuay 

e proTideucias para o seu eii- 

Sraiideeimeuto. 

Illm. e Exm. Sr. — Faço a Sua Magestade presente o 
termo da nova fundação denominada— Villa Maria do Pa- 
raguay— , a que ultimamente dei principio na margem es- 
querda do rio Paraguay, junto do lugar por onde de pre- 
sente se dirige o caminho d'esta capital para a villa de 
Cuyabà, que distará 5 léguas do antigo marco do Jaurú; 
tendo-me valido afim de povoal-a, além d*outros casaes 
dispersos que pude congregar, de mais de 60 indios ca3- 
lelhanos de ambos os sexos, que haverá três mezes deser- 
taram da missão de S. João de Chiquitos, persuadidos de 
pessoas que n'este mesmo objecto Gz penetrar ao dito esta- 
belecimento; e, supposto que semelhantes diligencias jamais 
deixem de trazer comsigo bastante trabalho e despeza da 
real fazenda, e que por consequência são bem difficultosas 
n'este paiz, conheço por outra parle que interessam essen- 
cialmente o real serviço ; pelo que até onde abrangerem os 
fracos meios actuacs, emquanto por aqui me demorar, ea 
não cessarei de continual-as ; em conformidade das or- 
dens da mesma Senhora de cuja execução estou encar- 
regado. 

A paragem da referida nova povoação é conhecidamente 
própria e adequada a facilitar a indispensável communica- 
ção e commercio d'csla com a mesma villa do Cuyabá; 
porque fica quasi no meio do caminho e jaz em situação 
fertilissima de peixe e caças, em que abunda de ordinário o 
mencionado Paraguay ; ficando além d'isto bem nas vizi- 
nhanças da fronteira ; porém necessitará de bastante tempo 
e despeza, antes que finalmeale se consolide nos termos 
competentes, e o mesmo repito também a V. Ex. que sue- 



- Hl - 

cede a respeito dos outros trcs novos estabelecimentos, ou 
povoações» a que da mesma sorte dei principio n*esla capi- 
tania, segundo as respectivas contas que fiz subir ao real 
throno ; ainda que para todos estes fms me vejo na ver- 
dade tão embaraçado como V. Ex. poderá julgar pela no- 
tória falta de habitantes, pois que a uma tão remota parte 
do mando como esta, e tão pouco sadia, são com effeito ra- 
ríssimas as pessoas que voluntariamente se transportam ; e 
ainda essas mesmas sem desígnio algum de existir e per- 
manecer, como se fazia necessário. 

Pelo que tudo, se Sua Magestade fosse servida de mandar 
conduzir um certo numero, que parecesse, de familias bran- 
cas pela via do Pará, ou aliás do Rio de Janeiro em direi- 
tara aos rios de S. Paulo, seria certamente uma pro- 
videncia, ainda que custosa, d'onde resultassem ao dito 
real serviço as mais proveitosas utilidades, na certeza 
em que se pôde convir de ser como baldado todo o 
maior fundo que se fizer na civiiisação e préstimo d'estes 
Índios selvagens, quasi sempre inconstantissimos, fero- 
zes e indomáveis* ou d'oma indolência e preguiça sem 
exemplo, que, vagando pelos matos por eíTeitos da própria 
inclinação e natureza, com total desprezo de honras e fazen- 
das, ainda no diíDcil caso de se atlrahirem, e ajuntarem, não 
obstante a mais cuidadosa diligencia, se internam nova- 
mente sempre que podem conseguil-o por estes immcnsos 
desertos, que atudo preferem, depois de executarem as suas 
costumadas rapinas, mortes, e outros damnos, deixando 
além d*isto infructiferas pela maior parte todas as fadigas 
egressas despezas a que sempre primeiro não deixam de 
daroccasião. 

Deus guarde a Y. Ex. muitos annos. Yilla Bella, 20 de 
novembro de 1778.— Ulm. e Exm. Sr. Martinho de Mello 



^ «12 - 

e Castro* — Luiz de Albuquerque de Mello Pereira e Ca- 
ceres. 

TERMO DE FUNDAÇÃO do novo estabelecimento a que 
mandou proceder o lUm. e Exm. Sr. Luiz de Albu- 
querque de Mello Pereira e Cáceres, governador e ca- 
pitão general doesta capitania de Mato Grosso denomi- 
nada Villa Maria do Paraguay. 

Anno do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Chrislo 
de 1778, aos 6 dias do mez de Outubro do dito anno, n*este 
districto do rio Paraguay e margem oriental d'elle, no 
lugar aonde presentemente se dirige a estrada que se se- 
guia a Cuyabá desde Villa Bella, sendo presente o tenente 
de dragões António Pinto do Rego e Carvalho, por elle foi 
dito que tinha passado a este dito lugar por ordem do Ulm. 
e Exm. Sr. Luiz de Albuquerque de Mello Pereira e Cáceres, 
governador e capitão general d*esta capitania de Mato 
Grosso, para com effeito fundar, erigir e consolidar uma 
povoação civilisada, aonde se congregassem todo o maior 
numero de moradores possivel, comprehendidos todos os 
casaes de indios castelhanos proximamente desertados 
para estes domínios portuguezcs da provincia de Chiquitos, 
que fazem o numero de 78 indivíduos de ambos os sexos, 
a que juntando-se todo o outro numero das mais pessoas 
congregadas para o dito fim, faz o total de 161 indivi- 
dues de ambos os sexos ; cuja povoação, segundo as 
ordens do dito senhor, se denominará de hoje em 
diante, em obsequio do real nome de Sua Magesta- 
de, — Villa Maria do Paraguay — , esperando-se que 
de semelhante eslabolecimenlo haja de resultar grande 
utilidade ao real serviço e commcdidade publica : e 
porque supposto o plano do terreno para a dita villa se 
acha com alguma disposição para continuar a fundar-se 



— U3 — 



com regui aridade: comlufio, como alguns dos alinharaenlos 
Ião estão conformes ao projecto da boa policia, como de- 
reria ser, determinou elte dito tenente a todusos morado- 
T^ em nome de S* Ex que, deixando de fazer mais aEgum 
beneficio a varias cabanas existentes, só n'ellas assistem 
lemquanlo se fabricavam casas no novo arruamento, que 
niie fica prescripto, e balisado por elle tenente com marcos 
sididus de pâo de lei; sendo obrigados a não excederem 
nem diminuírem a dita construcçao na altura de 14 pal- 
mos de pé direito na frente da todas as casas que se la- 
rantirem e 2i palmos de altura no cume : oulrosim deter- 
minou que precisamente chamí riam para regular os ditos 
pés direitos ao carpinteiro João Murlins Dias, e nâ falia 
d'esltí outro algum inlelligente no officio, afim de conser- 
var sem discrepância, segundo o risco, a lar^^ura de 60 
palmos de ruas que estão assignadas por elle dito tenente; 
cojas actualmente demarcadas e abalisadas terão os seguin- 
tes nomes, a saber: a primeira contando do norte rua d'Al- 
buquerque, a immediatn para o sul rua de Mello, as quaes 
ambas vao desembocar na praça e cada uma d'el!as faz 
face â mesma do norte e do sul ; assim como também as 
litfessas de Sí> palmos^ que dividem os quartéis das ditas 
ê se denominarãi» estas travessas, a primeira con- 
tando do poente para o nascente, travessa do Pinto, e a que 
sest^gue contando também para o nascente, travessa do 
Rego, e no alto da praça da mesma banda do nascente, 
cuja frente fica riscada entre as ruas e travessas, com 360 
palmos, cujo numero tem também as mais quadras, po- 
derão os moradores erigir a sua igreja pi ir ficar a porta 
principal d'ella para o poente, como o determinam os ri- 
luaes; e o mais terreno d'esla frente da praça por agora 
se nio occuparía em casas, deixando-o livre para as do 
conselho e cadea, quando se deverem fabricar. Cada mo- 

TOMO XXVllT, p. i, IS 



- 41* - 



rada dos ãllos povoadores nlo lerá mais de tOO palmos 
de GomprirnentoparaquiriUL que lhes licam delerminaílos 
para o ceaLro de cada um dos quarleis. O que ludo assítn 
execalado pelo dito ienente de dragijes na presença de 
todos os moradí)r<!S, mandou a mim Dumiagus Ferreira dt 
Costt, fiel d' este registro ^ que servindo de escrivão liíesse 
eslã termo para constar do ruraríilo, o qual assiguou com 
as testemunhas seguintes: — Leonardo Soares da Sousa, 
homem dti negjcio; Ignacio de Almeiíia Lara, João Mir- 
quês d' Ávila; Ign^icio José Pinti, s dilado dragão; Ma- 
noel Gonçalves Ftírreiri, soldado dragão ; e António Pe- 
reira de Mattos, António daC^sta Rodrigues Braga, José 
Francisco, Agoslínbu Fernandes, António Xavier de Monta, 
António Teixeira Coellio, K eu U jovmgtis Ferreira da Costa, 
fel d*éste registro, que o escrevi,— 6 leneoto de dragões 
commandatite António Pinto do Rego e Carvalho, Leo- 
nardo Soares de Sousa» Ignacio de Almeida Lara, Joào 
Marques d* Ávila, Ignacio J isé Pinto, Manoel Gojiçalvos 
Ferreira, Arttonio Pereira de Mattjs, José Francisco, Anla- 
nio dâ Costa Rodrigues Braga, Agostinho Fernandes, Antó- 
nio Xavier de Moura, Ant<.mio Teixeira Coelho •—í-íit^ úe 
Albuquerque (ie Melh Pereira e Cacer&s, 

lUm. e Exm. Sr — D<:rpois da nova Tundação de TiJh 
Maria do Paraguay, a que procedi no anuo de i778, pre- 
tedente, povoando a com os casaes de i ódios liespanhoes» 
qtie ãs minhas diligencias haviam deserlado para estes do* 
rainios; conforme â ia||p6clÍYa caria que dei a Sua Mag6$- 
tade por carta dis 20 de Novembro do referido anno, 
que a V. Ex. dirigi, incluindo o termo da mesma fun- 
dação, aonde rae tínho esforçado e vou esforçamlo de 
fazer levantar igreja, casas e promover as ordinárias 
agriculturas com algum principio de fabricas de tecer al- 
godões, o que hz um objecto precisíssimo n'estas paizes; 



^ 140 — 



d'outras mais proTÍdenciag competentes ao meoeio- 
ãdiantamento; julguei que absolutaiHí^oLe se fazia 
necessário erigir 6m nova parocbía a dita villa; Lanto 
para mais respeito&a memoria e profundo obsequio do 
«lugmio DOme da rainha nossa senhora^ de que se 
hoorou; como afim de que a todos aqaelles morado- 
rr5, compreheudidos os de denlro de um territ^>rlo do 
quasí 30 léguas mais ou menos de tx tensão, se facilitasse a 
mais frequente adminislrâçâo dos Sac! ameotos da igreja» 
dú que ale aqui iiao participavam que rarissimas vezes ; 
fazendo-se junlimeule muito mais considerável alé por 
*\^te principia aquelle dilo eslabelecimento: por cujos mo- 
iHOssoliriloi por via do vigário da igreja e da vara do 
ioívabii a desannexaçãe de alguma parle da sua vastíssima 
fiarochia, da me$ma sorte extensíssima, que igualmente 
soliciUyi d>ste vigário em orJem a consLiluirem o dislricio 
da «(tva fregutí/ia de Vílla Maria; e assim executou com 
efTeittr, ainda que as concernentes deliberações dos ditus 
m vigários da vara do Cuyabà e Mato Grosso passanim 
sridíi eond cíonaes ald que o Rev. bispn diocrsano, que é 
do Rio de Janeiro, approvasse^ ou confirmasse esle seu 
proeixlimenlot no que deve presumir que omesmopre* 
lado nm teni duvida, se lonsiderar ds grandes vantagens 
tr.^piriluaes que hlu de resultar do mencionado preciso 
arbUrio; o que tudo ponho na presença soberana da 
mesma Senhora, com a notícia do já ter chegado á dita 
Vílla Maria o novo parorbo^ que emfim se dt&tinou, aptzar 
de não pequenas diiliculdades que se oppuzeram* 

Igualmente vou a V. Ei> relatar, para que tanbem suba 
ao real conhecimento, ^ útil compra de uma boa fazenda de 
gado, que acabo de mandar ajustar, na outra margem do 
rio Paragiiay, opposla á <la mesma nova villa; com o de^ 
lino de servir à indispensável subsistência dos referidos 



— 146 - 

Índios bespanhoes, de que principalmente se povoa ; por- 
quanto» sendo criados em paizes de immenso gado vaccum 
como são todas estas adjacentes provindas de Moxos e Chi- 
quitos» estranhariam infinito a falta de semelhantes soc- 
corros» ou continuariam a obrigar a real Tazenda à grossa 
despeza de lhe estar comprando frequentes vezes (como 
por necessidade já tinha principiado a executar-se) alguns 
bois, ou carne secca, o que, attendído ao maior excesso 
dos preços, seria na verdade bem diílicíl de tolerar ; além 
de que succedeu que a citada compra d*esta fazenda de 
gados, que apenas distará da nova povoação cousa de uma 
légua com o rio de permeio, sahiu em preço o mais ac- 
commodado para a mesma real fazenda, tanto que espero 
que dentro em poucos tempos, no caso de se adminisirar 
com o devido cuidado, não sò esta se indemnisará ampla- 
mente do despendido, mas que poderá ainda utilisar-se por 
modo considerável, vendendo boas porções do dito gado 
para o consumo d'esta capital; em cujas vizinhanças 
pelos mais pastos e disposições que na verdade tem, 
não foi até agora possivel fazer abundar e baratear 
sensivelmente á carne de açougue, por mais que n'isso 
tenho cuidado, e sei que cuidaram os meus antecessores. 
Exponho da mesma sorte na presença d.'. Sua Mag:^stade 
que tenho ultimamente feito varias disposições as mais 
efficazes afim de não só restabelecer, mas melhorar o lu- 
gar de Índios chamado de SanfAnna, a 9 léguas de dis- 
tancia para leste do Cuyabà, e creado no inimitável governo 
do conde de Azambuja; porém que se tinha reduzido a 
uma successiva decadência, o que com eíTeito se vai con- 
seguindo cora muito bom successo ; particularmente edi- 
ficando-se no mesmo lugar uma nova igreja {que não ha- 
via), com bastante magaíficencía e asseio para estas terras, 
que de todo está concluída ; concorrendo com o maior 



- 117 - 

zelo e actividade para esla tão pia, como indispensável 
obra, o actual juiz dí^ fòra da viila do Cuyabá José 
Carlos Pereira, a quem lenho incumbido as respectivas 
providencias do dito lugar de Sanl^Anna. 

Doa por fim lambem conla a Sua Mageslade de que 
tendo presentes as grandes ulilidides, principalmente 
ÍQtaras, qut5 traz comsigo o ajudar a povoíiçao e commercio 
d'eslas dilatadissiq^as províncias, facilitando a correspon- 
deDcia de uns com outros governos ; tenho de próximo 
persuadido e feito sugíerircom bom eTeito, o sem a mí- 
nima despeza do real cofre, o estabelecimento de uma no- 
va fazenda na passagem do rio chamado Porrudos, ou de 
S. Lourenço, para là do Cuyabá 26 léguas ; do que espero 
redundará uma grande cornmodid ido pira os tropeiros, 
correios e mais viandantes, assim de Goyaz, como doesta 
capitania, que transitarem aqueiijs sertões, além da que 
já lhes resultava, de encontr.irem no outro recente esta- 
belecimento e 'registro denominado da Insua, que muito 
pouco di^pois da minhi chegada lambem erigi de novo, 
DOS confins orienlai^s d'esta capitania, noticia que a V. Ex. 
participei por carta de 4 de Janeiro de 1774, para que 
chegasse ao real tlirono. 

Desejarei que todos estes procedimentos, que à V. Ex. 
tenho declarado, naod'ísmereçam, aindaqucMiãosejaque 
pelo que têm de z*dosos, o real agrido <la rainha nossa 
senhora, a cuja elovaila noticia e consideração espero que 
V. Ex. os participará. 

Deus guarde a v. Ex. muitos annos. — Villa Bella, 23 
de Dezembro de 1779.— Illm. e Exm. Sr. Martinho de 
Mello e Castro. — Luiz d^ Albuquerque de Mello Pereira 
e Cáceres. 



- 118 — 

Estabeleelinetitoift de UTotii Coliitlira e Yl- 
Si^ii c iiofieSii lie niii Tnapiia ;i:eosra* 
filiira por onde se itiostra a corrente 
do Giiaporé. 



Illm, e Exin< Sr.— Dfsde as wHimas contas que puz 
na real presença por vias de carias que a V. Ex, di- 
rigi em fins do anno precedente de 1777, fazendo certa 
a rainha prompta execução a Iodas as oitlens que Sua Ma- 
Restadc foi servida de expedir-me até aqaelle lempo, com 
todos os mais procedimentos e succ^ssos de alguma con- 
sideração, que então havia para aqui, m^^ não tem occor* 
rido novidade digna de será V, Ex, rHalada particularmen- 
te depois das noticias publicas (ainda que só conimuni- 
cadas em correspondnncias familiares), assim de que a Rai- 
nha, no?s^ senliMra, tinha convindo um Iralado de paz coiBi 
a corte de Madrid, como lambem um de definitiva regu- 
lação de limites n'este vastíssimo continente da America ; 
assumpto sobro que por agora nSo tenho outro algum co- 
nhecimento» 

Qaanlo aos recentes estabelecimentos, chamados de 
Nova Cninibra e de Viseu, a saber; o primeiro delles na 
margem nccidental do rio Paraguay, e o segundo na mesma 
tanibem do rio Gnapore, a que jà vai para Ires annos que 
dei osprimeinu^principiosnesta capilania e sobre que a Km 
Mageshide fiz lambem pr* sentes conlas repetidas ; ajun- 
tando os relativos lermos de fundação que a V, Ex- inclui, 
sem embargo de parecer, que talvt^z não ficaram cumpre- 
hendidos na sobredita linba divisória que se imagina no 
tratado preliminar; eu me não deliberarei de sorto al- 
guma a al>andonal-os durante a minha adminisiração» sem 
que i^ara semelliante fim primeiro reaba uma expressai 
ordem da dita Senhora, pelas conhecidas vantagens que 



— H9 - 

na verdade resultam a estes seas domínios da subsistência 
dos masmos estabelecimentos, segundo informei nas mi- 
nhas expressadas contas, descontando além de outras mui- 
tas commididados que favorecem a mais solida conser- 
TaçSo e dilatação dVdIes quanto ao de Viseu, situado quasi 
defronte do rio Carúmbiarà ( loiíde n*outro tempo esteve 
jâ uma missão de índios portuguezes], em cujas vizinhan- 
ças fica a serrados Qa.irajús. que, assim pjlos seus dila- 
tados declives que oliam ao nasci^nte, comt) pidas suas 
faldas que banhi o dito Guaporé, se acabou proximamente 
de examinar e reconhecer qne ha muito suílicientes pintas 
de ouro e bias disposições d ^ lavras; de maneira que po- 
derio vir a fazer um interessante descoberto. 

Assim, pois, poresta grande utilidade, que provavelmente 
ha de attrahir bastantes moradores àquella parte da frort- 
leira, e que será convenientíssimo que se promova ; como 
pela efTectiva posse em que nos achamos já d*aquella dita 
serrados Quarujús, ou do toda a parte d*ella que olha ao 
nascente ; por fie ir quatro léguas ainda para cima, ou a 
sul da referida nova povoação de Vizeu de que lancei os 
fundamentos, sobre haver férteis e copiosas matas n'a(|uella 
parte para lavouras ; contra o que succede de ordinário na 
outra margem oriental, que é muito pantanosa, me parece 
que seria de um incomparável proveito, e da mais bem 
advertida politica, que de nenhuma sorte fosse cedido aos 
castelhanos aquelle pequeno território, tanto para se não 
aproveitarem dariquezaque naver(ladepromette,como para 
nos nãj inoommodarem talvez muito e interceptarem mais 
a sua navegação pelo tempo adiante. 

O território das faldas e declives orientaes da referida 
serra com lodos os outros que se lhes seguem para o sul, 
incluídos na estreita língua de terra que por muitas vezes 
se avista e observa, entre a cordilheira que acompanha 



— 120 — 

quasi parallelamente este dito rio Guaporé desde as imme- 
diações d'esta mesma capital até defronte do nosso antigo 
deslaearaenlo das Pedreiras: são os qw^erdadeiramente 
parece que constituiriam uma raia menos incontestável, e 
nos term s presentes menos prejudicial aosdominios de 
Sua Magestade, guardado sempre o maior socego e com- 
modi'lade dos ditos castelhanos; pois que nunca navega- 
ram aquelle ri()(que elles chamam Ilenes) desde a emboca- 
dura que nV4ie Taz o de S. Simão para cima, ou ao sul, nem 
jamais lhe pôde ser preciso a nâo fundarem comeffeito novas 
povoações sobre a margem do rio, que privativamente na- 
vegamos sempre até o dito S. Simãi) ; o qu3 de sorte ne- 
nhuma se lhes deveria pírmittir pelo grandíssimo risco e 
inconveniente que em tal caso não deixaria de resultar à 
communicação indispensável do forte do Prmcipeda Beir§, 
e ao commercio do Pará, sem o que não pôde subistir 
esta capitania. 

Da mesma sorte exponho ao real conhecimento que me 
acho trabalhando em pôr em limpo um exacto mappa geo- 
graphico de ponto grande, por onde se mostra, e conQ- 
gura, tolaa dilatada corrente do mesmo rio Guaporé, prin- 
cipiando desde esta villa até com effeito confluir juntamente 
com o Mamoré no grande da Madeira, divisando-se no m£S- 
mo mappa todas as diíTerenti^s larguras dos rios, sinuosi- 
dades, bahias, confluencias, ilhas grandes e pequenas ; com 
todas as difl'ercntes terras e morros adjacentes aos mesmos 
rios, de d'onde se avistara particularmente para a parte de 
Hespanha, ou do occidente, cuja carta foi levantada com 
toda a maior exactidão mathemalica que se fez possivel de- 
baixo dos meus próprios olhos, etal ou qual direcção, se- 
gundo a V. Ex. me parece que referi ; e me lembro que o 
sobredito mappa poderia ser de um grande uso nas cir- 
cumstancias actuaes, aiim de regular e de definir com infòr- 



- 121 - 

màçao mais plena o sobredito grande negocio das demarca- 
ções, pelo que o remetteria desde logo com effeilo á real 
preseuça ; |*orém a falia de copiador iotelligenle» que não 
ba, me fez valer de um tal curioso do paiz que 6 de pouca 
▼islã e suiuTuamenle vagaroso ; pelo que só passado ainda 
algum tempo d' aqui é que ficara prompto apezar da pró- 
pria diligencia que lenho posto em ajudal-on'esta obra, 
aliás descripta comas attenções mais escrupulosas ; ao que 
me persaadin ora outro tempo mais depressa a curiosidade 
de render individual conta das minhas viagens n'esla parte 
do mundo» do que a consideração que então não podia ter 
lugar, de que talvez poderia vir a ser ulil, como julgo que a 
V* Ex, não deixará de parecer, visto que fornece uma idéa 
clara da aclnal fronteira^ ou de outra qualqner que ?ua 
Mageslade for servida resolver e ajustar. 

I>eus goarde alUma^eExraa.pesãoa de V,Ex.— Villa Bella, 
30 de Novembro de 1778. — Illm. e Exm, Sr. Martinho de 
lello e Castro. — Luiz fie Àlbitqucrqm de Mdlo Púreira e 



CiiiiBf riieçflo tio forte da 1Priiiei|ie d» 

Heira, e eoiiser¥açdo de oiitron 

esfalielecinieiitop. 



lllm*eEx. Sr, — Na construcção do forte do Prin- 

^ipe da Beira, que principiei no dia 20 de Junho de 1776, 

jníorme as precedentes e repelidas contas que tenho feito 

"OTbir á presença de Sua Magestade em direitura a V. Ex.» 

C4)nlinúo em fazer proseguir com todo aquelle maior vigore 

diligencia de que se fazem suscepiiveis os escassos meios 



— 122 — 

d*este paiz ; aonde além do dinheiro, que é o mais indis- 
pensável instrumento com que se aplainam asdifficuldades, 
e adiantam semelhantes trabalhos, faltam ainda verdadei- 
ramente vários outros recursos necessários : como são os 
competentes artífices e operários que se deveriam empre- 
gar; de maneira que sobre alguns remettidos do Pará de- 
pois das mais excessivas delongas edespezas fui obrigado 
por ultimo a mandar vir um mais considerável numero 
d'elles, que hão de ser escravos do Rio de Janeiro, aonde 
a referida encommenda, sobre conta da real fazenda» se fez 
ha perlo de um anno ; mas antes dos fins do corrente de 
1779 não poderá chegar a esta capital, sendo fácil de cal- 
cular por esta tão extraordinária demora aliás inevitável, 
supposto que dentro do mesmo continente, que a Y. Ex. 
representa, apezar das mais vivas recommendações ros 
obstáculos que quasi insupefavelmente se offerecem afim 
de qualquer empreza n^estas tão desprovidas como remo- 
tas regiões, apezar do grosso cabedal quasi incrível na Eu- 
ropa que tudo custa, por maiores que sejam os esforços do 
zelo e da economia. 

Emquanto aos outros novos estabelecimentos e postos 
guarnecidos doesta dita cjipitania, sobre que igualmente 
tenho posto na real presença, mediante o conhecimento de 
V. Ex.,as humildes contas e representações que correspon- 
diam ; vão subsistindo no indicado estado, emquanto a rai- 
nha nossa senhora não fôr servida decidir ou mandar o 
contrario ; ao mesmo tempo que o entretimento de todos 
elles se faz quasi impossível de supprir, como por muitas 
vezes tenho relatado a V. £x.,pela expressada falta de 
meios. 

Presentemente se me não offerece que acrescentar ás 
sobreditas contas, que a ultima nova fundação de que ainda 
não tinha dado parte, a qual da mesma sorte fiz executar. 



conslanle do lenuo que incluo a Y. £x. ; situada na margem 
Occidental do rio Paraguny a ires ou quatro dias de viagem 
para cima do presidio que chamei Nova Coimbra ; na imagi- 
nação de se tratar de demarcações, segundo respectivamente 
aDDonciam os dois tratados públicos. 

R'esta mesma occasião executo as ordens de Sua Mages- 
ladc concernentes â clandestina extracção dos diamantes, 
absolutamente prohibida n'esta capitania, dirigindo as 
respectivas devassas, que vou fazendo tirar, ao Exra. vis- 
conde de Villa Nova da Cerveira como secretario doestado 
dos negócios do reino, pois que assim o determina a arta 
régia de 16 de Novembro de 1770. 

Deus guarde a V. Ex. muitos annos.— Villa Bella, 5 de 
Junho de 1779.— lUm. e Exm. Sr. Martinho de Mello e 
Castro. — Luiz de Albiujuerque de Mello Pereira e Cáceres. 



P^piilaçfto da capitania delflato Grosso 
em ISOO. 

Illm. e Ex. Sr. — Tenho a honra de remettera V. Ex, 
para ser presente a Sua Alteza Real, o mappa da povoação 
d'esta capitania do anno do i:^0(), com os mappas particu- 
lares das parochias d*o nde foi exlrahido. 

A respeito dos ditos mappas particulares, deverei notar 
que o districto doesta capital tem uma única freguezia, 
a qual é a da Santissii^a. Trindade de Villa Bella, eu porém 
contemplei como parochias as capellas de S. Vicente, de 
Nossa Senhora do Pilar, de Nossa Senhora da Esperança do 
Casalvasco e de Nossa Senhora da Conceição do forte do 



— 124 — 

Príncipe da Beira : não sò para facilitar este trabaltio, mas 
porque pretendia também que os ditos mappas servissem 
de base à divisão, que jà me anticipei â proporção da íre- 
guezia de Yilla Beila, na realidade muito grande e dispersa. 
Pelas mesmas razões no distrícto do Cuyabà contemplei a 
capellania de S. Pedro de El-Rei como parochiadís- 
tincta. 

O pequeno mappa que tenho a honra de incluir n'esta 
carta <oi extrahido e ordenado por mim com o fim de que 
V. Ex. podesse ver de um golpe de vista, mais rápido, o nu- 
mero dos habitantes de Yilla Bella de Cuyabà, e de toda a 
capitania, os casamentos, nascimentos e mortos, e o estado 
da escravatura. 

No districto i*esta capital não deixará V. Ex. de compa^ 
rar a somma dos habitantes com a dos mortos, e, se os 
cálculos do antigo mundo são applicaveís às novas colónias 
do Brasil, a proporção de 1 para it seria um argumento da 
salubridade de Mato Grosso. Dos mortos aos nascidos 
houve excesso de uma pessoa, mas assim mesmo é uma 
prova do melhoramento que vai tendo este clima. 

Com effeito, em cinco annos, cinco mezes equatorze dias, 
que n'elle existo, ainda não houve uma epidemia, e o 
presente anno vai correndo saudável, apezar de mil pro- 
gnósticos, a que deu causa a extraordinária enchente do 
Guaporé, que excedeu uma pollegada a do anno de 1784, a 
maior de que havia noticia. O augmento da cultura, e da 
povoação, a abundância de gado vaccum, ao qual até lhe 
serve de malhada a praça d*esta villá ; o uso quasi geral 
da aguardente de canna, do tabaco de fumo e das pimen- 
tas da terra, na comida ; os tamarindos, as laranjas, fruta 
presentemente de todo anno ; e a providencia que eu dei 
para que se cortasse lodos os dias carne fresca no açougue, 



— 125 - 

julgo serem as causas do sobredito melhorameDto e das 
moléstias não fazerem jã tantos estragos. 

O calculo no districto do Cuyahà é multo mais vantajoso» 
e a differença a favor dos nascidos talvez não deixará lu- 
gar a muitos exemplos. Aqucile clima cm que cheguei a ex- 
perimentar um calor de 97 graus segundo a escala de Fa- 
renheit, é, isto não obstante, summamente saudável. As 
mulheres são muito fecundas, e as crianças livres de bexi- 
gas e de outras moléstias, vingam com a maior facilidade e 
até com grande economia, porque a atmosphera é a ca- 
misa universal das crianças cuyabanas. 

Se as minis d'aquelle districto florescerem, como é de 
esperar, e se Nato Grosso d'aqui em diante lhe poupar mais 
os seus habitantes, o Cuyabà em breve tempo deverá ter 
um augmento extraordinário. 

Estimarei bem que nos annos futuros se possam fazer 
observações igualmente agradáveis. Devo porém prevenir 
a V. £x. de que não posso remetter os mappas do anno 
passado e do presente, não só porque os movimentos da 
gaerra absorvem os pequenos braços que tenho e os cui- 
. dados de todos; mas porque os mesmos movimentos fazem 
uma tal confusão e transplantação nos moradores d'esta 
capitania, que não é facil, emquanto elles não voltarem aos 
seus domicilios, o tirarem-se mappas exactos. 

Deus guarde a V. Ex. muitos annos. Villa Bella, em 17 
de Abril de 1802.— Illm. e Exm. Sr. visconde de Anadia.— 
Caetano Pinto de Miranda Manta Negro. 

Mappa da povoação da capitania de Mato Grosso no 
anno de 1800, com individuação das differentes espécies 
de habitantes, e do numero dos escravos, e com os casa- 
mentoSp nascimentos, mortes, q\u n*ella houveram no 
mesmo anno. 



• 



- iHi — 
NO DISTRTCTO DE YILLA BELU. 

HABITANTES. 

Brancos 504 

índios 131 

Pretos 5,1(53 

Mulatos 1,307 

Total. . . . 7,105 

NO DÍSTRICTO DA VILLA DO CUYABÁ. 

Brancos 3,738 

índios 884 

Pretos 9,112 

Mulatos 5,997 

Total. . . . 19,731 

EM TODA A CAPITANIA. 

^ Brancos 4,2v2 

índios 1,015 

Pretos 14,275 

Mulatos 7,304 

Total. . . . 26,836 

NO DISTRlCTO DE VILLA BELLA. 

ESCRAVOS. 

Pretos 3,848 

Mulatos 132 

Total. ... 3,090 



- ^n - 

NO DISTRICTO DA VILLA DO CUYABA. 

ESCRAVOS. 

Pretos 7,106 

Mulatos 824 



Total. . . . 7,930 

EM TODA A CAPITAIfU- 

ESCRAVOS. 

Pretos 10,954 

Mulatos 956 

Total. . . . 11,910 

OBSERVAÇÃO. 

No total da povoação da capitania faltam 85 i pessoas a 
saber: ÍOI da guarnição do forte do Príncipe da Beira, que 
o commandante julgou não devia oomprehender no mappa 
d'aquella parochia, 213 moradores na fazenda de Cama- 
poan, cuja população mandei examinar pelo preterito 
ouTídor d'esta capitania, o desembargador Francisco Lopes 
de Sousa, quando no mesmo anno de 1800 se recolhia para 
o Rio de Janeiro, 317 dragões, pedestres e auxiliares, que 
guarneciam Coimbra, Miranda e Albuquerque, com mais 
220 paisanos de todas as espécies e condições moradores 
nos referidos três estabelecimentos do Paraguay, e não 
incluídos na sua guarnição; de sorte que a verdadeira po- 
voação da capitania vem a ser de 27,690 habitantes. — 
Caetano Pinto de Miranda Monte Negro. 



BREVE MEMORIA 

RELATIVA A CHOROGRAPHIA DA POVINCIA 

DE MATO GROSSO. 

POR 

Augusto Levergcr. 

ADVERTÊNCIA. 

Para facilitar a referencia á maior parle dos mappas mencionados n'esla 
memoria conto as longitudes do meridiano de Pariz, supposto 20' 
a leste do da ilha de Ferro, e tomo por unidade itinerária a légua de 
três milhas, ou de 20". 

O mappa que denomino oíDcial é o que organisaram os geo- 
graphos da demarcação de 1777, do qual foi lithographado uma co- 
pia redusida no archivo militar em 1853. 

A província de Mato Grosso occupa do centro da Ame- 
rica meridional um espaço de perto de 50,030 léguas qua- 
dradas. 

Mais de metade doesta área, a norte do parallelo de 14% 
é sertão, que nâo tem outros habitantes senão índios sel- 
tagens. 

Na parte restante, a população civilisada, que não chega 
a 40,0J0 almas, acha-se repartida em poucos grupos, o 
principal dos quaes abrange mais de «3/4 da dita população 
em uma extensão de 2,000 léguas quadradas. Em taes cir- 
cumstancias é evidente que um reconhecimento geral da 
provincia é serviço que exigiria muita gente, muito tempo 
e muito dispêndio, e não é de esperar que tão cedo se pos- 
sam obter todos os dados necessários para a completa e 
exacta organisação da respecliva carta. Expor resumida- 
mente os trabalhos geographicos que até agora se fizeram 
na provincia, os resultados d'esses trabalhos, e as explora- 

TOMO XXVIII, p. l 17 



- 430 • 

ções que me pftrecdiD mais necessárias nos higares habita- 
dos ou frequeútados, ou susceptíveis de sèl-o mais ou 
mefios KtfitiédíatameQte: tal é o fim a que me propuz n'esta 
Memoria. 

Começarei por dar uma idéa geral da geographia pbysíca 
d*esta parte do Império. A província de Mato Grosso acha- 
se situada entre os parallelos de T e iV de latitude meri- 
dional, e os meridianos de 52"" e ^9" a oeste do de Paris. 
Não são exactamente conhecidas as latitudes e longitudes 
dos pontos extremos, a saber : a norte o lugar das três 
barras, confluência do rio de S. Manoel com o Juruema 
ou Tapajoz ; a leste a margem do Araguaya, fronteira à 
ponta inferior da grande ilha do Bananal ou de SanfAnna; 
a sul a foz do Iguatemy ; e a oeste a foz do Abuná no Ma- 
deira. Os limites com as republicas do Paraguay e de Boli- 
Tia são objectos de questões internacionaes ainda penden- 
tes. A divisa com as províncias do Amazonas e do Pará não 
está bem definida. O limite com a província de Goyaz deve 
ser o Araguaya e um aiUuente Occidental ainda não legal- 
mente designado do Paranaiva. Este ultimo rio é divisa com 
a província de Minas, e o Paraná com as de S. Paulo e do 
Paraná. 

Distínctos limites naturaes são os ditos rios Araguaya, 
Paranaiva, e Paraná a lésle, e pelo lado occidenlal o Pa- 
raguay e o Guaporé que leva as suas aguas ao Mamoré e 
Madeira. 

Os immensos cursos de agua que regam o território, ofife- 
recem a divisão natural da província em duas grandes re- 
giões : a do norte, cujas aguas entram no oceano pela foz 
do Amazonas, e a do sul, que verte para o Paraná e o Pa- 
raguay, tributários do Prata. 

A tortuosa linha que divide essas aguas vem da provín- 
cia de Goyaz a rumo de SO, e entra n^esta nas immediações 



- ini — 



do parilieiõ de i8' e do meridiano de S5% onde se âctiam 
mui pmxiraas as funles do Araguaya, galho do Tocantins, e 
9& do Sucuriú, allluenle do Paraná* N'eslâ paragem muda 
âbrtiptamente a sua direcção do SO para NO, e nesleul- 
limo quadrante separa os afíluenles do Aragitaya dos do 
S, Lourenço t tributário do Paraíruay. 

Antes de chegar ao parallelo do !5*^ inclina-se para 

sle 6 depois para SO, passando entre as fontes do Aricà- 

"mirim, pequeno aflluenle do Cuyabá, e as do rio Manso, 

principíil cabeceira do rio das Mortes, que vai entrar no 

Anignaja na proximidade da parte superior da ilha do Ba- 

iitnaK 

I»ste ponto sêgtie a linl^a divisória a norte para NE, 
daxando à esquerda as fontes dos riachos qne affluem para 
o Coyahá, e à direita as cabeceiras de diversos rios qne os 
mappas representam como galhos do Xingu, mas que com 
bom fundamento sopponho ser tributário do Tapajoz. 

Pelo parallelo do li'* lorua a tomar a direcção de NO 
o oeste, que segne òom muitas sinuosidades entre as orí- 

ens dí» A ri nos entretecidas com as do Cuyabã e do alto 

araguay; volta depois a SO para sul, passando entre as 
vizinhas fontes do Jauríí e do Guaporé ; ai li descem estes 
iloís rios a escarpa da chamada serra dos Pareci s^ em se* 
guida, subindo vai passar pelo cume da serra de Agoapehy, 
oiKJe, quasi juntos, nascem o rio doiuesmo nome, afiQuente 
do Jauru» e o Alegre, galho do Guaporé; e finalmente vai en- 
trar no território boliviano, perto do monte da Boa-Vista, a 
SSK da cidade de Mato Grosso. 

A dita linha divisória nao forma a crista de serras, como 
liguram alguns niapi>uâ ; corre por um plafeau que se es- 
lende desde as immediações do Paraná e Aragnaya até um 
jioiico a oeste das fontes do Guaporé, lançando ramifica- 
çTiíís fpie, pelo lado maismeridionaK dividem as vertentes 



— 132 - 

do ParaDà, desde o Paragnay, e a norte separaiãi as ba- 
cias do Araguaya, Xingu, Tapajoz,Guaporé e baixo Madeira. 
O terreno d'este plaíeau não é propriamente montanhoso, 
mas sim accidentado por collinas de pouca altura, e por 
sulcos mais ou menos profundos, formados pelo esgoto das 
aguas. 

A sua maior elevaçSo acima do nível do mar é pouco 
mais ou menos de 400 braças ou 900 metros. E* vestido de 
gramineas, sarças, arbustos e arvoredo baixo, enguiço e 
pouco corpulento, em algumas partes espalhados cà e là,em 
outras grupados em bosques mais ou menos extenso^, a 
que, no paiz, chamam cerrados ou cerradões, segundo a 
sua espessura. O solo em muitos lugares é areento. 

E' quasi unicamente nas margens e cabeceiras dos rios 
que se vêem matos e terrenos muito próprios para a agri- 
cultura. 

O plateau entrai e suas ramificações em algumas parles 
abaixam-se suavemente até às várzeas, em outras termiuam- 
se por Íngremes declives, às vezes em grande distancia dos 
rios. 

Este caso dà-se com especialidade na bacia do Paraguay, 
onde as aguas que trasbordam periodicamente o alveo, 
estendem-se em annos de copiosas e aturadas chuvas até 
dezenas de léguas das margens, formando um immenso 
lago, onde se misturam o rio principal e seus aílluentes. 

Aos referidos declives e a collinas de mediocre elevação 
dà-se o nome de serras ; e, como estas mudam de appd- 
lido em cada localidade, d*ahi provém uma copiosa nomen- 
clatura orologica, conhecida particularmente apenas pelos 
habitantes das mesmas localidades, e pelos viajantes que 
por ellas transitam. 

Direi algumas palavras da divisão territorial politica, não 
como elemento de estatística, mas. tão somente para dar 



- {X\ — 

idéft da distribuição da população cívílisada ou sujeita as 

leis do Império. Entre os parallolos de i V' e ití" 3 )\ e os 

rios Paragnay e S. Lourenço, que dislatn entre si cousa de 

SO legaas, existem as seguintes povoações de quatro muni- 

dpios: 

k cidade de Cuyabà, e as freguezlas de Pedro 11, 
Santo Aotonio, Livramonlo, Guia, Rrolas o Sant*Anna da 
Chapada. 

A. yilla do Diamantino (o Diamantino nâo está precisa- 
mente dentro dos limites indicados, mas dista apenas -2 lé- 
guas da margem direita do Parai^niay ; c a freguezia do Ro- 
sano. A cidade de Paconé, Villa-Maria. Ksle grupo con- 
tém, pouco mais ou menos, em numero redondo, 25,000 
habitantes livres, e 3,000 í»scravos. 

Na parte superior da bacia do (■uíipon; existe a decahida 
cidade de Mato (irosso, cnja populaijão, inclusive a dos 
pontos militares de Casulvasco c Torte d«j Princi|)e, nâo 
chega a 3,0 íO almas. 

Pela margem direita do Paranaiva e Paraná estende-se o 
termo da villa de Sant*Anna, que julgo não ter mais de 
3,000 habitantes. 

' Finalmente, forma a parle mais meridional da provincia 
o termo da villa de Miranda, quo se estende do Paraná ao 
Paragnay, e abrange na margem dimit:! d\>st(' ultimo rio as 
fregaezias de Albuquerque e drCitrnmhá. A popubcfio to- 
tal pude avaliar-se de 4,ooo a o,0()') almis. Accrescen- 
tando 601) ou <iOO pessoas que vivem espalhadas pelos ca- 
minhos defioyaz e S. Paulo, e em lugares isolados, temos o 
computo de 40,(KM) habitantes. 

Passo a tratar dos trabalhos geographicos. 
Não tenho a pretensão, nem os meios, nem me parece 
bayer necessidade de ind.igar com (pie elemento si» descre- 
veu em antigíis mappas esta i>arleda America. 



— 13i - 

Creio que os primeiros christâos que n'ella penetraram, 
foram os bespanhoes, que em diversas expedições desde o 
anno de 1537 subiram pelo Paraguay em procura de^ami- 
nbo para o Peru, e fundaram na parle meridional da pro- 
víncia alguns estabelecimentos, cuja duração foi epbemera. 

Posteriormente os vicentistas ou paulistas exploraram 
estes sertões em conquista do gentio. Muito antes de fun- 
dar-se Cuyabà haviam estado n*esta paragem Bartbolomeu 
Bueno da Silva, António Pires de Campos, e porventura 
outros com numerosa comitiva, como era preciso para as 
árduas emprezas d'esses ousados aventureiros. 

Mui lo fraca luz lança sobre a geographia o pouco que 
tem conservado a tradição acerca d*essas expedições, e 
até causa alguma confusão a respeito da situação de alguns 
rios e montes de que faz menção. O mesmo succede tam- 
bém com roteiros mais modernos, sendo que às distancias 
são geralmente avaliadas por dias de viagem e os rumos 
pelas direcções de nascente e poente. Concebe-se quanto 
são vagas e susceptíveis de induzir em erro semelhantes 
designações, que aliás são ás vezes omitlídas. 

Tendo-se descoberto ouro em Ciiyabá em 1719, não tar- 
daram aflluir numerosos emigrantes, e desde então até ha 
vinte e tantos annos não cessou de ser praticada a commu- 
nicação oflicial entre esta proviucia e a de S. Paulo. 

Em 173G abriu-se um caminho de terra de Cuyabá para 
Goyaz ; foi, porém, pouco frequentado. 

Em 1746 o sargento mòr João de Sousa Azevedo empre- 
hendeu a navegação para o Pará pelo Tapajoz. Tendo 
hproraptado a sua expedição ao Jaurú, desceu por este rio 
e subiu pelo Paraguay e Sepitiba até onde lhe foi possível; 
varou as suas canoas por terra até o rio do Sumidouro, por 
cujo alveo desceu ao Arinos, e continuando a navegar aguas 
*»^l>aixo chegou a salvamento ao Pará. Julgou, porém, im- 



— IMi — 

praticarei o voltar pela mesma via. Os uomes qiio Az^3ve(lo 
impõz aos aiHuentes do Arinos e do liiruemi, sào até o pre- 
sente «onservados em todos os mappas que conheço, sup- 
posto que tenham sido mais de uma vez mudados e estejam 
iMje desconhecidos pelos que fazem habitualmente a dita 
navegacSo. 

Eia 1759 chegou aos arralaes de minas de Mato Grosso 
pelo Gaaporé e Sararc uma expedição vinda do Pará para 
explorar o curso do Madeira. 

A relação d'esta viagi>m foi publicada pela academia 
real das sciencias de Lisboa no lomo 4"" da Collecção de 
noticias para a historia e geographia^ etc. 

A respeito da dita relação diz o capitão general Luiz 
Finto de Sousa, em oíQcio dirigido á secretaria d'cstado 
em 1760: « Supponho que com as mesmas luzes seria a 
nossa corte informada n'essas matérias pela relação de 
viagem que, em virtude de ordens régias, se emprehen- 
dea do Pará para estas minas nu anno de 1740, e que 
execalou o sargento mór Luiz F.igundes em companhia 
do piloto António Nunus de Sousa, cujos erros no calculo das 
léguas, na posítura e direcção das cachoeiras, na largura 
dos rios, e emfim até na verdadeira medida das alturas, 
(azem a dita relação pouco allendivel. » 

Em 1751 teve principio o governo da rocemcreada capi- 
tania general do Mato Grosso pela pjsse que tomou em 
Gayabà o seu primeiro governador, 1). Anlonío Uolim de 
Moora. Viera o dito governador pela navegação lluvial do 
S. Paalo e escreveu um circumslanciado e exacto itinerário 
da soa yi^eiu. (Inserido na Revista Tnmcnml tio luMitulo 
Hiãiofico e Geographicoj tomo 7*" n. á í, de Janeiro 
de 1846.) 

Hão lhe eram estranhas as observações astronómicas, 
eomo se deprebende do seguinte trecho, relativo á sua es- 



— i36 — 

tada em Camapuã: « Como estas (as trovoadas), que se 
armavam quando ia chegando o meio-día, me embaraça- 
vam de tomar o sol à minha vontade. Um dia, ainda que 
com grande di(Iiculdade,por estar-se escurecendo de quando 
em quando, me pareceu achar a altura de 19° Vs- >> 

Em 1752, depois de lançar os primeiros alicerces de 
Villa Bella, hoje cidade de Mato Grosso, o governador en- 
viou às Missões da provincia hespanhola de Majes, por 
motivos políticos, o padre jesuita Agostinho Lourenço, 
que víéra do Rio de Janeiro na sua companhia. Este reli- 
gioso escreveu uma minuciosa relação da sua viagem de 
ida e volta. 

Em 1754 vieram, pela via do Paraguay, collocar o marco 
do Jaurú os commissarios das três partidas da demarcação 
de limites, na conformidade do tratado de 1750. 

O terceiro governador, Luiz Pinto de Sousa Coutinho, 
jà na viagem que fez do Para para Mato Grosso, deu grande 
attenção às circumslancias geographicas, como se vé de 
um extenso oíQcio que sobre esta matéria dirigiu á secreta- 
ria de estado em Janeiro de 17(>9. Cumpre, porém, dizer 
que algumas posições que refere e provavelmente tirou dos 
mappas que tinha á sua disposição, dilTerem consideravel- 
mente das que foram posteriormente deduzidas de obser- 
vações exactas. Assim também enganou-se evidentemente 
noticiando que, na bocca de Jamary, antes de chegar â 
primeira cachoeira do Madeira, achou a altura do mercúrio 
no barómetro 4 l/á poUegadas menor que na cidade do 
Pará, o que comprehenderia a uma impossivel dilTerença 
de nivel ; sendo que pouco menor altura da columna baro- 
métrica achou o Dr. Pontes no cume da serra dos Parecis, 
isto é, n*um dos pontos mais altos áoplateau central. 

O governador Luiz Pinto ordenou varias explorações, e 
entre ellas a abertura de um caminho pelo alto do terreno da 



- 137 — 

fortaleza de Bragança (substíluido pela fortaleza do Prínci- 
pe) paraCuyabá. Esta expedição iòí mal succedída depois 
de ler gasto um anno inteiro n'esUi exploração e de ter per- 
didOy inanidas de forno e de cansaço, ou mortas pelos indios 
e pelas feras, Tò das 82 pessoas que a compunham ; teve de 
TOltar àVilIa Bella (Mato Grosso) antes de chegar ás cabecei- 
ras do Guaporé. Comtudo reconheceu a praticabilidade do 
projectado caminho. O itinerário d*esta viagem foi feito ao 
principio com muito cuidado, indicando-se os rumos pela 
agulha e medindo-se as distancias cm braças. Houve,porém, 
depois falta de exactidão, pois, traçando-se a derrota no 
mappa, o ponto de chegada vem ter muito a oeste de Mato 
Grosso, devendo ficara leste. Entretanto esta derrota vem 
delineada na grande carta de Avey de la Rochette, publica- 
da por Tadem em 1807 ; fizeram-sií-lhe, porém, as modi- 
ficações necessárias para não apparecer o erro que acabo 
de ap miar. 

O mesmo governador já em 1771 linha duvidas acerca 
do corso do Paranatinga, e pedia informações a esto res- 
peito à camará de Cuyabá e ao governador de Goyaz, que 
lh'as não puderam ministrar senão muito vagas, apezar de 
consultarem os mais antigos e experimentados sertanistas. 

O capitão general Luiz de Albuquerque veiu por terra 

do Bio de Janeiro a Cuyabá, onde. chegou em fins de 1772. 

Trazia na sua companhia um ollicial do engenheiros e fez 

iiin circumstanciado itinerário da sua viagem. Recordo-me 

de ler visto osso trabalho ; mas, procurando-o depois no 

archÍTO da secretaria da província para cxaminal-o mais at- 

tenlamenle, não o pude encontrar. A derrota de Goyaz a 

Gayabá vem traçada no majtpa r»flicial, e cumpre dizer que 

diflTcre rauilo do caminho que prosenlemente se segue, e 

que ba evidentes erros nas origens e direcções de alguns 

rios e ribeiros. Depois de entrar no exercício do governo 

T03I0 XXVIll, p. I. 18 



de Mato Grosso, o governador mandou fazer namerosas ex- 
plorações nas vizinhançis da vil !a e pelo Guaporé abaixo, 
tomando pessoalmente parle em uma doestas. " 

Mandou também reconhecer o curso do rio Paraguay e o 
território dos Guarajús. Infelizmente as pessoas incum- 
bidas d*essas diligencias tinham mais zelo do que inslruc- 
ção, e as derrotas que se acham registradas, embora con- 
tenham minuciosas informações topographicas , pouco 
aproveitam para a geographia, por não haver uma só posi- 
ção determinada por observação astronómica, e por serem 
de modo muito vago indicados os rumos e as distancias. 

Em 1775 o governador fez sahir de Cuyabcá uma expe- 
dição de canoas armadas, que teve ordem de explorar o rio 
Paraguay e de fundar um estabelechnento no Fecho dos 
Morros, o que não foi pontualmente cumprido, fundando- 
se o presidio de Coimbra, a nova, na margem direita do 
Paraguay, e no lugar outr'ora chamado Estreito de 
S. Francisco Xavier. 

No mesmo anno mandou expedir de Mato Grosso uma 
bandeira para investigar os campos de Ourucumacuã, onde 
suppunha-se haver ricas minas de ouro. Esta expedição 
mallogrou-se, regressando antes de chegar ao seu destino. 

No segundo anno, de 177(5, mandou fazer o reconheci- 
mento do rio Mboteteú, ao qual o explorador impôz o nome 
de Mondego, e bem assim deu denominações portuguezas 
aos alíluenles e aos montes e outros accidentes de terreno 
que foi avistando. Estes nomes, que se lêm em muitos 
mappas e escriptos são quasi geralmente desconhecidos no 
paiz : o principal galho chama-se Aquidauana ; outro no 
de Miranda, em vez de Mareco, como fora denominado em 
1776, c assim dos mais. Subiu a expedição até às cabecei- 
ras, e comtudo não pôde dar com o varadouro para o rio 
Anhanduhy, por onde eram oulr'ora transportadas as ca- 



ndas que trafegavam enlre esta provincia e a de S. Paulo ; 
lendo sido aquelle varadouro abandonado em 1735, por 
preferir-se-lbe o de Camapuã. Tive em mão o diário d'esta 
expedição e até conservo um extracto d*elle ; é baslante- 
mente circumslancíado, mas pelos motivos jà apontados 
não dá os meios de delinear com exactidão ou ainda appro- 
limadamente o curso do rio. 

Aos engenheiros e astrónomos enviados pela corte de 
Lisboa para a demarcação do limites, em observância do 
tratado de 1777, são devidos os piiDieiros trabalhos scien- 
tificoSy 6 os mais importantes que até agora se fizeram. 
CcMnpunham a partida que veiu funccionar em Mato Grosso 
os capitães engenheiros Ricardo Franco de Almeida Serra 
e Joaquim José Ferreira, e os Drs. astrónomos Francisco 
José de Lacerda e António Pires da Silva Pontes. Chega- 
ram a Mato Grosso em 1782, tundo vindo pelos rios Ma- 
deira, Mamoré e Guaporé, de cuja navegação fizeram uma 
excellente descripção, de ha muito publicada. (Foi mais 
recentemente inserida na líevista Trimensal do Insíiluto 
Histórico e Geographico tomo 20, i" trimestre de 1837). 

Logo depois de sua chegada fizeram interessantes ob- 
servações em VillaBelIa e no fronteiro morro do Grã Pará; 
e o capitão Ricardo Franco com o Dr. Pontes foram reconhe- 
cer os terrenos que medcam a mesma villa e as cabeceiras 
do Paraguay. 

Em 1783 o Dr. Laci4'da voltou para o baixo Guaporé, 
afim de fazer novas observarOns para o complemento da 
respectiva carta, e para explorar parte dos rios que desa- 
guam no mesmo Guaporé pela margem esquerda, e com 
especialidade o terrilui.i. aos guarajús. 

Os outros mathematicos exploraram as vaslas campinas 
de Casalvasco até as fontes do rio Barbados. 
Em flns do mesmo anno o capitão Uicardo Franco e o í)r. 



— liO — 

Pontes foram reconhecer os terrenos a sul de Mato Grosso 
e oeste do Jauríi, com ordem de chegarem até o Marco. 
Não poderam concluir esta diligencia, que renovaram no 
anno seguinte, abrangendo também a exploração a serra 
de Aguapehy, o rio do mesmo nome e o Alegre, e o espaço 
que medèa entre os ditos rios e o caminho de Villa 
Maria. 

No intervallo entre estas duas expedições foi o Dr. Pon- 
tes reconhecer o curso do Guaporé de Villa Bella para 
cima. 

Em 4786 os quatro mencionados engenheiros e astró- 
nomos, acompanhados de práticos e numerosa comitiva, 
procederam a um minucioso reccmhecimento do rio Para- 
guay e de todas as lagoas e escoantes que com elle com- 
municam pela margem occidental desde a Toz do Jaurú 
até a bahia Negra. Percorreram em canoas grandes es- 
paços de campanha que n*aquella época (de Abril a Ju- 
nho) achava-se alagada em diversas partes, com mais de 
dez palmos d'agua. Voltaram pelos rios de S. Lourenço 
eCuyabá até a villa deste nome, e regressaram por terra 
a Mato Grosso, sempre tomando nola da derrota, e fazendo 
nos principaes lugares as possíveis observações astronó- 
micas. 

De Cuyabíi o Dr. Pontes solicitava e obtivera permis- 
são do governador para explorar as vizinhanças do alto 
Paraguay Diamantino. Nâo se eíTectuou, porém, esta di- 
ligencia, que teria lido por resultado a correcção de graves 
e numerosos erros com que está até hoje figurada, ou antes 
desfigurada no mappa oíQcial esta parte da provincia aliás 
povoada e frequentada. 

Em 1789 o Dr. Lacerda seguiu, de orilem do general 
para S. Paulo, incumbido de fazer o reconhecimento dos 
rios Taquary, Coxim, Camapuã, Sanguexuga, Pardo, Pa- 



— 141 - 

ranã e Tietê, por onde se fez a navegação enlre esta e 
aquella proviíyia. 

O Dr. Pontes íui man<lado explorar os rios Paraguay, 
Verde e Capivary, allluentes occidenlaes do Guaporé. 

E, de volta d'esta expedição foi á serra dos Parecis, exa- 
minar as origens muito vizinhas do Savaré» Juruema, 
Guaporé e Jaurú. Ein 1790 veiu do Pará o naturalista Dr. 
Alexandre Rodrigues Ferreira, enviado em missão scien- 
tífica pela corte de Lisboa. Nào me consta que fizesse n'es- 
ta provinda trabalho algum relativo á geographia mathe- 
matica. 

N*este mesmo anno de 1 7!K) o capitiío general Luiz de 
Albuquerque, antes de entregar o governo a seu irmão 
João de Albuquerque qua foi a nomeado para subslituil-o, 
dissolveu de ordem superior a partida de demarcação de 
limites. O Dr. Lacerda não vollon mais áprovincia. O 
Dr. Pontes retirou-se d'ella, bem como, pouco depois o 
major Joaquim José F(4Teira. Só ficou o major Ricardo 
Franco que morn^u mi I80S> no forte de Coimbra, depois 
de ler prestado relevanlissimos serviços, estranhos porém, 
a ch»rographia. 

Não receio errar, alTirmando quo desde aquella época de 
1790 até 18á«, não houve qnein fizesse na província uma 
só observação celesle |iara fins gt^ographicos. 

De todos os referidos trabalhos o de outros qui» por me- 
nos importantes tenho dtiixado de mencionar, fizeram-se 
relatórios e óptimos mappas em muito grande escalla, dos 
qoaes remetteram-se cópias ao governo, archivando-se 
outras. 

E' muilo para lamenlar que estes monum(»nlos não exis- 
tam mais na secretaria da provincia. Tns exlraviaram-se, 
ootros foram remettidos |)ara a corte em cumprimento de 
ordens do governo imperial. 



— Ii2 — 

Em Outubro de 1830 o vice-presidente em exercício 
fez uma notável remessa d'essas para satisfazer a exigên- 
cia da portaria do ministério do Império de 14 de Janeiro 
do mesmo anno. Recordo-me de que em 1847, a pedido 
do Exm. presidente Dr. J. Chríspiniano Soares, eu pude 
ainda descobrir no archivo os mappas do Madeira, Ma- 
moré, Guaporé e rio Verde, dos quaes tirei uma cópia li- 
geira antes que fossem expedidos para a corte, e bem as- 
sim fíz uma cópia reduzida de um mappa em ponto grande 
da fronteira de Malto Grosso. Quasi nada resta na dita se- 
cretaria, senão o que se acha copiado nos livros de regis- 
tro que a traça não tardará a destruir. Com os resultados 
dos mesmos trabalhos íizeram-se importantes correcções 
às cartas até então existentes, e organisou-se uma nova, 
da qual tiraram-se cópias por diversas vezes. E* a que 
chamo oflScial. Os cartographos nacionaes e estrangeiros 
aprovei taram-se dos melhoramentos que apresentou, e 
não se lhe fez, que me conste, emenda alguma, senão de 
8 ou 10 annos a esta parte. 

Sob a administração dos successores do general Luiz de 
Albuquerque, continuou-se a expedir bandeiras para a re- 
pressão das correrias dos Índios, para a destruição dos qui- 
lombos e em busca de minas de ouro. Das relações d*essas 
expedições pouco proveito pôde tirar a chorographia, pela 
razão já exarada de faltarem os dados indispensáveis para 
a delineação das derrotas. 

Em 1797 o capitão general Caetano Pinto de Miranda 
Monte Negro mandou fundar o presidio de Miranda (hoje 
villa) sobre um galho meridional do Mboteleú, ao qual se 
dera em 1776 o appellido de Mareco, como a este ultimo 
de Mondego. Desde então o serviço militar exigiu por vezes 
explorações n*aquelle districto ; todas, porém, tém o defeito 
que ainda agora acabo de apontar. E* de notar-se que, 



- lk:\ — 



iam nas cópias da carta ollícíal \\m se tiraraoi n'esse mes- 
'mo anno de I79r, nem posleriormeale (senão ha pouco) 
se designou a posição do mesmo presidio. Em ISO^i o go* 
vernador mandon reconliecer o rio Manso, que atravessa 
a estrada entre Goyaz e Cuyabà, a 20 léguas de distancia 
d*esta cidade, e e figurado nos mappas como allluenta do 
rio Cuyabá* Os exploradores» navegando agua abaixo, foram 
lar ao arraial, hoje extincto, dos Araes, ou de Amarante, 
na margem esqnerda do rio das Mortes. Nao restou, pois, 
duvida de que o dito rio Manso è a mais remota cabeceira 
do mesmo rio das Mortes, e nâo deve ser confundido com 
outro rio de ipual nome, que nasce em nao pequena dis- 
tancia no quadrante NO., c é com efleito tributário e por- 
ventura galho principal do rio Cuyabà, 

Em 1805, por oceasiâo de fãcultar-se a extracção do 
ouro nus terrenos até então vedados do alto Paraguay Dia^ 
mantiuo, o capitão general Manoel Carlos de Abreo e Me- 
nezes fez aproraptar uma expedição de canoas, que desceu 
ao Amazonas pelos rios Arinos e Tapajoz. Porém o res- 
pectivo encarregado não se atreveu a voltar pelo mesmo 
caminho. Mais animosos c bera succedidos foram os que 
emprebenderam a mesma navegação cm Í8Í2 sob os aus- 
pícios do capitão general Joio Carlos Augusto de Oeynhau- 
sen. Regressaram com caiiòas carregadas pelos mesmos 
rios, e desde então têm continuado este trafego cora 
maior ou menor frequência. Existem a respeito vários ro- 
teiros, que dão valiosas informações ; porém nao as preci- 
sas para se traçar o curso da dita navegaÇcio. Constava de 
tradição que um desertor dera noticia de um curto vara- 
douro entre o Sucuriú, allluente do Paraná, e o Pequeri, 
galho doS. Lourenço. Como esta descoberta fora de sum- 
mo interesse para a navegação de S, Paulo, o general João 
Carlos mandou em 1815 explorar essas paragens. 



— U4 — 

Direi mais adiante qual foi o resultado de tal inda- 
gação. 

Em 1819, sob o governo do ultimo capitão general Fran- 
cisco de Paula Magessi explorou-se novo caminho para o 
Pará. 

Perto da fazenda das Paranatingas e em breve distancia 
das cabeceiras do rio Cuyabà passa, já caudaloso, o rio Pa- 
ranatinga. 

D'alli partiu uma expedição de canoas dirigida pelo 
tenente de milicias António Peixoto de Azevedo, que com 
67 dias de viagem entrou no Tapajoz, no lugar das Três 
Barras. (Por mais diligencias que fizesse não pude desco- 
brir cópia do roteiro do tenente Peixoto, que o general 
Magessi remetteu à secretaria de Estado, e nenhuma infor- 
mação tenho a este respeito mais circumslanciada do que a 
referida na obra do conde deCastelnau.— Tomo 3% sec. 
109). 

Ficou, pois, averiguado que o galho mais remoto do rio 
das Ires Barras nasce a sul e a leste das fontes do Cuyabà, 
e não 60 léguas a norte, como o indicam todos os mappas 
que conheço, e outrosim que não e galho do Xingu o rio 
que como tal figuram os mesmos mappas n^aquellas para- 
gens. 

E' singular que no raappa official se não leia o nome de 
Paranatinga^ geralmente conhecido e usado na província 
desde remolissimo tempo até o presente, sendo que em 
alguns mappas cslrangeiros lê-se o dito nome a par do de 
Xingu, perlo da foz d'esle, no Amazonas. 

Com o general Magessi. viera para a provinda o capilao, 
depois major de engenheiros, Luiz de Alincourl, a quem se 
devem trabalhos de bastante interesse para a chorographia, 
como sejam : — Uma exacta e circumstanciada dcscripção 
da Viagem de Santos a Cuyabd.—Vm^ memoria acerca das 



— 145 — 

fronteiras do Baixo Paraguay e de Mato Grosso.— Um re- 
sumo das explorações feitas desde o registro deCamapuã 
até á cidade de Cuyabà, passando por Miranda. — E outro 
resumo de observações de estatistica feitas desde a mesma 
cidade até a villa do Paraguay Diamantino.— (Estes traba- 
lhos foram publicados em um folheto impresso em 1825 
e na Revista do Instituto Histórico e Geographico^ tomo 2**, 
3* trimestre de 1857.) 

Ao major d'Alincourt nâo faltava zelo nem instrucção, 
ecolhem-se dos seus escriptos valiosas informações. Porém 
não fez observação astronómica alguma, e commetteu er- 
ros na designação da posição gcographica de alguns pontos 
importantes, como, v. gr., nos de Miranda, quecolloca na 
latitude de 20*» 50', devendo ser de 20° 13'. Comtudo pu- 
dera o major Alincourt ter feito notáveis melhoramentos 
no mappa oíBcial, especialmente nas partes por elle explo- 
radas da estrada de Goyaz, do districto de Miranda e do 
espaço que medêa entre a cidade de Cuyabá e a villa do 
Diamantino, bem como da mencionada nova navegação do 
Paranatinga, e é de admirar que os não fizesse, tendo sido, 
como foi, chefe de umacommissão de estatística que por 
algum tempo aqui funcionou. 

Em 1S27 chegou a Cuyabá uma expedição scientifica que 
viajava à expensas do imperador da Rússia e tinha por 
chefe o conselheiro Jorge Langsdorff. Os trabalhos de geo- 
graphia mathematica estiveram a cargo de um ofllcial da 
marinha russa, de nome RubzolT, que, segundo sou infor- 
mado, era muito diligente e applicado. E* de lastimar que 
os seus trabalhos não fossem publicados, e talvez se perdes- 
sem. Talvez se pudesse facilraentí3, por inlcrmedio da le- 
gação imperial em S. Petersburgo, obter cópia d'esses tra- 
balhos, pois, entre outros proveitos, tiraríamos d'elles o de 
obtermos uma carta, que nos falta, da navegação dos rios 

TOMO XXVIII, p. I. 19 



— 146 — 

Arinos, Jurueina e Tapajoz, por onde relirou-se o dito 
conselheiro, tendo vindo i)ela navegação de S. Paulo. 

No mesmo anno visitou também esta provincia o alle- 
mão Dr. J. Nelterer, mas, segundo me consta, este occu- 
pava-se quasi exclusivamente de historia natural, e com 
especialidade da zoologia. O presidente, o finado senador 
José Saturnino da Costa Pereira, e os vice-presidentes seus 
successores mandaram continuar as indagações acerca do 
varadouro entre o Sucuriú e o Pequeri, tanto por terra 
como navegando os ditos rios. 

Afinal reconheceu-se que, entre os pontos até onde são 
navegáveis, medca um espaço muito grande e cortado por 
diversas cabeceiras do Taquary, que, portanto, não convi- 
nha para os fins que se tinham em vista. 

Porém a exploração d'aquellas paragens, até então de- 
sertas, e que começaram a povoar-se com alguns emigrantes 
vindos de Minas, deu lugar a intenlar-se a abertura de um 
caminho terrestre, que, vindo em direitura de Cuyabà, fosse 
atravessar o Paraná e entrar na provincia de S. Paulo pelo 
espigão, entre os rios Tietê e IWogiuassú. A picada foi defi- 
nitivamente aberta em 1835. E' a este caminho que se 
chama estrada do Pequeri. 

Em 1843 a presidência mandou fazer o reconhecimento 
da dita estrada e indagar os meios de ligal-a com a antiga 
estrada de Cuyabi a Goyaz. Foi incumbido d'esta diligen- 
cia o Sr. capitão de engenheiros E A. de Lassance, que 
deu conta d'ella ; mas, sendo mal provido do necessário 
para semelhante expedição, e não tendo à sua disposição ou- 
tros instrumentos senão um máo relógio e uma mà agulha, 
não lhe foi possivel fazer trabalho exacto. Desde 1844 a 
1845 aqui estiveram o conde F. de Castelnau e seus compa- 
nheiros, cujos trabalhos correm impressos. Pelo mesmo 
tempo o Sr. major de engenheiros H. de Beaurepaire Ro- 



— 147 — 

han fez interessantes estudos sobre a chorograpbia e esta- 
tística da província. 

Não foram, que me conste, publicados e nSo ministram 
matéria nova pelo que diz respeito â geographía mera- 
mente mathematica. 

Em 1846 e 1847 também aqui esteve o Sr. barão Von 
Helmriechen, que se occupava principalmente da geogno- 
sia, mineralogia e observações magnéticas, não deixando 
comtudo de fazer observações astronómicas importantes 
para a geograpbia. Falleceu no Rio de Janeiro. Não sei 
queaí|estino tiveram seus papeis; é provável que fossem 
remèttidos para Vienna. Favoreceu-me com o resumo das 
observações que fez para determinar a latitude e longitude 
de Cuyabá, e bem assim a inclinação e declinação da agu- 
lha na mesma cidade n'aquella época. 

Nos annos de 1840 a 1850 o Sr. barão de Antonina 
mandou fazer diversas explorações na parte meridional da 
província. O norte-americano J. EUiot, que, como piloto, 
tomou parte n^ellas, organisou o respectivo mappa, sem 
porém soccorrer-se, que eu saiba, à observações astro- 
nómicas. "* 

Em 1853 o Sr. capitão T. J. Page, da marinha ameri- 
cana, veiu com o vapor Watenvitch, enviado pelo gover- 
no dos Estados-Unidos para explorar as aguas do valle do 
Prata. Não passou então de Corumbá para cima. Publicou 
a sua viagem em 1859. Voltou n'este mesmo anno (de 
1^*59) em os vapores Argentina e Alpha, e com este ul- 
timo chegou até alguma distancia acima da confluência do 
Paraguay e do Sipotuba. Reconhecia também a parte in- 
ferior do S. Lourenço e o Cuyabà até esta cidade. Teve a 
bondade de communicar-me as observações que fez para a 
determinação da latitude e longitude de diversos pontos. 



— 148 - 

n'esta ultima expedição» cuja relação não me consta haver 
sido publicada. 

De 1853 a 1856 foram feitas pelo Sr. tenente da arti- 
Iheria F. Nunes da Cunha diversos reconhecimentos nas 
lagoas Mandioré e Pamengos, rio Novo e bahia Negra, no 
chamado rio Branco, e ainda no districto de Miranda, em 
procura de lugar asado para se fundar n*elle a colónia mi- 
litar dos Dourados. D*essas explorações foram remettidas 
cópias ao governo. Em 1857 e 1858, os membros da com- 
missão de engenharia que foi então creada e mais alguns 
officiaes escreveram relações da viagem que fizeram para 
esta província. ' 

Não tenho conhecimento d'esses escriptos, à excepção 
de um interessante diário de viagem da província do Pa- 
raná para Miranda, pelo Sr. capitão de engenheiros E. C. de 
Sousa Pitanga. Já em 1855 o Sr. capitão de arlilheria 
J. A. Xavier do Valle déra-me cópia de uma relação da 
mesma viagem que enviara ao Sr. ministro da guerra. 

Em algumas excursões que, no exercício da presidência, 
fez em 1858 e 1859, o Sr. conselheiro de Lamare deter- 
mmou por observações astronómicas a posição de Villa 
Maria, Dourados, Corumbá, Coimbra e Miranda. 

Em 1862 o Sr. C. B. Bossi tendo feito uma viagem d' esta 
cidade até 15 ou 20 léguas abaixo da confluência do rio 
Preto com o Arinos, observou alturas meridianas do sol 
que lhe deram a latitude de alguns pontos intermédios, en- 
tre outros da villa do Diamantino. 

Concluindo a enumeração dos trabalhos geographicos 
feitos n*esta província, farei menção de alguns serviços 
meus. 

Em 1830 fiz um itinerário da navegação fluvial da pro- 
víncia de S. Paulo para esta. 



- 149 - 

Em 1834 fiz a derrota da jornada d'esta cidade á de 
S. Paulo, passando pela de Goyaz. Cada vez que me foi 
possível, e em qualquer lugar que me achasse, observei a 
altura merídiana do sol para obter a latitude. 

Em 1837, 1844 e 1845 tive occasião. de' rever a dita 
derrota, e de accrescentar-lhe outras feitas pelas provín- 
cias de Goyaz, Minas e Rio de Janeiro, porém não^pude 
fazer novas observações, nem rectificar as anteriores. 

De 1839 a 185G fiz muitas viagens pelos rios Paraguay, 
S. Lourenço e Cuyabà, e, comquanto a maior parte d'ellas 
tivesse outro fim que não o da exploração , nunca deixei de 
cuidar da derrota e de fazer as possiveis observações, ao 
menos de latitude. 

Em 1847 e 1848 remetti ao governo a carta do Paraguay, 
desde a foz do Sipotuba até o Paraná, na escala de 
1:100000. Parte d'este trabalho foi lithographado. 

Em 1849 acompanhei o presidente em uma viagem que 
fez á fronteira de Villa Maria, e fiz o itinerário de Cuyabá 
ao ponto extremo da Concha Grande, cuja latitude determi- 
nei por observações, bem como a de outros pontos. 

Em 1850 fiz um ligeiro reconhecimento do rio de Mi- 
randa até à villa d*este nome, mas não pude fazer observa- 
ções que me dessem meio^de corrigir a estima. 

Em 1859 explorei o rio Cuyabà da cidade para cima, até 
onde é, sem maiores inconvenientes, navegável por canoas; 
e com este trabalho completei e remetti ao governo o 
mappa que anteriormente fizera da parte inferior do mesmo 
rio, e do de S. Lourenço até o Paraguay. Este mappa foi 
também lithographado. 

Tendo sido pelo governo incumbido, em 1844, de um 
trabalho relativo á historia da demarcação de limites n'esta 
provincia, tive occasião de folhear os livros e papeis da se- 



- 150 — 

crelaria da província, e de passagem tomei notados docu- 
mentos que diziam respeito á chorograpbia. 

Posteriormente revi mais attentamcnte esses documen- 
tos, e dos principaes tirei cópias ou excerptos, á vista dos 
quaes escrevo esta memoria. 

Vou emitlir a minha humilde opinião acerca do que é 
relativo a esta província nas cartas que conheço da America 
Meridional, do Brasil, e da mesma província. 

De todas as carias que foram publicadas até o fim do sé- 
culo passado, e ainda muito posteriormente, a que chamo 
oiBcial é a que contém maior somma de dados exactos, dos 
quaes, como já disse, têm-se aproveitado os cartographos 
nacionaes e estrangeiros. 

Vem n'ella bem dcscriptos os rios Madeira, Mamoré, 
Guaporé e os affluenles d'este, Paraguay, rio Verde, Capi- 
vary. Alegre e Barbados ; parte do curso do Jaurú e todo o 
do Paraguay, desde a Villa Maria até a Bahia Negra, e todas 
as aguas que communícam com o mesmo Paraguay pelo 
lado de oeste no dito intervallo. Os terrenos a sul da ci- 
dade de Mato Grosso, e a oeste do caminho que vai da 
mesma cidade à Villa-Maria, até à linha divisória com Bo- 
lívia ; os rios Taquary, Coxim, Camapuã, Pardo e Paraná, 
desde a foz do rio Pardo até á do Tielé ; o S. Lourenço e 
Cuyabá até esta cidade, e o caminho da mesma para a de 
Mato Grosso. 

Todo o restante, que não foi objecto das explorações dos 
distinctos engenheiros e astrónomos da partida de demar- 
cação de limites, é notoriamente defeituoso ou de duvidosa 
exactidão. 

Releva dizer que os desenhadores da dita carta, talvez 
para darem idéa da inundação que se manifesta periodica- 
mente em algumas paragens, exageraram demasiadamente 



— 151 - 

a largara de alguns rios em relação à de outros» e este de- 
feito, reproduzido pela gravura em diversas cartas, entre ás 
quaes citarei a que foi publicada pelo Archivo Militar em 
1853, dá noções muito erradas da topographia das refe- 
ridas paragens. Assim, por exemplo, na vizinhança de 
Mato Grosso, vê-se o pequeno riacho Barbados represen- 
tado com uma enorme superfície d' agua, ao passo que o 
principal rio, o Guaporé, está figurado por um tenuissimo 
risco. O rio Cuyabà está desenhado com largura vinte vezes 
maior qne a dos l^orrudos ou S. Lourenço, sendo-lbe, na 
realidade, inferior, tanto em largura como em profundi- 
dade, e dandO'Se o erro de ser a mesma em ambos a alaga- 
çao produzida pelas aguas trasbordadas. 

O mesmo nota-se em outras paragens. 

A carta d'esta provincia, que publicou em 1850 W. Wil- 
liers de Tile Adam, apresenta muitos e graves erros, dos 
quaes mencionarei alguns. 

Vê-se na margem esquerda do Paraguay e defronte da 
lagoa de Uberava uma freguezia de Corumbá que alli nunca 
existiu, nem outra qualquer, sendo a povoação d'este nome 
a de Albuquerque, coUocada na mesma carta, como deve 
ser, na margem direita, 30 léguas mais abaixo. 

A froguezia do Rosário está figurada a leste quarta 

de nordeste da villa do Diamantino, devendo ser a 

sul, um pouco para oeste. O rio Cuyabá parece não 

ter sabida para outro qualquer. Do S. Lourenço não se faz 

menção. 

Em 1856 voiu-me ás mãos uma cópia do mappa do Sr. J. 
Elliot, na qual o terreno a sul e sueste de Miranda está figu- 
rado com pormenores que, quando sejam bem exactos, dão 
melhor idéa da topographia d'aquellas paragens do que as 
cartas até então existentes. Aproveitei-me do dito mappa 



— 152 - 

para esboçar o que então remelti para o uso do comman- 
dante do distríçto militar de Miranda. 

. Na carta doimperio, organisada pelo finado coronel Gonra- 
do Jacob de Niemeyer, reproduziram-se erros que podiam 
ter sido corrigidos no mappa official, e introduziram ou- 
tros, V. gr. :— Não se mencionam villas e freguezias creadas 
posteriormente á organisação do dito mappa official, e figu- 
ram-se povoações que são de ha muito extinctas. As sete 
Lagoas fontes do Paraguay estão collocadas vinte e tanlas 
léguas a nornordeste da villa do Diamantino, sendo que 
existem cinco léguas a sul, um pouco para sudoeste. O 
traço da estrada de Cuyabá a Goyaz moslra-se ser ainda o 
antigo de Luiz de Albuquerque. Diversos aflluentes muito 
conhecidos do Cuyabá e do alto Paraguay foram omitlidos. 
Muitos nomes são trocados ou alterados, como Muleques 
por Mequens ; Amambay por Samambaia, etc, A carta da 
parte meridional da província, publicada em 1856 e orga- 
nisada pelo Sr. conselheiro Duarte da Ponte Ribeiro e ca- 
pitão L J. Mendonça de Carvalho, apresenta algumas cor- 
recções úteis nas fronteiras Occidental e meridional ; nada, 
porém, se melhorou ou innovou no interior da pi ovincia. 
Igual observação me occorre fazer a respeito do mappa or- 
ganisado em 1860 pelo Sr. coronel P. A. de Sepúlveda 
Everard e outros dois Srs. oíDciaes de engenheiros. Repa- 
ro também o modo por que está figurado o relevo do ter- 
reno em algumas partes, que fal-o parecer mais monta- 
nhoso do que é na realidade. Noto mais que o Fecho dos 
Morros vem designado com a denominação de Fecho de Pe- 
dras ; e logo abaixo d*este lugar, no chamado Passo do Ta- 
rumã, vô-se representado na margem direita do Paraguay 
um pequeno monte, que existe sobre a margem esquerda. 
Ainda não pude obter o atlas da obra do conde de Castelnau, 
mas tenho presente uma carta lithographada em Gotha em 



— 153 — 



185T e organisada pelo 0r. Petennon, áegnndo o mesmo 
atlas. Ha nesta carta valiosas correcções a outros mappas, 
como seja na estrada de Goyax a Cuyabá e as origens dos 
rios Paraguay e Ari nos» e suppontio que lambera QO dis- 
trieto de Miranda- Porém a par doestes melhorameiílos 
deixarara-se subsistir conhecidos erros e introduziram- 
se outros novos; por exemplo» o Sangrador ( na es- 
trada de Goyaz) parece ser o mais remoto galbo do 
rio das Mories, sendo que a verdadeira cabeceira does- 
te, o rio Manso, está figurado com dir*3Cção a norte e 
eoroeste. Os riachos Madeira e Agua Branca, que desaguam 
no Cuyabámirim, estão representados muito a sul da sua 
verdadeira posição. O mesmo acontece com a freguezia de 
Santo António» collocada abaixo das boccas dos Aricòs^ 
sendo que existe acima das mesmas boccas e distantes ape* 
nas cinco lej^uas d*esu cidade. O curso do S, Lourenço e 
outros rios esiâ mal descripto. Ha baslaoles nomes troca- 
dos ou alterados, etc. 

Na obra publicada pelo Sr. C. B. Bossi em 1863 ha um 
pequeno mappa em que vem bem delineado o itinerário 
que seguiu o mesmo senhor de Cuyabá ao rio Ari nos. 

Para servir como de complemento a esta memoria, orga- 
nisei o mappa qae a acompanha na pequena escala de 
1,5l»0000, no qual fiz aos mappas acima mencionados ai- 
gumas emendas que me parecem indispensáveis, embora 
haja ainda muito que modíBcar n'elles para que se appro- 
ximem da exactidão. São aliás muito incompletos. 

Tendo por único fim tornar intetligivel o que levo dito e 
o que me resta a dizer, omitli, para evitar confusões^ o 
cursn de alguns rios de secundaria importância, e deixei de 
figurar o relevo do terreno, mesmo nas poucas partes onde 
me fora possível fazúl-o com tal ou qual exactidão, 
TOMO xtvnif p. i. SO 



— 154 — 

Finalmente passo a indicar quaes são, a meu ver, aspa*^ 
ragens cuja exploração é mais urgente e exequível. O ter- 
ritório immedialo à fronteira a sul do parallelo de ?0*. 

O espaço comprehendiílo entre os parallclos de li'' i6* 
8 30" e os meridianos de 57* : O* e < O", sendo estes a par- 
te mais povoada e cultivada da provi ncia. 

A navegação do Paraguay, da foz do Sipotuba para cima, 
e a do alto S. Lourenço e dos seus affluentes Hiquere, Cor- 
rentes ePequeri. 

Um pequeno espaço da fronteira de Villa Maria, entre o 
Jaurú e Âguapehy, o lugar das antigas Salinas de Almeida, 
e a Concha Grande. 

O caminho de SanVAnna do Paranaiva ao Pequeri e ao 
novo estabelecimento de Coxim, e a prolongação do mes- 
mo caminho até Cuyabà. ' 

Os terrenos que medêam entre Miranda e SanfAnna do 
Paranaiva. 

O espaço comprehendido entre a estrada de Goyaz e a 
supramencianada de SanrAnna ao Cuyabá. 

Esta ultima exploração ha de ser mais custosa qae as 
antecedentes, porque, tendo de fazer-se por paragens er- 
mas e infestadas por indios bravios, não poderá dispensar 
o acompanhamento de força sufficienle para conter os mes- 
mos indios, meios de transportes para maior provisão de 
viveres, bagagens, munições, etc. 

Quanto às explorações a norte do parallelo de i5% dão- 
se em maior gráo as difiiculdades que acabo de apontar, e 
parece que taes expedições devem ficar adiadas para época 
ainda muito distante. Exceptuarei todavia a navegação, 
que não tem cessado de ser praticada pelos rios Arinos e 



- 155 — 

Tapajoz, navegação que tem, relatiTamente á do Madeira, a 
vantagem de ser mais breve e feita toda dentro do nosso 
território. 

Segue a esta memoria uma tahella das latitudes e longi- 
tudes de diversos lugares dVsta província, que foram deter- 
minadas por observações astronómicas, com designação 
dos observadores. (*) 

Cuyabà, 2G de Janeiro de 1 64. 

Augusto Leverger. 
Conforme — Manoel da Cunha Galvão. 



O NAo recebemos o roappa nem a tabeliã a que se refere o 
Sr. Lcverger. 

(Nula 



DOCUMENTOS 

RELATIVOS A PRISÃO DE M. I. DA SILVA ALVARENGA» MARIANNO 
J. PEREIRA DA FO^XECA E OUTROS, POR ORDEM DO 
CONDE DE REZENDE. 

(Copiados do Archivo Publico.) 

Informação do desembargador A. Diniz da Cruz e Silva^ 
dirigido ao conde de Rezende. 

Illm. e Ex. Sr.— Em consequência do officio que V. Ex. 
me enviou em 16 do corrente, lendo com toda a reflexão 
de que sou capaz o outro officio, que a V. Ex. dirigiu o 
Illm. e Ex. Sr. D. Rodrigo de Sousa Coutinho, minis ro se- 
cretario de estado dos negócios ultramarinos, passo á ex- 
por a V. Ex. o que entendo a respeito da precisa alternativa 
que a Y.Ex. se impõem pelo referido officio, ouderemetter 
os presos de inconfidência para Lisboa, ou de os soltar no 
caso de entender, como no mesmo officio se espera, que as 
suas culpas se acham sufficien temente purgadas com o dila- 
tado tempo da sua prizão. E para o fazer com a mais clareza t 
é preciso notar que contra nenhum dos mesmos presos se diz, 
ou prova, que elles entrassem no projecto de conspiração, 
sendo toda a culpa que se lhes imputa, e que contra alguns 
se prova,a de sustentarem em conversações, ou particulares 
ou publicas : Que o governo das republicas deve ser prefe- 
rido ao das monarchias, que os reis são uns tyrannos op- 
pressores dos vassallos, e outras sempre detestáveis, e pe- 
rigosas, principalmente na conjunctura presente. N'este 
prosupposto me persuado pelo que pertence aos presos Ma- 
noel Ignacio professor de rhetorica, medico Jacintho, e Ma- 
rianno José, que Y. Ex. os deve mandar soltar, sem maior 
hesitação, pois que contra estes não ha maior prova n 



i 



- 158 - 

devassa que o dito do denunciante José Bernardo da Sil- 
veira Frade, perguntado n'ella com juramento, e sustentado 
com o mesmo nas acareações que com as referidas provas 
se fizeram, ainda que com alíjuma moilificação ; e as pre- 
sumpções e argumentos que se podem tirar e fazer dos 
juramentos de algumas testemunhas ; alguma tal ou qual 
contrariedade, e inverosimilhança, que se encontra nas res- 
postas que deram ás p'?rguntas que liies foram feitas, especi- 
almente nas do mencionado professor de rhetorica,e a de se 
acharem na livraria d* este alguns livros, que a sã politica 
detesta, e entre elles o perniciosissimo que tem por titulo 
Direitos do Cidadão, do abbade Mab!y, que o mesmo pro- 
fessor contra toda a verosimilhança negou ter lido. Aceresce 
mais o achar-se entre os seus papeis uma oração, em que 
se lê que fora recitada na sua aula por um de seus alum- 
nos, em que se acham as proposições seguintes -. 

Que nenhum homem deve sujeitar a sua liberdade aos 
rigores de outro homem seu semelhante : 

Que é extraordinária vileza e fraqueza de espirito d'a- 
quelle que chega a submelter-se inteiramente ás disposi- 
ções de outro homem, devendo considerar que o mesmo 
que pretende opprimir e abater não recebeu do Creador 
uma alma mais perfeita : 

Que são vis e fracos os que vivem encarcerados em te- 
nebrosos cárceres, etc. Presumpções todas, que ainda a 
serem estes réos sentenciados pelo modo regular, me pa- 
rece que se julgariam purgados com os incommodos da 
sua longa e fatal prisão, e a que só, talvez, accrescentariam 
alguns mais escrupulosos a obrigação de sahirem d*esle 
continente, pois que pelas mesmas presumpções se fazem 
n'elle suspeitosos. 

Pelo que respeita a outros presos João Marques, pro- 
fessor de lingua grega, António Gonçalves dos Santos, 



— 159 — 

Francisco Coelho Solano, Francisco António, João da Sil- 
va Antunes (contra os quaes se prova que não só em con- 
versações particulares, mas em lugares públicos, susten- 
tavam que o governo democrático era melhor que o mo- 
narchico, que louvavam e approvavam a instituição da 
republica franceza, e por ella mostravam uma desordenada 
paixão), e a José António de Almeida, que se deu e con- 
fessou auctor da citada oração, negando, porém, conhecer 
o veneno que ella continha, o que é fácil de crer •„ como 
também o não ser elle o auctor da oração (ainda que o con- 
trario tenazmente sustentou, sendo perguntado), pois pelos 
seus verdes annos, e pelo que disse seu mestre o referido 
professor Alvarenga, nas pe guntis quL^ a este respeito se 
lhe fiztíram, elle na > era capaz de produzir as ditas pro- 
posições por si só, nem de as exlrahir de algum livro, 
principalmente do do citado Mably, onde as mesmas, com 
pouca difTerençade palavras, se encontram : pelo que res- 
peita, digo, a tí)dos estes presos : eu entraria em duvida, 
se; lendo uma vez e outra o referido officio, me não per- 
suadira de qu;3 as piedosas intenções de Sua Magestade 
n'elle insinu idas, eram as de que todos os presos fossem 
soltos, havendo por purgada a sua culpa com o longo tem- 
po da prisão. Ao menos isto é o que me parece se deve 
entender das palavras do m.»smo oíBcio,— que no caso que 
o dito Marianno e seus companheiros se achem ainda pre- 
sos, e das outras, mas achando V. Ex., como é de esperar, 
que elles estão suílicientemente castigados, etc.,— sem que 
em contrario se possa oppòr, que a esperança e opinião 
de Sua iMagestade era esta, por não saber quaes s -jam as 
culpas d'esles presos, porquanto, quando V. Ex. deu parle 
da sua prisão á mesma senhora, necessariamenie a havia 
de informar dos motivos d'ella. Além de que, achando-se 
na corte de Lisboa ao tempo que se expediu o relatado 



- 460 - 

ot&m o desembíirgador João Manoel Guorreiro, que servia 
de escrivão na devassa, é bem verosimii que Sua Mages- 
tiide tomasse d'elle todas as informações que julgasse ne- 
cessárias sobre este assumpto, e que elle as daria tíom a 
inteireza que cumpria. Pelo que me parece que em V. Ex. 
mandar soltar os ditos presos obra mais conforme à pie- 
dosa vontade de Sua Magestpde. 

Ao que accresce que, segundo a crise em que actual- 
mente se acham os negócios públicos da Europa, me pa- 
rece mais prudente e útil ao serviço de >ua Magestade 
escolher antes o saltar os presos, ainda que, contra a es- 
perança de Sua Migestade, não estivessem condignamente 
castigados, do que expôl-os, remeltendo-os com as culpas 
a serem aprezadns pelos francezes, e a virem estes no co- 
nhecimento de que os seus abomináveis principios tém 
apaixonados n'este continente. Sendo certo que para se en- 
viarem com mais segurança, seria necessário o dilata- 
rem-sre por muito mais tempo em suas prisões, contra a 
vontade de Sua Magestade tão significantemente declarada 
no mesmo níBcio. 

Este é o meu parecer, do qual o profundo discerni- 
mento de V. Ex. fará o uso que julgar convém melhor às 
intenções de Sua Magestade e seu real serviço. 

A pessoa de V. Ex. guarde Deus muitos annos,— Rio, ISde 
Junho de 1797. —Do cliancellerda relação.— iníonio Diniz 
da Cruz e Silva. 

Offkio do conde de Rezende a D. Rodrigo de Sousa Coutinho. 

Illm. e Exm. Senhor.— Em officio datado no l*de Fe- 
vereiro doeste anno, me cerliíica V. Ex. a conlinu:ição das 
queixas que por parte de iMarianno Jf sé Pereira da Fon- 
seca têm chegado à presença de Sua Magestade sobre a 



~ 16! — 

longa prisão que elle e vários outros, que se julgaram com- 
pliceâ do mesmo delicio, íèm soffrido n'esta cidade, coatra 
as altas e reaes intencííes da mesma senhora, que foi servida 
determinar que, no caso que eu entendesse que elles se 
n3o deviam soltar, os remetlesse para essa corte com os 
autos, por onde conste do seu crime, ou que, achando» como 
era de esperar, que elles es ta vamsuflicien temente casti- 
gados com a prisão, os mandasse pôr em sua liberdade. 
E, devendo antes de Indo beijar mil vezes a mão a Sua 
MigesLade, pela contemporisação com que a mesma senhora 
mo distingue, deixando a minha eleição a remessa dos 
presos para Lisboa, com as suas culpas, ou absolvêl-os das 
prisões em qae se achavam, mandando-os pôr na sua li- 
berdade, escolhi este ultimo partido, por ser mais con- 
forme à humanidade» que visivelmente resplandecia no 
mesmo oíEcio que V. Ex, me dirigiu, E, para que V* Es, 
fique persuadido das causas que me moveram a acautelar 
as erradíssimas máximas que os referidos preso? tinham 
adoptado, e até semeado, pois seria impossível que al- 
gumas das pessoas, que soíTreram pela minha resolução o 
severo procedimento de os mandar prender, discorressem 
em assumptos de semelhante porte com tanta propriedade, 
relativamente aos objectos dos seus malévolos e fantás- 
ticos sj stemas : remclto a V. Ex. o parecer do desembar- 
gador cbanceller d*esta relação e ]uiz da devassa, para que 
Y. Ex, cabalmente fique instruído das minhas bem fundadas 
prcsumpções, que, fazendo-se dignas em todo o tempo de 
attenção, muito maior mereciam na conjunctura presente. 
Deus guarde a V, Ex.— Rio de Janeiro, 21 de Julho de 
11Q7.— Conde de Rezmde,— Sr. D, Eodrigo de Sousa Cou- 
tinho. 



TOMO xxvin, p* h 



21 



TYP. Dfi Pinheiro & coiip., ruà sete de setembeo ii. 165. 



REVISTA TRIMENSAL 



DO 



INSTITUTO HISTÓRICO 

GEOGRAPHICO, E ETHNOGRAPHICO DO BRASIL 



2» TRIMESTRE DE 1865 



NOVO DESCOBRIMENTO 

DO GRANDE RIO DAS AMAZONAS 

,t PELO 

PADRE CnRISTOV.ÍO DACUNA 

Religioso da Companliia de Jesus, e Censor da Supnina Geral Inqui- 
sição ao qual foi, e se fez, de ordem de Sua Afagestade, no anno 
de 1639, pela província de Quilo nos Reinos do Peru. 

Ao Exm. Sr. Conde Duque de Olivares. Com licenfa^ Em Madrid, na 

Impressão do Reino. Aono de 1641. 

'Traduzido de um exemplar hespanhol Rio de Janeiro, anno 1820.) 



ADVERTÊNCIA 

Havendo lido na historia geral das viagens, assim por 
mar como por terra, por Mr. Prévost, na dissertação sobre 
o rio das Amazonas (paginas 20 da edição in-4") a seguinte 
passagem relaliva à viagem dos padres d'Acuna e d'Artieda 
sobre aquoile rio. —Foi publicada em Madrid com licença do 
rei, immodialamenle depois que alli chegaram. Comludo, 
razões de politica fizeram supprimir a edição, e consequen- 
TOMO xxviii, p. I. 22 



— 164 — 

• 

temente os seus exemplares vieram a ser tâo raros, que, 
no tempo de Mr. Gomberville, apenas eram conhecidos 
dois, o do referido GombtTville, c o que estava na bibiio- 
theca do Vaticano.— Havendo tido grande satisfação em en- 
contrarmos na real bibliotheca d'esta corte dois exempla- 
res, dos quaes um eslá inserido nas nolicias iiisloricas e 
militares da America, desde 137G até 1733, colligidas por 
Diogo Barbosa Maciíado, abbade da igreja de S. Adrião de 
Sever, e académico da real academia ; e, lirialmente, jul- 
gando de mui grande utilidade que lenha a maior notorie- 
dade possivel aquidld viagem, tão interessante em todos os 
sentidos (como facilmiíute reconhecerão (^s seus leitores), 
nos apressámos a traduzil-a lielmenle, segundo nos per- 
mittissem nossas fracas luzes, e com o maior gosto a apre- 
sentamos ao publico instruído, e portaalo indulgente. 

AO EXM. SK. CONDE-DUQrK DE OLIVARES 

Aquém, senhor, devemos recorrer, com estií novo mundo 
descoberto, senão áquell», <iue cm seus liombros, para alli- 
viar os de seu senhor, goslosamenti» susteniára, se pudesse, 
todo o restante peso? Qu:» outro Atlanie não se prostrara 
com semelhante carga, a não ser aquille mesmo, que, com 
animo mais que varonil, tem i)osto o pi/ito amaiorc^s e des- 
medidos pesos ? Quem, por mais zelí)so (jue quizera ser do 
engrandecimento do seu rei, não des slira, receiando novas 
dilílculdadcs, a não ser aquelle que, quinto maiores mais 
as appetece, para que mais luza o Stíu amor, mais a sua 
fidelidade ? E, quem, Dn ilmente, senão o Kxm. Sr. conde- 
duque, poderá melhor patrocinar tão grandiosa empreza, 
da qual depende a conversão de infinilas almas, o engi .a- 
decimenlo da real coroa, e a deH-sa e guarda de todos os 
Ihesouros do Períi? A V. Ex.,pois,olIereço este novo desço- 



— 165 - 

brimento do grande rio das Amazonas (ao qual, por ordem 
de Sua Magestade, fui, com cuidado averigueij^ e com toda 
a exactidão recopilei em poucas folhas, sendtf aliás digno 
de grossos volumes), para que, por tão sublime artifice, 
ajuntada esta pedra preciosa á coroa do nosso grande rei 
Filippe IV, que Deus nos guarde, melhor assente, mais 
luza,- e para sempre permaneça. Bem pôde V. Ex, aceitar 
o offerecimento, na certeza de que em tudo é grande e mais 
í o que parece, pois que, a não ser assim, nem eu o offere- 
cêra, nem merecera ser aceiía por taes mãos ; porque, se 
o dilatado império da Ethiopia é tão famigerado poroccu- 
par a sua jurisdicção em um espaço de novecentas léguas; 
se da China causa admiração a grandeza, por conter, em 
duas mil de circuito, quinze differentes reinos ; e se a 
grande extensão que do Períi se publica, é de mil e qui- 
nhentas léguas, medidas desde o novo reino de Granada alé 
á extremidade do Chili ; com maior razão adquirirá sobre- 
tudo o descoberto, o titulo de grande rio das Amazonas, 
por quanto, no espaço de quasi quatro mil léguas de con- 
torno, contém mais de tento e cincoenta nações de diffe- 
rentes linguas, cada uma d'ellas suíBciente a formar, por si 
só, um dilatado reino, e todas juntas, um novo e poderoso 
império, o qual, favorecido e amparado á sombra de 
V. Ex., poderá parecer grande aos olhos de Sua Magestade, 
a cujos pés, e aos de V. Ex. olTereço, para esta conquista, a 
minha pessoa, e a de muitos outros da minha religião, se 
de nós outros se quizer servir v. Ex., cuja vida prospere o 
céo com os augmentos que a sua pessoa, zelo e fidelidade 
merecem. — De V. Ex. , criado,— CArw/ovõo (TAcunu. 



- 16C - 

AO LEITOR 

Nasceram, curioso leitor, tão irmanadas nas cousas gran- 
des a novidade e o descrédito, que parecem gémeas, e que, 
por isso mesmo que na novidade repara ctlcntamento a ad- 
miração, periga o credito no assento dos mais cordatos ; e 
ainda que, na verdade, a ellicacia da curiosidade nos in- 
clina a saber novidades, a incerteza da sua exactidão priva 
o entendimento do maior deleite, de que indubitavelmenlb 
gozara, se, persuadido da sua certeza, depuzesse toda a 
perplexidade, em quanto duvidoso. Desejando, pois, CvEer 
notório a todos o novo descobrimento do grande rio das 
Amazonas (ao qual, de ordem de Sua Mageslade, fui, como 
adiante verás], e receiando de que, ainda que pela novidade, 
seria appetecido, comtudo não deixaria de padecer suspeita 
a exactidão, quiz assogurar-te uma e outra ; a primeira, 
com prometter-te novo mundo, novos reinos, novas occa- 
pações, nova maneira de viver, e fínalmente um rio d*agaa 
doce, navegado por mais de mil e tresentas léguas, todo, 
desde o seu nascimento até a sua foz, cheio de novidades; 
a segunda, com pòr-te diante dos olhos as obrigações da 
minha pessoa, como religioso da companhia de Jesus, como 
sacerdote, como legado de Sua Magestade, e outras, que 
nem te importa sabêl-as, nem a mim dizèl-as ; e, se apezar 
de tudo, te persuadires de que a alTeição ao que cuidadOM- 
mente trabalhei me faz ser encarecido, ouve aquelles que, 
não sendo de nenhum modo suspeitos, como testemuntias 
juradas, acreditam esta relação. Vale. 

ATTESTAÇÃO DO CAPITÃO-MÓR DOESTE DESCOBRIMENTO PEDRO 

TEIXEIR.V 

Pedro Teixeira, capitão-mór actualmente u*esta capitania 



— 1G7 — 



do Grâo>Paii e Cabo» que fui da gente de guerra que foi ao 
descobrimento du Uio das Amazonas {de ida e volta) até á 
cidade de S. Francisco de Quito, nos reinos de l*erú, Cer- 
lifico e aHirnio debaixo de juramento sobre os Sinlos Evan- 
gelhos, ser verdade, que, por ordem de Sua Mageslade, e 
por particular provisão des]mchada pela real audiência de 
Quito, veio em minha companhia, desdu a sobredita cidatle 
até à do Pará, o Bev. padre Christovãod'Acuíia, religioso 
da companhia de Jesus, com o seu com panli eiró o Kev* pa- 
dre André d*Artieda, durante a qnaf viagem cumpriram am- 
bos, no que íliz respeito ao serviço deSuaMageslade,âqae 
eram mandados, como bons e fieis vassallos, níJtaniJo e ad- 
vertindo tudo ij necessário para darem inteira e ex:icla no- 
ticia do dito descobrimento, à qual se deve dar lodo o cre- 
dito, com prerercncia a quaeíí quer outras dadas pelos que 
foram a este descobrimento* E ao que diz respeito ás obri- 
gações de seu habito, e ao serviço de Deus, cumpriram 
sempre, como costumam os da sua religião, pregando» con- 
fessando e doutrinando a todos os do exercito, compondo- 
os uas suas duvidas, reconcÍ!iando-os nas suas rixâs, ani- 
mando-os nos sens trabalhos e pacificando-o^ nas suas dis- 
senções» como verdadeiros pais de lodos ; passando pelos 
meamos incommodos e trabaílios por que passavam os soli- 
dados, assim na comida, como em tudo o mais. E iião Sí>- 
menlo fizeram os sobreditos padres esta viagem á sua custa, 
sem que de Sua Magestade recebessem o min imo soccorro, 
mas Umliem com tudo o que traziam, assim para alimento 
como para remeílíos, soccorrerarn sempre todos os necessi- 
tados com a maior caridade e amor. E por ser verdade tudo 
o que fica declarado, dei estaattestaçâo, por mim assigna- 
dâ, e sellada com o sello das minhas armas. N'esta cidade 
do Tara, a 3 de Man^* de ItilO— 1> aipitão-mòr, Pedro 



— 468 — 

ATTESTAÇ.\0 1)0 REV. PADRE COMMISSARIO DAS MERCÊS 

Frei Pedro de Rúa, religioso de Nossa Senhora das Mer- 
cês, commissario geral da minha ordem nos Estados do Ma- 
ranhão e Pará. Cerlilico a lodos, os que a presente virem, 
que os Rovs. padrus Chrislovfio d*Acana e André d'Arlieda, 
seu companheiro, religiosos da companhia de Jesus, vieram 
desde â província de (juilo, na companhia da armada por- 
lugueza, que, de volla do descobrim nto do rio das Amazo- 
nas, desceu por elle ale á cidade do Pará, cosia do Brasi 
e governo do Maranlião, acudindo sempre, durante a via- 
gem, como verdadeiros fUhos da sua religião, confessando, 
pregando e consolando a todos os do exercito, e valendo- 
Ihes nas suas enfermidades e necessidades, cumo verdadei- 
ros pais de todos, cumprindo ao mesmo tempo cora o que 
pela real audiência de, Quilo, em nome de Sua Magestade, 
lhes havia sido recommendado relativamente a averigua- 
rem allenl:imente as cousas mais principais do dito rio das 
Amazonas; averiguação que fi^z o sobredito Ui*v. padre 
Christovão d'Acuna com o maior esnuM-o, como se verá da 
sua relação, á qual julgo dever ser dado lodo o crinlito por 
ser pessoa (h?sinteress:ida, e que, unicamrnle levado do 
serviço de Deus e do rei, (ínipn^liendeu viagem tão traba- 
liiosa. De Indo o que posso dar fé como leslrmunha de 
vista, pí)is viemos sempre juntos. K por ser verdade, dei 
esta por mim assii^niarla, e selLula com o sello de minha re- 
ligião. lN'esla cidade do Pará, a 19 de Março de íGVO.— 
O commissario, Frei Pedro de Santa Maria e da Rúa. 

CLAUSULA DA PROVISÃO UEAI, QlE DEU A AriUENOIA DE QUITO 
EM NOME DE SUA MAGESTaDI: PARV I'STK DESCOBRIMENTO 

Em conformidade do que acordaram os ditos meus presi- 



- 469 - 

(lentes e ouvidores, que devia niandar'dar esta minha carta 
e provisão real, a vós, e a cada um de vós, na maneira 
acima dita: e eu, o rei, por bem, e vos mando que, sendo 
com ella requerido pelos sobreditos padres Christovão 
d^Acnfia e André d^Arlicda, religiosos da dita religião da 
companhia de Jesus, ou por qualquer d^elles, vejais os au- 
tos a esta appensos, e cm seu cumprimento lhes dareis e 
fareis que se lhes de todo o breve aviamento e boa passa- 
gem,^que houverem mister para o melhor cumprimenlo da 
sua commissão, viagem e bons elTeilos, que d*ella espero ha- 
jam resultar, sem que em nada lhes seja posto estorvo, nem 
impedimento por nenhuma causa ou razão, pois do contra- 
..rio me haverei por deservido. E rogo, e encarrego a vós o 
dito padre Christovão d*Acufia, que, em cumprimento do 
provido pelos ditos meus presidentes e ouvidores, e na con- • 
formidade da nomeação, em primeiro lugar em vós, feita 
pelo vosso prelado, e do que em seu requerimento ofTere- 
ceu, havendo- vos sido entregue esta minha caria por parte 
do dito meu fiscal, vejais o que n^ella se contém, e o guar- 
deis, cumprais e execuleis; e am seu cumprimento, par- 
tais d'esta minha corte com o dito vosso companheiro para 
a dila provinciado Pará, na companhia do capitão-mór Pe- 
dro Teixeira, e mais gente de guerra, que com elle vai, 
tendo, como haveis de ter sen4)re, particular cuidado de 
descrever com a maior clareza, que vos for possível, a dis- 
tancia em léguas, as províncias, as povoações de indios, os 
rios e as paragens particulares, que ha desde o primeiro 
embarque até a dita cidade, e porlo do Pará ; informando- 
vos, com a maior certeza que vos fór possível, de ludo o 
referido, para que, como testemunha de vista, possais dar 
exacta noticia no meu real conselho, afim de que fique 
tendo o necessário conhecimento das dilas províncias: 
para que vos mando que assim o façais, comparecendo pes- 



— 172 — 
3.* — EN*TRA N'ESTE RIO O TYRAXNO LOPO DE AGUIRRE 

Yinlc annos depois, isto é, no anuo loGO» tornaram a 
avirarem-sô as esperanças com a entrada, que, por ordem 
de el-rei, fez do Peru, a este grande rio, o genial Pedro 
d'Orsúa, abandonando-se com grosso exercito às suas aguas 
para ser testemunha de vista das grandez ts que d*elle se pu- 
blicavam unicamente por noticias ; foi, porém, tão infeliz 
que foi morto atraiçoadamente pi.'io tyranno Lopo de Aguir-- 
re, o qual, lovantando-se, não só cunio general, mas lam- 
bem como rei, proseguiu a via^^em começada : nio permit> 
tiu Deus que acertasse com a principal boca, pela qual este 
grande rio desagua no oceano ^ porque desdourava a fldelí- 
dade dos hespanhoos descobrir um tyranno, cousa de tanta 
importância ao nosso rei e senhor , e deixando-se levardes 
braços do rio, veiu desembarcar na cost j, defronte da ilha 
da Trindade, na terra firme das Lidias castelhanas, aonde, 
por ordem de Sua Majestade, lhe foi tirada a vida, e se- 
meado sal no terrenv» das suas cas.;S, como aimla hoje allí 
se reconhece. 

i." — INTtNrAM OITKOS ESTfc DtSi.OKRIMENTO 

Os mesmos desoj»)S do desc briuionlo d'eslo grande rio 
obrigaram o sar^reiíl )-:uôr Vicenlo d ^s R.ms Vjlia-Lcbos, 
governador o capitã >--:.Mieral iks naix>s, jurislicção da 
provincia de yuilo, a qu* se oiTer .cesse com bons partidos 
a principial-o por aquMlas part.s: em aijaciwiíormidade^ 
a catholica pessoa do noss» irrando r.i Filippe IV, que boje 
vive, e viva felizes ann^^s, mandou, -m Iíí-2I, um decreto à 
real audiência e chai.cellaria d • S. Francisco de Quito para 
que se estipulassem as a^nliçOes qu. mais convenientes 
fossem para o descobrimento o como n'este entretanto o 



- 173 - 

dito governador acabou o seu tempo, não poderam ter 
effeilo, assim como o nâo tiveram os ardentes desejos de 
Alonso de Miranda, a quem succedeu no cargo, por lh'os 
haver atalhado a morte, a qual também havia atalhado as 
brilhantes expedições em que o general José de ViUa-Maior 
Maldonado, governador muito «'mies que os dois referidos, 
do mesmo governo de Quixos, gastou o melhor da sua vida, 
com ardente 7êlo de sujeilar à Peus, e ao rei, asinnume- 
ravfis nações, que confusas noticias publicavam haver 
n'este rio,pondo em execução, por muitas differentes partes, 
os seus desejos com não pequenos bons successos. 

5. **— INTENTA BENTO MACIEL ESTE' DESCOBRIMENTO 

Excitaram estes mesmos desejos não somente os caste- 
lhanos pelas partes do Períi, mas também, estendendo-se 
ás costas do Brasil, habitadas por portnguezes, quizeram 
estes, levados do zelo, que sempre têm de augmentarem a 
coroa, principiando desde a boca d'este rio, buscar-lhe o 
seu nascimento, e desentranhar-lhe as suas grandezas, 
para o que se olToreceu Bonto Maciel Parente, capitão- mór, 
que enlão havia sido do Pará, e é presentemente governa- 
dor do Maranhão, cm cuja conformidade se lhe mandou, 
em 1(>2(}, um real decreto para que principiasse e ultimasse 
seus (lesignios, os quaes cessaram, em consequência de 
querer Sua Míigestade servir- se d'elle na gçerra de Per- 
nambuco. 

6.° — FRANCISCO COELHO É MANDADO FAZER ESTA ENTRADA 

Não socegava o coração do nosso grande rei emquanto 
não visse executada a empreza, cujo bom êxito tanto era 
desejado, e muito prometlia; e por isso, ainda que se des- 



- 474 - 

vaneciam todos os planos, que para semelhante fim traçava 
a humana previdência, jamais deixava de insistir no princi- 
pal projecto : nos annos 1633 e 163& mandou, por seu real 
decreto, a Francisco Coelho de Carvalho, que então era go- 
vernador do Maranhão e Pará, para que logo se fizesse 
aquelle descobrimento, com expressa ordem de que, não 
havendo a quem enviasse, fosse elle mesmo pessoalmente 
põl-o em execução; tanto Sua Magestadc desejava que se 
effectuasse semelhante empreza, quo por todas as partes 
se intentava, e por nenhuma chegava a devida execução I 
Porém, também n*esta occasião não pôde ter clTeito, por 
razão de não se julgar o governador com forças sufficien- 
tes para as poder dividir, visto que os hollandezes todos os 
dias infestavam as suas costas, e elle apenas tinha gente 
para resistir-lhes : não é, porém, de admirar que os pro- 
jectos humanos se desvanecessem, pois que Deus havia já 
disposto a maneira como milagrosa, de fazer-se este grande 
descobrimento, que foi, como aqui direi. 

?.•— NAVEGAM ESTE RIO DOIS RELIGIOSOS LEIGOS DE 
S. FRANCISCO 

Á cidade de S. Francisco de Quito, que é uma das mais 
formosas de toda a America, está cdiricada sobre montes, 
no mais alto da cordilheira, que compõe todo aquelle novo 
mundo, não bem meio gráo ao sul da linlia equinocial ; é 
capital de uma provincia, a mais fcrlil, a mais abundante, 
a mais regalada, e a de climas mais temperados que ne- 
nhuma outra do Perú,c que a todas leva vantagem pela mul- 
tidão de seus naturaes, policia, ensino e christandade dos 
mesmos. D*esta cidade, pois (nos annos 1G35 e 1636, e 
principio de I637),sahiram uns religiosos deS. Francisco, 
de ordem de seus superiores, em companhia do capitão 



- 475 - 

João de Palácios e seus soldados ; para proseguirem estes, 
em quanto ao temporal, e aquelles em quanto ao espiritual, 
o descobrimento d í^4e rio, que havia mais de trinta annos 
tinha já sido principiado pelos padres da companhia de Je- 
sus pelos cófanes, cujos naturaes mataram cruelmente o 
padre Raphael Ferrer, em paga da doutrina que lhes ensi- 
nava : chegando, pois, os ditos religiosos de S. Francisco á 
provincia dos Encabeilados, muito povoada de gente, po- 
rém muito limitada para o ardente zelo, com o qual csles 
servos de Deus, como sempre costumam, a pretendiam re- 
duzir ao grémio da igreja, alli permaneceram por alguns 
mezes entre os naturaes, e vendo o tempo que perdiam, e 
que ainda não tinha sasonado a seara de Deus, regressaram 
uns ao seu convento de Quito, e outros ficaram na compa- 
nhia dos poucos soldados que alli quizeram conservar-se ao 
lado do seu capitão, que, passados poucos dias, viram com 
os seus próprios olhos, morto às mãos d'aquelle a quem 
iam fazer tanto bem: portanto foi-lhes forçoso desamparar 
a terra, e dirigindo todos a sua viagem á Quilo, somente 
dois religiosos leigos (Frei Domingos de Bricoa e Frei André 
de Toledo) juntamente com seis soldados, se embarcaram 
em uma pequena embarcação, e n'elia se deixaram levar 
pela corrente do rio, segundo o que se pôde imaginar, uni- 
camente levados do divino impulso, que de tão fracos ins- 
trumentos havia scrvir-se para o primeiro descobrimento 
d'esle rio. 

8/-- CHEGAM os DOIS RELIGIOSOS AO MARANHÃO 

Favoreceu Deus os intentos d'estes dois religiosos, e, de- 
pois de muitos dias de navegarão, durante osquaes visivel- 
mente experimentaram a Divina Providencia, chegaram à 
cidade do Pará, pertencente aos portuguczes e situada 



- 476 .- 

quarenta loguas de distancia da desembocadura d*este rio 
no ocoaiio, jurisílicção íId governo do Maranhão, liavendo 
passado sem dumno algum por inimensas províncias de bár- 
baros idas qu:u'S muilíis d»^ oaribcs, que comem carne hu- 
mana), c reci*hendo d'ollos os m^cossarios mantimentos 
para ultimariam o sou projecto. Passaram immedialamente 
à cidade de S. Luiz do Maranlião, onde o governador resi- 
dia, e era então Jacome Raymnndo de Noronha, eleito, na 
minha opinião, mais pela Divina Providencia do que pela 
voz do povo, pois quíí nenhum outro acabara com tantas 
difliculdades, nem se oppuzéra a tão conlrarins pareceres, 
a nã) tor o mesmo zõIo e obrigações, que elh- linha, de 
servir df^sinteressadamente n'ostc descobrimento ao seu 
Deus e ao seu rei. A clle, pois, deram os dois religiosos 
nolicÂa da sua viagem, porém, como pessoas que vinham fu- 
gindo todos os dias á more, e, pnrlanlo, o maisqutí pude- 
ram aflirmar foi que ^inham d(i Pará, que haviam visto 
muitos Índios, e que estavam prom;'tos a regressarem pela 
mesma parte por 'onde haviam descido, havendo quem 
quizí sse seguir aquella mesma ilerrola. 

9." — i': No.Mr.vDo paka al»kli.a r.o>\nisiA íí:!»ko tkixeir.v 

O-nfuso, ficava o nu?so deseifbrimeulo, e mal poderia 
Sua Magi sláiie resi.lver soÍT' o qwr eonviídía ao sm real 
serviço, Sií o govtMMiador, eoino aciíiia dissi*, não tomasse a 
peilo aclariir eslús sombras, e, contra o parecer de lodos, 
mandar gente pelo rio acima ale acidado di» Ouito, orde- 
nando que com maior atleiição -puis, sem tants receios) 
nolassem ludo o que n\'lle acliassi'm digno de advertên- 
cia : para esta empreza nomeou i)or cabo de todfs a Pedro 
Teixeira, capitão, por ^-ua Mageslade, e dos descobri- 
menlos, |»essoa a quem o cé»-, sem duvida, para isso havia 



- 177 - 

escolhido, porquanto somente a sua prudência o os seus 
conhecimentos, puderam acabar o que elle trabalhou, e fez 
em serviço de Sua Magestade, n*esta expedição, não só gas- 
tando e perdendo a sua fazenda, mas também a sua saúde; 
se bem que nada d*isto era novo em quem, durante tantos 
annos, que serve a Sua Magestade nunca tem grangeado ou- 
tros interesses que o dar honrada conta de tudo o que se 
lhe tem encarregado, que tem sido muito, e em occasiões 
de não pouca importância. 

10.**— TRINCIPIA A SUA VIAGEM PEDRO TEIXEIRA 

Sahiu, pois, este bom capitão dos confins do Pará a 28 
de Outubro do anno de l()37, com quarenta e seto canoas 
de bom porle (embarcações de que adiante se fallarà) e 
n'ellas seteiiía soldados porluguezes e mil e duzentos índios 
de voga e guerra, e contando as mulheres e rapazos de ser- 
viço, eram mais de duis mil pisoas. Durou a viagem quasi 
um anno, não só pela força da corrente, como também pelo 
tempo, que era indispensável gastar em fazer mantimentos 
para tão numeroso exercito, e mui principalmente por ca- 
minharem sem guias intelligentes que os pudessem dirigir, 
sem rodeios, nem demoras, pelos rumos mais directos, 
pelos qu.ies deviam proseguir. Como o caminho era tão 
compri<!o, e se passavam grandes incommodos, principia- 
ram os Índios amigos a demonslrarem i»ouca vontade de 
n*elle proseguirem, e de facto alguns regressaram para suas 
terras ; por isso o capitão-mór, receiando que todos tomas- 
sem a mesma deliberação, usou de estratagema, visto que 
o rigor e a força não bastavam a cons Tvar os que estavam 
Yjcillando, c, ainda que apenas estavam a meio caminho, 
fingiu estarem mui próximos ao termo, e apromplaiido 
oito canoas bem guarnecidas de vogas e de soldados, as 



- 478 — 

mandou passar avante, como para aposentadoras do res- 
tante do exercito ; e na verdade eram somente exploradoras 
do melhor caminho, e incertas no verdadeiro, muitas vezes 
se enganaram. 

44.° — ADIANTA-SE CORONEL BENTO RODRIGUES D^OLIVEIRA 

Nomeou Pedro Teixeira para cabo d'esta vanguarda o co- 
ronel Bento Rodrigues d'Oliveira, filho do Brasil, e que, 
como criado toda a sua vida entre os naturaes, lhes conhece 
os pensamentos, e por pequenos signaes advinha o que 
intentam fazer, e por isso é conhecido, temido e respeitado 
de todos os indios d'aquellas conquistas, e n'esle descobri- 
mento foi muito útil a sua pessoa para o ullimar com a fe- 
licidade com que foi feito. O referido coronel, depois de 
vencer muitas e grandes diíBculdades, chegou com a sua 
esquadra no dia de S. João, a 24 de Junho de 4638, ao 
porto de Payamina, a pri|fieira potoação de castelhanos, 
que por aquellas partes fica mais próxima ás margens 
d'este grande rio, e é sujeita à província dos Quixos, júris- 
dicção de Quilo ; porém, se a armada houvesse seguido 
pelo rio Napo (do qual adiante se fará menção), houvera 
tido melhores portos, mais abundantes provimentos de vi- 
veres, e menores perdas, não somente de indios, como 
também de fazendas, 

12.*— DEIXA o CAPITÀO-MÓR EXERCITO NOS ENCABELLADOS 

O capilão-mór ia seguindo sempre os rastos e avisos que 
lhe deixava nos pousos o seu coronel, e d*esla maneira ani- 
mados todos os dias, pensavam que o seguinte seria o ul- 
timo da viagem. Alentados com estas esperanças chrgaram 
a um rio, que sahe da provincia dos Encabellados (dos que 
já falíamos), que em outro tempo haviam sido de paz, po- 



- 179 - 

rém, então rebeldes, em razão da morte do capitão Palá- 
cios : pareceu aquelle sitio aprazivel e próprio paraalli ficar 
estacionada a principal força do exercito, e, por isso, no- 
meando capitão e cabo de todos a Pedro d' Acosta Favella, 
o deixou alii ficar, e igualmente o capitão Pedro Bayão, 
ambos com as suas respectivas companhias, ordenando-lhes 
que alli permanecessem a pé firme; o que ambos pontual- 
mente cumpriram, mostrando o valor com que tantos annos 
haviam exercitado as armas, a fidelidade com que obedeciam 
á risca as ordens dos seus superiores, porquanto alli firme- 
mente se conservaram onze mezes, sem nunca intentarem 
fazer a minima mudança, apezar de ser a terra doentia, e 
não terem nenhuns mantimentos, sendo-lhes forçoso bus- 
cal-os com as armas na mão, e assim mesmo tão escassos, 
que apenas eram sufBcientes a alimentarem-se. Bem sabia 
o capitão-mór quem deixava em semelhantes riscos, e que 
só a morte os poderia apartar do pontual cumprimento das 
suas ordens ! 

13.'— CHEGA o CAPlTÃO-MÓR A QUITO 

Descançado, pois, com aquella certeza, proseguiu Pedro 
Teixeira com poucos companheiros no seguimento do seu 
coronel, a quem achou ji, havia dias, na cidade de Quito, 
aonde foram bem recebidos e agasalhados, assim pelos se- 
culares como pelos ecclesiasticos, demonstrando todos o 
prazer que tinham de vêr em seus tempos, e por vassállos 
de Sua Magestade, não somente descoberto, mas também 
navegado, o afamado rio das Amazonas, desde a sua foz até 
ás suas cabeceiras. Não tiveram menor parte cm tão justo 
regosijo todas as religiões d^aquella cidade, que são 
muitas, e de bastante utilidade, olferecendo-se á porfia com 
obreiros fieis, que, desde logo, entrassem a trabalhar na 
TOMO xxviii, P. 1. 24 



- 1«0 - s 

gvftode e inculta vinha dos ionumeraveis bárbaros, de qnc 
lhes davam noticias os novos descobridores. 

li.*"— RESOLUÇÃO DO VlCE-EEi DO PERU* 

Recebida n'aquella aadiencia de Quito a participação 
competente pela qual se Tazia pleno conceito do muito que 
importava à Magestade Divina e humana que com a maior 
promptidSo se despachasse negocio tão grave ; nada se 
atreveram a resolver os Srs. presidente e ouvidores da dita 
audiência sem que primeiramente fizessem a respectiva 
participação ao vice-rei do Peru, que então era o conde 
jde ChinchOD, o qual, depois de haver consultado toda a gen- 
te mais pratica da cidade de Lima, corte d'aquelle novo 
mundo, resolveu por carta sua ao presidente de Quito 
(q»e então era o licenciado D. Alonso Peres de Salazar) da- 
tada de 10 de Novembro de 1638, que o capitão-mór Pedro 
Teixeira, com toda a sua gente, regressasse immediata- 
mente pelo mesmo caminho por onde haviasubido à cidade 
do Parâ,dando-se-lhes todo o necessário para a sua viagem, 
em razão da falta que tão bravos capitães e soldados indu- 
bitavelmente fariam n'aquellas fronteiras, tão infestadas 
dos inimigos hoUandczes; ordenando outrosimque, se pos- 
sível fora, de tal sorte se dispuzessem as cousas, que em 
sua companhia fossem duas pessoas taes, que a ellas a coroa 
de Castella pudesse dar credito de tudo alé alli descoberto, 
e do mais que se fosse descobrindo durante o regresso 
para o Pará. 

IS.**— o GENBRAL D. JOIO d'acuNA SE OFFERECE PARA 
A VIAGEM 

Em confusão pôz a lodos a execução d'esta ultima ordem 



- 184 - 

do vice-rei, em razão dos muitos inconvenientes que & 
primeira vista apresentava, se bem que não faltavam secu- 
lares zelosos do serviço de Sua Magestade» cada um dos 
quaes, pondo tudo de parle, desejava ser dos nomeados 
para tão grande empreza ; porém, entre todos, o que se 
mostrou mais desejoso de novas occasiões em que pudesse 
empregar-se no serviço do seu rei (o que havia feito por 
mais de trinta annos, o os seus antepassados por toda» a 
vida], foi D. João Vasques d'Àcuna, cavalleiro da ordem de 
Calatrava, tenente do capitão-general, vice-rei do Peru, e 
corregedor actualmente, por Sua Magestade dos hespa- 
nhões e dos naturaes na mesma cidade de Quito e respec- 
tiva comarca, offerecendo, não somente a sua pessoa, mas 
também toda a sua fazenda, para á sua custa alistar gente, 
pagar soldos, comprar mantimentos, preparar petrechos e 
fazer todas as despezas necessárias para tão comprida via- 
gem. Os seus bons desejos não tiveram effeito, em razão de 
lhe não dar licença quem lh'a podia dar, que, attendendo 
á falta que poderia fazer, deixando o oilicio que ac- 
tualmente exercia; porém não quiz que de todo ficas- 
sem frustrados tão bons desejos, e do tal sorte dis- 
põz as cous:^s, que, em seu lugar, foi seu irmão, o padre 
Christovão d'Acuha, religioso da companhia de iesus, 
havendo consequentemente a grande fortuna de por 
este meio ofTerecer ao serviço de Sua Magestade pessoa 
que tanto estimava, e tão de perto lhe tocava ; o que succe^ 
deu da maneira seguinte : 



16.''— NOMEIA A EEAL AUDIENCU CHRISTOVÃO d'aCUNA PARA 
ESTA VIAGEM 

Vendo o licenciado Soares de Poago, fiscal da real chan- 



— 184 — 

de tanta imporlancia ninguém acredite mais do que o que 
n'esta relação se aflirma. 

48.°— o RIO DÁS AMAZONAS K O MAIOR DO ORBE 

E' o famoso rio das Amazonas, que corre c banha as 
mais ricas, as mais férteis e as mais povoadas terras de todo 
o império do Períi, o rio, que de lioje em diante, podemos, 
sem hyperbole, julgar ser o maior e o mais celebre de todo 
o orbe, porque se o Ganges rega toda a índia, e por cauda- 
loso escurece o mar quando n*elle desagua, fazendo-lhe 
perder o nome, chamando-o sino gangetico, por ou- 
tro nome, golpho de Bengala ; se o Euphrates, como rio 
afamado da Syria e de parte da Pérsia, é as delicias 
d'aquelles reinos ; se o Nilo rega o melhor da Africa, fe- 
cundando-a com as suas correntes ; o rio das Ama- 
zonas rega reinos mais dilatados, fecunda mais vargens e 
campos, sustenta mais homens, e augmenta com as suas 
aguas a mi^ caudalosos oceanos, e somente lhe falta, para 
os vencer em felicidade, ter a sua origem no paraíso, como 
d'aquelles affirmam graves auctores. Do Ganges dizem as 
historias que n*elle desaguam trinta caudalosos rios, e que 
nas suas praias se vêm aròas de ouro : innumeraveis rios 
desaguam no do Amazonas, tem arêas de ouro, e rega ter- 
ras, que em si encerram infinitas riquezas. O Euphrates é 
assim chamado, como notou Santo Ambrósio, o — Laetifi- 
cando — , porque com as suas correntes alegra os campos, 
de sorte que, regando-os em um qualquer anno, no se- 
guinte dão abundantíssimas colheitas: do Amazonas se 
pôde afoitamente aHlrmar que as suas margens são na ferti- 
lidade paraisos, e, se a arte ajuda a fecundidade do terreno, 
serií todo elle um aprazível jardim. A felicidade da terra 
que rega o Nilo, celebrou Lucano n*estes versos : 



_ 186 — 

Terra suis contenta bonis, non indiga mercie» 
Aut Jovis ; in solo, tanta est fíducia Nilo. 

Não carecem as proviDcias visinhas ao rio das Amazonas 
dos bens estranhos, sendo o rio abundante de pescado, os 
montes de caça, os ares de aves, as arvores de fratas, os 
campos de messes, a terra de minas, e^s naturaes, que o 
habitam, de grande habilidade, e engenhos agudos para 
tado o que lhes convêm; o que iremos vendo no decurso 
d'esta historia. 

i9.° — NASCIMENTO DO RIO DAS AMAZONAS 

Dando, pois, principio a ella pelo nascimento e origem 
d'este grande rio das Amazonas, até agora sempre occulto, 
querendo todas as terras fazerem-se mãi de um tal filho, 
attríbuindo às suas entranhas os primeiros assentos que lhe 
dão o ser, nomeando-o rio do Maranhão, erro tão vulgar 
n'aquellas parles, que a cidade dos Reis, empório de todas 
as da America, se gloria de que as cordilheiras de Guanuco 
dos Cavalleiros, em distancia de setenta léguas, dão o berço 
a este afamado rio, e cortam os primeiros ramos de uma 
lagoa, que alli está ; e, certamente, posto que esta não 
seja a sua verdadeira, pelo menos é origem de um dos mais 
famosos que aquelle rio das' Amazonas converte em sua 
própria substancia, e desde então, alimentado com suas 
aguas, segue mais brioso o seu curso. Pretende também o 
reino de Granada augmentar a sua reputação, attríbuindo 
às vertentes de Mocôa o primeiro nascimento d'este rio, do 
qual, na sua origem, os naturaes dão o nome de Grão-Ca- 
qoetà, se bem sem fundamento, pois que por mais de sete- 
centas léguas não vêm as caras estes dois rios, e, quando 
se encontram, reconhecendo o seu chefe, ou superior, e 
torcendo o Caquetá o seu curso paga vassallagem ao Ama^ 



— i86 — 

zonas : por outrâs muitas partes quer o Peru vangloriar-se 
pelo principio e nascimento (1'este grande rio, celebran- 
do-o e acclamando-o como o rei dos outros. De hoje em 
diante não o permitlirá a cidade de S. Francisco de Quito, 
pois que a oito léguas do seu local tem encerrado este the- 
souro as fraldas da cordilheira, que divide a jurisdicção do 
governo de Ouixos, ao pé dos serros, chamado um Guama- 
nà, e outro Pulcâ, distando entre si nâo bem duas léguas; 
dos quacs, o ultimo dá por niâi do recem-nascído uma 
grande lagoa, o o primeiro outra, ainda que não de tanta 
grandeza, se bem que de muito fundo, a qual, furando um 
serro, que, invejoso do Ihesouro que de si offerocia, com a 
força de um terremoto, se lhe deitou em cima, pretendendo 
afogar em os seus principies as tão grandes esperanças, que 
aquelle lago promettia ao mundo. D*estas duas lagoas, que 
estão em vinte minutos ao sul da linha equinocial, recebe o 
seu principio o grande rio das Amazonas. 

20.*— SEU CURSO, LATITUDE E LONGITUDE 

Faz O seu curso este rio, de oésle a leste, como dizemos 
navegantes, isto é, do poente ao oriente, próximo sempre 
ao íMiuinocial, porém ao sul, por á", 3", ^\ 5* e 5** 40* na 
maior altura. Tem de comprimento, desde o seu nasci- 
mento aló que desagua.no mar, mil tresentas e cincoentae 
seis léguas castelhanas, bem medidas,e, segundo Orelhana, 
mil e oitocentas ; caminha sempre serpenteando em voltas 
mui dilatadas, o como senhor absoluto de todos os outros 
rios que n'elle entram ; tem repartidos os seus braços, que 
eão como os sous fieis executores, por meio dos quaes sabe 
ao encontro, e, d'elles cobrando o devido tributo de suas 
aguas, as torna a encorporar no seu canal principal : e é 
para notar-se que, qual ó o hospede que recebe, laes são os 



— 187 - 

aposenladores que lhe dá, de sorte que, com braços ordi- 
nários, recebe os rios mais communs, accrescenUuido ou- 
tros maiores para os de maior grandeza ; e d'estes, alguns 
são laes, que quasi podem com eile hombrear, e por isso, 
elle mesmo pessoalmente, com toda a sua corrente, sabe a 
offerecer-lhes bospedagem : do latitude e largura é mais 
vário, porque cm partes se espraia uma légua, em outras 
duas, três, e ás vezes muitas mais, conservando tanta es- 
treiteza em tantas léguas, para, com maior atrevimento, em 
oitenta o quatro de boca, pôr-se á barba com o oceano. 

21/— ESTREITEZA E FUNDO DO RIO 

O maior estreito, onde este rio recolhe suas aguas, é de 
pouco mais de um quarto de légua, na altura de 2% 40", 
lugar que, sem duvida, destinou a Divina Providencia, es- 
treitando íilli este dilatado mar doce, para que alli se cons- 
truisse uma fortaleza para impedir a passagem a qualquer 
armada inimiga, por maiores forças que traga, entrando 
pela principal boca d*este grande rio, porquanto, entrando 
pelo Rio-Negro, alli deveria ser posta a defensa. Está este 
estreito a tresentas e setenta léguas da barra, d'onde, em 
oito dias, c em cmbarcaçõBs ligeiras, á vela e remo, se 
pôde dar aviso muito antes que o inimigo as aviste. A pro- 
fundidade d'este rio é grande, e em partes não se acha 
fundo. Desde a boca até o Uio-Negro, que são quasi seis- 
centas léguas, nunca ha menos de quarenta a trinta braças 
de altura no canal principal, e d'alli para cima vai variando, 
já com vinte, já com doze, e já com oito braças, muito nos 
seus [irincipios; fundos estes suQicientes para quaesquer 
embarcações, porquanto, ainda que a corrente obste a su- 
bida, não faltam ordinariamente, todos os dias, três, quatro 

TOMO YXVIII, p. 1. 25 



- 188 - 

ou mais horas de brisas fortes» que às vezes duram lodo um 
diaiComquoTeDcêl-a. 

22/— ttHAS, SUA FERTILIDADE E FRUCTOS 

Todo este rio està povoado de ilhas, umas grandes e 
outras pequenas, e em tão grande numero que não se po- 
dem contar, porque se encontram a cada passo ; as ordiná- 
rias são de quatro a cinco léguas ; outras ha de dez e de 
vinte ; e a que habitam os tupinambàs (de que adiante fat- 
iaremos) tem mais de cem léguas de circumferencia : ha 
também outras muitas mui pequenas, que servem aos natu- 
raes para fazerem n*ellas as siias sementeiras, tendo nas 
maiores as suas moradas. Estas ilhas de menor grandeza, 
e às vezes as maiores, ou grande parte d'estas, são annual- 
mente banhadas pelo rio, fertilisando-as com o seu Iodo, 
de sorte que jamais podem ser estéreis, ainda que por 
muitos annos continuados d'ella se exija o ordinário fructo, 
que é o maior a yuca, ou mandioca commum, sustento de» 
todos, e de que tem muita abundância, e, ainda que appa* 
rentemente esteja exposta á grande diminuição e perda por 
effeito de tão poderosas cheias, a natureza, mãi commum 
de todos, deu a estes bárbaros meio fácil para a sua conser- 
vação : colhem a yuca, que são umas raízes de que fazem o 
cazabé, pão ordinário em todas aquellas costas do Brasil, 
e fazendo na terra umas covas ou regos fundos, alli os en- 
terram, deixando-as mui bem tapadas durante o tempo em 
que duram as enchentes, passadas as quaes os tiram e bene- 
ficiam para seu sustento, sem que por isso nada percam do 
seu valor: e se a natureza ensina às formigas a guardar nas 
entranhas da terra o grão, que lhes ha de servir de ali- 
mento durante o anno, que muito desse ao indío, por mais 
bárbaro que seja, maoeira de prevenir o seu damno, e guar- 



- 1,9 - 

dar o sou SuBlento, pois é ceflo que a DÍTÍDa Providencia 
mais cuida dos homens que dos brutos. 

23/ — GÉNEROS DE DEBIDAS DE QUE USAM 

Como fica dito, é esle o pão quotidiano, com que sempre 
acompanham as mais viandas, e não somente serve de co- 
roida, mas também de bebida, a que são geralmente mui 
propensos aquclies n ituraes, para o que fazem umas gran- 
des tortas d :!lgadas, que, cozidas no forno, se abiscoutam de 
maneira que duram muitos mezes ; guardam-as no mais 
alto das casas para as conservar livres da humidade da 
terra, e, quando d*ellas se querem servir, deitando-as em 
agua, as desrazem, e, cozendo-as ao fogo, lhes dão o ponto 
que carecem, deixam assentar o caldo, e, estando frio, é 
o vinho de que ordinariamente usam, o qual ás vezes é tão 
forte, que, como se fora vinho de uvas, os embriaga e lhes 
faz perder o juizo. Com esle vinho celebram as suas festas, 
choram os seus mortos, recebem os seus hospedes, fazem 
e colhem as sementeiras, e finalmente não ha occasião al- 
guma em que se reunam, que elle não seja el azoque que os 
recolha e o laço que os detenha. Fazem, ainda que não é 
tao ordinário, outros vinhos que, como tão inclinados á 
embriaguez, são como los tauras, que nunca lhes falta de 
que lancem a mão ; elles os fazem de quaesquer fruclos sil- 
vestres, de que abundam as arvores, as quaes fruclas, des- 
feitas em agua, dão a esta tal sabor e força, que muitas 
vezes excede à da cerveja, bebida tão usual entre as nações 
estrangeiras. Guardam estes vinhos, uns em potes mui 
grandes de barro, semelhantes aos da nossa Hespanha ; ou- 
tros em pequenas pipas, que lavram de uma única peça de 
troncos socabados ; e outros, finalmente, em vasilhas gran- 
ded que tecem de herva, dàoda^lhes por dentro e pór fõtà 



— 490 — 

um bclumo tal, que Dão se perde uma única gola do licor 
que n'ellas se guarda. 

2i/ — FRUCTAS OUE TEM 

As viandas com que acompanham este pão e vinho são 
muitas, não somente de fruetas, como plantanos, pinhas, 
guiavas, avios, castanhas mui saborosas, a que chamam no 
Peru amêndoas da serra, e, na verdade, mais semelhança 
têm com estas do que com aquelias, se hem que assim llies 
chamem por nascerem em uns cocos, que se assemelliam 
aos ouriços das castanhas. Tem palmeiras de diíTerenles 
géneros, que produzem umas, sasonados cocos, e outras 
saborosas tâmaras, que, apezar de silvestres, são de bom 
gosto : e muitas outras qualidades de. fruetas, próprias todas 
das terras quentes. Têm também raizes cíe muito sustento, 
como são as batatas, a yuca mansa, a que os portuguezes 
chamam macachcra, carás, criadilLis da terra e outras, as 
quaes, assadas ou cozidas, não somente são gostosas, mas 
também substanciaes. 

25/ — PESCADOS r)'ESTn KIO, E 1)0 PEIXE ROl 

Comtudo, do que mais se alimentam, e o (jue, como vul- 
garmente dizem, lhes faz o prato, é o iinmenso pescado 
que, com incrivel abundância e diariamente, colhem ás 
mãos cheias n*este rio ; porém entre todos, o que, como 
rei, d'elle se senhorêa povoando lodo o rio, desde o seu 
nascimento até que desagua no mar, é o peixe-boi, pesca- 
do que só de tal tem o nome, pois que não ha pessoa que, 
comendo-o, não julgue comer saborosa carne : é de gran- 
deza de um bezerro de anuo e meio e d*elleem nada se 
differençaria na cabeça, se tivesse cornos e orelhas : tem 
por todo o corpo algum tanto de cerdoso^e move-se na agua 



— 191 — 

com dois braços curtos, que em forma de pás lhes ser- 
vem de remos, debaixo dos quaes as fêmeas mostram os seus 
peitos, com os quaes dão de mamar aos filhos que parem. 
Do couro, que é muito grosso, fazem adargas os guerrei- 
ros, e tão fortes, que, sendo bem curtidas, uma bala de 
espingarda não passa. Sustentase este pescado somente de 
herva, que pasce como se fora verdadeiro boi , e por isso 
a sua carne toma tio bom goslo, e é tão substancial, que 
em pequena quantidade liça qualquer -pessoa mais satis- 
feita e com maior força do que se comera dobrada porção de 
carneiro. Conserva mui pouco o fôlego debaixo d'agua, e 
por isso, onde quer que ande, deita fora amiudadas vezes 
o focinho para receber novo alento, e d''aqui vem a sua 
total destruição, porquanto ellc mesmo se vai denuncian- 
do aos seus inimigos. Os indios, logo que o vêm, o seguem 
nas canoas pequenas, e esperam que elle, querendo respi- 
rar, deite fora a cabeça, e, cravando-o com os arpões, que 
fazem de conchas, lhe tiram a vida ; partem postas medío- 
cres, que, assadas sobre páos atravessados, duram sem 
corrupção mais de um mez, e não fazem d*elle cenizas para 
todo o anno (que seriam de muita estimação), por não te- 
rem sal em abundância, pois que aquelle mesmo de que 
usam para o tempero da comida é mui pouco, e feito 
de cenizas de certas palmeiras, sendo mais salitre que 
sal. 



20.*— TARTARUGAS DO RIO, E COMO AS GUARDAM 



Mas, apezar de nao poderem conservar por muito tempo 
estas cenizas, não lhes falta industria para terem carne 
fresca todo o inverno, a qual, se bem não seja tão gostosa 



— 19Í — 

como aqueila, é comluilo mais saudável e do nao menof 
proveito. Fazem uns curraes grandes» cercados de pàos, e 
tão cavados por dentro, quo, como se fossem poços fundos, 
conservam em si as aguas da chuva ; feitos esles, no tempo 
em que as tartarugas sahema desovar nas praias, deixam as 
suas casas, e embosca ndo-se em paragens conhecidas que 
eliasmais frequentam, esperam que, sahindo á terra^ cada 
uma principie ^ occupar-se em preparar a cova em que 
pretende deixar o^vos ; sahem n'este momento osindios, 
e, ganhando a parte da praia por onde se hão de retirar 
para a agua, dão de improviso sobre ellas, e em breve 
tempo se vêm senhore? de grande quantidade, som mais 
trabalho que volUil-as de costas, e, não podendo então me- 
nearem-se, assim as conservam emquanto querem, ató 
que, enfiadas todas com cordas por uns furos que fazem nos 
cascos, o lançadas à agua, remando nas canoas, as levam 
sem trabalho até as encerrar nos curraes, que já têm 
promptos, onde as soltam todas, dando-lhes por prisão 
aquelle estreito cárcere, e, susteotando-as com ramos c 
folhas d'arvores, as conservam vivas todo o tempo que 
d'ellas carecem. São estas tartarugas tão grandes e maiores 
que rodas de bom tamanho ; a sua carne ó tíío tenra como 
a da vacca ; têm as fêmeas, quando as matam, no ovário 
ordinariamente duzentos ovos cada uma, algum tanto 
maiores e quasi tio bons como os de gallinha ; porém são 
mais dilBceis de digerir. Eslâo nos tempos próprios tão 
gordas, que de duas S3 faz um pt)te de manteiga, que, 
temperada com sal, 6 tão boae mais gostosa e dura mais 
que a de vacca ; serve para frigir o peixe e para quaesquer 
outros guisados, em que se pôde fazer uso da melhor man- 
teiga. Apanham estas tartarugas em tanta abundância, que 
não ha curral que não lenha mais de cem tartarugas, e por 
isso jamais estes bárbaros sabem que cousa seja fome, por- 



— 193 — 

quaQto uma só basta a salisíazeir qualquer faon^ia, por 
mais numerosa quo sej^f 

27.°-r-MANimAS DE PESOAa 

Com a maior facilidade gozam os moradores d'eslo rio 
de lodos os pescados que em si encerra, e, nunca receian- 
do que lhes faltem para o seguinte dia, jamais se proyiuem 
no antecedente, e sustentados com o que diariamente co- 
lhem estão sempre certos de que nos dias seguintes farão 
outra igual pesca. A maneira de pescar ó dillerente, con» 
forme a variedade do tempo c as enchentes ou vasantes ; e 
por isso, quando as aguas baixam tanto, que os lagos sec- 
cam, sem permittir-lhes communicação com o rio. usani de 
um género de trovisco, e que n*aquellas costas se chama 
timbó, da grossura de um braço, pouco mais ou menos, o 
tão forte, que, machucados dois ou três páos d* estes, e, ba- 
tendo com elles na agua, que, ( staiicada, sustente n'aquel- 
les lagos o pescado, a|)enas chega este a provar o seu vigor, 
iipqiediatamente sobro a agua do lodo se deixa apanhar 
com as mãos ; porém a maneira mais ordinária com quo, 
em todo e qualquer tempo, se fazem senhores de tod js os 
pescados que sustenta aquelle abundante rio, é com as fre- 
chas, que com uma mão disparam de uma paleta que 
n'ell^ tem, e, cravadas nos peixes, lhes serve de bóia para 
conhecerem aonde depois de feridos se retiram, e por isso 
alli com presLeza correm e os recolhem nas canoas ; esta 
maneira de pescar não se limita a este ou áquelle pescado : 
é geral para todos ; de sorte que, nem uns por grandes, nem 
os ouiros por pequenos, são privilegiados, c todos passam 
por uma mesma rasoura. Estes pescados, sendo de tão di* 
versos géneros, são todos de mui bom gosto, e muitos 
d'elles têm de partiçularissimas propriedades. Mm peixOi a 



— IÍ>V — 

r|ue os íDdios chamam — poraque— ^semelhante a uma mui 
^Tande enguia, ou para melhor dizer, a um pequeno cou* 
gruo, tem tal propriedade, que, emquanto está vivo, a 
todos que o tocam estremece immediatamente todo o corpo, 
emquanto dura o contacto, como se tivessem graves quar- 
tans, o que cessa logo que d'elle se aparta. 

28.*— CAÇAS no MONTE E AVES nE QUE SE SUSTENTAM 

Podéra acontecer que estes naturaes, comendo sempre 
pescado, ainda que tão bom, se enfastiassem e desejassem 
pelo menos, de quando em quando, alguma carne, e por 
isso lhes preveniu a natureza os seus desejos, povoando - 
lhes a t/rra firme com muitos géneros de caças, como são: 
nntas, que são do tamanho de uma mula de um anno, e com 
grande semelhança na cor e disposição, e o gosto da carne 
não se diíTerença senão em ser algum tanto doce : porcos 
monlezes, não javalis, serão outro género mui dilTerenle, 
que tem o umtjigo no lombo, o d'esles estão povoadas quasi 
todas as índias ; a sua carne c mui boa e saudável, assim 
como também a de outra espécie d'esles mesmos animaes, 
que se acham cm muitas parles, mui semellianles aos nos- 
sos porcos domésticos. Ua veados, cotias, yguarús, yagotis, 
e outros animaes, próprios das índias, de boas carnes, ode 
tão bom gosto, que pouco menos são que as mais estimadas 
na Europa, lia perdizes nos campos, e criam em casa al- 
gumas galUnhas das nossas, que para alli vieram do Peru, 
e se foram propagando por lodo o rio, o qual, em muitos 
lagos que tem, sustenta infinitos pássaros e outras aves 
aquáticas para quando d'ellas so quizerem aproveitar; e o 
que mais admira 6 o pouco trabalho que custam todas estas 
cousas, o que bem se pódc colligir do que diariamente ex- 
perimentávamos no nosso arraial, d*onde depois de chega- 



- 105 - 

tios ao pouso em que haçiaoios de dormir, eoccupados os 
in^lios anigos, qud h^jS acõmpmhiivam, em fazer barriicas 
suflii:ienlt:s p,^ra tuiloo ac impam en Lo, em que gaslaViiin 
JDuilo letnpo, se dividiam uds por terra com cãts em busca 
da Cãça, e uulros por ngua unicamente com os seus arcos e 
frechas, e em poucas horas via mos chtgar esles carregados 
de pescado, e aquelles de caça sufliciente para que lodos 
ficissemossalisfeilos; o que acontecia, não em um ou outro 
dia, \íúTèm um tudos os que durou a viagem, que foi Ião 
demíiradii, como jà disse: maravilha esta digna de admi- 
ração, e que unicamente se pode atlribuir á paternal provi- 
dencia daquelle Senhor, que com cinco pães e poucos pei- 
xes sustentou cinco mil pessoas, ficando-lhe o braço sao o 
as mãos cheias para maiores liberalidades, 

39,'— CLIMA E TEIrtPLE DO RIO 



O clima doeste rio, e o de todas as provi ncias a elle cir- 
cumvisinhas, é temperado ; de sorte que nem ha calor quo 
cnf^ide, nem frio que fatigue, nem variedade qui^ seja mo- 
lesta, porque, ainda que se conhece algum género de in- 
verno, não è tanto por causa da variedade dos planetas e 
curso do sol, que sempre nasce e se pòe a uma mesma hora, 
quanto pelas inundaçOi^s das aguas, que com as suas humí- 
dadcs impedem, durante alguns mezes, as sementeiras e 
fructos da torra, pelas quacs nos regemos ordinariamente 
n\iquellas partes du Ferúde tão differentes temples para 
conlircer e distinguir o verau do inverno^ de sorte que o 
tempo, em que a terra nos produz fruclos, chamamos verão, 
c pelo contrario inverno âquelle em que por qualquer 
cumii se impedem ns colheitas. 

listas sào duas anonalnjenta n'esla rio, nâo somente noi 
maiores, um dos seus princípaes suslenlos, mas também 
TO«o xxvíií, r. I* 26 



- 496 — 

em outras sementes próprias da terra. Verdade é que às 
mais próximas às cordilheiras de Quito gozam de mais 
calor que o restante do rio, pelas muitas brizasque ordi- 
nariamente refrescam as mais próximas ás costas do mar; 
se bem que este calor, quando grande, é como o ordinário 
de Guayaquil, Paname ou Cartagena, sendo temperado cm 
grande parte pelos frequentes aguaceiros, que ha quasi 
lodos os dias, dando a estas terras grandes vantagens em 
conservar por muito tempo os seus mantimentos incorru- 
ptos, como experimentámc s nas hóstias, com que diaria- 
mente diziamos missa, as quaes, passados cinco mezes e 
meio depois da nossa partida de Quilo, estavam tão frescas 
como se fossem feitas de próximo, e, porque enlfio se aca- 
baram, não experimentámos a sua total duração ; cousa 
esta que espantou a todos os que haviamos corrido osdiffe- 
rentes temperamentos das índias, e por expiTiencii sabia- 
raos a facilidade com que nas terras cálidas se corrompem 
ainda as cousas de mais substancia. Não são nocivos os 
soes d'este rio, apezar de estar Ião próximo á equinocial, 
nem alli ae conhecem serenos que causem damno, do que 
posso ser boa testemunha, pois que raras vezes, eni tudo o 
tempo que por alli naveguei, d/ixei de pi.ssir as nnil s á 
vela, exposto à inclemência, sem que jamais me causasse a 
mais leve dôr de cabeça, quan lo em outras partes somente 
um pequeno raio do sol as costuma causar mui fortes, se 
bem é verdade que nas suas primeiras entradas, qu isi lodos 
os que vínhamos de terras frias tivemos algumas calenturas, 
que bem depressa, por elTeito de sangrias, nos deixaram 
livres. Também não ha n^este rio ares corruptos, que por 
elTeito da sua malignidade de repente deixam lisiados 
aquelles que mais ferem, como á custa da sua saúde, c ás 
vezes da vida, sentem muitos quasi em todo o descoberto 
Períi ; e-, se naç fora a praça do mosquitO; de que abunda 



- 197 - 

em muitas paragens, se poderia cbamar à boca aòerta um 
dilatado paraiso. 



30.''— DISPOSIÇÃO DA TERRA E DROGAS MEDICINAES 



l)*esta amenidade de tcniperamento nasce indubitavel- 
mente a froscum de todas as suas margens, que, cheias de 
varias e formosas arvores, parecem estar à porfia debuxando 
incessantemente novos paizes, em que a natureza se esmera 
e a arte aprend(». E, ainda que commumenle a terra é baixa, 
tem lambem altos proporcionados, campinas desembara- 
çadas de arvoredos, e cobertas de flores, vallesque sempre 
ccmservam humidade , e para o interior serros taes, que 
podem com justa razão passar por cordilheiras. N*estes in- 
cultos bosques têm os naturaes collocada para as doenças a 
melhor botica dos simplices, que ha em tudo descoberto, 
porquanto alli se colhe a mais grossa cannafislula, a mais 
perfeita snlsMparrilha ; as gommas e resinas mais saudá- 
veis e na maior abundância, o mel das abelhas silvestres a 
cadapr.sso, e tanto que, apenas se chega aparagem onde o 
não haja, gastando-o não somente em remédios, porque é 
muito saudável, mes também sustentando-se com elle por 
ser de agradável goslo, e aproveitando a cera, que, ainda 
que negra, é boa e arde como qualquer outra. Alli o azeite 
de andiroba, que é uma arvore inapreciável para curar 
feridas. Alli o oleo de copaiba,que também é arvore, e 
superior ao melhí)r bálsamo. Alli mil géneros de hervas 
e arvon^s de parlicnlarissimos eíTeilos, e ainda estam por 
descobrir muitas outras, que poderão apparecer, como Dias 
Corides, terceiro Plinio, e todos tiveram bastante afazer 
para averiguar as. suas propriedades. 



- 198 - 

31. •—MADEIRAS E ADERIÇA PARA NAVIOS 

As arviros n'esle rio sTo seti numero, e Ião altas que 
vão acima das nuvens, p )r assim diz t, e lã )gri)ssas que 
causam admiração ; medi com as minhas mãos, ced ^ de 'O 
palmos de roda ; são Iodas, pela maior parlo, das melhores 
madeiras, e não se pôde n dest^jar mi^lhores, pois são cedros, 
ceibos, pào ferro, paio colorado, e outras muitas experi- 
mentadas já alli, e tidas pelas melhores do mundo para 
fabricar embarcações, as quaes, n^este rio, melhor e com 
menores despezis do que em parle alguma podem sor, já 
acabadas e perfeitas, deitadas à agua sem que nada se ca- 
reça da nossa Europa, à excepção do forro ; porque aqui, 
como digo, ha madeiras a pedir de boca, como vulgar- 
mente se diz ; aqui ha enxárcia .tão forte, como a de cânha- 
mo, de certas cascas de arvores, do que se fazem amarras, 
que por si só escoram os navios em tempostafles, ou tor- 
mentas desfeitas ; aqui o pez, e breu tão perreilocomoa 
gomma arábia ; aqui o azeite assim de arvores, como de 
pescados, para dar o ponto e tempnrar a sua dure/a ; 
aqui se tira estoupa excollpnte que cha:nam ombira, que 
para calafetar navios e juntamente para corda de arcahuz 
não se creou outra melhor ; aqui o algodão para o volame, 
e é a semente que melhor produzem os campos ; e aqui fi- 
nalmente está a innumeravel multidão de gente, de que 
adiante fallaremos ; e portanto nada falta para edifiviar 
quantos galeões se quizerem pôr nos estaleiros. 

32.'— QUATRO GRNEROS DE COIS.VS PROVEITOSAS 
QUE HA n'eSTE RIO 

Ha n'este grande rio das Amazuius quatro géneros que, 
cultivados, seriam indubitavelmente suíTicientes para enri- 
quecer um e muitos reinos ; dos quaes são o primeiro 



— 199 — 

as madeiras, qae, além de serem muitas da maior curiosi- 
dade e esti nação, como o melhor ébano, são tantas das 
commnns pira as embarcações qne ao mesmo tempo se 
poierão tirar para outras cousas, na certeza de que, por 
mais que se cortem, nunca Ihespoderão dar total extrac- 
ção : o scííundo género é o cacáo, do que estam as suas 
marofens Ião cheias, que alq[nmas vezes as madeiras que 
se cortavam pira o acampamento do exercito, apenas eram 
outras que não f;)ssem as das arvores que produz'^m este 
fructo, tão eslimado na nova Hespanha, e nos paizes onde 
se sabe o que é chocolate, o qual cacáo beneficiado é tão 
proveitoso que a cada pé corresponde de renda annual- 
mente, tiradas todas as despezas, oito rea?s de prata (GVO 
réis portuguezes), e manifesta-se bem agrando facilidade 
do cultivo de s'^melhant s arvores n'este rio. porquanto, 
sem o mini mo auxilio da arte, a natureza por si só as en- 
che de abundantes frucfos : o teroiro género é o tabnco, 
de que se acha grande nuanlidade e. mui crescido entre 
todos os moradores da« suas ribeiras, e, se se cultivasse com 
o cuidado que pede esta semente, seria d'is melhores do 
mundo, porque, na opinião dos entendedores, a terra e a 
temperatura é a melhor que se pôde desejar para obter 
mui grandes colheitas ; porém na minha opinião o que 
mais se deveria cultivar n'este rio ó o assurar, que cons- 
tituo o qmrl) género, que como mais nobre, mais provei- 
toso, mais certo, e de maiores rendimentos para a fazenda 
real, e muito principalmente agora que tanto tem deca- 
hido o commerci v) do Brasil, deveria ser cultivado com 
preferencia, procurando logo no principio levantar mui- 
tos engenhos, que em breve restaurassem as perdas d'a- 
qucllas castas, para o que não seria preciso muito tempo, 
nem muito trabalho, nem muitas despezas (que constituem 
hoje em dia o que mais se teme), porquanto as terras são 



/ 



- 200 — 

as mais famosas paraacanna doce, que ha em todo o Brasil, 
como podemos altestar os que temos corrido por aquelias 
parles, pois que todas ellas sâo um mazapé continuado que, 
é o que mais procuram os lavradores d*estas plantas, 
e com as inundações dos rios, que apenas duram poucos 
dias, ficam tão ferlilisadas, que é para receiar a demazia. 
E não será novo paraaquella terra levar canna doce, por- 
quanlo por todo esle rio, desde o seu nascimento, a encon- 
tramos sempre, parecendo dar signaes do muito que mul- 
tiplicaria, querendo k'vantar-se engiMihos para fabricar, 
os quaes pouco custariam por torem, como dissimos, as 
madeiras á mio, e agua cm abundância, e só careceriam 
do cobre, o qual facilmimte forneceria a nossa llesp»nha, 
ambiciosa de bom retorno, que por elle receboiía. 

33.**— DE OUTROS GENFROS DE ESTIMAÇÃO WE ALLI 
SE ENCONTRAM 

Não somente estes géneros se podiam promctlorn'este 
novo mundo, descoberto para enriquecer todo o orbe. mas 
também outros niuitf)s, que, ainda (pie de menor valor, iiao 
deixariam de concorrer, no siu tanio, ao augmenlo da real 
coroa, a saber: o algodão, qne se colhe em abundância ; o 
urucíi, cnni que se faz o perfeito escarlate, qne os eiUran- 
geiros tanlo eslimam ; a cannalislnla, a salsaparrilhai os 
azeites, qne riv.ilisam com os melhores bálsamos no eiTeito 
de curar as feridas ; as gonimas e resinas cheirosas; a pita, 
de que se tira o melhor fio, e de que In grande* abundância ; 
6 outros muitos que diariamenle irão descobrindo a neces- 
sidade o a anibifío. 

34.''— RIQUEZAS DO RIO 

Não fallo das muitas minas de ouro e de prata, de que 



— 201 — 

já ha noticia, e que forçosamente irão sendo descobertas 
pelo tempo adiante, que, se o meu juizo nao me eng:ina, 
Ijão de ser mais, o mais ricas que todas as do Períi, ainda 
que n'esse numero entrímas do afamaiio serro do Polosi ; 
e não digo isto no ar, e sem fundamento, levado só, como 
alguns pensarão, da alTeição que mostro em engrandecer 
este rio, mas eslribando-rae na razão e na experiência ; 
esta tenho eu do ouro, que em alguns indios d'este rio en- 
contrámos» e dys notícias que deram das suas minas, e 
aquelle me òbi^A a formar este argumento. 

O rio das Amazonas recebo em si Iodas as vertentes das 
terras mais ricas da America, porquanto pela parte do suj 
n'elle desaguam caudalosos rios, que descem uns de perto 
do Potosi, outros de Guanuco, cordilheira próxima á cidade 
de Lima, outros de Cuscj, e outros de Cuenca e Gibaros, 
que ê a terra mais rica em ouro das que ha descobertas, 
de sorte que pela refiTida parlií do sul, (]uantos rios quan- 
tos mananciais, quantos regatos, quantas pequiMias fontes 
desaguam no oceano no espaço de eoO léguas, que se con- 
tam desde o Putosi a Quito, tcdos rendem vassallagem e 
pagam tributo a este rio, assim como também tod(js os que 
baixam do novo reino de Granada, não inferior em ouro 
aos outros. Se este rio, pois, êarua maior e o principal 
ciminho por 0!id3 se sobe ás maiores riquezas do Períi, 
bem [)osso alTirmar que é o principal senhor de lodos, além 
do que, se a lagoa Dourada tem o ouro que se lhe attribue ; 
se as Aina/.onas habitam, como atteslam muitos, entre as 
maiores riqui/zas rio orbe ; se o Tocantins em pedras pre- 
ciosas e em abundância de ouro é tão afamado, entre os 
francezes ; se os Omagúas, com as suas riquezas, abarro- 
taram todo o Períi, sendo mandailo imniedialamente em 
su:i busca Pedro de Orsua com grosso exercito pelo vice-rei ; 
é inconleslavel que n'este rio tudo o referido o está encer- 



— i02 — 

rado : aqui a lagoa Dourada ; aqui as Amazonas ; aqui'o 
Ti.cantins; p aqui os ricos Omagúas, como adianle dire- 
mos, e aqui Grialmenle eslá depositado o immenso the- 
souro, qutí a Magestade Divina tem guardado para com elle 
enriquecer o nosso grande rei e senhor Felippe IV. 

3o.'— TEMQ UATRO MIL LÉGUAS PE CIRCUiTO ESTE DESCOBRI- 
MENTO 

Segundo a boa cosmogniphia, tem este dilatado império 
perto de quatro mil léguas, e não penso que me alargo 
muito, porque, se somente de coniprimonlo, mediílas cora 
cuidado, tem I, í 6, e 1, 800 srgundoOrelhana, que primei- 
ramente o navegou, e i)or cada rio, que n'clle enlni, tanto 
do N. cómodo S , segundo boas observações dos naturaes 
que pov(»am as suas bocas, em mais de 200 léguas, e em al- 
gumas parles em mais de iOO léguas, por ambos os ladosv 
nunca se sabe a povoação de hespanboes, encontrando sem- 
pre nações dilTerenles, é forçoso que lhe concedamos de 
largura ptdo mends *00 léguas na parte mais eslreiía, que 
Comas !,3r;(), out, Ode cnin|)rininlo segundo Ondbana, 
lhe darão de circuito, segundo boa arithiiittic:i, mui pouco 
menos d:is V,000 que dissemos. 

36.*— Ml LTIUAO DE GENTE, E DE DUTEUENTKS NAÇÕES 

Todo estii novo munilochamenuiS-lhiTissim^csláhabitado 
de b:irb;iros eni disiincl;is proviíicias e narõcs ; as de que 
possoilarfé, noíni\'\ndo-as com ossrusnnines, e designan- 
<lo-lh«'S (is di>lhclos, umas de vista, e oulras iH»r infonna- 
rõ.'sdí»s inflius, qu»* ifellas haviam eslado, passam de 130, 
(ofl.isdo lingiias dilLTiMíb^s, tão dilatadas o povoadas de 
m.iradorus como as qu.' vimos por lodo o caminho, e de 
que adiante fallaremos. Estam Ião continuadas estas nações, 




— âí>:í — 



quedos últimos povos de umas, em muiUs d'eliesse ourem 
lavrar as madeiras nos oulros, sem que uma tal proximi- 
dade os obriguem a fazerem paz ti s, conservando perpetua- 
menta con li mias guerras, em que diariamente se matam e 
captivam innomorav is almas, e é esta a maneira de se di- 
minuir tão grande multidão, qne a não ser assim Já não 
caberia em todas aquellas terras. Porém, ainda que entra 
si so mostram bellicosose briososjâmais taes se mostraram 
para com oshospanhoes^ como nolámos durante a viagem, 
pois que nunca algum se atreveu a usar contra os nossos de 
oulra defensa qm nao fosse a de que ordinariamente estam 
prevenidos os cobardes, o vemaser a fugida, qneeUes lem 
pronj|ílaem razão de navegar à umas embarcações tão 
ligeinis que» apenas abordam à terra, as carregam aos 

Lliomhros, e arrojando-se com ellas a uma lagoa das muitas 
que o rio tem, deixam escarnecido qnalquer inimigo, que 
com a èuâ embarcação nao possa fazer outro tanto. 



37/ — ABMAS QUE USAM OS ÍNDIOS 



As suas armas são, entre uns, azagai^medianas, e dar- 
dos feitos de paos fortes bem aguçados, ^nto que, a tirando 
com destreza» passam com facilidade o inimigo, e entre 
outros, sao estolicas, armas em que os guerreiros do Inga> 
graorei do Períi, eram mui destros ; sío estas estolicas 
uns |íàos (feitos a maneira de taboas) de uma vara de com- 
primento e três dedos de largura, em cujo remate na parte 
lie cima fixa um denlc de osso, em que faz preza uma 
frecba de nove palmos com a ponta também de osso, ou de 
páo mui forte, que lavrada em forma de harpâo, fica como 
lima garrocha, pt^ndenle d^aquelle a quem fere ; tomam 
esta ua mão direita, em que tém a estolica pala parte infe- 
rior, e fixando-a no dente superior a disparam com tanta 
TOMO ixviir, F, u 27 




— 204 — 

força e acerto que a cincoenta passos não erram liro. Com 
estas armas pelejam ; com estas frexam a caça, c se fazem 
senhores de qualquer pescado, por mais que se queira es- 
conder entre as ondas, e o que mais admira, com ellas 
cravam as tartarugas quando, fugindo de serem reconheci- 
das, somente de quando em quando, e por um mui breve 
espaço, mostram a cabeça acima d'agua, lhes atravessam o 
pescoço, que é a única parte em que, por estar sem concha, 
se pôde empregar o tiro. Usam também para sua defesa de 
rodellas, ou escudos, que fazem de cannas bravas, fendidas 
pelo meio,e tecidas apertadamente umas com outras, e, ain- 
da que são mais ligeiras, não são tão fortes como as outras 
de couro de peixe-boi,e de que já íizemos menção. Algumas 
d*estas nações uzam de arco e frecha, arma, que, entre todas 
as mais, é sempre respeitada pela força e presteza com que 
fere; abundam de hervas venenosas, de que fazem em algu- 
mas nações uma peçonha tão eílicaz que, hervadas com ella 
as frechas, e chegando a tirar sangue, tiram juntamente a 
vida. ] 

38/— SEU COMMEUCIO K POR ACUA EM CANOAS J 

Todos OS que vivem nas margens d'esle rio eslam rerfíii- 
dos em grandes povoações, e, como venezianos ou mexica- 
nos, todo o seu trafico é por agua em pequenas embarca- 
ções, chamadas canoas ; estas ordinariamente são de cedro, 
de que a Divina Providencia os proveu tão abundantemente, 
sem terem o trabalho de os derrubar e tirar dos montes, 
mandando-lh^os com as enchentes do rio, os quaes para 
supprir a sua necessidade são arrancados das mais distan- 
tes cordilheiras do Períi, e lh*os põe ás portas de suas 
casas, onde cada um escolhe o que mais lhe convém. E é 
para admirar vêr que, entre tanta infinidade de indios (dos 



- 20Ô - 

quâes cada um carece pára a sua família, pelo menos, de 
um ou dois pàos, de que façam uma ou duas canoas, como 
de facto tém], a nenhum custa mais trabalho que sahir à 
margem do rio, deitar-lhe um laço quando vai passando, e 
amarral-o ás mesmas hombreiras das suas portas, onde fica 
preso até que, havendo jà baixado as aguas, e applícando 
cada um a sua industria e trabaljÉo, lavra a embarcação de 
que tem precisão. 

39.°— FERRAMENTAS DE QUE USAM 

As ferramentas de que usam para fazer não somente as 
suâs canoas, mas também as suas casas, e o mais de que 
carecem, como machados e anzóes, não são forjadas por 
peritos olliciacs nas ferrarias de Biscaia, mas nas forjas dos 
seus cntcndimonlos, havendo por mestra, como em outras 
cousas, a necessidade ; a qual lhes ensinou cortar do casco 
mais forte da tartaruga, que é a parte do peito, uma pran- 
cha de um palmo de comprimento e pouco menos de lar- 
gura, que,curada ao fumo e lirando-lhe o fio em uma i)edra, 
a fixam em uma hastea, e com ella, como um bom machado, 
ainda que não com tanta presteza, cortam tudo quanto de- 
sejam. D'este mesmo metal fazem os anzôes, servindo-lhes 
de cabo para elles uma queixada de peixe-boi, que a natu- 
reza já formou com volta de propósito para este effeito. 
Com estas ferramentas lavram tão perfeitamente não só as 
suas canoas, mas também mesas, assentos e outras cousas, 
como se tivessem os melhores instrumentos da nossa Hes- 
panha. Em algumas nações são estes machados de pedra, 
que, lavrada à força de braços, a adelgaçam tanto, que com 
menos receio de quebrarem-se e mais brevemente do que 
com as outras de tartaruga, cortam qualquer arvore, por 
grossa que seja. Os seus formões, goivas e cinzéis para 



— 20ti — 

as obns debcadâs, qae as fazem com primor, são dentes e 
colmilhos de aoima^s^qae encravados nos S::us p^ -s ni j fa- 
zem menos bem o sea oíQcio que os de mais ãn j a^o. 
Qaasi todos tém nas suas profincias algodão, nns mais, 
outros menos, porém nem todos dVlle se aprove:tim para 
o Testaarío, mas peh maior parte anJam niis, assim ho- 
mens como mulheres, sem que a wrgonhd njtural os obri- 
gue a não querer parecer que eslam no estado da inno- 
cencia. 

M)/— DOS SELS ftlTOS E DEISES OlE ADORAM 

Os ritos de toda esta gentili<lade são quasi em garrai os 
mesmos ; adoram idolos, que fabricam com as suas mãos, 
attribuindo a uns o poder sobre as aguas, e por isso lhes 
põem por divisa um pescado na mão, a ouirus escolhem 
por donos das sementeiras, e a outros por valedores nas 
suas batalhas. Dizem que estes deuses baixaram do céo 
para acompanhal-os e fazer-lhes bem : não usam de ce- 
remonia alguma para os adorar, mas aiit«*s os têm esqueci- 
dos em um canto até o tempo em que d*i ilis carecem ; e 
por isso, quando vão á guerra, levam na proa da canoa o 
Ídolo em que tém posto a esperança da vicloria ; e, quando 
sahem a fazer as suas pescarias, lariçain mãruraquellea 
quem tém entregado odomiiiio das aguas ; porém nem 
em uns nem*em oulros confíaia laiilo que não reconheçam 
poder haver outro m.iiur. Inliro isto do que nos succedeu 
com um doestes bárbaros, se bem o não mostrava ser na 
agudeza do seu discurso, o qual, lendo ouvido algumas cou- 
sas do poder do nosso Deus, e visto pelos seus olhos, que 
subindo pelo rio o nosso exerci lo, o passando por meio de 
tantas nações bellicosas, regressava sem receber damno de 
nenhuma, julgava ser em razão da forra e poder de Deus 



— 207 — 

que o regia, e chegou a pedir com as maiores instancias ao 
capitão-mõr e a nós outros que, em paga da hospedagem 
e bom agasalho que nos fazia, não queria outra mercê 
senão a de lhe deixarmos úm Deus dos nossos, que como 
tão poderosos o guardassem, e a seus vassallos em paz e 
com saúde, e juntamente lhes podesse acudir com o ne- 
cessário mantimento de que careciam. Não deixou de ha- 
ver quem o quizesse consolar, deixando-lhe no seu povo 
arvorado o estandarte da cruz ; o que costumam a fazer 
os porluguezes entre estes gentios, não com tão bom zelo 
como a acção em si mostra, porém para lhes servir o sacro- 
santo madeiro da cruz, levantado ao alto, de titulo e capa 
para corar suas maiores injustiças, como são as continua- 
das escravidões dos pobres indios, que, como mansos cor- 
deiros, levam às suas cosas para vender a uns, e servi- 
rem-se rigorosamente com outros. Alevantam, pois, como 
digo, estes porlugupzes a Santa Cruz, e, em paga do bom re- 
cebimento que os naturaes lhes fazem nas suas povoações, a 
firmam ou cravam no mais alto lugar,dizendo-lhes que a hão 
de conservar sempre intacta: acontece por acaso que a cruz 
com o tempo cahiuem terra e se quebrou, ou que malicio- 
samente elles, por serem gentios e não reconhecerem n'ella 
veneração, a derrubaram, logo os porluguezes os senten- 
ceiam e condemnam a todos os d'aquella povoação a perpe- 
tuo captiveiro, não somente durante sua vida, senão para 
todos os seus descendentes. Por esta causa não consenti 
que se arvorasse a Santa Cruz, e juntamente por não dar ao 
bárbaro que nos pedia um Deus occasião de idolatrar, 
attribuindo àquellc madeiro o poder e divindade d'aquelle 
que n'elle nos remiu : porém consolei-o, assogurando-lhe 
que o nosso Deus o acompanharia sempre, que lhe pedisse 
tudo de que carecesse, e confiasse n'elle, que algum dia o 
Iraria ao seu verdadeiro conhecimento. Bem persuadido 



- á08 — 

estava este índio de que não eram os seu& deoses os mais 
poderosos da terra, pois queria livremente lhes deixassem 
outro maior, a quem obedecer. 

U/— UM ÍNDIO SE FEZ DEUS. 

Do mesmo parecer que o passado, ainda que de maior 
malícia, se mostrou outro bárbaro, o qual, não reconhe- 
cendo poder nem divindade em seus ídolos, elle mesmo se 
fazia Deus de toda aquella terra : d'esle tivemos noticias, 
algumas léguas antes de chegarmos á sua habitação, e, ex- 
pedindo lhe a noticia de que lhe trazíamos a do verdadeiro 
Deus e mais poderoso que elle, lhe rogamos que nos espe- 
rasse a pc quedo ; assim o fez, e, apenas chegamm as nossas 
embarcações a aportar nas suas ribeiras. dest\joso de saber 
do novo Deus, sahiu possoalmenle a perguntar por elle; 
porém, ainda que se lhe d(?cl.irou quem era,como o não pôde 
ver, comos seus olhos, licuu na sua cegueira, fazendo-se 
íilho (lo sol, onde aífirmiiva ir em espirito todas ns noites 
para melhor dispor no dia segnintií o universal governo, 
de que era encarregado, tanta era a soberba e malicia 
d*este bárbaro ! 

Melhor discurso e enlendiínenlo mostrou outro, que, 
perguntando-se-lhe por que razão, estando os seus compa- 
nheiros retirados no niíntt?, reojio> s da clicgada dos hes- 
panhoes, ellé só, com alguns dos seus parentes, sahia tão 
sem temor a entregarem-se nas suas mãos ; respondeu 
que pensava que gentes que havi;im subido por meio de 
tantos inimigos, e regressavam sem damno algum, era im- 
possível que, como senhores do todo aquelle rio, o não 
viessem uma o muitas vezes navegar, e povoar, e que, 
havendo de acontecer assim, não queria andar sempre 



— 209 — 

sobresaltado, e por isso, desde já, sahiaa reconhecer de 
boa vontade por amigos aquelles a que u os outros rece- 
beriam por força. Discurso bom, e qu:3 perraittirá à Ma- 
gestade divina vejamos algum dia posto em execução I 



42.'*— DOS FEITICEIROS* 



Proseguindo no fio da nossa historia, e tornando aos ritos 
d'estas nações, é para notar a grande estimação em que 
todas têm os seus feiticeiros, não tanto por amor que lhes 
mostram, quanto pelo receio em que sempre vivem dos 
damnos que lhes podem causar. Tem, para que usem das 
suas superstições o fallein com o demónio, o que lhes é 
mui ordinário, uma casa, que somente serve para esse fim, 
onde, com certa veneração, como se foram reliquias de 
santos, vão recolhendo todos os ossos dos feiticeiros que 
morrem, os quaes tèm dependurados no ar nas mes- 
mas macas, ou redes, em que dormiam em vida. São 
estes os seus mestres, os seus pregadores, os seus con- 
selheiros,e os seus guias; a estes recorrem nas suas duvidas 
para que lhes aclarem, e d'estes carecem nas suas maiores 
inimizades para que lhes dêm hcrvas venenosas, pelas quaes 
se vinguem dos seus inimigos. No enterro dos seus defunífcs 
variam ; porquanto uns os conservam dentro das suas pró- 
prias casas, tendo sempre em todas as occasiões presente a 
lembrança da morte, que, se o fizessem com este fim teriam 
indubitavelmente idóas mais adeqiiadás,outios em fogueiras 
grandes não somente queimam os cadáveres, mas também 
tudo quanto em vida possuíram. Tanto uns como outros 
G^bram as suas exéquias por muitos dias com continuados 
prantos, interrompidos com grandes borracheiras. 



— 210 -r 
43.*— SÃO ESTES ÍNDIOS DE APRAZÍVEIS NATURAES 

Geralmente Ioda esta gentilidade tem boa disposição, 
são bem figurados, e dc3 côr não Ião tostada como os do 
Brasil ; têm entendimentos agudos e rara habilidade para 
qualquer cousa de mãos; são mansos e dóceis, como 
se experimentava com aquelles que nos sabiam ao en- 
contro, pois que com a maior confiança conversavam, 
corriam, e bebiam enlre nós outros sem o minimo re- 
ceio.. Davam-nos as suas casas para que n'ellas vivêssemos, 
recn|liendo-se elles lodos junlos a uma ow duas das maiores 
da povoação ; e, apezar de roceberem infinitos aggravos 
dos nossos indios amigos, s«Mn que pudéssemos evilal-os, 
nunca praticaram más acções; o que tudo junto com 
a pouca aíTeição e demonslraçõt s que dão de a não lerem 
a tudo o que diz respeito ao culto dos seus deuses, pro- 
mettem grandes esperanças de que, se lhes desse o co- 
nhecimento do verdadeiro creador dos céos e da terra, 
com pouca diíTiculdade abraçarião a sua santa lei. 

44.*— TRATA-SE PARTICULARMENTE DAS COUSAS DO RIO E DAS 
SUAS ENTRADAS 

Até aqui tenho fallado em geral de tudo que diz res- 
peito a este grande rio das Amazonas ; será agora justo 
ir já descendo a tratar em particular das suas entradas, 
e nomear os seus port(»s, a averiguar os aguas de que 
se alimenta, a desentranhar as suas U-rras, assignalar as 
suas alluras, notar as propriedades das su;is nações, e 
finalmente a não deixar cousa alguma digna de saber-se, 
pois que eu, como testemunha occular e pessoa mandada 
por Sua Magestade a inquirir de tudo, poderei talvex 
melhor que nenhum outro dar com bastantes funda* 



- 2U — 

mentos razão de Indo o de que fui encarregado» Não trato 
aqui da principal entrada para esle rio pelo mar oceaoo 
nas cosias do Grão Para, pois que essa jà ha muitos tem- 
pos é conhecida, cahe debaixo da linha equinocial nos úl- 
timos fins do Brasil, é cursada e frequentada por lodos 
os que querem navegar para aquellas parles; nem Ião 
pouco íaço menção, de proposilo, daquella por onde o 
^ranuo Lopo de Aguirre sahiu defronte da Trindade» 
por ser esta transversa! » e que por ella se não entra 
direetamenle nesle rio, antes, sendo de oulras mãi prin- 
cipal, de lance em lance lhe vem a cahir nos hraços, 
que d* ella reeehem a sua origem, E' somente o meu in- 
tento aclarar e assignalar, como com o dedo^ todas as 
portas pelas quaes da parte do Peru podem os mora- 
dores d^aquellas conquistas ter entrada certa para este 
grande rio, com o qual, como já disse, por ambos os 
lados das suas margens communicani grande numero de 
outros mui caudalosos, por cujas correntes é forçoso 
que quem as seguir vá dar n'este principal; porem, como 
de certo não se sahe de que cidades ou pruvincias tragam 
as suas origens, também se não pode dizer cousa certa 
das suas entradas* Farei comtado menção de algumas 
oito, das quaes nenhum versado n'aquellas terras poderá 
achar difllculdados : ties cah{ m para a parte do novo 
reino de Granada, que fica n*este rio para o norte; para 
o sul veremos outras quatro, e uma debaixo da mesma 
linha equinocial 

55."— MS TRÊS ENTRADAS QUE HA PÊLO NOVO REINO DE 
GRANADA 



A primeira entrada» que pela parte do novo reino de 
Granada está descoberta para este immenso pélago de 
TOMO xxviiu p. \. 28 



— 212 — 

agua doce, é pela proTíocia de Micõa, que pertence ao 
gOTernador de PopayaD : segundo as correntes do grande 
rio Caquetà, que é o dono e senhor de todas as Terten- 
tes que da parte de Santa Fé de Bogotá, Timanú e o 
Caguan se lhe acercam (allagar), mui afamado entre os 
naturaes pelas proTÍncías de gentios, que sustentam as 
suas margens. Este rio tem muitos braços por entre di- 
latadas nações, e, toniando-os a incorporar no principal, 
faz grande quantidade de ilhas, todas habitadas de in- 
finitos bárbaros. Corre sempre pelo rumo do das Ama- 
zonas, acompanhandO'0 ainda que ao largo, e deitando 
D'elle, de quando em quando, alguns braços, dos quaes 
cada um bem podéra ser corpo de qualquer outro cauda- 
loso rio, até que, recolhendo todas as suas forças na altura 
de quatro grãos, prostrado por terra se lhe rende. Por um 
d'estes braços, que mais se approxima da provincia dos 
aguas de cabeça chata, é por onde se ha de sahir a gozar das 
grandezas do nosso grande rio das Amazonas, porquanto 
aquelles que se deixarem levar dos que mais se inclinam 
ao norte, succeder-lhes-ha o que, os annos passados, 
aconleceu ao capitão Fernão Peres de Quesada, que, ha- 
vendo entrado por este rio com 300 homens, e deixando-se 
levar para a parle de Santa Fé, deu na provincia do 
Algodoal, e apezar de ir tão reforçado ile gente foi-lbe 
forçoso retirar-se com velocidade maior do qa(» com a 
que havia entrado. A segunda porta, que pela parte do 
norte podemos assignalar para este rio, é pela cidade 
de Pasto, jurisdicção também do governo de Popayan, 
d'onde atravessando a cordilheira com alguns inconve- 
nientes do máo caminho, assim de pó como de cavallo, 
é impossível que, chegando ao Pulumayo e navegando 
pelo rio abaixo, não venham sahir do Amazonas na 
altura de dois gráos o meio as 330 léguas do porto do 



Napo. Por este mesmo caminlio, sabindo» como disse, 
da cidade de Pasto e passada a cordillieira, approximan- 
do-se aos sucumbios, que estam uao mui distantes do 
rio, ctiaraado Aparico, por outro nome rio do Ouro, Sô 
pode sahir por elle a este principal, qoasi debaixo da 
linha, no principio da província dos EncabcUados* que 
fica às 90 léguas do dito porto do Napo. Esta é a ter- 
ceira entrada, que pela parte do norte se podia in- 
tentar* 

46.*— OUTRAS E?ÍTRâDAS 

k porta, que para este rio está debaixo da equino- 
cial, calie rio governo de los Quixos, mais próxima a 
Quito na cidade de Cofaues, d^onde, pelo rio da Coca, 
se entra logo no canal principal do nosso Amazonas^ 
posto que pelis muitas correntes que tra^ alé cncon- 
irar-se com o do Napo, nao é tao boa a navegação, como 
será pelas mais partt s que vem do sul, das quaes a 
primeira de todas, ainda que nao a melhor, é pelaci- 
fdade do Ávila, no mesmo governo de Quixos, d'onde, a 
Ires jornadas por terra, se vem dar no rio Payamino, 
}ot onde a armada portugueza sabiu a lomar porto na 
'jurisdicçao de Ooilo, Desemboca este rio entre o do Napo 
e o de toca, n^aquella paragem, que chamam a coníluen- 
eia dos rios, a 25 léguas do porto do Napo. Melhor porta 
^íib rimos a esta mesma armada para a volta da sua via- 
gem, que nao foi a que quando subiu, com muito tra- 
balliu e perdas, havia descoberto, e vem a ser pela cidade 
da Arclúdona, lambem no governo de Quixos, e Jurisdicção 
de O«íto, d'onde a um sò dia de jornada, a pé, por ser in- 
verno, porque no verão a cavai lo, chegámos ao por lo do 
Napo, rio caudaloso, e em quem l/idos os vizinhos d^aquelle 



- il4 — 

goremo tem posto o sen tbesooro, tirando aDDualmeDte de 
soas margens o ooro de que precisam para as saas des- 
pesas. E* mui piscoso, e as soas ribeiras aboodantes de 
caca ; são as terras tão boas, qae, agradecid is ao p oco 
trabalho dos lairadores, rendem copiosas colheitas. Este 
é o principal caminho por onde, com maior commodidade 
e menores trabalhos, poderão descer ao rio Amazonas to- 
dos os qae qnizerem navegar peia proiincia de Qaito, por- 
quanto, ainda que por alli, se diz, que, junto ao povo de 
Ambatos, a 48 léguas da cidade de Quito, caminho do rio 
B^mba, a entrada a um rio, que sahe a este principal, se- 
não lh'o impede algum salto, que faça as correntes, é mui 
couTeniente esta descida por Tir sahir ao dito rio, 77 lé- 
guas mais abaixo do porto do Napo, e desti maneira se 
poupará todo o caminho dos Quixos. 

47/— ornus e!ítradas a este riu 

Pela parte da provincia de Macas, que está debaixo da 
mesma jurisdicção e goverao, de cujas serras baixa o rio 
Curaray, seguindo o seu ramal raudal, se pôde s.ihir ao 
do Amazonas, na altura de 2 gràos, a 130 loguas do Napo : 
distancia bem povoada de differonles nncõ.s. E' esla a 
sétima entrada para esle rio, a oitava e ultima é por San- 
tiago das Montanhas, e provi ncia dos Miynas, terras ba- 
nhadas por um dos mais caudalosos rios. que pagam tri- 
buto ao Amazonas, tendo o nome de Maranhão, e na sua 
boca e muftas léguas antes da Tumburagua. E' o dito rio 
tal, que por mais de 300 I ., iis, d^onde desagui, em 
4 gráos no principal, se receia a sua navegação, assim pela 
sua profundidade, como pelas suas precipitadas correntes ; 
mas com as grandes noticias dos muitos bárbaros que sus- 
tenta aplainam as maiores diílículdadcs os zelosos de um 



Beas, e do bem das almas, em cuja basca n'elle entraram, 

nos principios do anoo de lí> )8, dois religioâos da minha 
religião pelos Maynas; d*tílles livo muiUs cartas, em que 
nâo acabam de encarecer a sua grandeza, e as inrmmera- 
veis provi Qcias» de que diariameole se iam recebendo 
maiores noticias. Junla-se eslc rio cora o principal do 
Amazonas, a 2 30 léguas do porto do Napo. 



48/— Rio fíAPO 



Tem a sua origem este, por mim Untas vezes nomeado 
rio Napo, nas fraldas de um (párarao] que chamam de An- 
tezana, a i8 léguas da cidade de Unilo, e, ainda que tão 
próximo à linha, è para admirar que tanto elle como outros 
muitos, que em varias cordilheiras coroam aquellas povoa- 
ções?, sempre cobertas de neve» servem de temperar o ca- 
lor, com o qual forçosamente, segundo íiffirma Santo Agos- 
tinho» a zona tórrida havia de tornar aquellas terras inha- 
hitaveis, ficando, por um semelhante refrigério, as mais 
apraziveis e temperadas de todo o descoberto. Com este 
rio ríapo, desde o seu nascimento, entre grandes penedias, 
e por isso nâo e navpgavol, ate que no porto, onde os vizi- 
nhos de Archidona tèm os ranchos dos seus índios; mais 
humano, ^ menos bolicoso, Cíiosenle sobre ú% seus hom- 
bros ordinárias canoas, com as quacs se atravessa [tragina} 
e, ainda que desde este sitio, por 4 ou > léguas, nãô se es- 
queça da sua soberba, cora tudo, humilde logo, até encor- 
porar-SG com o rio de Coca» que esta a 25 léguas, com 
muito fundo e grande serenidade offerece boa passagem a 
maiores embarcações, e esta é a reunião dos rios» onde 
Francisco de Orelhana com a sua gente fabricou o barco, 
cm iiue navegou i>or este rio das Amazonaí^. 



— 216 — 

49/— AQUI MATAM O CAPITÃO PALLACIOS 

Á 47 léguas d'esta confluência, da parte do sul, está 
Auêle, povoação que foi do capitão João de Pallacios, morto 
ás mãos dos naturaes,como já dissemos,e a 18 léguas d'este 
sitio desemboca, da parte do norte o rio Aguarico, bem co- 
nhecido, assim pela sua temperatura menos sadia, como 
pelo ouro que d'elle se tira, por cuja causa toma também 
o nome do rio do Ouro. Na sua boca, de uma outra banda, 
dà principio á grande provinciados Encabellados,que, cor- 
i^endo pela parte do norte por m&is de 180 léguas, e go- 
zando sempre das aguas que o grande rio das Amazonas 
espraia por lagos caudalosos, desde as suas primeiras noti- 
cias influiu ardentes desejos de sujeital-a em toda a juris- 
dicção de Quito, pela grande multidão de gentios de que 
está povoada ; e, de facto, em varias occasiões se princi- 
piou a pôr por obra a referida sujeição, se bem que a ulti- 
tíma, em que o capitão João de Pallacios a intentava, foi 
tão mallograda, como jà vimos. 

SO.*— AQUI FICOU A ARMADA PORTUGUEZA NA PROVINCIA DOS 
E?sCABELLADOS 

N*esta província, na boca do rio dos Encabellados, 20 
léguas mais abaixo do rio Aguarico, onde elle principia, 
ficaram a pé firme, por mais de 11 mezes, 40 soldados da 
armada porlugueza com mais de 300 indios amigos dos que 
levavam em sua companhia. E, ainda que ao principio 
acharam bom acolhimento nos naturaes da terra, e, pa- 
gando, d'elles recebiam os mantimentos necessários ; não 
durou muito tempo tanta confiança em peitos, nos quaos 
ainda fervia a raiva, com que haviam derramado o sangue 
do capitão hespanhol, e como este também pedia vingança 
contra os aggressoros, receiosos do que fosse castigado o 



— 317 — 

sêo atrevimento, por pequeno moliTO *S6 alvomlarâra, e, 
tnatindo Ires dos nossos índios, se puzeram em armas para 
defender suas pessoas e terras. Não se descuidaram os por- 
tugueaes, que, como pouco soflredores, e ainda mais mal 
aeoslumadus a semelhantes liberdades de Índios, quizerara 
imraedialamente pôr em execução o devido castigo, To- 
mam as armas, e com seus ordinários brios cahem sobre 
elles da tal sorte, que, matando poucos, colheram vivas 
mais de 70 pessoas, as quaes conservavam presas, até 
que delias, umas por morrerem, e oulraspor seescapa- 
rem» nao ficou alguma. Reduzido a este eslado o esqua- 
drão portuguez, de ser-lhe preciso empregar a força para 
alcançiiT o comer, a não querer morrer, resolveram- se a 
fazerem correrias pela terra dentro, e por força on por von- 
tade remirem a sua vexação : entravam uns e outros no 
arraial, e tanto uns como os outros não deixavam de ser 
molestados pelo inimigo, que corria a fazer-lbes todo o 
damno possível ; o que fizeram em muilas embafeições, 
destroçando umas, e fazenda em pedaços as maíiiracâs, 
Comludo, nâo foi este o maior damno que receberam, po- 
rém sim o que com as suas emboscadas nos causavam con- 
tra os nossos índios, degolando os que podiam haver â 
mio, posto que bem o pagaram com ires dobradas vidas i 
castigo este pequeno em comparação dos rigorosos que os 
portuguezes coslumam dar em semelhantes casos. CUama- 
ram a estes indios — encabellados — os primeiros hespa- 
nhôes que os descobriram, em razão dos cabellos compri- 
dos de que usam, assim os homens como as mulheres, que 
algumas lhes excedem os joelhos. As suas armas são os 
dardos, a sua habitação em casas de palhas feilas com cu- 
riosidade, e os seus mantimentos os ordmarins em todo o 
rio* Trazem continuadas guerras com as nações circuni- 
Tízinhas, que sao os sérios, bocàbas, tamas» chuGes e ru* 



— Í18 — 

mos. Correm em frente d'esta proTÍDcia dos EDcabellados, 
pela parte do suU as nações dos avixiras, yurosones, zapa- 
rás e Tqnitos, que acabam encerrados entre as agnas d'este 
rio e o de Curara?, onde ambos se convertem em am só, 
qne fica na altura de 12 gràos a 40 léguas de distancia dos 
Encabellados. 

5!. •—RIO TIMBURAGIA 

A 80 léguas do Curaray, da mesma parte, desemboca 
o famoso rio Tumburagua, de que já acima dissemos que 
baixava pelos Maynas, com o nome de Maranhão ; faz-se 
respeitar do das Amazonas de tal sorte, que, apezar de ha- 
ver í ste todo o seu cabedal reunido, detém algumas léguas 
antes o seu ordinário curso, dando lugar a que aquelle, es- 
praiado por mais de uma légua de boca, lhe entre a beijar 
a mão, pagando-lhe não somente o ordinário tributo, que 
de todos cobra, mas também outro muito abundante de 
muitdr géneros de pescados, que até à boca d'este rio se 
não conhecem no Amazonas. 

52.'— província dos aguas 

A fiO léguas, mais abaixo de Tumburagua, começa a me- 
lhor e a mais dilatada provinda de quantas n*este grande 
rio encontrámos, que é a dos aguas, commumente chama- 
dos omaguas, impróprio nome que lhes puzeram, lirando- 
Ihes o natural e adaptado á sua habitação, que é de parte 
de fora, o que quer dizer— Aguas. — Tem esta província de 
longitude mais de 200 léguas, continuando-se as suas po- 
voações tão amiudadas, que, apenas se perde uma de vista, 
logo se avista outra : a sua largura ê, segundo parecia, 
pouca, pois não pas^ da que tem o rio, em cujas ilhas, que 



$ao muitas e algumas mui grandes, tem a sua habitação; po- 
réfliíalltíndon^Jo a que Lail.is eslão ou [Hjvoaílas»t)u cultivadas 
pelo menos p ira o sustentu destes naluraes, ?e poderá 
fazer idca dos muitos Índios, que em lao comprida dislan- 
eia se alimentam. E' csti gente amais razoável e de me- 
lhor governa que ha em lodo o rio; o que devem àquel- 
les que d'clks esUveram em paz, não sãu passados muitos 
afinos, ao governo dos Quixos, d^onde, obrigados jielo mào 
tratam( nto que se lhes dava, se deixaram vir pelo rio 
abaixo até ilarem eom a força dos da sua nação, cinlrodu- 
zindo entre elles algumas cousas das que haviam sprendido 
dos hespanhôes, os puzeram em alguma pulicia. Andam 
lodos mm ihxomui vestidos, lanlo os homens corno as mu- 
Iheri^s, as quaes, do muito algodão que cultivam, tecem, 
nao somente a roupa de que carecem, senão outra muita 
que lhes siTVe para o trafico com m nuções vidinhas, que, 
com razão, ambicionam o trabalho de tao babeis lecedores-^ 
faziím pannos mui visLosos, nao silmi^nt^ tecidos de diversas 
cores, mas tauibem pintados com as mesmas lao subtilmente, 
queapen IS se dislinguem uns dus outros. São tao sujeitos e 
obedientes aos s.us pnuei|)aes caciqursque, apen.iS estes 
úm uma s6 pdavni, logo executam o que Ihesordenami 
São todos de cabega chata, que causa fealdade nos homens^ 
e as mulheres melhor a encobrem coai o muito cabello ; e 
está entre elles Ião iotroduzidu o uso de terem as cabeças 
chatas, que, desde que nascem as crianças, as mettem em 
pretis:i, colhenrlo-ns pela frente com uma pequena taboa, 
ç pida parle do cérebro cora outra tão grande, que ser- 
viíido-lhes de berço reci bem todo o corpo dos ream- 
nascid<is, os quaes, postos de cost;*s sobre as refu ridas 
tatuas e apc rladus fort mente com a outra, ficam com 
os cérebros e as testas tão cliatas , como a palma 
da mão; e, como estes apertos não dão lugar a que 

TOMO XXTni» p. i 20 



— 220 — 

as cabeças cresçam senão para os lados. Têm a ficar 
mui desproporcionados, de sorte que mais parecem mitras 
de bispos, que cabeças de gente. Tê:n por uma e outra 
parle do rio continuadas guerras com as províncias es- 
tranhas, que, pela parte do sul, são, além de outras, os 
curinas, tintos em num^To, que não somente se defendem 
da parte do rio, da infiniti multidão dos aguas, mas lam- 
bem contra as outras niçõt^s, que pela parte da terra 
lhes dão continuados ataquu^s. I^ela parle do norte têm 
estes aguas por inimigos aos tecunas, qii.', segundo boas 
informações, não são menos em numero, nem menores 
em brio que os curinas, pois lambem sustentam guerras 
com os seus inimigos que têm pela torra dentro. 

53.* — uso DOS ESCRAVOS QIE CAPTIVAM 

Dos escravos que estes aguas captivam em suas bata- 
lhas, se servem para tudo o de que carecem, tendo-lhes 
tanto amor, que comem com elles em um prato; e fal- 
lar-Ihes de que os vendam é rousa qu.» muito seutem, 
como por experiência vimos em muitas íKv.asiõ 's Ch''ga- 
vamos a uma pov(?aç;T > doestes in lios, eraunís recelndos 
não somente em hoa paz, mas taml):'!a com d:uiças e 
demonstrações de grande alegria; oITereciani quanto ti- 
nham para nosso sustento com gnmle lib Talidade ; com- 
pravamos-lhes pannos tecidos e laborados que. volunlaria- 
mento davam; tratava-se <la venda das canoas, que são 
os seus cavallos ligeiros em que andam, immediatamente 
entravam em ajuste, porém fallamlo-lhes dos escravos e 
rogando-lhes encarecidamente que os vendessem, hoc 
opus hic labor est; desconliavan, entresleciam-st' e pro- 
curavam todos os modos de enco!)ril-os, e se esfi)rçavam 
poF escaparem d^enire nós; demonstrações estas de que 



- 2Í1 — 

OS estimam em mais, e sentem mais o tendèl-os, 
que desfazerem-se de tudo quanto possuem. E ninguém 
diga que nâo quererem os ditos indios vender os seus 
escra>os é procedido de os conservarem para os comer 
nas suas borracheiras ; dito commum e sem fundamento 
entre os porluguezes, que andam mettidos n'aquelle tra- 
fico c doesta maneira querem corar a suainjustça: por- 
quanto, ao menos n*esta nação, eu averiguei com os indios 
dos que Iviviam subido com os mesmos portuguezes e eram 
naturaes do Para, os quaes, fugidos desde Quito, vieram 
a ser caplivos d*estes aguas, com quem estiveram 8 mezes, 
e em sua companhia foram a algumas guerras, tempo bas- 
tante para conhecerem seus costumes. Estes asseguraram 
que jamais os haviam visto comer os escravos que traziam, 
senão que o que usavam com os mais nrincipaes e va- 
lentes era matal-os por occasião das suas festas e reuniões 
goraos, receiando maiores damnos se lhes conservassem 
as vidas, e doiiando os corpos ao rio, guardavam para 
trophéo as cab-ças cm suas casas, e estes em as que 
por lodo o caminho vinhamos encontrando. Não quero 
comtudo nogar haver n'este rio gente cariba, que, na 
occasião, não lèm horror de comerem carne humana: o 
que quero persuadir é unicamente que em todo elle 
não ha açougues públicos, em aue todo o anno se pesa 
carne de in'li('S, como publicam os que a titulo de evi- 
tarem semelhante crueMade a usam maior fazendo com 
os seus rigores e ameaças escravos aquelles que o não 
são. 

rii."— SITIO FRIO EM QUE SE PODERÁ COLHER TRIGO 

A cera léguas pouco mais ou menos das primeiras povoa- 
ções íKestes aguas, cm (que ficam em três gràos da equino- 



— 2i2 - 

ciai e vem a ser no rinõn , desta dilatada proTÍncia 
chegámos ^ um pi?o, onde estivemos Ires dias, com tanto 
frio, que aos nascidos e criados nas t rras m.iis frias de 
Hespanha era necessário ajuntar alguma roupa â ordi- 
nária: cansou-me admiração mudança tâo repentina de 
temperatura, e, perguntando aos naturaes se aqu^iie frio 
era extraordinário n*aquella povoação, me responderam 
que não, porque todos os annos por espaço de (res luas, 
que assim contam, e é o mesmo que dizer três mezes, 
experimentam aquelles frios, que conforme o que aflBr- 
maram são os mezes de Junho, Julho e Agosto: porém 
eu, ainda não satisfeito, quiz com m lis fundamento in- 
quirir a causa de frio tã) penetrante, e achei que esta 
era uma grande serra (ou param i), que da banda do 
sul está situada pela terra dentro, pela qual passam, du- 
rante os referrdos três mezes, todos os ventos, e gela- 
dos estes com a força da neve, de que está coberlí, cau- 
sam taes efTeitos na terra circumvizinh.i. E sendo assim 
não ha a minima duvida que alli se dará mui bem o 
trigo e as mais sementes e fructas, que produz a co- 
marca de Quilo, a qual, ainda quj situada debaixo da 
linha, semelhantes ares passados por nevados serros ha- 
bilitam a taes producções. 

55/— RIO PUTUMAYO, E NAÇÕES QUE HA n'eLLE E NO YETACÉ 



A dezeseis léguas doestas povoações, pela parle do norte, 
desemboca o grande rio Pulumayo, bem conhecido no 
governo de Popayan, por ser tão caudaloso, que, antes 
de desaguar no das Amazon:is, ciilram n'elle trinta cau- 
dalosos rios; chamam-lhes os naturaes n'esta pangem 
Uza. Desce das cordilheiras de Pasto até o novo reino 



- 4i:i - 

de Granadi: tem mnito nuro, e. s^gundn nos afBrmâm, 
está mui lo pnvnarto de geMiliõs. pnr ciiji causa sê reti- 
raram com aígoma penla os hespanliòes que por elle 
desceram ha poucos annos. Os nomes das províncias 
qae o hihilam sao \urunas, Guaraicús Yacariguras, Pa- 
rianas, ZyifB, Anais, Cimas e os qm mais no principio 
ih* um e outro l:if1o, coma stmhoros rf pstfí rio o povoam 
são os oma^nas, a an^m os asruiaâ das i)has chamam 
omafjuPsytHá, que significa omafrua^ verdadeiros. A 50 
legms d'esla hoca, p^la partia opposla. encontramos a 
boca dô um formoso e ciutialoso rio, que, trazendo sua 
Driíí*^m de junto dfl Cusco, fenere no das Amazonas na 
altnra de tr s cnios e meio Chamam-lh^* ns natiiraps 
Yetacé: é enfre elles tamiííerarl « as^ítm pf*la sua rriió 
com> pela multidâi de irenles que sustenta» a saber: ti- 
punas, guanarús» nzuanas, momas, naunns, conomomas, 
mariannas, e os ulliinos, qne mais se avizinham ao^^hes- 
pinho ^s que povoam oPíTÍ!,são os omaí?u^s, que dizem 
ser Renlo rianissima de ouro, que em grand^^s pranchas 
Irazem pendentes das orelhas e narizes: e se me não 
encana o mni discurso, seiíundn o que li na historia 
do tyranno Lopo de Apuirre, esta era a província dos 
omaguas. em cujo descohri mento ía Pedro de Orril i m lo- 
dido pelo vice-rei do Peni em consequência das muitas 
noticias que das suas riquezis publicava a fama, e, se 
com ella nào deu, foi porque, tomando a sua entrada por 
um br;»ço de rio, que sahe a algumas léguas abaixo, quando 
desembocou no das Amazonas, jà ficavam estas nações 
tão acima, que lhe foi impossivel dirigir-se a dias cora 
receio da força das correntes e mui principalmente pela 
pouca gente, e por isso já os seus soldados tilubeavara. 
E* este rio Yetacé mui abundanie de peixe e caça, e 
segundo as noticias dos seus] moradores' se fpòdej nave- 



— 224 ~ 

gar por elle com facilidade em razão de ter sufficiente 
fundo e siTem moderudas as correu Us. 

56/ — FiM DA província DOS AGUAS E RIO DE CUSCO 

Seguindo o curso do nos?o rio principal, demos em 
distancia de 14 léguas com a uUimn povoação dos aguas, 
que termina com um lugar mui populoso e de muitos 
soldados, por srr a primeira força, que por esta parle 
resisle aoimpeto dos seus conlMrios; dos qu;ies, pelo es- 
paço de 3i loguns, nenhuns povoam ;is margens d'esle 
rio, de maneira que (rdle so avislem os seus ranchos, 
mas algum tanlo retirados para díiilro na terra firme, 
por pequimos braços sahem a buscar o quo precisam. 
Kstes são, da parte do norte, os curis e gu yrabas, e da 
parle do sul, os cíchi^^uaras e tucuryis. Porém, ainda 
que como disse não pudemos avislar estas nações avis- 
támos a boca do rio, que com razão podemos chamar 
do Cusco, pois segundo um regimííulo d\'Sli navegação, 
e que eu vi, de Francisco Orelhana, eslá norte sul com 
a mesma cidade de Cusco. Entra no das Amazonas em 
5 gràos de altura e ás i% léguas do ultimo povo dos 
aguas; chamam-lhe os nalurai'S Yurúa; é muito povoado 
de gentio, que pela banda da mão dir/ita entrando por 
elle acima não ha outro senã» o quví já disse, habitnva as 
ribeiras do Yetacé, que estendend( -se ale assuns margens 
fica como isolada entre os dois rios. E este é por 
onde Pedro de Orríia desceu do Peru, se a minha ima- 
ginação me não engana. 

37." — província om)E se a<:iíol' oiro 

A 28 léguas mais abaixo do rio Yurúa damesma pnrle 
do sul, em terras dos mais altos barrancos, dá principio 



- 225 - 

a mui populosa nação dos curuziraris, que, seguindo sem- 
pre uma ribeira, como por espaço de 80 léguas, Ião con- 
tinuadas as suas povoações, que apenas se passavam 4 
horas sem que de novo se encontrassem outras, e às vezes 
por espaço de meio dia inteiro não cessávamos de avistar 
os seus ranchos. D'estes os mais achávamos sem gente, 
que por elTeito de noticias falsas de que vínhamos des- 
truindo, matando e captivando, quasi todos se haviam 
retirado para os montes, posto que ellL'S são natural- 
mente mais esquivos que nenhuns outros d'esle rio, apezar 
de que demonstram não terem menos governo e policia, 
segundo se viu pelos mantimentos, de que estavam pro- 
vidos, pelas alLias de suas casas, que para beneficio das 
cousas relativas à vida eram as melhores de todo o rio. 
Tèm nos barrancos onde moram mui bom barro para 
todo o género de vasilhas, e aproveilando-se d'elle 
fabricam grandes olarias, em que fazem (tinajas) panellas, 
fornos, em (lue cozem as suas farinhas, cuezelas, jarros, 
librillos eaté.certans bem formadas; havendo tudo isto 
promplo pira trato conimumdas mais nações, que, obri- 
gados das necessidades que doestes generts têm nas suas 
terras, vem fazer grandes carregações, dando em paga 
as cousas de que os outros carecem. A primeira aldôa 
d'esta nação vindo pelo rio abaixo chamaram os por- 
tuguezes, quando subiram, aldêa do Ouro, por haverem 
n'elle achado e resgatado algum, que em pranchas po- 
qu<mas traziam os indíos pendentes dos narizes e orelhas, 
o qual em Quilo foi examinado, e se achou ser muito 
de vinte e um quilates. Como os naturaes viram a am- 
bição dos soldados, que tanio empenho mostravam em 
fazer toda a diligencia para que lhes trouxessem muitas 
mais d^aquellas poquems pranchas, logo as escond.ram 
todas sem que apparecessein mais algumas; o que obser- 



— 22(1 — 

▼aram tombem na Tolta» de sorte que ainda que vimos 
muitos índios, só um trazia dois brincos de ouro e bem 
pequenos, e que eu resgatei. 

58. '—MINAS DE omo 

Não se pôde averiguar, quando subiu a armada, com 
algum fundamento, cousa alguma das que encontraram 
n't'Ste rio, porque jamais tiveram línguas, com os quaes 
pudessem fazer a necessária inquirição; e, se os portugue- 
zes julgaram, puderam dar contii de al«,uima cousa, era so- 
mente d'aquillo que por signaes haviam entendido, e isto 
mesmo tão incerto que cada um interpretava segundo o 
que tinha no seu pensamento: porém na volta cessou toda 
esta incerteza querendo Nosso Senhor favorecer esta expedi- 
ção com prevenil-a ordinariamente de bonslinguas,pormeío 
dos quaes se averiguou tudo o que so contém n'esUi rela- 
ção. A noticia que me deram, das minas de que se tirava 
o ouro, é a seguinte: Defronte d'esla aidéa, algum tanto 
mais acima da parte do norle, entra um rio chamado 
Yuruparé, subindo pelo qual e atravessa». lo em cerla pa- 
ragem, por t rrn, trís dias de caminho ale cliegar a outro, 
que se chama Yupuri, por elle se enira no Yquicós, que é 
o no do Ouro, onde, junlo a uma serra que alh está, os na- 
turnes tiram gnmde quantidade: e esl(í ouro todo é em 
(punias) e grãos ile bom lamanlio.dosqu:u's formam, â força 
de halélo, as pranchas, de que já fanámos,(lepeni!urando- 
as nas orelhas e narizes. Os nalnrai^s que conlralnn com 
os que tiram <'Sle'ouro chnmainse nianajús, e os niesiiios 
que hohil nn o rio e se rccupamnii IípíiI oyumí.^nans,que 
quer dizer tiradores de metal, porque yunia é metal, e 
guaris os que o tiram, e dão a todos os metaes o mesmo 



— 227 — 

nome genérico de yuma, e também para gualqnér ferra- 
menta das nossas, como eram machados, macbadinbas e 
facas se serviram da mesma palavra yuma. Diíficultosa pa- 
rece a entrada a estas minas pelos inconvenientes de mudar 
rios, e abrir caminbos por terra, e por isso não me satisfiz 
até descobrir outro muito mais fácil, de que adiante fal- 
larei. 

SO.""— USAM DAS ORELHAS E NARIZES FURADOS 



Estão estes bárbaros nús inteiramente, tanto os bomens 
como as mulheres, sem que a sua riqueza lhes sirva de 
mais que de um pequeno atavio, com que ornam as orelhas 
e narizes, que quasi todos têm jã furados, e nas orelhas é 
tal o enfeite, que a muitos lhes cabe um punho pelo bu- 
raco, que na parte inferior, onde costumam pender os 
(zarcillos) tôm, trazendo-o ordinariamente occupado com 
um (mazo de ajustadas), que n'elle, por gala, costumam. 
Pela banda fronteira a estas povoações altas, ha terra plana 
como uma mão, e tão cercada assim de outros rios, como 
dos braços que o Caquetá tôm pelas suas (orillas), que iso- 
lado em grandes lagos, como por muitos léguas, até que 
todos encorporados no rio Negro se reúnem com o princi- 
pal. Estão povoadas estas ilhas de muitas nações, porém a 
que mais se estende, por ser a mais populosa, é a dos 
zuanas. 

60.'— ENTRADA PARA AS MINAS DO OURO 



A 4 léguas d'csta aldôa, que denominámos do Ouro, pela 
parte do N. sabe a boca do rio Yupurã, que é por onde se 

TOMO XXVIII, P. I. 30 



— 228 — 

entra no do Ouro. Esta é a mais certa e direita entrada 
para com brevidade chegar a avistar a terra, que tâo liberal 
oiTerece seus tbesouros. A altura da boca d'este rio é a 
de dois gràos e meio, como também a é de uma povoação 
que, 4 léguas mais abaixo, na banda do sul está situada, 
sobre uma grande (barranca) ao desembocar d'elle no cau- 
daloso e claro rio que os naturaes chamam Tapi, e tem nas 
suas margens muita multidão de gentio, que chamam pa- 
guanas. Sâo todas as ti-rras, que, como disse, por espaço 
de 80 léguas occupa esta nação dos cruzirarís, mui altas, 
de lindas campinas, e pastos para gados, arvoredos nâo 
mui cerrados, abundantes lagoas, e que promettem muitas 
e boas commodidades aos que as povoarem. 

6! .''—LAGOA DOURADA 

A 20 léguas do rio Tapi desagua no das Amazonas o 
Catuã, que, formando na boca uma grande lagoa d'agua 
verde, traz a sua origem de muitas léguas pela terra dentro 
para o sul, tão povoadas as suas margens do barbares, como 
todas as dos outros, posto que lhe leva a,vanlagem na mul- 
tidão de diversas nações outro rio, que, com o nome de 
Araganatuba, O léguas mais abaixo, sahe á parte do norte, 
pela qual também se communica o Yupurá, de que acima 
falíamos. Chamam-se eslas nações yaguanais, mucunas, 
mapiaríis, aguainaíis, huirunas, mariruás, yamoruas, tera- 
rús, siguyás, guanapurls, piras, mopilirús, yaguaranis, 
aturiaris, macaguas, masipias, guayacaris, anduras, cagua- 
raús, maraymuraas e guanibis. Entre eslas nações, que to- 
das são de diíTerentes línguas, segundo as noticias, para a 
parte do novo reino de Granada está a desejada lagoa dou- 
rada, que tão inquietos traz os ânimos de toda a gente do 



- 220 - 



Peru. Não o aflirmo de certo , porém algum dia quererá 
Deus que saiamos doesta perplexidade. Para que nlo haja 
equivocaçâo eora o nome de um rio que sabe pela parte do 
norte, â IG léguas do Araganatuba, e se cbama como elle, 
se de?e advertir que ambos sao um mesmo rio, que, por 

tdois dist iodos braços de um mesmo nomCp desaguam no 
das Amazonas, e a ^2 léguas d*esle uUimo braço se ter- 
mina a populosa e rica nação dos euruziraris, povoadores 
de uma das melhores porções de terra (migajones) que en- 
contramos em todo este grande rio. 
nn 



!.*— rnoviNcjA de voriman 



A 2 léguas mais abaixo começa a mais nomeada e bellicosa 
nação de todo o rio das Amazonas, e com quem nas suas 
primeiras entradas atemorisavam a toda a armada portu- 
gucza, a saber, a de Yoriman, Está na banda do sul occu- 
pando nao somente terra firme das suas margens, mas tam- 
bem grande parte das suas ilbas» e^ ainda que de compri- 
monto se eslrei!a em poucas mais de 6") léguas, como se 
aproveita das ilhas e da terra firme, está tao povoada, que 
em neDbuma outra parto vimos reunidos mais barbaroft 
Saocomraummente mais bem parecidos e mais bem figura- 
dos que os outros ; andam todos nus, e confiam muito no 
seu valor, porquanto com grande segurança entravam e 
sabiam por entre nós, vindo ao arraial diariamente mais de 
200 canoas carregadas de meninos e mulberes,com fruclas, 
pescados, farinhas e outras cousas, que com bolorios» 
agulhas, e facas se lhes resgatavam- E' esta a primeira po- 
Toaçãn d'esta provincia, situada sobre a boca de um rio 
crj^staIlino,que mostra ser mui caudaloso pela grande força 
com que impelle as aguas do principal* Sustenlarát sem 



— 230 — 

duvida, bem como todos os mais, outras innumerateis na- , 
coes, das quaes não soubemos os nomes por caminharmos 
de passagem pela sua boca. 

63."*— UM POVO DE MAIS DE UMA LÉGUA DE COMPRIDO 

A 22 léguas da primeira povoação de Yoriman está si- 
tuada a maior que em todo o rio encontrámos, occupando 
as suas casas mais de uma légua de comprimento, e não 
vive em cada casa uma sô familia, como ordinariamente 
acontece na nossa Hespanha; mais ou menos, debaixo de 
um mesmo telhado vivem quatro e cinco, e muitas vezes 
mais, do que se poderá inferir a multidão que ha n'esta po- 
voação ; csperaram-nos todos, sem faltar pessoa alguma, 
com a maior serenidade, e deram-nos todos os mantimen- 
tos, de que carecíamos. Aqui estivemos cinco dias, durante 
elles se fizeram para matalotagem mais de quinhentas fan- 
gas de farinha de mandioca, com as quaes tivemos que 
comer por todo o caminho restante, o qual proscguimos, 
topando mui a miúdo povoações d*esta mesma nação. Po- 
rem onde habita a sua maior força, a 30 léguas mais abaixo 
em uma grande ilha, cercada de um braço, que deita o rio 
principal em busca de outro, que lhe vem pagar tributo ; e 
também pelas margens d*este novo hospede, aonde são 
tantos estes naturaes, que, com razão, ainda que não fosse 
mais que pela sua multidão, são temidos e respeitados de 
todos os outros. 

64.*— RIO DOS GIGANTES 

A 10 léguas do referido sitio termina a província de 
Yoriman, e, passadas outras duas, desemboca (da parte do 
sul) um famoso rio, que os indios chamam Cucbiguaoz. 



— Ui — 

l»', navegarei, ainda que em partes com algumas pedras ; 
tem moito pescado, grande quantidade de tartarugas, abun- 
dância de maiz c inandioca, e tudo o necessário para faeili- 
tar a sua eutrada. Está povoado este rio por vãrías nações » 
que principiando pela sua boca, proseguindo por elle acima, 
sâo as seguintes: os cuchigueras, que tomam o nome do 
rio, cumayaris, guaquiris^cuyariyâyanas,cumcurús, que- 
tausis, mutuanis, e por fim e remate de todas eslas oscuri- 
guercs, que, segimdo as informações dosqueos liavjam 
visto, e que s@ otTereciam a levar-nos às suas terras» sao 
gigantes da 16 palmos da altura, e mui valentes f andam 
níis \ trazem grandes (pateras) de ouro nas orelhas o nari- 
zes, e para chegar aos s*3us povos sao necessários dois me- 
26S continuos de caminho, desde a boca do Cuchiguara. 
Pelo das Amazonas abaixo, da banda do sul, correm os ca- 
ripunas e zurinas, íí^nte a mais curiosa que lia em todo 
elle, em lavrar com as raaos, som mais ferramentas, que 
as que acima disse ; fa^gem bancos feitos em forma de ani- 
maes, com tanto primor, e tio commodos para ter o corpo 
descançado, que nem a commod idade nem o engenho po- 
derá lembrar melhores* Lavram (estolicas) que saoas sras 
armas, de pàos mui vistosos, e tão delicadamente, que, com 
razão, as ambicionam as outras nações; e o que mais ad- 
mira, 6 fazerem de um tosco lenho um polosinho (idolillo) 
tão ao natnral, qua n'elles achariam que aprender muitos 
dos nossos esculplores. E não somente todas estas obras 
lhes servem de entretenimento e commodidade própria, 
mas também do muito proveito, achando a troco d'ellas @n* 
tre as outras nações tudo de que carecem- 
os/— rio BAsoaunu* Ê SUAS naçoeí • 



A Sã léguas do lugar em que desagua este rio Cucbi- 



- 232 - 

guará, desagua também, da parlo do norte, entro com o 
nome de Basururú entre os naluraes, o qual dividindo a 
terra do interior em grandes lagoas a reparte toda em 
muitas ilhas, as quaes todas são povoadas por innumeraveis 
nações. São as terras altas, e nunca íicam debaixo das 
aguas por maiores que sejam as inundações ; mui fértil 
de mantimentos, assim de msúízes, mandioca e fructa,scomo 
de caça e pescados,com que os naluraes vivem fortes, e se 
multiplicam todos os dias com rapidez. Chamam-se geral- 
mente todas as nações, que habitam este dilatado sitio, ca- 
rabuyanas ; e em particular as provincias, em que estão di- 
vididas, são as seguintes : caraguanas, pocoanas, urayaris, 
masucamanas, quererús, cotecarianes, moacaranas, ororu- 
pianas, quinarupianas, luinamainas, araguanayas, marí- 
guyanas, yaribaríis, yanuaguacus, cumaruruayanas e cu- 
ruanaris, e são estes indios de arco e flecha ; ha entre 
alguns d'elles ferramentas de ferro, como sâo machados, 
machadínhas e facas, e perguntando com cuidado pelos 
linguas d'onde lhes vêm, respondem que as compram dos 
naluraes, que por aquella paríe estão mais próximos ao 
mar, aos quaes as dão uns homens brancos como nós ou- 
tros, que usam das mesmas armas, espadas e espingardas, 
que nas cosias do mar têm a sua habitação, e que unica- 
mente se distinguem de nós no cabello, que em lodos ge- 
ralmente é louro : signaes estes bastantes para induzir que 
são os hollandezes, que junto i boca do rio Doce, ou de 
Ftílippe, ha dias tomaram posse, e no anno de 1638 deram 
com grande força sobre Guyanna, jurisdicção do novo reino 
de Granada, e não somente d'ella se apoderaram, mas lam- 
bem foi tão de repente, que, não podendo os nossos tirar o 
S. Sacramento, ficou captivo em poder de seus inimigos, 
os quaes. como sabiam quão estimada é entre oscalholicos 
aquella prenda, esperavam grande resgate por ella, o qual 



— 233 - 

se lhes estava apromptando quando sabimos d'aquellas 
partes : eram boas companhias de soldados, que com animo 
cbristão iam gostosamente dar as vidas para resgatar a seu 
senhor, com cujo auxilio indubitavelmente conseguiram 
effectuar tão bons desejos. 

66.* — RIO NEGRO 

Não bem trinta léguas mais abaixo do Basururú, da 
mesma banda do norte e em altura de 4 gràos sabe 
ao encontro do das Amazonas, o maior e o mais for- 
moso rio que pelo espaço de mais de 1 ,300 léguas lhe 
rende vassallagem, posto que, como tão poderoso na 
sua entrada, que tem légua e meia de largura, parece 
envergonhar-se de reconhecer outro maior, e ainda que 
o Amazonas com todo o seu cabedal lhe lança os braços 
não se querendo sujeitar hombro por hombro, sem o 
mínimo respeito, senhoreado de metade de todo o rio, 
o acompanha por mais de 12 léguas, distinguindo- se 
claramente umas aguas das outras, até que não soffrendo 
o das Amazonas tanto orgulho, revolvendo-se nas suas 
turvas ondas, o faz entrar no caminho, e reconhece por 
senhor aquelle que o pretendia avassallar. Chamaram 
os portuguezes e com muita razão a este grande rio 
Negro, porquanto na sua boca, e muitas léguas acima, o 
seu muito fundo e a claridade das aguas, que de im- 
mensos lagos n'elle vertem, as fazem parecer tão negras, 
como se realmente fossem tintas, sendo aliás crystallinas. 
Faz o seu curso de oeste a este, nos seus princípios, 
ainda que as voltas são tantas, que em distancias bem 
pequenas,muda de rumos e às vezes bem ditlerentes, sendo 
o que traz muitas léguas antes de entrar no das Ama- 
zonas de poente ao oriente. Os seus habitantes o deno- 



— 234 — 

minam Curíguacunã. Os Tupinambares, de quem adiante 
fallaremos, o chamam Uruna, que na sua lingiia qaer 
dizer Agua negra, e também n*esta paragem chamam 
ao Amazonas Paranaguassú.qne significa rio grande, para 
distincção de outro menor, porém mui caudaloso, a que 
chamam Paoznamerim, isto é, rio pequeno, que desagua 
na banda do sul, uma légua antes do rio Negro, que 
aSirmam estar mui povoado de dillerentes nações, das 
quaes a ultima anda vestida o usa de chapéos, signa! 
certo de que se approximam dos hespanhoes do Peru. 
São grandes provincias as que estuo nas próprias aguas 
do rio Negro, a saber : Canizuaris, Aguayras, Yacuuca- 
raes, Cakuaypites, Mauacarús, Yarim;is, Guanamas, Cara- 
panaaris, Guarianacaguas, Azerabaris, Curupatabas ; e as 
que primeiro povoam um braço, que este rio arroja, 
por onde, segundo informações, se vai sabir ao Rio Grande, 
em cuja boca no mar do norte estão os hoUandezes, 
são os guaranaquazanas. Todas estas naçGes usam de 
arco e frcxas, muitas das quaes bervadas com veneno. 
As terras iVesie rio são todas altas e de magnifico torrão 
e cultivadas prometlem dar quaesquer fruclos, e em al- 
gumas partes os da mesma Europa; tem muitas e boas 
campinas cobertas de pastos próprios para n'elles pasta- 
rem innumeraveis gados : produzem grandes arvores de 
preciosas ma<leiras para embarcações e edifícios, que com 
a muita pedra, do que alli ha abundância, se podeiio 
facilmente edificar. Todas as margens doeste rio estão 
povoadas de muita caça de todo o género, e posto que 
o pescado n'csle rio não seja tanto como no Amazonas 
cm razão de serem as su is aguas mui claras, nos lagos, 
que tem pelo interior, sempre se colhe pescado ás mãos 
cheias. Tem na sua embocadura accommodados sítios para 
fortalezas e muita pedra para as edificar, por meio das 



— 235 — 

qoaes se poderá facilmente defender a entrada ao ini- 
migo, que por elle quizer descer ao principal, posto que 
eu julgo que não n^esta paragem mas muitas léguas mais 
para o interior ; no braço que desemboca no Rio Grande, 
que, como disse desagua no oceano, onde mais segura- 
mente se deveria pôr toda a defesa, ficando inteiramente 
cerrada ao inimigo a passagem para todo este novo 
mundo, porquanto é mais que provável que ambi- 
cioso algum dia a intente. Não me atrevo a afirmar 
6e o Rio Grande, em o qual desemboca este braço do 
Rio Negro, é o Doce ou de Felippe, posto que muito me 
inclino a este segundo, segundo muito boas demarcações, 
pois que este é o primeiro rio considerável, que, pas- 
sadas algumas léguas, entra no mar além do Cabo do 
Norte : com tudo posso affirmar positivamente que não é 
o Orinoco, cuja principal boca flca fronteira à ilha da 
Trindade, mais de cem léguas para baixo onde desagua 
o rio Felippe, pelo qual sahiu do mar do norte Lopo 
d^Aguirre, e, assim como este navegou, também qualquer 
outro poderá entrar por onde uma vez se abriu o ca- 
minho. 

67.* — INTENTAM OS PORTUGUEZES ENTRAR PELO RIO NEGRO 

Estava já a armada portugueza de torna viagem na 
boca do Rio Negro a 12 de Outubro de 1639, quando os 
soldados reputando-se já ás portas de suas casas, e, vol- 
vendo os olhos não sobre o que traziam, que nada era, 
porém sim sobre as per.las, que no espaço de mais de 
dois annos tinham soffrido, as quaes não eram pequenas, 
e convencidos por outro lado que os serviços feitos a 
Sua Magestade n*estas conquistas nenhuma remuneração 
teriam em terra, onde os que mais sangue têm derra- 

TOMO XXVIII, P. I. 31 



— 2:16 — 

iBido em semelhantes occasiões eslão já loiqniladoft e 
morrendo de fome em razão de não comparecerem pe- 
nnie qnem os [KvJên premiar, delerminanm persuadir 
ao capitao mor a queji qae a saa pribreza os obrigan 
a basearem algum remédio para melhorar a saa sorte, e 
tísIo as noticias d.>s muitos escnTi^ que no ínleríord» 
Rio Seçro p.^ssuiam •:»> natunes. offereíen Jo-se-lhcs por- 
tanto oocasilj opp^>rMni, nío permittisse deixaJ-a perder 
Sim J'elÍÃ se apr:»Teiiir. :• ^iêsse orlem àe que sese- 
Mi»e Aqnella Jerr>la, p^rjuantj com os maitos escraTos, 
qur -leste rí.i se tirassem. :iiri'1i que nids mais leTassem. 
s iriam t>em receb:õ:ts n:* Pari. e lIo os lerando serian 
Cv>riSiieraios com:* ho?a:ns Je pouc-^ monta, em raiio 
dr que. bi^enJ^ ^^assil' pcT túLtas e tão differeoles 
nj-jL*es, e en-vTitràJ^ U:.v?s eN:riT'>s. se apresentaram 
oa as mios tasiís. â.vresc-rn !o haxer nestas conquistas 
b>meLS que iS parias dr suas projT: js cisas ^^abem Cuer 
escrav:r? pm > s u Scrr:;:^. O capitã >-m->r parecia querer 
annair a sr-meihiTtlr prxosta. tai^rz «^«*>ríue elle era sõ 
e :f s ::í: s ::^i;::.?: -. : : iss:- i^rzi.::.!: que sepre- 
; -.rií^srz: -f ^t'í.-. : ::z:z y-,'^:: -.Tí ::i^:TÁYel pui 



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- 237 - 

68."*— REQUERIMENTO AO EXERCITO 

Os padres Cbrístovão d*AcuDa e André d'Arlieâa, re- 
ligiosos da companhia de Jesus, pessoas a quem El Rei 
Nosso Seuhor, por uma real provisão dada pela sua real 
audiência da cidade de Quito de S. Francisco nos reinos 
do Peru, a 21 de Janeiro do presente anno de 1639, 
manda e encarrega que vindo em companhia d'esta ar- 
mada porlugueza por todo este grande rio das Amazonas, 
novamente descoberto, tomemos noticia sufficiente e a 
mais clara possivel, das nações que n'elle habitam, dos 
rios que n'elle confluem, e de tudo mais necessário para 
que no real conselho das índias se faça um pleno con- 
ceito d'esta grande emprcza, e que, havendo-se assim 
executado, passemos com a maior brevidade à Hespanha 
a dar conta a Sua Magestade de tudo o referido, sem 
que ninguém nos possa obstar a que assim o façamos*, o 
que tudo o mais extensamente consta da dita real pro- 
visão, que em nosso poder trazemos, e estamos promp- 
tos a mostral-a a todos, assim como já a temos mos- 
trado aos principaes chefes do exercito, ouvindo dizer 
a muitos, e vendo que as velas estão dispo*stas para na- 
vegar, que o capitão -mór Pedro Teixeira, capilães e 
olTiciaes maiores da dita armada, em cuja companhia 
vimos de ordem de Sua Magestade, intentam dilatar mais 
a viagem entrando pelo Rio Negro, em cuja boca pre- 
sentemente nos achamos, com o designio de resgatar 
escravos para os levar como taes para as suas fazendas 
do Pará e Maranhão, como costumam fazer aos naturaes 
que habitam nos seus coníios, e porquanto n'esta entrada 
se haja de gastar forçosamente muito tempo, segundo 
affirmam pessoas de experiência, e hajam de haver muitos 
outros ínconvenienies, por cumprirmos com a nossa obri- 



- 238 - 

gação, e para deseocarregar nossas consciências perante a 
real pessoa de Sua Mageslade, em seu nome faltando com o 
acatamento devido, requeremos ao capilão-mór Pedro Tei- 
xeira, ao coronel Bento Rodrigues de Oliveira, ao sargento- 
mórFelippe de Mattos, aos capitães Pedro da Acosta, e Pe- 
dro Bayâo, e aos m lis officiaes vivos, que actualmente estão 
governando este exercito na boca d'este Rio Negro, que, 
porquanto Sua Magestade já tem noticia pela sua real au- 
diência de Quito, e pelo seu vice-rei do Períi, dos despa- 
chos das nossas pessoas para os fins acima mencionados, e 
da brevidade com que se esperava chegaríamos á sua real 
presença, pois que, segundo o dito capilão-mór Pedro Tei- 
xeira, e muitos outros de sua companhia, asseguraram aos 
senhores da dita real audiência de Quito, haviamos de estar 
no Pará dentro de dois mezes e meio, e de hoje a seis dias 
se completam oito mezes depois da sabida da dita cidade 
de Quito, e faltem ainda 600 léguas desde este ponto 
até ao Pará; e de semelhante demora possam resultar 
muitos e graves inconvenientes a saber : o dilatar Sua 
Magestade a fortificação d' este rio, cujo descobrimento 
ha tantos anpos ardentemente deseja, esperando que nós 
cheguemos com brevidade com as necessárias informa- 
ções ; no entretanto apoderar-se o inimigo das suas prin- 
cipaes entradas, do que resultará gravissimo damno, a 
sua real coroa, ao mesmo tempo que tão bons e esforça- 
dos capitães, como aqui vão, farão sem duvida, por effeito 
de semelhantes demoras, grande falia à fortaleza do Pará, 
da qual se o inimigo a atacar estando elles ausentes, será 
mui certa a perda : além do que os indios d'este Rio 
Negro são na opinião de todos mui bellicosos, de arcos 
e frechas envenenadas, com as quaes nos poderão fazer 
muito damno, e muito mais vendo a poiíca força dos indios 
amigos que nos ficaram, muitos dos quaes estão doentes, 



— 239 — 



e outros são rapazes sem experiência da guerra, e todos 

em geral sem n iiiinima vontade de emprehenderseme- 
Ihantti entrada, podendo consequentemente resultar a perda 
total d' este exercito» sendo mais provável que, indo cora 
pouca Yontade, talvez nos fujara» assim como têm fu- 
gido os outros dos que sahiram do Pará, e mui principal- 
mente vendo -se quasi às portas das suas casas. Aqui 
advertimos que os escravos, que se pretendem resgatar, 
talvez em boa consciência não possam ser considerados 
como taes (a excepção de nos podermos ser\ir de alguns 
para Imguas), porquanto esta lerra é nova, e ainda que 
ba decretos de Sua Magestade (como se diz) para se ti- 
rarem escravos, somente seraelliante faculdade é per- 
mittida nas circum vizinhanças do Para e Maranhão, e 
com as mais circumstancias, que para isso se requerem* 
e os d*esle rio não se sabe a que dislriclo ou jurisdic- 
ção pertençam : e mesmo dado o caso de que nenhuma 
das referidas razões, faça devida fnrça, e que se con- 
siga o fim desejado, de tirar grande quantidade de es- 
cravos» estes mesmos, em razão das poucas forças, que 
presentemente lemos para sua guarda e nossa defensa, 
tdlvez possam a vir a sor a total ruiua e destruição de 
todos. Portanto e por tudo mais que oíTerecer-se possa 
em deserviço das duas Magestades, divina e humana, e 
prejuízo da salvação de tanta immensi dado de almas, como 
ha n'este rio, novamente uma e muitas vezes tornamos 
a requerer ao dito capilão-mòr, corunel, sargento*mòr, 
capitães e officiaes vivos que presentemente governam 
este exercito, que, não dando lugar a dilações, que não 
sejam do serviço de Deus e de Sua Magestade, com toda 
a brevidade se procure proseguir na nossa viagem para 
ú Pará, para d'alli passarmos a llespanha a cumprir 
com o Um e obrigações da nossa legacia, c se possa acudir ; 



- 240 - 

haY6Ddo-a assim a bem á Sua Mageatadet a salvaçio á% 
tantas almas, que se tem descoberto n'este novo mundo» 
as quaes jazem miseráveis nas sombras da morte. E se o 
que fica dito nâo fõr sufficiente a obrigar a que todo9 
juntos prosigamos a nossa viagem com a mencionada 
brevidade, requeremos de novo com a real provisão, qu0 
para isto trazemos ao capitão-mór Pedro Teixeira e aos 
mais oíQciaes do exercito, que para isso poderem coope-> 
rar, que, dando-nos tudo o necessário e a boa passagem para 
resguardo das nossas pessoas, se nos permitia proseguir 
sem demora nossa viagem, que, ainda que seja com riscos 
de inimigos, preferimos, por cumprir com o que Sua Ma- 
gestade nos manda na sua real provisão, e fazendo-se 
o contrario, protestamos de todos os damnos e incon- 
venientes que da demora que houver n*esla jornada se 
seguirem, e de darmos d'isso conta ao real conselho das 
índias e á real pessoa de El-Rei nosso senhor, como 
nos é expressamente ordenado. E ultimamente para res- 
guardo de nossas pessoas, e demonstração de que dese- 
jamos cumprir pontualmente tudo quanto nos foi orde- 
nado, pedimos se ordene ao escrivão nomeado d*este 
exercito nos dê fé de tudo o que se contém no nosso 
rcquerimonlo e do que nos fôr respondido, ele. 

60."— PROSEGUE-SE NA VIAGEM , E 1)0 RIO DA MADEIRA 

Feito este papel e communicado ao capilão-mór, que 
muito se alegrou de ter quem se pozesse pela sua parte, 
e, reconhecendo a força das razões mandou immediata- 
menle ferrar as velas, cessar com as prevenções, e dis- 
por tudo para que no dia seguinte, tornando a desembocar 
pela boca do Kio Negro, proseguíssemos lodos pelo das 
Amazonas. Assim o fizemos, e ás 4^ léguas demos com 



- 241 — 

o gratide rio da Madeira, que os portuguezes asdim de- 
nominaram em razão da maita e grossa que traziam 
quando o passaram, porém o seu nome próprio entre 
os naturaes que o habitam é Cayari ; desce da parte do 
sul, e, segundo o que averiguamos, é formado por dois 
caudalosos rios, que, em distancia de algumas léguas pelo 
interior, se lhe reúnem, pelos quaes, segundo boas de- 
marcarcações, com maior brevidade que por outra qual- 
quer parte se ha de descobrir sabida para os mais pró- 
ximos rios da comarca do Polosi. Das nações d*este rio 
que são muitas, as primeiras se chamam zurinas, ecayanas 
è logo se vão seguindo os ururiahús, anamaris, guari- 
numas, curanaris, erepunacas e abacatis, e, desde a 
boca d'este rio correndo pelo Amazonas abaixo, o povoam 
os zapucayas, urubutingas, que são mui curiosos em 
lavrar cousas de madeira, a estas seguem-se os guara- 
naguacas, maraguas, guimaús, burais, punonys, oregua- 
tús, aperas e outros cujos nomes não pude com cer- 
teza averiguar. 

70.** — ILHà GRANDE DOS TU PIN AMBAS 

A 28 legôas da boca d'este rio, caminhando sempre 
pela mesma parte do sul, está uma formosa ilha, que tem 
60 de comprimento, e consequentemente mais de 100 
de circuito, povoada toda dos valentes tupinambàs, 
gente que das conquistas do Brasil, em terras de Pernam- 
buco, sahiram derrotados ha muitos annos, fugindo ao 
rigor com que os portuguezes os iam sujeitando. Sahi- 
ram era tão grande numero, que, despovoando ao mes- 
mo 84 Aldêas onde estavam situados, não ficou um só 
d'elles, trazendo em sua companhia as próprias crianças. 
Foram deixando sempre à sua mão esquerda as fraldas da 



- 242 — 

cordilheira, qui\ vindo desde o Estreito de Magalhães, 
cinge toda a America, e atravessando as cabeceiras de 
quantits rios d*ella descem ao Oceano, chegaram alguns a 
communicarem-se com os hespanhòes do Peru. qae ha- 
bitam nas cabeceiras do rio da Madeira, e alli estiveram 
algum tempo, até que, açoutando um bespanhol a om 
Índio em razão de Ibe haver morto umi vacca, aprovei- 
tando-sê da commodidade do rio, se abandonaram todos 
liS suas correntes, e vieram dar com a ilha, que presente- 
mente habitam. Faliam estes índios a língua geral do Brasil 
a qual é vulgar entre todos os d;is conquistas do Maranhão 
e Pará . Dizem também que, como sahiram tanttis que por 
aquelles desertos se não podiam sustentar todos reunidos, 
se repartiram successivainente durante aquelle tãodíLitaâo 
caminho, que pelo menos seria de 900 léguas, ficando uns 
a povoar umas terras, e outros outras, e por isso d*elles es- 
tavam bem povoadas todas aquellas cordilheiras. São 
genle de grande brio na guerra, e bem o demonslraram 
os que checaram a cslas paragens, onde presentemente 
habilani. porquanto. s-nd'.»elles s-?m comparaçriO em muito 
menornu:iiero que o dosn.itiiries dVsleri «. de t il s-»rte os 
assolaram, e sujeitaram a loi- »s jiquell'.> rom qu-m tiveram 
g'3érr:i, qu\ consumindo n:iç"»-?s iiiteini>, j oulras obriga- 
ram a iiei\'ir por mel • •» luirar do sen ii:i>cimêiito, o a ir 
pér.-irriruiii.» terras estranli.i>. Is.mi estes inàios de arco 
e frL':li:i, qíiè í jin u^^ftrez i •iispiírám : são de Cjr:t'*i!i"?s 
nobres e aiíd.il^:d .s, >•• N-m que, como j.t quasi tvdi>s os 
quê preséir.êmeiítê exist-rnsfu lilli ■> e neios d^is primeiros 
pOToadoít^, jA >í' v.v.» :4.L-':irui-."!;iri'.1o u> !míxl7:íS e manhas 
dos d.i terrji. c-iin e'':j» s.irijne êsLVuiiisurtJos. M^stra- 
raiíj-ijos iod.-s ímid- Aj.iSáll".». 'linik» >ijn:i».s de que 
brevemente se r^luziri^Lm .i vivtr enirê os indios amigos 
do Pará : cousa que será sêm duvida muito ulil para con- 



- 243 — 

quistar todas ãs mais nações d*este rio» se se houver de 
povoar, porquanto nenhuma ha que não se renda apenas 
ouvir o nome de tupinambás. 

71/— NOTICIAS QUE DERAM OS TUPINAMBÁS 

D'estes indios tupinambás, como gente de mais razão, e 
que não carecem de interpretes por correr entre elles, 
como já disse, a.Iingua geral, que muitos dos mesmos por- 
tuguezes faliam eminentemente em razão de serem nasci- 
dos e creados n'aquellas costas, recebemos algumas noti- 
cias, que aqui direi, e que se podem ler como certas por 
serem dadas por gente, que tem corrido e sujeitado ao seu 
poder todas as circumvizinhanças. Dizem que próximos á 
sua habitação da parte do sul, na terra firme, vivem, além 
de outras, duas nações, uma de anões tão pequenos como 
meninos de mui pouco tempo, que se chamam guayazis, e 
a outra de uma gente, que toda tôm os pés ao revéz, de 
sorte que, su quem os não conhecesse, quizesse seguir suas 
pegadas, caminharia sempre oppostamente a elles, e são 
chamados mutayús, e são os tributários a estes tupinambás 
de machados de pedra para o roçado das arvores, quando 
querem cultivar aterra ; fazem-nos mui curiosos, e inces- 
santemente se occupam na sua factura. Dizem que na parte 
fronteira, ou na do norte, estão continuadamente sete pro- 
vincias bem povoadas, porém que, por ser gente para 
pouco e que unicamente se sustentam de fructas e pequenos 
animaes silvestres, sem jamais sustentarem guerras entre 
si nem com os outros, d'elles não fazem caso. Também 
ailirmam que com outra nação, que com esta confina, 
tiveram pazes muito tempo, commerciando entre si em 
todos os géneros de que cada uma abundava, sendo o princi- 
pal género, de que os tupinambás se proviam, o sal que os 

TOMOXXVIII, p. 1. 32 



- 24i — 

amigos lhes traziam pelos seus resgates, que affirmaTSUA 
vir-lhes de outras terras próximas ás suas ; cousa bem 
interessante, e de grande utilidade para a conquista e po- 
voação d'este rio, e, ainda que aqui se não ache, se desco- 
brirá em grande abundância em um rio dos que descem 
desde o Períi, d'onde, no anno de 1637, estando eu na 
cidade de Lima, sahiram dois homens, que de terra em 
terra aportaram, para aquellas partes, a certa paragem, 
d'onde, descendo por um dos rios, que desagua n'este prin- 
cipal, deram com um grande monte de sal, de que os 
moradores tôm exclusivamente o commercio, suslentan- 
do-se, ricos e abundantes, com as pagas, que por elle re- 
cebem dos que de mais longe o vôm comprar. E não é novo 
no Peru e em todas as suas cordilheiras ter montes de sal 
de rocha excellente, pois que esto é o que se alli consome* 
tirando-o em pedaços tão grandes que alguns tèm 5 a 6 
arrobas de peso. Occupa esta província dos lupiDambás 
66 léguas de comprimen to, e acaba em uma boa povoação, 
que está situada em 3 gráos de latitude, bem como a pri- 
meira povoação dos Índios aguas, de que já fizemos acima 
menção, 

72/ — DÃO NOTICIA DAS AMAZONAS 

Estes mesmos tupinambás nos confirmaram as lai^gas 
noticias, que por todo este rio Iraziamos das famosas 
amazonas, que lhe deram o nome, desde os seus primeiros 
princípios, não o reconhecendo por nenhum outro todos 
os cosmographos, que até hoje d'elle lêm fallado, e fora 
sem duvida mui para admirar que, sem bem fundadas 
razões, houvesse usurpado o nome das Amazonas, poden- 
do-lhe qualquer lançar em rosto de que por um tal nome 
se queria tornar famoso» revestindo-se do alheio. A' vista da 



34: 



— a*o — 






nobreza d*a$lerio, não me persuado, nem éerlveUque, 
tendo esle rio tantas grandezas d<3 que lançar mão, se 
gloriasse unicamente do titulo que lhe aão competia : 
baixeza ordinária era quem, nâo podendo por seus braços 
alcançar a honra que deseja, a procura mendigar dos 
vizinhos. Os fundamentos para asseverar ser a província 
das Amazonas n*este rio, siio tantos e tao fortes, que Stí 
faltaria à fó humana não lhe dando credito. Eu nao trato 
das serias indagaç/ies, que por ordem da real audiência de 
Quilo se fizeram entre osnaluraes, que a habitaram, muitos 
annos, de tudo o que se continha nas suas margens ; e uma 
das principaes cousas, que lodos unaniraemenle assegura- 
vam era povoado de uma província de mulheres guerrei- 
ras, que, suste nkindo-se por si sòs, sem razões, com 
quem não tinham comraanicaçao alguma senão em deter- 
minado tempo, viviam n;is suas povoações, cultivando as 
suas terras, e obtendo por ineío do trabalho de suas mãos 
todo o necessário para o seu sustento : também não faço 
menção das inflagações que pelo uovo reino de Granada, 
na ciilade de Paslo, se fizeram Cími alguns Índios, e par- 
ticularmente cum uma' Índia, que disse haverei la mesma 
estada nas terras povoadas por semelhantes mulheres ; 
ajusUndo se em tudo no que jà se sabia pelas primeiras 
indagações. Unicamente lanço mão do que ouvi com os 
meus próprios ouvidos, o cuidadosamente averiguei desde 
que pisámos este rio^ no qual é tradição vulgar» e que 
ninguém ignora, dizer-se que n*elle hahilam estas mulhe- 
res, dando signaes lao parliculares, que, concordando 
todos nos mesmos, não é provável que uma tal mentira se 
podasse espalhar entre lautas differentes nações, de outras 
tantas línguas, e com tantas appareucias de verdade ; 
porem aonde mais as tivemos dii situação em que vivem 
6slas mulheres» dos seus coslumes, dos índios que com 



— 246 - 

cilas communicam, dos caminhos pulos quaes seentn 
nas suas terras, e dos habitantes, que as povoam (e que 
aqui daremos], foi na ultima alilèa, em que termina a pro- 
víncia dos tupinambás. 

73.** — RIO DAS AMAZONAS 

A 36 léguas d'csta aldéa, descendo pelo rio, está da parte 
do norte o das Amazonas, que com o nome de rio Cunurís é 
conhecido entre aquellcs naturacs. Toma este rio o nome 
dos primeiros indios, que sustenta na sua boca, aos qaaes 
seguem-se os apautos, que faliam a lingua geral do Brasil: 
além d*estes eslâo situados os taguaús, e os últimos, que 
sao os que communicam e commerciam com as amazonas, 
são os guacarás. Tem estas mulheres varonis o seu estabe- 
lecimento principal entre grandes montanhas e eminentes 
serros, dos quaes o que mais se distingue entre os outros, 
e que é mais combatido dos ventos, moslrando-se conse- 
quentemente sempre escalvado e sem herva, se cbama 
Yacamiaba. Sao mulheres de grande valor, e que sempre 
se lôm conservado sem o ordinário commercio de varões, 
c, ainda mesmo quando estes por convenção feita com 
ellas, vem annualmentc ás suas lorras, siío recebidos com 
as armas nas mãos, e, depois de atirarem por algum tempo 
com as frechas, e convencidas de que vem de paz os conhe- 
cidos, deixando as armas correm apressadamente ás canoas 
e embarcações dos hospedes, e levando cada uma as 
macas ou redes, que mais acham á mão, as levam às suas 
casas, e armando-as em partes, onde os donos facilmente 
as conheçam, os recebem por hospedes durante aquelles 
poucos dias ; findos os quaes elles regressam para as suas 
terras, continuando annualmente a mosma viagem e pelo 
mesmo tempo. Conservam as filhas, que noscem d'e$tes 



- 247 - 

ajuntamentos» e as criam entre si com desvelo, por serem 
as que hão de levar avante o valor e costumes da sua nação, 
porém a respeito do que praticam com os filhos varões não 
ha a mesma certeza : um indio que, sendo ainda pequeno, 
havia ido com seu pai a estas entradas, affirmou que os 
entregam a seus pais, quando no seguinte anno vão às suas 
terras ; mas o mais certo, por ser o que mais vulgarmente 
se diz, é que logo que os reconhecem por varões os 
matam. O tempo descobrirá a verdade ; e, se estas são as 
amazonas famigeradas entre os historiadores, grandes 
thesouros encerram na sua provincia para enriquecer a 
todo o mundo. Está a boca do rio, que povoam as ama- 
zonas, em dois gràos e meio de latitude. 



74.*— PARTE MAIS ESTREITA DE TODO O RIO 



Passada a boca do rio das Amazonas, e correndo 24 
léguas pelo principal, desagua pela mesma parte do 
norte, outro mediocre, chamado Uriíamina, que vem 
asahir áquella paragem, aonde, como já dissemos, se es- 
treita este grande rio em um espaço de pouco mais de um 
quarto de légua ; ealli oilereco aprazíveis sitios para n*elles 
construir de um e outro lado duas fortalezas, que não 
somente obstem à passagem que o inimigo intente da parte 
do mar, mas também sirvam de alfandegas, nas quaes se 
registre tudo quanto por este rio das Amazonas, se se po- 
voar, descer do Pcríi. Desde esta paragem, que esiá, como 
acima disse, mais de 3J0 léguas em distancia domar, se 
principia a conhecer as marés, reconhecendo se diaria- 
mente Iodas as enchentes e vasantes, ainda que não tão 
claramente como d'alli a algumas léguas. 



TS.""— RIO E NAÇÃO DOS TAPAJOZES 

A 40 léguas (l'este estreito do rio pela parle do sol des- 
emboca o grande e vistoso rio dos Tapajozes, tomando o 
nome da nação e provincia quo susteota nas suas margens, 
que são mui povoadas de bárbaros, em boas terras e de 
abundantes mantimentos. São os tapajozes gente de brio, 
temidos por muitas nações circum vizinhas, em razão de 
usarem nas suas frechas de um veneno tal que, chegando a 
tirar sangue, causa sem remédio a morte. Por esta mesma 
causa muito tempo os temeram os portuguezcs, receiando-se 
da sua communicação, desejando reduzil-os por bem à sua 
amizade, o que nunca conseguiram de todo, porque os 
obrigavam a deixar o lugar do seu nascimento, e a vir 
estabelecer-se em povoações, jà domesticados ; cousa esta 
que muito sentem estas nações, ao mesmo tempo que nas 
suas terras recebem com agazalho a um povo dos seus, 
composto de mais de 500 Tamilias. Durante todo o dia não 
cessaram de virem resgatar gallinhas, patos, macas, pes-* 
cado, farinhas, fruclas e outras cousas, com tanta segurança 
que as mulheres o meninos nâo se aparUivani de nós outros, 
oiTerecendo-nos que se os deixassem em suas próprias 
terras viessem os portuguezes lambem povoal-as, por- 
quanto os receberiam com a maior salisfaç^lo, e os ser- 
viriam paciíicamente toda a vida. 

7t).'— OPPRESSÃO QUE FIZERAM OS PORTUGUEZES 

Mão bastaram os humildes oíTerecimentos doestes pobres 
tapajozes para que pessoas tão interesseiras como são as 
d'estas conquistas, e que só einprehendem dificuldades 
com a ambição dos escravos que esperam resgatar, os 
admittissem ou pelo menos os tratassem razoavelmente ; e, 



- n9 — 



saspeilando quo esta oaçao liolia em seu poder maitós 
escravos, trataram com todo o empenho, com o pretexto de 
serem rebeldes, de lhes fazer cruel guerra : a qual se 
eslava preparando quando chegamos ao íorte do Desterro, 
aoQde se reu nia a gente para tão in humana faeçaOt e, ainda 
que pelos melhores meios que pude» procureit jâ que não 
irapedil-a ao menos suspen^lél-a, alè que chegasse nova 
ordem de SuaMageslade, eo sargento-mór do estado, cabo 
e chefe de todos, que era Bento Maciel, fdho do gover- 
nador, me deti a soa palavra de não proseguir emquanto 
não recel>esse nova ordem de seu pai ; apenas nos reti- 
rámos, logo com o maior numero de gente, que pôde 
ajunlar em uma lanclia com peças de arlilheria e em outras 
embarcações menores, cabindo sobre elles de improviso, 
lhes offereceu cruel guerra, jà que não queriam boa pai. 
Com a melhor vonUíle receberam elles a paz que sempre 
oílereceram, sujei tando-se a tudo o que quizessem fazer de 
suas pessoas. Manda-lhes pois que entreguem todas as 
frechas envenenadas, que eram as de que mais se receiavam, 
a que pontualmente aquelles miseráveis obedeceram, e, 
vendo-os jà desarmados, apanham uma grande quanti- 
dade de bárbaros, e encerrando-os todos como carneiros 
em um curral forte com sufllciente guarda, soltam os indios 
amigos que levavam, dos quaes, para fazer mal cada um é 
ura diabo solto, e em breve tempo foi saqueada a povoação, 
sem nada deixarem por assolar, aproveilando-se, como mo 
OQDlou uma testemunha de vista, das filhas e mulheres dos 
afflictos encarcerados âsua própria vista; e fazendo cousas 
que me asseverou esta pessoa bem antiga n*aquellas cou- 
quislas, que para as não ver, não somente deixaria de 
comprar escravos, mas também daria de graça os que 
possuía. Como a ambição dos porluguezes estava envol- 
vida com a de escravos, não se contentaram sem que se 



- 260 - 

ifissem senhores dos ditos escravos : e por isso ameaçamos 
Índios encurralados e temerosos, fazem-lhes receiar novos 
rigores, afim de que oíTereçam escravos, assegurando-lhes 
que então ficarão livres e seus amigos, e carregados de 
ferramentas e pannos de algodão ; que deviam fazer os 
pobres miseráveis presos, tiradas as armas, saqueadas as 
casas, opprimidas suas mulheres e filhos, não tinham outro 
remédio que sujeitarem-so a tudo o que d'elles qnizessem. 
Offerecem mil escravos, mandam em busca d*elles, por- 
quanto se haviam posto a salv© durante o alvoroto, e, não 
podendo apanhar mais de duzentos, os entregam, dando a 
palavra de entregarem os restantes, e para se verem livres 
offerecem seus mesmos filhos como escravos, o que tem 
acontecido differentes vezes Todos os referidos escravos 
foram mandados para o Maranhão e Pará, e eu mesmo os 
vi, e, como fitaram satisfeitos d'esta primeira entrada, pro- 
jectam logo outra maior em outra nação mais para o in- 
terior do rio Amazonas, onde farão sem duvida maiores 
crueldades, porque vão menos numero de pessoas valentes, 
que possam ir á mão d'aquelle, que fôr encarregado de 
tudo. Por esta maneira o rio se alvorotará Ião depressa, 
que, quando Sua Mageslade quizer picifical-o, encontrará 
as maiores difficuldades, quando semelhante pacificação 
seria mui fácil conservando -se aquolle rio no eslado em 
que o deixei. Estas são as conquistas do Pará; este ó o 
trafico de que se sustentam, e esta é a juslissima causa 
porque. andam todos arruinados, sem terem que comer; 
e, se não fossem os serviços que têm foito a ambas as Ma- 
gestades, divina e humana, em resistirem valorosamente 
ao inimigo hollandez, que va: ias vezes tem derrotado 
n^aquellas terras, já Deus Nosso Senhor a teria assolado. 
Tornando pois a faltar dos tapajozes, e do famoso rio que 
banha as suas praias, digo que é de tão bom fundo, que 



— 251 — 

subiu por elle muitas léguas em oulro tempo uma náa 
íogleza de grande porte, a qual pretendeu estabelecer-se 
Doesta proviocia, e, para conseguirem dos habi tau les taba- 
cos, lhes offereciam bons partidos ; porém elles cahindo de 
improviso sobre os inglezes mataram os que poderam, e, 
aproTeilando-se das suas armas, quB ainda hoje conserYam, 
obrigaram os ouiros a deixarem a terra mais depressa do 
que haviam vindo, poupando-se agente que ficou na nào a 
passar por outro semelhante desgosto, porque logo deram 
â vela, 

77.*— CLmtlPATUBA 



A poucas mais de iO léguas da bocado rio dos Tapa- 
jQzes esta o Curupatuba, que, desaguando oo principal do 
Amazonas pela parte do norte, da o seu nome i primeira 
povoação oualdéa de gear que tem os portuguezes, a favor 
da sua coroa. Não parece ser este rio mui caudalosa de 
aguas, porém sim de thesouros, se os seus naturaes nos 
não enganam, afUrmando que. subindo por este rio, que 
elles denominam Vriquiriqui, a seis dias de caminho se 
encontra grande quantidade do ouro, que apanham nas 
margens de um pequeno riaclio, que banha as fraldas dn 
mediano sarro Vaguuracuru* Dizem também que perto 
d'este está outru sitio, cujo nome é Picuríi, d onde têm 
tirado muit^is fezes outro metal mais duro que o ouro, e 
de cor branca, que sem duvida é piata, de que em outro 
tempo fizeram machados e facas ; porém que, apenas virara 
que bem depressa se amolgavam, o abandonaram inteira- 
mente. N'este mesmo districto ha duas serras, das quaes 
uma, segundo os signaes dados pelos índios, è de enxofre, 
e a outra, que denominam ParaguaxOf affirmam que quando 
sobre elia dà o sol, e igualmente uas noites ctaras* resplau^ 
TOMO xxvni, p. u 33 



— 2:ii — 

desce laato que toda ella parece esmaltada e com rica 
pedraria, e de quando em quando arrel)enta com grandes 
estrondos ; signaes certos de que encerra pedras de muito 
valor. 

78/ — Rio GENIPAPO 

Não promette menores Ihesouros, segundo as communs 
noticias, o rio Genipspo, que, correndo pela mesma parte 
do norte, desemboca no das Amazonas, a 60 léguas mais 
abaixo do Curupatuba. Os índios dizem que nas suas 
margens ba tanto ouro que se pôde colher, que, a ser 
assim, só este rio excede com as suas riquezas todas as do 
Peru. As terras, que banha este rio, são da capitania de 
Bento Maciel Parente, governador do Maranhão, as quaes» 
além de serem maiores de que toda a Hespanha e conterem 
muitas minas sabidas, são pela maior parte de melhor 
torrâo para darem as melhores e mais abundantes co- 
lheitas, e não ha em todo o immenso rio das Amazonas 
melhores terras. Ficam todas ao norte, contém grande 
multidão de bárbaros, e, o que é mais para estimar, en- 
cerram debaixo da sua jurisdicção as afainadas e dilatadas 
terras do Tucujú, tão suspirado e tantas vezes povoado, 
ainda que com bastante damno, pelo inimigo hoUandez, 
que, reconhecendo n*ella as maiores commodidades do 
mundo, para enriquecerem seus moradores, jamais se 
podem d'ellas esquecer. São não somente próprias para 
grandes colheitas de tabaco, e capazes de muitos engenhos 
de assucar, e de muitos mantimentos com qualquer pe- 
queno cultivo, mas também tem excellentes campinas, que 
com abundantes pastos sustentam grandes e innumeraveis 
gados. N'esta capitania, a seis léguas de d'onde desagua o 
Genipapo, pelo rio acima das Amazonas, está um forte de 



- 23:4 — 



portuguezes.que donominam do Desterro, com 30 soldadosp 
e algumas peças de artilheria, que para defender o rio de 
nada serve, e sómenle aiiclorisa a dita capitania, e conserva 
em respeito os Índios, que se vâo reduzindo. Ksle forte 
deixon Benfo Maciel com auctoridade de governador do 
Carupà, que está mais abaixo em distancia de 36 léguas, 

^aoudt3 esteve situado em mui bom sitio por muitos annos, 
e aonde as nãos inimigas vinham ordinariamenle fazer os 
sens reconheciraentíis, 
'. 
««In. 



79/^RlO PARAÍSAUIBA 



Dez léguas mais abaixo do Genipapo, da parte do suli 
sahe, mui vistoso, caudaloso e cora duas léguas de boca 
vem pagar tributo ao principal rio» o que os naturaes 
chamam Paranabiba ; ha nas suas margens algumas po> 
voaçdes de índios amigost que achando-se estabelecidos 
nas suas primeiras entradas, obedecem aos portuguezçs, 
que os governam ; e para o interior vi em outros muitos, 
dos quâes, e dos mais que este rio contem nâo ha suffi- 
cientes noticias. 



80.*— RIO PACiXÉ 



A 2 léguas mais abaixo do Genipapo, principia a re- 
partir em grandes braços o rio das Amazonas, causados 
pela multidão de ilhas que n*elle se encontram alé des- 
embocar 00 Oceano ; estão todas povoadas de differentes 
nações e linguas, posto que todos entendem a geral 
d^aquella costa. São tnnias as ilhas e tão diversas as 
nações qne as haliitam, que sò para ellas seria necessária 
uma nova historia* Com tudo nomearei alguma das mais 
conh<^^idas, comu sâo as das tapuyas, auuxiares» mayana- 



- 2B4 - 

ses, engahibas, bocas»' joannas, e os valentes pacaxés, 
que nas margens do rio» de quem tomaram o nome, a 
80 léguas em distancia do Paranahiba» e da mesma parte 
tem a sua habitação» e em tão grande numero» assim de 
aldéas» como de moradores» segundo affirmam os porta- 
guezes que alli estiveram» como qualquer outra das mais 
numerosas do nosso rio Amazonas. 

81. •—POVOAÇÃO DO CAMUTÁ 

Á 40 léguas do Pacaxé está situada a aldêa do Camutà, 
que n'aquellas conquistas foi em outro tempo de grande 
fama» assim pelos seus muitos moradores» como por ser 
alli onde ordinariamente se preparavam as armadas, 
quando tinham a fazer as suas correrias : porem jà não 
tem gente» por haver-se mudado para outras terras ; nem 
mantimentos» por não haver quem o cultive ; nem alli ha 
outra cousa mais que o sitio contíguo com poucos habi- 
tantes» sempre bom» aprazivel e de linda vista» e por tanto 
convidando com a sua formosura e commodidade aos que 
o quizerem povoar. 

82.°— RIO DOS TOCANTINS 

Na parte opposta do Camutá desemboca o rio dos To- 
cantins» que ainda que n'aquellas partes tem afamado rico, 
e, segundo parece» com grande exageração» de ninguém é 
conhecido senão pelos francezes» que, quando povoaram 
as suas costas» carregaram navios da terra» que das suas 
praias tiravam, afim do que beneficiando-a em França» se 
pudessem enriquecer, sem que jamais se atrevessem a 
mostrar semelhantes thesouros aos bárbaros que n'elle 
habitam» com u justo receio de que conhecendo elles a 



— 25a - 

grande estimação que d*aqiiellas areias se fazia, as defeti- 
desêem com as irmas, para não ficarem sem lanlas 
rique^s. Nas cabeceiras d' este rio aportaram certos sol- 
dados porluguezes, que desde Pernambuco com um sa- 
cerdote em sua companbia, atravessaram todas as fraldas 
de cordilheira em busca de novas conquistas, c, querendo 
navegar por elle abaixo até a sua boca, acabaram às mãos 
dos tocantins, em cujo poder foi achado, nâo ha muitos 
annos o cálix, como qual o bom sacerdote lhes dizia 
missa, durante as suas peregrinações. 

83/— PARà 



A 30 léguas do Camulá está a fortaleza do rirão-Parà, 
povoada e governada por portuguezKS. N^ella ha um ca- 
pitão-mòr que é superior a todos os d^aquella capiiania^o 
a quem estão sujeitos outros três capities de iDrantariai 
que ordiuari amento assistem com as suas companhias para 
a defesa d^aquelia praça: todos obedecem ao governador 
do Maranhão, que eslà estabelecido ou reside em dis- 
tancia de mais de 1^0 léguas pela costa do Brasil, resu!- 
tando d aqui grandes inconvenionles no governo do Para, 
pois que, se este rio se povoar» será forçoso ficar senhor 
d'elle, por ter em suas mãos a chave de todo o rio ; e 
posto que é verdade não ser a situação, oode presente- 
mente esta, na opinião de muitos, a melhor que se podia 
escolher, indo este descobrimento avante, será fácil mu- 
dar-se para a ilha do Sol, 14 léguas mais para o mar, 
posto este, em quem todos tem os olhos fixos pelas muitas 
commodidades que oflíerece para a vida humana, assim 
na capacidade e bondade das terras para sustento da po- 
voação, como para commodidade dos navios que alli apor- 
tarem, os quaes pòJem consL^rvar-se abrigados na enseada 



- -256 — 

^guros de todos os peiigos, e quando se houverem de 
fazer ã vela com a primeira maré cheia, ficam desemba- 
raçados de todos os baixos que tornam diflBcultosos estes 
portos, commodidade esta de grande utilidade. Tem esta 
ilha mais de 10 léguas de circuito; boas aguas; muito 
pescado do mar e do rio, grande multidão de caranguei- 
jos, que são o sustento ordinário dos Índios e gente pobre; 
e presentemente é das principaes aonde vão do Pará cagar 
a carne de que precisam para seu sustento. 

Si.""— ENTRA NO MAR RIO DAS AMAZONAS 

À 26 léguas da ilha do Sol, debaixo da linha equinocial 
se espraia com S% de boca, tendo pela parle do sul ao 
Zapararà, e pela opposta o Cabo do Norte, e desagua 
no Oceano o maior pélago de aguas doces que se conhece ; 
o mais caudaloso rio de todo o orbe, o pheníx dos rios ; o 
verdadeiro Maranhão tão suspirado e nunca acertado pelos 
do Peru ; o Orellana antigo, e para tudo dizer em uma 
palavra o grande rio das Amazonas ; depois de haver ba- 
nhado com as suas aguas 1 ,350 léguas de extensão ; depois 
de sustentar nas suas margens innumeraveis nações de 
barbares ; depois de ferlilisar immensas terras e depois 
de haver passado por cl riíion de lodo o Períi, e como 
canal principal recolhido em si o melhor e o mais rico de 
Iodas as suas vertentes. 

Este 6 em summa o novo descobrimento doeste grande 
rio, que, encerrando em si grandes thesouros, a ninguém 
exclue, antes, bera pelo contrario, convida liberalmente a 
que d^elles se aproveitem. Ao pobre oíTerece sustento ; ao 
trabalhador satisfação do seu trabalho ; ao mercador em- 
pregos a fazer ; ao soldado occasiões de valor ; ao rico 
maiores augmentos ; ao nobre honras : ao poderoso es- 



— ±-^7 — 

lada; e ao próprio rei um novo e grande império- Porém 
Oft que roais se devem mostrar iuteressados aesla con- 
quista sao os zelosos da lionra de Deus» e do bem das al- 
mas, porquanto lao grande raullidão eslá chamando por 
fieis mlnisEros do Santo Evangelho, para que com a sua 
claridade se afugentem as sombras da morte, em que jazem 
miseráveis ha tanto tempo. Ninguém se escusa d*esta em*- 
preza, pois ha campo para todos e jà descoberto ; e por 
muitos que sejam os trabalhadores» que se conduzam, sem- 
pre a colheita será mui grande, e necessllarà esta vinha de 
novos e fervorosos obreiros para a cultivarem, até a sujei- 
tarem toda debaixo da chave da Santa Igreja Romana ; e 
sem duvida o nosso grande e calholico rei Felippe IV, que 
Deus guarde por muitos e felizes annos, concorrera pela 
sua parte com a liberalidade que costuma no temporal 
para o sustento de taes ministros ; e a santidade do nosso 
mni santo padre Urbano VHI, de gloriosa memoria» como 
pai e chefe, que hoje é da igreja, se taosirarâ no espiri- 
tual nao menos liberal e benigno, recebendo a grande 
fortuna de que em seus tempos se abra ampLissima poria 
para reduzir ao rebanho da igreja de uma só vez mais na- 
ções juntas, e mais populosas de quantas em toda a Ame- 
rica, desde o seu principio, se descobriram. 

Lmis Dm Virginique Matri, 

REQUERIMENTO APRESENTADO NO REAL CONSELHO nAS IJíDUS 
SOBRE O niTO nESCObHtMENTO ^ DEPOtS 0A REBELIÃO DE 
PORTUGAL 



Senhor. — Cbristovão d*Acuna, religioso da companhia 
de Jesus, que por ordem de Vossa Magestade veiu ao des- 
cobrimento do grande rio das Amazonas, cuidadoso sempre 



- «58 — 

dos Biaiores augmeotos da real oorôa, e receioso de qoe 
acoDtecimeolos menos faYoraYeis, vistos às nossas portas, 
afoguem e empeçam o luzimento dos seus affectuosos ser- 
viços, diz que, ainda que é verdade que a principal porta 
d'aquelle novo mundo descoberto, para com maior brevi- 
dade se principiar a desfructar os proveitosos e ricos fruc- 
tos que liberalmente oilerece, é a sua boca principal pela 
parte que desagua no oceano, nas costas do Brasil, sujeita 
a portuguezes, e por isso menos própria para por ella se 
procurar presentemente fazer aquella conquista, nem por 
isso deve Vossa Magestade desistir, nem demorar a posse 
d'este grande rio, porquanto com mais facilidade e muito 
menores despezas a poderá conseguir pela provinda de 
Quito, nos reinos do Peru, pelas mesmas entradas por onde 
elle e seus companheiros desceram, e resultando indubita- 
velmente grandes utilidades ao serviço de Deus Nosso Se- 
nhor e de Vossa Magestade, e evitando-se não menores in- 
convenientes, que se experimentarão, e talvez sem remé- 
dio, se com brevidade assim se não executar. Poderá 
effectuar-se sem consideráveis despezas da real fazenda, 
enviando-se ordem á chancellaria de Quito para que capi- 
tule as entradas mais convenientes pelos rios, que dentro 
de sua jurisdicção desaguam no principal, com algumas 
das muitas pessoas que á sua casta se oíTerecem a fazer es- 
tas conquistas unicamente pelos interesses que d'ellas se 
tiram, como s5o . as commendas dos indios, repartir ter- 
ras, prover olficios e outros semelhantes, commeltondo-se 
ao mesmo tempo o espiritual d'ellas, relativamente à con- 
versão e ensino dos naluraes, aos religiosos da companhia 
de Jesus, cujo instituto ó este, já que com não pequenos 
titules a este particular descobrimento podem mostrar 
algum direito, pois que seus filhos não somente têm acla- 
radOy à custado seus trabalhos e desvelos, e ainda de mui- 



— 2nO — 



tos ducados, as sombras de um novo e dilatado imperio.que 
' banhado por este grandioso rio, oííerece crescidos aug- 
' mentos à real coroa de Vossa Magestade» além da posse de 
mais de 40 aooos adquirida com o sangue do ditoso 
tpadre Raphael Ferrez, derramado pelos naíuraes a quem 
'pregava nos princípios doeste rio : continuando a perder 
estó direito os padres da companhia, que por Santiago 
da Montanha, ha annoSt cultivani com a sua doutrina os 
principaes ramaes d'esta nova conquista, para continuar 
na qual se necessita n*aqutílla província de Quito do novos 
obreiros da Europa» qun os coadjuvem em tão copiosa co- 
lheita. O que Vossa Magestade proverá com a piedade 
costumada, ea liberalidade que pede a necessidade extrema 
de tanta immensidade de nações dillerentes, resultando 
d'ahj os seguintes proveitos ; 

O primeiro, e que sempre é o principal no cLristiauissimo 
peito de Vossa Magestade, dar-se, sem mais demoras, prin- 
cipio á conversão de um novo mundo de InQeis, que 
miseravelmente jazem na sombra da morte ; obra tanto 
do serviço de Deus, que não pude oíTerecer-se outra que 
mais lhe agrade, e tal que por elle se considerará como 
obrigado a estabelecer com perpetuidade a coroa de Vossa 
Magestade, e novamente a accrescentar com maiores im- 
périos. 

Osepndo, pouparem-se âs muitas despezas que, como 
necessárias, indispensável mente se haviam de fazer, in- 
tentando-se esta conquista, como se projectava, pela boca 
do rio, t*m conduzir soldados, preparar embarcações» 
ajuntar petrechos, e ludo mais necessário para formar no- 
vas povoações, o que ludo occasionaria grandes despezâs, 
as quaes se evitarão mandando-se que lenha principio esta 
conquista pelas entradas de Quito, porquanto os particu- 
lares, a quem íòr commeKida, farão gostosamenie todas 
TOMO xxviu, p. I. 34 



— ãiio — 



âs deípeías, e unicaitoenle carecerSo para o espíriluâl d'eUa 
de obreiros e mioislro.s aptos do Evangelho, que Vossa 
Mâgeslade envíari de Hespanha, pela extrema necessidade 
que d^elles ha n^aquellas partes, 

O lercciro, começar Vossa Mâgeslade a possuir e gonar 
doqiie todos os senhores reios, seus predecessores, úe^dm 
oieuhor Imperador Carlos V, que Deus haja, dipo visavô 
de Vossa Magestade, desejaram, e com despezas e diligeo- 
cias nào pequenas procuraram sujeilar á sua real coroa» 
para o que, no annode Í5l&, u mesmo Senhor Impera- 
dor Carlos V mandou dar a Francisco de Orellana ires 
nafioscom sufBciente gente e pretetios, para que, em seu 
real nome» tomasse posse d'este grande rio das Ama- 
zonas (qiie, nove annos antes, elle havia navegado) 
em razão das mui las utilidades qiie de seraelhanle execu* 
Qâo se esperavam, posto que as tormentas e morte de 
quiftí lodos os soldados o obrigaram a que, reduzido a uma 
Qniea embarcação, arribasse á Hargarída, cassando com o 
sen infeliz successo as esperanças que a HespanUa se pro- 
mettía, se tivessem obtido melíior fortuna naquetla ex- 
pedição ; e Vossa Magestade desde o principio do seu rei- 
nado, que dure por muitos e felicíssimos annos, oceupoci, 
e poz todo o seu desvelo em conseguir isto mesmo, com« 
mettendo a execução doeste descobrimento a varias pes- 
soas, como consta de vários dipl<»mas, despacliados n'esta 
conformidade nos annos de I62t, 1620 e 163b; o de il 
expedido á real audiência o chancellaria de Quito para 
que se estipulassem as condições, que para o referido d©&- 
cobrtmento fossem convenientes, com o sargento-mór Vi- 
cente dos Rei» Villalobos, então governador e capitão gene* 
rsi dos Qtiíxos, juriadicção de Quito, o qual não teve effeito 
por chegar o seu successor no governo : o de 26 expedido a 
fãVíw de Bento Maciel Pâreate, portugnez de naçSo, para que 



- 2IH - 



pelas provi nciis Jo MarânhSo e Grão-Pará, que Oêtlo na 
boca «leste rio principiasse o seu descobrimento^ o qual 
lamlicm nâoso executou por serniandado acudir â guerra 
de Pernambuco : o de 34, expedido a Francisco Coelho de 
Carvalho, porluguez, que então era governador do Mara- 
nliào e Pará, com ordem expressa de que com a maior 
brevidade por pessoas de confiança, e, ^e f*>sse necessário, 
por elle mesmo se desse principio por aquellas partes ao 
que tanto se desejava, e que nunca sorti q eíTeilo ; 6, pre- 
sentemente, querendo-o assim Vossa Mageslade, terão felix 
execução, t; para o futuro se verão diariamente maiores 
vantagens do que as que se promettiam. 

O quarto, fechar-se por esta maneira a porta a que nin- 
guém do Peru intente arrojar-se com os seus thesouros 
pelas correntes d*esle rio, pi>r evitar pagar os direitos, que 
por Cartaf^euM se pagam a Vossa Magestade, e fugir dof 
riscos dos corsários, que qtiasi sempre andam frequente- 
mente por aquellas parles ; pois que é certo que o hão de 
pretender assim fazer por occasião da facilidade com que q 
poderão executar, a que ninguém se atrevera, seguros os 
portos principaes das suas entradas, como realmente fica- 
rão por meios das pessoas que por elles começarem a con- 
quista. 

O quinto, obstar ao trafego e communicação, que lanto 
desejam os ptirlnguezes que habitam na boca doeste rio, 
fazer com os da sua nação residentes no Peru, o que n'estefi 
tempos será assas prejudicial. E se elles soubessem que 
Cí*m tempo se previnia a sua malícia, lomando-lhes todas 
as entradas, é certo que se nâo atreviam a intental-o? 
sendo certo que os portif^uezes das costas do Maranhão 6 
Pará intentam esta (xiinmunicação, o que eu sei com toda 
a evidencia, e o poderei afUrmar como testemunha do o 
ouvir muitas vescs a eUes mesmos. 



— 262 - 

O sexto, reduzindo Vossa Majestade á sua obediência as 
príncipaes nações d*este rio, e particulannentL' as que ha- 
bitam as libas e as margens, e são mui bellícosas, e com 
valor ajudarão aquelles que uma vez reconhecerem por 
seus senhores ( pouca ou nenhuma resistência farão, em 
razão das muitas guerras que continuadamente tém umas 
com as outras ; e sujeitando-se uma, as mais com facili- 
dade se sujeitarão também], poderá pelo mesmo rio abaixo, 
melhor ainda que pelo mar, expulsar da boca d*elle a 
quaesquer outras que com sinistro titulo a possuírem, e 
assegurar por esta maneira os muitos e riquíssimos fructos 
que d*elle se esperara, cujo gozo será retardado unica- 
mente pela demora na sua posse ; e, dado o caso que com 
brevidade, como esperamos, se ponha freio e se castigue 
o mal olhado atrevimento dos portuguezes, e que fique 
desembaraçada a boca d* este rio, para que por elle se con- 
siga a conquista, principiada esta, desde já, pelas entradas 
de Quito, se tornará mais fácil e menos se despenderá para a 
conseguir com felicidade. 

O sétimo, deve-se advertir com mais particular cuidado 
que já os indios em todo o Períi, e quasl em todo o desco- 
berto, e em especial aonde ha minas e outros estabeleci- 
mentos de importância que dependem do seu trabalho pes- 
soal, estão tão acabados, como poderamos aíD mar os que 
havemos corrido aquellas partes, e todos os dias vão em 
tanta dimlnuiçlo, que em poucos annos pela sua falta ces- 
sarão, ou pelo menos diminuirão sensivelmente os muitos 
interesses que da sua existência dependem; damno incontes- 
tavelmente grande, e que VossaMagestade deverá esforçar-se 
prevenir com tempo, e remediar por todas as maneiras pos- 
síveis, não havendo, nem podendo imaginar-se outras, a 
não ser, tomar mui a peito a conquista e conversão d*este 
novo inundo, onde são tantos os seus habitantes que pode- 



~ 263 — 



rão de novo povoar todo o despovoa ri o do Verh ; e^ se se 
sujeitarem ao jii?» do Santo Evangelho» e €om a paz geral 
cessarem as gnerras continuadas era que diariamente se 
arruinam reciprocamente, augmentíir-se-hao tanto, que, 
rompendo os limites» por serem estes pequenos, será for- 
çoso estabelecerem-se por mais espaçosos reinos. E» até 
mesmo se por meio frplles se heneficiassem unicamente as 
muitas minas, e o mais que nas suas nações offerece a fer- 
tilidade da terra» se deverá, qual outro Peru, aceitar im- 
mediatamente a sua conquista, e mui principalmente com a 
facilidade que aqui se olTerece. 

O oitavo, se succedesse quo os portuguezes que estão 
na boca do rio ( que tudo se pôde presumir da sua pouca 
christandade e nenhum:i lealdade ] qnizessem, ajudados de 
algumas nações bellicosas, que lhes estão sujeitas, peneirar 
por elle acima até chegar ao povoado do Peru, ou do novo 
reino de Granada; e ainda que por algumas partes achariam 
resistência, por outras muitas encontrariam pouca ou 
nenhuma, por sahirem a povos mui faltos de gente; e 
emfim pisar-im aquellas terras vassallos desleaes de Vossa 
Magestade, bastando, em reinos lao distantes, o nome de 
desleaes para causar gr^vissimos damnos. Pois se unidos 
Cí)m os hollandezes, como estão muitos do Brasil, inten- 
tarem semelhantes atrevimentos? E' bem evidente o cui- 
dado, que nos poderão dar* Que o? hollandezes desejara 
ha muitos annos,e procuram deveras senhorearem -se d'este 
grande rio, é cousa tao cerla* que não duvidou aíBrraal-ci 
epublical-o João Laeth, auclor hollandpz no livro que 
intitulou — Utrimquê Ámerka — e sahiu à luz no anno de 
1033, e n^elle no livro f 7 cap. XV in-fíne diz estas palavras: 

a Virum tamen tamhi ( sei I ice t Angeli et Hiberni) quam 
nostrí (scilicet Belgi) a Portugalis, a Para venienlibus, 
jnopinato oppressi et fugati non leve damnum fecerun ^ 



— 2G4 — 

perpesi; ad quod rcsarcíendum; et aecepUs injarías 
viodicandas maiori cGoato^et ?iríbos institotam repetere el 
Ulcere satagunt. » E no mesmo livro no cap. 2* diz: « Port 
anoum autem 1615 Poriugalii ad Pararipam, qoi sine 
dubíu.n bujns magni flumini^ ramus est, coeperont íncolrai, 
ut ante díximus, et an'mum ade cetpra forte adjicientes* 
nisi ab Angelis et Belgis nostris imp(?diantur. » Donde se 
collige evidentemente que se oshollandezes dilatam a cob- 
quista d'este grande rio, de que falia o auctor n'estas doas 
passagens* é porque mais nâo podem, e não porque lhes 
faltem ardentes desejos, e verdadeira estimação do muito 
que ganhariam em a executar. Acautele, portanto. Vossa 
Magestade estes tão graves damnos, que este seu fiel 
vassallo lhe propõe, e não permitta que haja lugar de 
algum dia chorarmos perdas, quando presentemente se nos 
offerecem grandes lucros e vantagens em todo o género. 

Finalmente, se com o andar do tempo se sujeitar e 
aplanar a passagem por este grande rio, e aclarar as en- 
tradas que ha por elle, por todo o Peru, e se se quizer 
reduzir a esta viagem tudo quanto d*nquellas partes enri- 
queça a Hespanha, eu me gloriaria de haver feito a Vossa 
Magestade um dos maiores e mais proveitosos serviços, 
que se podem esperar do um vassallo: não somente se 
pouparão grande somma de ducados em iinmensasdes- 
pezas que serão indispensáveis emquanto durar o trajecto 
de Panamá e Carlagema, as quaes seriam mui módicas por 
este rio, por ser por ai2[ua e ajudarem as suas correntes, 
mas timbem ( o que é de maior consideração ) assegurará 
Vossa Magestade de uma vez os seus fortes, e sem o 
minimo receio tle corsários porá em salvo lodos os seus 
thesouros, pelo menos até chegarem ao Pará, d'(mde em 
2i dias por mar alio, com líaloões feiljs uo mesmo rio, 
a lodo o tempo passarão á Hespanha, sem que inimigo 



— à65 — 

algum os possa esperar á sabida, por ser a cosia do Pará 
tal, que nem dois dias podem os navios fora do rio resistir 
às correntes do mar. Consequentemente cessarão de uma 
vez os grandes cuidados, que todos os dias nos causa tão 
perigosa e tão dilatada viagem, como é a de Cartagena. 
Tudo, senhor, se remediará com o que tenho proposto 
n*este requerimento, ao que somente ajunto, que a maior 
parte do bom successo n*esta matéria será a brevidade na 
execução. E se eu para alguma cousa servir sempre 
estarei ao pès de Vossa Magestade. 



RIODE JANEIRO— Typ. de Piutieiro òl G.*, rua 7 de Setembro, i65. 



índice 

DAS MATÉRIAS CONTIDAS NO TOMO XXVIII PARTE 
PRIMEIRA 

PRIMEIRO TRIMESTRK 

Diário da viagem feita pelos sertões de Guarapuava ao rio Pa- 
ranan, porCamillo Leilis da Silva 5 

Mato-Grosso por Goritiba e Tibagy. Itioerario da viagem que fez 
ao baixo Paraguay o capitão Manoel Joaquim Pinto Pacca. . 32 

Informação sobre o modo porque se elTectua a navegação do Pará 
para Mato-Grosso, e o que se pode estabelecer para maior 
vantagem do commercio e do Estado, por D. Francisco de 
Sousa Coutinho i 38 

Exploração do rio Paraguay e primeiras praticas com os índios 
guaycurús , • . • 70 

Expugnação pelos hespanhòes do presidio de Nova Coimbra. . 89 

Fundaçiío de Villa-Maria do Paraguay e providencias para o seu 
engrandecimento 110 

Estabelecimentos de Nova Coimbra e Viseu, e noticia de um 
màppa geographico por onde se mostra a corrente do Guaporé. 118 

Construcção do forte do Príncipe da Beira, e conservação de 
outros estabelecimentos 121 

População da capitania de Mato-Grosso em 1800 123 

Breve memoria relativa a chorographia da província de Mato 
Grosso, por Augusto Leverger. 129 

Documentos relativos a prisão de M. I. da Silva Alvarenga, Ma- 
rianno J. Pereira da Fonseca e outros, por ordem do conde de 
Rezende ". 157 

SEGIND» TRIMESTRE 

Novo descobrimento do grande rio das Amazonas, pelo padre Ciiris- 
tovão dWcuna 163 



REVISTA TRIMENSAL. 



REVISTA TRlMEiNSAL 



DO 



INSTITUTO HISTÓRICO 

GEOGRAPhICO, E ETHNOGRAPHICO DO BRASIL 



3* TRLMESTRE DE 1865 



ESTUDOS HISTÓRICOS 



ANNAES DA PROVÍNCIA DE GOYAZ 

POR 
J. M. P. DBALBNCâSTRB 

CAPITULO XV 
(1800—1803) 

Viagem de D. João Manoel de Menezes pelo Araguaya. ^Motivos d'esU 
viagem.— Assume o governo da cafútania.— Procedimento de TrístSo 
da Cunha. — Os dois partidos em campa — Excessos que se prati- 
cam.— Manda á camará que intime a Tristão da Cunha para que se 
retire da capitania. — Prisão do intendeqte Manoel Pinto Coelho. — 
Intervenção da camará.— Prisão de D. Joãa — A villa em alarma e 
a força publica em armas.— Prisão dos camaristas. — O intendente 
é conduzido para a aldèa de Pedro III (Carretão). — Gan^^cter de 
n. João.--Seus serviços administrativos.— Horto Botânica —Instruc- 
v^o publica. — Presidio do Araguaya.— Leva de tropas para Mato- 



— 6 — 

Grosso.— D. JoSooo desagrado do prí'!cipe regente. —Devassa. — 
D. Francisco de Assis Mascarenhas, seu successor.— D. Manoel de 
SanfAnna Alves e o vigário geral da Nati\idade, Luiz José Custo- 
dio.— â missão e o missionário.— Ordem de prisão.— D. Manoel re- 
siste.— Quem era esse missionário ? 

Tendo D. João recebido, poucos mezes depois de no- 
meado governador, a caria régia de 12 de Maio de 1798 
(62), na qual se lhe determinava que, de combinação com 

(02) D. João Manoel de Menezes, etc. Eu a Rainha vos envio maíto 
saudar. Porquanto tenho determinado promover efficazmente a 
riqueza, a felicidade e commodo dos habitantes d'essa parte do Bni* 
sil, sou servida, além de outras providencias já dadas, dar outras 
para a communicaçào de umas capitanias para outras, encarregando 
da sua execução e da sua direccAo e inspecção de todos os trabalhos 
que requer a realização do plano que mando pòr em pratica o go* 
vemador e capítão-general da capitania do Pará, D. Francisco d« 
Sousa Coutinho; e porque a sobredita communicação se ha de fazer 
pelos rios, ordeno-vos que, conformando-vos, como quero e man- 
do vos conformeis com o que vos íòt proposto pelo referido gover- 
nador, e de accordo com elle quanto ao tempo e ao modo de prin- 
cipiar e proseguír os trabalhos necessários, façais explorar os rios 
que correm pelos districtos d'es8a capitania e que vão levar as suas 
aguas ao Amazonas, e que por elies se façam descimentos em épocas 
determinadas, que vos annuncíar o governador do Pará, de sorte 
que em lugar dado venham encontrar-se com as partidas que do 
Pará subirem pelos mesmos rios, afim que por este modo se façam e 
continuem as exploraçi^es, que de todos os rios» que do interior do 
fírasil vão desaguar n'aque1la capitania e suas costas, vindo assim a 
conseguir-se os preciosos conhecimentos para se regular depois a 
mesma communicação, conGando do vosso zelo pelo meu real ser* 
viço que executareis com actividade, promptídão e desvelo tudo o 
quts para aquelle fim vos f(\r proposto e ordenado pelo sobredito 
governador e capitão -general; porquanto é por expressa ordem 
minha tudo o que elle emprehender e vos participar. O que vos hei 
por ordenado e mui recommendado para que assim o cumprais e 
façais cumprir, não obstante quaesquer ordens em contrario. Es- 
cripta no palácio de Queluz, em 13 de Maio de 1798. — Príncipe, 



D, Francisco de Sousa Coutinho, emprebendesse a explora- 
ção e naTegaçao dos rios da capitaoia, que ?ao desaguar no 
Amazonas, e que executasse para esse fim tudo quanto lhe 
fosse diclâdo peto governador, de que tratamos, partiu de 
Lisboa em direitura ao Pará, oude demorou-se, para melhor 
conbinar o que devia fazer na conformidade d'esta ordem 
tao terminante, e cuja boa extjcução muito importava, 

A 111 embarcando-se, subiu o Tocantins, entrou pelo Ara- 
guaya, e foi ler ao porlo de Sania Rila, donde seguiu por 
terra para Villa Boa, 

D'este modo quiz por si mesmo estudar os meios 
de cumprir as reaes recommendaçoes, desprezando assim 
os ioeúramodos por que ia passar, atraTessando mais 
de quatrocentas léguas despovoadas, e mm recursos, 
além de oxpõr-se aos insultos dos selvagens, que habita- 
vam uma e outra margem do rio. 

A chegada de D. João á capital foi uma sorpresa agradá- 
vel para os inimigos de Tristão da Cunha, quu desde logo 
começaram a mauifestar por actos o seu contentamento, o 
que de algum modo estimulou o orgulho e o amor própria 
do ex-governador* 

Também esle nao recebeu, como era de justiça e dever 
de cortezia, ao seu successor e parente com as cordiaes 
manifestações que se esperava, E» manifestando despeito, 
por ver a satisfação dos que o tinham hostílisado, no dia da 
posse do seu successor, togo depois do acto religioso^ que 
era de estylo, retirou-se da igreja, deixando de acompa- 
nhar a D. João ao quartel-general da sua residência. Ou 
acto irrertectído fosse ou iutencíonal, é certo que esta gros- 
seria e incivilidade causou estranheza a todos, e foi hábil* 
meule aproveitada pelos seus inimigos, como arma pre- 
ciosa de intriga. 

Uma testemunha ocular dos tristes acontecimentos doesse 



— 8 — 

tempo» esboçando o governo de D. Jo2o, assim se ex- 
prime: 

« L(^o depois da sua posse na matriz, teve o seu foco a 
discórdia de Goyaz, por não ser acompanhado ao quartel 
da sua residência pelo seu antecessor e primo, que da igreja 
se retirou. 

« D'aqui cresceu a intriga, que perturbou a boa ordem 
de todas as cousas de Goyaz. A* demora do seu antecessor 
acudiu depois a emulação, e fez partidistas, que Ibe tor- 
naram suspeitosos os seus súbditos, ainda os mais obe- 
dientes: em quasi todos se lhe Ggurava ver régulos e 
anarcbistas (estes os valiosos nomes que lhes inspiravam 
e que dava a todos] e a todos ameaçava com a mais severa 
vingança, à excepção dos satellites da intriga, que sempre 
applaudiu, e teve a desgraça de não poder conhecer, sendo 
que a malignidade é que lhe acendeu o animo e alterou a 
rectidão de suas intenções. 

« Principiou affavel e beneflco, estabeleceu sociedades 
que frequentou, mas pessoas mal intencionadas achavam 
occasião apropriada para desafogo de vinganças particu- 
lares e para augmentar os interesses próprios, e lhe repre- 
sentaram suppostas infidelidades, tornando tâo critico o 
tempo d'esse governo que tudo era perigoso, e a mesma 
prudência mais encanecida. 

<c Fulminou, trovejou, ferveu a dissenção entre dois 
grandes, e assustado tremeu o resto do povo. 

« Amíudaram-se então as representações ao tbrono, e, 
quando a camará incorporada foi intimar ao seu antecessor 
a sua retirada, apresentou este um aviso para se demorar 
o tempo necessário para exlrahir os documentos que pre- 
tendia e se lhe denegava. 

<c Então enviou o seu ajudante d'ordens a Lisboa afazer 
novas representações a este respeito : — auctorisou o outí- 



— 9 — 



dor de Malo-Grosso* que passava, a tirar devassas em terri- 
torioalheio contra o ouvidor Liz, que jà linha dado residên- 
cia, e oulros mais : enlao fez prender, sem tomar contas e 
dar balanços, o thesoureiroe escrivão, deputado da junta da 
real fazenda, o thesoureiro da casa da fundição e outros, 
nomeando-ihes serventuários, e conservando-os muito 
tempo em si^gredo, o que tudo se fez com um apparato mi- 
litar, qm inspirava temor a toda a villa. 

í( Então se flzeram reposições aos cofres de ordenados 
que se tinham recebido, e que depois foram mandados res- 
tituir por Sua MagesEade- Kntao, finalmente, uns foram 
exterminados para fora da capitania, outros para dilTe ren- 
tes lugares da mf sma, e quasi todos ameaçados dos mais 
seteros castigos. Mas nem cora tudo isto socegava a in- 
triga, fervia cada vez mais a obra da iniquidade, a cada 
jm&} sonliavam e apresentavam a este gt»vernador ataques 
feitos contra a sua pessoa e a sua honra, de sorte que uma 
jaiiella fechada com estronJo por uni golpe de vento síí 
figarou como um violento tiro de pedra que so lhe fazia. 
Veiu a supposta pedra criminosa a juisío, fez-se auto dii 
corpo de delicto em uma mossa da dobradiça da janella, e 
se procedeu á celeberrima devassa, em que, depois de se 
macularem pessoas innocentes, aOnal Gelaram criminosos e 
obrigados a livramento os mesmos que contra ellas tinham 
jurado. Com isto dobrou a guarda de sua pessoa, prepa- 
rou a artilhe ria, que assestou contra a casa do seu ante- 
cessor, municiou as tropas que velavam â noite^ e com o 
alarma aterravam, reformou e povoou as cadêas, e fez assim 
esperar, antes da consummayão dos séculos, o dia rio juízo 
universal, » (63; 

A pintura carregada eom que desenha o auctor o quadro 

Cl. A. Silfa e Souza. Hfim* tioy 
TOMO xxvnr, p* ii. í 



— ia — 



da administrarão de D. João iam mui lo de exaola ; ma& è 
bom saber que, ooulemporaneo d^esses deploráveis acon- 
tecifneotoSt lambem teve Q'eiles parte corno ura dos amigos 
de Tristiio da Cunha, 

Ambos os personagens foram eu I pados ; Trislao da 
Cunha por nào saber respeiLar-se^ D* João por não saber 
dissimaUr. 

O cirtirgíno-mor Joso Manoel Antunes da Prola, âuclor 
da ama historia do Goyaz, reíerindo-se a este governador, 
faz-lhe jusliça, dizendo : << que tinha boas intenções, e de- 
sejava acertar; porém, infelizmente» mo sabia fazer es- 
coLha dos homens^ e dava ouvidos a muitos, que o i&\^ 
díam, n (64) 

Ambos tinham os mesmos defeitos como administrado^ 
res; mas dislinguia-se Trislao da t^nha pela sua perícia 
em manejar a terrível anaa da intriga, que muitas wtesé 
uma arma de dois gumes, que não sò fere â victima eomo 
o algoz. Foi o que succiídeu : querendo ftizer mal aos seus 
contrários» fez mal ao seu successor, e alinal se véiii a pre- 
judicar a si mesmo. Níl hOra suprema da justiça foi TrisLío 
da Cunha envolvido n'essa rèdo infernal, que teceu por suas 
próprias mãos. 

Os factos succedidos no mez de Mato de 1803, por occa-* 
siâo de ser preso o Dr< Manoel Pintu Coelho, intendente do 
ouro, nao se podem dizer filhos da imprudência o do ca- 
racter violento de D* João ; mas devem ser levados em 
culpa ao seu antecessor, que, empurdiando o facho da 
discórdia, fez sublevar todos os ódios e atear todas *as 
más paixões 6 ã imprudência do mesmo intendente. 

Foram tão repetidos os i d sul tos, tantas ns provocâçOes 
desrespeitosas recebidas dos apaniguados de Tristão da 

[U) Pãlriota; anno 1814, n. t, pag. 33. 



— u - 



Canha, que, apurada a paciência de D- João, esgotado o 
cálix da amargura até ás íeses» toda a energia do seu carac- 
ter cumeçou a raanifeslar-se em actos, alguns de injustifi* 
cavei violência* 

Vejamos o qtie deu origem k prisão de Manoel Pinto 
Coelho, Não era D. João pouco zeloso do camprimento dos 
seus devereSf nem condescendente que tolerasse abusos • 
Vendo que a renda da capitania decrescia espantosamente» 
qoê era preciso fazer economias^ havendo muito onde 
realizal-as» apresentou em junta da fazenda um plano de re^ 
forma económica, que em algumas das suas partes signiC- 
caia reprovaíâo de actos do seu antecessor, e em outros 
redundava em prejuizo de alguns dos seus deputados, par- 
ticularmente de Manoel Pinto. 

Este plano de reforma encontrou da parte do procurador 
da fazenda a mais decidida e tenaz oppúsição ; e no parecer 
escripto, que foi convidado a dar sobre elle, nao se limitou 
a combater o projecto, mas passou a aggredir o gover- 
nador, mént^scahando da sua auctoridade, Nao contente de 
proceder de um mudo t~(o insólito» ainda foi além, capi* 
tulando uma accusaçãu dt^sabrida contra os actos adminis- 
trativos de D. João- 

Este procedimento do procuradur da fazenda fez-Ihe tão 
má impressão que, escrevendd a propósito ao secretaria 
doestado, assim se exprimiu, profundamente desanimado : 
« O meu procedimento em cortar os abusos sâo desvir- 
íubáíqí ; os meus planos acham aqui sempre opposiçao, e 
sáo diíBceis a praticar pelos obstáculos do partido e da par- 
cialidade. >» Faltando do seu plano de reforma ; ^ A digni- 
dade com^que representei ajunta da real fazenda, os remé- 
dios de que se devia fazer uso para obstar a sua mina, o 
inleresse que uella mostrei para" que fossem pralicados» 
não uarecíiLm a triste recompensa de serem obstados pelo 



- 42 - 

pedantismo e crassa ignorância do dilo procurador da fa- 
zenda, levando o seu delírio a proferir falsidades para me 
insultar e uIlR^ar, e d'esie modo satisfazer ao seu amigo e 
protector Tristão da Cunha Menezes, com quem todos os 
dias confere, e os do partido da opposiçao, cogitanio 
sempre nos meios de me insultar e transtornar os meos 
plano8« X» 

Desgostoso D. João dos factos que todos os dias sncce- 
diam em Villa Boa, retirou-se para uma chácara no arraial 
do Ferreiro. 

No dia 1* de Maio alli fui ter o intendente e lambem ou- 
vidor interino, afim de declarar ao governador que por 
aquelles dias seguiria para Meia Ponte em diligencia do seu 
officio. 

O tom do recado e o mào humor do governador concor- 
reram para que esta audiência não fosse nem mesmo atteo- 
ciosa. D. João declarou-lhe peremptoriamente que ido 
podia dispensar a sua estada na capital ; que aguardasse a 
diligencia para depois da chegada do ouvidor MouiCo ; 
e, finalmente, que a sua retirada era motivo para não po- 
der haver junta, e que esta já havia representado, mos* 
trando o incobvenienle doesta falia. 

Àpezar do que ouvira a J). João, no díaã oí1iciou4he, 
pedindo a nomeação interina de um procurador da fazenda, 
e solicitando outras providencias, por isso que era irrevo- 
gável a resoIuQDo que tinha tomado de ir à Meia Ponte. 

Foi a reproducção de facto idêntico que se deu com 
um ouvidor interino no governo de Tristão da Cunha, como 
vimos, mas sem as falaes consequências que d'esle se ori- 
ginaram. 

Declarando por toda a parte Pinto Coelho que não cum- 
pria as ordens do governador, apromplava-se para no dia 
18 partir para Meia Ponte. No dia aprazado, porém, apre- 



- 13 — 



sentou-se-flif* '" ajudante d*oriletis, Álvaro José Xavier^ 
e ÍDlimou-lhe de ordem de Sua Magestade a suspensão de 
todos os seus empregos, declarando -o também preso em 
sua casa atò nova ordem. 

O intendente, resistindo com umapistola» tentou montar 
a carallo; intervindo, entretanto, a fijrça, e comellao 
ajudante, Marcellino José Manso, foi Coelho desarmado, 
e conservado preso sob a gnanla de um tenente de 
dra*íÕes. 

O governador, que reeeiava a preseTjra do intendente na 
vdia, resolveu fazél-o sabir em 48 boras para a aldôa de 
Tedro III, até que pudesse dar lhe outro destino, e n'este 
sentido deu suas ordens. 

íí*este mesmo dia, à tívrde. chegou á capital o ouvidor 
Mourão: us amiííosdo intendente faramaoseu encontro, 
e, tanto se empenharam para que interviesse em favor do 
preso, que nao teve remédio senão empregar os seus bons 
oíBcios junto à pessoa do governador; mas não sò nada 
consísguiu, oomo teve ordem de ser elle próprio o executor 
das que anteriormente tinha D, João dado. 

Paraiavitar o degredo, e ganhar tempo, requereu Coelho 
uma inspecção de saúde, cora a qual provou nao poder se- 
guir viagem* Por intermédio do ouvidor chegou esta cir- 
cumstancia ao conhecimento de D* João. 

Telas 10 horas da manha do dia 17, pouco antes da hora 
marcada p;ira a sabida do intendente, a camará cm corpo- 
ração e arvorando o seu estandarte foi ter com o ajudante 
Marcellino José Manso, e intimou-lhe que substivesse no 
cumprimento das ordens do governador. 

O ajudante e o secretario do L^overno, Manoel Joaquim 
da Silveira Félix, se transportaram immedialamente ao 
sitio do Ferreiro, afim de com mun içarem a D. Joio o que 
ocDírria, 



— 14 — 

N'essa oecasião foi laesente ao mesmo governador o 
officio de Mourão, parlicipando que o preso uâo podia fazer 
viagem, por ter eíTeclivamente adoecido. 

Pouco depois regressou do Ferreiro o ajudante Manso, 
deixando em companhia do governador o secretario e o 
capitão-mór da villa» António de Sousa Telles. 

Sendo mais de 3 horas da tarde» c vendo a camará que 
o governador não deferia o requerimento do intendente, 
apoiado no testemunho insuspeito de Mourão, dirigiu-se 
a este, e intimou-lhe que não cumprisse ordem alguma 
emanada de D. João, c em seguida foi declarar ao ajudante 
Manso que se considerasse preso até segunda ordem da 
mesma camará. 

Dadas estas providencias, partiu a camará em corpo- 
ração para o Ferreiro, e alli chegou ás 5 horas da tarde. 
N'esta mesma occasião recebia Manso a seguinte carta do 
governador: 

a Recebi a sua carta ás 3 horas da tarde : ella me obriga 
a tomar a medida de encarregar ao Dr. ouvidor da comarca 
o pôr os meios de calmar a tempestade levantada por esses 
facciOvSOS camaristas, para cujo fim Vm. entiegará logo 
esse meu oíTicio, que remetto incluso, para que de mutuo 
accordo com o Dr. ouvidor determinem o que parecer mais 
conveniente ; e, no cuso que Manoel Pinto Coelho, inten- 
dente que foi, se ache molesto (como aQinna\ não ponha 
em execução a minha ordem de o fazer sahir esta tarde, 
esperando até que melhore ; poderá igualmente recolher 
a tropa, se assim as circumstancias exigirem, confiando na 
sua prudência, se conduza sobre este importante objecto 
como lhe parecer melhor convir á tranquillidade publica e 
serviço do Príncipe Nosso Senhor. Silio do Ferreiro, 4 ho- 
ras da tarde do dia 17 de Maio de 1803.— D. João Manoel 
de Menezes. » 





— 15 — 



Se O sargetnto-murMarcellioo tivesse algumas horas anles 
recebido esla ardom, a lempestartti se lona desfeito, 6 a 
camará não se excederia do procedimenlo que ttive, proce- 
dimento altamente criminoso^ corao passamos a vêr. 

ApresenlandO"se ella ao goviiruador, foi conveoiente- 
mente recebida, e nesse aclo inlimou-lbe o secretario 
d' essa corpuraçãu ordem de prisão por crime de lesa-ma- 
gestade» devendo por islo a*nsiderar-se desde aquelladata 
apeado das fuucções de governador e capiiâo-generaL Em 
seguida foi também intimada ao secretario do governo 
ordem de prmo, sendo para admimr que d' ella escapasse 
o capitio-mòr dacoraârca, que se achava como governador 
e ora testemunha doesta scetia- 

D. João, com calma apparenle e ironia nos lábios, de- 
clarou simplesmente que ficava certo da resolução da ca- 
mará; e, ao relirar-se esta» fez saber ao governador» que 
corasigo conduzia o secretario : antes, porém, da sua par- 
tida, lAl^o D. João entrar em um gabinete particular, e es- 
crever a seguinte ordem : 

« O sargeato-mòr, ajudante das minhas ordens, Mar- 
cellino José Manso, mandara pegar em armas a toda tropa, 
que puder ajuntar das quatro companhias do regimento do 
iíifanlaria dos pardos, cavai 1 ária e Henriques, e me enviará 
um pequeno reforço para minha guarda, e, logo que tenha 
em armas a gente, lhe ordeno que venha a este quartel- 
geoeral do Ferreiro, receber de mim as ordens que ahi 
deve executar, parlici pando ao Dr, ouvidor da comarc;i, 
Manoel Joaquim de Aguiar Mourão, que se dirija a eslo 
sitio logo e logo, » 

A camará quiz obstar que este otlicio, de cujo assumpto 
ignorava» fosse levado ao seu desliiu», mas não o pôde con- 
seguir. Eram 5 horas c meia da tarde. 
Desde pela manhã o iatendentô trabalhava da sua prisão 



— 16 — 

com frenética actividade, para augmenlar os elementos da 
desordem com que conUiva, mediante o concurso dos seus 
amigos, do ex-governador e da camará, com quem esta?a 
em incessante correspondência. 

No regressar a camará do sitio do Ferreiro para a villa, 
encontrou em caminho o ouvidor Mourão, o qual, depois 
de censurar em termos enérgicos o procedimento d'ella, 
conseguiu soltar o secretario e leval-o comsigo. 

Jà riilo era tempo de recuar. 

O ouvidor e o secretario do governo voltaram do Ferreiro 
ã noite, trazendo as ultimas instrucções. Ao chegarem a 
palácio, ahi encontraram o ajudante Manso, que jà tinha 
reunido a força nos seus quartéis, prompta à primeira or- 
dem, afim do manter a tranquillidade publica, no caso de 
alguma tentativa de sedição. 

A camará, depois da prisão do governador, recolhendo- 
se à villa, mandou tocar a rebate. Durante todo o resto da 
tarde se ouviu o toque monótono do sino da cadêa, cha- 
mando o povo á revolta ; mas foi embalde, porque nin- 
guém se atrevia a sahir à rua. As casas estavam trancadas, 
as ruas desertas, a força em armas no quartel, e a camará 
em sessão permanente desde as 9 horas da noite. 

O capitão-mór Telles e o ouvidor Mourão foram Dor ella 
intimados para que comparecessem á sessão : mas estes 
não só recusaram ir, como declararam em suas respostas 
aos camaristas qne era prudenle dissolveremse, o não 
continuarem a perturbar o soce^^o publico. 

Sciente o governador de tudo quanto occorrêra depois 
da sua prisão, expediu a seguinte ord(?m ao ouvidor Mou- 
rão, que d'ella foi entregue às H horas da noite : 

« O estranho e nunca pensado procedimento, praticado 
no dia de hoje pela camará doesta villa, me obriga a tomar 
medidas instantâneas contra os aggressores de tão atrozes 



— 17 - 



delictos; e, porque se acham esgotadas as de moderação p 
Vm. proceda immedíalameote a prender lodos os officiaes 
da camará, sendo o presidente e escrivão os primeiros 
sobre quem se exercite este aclo de jurisdicção, e porque 
me consta que na mesma casa da camará» fora de horas, 
se conspira novaraenle contra a minha immunidadep pro- 
cederá contra elles sem atlençSo a qualquer immuDidade 
de pessoa e lugar, por ser este o caso em que se não co- 
nhece asylo: Vm. assim o cumpra, e me dê parte de 
assim ficar executado. Deus guarde a Vm- Sitio do Fer- 
reiro, !0 horas da noite do dia 17 de Maio de 1803.— 
D, João Manoel dts Mello. —Sr* Dr. ouvidor, Manoel Joa- 
quim de Aguiar Mourão. » 

De posse d' esta ordem, o ajudante Manso com uma 
força de 60 praças partiu para a casa da camará e pôz-lhe 
cerco ; porém os camaristas um quarto de hora antes se 
tinham dissolvido e occultado, A*s 2 horas da noite foram 
dois camaristas presos em suas casas pelo ouvidor : quatro 
tinham conseguido evadir se. 

Pelas 4 horas da manlia partiu o intendente Manoel Pinlo 
Coelho para o Carretão, no meio de uma escolta de dragões, 
na conrormidade das ordens de D. João, 

No dia seguinte se recolheu a vitla o governadoF, acom- 
panhado das pessoas do seu parlídu, que o tinham ido visi- 
tar ao Ferreiro* 

Comquanto a tranquillidade publica não tivesse sido se- 
riamente perturbada, o descontentamento produzido pelas 
scenas que acabamos de narrar foi geral. 

O ouvidor Mourão começou enlao a devassar d*estes 
actos criminosos, em cumprimento das ordens que lhe 
furnm transmitlidas. 

O facto da sua prisão e os precedentes havidos por tal 
modo impressionaram a D. João, que» oOiciandoao secreta- 
TOMoxxvm, p. 11. 3 



- IS — 



rio dd ^lado, manifestou o soa pangente desgosto nos i 
gDintas termos: 

<t Acho-me baslanleniente enfermo, dizia elle, affeelando 
este facto (â sua prisão) demasiadamente o meu syslBma 
nenroso. n 

E nunca mais se satisfez de faltar raal docaraeterdo 
poTO que governava, da depravação dos seus costameSt da 
venalidade dos empregados, dos insultos de que era t icti- 
ma e dos torpes meios de que lançavam mão para de- 
primil-o 6 caluniniar suas mais rectiis intenções. Em Juoho 
dizia a D. Rodrigo de Sousa Coutinho : 

(c V, Ex* conheça que ninguém tem melhores desejos de 
lugmeniar a prosperidade d esta capitania ; porõm o vicio 
enervado por muito tempo tem arruinado e destruído lodos 
os ramos da administração publica, e que sem eliminar os 
inimigos domésticos, e combater e destruir essas hydras, 
que envenenam todos os planoí^ benéficos, jamais poderei 
colher frueto das minhas laboriosas fadigas, » 

Os dezeseis annos de governo de Tristão da Cunha tinham 
concorrido para que a obra regeneradora, começada por 
João Manoel de Melto a continuada pelo visconde da Lapa* 
fosse completamente destruída. D. João Manoel de Mene- 
zes não era o homem mais profirio para succeder aTristãoí 
não tinha para a missão, que quíz desempenhar, nem tino^ 
Bem instrucções apropriadas. A luta que travou com os 
funccionarios e magistrados foi-lhe fatal, não recebendo o 
necessário apoio da corte* Muitos dos seus actos foram 
desapprovados, outros reformados, alguns derogados com- 
pletamente, e não poucos ser\iram de ra^âo ás mais graves 
censoras. Se um partido em Goyaz se levantava ousa^ 
para combater seus actos, e desrespeitar na sua pessoa o 
delegado do soberano^ esse partido mais desenfreado se 
tornou na aggressio, vendo que os secretários de Estado 



- (3 - 



eram os mais empenhados em hoslilisar o governador, que» 
se n5o era um modelo de moderação, era comludo um 
typo de probidade. 

A mola principal de toda essa guerra atros a iniqua foi 
Tristão da Cunha Meneses, que para a eôrte pintava o seu 
successor com as cores mais negras, mentindo e calum- 
niando de um modo indigno e inconcebível* 

Não consta que, n*essos tempos de despotismo e arbitra- 
riedades, houvesse um governador que lao severas repri- 
mendas recebesse de* ordem do soberano, pelos ministros 
e pelos Iríbunaes superiores. 

D. Rodrigo, em carta de ih de Dezembro de 18ÍK, es- 
Iranhou-lhe os excessos de jurísdicção e despotismos prati- 
cados era raateriii de justiça e de fazenda, transgressões de 
ordens e arrog.ições de auctoridade. 

Uma provisão de á8 de Maio de i802 advertiu-o para 
que levantasse o braço de ferro, com que opprimia a coló- 
nia o llagellava os magistrados: outra do r de Junho de 
1802 estraíj liava varias providencias suas. 

N'uma provisão da mesa da consciência, de O de Agosto, 
se lè i 

« No meu tribunal da mesa da consciência e ordens fo- 
ram presentes os desatinos e atten lados que praticava o 
goviírnador D. João Manoel de Menezes, mandando arre- 
batar violentamente os processos dos cartórios, entregar 
os bens litigiosos, sobstar as execuções que se moviam 
contra teslamenleiros dolosos, mancomraunados com o seu 
secretario, sentenciando tudo a seu arbilrio, com tanta 
ignorância como incompetência, chegando mais ao excesso 
de chamar à sala os oOícíaes públicos para lhes dar uma 
audiência irrisória e fazer-lhes um exame vocal das suas 
obrigações, do que seguiu suspender uns e nomear outros 
de novo, tudo imprópria e illegitimamente, como costu- 



— 20 — 

mava dos seus absurdos procedimentos, sendo o mais n(h 
tavel o que pralicou com o ouvidor António de Líz (65) no- 
meando-lhe um syndicanie para lhe tirar uma nova resi- 
dência, depois de ter dado a primeira na forma da lei, 
pondo para esta estranha e violenta diligencia uma senti- 
nella ã porta do bacharel, a quem accommetteu, abrindo 
devassas, soltando presos que se achavam convencidos como 
roubadores da fazenda dos ausentes, e alliviando outros 
incursos nos mesmos crimes de sequestro, que se lhes tinha 
feito, para segurança do que tinham extorquido aos ditos 
ausentes ; e sendo todos esses factos informes e abusivos 
da auctoridade que lhe confere, contrários à legislação do 
reino e praxe de julgar, e ao que se acha determinado 
no regimento ; emquanto não dou a semelhante procedi- 
mento as immediatas e positivas providencias, que julgar 
mais próprias e terminantes para cohibir e castigar em 
desempenho do meu real serviço e da justiça : Hei por bem 
de vos ordenar que, reputando-se verdadeiramente nullos, 
irritos e improcedentes todos os actos com que o mesmo 
governador tem atropellado as leis, a jurisdicção da magis- 
tratura e o direito das parles, procedais logo a repor tudo 
no seu primeiro estado.... » 

A. conservação de um agente de confian^*a, que se tomou 
pelos seus actos merecedor de tão severa reprimenda, éum 
delicto dos mais graves que se pôde commet^er contra os 
altos principios da administração publica, crime de lesa- 
politica, que subverte pela base o edifício social. 

E D. João Manoel de Menezes continuou no governo da 
capitania I 

Como temos visto, foi o intendente Manoel Pinto Coelho 

(65) Este ouvidor deixou na capitania uma chrouica escan- 
dalosa, e um nome manchado de improbidade. 



seu irreconcilnvel inimigo. Suspenso em 1801 pela ma- 
neira inconveniente porque Lratára o goveraatior, recorreu 
para Lisboa d*essa decisão ; o resuliado foi ser estranhado 
o procedimento do governador em carta régia de U de 
Dezembro do mesmo anno, e baixar outra ordem ajunta 
administrativa mandando-o reintegrar. 

Este golpe feriu profundamente a D. Joaõ e deu alentos 
aos seus adversários. Foi alludindo a esie facto que assim 
escrevia a D. Rodrigo de Sousa Coutinho em 30 de Março 
de 1803: 

u Vejo-me diariamente ;i lacado peio intendente, o qual, 
atropellando ludo quanto o resptMlo c a civilidade tem de 
mais sagrado, me oíTende e insulta em toda a occasiao e 
lugar, muilo principalmente desde o momento que Sua Al- 
teza Real houve pur bera estranhar os meus procedimentos 
despóticos pela carta régia de 14 de Dezembro de 1801, 
que beijei e fn dar a mais pronii>la e submissa execução. 
A minha saúde não precisava d'esle tão forte estimulo para 
desapparecer, e a minha existência diOícultosamente se 
conserva desde essa faial época das minhas desgraças, ob- 
tendo os meus assígnalados serviços a mais insólita e in^ 
esperada recompensa* 

*( O Deus grande fará um dia apparecer a pureza dos 
meus sentimentos, e o interesse que tenho sempre mos- 
trado pelo real serviço, e fidelidade ao meu augusto sobe- 
rano, a quem ti^nho com gosto sacriGcado os interesses da 
minha casa e a minha vida na ditficultosa viagem do Ara- 
guaya, onde fui viclima das maíbres desgraças, as quaes 
foram preludio das que tenho solTrido em todo o decurso 
do meu guverno n'esta capitania, onde achei nm partido 
apoiado pelo meu antecessor para combater todos os meus 
projecttjs, teodo a sou soldo milhares de intrigantes* afim 



de me iDqaíeUrem e lançarem veneno em todas as minhas 
rectas e desinteressadas medidas. » 

Quando esta carta chegou às mãos de D. Rodrigo já 
D. João estava demittido, e nomeado D. Francisco de Assis 
Mascarenhas, por carta de 25 de Novembro de 1802, para 
sobstituil-o. 

No meio de tamanhas perturbações, não se esqueceu 
D. João dos neí(ocios administrativos. A organisação da 
força publica, a creação de um horto botânico e outras 
obras na capital, e assim também a remessa de tropas para 
Nato-Grosso, deram matéria para alimentar a sua acti- 
vidade. 

Merece especial lembrança o empenho que fez este go- 
vernador pam propagar o ensino elementar, regulando a 
cobrança do subsidio litterario, que jà nada rendia, pelo 
que se diflicultava o pagamento do estipendio dos profes- 
sores. 

Este imposto, creado para manutenção das escolas, co* 
meçou a ser cobrado em Goyaz em 1774, em observância 
das leis de 6, 10 e 23 de Novembro de 1772, e das inslruc- 
çôes dn 4 de Setembro de 1773, ampliadas depois pelas de 
7 de Julho de 1787. 

Então não existia ainda em Goyaz uma só escola de pri- 
meiras letras, e, não havendo applicação para o rendimento 
da coUecta, foi toda a sua Importância remettída durante 
alguns annos para o tribunal da mesa da commissão geral 
do exame e censura dos livros, na importância superior a 
vinte contas de réis. 

Em 1788 vieram para Goyaz os primeiros professores, 
sendo três de primeiras letras, para Villa Boa, Meia-Ponte 
e Pilar, dois de latinidade e um de rhetorica. 

Mo governo de D. João algumas cadeiras foram creadas. 



— 23 — 

ficando enlao a capitania com oito proressores de primeiras 
letras e três de latim. 

Tendo por missão especial íazer explorar os rios e esla- 
belecer uma commuriicaçâo regular com a capital do Pará, 
pouco ou nada realizou u*eslo sentido- Tendo-lht^ feito re- 
conhecer a viagem do Aragaaya a necessidade da creaçâo de 
um presidio, que d^ futuro viesse a servir de protecção aos 
navegantes, commissíonon a Braz Martins de Almeida para 
levar a effeilo esta creaçâo, e indicou- lhe o lugar que lhe 
pareceu miiis apropriado, junlo á barra do Itacayuna, ponto 
próximo à confluência do Araguaya no Tocantins, onda 
prelendeu-se fundar depois a vílla de S. João das Duas 
Barras, 

Com estas medidas deu D. João fim ao seu governo, que 
podia ter sido feliz se não fora a demora do seu antecessor 
na capitania. Ambos tiveram aliaal de recolher-se a cfirte» 
para responderem por seus actos. 

D, Francisco, tomando posse do governo em 27 de Fe- 
vereiro de 180 i, poz logo em execução a carta régia do T8 
de Abril de 1803 (66), que mandava devassar pelo desem- 



(0$) D« Francisco de Mft.^careiihas,goveriia4nr e ca^ítM^general da 

capiUnia d^ Gúfwi, — Amíj^o. — Eii o Priftpipe flepenle toa entio 

muita mudar. — Tundo otimendo o desembiirgackir Aiitonk» Luíz 

d0 Sõusu Leal, para ir à dUjicapkauk devci^isiirdo iroveruador ê ca^^ 

nfiCâo -general que ucâbon TristÍKi da CuqIiu ^leneiteit. e do aiHual 

Qfârtiadúr e capiUio-fteDeríit D« João Manoel da Men^^ei, e fazer as 

Itnnh uverigiiucneâ e diEigeiícia^, que Ihesào íiMUimbitlas pelo e\pe* 

fdioiUti Uú meu concelho ulirauí afino ; e sonda necessário que o diio 

minis Iro vá munido de todas a^i protídencias, qne pos^um mc1l3Df 

servir para amais pmmpia e perfeita exofuçfio d*íique]la ditigencta» 

da modo quenáo encimlre ernlKiraçá íiíguin nas auctorirtiides civis, 

ou iDdtlarcâ d^ incsmu capilanid que :í pu^^am estorvar, antes de 

eúmmuia accordo conenrram lodos para lhe facílilar tudo o que 

poder ser ti til && íadagAçOcs de que vai e a carregado: sou servido 



- 24 — 

bargador dos aggravos da supplicação, António Laiz de 
Sousa LeaU para este fim commissionado. 

Chegado que fosse o desembargador syndicante, ofiQciou 
a D. Francisco, exigindo que os ex-govemadores sahissem 
para fora da capitania dentro de trinta dias. 

Intimada esta ordem no dia 3 de Março, n*este mesmt) 
mez partiram para o Rio de Janeiro. 

Com a sabida dos ex-governadores foram desappare- 
cendo as intrigas, que por tantos annos comprometteram 
os mais graves intiTèsscs da capitania ; restabeleceu-se a 
paz das familias, reataram-se antigas relações, que o espi- 
rito de partido tinba conseguido quebrar. 

Antes de encerrarmos este capitulo, paremos ainda por 

ordeoar-vos que lhe presteis lodo o auxilio que elle vos requerer, 
ou seja militar ou civil, e que participeis ao ouvidor da comarca res* 
pectiva a commissUo incumbida ao referido desembargador, e lhe 
ordeneis que lhe preste igualmente todos os ofíicios da sua jurís- 
dicçíto, que elle lhe requerer. E ordenareis á camará que nprompte 
uma aposentadoria competente para o mencionado ministro e seus 
officiaes. Tereis também entendido que este ministro vai auctorisado 
para chamar testemunhas, ainda ecciesiaslícas e de fora da capita- 
nia, para ver e examinar cartórios, e quaesquer hvros de ordens ou 
fazenda que façam, a bem de apurar a verdade, passando para isso 
as competentes deprecadas ; para pôr em exterminio pelo menos de 
seis léguas quaesquer pessoas ecclesia<(ticas, ou seculares, que façam 
poso á diligencia emquanto esta durar, e para poder tomar outro 
escrivão ou meirinho, na falta, ímpcdimcnlo ou prevaricaçi^o dos 
que se acharem nomeados, e para melhor o mais completa execu- 
ção da dita diligencia, sou ouirosim servido que o referido ministro 
proceda na devassa que vai tirar sem limilaçfio de tempo, nem de 
numero de testemunhas, dispensando n'esta parte o que se acha dis- 
posto na Ord. I. \^ til. 65 SS 3i e 39 e em outras quaesquer leis em 
contrario. O que assim executareis. — Escripla no palácio de Que- 
luz, aos 18 de Abril de 1803. — PHncipt. — Para D. Francisco 
de Mascarenhas. 



— 25 — 



alguns inslantes a contemplar o aono de 1802* No arraial 
da Natividade, no decurso do mez de Setembro, occarren- 
cias houve nos domínios da igreja, que iam sendo causa 
de mais algumas scenas, além das muitas desagradáveis 
que o clero tioha representado com o maior escândalo e 
cjnismo. 

Em principios de Agosto do anno a que nos referimos 
appareceu no arraial da Natividade, depois de ter percor* 
rido uma parte do norte da capitania, um sacerdote myste- 
rioso, que se inlilalava prelado, e era conhecido pelo 
nome, que dava, de D. Manoel de SanrAnna Alves. 

Trazendo cruz pendente e um numeroso séquito de 
criados e escravos, conduzia também comsigo relíquias de 
santos e ura grande arsenal de objectos religiosos, com 
que, na qualidade de missionário apostólico e encarregado 
de uma grande missão cá n'este mundo soblunar^ ia fazendo 
adeptos e seguidores eatreo povo ignaro, que facilmente 
se deixa fanatisar desde que a hypocrisia se atavia com 
vestes de santidade, e a religião é sacrilegamente posta a 
serviço de miseráveis especulações. 

O povo ha de ser sempre um velho-creança desde que de 
suas crenças religiosas se Czer arma para captar a sua boa 
vontade e leval-o a todas as consequências, por mais absur- 
das que sejam. 

O intilulado prelado sabia manejar esta arma com perí- 
cia e com ella tinha conseguido alcançar uma tal ou qual 
popularidade : pur onde elle passava o povo corria pressu- 
roso a depositiir suas esmolas em tenção da Senhora das 
Pores e de S* Fructuoso, 

Onde D. Manoel chegava, os parochos eram tratados por 
eUe cora menoscabo, não tolerando sua qualidade de pre- 
lado e de missionário qualquer acto, que revelasse subor- 

TOMO 3C%VfU, p. II* 4 



^ 26 — 



dinaçSo, oudefereDcia:— *]ulgava-se eom supremacia sobre 
todo o clero. 

Chegando á Natividade annuncioa que ia abrir uma 
missão : — o povo concorreu numeroso desde que se es* 
pathou esta notícia. 

O vigário geral, Luiz José Custodio, estranhando o pouco 
respeito e consideração em que o intitulado missionário 
tinha a sua auclor idade, exigiu que elle apresentasse as 
suas cartas de ordens e licenças. D. Maneei xombou do 
vigário geral, e não lhe quiz dar a menor satisfação. 

A consequência, como era de esperar, foi prohibir-lheo 
vigário geral o exercicio de qualquer trabalho apostólico 
dentro da comarca da sua jurisdicçao, 

A luta travada entre D. Manoel e o padre Custodio ia 
produzindo consequências graves* O povo, fanatisado pelo 
missionário, araotinou-se, e exigiu do vigário geral que 
revogasse suas ordens, e que perraittisse a missão tão 
apparatosamenle annunciada. 

EntretantOt apparecendo calculadaraente D. Manoel no 
seio do motim popular— foi levado em trinmpho ate a casa 
da sua residência. Este acto do dedicação do povo en- 
corajou por tal modo o missionário que este prometteu 
suspender o vigário geral, se a ordem nâo fosse relaxada. 

Desde então o padre Custodio se viu em cruéis embaraços 
no meio do seu rebanho tresmaUiado. 

Achava-se n*essa época na Natividade, para exercicio das 
funcções do seu cargo, o ouvidor Manoel Joaquim de Aguiar 
Blourao: ao braço sr^cular, pois, recorreu o vigário, afim de 
compellir o missionário ao cumprimento dos seus deveres. 

Despachou o ouvidor, mandando que se prestasse prora- 
pta e imraediata ajuda do braço secai jr, e pela gravidade 
e urgência do caso resolveu acompanhar era pessoa a 
diligencia* 



- L>7 - 

Prevenido D. Manoel, esperou o ouvidor com os seus 
fâmulos e escravos armados, e elle mesmo com uma pis- 
tola engatilhada sahiu ao encontro da força, contra a qual 
a disparou: —reconhecendo, porém, a presença de Mourão, 
recuou, e fugiu. 

No dia seguinte escreveu ao ouvidor com muita hu* 
mildade, pedindo perdão do crime que havia commettido. 
£nlregando-se finalmente à prisão, perdeu o prestigio, por 
que o povo o suppunha um ente sobrenatural. Sendo con- 
duzido para a capital, em caminho peitou os guardas, e 
evadiu-se. 

Nunca mais se soube novas do intitulado prelado, que 
na opinião de alguns não passava de um refinado veHiaco, 
e cavalleiro de industria, que sob a capa da devoção da 
Senhora das Dores e S. Fructuoso tinha por muito tempo 
conseguido enganar a todo o mundo. 

No quadro da administração do D. João Manoel de 
Menezes inda havia este retoque a fazer. 

Passemos agora a tratar da administração do seu suc- 
cessor, quo foi pacifica e conciliadora. 



— 28 — 
CAPITULO XVI 

(1804—1809) 

mflaencia moral do governo de D. Francisco.— Saas medidag eoono* 
micas.— <:reaçSo do Juizde Fora de Goyaz.— Comarca deS. Joào dãt 
Ikm Borras.— Agricoltura, Gommercio e Navegada --Os rios To-* 
cantinseAragQaya.— Privilégios.— Expedição parao Pari.--0 gover- 
nador d*e8ta capitania não segunda as vistas de D. Frandsco.— 
Incorporação das freguezias do norte á prelasia de Goyaz.— Bispos de 
Goyaz.— D. Vicente Alexandre de Tovar.—Sna morte em Piraeatíí d» 
Frmeqie.— Comarca do Rio das Velhas.— Novas contestações solne 
divisas.— As minas do iámctuw.— Exploração dosríos do sul de Geyai* 
^-Correioda Gôrte parao Pará.— Fim do governo de D. FrandeeOb— 
1809^— Estado da capitania. 

Depois de José de Almeida foi D. Francisco o mais in- 
telligepte governador qae teve a capitania de Goyaz. Os 
bons serviços que prestoa na saa mocidade e durante este 
seu governo o habilitaram para administrar Minas-Geraes 
e Bahia, e exercer os mais altos cargos da administragio 
publica. 

Descendente da nobre família de Óbidos, ramo da casa 
de Bragança, foi depois conde, e marquez de S. João da 
Palma. 

A.'s suas excellentes qualidades deve o ter governado 
Goyaz com muita distincçâo. Achando a capitania compro- 
mettida e anarchisada, em pouco tempo conseguiu restau- 
rar a ordem,e restabelecer a harmonia entre os habitantes, 
perturbada desde a administração de Tristão da Cunha. 

Para este resultado influiu a circumstancia de ter levado 
para Goyaz, como seu mentor— um homem illustrado, e 
intelligente, que o dirigiu com seus conselhos, e o auxiliou 
com seus trabalhos. Falíamos de Luiz Martins Bastos, que 
foi durante algum tempo secretario interino do governo, e 



— áD — 



mereceu-lhe sempre a mais plena ennfiança» a qual soube 
corresponder com dedicação e fidelidade. 

O zelo com que D, Francisco olhava para os interesses 
dacapilaniâ, o seu espirito de conciliação— grangearam- 
Ihe eslima e gralidão» que se perpetuaram na família 
goyaua.— Cora prudente cuidado desarmou o braço da in- 
Iriga, extinguiu os ódios o rancores inveterados, e coucilioo 
aquelles dos seus governados que ainda ha pouco se olha- 
vam como figadaes inimigos. 

Remediada a situação moraU era preciso attender a 
outros males; a capitania eslava prostrada em todos o& 
sentidos: uma grande divida embaraçava a administração 
em todos os ramos do serviço. Como desprende r-se de 
peias tâo fortes? Nos seus peiores tempos o estado da 
capitania fora menos desesperado. 

Parecia chegada a occasiao de dar-se algum alimento a 
esse corpo inanido» e restaurar-ihe as forças por meio do 
desenvolvimento da industria e do commercio, sangue 
puro e vivificador das artérias sociaes. — Tudo estava por 
fazer. 

Sendo grandes os encargos, e nâo havendo receita para 
provél-os, nem meios de conseguil-a de prompto,^ — re- 
correu D. Francisco a uma prudente economia pela re- 
ducção da maior parte das verbas de despeza. 

 força publica foi díminuida; o pessoal da administra- 
ção fiscal reduzido ; a casa da fundição de Cavalcante ex^ 
tincla e substituída por uma provedoria commissaria; 
algumas cadeiras de primeiras letras foram lambem ex- 
tinctas^ por não dar o subsidio lilterario renda suíBciente 
para pagamento dos professores. 

Os empregados da provedoria e da casa da fundição da 
capital soflreram reducçáo nos seus honorários, O cargo 
de intendente da fundição foi substituído por fiscaes com 



— 30 — 

menores Yencimentos, e attríbaicõesmais limitadas. Moidt: 
outras medidas foram postas em execução para dimimiir os 
encargos da capitania ; e, porque ainda assim a de^[mea 
fosse superior á renda, — alcançou D. Francisco da 
munificência real poder dispor» para fazer face ao deficit, 
de ires arrobas de ouro, tiradas annualmente do rendi* 
mento do quinto, jà muito reduzido n'essa época. 

O plano de reforma offerecido à consideração do go- 
verno em 15 de Setembro de 1806, para equilibrar a re- 
ceita com a despeza, e approvado por provisão de 12 de 
Agosto de 1807, só pôde ter completa execução no exer^ 
cicio de 1800. 

Segundo elie, a folha da despeza ficou reduzida a 
43:2079260, e calculada a receita em 47:8609734 : mas, 
como dois annos depois os reaes quintos não davam para a 
consignação das três arrobas de ouro, o deficit foi conse- 
quentemente apparecendo durante todos os exercidos 
financeiros que se foram succedendo, por modo tal que em 
1819 a despeza eievava-se a 50:846^120, e a receita descia 
a 37:8739330. Em um período de 10 annos a divida pas- 
siva era de 83:6809835, sendo mais de metade proveniente 
da falta da consignação dos quintos. 

Estamos convencidos de que, se o periodo do governo de 
D. Francisco tivesse sido mais longo, a administração da 
fazenda sahiria, ainda que lentamente, dos embarações em 
que ainda a deixou pelas dividas passadas, que não pude- 
ram ser pagas. 

E nem se inculpe aos seus antecessores d'esse estado 
pouco satisfactorio, mas sim ao governo central, que, des- 
cuidoso das providencias que devia tomar, porque atempo 
foram reclamadas, só muito tarde acudiu com remédios 
ineíficazes e pallíativos. — Deixemos, porém, este objecto 
e tratemos de outros assumptos. 



— in- 



ovando D. Francisco entregou o governo da capilania a 
Fernando Delgado » fallando do juiz de fora de Villa Boa» 
creado por alvará de 18 de Março de 18 >9, diss e o segui nlts : 

^ A camará de Villa Boa, sendo até agora a única d'estâ 
capitania, administrava anteriornienle as rendas de todos 
os julgados; poréni acamara, composta de vereadores in- 
dolentes, e presidida por juizes leigos, além de indolentes, 
ignorantíssimos, de tal modo confundiu as conlas dos seus 
rendimentos, *3 deixou de receber ou de cobrar as que llie 
compeliam, que durante todo o tempo do meu governo não 
sònão pode edificar uma só obra publica, mas nem ainda 
lhe foi possível reparar aquellas que jà se achavam cons- 
truídas om beneficio do publico, e que o tempo havia dele* 
riorado; para remediar, pois, estes males, bem como a 
outros de igual ou maior consideração, foi o principe re- 
gente nosso senhor servido, annuindo ás minhas represen- 
tações, crear para esta villa um juiz de fora do civil , orphãos, 
provedor dos ausentes e procurador da real fazenda.» 

Creado o lugar de juiz de fora, foi n'elle provido o ba* 
charel Manoel Ignacio de Mello e Sousa, 

Perlenceniio-lhe pelo alvará de sua crcaçao o exercício 
no contencioso, era manifesta a desnecessidade de um in- 
tendente, que n'esta parle de suas altribuições ficou conve- 
nientemente preenchido, ficando a cargo dos fiscaes a 
administração da casa da fundição e suas dependências. 

Foi o desembargador Florêncio José de Moraes Cid o ul- 
timo intendente deGoyaz. 

Não pareça que a D, Francisco pertence a paternidade de 
todas estas reformas ; muitas tinham sido estudadas» e ja 
submettidas á consideração do mouarcha, que só agora as 
julgava merecedoras de altençâo. 

A divisão da comarca de Goyaz, por exemplo, era um 
projecto velho, em que Unhara insistido lodosos capitães 



— 38 - 

gêoeraeB como necessidade, que a boa administraçiéda 
justiça reclamava. 

Entrando esta idéa no plano gerd das reformas em que 
trabalhava D. Francisco» por alvará lambem de 18 de Março 
de 1809 foi creada a comarca de S. João das Doas Barras, 
assim chamada da villa qne na confluência do Àragnayaiio 
Tocantins se mandara crear com este nome. 

Nomeado o desembargador Joaquim Theotonio Segu^ 
rado para n'ella servir, teve ordem de crear a referida 
villa, podendo, entretanto, residir na Natividade emquanto 
nSo o fizesse. 

A nova comarca comprehendia os julgados do Porto- 
Real, Natividade, Conceição, Arrayas, S. Felii, Cavalcanti, 
Trahiras e Flores, que por acto de 16 de Agosto de 1807 
tinha sido creado julgado pelo mesmo Segurado» quando 
ainda ouvidor de Goyaz. O arraial do Carmo, que até 1806 
tinha sido cabeça de julgado, perdeu esta prerogativa com 
a sua transferencia para Porto-ReaU ponto este que com a 
navegação do Tocantins começava a prosperar, ao passo 
que o Carmo e o Ponlal iam decahindo, concorrendo para 
quasi todos isto a circumslancia de se irem mudando 
os seus princípaes habitantes. 

Provida, pois, a nova comarca da repartição do norte 
n'esse intelligente, laborioso e benemérito magistrado, em 
1810 seguiu elle para o Pará afim de designar o ponto em 
que devia fundar-se a villa de S. João das Duas Barras. Em 
23 de Agosto mediu e demarcou um perímetro junto â 
foz do Tacayuna, abaixo do registro de S. João dez léguas. 

Comquanto insistisse o principe regente pela construo- 
ção da nova villa na confluência dos dois grandes rios da 
capitania, não pôde esta medida ir adiante por terem contra 
ella representado os povos e o mesmo ouvidor, mostrando 



^ 3:1 — 



os inconvcDitíDltís de esbr a sede da comarca a tão consi* 
deravel distaocía dos julgados. 

EniYirlude dasreikíradasrepresenlaçõesque subinmao 
conhecimento do príncipe regenlo, cinco aonos depois bai- 
xou o alvará de 25 de Fevereiro de Í814, mamlândo erigir 
a villa na Barra da Palma, por ser esle ponto mais central 
e commodo aos povos e ao exercício das funcçúes do seu 
magistrado. Providenciava o alvará que a nova villa tivesse 
isenção de pagamento de decimas e dízimos por dez 
annos. 

Satisfeitas as vistas da administração, marchava ella re- 
gularmente aos seus fins, auxiliada pelo intelligenle con- 
curso dos deserabarg.idores Segurado e Cid* Concedidos 
todos os f:ivores que solicitava do governo centra!, facili- 
tados os meios goveriiamenlaes, parecia que D. Francisco 
era destinado a abrir em Goyaz uma nova éra, êm que os 
seus interesses mais legilimos seriam afagados, porque 
outros se nao podiam considerar maiores qne os da nave- 
gação dos seus rios, os provenientes da agricultura e do 
Goramercio, em prol do qual se procurava abrir novas vias 
de íacil communicaçao para o seu desenvolvimento. 

Foi, porcnv, uma éra que passou rápida. 

Entendia D. Francisco, com razão, que a capitania de 
Goyaz não podia exclusivamente visar Tuturo maior das soas 
rainas, comquanto ricas fossem e numerosas; que era uma 
verdadeira illusio esperarem os povos por essa felicidade 
apparenle e transitória, de que Unham gozado os seus an- 
tepassados, deslembrados dos grandes interesses da la- 
voura, segregados de todo o trato commercial com os 
povos de uma granée parte do litoral, 

E, pois, sem abandonar de uma vez os mineiros, dirigiu 
D, Francisco a sua protecção à lavoura, á navegação do 

TOSÍO XXVUL p. II 5 



^ :íí ^ 



[ Aragmya e aos oegociantes» que pí>r esse caoií e pelo To- 
eáDlÍDs quizessem iransporlar géneros para o Para e rece- 
ber era permuta os de imporUçao* 

O principe regente apoiou suas ?istas progressistas > de- 
creta odo prhjlegios em faror dos que se dedicassem ao 
mister da laTOura e da oa¥egação, como se vê da seguinle 
carta régia: 

« D, Francisco de Assis Mascarenhas,— Amigo, — Eu, o 
principe regente, vos envio muito saudar.— Sendo-me pre- 
sente as reflexões que, em carta datada de 7 de Outubro de 
i804, dirigida ao visconde de Anadia, de meu conselho 
doestado, ministro e secretario doestado dos negócios da 
marinha e doraiuios ullramarinos» lhe fizestes, para que 
me fossem notórias, sobre os meios de augmentar a cul- 
tura, população e commercio d'essâ capitania de Goyaz ; e 
sendo-me igualmente presente o que sobre a mesma ma- 
téria me foi ponderado pelo meu conselho ultramarioOt 
que mandei ouvir; me parece, louvando o vosso zelo e 
efficacia em promover o bem dos povos, cujo governo vos 
confiei, mandar-vos dizer: que, sendo o principal objecto 
do meu paternal desvelo pela felicidade dos meus fieis vas* 
sallos o augmento da agricultura, população e commercio» 
como as verdadeiras bases da força e prosperidade publica: 
bei por bem conceder por espaço de dez annos inteira 
isempção dos didmos, que deverião pagar à minha real fa- 
zenda» a todos os lavradores que nas margens dos rios To- 
cantins, Maranhão e Araguaya, onde ellas são actualmeute 
deserlas, fundarem novus estabelecimentos de agricultura, 
sendo os mesmos situados â borda dos ditos rios ou até 
Ires léguas de distancia d^elles, e ficando junlo às margens 
o necessário espaço para a publica servidão, o qual deverá 
ser de meia légua» ua conformidade das ordens e^iistentes a 



este respeito em todos os meus dominios do Brasil. Dada 
era Lisboa, a 7 de Janeiro de 1806* — Príncipe (cora guarda). 
—Para D, Francisco de Asáis Mascarenhas* >* 

Ou porque jà estivesse encaminhada a navegação do To- 
cantins» ou porque a do Araguaya lhe parecesse mais van- 
lâjosa, entregou-se D. Francisco com empenho ã d'esle 
rio, deixando a do Tocantins correr por conla do desem- 
bargador Joaquim Theotonio Segurado, que, na qualidade 
de ouvidor de S. João das Duas Barras, tinha sido encarre- 
gado de promovêl-a. 

Cuidar de preferencia da navegação do Araguaya, pen- 
sava D* Francisco, importava chamar para as suas margens 
desertas alguma população industriosa, importava lambem 
promover de um modo indirecto a caLechcse e civilisaçSo 
dos Índios, que em suas margens desertas se tinham ido 
refugiarem outros tempos, ou fugidos dos aldeamentos ou 
levados de vencida pelas armas dos bandeirantes- 

Havía alguma cousa de grande u*esta providencia, havia 
muito de progresso para a capitania na sua realização ; não 
viessem tarde estas idéas bem pensadas, e teriao vingado 
completamente, se houvesse quem, com perseverança e 
zelo, tivesse pugnado por ellas« 

Mas com que difQculdades não teve de lutar D. Fran- 
cisco? Devendo marchar n*estes assumptos de commnm 
accordocom o capilão-genera! do Gl-am-Pará, que em 1805 
era D* Marcos de Noronha, não encontrou da parte doeste 
governador vontade alguma de au\ÍiÍal-o, embora a nave* 
gaçâo do Tocantins e do Araguaya fosse de interesse para 
as duas capitanias. 

fí. Francisco, porem, não desanimando com as primei- 
ras contrariedades, por mais sérias que lhe parecessem. 



— 36 - 

mandoQ em 1805, pela junta da real fazendí), que se cons- 
truísse cinco grandes canoas e duas montarias, as quaes no 
anno seguinte deviam descer para o Pará, levando géneros 
de producçâo do paiz. 

Em principio de Maio de 1806 partiram elTectivamente 
do porto de Santa Rita as canoas Príncipe Regente^ Jfi- 
nerua, Thetis^ Aurora e Vénus, tripuladas por cinco pe- 
destres, quatorze índios cherentes, quarenta e oito caía- 
pós, tirados das aldêas de S. José e Pedro IH, e mais vinte 
e sete remadores. O carregamento compunha-se de assu- 
car, couros, algodão e outros géneros, constando de 
66 barricas de assucar, 99 surrões de dilo, 55 jacas idem, 
e 177 caixões de 2, 5 e 8 arrobas, 91 meios de sola, 9 ro- 
los de algodão, 11 caixões com quina, 75 rolos de fumo, 
6 pacotes de dito, e outros objectos, prefazendo tudo o 
peso de 1,640 arrobas. 

Desde que se começaram a fabricar as canoas reaes, 
Luiz Rodrigues Pereira e seu irmão, João Apollinarío da 
Costa, Manoel da Silva Soeiro e Francisco José Teixeira, 
moradores em Crixá e Santa Rita, associados, trataram de 
mandar construir quatro canoas, que carregaram e Iripo- 
laram com quarenta pessoas, e fizeram partir a 13 de Maio, 
atempo de poderem alcançar a llotilha real. 

O seu carregamento constava de 300 meios de sola, 700 
varas de algodão, 24 arrobas de dito em rama, 1 IG arro- 
bas de assucar, 14 frascos de aguardente, 10 arrobas de 
sabão, 18 arrobas de toucinho, 101 arrobas de carne sec- 
ca, 8 arrobas de goiabada, 24 rolos de fumo, ;J8 alqueires 
de feijão, 100 de farinha e 30 do arroz. 

Não estando ainda entaboladôs relações cummcrciaes 
com a praça do Pará, todo este carregamento foi consig- 
nado ao respectivo governador e deputados da junta da 



- 37 - 



fazenda, a quem D. Francisco a a junta da real fazenda de 
Goyaz escrtiveiain a respeito. (67) 

(6T) Os mnusiros depuLudos da juiila da admÍDbtmi;;io e arreca- 
d;içao da real fazenda da capiUiuia de Gojaí, ele* Fjíiem saber que^ 
em ctnisequeiicia dassubms providencias e incansável zí^lo dollím-â 
£\m. Sr. li. Fmncíseo de Assis Masf^arenfias, governador e cnpitào* 
general doesta Cítpitãaía, seeunseguíti que al^^uus negociantes dVlIa 
ft5 delcnnmas^seLiL a fazer uma cspecula^^Tio dos g^eneros da pro- 
ducçào do paiz para essa cidade pelos rios qiie servem de comniu- 
nicat^ao; para facilitar esla tcníativa, mandou esta junta fabricar 

: * por conta da rea! fazenda as canoas Príncipe Rtgente^ Timm, Mi- 
mna, Âncora, e Thetia, que agora descem carregadíis, e cujos fre* 
t65 constunles dos conhecimentos iticluscs ^e (tão de cobrar n^õssa 
por conla da mesma real fa/eoda, levando-as Deus asnlvamenlo* 
— Conhecendo que do exilo feliz d'eslas tentativas depende a con« 

I linuaçAo de ou Iras, e que do descrediío resultaria perecerem as 
mais bem fundadas esperanças, de que vcnba a estaberocerse uma 
OOEnmunicaCi^lo seiJ^uida o frrquente enire estas capitanias, IHo vanta^ 
joaa ao commercio, como ao b«ni do Estado, nos lemos a satisfação 
de persuadir nos que, seudo V> \u%. o mais Srs, ministros deputados 

I d'essa junla aquelles, a quem nos diri^nmus para Iodas as depen- 
dências doeste imporlanlo objecto, tudo será providenciado de ma- 
neira que, lauto a tripolaÇr^^o como os carregadores voltem animados 

I para continuarem novas emprezas. Além da cobrança dos fretes, da 
reparação e bom trato das canoas, do ufreUimeuto para o regresso, 
que desejamos se eíTóctue com a possível brevidade, nós não po^ 
demos deíiar de rogar a V. Ex, e mais senboies queiram mandar 
assistir j^o furriel losé António tlamos, commandanie d'csla expe- 
dição^ e soldados que acompanham, por conta de seus soldos ven* 
eidos, com aquetlas quantias que V. Ex, c mais senhores julgarem 
proporcionadas ás suas necessidades, para o que levam as suas 
competentes guias, e vai aqui junta a Larifii dos seus soldos. Igual* 
mente pomos debaixo da prelecção de V, Ex* e mais senhores os 
iiuliose pessoas da tripotaç^^o, para que dles nHo careçam de subsía* 
Letícia, e não desertem aquelles, daodo-se-lhes, á vista das informa* 
çHos que do seu serviço der o commandante, alguma modicn 
quiQtia de dinheiro para que suppram as suas pequenas necessidades 
e voltetn ^satisfeitos* Faz-sc uUiuiamente ueces^ario partioípar que o 



*-«s- 



Partido que foss6 este primeiro comboi, começaram 
desde logo os preparativos para o que devia descer no anna 
seguinte. Por conta ila real fazenda foram construídas mais 
cinco canoas, que, Iripoladas com setenta e um Índios, 
iírados dus aldeamentos, e sob o commando do capílãã 
Tbomaz de Sousa Villa-Real. desceram em Abril de 1807, 
procedente do porlo de Santa Hita do Rio do Peixe. O car* 
regamenlo constava de iO arrobas de quina, 109 fardos d6 
algodão, 129 barricas de assucar, U9 surrões de dilo, 
106 ridos de fumo, couros, ete*, perfazendo o pesotolalde 
l#62i arrobas. 

Este carregamento, embarcado a bordo das canoas Pnn^ 
c^za Cnrhtat Condessa de Óbidos ^ Agnia^ Pérola e Cysm^ 
pertencia aos negociantes Francisco Pereira Caldas, Fran- 
cisco José Pereira e José Lopes Pereira. 

D* Francisco, que tioba querido ir assistir pessoalmente 
à partida da í^xpeJíçâo, ao descer emliaixado o riu do 
PeiKe, estiíVt! em risco immioente de morrer afogado, por 
ter virado a canoa em que navegava. Por muilu tempo 
lutou com as aguas, arrebatado pela corrente, que o arre- 
megou de encontro a uns galhos de arvores que se debru- 
çavam sobre o rio. 

Por este comboi escrevia D. Francisco ao governador dô 
Pará, José Narciso de Magalhães, com a fé viva de um 
homem íjue |>aína por uma idéa de progresso e tem espe- 
rança no ruturot 

Cl Pela cópia inclusa da carta régia de 7 de Janeiro de 
1806, a qual approva ama representação minUa, reconhe- 

pralirn iflfio Pnuío nadft devo recehor, porque se obri|:í>ii a doscur 
e Voltar naft dila?^ canóaR graliulameiítef etc. Dcuíí f^^uanJe n Vé Et. 
e m&h seíUtorea ministros depuUilos. Vitlsi^Boa, ilO de Abril d^ 
iWCáu — Florêncio Jmé <k Mor{ie.i Cid. — J{t$e /cmpíuíi» f^tíkh^rh^ 

àoê Sfififoíi^ ^ Jòuqtiim Theof*mh St*^urndo. 



m 



(mk T» El, quanto Sua Alteza Ucal quer que se pruUyaa 
1 DÃegtçâo doa rios que desaguam bo Amazonas; consla 
que esUio a decidir-se também mui lo favuravelnifiile algu- 
mas outras propostas, quo levei à real presença, relativas 
ao mesmo objecto, as quaes, me dizem, foram jàcommuni- 
cadas a V, Ex. officialmeote. Se as ditas propost.iS furom 
dignas de atlenção, sirva-se V, Ex. de promover da sua 
parte com efflcacia e energia o bora exilo d'ellas, na cer- 
teza de que esta capitania toda lera collocado as esperanças 
do seu futuro melhoramento na adopção dos planos ofTere- 
cidos por mim ao ministério, porém unanimemente appro- 
vados pelos interessados n'eltes ; na certeza de que, pro- 
tegendo» como lhe peço, estes negocias, promove igual- 
mente os interesses d*essB Estado, que lhe sao connexos, 
I Formar atai uma companhia de negociantes destinada a co- 
meçar methodicamente o commerdo de Goyaz pelos rios, 
, coueeder-se a esta nova e ulil sociedade os | privilégios e 
I isenções que ao ministério parecer mais conveniente aos 
fijis propostos, e prevenir-se, emfim, ao general desta 
capitania afim de dar as providencias para que nao faltem 
os géneros para o negocio» são a meu ver os primeiros pas- 
sos a dar-se, e sera os quaes nunca poderemos estabe- 
lecer ura commercio activo e permanente cutre estas duas 
capitanias. )> 
I Providencias que então eraw ião ubvias nunca foram 
tomadas por parte do Pará : marchava, pois, D, Francisco 
aos fins que se propunha, sò com os fracos elementos de 
que podia dispor, e, podemos dizer, através de algumas 
dificuldades oppostas pela capitania do 1'arâ : d'alli m 
partiam duvidas e protelaçôes, que nao permiti iam se con- 
solidasse uma empreza encetada sob tao bons auspícios. 
f Outra expedição |)artiu em 1808 com menor carrega- 
meulo; q desanimo so ia apoderando dos emprehende- 



iO 



dortiS, Du porque lODgas diim^ís pan^ctíssem 6âsas viagettô, 
ou porque os negociantes de Goyaz, dispondo de poucos 
capitães, não os pmlessem ler empatados por taolo tempo, 
ou, rmaltuente, pelos riscos de uma navegação difficil» 
através de terr.mos incultos, de barbaras aldé iS, onde ne- 
nhum recurso se encontrava, nem o menor auxílio no caso 
de algum sinistro, em uma emergência qualquer, 

E, poiSp o commercio cora o Fará, por via do Araguaya, 
foi sendo abandonado. Nem a população, que se esperava 
affluisse para sulis margens desertas, abi procurou estabe- 
lecer-SG ; nem uma povoação se formou nessa extensão 
de trezentas léguas de terras ainda não eiploradas . uiu 
pânico terror afugentava a lodos das margens pi Uorescas 
do magestoso Araguaya, não produzindo o menor incen^ 
tivo os privilégios que se concediam aos que as fossem 
povoar. 

E o que Gzeram os successores do D. Francisco ? Quasi 
nada para destruir os preconceitos populares, para prose- 
guir com coragem na obra tão bem começada e dar-)be o 
ultimo remate : o, que estava feito, desap pareceu. O go- 
verno matou a navegação do Araguaya, condemuando-a 
por impossível ; o povo repetiu o anatbema, e os selvagens, 
mansos e paciQcos em suas aldèas, nunca mais viram descer 
suas aguas as canoas dos ousados aventureiros, carregadas 
de mercadorias; nunca mais foram perturbados em seu 
Iranquillo repouso. 

K um ília que nassas solidões se quiz fundar um pt^queuD 
núcleo de populac^ío, que de futuro nodesse dnminar as 
aguas du Araguaya, e ttjrnar possivol a sua navegação, eol- 
ligados os selvagens, no tirme propósito de deslruil-o, tre- 
mendos se mostraram no acommettimento, e sò vulUàram 
para suas aldèas, afim de se recrearem melhor com o es- 
peclaculo magestoso das chammas a devorarem a oasceule 



- 41 - 

payQaçlo, ctijos habitanles, aterrados, mal liveram tempo 
de se encommeiídarein a Deus, para se abandonarem de- 
pois à mercê dacorrenlc. 

Antes de proseguirmos nos assumptos relativos â admi- 
nistração temporária, permilta-se-nos uma diversão. 

Foi DO governo de D* Francisco que se desmembraram 
do bispado do l^arà, ese mandaram encorporar á prelazia 
de Goyaz, as freguezias do oorte da capitania : por este facto 
Qearam alteradas as suas divisas ecclesiasticas. 

As provisões do conselho ultramarino de 18 de Junho de 
1807 ordenaram a D, Vicente Alexandre de Tovar, bispo 
titular de Titopoli, e nomeado prelado de Goyaz pela bulia 
de 15 de Julho de 1803, que tomasse posse d*essas fregue- 
zias era numero de dez ; e ao bispo do Pará D. Manoel de 
Almeida de Carvalho* que, à vista do seu livre e pleno con- 
senlimunto dado para essa desmeoibraçao, cessasse toda a 
jurisdicção que aló entio exercera sobre uma parte do ter- 
ritório de Goyaz [íj8). 



(68) D. Jf*ao, por íçra<:a de Dcas, príncipe regeaie da ?drlugal c dos 
Algirve^, il*«qiiem e d*ttlém nmr. cm Afrim, senhor do Guíní, 
etc* Faço salier a \úfi Hev. bispo de Titopoli, preloílo Je Goja^, que* 
sendo-ine presente, em consuUa de meu conselbo utlramariao de 
lide Abril proiímo i^assado, a resposta que o Heir. bígpodo t^ará 
deu á ordem de 15 de Haia de ÍHOVt^ que pefo mesmo conselbo Ibe 
foi expedida para eSle expor lod^s as razíiés (se algumas houves- 
sem) que no seu coneeilo devessem obstar ádesmcmbr,içâo que 
euhuvia resolvido fazer de parte d'aquelle bispado, separando d^elle 
para unir-se â pretuEia de Goyaz a porçl^u de território que se com- 
prebende dos limites civis da capitania, assim denominada, era 
que nlé agora ejuercíam jurisdicção pas^toral os bispos do Pará, com 
grave inconveniente do serviço de Deus e meu; e lendo conside- 
raÇiio ao que pelo raencionailo biíipo toe foi dito, e ao mais que na 
indicada eonsuUa me foi ponderado, fui servido por minha rf-gía 
resotuçJlo de â do coironte mez do Junho, conformando -me com o 
parecer do cgnselbo baver por desmembrado dn bispado do Fará 

toMo xxvni, p. n, a 



Já vimos em ouira oecasiâo as dííDculdadesquõappa- 
receram para a escolha do prelado da Goyaz. Não tendo 

todo o lerrítorjo pertencente á eapilanía tJe Gojm, em que oi biipos 
i]'aquella diocese eierciuvam aLé agora juriâdicQâo paslomi, pam 
que o mesmo lerritorio haia de licar unido á prelazia deGo^nz e su- 
jeito á vossa jurisdicçâD e dos mats prelados que :i houverem de 
reger* E eomo pani etrentuar-se coavemeuteíweDlea expressada des* 
membrac<~m se requer que vó^ tomeis legalmente po^se do indicado 
território, me pareceu mandar ei^edir ao Rev, bispo do P&râ a 
oídem que i»e yos. remetie ^or copia, assiguada pelo secretario do 
meu cuaselho ultramarino, e maiidar-vos rcmetler a referida cópia 
para a tossa Ínle!ligeDCÍa e guia, atim de que na conformidade do 
espirito da mesma ordem vos entendais com o referido bispo « para 
que este negocio se ultime com a vossa posse tomada com as so- 
lemn idades que o direito canónico requer, ou se adiem por uso e pra- 
tica antiga consagradas para esle íiro. — O que semelhanlcmento 
me pareceu mandar parlicípar^voSp para assim o eiecutardes, como 
vos bei por muito rctiomínendado. O Phneípe Regente, nosso se- 
ubor, o mandou por seu e^pecíalmandado pelos minisiros abaiio 
assignados o do seu conselho e do de ultramar. — AntoHio Juã{in4} 
Machado de Moraes fei em Lií^boa aos 18 de Junbo de 1807. — O 
secretario, Frçindsco de [forja Garção Slokter^ o fei escrever, — 
Jtjrts Pinto de Soma^ — Ànlunio Ratimatido de Pinna CouHnhQ, 
D. João, por grara de Deus, Frincipo Regente, clc. Faço saber a 
YóSpRev. bispo do Pará, que, sendo-me presente em consulta do meu 
conselbo ultramarino de 14 de Abril próximo passado que, fóiiconi 
louvavet zôio do serviço do Deus e meu, respondendo u ordem que 
na data de 16 de Maio de 1800 se vos expedira pelo mesmo con- 
selho, para me expordes as razoes (se algumas houvessem) que no 
tosio conceito devessem obstar á desraembrat;ílo que eu havia resol- 
vido fa^er d*esse bispado, separando d'elle para a prelazia de Go}a£ 
aporçiio de lerritorio da vossa junsdicçào episcopal, comptebon- 
dida nos Umites civis da mencionada capitania, baveis prestado o 
vosso livre c pleno consentimento para a indicada desmembração, 
demittindo e renunciando desde logo toda a jurisdici^Jio pastoral* 
que antecedontemente exercieis e baviam exercido os vossos pre* 
decessorcs nos diocesanos babiiantes do indicado território, para 
que esla d*aqui em diante fique j>t*rteneendo ao prelado que ura 



- \n — 

sida aceitas as propostas do conselho tillrâiflarino, a re- 
partição do sol passoo a estar sob a jurisdicçlo do bif^po 
do Rio de Janeiro ; em 1782, porém, foi nomeado o pri- 
meiro prelado. 

Como o*estes assumptos oao p6de haver melhor auclo- 
ridade do que a de monsenhor Pizarro, oupamol-o : 



rege e aos que de fulura regerem a mencionatia prefacia do Go^az; 
fui servido por minba régia reiofução de i do corrente mei de 
JunhOf conformnodo-nie com o parecer do conselKo e usando Ja 
auctoridade que a esle respeito me compete em virtude da cons- 
tituição aposlolica do sanlissimo padre Benedicto XIV, de 21 da 
Abril de 1766, na qual me permitiiu,e n todos os Srs. reis doesta me 
narclib, a liberdade de podermos li ff emente determinar, estabe- 
lecer cerlos e novos limites a todos os bispados e prelazias já erecias 
ou que se houverem de erogir nos meus dorníníos do BrasiU sem 
dependência de novo e especial beneplácito da Sé Apostólica, peta 
primeira ves^, que a respeito de cada híspo nas parecer conveniente 
qualquer aUeraçâo a este respeito, nssignar e determinar, como por 
esU assigno 6 determino, para limiLes ou lermo de separaç^io ds 
prelada de Co^r^iz e do bispado do Par4'l, o^^ mesmos limíles civis 
que artyulmenie separam as duas capitanias, pelo que respeita á 
jurisdícrãn de seus respectivos governadores e cíipiliies-generaes; 
o que me pnreeeu participar-vos, afim de que deixeis tomar posse 
do indicado terrilorio ao íiev. bispo deTilopolí, prelado deCofaz, 
pnr si ou por quem para osso eíTeito seus poderes liver: o que se- 
meíbantemenle mando participar na data de hoje ao sobredito pre- 
lado, para que, entendendo^se comvosco a este respeito^ termineis 
de commura accordo a rererida desmembrarão com a posse por elle 
convenientemente tomada, a qual lhe fareis dar e elle tomarA com 
ã^ sofemnidndes que o direito canónico requer^ ou o uso por pra- 
tica antiga tenha estabelecido, aílm de que para o futuro nàe possa 
excita r-se conteiitaQao alguma a esle respeito, entre os bispos vos^ 
«oa sneeessores c os prelidns que governarem a dita prelazia; o que 
fos hei por mui lo recommemíado, O Principe Regente, nosso se- 
nhor, o mandou por seu especial mandado pelos ministros abaixo 
íisnig nados, do seu conselho e do do ultramar. — Anttfmú Justír^ 
Machado 4c Moraes a fex em Lisboa aos 18 de lunho de 1807, ele. 



— 44 — 

« D. Fr. Vicente do Espirilo-Santo. da ordem Agostii- 
Diana» e sagrado bispo das ilhas de S. Thomé ^ Príncipe, a 
quem o actual estado de saúde inconstante, por moléstias 
habituaes, impediam a residência na diocese destinada, foi 
q primeiro eleito em 1782 para occupar o cargo prelatico 
de Goyaz. Por esta circumstancia, em nome da rainha 
D. Maria I, foi ordenado ao embaixador na côrle de Roma, 
D. Diogo de Noronha (posteriormente conde de Yilla Verde 
8 que falleceu sendo secretario de Estado), por officio do 
secretario de Estado conde da Villa Nova da Cerveira, da- 
tado de 13 de Agosto do mesmo anno, que instasse pela 
aceitação da renuncia do bispado sobredito, e nas bulias 
d'ella se declarasse livro ao bispo renunciante o exercicio 
da ordem episcopal no território de Goyaz, d*onde estava 
nomeado prelado. Continuando, porém, o impedimento de 
moléstias, que no anno de 1788 levaram o bispo à sepul- 
tura, não se realizou o exercicio prelaticio. )> 

Foi seu successor D. José Nicoláo de Azevedo Coutinho 
Gentil, da ordem de S. Bento de Aviz, bispo titular de 
Zoara e prelado de Cuyabá, por nomeayão de 23 de Janeiro 
de 1782, cargos que renunciou, desde que por decreto de 16 
de Maio de 1795 conseguiu ser despachado deão da real 
capella de Villa Viçosa. 

O terceiro prelado foi D. Vicente Alexandre de Tovar, por 
nomeação de 11 de Setembro de 1802. A seu respeito diz 
Pizarro nas suas Memorias Históricas : 

cc O padre Vicente Alexandre de Tovar, natural da Bahia, 
formado em cânones, e presbylero secular, que, sendo có- 
nego reitor da só de Faro, passara a Goyaz, e por provi- 
mento do diocesano do Rio de Jaíi(?iro occupára de 
encommenda aparochial igreja do Pilar, desde 6 de Julho 
de 1791 a 1830, em que se retirou por obrigado a regressar 



— 43 — 

â conesia reitoral, cujo beneficio deixou pela prebenda 

canooical da sú da Babk.)) 

Provido na prelazia, diz ainda Pizarro: « Por aviso da 
secretaria de Eslado dos negócios do reino, datado de !4 
do Setembro do mesmo anno (1802),se IBe facultou solicitar 
da sé aposLiilica a nomeação de hispo in^jwrtíbm infidelmm 
em Tavordos povos da sua diocese.,.. Por intervenção régia 
Se expedii^am as bulias qne o insliluíam bispo de Títopoli, 
ê em virtude d'ellas recebeu a sagraçJo administrada a 28 
de Agosto de 1803, na igreja do toreto/pelo actual núncio 
apostólico o moQsetihor D. Lourenço Caleppi, arcebispo de 
Naiibl, assistido do arcebispo de Andrcánapoli, D* Manoel 
Joaquim da Silva, e do novo bispo de Angola D. Joaquim 
Maria Mascareobas»» 

Nomeou D, Vicente governador da prelazia, emquanlo 
nao ia tomar d'ella posse, ao padre Vicenle Ferreira 
Brandão, Em viagem para sua diocese, falleceu na villa de 
Piracatú a O de Outubro de 1803, de uma violcnUi dor 
sobre o coração, que so lhe periiiiltiu viver o tempo pre- 
ciso para se lhe administrar o Sacramento da Penitencia. 

Sem receio de offendermos a ordem chronologica, que 
rios impuzemos n'estes annaes, e por nao convir interrom- 
per o que temos a dizer ainda sobre a historia eccle- 
siastica da capitania — proseguimos : 

Foi successor de D- Vicente de Tovar na prelazia de 
Goyaz D» António Rodrigues de Aguiar, por eleição de 24 
de Juoho de 1810. Filho do Rio de Janeiro, e bacharel em 
cânones, íoÍ familiar do bispo D. José Joaquim Justiniano» 
depois secretario do bispado do Rio de Janeiro, reitor do 
seminário de S. José, e cónego da capella reaL Tomando 
posse da prelazia em 13 de Janeiro de 181 i, designou para 
seu governador o Uov, padre Vicente de Azevedo Noronha 



- ifl — 

a Gamara, com faculdade de poder delegar seus poderes na 
caso de impedi mento ou de força maior. 

Nomeado D. António bispo titular de Azoto em IH Ifi, 
foi sagrado na capella real em 29 de Setembro do mesmo 
anno, pelo Rev, bispo capelI5o-mòr, D* José Caetano da 
Sika Coutinho. 

Esperava D, António por esta confirmação, que tanto Sô 
demorou, afim de tomar posse da sua prelazia : desde, po- 
rém, que^ como seus antecessores^ viu-se revestido da ju- 
risdicçâo episcopal, seguiu para Goyaz; mas^ assim como 
seus predecessores, nao cliegou a ver a sua diocese. Em 
viagem foi assaltado de uma malina, e na margem do rio 
Iguassú terminou seus dias a 2 de Outubro de Í8l8. 

Fallecendo também o governador padre Vicente da Az^ 
vedo, suGcedeu-lhe no governo da prelazia em 12 de No- 
vembro de 1818 o cónego Luiz António da Silva e Sousa. 

Não se fez esperar muito o preenchimento da vaga dei- 
xada por D. António de Aguiar,0 vigário de Macacú, da pro- 
víncia do Rio de Janeiro, que fora eleito bispo de Meliapor 
em 1811, foi designado em lO de Outubro de 18 1 8 prelado 
de fioyaz, e n*este cargo confirmado com o titulo de bispo 
de Castoria pela buUa de Pio Vil de 10 de Junho de 18Í0, 
Tomando posse da prelazia por procuração em 21 de Ou- 
tubro de I82i, seguiu lempos depois pnra Goyaz. 

Elevada a prelazia de Goyaz a bispado pela bulia d© IS 
de Julho de 1826, de Leão Xllt que principia— So/íctía ca- 
íhõUci gregia (69) » foi D, Francisco eleito bispo por <te- 



(6t)) M nomtnê B<>mini^ amm* — Leo Epfscopu^ Servo rum Dêt iii 

pêrpdiiam rei memoriam^ Solicita calholici pregis cura nos com* 
pellft assidue uL oa prestem us in tonto sludio quíP pro solubríori ejus- 
(lem procumtione videantur expodire miêt qufi? priírum lenet 
locum l^piseoporum constkulio ut (tdeiís Foptili «^pirítualibus oece»* 
siljiribus celeriler valeanl opem ferre opporluiiaTn aç in MDia pre- 



— 47 - 



creio dê 11 de Setembro de 1843, e conQrmado por buUa 
de Gregório XVi, expedida em 1844- 

sertioi teiupomm acerhíULo Saneia ol iQConcusRa CaLbotic^ lidei 
dogmala orEinibm u recla via dêcUciuntíbus opponat Pupulumque 
verbo @l exemplo ita iti^iiruat aaiidue^^ul yberrinii Sacmmcriltirum 
pabuli parUeeps faciuâ coron^im vít^e ia iriumpbaniis Ecclesiuu si nu 
mereiílur {iccipera cmu dlías fd i reco rd í Bçnediclus Dí^cJuiusquar» 
ius Predticesãur aosier suis niotus proprií IJieris iiicipiens — Can- 
dor lucíâ elernuí — daiis Octavo fdus DeceraUris nnno Doroínl 
millesliBO sepiingenLesima quadragésimo sei lo e% vaslissinia Flu- 
miais ianuanis Dieeest ío Brasília bttms erexit sedes Episcopales 
unam nempa Saoctí Pauli et aJ Leram Marmiieni^em ouDcupala duas 
iii^lmul iiJsUtuJt PretaLurus Goiaseosem nluiirum ei Cublmeusem 
deaomioatas ei separalum territoriuin babetUes iuquo idutieíPrcs- 
b^leri Seculares ycI iteguUre^ a rege in Frolalos etiam ad teoipus 
sibi benèviâum Ubere depulatidi spiriUialem omaimedam respective 
esLereereutjurísdrctianem sub certis quibusdaoi legihusad saluber» 
rimecoDsuiendunj ulíliori procuralíotii poputorum per ásperas illas 
Gt mauto&aâ Hegioue^ degentium ac mu lia profeeto auimíirum lucra 
ojiínde comparai a di^auscuDlur piores enim creclio EcciesiiJí^ et ea* 
rum oonnuIJíc ParofiliialiUtis jure donaia^ non pauci Sticroruni Pre* 
sídesadscili quí populis Otristiaoa disciptioa informandís coUabo* 
rareni afiaque in íditpportuna fuerunt instituta Auamen ad uberjore 
adLoc ibidem compara oda increinenta rei sacr^e uode ílegnorum 
iacolumitas el vero habelur felicitas caríssimos in Christo FiJius 
nosler Petrus Prímus BrasiliíE Iraperaior per dííectum filiam Fran- 
eiscum Corrêa Vidigal suum apud dos el aposloliram sedem píeni-^ 
poleociarium admiiiislrum impensa soIlícíLudine canlendjt ui binas 
eouncíalas Prelatoros ad sedis Episcopalis grndum eL dignitatem 
extuUeremus aperto despondens quidquíd iu Episcopales Biensas in 
Capitulorum ac Semínariorum Patrimouium el ad Catbedralíuiii 
o;diom tuílionem neeessaríutn depreJiendereturei publico erano se 
iDlegre ac slabilíler collaturum PíenLíssimi!^ igítur laudaU Impera^ 
toris voLis quanlum in Domino po^sumu^ beoigiie annuendom coo* 
sentes omoíbusque rile perpensis et certu scientía ac matura 
delíberaLione noslrís de quii* aposioUcfO potestatis plenitudine previa 
utriusque P rela l uni;; Goiasensis cl Cuiabensis âuppressione ex- 
linetione el atmulialíone biiios oppidos Goiás iuni et Cuíalaum in 



— 48 — 

ando por Goyaz, para a saa diocese» o bispo de 
Cuyabá» D- Josó António dos Reis, nessa occasião sagrott- 
se D, Francisco. 



Civílales Epjscapãles ctim Ciiria et Cancellana Ficclesísstica cfitPfis* 
qua júri bus tiQUOribus et privilegits quíbu^i f^audlent aViua stmiíts 
Episcopais CiYLlnle§ íq eisdeni vero CiYit.tttbus eiislÊEtes Mt|Orit 
Ecclésias Í<iCi¥Ítatc sfilicelGoiaseo^i honori SoLro Àn[i«ii dicatam at 
m CuíabAõnsi Cí¥itate tiiulo Bqdí Jesu vocaUm ná gradara Calb«- 
drâlium Ecolegiamm Coiaseosis et Cuiatiaensis P<iroch)aie« ul antca 
sub lisdem titutis eitiLur^yi evetkimus et exLoKIimus illasque metr^ 
poliLioo júri pro tampore c%isientís Archiepiscopi Scii Sahatomiii 
Brasiliii uti sulTraganeas fiubjicicDUS atque iu biuis ípsis Eccl^iâ 
Diguítatem ct SciUm Poiuiricatem pro l^oiasenMet Cuíabaiinsí Epif* 
copii rêspectíve nuncupandi^i qui Ecoti^stits iisdem Civítatibui mm 
Oicpcesibus ut mim MKigrtíindis ilUrumque Oero cl Pôpulo pretiat 
ac omQÍa eisinguUjura el munia Epíscopalia eierceant €úm iilíi 
iarfáseriptis Capitull» Arca Sigillo Meosis Epiâoopalíbus Samíaaríis 
Fueroruin EcctcsiasUcis cclcrisque Pofiiííiealibus insigiiiis JMris- 
dieiioiíibui prerogaliTÍs ae indultís realibus et per!iúnalibus adâliai 
Catbedmies Ecciesins íllarum parlium legitima ex causa spectail- 
tibus eadem apoitobca auetorilaLe erigimus et coRStitulrans Forrei 
ia una et altera ex predieLis Cathâdmfibas Capitulam eríl instíMien- 
dum qui t^x Arehidmcouo prima poi>L t^ouimcidtcm el Arr.hipr«sbj^ 
lero secunda díguitale et ei decem saltem constiibil CanoDÍeii 
respectivis gaudentibu* Prebendii iiit«r quas Tbeologalia et Pem- 
teDciaría eruui percensenda iiemi|ue cum np por! uno com peie utt 
Capeíknorum ac Mini&trorum numero pra uoiuscujusque Eceleâiie 
fierfitio Tdí autem eíTormalo Capilutu faculialem iiu parti mur gau* 
dendi omjubus et síngulis bouoribus iasigniis et prívilegib noii 
tnEoeu titulo oneroso vet ex pecutjari favure aoqal^itis qui bus Qipi* 
tut& ANarum GitltedraUum m Braâilieii!^i Império legitime fruuntur 
itemque condondi quiE^ibeL statula Ordinalionm et derreia licita 
tamen et banesla ac sacrís Cationibus decretisque Coucílii Triden- 
Uai et apastoUcis cotistiLulionibus mioime adversantia quibus de 
rectal diviui euUus disciplinarei deaccurata sacroruin procuralioue 
oppoTtuna pra'cepia tradaiituf quieque postmodum pro eoniin ro* 
boro eipleuario eíTectu erunt respectiva Episcopo subjicieQda el ab 
eo speciatím approbauda Fuerorum itidem Ecciesiaslicum Semitia* 



Nos assumptos rtslalivos ã igreja de Goyaz houYeram 
sempre as maiores delongas, como lemos visto. 



riuin exTritlentinorum Patmm ordiníiLionn in qiiatibet ex duabus 
Epíscopalibus Ecclesíis erigendani staiuimm ul inibi adoleseenlos 
Oeríci ad EccIesiiBdiscipImam informentur utílibus per KpÍBcopos 
legibus impoAitis qvjibus pieLas in prímis etmorum probilasuc sana 
docirioa fovealur at noTellHs pbntationes quai ibiilem alutilur ia 
Bpero Ecclesíarum suncrescanl felíciler uboriores in díôs fruelas 
allatarn? atquc ul pro tempore exislentium Episcoporam eL Capilu- 
lorum nec non Sarainariorum con^rue dotalioni respectivo consu-* 
ktur denerntmuB quod una êl altera BX Epíscopalibus MeDSÍs Coia- 
sen$iis eL Oíiabaensis ad normam abarum Monsaruni Epíscopabum 
per Brasibam in^trnalur expTícalís ac eerli^ annuíit reddidbus in 
iummasaliem quingeniomm sepmaginta unius Dj^icatorum auri de 
Camera ex imporíab erário bbere pcrãotfenda quodque paritor Ca- 
piLulorum ae Seminarioruni congrue dolalioní alque Cuibedrabum 
adíum tuitioni Episcoporum decenU babítatLooi et Seminariorum 
Ordinationi a supralíiudalo Brasibíp Iraperalori ad normara saltem 
alíorum Epíscopaluum pro suo m CfUboMcam FkUgionom impeuso 
sludio Ubcrabler consulolur pro singularum profeclo Dí(v*eesium 
eíTorniando Território ea ipsa loca uDíciíique attribuimus qutL> ifi 
presenUarum adatiledictas rrelaturas respectivo perlinent atque 
idcirco suppressa et exlincta qualibet alia si qua^ forsan exíBtat alte- 
ricm cuju!%piãm antisliti;^ in lU Territariís jurisdictionem iMorum 
Íncolas uiriusque scxus iam Laicos quam Clericos nec nan Ecclesíaâ 
Monasteria Beneítcia quírcuroque memoratts Epif^copalibus Ecelosíis 
earumque Presulibu^ pro buís Cívrtalo Territorío Diecesí Clero ac 
Populo assignamus eorumque omnimudaí jurisdictioni acsuperio- 
rílali in spírítuatibus perpetuo respectivo supponimus atquo sub- 
jictmus fescnrata tAmem Nabis ot Romanis Pontibcibua successo- 
líbus nostri^ facultaie novam harum Dtecesíum circurnscriplionem 
eliam qiiond Moiro poUlice Eccle^ue designalíonom ^jtncire uhi saiu- 
britis pro líeligíonis bono fore fonspiciafyr quin uHuui in iil vel ab 
anliiilitrhus vet a O^ipiíulis opus sit a$;^en^um ciquírere. Qooniam 
veroad furuiam supradicli Mulus proprii liiudaLi Ponlificis Bonedioii 
Deotiníquarlí prefac tus Brasília? Imperaior Indulto gaiidebat Iiioneoã 
Presbyleros ad enuncialas Goiascnsos ei Cuiabaonsem Prcbiluras 
Bominandí. Nos attentia quaqtie prs^Iaris in Heligíonem cl Eccte- 
TOMO XXVIU, p. TI, 7 



- 30 — 

Foi I). Francisco o primeiro prelado que entrou em Goyaz 
e exerceu, apezar de cego, o pastoral officio. Dotado de ?ir- 

8iam meritís ipsius Petri Imperatoris libenter concedimus ut hac 
eliam prima vice el in futuris vacalíoníbus idem Imperator ejusque 
in Brasiliensi Império successores gaudeant jure patronalus et pre- 
sentandi ad anledíclas sedes Romano PontlGce infra annum adie 
vacationis ob locorum longinquitatem Personas Ecclesiasticas pie- 
tate Religionís sludio doctrína secundum Doum prudentiael gra- 
\itate commendatas iisque preditas dolíbus quas sacri Cânones 
requirunt a nobís et Romanís PonliGcibus successoribus noslrit 
juitd statulas formas per apostólicas líteras Canonice promoveodas 
el iustituendas. Eidem ínsuper Imperatori tribuimusjus nominandi 
Ecciesiastícos idóneos viros nd omnes et s igulas predictas Dignita- 
tes Ganonícatus Prebendas ac Beneficia ut preferlur respective erí- 
genda congriísque per ipsum Imperatorem rodditibus donanda quo- 
ties iila quomodolíbet et ex quorumcumque Personis eliamapud 
sedem aposlolicam vacare contigerit ita ut hujusmodi nominalís ae 
presentatis Cinonica per respectivos Episcopos decernatur instilutio 
eo plano modo quo a supradícto Predecessore nostro Benedicto De- 
cimoquarto in supra enunciatís Motus proprií iiteris pro BeneGciii 
Capitulorum pro Cathedralium Sancti Paulí et Marianensis fuit san- 
citum ad consulendum interea Cliristííidelíum in illís partíbusde- 
gentíum spiriluali regímini ubi primum binaram Cathedralium 
erectioní locus faclus fuerit ne iisdem dcsil Preses donec de primo 
earum anlislite provideantur Venerabilera Fratrem Francisoum Fer- 
reira de Azevedo Episcopum Castorien in partibus inlidelium Prela- 
tuno Goiasensi et dilectum fílíum Fr. Joseplium Mariam e Macerata 
Presbilerum Ordinis Fralrum Minorum Sancti Francisci Cappuc- 
cinorum expresse professit Cuiabaensi Prclature modernos Pre- 
sidentes in Vicários apostólicos earumdem Prelaturarum cum 
necessaríis el opportunis in eam rem facultalíbus durante lantum- 
modo illarum sedium Episcopalium vacatione respective deputamus 
et constituímus. Volumus autem quod juxta redditus annuos Mensis 
Episcopalique ut supra assígnaudos consueta Taxa Ecciesiarum 
Goiasensis et Cuiabaensis de more cílbrmata in floreois auri centum . 
sexdecim cum duobus terliis pro unoquaque in Libris Camerae nós- 
trse apostoliccie describatur. Denique ut cuncta superius a nobis dis* 
posita rite ad suum perducantur efTectum Venerabilem Fratrem 



— SI - 

ttidtís preclaras, era entretanto de caracter timorato e de 
orna bondade extrema* Cego, esta círcumstancia muito con- 



Josephum a Silva Episcopum Sancti Sebasiiaoi Flamims Januarii ia 
harum Uteramm MposlDlícârum 6xequuiDrem cum omníbus et sin-» 
guILs necessariís et oppoTtuniã fâcuItaLibus eligimus ac dcpulamus 
uísive per se síve p6r aliam ítlustrem PersoDam ia Eec[esia<iilca Ui« 
gQÍtate constitutam ab oo subdelcgandam prosit satius m Domino 
eensueríL nedum cuQCta vafeat peragere ad optaluoi premísoruin 
oiitum sod etíiiin siujjer í|uacumt|ue oppoíiítioae in acLu ©jusmodí 
esequalionls quomodolibel Torãan úrjtura deliaíLlve pronunetare 
delagaCa sibi apostólica âuctoriUie Nbere et licite \aleai Cidein ÍQ« 
super Joseptio Episcopo iDJungimus ut aulhentica decrelorum et 
aelorum omoía inejusmodi eitequuliononi coullciendomm ad após- 
tolíeaiD sedem trrtnsmiUat ín Tabula rio hujtis Congregatioais rebus 
consisiorialibus preposíte do more jis^ervanda Presentes autem 
literas et ia eis contenta qua^cumque etiam ei eoquod quilibet ia 
premissis itueresset babe ni es vel habere pretendem es illts non coq« 
senserint seu vocati ei audiU non fucriat uullo uoquain temporede 
subreptionis vel nbreplioDis seu nullttalis vitio seu itileniionis nosr 
Irce aut atío quabtumvís subslaQcíaíi defectu nolari impugna ri vel 
ia eontroversiam ^omrl miuime posse sed semper et perpetuo fa- 
fidas Bi otficaeeso.\islere et fore suosque plenários et íntegros efle- 
ctus sorlíri et obLínere ac ab omnibus ad quos specUl inviotabíliter 
observari debere et si secus super bis a quoquam qtiavís aticLorítale 
seienter vel ígneraoter cotitigerit attenian írrílurn et inane deeer- 
nimut. Non obstantibus eliam in Sinodal ibus ProvincialíbusCenera* 
libusque Coneilits edítis Conslitulionibus el Ordinalionibus apos^ 
lolicis predícturumque EccJesiarum slatniís consueludinibus &t 
privilegiis quibus omnibus et singulís illorum tenore pro plene et 
sufficicnter ex[íressis babenlos iltís abas ín suo robore perraansuris 
ad premissonim eíTeolum derógamus ceterisque eontrariisquibus- 
cumque NulJi ergo omnino hominum fíceaL bane paginam nostram 
Erectionts InslítuUonis assignalionis aitfibuitíonis Concessionis De- 
paialioois Injunctionís Derogaiionis Dccreti roandati et toluntatís 
infringe re vel oi aussu Lemer<Arío conlrairo ; si quis aulom Zioc at- 
lentare presurapseriL indignaLíonem Omnipoientts Dei ac ííeatorum 
Pelri eL Payli apostolo rum ojus se noverlt incursurum Datum Bomín 
ap\iá Sanei um Petrum atino Incarna tiouis Dominica* millesimo 



— 5» — 

corroo para que nSo poucas vezes abusassem da snacMh 
fiança e da soa bondade, com grave prejuízo dos interesses 
da sua igreja ; foram seus próprios familiares os que mais 
o comprometteram. 

NSo consta que em tempo algum houvessem duvidas 
sobre divisas ec(^lesiasticas ; a desmembracSo que se te 
das freguezias que pertenciam ao Pará foi aconselhada por 
bem dos povos; um facto, porém, teve lugar em nossos 
dias, a usurpação por parte de Mato-Grosso da freguesia 
de SanfÀuna do Parnahyba, assumpto este de que ji nos 
occupàmos quando tratámos das questões de limites com 
aquella capitania. 

Vem aqui a pello fállarmos de uma azeda polemica, que, 
travada no governo de D. João Manoel de Menezes, teve 
fim no tempo de D. Francisco. 

Por carta régia de 25 de Abril de 1799, foi o ouvidor de 
Sabarà, José Gregório de Moraes Navarro, incumbido de 
erigir a villa de Piracatú do Príncipe, e crear a comarca dô 
Rio das Velhas. Determinava esta carta que na demar- 
cação da villa ficariam comprehendidos os lugares que 
mais próximos d'ella ficassem, sem atlenção às divisas das 
capitanias. 

N'esta conformidade, o ouvidor, em 15 de Outubro de 
1800, installou a villa e traçou-lhe os limites, annexando- 
lhe o julgado de S. Romão, que entendeu, n'essa occasião, 
dever extinguir. 

Á linha divisória, partindo do Porto Real do rio de 



octingentesimo vigésimo sexto Idibus Julii Pontiíicalus nostri < 

terlio loco í{í Plumbi-Super quibus quidem Literis Ego Notarius pa- 
blicus presens Transumplum confeci et signavi presentibus D. D. 
Germano et Dâmaso Testa Testibus. — Goncord cum Originali F. 
kola Opus Depus. — B. Gardinalis Pacca Pro-Dat. — Ita esl Carolas 
Baltaglia. — Notus Apeus. 



- &3 — 



S. Francisco, ia lêr á barra do Rio das Velhas, e d'âhi, pas- 
sando pelo julgado de S, Romão, prospguia em direcção ã 
barra do rio Carinhanha, e soas cabeceiras na chapada de 
Sanla Maria, seguindo depois alé ás cabeceiras do Rio 
Preto, e d'ahi, acompanhando o curso das aguas dos Arre- 
pendidos, ia ler às suas cabeceiras, e d'ellas em linha recta 
ao rio de S. Marcos, cuja corrente seguia até fazer barra 
no Pamahyba. Pelo 1'arnahyba acima, remontando assoas 
vertentes, continuava a linha diirisoriâ, e depois proseguia 
até o registro dos Ferreiros : d*esle porto par li a ate o Fun- 
chal, cnjas aguas acompanhava até se lançarem no Indabyá, 
e pelo seu curso até conDuenciar no rio de S, Francisco, 
cuja corrente servia de natural balisa até o Porto Real, 
ticando doeste modo fechada a linha divisória* 

N'este grande periraetro estavam comprehendidas as po- 
voações de S. Romão, Salgado, ribeira do Urocuja, do 
Acary, Peruassíi, Rio Pardo, Rio Preto» Carinhanha, cha^ 
pada de Santa Maria, e quasí todas as fazendas da picada 
de Goyaz, desde Piracatú até Bamboby, Incontestavelmente 
uma grande parte do território, que até enlao pertencia a 
Goyaz, não se respeitara n'esta divisão. 

Informado D. João d'este fado, dotado, como era, de 
génio ardente e violento, representou contra o acto do ou- 
vidor ao capitao-general, Bernardo José de Lorena, então 
governador de Minas, e^ não satisfeito com assim ter pro- 
cedido, mandou postar um forte destacamento em André- 
qoisé, para assim manter melhor osUmites dasua júris- 
dicção. 

Depois de uma troca de oQicios, escriplos em lingoagom 
pouco conveniente, flcou a questão adiada; porém D, Fran- 
cisco entendeu prudente dar-lhe flm, deixando a capi^ 
tania de Minas na posse do contustado terreno* Entretanto» 
ficavam ainda para futuras ambições de Minas os julgados 



- u - 



do iraiá ê DeseihboqBe, e lodo esse lêrrilorio camprefifeií^ 
iiáó entre o Rio Grande e Parnah j ba» coahecido pelo nome 
Úh sertão da Farinha Podre, 

Julgamos de interesse mendonar aqui estes factos, para 
que se cooheça âs mudanças que se foram operando do lar- 
rítorjo da capitania, o que foi ella outrora em exlSDSlo 
tôrritorial, 6 o que representa hoje em relação ao passado. 

Decidida, como acabamos de Tér, esta questão^ dirigia 
D. Francisco as soas vistas para o assumpto que mais o 
prendia, — as vias de Ciimmunicaçao — . Entrava dos seus 
planos admiuislratívos a e^íploracâa dos rios do sul da capi- 
tania, para estabalecer por esta modo uma fácil communi* 
Câçao com S* Paulo. 

Antes, porém, de tratarmos desta matéria, fallaremos 
do descobrimenio que do seu tempo se fez das ricas minas 
do Anicuns, que em 1752 foram conhecidas do câpitão-mÂr 
PãDlaleâo Pedroso. 

Informando D. Francisco ao seu sucoessor sobre o ser^ 
viço da mineraçãOt disse ; 

II Esta capitania é talvez a uuica do Brasil que lem a at* 
pecialídade de conter nos seus limites, além do muitas mioss 
de ouro, as melhores matarias, muito férteis campinas e 
dois grandes rios navegáveis, que lhe offerecem uma com- 
municãçao fácil com a do Gram-Pará. E' verdade que as 
minas lèm experimentado considerável decadência desde 
muitos annos ; as conhecidas, por se acharem cansadas, dSo 
já muito limitado interesse, ou, para melhor me explicar, 
o pequeno numero de escravos que ha na capitania nlo 
permitte o estabelecimento de serviços mais custosos e 
adaptados á sua natureza, para se tirarem aquellas utili- 
dades que ainda poderiSo offerecer-nos. Quanto, porém, 
às minas até agora por descobrir, mas que muito bera fun- 
damentadas opiniões indicam a sua existência oo centro 



— «5 — 



d*este vaslo continente, lôm obstado a sua exploração, em 
primeiro lugar, o génio pouco activo e sempre inclinada 
ao ócio dos brasileiros, especialmente dos habitanles d esta 
capitania; em segundo lugar, os infelizes resultados e 
grandes despezas que tiveram os últimos descobridores, 
entre os quaes se faz especial menção de um Bulhões, na- 
tural do córrego de Jaraguà, que inleiramenle ficou arrui- 
nado com toda a sua familiat dissipando nas suas inúteis 
tentativas um considerável património que lhe haviam dei- 
xado seus antepassados ; sendo estes motivos assas podero- 
sos para se nâo arriscarem ouLros exploradores aos mesmos 
infelizes descobrimentos e trabalhos ásperos e perigosos ; 
o que sempre serviu de intimidar a povos em que concor- 
rem as circurastancias de um génio extremamente frouxo e 
de temperamento o mais fleugraatico» 

ff O novo descobrimento dos Anicuns ollerece, comludo, 
uma grande resurça a estes povos : nella lém collocado, 
não eu, mas sim os enthusiaslas da mineração, as mais 
consoladoras esperanças do futuro melhoramento doesta 
capitania.... )> 

Digamos como foi êste descobrimento e o que se seguiu 
depois. 

Andando a faiscar no córrego de Anicons um pobre 
homem, de nome Luciano, reconheceu a existência de um 
rico vieiro, dilEcil de trabalhar, por ser em pedra, e, pare- 
cendo-lhe ser esta nova agradável ao governador, a elle a 
foi levar* 

Com a noticia aOluiu para o ponto grande numero de 
pessoas. Não tardou que D, Francisco desse ordem ao 
Dr. Joaquim Ttieotonio Segurado para proceder à divisão 
das terras ; e, porque desde o começo dos trabalhos appa- 
recessem grandes desordens, deu fira a ellas mandando 
organisar uma sociedade mineralógica- Da organisaçao 



— 56 - 



desta sociedade foi incumbido o desembargador superia- 
teúdeote Joaquim IgQacio Silveira da Motta. 

Iodo para este Om a Anicuns, teve Silveira da Mo tia oc^ 
casiao de verificar que uma pedreira mandada conservar 
sob gaarda por D, Francisco era a mais rica qua até então 
se tinha descoberto em Goyaz. 

Isto succedia no 1* de Março de 1809 : no dia 2 estava a 
sociedade organisada, sendo Silveira da Motta seu director 
e imraediato na administração o guarda-mór territorial 
Francisco Anlonio da Fonseca. 

Além doestes dois superintendenteSt linha a sociedade 
um caixa ou Ihesoureiro, um escrivão e seis feitores. Os 
primeiros accionistas, segundo a regra dos estatutos, eram 
obrigados a entrar para a sociedade com doze praças de 
serviço: admitliram-se também todos os homens livres 
que quizerara trabalhar a salário, Organisada a companhia 
sob estas bases> e com um grande corpo de operários» come- 
çaram os desmontes* 

As primeiras provas deram logo a conhecer a riqueza 
eiístenle: no quarto dia de trabalho enconlrou-se uma 
pedra solta com o peso de doze arrobas, da qnal se es- 
trahiu mais de duzentas oitavas de ouro. 

Em Março foi D* Francisco a Anicuos para observar c 
serviço feito e dar uma conveniente direcção aos trabalhos 
da companhia. No fim d'este mez se recolheu ao cofre era 
ouro o valor de ^:i395S25, no mez seguinte !0:607C^I03, 
e em Maio 7:2933J128. Do mm de Junho em diante dimi- 
nuiram um pouco os trabalhos, porque grande numero de 
operários foi dislrahido no serviço do encanamento do rio 
dos Bois, e no levantamento da igreja de S. Francisco de 
Assis, que o governador mandara erigir, assistindo em pes- 
soa ao lançamento da primeira pedra, 

Apezar d esta distraçao de braços, no ftm de 1809 havia 



- 57 - 



em cofre uma renda liquida de 20:í>46»^735 ; em 1810 a 
renda foi de 8:0585sl87; em 1811 do7:8i3»SOO; e em 
1812 de 3:01 5?íOOO. 

,N'este uUimo anno linha rareado muito o corpo dos 
operários : o demónio dâ intriga, pondo em luta o ouvidor 
Motla contra os sócios Braz Maninho de Almeida o Joaquim 
José Gandras, afugentou a muita gente, O serviço da mi- 
neração foi decahindo alé dissolver-se a companhia no go- 
verno de Fernando Delgado, que tentou debalde dar-lhe 
nova forma. N*esse lugar das minas de Anicuns ficou nma 
povoação, hoje pequena e acanhada, mas que ainda mostra 
pelo numero dâs suas rui nas o seu antigo florescimento- 

Não crendo D, Francisco, por elle mesmo confessado, 
como acabamos de ver, no progresso originariamente filho 
do trabalho mineralógico, cuidou com preferencia da la- 
voura, do commercio e da abertura de novas vias de com- 
mnnicação, por onde pudessem facilmente sahir os pro- 
duetos da capitania. 

Estabelecer com o Pará relações commerciaes, por via 
do* Tocantins e do Araguaya, era seu grande desideratum, 
porque elle via que Goyaz produzia bem o algodão, o 
fumo, o assucar, o café e o trigo, e nao podia permutar 
esses géneros^ nem dar extracção aos produclos do gado, 
sendo uma provinda essencialmente creadora : para lar 
consumidores e fregueses carecia de meios fáceis de trans- 
porte. 

Quando D. Francisco em 1808 fez publicar o alvará do 
1" de Abril do mesmo anno, que revogava o de 5 de Ja- 
neiro de 1785, que havia prohibido e extinguido as fa- 
bricas e manufacturas, por se entender que eram ellas 
também causa da diminuição considerável da extrac- 
ção do ouro e diamantes, recommendon a lavoura do at- 
íodao e a creaçao de fabricas de tecer, considerando 
TOMO xxYin, p. II* 8 



- 58 - 

essa laTOora e a industria da tecelagem do maior interesse 
para a capitâQÍa. Aconselhando que a esta industria se 
applí cassem os povos de prerereocia a qualquer oulra» 
aílirmava e garantia que n^elle enconlrariam e nos magis- 
trados todo o apoio e protecção de que carecessem ao 
principio e no progresso dos seus estabelecimentos, aquet* 
les que com interesse e vigor a ella se di*dicassem (70). 



(70) Eu o Príncipe RegeDle faça saber aos que o pres6iUe alfafa 
virem que, deseJaQdo promover o adiantar a riqueza nacíODoi, c 
sendo um dos raananciaes frella as mamifâclurase a índustriíi, que 
miillii^lícam e melharam, 6 dão mais valor ans fçeneros e produelOf 
da agricullura c das arles, e augmentam a populacho, dando qoe 
fazara muitos l»rnço!> e fornecetiijú meios de subsislencia a muiloi 
dos meus ^ assa lios, que por fnlla d^elles se entregariam aos tícios d& 
ociosidade: e convindo remover lodos os obsiaculos que podem 
inutilisar e frustrar Ião vantajosos proveitos: sou servido uboHro 
revogar toda e qualquer prúliibi^fio que b aja a este respeito no £^ 
tado do Brasil e nus meus domínios ultramariuos, e ordeoar quo 
d'aqui em diante seja Ueito a qualquer dos meus vassallos, qualquer 
que seja o paiz em que habitem, estabelecer todo o género de ma- 
nufaeturas sem exceptuar alguma^ fazendo os seus trabalhos *eai 
pequeno ou em grande, como entenderem que mais thes convém, 
para que bei por bem derogar o alvará de 5 de Xatieiro de 1785, ^ 
quãesq^uor lets ou ordens que o cooirario decidam, como se d'6liââ 
fizesse ei pressa e individual mem^ão sem embargo de lei em con- 
trario. Pelo que mando ao presidente do meu real erário, governa* 
dores e capiíaes-generaes, e mais governadores do Estado do Brasil 
e domínios ultramarinos, e a iodos os ministros da justiça o mi» 
pessoas aquém o eonbeci mento doesta pertencer, cumpram e guar- 
dem, e façam inieiramente cumprire guardar este meu alvarâ como 
n^elle se cootémi sem embargo do quaesqaor leis ou dispasic^ em 
contrario, as quaes liei por derogadas para este eITeito somente, 
ficando alíús sempre em seu vigor. Dado oo palácio do Rm de Ja- 
neiro, no i* de Abril de 1808, — Principe* D, f/?rnandú Jméde Púr- 
tugai. — Alvará por que Vossa Altoxa é servido re?ogar tod& a 
probibiçào que bavia de fabricas e manufacturas no Lstado do fim- 



— S9 - 

Mãs a primeira protecção que D. Franeiscô podia dar â 

lavoura e à industria da capitania era, sem duvida Jacili lar 
o seu transporte para os mercados consumidores* Para os 
habitantes do norte haviam os rios Araguaya e Tocantins ; 
para os do sul as estradas de Minas e S. Paulo, vias de 
coramunicação longas e caras. 

Se fosse possível navegar os rios do sul de Goyaz, que 
lodos se dirigem para S, Paulo e Minas, estava am parla 
resolvida a questão. Sabia D, Francisco que pelo Tietê, 
Paraná, Camapuan e Taquary viaja va-se do litoral para 
Cnyabà, que este caminho era jà frequentado: porque, 
pois, não seria possível continuar esta navegação até pou- 
cas léguas de Villa-Boa, subindo o Parnahyba, rio Verde e 
rio dos Boisí Foi o que tentou veriflcar* Offerecia-se para 
esta empreza Eslanisláo de Oliveira Guterres, homem ou- 
sado e qae desejava prestar algum serviço que o recom- 
mendâsse. D. Francisco mandou construir á sua custa uma 
canoa, que aprestou e tripolou convenientemente para esta 
exploração. No começo das aguas de 1808 partiu Guterres 
e embarcou-se no rio dos Bois ou Anicuns, 

Diz um contemporâneo, fallando doeste eommettimento; 

a Dos companheiros doesta espediçao alguns voltaram 
logo da campanha do Neiva, e Eslanisláo seguiu só com 
seis companheiros em uma canoa, e nâo voltou e nem 
consta que chegasse a seu fim. Dizem passageiros da 
S. Paulo que deu em uma catadupa (7t)» em que perdeu a 



síl e domínios u!tntniaTÍnós, na fúrma acima exporta. ^- Pam Vossa 

Alteia iieal ver. — João Alves de Miranda Varejão, o fei. 

(71) Diz Cunba Mui los: — Entregues A vioteneia das correntes, a 
ignorando lahoz a verdíideira situaçáo da íoi do Tietê, varou de 
noite a loca d'esle ?{o, que linha ordem de subir até S. Paulo, 8 Toi 
precipitar-se na cefebre cachoeira das Sote-guédas {Gomara], onde a 
canoa se fei em pedaços. — lUmmrw lom. 2* pag. 103, 



— 60 - 

caiiôa e mantimentos e só salvaram as vidas, e que conti- 
Buaado em uma jangada que fizeram » a qual deu em ou- 
tra, só 36 salvaram Estanisláo e dois compaoLeiroSp e que, 
entranhados em uma mala, só sustentados de raízes e pal- 
mitos, desíalleceu Estauislâo, e, jà moribiindo, flcou junto 
a uma arvore, tendo os companlieiros a desbumanidade de 
o deixarem n'esse estado, que depois de tempo Toram sahír 
no sertão da Coritiba, Esta noticia se confirmou com a cer- 
teza que mo dá pessoa de confidencia, que fatiou com os 
mesmos que escaparam, e dizem que desceram muito 
abaixo da embocadura que deviam tomar, e que se perde- 
ram já em terra que suppunham de Castella; que encon- 
traram infinitos Índios, dos quaes sempre se occultaram; e 
que depois de andarem pelas matas perdidos dois ao nos 
sabiram perto à viUa de Lages, valendo muito afinal para 
sua sustentação os pinbaes do sul ; que foram presos e 
soltos depois de conhecer-se a verdade; não quiseram 
voltar a esta capitania; que um se conservava casado 
em S. Paulo [li] ^ e o outro , ao presente (18121 j 
na Bahia, » (73) 

Esta narração nos parece a verídica, e com ellaestáde 
acGordo o que disse o marechal Cunba Mattos no seu ÍUn^ 

O resultado d*esta exploração sentiram os que contavam 
com uma fácil comraunicabiUdade para a capitania de 
S. Paulo, e principalmente D, Francisco, que a linha pre- 
parado à sua custa. Tão funesto fim, porém, não inUaiu 
para que mais tarde outros exploradores deixassem de 



(7â) Um doestes homans, cbamaLla |] regar Ío, exísUa casiido oi 
villa de Juodiafiy no mno de 1817. — Cunha MaUas. — i/^ifraf^. 
(7^) U A* Silva e Sousa. UemoriuM. 



— tíl - 



seguir aíi pisadas de Guterres e chegassem a realizar com 
felicidade o que elle não pudera conseguir. 

O apoio dado pelo governador aos ialeresses da navega- 
ção foi mais ou me aos efficaz, porem os que realmente 
d*ellB se aproveitaram íoram os povos do Tocantins* Além 
do serem as margens d*este rio as mais povoadas da capi- 
tania, e o ponto mais distante du Rio da Janeiro, Bahia e 
S. PaulOt com quem até então commerciavam os habitantes 
de Goyaz, oííerecendo o commercio para o Para outros 
commodos e facilidades, para alli se dirigiram. 

E, como consequência natural d*esle facto, a porção des- 
povoada do Tocantins foi recehendo habitadores, e se for- 
maram pelo prolongamento das suas margens novos focos 
de população- 

Por ordem do ministério da guerra, de 26 de Maio de 
1809, se mandou estabelecer um presidio militar na foz do 
rio Manoel Alves Grande para servir de protecção ao com- 
mercio e de escala entre Porto-Real e S, João das Duas 
Barras, que se mandara crear para sede da nova comarca 
do norte, e, nao se tendo realizado esta creação, era nada 
foi sensível ao commercio, por terem os povos, melhor 
acoDsel liados, fundado a povoação de S, Pedro de Alcân- 
tara, e mais tarde feito apparecer a actual cidade da Boa- 
vista, próxima ao estabelecimento de uma aldêa de 
apinagés. 

Ao desembargador Theotonio Segurado e coronel José 
Manoel da Silva e Oliveira, aquelle ouvidor e este comman- 
dante militar da nova comarca» muito se deve o ter sido 
n'aquelle tempo a navegação do Tocantins mais prospera 
do que é hoje. 

Uma circumstancía muito cooperou para o desenvolvi- 
mento doesta navegação, e foi o ter-se estabelecido uma 
linha do correios da corte para o Pará por via de Goyaz< 




— Ii2 — 



A «0iiiiiiãnÍGaç5o da extrema capUânia do norte com i 
corte, por \ia de barcos de vela, era demasiadamente de- 
morada : imagiooa-se que um correio por terra, funccio- 
nando regularmente, a poderia pôr em mais estreita cor- 
respondência com a capital da monarcLia* 

Para o conseguimGnto à'esle dcsidenilum era indispen- 
sável conbecer-se o caminho mais curlo do Rio de Janeiro 
até Goyaz ; e» quando essa estrada não estivesse ainda ex- 
plorada, abril-a com toda a urgência. N'este sentido se 
deram as ordens a l*, Francisco por avisos da secretariada 
guerra de 12 de Setembro de 1808 e 8 de Abril de 1809. 

Ao desembargador Segurado e coronel Oliveira incum» 
Mn o governador da abertura de uma estrada em rumo 
direito, a partir de S, Romão ale Porto-ReaL Até S* Ro- 
mão a estrada de Minas era franca e frequentada, e pouco 
ou nada havia que Tazer ; d'ahi por diante, porém» em vei 
de seguir pelos Couros, Saola Luzia, Corumbá, Meia-Ponttó 
e capilal, para tomar a direcção do norte pela chapada dos 
Viadeiros ou pelo sertão de Amaro Leite, convinha explo- 
rar uma nova estrada que» partindo de S. Romão, fosse ao 
Porto -Iteal, passando pelo registro de Santa Maria, S, Do- 
mingos, Conceição e Natividade. 

Foram encarregados da sua abertura Nicacio da €n aba 
Monteiro, Domingos António Cardoso i Francisco de Al- 
meida Salerno, Joaquim António dos Santos e João Ayres 
da Silva, homens de fortuna e de iniluencia no norta de 
Goyaz, únicos capazes de tomarem a si esta empresca. 
Aberta esta nova via de communicação, foi d'ella nomeado 
inspector o coronel Oliveira para cuidar da sua conser- 
vação. 

Em 1810 jà o serviço dos correios se fazia com a pos- 
sível regularidade, percorrendo os estafetas uma eitensâa 



_ 63 — 

de 530 léguas pouco mais ou menos, 280 por terra e 250 
pelo rio Tocantins (74) • 



(74) Os roteiros da viagem de lerra sao rariíiveis, D. Francisco 
calcukTa que do Rio de Janeiro ao Forto-Beal haviam 361 leguag» 
e o corooel Belfard 3Bi, e o desembargador Segurado 'M\Z* Entre 
os dois aUimos é que está a verdade. Coof reatemos ps dois pri* 
meiroi roteiros > 



Roteiro ãt D. Frandsim dê 
Mascarmhas. 

Do flío de Janeiro í% Vi lia 
Rica. ...,.,,-*. 

De Viiia Bica ao Sabará» . . 
De Sãbará a Ctirvello, . . , 
De Curveílo a S, Bomfio* . 
Ue S. Homào a Santa Maria 
De Sania Maria a Conceiçiio 
Da Conceiçíio A Natividade 
Da Natividade á Chapada, » 
Da Cljapada ao Carmo * . ^ 
Do Carmo a Porto-Heal . . 



Á$tis 



mi 



Roteiro ão cormiel Bilfard, 



Do Hio de Janeiro á Vi lia 

Rica 

De Villa Bica ao Sabarã. . . 
De Sabará a CurvoBo, - - , 
De Cnrvello a S* Bomâo . . 
De S* Horaào a Sania Maria 
Do Santa Maria A Conceit;ão 
Da Cortceíi;ão á Natividade 
Da Natividade á Cdapada* . 
Da Chapada ao Carmo . » , 
Dú Carma ao Porto- Beal. ♦ 



Leg. 



364 



O roteiro de Segurado era o mais seguido. e poretle se regulavam 
as marchas dos estafetas a partir de Vjlla Bica até Santa Maria, c 
d'alfi para o Porto Imperial. Vejamos este roteiro ; * 

De Vi lia Biea á Villa de Sabará, passando pela Matta da 
Boa Vista, Cravato, Pissarrâo* Alto da Tires, arraial do 
Rio das Pedras, rasLcnda do Papudo, Ribeiro Manso, Ola- 
ria, Coxe de Agua, Santo António do Rio Abaixo, Santa 
Rita, Padre Pequeno, Raposos, Pís§arrào, e arraial Volbo i5 

De Sabara ao registro das Sete Lagoas, atravessando e cor- 
reK'0 da Lage, Santa Luzia, Ribeirão da \ratta, Mattosí- 
nho, e Resende* , , . 13 

Das Sete Lagoas ao arraial de Curveffo, passando por Fetix 
I^rbosa, Uanoel de Araújo, Matiiias Pereira, Jeronjmo 
Ribeiro, Camafeu, Maria ThomRzia. . . . , , , IGf^ 

1)0 Curvello ao arraial da Barra do Bio das Velhas, passando 



- 64 - 

Calcnloo-se^que uma ?iagem redonda de correio poresU 
estrada se poderia fazer em 97 dias ; se, porém, alguma 
yez isto succedeu, é o que não podemos aílirmar. 

pelo Pissairão, Capão do' Rocha, fazenda da Garça, Gon- 
trías, Porto Real, riacho do Lavado, S. Gonçalo, Pedras 
de Maria Gomes, Borily Pequeno, ribeirão dos Ferros, 
Padre Moreira, Borily] de José Félix, Gameleira, For- 
quilha. ' 381/1 

Da Barra do Rio das Velhas ao araial de S. Romão, passando 
pela fazenda da Varge, rio Jequitahy, Engenho da Ex- 
trema, Capella, Calinga, Pacub^^ Piracatú, Seis Dedos, 
Reliro da Gameleira 34 

De S. Romão & fazenda dos Morrinhos, passando pela fazenda 
do Riacho, Exlrema, Vão, Santo Ignacio, Coqueiro, 
Riacho Secco, Pedras, Gameleira, ribeirão das Areias, e 
riacho das Éguas S01/2 

Dos Morrinhos ao registro de Santa Maria pela Ipoeira, Boa* 
Vista, Riacho Claro, Varge Grande, Rancharia, Cerra- 
Âcima, Fortes, Manoel Zacarias, S. Sebastião, Santa 
Theresa, Fetaes, S. Domingos, Catingas, Caiçara do Meio 
e Bocaina, 383/4 

166 V« 

Na capitania de Goyaz a extensão era de 121 1/4 léguas de Santa 

Maria ao Porto Real, a saber : 

Do Porto Real ao registro do S. Domingos, passando pelo 
arraial da Chapada, arraial da Natividade, arraial da Con- 
ceiçíio^ Recanlillado, S. Pedro, Rio da Palma, Mocambo, 
lk)rily. Salobro, ribeirão dos Montes Claros, Bom Jesus, 
ribeirão doCalheiro, ribeirão do Bonito, Rio Vermelho. 821^ 

DeS. Domingos a Santa Maria, passando pelos ribeirões dos 
Macacos, de Angélica, de S. Vicente, S. Matheus, I^pa^ 
Palmeira, S. Bernardo, Boa-Vista, ribeirão de Agua 
Quente, Posse, Trombas, Prata, Forquilha, Bonito, Bio 
Corrente, lagamar, ribeirão da Lontra, Malhada Alta, 
ribeirão da Tabúa 38 3/1 

1211/4 



-" 65 - 

Por occasião de estabelecer-se etn 1808 o correio do 
Pará também se creou uma linha de estafetas para Cuyabâ, 
Jiaba que ainda hoje se conserva. 

Além de todos estes trabalhos da máxima importância 
para a capitania, também se deve a D. Francisco a organi- 
saçao de uma eslâtistica da população a mais regular qos 
se íez, e na qual trabalharam, além de Segurado e Cid, 
illustrado cónego Luiz António da Silva e Sousâ, 

Depois de 5 annos e quasi 9 meies de administração, 
foi D. Francisco transferido para o governo de Minas- 
Geraeg. 

Quando em 1809 entregou a Fernando Delgado o bastão 
da governança, se nao era bom o estado da capitania de 
Goyaz, era pelo menos como o do convalescente que acaba 
da passar pelos perigos de uma longa enfermidade, e tem 
esperanças de um completo restabelecimento. Havia p po- 
rém, o receio de uma recahida que aggravasse o estado do 
enfermo* 

Em 1809 a administração publica oíTerecia a seguinte 
organisat^ão em relação aos differentes ramos de serviço. 

Desíle quí> foram creadas as duas intendências do ouro. 



fiú Pofto Impeml tiavlam áum eant>fls proitiptaSf eflffuipadiiít 

por âoUiiidos pedestres, pura a conducçrta ih^ mafasal^ o primeiro 
esUbeleciíiiento da eapiluDia do Pará. As malas de lerra eram 
condiizíflas por praça.^ de* eavalJari» miliciana t^etn mo n ta d aí; ^ ha- 
vendo para csíe fim piquetes de duas e IrQs praças^ poslados etn 
dista no fãfi convenientes. 

Os com mandantes mí ti tares e os juiies ordinários eram os inspe- 
ciores dos correios, ou paradas, cada iirn nos !im lies da sua ju- 
risdieçáo. Nunca as ordens feaes foram execuUidíis com tanía 
promplídão, coroo A*este caso, semlo para adruirar a boa vontade 
com qu^ o povo concorria para abrír-se esta entrada de Í2i legoas, 
e oonstruir-se immensas ponteia, devendo no (ai^se que em tudo isto 
nada despendeu a faienda reâ). 

TOMO XXVUI, P. IL i 



^- e<i — 



o lerriíorio de Goyâz íol dividido em duas repartiçõa, 
a da Dorie eadosuL 

Aceitaado esta divisão , vejamos o que Queila ha a consí- 
derar-se. 

Na repartição do sul residia o gíveriiador e capitâo- 
generaU qtie lambera era regedor das justiças, presidente 
da juQta da real fazenda e direcLor geral dos estudas : para 
o serviço do seu expediente tinha o secretario do goveniOt 
eomou dois ajudantes de ordens. 

Segui a-se na hyerarchia dos empregos ; 

O ouvidor, corregedor, e também provedor das capellas, 
defuntos e ausentes. 

O juiz de fôra do eivei, crime e orpbâos. Pelo alvará da 
sua creaçâo, ex ti neto como fora o lugar de inlendenle do 
ouro, era obrigado a tirar a devassa drís extravios» e prali* 
car todos os mais acttís judiciários que pertenciam aos io- 
tendenles. 

Para a arrecadação e Useatisação das remias baTÍa o tri- 
bunal da junta da fazenda, com a sua contadoria e a casa 
da fundição. 

O tribunal da junta se compunha da um presidênle» epie 
era o governador, e de quatro deputridõs, a saber: o jaix 
dos feitos, que era o ouvidor, o procurador da fazendâi 
que era o juiz de fòra^ o ihesoureiro geral e o escrivão de- 
putado. 

Como repartição anuexa ao tribunal, havia a contadoria, 
servida por um escripturario-contador, dois escriplurarios 
elfectivos, alguns supranumerários, um thesoureiro das 
despezas miúdas, um almoxarife dos armazéns reaes, um 
escrivão da matricula & um continuo. 

A casa da fundição de Villa-Boa era admiuistrada por 
quatro fiscaes, e n'ella serviam um thesoureiro, uca escri- 
vão da receita, um escrivão dainteodeucia, um fundidor» 



— 67 — 



mm ensaiador, um âjadanie das officínas, um meirinho da 
intendência e cinco fieis dos registros. 

Na repartição do norte, como vimos^ extinguiu-se a fun- 
dição de Cavalcanti, e creou-se em seu lugar uma prove- 
doria commíssaria, com um provedor-lhesoureiro» um es- 
cri vão e três fieis de registros. 

As mesmas obrigações impostas ao juií de fora de Villa- 
Boa, em relação ás funcções judiciarias exercidas pelos 
intendentes, tinha o ouvidor de S> João das Duas Barras. 

Além dos funccíonarios, de que temos Tallado, haviam 
mais na capitania sete professores de primeiras letras e um 
de grammatica latina. 

A folha da despeza com os empregados civis importava 
em 17:290^300, depois da reducçao f^ita por D. Frani- 
cisco ; a folha ecclesiastica em 2:960s^00O, e a militar em 
2l:i09s5675. O total da despeza subia, pois, a mais de 
40:000?>000 ; e porque a receita montava em 51:l37?í88i, 
verificava-se um pequeno saldo, que servia para amorti- 
zar a divida de exercícios findos, que ainda era crescida. 

Na provedoria de Cavalcanti se arrecadava o ouro da re- 
partição do norte, e de dois era dois raezes era remettido 
para a casa da fundição de Villa-Boa» afim de ser fundido, 
e então cobrar-se os devidos direitos senhoriaes. D'esta 
reudâ se deduzia aunualmeute 14:746;!^00 paraasdes- 
pezas geraes da capitania, na coníormídade da provisão do 
real erário de 12 de Agosto de 1807, e o que ficava res- 
tando era remettido para a provedoria real de Mato-Grosso 
por conta do subsidio, com que sempre fora dotada aquella 
capitania. 

As duas comarcas» de que se compunha Goyaz, compre- 
hendiam quinze julgados com seus respectivos juizes ordi- 
nários e de orpliãos triennaes- 

A divisão ecciesiasticâ acompanhava a divisão civil ; na 



— «8 — 



reparti^ do mU ^P^ eonipreheodjâ iiOf« GrggMtiis, Hm 
das qaies proTídas da ptroohos coiladoSt aféiB do píb1»1q^ 
qúB era também vigário da malríz de VillvMoi, havia im 
prorísor ou figario geral com o seu eserífio e promotor: 
a repartição do norte, com onze fregaeziãs» dtias daâqaas 
profídâs de vigários collados, linha tâmbem o seu vigarin 
geral A administração eccksiasUca abr^ogia» além d isto« 
qtialro capei laai^ das aidêas existeDtes. 

A força pablíca se componha de tropas paps (ama com- 
panhia de dragões e outra de pedestres], de tropas míli* 
eimas e das ordeoancas. As milícias se compuabam do 1* e 
2" regimentos de cavallaria com 14 companhias lada um^ 
de um regimento de íorantaria com 32 companhias, e dê 
companhias avulsiis de Henriques, com exercício na arma 
de arlilberta. As ordenanças constavam de 29 compa* 
abias* cotnmandadas por um capitãu-mór e sargentcMnor. 

Quando foram creadas as compaabias de Henriques (dd 
pretos forros]» pretendeu-se formar com ellas nm regi- 
mento de artilherta de milícias, mas, não tendo sido no- 
meados os officiaes superiores, fícou sua organisação in- 
completa. 

A divisão militar era feita por districtos, e n^elles únM 
o commando geral o oíficial de cavallaria de mílicias mai» 
antigo. 

Islo quanto á administração : agora atgumaji palaiias 
sobre o commercio e a industria* 

O quadro do commercio e da industria era em 1800 rc* 
presaotado por algarismos tão fracos, que sò elles baslâm 
para dar uma idéa do quanto estava âtrazada e deoadesto 
essa parte das possessões portuguezas ; é, poréra^ verdade 
que a agrtctiltura esteve por muiiu tampo completamente 
abandonada : apenas eatao começava a âgurar nos oiappa» 
da exportação. 



• Í9 - 

OâlgôdSo, quô era rendido a 750 rs* â arroba ao norte e 
a 900 rs, no swi. dava para uma exportação anuual de 3,874 
arrobas ; o assucar, vendido no sul a 11980o e no norte a 
2;jioo, dava um produclo de 6,oao arrobas ; o famo, esti- 
mado a í^^dQ a arroba, mal chegava para o consumo, e so 
do norle sahia algum para o Pará ; a exportação do trigo 
SB avaliava em 214 alqueires, o arroz em í>,0H8, vendido 
no norto a BOO rs. e no sul a 159200 ; o café, que se vendia 
no Dorte a 435600 a arroba e no sul a 2aií>*N era cultiva do 
era pequena escala, pelo que a sua exportaçio era apenas 
calculada em 212 arrobas ; a producção da aguardente figu- 
rava no quadro da exporlâçáo com i,S7S almudes, â razão 
de 25*T>0 e 3íí600, sendo esta ultimo preço o do mercado 
do norltí* 

A industria pastoril, a que se dedicaram os mineiros, 
desde que as lavras foram empobrecendo, ou se tornando 
diflicil o trabalho ou pouco productivo, j4 lígurava r.om 
nma exportação de 16,358 rezes, representando um valor 
de 33:288jp900, por isso que no sul era cada rez vendida 
por 4^800 e no norle por l^^oo ! 

As lavras de ouro davam para a exportação 87/200 oila* 
vas, representando o valor de 104;748ííooo* 

A importação annual, avaliada em 137:109lt»4l4 (oSicial- 
mente), provinha de géneros recebidos do Rio de Janeiro, 
Bahia, S, Paulo, Para e Rio de S. Francisco, mercados em 
que Goyaz fazia suas transacções commerciaes. O valor da 
importação, segundo os mercados, guardava a seguinte 
proporção ; 

Rio de Janeiro 51:*í79!í091 

Bahia, i6;545?íi369 

S. Paulo 2tí;550»T07 

Para. 10:326»10O 

Rio de S. Francisco. . . 2:0089057 



-70- 

Estes falores qSo demonstram simplesmente o preço doi 
géneros nos mercados exportadores: addicionoiírse mais 
60 % no sol e 80 •u no norte, o valor dos direitos e o 
preço dos transportes. A importação era qaasinalli; o 
commercio, por assim dizer, nenbom. 

Dorante os primeiros tempos o commercio da capitama 
era (eito com a praça de Santos, depois dirigiu-se qiUM 
qae só para a Bahia, d*onde vinham os escravos para o ser- 
viço das lavras, as fazendas, o gado do consumo, e sobre-* 
todo muitos capitães que se empregaram no trabalho das 
lavras e na compra do ouro em pó ; porém, depois que as 
communicacões se foram abrindo para M inas-Geraes, a 
praça do Rio de Janeiro foi entrando em concorrência com 
a Bahia, e acabou por se tomar preferida pelos habitantes 
do sul : entretanto, os do norte alargaram suas transie- 
C9es com o Pará, nSo ficando por este. facto abandonado o 
mercado da Bahia, para onde continuaram a mandar áen 
gados» e .d*onde recebiam em permuta géneros de impor- 
tacio. 



— 71 — 



CAPITULO XVU 
{Í809— 1820) 



Governo de Fernando Delgado Freire de Castilho» — Procura cingir- 
ie ao syslerna adaptado pelo seu autecessorp — O desembargador 
Joaquim Theotonio Segurado,— Ainda a uavegagSo do Araguaya e 
Tocantins. — Medidas protectoras. — A carta régia de 5 de Setem- 
bro de 1811.— Fundação da villa de S. Jom da Paitm^—O pre- 
sidio de Mamei A/ve^ Grantk, — S: Pedro de Âkaníara. — Fran- 
cisco José Pinto de Magalhães, seu fundador. —questão de limites 
com o Maranhão. — Acto de demarcação de limites.— O porto da 
Piedade de Salinas.— O porto do RÍo-Grande.— Pmidio th SanUk 
Jfarttí*- Estrada entre o Araguaya e o Tocantins* —Creação dos 
iaspêclore,=* dos presídios. — Goalisào dos índios do Araguaya* — 
Destrui;;ão do presidio de Santa Maria, 

D. Francisco de Assis Mascarenhas foi succedido no go- 
verno de Goyaz pelo infeliz Fernando Delgado Freire de 
CasMlbOt o qual sendo nomeado em 4 de Junho de 1800 
só veiu a tomar posso em 20 de Novembro de 1809, 

Este homcím, distinclo por algumas excellentes quali- 
dades de qtie era dotado, Glho único de pais abastados de 
bens da fortuna, abandonando todos os commodos da vida 
particular, veiu para o Brasil em 1797, onde se dedicou 
com interesse ao serviço publico » exercendo o cargo de go- 
vernador da Parahyba até 1802. Voltando a Portugal em 
1805, regressou pouco tempo depois para servir o cargo 
de governador e capitao-general de Goyaz, em cujo exer- 
cício se conservou por espaço de 1 1 annos. 

Homem de caracter iotegro e de uma bondade extrema, 
governou pacificamente, deixando na capitania o melhor 
nome, para ter o mais desastrado fim* 

Nlo sendo de umi intelligencia superior, era judicioso, 
prudente e acautelado, por isto evitou innovâçôes pert- 



— 7í — 



gosâs na adminislraçao. Assim enteodeu obrâr com pra- 
denciâ, cingindo-se muilo de perlo ao systema adoptado 
por D. Francisco, lambem para íívilar que os secretários 
doestado, que viam no seu anlecessorumabalisado homem 
de governo, um modelo dos administradores» não o adver- 
tissem de qualquer desvio : mas isto nem sempre pftdô 
conseguir. 

Da correspondência oíGcial do seu tempo se conhece 
que até os próprios erros de D. Francisco eram lidos em 
boa conta ; seus projectos» por mais ínexeqaiveis que fos- 
sem, pareciam aos míuislros do prÍDCipe regente da maior . 
praticabilidade. Muitas vezes teve Fernando Delgado da m 
lutar com os embaraços da posição « em qae o cotlocavamt 
não sô em proseguir nas medidas adminislrativaSt lembra- 
das pelo seu antecessor, como nas que iniciava o ouvidor , 
Segurado» que em Goj az era considerado como consultor M 
dos ministros nas questões mais importantes do governo ■ 
da capitania» 

Durante o tempo que governou Goyaz teve Fernando 
Delgado sempre a seu lado homens intelligentes» que o aju- 
daram com dedicação: entrava em primeira escala Segu- 
rado, de quem era amigo e em quem depositava a maior 
confiança, confiança que, sem duvida, era devida em grande 
parle ao predomínio que via elle exercer no espirito dos 
ministros e o apre^^o em que eram tidos seus trabalhos, 
suas idéas e seus projectos, apreço que se manifestava em 
documentos officiaes da maior importância : citaremodi 
por exemplo, a caria régia de 5 de Setembro de f8il< 

Compendiando o ouvidor era uma extensa memoria lo- 
dââ as causas que, mais ou menos, co atribui ram parai | 
decadência em que se via a capitania, e lembrando n*e)lt 
todas as -medidas que^ em sua opinião, podiam, mai&o 
mauofit concofrer para a sua prosperídada, mecnoria 69i 



— 73 — 

em que, a par de muita idéa justa e aproveilai?eU appare- 
ciam outras incongruentes, à vista des&e mesmo estado de 
decadência que se deplorada e se procurava remediar, 
d*ella fez remessa Fernando Delgado á secretaria doestado, 
e tal foi a impressão que causou a sna leitura no espirito 
do conde de Aguiar^ que foi approvada em todas as suas 
partes, não exceptuando mesmo o direito da escravidão 
€ontra os índios, presas de guerra, idéa de ha muito con- 
demnada, senão pelas suas funestas consequências politi- 
cas, como por ser attenlatorio das leis naturaes- 

Essa memoria deu origem à carta régia, da qual acima 
falíamos, e por virtude d'ella se concederam favores, pri- 
vilégios e isenções (7S) ao commercio e á navegação dos 



(in) Fernanda Delgado Freire de CasliUio, do meu conselho, 
governador e capitão^ííenef ai da capitania dô Goyaz.— Amigo,— Eu 
o príncipe regente vos eaw muito saudar.— Tundo subido à míalja 
real prci^ençao vosso o tfíciG datado do l*' de Fevereiro doeste annOp 
com o qual remeUestes a memorm que vos dirigiu o desem- 
bargado f Joaquim Theoloaio Segurado, ouvidor da comarca de S. 
Joào das Duas Barras, sobre os obslaculos que exislem para o 
augmenlo e prosperidade do commercio enire c^sa capitania e a 
do P^irá, e sobre oi meios de remover os mesmos obstáculos á 
beneGcio do dito commercio ; e tendo tomado na minha real con^ 
gideração e^te tão importante objecto, que desde multo tempo 
occupa os meus pateraaes desvelos, sobro o que já em outras oc-* 
casiòes tenho mandado dar providencias: sou ora servido, avista 
da referida memoria e das rellexí!>c5 i^ue sobre o seu couleudo 
fazeis no vosso oflicio, determinar- vos o seguinte, esperando do 
zelo, (ntetllgencLa e eflicacia, eom que vos empregais no meu 
re&l serviço, que fareis lodos os possíveis esíori;os parrt o cabal 
desempenho das novas providencias que vos incumbo, das quaes 
devem sem duvida resuitar as maiores vantagens a essa capitania, 
facilitando as suas relações commereiaes, promovendo a sua ri- 
queza, e a segurança d'esses povos.— Em primeiro lugar sou ser- 
vido approvar o plano proposto para uma sociedade de cem- 
TOMO IXVIII^ p< tL 10 



— 74 — 

rios, qnerenJose deste modo galmiisar eise ca<&Tfri 
chamado capitania de Goyaz. 



ineicie, to Ire 

moria, o qual 



capitaaiA o o Pará, de qua IraU 9 g t7 àíi m^ 



parece mui próprio e Qotifetikèt^le pam aajiaat 
e fazer proí>perar o mesmo commercio; ^e d do esta soe iodada (or- 
Piada segundo as condições do primeiro â|jpenso á mÊHioria^ Dão 
devendo ser o seu fundo raenor do 40:0008000; não se admll* 
imáo ftcrí^es menores de lOOSOOO; não serido no capítiif dos 
40^0008000 com pretiend idas as catíòos, e os ^cmvos, eow que 
a sociedade prinoipiar; pois que o diio capital só dete eamiar ^i 
objectos de comroercío, eda dinbeiro; estabelecendo seus artaa* 
íeit» e 03 caixas nos sítios indicados; impondo-sea estes caíias 
as obrigaròes e o eiercicio que allí se declara; e íiiialmenlê pf»* 
Ucando^e tudo o que dii o otjvidor,— quanto á divisão dos lucros, 
e as despesas que devem fa^er-se por couta da sociedade. Somen- 
te, pelo que respeita d duração da mesma sociedade, parece- me 
que será mab útil estend£)-aao praBode Í5 atá 20 anoos. E poi^ 
qua a veritica<;&0 d*esle eslabelecimento, attendendo ás aeluiii 
cÍTCunistaueiús das duas capitanias, nâo pôde deiíar deencontru 
grandes diffieuldades, como H^ e o referido ouvidor jud íaosi- 
menio ponderais, por isso mesmo se faz tanto mais necessária 
n^oste particular toda a vossa eflicacia e dili|^^eneraf para dispAr os 
ânimos dos negocmntes e capil»lf8ias d'essa capilnnia para e$$i 
empresa, fazendu-tties sentir as vantagens que d^ellas tbos retul- 
tarão» e que ou me propotiljo proteger o auxiliar em tudo a »- 
cíedade, mandando desde Já p4>r em pratica lodus as provideneias 
que as circuinstancms permiltiremr para tornar mais fácil a eoin* 
* municaçíio entre as duas capitanias^ procurando que a nmvegarQlli 
do rio Tocantins e Maranhão seja menos arriscada c trabalbosi» 
Bl^o só por meio das obmiif a que se vai proceder, para a líiii- 
pem dos rios, e encanamenios necessários, desde Arroios até 
Porto Real, mitó pelo que mando praticar, para impedir que as 
nações gentias continuem a commetter os íusuttos e depreda* 
ç5es qua infelizmente ainda fazem em algumas para^enSt O ptm 
remover os outros obstaoulos que difticultam aquolla navegaçâOi 
—Portanto, querendo prover a esses importantes objectos, sou ser- 
vido mandar declarar a concessão dos segai utes privileg^íos a fa* 
vor da sobredita sociedade^ e do commercio e naregaçlio d'6SM 



- 15 ^ 



Era embalde que se procurava de improviso restaurar ô 

passado prospero, que nâo souberam aproveitar, deixando, 
como lemos visto, compromettido lodo o futuro, 

capitaDla: — i,* Qye todos os sócios e pessoíis por elles emprega- 
das no commercíOt navegação dos rios, e na cuiLura das suas mar* 
genfi, e dos serLuos, serilo iseatos do serviço mílilar. %*^ Que 
áquellcs sócios que n^ísirafem ler ifesu sociedade o valor de 
4:OOO£0OO réiít concederei um posla de recesso (servindo clles 
nas milicias ou nas ordenanças) ate o posio de coronel de mili- 
eias, ou do capiu\o-mor, inctusive» e uma sesmaria ú borda dos 
Tios Tocantins, Marão liao e Araguaia, ite meia légua de frenlBi 
o uma légua e meia de fundo, em qualquer sUio que escolhe- 
rem? oude o terreno so acLe ainda devoluto, e níio concedido» 
nem demarcado, X^* Que as dividas activas d'esta sociedade te^ 
obam o privilegio de dividas liscaos, para serem cobradas oxecuti* 
vãmente, como so tossem dívidas activas da mi nlia real fazenda; 
4.* Que a todos es que so forem eslabelecer nas margens eser* 
toes dos ditos rios í^erjio franqueadas as mesmas graças e pri> 
TÍlenios que fui servido conceder aos povos da capitania de Miuas- 
Geraes pela mtním carta ri^gia de 13 de Maio de 180^, dirigida 
ao governador n capilâo-general d^aqui^lla capitania, relalivamen- 
le ao Rio Doce, tanto a respeito da iseuçfio dos dízimos de suas 
culturas, o dos direitos de entrada dos géneros de commercío 
d'essa capitania de Go^az, sendo navegados pelos mencionados 
rios, como lambem a respeito da moratória concedida aos úesBÚO* 
res da minha igíú fazenda, e do tempo de serviço que poderio 
baver d^aqueltes índios, que, nho quojcndo pelos meios brandos 
e suaves^ de qtie com elles teuLo mandado usar, e que agora 
novamenie recommendo, viver tranquillos e sujeitos ds mintias 
leis, cobmetlerem hostiíidadcs contra os meus lieis vassallos.— 
l^^ualmenie suu servido, pelo que toca ás obras e encanamento 
dos rios desde Arroios alé Porto Beal, que o ouvidor propòem 
no g i8 da memoria, approvar o plano que elle oflerece, para 
metliúrar a navegHÇãOf ordenando quo se formem as esquadras 
com a gente e ferramentas que elle aponta no segundo appenso, 
e quo nos tempos das seceas se proceda à e^tecução dos tra- 
ballios pelo methodo indicado, para se conseguir a limpeM dos 
rio& « o SGU encanamento nos sítios em que (6r necessário, e os 



— 76 — 

Os privilégios concedidos em favor da navegação do To- 
caDlJos e do Araguaya n^o tiveram forca baslaote para 



cortes daí pontas dos rochas e dos baíiíos; não deveodo ^ue- 
cer a profidencia de pôr espigões eom roldanas do ferro nos sí- 
tios dos saltos, ou cachoeiras, (lue o ouvidor lembra como muito 
útil, para cviUr n'estas paragens o risco das can6as, podendo- 
vos serifir de grande soccorro» para execução de ludoislo,a* 
luzes, actividade e patriotismo d'esl6 magistrado.— Quanto io 
pTOcedimeolo com os gentios, sou servido deiefmÍivãr-¥os que, 
com aquellas nações quo nfio cotnmetlem li usLil idades, mandeis 
usar de ioda a raodera<;:ão e ímuian idade, procurímdo conveo- 
côl-as da utilidade quo lhes resultará de sa conservarem em boa 
intelligencia, e amizade com seys povoa, para o que pareee 
conTâuiente empregue alguniíis dadivas, e até introduzir com eUes 
alguns christâos, que thes ensinem a agricullurae os ofricios me* 
caniços mais necessários, como aponta og 10 da memoria. Igual* 
mente parece que será uttl tenUr por meio do perdão que o de- 
sertor do Pará, que tive com a nação carajá , tem eii^do para ella, 
premetteadoquea!>sim terçará á boa fé» e antiga birmonia. Acon- 
tecendo, portam, que este meio nllo ccrresponda ao que S9 Cfipera, e 
que a naçào carajá continue nas suas correrias, será indispensa?e1 
usar contra ella da forga armada; sendo este lambem u meio de 
que se deve lanhar mRo, para conter e repellír as nações âpin&gé, 
xavanle, xerente o canoeiroi porquanto, supposlo que os insul- 
tos que ellas praticam tcnbam origem no rancor que conservam, 
petos mãos tratamentos que expedmen Luram da parte de aíguni 
cem mandantes das aldeãs, n^Q resta presentemente outro partido i 
seguir senuo intimtdal-os, e at6 destruil-os, se necessário fòr, pan 
evitares damnos que causa m,N'este inluito, yos bei por muj rei^om- 
mendado, não só o enviar os convenientes reforços do pedestres 
para o destacamento do Porta Rea), mas toda a vigilaneia em dar 
as providencias que tondererei ao de«;emponho doestas mínbas 
reaes ordens^ Finalmente, quanto aos dois uU imos obstáculos de 
que trata a memoria, determino que mandeis proceder ho estabe^ 
lecimento dos presídios em distancias proporei o na es, como prop&e 
o ouvidor^ para assim poderem mais facilmente ser fornecidas ai 
canoas dos necessários viveres no seu transito, o íguat mente que 
mandeis pdr em pratica a necessária prevenção, de que as canddi 



— 77 — 

fazer resuscítar esse corpo inanimado; era preciso um 

grande milagre, e esle sò o podia fazer um motor pode- 
roso que se chama— trabalho e capital— : mas a capitania 
estaya pobre e os povos desanimados- 

Concedeu-se a Iodas as pessoas que se quizeram em- 
pregar n*esse commercio, no mister da navegação e na cul- 
tura das lerras, isenção do serviço mililar ; mas este nada 
linha de pesado e vexatório ; — nao altrahia a altenção dos 
povos. 

Mandou-sfí promover ntna sociedade mercanlil, e foi de- 
terminado que os que entrassem para ella cora um certo 
capital tivessem um posto de accesso nas milicías ou nas 
ordenanças, atè o de coronel ou de capitão -mor, e uma 
sesmaria do terras de lavoura : mas que importância tinham 
os postos em uma capilaniai onde liinto se haviam elles 
barateado; que valor liníiara as terras, quando qualquer 
se podia d^ellas apossar sem riscos ? 



J^TCiB sempre um sufíicíetitG provimenta dos reniediof^, que a cx'^ 
periencía Icm mo^irado smam efJieazes o es[}eciljcos para a mo- 
testíá de sczucs, que mais ordinariamente co!^luma acommetter u& 
irlpoJaçC^es dai luesmas caDòas.— Tendo>vos usstm participado Luda 
11 que julgo cativeuientG mandar praticar a bem do commercio ^ 
eômmuuicãçrio entre e^^sa capitania o a do Tar^, para que o tenlinís 
enleodido c façais execular, súmente resla prevonir-ifos de que 
n'esta mesma oceasião determiuo ao governo iutarino do l^aráque 
pela sua parle Imja de promover também o lUil estabelecimento 
da sociedade de com me rei o entre as duas capitanias, detiaixo dos 
mesmos principiou e condiçOes ejípendidas n^csta carta régia ; daa- 
do-lbe ao mesmo tem|m as mais positivas ordens, para que ImjaUe 
auxiliar com a tropa que é necessária o estabeleci nica ta das es* 
(fuadras^ presta ndo^so a dzir lodos os maissoccorros, que Ibe forem 
requeridos a bem da reciproco commercio e íalcresses das ânas 
capitanias.— Escriplo no palacia do Rio de Janeiro, em 3 do Setem- 
bro do 1811.— Pr i/itíií>c.— Para Fertiaoda Delgado Freire do Cas* 
titlio. 



— 78 — 

O plano para a organísaçâo da sociedade mercantil do 
Pará, sendo approvado, foi submettido ao primeiro ensaio. 
Mandou-se construir três barcos [D. Francisco^ Temerário 
e Forte), algumas hygarltés e montarias, que desceram car- 
regadas de géneros de producção do paiz ; porém Geou 
tudo n'este primeiro ensaio : a sociedade nunca cbegou a 
organisar-se, apezar dos esforços que empregou Fernando 
Delgado, que para ella também quiz entrar comum cres- 
cido numero de acções. 

Tempos depois, fallando doeste assumpto, disse : ^c con- 
voquei os negociantes e capitalistas para saber a importân- 
cia das acções com que elles podiam entrar, e sendo a sua 
pequena monta, convenci-me de que se não podia realizar 
a dita sociedade. » 

Entretanto também se determinou, em garantia d'ella, 
que as suas dividas tivessem o privilegio das dividas da fa- 
zenda, para serem cobradas executivamente. Outro favor 
não menos importante se concedeu,— a isenção por 10 an- 
nos do pagamento dos direitos do dizimo aos moradores 
das margens dos rios, e a importação dos géneros livre de 
qualquer ónus. 

l)eterminou-sc ainda a creação de esquadras de traba- 
lhadores para limpeza, canalisaçrio e desobstrução dos 
rios ; |)orém nada se fez. Em protecção aos habitantes c 
ao commercio fundarani-se presídios militares nos pontos 
que mais convenientes pareceram, e com elles as guardas 
volantes, que Unham por dever a defesa das povoações dos 
insultos dos selvagens. 

Effectivamente ensaiou-sc tudo isto; entretanto, con- 
tando para tão vasto projecto apenas com os recursos da 
capitania, que eram nenhuns, o governador não pôde dar 
a tantos serviços o desenvolvimento de que careciam. 

Reconhecemos o valor de algumas das providencias lo- 



— 7t — 

madas, mas niDgaem ilirà que sem grandes meios era pos- 
si?el realízarem-se raelboramenlos laes e de tao compli- 
cada execução. 

Ficaram sobre o papel Iodas estas medidas auxiliares de 
um grande projecto concebido por uma intelligencia supe- 
rior, que nunca teve a felicidade de vel-o realizado, 
por mais empenhos que flzesse, por mais aclíTidade que 
empregasse. 

Como meio de fomentar o commercio e a navegação do 
Tocantins e do Araguaya, se mandara crear a vi lia de 
S, Joio das Duas Barras para a cabeça da comarca do norte; 
mas^ não podendo realízar-se esta ereação, por nao que- 
rerem os povos esL^belecer-se na localidade escolliida, que 
licavâ a grantic distancia dos arraiaes, requcreu-se a sua 
transferencia para outro ponto que proporcionasse mais 
coramodidade aos povos, e entretanto conciliasse os mes- 
mos interesses que se teve em vista promover. 

Por alvará de 25 de fevereiro de 1814 ordeno u-se que, 
na barra da Talma, fosse creada uma nova villa com a de- 
nominação de S. João da Palma* a cujos habllanles se con- 
cedeu isenção de decimas e dizimos por tempo ile dez 
auQos ; e, porque não queria o príncipe regente extinguir 
a de S. João das Duas Barras, foi conservada com a deno- 
minação de villa comarca» gozando os seus habitantes 
dos mesmos favores, apenas com a differença de não ser a 
cabeça da comarca (76). 



(7G) Eu Q Príncipe Regente fut;Q saber aas que este nlvurà virem 
que, lendo creado pelo alvará de i8 de ^Marco Ú^ÍHOi^ uma Di^va 
comarca na capitanífl do ikijm^ denominada de S. Jo&o das 0ua8 
BarraSf determinando que o ouvidor pudesse residir no arraial da 
Natividade^ emquanto nfio fosse possivel a sua residência na dita 
villa de S* João das Duas Barras: e seado-mo presente em con^^uj- 
la da Rie»a do desembargo do pago coDvir mui lo ao meu serviço e 




-80 — 



Em 26 de Janeiro de i 81 5, estando presenle o ouvidor 
Joaquim Theotonio Segurado, o povo e os vereadores de 



ao bem dos povoig]'âqueOa eomarca o crear-se uma villa ua baf- 
ra da Palma, para abi Oear existíodo a cabeça da comarea, Uniu 
porquo, <iendo mais cenlral, é roais eomraoda para a determinado 
da juslíça, como por ser uma síluaçao mais próxima aos dJstricloi 
acLualmenle poToados, c igualmenie vaniojosa para a navep^o 
dos rioF e communicaçao interior do pari ; como con&iaYa daía* 
formação qiie &« houTO do governador e capiláo-generai da wbfe- 
di(a capiUnia; tendo eonsidcrac^io ao referido r hei por bera crear 
uma vilLa no sitio du barra da PaTmut a qual licará sendo a cabeça 
da comarca de S, Joào das Duas Barras, lendo a referida villa a 
denominação de vitia de S. iofio da Patma, a qual goiÃkTk de iodos oi 
privilégios e prerogalivas que pelns leis e usos dos meus reinei 
goiam as mais vi lias e seus habilãdores, liei oulrosim por beraeoil_ 
ceder a qualquer pessoa que na mesma sobredita Villa edillcar < 
para sua habitação, c estabelecer de novo roQa, ou fazenda, i 
isenla de pagar decima e dizimos por temjio de dez annoa: eow- 
pretiendendo esla graça a villa e o termo que para etia fõr des^ígni^ 
do*— B para quo esía mudança da cabeça da comarca nlLo iqi 
impedimento a estabelecer-se e augmentar-se a «illa de S.Jcáa 
das Duas ítatras, a «(ual deve ticar vigora per teneend o â sob rcdila 
comarca, como villa comarcH ; observa ndo*se em tudo o mais o d^ 
lermioado no dito alvará de IHde Vtun;o de 1IM>1>: sou serrldo que 
a tnesina graça de iscnçímde dizimose decimas pelo mesmo i€iii* 
po de dez annos íique concedida, como Uei por bem conceder aoi 
bahilanles, e povoadores da diLa villa de S. Joito das Duas Ikrrat^ 
« seu respectivo terreno, comprebendendo tanto as casas e fazen- 
das, que novamenle estabelecerem, como aqueUes que de^de t 
data do soh redito alvará tiverem já estabelecido. Elsle se cumprira^ 
como n'elie se contém. Pelo que mando ámesa do dcsembarí;o do 
paço, o da conicicQcia e ordens, presidente do meu real erário, 
eoDBelbo de minha real fazendai icgedor da casa da éuppbca^« 
do Brasil, gOTeriiãdor ecapitão-general da capitania de Goyai, to* 
dos os mais governado res^ magistrados, justit^a e pessoas a quecn 
o conhecimento d'eslo alvará baja de pertencer, o cumpratn c ^unt* 
d em, como n'elle se contem. E valera como carta (lassada pela 
chancellaria, posto que por ella não ha de passar, c o seu efleito hi^a 



II 
I 



— 81 ^ 

9* Joio das Duas Barras, que lioham suâ residência fia Na- 
lividade, houve lugar o aclo da creação da villa, com o le- 
vantamento do pelourinho e mais formalidades do cos- 
tume. Em 26 de Janeiro procedeu-se à demarcação do 
termo, estando presentes o mesmo ouvidor e os vereadores 
Simeão Eslellitâ da Silva, Manoel Joaquim de Almeida, Pe- 
dro António de Mendonça, o procurador da camará, Fran- 
cisco José da Silva, e o juiz ordinário ^ António Alves Ban- 
deira. Em acto successivo procedeu-se à abertura do pe- 



de durar por mais de um anno sem embargo da ôrdenaçfio emcon- 
Irario- Oado no ííio de JaDeiro, em t5 de Fêvereiío delSli,— 
Príncipe. 

— \mo da creat;ilo da villa de S, João da Palma. 

Adbo do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Chrisio de Í81^^ aos 
fínle e seis dias do mezde Jaaeiro do dtlo anno* n'este lugar da 
Barra da Palma, e residência do Doutor Joaquim Th eotonío Segu- 
rado, cavalieiro (irofeisu na ordem ^e Christo, desembargador dn 
relação da Baliia, ouvidor geral e corregedor d'esia comarca de S* 
Jo&o da Palma, e sendo alii, por elle ministro foram conYOcadt>s m 
vereadores o procurador da camará até agora residentes no arraial 
da Natividade, e mais pessoas aliai xo assígnadas, e estando presen- 
íea se levantou o pelourinho, em que cslavam as insígnias compe* 
tentosj e que denotam a jurisdíccào real, a cujo auto se alteraram 
por três ve/es as vo?.es ;— Viva o Príncipe íieal nosso senhor,— E 
com esla solem nidade houve ell& ministre por formada esta vina de 
S. João da Palma, e para constar mandou íattt este auto, em que 
se assignou com os vereadores^ procurador e mais pessoas assisten- 
tes, E cu Aíé%andre Ribeiro de Fteiías^ escrivão vitaíicio da ouvi- 
doria geral e correição, que o escrevi.— Segurado, Francisco José 
da Silra, SemeTio Eslellitâ da Siivai (nnocencio Teixeira Alves, 
Manoel Joaquim de Atmcída, Ãnlonio Alves Bandeira, Pcdrn An- 
tónio de Medonha, Boaventura da Silva, Florêncio António da 
Fonseca, Victor Peieím de Lemos, padre Manoet Joaquim do 
Araújo, Manoel \Mm Pereira^ Luciano da Costa Sampaio, Valen^ 
Um Vat Monteiro, Simplieio Pereira, 

TOMOXXVUl, P. IK li 



— 8S — 



looro^para a eleíçlo dos juizes ordinários^ ofBciaes da cáh 
mara, juizes de orphãos, almotacés, alcaides, ele (77), 

Com a creação da villa de S- João da Palma exlioguiiMe 
Q presidio creado na foz do rio Manoel Alves Grande, 
ficandOt ootretanto, substâtindo alli ama guarda folanU) 
para proteger os habitante» daá incursões dos selvag< 
que Se tiobam tornarJo frequentes. 

Ao passo que Segurado cuidava com empenho da crea^lô 
da nova vllla, mais ao norle da capitania, e na maii^n 
oriental do Tocantins, nascia e tomava alentos a povoa^ 
de S. Pedro de Alcântara, da qual passamos a fallar. 

Francisco José Pinto de Magalhães, nalural e morador 
do arraial da Natividade, dedicou-se a vida do commercio, 
desde que foi franqueada a navegação do Tocantins ; trafi- 
cava para o Parà^ onde dispunba dos géneros que em suas 
canoas levava de Goyazj permulando-os por outros, que 
vendia nos arraiaes do norte* 

Muito conhecedor da navegação do Tocantins» e das 
necessidades e melhoramentos, que reclamavam os negCH 
ciantes em uma viagem lao longa^ vendo que do Porto* 
Real para o Pará não existia uma única povoação na mar- 
gem doeste importante rio, onde pudessem arribar as canoas 
para prover-se dos necessários recursos, falta esta que se 
fazia muito sensível,— em 1H08, depois de haver estudado o 
melhor local para uma povoação, auxiliado de alguns ami- 
gos ê parentes, que o acompanhavam n*est:i idéa, lanvou ^ 

* 

(77) Foram eleiíos: juízes ordinários, o capiUio-môr UomlngcM Aa* 

tonio Cardoso e capUão João Caetano de Sampaio; vereadúrif», LiiU 
Pereira da Rocha, José de Oliveira o Silva e Vicior Tmeim Baste»; 
procurador, Matheus Joaquim da Silva ; juiz de orphlQSi alferii 
Joaquim Pereira de Lemos i juizes almolacés, Manoel Joaquim d« 
Almeida e Ànlonio de Amaral Garoia ; fíerivão da camará. Fe* 
brouioJost* Pereira Sudré, alcaide; AntoDia José do CarvalliOt 



— 83 — 



pDucas léguas da toi do rio Manuel Aíves Graade, os pri- 
meiros fundamentos de unia [lavoaçâo. 

Uois ânuos depois existiam alli quarenta o duas pessoas, 
todas dedicadas á lavoura, e uão havia que duvidar mais 
do porvir da povoação, O arraial deS, Pedro de Alcântara 
eslava fundado, e a futura cidade da Carolina desen- 
volvi â-se. 

Em 1810 foi alli residir definitivamente Pinto de Maga- 
lhães, levando comsigo todos os seus haveres o uma es- 
quadra de trabalhadores e operários. Deu-se então começo 
á coustrucção de um pequeno templo e levantaram-se as 
primeiras casas regulares, emprega ndo-se o resto da po- 
pulação na lavoura do algodão, aprovei tando-se assim as 
vastas o ricas proporções que offerecia o local para este 
género de cultura- 

Não foram poucas as privações que oos primeiros tempos 
solTreu Magalhães e a sua gente ; mas este homem empre- 
hendedor, à força de muita coragem o perseverança, pôde 
conseguir que em 18iit, augmentada a população, fosse já 
prospero o estado de S, Pedro de Alcântara, pelos recursos 
que lhe proporcionara a agricultura. 

Entretanto foi Magalhães a Villa-Boa representar a Fran- 
cisco Delgado sobre as medidas que entendia serem pre- 
cisas, afim de assegurar o futuro e a prosperidade do dono 
povoado. O governador, deferindo a sua representação, 
[ p:ira S. Pedro de Alcântara fez partir uma guarnição mili- 

r, de cujo eommando encarregou o mesmo Magalhães. 
'Pacificados o gentio macamecram, tranquillos os habi- 
tantes com as providencias dadas, o desenvolvimento do 
novo arraial não se fez muito esperar, principalmente de- 
pois quo para ahi foram affluindo os povos que viviam dis- 
persos pelos sertCfes de Balsas, Grajahii, Farinha, Lapa, etc. 

As estradas que se abriram, a navegação do Grajahú des- 



— 84 - 



coberta por intonío t^raiiciscG Bandeira em 1811, a naf 
gaçao do Tocanlins» o commercío com o Pará e o Ma 
QliãOp as communicações abertas para Aldèas Altas, a situa- 
ção fantajosa que occupavam os habitantes de S. Pedro de 
Alcanlara— foram circumslaocias que necessariamenla de- 
viam influir da um modo directa no seu rápido crescimeDio. 

Todas estas condições de progresso, que favoreceram o 
uovo arraial, o facto do nào se ter ale eu tão desíguado 
positivamente os limites entre o Maranhão e Goyaz, fez 
nascor n'aquella capitania a ambição de possuir S> Pedro 
da Alcântara para seu território. 

Julgava-se o Maranhão com direito à posse de todo o 
território da margem oriental do Tocantins, desde afoxdtí 
Manoiil Alves Grande até a barra do Araguaya. E, d*isío 
convencido, protestou contra o facto de ter Goyaztodo 
esse território debaixo da jurlsdicçâo das justiças de Porlo 
Ueal, mantendo em S, Pedro de Alcântara um deslacamea- 
to, e exercendo alli todos os mais actos administrativos. 

Apezar de ser oriunda do Maranhão a maior parte dos 
habitantes, que allluiram para essa parte do Tocaulins, e 
ficar o ambicionado arraial mais próximo de S. Lui^ do qu6 
de Villa Boa — esta pretençâo não encontrou apoio da parle 
dos seu 3 habitantes, que nenhum beneticio tinham recebido 
doesta capitania, e sim de Goyaz, a cujos povos e a cujo 
governo tudo deviam, nao s6 do que estava feito, como do 
que se projectava ainda fazer. 

Depois de uma troca de correspondência a respeito d' esta 
questão entre os respectivos governadores, foi o assumpto 
affecto ao governo central, o qual determinon que se proce- 
desse á demarcação dos limites das duas capitanias. Em 
t8l5, por virtude do aviso de It de Agosto de 1813, desi- 
gnaram-seos commíssarios demarcadores ; —por parte de 
Goyaz o capitão commandauto do presidio de S. Pedro de 



— 85 — 



Alcântara, Francisco »Iosó I'inLo áô Magalliães, o sargento- 
mòr» director dos presídios de Tocantins, José António 
Ramos Jubé, e Paulo José da Silva Gama ; por parte do 
Maranhão o capitão Francisco de Paula Ribeiro, o ai fores 
JoSo Baptista de Mendonfa e o piloto António da Costa. 

Depois de varias conferencias, divergindo sempre os com- 
missarios na questão capital, foram as actas remettidas aos 
respectivos governadores, nao ficando nada assentado. 
Em 1816, reunidos de novo os commissarios, procedou-se 
á demarcação, da qual se lavrou o competente aulo, que foi 
do theor seguinte : 

íí Aos 9 dias do mez de Julho de 1816, n esta povoação 
dfi S, Pedro de Alcant^^ratSituada na margem lésie do rio 
Tocantins, em districto da capitania de Goyaz, em o quar- 
tel da residência do sargento mor José An tonto Ramos 
Jubé, sendo juntos em sessão como commissarios por parte 
da capitania de Goya2 o mesmo sargento-mòr Josó António 
Ramos Jubé e o capitão do ordenanças Francisco Joso Pin- 
to de Magalhães; e por parle do Maranhão o capitão do ra- 
ginienlo de linha da mesma capilania Francisco de Paula 
Ribeiro, o alferes do mesmo regimento João BaptisUi de 
Mendonça, e António da Costa, piloto appr ovado pela aca-- 
demia real das sciencias, auctorisados esses c outros pelos 
seus respectivos governos para limitar entre si as duas ca- 
pitanias nos terrenos em quo uma com outra se encontram 
pelos rumos sudoeste e oeste da de Maranhão, nordeste e 
lòste da de Goyaz, e, por Lodos elles eleitos commissarios, 
assentado de commum accordo que, segundo o espirito do 
régio aviso de M de Agosto de 1813, em que por bem do 
seu real serviço Sua Alteza Real determina adita demarca- 
ção cora reciproca vantagem do publico estabelecido de 
uma e outra parte, atLentas as razões discutidas nas ses- 
sões de 11 e H de Agosto de 181$, a que se procedeu n*es- 



- 80 ^ 

ta commissão sobre o mesmo objecto, e as ordens pro?iQ- 
das das combinadas resoluções dos mesmos governos, ori- 
ginadas dos documentos d'aquellas ditas sessões, a ume 
outro presentes:— fiquem, se Sua Alteza Real nâo mandar 
o contrario, servindo de balisas ou marcos divisórios en- 
tre as mencionadas capitanias os rios Manoel Alves Grande, 
que corre de sueste a noroeste, e Tocantins, que corre de 
sul a norte d'aquelle Manoel Alves Grande, desde sua em- 
bocadura, buscando suas primeiras vertentes, até encon- 
trar com o rio Parnahyba, pertencendo à capitania do Ma- 
ranhão a margem nordeste, e a de Goyaz a margem sudo- 
este; o d'esle Tocantins, desde a foz do dito Manoel Al- 
ves Grande até a foz do rio Araguaya, no presidio de S. 
João das Duas Barras, pertencendo ao Maranhão a mar- 
gem leste, o a Goyaz a margem oeste, devendo, para co- 
nhecimento da causa que esta commum resolução promo- 
veu, ficarem juntos a este todos ou parte dos documentos, 
resultado das referidas sessões acima ditas, conforme o que 
a cada um dos ditos governos lhes pertencer. Do que, 
para constar, se lavrou um auto para cada uma das ditas 
capitanias, por elles demarcadas, em o qual uns e outros 
commissarios, plenamente auclorisados, assiguaram por 
parli3 (los seus respectivos governos. Povoação de S. Pedro 
de Alcântara, 9 de Julho de 1810. — José Aiilonioltamos 
Jubé, sargenlo-mòr commissario.— Francisco de Paula Ri- 
beirOf capitTio commissario. — Francisco Josc Pinto de Mar 
(jalhãeny capilão commissario. — José Baptista de Mendonça^ 
alferes commissario. — António da Costa^ piloto commis- 
sario. » 

t( K, apezar de que os termos d'esta demarcação fossem 
insinuados pelos dois governadores, e ella se ultimasse 
a aprazimento de ambos, comtudo, nem então, nem ao 
depois, foi ella sanccionada c confirmada pelo poder real... 



— 97 - 



« Conseguiotemeote ficaram prevalecendo os antigos H- 
miles,qae o eram^quando aquelleterrilorioaDhava-se com- 
prebeníliíio na totalidade da capilaoia de S. Paulo. >> (78) 

A entrega do território não se verificou; entretanto 
em 1820 Fernando Delgado informava a este respeito ao 
triunivirato, expriraindo-se do seguinte modo: 

« O presidio de S, Pedro de Alcântara ficou pertencendo 
ao Maranhão, em consequência da divisão que se fez d'esta 
com aquella provincia, na conformidade das reaes ordens, 
o que levai â real presença com o meu ofljcio de 7 de Ou- 
Iobrodel8l6. » 

Mas este officio nunca leve resposta, nem o auto de de- 
marcação foi approvado (79)* 

(78J Purecor da commissao de eslatislíca úa camam dos sculmrci 
deputados de 1815, 

(71») Francisco José Pínio d& Míigalhries, fundaiíor ile S. l*edro 
de Alcantarrtj hoje cidade da Carotinu. escreveu uma memorííi so- 
bre o seu estabelceimetno, a conquislado gentio insicítmecram, e 
navegação da Toeaulins, que em 3 de ianciro de 1813 ciíFercceu ao 
goféroador Fernando Delgado. D'cste importanle trabalho ex* 
tractamos para esta noia o que nos parece a proposilo: 

t Inírodnccâo d memoria. ^0 bom o honrado cidadão, e qualquer 
homem de bem^ que deseja ser considerado como fiel vnssaffo* 
deve DUO sé cegamcnie obedecer aos preceitos iicgalivos das leis 
promulgadas etn benelicio e favor da sociedade» como deve íguah 
mente applicar todas as suasi forcas e incansáveis fadigas pam 
onclier os justos fins a que se desatinam as íeis affirmalivas do paiz^ 
cm que vive, e em que nasceu; pois que os imperantes com eo^ 
nhecimento de causa, sem preoeeupaçíío, ouvindo os sábios minis- 
tros e precedendo as mais sérias indagaçòes, e com vistas Iodas 
saudáveis, as promulgaram em favor dos seus lieís vassatlos^ de 
que SC compele a me&ma sociedade civil, ã que a príncipe preside 
eoroo chefe e pai commum dos seus vassallos; as demonatraríjes 
mais effica^ies de amor o patriolismo, que pude mostrar qualquer 
em benelieio da pátria e seus concidadãos, consiste cerlamenio em 
iratHilhar por enelier os ditos Hns recornmendados pelas lois^ romo 




- 8ft — 



Todâs as povoações que se fundaram nas margens do To- 
cantins vingaram e se desenvolveram, mas nao assim as que 

mais conducentes p^ra feiicida le publica, no que utii vassaílô tiã 
fãi voT o respeito e amor para com o seu príncipe» e o seti ps* 
tríotíâmo em beneficio e favor dos seu^ eoncid^drios. 

« Estes tâo sólidos, como verdadeiros priucipioSf me fiíerim 
olhar corn a mais seria e respeitosa allen^Ao para é dispoMo na 
carta e ordcDs régias^ que mnndam animar a navegaçíio do fio To- 
cantins e Maranhão, da capilani^ de Gojai, Pará e MarauUão JA 
para ay^mento e felicidade de Cojfaz, com a qual podo estabelecer 
o eammercío aetivo, exportando os géneros que lhe forem super- 
tloos; sem dependência de despenderem o ouro que tiram das 
siiis minas na compra dos géneros que eonda^m dos porloi de 
hetra^niar, em que áié agora famm o commercio todo puslve 
Q'estã capilania; já reiíuziodo*se ao grémio da santa igreja lautas 
naç(>cs barbaras, que habitam n*aque1les vastos serlC^es» e que os 
ínfesUim« ímpecendo a navegação ^ e UosUlísando aos moradores, 
veiame que tem sido rao incommodo, pcsatlo e funesto a estas troi 
Mpitanias sobredilasi eonvencido, pois, de que eu faria grande ser- 
viço ao príncipe regente, nosso seuhor, e á minha pátria, empre- 
gando-mo cm seraelbanie obra, c com elTuiio medindo esld inh»* 
lho, e olhando para as minhas eirnumstancrase fnieas for^s, quasi 
desanimava ; porém da minha mesma fraque/a e impossibilidade 
tirava a satisfaríio e gloria de ser mais relevante o meu sen tç?» 
lodo Hlho do meu ardeuto patriotismo, e por este moda in6 reani- 
ma va« e eíTectivamcnte entrei n'esLe trabalho, 

a O arraial da Natividade tia çouiarcu do norte d^^esta eapitaoU 
do tloja/ foi a minh:i pátria e miníi-t morada, disiante do Porlo 
Heat do FoQlal âtí léguas, sendo este porto o do embarque pam o 
Pará ; segui n vida de negocio, e, reconhecendo as oommodidid€9 
d'aquella navegação, eu a fcoquentcí, faiendo seis viagens a cidadi 
do Gram-rarã, onde dispunha os géneros e eíTettos que coadutii 
de Gopi^, e d'affj voltava com o meu pequeno negocio, que dispu* 
nha n'eslas minas: n*estas viagens adquiri os conhecimentos pre* 
eisos pam reconhecer as grandes e úteis vantagens que recebe o 
publico e o Estado de se povoarem as margens do Tocantins, e, sem 
eiigir do Tninislerío, nem do governo, soccorros e auiilíos, me íui 
esiabeleeer em um lupr ires léguas abaixo do rio Manoel Alves, 




- 89 — 

se tentaram estabelecer aas margens do Araguaya, O presi- 
dia de §• Pedro do Sul daNovaBeira.o deTacayiina.â 



I 



na margetn orienlaE do TocAntiDs, fazenda ahi uma pc^voaçâo, que 
s« denomina povoarão de S* Pedro do Alcanlara, em disiancia 
do Poflo Real do Pontal 79 léguas^ convocando homeos acoslu ma- 
dos ao traballio e â vnk do senão i de âorie que no auno de 1810 se 
coropunbu a dita povoaçfio de iâ pessoas; alli roe oslaboleci ; tU 
coQstruir casas de oração e de vivenda, ç o file t nas necessárias aos 
diíTerentes officiaes mecânicos que me acompanharam : lizefam-se 
roças, e logo cuidei em fazer grandes plantações de algodão, já com 
fista nos úteis que me podiam resultar docommercio d*estc ge* 
nero. 

« Dm:ripção da ^iovaação de S. Pedro de Âkaníara.—k povoaçiio 
de S. JPedro de Alcantani eslã situada na margem orienlal do rio 
Tocantins, 79 léguas abaixo do Porto Real do PonlaL da comarcft 
do norte da capitania de Gojaz* em lugar alto, saudável e aprait* 
veU abunda em matos para p1antaç5es, as melhores madeíraSi 
emmpos de criar, muito petvOt sendo consideravol n'aqueUe lugar 
a abundância de tartarugas ^ que Uz um ramo do comraercio acti- 
fo d*esta capitania, pelo alto preço e fácil disposiçiio que tem na 
cidade do Gram-Pará, As plantaç^^es produzem com vantagem, e 
sem menor trabalho n'aquella povoação do que nos matos conhe- 
cidos de toda a capitania do Goyaz, Os pastos são os melhores que 
se podem desejar, porque o gado vaecum que liz conduzir para 
aquella povoação ^ sendo d^ esperar que estranhassem a mudança 
doi pastos d'onde sahiram, e em que se criaram, pelo contrario to- 
maram melhor nu trimento de que d 'antes tinham nos pastos em que 
nasceram. As aguas sao puras, cr^^tallinas e saudáveis, sem depen- 
dência do rio, pois que tem córregos e ribeiros, que cobrem o lu- 
gar da povoação, com que prelendo mover os engenhos necessários 
para moer C4inua, socar o irar. Era na verdade grande a minha sa- 
tiifaçâo em me vereslabeíeciíJo n'aquclla povoação, onde cu reco- 
nheci as vaniagens que d'ella me podiam resultar, e onde eu ti'* 
nba o prazer de soecorrer aoi mais negoeJantes, que navegavam 
n'aqiielle rio, e que muitas vezes aílí cUegam cançado^j c incom- 
modados de fome, portifio baver povoações amiudadas, aonde com- 
prem os mantimentos precisos para sua equipagem ; porém as na- 
ções barbaras de gentios que babitam nos vizinbanças tfaquelia 
TOMOXXYin, p. IL li 



- 90 — 

?illa de S. João das Duas Barras, foram tentatíTas infroo- 
tiferas. 

povoaçào me obrigavam a ter o grande trabalho de me acautelar 
de dia e de noite, e sempre com as armas nas mãos, e sentinellas 
vivas, das suas hostilidades; e a muito custo e considerável in- 
commodo pude fazer as minhas plantações e colheita. E' desne- 
cessário notar quaes seriam os incommodos, sustos e trabalhos, e 
também fomes, quesoíTri com a minha gente no primeiro annodo 
meu estabelecimento, antes de ter concluído as casas de vivenda, 
e emquanto não chegou o tempo da colheita dos mantimentos ; po- 
rém actualmente ha abundância do necessário n'aquella povoação, e 
vivem com fartura 80 pcssoas,que já n'ella existem. As Ribeins, 
que são districto d'esta povoação, são habitadas por mais de 3,000 
pessoas ; estas t6m dependência de procurarem os géneros e effei- 
tos da primeira necessidade na villa de Aldeãs Altas, que dista mais 
de i50 léguas. Continuarei a mandar conduzir sal, ferro, fatendu 
da cidade do Gram-Pará, para dispor na dita povoação, em uma 
casa de negocio que alli vou estabelecer, fazendo por este modo 
ainda mais solido, tirmee constante o estabelecimento da dita po- 
voação. Achei enxofre em pedra nas vizinhanças d'esta povoação; 
pois que ignoro as operaçòes chimicas com que se possa dcsen. 
volver aquelle mineral das ditas pedras, por isso o não exibo e 
apresento, como desejava. E' este o estado e as circumstanciasem 
que se acha a dita povoarfio 

« Conquista do (jenlio macamecram. A nação do gentio macame- 
cram estava alojada em duas aldCas cm distancia de três léguas di 
povoação de S. Pedro de Alcântara. F^sta nação, a quem erradamen- 
te chamavam de timembós, era temida por lodos os fazendeiros 
dos sertões de Balsas, (irajahú, Neves, Lapa e Farinha, território 
perlenceulo á capitania do Maranhão, pelas hostilidades que alli 
faziam, e, apezar de alguns damnos que me causaram, nem por isso 
as hustílísei, antes com mimos e otlertas, Inilando-os com afagas, 
pretendi cliainal-os á minha amizade, o que felizmente conclui, de 
sorte que abandonaram as suis aldt^as, c vieram estabelecer- se nas 
vizinhanças da povoação, dentro da (jual constantemente está um 
grande numero d'elles 

ff Tenho convidado a muitas famílias para se estabelecerem nas 
margens do rio Tocantins, e muitos voluntariamente se apressam 



— ul - 

FaUaremos aioda dâ uma tentativa malsuccedida,— o 
presidio de Santa Maria do Araguaya, que se mandoa fan- 
dar para proteger a navegação doeste rio, e o commercio 
da companhia que Fernando Delgado tentara incorporar 
em virtude do aviso de 5 de Setembro de 18 H. 

Entre S. João das Duas Barras e o registro de Salinas foi 
escolbido o local etn que vantajosamente devia ser elle coí- 
locado, e em princípios de 181â parti u da Villa Boa o te- 
nente Francisco Xavier de Barros, com o capellâo padre 
Luiz da dama, o cirurgião Manoel Alves, e 80 pessoas 
entre paisanos e praças de linha, e, embarcados no rio do 
Peiíe, desceram o Araguaya, e a 196 léguas do porto da 
Piedade estabeleceram os seus acampamentos, e começaram 
uma povoação. Correu bem o anno, e tudo promettia que 
o estabelecimento não seria perturbado, porque os índios 
se mostravam satisíeilos, sempre que iam de visita ao pre- 
sidio receber brindes e ferramentas. Para consolidar o 



a empossar-se das meíhnres situações desde o rio do SorttQO aLé a 
ilha de S. iosé, exiensâo do nuiis de 10 le^ua^, que liça povoído, 
sendo a miúor parle dos navos povoadore^^ domiciliários da capita- 
nia do Mfiranhão, o que mai^ nos iuteressam, porqvie conduzem oi 
gudos pura as margeo.'^ do Tooanlins» bem como so eçipera proiima- 
moate Manoel José da AssumpQlú, commatidautG d'aquetias ribei- 
ras, com 500 calieças de gado, achando-íve ji em S. Pedro de Alcân- 
tara o capitfiO Aalonio Moreira da Silva, viudo d^aq^ieiía capitania 
do Miiraohfto com sua ruiiilí^^ sugeito mui Lo rceommendavel peta 
Bua prudência» valor, e actividade, o que tem tido graude parte no 
fôtiz resultado dos meus irabalhos, a digno eertamente de maior 
contemplar>ío, etc, ele. i* 

Além do que fica trauâcriplo, trata a memoria da abertura de 
uma estrada para u Pará, da navegaçáo para o Manuib[ko pelo río 
{■rajahú i noticia quaulo bavía sobre os indíos, e suns difTerêtites 
nações, babilos e costumes^ e Gnalmeute Irata dasprovideacias no- 
cessarias para n augmento da povoa<;Ao, conquista dos ind tos, e fa- 
cilidade da uatega^lo dos rios Araguaia 6 TocantíDS, etc^ 



- 94 « 

imprimir. De envolta com as aguas, lutando com a morte, 
foram levados pela corrente, que lhes serviu de mortalha : 
os que os acompanharam n'esta atrevida ompreza retroce- 
deram. 

Acabado o cartuxame, eram as armas carregadas a poN 
vora e chumbo, sendo as mulheres e crianças quem prepa- 
ravam as cargas ; os h:ibitantes de Santa Maria praticaram 
prodígios de valor ; os enfermos se levantaram dos seus lei- 
tos de dôr, ou para empunhar as armas, ou para ajudar os 
combatentes. 

Por três vezes ferido o t3nenle Barros, conservou-se com 
a arma em punho, encorajando os seus, o fazendo conter a 
fúria dos aggressores. 

De repente ouviu-se um grande alarido, e notouse que, 
d*entre os indios, um se destacava, gesticulando com 
violência, e accionando para o presidio. 

Uma índia xacriabá, que Barros tinha levado para Santa 
Maria de interprete, sendo testemunha d'osta scena, com- 
munícou ao commandante o que o chavante dizia e queria. 

N'essa gesticulação, e n^esscs gritos, havia uma ameaça. 
Dizia o Índio que baldada era a rL^sistencia, que, sendo pou- 
cos os brancos, cm breve seriam vencidos : que os aggres- 
sores nâo largariam as armas sem conseguirem seus fins. 

Então ()rden'ju o tenente Barros á índia quo convidasse 
os seus parentes a lhe virem failar: depois d'esta ordem 
cessou o fogo. 

Com o índio, que se suppunha um dos caciques, vieram 
outros ter com o commandante, que lhes sahíu ao encontro. 
N'estc acto depuzeram os inimigos os seus arcos, e o tenen- 
te abraçou a todos, acabando [)or entregar a sua espada ao 
que suppunha chefe. Este a recebeu, para restituíl-a ins- 
tantes depois. 



— 95 - 



Approximindo*se a interprete, travou^seealreellaeo 
Cacique chereiíte um vivo dialogo. 

Foi eatão que se soube das causas d' essa alliauça, que 
trazia aos muros do presidio ires nações colUgadas, Os ca- 
rajás, habitantes do Araguaya, tinham ido ao Pontal ^aqua- 
si 80 léguas de distancia, convidar oscberentes a esta 
guerra, allegando, para justificar a sua necessidade, qneos 
brancos tinham toraado suas terras e os queriam captivar, 
Emquanlo Barros persaadia-os a deporem as armas e a 
fazerem a paz, procnrandu desvaneeel-os d^csses infunda- 
dos receios, e estando jà entabolada e em bom pé uma es- 
pécie de negociaçãa, no grupo dos chavantes e carajás, que 
ficaram a distancia, e do outro lado do ribeirão, dava-se 
uma scena, que veiu a decidir da sorte do presidio. 

Estes» que dos aggressores eram os que mostravam mais 
ousadia e sede de vinganç-a, tentaram invadir o presidio 
pelo llanco direito; porém alguns dos soldados, que ob* 
servaram este movimento, com uma descarga os fiíeram re- 
troceder* 

Ao estampido da descarga oscberentes, que rodeavam o 
comniandante, tentaram apodera r-se da xacriabà, que, 
evitando os, preveniu a Barros das malévolas intenções dos 
seus parentes* 

Barros recuou, e seis soldados, que, com as armas car- 
regadas, o guardavam de qualquer traição, a este aviso, nâo 
tiveram mais que descarregar as armas. Os cberentes,atro- 
pelladus e em confusão, fugiram a grande distancia, dei- 
xando quatro dos seus arcando com as vascas da morte. 
A paz era jà impossiveL 

Quando o commandante se recolhia á sua tenda, a se 
preparava para sustentar novo e inevitável ataque, chega- 
vam os cinco soldados que pela manhã tinham sabido á 
caça. Uma nuvem de inimigos sobre elles se arremeçou, e 



m 



mal deu-lhôs lerapopara se defenderem. E que defesa era 
possível, se estavam desprevenidos? Ijm circulo de ferro 
os apertou, e no meio da lati a mais firme e desigual ex- 
piraram todos aus golpes raivoso j das davas dos earajàs. 

Esta espectáculo, prasiinciado sem remédio pelos solda- 
dos do presidio, os fez desanimar. 

Pelas duas ou três horas da tarde, satisfeitos os indios 
com as victimas que haviam s icriUcado ao seu furor e á 
sua vingança, em torno de cujos cadáveres dansàramc 
tocaram— suspenderam o cerco e se retiraram para além 
dos bosques que rodeavam o presidio» deixando grande 
numero de atalaias, qoe pelos soldados foram vistas a es- 
piarem do cimo das arvores. 

Era sigrial de que voltavam a satisfazer seus desejos. 

Reflectindo Barros que a guarnição era pouca para re- 
sistir a tantos inimigos, e que essa mesma se achava exte- 
nuada de doenças, e das fadigas que tinham supporlado du- 
rante tantas horas, e receioso de que os indios viessem em 
suas numerosas ubás atacal-o pelo lado do rlOr resolveu 
abandonar o presidio, e para logo deu as ordens necessá- 
rias Doeste sentido. 

Ao anoitecer o som das boslnas e maracásdos índios an^ 
nunciou a sua approximaçâo; — embarcarara-se todos em 
péssimas montarias, e precipitadamente e sem piloto se 
entregaram á mercê das aguas.— Foi uma scena conlrisla- 
dora a fuga d'essas 38 pessoas» que compunham o pessoal 
da presidio de Santa Maria ; espectáculo pungente, o que 
dias depois ollereciam esses fugitivos, devorados peia fome, 
acabrunhados de soffrimentos, e entregues, no meio de 
tantas attribulações— somente á proteção de Deus. 

A canoa, em que ia o commandante, arrebatada pelas 
aguãi de uma cachoeira, alagou-se, e submergiu-se ; dois 
filhos seus e dez ]>essoas adultas foram arrebatadas pela 



— 97 — 

corrente, e no seio daâ aguas acharam as suas sepulturas. 
Ao GoniraâDdanle só restava uin filho, salvo por sua mãi, 
que o disputou às aguas, até consegail-o salvar! Só resta- 
va uma montaria, e esta mesma fazia lauta agua que pres- 
te sossobrou, deixando uas margens do Aragiiay a 25 pes- 
soas innanidas, e entregues ao desespero da dôr* Tinham 
navegado 15 dias 1 Em que altura se achavam esses infeli- 
zes» para onde dirigiriam os passos? Era preciso resolver 
em tâo terrível conjunclnra ! 

Alravessâudo as areias ardentes do Araguaya, internan- 
do-se pelas florestas, galgando serras, a pequena caravana 
procurou o rumo do norte, acompanhando as sinuosidades 
do rio, Quasi 60 léguas venceram em dez dias^ para che- 
garem ao presidio de S. João das Duas Barras, Muitos fal- 
leceratu n'esta penosa viagem ; poucos foram os que res- 
taram, para contarem seus padecimentos^ e o trágico fim 
dos seus companheiros. 

O presidio de Santa Maria deixou de existir, não por ne- 
gligencia do seu commandante, mas por falta dos soccor- 
rús quQ esperara de Vitla-Boa, e que nunca chegaram! 

A fundação deste presidio foi assumpto de tão magna 
importância, e de um interesse tão immediato considerado 
sempre para o serviço da navegação do Araguaya, que, che- 
gando ao conhecimento do príncipe regente a triste nova 
da sua destruição, por aviso de 3 de Setembro de 1813 o 
mandou restaurar. 

Mas nada se fez, attento o estado da capitania ; e ficou 
este importante objecto adiado indefinidamente. 



TOMOXXVni, p. 



13 



— 08 — 

CAPITULO xvni 

(1809-1820) 

Extincção da aldêa Maria I.— S. José de Mossamedes.— D. Damiana.— 
A calechese inteiramente abandonada.— Os indios cherentese earor 
já9.—k na?egaçao para S. I>anlo.— Viagem de exploração.— Jo5o Cift- 
tano da Silva e José Pinto da Fonseca.— Resultados d'esta exploraçfto. 
— Oravissimo erro administrativo.— Outros actos do governo de Per» 
nando Delgado.— Fabrica de tecidos.— as minas do Anicuns.— Refor- 
ma militar.— Correio. — O palaciodo governo.— Contagio da bexiga.— 
Desmembra-se de doyaz o Araxá e Desemhorjiíe. — ContribuiçSo 
voluntária.— Creaçâo da junta do Desembargo do Paço.— Estado 
financeiro da capitania.— Dei.\a Fernando Delgado o governo.— Toma 
posse um triumvii ato. — Retirada do governador. —Seu fíoi desas- 
trado. — Causas do seu suicidio. — Manoel Ignacio de Sampaio no- 
meado governador. 

Não foi somente o presidio de Santa Maria a uuica po- 
voação que desappareceu do mappa de Goyaz : o aldea- 
mento indígena conhecido pelo nome de Maria I lambem 
foi extincto em 1813, mas de um modo pacifico, e por sop- 
postas conveniências administrativas e económicas. 

Tendo sido nomeado regente geral das aldéas José Amado 
(Irehon, teve ordem de inspeccionar esta aldèa e a de 
S. José de Mossamedes. Do exame a que procedeu conhe- 
ceu que aquella tinha apenas uma população de 138 indios, 
e esta de 129 

A' vista de um estado Uío decadente, propôz transferir os 
caiapòs da aldca Maria para S. José, esperando por este 
meio poder augmentar os recursos agrícolas da aldéa que 
mais próxima ficava da capital, e economisar as despezas, 
que se faziam com a guarniyão militar da primeira. 

Approvada sem reflexão esta providencia, os dois quar- 
téis, o paiol, e alguns edifícios, exiçtentes na aldêa Maria, 



- 99 ^ 



mram demolidos » e os maleriacs Innsforidos para S/JÕse 
bem como todo o pessoal alli existente- 

Em vez de promoverem o aaginenlo do pessoal das aldêâs 
chamando dovos habitadores paraellas, deslruia-se o pouco 
que aiuda restava de quanto se havia feito com tanto sacri* 
ficio ! A questão da catechese estava completamente aban- 
donada ; eia assumplo em que jã ninguém pensava. Se em 
iHVi as aldeamentos mais próximos á capital ainda pos- 
suíam uma população de 267 Índios, ha uma única razão 
explicativa d'esle facto* 

Existia em S. José uma mulher^ a quem os caiapôs re- 
verenciavam e obedeciam cegamente; essa mulher cha- 
mava-se P. Damiana, e era nela do cacique Angrayochâ e 
de sua mulher Xiunequà. A ella se deveu nâo só a con- 
servação da aldèa de S. José, como muitos serviços im- 
portantes à catechese, que ella promovia, indo em pes- 
soa ao centro das florestas chamar os seus parentes a virem 
viver na commuohSo dos brancos. 

Fernando Delgado, porém, pouca soube aprovei tar-se da 

influencia d*esla mulher, o muito menos u seusuccessor; 
tanio assim que em 1828, dois annos antes do falleci- 
menlo de Oamiana da t^nha, sendo director da aldôa Ma- 
noel da Cunha Menezes, seu irmão, a população indigena 
constava apenas de UB pessoas, as eonstruecões estavam 
em completa ruína, como melhorraente se vê do inventario 
a que o presidente Miguel Lino do Moraes mandou pro- 
ceder pelo juizo dos feitos da fazenda, desembargador 
Josú Joaquim Corrêa da Costa Tereira do Lago, 

Cumpre notar que em I8â8 e 1829 linha D. Damiana 

conseguido chamar para S* José alguns caiapòs, indo pes- 
soalmente buscados ao rio Claro, e alto-Araguaya. 
E assim se foi aniquilantlo até desapparecer também o 



— too — 



mais importante aldêamealíj que teve Goyaíi e que coslau 
ao Estado sommas enormes. 

Não é escusado fazer n'esta occasião uma ligeira des* 
cripção da aldda de S. José da Mossamedes» fundada por 
José de Almeida Vasconcellos Soveral e Carvalho, senhor 
de Mossamedes. 

O centro do aldeamento constava de um quadrilongo^com 
conslrucçôes em todas as quatro faces. Os quatro lados 
eram guarnecidos de casas coastmidas para residência dos 
Índios, quartel da força^ deposilo de géneros» e outros 
misteres* Nos ângulos da praça do lado do sul elevavam-se 
duas grandes casas assobradaiías, e no centro a igreja, 
construída com alguma elegância. Em frente á igreja sobre* 
sabia um edifício de appareocia nobre, que servia de re- 
sidência aos governadores, quando iam de visita á aldéa. 
Os lados maiores do quadriiongo prolongavam-se para fôn 
da praça, e se compunham de uma serie de casas de regu- 
lar construcçiLo. Por fora existiam espalhadas sem ordem e 
em differentes direcçííes choupanas e Ujupds, onde mo- 
ravam de preferencia os indíos casados, ou os que não 
podiam por qualquer circurnstancta morar nos qua; 
commuDS, 

Tudo isto desappareceu e hoje só resta do antigo espiei^ 
dor de S. José de Mossamedes a igreja, e maia uns ires ou 
quatro pardieiros arruinados, em um dos quaes reside o 
vigário da freguezia. 

Perdeu Fernando Delgado todas as occasíôes qoe stí 
lhe offereceram para prestar serviços importantes à cate- 
chese, e fazer nascer nas aldeãs decadentes seu antigo flo- 
rescimento* Os Índios cherentes e carajás do baixo Ara- 
guaya mostraram as melhores disposições para se submel- 
terem ao regimen dos aUlêamentos, do que vieram depois 
a convencer-se os incrédulos, veodo-os reunidos em Sali- 



— 101 - 



nas, Tl vendo mansa u pui^ilicatuente. Chogar^n estes Ín- 
dios a mandar á capital emissários seus, à procura da ami- 
zade do capitào-grande, que não lhes deu a menor im- 
portaocia : enlrelanto a aldeã de Pedro III linha jà perdi- 
do dois lerços da sua população. 

Somelhantemenle aconteceu com os carahós, do Tocan- 
tinSp que lambem foram à capital pedir para serem aldea- 
dos, e voltaram sem nada lerem conseguido, pouco se 
importando Fernando Delgado que o aldeamento do Duro 
estivesse quasi que em completo abandono. 

Allegava-se, para justificar o nenhum interesse que se 
dava então á catechese da gentilidade^ a falta de recur- 
sos pecuniários da capitania ; entretanto existiam parochos 
empregados no serviço das aidéas, uma guarnição militar 
na capita], superior ás necassídades da capitania, ainda 
mesmo depois que foi reduzida, e posta debaixo de ura só 
commando. 

Os soffrimentos physicos e moraes de Fernando Delgado 
nao o deixaram empregar-se com actividade e zè\o no ser- 
viço da administração ; era pí)r isto muitas ve/^es indolen- 
te e descuidoso dos negócios puhlicos. 

Além d*isto dizia-se que o período da catechese estava 
passado ; que outros assumptos, outras idéas, dominavam 
os espíritos. A navegação dos rios^ por exemplo, preoccu- 
pava de preferencia as attençoes ; o commercio e a lavoura 
eram o idolo do dia, a quem todos rendiam cultos» 

Vimos que no governo de D. Fíancisco procurou-se 
abrir para S. Panio e Minas uma via de comnfcnicação flu- 
vial, e que a exploração do Guterres teve um fim desas- 
trado. 

Agora iremos ver como João Caetano da Silva e José 
Pinto da Fonseca, emprehendendo a mesma exploração, a 
realizaram de ura modo completo e satisfac tório. 



— 102 — 

Á navegaoSo de S. Paulo para as minas de Guyabà.era 
já conhecida e praticada desde os primeiros tempos do de»* 
cobrímento d'estas regiões. Os paulistas, que entraram 
para Hato*Gros8o e Cuyabà, descobriram a nav^ação do 
Tietê, Paraná, Rio Pardo, Camapuam e Taquary, outros 
rios, que atravessam S. Paulo e Malto Grosse, e ySo lenr 
suas aguas a grande bacia do Prata. 

Era, pois, muito fácil prolongar essa na?egac2o até o 
Parnabyba, e no dos Bois, ou antes IrazAl-a a poucas 
léguas de Villa Boa. Antes de tudo convinha reconhecera 
sua possibilidade. Animados por Fernando Delgado, dois 
homens emprehendedores, JoSo Caetano da Silva e José 
Pinto da Fonseca, prepararam uma expediçSo de quatro 
canoas, que mandaram para este fim construir na margem 
do Rio dos Bois, e tripolaram com dez camaradas, e gaots 
sua. 

No tempo das aguas o Rio dos Bois presta-se à navegai^ 
desde sete léguas do arraial de Anicuns; como, porém, essa 
viagem foi emprehendida jà no tempo secco, foram embar- 
car a 18 léguas d'este arraial, ou a 32 léguas da capital. 

No dia 3 de Setembro desciam as canoas pelo Rio dos 
Bois a 16 passavam a barra do rio Turvo, o a 20 a foz do 
Rio Verde, havendo percorrido 69 léguas n'esse espago de 
tempo. Tinham perdido oilo dias de navegação. No dia 
24 avislaram as aguas do Parnabyba, que outros confundem 
com o Corumbá, seu confluente. 

Chegados à cachoeira de S. Simão, onde perderam três 
canoas, ahi^e demoraram um mez, tempo sufficiente para 
construirem novas e poderem proseguir na derrota. Con- 
duzidas as montarias por terra em uma extensão de SOO 
braças, de novo embarcaram-se a 30, dia de S. André, e 
chegaram a outra cachoeira, a que puzeramonomed'este 
apostolo. 



— 40S — 



Coríduziíías aioda por lerra as canoas, prosegeiram na 
viagem, ti a 3 de Dezembro avistaram a barra dojftio Gran- 
de- Findâva-se ahi o curso do Farnahyba, e iam entrar oo 
Paraná, já magesloso, e enriquecido com as aguas d'a- 
,^ell6 tribulario. 

llJfA três léguas da barra do Rio Grande é a navegarão 
difflcallada pula caciioeira do Urubú-pungà: levadas as 
caDôas por lerra» ede novo entregues acorrente, a moía 
légua da cachoeira, linliam pelo lado esquerdo a barra do 
Tielt% a qual atravessaram sem conhecer, e cerlamenle se- 
riam victimas como Guterres, dacalaratadasSele-quédas, 
se o íodio Manoul, cacique de uma aldeã que demora?â 
por aqiiellas devesas, indo visiial-os á noite, os nao ad- 
vertisse de que ja tinham passado a barra do Ti ele, que 
uma grande ilha em parte ocGu[tava,divÍdÍndoas suas aguas 
em pequenos canaes» mais parecidos com a confluência de 
pequenos ribeirões de que cora a foz de um rio caudaloso- 
Pela manhã tiveram de regressar, e, entrados oo curso 
do Tietê, DO dia 8 de De?.embro chegavam ú cachoeira do 
Itapura- 

Os exploradores, desde que se acharam n'estas alturas, 
consideram feita a exploração e vencidas as maiores diíli- 
culdades. Em ã5 de Março chegou João Caetano á então 
fregnezia de Pirassicaba. 

Durante esta penosa viagem falleceram quatro compa- 
nheiros, e José Pinto da Fonseca poucos dias depois d'ella 
finda dava sua alma ao creador na viila de S. Carlos de 
Campinas, 

João Caetano^ depois de haver descansado de suas f adi- 
rias, empreheudeu uma nova exploração, para reconhecer 
a navegabilidade do Rio Grande, a partir da foz de Mogi- 
guassú. EmbarcandO'Se na barra doeste rio em uma canua 
com os companheiros que llie restavam, desceu o Rio 



— i04 - 



Grande, atravessou as cachoeiras, que denommoii da Pal- 
ma» S. Estevão, S. António e S. Matlieus,©, subindo o rio 
Parnaliyba alé a barra do Corumbá, d' ahi regi*es^ou pelo 
mesmo caminho, e desembarcou era Araraqnara, 

João Caetano dirigindo-se no anuo seguinte {1817} ao 
Rio de Janeiro, e relatando ao príncipe regente os seus 
serviços» este os tomou em lanla consideração, que o agra- 
ciou com o babilo de Christo, ordenando-! he que na volta 
para Goyaz se embarcasse em Mogiguassíi, e fossê por via 
fluvial até o ponto mais próximo de VillaBoa a que podes- 
se chegar embarcado ; o que elle emprehendeu com snc- 
cesso, subindo o Parnahiba, Rio dos Bois, entrando pelo 
rio Turvo alé onde suas aguas permittem a navegação. 

Por aviso de 20 de Dezembro de !8íO se mandou dar a 
João Caetano a quantia de 100$000 por mez, para 
proseguir nas proveitosas explorações dos rios do sul de 
Goyaz ; porém esta ordem nunca foi cumprida, pelas naui- 
las protGlações que lhe oppuzeram, para que mais esta 
idéa útil ao futuro de Goyaz ficasse prejudicada. 

Parece que um mâo fado persegue-a, que medida alfu^ 
ma proveitosa aos seus interesses tem podido vingar e dei 
envolver-se. 

Vimos na navegação do Araguaya, e no empenho com 
que se a quiz promover, promessas altamente satisfa- 
ctorias; mas não podemos deixar de ligar grande im- 
importância a navegação do sul, que pôde de um modo 
fãci! e prompto ligar os interesses còmmerciaes de Goyaz 
com os de Malo-Grosso, S> Paulo e Minas* Quem ousaria 
equiparar as, solidões do Araguaya, as suas quatro- 
centas léguas de navegação, com as duzentas do sul pelo 
Parnahyba e Paraná, que recebe grande numero de tribu- 
tários navegáveis, os quaes em seu curso atravessam im- 
portantes povoações, terrenos cultos e habitados ? 



— 10S — 



Foi uoi grave erro nao querer Fernando Delgado pro- 
seguir n'estes trabalhos, tendo para ajudal-o um boraem 
lâo experimentado e resoluto. 

Em compensação fundou em Vilia Boa uma fabrica de 
tecidos, que poucos anu os trabalhou, e procurou também 
dar uma marcha mais regular à admiDísiração da companhia 
mineralógica da Anicuns,qoando já no seu ultimo período. 
Durante o seu governo fizera m-se importantes reformas 
na milicia paga, o regulou-se a marcha dos correios para o 
Pará. A' sua custa reconstruiu Fernando Delgado o quartel 
general » em cuja obra gastou quasi oito contos de réis. 

Tendo a varíola invadido o sul de Goyaz em 1811, e 
alacado o arraial de Meia Ponte, mandou estabelecer um 
cordão sanitário, para evitar, como de facto conseguiu, 
que o mal se propagasse, e fosse á capital, como em 1771 , 
e fiiesí^e os grandes estragos que então produzira. 

Também no seu tempo o território da capitania foi cir- 
cumscripto aos limites que hoje tem pelo lado de Minas e 
S. Paulo. 

Creada a comarca de Piracalu na conformidade do al- 
vará de IT de Maio de 1815, por aviso datado de 4 de 
Abril do anno seguinte mandou-se desannexar de Goyaz os 
julgados do Araxàe Desemboque, ficando a capitania de 
Minas de posse de toda essa vasta extensão comprehendida 
entre o Parnabyba e Rio Grande e testando com a capitania 
deMato-Grosso. 

Por provisão de 17 de Novembro de 1819 se ordenou, 
para aggravar o mal causado, que a arrecadação das rendas 
doestes julgados se fizesse pela repartição fiscal de Minas ; 
mas eâta provisão, por virtude do que representou o pro- 
curador geral de Goyaz, padre José Rodrigues Jardim» foi 
revogada por ordem do ministério da fazenda de 26 de 
Julho de 18^3, que mandou fosse a arrecadação feiL:k pela 
TOMO xxviii, p. u. . Í4 , 



— 106 — 

junta de fazenda de Goyaz, segundo liavia ordenado a pro- 
visão de 8 de Fevereiro de 1817. 

Apezar do estado precário da capitania, não era ella pou- 
pada quando se tratava de contriliuições e Gntas. Depois 
de tantos meios inventados para extorquir dinheiro aos 
seus pobres habitantes, foi lembrado mais um. 

A contribuição voluntária, que só em nome o fora, es- 
pécie de imposto t^stabelecido pela carta régia de 16 de 
Novembro de 1810, cujo producto devia ser applicado ao 
resgate dos portuguezes presos em Argel, foi cobrado no 
governo de Fernando Delgado, e produziu mais de vinte 
contos, que foram remettidos para a curte. 

Para completar a resenhados factos succedidos durante 
este governo, lembraremos que foi ainda no seu temp^i, qae 
começou a funccionar a junta do desembargo do paço, 
que o alvará de 25 de Marro de 1818 creou n:is capitanias 
e a provisão de 33 de Julho do mesmo anno mandou 
cumprir. Na primeira sessão trabalharam 'o ouvidor da 
comarca de Villa Boa, António Jos('» Alves Marques da 
Costa e Silva, João Josr do Coulo riiiimarãí^s, que servia de 
juiz de fora, e o ouvidor da comarca do S. João das Duas 
Barras, Joaquim Theolonio Segurado. 

Governou Fernando Delgado 11 aniios. Achando-se gra- 
vemente enfermo, e cançado, solicitou sua demissão, que 
lhe foi concedida ^nn 3 de Julho de 1819, dala em que 
também foi nomeado para succeder-lhe o ox-governadordo 
Ceará, Manoel Ignacio de Sampaio. 

Tendo ordem de entregar o governo nas mãos do seu 
successor, e demorando-se esto, esteve ainda na direcção 
dos negócios da capifania até 2 de Agosto de 1820, data 
em que a passou ao governo de successão, visto assim têl-o 
ordenado a carta régia de 27 de Janeiro do mesmo anno. 



— 107 - 



sera embargo da primeira recommeadaçao, Tislourgiro 
seu L*stadõ de saíide que o fiziísse. 

Na conformidade do Alvará de lá de Dezembro de 1770 
foram chamados para o goveroo interino o oayidor António 
José Alves Marques da Costa e Silva, o vigário geral e go- 
vernador da prelazia, padre Luiz Anlooio da Silva e Sousa, 
e o coronel Álvaro José Xavier. 

O seu ullimo dever, em obediência ás ordens rôgiasj foi 
instruir aos seus successores do estado dos negócios da 
capitania ; kl o em succinlo relatório, e do qual se vê que 
não era esse estado lisongeiro, sobretudo na parle relativa 
ãs Dnanças, que nunca pôde regular satisfactoriamente, 
ap^zar da economia que observou na gestão dos dinheiros 
publicos- 

E' o próprio Fernando Delgado quem falia: 

H O meu antecessor, vendo o grande deficit, das rendas 
reaes, logo que tomou posse do governo d*estaprovincia, 
na qual havia já uma grande divida, formalísou um plano 
de reforma, incluindo o subsidio anaual de três arrobas de 
ouro, que requerendo real quinto, e equilibrando a recei- 
ta com a despeza, e ficando uma pequena quantia para ir 
amortizando pro rala a divida passiva, e o qual sendo ap* 
provado começou a ter o seu devido effeito em o principio 
de meu governo i doesta épocha até o presente têm concor- 
rido para augmento da receita: 1% os impostos da sabi- 
da do gado e da carne verde, posteriores ao dito plano; 
2*, ã considerável somma de âáilOíís^SfíG que ulilisou 
a real fazenda no referido intervallo, proveniente das ar- 
rematações dos dizimos ; 3*", a quantia de d:3o2$18^ 
que se cobrou por conta dos alcances verificados no receo- 
ceamento das folhas, e a de l:õ3SjJ3GH por couta 
das guias extraviadas; V, a reiiucç^io de 98600 que 
vencia cada praça dos olficiaes, iaferiores e soldados da 



- 106 — 



companhia de dragões a litulo de forragem, a IfiDO 
com que ficaram, em consequência do plano qve lefeiá 
real presença» e que íoí conJirntado pelo decreto dB 27 da 
Agosto de lét t ; d% o forúecimenlo de munição para a tro- 
pa, existente n*esta capibniâ, e de milbo para os cafiUos 
do piquete, que tem sido feito das aldéas dos índios akais 
próximas, onde tenho promovido a cultura para es$e fim» 
do que se acha incumbido o tenente-coronel Alrara 
José Xaifier, regente geral das mesmas aldêas; porém, uâo 
obstaale todas estas vantagens* tem sempre havido deficiii 
e em consequência não pequena divida passiva em todo o 
tempo do meu governo» para o que concorreram circunj- 
stancias que o citado plano não podia antever : i""^ a pro- 
gressiva diminuição que tem soffrido o rendimento do 
real quinto, que, não chegando desde ISU ás tree irrobas 
consignadas annualmente, com que seguramenle contava 
ojmeu Eim. antecessor, em 1819 apenas rendeu pouco 
mais de uma arroba ; 2*^ o grande augmento que se ob- 
serva em todas as folhas, principalmente na militar, em 
visla das que existiam ao ponto da reforma ; 3% os venci- 
mentos da guarda volante da villa de S, João da Palma, e os 
das tripolaçôes das canoas, promptas no Porto Real paia o 
correio que faz commuEicação da corte, e das provindas 
do interior com a do Pará, de que so acha incumbido o 
sargento-mòr, coramandante do mesmo Porto Real ; l\as 
assistências feitas a vários oí&cíaes hespanhóes emigrados, 
assim como aos naturalistas de S. M* Imperial, Real,é 
Apostólica, c para se proraptificaremas machinas de§a* 
çSo^ tecelagem, e de meias ; 5^, a fallencia das dividas, de 
que são susceptiveis todos os rendimentos, principalmente 
dos dis^imos administrados, c que o meu Exm. anteceder 
suppóz exacta, e aunualmeute entrados nos cofres; 6', 
finalmente a razão de se a[kplicar, como sempre foi eslylo, 



109 



o gado, qiiaodo não tom licHaate, para amorUuçlâ da 
divida pretérita, quando no sobredito plano foi considera- 
do como rendimento liquido acuro, c o que sò tem contri- 
buído para satisfação de uma grande parte da dita divida 
pasÊiYa. » 

A situação económica era afflictissima, e cadavez iaa 
peior; em lí^09 a receita era de 47:866$83i e a desr- 
peza de 43;297823[) em 1819 o balanço apresentaTa 
uma renda d^) 37:873?j830, e uma despeza etTecUva de 
fjO:846!í01â. Era, pois, crescido o deficit í convindo 
observar ainda que na receita de 1819 figuravam, além 
dos impostos, qne já se arrecadavam em 1809, mais os que 
se denominavam, propinas de contractos, sabida do gado 
vaccum, carne verde, sello da lei de 24 de Janeiro de 
1804, e o correio. 

Estes deficits constantes aggravavam a divida passiva, 
para o que mnito Lambem concorria, como fica dito, o de- 
crescimento da renda e a diminuiçío dos quintos. N*esta 
ultima verba de receita já ap parecia um alcance no ultimo. 
periodo financeiro de 45:681 J5^960, que inlluia podero- 
samente na divida passiva,que em f 8 1 7 subia a 83;0805&83íi, 
a que addicionando-se 72:096^^94 de deficit de exercicios 
passados, fazia attingir o alcance da fazenda publica ã enor- 
me somma de 20 i : 459J5089 ! 

Era este o effeclivo empenho da capitania, do qual não se 
podia desaggravar pelns meios ordinários. Tal era a situação 
dos negócios, quando Fernando Delgado, dando posse ao 
IriumviralOt se retirou para o flio de Janeiro, afim de se- 
guir para Lisboa, onde tinha de exercer o lugar de conse- 
lheiro do conselho de fazenda, para que fora nomeado por 
decreto de 4 de Junho de 18Í8 ; sendo, porém, transferido 
depois para o mesmo lugar no tribunal de fazenda do Bra- 
sil, ficou no Hío de Janeiro. 



- 110 - 

Os servidos prestados por Fernando Delgado na carreira 
administrativa foram bem considerados pelo monarcha, 
que lh'os recompensou com as commendas de Cbristo e de 
S. Thiago da Espada. 

Ia tâo bem encaminhado na carreira publica, que o 
mais bello futuro parecia aguardai-o : de repente, porém, 
uma nuvem carregada pairou fatídica sobre sua cabeça, 
como um horóscopo maligno : « possuido de hypocon- 
dria assaz violenta, que por ultimo o privou de reflexionar 
com prudência e madureza sobre a sua conservarão pró- 
pria, com uma pistola, disparada em si mesmo, terminou 
no Rio de Janeiro ávida, contando-se o dia 17 do mez de 
Fevereiro de I8ál. » (8o) 

Por muito tempo indagámos as causas de tão lastimoso 
acontecimento; um homem do seu tempo revelou-nos se- 
gredos da vida intima de Fernando Delgado, que confirmam 
quanto a este respeito escreveu Augusto de Sainl-Uilaire, 

Vejamos o que diz o sábio naturalista quando falia de 
Fernando Delgado: 

« Xo dia seguinte ao convite que me havia feito o go- 
venia'Ior, diri^M-me a palácio á hora do almoro. Otípoisde 
alravess ir o .ilpenJre, de que j;t fallei, e qu.* serve de cor- 
po de leniria, galguei a escada, e eiilníi em um vestíbulo, 
que o corpo da «^aianhi priva da luz, e onde eslá |)0Stada 
uma siMiliiielLi. lima poria fechada, segundo o antigo uso, 
com um r;ísposleiro d*' paniio verde com as armas de Por- 
tugal, cominuiiica para uma sala cercada de bancos de páo 
com grandí'S espaldar 'S. Ahí encontrei reunidas as princi- 
paes aucloriflades do p.uz,e logo appareceu o capitão gene- 
ral. A primeira cousa que ftíz, depois de ter comprimenta- 
do a todos, foi apresentar-me duas crianças do sete a 

(8U) IMzAHRo.— Afcm. Z/íW. loni. U »» piifr. 178. 



- 111 - 

oilo annos, uraraptaz e uma menina, dizendo : « São dois 
pequenos goyanos, filhos do amor ; mas S. M. leve a 
bondade de os reconhecer por m:^us e de os legitimar. » 
Vieram annunciar que o almoço estava á mesa. Passámos 
por um corredor muito largo, e fomos ter a uma sala es- 
paçosa, triste, mas bem mobiliada. O almoço foi servido 
n*uma sala um pouco escura e acanhada. As iguarias eram 
abundantes e bem preparadas ; a porcellana e a prata 
brilhavam sobre a mesa. Era impossível não maravilhar- 
nos de tanto luxo, considerando que tudo vai a Villa Boa 
em costas deaniraaes, e que estávamos a 300 léguas do li- 
toral.... 

« Três dias depois da minha chegada, o general mos- 
trou-me todo o interior do palácio, nome pomposo e im- 
próprio do edifício que o tem. Os repartimentos são es- 
paçosos, porém tristes e escuros. A mobília foi feita no 
paiz. Faz parto do palácio um pequeno jardim abandona- 
do. Calçados os passeios, como em geral são os de todos 
os jardins d'este paiz, dá-lh(3 isto um aspecto desagradável 
e extremamente triste. Um repuxo d'agua ornava-o ou- 
tr'ora, mas, sendo os tubos de madeira, e não tendo sido 
renovados, apodreceram. 

« Fernando Delgado, que governava Goyaz na época da 
minha viagem, tinha alli chegado em 26 de Novembro de 
180J. Era um homem calmo, de espirito, instrucção, in- 
tegro, o conhecedor do mundo. Desejava sinceramente 
fazer bem ; porém havia encontrado por toda a parte a re- 
sistência passiva a mais desanimadora, resultado da apathia 
dos habitantes e do deleixo do governo central. Vendo 
desde o começo de seu governo que a província de Goyaz 
n3o podia tirar recursos da exploração das suas minas, 
animou os habitantes para se dedicarem á lavoura e ao 
commercio, procurou dar sabida ao producto das suas 



- 112 — 

terras, empenhando-se na navegação do Tocantins e do 
Àraguaya. Foi perfei lamente auxiliado pelo ouvidor da 
Comarca do norte Joaquim Theotonio Segurado, c felizes 
resultados coroaram as tentativas d'este magistrado; porém 
para seguimento de tão grandes emprezas era preciso mais 
perseverança c actividade, de que não deram provas os 
goyanos, de sorte que os gloriosos esforços de Fernando 
Delgado ficaram alé hoje (1819— 182S) quasi sem resultado. 

« Um dia em que almoçava em palácio, um joven ma- 
gistrado, recera-chegado, mostrou alguma sorpresa pelos 
costumes do paiz, e observou que admirava-se de que os 
habitantes de Villa Boa, vivendo com suas barregãs, como 
se fossem suas mulheres, se não casassem com ellas. 

<í Quereis, replicou o governador, apontando para seus 
filhos, que espose a mãi d*estes meninos, a filha de nm 
carpinteiro ? Estas palavras, que puzerara fim á conversação 
indicavam já os sentimentos que influiram para o deplo- 
rável fim de Fernando Delgado. Deixou o governo no mex 
de Agosto de 1820, para voltar a Portugal, e partiu de 
Villa Bo:i com seus filhos e sua concubina. Chegados ao 
llio de Janeiro, esta lhe declarou que eslava disposta a 
acompanhal-o para a Europa, não como sua amasia, mas 
como sua mulher. 

a Fernando Delicado, a (juem ns soíTrimentos tinham en- 
fraquecido a razão, não pôde supportar a alternativa, em 
que se achava, de desposar a filha do carpinteiro, ou de 
deixal-a no Brasil, e pôz fim aos seus dias. » (81) 

Foi seu successor no governo Manoel ígnacio de Sampaio, 
offioialda mariídia real, que já havia governado o Ceará 
com alguma distincçâo. Nomeado por carta de S de Julho 
de 1819, tomou posse a 4 de Oulubro de 1820. 

(81) i4. Saint-Ililaire.^Viag. d pror. de Goyaz, tom. 2*», pags. 30 
82c8i. 



- H3 ^ 

CAPITULO XIX 

(1820—1821) 

CSiega a Qoyaz a noiicia dos aconlecimentos havidos em Porlugal em 
1820* — f^roíédimeolo de Manoel Ignacio de Sampaio.— Pi oclamação» 
—26 de Abril— Jura o governador íidelidade a El-rei, ás cortes, e 
á íutura constituição.— Convocação das junlas parocliiaes, — Depu- 
lados e lei los para as c6rtes coiist í tu in te â.— -Primeiros pâssos para a 
eleição de ura governo provisório. — O padre Lurz Bartliolomeu 
Marques promotor d'egta medida, — Manoel Igoiício oppoe-se á 
creação do governo provisório. — Tenlativas patrióticas.— Plaoo de 
conjuração, íiaqueza dos conjurados. — í^risào do capitão Fitippe 
^otoiíio Cardoso.— {«teni^eníílo do povo.— Machinatjões de Sampaio. 
**0s patriotas são expulsos d.i capital,— Inslatlaçao de ura governo 
provisório em Cavalfiaute.—O vigário de Cavalcante atraic-Ôa os seus 
correligionários. — O desembargador Joaquim Theolonio Segurado, 
presidente do governo provisório de Cavalcante. — O movimento 
progride,— Temores de Sampaio.— Ordem á camará da capilãl pam 
a ci^ãçao do governo provisório,— il eleiçsio n5o se verifica e porque, 
--0 dia 30 deDezembro,— Creaçâo da junta adralnistralíva interina. 
-— Hen juramento e posse. --Proclamação da camata. 



As ídéus liheraes, que por toda a Europa tinham in- 
vatlido as nacionalidades, mudando o caracter das Insti- 
luiçôesi tí suavisaiido o rigor do regimen militar por que 

acabava de passar, fazendo lambem largas conquisLis no 
espirito do povo porluguez, produziram os memoráveis acon- 
tecimentos que em 1 820 succede rara nas margens do Douro 
na ausência do rei, que desde 1808 se achava no Brasil 
com quasi toda a sua curte. 

O grilo do Douro achou ccho em toda a monarchia» e oo 
dia 15 de SeLeiuhro de 1820 lirmavam-se em Lisboa os 
princípios tiberaes, 

A noiicia do movimento constitucitmal, chegando ao Rio 
de Janeiro, liãu loi bem acolhida pelo poder ; pretendeu-se 

TOMOXXVni, p. IL 15 



114 



reagir conlra i revolaçâo, que abria largas porias às ins- 

Litujçõfís livres, e solapiva os alicerces do telho e Jificio da 
manarchia de direi lo divino :— rDasiin|)aLtíiite scríuo esíur- 
ço, que lealasse coaler o espirito publico^geralrnenle domi- 
nado d^essas idéas de rL^eoerâção polilica. 

Os mo vim tintos, que tlesde logo appareceram na Bahia, 
DO Para, m Rio de Janeiro ^ e quo rápidos se propagaram 
como uma correnlo eltíclrica, convenceram a D, João da 
necessidade de armuir atis desejos dos seus vassallos- 

Em 4 de Julho de 18âi jurou tí. João as bases da cons- 
lituiçao que as côrles reu urdas em Lisboa houvessem de 
fazer: — d'eslu modo procedendo, e de accôrdo com us di- 
clames da prudência, procurou também consolidar a exis* 
tencia do reino unido, já vascíllanle nos seus fundanienlus. 

No dia t% de Abril de 1831 pelas 9 horas da noile, che- 
gando á cidade de Goyaz o correio da côrle, rapidamente 
se espalhou a noticia dos grandes acontecimLvnlos que Um 
pelo Hio de Janeiro* e que a lodos encheu da mais agra- 
dável sensação. Os goyanos acordavam de um profunde 
lelhargo, para se entregarem ás explosões do niaior pntzêr. 

Manoel Ignacio de Sampaio mediu as dilliculdades da 
sua situação, à vista do enthusiasmo com que n'essa mesma 
noite lodos se congratulavam pelos acontecimenlos que nj^ 
tinham vindo surpreliender. 

Não recebendo oílicialmenle o decreto da convocaçâii 
das cortes, e sendo urgente proceder desde logo para acal- 
mar o enthusiasmo popular, c dominar a situaç^lo, no dia 
seguinte pela manha fez aQxar a seguinte proclamação : 
H Honrados ebons goyanos! Chegou emflm o suspirado 
momento da regeneração da monarchia pr)rtugneza, e da 
prosperidade do reino unido de Portugal, Brasil e Algâr- 
vesf El-rei nosso senhor dignou-se, para ventura nossa, 
de felicitar e jurar no dia 26 de Fevereiro próximo pas- 



— Í18 ~ 



do a Cfinstituipo que fizerem as cortas actual m en le reií- 
Tiifias om IJsboa , paru as quaes sâo lambem convocados 
depuUílos (Fiíste reino do Brasil. Não se podem calcular 
as vantagens que de uma tão nobre resoluçllo devem resul- 
tar aoportuguezes de um e outro hemisplierio. Sao com- 
tudo os meus caros goyanos os que cerlaraente mais uti- 
Usarão, por isso que t^ilvez por falta de quem até agora 
advogasse ósseos interesses se tem conservado sujeitos às 
mais antigas reslríc4}ôes coloniaes, com pouca ou nentiuma 
raodiíicação, as quaes^ segundo os principios liberaes das 
cortes de Lisboa, é quasi certo que nãosubsislirão mais, e 
eu teria a grande consolação de ver em breve lempo al- 
cançados por meios directos aquellas mesmas providen- 
cias que esperava obier a seu favor, mas som duvida no 
fim de largos annos, e talvez depois de quantos traba- 
lhos e instancias, que comludo me não pouparia, ape- 
zar da antiga ordem de cousas. Goyanos l o primeiro e 
principal golpe da nossa felicidade foi dado pelo gran- 
de D, Joào VL nosso amado soberano, e por seu invi- 
cto fdho o príncipe real do reino unido; nío o raullogreis: 
cumpre da nossa parte proceder com toda a madureza, cir- 
curaspecçao e prudência nas eleições á que deveis pro- 
ceder para escolha dos vossos representantes nas cortes, 
evitando-se todos e quaesquer distúrbios: cumpre ter con- 
fiança na ilecisuo íjas cortes, que melhorarão considera- 
velmeole as vossas circiírastancias: cumpre cmfim que os 
actuaes empregados públicos da capitania vos continuem 
a merecer o conceito que n'estf s últimos tempos vos \èm 
devido pelas activas providencias dadas em vosso favor^ 
como não podeis ignorar. Com esUis cautelas, bem pró- 
prias do vosso caracter, vereis dentro cm mui breve tempo 
prosperar a capitania em minerarãa, agricultura e com- 
mercio, de maneira que até a vos mesmos vos seguirá 



116 



espanto e admiração. Viva a nossa sanla religião ! Vi?â 
el-ret nosso senhor, o invicto príncipe real do reino imido 
e toda a augusta casa de Bragança! Vivam as còrles de 
Lisboa, e a constiUiição I Goyar, 2S de Abril de 1821.— 
Manúêl Ignamo de Sarrhpaio. 

No meio do enthasiasnio geral este curioso documento 
passou quasi desapercebido, servindo apenas de comeulo a 
aquelles que afagavam no espirito idéas mais adianlad;i5, e 
um patriotismo sincero e legitimo, que repollia toda a idêa 
de união com portugueses. 

O espirilo de nacionalidade principiava a nianiíestar-se, 
e os mais avisados viam approximar-se uma nova era de 
regeneração politica, cujo primeiro acto seria a declara- 
ção da nossa independência* Manoel Tgnacío sentiu atra- 
vés das manifestaçiSes populares uma voz prophetica que 
lh'o annuDciava; cumpria-lhe dominar a situação, $e bem 
queria servir a causa portugueza: assim o fez- 

No dia, em que proclamou aos povos, mandou con- 
vidar as corporações ecclesiasticas, civis e militares pa- 
ra no dia '26 solemnisarem o acto de ratificação de ju- 
ramento de obediência e fidelidade a el-rei e de adhe- 
são às cortes, e à futura consUtuiçuo. Efíectivamente 
u'esse dia houve lugar nos paços do conseíbo a ciíre* 
monia do juramento, e era seguida um Te-Dmmiem ac- 
ção de graças pur tao felizes acontecimentos, recitando 
ii'essa oecasião ura enérgico e patriótico discurso o gover- 
nador da prelazia, I.uíz António da Silva e Sousa. 

A' uoite se itluminaram as casas e no quarlel-gene- 
ral se reuniram os funccionarios e pessoas gradas da e^ 
pitai; o povo, teudo á sua frente uma banda de musica, 
parcorreu as ruas da cidade, dando enthusiasiicos vivas 
a el-rai, a S, AUeza Real e as cortes; a satisfarão pu- 
bbca não tinha Umites: todas as libras do coração d*eâ< 



— 117 - 



I 



) 



se povo estremeciaiB de prazí^r, porque se lhes fallára de 
progresso e rio liberdade. 

Dois dias depois eram expedidas as ordens p^ira a con- 
võcâçãij das jtmlas eteiloraes das freguezias, quo deviam 
eleger os deputados às cortes constiluinles. No dia 7 de 
Agosto furara livremente eleitos o ouvidor da comarca 
do norte ioaquim Thnotonio Segurado, e o governador 
da prelazia Luiz António da Siíva e SoEsa, e supplento 
Plácido Moreira de Carvalho, residente no Pará. 

Em Junho chegaram lia eòrLe a Goyaz noticia^ docur- 
so dos acontecimentos; e entáo se soube que el-rei D* JoSo 
se havia embarcado para PorlugaU deixando a D, Pedro 
como seu lugar tenente, com ministro da sua escolha. 

Desde então começaram a agitar-so com mais vigor as 
idóâS de emancipação politica: à frente do movimento «e 
collocoii sem reserva o padre Luiz Bartliolomèo Marques» 
homem inlulligentc e de ríTonhecida influencia o qual 
íio tempo de Fernando Delgadt» servira de secretario 
do governo. Ao padre Luiz Barlholoméo acomjkauharam 
na propagação das idéas líberaes e patriolicas o capitão 
Fraucisco Xavier de Barros, o capitão Filippe António 
Cardoso» o padre José Cardoso de Mendonça, o padre 
Lacas Freire de Andrade» e um soldado de nome Fe- 
lisardo Nasaretli, que mnib» se distinguiu e se celebrisou 
por este fado. 

Poucos dias antes de começarem a funccionar as jun- 
tas e lei lo raes { princípios de Jnnho ) appareceram aflíxa- 
das em vários pontos da capital, e na poria do pruprio 
quartel-general , proclamações violentas, fomentando a 
desunião entre os brasileiros e portuguezes. 

Este facto revelava bem as intenções dos patriotas; e 
Manoel Ignacio» comquanlo receiasse o emprego do me- 
didas violentas contra os reconhecidos auctores de taes 



— 118 — 

proclamações, julgou entretanto prudente neutralisar os 
seus eiTeítos. 

Attríbuíndo-se, c com razão, aos padres Luiz Bartholo- 
méo, e Lucas, e principalmente ao primeiro, a pater- 
nidade de taes proclamações, e muitos outros actos, que 
revelavam intenções revolucionarias, cogitou Sampaio nos 
meios de conciliar o chefe do movimento. 

O meio escolhido tinha tanto de leviano como de 
inepto, entretanto foi o empregado. 

Mandando o governador ir à sua presenra o padre 
Marques, o reprehendou severamente pelo procedimen- 
to que até então tinha tido, e ameaçou-o de severo 
castigo se não mudasse de vida. 

Este procedimento, em vez de produzir o resultado, 
que rsperava Sampaio, sortiu efleito contrario. Reco- 
nbecendo-se temido e com alguma força na opinião 
publica, o apostolo da liberdade goyana, conquistando 
todos os dias novos proselytos, continuou com mais fer- 
vor na sua missão. 

Por sua parte Manoel Ignacio contraminava, empre- 
gando todas as anuas. 

Em fins de Julho o ('orrrio da corte dava noticia de 
novos ovonlos, que, por assim dizer, fortaleciam a con- 
vicrfio dos palriolas, r. os animaram achegar mais de- 
[)n*ssa ao tim de sous desejos. —A passaj^eni por (ioyaz 
do leneiili3«coroii(d António Navarro de Abrr»o, que, par- 
tindo da còrle em parada violenta, se dirigia a Mato 
Grosso, mais celeridade imprimiu ao movimento, porque 
a ellc devêramos patriotas lodos os^pormenores do que 
ia pela corte, e pela província de S. Paulo, onde já se 
havia eleito um governo provisório. 

Desde então o padre Luiz Rarlholomèo começou cla- 
ramente a propugnar pela installação de um governo 



- 119 - 



pro viso rio, que le¥ãgse pacificameiUe a revolução ao seu 

leriuo Gria[. A esta idéa se moslrava hiislil o goveniador, 
a i>oul(j de desapiifovar publicaaiente o procedimeulo do 
dii S. Paulo por ler acoitado a prasideiicia de um go- 
verno provisório. 

Eolrelafito o capitão Fiíippe António Cardoso, e o ca- 
pitão Barros, auxiliados pelo soldado Nuzaretln teiulo 
, grande parte da força allíciada, prtíp:ir:iram um golpe dt3- 
cisivo, que devia ser dado na noite do dia 14 de Agostu; 
mas avisado Manoel Igiuicio uuia hora antes [8 lioras da 
noite) ^ por uma mulher de conducta duvidosa, da conju- 
ração que se tramava edu plami que se pretendia execular, 
mandou a toda pressa chamar o teneule-coronel Luiz d:i 
Costa Freire de Freitas, ehefe da forçíi publica, e, |jundo-o 
ao corrente de ludo, deu -lhe as instrucçôes precisas, e u 
fez partir para o quartel Foi tal a actividade empregada, 
e tantas as medidas, que os patriotas não ousaram sv 
apresentar. N'esta mesma noite foi preso o soldado Naza- 
retb, e com elle alguns outros. 

Recebendo uo outro dia Manoel Ignacio duas denuncias, 
que revelavam todos os planos dos patriotas, e designavam 
os seus D ornes, enviou-as ao ouvidor, afim de judicial- 
mente proceder contra elles. O ouvidor, que então era o 
Dr. Paulo Couceiro de Almeida Homem, fez ver ao gover- 
nador a conveniência de ser pree^o o capitão Filippe An- 
tónio Cardoso, afim de não contiimar a influir sobre a 
força ; effectivamenle foi logo preso, e recolhido à cadéa, 

Kslava dado o primeiro golpe contra os planos dos pa- 
IrioLis» golpe que acobardou a maior parle d*elles. No dia 
seguinte ao d*esta prisão^ os commandantes da força pu- 
blica foram levar a Manoel Ignacio suas homenagens de 
respeito e obediência, e no dia IT o capitão Francisco 
Xavier de Barros <le igual modo procedia I 



- «» — 

Ha manbS de 15 lia-se pelas mas da capital uma pro- 
clamaçSo do gOTernador, chamando o poTO a tíbeáwòT i 
constitiúcSo, e preTeníndo-o contra as machinacSes dos 
revolucionários e anarchistas (8a). 

(82) Goyanos ! T5o ditosos foram os dias 26 de Abril e23 da Jalho, 
cm que ea de accordo ci^mfosco Juramos a coustKuic&o que hmat* 
yeatem de fazer as cortes reunidas cm Lisboa, e semelhanlemeBle • 
as bases já trocadas da mesma constituíç&o, como lastimoso odia de 
liontem, em que soube que algumas pessoas mal intencionadas pre- 
tendiam com pretextos simulados éslabelecer entre vós a desorden 
e anarcliia, o que me decidiu á tomar, a bem da vossa segurança, 
aquellas medidas que de mim exigiam as provas de affecto e i 
s&o que de vós tenho recebido constantemente, e a que sei i 
der grato. Goyanos T Grandes s&o os bens que vos devem i 
da nova constituic&o, mas para i s gomnles é necessário p ra da i 
cia e moderação. Se vos deixardes allucinar, e ouvirdes otecie 
Ibos dos inimigos da ordem social, bem longe de vos aproveitaiwi 
08 Inexplicáveis benefieíos da constituído, ao contrario vos fnii 
sempre precipitando de abysmo em abysmo. Muitas das noasas Ws 
terfto certamente de sor derrogadas, ou modificadas ; já algiwMB a 
foram pelas bases da constituiçÂo que jurámos no dia 23 do nas 
passado, e desde então so acham n'esta capitania em pratica todas as 
sohrcditas alteraçucs, como exigia a fidelidade do juramento presta- 
do, segundo o judicioso espirito das cortes cm seus debates, toda 
aquella lei ou costume que não tiver sido alterado, por decisáe das 
mcsmus còrles, devo continuar a ler perfeita observância, assim a 
pede o bom da ordem, assim, goyanos, pede o vosso bem. £' na- 
tural que a admioislraçào publica do Brasil venha a ter algumas ah 
terac^cs; mas devem tão somente dimanar da sabedoria das cortes: 
a nenhum outro cidadão, ou corporação de cídad&os, toca ftier 
taes alleraçi)es, cujo procedimento, além de tumulluario e destme* 
tivo da ordem social, até seria antí-consli tu cional. Goyanos I Vás 
não deveis Iruhir o vosso juramento : a constiiuiçâo é a nossa bois 
de salvação; mas os abusos que os malévolos pretendem fazer d*esla 
santa palavra vão conduzir-vos ao maior dos males e perfeita anar- 
cliía. Acautelaí-Vus contra as suas suggestòes, não lhes deis ouvidos, 
acreditai uuícauienle o que vos aconselhar quem ha dez meies tia- 



— Í2! - 



Suppunha d' este modo ler Sampaio coDjurado a tampes- 
latle; enganou-se, que Dão estava ella de lodo desvanecida: 
entrelanlo, escrevendo ao ministro Carlos Frederico de 
Caula sobre os acontecimenlos qne lemos relatado, c sobre 
as suas appreliensões, dizia : « Não pude saber com certeza 
qual era o verdadeira espirito da in Ululado governo pro- 
visória; mas lenho bastantes idéas de que era a total in- 
dependência e separação do reino unido- n 

Os patriotas recuaram ura pouco, e começaram a pro- 
ver com mais reserva, e Manoel Ignacio, reunindo em 
rtbrno de si algumas adbesaes, se foi tranquillisando: 
porém a padre LqÍsí Bartholoineo couUnuava a trabalhar, 
escrevendo para toda a capitania no sentido das suas idéas^ 
e aguardava occasiao opporLuna, para dar um golpe cer- 
teiro e seguro. 

Proporcionuu-se-lhe azado ensejo com a chegada em 48 
de Agosto do decreto das cortes de 18 de Abril de 18áií, 
levado por um negociante do Rio de Janeiro. 

■ Servindo se dos principies consagrados n'este decrelo, 

^TUlIm sà por melhorar as voss;*s tiircums lane ias» como viVs reconhe* 
I ceis, quem sempre voâ tratou com r&speilo, com fniuquâs&a e com 

■ stnceridiiííe, quem vos ama cnrdblmenle, e a quem taoias provas 

■ lenijes dado de pej feita adliesr^o : se esta f5r a linha don vossos pro- 

■ eedi mentos, breve go /.areis em f>oeegõ dos incalculáveis bens d^ 
!iania consiitaiçflo, de que eípecialíoenic depende a vossa prosperi- 
dade o a de todo o reino uoido^ Vi^a a Dossa sanla religião t Vivam 
Ui eiVrtes exlruurdínariiis daimc«'ioacniulniénle reunidas em Lisboa! 
VHa a liberai constiluiçào que estão organizando I Viva o Sr, n, 
Jofio VI, lui^go amado sotierano! Viva o ínclito principa rea! do rei- 
no iinído, aelurilniente repente d 'este tio íírasi! 1 Vivam os bons e 
lionrados íza^anos l Oesappareçain de entre nos os malévolos» fac- 
toreg de desordens e tumultos, Intmigoâ do socego, c da felioidade 
dos bons goyanos' iioyiM, 15 de Aposto de tíífl .^Ifimoi^/ Iptacio 
df Sntnpitio, 

TOMO KXVHl, P. n. 10 



— «2 — 

O padre Bartbplomêo aiacoa com yíTacidade o procedi- 
mento de Sampuo em oppõr tamanha resistência a nma 
medida qne em ontras parles se tinha jà ado|itado, e qoe 
estava nas intenções do legislador constituinte. Pela ma- 
nhã do dia 19 era jà patente a excitação dos ânimos. Os 
padres José Cardoso e Lucas Freire tinham durante toda 
a noite andado em moTimento, lendo e explicando a dou- 
trina do decreto, c indispondo o gOTcmador no animo de 
todos: preparava-se um pronunciamento decisivo. 

No dia 20, vendo Manoel Ignacio o estado de excitação a 
que tinham sido levados os habitantes, mandou affixar ama 
proclamação, explicando a doutrina do decreto, que tanto 
se prestava aos fins dos patriotas (83) . 

(83) Honrados goyanos 1 Segunda vez pretendom os malévolos ini- 
migos da ordem e do socego publico allucinar-fos e conduur-vosao 
maior dos precipícios a que immediatamente se segu irá a smm lor 
tal ruina. Presentemente (*. com uma sinistra e aleif osa ioleij 
taç&o do decreto das c6rteS;^o 18 de Abril que elies querem 
rar seus desordenados intentos. O mencionado decreto nos quatiir 
primeiros paragraphos estabeleceu os meios que se devem seguir 
para a regencraçíio polilica do reinu unido, a saber: perfeita adliesfto 
as còrles cie Lisboa, jiiramenlo á consliluirão, em que cilas estão 
trabalhando, e eleiçíio dos deputados que nas mesmas cortes doTcm 
representar cada uma das capitanias do Brasil, sendo feita segundo 
o molbodo das instrucçòes dadas pelo governo provisório <le Portu- 
gal em 22 de Novembro do uuno passado, que são as mesmas que. 
S. M. mandou observar no reino do Brasil por seu real de- 
creto de 7 de Março. Tudo se acha cumprido n*esta capitania, 
e tudo se fez com melhor celeridade talvez do que em nenhuma 
outra do Brasil á vista das circumstancias locaes. Só resta a partida 
eíTectiva dos deputados, para o que játambcm estão expedidas as 
competentes ordens. E até já aqui se juraram as Imses da constí- 
tuiç&o, e já se acham em perfeita observância, o que não exigia o ci- 
tado decreto de IS do Abril. Nada mais resta a fazer em Go^az para 
a sua regeneraçJto politica, que é inseparável da de todo o reino 
unido, do que esperar em socego a mesma regeneração politica da 



Manoel Ignacio, auxiliado pelos seus agentes/tinha con- 
stíguido dtísvirtaar no espírito publico as intenções d'a- 
quelles que advogavam a cieaçâo de um governo provisório, 
V' d'esle modo crear dois partidos, um dos quaes o acoin- 
panhava, lendo era seu favor o auxilio da força materiaK 

Havendo receios do que os indcpendenles leu lassem 
alguma sorpresa, a tropa eslava aquartelada e *a cidade 
em agitarão, à vii^iluncia do governador deu lugar a 
que uo dia 2ra agitação se acalmasse^ e, porque se 
sabia que Manoel I^íoacio procurava a primeira upportu- 
nidadc para dar cabo dos promotores do moviniento, a 
camará endereçou-llie um oíDcio, pedindo que lançasse 
um véo sobre o passado» e se esquecesse dos fados que 
Unham occnrrido até entiu. 



!íab^oria das cortes» e cuiBprir exacta e reli^osameote tudo o t^e 
m tBtt&tãiis cortes determinarcui ; lodo e qualquer outro (irocmii- 
moulo seria uko su subveriívo da oriíem sociat, coutrariu í\ del6r- 
míDucfio dan cortes, mas lúé rlmmolríilínBrue oppostoaa espírito da 
i5on*ililLiJí;ãOf que (odii lende au soeego c irariquítliiiade publíea t 
n^o dV*^la níiluroza âs m^geslAes e conseltiofiqueoctualiiieale vos 
dlo os Bf^pirítos inquietos, que vós bom conheceis. 0;^ arts. 1** e 
tí,* do ejlado derreio das cortes de lèí tic Abrii esíabelefein as me- 
didas que os povos devem loumr, qu^imiu da purlo dos gov^rcose 
mais emprejfados públicos eucouirem diflículdades ao jurametilo du 
cofiâlUuíção e á nomeação dos d ep alados, o proscrevem m peaas 
em que incorrem lào inconsblerados empre^nido^í públicos, medidas 
estos que eram de absoluta necessiduilo, nfio %(} porque Ludó deve 
ceder AO interesse da regem^raçíio politieu do roiuo unido, mas para 
rivalidar os procedimenlos p(dilicos da iltiadeS. Blígucl, e das oa- 
pilanms dt> Uaní, Babía, e tuJve/. de ítlgnrna outra^ conforme as suas 
c!Írcumstanc)as pariiculare'^. \fas osLá o iiiertcionado decreto bem 
longe de prescrever que se lomesn somclhaules medidaíi ii'aquollas 
capitanias^ em que nem o JuramenLo da con^tiluiçím, uem a tiomaa- 
^ho dos deputados eacoutraram dJflicuJdíJide aigumu^ o quo^ fura 
de ^da n duvida^ nem mesmo era de esperar da sabedoria das 



— 124 — 

Manoel Ignaeia soube apro?eilar-so d*eslâ circnmslâiiciaT 
que parecia revelar a fraqueza dos agitadores, para des- 
maralisal-ús, e é mesmo de suppòrque o procedimeulo da 
camará fosse por 6Uo aconsêlbado, como começo de um 
plano, cujas consequências vamos vér. 

Demorando a resposta, que a camará solicitava com cm* 
penlio, um grupo do povo, que cercava o paço da roumci* 
paltdada, correu a palácio, dirigido por agentes sccretii» 
afim (iô viclofiar o governador e proleslar contra os ínlilu* 
lados anarchiâtas. A comedia nao podia ser nielhor reprt^ 
senlada. Manoel Ignacio sahiu ao encontro d'esse povo se© 
consciência, e arengou como conveniente e melhor en- 
tendeu : então appareceu a idéa, de antemão cogitada, de 
serem banidos da capital osinlilulados cbefesda revolução. 



ttriest porque seria amonloar desgmcas o JnfortuDÍos... ili|çaH» 

a capíUnia da naliía pelo que aciualmaiUc sofTrrj, dí^iim as ci- 
pílanias de PerDambuco e Parah^ba pelo que solTrerain em ISfT, 
digam emtim iadas as capitanias do Brasil pelo que iém sofTrtdt) 
todas as vezçg que o seu governo executivo tem e<«lãdo oeru- 
pado por mais de uma pessoa. Goyauos! Se vos quereis doson* 
ganar de toda u verdade, lede com altcuçao iodo o citado def^relo, 
lede lambem a maguiílca recepção quetove nas cortes o htigadei* 
ro PalhareSn» ajudante d 'ordens do general áti itha da Madeira* 
quando com oulros veiu da parle do dito genenil dar a noticia de 
se baver n'aquet]a illxa jurado a CDUStituiCiío, transcripto tudo na 
gâ7.eta do Rio de Mneiro de â de Juubo, a que muitos outros fac- 
tor i^emelbantes $e podiam aqui ajuntar. Comparai tudo com as 
idéas que tos dão os ínímigoii da boa ordem, e decidi vos me»* 
mos. Acautelaí-vos de perridas e capciosas suggestúe^» e cousarinik 
vos sempre promptos u re pi II ir qualquer ataque du Àocego publico. 
Viva a nossa santa religião ! Viva a consiituiçíio ! Viva ** nosso rei 
Senbor D, João VI l Vivam os bons Goyanos, que hàode resistir á& 
iuggesiõeâ dos malévolos! Go^asc, 20 de Agosto dê IB!!1.— Ifafuxi 
ígnaeio di Sampmo^ 



— im — 



)uam náo vé por este resallado ura plano conc«rUdo por 
MaDoel IgQacio e os seus amigos ? 

Como os Ires sacerdotes, os dois capitães o o soldado 
Felisartlo Nazarelh eram os mais comprometlidos, foram 
estas as vlclimas designadas. 

A idéa de banimento podia ser de muitos modos resol- 
vida ; o governador achou um meio benévolo e compassivo, 
e o propôz ao povo, que deu a elle o seu assentimento* Foi 
assentado que o capitão Francisco Xavier de Barros fosse 
commandar o destacamento do registro de Santa Maria ; 
que o padre José Cardoso de Mendonça seguisse para o seu 
beneficio de vigário da aldèa da Formiga e Duro ; que o 
capitão Filippe António Cardoso se retirasse para sua casa 
no dislricto de Arrayas, e o padre Luiz Barthoiomèe Mar- 
ques se afastasse SO léguas da capital. O padre Lucas de- 
clarou que se retirava da capilauJa. Doesta resolução as^ 
sígnou-se um termo, no qual se declarou que licavam mar- 
cados oito dias para execução d 'esta medida. 

Oito dias depois os anarchisUs, nome por que passaram 
a ser conhecidos, sahiram da capital, para seus dilTerentes 
destinos. Manoel Ignacio vangloriava- se do triumpbo que 
tinha alcançado» e nao se lembrava que cada um dos ba- 
nidos era um centro de movimento que se ia estabelecer 
em dilTerentes pontos da capitania I 

Os acontecimentos da capital em breve foram sabidos por 
toda a parte, e encontraram écho sympathíco, principal- 
mente no norte» onde a prisão de Filippe António Cardoso 
produziu mào eiTeilo. As cartas de Filippe e do padre Bar- 
tbolomèo impressionaram os ânimos; e pòde-se julgar 
pelos successos futuros que os factos da capital não eram 
isolados. 

Os documentos oíEciaes do tempo, que consultamos, nos 
revelam o seguinte plano* No caso de que não pudesse 



— ise — 

vingar na capital a idéa da Domeaçao de um governo pro- 
visório, elle seria acclamado no norte. Para este fim con- 
tavam os chefes da capital com o vigário de Cavalcante; 
mas este, não tendo bastante prestigio e influencia, cedeo 
a direcção das cousas ao desembargador Joaquim Theotonio 
Segurado, o qual, como veremos logo, não trepidou em ' 
collocar-se á frente do movimento, não para favorecer os 
patriotas, mas com intenção formada de neutralisar qual- 
quer tentativa em favor da independência. 

Effeclivamente no dia 14 de Setembro foi installado em 
Cavalcante um governo provisório sob a presidência do 
desembargador Joaquim Theotonio Segurado, servindo de 
secretario o vigário Francisco Joaquim Coelho de NatloSt 
e de membros José Zeferino de Azevedo, Salvador de Al- 
meida Campos, Joaquim Rodrigues Pereira, José Victor de 
Paria Pereira e Francisco Xavier de Mello, ao qual vieram 
depois pertencer Manoel Antunes de Moura Telles e Luii 
Pereira de Lemos. 

No dia seguinte o governo provisório da comarca da 
Palma fez circular uma proclamação, em que declarou-se 
desquitado do jugo despótico do governo, mas deo vivas 
a D. João VI e às cortes de Lisboa. Não era uma Gdelidade 
simulada á união dos Ires reinos, como melhor se pôde 
ver das proclamações de 17 e 24 de Setembro, onde o 
pensaiuenlo do governo foi bem definido (84). 

(84) Pruclamacjòes.— Hahitanles da cuinarca da Palma! E' lemiH) 
de sacudir u jugo de um governo despótico ; todas as províncias do 
Brasil nos tém dado este exemplo : os nossos irmãos de Goyax íixe- 
ram um esforço infructifero, ou por mal delineado, ou por ser re- 
batido por força superior. Elles continuam na escravidão, e até um 
dos principaes tiabitantes d'csta comarca íicou em ferros. Palmen^ 
ses I Sejamos livres, e tenhamos segurança pessoal ; unamo-DOs e 
principiemos a gozar as vantagens que nos promette a constituição ! 



- ii7 ^ 



liisialUila o govtíi tiu, deu-^e logo provuleiícirB para o 
caso de luUp e foi declarado Manoel Igoacio de Sampaio 
dcstiluido das funcções de governador* A expedição diis 
ordens para a elFecliva arrecadação das rendas e abolição 
de certos impôs Los não se fez esperar. Elevou- se a 19^00 o 
valor da oitava de ouro, e providenciou-Sís acerca da orga- 
nisação da força, quelicou sob o comraando de José l*e- 
reira de Lemos e loaquím José da Silva, sendo nomeado 
I commissarío Manoel Leite Pereira. 

Atmlam-^e esses liibiitoâ quts nos vexam, oii p<*r sermos os únicos 
qao os prigamo"^* ou |K>r uhú âoreiíi conlurme!^ âs unligas leis adap- 
lavei* ae^la pobre cnmurea. Saladas de gados, deelm», bmico, pn- 
pel scitntjo, eutradu de sal, ferro » iiço c ferrura tintai Meíini abolidas i 
Mos os íjnrnens livres lÉm direito aos maiores empregos; íi virtu- 
de c tt SC iene ia, eia os empenhos para os cargos públicos. Todas as 
cabeç-íis de julíjado darAo um deputado para o governo provisório; 
os arraiaos de S. Josí, H. Oamiiigos, Chapada e Carmo íkam gozan- 
do da mesma prcrogailva. lísses depulidus devem ser clcito^i, e di- 
ngírem-se immediiilameiíle a Cí^ítlcaníc^ onde reside mterinft- 
mentBo governo provi ^;l>^o, Depois de reuuidos tod*is os depulado>, 
se decidirá qual deve seracapitaN e n'ella residíM o governo. Os 
^blmlo» que quizerem .senlar praça de ifiraiiiHha vencerno i^tneo 
oitavas por mez, fi tia cavu liaria seis e meia, l*alníenses, animo í; 
Hirião ! ií ifovcino cuidará da vossa felicidade* Viva a nos^ sania 
religíào, viva o St, I\ Joíjo Vt« viva o priíieipe legeule e toda a ea^a 
de Bragança, viva a consliluir*io que se íizer ufis c^irles reunidas 
em Usboa. Gavaleaolo, 15de8eíembro ite 18á1.— Presidente Joa- 
quim Theolouio Se^^urado^ Manoel Antoniu do Moura Tetles,j0ié 
Zeferino de Azevedo» iit§^é Victor de ta ri si Pereira, Francisco 
Joaquim Coelho d& Mattos, Fram^iseo X'ivier de Mattos, Lmt Pe* 
reira de Lemos e Joaquim tiodrigues Pereira. 

--Povos palmenses e íçoyauns í Qnanflo o Porto arvorou o esiau- 
darle da libcrd,kde e da roííeneraçiio portuí^ueía, havia em Lisboa 
um governo nomeado por S, M. Caválianle arvora o eslandarte 
da Uberdade goyan:i, rcí^idindo em Goya^ uni governador também 
n otu ead o por S , M . O* po r tue ns es ti v e ra m a iipji ro vaçâo do m c I h i > r 
pon Ktiheranos, eofiííefruiram as aeefamaç(Wgeríies, t* en|triram-so 



— 1Í8 — 

Sabendo o gof eroo que se achava em Cavai eati te o sol- 
da lo dô dragões João Rodrigues, o qual se dirigia à capitel 
com tima grossa si>mma das rendas reaes, que pelo norte 
andara arrecadando, mandou por um forte piqaete faier 
a arrecadação doesse dinheiro, que foi eolregae ao ajudanl» 
José Joaquim de Novaes^ que acabava de ser nomeado 
capitão fia força pagae intendente geral da policia- Uma 
serie rte medidas administrativas foram tomadas em ordem 
a cougraçar os povos, e assim consolidar-se o doto ro- 
verno, 

dê uma gloria eternn, E nko letemoR nún os moradores de CavâlrJiD* 
le !i mesniít íipprovitçíio, as raesmtis nct-lainaçríéii, amêsma giom? 
Goyanos e paímei»ses I lodo o hoinein \\\m tem direito a goMr^i 
sun liberdade. V6s sabeis a que vpxnines tendes estado «ujeilm* 
Agora qm todos os povos do Brasil tf m spcudido o juíto dos capJUlifi* 
gCDemes, agora que Cavalcanie not da o me^o exetripio, serrís 0$ 
unicosqiie lereísnpafienciadc contiQUíirasupporrarasalgcniiW 
cadimas, om que temos jaxido escravísadoR? Tendes jKjrven tu rs 
de que o General de Go\ax tenha com suas foix'asescraíísar^no5*1Pft' 
Yoffiiem elle lem força, nem que as tivesse as poderia cfW|vrrgircotilTi 
nós. Cineoenta soldados de linha! ir esses necessiia elle etn (loyar íwra 
conservar o seu despolismo ! Elle sabe que n^is temos tníl hrafos t 
desLemidos sertanejos^ que sepu liariam seus snldados nas garpniai 
das serras que nos rodeiam. Tem milicianos f Também ni>s osíemai; 
todos são irmãos, lodos ií^m o mesmo inleressei se çâ os fiiíinríar, 
elles L^ri %ez de balas nos offereceríio ramos de oliveira, e, untdos 
soba bandeira da consiiluição, iremos lodos desterrar para loi3|t 
um ente monstruoso, que se chama — eapitíio-generaL— ^onê, 
ibrf os olbos, e vereis que no Brasií ja níio ha governadores oci* 
pilíSes-gõceracs, j/t nao ha juntas de fazenda , arbitrarias na sua ad- 
io in is traçítí»; uFio ba mais ouvidores e juiies capricbosos e ii|ifir\fi* 
nadíis r tudo t%\A mudado: vs po\os ja n?to sSo governados po' 
bichas, mas por governos provisórios, compostos dos Itomens nu» 
Sábios e mais honrados de cada província. Adjuntas de fazenda dU 
todos os mezes ao povo conta da sua admíntsiraçíto ; os magistrados 
sAi^ m homens da'^i* Quandn a fiii^e do lírasil está mudnda« $tfh 



— 129 — 

Ãdherirám depois i causa revolucionaria Victor Pereira 
de Lemos» Manoel Seixo de Brilo, e muitos ootros, que 
foram nomeados officiaes da milícia paga ecifil.em nu- 
mero superior a 80, 

O governo provisório, por conveniências do serviço e 
pela vantagem de se achar no centro dos districtos que 
Unham adherído à nova ordem de cousbs, transferiu 



Goyni a unlca província que íiqiie insensivol âos m\xs males? Goia- 
nos ! Nós, m IjâbiUitiles de C^ivateaíite, arvoramos o esUindarie da 
M bardado, seja elte o jKinLo da nossa reuniÀo, e m'»s todos seremos 
fõlixes í Viva a relij^iiio ! Viva o Senlior D. João VI í Vifa a constí- 
tut^o tsL libõrdHde ! Vivam 0s povoa das comarcas de Go,vuz e Palma l 
—Sala do governo» Í7 de Selcinhro de 182L— Presidente, Joaquim 
TlieoLoiuo Segurado, — Secreiario, Francisco Joaquim Coelho d 9 
MaUos. — Míiooel António de Moura Telles. — José Zeferino <íc km- 
vedo.— João Luix do Sousa*— Luiz Pereira do Lemos.— Joaquim dos 
Santos e Vasconeollos.— Joaquim Hodrigues Pereira. 

— Go^fanosí A provinda de Gojfazé lalvei a mais pobre do Braítíl, 
e, comiudo, è a iintca que aimU conserva no seu seio um capitão- 
gencfal^ é a única que ainda se vé obrigada a pagar a um empre- 
gado pubfico um soldo de quasi G:Q008OO0. Quaiorze mil cruzados 
s^> a um bomem, que governa cofilra a vonlade do povo ! Quatorze 
mil cruzados, que cbe^^nm para pagar soleota bravos defensores áa 
pátria 1 Que 6 isio, goyanosi Tendes direito a axpulsal-o, e con- 
teniis que elle continue a govemar-vus ? e a governar-vos cum um 
braço de ferro? Não tendes animoi n^o tendes valor? Estamos 
reunindo forças sufi [cientes para irmos ao vosso soccorro, o ajudar-^ 
vos a cxpellir o capilao-gcncral. Estabelecei o vosso governo provi- 
sório À imitaçSo de todo o reslo do Itrasil Imilai-nos. Sem eflusão 
de sangue estamos livres do capitâo-genera!^ e só dependemos das 
cartes de Lisboa, d'el-rei e do príncipe. -* Cavalcante. Sala do go- 
verno, em 24 de Setembro da ÍBil .'^Presidente, Joaquim Theotonlo 
Segurado. — Vice-presidente, Francisco Joaquim Coelho de Mattos. 
—Manoel António de Moura Telles.— Joaquim Rodrigues f*ercira. — 
Josá Zeferiao de Azevedo.-- Luiz Pereira de l^mos. — João Luít de 
}»cittu. 

TOMO XX VIII, Pp IL 17 



— 130 - 

DO mez de Outubro para Arrayas a sede do governo, dei- 
xando DO commaudo do arraial de Cavalcante o capitão 
Luiz Pereira de Lemos, e o alferes Francisco Xavier de 
Mattos. 

Esta transferencia, porém, foi causa de apparecerem 
algumas defecções. O vigário de Cavalcante fugiu para a 
capital, Joaquim Rodrigues Pereira retirou-se para sua 
fazenda, e outros nâo quizeram acompantiar Segurado, 
cujo caracter violento jà linha descontentado a muitos. 

Em 29 de Setembro soube Manoel Ignacio do que acon- 
tecia no norte, por cartas quo recebera do vigário de Tra- 
hiras, ede alguns traidores, entre outros do próprio vigário 
de Cavalcante, Joaquim Rodrigues Pereira, José Victor de 
Faria Pereira, e Joaquim dos Santos e Vasconcellos, alguns 
dos quaes tinham Qgurado como membros do governo pro- 
visório, eleitos pelos dislrictos. 

Immediatamente tratou Sampaio de convocar a camará 
e a junta dos três Estados, para a todos relatar tão desagra- 
dável noticia. 

Assentou-sc que era preciso combater com força ar- 
mada a revolução, e tomar as necessárias providencias, 
afim de atalhar o seu progresso. 

Nesta conformidade deu-se ordem ao intendente dos 
armazéns para entregar ao tenente-coronel Luiz da Cosia 
Freire de Freitas lodo o armamento e munições necessárias, 
afim de ser organisado um destacamento que, sob o com- 
mando do tenente António José Gomes de Oliveira Tiç5o, 
marchasse em continente contra o governo provisório. 

E porque lambem receiou-se algum pronunciamento na 

capital, distribuiu-se á força pólvora e bala, e fez-se uma 

revista de toda a guarnição, com o fim de impor pelo lemor 

das baionetas. 

As scenas que se davam no norte fizeram convencer a 



— 131 — 

Sampaio de que os factos havidos na capital tinham achado 
écho, c que era preciso sahir dos expedientes ordinários. 

Elle comprehendêra perfeitamente as consequências de 
tudo quanto ia acontecendo, e tanto que, dando ao minis- 
tro Caula noticia da creação do governo provisório e das 
medidas que eslava resolvido a empregar, para debellal-o» 
assim se exprimia : 

« Nâo devo comtudo occultar a V. Ex. que nao afianço 
resultado algum favorável, cm razão das suggestões que 
ordinariamente se recebe de fora da capitania. Tenho 
algum motivo para desconfiar que aquelle procedimento 
de Cavalcante foi motivado por instigações do padre Luiz 
Bartholoméo Marques, anteriores ao dia i° de Agosto, em 
que foi expulso d'esta cidade pelo povo, por cartas dirigidas 
no arraial de Trahiras ao padre Manoel da Silva Alves, as 
quaes não produziram alli efíeito algum, e no arraial 
de Cavalcante ao vigário Francisco Joaquim Coelho de 
Mattos, de que resultou a inslallação do dito denominado 
governo. Ha, porém, algumas idéas que aquelle proce- 
dimento fora resultado de instigações vindas do sertão da 
Bahia ; n'este caso não me será possivel certamente dis- 
sipar a borrasca : em breve tempo terei de me retirar da 
capitania, visto que nem S. A. Real nem as cortes querem 
que haja eiTusão de sangue. » 

Pesando a responsabilidade dos seus actos, e as conse- 
quências de uma resistência pelas armas, reflectindo com 
madureza sobre o que lhe cumpria fazer, para evitar a 
guerra civil, e promover a união dos povos da capitania, 
resolveu que a força organisada não partisse para o norte; 
tanto mais, quanto íhe cumpria ter a capital conveniente- 
mente guarnecida, para qualquer emergência. 

Limilou-se a expedir para o norte uma proclamação, em 
que atacava violentamente o vigário de Cavalcante como 



— i32 - 

principal fautor da revolução, que tão profundas sym- 
Patbias encontrava em toda a capitania, sendo, como se 
suppunha, o primeiro passo em favor da nossa emancipação 
politica, n'aquella parte do território do Brasil (85). 



(85) Goyano§ da comarca de S. Jo3o das Duas Barras 1 Quando, 
depois de expulsado pelo poTo d*esla cidade o cabeça e molor da 
desordem, que aqui se tentou perpetrar, eu recebia de todos os 
povos d*esla comarca de Goynz as mais decididas provas de perfeita 
adhesão ás aucloridades estabelecidas por Sua Mageslade,na confor- 
midade das leis fundamenlaes da nação, acabo com o maior des- 
gosto de saber que o vigário de Cavalcante, levado da desmarcada 
ambição de escravisar todos os povos d'essa comarca, como tem 
constantemente escravisado os desgraçados moradores de Cavai- 
cante, se lembrou (pur insinuações sem duvida d'aquello cabeça ex- 
pulso) de erigir n'aquellc arraial um intruso governo, que elle deno- 
mina provisório de toda a comarca, atacando por esta maneira os 
inauferíveis direitos de Sua Magestade, e violando as determinações 
das cortes, que só permittem o estabelecimento de taes governos 
provisórios n'aquelle8 lugares em que as aucloridades constituídas 
se oppoem ao juramento da constituição c á nomeação dos respec- 
tivos deputados, e que, dados estes dois passos, recommenda, com- 
tudo,o maior socego, e o maior respeito ils leis existentes e ás aucto- 
ridades constituídas segundo as mesmas leis. E, como se aquelle 
crime fosse pequeno, passou o mesmo vigário a apoderar-se das 
rendas reaes, que dos diversos arraíaes d'essa comarca se remei* 
liam para o erário d'esla capilal, alím de supprirem as despezas pu- 
blicas, pretendendo por esta forma constiluir seus feudalarios todos 
os outros arraiaes da comarca. E, para mais despoticamente dispor 
de tudo, organisa o governo com pessoas da sua facção, todas resi- 
dentes nos arrabaldes de Cavalcante, sem contemplação com as pes- 
soas de bem dos outros arraiaes, quasi todos muito mais populosos e 
mais interessantes de que o de Cavalcante. E sujeitar vos-heis vós a 
uma tal humiliação ? Tão baixos sentimentos não existem -certa- 
mente em corações goyanos! Não vos aconselho, comtudo, que 
mancheis as vossas mãos com sangue goyano, o que seria total- 
mente contrario aos meus desejos e ás pias intenções do príncipe 
regente e das cortes da nação. Aconsclbo-vos, sim, que desistais e 



^ 133 - 

Eioel Ignacio, que alè anles do proQunciameolo de 

'Favalcaole estivera resolvido a oppôr-se com todas as 

forças ã eleição de um governo provisório, via agora que 

este era o meio único por onde podia sahir airosamente da 

situação critica em que o tinham collocado os novos acon- 



nSo Tíos sobmoUais ás suggcstôes il*aq«eUe \igario, deshonra do 
Dome goyano, eerlos de que deiilro em poucoH dia^ o mei^mo crime 
o vai confuudir, que eviteis ioda a cornmuiiioaçao com os povos 
que eile Icm compromeUído e escravisudu, ulim de que na capUunia 
dõ Cojâz s% n^iú repitam aB tríttcs scenos, que lautas ealuniidades 
tèm eausado aos bahi^inos c paulistas ; aconselho- vos que não queí- 
mis per af^uma condeseeDdencia indiscreta cahir no desagrado do 
priDcipe regetUe e das cortes, que tâm prefixado os Itaiites da mar- 
cha qye se devo seguir para a oossa rdj^etierarao política, que é a 
mesma que eu, primeiro que ninguém, M/. adoptar n'esta capiuoja^ 
além da qual não H permittido passar; aconseUm*vo5« emlim, quQ 
vos mostreis sempre dignos do grariíle nome de portug:ue5tes, cida- 
dãos do reiou-unidú de Portugal, Brasil e Afprves^ nome que pre- 
sealemenle eausa inveja a todas a^ nnQL»es pela cupátaneia do solfri* 
mento na adversidade, e pela prudência, moderat^ão e uniformidade 
de sentimentos na aelua) regenorai;iiO politica, o que tudo se Uajis- 
tornará, se, por meio de tumultos e outras semelhantes desordens 
loeaes e parciaes. Olhas do e^ipríeho e dfismarcada ambit.^ão, se alte- 
rar A tmnquil lidado e socego com que devem ser tratados os grandes 
negócios dii Eiaçím. Nào d^icontioco a justiça dos queixumes d'essesi 
povos contra a antiga admínistraçrio d 'esta eapilania, mas também 
vós uâo podeis doiíar de conhecer quanto eu tne tenho esror);ado 
pnra os fa^^er cessar, providenciando aqui lio que cabe na minba au- 
ciondadep e dirigindo ao antigo mínislorio as necessárias represon- 
tarOos para serdes em ludu iguatados ^os outros cidadíios portugue- 
ses, as quaa^i se enLlo não foram attendidas em razão da antiga 
ordem das cousas, sél^t-hao, sein duvida, perante as cortes da 
nai^ào» uma ve?, que, pela irreí|ularidade e inconsideração dos vossos 
procedimentos, não incorrais no desagrado das mesmas cortes e da 
nação* — Vivam as e<Vrtes ! Viva a constituição! Viva el*rei ! Viva o 
príncipe regente ! Vivam na bons goianos ! — tio^ass, 1" de Outubro 
do iStí t^ Afamei Ig^acio de Sampaio^ 






•f 



— 134 — 

tecimentos e sua pooca sagacidade; mas não se resolna 
definitivamente a empregal-o. 

O sen empenho em não querer assentir à creacão do 
governo provisório provinha talvez do facto de haverem as 
cortes constituintes decretado a legitimidade dos governar 
dores existentes; vendo, porém, que o príncipe regente 
por aviso de 2i de Agosto ordenara a creaçao de um go- 
verno provisório em Pernambuco sob representação do 
governador e capitão general respectivo, e igualmente o 
fizera para a capitania de Minas Geraes, assentou final* 
mente de tomar sobre si a responsabilidade de ordenar i 
camará em 22 de Outubro a instaliação de um governo 
provisório. Expedida esta ordem, deu d'ella conhecimento 
ao publico. 

Para esse fim designou-se o dia 3 de Novembro, e Q*es8e 
dia foi grande o concurso de povo no paço da municipa- 
lidade. Por occasião de procedei^se ao escrutínio, lendo-se 
admittido a votar pessoas da plebe, e recusado igual direito 
a outros, bem como ás pragas de primeira linha, houveram 
por isto taes desordens e contestações que afinal foi le- 
vantada a sessão, sem nada poder-se resolver definitiva- 
mente. De tuílo se deu conta ao priíicipc regente, con- 
Unuando entretanto Manoel Ignacio no exercício das func- 
ções de governador. 

Os acontecimentos do dia 3 tomaram nspeclo grave : os 
adversários de Sampaio apccusavam-n'o de liaver promovido 
uma caballa, afim de não se effectuar a croação do governo; 
* a tropa já se ia insubordinando, e tomava parte nas delibe- 
rações dos comícios populares ; e por tal modo foi cres- 
cendo a excitação que no dia 10 Sampaio mandava affixar 
unra proclamação, inculpando à camará, e só a ella e á 
falta de iniciativa no povo, de não ter-se verificado a eleição 
do governo. Entretanto o povo e mesmo a tropa mos- 



— 135 - 

travam disposições para elegerem o governo até na praça 
publica, sem observância de formula alguma legal, se assim 
fosse preciso. 

Manoel Ignacio, que em 22 de Outubro ordenara á ca- 
mará que procedesse á eleição sem o concurso dos repre- 
sentantes dos julgados, para adial-a por mais tempo, 
julgava esta condição indispensável : vendo agora em cada 
dia declinar o seu prestigio e crescer as animosidades, 
recebendo oíBcios da corte no dia 29 de Dezembro, nos 
quaes se lhe insinuava a creação do governo provisório, no 
dia 20 pela manhã convocou a camará com urgência, e 
perante ella se apresentou. 

Ao toque do sino toda a população correu ao paço da 
municipalidade. Poucos sabiam precisamente de que se ia 
tratar, mas todos previam o motivo da reunião. 

Em presença da municipalidade declarou Sampaio quo, 
tendo reconhecido pelo espirito dos oíBcios, que acabava 
de receber da corte que o príncipe regente se não oppu- 
nha e não levava a mal a creação de um governo provisório, 
logo que a fermentação dos espíritos assim o exigisse, po- 
dendo ser ella feita de um modo regular, ouvidos por seus 
representantes os povos de toda a provincia, afim de por 
este modo evitar-se a desunião e a consequente guerra civil, 
a vinha propor de um modo solemne e decisivo. E, afim de 
que a eleição fosse legal, conveniente era fazer a convoca- 
ção aos três eleitores de S. João das Duas Barras,que tinham 
servido nas ultimas eleições, e eleger para o mesmo fim 
três que representassem a capital, visto como estavam 
ausentes dois, e um por tal modo enfermo que não po- 
deria comparecer. 

E porque este procedimento importava uma dilação, e 
convinha desde logo eifectuar-se a mudança da administra- 
ção, propunha que se installasse uma junta administrativa, 



— 436 — 

& cujo cargo passasse o governo da capitania até a creaçio 
do governo provisório. 

Sobre parecer da camará foi decidido por todos quantos 
se achavam presentes que se elegesse a junta administra- 
tiva interina, a qual se deveria compor de seis membros. 

E procedendo-se ao escrutínio Joram eleitos, presidente, 
Manoel Ignacio de Sampaio, secretario, o coronel António 
Podro de Alencastro, membros, o ouvidor Paulo Couceiro 
de Almeida Homem, o vigário da vara Francisco Xavier 
dos Guimarães Brito o Costa, tenente-coronel Luicda Costa 
Freire de Freitas, capitão João José do Couto Guimarães e 
capitão Ignacio Soares do Bulhões. 

O acto de juramento e posse da junta administrativa teve 
lugar n'essa mesma occasião ; e de tudo se lavrou a com- 
petente acla. (86) 

(86) Anno do nHScimenlo de Nosso Senhor Jesus Christo àe HM» 
aos 30 dias do moz de Dezembro do dílo anno, n'esfacídadedt 
Goyaz^ em os paços do conselho d'clla, onde se achavam o oapite- 
^'eneral d*esla província, Manoel Ignacio de Sampaio, e a canura 
convocada e reunida pclo mesmo governador e capitão- general, 
postada em armas a tropa de primeira linha c segunda, reunidos 
alguns cidadãos mais, convocados a toque de sino, na formado e^ 
tvio, propuz o mesmo governador e capilAo-general que, havende 
reconhecido pclo espirito dos oflicios que acabava derecel>erda 
secretaria d'Kstado da corte do Rio de Janeiro, se nuo oppunba e nem 
levava a mal a crea<;ào de um governo provisório n*csta província, 
logo que o estado de fermentarão dos povos assim o exigisse, npeiar 
do ónus de juramento de preito c homenagem prestado nas màoi 
de seu augusto pai, de que indirectamente se achava por esta forma 
alliviado, uma vez que a creação do dito governo provisório le 
fizesse de uma maneira legal, sendo ouvidos por seus represen- 
tantes os povos de toda a província; alim de se evitar a desunião e 
a consequente guerra civil, propAz a mencionada creaçAo do go- 
verno provisório com as sobreditas condiç<Nes, apontando partíeo- 
ar mente que se poderiam convocar os três eleitores da cooiarea df 



— Vil — 

Na tarde d'esso di^ liase affixatlapor lodos os ângulos da 
cidade a seguinte proclamação &ã camará da capital : 



S. hho lias Duas Barras, que serviram nas proi imas pasmadas elei- 
çdesj ô procede r-se n eleger com as precisos forma t idades rrea elei- 
lores doesta cí^marca de Goiraz, ifisto que dois que íiOTViram nas dilas 
eleicOes se nào achavam n'esia cidade, esLando o terceiro grave- 
nteiUo enfermo, Cudo por maiur brevidade da creaçio do d ilo go- 
verno : propõz, oulrosim, a creat^ào desde jA de uma junta itUema 
admínistraliva. que fica^s^e encarregada do governa adinioislralivo 
lia proifíncía, lâo semente alé a creacão do meucionado f^ovcrno 
|j reviso rio, e a cujo cargo lieasse o dar lodus m precisas providen* 
ciai para a citada logal mstallaçi^o da maneira íicima exposta, áqual 
creaçiiõ deveria a ciimarii^ proceder desde jil, ouvindo para este Ijm 
os povos d 'esta cidade, que so acham reuinidas cm os p«cos do con- 
selho Vi seus arredores, da maneira que acbar conveniente a mesma 
camará^ «% eomo assim o disse e propÒE, assignou o presente »uio, 
declarando mais que ^e Ike desse cerlidao, nho só doesta proposta, 
mas da deliberaçiio que se liouver de tomar. Eu, Zefennu l^ereira 
Pedroso, eserivao da camará, que o escrevi, — Manoel ígnacio de 
Sampaio, — E, íogo etoaeto continuado e sem iaterrupcão, acamam 
d 'es la cidade^ depois de deliberar etn sesítíio particular a maneira 
mais conveniente porque devia rtsoher a proposta do Eim, gover- 
nador e capitão-general, feita com ta a la urgência, esem preceder 
as &oleiiin idades que so t«ziajn tudispetisuveis eoui uma ordem tãri 
eritie:!,' parecendo a cunvocaQiio da carn^ra antes o resultado de 
um acto coactivo que uma espoo taneidude do Cjtm. St* general « 
tendo iguafmente em vista a impossibilidade de convocitr por carta 
iodas as pessoas que podem atixiliar a camará n'estaeonjunctura 
tâo critieu, qual a da eleicào de uma junia que posi^t ioterinamente 
cimentar os principias do uma união entre os povos da provi nciíi 
divididos por opimòes políticas : resolveu que fossem vocalmente 
GOnvidados pelo porteiro da camará o clero, os magistrados^ os ofíi* 
eiaes da 1* e 2' linlm^ e a^i pessoas que costumam andar na govcr- 
tiança, para ofegerein uqueltas que devem compor a Junta ndininis- 
Irrttiftt interina e o numero de que deve ser composta a referida 
juuta, de que para constar ma n d «iram fazer o presente termo, que 
assiguarain, —Zeferino Pereira Pedroso* escrivão da camará» que u 
escrevi*— Gdvdo.—6ííímarães.—/"o5apa,—Jíodrt3iiei. — £* logo cm 

TOMO WVJIl, p> 11, 18 



— 138 — 

(( Goyanosl Eia, congratulai-vos ; sois felizes emfiai : 
o exceiienlissimo ex-governador da província espontânea- 

acto contínuo o surcessivo, reunidos quarenta e ires cídadAos dos 
espccifícados no acto supra, foi proposto pela camará o seguinte : 
se devia ter lugar para a presente nomearão da junta provisória in- 
terina o decreto do V de Setembro do corrente anno, expedido 
pelas cortes geraes extraordinárias e constituintes da naçlo portu- 
{^ueza para Pernambuco, na parle somente que respeita A crea rã o da 
referida junta provisória; opinaram pelaaflirmativatrinin o seis vo- 
tos; seis que fossem também seis os membros da referida juntk, e 
um voto singular do descmliari^ailor António Josr> Alves Marques, 
que se não lizesse mudança alguma, continuindo nn governo o 
lllm. e K\m. Sr. Manoel Ignacio de Sampaio. Decididn, portanto, 
por uma pluralidade absoluta de vinte e seis votos, que a junta pro- 
visória interina d'esta cidade fos^e creada como ordena o referido 
decreto, e prccedendo-se ás nomeações, sabíram eleitos: para presi- 
dente, o lllm. e Exm. Sr. Manoel Ignacio de Sampaio, por unanimi- 
dade de votos; para secrelurío deputado, o Sr. coronel António Pe- 
dro de Alencaslro, por unanimidade de vnios; para i^ membro da 
junla, o Sr. Dr. ouvidor da comar&i Paulo Couceiro de Almeida Ho- 
mem, por unanimidade do votos; pura ±^ membro, o Sr. vigário da 
vara Francisco Xavier dos (íuimarâes Hrilo e (Insla. com trinl.i csete 
votos; para 3*» miMnbro, o Sr. tencnlc-CiíroncI fjiiz «la Costa Freire 
de Freitas, com(|uarenlu e dois V(»los; para 4" membro, o capilào João 
Josr do Couto (luimarães, por unaniiiiiJade de votos; para ,N» mem- 
bro, o capitão Ignacio Soares de Bullines, por unanimidade de votos: 
e, depois de publicado dentro dos paros do conselho, e «las janellas 
para a tropa que está postaila, e mais (íidadàos que ^c achavam reu" 
nidos e assistiam á referida nomeação dos membros e presidente 
acima declarados, com nuiila satisfação, dando em alias vozes repe- 
tidos vivas. K, logo n'este mesmo acto, achando-se presente o pre- 
sidente nomeadoe mais membros, lhes foi apresonfadourn livro dos 
Santos Kvangelhos pelo presidenie da camará, o Dr. juiz de fora Ma- 
noel Anionio CaUào, cm o qual, pondfi as suas màos dirciliis, pres- 
taram o juramento seguinte: « Juramos aos S;intos Kvflnffcllios ve- 
nerarão e respeito A religiào catholioa o aposlolica romana, obediên- 
cia ás cortes de Lisboa, observar e manter as leis existentes, e tudo 
o que pelas ditas cortes fôr determinado, afim de manter a união de 



— 130 — 

mente demittiu-se da sua auctoridade, e nâo duvidou re- 
partil-a com aquelles de vossos concidadãos, em que tendes 
maior confiança. A convocação da camará para a creação 
de um governo por que tanlo anhelaveis foi obra sua, e a 
unanimidade com que foi coroada a eleição dos membros, 
que compõem, é uma prova nâo equivoca da legalidade 
com que foi feila. Goyanos, ainda uma vez congralulai-vos; 

Ioda esta província em paz e socej^o, respeito o obediência a el-rei 
constitucional o Sr. l). Joào VI.» Depois do que llies foi dada posse 
pela camará d'esta cidade do governo de toda cMa provincia, e, 
sendo presentes os chefes das corporagòes militares e civis, presta- 
ram juramento em forma de obedecer e guardar tudo quanto pelo 
governo fôr determinado a betn do serviço nacional. K, como assim 
o disseram e se obrigaram, mandaram fazer o presente termo, que 
assígoaram com os mais cidadãos presentes. Ku, Zefermo Pereira 
Pedroso, escrivão da camnra, que o escrevi. — Manoel António Gal- 
vão.— Guimarães.— Fogaça. — Hodrigues. — Manoel Ignacio de Sam- 
paio. — António Pedro de Alencastro.— Paulo Couceiro de Almeida 
Homem. — Francisco Xavier dos Guimarães Biito o Costa.— Luiz da 
Costa Freire de Freitas.— João Jos6 do Couto Guimarães.— Ignacio 
Soares de Bullincí. — João Josó de Azevedo Noronha e Camará.— 
Maximiano José UaymunJo.— José Joaquim Pulquerio dos Santos.— 
Manoel de Santa Barbara Garcia. — António Josó Félix de Avellar.— 
José Joaquim Xavier de Harros. — António José Alves da Costa e 
Silva. — José António da Sdva e Sousa. — João Pereira Cardoso.— 
Cmygdio Joaquim Marques. —Padre Lucas Freire de Andrada.— 
Luiz Pedro dos Guimarães. — António Mariano de Castro. — Filippe 
Luiz de Carvalho.— Padre Miguel Gomes dos Anjos.— Feliciano José 
Leal. — Vicente Ferreira de Castro e Silva. - António Ferreira de 
Azeredo. — íiabricl Gctulio Monleiro de Mendonça. — Barlholomêo 
Lourenço da Silva. — Francisco Hodrigues Fraga. — António José de 
Avellar,— José de Coulo.— António Ferreira da Silva.— José Mamede 
Botelho da Siha.— João Nogueira da Silva.— José Rodrigues Gomes 
—Francisco Corsino de Brito. — Anacleto Gomes dos Santos.— João 
José da Silva.— Domingos José Dantas de Amorim.— João Biplisla de 
Alencastro.— António Josó do Artiaga.— João Manoel do Menezes.— 
'osé Joaquim da Silveira Pinto, etc. 



- 140 — 

não mais ódios : fazei ama só família, e provai por vossa 
obediência e adhesão ao novo governo a mansidSo do vosso 
caracter, tão distincto entre as outras provindas. Viva a 
religião t Vivam as cortes I Vivael-rei constitucional I Viva 
a dynastia de Bragança I Vivam os Goyanos ! GoyazSOde 
Dezembro de 1821. — Manoel António Galvão. — João Jasi 
do Couto Guimarães. — Domingos Marques Lopes Fogaça. — 
Marcdlino Joaquim Rodrigu^. » 

Ào lado d'esta proclamação lia-se também outra da junta 
provisória (87). 

(87) Cidadãos portuguezes da província de Goyazl A nação porlu- 
gucza, de que nos gloriamos de ser filhos gratos, tcndo-se esvaído 
com esforços infruciiferos e ais saudosos para recobrar todo o vigor 
das forças e riquezas que competem ao seu corpo gigantesco, quasi 
no ultimo paroxismo da exisiencía, levantou a cabe<:a, e, fitando os 
olhos ao único remédio da sua salvação, lançou mão segura do leme 
do governo, e, introduzindo. n*este legitimamente pilotos hal»eis, 
segue já sem perigo o verdadeiro rumo, e o mais certo caminho 
que a conduz ao lugar destinado entro as naçOes do mundo de pri- 
meira ordem. Com o regimen da nossa constituição politica, ligados 
os seus membros espalhados por todas as quatro partes do mundo e 
por extremo descarnados, em consequência de Hiltas commettidas 
nos tempos passados em todas as repartições da publica administra- 
ção, esta cara pátria nossa instantaneamente se fortificará e obterá 
toda a nutrição com a reciproca união e correspondência entre o 
magestoso corpo politico e sous dispersos membros. Km virtude 
d*esta lei elementar do governo, que divide perfeitamente os po- 
deres das aucloridadcs constituídas, e desterra para sempre as arbi- 
trariedades apoiadas em falsos principios, e algumas vezes em ca- 
prichos desmedidos, cessou todo o despotismo; porém a lei vigo" 
rou, e a obrigação de a observar, tanto da parte dos depositários 
destinados para a fazerem cumprir, como da parte dos que lhe 
devem obedecer, se tornou muito mais sagrada. K/, pois, além do 
dever uma virtude que nos unamos, que nos esforcemos quanto em 
nós cabe para recuperar os reve7es da fortuna experimentados, e 
repellír todos os principios de desunião. Brilhe entre nós a conti 



- Hl - 



nuaçÂo da Gdelidade e da boa fé com que já jurámos a consliUiiç&o, 
e esiamos guardando os decretos das cortes. Haja reconciliação 
gerai do opiniões, seja removida alé a mais remela sombra de 
crueldade, de injuria e de inlriga. Deixemos desembaraçado todo o 
campo nos nossos ropresonlantes para completarem o augusto qua- 
dro dos mais bellos dias da naçào portugueza. Espera, portanto, 
esta junta, para a qual será o único timbre a obediência e adhesão 
ás cortes, á constituição, a el-rei e ao principe regente, que todos 
os povos da província lhe correspondam nos mesmos sentimentos, 
e tenham n'ella a maior conGança, pois que a sua marcha no expe- 
diente dos negócios será regulada pelas leis estabelecidas e pelo 
cordial desejo do augmento de toda a província. — Viva a religião ! 
— Vivam as cortes!— Viva el-rei constitucional! —Viva o príncipe 
real! — Viva a união de todos os goyanos constiiucíonaesl -— Viva a 
reconciliação geral do dia 30 de Dezembro de 18211 — Manoel 
Ignacto de Sampaio. — Paulo Couceiro de Almeida Homem. —João 
José do Couto Giiimnrães.- Luiz da Costa Freire de Freitas. — Igna- 
cio Soares de Bulhões. — xVntonio Pedro de Alencastro.— Francisco 
Xavier dos Guimarães Brito e Cosia. 



— 142 — 
CAPITULO XX 
(1822- 1824] 

Desintelligencias entre os membros da junta administrativa. — Des- 
gostos de Manoel Ignacio de Sampaio.— Pede Scmpaio demíssSo. 
— E* nomeado presidente o Dr. Paulo Couceiro.— DemissSo does- 
te, e nova nomeação do presidente. — O coronel Álvaro José Xavier, 
conimandanto das armas.— Acto de juramento de fidelidade ás cor- 
tes e ao principe regente.— Eleiçrio do governo provisório. — Pre- 
tenção do juiz de fora Manoel Anlonio Galvão.^ A mbiçrlo de po- 
der malograda.— O governo provisório do norte.— Intenções do 
ouvidor Joaquim Tlieotonio Segurado— Sepamçao da comarca de 
S. JoíiO da Palma.— orfício da camará.— O capiuio Filippe Antó- 
nio Cardoso nomeado coronel commandante geral da comarca da 
Palma.— Anarcliia no norte.— OesiTedito do governo dissidente. 
—Sua transferencia i)ara NativiJaiie.— Recresce a desordem.— Pro- 
cedimento do governo provisório de Goyaz.— O padre Gonzaga vai 
em commissão ao norte.— Gonzaga é bem succedido em suas dili- 
gencias.— Procedimento do coronel Filippe em Arrayas e Caval- 
cante.— Sua prisJlo.-Devassa.— Gonzaga na Nalividad*». — Dissolvc- 
se o governo do norte.— Congraçam-se os povos.— Fim da com- 
missão de Gonzaga.— Juramento da independência.— Acclamação do 
imperador. —Juramento da constituição.— !'rimeiro presidente de 
Goyaz. 

Mal linha a junta administrativa começado afunccio- 
nar, profundas desintellipencias apparoceram entro os 
seus membros. 

Queriam uns que o ouvidor, para ser membro do go- 
verno, se demillisse das funcçôes de seu cargo, outros 
que o chefe da força nâo lizesse parte da corporação 
do governo. Além d'isto a maioria da junta não via com 
bons olhos a Manoel Ignacio de Sampaio. De tudo isto 
se originou a formação d»^ dois partidos, que desde logo 
abriram hostilidades. 

Os partidos, de ordinário exigentes c exclusivistas, se 



— 143 — 

porveatnra não slo refreados pelos que os dirigem, 
praticam de ordinário excessos que os deturpam, desa- 
creditam e perdem. 

DjsJe que Manoel ]gnac'o foi eleito p residente da jun- 
ta, os seus adversários entenderam dever desgostal-o, à fim 
de o obrigarem a demitlir-se; e para isto conseguirem 
não escolheram meios. 

Cartas anonymas escriptas em linguagem indecente e 
torpe, pasquins e insultos, foram as armas que não du- 
vidaram empregar contra o ex-goveriiador. 

Na sessão do 3 de Janeiro, marcada para designar-se 
o dia da reunião dos eleitores que tinham de escolher 
o governo provisório , um dos membros da junta pro- 
visória abriu e leu uma carta anonyma contra o presi- 
dente Sampaio, na qual era elle insultado da maneira 
a mais violenta e cobarde. K o mais é que os seus 
collegas não tiveram a delicadeza de lhe pouparem este 
dissabor. 

Este desabrido procedimento dos membros do gover- 
no tanto magoou a Manoel Ignacio que resolveu retirar- 
se da província, afim de não ser alvo de novos insul- 
tos. 

Na sessão do dia 8, antes de enlrar-se na ordem dos 
trabalhos, pediu Sampaio a palavra, e declarou que, se 
no dia 30 de Dezembro linha aceitado a presidência da 
junta, para que fora eleito por unanimidade, tivera por 
fim concorrer para de prompto se congraçarem os par- 
tidos, e se fizesse com tranquilidade a eleição do governo 
provisório; que, quando no dia -2 de Janeiro íoi com 
a junta acamara, para rectificarem o juramento de fide- 
lidade a el-rei, c ao príncipe regente, tendo poucas horas 
antes conhecido o estado das cousas, exigira em publico 
a sua demissão, por isso que não tivera até então con- 



— lU — 

servando-se no governo, outro fím senão beneficiar os 
goyanos; vendo, porém, que a sua presença na província 
podia dar lugar a algumas dlssenções, por maiores que 
fossem as cautelas que observasse no seu proceder, de 
novo instava pela sua demissão do modo o mais ter- 
minante. 

A junta foi prompta em deferir o requerimento ver- 
bal de Manoel Ignacio. O ouvidor e o tenente coronel 
Luiz da Costa também n'esta occasiao reiteraram o pe- 
dido, que jà haviam feito, de suas demissões, mas não 
foram atlendidos. 

Exonerado Sampaio, deliberou a junta nomear d'en- 
tre seus membros um, que servisse de presidente; mas 
antes de assim proceder foi proposto e resolvido que 
as funcções do presidente que ia ser nomeado, duras- 
sem apenas um mez. À escolha recahiu no ouvidor Pau- 
lo Couceiro. Na acta da sessão do dia 9 mandou-se lan- 
çar a seguinte declaração : « Hoje 9 do corrente j& não 
é presidente d'úsla junta administrativa interina do go- 
verno dVsla província, por lír pedido a sua demissão, 
para maior socego de lodos os povos d'esta mesma pro- 
víncia, o Exra. general Manoel Ignacio de Sampaio. >» 

E porque esta resolução, pouco consolidadas como an- 
davam as cousas, podia acarretar dífliculdades, mandou 
a junla affixar uma proclamação, concebida nos termos 
os mais conciliatórios (88). 

(88) ííoyanos! Confiai-vos no governo que elogesles. Para obter o 
socego publiro e a felicidade dVsla província foi legitimamente creada 
esta junta: por causa dos l>oatos, que ainda gyravam, sobre que houve 
morào no dia 8 do corrente, propòz o Exm. general a sua demissão, 
dando por motivo obter-se assim a tranquillidade publica, o que acei- 
lámos por ser este um dos pontos mais atlendiveis a que se propõe 
esla junla; i» em seu logar foi por nós eleito para presidente o I)r. 



Hias depois pedia Sampaio os s6us passaportes, e cer* 
tidão ílo libeUo infamante que contra elle tinha sido pre- 
sente e lido na jaola: forarn-lhe dados os passaportes, 
mas se lhe recusou, contra os yoIos de Couceiro ele- 
nen te -coronel Freire, a certidSo pedida. 

Em razão doeste procedimento da maioria da junta, 
entendeu o ouvidor que nâo devia mais fazer parte del- 
la, c pediu demissão de todos os seus cargos, demissão 
que nao foi recusada. 

A nova escolha de presidente recâhiu no vigário da va- 
ra, Francisco Xavier dos Guimarães Brito c Costa, e por 
esta occâsiâo também nomeou a junta o tenente-coronel 
Álvaro José Xavier commandanle das armas. 

Estas defecções concorreram para que o governo per- 



Piulo Couceiro de Almeida Homem. Gofanost TraDquillisai os vossos 
espíritos ; chamai á paz aa vossas casas ; lerabrai-vos que somos por- 
tugoezes; sede obedienies íis leis e ás aiiclorídades constitui das^ que 
as adtnioístmm. O desvelo doesta jontaé a vossa prosi^eridade» recorrei 
n elia nas vossas precisões ; fácil Ym é pedir remédio pafA as vossas 
necessidades € as da vossa pairia ; eila vos alieAderá, e o que exceder 
os li mil CS da sua auetoridadc levará ú presença do atto príncipe que 
jios rege, e fará subir até o congresso da Suprema Mageslade aa vossas 
supplíCáB, de onde emanará sem duvida o bálsamo para cicatrizar as 
vossas chagas. Coyanos l Fieis goyaiiõsi Eslao quebradas m barreiras ; 
commuQJcai-vos sèni susto com m vosios irmHos babitantes da IMImE; 
toraaí-vos a mesma família; e Vík, palraenses, persuadi~vos que a de- 
mora da nossa reuni^ito é ainda o que dissaborèa o nosso prazer ; se 
sais porluguezes, obrai act.íies de portuguezes, e unamo-nos, para 
' juntos clamarmos: viva a nossa santa religião, vivam as LÕrtes, viva a 
aa cónsliluíçrio, viva el-rei coostiturional o Senhoi" D, Jo^oVl, 
viva o pniicipe regenie do Brasil, vivam osgoyanosí Goyaa, 9 de 
Jaoeiro de IS 21 --I>aulo. Couceiro de Almeida Homem. — Igoacio 
SoAres de Buibõeâ, ^Francisco Xavier dos Guimares Brito e Costa. — 
Luiz da Costa Freij^e de Freitas.— António Pedro de Aloocastro,— 
JoSio José du Couto Guimarães. 

TOMO XXTIll, P. H. Ift . 



— H6 — 

desse muito de sua força e prestigio ; situação esta que se 
agravou com o instaute pedido de demissão, que fez o te- 
nente-coronel Freire, desde que Álvaro Xavier assumiu 
o superior commando da força. 

Os adversários de Sampaio ião assim, sem vistas lon- 
gas no futuro, conseguindo seus fins; porém a fraque- 
za do governo jà produzia murmurações e era objecto 
decommentos. Estando próxima a eleição do governo 
provisório, para o futuro appellavam os que tinham razão 
de desesperar do presente. Em matéria de máo gover- 
no não se deve adoptar o principio da velha de Sira- 
cusa; tudo quanto está para vir, pôde ser melhor, e é 
preferível; assim pensavam os que tinham esperanças de 
ver mais cordialidade e unidade de pensamento no go- 
verno provisório. A situação era deplorável? 

Na sessão solemne da junta de 13 de Janeiro recti- 
ficaram os chefes das corporações civis e militares o ju- 
ramento, que já haviam prestado de fidelidade a el-reí e 
ás cortes, accrescentando á formula do juramento— obe- 
diência ao príncipe regente:— assim o fizeram João José 
de .'Vzevedo Noronha e Camjira, coronel do !.*• regimen- 
to de milícias, o sargento-mór e commandanle do de in- 
fantaria, Maximiano José Raymundo, o llscal da casada 
fundição, Dr. Manoel de Santa Barbara Garcia, o escri- 
vão, deputado José Joaquim Pulquerio dos Santos, e o 
presidente da junta da fazenda, Raymundo Nonalo Hya- 
cintho. 

Os acontecimentos que na corte succederani em Ja- 
neiro e Fevereiro, principalmente os do memorável dia 
9 de Janeiro de 1822, que foram por assim dizer o pri- 
meiro verbo da nossa emancipação politica, sendo sabi- 
dos em Goyaz em fins de Março, produziram natu- 
ral e agradável impressão em todos os espíritos; mas 



— 14T ^ 

não se comprehendia ainda que a independência do Bra- 
sil cra jâ um facto consummado. Quando a junta an 
nunciava estes successos, ainda levantava vivas ás cor- 
tes portuguezas, ainda victoriava o rei constitucional 
D. João VI (89). 

E' tempo de darmos conta da eleição do governo pro- 
visório. 

No dia 8 de Abril se reuniram nos paços do conse- 
lho os eleitores da capital, Meia Ponte, S. Luzia, S. Cruz, 
Pilar, Crixás, Trahiras e S. Félix. Não compareceu um só 
eleitor por parte da comarca da Palma. Eram candida- 
tos ao cargo de presidente do governo provisório o Dr. 
juiz de fora, Manoel António Galvão, o coronel Álvaro 



(89) I^roclamaçào.— Tendo sido n'esla provinda manifestada a sabia 
deliberação que lomou S. A. Keal o príncipe regente do Brasil de 
suspender a sua sabida para Portugal, demorando o prazer de voltar 
á sua cara pátria e ao seio de sua augusta familia, só por realizar 
a felicidade dos povos que têm a dita de se reconhecerem seus 
súbditos : curapre-nos também nao deixar em silencio os sentimentos 
de gratidão de que eslamos possuidos. A junta administrativa interina 
do governo em vosso nome vai agradecer ao mesmo augusto senhor 
Ião iieroico sacriíioio, e protestar que os goyanos constitucionaes não 
sao menos briosos que os seus irmãos, e que nunca perderão occasião 
de dar decididas provas de amor, adhesão, respeito, obediência, á sua 
sagrada pessoa, reconhecendo a imperiosa necessidade da sua residên- 
cia no Brasil, como garantia dos direilos dos brasileiros, como pri- 
meiro defensor da sagrada constituição, e finalmente como vinculo 
indissolúvel que prende um a outro hemispherio portuguez. Vivam as 
cortes da nação portugueza, viva a nossa santa constituição, viva 
el-rei constitucional o Senhor D. João VI, viva S. M. Real o príncipe 
Regente do Brasil, que se sacrifica pela felicidade da nação, viva a 
união do Reino Unido. Goyaz, 1" de Abril de 1822.— Francisco Xavier 
dos (luimarães Brito e Costa.— António Pedro de Alencastro.— Luiz da 
Costa Freire de Froitíis.— João José do Couto Guimarães.— Ignacio 
Soares de Bui hoes. 



- Ii8 - 

José Xavier, e o presidente inleríDO da junta da fazen- 
da, Raymando Nonato Hyacintho. A sorte designou o co- 
ronel Álvaro José Xavier, e para secretario o capitão 
José Rodrigues Jardim, e para membros o capitão João 
José do Couto Guimarães, Ignacio Soares de Bulhões, 
Raymundo Nonato Hyacintbo, padre Luiz Gonzaga de 
Camargo Fleury, e o sargento-mõr Joaquim Alves de Oli- 
veira. (00) 

(90) Sessão de 8 de Abril de 1822.— Anno do nascimcnlo de Kosso 
Senhor Jesus Ghrisio de 1822, aos 8 dias do mcz de Abríl do dito aono, 
Q*esta cidade de Tioyaze capital da provi ncia, reuni ram-se nos paços 
do conselho do mesmo o juiz presidente, o alferes Domingos Marques 
Lopes Fogaça, que n'estc acto serve de segundo vereador por impe- 
dimento do capitão José Rodrigues Jardim, vereador mais velho, ve- 
readores e procurador da mesma, e os eleitores da pdrochia,que n^este 
acto apresentaram seus competentes titulos, que vém a ser oe d*eila 
província, o coronel Álvaro José Xavier, o capitão João José do Couto 
Guimarães, o escrivão deputado da junta Raymundo Nonato Hyacintho, 
o capitão José Rodrigues Jardim, e o ajudante Pedro Gomes Machado; 
o do arraial da Anta, o Rev. vigário António Fclix da Mãi de Oeui; 
de Meia Ponte, o Rev. Joaquim Gonçalves Dias (loulão, o Rev. Luiz 
Gonzaga de Camargo Fleury, e o capitão Jeronymo Rodrigues de Mo- 
raes ; de Santa Luzia, o Rev. vigário João Teixeira Alves, e o capitão 
Joaquim de Mello ; de Santa Cruz, o capitão António José Teixeira, e 
por impedimento de moléstia não compareceu o eleitor seu compa- 
nheiro Vicente Miguel da Silva ; do Pilar, o Rev. José lareira Cabral 
e João Soares Baptista ; de Cnxás, o Rev. vigário Manoel de Azevedo 
e Santos, que também não compareceu, por impedimento de moléstia; 
de Trahiras, o capitão João Caetano de Sampaio, e de S. Félix, o ca- 
pitão José da Costa Ramos, estando também presentes alguns cidadãos 
do clero, nobreza e republicanos, para o lim de assistirem á nomeação, 
que pelos referidos eleitores se fizer de presidente, secretario, e cinco 
membros do governo provisório, que n'este mesmo acto se vai a pro- 
ceder, tendo-se em vista os decretos das c/^rtes de 1" de Setembro de 
1821 e 29 de Setembro do mesmo anno, mandados observar pela 
carta de lei de 1 de Outubro do dito anno ; e pelos mesmos eleitores 
foi feita a eleição de dois escrutadores, c saliiram eleitos por plura* 



— 149 - 

Empossado o governo^ foi sea primeiro acto deslruir 
do coramaodo da força de primeira linha o lenante co- 

lidade de votos o capitío João José do Coulo Ouiniârães, e o Kev; Luiz 
ÇiOmaga de Camargo Fleury, que tiveram 8 votos, e o capitão José 
nodxigues Jardim com 6; correu o escrtJliaio^e sahiu a fãvor do primeiro 
com 9 voto® contra 5. Seguindo a eieiçnio do presidente, teve 6 votos 
o comtiel Álvaro José Xavier, o Dr* \lanoel António (lalvâo 4, e Kay- 
mundo Nonato Uyacinliio ú ; correndo o esenilinio do sp-gundo coni o 
terceiro, teve esle 11 votos^ eo segundo à, e entrando o terceiro em 
novo e^rutínío com o prínaeiro, o coronel Aívaro Jo&<í Xavier, que 
liavía obtido 6 votos, saliiu o mesmo eleito presitlfute do goverfio [>or 
pluralidade absoluta de 10 \'otos contra íi; pio&eguindo-se i\ elei<;ào 
de secretario do mesmo governo, sahíranj eleitos, o capitão José Ro* 
drigtjes Jardim por pluratidade absoluta de 9 vuLos, e procede ndo-se 
fmalfnentc á eleição dos cinco membros do governo, teve 7 votos 
ftíira 1" merabroo escrivílo det>utado da junta Raymundo Nonato Hya- 
cinilio, e ocapilí^o Jorio José do Couto nuiniarries com 3, e correndo o 
escrutínio saliiu o dito escrivão d.i junta por ter a seu favor 8 votos 
contra 6. Pfira se^ndo membro dy governo sahin eleito o capitão 
João José do Couto Cf ai mandes por pluralidade alisoluta de 10 votos. 
Para terceiro leve 3 votos o sargenlo-mór Joaquim Alves de Oliveira, 
o mesmo numero de votos o capitao^mór Salvador Pedroso de Campos 
e os mesmos votos o coronel António E^droso de Aleueastr^, os quites 
entrando em sorte para se separar 2 sabiu a favor do capilão-mór 
SaJvador, e o sargenlo-mór Oliveira, e correndo o escrutínio entre os 
dois sorteados teve 7 votos o dito capitão-mòr, e o dito sargenlo-mor 
%^ o qual entrando em segundo escrutínio com Autonio Pedro do Alen- 
c as Iro satiiu eleito membro do governo por ter a seu favor pluralidade 
atiâoluta de D votos contra 7, que teve o dito Aleocaslro, l^ara quarto 
Diembro leve 6 votos o líev, Luiz Gonzaga de Cíimargo Fleury, 3 o 
ajudante t^dro Gomes \;achado, e o, mesmo numero o coronel An- 
lonío t'edro de AlencEistro, c correndo o escrutínio entre os dois ul- 
limos, teve 7 votos o dito Alencastro, e 8 o dito Pedro Gomes, que 
entrando em segundo esc ru tini o com o Rev. Luiz Gonzaga, sahiu este 
eleito membro do governo por ter lo votos a seu favor contra 4- Para 
quinto membro sahiu com 6 votos o capitão ígnacio Soares de Bu- 
|htSe«p com 3 l*edro Gomes Machado, e o Hev* ínnocendo Joaquim 
Moreira de Carvallio com o dito n. Sj e correndo o escrutinio sobre oa 



— 150 — 

ronel Luiz da Costa Freire de Freitas, e nomear pan 
snbsUtQil-o o tenente António José de Oliveira. 
IfSo tendo sido eleitos, como pretendiam, membros do 



dois QltioiOB, teve e.voU» o dito Machado, e 9 o padre lanooeneii, 
que, entrando em segando escratinio com o capitSo Ignacio Soares de 
Bulhões, loi decidido a favor doeste com 11 votos contra 5. E por esti 
forma foram o presidente, secretario, e cinco membros do govenw 
provisório nas pessoas dos referidos, que sendo publicadas dentro do 
paço d'este conselho para os cidadãos que se achavam reunidoe, aoei* 
taram a referida nomeação, e logo n*este mesmo acto achando-se pre- 
sentes todos os eleitos, á excepção do terceiro membro que reside m 
arraial de Meia Ponte, lhes foi apresentado um livro dos Santos Evan- 
gelhos pelo presidente doesta camará, o dito alferes Domingos Lopes 
Marques Fogaça, no qual pondo suas mãos direitas prestaram o jon- 
mento seguinte : « Juramos aos Santos Evangelhos veneração e resptílê 
á religião catholica de Roma, obediência ás cortes geraes e consti- 
tuintes da nação portd^eza, de observar e manter as leis existenlea, 
e tudo o que pelas ditas cortes fòr determinado, afim de manter a 
união dos reinos unidos, obediência, adhesão e respeito a el-rei cons- 
titucional o Senhor D. João VI, e ao seu augusto filho constitucional o 
principe regente do Brasil, por uma maneira legal, e sem prejuizo d'esla 
reino do Brasil, assim na conservação do mesmo augusto senhor, 
como centro do (loder executivo, como também dos direitos adquiridos 
pelos seus habitantes. » E n'este mesmo acto esta camará deu posse 
aos sobreditos presidente, secretario, etc, do governo de toda esta 
provincía ; deliberando outrosim que se fizesse as devidas i)articipa- 
çOes aos chefes das corporações eiveis, niililai-es, e clero, para pres- 
tarem juramento em forma de obedecer e guardar tudo quanto pelo 
dito governo provisório fòr determinado a bem do serviço nacional, 
praticando os ditos chefes coip os seus subordinados o mesmo jura- 
mento, devendo o mesmo governo tomar a si as mesmas participações 
para os julgados da provjncia. E para constar mandaram lavrar esta 
auto, em que se assignaram a camará, o presidente, o secretario, e 
mais membros do governo que se achavam presentes, eleitores, e os 
cidadãos que assistiram a este acto. Eu José Bento Bueno da Fonseea, 
labellião e escrivão da camará, quo o escievi« (Seguem-se as as- 
signaluras. ) 



— 151 — 

governo o Dr. Manoel Anlonio Galvão, o coronel An- 
tónio Pedro de Alencaslro e o capitão Gabriel Gelulio 
Monteiro de Mendonça, despeitados por isto, constitui- 
ram-se centro de um pequeno corrilho, que de partido 
não merecia as honras, para promoverem a queda do 
governo eleito e empolgarem o poder. 

Convencido o governo provisório, que se machinava 
contra sua existência, demittiu a Galvão das funcções de 
juiz de fora, e consliluiu-se em tribunal judiciário, pa- 
ra tomar conhecimento dos factos por meio de devassa. 
O traslado d*esle celebre procedimento judiciário foi rc- 
mettido á corte, e deu lugar ao aviso de í8 de Julho de 
1822, que mandava recolher á prisão os três turbulen- 
tos c ambiciosos: mas, quando este aviso teve de ser 
cumprido em Setembro, nem Galvão nem Alencaslro es- 
tavam em Goyaz; Gabriel Gelulio era o único que alli 
existia: foi preso c remetlido para a corte. 

Em Agosto o governo provisório deu as ordens para 
a eleição dos deputados á constituinte, e sahiram eleitos 
o padre Silvestre Alves da Silva, natural de Trahiras, e 
hoje ainda vigário deJaraguá, o qual foi tomar assen- 
to, e o sargento-mór Joaquim Alves de Oliveira, que se 
deixou ficar na província como membro do governo pro- 
visório. 

Vimos a maneira por que foi no norte installado um go- 
verno provisório, a cuja frente secollocára o ouvidor da 
comarca da Palma, Joaquim Theolonio Segurado. 

As vistas do padre Luiz Bartholomêo, promovendo a sua 
creação, não eram outras senão a independência do Brasil; 
a simples substituição do governo pouca garantia oITerecia 
aos principios constilucinnaes, embora o rei jà os tivesse 
aceitado e jurado, sem uma mudança radical na adminis- 



— 152 — 

tração om todos os seus ramos ; a sabida, pois, de Sampaio 
era apenas o primeiro embaraço que se removia. 

Segurado comprehendeu perfeitamente que este era o 
fim á que attingiam os promotores do movimento ; e,aves80 
a toda idéa de emancipação politica, frenético apologista 
da união dos três reinos, collocou-se á frente do governo 
de Cavalcante, para servir à sua causa. Elle mesmo cbegoa 
a confessal-o, dizendo que o governo de Cavalcante seria 
contra D. Pedro^ se elle aceitasse a coroa do Brasil. 

Quando a junta provisória officiava ao secretario de es* 
tado, Luiz Pereira Nóbrega de Sousa Coutinho sobre os 
negócios do norte, e das apprelicnsões que linha, se expri- 
mia assim : 

« Cumpre a esta junta ponderar a V. Ex. que, tendo 
Joaquim Tbeotonio Segurado, ouvidor da comarca de 
S. João das Duas Barras, installado em Setembro do anno 
passado um governo provisório em Cavalcante, arraial da 
mesma comarca, do qual se fez presidente, transferindo-o 
depois para Natividade, fazendo-se nomear deputado às 
cortes, partiu para Lisboa pela cidade do Pará, deixando 
recommenduda a conservação do mesmo governo, promet- 
tendo haver do congresso a sua approvação. Do Pará fez 
voltar algumas pessoas que levava corasigo, c novamente 
por estas reanimou ao referido governo ; e, não tendo esta 
junta certeza de que a província do Pará lenha adherido á 
causado Brasil, com justos motivos receia que Segurado, 
tendo n*aquella comarca fazendas, mulher e filhos, e sendo 
de ura génio ardente e emprehendeJor, senão tenha des- 
cuidado de solicitar do congresso lisbonense ordens, para 
que do Pará se envie Iropas a apossar-se doeste centro. » 

Com a retirada de Segurado, muitos dos seus correligio- 
nários politicos, conhecendo que tinham vivido iiludidos, 
abandonaram a sua causa,conservdndo-se alguns indecizos; 



— 1S1 — 



masô apilão Filippe Anionio Cardoso» que parece nlú tet 
eslado de inlerro accordo com Segurado, deu uma nova fei- 
ção aos negócios do norle, 

tfm decreto do governo provisório declarou desmem- 
brada de Goyaz a comarca da Palma, e conslilaida em 
província independente. A' corte foi mandado um depu- 
tado» para fazer constar ao governo central da resolução, 
cpie acabavam de tomar. Quasi todos os arraiaes do norte 
tinham adlierido a esta separação, mas ninguém confiava 
no futuro, embora sentissem a necessidade de semelhante 
providencia. 

Quando a junta interina de Goyaz ofQcíou à camará da 
Palma dando parle do que li n lia havido na capital desde 30 
de Dezembro de 1821 até 7 da Janeiro do ânno seguinte, e 
a convidou para entrar na communlião, de que estava 
separada, teve cm resposta o seguinte officio: 

« K Gamara doesta vilta de S. João da Palma e sua co- 
marca acaba de receber o oíDcio que por V. Ex, Ilie foi 
dirigido com data de 7 de Janeiro do preseníe anno, no 
qual nos annuncia a instatlação daeicellentisâima junta ad- 
ministrativa d 'essa provi ncia* cujas interessantes noticias 
de ha muito desejavam, para com ella manter entre os 
povos a paz e a união que deve representar na regeneração 
politica da nação- A demora que houve entre os povos 
goyanos em sacudirem o jugo que os opprimia» e abraçarem 
a nossa causa, fez com que os povos d'esla repartição no es- 
paço de tempo que viveram separados conhecessem a ne- 
cessidade que tinham de um go verso no centro da sua pro- 
víncia pela longitude de mais do 1 'lO léguas que dista d'esla 
à essa eapit;d,por cujos princípios se dividiu; e,âssim como 
Sua Mageslade mandou fazer a divisão por justiça, lambem 
o fazia pelo governo se a capitania tivesse reddilos para 
esêe fim ; porém agora que essa despeza deve Gear pela 
TOMnnxvni, p. ii. âO 



— 154 - 

metade, por se dimioairem maítos empregados, que 
▼iam tão somente de dar prejaizo à fazeoda real, bojada 
naçSo.parece não serem pesados aos po?os os dois gofemos 
pela commodídade e felicidade qae d'elles podem resultar e 
pela antígaidade do d*esta provinda, não pôde ter lugar a 
reunião pretendida por VV. Exs., muito principalmente por 
estarem estes negócios affectos a Sua Magestade e ás cortes, 
para onde já mandámos o nosso deputado, que sahínno 
dia 6 de Janeiro do presente anuo ; e por estes tão rele- 
vantes principios não podemos e não devemos dar solucfo 
ao officio de VV. Exs. respectivamente aos eleitores da co^ 
marca para nomeação dos deputados. Esta camará satis- 
feita em ver VV.Exs., tão distincto promovendo em tudo 
com feliz acerto as red6asd*esse governo, e justificando-se 
cada vez mais beneméritos á pátria e á nação, lhes dá 
parabéns de tão feliz sucesso, rogando lhes da parte de 
Sua Magestade Constitucional, das cortes e do príncipe leaf 
hajam de cortar no seu feliz governo os passos que a este 
respeito fomentara o ex-general : e entre muitos que ser- 
viam tão somente de confundir os povos d*esta repartição, 
a fim de os precipitar n'uma guerra civil, foi crear um ou- 
vidor no julgado de Trahiras, que sem posse d*esta camará 
exercita francamente as funcções do seu ministério, cujo 
despotismo devem VV. Exs. cortar, para realisar-se a paz 
promeltida. Deus Guarde àV. Ex. Villa de S. JoOo da Palma 
em camará 6 de Março de 18i2. — Ilms. e Exms. Srs. da 
junta adminislraliva da provi ncia de Goyaz. — Manod An- 
tónio Bueno, — Theodorifi António da Silva. — Francisco 
da Rocha Bastos. — João Vidal de Attayde. y^ 

Não durou muito tempo a união entre os membros do 
governo do norte ; na falta de um cbefe intelligente, em 
breve tempo não havia ordem nas deliberações, unidade 
de vistas, harmonia edisciplina em cousa alguma ; os des- 






— 1S5 — 

coDteDtes jà appareciam em grande numero, e não pou- 
cos discutiam a necessidade da união de todos os povos 
da provincia sob as vistas protectoras de um só governo 
regularmente constituido. 

Nem os seus membros, nem o coronel Cardoso tinbam 
bastante força e prestigio para serem ouvidos e obedecidos. 

Compunha-se então o governo provisório da Palma do te- 
nente coronel Pio Pinto de Cerqueira, capitão Lúcio Luiz 
Lisboa, tenente José Bernardino de Sena Ferreira, Manoel 
Mathias Ferreira, Silvério José de Sousa Rangel, tenente 
Joaquim José da Silva, quasi todos influenciados pelos por- 
tuguezes João Baptista da Cruz Monte, e António Joaquim 
Torres. Descrevamos a situação. 

Em poucos mezes lavrava o descontentamento por to- 
da parte; a Palma era o foco das maiores desordens e 
animosidades. Os antigos chefes declaráram-se contra os 
novos, e a camará, intervindo na luta, tomou o parti- 
do d'aquelles. N'este foco de intrigas não queria viver o 
governo, e por isto transferiu a sede da intHulada pro- 
vincia de S. João da Palma, para Natividade. Este arraial 
foi elevado ao predicamentodevilla capital; extinguiu-se 
o foro civil da Palma, de onde se removeram os archi- 
vos. Uma força partiu da Natividade para prender os 
vereadores da Palma , que se foram refugiar em Ar- 
rayas. Nomeou-se ouvidor o tenente-coronel Pio Pinto 
de Cerqueira, sendo destituído Febronio José Vieira, que, 
na qualidade de juiz ordinário e presidente da camará, 
substituia a vaga deixada pelo fallecimento de João Es- 
teves de Brito, ouvidor nomeado por Segurado. 

A villa da Palma foi guarnecida com 60 praças. Dos 
sete julgados que tinham adherido á causa do norte, 
alguns, descontentes, voltavam as vistas para a antiga 
capital. 



- ISti - 



Depois dâ transferencia do governo para Nalividade, 
a villa da Palma e o julgado de Arrayas enlenderam tiio 
daver prestar obediência a poder algum, A desordem 
reinava, pois, na administração, entre o povo, no TòrOt^ 
na força publica- Os juizes desliluidos conlÍQuavam a 
fanccionar conjunctameate cora os novamente nomeados: 
alguns julgados obedeciam ao ouvidor Pio , oulros ao 
ouvidor Febronio; ninguém sa entendia, e muílo im^ 
nos os chefes, que suppunham dirigir a &i|uação. k 
idóa de uma republica, para cumulo de lodos os males, 
pareceu despontar em alguns espirilos exallados. 

1» Novembro de 1822 erae^taa feição dos oegocios 
no norte de Goyaz, quando o governo provisório julgou 
necessário tomar medidas tendentes a cbamar ao grémio 
da sociedade goyana essa porção de seus babilantes, des- 
vairada por esperanças irrealizáveis, ejà prestes a en- 
tregar-s6 à voragem da guerra civil. 

O governo provisório ia proceder em excellenle conjun- 
ctnra; mas muílo o preoccupava a attilude hostil que 
tomavam os povos do Pilar ; a elles, pois, se dirigiu prí* 
raeiro, despertando-Ihes os sentimentos de união. Feliz- 
mente em pouco tempo o Pilar não causava receioâ : a 
calma e os sentimentos de ordem tinham dominado os es*- 
pirites, 

A. questão da Palma parecia um pouco mais grâve : afim 
de chegar a uma solução, o governo provisório reuniu-se 
no dia 13 para deliberar, depois de ter ouvido sobre a ma- 
téria o padre Luiz Barlbolomèo Marques, tenente AnUmio 
Rodrigues Fraga, o cirurgíâo-mòr Bartholomèo Lourenço 
da Silva^ coronel Alexandre José Leite de Cliaves e Mello» 
sargen to -mór António .rose Ramos Juba, coronel Francisco 
Xavier Leite« desembargador António José Alves Masqnil^ 



— Ia7 - 

Pèdfo Gomes Machado» padre Lucas Freire de Àndrada, e 
oulros cidadãos respeitáveis por suas luzes e virludes. 

Com parecer escriplo de lodos os cidadãos, cujos nomes 
ficam mencioaados, e depois de disculidos os pon- 
tas da grave questão, que não podia por mais tempo ser 
addiadâ^ assentou-se qae o melhor arbilrio era ir ao norte 
um dos membros do governo ; e n*essa mesma occasião foi 
designado o padre Luiz Gonzaga de Camargo tleury. Era 
uma missão de paz e concordiu, que melhormente podia 
ser desempenhada por um sacerdtíle. Em il de Novembro 
Uie foram dadas as precisas instrucções (91). 



(01 J Inslnicçòes dadas ao Padre Luiz, Gonzaga de Camargo 
Fleiírj,— Quando au primeiro gtiio de liberdade constilupional 
at^uirms das províticms d'csLe reino do Brasil, dc^ivíando^se do «;eu 
necessário ceiUro, adlienram ao remo de Portugal » qu^mdo parles 
íníegninLes do unia mesma províneia, segundo o eiientplo d*esEa 
desunií\o, também se julgaram ct>m direito, a seu arbitriOp de se 
desliga rena de suas eapilacs, e assumirem a calejo rm de pro- 
vi nciu, espera va-se r[ue o soberano congresso de Lisboa* i Iluminado 
e patriolico, pesando em recta balança os direitos doeste reino do 
Bnisil, lijsesse que suas províncias e as partes disi^ideotes conver^ 
gisse m ao seu nece^ssa rio c e n l ro d c re u n i A o : m as sue cesso s pos- 
teriores desmasCiírando o maehiaveíico proceder dos demagogos, 
qae preponderavam huá cortes de Lisboa Ji/.eram que o Brasil doscon* 
tkdo reassumisse os seus direitos; e, possuindo no seu seio o mais 
amável dos princípes, o meimo berdeiro da monarehia, depositasse 
nas suas reaes màos a sua causa, ebamando-o seu defensor pet'^ 
petuo* As províncias meridionaes se eolfigam/oos suces^^os desas- 
trosas da Babta d^^sperlam as do norte, e quasi lodo o llrasil pro- 
damn a sua independência e a defende. Uma assembléa geral já 
se convoca no Brasil, tudo annuneia a futura grandeza com que 
este império vai tomiir lugar entre as grandes [lar-ues do mundo; 
e, quando tadaii as provi neias trabalbani para a causa da un^o, sii 
raúya^ contemplaria nn silencio a dis^^idoncia do uma de suas cu- 
m»reas ' 0% goyanos deixariam de ser brasileiro* se n4o forcejas- 
sem para a faier entrar no seu de^er. E\ pois, fundada n'eslu 



— 158 — 

Para acompanhal-o em tão importante diligeiíGia fonai 
designados o coronel Alexandre José Leite de Cbafes, eo 

principíos que a junta pro? ísoria do go? eroo, apoiada em muitas 
portarias expedidas pela secretaria de estado dos negócios do reino e 
da guerra, e mesmo prefendo a responsabilidade qtielKieímpfte o 
decreto do i« de Agosto próximo passado, nomeou o Cxm. e Revm. 
Sr. padre JUiiz Gonzaga de Camargo Floury para ir á comarea 
de S. João das Duas Barras, outorgando-lhe plenos poderes^para 
em nome da mesma junta fazer quanto podesse, par»moTera 
dita comarca a abraçar a causa geral do Brasil, e íorlifiear um 
ponto no rio Tocantins, que julgou mais conveniente para impe- 
dir o ingresso de tropas que possam vir das pro? incias (ciyoc 
sentimentos políticos ignoramos). Ajunta do governo da provineía 
de Goyaz aproveita esta occasiao para convi.lar os povos d'aquella 
comarca a reunirem-se a esta capital, encarregando ao menciona» 
do membro de promover esta reuni&o por meio de persuasOei, 
providenciando tudo do melhor modo que lhe suggerír o seu dia- 
oemimento e patriotismo, o segundo os artigos abaixo Inu-' 
oriptos. 

!•• Proclamará aos habitantes da comarca de S. JoAo das Doas 
Barras, para que abracem a causa geral do Brasil, reconheçam a 
aeciamem a S. A. Real como chefe constitucional dos habilaatoa 
do Brasil, seu defensor pçrpetuo, o n'ollc chefe do poder exe- 
cutivo, prestando juramonlo de o defenderem o a independência 
d'es(e reino. 2.^ Fará lodos os esforços para hem forliílcar o pon- 
to que julgar convenienlo, para impedir qualquer tropa que de 
outras provindas queira entrar para esta com ordem de S. 
A. Ileal. 3.^ Pelos arraiaes por onde passar ouvirá aos povos, son- 
dando com cautela o espirito dos mesmos, propondo pessoas pan 
commandantcs, ou l)omeaI-as inlerinAroonlc,'c dar parte, para se 
passara competente portaria, as pessoas que achar mais suflicien- 
tes, ou que se mostrarem adherentes á causa do Brasil. 4. o Despa- 
chará por si os requerimentos que lhe forem apresentados de ne- 
gócios particulares, e sobre os negócios públicos de maior ponde- 
ração remeltcrá com o seu parecer a esta junta pelo correio. K* 
Recommendará aos commandantes dos arraiaes a effectividade dos 
correios, devendo infallivelmente expedir um em cada mez, pela 
qual communique a esta junta o progresso dos negocies da sua 



\ 



— 159 — 

sargenlo-mórJosé Anlonio Ramos Jubé, auxiliados de uma 
escolta de 22 pragas da companhia de dragões e 16 da 
de pedestres. 

incumbência, e lhe sejam transmiti idas as dclerminaçòes de S. 
A. Real, e as noticias da côrtc do Rio do Janeiro, licando o 
melhodo estabelecido, taxando certa quantia para o sustento 
dos correios, ou dos pedestres, conforme fòr mais conveniente. 
6." Promoverá a reunião d'aquella comarca com esta, procurando 
que se sujeitem As legitimas auctoridades, tudo por meios brandos 
e políticos. 7.0 Communicar^sc-lia com a camará da villa da Pal- 
ma. 8.® Depois de conseguida a reunião, apresentará em pr(»jccto 
as medidas que lembrar para a felicidade publica, as quaes se- 
rão remettidas a esta junta, para a mesma levar á augusta pre- 
sença de S. A. Real, conferenciando com a camará, e auctorida- 
des d'aquella comarca. 9.° Conseguida a reunião dos povos, de- 
morar-se-ba no lugar que parecer mais a propósito, ató que se íirme 
a mesma, e se obtenha do S. A. Real as deliberações sobre os 
projectos que á sua augusta presença forem levados. ^0.* Mandara 
assentar praça de pedestre á aquelles que achar babeis, mandando 
fazer as declaraçi^es, que remeticrá por cópia, para se lhes abrir 
o competente assento nos livros da vedoria e do quartel, e tam- 
bém mandará dar baixa á aquelles que a merecerem, procedendo 
as formalidades prescriplâs pela lei. 11.® No caso de precisar de 
mais soldados da companhia de dragões, os poderá chamar dos 
destacamentos mais vizinhos, supprindo-os com milicianos, c par- 
ticipando logo a esta junta, para providenciar. 12.o Em ultimo caso, 
e parecendo-lhe indispensável, proclamará em nome de S. A. Real 
perdão para todos os individuos que se passaram das compa- 
nhias de dragues e pedestres para a tropa crcada por aquelle 
illegal governo, logo que se reunam aos seus corpos, e se apresen- 
tem nas suas legitimas praças, participando d'esta medida e do seu 
resultado a esta junla, para fazer subir ao conhecimento do mesmo 
augusto senhor, pedindo a sua real approvaçâo. 13.** Encarregará 
ao escripturario da contadoria, José Joaquim de Almeida, nomeado 
para as escriplas da fazenda publica, as relativas á secretaria, po- 
dendo nos seus impedimeolos chamar algum escrevente hábil, 
preferindo alguns dos cadetes e soldados da sua guarnição, cuja 
boa conducta seja reconhecida. 14.^ A incompetente applicaçâo dos 



— iBO — 

Effectivamente no dia 15 de Novembro partiu o padre 
Gonzaga cheio de esperanças na sua boa estrella, e confiado 
na justiça da causa, que ia advogar. 

Por onde seus passos se dirigiram encontraram as melho- 
res disposições em favor da uniãi^com a capital; por toda a 
parte foi aconselhando os povos a prestarem juramento de 
fidelidade ao príncipe regente, que o próprio governo da 
Natividade acabava de proclamar regente e defensor per- 
petuo do Brasil por insinuação de José Bernardino, que 
tinha sido mandado à cõrtc como representante dos inte- 
resses da causa do norte. 

O coronel Cardoso, que se achava «m Arrayas, rece- 
bendo gazetas da Bahia, relatando a marcha que seguiam 



dinheiros públicos feita pelo illegal governo oAo servirá de obste* 
culo para a união, c só S. A. Real decidirá sobre este objerlo, qoe 
deverá ser levado ao seu real conhecimento. 15* SeopoTod't- 
quella comarca quizer adherir A causa geralmente abraçada, e 
também quizer a reunião da comarca, e fòr por algum individuo 
perturbada esla resolução, o fará prender e mandará foraiar^lbe 
culpa, para com cila ser remetlido a esta capital, e d*aqui á corte do 
Uio de Janeiro. H\° Caso, poróm,se nau queiram reunir osd*aquella 
comarca (o que não ú de esperar), se firmará no lugar a que hou- 
ver chegado, fazendo por conservar o ponto que houver ganhado, 
e esperará a decisão de S. A. Kcal, não se poupando em fazer-lhot 
conhecer o estado do Brasil, e o interesse que ao mesmo resulta 
da geral união do seus habitantes. 17.» Dará parte a esta junta de 
todos os negócios da comarca que merecerem altençáo. Espera 
finalmente esla junta que o Exm. membro empregará cm prol da 
causa geral do Hrasil e da provincia todos os poderes que lhe são 
conferidos, assim no cumprimento do que se acha trnnscripto. 
como em todos os casos que occorrerem, providenciando com a 
prudência e discernimento que lhe é natural. Goyaz, 11 de Novem- 
bro de 1822. — Álcaro José Aarier.—José Hodrigues Jardim. ^Joéo 
José do Couío Guimarães, ^ígnacio Soares de Bulhões. — Raymun* 
doNonaío Hyacxntho. 



— i6Í - 



negócios da índepeadêncíã, as remetleu ao club da Nafm- 
dade, e sem perda de íempo m dirigiu ã casa do jaif 
ordinário , onde re unindo os seus amigos, no dia 1*' de 
Jaoeiro de 1823 fei reconhecer a regência do Imperador* 
Jà n'esse tempo era conhecido em Arrayas o decreto de 
amnyãtiade 18 de Septembro de !82'2, e se sabia que 
Gonzaga ia em missão ao norte, e eDContrãra adhesoes 
sinceras em Ioda a parte à que chegira. 

De Arrayas seguiu o coronel Filippe Anionio Cardoso 
para Cavalcante, onde cnconlrou já uma parle da expedi- 
ção do padre Gonzaga, que u precedia nas marchas. O 
coronel Alexandre alli dispunha os ânimos para o reconhe- 
cimento da causa nacional, e juramento da nossa indepen- 
dência, acto que de facto teve lugar a 20 de Janeiro. Depois 
do acto do Juramento o coronel Cardoso, íasendo-se órgão 
da povo requereu e fez assignarum protesto contra a união 
à apitai, porque, dizia elte, essa homenagem devia ter 
higar, mediante ordem do Imperador, visto como tinha o 
goverao da Natividade consultado o minislerio sobre o 
seu procedimento. 

No dia 20 chegou Gonzaga a Cavalcante, e sabendo do 
|)rocediinouto de Cardoso, na forma das snas instrncções 
mandou -o prender, e remelter para a capital. Depois d' isto 
seguiu para Arrayas, onde soube que jà alli procedia o 
ouvidor Febronio á uma devassa contra o club da Natividade 
por ordem da camará da Palma, que julgou assim dever 
proceder fundando-^e no atiso de li de Novembro de 
Í89S (92). 

(92) Pela ligoreBa ol)ríg«fâo que tem «slâ camftni de vigiar sobre os 
tlemagugos,^ ^innrchistas, seus agenles e enitésarJos, na fÓrma da pdr- 
iirift de 11 de Ni>v4?mbro do anuo padsudo, eipedjda pefa secretaria 
f «liado, qtie vai remettida a V. S. por eépía, á xwth da qual, pela 
ola%âçã0 que lambem llie loca, déve nmndar tavTsr editae^ e i^iroce- 
TOMO XXV JUp p. lU 21 



— 169 — 

Proaegoindo Gonzaga na soa marcha» qne se pôde -. ^Har:- 
tríumphal, á21 entrou na Nafmdade» e em principio de 

der a uma rigorosa devassa, afim de se conhecer se n^esta oomarea 
eilstem pessoas de um partido tSo contrario á vontade de todot os 
povos^ que só servem de manchar a honra de tio briosos comaxtios; 
e perturbar, a boa paz e união que deve reinar entre todos pela satl^ 
hi^Ho de termos um imperador que se intitula nosso defensor.... Oqoe* 
espera esta camará V. S. cumpra com a exacta promptidio do cos- 
tume. Deus guarde. Arrayas em camará, 16 de Fevereiro de ISIS.— 
Miguei Esteves de Brito. —Manoel António Bueno. ~ Frnctuoso Banos 
Jubé.— J(^ Vidal de Athayde. — Illm. Sr. ouvidor pela lei, Fdntni» 
José Vieira Sndré. 

Portaria de 11 de Novembro de 1822. — Tendo-se fètianeiÉe 
descoberto pelo brioso e leal povo e tropa doesta corte e peloa proon-. 
radores geraes, no dia 30 de Outubro, uma facção occulta c tenebron 
de furiosos demagogos e anarchistas, contra quem se está devassando 
judicialmente, os qoaes para se exaltarem aos mais lucrativos i 
gOB do Estado, sobre as ruínas do throno imperial, ousam, ( 
com o maior machiavelismo calumniar a indubitável constitudoMl*; 
d|ide do nosso augusto imperador e dos seus mais fieis ministros, iir 
cutíndo nos cidadãos incautos mal fundados receios do velho deqy- 
tismo, que nunca mais tornará, os mesmos que com a maior peHlília 
se serviam das mais baixas e nojentas adulações para pretendefcm 
illudir a vigilância de Sua Magestade Imperial e do governo ; e, con- 
stando ter sido um dos prévios cuidados dos solapados demagogos pr 
nhar partidários em todas as províncias, para o que espalhavam emis- 
saríos que abusassem do zèlo que ellas devem ter pela sua liberdade 
constitucional, liberdade que Sua Magestade imperial tantas vezes juros, 
e que tanto tem promovido com todas as suas forças, como é patente 
ao mundo inteiro ; tendo já o mesmo augusto senhor conhecido os 
traidores e seus perversos e manhosos desígnios com que se propo-' 
nham plantar e semear desordens^ susto e anarchia, abalando igoal- 
mente a reputação do governo que, rompendo assim o sagrado élo qoe 
deve unir todas as províncias doeste grandioso império ao seu centro 
natural e commum união, d^onde somente lhe pôde provir força, pros- 
peridade e gloria : manda pela secretaria doestado dos negócios doim- 
perio que os governos e camarás das provincias, a quem esta fòr expe- 
dida, mandem sem perda de tempo vigiar e descobrir.com todo :o 



— lea — 

Abri! o Club estâva dissolvido* A sua missão tinha concluído, 
e para maior desengano dos apóstolos da desunião José 
Bernardino Toltava da côrle» sendo portador da Leruiinante 
portaria de i3 de Junho de 1823, que desapprovava a ins- 
tallação do governo provisório da Natividade, e seus actos 
subsequentes (93;. 

Em 23 de Abril de 1823 congratulava -se cooi a provín- 
cia o governo de Goyaz, por ter-se realizado a união dos 



esmero e actividade quaesqfuer ramificações doeste infernal partido, 
indagando quaes sejam seus emissarioi; |>or meio da mais rigoroM de- 
vassa, e logo que cslejam siiíricientemeíile illust radas a este r*3íip€itô, 
tomem immfid ia lamente com cautela e energia todas e qoaeaquer pro- 
videncias qne exigir a p;iz e socego da provinda o a sa!va^-Io do Es* 
tado, islo debaixo da mais rigorosa responsabilidade ao imperador e á 
oaçâo, c de todo o seu justo procedimento darào conta pela compe- 
tente secretaria distado, para subir tndo á augusta presença de Sua 
Magestade o rniper-idor. Palácio do Rio de Janeiro, 11 de Novembro 
de 1822.'— Josí* Bonifácio de A^idrada e StVra, 

^a devassa tirada pelo ouvidor Febronio foram pronunciados o 
teuenle-coríiDel lio Pinto de Cerqueira, capitão FiHppe António Car- 
doso, o alferes António Joaquim Ferraz, o capitão Jo^o Daplista da 
Cnu MoiHe, Silvério José da Silva RangeU ^ tenente José líernardíno 
de Senníi Ferreira, o capitão Lúcio Luiz Lisboft, o tenente Joaquim José 
da Silva e Vfanoel Matliéos Ferreira, 

(93) iloyanosí Está firmada a nossa integridade e representação po- 
titicn : dií3$olveram-se as nuvens que ofusca vam a nossa gloria : cahiram 
m barreiras, que entre nos e nossos irmàos linba levantado a mais 
ítti^vidd fdaucia, e sustentara o macbiavclijãmo ; rasgou-se a venda e 
já boje os goyantfò e polmenses formam uma sú família. Já a eslrelk 
que no invejado estandarte ílesi^^tia a nossa provincta brilha em toda 
a plenitude da sua iwil Sem ver ter-se uma sij gota de sangue goyano 
e palme use reunlram-se e de mãos dadas, só eucíiram como inimigos 
os iuinngOB de Pedr0f« e da causa nacional ^ e da independência, que 
é o paládio da nossa gloria, O monstro que soprava o facho da discór- 
dia, raordendo-se de raiva, precípitou-se no Averno I e a doce paz* 
que espavorida havia fugido dm nossos lares, voltou saudosa a espa- 



— I6Í — 

poTôs, iêm qtie para isto tivesse sidí5 predso ierramar" 
uma sò gola de saogoe (94). 

Finda a soa commíssao, voltou á capital o padre Goo- 
zaga em Dezembro de 1823, e para mais consolidar a 
obra da udíIo foi mandado ao norte o brigadeiro Cu- 
nha MattoSj que acabava de chegará provincia oaqoa- 
I idade de commandante das armas. Façamos agora mu 
pequeno retrocesso. 



Ihtf DO noisso semblante o riso e a alegria. Ob praierl oh glciríi! E a 

que devemos tanta venliira senão á eíDcacLa d^esaas grandes púãv 
como é para bem de UkIos, dizei ao povo qu^ tko?— Paiavras do< 
qm a Providencia, que eobre- nós vigia^ proferiu pelo di^io d^esie 
heróe, que do.s dossos cDrnçdes impera. Viva o impêrajdorl Tii^a 
fousULuiçãoí Viva a indej^endencía 1 Viva a uníilo do povo goiano í 
Gofai, 25 de Abril de 1S23*— ÂMignada a juntau 

(94) Tendo subido A augusta presença de Sua Mageslade o ioipfr» 
rador m representações que llie tém sido dirigidas por pnrie do ^ 
vemo e arraial da IVatividade, díi província de floyaz, parUcipando nlo 
B& as razões principaes que deram origem á insLalláç^o d*aquelle ^ 
verno, mas também os seus procedímeulos relativas á conservaçi» di 
tranqoillidade publica € as necessárias queixas contra o antigo flK 
venio da província. O mesmo senhor, em resposta aos sobredilot dÊ- 
cios, manda pela secreta ri a doestado rios negócios do império dâ 
ao mencionada gavcrno^ para sua intelligencia, que o^ se i 
spprovar gemelhanle installação e mais actos subsequentes, nlo por- 
que julgue que os indivíduos de que se compõe o dito governo aejtm 
destituídos de sentimentos patrióticos e honrados como Heis brasilei- 
ros, mas por ser a dita instai laçâo contraria ás leis, que probibcm 
multiplicidade de governo em uma s6 província, íicando na certesa de 
que, achando^se actualmente a assembléa geral constitotnte e letltli* 
Uva discutindo a proposta da organisação dos governos pmvtQciM 
doeste império, brevemente serão transmíttidas as ordens ronvenienics 
sobre o que a mesma assembléa deliberar a este respeito, tendo | 
muito recoDimendado a união e tranquillida9e doi [lovos^ para i 
muito contribue o exemplo da prompta e exacta execução das leíi e 
ordens do mesmo augusto senhor. Palácio do Hio de Janeiro^ 33 4e 
JuxLbo de 1820.^/of(f Bonifácio âc Andrada e Silva, 



— 165 — 



A' 2S de NoTemI)ro de 18â2se soube em Goyâzque 
o Sr. D. Pedro T tinha sido aíxlaraado imperador do 

I Brasil em 12 de Outubro, O coalea lamento foi geral- 
Nas Doites de íá6, %1 e 2^ esteve a cidade illamioada, 
e no ultimo dia canlou-se na caihedral um solemne ÍV 
límm em acção de graças. A junta do governo provisó- 
rio deu coubecimenlo ao publico do facto i que motiva- 
i va tantos regosijos (95), ©, depois de levar ao tíirono im- 
perial seus votós de obediência em nome do povo goja- 
Qo, marcou o dia tG de Dezembro para o juramento da 
independência e acelamação do imperador conslitucíonal, 
e o dia l"" de Janeiro de i823 afim de ter lugar o mes* 
mo juramento aos demais disirictos, e a solemne recla- 
mação na capital* 

10 dia 16 de Bexembro amanheceu cheio de galas pa- 
ra a capital de Goyaz, Jurada a independência, tomou 
ajunta e o povo o laço bicolor. Seguiram-se as festas of- 
ficiaes do costume, e as que o povo sabe idear em suas 
■ maoifestações de patriotismo- 



I 



{95} Honrados goyanoâ \ Eiultaí de prazer \ O nosso r^íno foi ele- 
vado ao ultimo gráo de preeminência^ quando os inimigos da Dossa 
ventura lettUvam reduiíl-ct a colónia. Brasileiros^ o nosso nome vai 
ser glorioso nos annaes da Liislona* Km Eelra^ de ouro será gravado u 
dia ri de Outubro ; iiVlIe foi que o afortunado Colombo avistou o solo 
<[ue pisamos, n^este díâ acclamado o primeiro imperador constitucio- 
nal do Brasil e sen perpetuo defensor o Senhor D. I^dro deAlcanlara, 
o lieróe da nagão, o modelo dos príncipes, o exemplo do libera- 
lismo, Pedro o grande ! Brasileiros 1 A nossa felicidade é certa, a as- 
iÊmfatéa nos dará lets sabias^ e o oosso imperador dispensará fraça^^ 
coníonne os merecinieiUos, elouvor€3aos que marcíiarem firmes pelo 
caminho da honra. O nosso imperador não duvida perdoar aos que 
pretenderam romper os laços da nossa união, e arrependidos abraçam 
a nossa causa: vede o decreto de 48 do inest de Setembro! Brasilei- 
ros, sejaiijos unidos, porque seremos fortes. Viva o imperador, etc, 
Gofaz, 26 de Novembro de 1S22,— Assígntda a Junta. 



— 160 — 

Se as festas de 16 de Dezembro foram solemnes, as 
de 1** de Janeiro foram as maiores de que ha notícia 
na província. Te-Deum, grande parada, bailes, folguedos 
populares, illuminações publicas prolongaram o regosijo 
até o dia 6. 

O anuo de í823 correu plácido e sereno para a causa 
publica; acontecimento algum veiu perturbar a harmo- 
nia que reinava entre os povos. 

Em 20 de Maio de 18*24 recebeu a junta o projecto 
de constituição, e immediatamente expediu as precisas 
ordens ; afim de que no dia 22 todas as auctoridades e 
chefes das corporações concorressem à camará, para pres- 
tarem o devido juramento. 

Pelas 10 horas d'esse dia a junta, acompanhada do 
funccionalismo, se dirigiu aos paços do conselho, on- 
de solemnemente jurou-se manter e guardar como cons- 
tituição do império o projeto de U de Dezembro de 
1823, offerecido por S. M. o Imperador; e de tudo se la- 
vrou a competente acta. 

Depois de prestado o juramento, encaminharam-se todos 
[)ara a ciiUiedral, afim de renderem gr<iças ao Todo Po- 
deroso pelos benefícios que outorgava ao Brasil em favor 
<la felicidade de seu povo. Ao sahirem do templo, o corpo 
do governo dirigiu-se á praça, e ein presença da tropa o 
soo presidente proferiu o seguinte discurso : 

«< (^amaradas! Acabamos de jurar a constituição politica 
do império; cila é a base em que vai erigir-se a nação 
brasileira: ella vai firmar a nossa independência e a 
nossa felicidade. Este passo era necessário, para sermos 
pelas nações cultas reconhecidos como nação livre e inde- 
pendente. O dia 25 de Março foi o em que o nosso 
au gusto monarcha a jurou na capital do império : hoje 



- 167 — 

na de Goyazj aramos respeitar e guardar a mesma cons- 
tituição. E vós, camarada?, jurais o mesmo? Viva a 
nossa santa religião I Viva o Senhor D. Pedro I, impera- 
dor constitucional e defensor perpetuo do Brasil I Viva a 
constituição I Viva a independência ! Goyaz 22 de Maio 
de 1824. — Álvaro José Xavier. » 

Encerramos os acontecimentos de 1824 com o acto do 
juramento e posse do Dr. Caetano Maria Lopes Gama 
(hoje visconde de Maranguape) do cargo de presidente 
de Goyaz. Nomeado em 25 de Novembro de 1824, em 
14 de Setembro do anno seguinte assumiu as rédeas da 
administração. 

Desde essa época entrou a província em um novo re- 
gimen administrativo, sob os princípios líberaes consa- 
grados na constituição que nos outorgou o magnânimo 
fundador do império. 



FIM. 



TYP. DE PINHEiaO Òi C*, RUA SETE DE SETEMBRO N. 465. 



REVISTA TRIMENSAL 



DO 



INSTITUTO HISTÓRICO 

GEOGRAPHICO, E ETHNOGRÂPHICO DO BRASIL 



Ú* TRIMESTRE DE 1865 



ORIGEM E DESENVOLVIMENTO 

DA 

IMPRENSA 

NO 
RIO DE JANEIRO 

PELO 
DB. MOREIRA DE AZEVEDO 

Foi durante o governo do beneflco, prudente e zeloso 
Gomes Freire de Andrade, conde de Bobadella, que appa- 
receu no Rio de Janeiro a primeira typographia. 

Havia sido creada n'osta cidade em 1736 a Academia dos 
Felizes, associação protegida por Gomes Freire de Andra- 
de, celebrando a sua primeira sessão com trinta académi- 
cos, no palácio do governador, no dia 6 de Maio d'a- 
quelle anno. N'aquell:i épocha residiam os governadores na 
casa occupada actualmente pelo correio geral. 

Do seio da Academia dos Felizes .partiu a idéa daorga- 
nisaçâo da Academia dos Selectos, inaugurada no palácio 
do conde de Bobadella em 30 de Janeiro de 1752. 

N'essa era jà occupava o conde de Bobadella o pala- 

TOMOXXII, P. II. 22 



— 170 — 

cio que, pouco mais de meio século depois» devia re- 
ceber uma família de reis. 

Parece que o único Sm d'aquella associação foi cndeo- 
sar o capitlo-general Gomes Freire, visto como o que 
legou à posteridade foram pomposos elogios àquelle habil 
servidor do Estado. Mas, seja qual fôrojuizoque se faça 
d'aquella associação, devemos rL'conhecer que, creando-a, 
prestou Freire de Andrade bons serviços às letras. Trans- 
formando Richelieu a humilde sociedade de Valentim Con- 
cart em academia de França, encarregou a alguns escrip- 
tores de tecer-lhe elogios, porém não se nega por isso o 
serviço prestado às letras por aquelle ministro creando 
tão famosa associação. Se foi, pois, por desejar respirar 
os perfumes da gloria que o conde de Bobadella es- 
tabeleceu a Academia dos Felizes, e di^pois a dos Selectos, 
todavia concorreu elle d'esse modo para o progresso e 
civilisação de uma cidade que vivia oc culta sob o véo da 
ignorância. 

Era o Cí»nde de Bobadella tão zeloso pr olector das letras, 
que tornava-se pai dos jovens talenlDsos ; animava-os, 
araparava-os na vida dilTiGil e árdua do esludo. Porsua 
protecção pô:le José Basílio da (lania entrar para o semi- 
nário de S. José, e foi o braço forte e imponente d*esse fi- 
dalgo que conduziu à Europa o poeta brasileiro, que là 
foi tornar mais sonora e instructiva asna lyra. 

D'esse pequeno movimento litlerario excitado por Boba- 
della partiu a idéa da creação de uma typographia. An- 
tónio Isidoro da Fonseca estabeleceu uma ollicina typo- 
graphica, e n'essa oíDcina se imprimiram os folhetos se- 
guintes : 

1.** Relação da entrada que fez o Exm. e Rev. Sr. 
D, Frei António do Desterro Malheiros, bispo do Rio de 
Janeiro, em o primeiro dia do anno de 1747, havendo 



171 



sido seis annos bispo do Heino d^AngoU, d'ODde por 
nomeação de Sua Mageslatle a bulia pontifieia foi pro- 
inoviílo para esta diocese. Composta pelo Dr, Luiz 
Aulonio Rousado da Cunha, juiz de fora e provedor dos 
defnatos e ausentes, capellas e resíduos do Rio de Janeiro, 
na segunda ofljcíiia de Aotonio Isidoro da Fonseca. Anno 
de 1747. Com licença do Sr. bispo, em 4% 20 pag. numera- 
das, â excepção das licenças, que occupam duas, 

2.' Em apphiuso do Exm. e Revm* Sr. D* Frei Anlo- 
nio do Desterro Malheiros, digníssimo bispo desta cidade. 
Romance heróico in folio* 

Esle folheto nao tnencíona a data nem alugar da im 
pressão. 

3." C^llecção de onze epigrammas e um soneto, aquelles 
em latira oeste em portut;aez, sobre idêntico assumpto* 

Nào vem também declarada n'este folheto nem a data, 
nem a ofBcina d'onde sahiu, porém, comparado o lypo e o 
papel com o do primeiro folheto, se reconhece que tanto 
esse opúsculo como o segundo foram impressos nu 
mesmo estabelecimento* Accrcsce que, apparecendo estes 
êsertptos na mesma occasiao, sendo consagrados ao mesmo 
individuo, se um d*elles foi impresso aqui, é claro que 
os outros também foram. 

Eslas compnsiçõtís, mui raras hoje, são apreciáveis por 
serem o primeiro trabalho typograpbico feito no Rio de 
Janeiro, monumentos que provam a existência da pri- 
meira oflicina typographica d'esLa cidade e talvez do 
Brasil 

Ha suspeitas que sabiu d'essa ofScina a impressão 
cia n destina das obras : Exame de ArliUíeiros e Exame 
de Bombeiros, escriptas pelo tenente de mestre de campo 
general José Fernandes Pinto Alpoim e dedicadas ao sar- 



— 172 — 

geoto-mór de batalhas o capilão general do Rio de Jaoeiro 
e Minas Gomes Freire de Andrade. 

Na ohr^ Exéitne de Artilheiros vem indicada a impressão 
em Lisboa na oflicinade José António Plates em 1744. E' em 
4* pequeno, tem 239 paginas. Apezar de trazer todas as 
licenças do santo officio, do ordinário e do paço» foi man- 
dada recolher por carta régia de 15 de Julho de 1744 ao 
corregedor d'Airama de Lisboa, sob o pretexto de não se 
cumprir n'ella com a pragmática relativa aos tratamentos. 

A obra Exame de Bombeiros corre como impressa em 
Madrid na oíTicina de Martinezabad em 1748. E' em 4** com 
4V4 paginas, 18 estampas e o retrato de Gomes Freire 
de Andrade gravado por José Francisco Chaves. 

Comparado o typo de aml)as vè-se que é igual ou mui 
semelhante, que ha uniformidade nos frontispicíos d'csses 
livros, notando-se em ambos',escriptos com tinta encarnada, 
o nome do autor, do individuo a quem é dedicada a obra, 
o lugar da impressão, o anno, ele. C deve causar reparo 
esta uniformidade em obras que se dizem impressas em 
paizes diversos, visto como, examinando nós diversas obras 
d*aquelle tempo publicadas no mesmo anno, em diversas 
typographias, não encontrámos a mesma semelhança. Exa- 
minadas as cartas dirigidas ao autor, e que precedem ao 
texto da obra Exame de Bombeiros, vê-se uma carta do 
brigadeiro José da Silva Pars escripla no Rio de Janeiro 
em 15 de Julho de 1747, e comparada esta dÀta com a do 
livro deve causar algum reparo o ter sido feita a impressão 
em Madrid alguns mezes depois. Accresce qui», sendo o livro 
impresso em Madrid, o gravador do rdralo de Gom *s Freire 
foi José Francisco Chaves, nome que parece ser de artista 
portuguez. Ainda mais. Vem errado o nome do impressor, 
pois em vez dos nomds Marti nez Abad está escripto 
Martinezabad como se fosse um nome só. 



— 173 — 

E nlô deve causar reparo o nâo tar o alíbade Diogo 
Barbosa M.iòtiLido noticia da impressão d'essa obra, des- 
creveiifio-a como íiiaiiuscripla no lomo 4,* da Bi- 
bliolheca Lusitma, impresso cm 17591 <« Alem de que, 
diz o Sr* l)v. Cónego Fernandes Pinheiro, purmilliria o 
Símlo oflicio que um livro revestido das necessárias liconças 
tosm impresso em reino eslrangeiro e fóni das suas vislast » 

Explica-se a fraude d^essas impressões empregada pelo 
typograidio Isidoro da Fonseca aUendeiiilo-se que havia 
sido mal recebida em Lisboa a noticia da concessão de 
Gomes Freire de tístabtílecer-se aquotia ollicina no Rio de 
Janeiro, De feito durou pouco a officina de Isidoro da 
Fonseca ; mandou a còrlLi aboHl-a e queimal-a para não 
propagar iJéas que podiam ser contrarias ao interesso do 
Estado 1 

Não convinha a Portugal que houvesse civilisacao no 
Brasil ; desejando c*inservar 4'ssa colónia alada ao seu 
domínio, náo queria arrancal-adas trevag e da ignorância» 

O alvará de 5 de Janeiro ile Í785, referendado por Marti- 
nho de Mello, ministro da rainha a Sra, TK Maria I, mandou 
extinguir no Brasil as fabricas e manufacturíts de ouro, 
prata, seda e algodão a pretexto de haver em Portugal 
iguaes estabelecimentus ; seriam os infractores condem- 
nados à pena do moedeiros falsos, tuiitava-se a pfditiea 
delord Chatam, que opinava nao se permittisse nas co- 
lónias inglezas da America nem uma fabrica» 

Damelrupole nos veiu a lei urdenando que todo vassallo 
portuguez que possuísse mais de uraa fortuna mediana fossô 
reenviado para PortugaL 

Quem se animaria pois a abraçar qualquer industria no 
Brasil ; quem se esforçaria por adquirir fortuna tendo de 
ficar sujeito a residir onde ordenasse o governo? 

O que conseguia algum capital tratava de occulta-lo, não 



— ITi _ 

emprehendia construcções, não se utilisava conveniente- 
monte (Io dinheiro, nâo o empregava em beneficio do paiz, 
receandu-se do governo, que lolliia a liberdade industríait 
e chegava a querer contar as moedas que cada cidadão 
trazia na carteira ! 

Ninguém seguiu o exemplo de Isidoro da Fonseca, tendo 
sido extincta a arte de Gultemberg na terra de Santa Cruz 
pela fogueira do despotismo ; todos se receavam de ver 
arder suas casas se ousassem servir-se de typos da im- 
prensa. 

Passado o governo sombrio do conde da Cunha veiu o 
vice-reihado do marquez de Lavr.idio, que soube unir o 
poder com a ternura e a justiça com a humanidade. 

A pedi lo de seu medico o Dr José Henrique de Paiva, 
creou o marquez de Lavradio uma academia scienlifica, 
que celebrou a primeira sessão em 18 de Fevereiro de 
1772, no palácio do vice-rei,em presença d'este e de muitas 
pessoas gradas Foi o Dr. José Henrique de Paiva o primeiro 
presidente da academia scientiíica do llio de Janeiro e Luiz 
Borges Salsj[a(Io o primeiro secretario. 

\vanlaja(los serviços prestou esta associíição ás sciencias 
n.ilnraes ■-:. á agricultura ; tornou mais conhecidas na Eu- 
ropa as plantas do Brasil, e conlribuiu para a cultura do 
anil, cacáo, coxonillia o de outros productos. 

Korani publicados em Lisboa pelo ouvidor de Paranaguá 
Maniíel Taviues de Siqueira o bá os trabalhos d'esla asso- 
ciação 

José Basilio da Gama e Manoel Ignacio da Silva Alvarenga, 
com o auxilio do vice-rei e a protecção do bispo D. José 
Joaquim JustiniiiU) Mascarenhas Castello Branco, organisa- 
rain um a nova sociedade modelada pela arcádia de Roma, 
altrahindo a seu grémio todos os indivíduos instruídos do 
Brasil. 



— ns — 

Além de Basílio da Gama e Silva Alvarenga foram mem- 
bros disliticlos da nova academia denominada Arcádia 
Ultramarina os seguintes : Bartholomêo António Cordovil, 
Domingos Vidal Barbosa, João Pereira da Silva, Balthasar 
da Silva Lisboa, Ignacio de Andrade Souto Maior Rendon, 
Manoel de Arruda Camará, José Ferreira Cardoso, José 
Marianno da Conceição Velloso e Domingos Caldas Barbosa. 

No feliz governo de Luiz de Vasconcellos e Sousa en- 
contraram os poetas e litteratos a mesma liberalidade e 
protecção de que haviam gozado no vice-reinado de Lavra- 
dio. Houve então no Rio de Janeiro uma épocha de enthu- 
'siasrao e esperança ; animado o vice-r<íi Vasconcellos pelos 
sábios e litteratos creou a casa dos Passaros,que trinta annos 
mais tarde tornou-se o primeiro musêo do Rio de Janeiro ; 
assistiu em 178i á inauguração da aula de rethorica e poé- 
tica de Manoel Ignacio da Silva Alvarenga, poeta que 
começou a introduzir no Brasil o gosto da boa litteralura ; 
tt Talvez, diz o cónego Januário, que sem os esforços e 
lições de Manoel Ignacio não tivessem apparecido nas 
cadeiras sagradas do Rio de Janeiro os Frias, os Rodova- 
lhos, os S. Carlos, os Sampaios, os Ferreiras de Azevedo, 
os Oliveiras, os Alvernes e outros pregadores de nomeada, 
que, deixando os hábitos da antiga escola, abriram carreira 
luminosa aos que annunciam com mais dignidade e eíDcacia 
as doutrinas da nossa santa religião.» Por serem suase^tas 
palavras excluiu-se o cónego Januário da Cunha Barbosa do 
numero d'aqut)lles oradores. 

Favoríceu Vasconcelos as pesquizas de botânica de 
Frei Velloso, autor da Flora Fluminense^ cuja impressão 
ficou concluida em 18i3 pelo desvelo e protecção do pri- 
meiro Imperador do Brasil. 

Das mãos benéficas do Luiz de Vasconcellos passaram as 
rédeas do governo para as do violento e severo conde de 



— 176 - 

Rezende. Temendo a influencia dos homens intelligentes, e 
tendo desconfiança e receio das academias e associações lit- 
terarias, dissi»Iveu o vice-rei em 1 794 a academia creada no 
tempo do governo de Lavradio, mandando recolher à prisão 
os principacs membros, enlre outros a Manoel Ignacio e 
a Marianno José Pereira da Fonseca, que se conservaram 
encarcerados longo lempo sem haver processo, nem pro- 
vas de delicio. 

Uma ordem régia restituiu a liberdade às victimas da 
prepotência do vice-rei. Mas o terror abafara as vozes de 
todos, aniquilara as aspirações, produzira desconfiança, 
inquietação e tristeza ; era necessário esperar tempos mais 
felizes, de menos fanatismo o superstição, em que o pen- 
samento se podesse erguer e produzir o que fosse nobre e 
ulil. 

Napoleão o Magno, que agitou os povos, que qni:^ firmar 
seu estandarte em todas as capitães e formar do mundo 
um império para si e para os seus, tratou de conquistar 
Portugal, o que obrigou a corte portugueza a abrigar-se 
nas torras do Brasil. Começou então uma nova épocha para 
a colónia porlugiieza cia America ; foram abertos seus 
portos is nações do mundo, fic(»u estabelecida a liberdade 
de cominercio e <le industria, tornou-se a colónia sede da 
monarchia, e d'ella deviam partir as lȒis pari ovt^lho 
Portugal. Para consolidar o seu poder na America deu a 
casa de Bragança nova organisação á antiga colónia ; crea- 
ram-se diversas instituições, tribunacs, estabelecimen- 
tos úteis, academias, miigislratnras. exercito e mari- 
nha. Em 1808, no mesmo anno em que se franqueavam 
os portos do Brasil ao commercio das nações, cm que se 
creava uma cadeira [)ublica de scioncia económica no Rio 
de Janeiro, o conselho supremo militar, o archivo militar, 
a mesa do desembargo do paço e da consciência e ordens, 



— 177 - 

areal academia de guardas marinhas, a fabrica da pólvora, 
o erário régio, o conselho da fazenda, a real junla do 
commercio, q banco do Brasil e a escola aaalomica, ci- 
rúrgica e meílica. se estabeleceu a imprensa régia por 
decreto de 13 de Maio.. Eis as palavras dodocrelo : 

ít Tendo-me constado que os prelos, que se acliam n*esta 
capilal, eram os destinados para a secretaria de estado dus 
negócios estrangeiros e da guerra, e attendeodo á ne- 
cessidade que ha da oJHcina de impressão iVesles meus 
Estados, sou servido que a casa onde elles se estahtie- 
ceram, sirva interinamente de imprensa régia, onde se 
imprimam exclusivamente toda a legislação e papeis diplo- 
máticos que emanarem de qualquer reparlição do meu 
real servifo, e se possam imprimir todas e quaesquer 
outras obras, Geando interinamente pertencendo o sen 
governo e a administração à mesma secretaria. D. Ro- 
drigo de Sousa Coutinho, do meu conselho de estado, 
ministro e secretario de estado dos negócios estrangeiros 
e da guerra, o tenha assim entendido, e procurará dar ao 
emprego da oJBcina a maior extensão, e lhe dará Iodas as 
inslrucções e ordens necessárias, e participará a este 
respeilo a todas as estações o que mais convier ao meu real 
serviro. Palácio do Rio de Janeiro, em 13 de Maio de Í808. 
tt Com a rubrica do Principe Regente Nosso Senhor. " 
E* o nome de D- Rodrigo de Sousa Continho, depois 
conde de Linhares, que apparece no decreto creando no 
Brasil a imprensa régia. Foi o conde de Linhares o único 
homem da corte de D, João VI que comprehendeu as 
necessidades do Brasil. Vencendo as idéas mesquinhas de 
outros fidalgos, foi ellequem iniciou as medidas mais con- 
venientes, quem inspirou as melliores |n'ovidencÍas de- 
cretadas pelo príncipe regente. Mas pouco viveu no Brasil 
o babil estadista; fallec-eu em S6 de Janeiro de 1812. 

TOMO XXIX, p. 11. 23 



— 178 - 

Foi estabelecida a imprensa régia no paTimento térreo 
do prédio occupado actualmenle pela secretaria da jus- 
tiça, servindo Q'aquella épocha de morada ao conde da 
Barca. Para administrar a oílicina lypographica Toí creada 
uma junta directoria, composta do desembai^ador José 
Bernardes de Castro, José da Silva Lisboa, depois vis- 
conde de Cayríi, Marianno José Pereira da Fonseca, de- 
pois marquez de Maricá, Silvestre Pinheiro Ferreira, Ma- 
noel Ferreira de Araújo Guimarães e do couego Francisco 
Vieira Goulart ; recebendo cada membro da junta duzentos 
e quarenta mil réis de ordenado, tendo, porém, o the- 
soureiro, que era Marianno José Pereira da Fonseca, 
mais cem mil réis. Na vaga d'este entrou José Saturnino da 
Costa Pereira, que, como revisor de provas» recebia, 
além do ordenado, uma gratificação. 

Em to de Setembro dè 1808 appareceu o periódico Ga- 
zeía do Rio, impresso por ordamdo governo. 

Foi o primeiro periódico publicado no Brasil ; era em 
V e sabia às quartas e sabbados; a principio Toi re- 
digido por frei Tiburcio José da Rocha, depois pelo co- 
ronel Manoel Ferreira de Araújo Guimarães, e na vaga 
d*esle pelo cónego Francisco Vieira Goulart. Publicava a 
Gazeia do Rio os aclos, decisões e ordens do governo, a 
noticia dos dias natalicios da familia real e das festas da 
còrle, os acontecimentos principues da guerra que Na- 
poleão fazia a Portugal, e odes e panegyricos ás pessoas 
roaes. 

Receava se o governo da imprensa, e por isso man- 
dava publicar só o que lhe convinha. Fallando Armitage 
d'esta gazeta exprime-se assim : vi Não se inanchavam essas 
pagin;is com as elTervescencias da democracia, comaex- 
piV!U(ão de aggravos. \ julgar-se do Brasil pelo seu único 



— 179 - 



periódico* devia ser considerado como om paraíso terres- 
ire, onde nuncã se linha expressado um só queixume,!» 

Não havia, pois, liberdade de imprensa ; quem desejava 
imprimir qualquer mauuscriplo o apresentava anies com 
um requerimcnlo ajunta directoria, e sò depois do despa- 
cho ò que o podia imprimir ; se ú manuseripto dizia res- 
peito à religião j á legislação, ou à politica, era ajunta au- 
lorisada a manda-lo revur por pessoas de profissão compe- 
tente, dirigindo-lhes para esse eflfeito officioemnomede 
Sua Alteza Real, e exigindo o seu juizo eapprovaçfio por 
escripto, à vista da qual se mandava imprimir com as cor- 
recções necessárias, precedendo licença da secretariada 
estado. 

A real oflQcina lypographica recebia aprendizes, que en- 
travam ganhando cento e sessenta réis diários ; no fim de 
seis mezes era elevado o salário a duzentos e quarenta réis, 
e DO fim de um anno a quatrocentos réis ; o aprendiz, que 
não dava nem uma Tal ta na semana, tinha uma grati- 
ficação. 

Depois de permanecer algum tempo nas casas da ma 
do Passeio, foi mudada a imprensa régia para a rua dos 
Barbo nos, occu pando a casa próxima ao hospicio de Jeru- 
salém; e um dos membros da junta directoria, o desem- 
barçador José Bernardes de Castro, para residir perto da 
oíBcina, foi habitar em um sobrado da rua das Marrecas, 
tendo residido até anlao em uma casa da rua da Ajuda, 
onde se imprimiam as bulias da Santa Cruzada. 

Junto à imprensa régia havia uma olBci na de cartas de 
jogar pertencente a Jayme Mendes de Vâscoucellos, sendo 
mais tarde incorporada á frizenda nacional 

Possuia a oficina lypographica uma fundição de typos, e 
para se melhorar esse trabalho foi enviado a Europa um 
pensionista do Estado,que, estudando a arte de fundir typos, 



— 180 — 

voltou mestre ; mas, como lhe qnizeram dar am ordenado 
mesquinho, não sujeitou-se ao trabalho, e retirando para 
Lisboa estabeleceu là uma oflicina de fundição. 

A provisão de 14 de Outubro de 1808 ordenou aos jui- 
zes das aliandegas que não admittissem a despacho li- 
vros ou papeis alguns impressos sem que lhes fosse apre- 
sentada a competente licença do desembargo do paço, ao 
qual deveriam enviar uma relação de quantos entrassem e 
sahissem das alfandegas. 

Tal era o receio que o governo tinha da imprensa, que o 
intendente geral da policia Paulo Fernandes Vianna man- 
dou affixar o edital de 3a de Maio de 1809, em que decla- 
rava que, importando muito á vigilância da policia que 
chegassem ao seu conhecimento todos os avisos, annun- 
cios e noticias dos livros e obras que existiam à venda, es- 
trangeiras ou nacionaes, proliibia d'ahi por diante que se 
publicassem os sobreditos annuncios, avisos e noticias, 
sem que fossem vistos, examinados e precisamente ap- 
provados, sob pena de prisão e multa pecuniária, além 
das mais que impõem as leis aos que procuram quebran- 
tar a segurança publica, qualquer que fosse a nacionali- 
dade dos criminosos. Ordenou ainda que uma inquirição 
ficasse aberta para que se admittissem em segredo as 
denuncias, e se conhecessem e punissem os transgressores 
das suas ordens. 

Não havendo liberdade de imprensa no Rio de Janeiro, 
existindo uma única lypographia, e sendo por isso difficil 
a impressão de qualquer periódico, recorreu-se ao expe 
diente de fazer apparecer essas publicações em paizes es- 
trangeiros. Começou a publicar-se em Londres em 1808 
o Correio Brasiliense e em 1811 appareceu n'aquella capi- 
tal o Investigador Portugucz, periódicos que foram franca- 
mente admitlidos no Brasil e até indirectamente protegi- 



- 18! -^ 



dos por el-reip que os lia para ter noticia do que occorrid. 
O Correio Brasiliense duruQ d^sde Junbo de 1808 até 
1822, sahineloàiuz Yiole eoito volumes pelo menos; ape- 
zar de proliibido algmn U mpo no Rio de Janeiro, crâ lido 
sera reserva ate no próprio paço do rei» e, como jà dis- 
semos, foi mais tarde francamenlc admitlido, sendo por- 
mittida a sua venda e leitura. Mas em Portugal foi vedada 
mais de uma vez a circulação d'esLe perioilico ; a pri- 
meira proUíbirao foi em 17 de Selerabro de 18H, a 
segunda em '2 de Março deíSláe a terceira em iS de 
ilunho de I8i7, 

Era redactor do Carrdú Brmiliense o erudito brasi- 
leiro Hyppolito José Soares da Costa, que manifestou com 
á publicação d* essa revista mensal seu elevado ta- 
lento e variada instrucção, e advogou toda e qualquer idéa 
que parecia utit ao Brasil, concorrendo doesse modo para 
o engrandecimento e prosperidaíle de sua palria* 

Nasceu Hyppolito José Soares da Costa na cohnia do 
S;icramento em 13 de Agosto do I77i ; exerceu em 
Portugal diversos empregos quo divulgaram sua inlelli- 
gencia; porém, perseguido pela inquisição, foi pira Lon- 
dres» onde dedicou-se ao ensino de linguas estrangeiras, 
em que era versado, ecollaborou em liivei^osjornaesin- 
glezes. Fundou em ISOíiS a revista em portuguez intitulada 
iCorreia Brtmlien&e, Proclamada a independência^ foi cha- 
mado pelo primeiro imperador para occupar empregos 
no Brasil, porém o hábil escríptor nao qaiz abandonar 
a Inglaterra, e lã m<^smo recebeu do imperador do Bra- 
sil honras g uma pensão pecuniária, que lha íoi paga 
até 1 r de Setembro de 1823, èpochad'^ sua morte. 

Já expendemos tfS motivos da publicação de periódicos 
nos paizes estrangeiros, porém ouçamos o que diz Hyp- 
polito da t^>sla a esto respuito : 



— tm - 



^A diflSculdade de publiar obras periódicas no Brasil, 
jà pela censura prévia, já pelo perigo a que os redactotí^s 
se exporiam fallando livremente das acções dos homens 
poderosos, íez cogitar o expediente de imprimir seme- 
lhantes obras em paizes estrangeiros. A França e a In- 
glaterra furam principalmente os pontos de reunião d*e&- 
sas publicações desde a épocha em que a íaigiiia real pas- 
sou a ter a sua residência no Rio de Janeiro- Aberlo 
este canal, pôde dizer-se que se estabeleceu a liberdade 
de imprimir para o Brasil, poslo que nâo no Brasil » 

O Investigador Portugwz appareceu era Junlio de !8I I e 
findou em Fevereiro de 1819, contando no Mo noventa e 
dois números em cadernos mensaes ; foi fundado pelo 
Dr. Bernardo José de Abrantes e Castro, que associou-se 
com o Dr. Vicente Pedro Nolasco Pereira da Cunha e com 
o Dr. Castro^ brasileijo, formado na universidade de 
Edimburgí). Foi publicado o periódico sob os auspicies do 
condo de Funchal, eu tão embaixador na corte de Londres» 
que alcançou para esta publicação o subsidio annuat de 
cento e tantas subscripções equivalentes â somma de mil 
e sessenta francos pagos pelo governo do Uio de Janeiro, 
que mantinha em Londres esse jornal para combater as 
doutrinas do Cofreio Rrasilmue, até certo ponlo hostis à. 
Portugal. Em 1814 passou a redacção do Investigadora 
José liberalo Freire de Carvalho, que pouco e pouco foi se 
afastando da influencia do conde de Funchal e dando ao 
periódico côr mais liberal j então suspendeu o governo do 
Rio a pensão, mas apczar disto viveu o periódico até I8f 9. 
Supprimidri a publicação n*ess6 auno receberam os Drs* 
Castro e Nolasco 400^000 cada um do governo do Uio de 
Janeiro. 

Tornon-se notável este periódico não só pelos seas arti- 
gos políticos, senão pelo quadro synoptico que apreseulavaj 




— i83 — 



cada anoG descrê vendo a situação das diversos paizes da 
Europa- 

Efu 1808 puhlictíu José da Silva Lisboa um opúsculo tio 
Bio de Janeiro, inlilulado Observações sobre a abertura dos 
portos do Brasil; lambem foram publicados alguns ser- 
mões de vários pregadores. 

Em l8lo ap[>areceram impressos os irabalhos de Silva 
Lisboa iíitimlados Observações sobre a franqueza das fabricas 
e hidiisíria^ e Refutações das declamações contra o com^ 
ímrciú ingkz. 

Silva Belforl publicou o Roteiro da cidade do Maranhão 
ao fíio dê Janeiro ; e appareceram oulros folhelos. 

Em 181 1 imprimiu Oliveira Bastos o Roteiro da cidtuk 
de Santa Maria de Belém do Grão Pará pelo rio Tocanlim; 
e, além desta obra, sah iram da imprensa régia diversos 
alvarás ; a novella Choupana índia ; Opesperlador ou 
único meio de salvar a Ilespanha, obra iú um patriota 1h!S- 
panliol^ traduzida em porlugucz ; VeMal, Iragediu ; Sur- 
riada a Masseno; Nova Castro, tragedia ; Paulo e Ytrginia 
íiovella ; OCorso^ composição poética cm oitava rima; 
O Uruguay, poema de José Basílio da Gama ; O Comorcio 
das Ftíres por Bocage, e carta pastoral do Exm. e Rcvm. 
bispo capellão mor de 8 de Abril de 18H sobre a despensa 
de vários dias santos. 

Havendo uma sò lypograpbia e começando a aflluir 
muiio trabalho para essa oíficina, construiu se um prelo de 
madeirame para perpetuar a lembrança d'esla obra impri- 
miu-seum quadro com o seguinte dislico : « A* immorta- 
lidade do real e sempre augusto nome do Priíieipe Regente 
Nosso Senhor é dedicada a eslréa du primeiro prelo cons- 
Iruido na America do Sul, no Rio Ue Janeiro, no annode 
MDCCCrx. « 

Sâhiramda imprensa régia em 1812 as seguintes obras: 



- 1» — 

M lUm. e Exm, Sr. eomie de lânhmtê^ por 
Doel Ferreira de Áruijo Gaimaries ; ElemaUm de i 
por U-Croix tnidiBidos em portogoex por ordeB de S. A. 1^ 
por Fnuiciseo Cordeiro da Sílfa Torres ; Em 
pengmda$9qinMmra$dõnêrod4ttcUkídê$ênmte^ 
por J. C. P.; PkOoiopho por amar^ oo Carioê dê doU mm m m 
ie$ apaixonadoã e virtuotOÊ^ dois Yolomes ; Epieeàiú á dl»- 
phnvdfnarUdo Sermiãtimo Sr. Infiàníe D. Pedro Cmrim 
de Bourbon e Bragança^ almiranie general junio d real jMt- 
Moa do Príncipe Regente Nono Senhor^ por Paolino Joaqwfli 
Leitio ; Obeervações sobre o cravo da índia ; Obeerrmçèm 
eobreocapim da Angola, nUimamenle traâdo e cnlU^do 
no Rio de Janeiro ; Plano de organieação de wmieseofaiflM- 
dico-cirurgica qae por ordem de S. A. R. tracon e esorefea 
o Dr. Vicente Navarro de Andrade; Patrioíitmo 
por Ofídio Saraiva de Carvalho e Silva; oe Jardine, 
por Bocage, e diversos alvarás, decretos e avisos. 

Em Janeiro de ISlScomecon Manoel Ferreira de Aruqo 
Guimarães a publicar nma revista de cem paginas em pe* 
queno formato intitulada O Patriota. Durou este periódico 
pouco mais de um aono, e bons serviços prestou ao paiz, 
apresentando em suas paginas noticias curiosas e memorias 
interessantes ; collaborarâm para esta revista Domingos 
Borges de Barros, depois Visconde da Pedra Branca, Dr. 
Bernardino António Gomes, Bento da Fonseca, Dr. Godoy 
Torres, Diniz e outros lilteralosda épocha. Está estampada 
no Patriota uma memoria sobre o descobrimento da co- 
xonilha no Brasil escripta por um dos irmãos Paiva, e 
apresentada no tempo do marquez de Lavradio á Acade- 
mia Scientiíica do Rio de Janeiro. 

Foi impressa em 1813 a obra de Silvestre Pinheiro Fer- 
reira intitulada Prelecções philosophicas sobre a theoria do 
discurso e da linguagem. Ja nSto era pouco paraoRiode 



— 185 - 

Janeiro este movimento litterario, quando até entSo nada 
houvera, e nem de Portugal se remeltia cousa valiosa, ape- 
nas a folhinha de cada anno, o livro de Carlos Magno, ou o 
Almocreve de Petas. Mas não nos admiremos d'essa antiga 
pobreza lilleraria do Rio de Janeiro, pois até 1800 era a 
Gazeta de Lisboa o unico jornal politico que se imprimia 
em Portugal. 

Appareceu impressa no Rio de Janeiro em 1817 a im- 
portante obra de Ayres do Casal Corographia Brasílica, qu6 
eminente serviço prestou à geographia pátria tornando 
mais conhecidos o território, os productos e a riqueza do 
Brasil. 

Em 1819 imprimiu-se o poema Assumpção, de frei Fran- 
cisco de S. Carlos. 

No anno seguinte monsenhor Pizarro deu á estampa a 
obra Memorias Históricas do Rio de Janeiro e das provin- 
das annexa^ djurisdicção do vice-rei do Estado do Brasil^ 
dedicadas ao rei D. João VI. 

Para engrandecer a pátria tratou o auctor de resuscitar 
da obscuridade muitos factos, cuja notícia era ignorada. O 
monsenhor José de Souza Azevedo Pizarro e Araújo perten- 
ceu à Arcádia ultramarina. 

Repercutiu no Brasil o movimento constitucional que 
appareceu em 1820 era Portugal, produziu agitação no es- 
pirito publico ; despertando o povo do estado de apalhia 
e lethargo em que vivia submergido, saudou com enthu- 
siasmo as idéas novas de constituição e liberdade que par- 
tiam do outro lado do Atlântico. Novos órgãos se fizeraih 
ouvir na imprensa, havendo em 1821 os seguintes periódi- 
cos; — Amigo do Rei e da Nação — Sabbatina Familiar — 
Patriota — Conciliador do Reino Unido — Constitíicional — 
EspeltiO-^Reverbero — Malagueta. 

El-rei haviase retirado para Portugal, deixando ao prin- 

TOMO XXIX, p. II. 24 



— 186 — 

cipe real D. Pedro a dignidade e as atlríbuições de regente 
do Bfasil. 

Nascera n'aquelle anno o Otário c/o iliocte Janeiro, im- 
presso na typographia régia, cm mão papel almaço e em 
formato de 4%* fora creado por Zeferino Victor de Meírelles, 
que obteve do principe regente D. Pedro a permissão de 
imprimir o seu periódico, durante s^ismezes, na imprensa 
nacional ; e findo o prazo estabeleceu Victor de Meirelies 
uma typograpbia na rua dos Barbonos n. 72. Foi esta a 
segunda typographia creada no Rio de Janeiro. Foi o Diá- 
rio do Rio de Janeiro o primeiro periodicoque se occupou 
em publicar annuncios e noticias locaes ; pois, até então, 
quando se tinha de annunciar qualquer cousa ou novidade* 
pregava-se o annuncío manuscripto nas esquinas das ruas 
ou nas portas das igrejas, ou apregoava-se pelas ruas o que 
se queria vender, alugar ou comprar. Custava o Diário do 
Rio quatrocentos e oitenta réis por mez, e era publicado 
todos os dias, menos aos domingos, vindo cada numero a 
valer vinte réis, e por isso recebeu o periódico o nome de 
hlario do Vinlein, (jue lhe dava o povo ; assim como o de 
l)i.irio da Maiílci^M, porque foi o primeiro jornal que oc- 
cupiMi se em publicar o preço dos géneros e outras noti- 
cias particulares. 

Victor de Meirelies, que creára no paiz um jornal diário 
e útil ao commercio c â economia domestica, soiTreu grave 
perigo por causa d'um annuncio que appareceu na sua fo- 
lha. Conservando um individuo de familia importante a 
sua filha em cárcere privado, veiu no Diário ura annuncio 
denunciando esse crime ; no dia seguinte, ao abrir a porta 
da officina, recebeu Meirelies um tiro na face, que o dei- 
xou ferido ; porém restabeleceu-se, vindo a fallecer algum 
tempo depois. 

Por aviso de.28 de Agosto de 1821 ordenou o principe 



— 187 — 



* regente D. Pedro que cessasse n revisão prévia das obras 
tque se impriraisseni, ficando este objecto regulado pelo 
fque a este respeito tinlia esbbelecido e decretado as cortes 
fgeraeSt exlraordinarias e constituintes da nação. 

Em coasequenciâ d*esse aviso e do art 6*^ da lei do regu- 
^ lamento da iiiiprensa, que delerininavaqne por Iodas as 
obras impressas nos Estados portuguezes» no caso de abuso, 
fossem responsáveis os auctores ou editores, e na falta 
jd'estes os impressorBS, publicou ajunta directora da im- 
prensa régia, no l'' de Setembro de 1821» uma declaração 
fazendo ver ao administrador d'aquella officina que não 
fizesse imprimir manuscripto ou impresso algum que oão 
viesse assignado pelo auctor ou editor, sendo o nome reco- 
nhecido pelo labellião pubíicoí declarando este ter visto 
fazer a dita assignatura. 

DâQdo-se diversos abusos de liberdade de imprensa, foi 
publicada em 15 de Janeiro de 1822 a seguinte portaria : 
4( Manda S, A, Real o príncipe regente peia secretaria de 
estado dos negócios do reino que a juni* directora da ly- 
pogruptíia nacional nâo consinta jamais que se imprima es- 
jcripio algum sem que o nome da pijssoa que deve respnii- 
f^der pelo seu conteúdo se publique no impresso; e con- 
stando ao mesmo senhor que no escriplo intitulado Heroir- 
cidftde Brasileira se lêm proposições não sò indiscretas mas 
falsas, em que se acham estranhamente alterados os succes- 
sos ultimamente acontecidos, ha por bem que a referida 
junta suspenda já a publicação do dito papel e faça reco- 
lher os exemplares que jà estiverem impressos, para que 
nâo continue a sua circulação. Palácio do Rio de Janeiro, 
em 13 de Janeiro de t&i'i.— Francisco José Vidra. 

Ko dia seguinte era nomeado ministro do reino e de es- 
^trangeiroso illustrebraf:ileiro José Bonifácio de Andrada e 



— Ite — 

Silra. Cm dos primeiros a»:tos 4o míoislro foi a porurâ 
seg jint« : 

« Porqiiaotj rili^ank espirítij mal inteocioDailo po^ierli ia- 
ierpreur a portaria eipe^liJa em 15 do corrente peU se- 
cretaria de estado dos Deg«^i>>s do reino á jqqu directoria 
da typogidphía oicioDal ero sentido int^iramenle cootrario 
aos lí^le^ali3sim^JS princípios de S. A. R. e á sua constante 
adhesãoao STstemaconstítacLonal, manda o príncipe re- 
gente pela mesma secretaria de estado declarar à referída 
jnnta que não d^ve embararar a impressão dos escríptos 
anonymos, pois peKiS abusos que contiverem deve respon- 
der o anctor, ainda que o seu nome não tenha sido publi- 
cado, e na falta d^est^^ o edit jr ou impressor, como se acha 
prescrípto na lei que regula a liberdade de imprensa. Pa- 
lácio do Rio de J «neiro em 19 de Janeiro de 18*2. — Jo$é 
Bonifácio de Andrada e Silva.i^ 

Tendo por presidente a José Clemente Pereira, dirigiu o 
senado da camará a S. A. R. em i de Fevereiro a carta se- 
guinte, representando a necessidade de porem execução a 
lei de liberdade de imprensa : 

« O sonado da Ciiraara dN^sla cidade com os hom^^ns b ins 
que tem andado na sua g )vernança, considerando que a li- 
berdade absoluta da imprensa, no estado em que actual- 
mente se acha, deve vir a degenerar em abusos terríveis, 
que podem perturbar o socego publico da nação e o parti- 
cular de cada um dos seus cidadãos, roga a S. A. R. que 
haja p<jr bem mandar pòr era execução a lei de liberdade 
de iraprensi n'esta cidade, aonde a crearão do juizo dos 
jurados parece exequível sem inconveniente, altenla a 
muita população de que se compõe e as muitas luzes que jâ 
possue. 1). (i. a preciosa vida de S. A. R. Rio de Janeiro, 
em vereação extraordinária de 4 de Fevereiro de 1822. >► 

Permittira a portaría de José Bonifácio muita liberdade 



- 189 — 

na imprensa, e, receiando que se tornasse mais livre e ve- 
hemente a linguagem dos periódicos, tratava o senado da 
camará de cohibir os abusos que pudessem apparecer ; e 
eram bem fundados os receios d'aquêlla corporação, como 
maisUirde veremos. 

Pedindo a camará que se executasse a lei de liberdade de 
imprensa prestava um serviço ao paiz ; e n*aquelle anno 
assignalou-se a municipalidade pelo amor e dedicação que 
manifestou pela causa publica. Em ') de Janeiro prestara 
essa corporação relevante serviço conseguindo que o prín- 
cipe regente ficasse no Brasil ; em 23 de Maio pediu ao 
príncipe, em nome do povo, que mandasse convocar na 
corte uma assembléa geral das províncias do Brasil ; dois 
annos depois supplicou ao imperador marcasse dia e hora 
para se jurar a constituição; e alcançou tudo; a liberdade, a 
monarchia separada de Portugal e por fim a constituição. 

, Em 1822, n'esse anno de enthusiasmo, de patriotismo, 
do vida e de gloria para o Brasil sahiram dos prelos diversos 
periódicos pugnando pela liberdade e pelo futuro da pátria. 

Estes periódicos foram os seguintes . — Kagviiador Bra- 
nUico-Lmo — Republicano Liberal — Papar aio — Annaes 
Fluminenses— Volantim — Periquito da Serra dos Órgãos 
— Macaco Brasileiro -— Reclamação do BrasU^Correio do 
Rio de Janeiro Semanário Civico— Memo/ial Apologético 
-^Compilador Constitucional. 

Imprimiram-se na typographia do /)iari}(io Aio diver- 
sos hymnos patrióticos. 

Usavam esses periódicos e os que m 3ncioi làmos em 1824 
de uma linguagem exaltada e vehemente; inflammados os 
espíritos com as idéas de liberdade e independência, não 
mediam o excesso da linguagem e, receiando que d'essa 
agitação da imprensa resultasse alguma explosão, andava 



— 490 - 

acertada a camará pedindo ao príncipe r^ente pnzesse 
em execução a lei de liberdade de imprensa. 

Foi transferida em 1822 a typographia nacional da ma 
dos Barbonos para o sobrado occupado actualmente pela 
secretaria da justiça. 

A' Gazeta do Rio, publicada até 1821 « substituiu o Diário 
do Governo, que appareceu em 1823. 

Foi publicada n'este anno uma lei de liberdade de im- 
prensa assignada por José António da Silva Maia, Bernardo 
José da Gama, Estevão Ribeiro de Rezende, José Teixeira 
da Fonseca Vasconcellos e J(^ão António Rodrigues de Car- 
valho ; muitas disposições d'essa lei ainda se acham em 
execução. 

Eis a lista dos periódicos d'aquelle anno : — Diá- 
rio do Governo — Espelho — Regulador BrasUico-Luso — 
Malagueta^ Sylpho-- Semanário Mercantil — Tamayo — 
Diário do Commerció — Diário da Assembléa Geral e Cons- 
tituinte do Brasil — Brasileiro Resoluto-^ Estreita Brasileira 
— Diário do Rio de Janeiro, 

Híivia na cidade em 1824 cinco typographias, a nacional 
e quiilro parliculares. Em 21 de Maio d'esse anno passou 
o Diário do Gorerno a denominar- se /Jíarío F/umtnerwe; 
e além dos periódicos do anno antecedente appareceram os 
que se seguem : — Folha Mercantil— Caboclo — Despertador 
Constitucional — Diário Fluminense-- Spectador Brasileiro, 

l^óde-se dizer que foi iraqnelle anno que nasceu oJorfial 
do Commerció, considerado hoje como a primeira folha diá- 
ria do império. 

Empreliendeu em 1824 o francez Emilio Seignot Plan- 
cher, dono de uma lypographia sila na rua do Ouvidor 
n. 20H, a publicação do Spectador Brasileiro, periódico 
noticioso, que apparecia ires vezes na semana, lornando-se, 
porém, diário quando trabalhava a assembléa legislativa. 



- 191 - 



O periódico dt3 Emiiio Plancher foi recebido com benevo- 
lência pelo publico,o que animou o editor que do anno para 
anrio foi aparreiçoando asiia folliavCada vez mais procurada e 
appreciadadoslíiilores ; em 1827 deu-lbe Kmilio Plancher 
o titulo de Jornal do Comm&rcio^ cuja empreza foi prospe- 
rando conseculivaraente* Em 1833 era augmenlado o for- 
mato da folha, cinco annos depois recebia novo augraenlo» 
e assim prugressivamenteí e d'esstí modo o periódico que a 
principio era do tamanho de uma folíia de papel almaço de 
marca vulgar com duas coiumnas <le impressão consta hoje 
áé oito columnas em cada pagina, lendo, quanJo aberto, 
inais de uma vara de largura. E* o joroal mais lido do impé- 
rio, possuo quasi treze mil assignantes, e nao sò em for- 
mado como em variedade e interesse das matérias contidas 
tjm trinta e tlua^ coluranas de duzentas e cincoenta seis a 
tlu2^!ntas e sessenta linhas cada uma, senão em correcção e 
nitidez do impressão, pôde competir com os mais acredita- 
dos jornaes da França e Inglaterra, Imprime-se na typo- 
graphia imperial e cijn>litucional de Villenenve e Comp*, i 
rua do Ouvidor n. 65, 

Em 1823, além dos periódicos que já pxisliam, como o 
DesperUdor Constitucional ^ ú Speçtador BrnnMro^ o Diá- 
rio do Rio de Jan&irOf O Diariõ do Cofnrmrcio^ o Semanário 
Mm*canlU e a Malagueta, appareceram o Grilo da Nação 6 
o Diário Mercantil íle 18â5 a 18â7- 

Pôde acontecer que, mencionando os periódicos de cada 
anno, haja id<^uma lacuna da nrjssa parte, pois nao e\islÍndo 
relação completa d^elles facil é comprehender o engano, a 
confusão em que póile cahir quem pida primeira sez 
empreUendeu este trabalbo. 

Havia em 1826 os periódicos seguintes: — Verdatleiro Li- 
beral — A tala i a da Liberdade —* Sello Hminetico — Unimr - 
sid de 1826 a 1841 — Otário da Cornara dos Deputados d$ 



18*26 a 1841 — Spectador Brarileiro — Diário do Hio de 
Janeiro — Diário Fl/uminense — Malagueta'^ Asíréa. 

Viveu a Aslréa até 1832, e grande influencia exerceu 
sobre a politica da <' pecha. 

A Malagueta, que também teve grande aceitação foi pu- 
blicada até 1829 ; redigiram estes periódicos os deputados 
António José do Am irai, José Joaquim Vieira Souto e Luiz 
Augusto Mayer. 

Contavam-S() em 1827 cinco typographías : a imprensa 
nacional, a de Plancher, do Diário, do Mercantil, da Àe- 
iréa e a de Torres. 

Em 21 de Dezembro sahiu da typograpbia do Diário, 
sob a redacçã< de três brasileiros, a Aurora Flumineneef 
que nos primeiros m:3zcs de sua creaçao foi um jornal scien- 
tifico-litterariu, ainda que por sua independência a respeito 
dos partidos existentes, fosse considerado como adverso 
por todos. Antes de findar o anno de 1828 tomou a Aurora^ 
sob a redacção de tvaristo Ferreira da Veiga, um caracter 
positivo e terminante Tnzendo opposiçao ao governo; e 
pelas doulrin; s liberaes professadas pelo seu redaclor com 
moderação e bom senso polilico, o quefczdar ao parlido 
de que era orgâo a denominação de moderado, mereceu 
este periódico a aceitação publica. Em vez de divagações 
indiscretas e insulsas,que pejavam as paginas dos periódicos 
da épocha, iia-se n'aquelle jornal uma linguagem expressiva 
porrm comedida, uma ironia frisanli?, porém branda, pre- 
cisão e lluidez no estylo, belleza e riqueza du idéas ; trazia 
como estribilho a seguinte quadra composta pelo Sr. 
D. Pedro I : 

Pelo Brasil dar a vida, 
Manter a constituição, 
Sustentar a independência, 
E* a nossa obrigação. 



- i«n — 



obteve Evaristo grande influencia cora a publicação de 
seu perioilico, que lambem grangeou-the inimi}í»»s, ten- 
tamlo estes a^^assiníil-o na noile rie 8 de Novt^mhro de 
483á» estando em casa do seu irmão com alguns Simigos i 
mas o liro de pistola apenas feriu o publicista no rosto- 
Pouco ante* outro hábil escripior, o redactor da Malagjieta^ 
soffrêra um insulto na rua do Cirmo, esquina da da Assem- 
bléa. 

Não devem sorprender esles factos ; em um paiz novo» 
pouco illusLrado, comprehende-se a influencia que deviam 
exercer as folhas periódica!^, que ódios não despt^rLariam 
usando I quasi todas, de linguagem exaltada, violenta, ex- 
citando o enthusiasmo dos parUíl<fS, e esforçando se por 
defender as facções de que caila uma era órgão. 

Cessou Evaristo, em Dezembro de 183 , cora a publica- 
ção ria Aurora^ e guardou siit^nciu ua imprensa e na camará, 
onde segunda vez o coUocaram ns votos da província de 
Minas. Estaria exhausLo de forças o fílbo da tm;*rLUisa, o 
representante da política, ou tão negro se moslravao fultiro 
do pãiz que o atleta recuava ! Nâo certamente; síu p^ilrio- 
tismo era igual ao seu tdento, que muilu era; porém de 
verdade era grave a situação do pjiz, principalmente para 
elle que ou linha de guerrear seu antigo companheiro o 
regente Feijòj ou desprezar os destinos da pátria; e n*essa 
luta^ito dever e da amizade, da razão c do cora-lo, Eva- 
rislo!>uccumbiu: em 1-2 de Maio de 1837 falleceu o illustre 
pubIJcislaf iisendo sepultado na igreja du S. Franciseo de 
Paula, 

Em 1827^ om que se crearam as duas academiaft de scien^ 
cias juridicas e sociaes que possue o império, existinm os 
periódicos s*^guinles : Espelha DiamantinQ--}nfíepende7iÍ€ 
— VEcko de UÁmérique — Malagueta — Áslréa — Luz 
Brasileira — Diário Fluminmise — Jornal do Commerdo 

TOMO XXI f* F. M. 2S 



— Wi — 

-^Analysta — Awrota Fluminense ^^CouMer du Br^Êêíl^ 
Diário do Rio. 

Imprimiu-se D'esle anno a memoria de José da '^ilya 
Lisboa, que tem por tilulo : Leituras de economia pnlilica. 

Os periódicos do anno sejíulnle eram : Malagueta — 
As^éa — Luz Brasileira — Aurora Fluminense — Diário 
Fluminense— Jornal do Commercio — Analysta — Honra 
do Brasil — Censor Brasileiro — Atalaia — Revista Sema'^ 
naria — Courrier du Brésil — Diário do Rio. 

Appareceu a memoria de José da Silva Lisboa intitulada : 
— Causa da religião e disciplina ecclesiastica do cdibaitf 
clerical. 

Havia em 1829 sete typograpliias, e, além dos periódicos 
que existiam, appareceram os seguintes : — Correio — Voz 
Fluminense — Amigo do Povo^Nova Luz Brasileira. 

Sahiu dos prelos a memoria de José da Silva Lisboa que 
tem por titulo : Historia dos principaes successos polUicos 
do Brasil. 

Chegamos a uma épocha de exattaçâo,de agitação politica; 
os partidos lutam na imprensa, e ó vohemente e imprópria 
a linguagem de que se servem ; muitos periódicos Iransfor- 
mam-se em pasquins ; não ba resguardo noslermos ; os 
nomes apparecem estendidamente; as baldas publicas e se- 
cretas, os defeitos involuntários, os do corpo e os de gera- 
ção tudo fica patente. 

Na falia com que o Sr. D. Pedro I abriu a primeira ses- 
são da segunda legislatura do império, em 3 de Maio de 
1830, lêm-se e^as palavras : 

« Vigilante e empenhado em manter a boa ordem, è ào 
meu mais rigoroso dever lembrar -vos a necessidade de re- 
primir por meios legaes o abuso que contínua a fazer-se da 
liberdade da imprensa em todo o império. Senelhaota 



— i95 - 

abuso ameaça grandes males ; a assembléa cumpre &f i- 
lal-os, » 

Produziram estas palavras do imperador discussão no 
senado, tomando parle nella os senadores Alves Branco» 
Vergueiro e outros. 

Armitage, explicando o excesso da imprensa diz ; <a Os 
jòrnaes miiiisteriaes eram pelo menos tão reprehensiveis 
como os seus antagonistas ; costumavam advogar nâo 0Ò 
doutrinas contrarias ao sentido da conslitui^o, como lan- 
i^fir gros ciros e rcpe tidos insultos a quasi todos os raem- 
eiros daopposiçào. 

Diversas causas explicam o deícomediraento da imprensa 
d^easa épochaj era o governo considerado regres^sla, estava 
sem prestigio; irritado contra os inãulll^s da opposíção, 
mostrava* se viotenlo na imprensa ; em vez de appMcar com 
sabedoria e tino a imprensa para dirigir a opinião putdica 
e promover o adiantamento intellectual do povo, servia-se 
d*ella pura ferir os seus contrários e perdèl-os no conceito 
publico. Julgando compromnttidos os principios demo- 
cralicfjs, e corrompido o governo, se exaltava a oppo* 
sição, e iudo isso explica aapparição d'esses periódicos 
yehemente% iu^ulluos s lembramio re|tresalias, excitando 
o patriotismo e tratando de augmentar o ardor, a lula dos 
partidos» luta que mui breve devia trazer grande mudancâ 
à politica do paiz. 

Eis os periíídicos que nasceram em IS30 : — Sagi- 
tário — Tribuno do Povo — Pertlampo Popular — Cam- 
peão Brasileiro — Observador das Galerias da ÁssmnbUa 
Geral— Hepabiko — Verdadeiro Patriota — Bras^ileiro Im- 
parcial— Estpetho da Justiça, 

Publicou-se n'este anno a seguinte lei, que extinguiu a 
junta directora da typograpbia nacional : 



— i96 - 

« D. Pedro» por graça de Deas e unanime acclamação dos 
povos, ele. 

Art. i.** Fica extincla a junta da direcção da typograpbia 
nacional, creada pelo decreto de 13 de Maio de 1808 e ins- 
trucções de 24 de Junho do mesmo anno e 17 de Feve- 
reiro do 1816. 

« Ârt. 2/ A typographia nacional será administrada por 
um director, que vencerá o ordenado annual de 80OJO00 
e mais uma gratificação de 5 ""lo do rendimento liquido da 
oíQcina, a qual cessará não sendo annualmente decreta- 
da, s >gundo os mteresses do estabelecimento; por um ad- 
ministrador que terá asi^u cargo a guarda e asseio do esta- 
belecimento e o pagamento dos operários, e vencerá o cr- 
denido de 7503^)00, e por um guarda-1 vros que fará toda 
aescripturaçio necessária e vencerá o ordenado de 6«K)S. 

« Art. S.*" Os empregados de que trata o artigo antece- 
dente si^o do commissâo, e o director ficará n-sponsavel 
pelos erros de typographia que apparecerem nas leis que 
imprimirem, fazendo-se a reimpressão á sua custa. 

« Art. 4.^* As pessoas que se occuparem no trabalho da 
typogriíphia nacional ou no das particulares ficam isentas 
de todo serviço militar. 

a Art. 3.° Os impressos da typographia nacional não se 
darão graliiilamente a pi^ssoi alguma. Excepluam-se: !•, os 
que pertencerem ás camarás legislativas, os quaes serão 
remellidos a cada uma de suas secretari.is; 2% os que deve- 
rem reparti r-sc |)elas estações e auctoridadcs publicas, que 
serão remetlidos á secretaria de Lstado a que competir a 
sua distribuição ; 3% os que deverem, na conformidade da 
lei, enviar-se ao promotor do jury. 

a Art. 6.^ Ficam revogadas todas as leis, alvarás, decretos 
e mais disposições em contrario. Mandamos, portanto, a 
todas as auctoridadcs, a quem o conhecimento e execução da 



— 197 — 



referida lei pertencer, que a cumpram e fâçam cumprir e 

guardar Ião iDleiramente como n' tília se coatém. O secre- 
tarin dtí Eslatlo dus negócios da fazenda a faça imprimir, 
publicar tj correr, Dadi no palácio do Rio de Janeiro, em 8 
de Dtzembro de 1830, 9" da independência e do império. 
Imperadi>r, com rubrica e guarda.— .í ntonio Francvíca do 
PaiUu ds Hoilaada Cavalcanti íle Albuquerqm, » 

O primeiro director da ty|iograpliia nacional foi o có- 
nego Januário da Cunha Barbosa, e o segundo o Dr. Fran- 
cisco Clirispiniano Valdelaro- 

k exiítaç^o dairapreiísanaoârreffiCíUp arjtes augmentou 
em I83K A noticia da revolução franceza de 1830 exa- 
cerbara os ânimos, que mais cxaUados se mostraram depois 
dos acontecimentos de 7 de Abril de 1831 ; lornou-seo 
estylo da imprensa periódica íusuUuoso edeshonesto; a 
critica ferina e a salyra mordente nada respeitavam, nem 
o nascimento, nem a posição, nem a jerarcliia, nem a mo- 
déstia, nem a virtude; o joru^lismo aberrou da soa instí' 
tuiçio^ esqueceu seus deveres, e transformou-se em pe- 
lourinho^ onde se expunha â zombaria ila tnuilídão a repu- 
tação % a vila pariicuian^s, o que havia de mais serio e gra- 
fe ; a honra, o pundonor, a dignidade, o mérito, tudo foi 
Sacrificado ao furor, ao desespero dos partidos poli ticos. 
Appareceram n'Dqaí^na é[í0cha us periódicos seguinies : 
— Seíe de Abril — Brasileiro Offcndidú — Americano — Brasi- 
Í6tro Vigiianis-^tarim da Litíerãade ^Espelho da Jvstíça 
'^Independenle^Jurujuba dos Farroiipílhas- Lycéo Libe- 
ral-^Moderadõr-^ Filho da Terra ^Eíípdka dos Brasileiros 
—Regmherador do Brasil^ fíccopilador — Dois Compadres 
Hheram-^DouiÁor Tira-teinms — Novo Brasilmro Imparcial 
— NoríQ Conciliador — Novo Censor — Cúrias ao Povo — Nar- 
çisú - Filho do Simplício^Bussola da Liberdade— Medico 
dm Malucos — Simplicio RifforisUi — Simplioio^Semafyxrio 



— 188 — 

Politico — Buscapé — Voz da Liberdade^ VdhoCasamerUeiro 
— Patriota Brasileiro — Enfermeiro dos DoípIos Defensor 
da Liberdade — Mensageiro — 'Constitucional — Regente — 
Verdadeira Mãi do Simplício — Voz da Razão^Veterano — 
Exaltado --iV atraca dos Farroupilhas — Correio da Con 
mara dos Deputados — Voz Fluminense^O Grito da Pátria 
contra os Anarchistas — O Homem e a America. 

O Simplicioy jornal critico-liIlíTario, teve muita aceita- 
ção do publico ; foi publicado o primeiro numero em 8 de 
Janeiro de 1831 na lypographia da i4«/r^; trazia como 
epigraphe o seguinte estribilho: a Nem um camarãosínho 
escapará pelas malhas da minha rede. » Procuraram muitos 
periódicos, em épochas diversas, imitar o estyio faceto d*a- 
quclle avulso, eaté tomaram-lhe o nome, denominando-se: 
O Simplício Velho ^ O Simplício da Roça^ O Simplício An- 
tigo, O Simplicio Rigorista, A Verdadeira Mãi do Simpli- 
cio, o Filho do SimpliciOf O Novo Simplicio Poeta e A 
Mulher do Simplicio. 

A academia de medicina, fundada em 30 de Junho de 
1829, com o litulo de sociedade de medicina, começou, em 
3 d(^ Janeiro de 1831, a publicação do Semaiiario de Saudai 
Publica, que appareceu ale ITi d»» Junho de 1833. No mez 
de Abrilde 183o conlinu ni a academia com o s»'U periódico, 
que rcccbí^u o liiulo d • Revista Medica Fluminense ; porém 
em Maio de 1841 lomou esse jornal, sob a redacção <Io Dr. 
Emilio Joaquim da Silva Maia, a denominação de Revista 
Medica Brasileira, e assim continuou até Junho de 1843, 
épocha em que, redigido pelo Dr. Francisco de Paula (ban- 
dido, teve o titulo di' Annaes dr Medicina Brasiliense, e por 
fim o de Annaes Brasiliemes de Medicina, que ainda hoje 
conserva. 

Foi transferida em 1831 para algumas salas do palácio 
da academia das bellas-artes a lypographia nacional» e alli 



— mi — 



permaneceu ale 23 de Abril de i836, o que foi prejadicial 
à academia das ht/llas-arles e à lypographia; àítcademia 
porque, uccupãdas as salas Cõm ns prelos e as caixas dos 
compositores» nâo puderam as aulas fuaccionar livremeDle, 
ú liverara os pintores de interromper seus lrabalht>s; e à 
lypograpliia porque, collocados em salas estreitas os uten- 
sílios da imprensa, difficd se tornara o trabalho, e os lypos, . 
papeis e impressos ãcaranicoíifundidas e alguns inutilisa- 
dos, E nao foram os pintores e compositores os únicos 
artistas que sotTrerara n*essa épocha agitada e turbulenta 
por que passava o paiz ; todos os músicos da capullii impe- 
rial foram despedidos. 

Diversas vt zes visitou o Sn D. Pedro I a typographia 
nacional ; compareceu n*este estabeleci mento [lara man- 
dar iiiiprimir o reconhecimento da independência do Bra- 
sil pelo rei D, João VI, e em íutra occasião para ordenar ;i 
pulílicição da carta constitucional, que concedera â nação 
portugueza» exigindo o imperador que fosse feito o traba^ 
lho typographico s^b rígoru o sigillo* 

Havia na corte em léSá oito typographias, e nasceram 
H^esieanno os periódicos: Verdade — Cegarrega — Trom- 
beki dúB FarroupiihtísSimpiicio da Baça — i*iloio — Fcr* 
rabrthz — Pairíõía Bros t UirQ^Luzeiro Fl u m inmise — Bm- 
sAeiro-^Bepiiblicano de SômprQviva — Echo da Crmara 
dos Deputados — Mutuat — Gnto da Pátria — Republicano — 
Conciliador Flumimme^^Ofneta—^SenUndla da LibcT" 
dads, 

Corríra agitada a sessão legislativa do anuo de Í81í3,nlo 
sò pela iliscussão do projecto das ref{>rmas da constituição » 
senão pela do projecto do banimento do ei-imperadur, 
apresentado no dia 28 de Jutibo. Enviando o governo uma 
mensagem à camará dos deputados deouticiaEdii vastoi 
planos de uma supposta restauração, começou o partido 



— ilKi - 



dominante a praticar ej&cpssos contra os que denominava 
reslaur idores ; tudo isso agitara ns ânimos e prpparàra as 
scenas de, turbulência e anarclna que após se seguiram. Em 
â de^ Dezembro percorre o povo as ru.is, pratica atlenladus, 
e, dirigindo-so á praça de S Francisco ài* Paula, despe- 
daça a illuminaçâo que resplandecia na frente da casa da 
sociedade mililar 6SUbi!lecídii no preflio de dois and ires 
d'aquellâ praça, occupadu acto^Imenle pelo Insliluto Ar- 
tislico. •% 

PubUcandu a sociedade milHar, no dia 5, um annuncio,'^ 
era que declarava que ia reuni r-sn para objecto de niuila 
» cousideraçãOt começaram a propalar-se diversos boatos, 
appareceram editaes excitando o povo, que, reunindo seno 
largo de S* Francisco de Paula, invadiu a casa d'queila so- 
ciedade » atirou os moveis à rua e praticou outros exci*ssos; 
levado «le furor de momento, illndindo a vigilância dos jui- 
zes de paz, flirigiu-se às lypogrnphias do Diarto da RiO e 
Paraguassú^ a primeira âila na ru-í da Ajuda e a seguíida na 
do Senhor dos Passos, c, arrombando as portas e janellas, 
invadiu aquellts estabelecimentos, quebrou os prelos, mo* 
veis e uten-ilios typographicos, espalhando i> lypn pela ma 
e desíruindoos irapressíjs. Outros excessos for;ira pratica- 
dos n'essa noite, o que obrigou o governo a reunir se im- 
mediatamente, recommenttando a seguninça da cidade aos 
Juizes de paz; e a publicar no dia seguinte uma procla- 
mação pedindo ao povq moderação e confiança na adminis* 
tração do paiz. 

O desacato que soíTreu a typogrnphiadoDtflrtôobrigoti-a 
a suspender o periódico por alguus dias, e só reappareceu 
no dia i2 em mela follta de impressão. 

Eis a iistí dos perioilicos que siliiram dos préb'S n^aquelle 
a n n o : - Sei e dfí Setêt n bro ~ B urro M agro — Brás i leiro Pa rd^^ 
^BrasU Afflicío — Limão ds Chmro — Bahosa — Mca^mata— 



— áQl — 

Hospital Fluminense — Arca de Noé^Jiemtevi — Formiga — 
Nacional — Restaurador — Mineiro no Rio de Janeiro --Mili'' 
t r — Mestre José — Loja de Belchior — Liberdade Legal— Meia 
Cara —Caolho —Carioci-- Inferno — Idade de Pdo-— Homem 
de Côr-^Guarda JSaciomd — Grito dos Opprimidos— Cabrito 
— Cidadà€ Soldado — Andradista — Adoptivo — Esbarra — 
Papeleta — Verdad£Íro Caramurú — Torre deBabel—Rus- 
guentinho-^ Obras de Santa Engracia—Par de Tetas — Pa- 
qíAete de Portugal — Tamoyo Constitucional — Iman — Torto 
da Artilhma — Pedro II , 

A Socieda^lo Auxiliadora da Industria Nacional, fundada 
«m 18á4, começou em 1833 a publicação mensal da sua 
revista inlilulada: Auxiliador da Industria Nacional oucol- 
lecçào de memorias c noticias interessantes aos fazendeiros^ 
artistas e classes industriosas do Brasil, Em Junho de 1846 
appareceu a revista forinimdo uma nova serie sob o titulo 
de Auxiliador da Industria Nacional^ e, não tendo até hoje 
interrompido a sua publicação, bons serviços tem prestado 
à industria do paiz. 

Le-se na lei de 3 de Outubro de 1834 o seguinte arligo : 

u Fica supprimido o emprego de director da typographia 

nacional, passando suas .(Itribuições para o administrador 

da mesma typographia, o qual lerá de ordenado 800?í000 e 

4005!O00 de gralilicação, sem ouUo vencimento. 

Era então administrador da typographia o Sr. Braz Antó- 
nio Castriolo, que entrara para a imprensa régia como 
aprendiz cm 23 de Abril de I8H (*). 

Sahiram á luz cm 1834 os periódicos : —Mutuca Picante 

(*) o Sr. Gaslrioto exerceu a arte de compositor até 26 de Setembro 
de 1816;ucnu[)on successivamente os lugares de escrevente,apontador e 
pagador, i>cndo nomeauo administrador em 27 de Outubro de 1823, (^ 
cm 2 de Dezembro de 1828 obteve o habito de Christo por serviços pres- 
tados na typographia nacional. ' 

. TOMO XXIX, P. 11. 26 



— 388 - 

— IluUgf^nn do Brasil — Diário de A nnuncios — Jornal da 
CavMra dos Deputados — Seis de Abril — Sorvete de Bom 
Gosto^Tupinambd Pregoeiro. 
José Saturnino da Costa Pereira publicou n*aqueIlo anoo 

ien Diccianario topographico do Império do Brasil, 

Deram os prelos em 1835 os periódicos: — Rusgada 
Carioca - Pão de Assucar, de 1^33 a 1836— Mala de Cartas 
— Ladrão — Anarchista Fluminense— Estafeta Monarchico 
— Cuj/aí^ano — Fluminense, de iS35 a 1836 — Sapateiro Po- 

1 'tico — Eleitor — Dois Pimpões —Justo Meio — Justiceiro Con- 
sttucional-^ompadre de Itá — Capadócio — Revista Medica 
— Simplício Velho — Mulher do Simplício. 

Foi creado por Francisco '^e Paula rrilo o periódico 
Mulher do Simplicio ou A Fluminense Exaltada ; sabia io- 
determínadamente e durou mais de oito annos ; trazia no 
frontispício o seguinte estribilbo : 

Frágil fez-me a natureza, 
Mas com íirme opinião, 
r/ jiislo que a palria eSi.ule 
A voz du in(.'U coração. 

Kslovr osle periódico em voga no seu tempo, e ainda 
lioji; é digno de ler-se por ser a única folha d'aquella qua- 
dra que Irala dos diverlimenlos, dc.s modas, narrando em 
verso todos os acontecimentos que sedavam. 

Começando a sua vida como lypographi», tornou-sc Fran- 
cisco de Paula Brilnpelo seu talento e trabalho o primeiro 
editor do paiz ; artista inlelliiícnte, era o primeiro em in- 
irodnzifípialquer melhoramento ou invenção que apparecia 
na arte typographica; e lanto era o amor que devotava à 
pátria e á arte que professava que, em um dos periódicos 
redigidos por elle, lèm-so estas palavras : « Destoava ver a 
imprensa grande um dia na minha terra, ainda que eu mor- 



— 303 — 



ressô no dia sega in te, t Foi impressor da casâ in!í>eriâl, e 
além de hiibíl artisla era liUeralo b poeta, e dedicado pro- 
iiicXúT dos jove4is Uk^ritostis; era nos joraaes creudos por 
clie qtie su exercitavam as penoas juveiiíS ; nos seus pre- 
los se iínprimiam graluiUimenie jíS composi^jOes dos escri- 
plores pobies, Falleciu Francisco da Paula Brilo em 15 de 
Dtzenibru de 18G!, 

Era iO de Agoâto de íf^n foi dormir o somno da morte 
o illu&trc^ publicista José ria Silva Lisboa, formado em Coim- 
bra em direito canrmico e pliilosophico. Erudito, homera 
lida e conhucedíir do direito civil, cauoRico e commercird, 
publicou Silva Lisbtjn em 1801, em Purtagal, aoliraPriV 
cipios de dirdto mercantil^ priniiiro trabalho Síibre se- 
melhante maleri Miado ã luz em liíigua líortugueza. Em 
1804 appareceuasua memoria intitulada mncipim de eco* 
nonúa ffoUtka qnv teví* geral aceilarão; e além de outros 
traballios já rat^nciu nados, publicou o piTiodico ConcUía- 
dúr do Heitio Unida^ ag memorini; Emaio solitt o estahel^ 
cimento dos bancos: O yfonopoHo da Companhia dos vi-- 
nhos do AUofínuroi Extractor d-e Edmundo Dunk, em 

1812 ; Memoria na vida politica fie kml WelUngton^ em 

1813 ; Memoria dos b&nêfi€iús poliikos de eí-reí />- Joãp 
VI com a ítynopse da sua legislação^ i^míHlSi E$iwlm 
do bem commum e úcononiia poliiica ; Selecía dõ$ pensa- 
mentos lio padre António Vieira, em 1820; Constiímçãa 
mor (d ou deveres do cidadão, {:m 1825, Eícoíút brasileira^ 
em 182B, í* CartJha da escola br asiUim, em Í831. Occupon 
Silva Lisboa o cargo ile jiispectur dos estabelecimentos 
litlenirios, emprego su mm amento espinhoso, pois tinha de 
censurai r todaí» as obras qm se publicassem, 

O primeiro Imperador d eu- lhe o titulo de visconde de 
Cayríi, a comtnenda da ordem de Cbristo e o ofGcialato da 
doCruxeiro, e Irdmttjo-lhn muita esUraa e consideração. 



— 20i — 

Ap|»:iPíceram em 1836 os poritMlicos :— Paquete do Rio 
— Terceira Idade do Brasil — Sentinella Rio-Grandense 
^Cosmorama — Liberal Lusitano — Trombeta Final — Ba- 
corinho— Folha de Anniincios — Correio do Imperador^ de 
1836 a 1838— fAromA/a, rf<; 1836 a imi—JIonarchista— 
Guarda Nacional — Consequente— Gazeta do Rio — Clarim da 
Verdade --Ctuiradista^ de 1836 a 1837— Bamja — Restos da 
Boceta de Pandora — Coca N*elles 

Veíu a lypographia nacional otxiipar, om 23 di* Abril 
d'aquellc anno, o pavimento lerreo do edifício da camará 
dos deputados. 

Publicou Cunha Mattos om 183() a sua memoria inti- 
tulada Itinerário do Rio de Jtninro ao Pará e MaranJião. 

Foi conlractado para a typographia nacional, em vir- 
tude da ordem do governo de 22 de Março de 1837, 
expedida á casa de Samuel & Felipps de Londres, am 
mestre fundidor de lypos, que obrigou-se a dirigir a fun- 
dição que se creasse e a ensinar o oflicio de fundir le- 
tras e figuras de metal, pagando-lhe o governo quatro- 
centos francos no primeiro anno, qualrociíntos e cincoenta 
no segundo, quinhentos no líTreiro e iguni somma no 
quarto, além dt; cem francos por cada a|»reu(liz, rec»- 
bendo vinte francos na occasião da entrega do discipulo 
e oitenta no lim do qualrienio, embora fuiíissií ou morresse 
o aprendiz anl(fS (Kesse prazo I De feito eslabelecen-se :i 
fundição, fundin-se e vcnduu-se algum typo, porém pouco 
durou a ollicina, e de tão oneroso contracto não houve 
para o eslado nem uma vantagem. 

Vieram á luz em 1837 os periódicos: -- Regresso - De- 
fensor da Pátria — Estreita Brasileira — Giiajjcurú — Kstrella 
do Sul — Dezenoi^e de Setembro — Dons de Uezembro — Sema- 
nário do Cincinato — Jornal dos Debates, de 1837 a 1838 
-^Rpropilador, do. \h:M t{ iHl\í^— Bafos f>m Vorirn^fito. 



— 205 

Mandou o marquez de iMaricá, e.ii Jairciro de 1837, im- 
primir o distribuir gralis a primeira collecçao de suas 
máximas ; appureceu a segunda em Janeiro de 1839, e a 
terceira em xMaio de !8ii ; e nílo se limití)un'islo a gene- 
rosidade do dislinclo sábio, a todos facilitou a reimpres- 
são de suíis obras. 

Eis .»s periódicos que iin 1838 sahirani dos prelos :-- 
Correw da Europa — Vinte e Dou^ de Abril — Phenix— Eva- 
risto— Popidar — llrasileiro — Catholico — Cut^eio de Petas — 
Rolha— Cidadão, de 1838 a 1839—/.'Ar(/íts' --Filho do Sete 
de Abril, de 1^38 a Xmd—Uespertador, de i838 a 1941-- 
Mmêo-Universal, de 1838 a 1844. 

Publicaram-se no anuo seguinte os pi riodic os :— Pre- 
goeiro — Soldado A (flicto — Inslincto,de Í8I.9 a {8i0— Ga- 
zeta dos Domingos — Ortiga, de 1839 a !8íO — VEcho — 
Dous de Dezembro — ilonarchista do SeciUo XIX — Correio 
das Modas — Sova— Revista Trimensal do Ins. i luto II is- 
torico. 

Fora cread') o Instituto Histórico e Ge )grapliico Brasi- 
leiro por proposta do marechal Raymund ) José da Cunha 
Mattos e cónego Januário da Cunha Barbosa, apresentada 
em 18 de Agosto de 1838 em se.^sâo da sociedade Auxilia- 
dora da Indu>lri;i Nacional ; em 1 de Dezembro celebrou 
o Instituto a sua primeira sessão, e em 18 de Maio do anno 
seguinte declarou o cónego Januário que já se achava im- 
presso o primeiro numero da Revista TnmensaU e que 
assim quizesse o Instituto providenciar sobre o modo da 
distribuição da mesma e por que preço se poria à venda. 
Consta da acta a resolução tomada pelo Instituto. 

Esta revista, que existe ha vinte e quatro annos, é o 
jornal scientifico mais importante que se publica entre nós; 
memorias, documentos, biographias de brasileiros illustres 
o onl.ro< trabalhos di» p<'sn ♦» \Av\ r> lornam uma preciosi 



- 20(J — 

dade para o estndo da historia pátria, que boje não po- 
derá ser con venientemoDte escrípta sem o auxilio d*e8te 
monumento li Itenirio, E tanto apreço e aceitação tem r^ 
cehido do publico esta publicação trimensal, que já está 
reimpressa alé o quarto tomo. 

Imprimiu Taunay em 1839 o seu Manual do AgricuUor 
Brasileiro, e Nicoláo Oreys a memoria intitulada Noticia 
descriptiva da província do Rio-GranJe doSuL 

Dos prelos sahiram em 1840 os periódicos : — Homem 
do Povo — Verdade Nua « Cma — Trombeta Constitucional 
— Sentinella da Monarcliia de 1840^/ 1847 — Omnibxisdê 
Nictherohy^ de IM40 a 1843 — Fluminense — Athleta^ de 

1840 a 1843 — Fi7/jto do lirasil- Filho da Sentinella da 
Monarchia — Pharol— Anonymo — Regeneração^ de 1840a 

1841 -^ Esganarello — Coruja Theatral — Propugnador da 
Mocidade, 

Nasceram em 1841 as «eguinlts folhas i—Constitncional 
— Echo do RÍ€--EsGudo da Liberdade — Argos Constiiu^ 
cional -- Filho do EsganareUo^Maiorisla^ de 1841 a 1842 
— Hysope Constitucional. 

No aníKí sejíiiintí.' havia na cidade doze lypogrophiasque, 
além dos periódicos »»xislen!es, publicaram eslrS: — Cor- 
redor (li* Petas — Exorcista — Critico — Rrasileiro^Monar-- 
chisln 1)71 parcial — Menino Travesso. 

Publicou n^aquelh' anuo o l)r. João Manoel Peneirada 
Silva a sua obra Panitiso BrasdeirOy historia da litleratura 
brasileira. 

Além dos periódicos existentes, imprimiram mais em 
1843 as doze lypographias os seguintes avulsos : — Pharol 
Constitucional — Espelho Fluminense— (iazela dos Trihunaes 
—Pharol — Malesh^hes— Gosto. 

Nasceu <mii 1 de Novembro de 1843 a Minerva fírasi- 
lievsc, jornal de scieucias, letras ♦• arbs, publicado por 



— 207 — 

uma associação do lilteralos ; era em quarto grande, appa- 
recia duas vezes no mez, e alguns números traziam es- 
tampas. 

Foi bem recebido pelo publico, não só pela variedade 
dos artigos, senão pela esmerada escolha d*elles, cujos auc- 
lores eram os Drs. Domingos José Gonçalves de Magalhães, 
Francisco de Salles Torres-Homem, Francisco Bernardino 
Ribeiro, Emilio Joaquim da Silva Maia, Pedro de Alcântara 
Bellegarde, Joaquim Caetano da Silva, Januário da Cunha 
Barbosa, Manoel Joaquim da Silveira, actual arcebispo da 
Bahia, Santiago Nunes Ribeiro, Manuel Odorico Mendes, 
Manoel de Araújo Porto-Alegre e Joaquim Norberto de 
Sousa e Silva. 

Em 15 de Novembro de 1844 conoeçou o jornal a ser 
redigido por Santiago Nunes Ribeiro, que augmentou o nu- 
mero dos coUaboradores com os nomes dos Srs. conse- 
lheiro Cândido José de Araújo Vianna, hoje visconde de 
Sapucahy, Drs. Francisco Freire AUemão, Custodio Alves 
.Serrão, Manoel Ferreira Lagos, Joaquim Manoel d'^ Macedo, 
Aotonio Gonçilves Teixeira e Sousa e António Francisco 
Dutra e Mello. 

Mudou a Minerva de formato e de plano em 184S, con- 
stituindo uma bibliotheca brasileira ou coUecção de obras 
originaos ou traduzidas de auctores celebres. 

O periódico intitulado Pharol, que sahiu em 1843 dos 
prelos de Bueno e Comp., á rua do Cano n. 126, tomou, 
em 16 de Setembro de 1844. o titulo de Jíercanííí, rau- 
daado-s^> a lypogniphia para a rua da Qnitanda n. 13 ; em 
1848 começou o periódico a denominar-se Correio Mer- 
cantil, e a typographia ficou eslabelccida, em 19 de Feve- 
reiro de 1850, na rua da Quitanda n. 55, onde ainda se 
acha. 

O Correio Mercantil consta de sete columnas em cada pa- 



- á08 

giiia, teinJo «.4ida coluiiina cento e ciiicoeiíta linlias dè im- 
pressão ; é diário e ijc muita circulação no paiz. 

O Diário do Rio de Janeiro, que conta quasi meio século 
de existência, é a l rceira folha diária da côrle, igual em 
formato ao Mercantil: imprime- so na ma do Rosário 
n. 84. 

Puídicou-so em 1843 o Comfwndio de Historia do Brasil 
do general Abreu e Lima. 

Saliiram di»s prelos em 1844 os periódicos :— Aauo 
Tempo,, de 1844 a 1845 — iSacional — Conservador — í)o- 
mingueiro —Filho da Joanna — Gazet^i Umvei\sal—Tribwna 
— Tribuno do Povo — Iklchior Politico — Portuguez Reco- 
pilador — Lanterna Magica^ de \Hh\ a 1843 — Árckioo Me^ 
dico Brasileiro, 

O Archivo Medico Brasileiro, revisla mensal de medicina 
e cirurgia, foi publicado e redigido pelo Dr. Ludgero da 
Rocha Ferreira Lapa; começou em Agosto de 1844 e 
findou em Setembro de 1848. Os Drs. Francisco Freire 
Allemão, Francisco Gabriel da Rocha Freire, José da Silva 
riuimarãis, Anionin Cândido Nascentí-s d».». Azambuja e ou- 
tros m(MÍi('Os niviaiauí .irliiros p;nM :ís columna*^ doesta 
•gazeia. 

iiMvi.í Ml SSiri de/os<*is txpoiírapbias, e appar.ceram 
;Vss.'. iMi ih o- Ramalhete das Damay — Oslnisoi- Brasileiro 
— V(/rí/ Icacrray de Ihí-i a l8'iG. 

riiblic, do p )r MciMil; P^ ivira tle Carvalho (luimarães e 
João .!<;.-; Moioira, era o Oslensor fírcsilciro um jornal lil- 
terario iíiustn. lo com esLaniK.;', i' enriquocidas as paginas 
•'om Iiioí.npiíi.is ;!<) l)rasiU.'inK> illuslros, com ni-liriasdos 
rnojiiime.ilos (O paiz c com ouln s trahalht s relaivos ao 
Brasil. Os Srs. Mamx.i do Araújo Porlo AleLiiN', Jo iquim 
Manoel de Macido, Viilunio (ionoalves Ti'i\oira o Sousa, 
Coi íh'iru »í Lemo^: >Iagalha«'S collaboraram para i\<l..i gazeta. 



— 209 - 

' Fazendo menção d'eslc jornal lilterario devemos obser- 
var que raro era, durante o reinado do primeiro impera- 
dor, apparecer um periódico consagrado ás letras, ou ás 
sciencias; dominava o jornalismo politico, eram as publica- 
ções órgãos dos partidos, a imprensa era a arena onde 
cada facção , cada partido , se guerreava ; cada jornal 
tinhaa côr de seu partido ; usava-se da imprensa não como 
um meio de entretenimento ou instrucçâo, senão como uma 
arma de defesa ou de ataque ; e assim devia acontecer em 
uma épocha de reconstrucção social, que presidia um 
novo systema de governo, á inauguração de um impé- 
rio, e á outorga ao povo de uma nova carta constitucional. 
Mas nascendo em 1840 outro reinado, tendo cessado o go- 
verno interino, tranquillisados os ânimos, arrefecida a luta 
politica, e entrando a nação em um periodo de paz e pro- 
gresso, vendo no throno um principe americano, deu-se nos 
eispiritos uma revolução latente, a imprensa deixou de ser 
politica para tornar-so litteraria, não excitou e exacerbou 
mais os ânimos, tratou de dirigir e illustrar a opinião pu- 
blica. Já mencionámos o apparecimento das publicações 
litlerarias, a Minerva Brasiliense, Gazeta Universal, Ar- 
chivo Medico, e mais tarde o Ramalhete das Damas, a Nova 
Minerva e o Ostentar Brasileiro, 

Mandou o governo fazer, cumprindo o art. 33 da lei de 
18 de Outubro de 1845, a compra de um prelo mecânico 
para a typographia nacional, e em 1847 o prelo estava 
montado e trabalhava. 

O regulamento de 12 de Março de 18i6 fez effeclivo o 
privilegio, de que já gozava a typographia nacional, da ex- 
clusiva impressão das leis, decretos e outros actos gover- 
nativos. 

Por portaria de 12 de Março de 1846 do ministro da fa- 
zenda Manoel Alves Branco foi creada a Gazeta Ofíxcial do 

TOMO XXIX, P. II. 27 



- ilO — 

Brasil^ que appareceu em 1" de Setembro; sabia iodos os 
dias, excepto domingos e dias santos de gaarda. 

Com a publicação d*esta folba nasceu uma questão que 
occupou algum tempo a attenção do foro da capital. 

Á lei do orçamento bavia declarado privilegio exclusivo 
da iypographia nacional a impressão das leis para yendèl- 
as em coUecção ; vimos que o regulamento de 12 de Março 
tornara eiTectivo aquelle privilegio, vedando aos jornaes a 
impressão das leis, salvo quando sejam ofiiciaes ou tenham 
auctorisação do governo; mas entenderam muitos que o re- 
gulamento excedia à auctorisação dada pelo corpo legisla- 
tivo ao governo, que por meio d*elle ampliava o privilegio 
o prohibição. 

O Jornal do Commercio^ o Mercantil e a Gazeta dos Tri- 
bunaes julgaram que não deviam obedecer ao regula- 
mento, e, apezarde não serem jornaesofBciaes, publicaram 
sem auctorisação leis, decretos e actos do governo ; acca- 
sou o promotor publico os ditos jornaes perante o juiz mu- 
nicipal da primeira vara, e em audiência d*este magistrado 
«•ompareceram por parte do Mercantil o Sr. conselheiro 
Monlezunia, hoje visconde de .lequilinhonha, do Jornal 
do Commercioo Sr. Dr. Siqueira Queiroz, e o Dr. Justi- 
niano José da Rocha por parle da Gazeta dos Tribanaeskí 
(.■ourri^r du Bréjsil, que lambem era accusado. A primeira 
questão proposta foi a de incompetência de acção, enlen- 
dondo os que a allegaram que a causa era civil e não cri- 
minal ; u'este ponto proferiu o juiz municipal decisão 
contraria, o formou-se o processo ; porém afinal se de- 
rjdiu quií seria o processo de contrabando, ♦? que por- 
tanto seguir-so-hia o que está disposto na lei de U de 
Dezembro de 1841 a este respeito. Muito tempo durou 
esta questão, até que foi terminada pelo decreto de 30 d»» 
Setembro de 1S59, de que mais tarde fallaremos. 



— 2U — 



Eis a lisla dos jornaes de Í84G i --tíazeta Offícial do Im- 
pério do Brtisit, de 1846 a iSiS^ArchivQ fíomaníko — Ar- 
chivo Medico-^ Jardim Romântico^ Mínenm Fluminense 
—Annaes BrnsiUe^iBeH de Medicina — Gazeta dos Tribunaes 
— Ostemor lirmilciro — Miilfher do SimpUcio — Aumliador 
da Indmlriu — Revi&ta Tnmmisal do InstittUo Historko 
^Jornal do Commmxiú^Mcrcantil— Diário do fíio de Ja-- 
fmro — Seníimlki^ da Monarchia — Brasil Social — Tempíf 
— Brado do Amazonas^Jourrier Bráfdien, 

Fallèceu em 1846 o cónego Januário du Cunha 
Barbosa» nascido no Bio de Janeiro em 17â5. Sa- 
eerdole il lustre, homem bemfazejo, consagrou sua vida 
ao aliar u à palria ; mostrou na tribuna sagrada a força do 
seu ííenio e a grandeza de sua imaginação ; foi soldadu 
da independência, e inscre?en-se uo numero dos publicis- 
tas» emprehendeodo a publicação do lieverbero, l'ros- 
eriptu da pátria, voltou a ella para sentar-se entre os le- 
gisladores do p;iiz, e dedicando-se ao jornalismo publicou 
o periódico Renislfi das Gamarm. a Nas folhas da im- 
prensa, diz o Sr. Porto-Alegre ftillanto do cónego Januá- 
rio» elie se reproduziu com uni zelo incansafel pelas 
cousas da pátria, com aquellc vigor e colorido de que era 
capíiz uma alma adornada de todos os predicados e aper- 
feiçoada por uma educação completa. '> Publicou o cónego 
Januíirio os poemas Garimpmros e Nitherohy e o Parnaso 
Brasileiro ou collecção de lindas e mimosas poesias de auc- 
lores nacionaes. Foi o redactor da Gazeta Ofjicial; escreveu 
artigos litlerarios e politicos para as revistas e periódicos 
de seu tempo ; foi secretario perpetuo da sociedade Auxi- 
liadora, o fundador do InsliLuto Histórico, sócio de de- 
zoitn sociediades scientilicas e lilterarias da America e Eu- 
ropa, cónego da capella imperial, pregador régio, lente 
jubilado da pbilosophia, deputado à assemblèa geral, bi- 



- 2H — 

bliotbecario publico, coinineudailur das ordeDS de Cbrislo 
e Rosa, de varias ordens estrangeiras e oificial da impe- 
rial do Cruzeiro. 

Apresentando os apontamentos para a historia du jor- 
nalismo no Rio de Janeiro, julgámos que devíamos com- 
memorar o passamento d'aquelles que em seu tempo exer- 
ceram influencia na litteratura do paiz, na imprensa pe- 
ríodica,ou que animaram e promoveram com zòlo e dedica- 
ção o gosto das letras pátrias. 

Havia em 1847 dezoito typograpbias, e nosteanno nas- 
ceram os periódicos : — .Voro Domingueiro— Echo da Voz 
Portugueza — Sclencia, de 18i7 a 1848 — Voto Livre — Voz 
do Povo^Hevistíi Universal Brasileira^ de 1847 a 1848. 

José Feliciano Fernandes Pinheiro, visconde de S. Leo- 
poldo, nascido em Santos em 9 de 3Iaio de 1774, fallecea 
em 6 de Julho de 1847. Formado em Coimbra, occspou 
Fernandes Pinheiro diversos cargos de magistratura, em 
Portugal. 

DiiTerentes trabalhos scientiticos originaes e traduzido*:, 
que publicou em Lisboa, deram-lhe nome entre os homens 
doulos. Tomou assento em côrles como representante da 
província de S. Paulo ; foi conselheiro de estado e minis- 
tro durante o reinado do primeiro imperador ; coadjuvou 
o cónego Januário na fundação do Instituto Histórico, do 
qud fui o primeiro pnsident'; cooperou para a creação 
de outras sociedades litturarias e scientificas ; escreveu 
importantes memorias históricas sobre os limites do impé- 
rio, e publicou em i8áá os Annnes da capitania de S, Pe- 
dro. Homem investigador, escriptor dislinclo, historiador 
de critério e peso, marca o seu nome uma épocha nos an- 
naes litlerarios do Brasil. 

Produziu exaltação nos partidos pulilicusdo Brasil o mo- 
vimento revolucionário que abalou a Europa eur 1848, 



— 213 - 

bouve lula na imprensa yi?a e conlinuada, sustentada 
por muitos periódicos, dosquaes alguns pouco vivem, our 
Iros persistem ; cada dia surgem novos e todos em estylo 
fraldoso e dilatado faliam de liberdade, de garantias sociaes, 
e tratam de despertar os brios dos partidos. 

Eis a lista dos periódicos que sahiram dos prelos em 
ISíS:— Espectador— Fwn^icoco—Urasil, de 1848 a 1851— 
Dezeiwve de Selemiyro -^ Contemporâneo— Omnibus — Grito 
Nacional, de I848fl 1856— SemoCommum— Veneranda— 
Liberal^ de 1848 a 1853 — Fiscal — Contrariedade pelo Povo 

— Fluminense — Pato Macho — Mmêo Piltoresco^-Iris — 
(irinalda — Religião — Marmota mt Corte, de 1848 a 18G1. 

O conselheiro José Feliciano de Castilho Barreto e Noro- 
nha era o redactor do periódico lilterario íris, cujos coUa- 
boraiores eram os Drs. António Gonçalves Dias, Manoel 
de Araújo Porto-Alegre, Joaquim Manoel de Macedo, o pa- 
dre Patrício Moniz e o Sr. Joaquim Norberto de Sousa e 
Silva. 

O periódico Religião foi publicado e redigido pelo cóne- 
go Dr. Joaquim Caetano Fernandes Pinheiro. 

Desapparecera da arena da imprensa, em 31 de Dezem- 
bro de 1847, a SentineWi da Monarchia, que foi substituí- 
da pelo Correio da Tarde^ cujo primeiro numero sahiu em 
3 de Janeiro de 1848 ; viveu esta gazeta ató 1862. • 

O movimento de idéas, a exaltação politica que princi- 
piara em 1848, continuou até o anno seguinte ; surgiram 
dos prelos cm 1849 os periódicos: Caboclo— Califórnia 
--Fuzil —Povo — Gancho nu Corte— Judas — Judas Poli- 
tico — Judas Iscar iotes— Maribondo — Noticiador — Casca- 
lho — Catucd — Monarchista — Sino dos Barbadinhos-— Pa- 
triota—Torre da Candelária— Raio --Pagode Catucd— Ver- 
dade --Guarda Nacional --Soldado Brasileiro— Saquarema 

— Philoméla — Poraqué—Cruz&iro do Sul— Estrella do 



— 244 - 

Occidente^ Artista — Artista Brasileiro— Carranca — Cida- 
tlão^Echo da União — Desengnno dos Papeletas —Oppres- 
são Geral — Testamento de Judas— Diabo no mundo — Ti- 
mandro Juníor^Filh't do Timfii\dro^Theatrinho^Ltuirê 
de Theatro — Moleque — Picapdo — Beija^Flôr — Amar Per- 
feito — Borbohta Poética— Rosa Brasileira— Voz da Juven- 
tiuie — Guanabara — Rio Mercantile Journal. 

Eram dezcnove as typograpliías da cidade ifaquelle 
anno. 

Á rcvisla litleraria Guanabara era publiiuida sob a pro- 
lecção do Imperador, e escreviam para ella os Drs. Manoel 
de Araújo Porlo-Alegre, Joaquim Manoel de Macedo, Gon- 
çalves Dias, Fniirc AUemrio, cónego Fernandes Pinheiro, 
conselheiro Cândido Baptista de Oliveira e o Sr. Joaquim 
Norberto de Sousa e Silva, que, além dos periódicos jà 
mencionados, foi coUaborador dislincto do Despertador, 
Revista Universal Brasileira, Novo Gabinete de Leitura, 
Uuséo PittorescOy e do Mosaico Poético, 

Em Setembro de 185o assumiu o Sr. cónego Dr. Fernan- 
des Pinheiro a direcção da revista Gí/ant/fcam, e cumpriu 
com dedicarão essa árdua tarefa até ao fim do anno dp 
1856. 

Apozar de escriplo por pennas tão hábeis, não teve o 
Guanauffrn longa duração ; se tocou ao anno de 1836 foi 
porque o susteve mão poderosa e augusta. 

Sendi» fácil encontrar nos Alm.uiacks a relação dos 
periódicos que appareceram de lb%')() para cá, não daremos 
seus nomes : só mencionaremos quantos havia em cada 
anno o quantas typographias. 

Havia em 185') dezeseis periódicos e vinte e cinco typo- 
graphias; em 1851 vinte periódicos e as mesmas typogra- 
pliias ; em 1852 vinte e três periódicos e vinte e uma 
typoiíraphias : em I83:i trinta periódicos e vinte e quatn» 



215 

typographias ; em 1854 trinta periódicos e vinte e seis 
lypographias ; em 1835 vinte e quatro periódicos e vinte e 
três typographias ; em 1856 vinte e seis periódicos e vinte 
e quatro typographias ; em 1857 vinte e nove periódicos e 
vinte .e quatro typographias. 

Appareceu em 1857 a Revista Brasileira, jornal de 
sciencias, letras e artes, dirigido polo conselheiro Cândido 
Baptista de Oliveira. Era Irimensal, e veiu suhstiluir o 
Guanabara ; além do director linha um redactor gerente, 
cujo cargo foi occupado successivamenle pelos Drs. Manbel 
Ferreira Lagos, Frederico Leopoldo César Burhmaque e 
cónego Dr. Fernandes Pinheiro. Para esta revista escre- 
veram es Drs. Freire Allemão, Fernandes Pinheiro, con- 
selheiro Cândido Baptista, Srs. Joaquim Norberto, e Porto- 
Alegre, que, além de outros, collaborou para os perió- 
dicos Reforma, Jornal dos Debates, e lUustração Brasi- 
leira. 

Sahiram da Revista Brasileira onze números, sendo o 
ultimo o de Junho de 1861. Teve esta publicação litteraria 
a valiosa protecção do Sr. D. Pedro ÍI. 

Havia em i838 trinta e seis periódicos e vinlp o quatro 
typographias. 

Não tendo os compositores das folhas diárias alcançado 
um mil réis mais sobre seus ordenados, o que já a algum 
tempo reclamavam, determinaram, em Janeiro iraquelle 
anno, deixar as typographias onde trabalhavam, e crear 
um periódico intitulado Jornal dos Typographos. Esta re- 
solução dos artistas typographos causou sérios embaraços 
ás emprezas do Jornal do Commercio, Correio Mercaniil 
e Diário do Rio ; duas doestas folhas suspenderam a sua 
publicação, e a outra deu só uma pagina de impressão du- 
rante dias. Mas pouco durou a deserção ; voltaram os 



:irtisus p^ira a« offic>Das qoe •le^^mp^nrim. e três meses 
depois já n"o eiisirt o p riodiç»^ crea«l« por elle?. 

Foi rjomea'li •^m 1839 alrnio^slra-Ior di lTp«>gnp|ia 
DJCÍonal o Dr. Marj«'Krl António d.' Aimeidi. tendo sido 
aposf;nli'lo o Sr. Braz Antoni") Câstriot^, qne e\6rcéra 
aqunlk cargo t^urant*; ;ríiitâ e cinco annos. 

Havia líin 18.9 trinta e seis periodicits e vinte eseis ty- 
pographias. 

?íaM>fU em Janeiro de 1839 a fíevUta P'.>piiiar, jornal 
Mliislndo.consaiíralo ás letras, sciencias e artes : appare- 
cia duas vezL'S no mez, e era sen editor o Sr. Garnier, cujo 
louvável empt^nho em dar au prelo as obras de auctores na* 
cioíKies deve ser elogiado e francamente reconhecido 
Kscreveram para a Revista Popular, além de outros litte- 
ratos, os Srs. cónego Dr. Fernandes Pinheiro, Dr. Luiz do 
í^lro, Calogeras, Joaquim Norberto e Dr. Joaquim Ma- 
noel de Macedo, que, além dos jornaes já citados, coUa- 
borou para o Mosaico Poético^ ^ação, Bibliotheca Brasi- 
leira^ Marmota Flamineme^ Jornal do Comtnercio e outras 
folhas politicas <; liUer.irias. 

í)Sr. Dr. ('j)\U'<^i) F»*rn;imlHS Pinheiro foi re«hiclor o rol- 
iahoradordoperiíHljr.í» Tribuna Caúiolicn. 

Puhlicou-se em 30 de Setonibro de 1839 o decreto 
n. ^,491 eílahehM:oii(lo ine<ii(his para fazer eflectiv») o privi- 
le<,'Í!Mla iiiipressãí» e puhlicaeão das leis, decretos e actos do 
^'overiHí, ípiecom|)ete á lypographia nacional, e impondo 
pen;is aos contravenlores. Kis :i inteiíra de alguns artigos 
(fiasse decreto : 

*i Ari. 1 ." Compete :i fazenda publica o privilegio exclu- 
sivo da impressão e publicação das leis, decretos, e reso- 
luções da assembiêa geral hígislaliva, c dos decretos, 
regulamentos, inslrucções do governo geral e outros acto* 
governativos, para serem vendidos em coljpcção. 



— 247 — 

« § único. Este privilegio não importa prohibição: 1**, 
da transcripyão ou inserção das leis, decretos, resoluções, 
regulamentos, actos, instrucções, relatórios e outros do- 
cumentos nos periódicos ; 2*, de sua impressão em com- 
pêndios, tratados e quaesquer obras jurídicas, e menos 
pôde prejudicar as collecções impressas até o dia da pu- 
blicação da lei n. 369 de 18 deSeiembro de 1845. 

« Art. a.** A infracção do disposto no art. !• importará 
confisco ou apprehensão e perda de todos os exemplares 
publicados ou postos á venda, o multa igual á importância 
do seu valor. 

a Estas penas recahirão: i% sobre o donodaofficina 
que fizer a impressão ou publicação; 2% sobre o auctor 
ou importador ; 3% sobre o vendedor, os quaes lodos serão 
solidaríamente responsáveis pela referida infracção. 

« Art. S.** A impressão da legislação e documentos, de 
que tratam os artigos antecedentes, será feita na typogra- 
phia nacional. 

« § único. Exceptuam-se os casos em que o serviço pu- 
blico exigir que alguns d^esses documentos sejam impres- 
sos em officinas particulares. » 

Seguem-se outros artigos providenciando sobre o julga- 
mento do confisco, apprehensão o perda dos impressos de 
que tratam os artigos antecedentes. 

Veiu substituir ao l)r. Manoel António de Almeida no 
lugar de administrador da typographia nacional, em 30 de 
Setembro de 1859, o Sr. João Paulo Ferreira Dias, actual 
administrador d*aquella officina. 

Pereceu o Dr. Almeida em um naufrágio, em 28 de No- 
vembro de 1861. 

Deu em um baixio, em viagem d'esta cidade para a de 
Cainpos, o vapor Hermes; as ondas, lavando o convez, 
sossobram o navio, e arrebatam ao furor do oceano ho- 

TOMO XXVIII, P. II. 28 



mens, molberes e crianças ; Manoel Anlonio de Alneida 
agarra-se ao mastro, e vè iresse patibah a erabarcição 
despedarar-se, seus amig>>s e cjmpanbeins de Tiigem 
afflictos c afogaiJos na vaga do ^::8carcéo, e elle só encantt- 
do a morte dos amigos e a sua, veado na espama das agaas 
abrir-s^ seu lumulo, apagadas as suas esperanças e esitiodo 
o seu futuro. Supplicio terrível, luta de vida e de morta, 
mo:aeQtos cruéis, sem uma única esperança ! Desfallecído, 
cahiu o corpo d*aqueUejoven, levando comsigo o mastro, 
cruz do seu Gulgotlia. 

Alguns dias depois appareceu em uma praia deserta o 
cadáver do desditoso mancebo, reconhecido não só pela 
marcada roupa branca,senão por diversos papeis encontra- 
dos em uma carteira. 

Manoel António do Almeida nasceu no Riu de Janeiro 
em IT do Novembro de 1831 ; apezir de pobre, conqnistoo 
com sua iulelligencia o diploma do doutor em medicina : 
escriptor hábil, poeta e romancista, deu artigos de sua pefr* 
na para diversos periolicos, enviou poesias de subido mé- 
rito para muitas gaziHas lilterarias, e publicou o lindo n>- 
iiianco. df* coslnmís naciuiiaes *. V. 'mnins ílé» um suniento df 
iniJicnis. 

Deu o íl"crel() de *M) de vSctembro novo regulamento 
â typographia nacional ; creon novos lugares o suppri- 
miu outfiS, estabelecendo quatro secçdes: a 1*, de es- 
cripturação ; a i*, para deposito de impressos e outros ol>- 
jeclos,com um fiel e seu ajudante, que deverá ser ao mesmo 
tem[»u (-.oritinuo ; a 3% ofíicina de compositores com um 
mestre e seu ajudante ; e a 4% ofíicina de impressores com 
um mestre, que será o machinista, e um ajudante tirado da 
classe dos impressores. Baixou o preço da collecção das 
leis para 30 rs. por cada folha de oito paginas, que d'antes 
custava 80 rs.,íkando os mappas e tabeliãs, que c^nti- 



- álVí — 



veiWB taei collêcçjle5, a razão de ^OOis., cadauma, stíja 
qnat for o seu lamanho e feitio, porém as folhas avulsas 
foram taxadas a 200 rg, cada paguia* 

UaTÍa em 1800 trinta e quatro pariodicos» sendo dois em 
fi-ancez, dois em italiano, mn em h*^spatibol b os outros em 
portuguez ; contavam ííe yiote e oito typograpliias^ 

Veiu se estabelecer, em 30 de Setembro de íHGfí, a ^- 
pographia nacional no novo edificio da ma da íiuarda' 
Velha, construído no UTfeno ondõ existira a casado antigo 
Ibesouro da corria, a qual foi ilestruida por um incêndio, 
em :í1 de Joobo de 185á, quando servia de asylo a mnita!; 
íamilías pobres de servidores do Estado e de deposito das 
obras publicas; cumoçou o incêndio às 1 i èoras, e à 1 liora 
da tarde ardia lodo o edifieio,achando o fogo fácil alimento 
nas resequidas madeiras; e não podendo ser exlinclo» forçai 
foi eircuinscntivél-oaseu foco para salvar-se o edificio fxm 
iigiio da secretaria do império e archivo publico, cujos 
papeis com ^díílicyldade foram recolhidos. Desabaram. 
oíXíisionando algumas victimas, as paredes laleraes do 
odíficío incerifliado, quo» no fim de horas, era lodoruina?. 
Residira algum tempo n'esla casa o general Avilex, 

Demolidas as paredes arruinadas pelo fogo, aproveitou it 
governo o Liírreon para erguer n'elle o edificio da typogra 
ptiia nacionaL o qual uada tem dt^ notável; um paredão 
coLu alguns octilos, tendo um porlão no centro e um attieo 
uccultando o telhado, eis a prospecto da lypograpbia nu 
cional ! 

Tendo se de construir um edificio especial para a im- 
prensa nacionat convinha erguei-o segundo as regras da 
arle, digno do fim a que erâ destinado, e nao uma casa sem 
Kirma nem elegância, que manifesta mào gosto e atrazo 
nas hellas-artes entre nós, 

Ho rosto dos monumentos fica gravada a historia dos 



— 220 — 

povos, esé descrê da civilísação de um paiz quando não a 
altestam esses livros de pedra. 

Ojíjsta o edifício da lypo^raphia nacional de uma saia 
que serve de secretaria, de um armazém onde se guard i 
papel, de duas salas de composição, outra dos prelos ma* 
nuaes e outra dos prelos mecânicos ; ha também uma sala 
especial,construida em i ^62,onde se trabalha na impressão 
do Dinrio 0/ficial. 

Possue a typoj^^aphia dois prelos mecânicos, tem um 
administrador, um amanuense, um escripturario e mais 
sessenta e quatro empregados : ad;nitte aprendizes de im- 
pressor e compositor ; imprime as leis, decretos, regula- 
mentos, relatórios e a gazeta do governo, e lambem se 
encarrega da impressão de qualquer obra particular, le- 
vando, além das despezas, a commissão de loa 25 Ve- 

Contavam*se em 18Gi vinte e três periódicos e trinta 
typographias. 

Uma "xiijencia inesperada dos compositores apresen- 
tada à ultima hora obrigou a não sahir o Correio Mercantil 
no dia 3 de Sc.^ei.ibro de ISíM. 

K\isliam eia :S(52 Irinla typographias e Iriíila o dois 
periódicos. 

Em 9 de Junho d'i'sso aiino visitou o Sr. I). Pedro 11 a 
tyi)ogr<iphia nacional, ptTCorreudo lodo o edifício e co- 
lhendo as noticias que julgou convenionles. 

r/)nsagrou o mesmo augusto Síiuhor a m iiiliã do dia 18 
(i'aí|uellt' mez á visita de alguns eslabcleciíieiitos indus- 
triaes d*esla cidade, manifestando assim a sua solicitude 
pelo progresso das artes e pelo adianlamcnlo do paiz que 
a Providencia collocou sob sou governo. 

Depois de visitar a fabrica de fundição de ferro (í oííici- 
nas de ferreiro e serralheiro do Sr. Miguel do Couto San- 
tos, dirigia -se ao estabelecimento typographico dos Srs. 



- 221 -^ 

Eduardo & !í mrique Laemmcrt, á rua dos Inválidos; exa- 
minou os pr los mecânicos movidos a vapor, as macbinas 
do asselinar, cortar linhas e dourar, ele, assistindo ao tra- 
balho de todas as ollicinas. Emquanto durou a visita, re- 
conhecidos à honra, que recebiam, compuzeram e impri- 
miram os lypographos o seguinte testemunho de gratidão : 

« Senhor. — A augusta presença de Vossa Magestade Im- 
perial n*csta odlcina typographica é mais uma luminosa 
prova do interesse e desvelo que Vossa Magestade dispensa 
ás sciencias e às artes. 

« E' grato, senhor, para os typographos que o seu Im- 
perador venha entre elles animando com sua augusta pre- 
sença aos distinctos o incansáveis lidadores que fundaram 
e ainda sustentam este estabelecimento, onde tantos súb- 
ditos de Vossa Magestade soem adquirir o pão quotidiano, 
applicando-se a uma arte que,pharol do progresso, illumina 
o dissipa os nevoeiros da ignorância. 

« Jubilosos, senhor, agradecemos a Vossa Magestade, 
em nome d*esta corporação e d*aquelles que benignamente 
nos acolhem, a subida honra que se digna fazer á Typogra- 
phia Universal deLaemmert,aguanlandoa nova aurora que 
surge no horizonte typographico fluminense. 
t& « Somos, senhor, de Vossa Magestade Imperial, respei- 
tosos o reverentes súbditos— Oíaríwtos typographos. » 

Em seguida dirigiu-se o Imperador á fabrica de canoti- 
Ihos, fios e galões de ouro e praUí do Sr. Fructuoso Luiz da 
Motta, n'aquelU rua n. 108, e á fabrica de cerveja do Sr. 
António José Gomes Pereira Bastos m, rua de Matacavallos 
n. 27. 

« Minhas animações nunca deixarão de procurar a 
quem concorrer para o engrandecimento da nossa pátria », 
disse algures o Sr. D. Pedro ÍI, e cada dia o vemos descer 
os degráosdo throno, cercado do prestigio da intelligencia 



- ááí - 

n da magoslade, para animar o operário que, com mSo cat 
losa, procura abrir o trilho da riqueza nacional ; o artista 
que na luta do progresso se esforça por obter louros do 
festim da intelligencia e do trabalho; o escrlptor,o litteralo, 
o poeta, o sábio, que, ou pela força do génio, ou pela ins- 
piração, ou pelo amor á scíencia, percorrem, sem se lem- 
brarem do hospital de Camões, do suicídio de Cbatertton, 
ou do cadafalso de André Clienier, o caminho cheio do 
urzes, de cruentas agonias que conduz à gloria. » 

Desceu ao tumulo em 10 de Julho de 1862 o Dr. Jus- 
tiniano José da Rocha, vulto notável da imprensa perió- 
dica do Rio de Janeiro. 

Nascido n'esta cidade em 8 de Novembro de IS 12, per- 
correu os primeiros estudos, e foi para Europa iiiatricular- 
seno collegio de Henrique IV, em França. A academia ju- 
ridica de S. Paulo conferiu-lhe o grào de bacharel ; ainda 
estudante concorreu com alguns dos condiscípulos para a 
fundação de associações litlerarias, e collaborou para a Ne- 
Dista Philomatica creada em 1833, e para o Pharol Pau- 
listano, nnlroii em 1836 na arena do jornalismo politico, 
piiblican lo os peri-ídicos itliyitr o Chroiiinta, sendo colU 
boradores deste idlimn osOrs. Josinodo Nascimento Silvo 
(5 Firmino Rodrigues Silva. Foi snbsliluitlo o Chronisln 
i'\n 18:U) pelo fírani/, gazela qin^ viveu al(H 849. rr-on 
lambem o Velho lirdsil, u Correio do Brasil c o lieifencrn- 
dor, enjo primeiro numero appareceu em \) de Fev*MVÍro 
de 1800, (! viveu o periódico alo quando viveu o redaclor. 

O Jornal do Commcrcio, a (ia zeta dos Tribiinacs^ a 
Marmota Fluminense, o Correio da Tarde e oulros |)eriu- 
dicos políticos c lillerarios viram em suas paginas artigos 
da hahil penna (h Justiniano Rocha, que escreveu diver- 
sos folhetos sobre politica geral, introduziu a novella era 
appendice ou folhetim nos nossos jornaes, compôz alguns 



- 228 — 

romances e traduzra oolros. Homem incansável, de etíge^ 
nho vivo, tinlia a penna tão adestrada do tiroteio politico 
qae, conversando com os amigos, escrevia artigos para os 
seus periódicos ; e era audaz e argucioso na phrase, con^ 
vincente e lógico na argomentação. Soldado da penna, 
sustentou emqnanto viveu a luta da imprensa, que parecia 
amar : « E* a minha tuntca de Nesso, » dizia elle; e de feito 
só cahiu-lhe dos hombros no dia que a doença o pros- 
trou no leito e depois no tumulo, deixando nas folhas 
do jornalismo ara nome que se perpetuará. 

Foi creado em 1 de Outubro de 1862 o Diário Ofílciai 
do Império do Bmnl, com quatro columnas de impressão 
em cada pagina; publica-sc todos os dias, eíLcepto às se- 
gundas-feiras ou depois dos dias de guarda. 

Eis a listsk dos periódicos que actualmente se publicam 
na corte: — Jornal do Commercio-^^orreio Mercantil-^Di<i^ 
rio do Rio de Janeiro^-^Diario Official do Império do Bra- 
sil — Actualidade — Conslitucional'^ Brasil — Spectador — 
Crença — Escorpião — Formiga — Folgazão — Indicador Mi- 
litar — Liberdl Protestante— Militar ^Mosaico — Portuguez 
— Semanário — Bella Fluminense — Violeta — Abelha — 
Oriente — Nauta Destemido — Nacional^Orgãx> do Progresso 
— Semana I Ilustrada — Gazeta Judiciaria — Cruz — Archivo 
lÀtterario — Gazeta Medica — Annnes Brasilienses de Medi- 
cina "Auxiliador da Industria— Refviski dos Enswios Litle- 
rarios — Revista Trimensal do Instituto dos Advogados — 
Renista Trimensal do Instituto Historioê^Courrier du 
Urésil. 

Ha na ctkte trinta e duas typographias e três fundições 
de typo. 

Fácil é reconhecer o desenvolvimento que tem tido entre 
nós a imprensa periódica, politica e iitteraria ; os nossos 
diários não são inferiores aos da Europa nem em formato, 



- 224 — 

nem em variedade de matéria, nem em nitidez de impres- 
são. Jà se foram os tempos em que o jornal politieo era o 
pelourinho das reputações, o cepo cruento onde se sacrifi- 
cavam a honra, o nome, a dignidade, os brios de lodos; fe- 
lizmente hoje é moderada, digna e respeitosa a linguagem 
da imprensa politica; ha mais gravidade e sisudeza na ex- 
pressão, mais escrúpulo e consciência uaphrase ; o jorna- 
lismo já não é o pasquim antigo, é o pharolque guia, educa 
e doutrina o povo ; nilo é a satyra grosseira e polluta de 
outr^ora, ponm a chronica, a historia, a critica, o pensa- 
menti), a vida do progresso social. 

Também tem pr)gredído a imprensa litteraria ; cada 
anno augmenta-se o numero das obras impressas no paiz, 
vai se propagando o gosto da leitura, wú tomando um ca- 
racter mais peculiar e pátrio a litleratura do paiz ; ha mais 
animação e vida nas letras, e pouco e pouco vai desappare- 
cendo essa indiderença Tria e cruel, que nos tem sido fatal, 
e que tem tahez retardado o progresso material e moral da 
nação. 

Findamos aqui o nosso trabalho, que emnxlos mais há- 
beis teria, é certo, maior desenvolvimento, admiltiria outra 
ordem de consideragõos que não nos eiisini a nossa liini- 
taíla iiílcll-gencia; e ao lerminar, pedimos desculpa ao 
JnstituUf Histórico e (íeofjraphico Brasileiro de ler fat'gadi) 
sua illuslrada allenção ouvindo o ultimo dos seus mi^mhros. 

I)r. Moreira de Azevedo. 
18(53. 



os DLTIMOS YIGE-REIS DO BRASIL 

Memoria lidn no Instituto Histórico e Geographico Brasileiro 

PBLO SÓCIO EPPECnVO 

CÓNEGO DR. J. C. FERNANDES PINHEIRO 



Dizem os viajantes que muitas vezes se notam na índia 
humildes e toscos pórticos diante dos gigantescos templos 
consagrados à divindade de Brahma ; assim também seja 
este nosso tosco trabalho o peristylo do magestoso monu- 
mento que ora está erguendo o nosso douto consócio o Sr. 
&r. J. M. Pereira da Silva em sua Historia da Funda- 
çào do Império Brasileiro. Simples chronista, raileamos 
os factos à luz dos documentos ; e, sem amor, nem ódio, 
sine ira, nec stvdiOy buscamos por única mira a verdade. 

Sabidos são os motivos que determinaram a el-rei D. 
José a mudar a capital do Brasil da cidade do Salvador da 
Bahia para a do Rio de Janeiro, e ninguém ignora que a 
Gomes Freire de Andrade já bavia cabido a gerência de to- 
das as capitanias meridionaes. 

Parasucceder a tãkprecíaro varão foi escolhido D. An- 
tónio Alvares da Cunha, conde do mesmo titulo, com o 
posto de vite-rei e capitão-general de mar e terra. 

TOMO XXIX, p. u. 29 



— 226 - 

A 15 de Outubro de 1763 aportou elle ás nossas plagas, 
recebendo no dia seguinte as rédeas da governança das 
mãos do bispo diocesano, D. Frei António do Desterro, do 
brigadeiro José Fernandes Pinto Alpoim e do chanceller da 
relação João Alberto Castello Branco. 

Seu primeiro cuidado foi o de visitar as fortalezas, pas- 
sar revistas às tropas da guarnição, de cujo exame, po- 
rém, parece não haver ficado muito satisfeito, a julgarmos 
pelo officio que dirigiu aoministro*dos negócios ultrama- 
rinos Francisco Xavier de Mendonça Furtado, irmão do 
conde d*Oeiras e depois marquez de Pombal. 

(c Logo que tomei posse (diz elle) do governo d'esta ca- 
pitania visitei as fortalezas d'este porto, e todas ellas pre- 
cisam de reforma, assim nas muralhas como nos reparos 
d'artilheria. Também passei mostra às tropas pagas, e as 
achei faltas de gente e de disciplina. » 

Grave censura parecem irrogar estas palavras à gerência 
do benemerito^H^ondo de Bobadella; não era, porém, este 
o intento do novo vicc-rel, que alto proclamava as eminen- 
tes qualidades do seu predecessor; julgando poder expli- 
car certo deleixo que se nolav.i, nau sò n'este, como n'ou- 
tros ramos do publico serviço, pela exclusiva atlençâo 
que prestava o mencionado Bobadella á guerra Cisplatina. 

Lançando suas vistas sobre o estado da fazenda real, eo- 
conlrou-o o condo da Cunha no mais deplorável apuro : só 
de soldos atrazados devia-se 32:i45$564 e de farda- 
mentos também atrazados 7á:6588970, existindo apenas 
em cofre 8:200.S000. 

Incumbido da fabrica d'uma nào, que devera denominar- 
se S. Sebastião, deu principio a uma nova ril)eira, que 
abrangia o espaço compreheridido desde a ladeira de S. 
Benlo até o sitio entiío appellidado de Coes de Braz de 



— ái7 - 



Pina. Foi elle o embryão do arsenal de marinha, contado 
hoje entro os melhores eslabeleciraenlos da nossa capi lai. 

Depois de lia ver consagrado às forlalezas da burra o 
imidadó que reclaínava a segurança da cidade, pensou em 
íMlificar outras que mais complelo tornassem o systema de 
defesa ; .assim sob a sua activa e inlelligenle direcção sur- 
giram as das Praias Vermelha e de Fora ; foi melhorada 
a de Víllegaignon com a demolição do monte que a enco- 
bria da banda de terra; e na enseada da Concha, ao sul 
de Macahc, manrkm levantar um forte, que recebeu o nome 
de Santo António do Monte-Frio* 

Faltava um armazém em que fossem recolhidos os pelre- 
i'hos bellicos, visto como havia ardiílo na invasão franceza 
de 1710 o antigo» vizinho á Casa dos Conlm e á residência 
dos governadores; sempre solícito peio real serviço, tratou 
o conde da Cunha de satisfazer a esUi necessidade orde- 
nando que no morro da Conceição, e contigua á fortaleza 
do mesmo nome, se edificasse uma casa para u supradito 
fim, estabelecendo lambem n'elta officinas de armeiros, 
coronheiros e mais misteres precisos para o fabrico e re- 
paro das armas. Para deposito d'artílheria destinou a casa 
que mandara construir no l(»cal então denominado Ponta 
da> Mmrkúrdm^ e oríde ho|e vemos o arsenal de guerra. 

Além (IVstas obras, deve a nossa cidade ao severo vice- 
rei a reedificaçâo do palácio dos antigos governadores e 
a da casa dos contos, a do hospilal militar, da eadéa, da 
relação, o hospital dos lasaroseoulras de menor impor- 
tância. 

Ueiegado de um poder absoluto* seo^o despótico, in- 
corcen por mais de unia vez no desagrado dos pacitícos 
fluminenses, entre outras quando executou a carta régia de 
30 de Julho de 176íí, que determinava que fosse extincto 
o oflicio de uurives ; nào s<>mente na capitania do Minas- 



— 228 — 

(ieraes, como nas da Bahia, Pernambuco e Rio de Janeiro. 
Cumprindo com fidelidade as ordens que a tal respeito lhe 
foram transmltiidas, pleiteava d* este modo pela causa da 
justiça em olficio reservado de U de Agosto de 1767 : 

« Isto assim executado, é preciso agora dizer a V. Et. o 
que sinto n^esta matéria, para que possa ser constante a &ia 
l^agestade que estes officios, assim de ourives como lapida- 
rios, cravadores e fundidores, faziam n'esta terra um ramo 
de negocio do qual viviam muitas mil pessoas, sendo cento 
e quarenta e duas lojas as que bavia naquelia rua, e em to- 
das ellas trabalhavam muitos officiaes casados, brancos, e 
outros muitos escravos de particulares, que de seus joroaes 
(que eram grandes) viviam os seus senhores e as famílias 
doestes que não eram ourives ; os brancos se sustentavam 
a si, a suas mulheres e filhos, e todos vestiam e calçavam 
d*aquelles lucros, e com o seu luzimento davam um grande 
consumo de todas as fazendas que vinham nas frotas 
d*esse reino, o que tudo fica cessando, em prejuízo e aba- 
timento dos rendimentos d'esta alfandega; alóm do que vi- 
nha de Buenos-Ayres sempre um grande computo de di- 
nheiro para varias obras d*ouro o prala,o que produziauma 
utilidade ponderável assim aos mesmos ourives como ao 
commercio do reino, de cuja falta resultarão prejuízos mui 
sensíveis. > 

iNo proseguimcnlo d'este oíScio não dissimula o vice-rei 
que alguns ourives se haviam tornado dignos de rigoroso 
castigo pelas fraudes que praticavam em damno da fazenda 
real, e ainda dos particulares; mas, reconhecendo que for- 
mavam elles excepção de regra, compondo-se a classe de 
homens honrados e alguns já no inverno da vida, intercede 
em seu favor n*estas sinceras palavras : 

« Todos csies mestres, ou os mais d'elles, tèm idades 
muito avanradas,e tanto que ella lhes não permiite o apren- 



(lef em oQlm oíBcio, e para o irem eiemiiar em Lisboa é 
certo qoe não lém meios para fazerem os seus Iraosportes 
com famílias Ião amlladas, e porque Umbem estas m^ 
oalaraes doesta terra, e iieila tèm os seus parentes dos 
quaes se não resolvem a apartar- se, e por esta causa se tãa 
mudando todos para roças e chácaras muito longe doesta 
cidade, onde para não acabarem a vida de fome hào do 
fundir (alguns d>.Uiâ&) e hao de Iraballuir dos mesmos 
officios Stím que pcssa serpossivel evitar este conlrabando, 
pelas grandes distancias era que trâo reíidir, c pela falta 
de íiotieia que d^elles ha de haver» e para assim o eieca* 
tarem pouco oti nenhum embaraço lhes causará a falta do 
instrumentos que se lhes tiraram, nem a prohibição que 
ha para Ibes não poderem vir d*esse reino» porque a*esla 
cidade ha muitos olliciaes de ferreiro, serralheiro, e de 
lodos os officios, e muito babeis, que não será íacil cm- 
harapr-Ihes que o façam , como, e quando elle^ quiserem* 
Este grande numero de ourives iMnbem conhece quê a 
mercê que Sua Magestade lliesfez demandar accommodar 
na casa da moeda e fundiçã'> d* esta cidade e nas mais 
il^este Estado tem embaraços' inve noiveis e que os nlo 
remedeia em cousa alguma ., ^ 

Cunclue-se dos trechos que arribamos de citar que o 
conde da Cunha nâo era solidário com os ministros de 
D. José I no pensamento úe extirpar do Brasil a ulil classe 
dos artífices de pedras e metaes preciosos ; podendo bem 
acontecer que o bom senso e a experiência^ colhida em 
estranhas terras, Ibt! íizessera ver o grande erro económico 
que então commettia o governo português. 

Esle distíncto vara*^, a cujos sentimentos de justiça 
ac-ibimos de render homenagem » lançou negra peclia sobre 
oCriructiTÍlurainense.nbsicido paio desejo de militarisar o 
pm e livral-o de novos comnietli mentos de audâcioios 



— 430 — 

eslrangeiros. Esquecendo a heróica resisteacia que oppií- 
zeram os habitantes doesta cidade à invasão de Daclerc, 
accusou-os de moUes e faltos de valor ^ não duvidando ouira- 
sim asseverar que, assim como se apoderara D. Pedro de 
Geballos da praça da Colónia, com sós setecentos homens, 
poderia com iguaes forças assenhorear-se dó Rio de Janeiro, 
cujos moradores estavam dispostos a fugirem para o in- 
terior, levando comsigo suas riquezas II 

Se não foram taes palavras acinte empregadas como ar- 
gumento ad terrorem afim de arrancar do governo de 
Lisboa medidas preventivas de grandes maies, cumpre 
confessar que involvem grave injustiça, de que por certo 
mais tarde se arrependeu o conde vice-rei. 

Verdade é que sempre olharam os ilumiuenses com 
horror para essa caçada de homens palliadacom o nome de 
recrutamento, buscando abrigo em todo o género de isen- 
ções e privilégios. Queixando-se d'elles, servia-se das se- 
guintes palavras em officio de 16 de Junho de 1764 : 

« n'esta terra e nas vizinhanças rara é a casa que 

não tem privilegio ; umas o lèm da Santíssima Trindade, 
outras o da Bulia da Cruzada, uulras o de familiares do 
Santo OlTicio, outras o de Santo António de Lisboa, e as 
inaiuivs fainilias a do moedeiros ; estes não só livram seus 
lilhos (]o serviço militar, mas também seus criados, cai- 
xeiros, feitores, roceiros e os que eslão addidos aos seus 
engenhos de assacar; pelo que se esta multidão de pri- 
vilégios se não derogar, ao menos emquanto se não com- 
|)letaremas tropas, não será possível haver soldados n^ellas 
se não vierem de Portugal, e isto seria o mais acertado. 

« Accresce mais á sobredita impossibilidade outra que 
Sua MagesUuie deve prover de remédio, que é o grande 
numero de frades (jue querem ter estas três religiões, que 
a(|ui ha, de bentos, carmelitas e franciscanos: estes têm 



— 234 — 

passante de quinhentos, os outros também têm excessivo 
numero, e todos elles silo de gente que é abastada e a mais 
branca do paiz ; lançam-lhe os hábitos em tão tenra idade 
que nâo me posso adiantar a prendòl-os para toldados por 
nao terem ainda a idade que Sua Magestade manda pelos 
seus reaes regimentos e ordens ; o bispo ordena a quantos 
querem ser clérigos, e um e outros tão ignorantes como 
é notório.» 

Volvamos mais uma lauda d'essa preciosa correspon- 
dência, que tão ao natural nos mostra o caracter do conde 
da Cunha, e apreciemos ainda uma vez os nobres sen- 
timentos que animavam esta alma de rija tempera : 

« Conhecendo -se que o premio e o castigo são os dois poios 
em que se firmam as monarchias, e que o equilíbrio em sua 
distribuição é a segurança que humanamente podem ter, 
vô-se claramente que não é possivel haver boa ordem e 
regularidade no governo doestes immensos Estados e dos 
seus innumeraveis babitintes não tendo o seu vice-rei, ou 
governador, meios com que premiar os bons, e só sira fa- 
culdade com que castigar os màos, pelo que esta desigual- 
dade em quem aqui governa, oii governar, o ha de fazer 
sempre pouco amado e não pontualmente obedecido, o ser- 
viço do rei se ha de executar com frouxidão, e não alcanço 
o como se poderá remediar este desconceito. A experiên- 
cia me tem mostrado a importância d'esta falta, e a preci- 
são que ha d'alguma providencia ; que esta a procuro a 
favor dos meus successores, pois que por se terem findado 
os três annos que a real patente d'el-rei nosso senhor me 
limitou creio que muito brevemente poderei ser rendido, e 
por esta causa inútil para mim é a decisão doesta conta. » (1 ) 

(i) OÍRcio dirigido a Francisco Xavier de Mendonça Furtado e 
datado de 2/i de Março de 1767. 



- áS2 — 

Câosará por certo estranheza quetioi homett em quem Bê 
notam sentimentos tSo generosos, haja conspirado contra 
ette todos as classes em que então se dividia a sociedade 
fluminense. De suas próprias palavras, endereçadas ao mi'^ 
nistro do ultramar, em data de 7 de Julho de 1767, de* 
prehende-se que estava malquistado com o clero» tanto 
regular como secular, com a milícia, com a magistratura, 
com os empregados de fazenda, com o commercio e até 
com 08 lavradores. Busca o conde no citado officio lançar 
por conta alheia a causa de semelhante antagonismo» mas 
monsenhor Pizarro, que com desinteresse e imparcialidade 
estudou a sua administração, aquilata-a do seguinte modo: 

« A's suas ordens, distribuídas com inteireza e justiça, 
mas executadas com terror excessivo por sujeitos malfaie- 
jos, se attríbuíram as causas de immensas lagrimas que der- 
ramaram muitos pais de família, viuvas, orphãos e outras 
pessoas miseráveis; mas, rasgado o véo que encobria iantis 
calamidades, manifeslando-se os deshonrosos procedimen* 
tos do ajudante oificíal da sala (o tenentc-coronel Alexandre 
Cardoso de Menezes), e d'oulros subalternos semelhantes, 
cuja ambição desraedidci* flagellava o publico á sombra do 
nume e dâ voz de quem os mandava, principiou a apparecer 
serena a execução das providencias depois de castigados 
exemplarmente os instrumentos de tantos males. » (2) 

Parece porém que tardia foi a applicacao do remédio ; 
sendo-lhe vedada a ventura de por si próprio aplacar o in- 
cêndio que aleára. No modo brusco com quelhe foi dada a 
demissão e pelas terminantes ordens que trouxe o conde 
d'Azambuja d'erapunhar quanto antes o bastão do mando, 
pretenderam alguns auctores ver uma satisfação aos clamo- 
res dos Uuraincnses, que haveriam alíim chegado aos ou- 

(2) Vide Metn. llisl. do Rio deJamiro, tomo V fvaK. ISà. 



— 2ÍÍ — 

t\dm (lo sobentrK) ; outrus, poréin, julgam que Ião iofspfí- 
Hida demissão fora mulivatla pólo frustraneo aconimetti 
meolo da praça do Rio Grande do Sul ; convindo ao 
gabinete de Lisboa appareniar a mais completa ignorância 
d'um successo, do qual, quando feliz, teria reclamado as 
bouras e os proventos. lueliflamo-Qos para esta ultima opi- 
aiio. 

n 



D. Anlooio Rolim de Moura Tavares, primeiro conde 
d'A2âmbuja, que com lionra sua e felicidade dos povos ad- 
ministrara as capitanias de MUa Grosso e Bahia, foi por 
carta régia de 3! d<í Agosto de 1767 mandado governar u 
Estado fio Brasil como vice-rei. 

Chegando inopinadamt^nle ao nosso porto no dia iâ de 
Novembro^ tomou a 17 do dito mez o aiiiío poss*.* do go- 
verno» sem qne da parle de spu antecessor liou ve.Sí?e vislum- 
bre de opposiçâo, como elje próprio confessa em oflicio dn 
1 1 de Dezembro. 

tra a seguranç;i do Brasil a preoceupaçao pereuna do 
governo portuguez ; e devera por certo mereccr-Ihe espe- 
cial solicitude a doesto magnifico empório do Rio de Janeiro: 
assim pois, ad imíur do condo da Cunha, pensou o novo 
více-rei em eTiamtnar por si mesmo o estado das fortifica- 
ções e achando suscepliveis de melhoramento propôz, de 
cambí nação com o tenonte-general Bohn e o brigadeiro* 
Funck» um plano genil de defesa, que, como soe acontecer 
a quasi todas as grandt^s idéas, foi supultailo nas pastas do 
ministério da guerra. 

Com franqueza e lealdade expôz (em oíBcio de 6 de 
Maio de 1708; o lamentável estado da fazenda real, onerada 
com uma divida de mais de cinco mílhC^eSf e apontou como 
TOMO 3UIIX, p. n, 30 



— f»4 — 

causas a falta de escripluniçao melhodica, e sobreluilo a 
exlroraa condescendência d» profedor, que nem uma du- 
vida punha em pagar qualquer conta que lhe fosse apresen- 
tada, sem instituir sobre ella o mínimo exame. A* mingua 
de conhecimentos, e ao caracter summamente bondoso 
d*esse velho funccionario, aUribnia o conde d'Àzamlmja 
semelhante anomalia. A apreciação que n'este mesmo ofi- 
cio fez de grande parte dos empregados da capitania re- 
vela no vice-rei um espirito calmo e justiceiro, e o temor 
de emiltir juizos precipitados, ao revez do seu antecessor, 
que, entre as suas bellas qualidades, não contava por certo 
a da moderação. 

Havia o conde da Cunha mandado preparar o antigo 
collegto dos jesuitas no morro do Castello para os vice-reis, 
seduzido quiçá pelo formoso panorama que d'ahi sç des- 
cortina; subordinando, porém, o sentimento do belloaodo 
útil, mudou-lhe o conde d'Azambuja de destino, ordenando 
que para ahi se transferisse o hospital mililar,e aposenlan- 
do-se no edifício construído por ordem do conde de Boba- 
dclla, e que st;rve hoje de pa(;o aos nossos raonarchas. Os 
motivos d'essa resolu<.'ão expendeii-os elle nos seguintes 
lermos : 

« O conde da Cunha, por uma conta que deu, lhe veiu 
ordem para fazer no coltegio que foi dos padres jesuitas 
casas para a sua residência ; estas se achavam já, quando 
eu cheguei, bastanlemenle adiantadas, pelo grande desejo 
que elle tinha de uuidar-se, assim por se achar mal n;is 
antigas do governo, como por outros inconvenientes de fe- 
dito e mosquitos. 

« Porém as ditas casas do coHegio íicam em um morro 
com tao má serventia que para descer em um paquebote 
era sempre preciso araarrar-lhe uma roda ; estão distan- 
tes da relação e casa dos contos, que nós devemos frequen- 



-ane- 
lar para cumprir com a nossa obrigação, disUnle também 
e desaccommoflada serveDlia para o concurso das partes, 
dos ministros e dos militares, de modo que míuba assis- 
tência irellas ficaria muito desaccommodada para mim e 
para todos. 

« A' vista d^isto, me resolvi a vir para estas em que estod, 
e em que esteve o conde da Cunba e o seu antecessor, que 
foi quem as fez ou as preparou para servirem de residência 
aos governadores, para o que estão na melhor situação, 
perto de tudo, e na praça única que tem esta cidade, e que 
por conta d'iâSO serve de parada; eí emqnanto a serem do(>n- 
tias Dão é especial doesta paragem mas commum a toda a: 
cidade, o fedilo se evitou logo, tanto que as mandei prepa- 
rar para vir para ellas. » (3) 

Preciosos dados estalislicos fornece-nos o officio de i 5 de 
Maio d'esse mesmo anno, no qual participava á metrópole os 
embaraços cm que se via para pagar os majores e ajudantes 
de doze regimentos de infantaria auxiliar, e o coronel e 
tenente- coronel de cavallaria, que então existiam na ca- 
pitania do Rio dr Janeiro. Todos estes soldos (dizia o 
conde) sabem por hora da fazenda real, nem eu vejo meio 
de serem nunca pagos pelas camarás ; porque, sendo a 
d'esta cidade a mais rica, terá de renda doze mil cruzados, 
que não chegara bem para as despezas, e comprefiende no 
seu districto nove terços cujos ofBciaes pagos, a serem-no 
pela camará, absorvem todo o seu rendimento; as mais são 
tão pobres que nem as despezas dos officiaes pagos d'um 
terço poderão supportar. 

Passando depois a demonstrar o quanto se enganava 
seu antecessor quando cria que com o engodo das patentes 

(3) Vide officio de 9 de Maio de 1768 dirigido a F. X. de Mendonça 
Furtado. 



— iS6 - 

conferidas aos officiaes da ca?atlaría miliciana que mais se 
avantajassem no real serviço, prosegue n'estes lermos : 

« N^esta cidade ha duas companhias, mas nem por isso 
estão muito promptas p^r terem de ordinário os cavallos 
nas chácaras e roças, e estas até agora se não \èm com- 
pletado ; porque os moradores d'esta cidade se compõem 
peia maior parte de mercadores e officiaes mecânicos, os 
quaes de ordinário não tem casas com capacidade para 
terem cavallo, nem chácaras, ou roças, e assim a estes se 
causa um grande detrimento em os obrigar a serem sol- 
dados de cavailo, porque para isso hão de comprar e sus- 
tentar cavallo, que aqui não custa pouco, e alugar casas 
de mais alto preço. 

'< Os homens de negocio mais grosso sim, lèm possibi- 
lidade, mas ao mesmo tempo os acompanha uma invencível 
repugnância a serem soldados de cavallo, alTectando o 
tempo que perdem e embaraço que causa ao seu trafico, e 
assim se têm valido de mil pretextos para se isentarem. 
Porém ainda que isto não fosse, sendo esta casta de gente 
muito útil pela sua occupação, me parece quo para o seniço 
miliLr r a m<»nos i>ropria, e me persuado que, se os dilos 
hoiiUTisdc negocio, para evitarem a vexação que imaginam 
(un serem soldados de cavallo, conlribuissem com a dospexa 
necessária para uma tropa paga de sessenta cavallos, esta 
junta com as duas partidas que Sua Magestade tem man- 
dado crear, serão muito mais úteis para a defesa doesta 
cidade que iodo o re«j[imento de cavallaria auxiliar. » 

O quanto tinha o antigo regimen a peito manter a digni- 
dade dos seus delegados procurando-lhes folgada subsis- 
tência, e ainda a necessária representnção, paientea-nos o 
officio de áO de Maio de 1708, no qual confessa o conde 
dWzambuja que orçavam os seus vencimentos em 5:7489 
além de pequenas |)ropinas, como o azeite de peiíe que 



- m - 

lhe fornecia o conlraclo da baleia, e o capim para as bestas 
da si3g*3, niinistrado pelos índios do trem. Ora, se reflec- 
tirmos Da grande alteraçaa que lera soUrido o Yalor da 
moeda, poderemos chegar à concluído que o v ice-rei do 
Brasil frui a maiores vencimentos do que os dos nossos 
ministros d*eslado. 

Nenhum acontecimento notável i^slgnalou a adminis- 
iraçao do conde d' Azambuja, que, após dtus anoos da 
residência no Rio fie Janeiro, i>ediu cobt^íve o seu regresso 
à pátria, d^oiide se achava ausente à mais de três lustros- 



in 



D* Luiz de Almeida Portugal Soares d'Eça Alarcão Mello 
Silva Mascarenhas, 2^ marquei de Lavradio e 4' conde de 
Avintes, assumiu no dia 4 de Novemhro de 1769 a suprema 
direcf;ao dos negfícios, com a patente de vice^ret o capitão 
general de mar e terra. 

Foi esta uma das mais duradouras e benuficas adrainistra- 
i;nf!s que tt^vo o Brasil colonial i nenhuma, porém^ foi mais 
agitada, nem passou por mais apertados transes. 

Cumo de costume, estreou o marqunz de Lavradio pelos 
cuidados militares. I'arece que chegavam todns os vice-reis 
com severas instrncções atai respeito, notando-sen'elles 
certo desejo de acoimarem de negligentes seus anteces- 
sores, reprovando o que achavam feito* N'um longo e 
minucioso relatório datado de ÍO de Ftverniro de Í770 
expòz o estado em que estavam as fortificações da ci- 
dade, e cofn proficiência discutiu varros planos que se 
haviam apresentado de defesa, prnpenderrdo para o do 
capitão Francisco João Roscio, como mais ci^^n forme com 
os princípios (iroclauiados pelf> illustte Vauban, iPrevate* 
ccndo-se du ensejo íusislíu na couvonienciade orgacirsar* 



— áít* - 

v^ uiA (»rp*^*]e oi^Jlu^ii «k hih^, («^JeiMlo-ibL sorrir ée 

fk:á;Oe^ j4|iOríK'Sciuijá'' lio C'<íi2e*i'AZdiúbujÃ. fii>stn>e 

auiili^r. 

FàSffltfi>a ^ctiviiladt; «Jivlsou-se »:ritã<j em todos us mnos 
<lo publico s^.Tviço, com é^peci^idlidt: o miliUr, qae, c^ídm 
j;i di.sS'rífios, occupaTa a prim<.'ird plaoa nos desvelos iJds 
no^^iS ^'ov«.'ri:arjte>, quit;á Cmiii alguma rj^zã-j, atU-Ddendo- 
s; ao z'l) com qie guarJava o decaJenl: Porluíâl a jóia 
precÍMia do Brasil. A sombra d.,' IiucKtc parírcii[»erlurtar 
o síjmno dus g'íTL'rrjador«r?e vic.-r*?i<, e o lemerariocom- 
mellimerito d*.- Duguay-Truuin era uma constante ameaça 
que obrigava-os a colluc jr ved*'la^ di.- br.jnze nas monta- 
nh:iS <; oukiros circumvizinhosâ nussa iranqui^^imà barra. 
Assim, par<i iiã<j iijc<jrrer na censura fulminada |ior Cimôes 
atj capiláo 'biscuidoso, ordenuo m marquoz de Lavradio quo, 
á cavalheiro da fortaleza de Santa Cruz, fosse erecta a dn 
rico; e, liilando com a^^asp-rtzasquasi que insuperáveis do 
lerr-rio, bigroii drixar-nos um «los ri« '>>«.»< nKltiurrs pintos 
di; d<*fL'si. Ojmpb.*lou a obra da di^niMlirãn dnmtjrroda 
for! ilr/.'. dl Vil! gaigiiuii, com rida prlo cnHíb.' ila Tunha; 
p^í^lou .S';ria atlcMirão á da liba das r.nbras, mandando lo- 
vanlir alguma^ obras indispi.Misavois para a sna segurança ; 
consagrando idênticos cuidadí>s iís de S. Jo-io e da Lago, 
aos n:duí',los d<? í]aragoalâ c Boa-Viagí-m ; assim como aos 
forlíis díf S. Tbiago c do í^labouço. Outros trabalhos do 
menor importância, como o do forte do Leme, do reduclo 
de S. íllenuíute, o da Praia de Fora, mo draram no vice- 
roi animo deliberado de disputar a capital do Brasil ás 
armadas de qualquíír i>iimigo qno pretendesse acora- 
metlèl-a. 



— 239 — 

Já vimos que para dirigirem as obras de engenharia havia 
o governo da melropole mandado para o Rio de Janeiro dois 
dislinctos officiaes estrangeiros, o tonente-general Bohu e 
o brigadeiro Funck : nao mereciam, porém, estes gcneraes 
a confiança do vice-rei, que n'uma carta particular 
endereçada ao poderoso ministro d*el-rei D. José assim 
se exprime: 

« Eu nSo posso deixar de confessar a V. Ex. o susto em 
que vivo cora estes dois ofHciaes: conheço que ambos 
elles sabem o nosso officio pratrca e especulativamente, e 
que, se se empregarem com fidelidade, poderão fazer um 
bom serviço ; porém d'essa sempre tenho minha descon- 
fiança, principalmente se os nossos inimigos forem os in- 
glezes, ao serviço dosquaes ambos elles estiveram e se fize- 
ram muito conhecidos. » 

Para conjurar o perigo de alguma traição da parte 
d'esses funccionarios, entendia o marquez de Lavradii» que 
o único meio que lhe restava era o de manter a desunião 
que reinava entre elles, e com singeleza expõe o seu plano 
nas seguintes palavras : 

<f O tenente-general moslra-se com grande eíDcacia para 
o serviço, quasi todos os dias vai ao armazém das armas e 
aos do Irem, e sempre me traz um novo arbitrio íobre pre- 
venções que devo tomar, clamando-me que o brigadeiro 
Funck com os seus projectos faz alrazar tudo ; é cerlo que 
elles se acham em bastante desconfiança um do óulro de- 
pois de algum tempo para cá, e que eu em parte tenho 
estimado ; ambos se me vem queixar a mim, eu os consolo 
quanto posso, sem procurar reconciliar as amizades ; o 
brigadeiro é melhor qualidade de homem, o tenente- 
general é summamente ardiloso e ardente, insinuando-se 
com a mais refinada lisonja, que isto basta para se fazer 
aborrecivel : devo, porém, dizer a V. Ex. que eu sempre 



d^elles me leobo aprovci(ado,porque, como tôm vislo muita 
guerra, oaâ repetidissima-i coafereDcias que tenbt) com 
elles sempre teulio procurado adquirir alguns dos conhe* 
cimentos que me Taltum, sem que elles o hajam de perceber, 
e sempre julgo que,vivendo-se com a precisa cautela e des- 
confiança com elles, poderá d' esta forma o servíQo de Sua 
MagesUuie tirar d'elles alguma utilidade. » 

No meio dos aprestos d'uma guerra inuninente» e que 
não se sabia ao certo de que lado partiria, não se des- 
cuidava o marquez de Lavradio de promover por todos os 
meios ao seu alcance o desenvolvimento material do paiz. 
Assim, constando-lhe que Manoel Luiz Vieira, caixeiro e 
depois sócio d' um abastado negociante por nome João do 
Couto Pereira, estabelecera um engenho de descascar arroi 
cuja industria contribuirá grandemente para o progresso 
da agricultura d'esse utilissimo cereal, mas que achava-se 
então mui decadente em consequência da guerra que lhe 
moviam alguns negociantes de Lisboa, deliberou -se de ir 
visilar o dito engenho, e mandando-o igualmente examinar 
pela mesa da inspecção, conseguiu dissii>ar os boalos, 
adrede espalhados contra o honrado industrialista, e lo- 
mando abertamente a sua defesa perante Martinho de Mello, 
então ministro do ultramar. 

Com estas judiciosas relloxões coucluia u oíDcio de 5 
de Julho de 1770. 

<( Parece-ine que de lodo o referido devo dar conUi a 
V. Kx. para o pôr na real presença de SuaM:igestade, pe- 
dindo a V. Ex. que examinando toda a represenlaçio que o 
dito Manoel Luiz Vieira me fez, com lodos os documentos 
que acompanham a mesma representação, e o mappa por 
onde se vô o augmento que tem tido a lavoura doeste gé- 
nero, V. Ex. o haja de fazer presente a Sua Mageslade, para 
o mesmo senhor tomar sobre esta importante matéria 



— S544 - 

aquellâ resolução que fôr servido, sendo bem certo que 
animando de alguma forma a este homem isto poderá dis- 
pertar a muitos outros da preguiça em que vivem, em be- 
neficio e utilidade da pátria e do Estado. » 

Desprezando a ordem chronologica para reunir n'um só 
quadro, todos os benefícios de igual jaez que deveu o Rio de 
Janeiro ao benemérito vice-rei, faliaremos da fabrica de 
cordas de guaxima que mandou abrir no si lio então deserto 
de Mataporcos, sob a direcção d'um hoilandez estabele- 
cido n*esta terra bavia muitos annos, e n'ella quasi que 
naturalisado. Chamava-se elle João Hopman, e merecia do 
marquez o seguinte conceito : 

t< Este homem quo eu empreguei n'esta diligencia, é um 
hoilandez casado n'esla capital, aonde vive ha perto de 
quarenta annos, foi homem de negocio, teve sons infortú- 
nios, e ainda que não quebrou jà não continua senão com 
um pequeno negocio pelos poucos meios com que se acha. 
Este homem tem um génio e uma inclinação muito forte 
para todas estas qualidades de cousas : elle foi o primeiro 
que plantou o café, e que ensinou o modo de o cultivar e de 
se lhe fazer todo outro beneficio que elle precisa, também 
foi o primeiro que creou amoreiras e fez seda, plantou tam- 
bém linho cânhamo, e o beneficiou depois, mostrando a 
facilidade com que elle cá pôde produzir, querendo 8j» 
encarregar d.» se pôr à lesta de qualquer doestes estabele- 
cimentos ; porém como as suas forças lhe não permittiam 
sem algum outro soccorro o adiantar cqm cousa nenhuma 
doestas, e não houvesse quem o animasse, recolheu-se à 
sua quinta, onde ficou conservando só a cultora do café 
n'aquelle pequeno terreno que comprehende a mesma 
quinta, por não lhe permittirom maiores esforços a falta da 
sua possibilidade. Este homem se chama João Hopman, 
iodos o conhecem excellentemente, e em Lisboa achará 
TOMO XXIX, p. a. 31 



- 242 — 

y. Ex. iafioitas pessoas que o poderão iafonnar do seu 
merecimeDto. » 

Uma das primeiras qualidades dos goTeruantes é por 
sem duvida a de conhecer os homens e applical-os conve- 
i^ieutemeate aos diversos misteres ; e esta qualidade pos- 
suía-a em alto gráo o marquei de Lavradio, como nol-o 
provam, entre outras, as acertadas escolhas de Manoel 
Luiz Vieira e de João Hopman, de que acabamos de fazer 
menção. 

Com grande solicitude promoveu o vice-rei a cultura do 
fumo e buscou quanto lhe foi possível dar-lhe incremento ; 
já mandando vir da Bahia homens peritos n'esta lavoura» 
assim como as melhores sementes, jà animando os nego- 
ciantes para fazerem doeste producto seus carregamentos 
para Lisboa, jà finalmente comprando algumas arrobas por 
conta da fazenda real e remettendo-K) para a metrópole. 

Não se descuidou tão pouco de mandar para Portugal 
amostras das nossas madeiras de tinturaria que, sendo, ahi 
examinadas, foram pelos entendidos julgadas excellentes, 
dando assim começo a um ramo de negocio de cujas vanta- 
gens não ó licito duvidar. Embaraçava porém o pensamento 
pro|,'ressista do marquez de Lavradio a falta de capitães, 
que eram então escassíssimos nas praças do Brasil. Caracte- 
rísticos são os dois seguintes paragraphos do oíficio que 
por essa occasião dirigiu ao minislro dos negócios ultra- 
marinos : 

<( Eu já puz na presença de V. Ex. que para se estabe- 
lecer um ramo de commercio sobre este importante ne- 
gocio, é preciso que venha proposto pelos homens de 
negocio da praça de Lisboa, ou do Porto, porque os nego- 
ciantes do Rio de Janeiro quasi todos têm só o nome de 
negociantes, não sendo outra cousa mais do que uns commis- 
sarios, sem quasi que fundo nenhum, querendo-se fazer 



— â*3 - 



falêr com appareaoiâs e ignorando até os primeiros rudi- 
mentos da sua profissão. 

« Slí de lisboa lhe pedirem esta género inslraindo-os a 
qne elles aBimem os lavradores e não procurem logo a sua 
ruína, como costuniam, poderá este negocio em breve 
tempo adiantar-se muito, de outro modo desengam>SB 
V. Ex* que se não consegue cousa alguma. Nao duvido 
que por lisonja a quem os governar, se tiver eíQcacia e zêlo 
pátrio, haja algum que faça alguma pequena remessa, po- 
rém, entretanto, estudará tantas difficuldades para se des- 
culpar, na continuação que ainda aquelle poaco que tiver 
feito ha de parar de repente* Eu tenho onze annos de ex- 
periência, e creia V, Ex. que sobre estes pontos principiei 
a cuidar desde os primeiros mezes que chepei ao Brasil ; 
se eu tivesse continuado na Bahia mais tefia adiantado, 
porque com o caracter das gentes do Rio de Janeiro todas 
as diligencias são baldadas, se não ha uma força extraor* 
dinaria que as obrigue, i» 

Abstrabindo da injustiça que faz ao caracter dos flumi- 
nenses, dando-lhe preferencia ao dos bahianos, enKergamos 
nas palavras supracitadas do benemérito viee*rei todos os 
visos da franqueza e lealdade áo— homem d\im só rasío^ 
umft sú fé— de que nos falia Si de Miranda. A situação da 
praça do Rio de Janeiro, e mui provavelmente a de todo o 
Brasil, vè-seaqui photographada ; e é este mais ura talioso 
argumento contra o systema proteccionista, que servia d'ân- 
lemural ao mais escandaloso monopólio* 

A ninguém é dado ir adiante do seu século, disse Cousin ; 
lodos, mais ou menos, pagam contingente aos princípios 
e até aos preconceiCos dominantes no tempo em que vivem: 
Bão pintaremos, portanto, o marquez de lavradio como um 
homem de tal modo superior aos seus contemporâneos, que 
em Porlugiil, e no XVÍII século, antici passe as grandes 



, — 244 — 

reformas ecoDomicâs que fazem a gloria dos nossos dias. 
Todavia o juizo claro do velho fidalgo, a experiência que 
dos homens e das cousas adquirira, revela-lhe muita cousa 
que era recôndita a esses pseudo-estadistas, que politica- 
vam no conchego dos salões e dos gabinetes, desconhecendo 
o povo e as suas mais vitaes necessidades. Participando do 
erro comfaium de que %6^ fabricas não convinham ás coló- 
nias, porque com cilas se emancipariam pouco a pouco da 
onerosa dependência em que se achavam das metrópoles, 
não se lhes devendo permíttir senão o commercio das ma- 
térias primas, e d'aquelles productos que ainda nos mer- 
cados europêos se denominam — coloniaes — , julgava o 
vice-rei do Brasil que em seu prol conviria abrir uma 
excepção, e d'est*arte expendia o seu alvitre : 

« O meu parecer nHo se pôde conformar com fabricas 
nas conquistas, porém é certo que esta regra não deve sor 
tão geral que algumas vezes não tenha a sua excepção. 

(( A America produz infinita gente, producção esta tão 
necessária para um paiz tão extenso que necessita de cul- 
tura, a qual se não pôde fazer sem muitos povoadores, 
porém a maior parte doestas gentes que nascem, pouco ou 
nenhum aproveitamento se lira d'ellcs ; a preguiça, a falia 
de providencia para fazerem trabalhar a gente branca e 
aincla a parda, recahindo lodo o trabalho sobre os escravos 
negros, fazem com que por falta de meios se não possam 
criar as crianças que nascem, e outras com a ociosidade 
destroem as suas saúdes nos primeiros annos da sua 
mocidade. 

« As mulheres, por se não empregarem e por falta de 
meios para se sustentarem, se pr()slilucm; dVsta proslilui- 
ção procedem os infinitos achaques com que vêm ao mundo 
os que nascem ; na facilidade que os homens tem com o 
trato das mulheres se segue também os poucos que buscam 



— a48 — 

o estado de casados, e tado isto co acorre para que, s^^m em- 
bargo de serem muitos os que nascem, ou porque uns 
nascem nos seus primeiros annos, ou porque outros se im- 
possibilitam logo que principiam a estar em estado em que 
podiam ser úteis a estas conquistas, vêm a ser inúteis todos 
aquelles individues, e tem deixado este Estado de ter 
tirado as grandes utilidades que lhe offerece um paiz tão 
precioso ; o para se evitar algumas doestas desordens pôde 
ser que fossem utois algumas fabricas, obrigando-se as 
gentes ociosas a trabalhar n'cllas, evitando-lhe por este 
modo aquelles desconcertos c indigência a que os conduz a 
mesma ociosidade, reduzindo-os a uma vida não só mais 
conforme aos interesses particulares de cada um, mas tam- 
bém a lodo o Estado. » (4) 

No modo timido por que o marquez de Lavradio defendia 
a causa da industria, justiflcando-a uiJcami nte como meio 
de corrigir a tendência para a ociosidade que mostravam as 
ínfimas classes, está a confirmação do que acima dissemos 
relativamente ao preilo que rendia ás idéas da épocha. 

A propósito de ociosidade occorre-nos mais uma reflexão. 
Quem ao ler os exemplos que citamos não julgrrá ver 
diante dos seus olhos um verídico painel da precária exis- 
tência que ainda tioje têm muitos dos habitadores das 
ferieis regiões banhadas pelos nossos rios gigaiUes, ou 
pelas ondas do atlântico? E' sompre a mesma indolência, 
o mesmo desprezo dos mais triviacs commodos da vida, 
n'uma palavra a mesma apathica indifferença, contra a qual 
só nas medidas de rigor encontra o remelio o amestrado 
administrador. Confessamos que é este um -d'esses casos 
em que julgamos §er licito fazer a felicidade dos homens a 
desçeilo da sua própria vontade. 

{U) Vide OIT. dirigido a Martinho de Afello Castro, cm data de 12 de 
Janeiro de 1778. 



- 24ft — 

Não deixou deactuar o imponente espectáculo da natofen 
brasílica no sensível animo do vice-rei, qoe, Gorrido de 
vergonha pela desidia do sen governo em ia^entariar as 
riquezas do nosso solo, delineou a creação d'uiii horto bo- 
tânico. N'este propósito foi fervorosamente coadjuvado per 
alguns distínctos cidadãos, que sob a sua égide protectora 
fundaram uma associação quo algum renome obteve fòn 
do paiz. 

« Em dias d'este vice-rei (diz monsenhor Pizarro) se 
instituiu uma sociedade philosophica que elie protegeu, e 
seus fructos prodigiosos constituíram a capital mais indus- 
triosa, mais populosa c mais florente. E' certo que só de- 
pois da sua instituição foi que a academia de Stockolma 
teve conhecimento das plantas do Brasil por um selecto 
hortario brasiliense que lhe enviaram os irmãos José Hen- 
riques de Paiva e Manoel Joaquim de Paiva ; e é não menos 
manifesto que a esta sociedade se deve a cultura do anil, 
cochonilha, cacào, etc* Sendo até esse tempo o commerck) 
do Rio de Janeiro assaz limitado, pois que do seu porto 
sahiam os navios quasi em lastro para a Bahia e Pernam- 
buco, onde carregavam, pela abundância dos géneros novos 
que posteriormente foram apparecendo, como o arroz, 
anil, café (cujo grão se reputa na bondade e nutrição 
igual ao de iMoka) nâo necessitou a praça de mendigar em 
capitanias dilTerentes eíTeitos commerciaos que fizessem a 
carga dos navios. » (5) 

O homem que tão denodadamente se collocava á frente 
de tudo quanto tendia á prosperidade do feracissimo torrão 
que a Providência em seus inexcrutaveis desígnios doara a 
Portugal, não pertencia por certo a essa apoucada escola 
de políticos que aconselhavam a el-reíD. Manoel «que, para 

(5) Vide Menu J/iM, do Rio de Jaticiro, lom. V, nola ú pag. 196. 



- Í47 - 

conservara conquista do Oriente mandasse arrancar todas as 
plantas indiaticas qae houvesse no Brasil, com pena capital 
para os que jamais as cultivassem. » Adelgaçando-se as 
nuvens da ignorância, os próprios delegados da^metropole 
desobedeciam a esle néscio decreto, com tanta eloquência 
eftigmatisado pelo padre Vieira em sua mui conhecida 
carta a Duarte Ribeiro de Macedo. 

Incompletos, senão inefScazes, seriam os incentivos pres- 
tados á industria e à agricultura se d'elles não participasse 
o commercio; por isso o marquez de Lavradio, auctorisan* 
do-se d'uma clausula do requerimento dos governadores d» 
Bahia, permittiu que no pittoresco sitio de N. S. da Gloria 
se abrisse uma feira annexa, onde, sem espécie alguma de 
direitos, faziam-se avultadas transacções. 

Nos fastos da nossa edilidade deixou igualmente o dis- 
tincto vice-rei o buril do seu preclaro nome; já mandando 
calcar as ruas da cidade, já abrindo outras, jà facilitando as. 
comraunícaçõcs com o interior por meio de estradas e pontes 
que mandou construir, já finalmente multiplicando as fontes 
em que de boa agua se pudesse abastecer o povo, por exem- 
plo, como as da Gloria e Matacavallos. 

Para que nada faltasse á gloria de tão benemérito varão, 
para que mais títulos grangeasse á gratidão dostluminenses, 
até a bygiene publica, n'essa épocha quasi um mytho, me- 
receu a sua esclarecida attenção. £m larga escala fazia-se o 
commercio d'escravos, e no centro da cidade, em nossas 
acanhadas habitações, recolhiam-sc os africanos atacados 
de moléstias contagiosas, poado em constante perigo a 
saúde dos moradores. A tão gravo e funesto inconveniente 
proveu o marquez de Lavradio, — ordenando que os arma- 
zéns de escravaria fossem removidos para o Vallongo, que 
n'esse tempo estava situado n'um dos subúrbios da nossa 
cidade. 



— 248 - 

Reservamos por ultimo o exame da conduota do marquez 
de Lavradio em face das complicações provenientes da pre- 
sença dos hespanboes na margem septentrional do Rio 
Grande. ' 

Todos sabem que as reiteradas violaç<5es do tratado <^ 
20 de Fevereiro de 1763, e ainda mais a arrojada tentativa 
do general hespanhol D. João José de Verliz contra a praça 
do Rio Pardo, fez receiar a José Marcellino de Figueiredo, 
que governava o continente do Rio Grande do Sul, algum 
commettimento superior às fracas forças de que disjmnha, e 
conforme rezavam as suas inslrucções, aprossou-se em pedir 
providencias ao vice-rei do Brasil. Sobremodo zeloso dos 
brios nacionaes, nâo trepidou o marquez de lavradio de 
mandar para a fronteira meridional todas as tropas exis- 
tentes no Rio de Jaileiro, privando-se até do esquadrão de 
sua guarda, cujo commando foi confiado ao denodado co- 
ronel Sebastião Xavier da Veiga Cabral da Camará. 

Nâo se illuciu, porém, o vice-rei sobre a gravidade da 
situação, e sem perda de tempo escreveu para a corte exi- 
gindo maiores auxílios. Entendeu esta conveniente furmar 
uni oxí^rcilo c e obstTvarões ao mando do lenente-goneral 
Bolui, que já vimos oinpregaílo na dofes ; d'osla ridade. 
Delcrniinavôni as s-ias iustruorOes que buscassi; forlilicar- 
se em imxpi j^niaviis posirôcs, e, auimirnlando {gradual e 
ius('nsivi'lmrn e sui s Iropas, cscoliiosse ensejo favorável 
para rcciíporar peLis armas o tiTrili rio qn«í liavia sido usur- 
pado pela alheia. Deixava-se, como se vê, á prudência »lo 
general a ípreciiíerio íliscircumslanoias (pie lhe parecessem 
mais azadas para descarregar o golpjí de modo Ião cerl^-iru 
que assegurasse infa-livel Iriumpho, que apolilieanão ar- 
daria em erigir em faclu consummado. 

E' de presumir que ignorasse o vice-rei a parle secreta 
doestas inslrucções, a julgarmos pelas censuras que não 



— f « — 



cessaTa de faxerl tibieza de Bohn, que tanto procrastinava 
um ataque que elle vice-reí julgava de fácil execução. Che- 
gou mesmo a offerecer-sc para ir comnjandar o exercito, e# 
cheio de bellicoso ardor» assim se exprimiu em data de 30 
de Janeiro de n76: 

a Eu nao digo a V. Ex, que ganharei as acções e que 
dias nos serão todas felizes; porém posso assegurar a V. Ex. 
que ellas se hao de emprehender; que todo aquelle exercito 
mostrará ao mundo lodo o ardor, a fldel idade e o goslo 
eoro que se apromptam a oíTerecer e sacrificar as suas vidas 
pela honra, gloria e felicidade do nosso augustissímo amo 
e de todo oEstado.:») 

Passando depois a demonstrar a conveniência de que o 
primeiro delegado d*e!-rei no Brasil presidisse às operações 
da guerra, continua n* estes termos ; 

« O conde de Bobadella, se não tivera ido a testa da sua 
tropa quando passou á Missííes, ellas nao teriam supporlado 
com tanta constância os trabalhos por que passaram, e leria 
sido dídicultoso ao mesmo condo remediar muitos outros 
prejuízos a que a sua presença pessoal estava a iodo o ins- 
tante acudindo. O conde queria estabelecer a sua repu- 
tação» e mostrar a el>rei, meu senhor, a sua fidelidade, a o 
interesse que lhe daria o seu real serviço, e para islo se 
conseguir a quem é honrado não repara nem para as difli- 
culdades senão para as vencer» não olha para o seu descom- 
modo ^enão para o desprezar, e muito menos estima a sua 
vida que nao seja para fazer sacriticio d'ella afim de con- 
seguir para o Eslado a maior gloria. >) 

LouvandO'ihe lâo nobres sentimentos, ordenou-lbe o go- 
verno da metrópole que se conservasse no seu posto» envi- 
dando todos os esforços na prompta remessa de abasteci- 
meulos para o exercito de observações,e buscando an mesmo 
tempo pôr a capital do principado em circumslancias dere^ 

TOMO XXIX » P* II. 3^ 



— 230 ^ 



gi$Ur a qualquer tosulto qm lyoT^imtJàm Ibaq^izessa f|^ 
aÍD(Jâ enlio a poderosa Hospaoha. 

P^^ cooperar com as forças de lerra, foi mamlada ao 
Bio Grande uma esí|uaJrilhaiJe DOfe vasos^, coúiiBandadus 
pelo irlândezMac-Donall. Não eslava, porém, elie habiliUdo 
para digoa e fracluosaínenla desempeoliarseraeltiariie en* 
cargo como íiol-o prova u juíão que a seu respeilo íormava 
jO ?ice-reL Que não era elle infuodado, encarregou-se de. 
demouslral^ o mallogrado successo do dia 19 dtí Fevtíreíro 
de 177 ti, de uefasla recordação dos aunaes da marinha pux- 
lugueza. Narrando o feito d armas a que acabamos d alludift 
e apreciando a couducla do cliefe da esquadrilha, estranha 
juutamente o marquez que nuo houvesse elle assumido 
a direcçío da fragata (rraça-Dimmt na occasiãu t*m que 
pela heróica marte do seu bravo comniandauU^ so iatrodu- 
zira em seu bordo a confusão, meusageirada geral derrota. 
(< £* certo, prosiigue elle, que, se o chefe tivesse tíxocuUidõ 
a ^çao como ella estava premedítiida, não sò I içariam ^endo 
nos^ as embarcares dos castelhanos, mas a tropa aiuílo 
a seu salvo teria passado á outra parLej pnriím Deus ainda 
u aãu quiz, e talvez que reserva esta íeljcidado para o tompo 
d^outro vice^rei, que teaba mais merecímeulos para esU 
gloria, n 

Destas derradeiras palavras facilmente se depreheude a 
sinceridade com que o raarquez (hi lavradio se eijipeiihaTi 
pdl0 bon) eiilo da atção, perdida pela imperícia de Mac- 
Donall; deixando, oulro-sim, entrever a seu re&entimento 
porse lhe haver vedado tomar mais immediata a activa parte 
na obra da restauração do Rio Grande. 

Dissemos que por duras provanças teve de passar e$td 
bauemerito vice-rei; e foi por certo uma das maiur«!SO ver, 
se destituído de forças para defender o Rio de Jaaoiro, 
amearaiin de imm incute invasão. Suhiii de ponb) n sua ujê- 



— 231 — 



giistia qoMtlo» por ordem da córle, leve de fazer embarcar 
para?* Bahia os dois regimentos da guarnição d'esta cidade. 

Utífnrirido«se aesle acontecimento, dizia em offieio de 31 de 
Oulnbro de 1776: ^A conslernaçáo em que esta capital 
ficou, ?ôndo-sc sem tropas e com receio de movimentos 
maiores^ eu â não posso explicara V* Ex.^ e a mim mesmo 
me tem sido necessário bastante constância» vendo-me na 
obrigação de responder por este Importanlissímo porto » 
que da accesso e entrada para todas as províncias e capita- 
nias mais importantes d*este Estado, achando-me sem tropas 
ile que possa confiar-me, e sem os competentes oíDciaes 
que possam ajudar-me, e até cora menos meios.» 

Passa depois a expor as medidas que jolgára acertado 
tomar para a defesa de nosso porlo^e participa ao marquez 
de Pombal que entregara o commando du estação naval ao 
apitâo de mar e guerra Jorge TIord Caster, havendo deter- 
minado fechar a barra com os navios mercantei^ que aqui se 
achavam ancorados, pondo-os em Jínha de batalha, dt;sde 
o híÍío chamado Sacco, junto á fortaleza de Santa Cruz, até 
a da Lage, ligando-as depois por uma corrente de ferro* Se 
acaso o inimigo rompesse esta barreira, esperava-o outra, 
compitstâ de [anchas e su macas» que deveriam ser entregues 
ás chammas, desempenhando as funcrííes de frrti/ote, Com- 
munica, ontro-sira, que escolhera pafa inspector geral dos 
corpos auxiliares ao tenenle-coronel Vicente Josí de Velasco 
Molina, official distincto pela muita probidade e bravuraj e 
para inspector das fortificações e todos as Irabalhos de de- 
fesa ao sargento-mór Francisco João Roscío, em quem de- 
positava grande conliança* 

Quando com extremado empenho curava dé pôr errt se- 
gurança a capital do Brasil, recebeu communicaçôes de que 
uma poderosa armada, ao mando do famoso D Pedro do 
Cebalioâ, disrjiunhít-se a sarpar de Cadit para Santa fMM- 



ríDa. Inunediatamente escreveu Lafradio ao goveniador 
d'csta importantíssima ilha, e ordenou ao chefe d'esqoadra 
Roberto Mac*Donail que apparelhasse para essa localidade» 
esforçando-se para impedir o desembarque da expedição 
hespauhola, e caso não lhe fosse isso possível, disputasse- 
lhe o ingresso com bizarra galhardia. 

Não contava, porém, o nobre marquez com a cobardia do 
marechal António Carlos Furtado de Mendonça, que gover- 
nava Santa Catharina, nem com o inqualificável proceder do 
commandante da esquadra, que com a maior precipitação 
buscou abrigo no porto do Rio de Janeiro. Faltando d'este 
lamentável successo, assim se exprimiu em oflicío ao mar- 
quez de Pombal, datado de 19 de Março de 1777 : 

« Depois de peneirado o meu coração com este doloroso 
golpe, animando-me de alguma forma com as cartas que re- 
cebi do general e governador de Santa Catharina, da cons- 
tância em que estava aquella tropa e povo para defender- 
se, de esperançar-me que, ainda no caso de renderem-se, 
s6 o fariam depois de uma vigorosa e exemplar resistência, 
persuadindo-me que isto infallivelmente se faria, assim pelas 
ordens que eu lhe linha passado, como pelas infinitas muni- 
ções, assim de guerra, como de boca, que eu lhe tinha man- 
dado, e muito mais por ler aquella ilha doze officiaes do 
eslado-maior, d*aquelles que cada um de per si lem devido 
grande conceito a todos que os conheciam, quando com a 
maior impaciência esperava por estas noticias, me chegam as 
cartas e mais papeis que remello a V. Ex. 

<( Eu confesso a V. Ex. que, quando as li, cuidei que o co- 
ração me rebentava, e não sei como tenho forças para poder 
fazer aV. Ex. semelhante participação.)» 

Devera por certo ser summamenle sensível ao magnânimo 
coração do marquez de Lavradio o vergonhosíssimo pro- 
ceder d'esses degenerados porluguezes, que não hesitaram 



— íSíã — 



ena arrastar aos pès do orgulhoso caslelhaDO o pavilhão das 
quinas^ qm em Aljubarrola, MonLijo e Montes Claros som- 
breara a independência naoionaU 

Cedo veiu outra graode calaslropUe enlolar a colónia 
portugueo e derraniiir o susto em todas as classes. Cetiallos, 
que às mãos lavadas se assenhoreara de Santa Calharina, 
pensou em fazer juncção com Verliz para desalojar o gene- 
ral Bobn do seu posto do Rio Grande do SuU mas, como mal- 
lograssem seu plano os conslantespampeíros, aproou para 
a Colónia do Sacramento, onde o coronel Francisco Josò da 
Rocha emulou com o marechal Mendonça em subserviência 
is intimações de Ceballos* 

Dando conta de mais este dezar para as armas portu- 
guezas, serviu-se o více-rei doestas sentidas palavras : 

« Este é o fructo que tenho tirado de lodo o meu tra- 
balho, do desvelo com qae soccorri áquetla praça de ludo o 
que precisava para a sua defesa*» Insistindo depois em sua 
queixa por nao lhe ter sido concedida a licença que pedira 
para passar ao sul, continua: t(Eu bem quiz ler ido para todas 
estas parles, e pôde ser que a minha presença os tivesse 
conservado mais constantes, e do mais perto e com maior 
promplidâo Hie teria desvanecido as adectadas desculpas 
cora que se tem querido desculpar, » 

Governava ainda o Brasil o preclaro raarquez quando, em 
virtude das estipulações dos tratados de i"" de Outubro de 
1777 e II de Março de 1778, foram restituídos a Portugal os 
territórios de que traiçoeiramente se apossara a Hespanha, 
com única excepção da Colónia do Sacramento, essa Dío 
br^siliense, da qual por duas vezes nos privara a inépcia e 
a cobardia de seus governadores. 

Na eiecuçao d'esses tratados leve nova occasião de assig* 
aalar a sua solicitude, enviando ã Buenos-Ayres o coronel 
iTíicenlo Josó de Velasco Molina, afim de reclamar as pri- 



— 254 — 

iMiras nmniçõesde gaerra e buca, effoRôB e eabedaeg^luto 
públicos, como particulares» que os hespanboes haTiam to- 
mado cir suas invasões. 

Foram estes os derradeiros serviços que á nossa terra 
prestou o marquez de Lavradio, que, regressando aos seus 
lares, deixou verdadeiras saudades. 



IV 



Ao berieraerilo marquez succedeu em 5 de Abril de 1779 
Luiz de Vas<:oiicellos c Sousa, descendente da illustre casa 
dos condes de Casiello Melhor, e que ainda na primavera 
da vida distinguia-se pela sua muita prudência e nâo \'ul- 
gares leiras. 

O primeiro cuidado do novo vice-rei foi a fiel execução 
dos tratados a que acabamos do alludir, e, como seu ante- 
cessor, teve de luclar com a mà fé dos hespanboes e a 
inércia d'alguns dos commissarios portuguezes. D'entrc 
estes fez sempre honrosa excepção do major Francisco João 
Roscio, o qual em seu ofBcio de 4 de Junho de 1779 qua- 
liticava como o único engenheiro que exislia no Brasil, 
sendo digno de Ioda a contiança pela sua illuslração e 
saber. Começada a demarcação de limites no tempo do 
marquez de Lavradio, absorveu o longo vice-reinado de 
Luiz de Vasconcellos, que, no relatório com que passou a 
adminislração ao conde de Rezende, assim se exprime a 
tal resp(!Íto: 

« N'este estado se acha todo o progresso da demarca- 
ção, a respeito da qual apenas toquei nos pontos principaes 
d'ella, por se achar a larga historia de muitas implicâncias 
que lèm occorrido nas correspondências, que deixo a 
V. Ex. do Rio Grande, desde o anno de 1784 até ao pre- 
sente de 1789: devendo rematar este importante artigo 



- 255 - 



com a i^râDtltí despeza dê 90:GUD| (|ub lem qonsuãMnidp 
aslã diligancíu, mm ainda de todo se concluir, para a qa^ 
foi sempre necessária uma assistenda cDatinuada d^ di- 
nhêiTO promplo, qm tem concorri ilo paiTi unia parte do 
atrazo doesta real fazenda. ...» (6) 

Sabemos pelo testemunho da historia do grande apreça 
que outrora se dava ao ilescobri mento das minas ; por iàso 
Dão admira do exlni ordinário alvoroço que houve n'esia 
cidade Quaudo veriflcou-ae a existência de jazigos auríferos 
nos sertões que moldura vam as cactioeiras do rio Macacú. 

D'esde o tempo dos governadores interinos, i\m bavi;aaa 
suecedido ao conde de ftobadella, corria vaga tradivao re- 
lativa a essas minas^ o o conde da Cunha, com a violeneia 
que caracterisou a muitos dos seus actos, ordenara que &e 
demolissem as casas edi Geadas nus seus contornos, e se 
evacuassem as fazendas circumvisinhas, com o Qto da vedar 
a entrada da nova Colchida* Prodti/ju semelhante me<Ud 
afTeitos diametralmente oppostos aos que pretendia o 
vice-rei; porquanto serviu de alarme, e revelou aos aventu- 
reiros o qm até então ignoravam. Na falt^ de dragões que 
velassem sobre o raysLerioso velo, recorreu-se aog mili- 
cianos, cujos destacamentos postados nos lugares mm 
próximos ao sertão deveram embaraçar os extravios, pren- 
dendo a quantos se reputassem culpados. 

r.om o seu consummaílo tino governalivo, cedo conheceu 
Vasconcellos a inutilidade de lai *: edida» e os males que 
d ella poderíatn provir. Escrevendo para a cdrte a ãâ 
de Agosto de 1781, assim bc expressava; 

«t Mèm de ser inleiranienle impraticável esta providen- 
cia, é de grandissimo prejuízo a estes povos e de grande 
despeza areal fazenda, porque, sendo estas tropas coiti- 

Ití Vide Beih Trm* 4q imt, Hi$(. e G^. Bra«t, ton^o IV. 



— 2S6 - 

postas de lavradores, vulgarmente chamados <c roceiras » 
que, abandonando suas casas e famílias, passam obrigados 
e cheios de violência, sem algum soldo que os anime» ás 
grandes distancias dos mesmos registos, não só deixam de 
trabalhar na cultura dos terrenos que possuem, perdendo 
por isso o lucro que d'elles podiam adquirir, mas também 
vèm por consequência a diminuir para a subsistência 
doestes povos os mantimentos da primeira necessidade, em 
cuja producçâo se occupavam aquelles lavradores, e este 
prejuizo, ainda que parece insensivel, é de uma grave con- 
sequência. » 

Em substituição a tão odioso systema, propõ/. o vice-rei 
que se repartisse o sertão em sesmarias concedidas aos que 
mais aptos se mostrassem para a exploração dos terrenos 
auríferos, que seria feita sob a vista do desembargador 
Manoel Pinto da Cunha e Sousa, intendente geral do ouro. 
Approvou a corte o seu alvitre, e no dia 2 de Junho de 1787 
effectuou-se a indicada repartição, concorrendo a ella cres- 
cido numero de pretendentes attrahídos pela fabulosa ri- 
queza (Vessas minas. Foram, porém, a mor parle d'elles 
illudidos om seus ambiciosos cálculos; porquanto na 
occaslão de se medirem os rumos tornaram-se patentes 
vestígios denunciadores de grandes usurpações que, muito 
a seu salvo, haviam ahi leito os garimpeiros. A' demasiada 
confiança dos licitantes suecedeu o maior desanimo, acom- 
panhado de reiteradas reclamações. Desejando por termo 
a ambas as cousas, assentou Vasconcellos no seguinte expe- 
diente, que deu os melhores fructos. Ordenou que as 
operações do ouro fossr;n feitas a jaizo prudente do com- 
missario régio, e os seus produclos conduzidos à casa do 
registo, onde se deverahi guardar em cofres para isso 
destinados; e logo que houvesse porção suíTiciente se 
fizesse a reparliçiío entro os interessados , deduzidas 



- Ífí7 - 



as ílespeza;^ da fabrica, e Dbâervaotlo-se em tudo a maior 
equidade. 

Assim regulari?*ada a exidoração doestas miriaf, óptimas 
consequeDcias d'ahi Dasceram i e inconlesiavel é que da 
aniiieDCia do gente que aellas concorria resultou a abertura 
de novas entradas, e o eslabelecimenlo de novos registos 
para a fiscali&ação dos direitos reae^, e por ultimo a fun- 
dação de povoações que san hoje importantes cidades 
e villas* 

Mais homem de penna do que de espada, não se olvidou, 
todavia» Luiz de Vasconcellos da defesa da capital do Brasil, 
mandando continuar as obras iniciadas por seus antecesso- 
res, nao se descuidando de manter a disciplina e ínstrucção 
das tropas que então aqui existiam. No jà citado relatório 
dirigido ao conde de R^^zende folga de render homenagem 
aos cliefesdos regimenti^s pelo bom estado em que estes m' 
adiavam i e» cotno o marquíz de Lavradio, insisto na neces- 
jidade de augm eu lar-se a guarnição da cidade, que, posto 
'ífue composta du cincfj regimentos de infantaria, uui de 
artilheria, e de duas companhias de cavallaria que Turma- 
vam a guarda dos vice-reis» era ainda assim insuíTiciente 
para a sua cabal defesa, attenta a obrigação em que estava 
de dar ilestiicaraenlos para d ilTe rentes pontos. Da lastimá- 
vel círcumstancia do alrazo dos pagamentos deduz mais um 
motivo para elogiar os que prestavam à na(;ão o mais rele- 
vante de lodcis os serviços, tt A disciplina dos seus chefes 
(diz elle) a tem conservado em boa ordem, subordinação 
e âceio, de modo que é uma grande admiração que esta 
tropa, a quem se devem muitos e muitos annos de farda- 
mentos inteiros, appareça sempre luzida, ainda nos diários 
exercícios da parada, sem o menor signal de prisão, ao 
mesmo tempo que tudo lhes falta e tudo se remedeia pelo 
cuidado e economia dos mesmos chefes, que sò se empe- 
tomo XXII, p, iK 33 



— 2{« — 

nham cm encobrir necessidades conhecidas com apparen- 
cias menos sensiveis, ainda que superiores á sua iadustria 
o às saas forças. » 

Graves conflictos teve Vasconcellos com alguns magis* 
trados, que» estribando-se na errónea intelligencia da Or^ 
denação, liv. 1% tit. l% § 45, criam-se fora da alçada dos 
vice-reis, e como um status in statu. O mais serio, porém, 
d*esses conflictos foi motivado pelo atrabilurio procedi- 
mento do desembargador Ambrósio Picaluga, que servia 
de ouvidor geral do crime. 

Com o propósito de proporcionar aos fluminenses um re- 
frigério para as calmosas tardes e noites de verão, ponsára 
o vice-rei em aproveitar um grande campo pronimo ao sitio 
de N. S. da Ajuda, ordenando que n*elle se plantassem algu- 
mas arvores e resguardando -as com uma cerca de espinhos. 
Frustranea fora, porém, toda a sua diligencia perante a 
maldade com que alguns moradores deixavam que seus 
animaes domésticos devastassem uma chácara que para 
a publica utilidade se destinava. Fatigado de inúteis 
admoestações, determinou Vasconcellos aos presos que Ira- 
l)alhavam no aterro do referido campo que matassem os 
animaes damninhos que alii peneirassem. Aconleceu que 
fosse das primeiras victimas uui carneiro de grande esti- 
mação do desembargador Picaluga, que, indignado por essa 
perda, e não conhecendo limites em seu ódio, desres- 
peitou gravemente ao vice-rei que dera a ordem, proferindo 
insultos contra a sua pessoa, e maltratando cruelmente ao 
misero condemnado, que nada mais fizera do que executar 
o que se lhe ordenara. Não contente com todos (^stes des- 
acatos, animou-se o referido ouvidor a dar ura empurrão na 
senti nella que guardava o preso e que correra em sua defesa, 
lembrando respeitosamente ao magistrado que lhe cumpria 
velar pela segurança do dito preso: bem como preserval-o 



- 28« — 



qualquer mateficio. Com jusla razáo naâgoou-se Vascou- 
têllm dõ lai proceder b na couta que deu para a cõrle assim 
se expressou : 

*^ FinalraeQie nao possu deixar de lametitar-mo de que, 
leodu vivido rauilos anoos com um graude numero de mi- 
nistros na figura de seu collega, e devendo, sem excepção 
algume, a lodos uma grande altençao e respeito, o venha 
agora perder no superior lugar de vice-rei do Brasil, que, 
sendo sempre Ião pesado para minhas forças, que sò pode 
fiupprir aminlui obediência, me foi confiado por SaaMages- 
taíle por folgar deme fazer em tiido hotirass^^cresceniíimeniã e 
mercê: reaes expressões que a mesncia senhora lia de querer 
suâLentar, um procurando eu desmerecel-as, quanlo cabe 
oa minha possibilidade e nas minhas diligencias, antes 
lendo-as seuipre impressas em m^u coração, o mais fiel e 
resignado no preceito da mesma senhora, aquém V, Ex. 
fará tudo presenle*)i 

Todos os ramos rta administração publica receberam beno- 
fico inílu\() do zelo do Ião i Ilustre ciíefe. Incansável pelo 
bem-estarde seus governados, parecia dotado de ubiquidade 
providencial, ora restaurando com maravilhosa rapidez o 
aqueducto da Carioca, que um grande temporal arruinara, 
ora ordenando promptos soccorros aos acom me Ití dos diurna 
cruel epidemia, a que o povo denominara ÚBzamperina* 

Em prol do commercio reedÍBcou-sè a casa da alfandega, 
cujos arma2;ens, além de estarem era péssimo estado, eram 
insufficientcs para n^elles se recolherem as fazendas e gé- 
neros que cm grande quantidade entravam pelo nosso 
porto. 

Nem sii o ulil mas lambem o bello mereceu aatteoçãodo 
desvelado vice-rei ; deveu-lhe a nossa cidade o chafariz do 
largo do Paço, que em sem tempo passava por obra mo nu- 



— 280 — 

meatal; o calçamento da mesma praça, aformoseado com 
fios de lagedo; o cães» à imitação do de Lisboa; o passeio 
publico; a abertura da rua denominada das Bellas-Noites, em 
direitura ao referido passeio; a construcçâo da elegante 
fonte chamada das Marrecas; a restauração do recolhimento 
de N. S. do Parto, yictima d'um incêndio ateado pela im- 
placável vingança d'uma mulher; são documentos cBre p^ 
rennius do grande interesse que por nossa terra tinha e 
da affeição que lhe votava. 

Jamais se esquecerão os fluminenses do nobre empenho 
que mostrava o vice-rei em favorecer às scicncias, letras e 
artes : a fundação do gabinete de historia natural chamado 
Casa dos pássaros; a convivência e generosa protec- 
ção outorgada aos obreiros do pensamento» nas pessoas 
de Basílio da Gama, A.lvarenga, Dr. Marianno, professor 
Marques, Dr. Goulart, e tantos outros; as animações prodi- 
galisadas aos mestres Valentin, J. Leandro, e alguns poucos 
levitas da sublime arte de Raphael e Miguel A.ngelo, fizeram 
considerar o vice-reinado de Luiz de Vasconcellos como a 
idade d*oirodo Brasil colonial. 

Guarda a tradição seu nome como o lypo do bem do go- 
vernante, como o ideal do administrador. Assim Iodas as 
vezes que quer failar d'um magistrado circumspeclo, affavel 
para com lodos, expedito nos despachos, inflexível na 
distribuição da justiça, cuidadoso do bem geral, antepondo 
os commodos de todos aos seus próprios, resume esles 
predicados n'uma só phrase, dizendo :— é um Luiz de 
Vasconcellos, 



No dia 9 de Julho de 1790 empossou-se da vice-realeza 
•lo Brasil D. José Luiz de Castro, 2** conde de Rezende, que 



— 2ttl — 

de seu pai, U. A.11I0QÍ0 de Castro, herdara esle lilalu» bem 
como o almirantado do reino. 

Sobre a memoria d'este alto funccionario pesam graves 
accusações, dasquaes infelizmente não podemos verificar o 
gráo de veracidade,* por faltar-nos o registro da sua corres- 
pondência. Talvez que nos habilitasse ella para rectificar 
alguns juízos por demais severos, ou apaixonados, como já 
o fizemos para com o conde da Cunha. 

Guiando-nos pelos sentimentos de monsenhor Pizarro, 
nas suas Memorias Históricas do Rio de Janeiro, que aliás 
se lhe mostra bastante adverso, vemos que grande pirle das 
censuras feitas ao governo do mencionado conde de Re- 
zende cifram-se no abuso que da sua auctoridade fizeram 
muitos dos seus subordinados. 

»< Então, diz Pizarro, praticaram os uiliciaes inferiores dos 
regimentos e os de justiça outras tantas violências, que ha- 
viam executado em tempo do conde da Cunha os encarre- 
gados de semelhantes diligencias, cumprindo as ordens do 
vice-rei com demasiado excesso, para se utilisarem das la- 
grimas do povo, dispensando a uns porque lhes retribuíam 
com dadivas, e molestando repetidas vezes a outros porque 
pouco ou nada quizeram dar pela escusa dos escravos. 
Doesta narração se comprehende bem que não procedeu o 
mal das previdentes e bem dirigidas ordens do vice-rei; mas 
dos ambiciosos emalfazentes executores d' eUns; apadrinhados 
pela ignorância dos factos^ qiie não chegaram d presença de 
quem os devia castigar ^^ (6). 

De factos totalmente alheios à vontade dos governantes 
tira a superstição popular bons ou mãos agouros : assim do 
fatal incêndio que na noite de 20 d'esse mesmo mez de Julho 

(6) Memorm Hisíorirns d») HUt de Janeiro, (om. V, paíç. 259. 



- á6í -- 

cm que começara a sua administração, deTorou o edificu» 
do seuado da camará, consumindo todo o seu importante 
archivo com única excepção dos livros que se achavam em 
poder do escrivão e do presidente do mesmo senado, aus- 
piciaram nossos avós uma serie de desfaças e oppressões. 

Envenenados eram todos os actos do vice-rei : se pro- 
punha à corte a suppressão do regimento chamado Veliio^ 
era porque queria vingar-se do seu commandante João Ro« 
-drigues Gago— por etiquetas particulares e pouco deco- 
rosas (7) : se, em obediência ás ordens superiores, punha a 
cidade e suas cercanias em estado de defesa fazendo cons- 
truir fortes de fachiua, era porque queria vender por boas 
moedas os postos denominados depois por escarneo de al- 
feres ^ tenentes e capitães de caesi 

O caracter duro do conde de Rezende, suas maneiras 
desabridas, o orgulho que tanto o distinguia, nascido da 
alta conta em que tinha a sua linhagem, alienaram-lhe por 
tal forma as sympathias dos fluminenses que esqueceram ou 
deixaram na sombra alguns beneficies que deveram ao seu 
governo. Pede, porém, a imparcialidade hislorica que regis- 
temos aqui que fui clle quem mandou cobrir o aqueducto 
da Carioca para evitar o desvio das aguas e a sua deterio- 
ração; quem fez substituir por conductores de pedra os de 
ferro que até enlao existiam; quem mandou cobrir de lages 
formadas sobre abobadas os canos que ainda boje se vem 
na rua denominada da Valia; construiu o chafariz do larço 
do Moura; estabeleceu a illuminaçâo das ruas e praças, à 
guiza da de Lisboa, faltando-lhe. porém, os meios pecuniá- 
rios para a sua continuarão. Foi ainda elle quem augmeulou 
com ura andar superior o palácio da residência dos vice- 
reis, reparou os estragos que haviam nas fortalezas da 

(7) Memorias Ilistoncas d$ Bio de Janeiro, lom. V, pag. 251. 



barra» accresoealon a de Sanla Cruz com 29 peças de arti- 
Iberia» e, vigiando assiduamente sobre o asseio da cidade, 
e?itoa que não só deixassem de ser lançadas às ruas e 
praças as immundicias, mas lambem que houvesse mais 
aceio no interior das casas e quintaes. 

O nosso laborioso collega e amigo o Sr. Dr. M. D. Moreira 
de Azevedo, no seu muito interessante Pequeno Panorama 
do Rio de Janeiro, cita dois actos d' esse vice-reinado, que, 
posto que impregnados do despotismo daépocha, mostram 
que o bem publico era por mais de uma vez a norma de sua 
coodncta. (8) 

« Encarecendo a farinha na Bahia e Pernambuco, dei- 
xaram os negociantes de vendêl-a aqui para enviai -a 
àquellas partes. Em breve houve falta d'este género no Rio 
de Janeiro. 

« Chegando ao vice-rci os clamores do povo, ordenou que 
viesse à sua presença o intendente do arsenal de guerra. 

c< — Quero, disse o vice-rei, que se arme uma barraca 
geral no largo do palácio e que se descarregue a farinha 
que houver a bordo, para ser vendida n>ssa mesma barraca 
por preço commodo. 

« Appareceu a grande barraca cheia de farinha, que foi 
vendida a 100 réis a quarta I 

« Querendo os negociantes de sal formar monopólio, 
foram occuUando e encarecendo o. sal. Os clamores do 
povo chegaram ás portas do palácio do vice-rei, que or- 
denou que doze soldados, armados de machados, fossem 
arrombar as portas dos armazéns de sal na Prainha, se os 
negociantes rocusassem expôl-o á venda. 

« Os negociantes não se oppuzeram ás ordens do vice- 

(8) Peqtieno Panorama âo Rio de Janeiro, tom. lí, pags. 14 e 15. 



- 264 — 

rei; e o sal conieçoii a sor vendido a iOO réis a meia 
quarta! » 

No seguinte paragrapho (ruma carta attribuida ao doutor 
Manoel Ignacio da Silva Alvarenga acham-se epilogadas as 
accusações pelos contemporâneos dirigidas ao yíce-rei 
conde de Rezende : 

« Todos sabem que o egoismo arbitrário e uma soberba 
factícia e ridícula com a mais profunda ignorância consti- 
tuem o caracter singular de V. Ex., e é para admirar que, 
possuindo Y. Ex. todos os vicios da nobreza, não tenha em 
si uma s() das suas virtudes, e que, de qualquer modo que o 
consideremos, não líie achamos uma só boa qualidade, que 
possa reduzir tantos defeitos e imperfeições. O governo de 
V. Ex. foi como a bocetíi de Pandora, de que sahiram (se- 
gundo fabularam os poetas] todos os males. Ceando só oo 
fundo a esperança; c esta foi para nòs a de vt.^rmos algum 
dia (Indar um ilagello que ameaçava barbarisar toda essa 
(Vipitania se durasse mais alguns anno-. Ordens arbitra- 
rias; prisões injustas e atrozes; creaturas vis protegidas e 
elevadas; capriciíos, phanlasias pueris, ou femininas; uma 
inconstância inquieta e turbuK^nta; oflicios vendidos em 
leilão, ou concedidos por ama contribuição annual a pes- 
soas iiidif^Mias iW os exercerem; baixas impetradas e postos 
í^onferidos por dinheiro; monopolistas tolerados e prote- 
gidos; uma avareza sórdida o asquerosa; um;i inveja e um 
ciúme indizivol da prosperidade e riqueza dos súbditos; 
violências e procedimentos illegaes, eis aqui, Illm. Sr., ob- 
jectos mni vastos e fecundos para os que emprehendem 
historiar e transmiltir ás gerações futuras os fados e as 
acções do governo insens;ito de V. Ex. » 

Assevera o Sr. l)r. Mello Moraes, no seu noticioso jornal 
O fírasil Histórico, que a carta que acabamos de extractar 
fora endereçada anonyma ao conde vice-rei depois do 



— afls — 



haver elle íeilo entrega da governança a seu suecessor, e 
lendo bons fandameiílos para acreditar que a referida carta 
em da lavra do nosso illusirado patrício o Dr. Alva- 
renga. Se assim foi, perinillam-nos que averbemos de sus- 
peito o testemunho do cantor de Gtuura, petos motivos 
que sao geralmente conhecidos, em cnja apreciação vamos 
entrar; e ainda pela linguagem apaixonada e declamatória 
que transsuda de cada uma das suas palavras. Folgaríamos 
em extremo se podessemos libertar a memoria do desditoso 
poeta da pecha úUibtfssinio^ que com justiça ser-lhe^ha ir- 
rogaila pela satisfação que teve de arrojar innocuas pedras 
ao sol poente. 

Disse alguém, com bastante espirito, que a França era 
uma monarchia absoluta temperada por canções; nunca 
mais salyrico foi Paschino do que uo governo de Sixto V, o 
pontifico plebeu, perante o qual curvou se a orgulhosa aris- 
locnicia romana* Em todos os tempos vingou-se o povo da 
sua dependência e humildade, e muitas vezes das exacções 
de que era victima, com motejos e epigrammas aos gover- 
nantes , e a'esse plam^ inclinado não raro era vèl-o ullra- 
passíir a mela do iimucente desafogo ou da justa represália 
para peneirar às raias da caluniniac da difTamação. O vo- 
cabulário dos co7nmunÍaidm e çorrespondFncias do mo- 
derno jornalismo era mutaiismutanãis o dos pasquins com 
que oo&sos avós expaadiam seus resentimenlos ou contra- 
riedades Fazendo appíicação d*estes princípios, repetimos 
que nos fallecem provas com que possamos contrariar os 
libellos formulados contra o vice-reinado do conde de Re- 
zende; mas que nutrimos vehementes suspeitas de que a 
toilos elles falta o criícrimn veriiatis. 

Tratemos agora da perseguição ordenada pelo mencio- 
nado vice-rei contra o professor de rhelorica Alvarenga e 
alpus lilteratos que se lhe associaram no pensamento de 
TOMO xxvtn, r. ii* 34 



— 268 - 

deuar-se a prisão de quem quer que se torne suspeito i 
auctoridade, e que o exemplo da famosa conspiração do 
Tiradentes, cuja grosseira tela está recebendo os recamos 
do seu lavor, devera prevenir o vice-rei do Brasil contra 
essa arcádia, d*onde podia sabir armada, como Minerva da 
cabeça de Júpiter, alguma platónica republica de Villa- 
Rica. A amplificação rlietorica com que julgou conveniente 
encber o período foi mais uma amostra do seu bello talentu 
poético, do qual por mais de uma vez nos havemos duclarado 
admirador. 

Por baver cumprido difficeis e quiyà bem penosos de- 
veres, incorreu o desembargador António Diniz da Cruz e 
Silva na indignação do eloquente defensor de Alvarenga. 
Oiçamo-lo : 

« . . . . O mesmo juiz que condemnàra á infâmia e ao 
exilio os seus coUegas, ou compatriotas, Thomaz António 
Gonzaga, Alvarenga Peixoto, Alvares Maciel, Vidal Barbosa, 
Freire de Andrade e tantos outros, é que vinha agora tam- 
bém interrogal-o por sua vez de ordem do conde de Re- 
zende. Poeta como elles, doutorado na mesma universidade, 
António Diniz da Cruz e áilva comprazia-se n'essa missão. 
Armado de arlilicios, com (» rigor impresso nas rugas da 
testa, e a austeridade n'alma, penetrava nas masmorras, 
sentava-se na cadeira de juiz, e enuobrecia-se com a su- 
perioridade que iíie dava a lei sobre os seus coUegas, con- 
vertidos em réos, de uma imporlancia extraordinária, não 
por serem quem eram, mas pela monstruosidade de uma 
legislação nimiamente barbara. » 

Lendo o paragrapho que acabamos de citar convencèmo- 
nos de que a paixão, ainda a mais nobre e santa, como a 
que inspirou ao nosso consócio, produz nos ânimos os mais 
esclarecidos uma fascinação semelhante á causada pelas 
arêas dos desertos da Arábia nos olhos dos sedentos e ai- 



— 469 - 

quebrados viandantes. Nos paizes, como Portugal, que pos- 
suem um código criminal, a imposição das penas não de- 
pende do alvedrio do magistrado : secundum aMegata et 
probata, assim eslipula-se à penalidade no thermometro da 
justiça. O ar severo e carrancudo de que se revestia Diniz 
era uma espécie de couraça commum aos juizes da épocha, 
de que por certo revestiu-se o dulcíssimo Gonzaga, e quanto 
às argucias do interrogatório era um eiTeito da doutrina, 
hoje Telizmente condemnada, que suppunha todo o accusado 
criminoso. A estas considerações podemos ainda adduzir o 
temor que devera alimentar o chanceller da relação do Rio 
de Janeiro de testemunhar a menor sympathia a esses le- 
prosos da politica dominante, tanto mais que entre elles 
existia a fraternidade litteraria, e quiçá a communhão de 
princípios. 

Melhor do que com conjecturas pôde justificar-se o pro- 
ceder do auctor do llyssope com a prova documental. Tive- 
mos a felicidade de deparar no Archivo Publico com a 
informação prestada pelo desembargador chanceller ao 
vice-rei conde de Rezende relativamente ao processo de Al- 
varenga e dos seus cúmplices, na qual assim se exprime : 

<c E' preciso notar que contra nenhum dos mesmos presos 
se diz, ou prova que elles entrassem em projectos de cons- 
piração, sendo toda a culpa que se lhes imputa, o que 
contra alguns se prova, a de sustentarem em conversações, 
ou particulares, ou publicas, que o governo das republicas 
deve ser preferido ao das monarchias, que os reis são uns 
tyrannos oppressores dos vassallos, e outras sempre detes- 
táveis e perigosas, principalmente naconjunctura presente. 
N'este presupposto, me persuad », pelo que pertence aos 
presos Manoel Ignacio, professor de rhetorica, medico Ja- 
cintho, e Mariano José, que v. Ex. os tkce mandar soltar. 



_ i70 — 

sem maior hmíação^ pois que contra ettes ritto ha maiar 

prova )) (10) 

Acabamos de vér quaes os verdadeiros sentimentos de 
Diniz para com os ^mpromettidos na denuncia de José 
Bernardo da Silveira Frade ; examinemos agora o modo por 
que o conde de Rezende mandou-os pôr em liberdade. Ma- 
riano José Pereira da Fonseca, um dos encarcerados dd 
ilha das Cobras, havia feito chegar suas sentidas queixas 
aos ouvidos da piedosa rainha D. Maria I, que ordenou a 
D. Rodrigo de Sousa Coitinho escrevesse ao vice-rei do 
Brasil determinando-Ihe que, no caso que entendesse que 
o dito Mariano e seus complices eram innocentes , os 
mandasse soltar, e na hypolhese conlmria remetlesse- 
os para Lisboa com os autos comprobatórios de seus 
crimes, (ti) 

daro ó que, em virtude doeste officio, deixava-se à von- 
tade do conde a escolha do expediente que mais lhe aprou- 
vesse ; bastando que julgasse culpados os accusados para 
obrigal-os a todos osincommodos de umá longa viagem, e 
a todas as delongas de um processo por crime de lesa- 
maí^estaile. Pois bem ; esse homeiíi sanguinário, essa fera 
com a fònna humana, optou pelo primeiro dos expeiiien- 
tes; e, Híspondendo a D. Rodrigo, assim se expressava : « E 
devendo antes de tudo beijar mil vezes a mão a Sua .\b- 
gestade, pela contemporisaçâo com que a mesma senhora 
me distingue, deixando á minha eleição a remessa dos 
presos para Lisboa com as suas culpas, ou absolvêl-os das 
prisões em que se achavam, mandando-os pôr cm liber- 



(10) Vide fíerisfa Trimenml do Instituto Histórico e Geographicv tU 
Brnsil, tom. XXVIII, part. í, pag. 157. 

(11) Officio (lo l). Uodriíro ao ronde ílp.Kez<»nde. datado de 1* de 
Fevereiro de 1797. 



- 271 - 

dade, escolhi este ultimo partido por ser mais conforme d 
humanidade. » (12) 

Se a millionesima parte dos erros, desatinos e até cri- 
mes attribuidos ao conde de Rezende podessem ter funda- 
mento, é mui provável que o governo portuguez, que man- 
dava syndicar dos actos dos seus altos funccionarios quando 
dava por findas as suas commissões, nâo tivesse galardoado 
o quinto vice-rei do Brasil no Rio de Janeiro com a patente 
de tenente-general e a grâ-cruzdaordem d'Aviz no seu 
regresso á corte, depois de haver entregue o bastão do 
mando a seu successor. 

VI 

D. Fernando José de Portugal, pertencente à nobilíssima 
casa dos marquezes de Valença, passou do governo da 
Bahia para a vice-realeza do Brasil, tomando d'ella posse a 
14 de Outubro de 180i. 

Sempre lhano, affavel e conciliador, mais occupado com 
os deveres de magistrado do que com os da milicia, que 
tanto aprazia a seu antecessor, forma com elle um con- 
traste bem significativo. Desde o tempo de Luiz de Vas- 
concellos que não viam os povos na cadeira do vice-rei 
tanta benignidade, tanta doçura de maneiras, tanta fineza 
no tracto característico de quem se tinha affeito a mi- 
mosear os primores da litteratura antiga e moderna. 

O silencia da historia, disse um eximio escriptor, é a 
felicidade dos povos, e, se de provas necessitasse este apo- 
phthegma, bastaria citar a administração de D. Fernando 
no Rio de Janeiro : calma, serena, e sem que nenhum 
evento extraordinário viesse interromper. 

(12) Officio do conde de Rezende a D. Rodrigo de Sousa Coitinho, 
impresso no tora, XXVIII, pari. I, da Revista Trimensal do Instituto 
Hitíorico e Geçgraphico Brasileiro. 



- á72 — 

Esse estado d' alma l^do e qusdo 

Que a fortuna não deixa durar muito. 

na phrase do épico portuguez. 

Que era, porém, o vice-rei capaz de energia e dedica^ 
pela causa publica, vimos na actividade que desenvolvea 
quando no anno de 1805 alguns malfeitores lançaram fogo 
â casa dos contos, onde funccionava a junta da fazenda: c A* 
sua vigilância, diz Pizarro, e disposição deveram os cofres 
ficar salvos o livres do menor desfalque. » (13) 

Desejando perpetuar a lembrança dos relevaotissimos ser- 
viços prestados n'essaoccasião pelo vice-rei, ordenou ajunta 
da fazenda que d'elles desse testemunho a inscripção lapidar 
embutida na parede em frente da escada principal (14). 

Mais do que n*essa lapid.i ficou entalhado o seu nome nos 
corações dos fluminenses, que pezarosos o viram alongar-se 
das nossas praias para ir tomar na metrópole a presidência 
do conselho ultramarino. 

Vil 

A í) de Agosto do anno de 180G chegava ao Rio de Ja- 
neiro, ao cabo de uina hibori(»sa jornada de quatro mezes 
e quatro dias, D. Marcos de Noronha e Brito, oitavo conde 
dos Arcos, que (hi governança da capitania do Pará e Rio 
Negro era promovido á vice-realeza do Brasil. Doze dias 
depois d*essa chegada assistia a população ao acto solemne 
da posse do novo vice-rei. 

Depõe a tradição em seu abono que fora imparcial na 
administração da justiça, acérrimo inimigo dos conlraban- 
distas, e que á semelhança do seu iiluslre antecessor, sou- 

(13) Mãe Memorias Ilisfoncaa do liio de Janeiro^ loin. V, jjag. 236. 
(1'0 Vide }femnrínfi Históricas fio }\io de Janeiro, loni. V, pae. *23^. 



— 273 — 



bera adquirir geraes sympalhiâs pelos seus modos delica- 
dos e ca valheirosos. 

Deveu- lhe a população fluminense a fundação de uma 
grande feira no campo de S* Christovao, que foi muito 
coDoorrida, e d' onde se auferiam uão poucos beneõclos para 
o commercio e nascente industria- 

Nãotoi permittido, porem, ao conde dos Arcos findar a 
sua ailminislraçao u'essa paz octavmiia que caracterisou a 
do penúltimo vice-rei : os acontecimentos estupendos 
oceurriam na Europa, o perigo constante de invasões 
^êWoqueios que corria a metrópole» devora forçosamente 
actuar sobre a sua colónia transatlântica : assim ordens 
terminantes lhe foram transmitlidas para que se aprestasse 
para a guerra que estava imminenle. ou com a Inglaterra, 
em obediência ás intimaçOos da França, ou com esta ultima 
potencia se prevalecesse nos conselbos da cor6a lusitana a 
antigo predomínio britannico. 

Respirava a nossa pacifica cidade um ambiente bcUicoso; 
sobre os seus enferrujados quicios volviam as portas do 
íemplu de Jano,quaQdo assomou â barra o brigue de guerra 
Voador (a 14 de Janeiro de 1808), Irazendoa grata noticia 
que a farailia real bragan ti na buscava seguro asylo na terra 
de Cabral, foragida do reino europeo pela insólita invasão 
de Jupot. 

Assim como marcavam os romanos em seus fastos aWo 
lapillo os dias em que algum feliz successo havia occorrido, 
assim devemos nós fluminenses assignaiar áureo lapillo o 
venturoso dia 7 de Março de 1808, em que o príncipe re- 
gente de Portugal e sua augusta íamilia desembarcaram em 
nossas plagas. O throuo sombreara a cadeira do vice-reí^ 
cuja auctoridade havia desapparecido, como a eslrella da 
manhã diante dos primeiros raios do sol. 



TOMO XXJX, P. IK 



AGTA8 DAS SESSÕES DE 1865 



1* SESSÃO EM 49 DE MAIO DE 1865 

HONRADA COM A AUGUSTA PRESENÇA DE S. M. O IMPERADOR 

Presidência do Exm. Sr. visconde de Sapucahy 

A's 6 horas da tarde, achando-se presentes os Srs. vis- 
conde de Sapucahy, Dr. Macedo, Joaquim Norberto, Carlos 
Honório, Borges, Coruja, Cláudio, Álvaro de Castro, Capa- 
nema, Pereira Pinto, Silva Rio, Moreira de Azevedo, Feli- 
zardo Pinheiro, Costa Azevedo, Boulanger e Sousa Fontes, 
annunciou-se a chegada de S. M. o Imperador, que foi 
recebido com as honras do eslylo, e tomando assento, o 
Sr. presidente declarou aberta a sessão. Tendo faltado por 
incommodado o Sr. cónego Fernandes Pinheiro, 1° secre- 
tario, e não lenili) ainda coiíiparecido o Sr. Dr. Sousa Fontes, 
2" secrclario, occupou aquelle cargo o Sr. Dr. Carlos Ho- 
nório e este o Sr. Borges. 

Constou o expediente do seguinte : 

Um aviso do ministério do império, declarando ficar in- 
teirado do resultado das eleições feitas no Instituto no dia 
21 de Dezembro próximo passado, para os membros da 
mesa e commissões que tem de servir no corrente anno. 

Outro do ministério da guerra, remetlendo vinle exem- 
plares do índice Alphabetico da Legislaç:"íO Brasileira, cujo 
conhecimento mais interessa aos empregados da repartição 
da guerra, comprehendidas as disposições impressas de 



— 275 -^ 



1837 a 1860, organisado pelo Sr. conselheiro Libânio Au- 
gosto dâ CudIu Maltos. 

Offido do official-maior dâ secreLiria do senado, acom- 
panhando m Aonaes do senado dos annos de i863 e Í86*, 
o oito fascículos dus pareceres da mesa da 1* c 2* sessão 
de 1864, qutí por ordem da mesa do mesmo seoado re- 
mette ao archivo do InstíiQlo. 

Idem do presidente da província de Goyaz, remettendo o 
relalorio apresentado à assemblóa legislativa proviticíaí. 

Idem do presidente da prcivihcia da Bahia, remettendo 
dois exemplares do relatório com qae o Sr, desembargador 
António Joaquim da Silva Gomes passou a administração da 
mesma pruvíueía, e mais dois ditos com que o actual abriu 
a assemblóa provincial no dia 1' de Março de {865. 

Idení do presidente da pruvincia do Paraná, enviando 
um exemplar do relatório com que entregou no dia 18 de 
Novembro de 1864 a administração da mesma ao seu suc- 
cessor, Dr. André Augusto do Pádua Fleury. 

Idem do presidente da província do Para» remettendo 
dois exemplares do relatório que apresentou à assembléa 
legislativa provínciid na sua abertura em IH64, 6 dois 
ditos da coUecção das leis da mesma província do anno 
de 1804. 

Idem do presidente do Rio de Janeiro, enviando o rela- 
tório apresentado a assembleia legislativa provincial na 
sessão de Outubro do anno próximo passado^ e dois exem- 
plares dos annexos do mesmo relatório. 

Idem do presidente da Karahyba do Norte, remettendo a 
collecção de leis da dita província do anno de 186i!^. 

Idem do presidente da provinda de S, Paulo, remettendo 
o relatório com que o ex-presidente, Dr. Francisco Ignacio 
Marcondes Ilomera de Mello, entregou a administração ao 
vice-presidente, Joaquim Floriano de Teledo, 



— 276 - 

Carta do Sr. Ur. António i^ereira Pinto» acompanhando 
um exemplar da sua obra — c< Apontameatos para o direito 
internacional ou coUecção completa dos tratados celebra- 
dos pelo Brasil com differentes nagões estrangeiras. 

Idem do Sr. L. Agassiz, agradecendo o diploma de mem- 
bro honorário do Instituto Histórico e Geographico Brasi- 
leiro, do qual foi portador o Sr. Fletcher. 

Idem do Sr. José Dias da Cruz Lima, offerecendo ao Ins- 
tituto oNecrologicodo barão deCayrú. 

Idem do Sr. presidente do Gabinete Litterario Goyano, 
communicando a ínstallação do mesmo gabinete, e offere- 
cendo ao Instituto seus serviços. 

Idem do inspector da alfandega da corte, declarando qoe 
entre os volumes existentes n'aquella repartição se acha 
um pertencente ao Instituto. 

Idem do Sr. secretario perpetuo da Real Academia de 
Sciencias de Madrid, accusando o recebimento das Revistas 
do Instituto e agradecendo a offerta. 

Idem do Sr. Dr. Thomaz Alves Júnior, offertando ao Ins- 
tituto um exemplar das suas — a Annotaçôes theoricas o 
praticas do código criminal. 

Idem do Sr. M. de Moussy, offerecendo ao Instituto o 
3** vol. da sua obra — « Déscriplion Géographique et Slalis- 
tique de la Conféderation Argentine, cujos dois primeiros 
já havia remettido anteriormente. 

Carta do Sr. J. M. Latino Coelho, secretario da Academia 
Real das Sciencias de Lisboa, accusando o recebimento do 
tom. 26 da Revista doeste Instituto. 

Carla do Sr. Dr. Maximiano Marques de Carvalho, es- 
cripta de Paris, na qual propõe que o Instituto Histórico 
assigne cem exemplares do livro publicado n'aquella ci- 
dade por Mr. Ferdinand Dénis, com o titulo — « Voyage 



— 277 — 

dans le Nord du Brésil fait diiranl les années 1613 el 101 h , 
par le Père Yves d'Evrcux. 

Carta do Sr. Dr. João Manoel Pereira da Silva, escripta 
de Paris, accusando a que lhe foi dirigida pelo Sr. 1" secre- 
tario, acerca da troca da Revista do Instituto com as publi- 
cações dos estabelecimentos públicos e particulares de 
Paris, e pedindo ser auctorisado a entender-se com os mes- 
mos estabelecimentos para o mencionado fim. 

OFFERTAS. 

Pela associação Culto á Sciencia, as suas memorias do 
mez de Novembro de 1864. 

PelaSr. Dr. Cândido Mendes de Almeida, Encyclica do 
Santíssimo Padre Pio 9% e um exemplar do mappa da pro- 
víncia do Paraguay. 

Pela sociedade Real de Nápoles, Atti delFAcademia 
delle Scinze Fisiche e Matemaliche, 7 fasciculos do anno 
de 1863. 

Pelo Instituto de Coimbra, os ns. I a 12 do seu jornal. 

Pela sociedade Ensaios Lilterarios de Pernambuco, seis 
números de seu jornal. 

Pela Academia Imperial de S. Petersburgo, os seus bo- 
letins. 

Pelo governo da Bélgica, por intermédio da secretaria de 
estrangeiros, as seguintes obras : — Mémoires de Tacadé- 
mie royale des sciences, des lettres et des beaux-arts, 
tom. 34; Mémoires couronnées et autres mémoires pu- 
bliéespar TAcadémie Royale de Belgique, lom. 15 e 16 ; 
BuUelins de TAcadémie Royale de' Belgique , tom. 15, 
Í6el7. 

Pelo Instituto Smithonian dos Estados-Unidos, as seguiu- 



— 278 — 

tos : — Annual report of tho boird ní regenls 1861, in-4 ; 
Rcportof the superinlendont of the coast surrey, 1861, 
in-4. 

Pelo observatório naval dos Eslados-Unidos — Ástrono- 
mical and meteorological observations made ai the Uníled- 
Estats naval observatory during the year 1862, in-4. 

Pela universidade de Christiania, 9 vols. em dina- 
marquez de suas obras, e mais os seguintes : — Aperça 
de differentes mélhodes de trailement employées à l*hô- 
pitai de rUniversilé de Christiania contre Ia syphilis cons- 
tilucionelle. Christiania, 1863, in-8. Das chemische 
laboratorium der Universitat Christiania, Herausgegeben 
von Adolph Strecker. Christiania, 1834 ; Observations sur 
les phénomenes d'érosion en Norvège recuei! par J. C 
Horbye. Christiania, 1837; Symboloí ad historiam Antiquio- 
rum rerum Norvegicarum, Edidit P. A. Munch. Christiania 
1850, in 4 ; Das Christiania-Silurbecken, chemisch-geo- 
nostisch untersucht von Theodor Kyrulf. Christiania 1853, 
in-4 ; Quí^lques observations de morphologie végétale faites 
aujardin botaiiique deChrislinia, par .1. M. Norman. Chris- 
tiania, tsr>7, in-4; RechiTchos sur la syphilis, par \V. 
Boeck. Christiania, J8Gá; Lu Norvòge pitloresque, recueil 
íles viies, in-4. 

Pelo Sr. D. Basílio Sebastião Caslellano de Lousada:— 
Discursos lidos ante a Academia Uespanhola de Archeo- 
logia e geographia. 

Pelo Sr. iM. D'Avezac: — Coup dNeil historique sur la 
projection des cartes de géographie. i^aris, 1863, 1 exem- 
plar;Nolice et drcouverles faites aumoyeri-âgo dans Tocean 
atlanlique aiilérieureiíKMUaux grandes exploralions portu- 
gaises du \:W siècle,etc. Paris, 1845, in-8. 

Pelo Sr. Fjfdinand Wolf, a sua obra intitulada : — Le 



— 279 — 

Brésil littéraire et hístorique de la littéràture brésilienne. 
Berlin, 1863, in-4. 

Vários jornaes e periódicos remettidos pelas respectivas 
redacções. 

Todas as offertas são recebidas com agrado. 

Nada mais havendo a tratar-se, oSr. presidente, obtendo 
vénia de S. M. o Imperador, levantou a sessão ás 8 horas. 

C. n, de Figueiredo j 

2" SECRETARIO SUPPLENTE. 



2' SESSÃO, EM 2 DE JUNHO DE ISGo 

HONRADA. COM A AUGUSTA PRESENÇA DE S. M; O IMPERADOR 

Presidência do Exm, Sr. Visconde de Sapucahy 

A^sOhoras da tarde, "acliando-sc reunidos na sala das 
sessões do Instituto osSrs. visconde de Sapucahy, Macedo, 
Norberto, cónego Fernandes Pinheiro, Carlos Honório, 
Coruja, conselheiros Freire Allemão, Carvalho e Azambuja, 
Rev. Fletcher, L. Agassiz, Gabaglia, Lagos, Álvaro de 
Castro, Capanema, Pinheiro de Campos, Moreira de Azo- 
vedo, Borges e Cláudio, annunciou-se a chegada de S. M. o 
Imperador que, sendo recebido com as honras do eslylo, 
tomou assento ; em seguida o Sr, presidente propôz em 
nome de Sua Magcstade que, em consequência da infausta 
noticia, recebida n'esle dia, do fallecimento do nosso pres- 
timoso consócio e 1* vice-presidente o Sr. conselheiro Cân- 
dido Baptista de Oliveira, houvesse o Instituto de suspender 



— 280 - 

os seus trabalhos : esta proposta sendo unanimemente ap- 
provada, immediatamente levaotou-se a sessão. 

C. H. de Figueiredo^ 

ã"" SECRETARIO. 



3' SESSÃO, EM 16 DE JUNHO DE 4865 

HONRADA COM A AUGUSTA PRESENÇA DE S. M. O IMPERADOR 

Presidência do Exm. Sr. Visconde de Sapucahy. 

A's 6 horas da tarde, achando-se reunidos na sala das 
sessões do Instituto os Srs. visconde de Sapucahy, Joaquim 
Norberto, Agassiz, cónego Fernandes Pinheiro, Carlos Ho- 
nório, Coruja,, Filgueiras, conselheiros Azambuja, Carva- 
lho e Franco de Almeida, Rev. Fietcher, Cláudio, Silva 
Rio, Vital de Oliveira, Pereira de Barros, Boulanger, Mo- 
reira íle Azevedo, senador Pompôo, Luiz de Caslro, Capa- 
iiema, Pinheiro de Campos e Borge9,annunciou-se a chegada 
de S. M. o Imperador, que foi recebido com as honras do 
eslylo, e tomando assento, o Sr. presidente abriu a sessão. 

Lidas e approvadas as actas das duas anteriores sessões, 
o Sr. 1° secretario deu conta do seguinte 

EXPEDIENTE : 

Um aviso da secretariado império remeltendo o relatório 
da mesma repartição, apresentado à assembléa geral legis- 
lativa na sessão do corrente anno ; relatórios dos presiden- 
tes das províncias do Rio de Janeiro, S. Paulo, Santa 
Catharina, Mato Grosso, Bahia, Sergipe, Alagoas, Ceará, 
Maranhão, Pará, Parahyba, Amazonas e Goyaz, apresen- 



— 981 — 

tidos âs respeclívas assembléas provinciaes : e as collecçôes 
de leis das províncias de Sergipe, Parahyba, Peroambuco, 
S* Paulo e Santa Catharina, do antio de 1864» e ditas de 
S. Pau lo » Sergipe e Alagoas, do ao no de 1863, 

Oalro do Sr. ministro do império» declarando que lendo 
o conde de la Hure remetlido àquelle ministério o relatório 
das explorações que tem feito nos depósitos de concbas 
existentes nas costas da proYincia de Santa Ca thariDâ.e reite- 
rando o ofTereciraento feito anteriormente de prestar-se 
a fazer novas explorações em vários ponlis do império, se 
o governo assim o julgar, remette por isso a cópia do 
mesmo relatório ao Instituto, para que este, lomando-o na 
devida consideração, dê com brevidade as informações que 
a mesma secretaria, era aviso de 30 de Setembro do anno 
passadOt requisitou do Instituto a tal respeito. 

Officio do Sr* conselheiro Mariz Sarmento pedindo dis- 
pensa de membro da commissão de fundos e orçamento, 
para que havia sido reeleito na ultima sessão de eleições» e 
a exhoneraçao de sócio efTectivo do Insliluto, allegando 
nio poder mais prestar serviços em consequência de se 
acharem avançada idade, enfermo e totalmente privado da 
vista, O Instituto deliberou que aceitava a dispensa de 
membro da commissão de fandos e orçamento, e que fosse 
o oíDcio do Sr, Mariz Sarmento remetlido à commissão de 
estatutos para ella dar parecer a respeito da 2* parte do 
mesmo officio, isto é, sobre a exhoneraçao de membro 
effectivo do Instituto, para então resolver diffiniti vãmente. 



OFFERTAS ^ 

Relatórios (Jos ministérios da marinha e fazenda apresen* 
tados á assemblóa geral legislativa na actual sessão pelos 
respectivos ministros. Remettidos ao Instituto pelas secreta- 
rias de marinha e fazenda. 

TOMO XXYLll, p* u. 36 



— 482 - 

Annaes do observatório do infante D. Luiz» anno de 4861, 
offerecidos ao Instituto pelo Sr. secretario da legação por- 
tugueza n'esta corte. 

Apontamentos para o diccionario histórico, geographíco, 
topographico e estatistico da provincia do MaraDhão,offere- 
cidos pelo seu auctor o Sr. Dr. César Augusto Marques. 

Origen de los indios dei nuovo mundo e índias ocddeD- 
tales, offerecido pelo Sr. conselheiro Azambuja. 

E pelo Sr. bacharel José de Saldanha da Gama Júnior, t 
sua obra sobre madeiras de cerne e brancas da provincia 
do Rio de Janeiro. 

Todas as offertas são recebidas coro agrado. 

Antes de entrar-se na ordem do dia, pediu a palavra o 
Sr. conselheiro Azambuja e declarou que, tendo de partir 
no dia 24 do corrente para sua missão diplomática nos Es- 
tados-Unidos, offerecia alli os seus serviços ao Instituto, 
aquém fazia as suas despedidas, e que os documentos qae 
recebera relativos a D. Diogo de Sousa estavam em mão do 
Sr. Dr. Joaquim Caetano da Silva, de quem o Instituto podia 
mandar receber. 

O illustre sócio o Sr. L. Agassiz agradeceu ao Instituto o 
ter sido contemplado no numero de seus sócios, promel- 
tendo empregar todos os seus esforços para corresponder a 
tão distincta honra. 

O Sr. presidente nomeou o Sr. Borges para substituir ao 
Sr. Mariz Sarmento na commissão de fundos e orçamento. 
O mesmo Sr. presidente communicou que o Sr. Dr. Sousa 
Fontes tendo-se retirado para o sul em serviço do ministé- 
rio da guerra, offerecia alli os seus serviços ao Instituto. 

ORDEM DO DU 

Foram lidas duas propostas para a admissão de membros 
correspondentes ao grémio do Instituto : a 1* assignada 



— 283 — 

pelo Sr, cooego Fernandes Pinheiro, propondo o Sr, Dr< 
César Augusto Marques, auclor dos Aponlamenlos para o 
dieoionarÍQ historiei, geographico, lojjographico e esta- 
Ustico da província do Maranhão, c a ã' assígnada pelos 
Srs, Drs, Fiigueiras, Carlos Honório e Borges, propondo o 
Sr. bacharel José de Saldanha da Gama Júnior, auclor de 
um trabalho sobre madeiras de cerne e brancas da profin- 
eía do Rio de Janeiro, Ambas as propostas foram remelli- 
das k commissào de admissão de sócios. 

Leu se e Qcou sobre a raesa,para ser discutido,o seguinte 
parecer do Sr. Dr. Câpanema, sobre a caria do Sr. conde de 
laHureque trata das invesligações a que procedera nos 
depósitos conciíiferos do lilloral do Sahy, emS. Francisco 
do Sul, e da existência dos sambaquis encontrados n'es§es 
depósitos. Seodo a conclusão do parecer : que o Instituto 
deve aceitar a offerla dos objectos encontrados pelo Sr. de 
la Hure nas escavações que fez. 

PARECER 



Parecer sobre as ínvesUgações do Sr, conde de la Hure 
nos sambaquis. 

Foi-me remetlida pelo Instituto Histórico um aviso do 
ministério do império, cobrindo uma caria do Sr. conde de 
la Hure relatando algumas investigações a que procedera 
oos depósitos conchiíeros do littoral do Sahy, em S. Fran- 
cisco doSuL 

Ha pouco tempo o Sr. conde de la Hure offereceu em 
uma memoria, em que vem descripto o resultado de suas 
investigações posteriores, como lambem são desenvolvi- 
das de um modo interessante as conclusões que elle julga 
poder se chegar pelo estudo dos sambaquis. Não concorda- 
mos com a derivação do termo de taba e çf^a^uig que etle 



— 284 — 

dà {é aUi a (Udêa)i é mais natural a interpretação E-ambi- 
%p,marisco espalhado, ou H-ombdrKyb^ cisco de marisco, 
queda o Sr. Baptista Caetano de Almeida Nogueira. 

O autor suppõe que estes cambaquís são devidos a povos 
da mais remota antiguidade, por causa dos ulensilios de 
pedra que n^elles se encontram, entretanto estes ainda 
hoje se usam no Pará ; e notempo de Yves dTvreux ainda 
se fabricavam no Maranhão. 

A analogia doestes utensílios com os achados na Dina- 
marca, não servirá de prova para identidade da origem, 
pois que d'elles se serviam todos os povos primitivos. 

Um meio de transporte dos povos que primeiro habita- 
ram a America não será fácil imaginar pelo estudo dos sam- 
baquís.Posto que haja outros indicios mais positivos tirados 
devegetaes, cujas espécies vivem no continente americano 
e são fosseis ao europêo, a conformação do craneo dos guan- 
chos das Canárias idêntica com a dos indigenas brasileiros, 
tradições de antigos povos da atlantida de Platão etc. 

O não serem os sambtiquis de formação recente, talvez 
seja antes explicável por circumstancias geológicas do altea- 
mento do nosso lilloral, com o qual mudou-se o regimen 
das aguas e desappareceram as conchas. 

E debaixo doesse ponto de vista acreditamos que os es- 
tudos a que se propõe o auctor podem ter importância. 

Julgo também que o Instituto Histórico deve aceitar a of- 
ferta dos objectos encontrados pelo Sr. conde de la Hure 
nas excavações que fez. 

A memoria que elle teve a bondade de me offerecer, en- 
trego-a ao Instituto onde estará em melhor guarda do que 
nas minhas mãos, entre as quaes já soffreu naufrágio. 

Capcmema. 



— 285 - 

Passando-se à segunda parte da ordem dia, o Sr. Joa- 
quim Norberto, obtendo a palavra, leu o V capitulo de um 
trabalho do Sr. Américo de Castro sobre o Paraguay ; e o 
Sr. Dr. Moreira de Azevedo continuou com a leitura do seu 
trabalho intitulado — Os túmulos de um claustro. 

Achando-se a hora adiantada, o Sr. presidente, depois de 
obter a imperial vénia, levantou a sessão ás 8 horas da noite. 



4* SESSÃO, EM 7 DE JULHO DE 1865 

Presidência do Sr. Joaquim Norberto de Sousa e Silva 

A's 6 horas da tarde, achando-se presentes os Srs. Joa- 
quim Norberto, Carlos Honório, conselheiro Freire Allemão, 
Drs. Pinheiro de Campos, Cláudio, Lagos, Fernandes de 
Barros, Pereira Pinto, Perdigão Malheiro, Moreira de Aze- 
vedo, Filgueiras, Borges, Coruja, Gabaglia e Silva Rio, não 
tendo comparecido, por impedido, o Sr. presidente, occu- 
pou este cargo o Sr. Joaquim Norberto, 3** vice-presidente, 
o qual abriu a sessão. O Sr. Dr. Lagos, servindo de 2** se- 
cretario, fez a leitura da acta da antecedente, sendo esta 
approvada. 

O Sr. Dr. Carlos Honório, servindo de l"" secretario, deu 
conta do seguinte 

EXPEDIENTE 

Um aviso da secretaria de estrangeiros, remettendo 3 vol. 
dos Boletins da Academia Real das Sciencias, Letras e Bel- 
las Artes da Bélgica, offerecidos ao Instituto pelo governo 
d'aquelle Estado ; e 2 vol. das Memorias de Benjamin Fran- 
klin, que, por intermédio da mesma secretaria, offerece o 
seuauctor, o Sr. T. Millían Bogniard. 



— 286 — 

Um o£Scio do Sr. presidente de Sergipe, remettendo um 
exemplar da falia qoe no l"* de Março próximo preleríto 
dirigiu âassembléa d*aquella província por occasião de soa 
installaçSo. 

Dito do Sr. presidente doRio-GrandedoSal, remettendo 
um exemplar do Repertório geral das leis proviocíaes, re- 
gulamentos 6 actos expedidos pela presidência. 

Uma carta do Sr. conde de la Hure offerecendo ao Insti- 
tuto as seguintes obras : — L'Empírs du BrèsíL Mono- 
graphie complete d'Empire Sud-Amérícain. Paris, 1862» 
1 Yol. in-8. — Le Mexique. Resume géograpbique, sla- 
tistique, industriei, bistorique et social, à Tusage des per- 
sonnes que veulent avoir des notices exactes, recentes et 
precises sur celte conlrée du nouveau-monde. — Douoi, 
1852, in-8. 

OFFERTAS 

Pelo Sr. director geral dos correios da Republica Argen- 
tina foi oíferecido o Annuario dos correios apresentado ao 
governo pelo director geral em 1865. 

í*elas secnílarias da agricultura, commercio e obras pu- 
blicas e (la justiça, os relatórios dos negócios doestas repar- 
tições apresentados á assembléa geral legislativa na sessão 
do corrente anno. 

Pelo Sr. l)r. Mello Moraes, uma coUecçao do periódico 
— Brasil Histórico. 

Vários jornaes e periódicos remettidos pelas respectivas 
redacções. 

Todas as oíTertas são recebidas com agrado. 

Em seguida foi lida a seguinte proposta : 

« Propomos que o Instituto Histórico nomeie uma com- 
missâo de seu seio afim de ter a honra de apresentar a 



- 287 — 

S. »!• o Imperador um voto de sincera' gratidão pela pa- 
triótica resolução que tomou de dirigir-se à provincia de S. 
Pedrodo Sul, para com sua presença animar as operações de 
guerra em que o Brasil se acha empenhado contra o Pâra- 
goay, manifestando ao mesmo tempo a dita commissão a 
Soa Magestade os ardentes desejos do Instituto de vêr co- 
roada com a victoria a luta a que o Império foi provocado. 
—Sala das sessões, em 7 de Julho de 1865. 

« (Assignados) A. P. Pinto. — Carlos Honório de Figuei- 
redo. — Francisco José Borges. — A. Alvares Pereira Coruja. 
— J. J. S. SUva Rio. — Francisco Freire Allemão. — Clau- 
dia Luiz da Costa. — J. M. Fernandes Pereira de Barros. — 
A. Marques Perdigão Malheiro. — Manoel Ferreira Lagos. — 
Giacmno Roja Gabaglia, — Felizardo Pinheiro de Campos. 
— Caet no Alves de Sousa Filgueiras. — Dr. Manoel Duarte 
Moreira de Azevedo. 

O Sr. presidente convidou os membros presentes para 
fazerem parte da commissão, a qual se dirigirá no dia se- 
guinte ás 5 horas da tarde ao paço de S. Chrislovão para o 
fim proposto. 

ORDEM DO DU 

Foi lido um parecer do Sr. Dr. Capanema sobre as in- 
vestigações feitas pelo Sr. conde de la Hure nos depósitos 
conchiferos do littoral do Sahy, em S. Francisco do Sul. 
—Foi approvado. 

Leu-se igualmente o seguinte parecer da commissão de 
fundos e orçamento sobre as contas apresentadas pelo Sr. 
thesoureiro, e receita e despeza para o corrente anno so- 
cial.— Ficou sobre a mesa. 

PARECER 

<c A commissão de fundos e orçamento procedendo aminu- 



cioso exame nas contas do Sr. thesonreiro António Alvares 

Pereira Coruja, achou-as em termo de serem approyadas. 
« Deste exame resulta que no anno social de 

1864foiareceiUde 7:4485976 

Eadespezade 7:33IS3]X) 

Restando o saldo de 975S88 

Que reunido ao que existia em 31 de Dezem- 
bro do 1863 na importância de • 6:076j986 

Prefaz a somma de ^:174S372 

A saber : 

Valor nominal de 25 acções do Banco Rural 

e Hypothecario 5:OOOj000 

Dinheiro em c/c no dito banco 1:143S962 

Dito em caixa 30(610 

Somma 6:174^ 508 

Que passa para o anno social de 1865. 
<c Á receita acba-se classificada da maneira 
seguinte : 

Consignaç3o do thesouro nacional 5:OOOS000 

Dividendo de acções. . , 6OO50OO 

Juros do dinheiro em c/c C6S970 

Jóias de 3 sócios 60^^ 

Prestações semestraes 1:0305000 

Divida activa _396$0O0 1:4465000 

Assignatura e venda da Revista á76S()00 

Somma. . . . _7:ii^8597») 

<( A despeza foi feita pelas seguintes rubricas : 

§ 1.* Impressão da Bevista 2:336SO0O 

S 2.^ Reimpressão idem I:18á5000 

S 3.*^ Encadernação e compra de livros . . 4álS330 

Somma. . . . "^94áS33li 



- 989 - 

TrãBsporle 3:94ig350 

S 4,** Ordenados e agencia ,.,,.,., 2:3598800 
% o.* Expedienle e eveoluaes . ...... i:Oi9Sá40 

Somma _7:3o<$390 

n A rtespeza, que foi menor que a orçada, acha-se legal i- 
sàda por trinla documentos. 

H Conclue a commifisão rleclarando que julga úv jus liça 
^Méa^se ao Sr, thesoureiro um voto de louvor e agradeci- 
menlo pela dedicação com que se tem presido por tantos 
annos a este serviço, 

« Sala das sessões do Instituto Histórico eGeographico do 
Brasil, em 7 de Julho de I8«5.— J. /. Sousa Silva Rio.— 
Francisco José Borges, >^ 

A commissão de fundos e orçamenlo tem a honra de 
submetter á approvaçao do Instituto Histórico e Geogra- 
phico o seguinte 

OEÇAMENTO 

4 

« AitT. !• E' orçada a receita para o anno 

social fie I8fje,em 43:384S562 

A saber : 

S 1.' Jóias de sócios .......... tOO^OOO 

S 2." PreslaçOessemestraes 1:0448000 

S 3.° Divida activa 396S000 

§ 4." Assignatura e venda da Revista . . 250j(()00 

S 5." Jurosdedinlieiroem c/c 70g000 

S 6.' Dividendo de acções 350^000 

% 7." Subvenção do ihesouro nacional . 3:000^000 

7:2108000 

Saldo de 1864 6.174gf>ti2 

Somma .... 13i384g5IJ2 

muu xwiii, F. n. 37 



— 290 — 

« Art* 2.^ E' fixada a despeza em • . * - Jr^lOgOOQ 

A saber : 

S t,*^ Impressão da Revista ....... 2:4OOS0O0 

S 2/ Reimpressão idem. I:20QSOOO 

§ 3** Compras de livros e eocade mações- 500JO<)0 

S 4/ Ordenados e agencia 2:3905000 _ 

§ 5." Expediente, eevenluaes 7208000 I 

Somma , . . - 7:2IOS000 

« Art, 3.* Conlinuam em vigor as disposíçíSes dos âils, 3* 
e 4" do orçamento anterior relativas à applicaçao das sobrks 
da receita e ao suppriraento de umas por outras Terbas ét \ 
despeza. 

4c Sala das sessões do Instituto Ilistoríco e GaDgrapbíco« 
em 7 de Julho de i8G5, — J. /* Sousa Silva Rio.— Froii- | 
cisco José Borges, v 

Leu-se Qnalment0,e lambera 6cou sobre a mesa, o seguinte 
parecer da coramissão de admissão de sócios, favorável ao 
Sr* Dr- César Augusto Marques, candidato proposto paraj 
sócio correspondente do Instituto» e auclor dos — AponLi- 
mentos para o nicciooario Histórico, GeograpbicOi Topo-J 
grapbico e Estatislico do Maranhão : 



PARECER 

^ A commissao de adraisscio de sócios, apreciando deti- 1 
damenle a proposta do consócio o Sn cónego Dn JXJ 
Fernandes Pinheiro datada de 16 de Junho do corfeotil 
annOí é de parecer que o candidato o Sr. Dr. César Augusto 
Marques, auclor dos —Apontamentos para o Diccionario 
Histórico, Geographico^ Topographico e Estatístico do Ib- 
ranhão— (pelo mesmo offerecido ao Instituto um exem- 
plar), está no caso de ser approvado sócio correspondente. j 



— 291 — 

tt Sala das sessões do Instituto Histórica e Geographico 
Brasileiro. Rio, 7 de Julho de ISG5 ^ Manoel Ferreira 
Lagos. — Agosíinhú iVarques Perdigão Malhsiro. — Dr» 
Manod Duarte Moreira de Azevedo, n 



Noticia sobre o Sr, Dr. César Angmío Marques. 



ít Filho legitimo do pharmaceutico Aui^usto José Marques 
e D. Feliciana Maria Marques, nasceu o Dr. César Augusto 
Marquas aos 12 de Dezembro de 1826 em Caxias, prOTincia 
do Marão lião* Havendo estudado na capital os seus pre- 
paralorios, seguia para Coimbra, era cuja universidade fre- 
quentou os cursos de mathematica e de philosopbía desde 
1844 até 1848. 

« Regressando ao Maranhão por occasíâo da revolta da 
—Maria da Fonte—, seguiu para a Bahia, onde se doutorou 
em medicina pela respectiva faculdade em 1834» mere- 
cendo ser por duas vezes premiado. Serviu no Maranhão 
como cirurgião do corpo de saúde do exercito, provedor 
de saúde do porto, secretario da commissão de hygiene 
publica, e ultímameute de medico da pruvincía ; na pro- 
víncia do Amazonas, da commissario vaccinador» lente de 
aríthmetica e geometria, medico do partico publico e da en- 
fermaria dos Índios ; no Piauhy, de professor de 1' classe 
do Lycéo Piauhyenso; no Pará, como cirurgião do exercito, 
de qutí pediu demissão. Prestou, além d^isto» serviços no 
Maranhão e Para, como medico nas calamitosas quadras do 
chiilera-morbus, e por occasiao de outras epidemias de 
febres e bexigas ; merecendo dos respectivos presidentes 
elogios, e agradecimento da municipalidade. 

K Emquanto estudante, publicou diversas opúsculos» 
li mais tarde o seguinte : — l"", Almanack histórico de lem- 



292 



branca brasileiras ; — 2* , Biographía do Exm. Sr. li, 
Manoel Joaquim da SilTeira ( aclual arcebispo da Ba> 
liía) ; — 3% Breve merauria sobre o clima e moléstias mais 
frequentes da província du Maranhão ; — 4*, Memoria 
histórica sobre a inlroducção do pús-raccioico oa Ma- 
ranhão; — 5'' (ulUmamente), Apoatamenlus para o Dio- 
ciônario Histonco» Geographico^ Topographico e Eslalisco 
do Maranhão. 

(c E* sócio honorário da real sociedade buoíianítana do 
Porlo, do instituto archeologico e geographíco de Pernam- 
buco; âocio correspondente da sociedade de sciencias medi- 
cas de Lisboa, da sociedade auxiliadora da industria nacio- 
nal, dos institutos históricos e geographicos da Bahia e Rio 
Grande do SuU do albeneu paraense, e da imperial acade^ 
mia de medicina do Rio de Janeiro ; e sócio effectíTo do 
atbetieu maranhense, e da sociedade de beneficência Luso- 
Brasileira no Maranhão. 

« O li?ro offerecido como titulo de admissão tem o mo- 
desto titulo de — Apontamentos para o Diccionario, elc- . — 
e é impresso em 1864. Não é talvez senão um trabalho pre- 
paratório do monumento que o seu auctor intenta levantar* 
Todavia da noticia, posto que abreviada, interessante da 
província do Maranhão, quer nos tempos coloníaes, quer 
posteriores, sua historia, geographia, riquezas naturaes* 
estatística em diversas épochas, orographia (serras), bydro- 
graphia^producção, industria, commercio,agricuUurapQave- 
gaçãOf phytologia (plantas), zoologia» população, iostrueção 
publícat divisão judiciaria e admini^ítrativa, fundação da 
cidades, villas, e povoações, igrejas, colónias indigenas e 
de estrangeiros, etc. E' emfim um ramalhete succulento de 
noticias interessantes ; e para o qual o seu auctor teve de 
compulsar innumeras obras, bem como de investigar do- 
cumentos inéditos, segundo declara no seu prefacio, e se 



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?ê do coo texto de diversos artigos, revelando qualidades 
I literárias dignas de aprego, erudição, amor ao trabalho, 
talento e paciência de investigações. 

¥ Rio 7 de Julho de 1865. — O relator, A. M. Perdigão 
Malheiro. » 

Não havendo ma